Os Portugueses na Grande Guerra . Edições Colibri . C. M. Torres Vedras . Inst. Alexandre Herculano, 2016, pp. 63-69 63 Sofrer a guerra longe da Europa: efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente Célia Reis* A guerra: questões coloniais em questão A guerra era uma «conflagração europeia». Era assim que os documentos de várias colónias a classificavam, mesmo que a realidade tenha ultrapassado o espaço físico desse continente e se tenha prolongado para outros lugares. A conceção de guerra europeia, na realidade, apelava à rivalidade entre as potências do Velho Continente e ao seu domínio colonial, imediatamente colo-cado em causa quando se desencadeou o conflito1. No caso português, houve um impacto direto do conflito em Angola e Moçambique2, mas ele marcou igualmente outros territórios3, sob a ameaça militar ou pelas suas consequências políticas e económicas. Também nas colónias do Oriente, Índia, Macau e Timor4, se projetou o conflito, através de múltiplas incidências. Mas as circunstâncias apresentaram-se igualmente propícias à resolução de questões pendentes, particularmente à definição colonial, como conceberam os governadores de Macau e de Timor, respetivamente José Carlos da Maia e Filomeno da Câmara. Para estes dois intervenientes, exigia-se um apelo à diplomacia internacional, um acordo pelo qual as potências internacionais obrigassem a China a reconhecer as fronteiras macaenses e proporcionassem a Portugal a totalidade da ilha timorense, recebendo a Holanda, por troca, algum território que até aí tivesse pertencido à Alemanha. Os projetos ficaram pelas ideias dos governadores, todavia, o primeiro procurou, pelos meios de Macau, resolver a questão em algumas das regiões em disputa, particularmente na ilha da Lapa, com a ocupação pacífica e gradual por forças portuguesas, esperando conduzir os habitantes à aceitação da soberania portuguesa; no entanto, os chineses também ocuparam a mesma ilha, verificando-se alguns incidentes entre navios das duas nacionali-dades. As definições coloniais envolvendo estas colónias não se ficaram por aqui, pois a própria Austrália as considerou, procurando obter Timor através da compensação aos portugueses com algum território perdido pelos alemães. * IHC-FCSH/UNL 1 Sobre o impacto em África, como síntese, Ana Paula Pires e Richard S. Fogarty, «África e a primeira guerra mundial», Ler História, 66 | 2014, 57-77 (ou URL: http://lerhistoria.revues.org/721; DOI: 10.4000/lerhistoria.721). 2 Entre outros, Marco Fortunato Arrifes, A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa. Angola e Moçambique (1914-1918), Lisboa, Cosmos e Instituto da Defesa Nacional, 2004. 3 Sobre Cabo Verde, Célia Reis, “The Germans and British in São Vicente Cape Verde”, in 5th Great War in Africa Association and 3rd International Network for the Study of the Great War in Africa, Experiences of the Great War in Africa, Londres, 3-4 de maio de 2016 (em publicação). 4 Sobre estas duas colónias publiquei “Macao et Timor. Le Souveraineté Portugaise et l’Incidence de Guerre de 1914-1918”, Guerres Mondiales et Conflits Contemporains, n. n.o 256, October 2014, pp. 69–80; “Portuguese Macau”, in 1914-1918-online. International Encyclopedia of the First World War, ed. by Ute Daniel, Peter Gatrell, Oliver Janz, Heather Jones, Jennifer Keene, Alan Kramer, and Bill Nasson, issued by Freie Universität Berlin, Berlin 2016-05-02, http://dx.doi.org/10.15463/ie1418.10900; “Portuguese Timor”, ibidem, 2016-04-29, http://dx.doi.org/10.15463/ie1418.10898. As referências a fontes encon-tram-se essencialmente no primeiro artigo.
Célia Reis 64 OS PORTUGUESES NA GRANDE GUERRA Antes da declaração de guerra Para além dos projetos, e enquanto Portugal se manteve como potência neutral na sua dimensão europeia, os efeitos da guerra sentiram-se de formas diversificadas. Na sociedade macaense, as senhoras fizeram agasalhos e recolheram donativos para os soldados, entre outras atividades. Mas um outro efeito foi visível desde o início da guerra: a chegada de refugiados. Começaram por vir de Hong Kong e em setembro de 1914, o governador estimava já 120.000 habitantes na cidade, receando que entre eles se contassem muitos piratas ou revolucionários. Impunha-se então uma maior vigilância, pelo que a resposta local foi a criação do Corpo de Voluntários. O problema de Macau encontrava-se essencialmente na China, então em profunda turbulência. À guerra civil larvar acrescentavam-se, bem problemáticos para a colónia portuguesa, os movimentos xenófobos, o que também justificou a reorganização policial, de forma a intensificar a vigilância. De Lisboa a ordem era para evitar qualquer conflito. E, de facto, houve grande preocupação em precaver incidentes, expulsando propagandistas da oposição, apreendendo panfletos, etc. Noutra parte, no Índico, cinco cargueiros alemães (Lichtenfels, Marienfels, Brisbane, Kommodore and Numantia) e um austro-húngaro (Vorwaerts) acostaram em Mormugão logo em agosto de 1914, alegando a necessidade de abastecimento de carvão; todavia, apesar de o porto ser português, a única casa fornecedora era inglesa, tendo ordens para não abastecer os navios estrangeiros5. A grande preocupação do governador passou, então, a ser a manutenção da neutral-dade, quando na colónia viviam, em proximidade, britânicos e germânicos6. Impunha-se uma preocupação essencial: impedir a transmissão de informações pelos alemães, a quem ficou interdita. A utilização da TSF7. Muito expressamente, de Lisboa a indicação era para vigiar, pois não se podia transigir e possibilitar qualquer «abuso» contra o país «nosso aliado»; sendo necessário, o governador português deveria concertar posições com as autoridades da colónia vizinha8. Por esta razão, a uma dessas embarcações, o «Numantia», foi tirado o aparelho de comunicações. Para além desta, as autoridades portuguesas tiveram de enfrentar diversos problemas colocados pelas suas diferentes tripulações. Assim, e como exemplo, alguns franceses do Djibouti quiseram regressar às suas terras, obrigando o governo a negociar com os franceses9; um italiano queixou-se de ameaças feitas pelos alemães. Impuseram-se ainda outras questões relativas às cargas, pois muitas firmas reclamavam como suas as mercadorias transportadas, querendo reavê-las ou, pelo menos, impedir a sua venda10. Declarada a guerra Preparava-se, entretanto, a requisição simultânea dos navios surtos nos portos portugueses, partindo de Lisboa as instruções para serem seguidas pelos diversos governadores11. 5 Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), 2912 1A MU GM, Índia 1913-1915, telegrama do Governador--geral da Índia (GI) ao Ultramar, 9/11-8-1914. 6 AHU, 2912 1A MU GM, Índia 1913-1915, telegrama do GI ao Ultramar, 9/11-8-1914. 7 AHU, 2912 1A MU GM, Índia 1913-1915, telegrama do Ministério das Colónias (MC) ao GI, 10-8--1914. 8 AHU, 2912 1A MU GM, Índia 1913-1915, telegrama do MC ao GI, 10-8-1914. 9 AHU, 9/768, CCart004280, oficio do GI ao MC, 23-10-1915. 10 AHU, 2912 1A MU GM, Índia 1913-1915, telegrama do MC ao GI, 18-8-1914. 11 AHU, 297 1D MU DGC, minuta telegrama, 23-2-1916.
Sofrer a guerra longe da Europa: efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente OS PORTUGUESES NA GRANDE GUERRA 65 Os cinco navios alemães ancorados em Mormugão foram requisitados pelas autoridades portuguesas a 23 de fevereiro de 1916. No início assistiu-se a alguma tentativa de resistência, que logo cessou, sendo lavrado protestos dos respetivos comandantes12. O mesmo sucedeu a 26 de junho com o navio austríaco, que passou a ser o «Índia». A requisição dos navios trouxe à Índia uma questão com que se debateram os responsáveis por outras colónias: que fazer das tripulações alemãs. Depois de terem passado por uma fase de liberdade, embora sob vigilância13, os ingleses pressionaram o Governo local para outra solução, receando que os germânicos fugissem. Estes passaram então à situação de prisioneiros, na fortaleza da Aguada e nos quartéis militares de Bicholim e Pangim14. Tendo, entretanto, caído doentes muitos deles15, 48 foram transferidos para Angra do Heroísmo, em abril de 1917; alguns seguiram para a metrópole; mantinham-se os outros, com grandes dificuldades, o que fez permitir que a casa Volkart Brothers lhes enviasse mensalidades, de acordo com as convenções internacio-nais relativas a prisioneiros16. Colocava-se igualmente o problema da sua defesa, quando a guarnição europeia era pequena e o governador não queria que os locais tivessem este serviço. Mantiveram-se na Índia até outubro de 1919, não obstante as tentativas do governador local de os fazer seguir mais cedo, o que foi impossibilitado pela falta de transportes; em junho deste ano ainda tentou que saíssem para Moçambique a bordo de um navio português17. Mas a requisição dos navios veio a acarretar outras dificuldades, pela necessidade de proceder à sua descarga, sem que localmente se encontrassem as condições necessárias. Por decisão do governo de Lisboa, e não obstante os protestos do governador, alguns acabaram por partir para Bombaim. Em Macau e Timor: as ameaças vizinhas Quando a Alemanha declarou guerra a Portugal, uma possível invasão chinesa a Macau apareceu envolta numa nova perspetiva: a possibilidade de, como chegavam as informações, ser estimulada pelos alemães que se encontravam em Cantão e que intensificavam a propaganda contra os portugueses. Houve, então, que impor medidas de prevenção, proibindo a entrada no porto durante a noite, e impondo lugares e horários especiais para o fundeamento dos navios chineses. À entrada do porto foi montado um serviço de vigilância. Diferente era o problema de Timor, onde a «debilidade» da neutralidade holandesa constituía a principal ameaça: caso este país se juntasse às Potências Centrais, haveria grandes probabilidades de invasão à colónia portuguesa; um navio alemão chegou a navegar nas proximidades, em 1914. Sem conhecer qualquer situação semelhante, a Índia encontrava-se numa situação de acordo com a sua vizinha inglesa para o serviço de vigilância, estabelecido pelo menos em 1917, devido à realização de raids nos mares da Índia e a colocação de minas à entrada de vários portos. Este sistema ligava, por isso, as duas colónias; na parte portuguesa incluía três postos de vigilância, em Cabo de Rama, Mormugão e Aguada. 12 AHU, 297 1D MU DGC, telegramas do GI, 29-2-1916, 26-2-1916. 13 AHU, 297 1D MU DGC, minutas de telegrama do MC ao governador de Macau (GM), 23-2-1916 e 25-2-1916. 14 Sobre a situação destes prisioneiros e a sua correspondência, Eduardo Barreiros e Luís Barreiros, «I Guerra Mundial 1914-1918. Índia Portuguesa. Prisioneiros de guerra Alemães e Austríacos em campos de concentração em Goa». http://www.cfportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id= 163%3Ai-guerra-mundial-india-portuguesa-prisioneiros-de-guerra-alemaes-e--austriacos&catid=26%3Aboletim-no-410&Itemid=3 (consultado a 5-5-2016). 15 AHU 9/770, CCart 004414, vários documentos. 16 AHU, 8/967 CCart 005927, vários. 17 AHU, CCart 9/648, telegrama do GI ao Ultramar, 21-6-1919.
Célia Reis 66 OS PORTUGUESES NA GRANDE GUERRA A escassez de forças militares Os problemas sentidos nas colónias impuseram, como é compreensível, a requisição de forças militares, que possibilitassem às autoridades locais enfrentarem as ameaças. Mas estas eram extremamente limitadas. Foi na Índia que se sentiu a situação menos problemática, menos ameaçadora. Mesmo assim o governo pretendia a chegada de praças. Em Macau escasseavam as forças militares, dedicadas à defesa e ao policiamento. A cidade enchera-se de pessoas, a agitação sentia-se a todo o instante e os efetivos mostravam-se insuficien-tes para responder a qualquer ameaça. Mas Lisboa respondia que era da impossível o envio de reforços. Verificou-se então um confronto de números: para o governador faltavam elementos, enquanto os organismos ministeriais consideravam que o número dos que estavam em Macau eram suficientes para o quadro. Penso que se assistiu aqui (dezembro de 1915) como que uma tomada de consciência da Direção Geral das Colónias que considerou que mesmo com a guarnição completa não haveria capacidade para evitar uma invasão chinesa, pelo que as forças teriam de se limitar ao policiamento da cidade e a sufocar qualquer rebelião interna. Em janeiro de 1916, o ministério mandou perguntar qual era a força necessária simplesmente para manter a ordem em caso de sublevação dos chineses. É notória, no entanto, uma preocupação sentida em Lisboa para conseguir reforços para enviar para esta colónia, o que acabou por não se concretizar. Deste modo, o Governo local transformou o Corpo de Voluntários em tropas de segunda linha e acabou por impedir a saída dos militares que já tinham terminado a sua comissão, não obstante os numerosos pedidos de licença para partirem. Antecipava assim a ordem dada pelas autoridades centrais aos governadores coloniais, no final de novembro, para permitirem o alistamento dos cidadãos portugueses residentes. Depois, no final de 1916, acabou por requisitar forças à Índia, para conseguir completar os efetivos das unidades indígenas; como esta colónia não podia, então, responder afirmativamente, acabou por se voltar para Moçambique, solicitando o envio de landins, que também não estavam disponíveis. Final-mente, no Verão de 1917, chegou um pequeno contingente indiano a Macau. Quando o Ministério considerou seriamente a possibilidade de enviar tropas, no início de 1918, deparou-se com outra dificuldade: o seu transporte. Levadas até Moçambique pelo «Mossamedes», e estando aí à espera de nova embarcação que os conduzisse à colónia à beira da China, começaram a servir na defesa local; mais tarde, quando houve possibilidades de deslocação, foram as autoridades locais que não permitiram a sua partida até à sua substituição por novo pessoal ido da metrópole. Foram também os transportes que continuaram a ser o óbice ao envio de um contingente para Macau nos meses seguintes. As requisições de material tiveram um percurso diferente. Neste caso, em agosto de 1915, o responsável por Macau optou por comprar munições directamente ao Japão. Alguns meses mais tarde, em Lisboa, havia também munições para serem enviadas para a colónia, mas tinham de esperar um transporte. A situação piorou e, em fevereiro de 1917, já o ministério avisava o governador que seria difícil dar resposta às solicitações, uma vez que as fábricas dos países beligerantes só trabalhavam para a sua própria defesa. A falta de meios em Timor também motivou a sua requisição, à metrópole e a Macau, solicitando o envio da canhoneira «Pátria». Mas esta colónia necessitava dela e perante um aumento da ameaça, após um ultimato inglês à Holanda, em 1917, o recurso do governador foi reorganizar as forças para poder responder a qualquer eventual ataque. A situação era ainda mais difícil pelo isolamento em que se encontrava a colónia portuguesa, sem comunicações, impossibi-litando uma verdadeira análise da situação.
Sofrer a guerra longe da Europa: efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente OS PORTUGUESES NA GRANDE GUERRA 67 Chegar ao Oriente: o problema dos transportes Atrás já se verificou como a falta de transportes dificultou a deslocação de tropas para o Oriente. Porém, não era apenas para este grupo que se colocavam os problemas. Deste modo, considerando que as viagens no Mediterrâneo eram «contingentes» devido aos ataques de submarinos e que a deslocação em navios de nações beligerantes naturalmente faziam acrescer o perigo, a opção do Estado português foi providenciar o transporte dos seus passageiros pela via do Cabo, aproveitando os paquetes da Companhia Nacional; os que tinham como destino a Índia seguiam até Lourenço Marques, onde obtinham lugar numa das embarcações da British India, até Bombaim, ou encontravam navios de outra empresa. Deste modo, em maio de 1917, quando o bacharel Júlio Augusto, delegado do Procurador da Republica, precisou de viajar para Timor, para ocupar o seu cargo, o ministro das Colónias não permitiu a ida num vapor estrangeiro, tendo então de pedir licença para seguir no vapor que transportava um contingente militar; a sua pretensão era seguir até ao Cabo da Boa Esperança, podendo aí conseguir lugar num paquete da mala holandesa que o levasse até ao seu destino18. Também o novo governador da Índia, Freitas Ribeiro, ao partir de Lisboa em agosto de 1917, teve de efetuar uma longa viagem para chegar ao seu destino: depois de uma escala na Madeira, seguiu para Durban; circunstâncias excecionais, inclusivamente com avarias no navio previsto, atrasaram a deslocação, que acabou por se fazer passando pelos portos de Lourenço Marques, Beira, Moçambique, Quíloa, Zanzibar e Mombaça, antes de chegar a Bombaim e, como habitualmente, passar daí a Goa19. Todavia, quando, no início desse mesmo ano, um sargento que se dirigia à Índia preferiu seguir com a sua esposa via Marselha, a opção não lhe foi interdita, antes ponderados os perigos a que se expunham20. Esta dificuldade de deslocação constituiu um dos principais fatores que afetaram as colónias dos Oriente. O regresso das colónias, particularmente de Timor, onde as opções eram mais limitadas, ofereciam outro tipo de problemas, dado que as companhias holandesas se recusavam ao transporte de militares, mesmo a título isolado, obrigando à solicitação da intervenção do Governo de Haia21. Por outro lado, pela falta de navegação, houve necessidade de autorizar a elevação do estatuto do liceu de Macau, para não prejudicar os alunos que, em circunstâncias normais, viriam para a metrópole para prosseguir os seus estudos. Por outro lado, o transporte de mercadorias, de e para a metrópole, viu-se seriamente atingida. À falta de transportes acrescia a falta de comunicações. Timor, especialmente, ficou uma colónia isolada. Questões económicas Noutra dimensão, tornou-se extremamente difícil a importação de produtos europeus, que eram particularmente consumidos pelos portugueses22; Macau e Timor foram as colónias onde as queixas mais se fizeram sentir. À escassez destes bens aliava-se a restrição dos mercados na região de Macau, em consequência da agitação chinesa. 18 AHU,9/761 CCart 003966, vários. 19 AHU, 799 ID, relatório. 20 AHU, 9/761 CCart. 004061, informação da 6.ª rep. da DGC, 9-3-1917. 21 AHU, 9/650 CCart. 007464, telegrama do GT ao Ultramar, 25-12-1916, e respetiva informação, 28-12--1916. 22 Por exemplo, AHU, SEMU DGU RM 004, cx. 6, requerimento de José de Sousa, 1.º cabo da 3.ª Companhia do Corpo de Polícia de Macau.
Célia Reis 68 OS PORTUGUESES NA GRANDE GUERRA Os problemas de subsistência também se sentiram em Timor. As colheitas foram fracas em 1917, devido à seca e à redução da mão-de-obra, por causa da gripe pneumónica, e a solução encontrou-se no abastecimento a partir de Singapura, para onde foi enviado o vapor Díli, a fim de obter produtos. Na Índia também se sentiram carências, particularmente em 1918, quando houve escassez em toda a região, portuguesa e inglesa23. Esta carência traduziu-se, naturalmente na inflação, comum a todas estas regiões. Em Macau, em 1917, notava-se já um acréscimo de preços de 40 a 50%. Em consequência, os governantes tiveram de aumentar os vencimentos dos funcionários, civis ou militares. Timor era uma colónia deficitária, mas com uma economia baseada na exportação dos seus produtos, particularmente café e copra. A falta de transportes para a Europa afetou de imediato a exportação do café para a Europa, tanto mais que nas Índias neerlandesas se colocavam obstáculos à sua comercialização. Com efeito, segundo o Governador, a atitude dos holandeses era hostil e o café estava retido em Surabaia e Macáçar (junho de 1916); depois, a venda tornou-se mais fácil, mas o preço era muito baixo; outros locais do Oriente também não se mostravam mercados fáceis, pela abundância do café brasileiro. Mas a situação piorou ainda no início de 1918, quando os neerlandeses recusarem qualquer transporte com destino a portos britânicos ou japoneses. A censura Politicamente, a vida local foi também igualmente afetada pelo estabelecimento da censura. As circunstâncias locais implicaram algumas adaptações. Na Índia, as malas de correio que vinham de Lisboa eram abertas em Bombaim sendo grande a demora na sua entrega24. Porém, em abril de 1916, o governo britânico da Índia inquiriu o seu homólogo português sobre a possibilidade de este proceder à censura postal e telegráfica especialmente relativa a súbditos alemães, remetendo-lhes as que interessassem aos ingleses; a realização desta vigilância pelas autoridades portuguesas sobre as cartas e telegramas vindos de Portugal dispensaria os britânicos de a fazer. Assim aconteceu, de facto, com autorização do ministério25, e, por portaria local de outubro de 1917 foi oficialmente estabelecido este serviço. Já em Macau, foi o Governador quem a pediu para estabelecer a censura sobre o telégrafo e correio, logo depois da declaração de guerra, para evitar os efeitos da possível propaganda alemã. As determinações gerais sobre este serviço impunham que pelo correio só transitassem documentos escritos em inglês, francês, italiano, espanhol ou português, levando a mesma autoridade a solicitar a possibilidade de se alargar a chinês, para a correspondência entre a colónia e a China. Contudo, a censura aos documentos nesta língua mostrava-se tão demorada de que foi necessário abreviá-la. Macau e a Pátria-Mãe Integrados numa perspetiva mais alargada, o Leal Senado e o Conselho de Governo ofereceram 1.000.000 de libras (cerca de 800 contos) à Pátria-Mãe, especialmente destinados a hospitais e famílias de soldados; o governo aceitou 30.000. 23 AHU 432 1F MU DGC, telegrama do GI, 5-9-1918. 24 AHU 296 1F MU DGC, telegrama de Nova Goa à 3.ª repartição, 12-7-1915. 25 AHU 298 IF MU DGC, telegramas do GI ao MC, 6-4-1916, do MC ao GI, 7-4-1916. Sobre este transporte e censura, Eduardo Barreiros e Luís Barreiros, op. cit.
Sofrer a guerra longe da Europa: efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente OS PORTUGUESES NA GRANDE GUERRA 69 Mas não foi apenas esta a contribuição, pois em outubro de 1917 foi alargada às colónias da África Ocidental e à Índia, Macau e Timor, a taxa de guerra que já existia em Moçambique, aplicada sobre a correspondência postal e telegráfica26. A celebração Terminada a guerra, o governador Sousa Gentil, em Timor, preparou a celebração através da realização de uma feira, em 192227. Quando a Macau, o respetivo Governo mandou fazer, em 1924 um opúsculo denominado «Para a História do Corpo Expedicionário Português», glorifi-cando a Pátria, incluindo a transcrição das memórias do marechal Hindemburgo sobre as tropas portuguesas em La Lys28. Conclusão Não participando diretamente na guerra em que Portugal esteve envolvido, as três colónias não africanas não deixaram de sentir as suas consequências. Inseridas em contextos geográficos diferenciados, os seus efeitos foram igualmente diver-gentes. Contudo, alguns pontos tornaram-se comuns. O facto de o país se encontrar envolvido no conflito deve ter sido a razão essencial para que houvesse, numa primeira fase, como que uma desistência de Macau, não se enviando os recursos humanos que pudessem fazer frente ao perigo chinês. Com efeito, em circunstâncias anteriores, a resposta tinha sido o envio de expedições militares (1900 e 1911-12); o mesmo acontecera em Timor, em 1912, com o envio de forças de Macau. Durante a Grande Guerra, no entanto, foi só numa fase tardia que as forças se destinaram a Macau, mas impedidas de prosseguir a partir de Moçambique. Era tradicional a falta de meios de transporte da metrópole para estas colónias; em circuns-tâncias de guerra, as dificuldades aumentaram, impossibilitando a ligação e contribuindo para a escassez militar. Nesta fase, o recurso teve de ser a reorganização de meios próprios (onde se contavam também soldados de Moçambique que já aí se encontravam anteriormente), para além de a ajuda da guarnição da Índia. Em colónias cuja ligação económica à metrópole era ténue, esta enfraqueceu-se naturalmente. 26 Decreto n.º 3458, de 13 de outubro de 1917, DG, I série, n.º 177, 13 de outubro de 1917, pp. 1007--1008. 27 Banco Nacional Ultramarino, 0.32.3/20, Relatório de 1922. 28 Para a história do Corpo Expedicionário Português, Macau, Imprensa Nacional, 1924.