• CARTAS DOS CATIVOS DE CANTÃO: CRISTÓVÃO VIEIRA E VASCO CALVO (1524?) Introdução leitura e notas de RUI MANUEL LOUREIRO INSTITUTO CULTURAL DE MACAU 1992
  • CARTAS DOS CATIVOS DE CANTÃO: CRISTÓVÃO VIEIRA E VASCO CALVO (1524?)
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  • CARTAS DOS CATIVOS DE CANTÃO: CRISTÓVÃO VIEIRA E VASCO CALVO (1524?) Introdução leitura e notas de RUI MANUEL LOUREIRO 3 DOCUMENTOS Sk )EMSA\)((0)S B INSTITUTO CULTURAL DE MACAU 1992
  • COLECÇÃO DOCUMENTOS E ENSAIOS 1 História das Relações Diplomáticas entre Portugal e a China O Padre António de Magalhães, S.J., e a embaixada de Kangxi a D. João V (1721-1725) João de Deus Ramos 2 Os Crioulos Portugueses do Oriente Uma bibliografia Maria Isabel Tomás 3 Cartas dos Cativos de Cantão: Cristóvão Vieira e Vasco Calvo (1524?) Introdução, leitura e notas de Rui Manuel Loureiro Edição INSTITUTO CULTURAL DE MACAU 1992 Direcção Gráfica e Capa VICTOR HUGO MARREIROS Fotocomposição ARTES GRÁFICAS BARROSO. LDA. Montagem GABINETE DE EDIÇÕES DO I.C.M. Impressão TIPOGRAFIA MARSUL Tiragem 1200 EXEMPLARES ISBN-972-35-0108-2
  • ÍNDICE INTRODUÇÃO 9 1. Portugal em Busca da China 9 2. A Chegada dos Portugueses à China 12 3. A Embaixada de Tomé Pires 13 4. As Cartas dos Cativos de Cantão 15 5. História Editorial das Cartas dos Cativos de Cantão 17 6. Critérios de Transcrição 19 CARTA DE CRISTÓVÃO VIEIRA (CANTÃO, 1534) 27 CARTA DE VASCO CALVO (CANTÃO, 1536) 85 BIBLIOGRAFIA CITADA 109
  • O trabalho de investigação que conduziu a esta edição das Cartas dos Cativos de Cantão beneficiou do apoio da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (em 1989) e da Fundação Oriente (já em 1990). Aos responsáveis máximos dessas instituições cultu- rais aqui deixo formalmente expressos os meus sinceros agradecimentos. Lagos, 31 de Março de 1990. Rui Manuel Loureiro. 7
  • INTRODUÇÃO 1. PORTUGAL EM BUSCA DA CHINA Antes do descobrimento do caminho marítimo para a índia por Vasco da Gama em 1498, as informações que circulavam na Europa sobre o Extremo Oriente diziam respeito, sobretudo, ao longínquo e misterioso Cataio, fabulosa potência asiática, e eram, na sua maioria, da responsabilidade de viajantes medievais que por motivos vários (comércio, embaixadas, missionação) tinham percor- rido a Ásia ao longo dos séculos Xll e XHI1. O mais famoso destes viajantes foi certamente o veneziano Marco Polo, o qual, depois de percorrer demoradamente o continente asiático entre 1275 e 1292, redigira, no regresso à Europa, um circunstanciado relato onde dava conta das suas peregrinações orientais. O Livro de Marco Polo circulou intensamente por toda a Europa, primeiro em manuscrito (conhecem-se hoje mais de uma .centena de versões manuscritas em línguas românicas) e mais tarde sob forma impressa, e devia ser bem conhecido em Portugal, pois no segundo quartel do século XV a biblioteca de D. Duarte possuía dois exemplares manuscritos da obra2. O impressor alemão Valen- tim Fernandes publicou uma versão portuguesa do Livro de Marco Paulo em Lisboa, em 1502, nas vésperas da segunda partida de Vasco da Gama para a índia. Na sua introdução ao texto poliano, Valentim Fernandes fazia o ponto da situação a respeito dos conhe- cimentos portugueses sobre a Ásia Oriental: "toda a outra terra 9
  • contra o oriente que desce contra o Syno Grande, e ao ultimo mar de India atee as terras incognitas, he chamada Syn e Serica, ainda que chamam toda esta terra Gata, que quer dizer Catayo"3. Mas o próprio Cataio deveria ser para os Portugueses de finais J de Quatrocentos uma realidade muito nebulosa, sem contornos bem definidos, uma amálgama de noções imprecisas e de designações incertas. As únicas provas concretas da existência desse mundo lon- gínquo eram as sedas e as porcelanas, produtos luxuosos por exce- lência, impossíveis de imitar, e que chegavam aos mercados ociden- tais em pequenas quantidades, atingindo preços fabulosos. Nos anos que se seguiram à chegada de Vasco da Gama à índia os Portugueses levaram a cabo uma enorme e sistemática recolha de informações sobre a geografia e a antropologia do conti- nente asiático, sobretudo da sua faixa litoral, quer através do con- tacto directo com numerosas regiões orientais, quer através do recurso a notícias orais ou escritas de origem local. Uma das regiões que imediatamente despertou a curiosidade dos Portugueses foi precisamente a China. Através de informações de Gaspar Correia, sabemos que entre os presentes entregues por Vasco da Gama na corte portuguesa figuravam vários artigos de porcelana adquiridos em Calicute, que foram muito apreciados pela rainha4. O mesmo cronista relata também a instalação da feitoria portuguesa em Calicute, em 1500, sob as ordens de Pedro Álvares Cabral: o terreno cedido pelo soberano local aos nossos era conhe- cido pelo nome de Chinacota, isto é, "fortaleza dos Chins"5. Os Portugueses tomaram então conhecimento de que cerca de oitenta anos antes "homens de raça branca e de longos cabelos pretos", a que os indianos chamavam Chins, tinham visitado assiduamente os portos do Malabar e do Golfo Pérsico, onde possuíam numerosas / feitorias. Garcia de Orta referiu-se nos seus Colóquios6 às grandes viagens marítimas dos Chineses, que nas primeiras décadas do século XV percorreram todo o litoral do Oceano Índico em enormes juncos de alto-mar, chegando a atingir a costa oriental de África; segundo ele, "os Chins navegaram esta terra muito tempo há", e "eram tantos os navios da China que navegavam, que contam os de Ormuz que acham em seus livros que em uma maré entraram na ilha de [...] Ormuz quatrocentos juncos"7. 10
  • Em 1502 aparece-nos nas fontes portuguesas a primeira refe- rência explícita aos Chineses: uma legenda do célebre planisfério português chamado de Cantino, colocada sobre a região de Malaca, enumera vários produtos que vêm da "terra dos Chins"8. Dois anos depois, em 1504, tinham os Portugueses o primeiro encontro com gente que se pensa ser oriunda da China: um relato italiano da época refere que os tripulantes de uma das naus que nesse ano seguiram para a índia, na armada de António de Saldanha, encon- traram em Coulão vários homens brancos, "e inquesta terra li chia- mano chims"9. No ano seguinte, o rei D. Manuel escrevia uma longa carta aos Reis Católicos, pondo-os a par das actividades por- tuguesas no Oriente; entre outras coisas o monarca português decla- rava: "y tambien supe nuevas ciertas de grandes gentes de cristia- nos, que son allende de aquel reino de Cochim, los quales [...] tie- nen reyes muy grandes, los cuales obedecen á uno solo, y son hom- bres blancos y de cabellos loros, é habidos por fuertes, e llamase la tierra Malchima, de donde vienen las porcelanas é asmisle [i.e., almíscar] [...], y de las porcelanas hay vasos tan finos que uno solo vale hallá cien cruzados"10. Embora não fosse ainda muito mais do que um simples nome, e apesar de algumas das informações que a seu respeito circulavam serem bastante confusas e incorrectas, a China começara a suscitar / curiosidade em Portugal, e entrara definitivamente no âmbito das preocupações estratégicas da corte portuguesa. E de tal modo que Diogo Lopes de Sequeira, ao partir para Malaca em Abril de 1508, em missão de reconhecimento, levava no seu regimento instruções bem precisas sobre as investigações que deveria levar a cabo a res- peito dos Chins: "preguntarees pelos chys, e de que partes veem, e i de cam lomge, e de quamto em quamto vem a Malaca [...]; e as mercadarias que trazem; e quamtas naaos delles vem cada anno, e pellas feyçõees de suas naaos [...]; e se teem feitores ou casas em Mallaca, ou em outra allguma terra; e se sam mercadores riquos; e se sam homeens fracos, se guerreiros, e se teem armas ou artelha- ria; e que vestidos trazem; [...] e se sam christãos se gentios; ou se hé grande terra a sua, e se teem mais de hum rey antre elles; [...] e se nam saam christaãos, em que creem, ou a que adoram, e que costumes guardam; e pera que parte se estende sua terra"11. 11
  • Embora Lopes de Sequeira tivesse estabelecido relações amistosas com os chineses que encontrou no porto de Malaca no ano seguinte, de modo algum conseguiu encontrar respostas para todas as ques- tões do inquérito que levava, pois, face à atitude hostil do soberano local, os portugueses foram obrigados a abandonar precipitada- mente aquele entreposto. 2. A CHEGADA DOS PORTUGUESES À CHINA Em 1511 Afonso de Albuquerque conquistou Malaca e refor- çou as relações de amizade com os chineses ali presentes; João de Barros diz que o governador lhes "fez gasalhado y folgou muyto de praticar com elles"12. Perante a cordialidade dos nossos, os chineses chegaram mesmo a emprestar as suas barcas para o desembarque da tropa portuguesa. A partir de então tudo se tornou mais fácil, pois a conquista da importante praça malaia abriu aos portugueses todo o vasto mundo extremo-oriental que se estendia para lá do Estreito de Singapura, e a China passou a estar ao alcance da nossa navega- ção. Na Primavera de 1513 embarcações chinesas aportaram de novo a Malaca, pela primeira vez desde a conquista portuguesa. Os quatro juncos, apesar de bem recebidos pelos nossos, pouco se demoraram na cidade, e no mês seguinte estavam já de partida. Mas, de conserva com a pequena frota que regressava à China, seguia agora um outro junco, armado pelo capitão de Malaca, Rui de Brito Patalim, a meias com o bendara13 local; a bordo deste junco viajavam Jorge Álvares, feitor da mercadoria, e dois outros portugueses14. Em Junho de 1513 este pequeno grupo de pioneiros desembar- cou em Tamão, pequena ilha nas proximidades de Cantão, a grande metrópole do sul da China. Para assinalar a efeméride, Jorge Álva- res aí colocou um padrão real. Fontes chinesas coetâneas referem- -se ao facto: os Fo-lang-chi (isto é, os Portugueses) levantaram um "monumento de pedra" em Tun-mên, "depois do período reinante de Chêng-tê ter começado"15. Alguns meses mais tarde, na Prima- vera de 1514, Jorge Álvares estava de regresso a Malaca, portador 12
  • das primeiras notícias em primeira mão sobre a tão demandada Chi- na. Os primeiros contactos com a China tinham sido de tal modo encorajadores, tanto do ponto de vista comercial — dizia-se que seria tão lucrativo vender pimenta na China, como levá-la para Por- tugal — como do ponto de vista diplomático, que em 1517 seguia para Cantão a primeira embaixada portuguesa à corte de Pequim, chefiada pelo boticário Tomé Pires. A escolha do embaixador é muito interessante, pois Tomé Pires terminara pouco tempo antes a redacção da sua Suma Oriental, a primeira grande geografia global do Oriente escrita por um português, na qual dedicava um significa- tivo espaço à descrição da China, com base em informações orais recolhidas em Malaca, onde fora feitor das drogas. Apesar de elo- giar alguns aspectos da realidade chinesa Tomé Pires mostrava-se surpreendido, pois, segundo escreve, as coisas que lhe contavam da grandeza desse reino "mais se creriam com verdade haverem-se em nosso Portugal, que não na China"16. E, na sequência, dedicava todo um parágrafo à discussão das possiblidades de conquista da China; na sua opinião seria relativamente fácil obter o controle de todo o litoral chinês: "com dez naus subjugaria o governador das índias que tomou Malaca [refere-se a Albuquerque] toda a China nas beiras do mar"17. Sinal de que a visão portuguesa do Império do Meio era ainda muito imprecisa18. 3. A EMBAIXADA DE TOMÉ PIRES19. A embaixada portuguesa chegou a Cantão em 1517, a bordo ' de uma armada comandada por Fernão Peres de Andrade. Apesar de as primeiras reacções chinesas terem sido amistosas, logo que os navios portugueses regressaram a Malaca, o embaixador Tomé Pires e a sua comitiva viram-se enredados na morosidade da buro- cracia chinesa, e apenas três anos depois seriam autorizados a partir para Pequim, onde chegaram, depois de uma lenta e longa viagem, em princípios de 1521. Mas a embaixada de Tomé Pires não chegou a atingir os seus objectivos devido a um conjunto de circunstâncias pouco auspicio- 13
  • sas. Por um lado, o imperador Chêng-tê faleceu pouco depois da chegada dos portugueses a Pequim, sem lhes ter concedido audiên- cia; o protocolo oficial exigia o regresso da embaixada a Cantão, até o novo imperador ser entronizado. Por outro lado, chegavam à Corte cartas de funcionários administrativos da província de Kuang- tung, contendo numerosas queixas contra os portugueses. Em 1519 aportara ao litoral chinês uma frota portuguesa comandada por Simão de Andrade, que vinha recolher o embaixador, pois supu- nha-se que este teria já desempenhado cabalmente a missão de que fora incumbido. O capitão português, pelo seu procedimento brutal e pouco diplomático, suscitara a animosidade da população e das autoridades de Cantão — mandara construir uma fortaleza para se proteger dos piratas e fizera erigir uma forca para punir eventuais delitos cometidos pela sua tripulação, actos que, do ponto de vista chinês, constituíam uma clara afronta aos representantes locais do poder. Uma certa prepotência e falta de tacto dos Portugueses ao abordarem a civilização chinesa e uma política de deliberado exclu- sivismo e isolamento da parte dos Chineses, contribuíram para o degradamento da situação. À sua chegada a Cantão, em finais de 1521, os membros da embaixada encontraram um ambiente de aberta hostilidade e, ao fim de alguns meses, Tomé Pires e os seus acompanhantes eram postos a ferros e impedidos de abandonar a China. Subsequentemente, as relações com os Fo-Iang-chi seriam formalmente interrompidas: em 1522 um édito imperial proibia todos os contactos com o exterior e ordenava o encerramento do porto de Cantão à navegação estrangeira. Seguiu-se um período de ruptura nas relações oficiais entre Portugal e a China20. No entanto, os interesses económicos em jogo eram demasiado importantes para que qualquer das partes cedesse de bom grado às imposições da Corte imperial chinesa; as regiões costeiras tinham interesse em escoar as suas mercadorias (seda, por- celana) e, simultaneamente, desejavam receber os produtos comer- ciados pelos estrangeiros. Assim, os Portugueses continuaram a fre- quentar assiduamente o litoral chinês e a levar a cabo as suas tran- sacções comerciais de modo clandestino, com o apoio tácito das autoridades locais, em estabelecimentos informais e temporários 14
  • situados no litoral da China. A situação modificar-se-ia apenas em 1554, quando o capitão português Leonel de Sousa estabeleceu um acordo informal com as autoridades de Cantão para a realização de uma feira anual na ilha de Sanchoão, no litoral da província de Kuangtung. Três anos mais tarde, os Portugueses seriam autoriza- dos a estabelecer um entreposto permanente em Macau21 e assistir- -se-ia então ao restabelecimento de relações normais entre Portugal e a China. 4. AS CARTAS DOS CATIVOS DE CANTÃO Cristóvão Vieira, o autor da primeira das cartas que aqui se publicam, era um dos membros da comitiva do embaixador Tomé Pires. Do seu cativeiro chinês escreveu uma longa carta, e conse- guiu fazê-la chegar às mãos de compatriotas seus que comerciavam nas ilhas do litoral chinês. Para além do que ele próprio refere, pouco mais se sabe sobre Cristóvão Vieira. Foi já sugerido, com base numa passagem ambígua da sua carta, que ele seria um persa de Ormuz lusitanizado22; mas a hipótese carece de confirmação, pois o contexto autoriza mais do que uma interpretação23. O autor da segunda carta, Vasco Calvo, era um mercador por- tuguês que chegara ao litoral da China em 1521, integrado numa expedição comercial portuguesa, a bordo de um navio do seu irmão Diogo Calvo. Na altura em que os portugueses negociavam em ter- ra, chegaram de Pequim as instruções para as autoridades de Can- tão embargarem todo o comércio com estrangeiros; Vasco Calvo e alguns dos seus compatriotas foram imediatamente aprisionados, 'mesmo antes do regresso da embaixada de Tomé Pires a Cantão. Tal como Cristóvão Vieira, seu companheiro de prisão, também Vasco Calvo escreveu uma longa carta na prisão, e conseguiu que ela fosse entregue, juntamente com a de Vieira, aos portugueses que frequentavam o litoral meridional da China. Os relatos de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, conhecidos como cartas dos cativos de Cantão, constituem os primeiros teste- munhos presenciais escritos por Europeus sobre a China desde os tempos de Marco Polo, e são documentos fundamentais para a his- 15
  • tória das primeiras relações entre Portugal e a China. O seu valor foi imediatamente reconhecido pela historiografia da época: João de Barros afirma explicitamente, tê-los utilizado como fontes para a composição da sua Década IIP*. As cópias das cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo existentes em Paris25, feitas na segunda metade do século XVI, estão datadas de 1534 e 1536, respectivamen- v/ te. Um historiador português tentou demonstrar que, na realidade, ambas foram escritas em 1524; mas esta tese não tem sido unanime- mente aceite26. O valor informativo das cartas pode ser sistemati- zado em três núcleos distintos. Por um lado, as cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo dão- -nos conta de todos os problemas com que se defrontaram os mem- bros da embaixada de Tomé Pires, arrastados de prisão para prisão, interrogados, torturados, humilhados, alguns morrendo de priva- ções, outros sendo sumariamente executados pela justiça chinesa. O próprio embaixador parece ter morrido na sua prisão de Cantão em 1524, segundo o testemunho de Vieira, embora a questão não esteja ainda totalmente resolvida, pois Fernão Mendes Pinto afirma na sua Peregrinação que Tomé Pires ainda vivia por volta de 1540, e pre- tende ter encontrado uma filha do embaixador algures no interior da China27. No entanto, o testemunho de Mendes Pinto não é una- nimemente aceite pela crítica histórica28. Por outro lado, as cartas dos cativos de Cantão transmitem- -nos valiosas informações presenciais sobre numerosos aspectos da realidade chinesa — geografia, administração local, organização das estruturas produtivas, potencialidades comerciais, recursos bélicos em termos humanos e materiais, vida quotidiana dos Chineses, pri- sões e sistema judicial, etc.. O conjunto de notícias recolhidas por Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, permitirá aos Portugueses da época formarem uma imagem minimamente rigorosa do gigantesco impé- rio com que tinham de se defrontar. Mas apesar do vasto conjunto de notícias reunidas pelos cati- vos de Cantão, o terceiro núcleo informativo das cartas permite-nos concluir que predominava ainda, entre os Portugueses, uma ima- gem incorrecta das coisas da China. Com efeito, um grande espaço da carta de Cristóvão Vieira e quase toda a carta de Vasco Calvo são dedicadas à discussão das possibilidades de conquista da China 16
  • pelos Portugueses, empresa que, na opinião de ambos os autores, tinha grandes hipóteses de ser bem sucedida. Os cativos de Cantão incitam abertamente as autoridades portuguesas a empreenderem uma expedição militar contra o litoral da China, com o objectivo não só de libertar os prisioneiros, mas também de ocupar efectiva- mente uma das terras mais ricas do mundo. Para tal, incluem nas suas cartas minuciosas instruções de ataque, com a localização das posições inimigas, os pontos fracos, locais de desembarque, priori- dades estratégicas, estimativas de adesão popular ao ataque portu- guês — enfim, um autêntico plano de campanha. A situação deses- perada em que os prisioneiros portugueses se encontravam, assim como uma estimativa demasiado apressada da realidade chinesa explicam, sem dúvida, a importância atribuída nestas cartas aos pla- nos para a invasão do sul da China pelos Portugueses. No primeiro quarto de século da presença portuguesa no Oriente, embora a quantidade de notícias disponíveis sobre a China não parasse de aumentar, predominava ainda nos nossos meios ultramarinos uma óbvia subestimação da realidade chinesa. Se as cartas dos cativos de Cantão contribuíram significativamente para a constituição de um banco de dados civilizacionais29 sobre a China, seria preciso esperar pela segunda metade do século XVI e pelos tra- tados de Galiote Pereira30 e de frei Gaspar da Cruz31 para os Portu- gueses, e também os Europeus, estarem de posse dos elementos necessários à formação de uma imagem da China minimamente rigorosa e fidedigna32. • 5. HISTÓRIA EDITORIAL DAS CARTAS DOS CATIVOS DE CANTÃO Por volta de 1900, o orientalista britânico Donald Ferguson descobriu numa biblioteca de Paris um volume manuscrito que tinha por título Coronica de Bisnaga y Relacion de la China. Os fólios 1 a 102 desse volume continham a chamada Crónica do Reino de Bisnagá, composta por dois relatos dedicados ao grande império hindu de Vijayanagar, no Sul da índia, escritos na primeira metade 17
  • do século xvi por dois mercadores portugueses33. Os restantes fólios, 103 a 153, continham cópias quinhentistas das duas longas cartas escritas nas prisões de Cantão pelos cativos portugueses Cris- tóvão Vieira e Vasco Calvo. Logo em 1901 Ferguson iniciou a publicação das cartas numa revista de Bombaim34, sendo o texto português, em edição diplomática, acompanhado por uma extensa introdução e por tradução inglesa das cartas com abundantes anota- ções. As diversas partes do artigo seriam pouco depois reunidas em separata, com o título Letters from Portuguese Captives in Canton, with an Introduction on Portuguese Intercourse with China in the First Half of the Sixteenth Century35. Alguns anos mais tarde, o diplomata alemão Ernst Arthur Voretzsch encontrou no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, alguns fragmentos da carta original de Cristóvão Vieira36, escritos a pincel fino em papel chinês, que apresentavam ligeiras variantes em relação à cópia conhecida. Voretzsch deu a conhecer os fragmentos da carta original de Cristóvão Vieira (completando- -os com extractos da versão da carta dada à estampa por Donald Ferguson) no seu artigo "Documento acerca da primeira embaixada portuguesa à China"37. Vinte anos depois desta edição, o diplomata e investigador Eduardo Brasão voltou a publicar o texto da carta de Cristóvão Vieira (tal como Ernst Voretzsch o reconstituíra), incluindo-o, como apêndice, num dos capítulos da sua obra Apontamentos para a História das Relações Diplomáticas de Portugal com a China, 1516-175338. A extrema raridade destas publicações, assim como o valor y intrínseco das cartas dos cativos de Cantão, justificaram recente- mente a sua inclusão em duas obras de características e finalidades diversas. Por um lado, a investigadora italiana Raffaella D' Intino incluiu as cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo na sua antologia Enformação das cousas da China — Textos do século XV/39, acres- centando-lhes breve introdução e numerosas notas40. Por outro lado, o autor destas linhas preparou uma edição das. cartas em lei- tura modernizada, com breve introdução, que foi integrada na obra Notícias da China e do Tibete41. 18
  • 6. CRITÉRIOS DE TRANSCRIÇÃO Um dos grandes dilemas que se colocam ao investigador que pretenda editar documentos quinhentistas é justamente o tipo de leitura que deve privilegiar. A escolha é sempre difícil e implica opções decisivas em termos de repercussão pública do trabalho a realizar; o factor determinante parece ser o tipo de leitor a que se dirigem os textos a editar. As cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo foram, até à data, objecto de três leituras distintas. Em primeiro lugar, a transcrição de Donald Ferguson, rigoro- samente diplomática, isto é, respeitando integralmente os textos originais, tanto na forma como no conteúdo (embora com alguns erros de leitura). Em termos de investigação histórica é, sem dúvi- da, um trabalho essencial, onde o leitor interessado tem à sua dis- posição os textos primitivos tal como saíram das mãos do copista que os elaborou no século xvi. Trata-se, no entanto, de textos de difícil interpretação em alguns passos, apenas acessíveis a leitores especializados, pois são praticamente desprovidos de pontuação e acentuação, as maiúsculas são usadas indiscriminadamente e os copistas que sobre eles trabalharam terão certamente cometido erros de transcrição. Raffaella D'Intino, por sua vez, apresentou uma "Transcrição conservadora"42 que sujeitou o texto original a algumas moderniza- ções, no domínio da grafia e da pontuação, nomeadamente. A modernização de um original quinhentista como as cartas dos cati- vos de Cantão é sempre uma tarefa extremamente complexa e deli- cada: se é verdade que uma parte do texto é facilmente compreen- sível, mesmo sem pontuação, há no entanto trechos das cartas onde um determinado sinal de pontuação se pode tornar essencial à inter- pretação de uma frase, que, de outro modo, permaneceria obscura ou mesmo totalmente incompreensível. Neste sentido, a transcrição proposta pela investigadora italiana é, na minha opinião, susceptí- vel de alguns reparos, pois a pontuação adoptada, muito escassa e por vezes incorrecta, dá origem a alguns erros de leitura e interpre- tação. Finalmente, a versão modernizada das cartas dos cativos de Cantão da minha responsabilidade, que, respeitando embora a sin- 19
  • taxe original, introduziu alterações significativas a nível da ortogra- fia e da pontuação. Este tipo de leitura, subordinada a objectivos essencialmente didácticos, e que tem provocado alguma polémica43, integra-se numa experiência de alta divulgação que visa colocar à disposição do grande público um vasto conjunto de fontes documen- tais sobre a Expansão portuguesa44. A leitura das cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo que aqui se apresenta difere de todas as anteriores, pois pretende ser uma edição crítica, que "visa fundamentalmente estabelecer o melhor texto, o mais fidedigno ao que o autor elaborou, às suas intenções, à sua ferramenta intelectual, às características da épo- ca"45. Neste sentido, o texto original da cópia de Paris das cartas foi transcrito de acordo com as seguintes normas editoriais: a) regularização do emprego das maiúsculas (no início de fra- ses e de nomes próprios); b) desdobramento de abreviaturas; c) acentuação muito sóbria (apenas em palavras onde a sua ausência poderia suscitar equívocos); d) separação de palavras unidas e ligação de palavras separa- das; e) transcrição do u intervocálico por v; f) transcrição do ç em c antes das vogais e e f, g) introdução de praticamente toda a pontuação; h) numeração dos parágrafos; i) transcrição das variantes ao texto em notas de rodapé; j) inclusão de letras ou palavras entre parêntesis rectos, [...], com o objectivo de precisar o sentido do texto. Procurou-se, no entanto, conciliar esta exigência de rigor na fixação textual com uma intenção claramente didáctica, dotando a transcrição das cartas de um vasto aparato crítico, que visa "tornar o texto mais acessível ao leitor sem prejudicar o valor linguístico do texto"46. Assim, a versão das cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo que aqui se apresenta é acompanhada por: 1) breve introdução histórico-cultural; m) abundantes notas de esclarecimento; n) bibliografia. 20
  • Para a transcrição dos nomes chineses, nas notas, tentou-se, regra geral, um compromisso com o sistema Wade-Giles, que é usado na maior parte da bibliografia citada, sobretudo a de origem ou influência inglesa47. Para concluir, acrescente-se apenas que esta Introdução foi propositadamente encurtada, uma vez que todas as informações e esclarecimentos julgados pertinentes foram incluídos nas anotações ao texto. NOTAS 1 Cf. J. - P. Roux, Les explorateurs. Nas notas que se seguem, todas as obras são citadas de forma abreviada; as referências completas encontram-se na Bibliogra- fia. Cf. a "Introdução" de F. M. E. Pereira à sua edição de O Livro de Marco Paulo. 3 Marco Polo, Livro. foi. Avj. r. 4 Lendas, vol. l, p. 141. 5 Lendas, vol. i, p. 186. 6 Os Coloquios dos simples, e drogas he cousas medicinais da índia foram editados pela primeira vez em Goa, em 1563. Cf. Garcia de Orta, Colóquios. 1 Garcia de Orta, Colóquios, vol. I, pp. 204-205. 8 A. Cortesão & A. T. Mota, Portugaliae, vol. t, est. 5. 9 O facto é mencionado por Alessandro Zorzi, na sua Viaggio de índia, in A. T. Mota, A Viagem, p. 51. 10 D. Manuel, "Carta", in J. Cortesão, A Expedição, p. 287. " "Regimento de 13 de Fevereiro de 1508", in Cartas, vol. ti, p. 416. 12 João de Barros, Década II, liv. 6, cap. 2, p. 263. 13 Cf., à frente, nota 88 da carta de Cristóvão Vieira. J4 L. Kiel foi o primeiro a apontar a identidade do feitor português; cf. a sua obra Jorge Álvares. !5 y _ y Çhang, Sunt-Portuguese, p. 35 (traduzo do inglês). 16 A Suma Oriental, p. 252. 17 A Suma Oriental, p. 364. 18 Para uma análise da descrição que Tomé Pires dedica à China na sua Suma Orien- tal, cf. o meu artigo "Portugal em busca da China". 19 Baseio-me aqui essencialmente em Armando Cortesão, que re(ata em pormenor as peripécias da embaixada de Tomé Pires na sua "Introdução" à Suma Oriental (cf. A Suma Oriental, pp. 23-43). 20 Cf. T. - T. Chang, Sino-Portuguese. 21
  • 21 Para informações e bibliografia sobre a fundação de Macau, cf. C. Estorninho, "Macau", e também o meu artigo "Macau" (no prelo). 22 A. Cortesão afirmou a nacionalidade persa de Cristóvão Vieira (A Suma Orien- tal, p. 31), no que foi seguido por L. Albuquerque (Navegadores, vol. 2, p. 32). 23 Cf., à frente, as notas 166 e 207 da carta de Cristóvão Vieira. 24 Cf. João de Barros, Década III, liv. 6, cap. 2, p. 310; o trecho relevante de João de Barros é citado à frente, na nota 91 da carta de Cristóvão Vieira. 25 Na Biblioteca Nacional de Paris, Portugais 65, fols. 103-153. Cf. o ponto 5 desta Introdução. 26 A. Cortesão, in Tomé Pires, A Suma Oriental, pp. 43-46. A tese de A. Cortesão foi convincentemente contestada por G. Schurhammer (Francis Xavier, vol. ill, p. 263, n. 20) e também por H. Livermore (Fernão Mendes, p. 359, n. 39), que defenderam a validade das datações originais (1534 para a carta de Cristóvão Vieira e 1536 para a carta de Vasco Calvo). Cf., também, as notas 91, 146 e 319 da carta de Cristóvão Vieira. 27 Peregrinação, cap. 91; cf., também, a nota 171 da carta de Cristóvão Vieira. 28 Para duas atitudes distintas face ao valor historiográfico da Peregrinação, cf. G. Schurhammer, "Fernão Mendes Pinto" e o meu artigo "Possibilidades e limita- ções". 29 A expressão é de L. F. Barreto (cf. A Herança, p. 9). 50 Sobre Galiote Pereira e o seu Tratado da China cf. C. R. Boxer, South China, e também o meu artigo (no prelo) "Galiote Pereira". 31 Sobre frei Gaspar da Cruz e o seu Tratado das cousas da China, cf. C. R. Boxer, South China e a "Introdução" de A. P. Castro à sua edição da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. 32 Analisei o problema da formação de "A Imagem da China na Cultura Portuguesa dos Descobrimentos" em comunicação ao Seminário sobre os Descobrimentos "Novos Investigadores, Novas Perspectivas" (Lisboa, 30 de Nov. a 3 de Dez., 1989). 33 Trata-se dos relatos de Domingos Pais e Fernão Nunes, publicados por D. Lopes em Crónica do Reino de Bisnagá. 34 The Indian Antiquary (Bombaim), vol. xxx, 1901, pp. 421-451, 467-491 e vol. xxxi, 1902, pp. 10-32, 53-65. 35 Bombaim, Education Society's Steam Press, 1902. A Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa possui aquele que é, talvez, o único exemplar desta obra existente em Portugal. 36 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Fragmentos, caixa 4, maço não numerado. 37 E. A. Voretzsch, Documento, pp. 50-69. 38 E. Brasão, Apontamentos, pp. 41-66. 39 R. D'Intino, Enformação, pp. 3-53. Esta obra colocou à disposição do público um conjunto de textos fundamentais para a história das relações luso-chinesas, e que eram, na sua maioria, de difícil acesso. 22
  • 40 Muitas destas notas foram retomadas da obra de D. Ferguson, Letters. 41 Notícias, pp. 7-64. Esta transcrição modernizada das cartas contém algumas hipó- teses de leitura que nesta edição não foram seguidas. 42 R. D'Intino, Enformaçào, p. xvi. 43 Confrontar as declarações de L. Albuquerque à Revista ICALP ("Uma Personali- dade", p. 117) com as críticas formuladas por V. M. Godinho em "Portugal , p. 45. 44 As Publicações Alfa, na sua Biblioteca da Expansão Portuguesa, iniciada em 1989, têm publicado mensalmente quatro volumes de textos portugueses dos sécu- los xv a xvii, pertencentes à chamada literatura da expansão, em leitura moderni- zada e com comentários de especialistas. 45 B. Nacional, "A Reprodução", p. 108. 46 G. A. Rodrigues, "Edições críticas", p. 652. 47 Cf. as observações de C. R. Boxer a propósito deste assunto: "it is probably less confusing for the reader to use one admittedly imperfect system throughout the book, than three or four widely-differing systems" (South China, p. ix). Assim, no sentido de uniformizar minimamente a transcrição das palavras chinesas, tentou- -se, quase sempre, apresentar os equivalentes em Wade-Giles das transcrições fei- tas noutros sistemas (nomeadamente, sistema Pinyin - internacional e sistema da École Française d'Extrême Orient); para o efeito, recorreu-se aos quadros de concordâncias apresentados por C. Larre em Les Chinois. pp. 638-645. » 23
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  • CARTA DE CRISTÓVÃO VIEIRA (CANTÃO, 1534) Trelado de huma carta que da China veo, a qual carta escreveo Christovão Vieyra [e] Vasco Calvo, que láa estão captivos, os quaes forão da companhia dos embaixadores que levou Fernão Perez anno de 15201. 1. Na era de 1520, a xxiij dias de Janeiro, partimos pera o rey da China2. Em Mayo estávamos com o rey em Nanquim3. Dali man- dou que nos fossemos à cidade de Piquim diante, pera nos lá dar o despacho. A vij de Agosto se escreveo a Cantão do que era passado com el-rey até então4. Chegarão as cartas a Jorge Botelho [e] Diogo Calvo que estavão em a Ilha onde se faz mercadoria5; portanto não se torna a escrever, porque o tempo requere brevidade e pouca lei- tura. Em Fevereiro entrou o rey em Piquim e esteve doente três meses; falleceo6. Do dia seguinte, [disseram] que nos viéssemos a , Cantão com ho presente, que viria o rey novo, que erão por elle a outra cidade, que nos mandaria o despacho a Cantão. Partimos de Pequim a xxij de Maio; chegámos a xxij de Septembro a Cantão, porque a guia vinha à sua vontade, devagar. A causa de se não tomar o presente hé esta7. 2. Quando Fernão Perez chegou ao Porto da China8, mandou aos linguoas9 que fizessem cartas como vinha capitão-moor e trazia embaixador pera o rey da China. Os lingoas as fizerão ao custume da terra, assi: "Capitão-moor e embaixador vem a terra da Cinha por mandado do rey dos Fanges'°com pareas11; vem pedir o selo12, 27
  • segundo custume, ao Senhor do Mundo Filho de Deos, pera lhe ser obediente". Segundo custume, por esta carta fomos recebidos em terra. Esta hé a sustancia da carta que fizerão, sem darem conta delia a Fernão Perez, nem elie em nenhum tempo ser de tal sabe- dor; somente os lingoas dezião que a carta estava bem feita segundo o custume, e a sustancia delia calavão13. 3. Em a cidade de Pinquim foy dentro nas casas do rey aberta a carta d'el-rey nosso senhor, e foy nella achado ao revés do que os lingoas escreverão. Pareceo-lhe a todos que enganosamente emtra- ramos na terra da China pera lhe ver a terra, que era caso de engano a deferença das cartas [em que] foy escrita a carta ao rey. Mandou o rey que não fossemos mais a suas casas fazer reverencia, e tivessem gente e guarda em nós. O custume dos embaixadores em Piquim hé metê-los em humas casas de grandes curraes14, e aly estão fechados ao primeiro dia da Lua; e ha 15 dias da Lua vão às casas do rey, delles a pée, delles em sendeyros15 com cabrestos de palha, e vão fazer 5 mensuras diante de hum muro das casas do rey, todos em ordem, com ambos os jiolhos no chão e a cabeça e o rosto na terra, de bruços; assi estão atée que os mandão alevantar 5 vezes a esta parede16; dali tornão-se a meter nos curraes fechados. A esta reverencia mandarão que não fossemos mais. 4. Forão os linguoas perguntados porque fizerão carta falsa e não conforme à d'el-rey nosso senhor. Diserão que as fizerão ao custume da China; que a carta d'el-rey nosso senhor vinha cerrada e asellada, que se não podia leer nem abrir, que avia de ser dada a el- rey em sua mão; que éramos de longe terra e que não sabíamos o custume da China, que era grande, que ao diante o saberíamos; que elles não tinhão culpa, pois que fizerão a carta ao custume. Não se contentarão os mandarys17 da resposta. Forão preguntados cada hum donde erão; forão presos — isto tanto que o rey falleceo —, e moços seus servidores [também], 5. Chegou o rey a huma vila18 que está duas légoas da cidade de Pim19 em Janeiro da era de MDXXI. Esteve julgando hum seu parente que se alevantou contra elle20, e o mandou queimar depois de emforcado. E ali entrou em despacho noso porque lhe forão tra- zidas tres cartas contra os portugeses21: huma de dous mandarys em Piquim, outra dos mandarys de Cantão, outra dos melays22. Cujas 28
  • sustancias são estas, scilicet: "Manderys que forão à Ilha da Merca- doria a receber os direytos per mandado dos mandarys de Cantão, fazem saber ao rey como elles forão em tal anno e dia [e] era areca- dar os direytos. Virão gentes franges com muitas armas e bombar- das, gentes fortes, e não pagavão os direytos segundo o custume, e fazem forças23. E assi ouvirão dizer que estes gentes tinhão tomado Malaca e roubada e muita gente morta, que o rey não lhe devia receber seu presente, e se lho quisesse receber que disessem com que reinos confinava o reino dos fanges. Que os mandasse, que os não devia de receber"24. 6. Dezia a carta dos mandaris de Cantão que os franges não querião pagar os direytos, e que tomavão os direitos aos syamis23, e os prendião e lhes aselavão26 os seus juncos, e punhão guardas nel- les e não lhe deixavão fazer mercadoria nem pagar os direytos, e tinhão huma fortaleza feita de pedra, cuberta de telha e cercada d'artelharia, e dentro muitas armas, e que furtavão cães e que os comião asados27, e que vinhão a Cantão pôr forca28, e que traziam bombardas em somas29, descubrindo os rios, que tiravão bombardas diante a cidade [e] em outros lugares defessos. 7. Dizião os melajos que o embaixador d'el-rey de Portugual que estava na terra da China que não vinha de verdade, que falsa- mente era vindo a terra da China pera enganar, e que andavamos a ver as terras e que logo vínhamos sobre ellas, e como na terra púnhamos huma pedra30 e tínhamos casa logo aviamos a terra por nossa, que assi fizéramos em Malaca e em outras partes, que éra- mos ladrões. Dizia hum mandiry grande que per carta lhe pidiamos asento ou casas em Cantão pera estarem franges, que lhe parecia i muito mal, que em vez de obediência que lhe pedíamos asento na terra. Disse outro mandirym que na era de MDXX, na Ilha de Mer- cadoria, os franges lhe quebrarão a carapuça31, e lhe derão panca- das e o prenderão, indo elle arecadar os direytos per mandado dos manderyns de Cantão. A estas cousas respondeo el-rey que "esta gente não sabem nossos custumes, manso os irão sabendo". Disse que ficasse o despacho para dentro da cidade de Pequim. Logo entrou, e no mesmo dia adoeceo; daly a três meses falleceo, sem despachar nada. Desta resposta que o rey deu não forão os grandes muy contentes. E mandou logo o rey a Cantão que hà fortaleza que 29
  • os portugeses tinhão feita que lha derribassem, e assi toda a povoa- ção, que não queria nenhuma mercadoria com nenhuma nação, que se alguém viesse que se mandaria tornar. E logo partirão caminho de Cantão32, que tirassem a limpo o que lhe diseráo, se era verdade ou não. Os manderins de Cantão não fizerão assi, senão pera rou- bar fizerão armadas e, [deles] per engano, delles per força, tomarão os que vierem e os roubarem33. 8. Tanto que chegámos a Cantão nos levarão diante do pocha- cy34, e nos mandou levar a humas casas de troncos35 que estão nos alleoqoeins36 dos mantimentos; e nellas não quis Thomé Pirez entrar. E os tronqueiros37 nos derão dentro humas casas em que estivemos trinta e tres dias. E daqui levarão a Thomé Pirez com seis pessoas à cadea do pochacy, que chamam libancoM; e a mim com quatro pessoas à cadea do tomecP\ onde estivemos pressos dez meses. Em poder de Thomé Pirez estava toda a fazenda. Davão-nos regra como soltos; éramos muito vigiados em lugares apartados dos presos. Neste meo tempo mandarão chamar Thomé Pirez e toda a companhia [a] o ame/cace40 que então era; assi chamaram os mela- jos. Dise que mandava o rey que entregasse el-rey nosso senhor a terra de Malaca aos melajos, que lhe tinhão tomada. Respondeo Thomé Pirez que não vinha a ysso, nem convinha a elle em tal fal- lar; que da carta que trazia lhe daria rezão, que d'al não sabia. Per- guntou que gente avia em Malaca, que elle sabia que avia nella tre- zentos homens portugeses, e que em Couchim41 pouco mais. Res- pondeo [Tomé Pires] que tinha Malaca quatro mil homens d'armas no mar e na terra, hora erão iuntos hora espalhados; e em Ceilão42 que não tinhão conto. Nestas perguntas nos teve de giolhos quatro horas. Acabado de se enfadar, mandou cada hum à cadea donde estava43. 9. A quatorze dias d'Agosto de MDXXII lançou o pochaci44 a Tomé Pirez cormas 45 nas mãos, aos da companhia cormas e ferros nos pées, as cormas aseladas nos pulços, e nos tomarão toda a fazenda que tínhamos. Assi, com cadeas nos pescoças e per meo da cidade nos levarão46 a casa do anchuci47. Ali nos quebrarão as pri- sões e nos deitarão outras mais fortes cadeas nas pernas, cormas aselados e cadeas nos pescosos, e dali48 nos mandarão a esta cadea. 10. À entrada da cadea morreo António d'Almeida, das pri- 30
  • sões fortes que trazíamos, os braços inchados49, as pernas roçadas50 das cadeas estreytas; isto com determinação que dali a dous dias nos matarem. Antes de ser noite deitarão a Thomé Pirez outras de novo, e o levarão a elle sóo, descalço, sem barrete, com apupadas de rapazes, à cadea do cancheufu51, por ver a fazenda que nos tomarão, que se avia d'escrever, e escrevião dez e furtavão trezen- tos, os mandarins escrivães que presente estavão, assi ladrões52. Foy o pochancy anchucP dizer a hum mandarim chamado ceuhP* que pois portugeses entrarão na Ilha55, e pêra que era ter-nos, que vínhamos a ver a terra, que éramos ladrões, que morrêssemos logo. Respondeo o ceuhi: "Tu queres acabar todos estes sendo de embai- xada, ora seja falsa ora verdadeyra. Manda-lhe56 logo quebrar as prisões. Eu escreverey a el-rey; segundo sua vontade se fará". Naquelle siguinte dia nos quebrarão as prisões, que se as tivéramos mais hum dia todos morrêramos, e tornarão a trazer a esta cadea a Thomé Pirez. 11. A fazenda que nos tomarão erão vinte quintães de ruybar- bo57, mil e quinhentas ou seiscentas peças de seda riquas, obra de quatro mil lenços de seda que os chins chamão xopas de Naquim58, e muito avanos59, e mais três arobas60 d'almisquere em póo61, tres mil e tantos62 papos d'almiscere, quatro mill e quinhentos teaes63 de prata, e setenta ou oitenta teaes d'ouro, e outras peças de prata, e todos os vestidos64 peças de preço, assi portugesas como da China, o pucho65 de Jorge Botelho, incenso, roçamolla66, cascas de tartaruga, assi pimenta e outras meudezas67. Estas [coisas] forão entregues na feitoria do cancheufo68 como fazenda de ladrões; o presente d'el- -rey nosso senhor que mandava ao rey da China está na feitoria do ' pochancy. A sustancia das peças e quantas e de que sorte me não alembra bem, porém a soma hé de mil e quinhentos acima, porque o caderno com outros papeis de sustancia levarão, e as arcas que tomarão de vestidos, e meterão com a fazenda. 12. Na nao69 de Diogo Calvo ficarão as pessoas seguintes: Vasco Calvo, Estevão Fernandez — escrivão, Agostinho Fernandez — ntestre, Simão Luís — despenseiro, João d'Alanquer, João Fer- nandez, Diogo da Ilha — do mestre; e marinheiros, António Alva- rez e quatro moços: João Fernandez — guzarate, Pedro — jauo do mestre70, Gaspar — de Estevão Fernandez, Gonçalo — de Vasco 31
  • Calvo; e por serem conhecidos em Cantão e dizerem que erão da embaixada escaparão. Os outros forão todos presos e metidos nesta cadea71; delles morrerão à fome, delles afogados. Simão língoa e Balante [e] Alli forão pressos. Alli morrerão72 aqui nesta cadea; derão-lhe com hum maço na cabeça, assi o matarão. Simão [e] Baralante, que estava[m] no chanchefu73, morrerão [de] açoutes, trazendo já cabas74 aos pescoços, com setecentos75 que morrerão, assi os portugueses. Fazendas e berços76 que forão com elles, tudo foy roubado; a menos se ouve pera el-rey a fazenda d'armaçáo que Vasco Calvo tinha, toda roubada do conconcepacf1 que foy pera Pequim, de maneira que nada não ficou. 13. Bertholameu Soarez, que era em Patane78, e Lopo de Goes, em Syon79, Vicente Alvarez80, criado de Simão d'Andrade, o padre Mergulhão, que erão em Syon, vieram na era de mdxxi. E estando Diogo Calvo no Porto de Mercadoria81, [a] armada dos Chins deu sobre elles, porque vinhão os juncos oje hum e de menhãa outro de Syon, e forão tomados, delles per engano, delles pelejando. Forão levados a Nanto82, e seus escravos e muitas fazen- das tudo roubado, e elles feridos. O padre Mergulhão morreo pele- jando. Forão trazidos às cadeas de Cantão com ferros e prisões; aqui forão afogados trazendo távoas, já que morressem por ladrões do mar. Alevantaráo-lhe que se querião erger com as cadeas, não sendo assi. Tudo no tempo que chegou Martim Affonso83. E por não verem os outros portugeses que trazião dos navios, assi forão todos mortos. 14. Os cinquo juncos que no Porto de Mercadoria ficarão na era de mill e quinhentos e vinte e hum: quatro do rey de Malaca, hum do rey de Patane, scilicet, hum de Francisco Rodrigues, outro de Jorge Álvarez, e dous outros. E Diogo Calvo tanto que partio, forão todos roubados da gente d'armada; estavão à vista de Diogo Calvo. A maior parte levou o anchianci84 e o ampochi^ e capitães e pro86 de Nantó; e parte d'armada, e grande parte, ouve o rey. E daqui se aredou e se furtou muita [fazenda], e se arecadou pera o rey por fazenda de ladrões. Os juncos forão repartidos: o de Fran- cisco Rodrigues [e o de] Jorge Álvarez forão dados aos capas87, e nelles se forão; os d'el-rey de Patane, [um] aos malajos e outro aos syames; doutro não sei88. Tudo foy ávido por fazenda de ladrões. 32
  • [Por causa] das grosas fazendas que destes iuncos ouverão, os man- darins ordenarão que não escapasse português, porque em nenhum [lado] dessem conta destas fazendas que erão roubadas. 15. No mesmo anno vierão de Patane dos outros iuncos em que vinhão Bertholameu Soarez; de Syam outro em que vinha Lopo de Goes. Os portugueses, como já disse, manhosamente delles tomados por força, e vierão a Nantó; e assi com recados fallsos sahia a gente em terra e prendião-nos, porque vinhão espalhados, oje hum, de manhãa outro. Finalmente, que todos forão pressos. Nos mesmos iuncos logo cortarão as cabeças aos capitães, mestres, pilotos [e] mercadores, como tinhão fazenda. O outro rebotalho trouxeram à cadea, em que morrerão, dizem, de mil e quinhentas pessoas ariba, afora as cabeças dos mortos, que era grande quanti- dade. Polios roubar, alevantarão-lhe que trazião portugeses a terra. Per estas cadeas de Cantão forão afogados delles, muitos mortos às pancadas e à fome nas cadeas. De maneira que de toda esta cópia de gente, que antre todos serião dous mill, não escaparão mais de sesenta bargantes89, que soltarão, e obra de cinquoenta molheres e meninos, de que depois morrerão a metade; estes se forão pera Syam. 16. Hum syame chamado Chãcoantão, hum seu hirmão e outros três syames forão na praça descabeçados e feitos os corpos em troncos, porque dezião que trazião portugeses a terra. Por cou- sas falsas que lhe alevantarão, tanto que os mandarins ouverão as fazendas à mão a mor parte, e o menos pera o rey, não lhe mingou raiva pera os matar. Dizião os mandarins que [se] soltassem estes, que erão pessoas conhecidas, que farião elles, syames, cartas contra , hos mandarins das fazendas que lhes tomarão, que os mandarins pasarião mal, que milhor era dar fundo a tudo, por tal que nunca se soubese. Ordenarão de não receber nenhum estrangeiro na China, e por esta causa destas fazendas e da dos cinquo iuncos forão os mandarins muito ricos. Estas90 que furtarão, há gran tempo que não estão em Cantão91; forão mandados pera outras governanças, segundo seus custumes. Agora som sobidos, os mores do reino 92. ' 17. Na era de MDXXI93 veo ver Martim Affonso de Melo com cinquo naos [e] navios, [e] hum iunco de Malaca. A gente que quá ficou hé esta, scilicet: do navio de Diogo de Mello, os que morrerão 33
  • no navio: Manoel Chamarro, João Quoresma, Vasco Gil, Rodrigo Alvarez, João Vaz, Lopo Gonçalves, João Soarez, Pedro Bouno94, Álvaro Perdigão, Manuel Alvarez, João Pinto, João Carrasco, Bas- tião Gonçalvez,95 homens d'armas; hum clérigo, João do Peral — mestre, Brás Gonçalvez — contramestre, Francisco Pirez96— mari- nheiro, Alvaro Annes97 — condestabre, Affonse Annes — bombar- deyro, João Affonso — serrador, estes sesenta bem98 morrerão no navio. Diogo de Melo — capitão, Duarte Lopez, Diogo Carreiro, estes feridos, recolhidos aos iuncos, indo pera Nanto99, porque bra- darão das feridas e prisões,, lhes cortarão as cabeças nos mesmos iuncos. Duarte Pestana, o barbeiro, Benadito — marinheiros100, Domingos Gil — gromete, Roque — gromete, Pedro do Tojal — gromete, João Gonçalvez — bombardeyro, Joanne — escravo, estes nove forão à cadea do toncencym. Pedro Annes — piloto, Bertho- lameu Fernandez — pedreiro, João de Matos, Afonso Medina, Joanne — maluco102, estes grometes, Domingos Fernandez103, Affonso Perdigão, Affonso Fernandez, Jorge Diaz, Fernão Liãro104, homens d'armas, estes vierão ter a esta cadea de anchuncy'05, donde ora estou106. 18. Gente do navio de Pedro Homem, os que morrerão no navio: Pedro Homem, Gaspar Rodriguez, Martim Affonso — des- penseiro, Francisco d'Andrade, Diogo Martinz, Antonio Alvarez107, estes seis homens d'armas; Pantalião Diaz — mestre, João Luis — contramestre; Brás Martinz, Pedro Annes, Antonio Estevez, estes tres marinheiros; Alvaro, Pedro, Joanne, Manoel, Preto, estes cin- quo grometes; Luis Pirez — carpinteiro, e o barbeiro Vasco Rodri- guez, Jorge Diaz — tonoeiro108; todas estas dezaseis pessoas forão mortas no navio. João da Sylveira, Domingos Serrão, Martinho109, Francisco do Mogadouro, Francisco Ribeiro, Magalhães, Jorge Rodriguez, estes seis forão à cadea do tomecy, e quatro grometes, scilicet, Pina, Francisco, Manoel — malavar, Diogo — cafre; e André Carvalho — piloto, Antonio Fernandez — marinheiro, Fran- cisco [e] Antonio — grometes, e Matheus Diaz, Francisco Montei- ro, Afonso Martinz, Marcos, Tomé Fernandez — tilheiro, Sisto Luis — condestabre, estes dez vierão ter a esta cadea110. As molhe- res que tomarão em estes navios forão levadas a outras cadeas e vendidas. Finalmente, [os] que forão teer à cadea do tomaciUÍ, 34
  • todos morrerão à fome e ao frio; não ficarão mais que quatro homens portugeses e hum cafre, os quaes morrerão. Nesta cadea em que estamos falecerão seis: ficarão dezoito, asy os desta cadea como os da cadea do torneei1'2. Dia de S. Nicolao"3 da era de MDXXIJ lhes lançarão táboas com sentença que morressem en tron- cos por ladrões. Dizião as sentenças: "ladrões piquenos do mar enviados pollo ladrão grande, falsamente vem espiar nossa terra; mourão em troncos por ladrões""4. Foy recado ao rey"5 segundo a enformação dos mandirins; confirmou o rey a sentença a vinte e três116 dias de Septembro de MDXXIIJ. Forão estas vinte três"7 pes- soas feitas em"8 pedaços cada huma, scilicet, cabeças, pernas, bra- ços e suas naturas nas bocas, o tronco do corpo em redondo pella barriga em dous pedaços. Pellas ruas de Cantão, fora dos muros, pela povoação, pellas ruas principaes, forão mortos de tiro de besta em tiro, pera todos os verem, assi os de Cantão como os do termo, pera darem a entender que não tinhão em conta portugeses"9, por ho povo não fallar em portugeses. Forão assi nos navios tomados às mãos, por se não acordarem120 os capitães ambos, e tomados assi todos nos navios, atados os matarão. E as suas cabeças e naturas forão trazidas às costas dos portugeses diante dos mandarins de Cantão, com tangeres e prazeres; forão vistas121 pinduradas polias ruas e depois deitadas nos munturos. E daqui ficou não consintirem mais portugeses na terra, nem outros estrangeiros. 19. Os malajos que forão a Piquim forão despachados que se viessem a Cantão, que aqui lhe mandarião o despacho. E veio122 que lhe dessem [a Tomé Pires] huma carta pera el-rey nosso senhor pera lhe ser entrege Malaqua, cujo theor hé este seguinte, treslada- da de verbo ad verbum doutra que os mandarins fizerão em123 chim, que per ella se fizesse, a qual fizerão tres por este theor, que se avia de levar pera el-rey nosso senhor124, ao senhor governador, outra ao capitão de Malaca. 20. "Quenhici e Ohici125, mandarins, ouvirão dizer que o poder dos franges tinhão tomado Malaca126. Fizerão carta ao rey da China de como fora tomado e roubada, e muita gente morta. E escreveo o rey aos mandarins de Cantão que se fizesse conselho sobre isso. Depois desta carta, chegou outra do rey de Malaca, que trouxe Tuão Mafame127, embaixador, que foy dada a el-rey da Chi- 35
  • na, que dezia na maneira seguinte: 'Os frages, ladrões com coração grande, vierão a Malaca com muita gente e tomarão a terra e a des- troirão, e matarão muita gente e a roubarão, e outra cativarão, e a outra gente que fica está debaixo da iustiça dos franges, de que o rey que foy de Malaca tem hum coração triste128, anojado. Com grande medo tomou o sello do rey da China e fugio pera Bentào129, donde está. E os meus hirmãos e parentes fugirão pera outras ter- ras. O embaixador d'el-rey de Portugual que está na terra da China hé falso, não vem de verdade, que vem pera enganar a terra da Chi- na. Pera130 el-rey da China fazer mercee a el-rey de Malaca, com coração enojado manda presente, pede ajuda e gente pera lhe ser tornada sua terra'. Esta carta foy dada a libom, que hé o despacha- dor disto. Despachou o libo que a terra dos franges devia ser cousa pequena chegada ao mar; depois que o mundo hé mundo nunca viera a terra da China embaixador de tal terra. A terra de Malaca teem o fom132 e sello da China, é da sua obediência133. O libo despa- chou e deu carta ao rey, despacho134: 21. 'O rey da China manda carta aos grandes de Cantão que não recebão a nenhum embaixador de Portugual. A carta d'el-rey de Portugual hé queimada. O embaixador e sua companhia já foy preguntado de como se tomou Malaca. Não o deixem hir. Mande carta ao rey de Portugual pera que o saiba e os seus mandarins para que o saibão logo, e entreguem Malaca ao dito rey de Malaca. Como [a] o rey de Malaca for entregue Malaca e [sua] gente, assi como lha tomarão ao rey de Malaca, e como o rey de Malaca fôr entregue delia, deixarião hir ao embaixador; e se não entregar Malaca ao dito rey, aver-se-há outro conselho'. Esta carta veyo do rey da China ao tutão'35 e comgomm e choupim137 dê Cantão, os quaes a mandarão ao cenhi, tucim, pochanci e anchaci, que teem o sello, ao haytão139, pio [e] aos outros mandarins. Chamem Tuão Healie140, embaixador d'el-rey de Malaca, e seja perguntado. Dixe aos manderins que muita gente dos franges lhe tomarão Malaca sua terra, que assi era verdade. Os manderins fizerão conselho e man- darão que o embaixador d'el-rey de Portugual fizesse carta verda- deira e fosse dada a Tuão Alemancet141, embaixador d'el-rey de Malaca, que a leve a Malaca, e daly váa a el-rey de Portugual, que lhe entregue e torne sua terra e gente na mão, assi como lha toma- 36
  • rão; e assi a Tuâo Mefamet142. E então mandarão ao embaixador de Portugual que se vá como vier carta d'el-rey de Malaca ao rey da China que lhe entregarem sua terra e sua gente. E se el-rey de Por- tugual não entregar a terra de Malaca ao seu rey, [e] não vier carta a terra da China da entrega, não deixarão hir o embaixador, e aver- -se-há outro conselho". Estando nesta cadea, os mandarins manda- rão huma carta em chim que se fizesse em português, as quaes fize- rão três, huma para el-rey nosso senhor, outra pera o governador, outra pera o capitão de Malaca; e se derão em a mão do anchaci ao primeiro dia de Outubro da era de MDXXIJ. 22. Os mandarins mandarão ao embaixador de Malaca que tomasse aquellas cartas e as levasse a Malaca; como lhe fosse entre- gue sua terra, que viesse com recado. O embaixador não quis, dizendo que com aquellas cartas lhe cortarião a cabeça em Malaca; que lhe dessem licença, que queria comprar hum iunco piqueno, que queria mandar a metade da sua gente saber do seu rey, porque não sabião donde estava, porque as molheres que tomarão nos dous navios huma dizia que era morto, outra que não; e que levarião huma carta se a podessem mandar. Partio o junco piqueno com licença, com quinze melajos e outros tantos chins, ao derradeiro dia de Mayo de XXIIJ. Chegou a Patane. Ali tomou alguns melajos e hum capado bemgala. E tornou recado d'el-rey de Malaca e veio a Cantão a cinquo dias de Septembro. Os chins que levou o iunco ficarão todos em Patane, que não quiserão tornar à China. A carta do embaixador dezião as forças assy: 23. "El-rey de Malaca está em Bintão, cercado dos franges, pobre, desemparado, oulhando des polha menhãa atée noyte pior socorro d'el-rey da China seu senhor, e se não lho der, escreverá aos reis seus vasallos que o ajudem com gente, e que mande alguma provisão de mantimento a seu embaixador", e cousas a estas seme- lhantes. Dizia mais a carta que "estando o iunco carregado em Pata- ne, ouverão os portugeses noticia delle, e que vierão sobre elle pera o tomar; que elles se fizerão ao mar com huma trovoada, e escapa- rão sem mais mercadoria e mantimentos, que à fome ouverão de morrer no mar". Com esta carta entrarão em Cantão. Os mandarins os tornarão a despachar; qua ambos os embaixadores, scilicet, Tuão Mafamet e Cojacão143, e sua companhia, se fossem pera Bintão, que 37
  • já tinhão o junco prestes; e se se não quisesem ir, que não lhe avião de dar mantimentos. Dizião que não se avião de hir, que os matas- sem e fizessem o que quisessem, que os franges tinhão lá tomado tudo, que não podião ir a lugar que os não tomasem. Mais disse o linga144, ao tutuão'45, que veo de Patane que avia nova que no anno presente ouverão de vir cem vellas de portugeses; pella qual palavra lhe derão vinte açoutes, por ousar em tal fallar. Partio o embaixa- dor na era de vinte quatro146. Aqui ouvi dizer a huns mercadores que por se aredarem da costa de Patane forão dar nas ilhas de Bor- né147 com tempo, e quebrarão o junco e os captivarão. Não sey se foy verdade. 24. Na nau de Diogo Calvo148 veyo hum chim cristão, com sua molher, chamado Pedro. Este, quando vio o desbarate, tornou-se pera Foym149, donde era natural; ali esteve escondido. Teve manei- ra, como ouve seguro dos mandarins, que lhe diria a força que os portugeses tinhão em Malaca [e] em Cochim150, que elle o sabia151 tudo; que sabia fazer polvora152, bombardas e galées. Dise que em Malaca avia153 trezentos homens portugeses, e que em Cochim154 que não era nada. E começou em Cantão a fazer155 duas galées; fez duas. Acabadas de todo, forão amostradas aos mandarins grandes. Acharão que pendião muito, que não aproveitavão, que fazião grande gasto156 de madeira; mandarão que se não fizessem mais. Llevarão mão da obra das galés e botarão-nas em Nantó, à gelfa157. Acharão que alguma cousa sabia de polvora [e] de bombardas. Mandaram-no ao rey; deu-lhe emformação de Malaca; foy feito honrrado158, com hum piquo159 de roz de mantimento. Dizem que fez160 em Pequim bombardas, porque o rey tem láa guerra per guer- ra. Ysto pode ser assi, que a mim assi mo disserão, deste Pedro fazer em Pequim bombardas. Polia enformação161 teem os chins os portugeses em pouco, por dizer que162 não sabem pelejar em terra, que são como pexes, que como os tirão d'ágoa ou do mar logo mor- rem. Esta enformação deu bem à vontade do rey e grandes, que elles tinhão outra. Polia qual rezão tomarão conhecimento de Tomé Pirez, de como o entregarão pera o trazerem a Cantão163. 25. A gente de164 ficou em companhia de Tomé Pirez: Duarte Fernandez, criado de Dom Felipe, Francisco de Budoya, criado da senhora commandadeyra, e Christovão d'Almeida, criado de Chris- 38
  • tovão de Távora, Pero de Freitas e Jorge Alvarez, eu Christovão Vieira, e doze moços servidores, cinquo iurubaças165; de toda esta companhia não há mais que eu, Christovão, perseo d'Ormuz, [e] hum moço meu de Goa166. Os qUe ora somos vivos no presente: Vasco Calvo, hum seu moço que chamão Gonçalo [e], como digo, nós tres que ficámos da companhia de Tomé Pirez; estes por dize- rem que erão da embaixada escaparão, e os puseram comnosco aqui. Nesta cadea entrámos treze pessoas; como digo, são mortos: Duarte Fernandez, quando iamos pera Pequim falleceo na serra hindo já doente; Francisco' de Bedois167, quando vínhamos de Pequim no caminho falleceo; assi tres ou quatro moços; nesta cadea, com as prisões fortes, como já acima disse, Christovão d'Al- meida168; assi Jorge Alvarez, portugeses169, estãodo o escrivão da cadea tomado do vinho o matou [com] açoutes, falleceo em seis dias. Os lingoas em Pequim forão pressos e mortos, e seus servido- res dados por escravos aos mandarins, por serem de tredores170; o jurubaça grande falleceo de doença; os quatro forão em Pequim descabeçados por sairem fora da terra, que trouxerão portugeses a terra da China. Pero de Freitas, nesta cadea, e Tomé Pirez aqui fal- lecerão de doença, Tomés Pirez na era de MDXXIIIJ, em Maio171. De maneira que [de] toda esta companhia no presente não há mais de dous aqui, como acima digo172. 26. Os nomes que tínhamos. Tomé Pirez, 'capitão-moor'. Quando Fernão Perez chegou há China dise que vinha embaixador [e] capitão-moor; cuidarão que era tudo hum nome, puserão "em- baixador capitão-moor". Tirarão o nome d'embaixador, que dezião que era falsa embaixada; agora nós a provámos por verdadeyro. Os mandarins ão por mal feito o passado, e não têem esta mágoa pera nos soltar. Finalmente ficava "capitão-moor"; cudão173 que era seu nome174. A mim chamão 'Tristão de Pina', porque ficou aqui Tris- tão de Pina por escrivão; foy tirado; eu fiquei em seu lugar e nome, por estar jáa nos livros dos mandarins escripto, e assi me chamão. A Vasco Calvo chamão 'Cellamem'; a Gonçalo, seu moço, 'A Cão'; a Christovão, 'Christovão'; Antonio, 'Antonio'175. E os que fallecerão deixo de os escrever176, que todos tinhão os nomes desvairados, por- que não se podião escrever, nem teem letras que se escrevão os chins, que são letras do diabo177. E mais, não se podião alimpar, 39
  • porque erão jáa espalhados per muitas cartas e per muitas casas, e fazendo outros parecia em elle o 'tanto monta assi como assi'. As molheres dos lingoas, assi as de Tomé Pirez, que ficarão em esta cidade o anno presente, forão vendidas como fazenda de tredores; aqui ficarão em Cantão espalhadas178. 27. A terra da China179 hé devidida em xv governanças. As que estão pegadas ao mar são: Quantão, Foquiem, Chequeam, Namquy, Xantão, Pequy; estas, posto que toquem no mar, também se estendem polia terra firme a redonda180: Quancy, Honão, Cuy- cheu he Cheuem181; Cheamcy [e] Sancy entestão com Paquim; estas182 governanças que estão no meyo: Queancy, Vinão, Honão183. Destas xv, Nãoquim [e] Pequim são as cabeças de toda a terra. Sobre184 todas Pequim hé a principal, onde o rey per ordenança está d' asento185. Nanquim186 está em 28 grãos ou 29; Pequim em 38 ou 39. [De] Cantão [a] Foquem corre a costa nordeste-sudueste187, pouco mais ou menos. De Foquem até Piquim corre a costa direita ao norte-sul; vira ha costa, que dizem que hé muito limpa e de mui- tos cidades e lugares perto do mar, per rios. Todas estas 15 gover- nanças são debaixo de hum rey. O milhor desta terra está por rios, que todos decern188 ao mar. Não navega ninguém no mar do norte- sul; hé defesso pello rey por se não devasar. A terra per onde fomos tudo são rios. Tem barcas e navios lados189 per baixo sem conto de muitos; eu me affirmo que veria mais de 30000, antre grandes e piquenos; demandão pouca agoa. Certo são rios pera galées, autos190 pera toda fustalha de remo, de guerra. Pegado ao mar não teem a terra nenhuma madeira, nem a 30 legoas do mar, digo, na costa de norte-sul; hé toda a terra baixa, todo carreto de mantimen- tos é nos rios; ha madeira dece da terra firme en jenguadas, [d]e cerca Pequym, mais de 100 légoas há sirga191. Porque a'governança em que o rey está não teem madeira, nem pedra, nem tijolo, tudo corre de carreto de Nanquim, em barcas grandes; se lhe Nãoquim não acorresse com mantimentos seus ou doutras governanças, não se poderia soster Pequym, porque hé gente sem conto, e a terra não teem aroz por ser fria he de poucos mantimentos. O rey está nesta governança que está no estremo da sua terra porque teem guerra com gentes chamadas Tazas192; e se o rey lá não estivesse, entrarião a terra, porque o mesmo Pequim foy destes Tazas, e outras gover- 40
  • nanças [também]193. 28. [N]esta terra da enseada de Cauchim194, obra de quinze legoas de Haynão195, dentro de quinze ou vinte legoas, começa huma serra; chama-sse a sseria196 Miuylem ou Moulem197, e corre em leste; vay acabar em Foquem; estrema Foquem de Chiquião198. Estas serras são altíssimas, sem arvoredo199; estão levadas200 e muito fragosas, de maneira que destas201 serras devide[m] tres governanças pera o mar: Cancy, [que] pagua202 à terra de Cauchi203, e Cantão, e depois Foquem; estas tres gQvernanças ficão sobre sy. Das outras, Cantão [e] Foquem pegam ao mar, chegam até à serra. Cancim204 jaz antre Cantão e a serra, até Cauchim; não hé pegada ao mar de Canchim205. Toda esta corda de serra que devide estas tres gover- nanças das doze não tem mais de dous caminhos, muito Íngremes e trabalhosos. Hum está desta cidade206 ao norte; per este se serve a governança de Canci e Cantão, e parte de Foquem. Outro está lá sobre Foquem, com caminhos cortados de pedreyra muita partida, como quem vay a Sancta Maria da Penna207, e da outra banda ouvera tal decida. Destas serrarias208 altíssimas, assi íngremes, se fazem regatos que depois quá em baixo se fazem rios, que da serra vem decendo pera o mar; e quem vem de Cantão, pera láa do meo do caminho sempre vay à sirgua com ganchos, às vezes por palmo de agoa. Outro tanto hé da serra pera outras governanças. 29. Esta serra da banda de Cantão tem huma cidade e da outra banda outra; a serra jaz no meo. Averá de huma a outra até seis, sete légoas. Quanto diz [respeito] à serra, hé terra íngreme e muito fragosa. Hé grande pasajem, porque toda a terra das doze governanças vem passar por aqui, os que ão-de vir a Quiancy209 e a Cantão. Em hum dia se passa este caminho, em mulatos210 e asnos. Dos regatos que destas serras correm, assi de hum cabo como de outro, ao pée destas serras2", d'ambas as bandas se ajunta a agoa; começa a fazer rios; a lugares [tem] dous palmos d'agoa, e as barcas pollo calho212 vão roçando, isto em muitos lugares obra de oyto até dez legoas da serra pera baixo213; e a lugares hé fundo. Desta serra pera. Cantão toda a mercadoria que vem e vay hé per este rio214, todo o mandarim que vem e vay tudo hé per este rio. Per terra há caminho em recados de pressa215, e teem alguns rios de pasar que atravesão. Porém, por elle216 andão pouco, porque teem ladrões. 41
  • Per todo o caminho é por rios, como digo, os caminhos da terra não são seguros. Toda pasajem e caminhos na terra da China hé em rios, porque toda a China é cortada dos rios, que não se podem andar duas legoas por terra sem atravesar vinte rios. Ysto hé per toda a terra, e não teem mais que huma governança que não tinha rios217. 30. Toda a fustalha de Cantão, em que a gente passa e merca- doria pêra a serra e pera outras partes destas duas governanças, sci- licet, Cantão e Queancy218, tudo se faz na cidade de Cantão219 con- tra o mar, em lugares cercados de rios de agoa doce e de monte, porque de Cantão até há serra não há huma sóo arvore de que se possa fazer huma sóo barca. Em Canci220, que hé longe daqui, fazem algumas barcas de mercadoria grandes, porém não muitas221. Todo o ffeito hé nestas faldras de Cantão, e per derredor de Tan- ção222. Se estas barcas de Cantão forem destroydas, não pode das outras governanças vir socorro, porque não teem caminhos por ter- ra. Assi que quem for senhor do termo de Cantão, despejados os rios, tudo jaz na mão, porque esta governança de Cantão tudo ho milhor hé na faldra do mar223, e doze, quinze, vinte legoas polia terra dentro. Tudo isto hé esquartejado de rios, per onde pode andar toda cousa de remo. Esta hé a casa224 e terra mais apta que todas as do mundo pera ser sometida225, e todo226 feito hé neste termo de Cantão. Por certo que hé mor honrra que a governança da índia. Ao diante se saberá que hé mais do que se pode escrever. Se tiver el-rey nosso senhor a certa verdade e enformação do que hé, não pasara tanto tempo227. 31. Esta governança de Cantão hé das milhores da China, de que o rey recebe muitas rendas, porque hé d'aroz e mantimentos sem conto, e todas as mercadorias de toda a terra vem aqui deferir, por rezão da escala do mar e das mercadorias que dos outros reinos vem a Cantão; e toda passa pera dentro da terra da China, de que o rey recebe muitos direytos e os mandarins grandes peitas. Os mer- cadores228 vivem mais limpamente que nas outras governanças que não teem trato. Nenhuma governança da China teem trato com estrangeiros senão esta de Cantão; o que outras podem teer polios estremos hé cousa pouca, porque gente estranha não entra na terra da China, nem da China pera fora. Este trato do mar nobrecia 42
  • muito esta governança229, e sem trato ficara nos lavradores como as outras. Porém, a escalla de toda a terra da China hé Cantão. Foquem há pouca cousa de trato, e não vão láa estrangeiros230. Não se pode fazer tracto em outra governança231 senão em Cantão, por- que pera ysso hé mais apta que outras pera trato com estrangei- ros232. 32. Esta governança tem treze cidades e sete chenos233, que som grandes cidades que não teem nome de cidades. Teem cem vil- las234 cercadas, afora outros lugares cercados. Tudo o milhor jaz235 ao longo do mar, até Aynáo, per rios [em] que podem entrar navios que remem236; e os que estão aredados do mar, estão antre rios em que outrosi pode andar toda a fustalha de remos. As cidades e villas que estão per rios que não podem a elles ir senão à sirga, não se faça delias, pollo princípio, fundamento; porque237 quando o mor obedece, o menor não se alevanta. Como digo, debaixo do sol não há cousa tam desposta como esta, e de gente sem conto. É muito povoada nestas falidas por onde estam rios, e onde os não há238, não hé assi povoado nem o quinto. [Tem] de toda sorte de officiaes de todos officios macanicos239, digo: carpinteiros, calafates, ferreiros, pedreyros, tilheiros, serradores, emtulhadores; finalmente que esta hé a cima240 das cousas que são necessárias pera o serviço d'el-rey241 e de suas fortalezas. E daqui se podem tirar242 cada anno quatro, cinquo mil homens sem fazerem nenhuma mingoa na terra243. 33. O estillo desta terra da China hé que todo homem que ministra iustiça não pode ser daquella244 governança, scilicet, a pes- soa de Cantão não pode em Cantão teer carrego de iustiça; e andão trastorcados245, que os de humas governanças governáo as outras; ' não pode ser iustiça onde hé natural246. Isto hé nos letrados; e todo o letrado, quando alcança grao247, começa en carregos pequenos, e dalli vay sobindo em mais grandes, sem saberem quando hão-de ser mudados; e estão aqui de repouso e vem carta, sem elle saber hé mudado daqui [a] trezentos légoas. Estas mudanças se fazem em Pequim248; isto hé per toda a terra. E cada huma vay sobindo. Daqui vem que nenhum iulgador da China não faz verdade, porque não oulha pollo bem da terra, senão por furtar, porque não hé natu- ral delia e não sabe quando o hão-de mudar pera outra governança. Daqui vem não terem lianças nem préstimos249 donde governão, 43
  • nem teem amor hà gente; não fazem senão roubar, matar, açoutar, pôr tromentos ao povo250. É ho povo mais maltratado destes man- darins do que hé o diabo no inferno. Daqui vem o povo não teer amor ao rey e aos manderins, e cada dia se andão allevantando e fazem-se ladrões; porque o povo que hé roubado, [e] não teem vinha nem donde comer, hé necessário que se faça ladrão. Destes alevantamentos há mil. Em lugares donde não há rios muita gente se alevanta; os que estão antre rios donde podem ser presos, estão quedos. Porém, todos desejosos.de toda novidade, porque são pos- tos nas cimas de toda sogeiçào, he muito mais do que digo251. 34. Os manderins cavaleiros, posto que sejão manderins, não teem carrego de iustiça. Destes são muitos; são manderins de suas casas; teem ordenado do rey252 em sua casa; quando cumpre, vão pelejar donde os mandão. Estes por qualquer culpa253 são logo açoutados e atromentados como qualquer outra pessoa do povo. Também estes vão sobindo em nomes, e segundo o nome assi teem o mantimento. Estes não saem da terra do seu natural porque não ministrão iustiça. Às vezes teem carrego de lugares de gente d'ar- mas. Porém, onde quer que estão pouca cousa entendem de iustiça, salvo em lugares de254 povoações de gente de sua ordenança. 35. As armas da terra da China são treçados de ferro curtos, [com] punho de paao [e] tiracollo de corda d'esparto; isto hé polia gente d'armas. Os mandarins têm deste geito, mais limpas segundo tem o direito. [Por] lanças teem canas; os ferros são pregos e gan- chos; pedaços de paos; cascos ou capacetes d'estanho255 de folha-de- -frandes, per amor da calma. Antes de virem portugeses não tinháo bombardas, somente humas feitas à maneira de talhas de- Monte- moor, cousa de vento. Nenhum do povo não pode ter armas mais que faca, so[b] pena de morte. A gente d'armas pode teer, [mas] não em sua casa; quando cumpre aos mandarins, lhas dão emquanto com ellas servem; acabado, recolhem-se a casa do man- darim. Tem256 arcos [e] bestas de pao. 36. As mortes na terra da China. A mais cruel hé posto na cruz; alli lhe tirão três mil fatias e estando vivo, e depois o abrem e tiran-lhe a fresura, pêra os algozes comerem, e fazem todos257 em pedaços e dam-na aos cães que ally estão pera ysso; dam-lha a comer, isto a capitães de ladrões a quem elles querem. A segunda 44
  • hé cortar a cabeça, e sua natura cortada e metida na boca, e o corpo feito em sete pedaços. A terceira, cortar a cabeça pello toutiço. A quarta hé afogar. Os que teem menos culpa que morte ficáo em gente d'armas da China perpetuo, per filho e neto [e] bisneto, scili- cet, o que hé de Cantão258, mudão-no a outra governança muito longe, jamais nunca tornão à sua; láa serve[m] dos homens d'armas; esta hé a gente d'armas da China. Daqui vão a sobir em259 manda- rins cavaleiros, destes que acima digo260, dez mil, huuns degredos em vidas261, per annos262. E a elles degradados mudam-nos polias governanças a servir nas caças dos mandarins e varrer e acarretar agoa, fender lenha, e a todo outro serviço deste geito, a servir em obra do rey e outros serviços. Os tormentos são: tem escospas263 d'alargar borzeguins264, huma antre os pées e duas per fora, com cordas com que lhes atormentão os artelhos, e com maços dão nas emcospas; às vezes lhe quebrão os artelhos, às vezes as canelas das pernas, e morrem em hum dia e dous. E mesmo e o semelhante265 com paos nos dedos das mãos e pées; estes teem dor muita266, não perigão. São também açoutados nas pernas, nalgas e barrigas das pernas, e nas çollas dos pées, e pancadas nos artelhos267; destes açoutes morrem muito sem conto268. E todos, grandes e pequenos, andão atormentados269; teem muito forte custume. E o povo anda escandalizado, e não faz ninguém carta contra manderim, como hé meão270. O açoute hé huma cana grossa fendida, seca, de grosura de hum dedo e de largura de huma palma da mão, e lança[m]-na em remolho, porque escoza mais. 37. Toda a pessoa que teem terras. Toda a terra da China hé , ensortada em partes; chamão a cada parte quintei271: será terra de semeadura de quatro alqueires d'aroz272. Obrigado273 todo o lavra- dor de pagar desta sua terra certa quantidade d'aroz, ora semeem ora não, ora aja boons temporaes ora maos. Como não acodem os temporaes, ficão pobres; vendem os filhos pera pagar; se não abas- ta, vende as próprias274 propriades. São obrigados275 cada pessoa, como teem esta geira de terra, dar certas pessoas pera serviço dos manderins, ou pera cada pessoa vinte cruzados276. Som obrigados a dar a todos aparelhados de mensas, tintas, cadeyras, catres, bacios, outras meudezas277, pera as casas dos mandarins. São obrigados os que não teem terras [a] dar-lhe certas pessoas huma278, e se não tem 45
  • pessoa, dinheyro, e se não teem pessoa [nem] dinheyro, elle em pessoa há-de servir, e comer à sua custa, e peitar a pessoa que ser- ve. Além destes direitos são obrigados ao seguinte. 38. [Por] toda a terra da China, ora sejão rios ora terra firme, em caminhos geerais, de jornada em jornada, estão casas prestes com cada huma seu mandarim escrivão, donde têem arozes, carnes, pescados, galinhas279, e toda a outra maneira de comer e artifícios de cozinha, e barcas com cozinhas, mesas, cadeiras, camas; têem assi bestas prestes, remeiros pera serviço dos manderins e280 toda outra pessoa que passa polios rios, scilicet, todo mandarim ou outra pessoa que o rey manda, ou os manderins com sua governança, levão carta polia qual lhe dão muito: se vay per terra, cavalos, se per mar, barcas, camas, tudo ho necessário, já [se sa]be281. Às pes- soas são estas casas sortadas; as pessoas dos termos são obrigados a dar ysto de certo tempo, ora huns ora outros. Per esta rezão não lhe fica nenhuma cousa que não despendão. E se algum refusa, logo hé preso e tudo vendido, e elle morre na cadea. Não refusa ninguém ao que o mandarim manda: com a cabeça no chão, o rostro na ter- ra, ouve e olha o mandarim como outro relampando282. Daqui vem o povo a ser pobre. Também por qualquer cousa são logo açoutados e metidos nas cadeas. A menos penna hé sete quintaes d aroz, e dous tres e meio de prata283 por elles; e delles pagão quinhentos e mill tates284. Donde creo verdadeyramente que as pennas que se arrecadão pera o rey das pessoas que prendem hé muito grande somma de prata. Hé certo que nas cadeas de Cantão há de contínuo até quatro mill homens presos e muitas molheres; e cada dia pren- dem muitos e soltão menos, he morrem nas cadeas à fome como bichos. Daqui vem o povo a estar em odio com os manderins, a285 desejão novidades pera terem286 liberdade287. 39. [N]as cidades, villas e lugares cercados da terra da China todos os muros são largos, assentados em terra chão288; os muros não tem alicerces, estão sobre a terra; a face de fora, parte hé de pedra sobre a terra, até o meio do muro, o mays de tifolo289; alguns são todos de pedra, digo, a face de fora; dentro são taypas. As por- tas fazem abobodadas grandes e grandes portas; sobre as portas, goaritas de madeyra. Destas taypas tirão a terra pera as taypas, ficão os lugares e muros em muros e cavas. Os que eu vy, todos vy 46
  • em terra chãa. Não teem mais fortalezas, as cidades e vilas e luga- res, que teem muros. Abrem-se as portas com sol e cerão-se com sol; entregão as chaves ao mandarym que delias teem carrego; à noyte recebe-se, e polia menhãa toda a porta teem pessoa que a guarda, com dez, doze pessoas de noyte. Tudo se vigia grandemen- te; temem-se dos naturaes. As casas todas são armadas de madeira, sobre esteios de madeira; as paredes delias são d'esteiras, poucas, as mais de canas e taipas com barro, fase de cal, per cima sobrada- das de madeyra, poucas; geralmente assi som todas cousa muito fra- ca. E polia mayor parte toda a parenteira vive de huma porta aden- tro; todos tem hum[a] alcunha, cada parenteira tem huma paren- teira por onde se conhecem; depois disto teem seus nomes, 'Miran- das' ou outro qualquer apellido; além desta aboanha tem nome[s] próprios seus; desta parenteira, a pessoa mais velha [tem de] teer os nomes pêra dar conta de quantos são. E nenhuma pessoa pode sair do lugar donde mora de vinte legoas pera cima sem carta dos man- derins; se sem ella hé achado, prendem-no por ladrão, porque todos os caminhos e lugares são cheos d'espias. Pera esta carta dão certa cousa; a carta declara que pessoa hé e idade e todo, que lhe dão licença290. 40. Atenta as casas da justiça que há nesta cidade de Cantão. A primeira hé o cancheufu291, que hé casa da cidade; esta tem doze ou treze mandarins e cem escrivães. Todo manderym vive na casa donde hé manderim. A casa do pochanci terá vinte manderins piquenos e grandes, escrivães, chimchaes292, pessoas de recado e pessoas outras; com escrivães teem per todos mais de duzentos. A casa do anchacy tem outros tantos manderins grandes e pequenos, escrivães, pessoas outra^. A casa do foci293 tem seis ou sete manda- rins e muitos escrivães. O ce/t/294 hé hum que teem carrego da gente d'armas e do sal, que teem escrivães muitos. E cuc/jj295, que teem carrego de toda a iustiça, hé hum que teem escrivães muitos. A casa do tutão, e do choypi296, e congom297 grande e do piqueno, e do tigos29*. Além destas, há obra de quinze ou vinte que não nomeo. Não hé duvida todos os manderins de Cantão desta cidade terem pasante de sete ou oyto mil servjdores, todos pagos à custa do povo. Não fallo em outras casas grandes de manderins que teem ove- lhas299, que não teem carregos, que as conta por casas de gente de 47
  • povo. Atente que cada casa destas de manderins teem terreyros e lageamento pera em cada huma poder fazer huma torre; e há qui a pedra talhada de canto pera fazer de novo huma Babilónia; deixo casas de suas orações e as ruas, que hé quanto300 talhado sem conto. Pois madeira, huma casa desta[s] teem pera emmadeyrar huma for- taleza com dez torres. Todas estas casas teem teiçães301 de portas fortes de dentro, tudo com casas e curraes. Cada casa destas hé hum campo pera fazer huma fermosa vila. Também a casa do aytão hé muito grande, e [com] portas fortes grandes, fermosas. E a parede aos couces hé no chão302. De todas as de Cantão esta hé a cópia de manderins, e cada dia se vão huns e veem outros, de maneira que cada tres annos e mais todos são idos, outros vindos. Depois que estou nesta cidade são muitas esquipações mudadas303. 41. Assi como digo de muita pedra, assi de muita fustalha que há nesta governança de Cantão, nemhuma de guerra, toda de paz, de tamanho de galées reaes e fustas e bargantins304, todas de posti- ças e de esporões305, e masteadas à maneira de galées; se cada huma poserem huma tilha e seus liames306, e ficão galées e fustas [e] bar- gantins, e polia primeira escusarão as de Conchi307. Remos, remei- ros, assi sem conto. Destas se devem tomar as milhores e as mais novas; tudo o al queimar. Devagar se podem fazer galées reaes [e] toda a outra fustalha de remo; estas demandão menos ágoa que as nosas; podem servir assy como as nossas nestes rios; pera o mar não sey quão seguras serão. Assi que disto se deve fazer fundamento, porque são muito necessárias até se fazerem outras, que andando a cousa ordenado se podem aqui fazer em hum mês dez doze peças de remo, porque os officiaes e madeira hé muita, e mayormente como virem boa paga. Cumpre muito estas barcas, porque toda a força hé nos rios. 42. Esta terra da China hé grande e as marcaderias della[s] estão em humas governanças, della[s] em outras. Cantão tem ferro, o que não há em toda a terra da China, segundo sou enformado308; daqui vay pera dentro da outra banda da serra, e o mais jaz no termo desta cidade de Cantão. Daqui se fazem tachos, pregadura, armas dos chins e toda a outra cousa de ferro. Teem também cor- doalha, linho e seda, pannos d'algodão. Por rezão do trato, todas as mercaderias acodem aqui porque este era o porto donde estrangei- 48
  • ros acodião per este contrato de mercaderias das governanças pera Cantão e de Cantão pera dentro. Era a gente mais abastada que as outras governanças. Todas as mercadorias que a Cantão acodião antes de se emburilhar esta guerra [devem estar] aguardadas, até verem em que parão as cousas. A terra dentro tem muitas, sem se poderem gostar309, porque as farião às vontades de portugeses, digo cedas, porçolanas. 43. Não se pode soster esta terra sem trato. As mercaderias agora não acodem aqui, qem há hy mercadorias nem mercadores como sohião, nem o quinto, porque todos foráo destroidos por res- peito de portugeses. [A] esta cidade, por não acodirem estrangei- ros, não acodem mercadorias das outras governanças; estáa pobre no presente. Não se pode fazer boa mercadoria até não acodirem as de cima, como souberem que acodem estrangeiros, e tornar-se-há a tecer o trato. Eu cuido cada dia se se a governança de Cantão se alevanta toda a terra dentro á-de fazer outro tanto, porque toda anda fostigada por hum theor310. Como as cousas asentarem de huma maneira ou doutra, a terra fará mercadoria; emquanto se não fizer, a terra [é] de tantas rendas que hé cousa pera não querer311. Toda a terra hé aproveitada. E as mercadorias que os estrangeiros trazem são muito necessárias na terra, mayormente por darem sayda às suas; teem muitas mercadorias e boas. Á terra dentro mui- tas maneiras de sedas que ainda não vierão a Cantão, porque cui- dão que as não entendem; e por ser defesso por o rey que não se vendão mercadorias boas nem de preço a estrangeiros, senão cousa braganta. Assi teem muito ruybarbo312. Deixo isto, torno ao que ,mais relevo313. 44. Em Cantão não fazião armadas como fizerão no tempo passado. Averá ora dezasseis annos que se alevantarão huns chins em jumquos. Fizeráo-se ladrões e Cantão armou sobre elles; forão os de Cantão desbaratados. Fizerão os mandarins de Cantão com elles concerto, que lhe perdoavão e que lhe darião terra onde vives- sem, com condição que quando se alevantassem outros ladrões no mar .que elles fossem pelejar com elles, e o que roubassem fosse pera elles, resguardando as molheres e cousas pera o rey. Derão assento a estes ladrões, delles em Nantó, deles em Foym314, delles em Aynameha315 e em outras povoações que estão de Nantó pera 49
  • Cantão. Estes todos tinhão iuncos; todos os juncos de Cantão erão destes ladrões que digo. Da presa do anno de /521/, dos juncos que ficarão na Ilha316, forão ricos, e da presa de Syão e Patane; e por o vencimento dos dous navios do anno de /522/317 ficarão tão soberbos que lhe parecia que já não podia vir ninguém que não desbarates- sem. Pollo qual o anno de /523/ fízerão armada de cem iuncos, aguardando por portugeses; a metade estava diante em Nantó, outra a metade ao mar, antre as ilhas, aguardando. Na fim d'Agosto deu huma trovoado nelles que durou hum dia e huma noi- te, que espedaçou todos os'principaes que estavão ao mar, que não escapou nenhum. A outra ametade, que estava avante em Nantó, meteo-se dentro no rio; salvarão-se em Anyameha318, que hé porto seguro; que se todos estiverão ao mar, todos se perderão. Não teem mais iuncos, nem tinhão mais força que [a que] era destes homens, de que não há nenhum delles, e os mays hião per força, que lhes não pagavão. Na era de /524/ fizerão armada de iuncos de sal que tomarão per força. Até [à] era de /528/ fizerão armadas319; forão os juncos deminuindo, até que ha deixarão de fazer. E os juncos que escaparão em Aynameha não há nenhum, tudo hé desbaratado de ladrões que depois destes se alevantarão no mar, os quaes agora vivem na terra com seguro que lhes derão. Terão obra de sete ou oito iuncos, agora; não têm outros senão for estes destes homens, se amda sem vivos320. Não fazem armadas nem tem iuncos em que as queirão fazer. Nã[o] tem agora mais forças que hé a dos muros de Cantão. 45. Nesta armada que os chins fizerão, aguardando polia nos- sa, não avia nenhum homem d'armas dos ordenados da.China, tudo era gente dessas povoações, e iuncos tomados por força, e gente fraca e vil, e o mais meninos; porém cada hum delles hé milhor que quatro homens d'armas. Hé cousa de zombaria fallar em gente d'ar- mas desta terra da China321. Esta armada que mandavão a Nantó são alguns capitães, parecendo-lhes que podião tomar portugeses como no anno de 15221. Como esta gente for escozida do ferro por- tuges, toda logo hé de companhia com portugeses, porque a mais hé gente de bona boya, e pouca raiz na terra ou nenhuma. Esta gente de Cantão hé muito fraca em comparação doutra gente de dentro que hé forte. Neste Cantão, digo, pollo termo, polia gover- 50
  • nança, como hé cousa arredada dos rios logo se alevantáo. Dam sobre povoações, matão muita gente, isto cada dia em muitos luga- res, e não lhe podem fazer damno. E mandão per gente à gover- nança de Cancy que estáa ao ponente de Cantão. Chamão a estes langãs ou langueãsi22\ estes teem mays alguma feição, porém tudo hé cousa de vento. Dizem os chins [que] se portugeses entrarem que chamarão muita gente desta, e não pode vir senão pollo rio. Que venhão cem mill, não aproveita nada, porque como o rio for despe- jado da sua fustalha e se alimpar e andar nosa fustalha com bombar- das, não á cousa que pareça a dez legoas. Estes chins de Cantão, quando vão pelejar com gentes que se alevantão, nunqua matão à ladrão; saltão per essas casas de ladrões, matão nelles infindos, e trazem as cabeças delles [e] outros muitos presos; dizem que são ladrões, não há mister mais prova, todos os matão per modo cruel. Isto fazem cada dia. O povo hé tão sojeito e medroso que não ousa fallar. Deste geito hé per toda a terra da China, he muito pior do que digo, pollo qual toda a gente deseja revolta e vinda de portuge- ses, estes de Cantão. 46. A ilha dê Aynão teem huma cidade323 e quatorze villas. Está à vista da terra da China. Teem bom porto. Não teem madei- ra324; per esta rezáo não teem fustalha. Quando alguma gente de Luchim325 se alevantão em junquos [e] vai a estas partes fazer sal- tos326, pedem socorro a Cantão. Hé cousa muito fraca. He327 da terra China defronte de Ainão até Cantão, ao longo do mar, quatro cidades [e] muitas villas perto do mar, per rios. Em alguns podem entrar navios; em todos podem entrar cousa grosa de remo. Em todo o tempo se navega. Teem ao longo desta costa muitos ylhas frescas que emparão todo o vento. Ysto hé o principal desta gover- nança, e será dous terços de governança, entrando Cantão. No Tomquo328 tudo isto hé rendido como a cabeça se someter e for tomada. Teem este Aynão muitos sendeyros329. Tem quoquos e are- qua330 que não teem toda a terra da China; em Cantão tem trato com esta arequa e quoquos. Assi d'aljofre331 muita cópia, que não teem toda a terra da China. Assi que digo que teem sindeyros, que os chins chamão cavallos; destes trazem pera esta governança; daqui se podem aver muitos por pouco preço. 47. Este Cantão teem obra de duzentos cavallos destes. Os 51
  • mandarins pequenos, que não podem trazer andor332, teem cavallo. Asi os mandarins de guerra, cada hum teem seu. Estes syndeiros são pequenos, são d'andadura. Estes nas mãos de portugeses podem aproveitar, ordenados à gineta333 e d'esporas. Estes chins são d'açoute e desemfreados. Tem Cantão mais de vinte ou trinta seleiros oficiaes. Pessoas que fazem estribos são muitos, que hé gente sem conto. Cada hum, quando ganha dez reis por dia pera comer, louva a Deos; deste geito são todos os officiaes da China. Assi que, como digo, estes com os de Aynão podem aproveitar pera a terra. Val aqui hum destes cavalos de três até dez taes de prata. Nenhuma pessoa, como man tem oulhas, nem podem andar em cavallo, digo, polia cidade334. 48. O tutão, compim335 [e] comquõ336 são tres pessoas que teem carrego desta governança de Cantão e Canci; estes são os mayores. Estão em huma cidade chamada Vcheu337, que está no estremo d'ambas estas guovernanças; esta cidade hé de Queanci338. Estão aqui o mais do tempo, porque teem lá guerra, e de láa guo- vernão ambos. Às vezes vem a Cantão: estão dous, tres meses, ora hum, ora outro. Às vezes se passão dous annos que não vem nenhum a esta governança. [A] de Quency339 anda sempre alevan- tada muito grande parte, sem lhe poderem valer. Esta hé a causa porque estão láa o mais do tempo. Esta cidade está ao ponente de Cantão obra de trinta légoas per rio, porque não tem caminhos per terra, e hé a terra toda cortada de rios. Vão láa em cinquo dias a muito grande andar, com muita gente de sirga, e vem em tres, andando de noite e de dia. [A] agoa corre de láa pera Cantão. Teem este caminho huma cidade grande abordada ao rio que se chama Cheuquym fu 34°. Per todo este rio pode navegar toda a cousa de remo. São per este caminho povoações sem conto. Asi que a qualquer cousa de guerra de Cantão, estes abalão, trazem gente. Como nossa armada andar no rio341, eu fico, que não venha nin- guém, e quem quer que vier per força há-de vir desembarcar defronte desta cidade, pegado hà povoação deste arabalde ou meia legoa per este rio acima ao norte. Finalmente, que não pode vir nin- guém que não seja apanhado, e mormente que todos navegão de dia e não de noite, porque os rios a lugares são baixos e a lugares teem pedra. E se vierem, todos jazem na mão, posto que mais ban- 52
  • quas342 tragão do que dizem. 49. Tem Cantão mandaris depois destes: ho cheuhi e o pochancy e [o] amchacy [e o] tocy, que chamão camcy, que estão de contino nesta cidade. O ceuhi vem cada anno. Este não teme a nin- guém, todos temem a este. Este vem pera despachar todo o caso, pera ver qual mandarim faz mal. Se u mandary que faz erro hé pequeno, este lhe tira logo as orelhas343 [e] dáa diso enformação ao rey; se o mandary hé moor, escreve delle ao rey sua culpa, [e] de lá vem que não seja mais mandarim, porque o rey dá enteyro credito a este. Assi ao tutão e conguão. O campym não escreve344, que teem carrego de gerra. O tutão manda em tudo. Se alguma carta se ouver d'escrever, seja-o ao ecuhP4S, porque vem cada anno e não sabe dos roubos que são feitos aos portugeses. Estes346 não são senão alvi- tres, segundo servem assi lhes fazem mercees. Este em tudo despa- cha, sem dar conta ao tutão nem a nenhum mandarym. 50. Martim Afonso de Melo veio na era de 522M1. A entrada do porto o fez bem. De sua entrada [e] d'alguma gente que se lá matou com artelharia veyo o recado a Cantão. Assi dezião que elle escrevera huma carta, que dezião que fallava bem. Os mandarins que tinhão do ano passado roubado a fazenda agastarão-se com sua vinda. Começarão a emburilhar: perguntarão ao cuhi que lhe pare- cia, se farião mercadorias ou não. Dise o ceuhi que mercadoria como dantes se fizesse. Responderão elles que não, que avião medo que com esta mercadoria se recesse ao diante algum damno, que deitarião mão d'algum lugar. O ceuhi não lhe respondeo nada. Elles sahirão descontentes. Estes preguntarão outro tanto a oyfáo348 que ' teem carrego do mar e dos estrangeiros. Respondeo-lhe outro tan- to. Estes dous mandarins que perguntarão, hum era o chancy349, outro o anchacy, que erão os mayores de Cantão. Estes mandarão ao oytão que fosse pelejar com os portugeses. Este aytão era nova- mente vindo, não sabia do passado. Disse elle que não podia; fez-se doente. Mandarão láa o tiquos350, que tem carrego d'estrangeiros debaixo do aytão. Não sey o qué lá fez. Estes dous mandarins, scili- cet, pochancy e anchacy, dizem que peitarão ao pio de Nantó [e] ao pachain d'armada351 que trabalhassem por tomar algum navio e tra- balhassem por se não fazer paz; isto, secretamente. Aconteceo que por mofina, e por os capitães não terem os chins em conta e não 53
  • terem artelharia atacada nem ordenada, e cada hum capitão tirou pera seu cabo, e Diogo de Melo ser primeiro ferido de huma pedrada que ficou atordoado, e dizem que toda a gente se meteo debaixo d'alcaçeva dos navios per amor352 da pedra, assi os tomarão às mãos. Pedro Homem, estando armado, não lhe acodio ninguém; foy morto de pedradas e remessos. O mestre, contramestre [e] alguns marinheyros pelejarão; não lhe acudia outra gente; os iuncos erão altarosos. Finalmente que forão tomados. No navio de Diogo de Mello, saltarão dentro nelle trezentos chins a roubar; depois de ser a gente recolhida aos iuncos derão com fogo no paioll353 da pól- vora; abrazou-se o navio; morrerão todos os chins sem ficar nenhum. Desta nova veyo recado ao aytão de como erão dous navios tomados e os outros ydos. Foy logo e veio com gaitas. Escfe- veo que aquella gente que morreo do fogo que portugeses a mata- rão. Escreveo ao tutão, e o tutão a el-rey. Veyo a sentença que já disse. O aytão, com esta vitória [e] com peita que lhe derão os dous mandarins, a elle [e] ao tutão, que não consentisse mais portugeses na China, ficarão estes dous e[n]imigos dos portugeses, e outros que forão, riquos. 51. Martim Afonso vinha ordenado à China com embaixada pera pedir fortaleza. Se lha não desem, provar se a podia fazer com officiaes que já trazia, pera a terra e pera o mar. Não me parece que vinha bem ordenado, [por] os chins não darem fortaleza a nhuam pessoa estrangeira por todo o mundo 354, quanto mais a nós, que cuidão que a ver-lhe a terra somos vindos. Tomé Pires pedia huma casa em Cantão e na Ilha355. Todo o conselho do rei hé que vínhamos a pedir-lhe sua terra, porque a terra da China jaz em cus- tume estranho sobre sy, que não consente estrangeiro nu terra, sob pena de morte, se não hé embaixada obediente356, quanto mais dar- lhe casa. A mercadoria não querem que se fação [em] lugares povoados, por não deitarem mão d'alguma cousa, e manda- -na fazer por maos lugares, despovoados e doentios, porque são muito ciosos da sua terra, assi que per nenhum modo do mundo a darão senão for por força. E se se casa ouvesse de fazer na Ilha de Mercadoria, secretamente se fizesse forte, donde se averia cal e pedra, pedreyros e telha e cousas necessárias [e] officiaes; que com licença seria trabalhosa, quanto mais escondidamente. Que nessa 54
  • Ilha, pêra fazer casas de palha, primeiro que se acabasem hé o meio da gente morta. Mandou 357 que se fizesse algum cartigo358 ou casa forte, o que se não podia fazer, logo a gerra era na mão e tolhidos os mantimentos por terra, e a terra doentia e máa. Não sey quanto se poderia soster assi, que não vinha a cousa ordenada. 52. Martim Affonso de Mello trazia trezentos homens. Era" cousa muito pequena pera levar avante a empressa, que creo que toda a gente morrera à fome e doença até que nada viera a lume. Com mais força de duzentos ou trezentos homens se poderá tomar Nantó ou huma villa que h6 muito milhor, chamada Jancangem359, que está em hua ilha cercada de mar, de porto e grande altura, que está ao ponente de Nantó sete ou oyto legoas. Está à bordoa d'agoa, amurada, de grande povoação pegada ao mar. Esta era logo tomada sem matar ninguém. Daly, correr-lhe aos rios e desbaratar- lhe a fustalha, po'los chins em aperto. Que desta ilha às portas de Cantão, com vento, em meio dia ou à vexpora360. Iaz ao sul de Can- tão361. [É] cousa muito fresca, aproveitada d'arozes e carnes e todos os pescados; hé pera abastar vinte mill homens, e barato. Com menos trabalho e mais descanso e sem morte se podia fazer que começar de novo a terra, que teem tantas cidades e villas e lugares abordados à ágoa; escusado hé matar a gente, pois que há-de ser por força. De qualquer maneira, como os chins virem que os portu- geses tomão posse do lugar cercado, tudo se há-de começar de ale- vantar. 53. De Nantó vindo pera Cantão, no meo do rio, quasi pegado na barra [de] Tãcoã362, jaz huma grande povoação outres363 em huma ilha que se chama Aynãcha364. Tem canto talhado per casas, ruas, igrejas e em cais, de que se pode fazer huma fortaleza como a de Goa. Tem porto seguro de todos os ventos, tudo de vaza, porto muito seguro. Aqui era a força dos juncos. Esta fortaleza jaz sobre Cantão. Sogiga365 Nantó esta villa que digo [e] outra que se chama Xuntaeim366. Daqui podem defender os mantimentos e pôr em aperto Cantão; se redenderá367 de qualquer maneira que o capitão quiser. Torno a dizer que levar de peça368 Cantão na mão com força de dous mil a três mil homes é milhor — digo dous, três mil, não que com menos se não acabe a demanda, somente hé grande cousa e os carregos de lugares [em] que são necessários portugeses não 55
  • abastão seys mil —, pera render com menos do que digo e acabar a demanda, porque os chins são logo alevantados contra a cidade com a companhia dos portugeses. 54. Assi, na fustalha que portugeses trouxerem, como na que aqui se fizer de seus paraos369, a nossa guisa será tal que todos os rios despejará. Os rios despejados, os manderins an-se de render por força ou ão-de fogir e despejar a cidade. Fica logo Cantão na mão e seu termo. Isto pode[m] fazer capitães que trouxerem força de setecentos homens até mil; e ficar com elle[s] a fustalha e cousa grosa de remo, e toda a gente portugesa e malavares. Naos, se as trouxer, mandá-las pera Couchim370 espidas371 de chins officjaes, que achará pera irem dez milhões. E se abalar o senhor gover- nador pera o seguinte, logo Cantão hé nas mãoes, com toda a governança. E [há-de] deixar nele fortaleza em lugares que convém, deixar gente portugesa e malavares; e torne-sse com toda sua armada carregada de chins, carpinteiros, pedreiros, ferreyros, telheiros, serradores e de todo outro officio com suas molheres, pera deixar pior esas fortalezas. Que pode levar em sua armada, em juncos, à terra dez mil homens sem fazer mingoa, e cada anno podem sahir quatro mil sem fazer moça372. Esta hé a causa maravi- lhosa porque cada portuges pode tomar cem chins pera as fortale- zas. 55. Cantão dentro nelle tem hum cabeço chão, pegado ao muro da banda do norte, em que está huma casa que teem cinquo sobrados. Tem polas faldras deste cabeço dentro seis ou sete igrejas que tem canto talhado pera fazer em dez dias huma villa com muros e casas; e das igrejas hé sem conto d'esteos, vigas, portas feitas373. Daqui se pode senhorear a cidade. Outra feita à borda d'agoa, no meo da povoação, onde os mandarins desembarcão, que se pode fazer em cinquo dias, porque hé a pedra de canto talhada per ruas e casas de iustiça que hé pera fazer huma grande cidade amurada he torrejada. Outra na igreja que está no rio. Assi, que pedra e a madeira e cal hé sem conto, pois officiaes pera isso, e servidores, em todo mundo não há tantos e são bons servydores; com pouco jornal, pollo comer, virão cem mil. E dos seus paraos fazer galées, fustas, bargantins; d'alguns se farão galeaças374, com poucos liames, que os rios não querem a força do mar. Assi que todas estas cousas 56
  • mais vagar ão mister e[m] se escrever que em pôr-se por obra. A terra desposta está pera tudo. Deos quis que estes chins sejão dou- dos pera perderem a terra, porque té o presente não tiverão senho- rio, ma[s] elles pouco e pouco forão tomando a terra [a] seus vezi- nhos, e por isso hé o reino grande. Porque estes chins são cheos de muita judaria, e daqui lhes vem serem presentuosos, soberbos, cruéis; e porque até o presente, sendo gente covarda, faça sem arnjas e sem nenhum exercício de guerra e sempre forão ganhando a terra a seos vezinhos,e não per mãos mas por manhas e biocos, e cuidão que ninguém lhes pode fâzer dano. Chamo á todo estran- geiro "salvajem"375. A sua terra chamão "o reino de Deos"376. Quem quer que vier ora, seja capitão com frota de dez até quinze vellas. [A] primeira cousa hé desbaratar armada, se a tiverem, a que eu cuido que não teem: seja por fogo, sange, medo cruel por este dia, sem dar vida a nenhuma pessoa, todo iunco queimado, e não se tome ninguém, por se não gastarem os mantimentos, que em todo tempo se acharão cem chins pera hum portuges. E isto feito, despejar-se-há Nantó, e logo terão fortaleza e mantimentos se qui- serem, porque logo hé na mão. E dar com toda armada em Aynan- cha, que está à barra de Tancoam, como já acima digo, de bom por- to. Aqui se ancorarão aos naos que não poderem entrar no rio, e queimar-lhe qualquer fustalha que tiverem. E depois de tomado, se bem parecer, queimar-lhe o lugar, por fazer medo aos chins. Antes disto feito, venha huma carta per hum negrinho cafre, e venha em esta maneira. 56. O título da pessoa que for, [e dizer]: "Façç saber ao cuhi e ' a cancP11 de Cantão como averá ora tamtos annos que el-rey nosso senhor mandou carta ao rey da China e presente per Tomé Pires, o qual378 foi recebido polios grandes e dos outros que têm carrego. Foi-lhe dado casa em Cantão. Dahy foy chamado do rey da China. Elie foy e o vio en Nanquym379. Daly o mandou a Pequim pera lá o despachar, dizendo que lá convinha o despacho. Nunca mais delle soubemos. Na era de 'tantos', veyo huma nao em sua busca; pagou setis direytos e, pagos, armarão sobre ella pera a tomarem. E na era de 'tantos', vierão em sua busca cinco iuncos carregados de merca- dorias, e os mandarins armarão sobre elles pera os roubar, não fazendo na terra mal nem agravo; por os iuncos virem abertos do 57
  • mar, recolherão-se a outros navios, e deixarão os juncos no porto carregados de muitas mercadorias, abarrotados, sem delles tirarem nada. E na era de 'tantos' annos, vinhão cinquo naos com embaixa- dor pera o rey da China; os manderins de Nantó ordenarão com iuncos de ladrões que enganassem dous navios com recados falsos de paz; tomarão dous navios. E os tres que ficarão não souberáo como o embaixador d'el-rey nosso senhor estava metido nas cadeas e sua companhia, e tomado toda sua fazenda e vestidos, e sem comer nas cadeas, como fazenda de ladrões, sendo d'embaixada, assi recebido dos grandes; e .o presente que vinha pera o rey recolhi- do, sem querer mandar o embaixador. Isto não hé iustiça, mas hé iustiça de três mandarins ladrões, scilicet, ampochim o[u] anhanci e lentocim e p/o380 de Nantó, que polios roubos que tem feitos que- rem matar a todos, por que o rey da China o não sayba. Veyo isto à minha notícia. Vim quá, e em de menhãa serey em Cantão, por ver a cidade onde se faz tal iustiça. O embaixador seja a mim enviado antes de eu chegar a Cantão; como for entregue a mim, então fallaremos em o que releva e ao que são381 vindo [e] do que hé passado. E se não quiserdes, fique a culpa sobre vós outros, que recebeis embaixadores e presente, e pollo roubar o meteis nas cadeas. Esta hé feita a 'tantos' dias da Lua". 57. Assi que escrita a carta e enviada, apregoar liberdade na terra a todos, e com toda cousa de remos entray o rio. E se tardar o recado, se bem parecer, pôr-lhe officio 382 à povoação e queimar toda a fustalha que não aproveitar pera serviço de guerra. E morta a gente, quem não seguir o bando383, tres dias que lho tolhão os mantimentos; morrerão todos à fome. A cidade tem huma grande casa de mantimentos quasi pegada à porta da banda 'do ponente, dentro dos muros; mas pera repartir pollo povo hé nada, porque o povo hé sem conto, e compra cada dia o que há-de comer. Assi que todos hão-de morrer à fome, e ão-se d'alevantar contra os manda- rins; como se gente alevantar, logo a cidade hé alevantada. Compre teer grande aviso em não receber recados de dilações, por não acu- direm muitos paraos com mantimentos à cidade, emcanto ouver recados de vento, que som tantos e o povo tanto que se não pode isto ver. Sobretudo, a fustalha desbaratada no rio, não pareça cousa de chins que não seja queimada; com este tal matar, saltará o medo 58
  • na valia dos mandarins e embatar-se-am contra elles. E isto se deve fazer, e ser mais breve do que digo, porque toda a gente está espe- rando por portugeses. À cidade, per terra, não lhe podem acudir mantimentos, que os caminhos são logo alevantados, que sem vinda de portugeses o fazem, quanto mais neste [caso]. Todo aroz á-de vir pollo rio, e cumpre ter vigia pollo estreito que está pollo rio acima, ao norte, obra de meia legoa, por onde lhe podem vir mantimentos e socorro; neste se ponha fustalha, que tomado o estreyto, que não venha [ajuda], tudo hé na mão. Se os mandarins ouverem de fogir, à-de ser por este esteiro; aqui hé sua salvação. Em este esteiro podem estar gallées. E deste esteiro vem[-se] à cidade por terra, que hé perto. Aly vem todo o mandarim, e daly o faz saber; e então entra, e vem cavallos per terra a dizer aos mandarins da cidade que manderim hé entrada. Feita na era de 534384. NOTAS ' Transcreve-se aqui o texto da cópia de Paris das cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo. O orientalista britânico D. Ferguson, que descobriu as cartas em Paris, foi o primeiro a publicá-las, em 1901, num artigo da revista Indian Anti- quary de Bombaim, de que se fez separata (Letters from Portugueses captives in Canton). Este título apresenta vários erTOs provavelmente atribuíveis ao copista. Cristóvão Vieira é o autor desta primeira carta; Vasco Calvo escreveu uma outra, que se transcreve a seguir. Apenas Cristóvão Vieira fazia parte da embaixada de Tomé Pires. O embaixador e a sua comitiva chegaram a Cantão em 1517, a bordo de uma frota comandada por Fernão Peres de Andrade. Vasco Calvo chegou à China em 1521, com o seu irmão Diogo Calvo, em viagem de comércio. 2 Só depois de três anos de espera em Cantão receberam os portugueses autori- zação da Corte para seguir para Pequim. Era então imperador Chêng-tê, também conhecido pelo nome póstumo de Wu-tsung, que reinou entre 1506 e 1521. 3 Os fragmentos da carta original de Cristóvão Vieira existentes no Arquivo Nacio- nal da Torre do Tombo, em Lisboa, referem alguns pormenores, omitidos na cópia de Paris, sobre o encontro entre a embaixada portuguesa e o imperador chi- nês, em Nanquim (cf. nota 163, onde o trecho em questão é transcrito). Os frag- mentos do original foram publicados pela primeira vez por E. A. Voretzsch (em Documentos, pp. 52-68), e mais tarde também por E. Brazão (Apontamentos, 59
  • pp. 41-66). As eventuais divergências em relação à cópia de Paris serão oportuna- mente indicadas nas notas de rodapé, utilizando-se sistematicamente a designação fragmentos. 4 Não se encontraram até hoje quaisquer yestígios das cartas eventualmente troca- das entre os membros da embaixada e os portugueses que frequentavam o litoral cantonês, ou aí se tinham estabelecido temporariamente. Cf. parágrafo 16 e nota 39 da carta de Vasco Calvo. 5 A Ilha da Mercadoria ou Ilha da Veniaga tem sido identificada com Tamão ou Lin Tin, no estuário do rio de Cantão; foi a primeira das ilhas do litoral meridio- nal da China onde os portugueses estabeleceram contactos comerciais com os chi- neses. João de Barros afirma-o explicitamente: Fernão Peres de Andrade, "a quinze de Agosto do ano de dezassete chegou à Ilha Tamão, a que os nossos cha- mam da Beniaga" (Década III, liv. 2, cap. 6, p. 89). Nesse local, antes dos portu- gueses, traficavam os mercadores dos reinos do Sueste Asiático que mantinham relações comerciais com a China (J. M. Braga, Tamão). A palavra veniaga ou beniaga, do malaio bernyaga ("comerciar, mercadejar"), foi adoptada pelos nos- sos ultramarinos com o significado de "negócio, tráfico, comércio; mercadoria, fazenda, géneros; ganho, lucro comercial" (S. R. Dalgado, Glossário, vol. n, pp. 411-412). 6 De acordo com as fontes chinesas, o imperador Chêng-tê entrou em Pequim a 18 de Janeiro de 1521, falecendo três meses depois, a 20 de Abril. A versão de Cris- tóvão Vieira está, portanto, basicamente conecta (cf. R. DTntino, Enformação, p. 7, n. 5, que cita os Mingshi ou Anais da Dinastia Ming). 7 Cristóvão Vieira refere-se ao presente destinado ao imperador. 8 Porto da China. Este topónimo foi utilizado ao longo do século xvi para designar os diferentes portos onde, sucessivamente, os portugueses estabeleceram as suas feitorias. Aqui refere-se certamente a Tamão (cf. nota 5), porto do litoral chinês onde então se concentravam os mercadores portugueses. 9 Língua, isto é, "intérprete". 10 Rei dos Fanges. "Frangue ou Frange, em malaio Peringgi, do árabe Ifranji, Faranji (Frangi no dialecto egípcio e em persa), significa literalmente "Franco". Os árabes designavam, nos primeiros séculos do Islão, todos os cristãos, indistin- tamente, por Rumi, 'Rumes', isto é, 'romanos'; na época de Carlos Magno, porém, começaram a designar por 'Franges' os súbditos do império carolíngio, designação que, estendida depois a todos os cristãos ocidentais, se popularizou na época das Cruzadas. Logo desde a primeira viagem de Vasco da Gama, os Portu- gueses foram identificados como 'Frangues' pelos comerciantes muçulmanos do Malabar; o termo generalizou-se desde então nas várias línguas da Ásia marítima para os designar. Nalgumas é extensivo a todos os europeus, noutras apenas aos meridionais católicos" (L. F. Thomaz, "Os Frangues", p. 216, n. 6). 11 Páreas. Antigo tributo que um estado ou um soberano pagava a outro, como sinal de obediência ou vassalagem. 60
  • 12 O selo referido por Cristóvão Vieira era o símbolo de vassalagem formal; a ele se refere João de Barros, que utilizou a carta de Cristóvão Vieira como fonte das sgas Décadas da Ásia: "Este selo, que aquele Imperador dá a todolos reis e prín- cepes que se fazem seus vassalos, é da sua divisa, e com ele se assinam eles em todalas cartas e escrituras, por demonstração de serem seus súbditos" (Década III, liv. 6, cap. 1, p. 304). 13 Na China da época, a correspondência diplomática dirigida ao imperador e não redigida em chinês tinha de ser entregue às autoridades fronteiriças, que a faziam traduzir, enviando-a subsequentemente para a corte imperial. Regra geral, as ver- sões chinesas diferiam muito do original, pois além de resultarem de traduções e retraduções múltiplas tinham de respeitar as fórmulas protocolares chinesas (cf. R. D'Intino, Enformação, p. 8, n.8). Logo a seguir, o próprio Cristóvão Vieira se dá conta das desastrosas consequências do processo de tradução oficial. 14 Cristóvão Vieira refere-se aos edifícios onde, em Pequim, eram alojados os embaixadores estrangeiros. 15 Sendeiro. Cavalo ou burro velho e ruim. 16 João de Barros descreve pormenorizadamente esta cerimónia, que visava prepa- rar as embaixadas estrangeiras para a cerimónia oficial em que seriam recebidas pelo imperador (cf. Década III, liv. 6, cap. 1, p. 305). 17 Mandarim. "Magistrado, alto-funcionário do extremo Oriente, especialmente na China. O vocábulo passou do português para outras línguas da Europa. Não é de origem chinesa, nem se relaciona etimologicamente, como presumem alguns orientalistas, com o verbo português mandar: é corruçáo do sânsc. e neo-árico mantri, 'conselheiro, ministro de estado', mantari em malaio, que é o étimo" (S.R. Dalgado, Glossário, vol. It, p. 20). É curioso verificar, no entanto, que o Padre Matteo Ricci, que viveu na China desde 1582 até 1610, data da sua morte, e que conhecia bem a língua chinesa, afirma explicitamente que a palavra manda- rim deriva do verbo português mandar (cf. P. M. D'Elia, Fonti Ricciane, vol. i, p. 52). Como quer que seja, o termo mandarim é utilizado em documentos portu- t gueses dos primeiros anos do século xvi para designar funcionários superiores de diversos reinos do Sueste Asiático (cf., por exemplo, A. B. Sá, Documentação - Insulíndia, vol. l, p. 60), o que parece confirmar a tese de S.R. Dalgado. Is Trata-se da vila de Tung chou. 19 Leia-se "Pequim". Erro do copista, sem dúvida. 20 Em 1519 o príncipe de Ning rebelou-se contra a autoridade imperial e atacou Nanquim e Chiu Chiang; a revolta foi rapidamente controlada, e Chu Chen-hao foi preso e subsequentemente executado. 21 João de Barros refere-se às três cartas: "As quais cartas eram de males de nós outros, dizendo que todo nosso ofíçio era ir espiar as terras com título de merca- dores, e que depois vínhamos às armas e tomávamos qualquer terra onde metía- mos um pé" (Década III, liv. 6, cap. 1, p. 303). Cf. R. D'Intino: "Não eram pro- priamente cartas mas memórias a el-rei apresentadas por Qiu Dalong [Ch'iu Ta- 61
  • lung] e He Ao, completamente hostis aos Portugueses" (Enformaçào, p. 9, n. 15). 22 Melays, isto é, "malaios". 25 Isto é, "fazem fortaleza". 24 As acusações dos mandarins diziam, sobretudo, respeito a actos de prepotência praticados em território chinês pelo capitão português Simão de Andrade, irmão de Fernão Peres de Andrade, que aportara ao litoral meridional da China em 1519. João de Barros resume os factos: Simão de Andrade mandou "fazer em terra uma força de pedra e madeira, com sua artelharia posta nos lugares per onde o podiam ofender", e "mandou fazer uma forca, dizendo ser pera qualquer dos nossos que fizessem algum insulto, porque vissem os chins que castigo se dava aos que faziam algum mal ou dano" (Década III, liv. 6, cap. 2, p. 307). Foram estes os motivos que suscitaram a animosidade das autoridades chinesas: os portu- gueses atreveram-se a construir fortaleza e a exercer justiça em território chinês. 25 Syamis, isto é,"siameses". 26 D. Ferguson leu, erradamente, "asclavão" (Letters, p. 58), no que foi seguido por R. D'Intino (Enformaçào, p. 9). João de Barros afirma que Simão de Andrade impediu os outros navios de venderem as suas mercadorias primeiro que ele (Dé- cada III, liv. 6, cap. 2, p. 307). 27 Cf. as observações de R. D'Intino a esta passagem: "a eventualidade de os Por- tugueses comerem cães assados não pode constituir, para os Chineses, uma culpa grave. É possível que o copista da carta de Vieira tivesse transformado em 'cães' a palavra 'moços' e 'moças', parecendo-lhe inverosímil a acusação de canibalismo contra os Portugueses. Esta crença tem a sua origem no facto de os Portugueses comprarem moços na China para torná-los escravos" (Enformaçào, p. 9, n. 17). T. T. Chang comentara de forma semelhante este treêho (Sino-Portuguese, p. 48, n. 5). Esta interpretação parece ser confirmada por João de Barros "diziam que comprávamos moços e moças furtadas, filhos de pessoas honradas, e que os comíamos assados" (Década III, liv. 6, cap. 1, p. 306). 28 No original: "por força". Esta passagem é de interpretação duvidosa. D. Ferguson leu "por força" e traduziu by force (Letters, pp. 58-59 e 105, respectivamente); R. D'Intino leu "por força" (Enformaçào, p. 9). No contexto parece justificar-se a leitura pôr forca. Cf. nota 24. 29 D. Ferguson traduziu a expressão "bombardas em somas" por bombards in quan- tities, o que se pode considerar correcto. Convém, no entanto, chamar a atenção para uma outra interpretação possível desta passagem: soma pode também signifi- car "embarcação semelhante ao junco, que largava velas de esteira e era empre- gada tanto na guerra como no comércio" (H. Leitão & J.V. Lopes, Dicionário, p. 488); Cristóvão Vieira poderia querer dizer que os portugueses exploravam os rios a bordo de somas armadas com bombardas. 30 A pedra mencionada na carta dos malaios era provavelmente um dos padrões de pedra com que os portugueses costumavam assinalar o descobrimento de novas terras. D. Ferguson sugere que esta passagem se refere explicitamente ao padrão 62
  • aí erigido por Jorge Álvares em Tamáo, em 1513 (e nào, como diz Ferguson, 1514), no que é seguido por R. D'Intino (Letters, p. 106, n. 36 e Enformação, p. 10, n. 18, respectivamente). Trata-se, no entanto, como pelo contexto se verifica, de uma menção de carácter genérico. 31 A carapuça era um dos símbolos da dignidade de mandarim. Veja-se a informa- ção a esse respeito transmitida por Galiote Pereira: "A maneira de que recebem esta homra e nome de loutea, hé darem-lhe hum cimto muito largo, diferemte dos outros, he hum barrete por espiciàl mamdado d'el-Rei" (Tratado, in R. D'Intino, Enformação, p. 106). Loutea equivale basicamente a mandarim (cf. S. R. Dalga- do, Glossário, vol. I, p. 518 e vol. II, pp. 20-22). 32 R. D'Intino refere aqui, erradamente., que "o sujeito da frase é 'os Portugueses'" (Enformação, p. 10, n. 19). Más, de facto, foram os mandarins da comissão de inquérito que partiram para Cantão; a tradução de D. Ferguson concorda com esta interpretação (Letters, p. 106). 33 Cristóvão Vieira refere-se aqui à captura pelos chineses, em 1521, de navios da frota de Diogo Calvo que tinham ignorado o interdito oficial que proibia todo o comércio com estrangeiros (cf. R. D'Intino, Enformação, p. 10, n. 20). Cf. João de Barros: "E como, per ordenança da China, tanto que morre o rei, nenhum estrangeiro pode estar na terra, nem menos em algum porto, sob pena de morte, vinda a nova, foi Diogo do Calvo e os outros requeridos que se partissem dali, o que eles não quiseram fazer, antes se puseram em defensão" (Década III, liv. 6, cap. 3, p. 308). 34 "Ponchaci; puchanci (mais correcto). Mandarim tesoureiro geral de uma provín- cia, na China. Do chin, pu-cheng-sze. Cristóvão Vieira ortografa pochancy, pochency, pochacy, pochecy, etc." (S. R. Dalgado, vol. n, p. 220). 35 Tronco, isto é, "prisão". 36 Alleogõeis. Trata-se, sem dúvida, de um erro do copista; a leitura correcta, como sugere D. Ferguson (Letters, p. 106, n. 39), será talvez "allmazens" (almazéns, armazéns) ou "allogeações" (alojações). 31 Tronqueiros, isto é, "carcereiros, guardas prisionais". 38 Libanco, do chinês ling-yu, significa "cadeia ou cárcere", na China (cf. S. R. Dal- gado, Glossário, vol. I, p. 524). 39 Torneei. D. Ferguson identifica esta palavra com tung sze, "intérprete" (Letters, p. 52), o que faz pouco sentido. R. D'Intino discorda, mas não propõe qualquer alternativa (Enformação, p. 11, n. 24). Será o mesmo que toei, funcionário chinês referido por Cristóvão Vieira no parágrafo 40? Cf. notas 101 e 293. 40 Amelcace. Erro do copista por "anchaci". Anchaci, do chinês án-cha-sz', era o juiz provincial, na China (cf. S. R. Dalgado, Glossários, 2a ed., vol. I, p. 50). 41 Faz pouco sentido, neste lugar, uma referência a Cochim, cidade da costa ociden- tal do Industáo; deve tratar-se de erro do copista por "Cauchim", isto é, "Cochin- china", nome então dado pelos portugueses a um reino que confinava com o do Cambodja e com a China, englobando partes dos actuais Vietname e Laos, e à 63
  • respectiva faixa litoral (cf. Vise. de Lagoa, Glossário, vol. I, p. 255). 42 Trata-se, provavelmente, de um erro do copista por "Cauchim". Cf. nota ante- rior. 43 O primeiro fragmento do original da carta de Cristóvão Vieira, existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, inicia-se no parágrafo seguinte. 44 Pochaci, isto é, puchanci; cf. nota 34. 45 Cormas, isto é, 'algemas'. "As condições de cativeiro de Tomé Pires e dos outros membros da embaixada tornam-se mais duras depois de o embaixador português ter recusado escrever uma carta ao seu rei pedindo que entregasse Malaca aos Malaios" (R. DTntino, Enformaçáo, p. 11, n. 28). 46 Nos fragmentos: "levarào-nos a juntar na casa". 47 Anchuci, isto é, anchaci ; cf. nota 40. 48 Nos fragmentos: "[leva]rão toda a fazenda e". 49 Nos fragmentos: "e". 50 Roçadas. Talvez erro do copista por "roçadas". 51 D. Ferguson estava obviamente equivocado ao afirmar tratar-se de "Kwang- -chau-fu, the Chinese name of Canton" (Letters, p. 108, n. 47). Cancheufu, do chinês kuan-cheu-fu, era a sala de audiências da prefeitura, na China (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2a ed., vol. I, p. 253). R. DTntino define cancheufu como "governador da prefeitura de Cantão" (Enformaçáo, p. 11, n. 30), baseada numa carta datada de 1562, escrita por Amaro Pereira, um outro português que também esteve cativo na China, o qual afirma que o cancheufu "hé o ouvidor da cidade e dos presos" (Enformaçáo da China, in R. D'Intino, Enformaçáo, p. 90). 52 D. Ferguson leu "lalões" (Letters, p. 60), de acordo com o manuscrito. 53 Pochancy anchuci, isto é, o puchanci e o anchaci (ver notas 34 e 40, respec- tivamente). Cristóvão Vieira refere-se provavelmete apenas a um destes funcio- nários. 34 Ceuhi ou ceui, do chinês sz', era o comissário imperial itinerante que visitava anualmente as províncias chinesas dotado de amplos poderes (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2" ed., vol. I, p. 312). Cf. a observação de T.T. Chang, que identifica ceui com hsun-yueh: "The correct Portuguese transcriptions are Cenhi or Cenhi- tuçi, from the Cantonese pronunciation Ch'un-yut and Ch'un-yut-to-si. All the other Portuguese forms ceuhi, cehi, cuhy, ecuhi, cheuhi, cuchi are doubtless cor- ruptions for which the copyists who had no idea of Chinese names were responsi- ble" (Sino-Portuguese, p. 56, n. 6). 55 Ilha, isto é, "Ilha da Veniaga" ou "Tamão"; cf. nota 5. 56 Ferguson leu "mandar-lhs" (Letters, p. 60). 57 Ruybarbo. O verdadeiro ruibarbo é a raiz do Rheum palmatum, planta rizoma- tosa da família das Poligonáceas originária da China, e utilizada para fins medici- nais; cf. as poucas informações que dele nos dá Garcia de Orta (Colóquios, vol. II, pp. 275-279). Duarte Barbosa refere uma outra espécie de ruibarbo, oriunda da Pérsia (The Book, vol. I, pp. 93-94, n. 3). 64
  • 58 Xopa, do chinês shau-pá, é um "lenço de seda", na China (cf. S. R. Dalgado, Glossário, vol. II, p. 435); naquim, isto é, "Nanquim". 59 Avanos, isto é, "leques". Cf. S.R. Dalgado: "Leque. Abano. Está hoje averi- guado que a etimologia do vocábulo é o nome geográfico - Lieu Khieu em chinês, Léquios ou Ilhas Léquias dos nossos cronistas - de um arquipélago situado ao sul do Japão. Dizia-se a princípio 'abano léquio', mas depois ficou substantivado o adjectivo" (Glossário, vol. i, p. 522). 60 Arobas, isto é, "arrobas", antiga medida de peso equivalente a cerca de quinze quilos. ,61 Almisqucrc. isto é, "almíscar"; é uma substância aromática, usada sobretudo em perfumaria, segregada por determinadas glândulas do almiscareiro (Moechus moschiperchiferus), mamífero ruminante oriundo de certas regiões da China e do Tibete, de onde era exportado, em pó ou em papos (cf. as anotações do Conde de Ficalho aos Colóquios de Garcia de Orta, vol. I, pp. 169-170). 62 Nos fragmentos: "mill e trezentos". 63 Teaes, isto é, "taéis". O tael era um peso e moeda usado no Extremo Oriente, equivalente a um certo peso de prata pura, que variava conforme as regiões; o peso mais vulgar equivalia a cerca de 37 gramas de prata. O termo vem do malaio tahil: em chinês, liáng (cf. S. R. Dalgado, Glossário, vol. D, p. 335). 64 Nos fragmentos: "e". •, 65 Pucho, do malaio puchug, é uma raiz aromática usada sobretudo como incenso, procedente da Saussurea lappa, planta oriunda de Caxemira; os nossos ultramari- nos chamavam-lhe também costo (cf. Garcia de Orta, Colóquios, vol. I, pp. 255- 276). v6A Roçamolla, isto é, "roçamalha" (do malaio rasamala) ou "estoraque líquido", substância aromática produzida pela Liquidambar orientalis, grande árvore oriunda da Ásia Menor (cf. Garcia de Orta, Colóquios, vol. I, pp. 109 e 112-113). 67 Nos fragmentos: "e cousas meudas". 68 Cancheufo, isto é "cancheufu"; cf. nota 51. 69 Nos Fragmentos: "da nao". 70 Nos fragmentos: "Jao", isto é, "javanês". 71 Termina aqui o primeiro fragmento do original existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. 72 Deve ler-se "morreu", pois assim tanto este período como o anterior, bastante confusos no original, ganham sentido. No original: "delles morrerão a fome delles afogados Simão lingoa e balante alli forào pressos alli morrerão aqui nesta cadea derão lhe com hum maço na cabeça assi o matarão Simão baralante que estava no cháchefu morrerão açoutes trazendo ja cabas aos pescoços". 73 Chanchefu, isto é, cancheufu ; cf. nota 51. 74 Cabas. D. Ferguson traduziu por "ropes", isto é, "cordas" (Letters, p. 109); R. D'Intino, em nota, atribui o mesmo significado à palavra (Enformação, p. 13, n. 45). Será erro do copista por "cabos"? Ou tratar-se-á de "cangas"? A canga era a 65
  • "tábua de suplício oriental", especialmente usada na China; do chinês kang-kia, "trazer a canga" (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2a ed., vol. I, pp. 259-260). 75 Este número de prisioneiros executados parece bastante exagerado, de acordo com as informações portuguesas da-época sobre as prisões chinesas. Cf., por exemplo. Frei Gaspar da Cruz: "mais sam os que morrem por necessidade antes de sentenceados, que depois de sentenceados a morte, porque sam mui vagarosos em matar os que sam sentenceados a morte" (Tratado, in R. D'Intino, Enforma- ção, p. 222). 76 Berços. "Pequena peça de artilharia, com câmara, e que lançava projécteis de 3 libras" (H. Leitão & J.V. Lopes, Dicionário, p. 93). 77 Conconcepaci. Poderia tratar-sç de erro do copista por concepaci, como R. D'In- tino leu (Enformação, p. 13); mas os dicionários não registam este vocábulo. Poderia também, como sugere D. Ferguson (Letters, p. 52), tratar-se de uma variante de conquão, o chefe da fazenda provincial. Segundo S. R. Dalgado, o étimo desta última palavra é o chinês tsong-kuan, "director geral" (Glossário, 2a ed., vol. i, p. 382). 78 Patane. Reino e porto na costa oriental da península da Malásia, que abrangia a actual região de Patani (cf. Vise. de Lagoa, Glossário, vol. Ill, p. 36). 79 Syon. O antigo reino de Sião, situado na península da Indochina; a designação aplicava-se também à cidade de Aiutia (cf. Vise. de Lagoa, Glossário, vol. ill, pp. 158 e 180). 80 João de Barros, ao citar esta passagem da carta de Cristóvão Vieira, chama-lhe "Vasco Álvares" (cf. Década til, liv. 6, cap. 2, p. 309). 81 Porto de Mercadoria, isto é, "Ilha da Veniaga"; cf. nota 5. 82 Nantó. Deve ser identificada com Nan-t'ou, porto chinês na Baía de Cantão, fronteiro à ilha de Tamão (cf. Vise. de Lagoa. Glossário, vol. it, p. 301). 83 Martim Afonso de Melo Coutinho, enviado por D. Manuel para "ir assentar ami- zade com o Rei da China", chegou a Tamão em Agosto de 1522. Não chegou a levar a cabo a sua missão, pois encontrou um ambiente de extrema hostilidade no litoral chinês, onde apenas se demorou 14 dias, nas palavras de João de Barros (Década III, liv. 8, cap. 5, pp. 426-429). 84 Anchianci, isto é, anchaci; cf. nota 40. 85 Ampochi. Palavra inidentificável; talvez erro do copista por pochanci (cf. notas 34 e 380). 86 Pro. Leia-se pio; comandante militar encarregado da defesa e vigilância costei- ra. S. R. Dalgado sugere o étimo chinês pi, "capitão" (Glossário, vol. II, p. 215). 87 Capas. D. Ferguson sugere erro do copista por "capados" (Letters, p. 110, n. 62), no que é seguido por R. D'Intino (Enformação, p. 13, n. 51). Deve, no entanto, tratar-se de erro por "champás", isto é, habitantes de Champá, antigo reino situado no sudeste da Indochina, abrangendo parte do actual Vietname (cf. Vise. de Lagoa, Glossário, vol. l, p. 220). 88 A distribuição dos juncos no original resulta um pouco confusa. É provável que 66
  • dois dos juncos fossem do rei de Patane, outros dois do rei de Malaca, armados a meias com Francisco Rodrigues e Jorge Álvares e um quinto de um proprietário não mencionado. João de Barros fala de "dous navios que ali vieram ter, um de Patane e outro de Sião, em que iam alguns nossos, que andavam neles ganhando sua vida" (Década III, liv. 6, cap. 2, p. 308). A referência ao rei de Malaca deve entender-se como relativa ao "bendara de Malaca"; o sultão de Malaca fugira da cidade após a conquista desta pelos portugueses em 1311. O bendara era, antes da conquista, uma espécie de primeiro-ministro; os portugueses aplicaram a designa- ção ao chefe da comunidade hindu (cf. L. F. Thomaz, "Os Frangues", p. 216, n. 8). Era frequente os portugueses de Malaca armarem expedições comerciais a meias com o bendara. 89 Bargantes, isto é, "homens sem vergonha, biltres". 90 Leia-se "estes". 91 Pelo emprego da expressão "há gran tempo", dir-se-ia que se tinham já passado alguns anos desde os acontecimentos, e não apenas três, como o exige a datação das cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo proposta por A. Cortesão, que afirma que ambas datam de 1524 (cf. Tomé Pires, A Suma Oriental, pp. 43-46). Esta passagem seria um dos argumentos em favor de uma datação mais tardia. Um trecho da Década III de João de Barros, que se refere a acontecimentos pas- sados em 1521, menciona explicitamente as cartas, parecendo datá-las, de facto, de 1524: "segundo duas cartas que os nossos d'i a dous ou três anos houveram destes dous homens - Vasco Calvo, irmão de Diogo Calvo, e Cristóvão Vieira - que estavam presos em Cantão" (liv. 6, cap. 2, p. 310). Cf. nota 26 da Introdução. 92 No parágrafo seguinte tem início o segundo fragmento do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. 93 Nos fragmentos: "1522", que é a data correcta. 94 Nos fragmentos: "Pedro Boino, Pedro Afonso, Manuel Alvarez". 95 Os fragmentos acrescentam: "estes treze". 96 Nos fragmentos: "Estevão Pirez". 97 Nos fragmentos: "Alvarez". 98 Nos fragmentos: "estes sete também", que parece ser a leitura correcta. 99 D. Ferguson leu "peravento" e traduziu por forward, isto é "para avante" (Let- ters, pp. 63 e 111). 1110 Nos fragmentos: "ho Rixo marinheiro, Benadeto marinheiro"^ 101 Nos fragmentos: Trata-se certamente de um erro do copista por torneei; cf. notas 39 e 293. 102 Nos fragmentos: "mulato". 103 D. Ferguson omitiu os dois nomes: "Afomso Perdigão, Afonso Fernandez" (Let- ters, p. 63). 104 Talvez erro do copista por "Lião". 105 Anchuncy, isto é, anchaci; cf. nota 40. 106 Nos fragmentos: "onde nós ora estamos". 67
  • '"7 Nos fragmentos aparece mais um nome: "Diogo Gonçalves". In8 Leia-se "tanoeiro". 109 Nos fragmentos: "marinheiro", que parece ser a leitura correcta. 110 Nos fragmentos: "vieráo à cadea domde ora estamos". 111 Tomaci, isto é, torneei-, cf. nota 39. 112 Nos fragmentos: "Os que emtrarão nesta cadea falecerão seis ou sete asy aos desta cadea como a cadea do torneei'. 113 Isto é, 6 de Dezembro. 114 Nos fragmentos: "ladrões do mar piquenos que vêm pollo ladrão grande manda- dor espiar nosa terra para vyrem sobre ella. Cortem-lhes as cabeças, sejão escoartjados". 115 Os fragmentos acrescentam: "dos.navios". 116 Nos fragmentos: "xxiiii dias". 117 Nos fragmentos: "xxiiii pessoas". 118 Os fragmentos acrescentam: "sete". 119 Nos fragmentos: "por saberem quam pouca conta fazião dos portugeses". 120 Nos fragmentos: "sem se acordarem". 121 Nos fragmentos: "e vistas forão penduradas". 122 Nos fragmentos: "Veo despacho que lhe dese [a] Thomé Pires huma carta". 123 Os fragmentos acrescentam: "letra". 124 Os fragmentos acrescentam: "outra". 125 Nos fragmentos: "Quenhioci e Olyuci". D. Ferguson identificou estes dois nomes com os dos mandarins Kwan-hea sz e Wu-hea sz (Letters, p. 113, n.73). 126 Nos fragmentos: "que o poder d'el-rei dos framgis que tinha tomado Mallaca". 127 Os fragmentos acrescentam: "seu embaixador". Tuan Mahammed era o embaixa- dor enviado pelo rei de Malaca à China, para pedir auxílio ao imperador, no sen- tido de reaver o seu reino. João de Barros chama-lhe "Tuão Mahamede" (Dé- cada III, liv. 6, cap. 1, p. 303) e Fernão Mendes Pinto "Trannocem Mudelliar", isto é, "Tuan Hassan Mudeliar" (Peregrinação, cap. 90, p. 253). Tuão era a ver- são portuguesa de um título de reverência muito usado na Malásia, aproximada- mente equivalente ao português "dom" (cf. S. R. Dalgado, Glossário, vol. II, p. 388). 128 Nos fragmentos: "muito triste". 129 Bentào, isto é, "Bintão"; antigo reino que abrangia a actual província de Ban- tang, no extremo ocidental da ilha de Java (cf. Vise. de Lagoa, Glossário, vol. l, p. 114). Logo após a conquista da cidade pelos Portugueses, o soberano de Malaca refugiara-se em Pão, reino situado na costa oriental da península da Malásia, na região onde hoje se situa a província de Pahang. 130 Os fragmentos acrescentam: "lhe". 131 O libo de Cristóvão Vieira corresponde talvez ao Li-pu Shang-shu, presidente do Tribunal dos Ritos em Pequim (cf. C. R. Boxer, South China, p. 309, n. 5). S. R. Dalgado identifica o lipu com o "ministério dos ritos e cerimónias, na China. 68
  • Outrora tratava também dos negócios estrangeiros" (Glossário, vol. t, p. 529). 112 Fom, do chinês fung, "selar", pode ser intepretado como "compromisso formal de dependência" (cf. D. Ferguson, Letters, p. 114, n. 76). 133 Nos fragmentos: "e hé da sua obediência". 134 Nos fragmentos: "e deu carta e despachb ao rey". Termina aqui o segundo frag- mento do original da carta. 135 Tufão, do chinês tu-tung, era o vice-rei ou governador militar, na China, a maior autoridade a nível provincial (cf. S. R. Dalgado, Glossário, vol. n, p. 395). C. R. Boxer observa que: "This was a.temporary provincial appointment conferred on a high official of the central government who was detached for the duration of some regional emergency" (South China, p. 6, n. 3). 136 Comgom, isto é, conquão; cf. nota 77. 137 Choupim, isto é, chumpim, do chinês tsung-ping: era o tenente-general do exército chinês (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2a ed., vol. I, p. 355). 138 Tuci. D. Ferguson sugeriu a identificação deste termo com o chinês to sz' ou too sze, oficial general do .exército (Letters, p. 52). C. R. Boxer, por seu lado, identi- ficou-o com tu-ssu, título de um comandante provincial do exército (South Chi- na, p. 12, n. 2). 139 Haytão, isto é, aitão, do chinês hai-tao, era o título do almirante chinês ou comandante da guarda costeira, que tinha jurisdição sobre a gente do mar e tam- bém sobre os estrangeiros (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2a ed., vol. i, p. 24). 140 Tuáo Healie, isto é, "Tuão Ali'\ era um dos membros da comitiva do embaixa- dor do rei de Malaca. 141 Tuáo Alemancet era outro dos membros da comitiva do embaixador do rei de Malaca. 142 Tuão Mcfamet, isto é "Tuão Mahammed" era o embaixador do rei de Malaca, já atrás mencionado; cf. nota 127. 143 Cojaçáo, isto é, "Coja Hassan", era o embaixador-adjunto do rei de Malaca. Coja era a versão portuguesa de um título honorífico usado entre os muçulmanos (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2a ed., vol. t, p. 371). Cf. as observações de R. D'Intino: "no final de 1523 as autoridades chinesas mandaram que os dois embai- xadores de Malaca (Tuan Mahammed e Cojação) voltassem para a sua pátria. A princípio os dois recusam deixar o território chinês; sucessivamente Tuan Mahammed decide partir, Cojação fica e é condenado à morte. Cojação, que as autoridades chinesas consideravam 'falso' embaixador, embora, na verdade, fosse embaixador-adjunto desse país, passou a ser considerado como o primeiro- -embaixador dos Fu-lang-ki e tomou o lugar de Tomé Pires nas crónicas chinesas. A causa disso foi provavelmente a confusão que se criou entre os enviados de el- -rei de Malaca e os Portugueses, conquistadores de Malaca" (R. D'Intino, Enfor- maçào, p. 18, n. 84). 144 Linga, isto é, língua" ou "intérprete". 145 Tutuão. Provável erro do copista por tufão; cf. nota 135. 69
  • 146 Cristóvão Vieira menciona aqui, explicitamente, o ano de 1524; a referência aos acontecimentos desse ano como a algo de já passado, pode servir de argumento a uma datação mais tardia da carta; cf. nota 91. 147 Bornéu. 148 Aqui se inicia o terceiro fragmento do original da carta de Cristóvão Vieira exis- tente no Arquivo Nacional da TorTe do Tombo. 149 Nos fragmentos: "quando vio na ilha o desbarate veo-se pera Foym". Foym, isto é, "Fuhiun", na costa ocidental da bafa de Lin Tin (cf. D. Ferguson, Letters, p. 132, n. 45). 150 Leia-se "Cauchim"; cf. nota 41. 151 Nos fragmentos: "que elle o diria". 152 Os fragmentos acrescentam; "e". 153 Nos fragmentos: "averya". 154 Leia-se "Cauchim"; cf. nota 41. 155 Nos fragmentos: "Começou a fazer neste Cantão". 156 Nos fragmentos: "grande custa". 157 Gelfa. Literalmente, "acto de pastar"; leia-se "ao abandono". 158 Os fragmentos acrescentam: "com orelhas"; este termo designa, provavelmente, a "carapuça" de mandarim (cf. nota 31). 159 Pico, do malaio pikul, era um peso oriental equivalente a 100 cates ou 60 quilo- gramas (cf. S. R. Dalgado, Glossário, vol. it, p. 208). 160 Nos fragmentos: "fazia". 161 Os fragmentos acrescentam: "deste chim". 162 Nos fragmentos, em vez de "por dizer que", lê-se: "e cuidáo que". 163 Termina aqui o terceiro fragmento do original da carta de Cristóvão Vieira exis- tente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Na sua edição dos fragmentos, E. A. Voretzsch intercala aqui um suplemento extremamente interessante, que relata o encontro de Tomé Pires com o imperador chinês em Nanquim: "[A genjmte que fiqua em companhia de Thomé Pirez escuso escrever, por não escre- ver tamta leitura, cada hum serem (...] onde faleceo finallmente, que [de] sete ou oito portugueses que erão no Hamchu, somente eu e douos servjdores ficarão. Thomé Pirez faleceo aquy na era de 24 anos. Os que ora ao presente estamos somos cimquo pesoas, cinco chins. Jorge Alvarez, que neste porto arribou, começa em cousas da tera por acabar, que se me puser até acabar pella maneira, nom acabarey. Nós em Nanqim vimos o rey em pessoa, que amdava folgando, comtra istilo e costume da terra, que está em custume rey nunca sair de seus apo- sentamentos, e des que a terra da China hé terra, pouco se acuida rej de sajr do estillo, nem estrangeiro ver rey da China, como digo que ho vimos. Nos fez homra e folgou de nos ver, e jugo com Thomé Pirez às távolas, por vezes estando nós ao presente. Asy nos mandou banque[te]ar com todos os grandes. Ao pre- sente vemos per jsto per três vezes. Emtrou nos paros em que nós híamos. Man- dou sajr todas as arcas fora; tomou os vestidos que lhe parecerão bem. E fez 70
  • mercê a Thomé Pirez que nos fôsemos a Pequim, que nos despachava. Mando- -nos dar os milhores paraos que há na terra da China com [...] fazendas, nos mandou omradamente, como já disse. Chegou a Pequim, faleceo, asy dizem. Falar nas cousas do caminho per jmteiro hé nom acabar. De Nanquim até Pequim, que sam obra de dozentas légoas, tem em toda a terra ao través feita em rio, que chega a Pequim. Dos rios que decern do sertão tomão áuga de represa e de marés, têm-na ençarrada com pomtes que dejxam hum canall no meo, que se çara [isfo é, cerra] com vigas que emcostão, de maneira que têm áuga; têm cabrestantes pera alevantar as vigas, ou pera meter os paraos contra força d'água que saj tam riga. Amostrarão muita, porque sam destas pontes noventa, huma preto outra lomga, segundo o lugar d'áuga. Tem cada pomte destas hum mande- rim, com obra de dozentos homs qe tyrão aquelles paraos" (Documento, p. 61). 164 Leia-se "que". 165 Jurubaça, do malaio jurubahasa , é um dos nomes dado aos intérpretes no Extremo Oriente (cf. S. R. Dalgado, Glossário, vol. t, p. 499). 166 Na cópia de Paris da carta de Cristóvão Vieira lê-se: "de toda esta companhia não há mais que eu Cristóvão perseo d'Ormuz hum moço meu de Goa". A partir desta passagem, que é uma das mais controversas da carta, A. Cortesão concluiu que Cristóvão Vieira era um persa de Ormuz lusitanizado (cf. Tomé Pires, A Suma Oriental, p. 31), no que foi seguido por L. Albuquerque (Navegadores, vol. ll, p. 32). No entanto, o trecho referido é suficientemente ambíguo para per- mitir a leitura que aqui se apresenta: Cristóvão Vieira referir-se-ia a ele próprio, a um persa de Ormuz chamado Cristóvão e a um goês chamado António; poucas linhas abaixo esta hipótese parece ser confirmada: "nós três que ficámos da com- panhia de Thomé Pirez"; e mais adiante Cristóvão Vieira enumera de novo os cinco sobreviventes: além dele próprio, dois moços seus chamados Cristóvão e António, e Vasco Calvo e um seu moço chamado Gonçalo. A conclusão parece impôr-se: Cristóvão Vieira, o autor desta carta, era português e o "Christovão perseo d'Ormuz" era um moço que estava ao seu serviço. Cf. nota 207. 167 Acima referido como "Francisco de Budoya". 168 Acima referido como "António de Almeida". 169 Não se compreende a interpolação desta palavra; a não ser que se leia "portu- guês". Este Jorge Álvares não deve ser confundido com o indivíduo do mesmo nome a que atrás se referia Cristóvão Vieira (parágrafo 14), o primeiro português que foi à China, em 1513, e que João de Barros (Década 111, liv. 6, cap. 2, p. 309) diz ter falecido de doença em 1521, na ilha de Tamão. Cf. nota 49 da carta de Vasco Calvo. 170) Leia-se "traidores". 171 A data da morte de Tomé Pires continua em discussão. Cristóvão Vieira afirma explicitamente que o embaixador faleceu em Maio de 1524 na prisão de Cantão, e não o menciona em nenhuma das várias listas de sobreviventes que inclui na sua carta. Esta data é aceite por C. R. Boxer (South China, p. xxi). Entretanto, 71
  • Fernão Mendes Pinto afirma na sua Peregrinação (cap. 91), e também na Infor- mação ao Padre Giovanni Maffei (R. Catz, Cartas, p. 126), que, anos mais tarde, encontrou no interior da China uma filha do embaixador, chamada Inês de Lei- ria, a qual lhe declarou que Tomé Pires morrera por volta de 1540. A. Cortesão aceitou a versão de Fernão Mendes Pinto (Tomé Pires, A Suma Oriental, p. 54), tal como o fez recentemente L. Albuquerque (Navegadores, vol. n, p. 35). A data que figura no manuscrito poderia também ler-se "mdxxvu". 172 De facto, Cristóvão Vieira escrevera, algumas linhas acima, "como digo, nós três que ficámos da companhia de Thomé Pirez". 173 Lcia-se "cuidam". 174 Os intérpretes chineses encarregados de traduzir as cartas oficiais portuguesas confundiram o título de "capitão-mor" com o nome do próprio Tomé Pires. Os documentos chineses afirmam: os Fu-lang-ki "enviaram um embaixador de nome Jabidan-mo" (cit. de R. DTntino, Enformação, p. 20, n. 97); Jabidan-mo é uma transcrição clara de "capitão-mor". 175 Cf. nota 166. Os dois moços que estavam com Cristóvão Vieira eram, sem dúvi- da, Cristóvão, persa de Ormuz, e António, indiano de Goa. 176 Cristóvão Vieira não menciona "os que falleceráo"; no entanto, fala de Tomé Pires. Porque estava ainda vivo? É mais provável que a referência ao embaixador fosse motivada por uma questão de respeito, e também pelo curioso equívoco a que a tradução do seu nome dera origem. 177 Cristóvão Vieira refere-se aos caracteres chineses. 178 A parte da carta que aqui termina descreve sobretudo as peripécias da embai- xada de Tomé Pires. Seguidamente, inicia-se uma descrição pormenorizada da China; o relato de Cristóvão Vieira foi o primeiro testemunho directo da reali- dade chinesa, redigido por um ocidental, a chegar à Europa desde os tempos de Marco Polo. Note-se que Cristóvão Vieira foi o único europeu que durante o século xvi visitou Pequim e, simultaneamente, redigiu um relato da sua experiên- cia (com excepção de Fernão Mendes Pinto, que, na sua Peregrinação, caps. 100 a 114, afirma ter visitado demoradamente a grande metrópole chinesa). 179 Começa aqui o quarto fragmento do original da carta de Cristóvão Vieira exis- tente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. 180 Leia-se "ao redondo". 181 Nos fragmentos, em vez de "Cheuem", lê-se: "Tumchou". 182 Nos fragmentos, em vez de "estas", lê-se: "três". 183 Os fragmentos apresentam variantes de alguns destes topónimos: "Camtáo, Foquem, Chequem, Namqim [...], Pequim. [...] Quamci, Honão, Ceucheu, Tumchou, Xamci, Sanei. [...] Quamci, Vinam, Honão". Os nomes de províncias registados por Cristóvão Vieira são claramente identificáveis. A China na época dos Ming estava dividida em duas áreas metropolitanas: Pei-chihli e Nan-chihli - normalmente identificadas pelos nomes das respectivas capitais, Pequim e Nan- quim -, e treze províncias: Kuangtung, Fukien, Chekiang, Shantung, Kuangsi, 72
  • Kiangsi, Honan, Kueichou, Ssuchuan, Shensi, Shansi, Hukuang e Yunnan (cf. C. R. Boxer, South China, mapa incluído entre as pp. xviii-xix). Os escritores por- tugueses quinhentistas não adoptaram uma transcrição única para os topónimos chineses, pois as suas versões resultavam essencialmente de informações orais, de modo que é possível encontrar num mesmo texto várias transcrições diferentes para um mesmo topónimo, o que por vezes torna a sua identificação extrema- mente problemática. 184 Nos fragmentos: "E sobre". 185 Nos fragmentos: "domde está o rey d'asento per ordenança". 186 Os fragmentos acrescentam: "dizia Thomé Pirez que". 187 Nos fragmentos, em vez de "nordeste-sudueste", lê-se "em leste-ueste". 188 Leia-se "descem". 189 Nos fragmentos, em vez de "lados", lê-se "ladas"; deve entender-se "chatos". 190 D. Ferguson leu "antos", (Letters, p. 68) trata-se, sem dúvida, de erro do copista por "aptos". 191 Hà sirga, isto é, "rebocada por cordas". 192 Tazas, isto é, "Tártaros". 193 A China encarava então os Tártaros como uma ameaça permanente às suas fron- teiras setentrionais. Desde 1544 que os Tártaros atacaram sistematicamente as províncias fronteiriças de Shensi e Shansi; em 1550 fizeram mesmo uma incursão contra Pequim. Galiote Pereira, que esteve preso durante alguns anos na China, no seu Tratado, escrito entre 1557 e 1561, refere-se a este assunto: "E quamto aos Tártaros, são homens muito alvos e gramdes cavallgadores e bons frecheiros. E por aquella bamda de Paquim, [a Tartaria] confina com a China, e há humas gramdes cerras que partem os reinos, omde há alguns passos em que assi de huma bamda como da outra há forças e sempre gemte de guarnição. E nos tem- pos passados forão estes Tataros sempre ter guerra com a China, mas até o anno segundo da nossa tomada [i.e., 1550], que também a tiverào, avia mais d'oitenta anos que estavão em paz" (in R. D'Intino, Enformação, p. 126). 194 Cf. nota 41. 195 Aináo é uma grande ilha chinesa no golfo de Tonquim, fronteira à província de Kuangtung. 196 Leia-se "serra". 197 As serras de Mei-ling. Cf. João de Barros: "a qual serrania, chamada Malenxào, começa em a enseada da Cauchichina e vai atravessando grande espaço de terra contra o Oriente, até acabar na província de Foquiem" (Década ill, liv. 6, cap. 1, p. 302). 198 Nos fragmentos: "Chequeam". 199 Nos fragmentos: "Estas serras sam muy altas, sem árvore nenhum". 2"° Nos fragmentos: "Estão escalvadas". 201 Leia-se "estas". 202 Nos fragmentos: "Quamci pega". 73
  • 201 Nos fragmentos: "Cauchim", que está correcto; cf. nota 41. 204 Nos fragmentos: "Queanci". 205 Nos fragmentos: "Cauchim", que está correcto; cf. nota 41. 206 Os fragmentos acrescentam: "de Cantam". 207 Esta referência de Cristóvão Vieira à serra de Sintra, que ele decerto já visitara, abona em favor da sua nacionalidade portuguesa. Cf. nota 166. 208 Nos fragmentos: "serranias". 209 Nos fragmentos, em vez de "a Quiancy", lê-se "para Quamci". 210 Talvez erro do copista por "mulas". 2,1 Nos fragmentos, em vez de "serras", lê-se "cidades". 212 Talvez erro do copista por "calhaus". 215 Nos fragmentos: "vimte até trynta légoas de Cantão". 214 Nos fragmentos: "per este caminho e rio". 215 Na cópia de Paris lê-se "em recados de p. sa". D. Ferguson adoptou a leitura "enrocados de pedras" (Letters, p. 121, n. 2), no que foi seguido por R. DTntino (Enformação, p. 23). Aqui sugere-se uma outra interpretação - "em recados de pressa", isto é, "por mensageiros rápidos" -, que o contexto parece autorizar. 216 Nos fragmentos, em vez de "elle", lê-se "terra", que parece ser a leitura correcta. 217 Todas as províncias da China têm rios (cf. D. Ferguson, Letters, p. 122, n. 3). 218 Nos fragmentos: "Quanci". 219 Nos fragmentos: "toda se faz no termo da cidade de Cantam". 220 Nos fragmentos: "Quamci". 221 Os fragmentos acrescentam: "Destas não vêm muitas". 222 Nos fragmentos: "por daredor de Tamson para o mar". Trata-se, provavelmente, de Tung-kuan. no estuário do rio Tung, o rio de Leste (cf. D. Ferguson, Letters, p. 122, n. 5). 223 Nos fragmentos: "Asy que quem for senhor do termo de Cantam tem todos [...] tudo jaz na mão. porque esta governança de Camtam tudo o milhor delia hé uns ryos digo ryos nas fraldas do mar". 224 Leia-se "cousa". 225 Os fragmentos acrescentam: "ao serviço d'el-rey noso senhor". 226 Nos fragmentos: "todo esto". 227 Nesta passagem da carta de Cristóvão Vieira torna-se evidente a apologia da con- quista da China; os prisioneiros portugueses estavam convictos de que uma expe- dição enviada com o objectivo de conquistar Cantão os poderia libertar do seu cativeiro. 228 Nos fragmentos: "E os mercadores". 229 Nos fragmentos: "nobrecera muito esta cidade e governança". 230 Nos fragmentos: "não soam ha ir lá estrangeiros". 231 Os fragmentos acrescentam: "com estrangeiros". 232 "Vieira escreve em 1524. O porto de Cantão esteve fechado aos estrangeiros entre 1522 e 1530. O autor refere-se aqui à corrupção dos mandarins e outros ofi- 74
  • ciais que tornou possível as relações comerciais sino-portuguesas, A província de Cantão foi muito prejudicada por esta proibição do comércio com os estrangei- ros, porque a sua classe 'média' baseava totalmente nele a sua economia" (R. D'Intino, Enformação, p. 24, n. 124). 233 Cheno, do chinês chên, é a cidade de mercado na China (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2' ed., vol. l, p. 341). 234 Os fragmentos acrescentam: "todas". 235 Nos fragmentos: "Todos os milhores jazem". 236 Nos fragmentos: "per rios que pode entrar cosa que se reme". 237 Nos fragmentos: "som quatro". 238 Nos fragmentos: "Domde não há ryos". 239 Nos fragmentos: "nem a comta desta sorte. Têm oficiaes de todos ofycios macâ- nicos sem conta". 240 Leia-se "a suma". 241 Os fragmentos acrescentam: "noso senhor". 242 Nos fragmentos: "levar". 243 Na sua edição dos fragmentos E. A. Voretzsch intercala aqui um suplemento 2: "Esta empresa da China hé grande, que hum jmfante será comtente. E poder-se[- -á] senhorear com pouca força, porque esta hé a terra das amazonas, que com os camtos das lamças abasta, que hé gemte catjva fraca; e cumparo's às amazonas, por respeito das baius, que sam frandilhas de mulheres, que delles às amazonas em cavalaria há muito em deferença" (Documento, p. 65). 244 Os fragmentos acrescentam: "mesma". 245 Nos fragmentos: "trescutados"; talvez erro do copista por "trocados". 246 Nos fragmentos: "na governança domde he naturall". 247 O grau de letrado ou mandarim era obtido através de um exame escrito que cul- minava um longo período de estudos, e caracterizava-se pela imposição de deter- minadas insígnias - "as insígnias de louthias, que sam barretes com orelhas e cin- tos largos e sombreiros" (Frei Gaspar da Cruz, Tratado, in R. D'Intino, Enfor- mação, p. 213). Subsequentemente, os mandarins eram nomeados para os nume- rosos cargos do funcionalismo público. Cf. Frei Gaspar da Cruz, Tratado, caps. 16 e 17. 248 Nos fragmentos: "Estes manderis fazem em Peqim". 249 Nos fragmentos: "prestamos". 230 Outros observadores portugueses da realidade chinesa seriam, um pouco mais tarde, de opinião contrária, argumentando que os juízes nunca poderiam ser inteiramente justos na sua própria terra. Veja-se o relato de Galiote Pereira, por exemplo: "E são postos huns e tirados outros tamtas vezes, que não tem nunqua tempo pera criarem malícia" (in R. D'Intino, Enformação, p. 111). Teriam certa- mente na ideia, como termo de comparação, as características do sistema judicial português. 251 Cristóvão Vieira, ao contrário de muitos outros portugueses que visitaram a 75
  • r China no século xvi, refere enfaticamente a sujeição e tirania a que estava sujeito o povo chinês. É provável que as terríveis condições do seu cativeiro fossem determinantes nesta visão negativa de certos aspectos da realidade chinesa. 252 Os fragmentos acrescentam: "comem". 253 Os fragmentos acrescentam: "pouca". 254 Nos fragmentos lê-se "em alguma", em vez de "em lugares de". 255 Os fragmentos acrescentam: "e". 256 Os fragmentos acrescentam: "mais". 257 Nos fragmentos: "todo". 258 Nos fragmentos: "se hé de Cantão". 259 Nos fragmentos lê-se "a", em vez de "em". 260 Os fragmentos acrescentam: "de". 261 Os fragmentos acrescentam: "e". 262 Esta passagem, extremamente confusa no original, deverá talvez ler-se: "Daqui vão a servirem mandarins cavaleiros, destes que acima digo; de dez mil, uns degredados em vidas, outros por anos". 263 Nos fragmentos: "emcospas", que é a leitura correcta. Encóspias são peças com que os sapateiros alargam o calçado. 264 Os fragmentos acrescentam: "canas de". Borzequins eram uma espécie de botas até meio da perna, com atacadores ou botões. 265 Nos fragmentos: "Ho mesmo hou semelhante". 266 Os fragmentos acrescentam: "e". 267 Nos fragmentos: "São também açoutados nas nadegas e curvas e barrigas das pernas, nas solas dos pes, pancadas muitas [...] artelhos". 268 Nos fragmentos: "morrem muitos sem conta". 269 Nos fragmentos: "açoutados". 270 Leia-se "mau". Nos fragmentos: "como ho manderím mao". 271 Nos fragmentos: "chamão a cada parte quiten"; do chinês keng-ti ou kang-te, "terra arada" (D. Ferguson, Letters, p. 126, n. 19). 272 O alqueire é uma antiga medida de capacidade, variando entre 13 e 22 litros. 273 Nos fragmentos: "He obrigado". 274 Nos fragmentos: "as mesmas". 275 Os fragmentos acrescentam: "cada ano". 276 Nos fragmentos: "vimte taes de prata". Cf. nota 63. 277 Nos fragmentos: "aparelhados de mesas, tintas, penas, cadeiras". 278 Nos fragmentos: "dar de certas pessoas huma". 279 Os fragmentos acrescentam: "aves". 280 Os fragmentos acrescentam: "de". 281 Nos fragmentos: "barca, carnes, tudo ho necessário ja se sabe as pessoas". 282 Nos fragmentos: "como outra arelampanda". Leia-se "como outro relâmpago". 283 Nos fragmentos: "dous taes (...) meo". 284 Nos fragmentos: "taes". 76
  • 285 Leia-se "e". 286 Os fragmentos acrescentam: "alguma". 287 Aqui termina o quarto fragmento de Lisboa. 288 Leia-se "chã". 289 Leia-se "tijolo". 290 Deve talvez ler-se "e tudo, que lhe dão licença", como sugere D. Ferguson na tradução inglesa (Letters, p. 129). A liberdade de movimentos era limitadíssima na China da época Ming; os chineses estavam proibidos de sair para o estrangei- ro, e a circulação entre diferentes províncias estava sujeita a autorização do poder regional. Cristóvão Vieira apercebeu-se do apertado sistema de vigilância mútua que funcionava a nível local. 291 Cf. nota 51. 292 P. Pelliot identificou chinchai com o chinês ting-chai, termo genérico para "servi- dor" ("Un ouvrage", p. 64). C. R. Boxer, por sua vez, identificou este termo com chin-chai, "comissário imperial", o que parece não se adaptar ao presente contexto (South China, p. 157). 293 S. R. Dalgado: "Toei. Certo funcionário chinês. Talvez do chinês tu-che, 'secre- tário adjunto'" (Glossário, vol. li, p. 377). Cf. nota 138. 294 Isto é, ceui; cf. nota 54. 295 D. Ferguson identificou este termo com cehi ou ceui (Letters, p. 47); T.T. Chang também (cf. nota 54). R. D'Intino discorda: "preferimos pensar que se trata de um outro funcionário, embora não tenha sido possível identificá-lo entre os mui- tos funcionários da justiça chinesa" (Enformaçâo, p. 28, n. 142). O contexto abona esta última interpretação. A descrição de Cristóvão Vieira corresponde ao anchaci, "juiz provincial", que, no entanto, é mencionado na carta um pouco antes. 296 Isto é, chumpim; cf. nota-137. 297 Isto é, conquáo; cf. nota 77. , 298 Segundo S. R. Dalgado o tico é um "oficial superior do exército chinês", talvez derivado do chinês ti-tu, "comandante de tropas" (Glossário, vol. II, p. 372). 299 Trata-se, certamente, de um erro do copista. D. Ferguson sugere a leitura "que são velhos" (Letters, p. 129). Poderá talvez ler-se "manderins que teem orelhas"; as orelhas eram um dos símbolos do estatuto de mandarim. Uma enformaçâo anónima de 1554 refere-se a este assunto: "Os barretes que estes capitãees tra- zem hé hua certa maneira de dignidade, como antre nós huma comenda ou outra cousa semelhante, e são deferençados na maneira de todos os outros, e ninguém os pode por na cabeça senão elles. Estes barretes tem humas orelhas apegadas de cada parte, e são feitas de seda de cavallos" (in R. D'Intino, Enformaçâo, pp. 75- 76). Cf. nota 31. 300 Leia-se "canto", isto é, "pedra lavrada". 301 D. Ferguson sugere "trações" (Letters, p. 130), no que é seguido por R. D'Intino (Enformaçâo, p. 28, n. 145). Parece-me que se deverá ler "feições". 77
  • 302 Esta passagem é extremamente difícil de interpretar; houve certamente um erro do copista. D. Ferguson traduziu por: "and the wall at the hinges stands on the surface" (Letters, p. 130). Poderá, talvez, ler-se; "E há pedra aos calços no chão de todas as de Cantão". 303 Leia-se "mudadas". Os funcionários públicos chineses eram, normalmente, nomeados para um determinado cargo por um período de três anos. Se Cristóvão Vieira assistiu à mudança de muitas equipas de mandarins, é provável que a sua carta seja de facto de 1534. 304 A fusta era uma embarcação comprida, estreita, de pequeno calado, de dimen- sões variáveis, movida a remos e à vela; o bergantim era semelhante a uma galé, mas mais pequeno (cf. H. Leitão & J. V. Lopes, Dicionário). 305 Postiças eram peças amovíveis que serviam para apoiar os remos; o esporão era um espécie de espigão de madeira colocado à frente da proa, destinado a causar danos nas embarcações inimigas (cf. H. Leitão & J.V. Lopes, Dicionário). -306 A tilha era um estrado onde, numa galé, era montada a artilharia; era suportada por uma estrutura de madeira, os liames (cf. H. Leitão & J. V. Lopes, Dicioná- rio). 307 Isto é, "Cauchim". 308 D. Ferguson afirma que o ferro abunda em várias províncias da China (cf. Let- ters , p. 130, n. 43). Leia-se "gastar". 310 Leia-se "temor". 311 Leia-se "crer". 312 Cf. nota 57. 313 "Vieira demonstra perceber perfeitamente os problemas económicos da região de Cantão causados pelo encerramento do porto aos estrangeiros" (R. D'Intino, Enformação, p. 30, n. 148). 314 Isto é, "Fuhiun"; cf. nota 149. 315 Trata-se de "Anung-hoi", perto da Boca do Tigre, no estuário do rio da Pérola (A. Kammérer, La découverte, pp. 57 e 67). 316 Cristóvão Vieira refere-se à captura pelos chineses de navios da frota de Diogo Calvo, chegados ao litoral chinês em 1521. Cf. nota 33. 3.7 Em 1522 foram apresados no litoral de Cantão dois outros navios portugueses. Cf. nota 83. 3.8 Cf. nota 315. 319 De acordo com a datação das cartas dos cativos de Cantão proposta por A. Cor- tesão, esta data seria erro do copista por "523" (cf. nota 91). A data poderia, evi- dentemente, estar correcta, constituindo assim mais um argumento em favor de uma datação mais tardia das cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo. 32(1 Leia-se "se ainda estão vivos". 321 Os informadores portugueses quinhentistas repetem frequentemente esta asser- ção sobre a fraqueza dos chineses em termos militares. Tomé Pires foi o primeiro 78
  • a afirmá-lo, na sua Suma Oriental: "Hé gemte fraqua e para pouco" (p. 253). 322 Trata-se de tropas especiais que eram organizadas pelas autoridades de Cantão para fazer face a emergências militares. Langãs é transcrição de Lang-ren, "ho- mens de Lang", na província de Kuangsi; langueãs corresponde a Lang-kia, "gente de Lang" (cf. R. D'Intino, Enformaçáo, p. 31, n. 152). 323 Segundo D. Ferguson, trata-se de "Kiungchau-fu" (Letters, p. 134, n. 51). 324 Segundo D. Ferguson, a madeira abunda em muitas zonas do interior da ilha de Ainão (Letters, p. 134, n. 54). 325 D. Ferguson afirma que se trata de um erro do copista por "Cuchim" ou "Cau- chim" (Letters, p. 134, n. 55). 326 Lèia-se "assaltos". 327 Leia-se "há,". 328 D. Ferguson afirma que se trata de Tung-kuan, a Tancoâo das fontes portuguesas quinhentistas, cidade situada na foz do rio Tung-kiang ou rio de Leste, não muito longe de Cantão (Letters, p. 134, n. 57). No entanto, o trecho, que no original se lê "entrando Cantão no tomq° tudo isto he rendido", poderia ser interpretado como: "entrando Cantão. Notom [i.e., notem] que tudo isto hé rendido". 329 Um sendeiro é um cavalo ou burro velho e ruim. 330 A areca, do malaiala adekka ou adakka, é o fruto da arequeira, espécie de pal- meira indiana. 331 Aljôfar, do árabe al-jauhar, é o nome que se dá a uma qualidade de pérolas muito pequenas. 332 Isto é, "liteira". 333 Sistema de equitação em que o cavaleiro monta com estribos curtos. 334 A esta passagem, um pouco confusa no original, faltam certamente palavras, por distracção do copista. Ou então, poderia ler-se: "Nenhuma pessoa, como não tem orelhas, não pode andar em cavalo, digo, pela cidade". Lembre-se que as "orelhas" eram um dos símbolos da dignidade de mandarim. Cf. nota 299. , 335 q compjm era 0 comandante do exército provincial; o étimo é provavelmente o chinês kung-ping, "justo, recto" (S. R. Dalgado, Glossário, 2a ed., vol. l, p. 378). 336 Comquó, isto é, conquão; cf. nota 77. 337 Isto é, Wuchou-fu, a cidade mais populosa da província de Kuangsi (C. Boxer, South China, p. 35, n. 4). 338 Também chamada Canci, isto é, "Kuangsi". 339 Veja-se a nota anterior. 340 Isto é, "Shauking-fu" (D. Ferguson, Letters, p. 135, n. 64). 341 Começam aqui as instruções de Cristóvão Vieira para a invasão e conquista do sul da China pelos portugueses. 342 Provável erro do copista por "Languãs". Assim o entendeu D. Ferguson na sua tradução (Letters, p. 136); cf. nota 322. 343 Cf. notas 54 e 299. 344 Isto é, compim-, cf. nota 335. 79
  • 345 Erro do copista por ceuhi, isto é, ceui. 346 Isto é, "os outros". 347 Cf. notas 83 e 316. 348 Isto é, aitão; cf. nota 139. 349 R. D'Intino afirma que o chancy é um funcionário "parecido com o chayuan, um comissário do tribunal dos censores de Pequim em visita às províncias" (Enfor- mação, p. 33, n. 161). Esta interpretação parece-me pouco verosímil, uma vez que, um pouco mais à frente, Cristóvão Vieira identifica os dois funcionários aqui referidos como pochancy e anchacy; chancy seria assim erro do copista por pochanci. 350 Isto é, tico-, cf. nota 298. 331 D. Ferguson sugere, como origem de pachain, o chinês fu-tsiang, um oficial supe- rior do exército, equivalente a "capitão de posto" (Letters, p. 53). 352 Isto é, "por causa". 353 D. Ferguson leu "parioll" (Letters, p. 81). 354 As autoridades chinesas eram extremamente ciosas da sua integridade territorial, e não autorizariam, sob nenhum pretexto, a construção de uma fortaleza estran- geira em terras da China. 355 Isto é, na "Ilha da Veniaga" ou "Tamão"; cf. nota 5. 356 A China, etnocêntrica como todas as grandes civilizações, e, além do mais, extre- mamente xenófoba, encarava tradicionalmente todos os estrangeiros com altivez e desdém. João de Barros refere nas suas Décadas que os chineses, conscientes ' da sua superioridade cultural, "bem como os gregos, em respeito de si, tôdalas outras nações haviam por bárbaras" (Década IH, liv. 2, cap. 7, p. 93). 357 Entenda-se: "Mandou Martim Afonso". 358 Talvez erro do copista por "abrigo". 359 D. Ferguson e R. D'Intino não conseguiram identificar este topónimo. A. Kam- merer, no entanto, diz que se trata de Ki au, mesmo em frente a Macau (cf. La découverte, p. 65, e mapa que se segue à p. 66). 360 Hora canónica que corresponde ao fim da tarde. 361 D. Ferguson, na sua transcrição da carta, suprimiu o trecho que começa em "com vento" e termina aqui. 362 Tung-kuan, cidade situada perto de Cantão, nas margens do rio de Leste; cf. nota 222. 363 Leia-se "outrossim", como sugere D. Ferguson (Letters, p. 139, n. 73). 364 Cf. nota 315. 365 Leia-se "subjuga". 366 Segundo A. Kammerer, este topónimo corresponde foneticamente a Shun-to hsien, que em cantonês se pronuncia Shuntak (La découverte, p. 67). v'7 Leia-se "renderá". 368 Trata-se talvez de um erro do copista por "depressa". 369 O parau era uma pequena embarcação semelhante à fusta (cf. nota 304), movida 80
  • a remos ou à vela (H. Leitão & J. V. Lopes, Dicionário, p. 394). 370 Leia-se "Cauchim". 371 Isto é, "tripuladas". 372 Leia-se "mossa". 373 No original: "ftas". D. Ferguson ignorou a palavra na sua tradução (Letters, p. 140); R. D'Intino leu "feitorias" (Enformação, p. 36). 374 A galeaça era uma galé de grandes dimensões, "o maior dos navios movidos a remos e à vela" (H. Leitão & J.V. Lopes, Dicionário, p. 283). 375 Segundo Frei Gaspar da Cruz, os chineses, antes de 1554, "nam consintiam os Portugueses na terra, e por odio e aborrecimento lhe chamavam Fancui, que quer dizer 'homens do diabo'" (Tratado, p. 231); do chinês Fan-kuai, "diabos estrangeiros" (cf. L. G. Gomes, Êfemero comércio, p. 113). Cf. nota 356. 376 No original: "reino de Ds". D. Ferguson leu "Dõ" e traduziu por "God", isto é, "Deus" (Letters, p. 141). R. D'Intino, que seguiu a leitura de D. Ferguson, observa: "Este 'Dõ' de que nos fala Vieira pode ser identificado com Tham, nome pelo qual os Chineses eram conhecidos entre os Japoneses" (Enformação, p. 36, n. 170). Esta explicação é pouco convincente, pois os portugueses apenas chegaram ao Japão em 1543. A sugestão de R. D'Intino apenas seria aceitável se considerássemos a eventualidade de este termo ter sido transmitido aos portugue- ses por piratas ou comerciantes japoneses que eventualmente frequentassem o litoral chinês. Ds é seguramente abreviatura de "Deus". Cf. nota 68 da carta de Vasco Calvo. 377 Deve talvez ler-se ao ceui e pochanci. Cf. nota 349. 378 No original "ql". R. D'Intino leu "que" (Enformação, p. 37). 379 Esta passagem parece confirmar o encontro entre Tomé Pires e o Imperador em Nanquim. Cf. nota 163. 380 Ampochim é talvez erro do copista por pochanci, como parece sugerir uma outra passagem da carta de Cristóvão Vieira (cf. nota 85); poderia ser, também, uma outra designação para o anchaci, como sugere esta passagem da carta. Anhanci é erro por anchaci. O lentocim foi identificado por S. R. Dalgado como um comissário tributário ou inspector de celeiros públicos, do chinês liang-tau-sz' (Glossário, vol. II, p. 522). 381 Leia-se "sou". 382 D. Ferguson sugere que se trata de erro do copista, e que deve ler-se "o fogo" (Letters, p. 142, n. 79). 383 Isto é, a "proclamação". 384 Segundo as conclusões, já citadas, de A. Cortesão, deveria ler-se "1524"; cf. T. Pires, A Suma Oriental, pp. 43-46. Cf., também, nota 91. 81
  • CARTA DE VASCO CALVO (CANTÃO, 1536) Trelado de outra carta que o mesmo Christovão Vieira escreveo da China1 1. Senhor, Olhando sempre vossa carta2, me desaliva 3 muito minha infir- midade com os esforços que Sua Merçee dáa; me dá causa a ter algum lugar a escrever, senhor, em breve, [para] não ser muita a leitura. Repetindo, senhor, nesta cidade na qual, senhor, digo, se a Indja estivesse de maneira que o senhor governador ordenou, o senhor Eytor da Sylveira4 [poderia vir] com a frota que cada anno vay ao Estreyto5, convindo nella três mill homens, trazendo malla- vares, pera com elles pôr em espanto a gente com verem estes mala- vares. Com as costas dos portugeses irão tomando a metade da terra da China, se ahí ouvesse gente pera soster tanta cidade e tanta cópia de villas, que tão fraca gente hé e não têem maneyra nenhuma de defendimento. 2. Neste rio desta cidade podem entrar só naos de duzentos toneladas [e] todo o galião, por grande que seja, por respeito de demandar pouca ágoa. Todo este rio, senhor, hé de vasa e todo hé limpo de pedras, que ainda que fice em seco, nã[o] releva, porque o rio hé muito alto. Fica a cidade sobmetida debaixo destas naos. Quando a maré encher, porão prancha dos galeães e navios na ter- ra, por onde saya a gente. Per este rio estão as casas do arabalde metidas, com terem amparo, per respeito d'ágoa não alagar tudo, o qual amparo hé de pedra, entulhado de terra altura de hum homem 85
  • e meio homem, em lugares nada. Por todalas partes tem saídas muy fermosas, mas todas calçadas de fermosa pedra; a qual pedra ser- virá ao presente pera fortalezas. Pôr-se-á, senhor, fogo na ponta desse arabalde, porque venha queimando tudo ao longo do rio, por ficar tudo limpo pera a artelharia iugar e porque se não ponhão per hí os chins [a] tirarem com frechas, com terem emparo das casas. É necessária pôr-lhe o fogo, que fique tudo limpo sem nenhuma casa ficar. 3. Comtudo, senhor, oulhe-se bem a principal desembarcação, [que] é no meo desse arabalde, onde estáa huma casa dos manda- rins; quando vão pera algures, vão ali desembarcar e embarcar. A qual casa teem hum recebimento de quaes, a qual casa hé daredor cercada de taipa, feita de terra, posta em altura de hum remessão6. Onde se neste lugar pode recolher soma de gente, com mandarem deribar ao rededor todas as casas, porque fique lugar pera se a for- taleza fazer, pera se pôr artelharia, fazendo buracos nestas taipas, pera porem bombardas grossas até se fazer a fortaleza que nesse lugar mesmo se há-de fazer. Com a fortaleza e7 ir entestar no rio e vir entestar com a porta da cidade, fazendo huma couraça muito forte e fremosa que váa tomando sobre a porta da cidade, que sogi- gue8 a cidade toda, porque tudo hé terra chãa como a palma da mão; com artellaria pera hum cabo e pera outro. A qual couraça há-de ficar em maneira da ponte, dando lugar a hum riozinho que se mete [entre] o muro e o araballde. E pera entrarem na cidade têem huma ponte de pedra muito fermosa, e a couraça á-de ser ape- gada com esta ponte. Esta couraça fica sobre esta porta e toma da ponte, e á-de ter a serventia polia fortaleza mesmo, onde se deve apousentar o alcaide-moor. 4. Tanto, senhor, que a desembarcação fôr neste lugar, oulhe bem que hé perto da porta da cidade. Se se a cidade não rende, pôr-se-ão três camellos e derribarão as portas que são duas. Estão ambas de9 duas defronte huma da outra. Estas portas, senhor, são foradas de cobre. Tanto que entrarem, irão ter a casa do pochency, que hé a principal casa que nesta cidade há, que hé a casa onde estáa a fazenda do rey, onde se achará muita prata que não teem conto e assi muito ouro e mercadorias. Esta casa hé a cabeça desta governança, porque nesta casa desde polia menhã até noite nunca 86
  • se faz senão pesar prata das rendas, que de todos os cabos vem. Na qual casa se porem10 duzentos ou trezentos homens com hum capi- tão que fique posto na cidade até se a fortaleza fazer. E assi se há- -de fazer huma fortaleza dentro na cidade, onde estáa hum outeyro pequeno com humas igrejas dos chins, as quaes igrejas têem em si pedra pera fazer a fortaleza, a qual fortaleza há-de ser assentada sobre o muro que vay pera a banda do norte, que hé terra firme, com huma torre" de quatro sobrados, tudo cheo d'artelharia que jogue pera o norte e ponente e levante, e assi pera a cidade. Fiquão todos os cabos resgoardados com esta fortaleza, e a cidade metida e sopeada debaixo desta fortaleza. Na qual fortaleza, senhor, estarão cem homens. Fiqua tã forte a cidade que não pode decer huma ave que tenha remédio a fogir. Os quaes cem homens, senhor, serão mudados de três ou quatro meses, [para] irem, senhor, d'armada fazerem proveito. 5. Assi, senhor, irá dar em huma feitoria que se chama o con- chefaa'2, onde sse escaparão mil presos o menos, se os mandarins os não matarem por averem medo de se na cidade allevantarem e matarem os mandarins, assi, pello conseguinte. Assi, éstá chea de prata, que também ese13 recolhem rendas do rey e as penas dos pre- sos, que são em grã maneira muita prata. A qual fazenda, senhor, que nesta feitoria estiver, se mudará desta pera a casa do pochecy, onde hão-de estar estes homens, por em[tre]mentes se fazer a forta- leza. Recolherem14 ahí todo o que se tomar, e assi irão a outras duas feitorias do rey [que] também têm muita prata de rendas que se arecadão, as quaes duas feitorias se chamão per nome Nayhay e Põnhaem15. E se se achar esta fazenda, toda se passará ao pochen- cy, a se ahy aver de guardar até tudo ser asentado. Serão avisados que se caso fôr não acharem prata nenhuma, e dentro nessas casa[s] que são grandes acharem algum homem, seja perguntado por isso, que pode ser estar soterrada em lugar que se não ache; que por essas cidades que são combatjdas dos ladrões assi fazem que a soter- rão, e deixam por a negaça quatro ou cinquo mil tàes16, por não andarem os ladrões buscando tudo que vão dar com ella. 6. E assi se perguntará, senhor, polios gudões17 do aroz, que são sete ou oyto casas onde estão três mandarins pequenos, compa- ráveeis [a] allmoxarifes, as quaes casas têem em si milhões de 87
  • milhões de piquos18 d'aroz pêra a regra dos mandarins e assi outra gente. O qual aroz, se se posserem a vender à gente da terra, far-se- -ão mais de quarenta mill táees de prata. Pollo qual, senhor, se porão trinta homens com hum capitão, e terem19 guardado este aroz até se a cidade e cousas virem assentar, sem se deste aroz bollir del- le. Que, se caso for, senhor, não ouver remédio [por] ao presente não acodir aroz nem mantimentos de fora, [e] moura a gente da cidade toda hà fome, então, senhor, hé necessário abrir-se este aroz e vender este aroz à gente que na cidade estiver; e se caso for valer caro, dê-sse algum tanto de barato, por a gente não teer então per onde o mercar. Que toda a gente, senhor, a mais delia que nesta cidade vive são todos officiães e mercadores e gente toda que por fazerem mercadoria vivem; que a gente, senhor, que hé rica e tem terras vivem polias aldeas onde têem a[s] suas terras, que as terras aqui valem a peso de dinheyro. Este hé o respeito por onde a gente morrerá à fome não vindo aroz de fora a vender, que se não pode soster esta cidade três dias que não moura a gente à fome, por ser muito o povo. 7. Olhem bem. E assi se dará, senhor, deste aroz aos pedreyros e carpinteiros e ferreiros e trabalhadores que nas fortalezas andarem, dando-lhe cada dia três fõs20 de seu jornal, que são doze reis por dia, e anda- rão contentes, que aqui os mandarins pera seos serviços lhe dão dous fõs, e se não trabalhão dam-lhe açoutes como palhas, pello qual, senhores, serão estes trabalhadores bem pagos sem se do d'el- -rey nosso senhor tirar nem gastar hum ceitil21. Somente deste aroz se farão cem fortalezas nesta terra, que toda a casa do mandarym teem pedra, esteos pera sobrados de torres e de que quiserem tanto quanto não são necessários tantos. 8. E assi, senhor, se mandará logo em breve tapar de pedra e qual22 todallas portas que vão pera o norte e assi as de ponente e levante, não deixando nesta cidade somente esta porta por onde se sirva a gente que há-de vir dar com a fortaleza. E o senhor capitão- -moor se tornará a recolher onde se desembarcou com toda a gente, salvante os trezentos homens que ficarão dentro na cidade na casa do pochency. Hé cousa grande, e fechado tudo com a fortaleza, com as chaves da cidade se darem de noite a este capitão que 88
  • en[tre]mentes que ali estiver, emquanto se fação as fortalezas; e polaa menhãa serão dadas a quem tiver cargo de guardar aquella porta e de fechar, com de noyte vigiarem e tocarem os atabagues23, como hé uso [e] costume. 9. E assi, senhor, se ordenará com a gente da terra, com se repartir e se ordenar hum homem por cabeça da mesma terra. Tal- lacom24 de muro vigiará a gente que naquellas ruas viverem, porque assi hé seu custume e istjllo, com lhe darem ataballes25 que tomarem nas casas destes mandarins. Polia menhãa vieráo26 dar conta, como hé custume àquelle capitão que estiver naquella casa: "tal cabo está seguro"; virão outros e: "tal cabo está seguro"; daram as chaves pera abrirem a porta. Com, senhor, deixar em seguro o estillo da terra, com se porem de giolhos aos senhores capitães e assi toda a outra pessoa que qualquer cargo tiver; que o custume da terra assi hé, e não se perqua, que a gente hé máa. E assi, pollo conseguinte, açoutá-llos como não estiverem prestes ao que são obrigados a fazer; doutra manejra será trabalho soster esta gente, que os man- darins nunca al fazem senão desde polia menhãa até noite, e matar, e não podem com elles. 10. Se caso for, senhor, que poserem per hi alguns barcos e com eles tirarem, saião a tomá-llos, que qualquer gente os tomará. Como virem que saem pera esse propósito, não esperão, que suas armas não consintem esperarem a cousa de portugeses. As espadas são de feição das nossas, obra de três palmos, ferro morto, sem terem ponta; trazem por armas bajos27 acolchoados, hum capacete na cabeça feito d'estanho; tirão frechas e não muito bem. Esta hé a sua maneira da guerra. Estes, senhor, que são apremados a ysso, que a gente do povo não o sabe fazer. Somente fechão as portas e não clurão28 de mays [qu]e soterrarem o que têem de prata, que cousas de casa não têm, somente huma mesa vella29 e huma cadey- ra; toda outra cousa de prata soterram. 11. E isto, senhor, não a gente do povo; não têem cousa nenhuma d'espada nem frecha. Somente o povo, quando se recrece algum alevantamento, fechão as portas e cada hum se mete em sua casa. E a quem mais pode a esses obedecem. Finalmente, senhor, que esta gente com que os mandarins sostêm a terra hé desta maneira, a qual conta dou em breve. Todo homem que hé preso he 89
  • iulgado a morrer onde30 assi na cadea quatro e cinquo annos; vêm outros mandarins e se tem o preso prata, peita; escrevem delle ao rey, e os manderins grandes abrem-no daquella penna que teem e dão-lhe degredo pera todo sempre; e assi os filhos ficão obrigateiros também a este degredo. É comparávei, senhor, a homens que em Portugal degradão pera as Ilhas. O qual homem hé comparado a algoz. Estes homens, dão lhe cada mês hum piquo d'aroz pera comer em sua casa com sua molher. E assi, doutros feitos, se recre- cem também fazerem destes homes degradados, estes homens desta cidade degradão-nos pera outra governança; os doutras governanças degradão pera esta. Averá nesta governança, repartidos polias cida- des, villas e lugares, que estão guardando as portas e cadeas, e andão pellos rios [vendo se] não se alevantão [e] pellas cidades treze até quatorze mil homens. Nesta cidade estarão continuadamente três mil homens guardando as portas da cidade com capitães. Pollo qual não há malavar que não peleje com quorenta destes homens, e todos os matará, que o seu geito todo hé como molheres; não há nelles estamago, somente apupadas. Com esta gente sostem os mandarins esta terra que hé o mundo. 12. Pello qual, tanto que a frota se fizer à vella pera vir pera esta cidade, não há mandarim que na cidade aguarde a frota no rio; os mandarins deitar-se-ão polias portas fora. Nisto não há duvida nenhuma senão ser assi. No meio deste rio está huma igreja dos chins, a qual está na frontaria, do meyo da cidade — será tamanha como a fortaleza de Calequu31 —, a qual está já feita em huma for- taleza, somente [falta] erguerem o muro e fazerem-lhe torres, o qual se deve de fazer huma fortaleza forte de torres ou baluartes. Porque estando esta fortaleza ally, com vinte ou trinta homens, hé estar o rio e tudo degollado; porque daly há-de iulgar32 a artelharia pera todas as bandas, assi pera a cidade como pello rio acima, como pollo rio abaixo. O fundamento que se da índia há-de trazer [é] artelharia, que com qualquer gente farão façanhas. 13. Como for assentada a gente na cidade, logo em breve, não se passando mais que dous ate quatro dias, se tomarão paraos e se concertarão logo em fustas, se trouxerem, e irão pollo rio acima. Com levarem soma de artelharia irão queimando quantos paraos e juncos e cousas se achar de villas e lugares, fazendo-se grandes 90
  • estroyções, sem ficar cousa nenhuma ao presente, por pôr espanto na gente. Que ainda que de cima venhão os mandarins grandes com alguma gente, que se não ache embarcação nenhuma, nem achem mantimentos nenhuns pera a gente comer. Quanto mais eu creo que não há-de decer nenhum, nem pode, porque se deixarem [de estar] láa, os ladrões ão-se d'alevantar pella terra e am-de vir roubando e matando o mundo todo como souberem que esta cidade hé tomada, que se podem aqui vir acolher. E emborilhada a terra de maneira que apellida toda, que logo se ha gente há-de alevantar polia gover- nança, e não há-d'aver manderim que n[ã]o mateem. Pollo qual a guerra se faça cruamente per onde quer que puderem, assi que todas estas três governanças el-rey da China há-de perder; convem- -lhe fazer concerto. Com os seos capitães não se pode soster, nem a terra manter, nem andar governada, nem pagarem direytos ao rey, porque nem podem semear, nem se pode fazer mercadoria. Pollo qual, fazendo-se concerto, faça-se muito a provejto d'el-rey nosso senhor, que lhe dará el-rey da China huma nao carregada de prata cad'anno por se não emburilharem todas quinze governanças ou se demover, e assi se fará mercadoria como era dantes. 14. E assi, senhor, polia Ilha da Viniaga33 faz o caminho pera quatro ou cinco cidades mesmo desta governança, e muitas vilas e povoações de meia légoa em comprida, com muito povo, as quaes cidades são grandes e de gente riqua e de muita seda, e todo o ferro e estanho dally vem. E assi, senhor, que hé grande trato que o rey tçata com esta, Senhor, que tem nella grande renda. As quaes cida- des estão ao longo da costa, com o mar nellas se bater, que darão estas cidades quanta renda o rey tem na terra a el-rey nosso senhor. E assi obedecerão por não serem estruidas e por o povo se não ver perdido, e não consentirão mandarim da terra que os governe. Somente, por fazerem partido, que sejão os seus capitães contentes com darem a metade das rendas a el-rey nosso senhor; que não há cidade que não dê corenta, cinquoenta mill cruzados cada anno. Não digo de villas, que as villas assi o ão-de fazer, que darão segundo a renda vinte mill e trinta mill cruzados de parias34, e darão huma nao de prata a el-rey nosso senhor, sem nesta terra se gastar hum ceitill d'el-rey nosso senhor, senão levarão pera a índia, [para] se fazerem os gastos e cargos de naos pera Portugal. 91
  • 15. Estas cidades, podem ir a ellas em todo tempo, assi no Inverno como no Verão, tudo em hum, porque tudo há-de ser galées fermosas e fustas e navios, cousa de remo, e tudo se navega, polios rios e per antre jlhas, que aqui os chins todo o anno navegão, assi pera hum cabo como pera outro. E a governança deste Cantão e de Foquem per hi parte com huma cidade destas que se chama Coicheufa35. Da governança de Foquem está logo huma cidade que se chama Camcheu36; hé cidade fermosa e a grande. Esta estáa no mar. Hé cousa riqua da seda e tafetás, e de canfera37 e muito sal, e de grande tráfega, e tem em si grande numero de iuncos. Com todo tempo podem hir e vir, que desta cidade em todo tempo vão, e põe xv, xx dias por este caminho da Ilha. Este hé fermoso caminho, por aver muitas villas e povoações. Também tem outro braço antre esta terra de Cantão, por onde vão; é também bom caminho. Por todas estas cousas se perguntará aos chins. E têm outros muitos rios, per onde vão a outros lugares. 16. Assim, senhor, por essa banda desse Conljay38, onde ora estaes39, estão três cidades, as quaes se chamão per nome huma Loycheu, outra Lencheu, outra Quancheu40; são lá mais metidas pera dentro, pera o braço do mar que se mete antre as ilhas d' Aynão. Vêm dar nestas cidades, com d'aredor terem muitas vilas e povoações, e são grandes cidades, de muitas rendas, e também teem algum aljofre. As quaes per força ão-de obedecer ao poder d'el-rey nosso senhor. E não pode consentir mandarins do rey, somente se for por concerto do que os seus capitães fizerem, o qual per força darão três terços da renda a el-rey nosso senhor e hum terço a el-rey da China por não se queimarem nem destruírem estas cidades e villas. Que tudo está à mão poderem fazer quinhentos e seiscentos homens, com trinta ou corenta villas41, tudo de fustas, que artelharia há-de fazer a guerra. 17. Pollo qual, nesta cidade que se chama Quanchefu 42 têm grandes serrarias43, e nestas serrarias se recolhem grande soma de ladrões, e derão já duas vezes nesta cidade e a roubaram toda. Os quaes ladrões, como souberem da tomada desta cidade, ão-de decer e am-de dar nella, que não teem então quem a governe, que os mandarins ão-de fogir; e assi em villas e lugares ão-de roubar e matar, até que os seus capitães não ponhão nisto provisão. Não 92
  • teem este povo sem virem pedir socorro ao senhor capitão-moor, com pedirem portugeses que vão governar aquella terra, [para que] não se damnifique dos ladrões. Que o povo não teem defensão, somente o mais do povo meterem-se de companhia a roubarem; que o mais da gente hé gente de vento, desamarrada, toda de mer- cadoria, cousa de vento. Assi como, senhor, hi há gente riqua, asi há hi gente que não pode alcançar de comer. Esta hé a rezão por[que] tudo são ladrões. 18. Pello qual, senhor, tanto que esta cidade estiver forte, com fortalezas nos lugares que compre, e da índia vier gente, em todas estas cidades que estiverem abordadas ao mar e com os rios se fará em cada cidade huma fortaleza forte, onde se ponhão hum capitão com cinquenta homens pera governar a terra e recolher as rendas pera el-rey nosso senhor, com a gente da terra mesmo. Os quaes portugeses que ahi estiverem ão-de ter todos cargo, e háo-de ser todos riquos, que há-de ser pollo estillo da terra. Estes chins ão-de ser fieys como, senhor, forem amansados com os portugeses. E assi em vilas se farão também fortalezas, com sempre ser tudo corrido com fustalha, ora ir e vir. Quanto mais gente, quanto mais proveito, tanto mais se há-de ir alcançando. 19. De princípio, senhor, se meta o ferro nelles e o fogo al tamto44, porque assi se querem os inimigos de principio. E tanto que o senhor capitão-mor vier pera entrar no rio, seja destroido este lugar que se chama Nanto, onde estão capitães da guerra com obra de dous mil homens, destes degradados. Que por ser frontaria e per estrangeiros ali virem de mercadoria, estão ahi nesse lugar alguns iuncos. Seja todo tomado e queimado, esse lugar todo ardido em fogo, que a gente que ahi estáa não há-d'esperar. E assi, vindo pera cima ao longo da costa, estáa huma povoação de gente, o qual man- darão os bateis quejmar, e tomarão paraos boons, e se teverem iun- cos queimem-nos, não queimando os paraos, que são sufficientes pera correrem rios com elles. E assi, vindo mais pera diante, onde está huma ilha que se chama Aynancha45, se tomarão pescadores que sabem a entrada da barra. A qual ylha hé povoada [e] recolhe em si muitos iuncos: irão os bateis e fustas queimar os iuncos, se não forem fogidos. E assi há muitos paraos: não desbaratem estes paraos, que de principio hão-de ser muito necessários, que todo 93
  • parao destes pode trazer três berços4* e cinco e seis homens portu- geses, não contando remeiros. Tudo isto, senhor, será estroido, porque fique tudo limpo; que as naos que na barra ficarem, ficará tudo seguro, e yrão e virão os bateis cada vez que necessário for, sem receo de nenhum cabo lhe ser feito periuizo, irão e virão. Olhando, senhor, tudo fica resguardado, não se pode errar em cousa nenhuma, como pera estes termos e de Christovão Vieira se regerem; seja, senhor, tudo bem visto, não se saindo do que aqui [se] diz, tudo seja estroido, não fiquem esses inimigos nas costas. 20. Desta governança, senhor, como fortalezas e tudo foy assentado, irão a Foquem, que hé governança sobre sy, que hé cousa boa de seda e mercadorias, no qual se corre todo anno, irão e virão; e todas as cidades e vilas estão chegadas ao mar. Como for huma armada de galees e fustas, até corenta ou mais, em que andem seiscentos ou setecentos homens, farão por aly façanhas, em que farão tudo tributário a el-rey nosso senhor, todas estas cidades e villas, com cad'anno trazerem de parias hum navio carregado de prata. Não podem menos fazer, por se não destruir e perder a terra; per concerto am-de partir as rendas pollo meio com el-rey nosso senhor. Que nesta gente não há nenhuma defensão; como ouvirem rogir huma bombarda, ão-se de ir pôr nos outejros e oulhar o que querem fazer os portugeses. Olhe-se quanta riqueza, sem se trazer; nem se gastará, somente levarem limpamente pera Portugal. Outra índia se alcançará, e de tanto proveito, e per tempo muito mais que recrecerá mais gente; e assi irão alcançando mais e sogigarão mais; e assi todolos portugeses muito riquos, que a terra o consente. Assi se á-de hir a esta Foquem, pera a banda da Ilha, donde farão mer- cadorias, por onde, desta cidade [e] governança, são cidades e vilas e lugares e povoações. E assi de Foquem, com esta frota, tudo se corre, assi deste Cantão à terra, e assi à de Foquem. Tudo, senhor, de hum ferro farão logo tributário, e far-se-ão grandes destruições em queimarem iuncos, que estes Foquem tem numero de milhões defies, e assi em porem as proas das galees e fustas nas cidades, às bombardadas. Ainda que venha[m] pedir misericórdia, não os dei- xão, senhor, de princípio, a saber o que podem fazer o poder d'el- -rey nosso senhor na terra, pera lhes virem as páreas redondas, sem refusarem em nenhum tempo do que os seos capitães ordenarem. 94
  • Ão-de ter pera isto conhecimento do que lhe podem fazer. 21. Assi, senhor, ao mar deste Foquem estão os Léqueos47, que cad'anno vendem mercadoria a Patane, e soyão em tempo do rey de malaca ir a Malaca. São muitas ilhas, e onde está o rey hé huma ylha muito grande; e não pode, senhor, ser menos, porque a gente hé limpa, e fazem juncos muy grandes. As quaes ylhas tem muito ouro e cobre e ferro, e muitas mercadorias que há em Malaca e Patane, que trazem, e teem damascos e seda, muita, e porçolla- nas. Desta governança de Foquem a tomarem as primeiras ilhas são três dias de golfão. Estes léqueos vêm cada dia fazer mercadoria com esta terra de Foquem, e de Foquem vão escondidamente lá a fazer mercadoria. No qual, por tempo, podem ir com elles fazer mercadoria, e elles virem aqui fazer mercadoria. E se vi[r]á, senhor, tecendo o trato nesta cidade, de toda a parte, de Pacem e Patane. E [com] o pao de Syam48 se fará aqui outra casa da India, que esta terra tem grande necessidade deste pao de Syam; agora vai aqui muito; outras mercadorias escusar-se-ão, este pao não. 22. Sejão, senhor, estas cartas mostradas aos senhores capi- tães-mores; não se emcubrão, senhor, que se Jorge Alvarez49 amos- trara as cartas que levava ao senhor Dom Estavão50, e de nós soube- rão, eu confio que não estivéramos aqui nesta cadea, ou vivos ou mortos; em dous anos, ou o senhor governador ouvera de mandar, ou de Malaca se ouvera de ordenar cousa por onde nos daqui tira- rão; porque se faz muito servjço a el-rey nosso senhor buscar-se todollos remedios pera nos daqui, senhor, tirarem. Potanto, eu con- fio', senhor, em sua mercê, com estas levar. Não se esperar de Por- tugal a el-rey nosso senhor ordenar a vinda a esta terra, somente sua mercê acabá-llo com o senhor governador na Jndia, pois que tamanhos desejos el-rey teem desta terra. Tê-llos, desejos, não erra el-rey nosso sçnhor; somente estamos espantados como não veem poder sobre esta terra aver[á] tantos annos; não sabemos a rezão. Assi, senhor, de huma maneira ou doutra, com seis naos, como em outras cartas se verá, se pode tudo acabar, senhor, sendo sobre nossa soltura. 23. De huma maneira ou doutra que, senhor, vierem, tanto que [a] esse porto chegarem, logo fação os jurubaças51 as cartas sobre nos não mandem, senhor, matar, pedindo-nos muy altamen- 95
  • te, que a yso veem. Assi, se causa for, vir cousa grande, assi se ponha nesse porto a nos pedir muito rijo. Que estes mandarins de nós, senhor, teem o receo que sabemos a terra; esse hé o respeito porque nos não soltão e nos teem nesta cadea, sendo a mais forte que há nesta cidade. Não posso, senhor, escrever mais largo, por- que tenho a mão doente de chagas que me arebentarão, e por não ser mais necessário, que Cristóvão Vieyra nunca deixa d'escrever todallas mais cousas. Feitas nesta cadea do anchã52, às dez luas e tantos dias de Outubro, rogando a nosso senhor que vos guarde e vos queira, senhor, levar a salvamente, como sua mercêe deseja. Servjdor de sua merçee/Vasco Calvo 24. Ese homem, senhor, que sua mercee traz por guia hé homem honrado. Foy homem que teve fazenda; esteve muito tempo preso, e livrou-se, e foy degradado; e teve maneyra como se foy a Malaca. Hé, senhor, homem digno de lhe ser feita honrra, e hé homem sufficiente pera esta terra. Seja-lhe, senhor, em Malaca dado mantimento, e ao jurabaça, que são necessários. 25. Senhor. Esta governança de Cantão será de sua obrigação, em roda, de duzentas legoas bem feitas. Cidades e villas e povoações tudo está assentado em terra chãa, metjdas polios rios, armadas as casas em madeyra. A governança de Foquem hé mais pequena, teem menos duas cidades. Será de sua obrigação, em roda, cento e sesenta legoas. Hé cousa muito boa, e assi as cidades e villas assen- tadas do theor deste Cantão. Estas duas folhas em que estão estas governanças não se desapegarão, porque dizem estas cousas que aqui vão escritas53. 26. Eu, senhor, tenho o livro de todas quinze governanças, cada governança qantas cidades tem, e villas e outros lugares, tudo escripto largamente; e o modo e maneira que se tem em toda a ter- ra, e do regimento delia, como de todo o mais; e cidades, como estão assentadas, e outros lugares; e assi proveitos d'el-rey nosso senhor. Está hum homem estudando. Eu, senhor, sey leer [e] escrevo a letra da terra, que estou doente, e vejo os chins e tomo a letra. 96
  • 27. [N]esta folha, senhor, debuxada estáa a governança de Cantão toda, a qual significa os rios, as cidades, que são dez, todas per seu nome, ao pé dessa folha. Em huma cidade54 que se chama Aynão, que quando vem pera este porto fica à mão esquerda, tudo são ilhas, como ahi, senhor, vereis, nas quaes ilhas está huma popu- losa cidade e tres cheos55, que são abaixo da cidade, e dez villas, que cada villa hé mayor que a cidade d'Évora, dez vezes mais gen- te; outra villa onde estão capitães de guerra, como são esses que em vossa guarda estão. Destas ilhas a esta cidade de Cantão averá cin- quoenta ou sesenta legoas. 28. Polio [que], senhor, são quinze grandes cidades, e muito grandes povoações; hé cousa rica, de grandes rendas e de palmares e arequas. Por respeito destes arequaes e palmares hé a milhor cousa que há na terra da China. [É] onde se pesca o aljofre todo; em outra parte não no há, salvante nessas ylhas. As quaes ilhas, senhor, partem da banda do sul com o reino de Cauchim. E desta terra de Cantão pera irem lá mete-se hum braço de mar; com bom vento passa-sse em hum dia, e ruj vento [em] dia e noyte. 29. Pollo qual, senhor, feita fortaleza nesta cidade, estas cida- des são logo levantadas, e a mais da gente andarem56 a roubar e matarem a hum e a outros. Porque não há-de ter quem a governe, nem a quem obedecer, porque ão-de matar os mandarins ou fogi- rem, que a gente hé muito pobre e maltratada dos mandarins que governão. 30. Estas ilhas e cidades não teem, senhor, nenhuma maneira de socorro, fazendo-sse huma fortaleza na principal cidade, com quinhentos homens estantes nella, e com muita fustalha que corra o braço do mar, com outros quinhentos homens, ficão sometidas a obedecerem a el-rey nosso senhor. Porque do geito com as rendas que sohião a pagar ao rey, destas cidades [e] destas ilhas tirar-se- -há grande riqueza em grão maneira, como a terra assentar, que são as rendas muy grandes. 31. Deveis saber, senhor, que mais foy tomar-se Goa do que será tomarem estas cidades e sogigarem, por respeito da gente ser muito fraca em grão maneira. E não teem lealdade com rey, nem com pay, nem may, não andão senão com quem pode mais, que cousa tam boa se deixa d'alcançar assi, pollo conseguinte. Teem 97
  • grão copia de gimgibre; esta governança teem muito gemgibre muito bom, e canella, [que] não hé muito fina. 32. Pollo qual, senhor, deixo esta substancia desta Aynão. Torno, senhor, a esta cidade de Cantão, que hé a cabeça desta governança, scilicet, estão aqui os mandarins grandes todos, os fei- tos da iustiça aqui vêm despachar, [e] rendas. Pollo conseguinte, hé fermosa e populosa cidade; hé cousa muito à mão pera o poder d'el- -rey nosso senhor nella fazer cousas façanhosas. Estáa do geito da cidade de Lisboa. Hum galeam que nesta cidade entrar a fará ren- der, porque mete a cidade debaixo de sy. Não averá homem que apareça como artelharia tirar; não averá homem que apareça, nem quem governe gente, nem menos a cidade. 33. Vind huma frota com três mil homens, farão huma forta- leza na cidade, tomando-a por el-rey nosso senhor; a qual fortaleza farão onde Christovão Vieyra escreve, com huma couraça que venha sobre a porta da cidade, de tres ou quatro sobrados, que sogigue a metade da cidade. Farão dentro na cidade huma fortaleza em hum outeyro onde estão humas igrejas dos chins, a qual forta- leza será do geito da de Calecu[te]; tomará sobre o muro da cidade que vay pera a banda do norte, com huma torre grande que jogue pera aquella banda, e fica a cidade toda sometida debaixo. No qual lugar á pedra, madeyra e telha pera fazerem duas fortalezas, com os pedreyros da terra, e servjdores como areas polia praya do mar. Estarão nesta fortaleza atee cem homens, e as chaves da cidade de noite dar-se-ão ao capitão desta fortaleza. As portas que vão da banda do norte e do levante [e] ponente serão fechadas; a serventia será pera a banda do rio. 34. Com fazerem porteiros, em cada porta, hum portuges e cinquenta homens da terra, que tenhão cargo da porta. Esta gente à soldada, cada dia dous fõs57 a será de padada. Que será pollo estillo da terra, á-de saber quem entra na cidade e o que vem fazer. E há-de hir polias chaves polia menhãa, à fortaleza que está dentro na cidade. 35. Pera cima desta cidade, onde se fazem dous rios, se fará huma fortaleza feita de muralhas altas, com muita artelharia, com duzentos homens e fustalha que se dizem. Alguma gente que lhe terão, senhor, [o] rio, não tem pera onde possão vir a esta cidade. 98
  • Polio qual, senhor, hé mais de soster Goa do que será soster esta governança; e allém d'el-rey nosso senhor aver grande riqueza, toda a outra gente há-de ser riqua, porque a terra dá lugar a tudo, polios muitos cargos que na terra hão-de ter. 36. Pollo qual, senhor, de principio aver-se-á destes paraos da terra grandes, que são sufficientes pera ysso, e correrão quantos rios por hi ouver, e queimarão quantos barcos acharem, e iuncos. Como isto, ao presente, for queimado e destruido, à fome morre- rão, que não teem por onde lhe venhão mantimentos; e se algum caminho teem, não ousão de andar por elle, por respeito que tudo são ladrões. No mundo se não achará terra de riqueza e pera some- ter debaixo do poder senão esta, e não muito poder. E se o poder for grande, quanto mais riqueza se alcançará. 37. De principio, senhor, serão altamente castigados com arte- lharia, que fallando agora nella metem o dedo na boca d'espantados de cousa tam forte, por respeito de ser gente que não teem estama- go, e des' que nace até que morre não toma na mão senão huma faca sem ponta pera cortarem de comer. Salvante, senhor, a gente que trazem asoldadada, que andão guardando com esses capitães os portos e rios de ladrões, e por se não fazerem iuncos grandes por se não alevantar o povo a fazerem[-se] ladrões. Porque vivem em grande sogeição, como Christovão Vieyra dá conta nessas cartas que escreve, em que se dá a conta, senhor, toda. 38. Pollo qual, senhor, se fará nesta cidade outra casa da índia, não trazendo [nada] de Portugual, salvante daqui levarem nao carregada de prata e ouro pera na índia fazerem carga das naos pera Portugal, e se fazer o gasto na índia. Daqui irá cobre, salitre, chumbo, pedra ume, estopa, cabres, todo o ferro, pregadura, breo. Todas estas cousas são tanto em abastança que hé pera espantar. Aqui se fará toda a armada que na índia se ouver mister: galées, galiões, naos. Há madeira muita, carpinteiros da terra muitos, como bichos, e assi ferreiros, pedreyros e telheiros; outros officiaes é pera espantar. Não há portuges nenhum de pôr mão em pedra nem em pao pera se fortaleza fazer. 39. [Com] toda pimenta de Pacem, de Pedir58, Patane, Banda, se fará uma grande feitoria de riqueza. Aqui, como a terra asentar, porão a pimenta em quinze, dezaseis tãis59, que ninguém não há-de 99
  • tratar com ella, somente el-rey nosso senhor. E assi, senhor, todal- las mercadorias de Syáo tomarão, scilicet, pao, e dar-lhe-ão outras mercadorias, porque a feitoria há-d'estar chea de mercadoria da ter- ra. E assi, a mercadoria dessas partes far-se-á numero de riqueza, e à gente d'armas não lhe [será] necessário tratar com estas mercado- rias, porque a terra hé tamanha e de tamanhos proveitos que se cem mil homens ouver, todos terão cargo, e todos são pollo estillo da terra, de peitas e dádivas muito grandes. 40. Daqui, senhor, correrão na governança de Foquem, a qual governança teem oito cidades e setenta villas. Povoações de tres mil vezinhos se não falia, salvante cousa de muros. Pollo qual, se corre com sul, tornará quando quiserem, que sempre teem monção, que entrão por rios. Pollo qual, senhor, daqui se ordenará capitão- -moor, com trinta vellas, scilicet, galees, fustas, tudo cousa de remo, e algum galeão. E de pareas, por estas cidades, villas, povoa- ções, trarão galées carregadas de riqueza. Com seiscentos homens se fará tudo isto. 41. Porque senhor, toda a cidade, por concerto, pagará coren- ta, cinquoenta mill tãosw de prata, as villas vinte, trinta mill taes; e levarão mercadorias e trarão mercaderia. Estas páreas por respeito de não destruírem a terra e de sse não alevantar o povo com a governança, matando mandarins, e [de não] roubarem nas feitorias d'el-rey, que todas estão cheas de prata, scilicet, toda a cidade tem feitoria, mandarim grande [e] outros tres que governão e teem cargo de justiça; [em] toda a villa há feitoria. Hé cousa boa esta governança. E correrão polia costa ao sul, com pilotos da terra; irão logo dar na governança de Chaqueam, que teem onze cidades e oytenta villas. Hé muy riqua governança, de muitas e grandes ren- das; teem muita prata e muita seda. Com seiscentos, setecentos homens trarão a frota carregada de prata, tudo de páreas. Esta costa de Foquem he limpa. Ao mar deste Foquem, senhor, estão as ilhas dos Léqueos, tres dias de caminho de Foquem. São muitas e são riquas, de muito ouro e cobre [e] ferro. Vêm cada dia fazer mercadoria a esta terra de Foquem. Esta gente, em tempo do rey de Malaca hião a Malaca fazer mercadoria; e agora vão a Patane. Estas ilhas dos Léqueos hé cousa boa, e assi que cousa grande. Estão ao mar deste Foquem, tres dias de caminho. Muito ouro, 100
  • muitas mercadorias. Vêm fazer cada dia mercadoria a esta terra. Soyão de hir a Malaca no tempo do rey delia; agora vêm a Patane fazer mercadoria. Também gasta muita pimenta. 42. Martim Affonso de Mello, senhor, vinha bem ordenado pera fazer paz e nos tirar, e fazer fortaleza em tal lugar. Davão mal enformação a el-rey nosso senhor; acabara tudo, porque trazia embaixador, e vinha polio que aqui estava. Quis a mofina de muitos que se fizesse tamanho desarranjo como se fez, em mandar assi dous navios com homens mancebos que se não virão nunca cm nada. Pollo qual, senhor, cada navio tirava pera seu cabo. Quando tanta cópia de iuncos virão [este] desmancho, forão dar co navio de Diogo de Mello, sem lhe tirarem bombardada, nem homem tirar espada da bainha, fazendo zombaria que se armasem pera os rumes61. Pedro Homem socorria a Diogo de Mello; foi-se meter antre os iuncos sem tirar bombardada. Os juncos, senhor, erão alta- rosos; às pedradas os tomarão. Matarão Pedro Homem e Diogo de Mello nos navios, e outros homens e a outra gente trouxerão a esta cadea, atrjbulados como Deos sabe. Estiverão assi hum anno, às vezes açoutados deste tronquo que tem cargo destas cadeas. Espe- ravão os mandarins que viessem portugeses, [até] que passou a moução. Levarão-nos a matar, fazendo feas justiças nelles. 43. O mundo todo, senhor, não era bastante a tomar hum navio noso, quanto mais dous, se lhe amostrarão os dentes. Estive meu hirmão, senhor, nesse porto tres meses cercado, com manter mais que dez ou doze homens sem o poderem entrar, porque lhe amostrava os dentes, e se foy como, senhor, lá sabereis, ficando-lhe nesta cidade a gente presa. [E] em meu poder passante de dez mil taes; tudo me foy tomado, pollo qual me salvou Deus, por respeito desta fazenda. 44. Pollo qual, senhor, se o senhor governador deixar assi estar esta governança em tanta bonança, sem aver alguma detreme- nação sobre a vinda, bem se pode ordenar de Malaca e de Pacem cinquo vellas bem armadas e com mercadorias, a nos pedirem, com fazerem cortes62 do theor que vay nas cartas de Christovão Vieyra. E far-se-ão tres cartas: ao ceuy, pachency63, anchacy, asta o64 que a ysso as manda e!-rey nosso senhor pollo embaixador e gente que têm nas cadeas, que há vinte annos que são nesta terra65, sem o rey 101
  • nem os mandarins os despacharem; e se os não quiserem dar, averá el-rey nosso senhor outro conselho. Tanto que chegarem, os66 man- darão [a] estes mandarins que guardam o porto, e [dirão] que tra- zem mercadoria, se a quiserem fazerem, e pagarão seus direytos como erão de principio. E se quiserem vir a esta cidade, estrui-la- -hão toda com artelharia e lhe porão fogo, que entrão as casas no rio, e [são] de madeyra, assi na cidade como de fora, sem aver quem a defenda. Não a hi quem aguarde a cousa de frange. 45. Pedindo-nos sempre em todas as cartas que se fizerem, seja a primeira materia, por nos não afogarem, que teem grande receo de nós, [que] daremos emfor[ma]ção da terra; porque como nos deixarem de pedir hum pouco, logo nos hão-de afogar, que de nós estão temorizados. 46. Se caso for, senhor, que pareça bem ordenar embaixador, não oulhando o que hé feito na terra, que o pago o senhor governa- dor lho dará. Os mandarins o receberão com presente de chamalo- tes e veludos e grandes panos d'armar bargantes, que tenhão veados e coelhos, segundo67 se acharem, não se metendo cousa de aves no presente, porque não folgão com ysso; espelhos grandes, coral, san- dallo, cousas que pareção bem. 47. Isto, senhor, seja oulhado: se farão nisso os seus capitães servjço a el-rey nosso senhor, e neste tempo todo fazer a mercado- ria, em quanto for o embaixador ao rey e vier. Estas cartas são escritas redobradas, porque se se perderem humas que fiquem sem- pre outras. 48. Que o geito da terra hé chamarem ao seu rey "filho de Deus"68, e ha terra chamão "terra de Deos"; e toda outra gente de fora da terra chamão "salvagens"69, que não conhecem Deus nem terra, e que todo o embaixador que vem a sua terra que vem obede- cer ao "filho de Deos", e outras vaidades, senhor, que hé muita lei- tura. Eu, como, senhor, digo, estou do corpo muito cibado70 de pontadas e dores; e não me dá lugar a escrever com pena nossa, senão com pena china, não se podendo fazer mais declarada letra. Christovão Vieyra escreve com pena nossa, porque está em boa dis- posjçáo. Feita nesta cidade de Cantão, dentro nas cadeas enfernaes, a dez dias de Novembro, na era de 1536 annos71. Encomendando- -vos a Nosso Senhor, vos leve desta China como desejão vossas 102
  • merces. 49. Quando, senhor, se escrevem estas, estou eu sempre em vigia, se vem algum chim, não nos topem a escrever, que dos mes- mos nosos moços, senhor, nos guardamos, porque andão mais dei- tados aos chins que comnosco. 50. De todallas cartas que, senhor, chegarem, escrever "che- garão tantas cartas". Não se faça mais leitura sobre isso, que tendes muito que escrever, senhor, ao que homem pergunta. Toda a carta grande e pequena sejão guardadas, sem se romper nenhuma nem perder, das que forem pera ysso. Vasco Calvo. NOTAS 1 O título está errado. Na realidade, a carta foi escrita por Vasco Calvo. 2 D. Ferguson referiu já que não foi possível identificar o destinatário da carta de Vasco Calvo. Tratar-se-ia, provavelmente, do capitão de uma frota portuguesa estacionada ao largo de alguma das ilhas do litoral da província de Cantão (cf. Letters, p. 145, n. 81). 3 Leia-se "desalivia". 4 O capitão português Heitor da Silveira morreu em Fevereiro de 1531, no ataque à ilha de Beth, no litoral indiano. Esta referência constitui um dos argumentos (jue justificam a datação das cartas proposta por A. Cortesão (1524); cf. T. Pires, À Suma Oriental, pp. 43-46. 5 Estreito de Babelmandebe. Heitor da Silveira comandou várias expedições ao Mar Vermelho. 6 D. Ferguson afirma tratar-se de uma medida correspondente a cerca de dez pal- mos e meio. 7 Leia-se "a". 8 Isto é, "subjugue". 9 Leia-se "as". 10 Leia-se "porão". " D. Ferguson leu "terra" (Letters, p. 87). 12 Isto é, cancheufu ; trata-se da prisão central de Cantão, dependente do governa- dor da cidade (cf. nota 51 de carta de Cristóvão Vieira). 13 Leia-se "esse", isto é, o cancheufu; cf. nota anterior. 14 Leia-se "recolherão". 103
  • 15 D. Ferguson identificou estes nomes como Nanhai e Pwanyu, os dois distritos em que se situa a cidade de Cantão (Letters, p. 147, n. 89). 16 Leia-se "taéis"; cf. nota 63 da carta de Cristóvão Vieira. 17 O gudão era um armazém subterrâneo, normalmente utilizado para armazena- mento de arroz (cf. S. R. Dalgado, Glossário, vol. i, p. 445). 18 O pico era um peso oriental equivalente a 60 quilogramas; cf. nota 159 da carta de Cristóvão Vieira. 19 Leia-se "terão". 211 D. Ferguson sugere que se trata da abreviatura de "fanóes" (Letters, p. 148, n. 91). S. R. Dalgado define o fanão como "antiga moeda de ouro ou de prata, corrente na índia meridional, de valor variável entre 20 e 40 reis" (Glossário, vol. I, p. 386). No entanto, a equivalência dada por Vasco Calvo (um fó equivale a quatro reis) permite supor que o fom era uma moeda ou medida chinesa. Frei Gaspar da Cruz parece confirmar esta interpretação, pois refere, no seu Tratado, "hum foom d'arroz, que hé huma medida quanto hum homem pode levar àas cos- tas" (in R. D'Intino, Enformação, p. 244). Em nota a esta passagem da obra do frade dominicano, R. D'Intino afirma que fen ou fan é "um centésimo da onça de prata chinesa" (Enformação, p. 244, n. 290), o que não parece adaptar-se ao texto de Vasco Calvo nem ao de Frei Gaspar da Cruz. 21 O ceitil era uma antiga moeda de pouco valor; o termo usava-se como sinónimo de "insignificância". 22 Leia-se "cal". 23 Atabaque é a antiga designação do timbale, espécie de tambor metálico. 24 D. Ferguson identificou nesta palavra o sufixo kang, "o vigilante da noite" (Let- ters, p. 148, n. 95), no que foi seguido por R. D'Intino (Enformação, p. 42, n. 10). Trata-se, provavelmente, de um erro do copista, e a frase deve ler-se "Tal como do muro...". 25 Atabale é sinónimo de atabaque; cf. nota 23. 26 Leia-se "virão". 27 Talvez erro do copista por "saios". 28 Talvez erro do copista por "cuidão" ou "curão". 29 Leia-se "velha". 311 Leia-se "anda". 31 Isto é, "Calicute". 32 Leia-se "jogar", isto é, "atirar". 33 A Ilha da Veniaga tem sido identificada com Tamão; cf. nota 5 da carta de Cris- tóvão Vieira. 34 Cf. nota 11 da carta de Cristóvão Vieira. 35 De acordo com D. Ferguson, trata-se de Chiuchau-fu (Letters, p. 152, n. 2). 36 De acordo com D. Ferguson, trata-se de Changchau, a que os portugueses tam- bém chamavam Chincheo. Este topónimo "had a wide range of meanings to both Portugueses and Spaniards, although it was most often used to denote the Bay of 104
  • Amoy and its hinterland" (C. R. Boxer, South China, p. 313). 37 Isto é, "cânfora". 38 D. Ferguson não consegi|iu identificar esta localidade, sugerindo a identificação com algum porto situado no Golfo de Tonquim, perto da ilha de Aináo. A. Kam- merer, no entanto, identifica este topónimo com a cidade de Kuang-hai, situada no litoral chinês, a norte da ilha de Sanchoãò (La découverte, p. 146). 19 Esta passagem sugere que os prisioneiros portugueses teriam conseguido manter contactos com compatriotas seus que comerciavam nas ilhas do litoral chinês. 40 D. Ferguson identificou estas cidades com, repectivamente, Luichau e Lienchau, no sul da província de Kuangtung, e Kiungchau, na ilha de Aináo (Letters, p. 153, n. 6). 41 Leia-se "velas". 42 O nome chinês para Cantão é precisamente Kuangchau-fu. No entanto, o con- texto sugere uma outra cidade, certamente a "Quanchen" antes mencionada, isto é, Kiungchau, na ilha de Ainão (cf. nota 40). 43 Trata-se da cordilheira de Li-mu-ling. 44 R. D'Intino leu "altamente" (Enformaçáo, p. 45). 45 Trata-se de Anung-hoi; cf. nota 315 da carta de Cristóvão Vieira. 46 O berço era uma antiga peça de artilharia; cf. nota 76 da carta de Cristóvão Viei- ra. 47 Os Léquios têm sido alternadamente identificados com a ilha Formosa ou com o arquipélago de Ryu Kyu. 48 O mesmo que "águila", do malaiala agil, madeira odorífera (Aquilaria agallocha) usada como incenso (cf. S. R. Dalgado, Glossário, 2" ed., vol. l, p. 22). 49 Trata-se de Jorge Álvares, o primeiro português que visitou a China em 1513 e que faleceu de doença em 1521 na ilha-de Tamáo, no litoral meridional da China. Aparentemente, Vasco Calvo não tivera ainda conhecimento da morte do seu compatriota (cf. João de Barros, Década III, liv. 6, cap. 2). No entanto, Cristóvão Vieira refere a captura do junco de Jorge Álvares pelos chineses (cf. parágrafo 14 da sua carta). 50 Esta é outra das referências problemáticas da carta de Vasco Calvo. Cf. a obser- vação de A. Cortesão: "Ferguson julgou que este 'Dom Estêvão' era Dom Estê- vão da Gama, filho de Vasco da Gama, que em 1534 era capitão de Malaca e em 1540-2 Governador Geral da índia. Mas há aqui outro engano: o copista escreveu 'Dom Estêvão' onde no original estaria 'Dom Aleixo'. D. Aleixo de Menezes, sobrinho do Governador-Geral Lopo Soares de Albergaria, foi em 1518 com uma armada a Malaca e em 1520 era Governador-Geral interino da índia, quando o Governador-Geral Diogo Lopes de Sequeira foi ao Mar Vermelho. Em 1521 D. Aleixo estava em Cochim onde despachou vários navios para Malaca e China, entre os quais provavelmente se contava o navio de Diogo Calvo que chegou a Tamáo em 1521. Não havia, então, 'D. Estêvão' algum na índia a quem pudessem ser enviadas tais cartas" (in Tomé Pires, A Suma Oriental, pp. 44-45). A proposta 105
  • de A. Cortesão, relativamente ao engano cometido pelo copista ao escrever "D. Estevão", é um pouco forçada, como notou H. Livermore (Fernão Mendes, p. 359, n. 39). A sua única fundamentação é o facto de Jorge Álvares ter morrido em Tamáo em 1521. Tratar-se-á de outro Jorge Álvares, a quem teriam sido entregues cartas dos prisioneiros portugueses, depois de 1534, para ele as fazer chegar às mãos de D. Estevão da Gama, capitão de Malaca? Lembremo-nos que a homonímia era muito frequente na época. Ou as cartas teriam sido entregues ao mesmo Jorge Álvares antes de 1521? E, neste caso, quem seria o "D. Estêvão", destinatário das cartas? Trata-se de uma questão ainda por resolver. Cf. nota 26 da Introdução. 51 Jurubaça era o nome dado aos intérpretes no Extremo Oriente; cf. nota 165 da carta de Cristóvão Vieira. 52 Segundo D. Ferguson trata-se da prisão do ngancba (Letters, p. 158, n. 17). 53 Vasco Calvo refere-se certamente a mapas que seguiam anexos à sua carta. 54 Leia-se "ilha". 55 Cheu, do chinês tchen, "designa uma comarca dependente de fu, e sua cidade principal" (S. R. Dalgado, Glossário, 2" ed., vol. I, p. 342). No entanto, Vasco Calvo terá confundido este termo com cheno, que designa a cidade de mercado (cf. nota 233 da carta de Cristóvão Vieira). 56 Leia-se "andará". 57 a. nota 20. 58 Antigo reino situado na costa noroeste de Samatra (cf. Vise. de Lagoa, Glossário, vol. ill, p. 39). 59 Leia-se "taéis". 60 Leia-se "taéis". 61 Rumes. Termo com que os portugueses, no século xvi, designavam os Turcos em geral. 62 Leia-se "cartas". 63 Isto é, pochanci. 64 D. Ferguson pensa que "asta o" se trata de um erro do copista por aitão (Let- ters, p. 165, n. 36). No entanto, parece-me que o contexto não justifica essa inter- pretação, pois Vasco Calvo refere três cartas e três funcionários. 65 Vasco Calvo afirma explicitamente que o embaixador Tomé Pires e a sua gente estavam "nesta terra" há "vinte anos". A não ser que se trate de mais um erro do copista por "sete", como supôs A. Cortesão, um pouco forçadamente, esta refe- rência dataria a carta de Vasco Calvo de 1536 (vinte anos desde a chegada de Tomé Pires a Cantão em 1517), pondo em causa a datação proposta por A. Corte- são (1524), que tem sido adoptada por quase todos os investigadores que se têm ocupado das cartas dos cativos de Cantão (cf. nota 26 da Introdução, nota 91 da carta de Cristóvão Vieira e nota 50, acima). Por outro lado, esta passagem permi- tiria supor que o embaixador Tomé Pires ainda vivia quando a carta foi escrita (1524 ou 1536). 106
  • 66 Leia-se "as [cartas]". 67 No original: "se qdo". R. D'Intino leu "se quando" (Enformação, p. 53). 58 De acordo com a concepção cosmológica dos chineses, o imperador ocupa o cen- tro do universo terrestre e é homólogo de Deus, que está no centro do universo celeste (cf. R. D'Intino, Enformaçáo, p. 53, n. 23). Cf. nota 376 da carta de Cris- tóvão Vieira. 69 Cf. nota 356 da carta de Cristóvão Vieira. 70 Talvez erro do copista por "crivado". 71 Isto é, "1524", segundo A. Cortesão. Cf. nota 26 da Introdução, nota 91 da carta de Cristóvão Vieira, e notas 50 e 65, acima; depois de tudo o que foi referido nes- tas notas, parece-me que se impõe uma revisão da datação proposta por A. Corte- são, pois é provável que as cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo tivessem, de facto, sido escritas em 1534 e 1536, respectivamente. 107
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  • DOCUMENTOS Sk )E®A)((0)S ... "Os relatos de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, conheci- dos como Cartas dos Cativos de Cantão, constituem os primeiros testemunhos presenciais escritos por Europeus sobre a China desde os tempos de Marco Polo, e são documentos fundamentais para a história das primeiras relações entre Portugal e a China. (...) transmitem-nos valiosas informações presenciais sobre numerosos aspectos da realidade chinesa - geografia, administra- ção local, organização das estruturas produtivas, potencialidades comerciais, recursos bélicos em termos humanos e materiais, vida quotidiana dos Chineses, prisões e sistema judicial,..."
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