DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ARTUR BASILIO DE SÁ INSULÍNDIA 3.0 VOL. (1563-1567) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR LISBOA / MCMLV
DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE
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w REPÚBLICA PORTUGUESA MINISTÉRIO DO ULTRAMAR DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ARTUR BASILIO DE SÁ INSULÍNDIA . 3.» VOL. (1563-1567) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR DIVISÃO DE PUBLICAÇÕES E BIBLIOTECA LISBOA/MCMLV
F). N. L. DEPOSITO LEGAL 218087 *28.XIIÚJ Esta publicação foi autorizada por despacho de S. Ex." o Ministro do Ultramar de 2 de Janeiro de iq$5
INTRODUÇÃO
7\/o prosseguimento da nossa tarefa, paciente e assaz ^ grata, publicamos agora o terceiro volume desta colecção documental. Mantém-se, deste modo, com ritmo acautelado, mas persistente, a continuidade duma obra, cujo alcance nos tem merecido as necessárias preocupações e as convenientes diligências, a fim de conseguirmos, quanto em nós estiver, as possíveis garantias de bom êxito e de justificado inte- resse. A ninguém, mais ou menos versado nestes trabalhos de investigação, escapam as vicissitudes a que os mesmos andam sujeitos. Cada época tem os seus escolhos, cada volume, pode dizer-se, a sua dificuldade peculiar. No momento em que nos encontramos desta publicação, o magno problema consiste na consulta dos arquivos es- trangeiros, cujas fontes documentais não podemos dis- pensar. São óbvios os obstáculos que neste particular se apre- sentam, por vezes, insuperáveis. Saudámos, por isso, com sincero entusiasmo o Decreto que fundou a Filmoteca Ultra- marina Portuguesa, cujos serviços, na sua fase inicial ainda, podem atender já o consulente estudioso em grande parte do que se refere aos assuntos da índia. Com o mesmo entusiasmo e esperança saudamos, agora, o Decreto-Lei n.° 40.070, que veio criar o Centro de Estu- 1 x INSULÍNDIA, III — B
dos Históricos Ultramarinos, organismo destinado a coor- denar e estimular a investigação histórica relativa à acção dos portugueses em terras de além-mar. Das suas disposições legais, inspiradas na protecção e auxílio à cultura ultramarina portuguesa, ressalta com ras- gada projecção a importância e oportunidade deste Decreto- -Lei. Praza a Deus que os seus ousados objectivos possam concretizar-se em obras de valor. Apesar de tudo, sempre hão-de restar óbices a vencer, reveses a admitir, lapsos a lamentar, e que constituem a marca infeliz de todo o labor humano. À medida que vamos avançando neste trabalho de in- vestigação, e os documentos surgem eloquentes, com o seu testemunho insuspeito, a acção dos portugueses naquela zona insulíndica define-se cada vez mais. Os seus defeitos, os seus erros, os seus desmandos, até, encontraram naque- las paragens, isoladas e distantes, circunstâncias especiais de se produzirem. São, porém, estas as manchas dum quadro, cujo fundo de beleza transparece nas palavras do potentado indígena, rei de Ternate, numa passagem das Informações de Gabriel Rebelo, quando os próprios por- tugueses, ali residentes, não se entendiam quanto à nomea- ção dum capitão interino para a fortaleza: «Senhores Portuguezes, não ha quem duvide que, x
antes que viesseis a esta terra, erão os Malucos mui barbaros, e ainda, em suas couzas, de pouco saber; e o bom que agora temos, de vos o aprendemos, porque vos governais por letrados e religiosos, e justiças que endereitão as couzas tortas, pello que o vosso entendimento he mais verdadeiro, e a este quero seguir. Pelo que vos peço, da parte del-rei, meu senhor, que digais a qual destas leis devo se- guir, pera que Sua Alteza seja bem servido; e sobre vos seja do erro a culpa, se o ouver, porque estou Prestes pera seguir o melhor.)> Estes e outros testemunhos têm em nosso tempo uma eloquência muito a propósito e há-de reconhecer-se algum merecimento a esta publicação, ao menos, pelo facto de os coligir e divulgar. Os TRINTA E CINCO DOCUMENTOS DESTE VOLUME Consta este volume de trinta e cinco documentos, escri- tos entre 1563 e 1567. Terminam nesta data as cópias das cartas dos missionários jesuítas, em serviço nas Molucas, e insertas nos códices dos arquivos portugueses, a que já nos referimos no volume (interior.
A correspondência desses abnegados missionários con- tinuou, mais ou menos espaçada, conforme permitia o de- senrolar dos factos e o azar das circunstâncias. Esperamos em Deus poder incluir também nos subsequentes volumes essa correspondência, dispersa por diversos arquivos es- trangeiros. Embora o testemunho de tais documentos nem sempre deva ser tomado sem reservas, contêm, por vezes, infor- mações das mais preciosas, e dum valor histórico incon- testável. Além da correspondência dos religiosos da Companhia de Jesus e de alguns documentos mais, de relativa impor- tância, como o Regimento da Fortaleza de Maluco, publi- camos neste volume as INFORMAÇÕES de Gabriel Rebelo, em dois textos, que se completam ou corrigem, escritos em datas diferentes: o primeiro em 1561, e o segundo em 1569; aquele ainda inédito, segundo cremos; este, editado já pela Academia Real de História. Do primeiro texto existem duas cópias na Biblioteca Nacional, e do segundo, somente uma, na mesma biblio- teca, já de nossos tempos, incompleta, com muitos erros e falhas, sem nenhum valor, como documento histórico. Sobre o original do primeiro texto não encontrámos quaisquer referências à sua existência. Quanto ao original X 11
do segundo, dava-se como pertencente à biblioteca da Casa Cadaval. Graças à gentileza da ilustre representante desta Casa, e com o auxílio do seu bondoso e digno Capelão, Rv. Pe. Francisco Leite de Faria, realizámos naquela biblioteca minuciosas diligências, a fim de descobrirmos este precioso original, apesar de vários indícios que nos levavam a crer ter sido já dali retirado, ignorando-se como, e Por quem. Baldados todos os nossos esforços, tivemos que chegar à dolorosa conclusão de que o interessante e valioso manus- crito de Gabriel Rebelo deve ser mais uma peça espoliada ao nosso desfalcado tesouro documental, verificando, con- tudo, que em IÇ15 ainda pertencia ao recheio daquela Bi- blioteca, conforme indicamos nas devidas páginas deste volume. Não podendo excluir da nossa colecção documental estas Informações escritas por Gabriel Rebelo, publicamos os dois textos, uma vez que se completam; o primeiro, segundo a cópia existente na Biblioteca Nacional; e o segundo, pela edição da Academia. Nesta procuramos su- prir algumas falhas, corrigir certos erros de leitura, expli- car passagens confusas, identificar nomes de lugares e, quanto nos foi possível, dar o sentido dos termos indígenas, servindo-nos para tanto dos lugares paralelos do primeiro texto. Todas estas nossas operações encontram-se, porém, XIII
indicadas por tipo de composição diferente, entre parên- teses, ou em notas à margem, e pretendem somente con- tribuir para a preservação desta obra, para se não perder o valor que, apesar de tudo, ainda conserva. Tanto para a história dos portugueses nas Molucas, como para o estudo da vida daqueles povos, as Informa- ções de Gabriel Rebelo são uma obra básica, e cremos não se poder dispensar na bibliografia da cultura nacional indo- nésica, recomendando-se, até, a sua tradução em malaio. O autor viveu nas Molucas, durante anos; tomou parte notável nos principais acontecimentos que relata; desem- penhou ofícios públicos; foi mesmo capitão-substituto da fortaleza de Ternate, ainda que por alguns dias, apenas. Esta permanência e actividade naquelas ilhas habilita- ram-no a escrever o seu trabalho, despido de encantos de linguagem, de estilo confuso, por vezes, mas rico de assun- tos, tratados com observação e conhecimento. Breves des- crições geográficas dos lugares; ligeiras notas sobre fauna e flora indígena; informações preciosas sobre a vida social daqueles povos; religião, usos e costumes, comércio e sua indústria primitiva; relato desapaixonado dos factos, tais são os temas dos seus capítulos. Barbosa Machado na sua Bibliotheca Lusitana Histó- rica refere-se a Gabriel Rebelo e à sua obra, de que diz existirem, então, várias cópias. Supomos, porém, tratar-se x I v
dos dois textos que aqui apresentamos, diferentes entre si e nas datas em que foram escritos. E terminamos estes simples apontamentos sobre as INFORMAÇÕES de Gabriel Rebelo, os quais nos deixam entender o valor e a importância desta fonte documental, e a razão porque também aqui as publicamos. Nota de gratidão A elaboração deste volume coincidiu com a última remo- delação do Governo, pela qual Sua Ex.* o Sr. Prof. Dr. Raul Ventura sucedeu na pasta do Ministério do Ultramar a Sua Ex.* o Sr. Capitão-de-Mar-e-Guerra M. M. Sarmento Rodrigues. No decurso do longo e fecundo mandato do insigne ministro cessante, entre os traços luminosos de aturado labor, que assinalam com preclara nitidez a sua passagem pelo mais alto cargo da mais complexa Repartição Pública, e num período especialmente difícil de absorventes e graves problemas, distinguimos também as suas medidas de apoio à obra das Missões. Recorde-se, por exemplo, o seu Diploma Legislativo N." 4., de 28 de Junho de 1952, que veio, finalmente, ga- X V
rantir ao vetusto seminário de Macau o seu povoamento de vocações missionárias, recrutadas entre os jovens da Metrópole e Ilhas Adjacentes, com passagens pagas pelo Estado, e para onde partiram já, desde a publicação do Diploma, até hoje, perto de cinquenta aspirantes aos labo- res apostólicos no campo das Missões. Que se nos releve o aprazimento legítimo em conside- rar a nossa colecção documental um trabalho de interesse e prestígio principalmente para a história da Evangelização, que mais não seja, pela eloquência dos fastos missionários que nela deixamos arquivados. Ao mesmo ilustre homem público e incansável antigo ministro, que lhe deu a apro- vação superior, se fica devendo também. Por isso, e por todas as palavras de encómio e estímulo que muitas vezes lhe escutámos, nos sentimos e confessamos profundamente gratos para com Sua Ex.''. Com a tomada de posse de Sua Ex.' o Sr. Prof. Dr. Raul Ventura, novo frémito de radioso entusiasmo agita a vida do Ultramar Português. No momento preciso, quando se chegou à solução urgente dos mais altos proble- mas, respeitantes às nossas possessões de além-mar, e à satisfação justa das aspirações ousadas de seus povos, é a inteligência do novo ministro que surge, penetrante e lú- cida, formada nas regras seguras do Direito, a iluminar XVI
o rumo da nossa acção ultramarina, com o entusiasmo duma juventude que não tolera desalentos. Nessa mesma onda de entusiasmo desejamos também entrar e servir, apegando-nos com afinco e crescente paixão à honrosa tarefa de erguer à luz da verdade a gesta missio- nária de Portugal cristão, esperando de Sua Ex.'' aquele alto apoio que valorize o nosso esforço. Sempre que exaramos esta nota, apraz-nos registar, com especial acento, os nossos sentimentos de gratidão Para com Sua Ex.' o Sr. Agente-Geral Dr. Leonel Pedro Banha da Silva, pelo apreço e interesse que esta obra lhe merece, e que são, afinal, os esteios sobre que ela se vai erguendo. Neste acto de gratidão, temos igualmente na lembrança os prestimosos funcionários da Agência Geral do Ultramar, pelo acolhimento pronto que junto de todos encontramos, e pela estima com que ali nos distinguem. De entre todos, seja-nos permitido nomear o chefe da Divisão de Publicações e Biblioteca, sr. João Cruz, a cujo saber, experiência e dinamismo esta publicação fica a dever muito do merecimento que ela possa ter. Devemos ainda o testemunho do nosso reconhecimento a todos os Ex.™' Directores dos arquivos em que trabalhá- mos e onde se nos prestou sempre o possível auxílio: Ar- quivo Nacional da Torre do Tombo, Biblioteca Nacional XVII
de Lisboa, Biblioteca da Academia das Ciências e Biblio- teca da Ajuda de Lisboa. Pela primeira vez realizámos nos arquivos da Filmoteca Ultramarina Portuguesa as nossas pesquisas. Em tão con- fortáveis instalações, auxiliados por esclarecido e gentilís- simo pessoal, com a missão principal de elucidar e atender o consulente, logo nos sentimos num ambiente onde se pre- tende que a nossa investigação seja facilitada e satisfeita. Com os melhores agradecimentos, aqui deixamos as nossas congratulações ao seu ilustre Director Dr. Pe. António da Silva Rego e Ex.m" funcionárias, por terem alcançado já que a Filmoteca Ultramarina Portuguesa seja, entre nós, um centro modelo de investigação e estudo. Queremos agradecer também, e dum modo especial, não dizemos as facilidades, mas o desvelo distinto com que se nos deu entrada na preciosa biblioteca da nobre Casa Cadaval, em Muge, quando ali nos dirigimos, por motivos de consulta. À digníssima representante desta Casa, Ex.ma Sr." Marquesa D. Olga Cadaval, apresentamos os protestos do nosso respeitoso e sincero reconhecimento. Recordamos ainda, profundamente gratos, a dedicação c competência do Ex.™ Sr. Raul Nunes, director gráfico desta publicação. E, finalmente, incluímos nesta nota de gratidão todos x v 111
aqueles leitores e amigos que se têm dignado honrar-nos com suas amáveis palavras de encorajamento nesta obra em prol das Missões, que o mesmo é dizer a bem de Por- tugal. Lisboa, i de Dezembro de IÇ55. Artur de Sá X I X
Correcções: No Vol. 2.°, pág. 453 (2) trata-se de António Paes e não de D. Jorge de Eça. Neste, durante a elaboração do índice final, verificámos alguns erros nossos de leitura e outros tipográficos que, a seguir, emendamos. Pág. 27, linha 1, leia-se: Irmão Bautasar de Araújo e não Padre Baltasar de Araújo, etiam atque etiam e não et iam atque eitarn. desterraria e não desterratiia. Irmão Gomes Vaz e não Padre Gomes Vaz. Tidore e não Titore. sucesso e não servisso. D. Afonso Manrique e não D. Afonso Manique. partes e gentes e não partes quentes. Jurdão de Freitas e não Jurdão de Pe- ritas. e em outras e não com outras, e como são servidos, e não como são. larangkan e não larangan. capitão da fortaleza e não capitão for- taleza. Jurdão de Freitas e não Jurdão de Frentas. Balthazar Velozo e não Balthazar Ve- dozo. Destes e doutros lapsos, de que somos os únicos responsá- veis, pedimos desculpa aos nossos leitores. A. S. X X 114, » 28, 129, » 15, 187, » I, 209, » 30, 216, » 24, 234, » (28), 259. » 7. 326, » 7, 342, »> 3°. 353. »' 6, 364, » (46). 399, » 26, 445. » 16, 458. » 6, 4»
SIGLAS
SIGLAS AHEI Arquivo Histórico do Estado da índia. ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo APO Arquivo Português Oriental, de Cunha Ri- vara. BACIL Biblioteca da Academia das Ciências de Lis- boa. BAL Biblioteca da Ajuda de Lisboa. BCC Biblioteca da Casa Cadaval, em Muge. BNL Biblioteca Nacional de Lisboa. CC Corpo Cronológico, colecção documental do ANTT. FILMUPO Filmoteca Ultramarina Portuguesa. F. G Fundo Geral, colecção de manuscritos da BNL. XXIII
ÍNDICE INSULÍNDIA, III —C
N-° Mg. 1 — ANTT, CC-I-106-44: Carta do Padre Diogo Ber- mudes O. P. à Rainha. Goa, 2 de Janeiro de J563 3 2 — BAL, 49-IV-50: Carta do Irmão Fernão do Souro aos confrades do Colégio de Santo Antão, em Lisboa. Molucas, 15 de Fevereiro de 1563 6 3 — BAL, 49-IV-50: Carta do Irmão Bautasar de Araújo a seus confrades. Molucas, 24 de Feve- reiro de 1563 27 4 — APO, V, N.° 461: Carta do Cardeal D. Henrique ao Vice-Rei da índia. Lisboa, 1 de Março de x5fo 43 5 — BAL, 49-IV-50: Carta do Irmão Manuel Gomes a seus confrades em Portugal. Amboino, 20 de Maio de 1563 45 6 — BAL, 49-IV-50: Carta do Padre António Fernan- des aos irmãos do Colégio de Goa. Amboino, 19 de Junho de 1563 56 7 — BNL, Fundo Geral N.° 4.-534: Trecho de uma carta do Padre Lourenço Peres. Colégio de Goa, 17 de Dezembro de 1563 ., 61 XXVII
N° Pág. 8 — BACIL, Carias do Japão, Vol. Ill: Carta do Pa- dre Pêro Mascarenhas, com outra, inclusa nesta, do Padre Diogo de Magalhães em missão nas Celebes. Ternate, 10 de Fevereiro de 1564 64 9 — ANTT, CC-I-106-119: Testamento que o Rei das Molucas fez das suas ilhas a cl-rei de Portugal. Molucas, 12 de Fevereiro de 1564 74 10— BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Carta do Pa- dre Marcos Prancudo ao Padre Diogo Lainez. Molucas, 12 de Fevereiro de 1564 79 11 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Carta do Ir- mão Manuel Gomes a seus confrades da índia. Ative, 15 de Abril de 1564 83 12 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Carta do Pa- dre Baltasar Dias. Malaca, 3 de Dezembro 1564 103 13 — ANTT, CC-I-107-38: Trecho de uma carta de D. Antão de Noronha a el-rei. Goa, 30 de Dezem- bro de 1564 108 14 — BNL, Fundo Geral N.° 4.534.: Carta do Padre Pêro Mascarenhas, s. l./s. d 109 15 — BNL, Fundo Geral N.° 4.534: Outra carta do Padre Pedro Mascarenhas ao Padre Francisco Roiz. s. l./s. d 115 16 — BNL, Fundo Geral N." 4.534: Sumário de algu- mas cartas escritas das Molucas. s. l./s. d. ... 118 17 — BNL, Fundo Geral N.° Ç15: Carta de El-Rei D. Sebastião ao Vice-Rei D. Antão de Noronha. Almeirim, 14 de Março de 1565 124 18 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Carta do Ir- mão Manuel Gomes a seus confrades. Molucas, 27 de Maio de 1565 132 XXVIII
N.o Pág. 19 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Trecho de uma carta do Padre João Baptista de Ribera ao Reitor do Colégio de Córdova. Goa, 27 de Outubro de 1565 141 20 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Parte de uma carta do Padre Sebastião Gonçalves ao Irmão Lourenço Mexia. Goa, 26 de Novembro de 1565 143 21 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Trecho de uma carta de Jorge Caldeira para o Padre Mi- rão, Provincial da Companhia. Goa, 6 de De- zembro de 1565 144 22 — AHEI, Regimentos e Instruções, N.° I: Soldos nas fortalezas de Malaca e Ternate. 1565 147 23 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Carta do Pa- dre Melchior Nunes ao Padre Leão Henriques, Geral da Companhia. Cochim, 20 de Janeiro de 1566 150 24 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Parte de uma carta do Irmão Jerónimo Roiz. Cochim, 20 de Janeiro de 1566 154 25 — AHEI, Regimentos e Instruções: Regimento da Fortaleza das Molucas. 10 de Abril de 1566 156 26 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Trechos de uma carta geral escrita pelo Padre Gomes Vaz ao Provincial da Companhia Padre Leão Hen- riques. Goa, 29 de Novembro de 1566 - 169 27 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Carta do Pa- dre Lourenço Peres ao Padre Gomes Vaz. Ma- laca. Novembro de 1566 172 XXIX
N.° Pág. 28 — APO, V-II, N.° 579: Alvará a favor de D. Duarte de Eça, ex-capitão das Molucas. Lisboa, 10 de Dezembro de 1566 179 29 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Trecho de uma carta do Padre Mestre Belchior ao Padre Leão Henriques, Provincial da Companhia. Ceilão, 20 de Janeiro de 1567 181 30 — APO, V-II, N.° 600: Transporte do cravo para a índia. Goa, 18 de Abril de 1567 182 31 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Trecho de uma carta geral escrita pelo Irmão Gomes Vaz. Goa, 12 de Dezembro de 1567 185 32 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. Ill: Trecho de uma carta do Irmão Gomes Vaz. Goa, 28 de Dezembro de 1567 187 33 — Documentação... (India), Vol. io.°: As cristan- dades das Molucas no primeiro concílio provin- cial de Goa, 1567 189 34 — BNL, Fundo Geral N.° Q2j: Informação sobre as Molucas, Texto I 192 Primeira parte, que trata da vinda dos castelhanos da armada de Ruy Lopes de Villalobos a Ma- luco; e de como se entregarão a Fernão de Souza, e da guerra e destruição do Reyno e fortaleza de Geilolo e Tidore, que os recolhião, e do fim dos odios de Bernaldim de Souza e de D. Rodrigo de Menezes, e de suas mortes 196 Cap. i.° De como D. Jorge de Castro foi capitão de Maluco, cinco annos, e no quarto vierão novas dos castelhanos 196 Cap. 2.0 Das fustas que mandou o capitão ao Moro, e do effeito que da sua hida se seguio 201 XXX
N.° PAg. Cap. 3.0 De como D. Jorge foi capitão o 5.0 anno, e de como o Geral veio a ter ao Moro, e se meteu em Geilolo, e do que lhe aconteceu com James Lobo 204 Cap. 4.0 Da entrada dos castelhanos em Tidore, e do que sucedeu naquelle anno, ate a vinda de Jurdão de Freitas 208 Cap. 5.0 De algumas razões porque os Malucos reco- lhem os castelhanos, e os aborrecem, e nos fa- vorecem 210 Cap. 6." Da chegada de Jurdão de Freitas a Maluco, e do que sucedeu ao depois da sua vinda, e tempo das pazes com os castelhanos, e prisão de el-rei 213 Cap. 7.0 Da chegada de Fernão de Souza a Maluco, e do successo delia, das pazes com os castelha- nos e hida a Geilolo 216 Cap. 8.° Da posse que tomou Jurdão de Freitas do Reyno de Maluco, por el-rey, nosso senhor, e da morte do Çamarao, e das pazes que fez com Geilolo 223 Cap. 9.0 Da chegada de Bernaldim de Souza a Maluco, com o mesmo rey, e da prizão de Jurdão de Freitas, e dos seus odios 226 Cap. io.° Que trata de quanto tempo foi Bernaldim de Souza capitão; como, no cabo, alevantou a guerra a Jeilolo, e tornou Jurdão de Freitas a Maluco, e Christovão de Sá foi capitão 231 Cap. ii.° De como Bernaldim de Souza tornou a ser ca- pitão, e de como tomou a posse da fortaleza 234 XXXI
N.o Pág. Cap, 12.° De como poz Bernaldim de Souza por obra a hida para Jeilolo, e dos trabalhos e desgostos que nella houve, e tiverão principio 239 Cap. 13.0 De como desembarcou Bernaldim de Souza a pôr cerco a fortaleza de Jeilolo, e de como o ordenou , 241 Cap. 14.0 De como Bernaldim de Souza ordenou fazer cavas e basteies, para se chegar a fortaleza, e da vinda e ardiz de el-rey de Tidore 247 Cap. 15.0 Da derradeira briga que tiverão os cercadores com os cercados, e de como lhe acabarão de queimar sua cidade, e do primeiro conselho e derradeiro que tomou o capitão 251 Cap. 16.0 Das pazes que cometeu el-rey de Jeilolo, e de como entregou a fortaleza, ficando com ti- tulo de Çangaje e sem o de rey 255 Cap. 17.0 Dalgumas partes e gentes que houve em todo o tempo que durou o cerco „ 259 Cap. 18.0 De como Bernaldim de Souza tornou a derru- bar a fortaleza de Jeilolo, e levantou outra vez a guerra ao Çangaje, por o não querer ir ver 263 Cap. 19.0 Da tomada da fortaleza de Tidore, e do que seguio dos odios de D. Rodrigo e Bernaldim de Souza 271 Cap. 2o.0 De como se tornou o capitão para a fortaleza, e do que fez no caminho, e de sua vinda para a India, e de como se acabarão os dias de D. Rodrigo 278 Segunda parte, que tem dez capítulos, que tractão do nome de Maluco, e da cantidade das ilhas que dão cravo, e de algumas propriedades que ha XXXII
N.o P4g. nellas e de muitas diversidades de couzas que tem, e assy do que ha em outras, e de algumas maravilhas que são acontecidas no Moro 284 Cap. i.° Que trata do nome de Maluco e da condição dos naturais, e dalguns costumes que tem 284 Cap. 2.° De quantos reys ha no Arcepélago de Maluco, e de como são servidos, e de alguns bens que ha no de Tidore 291 Cap. 3.0 Da natureza do cravo, e da cantidade das ilhas que o dão, e da demarcação; e de como parece ser ella de el-rey, nosso senhor, e não dos castelhanos 300 Cap. 4.0 Do sitio da nossa fortaleza, e de algumas pro- priedades da terra, e do fogo que ha nella 304 Cap. 5.0 Das alimarias, bichos, peixes e aves que ha nestas ilhas de Maluco 3°7 Cap. 6.° Da maneira do mantimento chamado çagu, e de como se faz, e de sua beberagem, e da di- versão da fruta, e da maneira do vestido, e das curas que fazem 311 Cap. 7.0 Darte e feição das coro-coras e do arteficio com que fazem o Sal, e do geral servisso da gente da terra 3*7 Cap. 8.° Dalgumas couzas estranhas e novas que ha nas ilhas de Maluco, e em outras suas comarcas 324 Cap. 9.0 Dalguns costumes e couzas que ha no Moro, terras que se chamão de christãos 330 Cap. io.° Dalgumas maravilhas que são acontecidas nas terras do Moro, por as quaes lhe tem mostrado Deos, Nosso Senhor, seu poder, e Ley Santa... 335 XXXIII
N.o Pág. 35 — BNL, Fundo Geral, Caixa içç, Documento 41. Informação sobre as Molucas. Texto II 345 Primeira parte, que trata, por treze capítulos, os ritos e costumes dos moradores de Maluco, e das cousas diversas que ha em todo seu archipelago e do Moro e Amboino e Celebes e Papuas; pe- los quaes se verão as superfluidades que delles, em muitas partes, andão imprimidas 348 Cap. i.° Da nota de alguns principaes erros, que achei escritos de Maluco 351 Cap. 2.0 Que trata da repartição do Archipelago de Maluco, e dos reis que nelle ha, e seus costu- mes, e como são servidos 353 Cap. 3.0 Dos costumes que alcancei dos Malucos 359 Cap. 4.0 Da policia e alguns ritos de que usão os Ma- lucos 365 Cap. 5.0 Das alimarias, bichos, e aves que ha em Ma- luco 37° Cap. 6.° Do mantimento, fruitas, e do sal que fazem na terra 373 Cap. 7.0 Da cantidade das ilhas do cravo, e a ordem delle 378 Cap. 8.° Da arte das coro-coras em que navegão, e da ordem que com ellas e nellas tem 381 Cap. g.° Da nossa fortaleza, e do foguo da ilha, e do Daguamoconova e das canas de aguoa 386 Cap. io.° De algumas cousas que vi nos Arcepelagos de Maluco 390 XXXIV
N.o Pág. Cap. ii.° Que trata dos arcepelagos dos Papuas, Mo- ras, Celebes, e Amboinos 392 Cap. I2.° Que trata da policia dos Mouros, terras de Christãos 397 Cap. 13.0 De algumas maravilhas acontecidas no Moro 402 Segunda parte, que por 12 capítulos trata do seu des- cobrimento, assi pellos Portugueses como dos Castelhanos, e as armadas suas que a elle forão, particularmente da de que era Geral Rui Lopes de Villa Lobos 4°5 Cap. x.° Do descobrimento de Maluco pellos Portugue- ses e Castelhanos 405 Cap. 2.° Do que succedeo a Antonio de Brito no fazer da fortaleza 410 Cap. 3.0 Que trata da segunda armada dos Castelhanos, de que era Geral Frei Garçia de Loaisa, etc. ... 411 Cap. 4.0 Em que se prosegue a historia, e trata de outros acontecimentos '. 414 Cap. 5.0 Do fim que houveram estes Castelhanos, e doutras cousas acontecidas no tempo 418 Cap. 6.® Da nova que veio a D. Jorge de Castro desta armada, e do que por causa delia fez 422 Cap. 7.° Da armada que D. Jorge de Castro mandou ao Moro, e do que lhe soccedeo, etc 426 Cap. 8.® De como os Castelhanos se meterão em Ti- dore, e de como arribou São Joanilho, e tornou a partir; e chegada de Jordão de Freitas, e da prizão de el-rey de Maluquo 431 XXXV
N.o V&g- Cap. 9.0 De como chegou Fernão de Souza de Tavora, com a armada, a Maluquo; e das pazes que fez com os Castelhanos, e do cerquo que elle e Jurdão de Freitas pozerão a Geilolo 435 Cap. io.° De como os capitães desembarcarão a pôr cerco a Geilolo, e o levantarão; e das pazes que, depois, lhe forão feitas, e da morte do Çamarao 439 Cap. il.° Da morte de Rui Lopes de Villa Lobos, e do fim que teve a gente da sua armada 442 Cap. 12.0 De como Bernaldim de Souza tomou posse da fortaleza e entregou o reino a el-rei, e de como foi livre Jurdão de Freitas, e deixou de ser ca- pitão 444 Terceira parte, que trata, per doze capítulos, em como Bernaldim de Souza alevantou a guerra ao rei de Geilolo, e a proseguio, até lhe dar fim; e de como la foi D. Rodriguo de Menezes, com ar- mada contra outra que se esperava de Castelha- nos, e dos odios, e differenças que elle e Ber- naldim de Souza tiverão, e do fim que ouverão, e de como tomou a fortaleza de Tidore, e dou- tras muitas couzas, que acontecerão neste tempo 448 Cap. i.° De como Bernaldim de Souza alevantou a guerra ao rei de Geilolo, antes de acabar a capitania 44® Cap. 2.° De como foi Dom Rodriguo de Menezes com armada a Maluquo, com nova dos Castelhanos, por a qual tornou Bernaldim de Sousa a ser ca- pitão 451 Cap. 3.0 De como Bernaldim de Souza ordenou pôr serquo á fortaleza de Geilolo, e do trabalho que nisto teve 454 xxxvi
N.o PáR. Cap. 4.0 Da ordem que teve o capitão no desembarcar, e da primeira brigua que teverão os nossos com os cerquados, c dos trabalhos que mais passarão 457 Cap. 5.0 De alguuns rebates e novas, que o capitão teve para o estorvarem 462 Cap. 6.° De como foi queimada a cidade dos mouros, e morto o seu capitão geral, e do dezastre de hum batel 465 Cap. 7.0 Da paz feita aos cerquados, pella qual derão a fortaleza, fazenda, e artelharia 469 Cap. 8.° De algumas generalidades que ouve neste cerquo 472 Cap. 9.0 Do principio dos desgostos de Bernaldim de Souza e Dom Rodriguo; e de como foi derru- bada a fortaleza e levantada a guerra ao Geilolo 475 Cap. 10.0 De como o capitão fez derrubar a fortaleza ao rei de Tidore, e dos odios com Dom Rodriguo de Menezes 479 Cap. ii.° De como ordenou Bernaldim de Souza pren- der a Dom Rodriguo, e deixou a fortaleza, e se foi pera a índia : 485 Cap. 12.0 Em que se trata e resumem os reis que ouve em Maluco, depois que a elle forão Portuguezes 488 Cap. 13.0 Em que se prosegue e conclue a historia 494 XXXVII
ÍNDICE DAS GRAVURAS Coracora de tipo grande Coracora com mastros e velas Um casal de Kusus; o Peixe Vaca; o casco duma coracora Coracora de tipo menor e de pouca equipagem Morador português págs. 344/345 XXXIX
DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE INSULÍNDIA (1563-1567)
1 CARTA DO PADRE DIOGO BERMUDES O. P. A RAINHA Goa, 2 de Janeiro de 1563 ANTT: CC-I-106-44 (1). Documento em bom estado, só com uma folha escrita. A passagem sobre Dom Duarte de Eça, referindo-se à sua po- breza e aos serviços por ele prestados, é uma nota interessante para a biografia deste capitão das Molucas, do qual, conforme diz o Irmão Francisco Jorge, em uma carta sua, todo o mundo se queixava (2). Mede 333 x 223 mm. a) Nomeiam-no, já velho e cansado, para prior da casa de Goa. bi Construção da igreja do convento de Goa. c) Intercede, junto da rainha, por várias pessoas. La graçia dei Spiritu Santo este siempre en Vuestra Alteza. Amen. Este ano me falto la consolacion que de Vuestra Alteza recebia todos los anos, e a qual no era pequena para quien, por Dios y por Vuestra Alteza, dexo su natural y vino ha gastar la vida, tan apartado de su tierra, pues ni por Vuestra Alteza no me responder tengo de dexar de siempre (1) Publicada já em Documentação... (índia). Vol. 9.0, pp. 154- -J55- (2) Vid. Insulindia (Documentação), Vol. 2.0, pág. 432. 3
pedir charidades y esmolas, sin las quales aca no podemos vivir. Yo, Senora, estando ja viejo, cançado, aposentado en una hermita mui devota de christianidad, perto de Goa, que llaman S. Barbora, quieto y consolado, fue ellecto por prior desta casa de Goa, madre y cabeza de la religion de aca, lo qual yo acete, despues de tantos trabajos, por ver el amor, voluntad, uniformidad, con que todos me elligeron y, por la neçesidad que avia, perdi mi propria consolaçion por dar consolaçion ha tantos, assi frades como seculares, determinando de morir ja en esta tierra, y con esto pagar el gran amor que me tiene. Desta maneira fico para servir ha Dios y ha Vuestra Alteza en todo lo que me mandare. Este ano acabamos la yglesia deste convento de Goa, que el-rey, que esta en gloria, mando edificar. Fico una de las fermosas casas, que yo nunqua vi mejor y mayor, que S. Domingos 1 de Lisboa. Falta para esta yglesia una cosa mui neçessaria, que aca no ha, ny quien la aga, que son unos organos. Vuestra Alteza nolos mande, por amor de Dios. Roberte Fernandez, edificador desta casa, por man- dado de el-rey, nuestro senor, pedio satisfaçion y merçed, la qual nunca le fue feita. Haora pide una cosa muy leve: que escrivã Vuestra Alteza una carta de encomienda para el viso-rei destas partes, encomendandole Vuestra Alteza que aca le aga merçed, si allare que le mereçe. Don Duarte Deça, capitan que fue de Maluco, va desta tierra mui pobre, enfermo, dexando aca su muger y hijos de la misma manera. Vuestra Alteza se alembre del y le aga merçed, pues por honra de Dios, por la justiça y — Do». 4
verdad, perdio quanto tenia, como el mostrara por sus papeies. Va para este reino un obispo caldeo, virtuoso y spiri- tual. Va con pareçer dei Arçobispo de Cochin y de los mas prelados, pareçiendo a todos muy neçessario que este un tiempo en esse reino, para despues tornar ha esta chris- tianidad // de S. Thome, donde puede hazer mucho fructo. [i v.j Yo fue el primero que le reçeby en esta tierra y siem- pre agasalle en nuestros conventos, y porque se dei mas que ninguen, le encomiendo mas a Vuestra Alteza, y assi encomiendo un padre ytaliano que va con el, que tiene aca mucho trabaiado en la christianidad, enviado por el Papa. Vuestra Alteza le reçiba con el amor de madre que a todos reçibe, ajudando y remunerando sus trabajos y necessidades. Nuestro Senor el real estado de Vuestra Alteza siempre prospere en su sancto serviço. Amen. Oje, ha 2 de Janero de 1563. Menor siervo de Vuestra Alteza Don (?) Diego Bermudes 5
2 CARTA DO IRMÃO FERNAO DO SOURO AOS CONFRADES DO COLÉGIO DE SANTO ANTAO, EM LISBOA Molucas, 15 de Fevereiro de 1563 BAL: 4.Ç-IV-50. Fls. 569 7.-572 v. (1) Nas três cópias desta carta notam-se pequenas diferenças de pontuação e de ortografia. Em todas o texto é claro, isento de emendas ou rasuras, e a letra certa e bem legível. A riqueza de notícias, fornecidas nesta carta, fazem dela um documento precioso. a) Chegada de uma armada portuguesa às Molucas. b) Intenso movimento religioso em Ternate. c) Missa nova do Padre Fernando Alvares em Ternate. d) Visitas às várias cristandades e o fruto colhido. e) O Padre Pêro Mascarenhas adoece no Moro, e vem tratar-se a Ter- nate. /) Em Batjan, o Padre Fernando Alvares faz muito serviço, em prol daquela cristandade, onde, em seis meses, baptizou perto de tre- zentas almas. g) Progressos e contrariedades nos lugares cristãos de Amboino, onde trabalhavam o Padre Francisco Roiz e o Padre Diogo de Magalhães. h) Chega àquele porto uma armada portuguesa, com António Pais, primeiro capitão nomeado para aquela ilha. (1) BACIL: Carias do Japão, Vol. Ill, fls. 21 V.-26 r.; BNL: Fundo Geral N." 4.534, fls. 460 r.-4Óo v. 6
A graça e amor de Christo, Nosso Senhor, faça comtinua morada em nossas almas. Amen. Ho padre me mamdou que escrevesse esta carta. Se nella acharem algumas cousas que lhes não pareção bem, atribuyam-no a minhas imperfeições. Primeiramente, lhe direy, charissimos, a grande ale- gria que tivemos com a ajuda dos padres, e foi mais pella descomfiamça que tínhamos de poderem vir emtão; por- que nos tomarão de sobresalto, e como sabem, a cousa muito deseiada, alcamçada desta maneira, dobra o com- temtamento. E digo de sobresalto, porque, quando chegou o capitão (2) com as cora-quoras (3) a Baquão (stc) (4), estava eu ahi aparelhado, pera hir em huma cora-quora a Luçabata (5), a emsinar a doutrina aos cristãos, que o Padre Nicolao Nunez tinha feitos e, tanto que soube que chegarão a barra de Bachão, fiz logo hum paro (6), e com os mínimos da doutrina fuy receber os padres, levando o paro emramado, e os mínimos (stc) camtando o Credo pollo rio abaixo, o que alegrou muito a gente da armada, por verem que, em partes tão remotas, se sabia o nome ao Padre, Filho e Spiritu Santo. O mesmo dia nos partimos pera Ternate, onde estive- mos jumtos, ate Junho, que forão quatro meses. Este tempo gastarão, os padres, comfessando a muita gente que estava aimda por comfessar, porque o Padre Nicolao Nunez gastou muita parte da Quaresma em Luçabata, e (2) Este capitão era Henrique de Sá. (3) O mesmo que cora-coras, as conhecidas embarcações da In- su'.índia. (4) A ilha de Batjan. (5) O mesma que Lissabata, na ilha de Ceram. (6) O pequeno barco malaio, a que já nos referimos nos volumes anteriores. 7
avia poucos dias que chegara. E como era so, ficou-lhe muita gemte por comfessar. E deu-se tãobem, emtão, o Jubileu, em que se com- fessou toda a gemte e tomou o sacramento, confessando sempre na cadeira o Padre Marcos Prancudo, e pregando, todos os domingos, fazendo muito frui to com suas prega- ções; tanto, que pasmava a gente de sua graça no púlpito, e muitas vezes sayão da pregação, deitando-lhe muitas bemções. (sic). Confessa-se muita gente, todas as festas de Nossa Se- nhora e dos Apostolos e domingos do Sacramento, e cada outo dias, e quasi todos os dias da somana ha comfissões. Tudo isto obra Nosso Senhor nesta terra, por meo dos seus servos. Da festa que fizerão ao padre nosso, por nome Fernão d'Alvarez, a sua missa nova, lhes comtarey: comfessou-se muyta gemte, por ser em dia do Spiritu Sancto; disse-a na igreja grande, por ser a primeira que se disse nesta terra; foy, assi, toda a gemte a ella, assi grandes, como piquenos; teve por padrinhos ao Padre Vigairo e ao Padre Nunez e ao Padre Pero Mascarenhas, que pregou emtão, e foi a primeira pregação que fez, da qual a gente ficou muito comtemte e satisfeita, e nella se comverteo hum gramde pecador a penitemcia; e tanto que, loguo ao outro dia, foi buscar o Padre Mascarenhas e lhe pedio que o comfessasse, e comfessou-ho, chorando muitas lagrimas e com grandes [569 v.i soluços, que o ouvião os que esta vão na igreija; e de / / pois se confessou cada oito dias. E dahi por diamte ficou pregando o Padre Marcos Prancudo, hum domimguo, e o Padre Mascarenhas, outro. A segunda oitava do Spirito Sancto comfessamo-nos todos geralmente, os padres, os irmãos e fyzemos (7) os votos. (7) A palavra fyzemos parece ser correcção de dizemos. s
Chegou-se o tempo de nos espalharemos; detreminou o Padre Marcos Prancudo de hir visitar a christandade, e levou por seus companheiros ao Padre Nicolao Nunez e ao Irmão Manoel Gomez; e pera Bachão mandou ao Padre Fernão d'Alvarez e a mim, por seu companheiro. Neste tempo mandou o capitão huma armada ao Moro, que o fosse comçertar, por alguns lugares estarem descon- çertados, por causa da guerra. Foi o padre, em companhia desta armada, hum dia ou dous, pera milhor poder fazer os bautismos. Grande foi o contemtamemto dos christãos, verem la os padres, que çimquo annos avia que virão. No primeiro lugar que chegarão, vierão-nos reçeber a praya, dizendo que pera que era la a armada, que o que os padres não fizessem não faria o capitão-mor, porque ia se não con- fia vão em nimguem, senão nas palavras dos padres. E na verdade, se os padres la não forão, fizera-se mui pouco, acerca de comçertar os christãos e polios em sua liber- dade, porque alguns erão avexados dos mouros. Em alguns lugares de mouros pidirão que não fosse la a armada, mas que somente fossem os padres, e que farião o que elles quisessem pera com os christãos, que era polios em sua liberdade, os quaes elles tinhão reteudos, por causa da guerra. E assi se fez como os padres quiserão. Depois, forão visitados os outros lugares, onde os reçe- berão todos com muita alegria, e bautizarão perto de noveçemtos mínimos, de tres annos pera baixo. E, amtre estes, se fizerão, alguns mouros homens, christãos. E tinhão tanto deseio que os filhos fossem bautizados, que vinhão de huma legoa, polia terra demtro, a dormir a praya e esperando polios padres, pera os fazerem chris- tãos; e disse hum christão que Nosso Senhor lhe levara hum filho, que o atrebuya a seus pecados, que erão gran- des. Pedio emtão que o ouvissem de comfissão. 9 *
Gastarão, os padres, em visitar todos os lugares do Moro, perto de mes e meo, e, depois de visitados, se vierão pera esta fortaleza de Ternate, a dez de Setembro, e esteve ate o fim de Outubro, comfessando e pregando; e em Novembro se tornou pera o Moro, e eu fui por seu com- panheiro, e mandou ao Padre Nicolao Nunez a Bachão, pera ajudar ao Padre Fernão d'Alvarez, e o Padre Mas- quarenhas ficou em Ternate, pregando e comfessando. Foi-se daquy o padre a hum luguar do Moro, chamado 0 Tolo, e ahi dizia sua missa, cada dia, bautizava e tirava- -Ihe as mamçebas e casava-os, doutrinando-os; e eu fazia a doutrina aos meninos e ajuntava, cada dia, perto de duzemtos moços, mas ao domingo e dias sanctos era muita gente, porque, emtão, vinhão todos, grandes e piquenos. Na emtrada de Dezembro derão humas febres ao padre, mui grandes; eu fuy o sangrador, e primeiro que tirasse samgue, dei-lhe duas ou tres lamçetadas; depois, veyo outro moço, tão ruim samgrador como eu, e tirou-lhe hum pouco de samgue, com lhe dar outras poucas de lamçeta- das; as febres não mimgoarão, mas erão cada vez mayores. Pidi ao padre se quisesse vir pera esta fortaleza de Ter- nate, e negoçeei-lhe hum paro que o trouxesse, e veyo tal que, se a viagem durara mais hum dia, parece-me que correra grande risco, porque, des que partio, ate chegar a Ternate, não comeo quasi nada, nem podia. Em Ternate foi samgrado çimquo vezes, he esteve tal, que nos pareçeo nos deixasse, porem, Nosso Senhor, por sua misericórdia, lhe deu saúde, pera nossa comsolação e desta terra, que tem bem neçessidade delle. O Padre Fernão d'Alvarez, em Bachão, fez muito ser- viço a Nosso Senhor; seu exerçiçio era dizer, cada dia, sua missa, bautizando a muitos, cazando e doutrinando-os. E ha christãos destes que pedem comfissão, dizendo que 1 o
seu coração não se pode quietar, ate se não comfessarem, e que, pera sua salvação, lhe he muito necessária, e tanto o deseião, que pidirão ao padre que, ya que elle não sabia a limgoa, os comfessasse por imterprete. // [570 r.) Não passarei sem comtar algumas cousas, em parti- cular, que acomtecerão. O Padre Fernão d'Alvarez he muito zelloso e fervoremto; tem-lhe os mouros grande medo; tamto que huns cacizes, que a may del-rey (que he moura) hahi tinha, tanto que emtenderão que elle era, desempararão a may del-rey e acolherão-se (8). Em çimquo meses que o padre ahi esteve no luguar grande, bautizaria perto de trezemtas almas, e tirou os ossos do pay del-rey de hum jaziguo, em que estavão, e fez da casa huma igreja de Nossa Senhora da Assumpção (9). Ysto tudo, com o aver el-rey assi por bem, e dizia que agora lhe pareçia que começava a ser christão; dous filhos ma- chos lhe bautizou o padre. Neste tempo estavão duas velhas mouras pera morrer, e pidirão que as bautizasse, que querião morrer christãs, e com ho bautismo reçeberão a saúde corporal e espiritual. Tem esta gemte muita fe na agoa bemta, e reçebem saúde de algumas emfirmidades, bebemdo-a, primcipal- mente de febres. O que lhes direy, irmãos meus, he tanta a devação nesta gente, que todos os domingos e sanctos vem carregados de ramos he de froles cheirosas, pera emra- marem a ygreija, e muyto azeite pera que arça (10) (sic) a lampada. Louvores ao Senhor, pois em terras tão remotas se faz tamta veneração as cousas da igreija. Tãobem lhe darey nesta algumas novas de Amboino. Deixou o Padre Reytor ao Padre Francisco Roiz e ao (8) I. é. retiraram-se para o interior da ilha. (9) N." S." da Conceição, segundo o Documento N.° 3. BACIL omite esta passagem. (10) BACIL: idem. Supomos que deve ser arda. I I
Padre Magalhãis, como ho ya la saberão, pera ahi fazerem o officio da Companhia. Aly acabarão de comfessar alguma gemte que da Quaresma ficou por comfessar, das naos que ahi ficarão da invernada, casando também alguns amançe- bados e fazendo algumas amizades. Estando ahi as naos, forão visitar alguns lugares, a saber: dous de christãos e dous de gentyos, os quaes luga- res se fizerão christãos, que serião, por todos, duzemtos. Em este comenos, adoeceo o Padre Framçisco Roiz, de huma gramde enfirmidade, de que esteve sangrado çeis vezes e mui propinquo a morte. Quis Nosso senhor, por sua infinita misericórdia, dar-lhe saúde. Depois das naos partidas, a saber, huma para a índia, e duas pera Maluco, e ambos os padres se vierão pousar em hum lugar chamado Ative (n); ordenarão huma igreja, a maneira da terra, pera dizerem missa aos chris- tãos e bautizar. Foi, logo ao primçipio, grande frequençia dos que se bautizarão, assi do mesmo lugar de Ative, como de outros lugares propincos, mouros e gemtios, que fogião dos seos lugares e vinhão viver a Ative, fazendo-se christãos, que serião mais de duzemtos. Depois forão a visitar os lugares, cada hum por sua costa, bautiza(n)do e imsinando-lhes a doutrina. 0 Padre Francisco Roiz faria trezentos em espaço de três somanas que la andou. O Padre Dioguo de Maga- lhãis fez alguns cemto. Depois, se avistarão em Ative, onde o Padre Dioguo de Magalhãis disse sua missa nova, dia de São Pedro e São Paulo. Chamarão pera ella os mais homrrados destes luga- res propincos a Ative, o qual dia fizerão os christãos gramde festa a sua maneira, dando Manoel hum bamquete (ii) E também Hatiwi, lugar principal na península menor de Amboino. 1 2
a todos, aonde lhes fez huma fala, que ia que huma vez deixarão a verdadeira ley, que bem sabia que o fizerão mais por medo dos ternates, que por via de vomtade, e milhor lhes fora morrer todos, que negarem a seu Criador, que he o Altíssimo Deos, a quem os christãos adorão, e agora a tornarão outra vez a tomar, não fosse pera mais sua perda e comdenação, assi dos corpos, como das almas, e os que novamente erão comvertidos não tornassem atraz. Foi isto grande firmeza pera todos, e forão muito com- temtes, prometendo de morrerem todos christãos, e em este comenos dous ladrões del-rey de Ternate, que aquy andão alevamtados, a falar verdade, mandados, queimarão hum lugar de christãos em huma ilha que se chama Reso- lao (12), que esta obra de oito legoas de Ative. Causou isto algum temor aos christãos todos, por verem tão pouco avia, que mandara, el-rey, huma carta aos mou- ros, que não peleiassem com os christãos, e o capitão da fortaleza, Amrrique de Sa, outra aos christãos, que não peleiassem com os mouros, e o mesmo Ternate, que trouxe as cartas, ajudou a queimar o lugar. Ajumtarão logo estes mouros ternates grande armada, e forão a Luçabata, antes que se acabassem //de fazer [570 v.] chistãos, acomete-los se quisessem fazer mouros; os quaes não comsemtirão chegar a praya, e dahy se dizia que vi- nhão sobre Roçanive (13), pera que tornassem mouros, senão, que os avião de destroir e queimar, dizendo que vinhão com victoria de Luçabata, e que os mesmos Luça- bates vinhão com elles pera os ajudarem comtra os chris- tãos. (12) E também Ronceslau. (13) O mesmo que Noussaniwi, outro lugar na península menor de Amboino. 13
Este lugar de Roçanive he hum luguar grande, dos mayores que ha em Amboino; tera quatro mil almas, em que emtrão mil homens de peleia; começarão a fazer suas tranqueiras e porem estrepes por muitas partes, e fazemdo outras armas pera se poderem defemder, pidindo que fosse pera la hum padre, e os que ainda não erão christãos, que se fizessem, e os que não quisessem ser, se fossem fora do luguar; onde se fez christão hum filho de Amtonio de Abreu, com outros muitos, que serião cemto e vimte. Depois foi pera la o Padre Dioguo de Magalhãis, pera os animar e esfforçar a emsinar a doutrina, donde nenhum dominguo deixava de vir dizer missa ao lugar de Ative. E todos mui constantes na fe de Christo. Ho Padre Francisquo Roiz tornou a visitar os luguares, animando-os a todos e preparamdo-os pera se defenderem dos mouros. E mandou emtão, Manoel de Ative, hum seu irmão com outros homens honrrados do seu luguar a cha- mar todos os luguares, que se ajumtassem em huma feira que se faz da outra banda de Ative. Ho dia da feira se embarcou Manoel em huma embarca- ção gramde, e outras embarcações, e foi diamte; o Padre Françisquo Roiz se embarcou em hum paro com os mini- nos, camtando a doutrina, com huma bamdeira e huma cruz e alguns instrumentos que achara da terra, e se forão por detrás de huma ponta, donde se fazia a feira, para aly esperar pollo Padre Magalhãis, que avia de vir com a gemte de Roçanive. Daly mandou a visitar Manoel, que já podia hir, não sabendo nimguem que ally estavão. Vendo vir o paro, os que na feira estavão cuidarão que era de enemiguos e o mesmo Manoel, por dissimular, dizia que não, que não sabia; começarão os mininos a doutrina, achegando em direito da feira, despararão algumas espimguardas, e se forão ambos pera a feira, comtinuando sempre os mininos i 4
a doutrina. Toda a gemte de armas, que estava na feira, se escomdeo a modo de çilada. Em os par os querendo chegar a terra, cometerão como se fossem a enemigos, e tomarão os paros no ar, com toda a gemte que trazião demtro, e com muita alegria os puserão em sequo, desembarcando ambos os padres; e comtinoando os meninos a doutrina, se forão ate o lugar onde se fazia a feira, aonde as molheres de Ative tinhão mandado fazer hum altar. Chegarão os meninos em procisão, com ramos nas mãos, e puserão a cruz que trazião em hum altar, fazendo todos oração, e nisto se levantarão; mandarão as molheres de Ative pidir liçemça aos padres, pera se virem emcomen- dar a Deos ao altar, para que os outros christãos vissem e apremdessem delias, e lhes não parecesse difficultoso sabe- rem a doutrina, pois erão Amboinos como ellas. Não sabendo os padres a maneyra que avião de ter, la buscarão hum Amboino que esteve em o collegio de Goa, que lhes vinha dizendo as ladainhas, e ellas todas respon- dendo; foi cousa de muita admiração, não tão somente pera os christãos da terra, mas ainda para os portugueses que ahi se acharão. Outras molheres de outros lugares se vinhão as de Ative pedir-lhes que as insinassem, que, quando os padres no seu lugar fizessem igreia, quisesem ellas la ir insina-las, pera que ellas tãobem aprendessem. Acabado isto, se ajumtarão todos os homens honrrados de todos os lugares christãos, e todos, em geral, de cada lugar; hum particular fazião (síc) huma fala a todos, em que prometião morrer christãos e peleiarem todos jumta- mente com quaesquer mouros que com os christãos quise- sem peleiar, e que todos acudissem a hum luguar, aonde os mouros peleiassem.. Foi esta huma cousa de grande comtemtamento e con-
solação pêra os padres, vendo tão firme preposito nas almas que, tão pouco avia, que tinhão convertidas a nossa sancta fe, e deu tãobem grande animo a Manoel, vendo que todos aquelles, os annos passados da guerra, erão comtra elle, agora, estavão prestes pera o ajudar no que fosse necessa- [57i r.] // rio. E dizia que nunqua em Amboino vira outra semelhante cousa; porque, de primeiro, não tam somente peleiavão, mas ainda os do mesmo lugar, huns com os outros, porque he esta gemte belicosa, por valia de pouco mais que nada peleião huns com os outros. Nisto tãobem fizerão os pa- dres, este anno, muito serviço a Deos, estorvando-lhes muitas peleias e discórdias, que sempre antre elles ha, fazendo-os amiguos. O Padre Dioguo de Magalhãis se tornou pera Roçanive, e o Padre Françisco Roiz tornou a visitar os lugares de christãos. Em este tempo, vierão dous portuguezes em hum luguar que se chama Homa, da outra banda, a chamar algum dos padres, que fosse la, por estarem os christãos muito deseio- sos de verem padres, que ja avia três meses que os não tinhão vistos, e isto por se não poder naveguar, por ser inverno. Foi o Padre Dioguo de Magalhãis com elles, ao qual receberão com muita alegria e comtemtamento. Logo ao outro dia o vierão chamar de hum lugar que, de primeiro, tivera algum prinçipio de christamdade, e por christãos se tinhão, dizendo que outro luguar de mouros tinha peitado aquelles dous ladrões ternates, açima ditos, pera os virem destruir, pedindo ao padre que os quisesse fazer christãos a todos, porque amtes querião serem destroidos e morrerem na fe de Christo, que ficarem em salvo, com serem mouros. Foi la o padre, e levou comsiguo alguns portuguezes; i 6
estaria la dous meses; faria christãos passante de oitoçem- tas almas, emsinamdo-lhes a doutrina. Estando o padre neste lugar, chegarão os ternates, que vinhão ver o fato com que do lugar dos mouros erão pei- tados, e sabendo que o padre estava em o luguar, sobre quem elles avião de vir, temendo que, por sua causa, lhes acomtecesse algum desastre, e mais por o luguar ser muito forte, davão por escusa a gemte do luguar dos mouros, polios não terem por covardes, que o fato que lhes davão era pouco, e, por mais que lhes dessem, sempre dizião que era pouco. Qtiis-lhe Nosso Senhor quebrar os corações, pera que os novamente convertidos ficassem em salvo, e tãobem pera que conhecessem que, loguo em primçipio de sua conversão, Nosso Senhor tinha cuidado de lhes fazer mer- ces. Em isto se veo o Padre Magalhãis pera Ative. Passado o Natal, tornarão os padres a visitar os luga- res, estando em alguns, alguns dias, insinando, polia manha e a noite, a doutrina, ate que a sabião. Desta vez fizerão mais de çem almas christãs. Foi mais o Padre Fran- çisco Koiz a hum luguar, que esta perto de hum luguar dos mouros, chamado Yto (14), que continoamente tem guerra com os christãos, e antre outros muitos luguares de mouros, pollo virem chamar e pidirem christamdade, não estando os padres em casa, falarão com Manoel; e Manoel, cuidando que não vinhão direitamente, e que querião armar alguma çilada, tomando no caminho os padres e aos Atives que fossem com elles, ou, debaixo de quererem ser chris- tãos, viessem a mostra lo caminho aos outros enemiguos; e lhes disse, donde lhes vinha agora quererem ser christãos, pois os outros seus vizinhos dizião que se aparelhavão para (14) Ou Hito, que é também o nome da grande península de Amboino. i r IKSULÍNDIA, III — 3
virem queimar os luguares dos christãos? E que aquillo lhe parecia mais falsidade, que vomtade de serem chrisãtos; que se fossem embora. Responderão os que pedião christamdade, que elles ia de primeiro os fizera christãos hum capitão, e elles que, por causa da guerra, por salvarem suas vidas, tornarão a tras, não sabendo o muito que nisto perdião, por em aquelle tempo não terem quem os animasse, e mais que, depois que se fizerão christãos, não tinha la ido padre algum, mais que aquelle capitão os bautizar, e tãobem, por verem outros lugares tornarem atras, e agora novamente se tor- navão a recomciliar com Christo, que elles o mesmo que- rião fazer, e os querião acompanhar, viver e morrer com elles, posto que sabião que elles avião de ser dos primeiros que dos mouros avião de ser cometidos, por estarem mais perto dos mouros. Manoel, comtudo, não se comfiando delles, pera prova, lhes pedio muito fato, e que, se não dessem este fato pri- [571 v.] meiro, que não // avia de la de ir nenhum padre, pera os recomçiliar. Elles, como o seu preposito era bom, sem mais nada, a metade forão a buscar o fato, pera que ficasse em penhor, e a metade fiquarão em Ative, esperando que viessem os padres, que em outros lugares andavão ensi- nando a doutrina. E neste comenos veo o Padre Francisco Roiz, e falando com elles, vendo sua boa determinação, lhes disse que elle iria la, que não era necessário fato que Manoel lhes tinha pedido. E elles se forão diamte fazer prestes e dizer em como o padre hia. Logo ao outro dia foi o padre, como acima esta dito, com dous portugueses, e farião oitenta almas christãs, que ainda não erão bautizadas; estes, meninos de cimquo anos pera baixo; e arvorarão huma cruz, com muita festa, rezando as ladainhas, depois de arvorada; a qual elles tinhão escondida no mato, por amor dos mouros lhe não / 8
fazerem alguma offensa, o que seria pera elles grande dor e tristeza; e dizião que era verdade, que elles tornarão atras, mas não com o coração, e que agora prometião, de nenhuma maneira, se averem de tornar atras. Grande consolação, padres e irmãos em Christo, he ver esta gente, tão pouco ha convertida a nossa sancta fe, e ter tão grande zelo de christandade, vendo que os mouros são aquelles que mais podem; comtudo, não temendo tra- balhos corporais, nem perda de fazenda, se chegão e abra- ção com a cruz de Cristo, donde alguns, e não poucos christãos, que moravão em lugares de mouros, vendo-se avexados delles e cometidos que se tornassem mouros, deixavão suas ortas e suas casas e se vierão com seus filhos a viver a Ative e a outros lugares de christãos. E tãobem causa grande dor tão grande messe e tão poucos operários, porque lhes sei dizer, que esta terra de Maluco he huma das grandes empressas (sic) que a Com- panhia tem, por ter muitas terras propinquas, que dizem folgarião de ver os padres e fazerem-se christãos, como he hum reino que se chama Seyrão (15), terra muito grande; outro que se chama o Papua, tãobem muito grande, Luça- bata, pollo comseguimte, o Buro, Butam (16), os Selebes, que he infinidade de gemte, todos com deseios de chris- tandade, e, por falta de obreiros, se não começa quasi nenhuma. Tornando ao nosso preposito dos trabalhos que os pa- dres passarão no visitar da christandade e os favorecer e animar em os trabalhos, soçedeo virem duas embarcações de mouros a furtar aos lugares dos christãos. Pareceo bem aos portuguezes e a Manoel, que se em- (15) A ilha de Ceram. (16) Ilha que não conseguimos identificar. 19
barcassem os padres com elles, e que hirião a visitar os christãos, pera que vissem aos portuguezes e, vendo-os, não temessem os christãos aos mouros. Indo em tres embarquações, chegando a em que hião os portuguezes e os padres a huma ponta, lhes deu hum tempo mui rijo, e foi tão grande, que os alagou, e era de. maneira, aonde se alagarão, que ainda que alguns nadavão pera terra, não podião sair, por ser hum grande rochedo, mui alto, e os mares serem grandes e baterem no rochedo; e o primeiro remeyro que sayo, estribando-se em seu bom nadar, deu o mar com elle na rocha e o matou. E assi sairão tãobem dous outros portuguezes, pera buscarem algum remedio aos que fiquarão na embarcação, e tãobem o mar deu com elles em estas fragoas e os ferio. Depois de estarem em esta rocha, não podião dar pas- sada, que se não firissem, por causa das pedras serem tão agudas, que parecião estrepes feitos ao martello, e não aver quem pudesse andar por ellas. A este tempo os padres fiquarão apegados na embar- cação alagada; esta embarcação, ainda que se alague, não se vay ao fundo, sem primeiro se fazer em pedaços; rema-se com setenta remos, e algumas, çento e vinte; e os padres diserão a todos que, se lhes pareçesse, que se não saíssem da embarcação, porque, ainda que se afogasse, se não avia de hir ao fundo; que se apegassem bem; ainda que, algu- mas vezes, vinha o mar por çima de todos, que era milhor andar na embarquação, que sair em terra, por causa do mar andar muito bravo e as ondas quebrarem naquellas fragoas; e que, se saissem, os afogarião as ondas; que se lembrassem do periguo em que estavão, e que, se algum se simtisse agravado de sua conçiemçia, se achegasse pera [572 r.] a par de algum dos padres, animando-os a todos que não // temessem, porque, nos grandes trabalhos, acostumava Deos acudir com sua misericórdia. E alguns dos que sairão em 2 O
terra, saio gente da mesma terra, com armas, pera os matar aos que da embarquação sairão. Os padres, vendo-os, lhes começarão a açenar com a mão, que lhe não fizessem mal, dizendo que erão os padres e portugueses, não peleiassem; e vendo aos padres, estive- rão quedos, pedindo, os padres, os socorressem com alguns par os. Elles fizerão algumas iamgadas de paos e os forão tomar a embarquação; foi defronte de hum luguar, que dantes fora christão, do tempo da guerra, tornarão atras, polia causa açima dita. E dizião elles, que aquella perdição dos padres fora causa da salvação da gente daquelle luguar, levantando as mãos para o çeo, dando graças ao Senhor, polia lembrança e bom cuidado que delles tivera, e causa e meo que elle tivera, pera elles serem vistos dos padres; que bem avemtu- rada perdição e bem empregada, pois fora pera bem de tamtas almas. E vendo aos portugueses e padres dispidos e perdido o fato, por socorrerem aos christãos e os defenderem dos mouros, parece que os moveo a compaixão, e pidirão aos padres que fossem pera o seu luguar, pera os reconciliar e lhe fazerem seus filhos, christãos. E se, ate aqui, os não forão chamar, era porque o capitão de Ternate lhes tinha preso o principal homem do seu luguar, e que, por isto, a gente do luguar estava agravada, mas que elles sabião que os padres não fazyão mal a ninguém, e o homem que lhes o capitão tinha preso, que, se tinha feito alguma ruin- dade, a que elles chamão sala (17). que a paguase, que elles todos querião ser christãos. E pidindo aos padres que se quisessem hir pera seu luguar, pera se enxuguarem, e (17) Palavra usada pelos vários falares da Insulindia, com a signi- ficação de falta, erro, etc. Em Timor foi adoptado na terminologia catequistica para significar também pecado. 2 1
lhes darião de comer a todos, e que o fato que se perdera, que elles, a mergulho, o buscarião todo, e o tornarião a dar. Sairão, então, em terra, em camissa todos; e alguns, nuus; e começarão a caminhar ao longo da praya, e che- gando aonde se tomava hum caminho pera o luguar, dis- serão os christãos, que com elles hião, que lhes pareçia milhor que fossem a hum luguar de christãos, que ahi estava perto, a que os padres tinhão ido muitas vezes, e deles forão reçebidos com muito gasalhado. Ao outro dia seguimte veo Manoel com as outras duas embarcações, que pasara o dia damtes que se elles perde- rão, e, chegando o luguar aonde os padres estavão, se lhes lançarão aos pes, assi Manoel, como toda a sua gemte, chorando muitas lagrimas de alegria, dizendo que, ainda que se perdera a embarcação, nada o semtia; e que davão muitas graças ao Senhor, por lhes guardar as vidas dos padres, e aos portuguezes; e que no caminho lhe derão novas em como os padres erão mortos, e toda a mais gemte que com elles hião, e a embarquação em que hião; e que, pera mais tristeza e descomsolação sua, de ser verdade o que lhe tinhão dito, quiserão seus pecados, que fossem dar com a madeira da embarquação, que andava pollo mar. E que mais simtiria a morte dos padres, que sendo caso (como dizião) que acomteçera, mais, que lhe morrer molher e filhos e toda sua gemte; que grande merçe era a que tinha recebido de Deos, pois os acha vão vivos. Dahi a dous ou tres dias, foi o Padre Francisco Roiz a este luguar, que pidio que o reconciliassem e bautizassem seus filhos, os quaes serião sesemta mininos, de hum luguar, chamado Yto, dahy perto de Ative, adonde os padres pou- savão. Este luguar chamado Yto, como acima tenho dito, como foi sempre nosso comtrario, começarão a lamçar ao mar algumas embarcações, e se vierão acometer alguns
lugares dos christãos, que se fizessem mouros, que elles ti- nhão emtregue esta terra a hum rei, que se chama Day- aoão (18), que he gemte de outra nação. Vem ter ahi embarcações a fazer fazemda, de algumas duzemtas legoas, e que esperavão, nesta monção, por muitos navios do mesmo rey Dayaoão, os quaes elles anda- vão esperando com aquellas embarcações, pera os levarem a toa ao seu luguar, porque, algumas vezes, lhes dão cal- marias, e as corremtes das agoas os descarregão pera outra terra, longe da sua. Estes mesmos Ytos forão a hum luguar de christãos, chamado Roçanive, e a os cometer se fizessem mouros. Este Roçanive he hum luguar que se fez christão, ao tempo que os padres aqui chegarão, que foi na hera de 562. Haver a nella quatro mil almas. Em estas duas embarcações de Yto vinha hum caçiz mouro, que he seu padre delles; he este // caçis era filho [572 v.i de hum homem principal dos desta terra, amoestando a todos e pregando a sua seita de Mafamede, pareçendo-lhe que, por serem novamente christãos, e estivessem mal arreigados na nossa sancta fee, que com poucas palavras os demovessem e tornassem, metendo-lhes medo, que espe- ravão por grande armada del-rey de Jaoa, e que avião de destroir e queimar todos os lugares dos christãos; e tor- nando-se mouros, lhes não viria nenhum mal. Elles lhes responderão, como bons christãos, que nem por medo de morte, nem por da de fazenda e de luguar, não avião de deixar a verdadeira lei de Christo, Nosso Senhor; que antes elles, nesta vida, querião padecer tra- balhos e avexações, que na outra, penas eternas. E loguo (18) BACIL: Nesta cópia o nome deste rei é assim registado: Da Gooão. 23
se forão aos padres, dar-lhes corata destes cometimentos, que estes mouros lhes fazião. Os padres andavão visitando os luguares de christãos, hum por huma banda da costa; e outro, pola outra banda, bautizando-os e doutrinando-os e animando-os a todos os christãos, porque estavão mui temorizados. E andando assi, chegarão quimze ou vinte navios del- -rey de Jaoa (como açima tenho dito), que esperavão estas ilhas de Amboino, donde creceo mayor temor aos christãos, polio (sic) verem andar todos ao longuo da terra. Os yaos e mouros o que dizião era pera sua perdição dos christãos, e os padres, por cada sua banda, esforçando os christãos, com palavras de amor e charidade, não ouvessem medo, que Nosso Senhor socorreria com sua mise- ricórdia, como sempre costuma nos taes e semelhantes tra- balhos. E andando assi, os navios, anhotos (19), sem vento, andarão quatro dias ao longo da terra, da banda do lugar dos christãos, aonde os padres andavão, sem a poderem aferrar. E acudio Nosso Senhor, com sua acostumada mise- ricórdia. E foi com lhes dar hum vento rijo, por çima da terra, com que não poderão tomar o luguar dos mouros, pera donde vinhão. Desgarrarão todos pera humas ilhas, chamadas Banda, aonde os portuguezes também fazem fazenda, e vão dentro nelles alguns mouros deste luguar de Yto; os quaes se não quiserão desembarquar, podendo-o fazer. E dizem que hão-de vir com a momção com que se daqui partem os por- tuguezes pera a índia, porque, então, tem o vento a popa pera aqui, e que, então, acharão a terra despelada dos portuguezes; que os poderião tomar, sem lhes custar nada, (19) Termo antigo, designando um navio que sustava o seu curso; o mesmo que vagaroso. 24
ou muito pouco, porque, então, não ha portuguezes nestas ilhas. Tres ou quatro destes navios sorgirão nas prayas dos christãos, e falarão os padres com elles. Diserão que elles vinhão a fazer cravo, e tãobem o que lhes os mouros ro- guoassem, que fizessem por sua ley. Este cravo ha-o em estes luguares de mouros, ainda que he pouco, porque a força delle ha-o em Maluquo, çem legoas destas ilhas. E amtre estes navios emtrava hum del-rei de Yaoa, muito grande, dizendo que trazia cartas del-rei da Yaoa pera el-rey de Maluquo; e que, se agora lhas não podia dar, nesta monção, que seria na outra, que era dahi a dous meses. Estes navios, quando virão não serem mais de quatro que sorgirão, e não poderem tomar os luguares dos mouros, e o pouco guasalhado que lhes os christãos fazião, por serem mouros, derão todos as vellas, e se forão a Banda; e na despedida mandarão dizer aos mouros que na Yaoa fiquavão tres ou quatro navios de portuguezes, onde vinha hum capitão (20) pera este Amboino, por tres annos, e que se vigiassem; despois, os christãos o souberão dos mesmos mouros. E dahi a oito ou dez dias, chegarão os navios dos portu- guezes, que foi asaz de grande alegria pera os christãos, e pera nos, grande consolação, por Nosso Senhor socorrer a tão grande neçessidade, em como esta terra estava de socorro. Não deixou Nosso Senhor de socorrer com sua miseri- córdia, e deu-lhes Nosso Senhor tão bom tempo, pera em- trarem polia barra dentro, que, onde os navios dos yaos (20) António Pais. *5
(açima ditos) andarão çimquo dias em calmarias, tiverão os nossos vento a popa. Com esta emtrada foi mui grande o alvoroço nos padres e christãos, porque, se dantes era grande o temor dos christãos, redundou em mayor alegria e esforço comtra os enemiguos. Nosso Senhor nos tenha a todos de sua mão. Amen. Ho padre que nesta nomeo, Francisco Roiz, chama- vasse Francisco Vieira, ao tempo que dessa terra veo, e mudou o nome. De Maluquo, ao (stc) 15 de Fevreeiro de 1563 annos. Do seu indigno irmão Fernão do Souro 2 6
3 CARTA DO PADRE BALTASAR DE AR AO JO A SEUS CONFRADES Molucas, 24 de Fevereiro de 1563 BAL: 4.Ç-IV-50. Fls. 575 r.-578r. (1). Cópia escrita com boa letra e sem correcções. 0 texto è também claro, ainda que a pontuação muito descuidada, como era uso. Embora contenha notícias gerais, referentes às cristandades das Molucas, os acontecimentos de Amboino cons- tituem o principal assunto desta carta, que mais parece uma cópia da anterior. o) Chegada às Molucas do Capitão Henrique de Sá com alguns reli- giosos. b) Recepção que tiveram na ilha de Batjan. c) Fervor religioso em Ternate por ocasião do jubileu que ali foi publicado. d> Progressos do cristianismo nas ilhas do Moro, Tolo e outras. e) Vários lugares de Amboino pedem o baptismo. A graça e amor de Christo, Nosso Senhor, faça continua morada em nossas almas. Amen. Mandou-me a sancta obediência que lhes escrevesse das cousas que Nosso Senhor obra por esta sua minima Com- (1) BNL: Fundo Geral, N.° 4.534, fls. 465 r.-4Ô8 r. Nesta cópia lê-se a seguinte nota, logo no início da carta: «Passe-se. Esta carta he quasi semelhante a que fica acima». (N.° 2) 2 7
panhia, nestas partes tão remotas de Maluquo e Amboyno, pera que, assi como nos incitamos com as cousas que Nosso Senhor obra nessa Europa a deseiar de servir a Nosso Senhor com mayor fervor, assi, do bem que de qua escrevemos, lhe dem graças, e, polias faltas que de nossa parte ha, roguem ao mesmo Deos que no-las perdoe e nos de emenda delias. No Março de 562, estando nos, os irmãos que estávamos em Maluquo, desconfiados de virem padres da índia, por ser ja o tempo passado, em que avião de vir, chegarão com o Capitão Anrrique de Sa, os Padres Marcos Prancudo e Fernão d Alvarez e Pero de Mascarenhas e o Irmão Manoel Gomez. Os Padres Francisco Roiz, que la chamão Francisco Vieyra, e Dioguo de Magualhães, fiquarão em Amboino, que serão sesenta legoas de Maluco, por ahi os mandar ficar o Padre Marcos Prancudo, com aquella christandade, e quanto menos os esperávamos, tanto foi mais dobrado o prazer que com sua vinda em o Senhor tivemos. E tanto que chegarão a barra de Bachão, que são dezoito legoas da fortaleza, estava ahi o Irmão Fernão do Souro, o qual Ioguo em huma embarquação, muito bem emrramada, com os mínimos christãos da terra, os foi receber pello rio abaixo, cantando a doutrina christã; o que causou grande alegria em os portuguezes, que vinhão da India, e em os nossos padres, vendo que em terras tão remotas se sabia o nome do Padre, do Filho, Spiritu Sancto. E loguo se partirão pera Ternate, que he a forta- leza del-rey, onde estiverão juntos quatro meses, que foi ate todo Junho. Neste tempo fez o Senhor nas almas dos portuguezes e christãos da terra muito fruito, por via das pregações e comfissões, porque, como em Maluquo não estivesse, em- tão, mais que hum sacerdote da Companhia, o qual ainda 28
andava visitando os lugares dos christãos, muita parte da gente estava por confessar; e com a chegada dos padres se confessarão todos, por ser tempo de Coresma, quando chegarão. E, depois, acreçentou-se mais a devação, com os padres pregarem o sancto jubileu que levavão, porque se tornarão a confessar todos, e tomavão o Sancto Sacra- mento. E dahi avante, ouve sempre muita frequência nas confissões, confessando-se muita gente nas vesporas de Nossa Senhora e dos Apostolos, e no domingo do Santís- simo Sacramento, de sua comfraria. 0 fruito que por via destas comfissões se fez, por ser cousa tão secreta, não o escreveo; abasta saberdes, cha- rissimos irmãos, que muitas pessoas se puserão em estado de graça, tendo-a perdida, e muitas se confessarão nella, por meo das confissões e do Santo Sacramento. Dia do Spirito Sancto, disse missa nova o Padre Fernão d'Alvarez, e disse-a na igreja grande, por ser a primeira que se disse nesta terra; concorreo a ella todo o povo e pregou a ella o Padre Pedro Mascarenhas, com satisfação dos ouvimtes. E nella se converteo hum grande pecador a penitencia, e foy buscar ao Padre Mascarenhas, loguo ao outro dia, e comfessou a elle seus pecados, com tantas lagrimas e saluços que se ouvia em toda a igreja. Na segunda oytava do Spirito Santo fizemos todos os votos, com muito favor divino. Despois disto, paresçeo ja tempo ao Padre Reitor repar- tir os obreiros desta vinha, pellas partes de Maluquo, honde erão mais necessários; e partio o Padre Marcos Prancudo a visitar a christandade das ilhas do Moro, e pera isto lhe deu o rey de Ternate, posto que era mouro, huma embar- cação que elles chamão cora-coras; e levou por compa- nheiros o padre Nicolau Nunez e o Irmão Manoel Gomez. Pera o reino de Bachão mandou o Padre Fernão d Alva- rez e o Irmão Fernão do Souro. 29
Grande foi o contentamento dos christãos do Moro, quando la virão os padres que avia cimquo annos que não virão, e porque aquellas ilhas, des o tempo da guerra, esta- vão alevantadas; o Capitão Anrrique de Sá mandava huma armada, para os tornar a paçifiquar. (575 v.1 Vio-se o muito credito que os // christãos tinhão aos padres da Companhia, porque no primeiro luguar que che- garão, que hião sempre hum dia diante da armada, vierão- -nos a reçeber a praya, dizendo que pera que era la armada, que o que os padres não fizessem, não faria o capitão-mor, porque não achavão quem lhes tratasse verdade (sic) se- não os padres. E sem duvida, se os padres la não forão, pouco ou nada se fizera açerca de conçertar a christandade, e liberta-los dos mouros que os tiraniza vão; porque os mesmos mouros pedião que não fosse la a armada, que somente fossem os padres, e que farião tudo o que os padres quisessem dos christãos, e polio (sic) em sua liberdade, que elles, des o tempo da guerra, lhe tinhão tirada. E por bon- dade de Deos tudo se concertou como os padres quiserão. Forão os padres visitando todos aquelles luguares, os quaes os reçebião com muita alegria e bautizarão perto de noveçentos minimos (sic), de tres annos pera baixo. Vede, irmãos, que contentamento seria ver tantas almas lavadas com o sangue de Jeshu Christo, com o Sancto Bautismo, e quantos destes, morrendo em estado de graça, estão em gloria. E entre estes se fizerão, alguns mouros, ia homens, christãos, e corrião ao santo bautismo com seus filhos com tanto deseio, que vinhão de mais de huma legoa, pela terra dentro, a dormir a praya com seus filhos, para que os padres os fizessem christãos; morrendo-lhe hum filho que tinha, dizia que, por seus pecados, lho matara Nosso Se- nhor, e pidio com muita devação a confissão. Gastarião os padres nesta visitação do Moro hum mes 30
e meo, e vindosse outra vez pera Ternate, tornarão a reno- var o fruito passado com as pregações e comfissões. E tendo ja o Padre JReitor mais experiência da terra, deixou a Pero Mascarenhas em Ternate, e elle, com o Irmão Fer- não do Souro, tornou-se as ilhas do Moro, e mandou ao Padre Nicolau Nunez pera Bachão, a ser companheiro do Padre Fernão d'Alvarez. E indo o Padre Marcos Prancudo a ilha do Tolo, con- solava muito aqueles christãos, dizendo-lhe missa cada dia; bautizando-lhes os filhos e a outros novamente converti- dos; a muitos tirava-lhes as mancebas e casava, apartan- do-os; e cada dia se fazia a doutrina aos mininos, que erão mais de duzentos; e aos dominguos era muita mais gente. A hi adoeceo o Padre Reitor, e pera saberdes quão poucos remedios humanos qua ha, socorrendo-nos, todavia, os divinos, o Irmão Fernão do Souro foi o sangrador, e lhe deu algumas lancetadas, sem lhe tirar sangue, e dipois hum moço lhe deu outras tantas, e não lhe tirou senão hum pouco de sangue. E creceo tanto a doença, que foi necessário vir-se a Ternate, sem quasi todo o caminho poder comer nem beber, com muito periguo de morte. E chegando, foi sangrado cimquo vezes, mas deu-lhe Nosso Senhor saúde, para muito seu serviço. O Padre Fernão d'Alvarez tãobem em Bachão fez muito fruito nos christãos, bautizando e cassando (sic) as pes- soas que disso tinhão necessidade, e doutrinando a todos. Ha muitos christãos no Bachão, que pedem aos padres que os confessem, dizendo-lhes que seu coração se não pode aquietar, ate se confessarem; e muitos pedem ao padre com grande deseio delia, que os confessem por inter- pretem (sic), e tal espanto causa a vida do Padre Fernão d'Alvarez, em os mouros, no Bachão, que huns caçizes que a mãy del-rei de Bachão, que ainda he moura, ahi 3 i
tinha, tanto que vyrão quão claro e detreminado he o padre, no que releva ao serviço de Deos, desempararão a mãi del-rei. Em çimquo meses que o padre ahi esteve bautizaria tre- zentas pessoas, e mais tirou os ossos do pay del-rey, que foi mouro, de hum iazigo em que estavão, e fez da casa huma igreja de Nossa Senhora da Comçeição; isto tudo com o el-rey aver assi por bem. E dizia que agora lhe parecia que começava a ser christão. Neste tempo que o padre ahy estava bautizou dous filhos do rey. Estavão duas velhas mouras para morrer, e pidirão que as bautizassem que querião morrer christãs; e com o bautismo receberão a saúde corporal e spiritual. Tem esta gente muita devação na agoa benta, e reçe- bem saúde de algumas imfirmidades, bebando-ia, principal- mente de febres. [576 rj O que lhe direy, irmãos meus? ! He tanta a devação // desta gemte, que todos os dominguos e festas vem carrega- dos de ramos e de flores cheirosos pera ramar a igreja, e muito azeite para a lampada. Louvores ao Senhor, pois em terras de gente tão barbara se faz tanta veneração as igrejas e imagens, que os christãos da Alemanha e Ingla- terra desprezão. Estas são as cousas que me accorrerão escrever-vos, charissimos irmãos, do que Nosso Senhor obrou nas partes de Maluquo. E vindo a Amboyno o Padre Francisco Roiz e o Padre Dioguo de Magalhais, que ahi fiquarão, por mandado do Padre Reitor, pera fazerem o officio da Companhia ahi, comfessarão os portuguezes que ficarão ahi de emvernada, casarão muitos amancebados, tirando-os de pecado mortal. Alguns, que estavão em odio, fizerão amigos, e dou^ meses que ahi estiverão as naos dos portuguezes fizerão antre elles não piqueno frui to. 3 2
Depois forão visitar dous lugares christãos e dous de gentios, os quaes lugares se fizerão christãos, que serião, por todos, duzentos. E como partirão as naos, se forão os padres aposentar em Ative, que he terra de Amboino, que nos he mais fiel, onde esta hum christão principal, por nome Manoel, e ahi ordenarão huma igreja pera dizerem missa e ministrarem o bautismo e outros sacramentos. Como virão a igreja feita, acodirão de todas as partes propinquas a receber o sancto bautismo; e mouros e gen- tios que fogião dos seus lugares e vinhão a fazer-se christãos e a morar em Ative, os quaes serião mais de duzentos. Dahi se apartarão os padres, cada hum pera sua parte, visitar os lugares de Amboino, na qual romaria o Padre Francisco Roiz fez, a sua parte, duzentos christãos; e Dioguo de Magalhães, cemto. E tornando-se para Ative, disse Diogo de Magalhãis missa nova dia de São Pedro e de São Paulo. Forão chamados para o novo Sacrifício os christãos prinçipais dos lugares propincos, e fizerão os christãos, aquelle dia, grande festa, a seu modo, dando- -lhes Manoel hum banquete a todos; e, confirmando-os na fee, lhes fez huma pratica, que ia que, huma vez, se esfriarão na fe, pellas presecuçõis dos mouros, mais com medos delles que com vontade, que melhor lhes fora mor- rerem todos, que neguar seu Criador, que he o Altíssimo Deos, a quem os christãos adorão, e agora, que a torna vão outra vez a tomar, não fosse pera mais sua perda e com- denação, assi dos corpos como das almas, se não perseve- rassem firmemente; e os que novamente erão convertidos, que não tornassem atras. Foi muito aceito a todos e mostrarão fiquar muito con- tentes, prometendo de morrer todos christãos, e por ne- nhum temor do mundo tornar a tras. E porque a charidade a todos se faz tudo, pera trazer as almas a Christo, o Padre Dioguo de Magalhãis, vendo que o demonio, pesando-lhe 3 3 INSULÍNDIA, III — 3
do creçimento da christandade, inçitou aos mouros a per- seguir os christãos, ameaçando-os e queimando-lhes alguns lugares, pera que não preseverassem na fe e não corressem ao bautismo, e entre estas perseguiçõis tomou o padre vezes de capitão, fazendo fortaleçer os luguares dos chris- tãos pera milhor resistir aos mouros. E em hum luguar dos mayores de toda a provimçia de Amboino, por nome Roçanive, no qual avera passante de quatro mil almas, e destes mil homens de peleja, e alem de se fortificarem, por industria do Padre Dioguo de Maga- Ihãis, o luguar, alevantando os muros, pondo por diversas partes estrepes, fazendo outros muitos modos de defensão, ordenarão os mesmos christãos, que todos os que ainda não eram christãos, se fizessem, ou se fossem fora do luguar, por estarem misturados com infiéis. E entre estes recebeo o bautismo hum filho de Amtonio de Abreu, homem principal da terra, o qual, por estar absente, ao tempo que o pay se fez christão, não era ainda bautizado; fez com elles, o padre, muito fruito, doutrinando-os nas cousas da fe; avera ali duzentos mininos e quasi todos sabem a doutrina. E pera a christandade de Amboino tornar a vir a mayor quentura spiritual, pello muito zello que nisto tem Manoel, ordenou com o Padre Francisco Roiz, que em huma feira, [576 v.j que se faz perto de Ative, // fossem chamados de todos os lugares os principaes christãos, para que, todos juntos, se animassem huns com os outros a mayor zelo e fervor da fe. E pera os chamar, mandou Manoel hum seu irmão, com alguns principaes de Ative, por todas as partes, pera que se ajuntassem em hum çerto dia na feira; no qual dia se embarcou Manoel, com os christãos de Ative, em muitas embarcações, pera aquelle luguar da feira, e se foi .diante. O Padre Francisco Roiz se embarcou em hum paro, com os mininos, cantando todos a doutrina, a qual elles • 3 4
sabem todos mui bem, com huma bandeira e huma cruz e alguns instromentos músicos, ao modo da terra. E forão por detrás de huma ponta, o padre com os mininos, pera ahi esperar pollo Padre Dioguo de Magalhãis, que avia de vir com os christãos de Roçanive. E dahi mandou a visitar Manoel, que ja poderia hir, porque os christãos que estavão na feira não sabião que ahi estavão os padres; e, para se alegrarem mais todos em o Senhor, quiserão-os tomar de sobressalto. Vendo os christãos vir a embarcação dos padres, cui- davão que era de enemigos; começarão os meninos a dou- trina e, chegando em direito da feira, despararão algumas espingardas, que hião no parao, e forão receber o Padre Dioguo de Magualhãis, que vinha de Roçanive também com os mininos, cantando a doutrina; e tãobem despararão as espingardas. E, por mandado de Manoel, toda a sua gente que estava na feira se escondeo, a modo de çilada, e em os paraos querendo chegar a terra, arremeterão a elles com as armas, como se forão enemigos, e com muita alegria tomarão os paraos as mãos e os puserão em seco, desembarcando os padres. E continuando os mininos a doutrina, se forão ajuntar com os outros christãos. Tinhão ali as molheres de Ative mandado fazer hum altar; chegarão os myninos em proçisão, com ramos nas mãos, e puserão a cruz, que trazião, no altar, fazendo todos oração. E nisto se alevantarão as molheres de Ative, e man- darão pedir ao padre lhes desse licemça pera se virem emcomendar a Deos ao altar, pera que os outros christãos, novamente feitos, aprendessem delias, e lhes não parecesse cousa difficultosa saberem a doutrina, pois erão Amboinos como elles; e buscarão hum moço Amboyno, que se criou no collegio de S. Paulo de Goa, que lhes dizia as ladainhas, e ellas todas respondião. 3 5
Foi cousa de muita admiração e devação, não tão so- mente pera os christãos da terra, mas ainda pera os padres e portuguezes que ahi se acharão. Outras mulheres de outros luguares se vynhão as de Ative, por serem mais instruídas na devação e modo com que avião de estar na igreja, e pidião-lhes que as insinas- sem a estar devotas na igreja. E depois disto se ajuntarão todos os homens onrados de todos os lugares christãos, os quaes fizerão a todos christãos, de todos os luguares, huma falia e entre si con- certarão e prometerão morrerem christãos e pelejarem todos juntamente, em hum spirito e vontade, com quaesquer mouros, que com os christãos quisessem peleiar, e fazerem todos hum corpo, e que todos acudissem ao luguar, onde os mouros pelleiassem. Foi esta huma cousa de grande comtemtamento e con- solação pera os padres, vendo tão firme proposito nas almas de tão pouco tempo comvertidas a nossa sancta fe; e dizia Manoel que nunqua tão grande comformidade vira nos christãos de Amboino. E alguns christãos, que esta- vão differentes, o padre os tornou a recomçiliar, e fiquarão todos amigos. Neste tempo vierão dous portuguezes de hum luguar, que se chama Homa, a chamar alguns dos padres, que fossem la, por estarem os christãos muito deseiosos de ver os padres. Foi com elles o Padre Dioguo de Magalhãis, ao qual receberão com grande alegria; loguo ao outro dia o vierão chamar, ao mesmo padre, de hum luguar que pri- meiro avia tido algum primcipio de christandade, dizendo, os daquelle luguar, que os bautizassem, porque antes que- rião morrer na fe de Christo, que fiquarem salvos, com serem mouros. Esteve alli o Padre Dioguo de Magalhães perto de dous 3 6
meses, e fez mais de oitoçemtos christãos, doutrinando-os na fe. Dahi se tornou, o padre, pera Ative, pera terem ahi a festa do Natal, iuntos; a qual passada, tornarão os padres a visitarem os luguares dos christãos, e emsinando-os, polia menha e a tarde, a doutrina, e detendo-se nos luguares, ate II que a sabião. Desta vez, fizerão çem christãos de hum luguar (omde hum capitão, sem ali aver ido padre nenhum, avia bauti- zado, os annos passados, aquelle povo, e com as guerras e perseguições dos mouros, estavão prevertidos da fe). Vierão os primçipaes do luguare em busca dos padres a Ative, e, não os achando, falarão com Manoel, que elles se querião outra vez tornar a obediemçia da sancta fe católica; e que, posto que sabião que elles, por estarem mais perto dos mouros, avião de ser mais avexados delles, que os outros christãos, todavia, que querião antes padecer por a fe de Christo, Nosso Senhor, e salvar suas almas, que ho favor dos mouros, com sua condenação. E com quanto Manoel, com o zelo da fe e com a pouqua comfiança que delles tinha, lhe pidio muita fazenda, como em penhor e arefens de perseverarem na fee, ao diante, toda lhe offre- cião; mas, vimdo o Padre Francisco Roiz, e vendo a fir- meza de coração com que dizião, que antes morrerião, que tornar atras, não quis delles penhor, mas se foi com elles ao seu luguar, e fez ahi oitenta christãos, de çimquo annos pera bayxo, que inda não erão bautizados; e porque ti- nhão, com o medo dos mouros, huma cruz escondida no mato, a arvorarão, com muita festa, adorando-a, rezando as ladainhas. E dizião os christãos ao padre que, posto que os mouros lhes tomassem os filhos e lhos escoartejassem e tomassem suas fazendas, avião sempre de estar contentes, porque em que elles e os filhos perdessem a vida do corpo, por 37
certo tmhão que alcançarião, com isso, a salvação da alma, a qual não he piquena prova de terem fe verdadeira, que se prova nas tribulaçõis, como o ouro na forja. E muitos christãos deste mesmo luguar, semdo, por amor da fe, depois, muito perseguidos dos mouros, e come- tidos delles, que se tornassem mouros, deixarão, antes, perder suas ortas, chãos e casa, e se vierão morar em Ative. Vede, charissimos irmãos, quanto he pera simtir, aver tão poucos obreiros e tão grande messe; parece que he huma das mayores empresas que a Companhia tem, e de muitas partes pedem padres e não os ha. E tornando a visitação dos lugares que os padres fize- rão, andando ocupados nisto, vierão dous navios de mouros ladrões, pera fazerem roubos nos lugares dos christãos; e, porque fazião muito dano, pareçeo bem a Manoel e a alguns portuguezes, que se acharão em Amboyno, hirem com os padres, para darem mais animo aos christãos, e lhes tira- rem o medo que dos mouros tinhão. ■ Hião em tres embarcações, que elles chamão cora-coras, as quaes remão com sesenta remos, e algumas, cento, é cemto e vinte; hião os padres em o seu navio, hum dia diamte dos outros; e em huma ponta grande, que deitava a terra, com hum grande rochedo, alevantou-se tão grande tempestade, que se alagou o seu navio; alguns se lançarão ao mar, e as ondas lançavam-nos em a rocha, de tal maneira que hum homem morreo, e alguns portuguezes, saindo a rocha, se fmrão nas pedras, que erão tão agudas como strepes. E porque esta embarcação, ainda que se alague, nao vay ao fundo, os padres se deixarão estar nella, ani- mando os portuguezes e aos christãos, que se alguma offensa tinhão feita a Deos, se comfessassem. A isto acodio a gente da terra, e vinhão pera matar aos dous portuguezes,^ que sairão pella rocha, mas açenando os padres com as mãos, lhes não fizerão mal. Emtão, fizerão 38
huma jangada e forão recolher os padres e a mais gente do navio, e alevantarão as mãos aos çeos, dando graças a Deos, e dizendo que a perdição dos padres fora sua salva- ção; sairão todos meos nus, e levarão-nos agasalhar ao luguar dos christãos, offerecendo-lhe o comer e o neces- sário. Nisto vinha Manoel // e seus companheiros nas outras [577 v.] duas embarcações, com muita descomsolação e tristeza, por lhes dizerem que os padres erão mortos no mar, e achando as taboas da cora-cora, afirmarão mais ser assim; e quando chegarão aquelle luguar dos christãos, que virão os padres vivos, era tão grande a alegria de Manoel, que se deitava aos seus pes, chorando com alegria, e dizia que não lhe dava nada perder a cora-cora e quanto nella vinha, e que em que perdera molher e filhos, nada era em compa- ração do que sintira, se algum padre morrera. E dava com muita devação graças ao Senhor, porque livrou aos padres de tão grande periguo. E aquelles mouros que acodirão aos padres, livrando-os do mar, com todo seu luguar se converterão a nossa sancta fe, tomando por mesterio virem ali ter os padres, daquella maneira; e alguns delles, que ia dantes erão christãos, e com as guerras estavão esfriados, se tornarão a reconçiliar na nossa santa fe, e derão seus filhos, pera serem baptiza- dos; os quaes forão sesemta, e depois se bautizarão mais trimta pesoas no mesmo luguar, e entre as quaes foi a molher do regedor da mesma terra. Mas como o inimigo da geração humana não folgasse com se comverter tamta gemte, vendo que todos corriao ao santo bautismo, queria-se neguoçiar pellos membros de Satanas, os mouros, pera impidir a graça da com versão, e fazer tornar atras os comvertidos. E asi, tomarão os mouros de Ito, que he hum luguar que mais nos faz a guerra, embarcações, e correndo os 39
luguares dos christãos, pera os perverter. E assi, forão ao luguar de Roçanive, que he todo de christãos, mais de quatro mil, dizendo-lhes que elles esperavão pellos mouros da Jaoa, que avião de vir em muitos iumcos, que são as naos daquella terra, e que avião de vir a destruir, desolar e queimar todos os christãos; que não quisessem morrer na morte, que se tornassem a fazer mouros, estribando-se no pouco tempo que avia que erão feitos christãos. Mas elles, posto que erão novas plantas da fe, não forão bons de arranquar de seus propositos, mas respondião aos mouros, posto que os vião mais poderosos que elles, que estavão aparelhados para, não somente as fazendas, mas as vidas, por polia fe de Nosso Senhor Jeshu Christo. Dali a poucos dias virão vir treze iuncos cheos de jaós, que são huns mouros muito emperrados na ley de Mafa- mede, e que anda vão pera aferrar a terra; mas, como Deos Nosso Senhor prove aos que nElle crem, nas may ores pres- sas, veio hum tempo rijo de sobre a terra, que os desguar- rou por esse mar, de maneira que forão laparar (sic) (2) na terra de Banda. E tres que se meterão na baya de Amboino vierão a falia com o Padre Francisco Roiz, o qual pergumtando-lhes a que vinhão, lhe disserão que vi- nhão, com toda aquella armada, a carreguar de cravo e a fazer pella ley de Mafamede tudo o que lhes os mouros daquelles lugares requeressem, que relevasse a ley de Ma- famede. E vendo que os outros erão desguarrados, não ousarão a desembarcar, mas diserão aos mouros da terra que, ja que não podião ajuda-los, que estivessem aparelhados, porque vinhão la atras tres navios de portuguezes, pera residir em Amboyno, que lhes avião de fazer mal. (2) Não encontramos a palavra registada nos Vocabulários por nós consultados. Talvez o mesmo que alapar. 40
Assi que, por misericórdia divina, não somente os mouros não poderão empeçer aos christãos, e por por obra a maliçia que trazião em seus corações, mas servirão de trazer nova de tanta alegria, como foi pera todos os christãos saberem que vinhão os portuguezes pera Amboyno, os quaes chegarão dali a oito dias, vindo por capitão Antonio Paez e com elle o Padre Antonio Fernandez e o Irmão António Gonçalvez. E donde os jaós andarão cimquo dias com calmaria, sem poder lamçar ancora, ate vir o tempo de terra, que os espalhou por esse mar, os nossos, loguo em chegando, entrarão, vemto a popa, pella barra. Aqui vereis, charissimos irmãos, a grande consolação que receberão os padres e os christãos, vendo o cuidado que Nosso Senhor tem dos seus, porque fiquarão tão for- tificados os christãos, com este effeito da Providencia di- vina, que mayor foy //o esforço e alegria que tomarão, [578 que o temor que dantes tinhão. Isto he, irmãos em Jeshu Christo, o que me ocorre escrever, este anno, das obras que Deos Nosso Senhor nelle obrou, por esta minima Companhia, nestas partes de Maluquo e Amboino (3). Day graças a Nosso Senhor, que he fonte e autor de todos os bens; as faltas atribuy-as a nos, porque de nossa parte vem, e roguay a Deos, Nosso Senhor, em vossos sanctos sacrifícios e orações, que acrecemte sempre os frui- tos desta parte de sua vinha, e nos faça taes instromentos e destribuidores dos merecimentos (4) do seu preciosíssimo sangue, que de nossa parte não impidamos os effeitos de sua graça, que sua divina Magestade quer comunicar as almas, com o seu preciosíssimo sangue remidas. (3) E Amboino são palavras acrescentadas com letra diferente. (4) As palavras dos merecimentos encontram-se na entrelinha, escritas com letra diferente. 4 1
E, pois, vedes, irmãos, que por falta de obreiros se deixão muitos de converter, pera se aproveytarem dos effeitos da Paixão de Nosso Senhor, pedi-lhe com muita efficacia que de a simtir aos Superiores mandar-vos qua, a obrar e tãobem cavar na vinha, porque, se por nos, que pera nada aproveitamos, estas cousas faz Nosso Senhor, que fara, se de Portugal e doutras partes de Europa vierem padres da Companhia, que seião taes quaes semelhantes empresas requerem?! Entretanto, com vossas orações, faremos o que puder- mos; em as quaes todos humildememte nos emcomendamos. De Maluquo, a vimte e quatro de Fevereiro, de mil e quinhentos e sesenta e tres annos, Servo indigno de todos da Companhia Baltasar de Araujo 42 '
4 CARTA DO CARDEAL D. HENRIQUE AO VICE-REI DA INDIA Lisboa, i de Março de 1563 APO: V, n." 461, pp. 536-537. a) Ordena a prisão de D. Jorge de Eça e de António Pereira Brandão, e que sejam enviados para o Reino. Conde Viso-Rey, Amiguo. Eu El-Rey vos envio muito saudar, como aquelle que amo. Dom Duarte Deça, capitão que foi da minha fortaleza de Maluquo, se me enviou queixar do que contra elle cometerão Dom Jorge Deça, e Antonio Pereira Brandão, em grande meu desserviço e perjoizo seu, pedindo-me mandasse delles fazer justiça; e pella enformação de letrados, a que este negocio mandey ver, pareceo que os ditos D. Jorge Deça e António Pereira Brandão devião ser trazidos a este Reino presos em ferros na torna viagem destas naos, que Nosso Senhor leve e tragua a salvamento, com os autos de suas culpas, pera se em elles fazer comprimento de justiça, o que eu ouve por bem pela calidade do caso; pelo que os encomendo muito e mando que façais loguo prender em ferros aos ditos Dom Jorge Deça e Antonio Pereira Brandão, e so- crestar toda sua fazenda, e presos em ferros e a bom recado, os façaes embarquar pera estes Reinos nas naos desta armada, e enviar-me-eis os autos e culpas per que são acusados, e sendo caso que os feitos de seus livramentos 43
sejão despachados, ou qualquer delles, os enviareis no ponto e estado em que estiverem; o que asy compri como de vos confio. Escrita em Lisboa ao primeiro de Março. Pantalião Rebello a fez de 1563. O Cardeal Infante (Livro 3.0, fl. 285) 44
5 CARTA DO IRMÀO MANUEL GOMES A SEUS CONFRADES EM PORTUGAL Amboino, 20 de Maio de 1563 BAL: 4Q-IV-50 (1). Fls. 506 V.-508 r. Cópia muito clara e sem aditamentos posteriores, ou emen- das. Esta carta consideramo-la particularmente interessante e preciosa, pelas notícias nela contidas, referentes aos vários pontos das Molucas, onde havia cristandades. a) Religiosos da Companhia enviados às Molucas. b) O Padre Marcos Prancudo, com o Padre Nicolau Nunes e o Irmão Manuel Gomes, visita a ilha do Moro. c 1 Recepção que os cristãos desta ilha lhes fizeram. d) Administram, nesta mesma ilha, perto de mil baptismos, entre crianças e adultos. e) Cristãos, feitos cativos pelos mouros, são libertados por intervenção dos portugueses. /) O Padre Marcos Prancudo e o Irmão Fernão do Souro visitam, novamente, o Moro, donde se retiram, enfermos, para Ternate. g) Converte-se um dos principais chefes desta ilha, chamado Teolica. h) O P.° Fernando Álvares e o Irmão Fernão do Souro visitam a ilha de Batjan, onde baptizam perto de trezentas almas. ») Em certo lugar de Amboino, durante a estiagem, chove copiosa- mente, o que é atribuído às orações dos cristãos. j) Na mesma ilha, e durante um ano, fazem-se cristãs perto de dez mil almas (1) BACIL: Cartas do Japão, Vol. Ill, fls. 19 r.-2i v.; BNL: Fundo Geral, N.° 4.534, fls. 458 r-460 r. 45
A graça e amor de Christo, Nosso Senhor, faça continua morada em nossas almas. Amen. A sancta obediência me mandou lhes escrevesse esta, charissimos em Christo irmãos, pera lhes dar novas do muito que Nosso Senhor obra, nestas partes de Maluco, por estes seus fracos instrumentos, que qua andamos. Ja terão sabido, irmãos charissimos, como no anno de sessenta e um 1 mandou o Padre Provincial ao Padre Marcos Prancudo a estas partes de Maluco e ilhas de Am- boino, com mais cimco companheiros, emtre os quaes emtrou o Padre Framçisco Vyeira, ao qual coube ficar nestas ilhas de Amboino, com outro padre, para ambos fazerem o officio da Companhia. 0 Padre Marcos Prancudo se foi pera Maluco, noventa legoas destas ilhas, com os mais companheiros, e foi em o mes de Mayo de sessenta e dois E logo no mes de Junho do mesmo anno lhe pareceo bem hir visitar huns lugares de christãos, chamados o Moro, sessenta 3 legoas da fortaleza, dando-lhes pera isto, el-rey de Maluco, huma embarcação, com quorenta remeiros. E forão por seus companheiros o Padre Nicolao Nunez e o Irmão Manoel Gomez. E como ouvesse çimquo annos que estes lugares dos christãos não fossem visitados dos padres, por causa das guerras, estavão elles algum tanto desconfiados de la pode- rem ver padres. E chegando nos ao primeiro lugar de christãos, os quaes nos vierão reçeber a praya, com muita alegria e comtentamento, levantando todos as mãos aos çeos, dando graças ao Senhor, pois fora servido que os padres fossem aos seus lugares, e tamto que disse hum christão homrrado, por nome Dom Jorge, que forão elles, todo aquelle tempo que estiverão apartados da comversação dos padres, semelhamtes aos padres do Limbo. 1 — 61; 2 — 62; 3 — 60. 4.6
E logo ao outro dia seguimte trouxerão todos os filhos que tinhão por bautizar, que serião alguns cento e quinze *, e alguns mouros, que novamente se vinhão converter a nossa santa fee, dizendo que aquele era o presemte que nos offrecião, porque bem sabião que aquelles inoçemtes nos agradavão mais que todas as riquezas do Mundo, pois, por amor delles, passamos nesta vida tantos trabalhos. Neste mesmo dia, em que se fez o bautismo, fizerão elles muita festa, a sua maneira, comvidando aos remeiros da nossa embarcação, por serem mouros; e dizião-nos para que vissem as cerimonias que se fazião no bautizar dos filhos, e pera que tãobem vissem a alegria com que todos trazião seus filhos ao fazer de christãos; e lhe preguntavão se os seus cacizes, a quem elles chamão padres, se usavão do seu alcorão com aquella solemnidade e reveremçia, como os padres usão nas cousas de Deos. E que tudo aquilo que vião fazer aos padres, tudo era sem interesse algum, que somente o fazião por amor de Deos; e que nisto se via claro, o que os padres pregavão e amoestavão, tudo ser verdade e não aver outro; somente Aquelle a Quem os padres e christãos adorão. E que os seus caçizes nada fazem, sem interesse algum, donde se via claro, aonde não avia charidade e amor nas cousas de Deos, nem fazer nada por amor dElle, somente por seu interesse, era por não ter conhecimento do mesmo Deos, nem nenhum lume; que olhassem elles comforme a rezão. Isto acabado, nos fomos a outros lugares de christãos, dos quaes fomos reçebidos com a mesma alegria e gasa- lhado, fazemdo o mesmo que em o outro lugar, açima dito. Finalmente, irmãos charissimos, em todos estes lugares do Moro, que seria (sic) alguns trimta e seis, fizemos perto de mim almas christãs, tudo meninos, e alguns mouros, 4-115. 4 7
que novamente se vinhão a fazer christãos, afora alguns que ainda ficarão por bautizar, por causa dos pais e mais não estarem nos lugares, e andarem em suas erdades, e 1507 rj trazerem os filhos comsigo, // e o Padre Marcos Prancudo não estar em hum lugar, mais que hum dia, quando muito, por causa de huma nossa armada, que de tras nos vinha, pera em favor dos christãos, e os animar e favorecer, e fazer por em sua liberdade alguns christãos, que estavão reteudos em alguns lugares de mouros, que ficarão do tempo da guerra; os quaes, os mouros, não querião deixar vir pera seus lugares. Tudo se fez bem, aimda que pera tudo isto foi boa a ida dos padres, pollo grande credito que elles antre os mouros tem, e de nimguem se comfião, senão delles. E depois de nos tornados a fortaleza, que foy dahi a hum mes e meo, se tornou o Padre Marcos Prancudo, outra vez, a vinte de Novembro, a estes lugares do Moro, levando por companheiro ao Irmão Fernão do Souro, pera os aver de visitar, com mais vagar, e pera aver de bautizar os que fiquarão, em que bautizaria alguns dozemtos ou tre- zemtos mininos, porque, loguo neste comenos, cayo em huma grande emfermidade de febres, e se tornou pera a fortaleza, pera se aver de curar, deixando ao Irmão Fernão do Souro nos mesmos lugares, o qual não tardou muitos dias que não viesse doente de febres, porque este he o fruito com que esta tera a todos com vida aos que a ella vão. Não passarey, sem lhe contar, nesta, algumas cousas. Ouve alguns mouros que, poucos dias avia, os nos bauti- zaramos, e vendo, depois, bem as cerimonias do bautismo e veneração que se tinha nas cousas da igreja, dizião que padres que tinhão tamta reverencia e acatamento as cousas de Deos não podia ser, senão que o tinhão visto. E hum destes, que isto disse, se foy a igreja e a varreo, depois se assemtou de gioelhos, fazendo oração.
Tãobem ouve outro christão homrrado, que fez quei- xume ao padre, dizendo que Nosso Senhor lhe levara hum filho, não tendo elle outro, que o atribuya a seus pecados, portanto, lhe pedia o quisesse ouvir de comfissão, ainda que fosse por interprete, porque não sabia o que Nosso Senhor faria delle, que, de hum dia pera outro, não era nada; portanto, queria estar aparelhado pera todo o tempo que o Nosso Senhor quisesse levar pera Si. Ouve tãobem em estes lugares do Moro hum lugar cha- mado as Galelas (2), como fosse ametade christaãos, ame- tade mouros, por causa das guerras, e serem os christãos avexados e tiranizados dos mouros, tornarão atras, e que- rendo, os da nossa armada, polios em sua liberdade, hum mouro, chamado Teolica, primcipal dos do lugar, a quem elles todos obedesçem, por ser muito temido de todos, vemdo a detreminação do capitão-mor, acerca do por dos christãos em sua liberdade, por assi os christãos o pidirem, e querendo-o fazer, se veo este mouro, chamado Teolica, ao capitão, que pera que era andar com os christãos a caça, para huma parte e pera outra, que elle, com toda a gemte, se queria fazer christão, que emtão vivirião todos comfor- mes. E chamando elle a todos os seus, da sua banda, os quaes elle tinha ja avisado da inspiração que de Deos era tocado, dizendo-lhes que a elle lhe pareçia bem a ley dos christãos, que pera salvação de suas almas era necessário tomarem; que todo aquelle que o quisesse siguir se apar- tasse pera huma bamda, o que todos fizerão. E lhes fez huma pratica, dizendo que nimguem os forçava a se faze- rem christãos, somente em elle ver que Deos, por sua imfi- nita misericórdia, lhe dera a conhecer que a ley dos chris- tãos era a verdadeira, e que em outra nenhuma se podião (2) Lugar na ilha do Moro Grande. 49 IKSULÍKDIA, III 4
salvar, senão nella, e que olhassem bem, primeiro, todos, o que fazião, porque, se despois ouvesse algum que, por medo de morte, ou perda de fazenda, tornasse atras, lhes avia de cortar as cabeças. Todos forão comtemtes de seu parecer. Graças e lou- vores seião dados ao Senhor, pois os trouxe a conheci- mento da verdade. Na entrada de Junho de sessenta e dois 5, mandou o Padre Marcos Prancudo a hum nosso padre, chamado Fernão d Alvarez e ao Irmão Fernão do Souro, por seu companheiro, ao reyno de Bachão, vinte legoas da forta- leza, aonde, nesse pouco tempo que nelle esteve, fez muito serviço a Nosso Senhor, em conservar a christandade. O exercitio seu era dizer, todos os dias, sua missa e bautizar; o irmão emsinava a doutrina. Bautizana, o padre, algumas trezentas almas, em que emtravão dous filhos deste rey de Bachão. E como neste lugar, aomde el-rey esta de asemto, estivesse a may do mesmo rey, a qual não he ainda christãa, [507 v.] de cuja gemte se vem muita com // verter a nossa sancta fee, polias comtinuas amoestações de nossos padres, tinha ella comsigo alguns cacizes, que são seus padres, em sua misquita; e este Padre Fernão d'Alvarez, como seia claro e detreminado nas cousas que pertemçem a homrra de Deos, e a gemte da terra o conhecer por tal, mamdou loguo der- ribar a mesquita, e tirar os ossos do pay del-rey, que jazião demtro, e da mesquita fez huma igreja de Nossa Senhora da Comçeição, e tudo isto avendo el-rey assi por bem. Os caçizes, vendo a determinação do padre, e temendo dessem nelles, de sobresalto, o que elle ia lhes amdava no alcamçe, e perdemdo elles todas as esperamças de mais na terá serem ouvidos, detreminarão de desempararem a may del-rey, e se acolherem, o que loguo fizerão. E como 5-62. 50
andassem fora e longe do lugar, polios matos, feitos mon- tezinhos, que se não sabião dar a comselho, perguntarão- -Ihe alguns mouros, que ainda não sabião parte do des- barate; espamtarão-se muito de como anda vão tão remotos da casa da may del-rey, sendo elles tão acreditados delia, lhe pergupmtarão se tiverão algum desgosto com ella, ou com el-rey. Elles lhe responderão, como homens que sim- tião muito seu mal, que, se o desgosto fora com algum delles, que loguo seu mal tivera remedio, mas que era com hum padre, que da Companhia se chamava, o qual fora causa de sua perdição, e os desacreditara de todo, o qual credito elles, tarde ou nunqua, esperavão alcamçar. Algumas vezes os mandava chamar a may del-rey, se- cretamente, mas mandavam-lhe elles dizer que, emquanto ahi estivesse o padre, elles não se atrevião (3) ir a seu chamado, e isto, porque temião que tivesse o padre posto espias, pera os apanhar, e que, se os elle ouvesse a mão, que palavras nem dadivas o avião de comvençer. Neste reyno de Bachão obra Nosso Senhor cousas, certo, muito pera louvar ao mesmo Senhor; toda a pessoa que adoeçe, principalmente de febres, tanto que bebem huma pouca de agoa bemta, loguo sarão. E diguo-lhe, irmãos charissimos, que não ha muitos dias que neste mesmo Bachão ouve hum christão honrrado, que tinha dous filhos, os quaes não erão feitos christãos, e, trazen- do-os ao padre, que os bautizasse, e, depois de bautizados, loguo no mesmo dia adoeçerão ambos, de humas febres muito grandes. O pay e may vierão fazer queixume ao padre, da em- firmidade dos filhos. O padre, emtendendo a malícia do demonio, perguntou-lhes se, porque seus filhos se fizerão (3) Correcção de não podião ir... 5 *
christãos, se, por isso, adoeçerão. Disserão que si. Mandou- -lhes o padre que desse a cada hum huma pouca de agoa bemta a beber, que loguo serião sãos. Quis Nosso Senhor que, como lha dessem, naquelle mesmo instante se lhes fossem as febres, e ficarão sãos, o que foi grande alegria pera o pay e may, e pera o padre grande comsolação. Outras cousas muitas suçedem comtinuamente em este Bachão; de todo o mais me remeto a carta geral (4). As novas que lhes posso dar, dos padres e irmãos são, louvores a Nosso Senhor, estarem bem do corporal e milhor do spiritual, ainda que, os dias passados, estivemos quasi todos mui propimcos a morte, em huma comiumção; prim- çipalmente o Padre Marcos Prancudo e o Padre Fernão d'Alvarez estavão com a candea na mão. Quis Nosso Se- nhor, por sua infinita misericórdia, dar-lhe saúde, porque, nesta terra, Deos Nosso Senhor he o fisico, porque aquy não ha outro; e comer por onde achar, e comfesso-lhes, charissi- mos, que muito mayor comsolação he viver emtre estes christãos, com a febre, que estar em Goa, ou nessa terra, muito são. A doze de Fevereiro de 563, mandou o Padre Marcos Prancudo ao Padre Fernão d'Alvarez e a mim com elle a estas ilhas de Amboino, noventa-90- legoas da fortaleza, pera ajudar ao Padre Francisco Vieyra a levar os trabalhos da Companhia. E viemos algum tamto desfaleçidos das forças corporais, e tanto que foi neçessario, na Quoresma, comermos carne e jazer em cama. Por aquy poderão em- tender a grande neçessidade que se nestas partes de Maluco tem de obreiros, pera andarem e trabalharem nesta vinha do Senhor, que, avendo tão pouco que hum padre estava mais julgado de todos pera a morte que pera a vida, tanto que se foi achando algum tamto bem, se foi logo ao trabalho, (4) Talvez uma das cartas publicadas sob o N.° 2 ou 3. 5 2
não tendo lugar pera comvalecer; e isto por se mais não poder fazer. E o mesmo fez o Padre Marcos Pranculo, que, a nossa partida, se ficava fazendo prestes pera se hir, outra vez, ao Moro, a peleiar com as febres, que he a terra donde elle trouxe a emfirmidade, de que esteve mal; e he tão // ami- guo de trabalhos que, aonde os ha grandes, pera ahy se vay. Portanto, charissimos, peção muito a Nosso Senhor os faça partiçipamtes destes tão grandes trabalhos, como he socorrer a tamta neçessidade, como por qua ha, assi pera emcaminhar os que ia estão no caminho do Senhor, como pera aqueles que vão errados e fora dele, os quaes pedem com muita eficaçia os queirão emcaminhar, e, por falta de obreyros, pereçem tamtas almas, o que he huma grande lastima de ver, e os que tão grande neçessidade vem, sem lhe poderem acudir, não deixar de padesçer grandíssima compaixão em ver o grande numero de gem te, que pede lume pera conhecer a seu Criador, não tendo quem lho de nem amostre. A mayor comsolação, irmãos charissimos, que todos nesta terra reçebemos, a qual nos faz esqueçer de todos os trabalhos que se nesta passa, asi no corporal como no spi- ritual, he ver que em terras tão remotas se louva ao Senhor, e he comtinuamente louvado de gemte tão rústica, como he a desta terra de Amboino. Mas, contudo, tem huma cousa, que he gemte simplez e bem inclinada e emprime- -se-lhe bem a doutrina, primcipalmente os meninos, que em dous meses a aprendem. He gente muito devota da Cruz, e todas as noites lhe açendem muitas camdeas, e se asentão de giolhos, cam- tando a doutrina, ao qual, depois de acabada, pedem ao Senhor lhes dee saúde e lhe perdoe seus pecados, e outras cousas semelhamtes a estas. 5 3
Tãobem acomteceo em hum lugar, neste Amboino, que pouco avia era feito christão, tendo neçessidade de agoa pera suas ortas, se forão, algumas christãas, a hum lugar, aonde sabião que estava hum pagode, que em tempo de gemtios lhe tinhão grande veneração; e, indo por tres ou quatro vezes a elle, fazendo-lhe suas çerimonias gemti'icas, lhe pidião que lhe desse agoa. E sabendo-o huma christã, casaaa com hum portuguez, que ja sabia as cousas da nossa santa fe, as ameaçou com os padres, e peleiando com ellas, porque fazião aquellas çerimonias gemtilicas ao de- mónio, lhes dizia que, se elle não podia fazer bem a si, como o faria a ellas? Que somente Deos o podia fazer, pois era Criador e Dador de todas as cousas, e que tudo estava na sua mão; que, se ellas o pidissem a Deos, Elle lha daria, porque nada nega a nimguem, quando a pitição he justa. Ellas, emtomçes, lhe pidirão as quisesse emsinar como avião de venerar ao Senhor, que ellas avia pouco tempo erão feitas christãs, e que lhes não pusesse culpa ao que tinhão feito. Forão-se todas a huma cruz que o Padre Mestre Fran- cisco tinha posto em a praya, e varrerão-lhe o terreyro, e emramarão-na, e se assemtarão de giolhos, dizendo: «Se- nhor, vos que conheçeis as neçessidades de vossas criaturas, pelas quaes padeçestes morte e paixão, nos day agoa, que somos christãs!» Em aquelle instante choveo tanta agoa que foi cousa de muita admiração, por estar o tempo claro e chover su- pitamente, a qual cousa em muito tempo se não falava senão no grande poder de Deos, e dizião que tudo o que lhes o padre disese, lhe avião de dar todos grande credito. Finalmente, estas christãs, com outras muitas, se forão ao pagode e o arrastarão, chamando-lhe muitos nomes, e por derradeiro o lamçarão por hum rio abaixo. Outras cousas avia que lhes escrever destas christãs, 5 4
dinas de muito louvor, mas, pellos não emfadar, o não faço, e tãobem porque, pera escrever esta, perdi muitos pedaços de noites, que me cabião pera repousar. Quanto a christandade que se tem feita, da nossa che- gada a esta terra, que ao escrever desta faz hum anno, se fizerão perto de dez mil almas christãs, afora muitos que, como ia digo, pedem christandade. Agora, no mes de Julho, me pareçe, se o tempo der lugar, a-de ir o Padre Francisco Vieira fazer hum lugar christão ou dous, nos quaes avera alugmas quoremta mil almas; hum deles chamado Luçe- bata; tem ja primçipio da christandade que, pellos asegu- rar, no anno que nos a esta terra chegamos, lhes bautizamos os primçipaes. Este lugar tera quimze mil almas e todos querem ser christãos. Parece que, por estas partes, quer Nosso Senhor recuperar os males que, por nossos pecados, ha pellas de Espanha. Nosso Senhor, por sua misericórdia, nos acabe em seu sancto serviço e nos de graça pera fazermos sua santa vom- tade. Ainda que em çima digo que o Padre Françisco Vieyra, chama-se, agora, Francisco Roiz, polio aver assi por bem a obediemçia. Deste Amboino, aos 20 de Mayo de 1563 anos. Servo de todos em o Senhor Manoel Gomez.
6 CARTA DO PADRE ANTÓNIO FERNANDES AOS IRMÃOS DO COLÉGIO DE GOA Amboino. 19 de Junho de 1563 BAL: 4Q-IV-50. (1) Fls. §08 V.-50Ç r. Cópia limpa e clara, sem emendas, nem palavras rasura- das, tendo-lhe sido acrescentadas, já no fim, nas entrelinhas, as duas expressões que se anotam. а) As muitas ocupações não lhe permitem alongar-se a escrever. б) Dificuldades que surgiram na viagem até Malaca, onde receberam pouco provimento. c) A caminho de Amboino, nas costas de Java, surpreende-os uma grande tempestade, com risco de naufragarem. d) Chegados, finalmente, à ilha de Amboino, são recebidos pelo Padre Francisco Vieira. e) Nesta ilha, toma parte num ataque a um lugar inimigo dos cristãos. /) Prepara-se para ir à ilha de Ceram levar a luz da fé. Pax Christi. Quisera eu, por çerto, e quisera escrever a todos, em particular, pois a todos os amo imtensamemte em Jeshu, (1) BACIL: Cartas do Japão, Vol. Ill, Fls. 29 r.-29 v.; BNL; Fundo Geral N.® 4.534, fls. 460 r.-46o v. 5 6
mas, não o podendo, ao presemte, fazer, como minha alma deseia, por algumas ocupações que, polia santa obidiemçia se offereçeram, e esta noite ser a vespora da partida para se irem, não podendo comigo acabar não lhes escrever, pois ia o não fiz de Malaca, determiney fazer esta pêra todos, jumtamente, e pera cada hum, em particular, afim que iumgat epistolei quos Christi nectit amor, e çerto que, pera isto, pidi liçemça, esta noite, pera o fazer. La saberão ja, charissimos, dos soçessos que tivemos, de Goa ate Malaca, e de como esta nossa viagem esteve em Malaca quasi desfeita, por muitos impedimemtos que pera isto sobrevierão, e pelo pouco provimento que nos da vão; mas, como as obras de Deos tenhão isto tão anexo, nunqua disistimos, buscando sempre todos os meyos pera nosso fim, comfiamdo em ho Senhor, que sempre, em semelhantes tempos, sabe visitar aos que nElle esperão, mudando as dificuldades em grandes façilidades. Final- mente que, quando em Malaca chegamos, era ia quasi de todo tarde, e o capitão Amtonio Pais mudava a derota, caminho da China. Emtrou a deshora Amtonio Pirez, por tizoureiro, e nos negoçiou, com grande amor e charidade , mas não pode fazer quanto deseiava, de modo que parti- mos com ametade de todo o provimento e gente que de Goa trazíamos. E pareçe aprouve asim a Deos, Nosso Senhor, que, assim como em as cousas naturaes, como vemos em as plantas e anymais, e outras criaturas, de piquenos prim- çipios faz, por sua vertude, grandes e fermosos efeitos, assim, para mais sua gloria, sera agora; e deste piqueno primçipio fumdara sua populosa igreia, como esperamos, pera que assim, com verdade, se diga: Non nobis. Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam (2). (2) Ps. 113-1. 5 7
Partimos de Malaqua pera Amboino, com huma pi- quena caravela, e com huma fusta, e com trinta portugue- zes, mas nunqua (Deos seia muito louvado) nos desacom- panhou, ate Amboino, a cruz; porque, avistada Iaoa, nos deu tão grande tromemta de vemto e chuiva, e sarraçam, qual, segundo os jaós diziam, nunqua acomteceo; foi de modo que não pudemos tomar a costa da Jaoa, e fomos por fora da ilha da Madura, porque nos comia o mar, visivelmente. E durou esta tromenta oyto ou nove dias. Neste tempo, lhes çertifico que, espiçialmente duas noites, me emcomendei a Deos, como homem que não cria humanamente poder chegar a menhã. E assim, esta noite, alguns se chegarão a confissão, e eu os confessei; e outros, por não terem tempo, se comfessarão com Deos, e quasi toda a noite pasavamos em ladainhas e gritos, pidindo a Deos misericórdia. Outros se ocupa vão em alejar ao mar quanto podião, asim que ia não hiamos senão a varar em terra, posto que sabíamos ser de enemigos, e que não tínha- mos salvação, tão grande era a tormenta. E, finalmente, quem a noite, quem polia menhã, todos esperávamos a morte, nos achamos pegados com humas ilhas, aonde nunqua foi nao, e nellas ancoramos, e, com grande alegria e prazer, todos louvamos a Deos, Nosso Senhor, por cousa tão supita e não esperada. Ja hiamos sem agoa, e, feita agoada, dahi a alguns dias, demos a vella, dia dos Reis, e fomos dar em humas pedras, de todo perdidos, e por mérito dos santos, por quem todos bradavamos; despois, todavia, tomamos a Jaoa, por grande merce de Deos, Nosso Senhor. Chegados a Amboino, achamos ahi o Padre Francisco Vieyra, que agora se chama Françisco Roiz, com o charis- simo Padre Magalhães. Eu dey a obediemçia ao Padre Françisco Roiz, Reitor, e certo que nos edifica muito com 5^
seu exemplo e charidade e com capellos e penitencias polias culpas, que he fruita nova de Amboino (3). Logo o capitão ajumtou sete cora-quoras, que assim se chamão as embarcações nestas partes, pera hir queimar hum lugar que fazia mal aos christãos, e o padre me man- dou com elle; e no caminho nos emcomtramos com hum corsaryo, e trazia nove cora-quoras. E, travada a briga, lhe matamos muita gente e dous dos seus mais honrados; e nos firio tres portuguezes e matou nove ou dez christãos da terra, e a mim me derão huma espingardada num em- para (4); mas quis Deos que resvalou. Seja pera seu ser- viço. Despois fomos ao Luçebata (5)» aonde // fiz muitos [509 r.i christãos; e também dos Atues (6) loguo vierão com sete cora-quoras ajudar-nos. Estes Atues estão perto de Se- rão (7), aonde agora me manda o padre com duas cora- -quoras; e vão comigo çimquo portuguezes, ou seis, e leva- mos hum seu embaixador, que elles de la mandarão, pera comfirmar nossa amizade. He viagem domde se espera muito serviço de Deos, Nosso Senhor, porque este lugar dos Seirões esta muito perto de Banda e dos Papuas. E se elle toma a fe, todo o mais se convertera facilmente. Roguem todos, charissimos, por esta empresa, e para que Deos, Nosso Senhor, prospere nossa viagem, para sua gloria. E se isto se faz, pouco he este collegio pera o que qua he necessário. (3) Quer dizer: a penitência feita pelas culpas ou faltas cometidas era coisa nova naquela terra. Na cópia BACIL lê-se: ...penitências que por nossas culpas nos dá. (4) BACIL: huma espingardada na rodela. (5) O mesmo que Lissabata, em Ceram. (6) Supomos tratar-se dos Hatouahas, na ilha de Haroukou. (7) A ilha de Ceram. 5 9
Deos, Nosso Senhor, nos ajunte a todos no seu reyno. Amen. E nos de nesta vida (nos conçeda) (8) a cruz dos trabalhos, por seu amor (9). Amboino, a 19 de Junho de 1563. Servo inútil de todos O Padre Antonio Fernandez (8) As palavras entre parêntese faltam na cópia BACIL. (9) Por seu amor, são palavras escritas na entrelinha.
TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE LOURENÇO PERES Colégio de Goa, 17 de Dezembro de 1563 BNL: Fundo Geral N.° 4.534 (i)- Fls. 422 r.-427 v. Esta carta geral ocupa-se principalmente dos assuntos da Índia, com algumas referências, no final, às cristandades de outros sítios, e, entre estas, as das Molucas. Encontra-se já publicada na íntegra em Documentação... (índia), Vol. ç, pp. 231-255. Quis-nos mais o Senhor consolar, este anno, com estas cartas e boas novas que do Japão, Maluco, e outras partes tivemos. E porque delias emtendemos se hia alarguando cada vez mais a vinha do Senhor, como la, polias cartas verão, foi necessário multiplicarem-se obreiros nella. E assi, este anno, foi servido o Senhor que deste collegio fossem alguns obreiros, pera ajudarem os outros que la estavão. Primeiramente se lançou mão da empresa da China, a qual nosso bendito Padre Mestre Francisquo tãoto trazia diante dos olhos, e em cuja porfia acabou a vida. Pera la vai o Padre Francisco Perez, de cuja muita virtude, saber (1) BACIL: Cartas do Japão, Vol. Ill, fls. 1 r.-6 v.; BAL: 49-IV-50, fls. 582 r.-59° r.
e prudência em o Senhor ja la terão asas entendido. O qual posto que era ja de idade e cansado dos trabalhos, todavia' vai muito comfiado em o Senhor lhe dara toda a ajuda necessária, pera poder comprir sua sancta vontade. Levou por companheiro o Padre Manoel Teixeira e o rma° A"drc Plnt0' que o anno passado foi deste collegio pera Mallaqua, todas pessoas experimentadas na virtude segundo que esta tão grande empresa requeria. Vao todos com o embaixador que, por Sua Alteza, vai pera o rei da China, o qual, alem de ser virtuoso, he muito afeiçoado a Companhia. Não vai pouco satisfeito e conso- lado de levar os padres que leva, polio que delles conhece. Prazera ao Senhor que este anno teremos de la as novas que todos dezejamos, e que se plantara a fee de Jesu Christo em gente que tão fora anda do conhecimento de seu cria- £427 v.] dor. / / . As no™s
do Padre Aires Brandão, aonde fiqua em seu lugar, pre- gando e confessando e satisfazendo em as mais obrigações de cassa (2). (2) Entenda-se que foi o Padre Baltasar Dias que ficou a substi- tuir o Padre Aires Brandão. O Padre Luís de Góis seguiu, de facto, para as Molucas.
8 CARTA DO PADRE PÊRO MASCARENHAS, COM OUTRA, INCLUSA NESTA, DO PADRE DIOGO DE MAGALHAES, EM MISSÃO NAS CELEBES Teniate, 10 de Fevereiro de 1564 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. (1) Fls. çi r.-çj v. Embora a cópia que utilizámos desta carta se encontre em boas condições de leitura, letra nítida, sem correcções e sem rasuras, nem sempre, apesar de tudo, o sentido do texto é claro, pela falta de pontuação e pelas características dum estilo difusoonde, muitas vezes, se perde a ideia principal do autor, que não chega a ser completamente expressa. Por outro lado, a designação indiscriminada e vaga de terras, lugares, portos e ilhas, e a grafia imperfeita destes topónimos dificultam a sua identificação. Procurámos, contudo, por meio duma pontuação conve- niente, e pelo contexto do documento, apresentar uma leitura, o mais possível exacta, e também identificar os lugares citados. Não publicamos separadamente as duas cartas incluídas neste documento, porque ambas, no códice, constituem partes da mesma peça. а) Primeiras conversões nas Celebes. б) Carta do Padre Diogo de Magalhães, inclusa nesta, dando conta da sua missão a estes arquipélagos, principalmente em Manado. c) Construção duma igreja em Ternate pelos religiosos da Companhia, e a sua inauguração. d) Algumas notícias das cristandades de Tidor e do Moro. (1) BNL: Fundo Geral, N.® 4.534, fls. 498 r.-500 r. 64
A pas de Jesu Christo, Nosso Senhor, seia sem- pre em nossas almas. Amen. Nesta, charissimos irmãos, [direi] algumas cousas das muitas que podia dizer, em que ha muita materia de louvar a Nosso Senhor, por seu grande amor e misericórdia pera com nosco, e cuydado que tem de trazer as almas ao seu conhecimento, e por meyos, a nosso parecer, tam estra- nhos. E principalmente direy huma que, depois da partida do irmão Baltesar de Araujo, que foi em Março, logo ao Mayo seguinte aconteceo, que tendo el-rei de Ternate feita huma armada grande, em que mandava seu filho Babu, que he erdeiro do reino dos Celebes, que são gentios, a faze-los mouros, por força; os quaes Celebes tinhão man- dado, muitas vezes, a esta fortaleza, que se querião fazer christãos, que lhe mandassem quem os bautizasse. Ho capitão avia dias que tinha pedido ao / / Padre [91 v.] Reitor, que mandassem hum padre aos Celebes, ao qual respondeo o padre que não tinha quem mandar. E como neste tempo, que a armada del-rei de Ternate se fazia pres- tes, chegasse o Padre Diogo de Magalhães, de Amboino, tornou outra vez o capitão a pedir que mandasse hum padre, e que elle mandaria duas cara-coras, que são as embarquações desta terra, e que mandaria oyto ou dez portugueses nellas, e que desta maneira, indo diante da armada dos mouros, terião ja feitos christãos aos Celebes, e assy se impediria não serem mouros, e se ganharão tantas almas quantas estava certo perderem-se, se se lhe não acudisse. Despois disto ser encomendado, alguns dias, a Deos, pellos que aqui estávamos, coube esta boa e santa missão ao Padre Diogo de Magalhães, e porque o Padre Reitor se queria ir pera o Moro, aonde estava o Irmão Fernão do 6 5 INSILÍSDIA, III — 5
Souro, pera ensinar a doutrina aos christãos, deixou con- certada a ida do Padre Diogo de Magalhães, e partio-se. I* içamos aqui ambos e hum irmão noviço, que qua re- cebeo o Padre Reitor, muito amigo da oração, obediência e regras, e que nos tem muito ajudado. Tanto que el-rei de Tarnate soube que o capitão man- dava mandava (sic) cara-coras, e hia hum padre, deter- minou de estrovar enquanto pudesse, e assy deytou fama que vinhão castelhanos, e que parecião tres naos, e fez que mandasse o capitão hum paroo esquipado, a buscar as cara-coras em que hia o padre aos Celebes, que tinhão partido o dia dantes. E tornarão, e aqui estiverão sete ou oyto dias, ate vir recado do Moro, aonde o capitão tinha mandado saber se averia naos de castelhanos, porque dezia el-rei que por aquella parte as virão. Mas como Deos, cheo de misericór- dia, a tinha de tantas almas quantas se perderão nos Cele- bes, por não terem conhecimento de sua bondade, e lhe queria abrir a porta do ceo, ainda que o tempo era muito rijo, e grandes mares, e a gente das cara-coras dezião que se perderião, se naquelle tempo se partissem, mandou o capitão que em toda a maneira se partissem logo, ainda que corressem muito risco, ameaçando os capitães que, se logo se não partião, os meteria no tronquo, em ferros. Partirão-se e quis Nosso Senhor leva-los ao Manado, que são daqui dous dias e duas noytes de caminho, aonde o padre ao rei do Manado, com muita da sua gente, e ao rei de São, e quasi toda a gente daquella terra, lhe pedia que os fizesse christãos, como verão nesta carta, que abaixo estaa escrita, que o mesmo padre me escreveo do Ma- nado (2). (2) Deve entender-se, nesta passagem, que foi o rei de Manado a pedir o baptismo, como se vê claramente no texto, adiante. 6 6
«Reverendo em Christo Padre. A graça e amor de Jesu Christo, Nosso Senhor, more sempre em nossas almas. Amen. Chegamos a este Manado, aonde me pedyo el-rey, com a mays gente, que os fizesse christãos, e em quinze dias que aquy estive lhe ensiney a doutrina, praticando com elle cousas da fee. Fiz christão a el-rey com ate myl e quynhentas almas, determinando de fazer christã a mais gente, da tornada de Totolem (3), aonde o capitão mandava estas cora-coras. Estes Manados são os mays temidos e // esforçados [92 r.i nas armas, que ha por esta terra. Puz-lhes huma cruz na praia, e dey-lhes huma bandeyra del-rey, e outra a el-rey de Siam (4), que achey neste Manado, e o fiz christão, por me pedir muyto. E. hum homem que guarda muyto a justiça; na sua terra tem seys mil homens de peleja, e na ylha, pode aver vinte ate trynta e cynco mil almas. E muyto abastada de mantimentos, e tem muyto boas agoas. Depois de fazer esta gente christã, nos fomos correndo a esta costa dos Celebes, e, chegando a hum luguar que se chama Balam (5) de que he rey hum filho deste rey Manado, que Cachil Guzarate fez mouro, recebeo-nos com muyto agasalhado, dando-nos todo o mantimento neces- sário, e me disse que Cachil Guzarate o fizera mouro, por força, e, portanto, me pedia que o fizesse christão, com toda a sua gente, e que elle guardaria os costumes de chris- tão, e botaria os seus fora. E não me pareceo faze-lo, então, christão, porquanto fora ya mouro, senão depois que tor- nase de Totole. (3) Supomos ser o mesmo que Motoling, porto 110 extremo leste das Celebes, perto de Manado. (4) A ilha de Siaw, ao norte das Celebes, em frente às Molucas. (5) O mesmo que Belang, lugar nas Celebes, frente às Molucas. 67
Este tem sete ou oyto lugares, que todos são gentios, nos quais dizem que podem aver doze ou quynze mil almas. Dahi fomos a Cauripa, e he uma praya, que em obra de mea legoa tem seis lugares; estes vierão a praya todos, e nos trouxerão mantimentos, e nos pedirão que os fizésse- mos christãos. Vierão a praya por tres vezes, e obra de tres mil homens, e não me deixavão, pedindo-me sempre que os fizesse christãos, mostrando-se muy escandalizados dos ternates. Fiz, então (6), as princypaes cabeças dos luguares, pera que da vinda que tornar-se do Totolem fazer a mays gente. Puzemos-lhe huma cruz na praya, defronte de hum luguar; daquy a Totole são synco dias de camynho, aonde chegamos, e os portugueses não acharão o que buscavão, porque nos disserão que o berço que o tinha levado Cachil Guzarate. Toda esta costa quer muyto grande mal a mouros, e dizem que em nenhuma maneyra o serão, senão christãos. Depois nos tornamos a Cauripa, aonde também vierão a praya, pedindo-me que fosse ao luguar fazer suas molhe- res e filhos christãos. Fuy a dous luguares, e puz em cada hum huma cruz, e perece-me que faria dous mil christãos, pouco mays ou menos. E nisto gastey oito dias. Despois nos viemos ao Manado, aonde agora fico pera os confirmar, porque esta he a princypal cabeça de todo o Celebe, e deste se a-de fazer muyta conta, pera se ganharem todos os outros. A este rey dey o baaju (7) que mandou o capitão; aquy determino estar ate a vinda da nao, a qual ey-de esperar aquy, pera, se nella vier algum padre, me ir confessar, e porque Vossa Reverencia sabe quanta desconsolação he estar soo, sem ter homem com quem se confesse, por amor (6) i. é. fiz, então, cristãos as principais cabeças, etc. (7) Peça do vestuário malaio, espécie de blusa. 6 8
de Nosso Senhor que alerabre ao Padre que me mande companheyro. Determyno de ir a Sião (8), que são deste Manado dous dias de camynho, pera fazer a gente delle christã. Di- zent-me que he muy boa gente, e eu não os vou aguora fazer christãos, porque também quero emsinar a doutrina a estes, que ya tenho feitos, e depois determyno de ir a Siam, e estar la tres ou quatro meses, e ensinar-lhe, pri- meyro, a doutrina , que os faça christãos. Pera remedio desta terra são necessários dous padres e hum irmão; hum pera estar, outro pera o Manado, outro para Cauripa, que deste Manado sam quatro dias de caminho, aonde tenho feito dous mil christãos e os principais; e se nam ouverem de ser mais de dous, he bom serem padres, por amor das confissões. Esta Batachina he toda povoada e ha muytos lugares, e grandes, de quatro e cinquo e seis mil almas, e todos que- rem ser christãos. São gentios. Eu não ey-de fazer ja mais, ate aver qua quem hos ensine e doutrine, porque me parece, que he milhor poucos, bem doutrinados, que muytos, mal doutrinados. Esta gente dos Celebes folga muyto de cantar a dou- trina, e // assi por mar, como por terra, continuamente, [92 ▼.] assy os grandes, como os pequenos. Não tenho mais ao presente que possa escrever a Vossa Reverencia. Do Manado, a vynte e oyto de Julho de 1563 annos». Despois que o Padre Dioguo de Magalhãis tornou do Totolee, aonde o capitão desta fortaleza mandava buscar hum berço e hum falcão, deyxousse ficar no Manado e com elle ficou hum christão da terra, por lingua. Forão-se, (8) O mesmo que Siaw, ilha ao norte do extremo leste das Celebes. 6 9
então, os portugueses a Syam, pera estarem com el-rey, que o padre fez christão no Manado, dous meses, que era o tempo da monçam, que ventam os noroestes, pera se virem pera qua, pera a fortaleza. El-rei de Syam, segundo me diseram os portugueses, os recebeo com tanto amor e guasalhado, como se forão seus amiguos, de muyto tempo conhecidos ou yrmãos, que muyto se amasem. E tanto que, dous meses que ahy esti- veram, lhes deu de comer a elles e a toda sua gente que levavão nas embarcaçõis, que, pello menos, serão mais de cem pessoas. E dizem que vinha dormir as suas cara-coras, e comer com elles continuamente, e que lhes fez grande festa, todo aquelle tempo, e lhes dezia que, se o padre quisesse yr para o seu luguar e suas terras, que nam tinha necessidade de nada mais, que elle lhe faria loguo as casas muyto boas e y grey a, e lhe daria todo o necessário, e que toda a sua gente se faria loguo christã, e guardaria todos os custumes de christãos. Praza a Nosso Senhor que lhe conserve tarn boons de- seios, e lhos augmente. Despois de partido o Padre Reitor pera o Moro, e o Padre Dioguo de Magalhãis pera os Cellebes, ficamos aqui nesta fortaleza o Yrmão Vicente Dyaz e eu, e começamos a por por obra, e fazer huma igreia, porque a não tínhamos. O mestre do galiam de Pero de Mesquita e o pilloto e todos os mais officiais delle nos foram buscar toda a madeyra necessária a Batochina, que sam quatro ou cinquo léguas daqui. E isto por muytas vezes;dos (que) na terra resi- dem huns nos derão os ferreyros, outros os serradores, outros os moços pera o serviço; tudo isto de graça. Demos- -Ihe tanta pressa que a começamos, dia de Santa Joana, aos vinte e seis de Julho, e disemos nella a primeyra missa, dia da Dedicação do templo, a nove de Novembro. 7 0
O corpo da igreja he de oyto braças de comprido e simquo de larguo; a capella he de duas, de comprido, e da largura da igreja; a frontaria e cruzeyro da igreya he de taboado, e tudo mays de pagares (9), cubertos com ca- çoais (10) muyto alvas, que sam a maneyra de esteyras. A primeyra missa que dissemos foy cantada. Disse-ha o Vigayro, e pregou o Padre Reitor, que avia pouco que viera do Moro doente e a esperar a nao. E pregou com muyta satisfação de todos, porque he muyto aceyto em todas suas preguações, e faz com ellas muyto fruyto; e assi se confessa muyta gente aqui, em nossa casa, os domingos do Sacramento, e todas as festas de Nossa Senhora e dos santos, e cada oyto dias; assi se fazem aqui muytas ami- zades por meyo de nossos padres. Especialmente direy de huma, que não ha muytos dias / / aconteceo andarem dous homens, muyto honrra- 193 r i dos, pera se matarem com montantes e chuças de huma parte e de outra. Metemo-nos a os apasiguar, e prouve a Nosso Senhor que ficou tudo quieto, e elles amigos. Outro homem honrrado tinha iniuriado a outro de pa- lavra, e tanto que o iniuriado andava para o acutilar ou matar a outro. E estes fizemos vir aquy a casa e ficão muito amigos. E amizades semelhantes se fazem muitas vezes. Nesta coniunção de tempo chegou o Padre Nicolao Nunez, de Bachão, onde esteve todo este anno, doutrinan- do-os e bautizando-os e confessando alguns. Chegou tam- bém o Padre Dioguo de Magalhãis, dos Celebes, com o rey do Manado, que fez christão, que veio ver a fortaleza, e esta agora aquy e a-de estar atee Maio. E veio o Irmão Fernão do Souro, do Moro, e assy esta- (9) Termo formado do malaio pagar, sebe. paliçada. Os portu- gueses divulgaram a palavra no Oriente com este sentido. (10) O mesmo que cacauais? 71
vamos todos seis iuntos, quando chegou a nao, esperando com muitos deseios pelo Padre Provincial, porque, os que nos derão as primeiras novas, nos disserão que vinha, nomeando-o por seu nome, mas achamo-nos sem elle. E também nos alegramos muyto com tão bons dous compa- nheiros como são o Padre Luis de Goes e o Yrmão Vasco Roiz, e em tempo que os Celebes tem tanta necessidade de nos. Estivemos assy todos iuntos cinco ou seis dias, no cabo dos quais se partio o Padre Roiz para o Moro, levando consiguo o Irmão Vasco Roiz e o Irmão Fernão do Souro e o Padre Nicolao Nunez, que então podia escusar Bachão, alguns dias, porque el-rey de Bachão era ido a Amboyno, e levou quasi todos os homens consigo a Seirão, que o mandou chamar, para lhe dar obediência, e este tempo quiz o Padre Roiz que o gastasse com os christãos do Moro. Ficamos aquy o Padre Luis de Goes e o Padre Diogo de Magalhãis e eu, e todos tres não podíamos satisfazer a muita gente que se confessou, a segunda somana do iubi- leu, porque a primeira somana foy tanta que com estar aquy o Padre Reitor e o Padre Nicolao Nunez, e confes- sarmos todos cinco, não bastavamos, mas sempre se hia gente para casa, por confessar. Não passarão, depois, muitos dias que não mandasse o Padre Reitor chamar o Padre Diogo de Magalhães, pera doutrinar os christãos do Moro, daquy atee Maio, que he o tempo e monção para os Celebes. Ficamos aquy o Padre Luis de Goes e eu e o Irmão Vicente Dias. O Padre Luis de Goes prega aqui, aos domingos, muito bem, e folga esta gente muito de o ouvir, e de se confessar com elle. Poucos dias antes de chegar a nao, se fez christão hum homem principal de Tidor, do milhor conselho e milhor capitão que el-rey de Tidore tem, e que sustentou toda a guerra contra a fortaleza, e fez grande espanto a todos os 72
que o conhecião. E, segundo se diz, estão muitos princi- pais, assy de Tidor, como destroutas ilhas, movidos. Este homem he muyto poderoso e rico, e tem quatro ou çinco lugares, e logo o capitão o meteo de posse delles. Anda sempre muyto bem acompanhado de sua gente, e tem dado atee agora mostras de verdadeiro christão. Folga muito de lhe tratarem de cousas da fee, e pergunta muito por ellas. Que fazem, charissimos irmãos, tam de vagar nesse collegio, estando nestas partes // tantas almas gentias (93 *.] chamando-os e esperando por elles, como he todo esse Ce- lebe e Bengay (n) e o Xapua (12) e outra muita gente, e se perde a mingoa, pedindo que os fação christãos, sem aver quem lhes acuda? Portanto, charissimos, por amor de Deos, que não aya quem não importune muito ao Superior, pedindo-lhe muy affincadamente os mande para estas partes, pera aiudarem sequer a estes pobrezinhos, que tão deseiosos são de se salvarem, e a messe tanta, que mais se perde do que se recolhe, o que não fora, avendo abundancia dos obreiros que ella requere. E certefico-lhes, charissimos, que por muitos que venhão, que vay ca, louvores ao Senhor, a cousa de maneira que muitos e muitos mais se ão-de a\ er mester. Praza ao Senhor que a todos nos de sua graça, pera que em tudo façamos sua santa vontade. Nos muitos sacrifícios e orações de todos os charissimos padres e irmãos muito nos encomendamos. De Ternate, oie 10 de Fevereiro de 1564. Servo em Christo Pero Mascarenhas (11) Arquipélago de Bangai. pertencente às Celebes e a leste desta ilha; e também um reino da mesma ilha. (12) Supomos referir-se ao arquipélago dos Papuas. 7 3
0 TESTAMENTO QUE O REI DAS MOLUCAS FEZ DAS SUAS ILHAS A EL-REI DE PORTUGAL Molucas, 12 de Fevereiro de 1564 ANT: CC-I-106-iiç. Original bem conservado, em quatro folhas escritas com letra clara, contendo o Testamento do rei das Molucas, a Decla- ração do Ouvidor Brás Pires, e uma Certidão de Justificação do desembargador Francisco Marques Botelho. Esta é a terceira vez que os reis das Molucas fazem doação das suas ilhas aos reis de Portugal: a primeira, foi em tempo de António de Brito, cujo texto não pudemos encontrar; a segunda, em tempo de Jordão de Freitas, e cuja documentação publicamos no Vol. 2°, pág. iç; e, novamente, nesta data. Muito alto e muito poderoso Rei Dom Sebastião, Rey de Portugal. Sabendo eu, Quachil Aeiro, rey de Maluquo, e Qua- chil Babu, meu filho erdeiro, e todos os grandes e princi- pais de meu reino, em quanto crecimento forão sempre todos os reis que nestas partes da India e nas outras, por onde se vossas bandeiras e insinias se estenderão, se che- garão a obediência dEl-Rey Dom João, vosso avoo, de gloriosa memoria, e dos vossos antepassados, e que precu- rarão seu emparo e sua amizade, em quanto com seu favor e ajuda dilatarão e estenderão seus reinos e estados, e quão temidos e acatados forão de seus imigos e de todas as outras naçõis da terra; e vendo com quão sereníssima umanidade 7 4-
e amor os tratou a todos, e quantas honrras e merces, cada dia, delle recebião; e finalmente que como filhos os an- dava emparando e defendendo dos embates e movimentos do mundo; e vendo tãobem quão inteiramente gardava os termos da justiça, e que elle soo nesta vida, e se aqua pode aver, se podia chamar ho seu verdadeiro administra- dor e exucutor, porque omde ella por sy e polia malícia dos homens não podia chegar nem obrar seus efeitos, a sus- tentava e apurava e convalecia com o beneficio e poder das armas, tão conhecidas por esperiencia quão pubricadas por fama, que como outrosy conhecendo e entendendo meu pay, Barano Naci Rolão, isto lhe deu e ofereceo de sua propria vontade esta fortaleza, que Vossa Alteza tem nesta ilha e se meteo debaixo de sua proteição; donde e doutras cousas que depois, polo tempo em diante socederão, aquirio pera sy e seus decendentes domínio e senhorio nestes reinos de Maluquo; e tendo nos por mui certo e sem duvida que Vossa Alteza não tão somente erdou delle, com os reinos de Portugal, juntamente todas estas eroicas vertudes, mas que ainda de sy obrara e lançara // outras muito maiores, [i v.j com as quais nobrecera e esclarecera mais o tronquo donde procede, e acrecentara seu real estado; e deseiando muito de seremos dos primeiros que se acolhão e emparem debaixo das vossas obras, per todas as rezõis e causas acima ditas, e per outros muitos respeitos que nos a isso movem, hora novamente tornamos com o parecer dos nossos principais e naturais no nosso proprio moto e livre vontade e sem constrangimento de pessoa alguma, determinamos e asen- tamos de vos dar e conceder e outorgar a Vossa Alteza e a Coroa desses vossos reinos de Purtugal, pera sempre, em feudo, e pera todos os que de Vossa Alteza decendeiem, e pela maneira que os ditos reinos de Purtugal andarem e socederem, o direito domínio e senhorio destes reinos de Maluquo, com todas as mais ilhas aderentes e adeacentes 75
que no dito reino, per direito antiguo pertence, ficando somente pera nos e pera todos os que de nos decenderem o senhorio e domínio utille do dito reino. Os quais nossos decendentes serão obrigados, quando no dito reino soce- derem, a requerer e pedir a Vossa Alteza ou ao voso viso rei ou governador, que polo tempo em diante for, a confir- mação do dito reino, em nosso nome; e per este nos obri- gamos dagora pera então, e por elles, de reconhecer a Vossa Alteza por verdadeiro e direito senhor destes ditos reinos e de compriremos todas as condições defendatarias; e pera mais abastança pera Vossa Alteza logo ficar envestido encorporado na posse autuai dos ditos reinos, eu e o dito Quechil Babu, meu filho erdeiro, tornamos a renunciar realmente nas mãos Damrique de Saa, fidalgo da vossa casa, que ora serve de vosso capitão nesta fortaleza de Maluquo, o qual recebeo e aceitou de nos, em vosso nome, e se ouve por empossado delles autoal e realmente, e da sua mão os tornamos de novo aceitar e receber, polia ma- neira sobre dita; e pera firmeza e certeza de tudo tornamos a pasar este presente formão (i) per duas vias per nos asynado e aselado com o selo e sinete das nossas armas reais a requerimento do dito Amrique de Saa, capitão em Maluquo, a doze de Fevereiro de 1564. El-rey de Maluco Quichil Babu Quichil Guzate Motei Doturo Manabo Chaqua Mole (1) Formão ou firmão — decreto ou alvará, emanado do poder régio. Do persa farman. 76
Lisa Mallisam (?) Gutinange (2). Bras Pirez, ouvidor com alçada, e juiz dos orfãos nesta fortaleza de Malluquo, por el-rey Noso Senhor, etc. faço a saber a quantos esta minha sertydam de justyficação vyrem que a letra deste formão atras e synais sam del-rey de Ternate e de seu filho Babu e asy dos mais omrados e prymcipais omens deste reino e ilhas de Malluquo, e a letra he do espryvam que serve amte o dito rey e ho sello asyma posto he das armas do dito rey de Malluquo, que amte elle servem, ao que tudo se dara enteyra fee he credyto quanto de dyreyto se lhe deve dar; e pera serteza dello, a requerimento de Amrique de Saa, fydallgo da casa del-rei, nosso senhor, e capitam na dyta fortalleza de Malluquo, mandey aquy pasar a presente, per mim asynada e asellada com ho sello das armas reaes que na di(a fortaleza servem. Feita na dita fortaleza de Malluquo, aos doze dyas do mes de Fevereiro. Diogo de Proença, esprivam do judy- cyal, a fez. Ano do nacymento de Nosso Senhor Jhu Christo, de mil e quynhentos e sesenta e quatro anos. Bras Pirez Pagou ao selo nihil (Mancha do selo das armas reais) Bras Pirez (2) Todos estes nomes se encontram, no texto, escritos também com caracteres árabes. A seguir encontra-se em lacre o selo das armas do rei das Molucas. 7 7
O licenceado Francisquo Marquez Botelho, do desem- bargo del-rey, nosso senhor, desembargador da casa da sopricação, ouvidor geral com allçada nestas par- tes da Imdia, etc. faço saber aos que esta minha certidão de justificação virem que a certidão atras de jus- tificação he feita per Diogo de Proemça, escrivão do ouvi- dor da (minha) (3) fortaleza de Malluquo e o synal nela posto Bras Pirez ouvidor do dito Malluquo, e isto segundo me comstou per testemunhas que perante mim se pergum- tarão, que poserão e jurarão ser a dita certidão feita per o dito Diogo de Proença e asynada pelo dito Bras Pirez, ouvidor que foi no dito Maluquo. E por me Amrique de Saa, capitão que foi do dito Malluquo, pedir a presente, dizendo lhe ser necessária pera bem da justificação da doação e renunciação atras e certidão, lha mandey pasar, per mim asynada e aselada com o sello das armas reais. Feita nesta cidade de Goa aos vimta cimquo dias do mes de Abril. Diogo Froes, escrivão da Ouvidoria Geral a fez. Anno do nacimento de Nosso Senhor Jesu Christo, de mil quinhentos sesenta e sete annos. Paga vinte 1 reaes, e de asynar, quatro. E não faça duvida o riscado que dizia minha, que se fez, por fazer verdade. Francisco Marquez Botelho (3) Palavra riscada. 1 —XX. 78
10 CARTA DO PADRE MARCOS PRANCUDO AO PADRE DIOGO LAINEZ Molucas, 12 de Fevereiro de 1564 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. (1) Fls. Q3 V.-Q4 r. Esta carta é um resumo breve do apostolado dos padres jesuítas nas cristandades da Insulíndia, enviado ao Geral da Companhia. A cópia de que nos servimos è clara, sem emendas e sem quaisquer notas à margem, ou palavras escritas nas entre- linhas. Apenas um pequeno borrão oculta, já no final, certa palavra, cuja leitura hipotética se indica em nota. O modo desusado como começa este documento leva-nos a supor que ele seja, somente, parte de uma carta. a) As conversões seriam muito mais, se houvera missionários. b) As muitas necessidades da índia não permitem ao Padre Provincial enviar às Molucas mais sacerdotes. c) Notícias das primeiras conversões nas Celebes. d) Viagem do rei de Batjan a Amboino, em socorro dos cristãos. e) Povos de outras várias ilhas pedem também o baptismo. Residimos, ao presente, nestas partes de Maluco, oito padres e cinco irmãos. Procedem todos na observância das regras com animo prompto, spirito alegre; ocupam-se com muito fervor e devação, assi nossa, como da gente de fora, (1) BNL: Fundo Geral, N.® 4.534, fls. 486 r.-486 v. 7 9
em dilatar os termos da vinha do Senhor, nesta mourama e gentios. He grande o fruito que se tem feito nesta terra, e se fizera, e fora muito mais, se ouvesse obreiros, porque não ha ilha, daqui cem legoas em roda, que são sem numero, que, se ouvesse quem os doutrinasse e instruísse nas cousas da fee, que se não apartasse de suas idolatrias e se fizessem chritãos; huns, movidos por Deos; outros, pella reputação em que tem os portugueses; outros, por medo e temor que delles tem, e por esta via se confederarão com elles. Os que aqui residimos somos tam poucos e as necessi- dades tantas, que não podemos acudir aos christãos, ja de alguns annos, que temos a nosso cargo; e, com andar- mos como peregrinos, sem teremos habitação certa, de lugar, a fazer os meninos christãos, e casar alguns que se querem casar, não podemos acudir a todos, e assi ha muitas ilhas de christãos que, quatro e cinco annos, que não vem padre nem pessoa, que lhes diga que cousa he ser christão. Disto crea Vossa Paternidade não teremos nos culpa, porque creo que, de nossa parte, fazemos o que se pode fazer, mas a christandade he tanta e espalhada por tantas ilhas, e nos tão poucos, que não he mais possível. O nosso Padre Provincial (2) tenho entendido ter grandes deseios de prover esta terra de obreiros, como he rezão e a necessidade o pede, mas tem tantas partes a que acudir, e recressem tantas necessidades de novo juntas, com ter pouca gente em Goa, pera poder mandar, que creo fazer mais do que pode. E assi, em seu tempo, foi esta terra provida o milhor do que nunqua foi. O Maio passado, mandou o capitão desta fortaleza duas embarcações ligeiras a humas ilhas, chamadas os Celebes, de que tinhamos muito pouca noticia, pera saber (2) P." António de Quadros. 80
a disposição da terra, e que gente erão e seu trato e modo de viver. Pareceo conveniente ir nellas hum padre nosso, por teremos // novas que erão gentios, e temeremos que fosse [94 r.i la algum cassis a os fazer mouros. Chegados a ilha principal (3), que sera de dozentas legoas em comprido, veo a gente a receber os portugueses. Sabendo que vinha ali padre, pera os fazer christãos, pedi- rão todos, una voce, e isto em todos os portos da mesma ilha, que os fizessem christãos. Bautizou o padre hum rey desta ilha, com muitos se- nhores, aos quaes dilatou o bautismo, dizendo que tor- naria com mays padres, e então os bautizaria a todos e doutrinaria. Bautizou também outros dous reis de outras duas ilhas comarcans a esta principal, reis mui billicosos e temidos naquellas partes. Hum destes dous reis disse ao padre, que queria vir a fortaleza dos portugueses, pera saber os seus custumes, e que cousa era ser christão. Esta agora aqui, faz-lhe o capi- tão (4) muita honra; temos esperanças que se servira muito Nosso Senhor naquellas terras. E o outro rei por- meteo também de vir. Temos por novas que he partido; com os tempos contrários, não pode chegar. Estas ilhas são muito populosas, assi a principal, como todas as outras adiacentes nella, pello que tenho entendido que, se nellas se repartisse o collegio de Coimbra, terião todos em que se ocupar. El-rey de Bachão, que he christão, foy, os dias pas- sados, as ilhas de Amboyno e Seyrão, por ser delle cha- mado, pera lhe darem a obediência, com preposito de destruir algumas ylhas de mouros ladrões, que com seus roubos avexavão os christãos daquellas partes. (3) Refere-se ao porto de Menado, no extremo leste das Celebes. (4) Henrique de Sá. 8 I INSL'LÍNDIA, III — *
Foi com elle hum padre nosso, que em seu reyno re- sedia. Temos por novas que fez muyto fruito e destruyo aos que o mereciam. Fez christãos aos princypaes de Sey- lão e de outras ilhas algumas, e muyto mais faria, se tivera padres que puderão acodir no muyto que se offerecya. Ha (?) (5) Vossa Paternidade de saber que nestas partes, feyto christão o principal do luguar, nenhuma dificuldade ha nos outros. Hum sobrinho de hum rey gentio, senhor de huma terra muy grande, populosa, veo a esta fortaleza, por mandado do tio, a saber que cousa era a nossa ley, e com recado do tyo que, se lhe parecesse bem, se fizesse christão, e pedisse algum padre pera o yr bautizar a elle e a todo seu reyno. Chegado aquy, se fez logo christão. Espero aquy por elle e por algum padre, pera o bautizar com todo seu reyno. Outros reis e senhores muytos pedem o bautismo, a quem não podemos acodir, por seremos tão poucos, como ja disse. Veja Vossa Paternidade, agora, quanta necessidade tem, esta messe, de obreyros, do que não faço muyta lem- brança a Vossa Paternidade, porque creo ter Vossa Pater- nidade das cousas desta terra especyal cuydado. Em a benção de Vossa Paternidade me encomendo. O mesmo fazem todos os que nestas partes residem. Oje, 12 de Fevereiro de 1564. Indignus filius in Domino. Marcos Prancudo. (5) Leitura hipotética; uma mancha de tinta torna ilegível a palavra. 8 2
11 CARTA DO IRMÃO MANUEL GOMES A SEUS CONFRADES DA ÍNDIA Ative, 15 de Abril de 1564 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. (1) Fls. 86 v.-çi r. Nesta carta cabem as observações já feitas numa outra an- terior: estilo confuso, redacção imperfeita e falta de pontuação. As designações toponímicas abundam ainda mais, e nem sempre conseguimos identificá-las com precisão. O valor deste documento, apesar de tudo, é incontestável, Pelo resumo interessante que nos dá sobre a obra missionária dos padres jesuítas em Amboino. a) Trabalhos e riscos que os religiosos passam em Amboino, para defesa dos cristãos. b) O capitão de Amboino, António Pais, procura castigar os lugares dos mouros, perseguidores da fé. •c) Chega a esta ilha o rei de Batjan, em socorro dos cristãos. d) Morte de António Pais, sentida até pelos mouros. te) Apostolado do Padre Francisco Roiz, do Padre Fernando Álvares e do Padre António Fernandes. f) Muitos baptismos não se fazem, por falta de missionários. g) Na ilha de Ceram também não se administram baptismos aos indí- genas que desejam converter-se, por não se lhes poder prestar, de- pois, assistência. h) O Irmão António Gonçalves constrói uma igreja em Liliboi, lugar de Amboino. .i) O Irmão Manuel Gomes visita a ilha de Hatouaha, onde havia perto de cento e cinquenta cristãos, e onde construiu também uma igreja com a Invocação de Nossa Senhora da Conceição. (1) BNL: Fundo Geral, N.° 4.534, fls. 493 V.-498 r. 8 3
A graça e amor do Espirito Santo faça continua morada em nossas almas. Amen. São tantas as ocasiões e motivos, charissimos em Christo irmãos, pera todos, assi lá, como cá, louvarmos o Santo Nome de Jesu, per çima da muita obrigação, que, alem disto, todos temos de o fazer, das cousas que Elie, por sua bondade, se ha por servido de obrar, por meo destes seus mínimos servos, que cá andamos nestas ylhas e terras de Amboino, açerca do augmento da christandade, que, pera se averem de contar como ellas requerem, folgarão que vo-las escrevera outrem, por minha capacidade me não aiudar a faze-lo como os sucessos o requerem; mas con- forme ao fraco engenho e milhor que possível me for, ya que a obediência me manda, lhes darei conta de algumas, se não de todas, como eu o desejava fazer. Desdo mes de Abril do anno de sesenta e tres, ate o escrever desta, que foi aos quinze do mesmo mes de Abril do anno de sesenta e quatro, passarão os padres e irmãos nesta terra de Amboyno grandíssimos trabalhos, assi cor- porais como espirituais, porque, atrevendosse os mouros a se desmandar a cometerem e queimarem qualquer lugar de christãos, e como em alguns delles acontecesse algum desastre, a ninguém doesse tanto como aos padres, polia [87 rj tal causa, // foi necessário tomarem a carrega dos traba- lhos, e usarem de officios dos da Companhia. E com elle repairarem a christandade, assi por orações, como com os animar e esfforçar pera com os imigos, trazendo-lhes mui- tas vezes aa memoria a morte e paixão de Christo Nosso Senhor, e quantos trabalhos nesta vida passara, por sal- vação de nossas almas. Com estas palavras e outras semelhantes se alegrarão muito os christãos, e os movião pera sofrerem qualquer perseguição que dos mouros recebessem, por amor de Deos, 84.
pedindo ao Padre Francisco Roiz mandasse algum padre ou irmão a cada hum a seus lugares pera os consolarem em seus trabalhos. Finalmente, irmãos meus, que se puserão os padres e irmãos em os lugares dos christãos mais fronteiros dos mouros, para os vigiarem, porque a gente desta terra por huma cousa perdem seu sono; os padres e irmãos gastavão hum dia em oração, e a noite em vigiar; com o qual exer- cício se alegravão muito em o Senhor. E com semelhantes trabalhos edificavão muito aos por- tugueses, e lhes daa azo pera pasarem qualquer trabalho, por amor dos christãos, porque lhes digo de verdade, que em tanto aperto nos puserão os mouros, que nos vigiáva- mos todos muito bem, e tão sobeios andavão ao redor dos lugares dos christãos, como também da nossa fortaleza, tomando os christãos e cortando a muitos as cabeças, e apegado com a fortaleza, queimarão hum lugar nosso, e cativarão a muita gente, sem lhes os portugueses poderem valer, porque não fazião tam pouco em sé guardarem a si e sua pousada. Finalmente, irmãos meus, como digo, que tão temero- sos estávamos todos, que muitas vezes se entolhava aos que vigiavão, por huns bichos (2) que luzem de noite, dando rebate que erão mouros que vinhão por o mato, com candeas, a queimar as casas. E não sem causa, porque, quasi cada dia. nos vinhão recado dos christãos, que se achavão mortos em lugares que nos queimavão, sem lhes podermos dar algum remedio. E de se fazerem tantos males, era causa não se acabar (2) Pirilampos. Em Timor, por exemplo, estes insectos poisam em certas árvores, como enxames, oferecendo, de noite, um espectáculo surpreendente. Segundo a passagem deste documento, os apavorados vigias tomavam a fosforescência destes vaga-lumes pela presença de um inimigo. 5 5
de lançar a armada ao mar, porque, com os mouros sabe- rem que andava ella fora, cada hum pretendera de vegiar seu lugar. Até que o capitão, areceoso de queimarem os mais lugares que estavão por as outras ilhas, acabou de fazer lançar a armada fora, e os foi correndo todos, e nos ficamos vigiando a fortaleza, com termos cada dia rebate que vinhão mil e trezentos mouros, pera queimarem a for- taleza, os quaes nos punhão em grande agonia, por não estarmos na fortaleza mais que o Padre Fernão Alvarez e o Irmão Antonio Gonçalvez e eu e alguma gente da terra; mas era tal, que não olhava senão se via lugar por onde fugisse, e nas nossas casas, que estão desta fortaleza hum tiro de falcaão, estava em guarda delias o Padre Francisco Roiz, também com alguns christãos da terra, e o qual tinha por tranqueira huns bangus, (3) (sjc) fendidos pollo meio, e isto para alguma maneira de estorvo, por a causa andar tam travada, que ninguém ousava a sair fora dos lugares. E acabado hum mes e meio, que o capitão andou fora, [87 v.] nos tornamos a por cada / / hum em seu lugar, pera fazer- mos o que dantes fazíamos, como era ensinar a doutrina aos menores e aos grandes, fazellos uzar da religião chris- tãa; o qual elles folgavão muito de lhes ensinarmos o bom costume dos christãos, e louvavão muito, dando graças ao Senhor, com lhes darmos semelhantes avisos, e fazerem-nos apartar daquelas cousas em que errão. E digo-lhes que esta christandade de Amboino he tam perseguida e tyranizada dos mouros, que muitas vezes nos faz lembrar a perseguição, antigamente, da primitiva Igreja. (3) Termo de origem malaia: Bangum, ou Banggul elevação umlnearroedtembémcC0nStrUÇâO ^ Ta*bé® - AÍS estrepes! * 6 * d° tenno bambus- fendidos, formando 8 6
E em tudo são tão constantes, que, por nenhum traba- lho nem perseguição que dos mouros recebão, querem per- der a fee de Jesu Christo, Nosso Senhor, que tem recebida, e em tudo se mostrão alegres, e parece que não passa ne- nhum trabalho por elles, bendito seja o Senhor. E se for cousa que se esta terra pudesse sustentar, com aver nella capitão zeloso, que per cima de se fazerem muitos lugares christãos, serão tãobem os melhores que ha, por todas estas partes, por ser gente muito soieita e chegada a rezão; he mui medrosa dos padres, e hão maior medo delles que do proprio capitão; e isto, dizem, polias boas obras que lhes vem fazer, e que não pretendem interesse algum, e que são como deoses. Passado o Entrudo, chegou el-rei de Bachão, que he christão, elle e sua gente, que tantos meses avia que por elle esperávamos. E com sua chegada se deu fim, por alguns dias, aos trabalhos que tanta desconsolação, em este tempo atras passado nos tinha dado; porque, em che- gando el-rei a esta terra, correu a nova por todos os lugares, assi de mouros como de christãos. Tetnerão-se os mouros em tanta maneira, que, donde dantes anda vão por donde querião, a redea solta, fazendo todo o mal que podião aos christãos, por mar e por terra, que nem respirar os deixavão, com avinda del-rei, se reco- lherão de tal maneira que não viessem ermitães do ermo, que milhor recolhimento tivessem, assi na vida solitária, como em abstinência e vigilias, porque lhes digo, de ver- dade, que em tanto aperto estavão, que perecião todos a fome, e alguns delles se vinhão jaa lançar com os christãos, por lhes parecer que nem no mato, aonde estavão, podião salvar suas vidas. E os christãos começavão a respirar e lançar sua frol, mas não tardou muitos dias que não tornassem aos seus primeiros cuidados, porque, estando o capitão Antonio 87
Paiz (4) prestes com a armada iunta, e el-rei com elle, para irem dar nos lugares dos mouros, aconteceo, por nos- sos pecados, que adoecesse o capitão de huma grave enfer- midade de prions (5); e como el-rei visse que a armada se desfazia, e o capitão ia pera cada vez pior, pedio licença para se ir para sua terra, dando por rezão, que avia seis meses que andava fora de sua casa, o qual tempo gastou em ir aos lugares de Seirão tomar obediência, que lhe os 1 seirões (6) derão. // O capitão lhe entregava a armada com os portugueses; e, como el-rei ja tivesse tomada experiência aos portu- gueses, que em semelhantes cousas erão revoltosos, por escusar briguas com os seus, no repartir ou tomar das presas, deu por escusa que, se em Seyrão não podia com quatro portugueses, como regeria cyncoenta que naquella armada hião, que cada hum queria tirar por sua cabeça? Finalmente que o capitão o deixou em seu querer, fi- zesse o que lhe bem parecesse; elle se foy, deixando-nos sem fazer nada, nesta terra; e o capitão não durou muytos dias, que não desse a alma a Deos, que não foy pequena dor e desconsolação pera nos e pera os christãos. E os mesmos christãos andavão como homens fora do seu sizo, chorando onde yrião buscar capitão, que lhes vegiasse seus lugares dos mouros, que lhos não queimassem. Também alguns lugares de mouros, nossos amiguos, mostra vão sentirem muyto sua morte; vestindo-se de doo, o que causava em nos major tristeza. Portanto, irmãos meus em Christo, encomendem esta terra muyto a Nosso Senhor, porque lhes diguo, de verdade, se a ella não vem alguma maneira de socorro, que corre (4) Capitão de Amboino. (5) O mesmo que pleurisia. (6) Habitantes da ilha Ceram. 8 8
muyto risco perder-se, e vindo cousa que possão (sic) destruir estes lugares de mouros, far-se-a todo este Am- boino christão, porque muytos lugares de mouros e gentios não aguardarão outra cousa senão que se destruão, com muyto pouco poder, vindo capitão que cometa sem medo. Agora lhes darey, irmãos meus em Christo, relação do fruto que cada hum dos padres e yrmãos tem feyto nesta terra de Amboyno, pera que com elles se alegrem muyto em o Senhor, e desearem de serem particypantes em seme- lhantes empresas, como qua estão oferecydas e se oferecem, cada hora, nesta terra. E sei-lhes dizer que pera ella serve mays ter muyta virtude, que saber muitas letras. A mays alta sciencia que pera qua serve he fazer bem o que lhe mandão, com ver- dadeira obediencya, e sofrer os trabalhos com pacyencia, por amor de Deos; das quaes cousas me acho eu muy falto. Queira o Senhor, por sua misericórdia, ter-me de sua mão, pera que viva e morra nesta santa Companhia de Jesus, e elles, caríssimos, me encomendem muyto a Nosso Senhor, em suas devotas orações, alcancem de Deos a tal graça. O Padre Francisco Roiz esta aynda em este Amboino, por nosso Superior; em suas obras de humildade mostra mays ser súbdito que Superior. Reside em este luguar de Ative, e delle prove os outros luguares, assy de padres como de yrmãos, e das cousas necessárias pera os mesmos padres e por algumas vezes vesita todos os luguares, com a qual visitação alegra muyto aos christãos, porque he muyto aceyto a elles. Seu exercycio he dizer cada dia sua missa e confissar os portugusees e a muyta gente da terra, pollo malayo; e todos os domynguos faz huma pratica a gente da terra, e com elles faz muyto fruto, e se movem muytos a se chegarem a confissão; tanto que he muyto pera louvar ao Senhor, principalmente com este jubileu que veo este anno 8ç
de 64; porque muytos se forão da igreja sem se confes- 188 t.] sarrem / /, por o padre não poder. Em suas obras de charidade pera com o proximo, em suas enfermidades, tem dado muyta edificação, assi aos portugueses, como a gente da terra, em os consolar em seus trabalhos e persiguições e com semelhantes exercícios a nos tem dado grande exemplo. Tem feito nesta terra muita christandade; fez este anno de sessenta e três, em o mesmo de Novembro, tres lugares christãos, em que serião, por todos, novecentas almas, afora outra muita gente que baptizava polios lugares de christãos por donde passava. A estes lugares, que acima digo, fe-los christãos, com primeiro lhe fazer derribar e queimar infinidade de paguo- des, e o que mais tinha, se avia por mais santo e mais honrado. E todos lhe destruyo, avendo-o elles por bem. Fez em este Ative huma igreja muyto fermosa, de ma- deira lavrada a maneira de molduras. O corpo delia he de doze braças; e de largura, oyto. A capela he de quatro braças. Dia de Ramos se fez procissão ao redor dela. E, depois, Paixão, com solennedade. E houve ahi muyto boas vozes e assi ouve Trevas; e dia de Pascoa Ressurreição, com se fazer muyta festa e muyto atirar de artelharia; e a igreja muyto bem armada, comforme a terra, de alguns panos da China, e frontal e vestimenta de damasco branco; e o altar com ter feyto huns arcos, a maneyra de abobada e sobre-ceo de damasquilho. Todas estas cousas pos en grande admiração aos chris- tãos e grande alegria, por ser cousa nova na terra, e não terem visto outra tal. O Padre Fernão d'Alvarez resedio em hum luguar cha- mado Noçanive, o qual se fez christão, ao tempo que nos 90
aquy chegamos, em companhia do capitão Anrique de Saa, no anno de 62. Digo-lhes, yrmãos meus, que a nynguem poderá cair melhor a sorte, que a elle, pera proveyto e salvação das almas da gente deste luguar, assy pera com os grandes como pera os menynos. Servio-se Nosso senhor delle, em acabar com elles, que deixassem as muytas molheres com que dantes, em sua ceyta de mouros, vevyão. E, sendo entre elles costume comprar as molheres, comforme as calidades, cabendo sempre aos ricos mayor numero delias, por mais duros que nisso se mostrassem, acabou o padre com elles, não terem mays que huma. E acabara muyto mays, se mays lhe mandara. E estão tão obedientes, que hum yrmão, tanto pera pouco, como eu sam, fara delles o que quizer. Finalmente, que neste tempo, que nele esteve, fez muyto fruyto, assy em ensinar a doutrina aos menynos, a qual elles ya sabem toda, muyto bem, como em bautizar a muytos menynos. E dezia cada dia sua missa, e aos dominguos vinha muyta gente a ygreja e as vezes tanta que, com a ygreja ser o corpo delia de sete braças de comprido e cynco de largo, não cabia, e fez tanto fruto que he muyto pera lou- var a Nosso Senhor, porque de sua tão breve conversão parece que nunca forão mouros, senão sempre christãos, assy em seus bons costumes, como em doutrina. Assy, este luguar, como os mays desta terra, querem-se parecer nos cantares da doutrina, polias casas, a noyte, outra segunda Goa, adonde se tyra muyto fruto, porque não ha homem, por rude que seya, que não sayba o nome ao Padre, Filho, Espirito Sancto. O que tudo isto causa muyta consolação, assy pera nos, que por qua andamos, como também aos portugueses, por verem que em tão 9 1
breve tempo se fez tanto fruto em gente que tão pouco tempo avya estado tão remota e apartada do conhecymento de Deos. Este luguar he muyto afrequentado dos portugueses, 189 r.] por estar perto // donde surge a nao que vem de Maluquo, que delia se provem de algumas cousas necessárias pera a viagem. Neste luguar de Roçanive acontecerão cousas, certo, dinas de serem sabidas, de que se deve dar louvores ao Senhor, e que se devem ter por milagre de Deos. Sendo hum christão ya homem velho, tendo muyta devação a cruz, e tanta que por nenhuma vya deixa todos os dias de oferecer huma candea diante da Cruz; e sendo dia de grande chuiva, esperando que passasse, e como não deixasse de chover, não quis perder o exercitio de offerecer seu sacrifício; e com tanta fee e simplicidade offereceo sua candea, que por cima de chover infinidade de agoa, se foi ao pe da cruz, lançando hum pouco de azeite em huma cova de uma pedra; e, sem mais nada, tomou hum tição de fogo e o açendeo. E como alguns portugueses se acha- rão, ao presente, em casa, com o padre, zombarão da muyta devação do velho. Quis o Senhor mostrar seu divino poder, por a grande confusão destes, vendo arder a candea. • Foi hum dos portugueses ver, e vendo a maravilha de Deos, louvou ao Senhor, conhecendo-se assi mesmo. E assi, com as casas estarem perto da cruz, não deixou de vir todo molhado, por cima de ir cuberto com huma capa. Tembem aconteceo outra não menos pera louvar ao Senhor que esta. Fazendo os cristãos queixume ao padre, de como em hum valle, apegado com o lugar, andavão de- mónios, a quem elles chamão sanges, o Padre Fernão Alvarez, como foi certificado de muitos, determinou de em hum outeiro que cae sobre o mesmo valle, de por huma cruz. E em a levando e chegando ao valle, foi tão grande 9 2
o terramoto e estrondo, que os que levavão a madeira para a cruz, nem por diante, nem por detrás, podião ir com quantas forças pudihão, e nem polia muita gente que ia a pegar na madeira da cruz. E assi, temerosos como estavão, começarão a chamar pello padre que vinha detrás. E em o padre chegando, com grande zelo da fee, nomeando o nome de Jesus, lançando agoa benta por huma parte e por outra, quis o Senhor passarão avante. Chegando quasi a todo o simo do outeiro, foi ainda mayor terramoto (e tão grande) (7) que dizião os chris- tãos ao padre que era cousa impossível levar-se a madeira da cruz arriba. O padre fez o que dantes fizera, e puserão a cruz onde o padre quis, a qual he muito fermosa; he de cinquo braças de altura, a qual aparece de muito longe. Também, lhe aconteceo outra semelhante a esta, neste mesmo lugar de Rosanive. Avia em este hum lugar huma arvore, a quem elles, quando erão mouros, tinhão grande veneração, e como a ya tivessem em pouqua estima, por causa de sua conversão, cortavão delia. E como acontecesse adoecerem alguns homens, que delia tinhão cortado, alguns simples atribuião sua doença ao cortar da arvore. E como fosse ter aas orelhas do padre, não tardou muitas horas que não mandasse chamar tres ou quatro homens dos mais honrados, se foi com elles para aver de cortar esta arvore. E elles arreceando-se em alguma maneira, mas como iaa soubessem que o padre a ninguém perdoava, cobrarão animo, benzendo-se, nomeando a Sanctissima Trindade, e sobirão a arvore; e depois, cortando-a, louvarão muito ao Senhor, quão bom era sempre, em o principio de qual- quer obra, invocar o Nome de Jesus. Ouve também hum christão, chamado Andre Varella, que yaa esteve em esse collegio algum tempo com os meni- (7) As palavras entre parêntese encontram-se à margem. 95
nos, o qual serve de jirobassa (8) do Padre Francisco Koiz. Achando-se em hum ayuntamento de mouros, ouve algum entre elles que, com humas palavras que dizem em hum bambu, não ha seis homens que o alevantassem. E este chnstao, com grande fee, nomeando o nome de Jesus, a.evantou o bambu, o qual foi grande espanto para os mouros. E como estivessem cegos e fora do conhecimento de Deos, não o atribuem senão a suas forças ou a feitiçeiro, como elles, entre si, acostumão fazer. Também em este lugar, acima dito, de JRoçanive, ao tempo que erão mouros, não amanhecia vez nenhuma, que [89 Tj nao achassem huma pessoa morta. // E assi, todos os meninos e meninas, que adoecião de bexiguas, nenhum vivia. Agora, depois de christãos, louvores ao Senhor, ne- nhum periga desta infermidade, nem morrem tantos quan- tos soyao morrer, o que causa grande alegria e consolação pera a gente deste luguar, attribuindo-o a sua conversão. Em outra cousa obra o Senhor qua muyto, principal- mente em este luguar acima dito: toda a pessoa que adoece principalmente de febres, bebendo huma pouca de agoá benta, na mesma hora he sãa, e tem tanta fee nella que, como se achão enfermos, a igreja he sua botiqua, e conti- nuamente esta huma jarra de agoa benta, e vem-na buscar como a huma fonte, e levão muito azeite pera a alampada, em muita quantidade, que gastão na alampada, a este lugar de Ative. Huma molher do lugar de Roçanive esteve quasi ida deste mundo. O Padre Fernão Alvarez lhe mandou huma pouca de agoa benta, e a bebeo com tanta fee de alcançar de Deos saúde, que logo foy sãa. E ao domingo seguinte lhe fez o padre huma pratica, louvando as maravilhas do Senhor, alegando-lhe a obra que Deos, por sua misericor- (8) O mesmo que durubaça ou jurubaça, intérprete. 9 4
dia, quisera obrar com aquella molher, que tam perto estivera de passar pola hora da morte. Ella se alevantou, dizendo em alta voz a grande misericórdia que Nosso Se- nhor quisera usar com ella, em lhe dar saúde em tam breve espaço, por meyo de seu servo, o padre. E quanto lhe dizia, tudo era verdade, e que a tudo lhes dessem credito, porque padres, por quem Nosso Senhor obra tam grandes maravilhas, se avião de ter em grande reputação. E bem era que vião por suas obras, em que o Nosso Senhor obrava nelle, e em seus filhos e filhas, em suas enfermi- dades. O Padre Antonio Fernandes esteve alguns meses em Licibata, esperando por el-rei de Bacham, que avia de vir pera ir com elle aos lugares de Seylão (9), porque a gente desta terra deseiavão muito de ver el-rei e de lhe dar a obediência, como lha derão. Em esta Licibata fez muita gente christãa; serrão (sic) quinhentas almas, e ficão muitos mais, sem comparação, por baptizar, porque não ouve tempo pera mais, e também não se quis alargar muito, por ver que faltavão obreiros pera qua andarem em esta vinha do senhor. Também bautizou em outro luguar grande, chamado Atue (10), em que ha muita gente; bautizou a muitos delles, os mais aguardão que vão laa os padres, pera os fazerem christãos. Estes Atues tem gerra com dous outros luguares de mouros, e por nenhuma via querem fazer pazes com elles, ate se não fazerem christãos, ou os hão-de destruir a todos. A hum luguar, chamado Tolomata (11)1 fez muita (9) Refere-se à ilha de Ceram. (10) Supomos ser o mesmo que Hatou, lugar na grande peninsula de Amboino. . (11) Outro lugar que também não conseguimos identificar, mas que deve pertencer a Amboino. 95
parte delle christão, e não andava senão aos mais homrra- dos, porque, tendo a estes em nossa mão, temos aos mais que ficão. Os que bautizou, por todos, em numero, são tres mil almas. Ao redor destes lugares ha outros luguares pequenos suffreganeos. A estes que, se também os cometerem, far- -se-ão christãos, mas como o padre fosse de caminho, dei- xou. Alguns portugueses passarão por suas prayas, depois de o padre ser passado, os quaes portugueses não quiserão desembarquar, senão passarão adiante. Os principais des- tes luguares se forão em busca delles, agravando-se muito, de não quererem desembarquar em seus luguares; que elles erão del-rei de Portugal, e não deseiavão outra cousa, senão servi-lo com suas pessoas e sua armada. Os portugueses, como nesta parte não pretendão, nem lhes lembrem senão como lhes busquem de comer, não lhes falarão em outra cousa. Parece, irmãos meus, que, se ahi ouvera quem perten- dera de christandade, que não passarão estes infiéis, sem lhes fazerem huma lembrança, que avia ahi Deos, que os fizera a sua imagem e semelhança, e lhes dissera que avia ahi paraíso e inferno, e em cousas de como avião de buscar 190 r.i o caminho da salvação de suas almas. // Isto he o que ca muitas vezes choramos, e de que rece- bemos grande magoa, com os veremos andar em o mar desse Mundo, afogando-se, pedindo a mão do santo bau- tismo, não aver quem lhe dee aos que a pedem, e aos que a não pedem, não aver quem chame e brade por elles. Portanto, irmãos meus, em Christo, lembrem-se de quantas almas perecem qua, por estas partes, e que estão com os braços abertos, esperando polia graça divina, pera com ella mereçerem serem dignos de ser chamados filhos do muy alto Deos, e contados no numero dos escolhidos de Jesu Christo. 96
Finalmente, irmãos meus, como digo, indo el-rei sua rota batida pêra Seirão, indo com elle o Padre Antonio Fernandes e o Padre Nicolao Nunez, que o Padre Marcos Prancudo mandara de Maluco, pera ambos irem em com- panhia del-rey, os Seirões (12) lhe derão a obediência, e muitos luguares cometerão os fizessem christãos, mas, como estivessem desviados e fora da mão deste Amboyno, e algum tanto duvidosos de os proverem de padres e irmãos, se não atreverão a os fazerem christãos. Hum lugar grande, chamado Quey, que esta junto em Seirão, o regedor delle, que se achou com el-rey, em este mesmo lugar de Seirão, e como ouvesse muito tempo que deseiava ser christão, elle e toda sua gente, que he muita, pedio a quisesse ir bautizar. O padre, como que, pelo acima dito, se mostrasse pesaroso, não no quiz fazer; elle o pedio tarn affincadamente para sy e pera hum seu irmão, ainda que não fosse a sua gente, que o padre lhe não pode negar o bautismo, e bautizou somente a estes dous, que são os principais do luguar. Este mesmo homem, depois de feito christão, pedio ao padre lhe desse a invenção de como faria huma cruz, pera terem (em) seu lugar, pera ser de todos honrada e vene- rada. E mandou hum seu irmão, em companhia do mesmo padre, pera neste Amboyno pedir ao Padre Francisco Roiz hum padre ou irmão, que fosse a este lugar. O Padre Francisco Roiz, parecendo-lhe que pola via de Jaoa viesse alguma cousa, estava mui alvoroçado para ir la, ou mandar socorrer, mas, como não viesse nada, o despedio, dando-lhe esperanças de muito çedo o prover. Neste lugar de Quey, em mais lugares que a elle são suffraganeos, diz o Padre Antonio Fernandez que avera perto de cincoenta mil almas, e todos tem deseios de serem (12) Indígenas, naturais da ilha Ceram, como atrás dizemos. INSLLfNDIA, III — 7 9 7
christãos, que, se algumas vezes falão em serem mouros, dizem que antes morrerão vinte mortes, que receberem tam ma seita, e que he ley de ladrõis, que os ternates tudo he 190 v.] buscar ardis, como poderão furtar, e que a torto e direito / / tudo apanhão. Portanto, irmãos meus, peção e dar-lhes-ão, batão e abrir-lhe-ão, porque Deos he largo em dar. Nosso Senhor nos conserve em sua graça aos que ca andamos, pera que possamos socorrer a estas tão grandes necessidades, como he socorrer a tantas almas, por quem Nosso Senhor derra- mou seu precioso sangue. Ao Irmão António Gonçalves coube estar em hum lugar chamado Liliboe (13); nelle fez huma ygreia muyto fer- mosa; de sy tem dado grande exemplo, assi na obediência, como em guardar as regras. Neste lugar fez muyto serviço a Nosso Senhor, assi em doutrinar aos meninos, como em bautizar a muytos. Dahy o mandou o padre chamar, pera ho mandar a hum lugar chamado Ulate (14), o qual era fronteyro de mouros, e avera nelle trezentos homens de peleja. Em tres meses que nelle esteve, quasi continuamente peleiavão, e dia de duas vezes, por os lugares dos mouros serem muyto vezinhos dos dos christãos, e não avya neste lugar mays de quatro portugueses que os ayudavão; mas isto não era nada, em comparação dos mouros, por serem muytos mays, em numero, que os christãos. E era muyto pera louvar ao Senhor ver os meninos da doutrina, tanto que os pays sayão a peleijar, tinhão elles cuydado, sem lho ninguém mandar, porem-se aos pes da cruz, em giolhos, batendo os peitos, levantando as mãos, (13) E também Liliboi, porto na baía de Amboino, em Hito. (14) O mesmo que Oulate, na ilha de Saparua, pertencente a Amboino. 98
dizendo: «Senhor Deos, avey misericórdia de nos!» E ysto fazião por muytas vezes, e avia menino que quasi não sabia falar. As molheres tomavão suas joyas e as oferecião diante da cruz, dizendo: «Senhor, tudo isto é vosso; Vos mo destes. Não permitais que se perca este lugar, e os mouros vossos inimigos gozem de nossas pobrezas». Por outra vez, aconteceo que, andando estes christãos peleijando, veio huma grande chuva, e foy causa de as espingardas não poderem desparar. Os mouros hião en- trando muyto aos nossos; os christãos, muytos delles, poserão as rodelas e espingardas no chão, pondo-se de joe- lhos, e alevantando as mãos para o çeo dizendo: «Senhor, olhay que somos christãos e por vos peleijamos; ayudai- -nos, não nos desempare vossa misericórdia!» Quis o Senhor que se apartarão huns dos outros, e sem perigo algum, e se foy cada hum pera seu lugar; a gente deste lugar he muito maviosa, e tem grande amor aos pa- dres, e he muito humilde. Yndo por huma vez o Padre Francisco Roiz, alem de outras muitas, chegando ya muito de noyte, e por a sobida ser muy grande, não quis hir logo ao lugar, deixando-o para outro dia. Os christãos, como soubessem de sua chegada, principalmente o regedor, lhe mandou dizer que elle, por ser homem ya muyto velho, se (não) atrevia a hir abaixo a praya; lhe fizesse charidade de querer vir para o seu lugar, e aceytar delle sua pousada. O padre, por escusar trabalhos a taes horas, se escusou, deixando aynda para o outro dia. O regedor lhe tornou a mandar dizer que das duas havia de ser huma: que ou o pay avia de hir aonde estavão os filhos, ou os filhos aonde estava o pay. Donde foy necessário hir-se o padre pera o lugar, que não foy pequeno trabalho para o padre, pelo lugar estar em hum alto e ser muyto de noyte e fazer grande 99
escuro. Com sua chegada se alegrarão todos muyto, e lhe fizerão grande honrra e gasalhado. Eu estive em hum lugar chamado Chilão (15); nelle quisera fazer huma y gr eia, mas não se pode efeituar; visi- tava nove lugares, ensinando-lhes a doutrina e bautizando a muitos meninos. Daqui me mandou o Padre Francisco JRoiz para outra ylha, a hum lugar grande de mouros, chamado Atuaa (16), o qual lugar esta na mesma ylha. Aver a neste lugar de mouros perto de dous mil homens, e os christãos serão cento e cincoenta; mas são taes, que nunca os mouros lhe fizerão humas, que estes christãos lhes não fizessem duas. De sua boa christandade tem dado boa mostra, porque, por sima de muytos trabalhos e perseguições que dos ter- nates, que do tempo de guerra tiverão, nunca se quiserão entregar, posto que derão aos ternates muito fato, pelos desafrontarem do cerco que lhes tinhão posto. Mas como asima digo da guerra que com estes Atuas tem, chegou a cousa tanto que hum mouro principal deste lugar, chamado Muna vare, não pedia a estes christãos, senão que lhe dessem huma peça, aynda que fosse de pouca valia, que delles não queria mays que darem-se vencidos, que, a sua chara (17), he fazerem a çumbaya, aynda que os que muyto podem, não se contentão com [9i r.] pouco fato, mas / / estes mouros não pretendião de aver delles mais que a honrra; mas os homens christãos lhes mandarão dizer, que nem huma palha do seu lugar lhes darião, que antes não morressem todos. (15) Será o mesmo que Kilang, lugar na península de Leitimor, em Amboino? (16) O mesmo que Hatouaha, na ilha Haroukou, junto de Am- boino. (17) Chara é um vocábulo malaio e significa costume, uso, ma- neira, etc. Â sua chara quer dizer, pois, à sua maneira, segundo seu costume. IOO
E neste lugar fiz huma igreja da vocação de Nossa Se- nhora da Conceição, fazendo-lhes humas cruzes, a maneira dos comendadores, dizendo-lhes a elles, poios honrar, que os africanos, que peleião com os mouros, lhas dava el-rei, por honra. Elles se alegravão muyto, pedindo-me cada hum delles lhes desse huma daquellas cruzes por sua. Huns as pedião por honrra, outros por via de merecimento. Finalmente, que sabendo os mouros que neste lugar era feita igreja, avendo-o por cousa nova, por nunca nelle se fazer outra, mandarão dizer aos christãos que, de duas avia de ser huma: ou os christãos se avião de hir derribar sua fortaleza, ou elles mouros lhe avião de vir queimar a igreja. E lançarão logo fama de como se farião prestes pêra a virem queimar. Pos em tanto alvoroço aos chirtsãos, pera defenderem a igreja, que lhes digo de verdade, que ia em os homens grandes não he para falar a vontade e deseios que tinhão de se oferecerem a morte, por amor de Deos, mas os meni- nos e meninas de doutrina, era cousa pera louvar a Deos, Nosso Senhor, porque huns com os outros fizerão conselho, avendo por bom meo, pera defensão da igreja, aiuntarem muitas pedras, e, as pedradas, as defenderem. E dizião que melhor era morrer todos, que verem quei- mar sua igreja, aonde lhes ensinarão e ouvirão as palavras de Deos. Finalmente, como digo, puzerão os meninos suas pedras separadas a huma parte, e as meninas, as suas, a outra; e como a igreja estçia em hum alto, foy bom suc- cesso, pera elles se determinarem a defenderem, as pe- dradas. Quis o Senhor, por sua misericórdia, livrar de tão grande afronta, por os mouros terem entre si diferensas huns com os outros. E passou-lhes aquella fantesia da memoria. i o i
Queira-os Nosso Senhor guardar, e por sua misericór- dia, e a nos dee sua graça, pera sofrermos os trabalhos com paciência, e com elles socorreremos a os consolar em suas perseguições. Esta christandade lhes encomendo muito, irmãos meus, a encomendem muito a Nosso Senhor. Em suas devotas orações me encomendo. Feita em Ative, aos 15 de Abril de 1564. Do seu indino irmão Manoel Gomes 102
12 CARTA DO PADRE BALTASAR DIAS Malaca, 3 de Dezembro de 1564 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. (1) Fls. 85 V.-86 v. Cópia com algumas emendas, rasuras, palavras à margem, frases riscadas, etc. Estas imperfeições, porém, não afectam essencialmente o valor deste documento. a) Sua viagem de Cochim para Malaca. b) Recepção que teve nesta cidade, onde já era conhecido. c) Suas ocupações e de seus companheiros. d) Conversão de um Bandara. e) Alguns reinos de Macáçar pedem religiosos. /) Trabalhos que passam os missionários nas Molucas. Christo, Nosso Senhor, more em nossas almas, Amen. Charissimos yrmãos. Isto faço, principalmente, para alembrar que todos me encomendeys a Deos, Nosso Senhor, e também para que saibais o que nestas partes vay, para que vos afundeis em deitar as raizes no profundo das virtudes, enquanto estais nessa may e leite desses collegios, apaçentados de tantos exemplos, assi vivos, como dos santos mortos, amoestados (1) BNL: Fundo Geral. N.® 4.534, fls. 500 r.-soo v. IO3
por nossos superiores e pessoas de tanta doutrina e vida como nelles á (2). Eu parti de Cochim, onde fiquey da arribada, dia de S. Philippe e S. Tiago, de sessenta e quatro, soo, sem companheiro, somente com Deos e muitos seculares, boa gente todos. E cheguey a esta fortaleza de Malaca, dia de S. Pedro e S. Paulo, que forão quasi dous meses, onde uy bem recebido do povo, que ya dantes me conhecião. E logo ao mar forão muitas embarcações a me buscar, e eu não quis laa hir, por justos respeitos. E, hindo-me buscar o Irmão João Roxo com hum cunhado do Irmão Paulo Gomez, e com elles me vim, e o bispo (3) saya das vesporas, e dizendo-lhe que vinha eu, me foy tomar a praya, e me abraçou com sua benção e benignidade, como elle para nos todos tem. E hindo-me a casa dos padres e yrmãos, fuy muito bem recebido. 4s cousas em que nos exercitamos são: como cessou o cantar que avia os domingos e santos, e pregar, pela menha, na nossa ygreja, mudey-lhe isto aos sabados, pela menhã, a missa da confraria; prego-lhe tres quartos, ma- teria (4) de Nossa Senhora, aonde vem muyta gente, com muyta devação; aos domingos, a tarde, faço a doutrina, e chamo-lhe pregação. Nesta doutrina se faz muyto fruito e vem muito concurso de gente. Esta, ayudando-me Deos, nao tirarey, enquanto aqui estiver, por sentir nella muito fruyto. E fiz huma cadeira como das que tem, que foy grande espanto para a gente que não tinha visto em seu modo. E logo lhe puserão este nome padre pregar de pataga (5); palavras em itálico encontram-se à margem. (3) Frei Jorge de Santa Luzia, dominicano. (4) Palavra também escrita à margem. OU patia' talvez do malaio patahan, pedaço de ma- vf£aa a a de
(ao pulpeto chamão eles pilão) (6). Isto somente aos do- mingos e santos. ^4s tardes, vou-me //a banda de Malaca, [86 r] onde esta huma ygreja de S. Thome, tangendo huma cam- painha, e ayuntando gente da terra; e faço-lhe a doutrina com declaração dos Mandamentos, e cousas que lhe são necessárias, onde se ayunta muyta cristandade, assi de molheres, como de homens, e muita escravajem, porque he a banda donde pousam os mercadores todos. Aos santos, somente vou eu; aos domingos, porque faço a doutrina na nossa igreja, vay o Padre Christovão da Costa, quando não prega na igreja grande, porque se al- terna laa com os dominicos. E, quando prega, vay o Irmão João Roxo a fazer esta doutrina de casa; a dos meninos faz o irmão que ensina os meninos, e he agora Pero da Cruz, que veyo novamente; de que forão todos muito con- solados, por sua boa maneira e modo de ensinar. Os mais nos ocupamos em confissões e em outras obras do proximo, como doentes, e amizades, como se offerece. Os dias passados se fez aqui hum christão, que he a justiça-moor dos gentios, que se chama Bandara, com muita festa. Não quis que o ensinassem ninguém senão nos, em que nos occupamos todos a revezes (7), indo a sua casa. Tomou muito bem as cousas da fee e sabe tudo muito bem, como sabe; juntamente se fez muita gente sua; hum filho seu, de nove ou dez annos, nos da agora pera casa, pera aqui o termos, pera aprender as cousas da fee, com outra gente. Este homem fez abalo na gentilidade; abalou-se e mo- veo-se com huma carta que lhe escreveo Dom Constantino, de Portugal. Eu a vi, e persuadia-o tão affincadamente, (6) As palavras entre parêntese foram riscadas. (7) I. é. revezando-se. 10 5
com rezões, que socorrendo Deos, se moveo, porque foi este bandara a índia, em tempo de Dom Constantino. Outra gente se fez christãa, e se nos vem a casa, a saber, homens, moços; todos agasalhamos e fazemos o que me- lhormente se pode fazer. A gora, meus irmãos, se nos abrio outra porta grande e vinha, a qual o senhor bispo nos quer entreguar a nossa Companhia, que he o Macaçar, terra aonde ainda ha hum ou dous reis e muitos senhores christãos. Veyo de la, este ano, hum homem, meu filho espiritual e bom homem, ao qual vierão alguns destes christãos a pedir, que lhes mos- trasse a imagem da Senhora Maria, pera lhe fazerem a rimbaxa (sic) (8). O bispo manda la pedir gente ao Provincial; pera nem pera este outro anno, charissimos irmãos, fundar nas vir- tudes, eu fiquo fazendo prestes algumas cousas do mister, e as que ja serão boas, a minha maneira, pera meus padres e irmãos, ja que eu não vou nem são pera isso, nem menos meu talento (9). Desta maneira fico fazendo prestes. Vinde com grande sede de almas e de padecer, que são duas cousas de que sempre avemos de fazer o alforge: padecer encastoado com paciência, levando a consideração quanto Christo padeceo pelas almas, e nacer-nos-ha hum animo grande, pera tãobem padecer alguma cousa. E isto ou nestes reinos grandes que comquistão, Amboino, e laa pera onde andão esses nossos benditos padres e irmãos, com tanto trabalho e deseio de padecer, como andão todos, como vereis por suas cratas e pessoas que destas partes vem. Assi que, meus irmãos, aparelhai-vos, que eu faço conta (8) Julgamos tratar-se aqui do termo sumbaia, inclinação reve- renciai ou acto de adoração. (9) A redacção deste período é confusa: adoptámos a pontuação que nos pareceu mais conveniente. I06
que aqui estarei como estalajadeiro de anjos, ja que não são pera mais. Deos, Nosso Senhor, me de graça pera me salvar. Os que aqui estamos são eu, com o jugo as costas, como Deos sabe; o Padre // Christovão da Costa, o Irmão João Roxo, iss v.i que tem cuidado da casa; o Irmão Pero da Cruz, na escola; todos, polia bondade de Deos, Nosso Senhor, fazendo bem o que lhes mandam, com seu pedaço de cruz as costas, e amor que tem em me sofrer minha condição; mas elles, como virtuosos, tudo sofrem. E este anno se forão daqui dous padres e hum irmão pera a India, e fiquamos aqui quatro. Temos aqui grandes casos de consciência, que vem per- guntar, e confissões muito largas, de muito tempo, por andarem, estes homens, em partes, muito tempo, aonde não ha copia de confessores. ^4ssí que, meus irmãos, não vos dou novas doutras partes nossas, porque nas cartas vereis tudo o mais, larga- mente. De Malaca, 3 de Dezembro de 1564. Seu minimo Irmão Baltesar Dias. 1 o 7
13 TRECHO DE UMA CARTA DE D. ANTAO DE NORONHA A EL-REI Goa, 30 de Dezembro de 1564 ANTT: CC-I-ioj-38. Documento com 10 folhas, em bom estado, e publicado integralmente em Documentação (India), Vol. ç, pp. 4.10-4.15. A passagem desta carta, que aqui damos, é mais uma refe- rência aos religiosos da Companhia, como os únicos apóstolos das cristandades das Molucas. Os padres da Companhia, ainda que diguão que seu sobejo zelo fosse causa neste tempo destas ilhas e aldeas receberem este dano (1), todavia, são homens muy pro- veitosos a esta terra, e que acodem a muytas obrigações, como na converção dos infiéis, mormente aonde Vossa Alteza não provee de cleriguos, como em Maluco e no Cabo de Comorym, e em outras muytas partes, onde se deyxarya de preguar o Evangelho, se eles nelas não resi- ts r.] disem, donde // tem feito e fazem muito serviço a Deos. (1) O dano, a que se refere, foi o terem alguns gentios abandonado as suas terras, para fugirem ao zelo excessivo de apóstolos imoderados, principalmente durante um jubileu, em que o Sumo Pontífice conce- dia uma indulgência plenária a todos os que trabalhassem pela con- versão dos infiéis. 108
14 CARTA DO PADRE PERO MASCARENHAS s.l./s.d. BNL: Fundo Geral N.° 4.534- (i)- Fls. 525 7.-526 r. Em ambos os códices que utilizámos se lê esta nota: «Exemplum epistolae, quam Petrus Mascarenhas ad Patrem Franciscum Roiz, ex iisdem Molucis insulis misit. Tanto esta como a seguinte parecem ser traduções em latim dos respectivos originais ou cópias. Seguimos, na leitura, o Códice da BNL, onde o texto é mais claro, devido, sobretudo, a uma pontuação mais cuidada. O ano em que foram escritas deve ser o de 1564. a) Lembra a penúria de missionários para uma zona insular tão vasta e onde tantos povos desejam converter-se. b) Baptismos nas ilhas Celebes. c) Referências aos Papuas. d) Baptismo de um sobrinho do rei de Tidore, a quem o rei de Ternate desejava desterrar para a índia. e) Recomenda um jovem de nome Francisco, sobrinho do rei de Ter- nate, e enviado para o colégio de Goa. Pax et gratia Iesu Christi tuo animo perpetuo adsint. Amen. Non possum, Reverende Pater, non te commonere de paucitate et penúria sociorum, qua in tanta albente iam (1) BACIL: Cartas do Japão. Vol. Ill, fls. 96 r.-97 r. 10 9
messe, vehementer excruciamur, tamen, ne a te munus mihi assignatum difugisse videar, turn etiam quoniam ipsa necessitate, ut rem tibi ante oculos panam, etiam atque etiam astringor et premor. Est, enim, iam prope infinita et immodica eorum multitudo quos in Christi ovile misimus, quibus, etiam multo plures intromitti vehementer cupiunt, quorum tamen optatis, ob operariorum paucitatem, fieri satis nullo modo poterit, cum nec eorum institutioni, quos jam baptizavimus, sufficere valeamus. Sacris aquis abstergi non remisse cupiunt, in primis universus populus Coele- bium, Regnum Sihão (2), miserae plebes Papuarum, atque ut semel finiam, (citra omnem sanem hyperbolis suspicio- nem) totus hic orbis Molucus (si paucissimos eos excipias, qui mahumetana pervicacia insaniunt), quam certe inopiam aequiori animo ferre posses, nisi apertissimum discrimen ante oculos haberes, in quo horum salus, perpetuo versatur. Rex, enim, Ternatae Mahometicae factionis ardens, et obsequentissimus cultor, nervis omnibus, totoque conatu, eos qui suapte sponte baptismum percupiunt, et exposcunt, invitos etiam Mahumetanis praestigiis, in insaniam detur- bare nititur; atque, ob hanc causam, nonnunquam illum piguit maximas aedificare, ornareque classes (ut alliis iam litteris accepisti) ad extremum, ut rem omnem, verbo uno complectar, id molitur, id pugnat, ut christianum nomen extmguat et funditus deleat. Christianae familiae ascribi vehementer exoptat impe- rium Bemgay (3), atque, ob hanc causam, bengariens rex (2) A ilha de Siaw. Fun 1? rNa ;SUa **ist6na ^ Companhia de Jesus, existente na BNL: undo Geral, n.® 915, o P.® Sebastião Gonçalves consagra a estes factos o seguinte capítulo do Livro 9.®, fls. 363 V.-364 v.: Conversão das Ilhas de Aboino e das Celebes. Dd-se noticia dos Paòuas e dos favores que el-rey fez a christandade. Cap. 27. Este anno se fez a fortaleza de Amboino; e foy a primeira que I I O
ad hanc urbem principem filium misit, ut sarracenorum, atque fidelium, visis moribus et institutis, commodissimum ex iis eligeret, ut quod tunc Alius approbasset, ipse posteam sectaret; perplacuit juveni (ut quod recte iudicanti despi- cere non poterat) christianum institutum, et vivendi ratio, quod certe acerbissimo dolore affecit regem Ternatae, qui turn muneribus, pollicitationibus, turn minis, atque omni animi ratione rem propere iam explicatam perturbare, nec impedire conatus est, sed gravi ex huius salute accepto vulnere non conquievit, ut qui omni attentione animi, cogi- nesta ilha edificou Antonio Paes. Depois se fundarão cinco em diversos lugares, desfazendo sempre as primeiras, que todas erão de madeira; até que Sancho de Vasconcellos edificou huma de pedra na era de 1576, a qual, por ser grande e menos defensável, a fez menos Andre Furtado de Mendonça, // quando, em tempo do Viso-Rey Ayres de L364 r.] Saldanha, foy aquellas partes por capitão-mor contra os olandezes. Baptizarão-se neste anno, nas ilhas de Amboino, dez mil almas; parece que neste tempo assentarão os padres fazer aquy residençia, vindo até então de Maluco em missão, ora huns, ora outros. Mandou este anno o capitão da nossa fortaleza de Ternate duas eora-coras a saber da gente, fazenda e trato das ilhas das Celebes, das quaes, ainda que vesinhos, tínhamos até então pouca noticia; foy juntamente o Padre Diogo de Magalhães, da nossa Companhia, por tentar como se receberia na terra a mercadoria do Evangelho. Acharão que erão gentios, imigos dos mouros de Maluco, homens de guerra e policia; as ilhas muito povoadas, e de lugares grandes, de quatro, cinco, e seis mil almas, tão fáceis e dispostos pêra nossa santa fee, que corrião do sertão as prayas milhares, pedindo ao padre, todos, a huma voz, os fizesse christãos. Deu o baptismo a dous reis: hum do Manado, que he cabeça de todo o Celebe, com até mil e quinhentas pessoas das principais da corte; e outro de Sião, com o povo que se atreveo a doutrinar, que forão muitos mil, dilatando ao rei de Bolão, por bons respeitos, e deixando huma multidão infinita com os desejos da fee, por falta de quem lha ensinasse: o que, posto que he muito pêra sentir, ainda causa mayor lastima o desemparo da terra dos Papuas, e império de Bengay. O rey do qual mandou, ha muitos annos, a Ternate, o príncipe seu filho, pera que, tratando ahy a christãos e mouros, tomasse das duas leys a que melhor lhe parecesse, e elle a seguisse também depois, com todo o reino. E posto que El-Rey Aeyro de Ternate meteo todas as forças por fazer o mançebo de sua má seita, tentando aos que o acampanhavão e servião com grossas peitas, promessas e ainda amea- ças, se lho não pervertessem, contudo, elle se baptizou na igreja da III
tatione, vigília, ac labore, nefariam sectam propagare stu- diosissime curat. Quam ob rem, statim missis litteris, postulavit a rege Bemgay filiam, quam princeps filius suus im matrimonium duceret, cui tamen rescripsit bengaricus rex se regem ba- chonicum christianum hac de re consulturum, atque ejus sententiam fidelissime secuturum. (Alter, enim, alterum admirando quodam amore prosequitur et observat). At in hac re nulla dubitatio esse potest quin potius in manibus habetur, nullo unquam modo bachonici regis consilio huius- nossa fortaleza, que o ouve por mayor vitoria que quantas te então ouvera dos mouros imigos, se nos não faltara gente pera a seguir por todo o Bengay, e trazer aquelle grande império, que já o desejava, e requena, a fee e obediência de Christo. Savegando de Ternate a leste-sueste, viajem de oito dias, tudo sao ilhas de varias nações de idolatras. Dos quaes escrevia o Padre Marcos Prancudo que nenhuma deixaria de aceitar nossa santa ley se ouvesse quem lha pregasse; e no cabo delias está a terra dos Papuas' ou Novo Guine, por outro nome, de que ja se sabem setecentas legoas de costa, repartida em quatro reinos: Miam, Missol, Ogueo, Noton, que todos se entendem e correm com huma só lingoa; gente domestica e de vivo engenho, que o tem pera se governar na conta dos meses e annos pellas estrellas, especialmente polia figura das que eles cha- mao Fale, que hé o mesmo que mam, entre nos, porque alem de representar esta parte do corpo humano, quantas são nella as juntas dos dedos, e as que liam a palma com o braço, tantos são os lumes e estrellas na fermosa constelação, que não da vista de sy ao nosso hemisfério; avendo muitos annos que estas e muitas outras nações daquelle arcepelago estão suspirando por quem lhe vá dar noticia do caminho de salvação. A experiência das quaes cousas fazia // muito temer ao padre e glorioso martyr Afonso de Castro, não dissesse Christo aos que tendo delia noticia, se deixão estar por Europa, não digo enganados com o mundo, mas enlevados aos pees do mesmo Senhor com Magdanella (sic), «que fazeis aqui todo o dia occiosos»? Mais pezado queixume, por certo, do que, por ventura, se nos representa. Porque, se Deos ha-de justificar a eterna condenação dos maos, por não acodirem com pão e pano a fome, e frio corporal dos pobres, como levara a divina jus- tiça tantos contos de almas, por lhes nos .faltarmos com o bautismo, onde se ouverão de vestir de graça e com a doutrina, que hé huma verdadeira sustentação? 112
cemodi nuptias coniunctum iri (est enim is, ut iam acce- pisti, nostrae fidei cultor integerrimus). Ad haec Papuarum populi impense // baptizari effla- [525 gitant, quorum tamen saluti, ob nostrorum paucitatem ho- rumque consultum non fuit, quern certe dolorem fortiori animo pateremur, ni assiduus labor, atque extrema cura, huius Ternatae regis acerbissimum interitum et excidium populis omnibus minitaretur. Proximis elapsis diebus inferiis Andreae Apostoli bapti- zavimus strenuum atque optimi consilli virum consobrinum regis Tidorae, quo duce, superioribus annis, adversus nos, tidoncum bellum gestum fuit, qui pariter cum animi inte- gritate quam multis iam argumentis in eo exploratum ha- bemus, opibus non exiguis abundat. Ad haec habet ad septem vel octo oppida certe non tenuissima. Hoc viro nostrae ascripto familiae, satis mul- tum spei affulsit de Tidorici regni salute, de qua nobis iam omnia pollicemur. Vix dixerim, Reverende Pater, quanta solicitudine ac cura hunc curavit rex Ternatae, hinc, ad Indiam depellendum, quod etiam atque a Proconsule postulavit, asserens hunc hominem scelestissimum, huius orbis unicam perniciem ac pestem, perturbationibus ac flagitiis omnibus, omnibus esse propensissimum ac para- tissimum. Proconsul, cum post acceptas tuas litteras, satis nobis inflexum sese ac propensum significet, rem omnem ad nos detulit, cui respondimus, si Ternatae regis precibus conce- deret, quae nihil nisi fidei invident, causae fidei sine dubio minus faveri, quod ubi Proconsul intellexit, statuit regis precibus obsurdescere. Neophytum istum, ac christianae militiae tyronem su- perioribus annis in bello Tidorico captivum ceperat rex Ternatae, atque id modo precibus adhibebat, quasi inde roboris qui equam acciperet, quod ut Dominus Andreas INSULÍNDIA, 111 — 8 113
accepit (sic enim voluit appellari) actutum grandi pecunia redemptionem obtulit Ternatae regis, atque rex Ternatae respondit, satis si pro redemptione fieri, si ille in Indiam mitteretur, quod ipsum exoptasse tantopere fama est, quo- niam Dominus Andreas suarum nefariarum machinationum non est nescius, quocirca (?) rex sibi timet, ne per ilium, si quando contigerint, detegantur. Reverendus Pater Marcus Prancudos, hinc ad te mittit Franciscum puerum, sobrinum Ternatae regis eius uterini fratris Chigil Guzaratae filium (cui fraterni imperii cura tota ac gobernatio incumbit). Pater ilium habet charissi- mum utpote unum. Hunc, ab ipso vitae limine, domi educavimus, cum vero Chigil Guzarata turbo unicus ac pestilens huius imperii sit, tria capitum millia ad gremium Eclesiae, communicate speramus hinc admisso filio, nullum publicis tempestatibus ac perturbationibus fore locum, atque sane in spe firmiori erimus (quae si quid judico) non nos frustrabitur, si pater filium istinc, ut suam decet dignitatem, non modo libera- is r.] liter sed // ornate et cumulate etiam tractari sciverit. Ilium enim amat effusissime, oculisque atque animo fert. Cum eum iam iam discendentem ad regiam miteremus, ut regi ac patri vale diceret, vix credit potest, quibus lacrymis ac lamentis ilium planxerunt, perinde enim ac vitae iam de- functo iusta solvi iudicares. Quod scribam amplius, nil est, si quid novi acciderit, ut tibi significetur, quam diligentissime curabo. Mi pater, mei semper memor, etiam atque eitam vale. 114
15 OUTRA CARTA DO PADRE PEDRO MASCARENHAS AO PADRE FRANCISCO ROIZ s.l. / s.d. BNL: Fundo Geral N.° 4.-534 (1). Fls. 526 r.-52Ó v. Nos mesmos códices encontra-se também esta indicação: «Exemplum alterius epistolae quae post superiorem ab eodem Petro Mascarenhas missa est». Trata-se, como no caso da anterior, de uma versão em latim, feita do original ou de qual- quer outra cópia em português ou em espanhol, e que nenhum dos nossos códices regista. a) Alguns dos principais da ilha Tidore vêm a Ternate pedir o baptismo. b) O capitão da fortaleza festeja com solenidade o baptismo destes régulos, em Temate. c) O rei de Ternate promete todas as facilidades na evangelização de seus povos. Pax Christi. Post solutam iam navim ab hoc portu, cum in insula Amboyno navigandi opportunitatem (ut solet) expectarei, primarii viri sex regni Tidorae, optime suae saluti consu- lentes, omnibus precibus a nobis sacrosanctum baptismum (1) BACIL: Cartas do Japão, Vol. Ill, fls. 97 r.-97 v. 115
efflagitaruqt, quam ut isti in sententiam concesserunt, per- parura abfuit, quin regnorum Ternatae ac Tidorae greges universos in eandem traherent ac perducerent. Ut enim de eorum consilio fama coepit increbescere, statim ex aula Tidorici regis príncipes duo viri (quibus, ob regis infirmam adhuc aetatem, regni negotia sunt commissa) hue pervene- runt ut, si quo modo possent, eos a sententia dejicerent, quos eitam cum ad nos misisset proconsul, vehementer hortati sumus, ut et ipsi priorum vestigia sectarentur, atque ut idem efficeret, suae gobernationi commissum populum inducerent. Multa satis quae ad hanc pertinebant sententiam illis ob oculos proponentes, ad quae ipsi responderunt excellen- tium hominum sonsilium et virtutem imitatione dignam esse, eandemque ad sese imprimis pertinere, ut qui priores in magistratu collegas, sanguine propinquos, amicitia con- junctissimos, semper habuerant; interim tamen rei moram interponi postulant, dum eorum respublica a quibusdam perturbationum fluctibus conquiescat, quod ubi acciderit, actutum sese cum tota populi multitudine Christi militiae daturos nomina fuere polliciti. Regem ipsum Tidoricum, annos adhuc septemdecim, accepimus jam in Christi fidem inflexum esse, ejusdem duos fratres, propediem baptizavimus, atque jam nunc, [526 v.] de totius regni salute, nec // cercior spes ostendi, nec ad maiorem erigi quisquam poterit, quam certe salutem longe omnes percupimus; ex ea, enim, tranquillum otium in toto hoc orbe publicis rebus obveniet, singulareque erit 'praesidium ad caeteras omnes respublicas quae Christi nomen susceperunt, si quando ab hostium armis infestentur. Secunda Quadragesimae dominica, sex illos, quos paulo ante meminimus, multa cum solemnitate et populi frequên- cia baptizavimus, quam etiam solemnitatem proconsul ornare et augere studuit, tamen a musicis concentibus, turn i i 6
etiam quam multis bombardarum ictibus, quod certe non parum alios infregit, turn omnibus sarracenis, turn etiam Ternatae hujus regi; atque idcirco suae dignitati et honori timere satis non desinit. Post haec, paucis interpositis diebus, Ternatae regem (ut moris est) invisi; at ille, praeter morem quodam, insólita observatione et reverencia me suscepit, et cum ab eo facultatem, ut suis evangelium promulgarem, postulas- sem, respondit me quae velle libere posse efficere, se vero una cum filiis evangelii praedicationis assiduum fore audi- torem, quem modo certi animi candorem et spem simulare mihi videtur homo callidissimus, ut tempori serviat. Si etiam Tidoricus rex fidem suscipiat se eandem re- nuentem nihil sibi jam favoris a proconsule poterit sperare, indeque miserandam regni, ac suarum rerum cladem perti- mescit, non enim est nescius in proconsulis voluntate turn opes omnes, turn imperium ipsum situm esse. Quocirca spe- ramus (siquidem et proconsul id maxime in nobis habet) eum quam primum fidei obtemperaturum, presertim si rem tuis precibus optimo Deo esse curabis. Vale, mi pater, mei semper fac memineris. Iterum vale. Tuus in Christo Petrus Mascarenhas 1' 7
16 SUMARIO DE ALGUMAS CARTAS ESCRITAS DAS MOLUCAS s.l. / s.d. BNL: Fundo Geral N.° 4.534 (1). Fls. 527 r.-528 r. Antes do texto, propriamente dito, lê-se o seguinte título deste sumário: «Summa eorum quae ex Molucis insulis patres Societatis Iesu ad Patrem Generalem scripserunt iis litteris, quae missae 16 Februarii 1564, Romam sunt perlatae 8 Octobri 1566». Embora as notícias nele contidas se encontrem relatadas noutros documentos, também por nós publicados, resumos como este salientam os factos que mais impressão causavam e que, Por isso mesmo, se fixavam com especial interesse. a) Os religiosos suportam os trabalhos apostólicos com alegria. b) Faltam os missionários para as populações que desejam baptizar-se. c) Viagem do Padre Diogo de Magalhães às Celebes. d) Conversões noutras ilhas. e) Os mouros destroem as cristandades, trucidando os seus habitantes. /) Devoção dos cristãos no uso da água benta. In Mallucis insulis, quae et plurimae sunt et idololatriae poene omnes serviunt, 13 tantum ex Societate Iesu repe- riuntur, ex quibus 8 sunt sacerdotes, ad praedicandum Evangelium, cathechisandum rudes, baptizandum cathe- chizatos, in fide conservandum baptizatos. Hos patres ala- cri esse animo scribunt, ad capessendos innumeros labores, (1) BACIL: Curtas do Japão, Vol. Ill, fls. 94 r.-çó r. Il8
periculaque obeunda, quae quotidie terra, raarique tolle- rantur: coeterum illos paucitate sua exanimari et afligi. Flagitant, igitur, ut operarii ex Europa ad messem, quae iam dudum matura est, colligendam mittant; alioquin innumeras perituras animas, sola ministrorum verbi Dei penúria. Pro comperto se habere aiunt nullam esse in vasto illius pellagi tractu insulam (esse autem innumeras) quae, si praedicatores ha bent, zelo divino honoris accensos, a qui- bus rite in fide erudiantur, non sit statim idola antiqua reiectura et Christum amplexatura. Sese aliquot iam annos inter illos ethnicos vagari, dis- persosque hue illuc peregnnari, dum hos instruunt, illos sacro fonte abluunt, alios matrimonii iure Eclesiae Sanctae ritu copulant, cateraque praestant animarum saluti neces- sária: sed nulla ratione sufficere posse integris nationibus reducendis ad Christi caulas, unde quod miserrimum est insulas esse integras baptizatorum Tidorum quae sex totis annis ex quo fidem receperunt neminem viderunt, a quo doceant, quid sit christiane vivere, aut pie mori. Mense Maio, anni Domini 1563, intellexere patris Societatis, regem Ternatis mahumetanum, classe instructa, filium suum mittere ad Insulam Cebelles, (sic) longam sexcenta passuum millia, ut incolas, qui omnes ethnici erant, et jam diu nostrorum opera ad baptismum suscipien- dum flagitabant, ad mahumetanam impietatem avocaret, quo metu perculsi Patres Didacum Magallanium, unum ex ipsis, miserunt, ut sarrecenorum astum praeverteret, qui, concenso navigio, media hyeme, saeviente mari, (Maio ete- nim mense hyemem regio ilia tota habet) ad insulam Celle- bes, decern comitatus lusitanis secularibus, applicuit, et in portu Manado, quindecim dierum spatio, neque enim diutius manere, quia erat alibi evangilizaturus, licebat, doctrinae christianae elementa explicuit, et regem cum mille j 19
quingentis aliis ex populo selectis, sacris limphis abluit, reliquam multitudinem spe maturi reditus lactans. Regem etiam Simoneum, principem inter omnes insulanos justissi- mum, baptizavit, hunc etenim cum rege cellebensi eodem in portu forte repererat. Inde idem Pater Magallanius, alium ejusdem insulae portum adnavigans, Bolanium nomine, a regulo civitatis sarraceno humanissime est exceptus plurimumque rogatus ut ipsum principiem cum tota familia christianum faceret, se etenim coactum olim mahumetanis eorum sectam am- plexum causabatur; constanter affirmans christianae legis institutum se exacte observaturum. Horum tamen baptis- mum pater differendum judicavit, neque enim unius diei opus esse animadvertebat, imbibitos impios mahumeti ritus ex mentibus convellere eorumque loco virentia divinae legis arbusta plantare. Plenos, igitur, esse futurae predicationis, pertransiens, alia littora, Aquaeripae dicta, tenuit ibique omnes regionis ejus magnates, in fide erudiens, salutaribus baptismi aquis intruxit, ut illi reliquam multitudinem benevolam ad nos- trorum eventum expectandum facerent. Nec secus quam optaverat evenit; //in reditu enim ejusdem navigationis, post dies aliquot, duo circiter hominum millia, quae idonea Spiritus Sancti vasa iudicavit, ex ea gente Eclesiae Sanctae [527 v.] sociavit; et tandem ad Manadum portum, qui totius Insu- lae quasi emporium est, et regi, quem primum baptizatum fuisse diximus, subiacebat, remeavit, ut quos in Christo genuerat infantes, lacte uberioris doctrinae pasceret, in fideque roraret. Conversorum vero tantus dicitur sese divinae legis amor, ut publice privatimque, sive navigent, sive terra iter faciant, christianam doctrinam cantitent, et priscarum cantilenarum obliti, hanc dulcem melodiam resonant. Pa- tres autem ibi illic plures se nolle baptizare asseverant, i 2 o
donee operários videant, qui initiatos divino lavacro, doctrina et exemplo, in suscepta religione, et pietate con- tineant. Alii duo patres, Antonius Ferdinandus et Nicolaus Nu- nes, eodem pene tempore cum in regis Bachani insulam (quae christianae ditionis nuper erat facta) navigarent, indeque regem ipsum ad arcem suam deducerent, supra baptismate, introduxerunt, ad hos patres populi integri et numerosi ethnicorum undique confluebant, nullum erat sexus, nullum aetatis discrimen, uno omnes ore, fidem baptismumque orabant, supra quinquaginta millia hoc pos- tulantia visa esse eo in itinere narrant; sed si quosdam paucos excipias, omnium votum in auras evanuit partes, enim, non sine acerbo animi sui dolore, id negare cogeban- tur, quod cum propriae vitae dispêndio offerre aliis solent; spem igitur citius quam manus dabant illud cum propheta rursus lamentantes crebroque cum lacrymis repetentes: parvuli petierunt panem (2), etc. Fratres Societatis qui nec dum sacris initiati ordinibus coadiutores sacerdotibus dati fuerunt, populosas regiones et oppida singuli sortiuntur; eçlesias Venturis patribus (3) erigunt; chatechismum interpretantur, párvulos pariter et adultos baptizant, et continuis adhortationibus ad Christiana opera accedunt. Uni Manueli Gomezio, qui adhuc laicorum in numero est, decern sunt oppida a patribus commissa; huic fratri multi christiani iam facti, sunt in fide conservandi, multo plures ad fidem suscipiendam, sunt persuadendi, plerique iam persuasi, sunt erudiendi, et perpetuis disputationibus cum ethnicis Mahumetanisque confligendum, nec per inte- grum unius diei spacium, uno in loco commorari licet, sed (2) Thrn. 1-5. (3) Correcção à margem praesbiteris. 12 1
variae in singulas horas mutandae sedes, prout commissae oves videntur exigere. Neque vero sine periculo ingentique vitae discrimine huiusmodi labores suscipiuntur: nam cum mahumetani (qui plurimi circunjacentes insulas incolunt) aegerrime sustineant suam legem conculcari, et Christi Iesu fidem propagari, nullum non movent lapidem ut conatus catholi- corum enerventur et suscepta cum baptismo fides ab evan- gelicis tyronibus repudientur. Instructis igitur classibus, christianorum novorum depraedantur, oppida, noctu, incendunt, rapinas agunt, captos homines abducunt, et nulli neque sexui, neque aetati parcentes, trucidant. Patres ergo et fratres nec tot calamitatibus pro sua gloria inflictis novi milites frangantur animosque despondeant, Dominum Iesum precantur, insu- lanos ipsos circumambiunt, alios constantia admonent, alios consolantur omnibus dominicae crucis acerbaeque mortis memoriam refricant, martyrum exempla narrant, aeterni praemii immarcessibiles coronas pollicentur. Et dum insulani noctibus totis somno indulgent (neque enim excubias agere ulla ratione aut periculo sustinent) ipsi fratres juxta littora invigilant ut si hostium adventum resentiscant, somno sopitos excitent. Sed in mediis laboribus consolatur illos qui novit de tentatione eripere, Deus, et secundum numeram dolorum cordis consolationes divinae ipsoram animas laetificant, in- [528 r.] credibilem enin ostendunt in mediis tri / / bulationibus et aeramnis cum constantia hilaritatem ut saepe ânimos pa- tram subeat memoria primogenitoram nascentis Eclesiae martyrum, cum ilia eadem in gentibus barbaris et incultis Spiritus Sancti virtus modo opereteur quae olim in electis illis columnis efficiebat, cum totius orbis stupore. Nec miracula haram gentium conversioni necessária divina providencia desiderari passa est: nam aquae bene- 122
dictae aspersione inveteratae febres ab humanis corporibus depulsae sunt, eadem aqua lustrali ingenti fiducia divinae virtutis gustata, mulier Rocanivitana spiritum extremum moribunda trahens incolumitati subito est restituía; ilia enim cum sese deficere, et animam membra deserere sen- tirei, Patrem Fernandum Alvarez, cuius erat in Christo filia, oratum misit, ut ad se, cum salutari ilia aqua, veni- ret; venit ille, gustavit mulier aquam, et sana surrexit; quae cum late iam per regionem essent vulgata, factum est ut non a pharmacopola, aegroti, sed ab eclesia morborum omnium remedia et quaerant et inveniant. Demones etiam qui loca quaedam infestabant cruris praesentia et aquae lustralis conspersione, multis praesentibus, expulsi sunt. Nec illud sub silentio videtur relinquendum, evangeli- cae legis iugum ethnicis visum esse (ut vere est) leve atque iucundum. Unum tantum carnalium quorundam corda mor- debat quod uxores (quas plures habebant) repudiare iubebantur, una duntaxat matrimonii foedere assumpta; verum hoc verebant Patres Societatis, ne populi universi animos alienarei a negocio evangélico, per Dei gratiam repererunt esse populo quam gratissimum. Cum enim de more habeant insulani, ut viri uxores a parentibus emant, et ante futuras nuptias dotem numerent sponsae, pauci qui facultatibus abundabant omnes virgines, quae ullius essent momenti, sibi mercabantur, unde necesse erat inopes (quo- rum est infinita multitudo) coelibem vitam agere, aut eas ducere uxores quae a divitibus contemptae, nulla dote dignae visae fuerant. Nunc, igitur, gratia divinae legis illis promulga ta, si ut omnibus uxores suppetant, ut natura lex ex aequo hac etiam in parte observetur, gaudent et gratias agente populo Domino nostro Iesu Christo, Cui laus et gloria in aeternum. Amen. i 2 3
17 CARTA DE EL-REI D. SEBASTIÃO AO VICE-REI D. ANTAO DE NORONHA Almeirim, 14 de Março de 1565 BNL: Fundo Geral N.° 9/5. Fls. 570 V.-JJ2 r. Esta carta, frequentemente citada, é um apontamento de- sassombrado dos abusos cometidos pelos capitães das Molucas. a que o jovem rei de Portugal ordena que se ponha cobro. C opiamo-la da História do PSebastião Gonçalves. Antes, porém, âx a transcrevermos, damos nesta nota a introdução que a precede, e que constitui o princípio do Cap. j.° do Livro io.° da mesma História, onde a dita carta vem incluída. Este capítulo começa, pois, como se segue: Dos martyres de Amboyno e das injustiças dos capitães de Maluco Cap. 3.0 Entrando no anno de 1565, sera bem dar relação, antes que en- tremos em Maluco, do que passava no presente anno em Roma; na qual passou da presente vida o muito Reverendo Padre Diogo Laynes, segundo Geral da nossa Companhia, e hum dos primeiros dez compa- nheiros de nosso beato Padre Ignacio de Loyola; sua morte foy aos dezanove de Janeiro do presente anno; a quem soccedeo com geral applauso de toda a Companhia, a dous de Julho do mesmo anno, o Reverendíssimo Padre Dom Francisco de Borgea, Comissário que fora da Hespanha e das índias e Duque de Gandia. Acharão-se na Con- gregação cinco padres da Província de Portugal: o Padre Diogo Mirão, Provincial; e os Doutores Miguel de Torres, e Marcos Jorge, eleitores; e dous Procuradores polia Província de Portugal: o Padre Francisco Anriques polia India e Brazil o Santo martyr Dom Ignacio d'Azevedo. 124.
Vierão do Reino os Padres Alexandre Vallarhegio, italiano; Argudo. valenciano; João Bautista de Ribeira; Pero Boaventura; Gabriel d'Oli- veyra; e o Padre Mestre Fernando Alçaras, castelhanos: Isto quanto as cousas da Europa. A christandade de Amboyno mandou este anno muitos martyres para o ceo, sendo os mouros de Jaoa os ministros de seu glorioso mar- tyrio, quando saquearão e destruirão dez lugares de christãos, não ficando nenhum que, ou não levassem cativo, ou não deixassem morto. Muitos dos quaes, sendo barbaramente atormentados pera negarem a fee; e perseverando com os nomes de Jesus e Maria na boca, te a morte, em / / nobrecerão e coroarão a vida com a gloria do martyrio. Mas 1570 r.I entre todos se assinalou hum lugar da mesma ilha, a quem, por des- cuido dos que nos escreverão esta historia, não sabemos o proprio nome, merecendo elle que lho soubesse e celebrasse o mundo universo, e tendo Deos, Nosso Senhor, o de cada hum daquelles seus ditosos moradores escritos nos çeos com letras douro. Tratavão os jãos as cruzes dos lugares que hião entrando, con- forme ao odio que lhe tem os mouros, as quaes injurias os christãos sentião e temião muito mais que as próprias, em especial as deste lugar, que digo. Por onde, apertados do cerco, e forçados a render as pessoas e fazendas, so tratavão de salvar a santa cruz que tinhão entre sy em grande veneração. E (como se aprenderão do respeito em que antiga- mente o santo Jeremia tratou e escondeo a arca de Deos, por não ser afrontada dos babilónios) depois de a desarvorarem com grande sen- timento, envolvem-na e amortalham-na em huns panos pretos, os mais ricos que acharão: e não porque arreceassem morrer diante delia, e em sua defensão, mas temendo não viesse, depois delles mortos, as mãos daquelles que tão mal a conhecião, e tanto lhe devião. Enterra- rão-na em huma cova, representando e renovando nas muitas lagrimas que derramarão a memoria das santas exequias e sepultura do Senhor que, deixando nella a propria vida, a deu ao mundo. Era a cruz todo seu thezouro; estes, quando delles foy escondido e seguro, abrem as portas aos inimigos, os quaes achando menos a santa figura e estandarte de nossa redempção, em cujas afrontas punhão ate ly. com diabólico fervor, o termo de suas vitórias, bra- mião como feras, ameaçando com terribeis tormentos aos christãos, se lho não mostravão. Assy acontecera antigamente aos da nossa Hespanha, na entrada desta pérfida gente, sobre as relíquias e imagens dos santos; e muito antes, a todos os fieis do Império Romano, porque entregassem aos tyranos os livros das Sagradas Escrituras. Que sendo estas, aos dou- 12 5
tos, imagens e retratos das cousas, como são as mesmas imagens escrituras aos idiotas, avião que tirando humas e as outras aos chris- aos, lhes tiranao de todo a memoria de Christo, que era, em certo modo, acabar de matar ao mesmo Senhor. Nem o estimavão menos os proprios fieis, chamando aos que enfraquecião nesta demanda, tredores como Judas, que entregou ao (sic) Redemptor aos judeus, e tendo por tao glorioso martyrio perder a vida sobre isso, como se a derão por defender e conservar a do mesmo Christo. E esta foi a ditosa sorte daquelle mais bemaventurado, que nomeado lugar; onde os mouros em satisfação das afrontas que desejavão, e não poderem fazer a santa í57o i Da0 deUCarâ0 pessoa viva" seiscentas almas as que, largando aqu.1 os corpos 10 ferr° e ao fogo por honra da mesma cruz. mere // çerao a gloria que nella lhes ganhou Christo Jesus. Os tormentos que or gloriozos martyres padecerão forão os mesmos (como o era Satanas o seu principal autor) que os do tempo dos Nerões, e Dioclecianos, e. em parte, mais barbaras, polia ventagem que os algozes de Jaoa fazem na natural fereza aos da Europa. Não queimarão, como antigamente, os santos inteiros, mas cor- tando por elles, a gosto de seu diabólico appetite, ora dos buchos dos braços, ora de hum pedaço da espadoa. ora huma perna toda, nos pró- prios olhos do martyr a assavão e comião, tendo por honra o que são Lourenço offerecia a Valleriano, por afronta. Comida com grita, e festa dos soldados, huma parte, cortavão, assavão e entravão polia outra. Erão as praças, as ruas, o campo, talhos, cozinhas, mesas das carnes bemaventuradas. Nem alevantavão mão dalgum, senão depois de perder o sentimento das feridas com a vida, e o horror do banquete com a vista. Vião-se os santos a assar e comer, e não os via ninguém enfraqueçer nem desmayar, te que expiravão meyos comidos, mas nunca vencidos. Quem desprezara os matos de Amboyno, onde se dão almas tão fer- mosas? Só por estas nos deveremos desafiar e combater com a fúria rios ventos, dos mares, da morte, e do mesmo inferno, que tantas rouba ao ceo, por culpa e fraqueza nossa. Enquanto a christandade de Amboino padecia martyrio, dado polios barbaras de Jaoa, padecião os christãos de Maluco graves injus- tiças dos capitães, as quaes refere nhuma sua o sereníssimo Cardeal Dom Anrique, escrita em nome Del-Rey Dom Sebastiam, seu sobrinho em catorze de Março de 1565, ao Viso-Rey Dom Antão de Noronha.' pera que posesse remedio as injustiças que os capitães de Maluco come- tião contra seus vassallos. Pareçeo-me referir neste lugar a propria carta, pera justificação da causa de Decs, Nosso Senhor, que, como juiz rectis- I 2 6
simo, castigou o Estado da índia, permitindo que perdesse a fortaleza de Maluco, pois os Viso-reis e governadores da índia não castiga vão os transgressores das justíssimas leys dos sereníssimos reis de Portugal. Diz pois Sua Alteza desta maneira: Viso Rey amigo. Eu el Rey vos envio muito saudar. Posto que confio que de todas as cousas universaes e par- ticulares que tocarem ao serviço de Nosso Senhor e meu, e bem das partes, tereis o cuidado, diligencia e vigilançia que convém, todavia, por esta, particularmente, me pare- çeo lembrar-vos que as fortalezas minhas, que mais dis- tantes estão dos lugares de vossa residência, podem padeçer mor detrimento, que as que menos distão; e assy convém aver acerca delias tanto cuidado, que os capitães, offiçiaes e moradores // das ditas fortalezas, não se possão descuidar, [371 r.i nem deixar de fazer o que cumpre a sua obrigação, pare- cendo-lhes que não poderão ser castigados, quando o mere- cerem. E porque fuy enformado de algumas cousas parti- culares, que em Maluco tem necessidade de remedio, me pareçeo escrever-vo-las, pera que proveiaes nisso com toda a dilignecia, e efficacia que for possível. E são as abaixo declaradas: Dizem que os Regimentos e Provisões que os capitães de Maluco tem minhas e de meus governadores, e os que lhe as partes apresentão, quasi commumente annulão em tudo o que não faz aproposito de seu interesse; e as que podem ajudar pera seus proveitos interpretão, estendem e amplificão, como lhes parece, com perjuizo de meu serviço e das partes. E que a guerra e destruição que se faz naquella terra, agora, ha seis annos, com tantas mortes de christãos, e mouros, procedeo da cobiça dos capitães. E que a rais e causa de grandes males hé terem os capi- tães trato com o rey da terra, por sy, ou por seus feitores, 1 2^
porque, pello interesse que esperão, os deixão perseguir os christãos, e não lhes vão a mão a isto. E que traz el-rey de Ternate dous capitães seus, a queimar, roubar, e faz quanto mal pode aos lugares dos christãos das ilhas de Amboyno e aos portugueses que pro- curão defende-los, e avera ja quatro ou cinco annos que isto dura; e os meus capitães em tudo dissimulão. E que o mesmo rey de Maluco tem entranhavel odio aos christãos, e tem muitos em sua casa por cativos, que tomou na guerra, com alguns delles ter tomado sobre seguro e outros que, por outras razões, não podia cativar, fa-los viver como mouros, e os ditos meus capitães o sabem e passão por isso. E que mandando o anno de quinhentos e sessenta e dous o conde viso-rey, que Deos perdoe, fazer em Amboyno huma fortaleza por Antonio Paes, o meu capitão que então era de Maluco, o empedio fazer-se, por não descontentar o rey, sendo a dita fortaleza muy necessária, e efficaz remé- dio contra os males que o mesmo rey faz; e de que se podião seguir grandes e manifestos bens. E compria que se mandasse fazer logo, porque com esta fortaleza se podia segurar a de Maluco, que dizem estar em grande perigo, porque o rey se vay fazendo cada vez mais poderoso. E como os moradores da dita fortaleza não tem donde bem e facilmente possão ser providos de mantimentos, senão de Amboyno, serão socorridos de mantimentos, todas as vezes que for necessário. E que serviria mais esta fortaleza de defender que os jaós não fosse (sic) polio cravo a Amboyno, donde levão I37i v.] mais de mil quintaes, cada anno. E com // aver ally forta- leza, averia eu mais de dous mil, alem da noz e maça que a terra da, e se poderia nella aver. E creceria a christan- dade, que hê grande meyo para se segurar a terra e cre- cerem todos os proveitos delia. 128
Dizem também que os meus capitães se fazem senhores absolutos, e se mostrão por muitas maneiras inimigos dos christãos, e dos ministros eclesiásticos, e dos que entendem na christandade e favor delia, deshonrrando-os, aveixan- do-os e abatendo-os publicamente diante do rey, mouros, e christãos da terra, e portugueses; e daqui vem que os infiéis tomão atrevimento contra so mesmos, e os christãos tem pouco respeito a doutrina, e aos ministros delia, e assy todos perdem o que devem a fee e ley de Deos. Também fuy informado que hum capitão meu da dita fortaleza fizera casar huma orfãa rica, da idade de catorze annos, com hum criado de hum seu parente pobre, taful, e mal acostumado, contra sua vontade da mesma orfam, e de sua avo que a tinha em seu poder, tirando-lha de casa, por força, e ameaçando-a que a desterrania de Maluco, se não consentisse no casamento. E que tirando o vigário humas christãs da terra, filhas de pessoas principaes, de casa de hum feitor do capitão, solteiro, onde estavão com perigo, e mandando-as agasa- lhar em casas de homens portugueses casados, o capitão o deshonrou por isso, perante el-rey, e muita outra gente, e mandou tomar as molheres pello meirinho e leva-las a outra parte. Fuy também informado, que hum ouvidor daquella terra dissera, que hum capitam meu, que novamente en- trava na capitania, mandara dizer ao outro capitão, que acabara de servir, de quem o mesmo ouvidor tirava resi- dençia, que, se per a bem de sua residençia lhe fosse neces- sário alguma cousa, em que o pudesse ajudar, que tudo faria. E dizem que desta maneira se fazem as residências, ajudando os que ficão aos que precederão, pera que os que lhe socederem façam o mesmo com elles; pello qual acon- teçe que, fazendo ordinariamente o que não convém, mais I 2 Ç INSULÍNDIA, III — 9
lhes servem as residências de os justificar, que de se cas- tigarem e evitarem males. E dizem também, que algumas vezes acontecia teste- munhar a testemunha huma cousa, e o capitão constranger ao escrevião que escrevesse outra; e com estes e outros desfavores, aveixações e injustiças, que se fazem aos chris- tãos da terra e aos portugueses, esta a dita minha fortaleza tão despovoada de moradores casados, e forasteiros, e o rey ja tão poderoso, que, se os negros naturaes, ou estran- geiros cometerem a dita fortaleza, corre muy grande pe- rigo. E porque todas estas cousas prejudicão quanto vedes ao intento, porque mando e tenho capitães, officiaes, e gente de soldo, e moradores outros naquellas partes, que he a veneração do culto divino, augmento de nossa santa fee, e a conversão, dilatação, e conservação do meu estado, vos encomendo muito, que vejais os meyos que se podem dar com efficaçia, pera que o dito meu intento se consiga, e se evitem as causas que o podem empedir, ou difficultar, e [572 r.] parecendo-vos ne // cessario, pera enformação das cousas acima declaradas, e das mais que pode aver das ditas partes de Maluco, que tenhão necessidade de ser remedea- das, ou bem ordenadas, mandardes huma pessoa de autho- ridade, prudência, e virtude com poderes bastantes pera o poder fazer, o fareis, encomendando-lhe muy particular- mente as cousas e pessoas ecclesiasticas, e as da christan- dade; o bom tratamento dos ministros delia, o favor dos christãos da terra, a guarda da justiça, o comprimento de minhas provisões e regimentos e dos meus viso-reis e gover- nadores; e o modo da residência que se toma aos capitães, pera que se faça com muita fidelidade, e para isto parti- cularmente pello muito que importa serem os ditos capitães como devem, pois delles, tão principalmente, depende lodo o que pretendo nas ditas partes, considerareis os meyos que 130
podem ser efficazes, e os fareis ordenar e dar a execução. E o mesmo, parecendo-vos necessário, fareis nas outras fortalezas minhas, e tudo o que ordenardes, e do effeito que ou ver me avisareis, porque receberey muito contentamento de se dar nestas cousas o remedio que a importância delias pede. Escrita em Almeirim a 14 de Março de 1565 (1). (1) E o capítulo da História do P.e Sebastião Gonçalves, em que vem inserta esta carta termina com os seguintes comentários: «Estas erão as venialidades dos capitães de Maluco; e por estas injustiças e polios desfavores que os capitães del-rey fazião a christandade per- mittio Deos, por seus secretos juizos que o rey mouro, com afronta do nome português, se apoderrasse da nossa fortaleza de Ternate; e que nem o capitão, noutro tempo venturoso, indo aquellas partes com grossa armada no tempo do Viso-Rey Ayres de Saldanha, a podesse render, tendo-a de cerco; mas este e outros successos deixemos pera outro tempo; baste o dito pera se entender quaes de ordinário são os capitães de Maluco; e quanta occasião de merecimentos sempre derão aos ministros da christandade, trabalhando de meter na gloria os predistinados; que a esta conta sofreo suas desordens, tomando-os por instrumentos da navegação aquellas partes e por defensores dos chris- tãos. E porque não faltava em Goa quem murmurasse dos bautismos geraes, encomenda el-rey muito ao seu viso-rey que os favoreça, pois tanta gloria de Deos delles se tinha seguido com afronta do nome gentílico, e descrédito de suas malditas festas e ceremonias. Acho também escrito que avia este anno de 1565, nas partes de Goa, Tra- yancor e Costa da Pescaria, trezentos mil christãos». 13 1
18 CARTA DO IRMAO MANUEL GOMES A SEUS CONFRADES Molucas, 27 de Maio de 1565 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. Fls. 218 V.-221 v. Consideramos também de suma importância esta carta, pois descreve a situação das várias cristandades nas ilhas Mo- lucas, e relata-nos os tristes acontecimentos passados, este ano, em Amboino, de tão graves consequências para a obra da evan- gelização naquela ilha. .4 cópia que utilizámos não lhe notámos vestígios de alte- rações, rasuras ou aditamentos à margem, ou nas entrelinhas. a) Adoecem alguns dos religiosos, e morre o Irmão Fernão do Souro. b) Ocupações apostólicas, como sejam, pregações, administração dos sacramentos e conversão dos gentios, entre os quais, alguns chefes indígenas. e) Os seus costumes dificultam o matrimónio cristão entre eles. d) O rei de Batjan vem a Ternate prestar vassalagem ao capitão da fortaleza. e) Lamentáveis acontecimentos que tão gravemente danificaram as cristandades de Amboino. Ho anno passado de 1564, se escreveo o que o Senhor tivera por bem obrar, por esta minima Companhia, nestas partes de Maluco. Agora (ainda que avia mais materia de chorar, que de escrever, como verão no destroço da christandade de Am- boino) por comprir com a minha obrigação de nos comu- 1 3 2
nicarmos pro cartas, contarey, com o favor divino, o que ocorrer ser para gloria sua. Quanto a saúde corporal, ouve o Senhor por bem visitar alguns dos que qua andamos, com algumas enfermidades, pera maior gloria sua. Hum delles foi o Padre Reitor, que vindo do Moro a esperar aqui a nao da índia, lhe derão humas febres que o trarão muy / / mal, de que ficou com [219 rj tantas dores e fraquezas no estamago, de que ha muitos annos que he doente, que ate o presente nenhumas, ou poucas vezes, pode dizer missa. Os outros forão o Padre Pero Masquarenhas e o Padre Diogo de Magalhães, que, andando ambos no Moro, dou- trinando os christãos delle, os visitou a mesma terra, que, por ser doentia, a ninguém perdoa, com suas febres vehe- mentes. Se achão ia bem. Este Dezembro passado, chegou a este collegio o Irmão Fernão do Souro doente de huma enfermidade, que nin- guém pode conhecer nem entender. Forão muitos os remé- dios que lhe fizerão, mas nenhum aproveitou. Esteve em cama quatro meses, e no fim delles, recebendo todos os sacramentos, ouve o Senhor por bem leva-lo pera Si, aos 27 de Março. Foi grande a edificação e exemplo que nos deu, assi na paciência com que sofria os trabalhos na enfermidade, como na resignação em Deos e na alegria que na morte mostrou. No spiritual procedem todos com grande augmento, exercitando-se, cada hum, em doutrinar os christãos e bau- tizar os meninos, e catecumenos outros, que o Senhor traz ao seu curral, catacizando-os primeiro, conforme a capaci- dade de cada hum. E o fruito que com o proximo, por meio desta minima Companhia, nestas partes, se faz, he muito. E tratando deste collegio, os que nelle residem, se 13 3
occupão em preguar, aos dominguos e santos, e ouvir con- fissões, em que sempre estão occupados, por ser (segundo a terra he pequena) grande numero dos que, cada oito dias, e cada quinze dias, se confessão e commungão, do que resulta grande gloria ao Senhor, poios muitos males que se evitão, fazendo, por este meyo, aos taes fazer cousas que, ao parecer humano, parecerião difficultosissimas, como apartar alguns, de muitos annos amancebados, e outros perdoarem injurias graves. São assi mesmo chamados, para ajudar a bem morrer alguns e consolar alguns enfermos, e em responder a casos [219 v.] de consciência e a outras cousas semelhantes. // Vindo o Padre Reitor do Moro a esperar a nao da índia, trouxe consiguo os padres que la andavão, e mandou vir o de Bachão. E assy iuntos aquy os que boamente se poderão ajuntar, renovamos os votos, conforme a nosso Instituto, dia de San Lucas, precedendo primeiro as confissões gerais, disciplinas secretas e outras penitencias, e tendo todos, antes de se começar a missa, oração na capella da nossa igreja, onde os fizemos com assaz consolação de todos. Na conversão dos infiéis se entende com a charidade divida, e são muitos os que o Senhor traz ao conhecimento seu, entre os quais vem algumas pessoas principais, por cujo meio e exemplo vem outras muitas a pidir o baptismo, principalmente cinco ou seis parentes, mui chegados a el-rei de Tidore. Estes os dias passados, se vierão a esta fortaleza deter- minados dar a El-Rei celeste a menagem que ao terrestre tinhão dado, e assi, de vassalos do demonio, fiquão vaçallos e filhos de Deos. Batizarão-se nesta nossa igreja, que para isto foi emparamentada. Foi seu padrinho o capitão, e fizerão-lhe grande festa; desparou a fortaleza toda a arte- lharia, e a conversão destes homens fez grande abalo nestas ilhas. Espera-se que por seu meio obrara Deos muito. 134
Elles dam de si, ao presente, mostras de bons christãos, e nisto me parece que levão avantagem a outros muitos, criados a teta da doutrina evangélica. 0 Senhor os con- serve e lhe dee sua graça, com que, atee o fim, se con- servem. Com a vinda de D. João, que veo desse collegio, se moveo seu pai, que ainda era mouro, irmão del-rei de Bachão, a se fazer christão. Bautizamo-lo dia de nossa festa de Jesu, nesta nossa igreja. Forão grandes as honras que o capitão lhe fez. No Moro procedem com grande aumento; vesse clara- mente nelles terem a verdade dos padres por regra e lei de seu viver. Estão bem exercitados na doutrina, e decla- rando-lhes os padres, os domingos, algumas cousas de nossa fee, mostrão grandes sinais de as ouvir, e chegam-se muitos a confissão e creo que, em breve tempo, se des- porão todos a se confessarem. A cousa mais difficultoza, atee o presente, foi acabar-se com esta gente casarem-se ao nosso modo, por ser entre elles costume lançar as molheres fora, cada vez que lhe emfadão, a qual liberdade os retrahia muito a se obriga- rem a tão estreito vinculo, como he ho do nosso matrimo- nio. Mas, despois que o Padre Reitor chegou a esta terra, visitando os lugares dos christãos, casou tantos delles que creo não aver nenhum que o não seja; com o que fiquarão tão faciles a se casarem, ao nosso modo, que não tem necessidade alembrar-lhe o padre que venhão a porta da igrjea, depois que entre si tem o contrato feito, porque elles mesmos, sem outra mais lembrança, o fazem, impor- tunando o padre. Em Bachão reside o Padre Fernão d'Alvarez, e he grande o fruito que la faaz, e pello grande zelo seu nas cousas do serviço de Deos, he muito temido delles, entanto 13 5
L220 r.] que nenhuma cousa lhes manda / / acerqua de seus maos costumes, que ho não fação. E vindo os dias passados o rei de Bachão a esta forta- leza ver o capitão, que novamente veio, fez grandes pro- messas de em tudo fazer o que lhe o padre mandasse. Espe- ramos que o fara assi, polias mostras que tem dado; e com isto se espera que se fara muito fruito na sua terra, porque a gente dahi e de muito juizo e capas pera receberem tudo o que lhes ensinarem, se o seu rei de seus maos hábitos os apartar, com algum rigor, como começa a fazer aos seus mais chegados e mandarins, pellas cousas que cometem contra a igreja e contra o que o padre tem ordenado para bem de suas almas. Quanto a christandade de Amboino, ja polias cartas do anno passado terão entendido o aperto em que estava, e quão avexados erão dos mouros, principalmente com a morte dos capitães dos portugueses, que, a feitura da carta do anno passado, falecerão. Depois de partido o galeão, que aqui envernou, para a índia, se conjurarão os mouros todos contra nos, determi- nando (vendo-nos sem capitão nem pessoa que disso po- desse servir) de fazerem o possível por nos lançar de Amboino, e destruírem os christãos, sojeitando-os a si ou a el-rei de Ternate, cujos vaçallos são, e com cujo favor fazem todos estes males. E assi começarão a fazer a todos estes lugares de chris- tãos, que nestas ilhas ha, cruel guerra, matando aos que podião, destruindo-lhes os palmares, ortas, sementeiras e arvores de pão (i); o que elles não menos sentião que a morte de pais e filhos, que diante de seus olhos cada dia vião, por ser gente pobre, e que outra cousa não tem de que (i) O sagueiro ou antes uma espécie de jaqueira, cujos frutos são conhecidos pelo nome de fruta-pão. Kulur ou Kulu é a designação comum que os dialectos insulindicos dão a esta árvore. 136
se sostente; pelo que muytos lugares de christãos, por esca- parem a morte, se lançarão com elles, dando-lhes o fato que tinhão, pera que lhes dessem a vida. Vendo os portuguezes, que serião trinta, o poder grande dos mouros, e como, por serem poucos, lhes não podião resistir, se recolherão a huum lugar nosso, chamado Ative, fazendo-se nelle fortes, ate verem se lhes vinha algum so- corro de Maluco, que elles tinhão mandado pedir, onde os mouros os cometerão muytas vezes, e os puserão em tanto aperto, que elles, nem os christãos que consiguo tinhão, ousarão a sair da tranqueira. Perto deste lugar de Ative avhia hum lugar de mouros, chamado Baive, la muyto nosso amigo, e que neste aperto nos proveya de mantimentos, polios ter muytos. E vendo os mouros que neste lugar nos provião, detreminarão de ir sobre elle, avisando, primeiro, que nos não provessem de mantimentos, e lhes entregassem quatro portuguezes que tinhão em seu lugar, pois que erão imigos de sua ma secta. Ao que lhes responderão que o fato lhes pedissem, mas / / que entregar os portuguezes, nem deixar de os [220 v.i ajudar, de nenhuma maneira ho farão. Indignados os mouros, nossos imigos, disso, forão sobre elles e os destruirão, matando e cativando muytos. Os que puderão fugir, se vierão pera nos; muytos delles se fizerão christãos. Estando nos neste aperto chegarão tres naos de Maluco, carregadas de cravo, pera nelle envernarem, com muita gente portugueza; com cuja chegada ficamos muyto alvo- roçados, parecendo-nos que, com sua chegada, se destrui- rão os mouros, e os christãos postos em sua liberdade. E assy nos fomos logo a elles, propondo-lhes estas lastimas, pedindo-lhe que acudissem a ysto. Ao que elles responderão, que esperássemos polia ar- 13 7
mada, que o capitão de Maluco ficava negociando, pera mandar em nosso favor. Socedeo neste comenos, que vierão muytos jaós, que estes mouros tinhão mandado chamar, pera sua ajuda, e se forão direitos a Banda, e tomar la huma nao de con- trato nossa, carregada de nos e massa, e a trouxerão a hum porto deste Amboyno. O que vendo estes capitães, dando-se por afrontados de diante delles se fazer cousa tão pouco acustumada, neste estado, se aparelharão com huma fusta e bateis de naos e outras embarcações ligeiras, e forão combater a nao, para ver se a podião tomar, e destruir os jaós e mou- ros, causadores de tanto mal. Mas como quer que a nao era alterosa e grande, e as embarcações nossas, pequenas, não puderão os nossos levar avante o que começarão. Nesta conjunção chegou a armada de Maluco que espe- rávamos, em que vinha o Padre Reitor Marcos Prancudo, com outro padre. Foy grande o alvoroço nos portugueses e christãos que aqui estavão, parecendo-lhe que, com tal armada e gente, tudo ficaria por nosso. Detreminou-se logo o capitão, que vinha de Maluco, le- var huma das naos, que aqui envernavão, e toda a mais armada que pudesse, e com ella ir tomar a nao que os jaós tinhão tomada, e destruir os jaós e mouros que os mandarão chamar. Pera isto offerecerão os capitães, que aqui envernavão, toda a ajuda (2) possível, assi de gente como de munições, r.] Partio daquy, aos tres dias, depois de sua // chegada, com huma nao muyto artelhada, huma fusta e dezasseis embarcações outras, que levavão cento e quarenta portu- guezes e muytos christãos naturaes, todos alvoroçados e (2) Palavra hipotética, onde se vê apenas um borrão. *5*
deseiosos de vingarem as offensas que a Nosso Senhor nesta parte erão feitas. Chegados a vista da nao, não na quis o nosso capitão cometer, nem dar no lugar onde ella estava; as quaes cousas, muyto a seu salvo, pudera fazer; dando por des- culpa que aquelle lugar e gente era del-rey de Ternate, e que não o queria agravar. E assi se tornou, ficando os por- tuguezes mais desacreditados do que dantes esta vão. Vendo elles nossa covardia, derão, aquella noyte, antes que a armada chegasse, no lugar onde os padres e portu- guezes residião, e o queimarão, matando e cativando mui- tos. E isto a vista dos nossos, sem lhe poderem valer. Acabado isto, se vierão a huma tranqueira nossa, de- treminando de queimar huma igreja nossa, que aquy es- tava, aos quais lhe resistirão os portugueses, animados por huma velha christã, que outra cousa não fazia senão dizer que não ouvessem medo, e que peleiassem, porque com elles estava Nossa Senhora, de cuja evocação era a igreja, apontando, com o dedo, os passos por onde os mouros querião entrar, pera que os nossos acudissem com as espin- gardas e lhe defendessem a entrada; e assi deffenderão a tranqueira, atee que os mouros se forão contentes com a preza que levavão, que erão das maiores que nestas partes ouve. Animados com isto, como quem lhe parecia que o mais forte tinhão acabado, derão com os outros lugares adja- centes a este, e em outros muytos, que por outras ilhas avia, e os destruirão, queimando as igrejas, despedaçando as cruzes, matando e cativando muitos, e uzando doutras cruezas, como foy matarem toda a pessoa que havia em hum lugar de christãos, que serião seissentas almas, cor- tando-lhe, primeiro, os buchos dos braços e os das pernas, e diante de seus olhos os porem a asar, e os comerem, em sinal de vingança. 139
E isto porque, os tendo de cerco, mandarão pedir aos padres que os ajudassem, e porque, antes que se entregas- sem, tomarão a cruz que tinham, e a envolverão em huns panos pretos e a meterão em huma cova, em sinal de sentimento, e pera que nella não fizessem os mouros as injurias e abominações que nas dos outros lugares tinhão feito. Finalmente ficou a cousa em tal estado que os portu- gueses que aqui estavão se embarcarão pera Malaca e Maluco, ficando os mouros senhores de todo o Amboyno, em que avia setenta mil almas christãs. O que vendo os padres, lhes foy forçado, com alguns meninos que deste desterro puderão recolher, irem-se pera a fortaleza de Maluco. Isto he, charissimos irmãos, o que brevemente lhes pude contar. O que daqui resulta, he encomendarem particularmente a Deos estes christãos de Amboyno, e pedir-lhe que, por sua infinita misericórdia, mova o coração do viso-rey, com r.22i v.] que mande armada e gente / / a os tirar daquelle cativeiro, e fazer em Amboino huma fortaleza, de que esperamos em o Senhor recrecera muita gloria sua, pola muyta gente que esta aparelhada a se fazerem christãos, se virem em nos poder, e se virem livres do tirano jugo dos mouros. O Senhor, por quem he, proveja em tudo como vir ser mais seu serviço. Elie nos de a todos comprir sua santa vontade. Oje, 27 de Maio de 1565. Por comissão do Padre Reitor Indino servo O Irmão Manoel Gomez. 1 4. o
19 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE JOÃO BAPTISTA DE RIBERA AO REITOR DO COLÉGIO DE CÓRDOVA Goa, 27 de Outubro de 1565 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. Fls. 143 r.-14.7 r. Esta carta está publicada na íntegra em Documentação (India), Vol. ç.°, pp. 43Ç-436. O seu autor conta a sua viagem de Lisboa para a Índia, com as suas primeiras impressões das novas terras do Oriente, e algumas notícias sobre a obra da evangelização já realizada. Ao terminar, refere-se também às conversões feitas nas ilhas Molucas. Que dire de lo que Dios Nuestro Senor, en Maluco, en Japon y en los demas lugares, en que la Compania tiene esparzidos sus obreros //lo qual es tanto que no se puede [147 r.] encarecer, sino con el propheta Heremia dizir: Ah! Ah! Domine; néscio loqui (1). Bendigan a sua divina bondad los cielos y la tierra et omnia quae in eis sunt, por sus misericórdias in fin. En el Maluco ha llamado y traido le Senor a su sancto conoscimiento sobre quarenta mil personas, y por falta de operários que atendiessen a ir dicorriendo y cathechizando, no son ya christianos mas de otros sesenta mil, que en (1) Cf. Jer. i, 6. 141
diversas partes de aquellas espaciosissimas províncias lo pieden. Hasse tambien convertido ally un rei (2), y estavan con su exemplo otros ya en prociento (?) de seguirle. (2) Referência talvez ao rei de Manado, nas Celebes, convertido pelo P.* Diogo de Magalhães; ou a um sobrinho do rei de Tidor. JX 4 2
20 PARTE DE UMA CARTA DO PADRE SEBASTIÃO GONÇALVES AO IRMÃO LOURENÇO MEXIA Goa, 26 de Novembro de 1565 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. Fls. 216 r.-2i8 v. Nesta carta o seu autor resume uma representação teatral levada à cena pelos alunos do colégio de Goa. O enredo da peça compunha-se de várias figuras alegóricas, que apareciam no palco, personificando diversas cristandades e narrando os factos principais da sua evangelização. Inserimos nesta publicação a passagem referente às Molu- cas, encontrando-se publicada, na íntegra, em Documentação (India), Vol. ç.°, pp. 468-4.77. 8. Entra hum fidalgo, vasalo de el-rei de Portugal, por nome Maluco, com quatro pagens, a saber: Amboyno, Moro, Bacham, Tollo. Vem arenegando de Mafamede, e confeçando a Jesus Christo, determinados todos // e apos- 1217 ri tados de morrerem, antes de se cesarem da confissão de Jesu, e vem todos unidos e concertados para se defenderem dos mouros, seus vizinhos e contrários. Vem armados com o escudo da fee, e com a espada da palavra de Deos, ahi semeada polios nossos charissimos Padres Marcos Prancudo, Fernão Alvarez, Pero Mascare- nas, Nicolao Nunes, Diogo Magalhãis, Francisco Roiz, Antonio Fernandez, Luis de Gois, Araujo, João da Veiga, Antonio Gonçalves, Fernão do Souro, que agora ahi residem. « 143
21 TRECHO DE UMA CARTA DE JORGE CALDEIRA PARA O PADRE MIRAO, PROVINCIAL DA COMPANHIA Goa, 6 de Dezembro de 1565 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. Fls. 223 V.-231 v. Desta carta, que podemos considerar um sumário dos prin- cipais acontecimentos apostólicos na Índia, extraímos e publica- mos somente o que se refere à projectada visita do Padre Antó- nio de Quadros, Provincial da Companhia no Oriente, às cris- tandades das Molucas, China e Japão, que não chegou a efec- tuar-se. Foi publicada, na integra, em Documentação (Índia), Vol. ç.°, pp. 508-533. O Abril passado, se mandou para a China o Padre Andre Fernandez, que residia em Coulão, para entrar com a embaixada, se se effectuasse receber-se. E se não, para ficar alli, exercitando os ministérios da Companhia para com os mercadores portugueses que sempre são muitos. E deste collegio, no mesmo mes, se mandou hum padre para Maluco, com hum irmão que foi de Cochim, e em Malaca se avia de ordenar sacerdote, por quanto (como Vossa Reverencia vera das cartas que os nossos de Maluco escreverão) se multiplicou muito nelle a messe, e assi a necessidade de mais obreiros. Foi com este padre, que disse, hum // irmão pera ficarem em Malaca, que dizem ser boa terra pera asmáticos, 144
de que elle tinha ja princípios. Mandarão-se mais deste col- legio pera Baçaim, Cochim, Ormus e outras partes, oito sacerdotes e hum irmão, em cujo lugar alguns outros vie- rão, ainda que não tantos. Ho nosso padre bispo, que (como ha ja annos se es- creveo) he mui enfermo de asma, se embarcou este Setem- bro passado para Malaca, a ver se naquella terra pode achar algum remedio pera enfermidade tão diuturna, con- tinua e trabalhosa. Foi-lhe necessário ir-se desta terra, por fugir a hum vento que nella ha, mui frio e nocivo a esta doença, onde, se estivera mais tempo, segundo he ja debilitado dos fre- quentes e grandes paroxismos que lhe acodem, parece nos deixara mui cedo. Levou consigo hum sacerdote por companheiro; sua ida se sentio tanto, quanto era util sua residência neste collegio, mas facilmente se tolerou este sentimento com o desejo que todos tem de o Senhor o livrar de tão grandes trabalhos, o que esperamos lhe concedera naquella terra. Embarcousse também pera o mesmo Malaca nosso Pa- dre Provincial, pera dali visitar os nossos que residem em Maluquo, China, Japão, de cuja ida aquellas partes con- fiamos em o Senhor resultara grande fruito, assim aos da Companhia e novamente convertidos, como também a con- versão de tanta gentilidade, quanta ha naquellas terras. Deos, Nosso Senhor, por cujo amor empreendeo esta obra, em tudo a prospere. Despediosse dos irmãos, dia da Exaltação da Cruz, em huma pratica que lhes fez, em a qual, despois de dizer como deixava o Padre Mestre Belchior por vice-provincial, e o mais que tinha ordenado, tratou muitas cousas da oração, com as quais aumentou o sentimento de ausência, princi- palmente, avendo de ser por alguns annos. Não fez esta visitação mais cedo, por ser de muita im- ISSULÍNDIA, III — 10 145
portancia residir nesta terra; pello que irsse delia se sentio muito, assi do senhor viso-rei e arcebispo (aos quais parecia o contrario) (i) como de muitas pessoas nobres, das quais algumas, vindo a este collegio, dizião ao Padre Francisco Roiz, porque o deixavão ir, mas valeo mais pera com elle a obrigação de seu officio e desejo de experimentar os tra- balhos, que os nossos naquelles lugares padecem, que todos estes pareceres que disse. (i) Quer dizer: eram de opinião que não devia ausentar-se.
22 SOLDOS NAS FORTALEZAS DE MALACA E DE TERN ATE AHEI: Regimentos e Instruções, N.° i, fls. i-no. Estes regimentos fazem parte de um documento intitulado: Regimentos que fes o vizo-rei Dom Antão de Noronha, por mandado de Sua Magestade, pera as fortalezas deste Estado da índia, de que se ao prezente uza, polo aver assim por bem o dito Senhor.. Está publicado, na íntegra, em Documentação (índia), Vol. ç.°, pp. 553-599, de onde extraímos os dois respeitantes às fortalezas de Malaca e de Ternate. 31) Regimento da fortaleza de Malaca, (fls. 76-78). 1565 Capitão. Feitor, alcaide e almoxarife dos ar- 600$000 mazens. Escrivão da Feitoria. Antes havia 200$000 dois. Capitão da Tranqueira. Ouvidor da fortaleza. Escrivão da alfândega da cidade e 5o$ooo 80$000 ioof000 escrivão dos armazéns. Juiz do peso. Porteiro da alfândega. 50$000 30$000 16$000 1 4 7
Alcaide-mor da cidade. 50$000 Meirinho da fortaleza. 15$000 Sobre-rolda. 18 $000 Mestre das «ferranias». 27^000 Um condestável. 27$000 10 bombardeiros, com soldo de ho- mens de armas. Homens ao serviço: Capitão: 40 homens. Feitor: 4 homens. Escrivão da fortaleza: 1 homem. Bispado e Sé: Bispo. 800S000 Pro visor do bispado. 5o®000 Deão da sé. 40$000 Quatro dignidades (chantre, tesou- reiro-mór, arcediago e mestre- -escola) cada. 20$000 Doze cónegos, cada. 20$000 Sobre-tesoureiro. 10 $000 Cura da sé. 15$000 «Tangedor dos orgãos». 7^200 «Porteiro da maça da dita sé» 10$000 Cargos que se tirarão do orçamento: Capitão do mar. Juiz da alfândega. Tesoureiro da alfândega. Sacador da alfândega. Mestre da moeda. Escrivão da moeda.
Escrivão da fazenda. Meirinho da fazenda, «com seus piães». A guarnição seria de 300 homens, incluindo os homens do capitão, feitor, escrivão da feitoria, e bombardeiros. 32) Regimento da fortaleza de Maluco, (fls. 79-81). Capitão. 600 $000 Feitor e alcaide-mór e almoxarife dos armazéns. 100f 000 Dois escrivães da feitoria e dos ar- mazéns, cada um. 50$ooo Ouvidor. ioofooo Meirinho da fortaleza. i5$ooo Sobre-rolda. i8$ooo Condestável. 30^000 Capitão-mor do mar, se for neces- sário. ioo$ooo Porteiro da fortaleza e carcereiro 20 $000 Vigário da fortaleza. 30$00 Dois beneficiados, cada um. 15$000 Seis bombardeiros, com soldados de homens de armas. Homens ao serviço: Capitão: 20 portugueses «parentes e criados seus». Feitor: 3 portugueses. Escrivães da feitoria, cada um: 1 homem. Guarnição: 200 portugueses, tanto casados como moradores, incluindo bombardeiros, homens do capitão e feitor. 1 4 9
23 CARTA DO PADRE MELCHIOR NUNES AO PADRE LEÃO HENRIQUES, GERAL DA COMPANHIA Cochim, 20 de Janeiro de 1566 BACIL: Cartas do Japão, Vol. Ill (1). Fls. 2çó r.-2çó v. Esta carta è um dos principais documentos que se refere à visita do Padre Provincial às cristandades das Molucas, cujo desenvolvimento, em proporção muito superior à penúria de mis- sionários, começava a constituir um problema aflitivo. Tal visita, porém, da qual nas Molucas se esperavam grandes frutos, não se realizou, embora tivesse sido iniciada com todo aquele entu- siasmo e espírito que nesta carta se indicam. a) Parte de Goa para Cochim o Padre Provincial, com o fim de visitar Malaca, China, Japão e outras partes do Sul. b) Condições edificantes em que o Padre António de Quadros faz esta visita: só, privado de todo o auxilio e conforto. c) Nos lugares a serem visitados, os missionários haviam de afervorar-se no zelo; dos gentios, muitos se haviam de converter, e até os pró- prios capitães e portugueses teriam melhor conduta, com a presença e exemplo do Padre Visitador. Confesso que tenho caido em muita culpa com Vossa Reverencia, em lhe não escrever estes annos passados, nem a quero escusar, porque, confessando-a humildemente, tenho o perdão mais certo. (1) Publicada já em Documentação (India), Vol. io.°, pp. 21-23. 150
Porque, por outras cartas que de ca se escreverão, facilmente poderá saber o processo das cousas de ca e do que Nosso Senhor obra pellos da Companhia, como do mais que obraria, se se usassem dos meios necessários para a conversão dos infiéis, nesta não falarei em mais, senão da ida do nosso Padre Provincial, Antonio de Quadros, a visitar Mallaca, Japão e outras partes do Sul. E ja outras vezes o padre quesera ir fazer esta visita- ção, e agora, ha tres annos, partio de Goa para este Cochim, determinado a fazer esta comprida navegação, mas aqui o apartamos disso, porque, na verdade, respeitando sua ma imdesposição, e o muyto que a sua presença fazia na índia, parecia que convinha mais mandar a outro, que fosse mais bem desposto que ele, a fazer aquella visitação, tão chea de perigos e trabalhos, e de tão longo tempo, e elle ficasse ca governando isto, que he a raiz donde aquelles ramos procedem. Mas como se sentisse obrigado a ir visitar, ou mandar visitar aquellas partes, escolheo antes para si os perigos e a cruz e os trabalhos que o descanso, porque, posto que qua nos collegios aja cruz, aquella he mais seca e mais carecida de remedios humanos e mais lympa dos favores, opiniões, honrras e occupações dos homens, mais alhea das criaturas, mais immediata a Criador. Partio-se a 15 de Setembro, antes de ser chegada ne- nhuma nao do reyno, e ainda que sempre navegue nas monsõens, as perinações que leva determinado de fazer, pelo menos ão-de durar perto de quatro annos, e o que mais he para consyderar na fortaleza, e a mortificação e charidade do padre, e de que maneira se partio, querendo carecer de todas as consolações humanas, para mais abun- dantemente querer gozar das divinas. Partio-se so, sem levar padres nem irmãos consigo, nem ornamentos da igreja, nem livros, mais que huma biblia, 1 5 1
missal e seu breviário, nem eu soube parte de sua ida, senão alguns dias depois de partido. Certifico a Vossa Reverencia que esta sua ida me meteo em grande confusão, não somente polia carrega que me deixou, senão pola maneira de sua ida e dixe comigo: «quam differente he esta ida da que eu fiz, quando fui ao Japão!» A minha era muito metida no mundo, e esta toda fundada em Deos; eu parti com seis ou sete irmãos em minha companhia, e muitos ornamentos, com muitas car- regas de fatos, e com muitas armas e peças para dar em [2% t.i Japão, com levar hum homem muyto // rico em minha companhia, que podia soprir todas nossas necessidades; e assi como fui fundado em muitos meos humanos, assi fun- dio pouco minha yda. O Padre Antonio de Quadros não levava outros compa- nheiros senão os anjos, que o vão acompanhando, nem outros ornamentos, senão a cruz de Jesu Christo, nem outra livraria, senão o peito cheo de sabedoria espiritual, ajudado com a lição e meditação da Sagrada Escritura; nem leva outro fato, nem outra cousa de que se sostentar, senão a fe viva e esperança perfeita em Deos. E pois a yda he des- provida do humano, e tanto do divino, tenho esperança mui certa que a-de Deos, Nosso Senhor, obrar muito por elle. Os padres que por aquellas partes andão, sem duvida, se hão muito de animar e refrescar em seus espíritos, pera com mais fervente zelo entenderem na obra da christandade, e os christãos se farão mais firmes na fe com seu exempro e virtude; os gentios muitos se converterão, vendo a muita charidade com que lhe negoceão a sua salvação; os capi- tães e portugueses, que por aquellas partes andão, se meterão muito por dentro, vendo a pureza e charidade do padre, pera não darem mao exemplo aos christãos, más a o ajudarem na obra da salvação das almas, conpradas com o sangue de Jesu Christo; foi a fazer estes exercícios tão i 5 2
perfeitos de crer, e esperar em Deos, e como hum varão catolico leva o nome do nosso Salvador diante dos reis, gentes e nações tão grandes. Eu fico ca, que não fui digno de tanto bem. Vossa Reve- rencia a mim e a elle e a todos os que ca andamos enco- mende a Deos Nosso Senhor, em seus santos sacrifícios, pera que nos visite com seus dões espirituais e nos de graça pera folgar de padecer muito por seu santo serviço. Deste Cochim, a 20 de Janeiro de 1566. Servus in Domino Melchior. 15 3
24 PARTE DE UMA CARTA DO IRMÃO JERÓNIMO ROIZ Cochim, 20 de Janeiro de 1566 BAC1L: Cartas do Japão, Vol. III. Fls. 231 V.-234. v. Nesta carta, com notícias gerais da Índia, alude-se também à visita do Padre Provincial às cristandades das Molucas. Foi publicada toda em Documentação (India), Vol. 10.°, pp. 11-20, de onde tomámos a passagem que a seguir damos: A gente desta cidade continuamente vem a este collegio perguntar duvidas de suas consciências e de seus tratos, e muito antes que os fação, primeiro os vem consultar aqui a casa. E como esta cidade seja escala para todas as par- tes, he grande a frequência dos que vem a ella, com estas e outras semelhantes duvidas. Assi que ha dias em que seis ou sete vezes se occupão nisto, com grande satisfação delles, e porque o Padre Vice- -Provincial he o que anda mais occupado nestes negocios, tem-lhe toda a gente grande amor e devação. Tanto que, ouvindo que estava de caminho para Goa, por amor do carrego que o Padre Provincial lhe entregou, por elle ir visitar Maluco e Japão, vierão aqui os principaes da cidade a falar-lhe, pedindo-lhe muito, trazendo rezões que qui- zesse ficar aqui. 154
E o padre, por poder escuzar esta ida, por agora, de- terminou de ficar por este verão e assi se aquietarão, por- que, antes disto, parece-me que não passaria dia, dez ou doze vezes, a saber quando se avia de embarcar o padre, e em toda a cidade se falava nesta sua ida. i 5 5
25 REGIMENTO DA FORTALEZA DAS MOLUCAS io de Abril de 1566 AHEI: Regimentos e Instruções. Fls. 79 r.-82 v. Códice existente também, microfilmado, na FILMUPO, Fichas, 1-72, Ficheiro 11, Gaveta 3, Divisão 10-11; donde extraí- mos a parte respeitante à fortaleza de Ternate. Trata-se do mesmo documento a que se referem os apontamentos por nós Publicados também, sob o n.° 22. Pelos dados interessantes sobre o governo desta capitania, fornecidos nesta cópia, pareceu-nos conveniente não dever omi- ti-la nesta Documentação. Regimento pera a Fortaleza de Malluco (79 ri (x) Dom Antão de Noronha, do concelho del-rey, meu senhor, e viso-rey da India, etc.. Faço saber ao capitão da fortaleza de Maluco e ao feitor delia, escrivães da fei- toria, juiz do pezo, e a todos os mais officiaes e pessoas a quem pertencer, que Sua Alteza me mandou dar no Reino huma provizão, que vay atras treladada as fls. 10, por bem da qual ordeno a fortaleza de Malluco o Regimento seguinte, conformando-me com a provizão do dito senhor, e com pareçer das pessoas nellas declaradas, e dos mais que me parecerão que me da vão as informações nesseçarias. (1) Fls. zt. Esta nota e as seguintes encontram-se no documento, à margem. I5à
1. O capitão da dita fortaleza de Maluco avera seis centos mil reis por anno 2. (2) O Feitor e Alcaide mor da dita fortaleza, que também servira de Almoxerife dos almo- zens delia, juntamente com a dita feitoria, avera cem mil reis de ordenado por anno, com os ditos carregos, os quaes hey por bem que handem, e se não aparte hum doutro, para andar per sy 3. Dous escrivães da feitoria, que também ser- virão de escrivão dos ditos almozens, a verão cincoenta mil reis, cada hum, de seu orde- nado, por anno; e hum dos ditos escrivães servira de juiz do pezo, não sendo provido por Sua Alteza, ou pello Viso-Rey ou Gover- nador da índia 4. Na dita fortaleza avera hum ouvidor, o qual, sendo provido por El-Rey, meu senhor, ou pellos Visos-Reys ou Governadores da índia, averão cem mil reis dordenado, por anno, a pessoa que os servir, por qualquer das ditas provizões, e não o sendo da dita maneira, e provendo la o capitam da dita fortaleza, avera sincoenta mil reis, por anno, somente 5. O meirinho da dita fortaleza avera quinze mil reis dordenado, por anno 6. O sobre-rolda da dita fortaleza, servindo-o, e (2) F/i. 166, Tt45.
tendo cuidado de rondar as vigias e fazer vigiar, avera dezouto mil reis dordenado, por anno xbiij 7- O condestabre da dita fortaleza avera trinta mil reis de seu ordenado e mantimento, por 179 vj anno // ^ 8- (3) O cargo de capitão-mor do mar da costa de Maluquo tenho por enformação que he lá escuzado, mas porque pode suceder cazo que seia necessário, quando o for e la servir, por provizão del-Rey, meu senhor, ou de seu Viso-Rey, ou de governador da índia, avera cem mil reis dordenado, por anno, o qual se provera ^7° Avendo la necessidade disso, e da outra ma- neira, não o avera, nem o dito capitão provera 9. A dita fortaleza tera hum porteiro da porta delia, o qual também servira de carssereiro do tronquo e prizão da dita fortaleza, por poder fazer tudo, e este avera vinte mil reis dordenado, por anno xx 10. O vigário da dita fortaleza avera trinta mil reis de seu ordenado e mantimento, por anno xxx 11. Avera na igreia matris da dita fortaleza dous benefiçiados, para servirem nella, os quais averão, servindo, quinze mil reis dordenado, por anno, a cada hum delles xb (3) Como se proverá. 158
12. El-Rey (4), nosso senhor, defende e manda que os capitães das fortalezas da índia não levem as vigias que costumão levar, e que se ordene de maneira que as ditas fortalezas seião sempre vigiadas (5); pelo que o capitão destas fortalezas as não levara, e esta dita sera vigiada, todalas noites, em duas partes -S- a saber, no beluarte sobre a fortaleza, digo, sobre a porta da fortaleza, onde estarão tres homens; e a outra, da banda de Ternate, onde esta- rão outros tres pera vigiarem, huns e outros, aos quartos, como concertarem, e serão pagos a cada hum delles (6) seis sentos reis por mez. Aos quar- téis do anno, acostados soldos dos homens que esti- verem e rezidirem na dita fortaleza, e se descontarão o que cada hum couber (sic). Soldo a livra do dito anno, em que se montão nas ditas vigias, quorenta e tres mil e duzentos reis, e da dita gente, de que se ouver de descontar, se fara caderno (7), per sy, como o que cabe a cada hum, pera descontar de seus títulos (8), e sera feito pello[s] escrivães da feitoria, onde as ditas vigias asinarão, de como receberão do feitor ao que a cada hum se montar, e no que rece- ber, athe a dita copia, e per elle com certidão do desconto de seus titullos, e do capitam como vigia- rão, e outra de sobre-rolda serão levados em conta os ditos feitos. 13. Na dita fortaleza avera seis bombardeiros, obriga- dos a ella, pera o que for necessário, os quaes vin- (4) Não levará vigias. (5) Ordem das vigias das fortalezas. (6) Como se paguarão as vigias. (7) Caderno para as vigias como se fará. (8) Descontarão-se-hão as vigias do conto. I 59
cerão seus soldos e mantimento, como estão assen- tados na matricula geral, e lhes sera pago os quartéis do anno, assy como forem vencendo, servindo elles na dita fortaleza e regidindo //ou hindo fora, em serviço de Sua Alteza, por mandado do dito capitão, e da cutra maneira não vencerão; e fazendo-lhe conta a mil e duzentos reis, a cada hum, por mez, do seu soldo e mantimento, cabe a cada hum delles, por anno, quatorze mil e quatro centos, em que monta, ao todo, oitenta e seis mil e quatro centos reis; e vencendo elle (sic), mais se lhes pagara, mostrando o que vençerem e com seus conhecimen- tos e certidões do escrivão da matricula geral dos descontos de seus títulos, se levará em conta ao dito feitor, e para lhes assy pagar. Homens ordenados ao prezidio da dita Fortaleza, digo, homens do capitão e mais offiçiaes 14. O dito capitão tera vinte homens portugueses, pa- rentes e criados seus, pera lhe acompanharem e ser- virem. 15. O feitor da dita fortaleza tera três homens purtu- guezes, para o ajudarem no negoçio da dita forta- leza. 16. Os dous escrivães da dita feitoria tera, cada hum, seu homem. 17. Aos quaes homens lhe sera pago seus soldos e man- timentos, que vençerem todo anno, aos quartéis delle, assy como forem vençendo, e isto estando 1 6 o
elles na dita fortaleza e regidindo (sic) nella, por- que doutra maneira não podem aver seu pagamento. Os quaes fazendo-lhe cõnta a mil reis, a cada hum, por mez, de seu soldo e mantimento, se monta, por anno, trezentos mil reis, mas pagar-se-há o que cada hum vencerem em seus títulos. 18. (9) Todos estes ordenados, açima lançados, do dito capitão e do feitor e dos mais officiaes, e assy soldos, que os homens do dito capitão e do feitor e escrivães da feitoria e dos bombardeiros e vigias (sic) pagará o dito feitor aos quartéis do anno, como dito hé, e como nas suas adiçõis vay declarado, e todos serão lançados em hum caderno sobre ssy, tomando-lhe suas seguranças pello escrivães (sic) da dita feito- ria; e tanto que o dito quartel for pago, se fará enserramento no cabo delle, pelos ditos escrivães, e asinado pello dito capitão, pera por elles se fa- zer os descontos de seus títulos, na matricula geral, e as partes asinarão no dito caderno e da dita cer- tidão dos descontos, se lhe levara em conta. // isov.] Homens ordenados ao prezidio da dita fortaleza 19. (10) Ordeno que pera guarda e vigia da dita for- taleza haia duzentos homens purtuguezes, entrando nelle os cazados e moradores delia e os criados do dito capitão, feitor, e officiaes, e vigias, e bombar- deiros, nos quaes se montão trinta e sete pessoas, que açima fica declarado, de maneira que se hão de pagar. (9) Regimento como farão (10) Homes do prezidio. l6l INSULÍNDIA, 111 — II
20. E (ii) os cento e secenta e tres pessoas, para o dito cumprimento dos duzentos, hey por bem, em ser- viço dEl-Rey, meu senhor, que lhes seia pago, a cada hum delles, tres quartéis de seus soldos e man- timentos, em cada hum anno, assy como forem vencendo, por ordenança do dito capitão, na qual paga sera prezente o dito capitão, e sabera a gente que he, e assy o dito feitor e escrivães da feitoria, emtrando nelle os degradados (12) que lá ouverem, que também me praz que venção seus soldos e man- timentos, por ser (sic) homens pobres, e não ter la outro remedio, e não lhe pagando, se não poderão sustentar, os quaes pagamentos se fara a dita gente, estando elles na dita fortaleza e servindo e vençendo nella, salvo aquelles que forem fora buscar manti- mento e provimento pêra a dita fortaleza e gente delia, por sua licença, não pasando sinco mezes nem invernando fora delia; e aos que derdes as tais licenças, será até aquella copia, que não faça mingua na dita fortaleza; os quaes pagamentos serão lan- çados em caderno, cada quartel, sobre sy, pellos escrivães da dita feitoria, onde elles asinarão do que reçeberem, e lhes será tomado (sic) suas seguranças, pera os que não tiverem vençimento. 21. E tanto que o dito pagamento for feito, se emser- rará no cabo delles, por assento feito por hum dos ditos escrivães, onde se declarará a gente que for paga, e de como servirão e rezidirão na dita fortaleza, o dito tempo, no qual asinara com os ditos offiçiaes, (11) Tres quartéis cada anno. (12) Ordem do pagamento e os (?) degradados vencerão sol- dos (?). IÓ2
pêra por elle se fazer desconto de seus titullos na matricula geral, e com certidões delle do escrivão dos ditos descontos se levara em conta ao dito feitor o tal pagamento, nos quaes se monta, cada anno, nos ditos tres quartéis, fazendo-lhes conta a mil reis, cada hum, por mez, hum conto e quatro sentos se- çenta e sete mil reis, mas pagar-se-ha a cada hum o que em seu titulo vençer verdadeiramente. 22. O dito feitor sera obrigado, cada anno, mandar os ditos cadernos (13) a índia, na nao da carreira, assy os do ordenado, como de soldos e outros paga- mentos que tiver feito desta cidade, e os emtregara a huma pessoa segura, pera que os traga, para lá os entregar na matricula geral (14), pera por elles se fazerem os descontos a seus títulos; por quamto, por não virem os ditos cadernos, cada anno, se acontesse ficar muitas pessoas por descontar; hu- mas que vão pera o Reino e // outros que falecem, [sir.i e outros que não tem vencimentos, ou se lhes poem verba em seu titulo; sob pena de, não fazendo assy, tudo o que assy ficar por descontar por nigligençia do dito feitor, por não mandar os ditos cadernos, cada anno, e pagar elle a Sua Alteza, e nisso lhe não ser dado despacho nenhum (15); e os ditos cader- nos se tresladarão, e ficarão lá os treslados concer- tados e autorizados pellos ditos escrivães, e asinados também pelo dito capitão com conhecimento da pes- soa que trouxer os proprios, que serão os que ha-de mandar qua, pera os ditos descontos. (13) Mandar os cadernos, cada anno. (14) Cap. 22 do Regimento de Matricula, fls. (?): fls. 17. Tt.» 40 (?). ' ' ' ' (15) Pennas. 163
23- E eu hey por serviço dEl-Rey, meu senhor, e bem de sua fazenda, que nenhum ofiçial seu da justiça, como de sua fazenda, e quaisquer outros que ahy ouver, aja nem tenha mais de hum só ordenado (16), com o ofiçio ou ofiçios que servir, posto que sirva mais de hum; nem lhe seia pago nem feito vençimento delle, ainda que os ditos ofiçios andassem saparados e cada hum, tivessem seu ordenado, e depois se ajuntasse, por algum res- peito, por quanto quero que não aja mais de hum so ordenado com o dito cargos (stc) ou cargos que servir, nem se leve em conta ao feitor nem ofiçial, que os taes pagamentos fizer; assy o escrivão da matricula geral tera grande resguardo sobre isso. 24. Na dita fortaleza nenhum ofiçial da fazenda de Sua Alteza nem da justiça tera apozentadoria (17), nem •lhe sera paga a custa de sua fazenda, nem levado em conta ao feitor ou ofiçial que o tal pagamento fizer. 25. E hey por bem que na dita fortaleza de Maluquo não aja mais ofiçios (18) nem osdenados dos que vão declarados neste Regimento, nem se uzara de nenhum outro que sobre isso seia feito, nem provi- zões que seião paçadas em contrarias; e todos os ditos regimentos e provizões, que na dita fortaleza e feitoria ouver, os hey por derrogados, e quero que fiquem sem vigor algum, salvo este (19), que se (16) Hum só ordenado. (17) Não havera apozentadoria. (18) Nem mais officios. (19) Este tera somente effeito. 164.
cumprira em todo, sem embargo dos ditos regimen- tos e provizões, e tendo eu passado algumas provi- zões, ou passarem em contrario deste, se não guar- dará, athe se me dar rezão disso, e eu ordenar o que ouver por serviço de Sua Alteza, porque se podia passar sem eu saber, que era contra este regimento, porque quero que este se cumpra e guarde em todo o tempo; e da dita maneira farão os ofiçiaes a que pertençer, e os que o contrario fizerem, perderão os seus ordenados, e o que pagarem contra este regimento, lhe não sera levado em // conta, e estara [8ivj a mais penna (20) que me bem pareçer, salvo quando a tal provizão derrogar este regimento. 26. Os quaes capítulos, atras escritos, deste Regimento de Maluquo, se tresladarão do proprio e original, que o dito Viso-Rey Dom Antão fez a dita fortaleza, escrito por Antonio Vaaz, escrivão dos contos, em dez de Abril de secenta e seis, sob escrito por Anto- nio Gonçalvez, e assinado pello dito Viso-Rey, como se vera do Livro dos Registos dos Contos, onde esta asinado, do qual se tresladou, o que era necessário para a matricula somente. // Regimento da viagem da carreira de Maluquo (21) A maneira que tera o capitão e feitor da viagem da carreira de Maluquo, que tudo anda junto no paga- mento (22) da gente que levaes obrigada a nao, -S- a (20) Pennas. (21) Fls. 13. (22) Ordem do pagamento. 165
saber: homens do mar e offiçiaes delia, e vossos homens que levaes, por minha provizão, e quaesquer outros, por mandado meu, serão os seguintes: Aos homens do mar e ofiçiaes obrigados a nao e os mais, acima declarados, pagareis em Malaqua, antes de partir pera Maluquo, hum quartel de soldo e seu manti- mento, ordenado a dinheiro ou em roupas, pella ordenança que se paga a gente da fortaleza de Malaca; o qual paga- mento lhe fareis na roupa que menos servira pera Maluquo, por quanto se gasta em Malaca; e em Maluco e tornada lhe pagareis outro quartel de soldo, da maneira que, em toda a viagem, seia meio anno de soldo, alem do que lhe aqui pagastes, por meu mandado, e o mantimento todo, fazendo disso hum caderno, em que cada hum asinara o que reçeber, com o escrivão de vosso cargo, para lhe ser descontado de seus títulos, segundo ordenança, o qual pa- gamento lhe fareis nas roupas que levaes, pello preço da terra, onde lhes pagardes, e os homens, o que pagardes, levarão certidão de como estão em soldo. 1. De Malaca e de Maluco (23) trareis certidão dos feitores e ofiçiaes, de como não pagarão a esta gente, que vos pagardes do dito tempo, pera em vossa conta se saber quem não forão pagos duplicados, e também trareis certidão da valia que tem nas ditas feitorias as roupas, que lhe destes, pera se saber que lhes dais pella ordenança delias. 2. Deste pagamento de soldo e mantimento fará o es- escrivão de vosso cargo hum caderno (24), em que asentará toda a dita gente que levaes, assy obriga- (23) Caderno de Malaca e Maluco dos pagamentos. (24) Cadernos de pagamento, como se farão. I 6 6
dos a nao, por minhas provizões, como dito hé, como qualquer outra que for por meu mandado, cada hum em folha per sy, com declaração do no- mem (sic) de Pay e Mãy, assy como esta na ma- tricula geral; e o ofiçio do que serve, se hé do mar, se homem darmas, e outro titulo de gente, se alguns forem constrangidos por justiça pera o dito Maluco, o que se aja de pagar, o qual caderno se assentarão no titulo de cada hum (sic) os pagamentos que lhes fizerdes, com declaração do que lhe paguais e do mez e anno em que fazeis o dito pagamento. 3. Os cadernos dos pagamentos que fizerdes em Malaca deixa // reis o treslado (25) delles, com assento no [82v.i cabo, feito pello escrivão do vosso cargo, em que declare fazerdes o dito pagamento da fazenda de Sua Alteza, pera que, fazendo Deos de vos alguma couza, o que Deos não permita, os mandarem a ma- tricula, por ordem do feitor de Malaca, pera nella se saber as pessoas que hião na dita nao, se lhes por em verba em seus títulos, e se mandarem os seus soldos ao Reino, no qual ascento asinareis. 4. Como (26) aos portuguezes andem ser pagos seus mantimentos a dinheiro, assy no mar como na terra, ao partir pera o tempo de sua viagem, a respeito do que podem nella por, não comprareis mantimento mais pera elle, porque vos não ha-de ser levado em conta. 5. Os quaes capítulos estão escritos no Livro 3.0 dos (25) O Treslado do caderno ficarão (sic) em Maluco. (26) A paga do mantimento não comprarão na viagem. 167
Registos Velho, (sic) tresladados do Regimento que fez o Viso-Rey Dom Antão de Noronha aos capitães da viagem da carreira de Maluco, os quaes forão concertados com o treslado que se deu na fazenda, em sete de Abril de sesenta e dous, a Jan Alvarez Pereira, capitão da dita viagem, como se vera do concerto, as fls. 55 do dito Livro, por Matheus Agostinho e Clemente da Cunha, contadores da matricula, sem delles acrescentar nem demenuir couza alguma, como do concerto se vera, onde estão asinados. Consta —. 6. Os capitaes da viagem da carreira de Maluco ven- cem de ordenado aquilo que vencem os capitães das naos e galiões, em que vão fazer viagem, conforme ao porte delle, que são cento e vinte mil reis, por anno, sendo o dito navio de çem toneladas para cima, contando-lhe todo o tempo de viagem (27); indo, porem, em galeaças, galiões, e naos de Sua Alteza; porque os capitães dos outros navios dalto bordo, ou caravelas, inda que seião do dito porte, não sendo as ditas galeaças, galiões e naos, não ven- çem mais que oitenta mil reis, por anno (28), como se vera no regimento de Goa a fls. 57-58. 7. Os quaes cappitulos, atras e asima declarados, os tresladou aqui, sem acreçentar nem demunier (sic), couza alguma. (27) O tempo que vencem. Capp. 55 da Matricula, fls. 21 v; fls. 14.9 e Tts. (28) Como vencem, fls. 53-58 do Regimento de Goa, n.° 122 (?). 1*3- *43- 168
26 TRECHOS DE UMA CARTA GERAL ESCRITA PELO PADRE GOMES VAZ AO PROVINCIAL DA COMPANHIA PADRE LEÃO HENRIQUES Goa, 29 de Novembro de 1566 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. Fls. 274. 7.-286 r. Esta é uma extensa carta geral, de que extraímos as pas- sagens referentes às Molucas, esclarecendo como não se realizou a visita do Padre António de Quadros àquelas cristandades, e as medidas que foram tomadas para lhes valer. Está também toda publicada em Documentação (India), Vol. io.°, pp. 80-112. a) O Padre António de Quadros dá conta ao vice-rei dos estragos feitos pelos mouros nas cristandades de Amboino. b) Segue para aquela ilha uma armada comandada por Gonçalo Pe- reira Marramaque, com dois religiosos. c) Meirinhos que deviam ir nesta armada. Depois de cheguado o Padre Provincial (1) de Ma- laca, deu conta ao viso-rei (2), assi por huma carta que lhe escreveo de Cochim, onde se deixou ficar por alguns dias, pera escrever a essas partes nas naos que ainda não erão partidas, como também depois que chegou a essa ci- (1) Padre António de Quadros. (2) D. Antão de Noronha. I 6 Ç
dade, por algumas vezes que com elle se vio, do grande estrago que em Amboino os mouros fizerão naquela nova christandade, e do estado em que o negocio ficava, e da necessidade que avia de Sua Senhoria socorrer a caso tão urgente e de tanto serviço de Deos, e como sua tornada de Malaca fora pera effeito de representar o que passava. Depois disto, ordenou também que em casa se enco- mendasse o negoceo muito a Nosso Senhor, pera que tão- bem da nossa parte socorrêssemos a tão grande necessidade com o que podiamos. Finalmente Sua Senhoria concoluyo mandar huma armada pera restaurar a perda, e assegurar os negoceos de Deos e de el-rei naquelas partes. Fez capitão-mor da armada a Gonçalo Pereira Marramache, que servia de ca- pitão-mor do mar; deu-lhe quatrocentos ate quinhentos soldados portugueses; confiamos em Deos que com este socorro e com as orações que ainda se continuão favorecera este negoceo, pois he seu, e acudira por sua honrra. Quisera o capitão-mor que o Padre Provincial fora na armada a proseguir a intenção, com que antes passara a Malaca, mas por outros negoceos, que ca se offerecerão, de maior serviço de Deos, e porque tinha por visitar outras parte da Província, não pode satisfazer a seus desejos; deu-lhe todavia dous padres: hum he o Padre Vicente Tonda, pera ir e vir na armada: e o Padre Luis de Goes, que viera do mesmo Amboino, pera ficar la por Superior, em lugar do Padre Marcos Prancudo, que he mandado vir pera a índia. Partio esta armada ao primeiro de Mayo de 66; cor- rerão-lhe bons tempos, depois da partida, louvores a Deos. Neste mesmo tempo partirão o Padre Ramirez, reitor que era deste collegio, pera o Japão, por reitor dos padres e irmãos daquelas partes, e isto por o Padre Cosme de Torres, que fica com a superintendência, ser ya velho e 170
não poder, por sua fraqueza, acudir soo aos negocios que ocorrem. Foy na mesma nao, com o Padre Pero Ramirez, hum irmão diácono para ficar em Malaca, por ser enfermo de asma, e a terra mais favorável aas enfermidades. Avia nesta ilha (3) e na de Chorão muitos pescadores gentios, cuja conversão era difficultosa, por não se acha- rem, quando lhes ião falar de Deos. Querendo o viso-rey mandar a armada, que disse acima, para Maluco, alcançou o Padre Francisco Roiz delle man- dasse tomar os gentios pescadores pera meirinhos da ar- mada, porque sabia que estes gentios sempre negoceavão de maneira que nunca ião nas armadas servir a Sua Alteza, polo que ião os christãos e elles ficavão em suas casas. E logo, por mandado de Sua Senhoria, trazidos para a armada, pedirão que os fizessem christãos. E vendo Sua Senhoria que se querião fazer christãos, lhes fez favor de não irem na armada, e assy se farião mais de duzentas almas christãs. (3) Refere-se à ilha de Divar. 171
27 CARTA DO PADRE LOURENÇO PERES AO PADRE GOMES VAZ Malaca, Novembro de 1566 BACIL: Cartas do Japão, Vol. III. Fls. 554 V.-355 v. Nesta carta, com as principais notícias de Malaca, refe- rem-se também os êxitos apostólicos dos primeiros religiosos dominicanos, enviados às cristandades de Solor e Timor. Foram ainda os religiosos da Companhia que nos deixaram breves, mas valiosas informações coevas e directas do inicio do cris- tianismo naquelas ilhas. A cópia de que nos servimos é clara, embora defeituosa na pontuação, que fàcilmente pudemos ajustar, sem casos de interpretação dupla ou duvidosa. a) Epidemia em Malaca. b) Os Achens ameaçam esta cidade. c) Martírio bárbaro que sofreram alguns portugueses no reino destes cruéis inimigos do nome cristão. d) Primeiras conversões em Timor e Solor. e) Viagem dos Padres Tristão de Araújo e João da Veiga, com destino às Molucas. Creio que, de todos os da mesma criação, sou ja la esquecido, pois que, por sinaes exteriores de quatro regras o não mostra, e de Vossa Reverencia soo são alembrado, pois que, em meio de suas occupações (que puderão ser justas escuzas) se esta lembrando de me consolar com suas cartas. 172
Não sei com que lhe pague, padre meu, tam grande amor e charidade. Nesta monção de Setembro, so as de Vossa Reverencia recebi, e numa delias, que vinha por comissão, me enco- mendava algumas cousas; tudo se fara, Deos querendo, como ouver opportunidade. Na outra me contava muitas novas, que eu folguei muito de saber. Peço-lhe que assi o faça sempre, pois que, com isso, me consola. Eu, nesta terra, me acho bem da saúde corporal, polia temperie delia somente; mas isto he ab extrínseco; todavia, a bem poucos dias que fui sangrado, algumas vezes, de humas febres, que oje em dia andão nesta terra, que en- trarão com os terrenhos (i). E esteve esta casa feita hum hospital, porque, do maior ate o menor, adoecemos, tirando o Padre Jeronimo de Lumedo, o qual também andou com- balido, mas não caio de todo, porque o deixou o Senhor, pera nos curar, que em casa não avia quem nos desse hum púcaro de agoa. Nesta cidade não fazem senão morrer destas febres, e começa a morte polios mais pequenos, que são esses chris- tãozinhos, e são ja tantos, que não ha ygreja nem adros aonde os sepultem. Queira o Senhor castigar-nos com ho açoute que esco- lheo David, e não tomar a Assur (2) por verga de seu furor. Por certa relação e novas, temos que sera em poucos dias comnosco o Dachem, com huma grossa armada de galees, e em sua commanhia diz que traz muitos turcos que de Meca vierão, pollo comercio que tem com o Grão Turco. (1) Ventos terrenhos: os que sopram do lado da terra em direc- ção ao mar. (2) Cidade régia que deu o nome à Assíria. Cf. Is. 10-5. 17 3
He este negro muito cruel, por estremo, homem que folga com ver sangue humano e especial dos portuguezes; e ja tem mortos muitos, que la forão ter a fazer suas fazen- das (porque não tem ainda rompido guerra comnosco); mas a cubiça he tal que, com terem experiência os portu- guezes, que muy poucos escapão de la, não deixão de ir pospondo a vida a fazenda. La foi ter agora hum navio de Bengala, e por hum falso testemunho que lhes alevantou hum mouro, dizendo que erão coçairos, forão presos todos e cuido que a huns mata- rão, e a outros cativarão. Deste navio escapou hum homem honrado da terra, metido a conta dos lascares. E este me contou como, pouco antes que elles chegassem, avia chegado outro navio, cujos portuguezes receberão coroa de martyrio polia fee. A historia foi que, quando o navio chegou ao porto, estava hay hum embaixador do Turco, os quaes, como são 1355 r.] nossos imigos, buscou occasião como os portuguezes / / fossem mortos. E o meyo que tomou foy entrar no navio, como quem o hya ver, e deu algumas encontradas (3) ao mesmo capi- tão, e tratando-se de palavras, arremeteo o turco a mesma cana que o capitão do navio trazia, e com ella o espancou, por vezes. Não ouve resistência, porque vinha com gente. Não sofrendo alguns portugueses tam grande afronta, hyndo fazer queixume ao rey, o forão desafiar, primeiro, disendo-lhe que saisse ao mar, onde verião pera quanto erão os portugueses. Mandou-lhe tomar, o turco, os caminhos, a que não não fossem (4) ao rey, mostrando-se muy sentido da afronta. Mandou hum recado ao rey, disendo que cousa de (3) Encontradas, variante de encontrões. (4) i. é. para que não fossem. 174
sua casa mais não aceytaria, ate não ver vingança daqueles portugueses. Informado o rey, mandou logo prender a todos aqueles que no navio vinhão, e não lhes dilatando a iustiça, amea- çando-os com os tormentos, lhes disse que se fisessem mouros. E logo consentirão dous, convém a saber, hum mestiço e hum framengo; mas os mais, muy constantes, se expu- serão a morte. E tres dos mais culpados forão tomados, e a hum delles crucificarão com cravos nos pees e mãos; e arvorarão a cruz, e os dous forão esfolados e lançados ao pee da cruz. A todos os mais forão tiradas as unhas, e diz que bradavão nos tormentos, e os negros a rir, dizendo que não era aquilo sinal de esforço, porque, avendo de morrer, mosrtavão sentimento nas dores. Aludido nisto a sua bestialidade, que vivos os estam esfolando e desentranhando, e eles, mui ledos e desgasta- dos, se poem a comer seu betre. E o que mais he, que em lhe pondo o algoz o criz, que he huma adagua que elles usão, em o coração, elles mesmos não agardando, mais se vão espetar nelle. Destes martyres do demonio, ha muitos, mas como não duvido que também são muitos os verdadeiros que por esses cantos anda Deos Nosso Senhor fazendo, ditosos chatins forão estes que, indo buscar ouro, carregaram a alma do puro ouro da charidade, pella qual comprarão a gloria, e coroa do martyrio: De Timor e Solor, que sam humas ilhas onde os padres de Sam Domingos fizerão alguma christandade, tivemos agora muy boas novas, de huma grande conversam, que por meio de huma victoria, que os portugueses tiverão, se fez. Anda por aquelas partes hum frade chamado Frey An- 17 5
tonio (5), com alguns companheyros, homem zeloso, que pareçe que, com a perseverança, espera de colher algum fructo de sua paçiencia. E assi foy. Os jaós mouros, imigos do nome christão, vendo que creçia aquella christandade, vierão, paçante de duzentos amoucos, a destruilla. Alli se acharão huns oito portugueses, com os padres, os quaes se puserão em defensão, ordenando suas tranquei- rasras, e tiveran-se esforçadamente ao impeto dos jaós. De- pois, sobreveio outro junco de portugueses, em socorro, com sete ou oito homens, de maneira que estes quatorze ou quinze homêens tiverão o rosto a paçante de duzentos, bem que dos encontros forão feridos os nossos e morto hum capitão portuguez. Vendo os jaós que não podião entrar, mandarão dizer que, se lhes entregassem os padres, que se yrião. Os portugueses lhes responderão, que nem hum cão lhes dariam, senão a espada. Quis Nosso senhor que, postos os portuguezes nestas angustias, sobreveio hum junco de Banda com alguns homnes, que, iuntos todos, perfizerão o numero de trinta. Estes, nhum corpo, derão nos jaós (e sendo alias esfor- çadíssimos, e que não sabem fogir) tremor Domini invasit illos, et alii terga verterunt, alii vero occisi sunt. Quando os christãos e gentios virão tam grande victoria, entenderão que Deus pelejara pellos portugueses, e assi, os ya corvertidos ficarão mais confirmados na fee, e muitos milhares dos gentios, ou todos, pedirão o santo bautismo. E não somente estes, mas os das ilhas comarcãas, ouvindo a victoria, também pedem o bautismo; de maneyra que se abre por la huma grande porta a christandade. Do Padre Tristão d'Araujo, Yoão da Veiga, temos (5) Frei António da Cruz. J76
ruins novas, porque desapareseo o navio, sem oje, este dia, termos novas delle. Não foy ter a Maluco; temesse (6) que, segundo elle era pequeno, et (sic) hya metido no fundo, que de todo se hyria ao fundo, pois de Maluco, à partida da armada, tivemos bem tristes novas e prováveis. Dizem que, estando hum dia a pregação et toda a gente na igreya, deu subitamente ho rey de Ternate, com a sua gente, no templo, et ali forão mortos todos. Não sera isto muito, porque dias ha que os padres et por // tugueses, que estão na fortaleza de Maluco, estão [355 v.) esperando que este negro se alevantasse com alguma trey- ção. Et asy, todos tem por averiguada que este Ternate meteo os yaos em Amboino. Estando a cousa desta maneira et Maluco em tanto aperto, muitos soldados dos que vierão se deyxarão qua ficar, por estes matos, escondidos; mas elles forão bem mareyados da mão de Deos; que huns morrerão de febres ; outros, a pura fome, se vierão entregar a justiça, denique ludibriam facti sunt angelis et hominibus. Não me quero mais nesta alargar, soomente peço a Vossa Reverencia, que desas contas bentas et registros, que do reyno lhe enviarem ou la alcansar, parta comigo, et todas as mais novas particulares mas comunique. Não tenho, ac presente, cousa que mandar, senão a boa vontade et amor que in Domino lhe tenho. De Malaca. De Novembro 1566. Lembresse Vossa Reverencia de nos mandar, na mon- ção de Abril, as cartas do reyno, que hão-de hir pera Maluco, porque qua não vierão ter mais de huma, da eley- (6) I. é. teme-se. fNSULÍNDIA, III — 12
ção do Summo Pontífice; et outra geral de Roma, da eley- ção do novo Geral; et huma semestre de Portugal, de Lisboa, de trinta de Junho; et huma do collegio de Goa. Todas estas yrão para Japão et China. Apontey-lhes aqui, porque estas não sera necessário virem mais que por huma via pera Maluco, et as mais que faltão virão por duas, a saber, Yapão et Maluco, por- que, se por ventura se la se não alembrar as que qua mandou, não tomem os yrmãos trabalho de tresladar, duas vezes, as mesmas cartas. Depois de ter escrito esta, anteontem, chegou huma fusta de Borneo, por mandado de Gonçalo Pereyra, et das cartas que de la nos derão do Padre Luis de Gois, soube- mos como ho galiãozinho em que hião os padres Araujo e Veyga envernara em Borneo, com muito trabalho, adoe- cendo muita gente. E ali foy Nosso Senhor servido de levar pera si o Padre Yoão da Veyga. De Vossa Reverencia yrmão yndino em ho Senhor Lourenço Peres. 178
28 ALVARA A FAVOR DE D. DUARTE DE EÇA, EX-CAPITAO DAS MOLUCAS Lisboa, io de Dezembro de 1566 APO: 5-//, 579, pág. 621. As opiniões contraditórias que D. Duarte de Eça levantou a seu respeito, enquanto foi capitão das Molucas, ajudam-nos a compreender o ambiente daquele tempo. Por isso publicamos este Alvará, passado em seu favor. Alvará d'Eley sobre Dom Duarte d'Eça demandar ate seis pessoas das que forão em sua prisão feita em Maluco. Eu EIRey faço saber aos que este alvará virem que eu ey por bem e me praz que Dom Duarte d'Eça, fidago (stc) de minha caza, possa perante as justiças da cidade de Goa das partes da India, a quem o conhecimento da causa abaixo declarada pertencer, demandar civelmente até seis pessoas das que forão em sua prisão que lhe foi feita em Maluquo, e nomeando elle as ditas seis pessoas ao julgador que do caso ouver de conhecer, o dito julgador mandará passar carta pera Maluquo pera serem citadas as ditas pessoas que elle nomear, e citadas se procederá na dita cidade de Goa, e pelas sentenças que se derem, se fará execução em qualquer parte da índia, ou em Maluquo nas fazendas dos condenados, e se os que ouverem de ser citados estiverem fora de Maluquo, o dito juiz que da dita cauza conhecer, passará para isso carta, pera qualquer * 79
parte da India, em que cada hum dos sobreditos estiver. E isto me praz asy, sem embargo de qualquer ley ou orde- nação que em contrario aja. E mando ao dito juiz e justi- ças que cumprão este alvará, como se nelle contem. Diogo Fernandes o fez em Lisboa, a dez de Dezembro de 1566. Baltazar da Costa o fez escrever. As quaes seis pessoas fará citar, do dia que chegar a Guoa, a quatro annos, ou dentro nelle. — O Cardeal Iffante. (Livro 4.0, fl. 223 v:) 1 S o
29 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE MESTRE BELCHIOR AO PADRE LEÃO HENRIQUES, PROVINCIAL DA COMPANHIA Ceilão, 20 de Janeiro de 1567 BACIL: Carta do Japão, Vol. Ill (1). Fls. 303 V.-307 v. Publicamos o princípio desta carta, que se refere, ainda, às diligências feitas pelo P.e António de Quadros, para socorrer as cristandades de Amboino. Seguem-se, depois, interessantes informações sobre as várias missões da índia. O ano passado escrevi a Vossa Reverencia de Cochim, a 20 de Janeiro, dando-lhe conta da ida do nosso Padre Provincial, Antonio de Quadros, pera Malaca, a visitar as partes de Maluco e de Japão e de outras cousas que pareceo em o Senhor ser necessário avisar a Vossa Reverencia. Nesta lhe darei conta do que depois passou. Tornando o Padre Provincial de Malaca, pera negocear o dia com o viso-rei que socorresse a cristandade de Maluco, e vindo a Cochim, me levou pera Goa, com preposito de me mandar residir no collegio de S. Paulo. E porque o bispo de Cochim estava em Goa esperando embarcação e as cousas necessá- rias pera ir visitar o bispado, a sua insistência, me tornou a mandar o padre com ele, assi pera ajudar na sua visita- ção que era mui difficultosa, por este bispado nunca aver sido visitado de seu prelado, como também pera visitar os Padres e irmãos da Companhia que resiem por estas partes de Cochim, ate S. Thome. (1) Documentação (India), Vol. 10.», pp. 189-201. l8l
30 TRANSPORTE DO CRAVO PARA A ÍNDIA Goa, 18 de Abril de 1567 APO: 5.°-//, 600, pp. 634-636. O cravo constituía o principal produto das Molucas nas transacções comerciais, sendo a única base da sua vida econó- mica. Por esta razão incluímos também nesta publicação as in- formações que vamos encontrando sobre o valor desta especia- ria, e sobre as disposições que regulavam o seu comércio. Provisão do V. Rey D. Antão de Noronha sobre o cravo de Maluco. O Viso Rey da índia &c. Faço saber aos que este virem que no regimento, que ho anno passado fiz para a forta- leza de Maluco, mandey que depois que a náo de carreira do dito Maluco, que lá vay cada anno trazer o cravo da fazenda d'ElRey meu senhor, e o de partes pera a índia, fosse o porão delia carregado e abarrotado de todo, podesse o capitão e feitor da dita náo, e os mais officiaes delia trazer todo ho cravo que hy ouvesse pera carregar, nos seus gaza- lhados que tinhão per ordenança, e que deste não pagarião choqueis, nem fretes a Sua Alteza, somente do que se mon- tasse nos ditos choqueis do cravo que assy trouvessem nos ditos seus guazalhados, se faria em tres partes, e a huma averia a fazenda do dito senhor, e as duas ficarião ao dono do dito cravo ou gazalhado, e esto por respeito de todo ho dito cravo vir aguora de cabeça, e ao tempo que esta liber- 1 8 2
dade se concedeo ao dito capitão e officiaes, era ho cravo de bastão, pelo muito que rendia, e o proveito que nisso recebião, pelo que James Barreto, capitão e feitor da dita carreira, que hora lá he no galeão Sam Thomé, que foi o anno passado, me enviar aqui parte disso, dizendo que nunca se usára o tal com nenhum capitão da dita viagem, e que livremente avião ho que trazião nos seus gasalhados forro de fretes, e choqueis, e que somente nos officiaes se entendia isto, e se fizera nos contos avia tres ou quatro annos, em que elle recebia muita perda, alem d'outros bares que eu tinha tirado pelo dito Regimento aos ditos capitães, que importava muito, por onde a mercê que lhe fazia Sua Alteza ficava muito diminuída, sendo feita em satisfação de seus serviços, e trabalhos e despesas que tinha feito nisso; e avendo outrosy respeito a elle servir Sua Alteza no dito galeão, que levava de viagem, e ir d'armada com Gonçalo Periera contra os Castelhanos, em que avia de gastar muito do seu; e visto per mym seu requerimento, e o que allega, e a informação que deste caso tomey, e avendo respeito ao dito Jemes Barreto ir servir Sua Alteza no dito galeão d'armada com Gonçalo Pereira sobre ho ne- gocio dos Castelhanos, e a despeza que nisso ade fazer; e querendo fazer mercê em nome de Sua Alteza, pelos ditos respeitos, ey por bem que elle aja todo o cravo que trouver nos seus gasalhados conforme ao dito regimento, forro do dito terço e choqueis, que por bem delle avia de pagar a Sua Alteza, e isto livremente. Notifiquo-o assy ao capitão da dita fortaleza de Muluquo, e ao vedor da India, e a todos os mais officiaes a que pertencer, e mando que lhe deixem embarcar o dito cravo forro e livremente do dito terço dos choqueis, e sendo-lhe carregado em receita o que se nisso montar, lhe seja levado em conta, sem duvida alguma lhe ser posta, e sem embargo do dito Regimento; e desta pro- visão não usará nenhum outro capitão da dita carreira, 183
porque lho concedi pelo dito respeito. Antonio Gonçalves o fez em Goa a 18 de Abril de 1567: E isto se entenderá de- pois de tirados os terços deste cravo, que pertence a Sua Alteza, que elle he obrigado a trazer nos seus gasalhados forros — Viso Rey. (Livro 4.0, foi. 128 v.) 184.
31 TRECHO DE UMA CARTA GERAL ESCRITA PELO IRMÃO GOMES VAZ Goa, 12 de Dezembro de 1567 BACIL: Cartas do Japão, Vol. Ill (1). Fls. 361 r.-3"jo v. Nesta outra carta geral o seu autor, relativamente às Molu- cas, apenas se refere à morte do P.' João da Veiga, em Bornéu, conforme a passagem que a seguir damos. Outros padres falecerão em outras partes, mas porque não sera Vossa Reverencia avisado por outra de hum que falieceo em Maluquo, me pareceo referi-lo nesta. Este padre partio vay em tres annos de Cochim, por ordem do Padre Provincial, pera Maluquo, com outro padre que deste collegio foi. Tiverão neste caminho tempos muito rijos, depois de partirem de Malaqua, tanto que não puderão passar a Ternate, que he o lugar de Maluquo, onde os portugueses tem sua fortaleza, onde os nossos padres tem sua residên- cia principal, e foi necessário arribar a Borneo, que he huma ilha que esta no caminho, e invernarem nella. Ally foi Nosso senhor servido de visitar a ambos os padres com algumas febres, e com ellas levou pera Sy hum (1) Documentação (India), Vol. io.°, pp. 274-308. 185
delles que chamavão João da Veiga. O outro, dahy a poucos dias, proseguia sua viagem e hia ja convalecendo. Folgamos com estas novas, porque se presumia, ao menos em Malaqua, ser o navio, em que hião, perdido, por de Ternate não fazerem nenhuma menção delle, e quando partio de Malaqua não ir muito bem provido. i 8 6
32 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE GOMES VAZ Goa, 28 de Dezembro de 1567 BACIL: Cartas do Japão, Vol. Ill (1). Fls. 395 r.-3çó v. A carta a que no texto, a seguir, se faz referência foi escrita pelo P.' Lourenço Peres e publicamo-la também sob o N.° 26. Vê-se que os factos nela referidos eram também conhecidos em Goa. Com esta mando a Vossa Reverencia huma carta que folgara de ver, a qual me escreveo hum padre de Malaqua. Recebia-a este Fevereyro passado; tudo o que nella diz he cousa certa e sabida em toda esta cidade. Mostre-a Vossa Reverencia, por amor de Deos, aos padres e irmãos pera louvarem a Deos, Nosso Senhor, pois ainda nestes tempos tão calamitosos e estragados não falta quem ponha a vida por sua sanctissima fee. Em os santos sacrifícios e orações de Vossa Reverencia e dos mais padres e irmãos de todos esses collegios me encomendo. De Goa, oje vinte oyto de Dezembro de 1567. (Encomende-me Vossa Reverencia muyto ao Padre Doutor Torres e ao Padre Luis de Vasconcellos, e ao Padre (1) Documentação (India), Vol. io.°, pp. 327-333. I 8 7
Antonio Correa, e ao Padre Pero Gonçalvez e ao Padre Amador Rabello e Francisco Gonçalves e ao Irmão Bar- radas) (2). De Vossa Reverencia servo em o Senhor Gomez Vaz (2) O último período que transcrevemos, entre parêntese, en- contra-se, no códice, todo riscado. i 8 8
33 AS CRISTANDADES DAS MOLUCAS NO PRIMEIRO CONCÍLIO PROVINCIAL DE GOA 1567 Em 1367, na cidade de Goa, foi celebrado o primeiro con- cílio provincial. As cristandades das Molucas ficavam também abrangidas por aquelas disposições gerais, que lhe podiam dizer respeito. Aqui damos apenas os dois decretos em que é citado expressamente o nome daquelas cristandades. Sobre outros por- menores deste documento veja-se Documentação (índia), Vol. 10.', pp. 334-4I3- Da reformação das cousas da Igreja Acção terceira decreto 9 Querendo obviar o Concilio aos inales que he informado seguirem-se de os sacerdotes (que vem do Reino a esta Província) vagarem por ella com a dimissoria que trazem de Portugal, sem assentarem em alguma parte, nem toma- rem dimissoria dos Prelados delia, e assy de outros que em estas partes andão: manda que os sacerdotes que vie- rem do Reino, chegando a Goa, ou Cochim, mostrem ao ordinário a demissoria que trazem, e nella declare o Pre- lado o dia de aprezentação, e se se quizerem ir pera outras 1 8 ç
partes, podelo hão fazer dentro de oito mezes, sem pedir outra, mas, passados os ditos oito mezes, não se poderá ir sem elles, a qual o Prelado lhes dará gratis, e não lhe porá impedimento a hida, e se sem ella for, nenhum Prelado o admita. E que nenhum sacerdote seja recebido em Bengala, Pegú, China, Maluco, Banda, Sunda, e outras partes, onde não ha fortaleza de S. A., ainda que leve dimissoria do Ordinário do tal lugar, se nella não fizer expressa menção de como o manda pera elle. decreto 19 Item ordena o Concilio que em as igrejas collegiadas, somente o prioste com seu escrivão receba as missas que se mandarem dizer, e que não receba mais das que a clere- zia da igreja, donde he prioste, poder dizer, com as que tem por obrigação em hum anno (54), e se alguma pessoa offerecer missa a outro sacerdote, e por não lhe aceitar mostrasse escandalizar-se, ou que lha não mandaria dizer, pode-la-a aceitar e dize-la, e em o mesmo dia dirá ao prioste, pera saber como ha-de fazer a distribuição. E em as outras igrejas, o vigário não tomará mais missas das que em hum anno pode dizer, com as de sua obrigação: e que as missas que os defunctos que morerem na China, e Maluco, e outros lugares e portos mandão dizer, se digão em os lugares declarados em seus testamentos; e, não os declarando, se digão em as igrejas donde eram freguezes. E as dos defunctos, que não tiverem certa freguezia, se poderão dizer em qualquer bispado. O mesmo se guarde em os mais legados pios. E manda aos vigários que nas ditas partes e portos se acharem, não tomem as missas dos de- functos, salvo se elles declararem que nellas lhas di- gão (55); e aos provedores dos defunctos, que das ditas partes vierem, dentro de hum mes do dia que chegarem, X 9 o
sob pena de xecomunhão, fação a saber ao Prelado e pro- vedor dos defunctos dos testamentos que trazem pera se cumprirem (56) e por ser informado que em alguns luga- res, onde se custuma a dar grande esmola aos sacerdotes, tomão mais missas das que podem dizer, e as mandão a outras partes, manda que quando isto acontecer, dêm toda a esmola, que pera ellas receberem, ás pessoas que as hão- -de dizer. IÇI
34 INFORMAÇÃO SOBRE AS MOLUCAS (Texto I.) BNL: Fundo Geral N.° 923. Esta cola refere-se a um caderno manuscrito intitulado: HISTORIA DAS ILHAS DE MALUCO, escripta no anno de 1561. Trata-se duma cópia tirada dum original antigo, também manuscrito e desaparecido. Encontra-se este caderno em muito bom estado, com letra muito legível, e protegido por capas de papelão. Começa por uma folha com o título, seguindo-se, de- pois, mais duas, não numeradas, contendo, a primeira, uma nota posterior ao antigo original; a segunda, uma espécie de pró- logo da obra, feito pelo autor do primitivo manuscrito. Segue-se ainda uma folha em branco e, depois, o texto, que abrange oitenta e oito folhas numeradas, incluindo os índices dos capí- tulos. Finalmente, em seis folhas não numeradas, e uma das quais em branco, vêm reproduzidos os desenhos de uma cora- -cora simples, de outra cora-cora com vela, de alguns animais da fauna moluquense, de ainda uma outra cora-cora real, ter- minando com o desenho de um morador, vestido de blusa e sarong, protegido por um escudo ou rodela, de adaga em punho, vigilante. O paciente estudioso que elaborou este caderno, transmitin- do-nos, assim, a cópia dum manuscrito, que se perdeu, admite que o autor do original antigo tenha resumido os escritos de António Galvão, ou, pelo menos, tenham sido estes as bases de informação, para esta primeira HISTÓRIA DAS MOLU- CAS. O confronto, porém, deste trabalho com o de Gabriel Rebelo, INFORMAÇÃO DAS COUSAS DE MALUCO, mos- tra-nos, com evidência, serem ambos obra do mesmo autor. Gabriel Rebelo, portanto deixou-nos, por assim dizer, duas edições da sua Informação: a primeira, esta, escrita em 1561, e que só agora publicamos, para mais fàcilmente poder- 192
mos fazer o confronto entre ambas; a outra, é a que publicare- mos em seguida, devendo referir-nos a ela, com mais extensão, no seu devido lugar. Não optámos por uma reprodução comparada dos dois textos, um ao lado do outro, porque o seu autor não só alte- rou a ordem dos capítulos, mas distribuiu também diferente- mente os assuntos neles tratados, tornando-se, portanto, inexe- quível tal reprodução paralela. Para efeitos de confronto, designaremos este documento por Texto I, e o que em seguida publicaremos por Texto II. Em cada capítulo do Texto I remeteremos o leitor para os capí- tulos, mais ou menos correspondentes, do Texto II. As notas que julgarmos necessárias ou convenientes para a melhor com- preensão dos assuntos, reservámo-las, principalmente, para o Texto II. Num e noutro procurámos descongestionar a leitura por meio duma apropriada pontuação. Finalmente, informa- mos ainda que na BNL: Fundo Geral N.° 924, existe outro exemplar, com capas também de papelão, em que faltam, po- rém, os desenhos. HISTORIA DAS ILHAS DE MALUCO ESCRIPTA NO ANNO DE 1561 Este livro he copia fiel de hum antigo manuscrito (i), veio parar por empréstimo á mão de Lourenço Anastácio (1) Esta espécie de nota de introdução deve ter sido feita pelo paciente estudioso que nos transmitiu a cópia do antigo manuscrito original, cujo autor, se ignorava, e que ele alvitra poder ser Francisco de Sousa Tavares, testamenteiro de António Galvão. INSULÍNDIA, IO — 13 IQ3
Maria Galvão, estribeyro da rainha, nossa senhora, e hoje não sabe onde existe. Conferido com outros, que tractão das couzas de Maluco, conforma-se com elles, e tem noti- cias, que nos mesmos se não encontrão; pelo que mostra ser exacto e de muito credito. Ignora-se quem fosse o seu Autor, nem pelo contexto delle se pode inferir. He certo ser pessoa que servia na Azia, quando o escreveo, e muito natural que se achasse em alguma das occazioens que nelle refere. Pode bem ser hum compendio ou, ao menos, que se aproveitasse da his- toria que escreveo daquellas ilhas o famozo Antonio Gal- vão, ínclito e piedozo capitão delias; a qual, ficando ma- nuscrito, por sua morte, Francisco de Souza Tavares, seu testamenteiro, entregou, por ordem do Cardeal Rey, a Damião de Goes, que muito se sérvio desta obra para a chronica de El-Rey D. Manoel, como escreve o Padre Sebastião Gonçalves, na Historia da índia, Livro 3.0, Ca- pitulo 3.0; e refere o Autor da Biblioteca Luzitana, Tomo i.°, pag. 285. Dando lugar a conjectura, e por boas combinaçõens, parece ser compozição do mesmo Francisco de Sousa Tava- res, que, talvez, antes de fazer a entrega a Damião de Goes, quizesse conservar hum rezumo da Historia que guardara, porque foy hum dos mais fieis amigos do famozo Antonio Galvão; e para satisfazer a algumas das suas reco- mendaçõens fez imprimir, no anno de 1563, na Officina de João da Barreyra, o Tratado que elle compozera dos Des- cobrimentos antigos. Este dedicou ao Duque de Aveyro D. João de Lencas- tre, e ao mesmo se ofereceu também este livro (2); e por (2) Não vemos em que dados se funda o autor desta nota, para afirmar que esta obra foi dedicada e oferecida ao Duque de Aveiro. No prólogo do Texto II Gabriel Rebelo oferece o seu trabalho a D. Cons- tantino, duque de Bragança. 1 9 4-
estas razõens não deixa de ser bem fundado o discurso que se fez a respeito deste Autor anonymo (3). Querendo fazer experiência quanto podia obrar em mim o dezejo que tenho de servir a Vossa Senhoria, achei ser tanto que me poz em estremo de a querer fazer em couza fora da minha possibilidade; e, aventurado ser julgada por temerária minha ouzadia, quiz pôr em effeito comprir, por escrito, o que disse por palavra, quando lhe dei o matiz (4) das ilhas de Maluco, mandando-me que lho de- clarasse. E regulando-me com o que vy e ouvy a pessoas de que confiava, quiz, nas vagantes dos trabalhos em que rezido, tomar por refeição delles servir nisto a Vossa Senhoria, desconfiado de o poder em outra couza melhor fazer. E remedando, como o ximio, ordem e estilo do livro, para remedio de mayores erros e para com menos fastio ser lida tão fraca e larga historia, a qual reparti em duas par- tes, tratando, na primeira, a vinda dos Castelhanos da Armada de Ruy Lopes de Villa Lobos, e tomada da for- taleza de Geilolo e Tidore, pouzadas suas, e brevemente alguns successos do mesmo tempo; e na segunda, satisfa- zendo a minha obrigação, declaro ho debuxo do papel, aonde vera o favor, e merces de Nosso Senhor dar-se, / / não tão somente aquella barbara gente, mas ao nome por- tuguês, que entre elles foy sempre mui venerado e não menos temido, por seus grandes feitos, dos quaes injusta- mente se fez pouca conta, assy na satisfação, como na memoria delles, sendo feitos a custa de particular, e não de Sua Alteza. (3) Termina neste ponto a nota do copista, e começa o Do- cumento pelo prólogo que se segue. (4) Julgamos que por matiz devemos entender aqui os desenhos que se encontram no fim deste documento. 19 5
Estribey na verdade, tomando-a por escudo, para eu cubrir mayores faltas, e assy na benignidade de Vossa Senhoria que as dissimulará, e aceitara a obra, a qual lhe ofereço, para que, como a acabar de ouvir, a mande logo queimar; não por erectica, porque o não he, mas porque se veja nisso faze-lo somente para servir a Vossa Senhoria, a quem Nosso Senhor, por muitos annos, guarde, e acre- cente a vida com grão repouzo dos trabalhos passados, e ho leve com prospero tempo aos olhos da Senhora Duqueza, como ella dezeja. De Chaul, no derradeiro de Outubro de 1561. PRIMEIRA PARTE DESTE LIVRO Que trata da vinda dos castelhanos, da armada de Ruy Lopes de Villalobos, a Maluco; e de como se entregarão a Fernão de Souza, e da guerra e destruição do Reyno e for- taleza de Geilolo e Tidore, que os recolhido, e do fim dos odios de Bernaldim de Souza e D. Rodrigo de Menezes, e de swas mortes. CAPITULO i.° (5) De Como Dom Jorge de Castro foi capitão de Maluco, cinco annos, e, no quarto, vierão novas dos castelhanos. Dom Jorge de Castro foi capitão de Maluco cinco annos; nos quaes governou a terra em muita paz e com muito sizo. Foi o primeiro, que levou liberdade para os homens fazerem o cravo das ilhas, pagando a Sua Alteza (5) Cf. Texto II. Parte 2.». Cap. V, que trata do mesmo assunto» com redacção diferente. i ç 6
o terço de todo o que embarcassem, pagando-lhe por cada bar tres pardaos, que era a valia por que o elle comprava; porque dantes ninguém o podia fazer, senão elle. Também foi o derradeiro em que acabou o dar das mesas (6) na- quella terra, as quaes erão sustentamento de muitos pobres. Sérvio tres annos de merce, e o // quarto ficou na [i v.] fortaleza, por morte de Leonel de Lima em Malaca, que o sucedia; e o quinto, por a morte de Fernão de Castro, que outrosy morreu em Malaca. No quarto anno, que foi na era de 1543, lhe veo nova por alguns negros, que estavão castelhanos na ilha de Mindanago; a qual não fez pequeno movimento no coração dos portuguezes, por o grande que sentirão nos naturaes, que geralmente são amigos de novidades, ainda que veo por negros que a davão doutros. Dom Jorge se fez prestes, e mandou a sabe-las duas coro-coras, em que hia Antonio de Almeida, filho bastardo, que dizia ser do Contador-mór; o qual, com muito traba- lho e revez, na viagem, por mares não sabidos nem uzados ate ali, daquellas embarcações; mas como tomou a costa do Mindanao, correndo por ella, foi ter a hum porto, cha- mado Sarramguam (7), aonde achou a novidade da ar- mada, da qual era geral Ruy Lopes de Villalobos, pessoa de muita authoridade, ainda que não de tanta fidalguia, segundo os seos; do qilal foi bem recebido o nosso enviado com lhe dar o Geral, primeiro, seguro de si e seus capitães e alferes e cabos de esquadra e gente de Real; e os seus forão muito espantados de verem os nossos tão longe e por tão defferentes caminhos e em partes tão remotas e polo conseguinte do trajo; porque, naquelle tempo, era de pouca (6) Por dar das mesas deve entender-se o costume que alguns capitães tinham de distribuir aos moradores pobres uma ou mais refeições. (7) Porto e ilha de Sarangani, ao sul de Mindanau. IÇ7
pluma; que, do pe ate o joelho, levarião descuberto, e assim convinha ao uzo das embarcações. Recebido o embaixador, juntamente com a boa pratica, aprezentou huma carta de D. Jorge, a modo de requeri- [2r.i mento, na qual se continha //a duvida e pouca certeza que tinha de sua vinda; mas sendo certa, pedia lhe man- dasse dizer a cauza; e se vinha enviado as ilhas de Maluco, ou se era ali aportado com contraria fortuna, porque, sendo assim, o proviria com o necessário. Ao que respondeu Ruy Lopes, por escripto, agradeci- mentos de bom offerecimento, e que não vinha mandado as ilhas de Maluco, mas a descobrir as do Poente; mos- trando em sua resposta maior audacia do que tinha poder, porque ja tinha muito menos do que trouxera. Havida licença se tornou Antonio de Almeida, bem des- pedido, e troxe nova do que vira e ouvira, e da qualidade de gente e navios; os quaes erão duas navettas pequenas, e dous galiarcinhos, (sic) e huma fusta grande, que cha- mavão gallee, e outra pequena, bargantim. Os capitães erão o Geral D. Monso (Alonso) Manrrique, Bernaldo de la Torre, Pero Ortiz de la Rueda. Trazião grande sombra de exercito, porque, e assim, todos se chama vão capitães, e assim vinhão muitos officiaes da fazenda de el-rey, como da de D. Atnonio de Mendonça vice-rey da Nova Espanha, cuja a dita armada era. Dadas estas novas, e outras vulgares, que commum- mente os novamente vindos folgão dar, ou, por milhor dizer, acrescentar, foi bem recebido, e assi, porque leve que contar, com que desenfadava a huns e cançava a outros. Ordenou logo Dom Jorge fazer hum baluarte de pedra e cal no canto do muro, sobre o mar, aonde esteve outro [!,,] de // madeira; e assim começou a fortificar o muro, que era mui fraco, com estacada de vigas, para entulhar de i ç 8
terra; e com estes trabalhos se passava o embrulhado tempo, no qual mandou outras duas coro-coras, em que hia por capitão Belchior Fernandez Correa, seu criado; por- que Antonio de Almeida não faltou quem murmurasse, avendo que aprazoava (8) bem, e vinha muito afeiçoado aos Castelhanos; e com ocasião de seus trabalhos, mandou D. Jorge a Belchior Fernandes, o qual partio em forte tempo, e assim monção contraria. Passou, e deu seu recado, por escripto, com ponta da- zedo de requerimento, e protesto, no qual lhe offerecia o provimento necessário para a gente e armada, vindo-se á fortaleza, se vinhão desbaratados. E doutra maneira, não entrasse nas ilhas de Maluco, e suas terras, por rezão de contracto e pazes feitas entre os reys, protestando pelas mortes, e perdas, serem á conta do geral; o qual respon- deu que a todo o seu poder entraria nellas, por lhe ser defezo por Sua Magestade, e que somente era vindo a des- cobrir o Poente, por mandado do vice-rey da Nova Es- panha. E com estas e outras palavras, por escripto, foi despe- dido Belchior Fernandes, ò qual lhe trouxe hum marinheiro portuguez, e pellejou com alguns lugares visinhos da ar- mada, e cuidando os naturaes que todos erão castelhanos; fizerão-lhe, dali por deante, sempre guerra; a qual, e alguma que dantes tiverão, lhe foi causa de muitas deza- venturas de mortes, de trabalhos, de fomes e doenças; porque chegarão a o comer bichos, cobras, ratos, e os couros das caixas, e cebo, / / ainda que a alguns não seria [3 r.i novo. Rodearão Mindanao, buscando portos de paz, e sem os poderem achar, perderão huma das naus e o bergantim, (8) Assim está escrito. No Texto II a passagem paralela é a se- guinte: avendo que vinha afeiçoado aos castelhanos. IÇÇ
e entre humas ilhas visinhas hum dos galliõeszinhos, cha- mado S. Jorge. E tomando daqui ocasião de perdidos, dis- simuladamente, em modo de desgarrados, segundo muitos, mandou o Geral a Pero Ortiz de la Rueda, capitão da que se chamava Galle, meter-se em Geilolo, que são cinco le- goas da nossa fortalleza. E vinha por seu piloto Antão Corço, que sabia muito bem o porto, por ter ja ali vindo em outra armada de castelhanos. Foi bem recebida a gente da Galle pelo rey da terra, como sempre fizera aos das armadas passadas, não tanto por caridade e vertude, porque de tudo carecia, quanto por seu particular interesse, porque, como os seus não tinhão nenhum, pesava-lhes muito. Esta nova correu logo por todas as ilhas, e fez grande alvoroço, e não pequeno espanto em todos. O capitão, te- mendo-se desta vinda, antes delia, ordenou humas duas fustas, que tinha no Moro, e, com ellas, coro-coras, temendo-se irem la ter castelhanos, os quaes pedio o Que- chaeiro (9), rey de Ternate, que la chamamos de Maluco. Escusou-se de as dar, dizendo que as não tinha, o que era falso; mas a verdade era rezidir elle no reyno, em auzencia de Tabariza, seu irmão, que estava na índia, ja christão e chamado D. Manoel. Como por esta parte esperava por elle, cada anno, temendo ser-lhe necessário ajuda e favor dos reys vizinhos e parentes, para seu recolhimneto, não [3 v.] queria fazer couza // pela qual perdese, e procedece entre elles desavensa, porque estava certo ser desapossado. E, contrariando a vinda dos castelhanos, temia ter contra si todos os que pretendião seu favor. Conhecendo D. Jorge a cauza, teve conselho de o pren- der, por segurar a terra, e pelo mesmo cazo e respeito deixou de o fazer, por escuzar maior mal, temendo as (9) O mesmo que Quechil Aeiro. 2 0 0
couzas contrarias, que destas novidades podião suceder, e assi pos por obra mandar as duas fustas, sem as coro- -coras. CAPITULO 2.° (io) Das fustas que mandou o capitão ao Moro. e do effeito que da sua hida se se guio. Andando D. Jorge com os trabalhos de se ver sem ar- mada meuda, de que muito esperava favorecer o seu poder, e não usando pedi-la ao rey de Tidore, por se confiar pouco em todos, e conhecer delles sua pouca fe e constância, e serem geral e naturalmente amigos de novidades e, maior- mente, daquella, de que esperavão discórdia entre chris- tãos, a qual sua seita mahometica pertende, conforman- do-se com o tempo, usando o melhor que pode da necessi- dade, trabalhando o possível por lha não conhecerem; assim por lhe não ficar esse contentamento, como por mos- trar que os não havia mister, e sem elles faria seu // effeito; " r"' e conhecendo, por outra parte, o pouco poder e forças que os castelhanos trazião, ordenou mandar ao Moro, terras de christãos, aonde se esperava virem elles ter, a James Lobo, que servia de capitão-mor do mar; e duas fustas, que havia na fortaleza, com só de socorrer a certos lugares de christãos, a quem os gentios e mouros vizinhos fazião guerra. E com este pergão partirão as fustas, a 7 de No- vembro do anno de 43, e Antonio de Almeida hia por capitão da segunda. Partirão em principio da monção contraria, mas como as cousas ordenadas justamente Deus favorece, não deixarão, ainda que com algum trabalho, ir (10) Cf. Texto II, Part. 2.*, Cap. VII, onde o assunto vem des- crito com mais pormenores. 2 0 1
surgindo no Tolo, principal lugar de Moro e sessenta legoas da nossa fortaleza, por cazo do grande rodeio da terra. Levava James (n) Lobo cinquenta homens, dos quaes deixou ahi alguns na sua fusta, e se foi ao lugar de Mamoya, onde deixou outros poucos, na outra, e com os mais e com muita gente da terra se foi em paros pequenos a desembar- car em huma praya, na qual tomarão, os naturaes, os paros ás costas, e navegarão com elles huma boa mea legoa por terra; no cabo da qual estava huma grande e funda lagôoa de agoa doce, e aparelhados ali os paros, e metidos todos dentro, navegarão por a lagoa outra grande mea legoa, no cabo da qual metia a terra huma ponta grossa que lhe estava pegada por estreito e forte passo, sobre o qual se foi pôr James Lobo, com grande Real de gente [4 t.] preta, que, com suas gritas, / / não tão somente assombra- vão os do lugar cercado que estava no dito ilheo ou ponta, chamado Galelas, mas enfadavão aos cercadores, porque a arte de sua guerra, tanto consiste em gritos, e feros de rosto, boca, e olhos, saltos e gritas, como em cortar com espada. Naquella noite cometerão muitos partidos de paz os de dentro, os quaes lhe não quis o capitão aceitar, por seguir a openião dos soldados, o que parece que foi causa de sua desordem, da qual procedeu o desbarate seguinte. Ao outro dia, ordenadas suas jangadas de paros para os dous capitães, sendo ambos assentados partir Amtonio de Almeida diannte, e rodeando o ilheo, dar por lugar certo da outra banda, e, depois delle desembarcado, dar James Lobo por a primeira parte, depois de Antonio de Almeida ter cometido; e partindo em igual tempo, fez-se tudo ao contrario, dando primeiro James Lobo, sem ordem, e acodindo os cercados ao passo, achando-o tomado da (11) No Texto II também se lê Annes Lobo. 2 O 2
guarda, que lhe ficou, tornarão, fazendo das fraquezas forças, e cometerão a grande desordem que tinha James Lobo, com dez ou doze homens, porque os mais não de- sembarcarão; e com suas armas, e paos, e cocos, mulheres e moços, o disbaratarão e ferirão todos, porque não levarão espingardas, por a pouca conta que fizerão dos cercados, por os partidos que cometerão. E embarcando-se cada hum por agoa, como pôde, deu por outra banda Antonio de Almeida, que hia bradando em grã fúria, que lhe rouba vão sua honra e deu com a / / [5 rj jangada em humas pedras, e desfe-la, por onde todos se molharão e se houverão de afogar. E esta desordem segunda foi cauza da primeira não perecer de todo, porque os negros acodiram ali, deixarão embarcar em paz aos de James Lobo, com a esperar ali, ainda que foi por falta de quem pudesse remar, porque Antonio de Almeida, pellejando, atravessou o lugar, e quis Nosso Senhor que veio ali ter com os seus; mas em che- gando e se metendo na jangada, morreu logo de duas cuti- ladas, que trazia por huma perna, e ficarão la mais tres soldados seus. Desfeita a jangada, se embarcarão nos paros, para a primeira ordem, e se vierão, ficando lá muitas armas nossas e a honra. Tornados às fustas, James Lobo meteu na peor e mais velha os feridos, que serião vinte e sette, e os mandou à fortaleza, os quaes forão nella recebidos com muita tristeza nossa, e alegria dos mouros, porque melhor lhes digere o estomago hum disbarato nosso, que huma victoria; e James Lobo ficou no Tolo, por esse(s) com os quaes esca- parão. E D. Jorge lhe mandou bom socorro, com o qual fugi- rão os Galelas, e o lugar, que lhe foi queimado, em paz. E tornado o socorro, ficou ainda la James Lobo na mesma 205
fusta, esperando a vinda dos castelhanos, porque neste tempo chegára a galle a Geilolo, como ante he dito, e fica- rão com elles alguns poucos e mais finos na ôpenião; e vendo que bastavão para todo Castella, quanto mais para o seu Geral, se ahi viesse ter, e não tinhão pouca razão, por a victoria passada, e ainda que taes, chegarão depois [5 v.] os castelhanos, que tudo poderá ser. Mas // Nosso senhor o remediou melhor, com as necessidades geraes de ambas as partes. CAPITULO 3.0 (I2) De como D. Jorge foi capitão o 5.0 anno, e de como o Geral veio a ter ao Morro (13). e se meteu em Geilolo, e do que lhe aconteceu com James Lobo. Sabida na India a nova da morte de Leonel de Lima, em Malaca, mandou logo o governador Martim Affonso de Sousa a Fernão de Castro para Maluco, por ser delle pro- vido, o qual falleceu na mesma Malaca, de muitas doenças de que era enfermo, e logo na fortaleza, perante Ruy Vaz Pereira, que era o capitão delia, apresentou hum ouvidor, que hia para Maluco, hum papel cerrado e sellado com os sinetes do Governador, o qual foi aberto em publico e lido. Mandava nelle o Governador, que em qualquer parte que falecesse Fernão de Castro, fosse Gil de Castro, que hia com elle, capitão; e mandava a toda a maneira de sorte de homem particularmente lhe obedecesse ali, como erão obrigados ao mesmo Fernão de Castro, ao qual dava todos os mesmos poderes que elle levava. Lida esta successão, não faltou quem lhe pozesse de- (12) Sobre o governo de D. Jorge de Castro, o Texto II faz-Ihe menor referência na Part. 2.», Cap. VI. (13) Morro é um lapso, devendo ser Moro. 204.
feitos, mas, com tudo, a sombra delia achou Gil de Cas- tro // partidos a cravo para Maluco, o qual se embarcou, [6 r.i com titulo de capitão, na mesma nau em que hia Fernão de Castro, de que hia por capitão Duarte de Miranda, que foi o primeiro que teve a viagem por merce de el-rey. Chegados a Maluco, a 18 de Outubro de 48, antes que Gil de Castro desembarcasse, lhe mandou D. Jorge pedir os papeis que trazia, a sombra de felicitação e boa vinda, da qual foi Belchior Fernandez Correa embaixador; e isto foi porque não faltou quem o avizasse do que passara em Malaca, e como Gil de Castro era bom fidalgo, não que- rendo o que não era seu, mandou-lhos, e desembarcou depois, e foi bem recebido e hospedado de D. Jorge; o qual lhe pedio alvara particular, para lhe poder levantar a menagem. Gil de Castro lhe apresentou o mesmo de Fernão de Castro, alegando a liberdade de successão, mas nada lhe aproveitou: fez seus protestos, os quaes lhe notou o mesmo D. Jorge, melhor do que o elle pedia, e lhe tornou sua fazenda, e lha deu em cravo, por bom preço, de maneira que ficarão amigos. E tornando elle com Duarte de Mi- randa, a 13 de Fevereiro do anno seguinte de 44, estando James Lobo esperando no Morro (sic), como atraz he dito, por a vinda dos castelhanos, no mes de Março, veo ter Ruy Lopes de Villalobos na sua nau a Çugala, lugar de arrenegados, que estava por Geilolo, e seria tres legoas de Tollo. E sabida a nova de sua vinda, poz algum espanto a gente da terra, e a nos o temor, porque erão ja alguns mortos e os mais doentes, com James Lobo, por cauza do sitio sei muito doentio / / com o rosto a leste e abrigado [6 v.j dos ventos, e o Ruy lopes e sua gente vinhão da mesma maneira. E estando assim hum e outro, a quem faria o primeiro 205
pique, conhecendo, cada hum, o jogo do outro, James Lobo começou, e lhe mandou dous soldados, os menos esfaimados que achou, com hum requerimento que levava de D. Jorge, ao proposito do primeiro poder que levava, e não da fraqueza que tinha, no qual lhe requeria que, se vinha com a fortuna e constrangido do tempo, que se fosse a fortaleza, e nella lhe seria feito todo o bom recolhimento; e não querendo, que não sahisse em terra nem nella fizesse damno; e, fazendo o contrario, elle lho defenderia com todo o seu poder. O Ruy Lopes, como físico, por os rostos dos dous en- viados, conheceu a febre dos que ficavão, esteve a cacha, respondendo, como sempre fizera, dizendo que elle não entraria nas ilhas claravarias (14), nem em seus limites; e que a todo o tempo, que lhe constasse estar nellas, se saheria a todo o seu poder; quanto mais elle havia aquellas por de Sua Magestade; e ainda que assi não fosse, que a necessidade aos preceitos divinos aquebrantava, quanto mais aos humanos. E com esta resposta, por escripto, e algumas palavras de soberba, despedirão os enviados, porque sabião. por os da terra, como ficavão os mais, e o que lhes acontecera nas Goleias. Sabida a nova em Geilolo do Geral, e sua chegada a Çugala, mandou o rey coro-coras que o levassem a Toa, que são perto de sessenta legoas; as quaes o levarão a seu salvo, sem haver couza que lhes resistisse, e acharão dentro [7 r.i a Galle; e dahi a // poucos dias chegou San Jnanilho, somente, porque os mais erão partidos. Fizerão sua estancias em terra e foram nella bem aga- zalhados, às suas custas e de suas consciências, porque a (14) Foi o que conseguimos ler. No Texto II, Part. 2.a, Cap. VII, a passagem paralela é a seguinte: O qual respondeu que não entraria nas ilhas, e Canarias, nem em seus limites... 2 0Ó
necessidade os fazia vender suas armas e as espingardas e as munições aos mouros, querendo antes tomar delles que dos christãos, que lho offerecião. E com sua chegada ali, nunca mais veio el-rey de Ti- dore a nossa fortaleza, a qual ordenou Ruy Lopes mandar a Mathias d'Alvarado, por embaixador, por ser seu amigo e grande falador, porque de outros que erão para isso, se não fiava tanto; e assim por ser gordo e rozado, para por elle mostrar a boa fortuna dos mais. Chegado este a fortaleza, foi nella bem recebido e de todos bem olhado; e acabado o jantar, em que bem se far- tou, perante alguns principaes, deu hum regimento ao capitão ao capitão, (sic) envolto em palavras de grão ora- dor, decoradas, e tomando ocasião do que lhe mandara James Lobo no Moro, que ja era vindo, de que se achavão escandalizados, dizia o Geral, em soma, que elle era ali vindo com contraria fortuna, e pedia ao capitão, emquanto elle ali estivesse, fizesse bom tratamento a gente da terra e, se não, haveria quem o fazia em seu menos preço, e sahiria por isso; e assim lhe mandasse os castelhanos, que ali estavão das armadas passadas, e toda a artelharia, que tinha do emperador. E estas, e outras branduras vinha dizendo o regimento, por as quaes forão cantando o embaixador, se por a opinião do comum se regera Dom Jorge, o que // não consentio, [7 v.i mas respondeu defendendo sua cauza, dando licença aos castelhanos que estavão na terra se fossem, se quizessem, porque não estavão forçados, mas levris, (sic) por o proveito que tinhão nella; e que a artelharia fora tomada de boa pressa, e por isso lha não tornaria. E quanto ao tratamento dos naturaes, elle não era parte para em tal falar, pois elles erão vassallos del-rey, nosso senhor, e não do em- perador; e que mal dizião aquellas palavras com as pri- meiras que tinha respondido, que não entraria nas ilhas 207
de Maluco, por lho ser defezo; mas pois assim era, lhe requeria que com aquella gente da terra não entendesse nem tratasse nem quexasse. E com estas e outras palavras despedio o embaixador, o qual fizera estar mais tempo na terra, se fora possível, por levar mais papos quentes, deixando alguns sinaes, que o Geral vinha as ilhas de Maluco, os quais seu muito falar fez mostrar, não sendo assim na verdade, como se vio de- pois, por juramento. CAPITULO 4.0 (15) Da entrada dos castelhanos em Tidor, e do que sucedeu naquelle anno, ate a vinda de Jurdão de Freitas. Tanto que D. Jorge vio que o Geral fizera o contrario do que tinha dito em suas respostas, não se fiando mais de palavras, mandou que os moradores vigiassem a povoa- is rj ção, o qual se logo fez com muito / / prazer e contenta- mento e festas, ate a vinda de Jurdão de Freitas. E estando assim as couzas em armas, tornou o Geral mandar a Matihas a D. Jorge com outro recado de visita- ção; e estando na fortaleza, e assim como respondente, mandou o Geral a D. Alonso com trinta ou quarenta homens meter-se na ilha de Tidore, que he pegado com a nossa de Ternate, hum parto de legoa, e huma das principaes do cravo. Forão bem recebidos do rey da terra e de alguns prin- cipaes, mas não do povo, pelos muitos trabalhos e perdas que houverão, pelo recolhimento das armadas passadas, e sabião certo que as necessidades destes havião de acodir (15) Cf. Texto II, Part. 2.", Cap. VIII. 208
com suas pobrezas; e como são mais costumados a pedir, que a dar, sentirão sua entrada, maiormente, porque esta- vão certos virem os mais que fica vão em Geilolo. Como esta nova de sua entrada foi sabida na fortaleza, escandalizou-se muito D. Jorge e portuguezes, pela pouca fe de Ruy Lopes e castelhanos, e o embaixador se fez mais espantado e de novas, mastrando-se inocente da mudança para Tidore, sendo certo que não veio a outra couza senão a ver, segurar, e avizar, principalmente se entre nós havia algum sentimento, ou nova, de seus dissimulados contratos com el-rey de Tidore, que lhe pudesse impedir sua hida lá. E como o castelhano nos achou a mor fé e simplicidade nas palavras, e credito nos castelhanos, teve sua maneira com que os entenderão e sentirão nossa innocencia, por onde, sem nenhum receio, se vierão meter na dita ilha. D. Jorge o despedido com palavras de grande espanto, do ruim effeito do // fim das boas razões do Geral, e as [8 v.) quaes elle respondeo como no Moro, que a necessidade aos preceitos divinos quebrantava, quanto mais aos humanos, e que elle mesmo lhe fizera mandar a Tidore aquelles pou- cos soldados, por se não poderem sustentar todos em Gei- lolo. E com estas escusas, e o pouco remedio que tinha D. Jorge para os estorvar, se apasiguou tudo, e as pala- vras não erão ditas, quando o Geral se fez metter no mesmo Tidore, com todo resto, por ser Geilolo muito doentio, e o rey lhe mostrar, depois de farto delias, aborrecimento, o qual tinha ja havido espingardas, polvora, e outras muni- ções, panos e peças que os na vãmente vindos costumão dar e os necessitados barato vendem. A hida para Titore não fez menos espanto que os acon- tecimentos passados. Logo começarão os mejericos a tecer suas novidades, de huma e de outra parte, os quaes a huns enfadavão e a outros da vão prazer; entre os quaes veio a nova que fazião fortaleza na mesma ilha, em sitio forte, 2 o ç INSULÍSDIA, III — 14
affastada hum bom espasso do mar, e a vista delle, sobre hum outeiro, aonde do mesmo mar lhe podião fazer pouco nojo. E assim se vinhão alguns castelhanos para a forta- leza, entre os quaes, foi hum nosso biscainho, chamado Gaspar, a quem Francisco Palha perguntou, porque tra- zião tantos capitães, com tão pouca gente, e de que era capitão Mathias de Alvarado. Respondeo o mosso, que morrera a gente, e ficarão os capitães, e que o Mathias de Alvarado vinha por ser capitão da guarda do Geral, quando a tevesse e povoasse, mas que elle nunca tivera guarda nem povoara, nem o Mathias servia. E perguntado que, pois, que assim era, // porque lhe chamavão capitão? Respondeo o moço: «Unos por le con- placer, y otros por hazer burla dei, de qualquer manera que sea, el quedose con ello». CAPITULO 5.0 (16) De algunas razões porque os Malucos recolhem os castelhanos, e os aborrecem, e nos favorecem. A fama de hum portuguez, que a Amboino foi ter acazo, perdido de huma nau, moveu ao reyno (sic) de Ternate, pay do que agora he, manda-lo buscar. E vendo-o folgar muito com a novidade da pessoa e trajo, maiormente por seu esforço e valentia, pela qual se persuadio manda-lo a índia pedir viessem fazer fortaleza e feitoria na sua terra, (16) Este capítulo interrompe a ordem da narração dos factos, voltando ao início da entrada dos portugueses nas Molucas. No Texto II esta matéria é tratada nos primeiros capítulos da Parte 2.a. e os dois casos aqui narrados, em favor da simpatia dos naturais das Molucas pelos portugueses, no Texto II, contam-se também na Parte 2.*, cap. XIII. 2IO
como depois fez Antonio de Brito; e antes delia, vierão ter a Tidore duas naus da armada do Magalhães, das quaes huma foi por o boqueirão de Timor e Cabo de Boa Espe- rança a Sevilha, e a outra se ficou ali. O rey de Ternate se moveu a pedir fortaleza, por razão do cravo, que esperava resgatar, e de se favorecer dos portuguezes contra os vezinhos, que tinhão naquelle tempo continuas guerras, pertendendo cada hum senhorear o alheio, porque a consciência he pouca, e a cobiça muita. E assim também porque amigos de novidades, e de te- rem cousas que os outros não tem, e assim folgão com qual- quer bicho ou alimaria delles não usada, ou homem ,// p corcovado, ou em que a natureza haja faltado, e estes os servem de seus pagens de espada. E por estas mesmas ra- zões e cauzas folgou o rey de Tidore de recolher e favorecer os castelhanos de Magalhães, e recolhera quantos lhe mais vierão, por mais males que delles lhe venha; não por sua virtude, nem amor, que lhes tenha, senão por com elles se defender e fazer senhor contra o rey de Ternate, que por nossa cauza he quássy senhor de Maluco todo, e lhe tem tomadas muitas terras, das quaes nos tivemos o primeiro porto. E esta he a principal parte do recolhimento seu e sofri- mento nosso, e não amor, que nos tenhão nem a elles, mas com o nosso folgão mais que com elles, porque damos e emprestamos e fiamos, porque temos; e elles não dão nem fião, mas antes tomão, porque não tem; vem-nos chegar sempre perdidos e a nos ganhados; vem-nos não tornarem por o seu caminho, e a nos sim, e por o nosso; vem-nos poderem menos contra nos, e nos mais contra elles. Finalmente não olhando a couza, mas ao successo delia, nos tem por melhores em virtude e valentia, e a elles por fracos, pobres e aves de rapina, porque a necessidade sua os faz uzar das unhas, de maneira que ate as negras se 2 11
correm de cazar com castelhanos, como aconteceu a huma com o Padre Mestre Francisco, querendo-a cazar com hum bom castelhano, não o querendo fazer, lhe jurou pela cruz, que nem com el-rey de Castella não cazaria, do que o padre gostou muito; e assim de outra que acontecera em Tidore a hum Quechil Quebreba Pam (?), principal de Maquiem, no r.j vassalo de el-rey de Ternate, que, tomando-o //D. Alonso com outros em huma praya, começou de esprayar, dizen- do-lhe males nossos, e bens seus, fraquezas nossas, e forças suas, mostrando-lhe, depois de muitas razões, ao que o negro não respondia, Castella, matizando com hum zagun- cho na praya, tomando-a toda, e junto delia Portugal, muito pequenino. Vendo o negro tamanha differença, sabendo a verdade, por ser discreto, e falar portuguez, disse com grande sere- nidade a D. Alonso: «Pois, senhor, quando aquillo assim, como foi o de Aljubarrota?» E com isto se acolheu ao paro, fugindo, e os castelha- nos o acompanharão com muitas pedras, ficando muito corrido da resposta do negro, da qual gostava muito o mesmo Mestre Francisco. Finalmente, digo que a ambição dos Malucos faz de- sejar os christãos e, se os portuguezes quizessem povoar a ilha de Tidore, e deixar Ternate, fico que lhe fossem muito liaes e contrários dos castelhanos; mas, por as mesmas razões, os recolherião os Ternates, e tornava a couza ser como agora he; e porque assim está a fortaleza melhor, torno a ella, a falar na vinda de Jurdão de Freitas. 212
CAPITULO 6." (I7) Da chegada de Jurdão de Freitas a Maluco, e do que sucedeu ao depois de sua vinda, e tempo das pazes com os castelhanos, e prisão de el-rey. // [10 A 7 de Novembro de 1544 chegou Jurdão de Freitas, por capitão da fortaleza, com alguns mantimentos e gente que levava de Malaca, por a nova de socorro, que la era por Duarte de Miranda, o qual mandou Simão Botelho, que era capitão, por successão na morte de Ruy Vaz Pe- reira ; e q Geral mandou logo vizitas de boa vinda a Jurdão de Freitas, o qual respondeu da mesma maneira. Tratarão-se logo pazes, consentidas pelo Geral, e se- gundo Jurdão de Freitas dizia, forão negociadas pelo Vigá- rio Ruy Vaz; e antes de se sentarem, jurou o Geral em huma ostia consagrada, que não trazia outros regimentos senão os que tinha mandados mostrar a fortaleza ao capi- tão, nos quaes lhe era mandado, polo viso-rey da Nova Espanha, virem a descobrir o Poente, e defezo por o Em- perador, não entrarem nas ilhas de Maluco. Assentarão-se as pazes, que virião a nos e nos a elles, e compraríamos o cravo, e elles não; e nos guardaríamos amor e lealdade, ate vir recado da índia, ou a elles, de Nova Espanha. E dizia, depois, Jurdão de Freitas, que as fizera assim, por ter a terra segura, na prisão de el-rey de Ternate, que fez, acabadas ellas, antes alguns quinze ou vinte dias que a nau da carreira se houvesse de tornar, a qual prizão lhe fez, por dizer que não podia meter de posse do mesmo reyno a seu irmão D. Manoel, que ficava em Malaca, para vir o anno seguinte, indo elle. (17) A matéria deste capítulo, no Texto II, encontra-se também na Parte 2.*, Cap. VIII. 2 13
E mandou-o chamar a fortaleza, e, antes que entrasse in r.] nella, se encostou a hum esteo e esteve hum pouco, // e disse, depois, que lhe dera ali no coração, que o querião prender; e assim tãobem alguns meninos disserão, que logo que o chamavão para o prender, mas sua justiça e verdade lhe derão a confiança necessária, para entrar e sofrer a injuria. Jurdão de Freitas o recebeu na salla com seu irmão Domingo de Freitas, e dous filhos, e outros, e assim o houve por prezo, e lhe perguntou por a cauza. Respondeu-lhe que tomasse huns ferros, e depois o saberia. Tomou-os o rey com muita paciência, da mão de Francisco Palha, feitor e alcayde-mor, que logo lhe botou hum grilhão, e meterão-no em huma casa, sobre o arma- zém, e entregando-o a Vasco de Freitas, e João de Freitas, sobrinhos do capitão; e o Vigário, que era amigo destas danças, com Henrique Fernandez de Lordelo, forão logo prender ao regedor Çamarao, pessoa mui antiga e de muita authoridade e servisso a fortaleza, naquella terra, e assi a Mama, seu irmão, que era ouvidor, terceira pessoa do rey, o qual logo foi solto, a rogo de Pate-Çarangue, por peitas que diz que lhe deu, que ficava por regedor, por ser casado com a may de D. Manoel, que tãobem estava na terra, que erão contrabando de el-rey e do Çamarao. Acodio o Vigário as cazas de el-rey, a defender furtos, e levou muitos escravos, que as rouba vão; segundo a voz comua, foi grande disbarato da caza e fazenda, porqvte todos apanharão, assim nossos, como seus; e o ouvidor, que la era mandado por o capitão, não podia acordir a tanto. D. Jorge estava ja mal com Jurdão de Freitas, por tu v.] algumas offensas / / e sem razões, e com esta prisão o acabou de estar de todo, o que foi cauza de Jurdão de Freitas, depois, ter muito trabalho, como elle mesmo dizia, 214.
pondo a culpa a D. Jorge, e não a si, que foi primeira, como todos geralmente fazem, quando se queixão. O dia que se a nau fez a vella, navegando por frente da fortaleza, foi metido el-rey e o Çamarao num batel bem artelhado, e com gente; e, levados a nau, se entregarão, em ferros, a Francisco de Azevedo, capitão delia, e com muito sentimento de todos, maiormente dos portuguezes, de quem elles erão muito amigos. E, assim forão a Malaca, aonde Garcia de Sa, que estava por capitão, lhes tirou os ferros, e o rey foi para a India, e o Çamarao tornou para Maluco, com Fernão de Souza, que hia com a armada para os castelhanos, porque, no dia logo seguinte, que el-rey chegou a Malaca, morreo o irmão D. Manoel, de peçonha, que lhe dera hum Fernão Moreno, que ahi estava, amigo e feitor do Rey Ayerro; e isto se disse, mas não se teve por certo. Fez testamento, e deixou por herdeiro do seu reyno a el-rey, nosso senhor, do que foi o traslado a Maluco e o proprio não apareceu, por muito tempo, e dezia Jurdão de Freitas, depois, que Garcia de Sa o escondera, por amor de D. Jorge e do rey. Tornando as pazes espanholas, dizia mais delias Jur- dão de Freitas, que as fizera, para poder colher a novidade do cravo, e poder ir contra o rey de Geilolo, sem os caste- lhanos o favorecerem. Foi logo visitar ao Geral, e comeu com elle em Tidore; e o Geral veio tãobem a Ternate, mas não / / comeu, e [12 r.] seria porque lho não derão; e entrou de má vontade na fortaleza, onde o meteu Jurdão de Freitas, para ver, e a sua mulher. E como todos os exemplos de começo de bom respeito, como diz Salustiano, tendo o Geral seus tres na- vios em Tidore perdidos, e sem nenhum aparelho nem mastros, o mesmo Vigário e Henrique Fernandez de Lor- dello lhe comprarão a nau e a Galle, por dizerem que era 2 1 5
bom itrar-lhas, por não navegarem com ellas; mas o Reve- rendo comprou a nau, para a concertar e carregar de cravo, a qual houve depois com elle má fim; e a Gáíle foi para o mesmo capitão mandar o mesmo padre a Amboyno, com munições, fazer huma fortaleza, a qual se perdeu la com o dinheiro delias (18). Consertarão os castelhanos a San Juanilho e, carregado de cravo, mandarão nelle a Bernaldo de la Torre, caminho da Nova Espanha, com o qual hia por pilloto e seu Pilloto- -Mor Gaspar Rico, algaravio de Lagos; e navegando com muitos trabalhos por alguns mezes, no fim delles, tornarão a Tidore, o que lhes foi amargo, e a nos doce, porque nos pôz em esperança, e a elles tirou-a, do descobrimento novo. Mas a culpa desta viagem era do Vigário, que a cauzou, e do capitão, que lha consentio, com licença que lhe deu para fortefiçarem e carregarem de cravo a nau, a qual, assim, deu huma volta a ilha, e, descarregada, se foi ao fundo, no porto de Talangame. Do dinheiro que se deu por esta nau e fusta se remedia- rão os castelhanos, que perecião a fome, porque não comião [12 v.i senão rações que os negros lhes da vão pior força; o que / / lhes durou ate a hida de Fernão de Souza. CAPITULO 7.0 (19) Da chegada de Fernão de Souza a Maluco, e do servisso delia, das pazes com os Castelhanos, e hida de Geilolo. Como o natural dos trabalhos seja enfadarem, ainda que uzem brevidade, muito mais enfadão quando continua (18) Cf. Texto II. Parte 2.*, Cap. VIII, onde se diz que esta galé se afundou na ilha de Buxo (?). (19) Cf. Texto II, Part. 2.», Cap. IX, em que se encontram muitos parágrafos quase com a mesma redacção. 2l6
prolexidade e longo tempo, do mesmo modo aconteceu aos castelhanos, que, enfadados da comprida viagem, e das muitas fomes, arriscos de mortes, em que se virão, e conhe- cendo ser-lhe a fortuna contraria, regulando alguns estas mizerias com suas fraquezas, se vierão para a nossa forta- leza remediar a vida, os quaes erão bem recolhidos de muitos, e o capitão lhes mandava dar soldo e mantimento da fazenda del-rey. E estando, por estas cauzas, a maior parte que ficava, dezejoza de nos yr nosso socorro, desesperados ja do seu, e de melhor ventura, para se entregarem com mais cauza e menos labeo, socorrendo Nosso Senhor a suas vontades, e nossos apetites, chegou Fernão de Souza de Tavora, com pequeno corpo, mostrando grande poder, a 18 de Outubro de I545> com três fustas; de que erão capitães Manoel de Mesquita, e Lionel de Lima, que em Portugal //se [u r.] fez apostolo, João Galvão, bom cavalleiro, que morreo no cerco de Geilolo. Depois destes, chegou elle no gallião Coulao, em que o Governador Martim Affonso fora de Mozambique, e João Criado, da nau Soneto Spirito, da carreira, e Antonio de Freitas, em outra chamada Sancta Cruz, de que seu pay tinha parte e certeza destes navios. E a nova da muita gente, e o zonido das muitas bombardas com que salvarão a fortaleza, que se ouvião em Tidore, pos algum espanto nos castelhanos. O Geral mandou logo visitar a Fernão de Souza, por carta, a que respondeu por outra breve, escuzando-se nella de curto de palavras, por nas não uzar. Entendido o remoque, mandarão logo cometer pazes e concertos, os quaes se acabarão dia de S. Simão e Judas, que elles tem por azinhago, porque em outro tal disbaratou outros poucos D. Jorge de Menezes, no mesmo Tidore. Continha-se nos concertos, que se virião logo para 217 J
Talangame, onde estava Fernão de Souza, perto de nossa ilha, onde invernarão nossos navios, e ali estava o Geral com sua gente e armada sem a ter, na qual se viria para a India, e ate chegar a ella, teria sua jurisdição, como dan- tes tinha, e Fernão de Souza lhe daria todo o necessário. Continhão-se mais outros muitos concertos de quieta- ção, os quaes fez Fernão de Souza e Jurdão de Freitas, com alguns fidalgos e cavalleiros, e antes que se acabassem, [13 v.) erão ja vindos alguns soldados; e, acabados, se veio //o geral com os mais, os quaes se apartarão delle, ficando so, em huma casa afastada da povoação de Fernão de Souza, quanto os dividia hum pequeno esteiro. Inhigo Ortiz de Retiz, com outros dous, o seguirão sempre, e os mais o perseguião, os quaes se agazalharão na povoação de Fernão de Souza, na qual se farta vão nas mesas que Fernão de Souza dava e mandava dar; prague- javão muito do Geral, maiormente porque se governava pelos frades que trazia, e assim, porque lhe furtarão da porta hum camellote de metal, os tidores, pelo qual se fez mui pouco, donde se prezumio que lho dera, ou vendera, por algumas satisfações, porque sendo doutra maneira, não se podia crer terem os Tidores tal atrevimento. Acabada esta entrega de paz, ordenou Jurdão de Frei- tas e Fernão de Souza hirem sobre Geilolo, ver se o podião tomar, para se evitar o mal que daquella fortaleza se seguia. Assentando conselho da hida, Jurdão de Freitas deixou na fortaleza seu irmão Diogo de Freitas, com a maior parte dos casados, e levou a menor, com os solda- dos e castelhanos que tinha, e cestos, escadas e hum tra- buco (20) que mandou fazer, muito ma couza, de que os soldados da armada e castelhanos zombarão grandemente, (20) Antiga máquina de arremesso. 2l8 \
chamando-lhe dachem, com que se elle muito parecia, que he o pezo com que se la peza o cravo. Jurdão de Freitas se picou muito disto, e pondo ban- deira no masto de huma fusta, em que havia de hir, sabido na armada, pozerão os castelhanos / / das fustas cada hum [14 r.] sua nos mastos, de que Jurdão de Freitas se cortou mais que do trabuco, mas sofreu, atribuindo tudo a desconfiança de Fernão de Souza, o qual hia no seu galleão, com outra bandeira na gavia. E assim partirão com cinco bandeiras capitainas, ate Geilolo. Levou Fernão de Souza quazi todos os castelha- nos, ficando somente o Geral, com os seus dous ou trez, e alguns velhos, e ajuntar-se-hião, por todos, com os portu- guezes, quatro centos homens, e Pati Çarangue, que regia a terra, com muitas coro-coras. A zombaria de huma parte e outra era grande, mas a vergonha mayor, das cinco capitainas, de que os caste- lhanos muito se espantavão, rezumindo o adagio que tra- zem de nós: poucos, e loucos, e mal avenidos. Chegados a Geilolo, como digo, que são quatro legoas de Talangame, junta toda a armada, hum dia, a tarde, desembarcou Fernão de Souza, e Jurdão de Freitas, longe da fortaleza, em parte que se não via, e com cada hum sua bandeira de Geral, Fernão Carvalho, alferes de Jurdão de Freitas, que houvera de dar com elle no chão, e lhe derrubou a bandeira, foi-se pôr na dianteira, e mandou diante de si aos tres capitães das fustas, de maneira que fez de sua gente vanguarda, e retaguarda, e assy se forão por debaixo de humas boas arvores as espingardadas, com a gente que guardava hum baluarte e tranqueira, da qual fazião pouca conta, mas tomada aquella, fácil era tomar / / [14 Tj a fortaleza, porque os negros são muito agourentos, e ti- nhão ali pouca artelharia, porque receavão perde-la. E 2 1 ç
vendo que os não entra vão, forão fazendo conta delia, e guardando-a fortemente. Fernão de Souza se tornou a embarcar com muitos feri- dos, dos quaes foi hum o condestabre, que agora he ha India, a quem derão huma espingardada em huma cocha, e cahio-lhe o piloiro aos pes, sem lhe fazer nada. E estan- do-se embarcando Fernão de Souza, hum mulato da com- panhia de Jurdão de Freitas se desviou hum pouco a fazer suas necessidades antre as ervas, e João Rodrigues, sol- dado castelhano, lhe atirou, por negro, e o matou, mas sua inocência livrou seu pecado, e o corpo do castigo. Jurdão de Freitas foi e veio sempre de traz, dissimu- lando todos os desgostos e dezordens que via. Ao dia seguinte, por a manhã, fez Fernão de Souza desembarcar a artelharia e cestos, por hum esteiro, defronte da tranqueira, e a gente desembarcou por o mesmo lugar do dia dantes, e fez por os cestos aos pes das arvores; e assentada a artelharia com muito trabalho e mortes de ne- gros, se concertou e ordenou o vaguar da couza. Jurdão de Freitas se poz na ponta do esteiro, em boa tranqueira de palmeiras, que mandou fazer, e ali pôz hum tiro, que fazia nojo á povoação, com huma manta (21) tão boa como o dachem, porque nem hum nem outro pres- tarão. Continuarão-se alguns dias neste trabalho, nos quaes us r.i se matavão muitos // portugezes, e nenhuns mouros dos cercados. Fernão de Souza, no principio, cuidou de apa- nhar a tranqueira e fortaleza, por si so, e como vio que não podia, começou por palavras dar a entender, que aquelle cerco pertencia a Jurdão de Freitas, que era capitão da fortaleza, e não a elle, que viera somente aos castelha- (21) Resguardo contra os tiros dos inimigos; espécie de para- peito portátil. 2 2 0
nos, os quaes tinha ja nas mãos, e foi sempre começando de afeiçoar sua razão, ate a dizer em publico, a Jurdão de Freitas, em hum so ajuntamento que tiverão, no qual houve algumas palavras cecas, antre elle, e alguns dos principaes, por as quaes passo, por não condenar nem absol- ver a ninguém. Confessou Fernão de Souza que no mar pellejara sem- pre muito bem, mas que de cerco não sabia, porque nunca se achara em outro, e Jurdão de Freitas, por velho, sy; e por isso que visse o que queria, que viera alli por amor delle, e que era tempo de se tornar a tomar carga, e vir-se com os castelhanos. Assentarão levantar-se o arraial e virem-se, passados quatorze dias de grande trabalho, nos quaes morrerião quinze ou dezasseis portuguezes. E foi hum delles João Galvão, de que muito pezou a Fernão de Souza, porque era seu amigo antigo, e naquelle trabalho sérvio muito bem, e com grande amor, mostrando sempre pouco temor. Forão outro sy feridos muitos, assim da fortalleza, como de ciladas, que os cercados fazião, os quaes receberão grande prazer com a nossa vinda, e cobrarão grande animo para o diante. Fernão de Souza foi cauza de haver alguns mortos, porque lhe pezava //de quem corria ou se abaixava, por [15 T.i lugares perigozos; e assim passava por elles, com huma capa de escarlate, como por a Rua Direita de Gôa. Finalmente embarcou-se, vindo na dianteira, e Jurdão de Freitas na trazeira, para a primeira ordem, e se veio cada hum para sua caza, das quaes não faltou quem tecesse odios entre elles, dos quaes sucederão palavras cecas, em prezença, e outras muitas muy, mas em ausência, ate vir Fernão de Souza a armar poder colher a Jurdão de Freitas em Talangame, para o tratar mal; mas o velho, sentido delle ter-lhe odio, guardou-se e não foi la. 221
Fernão de Souza se sentio muito de Jurdão de Freitas dar licença a quem queria para embarcar cravo, e não a dar a quem Fernão de Souza pedia, por o qual veio a carre- gar o seu galeão, e a nau de Garcia de Sa, que la estava, e mandando Jurdão de Freitas ao juiz de pezo que não pezasse nellas, Fernão de Souza fez juiz e escrivães, e passou certidão, uzando de poder absoluto, porque aquillo he dos capitães da fortaleza. E assim se veio a Amboino, com sua gente e castelhanos, aonde lhe morreo muita gente, e assy o Geral, e dizião que de paixão de imaginar entre- gar-se, assim, a Fernão de Souza, por lhe dizerem que não levava poder para fazer paz, senão guerra; o qual era homem comprido e muy magro, grande pessoa, grande barba, sorteada de branco e preto, homem bem acondicio- nado e cortez. Foi sentida sua morte, mais dos portuguezes, que dos ii6 r.i castelhanos, dos quaes ficarão // ainda muitos em Maluco, que se affeiçoarão a terra. Fernão de Souza veio a Malaca e achou nella Bernaldim de Souza, que levava el-rey para Maluco, mandado por o Governador D. João de Castro, solto e livre, por lhe não acharem culpas obrigatórias, porque Jurdão de Freitas, como o prendeu, tirou algumas delle, que tratavão da pri- zão, que lhe queria fazer D. Jorge, e como matara hum irmão e irmã, e dormira com algumas cazadas mouras, e outras, de tal calidade, pelas quaes atribuirão sua prizão a mal, e não a querer metter o outro de posse, e por isso lhe poz no libelo da demanda, que contra elle trouxe o Procurador del-rey, que o prendera e fizera as pazes com os castelhanos individamente, e por seu particular interesse, do que depois se livrou com assaz trabalho. 2 2 2
CAPITULO 8.» (22) Da posse que tomou Jurdâo de Freitas do Reyno de Maluco. por el-rey, nosso senhor, e da morte do Çamarao, e das pazes que fez com Jeilolo. Sendo certo, Jurdão de Freitas, da morte de D. Manoel, por Fernão de Souza, e por seu filho Antonio de Freitas, que lhe levava o traslado do testamento por que deixava // [« v.i por herdeiro a el-rey, nosso senhor, do seu reyno, ordenou tomar posse delle; a qual elle mesmo tomou com bandeira de tafetá branco e verde, e cruz de Christo, com pregão dizendo: Real, Real por El-Rey D. João de Portugal! E disso tirou seu instrumento, e os naturaes consen- tirão, bem que cuidarão que hera alguma doudice ou jougo nosso, porque não são costumados aquelas invenções. Feito isto, Jurdão de Freitas ordenou que Pate Ceran- gue fizesse pazes com el-rey de Jeilolo, que estava muito soberbo de sua victoria, as quaes fez por sua gente e por nós, dando a isso authoridade o capitão, o qual se não quiz antrevir nellas, por o Jeilolo não criar maior soberba da que tinha. E em todo este tempo esteve preso o Çama- rao na fortaleza, so color que o tinha ali o capitão, por o não matarem fora; o qual lhe entregou Fernão de Souza, para o trazer a Malaca, e ainda que muito fez mal, peior foi não o levar consigo, pois via o tratamento que lhe fa- zião e o não metião em posse do governo da terra, que era o fim principal, por que o trouxera de Malaca, porque, como morreu D. Manoel, logo se teve por certo, que havia de tornar el-rey para Maluco; e sendo assim, estava claro governar o Çamarao, e não Pate Çarangue. De maneira que, vendo-se assim a honra do velho, enfadado, pedio por (22) Cf. Texto II, Part. 2.», Caps. IX e X. 223
muitas vezes a Jurdão de Freitas que o soltasse, e que queria morrer em sua caza. O capitão lhe disse que se não fosse, porque o havião de matar, todavia o velho, fiando-se na pouca cauza que havia para o fazerem, e no muito servisso que tinha feito ti7r.] à fortaleza, // confiado em tudo, pedio a soltura, a qual lhe foi dada hum dia a tarde, e o primeiro caminho que fez foi fazer a çumbaya a rainha, may de Manoel e mulher de Pate Çarangue, e a elle mesmo que morava no cabo da cidade. E acabada sua obra, veio-se lavar a humas fontainhas, que estavão no caminho, e ali o matarão Quechil Gate, irmão de D. Manoel, e do rey prezo, e Quechil Chiri, seu primo, o qual delicto fizerão, sem lhe ter odio nem haver cauza, nem menos se costuma entre elles matar e ferir particularmente, salvo a brujos, como se dira na segunda parte. Por onde pareceu fazer-se o delicto, por mandado da rainha e seu marido, por meio daquelles, para que ficasse mais encuberta sua malícia; e o povo se escanda- lizase menos; a qual morte o capitão pudera escuzar, pois confessou sabe-la, e rezidia na terra por rey, e lhe erão mui sugeitos a rainha e o marido, que então governavão; mas estribarão em seu favor, pelos trazer á India e levar a Maluco, e os meter de posse, e ser padrinho de D. Manoel, por quem esperavão, (não esperando por elle, por ser ja morto) (23) para as primeiras naus, para ser metido de posse do reyno, e dali o favorecer na conquista e senhorio de Amboyno, que lhe elle mesmo dera, justa ou injusta- mente, e el-rey, nosso senhor, o confirmou, e estava claro, como se ve agora, por experiência, que assim o rey Ayero tornasse, o Çamarao havia de reger, e assim não vinha a (23) As palavras entre parêntese encontram-se à margem. 224.
effeito Amboyno, e o Pate Çarangue havia de ser botado da terra, por serem muito contrários. Foi esta // morte muito sentida, maiormente pellos [17 T.i portuguezes, assim pelo amor que lhe tinhão, pelo favor e ajuda que lhes deu, quando a terra se levantou contra a fortaleza, sendo capitão Tristão de Ataide, como porque, em satisfação de tantos serviços e de tanta idade, derão a prizão, e finalmente a morte, sem sepultura, por lhe não ser concedida, e assim mais por entender a gente daquella terra quão ruim paga da vão a quem tão bem servira, por- que dizem que disse logo Jurdão de Freitas, que bem sabia que o havião de matar, mas que não cuidava que havia de ser tão sedo. Mostrou-se mais sua culpa, porque não fez nenhuma obra nem diligencia sobre a dita morte, pois tinha a isso obrigação, por rezidir por rey, pela posse que tinha tomada. E não tão somente não castigou, andando os delinquentes sempre na cidade, sem nenhum temor, nem vergonha, mas antes lhes deu perdão, em nome del-rey, nosso senhor, buscando cauzas, razões e respeitos que o movião a isso, dizendo serem pessoas principais, e que, com os perdoar, se segurava a terra, o que era mais ao contrario do que passava, porque erão mui viciozos, e grandes bargantes, pelo qual erão e são mui aborrecidos em toda a terra, e de toda a gente; quanto mais que, ainda que assim não fora, não se houverão de levantar, porque na terra havia dous bandos: hum, de hum Çamarao que se não houvera de bulir, pois castigavão justamente a quem injustamnete ma- tara o seu capitão e senhor; e outro era de // Pate Çaran- [is rj gue, que entre si se não houvera de bolir, por ser grande amigo do capitão, e delle lhe depender todo o seu remedio, quanto mais que nunca se deu por achado da dita morte, e mostrou sempre em publico ser inocente delia. Pelo qual, ficou parecendo claramente á gente ser o capi- INSULÍND1A, III — 15 225
tão homicida na dita morte, e ja poder ser que se os futuros trabalhos manarão delia, porque algumas vezes permite Deos Nosso Senhor castigos públicos, por couzas secretas, e os homens, não lembrados delias, queixão-se que lhos dá sem cauza. CAPITULO 9.0 (24) Da chegada de Bernaldim de Souza a Maluco, com o mesmo rey, e da prizão de Jurdão de Freitas, e dos seus odios. Jurdão de Freitas prendeu a el-rey, com titulo de poder melhor meter a D. Manoel de posse do reyno; e se a esta so razão se apegara, sem fazer mistura de devaçar delle, fora digno de merce, ao menos não fora tida sua obra por interesseira e má, e não tivera a essa cauza tantos traba- lhos, e o rey fora seu amigo, e lhe não estorvara tornar a ser capitão, como se adiante vera. [is v.] Finalmente, era melhor para dar conselho, que para // o tomar de outrem, porque sempre lhe parecia que hia, o que lhe davão, com alguma mistura de malícia, e favor da parte contrária, e por esta causa se acabou de perder com el-rey, e homiziar com Bernaldim de Souza, porque aconselhando-lhe que se fizesse seu amigo, quando o man- dou prezo, não o quiz fazer, por lhe parecer que el-rey o cometia de medo, e o Bernaldim de Souza o enganava da parte contraria, e por esta cauza se acabou de perder por o vem (sic) que vinha disso a el-rey, do que se escan- dalizou muito, e tanto, que me parece, que ainda que cada hum tivera, depois, outra tanta vida, como ate ali, nunca Bernaldim de Souza fora seu amigo, so porque houve que o enganava. (24) Texto II. Part. 2.», Cap. XI. Ambos os Textos se ocupam da mesma matéria com poucas variantes de redacção. 2 2 6
El-rey foi em Relação, sendo prezente D. João de Cas- tro, que então governava, sentenciado e havido por livre, e mandado meter de posse; e Jurdão de Freitas lhe pagou as custas em pessoa e autos, e fosse desapossado e prezo a índia, porque era desaparentado, e o D. Manoel era morto, e mais nestas couzas nunca faltão partes contrarias, por meio das quaes foi Jurdão de Freitas mal julgado] havendo suas obras ao revéz do que as que elle tinha] reprovando-lhe as pazes castelhanas, havendo que o inte- resse do cravo fora cauza de hum e de outro mal; mas, contudo, se o D. Manoel não fora morto, e não houvera castelhanos em Maluco, não fora elle tão mal julgado, nem o rey tão levemente solto, porque não faltarão achaques, com que o detiverão, mas estas duas partes forão em seu favor, e contra o de Jurtdão de Freitas. Foi Bernaldim de Souza escolhido para levar o rey a Maluco// a mete-lo de posse, os quaes acharão em Malaca a Fernão de Souza, e os castelhanos, com nova da morte do Çamarao, que el-rey sentio muito. E sendo ja o tempo das naus chegarem, mandou Jurdão de Freitas a hu mseu sobrinho a espera-las em coro-coras, e saber novas, e bem lhe fora acharem-nas, mas desencon- trarão-se. Bernaldim de Souza vinha com el-rey na nau Buf- fara_ (25)> de que hia por capitão Duarte de Miranda. Che- garão a Gamoconora, doze legoas da fortaleza, caminho desviado, e as mesmas do acastumado, e foi assim bom, ainda que acazo. Foi ali o rey recebido e visitado do senhor da terra, seu vassallo, o qual deu toa a nau, até junto da nossa ilha, (25) A seguir ao nome da nau encontra-se a seguinte abreviatura- ql. que nos parece nada significar. No Texto II o lugar paralelo é o SESVittr. - "«""" «*"»<«• «■'"» [19 r. 2 2 7
onde lhe deu vento fresco as coro-coras, e amarrarão por popa; e não no consentindo Duarte de Miranda, lhes man- dava cortar o cabo. Sabido por Bernaldim de Souza, lho defendeu, dizendo que até ali o trouxerão, e que não era muito, pois vinhão cançados, e a nau tinha vento, que descançassem, pois elle havia mister as coro-coras, para descançar, porque não sabia se acharia outras. Destas razões não quiz conhecer Duarte de Miranda, porque todos os capitães, até elle, havião que podião mais que os da fortaleza, e por isso mandou que cortassem os cabos as coro-coras. Respondeu Bernaldim de Souza que, se o cortassem, que com o que ficasse o mandaria amarrar, e com isto aca- barão, e começou o odio. As coro-coras vierão, e chegando a nau a ilha de Ter- [19 t.] nate, e desembarcando nellas // Bernaldim de Souza, com os homens que levava, ficando o rey escondido, se foi a fortaleza; e dando hum recado nella a Jurdão de Freitas, como estava huma nau detraz da ilha, chegou elle logo neste primeiro prazer, do que muito se espantou Jurdão de Freitas, e o foi logo receber a praya, espantado da brevidade da chegada, e de não saber a que vinhão, por- que, para ser capitão da fortaleza, não o podia crer, por- que o não esperava; e para da nau, não lhe parecia decente, e para outra couza, não havia a que. Desembarcado Bernaldim de Souza, e satisfeito com os primeiros emvites de abraços e palavras, cometeu a hida para a torre, não se querendo assentar à porta, lugar certo dos taes recebimentos, e como o caminho era apresurado, e o espanto era grande, não havia quem falasse; mas no meio da escada lhe perguntou Jurdão de Freitas se trazia muitos mantimentos, e, dissimulada a resposta, se assen- tarão todos na salla, e logo deu Bernaldim de Sousa o per- 228
gão, dizendo ao que vinha, que era meter el-rey de posse do reyno, e a si mesmo, da fortaleza, e tira-la a Jurdão de Freitas, para ir dar conta da prizão do rey. E logo lhe mostrou o alvara, para lhe levantar a me- nagem. Jurdão de Freitas tomou tudo muito bem, mostrando grande animo, e não menos paciência naquella adversidade, e, sem soltar palavra desconsertada, disse que a tudo obe- decia; mas que lhe requeria que não metesse de posse el- -rey, porquanto a tinha tomada por el-rey, nosso senhor, cujo era o reyno, por //o herdar de D. Manoel, que lho 120 r.i deixara por testamento. Ao que respondeu, que não sabia nada daquillo, e que o havia de meter de posse, pois o mandava o Governador, e razão e isso era o a que vinha, e que fosse a allegar aquillo perante o Governador, e fizesse seus protestos. E mandou logo Jurdão de Freitas dizer a sua mulher, que se não viesse de humas suas cazas, onde era a folgar, porque a fortaleza tinha hospedes, e se foi logo, ficando Bernaldim de Souza nella. Esta nova chegada, fez grande espanto, e não pequeno temor em muitos que, confiados em el-rey não tornar, lhe fizerão muitas ofensas em suas couzas, o qual desembarcou a manhã seguinte, com muita gente sua, que o foi acompa- nhar. Vinha vestido a portugueza, e, dezembarcando, fez grande reverencia as armas del-rey, nosso senhor, que es- tavão sobre a porta, e poz a mão na pedra da ombreira delia e dali a pôz na boca, e então na cabeça, e se assentou, praticando com os portuguezes, mostrando-lhes grande amor, publicando haver por bem empregados seus traba- lhos, pois lhe redundavão em tamanhas honras. Os portuguezes o acompanharão por alguns dias, assim por cortezia, como por mostrar recear-se dos seus culpados, 2 2 ç
e de Jurdão de Freitas, ao qual não perdoou, perdoando a todos os seus, que o tinhão errado, a rogo de Bernaldim de Souza, e foi logo visitar a rainha e Pate Çarangue, e fe-lo amigo com Poyo, filho principal de Çamarao, que se des- terrou, com outros da ilha, po-la verem em poder de seus 120 t.) inimigos, // o qual agora he regedor, por provizão de el-rey, nosso senhor, havida por Tristão de Ataide, pelos serviços do pay. Esta chegada foy a 18 de Outubro de 46, e Jurdão de Freitas se embarcou para a India a 15 de Fevereiro de 47, malquisto com o povo negro e portuguezes, e peor com el-rey; com quem não quis ser amigo, rogando-o e aconse- lhando-o Bernaldim de Souza, o que não quiz aceitar, pare- cendo-lhe surreticio em favor do rey, e não seu, do que lhe sucedeu muito mal, como se dira no capitulo seguinte; e ficou-lhe Bernaldim de Souza com grande odio, por ver que desconfiava de sua amizade Jurdão de Freitas, e que havia que o enganava em favor do mouro. E assim, pelo conseguinte, levou odio Jurdão de Freitas a Bernaldim de Souza, porque lhe não recebeu huns em- bargos á execução da sentença que levava el-rey contra elle, das custas dos autos e pessoa, que passavão de tres mil pardaos, que muito sentio Jurdão de Freitas, por lhe ser vendida muita fazenda e cravo, para comprimento delias. Deixou la sua mulher e casa, contra o conselho que sobre isso lhe deu o Padre Mestre Francisco, o qual lho não quiz tomar, por aver que era de Bernaldim de Souza, e por mostrar a terra que havia logo de tornar, do qual depois ficou em odio com o mesmo padre, e por aver que dixera ao Governador Garcia de Saa, de quão mal quisto ficava na terra, porque isso mesmo lhe disse o padre, que havia de dizer, se o Governador lho perguntasse, e que lhe 121 r.) satisfizesse a merce //em outra parte. 230
CAPITULO IO.0 (26) Que trata de quanto tempo foi Bernaldim de Souza capitão; como, no cabo, alevantou a guerra a Jeilolo, e tornou Jurdão de Freitas a Maluco, e Christovão de Sd foi capitão. Bernaldim de Souza foi, daquella vez, tres annos capi- tão da fortaleza, com muita paz, e quatro ou cinco mezes antes que acabasse, alevantou a guerra a el-rey de Jeilolo, assim por ter forte fortaleza, como por delia ter feito muito mal a nossa, pellejando com os lugares do Moro, fazendo-os mouros, sendo christãos, e tem muita artilharia nossa; como por ser grande a colheita dos nossos escravos, pelo qual pedio a el-rey de Ternarte que consentisse na guerra, e lhe fizessem primeiro reprezaria em alguma gente sua, pela qual houvesse o que delle pertendia; e quando não, lhe farião a guerra. El-rey se escozou disso com o tempo, mas a verdade era teme-lo, elle e os seus, muito, poios ter mui acanhados, e a todo o archipelago de Maluco, Moro, Banda e Amboyno, aonde seu nome era muito obedecido, // e não menos te- [a T.) mido; e assim também o deixou de fazer, por ser seu genro, e muitas vezes parente. Mas como seu natural era ser bem inclinado para os portuguezes e para o servisso del-rey, como sempre depois mostrou, mandou, hum dia depois disto, dizer ao capitão, que no seu basar andava gente de Jeilolo, que a mandasse tomar; ao que logo mandou o capitão a Ruy Dias Coelho, que servia de capitão-mor do mar, que fosse com alguns homens a tomar quantos pudesse, o qual fez assim, sendo favorecido da gente del-rey, e trouxe huns poucos à forta- leza, e Manoel Rôlo, outros, que pescou no mar, de redor da ilha, por mandado do capitão. (26) Cf. Texto II, Part. 3.®. Cap. I. 231
E assim se agazalharão, aquella noite, no tronco, perto de trinta, na qual hum regedor dum lugar, chamado To- loco, saltou com huma coro-cora, em outro do Jeilolo, que matou alguns homens, mas ficou-lhe la hum parente seu, pelo qual trouxe do, e vindo a fortaleza com elle, lho tirou el-rey, dizendo que quem fizera tão boa sorte o não devia trazer. E logo elle e o capitão escreverão ao Jeilolo a cauza da reprezaria, e que, tornando a artelharia e espingardaria e escravos que tinha dos portuguezes, lhe tornarião sua gente, e ficarião muito amigos. Ao que respondeu, que não daria huma so espingarda, por quanta gente lhe tinhão tomado; pelo qual mandou o capitão, com pergão e trombetas, alevantar a guerra a fogo e a sangue; concedendo escalla franca contra todo seu reyno. E logo repartio os prezos por os portuguezes que [22 r.i tinhão / / escravos em Jeilolo, estimando a perda de cada hum, e que os levassem cativos, ate serem satisfeitos de seu. E com isto, ordenou logo com el-rey mandar a Ruy Dias Coelho, com alguns portuguezes em coro-coras, com que Chil (Quechil) Guzarate, irmão de el-rey e seu capi- tão-mor, dar salto, e a Bahia de Jeilolo, e matar alguns pescadores ou gente que pudessem. Os quaes tornarão dahi a poucos dias com algumas cabeças cortadas, com que se fez grande festa, segundo seus cruéis costumes. E assentou logo el-rey com o capitão fazerem-lhe a guerra, por mar, e com a sua gente, sem portuguezes, pois tudo havião de ser saltos. E assim a fez o Guzarate, dali por diante, na qual fez muitas sortes, e ajuntou el-rey sua armada, levando Ruy Dias e Manoel Bôto, com trinta portuguezes, foi destruir e queimar o lugar de Guno, hum dos principaes do rey de Jeilolo, de que elle se houve por mui injuriado, e afrontado, 232
e quiz-se depois vingar em pessoa em outro da nossa ilha chamado Jula; mas, sendo-lhe bem defeza a entrada, poios de dentro, se tornou, sem fazer nada. E acabada, el-rey de Ternate, sua victoria, a 18 de Outu- bro de 49, chegou Christovão de Sá, com huma caravella, e Jurdão de Freitas na nau da carreira, em que hia por capitão D. Jorge de Eça. Hia livre, por sentença da Rela- ção, e que lhe tornassem a entregar a fazenda que lhe fora sequestrada, pelo qual ficou sem nada, e sem fortaleza, porque Christovão de Sá, sobrinho de Garcia de Sá, que governava / / por morte de D. João de Castro, levava [22 7.] huma provizão, para tomar posse da fortaleza, e de la, ate se embarcar Bernaldim de Souza, e então a entregaria a Jurdão de Freitas, por se evitarem os escândalos, que de seus grandes odios podião recrescer. E assim levava outra provizão cerrada para a abrir, antes que desse a posse a Jurdão de Freitas, na qual se continha, que lha não desse, sem consentimento del-rey, porque, sendo elle contente de o ter por capitão, o fosse; e se não, que se viesse e ficasse na fortaleza o dito Christo- vão de Sá, a qual elle abrio e leu em publico, antes de ser dever, porque o sabião ja os meninos da escola, e como a el-rey bem vio e ouvio, disse a pés juntilhos, que não queria que fosse capitão, e que o fosse quem tinha a posse, do que pezou muito a Christovão de Sá. Veio-se Jurdão de Freitas, com sua mulher e filhos, mui enfadado, o que pudera escuzar, se aceitara o conselho do Mestre Francisco; porque na índia soube daquella pro- vizão; e por ella tinha por certo que sua hida era em vão, mas foi-se forçado ir, para trazer a mulher. E assim tam- bém, se aceitara o conselho de Bernaldim de Souza, porque sendo amigo com el-rey, não lhe impedira acabar de servir hum anno, que lhe faltara, nem ficara dizendo que Bernal- 233
dim de Souza lhe estorvara aquillo com el-rey, como o publicou, não querendo atribuir nenhum erro a si. Bernaldim de Souza ficou aquelle anno em Maluco, invernando em Talangane, por guardar, acabar, e trazer [23 r.] para o seguinte huma // nau, que la tinha feita, e ahi se embarcou muitas vezes com os soldados e criados, que tinha, contra os Jeilolos, mas nunca se encontrarão a pelle- jar, porque o termião muito; até huma vez ir com cinco coro-coras dentro á Bahia, e estando a fala com alguns da fortaleza, mandou desafiar el-rey, e que, sahindo, o espe- rava ali, como esperou hum bom espaço, e, por não sahi- rem, os salvou com artelharia, e se tornou para Talangame, aonde esteve, ate chegar D. Rodrigo de Menezes, por capi- tão-mor, contra outra armada que se esperava de caste- lhanos, mas não foi. E parece que permitio assy Nosso Senhor, para que houvesse fim a fortaleza e guerra de Jeilolo. CAPITULO II.0 (27) De como Bernaldim de Souza tornou a ser capitão e de como tomou a posse da fortaleza. No cabo do anno de Christovão de Sá, no fim de Outu- bro de 50, chegou a Maluco D. Diogo de Menezes, em huma caravella, o qual fora la mandado por capitão-mor, por o Governador Jorge Cabral, por huma carta que lhe mandou el-rey, nosso senhor, dum avizo que lhe fora dado, [23 ▼.) doutra armada castelhana, que era a Maluco, de que era // capitão Bernaldo de la Torre, e capitães D. Afonso (28), (27) Cf. Texto II, Part. 3.0, Cap. II. (28) No Texto II lê-se Dom Afonso Manique. 234
Pero Pacheco, Gonçalo de Valos, e piloto-mor Toão Gai- tano. E porque tinha a nova por muito certa, mandasse a Maluco armada; e para isso mandava a D. Rodrigo com quatro navios e sua caravella, e outra que ficou em Malaca, com a maior parte da gente, por acharem novas de Maluco, da falsidade da nova, e o galleão Coulão em que la fora Fernão de Souza, em que hia D. João Coutinho, capitão da carreira, e a nau Santa Cruz, em que hia Jorge de Souza, o qual se deixou ficar ahi, porque achou ficar Bernaldim de Souza, seu amigo, em Maluco. E mandou na nau a seu irmão Bernaldo de Souza, e todos estes tres navios che- garão a Maluco, no fim de Outubro do anno de 50, como esta dito. Logo D. João Coutinho mandou a Bernaldim de Souza, que pouzava hum pouco afastado de Talangame, onde tinha sua nau varada, hum maço de cartas do gover- nador, no qual hia huma sucessão por carta patente, em nome de el-rey, pela qual lhe fazia merce da capitania de Maluco, por cazo da vinda dos catelhanos, e porque se esperava estar Bernaldim de Souza em Malaca, a chegada dos navios. Dizia a dita carta que em qualquer parte que estivesse, e aquella o tomasse, sendo certa a dita nova, tornasse a tomar posse da dita fortaleza, porquanto tinha que não estava provida como convinha, e assim vinha logo o al / / [24 r.j vara da menagem, sem nenhuma cautella nem duvida; e outra carta messiva do mesmo governador, de grandes pa- lavras de favor e comprimentos. Estas leu logo Bernaldim de Souza e muitos que da fortaleza o forão visitar, por a boa nova do bem commum que todos recebião, com tornar a capitania, porque era muito bem quisto, assim de mouros, como de christãos. Mas, contudo, as lingoas mal refreadas não se poderão 2 3 5
ter que não dessem mas novas a Christovão de Sá, decla- rando logo as duvidas e condições da carta, pelas quaes não podia ser capitão, pois não havia castelhanos. Bernaldim de Souza, porque estivera os quatro annos passados, sem ter monsão grande de cravo em todos elles, por o qual estava pobre, e dezejava levar a sua nau, que lhe custou muito, e dado muito trabalho e, sem ser capitão, podia correr risco de a poder levar ao mar, carregada, e assim também porque dezejava tomar a fortaleza de Jeilolo, socorreu Nosso Senhor a todas estas necessidades, e botou a nau ao mar, e carregou-a e tomou Jeilolo. De maneira que, por cauza delias, ordenou hum dia, a tarde, hir-se a fortaleza em coro-coras, que lhe el-rey mandou, e posto a porta da fortaleza com Christovão de Sá, e D. Rodrigo, e os outros capitães e pessoas principaes, e todo o mais commum, leu suas cartas; o que pudera escuzar, assim porque era contra sua justiça, como por serem em menos cabo de Christovão de Sá; o qual lhe disse que por aquellas condições lhe não podia entregar a [24 v.i fortaleza, pois não ha / / via castelhanos nem novas delles ; que quando viessem lha entregaria. E começando bem, acabou mal, porque se não soube defender, mostrando-se muito brando, no contrariar, re- metendo-se aos prezentes, que o determinassem, dizendo, de huma vez, que julgasse a duvida Lopo Mendes, que era feitor, e Eitor Mendes, ouvidor. Respondeu Bernaldim de Souza que elles não erão jui- zes de sua honra; a isto e ao mais que se passou calavão todos, e ninguém se queria intrometer da razão, ainda que a conhecião ser por parte de Christovão de Sá, porque não ousava nunqua pôr-se nem contrariar a Bernardim de Souza, que tinha muita descrição e poder; e ria-se de todas as defezas de Christovão de Sá, que lhe mostrava o alvara 256
da menagem, que aquelle so bastava, para entregar a for- taleza. Havendo algumas esperanças de rebolliço, se foi pôr, hum da companhia de Bernaldim de Souza, a porta, que tinha somente o postigo aberto, e aquelle seguirão huns dez ou doze, dos quaes se prezume que querião senho- rear-se da porta, e favorecer a posse de Bernaldim de Souza; mas elle os não vio nem mandou, nem menos os vio Christovão de Sá, porque estava muita gente em pé, nateposta a hum e outro, ainda que, depois, quiz dar por achaque aquillo. Finalmente, Bernaldim de Souza o apertava por res- posta, sentindo sua fraqueza, por a qual lhe concedeu e deu a posse, e deu logo Bernaldim de Souza a menagem na mão do alcayde-mor; e, acabada, abraçou a Chris- tovão de Sá // e ficarão amigos, ficando D. Rodrigo car- [25 r.j regado, assim por o que fizera Christovão de Sá, como por a sucessão ser para Bernaldim de Souza, porque esperava elle ser por ella capitão, levando esse pensamento da índia. Foi esta posse muito desejada dos christãos e mouros, e não menos murmurada, mas parece que Nosso Senhor permitio a nova dos castelhanos, para, por meio ou cauza delia, suceder Bernaldim de Souza na capitania, para des- truição dos Jeilolos, a qual elle desejava muito, assim porque lhe levantava a guerra, como por cobrir algum labeo de sua envernada, por cauza de sua nau e da posse, assim a vida. E ouzo dizer que nenhum homem o tomara com tão pouco poder, como elle, porque tinha muitas partes juntas para isso necessárias, a saber: muita ami- zade com el-rey, sem ajuda do qual era impossível tomar-se; era grande sofredor de trabalhos, o que se requeria, para a prolixidade do grande cerco, e longo; e por extremo confiado, não lhe dando de nada, nem de quanto delle se pudesse dizer, porque via que tudo era mentira, o que era 237
outrosy muito necessário, para não dar orelhas as grandes murmurações que houve no cerco, que todas se rezumião em o chamarem por covarde, pois não escalava a fortaleza, havendo-a por huma por huma (stc) horta bem cerrada. E se esta verdade não tivera, estava certo seu disbarate, porque podia ter cincoenta homens somente, que fossem para sustentar o risco da entrada, os quaes não bastavão £25 v.] para o poder de dentro. // Conhecia o tempo, por sua muita descrição, com a qual lhe sucederão muitas couzas prosperas, que parecia que adevinhava. Tinha muita gravidade e não menos brandura, com que era muito aceito e acatado. Tinha, finalmente muita zombaria, a qual parece que foi parte de sua victoria, porque zombava do que delle dizão, e tinha zombado de D* Jorge de Castro, por se ter alevantado do cerco, que começara a por aquella fortaleza, por lhe hirem dizer que lhe querião ir queimar a sua; e de Fernão de Souza, e de Jurdão de Freitas, por se tornarem com tamanho poder, sem tomar a fortaleza, passados quatorze dias de cerco delia, pello qual parece que se persuadio a se não alevantar dali, sem a tomar ou morrer na demanda, como elle muitas vezes dizia, ou Baça será de mouros, ou haverá rey novo em Grada (?). E parece que permitio Nosso senhor nelle as taes condi- ções, e a sua invernada e a falsidade da nova vinda dos castelhanos, para elle tornar a suceder, para, por meo de tudo, com tão pequeno exercito, se tomar aquella forta- leza, e a de Tidore, tão contrarias ao servisso de Deos e £26 rj de el-rey, nosso senhor. / / 238
CAPITULO 12.° (29) De como poz Bernaldim de Sousa por obra a hida para Jeilolo, e dos trabalhos e desgostos que nella houve, e tiverão principio. Como Bernaldim de Souza teve a posse da fortaleza, ordenou a hida para Jeilolo, e levou D. Rodrigo, D. João Coutinho, Bernaldo de Souza, com seus navios e gente, do que lhes pezou muito, porque querião mais fazer cravo e vir-se, que tomar a fortaleza, da qual esperavão traba- lhos, como lhes aconteceu; maiormente por Bernaldim de Souza ter botado sua nau ao mar, da qual se receavão. Assentada a hida, deixou na fortaleza a Antonio de Siqueira, com sinco ou seis homens, que erão forçados, por razão dos carregos, a saber, para Mizericordia, Hospi- tal, e hum bombardeiro, e todo o mais resto da fortaleza levou, entrando bons e maos, em que havia numero de cento e oitenta. E estando prestes para partir com os ditos capitães e navios, como hião todos de ma vontade, entendida ella, determinou, com descripção e trabalho seu, levar avante o começado, e meteu-se em huma coro-cora, em que havia de ir, e com outras tomou o galleão de D. João Coutinho a toa, e po-lo no lugar do Toloquo, que he de Talangame huma boa legoa, parte donde bem se podia fazer a vella para Jeilolo. E tornou, //de noite, por a nau de Bernaldo [26 v.] de Souza, e levando-a hum pedaço a toa, deu fundo, sem o elle saber, ate que o dezengano dos remeiros lhe deu a entender, do que muito se enojou, mas dissimulou-o e foi tomar a cara vella de D. Rodrigo (30). E bradando ao pi- (29) Cf. Texto II, Part. 3.1, Cap. Ill, que apresenta poucas variantes. (30) Esta passagem percebe-se melhor pela redacção do Texto II. 2 39 «
loto e mestre, que se levasse, respondeu-lhe o piloto que o não havia de fazer, porque não estava ali seu capitão-mor. Perguntado aonde era, disserão-lhe que em Ternate, do que se agastou muito, por lhe parecer que tudo era bus- car maneiras para delatar a hida e per estar enfadado de Bernaldim de Souza. Com brados altos, tornou a mandar ao piloto que se levasse, e assim lhe obedeceu daquella vez, como da primeira. E tornando a bradar: «O fi de puta (31), villão! Onde eu estou ha outro capitão? Levai-vos logo!» O piloto, de cima do puleiro, tornou a responder o que primeiro tinha dito; pelo qual, o capitão, com grande fúria, entrou na caravella e fez ir ao cabrestante a quantos nella achou; os quaes levarão a amarra mui depreça, e tomou a caravela e a poz no Toloquo, a toa. E vindo D. Rodrigo, de noite, não na achou em Talan- game, e foi-a buscando em huma manchua, em que vinha, ate a achar, no Toloquo; e como era senhoreado da paixão, parece que ate o tempo lhe quiz acrescentar, porque, hindo com alguma, lhe deu huma trovoada, que o molhou e aos seus, e o teve alagado, e perdeu huma alcatifa e huma ou duas espingardas; mas, como achou a caravella que bus- iz7 r.] cava, consolou-se com se ver em salvo e enxuto //. Ao seguinte dia, a tarde, sahio em terra com os mais capitães, e se ajuntarão todos com Bernaldim de Souza, mas D. Rodrigo nunca travou pratica com nenhum, por cauza de sua paixão, que bem lha entenderão todos. Ao outro dia acabou de se juntar a armada de el-rey, e deu toa aos navios, correndo-a, e fazendo remar Ber- naldim de Souza, ate que o vento deu fim a seu trabalho; e sendo prospero, os meteu na bahia de Jeilolo, na qual (31) Note-se que a expressão, antigamente, afrontosa também, é repetida no Texto II. 240
surgirão, vespera de Natal do mesmo anno de 50; e have- ria dous dias que erão passados de Talangame. E surtos os navios, postos em lugares, por onde os da fortaleza não podessem sahir, começarão a salva-la com artelharia, não na vendo, por causa do muito arvoredo, que lhe estava anteposto; mas por estimativa lhe mata vão den- tro e no campo alguma gente. E assim se passou o Natal, ate a vinda de el-rey, que não era ainda chegado; mas, não tardando, chegou em breves, com príncipe de Bachão, seu genro, com os mais filhos, todos moços; aos quaes a armada fez grande festa, a custa dalgumas vidas dos da fortaleza. Trazia o rey huma carta, que lhe mandara de Jeilolo, na qual lhe lembrava a ley e muito parentesco e amizade que entre elles sempre houvera, e juntamente que tinha muita gente, artelharia e munições, e duzentos jabaros, que he huma gente, que anda de noite, por o matto, e de dia, as escondidas, quinze dias, por matarem hum negro, e metem em cabeça que se fazem inviziveis; finalmente são bons / / para tomar gallinhas do puleiro, porque, dum [27 v.j nosso tiro perdido da armada, morrerão dous, e os mais lhe fugirão todos; de maneira que pedia, no fim da carta, amor e amizade. E assim se passou o Natal e festa, ha- vendo-a huns por alegre e outros por triste, ate o desem- barcar. CAPITULO 13.® (32) De como desembarcou Bernaldim de Souza a pôr cerco a fortaleza de Jeilolo. e de como o ordenou. A derradeira oitava do Natal, 28 dias de Dezembro de 550, dezembarcou Bernaldim de Souza e el-rey no mesmo lugar, onde o fizera Fernão de Souza, por ser afastado da 2 4 1 INSULÍNDIA, III — 16
vista da fortaleza. E posto D. Rodrigo na dianteira, com Baltasar Veloso, que era capitão-mor do mar, e assim Quechil Guzarate, meio irmão de el-rey, seu capitão-mor, e ficando Bernaldim de Souza com el-rey e os mais capi- tães na retaguarda, caminharão com guias, que el-rey ti- nha, a hum outeiro que estava sobre a fortaleza. E como Quechil Guzarate levava toda a gente da terra diante, facilmente fizerão bom caminho, e assim se forão assentar no mesmo outeiro dezejado; e limpo o sitio, orde- narão do matto (33) e das rodellas a cama, sem jantar e [28 r.i cea, porque // cuidarão, os mais, que era aquella sahida a ver o campo, e como fora a de Fernão de Souza. Aquella noite e as mais forão servidos de muitas espin- gardadas e frechadas e panellas de polvora dos cercados, com as quaes matarão logo hum portuguez e ferirão a mui- tos, e espantarão a todos, porque, como tudo era matto sabido por elles, e não polios nossos, polo qual facilmente fazião preza, e tomávamos por remedio estar tirando toda a' noite a montão, poios espantar. No mesmo dia, chegado Bernaldim de Souza, e sentado seu rayal no outeiro, tão longe da fortaleza quanto hum berço, tirando por alto, lhe chegava, mandou ao mar a Manoel Boto, com vinte e cinco homens que levava, em huma caravella que estava em Maluco, e assim muitos es- cravos e gente da terra, buscar mantimentos e alguma arte- lharia e munição, e virem ao dia seguinte; no qual, as horas que convinha, ordenou mandar dar guarda a Manoel Boto por Balthasar Veloso, e tirou deste (disto) conselho el- -rey e Christovão de Sá, que ahi estava, dizendo que a gente (32) Cf. Texto II, Part. 3.», Cap. IV. Em ambos os Textos a redacção é aproximadamente a mesma; algumas diferenças, porém, completam ou esclarecem melhor o sentido. (33) Nesta passagem, sem pontuação, é um pouco dúbio o sen- tido do período. 2 4. 2
que la era bastava para trazer e defender tudo; mas como Nosso Senhor favorece a justiça, sabendo que no disbarate de Manoel Boto consistia nossa victoria, ordenou por meio da descrição de Bernaldim de Souza que se não perdeu tamanha empreza, o que tanto convinha ao bem e socego daquella terra, e convertimento dos christãos arrenegados do Moro, que sem ella era escuzado esperar-se. E contra o parecer do // conselho assentado, mandou [23 v.j a Balthssar Veloso que fosse sem tardar; o qual foi com muita brevidade; e ainda que ella foi cauza de levar menos gente da que convinha (porque convinha) e duzentos ter- nates, que el-rey mandou, se partiu. E sendo meio caminho, deu nelle o príncipe de Jeilolo, com quatrocentos homens, os principaes que havia na for- taleza, que esta vão em cillada, esperando Manoel Boto, sobre quem tinhão espias; e vindo vir Balthasar Veloso, cuidando serem descubertos, o cometerão com grão impeto, mais a modo de fugir, que de pellejar, pelo medo que lhe tinhão das guerras passadas. E o bom velho, pelo conhecimento que tinha, ajuntou os seus com alguns dos ternates que lhe ficarão, porque os mais lhe fugirão, e pellejando fortemente, ficou senhor do campo, fugindo os jeilolos, com serem muitos feridos, ficando os seus sãos. E assim ficou havendo a primeira victoria, da qual se esperou a futura e destruição da fortaleza, porque, segundo os cercados andavão soberbos dos outros cercos, e os nos- sos ternates lhe havião medo, se daquella levarão a honra, como parece que a tinhão na mão, por a desordem com que vinhão todos carregados: hum com artelharia, outro com a munição, e outros com comer e mantimento para o arrayal, não pudera Bernaldim de Souza sustentar o cerco e viera com peor fortuna que os passados. Estava certo passar-se ao rey muita gente de Ternate, 2 4 3
porque ficavão crendo delle ser outro Mafamede, mas como r.] daquella primeira vez // perderão o envite, ficarão temendo o nosso poder, porque, como geralmente são agourentos e sorteiros, sempre esperão de ruins princípios peores fins. Balthasar Veloso se ajuntou com Manoel Boto, que já vinha, e se vierão ao arrayal, com muito contentamento de todos, porque tapárão a necessidade da fome e alguns do medo. Ao dia seguinte mandou o capitão fazer sestos, e delles mandou fazer huma estancia mais abaixo, em outro pe- queno outeiro, sobre a fortaleza; na qual fazia a nossa artelharia muito nojo. Poz nella a D. Rodrigo e, deixando a el-rey no arrayal, se foi por o matto, com gente, a rodear a fortaleza, buscar sitio para o pôr mais perto da fortaleza; e na hida lhe ferirão, de huma bombardada, hum bom soldado, chamado Fernão Machado, de Guimarães, o qual depois morreu da mesma ferida, passado hum mez que a tinha quazi sãa; e parece que foi por comprir seu fado, se o ha; porque, antes que o capitão desembarcasse, e afir- mou com juramento que havia de morrer naquelle cerco; e dizendo isso, fez grande festa de tanger e cantar como doudo, e rezou no cabo o Officio de finados por sy. No dia que Balthasar Velozo pellejou, matou hum ne- gro, e quando o ferirão, outro; forão os primeiros; ferirão também nesta hida alguns ternates, entre os quaes foi Payo, que era regedor, da mesma bombardada que matou a Machado, porque a ambos deu juntamente nas pernas. E v.) tornando-se o capitão enfadado, assim dos feridos, // como de não achar sitio, hum soldado seu o levou em hum pal- mar, pegado com a fortaleza, que ficava sobre hum baluarte delia, o qual era muito conveniente para estar todo o arrayal, e dali se bater muita parte do muro, por ser ao compasso que a artelharia requer, o qual mostrou ao capi- 2 4.4.
tão, com que íolgou muito e ordenou logo cestos para pôr estancia. E mandou buscar artelharia a armada, para bater o muro, a qual lhe foi trazida per os Ternates, com muito trabalho, por ser longe, e em outeiros, e haver poucos engenhos, mais que os que as costas sofrião para se levar. E para isso era necessário porem-lhe maior pezo, a saber, vigas e paos, para a gente poder pegar e ajudar. Mas como a necessidade he a principal mestra, em pouco tempo puse- rão em cima cinco ou seis peças grossas. A el-rey e sua gente, e Christovão de Sá, e a outros, pareceu mal querer mudar o capitão dali o arrayal para baixo, e dava o rey a isso muitas razões, das quaes a prin- cipal das outras era o medo, e não ser seu costume tanta concrusão, e mais achando os portuguezes que favorecião sua openião. E por a levar avante, não quiz dar gente para cortar canas e fazer cestos, pondo por achaque que os não querião fazer, por ser aquella grande desordem. E dali começou o capitão a ser mal quisto, porque não tão somente não pedia conselho, mas não queria tomar o que lhe da vão ; mas como seu saber era muito, confiado nelle, usava de necessidade o melhor que podia //, pois que, por derra- [30r.i deiro, o feito, que pertendia, pendia sobre elle. Tomou os portuguezes, e como o matto não era longe, cortou com elles muitas canas, das quaes fizerão muitos e bons cestos; e como cada hum fez o seu, fizera cento, mas hão forão necessários. O dia que o capitão quiz assentar a estancia, tornou el-rey a pedir-lhe que a deixasse, que elle com sua gente, com sahidas e encontros, destruirão os cercados, tomando- -lhes os mantimentos. Os capitães concedião estas razões, porque a todos pezava com o xaque que dali dava o capitão, o qual man- dou tomar os cestos, e em huma noite, com muito trabalho, 245
e nenhum sono, os pos com os seus amigos no palmar, no melhor lugar que havia no circuito todo da fortaleza. El-rey deu gente para os encherem, e levar a artelharia, e tudo foi bem feito aquella noite; e por amanhã cedo foi salva a fortaleza, a pezar dos cercados, do que muito lhe pezou e se espantarão da nova ordem do capitão, a qual, ate ali, nenhum tivera. Mudou logo o rayal para ly, e el-rey fez outra estancia forte de palmeiras em hum teso atraz do nosso, no qual estava, de dia, com a sua gente, e, de noite, se vinha a dormir entre nós, porque confiava mais de nosso animo que dos seus. Determinando o capitão cerca-los, pouco a pouco, man- dou fazer huma cava, para no cabo delia pôr cestos e fazer estancia mais perto da fortaleza, a qual fez dos cestos da [jo v.] em que // ficava D. Rodrigo em cima, e o mandou pôr nella. E amanhecendo, foi muito combatido da fortaleza e do campo, porque os cestos erão poucos, e ficavão os ho- mens desabrigados a artelharia e ao sol, que lhes não fazia pouco nojo. Mandou dizer ao capitão que estava mal; e que não achava quem ali quizesse estar. Mandou-lhe o capitão dizer que se recolhesse com a gente e galeão que ali tinha, e deixasse a estancia; o qual o fez assim, trazendo alguns feridos. Tomarão os cercados disso grande soberba, a qual nos fracos se enxerga logo, mas nem por isso o animo do capitão se mostrou menos forte e constante, sendo muito murmu- rado de todos, havendo e pergoando de quão mal fizera de se vir de cima, e que, de medo, não escalava a fortaleza, e que se andava detendo, para poder mandar sua nau para a India, e ficarem la as outras. E sobre isto lhe fez D. João Coutinho, Bernaldo de Souza, muitos requerimentos e 246
protestos, por as carregas de seus navios e das perdas de el-rey e suas; as quaes lhe derão muito desgosto, o que elle mais sentio, que todo o trabalho do cerco. Ajuntava-se com estes capitães magotes de praguejar, e de todos os males era o maior não tomar o capitão conse- lho, o qual sabia tudo e zombava, dizendo que o não tomava, porque queria tomar a fortaleza, porque, quando a não qúizesse tomar, a tomaria, e com mostrar que se não dava por achado de nada, se vingava dos // emulos. [ji r.] CAPITULO I4.0 (34) De como Bernaldim de Souza ordenou jazer cavas e basteâes para se chegar a fortaleza, e da vinda e ardiz de el-rey de Tidore. Ao (sic) grande dezejo que Bernaldim de Souza tinha de tomar a fortaleza lhe fazia ter pouco repouzo, maior- mente por sahir com a sua contra os emulos, que desespe- ravão tomar-se so por seu parecer, porque havião que, sem a escalar, era impossível, o que era mui fora de seu pensamento, assim por ver o poder da fortaleza e o pouco seu, como porque estimava muito a vida dos homens, por o qual assentou consigo toma-la por cerco, a fome, e orde- nou fazer bastiães e cavas, porque a gente andasse mais segura e estivesse mais afoita, porque os cestos erão ate aly cauza de haver muitos feridos e alguuns mortos. El-rey, como em tudo se mostrava favorecido da parte do capitão, mandou fazer muitos bastiões no matto, e dava a gente necessária para abrir as cavas, e elles mesmos assentavão os bastiães, por boa ordem, de noite, // nos [31 vj sitios que o capitão mostrava; os quaes custarão caro a (34) Cf. Texto II, Part. 3.», Cap. V. 24.7
muitos, porque, como os da fortaleza se vigiavão, com grandes fogos no muro, apenas se podião assentar e encher, sem muito perigo, e assy foi fazendo quatro ou cinco es- tancias, com cavas dumas a outras, e sempre na dianteira punha a D. Rodrigo, e os outros se guarda vão e vigiavão do arrayal aos quartos. Durando este trabalho, sahião sempre os cercados ao campo, a buscar fruitas, e mantimentos, e o capitão lhes mandava sahir hum capitão com portuguezes, e el-rey outro dos seus, com gente, que andavão ja mui cevados, com o medo perdido, da primeira briga de Balthasar Ve- lozo, e assim fazião boas sortes, das quaes ficavão sempre melhor, passando-se poucos dias, sem trazerem cabeças ao arrayal, as quaes, por o costume, fazião pouco fastio e davão muito prazer. Neste tempo, temendo-se el-rey de Tidore, grande amigo e confederado e aparentado com o Jeilolo, de lhe tomarem sua fortaleza, que acabára, depois dos castelhanos hidos, como a do Jeilolo fosse tomada, veio com sua armada a bahia, pegado com a nossa, e mandou a seu irmão Quechil Munanate, a visitar o capitão e el-rey; o qual foi bem recebido, e tornou mais espantado que veio, da ma- neira do arrayal que vira, couza não tão somente nova a elle, mas a todos daquella terra. TJ2 r.j E estas novas deu ao seu rey, que duas vezes //o mandou aly, com suas dissimulações, para saber como estava o arrayal, que podia estorvar com sua vinda a nossa victoria; mas acertou ruim conjunção, porque o capitão tinha sabido que vinha chamado e peitado de Jeilolo, e teve-lhe a caixa por o conhecer (35). E por isso lhe man- dou dizer por o irmão, huma das vezes que veio, que lhe (35) No Texto II falta esta frase, ou outra equivalente, que possa esclarecer melhor o sentido desta. 2 4 5
beijava a mão, e se vinha a ve-lo, lho tinha em merce, e se vinha para ajudar aos jeilolos, que folgava muito, e que, se assy fosse, lho mandava dizer, para mandar recado a armada, que o deixassem entrar dentro, porque quantos mais la estivessem, maior seria seu contentamento. E com este recado se tornou el-rey, e depois teve ma- neira com que se lançasse nova pelo arrayal, como hia queimar a nossa fortaleza, que ficava só, havendo que o capitão o levantaria, por lhe acodir, como fizera D. Jorge de Castro, com outra tal, que lhe derão, quando foi sobre elle: a qual nova, ainda que se deu por certa, respondeu com sua natural confiança, que lhe não dava nada de lhe tomarem a fortaleza, porque, como tomasse a sobre que estava, tomaria a outra, e por isso se não havia de mudar. Depois, o tentarão que se lhe queimava a sua nau e a carregua; ao que respondeu que não havia deixar o ser- visso de el-rey, havendo que o derrubarião mais facilmente; ao qual derão, depois, novas que lhe queimava o Tidore alguns lugares seus, para que, acodindo, lhe fosse forçado o capitão levantar-se, por não poder sustentar o / / cerco só. [32 v.] El-rey, como vio, e conhecia a vontade do capitão, não ouzava pedir licença, e respondeu que, se lhe queimassem as casas, que muitos paos havia no matto. Vendo que isto não bastava, ordenarão de cassar o príncipe de Bachão, que estava assentado casar com huma filha de el-rey, casado com huma de Tidore. Isto sentio elle muito, porque o trazia em sua companhia, criado para sua filha; e se Bernaldim de Souza não acudira a tirar ao rey desta imaginação, havendo que tudo era a fim de o estor- var levemente, houvera algum mudamento. Como o Jeilolo e Tidore virão que não havia remedio, para poderem fazer levantar o capitão do rayal, ordenarão que tornasse o Tidore a armada, com som de querer pelejar com algum navio delia; e, antes que viesse, mandou o 2 49
capitão a ella a D. Rodrigo, para que, se o rey ahi tor- nasse, pellejassem com elle. E vindo huma vez, D. Rodrigo lhe sahio com tres coro- -coras e hum batel remeiro com artelharia; e como vio, o rey fugio-lhe, porque geralmente temem todos o nome de Menezes, por quantas sortes ruins lhe acontecerão com D. Jorge de Menezes, que la foi capitão, do qual ficarão assombrados. E com esta hida se acabarão as mais, sem ficar esperança de ahi tomar mais o Tidore. Acabadas estas novidades, vendo-se o capitão com alguma gente morta, ferida e doente, sem embargo de 133 r.i conhecer o pouco poder que tinha, e o risco que corria / / da victoria, ordenou, por comprazer ao rayal, mandar fazer escadas, as quaes forão feitas em breve tempo e murmura- das em longo, por termos muita desfalencia no poder, e não o regulando com o da fortaleza que, sem medida, era muito menos, por os muitos mortos e fracos de fome que tinhão. No principio destas escadas adoeceu el-rey, e foi-lhe forçado vir-sè a sua casa a curar, e deixou no rayal a Quechil Guzarate. De sua vinda não faltou que dizer, havendo a doença por fingida, sendo, sem nenhuma du- vida, verdadeira, e bem se sentio nelle, depois. Como o rayal estava assentado no alto, sobre a for- taleza, ficarão os cercados sugeitos a artelharia, e guarda- vão-se delia, com covas que fazião, e antre muros, de paredes fracas, que erão cauza de maior mal seu, porque, como o pelouro achava pouca resistência, facilmente derru- bava as pedras e davão e matavão aos que as punhão em sua defensão; porque, sendo-lhe queimada a cidade, por a banda do rayal, os moradores se passarão a outra, e dentro na fortaleza; e como era pequena, e a gente muita, por força se encontra vão com os pelouros. E assy, sempre tinhão que sentir, maiormente, porque lhe era vedado o 250
chorar, por o rey, por não levarmos gosto do seu mal, e por mostrar que sentia pouco o dano que lhe fazião. De maneira que, com isto, e se não vir pessoa nenhuma para o rayal, sem nunca cometerem partido nenhum, e mostrar sempre ter folgo, tinhão muitos em muito o saber do rey; e a cauza // foy que, como lhe foi posto o cerco, 133 v.) por ter a gente segura, porque o seu natural não era ser tão constantes, mandou-lhe meter suas fazendas dentro na fortaleza, e elle meteu seu thesouro, que tinha em escondido lugar; o qual secretamente tornou a tirar, e mandou guar- dar em partes, onde se nunca soube, porque matou os thesoureiros. E os seus ficarão enganados no ardil, e por elle sugeitos a morrer na fortaleza, ou vencerem; mas isto foi também cauza e parte da victoria, porque o soldado, não tão somente por a honra, mas pelo interesse do saque trabalha. CAPITULO I5.0 (36) Da derradeira briga que tiverâo os cercadores com os cercados. e de como lhe acabarão de queimar sua cidade, e do primeiro conselho e derradeiro que tomou o capitão. Na obediência do servisso dos soldados nunca no cerccr faltou primor, não tão somente em alguns de quem se esperava, mas em todos, de quem se não prezumia, por- que para o trabalho e para a pelleja nunca em nenhum houve que emendar, regulando-os com o que para cada hum era. E assim, alguns fizerão sortes mais dinas de contar que de calar, como faço, pois delias sei que não faltará quem julgue ao som de // seu apetito. (36) Cf. Texto II, Part. 3.*, Cap. VI. 251
E assim, houve alguns (37) que com muito risco, huma noite, queimarão humas cazas e coro-coras que estavão guardadas com gente, debaxo de hum baluarte, e fican- do-lhe huma, por lhe não poderem chegar, determinarão outros queima-la do rayal. E como o fizerão com huns arremeços de mãos que tirão longe, pondo-lhe no cabo hum pano de polvora com hum pequeno morrão, que basta para durar no ar e, em chegando, pôr o fogo, foi esta queimada com grande grita de prazer. E como lhe não ficou nada, por ser toda de madeira e olla, descobrio-se, abaixo delia, grande povoação, sobre hum outeiro, devassa, que se cobria com a maré e dantes se não via, por a casa estar anteposta à vista do rayal. Mandou o capitão a Bernald(o) de Souza, que ate ali não tinha feito nenhuma sahida, que com cincoenta ho- mens se fosse pôr no esteiro, e alguns, ordenados com bom- bas, pozessem fogo as casas; e foi assim começado, mas não cabado, porque os soldados escalados da vasa, que era muito mole, e funda, entrarão por a povoação e pose- rão-se diante delia, em hum bom campo, ao pe do muro, a pellejar com muita gente, que andava ao pe delle, e por cima; e como a desordem geralmente faz aos portuguezes vencedores, espantados os cercados de nosso acontecimento, por parte tão remota, cuidarão que os querião entrar por o rayal, cometendo-os por aquella parte. E assim não sahirão fora mais que os que andavão com (34 v.i seu geral Quechil Que // buba, sobrinho do rey, e que sustentava aquella guerra, trabalhava muito por a defensa da fortaleza, porque se temia de el-rey de Ternate, por ter por mulher huma sua sobrinha, filha do Jeilolo, com que fora casado o rey de Ternate, o qual lhe tomou a mal, (37) Entre os quais se contava Gabriel Rebelo, conforme o Texto II. 252
porque, ainda que a tinha repudiado, tornada a seu pay, não deixava de lhe pezar de a dar e de a ter outro. Finalmente, naquelle dia, se acabarão os seus receios e trabalhos, por meio de huma espingardada que lhe deu na coronha de duma que elle trazia, da qual resvallou o pri- meiro a lhe dar por os peitos. Teve muitos companheiros na morte, aquelle dia, prin- cipaes, e dos outros, muitos, em que foi hum caciz, dos mais venerados; deixou (38) a briga hum bom espaço e foi forçadamente quente, porque o campo era abrigado do vento, e o sol grande, e o fogo que andava na povoação, insofrível, porque não ficou pao sobre pao, e as espingar- das, muitas ficarão queimadas, muitas coro-coras, paros de pescar, e servisso. Forão alguns portuguezes feridos, e hum sobrinho de el-rey, e alguns ternates com elle; naquelle dia puderão entrar na fortaleza, mas o temor de maior desobediência os impedio. Tornarão-se todos por outro caminho, por o primeiro ser trabalhoso, por caso da vassa, deixando tudo queimado, sem lhe ficar outra casa fora dos muros, descobrindo-lhes huns dous poços, de que se sustenta vão. O capitão regozijou a boa vinda e, apartados quatro ou cinco dos principaes que ali vinhão, tomou o primeiro e derradeiro conselho, perguntando se, tomando aquellas fon- tes com // estancias, se entregarião os cercados. [35 r.i Sahio de todos que, tomadas ellas, lhe tapavão as vidas, porque ficavão de todo cercados e sem nenhuma agoa, e pois não tinhão outra, forçadamente havião de morrer, ou entregar-se. Mas que por aquilo havia mister tempo e vagar, o qual se não sofria, por elle estar doente; que o melhor era escalar a fortaleza, pois estava tudo prestes. (38) Texto II: durou a briga hum bom espaço de tempo... 2 53
O capitão dava a entender que lhe parecia bom o con- selho, mas não o seguio, e mandou logo a Bernaldo de Souza para a armada donde estava D. Rodrigo, ao qual mandou dizer que mandasse a gente das coro-coras tomar certos bastiães que estavão feitos no mato, os quaes o ouvidor de el-rey tinha mandado fazer, havia muitos dias, e escondidos, para pôr naquellas mesmas fontes, mas tam- bém adoecera e se fôra, por onde ficarão aly, e que os mandasse tomar e fizesse estancia sobre as fontes, sahindo, primeiro, em terra, a ver bem onde seria melhor o sentado. A isto tornou a murmuração a renovar e criar nova ouzadia; mas a muita confiança do capitão de tudo zom- bava, e mostrava dar-lhe pouco, porque havia que não tinha forças bastantes para escalar a fortaleza, maiormente sem el-rey, a quem errava na amizade, se o fazia, pois era tanta a parte da victoria, com o trabalho de sua gente, sem a qual era impossível fazer-se nada; e ja que havia de esperar por elle, pareceu-lhe bem tomar, em tanto, as fon- tes, pois nisso aventurava pouco. (is t.j E assy, sahio D. Rodrigo //em terra, a ver o sitio, no qual lhe ferirão a Bernaldo de Souza, duma espingar- dada na cabeça, e a outros. E tornando-se a embarcar, naquella noite, sahio em terra, e assentou hum golpe de bastiães, os quaes a pouca força dos cercados, lhe não puderão defender, ainda que lhe matarão dous homens e ferirão outros. Como o rey cercado se vio com a agoa tomada, cometeu paz, por não ter outro remedio com que pudesse viver, o que ate aly nunca fizera, nem delle se sentira dezejar de a cometer. Somente, huma noite, estando a fala, começa- rão de tocar, em modo de zombaria, que farião algum partido, e que falarião ao outro dia, no qual Chris- tovão de Sá havia de ir para o esteiro, dentro em hum batel, bater a fortaleza, e vindo a manhã, começando elles de se 2 54
pôr em ordem em hum baluarte, para falar, chegou o batel a sua vista, e tomou a artelharia fogo duma gamela de polvora que, com pouca prudência, levava no bombar- deiro, na tilha de poupa, o qual se arrombou, e botou a gente e esquipação ao mar. Forão queimados cinco ou seis homens, dos quaes mor- rerão quatro, e muitos lascares, de que morrerão outros poucos; ficarão quatro espingardas de baxo dagoa e huma delias trazia o Quebula, capitão geral, quando o matarão, porque as tiravão elles todas. Christovão de Sá hia numa manchua, e tornou-se com aquelle feito, dando lôa, e daly ordenou sua vinda para a fortaleza, para se vir na nau, como veio, com seus cria- dos // e apaniguados, aos quaes o capitão deu licença, [36 r.i avendo que não era necessário, e os que ficavão, bastavão. De maneira que, vendo os jeilolos o desbarato, zomba- rão de falar em pazes, e assy ficarão com sua honra, ate o fim da agoa tomada, sem nos darem a entender sua fraqueza. So aquelle desastre do batel teve o capitão, em tres mezes que teve o cerco, da culpa do qual se não pode es- cuzar Christovão de Sá, porque não hia dentro, mas como nesta vida não ha couza prospera, ate o fim, permetirão os pecados communs aquelle, por que não ficasse a victoria sem aquelle comtrapezo do osso em que roer. CAPITULO i6.° (39) Das pazes que cometeu el-rey de Jeilolo. e de como entregou a fortaleza, ficando com titulo de Çangaje e sem o de rey. Amanhecerão as fontes tomadas a 18 dias de Março, (39) Cf. Texto n. Part. 3.» Cap. VII. 25 5
e aos 19 começarão os cercados a cometer pazes, estando o rey a porta da fortaleza, armado com hum capacete, guarnecido de muito oiro, na cabeça, e hum seu tio, cha- mado Quechil Tidore, que era caciz maior. Falava nos concertos, os quais não vierão a effeito, porque tiverão os ternates maneira de os estorvar, ate vir [3« v.] el-rey, que era na fortaleza, //a curar-se, o qual tardou ainda alguns poucos dias; no qual se veio ao rayal muita gente, e outros se punhão por o muro, sem armas, aos quaes o capitão mandava tirar com a artelharia e espingar- daria, o que se guardava mal, por caso da piedade, o que elle fazia, poios fazer acabar de entregar, porque estava muito doente, e não podia sofrer tamanha dilatação. Ate que, a quarta feira da Semana dos Ramos, chegou el-rey, e a quinta seguinte, a tarde, veio com seguro ao rayal Quechil Timão, pessoa principal de Jeilolo e em to- das aquellas terra havido por mais sábio e de melhor con- selho, com outro velho mandarim, os quaes disserão ao capitão e a el-rey, que estavão ambos juntamente, que trazião poder de seu rey para fazer pazes, que pedião lhas concedessem. O capitão lhe respondeu que lhas fazia, com condição que o seu rey ficaria sem o titulo de rey, e se chamaria Çangage, que he titulo principal, depois de rei; e ficaria vassalo de el-rey de Portugal e da mesma fortaleza, e daria a obediência a el-rey de Ternate, e havia de perder a fa- zenda e artelharia e as fazendas e somente ficarião com as vidas e a terra. Ao que respondeu o embaixador que era contente de assy aceitar as pazes, sem contradizer, nem defender, nem refusar alguma das condições. Foi logo feito, em breve, o contracto, e assignado por o capitão e rey, e escriptura portugueza, e tornou-se com [37 r.i elle o embaixador. O rey veio logo ao rayal, // com grande 256
brevidade, com alguns menos magros; trazia os pes des- calços e hum jubão de velludo verde, e huns calções de tafeta vermelho, huma cabaya de velludo carmizim, bor- dado de oiro, e huma beatilha, muito fina, de redor da cabeça, a seus costumes. E com muito rizo e prazer, segundo mostrou por fora, abraçou o capitão e a el-rey, ao qual tinha grande odio secreto, porque viera contra elle. E regozijada a couza, e assentado que ao outro dia entraria o capitão com a gente, e elle teria a fazenda e artelharia toda junta, os soldados e os ternates não esperarão tempo, mas toda aquella tarde e a noite roubarão, sem nunca cessar. Os ternates começarão a matar, sem õuardar ley nem contracto de paz, o que lhe foi defeso por o capitão e el-rey, os quaes não puderão impedir o saco, que durou ate a manha seguinte, sexta-feira, 27 de Março, que entrou o capitão, mui doente, com el-rey. E com sua hida foi grande desordem do apanhar, por- que, não somente furtavão aos vencidos, senão aos ven- cedores, huns aos outros, sobre que houve muitas brigas. O capitão se assentou em hum baleo, e os reys ambos assentados em hum caixão, a porta de hum principio de torre, em que estavão todas as mulheres e filha do rey e outras, ao qual se vinhão alguns seus que lhe valecem da desordem do saco; aos quaes respondia somente, com grande copia de lagrimas, que sempre lhe corrião, sem fazer nenhum ademão dos que se / / costumão na obra U7 v.i do choro; mas muito seguramente falava, e respondia com o capitão e el-rey, como homem que não sentia seu mal. Acabado o saco que boamente se achou, mandou-lhe o capitão que tirasse suas mulheres e filhas, as levasse fora da fortaleza, porque havia de ser a torre buscada; o qual o fez assy, mostrando mui grande sentimento, o qual não pode emcobrir sua constância, porque sentio mais que todo INftULÍNDI II! — 17 257
o outro dano, havendo que ficavão ali agasalhadas, e lhe não tomarião o que estava dentro; e assy não serião vistas, o que era forçado ser contra ser contra (sic) seu costume; foi-se pôr junto de boa fonte, que tinha ao pe duma arvore. Foi a torre saqueada, na qual se acharão algumas peças ricas, mas o melhor ficou enterrado, aonde el-rey de Ter- nate o desenterrou e houve todo, depois da gente sahida. Ao capitão coube, da sua preza, huma toalha ou peça de lã de Frandes, para mesa, o qual se veio logo para a fortaleza, por caso de sua doença, e chegou a ela sabbado a noite, vespera de Ramos. A fortaleza, mesquitas e cidade, forão queimadas, aquella primeira noite, com grande prazer dos vencedores, e pezar dos vencidos, sem ficar couza em pe, que pudesse aproveitar. Esta nova soou por todas as ilhas, e ainda que a havião por impossível, foi forçado cre-la, por o testemunho do saco; porque muito poucas ficarão de que não houvesse r.] gente nelle, do qual todos levarão pouco ou // muito, porque foi grande, por caso do rey ser mais rico que havia naquellas ilhas, e ter metido a fazenda dos seus dentro na fortaleza, da qual ainda ficou muita suterrada e não foi tomada, por os homens não acharem o ardil, e terem dese- jos de se tornar logo, enfadados do longo cerco. Ao rey foi tomado pouco, a comparação do que tinha fora escondido, do qual se não sabia, por ter mortos os que o levarão, e so o thesoureiro lhe ficou, o qual matou o dia do saco, por não descobrir nada. Naquella fortaleza estava o melhor de todas aquellas ilhas, porque, alem de viverem sempre de rapina, tinham todo o bem delias, por lhe terem dado de peita, por o rey ser contra a nossa fortaleza, na guerra que tiverão contra Tristão de Ataide, que durou desoito mezes; por onde ficarão alguns portuguezes ricos, e não houve nenhum que 258
não levasse pouco ou muito, e assy os naturaes, porque houve homem que chegou a seis mil pardaos, e muitos que passarão de mil, e maior quantia, de maneira que todos os que tornarão, vierão melhor do que estavão, quando CAPITULO I7.0 (40) Dalgumas partes quentes que houve em todo o tempo que durou o cerco. Durou este cerco tres meses, nos quaes se passou muito trabalho, chuva, sol, fome, e sede, para remedio dos quaes foi grande parte a grande novidade da fruita que houve aquelle anno no matto, a qual sustentava a muitos, princi- palmente aos das ilhas, que sempre vinhão ao cerco, como menos providos do necessário; por onde alguns tiverão que foi a cauza da victoria, o que não fora, se o cerco se pou- zera em outro tempo; no qual matarão dezanove ou vinte homens, assi pellejando como dentro das estancias, por passearem ou olharem desordenado alguns delles, o que Bernaldim de Souza reprehendia, e defendia muito. E por isso fez bastiães, para guardar, e cavas para caminhar, mas os homens, enfadados delias, navegavão por fora, não se castigando huns por outros, nem por as reprehenções do capitão, que sempre passava por os passos perigozos, muito cuberto, e com grande resguardo, porque delle tomassem exemplo; por o qual o julga vão de cobarde, reputando a mal seu bem, porque, se assy fizera Fernão de Souza, não perdera na mesma fortaleza os que perdeu sem proveito, (40) Cf. Texto II, Part. 3.1, Cap. VIII. Neste texto contam-se pormenores interessantes deste cerco. 2 59
mas fazia-o, porque estimava pouco os homens, e Bernal- dim de Souza, muito. Houve muitos feridos e mortos, // de doenças, dos quaes foi hum Diogo de Freitas (41) > irmão de Jurdão de Freitas, mais velho, casado com D. Antónia de Souza, morador no Peral, junto de Santarém. A nossa artelharia lhe derrubou muita parte do muro de dentro, e da de fora, nada; e de hum baluarte, sobre o qual se gastarão nove pipas de polvora e arrebentarão quatro peças de artelharia, e por derradeiro ficou quazi como dantes estava. O sitio do rayal era mais alto que o da fortaleza e das mais partes senhoreava elle ao campo; erão os muros feitos a maneira de valados, misturada a terra com pedra mol. Os baluartes erão quatro e mui largos no pé, e em cima estreitos, por causa do grande lambor; tinha em cima piaes para os berços, tinha grande cava, toda por dentro, e por fora huma grande largura estrepada de estrepes de canna, metidos ao marrão, e depois agudos, altos e baixos, e ao revez, e direito, para em todas as partes ferirem. Estes fazião toda a fortaleza, porque se não podião tirar, sem o grande risco das espingardas, das quaes lhe forão achadas passante de cento e dezoito berços de metal de el-rey, nosso senhor, e muitos outros da Java, também de metal, e huma roqueira e muita polvora e salitre, e elles grandes pellouristas, ensinados por os castelhanos, e muito maiores espingardeiros, o que vimos por experiência em famozos tiros que fizerão nas nossas. Esta cerca tinha dous baluartes, e dentro, o // Castello tinha outros dous, que erão os quatro que disse. Tinha outro em baixo, no esteiro, que lhe não sérvio, pois por (41) O Texto II acrescenta que Diogo de Freitas foi morrer a sua casa. 2ÓO
elle se não fez obra. Erão os mais validos homens que ha- via por todas aquellas partes e ilhas, e os mais temidos, por muitas victorias havidas. E naquelle cerco o mostrarão bem, porque, emquanto durou, nunca nenhum se veio a nos, nem cometerão paz, nem derão a entender sua mize- ria, sendo aquelles os primeiros cercados que houve na- quellas partes, não tendo exempro doutros, por se regula- rem, quando os entrarão. Não houve pessoa, em todo o rayal, que achasse couza alguma que se pudesse comer, nem beber; esta vão as ruas e as casas cheas de gente morta; huns ja gastados do tempo, outros começados, e de todas as maneiras, sem haver entre ellas quem os enterrasse, por todos andarem taes que não podião consigo, quanto mais com os mortos, com quem tem pouca caridade. O fedor era grande e a mizeria maior, a qual compa- decia aos portuguezes, mas não aos ternates, porque, natu- ralmente, são cruéis contra os vencidos, e se nelles fora, não ficara naquelle dia viva alma, que não meterão a espada, como começarão a fazer em entrando, se o capitão e el-rey os não estorvarão, tendo ja morto passante de trinta pessoas, e cativas muitas; de maneira que a soberba da- quelles foi na sexta-feira, seu domingo, abaixada, porque ate hum rapaz ternate cortou a mão a hum, antre elles havido por muito valente, por / / lhe dizer que lhe não [« r.] queria dar huma boa espada que nella trazia, o qual lha tomou, com a mão cortada, sem ousar a falar nada. E em parte parece que foi juizo, porque com a mesma mão matou hum castelhano em huma tranqueira, que lhe entrou Tristão de Ataide, por o qual foi tido, antre elles, por valente, e honrado, porque he assy o seu costume; o mesmo rey Jeilolo fez a outro seu vassalo, ao qual deu uma filha, mulher do rey de Ternate, por lhe levar a ca- beça dum portuguez, chamado Borges, no cerco de Fernão 261
de Souza, o qual foi depois tomado dos ternates em huma coro-cora, durando a guerra. E foi enforcado por el-rey, por a forca que lhe fizera em sua mulher. Fizerão estes, o tempo que durou o cerco, muitas sahi- das, às quaes o capitão mandava outro, com portuguezes, e el-rey o seu, com ternates, e asy juntou sempre bom es- quadrão, se fizerão muito boas sortes, nas quaes teve D. Rodrigo muito merecimento, porque, sem nunca se ajuntar no cerco com o capitão, fez mui inteiramente o que lhe mandou, e foi o primeiro que era posto na primeira estan- cia a que se punha, as quaes erão mui combatidas, e assy em muitas sahidas em que matou muita gente. Por o conseguinte, e de muito merecimento, Balthasar Vellozo, porque sérvio mais que nenhum outro capitão, assy por ser da terra, e amigo de Bernaldim de Souza, £40 v.] como por ser naturalmente bom cavalleiro e bem / / assom- brado e aprazível em todo o trabalho, por o qual o seguião muitos, e o capitão o mandava sempre, por não trazer a carranca dos mais, e ser mui leve de aparelhar. Era casado com huma irmã de el-rey de Ternate, por onde era muito reverenciado da gente da terra, e isto favo- recia muito seu credito, que tinha das guerras passadas. Como Bernaldim de Souza não tomava conselho, não faltarão certos conselheiros que o enfadavão com novas e ardis, dos quaes se despedio e vingou, com lhes mandar que fossem elles os que ordenassem e fizessem o mesmo que lhe dizião, porque não sentia no rayal quem melhor o soubesse fazer. E como o conselho era trabalhozo de pôr por obra, hião escandalizados, por o não poderem fazer. E assy se emendarão per sy, e elle acabou seu feito como quiz, contra o parecer dos emulos, os quaes converterão em odio a enveja de sua victoria, com a qual elle ficou, e elles, com o pecado. Ella foi grande para quem sabe a terra e conheceu a 262
gente e o poder delles, o qual houvera denganar a todos, se o capitão seguira o parecer commum, porque tinha den- tro mil e duzentos homens, e os muros mais fortes do que parecião de fora à nossa vista; e bem creo que, se aquelle feito fora na índia vencido por hum governador delia, que tiverão muito de que se louvar delle, e fora mais soado do que foi em Maluco, donde o vencimento foi tão necessário, mas, por ser la e com tão pouca gente, se desprezou, sendo estas mesmas cauzas para se engrandecer, porque, com a tomada / / daquella fortaleza, se cobrou o credito perdido w ri do nome portuguez, naquellas partes, o qual, ja antes de perdido, era mui temido, e assy asegurou a fortaleza de el-rey, maiormente por a vinda dos castelhanos que aly se recolhião. E assy também restaurou a christandade do Moro, que estava toda alevantada, a qual tem bem custado aos portu- guezes, que em tudo era perdida, e logo se tornou a re- cuperar. Finalmente baixou a soberba daquelle mouro, que hia acanhando a todos, e assy aos capitães passados, os quaes lhe sofrerão muitos enfadamentos, que ficavão, com grão vergonha dos moradores, porque, como elles trazião cravo, que era o que pretendião, dava-se-lhes pouco do mal pas- sado, e que la ficava. CAPITULO l8.° (42) De como Bernaldim de Souza tornou a derrubar a fortaleza de Jeilolo, e levantou outra vez a guerra ao Çangaje, por o não querer ir ver. Bernaldim de Souza se veio de Jeilolo, deixando a for- (42) Cf. Texto II, Part. 3.*, Cap. IX. 263
taleza em pé, por caso da sua doença, que não sofria dela- ção em tão ruim terra; e mandou logo huma coro-cora a i4i v.) Amboyno levar a nova da victoria á sua nau, // que la estava, em que hia Christovão de Sá, e Lopo Mendes Bote- lho (43), feitor que fora, e outros muitos, a que o capitão não impedio a licença, havendo que os que ficavão basta- vão para dar fim ao começado; os quaes lha pedirão, e se forão desesperados do vencimento; na qual ordenou mandar a hum Pantalião das Banhas, que havia tempo que la estava feitorizando fazenda de Jorge de Souza, seu inimigo, assy por lhe danar, como por enfadar a Bernaldo de Souza, que estava em sua casa, ainda ferido; e assy porque fora parte nos requerimentos que lhe fez no cerco, os quaes, por a perda que recebião, se soccorrerão a D. Rodrigo, que o pedisse ao capitão, o qual o fez assy, e assy como forçado da obrigação em que o punhão a falar com Bernaldim de Souza, de quem se elle afastava. E hindo-lhe pedir, lhe disse logo que, se lho não dava, que não havia de ser seu amigo, do qual tomou Bernaldim de Souza occasião para lho não dar, do que ficarão de todo quebrados, mas o capitão deixava de lhe falar, an- dando em hum palanquim, e não esperava falar-lhe D. Ro- drigo, o qual respondia também com seu barrete, sem haver fala dum a outro. Durando isto, sarou o capitão, e tornou a Jeilolo em coro-coras e par os, a derrubar a fortaleza, o qual levou alguns soldados de D. Rodrigo, e elle ficou; e dizião muitos que ficara, porque o capitão lhe não mandára recado, e outros que sy; mas de qualquer maneira que fosse, o capi- tão dissimulou, e foi com el-rey e seus irmãos a derrubar (42 r.i a fortaleza, a qual / / se desfez as mãos, em poucos dias, (43) Bot.°. 264
e menos trabalho e muito prazer, por ser tudo terra solta e que facilmente se desfazia. Forão então achadas muitas covas, de que os negros terarão fazendas, que não fezerão pequena magoa a todos; não havia nenhuma caza, nem pao nem signal donde es- tivera. No principio da torre houve algum trabalho, porque era de pedra e cal. Daly se veio o capitão com el-rey a huma praya, cha- mada Todovongue, que quer dizer em sua lingoa «todo area», na qual tinha o Çangaje feita huma pobre povoação, e delia era acolhido ao mato, por se não ver com o capitão, mas a verdade foi por não ver a el-rey, nem se obrigar a fazer a çumbaya, que era grande deshonra sua; maior- mente por lhe ter grande odio, porque fora contra elle, por onde tinha jurado de se vingar. Estava na povoação Quechil Timão, com outros pa- rentes e chegados, ao qual mandou o capitão com hum soldado ao matto levar recado ao Çangaje, que o viesse ver, pois era vassallo de el-rey de Portugal, e que se espantava muito hir-se daly a tempo que elle vinha. E levava recado que, se não quizesse vir, lhe levantasse a guerra, quebran- do-lhe huma palha ou pao com as mãos, como antre elles he costume. Foi o recado huma grande meia legoa pior o mato espi- nhozo e apaullado e cheio de vassa, ao longo duma ribeira dagoa; no cabo da qual estavão humas fontes quentes, e junto delias humas cabanas e alguma gente, // das quaes [42*.] não passou o embaixador e esperou ao Çangaje, que estava dy grande pedaço, segundo tardou. E veio junto da noite, vestido em panos mui vis, e cheio de vassa, ate o joelho, couza para haver grande piedade a quem o conheceu em sua prosperidade. Assim, abraçou fortemente ao enviado, o assentou comsigo sobre hum pao, 265
porque não havia outras cadeiras, e, estando os seus prin- cipaes presentes, lhe foi dado o recado, ao qual se desculpou com sua pobreza, por não ter que vestir, e assy repetirão sobre razões, ate hum pedaço da noite, as quaes todas concordião (stc) da sua parte com escuzas, por ter pouca vontade. O enviado lhe alevantou a guerra novamente, da mesma maneira que lhe era mandado, quebrando huma cana nas mãos, em lugar do cartaz da paz que tinha; ficando todos muito tristes, se tornou a armada, e dando na mesma noite o recado ao capitão, por amanhã sedo o deu a el-rey, o qual lhe tornou a pedir que tornasse a mandar outro recado, e fe-lo assy. E quando o mesmo enviado chegou com o mesmo que dantes levava, achou as choças despejadas, sem gente, nem falia; e algumas miudezas, que havia, que os fugitivos não puderão levar, os mesmos jeilolos se meterão a furtar, tudo, porque esta he a sua ordem. Pedio logo Quechil Pimão seguro para sy e para os seus parentes e paniguados e para os mais que se viessem para elle; o qual lhe foi dado e, daly por diante, os seguros [43 r.] andavão em chitos ao pescoço, como ando // rinhos, por- que, os que erão achados sem elles, ficavão captivos, entre os quaes foi tomado o embaixador que viera com o Timão, a fazer as pazes no cerco, o qual, por sua probreza, nunca se resgatou, ate que fugio, sendo ja muito velho. O Çangaje andou pelos mattos com mulher e filhos, com muito trabalho, do qual lhe morrerão muitas pessoas; alguns poucos o seguirão, que o deixarão depois, por o que se vio mui atribulado. E conhecendo que não tinha outro remedio, para se tornar a restaurar, se não com ser chris- tão, e tãobem por nisso fazer avesso a el-rey de Ternate, a quem elle dezejava muito mal, e havia que com isso ficaria acanhado e elle prospero e honrado dos portuguezes, a 266
quem não mostrava odio, por lhe fazerem a guerra justa- mente, mandou pedir ao capitão que lhe mandasse hum padre, paxa o qual ordenou que fosse João da Beyra, da Companhia de Jesus, que la rezidia, por maioral. O qual o quiz logo meter no paraizo; e foi cauza de o meter, mais azinha, no inferno, porque, prometendo-lhe de se fazer christão, em adorando hum crucifixo, o padre quiz que fosse logo, não lhe dando espaço, o qual lhe pedia para juntar sua gente e casar alguns com algumas suas mulheres. E assy os ajuntaria a elles, e despejaria a ellas, porque não era razão que as botasse assy fora, pois tinha filhos dalgumas, e mais que escandalizaria aos pa- rentes, e que, se os seus aquillo vissem, // e que se fazia [43v.i christão, não no verião mais, e que assy perderia seu estado, onde esperava ajunta-lo. O padre não consentio em nada, mas antes lhe dizia que vivia como cão e como porco, e por isso havia logo botar as mulheres, e com outras muitas palavras de fe, que naquelle tempo servião pouco, pois delias tomou occazião para ficar mais mouro e hir-se ao inferno, como se foi, dahi a poucos dias, que morreu de sua paixão e trabalho, tendo mandado pedir ao capitão pazes, e que queria pareas, as quaes assentou depois seu filho Quechil Guzarate. Ao qual o capitão, concedeu o senhorio da terra com titulo de Çangaje de el-rey de Ternate, dando sempre a obediência a fortaleza e aos capitães delia, em tudo o que lhe mandassem, e que pagasse, cada anno, trez mil ólas, de braça cada huma, para se ella cobrir, e quinhentos far- dos de çaguu, que podem ser duzentas e cincoenta jarras pequenas, e tirasse sua propria irmã que tinha por mulher, a qual ficou a el-rey de Ternate. E porque o Çangaje cometeu fazer-se christão, cuidando que lha dessem por mulher, o capitão e padres não consentirão. Neste tempo se fez o sitio da fotraleza de Jeilolo mais 267
forte do que nunca fora, porque arrebentarão os estrepes, que erão de canas, e fizerão-se muito muito (sic) grandes e fortes canaviaes, que não ha couza que as entre, porque, como são grossas e espinhozas, e a largura da cava e a da [44rj banda de fora, onde estava estrepado, era grande // e larga, e elles muito juntos, que não podia por elles navegar hum gato, não se podem entrar, senão se os cortarem por tempo, pouco a pouco, porque o queimar não basta; de maneira que ninguém acodio mais a isso, e assy, pouco a pouco, criarão o ninho, ate que tornem ao passado, ainda que delle ficarão tão disbaratos que tarde o farão. Chamava-se o rey morto Quechil Quatrabumo; ficou por regedor do reyno, por morte de seu pay, sendo rey hum moço, seu irmão, o qual dizem que elle matou com peço- nha, mui encubertamente, e fez-se muito amigo e servidor de Tristão de Ataide, o qual o alevantou por rey da terra, assy por isso, como por o favorecer na guerra que teve com as ilhas de Maluco, depois que prendeu a Tabarija, e a sua may e marido, por mexiricos que delles teve. E como se vio rey, allevantou-se contra elle por peitas, que de todas as ilhas lhe derão, e porque tinha em sua mão alguma artelharia, que o capitão lhe deu; e porque, alem de o temerem, tinha muitos mantimentos, com que podia socorrer a fortaleza. Tomou nesta guerra hum bergantim, com oito portu- guezes e artelharia, por ardil dum portuguez de Viseu, arrenegado, que trazia, ao qual mandou cortar a cabeça, depois que lhe deu maneira de fazer a fortaleza, avendo que, como fora traidor aos seus, o seria também a elle. Foi a preza do bergantim nova aquella terra, e que [44 v.] muito fez em seu // credito e poder, por a artelharia que ali tomou e em a qual, e com a que tinha, dada por Tristão de Ataide, se fez forte. Era muito belicoso e de muitos ardis e honrava muito 2 0 8
aos que lhe fazião sortes; era porque sempre buscou tempo para fazer a sua. Fez em principio grande fortaleza com cava, a qual desfez, depois do cerco de Fernão de Souza, porque ainda que ficou vencedor, por não ser vencido, alcançou que não podia suster tamanha couza, e fez outra mais pequena, darredor do castello, que dantes tinha, que era a que lhe derrubou Bernaldim de Souza. Fez a melhor e maior mesquita que havia naquellas partes; fez, com seu engenho, letra da sua propria lingua- gem, dos caracteres que os seus facilmente pudessem tomar, porque la todos escrevem arabio a lingoagem arabia cada terra, e elle fez certa feição differente, que para gente tão barbara foi muito. Finalmente, era grande seu credito e fama naquellas partes, ate Banda, onde era mui obedecido, de maneira que se hia criando nelle outro Mafamede, e não faltava mais para acabarem de o ter por esse, que ver-se Bernal- dim de Souza sem sua victoria, porque todos o ficavão temendo e obedecendo e adorando, porque ja lhe chamavão o rey grande, que era la o nome antigo do dos portuguezes. Tinha quatro filhas e seis (centos) filhos, o que não era muito, pois tinha trezentas mulheres, o que era muito grande falsidade, porque nunca os cinco reys, que houve naquellas ilhas, tiveram todos juntamente // cem filhos, e [45 r.5 sabe-se craro, porque, pouco tempo antes da nossa hida, se fizerão mouros, e com a novidade da ley se encherão de mulheres em aquelle tempo. O mesmo Jeilolo não tinha outros tantos vassallos, quanto mais filhos, e agora que era mais poderozo do que nunca la foi outro nenhum, ajuntou somente mil e duzentos homens de pelleja, tendo dentro todos os dous lugares que o obedecião, que se recolherão aly na guerra, e não tinha nenhum irmão, que parece que de seiscentos, lhe poderá ficar algum, quanto mais que o ter muitas mulheres não 2 6 ç
faz ter muitos filhos, porque o mais que naquella terra teve foi o rey de Ternate, que sendo muito maior senhor que todos, e de muitas terras que todos juntos, lhe punhão ate cem mulheres, contando-lhe quantas escravas havia em casa (44). E sendo ja velho como he, tem onze ou doze filhos, não lhe morrendo nenhum, e a seu pay deste, se disse o mesmo ar, que se chamava Collano, o qual nome he proprio de rey e he geral a todos os que o são, por a lingoa da terra. E por estas verdades do Reverendo se lhe pode crer o que mais diz da victoria que houverão os portuguezes da ar- mada de Garcia de Loaissa, biscaynho e comendador de S. João, que morrendo elle, ficando por geral Fernando de la Torre, pellejando, foi vencido e entregue por paz, e os seus trazidos a Malaca e para a India com muita honra. t.] O padre não tratando da nossa // victoria, por não falar a verdade, diz que os trouxerão a Malaca com titulo de pax, e aly os prenderão a todos, os quaes morrerão e houverão ma fim, sendo tudo falso, porque Antão Corço veio a Castella e tomou a Maluco com Ruy Lopes, por piloto, e Martim Dislares que também tornou, e se fez frade e estava em S. Domingos, os quaes meterão em cabeça na Nova Espanha aos soldados das armadas, que havião de hir a huma ilha de Maluco, que as galinhas tinhão os papos doiro, do muito que comião na terra, por não haver nella outra couza, o qual dizião por huma que estáa junto a Mindanao, chamada Pulo Veniaga; e assy ha ainda em Maluco muitos castelhanos daquella armada, ricos e abas- tados, sem se quererem vir da terra, por o bom tratamento que lhes fazem nella. (44) No Texto II faltam os parágrafos que se seguem, referindo-se, no Cap. i.°, às falsidades contidas na obra de Gonçalo de Oviedo, sobre as Molucas. 270
Não he menos de cada huma destas, a que disse do cerco de Dio, que o capado lhe poz, na qual parece que da a honra ao mouro, por a terar a nos, dizendo que, não po- dendo tomar a fortaleza, se tomou, levando consigo as orelhas e narizes dos portuguezes, que matou, de prezente ao Turco, como que matou muitos no campo, em parte donde os podia cortar; e que os que podia levar, não era mais deshonra sua, por não ter outros, que poder cortar, senão os dos trintas portuguezes, que se lhe entregarão no baluarte da terra, onde estava o Pacheco com seguro que lhe deu de chapado (o) Turco, que elle não guardou como tredor e falso dis // cipulo de tão ruim ceita. De maneira que não posso crer do Reverendo senão que algum portuguez o escozeo (?), e vingou-se na escrip- tura falsa, que he mui conveniente a seu habito ,mas não a de tirar com ella nem com outra, assy em Portugal como em Maluco, serem os portugueses vencedores dos caste- lhanos, aos quaes agora sera forçado humilharem-se, como he razão, a fortaleza, e não aceitarem dos mouros o reco- lhimento, pois a estalagem que lhe dava he desfeita, a honra e louvor de Nosso Senhor. CAPITULO I9.0 (45) Da tomada da fortaleza de Tidore, e do que seguio dos odios de D. Rodrigo e Bernaldim de Souza. Acabados estes trabalhos de Jeilolo, antes que Çangaje morrece, andando ainda por os matos, quiz Bernaldim de Souza, no mesmo anno de 51, tentar a tomar a fortaleza de el-rey de Tidore, o qual confiado no amor do rey de (45) Cf. Texto II, Part. 3.", Cap. X. 271
Ternate, por o muito parentesco que havia entre elles, e ser o Ternate seu genro, se foi as pressas as ilhas das Cele- bes, deixando a terra encomendada ao genro, porque tinha certo delle não lhe fazer ofensa alguma, em sua ausência. E conhecendo Beraldim de Souza o tempo, queren- [46 v.] do-se // asar delle, e obrigar el-rey a ajuda-lo contra o Tidore, mandou-o, hum dia, chamar, e juntamente aos principaes moradores e soldados, e fez o primeiro e der- radeiro conselho de todo seu estado na fortaleza, pondo diante a victoria de Jeilolo ser nada, se a fortaleza de Tidore ficava em pe, pois quazi tanto prejudicava huma como outra ao servisso de le-rey, nosso senhor, pois ambas forão feitas em menos preso da sua, a qual, naquella terra, havia de ser so. E que por isso lhe parecia bem que, pois não tinha arte- lharia e munição, para esperar outro tempo, que a que então tinha bastava, para a tomar, porque o rey era fora, por o qual a tomaria mais a seu salvo. Forão os pareceres muitos, como se acostuma nestes ajuntamentos, sobre os quaes estava bem dobrado o capi- tão, por haverem elles que lhe parecia conselho e fazia aquilo muito defezo, porque não tirava mais que ao pare- cer de el-rey e a obriga-lo, pois sabia que o havia de rogar. E assy foi que disse que, enquanto aly não estava o rey, que não era licito tomar-lhe, nem devaçar-lhe sua caza; que o deixasse vir, que elle lhe faria derrubar a fortaleza, por a qual palavra o penhorou o capitão, dissimulada- mente, porque não entendia o fingimento, porque era dis- creto, e tomaria a mal colhe-lo assim, e deu-lhe mais a entender que, por amor delle, esperava, que porque por vontade que tivesse. Vindo depois o rey de Tidore cançado, e com alguma [47 r.] gente menos, o capitão se foi pôr no // porto de seu lugar, o qual hia em hua coro-cora, e D. Rodrigo noutra, e Bal- 272
thasar Vellozo e el-rey, cada hum, em sua, e a mais gentes nos parós, por ser mui perto e esta junto a cidade; e sobre ella a fortaleza em hum outeiro, sugeita a outra, e não lhe podia fazer muito nojo a artelharia do mar, ainda que a houvera, a qual aly situarão por consentimento, ajuda e favor dos castelhanos da armada de Ruy Lopes, e as pazes feitas não bastarão a derruba-la. E chegado o capitão, foi logo mandado visitar por o rey, por seus irmãos, por os quaes lhe mandou os agrade- cimentos de sua visitação, e dizer-lhe que sua vinda era a pedir-lhe que derrubasse a fortaleza, como vassallo de el-rey de Portugal, porque se dezia pouca necessidade tinha delia, porque com sua amizade estava mais forte, e se o não era, que naquilo o veria; dos quaes logo o capitão conheceu a vontade do rey. Os embaixadores forão e vierão muitas vezes, por qua- tro ou cinco dias, e assy el-rey de Ternate, por sua parte, trabalha o que podia, de maneira que el-rey consentia der- rubar-se, mas huns seus sobrinhos, filhos de hum Quechi! Rade, ja defunto, o estorvarão, por a honra de seu pay, que a ajudara a fazer. O rey era mui manso e pereçozo, e tido por covarde, e a essa conta aplicava a couza Bemaldim de Souza, quanto podia. E porque tinha huns poços na praya, de que bebião e se servião, disse o capitão aos embaixadores, // que ne- [47 v.] nhum tidore viesse tomar agoa a elles, senão que os havia de mandar matar, e se halgum portuguez sahisse em terra, que lies o matassem, e logo mandou lançar porgão por a armada, que nenhuma pessoa sahisse em terra, sob pena de morte, e de caso maior, com decraração do que tinha mandado aos da terra. E isso fez nelles grande aballo, por- que não conhecião o nosso pouco poder, e temião-se do seu. Dali a dous dias, por a manhã sedo, disserão ao capitão que andava gente em terra, contra o seu pergão, o qual se INSULÍND1A, III — l8 27 3
agastou muito, e se meteu em hum paró, despido como estava e, correndo a pray a, achou nella a D. Rodrigo com alguns moços seus, e lhe disse alto: «Senhor D. Rodrigo, não mandei lançar pergão que, sob pena do cazo mayor, não sahisse ninguém em terra? Embarcai-vos». Respondeu D. Rodrigo: «Logo me embarcarei; os ho- mens hão-de cagar» (46). E nisto o capitão hia ja affastado, por sempre remar, e respondeu de longe e passo: «Ora cagai e seja»... Dizem alguns que D. Rodrigo que o ouvio, e que respondeu por o mesmo modo, mas a verdade he que nenhum ouvio do outro. Encontrou o capitão logo com Eytor Mendes, que era ouvidor, e mandou-lhe que fosse tomar a menagem a D. Rodrigo, que não sahisse da sua coro-cora; e Eytor Mendes lha pedio, e não lha quiz dar, e com pouca prudência o foi assy dizer ao capitão, o qual no mesmo paró, com ira, se [«rj foi a coro-cora de D. Rodrigo, cometendo querer entrar // dentro, com a espada nua na mão, e fez com ella arredas a Christovão de Souza e Antonio de Lacerda, que ora he frade dominico, que estavão com D. Rodrigo, por hirem com elle darmada da índia ao socorro, sendo muito moços ; os quaes depois se arrependerão de obedecer ao capitão contra o seu, o qual estava com a espada na cinta, e huma cetada na cabeça, e huma rodella na mão esquerda, e hum zaguncho na direita, fazendo maneira de remeço, para tirar ao capitão, que queria entrar, dizendo-lhe: «Senhor Bernaldim de Souza, não entreis cá, que sou tão bom fidalgo como vos»; e isto por algumas vezes. Como Bernaldim de Souza o vio assim determinado, e estando elle desarmado, tirando por elle hum homem (46) No Texto II não foi substituída esta expressão, demasiado chula. 274
honrado que hia no paró, se tornou, e no tempo que elle estava com D. Rodrigo, hum sobrinho de Balthasar Vel- lozo, que estava com o tio na coro-cora, poz hum arcabuz no rosto, para atirar a D. Rodrigo, e o capitão lhe acenou que não, e foi-se a armar a sua coro-cora, que estava afas- tada; e mandou a Balthasar Vellozo que se puzesse em huma calheta, porque era aquillo dentro de hum recife, e ahi defender a sahida a D. Rodrigo, o qual se meteo em hum paró, e mandou a sua gente que sahisse fora na coro- -cora, e o mesmo soldado do arcabuz bradou por a lingoa da squipação, que se botasse ao mar, os quaes o fizerão assim, e a coro-cora ficou sem sahir. E vendo-se assim D. Rodrigo, determinou tomar a terra, e estando-se o capitão armando, // muito depressa, man- [48 v.] dou a hum soldado da sua coro-cora que se sahisse com ella, e se pozesse em outra calheta, e defendesse a sahida a D. Rodrigo. E com estas couzas havia grande rumor e grita da parte dos parós, a qual soou a el-rey de Ternate, que estava em terra, com o Tidore, e assentado vir-se aquella tarde com o capitão a fazerem-se amigos; e ouvindo o rumor que hia na praia, perguntou a alguns que era aquillo. Responderão-lhe que não sabião, que lhes parecia que era o capitão e D. Rodrigo. Saltou logo el-rey do baleo onde estava com o Tidore, e correndo á praya, hindo des- pindo os panos, ficou com hum baxu (47) e huns calções de seda, por mea coxa, e o mais nu, e hia bradando: «con- tra o meu capitão, contra o meu capitão, contra o capitão de el-rey, meu senhor!» E assy se embarcou, mui depressa, em hum paró li- geiro, que tinha, e seus irmãos e parentes, ao rumor, e corria contra D. Rodrigo, que naquelle tempo se hia no (47) O mesmo que baju. 275
paró, remando rixo a terra, para se acolher a ella, e o rey lhe hia tomando a dianteira, para que não chegasse por a não alvoroçar, pois estava em termos de concerto, e com grandes brados o hia chamando: «Senhor, Senhor D. Ro- drigo, metei-vos aqui, metei-vos aqui, comigo!» E terminado o conselho, se meteu no paró com el-rey; e nisto chegou logo o capitão, que vinha ja armado, ao qual disse el-rey: «Senhor, ja effeito, (sic) o senhor D. Rodrigo esta aqui comigo, e eu o tomo sobre mym». Respondeu-lhe o capitão que embora, e tornou-se para [49 r.] a sua coro-cora, e el-rey e D. João Coutinho com // elle; e D. Rodrigo se foi meter no seu paró, como prezo, e onde esteve os dias seguintes. Determinava el-rey, segundo soltou, que, se D. Rodrigo se não metesse no seu paró, que o houvera de varar por cima, para que não fosse a terra, assy por não fazer nella algum impedimento, o seu trabalho e alvoroço, como por- que cuidava que tinha feito algum mao recado com o capitão. Acabado tudo, el-rey se tornou a terra, e negoceou a vista de Tidore com o capitão, o qual logo a tarde desem- barcou com el-rey e D. João Coutinho e alguns soldados que ficarão afastados, e se abraçou com o de Tidore, que folgou muito de o ver, porque era muito gentil homem e bem assombrado e apessoado, e concertarão derrubar-se a fortaleza, ao outro. E queria Balthasar Vellozo derrubar algumas pedras delia, em signal, e depois eles a derrubarião de todo. Com este concerto se embarcou o capitão, e desembar- cou ao outro dia, a tarde, com alguns homens, e se poz na praya, a sombra duma boa arvore, e mandou a Balthasar Vellozo que com dous parentes seus fosse ao outeiro der- rubar algumas pedras da fortaleza, e mandou diante a hum irmão do mesmo rey de Tidore, que fora seu embai- 276
xador em Jeilolo, chamado Quechil Munavare, nosso amigo, e a dous portuguezes, que la estavão dasento, fa- zendo cravo. E assy, como naturaes, que fossem fazer prestes, e avizar da hida de Balthasar Vellozo; os quaes tornarão dahi a pouco espaço, cada hum por seu caminho, mui affadigados, e espantados, dizendo que estava na // [49 v.] fortaleza certa quantidade de homens armados, para matar a Balthasar Vellozo, porque não havião consentido derru- bar, porque elles a fizerão com muito trabalho, sem pelle- jar, como fizerão os Jeilolos. E por o medo que trazião, pedirão logo todos tres licença para se hirem para a fortaleza de Ternate, princi- palmente o Munavão, que antre os seus era mal quisto, por nossa amizade. O capitão não respondeu nada, e os soldados estavão ja enfadados daquelles recados, porque cada dia pellejavão e fazião concertos, sem acabarem de fazer paz nem guerra. Estando assy todos esperando o pergão do capitão, que levantaria a guerra e não sofreria mais dilação, chegou Balthasar Vellozo, ao qual perguntou muito de novas, que a que tornava? Contou-lhe o mesmo que os passados; e o capitão muito severo, e confiado, como era em todas as suas couzas, lhe disse: «Espanto-me muito de ver, senhor Balthasar Vellozo, crerdes quanto vos dizem! Ora hide e matem-vos». O honrado velho respondeu muito alegre: «Senhor, sy, de muito boa vontade». E chamou logo os dous parentes, Gaspar de Azevedo e Manoel Vellozo, que era o do arcabuz, e foi com elles muito levemente; e derrubou muitas pedras da fortaleza, sem achar nenhum armado, senão muitos desarmados, que esperavão por elle. E depois derrubarão elles as mais, e ficando ainda alguma parte, tornou la Balthasar Vellozo, da fortaleza, a derruba-las. 277
E desta maneira tomou Bernaldim de Souza, com sua £50 r.] confiança e saber, aquella // fortaleza, que não podia tomar por força de armas, pois as não tinha. E acabado isto, se tornou el-rey para Ternate; D. Ro- drigo, com os da povoação de Talangame, para suas cazas, não no sabendo o capitão, o qual determinava prende-lo a manhã seguinte. E fazendo-se prestes para isso, não no achou, o que sentio muito, c assy a seus amigos, porque receavão maior perigo. CAPITULO 20.° (48) De como se tornou o capitão para a fortaleza, e do que fez no caminho, e de sua vinda para a India, e de como se acabarão os dias de D. Rodrigo. Acostumava Bernaldim de Souza, quando tinha pro- pozito de acabar alguma couza de importância, cantar al- guma cantiga, ou dizer algum dicho a seu prepozito, pelo qual dava a entender, a quem lhe conhecia a condição, o que queria fazer. Em Jeilolo cantava muitas vezes: Subaça sera de mouros, ou havera rey novo em Grada, tirando a tomar a fortaleza ou a morrer morrer (sic) nella. Com Tidore, depois que aconteceu o de D. Rodrigo, cantara e dizia muitas vezes, e dizia com o pensamento allevantado nelle: Alpiensa el bay o y al quien lo ensilla, havendo que havia D. Rodrigo que estava ja acabado tudo; e assy cantava, quando se quiz vir, contra ordem, de Ma- [50 v.] luco: // «Buen, Conde Fernan Gonçalbes»; havendo que, se não viesse, seria muito mal censurado, em muitas de- (48) Cf. Texto II, Part. 3.®, Cap. XI. Neste texto faltam os pri- meiros parágrafos do presente capítulo. 278
mandas que aquelle anno lhe vinhão ordenadas para a India a D. Rodrigo e Jorge de Souza e Bernaldo de Souza, sobre a sua nau, e sobre a que era capitão Jorge Vaz e Jurdão de Freitas, as quaes lhe empedirão entrar em Or- muz, e por isso se veio, como se dira, tornando a vinda de Tidore. Acabado de saber que D. Rodrigo era vindo, sem sua licença, para Talangame, determinou hi-lo prender a elle; e chegando no caminho, a vista da povoação, mandou ao ouvidor que se metesse na coro-cora de Balthasar Vellozo, e que fossem direitos a sua caza, e o prendessem, e elle hiria logo nas costas, e acodiria, se fosse necessário. Fe-lo assim Balthasar Vellozo, e foi-se as cazas de D. Rodrigo, que estavão casi no cabo da povoação, e o capitão foi -se meter em outra, no outro cabo, assy a vista; e vendo vir ao mar, D. Rodrigo entendeu sua tenção, e se poz em ordem de pellejar e defender-se, e foi aconselhado que o não fizesse, e se fosse, e o não esperasse, pois o capitão trazia muita gente, e elle tinha pouca. Tomou o conselho, mostrando nelle força, e assy, quando chegou o Balthasar Vellozo, elle acabava de sahir, e como o não acharão, levarão o recado ao capitão, o qual fez ir depois a sy a quantos achava, e se foi por a porta de D. Rodrigo, e lhe mandou tomar e escrever certa roupa que tinha, e a poz em deposito, em mão de Jorge Vaz, havendo que seria de el-rey, para os gastos da sua cara- vella, a qual lhe tomava, como auzente. D. Rodrigo, // como soube que o capitão lhe escrevia [51 r.] a fazenda, e estava a sua porta, determinou dar nelle, e não lho consentirão os amigos, assy por suas poucas forças, como porque tinha a caravella varada, e não na podia botar ao mar, sem consentimento do capitão, que estor- varia acodir-lhe a gente da terra, e assy se acabaria de perder. 2 79
Tornado o conselho contra sua vontade, por se ver assy no mato, e avexado, o qual elle não sofrera, se se vira com maior poder, Bernaldim de Souza se embarcou, com ficar mais mal quisto do que era, porque havia que emse- quava (?) (49) muito a D. Rodrigo, e a piedade que delle havia os moveu a maior odio, o qual lhe tinhão todos os da povoação de Talangame, porque os levou a Jeilolo, e dei- xarão de vir aquelle anno para a índia, sem embargo que se não podendo vir todos, por não haver cravo, e com a invernada carregarão todos, porque houve muito grande monção, por haver cinco annos que outra não houvera. lindo o capitão caminhando, achou a el-rey, que hia muito depressa em huma boa coro-cora a acodir ao acon- tecido em Talangame, porque, como virão vir o capitão, não faltou quem despedisse hum cafre de D. Rodrigo, a chama-lo a Ternate, o qual foi com muita pressa, e o rey o embarcou com mayor; mas não pode chegar a tempo que aproveitasse. Foi regozijada sua vinda, porque dava a entender que hia esperar o capitão, e assim juntamente chegarão com grão regozijo a fortaleza, na qual o capitão procedeu por [5i y.] éditos contra D. // Rodrigo e os seus, os quaes sentenceou, finalmente, por alevantados e desobedientes ao servisso de el-rey, e condenou a D. Rodrigo a certo degredo. Foi toda a sentença no mes de Setembro, de 51 annos, hum mez antes, ou quinze dias, que chegassem as naus, em que se esperava ir capitão, e de feito fora D. Garcia de Menezes, filho do Craveiro (?) (50), se o não matarão em Malaca os jáos, no cerco; o qual houvera de dar muito trabalho a Bernaldim de Souza, apos que era muito parente (49) O mesmo que perseguia, supomos. (50) Crav.fo. O mesmo que claviculdrio (?). No Texto II falta este pormenor. 280
de D. Rodrigo, do que elle ficou muito triste, porque não tão somente não foi capitão, por que esperava, mas a nau; por não ir nenhuma aquelle anno, senão huma caravella, em que hia o mesmo D. Garcia, a qual invernou em Ma- laca, e depois foi nella, por a monção de Banda, James Barreto, que com sua hida deu muito contentamento a Maluco, que estava muito desbaratado. D. Rodrigo se embarcou com D. João Coutinho, e se veio para Amboyno, na entrada de Fevereiro de 52; e ate 20, se vierão os mais capitães e navios, todos bem carrega- dos e contentes, contando da batalha, alabando-se do que nella fizerão, forçados, havendo que cada hum por sy a vencera. Vindo D. Rodrigo, foi o capitão a Talangame, aonde nunca tornara, depois que viera de Tidore, e com muito trabalho e de muito tempo botou a caravella ao mar, a qual estava muito arreada e sem nenhuns aparelhos, por lhe terem tudo furtado, ea tornou a mandar aparelhar. Como as naus par // tirão, mandou logo coro-coras a [52 r.] Amboyno e a Banda saber novas da índia, por não as ter aquelle anno, por não ir nau, as quais acharão em Amboyno o James Barreto na caravella de D. Garcia, que o mandara o capitão e vedor da fazenda de Malaca, com provimento para Maluco, e que foi por a via de Jaoa, e esperava a monção do Sul, que chamão da Banda, para ir para Maluco, e deu novas da paz da India e da victoria de Malaca, e de como Francisco Lopes de Souza, primo 2.0 de Bernaldim de Souza, havia de vir na monção grande, por capitão. Tornando as coro-coras ao capitão com estas novas, deixou a fortaleza a Balthasar Vellozo, e veio-se nella para Amboyno, aonde tomou as naus, e meteu-se alguns dias ma caravella de James Barreto, porque era muito seu amigo, e dali se embarcou na caravella, em que hia Manoel 281
Boto, que lhe elle mesmo dera, das quaes não sahio, por ir muito doente do trabalho de Jeilolo, e do que levou na cara- vella, que foi grande, porque com sua pessoa foi cortar a outra banda de Jeilolo cachorros, rolos, e alçapremas, e outros aparelhos, para salvar, os quaes cortou em lugares apaulados e dagoa. Chegou a Malaca, aonde achou a Francisco Lopes de Souza, que hia para Maluco, e aly se não encontrou nunca com D. Rodrigo, o qual adoeceu e morreu sem se confes- sar, por não querer. E prezumio-se que lhe mandou Bernaldim de Souza vj dar peçonha em // huma purga, que tomou dum boticário, que hia em sua companhia, e era seu amigo; o qual foi mui falso, porque morreu de tomar sobre a purga huma grande fartadela de agoa, antes de comer; mas os emulos lhe levantarão aquillo, por o caluniar, do qual juizo de ho- mens e nobres, e que conhecião e sabião da verdade, fidal- guia, e primos de Bernaldim de Souza, não se podia crer tal; mas como não ha morte sem achaque, poúzerão este, com pouco temor de Deos. O qual o povo creo, movido de piedade, por seus tra- balhos, e verem-no chegar aly desapossado e prezo e cor- rido, do qual não desculpou a Bernaldim de Souza, por querer ir tanto ao cabo com elle, podendo, com sua des- crição, dar algum talho, com que ambos ficarão melhor com Deos e com o povo. Mas parece que o fez, por acabar de mostrar aos de Maluco e aos capitães da carreira quão pouco podião; e isto, porque estranhou muito as differen- ças que teve Fernão de Souza com Jurdão de Freitas; e em parte não deve ter pouco merecimento, porque apenas houve capitão da fortaleza, que não fosse acanhado ou desobedecido por os da carreira, por qual os naturaes toma- vão escândalo, e os moradores escandalizados se passa vão ao bando contrario. 2 8 2
E deste costume tomou atrevimento Jorge de Souza, e desobedeceu a Bernaldim de Souza, e a falar-lhe algumas vezes palavras descortezes, que lhe elle sofreu, por sua grande brandura; mas no cabo, sobre certos requerimentos que lhe fez sobre a invernada ou vinda do galleão em que fora, em que se chamara capitão-mor, em // muitas partes [53 r.] dos requerimentos, lhe borrava o nome, e lhe punha a par de capitão, por antre linha, feitor, do qual nome se des- prezão, servindo-se do provimento delle, por o acabar de melhorar, o mandou vir perante sy, huma noite, por lhe não querer mandar hum papel que lhe mandava pedir, e o fez falar em pe, estando elle e outros assentados, e lhe mandou que falasse com o barrete na mão, e fe-lo assy. E ficando-lhe na cabeça huma carapucinha, lha man- dou tirar, e assy falou em pe, e sem barrete e sem carapuça. E no cabo, lhe mandou lançar um grilhão, em hum ba- luarte, que se veio, não como elle quiz, mas como o capitão mandou. Tirou também outro aleijão daquela terra, que o ho- mem que a ella hia, he como o esprito que vay e não torna, porque, sem peita ou grande aderência, não deixavão os capitães vir ninguém, havendo que sempre tinhão neces- sidade de gente, mas este não deixava de tirar a seu inte- rece, porque, com este medo, não ouzavão ir la os merca- dores, e fica vão elles mais senhores do cravo. Bernaldim de Souza nunca tolheu licença a ninguém, mas levemente a dava, e bem se vio, por a que deu no cerco, e dizia que em dar licença a todos, virião muitos, sem receio, e assy nunca lhe faltou gente. Tinha Bernaldim de Souza as partes que atraz disse, e assy era muito comporisso (sic). Foi sua vinda muito chorada e sentida, assy de portuguezes como dos mouros; [53 v.j mas todas estas , que nelle havia, // por as quaes era amado e avorrecido, pode ser que serão julgados a revez, 283
na outra vida, aonde elle e D. Rodrigo estão, ambos sem confissão, com os quaes Nosso Senhor, por quem he, usara sua misericórdia e com nosco. Amen. £54 r.] // SEGUNDA PARTE DESTA HISTORIA Que tem dez capítulos, que tractão do nome de Maluco, e da cantidade das ilhas que dão cravo, e de algumas propriedades que ha nellas, e de muitas diversidades de couzas que tem, e assy do que ha em outras, e de algumas maravilhas que são acontecidas no Moro. CAPITULO i.° (51) Que trata do nome de Maluco e da condição dos naturaes, e dalguns costumes que tem. Maluco he nome proprio, que comprehende em sy certa cantidade, e comercio de mar, e ilhas, a que os naturaes não sabem dar cantidade. Mas o que per rezão alcancei, começa do fim das ilhas e reyno de Loloda, que he junto dagoa Moroutia, e acaba em Obe e Beleato, que he o fim do reyno de Bachão, que podem ser quarenta e cinco legoas, dum estremo ao outro, entre os quaes estão todas as ilhas do cravo. E acho ser assy, porque do reyno de Loloda para £54 v.] diante, ao norte, se chama Moro, que he / / outro arcepe- (51) Cf. Texto II, Part. 1.», Caps. II e III. Pelo confronto dos dois Textos, vê-se bem que na descrição dos usos e costumes dos molo- quenses o Texto II é muito mais rico de informações, notando-se. por isso. muita diferença de um para o outro. 284
lago de ilhas. De Billato para sul, onde esta Banda, se chama Amboyno, e outros tem que todos estes arcepellagos são sugeitos ao mesmo Maluco, e outros que somente se entende pelas quatro ilhas principaes do cravo, que são Ternate, Tidore, Moutel e Maquiem, que he, da primeira á derradeira, oito legoas, e são todas mui altas e seguidas para o ceo, e por ordem, ao longe de outra ilha grande, a que chamão Batochim, que quere tanto dizer como terra fertile, a qual tera, pela estimativa dalguns, de cento cin- coenta lugares, corrida por huma e outra costa. Maluco, pela lingoa da terra, se pronuncia Moulou, o qual nome nos o propuzemos falsamente a ilha em que esta a nossa fortaleza, e assy chamamos rey de Maluco ao senhor delia, ainda que, com alguma aparência, pudésse- mos assim chamar, por ser senhor da ilha de Ternate, que he melhor e maior que todas, e de Moquel (sic) e Maquiem, que são todas ilhas do cravo, e doutras duas ilhas, chama- das Moutara, Eyre, que estão juntas ao Ternate, e assy he senhor de mais terras que tem os mais reis, maiormente por ter a nossa fortaleza na sua ilha. Elie se chama propriamente rey de Ternate, porque a sua cidade, onde mora e esta a nossa fortaleza, chamada S. João de Ternate, se chama Ternate, e por este nome se nomea a ilha, sendo o seu proprio Gape, tomando signi- ficado do fogo que nella ha; e da mesma maneira, as mais ilhas tem nome principal, // como he a ilha de Tidore, [55 r.j que se pronuncia Todore, sendo o nome da ilha Naque, a qual esta hum quarto de legoa da de Ternate, e duma banda esta hum ilhéu, chamado Pulo-Cavale e da outra o Moitara, que he de Ternate. A gente destas ilhas guardão a seta mahometica, a qual tomarão, pouco tempo antes que la fossem os portuguezes. São mui robustos e fortes, usão de furtar, a torto e a direito, aos visinhos das outras ilhas, aos quaes vão com suas ar- 255
madas e sab color de amizade; recebem o comer que lhe dão, e no melhor delle lanção a rede e tomão os que podem, e assy os embarcão, donde resgatão os que não podem tra- zer, e os mais repartem, guardando para o rey e para o regedor do seu lugar; e o que fica, repartem entre sy os do baileo, dando a qualquer remeiro, que fez preza, hum pano, que vale duas tangas, por cada cabeça, e os que não tomarão, ficão sem nada. São mui cruéis na guerra; nenhuma piedade os faz com- padecer, nem fazem excepção de pessoas, porque assy matão aos pays e mays e filhos, como a quaisquer dos outros contrários. Tem muitos costumos iníquos, por onde ficão muitos captivos dos outros, como he, criando algum orfão, fica por isso seu captivo. E assim outra pessoa mizeravel, fur- tando alguma couza ou fazendo alguma offensa a alguns seus principaes, fica seu captivo. Sobindo-se algum em lugar mais alto que o rey, fica seu captivo; fazendo-se alguma mulher christã, o marido v.] a vende pelo que deu //a seu pay ou parente, por ella; mas esta ley lhe não consentem ja os portuguezes. Avorrecem muito o peccado de sodomia, e tanto que tenho que nunca entre elles aconteceu a mão, e usão muito o do incesto, chegando a irmãs e as mãys. Uzão muito comparações no seu falar, por onde se conta, entre elles, que praticando-se entre sy, tomarem-nos a fortaleza, fizera o Çamarao huma covazinha na praia, com huma casca de coco, e tirava agoa do mar e botava-a aly dentro. E perguntado por alguns que para que fazia aquillo, respondeu que queria enserar o mar de dentro do recife, naquelle buraco. Zombando os outros, disserão que não podia ser, com tão pequena vazilha, e em tão pequeno lugar, botar tanta agoa; mas pois assy o queria, que tapasse o recife da outra 286
banda, porque não entrasse o mar, e que então gastaria a agoa, que ficasse dentro. Ao que respondeu, que daquella mesma maneira o fi- zessem, com a morte dos portuguezes e tomada de sua fortaleza, tapando-lhes todo o mar, que não podessem na- vegar, e então secarião aquelles poucos que alli estavão, porque lhes não aproveitava mata-los, pois havião de vir outros muitos. E assy, dizem que se desfez o conselho. Usão também os principaes derivar vocábulos, pelo que, zombando, huma vez, hum soldado, com hum irmão de el-rey de Tidore, sobre o amor que tinha aos catelhanos, e como sempre levavão a peior dos portuguezes, respondeu o negro que, se o Emperador mandara hum bom // Lopes, [56 r como mandou hum ruim Lopes, que não tivéramos tanto de que nos louvar, nem elles de que se queixar. Usão na guerra grandes gritas, e pellejão tanto com geitos do rosto, e estalos na boca, e saltos e voltas, como com a espada, e quanto cada hum se faz mais feio, tanto he mais temido; e assy hão medo dos portuguezes, por cauza das barbas e armas, maiormente se vão encaruiça- dos (52) da polvora pelo resto. São grandes comedores e bebedores na terra, e muy austinentes no mar, no qual comem, em quadrilhas, certos bocados, igualmente com grã abstinência. Quando lhe falta agoa, bebem da salgada, aguada com hum sumo de limão, como zamboas, os quaes levão para isso, e assy comem peixe cru, bem lavado na agoa com pimenta e sal, e com sumo do mesmo limão; em seu falar usão ferocidade. São mui luxuriozos, e assy ellas, polo conseguinte. Não estranhão casar com mulheres pubricas, e os filhos das mais honradas herdão oS morgados e reynos. (52) Assim parece estar escrito; julgamos, porém, tratar-se da palavra encarvoiçados ou encarvoejados. 287
No assentar e andar huns com os outros tem muita cortezia, porque o mais honrado ha-de ir adiante, e o outro ha-de seguir, e assy por a mesma ordem, se não são muitos, porque vão hum ante outro. Tem tamanho estromento nisto, que, sendo ahy cazado hum regedor de hum lugar, com huma mulher que tinha hum filho de Quechil Daroes, que foy regedor e rey da- quella terra, o moço acompanhava o padrasto por onde v.] quer que hia, hindo sempre diante, e o padrasto de traz, ,/ / por ser menos honrado que o moço. ,4s mulheres são boas para escravas, porque usão ser- vir, e são muito maviozas, e são geralmente baças e bem proporcionadas. E ha entre ellas muitas, muy alvas, e são muito graciozas na fala. Cazão por preço que os maridos dão por ellas a seus pays, o qual lhe tornão, se as botão fora, e se se ellas saem delles, perdem-no. Os adultérios satisfazem-se com fato, do qual se da a maior parte ao rey. Agora costumão alguns matar por isso, tomando o exempro dos portuguezes. Todos os seus costumes se guardão, se a força dos maio- res os não corrompem; os quaes, por a maior parte, fazem o que querem. São pacíficos huns com os outros; não ha entre elles brigas particulares, salvo dalgumas palavras, lugares com lugares, as vezes huns bandos, dos quaes sahe melhor o rey, que os deixa acender, para lhe pagarem a pena. São todos obrigados a servirem os regedores dos lugares, ou dos bayros, segundo são repartidos os regedores; ser- vem aos reys, sem nenhumas partes haverem premio, salvo carpinteiro, ao fazer das coro-coras, aos quaes pagão muito mal, por isso tem liberdade de tomarem o comer e beber necessário aonde o acharem, sem pena alguma, nem lhe poderem ir a mão. São obrigados ter todos os lugares tanta cantidade de 288
coro-coras ou tamanho, como tem gente, e se embarca cada hum em suas armadas e mantimento, e se vão as prezas. O ouvidor, entre elles, he a terceira pessoa, depois do rey; ouve e despacha sem escrivão, // a quem lhe mais [57 rj da, porque das partes condenadas tem huma certa quanti- dade de pedido. Julga por razão e costume, e quando ha algum cazo grave ou novo, chama os mais velhos; e, postos em baleo, o determinão. Appellão para o rey, o qual julga, segundo lhe vem a vontade; quazi todas as culpas pagão com o fato, e em algum cazo, que algum ha-de morrer, entregão-no aos reys e parentes, e estes o enfeitão e, com os cacizes que lhe hão-de encomendar a alma, o levão em hum paró ao mar largo, que não possão torna a terra, e ali o botão, e, com as mãos atadas atraz, e huma boa pedra aos pés, o mandão ao fundo, aonde fica, e elles se tornão a fazer-lhe suas obsequias, e a comer-lhe o fato, se lho rey não levou. Nas cauzas grandes, quando algum se quer purgar por juramento, dando-lhe certa quantidade de barro seco. que elles comem muitas vezes, por passarem tempo; e se aquella vez o come, ábrem-lhe na palma da mão, e tirão-lhe san- gue, e dão-lhe a beber; fica absoluto, se o rey o não toma por captivo. E se não come a pedra, o que muitas vezes acontece, por a sequidão do papo, porque elle enjuga, e seca muito, maiormente com o medo, fica condenado com o fato, se o tem, e se não, com a vida, e as vezes com tudo o não paga, segundo a pessoa a quem he feita a offensa ou odio, que tem o rey ou algum seu parente, porque as suas justiças não basta não serem justas, mas fazem-se injustamente. Tãobem costumão outro juramento, que he meterem-se os// dous, autor e reo, debaixo dagoa juntamente, e o [57 T.] que primeiro sahe, he culpado. Tãobem tem suas provas de testemunhas. Algumas ve- 280 1NSULÍKD1A, 111 — 19
zes condenão algum que morra, ou o tomão de pressa, e costumão ata-los a hum pao, e os irmãos ou filhos, e paren- tes do rey, se desenfadão com sua morte, tirando-lhe a espingarda como a barreira, ou corta hum delles dum golpe, e, se o leva todo, fica tido por valente e de forças; de maneira que estes são os algozes; e isto costumão.. sem embargo de vergonha que disto lhe fazem os portuguezes. Tem grande credito em bruxos a que chamão Çuan- gues, aos quaes tem tamanho odio, que qualquer do povo os pode matar, com somente dizer hum enfermo, por so- nhar, ou por odio, ou por outra qualquer malícia, que algum o come por dentro; de maneira que tem o demonio ordenado que apenas morra hum, que não matem outro. E desta fe que tem, tomão muitos ocazião de vingar suas injurias porque ninguém cre que morre algum sem culpa, e se o doente he mesquinho e o sangue he mais poderozo, livra-se por o juramento da pedra, e coitado do doente, ou seu(s) parentes, se a engolle. De maneira que sobre esta openião ha grandes estremos, porque sei em Tidor matarem o ouvidor com seus irmãos e parentes, perto de vinte pessoas dos principaes mandarins da terra, porque, adoecendo e morrendo hum mancebo, sobrinho do rey, disserão os parentes que fora aquella [58 r.] morte, porque o ouvidor passava por detraz delle, / / fa- zendo na praia suas necessidades, em figura de cão; mas a verdade era odio, o qual não podião vingar por outra via. E assim mo contou hum mandarim principal de Jeilolo, que o rey velho, puy do disbaratado, mandara matar a toda huma parenteira, sem ficar viva pessoa, em hum dia, por serem Çuangues, e que somarão todos os mortos cento e trinta e seis pessoas, por as quaes ficava o lugar mui des- povoado; e pode ser que seria isto, por haver antre elles alguns poderozos de que tivesse suspeita, e com aquelle achaque os mataria, por não poder doutra maneira. 2 ç o
CAPITULO 2.» (53) De quantos reys ha no Arcepélago de Maluco, e de como são servidos, e de alguns bens que ha no de Tidore. Antigamente houve cinco reys no Arcepélago de Ma- luco, e o primeiro dizem que foi o de Loloda, que são humas ilhas, e terá treze ou quatorze legoas da de Ternate. Este perdeu o jReyno, por guerras que com elle teverão os outros, por as quaes ficou sujeito e vassallo de Ternate, com titulo de Çangaje, que he quazi como rey, e pode trazer as mesmas insígnias; e assy lhe fazem os seus a çutnbaya. Foi o segundo na antiguidade o de Bachão, do qual, ao // de Loloda, pode haver trinta e cinco legoas, dentro [58 v.] das quaes he o Arepelago chamado Malóco, aonde estão as ilhas do cravo, das quaes he o rey de Ternate, que he senhor de trez, e o de Tidore d'uma. A mais o rey de Jeilolo, que esta cinco legoas de Ter- nate, em huma enseada, na ilha grande, chamada Bato- -China; este não tem cravo, nem titulo de rey, por o tirar Bernaldim de Souza, como esta dito, ainda que dizem que o tornou D. Duarte a fazer entitular, por o ajudar na guerra que teve com os Malucos, assy, e da maneira que o fez Tristão de Ataide a seu pay, mas foi este mais leal nella. Estes reys não tem proprio, e por isso tem tudo; quando ha novidade de cravo, os que o tem, lanção a cada lugar o que lhe vem a vontade, depois, no pezo lhe levão outro tanto furtado; tem lugares certos, obrigados a lhe dar de comer, e bever; quando dão algum banquete, todos lhe acodem com seu quinhão, e tudo se entrega a hum principal, (53) Cf. Texto II, Part, i.», Cap. II, onde se encontram algumas notas do presente capítulo. No que respeita aos elogios do rei das Molucas, estes foram eliminados no Texto II. 2 Ç I
chamado por o officio Pynate, como veador; o qual man- tém o rey desta maneira, e se lhe falta, poem as linhas de caza. E assy como algum empobrece, faz outros. Estes tem grandes poderes e honras no Reyno. Quando el-rey caza algum filho ou filha, cada lugar dá seu presente, assy para a comida, como para o dote, o qual lhe fica com o que lhe dão os genros por as filhas, porque he seu costume comprarem as mulheres, mas sempre elles [59 r.] dão seus enxó // vaes. Lanção muitas vezes peitas por os povos, com acha- ques de suas necessidades. São todos obrigados servi-los em armadas, em todo o mais, sem por isso pagarem nem fazerem merce a ninguém; mas, quando algum faz alguma boa sorte, mudão-lhe o nome em outro maior, que antre elles tem seus significados; e assy fica hum tido por caval- leiro e honrado. Tem cada rey as mulheres que pode, as quaes se man- tém a custa de seus pays e parentes, mas os maridos lhe fazem algumas merces, as quaes não bastão para mostarda. Quando algum navega para fora, e passa por alguns lugares ou alheios, hão-lhe de dar de comer, e huma peça, e moça para de noite, se acerta de dormir em terra. Nos banquetes que dão, são servidos dos parentes e dos mais honrados da terra, e ha-de sempre estar falando hum dos principaes, que tenha boa voz, as proezas e no- brezas do rey ou reys que estão prezentes, as quaes estão ouvindo os circunstantes muito attentos, ate que sahem alguns ao campo, muito galantes, a maneira de guerra, com sua espada e rodella e carapução de feltro vermelho na cabeça, cheio de penachos, e o vestido melhor que po- dem trazer; e dando certas carreiras, e saltos, e brincos, e voltas, com grandes gritos de rosto e estallos de boca, remes- são certos talhos contra alguns inimigos, se os tem; e assy se sahem cada hum do campo e entra outro, e ha antre 2 ç 2
elles muitos mui gabados naquella arte de ayrozes e // [59v.] galantes, e tudo fazem ao som de huns grandes tabaques e sinos, que tangem. E como o rey ou reys vão acabando de comer, sahe-se hum a hum, e vão ao campo fazer o mesmo, e o povo lhes da grandes gritos, e emquanto fazem sua obra, a qual se acaba com a noite, começando sempre a bespera. Chamão a esta festa Carrachez, e dizem que tomarão aquella inven- ção de geitos duns papagayos brancos, que la há, çaga- tuas (54). Usão muito, assy os reys, como outras pessoas parti- culares, comidas pubricas, nas quaes tirão alguns dos outros o que dezejão saber; e desta maneira fazem sempre seus conselhos, depois de fartos, os quaes poem por obra mui de vagar, e tanto que dizem alguns que sua verdade he perdida, por amor dos portuguezes; porque o seu ama- nhã era quatro ou cinco mezes, e agora que era de hum mez e de dous. Todos os reys são pescadores, e sabem remar, e no mar tem todos seus passa-tempos; os males pubricos, ou parti- culares, lhe satisfazem com dadivas. Finalmente são como deuzes, porque tudo o que que- rem, fazem, e muitos na morte se encomendão a elles e crem delles muitas abuzões, como dizem que o ilheo de Meitara, que sera de huma legoa em roda, era cabeça ou ponta da ilha de Ternate, e que hum rey da mesma ilha lhe dera hum golpe por riba, e lhe cortara a cabeça, e a botara aly, onde agora apparece. E assy tinhão que, quando o mar se em- bravecia, era por o rey estar menincorico; e para que se // [«jr.] abaixasse, e pudessem pescar, lhe acudião com peitas, e (54) Do malaio Kakatwa, pássaro branco, espécie de papagaio, com uma popa, que abre para a frente, em leque. Estes pássaros andam aos bandos e, quando domesticados, conseguem articular palavras, ainda que não tanto como os papagaios. 29 3
assy, usando da opportunidade, se fazia menincorico ao som do vento, para pescar dos seus, pois elles não podião pescar do mar. Tem outras muitas abuzões, as quaes a conversação . da zombaria portugueza lhes vai tirando. Costumão os reys algumas cores e trajos, assy de suas pessoas como de seus navios, que não são licitas senão aos Çangajes. Paraantre elles todos estão sentados ou em co- cras, por mais honrados que sejão; e quando fala com algum, ha-de-lhe sempre estar fazendo a çumbaya, com os olhos no chão, e quando o mandão, ha-de ir em cocras, para traz ou de ilharga, bom espaço, de maneira que se não ha-de endireitar, nem virar a trazeira. E como assy he affastado, ha-de ir correndo a redea solta, ate acabar sua obra. Se algum se sobe em alguma arvore, ou em ponto onde esta mais alto que o rey, a sua vista, fica captivo seu. Quando algum vai por mar ou por terra, todos os que o vem se hão-de assentar em cocras, e assy como vay olhando, lhe vão fazendo a çumbayas. Sempre trazem mulheres consigo, que lhes servem de trazer a espada e o betre, e se podem haver alguma que seja muito corcovada, folgão muito com ella, por isso, porque folgão muito de novidades; mas isto, e trazerem mulheres e filhos as costas, ate a idade de doze annos, vão ja deixando de acostumar, por amor dos amores portu- guezes. Antre todos estes reys, ao de Ternate he el-rey, nosso [60 v.] senhor, em muita obrigação, porque seu pay // mandou chamar os portuguezes e lhes deu o sitio da fortaleza, para a fazerem, e assy elle, como os seus descendentes, pelleja- rão sempre por sua defenção contra os reys visinhos e pa- rentes, e castelhanos. E se matarão a Gonçalo Pereira, sendo capitão delia, 294.
foi por vingarem a morte de Quechil Daroez, que, antes disso, D. Jorge de Menezes degollou, por mexericos, não guardando ordem nem regra, nem lhe alembrando os muitos servissos e amizades que tinha feito a fortaleza e portugue- zes; e o que tomarão por mayor enjuria foi degollarem-no, havendo que lhe fazião officio de porco, e não de forca, que era de homens, mas antão não pellejarão contra a for- taleza, que logo assentarão pazes. E a guerra que tiverão com Tristão de Ataide foi a cauza delia, prender-lhe o seu rey, chamado Tabarija, que depois foi D. Manoel, e sua mãi e padrasto e outros muitos mandarins principais da terra; os quaes teve, por muito tempo, muito mal tratados, debaixo da torre; e estando assy, lhe fez rey e regedor novo a este que agora rege e ao Çamarao. E ajuntando estes aggravos, com lhe ter feito muitas forças, assy de lançar autos de roupas, em que não con- sentirão, como em lhe não dar liberdade que vendessem o seu cravo por milhor preço aos portuguezes; pelo qual se alevantarão e fizerão dezoito mezes guerra a fortaleza, nos quaes esteve sempre el-rey e o Çamarao dentro delia, de- fendendo-a e pellejando sempre contra os seus, ate ir o Capitão Antonio Galvão que, com pellejar, passear e filo- sophar, poz tudo em paz; de // maneira que el-rey sérvio sempre com sua pessoa, armada e gente, muito bem; e a custa sua e dos seus. E se deixou de dar armada a D. Jorge, para os caste- lhanos, foi por a rezão que esta dita na primeira parte deste livro, porque naquella fortaleza não ha fustas nem caturas; e da suas coro-coras, de tudo aparelhadas, para toas da entrada e sahida das naus, e para reguardos de Amboyno, Banda, e outras muitas que lhe pedem os capi- tães, para seus apaniguaios hirem as prezas e a buscar sua vida, os quaes lhe tem feito muitos lugares de Amboyno 295
christãos, e, finalmente, toda a christandade das ilhas he feita e muitas vezes socorrida com suas armas e coro-coras. E huma vez foi em pessoa com Francisco Lopes de Souza, sendo capitão, ao Moro, com grande armada, a apartar os christãos de hum lugar de mouros e gentios de el-rey de Tidore, chamado Çanapho, em que teve muito trabalho e correu muito risco, por o grande tumulto que houve em apartar mulheres dos maridos, e os maridos das mulheres, e os pays dos filhos, e os filhos dos pays. Nem os mesmos governadores lhe lembra que tem o mouro por ley perseguir christãos, e não faze-los, e que [6i v.] lhe não dão nada pelo serviço e trabalho // que nisso poem, nem que não quer el-rey, nosso senhor, que o sirvão sem paga, nem ha no seu reyno algum portuguez, que o faça, sem algum interesse para sy, ou para seus filhos; nem menos trazem a memoria que, muitas vezes, quer o gover- nador ir a armada ou mandar, e com dinheiro na mão, se não querem os bombardeiros e soldados e officiaes embar- car, quanto mais havendo de ir de graça e contra sua mesma ley, terra e senhorios, dos quaes fica perdendo não tão somente a vassalagem, mas o interesse que daly tem de suas rendas, e tiranias, pelo qual diz muitas vezes, que lhe não peza, senão porque não pagão nada a el-rey, seu senhor, nem a igreja, nem a elle, nem menos são christãos, porque com qualquer destas folgarão muito. E assy he boa testemunha do que digo a morte do Padre Áffonso de Castro, da Companhia de Jesus, que hindo ao Moro em huma coro-cora, e vindo, achou novas ter D. Duarte de Sá (sic) prezo a el-rey e a hum seu irmão, e mãy, e a terra alevantada, pelo qual os que o trazião o amarar- rão, e com muitos oprobrios, com alguns escravos que trazia, o entregarão aos capitães do alevantamento, os quaes o matarão. Tem este mesmo rey feitas muitas couzas por nos con- çó
tra os seus: tez tomar a moeda de bassarucos, que no prin- cipio foi ma de receber, e assy fez fazer cravo de cabeça, em que todo seu povo recebeu grande perda, assy pelo trabalho que tem no colher, como por perderem o bastão. Tem dado aos portuguezes terras para hortas, e palmares // [62 r.i de que vivem, e assy os favorecem muito, assim no tracta- mento das pessoas e palavras, como em seus casamentos e espozorios. O mais do tempo se veste com seus filhos, e mulheres principaes, á portugueza, e das portas para dentro o comer, cama e meza; e da mesma maneira, he muito afeiçoado a politica portugueza. Diz que deixa de ser christão, porque vè geralmente usar mal, os christãos, de sua ley, mas a verdade será por se não tirar de seus vicios. Sofre muitos desgostos aos portuguezes e a seus escra- vos, por muitas sem-rezões, que fazem aos seus, e maior- mente dos capitães, de quem recebe muitas avexações, que nascem do enteresse; pelos quaes o tem prezo duas vezes, porque, como elle e os outros são malquistos, por cauza de suas tiranias, por não terem proprio e serem os seus amigos de necessidades, não faltão entre elles mexericos, os quaes se dissimularião, como se dissimulão outras muitas couzas, se o interesse não guiasse a dança; pelo que se devia bem de tentar, porque, em terra tão afastada, e em que se gastão vinte e dous mezes de caminho, e que não tem fortaleza, senão huma que parece cerca de cochineas, nem munições nem gente, senão muito pouca, e pobre, havia de haver mais resguardo; porque, por derradeiro, he openião de muitos, que o mesmo rey he toda a nossa força. E se agora, deste cerco, se não perdeo a fortaleza, depois da misericór- dia de Nosso Senhor, foi estar o rey e seu irmão prezos, pollo qual ficarão os seus sem cabeça, e a huns não parecia bem a guerra, e outros se apartavão // delia, por onde teve [62*.] 297
lugar o Çangaje de Jeilolo de ajudar a fortaleza, com man- timentos que lhe vendia, por mui grande preço, e pollo interesse de o tornarem a restaurar e intitular no titulo de rey, que tinha perdido, e de lhe alevantarem o tributo que pagava a fortaleza. He este rey muy pouco bellicoso e mui amigo de re- pouzo, e de boa vida, e mui brando e conversavel, e pouco constante, porque muda a condição, tomando a forma da dos capitães, e assy como os vè ser, assi se faz. Foi prezo duas vezes: a primeira, por Jurdão de Frei- tas, como está dito, e a segunda por D. Duarte de Sá (síc) , por sospeitas que teve que o queria matar, e alevantar-se, pollo qual diz que o teve em dous griloens, com huma cor- rente prezo a huma camara de bombarda, e com algumas nas mãos, debaxo da torre, com hum seu irmão e mãy, pelo qual se alevantou a terra, e tomarão huma fusta, com vinte e tantos portuguezes e outros muitos; depois, pelo tempo, com setecentos e tantos escravos, e as fazendas todas perdidas, por onde ficarão mui pobres, e assi mesmo D. Duarte Deça, o qual, pelo desengano da terra, prenderão os moradores, e fizerão capitão a Antonio Pereira, do Porto, e soltarão el-rey, e foi logo feita a paz, segundo me deu relação Braz de Araujo, homem honrado e de credito, que de la veio. A este rey nunca foi feita merce, salvo huma guarni- ção de bastarda de veludo verde, para hum sendeiro, que lhe mandou Francisco Barreto, e hum arnez muito rico, r.] que lhe mandou el-rey, / / nosso senhor, que esta em gloria ; o qual em Maluco houverão os padres da Companhia de Jesus, e o mandarão a Japão, em satisfação das coro-coras que lhe dá para o Moro e Amboyno, do que se escandalizou muito o rey, dizendo que os quizera, para sua honra, pô-las na sua mesquita, para verem os seus como el-rey, seu senhor, se lembrava de seus servissos, porque muitas 2 ç 8
vezes lhe davão remoques, por lhe não verem nenhuma satisfação delles. Fazem-se-lhe, cada dia, muitos parentes, vassallos, christãos, sem por isso fazer nenhum alvoroço nem mostrar escândalo, mas antes lhe faz, depois, mais honra. He muito discreto, e fala muito bem portuguez, e por estas partes que tem, lhe devião de dissimular e emendar seus erros, e satisfazer-lhe em alguma maneira seus servis- sos, para exempro doutros, porque mui claro está que, em- quanto houver reys nas ilhas de Maluco, que não pode deixar de o haver nas suas, como se ja vio, por experiência, porque só por lhos outros não chamarem galinhas sem gallo, se hirão para elles. E ja que a este, que tendo todas estas partes, como me offereço provar aos que quizerem defender a nossa, não achão bem, dezejo saber quem esperão que o seja melhor? E que razão havera para que nenhum o seja, pois ve o galardão que derão a este, ao Çamarao e Quechil Daroes? Não trato da cauza desta prizão segunda, porque a não vi, mas sei que são os Malucos mui mentirozos, e vi hum mui principal, por ganhar graças em Balthasar Vellozo, sendo capitão, // dizer-lhe, em segredo, que tinha el-rey [63 v.] sessenta e tantas escadas postas em hum orvaçal, detraz da nossa povoação, para por no muro da fortaleza, e dan- do-me conta disso, rindo-me, e agastando-se elle, lhe disse que não podia ser, pois sem escadas podião fazer melhor seu feito, que com ellas; e o perssuadi que mandasse a isso hum homem de confiança, com o mesmo negro, e que lhe fazia bom, que havia ser mui grande mentira, como se logo vio, pela mesma experiência, escuzando-se o mesmo negro, que outro lhe dixera. E se disso e doutras novidades desta o capitão tomara testemunhos, seguro que lhe não faltarão de vista; mas como naquella terra ha pouca gente, e fraca, facilmente 2ÇQ
crem, e temem, e não se emendão de quantas falcidades tem visto, para darem disso confiança ao seu capitão, e para o não meterem em trabalhos, que com qualquer des- crição se puderão estorvar. Pelo qual torno a afirmar, que ninguém tomara a for- taleza de Jeilolo e Tidore, com tão pouco poder, como Bernaldim de Souza, porque se dera credito a mais pequena novidade com que lhe vierão, não na tomara, mas eu creio que os mais dos homens, que se temem do que lhe dizem, t64 r.i he polia culpa em que jazem. // CAPITULO 3.» (55) Da natureza do cravo, e da cantidade das ilhas que o dão, e da demarcação; e de como parece ser ella de el-rey, nosso senhor, e não dos castelhanos. Opinião he dos castelhanos que as ilhas do cravo lhes pertencem, e por cauza delias tem ja perdidas tres armadas, e para isso fazem, seus pilotos, que passe a linha equinocial por Jeilolo, para que, sendo assy, lhe fiquem as ilhas do cravo a banda do Sul, que he o seu termo, passando ella, na verdade, por as de Bachão, que são pouco mais de vinte legoas, da sua raya. E sendo assy, como he, ficão para a parte de Norte, por o qual a nossa de Ternate, que he a primeira, fica dezoito legoas da linha, que he hum grau em cada huma. A sua lingoa defferente, senão a Tidore, que he com a Ternate, como a castelhana e portugueza, e Maquiem, que tem tres lingoas; e como antre elles e nós ha huma (55) Cf. Texto II, Part. 1.», Cap. VII. Neste Texto faltam os parágrafos que se referem à questão, entre portugueses e espanhóis, sobre a posse das Molucas. 300
certa maneira de odio, que procede de cada parte, o qual força cada hum fazer boa sua openião, de que nasce muitas porfias, antre huns e outros, e ainda que estes desconcertos tragão nascimento das antigas dicordias de nossos reynos, ja que a cauza destas cessou, parecia justo e conveniente, acabarem ellas em Maluco, ao menos por serem partes tão remotas de seu e nosso nascimen //to, porque, quando se [64 v.] lá encontrão, parece a cada hum que veo do outro mundo, mas nem por isso deixão de porfiar pertencer-lhe o senho- rio do cravo, pondo a linha por Jeilolo, como dixe. E sendo assym, deve de passar por cima dum ilheo pegado com Ternate, o qual ficará, por esta conta de lá, hum quarto de legoa, sem outras mais razões que ha, e muitos podem dar parecere falso. Porque, propriamente, todo o lugar situado debaxo da linha, he muito doentio, e a experiência o tem bem mostrado por muitas partes povoadas de baxo delia, e Jeilolo não he muito doentio, e seria muito são, se estivesse a fortaleza fora de hum estreito e paul que tem, porque toda a sua praia e os luga- res visinhos o são. O mesmo Yres e Ternate são muito sadios em cabo, e tanto que não sei outra terra na India que mais temperada seja; e o contrario lhe provamos por Bachão, que são em si muitas ilhas, e todas ellas mui doentias; e, por essa cauza, quazi todas despovoadas, e os lugares aonde os ha, de muito pouca gente, por a grande quentura do Sol, são geralmente mais pretos que os Temates, Tidores, e Jeilolos. Dizem mais que lhe pertencem as ilhas, porque o nome delas, na soada, concerta mais com a lingoa castelhana, que com a portugueza, como Jeilolo, Ternate, Tidore, Mou- tel e Maquiem, mas esta abuzão nasse do engano do amor que lhe tem e da grande afeição, e não por soarem melhor no castelhano que //no portuguez, nem os naturaes toma- (65r.j rem melhor a lingoa castelhana que a portugueza. 301
E a esta segunda e boa razão damos outra mais apa- rente, ainda que em alguma parte falsa, porque dizemos que mais proprio he serem as ilhas nossas, porque o nosso rey tem por armas cinco quinas, e que o cravo tem cinco pontas, e assy he verdade; e que as ilhas que o dão são cinco, o que he falso, se não fazemos conta summariamente, porque Ternate, Tidore, Moutel e Maquiem, são quatro, que dão o principal cravo, e Bachão que he a quinta, e que fazem huma so por ser dum rey, na verdade são mui- tas, que todas se correm por rios, e braços de mar, e em todas ha cravo, e assy destas muitas se ajunta a cantidade de quatrocentos ou quinhentos bares, a todo o mais, que he muito pouco, de comparação de cada huma das outras. Também he falso, se particularmente dizemos que nes- tas cinco ilhas somente ha cravo, porque na Gomoconora e em Jeilolo e no ylheo de Yres e no de Mitara e em Pullo- -Cavalle o ha; mas não he tanto de que se faça conta; e assy em outra de Amboyno, chamada Lacide; o que os jaós vão buscar a troco de artelharia, e munições. E com achaque daquelle, lhe levão de Bachão outro, e assy levão sempre, per todo, cem bares, o qual he mais miúdo que o de Maluco. E não faço tão pouco com falar nestas ninharias, pois por ellas quiz provar hum pregador galego no pulpeto, pertencerem as ilhas do cravo a el-rey, nosso senhor. [65 v.] Em todas ellas se ajuntará, quando ha // grande novi- dade, passante de cinco mil bares de cravo (56); e alguns annos houve, que dizem que chegarão a seis mil. Tem o bar quatro quintaes e meo e dezanove arrates. .4s novidades não tem regra, nem nenhuma pessoa com verdade lha pode dar, porque no tempo passado havia cravo hum anno e outro não; em o que chuvia, havia (56) Seis mil bares, afirma-se no Texto II. 302
muito, e o de nada, nada. Acabou-se esta ordem na grande que houve o anno que para la foi Fernão de Souza, da qual, a de Bernaldim de Souza, houve cinco annos sem haver novidade, salvo algum pouco, que se ajuntava por todos os craveiros. E desta, a de D. Duarte Deça, que se perdeu por cauza da guerra, houve outros cinco annos, ou seis annos, de vagante, nos quaes sempre houve cravo para carregar huma nau pequena. As arvores que o dão são muito altas e forte a madeira delias; na cor do pao na groussura e na folha a loureiro, a qual nem o pao cherão, nem queimão; não fazem as arvores grossos ramos, mas meudos e muitos nascem no meio da terra; não se dão no mui alto, nem no muy baixo. São arvores do proprio mato, produzem-se da madeira que cae, a qual se faz do cravo maduro, que fica, e se gera aquelle caroço; dizem muitos que tãobem nascem da pro- pria natureza da terra. O signal de haver cravo he quando nasce muita fruta, inaiormente huma a que chamão lançans, que lhe he mui anexa. Convém haver sol em seu nascimento, porque a chuiva viceja e se faz em folha; nasce nas pontas dos ra- mos; no principio he verde, e em maduro, fasse // roxo, tar.j e cheira muito na arvore a maçans maduras, e fazem-lhe terreiro, como para azeitona. Ali cae algum, o outro co- lhem-no á mão, em cima. E como as arvores são mui altas, e os ramos delgados, levão muito trabalho, e correm muito risco, porque morrem muitos de quedas que dão. Enxu- gam-no ao sol, se o ha, e se não, ao fumo, e fica muito preto, e de muito torna-se pouco. Nas ilhas de Bachão cortão os ramos todos, com cutel- los, ao colher, e se assy o não fazem, não dão tão azinha novidade, porque de ramo cortado arrebentão olhos que o dão . 30 3
A boa novidade nasce do fim de Fevereiro ate meado de Abril, e colhe-se de Agosto ate Novembro, e ás vezes, em algumas partes, mais tarde, segundo os postos. Estas quatro ilhas, que o dão, são quazi redondas, e mui altas, e a de Tidore he mui aguda acima, e o cravo nasce a meio delias, e ás arvores delle não fazem nenhuma bem- feituria, mais que alimpar o terreiro, e não procurão de o semear, nem prantar, e tudo deixão á natureza da terra, a qual lhes da o comer e o beber, e muitas fruitas, de que muitos se mantém; de maneira que, cada hum, na sua ilha, tem o necessário para a vida, sem lhe ir de fora, por- que os panos e mercadorias bem os podem escuzar, porque [66 v.] fazem muitos na terra dalgodão que nella há. // CAPITULO 4.0 (57) Do sitio da nossa fortaleza, e de algumas propriedades da terra, e do fogo que ha nella. A nossa fortaleza esta situada nesta ilha de Ternate, junto da cidade dos mouros, e a nossa povoação e a sua estão quazi juntas; as quaes, devide a feição das cazas, e hum castello quadrado posto na praya sobre piçarra. Bate o mar nella, tem dous baluartes; hum, em hum canto sobre o mar, que fez D. Jorge de Castro; e o outro, em outro canto, os quaes defendem os outros dous cantos que ficão. Tem huma pequena torre a fortaleza. Tem o rosto ao levante; ella e a povoação nossa e a dos mouros esta cercada dum forte recife, dentro do qual, pegado com o muro, está hum poço em que podem estar caravellas, e galles, e fustas, mas não podem entrar, senão (57) Cf. Texto II, Part. 1.», Cap. IX. 304.
do preamar, e descarregadas, por certas barras, feitas a mão; não se pode dar bateria do mar, fora do recife, por ser muito longe, e alcantilado, e o fundo de pedra, e o Norueste ser forte, e o Sul travessão, que são os contu- nuos (sic) ventos que cursão nos dous tempos do anno. Este recife he de pedra e nasce e cresce; he branca e mole; gera-se de limos, e fasse como coral, e depois, em pedra, e boa para cal. Tem grandes penedos e por tal ordem que parece edi- fício humano, / / para defensão de sitio, o qual he muito [67 sadio, e o mar muy temperado. Tem esta ilha, no mais alto delia, huma cova de estra- nha largura, e fundura, dentro da qual esta huma fonte de agoa que cae sobre grande quantidade de area, que fervem e fazem ondas como dagoa, por cauza do grande fogo que anda de baxo, o qual sempre bota fumo mui espesso, e cazi palpavel, e mui fedorento de fedores insofríveis; o que em baixo parece sera tamanho como huma eira, e para cima, vai largando como fonil, e no alto das bordas he tamanha a largura quanto hum homem enxerga outro, da outra banda, tamanho como hum menino. Todo aquelle sitio he occo por dentro, por cazo do fôgo que gasta por baixo, e a terra por cima abaixa, e ve-se por experiência, porque, por muitas partes delle, e muito longe, arrebenta fumo muito quente, quando a principal cova o bota, a qual arrebenta muitas vezes, com forte Ímpeto e tronido, que faz tremer a terra e bota mui grande e temeroza arvore de fumo, e em mui grande altura, que muitas vezes se ve por cima das nu vês. E quando elle aponta, e se começa de ver da fortaleza, por o oriente do monte, ja tem sahido mais de quinhentas braças, que pode haver-dali a baixo, ao que parece eira, afora o que vay daly para baixo. E com este fumo vem muitas pedras grandes e pequenas de fogo, que muitas 1NSULÍKDIA, III ■— 20 30 5
vezes se vem da fortaleza, e caem sobre o monte, e estas [67 v.] augmentão a matinada, dando nas outras // que estão no chão. E contão os velhos que virão cahir huma, tamanha como hum caixão, alem do recife, maz eu o não creo, por ser muito longe, bem que vi por experiência as maiores cahirem mais longe, mas todas cahião no sitio da cova. Com aquelle fumo vai grande somma daquella cinza que o faze parecer mais negro lá, qual quando torna a cahir ali, e a mais leve cahe mais longe, e muitas vezes sobre a fortaleza. O caminho do monte he mui áspero de subir; e a muitos passos compria dobrados pés e mãos; sera de duas legoas; em cima, no alto, faz muito frio e casi ensofrivel, porque qualha o comer. Esta junto do caminho huma fonte de muita agoa, e muito fria, e boa, a qual trazem os negros por canos de canas a caza del-rey, da qual se serve por ser mui boa, e por ter aquelle estado. Neste caminho ha muitos cana vieiras, mui grandes e altas, e grossas, e de muita copia de canas, e mui fortes; as quaes todas são cheas de agoa, de baxo ate cima, mui fria e singular, mas não he tão doce como a da lanha (58), sendo da mesma cor. Os canudos todos estão cheios e fechados sobre si; que- rem alguns, muito especulativos, dizer que aquella agoa não he propria, nascida com a cana, como he a da lanha e dão por razão que, quando nascem, vem com huma folha ao redor do canudo; e como a terra he húmida, e chove muito, correndo a agoa, enxe-se a folha, na qual se detem, e dali se coa dentro por os poros delia, e dali [68 r.] se enche o canudo; //a qual razão se deu já em Portugal, (58) Coco, ainda tenro. 506
sendo mui falsa, porque a folha cerca o nó, no qual se fez estreita, onde junta altura da grossura dum dedo, e para cima se aguda da propria feição que nassem as folhas as de Portugal. E se assy fosse, não encheria mais dentro do que he a largura da altura do dedo da folha, porque a agoa sobe outro tanto quanto desce, e mais não, e os canudos, sendo muito mais compridos que a folha toda, são cheios ate cima, por o qual sua razão he falsa; quanto mais que, se assi fosse, como todas as couzas com seu semelhante se conservão, assi com o contrario se corrompem, de maneira que, sendo a agoa da chuva, necessariamente apodreceria, a si, ou á cana, por algum tempo; e ella he muito melhor que a da fonte, e com esta amadurecem as canas, o se seção, segundo seu curso, sem apodrecer huma a outra. E assy mais, se a sua razão fosse certa, a agoa geral em todas as canas, e as castas delias, porque ha muitas e muito mais porosas, e outras mais delgadas, e que tem e nascem com as mesmas folhas, e não tem geleira de agoa, e as que as tem são muito grossas e fortes, e delias fazem tornos para navios, por sua fortidão, por onde esta mui claro a agoa naturalmente nascida naquella sorte de canas, como he a da lanha ou coca; destas ha muitas por todas as ilhas. // imv.i CAPITULO 5.0 (59) Das alimarias. bichos, peixes e aves que ha nestas ilhas de Maluco. Nesta ilha de Ternate, e em muitas das outras, ha mui- tos porcos bravos, conto os de Portugal, e dizem alguns (59) Cf. Texto II. Part. 1.*, Caps. IV e V. 307
que são da casta dos que la levarão os portuguezes, o que parece falso, porque em muitas ilhas e partes, onde elles nunca forão, os ha. Cação-nos os portugueses, e de sua carne fazem açou- gue, porque não ha outra nenhuma na terra, salvo cabras, ganinhas (stc) e outros porcos, que cada hum cria. Ha também muitas cobras, e de mui grande compri- mento e grossura, de vinte, ate vinte e cinco pés; não são daninhas nem venenosas; são mui fáceis de matar, ao menos, quando estão fartas. Servem-se muitos das pelles para cadeiras, porque são grossas, e largas, e fortes. Ha também huma casta de lagartos em huma alagoa, na ilha, que andão por as arvores, e, sem temor da gente, saltão nágoa; são de comprimento duma braça, porque tem rabo longo; tem o espinhaço mui alto e espinhozo, a feição da aza de morcego. Tãobem, por alguns rios, ha muitos lagartos dágoa, e matão gente, se estão em terra; guardão-se delles, por o fedor, que he muito grande, o que lhes procede somente da boca; tem duas, maior huma que a outra, e em cada 169 r.j huma boca, como alicate, // com certa maneira de dentes, com que quebrão huma fruta do mato, que tem huns caroços muito mais duros que de durarios, aos quaes co- mem a amêndoa que tem dentro, e fazem isto tão facil- mente como que quebrassem hum ovo. Mantem-se desta fruta e outra, e quando as ha, são muito gordos e gostozos, e muitos os querem antes que huma galinha, e ao menos valem mais. Ha outros muitos caranguejos, como os de Portugal, entre os quaes ha huma casta que se conhece por certo pello que tem nas costas, que, comido qualquer parte dum, mata dentro em vinte e quatro horas; e assy he muita refinada peçonha. Ha muitos bichos em todas as ilhas, a que chamão 308
cucos (sic) (6o), são de estranha feição, entre ratos, e coelhos, e o corpo mui pellozo, e áspero; tira a crespo e ruivo; e alguns a brancos. Tem grandes e redondos olhos, o rabo comprido, e sem pello; tem muita força; fedem muito a rapozinhos; trazem a barriga por o chão; os machos tem grandes companhões, e não se lhe sabe natura ; as femeas, pelo conseguinte, não tem, nem gera dentro na barriga, como todas as mais alimarias; mas na abertura do embigo atraz; a qual abertura se não enxerga de fora e, aberta com a mão, fica de dentro, com o corpo inteiro, sem nenhuma quebradura, e sem pello; e tem no meio huma tripinha, por onde se cria a criança; a qual tem pegada em sua boca, e assy cresce, até ser para parir, //ou despedir o filho, e sempre he hum só; o qual [69 v.] se torna aly a recolher, cada vez, como em ninho, ate a mãy o acabar de deitar de sy; a qual se mantém do fruto das arvores, e sobe mui alto, por todas ellas, e dependura-se por o rabo, e o filho sempre dentro, sem cahir; e não tem caza na terra, senão nas mesmas arvores, antre o musgo delias. Dizem alguns que ha estes no Brazil, e lhe chamão preguiça. Ha na terra muitas maneiras de aves: corvos, bilha- fres, e outra casta, que pia como trancelhos; gaviães, coru- jas, e mochos, garcenhas, e lavanneos e adens bravas, e gay votas; e outras muitas aves marítimas: alveloas, e andorinhas que não cantão. Ha muitos passaros, como zorçaes e outros muito mayores, que tirão a azues, a que chamão solitários, que cantão em cima das cazas soave- mente. Ha outros a que chamão vascolas (61), de tamanho e feição de russinoes, e a cor he de pega, o peito branco, (60) Vid. Texto II: cuços ou kusus. (61) Texto II: vancoles. 3 ° 9
e o mais preto. Cantão mui suavemente, da mea noite por deante, e de dia, respondendo sempre hum ao outro. Crião nas arvores, antre as cazas, e andão por cima delias; são mui domésticos, mas não sofrem gaiolla, nem se podem criar. Ha muitos papagaios de muitas cores e feições e nomes, e muitos e mui grandes morcegos. No mar ha pouco peixe, e não muito gordo, e de muitas castas de Portugal: o geral, e que mais continúa á praça, he: bonito, e voadores, a que chamão Antonios, por Anto- nio Galvão, que era muito amigo delles. 170 r.i Ha huma casta, a que chamão peixe vaca, // que algumas vezes tomão, por ficar em saco nos recifes, aonde vem pascer. Direi da forma de hum que vi, porque ha poucos. Era tão grosso, e redondo como huma pipa, e o com- primento de duas, e todo juntamente tem feição de maça- roca; nos cabos agudo, e grosso no meio, e despedido da mesma maneira; a cabeça tem forma como a de huma vacca; a boca e os olhos são proprios; tem huma maneira de ouvidos sem orelhas; o rabo he tãobem roliço; com parapatanas como cação; tem outras em lugar de pernas, e braços; e debaxo das que servem de braços tem, em cada huma, hum teto branco, tamanho como duma vaca, e com algum pello; o couro não tem escamas, e remeda nella a toninha; aberto, tem sua armonia de ossos como vaca; mas muito maiores; tem grande forma, de mui gros- sas tripas, e todas iguaes, e mui nojentas na côr; a carne he como de boy velho, e arremeda muito no sabor, e dura, e he algum tanto seca; tem fevera, côr e lombos com pro- pria carne, de maneira que quem a comer, sem saber o que he, jurará, sem duvida, que he carne de boy. He boa para taçalhos, e estimão-na muito os negros da terra, dos quaes he o geral mantimento, peixe; e por isso são todos pescadores, e pescão a linha; alguns, estando 310
quedos; e outros, remando; e outros, de noite, com tochas acezas e com grande matinada, batendo com os pangayos nos paros, para que o peixe acuda, segundo as sortes. Outros pescão com // laçoz, nos quaes tomão agulhas; [70v.] dous em hum paro; e hum governa somente, e o outro, sem remar, andando o mar picado; com vento brando, traz huma cana comprida, e nella huma lenha, com hum laço na ponta, e no meio delia huma folha de arvore grande, ou huma bandeirinha tamanha como hum palmo; a qual faz o vento arredar do paro, e por tal tempera, que traz sempre o laço em cima, tocando a agoa. E como o natural daquelles peixes he andarem sempre na frol delia, remetem a hum trapinho que o laço traz por cevo, e ficão nelle por a cabeça ou por o meio, e assy tomão muitos. CAPITULO 6.® (62) Da maneira do mantimento chamado çagu, e de como se faz, e de sua beberage, e da diversão da fruta, e da maneira do vestido, e das curas que fazem. Assy como Nosso Senhor foi servido de povoar aquel- las ilhas e partes tão remotas das outras terras, reynos, e cidades populozas da índia, aonde uzão mais da vida politica, para a qual muitos inventarão fazer panos finos, sedas e outras muitas artes necessárias para passar a vida com menos mizeria, nem por isso dezemparou aquelles, dei / / xando de lhe dar o mantimento e vestido, e outras pi r.] couzas necessárias para passarem a sua, com pouco tra- balho e menos arteficio, o qual deu conforme as suas com- (62) Cf. Texto II, Part. i>. Cap. VI. 5"
preiçõens, que he serem, por a maior parte, mui perezosos e menos engenhozos. E, como ja disse, deu-lhe o cravo nascido e produzido do matto, sem arte sua, para com elle remediarem melhor suas necessidades, e da mesma maneira lhes deu o manti- mento, o qual o mesmo matto tem cuidado de produzir em duas sortes de arvores, e cazi semelhantes, e humas delias nascem na terra seca e as outras na molhada e apaullada, e chão de vassa, e por isso he mais trabalhozo e menos saborozo; seu mantimento he muito mais geral. Chamão-se estas arvores, desta sorte, Nipeiras; remedão a palmeiras; são muito espinhozas. As outras que nascem no seco se chamão Çagueiros, donde tomou o nome no matto o çaguu; tãobem arreme- dão palmeiras, mas são as folhas mui verdes e escuras, e o pao he preto, e entre os ramos cria grande soma de estopa preta, com humas arestas pretas, e agudas e secas, e dão muito grão trabalho aos que sobem, e por isso as alimpão daquilo; e, sacodindo todo o grosso que fica, fazem cordas e amarras, e todo o necessário para serviço dos seus navios; faz-se mui preto, como retroz, quando se molha; dura muito nagoa, mais que em terra, porque o sol o seca e moe, e a agoa o refresca e sustenta; chama-se esta maneira de estopa gamutte; destas arvores uzão (?), [7i v.] como da palmeira, a qual chamão tuaca, e este nome / / souberão muitos capitães, porque a tem por fria e que refresca muito, e dizem que he boa para tizicos, e asmá- ticos. O çaguu destas arvores he muito melhor que o das outras, e por isso o não vendem, mas fa-lo cada hum para sua caza, e ambas ellas o tem em todo o corpo da arvore, debaixo ate cima, e cortada ella pelo pé, e por cima, junto dos ramos, fendem facilmente o pao, o qual, sendo mais grosso que hum homem, tem o casco ou côdea tão grossa 312
como dous dedos, e menos, e todo o de dentro he branco, e huma massa mui dura, com muitas estopas, e alguma sujidade, como farellos; o qual desfazem com a mão em cochos que fazem das mesmas arvores, porque ficão, de- pois do saguu tirado, muito boas para canos dagoa e aly o lanção, e coão com as folhas, o qual faz assento no fundo, e a agoa e sujidade fica por riba; dahi o tirão, mui branco, e bom, e delle casi como neve, e o poem em fardos, ou cestos que fazem da mesma folha; he como huma massa dura. Os portuguezes o metem em jarros ou em covas, muito bem pilado, na qual dura muitos tempos, se a humidade o vizita; porque o sol seca-o, dana-o, e faz a acezo; humas vezes cheira a maçans, e outras frutas boas; outras fede a bomba e a couras de boy cortidos na casca, o qual lhe procede da agoa em que o fazem: se he douce, se salgada, se corrente, se encharacada; porque com toda o lavão, segundo a achão no lugar delle, maiormente quando he para vender, / / que dá pouco que seja bom, que mao. Se, [72 r.] depois de feito, lhe da o ar, faz-se azul o que he muito branco. Quando o querem comer, aquentão no fogo humas pastas de barro cozido, como formas, e tem huas conca- vidades, e, depois de bem quentes, tem o çaguu desfeito em farinha com a mão, e por tempera que não seja seco, nem molhado, e tirão a forma fora, quazi vermelha, de dentro, e enchem-na de farinha, e abafão-na com panos; e assy coze logo, e tirão de dentro aquilo em fatias, segundo a forma, e huns o comem quente, e a outros sabe melhor frio, baste que he mantimento de boa dezestão, e melhor que todo o outro de Portugal, tirando trigo. Este biscoitado dura muito annos, e nenhuma couza o dana, senão a agoa, s% lhe toca, e todo o dambas as castas destas arvores se alimpa e faz de huma mesma maneira. 3 13
Fazem tãobem vinho de canas de çucare, que la ha muitas e boas, e mui grossas, as quaes, aparadas e espre- midas em hum engenho, cozem o sumo e agoa que ellas botão em certo ponto, e botão-no em jarras com certa quantidade de lançoas(ò^), que he como gengibre, e outras experiências, para o fazer quente, e certa casta de pao, para o fazer vermelho; e assy cozem, e depois em cada jarra botão quatro ou cinco canadas dourraqua, e fica muito bom mosto; e alguns, mais especulativos, enterrão as jarras por espaço de quatro ou cinco mezes, e achão que se faz como tinta. Tãobem ha muita çura e arraca de palmeira, de ma- is».] neira que delia ou da // tuaca ou do das canas, que chamão quilão, bebem geralmente todos, homens, e mulheres, e meninos, e apenas ha quem toque agoa. E ja que a natureza, com pouca arte, lhe deu o comer e bever, direi do vestir, o qual tomão certas cascas leve e muito bom para polvora; e, batidas com certos macetes e molhadas, as vão estendendo, que lhe ficão como papel, e fazem-nas grandes e pequenas, porque as pegão humas as outras, sem nenhuma costura, sem se enxergarem, fazem panos quamanhos hão mister, os quaes pintão com tintas que fazem de paos e ervas, principalmente dum que la he como brazil, que faz muito boa tinta vermelha. Agora vão ja fazendo panos dalgodão muito bons, com os quaes escuzão, muitos, os de Bengala. O arroz dasse nos outeiros ou em outra qualquer parte, com somente limparem o chão e cavarem-no com huns paos, semearem-no, e colherem-no sem mais cobrir, nem regar, nem alimpar. O mato lhes da muitas frutas: mangas, e jaquas de muitas castas, mais das que ha na índia; mui- tos jaboz brancos, e bermelhos, e de casta pequena e (63) Vid. Texto II. 3 14
grande; muita outra diversidade de frutas, muito gostozas, e todas em mui grandes arvores, antre as quaes ha humas como amêndoas, e servem la disso, como em Moçapões (?), e no mais em que se ellas costumão comer, das quaes todas se mantém a gente, e os porcos, e os bichos, e os caran- guejos que disse. Ha outra fruta / / silvestre, como maçans da nafega, [73 r.] que fazem purgar grandemente, sendo muito doces e boas de comer; outras, que cheirão como marmellos, e fazem delles concerva. Ha muitas arvores que do chão, por todo o tronco e ramos, dão figos, propriamente, como de Portugal, mas são de cor verde e não os comem, porque dizem que tem peçonha; não se dão nas pontas das arvores, e nascem tão pegados uns com os outros, que se não pode meter huma agulha. Ha muitas castas de figos dos da India, e alguns muito melhores que os bons de ca, e ha-os todo o anno. Ha outras muitas frutas, de que huns prezumem serem de matto, e outras levadas de fora: laranjas doces, as me- lhores de todo o descuberto, dito por o Mestre Francisco, que andou muita parte delle; outras bicaes, da feição das doces da India; as azedas, no tamanho, cor, saber, e cheiro, como as de Portugal; muitas romãs, muitas uvas brancas, como as da India, e são muito boas, se madurão com tempo enxuto e de sol; os pes das parreiras se fazem muito gros- sos, e dão muitas, e cada pé da tres vezes fruto no anno, e muitos dizem que quatro, e pode ser; porque, acabando de as colher, acabando (acabão) de as podar, e por isso se não danão nem perdem, nem gastão mais azinha. Não se dão na terra côves, nem ha vacca com que se comão; ha bons pepinos, e meloens, e rabãos, e beringellas, cheiros, e outras ervas de Portugal. Ha muito betelle, como o da India, e outro de espiga, 3 1 5
173 v.] como pimenta longa, que cheira muito // melhor, e deve ser muito medicinal. Ha muita pimenta longa e muito fer- moza gengibre e lançoaz, que lhe he muito simelhante; ha muita fruta de espinho, cidroens e limoens, e outras muitas da terra, de que fazem conserva, como hum açúcar que fazem das mesmas canas, o qual he algum tanto preto. Ha outras muitas ervas medicinaes, antre as quaes ha huma que tira a erva cidreira, que, tomado o sumo da íaspa do seu tallo, mistico com leite de coco, espremido quente na chaga, curão todas suas feridas, com lhas bur- nirem por cima com hum sceixo quente, com o qual lhe botão todo o sangue ruim fora, e tem muitos por impossí- vel morrer, se chega ser curado da primeira cura. Nenhuma ferida lhes faz materia, nem delia procede espasmo, porque tem grande regimento no comer, e se guardão do ar; ficão muitas feridas feas e ha muitos alei- jados, porque as não cosem, nem encabeição nervos; mas, contudo, tem antre elles e os portuguezes perdido o credito os nossos mestres, ainda que devem ser, porque não ha aprendizes. Curão as febres, boubas, e bexigas, e camaras, com lavar o corpo na agoa salgada, e alguns dizem que he bom para a cólica; curão mais angurra, e pedra, e outras muitas enfermidades, e assy desta maneira os proveu a natureza, sem composto de ciência. /Is arvores crescem, e dão muito sedo fruito, e assy envelhecem; estão sempre verdes, por cauza do viço da terra, na qual não ha verão, nem inverno, nem ordem no £74 r.] tem // po, salvo no vento, no Norueste e Sul, que cada hum cursa seis mezes do anno, e he o viço tanto que, cortando as arvores, e deixando-as estar no chão, cria o tronco raizes por baixo e muitos ramos por riba. E ja me acon- teceu mandar fazer huma latada, e não tão somente os esteos, mas os frechaes e outros paos, que por riba 316
se poem, arrebentarão e tiverão ramos, passante de qu- renta dias. E em Amboyno vi huma ponta de hum pao, que sahia fora de hum telhado de huma caza, em que estava por frechai, arrebentar e ter ramos verdes inteiros, trez mezes. Poem as arvores as raizes em cima do chão, e ha mui- tas em que fazem cazas, antre huma raiz e a outra; e cor- tada huma, e limpa, fica taboa de cinco, e seis, e sette palmos de largura, e estas cercão o pe da arvore, a feição de roca. . Ha outras muitas arvores, mui fermozas, que estimão muito para suas sombras, e honra dos seus lugares; e assy ha outras que tem a folha como nogueira, mas he mui liza, e branca, e são o mesmo fruito delias os olhos; e as folhas novas são brancas; e crescendo, fazem-se muito amarellas, e envelhecendo, fazem-se muito verdes; tem o sabor dalfa- ces e são mui fermozas estas arvores, por razão das cores, e se enxergão de mui longe, antre todas as outras, e se conhecem e devidem por ellas os lugares, que não parecem de fora, por razão do grande arvoredo. // [74 v.) CAPITULO 7.0 (64) Darte e feição das coro-coras e do arteficio com que fazem o sal, e do geral servisso da gente da terra. As coro-coras são navios menos compridos e largos, do que parecem; mui sutiz e remeiros, porque dizem que rema, huma, dezoito e vinte legoas em hum dia, de sol a sol. Os carpinteiros não tem mais ferramenta que enxós, (64) Cf. Texto II, Part, i.», Caps. VI e VIII. 3 1 7
escopro, berruma e macetos; tem liberdade, emquanto trabalhão, de tomarem o comer e bever por onde o acha- rem, sem pena alguma, principalmente, quando fazem as cora-coras dos reys e regedores. Quando as armão, ao fazer, poem a proa no chão, e a pôpa fica mui alta, quanto hum homem alcança com a mão; as quilhas mui grossas, e desproporcionadas, dum tavoado, que he mui delgado. A grossura da primeira tavoa he da dum dedo; e a derradeira, duma boa polegada: a madeira chama-se mariella, da cor e veas de castanho; de cada tavoa fazem duas ta voas, a feição do navio; porque não serrão, nem no uzão, nem levão breu, nem ferro, nem estopa, nem de fora se enxerga quazi a costura; são muito estreitas na pôpa, e mais largas na proa, e bojudas no meo; [75 r.] levão as tavoas, por dentro, // humas azas ou castanhas que lhe ficão do mesmo pao, furadas por ordem, aonde amarrão sutilmente os liames, que são de raizes tiradas da mesma feição. Toda a taboa, ao longo, por sua borda, vai furada, e ali metem sutilmente tornos do pao forte vermelho como o brazil; e alguns lhos metem de canas; fazem huma ma- neira de covas, ou rego, ao longo da tavoa, o qual untão com hum certo leite e arvores, que dão huma folha mui grande, e o fruito conforme; que alguns querem dizer que he Platano, e la lhe chamão çuquani; e como esta untada daquelle leite, poem-lhe certo miolo de arvore, chamado baru-baru, que he como algodão, e mais espesso; o qual he pardo, e poem-lhe grossura de huma grande polgada ao longo, que pegue no leite. Então poem outra tavoa de cima, que leva hum beiço, ou lombo, ao longo, que encaixa na abertura de baixo, como macho em femia; e assy ficão os tornos metidos por ellas ambas, e apertão-nas com macetes, de tal maneira que se não enxerga costura, nem o baru que fica de baxo, JiS
por o qual não entra agoa, porque incha com ella; e assy, sem mais calafetar, anda o navio, ate que se acaba, salvo se a formiga faz dentro pouzada. Por a conta dos liames sabem a dos remeiros, porque antre hum e outro cabe e he o luggar de hum remeiro, de cada banda. O casco feito, poem-lhe certas vigas, segundo o tama- nho do navio, muito bem lavradas, grossas no meio, e agudas para as pontas, / / as quaes chamão inajos, e botão [75 v.] por fora, de cada banda, huma braça e meia, segundo o tamanho do navio. E são feitas e assentas, por tal arte, que postas nas pontas humas raizes fortes de arvores dal- tura pouco mais dum palmo, em que attão certas canas grossas, que vão por a agoa, que sustentão o navio, duma banda e outra, que não se vire, nem se meta mais que o que tem por costume; porque, quando huma vai descarre- gada, com so a esquipação, leva quazi hum palmo, no meio e sima da agoa, o bordo, se he grande; e pequena, muito menos. As canas de fora, que chamão çamas, e nós, cangalhas, vão bejando, ora huma, ora outra, nagoa; e quando vai carregada, ficão-lhe tres ou quatro dedos de bordo, somente, e as canas vão assentadas nagoa. Alagão-se muitas vezes, com tempo, mas nunca se vão ao fundo, nem se virão, nem se molhão os de cima do balleo, porque, subitamente, se bota a esquipação ao mar, e ficando a coro-cora boyante, a despejão dágoa, e juntamente se tornão a meter dentro e andão o caminho. Antre o casco do navio e as canas vão outras canas, atadas nos inajos, nos quaes vão outros remeiros, de dous em dous, juntos, de maneira que por sua conta, tanto remão de fora como de dentro, e por isso remão muito, e levão muitos remeiros em corpo pequeno. Remão com pangayos curtos, que tem pa redonda, os que vão dentro; e comprida, os que vão de fora; levão 319
[76 r.] huma mão pegada com a pa // e outra na ponta do cabo, e huma cruzeta, como muleta de coxo. Remão de muitas maneiras, e todos em igual, e supitamente mudão ao som de huns atabaquinhos, que levão os do balleo, e o mais do tempo vão cantando cantigas usadas ou novas, e se- gundo o cazo de chegada, ou victoria, ou disbaratos, ou cançados, ou fugindo, ou chegando, ou atravessando golfo, ou se vão com rey, ou com outrem. E sobre estes yvajos vai, por o meio do navio, de longo a longo, hum grande balleo de canas, muito lavrado, e de pôpa delle vai outro pequeno, mais alto, em que vay o rey, ou capitão, cuberto, sem nunca se tirar, de humas esteiras feitas, muito galantes, de cor da folha darvores, que tolhem a chuiva e sol, e são muito limpas, e parecem bem, a que chamão paçajangas. Vai de prôa outro capitão, com certos homens, que tangem os atabaques e huns sinos pequenos de cobre, a feição de seiras de fazer azeite. Estes, de cima, pellejão e são os acrescentados e obrigados a levar armas de arre- messo para todos. Tem cuidado de mandar o navio, e de fazer os mastos e as vellas, e de as dar e amaynar, e colher, quando he tempo. Os da proa, que remão, tem cuidado de sorgir e levar a amarra, a qual he huma vara comprida, de mangue, e aguda no pé, e metem-na na area no fundo, e nella attão, com huma corda, o navio e esta muito forte; os do meio tem a bomba; os da pôpa ajudão ao leme; os de fora, [76 v.] 1ue vão nas // armas, fazem os mais servissos da gente e de navio, e tudo o que lhe mandão. Todos tem seus lugares: os primeiros noviços poem-se na dianteira dos nanes ou canas, e por tempo se vem chegando para traz, ate o cabo, e dali saltão na proa do casco e correm para traz; e como chegão a pôpa, sobem 320
ao leme e ao balleo, e ficão homens, (stc) salvo se são escravos, que sempre vão remando de fora. Os que vão de dentro ficão de baxo do balleo, cubertos com elle; ao leme chamão camude, o qual he da feição da queixada dum cavallo, e vai ao longo do navio, duma ilharga de popa; e o que o governa vai em cima dum baleozinho. Os mastos são de fortes canas; hum masto de fortes canas, a maneira de cruzeta e o ostay por diante, e adriça por detraz, o fazem forte que não caia. A vella he feita de folhas de nipeira, de que fazem o çaguu, são dum loo; tem huma verga por cima, de cana delgada e forte, e outra por baixo; amaynando, vão en- rollando a vella na verga de baixo, e acabada de mainar e de colhida, todo hum; e logo e mui facilmente desemmas- teão; por mais forte que o tempo seja, não amainão de todo, mas colhem a vella algum tanto em ciquees (?). O melhor tempo que ha para a coro-cora he a quartel, porque lhe da o mar nas cangalhas e a popa affoga-se muito. Sake a estas coro-coras hum pequeno esporão de proa, e outro de popa; e sobre o de proa levão hum pescoço, ao longo dagoa, com sua volta de serpe, e com sua cabeça mui bem lavrada, de mercenária, e pintados grandes den- tes // e lingoa, boca muito aberta, mostrando grande mr.] brabeza, para comer os que se lhe antepozerem. Poem-lhe por ali certas bandeiras de differentes feições, que a ornão muito. De popa leva sobre o outro esporão outra maneira de rabo, com suas bandeiras, e por o meio outras que a fazem mui formoza, de maneira que, tomada huma coro-cora, juntamente faz figura de serpe, e os remos são os pes, como de sentopeia. São navios para ver e para folgar de andar nellas: atra- vessão, com sua sutileza, grandes golfos e mares; nunca 321 INSULÍND1A, III «— ai
se nenhum perde, senão dando em pedra; levão mais carga do que parece ser-lhes possível. As geraes coro-coras são de cincoenta, ate setenta re- meiros, e ha muitas, muito maiores, a que chamão joan- guas, de oitenta e noventa, ate cento e quarenta remeiros; estas levão, no balleo, vinte, e trinta, ate quarenta homens, cem berços e outras munições de guerra. Não costumão balroar humas com outras, mas ja agora vão usando, por amor dos portuguezes; o qual uso se converte em nossa perda, porque no tempo de Tristão de Ataide lhe tomarão, os geilolos, hum bargantim pequeno abalroado. E na que agora teve D. Duarte Deça lhe abal- roarão, os tidores, huma fusta, em que hião vinte e tantos homens, a qual tomarão; a elles matarão, e levarão quazi tomada outra, em que Dia D. Jorge Deça, e tiverão abal- roado hum junco, em que hia Balthasar Velozo, com cin- coenta homens. [77 t.) De maneira que nosso uso foi cauza //de nosso mal, porque não basta aquelle, senão enchem-se de artelharia e espingardas e armas nossas, das quaes, por nossos pecca- dos, estão tão cheos como das suas próprias, assy das tomadas como das vendidas, do qual se faz pouca conta, como doutros muito males que, com pouco trabalho, se puderão evitar, mas como muitos capitães tomão as forta- lezas para seus interesses, contentão-se com as entregarem com o jogo do cheio vivo (?), e da-lhes pouco de se apagar o tição na mão doutro. Na terra não ha sal, nem se pode fazer de nenhuma maneira, por a desordem do tempo, que não tem certo curso; mas como a necessidade delle he geral a todos, não deixou a natureza de prover aquelles que carecião do que commummente se usa, dando-lhe novo arteficio e en- genho, para o fazerem, do que a mesma terra lhes dá. E assy, tomão lenha do mato fendida, à falta dalguma que 322
anda no mar, que he melhor, e fazendo grande monte, ou como cada hum pode, poem-lhe fogo, o qual vão tiçuando com agua salgada, com tal tempera que não o apague, mas consuma e converta a agoa em sy, e na lenha. Acabado de arder, tomão a cinza que fica, e fazem delia decoada, e com certo fogo ou fogos de brazas, comprido, sobre que poem pedras, em lugar de trempes, e em cima testos gran- des, ou panellas quebradas, e tem por cima, no ar, depen- durado, hum pano ou panos compridos, com a cinza da decoada; e por cima delia vão botando a mesma decoada, pouco a pouco, e coando abaxo, goteja // nas panellas ou irer.] testos, e com a quentura do fogo se vai qualhando a agoa em sal. E assy se enchem os testos, e ficão em pao muito duro e algum tanto preto. Salga muito, e não he tão bom como o nosso para salgar com elle seco, porque moe a carne, mas he bom para fazer salmoura. ^4ssy, mais os proveu a natureza de muita cantidade de canas, de muitas sortes, sem as quaes, sem outro algum remedio, não poderão passar a vida, sem maior trabalho, porque não tão somente para a terra, mas para o mar, lhes são muito necessárias, no qual se servem em seus na- vios e paros, e levar nellas sua aguada, e fazerem-na; e na terra, para as cazas, das quaes muitas são todas de cana, e ate o telhado, escalando-as por meio, e abertos os canos, e assy as poem em revez huma da outra, como telha. O ser- visso dacarretar e ter agoa tãobem delias; nellas cozem o peixe e carne, e o arroz, o qual, cozido, ate he mais gostozo, porque o fazem, sendo ellas verdes, e com pouca agoa, porque toma do sumo da cana, a qual se queima de fora e, de dentro, não, porque se defende com a humidade. Desta maneira fazem sempre o comer com panellas novas, porque cada huma nãq serve mais que huma vez. Das canas fazem o fogo, fregando huma em outra, e lhe servem de muitas couzas, assy para a vida pacifica, 3 2 3
como para a militar, e de fazerem com ellas muita maneira de remeços e zavatanas, bainhas das espadas; traz cada hum a sua, em hum canudo, porque são delles muito com- [78 v.i pridos; e fazem outrosy // mais, de cada dous, huma zavatana muito comprida; de maneira que não tem menos obrigação de conhecer a Deos e servi-Lo, que as outras gentes, pois os proveu conforme a sua necessidade, sem na terra ter angenhos, para com artificio difficultozo se ajudarem; o que fazem ao revez, adorando o Diabo, a maior parte delles, por meio de arvores, e de peixes, e outras aves, e os proprios Malucos de Mafamede, aos quaes Nosso Senhor converta, por sua santa bondade. CAPITULO 8.® (65) Dalgumas coutas estranhas e novas que ha nas ilhas de Maluco, e em outras suas comarcas. A natureza não tem taxa nem regra certa em produzir e fazer seus edifícios, e por isso cria e faz em humas partes couzas que, por o uzo, parecem mui fáceis. A cauza disto deixo para os especulativos, porque, para minha tenção, basta dizer a verdade do que vi e ouvi daquellas partes, deixando a cada hum dar-lhe o credito que quizer; pois he conselho de sábios, que as couzas de admiração se devem calar. He verdade que naquellas ilhas treme muitas vezes a terra, e algumas tão rijo, que, estando huma vez, com certos amigos, assentado em hum poial, nos botou e des- [79 r.) pediu de sy, como quem bota huma pedra, e daqui // veio (65) Cf. Texto II, Part. 1.», Caps. X e XI. 324.
que em Abril, ou Mayo de 55. invernando D. Jorge Deça, capitão da carreira, em Amboyno, como he costume, huma tarde, tremeu a terra, e com o tremor, ou por qual- quer outra cauza, ou juizo, cresceu a maré, e vazou deza- sete vezes, em espaço de seis horas, e com tamanho maça- reo ou impeto, não no havendo nunca naquella terra, que ficarão os peixes em seco, em ponto aonde nunca chegou maré, e botou muitas chanpanas e coro-coras ao mar, e outras quebrou, que estavão varadas, e o mesmo aconte- ceu no mesmo dia e anno em Banda. Tirou D. Jorge estromento, por testemunhas, e houve muitos que jurarão e affirmarão encher vinte e seis vezes, e outros menos, e o que menos contou foi as dezasete que digo, segundo cada hum acertou destar acordado ou acupado. Isto virão muitos homens de Maluco que la esta- vão no mesmo tempo, e assy os negros. E depois me con- tarão da mesma maneira outros, que estavão em Banda. Vy na mesma ilha de Amboyno hum bicho em huma arvore, do comprimento de hum palmo, da propria forma e pintura de serpe, a cabeça, corpo e rabo, e duas mãos, e duas azas, com suas pontas agudas, a qual voava pelas arvores, e por isso a não pude alcançar; e dizem que ha ali muitas, e que se vio huma tão grossa como a perna de hum homem, e parece que pode ser, pela fortidão e espes- sura do grande mato que ali ha. E assy muitas ribeiras, em que se crião muitos e grandes lagartos; e assy ha aly mais muitos e mui grandes morcegos, e ja // medi hum, [79 v] que tinha, de ponta a ponta das azas grandes, sete palmos; andão em bandos, de humas em outras ilhas, comendo as frutas das arvores. Os matos são cheos de rotas, das que fazem as canas que chamão de Bengala; sobem por riba das arvores e, dando muitas voltas por cima delias, se fazem de cincoenta e sessenta braças de comprimento. Com estas se amarrão 325
as naus que ahi vem ter. Dasse nestas ilhas cravo, gen- gibre e noz. Ha muitos lugares de christãos povoados, em outeiros mui espinháveis, e outros vivem em arvores, por cauza dos vezinhos e doutros ladrões; he a gente mais pobre e bem acondicionada que ha no Moro; são vassalos de Jur- dão de Feritas, como está dito; e povoando aquellas terras, segura a christandade de todas ellas, e não lhe levarem daly os jaós o cravo, nem lho venderem os Malucos, a troco de artelharia e munições. E assy socorerem a forta- leza de Maluco e as naus que vão a Banda, quando lhe he necessário. A esta ilha de Banda vem ter huns pássaros mortos com o vento, pelo ar, dos quaes não sabem a terra nem o nascimento; são tamanhos como pardaes, e tem mayor bico, e pintados de melhores cores; tem o rabo como foloza, e por riba outro, mui grande e verçudo, e uzão fazer delle penhachos, que são estimados na India e em Portugal. He esta ilha quarenta legoas de Amboyno, e Amboyno cincoenta de Maluco, e trato da propria ilha a que cha- mamos Amboyno, porque ha outras muitas, que tem outros nomes. ião r.] Day doze / / legoas, na ilha do Burro, ha huns porcos silvestres, mui bravos, mui pernaltos, e melhor pello, e mais comprido e agudo focinho, e muito menos orelha que os nossos; nascem-lhe as prezas de baixo, antre a quei- xada derriba e o beiço, o qual lhe furão, e crescendo, da cada huma das prezas, por cada parte, muitas voltas, á feição de barruma, que, andando polo matto, se acerta de lhe encaixar aly alguma rota ou pao, fica prezo ate que morre. Ha mais hum rio de agoa doce, que tem hum pego mui largo, onde o mar não chega, o qual esta mui cheio de pei- 326
xes, como sermões (66), que os da terra não matão, poios terem como deuzes, por cauza de, huma ou duas marcas do anno, entrar pelo rio, quando a mare a abrange, muita qualidade de peixinhos pequeninos, para os quaes se fazem prestes os da terra, e enchem seus paros, e guardão para todo o anno; e o mesmo dizem que fazem os peixes do pego, que lescem de cima abaixo, a vista de todos, a se fartar dos mesmos peixinhos, e assy se tornão, sem nunca mais sahir fora; e isto vio hum portuguez de credito, que mo contou. E não he muito, porque nas ilhas do Moro, em certas duas marés do anno, qualha-se o mar duma couza como minhocas, e, sem ter proporção alguma, bolem como vivas; e os naturaes, que são como os outros peixes, por ser gente muito bestial, e não ter nenhuma maneira de es- criptura, fazem-se prestes, como que adivinhão, e enchem muitas vezes seus paros daquela çujidade, da qual fazem certo betume, // curado ao fumo, de que comem todo o [BOyj anno, e chamão-lhe baao; o qual não vem em nenhum outro tempo do anno, senão naquellas duas marés, que vem sempre junto de nossa Pascoa. Nas ilhas de Ceirão (67), junto da de Amboyno, co- mem gente humana, e assy se vingão dos inimigos que podem caçar; e diz-se, geralmente, que em outras, junto destas, comem aos pays, sendo velhos; e se algum quer fazer festa, e tem magro o seu, pede a outro, que o tenha gordo, emprestado, ate pagar com o seu, depois de cevado. Ha outras ilhas, onde enterrão os mortos em aves, ali- márias, ou peixes de pao, lavrados de marcenaria, e assy os poem em seus baileos, mui bem tapados, para sua memoria. (66) Texto II: ...aonde anda muito peixe, como sermões,... (67) Ibidem: em Amboino. 3 27
Has ilhas dos Celebes, que são cazi no caminho, dizem que ha huma arvore ou arvores, que da banda donde se poem o Sol são mui fina peçonha, e donde nasce, he con- tra-peçonha. Pode ser, porque elles uzão-na muito, por- que he gente robusta, e que se pinta de fermozos lavores, por o corpo; a mayor povoação sua será de cincoenta cazas, as quaes são altas, sobre esteos, e em cada huma vive toda huma parentera (sic), repartidos em cellas, fi- cando-lhe por o meio hum corredor; ali crião os porcos, antre si, com figos, cocos e ynhames, pelo qual, he sua carne mui gostoza, e gente robusta e atraiçoada, e de qual- quer pequeno lugar sae muita gente de pelleja, e tem enganado a muitos, e algumas vezes aos portuguezes; (8i r.] deixão de ser christãos, // por falta de quem os faça. A ilha de Maquiem botou antigamente fogo, o qual acabou com arrebentar o pico, por onde se allargarão muitos lugares, e a terra entupio huma grande enseada, e tudo mostra agora a experiência da vista. Esta he a derradeira das quatro que dão muito cravo; tem tres lingoages e muitos homens de rabo, dos quaes vi hum que o tinha tão grosso e comprido como o dedo polegar, e dizem que ha muitos destes, pelas ilhas (68). Vy por muitas vezes pedaços de pao, a que não sei o nascimento, cuja cor tira a vermelho, o qual arde e faz braza e chama, sem nunca se gastar, por delgado que seja; sua virtude não sei; mas sei que he mais pedra que páo, porque, tomado na boca, trinca e desfaz-se como areia. Ha por estas ilhas mui grandes ostras, cuja carne enche huma jarra, maior que dous almudes, e em cada casca comem oito ou dez pessoas, e disso servem na nossa for- (68) Texto II: Vi hum homem que tinha na anca hum mamilo como hum dedo polegar, que vulgarmente chamão rabo. e dizem oue ha muitos por casta. * 328
taleza. Ha outras muitas, como as de Portugal, muito boas, e nalgumas partes se achão pérolas tamanhas como arriozes, que não prestão, porque as não sabem tirar. A porta da nossa fortaleza esta huma grande e formoza arvore, e boa sombra, de cuja casta ha muitas na terra, e algumas na India, a que chamão amendoeiras, tem a folha mayor que nogueira, a qual muda no fim de Setem- bro, quando se acaba o Sul, e quer começar o Norueste; acabada a folha de mudar, nascem-lhe muitas candeas, como //de castanheiro, dos quaes vi hum pedaço duma cai v.] no chão, feita bicho, e anda por todo elle; o mesmo tempo que estas nascem, bota a arvore de si huns bichinhos verdes pequenos, que caem dependurados por fio, como de ara- nhas e são verdes; apanhão-nos humas abespas que ahi ha, e os metem em certas moradas de barro, que fazem dentro das cazas, e ali lhe tapão os buraquinhos, por onde os meterão, e se vão. E dali a certo tempo se saem os bi- chinhos, feitos abespas, e fazem outro tanto, como lhe fizerão. Da mesma arvore cahio huma pequena folha, o pe da qual era a cabeça dum bicho; e o tallo do meio, o corpo, e as veias e nervos, que delle procedem para a ponta da folha, servião de pes com que andavão; e assy era perfeito bicho e perfeita folha, e dizem que ha muitos destes, pelo viço da terra. Estando huma negra de Francisco Palha comendo arroz cozido, mordeu huma bicha pedra, a qual poz na mão, e lhe cospio em riba, e a pedra começou de andar, a qual vi, e outros muitos homens; e posta em seco, não bolia, e parecia propria pedra; e tornada a botar nagoa, andava e fazia mostra a ter pes e mãos. O mesmo Francisco Palha tinha hum grande e authori- zado bode, capitão de hum esquadrão de cabras, o qual tinha hum teto tamanho como cada hum dos companhões, 329
que tinha muito leite, em que mamavão os cabritos, se lhe levantavao os ditos companhões, por amor das marradas. y uma gema, propriamente como de ovo, achada em 162 r.] hum // folhelho, em humas pedras, em que bolia o mar e produzia huma galadura, que tinha huma tripa, da qual estava pegado polio embigo hum peixe vivo e da forma de cação, de comprimento dum dedo, e metido dentro do mesmo folhelho. E assy, ha nesta ilha muitas tartarugas, que desovão em grandes covas, que fazem nas prayas, as quaes cobrem com a mesma areia. Hum homem honrado matou huma e, contando os ovos que tinha dentro dentro (sic) nella, forãó mil e duzentos e tantos, afora muitos miúdos, que não pode contar. Ha outras couzas muitas, que deixo de contar, por escuzar prolixidade, mas direi somente dalgumas do Moro, com as quaes e com algumas maravilhas nellas aconteci- das, acabarei meu trabalho, e darei fim a minha ouzadia. CAPITULO 9.0 (69) Dalguns costumes e couzas que ha no Moro. terras que se chamão de christâos. Ho Moro he outro arcipellago de mar, e ilhas, como o de Maluco, o qual começa das ilhas de Does, antes algum pouco da ponta de Biçoa, que he o rabo ou ponto da Batochmha, que elles chamão terra firme, a qual sera pouco mais de quarenta legoas da nossa fortaleza. 182 vj Toda esta ilha // he povoada de gente, por a mayor parte rústica, e assy vivem nos mattos, quazi escondidos (69) Cf. Texto II, Part. 1.», Cap. XII. 3 30
huns dos outros, salvo os que nós conversamos que, com nosso favor, são mais favorecidos e temidos. Da outra banda da ponta ha algumas ilhas, como Raao e Chaao e outras, todas povoadas de christaos, as quaes, os pilotos, mui falsamente trazem em suas cartas, porque as poem a ré da ponta, onde estão as de Doe, por avante delias, da outra banda da terra, aonde não ha taes ilhas, porque as de Raao e Chaao ficão ao norte da pontage ella esta direita ao norueste, e assy tem tudo falso, e nao he muito, porque humas e outras são arrumadas a adivi- nhar, por serem pouco ferquentadas de pilotos. Da outra banda da ponta de Biçoa he a costa mui povoada de grandes e bons lugares na praya, e cazi todos são christãos, e gente menos robusta, e costumao grandes grenhas; em meninos e moços são muito bonitos; e em homens, muito feyos; ha entre elles mulheres mui alvas, e são menos honestas, por rezão do trajo, e mais castas, que as Malucas; parem crianças muito pequeninas, e por isso lhe caem nos caminhos e fontes, e cazi sem dores; e assy as lavão, e assy mesmas, na mesma agoa fria, e tra- balhão como se não tiverão feito nada. Fazem quasi todo o serviço e trabalho; são boas para escravas; e elles, maos; porque são mui preguiçozos, amando a negngencia, mais negligentemente que podem, e todo o seu officio he comer, e bever com grão repouzo. E costumão // grandes comeres pubncos, e convidao [" • mui levemente a qualquer pessoa ou pessoas, a que se chegão; são mais abastados de mantimentos que os Malu- cos, porque da sua terra vai o arroz e muita parte do çaguu para a nossa fortaleza. São mui devotos do diabo, com quem dizem que falão, e tem pouco credito na nossa fe, a qual deixão com qualquer trabalho. ^ _ Não ha antre elles rey, nem capitão, senão em cada lugar ou bayro hum como regedor, do qual fazem cabeça 3 3 *
na guerra, ou nas couzas grandes, que lhe acontecem, e no do mais o não conhecem. São mui usados a dar peçonha, da qual não pode esca- par a pessoa de que tiverem algum desgosto, como houver de comer ou conversar com algum, porque no comer a botão, e no beber a metem antre a unha do dedo polegar, que as trazem grandes; e quando dão de beber ao que a querem dar, metem, por descuido, a unha ou dedo dentro do vazo, e aly vai, e elles bevem polo mesmo vazo; e não lhes faz mal, porque não mergulhão o dedo; e se não comem nem bebem e conversão, esfregão suas palmas das mãos com ella, e chegão-se à outra do que, por amizade e costume, lhe tomão a mão, e lha apertão e esfregão, e ali lhe fica; e elles vão-se a caza, e tomão boa contra-peçonha, que tem, e ficão sãos. E assy a dão a huns, para morrer logo; e a outros, para hum anno, e dous ou mais, como querem. Cada lugar fala sua lingoa differente, sendo muitos de (83 v.] legoa dum a outro, e tem cazi sempre guerra povos com / / povos, por cuja cauza tomarão a nossa fe, por os defen- deremos e metermos em paz; e conhecendo o bem delia, tomarão-na, e assy todos os lugares, em que havera mais de cem mil almas, os quais so por o nome, porque não tem mais de christãos. Tem muito custado aos portuguezes, assy de guerras, como de doenças, porque a terra he muito doentia, por ter o rosto a leste, e ficar, por rezão da volta, a que tem abrigada, e ao norueste, e a sul, e são os dous ventos que naquellas partes cursão todo o anno, e dão refrigério à quentura do Sol. Tem la hido muitas vezes com armadas, e assy os capitães-mores, como os capitães das coro-coras fazem as despezas a suas custas, sem da feitoria de el-rey lhe ser dado provimento algum, salvo seu soldo, e mantimento 332
acostumado. Parece-me que lhe nasceu este costume do mesmo que tem os naturaes da terra, da necessidade que tem sempre el-rey, nosso senhor. Estes fazem os panos das cascas de pao, que atraz disse, e daly correm de veniaga, por as outras ilhas. Costumão as mãys fazer às filhas, em quanto moças, humas çintas de rota lavrada e pintada toda, até cima, como botão de cirgueiro, e fica-lhe de largura dum palmo, e sem principio nem cabo. E como crescem, e a cinta não da de si, ficão ellas mui delicadas, crescendo-lhe muito as espaduas por cima, e os peitos, que parece ficão arreben- tando por a cinta, de delgada; a qual a não sentem nem lhe faz nojo, e metem //a mão por dentro delia, a coçar-se, [84 r.i como se fora camiza. Mas como casão e as cortão, tornão a seu natural, em breves dias. Costumão, como cazão, ou parem, cortar os dentes da banda de baixo, com certo engenho, que parece que nunca lhe nasceu nenhum, mas este costume deixão, por a zom- baria dos portuguezes, a quem ellas vão perdendo o medo, e se vão afeiçoando, o que dantes ellas e os filhos não fa- zião, mas fugião como de couzas más. Os maridos comprão as mulheres por qualquer couza, e se as botão fora, tornão-lhe o seu cazamento. Fazem estas pillões e as moos delles de pedra, para pillar o arroz, os quaes fazem com outras pedras; e os pobres, que alcanção algum pedaço de ferro, batem-no com huma pedra em cima doutra, e assy o afeiçoão como em cafra, e fazem o que querem delle. Fazem mui estranhamente, e com fácil engenho, muito formozas manilhas das cascas das ostras grandes, que atraz disse, tomando qualquer pedaço, que quebrão com pedras, por ser mui rijo; em caboço (?) rossão nellas, e depois de ser liza, fazem-na forte no chão, com hum canudo de cana, cortado cersio da grossura do braço, pondo-lhe a 333
ponta em cima e trazendo-o a roda, como torno, antre as mãos; e botando-lhe outro alguma areia e goteiras de agoa, antre a ostra e cana, vay furando a ostra ate baixo, e fica o buraco para meter a mão, e com outra cana mais grossa cortão, outra vez, por fora, e assy fica a manilha feita (84 t.] inteira, //a qual limão com outras canas, e a fazem roliça e retrossida, e fica muito formoza. Fazem estes honradas sepulturas aos mortos, nas quaes poem, por certos segnaes, suas valentias e quantas cabeças cortarão. Costumão grandes prantos pubricos e secretos, por as ruas, por pessoas alugadas, como os judeus; gastão cazi toda a fazenda em lha comerem por a alma do finado, da qual não sabem dar razão. Rápão-se todos, por dó, ca- beça, barba, sobrancelhas, e arrancão as pestanas, assy mulheres como homens. Vestem seus panos, mui sujos e grossos, trazem nos braços e nas pernas certa quantidade de manilhas de rota tecida como botões, e fazem-se taes, que apenas se conhe- cem. Dura-lhes esta paixão quarenta dias; mas a dor, mui poucos, e quando seus paros entrão por as barras, e vão defronte dos lugares. Ha entre elles muito pao preto e cazi tãobem como o de Moçambique; são mais abastados de hortas e manti- mentos que os Malucos tem; e o mesmo costumão os (85 r.l Malucos. // 3 34
CAPITULO IO.0 E ÚLTIMO (70) Dalgumas maravilhas que são acontecidas nas terras do Moro. por as quaes lhe tem mostrado Deos. Nosso Senhor, seu poder, e Ley Santa. Nunca Deos, Nosso Senhor, deixou de mostrar suas obras sobrenaturaes, para por ellas os homens virem em seu conhecimento, os quaes, em alguma maneira, se pude- rão escuzar, se elles forão tão solícitos no conhecimento do Criador, como o são em seus particulares negocios, por os quaes vem a esquecer-se dalgum conhecimento, que a boa razão lhe mostra. E daqui vem o affeiçoar-se a sy e a seu cego parecer, que redunda desprezo de Deos e do credito do Demonio, o qual, naquellas partes, he mui venerado, por meio de arvores, e de pedras e peixes, e, finalmente, em sua pro- pria figura diabólica e fea o pintão, tem e adorão. E huma das couzas de que muito me espantei, e que nunca vi, antre nenhuma gente das barbaras daquellas partes, nem doutras, pagode nem figura sua, que não fosse mui fea e disforme, e com alguns esgares ou momos, os quaes bem mostrão, por imagens, suas obras, em que tem tanta fe, por a openião dos pays, que não a boa razão, nem milagres, que os mova, salvo a necessidade corporal, a qual forçou aos daquella terra comver // terem-se a [85 v.] nossa santa fé, não tanto por ella, como por huma certa maneira damizade, pertendendo nisso favor contra os vizi- nhos, e maiormente dos Malucos. E querendo Nosso Senhor mostrar-lhe seu bendito nome e poder, por maravilhas, como direy, nem isso bastou, (70) Cf. Texto II, Part, i.». Cap. XIII. 3 3 5
para perderem sua má opinião, e foi o cazo que, como Ber- naldim de Souza alevantou a guerra aos jeilolos, por al- gumas licitas razões, que tenho dito, foi huma delias, e não menos principal, terem alevantados e convertidos a sy alguns destes christãos; e como a guerra foi pubrica, logo o rey trabalhou por tomar o lugar do Tollo, que he o mayor, e de mais gentes, e forte, em sitio que ha nas ilhas do Moro e Maluco e Amboyno, o qual ja os reys Malucos palparão em outro tempo, sendo todos juntos, e lhe não puderão fazer nojo nenhum. E como este era o principal, trabalhou o rey, com pro- meças, de huma parte, e trabalho e guerras, da outra, até que se lhe entregou e os mais com elle. Vendo isto el-rey de Ternate, pedio licença a Christo- vão de Sá, sendo capitão, para os ir guerrear, a qual lhe não deu, por ruim conselho, mas depois o mudou e pedio a el-rey que fosse, e lhe deu para isso a hum Luiz de Payva, com vinte e cinco homens, para o ajudar. Partio com poucos homens e armada, por a não ter antão, e por isso foi de ma vontade, mas por obedecer o fez. Foi surgir defronte do Tollo, o qual estava mui forte [86 r.] de tranqueiras, em / / alguns passos, e com jeilolos dentro, com espingardas, que são la os proprios serpes; e pondo-se á falia com os de dentro, requerendo-lhe que se tornassem para os portuguezes e para elle, e que lhe perdoarião, e outras couzas desta sorte, que continhão amor e perdão, responderão-lhe, assy a elle, como aos portuguezes, mui soberba e descortezmente, que não querião, mostrando-lhes o trazeiro, por o qual se foi daly el-rey mui corrido, por- que não podia pellejar com elles, e vingar sua offensa. E foi surgir a huma pequena ilha defronte, a mandar fazer de comer, na qual se pouzerão os portuguezes a assar hum valente bode, que leva vão; começou de lhe cair muita ciza, (sic) por o que lhe foi forçado hirem-se dali, com o 3 3 à
pobre bode inteiro, a assa-lo a outra mais longe, e estar cazi o dia sem comer. Estes lugares estão nesta costa de Batachina, em parte que se fez huma enseada, e em hum canto delia esta o lugar de Mamoya, o qual tem algumas fontes dagoa quente, que saem do pe dum monte, que esta sobre elles, do qual sae continuamente grande quantidade de fumo, sempre igual, duma cova, e não tem as desordens do de Ternate. Esta à vista, quazi mea legoa deste lugar, e ve-se todo mui craramente delle; e faz a enseada ou aquelle monte hum grande cotovelo, metido por o mar, no qual esta o lugar do Tollo, huma legoa deste Mamoya. Do Tollo se ve mal este fumo, por cazo doutro mayor outeiro, que se lhe antepõem; mas, como vay muy // alto, ve-se por [86v.] cima delle, antre o qual poucas vezes se enxerga o fogo. Mas quiz Nosso senhor, naquelle dia e em dous mais, mostra-lo, com grande tormenta e temor de todos; o que, ate aly, nunca foi visto, nem ouvido, nem no coração dos homens imaginado. Como el-rey acabou a pratica, e se foi a fazer de comer, como esta dito, começou esta cova de fogo a bota-lo de sy, com muito fumo, cinza, e pedras, tres dias contínuos, nos quaes foi destruído este lugar do Tollo, sendo mais longe muyto que o de Mamoya, aonde não fez nada. Derrubou-lhe muitas cazas e muitas arvores de fruito c palmeiras; alagou-lhe o lugar que, sendo mui cheio de penedos, por as ruas, por o qual era mui trabalhoso dan- dar, ficou tudo razo e chão como a palma da mão, sem se ver penedo nem pedra, nem memoria aonde esteve, por- que todos os vãos forão cheos, e muito acima dos cheos; quizerão alguns dizer que todas as cazas cahirão, salvo humas, que la ficarão, dos padres da Companhia. Foi a tormenta e terremoto mui grande, sobre o lugar e seu termo, no qual lhe fez muita perda. Acabados tres INSULÍNDIA, III — 22 3 37
dias que isto durou, conhecendo el-rey a maravilha, sem crer na cauza delia, persuadido dos portuguezes, veio cometer o lugar, e mandou a Luiz de Paiva que desembar- casse, com seu irmão Quechil Guzarate, que levava outros irmãos comsigo e parentes e mancebos de opinião, a qual 187 r.i lhes cresce com a vista dos por // tuguezes. E assy, com poucos, cometerão huma tranqueira; e, sem embargo de lhe ser bem defendida por os Jeilolos, e naturaes, foi muito bem entrada, na qual matarão a hum irmão do Guzarate, o que atraz disse, que acompanhava a seu padrasto, an- dando diante, por ser mais honrado. Entrando estes, entrou el-rey com a sua gente, que serião por todos quinhentos homens; cativarão e matarão muitos; não tomarão despojo, por a destruição do lugar. Trez couzas se podem notar deste cazo: a primeira, nunca se aquillo ver, naquella terra; a segunda, o tempo e a conyunção em que foi, e não fazer mal nenhum aos outros lugares visinhos, e mais perto, e também arrene- gados; a terceira, a ouzadia que teve tão pouca gente, para cometer tão forte lugar, no qual dizem elles que ha dous mil homens de pelleja, e de feito he o mayor que ha na- quellas partes, como disse. Ficarão elles vencidos, mas não contritos, e tomarão aquillo como acontecimento por seu peccado, sem o conhe- cerem nem menos se emendarem, e ficarão só acolhidos ao matto, sem acabar de tomar concruzão, á qual os for- çou a destruição da fortaleza de Jeilolo, porque, como a virão, obedecerão aos vencedores, porque esta he sua ver- dade, andarem com os que mais podem. Deste lugar, ao de Chiaoa ha outro lugar, o qual, sendo tãobem christão, antes disto, aconteceu nelle outra mara- (87 v.i vilha, que nelles fez o mesmo fruito que em estoutro; e // foi o cazo que, alevantando-se elles, por os mesmos Jeilolos, muito tempo antes desta guerra, queimarão huma igreja 338
que tinhão, e tomando hum dos principaes hum retábulo de Nossa Senhora, que estava nella, e fazendo-o em peda- ços, para daly fazer certa maneira de empunhadura de espada, lhe ficarão, improvizo, as mãos tortas, e dentro em hum anno seguinte morreu, e quantos havia de sua geração, sem delles ficar nenhuma outra memoria; e os mais diz que morrerão de cazos, antre os quaes sou lembrado, que diz que, andando o derradeiro morto pescando em hum paro, saltou dagoa hum peixe agulha, e deu-lhe em hum olho e o matou. E assy mais he verdade, que nas ilhas de fronte, às quaes antre sy chamão Morotay, por estarem no mar, e a estoutros lugares chamão Morotaya por estarem, a seu juizo, em terra firme, porque tay, na sua lingoa, he mar; e tay a he terra, e a todo juntamente chamão Moro; na ilha de Chaao, estava hum prospero lugar, no qual rezidia, sendo Tristão de Ataide capitão, hum padre (71) que elles matarão, levantando-se; o qual daly começou a definhar, por guerras, fomes, e trabalhos, e outras desaventuras, que destruio todo, sem ficar viva creatura, e agora he matto igualmente como todo o outro. E assy, desta maneira, tem Nosso Senhor, nos dias da- quelles e nossos, mostrado alguma parte do seu poder, o qual usa, por sua mizericordia, para exempro de todos; mas por nossos peccados, a nos, para os emendarmos // [88 r.] e a elles, para o crerem, não são bastantes. Elie, por sua santa bondade, a huns e a outros mostre e de seu verdadeiro conhecimento, para que, por meio delle, mereção alcança-lo, e gozar de sua santa gloria e bemavin- turança, para a qual nos remio com seu preciozo sangue. Amen (72). (71) Texto II: «matarão seus moradores a um clérigo (cuido cha- mado) Francisco Alvarez...n. (72) Segue-se uma página em branco e, depois, o índice em sete folhas não numeradas. 3 39
I N D E Z Dos capítulos que contem este Livro (73) PRIMEIRA PARTE capitulo i.° De como D. Jorge de Castro foi capitão de Maluco, cinco annos, e no quarto vierão novas dos castelhanos fl. 1 capitulo 2.0 Das fustas que mandou o capitão ao Moro e do effeito que da sua hida se seguio fl. 3 v. capitulo 3.0 De como D. Jorge foi capitão o quinto anno, e de como o Geral veo ter ao Moro, e se meteu em Jeilolo, e do que lhe aconteceu com James Lobo fl. 5 v. capitulo 4.0 Da entrada dos castelhanos em Tidore, e do que succedeu naquelle anno, ate vinda de Jurdão //de Freitas fl. 7 v. capitulo 5.0 Dalgumas razões porque os Malucos reco- lhem os castelhanos, e os aborrecem; e a nos favorecem fl. 9 capitulo 6.° Da chegada de Jurdão de Freitas a Ma- luco, e do que succedeu, ao depois da sua vinda e tempo, scilicet, das pazes com os castelhanos e prizão de el-rey fl. xo capitulo 7.0 Da chegada de Fernão de Souza a Maluco, e do successo delia, das pazes com os Cas- telhanos e hida de Jeilolo fl. 12 v. capitulo 8.° Da posse que tomou Jurdão de Freitas do Reyno de Maluco por el-rey, nosso senhor, e da morte de Çamarao, e das pazes que fez com Jeilolo fl. 16// (73) A indicação das folhas, neste índice, refere-se ao original. 3 40
capitulo 9.® Da chegada de Bernaldim de Souza a Ma- luco com o mesmo rey, e da prizão de Jur- dão de Freitas e dos seus odios fl. 18 capitulo io.° Que trata de quanto tempo foi Bernaldim de Souza capitão; como no cabo alevantou a guerra a Jeilolo e tornou Jurdão de Frei- tas a Maluco e Christovão de Sá foi capitão fl. 21 capitulo ii.° De como Bernaldim de Souza tornou a ser capitão e de como tomou a posse da forta- leza fl. 23 capitulo 12.® De como poz Bernaldim de Souza por obra a hida para Jeilolo, e dos trabalhos e des- gosto que nella houve e teverão principio ... fl. 26 // capitulo 13.® De como desembarcou Bernaldim de Souza a por cerco na fortaleza de Jeilolo, e de como o ordenou fl. 27 v. capitulo 14.® De como Bernaldim de Souza ordenou fazer cavas e bastiães para se chegar a fortaleza, e da vinda e ardiz de el-rey de Tidore fl. 31 capitulo 15.® Da derradeira briga que tiverão os cerca- dores com os cercados e de como lhe acaba- rão de queimar sua cidade, e do primeiro conselho e derradeiro que tomou o capitão fl. 33 v. capitulo 16.° Das pazes que cometeu el-rey de Jeilolo, e de como entregou a fortaleza, ficando com o titulo de Çangaje, sem o de rey fl. 36// capitulo 17.® Dalgumas partes, gente que houve em todo o tempo que durou o cerco fl. 38 v. capitulo 18." De como Bernaldim de Souza tornou a der- rubar a fortaleza de Jeilolo. e levantou outra vez a guerra ao Çangaje, por o não querer ir ver fl. 41 3 41
capitulo lg." Da tomada da fortaleza de Tidore, e do que se seguio dos ódios de D. Rodrigo e Bernal- dim de Souza fl. 46 capitulo 20.0 De como se tronou o capitão para a forta- leza e do que fez no caminho e de sua vinda para a India, e de como se acabarão os dias de Dom Rodrigo fl. 50 SEGUNDA PARTE // capitulo i.° Que trata do nome de Maluco, e da con- dissão dos naturaes, e de alguns costumes que tem fl. 54 capitulo 2.0 De quantos reys ha no Arcipellago de Ma- luco, e de como são servidos, e de alguns bens que ha no de Ternate fl. 58 capitulo 3.0 Da natureza do cravo e da cantidade, e da demarcação e de como parece ser ella de el- -rey, nosso senhor, e não dos castelhanos... fl. 64 capitulo 4.0 Do sitio da nossa fortaleza e de algumas propriedades da terra e do fogo que ha nella fl. 66 v. capitulo 5.0 Das alimarias. Bichos, Peixes, e Aves, que ha nestas ilhas de Maluco fl. 68 v. capitulo 6.° Da maneira do mantimento, chamado ça- guu, e de como se faz e da sua beberage e da diversidade das frutas, e da maneira do vestido e das curas que fazem fl. 70 v. capitulo 7.0 Da arte, e feição das coro-coras e do arti- ficio com que fazem o sal e do geral servisso da gente da terra fl. 74 v. capitulo 8.° De algumas couzas estranhas, e novas, que ha nas ilhas de Maluco, com outras suas comarcas e vizinhos fl. 78 5 42
capitulo 9.0 Dalguns costumes e couzas que ha no Moro. terras que se chamão de Christãos fl. 82 capitulo io.° e ultimo. Dalgumas maravilhas que são acontecidas nas terras do Moro, por as quaes lhe tem mostrado Deos, Nosso Senhor, seu poder, e Ley Santa fl. 83 F I M (74) (74) Nas últimas folhas deste documento encontram-se, ainda, os cinco desenhos a lápis, que, a seguir, vão reproduzidos. 3 4 3
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I Os três desenhos representam, no plano superior: um casal de kusus. da família dos Marsupiais, descrito no texto deste documento, Parte 2.», Cap. 5.°;*no meio: o Peixe-Vaca. animal descrito no mesmo capítulo; em baixo: o casco duma coracora, segundo supomos 1
Coracora de tipo menor e de pouca equipagem 4*
Coracora de tipo grande, cuja descrição se encontra no texto deste documento, Parte 2.*, Cap. 7.0
Coracora. com mastros e velas. Vid. Parte 2.", Cap. 7.0 do mesmo documento
Morador português, vestido de panete e barute, com um carapução na cabeça, e armado de espada e solavaco
35 INFORMAÇÃO SOBRE AS MOLUCAS (Texto II.) BNL: F. G., Caixa igç, Documento 41. Refere-se esta cota a uma cópia manuscrita, incompleta e recente, do muitas vezes citado trabalho de Gabriel Rabelo, sobre as Molucas, e que ele intitulou: Informação das Cousas de Maluco... Esta cópia, sem valor especial, supomos que tenha sido feita pelo original manuscrito, deixado por aquele estudioso observador, em serviço naquelas paragens. A Academia Real de História, em Colecção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas, Tomo VI, N." j.°, editou este trabalho, utilizando para isso o antigo original. Nesta edição fazem-se referências a folhas rotas ou gastas e a passagens de leitura difícil; e as frequentes reticências no decurso do trabalho, quebrando o sentido, deixam-nos suben- tender o mau estado de conservação em que deveria encontrar-se o primitivo documento. Limitaram-se os cuidados desta edição, apenas, à publica- ção do texto, com as inevitáveis falhas que o original continha, e com alguns erros mais de leitura, fáceis, contudo, de verificar e corrigir. Tratando-se dum memorial sobre as Molucas, de particular interesse, e repleto de preciosas informações, não podíamos ex- cluí-lo da nossa documentação, apesar de já impresso em edição pouco vulgar e assaz descurada. Ainda que nem a cópia actual da BNL nem a edição da Academia indiquem a cota do antigo manuscrito, ou lhe consagrem quaisquer breves palavras de re- sumida descrição, sabe-se, porém, ter pertencido, primeiro, à biblioteca de Manuel Severim de Faria, tendo sido adquirido, depois, pela Casa Cadaval, em cuja biblioteca estava registado com o número 824, donde parece ter desaparecido, conforme dá a entender o Inventário da Biblioteca Cadaval (Manuscritos), 3 45
Concordância dos Números do Inventário de 1931, com os nú- meros do Catalogo moderno (1934-1944). Neste Inventário encontra-se a seguinte observação: «N. B. N." 824 no Inventário: Informação das cousas de Maluco, da- das ao Seiíor D. Constantino em que se tracta algumas novi- dades da natureza e socintamente do seu descobrimento pellos Portugueses e Castelhanos, e de todas as armadas suas que la foram até Rui Lopes de Villa Lobos... Composto por Gabriel Rebello. In foi. (155Ç) (sic). Ao número 824 corresponde hoje K-VI-26, Alvarás e Decretos de 1650/70. Onde está a obra de Gabriel Rebello?». Martinho da Fonseca inclui-o no seu Catalogo Resumido da Preciosa Sollecção de Manuscriptos da Casa Cadaval, Lisboa, 1915; concluindo-se que, então, ainda ali existia. Foram, pois, inúteis todas as nossas diligências para en- contrar o original de tão valioso documento, seja porque, ao ser retirado da leitura, a sua arrumação não tenha ficado ano- tada, seja porque outros ruins intuitos lhe tenham dado sumiço. Fomos, por isso, forçados a servir-nos do texto editado pela Aca- demia e reproduzido na referida cópia da BNL. Na publicação deste documento, que agora novamente damos, e tendo em mente a clareza e facilidade de leitura, dividimos o texto em períodos que descongestionam os vários e demasiadamente longos parágrafos, adoptando também uma pontuação mais adequada. Em notas convenientes procuramos também identificar os nomes geográficos, explicar os termos indígenas e interpretar pontos obscuros ou de sentido vário. Em parênteses, e no corpo do texto, damos a leitura, que supo- mos exacta, de passagens evidentemente erradas, tanto na cópia da BNL, como na edição da Academia; e do mesmo modo substituímos as reticências pelas expressões ou termos que jul- gamos subentenderem-se, recorrendo, para isso, aos lugares pa- ralelos do Texto I, e que atrás fica também publicado. Apesar de tudo, e devido ao estilo do Autor, por vezes confuso, algu- mas passagens permanecem obscuras, ou com dúbio sentido. De facto, confrontando ambos os documentos, concluímos, com toda a segurança, tratar-se do mesmo trabalho em duas redacções: uma, feita em 1561; outra, em 156Ç. A primeira designamo-la por Texto I; esta, por Texto II. Aqui os assuntos são tratados, quase sempre, com maior desenvolvimento, mais ordem e certa moderação na critica dos 3 46
factos, podendo considerar-se uma redacção extraída da pri- meira, correcta e aumentada. Ambos os textos, porém, se com- pletam, explicam e, por vezes, corrigem, razão por que os publicamos ambos. Finalmente, sobre Gabriel Rebelo e a sua obra transcreve- mos aqui o que João Francisco Barreto escreveu na sua Biblio- teca Lusitana: «Gabriel Rebello, Feittor e Alcaide-mor da for- taleza de Maluco, pertencente a esta coroa. Escreveo hum livro das cousas notáveis daquellas ilhas, e fãs delle menção Diogo do Couto, em quarta década, Lib. 7, Cap. 8, digo 10, o qual se intitula: Imformação das couzas de Maluco, e dos costumes, dos moradores delle. A segunda trata, per doze capittulos, com todas suas armadas, te a de que foi general Rui Lopes de Villa Lobos. A tresseira trata per treze capittulos das cousas que subçederam em tempo do capittão Bernardim de Souza, ate destruir as Fortalezas de Geilolo e Tedore; e ultimamente põe as peças do contralto per que el rei Dom João J.° de Portugal com- prou, a rettro, ao Emperador Carllos 5.0, o direito que dizia ter em as ilhas de Malluco, per trinta e sinco mil cruzados, no Anno de IÓ2Ç digo 152Ç. O estillo, ainda que não he muito subido, he tido por verdadeiro: e parece haver andado o Autor muitos Annos em aquellas partes. O qual livro original se con- serva na Biblioteca severiana. Fez mais outra obra que intittulou: Retratto dos bens e malles do Estado da Índia, como diz Diogo do Couto, em a Década 8.\ Cap. 15. e no capittulo 15 da mesma obra dá delle o seguinte testemunho: Foi este homem (ditto Couto) de natu- ral grande e vivo engenho e tão honrado que, quando el-rei ordenou neste Estado a Meza da Consciência, o ellegeo, estando cá per secretário delia» (*). Diogo Barbosa Machado regista também na sua obra a Informação das Cousas de Maluco, referindo-se igualmente ao seu Autor, com algumas inexactidões. (•) BCC: M-VI-14 (803). 3 47
INFORMAÇÃO DAS COUSAS DE MALUCO, Dadas ao Senhor Dom Constantino, Em que se tratão algumas novidades da natureza, e suc- cintamente de seu descobrimento pelos portuguezes e castelha- nos, e de todas as armadas suas, que lá forão, até Rui Lopez de Villa Lobos, e a destruição das Fortalezas de Geilolo, e Tidore, em que se recolhião. Composto por Gabriel Rebello. PRIMEIRA PARTE Que trata, por treze capítulos, os ritos e costumes dos moradores de Maluco, e das cousas diversas que ha em todo seu archipelago e do Moro e Amboino e Cele- bes e Papuas; pelos quaes se verão as superfluidades que delles, em muitas partes, andão imprimidas. Composto por Gabriel Rebelo AOS LEITORES Se fora licito não contar cousas de admiração, como aconselhão os sábios, não se atreverão alguuns, (ainda que menos prudentes), escrever as que com immenso tra- balho alcançarão, cuja verdade as tem acreditado e persua- dido o animo dos homêes a curiosidade de outras; do que se segue maior fructo, que da ignorância. O qual me persuadio escrever as de Maluco, confiando 3 4-8
na experiência delias, e anhadi (i), o mais breve que pude, as armadas dos castelhanos, que a elle forão, e a destruição das fortalezas de Geilolo e Tidore, pousadas suas (2). E assim offereci meu atrevimento ao senhor Dom Cons- tantino, acabando os trabalhos da governança, por me ter mandado lhe declarasse hum matiz (3) que lhe dei do mesmo Maluco. E quiz satisfazer, por escrito, confiando mais em Sua Senhoria, que encobriria meus erros, que em Vossas Mer- cês, de quem cuidei escapar. Mas, como muitas vezes acon- tece as cousas occultas darem maior pregão, não pôde esta deixar de ser sentida de alguuns amigos, a quem não ousei negar sua vista, por seus fracos merecimentos ir parar aos meninos das escolas; particularmente, por me antremetter tratar das vidas alheias (4); mas fi-lo com tenção de segredo, por trazer à memória a Sua Senhoria alguns serviços dos portuguezes daquella alongada terra, e não ficarem em esquecimento os de tão singular varão, como foi Bernaldim de Sousa, que alguuns emulos tem trabalhado escurecer; e quiz antepor sua memoria a meus defeitos, porque o tive por menos mao, que occultar-se o exemplo de sua constância na paz e guerra. E, se Vossas Mercês acharem superfluidades ou faltas na historia, podem-nas emendar, com me não condemna- rem por suspeito, atribuindo-me amor ou odio, porque de (1) Termo antigo que significa: acrescentei. (2) Quer dizer: as fortalezas de Geilolo e Tidore, que os castelha- nos ai tentaram construir, eram as suas pousadas, quando ali arriba- vam. (3) Além dos desenhos atrás reproduzidos, não encontramos, até à data, quaisquer outros que se possam atribuir ao autor desta Infor- mação. (4) Por esta passagem vê-se que o trabalho de Gabriel Rebelo não agradou a todos. 3 49
todo estou livre, e escrevi o mais simplesmente que pude e entendi, conforme a minha fraca habilidade, por cujo respeito devem ser relevadas as faltas do estilo. Querer mostrar a Vossa Senhoria o desejo que tinha de o servir, me fez temerariamente ordenar este memorial das cousas de Maluco, por me mandar que lhe declarasse o matiz que delle lhe dei, pera o que não houvera ter ousa- dia meu debelitado engenho; ao menos por viverem ainda os de que trato, dos quaes posso ser reprovado, por pre- tenderem em suas obras mais ou menos do escrito; mas não foi em mim deixar de o fazer, por haver que em outra cousa não podia servir Vossa Senhoria, confiando que regularia meu zelo com sua grandeza, por tratar novida- des de que he curioso, e alguuns feitos de portuguezes, particularmente os de Bernaldim de Sousa. E quiz antepor a tudo sua memoria, por haver que, por a mesma causa, favoreceria e se haveria Vossa Senhoria por servido da obra, a qual lhe mandei depressa, por se anteci- par mais do esperado sua ida para o Reino • pelo que levou muitos erros, que neste quiz emendar, por me livrar dos que reprehendo no primeiro capitulo, que achei em outras escri- turas, das quaes apontei os mesmos, deixando os mais pera, por o pouco, mostrar o muito; e das duas partes fiz tres (5); e do cabo, principio; pertendendo melhor ordem, que foi causa de maior trabalho, o qual offereço a Vossa Senhoria, cuja vida Nosso Senhor acrescente, e prospere por muitos annos. (5) Nesta passagem refere-se claramente ao Texto I, que se com- põe de duas partes sòmente. 3 5°
CAPITULO I Da nota de alguns principaes erros, que achei escritos de Maluco. Parece que da pouca conta que os homêes fazem das cousas, vem a erra-las, quando as tratão; donde tem nas- cimento esquecerem-se de humas, e sobrepujarem em outras, como alcancei, pelas que vi escritas, de Maluco, cujos erros me mostrou a experiência; e achei quasi todas desfalecerem em huma parte, e crecerem muito em outra, e as mais errarem, e as menos acertarem. Os quaes defeitos forão, em parte, causa do meu tra- balho, por mostrar a Vossa Senhora o que vi, e me pergun- tar por algumas, de que o tinhão informado tanto ao revez, que quasi duvidei dizer a verdade, temendo não ser crido; porque, geralmente, as primeiras informações são recebi- das, e as segundas havidas por duvidosas. E porque, pera trazer a terreiro estes erros, convinha maior volume, quiz neste primeiro capitulo apontar os principaes. Achei escrito que estava a ilha de Ternate hum grão da banda do sul, e que na de Tidore se ajuntarão em campo, pera dar huma batalha, cincoenta mil homeês, e que todas as ilhas erão chãs, ao longo do mar, e se levantavão pera o sertão, espaço de duas legoas, donde sahião inhabitaveis arvoredos, por as grandes rochas que tinhão, em que havião grandes vieiros de enxofre, e todas erão mui fortes por natureza, e artificio. E assim o erão os recifes que tinhão, em que entravão mui difficultosamente os navios estrangeiros. E que as mais das povoações erão cercadas de cavas, tranqueiras, e fortalezas; e as casas, de paredes de terra; e somente as mesquitas, de pedra; e que tinhão todos huma lingua, e que, depois de bêbados, tomavão conselho, e ao mais bêbado tinhão por mais honrado; e que erão seus 3 5 t
navios tão compridos, que remavão cento e oitenta remei- ros, por banda; e trazião bajus de seda rica, com botões de ouro, e pedraria, pela dianteira, e mangas, e collares de ouro, e sombreiros guarnecidos de ouro, e pedraria; e nas festas, coroas de ouro, e se servião com grande estado. E cada logar era obrigado dar de comer ao rei e a toda sua caza, em grande abastança; ao qual tinhão por tão divino, que tapavão os olhos, e se deitavão de bruços no chão, por o não verem, e os nomeavão por Sol, e Lua; e que o vencido não via o rosto ao vencedor, senão passa- dos seis mezes. E que havia mais cravo em Moutel, que nas outras ilhas; e verde era de vez; e seco ao sol, se tornava roxo, e negro, de o borrifarem com agoa salgada; e deitavão o sagu em jarras com agoa salgada; e, passados alguns dias, o secavão ao sol, e assim o moião, e a farinha delle fazia pão como de rala. E que os nobres, e ricos, bebem hum licor, que se estilla de humas canas grossas, cujos canudos são de cinco palmas, o que he mui suave, que custa muito; e que ha canudos de cana, que levão oito canadas de agua; e he a terra tão fértil, que, quando vão a ella doutras terras mulheres maninhas, logo emprenhão; e que o rei de Geilolo tinha seiscentos filhos; e não era muito, por ter trezentas mulheres; e outro seu visinho, seiscentos e cincoenta. E que a ilha de Batochina, onde elle mora, estava cin- coenta legoas da de Ternate, e era tamanha que a não podia rodear hum navio, em seis mezes. E entre estas achei outras, que se poderão notar, parti- cularmente no livro que compoz Gonçalo Fernandez de Ouiedo (6), do descobrimento do Magalhães, no que foi (6) A obra de Gonzalo Fernandez de Oviedo y Valdez intitula-se: Historia General y Natural de Ias índias, cujos primeiros 20 livros, apareceram entre 1535 e 1537. (BNL: Reservados N.° 829-I). 352
tão mal informado, que não quiz apontar seus erros; mas o dito basta pera, pelos capítulos seguintes, se saber e entender a verdade, ainda que tudo monte pouco. CAPITULO II Que trata da repartição do Archipelago de Maluco, e dos reis que nelle ha, e seus costumes, e como são. Meloc, a quem por corrupção do vocábulo chamamos Maluco, he nome proprio, que compreende em si commer- cio de mar, e ilhas, a que seus naturaes não sabem dar quantidade; e daqui vem termos que começa, passando Mindanao, e tudo lá he Maluco, em cujo meio ficão as Ilhas do Cravo; e aos lados, norte-sul, as ilhas do Moro, e Amboino; e leste-oeste, as dos Celebes, e Papuas. E como esta openião he geral, deve-se ter ainda que vim a alcançar, por alguns entendimentos que os da terra dão, que as cinco Ilhas do Cravo, e visinhas, são o proprio Maluco, em que ha quatro reis. O primeiro he Bachão (7), em cujo senhorio acaba o Archipelago de Maluco, e começa o de Anboino, e está debaixo a Equinocial: e delle, nove ou dez legoas para norte, Maquiem (8), contando de terra a terra; e Mou- tel (9), então, Tidore (10), e depois Ternate (11), hum (7) Bachian e Batjan, a ilha mais ao sul e a maior entre as cinco ditas, pròpriamente, Molucas. (8) Makyan, outra destas ilhas, para norte de Batjan. (9) Motir, pequena ilha, mais para norte, pertencente também ao mesmo arquipélago. (10) Tidore, outra das principais ilhas Molucas. (11) Ternate, a mais importante de todas, ao tempo, devido à sua grande preponderância, como sede do domínio português naque- las paragens. 3 53 INSULÍNDIA, III — 23
grão de linha; e todas em corda norte-sul, ao longo de Batochina (12); a qual he huma ilha de 180 legoas em roda, pouco mais ou menos, aonde a o rei de Geilolo (13), e outro de Loloda (14), junto de humas ilhas assim cha- madas, em que acaba o archipelago da banda do norte, c qual he o mais antigo reino de todos, mas já muito debi- litado e esquecido. Nestas quatro principaes ilhas do cravo ha dous reis (15), hum de Tidore, e outro de Ternate, que tem tres, a saber: Moutel, Machiem, e o mesmo Ternate, aonde está a nossa fortaleza, por cuja causa o chamamos rei de Maluco, e por ser senhor de mais terras e províncias, que todos os outros; está em meio de dous ilheos seus, a saber, Irez (16), e Meitara. Chama-se rei de Ternate, por a cidade em que vive, cujo nome muitos tem ser o da ilha, a qual se chama Guape (17). E da mesma maneira as outras tem nomes próprios, por as quaes se não nomeão, senão por o da prin- cipal cidade, como a de Tidore, que se chama assim, sendo o seu proprio Duquo, a qual estará hum quarto de legoa da de Ternate, em meio do Ilheo Meitara, e de outro seu, chamado Pulo Ca vali (18). ~... ?'sta grande ilha é modernamente designada pelos nomes de Djilolo e Halmahera. (r3) Geilolo ou Djilolo, hoje, nome da ilha e do seu principal cen- tro populacional, era no tempo dos portugueses apenas o lugar mais importante da mesma ilha, a qual, então, se chamava Batochina. (14) Ilhas Lolodas, a oeste do promontório setentrional de Hal- mahera. (15) Supomos excluir aqui a ilha de Batjan, por ser a que pro- duzia menos quantidade de cravo. (r6) Hiri, ilhéu ao norte de Ternate, onde foi morto o P.e Afonso de Castro. (r7) Julgamos ser esta uma designação que os portugueses for- maram dos dois termos malaios Guno-Api (Montanha de Fogo). (18) João de Barros, na Terceira Década, Cap. V, dá-nos esta informação: «Finalmente, veo a Natureza a particularizar tanto a disposição 554
A estes reis em todas as línguas chamão Colanos (19), que são de todos mui venerados. Não tem renda propria, por o que são maiores senhores do alheio, e mal quistos. Quando ha novidade de cravo, lanção a cada logar o que ha-de dar, e no pezo lhe levão quasi outro tanto. Fin- tão muitas vezes o povo, e cada hum tem certas aldeias obrigadas a fazer-lhe e cobrir-lhe suas casas, e dar-lhe vinho, e fruita, porque a demasia dá (a) o rei, o que se en- trega a hum como veador, chamado Pinate (20), pessoa principal e de grande preeminência, o qual he obrigado a mante-lo dali, e pôr de sua casa o que falta, e como em- pobrece, fazem outro (21). Para os banquetes geraes acodem todos os lugares, com seu quinhão, e peça de preço, se casa, ou algum filho; nelles são servidos dos principaes, correndo e saltando sem nenhum silencio; comem assentados, como mulheres, nos baileos (22) públicos, que são como tabernáculos de va- randas; as toalhas são de folhas de figueiras e outras her- vas limpas; e a gente comua, no chão. Começão geralmente à vespora, e acabão de noite, e o vinho a que chamão tuaqua (23), e sado (24), sempre de sua especifica virtude, que até barro pera louça deu somente em Oa que jaz entre Tidore e Moutel, chamada Pulo Cabale, que quere dizer Ilha das Panelas, polas que se ali fazem de barro que tem, ca entre elles, pulo significa ilha; e cabale, panela». O malaio corrente regista, de facto, os dois seguintes termos: Pulo (ilha), e Kuali (panela), cuja transformação em cavali, ou em quais- quer outras variantes fonéticas, se explica fàcilmente. (19) Colano ou Gulano, serão talvez designações aportuguesadas do vocábulo pertencente ao dialecto local. Terá, porventura, alguma afinidade com o termo kelana, titulo que os Bugis das Celebes dão aos chefes? (20) Termo local. (21) I. é: nomeiam outro vedor. (22) Sobre este vocábulo vid. Insulíndia — Documentação, Vol. 2.0, Glossário. (23) Vid. Insulindia, loc. cit. (24) Na ilha de Timor, sabo, e não sado é a aguardente que se obtém da destilação da Tuaca. 3 5 5
à ilharga, o qual he tirado do olho da çagueira, e da ni- peira, e algum das palmeiras; parece todo soro. Em fresco- he muito doce, e vai-se azedando até ser vinagre; não honrão nem vituperão a bebedice, mas tem para muito o que muito bebe, sem se embebedar. Como vão no meio do comer, sahem alguns galantes, hum e hum, a modo de guerra, com espada e rodella, e . carapução de feltro vermelho na cabeça, com pennachos dos passaros de Banda (25), sobre que alguns põem cha- pinhas de ouro, e ao som de huns atabaques (26) e sinos de Jaoa, dão algumas carreiras, e certos saltos e voltas, com alguns airosos talhos, fazendo mudanças com os pés, cabeça, boca, e olhos, mostrando-se temerosos, e assim se vão chegando perto do rei, aonde põe as armas no chão, e lhe fazem grande çumbaia (27) com as mãos juntas, altas ao ceo; e em tomando as armas, dão um grande e bom salto, com hum revez contra alguma terra de inimigos. E vão-se, todo correr, e logo vem outro, e os mais a que o tempo dá lugar, até o rei ou reis mui ataviados, e galan- tes, a quem o povo vai, por ordem, fazendo a çumbaia, e dando algumas gritas em louvor, com o que se acrescenta a matinada; e assi se acaba a festa, que he a maior que tem, a que chamão garache (28). Dizem alguns que a tomarão dos papagaios brancos (29), que fazem os mesmos geitos com a cabeça. Por honra de alguma festa ou victoria se ajuntão as casadas em terreiro, bem vestidas, e dadas as mãos, humas (25) As conhecidas aves do paraíso ou pássaros do Sol. (26) Tamboril oriental. (R. Dalgado, Glossário Luso-Asidtico»). (27) Vid. Insulíndia, loc. cit. (28) Os dicionários malaios registam a palavra kerachak, ondu- lar, cuja semelhança fonética e semântica são notáveis. (29) Deve tratar-se das gárrulas caca tuas, cheias de meneios e ademanes. 3 56
nas outras, andão à roda, cantando louvores do rei, ou da festa ou victoria, e a certos compassos batem juntamente com os pés no chão, ao som de hum atabaquinho que huma tange no meio, e assim, mui friamente, andão hum dia e muitos. O desposar dos reis: Feitos os concertos, e pôr-se o pai da noiva em um baileo, donde manda hum honrado embaixador ao do noivo, que está em outro afastado quanto hum tiro de besta, a pedir-lhe por a filha huma grande somma de ouro, o qual responde com muito pouca cousa, e assim, por ceremonia, vai e vem, até acertarem em tres ou quatro arrateis, que lhe ficão de pena para ella, quando a botar fora, e se se sahir, não vence nada. E logo vem hum cacis da parte da noiva, que mette as mãos por entre as pernas do noivo, a ver se os tem, e diz-lhe certas palavras. E com isto a vai tomar o marido às costas, e a leva para casa. Dão ellas aos pais muitas peças, os quaes tornão outras, com seus enxovaes, com que sempre ficão melhor, e o mesmo se usa entre a outra gente; mas os pais poucas vezes tornão. Pelo que dizemos que os maridos comprão as mulheres, e cuido que, se se sahem, tornão os pais o que por ellas levarão. Quando o rei vai fóra, todo o lugar por onde passa lhe dá banquete e peça; são todos os seus obrigados a servi-lo, sem interesse, salvo de honra, por alguma boa sorte, que he mudarem-lhe o nome em outro mais feroz que dizem: rei forte, ou rei de ferro, ou bombarda rija, ou valente pelouro, e outros semelhantes. Tem cada hum as mulheres que podem manter, ainda que tenho que os pais. as sustentão, a maior parte. O filho da mais honrada herda o reino ou senhorio, e por terem muitas, nem por isso tem mais filhos, porque não vi a ne- 3 57
nhum (mais) de doze; o dom delias he nachili, e o delles chichili, e nós dizemos a todos quequi (30). O rei sahe os mais dos dias ao publico, em cuja pre- sença se usa pouco silencio, e quando não ha de que tratar, falia hum principal, em alta voz, seus louvores, ou o que se deve fazer em seu serviço. Quando vai por terra e por mar, todos os que o alcan- ção de vista se poem de cocoras, e lhe vão fazendo a çum- baia; e quando assentado, todos da mesma maneira, sobre pedras, ou paos que logo ajuntão; e os que vem a elle de fora, ou com recado, hão de vir depressa, e agachados como besteiros, até que se assentão, com a çumbaia; e a mesma lhe faz sempre o com quem falia, o qual com os olhos as menos vezes nelle, e as mais no chão, lhe vai res- pondendo: «oe jou colano», que quer dizer: «sim, senhor rei». E quando manda algum com recado, seguem-o muitos, recuando agachados para traz, sem virar a trazeira, senão de longe, e mui de súbito, e correndo até o perderem de vista. Nenhum ha-de estar mais alto, nem subir em parte que o veja; quando sae fora, vão diante moças, que lhe levão a espada e o betele (31) em bátegas, e tudo sobre o ouro. Prezão-se de novidades e de moços ou moças corco- vados, para pagens. Ninguém pode trazer sombreiro de pé e algumas cores, senão elles; todos os malefícios geraes e particulares lhe pagão com fazenda, e os mesquinhos, se lhe encommendão na hora da morte, segundo ouvi. (30) Termos do dialecto local, ou talvez formas derivadas e mal grafadas do vocábulo kechil, título honorifico. (31) Vid. Insulindia, loc. cit. 358
CAPITULO III Dos costumes que alcancei dos Malucos. Os habitadores destas ilhas guardão a maior parte a seita mahometica, que tomarão (segundo dizem) pouco antes que la fossem portuguezes; os demais são gentios e huuns e outros geralmente pobres, e a terra de poucos mantimentos por sua fereza. São membrudos, e de gros- seiro engenho. Carecião de escripturas, antes dos mouros, pelo que não sabem donde procedem, ainda que contão humas pa- tranhas imaginadas, que se não podem escrever; e poucas artes mechanicas, somente carpinteiros, torneiros, e algum ferreiro, e ourives de fraca e grosseira obra. São cortezes, e saudão-se com dizer tabeia (32), que significa: perdoai ou estou prestes para vos servir. Vendem seus mantimentos e cousas em praça a que chamão buto (33), e o malaio paçara, e nós dizemos bazar. Não tem moeda, salvo huma a que chamão pipe (34), e o malaio cazre (kache), nós dizemos caxas (35)» Q11® são de metal, fundidas do tamanho de grandes ceitis, com letras de huma banda, e nada da outra; redondas, com hum buraco quadrado no meio, pêra as enfiarem em núme- ros da quantidade dos nossos (36); são fundidas de boa (32) No malaio corrente existe o termo Tabek, com o mesmo sentido, aproximadamente. (33) Um dos dialectos da ilha de Timor regista a palavra lutuc. com o significado de ajuntar. (34) Neste mesmo idioma pipeh significa chapa. (35) Nome de uma moeda de ínfimo valor, corrente na índia austral, segundo R. Dalgado, op. cit. Os portugueses designaram, de. pois, por este nome, outras moedas, igualmente de pouco valor, como as descritas nesta passagem do documento, mais vulgarmente ditas sapecas de etimologia chinesa, segundo a opinião mais provável. (36) O sentido desta frase supomos ser este: para as enfiarem em número correspondente ao valor da nossa moeda. 3 59
feição; vierão ahi acaso da China, e por haver já muito tempo são muito gastadas pera a Jaoa, e agora correm bazarucos (37). São mais inclinados e usados a guerrear e furtar, que agricultar nem mercadear. Não pezão nem arrenegão, mas jurão muito. Nunca vi entre elles surdos, mudos, alporcas, tísicos, doudos, gafos, papudos, hydropicos, paralyticos, cegos de natureza, peste, nem mordexi; as boubas são mui geraes, até nas crianças, e as curão, e as febres, e as camaras, com lavar no mar. Ha huma enfermidade que subitamente dá, e logo en- fraquece os braços e pernas, e inchão a humas pessoas, e a outras murchão e seção, de tal maneira que não podem andar sem moletas. Cura-se com andar ao sol, e comer e beber, mas como o mal chegue ao estomago, logo mata. Vi a hum castelhano abafar-se, e tomar unturas de sebo de cobra, e sarou, sahindo-lhe dos giolhos abaixo muita lepra, como boubas. Crião os filhos, em nascendo, com os untar e esfregar com raladura de coco, e os botão de costas sobre as pernas, e lhe tirão pelas orelhas pera que chorem, e, chorando, engulão figos verdes assados, de mistura com arroz cozito. E logo começão a beber a tuaqua, que am que alimpa, engorda e refresca. Não costumão mendigar, salvo alguns jogues, a que chamão deuuvanas (38), por os bazares somente. São mui cruéis na guerra, na qual não tem excepção o (37) Moeda feita de diversos metais, cobre, estanho, chumbo, e de valor variável, usada antigamente na índia. A esta moeda man- dada cunhar, depois, por Afonso de Albuquerque, chamavam tam- bém liais. (Cf. R. Dalgado, op. cit.). (38) O malaio regista o vocábulo dewana, real, cuja descendência e dignidade se atribulam estes jogues, naqueles sítios. 360
pai nem o filho, ainda que estê nelles sua salvação. Usão saltos e ciladas, em que fazem grandes geitos e momos, nomeando-se os honrados e valentes, para serem temidos. O vencido, por algum tempo, não entra nas festas do ven- cedor, porque lhe pode qualquer tomar as armas. São muito pacíficos e domésticos entre si; não se fur- tão, nem demandão, senão mui raras vezes; algumas, bri- gão os lugares ou bairros huns com os outros, de que não peza ao rei, por as penas que leva. Furtão aos visinhos das outras ilhas com quem tem pouca fidelidade, e so color de amizade recebem o costu- mado banquete, e no melhor delle tomão os que podem, e resgatão logo alguns, e a outros levão, e se tornão com os navios enramados de canas lavradas, e furadas por dentro. E, quando passão por algum lugar, dão certas gritas e juntamente abozinão com as canas, e batem com os remos em o navio, com que fazem hum som triste, e matinada para não ouvir. Por o numero das canas se ve a grande ou pequena preza, a qual se parte com o rei e regedor do lugar, e pendurão-nas nas arvores, nas entradas dos seus lugares. /Is cabeças cortadas levão penduradas em paos; e se, por ser longe, devem de apodrecer, botão-nas, e fazem outros tantos molhos de estopa de guamuito (39), pera que vejão sua obra. Sam grandes comedores e bebedores na terra, e em extremo abstinentes no mar. Como lhe falta a agua, bebem da salgada, temperada com sumo de limões, como zam- (39) Gamute, do malaio gomuti e gemuti: espécie de sagueiro, de que se extraem, principalmente, filamentos negros, pendentes da base das folhas, para o fabrico de cordas, redes, etc. Os ditos filamentos também se chamam gamute, que é, na verdade, uma espécie de estopa, mais rija e grossa. 361
boas (40), e comem o peixe cru. A maior parte de seus conselhos fazem depois do comer, porque am que em jejum ninguém pode fallar bem. São muito ciosos, mas não estranhão casar com mu- lheres infamadas, ou que outro botou. Usão do incesto, e abominão a sodomia, a qual tenho que se não sabe entre elles. As mulheres são engenhosas e, em geral, baças; e prezão-se de si. Vestem-se de panos de algodão, ao cos- tume malaio; as honradas, que podem, trazem orelheiras, maiulhas (manilhas?), collarinhos, com pedras de vidro, e alguns botões. Fallão passo e brando, e os homens, ao revez, mostrando ferocidade. Vestem-se da mesma maneira, e com as mesmas jóias. Tosquiados sobre pentem (sic), e humas rodilhas nas cabeças, de panos finos, de cores, que lhe ficão como cer- cilho de frade, e a maior parte da barba rapada ou arran- cada, descalços, e alguns trazem chiripos (41) de pao, os quaes trajos são das cortes, e principalmente da de Ternate, aonde avemos que á mais policia. Cada ilha tem differente lingua, salvo a de Ternate e Tidore, que differem como a castelhana e portugueza. Machiem tem tres, e os mais dos lugares da Batochina, cada hum sua, tam differentes, que se nam entendem, senão por meio da tcrnata ou tidora. A ternata, segundo alcancei, he composta de muitas, particularmente da guza- rata, com vocábulos semelhantes, e tocão a latina, e por- tugueza, pérsia, e arabia: à figa chamão toma, a qual dão com o cotovelo, ou sola do pé, que he maior affronta, (40) Zamboa on gamboa, espécie de cidra. (41) Expressão usada em Goa. O mesmo que tamancos. (R. Dal- gado, op. cit.). 362
e por isso, em seus assentos, as tem sempre cobertas com grande resguardo; e toda a cousa errada, sala (42). Tem grande cortezia no andar por fora, porque o mais honrado ha-de ir diante; e os mais, em fio, por a mesma ordem; no que tem tanto primor que vi a hum de Quechil de Rodes acompanhar seu padrasto, imdo elle sempre diante. ,4s principaes povoações, a que chamão Guamos (43), são ao longo do mar, e os do sertão são seus lavradores, a quem chamão alli Furos (Allifuros) (44) • Tem cada hum seu regedor das causas, ou huma pessoa principal, a que chamão Ucom (45), e cada reino tem hum regedor, e hum Ucom geral. Ouvem verbalmente, sem leis nem scrituras, senão pelo costume ou razão. Os casos novos ou graves determinão com alguns velhos, que mandão chamar. Não tem ordenado senão a peita das partes; appellão delle pera o rei, cujos filhos e irmãos fazem de suas cousas justiça como querem. Poucas vezes matão, mas degradão e tomão a fazenda, e quando algum ha-de morrer, entregão-no aos mais che- gados parentes, os quaes o enfeitão, e com os cacizes que lhe hão de encommendar a alma, o vão botar ao mar, bem amarrado, pera que va ao fundo. E sendo ahi condemnado hum, chamado Cochi, foi levado, dizendo sempre que era christão, zombando da doutrina dos cacizes, e assim o bota- rão amarrado, e com bom pezo aos pés; e tornados, sahio o mancebo à boca da noite a terra, e os que o virão, cui- (42) Termo corrente na Insulíndia, com a significação de falta, erro, engano, etc. .... . Os missionários portugueses adoptaram-na, com a significação de pecado, na terminologia religiosa. (43) Designação local. (44) Vid. Insulindia, loc. cit. (45) Hucum, em malaio e noutros dialectos afins significa ordem, comando, lei, governo, etc. 3 6 3
dando ser o diabo, correrão após elle, e ferido se salvou no mato, e depois se fez christão na fortaleza. A alguns baixos e vis ataão-nos a hum pao, aonde o matão à espada os filhos ou irmãos do rei, e se algum o leva de hum golpe, tem-no por boa sorte; ou lhe tirão à barreira, a quem lhe melhor acerta. E quando algum ha-de purgar sua culpa por juramento (46), dão-lhe, ao comer, certa quantidade de pedra mole, a que chamão papan- gana (46), que costumão a comer; mas, se o não engole, he condemnado, e se a levão, dão-lhe em certos casos san- gue da palma da mão a beber, e fica solto. Ouvi que usavão outro juramento, que era meter-se o autor e reo juntamente debaixo da agua, e o que primeiro sahia era condemnado. Também usão prova de testemu- nhas. Costumão sortes em principio de suas cousas. Prezão-se de fallar comparações, e de correr, saltar, e esgrimir, e jogar a pella com os pés, muitos em roda, dando-lhe por todas as partes, com airosos saltos e voltas; e, sem lhe tocarem com a mão, a trazem bom espaço no ar, a qual he de cana ou rota tecida como botão, e do tamanho de huma pequena bola; e pula alguma cousa. Tembem jogão o xadrez sem dama, correndo algumas peças como as nossas. Tem grande fé em aves, bruxos, que chamão çuan- gues (47), a que tem grande odio, porque imaginão que matão secretamente, comendo todo o debulho do homem, o que he causa de muitos vingarem suas offensas, fingindo estes damnos, porque qualquer do povo os pode matar. Querendo, em Tidore, os filhos de Quechil Rade, irmão, do rei, mal ao seu ouvidor, de quem, por sua muita valia, não podião tomar satisfação, lhe assacarão, que passara (46) Será uma variante do malaio larangan, coisa proibida? (47) Cf. Insulindia, loc. cit. 564
em figura de cão por detrás de hum delles, do que morrera, e por isso o matarão com alguns irmãos, e muitos parentes, que o quizerão defender. Contou-me hum mandarim de Geilolo, que hum rei seu mandara matar cento e trinta pessoas de huma gera- ção, sem ficar casta, por serem çuangues, os quaes hão que se fazem inviziveis, e, com isso, quanto mal querem, e, como se fazem christãos (48), perdem esta virtude. CAPITULO IV Da policia e alguns ritos de que usão os Malucos. Em suas povoações tem pouca policia, e menos ordem no arrumar das casas, pelo que tudo são travessinhas cheias de herva, por andare em fio, huns atrás outros; o geral das casas será pouco mais que duas braças em comprido, e huma e quasi meia de largo, baixas, à feição de moimen- tos, e de duas aguas, cubertas d'ola (49) das ttipeiras (50), cujas folhas durão muito, e ardem mal; são de madeira empechada sem prego; cada huma sobre quatro esteios inclinados pera dentro, como pés de banco; sobem a ellas por escada de cana levadiça, por causa das guerras (51); os sobrados são de canas atadas, bem lavradas, e assim os dos baileos públicos que tem em terreiros. Tem seus thesouros soterrados nas hortas e matos. As mesquitas são de madeira, armadas sobre muitos esteios bem lavrados, postos em cima do chão sobre pedras; os (48) Quer dizer: logo que se fazem cristãos... (49) Cf. Insulindia, loc. cit. (50) Termo português formado do malaio nipah, o mesmo que gamuti. (51) Talvez, antes por causa dos animais. 365
sobrados, de canas, e de dous e tres telhados hum sobre o outro, e nenhuma he de pedra nem taipa. Os lugares são, na maior parte, fortes, por natureza ou artificio, de cercas, de canavieiros ou pedra ensossa. Quando ha guerra, estrepão-se em roda, o que algumas vezes lhes he contrario, porque como muitos não esperão dentro, a pressa com que fogem lhes faz errar os carreiros que deixárão para serventia, e se ferem. As suas espadas, a que chamão goles (52), são de bom ferro; mais curtas que as nossas, e de hum só corte, estreitas na empunha- dura, e alargão pera a ponta; o punho e maçã de pao, bem guarnecido de estanho, no qual trazem hum escudo, que lhe empara a mão; e alguns, por cima, hum man- qual (53) de ostra, e bem polido, que parece bem, e guarda a mão, e os ricos põem sobre elle outro de ouro uzado, ou como querem, com que fica mais leve, e galante; cortão facilmente hum homem, porque são pezadas. As rodelas, a que chamão solavacos, (54) são de feição de telha, e chegão do chão à boca; e de hum palmo e meio de largura, até dous, e delgadas e fortificadas com alguma rota bem lavrada, e huma asa, ou castanha que lhe fica do mesmo pao, com hum buraco por que mettem dous, tres dedos, e os mais andão por cima. Usão muitos arremessos de ferro, pao, e cana, antre os quaes tem farpões com que prendem os homens, como a peixes, alando por elles, e entre os de cana tem huns a que chamão Calabas (55), delgados, e do comprimento de huma braça, em cuja ponta põem hum ferrão de pao tostado, com farpas, e na outra põem huma cana do com- (52) O vocabulário malaio regista as palavras golang e goUk (brandir, manejar), termos, porventura, aiins. (53) O mesmo que mangual, supomos. (54) Termo locai. (55) Do malaio kelebet (?), dobra. 366
primento quasi de hum covado que trazem na mão, com que despedem a Calaba, mui longe, e certo. Também usão frechas, e em algumas põem hum cabello de mulher na ponta, pera ficar na ferida, e nunca sarar. Os pobres fazem espadas de cana, e pao, e alguns lhe mettem na ponta ossos agudos, à maneira de ansinho. Geralmente pelejão em panetes (56), ou em Cachados (encachados) (57), e os honrados com carapuções de feltro vermelho, e huns camisões acolchoados de algodão, a que chamão barutes (58); mas agora, por nossos peccados, usão todos nossas armas, e da Jaoa lhe levão berços de metal, salitre, enxofre, pedra ume, com que fazem boa polvora. Não costumavão balroar no mar, nem cercar em terra, mas nós os ensinamos, de tal maneira que nos tomarão hum bergantim em Tidore, e hum junco em Bachão, à traição, ao tempo de Antonio de Brito. E no de Tristão d'Eça, (Cristóvão de Sa) tomarão, os tidores, abalroada, outra fusta com vinte e cinco homêes, que matarão, e, esca- pando escondido o bombardeiro, o mandou o rei pera sua casa sem nenhum damno, aniquilando (sic) mandar-lhe Dom Jorge d'Eça hum cacis, com as mãos, orelhas, narizes cortados, havendo aquelle caso por tão novo como cruel, ao qual Dom Jorge teve o mesmo rei ja abalroado em outra fusta, que defendeo com muito trabalho e esforço. E tomou outra fusta com tres Portuguezes, e os Ternates tiverão abalroado hum junco, em que vinha Balthasar Veloso com quarenta homêes. São grandes mestres da solorgia, e tem em muitas par- (56) Pano grosseiro, espécie de tanga. (57) Encachado, termo português-oriental, formado de cacha «panos de algodão ordinário que se fazem no Malabar» (Cf. R. Dal- gado, op. cit.). (58) Em malaio barut é também uma peça de vestuário. 367
tes que não pode morrer o enfermo bem regido, se chega a primeira cura; não sangrão, nem cozem as feridas, nem encabeção os nervos, pelo que ficão aleijados, e as feridas feias; burnem as feridas com hum seixo quente, espre- mendo fora todo o damno, e deitão-lhe o çumo de huma herva, e da raiz de outra, mesturado com leite de coco, tudo bem quente, e por cima humas folhas untadas do mesmo, e guardão-no (59) do ar, e de comer carne, e assim nunca crião materia nem espasmo; lanção ventosas, e dão botões de fogo com pano, e purgão com muitas hervas. Ha em toda a terra muitas castas de canas, das quaes se servem em suas casas no fazer delias, em tirar, acarretar agua e vinho, e fazerem de comer nellas, e tornos para os navios, mastos, vergas, bainhas de espadas, zaravata- nas (60), armas, e ferir fogo, tocando huma com outra (61), e de lumieiras (62). São todos, até os reis, grandes pescadores do alto e do baixo; huns de dia, outros de noite, às escuras, e com fogo, correndo e a pé quedo. Os peixes agulhas tomão com laços à flor da agua, e aos voadores lanção muitos páos no mar, do comprimento de hum covado, e em huma das pontas atada huma pe- quena pedra, que o faz andar direito, e no meio huma linha, pouco mais de huma braça, com seu anzol iscado, e se põe à vista; e como o pao mergulha, acodem a tomar a preza; fazem boas tarrafas e redes de fio de humas folhas (59) Subentenda-se o doente. (60) Vid. Insulindia, loc. cit. (61) Para obterem lume, os indígenas de várias ilhas da Insu- lindia tocam, i. é. esfregam, durante algum tempo, dois pedaços de bambu secos e devidamente preparados, acabando por arder e formar uma pequena chama. (62) Ê também com estes bambus secos que fazem seus archotes, para se alumiarem durante as viagens, de noite. 368
que nascem no mar, as quaes, apertando-as com os dedos, dão de si fio como de fino linho. Ha muitas castas de peixe de Portugal, e o que mais continua a praça he bomisto (?) (bonito) e voadores, a que chamão, geralmente, Antonios, por Antonio Galvão lhe ser muito affeiçoado; também ha todo o marisco de Portugal, e antre elles se achão huns caranguejos, conhe- cidos por certo pello que tem, que são tão fina peçonha que mata em vinte e quatro horas, a todo o mais. E ha outros, que no mesmo espaço fazem grande febre, sem ha- ver comer, beber, e dormir, assentar, nem deitar, senão rir, bailar, saltar, brincar, zombar, sem nenhuma consi- deração nem repouso; e, passado o termo das vinte e quatro horas, tornão em si. Dizem que são criados ao pé de humas arvores, sob cuja sombra adoecerão já muitos, desta enfermidade, passando por ellas, que são já conhecidas, porque, quanto toma a sombra delias, tanto está queimada a terra sem nenhuma herva, nem arvore. Ha outros como lagostas, ainda que de menos pernas, e tem huma grande, e outra maior, com humas bocas de dentes, à feição de alicate, com que que- brão huns mui rijos caroços de fruitas, pera lhe comer a amêndoa. Crião-se em covas no mato; tomão-nos de noite com lua, ou fogo; tem o corpo e pernas com carne, como lagosta, e no rabo hum bolso, de huma certa massa, de muito gosto, pelo que são muito estimados, e valem como as gallinhas. A toda a sorte de caranguejo chamão ca- tão (63). Há peixe vaca de mui estranha feição, e grandeza, do qual não trato, por ser muito conhecido dos do Brasil, que são os proprios, sem differir, segundo dizem (64). (63) Ketam, em malaio. (64) No Texto I encontra-se a descrição minuciosa deste peixe. 3 69 INSULÍNDIA, III — 24
Ouvi a alguns velhos, que tinhão que a tormenta do mar era causada da paixão do rei, a qual aplacavão com dadivas, pera poderem pescar, e elle, usando da boa occa- sião, seguia-o ou moderava-se, conforme ao tempo, pera melhor os pescar, etc. CAPITULO V Das alimarias, bichos, e aves que ha em Maluco. Ha muitos porcos domésticos, e silvestres, e gatos domésticos e d'Algalia, galinhas domesticas e do mato, pretas, pernaltas, semelhantes a pavões novos, o corpo do tamanho das da Beira, da cor e da feição do da perdiz; põe ovos tamanhos como os de pata, e de ventagem no comprimento, em covas que fazem de mais de braça, no mato húmido, onde não entra sol, cobertos de terra, com monte alto, por onde são conhecidos; donde saem os filhos tamanhos, e tão pennudos, que se crião sem a mãi, como chocárão; de maneira que, como põem ovos, logo os co- brem, e deixão. Ha pombas mansas, do mato, e trocazes, e adens mansos e marítimos, e corvos, minhotos, gaviães, mouxos, corujas, garcenhas, gaivotas, guinchos, alveloas, andori- nhas, solitários, e outros como zorzaes, e hum, a que chamão vancoles (65), que crião, e andão pelos quintaes, e por cima das casas; que da meia noite por diante fazem mui resonante musica, respondendo o macho à femea, nos quaes se conhece melhor a meia noite que nos gallos, que a dão duas ou tres horas ante manhã. (65) No Texto I lê-se vascolas. 370
Ha muitas castas de papagaios, e os passaros de Ban- da (66), cuja feição he bem conhecida, mas seu nasci- mento não pude alcançar, mais que dizerem que os traz o vento mortos, a cahirem nas Ilhas de Banda. Destes pa- pagaios, a que chamão nores (67), ha alguns que ensi- nados fallão bem, entre os quaes ouvi de hum que, estando são, disse: «Morro, morro»! E morreo logo. E do outro, que indo em hum paiol de huma fusta, sendo de noite commetido de hum rato, bradou muito rijo: «Xo! Xo! Bastião!» E com isso se livrou, aida que com algumas pennas menos, por lhe acudirem. Ha muitos e grandes morcegos, e em algumas partes andão em bandos, como se põe o Sol. Vi hum que, de huma ponta d'aza à outra, tinha grandes sete palmos. E ha humas aves que andão de salto, por terem os pés como de papagaio, sendo tamanhas como pequenos patos, e tem tamanho bico que põe espanto, sobre o qual tem certos debruns, por que dizem que mostrão os annos da idade, com o qual, juntamente com o sonido das azas, fazem tão triste e bradado som, que se não pode ouvir. Quando a femea choqua, não sahe do ninho, onde perde toda a penna, até o nacer dos filhos, com os quaes torna a ser vestida, e sae; e em todo este tempo a sustenta o macho, o qual não consente passar por junto do ninho a nenhuma pessoa, particularmente femea, porque com o bico e unhas a trata mui mal. Vi duas serpes do tamanho de grandes lagartixas, que voavão por as arvores, de feição e pintura das que pintão, e ouvi que em Amboino virão huma, da grossura de huma perna de homem. Na ilha de Taguima ha coelhos, como os do mato da (66) Também chamados pássaros do Sol e Aves do Paraíso. (67) Termo malaio nuri, papagaio. 371 1
India, que voão por as arvores; também há lá camaliões, e bogios sem rabo, e ha cobras de vinte e sinco e trinta pés, e de conforme grossura; não são daninhas, nem venenosas, nem ligeiras; dizem que, com fome, mastigão certa herva e vão-na botar à borda da agoa, à qual acode muito peixe, e como se embebeda, anda sobre a agoa, e então se fartão. Tem a Ilha de Terna te huma boa alagoa doce, em cujo sercuito ha muito arvoredo, sobre que andão muitos lagar- tos, quasi de huma braça de comprido, por terem o rabo longo, e o corpo curto, e tem sobre o espinhaço hum alto cero (?) com pontas, como aza de morceguo, e com a vista da gente saltão, e mergulhão na agoa. Também ha muitos marítimos que matão gente, dos quaes se guardão, sahindo em terra, pelo grande fedor que lhe sahe pela boca. Dizem que tem quatro olhos, a saber, os dous da testa, e outros dous da garganta, e mui pequeno coração, pelo que são covardes, e se deixão atar e amarrar debaixo d'agoa, mergulhando a elles, tres, qua- tros negros, fazendo matinada com que se agachão, e não ousão bolir (segundo me contou hum padre de S. Paulo) que o vira. Ha muitos bichos, a que chamão cuços (68), que ha- bitão as arvores, de cujo fruito se mantém, do tamanho de coelhos; tem o pello espesso, crespo, e áspero, e os olhos redondos, e mui vivos, e pequenas orelhas e pés e mãos, c'o rabo comprido, e sem pello, pelo qual se pen- durão, pera melhor alcançarem a fruita. E caem muitas vezes de mui alto, sem receber dano, e fedem muito a raposinhos. Os machos tem grandes companhões, sem se lhe enxer- gar natura, nem as femeas, pelo que temos que serão como (68) Nome vulgar nas ilhas insulindicas dum pequeno quadrú- pede da família dos marsupiais. Em Timor chamam-lhe meda. 37 2 i
coelhos, mas fora da barriga, em hum bolso que tem atrás do embiguo, que se não enxergua de fora, e, apartado com a mão, fica com aljabeira sem pello, e a carne esfolada, em cujo meio tem huma tripa, em que está pegada a criança pela boca; e alli gera, crece até nacer, e depois lhe fica em ninho, sahindo-se fora, e tornando-se, até ser de todo criada, etc. CAPITULO VI Do mantimento, fruitas, e do sal que fazem na terra. Assim como Nosso Senhor foi servido povoar aquellas ilhas tão remotas das outras terras, e cidades populosas, aonde com mais perfeição usão da vida politica, pera o que inventárão grandes artes, nem por isso desemparou a estes, deixando Deos prover do necessário, conforme a suas perezosas(s»c)compreensõens e debilitados engenhos, e con- forma-los tanto com isso, que hão não haver outra melhor terra, particularmente por haver em seu uso com menos trabalho e arteficio; e pera o que lhes podia faltar, lhe deu o cravo, e pera por meio delle serem communicadas com as outras gentes, principalmente de christãos, por cuja dou- trina se podessem salvar; o qual nace no mato, sem traba- lho nem arte sua, e da mesma maneira o mantimento que usão por pão, o qual se dá em duas sortes de árvores, qué differem somente na côr, e ambas semelhantes a palmeiras, e mais grossas, e menos altas; mas o çagueiro tem o pao e as folhas verdes, mui escuras; desta tomou nome çagu; a outra casta se chama nip a (69), ou nipeira, a qual nace em vaso, e çagueiro em terra. (69) Em malaio nipah, o mesmo que gamuti, árvore da família das palmeiras. Note-se a redacção confusa desta passagem. 37 3
E antre suas folhas ou ramos se cria muita estopa preta, a que chamão gamut o, que tem mui secas e rijas arestas, mas, limpo e sacudido o grosso, fiqua o bom; e delle fazem todo o necessário de cordas, e algumas redes; dura muito na agoa, e debaixo da terra, pelo que forrão delle os pés dos esteios de suas casas; antre as folhas tem hum olho que dá certa semente em hum ramo como tamaras, do qual, antes da fruita, e assim da nipeira, tirão çura (70), a que chamão tuaqua, e outros nomes, segundo as línguas; parece na côr a çoro. E d'ambas estas castas se tira o çagu, de huma maneira de tronco até ás folhas, e quanto mais velhas, mais dão, e assim as cortão e fendem facilmente, porque o pao será de dous dedos e menos, de grossura; e tudo dentro de huma massa dura como nabo, e a tirão com alguns ferros ou paos agudos, e a desfazem na agua, dentro dos mesmos cascos ou couchos (cochos) que pera isso tem; e nada o farelo e muitas arestas e palhiço que cria dentro, e alas- tra o bom; e coado por huns panos, que crião as nipeiras, os cestos que fazem das mesmas folhas, o tirão mui branco e limpo, sem cheiro algum; os Portugueses o guardão em jarras, bem pilado, ou em covas, pera durar mais, porque a humidade o conserva e sustenta, e o vento e o sol o dana e faz mudar a côr e feder. O bom, antes de cozido, apertado entre os dedos, faz huma massa, como de castanha verde, bem cozida; quando o querem comer, aquentão humas pastas de barro cozido, que tem humas cavidades, segundo a curiosidade dos olei- ros; e depois de bem quentes, enchem-nas daquella farinha, desfeita às mãos, por tempara que não seja sequa nem molhada; e sem mais cheguar ao fogo, a cobrem com hum (70) Sura é o suco extraído de várias palmeiras, antes de fer- mentar. O mesmo que urraca. (Cf. Insulindia, loc. cit.). 37 4
pano, e em breve tirão o pãao da feição da forma e da côr que tinha; he de boa disistão e, bescoutado, dura muito tempo, se se não molha; em fresco sabe melhor que todo o pãao que não for de trigo; feito em polme, serve de man- teiga crua nas queimaduras. Fazem vinho, a que chamão quilão (71), de canas de açuquar, que aparão e espremem antre dous eixos oita- vados, que virão hum sobre o outro; e cozem aquelle çumo por tempera que não fique açuquar, e botado em jarras lhe botão lançoaz (72) e pimenta longa, pera o aquentar, e huma casqua de pao, pera lhe dar côr, e assim ferve por vinte dias; e passados, o coão e temperão com ar aqua (73) pera o aquentar e durar, e alguns o soterrão, por muitos mezes, e achão que se faz como tinta; fazem azeite de coco, de peixe, e dumas fruitas a que chamão caque- tas (74), que não comem, e nacem em grandes arvores, e he tão bom como o de peixe pera navios. O arroz da-se-lhe pelos outeiros, sem mais trabalho que alimpar o chão, cavar, semear e colher. Fazem o vestido de certas casquas de vergontes d'arvo- res, molhando-as e batendo-as com macetas sobre paos, e assim as estendem quanto querem, ou dão de si, e as fazem delgadas, grossas, e largas, pegando-as humas com as outras; e as pintão louçãmente, mas apodrecem com a agua, e chamão-lhe fiças (75); as vellas dos navios, e sacos fazem dos olhos e folhas novas das nipeiras, e d'algu- (71) Em malaio kelang é pròpriamente certo engenho para o fa- brico do açúcar, extraído da cana. (72) Do malaio lengkuas, espécie de gengibre. (73) Supomos que seja o mesmo que urraca, vinho de palma. (74) Os dicionários malaios que pudemos consultar não registam esta palavra. • (75) O P.e Fabre, no seu dicionário, regista o vocábulo pisak, ponte, e pedaço de pano que serve para dar a necessária roda a qual- quer vestido. • 37 5
mas fazem panos finos, e assim fazem outro de algodão, em que entromettem fios de bretangieira de quin, (sic) pera o ornar. O sal fazem da lenha do mato, à falta da que, algumas vezes, achão no mar; e fendida fazem monte, e lhe põem o foguo, e vão molhando com agua salgada, por tempera que o não apague, mas consuma e gaste a lenha, de cuja cinza fazem decoada, e depois a botão em hum pano com- prido, posto em alto, sobre que vão botando a decoada, pouco a pouco, quente, a qual vai cahir sobre testos de panellas, que tem postos por ordem sobre brasas, e gote- jando ali se congela e faz pão duro, da forma do testo. O mato lhes dá todas as fruitas, na maior parte, em grandes arvores, a saber; jaquas de muitas e boas castas, jambos brancos e vermelhos, mangas, e humas fruitas que sabem a nozes verdes, e outras amêndoas, e servem lá disso, maçãns de Malaca, entre as quaes ha humas silvestres, cuja amêndoa faz purgar por alto e por baixo, e assim os gãos (grãos) (76) a que chamão de Maluco; duriões ha somente em Maquiem, Bachão, Amboino. Ha outras muitas castas que servem aos pobres, e aos porcos e bichos, e humas com que se tempera o comer, e outras pera conservas; muito boas laranjas doces, azedas, e bicaes, e romãs, e uvas; e cada pé, dizem alguns que as dá quatro vezes no anno, e como as vendimão, logo as podão, se não fazem-se mato; boas castas de limões, e cidrões, e de figuos, melhores que os da India, que os da terra como (comem?) na maior parte, assados, verdes; e os pepinos, maduros; melões, aboboras de Portugal e de Guiné, patecas (77), com balengas, biringelas, entre as (76) Grão de Maluco ou Grão-Maluco, espécie de purgueira. (Cf. R. Dalgado, op. cit.). (77) Nome que se dá à melancia, no Oriente. 37 à
quaes ha humas pequenas e amarellas, que mastigando-as assadas, fazem botar da boca ou dos dentes muita quanti- dade de bichinhos brancos, que duvido poderem ser delias, ainda que nunca lhos pude enxergar. Ha toda a ortaliça da índia, salvo sergas, borragens, salsa, e couves, e parece porque não ha vaca nem carneiro. Ha outras muitas hervas de que comem os olhos e folhas: bredos, manjaricão, jesmim, aipo, avenca, çarralha, almei- rões, artemigem, arruda, arvores como salva, malvas, malvaisco, perraxil do mar, ortiguas, figueiras de inferno, betele de folha e de espigua, da feição e maior que pimenta longua; a qual hão por mais excellente na vertude que o outro; muitas castas d'areca, pimenta longa, gengivre, lancoaz, a que nossos medicos chamão calanga (78), aça- frão da terra, tamarinho, canas de açúcar, algodão, pa- nha (79), feijões, grãos de cavallo, inhames de muitos modos, milho zaburro, painço; e dá-se boa palha de trigo sem grão, e ha humas hervas que de noite enflorecem, e com o sol murchão, e outras que tocando-lhe c'o dedo seca vão, e depois tornão. Os matos são de grande arvoredo, e pela maior parte de pouca dura, e fraqua madeira, sempre verde, e as raizes, pouco profundas; algumas arvores fazem concavi- dades à roda do pé, em que podem habitar muitas pessoas, e de tal feição que tirão dos repartimentos tavoas de mais de braça de largo, com somente cortar, e alimpar; também ha boa madeira e breu pera navios. Ha humas arvores que não dão flor, nem fruito, e os olhos e folhas sabem a alfaces ; os olhos são brancos, e as folhas amarellas e verdes, as maduras pera sequar; com as quaes côres são mui fermosas e aprazíveis á vista. He (78) Galanga e não calanga. (79) Vocábulo oriental: certa espécie de algodão. 3 7 7
o viço tamanho que, cortando algumas castas de arvores, crião grelos, e fazem ramos, ainda que as ponhão no ar, que durão mais de tres mezes. CAPITULO VII Da cantidade das Ilhas do Cravo, e a ordem delle. As ilhas do cravo são sinquo, o que se deve entender, fallando sumariamente, porque fazemos Bachão huma, sendo na verdade muitas, que navegão por braços de mar, das quaes se ajuntárão cantidade de trezentos bares de cravo, na maior monção. Também não he de crere que só nestas sinco ha cravo, por o haver em alguns lugares da Batochina, Roz (8o), Meitara, Pulo Cavali, e em muitas partes de Amboino; o qual vão os jaós ahi buscar, a troco de mantimentos, artelharia e monição. Quando havia boa novidade, ajuntavão-se em todas as ilhas seis mil bares, de bastão (81), de quatro e meio, e dezanove arráteis, cada hum, que são duzentos cates (82). As novidades não tem ordem, porque o havia hum anno, e outro não, o que se corrompeo, por muitas vezes; e se algum sinal ha, (é) haver muita fruita, principalmente a huma casta a que cha- mão Lancãas (83). Maquien de mais cravo que Ternate, e Ternate que (80) Não conseguimos identificar esta ilha, e não deve ser a ilha Rau, perto do Moro. No Texto I, Part. 2.». cap. Ill, lê-se Yres, um ilhéu perto de Ternate, do qual julgamos tratar-se nesta passagem. (81) Quer dizer cravo de bastão, ou seja, pròpriamente o peciolo do cravo. Vid. InsuUndia, Vol. 2.0, pág. 651. (82) Vid. Insulindia, Vol. i.°. Glossário. (83) O mesmo que lançoa, conforme Texto I, Part. 2.a, cap. VI: afazem também vinho de canas de açucare..., e botão-no em jarras com certa quantidade de lançoas, que he como gengibre...». 37 8
Tidore, e Tidore que Moutel, e o Bachão menos que todos, o qual andará igual quasi com o de Amboino. As arvores delle são mui altas e fortes, e assim sua madeira, a qual queima nem cheira, nem os ramos como o cravo, ainda que as folhas tem algum pequeno sabor delle (84); remedão lourereiros e na índia Berindão. que lhes he mui semelhante; dão fruito de seis annos, tendo grossos troncos; produzem muitos e delgados braços, são naturais do proprio mato, e também nace da madre, que cahe gerada de cravo maduro, que fiqua por colher, a que chamamos Girofo (85). Não lhe fazem mais bemfeitoria que alimpar o mato, em que o cravo caiu; convém que haja sol em seu naci- mento, e chuiva no criar, porque, como nace das pontas dos ramos, com ella viceja, e converte-se em folhas. Vem em pinhas, sem proceder flor, salvo a das pontas, com que dizem que cada grão tem sinquo quinas; em algumas pi- nhas nacem outrosi, de sinquo em sinquo, grãos. Em novo, he verde; e roxo e vermelho, quando he maduro; estando na arvore cheira a maçãs maduras; algum cahe, e o mais apanhão com ganchos, como sereijas; mas, como as arvores são mui altas, e os ramos delgados, levão muito trabalho, e correm muito risco de quedas. Enxugão-no ao sol e ao fumo, aonde se faz mais escuro, e quebra muito; chamão-lhe os da terra bua lavoa, e biia(86) quer dizer flor, e lavoa deve ser o nome da arvore. (84) A redacção desta passagem presta-se a certa confusão. O lugar paralelo do Texto I é claro: «As arvores que o dão são muito altas, e forte a madeira delias; na cor do pao, na grossura e na folha (arremedão) a loureiro; a qual nem o pao cheirão, nem queimão...». Part. 2.*, cap. 3.0. (85) Supomos esta "designação relacionada com o francês girofle, cravo-da-tndia. (86) Bua, ou Buah, quer antes dizer fruto, palavra comum nos falares insulfndicos mais conhecidos. 37 9
Em Bachão colhem-no, cortando os ramos, sem o qual o não dão cedo, pera do cortado arrebentarem os olhos, que o hão de dar. Nas outras ilhas usão quebrar, aonde não pedem alcançar com a mão. A boa novidade começa a nacer em Fevereiro, e a colher (-se) no fim de Agosto; e mais e menos, segundo o posto e copia dos colhedores (87). Estas quatro ilhas do cravo são mui altas, e quasi redondas, e a de Tidore mui aguda; e o mesmo dizem que foi a de Maquiem, e botava foguo, e abrindo seu piquo, cahio grande parte delle, alagando hum lugar, e intupio hum pedaço de enceada, como ainda agora mostra, assi nella, como na abertura que em cima deixou, sem nunqua mais o botar, nem fumo. Tremem muitas vezes e são mui alcantiladas, pello que ha nellas mui poucos portos. Ternate tem o de Tarlanguame (88), huma boa legoa da fortaleza, aonde invernão as naos; e, dahi a outra legoa, o de Toloquo (89), onde podem estar os navios com pran- cha. Tidore tem hum baixo, junto do seu porto, que não he muito bom; e Moutel, outro com barras abertas, pera entrarem suas coro-coras. Sendo Alvaro de Mendonça capitão, houve huma grande tormenta, que fez grande alvoroço no mar, que o fez lançar de si muitas pedras, das quaes edificou hum mole, de duas legoas de comprido, junto da Batochina, defronte de Ternate, por tal ordem, que pareceo muro, segundo dizem, e descobre com as marés, e navega-se francamente, entre elle e a terra. (87) O Texto I é também mais claro nesta passagem: «A boa novidade nasce do fim de Fevereiro ate meado de Abril, e colhe-se de Agosto ate Novembro; e, as vezes, em algumas partes mais tarde, segundo os postos...». (Part. 2.a, cap. 3.0). (88) O mesmo que Talangame. (89) E também Toloco. 380
CAPITULO VIII Da arte das coro-coras em que navegão, e da ordem que com ellas e nellas tem. Pois as coro-coras forão parte de dar a Vossa Senhoria o matiz em que hião debuxadas (90), perguntando-me por ellas, parece necessário tratar de sua feição e arte. São navios mui sotis e remeiros, tanto que dizem poder remar huma vinte legoas, de sol a sol. Em geral chamão a todas Otes (91), como nos navios; e, em particular, às grandes, Joan gas (92); que remam de oitenta até cento e vinte remeiros, e levão vinte, trinta de peleja; e aos daqui pera baixo chamão coro-coras, que remão de sincoenta ate setenta; e dahi pera baixo, tem outros nomes. A outros, a que chamão calaluzes (93), que differem somente na feição de popa e proa. Aos carpinteiros destas obras chamão meãos, os quaes me parece tomárão o nome de huma ilha ahi perto cha- mada, ou ella delles (94), por ser povoada pellos mesmos. (90) Por esta passagem e pela sua paralela do Texto I parece entender-se que, de principio, Gabriel Rebelo apenas tinha em mente compor os desenhos, atrás reproduzidos; resolvendo-se, depois, a es- crever as suas Informações sobre as Molucas, para melhor servir aquele a quem as dedicou. (91) Os dicionários malaios registam o vocábulo otek para desig- nar certo peixe. Com a acepção de barco o termo correrá, apenas, no dialecto local, ou talvez se trate duma alteração da palavra kolek, espécie de canoa. (92) Vid. Insulindia, Vols. i.° e 2.°. (93) Rodolfo Dalgado regista o vocábulo proveniente do malaio- - javanês, com o significado de pequena e ligeira embarcação de remos, usada antigamente na índia Insular. R. J. Wilkinson, po* sua vez, informa que o termo malaio kelulus designa um barco mencionado nos romances antigos. (94) A primeira hipótese parece-nos mais provável, por mais conforme com o sistema de formação vocabular, nos dialectos ínsu- lindicos. 381
Quando fazem obra do rei ou do regedor do luguar, podem tomar o mantimento que ouverem mister, por onde quizerem. Usão somente enxó, escoparo, macete, verruma, a qua he como goiva encavada; e pondo-a com a mão esquerda aonde ha de furar, dão-lhe em cima com o ma- cete, e com a outra dão volta, de maneira que, dando com huma, e voltando com a outra, furão tudo, sem trabalho, muito direito. A quilha he mui grossa, e a primeira taboa sera de huma polegada, e vai engrossando até duas, que terá a derradeira; de cada páao, ainda que muito grosso, fazem duas somente, fendendo-o, porque não usão serra; vão as taboas por dentro torneadas de páao como brasil ou cana; antre humas e outras poem, pera vedar a agua, hum algodão tirado dos ramos de humas arvores a que chamão Baru-Baru (95), e na índia, aonde as ha, Beru; e pera bem peguar, untão primeiro a taboa, de leite de humas grandes arvores, a que chamão Cuquão (çuquão) (96), que tem as folhas maiores que de papel (97), e fruito quasi semelhante, e adubada a tavoa, apertão com macetes, e fiqua tão justa que quasi se não enxergua a costura, e por dentro atão, sobre asas ou castanhas (98), que lhe ficão, certos liames de raizes, tirados a feição, com que a fortifi- cão. Como o Baru-Baru incha com a aguoa, nunqua mais as adubão, salvo se o gasta a formiga. Sobre o casco atravessão certas viguas. em cantidade e grossura conveniente, grossas no meio, e agudas pera os cabos; botão fóra por ambas as partes mais e menos de (95) Segundo Wilkinson. Baru é uma árvore das praias (Hibisticus tiliaceus). (96) Em malaio, sengkuang, termo que os nossos orientalistas não registam. (97) Papel, variedade de manga, na Índia portuguesa. (98) Peças de madeira ou ferro, pregadas no navio, e por onde passam os cabos. (Cf. Cândido de Figueiredo, Grande Dicionário). 382
braça e meia, as quaes assentão por cima hum sotil so- brado de páaos e canas, em que vai a gente de guerra; e sobre elle, outro, de popa, pera o capitão, coberto pera o sol e chuiva, de humas lindas folhas, que não pode trazer senão rei ou Çangaie (99), e os mais vão de outras folhas de nipeiras, com que se cobre todo o navio, quando chove, ainda que reme ou estê surto. E estão assentadas as viguas por tal ordem que, atados nas pontas huns páaos fortes, d'altura pouco mais de hum palmo, dobradas como lingoiça, em que atão certas canas grossas, que vão por a aguoa de huma a outra parte, nas quaes se sustenta o navio, e vai direito sem se poder virar, nem meter mais do necessário. Entre estas e o casco vão, de longuo, atadas outras, a que chamão Names (100), so- bre que vai, de cada banda, outra chusma dobrada de dous, remando huma parte para o navio, e outra pera fora, e assim, por sua coonta, vão tantos remeiros por fora, como por dentro. Sahe-lhes da quilha hum pequeno esporão de proa, e outro de popa, que vão quasi debaixo de aguoa; sobre o de proa vai posto hum pescoço de páo, com boa volta, e huma cabeça de serpe, de boca aberta e comprida, e bem feita linguoa, e dentes, e cornos de veado, e mui fantastica coroa, tudo bem lavrado, e ás vezes pintado, mostrando grande ferocidade aos que se lhe antepuzerem, sobre que vão algumas louçãns bandeiras, que ornão muito. Sobre o outro esporão de popa levão hum galante e alevantado rabo, guarnecido da mesma maneira, e pelo meio vão outras bandeiras, e envenções, com que parecem bem. São mui limpas e lindas pera andar nellas; levão (99) O mesmo que sangaje. (Cf. Insulíndia, Vol. Io. e 2.°). (100) No Texto I, Part. 2.», Cap. 7.0, lê-se inajos, vocábulos que os dicionários malaios não registam. 383
maior carga do que parece ser-lhe possível; atravessão grandes mares, sem nunqua se perderem, salvo dando em seco, nem se virão, nem vão ao fundo; joguão berços nos- sos e seus, com que fazem crua guerra, na qual não costu- mavão abalroar, mas rodeando-se, e dando caça, se des- baratavão. Usão pangaios de tres palmos, as pás redondas e sotis, e os cabos delgados, quanto possam apertar com a mão, que anda junto da pá, e a outra na ponta, sobre huma cruzeta, como de muleta; remão mui igualmente, e de mui- tas maneiras, e sempre cantando, conforme ao tempo: prazer, tristeza, victoria, desbarate, ou fortuna que passão, ou rei ou pessoa que levão. Hum de boa voz diz hum pé, e os mais, juntamente, outro, que não parece mal, ao som de huns atabaquinhos e sinos pequenos, que os do baileo sempre vão tangendo; virão mui de súbito, e mudão o compasso, regulando-se por elles; são tão rasteiros, que, quando hum vai armado, leva o borde (sic) em cima da aguoa, pouco mais de meo palmo, por o qual se alagão muitas vezes, mas, impro- viso (sic), se lança toda a chusma ao mar, e torna junta- mente, sem se bulirem, nem molharem os do baileo. Se quebra alguma cousa, logo he remendada, e se abre no mar, tiraão-lhe a armação, e virão o casco sobre ella, e o concertão e tornão a armar e fazer seu caminho (101). Os remeiros de fora, a que chamão nanes (102), fazem (101) O Irmão Fernão do Souto, em carta de 15 de Fevereiro de 1563 (Documento 2.0 deste volume), escreve o seguinte: «esta em- barcação, ainda que se alague, não se vay ao fundo, sem primeiro se fazer em pedaços; rema-se com setenta remos, e algumas, cento e vinte». (102) Supomos tratar-se de uma forma do termo nyanyi, com o significado comum de cantar, e que nas Molucas designaria também esta ordem de remeiros, que para afugentar os maus agoiros iam dizendo certas palavras. 3 8 4
todo o serviço do navio e da gente; navegão em quanto lhes he possível, ao longuo da terra, e, como são agourentos, vendo alguma nuvem por proa, vão-lhe dizendo certas palavras, e açanando com humas raizes de arvore, que se vá pera huma banda. Quando atravessão, que começão a ver terra, vai hum de proa, ameaçando-a com hum gancho com que a ferra, e não a hão de mostrar com o dedo, senão com o cotovelo. Os Papuas, Mauas, Vedas, trazem pagodes de popa e proa, os quaes mergulhão na aguoa, quando vão cançados, pera que o navio ande mais; cada hum tem hum so masto de duas canas, á maneira de cruzeta ou cabria (103); e na ponta, huma forquilha sobre que labora a driça; tem hum ostai (104) por diante, e outro por detrás; levemente o armão e desarmão, a vela he comprida e estreita, e navegua atraveçada com duas vergas de canas, huma por cima, outra por baixo da relingua (105), na qual a enrolão como vão amainando, o que não fazem com tempo, senão algum pouco, pera segurar a vela. Fazem nellas muita abstinência, sofrendo muito tra- balho, principalmente os nanes que vão mui desemparados. Como canção, vão-se molhando huns a outros, ou se lan- ção na aguoa pera refrescar, e tornão de novo. Quando lhe acontece desastre, pera que hajão de tomar dor, tirão as cabeças e rabos, e poem ramos secos, e com a popa pera diante, sem tanger, nem cantar, nem remar por ordem, passão ou entram por as povoações. E assi vão mostrando seu sentimento e doo, o qual tomão os da terra, com (103) O mesmo que cabrea. corda grossa que serve para amarrar os navios. (104) Ostai ou estai, "termo náutico: cada um dos cabos grossos que, fixos na proa, firmam a mastreação. (Cf. C. Figueiredo, op. cit.). (105) O mesmo que relinga, corda com que se atam as velas das embarcações (ibidem). 385 INSULÍNDIA, III — 25
trunfas- nas cabeças de fiças branquas e panos çujos, ra- pando as cabeças, barbas, e sobrancelhas, e com manilhas de rota tecidas, como botão, por os braços e pernas, e assi se fazem tão feios, que apenas á quem os conheça; o qual dura quarenta dias, no cabo dos quaes se vão lavar fóra, e deixão o doo; na terra de alguns imigos, se está perto, ão (vão) cortar e deixar algumas cabeças. CAPITULO IX Da nossa fortaleza, e do foguo da ilha, e do Daguamoconova, e das canas de aguoa. A ilha de Ternate, ou Guape, tem hum recife, que cerca somente a povoação portugueza e mourisca, em cujo meio está a nossa fortaleza, á borda da aguoa, ao pé de hum tezo alto, a qual he hum castello de pedra e cal, quadrado, e não menos forte que cerca de colmeas; antre ella e o recife, esta hum poço, em que podem estar caravelas, mas não entrão sempre a mar de aguas vivas, e descarregua- das; não se lhe pode dar bataria do mar, por ser longe, e o Noroeste com que se acosta corre mui soberbo, e o Sueste e Sul, traveção; e o fundo mui alcantilado, e de roim pedra, porque as deste recife gerão-se de limos, que se indurecem e fazem pedra que crece, e he boa pera parede e cal. Está posta por a banda de fóra, por tal ordem, que parece edifício humano, pera defensão do sitio, o qual he mui sadio, e o ar fresco e temperado. Tent a ilha, no mais alto, huma grande cova, que ao parecer, em baixo, será como huma eira, e em a boca, quanto hum homem enxergua outro da outra banda; dentro mana huma fonte, cujo sabor, côr, e cheiro, não pude 386
alcançar; cahe sobre cinza, (106) que se faz de grande copia de pedras, que fervem fortemente com a grande fúria do foguo que coze por baixo, botando com grande fumo, acima, mui espesso e quasi palpavel fumo, e não menos fedorento; todo por cima parece oco, porque vai sumindo a terra, como trigo na tremonha, por o fogo gastar, por baixo do qual arrebenta fumo, por muitas partes, longe da principal cova, quando o ella bota com impeto, o que acontece muitas vezes, nas quaes faz tamanho terremoto, que parece, aos que estão em cima, que cae o monte (a que chamão Guno) (107), o que acrecenta a matinada das pedras que bota. E assi lança mui grande arvore de fumo claro e escuro, segundo o tempo e a materia que traz, e em mui grande altura, sobrepujando as nuvens; porque, quando se vê de fora, o orizonte do Guno ja tem subido, até alli, mais de quinhentas braças, que pode aver de altura, até o fundo que aparece, como experimentei por estimativa de vista, do qual se ve muitas vezes o foguo, e pedras vermelhas que bota. E contão os velhos, que virão cahir huma por dalém do recife, tamanha à vista como hum bom caxão, o que não pode ser, ainda que vi em cima a cairem as maiores, mais longe, como a roqua da bombarda, cujo pelouro faz maior passada; a cinza ou arêa grossa que se moe das pedras, torna a cair sobre o monte, e a mais leve muitas vezes na fortaleza, e outras vai passar a ilhas dos Meãos. (106) Cf. Texto I, Part. 2.», Cap. 4.0: uTetn esta ilha, no mais alto delia, huma cova de estranha largura, e fundura, dentro da qual esta huma fonte dagoa que cae sobre grande quantidade de area, que fervem e fazem ondas como, dagoa, por cauza do grande fogo que anda de baxo, o qual sempre bola fumo mui espesso, e caze palpavel, e mui fedorento de fedores insofríveis». (107) Vocábulo comum nos dialectos malaios, com o significado de montanha. 387
Dizem os da terra que a cauza de ella ser sadia procede desta evacuação, com que vão os máos vapores, o que tenho ser ao contrário, porque raras vezes fez esta obra por continuação, que deixasse de aver infirmidades geraes, que parece causa a corrupção do ar, e das fruitas, e aguoa, em cujos poços cae muita cinza, ao que respondem, como invencíveis, que seria peor, se não purgasse, como que a infirmidade não estivesse mais sugeita a elle, que elle a ella. Dentro na cova se acha algum pouco e fino enxofre; o caminho delia he mui áspero e trabalhoso, e será de duas léguas, e até hum terço é habitado; no mais alto faz mui grande frio, que coalha o comer, e quasi o beber, mas não impide aver moscas, sem outro algum bicho nem ave; parece delia grande cantidade de mar e ilhas, que dão muito que fazer a vista; está quasi no cabo huma singular fonte, de tão fria aguoa, que se não pode beber, senão a tragos. O primeiro anno da capitania de Anrique de Sá, arre- bentou este monte por huma ilharga, a meio caminho, e por dous dias botou huma ribeira de aguoa com penedos, que fizerão muito dano, até o mar. Na Guamoconora, dezoito legoas daqui, está outro Guno, que nunca botou foguo, mas, sendo capitão Alvaro de Mendonça, tremeo a terra mui rijo, e arrebentou por cima, e botou huma ribeira de aguoa, ardendo em vivo e claro fogo, até o mar, aonde escaldou muitos pescadores, e trouxe a terra muitos penedos, e arvoredo, que destruio muitos fruitos e cazas, em que morreo muita gente, e fez huma grande ponta no mar, que hoje em dia está fume- gando, segundo dizem, e se acha alli muito enxofre, por todos estes Gunos. Ha grandes arvores e canavieiras mui altas e grossas, cujos canudos, sendo cavados, são cheios de fria e singular 388
aguoa, da cor e doçura quasi da Alanha (108). Querent alguns dizer, e o affirmarão em Portugal, que não he pro- pria, dizendo que, quando são novas, tem humas folhas a redor dos canudos, as quaes se enchem da agoa da chuiva, correndo por a cana, e dalli por os poros delia se coa dentro; o que parece falso, porque as folhas cerca (m) o no, gros- sura de hum dedo ou dous, e dalli despede pera cima, fazendo-se aguda, cuja ponta não chega ao segundo noo, em que está o pé da outra; e desta maneira ficão as tres partes do canudo descubertas, e ainda que estê muito pegada, que pareça que não pode recolher aguoa, conce- dendo o que dizem, encheria outro tanto quanto tomão dous dedos, que a folha cerca o noo, pois, naturalmente, a aguoa não pode subir mais do que deceo, e o canudo he cheio até acima, quanto mais que, como as cousas, natu- ralmente, com seu semelhante se conservão, com o con- trario se corrompem; por o qual, sendo a aguoa da chuva, forçadamente se corromperia, e federia, ou a cana apro- dreceria, o que não he, por a aguoa ser mui cingular, com a qual crecem e amadurecem as canas, e são mui fortes. E dado que o dito não abastase, seria a dita aguoa geral em algumas outras castas de canas, por aver muitas e muito mais porosas, pois todas nacem com as mesmas folhas na propria terra, nas quaes se não acha goteira, por onde está claro ser naturalmente nacida naquella só sorte, como he a da Alanha, ou Coco. (108) Ou lenha, o mesmo que coco. 389
CAPITULO X De algumas cousas que vi nos Arcepelagos de Maluco. Como a natureza não tenha taxa em produzir e fazer seus edifícios, edifica em humas partes cousas, que para o uso são mui fáceis, e a outras, donde são alheias, mui difíceis, como se acharão algumas neste processo, e, ainda que o acredita-las fique ao alvidrio de cada hum, nem por isso devo ficar oprimido a calar as que mais souber. Vi a Francisco Palha hum reverendo (109) bode, que tinha hum grande teto de leite, em que mamavão os cabritos; e a- huma escrava do mesmo, botar huma pedra, como grande cabeça de alfinete, que achou na boca, entre arroz cozido, que comia, a qual posta na mão, com alguma goteira de aguoa, nadava a outra parte, fazendo escuma, como que a forçava com seus pes e mãos, que não ti- nha (110). Vi outras tres pedras, a saber, huma algum tanto maior, que foi achada em huma laranja doce, cujos amagos repre- sentava por certas veas, de que era rodeada; e outra maior e mais comprida, que foi achada em huma Arequa, e todas mui rijas e almecegadas, e outra branca, maior que todas estas, que foi achada em hum coco. Vi raizes de paao que, a direita a loeste, é mui fina peçonha, e direita a leste sua contra-peçonha, e de toda outra sorte delia, e aproveita para purgar todo máo humor, (109) Cf. Texto I, Part. 2.1, Cap. VIII: «O mesmo Francisco Palha tinha hum grande e authorizado bode...». (110) Cf. Texto I, ibidem: «Estando huma escrava de Francisco Palha comendo arroz cozido, mordeu huma bicha pedra, a qual poz na mão, e lhe cospio em riba, e a pedra começou de andar, a qual vi, e outros muitos homens; e posta em seco, não bolia, e parecia pro- pria pedra; e tornada a botar nagoa, andava e fazia mostra a ter pes e mãos...». 39°
e curar de muitas infirmidades, assim a homens como ali- márias (ih). Vi pedaços de paao, cujo nacimento não alcancei, que tira na cor a vermelho; arde, fazendo chama e brasa, sem se gastar nada; e tenho que tem natureza de pedra, por- que, desfazendo-se facilmente com os dedos, tratado com os dentes, trinca e quebra como arêa. Vi em huma formosa arvore, que está á porta da nossa fortaleza, chamada Catapa, e na índia Amendoeira, cahir huma folha mais pequena que as outras geraes, cujo pé era cabeça de bicho; e o talo, o corpo; e as veias que procedem delle, os pés, e as mãos com que andava, sendo perfeito bicho e folha, das quaes ouvi que avia muitas geradas do viço. Quando se a mesma arvore enfeita com as folhas novas, bota humas candeias como de castanheiro, e de hum pedaço de huma vi andar hum bicho, como que era vivo, servin- do-lhe os grãos á roda, de pés; e o talo, de corpo; mas não lhe enxerguei cabeça. No mesmo tempo, crião as novas folhas huns bichos, como os da hortaliça, que vem ao chão, pendurados por fios como de aranhas, aos quaes apanhão huma casta de abespas, e os metem em seus ninhos, que fazem de lama, dentro das cazas; e cheos, lhe tapão hum pequeno buraco, que lhe fica, e vão-se; dos quaes se fazem outras abespas, que por si se formão e saem. Vi antre humas pedras, em que batia o mar, hum folhelho de feição de bexigua defumada, que tinha dentro huma fremosa gema, como de ovo, de cuja galadura pendia huma tripa, em que estava pegado hum peixe, de compri- mento de hum dedo, da feição e pintura de cação. (iii) Cf. Texto I, ibidem: uNas ilhas das Celebes, que são cazi no caminho, dizem que ha huma arvore ou arvores que da banda donde se poem o sol são mui fina peçonha, e donde nasce, he contra-peço- nha...». 3ÇI
Vi hum homem (112) que tinha na anca hum mamilo, como hum dedo polegar, que vulgarmente chamão rabo, e dizem que ha muitos por casta; os mais dos velhos tem nos tornozelos, e joelhos, e cotovelos, calos quasi de pole- gada de comprido, e agudos como esporão de galo; dizem que nacem da continuação dos acentos, o que não creo, por os ver a escravo, e em partes que não roção; mas parece ser alguma novidade, como os rabos. Ha por estas ilhas mui grandes tartarugas, que poem infinitos ovos em covas, por as praias, e, cubertos de area, os deixão; em huma que matou hum meu vizinho, achou mil e duzentos, sem outros muitos meudos do oveiro, que não pode contar. Ha muitas ostras ou amêijoas, cujo recheio encherá huma jarra de dous almudes, e as conchas servem pera nellas comerem porcos, e assim ha outras muitas couzas, e novidades da natureza, a que a memoria não alcança. CAPITULO XI Que trata dos arcepelagos dos Papuas, Moros, Celebes, e Amboinos. Ja que tratei dos Arcepelagos de Maluco, parece que fico obrigado a faze-lo, do mesmo modo, dos outros quatro arcepelagos, que dividi no segundo capitulo. Geralmente usão em todos o trajo, armas, costumes dos malucos, ainda que em algumas partes não são perfei- tos, e tem os memos fruitos, bichos, peixes, aves; mas differem nas seitas, por serem, na maior parte, gentios, adorando differentemente, e a diversas figuras. (112) Segundo Texto I, part. 2.1, cap. VIII, isto foi visto na ilha de Makiang. 39 2
O Arcepelago dos Papuas demora a leste de Maluco; tem muitas ilhas, baixos, e restingas, pelo que não são navegadas, salvo dos de Bachão, por lhes cahirem mais a geito. Papua, em todas as línguas de Maluco diz Cafre, e assim são pretos como malavares, magros, feios, e de grandes grenhas; tem grande espirito pera os trabalhos, e toda treição e maldade, não tem em sua terra nenhuma mercadoria, salvo algum ouro, com que se resgatão. Ha entre elles alguns, mui brancos e sardos, que não vem com o sol (113). Segundo a informação que destas ilhas ha (114), cor- rem ao longuo de huma grande terra, a qual parece ser a imaginada do Sul, que por a banda de leste e a loeste vai ter ao Estreito de Magalhães. O Arcepelago dos Celebes demora a loeste de Maluco, e, segundo parece, ha nelle maior cantidade de ilhas; começa na grande ilha chamada dos Celebes, em que ha muitos reis, e vaquas, e bufaras, e cabras, e muitos manti- mentos, e acaba em Çebu, e Matão (115), junto de Min- danao, e ainda avante ha muita cantidade de ilhas in- cognitas. Em muitas partes deste arcepelago ha fama de muito ouro, assim em minas, como colhido nos rios, particular- mente na ilha de Macaga (116); e em a enseada de Butão (117) e Mindanao, aonde ha outrosi muita e boa canella; e na do Soluquo (?), grandes pérolas, mas não as sabem colher, nem aproveitar-se delias. Em muitas par- (113) Deve referir-se aos albinos que também se encontram na- queles arquipélagos. (114) Neste ponto a edição da Academia dá esta nota: «Aqui falta huma palavra, que parece ser ha». O Texto I não se refere aos Papuas. (115) Ilhas de Cebu ou Zebu e Mactan. (116) O mesmo que Maoaçar (?) (117) Ao sudeste das Celebes. 39 3
tes são senhoreadas do rei de Borneo, e em outras, do de Ternate e Tidore, e doutras vão a nossa fortaleza, onde vivem de pescar, e de fazer fio de arame. Facilmente se convertem à nossa santa fe, e geralmente são cruéis e atreiçoados; usão peçonha em suas armas, que mata em vinte e quatro horas, inchando os compa- nhões andão inchados causa de os terem por bem des- postos. Limão os dentes, que lhe ficão agudos de cima somente, e os fazem pretos, e as orelhas tão compridas, com humas argolas de estanho, que trazem no buraco, que lhas fazem chegar aos peitos; e pintão-se mourisca e louçãmente; o cabello cortado nas fontes, e o demais atado ao toutiço ou coroa; as testas batidas pera trás e pera cima, com que fazem os rostos agigantados; usão em seus membros geni- taes cascavéis de cobre, como Pegus; e outros, humas argolas de qualquer metal, de grosura de hum delgado dedo, da banda de fora lavradas, e com huns meios botões, ou outra (118) que roce sem ferir, tudo fundido na mesma peça, a qual fechão com hum torno de metal, no mesmo membro, por hum buraco, que nelle trazem, e assi usão com as mulheres, mettendo-o morto. Em algumas partes da ilha dos Celebes ha mancebias publicas de homens, que usão por cima e por baixo. E tem sandalo, e aguila, e dá perto hum muito e bom ferro na ilha de Berguar (?); tem pequenas povoações, mas de muita gente, porque em cada caza ha huma geração; pendurão á roda delias as cabelleiras dos que matão na guerra, aos quaes cortão em roda todo o couro e carne da cabeça, até ao casco, por cima das sobrancelhas, e assi dizem viveo huma mulher do Buro, muito tempo, mas esta crueza não he geral em todas as partes. Tem arvores, cuja (118) Nota da edição da Academia: «Creio que falta aqui couza». 394
sombra he fina peçonha da banda do ponente, quando por ella passão, mas cura-se este dano com a do levante. O Arcepelago de Amboino cae á banda do sul; cria-se nelle muita rota, como a das canas de Bengala, que dão muitas voltas por cima das altas arvores, aonde se achão algumas de sincoenta braças; he terra mui fresca, e de mui- tas ribeiras, e boa agua, e na maior parte de asperas ser- ranias, nas quaes situarão suas povoações, por escapar aos imigos, e alguns morão em cima de arvores e altos penedos, e isto me parece que causa não terem rei, e andarem a quem mais pode. Alguns delles comem todos os que matão ou tomão na guerra, e dizem ser o calcanhar e o peito do pé o melhor bocado; ha outros que enterrão seus mortos em sepulturas de paao, com vultos de bichos, e peixes, e aves, e assi os guardam em seus baileos, aonde dependurão as caveiras dos que matão ou comem. Dizem aver outros, cujos filhos comem seus pais, depois de velhos, e, se algum quer fazer festa, e tem o seu magro, pede outro emprestado, e paga depois de o ter gordo. A esta parte de Amboino jaz Banda, e a leste delia, trezentas leguoas, e outros dizem muito menos, ha huma ilha povoada de gente, de quatro palmos, aonde ha muito ouro, de que os de Banda tem bom thesouro. Em Amboino ha muitos christãos do nosso tempo, e muito maçoi que parece canella brava. Ajuntar-se-hão nelle trezentos bares de cravo de bastão, mas não he tão per- feito, em gosto e grandura, como o de Maluco, e parece-me que he de o colherem ante tempo. Nesta ilha ha huma grande enseada, a qual faz outra pera a banda do norte, em que envernão as naos cubertas, e com prancha em "terra; e estando ahi Dom Jorge dEça, a segunda viagem que fez a Maluco, tremeo a terra mui rijo, e loguo em espaço de seis horas e, com grande Ímpeto 39 5
e macareo, nunqua alii visto, cresceo a maré, e vasou de dezasete até vinte e cinco vezes, segundo muitos testemu- nhárão em hum estromento, a qual diferença procedeo de huns atentarem nisso primeiro que outros. Chegárão as agoas aonde nunqua. Na ilha do Buro, quinze legoas daqui, ha huns porcos silvestres, a que chamão Ruças (119), que tem mais com- prido pes e focinho, e menor orelha que os nossos, aos quaes nacem as prezas pera cima, ao longuo da queixada, e crecem tanto, que dão muitas voltas, à feição de corna- dura de carneiro; e como são juntas, embaraçando-se no mato, em algum paao ou rota, ficão presos até á morte. Tem mais hum rio doce, no qual, onde (120) a maré não chegua, está hum pego aonde anda muito peixe, como sermões, (sic) (121) os quaes saem (122) dali, nas aguoas vivas de huma só lua do anno, e vão ao salgado fartar-se de muita cantidade de peixe meudo, que na mesma lua somente lança o mar ali, do qual os da terra fazem boa pescaria, que lhe dura, salgada, todo o anno, e os sermões se tornão a viver em seu peguo, sem ousarem bolir com elles. (119) O conhecido porco-veado das Celebes (Babi-rusa Alfurus). Rusa em malaio, pròpriamente, significa veado. (120) Nota da edição da Academia: «A palavra onde não estava no original, mas suprio-se por Couto que na Década 4. L. 7, Cap. X., fl. 140V., col. 2. da edição de 1602, copiou Gabriel Rebelo». No Texto I, Part. 2.*, Cap. VIII lê-se: «Ha mais hum rio de agoa doce, que tem hum pego mui largo, onde o mar não chega, o qual esta mui cheio de peixes, como sermões, que os da terra não ma tão, poios terem como deuses por causa de, huma ou duas marcas do anno, entrar polo rio, quando a mare a abrange, muita qualidade de peixinhos pequeninos, para os quaes se fazem prestes os da terra, e enchem seus paros, e guardam para todo o anno; e o mesmo dizem que fazem os peixes do pego, que descem de cima abaixo, a vista de todos, a se fartar dos mesmos peixinhos, e assy se tornão, sem nunca mais sahir fora; e isto vio hum portuguez de credito, que mo contou...». (121) Talvez salmões. (122) Nota da mesma edição: «A palavra saem suprio-se por Couto, onde se encontra no lugar apontado na nota antecedente». 396
Ha ali grandes firos, (?) que fisgão à borda da aguoa, acodindo com impeto a certas goteiras, de clara e gema de ovo mexido, que lhe botão. Dizem que ha ali huma casta de grandes aves, que andão em bando; e huma maior que as outras, se leva por a menhã e se poem (sic) a tarde em huma alta arvore, primeiro que as outras, as quaes a seguem como a rei. Em huma ençeada da mesma ilha, chamada Chicoma- raça, singular porto pera navios, ha muitas ostras de péro- las, de que se não aproveitão; e junto em hum grande pe- daço de terra nace por si muito gingivre, o qual, depois de maduro, no mes de Agosto e Setembro de cada anno, se queima todo com foguo visível, sem saber donde vem, nem quem lho põe, por ser aquillo deshabitado, etc. CAPITULO XII Que trata da policia dos Mouros (123), terras de Christãos. O Arcepelago de Moro começa nas ilhas de Doe (124), que estão duas legoas a re da ponta de Biçoa(i25), e não avante, como falsamente as trazem os pilotos. Esta ponta, e o cabo de Batochina, sincoenta legoas da nossa fortaleza, povoadas na maior parte da gente embrenhada, sem cami- nhos públicos, chama-se de Biçoa, por rezão de hum lugar que esta junto delia, assi chamado; e da outra banda de leste é povoada ao longo da praia de grandes e bons lugua- res, e de diferentes lingoas, cada hum. Chamão a esta costa Morotai, que quer dizer Moro da (123) Moros, naturais da ilha de Moro, e não mouros. (124) Ilhéu a noroeste do Cabo Bisoa, na ponta Norte da ilha Halmahera. (125) O mesmo que Cabo Bisoa. 397
terra, e as ilhas de fronte Morotai, que diz: Moro de mar, e a todas juntamente chamão o Moro (126), cujos abita- dores são brutos e posilanimos, e dados a toda a pe- reza (sic), ainda que ha alguns povos bellicosos. Carecerão sempre de rei, lei, peso, medida, prata, ouro, moeda, praça, e feira. São em geral abastados de mantimentos, e a(s) terra (s) melhor aproveitadas que todas as de Maluco, donde são providas, e assi das fiças. Governa-se, cada hum lugar, por hum principal, a quem obedecem em poucas couzas, e na guerra não lhe pagão tributo. São mui inconscientes, e facilmente obdecem aos que mais podem. Forão grandes idolatras, por meio de peixes, aves, arvores, pedras, e ao mesmo diabo em figura, o qual pintão tão feio como são suas obras; usão sortes, e feitiçarias, como os mais. Ouvi a pessoas que o virão, que tomão huma cana grossa, dos canudos cerrados, a dão a ter a quantos ho- mens cabem nella, e então lhe defumão as pontas com ervas e beijoim, e lhe dizem em ambas sete palavras, com as quaes vai pesando tanto, que he impossível poderem-a sustentar os que a tem, e suando, a alargão (127), ou caem, e se algum acerta de ter anel de tartaruga, ou algum pedaço de casco, não pode vir a effeito o pezo. Tem as mesmas armas, casas, navios dos Malucos, cujos reis os começarão a comquistar, como forão mouros, avendo cada hum os lugares que pode, cabendo a maior e melhor parte ao de Ternate, a qual lhe tomou depois a (128) Gei- (126) Cf. Texto I, Part. 2.", Cap. io.°: «E assy mais he verdade que nas ilhas de fronte, às quaes antre sy chamarão Morotay, por esta- rem no mar, e a estoutros lugares chamão Marotaya por estarem, a seu juizo, em terra firme, porque tay, na sua lingoa, he mar; e taya he terra, e a todo juntamente chamão Moron. (127) Nota da edição da Academia: «parece que deve ser largãon. (128) Nota da mesma edição: «Deve ser, segundo parece, o Gei- Iclon. 398
lolo, favorecido dos castelhanos. E querendo-se depois res- taurar, com a paz da nossa fortaleza, temerão os conquis- tados seu dano, e tomarão por valedora a agoa do santo baptismo, a qual lhes mandou dar Tristão de Ataide, sendo capitão, pelo Vigário Simão Vaz, que começou no pai de Dom Sebastiam, Regedor de Mamoia, na Morotia, o qual logo, com muitos trabalhos e perseguições de arrenegados, mouros, gentios, defendeo sua virtude, favorecida de todos, por ser autor delia, até vir em muita diminuição. Sendo capitão Dom Jorge de Castro, se acabarão de baptizar em todo o Moro, começando de Biçoa; e como o demonio ficava mal desta obra, ordenou, por meio de pouca doutrina que ainda tinhão e o mao exemplo nosso, e dos trabalhos da fortaleza, alevantarem-se por o Geilolo, e, queimando as igrejas, lhe entregárão alguns portugueses, aos quaes mandou espetar na praia; e, tor- nando ella a seu estado, elles também à custa do sangue e fazenda dos Portugueses e dos Ternates, sem cujas embar- cações se não pode la obrar (129), ficarão ainda alguns povos revelados, que derão muito trabalho, até a final des- truição da fortaleza do Geilolo. Sendo Bernaldim de Sousa capitão, se aleuantarão outra vez pelo mesmo Geilolo, e matárão tres portugueses, os que tinhão; e queimárão as igrejas; e depois por o rei de Tidore, a quem se entregarão, por Dom Duarte dEça, que era capitão fortaleza, mandar vir de lá pera Ternate alguns portugueses, com que se poderão defender; o que fez, por a querer guardar na dita guerra; mas primeiro soffrêrão alguns trabalhos, e no fim forão vencidos das armas, e depois os tornou el-rei de Ternate ao nosso estado, o qual teve o Tolo, principal lugar da terra, de cerquo, com (129) Outra nota da mesma edição: «Aqui parece faltarem algumas palavras». 3 99
Henrique de Lima e Pero da Cunha, e alguns outros por- tuguezes, passante de tres mezes, até entrar por força de armas. Carecerão de doutrina, até os visitar o Padre Mestre Francisco, que naquella terra, antre mouros, gentios, christãos, foi sempre chamado Padre Santo; chegou lá em tempo de Jurdão de Freitas, e começou mandar padres de sua Companhia, no de Bernaldim de Sousa, os quaes, assi por a terra ser muito enferma, como por as muitas revoltas delia, com immensos trabalhos, os começárão a doutrinar e tirar alguns ritos máos, instruindo-os na policia christã, que já tiverão tomado, se não forão tão posilanimes, e as guerras da fortaleza, de cuja paz depende seu fruito. Costumavão outrosi dar peçonha pera certos tempos, assi no comer como no beber, mettendo-a debaixo da ponta da unha, a qual a mergulhavão no copo, ao que a querião dar; e, desta maneira, bebendo todos por hum vaso, e de hum mesmo vinho, a da vão a quem querião; também a dão, esfregando suas mãos untadas delia (em sinal de amor) com as do padecente. Costumão comer e beber em lugares públicos commu- mente, convidando liberalmente aos passantes. Erão muito cruéis na guerra, da qual trazião as cabeças, pernas, braços do que matavão, e os punhão em seus terreiros, a cuja vista comião, e ali se cevavão os rapazes, e algumas ve- lhas, com pedras. Ali vir (vi) (130) bater pedaços de ferro frio, com pedras sobre outras, e o afeiçoar e aguçar, pera fazerem suas obras, e fazer pilãos de pedra; com outras fazem mui louçans ma- nilhas das otras (ostras) grandes, roçando algum pedaço; (130) Outra nota ainda da mesma edição: «Aqui parece faltar alguma palavra». Supomos, porém, que não, devendo, antes, ler-se ali vi em vez de ali vir. 400
e sendo liso o assentão, e com hum canudo de cana, cor- tado bem redondo, e da grosura de hum braço, o furão, trazendo-o antre as mãos como torno; e, antre hum e outro, alguma area, gotejando-lhe com agoa; e o primeiro canudo he sempre da grossura do braço; e, como he furada, fazem outro tanto, com outro muito maior, e assi fiqua a manilha feita, a qual fazem redonda, ou como torcida, li- mando-a, com canas delgadas; e do mesmo modo fazem os escudos, que poem sobre as empunhaduras das espadas. Fazião as sepulturas a seus mortos por os matos, com certos sinaes de suas valentias, mas das almas não sabião dar rezão. Pranteavão-os com molheres, e homens aluga- dos, as quaes, cubertas como feiticeiras, em cadafalso, andavão por as ruas bradando á maneira de o buscarem. Quando fazião pazes, tiravão sangue dos braços, e cada hum bebia o do outro (131). Casavão ou empenhavão da mesma maneira dos Malu- cos; como as molheres tinhão conhecimento de homem, lima vão com pedra todos os dentes de cima, até as gengi- vas, que paredão que nacêrão sem elles. /Is moças tecião humas cintas de rota bem lavrada e apertada, a quarão da carne, pouco mais que meio palmo de largura, e como as moças crescião, e as cintas não davão de si, fiqua vão delicadas, sem fazerem dano; casando, cortavão-nas, mas não deixava a natureza de as por em sua liberdade. São boas pera escravas, por fazerem todo o trabalho de suas lavouras, e nelas e nos caminhos parem facilmente, e lavão-se logo, e ao nacido, na agoa fria, sem se deitar. Tem muita madeira pera navios, e rota delgada e páo (131) Esta cerimónia, praticada naqueles sítios, é o conhecido juramento de sangue, feito para levar avante uma conjuração, uma guerra, ou ainda para consolidar a paz. 4 O I INSCLÍNDIA, III — 26
preto e vermelho como brasil; a terra he muy doentia, o que tem bem sentido os portugueses, a quem tem bem cus- tado sustenta-los, á propria custa, sendo generalmente pobres, e sem nenhuma satisfação. CAPITULO XIII De algumas maravilhas acontecidas no Moro. Forão estes Moros mui afeiçoados ao demonio, o que he de grã admiração, assi destes como dos mais gentios, porque todos o pintão tão feo, e com tantos asgares, que bem mostrão, por figura, qual deve ser sua virtude, com o qual tem tanta devação, que com os fazerem matar huns a outros, e receberem, por sua causa, muito dano, não ha boa rezão que lhe quadre, nem milagres que os mova, senão a necessidade temporal, como tem acontecido a estes. E foi o caso que, sendo Bernaldim de Sousa capitão da fortaleza, fez guerra ao rei de Geilolo, e huma das prin- cipaes cousas que o moveo foi te-los alevantados a si. E como a cidade de Tolo he a maior, não somente do Moro, mas de todo Maluco, fez delia cabeça, fortificando-a com tranqueiras e artelharia, nos lugares debiles. E sucedendo Christovão de Sá na capitania, pedio-lhe el-rei de Ternate licença pera os hir guerrear, e não lha dando, o rogou depois que fosse, e deu-lhe pera isso hum Luis de Paiva, de Santarém, com vinte e cinco homens. E aceitou a ida de má vontade, por lha não fazerem, quando a tinha; e por ter ja espalhada sua armada, partio com pouqua, e foi sorgir defronte o Tolo. E requerendo aos de dentro que se tornassem pera os portugueses, e que lhes perdoaria, responderão que não querião, mostrando- -lhe hum o trazeiro, por o qual se foi dalli corrido, por 402
não poder vingar a offensa; e foi sorgir a huma pequena ilha defronte, mandar fazer de comer; e não vindo a effeito, se levou e foi sorgir a outra mais afastada, pelo impedir muita cinza, que lhe começou a cair de hum outeiro, que está detrás outro, ao pé do qual, á borda da agoa, está a cidade cercada de rocha mui (132) expugnavel em meio de Chiaoa, e Mamoia, huma legoa de hum ao outro, o qual Mamoia fiqua mais perto do fogo, e por estar ao pé do proprio monte, do qual nacem fontes de aguoa quente, de que se servem; e no mais alto delle, meia leguoa de vista, está huma cova de que sae continuamente grande cantidade de fumo. E como o Tolo he mais longe, e se lhe antepõe o seu oiteiro, ve-se menos delle o fumo e foguo, mas naquelle dia, acabadas as praticas, e em dous mais, fez hum grande terremoto, nunqua até ali visto; botou muito foguo, pedras, e area, a que chamamos cinza, em que desfazem as pedras recozidas. Passados estes tres dias, conhecendo o rei a maravilha, persuadido dos portuguezes, foi cometer as tranqueiras, mandando-os por huma parte, na dianteira, com seu irmão Quechil Guzarate, capitão-mor, que levava outros irmãos e mancebos de opinião, a qual se lhe acrecentava na com- panhia dos portugueses; e assi cometterão e entrárão a mais forte, com morte de hum irmão do Guzarate. El-rei deo por outra parte, com até quinhentos homens, o qual entrou com muito animo, e tomou a cidade, em que averia mil e quinhentos homens de peleia, afora os de socorro. Forão mortos e cativos muitos, sem aver despoio, assi por a destruição do terremoto, como por costumarem terem (132) Nota da edição da Academia: «Deve ser inexpugnável». O Texto I apresenta redacção diferente nesta passagem. 403
todo o bom nos matos, pera onde se forão, sem acabar de tomar conclusão, á qual os forçou depois a destruição da fortaleza de Geilolo. Tres cousas se podem notar deste cazo: a primeira, a novidade do terremoto, nunqua ali visto nem ouvido; a segunda, o tempo em que foi, e não fazer nenhum dano aos lugares vizinhos, também alevantados; a tercira, a ousadia que tomou tão pouca gente a cometter tanta, em tão forte sitio; a qual foi vencida, tomando aquillo por acontecimento. No mesmo tempo creceo a agoa de huma grande alagoa delle, que cerqua o lugar das Galelas, tanto que subio, segundo fama, mais de duas braças, não se movendo nunqua dantes. Depois, sendo Alvaro de Mendonça capitão, tremendo aquella terra, creceo o mar com grande macareo, que ma- tou muita gente em parós (133), e em terra, aonde achá- rão, por os matos, muitos peixes; no mesmo tempo se ouvirão muitos trovões, por tal ordem que em toda a terra e nas ilhas de Maluco, até Bachão, cuidarão ser bombar- dadas que vinhão sobre cada hum, pelo que em muitas partes acudirão as armas, e em algumas mandarão á nossa fortaleza saber o que era. Antes desta destruição, me contou hum Dom Fernando, regedor de Chiaoa que (134) primeiro levantamento, que fizerão pelo Geilolo, queimando a igreja, tomou hum ho- mem hum retavolo de Nossa Senhora; e começando-o a quebrar, pera das bordas delle fazer a empunhadura de sua espada, subitamente lhe fiquarão as mãos tortas, (133) Outra nota da mesma edição: «Parece que deve ser pardos». Parós ou paraos são, porém, variantes empregadas indiferentemente. (134) Nota também da mesma edição: «Aqui parece faltar no». Cf. Texto I, Part. II, Cap. 10.°: «...antes disto, aconteceu neUe outra maravilha, que nelles fez o mesmo fruito que em estoutro; e foi o cazo que, alevantando-se elles por os mesmos Jeilolos, muito tempo antes desta guerra, queimarão huma igreja que tinhão, e tomando 404
e dentro em hum anno morreo, com todos da sua geração, de desastres; e o derradeiro fôra de hum peixe agulha que, saltando (andando elle pescando) lhe meteo hum bico por hum olho. Na ilha de Chão, a principal no Morotai, estava hum grande e prospero luguar, em o qual, neste alevantamento, matárão seus moradores a hum clérigo (cuido chamado) Francisco Alvarez, que os baptizara e doutrinava; e, dali a poucos annos, foi todo despovoado e deserto, como agora está, por guerras, fomes, desastres, trabalhos, e outros casos, a que não sabem dar rezão. Acabou-se a primeira parte, pella qual se vera meuda- mente o que ha em Maluco e os erros que delle são escritos; e começa a 2.*, que por 12 Capítulos trata do seu descobri- mento, assi pellos Portugueses como dos Castelhanos, e as armadas suas que a elle forão, particularmente da de que era Geral Rui Lopes de Villa Lobos. CAPITULO I.° (135) Do descobrimento de Maluco pellos Portugueses e Castelhanos. Como Afonço de Albuquerque tomou Malaca, ordenou mandar descobrir Maluco e Banda, por cujo caminho avião de fazer sua derrota pera se aver o cravo, noz e maça; tirar aos jaós, chins e guzarates o proveito do trato delia; pera o que mandou Antonio de Abreu por capitão de tres navios hum dos principaes hum retábulo de Nossa Senhora, que estava nella, e fazendo-o em pedaços, para daly fazer certa maneira de empunhadura de espada, lhe ficarão, improvizo as mãos tortas...». (135) No Texto I não se narram os factos contidos nos cinco capí- tulos que se seguem. 405
e a Francisco Serrão por Sota e Capitão (sota-capitão); e partio de Malaqua, em Dezembro de mil e quinhentos e onze annos, e indo por Aiaoa (a Jaoa), chegou a Amboino; e, partindo dahi pera Banda, se perdeo Francisco Serrão, e foi salvo, com sua gente, com {por) Antonio de Abreu, que em Banda lhe comprou hum jumquo pera ir nelle; e sendo ahi todos carregados, se tornarão pera Malaca, e no caminho se partou {apartou), com hum tempo, o Fran- cisco Serrão, e se foi perder nos baixos de Luçapina (136), onde foi levado ao lugar, dito Amboino, e outros dizem a Nucatelo (137), que são vezinhos, aonde foi bem agaza- lhado, com seis ou sete portuguezes, a saber: Dioguo Lopez, Dioguo Cão, Dioguo Afonço, Pero Fernandez e Antoneto, ceziliano. E por ser de boa arte, como por a fama que ia tinhão dos Portuguezes, se auidarão delles em brigas que trazião com seus vezinhos, em que se ouve Francisco Ser- rão com tanto animo e prudência, que foi sua fama ao rei de Maluco, chamado Quechili Baiono Cirola, o qual ja tinha noticia dos Portuguezes da índia por Chins e Malaios, que la hião de veniaga, e particularmente por hum caçis da terra, que fora a Mequa em romaria, e levou algumas faquas delles, a quem, por essa causa, chamárão fran- ge (138), o qual nome dura nellas (139), entre todos, ate oie. Sabida a nova em Maluquo pellos reis delle, ordenárão mandar {chamar?) a Francisco Serrão, o qual ouve o Ter- nate, por meio de Quechil Vaidua, seu irmão e cacis maior, que a isso mandou, e lhe fez muita honra, e foi delle e dos (136) Baixos das Luciparas, recife de coral, perto destas ilhas, no Mar de Banda. (137) O mesmo que Rucutelo, porto de Amboino. (138) Não deixa de ser curiosa mais esta explicação do nome frangi ou franki, dado aos portugueses no Oriente. ('39) O qual nome dura nellas, ou seja naquelas terras. 406
companheiros bem servido em guerras que tinha com os outros reis; e assi, muito favorecido, andou la, ate o trazer Dom Tristão, não muito por sua vontade. E vindo em hum junco, arribou a Maluco, onde esteve até os reis fazerem paz, com a qual deu o Tidore ao Ternate e Portuguezes hum banquete, em que lhes deu peçonha, de que morreo Francisco Serrão, tendo ja mandado (segundo se soube) aviso de todas as cousas de Maluco a Fernão de Magalhães, seu grande amiguo de pouzada, que andava na India, e o rei escapou, ficando enfermo e pellado. E por se achar bem com os Portuguezes, mandou a Dioguo Lopes e Dioguo Cão, a Maluco, pedir mais Portu- guezes, e armas, e feitoria, pera trato do cravo. E indo estes à índia, acharão Dioguo Lopes de Siqueira, o qual mandou loguo, por capitão do primeiro navio, que foi ao dito Maluco, a Dom Tristão de Menezes; e o anno seguinte foi de Maluco Alvaro da Costa e Dioguo Cão, em dois juncos, que tornárão bem carregados, e depois forão as duas naos, que ficarão, de Fernão de Magalhães, de quem tratarei brevemente, por ser sua historia bem sabida. Basta que com estas novas se foi elle da India a Por- tugal, e agravado se passou a Castella, aonde persuadio ao Emperador Carlos lhe desse armada, para descobrir Maluco, por novo caminho; e, dando-lhe credito, foi despachado de Sevilha, e sahio de São Lucas de Bermeda (S. Lucar de Berrameda), a dez de Agosto de mil e quinhentos e deza- nove anos; e outros dizem que a vinte de Setembro, com cinco navios, com os quais, correndo a costa do Brasil, se pos em sincoenta e dous graaos e meio, aonde achou o estreito que, por seu respeito, se chama de Magalhães, que divide a terra do Sul, e passa a outra parte do Poente, e na entrada delle se lhe perdeo hum navio de que era capitão João Serrão. E, antes que sahisse, mandou outro descobrir humas abertas, que o dito estreito fazia, para saber por 407
onde avia de ir, e a gente do dito navio prendeo o capitão, que se chamava Alvaro de Mesquita, parente de Magalhães, e se forão pera Castella, levando-o prezo. E com os tres navios passou o estreito do outro mar, a que pos o nome Pacifico, e dahi foi ter às ilhas de Çebu e Matão, que estão em dez grãos escassos, iunto de Min- danao, onde foi morto com alguns dos seus, peleiando com Matão, imigo do de Çebu, que tinha feito christão; e os da armada ellêgerão, em seu lugar, a João Serrão, piloto- -mor, e outros dizem a João Lopes Carvalho, que outrosi era piloto-mor; de maneira que o João Serrão foi convi- dado do rei de Çebu, com passante de vinte e sinquo ho- mens dos principaes, e alli forão mortos, por treição do rei christão, induzido de hum escravo, que ficou do Magalhães, a quem o Serrão tinha escandalizado. E os navios se fizerão á vella, e ellegêrão os officiaes e soldados, por seu Geral, a João Sebastião dei Cano, mestre dum, e outros dizem que a João Lopez Carvalho, e depois o tirárão, e fizerão a João Sebastião dei Cano, do modo que, por serem poucos, queimárão a peior náo, e a gente delia meterão nas duas, e forão ter a Borneo, donde derão volta, e forão surgir a Tidore, a oito de Novembro de mil e quinhentos e vinte e hum anos. E sendo bem recebidos do rei, chamado Quechil Mire, pello mesmo respeito e interesse que pertendia o rei de Ter- nate ter dos Portugueses, lhe derão loguo carregua de cravo, e cometerão ao Ternate com paz, e que aceitasse ser vassalo do Emperador, o qual não somente o não aceitou, mas mandou recado de que passava a Maluco. E como El-Rei Dom João, o terceiro, de christianissima memoria, tinha visto suas cartas, e a informação da terra, e o proveito que do trato do cravo se lhe seguia, mandou fazer fortaleza, por Jorge de Brito; o qual partio da India com boa armada, e foi morto, por dezordem, com muitos dos seus, dando nos 408
Achens de Çamatra, a quem soccedeo seu irmão Antonio de Brito, por alvará que tinha, e foi esperar a Banda (aonde invernou) a monção do Sul, com que avia de fazer sua derrota. E temendo-se desta vinda, os Castelhanos carregárão, com grande presa, do cravo que poderão aver, e do que lhe deu hum Gaspar Rodriguez, português que lá fôra com Dom Tristão, e fiquara em Bachão, feitorizando fazenda, o qual se lançára com elles. E assi partio a náo capitania, chamada Victoria, de que era capitão o João Sebastião dei Cano, e foi á vista de Amboino, alando, e dahi, ao boqueirão de Timor, e com muita temeridade passou o cabo de Boa Esperança, e foi sorgir nas Ilhas Treceiras, aonde lhes tomárão o batel, com dez ou doze homens, mas sem elle, e com muito cravo e trabalho foi ter (rodeado o Mundo) a Sevilha, a seis de Setembro de mil e quinhentos e vinte e dous, e poz no cami- nho tres annos e vinte e quatro dias. A outra fiquou tomando huma grande agoa, e partio no mesmo anno de vinte e dous, pello caminho que viera, com detreminação de hir tomar a costa do Peru, ou Nova Espa- nha, e ficárão (140) feitoria com Castelhanos em Tidore. Estas novas soube Antonio de Brito em Banda, por as quaes pedio a Dom Gracia Enriques, que ali estava fazendo fazenda, fosse com elle; o que aceitou, deixando sua fazen- da, por servir ao seu rei. (140) Nota da edição da Academia: «A palavra que aqui falta está comida do bicho que não pode ler-se». 40 ç
CAPITULO 2.° Do que succedeo a Antonio de Brito, no fazer da fazenda. Partio Antonio de Brito, cora trezentos homens, em oito vellas, e, chegando a Maluco, ouve loguo os Castelhanos que estavão em Tidore com a feitoria, e começou a fazer a fortaleza com muito trabalho (dia de São João Baptista), seu oraguo, do anno de vinte e dous. Por falta do aparelho conveniente, e da fome e da diver- sidade e descostume dos mantimentos, lhe morreo muita gente, e não foi pequena parte deste mal achar o rei morto, Quechil Baiono Çirola, que mandára pedir a fortaleza, e reinar hum moço, seu filho, chamado Quechil Baia, ao qual meteo Antonio de Brito na fortaleza, por conselho de Que- chil Daroes, seu tio, irmão de seu pai, pessoa de muita autoridade e saber, no qual conselho entrou o Çamarao, seu grande amiguo, que era regedor de hum bairro, por fiquar por ouvidor geral, e o Aroes, por regedor geral do reino, como ficárão; os quaes fizerão desterrar aos mais irmãos do rei morto, pera fiquarem quietos, como ficárão; porque a mãi do rei moço era irmãa do Tidore, a que (quem) pezava muito da obra, a qual fugio pera elle; e isto foi a principal parte da obra hir ávante com quietação, e alevantar a guer- ra a Tidore, que durou algum tempo, no qual arribou a nao do Espinhosa a Gamoconova (141), mui desbaratada. E dali a mandou trazer pera a fortaleza, tendo andado passante de mil legoas, na qual hia o João Lopez Carvalho, e nella foi tomado o Gaspar Rodriguez, e esquartejado por sentença. E assi acabou Antonio de Brito quatro annos de capi- (141) O mesmo que Guomaconora e Abocanora (?) lugar de Tidor. 4 I O
tania, no fim dos quaes fez paz com os reis de Geilolo, Tidore, e Bachão, com a qual tomou o Tidore huma fusta, á treição, e o Bachão huma champana (142), com tres Portuguezes e quatro Castelhanos, que se salvárão de hum junco de Curiadeva, que se perdeo no Buro; e ordenou com o Tidore e Geilolo que tornasse fazer guerra aos portu- guezes; á qual resistião Quechil Daroes, e Çamarao, com Martim Correa, que servia de capitão-mor, os quaes derão em Tidore, e o destruirão e cobrárão a fusta, com sua arte- Iharia. E porque deste tempo anda tudo empremido, passo bre- vemente, contando o que ouvi ao rei de Maluco, e alguns velhos, quanto baste a comprir com o descobrimento so- mente, etc. CAPITULO 3.0 Que trata da segunda armada dos Castelhanos, de que era Geral Frei Grafia de Loaisa, etc. Tornando João Sebastião dei Cano a Sevilha, despa- chou o Emperador, outra vez, outra armada de quatro naaos e dous galeõszinhos e hum pataxo, que remava, de que era Geral Frei Graçia de Loaisa, biscainho, em huma, e João Sebastião dei Cano em outra, e piloto-mor da arma- da; e das outras duas erão capitães Dom Rodrigo da Cunha, e Dioguo da Vera; e dos galeõeszinhos, Francisco Doezes e Dom Jorge Manrique, e Santiago de Guevora, do pataxo. Partirão da Corunha, vespora de Santiago, de mil e quinhentos e vinte e sinco annos, e forão ter a Guomeia, (142) Champanas, ou sampanas. Cf. Insulindia, Vol. i.°. Glossário. 41I
e correrão a costa de Guiné, por falta de tempo, por o qual ordenárão fazer sua derrota por o cabo de Boa Esperança; mas, sendo-lhe o tempo contrario, andarão bordeiando, ate hirem surgir ás ilhas de Santana, despovoadas, aonde achá- rão pegadas de homens, larangeiras doces, gallos e galli- nhas, e alguns passaros que tomavão facilmente, esperan- do; e outros que se vinhão pôr nas mãos. E dali, passando o Cabo de Santo Agostinho, forão cor- rendo a costa do Brasil, ate lhes dar hum tempo que os apartou, e ao outro dia se aiuntárão todos, salvo o Geral; e assim chegárão a hum rio, chamado Santa Cruz, e man- darão o pataxo por elle dentro, e que arvorasse huma cruz, e que ao pé delia pusesse huma panella com cartas dos capitães pera o Geral, se ahi fosse ter, em como o hião esperar ao estreito; e, correndo a costa, derão em outro rio chamado Santo Alifonço, e embocando, derão em seco, e sorgirão, e se tornárão a sahir, por se affirmarem não ser o estreito. E, tornando outra vez a correr a costa, forão sorgir na boca delle, ao por do Sol, pera entrarem o outro dia a buscar porto, pera nelle esperarem ao Geral, no qual lhes deu hum grande tempo, que fez sorgir os galeõeszinhos mui longe, e o pataxo se foi meter em hum estreito, e Dioguo de Vera se teve sobre a amarra, até passar a tromenta, e se fez á vella, sem mais apparecer. João Sebastião dei Cano, ventando rijo (143), cortou a amarra, e, com o traquete dado, deu a costa, tanto em terra, que do goroupez saltarão sinco homens nella, e mor- rerão por todos dezanove. Dom Rodrigo da Cunha se sahio pera Castella, e no caminho encontrou com o capitão-mor, a quem acompa- nhou com pouca vontade, e, embocando o estreito, vio, o (143) Nota da edição da Academia: «He o que parece ser». 4 1 2
capitão-mor, a naao perdida (144), cujo capitão mandou trazer e dizer á gente que hia buscar porto, pera onde os mandaria levar, como depois fez com hum dos galeões- zinhos, que, antes que entrace com a gente pera dentro, lhe deu outro tempo com que lhes desgerou (desgarrou) a outra (145), com a qual caçou a capitania, com todas as arcoras, passante de huma legoa, tocando com o ar- far (146) de tal maneira que fazia muita agoa, pello que alijárão algumas cousas, e, ficando o mestre com os mari- nheiros, se pos em terra o Geral, com a mais gente; e tor- narão, o tempo passado, que durou dous dias; e dali se tornou ao rio de Santa Cruz, que estava cincoenta e nove legoas atras, pera ahi se concertar ás mares que crescião e vaza vão sete braças. Levou consiguo os dous galeõeszinhos, e mandou a Dom Rodrigo buscar o pataxo, ao qual achou no estreito, junto da naao perdida e, tomando-lhe a gente que quiz, se foi pera Castella, e o pataxo foi depois ter com o Geral, o qual concertou a naao, e tornou a entrar na terra e com o pataxo e galeõszinhos em cujo meio determinou inver- nar... (147) tempo sahio fora; e, dando á vella pera Maluco, quatrocentas legoas da costa, lhe deu hum grande tempo que (o) apartou dos mais navios, porque os galeõszinhos nunqua mais aparecerão, e o pataxo foi a Nova Espanha. De maneira que, fazendo o Geral soo sua derrota, pas- sou a linha por concelho de João Sebastião dei Cano, que levava consiguo, o qual dizia que em doze ou treze graaos (144) Esta passagem presta-se a certa confusão. A nao perdida era a nau de Sebastião dei Cano. (145) Nota também da edição da Academia: «Não se pode ler a palavra que aqui falta».* Julgamos, porém ser a palavra nao. (146) Arfar, termo náutico: o mesmo que querena, a parte do navio submersa na água. (147) Outra nota da mesma edição: «As palavras que aqui faltam não se podem ler». 4*5
da banda do norte estavão humas ilhas mui ricas de ouro e prata. E com os trabalhos e cobiça desta volta faleceo hum sobre (sobrinho?) do Loaisa, e depois elle; e en- leito em seu lugar, por soceção do Emperador, João Sebas- tião dei Cano, faleceo em poucos dias, e o thesoureiro geral, e o pilloto, e muita gente, dos peitos, e dhumas nodoas negras, que lhe sahião polias pernas. Socedeo por Geral Turibio Alonço Solazar, que se tornou a meter debaixo da linha, e faleceo, chegando ás Ilhas dos Ladrões; por cuja morte ouve grande debate sobre a capitania, entre Martim Inheges de Carquiçano, alguazil maior da armada, e Fernão de Bustamante, que fora thezoureiro da naao Sancto Spirito, que se perdera, e avia ja ido a Maluco na capitania, te chegarem á demar- cação de Maluco, aonde se detriminaria quem avia de fiquar. Em huma destas ilhas acharão hum galeguo, cubertas somente suas vergonhas, e o cabello muito comprido, e os dentes pretos, ao costume da terra, o qual ficara ali da naao do Espinhosa, quando tornara arribar a Tidore. Avendo vista de Mindanao, foi jurado por capitão o Martim Inhigues de Carquiçano, e loguo prendeo em fer- ros, na varanda, o Bustamante, até que concentio e jurou como todos os outros; e toda esta informação me deu Pero de Ramos, biscainho, homem de muita verdade, que foi na mesma naao. CAPITULO 4.0 Em que se prosegue a historia, e trata de outros acontecimentos. Jurado e obedecido por capitão Martim Inheguez de Carquiçano, pos a proa a Maluco, e chegou a Çope, luguar 4/4
de Morotai, aonde refrescou a sua gente, e dahi foi aver vista do Guno da Gamaconora; e conhecida a terra por alguns da armada de Magalhães, tornou e foi sorgir de- fronte de Chioba (148) (e diguo eu que lhe seria o vento por a proa, pois tornou atras) donde foi loguo levado a toa pellos Çamafos (149), vassallos do rei de Tidore, ao seu luguar, aonde esteve dous mezes; nos quaes lhe forão feitos, por parte de Dom Garcia Enriques, que era capitão da fortaleza, muitos requerimentos, que se fosse pera a dita fortaleza; e, senão, que não entrasse em Maluco, por ser de el-rei de Portugal; ao que respondeo que o Emperador o mandava, e pois ja estava tão perto, se não avia de tornar nem deixar de entrar nelle. Petto que Dom Garcia mandou la quatro navios peque- nos, que tinha, e Quechil Daroes, com muitas coro-coras; e indo sorgir em huma das ilhas de Doe (150), passou a naao ao mar, á qual não poderão chegar, e assi foi sorgir no porto de Tidore, dia de Janeiro de quinhentos e vinte e sete; e pondo loguo gente e artelharia em terra, passa- dos alguns dias, chegou, de noite, a armada dos portu- gueses, e, salvando a naao, lhe matou dous homens; e vindo o dia, a baterão em quatro; e, sem lhe fazer dano. se tornarão, e fiquou a guerra travada. E, dalli a dous dias, tomarão, quinze (151) Castelhanos, en duas coro-coras de Geilolo, huma champana carregada de cravo, e matarão nella hum português e alguns negros; e depois queimarão o luguar da Gaçea, que era de Ternate, e fizerão boa preza, a qual lhe foi tomada, no caminho, (148) O termo parece-se com o nome dado ao Cabo Chiaoa, na ponta nordeste da ilha Halmahera; mas deve referir-se, talvez, ao Cabo Bisoa, na ponta noroeste da mesma ilha. (149) Naturais do lugar chamado Çamafo, em Tidore. (150) Ilhas junto do Cabo Bisoa, em Halmahera. (151) Nota da edição da Academia: «He o que parece ser». 415
pellos Portugueses e Ternates, e ouve outros acontecimen- tos de guerra, ate hir Dom Jorge de Menezes por capitão, que lhes concedeo paz, ate mandarem, os reis de Portugal e Castella, o que se devia fazer; a qual se quebrou, porque, mandando Quechil Daroes certas coro-coras e champanas ao Moro, buscar arroz, pera fazer a mortalha (152) do Rei Buaia, que falecera em sua caza, saltou Quechil Rade, regedor de Tidore, com sua armada, no caminho,* e tomou todas as champanas e gente que trazia o arroz, pello que Quechil Daroes com Martim Correa derão na cidade de Tidore, e a queimarão e destroirão, sem os Castelhanos le valerem, e assi fiquou a guerra outra vez armada. Neste tempo faleceo o Capitão Martin Inheguez de Carquiçano; dizem elles que de peçonha que lhe deu Fer- não Baldaia, feitor de Maluco; mas la ten-se por falso; socedeo-lhe Fernão de la Torre, que continuou a guerra. E durando ella, chegou ao dito porto de Tidore, Alvaro de Saavedra Cerom, primo de Fernão Cortes, no tempo que conquistava ou tinha conquistado Nova Espanha, da qual partio a este descobrimento, e a ver o que era feito da armada do Loaisa, dia de Todos os Sanctos, de quinhentos e vinte e sete, com tres navios; e, tendo perdidos os dois, foi com o seu aportar a Tidore, aonde em seu porto fizerão hum mole de pedra secca, com baluartes e artelharia, com que guardavão seus navios e fizerão mui crua guerra aos portuguezes, e seus vassallos. Daqui partio Alvaro de Saiavedra Cerom, carreguado de cravo, pera a Nova Espanha, a tres de Junho; e outros dizem de Agosto de quinhentos e vinte e oito, e levou con- siguo a hum Simão de Brito Patalym, e a Bernardo Cor- deiro, Portuguezes que se tinhão lançado com os Caste- (152) Por mortalha entenda-se enterro, ou cerimónias fúnebres, acompanhadas, também entre aqueles povos, de fartos banquetes e, até, de grandes orgias. 4. I 6
lhanos, e ao comitre (153) de huma galeota, que tomárão aos Portuguezes, com alguns outros cativos, os quaes furtá- rão o batel da naao no caminho, pera se virem á fortaleza, e serem por isso perdoados. E vendo (vindo) o Pataly e o comitre ter a hum luguar do rei de Tidore, dando novas que era perdida a naao, forão prezos por alguns desvairos; e tornando a naao arribar a Tidore, foi o Pataly arrastado e esquartejado, e o comitre foi enforcado pelos Castelhanos; e tornou a partir dahi a naao, em Janeiro, e outros dizem em Mayo de mil e quinhentos e vinte e nove, e tornou arribar a Çamafo, em Dezembro do mesmo anno, onde foi tomada por Dom Jorge de Menezes, sem o capitão, por ser morto com a mor parte da gente; e a que ficou, foi bem agazalhada na fortaleza, e forão alguns, por a índia, ter a Castella. E depois disto, mandou Fernão Cortes a hum Fernão Grijalva, em hum navio, com prezente de cavallos e de armas, pera Francisco Piçarro; e tornando-lho a mandar, com boa reposta de peças de ouro e prata, foi avisado que fora mexeriquado de certa culpa com Cortes; e, temen- dosse delia, governou ao largo, engolfandosse quanto pode, pello que foi morto dos seus, e o navio foi ter aos Papuas, aonde se perdeo e salvárão as peças no batel. E correndo nelle a costa de huma ilha, sem quererem sahir em terra, por medo dos seus moradores, que os hião com as armas esperando, soçobrou-se e perdeo-se o que levava, de que os negros tiverão a maior parte, e cativárão-nos, dos quaes alguns forão depois, acaso, ter á nossa fortaleza, que he o mais certo remedio que tem. E nella soube esta historia, de dous Castelhanos do dito navio, que ahi forão; hum chamado Camacho, e o outro Gines Domingues, mas a ver- (153) Comitre, segando C. de Figueiredo: oficial de galés, que superintendia nos forçados. INSULÍNDIA, III — 27 417
dade foi que se não perdeo o Grijalva, por ser mexericado, mas por hir, da dita volta, busquar huma ilha rica, por mandado do Cortes, a qual estava em sertã altura, que lhe deu por seu regimento; e, desgarando com tempo contrario, foi o navio ali ter. CAPITULO 5.0 Do fim que houveram estes Castelhanos, e doutras cousas acontecidas no tempo. Acabando Dom Garçia os seus tres annos, socçedeo-lhe Dom Jorge de Menezes, em cujo tempo crecerão as batalhas navais, e da terra, dos Castelhanos, Tidores, Geilollos, contra os Portuguezes, e Ternates, depois da paz quebrada, como atraz fiqua dito. E mandando Fernão de la Torre alguma gente ao Moro, e outra pouca que tinha, em guarda de Geilolo, fiquara com quarenta homens; e, sabido por Dom Jorge de Menezes, por aviso de hum Castelhano, e da rainha velha de Tidore, mãi do rei que era moço, fesse prestes, pera dar nelle subitamente, o que ordenou em gram segredo e brevidade com Quechil Daroes, e partio loguo, de noite, contra o parecer dos mais Portuguezes e Ternates; e deu na tranqueira dos Castelhanos, e a entrou por força, sendo ferido de huma espinguardada na entrada. E recolhendo-se os Castelhanos a hum forte, se lhe entre- garão, dia de S. Simão e Judas, com pacto que se hirião pera o Moro, donde não entrarião mais nas ilhas de Maluco, nem farião guerra aos Portugueses e Ternates, nem ajuda- rião e favorecerião (contra elles) aos Tidores, nem Geilolos. E tornando a alguns lugares que tinhão tomados, e queimada e destruída a cidade dos mouros, se forão os mais dos Castelhanos com seu capitão pera Çamafo, donde se vierão, depois, meter em Geilolo contra o capitulado, por- 4 1 8
que, os que ahi estavão, não se forão com Fernão de la Torre, por lhe não parecer bem o partido que fez. E assim juntos guardárão a paz, e dahi mandou Fernão de la Torre a hum Pedro de Monte Mor, com embaxada, ao Guovernador Nuno da Cunha, pedir embarcação e di- nheiro, pera se hir pera a India, e dahi a Portugal. E nesse tempo começarão os Tidores e Geilolos, e alguns Castelhanos, imigos de Quechil Daroes, por as muitas guer- ras que lhe fez, mexerica-lo de treição, contra a fortaleza, e Dom Jorge de Menezes; no que forão favorecidos da rai- nha, may do Rei Daialo, que, alem de ser irmã do rei de Tidore, queria mal ao Quechil Daroes, porque não quizera cazar com ella, o qual deixava de (o) fazer, por ella ter dormido com Quechilato seu... (154) Castelhanos deixárão algumas contendas, por lhes ser muito aceito o Vicente da Fonçequa, e o proverão de mantimentos, por seu dinheiro; e com seu favor começou a desfavorecer a rainha o filho por a dita... os quaes se auzentarão da cidade pera o luguar de... meio legoa da fortaleza, e dalli se forão pera Todore, aonde lhe ordenarão... e Vicente da Foncequa alevantou loguo por rei a hum seu meio irmão, Quechil Taporua, e depois deste lhe socedeo na capitania Tristão de Ataíde com o qual foi da índia... porque se não... (155) ver Fer- não de Ataide com receio dos Geilolos ordenou Tristão de Ataide i-los buscar com armada; entrando todos por alto se entregárão e fugirão os Geilolos, lhe foi queimada a cidade, e os castelhanos forão bem agasalhados á custa dos moradores e da fazenda de el-rei, que pera isso lhes mandou dar. í154) Nesta passagem há, evidentemente, uma interrupção que a edição da Academia não explica. Na cópia da BNL lê-se a seguinte nota, escrita a lápis: «Aqui ha um salto por falta de original». (155) O sentido completo destas passagens, oculto pelas reticên- •cias, não é possível dá-lo, uma vez que o Texto I omite estes factos. 41 ç
E vindo-se o Fernão de Labre, com alguns, pera a índia e Castella, fiauarão la outros, que casarão na terra, e como a gente de Maluco he amigua de novidades, ainda que redunde em seu dano, começarão a mexericar o mancebo Quechil Tabarica, e a rainha, sua may, e o Pateçarangua, (Pate Çarangua) seu padrasto, que era regedor, e a outros mandarins principaes, de treição; a qual, como cheirava, naquele tempo, loguo se fazia obra, como se onvesse prova bastante, de maneira que Tristão de Ataide os predeo a todos, e fez loguo rei a Quechilairo (Quechil Aeiro) que ora reina, meio irmão dos outros, por ser mancebo de muita discrição e saber, pellas quaes partes foi anteposto a outros irmãos mais velhos, e fez regedor ao Çamarao, que era de muito serviço, os quaes se meterão na fortaleza, quando os Malucos se alevantárão contra elle, per estes mudamentos e prizões, como por a força que Tristão de Ataide lhes fazia, e lançando-lhes roupas por altos preços, por cravo, pera el-rei. A qual querra continuou, como singular capitão, até o hir tirar Antonio Galvão, que o coçedeo, o qual deo em Tidore huma batalha, em que morreo o Quechil Daialo, na qual deu fim a guerra. E a elle socedeo Dom Jorge de Castro, que esteve na fortaleza sinquo annos, nos quaes a governou em mor paz e quietação, e foi o primeiro que levou liberdade pera os homens fazerem o cravo por as ilhas, dando a Sua Alteza o terço, sem quebras de todo o que embarcacem, posto debaixo da vergua, por tres par- daos o bar, como se comprava por contrato de Antonio de Brito, e assi foi (o derradeiro) em que se acabou a liber- dade de dar (as mesas) aos soldados (156). Os primeiros (156) No Texto I, Part. i.\ Cap. i.°, lê-se esta passagem para- lela: «D. Jorge de Castro foi capitão de Maluco cinco annos, nos quaes gcvernou a terra com muita paz e com muito sizo. Foi o primeiro que levou liberdade para os homens fazerem o 420
tres annos teve de merçe, e o quarto, que era de quinhentos e quarenta e dous, fiquou por ser em Maluco (Malaca) morto, em desafio, Leonel de Lima, que (o) hia tirar; ao quinto, por falecer em o mesmo Maluco (Malaca) Fernão de Castro. Neste tempo ordenou Dom Antonio de Mendonça, viso- -rei da Nova Espanha, mandar a Maluco outra armada sua, em que tinha parte Dom Pedro dalvorada (D. Pero de Al- varado) adiantado da Província de Guatimala, trezentas legoas do Mexico, que ouvera de hir por Geral delia, se não falecera, caindo de hum cavalo, decendo de hum pe- nhal na conquista de... Galiza, pello que ficou toda ao viso-rei; e mandou por Geral delia a Rui Lopes de Villa Lobos, pessoa de mais autoridade que fidalguia. Trazia seis navios, a saber, huma naveta, chamada Santiaguo, em que elle hia, e tres galeõenszinhos, Santo Antonio, de que era capitão Francisco de Souto, e S. Fran- cisco, de que era capitão Dom Alonso Manrique, e S. Jorge, em que hia Bernaldo de la Torre, e huma galeota em que hia Pero Ortiz de la Ru(eda), e huma fusta de que era capitão Dioguo de Martel, nos quaes hião trezentos e sinco entre homens, com os marítimos. E partirão do porto de Nau... na Nova Espanha, dia de Todos os Santos, de quinhentos e quarenta e dous. E navegando ao Ponente passárão algumas ilhas despovoa- das; e a primeira que tomarão foi a dos Coraes, aonde sorgirão dia de Sancto Estevão... o dos Reis, de 1543, e forão tomar a ilha de Mindanao, aonde estiverão trinta e cravo das Ilhas, pagando S Sua Alteza o terço de todo o que embar- cassem, pagando-Ihe, por cada bar, tres pardaos que era a valia por que o elle comprava, porque dantes ninguém o podia fazer senão elle. Também foi o derradeiro em que se acabou o dar das mesas, naquella terra; as quaes erão sustentamento de muitos pobres». 4.2 I
dous dias, donde se levou o Geral, e foi sorgir na ilha de Saraugáo (157), a quatorze de Abril do mesmo anno. CAPITULO 6.° Da nova que veio a Dom Jorge de Castro desta armada, e do que por causa delia fez. Esta nova dos Castelhanos foi dada a Dom Jorge de Castro, a qual não fez pequeno abalo e alvoroço nos Por- tuguezes, por o grande que sentirão nos da terra, que geralmente são amiguos de novidades, e ainda que lhe veio por negros, que a davão doutros, mandou saber a cer- teza por Antonio de Almeida, (filho bastardo, que dezia ser contador-mor) em duas coro-coras, que com muito tra- balho chegarão à ilha de Saranão (158), iunto de Minda- nao, aonde achárão a dita armada; e, ávido seguro de seu General, foi Antonio de Almeida bem recebido, assi delle, como dos da armada, que não ficarão pouco espantados, assi da novidade, como dos (nossos?), como do trajo da- quelle barbaro tempo e daquelle encontro (159). Ord... dos do seu... natural, e iuntamente com o mui- to... (160) á vinda, lhe deu Antonio de Almeida huma carta de Dom Jorge, em que dizia a duvida em que estava, (157) Supomos tratar-se da ilha de Sarangani ou S. António, ao sul de Mindanau. (158) Idem. (159) A passagem paralela do Texto I, Part. i.«. Cap. i.°, é a seguinte: «muito espantados de verem os nossos tão longe e por tão defferentes caminhos e em partes tão remotas, e pelo conseguinte do trajo; porque, naquelle tempo, era de pouca pluma...» (160) O sentido desta passagem percebe-se pelo Texto I, ibidem: «Recebido o embaixador juntamente com a boa pratica, aprezentou huma carta de D. Jorge, a modo de requerimento, na qual se continha // (2 r.) a duvida e a pouca certeza que tinha de sua vinda...» 4 2 2
e a pouqua certeza que tinha de sua vinda; mas, quando então lhe mandasse dizer a causa, e se vinha então (enviado às ilhas)... em Maluco, ou ali aportado com fortuna, pera o prover do necessário. Ao que Rui Lopes respondeo agradecimentos, e que vinha somente a descobrir o Ponente; e, avida licença do Geral, se tornou Antonio de Almeida, e deu novas da gente que trazia, e muitos oficiaes do exercito e da fazenda del-rei e da de (D. Antonio de Mendonça...) e sinquo fra- des Agostinhos, e outros tantos clérigos (161). Dadas estas novas e outras, que commumente os nova- mente vindos acrecentão, foi bem recebido e melhor mur- murado, avendo que vinha feiçoado aos castelhanos; e com achaque do seu passado trabalho, mandou Dom Jorge a Belchior Fernandez (Correa), seu criado, com outro re- cado; o qual, vindo com duas coro-coras, o achou na armada em Mindanao, no porto de Camarião; e avendo seguro, deu seu recado por hum requerimento e protesto, no qual lhe offerecia Dom Jorge de Castro o provimento necessário para a armada, vindosse pera a fortaleza; e doutra maneira, requeria ao Geral não entrasse nas ilhas de Maluco e suas terras. O qual respondeo que a todo seu poder não entraria nellas, por lhe ser defeso por Sua Magestade, e dando as graças do offerecimento, foi despedido Belchior Fernandez, o qual lhe trouxe hum... (162) Fernandez marinheiro, algaravio. E pelejou com hum lugar, doze legoas da arma- da, aonde andavão certos soldados colhendo arroz, sem lhe querer fallar ao chamado. E cuidando os negros serem todos Castelhanos, derão- (161) Nesta passagem o Texto I é mais rico em informações. Cf. Part. 1.», Cap. i.°. (162) No Texto i.°, loc. cit., lê-se: «o qual lhe trouxe um mari- nheiro português...». 423
-lhe, dalli por diante, muito trabalho de guerra e fome, até chegarem a comer toda a imundícia de bichos, por o qual lhes foi forçado, segundo depois derão a entender, irem-se como desgarrados a Maluco, como se dira adiante. Chegado Belchior Fernandez, deu nova que, depois que Rui Lopez viera a Sarangão, se perdeu S. Antonio... (163). saindo do mesmo porto, e S. Jorge, perto da baia de Ca- naria. Daqui foi S. Joanilho e a galeota a tomar mantimento nas ilhas de Baburo e Philipinas, donde parttio o Joanilho pera Nova Espanha, a vinte e sete de Agosto de 1543, em que hia Belnaldo de la Torre, por capitão, e Gaspar Riquo, algarvio, piloto-mor, e a gualeota desgarrou a Geilolo, em que hia Antão Corço, genoes, que hia la pera outra armada, o qual foi bem recebido do rei, não tanto por caridade (por carecer delia), quanto pello interesse de aver alguma cou- za... (164) a Dom Jorge. Como Antonio de Almeida deo a nova certa, temen- dosse Dom Jorge não viesse a couza a..., fez hum baluarte de pedra e cal no canto do muro (165) outro que não pas- sava, e começou de forrar o muro de viguas, que trouce el-rei de Ternate e algumas de Tidore; e temendo-se não viessem os Mouros, ordenou mandar lá duas fustas que tinha e coro-coras, que pedio ao rei de Ternate; o qual lhas (não) mandou, escuzando-se com a presa que Dom Jorge lhe dava, mas a verdade era por não (desagradar?) aos outros (163) ...«perderão huma das naus, e o bergantim, e entre humas ilhas visinhas, hum dos galleõeszinhos, chamado S. Jorge...» ibidem. (164) «...não tanto por caridade e vertude, porque de tudo carecia, quanto por seu particular interesse, porque, como os reus, não tinhão nenhum, pesava-lhe muito», ibidem. (165) «Ordenou logo D. Jorge fazer hum baluarte de pedra e cal no canto do muro, sobre o mar, onde esteve outro de ma // (zv.) deira; e assim começou a fortificar o muro, que era mui fraco, com estacada de vigas para entulhar de terra...» ibidem. 424
reis, que favorecião a parte castelhana, de quem pertendia favor, se o tirassem do reino em que residia, por (auzen- cia) de seu irmão, Quechil Tabavio (Tabarija, seu irmão que estava na índia ja) christão, chamado Dom Manoel, por quem esperava cada anno. Vendo Dom Jorge a cousa tão clara, qui-lo prender, e depois, (deixou) de (o) fazer por escusar maior dano, temendo as cousas contrarias, que destas novidades podião soceder. Este anno de quarente e tres morreo em Maluco (Ma- laca) Fernão de Castro, que hia por capitão de Maluco, de más disposições; e temendo-se delias o Governador Martim Affonso de Souza, deu a hum Ouvidor, que pera la hia, huma soceção cerrada, que se abrio por sua morte perante Rui Vaz Pereira, capitão da fortaleza, na qual se continha que, em qualquer parte que falecesse, fosse capi- tão Gil de Castro, seu parente, e com todas as mais circuns- tancias necessárias não fallárão pera que a... (166), mas comtudo se embarcou com o capitão, e chegou a Maluco, a dezoito de Outubro do mesmo anno. E antes que desembarcasse (sendo Dom Jorge avizado) (e) a sombra da vizitação lhe mandasse pedir os papeis que trazia, os quais lhe mandou Gil de Castro, e depois dezem- barcou, e foi bem recebido e ospedado de Dom Jorge, o qual lhe pedio o alvará, pera lhe levantar a manajem, e aprezentou-lhe a mesma de Fernão de Castro, alegando a liberdade da soceção, que lhe não aproveitou, e fez seus protestos, os quaes lhe notou bem o mesmo Dom Jorge, e forão sempre amigos. (166) a...não faltou quem lhe pozesse defeitos, mas, contudo, á sombra delia, achou Gil de Castro // (6 r.) partidos a cravo para Mal- luco o qual se embarcou, com titulo de capitão, na mesma nau cm que hia Fernão de Castro...» Texto I, Part. I.*, Cap. 3.0. 42 5
CAPITULO 7.0 Da armada que Dom Jorge de Castro mandou ao Moro, e do que lhe soccedeo, etc. Acabando Dom Jorge de Castro de se apaziguar com Gil de Castro, não deixava de se ver em grã fadigua, por não ter armada de remos, de que esperava ajudar-se, não ousando pedilla ao Tidore, por se confiar pouco em todos, e conhecer delles sua pouqua fe e constância, e serem ami- guos de novidades, maiormente daquellas onde esperavão discórdias entre christãos; mas conformando-se com o tem- mo, e uzando o melhor que pode da necessidade, traba- lhando o possível por a não dar a entender, assim por lhes não fiquar em contentamento, como por lhes mostrar que os não avia mister, e sem elles faria seu gosto; e sentindo, por outra parte, o pouquo poder e força que o Rui Lopez ca traria, ordenou mandar as fustas, sem coro-coras, ao Moro, onde se esperdiça (esperava) virem ter com ellas, o Annes Lobo, que servia de capitão-mor do mar, coin titulo de socorrer a huns lugares de christãos, a que certos visinhos, arrenegados e mouros, fazendo (fazião) guerra. E a sete de Novembro do dito anno de quarenta e tres se fizerão a vella. E hia Antonio de Almeida por capitão da segunda fusta, e leva vão em ambas sincoenta homens, e forão sorgir à cidade de Tolo, aonde o capitão-mor deixou a sua fusta com guarda, e se foi a Mamoia, donde deixou a outra, e com os Portuguezes que ficarão e muitos christãos da terra, e foi em seus poros dezembarcar em huma praia, perto de outra legoa, na qual os da terra tomarão... (os parós às costas), e navegarão pera ella huma boa meia legoa; e no cabo delia estava huma grande e profunda alagoa doce, 426
aonde aparecerão os parós, e metidos todos (167) dentro, navegarão por ella outro tanto caminho em cuio... (168) ha a terra huma ponta grossa que lhe fiquava pegada {por estreito e forte) passo, sobre o qual se foi James Lobo, com grande arraial de gente, que com suas gritas asom- bravão aos cercados e cercadores, entre os quaes era Liliato de Gamoconora, que pretendia ser aquelle luguar, chamado Galelas, seu, e não lhe obedecia. Naquella primeira noite cometterão muitos partidos de paz, que por seguir o capitão, ilicitamente, a openião dos soldados, lhe não quiz aceitar, e loguo por a menhã, orde- nadas duas jenguadas sobre paros, pera os dous capitães, tendo ambos aceitado o partir Antonio de Almeida diante, rodear o ilheo, e dar primeiro luguar pera isso apontado; e depois James Lobo, por huma entrada boa, pera donde avia de partir, não guardando a ordem, partio iuntamente com Antonio de Almeida, que avia de andar maior cami- nho, e deixou sahir alguns, que começarão a subir ao lugar, sem espinguardas, aos quaes servia esperar por os mais. E porque era alcantilado, recuava cada vez a jenguada que algum saltava delia, sem aver quem a tornasse; pello que, com muito trabalho, saltarão alguns treze ou quatorze ho- mens em terra, fiquando os mais, a qual dezordem e os negros não defenderem a entrada, os fez hir sem espin- guardas, que são as armas por que os Portugueses são la temidos; e, receando-as, começarão a retrairsse pera o passo, mas como o acharão tomado, e não virão espinguar- das, tornarão com grande fúria e grita, pronosticando vito- ria, com armas, paos e couquos, por carecerem de pedras. E dando sobre os Portugueses, que andavão na desor- (167) No Texto I, Part. i.a. Cap. 2.° lê-se: «e metidos todos dentro», não se compreendendo as reticências da edição da Academia. (168) «...no cabo da qual metia a terra huma ponta...» Texto I, Part, i.1. Cap. 2.°. 4.27
dem, a querer prender, de tal maneira os cometerão, que os fizerão recuar, quasi todos feridos, tomando-lhes das mãos algumas lanças; e como de nenhuma dezordem pro- cede ordem, assi a não tiverão no embarquar por a agoa. E andando as cousas neste conflito, deu por outra parte Antonio de Almeida, que, sentindo o rumor, começou a... (169) risco, e bradar que lhe rouba vão sua honrra; e com a fúria deu com a jenguada sobre humas pedras e, desfazendosse, sahio em terra mui atribulado, com a mes- ma desordem que James Lobo, que não pereceo, por esta lhe valler; porque, como os negros o sentirão dezembarcar, acodirão a elle, e teverão tempo os de James Lobo, pera se salvar, sem morte alguma; o qual beneficio lhe pagou com outra desordem; porque, por não aver quem remes- sase a jenguada, esperou, e, por dita, o achou Antonio de Almeida com os seus pelejando, deixando hum morto e dous que cativarão, por não os (ma) tarem alli; os quais tres parece que comprarão a morte, porque todos hião alu- gados por outros, que o capitão mandava. Antonio de Almeida faleceo em se embarcando, de duas cotiladas, que trazia por huma perna; (e ficarão lá mais tres soldados seus) (Desfeita a jangada) se embarcarão e tornarão pela mesma ordem (e se vierão, ficando lá muitas armas nossas e a honra). (Tomadas as fustas), James Lobo meteo na mais fra- qua vinte e sete feridos, de que erão os principaes Anto- nio..., moço da camara do Duque, Gabriel Rebelo, Anrrique de Lima, Vas- ... (170) com os que escaparão, a quem (169) ... <'deu por a outra banda Antonio de Almeida, que Hia bra- dando com grã fúria que lhe robabão sua honra...» Texto I, Part, i.*. Cap. 2.0. (170) Neste ponto a edição da Academia apresenta um grande espaço sem texto, ocupado por reticências com a seguinte nota: 4. 2 8
Dom Jorge mandou loguo bom socorro, que achou os dous cativos e o moro podres, espetados a borda da agoa, e fogirão os do luguar, e por isso lhes foi queimado sem periguo. E tornado o mesmo socorro, fiquou la James Lobo, esperando a vinda dos Castelhanos com alguns homens, ate vir depois o Geral, na sua náo, ao luguar de Cuguala, arrenegado pelo Geilolo, que esta tres, ou quatro legoas do (Gei)lolo, o que pos muito espanto aos da terra, e aos nossos temor, por serem ja alguns mortos, e os outros doentes. E o Rui Lopes vinha quasi da mesma maneira; e estando huns e outros esperando que faria o primeiro piquete, lhe mandou James Lobo dous soldados, os menos doentes que avia, com hum requerimento, que levava de Dom Jorge, conforme ao poder com que partio, e não da miséria, que tinha; no qual lhe requeria que, se vinha com fortuna, e constrangido do tempo, se fosse à fortaleza, aonde lhe seria feito todo o bom tratamento; e doutro modo, não saisse em terra, nem nella entrasse, nem fizesse damno, porque lho defenderia, protestando por toda a culpa, etc. O qual respondeo que não entraria nas ilhas, e Cana- rias, nem em seus limites, por lhe ser defeso; e que a todo o tempo que lhe constasse estar nellas, se sairia, e que avia «Todas as passagens indicadas com este signal (...) acham-se comidas de traça no original, tornando o texto inintelligivel em taes passagens, e dando-se aqui mesmo o salto de uma pagina perdida por anterior descaminho». No Texto I, Part. l.a. Cap. 2.°, a passagem correspondente é a seguinte: «Tornados às fustas, James Lobo meteu na peor e mais velha os feridos, que serião vinte e sette, e os mandou d Fortaleza, os quaes forão nella recebidos com muita tristeza nossa, e alegria dos mouros, porque melhor lhe digere õ estomago hum disbarato nosso que huma vitoria, e James Lobo ficou no Tolo, por esse(s), com os quaes esca- parão. , . . E Dom Jorge lhe mandou logo bom socorro, com o que fugirão os Galelas, e o lugar lhe foi queimado em paz...» 42 ç
aquellas por de sua Magestade, e ainda que assi não fosse, a necessidade aos preceitos divinos quebrantava, quanto mais aos humanos. Com a qual reposta se tornarão os enviados. E foi dali levada a náo, por mandado de al-rei de Gei- lolo, ao seu porto, onde estava a galeota; e sendo bem aguasalhada, fizerão suas estancias. Com esta cheguada nunqua mais veio o rei de Tidore á fortaleza, a qual mandou o Geral por embaixador a Ma- tias de Alvarado; e sendo bem recebido e agasalhado, apre- sentou hum requerimento, que dizia em summa, o geral, que era ali vindo com contraria fortuna, e pedia ao capitão fizesse bom recebimento a gente da terra, por serem vassa- los de sua Magestade, e senão, que sairia por isso, avendo que o fazia em seu menoscabo, e lhe mandasse a artelharia, e Castelhanos que estavão na fortaleza, das guerras pas- sadas. Ao que respondeo Dom Jorge, que dava licença aos Castelhanos que se fossem (o que nenhum quiz fazer), e que a artelharia fora tomada de boa guerra; e quanto ao tratamento dos naturaes, não era elle parte para o pedir, pois erão vssallos de el-rei de Portugal, e que muito mal dizião aquellas palavras com as primeiras, que não entraria nas ilhas de Maluquo, por lhe ser defeso. Mas pois assi era, lhe requeria que com a dita gente não entendesse, nem tra- tasse, e despedio o embaixador. 430
CAPITULO 8.° De como os Castelhanos se meterão em Tidore, e de como arribou São Joanilho, e tomou a partir; e chegada de Jordão de Freitas, e da prisão de el-rei de ilaluquo. Tanto que Dom Jorge de Castro vio que Rui Lopes de Villa Lobos fizera o contrario do que tinha dito, fez com os moradores que vigiassem a povoação, e a vegia durou todo aquelle anno, com muito regozijo; no qual tornou Mattias de Alvarado com outro recado, e apos elle mandou o Geral a Dom Alonso Manrique, com trinta ou quarenta homens, meter-se em Tidore; e foi bem recebido do rei e dos principaes, mas não do comum, por os muitos trabalhos e perdas que os das armadas passadas lhes derão; e sabião que a necessidade destes avião de suprir com suas pobresas; e como são mais amiguos de pedir que de dar, esperando polios que fiquavão em Geilolo, pezava-lhes. Da qual nova fiquou Dom Jorge mui frustrado, e muito espan- tado delia; sendo de crer que não veyo a outra cousa, senão assegurar a Dom Jorge e avisar aos seus, se avia algum sentimento deste trato com Tidore, que lhe podesse empedir a ida. Dom Jorge o despedio com palavras de grande espanto do roim effeito das boas razões do Geral, a que respondeo, que a necessidade lhe fizera mandar a Tidore aqueiles pou- quos soldados, por se não poderem sostentar todos em Geilolo, com as quaes escuzas, e o pouquo remedio que Dom Jorge tinha pera os estorvar, se apaziguou tudo. E as palavras não erão ditas, quando se foi o Geral meter no mesmo Tidore, com todo o resto da gente; e, dahi a pouquos dias, chegou São Joanilho, que arribou, passados os oito mezes de viagem, o que sentirão muito. Os Tidores fizerão huma fortaleza de pedra sequa, de- 4 3 i
tras da cidade, em hum outeiro, e com licença do rei bateo o Geral huns pequenos ceitis de cobre, furados pello meyo, como caxas jaoas (171), quadrados. E porque não tinhão a mesma valia, se obrigou de os tornar a tomar, e satis- fazer a quebra, e assi começarão alguns seus soldados a vir-se pera a nossa fortaleza, onde erão bem recebidos. No fim deste anno chegou Jurdão de Freitas, que hia por capitão delia, a sete de Novembro de quinhentos e qua- renta e quatro, e, sendo loguo mandado visitar do Geral, começarão tratar de paz. E, antes de ser firmada, lhe man- dou a Rui Lopes mostrar o regimento que trazia, jurando em huma hóstia consagrada, que não trouxera outro, no qual lhe era defezo por o Emperador, que não entrasse nas ilhas de Maluquo, nem sua demarcação, e com isto se fir- mou a tregoa, ate hir seu socorro, ou o nosso. E dezia, depois, Jurdão de Freitas, que Rui Lopes lha pedira e a aceitara, pera quietação da terra, e aver o cravo das ilhas mais seguramente, e poder hir sobre Geilolo. E mandou duas coro-coras, em que hia por capitão seu sobrinho Vasquo de Freitas vesitar e tomar posse de Am- boino, de que o Dom Manoel lhe tinha feito merce na índia, a qual lhe confirmara el-rei, nosso senhor, pera sempre. /Isentada a tregoa, mandou Jurdão de Freitas chamar a el-rei e ao Çamarao; e, antes que entrasse, se encostou a hum esteio da ramada, e disse, depois de entrar, que lhe dera ali no coração, que o querião prender, mas não deixou de entrar, confiado na sua justiça. E, sendo ambos na salla, forão presos; e perguntando per a causa de sua prisão, lhe respondeo o capitão, que tomasse huns ferros, e então o saberia, os quais lhe botou Francisco Palha, feitor e alcaide-mor, o que recebeo com grande animo e paciência. (171) Vid. Insulindia, Vols. i.° e 2.0, Glossário. 4 3 *
E, lançando outro grilhão ao bom velho Çamarao, forão postos em huma casa, sobre o almazem, aonde mora vão os sobrinhos do capitão, a quem forão entregues. E loguo o Vigário Rui Vaz e Anrique Fernandez de Lordello forão á cidade dos mouros, e trouxerão prezo Amama, ouvidor e irmão do Çamarao. E, a poucos dias, foi solto, a roguo de Pate-Çarangue, padrasto do rei novo, que ja governava com a molher, may de Dom Manoel, que fiquara em Malaqua, pera vir o anno seguinte. Com esta prizão foi grande estraguo na caza do rei, assi na fazenda, como nas molheres, ao que acodio o Vigá- rio, com muitos escravos; e fez como os outros, pello que, o capitão, mandou a isso o ouvidor, com alguns homens, com que se evitou o damno, pondo em cobro o que poderão, que se deu depois ao rei. A este tempo estava ja Dom Jorge differente com o capitão, per lhe ter emprestado cento ou dozentos bares de cravo, com esperança de lhe dar licença pera trazer seus criados, em que pos taxa, e lhe pedia cento pera dar a James Lobo, e Belchior de Siqueira; e com esta prizão o acabou de estar de todo, per lhe não dar conta delia. O dia que se a nao da carreira fez á vella, passou defronte a fortaleza; à qual foi levado o rei e Çamarao, em hum batel bem armado, e entregues a Francisco de Azevedo Coutinho, capitão delia, com muito sentimento de todos, assi Portuguezes, como Mouros. Passado isto, veyo o Geral á fortaleza visitar Jurdão de Freitas, por ser primeiro visitado delle. E como todos os mais exemplos hão começo de bons respeitos, (como dis Salustio) tendo a nao, e São Joanilho, e a galeota, mui damnificadas, e peior aparelhadas, sem ter pera isso remedio, lhe comprou o dito vigário e Anri- que Fernandez de Lordello a galeota, pera Jurdão de Frei- tas; e a nao pera si, a vendo que era serviço de el-rei tirar- IKSULfNDIA, 111 — 28 43 3
lhas, por não naveguarem mais nellas, mas com seu preço aparelharão e carreguarão a São Joanilho, que o Geral tornou a mandar pera a Nova Espanha, e a Inhigo Ortis de Retis, por capitão delle, e por piloto, o mesmo Gaspar Riquo; o qual tornou arribar a Tidore, passados tres me- zes; o que sentirão muito, assi por o guasto, como per a desconfiança do descobrimento da volta, que era o prin- cipal que pretendião, e desesperarem de novo socorro. E assi se passou aquelle primeiro anno de Jurdão de Freitas, no qual se lhe perdeo a galeota na ilha de Buxo; (172) depois fez o mesmo a náo, indo-se ao fundo em Talanguamos, bem concertada e aparelhada, mas não tinha quem lhe desse a bomba, por a ter encampada o Anrique Fernandez a Bernaldim de Souza, por huma licença, que lhe não deu. Cheguando o rei e regedor a Malaqua lhes mandou Garcia de Saa, que ahi estava por capitão, tirar os ferros com muitos comprimentos, e el-rei foi pera a India, e o Çamarao pera Maluquo, em companhia de Fernão de Souza de Tavora, que ahi era cheguado, com armada, pera Malu- quo, o qual o levou, avendo que estaria a terra revolta per sua prizão, e do rei. Ao mesmo dia, ou na vespora, que o rei chegou a Mala- qua, falleceo o Dom Manoel Tabarija, e fez testamento, em que deixou a el-rei, nosso senhor, por erdeiro do seu reino, o qual testamento dizia Jurdão de Freitas que escon- dera Garcia de Saa e Dom Jorge de Castro, pera poder tornar o Quechilaeiro (Quechil Aeiro) pera Maluquo. (172) No Texto I, Part. 1.», Cap. 6.°, a passagem correspondente é a seguinte: a...mas o Reverendo comprou a nau para a concertar e caregar de cravo, a qual houve, depois, com elle ma fim; e a gallé foi tara o mesmo capitão mandar o mesmo padre a Amboyno, com muni- ções, fazer huma fortalleza, a qual se perdeu la...» 43 4
CAPITULO 9.0 De como chegou Fernão de Souza de Tavora, com a armada, a Maluquo; e das pazes que fez com os Castelhanos, e do cer- quo que elle e Jurdão de Freitas pozerão a Geilolo. Como o natural dos trabalhos seja enfadar, ainda que uzem brevidade, muito mais o fazem, quando se desespera do fruito delles, como aconteceo aos Castelhanos; porque, enfadados de longa viage, fomes, e risquos, em que se virão, rogulando alguns estas misérias com suas fraquezas, vierão-se pera a fortaleza. E estando, por a mesma causa, a maior parte dos que fiquavão, deseiosos do nosso socorro, desesperando ia do seu, e da melhor fortuna, chegou Fernão de Souza de Ta- vora, a dezoito de Outubro de quinhentos e quarenta e cinquo, ao qual mandou o Governador Martim Affonso de Souza, como soube a nova da armada castelhana. Hia num galeão pequeno, e levava duas fustas, de que erão capitães Manoel de Mesquita, e Leonel delme (173), que depois se meteo na Companhia de Jesus; e a nao Santo Esprito, em que hia João Criado, para levar o cravo; e em Malaqua lhe foi dada outra fusta, de que fez capitão a João Galvão; e assi foi dahi mais outra nao (174) de merca- dores, em que tinha parte Jurdão de Freitas, de que hia por capitão Antonio de Freitas, seu filho bastardo, o qual lhe levou o treslado do testamento de Dom Manoel, com a nova de sua morte, que muito sentio. A vista destes navios, com a nova de mais gente do que levavão, alvoroçou todos, e loguo mandou o Rui Lopes de Villa Lobos visitar, por carta, a Fernão de Souza; a que (173) Lionel de Lima, segundo o Texto I, Part, i.«, Cap. 7.0. (174) A nau Santa Cruz, segundo o mesmo Texto e Cap. cit. 43 5
respondeo por outra, de breves palavras, escuzando-se de custo delias. E como trazia o Çamarao, pera com elle concertar a terra, se a achase revolta, e a achou pacifiqua, pedio-lhe Jurdão de Freitas pera o ter a recado, porque, com sua vinda, se não alvoraçassem alguuns; e sendo-lhe entregue, o meteo em huma caza da fortaleza, donde não sahia; o que foi mal julguado a Fernão de Souza, a quem o Rui Lopes loguo mandou cometter paz, que se concluio na for- taleza, dia de São Simão e Judas; na qual se continha, que se viria pera a India em sua armada, e Fernão de Sousa lhe daria embarquação pera as suas fazendas, e o neces- sário pera suas pessoas; as quaes pazes fez Jurdão de Frei- tas, por levar por regimento que faria tudo com seu pare- cer, e no demais hia izento com bastantes poderes na fazenda e justiça. E, antes de se acabar de firmar a pauta, erão ia vindos muitos Castelhanos, e depois veio o Geral com o resto, e pousou da outra banda de hum reguato, que estava no cabo da povoação, acompanhado de Inhiguo Ortis de Retiz, e outros dous ou tres; e os mais, com os Portuguezes; e comião com Fernão de Souza e seus capitães, que davão boas mezas, dos quaes era o Geral mais praguejado que visitado. E, estando assi, lhe levarão os Tidores da pesca hum camelete, sobre o que se fez mui pouco, causa de se pre- sumir, ó que lho vendera, em satisfação da moeda que fizera (175). Acabada a paz de concluir, tomou Jurdão de Freitas (175) Esta passagem obscura percebe-se melhor pelo Texto I, Cap. cit.: «...lhe furtarão da porta hum camellete de metal, os Tidores, pelo qual se fez mui pouco, donde se prezumio que lho dera, ou vendera, por algumas satisfações; porque, doutra maneira, não se podia crer terem os Tidores tal atrevimento...». 4 3<>
posse, por el-rei, nosso senhor, do reino de Dom Manoel, conforme a seu testamento, com bandeira real e preguão de trombetas, ao costume de Portugal, o que consentirão os da terra; e ordenou com Fernão de Souza ir tomar a forta- leza de Geilolo, pera o que deixou em seu luguar a seu irmão Dioguo de Freitas com os casados, e levou os fron- teiros, e Castelhanos que tinha, e muitos cestos, escadas e huma manta e hum trabuquo, de que os velhos e novos soldados começarão a zombar, chamando-lhe dachem, que he o pezo do cravo, com que se muito parecia. E mandando pôr huma bandeira de Geral em huma fusta, que tinha na fortaleza, em que avia de ir, poserão os capitães da armada, que estava em Talanguame, cada huum sua nas fustas, em que hião, afora a da gavea, que levava Fernão de Souza, o que sentio muito mais Jurdão de Freitas, que a zombaria, que andava de seus pretechos. Mas dissimulava, por o tempo em que estava, e dezejar acabar o que lhe relevava, pois avia de fiquar na fortaleza com os trabalhos da outra, que pretendia tomar. E assi partirão, levando Fernão de Souza, com sua gente, muitos Castelhanos, salvo o Geral, e alguns velhos, que serião por todos com os de Jurdão de Freitas, quatro centos homêes, os quaes, em todo o caminho, ainda que breve, não deixarão de zombar das cinquo capitanias. Hia Também o regedor Patecarangua (Pate Çarangua) com boa armada de coro-coras. E surtos todos na baya de Geilolo tomou Fernão de Souza a mão, e correndo todos os navios, fallou com Jurdão de Freitas, que desembar- quassem a ver terra. Ao outro dia sahirão, ao balo balo (176), longe da for- (176) Expressão, cujo sentido não pudemos apurar. No Texto I, Part. 1.», Cap. 7.0, lê-se: achegados a Jeilolo, como digo, que são quatro legoas de Talangame, junta toda a armada, hum dia, á tarde, desem- barcou Fernão de Souza...» 437
taleza, cada hum com sua bandeira geral, e Fernão de Souza tomou a dianteira; e achando o Alferes de Jurdão de Freitas, lhe deu, sem causa, hum grande empuxão, o que não vio Jurdão de Freitas, porque parece, que o não sofrera, ou se tornara, por hir entendendo o fim que a cousa podia aver. E assim, sem guardar a ordem, por onde e como avião de caminhar, fez Fernão de Souza da sua gente hum esqua- drão, e deu a deanteira aos tres capitães das fustas, que hião em outro, o qual levava huma espia, que sabia hum cami- nho, pera os hir por no mais fraquo da fortaleza, do qual fizerão zombaria, e se forão por, com mais soberba que ordem, debaxo de humas arvores, que estavão defronte de huma tranqueira de pedra e terra, a modo de vallado cer- quado, tudo de cava, bem estrepada, por fora e por dentro; a qual não ousarão cheguar os nossos, pondo-se das arvores as espinguardadas com os de dentro, que não fazião muita conta daquelle forte, ainda que delle se recolherão os Por- tuguezes, avendo que bastava a vista, do que aos cerquados não fiquou pequena ousania, fazendo conta que, quando lhe não tomavão aquillo, menos o farião á fortaleza, que tinhão dentro; e loguo puserão ahi mais artelharia e gente. Fernão de Souza se recolheo com alguns feridos, de que hera hum Gaspar, homem de Chaves, moço de camara do Duque, o qual, de ma cura que lhe fizerão, de huma espin- guardada que lhe deu por a barrigua da perna, lha corta- rão, depois, pello joelho, do que morreo, em poucos dias. E estando-se a gente embarcando no mesmo luguar, onde se desembarcara, saio-se hum mulato da companhia, a fazer suas necessidades, antre humas ervas, sem ser visto, e como era perto, vendo alguuns que bollião ellas, e ratifi- cando-se, lhe apontarão com as espinguardas, cuidando ser espia, ou que vinha fazer alguma sorte, e ali foi morto por hum João Rodrigues, soldado castelhano, que lhe deu com 43 8
hum pelouro pellos peitos, o qual desastre foi aviso pera muitos, que depois bradavão, quando hião fazer a mesma obra. CAPITULO IO.0 De como os capitães desembarcarão a pôr cerco a Geilolo, e o levantarão; e das pazes que, depois, lhe forão feitas, e da morte do Çamarao. Embarcados os capitães ao dia seguinte, pella manhãa, fez Fernão de Souza desembarcar os cestos, e alguma arte- lharia, por um esteiro mais perto das arvores que o caminho do dia dantes; onde fez huma tranqueira fortefiquada de artelharia, cuio carreto custou a morte a muitos negros. A traz desta, a tiro de espinguarda, no cabo do mesmo esteiro, mandou Jurdão de Frçitas fazer outra de palmeiras, que custarão bem de sangue aos que as trazião, aonde se pos, com sua gente, mui alhea da conversação dos de cima. E continuando-se, nesta fortifiquação, alguns dias de trabalho, nelles, o mesmo Jurdão de Freitas, huma vez, e os tres capitães das fustas, outra, quizerão ir rodear a forta- leza, buscando alguma entrada; mas, sem a acharem, nem fazerem muito por isso, se tornarão loguo, com alguns fe- ridos. Como se Fernão de Souza começou a hir desemganando que a não podia entrar, começou a dizer que aquella obra era de Jurdão de Freitas, e não sua, ate o dizer em hum soo ajuntamento, que tiverão, confessando que no mar peleja- ria sempre muito bem, mas que , em terra, nunqua posera cerquo, do que vierão a palavras sequas, em que alguns dos capitães menores se tomarão com alguns dos principaes da companhia de Jurdão de Freitas; repetindo mais (177): (177) Subentenda-se Fernão de Sonsa. 43 9
que viera ali por amor delle, e visse que queria, porque era tempo de se tornar pera a India, com os Castelhanos. Debatida a cousa, alevantarão, aquella noite, o rayal e se tornarão a embarquar, por a mesma ordem que desem- barquarão o primeiro dia, passados quatorze ou quinze dias; nos quaes forão mortos dezaseis ou dezasete homees dos mais esforçados, de que os mais erão da Companhia de João Galvão, que entrou no numero delles, dum pellouro de berço, que lhe deu por huma perna, dentro na tranquei- ra, cuja morte sentio muito Fernão de Souza, assi por o grande amor que lhe tinha, como por o grande esforço e diligencia com que o ali sérvio. E assi outro soldado, chamado Borge, esforçado cava- leiro, cuja cabeça cortou hum geilolo, e por ela lhe deo o rei, de preço, huma filha, que era molher do rei de Ternate, que lhe fiquara em casa, quando o prendêrão; o qual (178) a engeitou, depois, por isso, e enforcou ao da sorte, sendo tomado por os Ternates em huma coro-cora, na graça que lhes despois fez Bernaldim de Souza. Fernão de Souza foi muita parte da morte de alguuns ho- mens e dalguuns feridos, porque lhe pezava de quem corria, cu se abaixava por lugares periguosos, passeando elle per elles, com huma capa de escarlata, como por sua casa. E porque não faltou quem entre elle e Jurdão de Freitas se disse odeos, (tecesse odios) vierão a estar mal, dizendo cada hum publicamente mal do outro. Queixavasse Fernão de Souza que dava licença para embarcar cravo a quem queria, e não a quem elle pedia, pello qual veyo a carreguar o seu galeão e huma nao de Garcia de Saa, que elle ahi tinha botado ao mar, com muito trabalho e guasto. E fez pera isso officiaes da sua mão, sendo isto dos da fortaleza, e do capitão delia; ao que dava (178) i. é. O rei de Ternate. 440
per desculpa a obrigação que tinha de dar embarcação aos Castelhanos, e assi se partio pera Amboyno, bem carregua- do delles e de cravo. E Jurdão de Freitas fez com Patecarangue (Pate Ça- rangue) que fizesse pazes com o Geilolo, que estava mui so- berbo, não se querendo antremetter nellas, per o não ser mais, mas mostrou que dava a isto consentimento. Neste tempo pedia o Çamarao, cada dia, soltura, dese- jando ir morrer a sua caza, e sendo-lhe concedida, foi fazer loguo a çutnbaya a rainha, e regedor; e dando-a, poz-se a lavar em humas fontes, que estavão no caminho, onde foi salteado e morto, sem causa nenhuma, porque Chilguapo (Quechil Guapo) meyo irmão do Dom Manoel, se foi do Reino, e que Chichire (Quechil-Chiri) seu sobrinho, man- cebos viciosos, e de pouca reputação, o que bem mostrarão na maldade do feito (179). E disse que o fizerão somente por comprazer aos dous que gover- navão, segundo depois se vio no favor que lhe de- rão, estribando no capitão, que não era de todo livre desta culpa, porque, não tão somente os não castigou, podendo, mas deu-lhes perdão, movido de areceos dalgum alevantamento, se os castiguasse; o que bem poderá fazer, por quão malquistos erão, e a parcealidade do rei e Çama- rao se não ouverão de bollir, pois em seu favor se castigua- vão os dalinquentes; nem a de Parçarangua (Pate Çaran- gua) e rainha, que dizião ser inocentes e mui leais e ami- guos do capitão; do qual dezião que dissera que bem sabia que o avião de matar, mas não tão cedo, pera o que lhe ou- vera de lembrar seus serviços, e inocência. E que, fazendo (179) O Texto I, Part. 1.», Cap. 8.° é mais claro nesta passagem: «Veio-se lavar a humas fontainhas que estavão no caminho, e ali o matarão Guechil Gate, irmão de D. Manuel e do rey prezo, e Guechil- -Chiri, seu primo, o qual delicto fizerão sem lhe ter odio, nem haver cauza...» 4.4.I
os da terra huma vez conselho, pera tomar a fortaleza, ir-se elle a praia, aonde fez huma pequena cova, em que estava botando agoa, com huma casca de coquo, e perguntado por hum, pera o que fazia, disse que queria secar ali a agua do recife. E dizendo-lhe que era impossível, sem primeiro ta- par todo á roda, para que não entrasse outra vez a do mar; ao que respondeo, que assi o fizessem com a destruição da fortaleza, a quel lhes não aproveitava, sem tapar todo o mar, pera que não fossem outros portuguezes. Finalmente foi-lhe neguada a sepultura, e ausentarão-se seus filhos e alguuns parentes, e não foi pouquo sentido tudo dos Portuguezes, que fiquão temendo estas mortes e per e des (perdas?) que per reis e regedores; (180) das quais pedras fazem os da terra alicerces de odios sobre eles, de cujas culpas tem nacimento o continuo temor, e receio, em que sempre vive, conhecendo que todos seus males tra- zem principio de suas culpas; as quais se enredão de tal ma- neira, que cada dia creçem iuntamente com o temor, e são nesta parte como gozos com lebre, cujo medo os faz ladrar- lhe sem cessar. CAPITULO II.° Da morte de Rui Lopes de Vilha Lobos, e do fim que teve a gente da stia armada. Esta nova soube Fernão de Souza em Amboino, a qual sentio muito, per a causa que deu a ella; e emquanto ali (180) Nota da edição da Academia: «Faltão evidentemente sylla- bas e até palavras no original para fazer sentido». No Texto I não encontramos referência a este pormenor da sepul- tura do Çamarao morto, que nos possa esclarecer o sentido da frase, ininteligível, talvez, mais por leitura errada do original. 4.4.2
esteve, lhe morreo alguma gente, antre os quais foi Rui Lo- pes de Vilha Lobos; e dizião que de imaginação de se ver perdido, e escandalizado dos seus; e assi, por se entreguar tão facilmente a Fernão de Souza, avendo que não tinha pera fazer com elle paz, e temia por essa cauza, não lhe guardarem a que fizera. Era homem comprido, magro, e de boa veroniqua; mui afable, aprazível e cortês, e a barba serteada de preto e branquo; fiquarão ainda muitos da sua armada, que se ca- sarão na terra, os quais mandou ir o regedor (?) Dom João de Castro. De que alguuns, escapando, se tornarão, donde se vera a maa companhia, que recebem dos Portuguezes, como espuzerão falsamente seus caronistas a saber, o cleriguo que capitulou a Conquista da Nova Espanha, e que Fer- nandez de Oviedo no trato do descobrimento do Maga- lhães (sic). Esta foi a fim das suas armadas, de que não duvido aver outras informações, como he geral em todas as historias. Fernão de Souza chegou a Malaqua, aonde achou a Ber- naldim de Souza, que levava ao rei Aeiro para Maluquo, per mandado do governador Dom João de Castro, o qual, com o novo dezembarguo, que trouxe de Portugal, o sen- tenceou solto e livre, e tornasse a ser restituído em seu reino, e que pagasse Jurdão de Freitas as custas, e fosse, desapossado da fortaleza, dar razão de si, e tomasse Ber- naldim de Souza posse delia, dando a da terra ao rei. E a causa disto, foi ter tirado Jurdão de Freitas de- vassa delle, de culpas antre mouros, e de não dar coro-coras a Dom Jorge de Castro, para James Lobo hir ao Moro, como fiqua dito; as quais culpas não ouverão per obrigua- torias, e mostrou per ellas não fazer a dita prizão, pura- mente per meter de posse ao irmão Dom Manuel; cuia morte, e aver castelhanos em Maluquo, e não ter Jurdão de 443
Freitas amiguos, que por elle fallassem, e parecer que esta- ria Maluquo em periguo, ouverão alguuns que forão partes de ser julguado tão gravemente. CAPITULO 12.° De como Bernaldim de Souza tomou posse da fortaleza e entregou o reino a el-rei, e de como foi livre Jurdão de Freitas, e deixou de ser capitão. Bernaldim de Souza foi escolhido per o governador Dom João de Castro, pera ir meter de posse do reino de Maluquo ao Quechil Aeiro, e tomar a da fortaleza a Jurdão de Frei- tas, que tinha ainda huum anno por servir, e avia de ir dar razão de si. E forão na não Bufara, em que hia per capitão da carreira Duarte de Miranda. E indo ter a Guamoconora, dezoito legoas da fortaleza, foi o rei ahi bem servido de Liliato, senhor de la, seu vassalo e cunhado, o qual, com suas coro-coras, deitou a não ate junto de Ternate, aonde lhe acodio bom vento, por o qual, e per a chusma ir cansada, se amarrarão per a popa da náo, o que o piloto não quis consentir, favorecido de Duarte de Miranda, que mandava cortar o cabo, a quem disse Bernaldim de Souza, que o não fizesse, por o trazerem ate li com muito trabalho, e que avia mister as coro-coras, pera desembarquar, porque não sabia como acharia a terra. Das quaes razões não quis conhecer Duarte de Miranda, e tornou a mandar que cortassem o cabo. Ao que respondeo Bernaldim de Souza, que, se o cortassem, que com o que fiquasse o avia de mandar amarrar, e assi fiquo o cabo sem se cortar. Cheguando a náo a ilha de Ternate, desembarquou Ber- naldim de Souza, e fiquou el-rei escondido, ate elle tomar
posse, por temer da sua vista alguum alvoroço; e come- çando hum a dar novas na fortaleza, que vira huma nao, chegou a elle; e sendo conhecido, emburilhou todo o prazer a Jurdão de Freitas, porque, pera ser capitão da fortaleza, não no esperava, e pera da nao, não no cria, e pera outra cousa, nada via a que; e com esta torvação o foi receber a praya. E dado o costumado abraço, e o primeiro envite de boa seja a vinda, caminharão sequamente pera a fortaleza, não se querendo Bernaldim de Souza assentar a porta delia, como he costume; e sobidos pera a torre, companhados da nova e velha gente, lhe perguntou Jurdão de Freitas, se tra- zia mantimentos. E calada a resposta, se assentarão na salla, aonde Bernaldim de Souza disse ao que vinha, mos- trando sua patente e alvará, pera lhe levantar a homena- gem, o que Jurdão de Frentas recebeo com grande animo, sem soltar palavra, que não fosse accomodada. E obedecendo, requereo-lhe que não desse a posse ao Quechil Aeiro, por a ter tomado por el-rei de Portugal, cujo reino era. Ao que respondeo Bernaldim de Souza, que não sabia nada daquillo, e que o avia de hir metter de posse, como mandava o Governador e Relação, perante quem po- dia alleguar o que dizia. E com isto ficou na fortaleza, e se sahio loguo Jurdão de Freitas, tirando cada hum seus estromentos. El-rei desembarcou o dia seguinte, vestido á portugue- za, e mui acompanhado, e recebido do capitão, e morado- res, a quem abraçou mui affablemente, e fez grande reve- rencia ás armas reais, que estavão á porta da fortaleza, na qual tocou com a mão, e polia na boca, e na cabeça, (181) e assentou-se; e depois, foi por algguns dias acompanhado (1181) Este é o costume daqueles povos: levar à boca ou pôr na cabeça os objectos por que desejam manifestar veneração e apreço. 445
dos Portuguezes, porque se temia de alguns dos seus, e de Jurdão de Freitas, porque sua ida foi sentida de muitos, que o tinhão offendido nas molheres e na fazenda, (182) avendo que não avia mais de tornar, como dizia Jurdão de Freitas. Aos quais perduou as vidas, a roguo de Bernaldim de Souza, e foi visitar a rainha e marido, e fellos amiguos com os filhos de Çamarão, cuja morte sentio muito (mas como he geral no seu poder absoluto) não fez nada por ella. Chegou Bernaldim de Souza a dezoito de Outubro de curenta e seis, e loguo se fez a liquidação das custas da pessoa, que Jurdão de Freitas avia de paguar, ao que veyo com huuns embarguos, que lhe não recebeo; pello que se começou o odio, que se confirmou para sempre, porque teve depois para si, que Bernaldim de Souza o enganara, aconselhando-lhe que se fizesse amiguo com el-rei, do qual depois se arrependeo. E não quis tomar outro conselho, que lhe deu o Padre Mestre Francisco, que trouxesse sua molher, porque pode- ria ser não tornar, e folguaria de a ter na India. E assi se vêo soo, malquisto da terra, como acontece aos malfortu- nados, com grande perda das custas, que montarão, per todo, quatro mil pardaos. Embarcou-se com o mesmo Duarte de Miranda, e veyo á índia, aonde, com muito trabalho, foi livre, e que tor- nasse a servir seu carguo, e por razão dos embarguos, que lhe não forão recebidos, lhe fosse tornada a fazenda soques- trada, e novamente se fizesse liquidação; e como a fazenda lhe foi tomada, e entregue ao rei, não teve luguar a senten- ça, do que depois socederão mais demandas. Foi despachado per o Governador Garcia de Saa, o qual, (182) A redacção desta passagem também não é clara, como se vê: porque a sua ida foi sentida de muitos, que o tinhão offendido nas mo- lheres e fazendas, i. é. muitos que sentirão a ida de Jordão de Freitas, tinhão oiendido o rei de Ternate nas mulheres e na fazenda. 446
per evitar os odios antre elle e Bernaldim de Souza, man- dou em huma caravella a Cristóvão de Saa, seu sobbrinho, que tomasse a posse da fortaleza, e a entreguasse a Jurdão de Freitas, depois de embarcado Bernaldim de Souza. E antes de lha dar, abrisse huma carta cerrada que levava, em que se continha, que, se el-rei fosse contente de Jurdão de Freitas ser capitão, lhe desse a fortaleza; e se não, fi- quasse elle nella, e se viesse Jurdão de Freitas, da qual di- serão que soubera, antes que partisse da índia, mas não deixou de ir, por amor da molher, que fora bem ter trazida, por não pasar tantos trabalhos, por quam certo estava não consentir o rei, cujo amiguo não quis ser, per o conselho de Bernaldim de Souza Finalmente chegou la na náo da carreira, de que era ca- pitão Dom Jorge de Essa, a dezoito de Outubro de 1549. E aconteceo-lhe tudo como diguo, per a provisão cer- rada, que se abrio, antes de madura, a seu requerimento, por andar ja a forma delia nos moços das escolas. Nesta sua ida e tornada se passarão tres annos, que Bernaldim de Souza foi capitão, por morrer Fernão de Lima, que o avia de tirar. 44 7
TERCEIRA PARTE Que traia, per doze capítulos, em como Bernaldim de Souza alevantou a guerra ao rei de Geilolo, e a prose- guio, até lhe dar fim; e de como la foi Dom Rodriguo de Menezes, com armada contra outra, que se esperava de Castelhanos, e dos odios, e differenças que elle e Bernaldim de Sousa tiverão, e do fim que ouverão, e de como tomou a fortaleza de Tidore, e doutras mui- tas couzas, que acontecerão neste tempo. CAPITULO i De como Bernaldim de Souza alevantou a guerra ao rei de Geilolo, antes de acabar a capitania. Bernaldim de Souza foi desta vez capitão da fortaleza tres annos, com muita paz, assi da terra, como dos cravei- ros, (183) porque em todos não ouve novidade; e tres ou quatro mezes, antes que acabasse, quiz aleventer a guerra ao rei de Geilolo, assi porque a fazia mui continua aos chris- tãos do Moro, que iá tinha por si, como por ser a colheita de quantos escravos tinhão os Portuguezes, e ter muita artelha- ria de el-rei, nosso senhor, pera o que cometteo ao rei de Ternate, que lhe deixasse fazer represaria na gente que ahi vinha sua, pera por ella averem, ao menos, os escravos; o que não concedeo, assi per o temer, como per (ser) seu parente e genro. E, calada a couza por alguns dias, movido o rei por o serviço del-rei, ou amizade do capitão, lhe mandou dizer (183) Referência irónica às plantas do cravo, porque havia três anos que não davam fruto. 448
que na cidade andava gente de Geilolo, que a mandasse to- mar; ao que o capitão mandou a Rui Dias Coelho, moço da Camara do Duque, e per mar a Manoel Boto, rodear a ilha; os quais trouxerão alguns trinta, que foram metidos no tronquo. E vendo isto Raque-Raque, regedor do luguar de Tolo- quo, sem licença do rei, saltou no luguar de Batochina de Geilolo; e fazendo preza, deixou hum irmão morto, polo qual trazia doo, que lhe ed-rei tirou, gavando-lhe a sorte. E loguo escereveo ao Geilolo, da sua parte, e do capitão, a cauza da represaria, e que a tomarião, satisfazendo a ar- telharia de el-rei, e os escravos que tinha dos Portuguezes. Ao que respondeo, que não daria o mais ruim berço, por toda a gente que lhe tomarão, por o qual os repartio, o ca- pitão, por os Portuguezes, em satisfação, soldo e liura (184) de seus escravos, com obrigação de os tornarem, a todo o tempo, que forem satisfeitos. E com preguão de trombetas lhe levantou a guerra a foguo e sangue, e escala franqua, por as mesmas cauzas ditas; e, acabado isto, mandou a Rui Dias Coelho, que ser- via de capitão-mor do mar, com alguuns portuguezes, em companhia do Quechil Guzarate, dar salto na baya de Gei- lolo aos pescadores, dos quais trouxerão algumas cabeças, com que se fez festa. E assentou loguo el-rei com o capitão de fazer a guera-, com sua gente somente, sem portuguezes, que não servião, pois avia de ser de saltos, e cilladas, como se fez por alguns dias; mas porque não chegava ao Verio, (185) ordenarão (184) Os dicionários não registam este termo com o sentido que nesta passagem parece dever atribuir-se-lhe: libertação. (185) Nd Texto I, Part, i.*, Cap. io.°, iê-se: «E assentou logo el-rei com o capitão fazerem-lhe a guerra por mar, e com a sua gente, sem portuguezes, pois tudo havia de ser saltos. E assim a fez o Guzarate dali por diante, na qual fez muitas sortes, e ajuntou el-rey sua armada, levando Ruy Dias e Manuel Bôto, com trinta portuguezes. INSULÍNDIA, III — 29 4-4-9
que fose o mesmo rei dar em hum luguar, e forte do Geilolo, chamado de Guno (por estar junto de hum alto monte), pera o qual ajuntou boa armada, e, levando consiguo a Rui Dias, e Manoel Boto, com trinta homêes, destruio e queimou o mesmo lugar. E querendo proseguir a guerra a outros, foi-lhe dada a nova da cheguada de Christovão de Saa, e Jurdão de Frei- tas, de que desgostou muito, e se tornou; mas satisfe-se, com Jurdão de Freitas não ser capitão, pella maneira ja dita, o qual se veyo para a índia com a molher, deixando lá a raiz, com alguum movei, com esperança de ainda tornar. E Bernaldim de Souza se foi para Talaguame a acabar e guardar sua náo, que ahi tinha nova, que sem isso corria muito risco vir nunqua de láa. E parece que o permitio assi Nosso Senhor, para bem daquella terra, e aver fim a guerra de Geilolo, a qual dali continuou com seus amiguos, e criados, fazendo muitas saidas, de que os Geilolos se guarda vão per o temerem. E nenhum seguio ao proprio rei, que, por se vinguar do Ternate, do luguar que lhe queimou, veyo á propria ilha, pera lhe queimar outro; e não podendo, se tornou, e fora tomado ou perdera a armada, se seguirão a Bernaldim de Souza humas coro-coras de Ternates, que se detiverão, per cheguar que Chil-Paje (Quechil Page) irmão de del-rei, que por ser velho, e temer a brigua, as não deixou hir adiante, e pera melhor se escuzar, dizião que botara ao mar polvoda que levava. Outra vez o foi Bernaldim de Souza desafiar com cinquo coro-coras ao seu porto, e dentro esperou hum bom espaço, foi destruir e queimar o lugar de Guno. hum dos principais do rey le Jeilolo...». Neste texto, não aparece, pois, a expressão, mas porque não che- gava ao Verio, ou outra equivalente que nos indique o seu sentido. 450
sem lhe sahir ninguém, e outras o foi busquar a Tidore e outras partes, aonde se esperava estar. E por estas sahidas, que fazia, não ousavão os Geilolos fazer saltos, os quaes erão tão temidos, que mandava Christovão de Sáa vigiar a povoação; do que Bernaldim de Souza zombava, por estar mais perto, e com muito menos gente e casas de canas e ola, sem fortaleza, nem cerqua, aonde tinha a sua não, que bem deseiarão queimar. E assim durou esta guerra desaseis mezes, na qual per- derão muita gente, que os Terna tes mata vão com silladas no mar e na terra, ate Bernaldim de Souza tornar a ser ca- pitão, como se dira adiante. CAPITULO II De como foi Dom Rodriguo de Menezes com armada a Maluquo, com nova dos Castelhanos, por a qual tornou Bernaldim de Sousa a ser capitão. Governando Jorge Cabral, por morte de Garcia de Saa, que governava, por a de Dom Joam de Castro, lhe escreveo El-Rei Dom Joam, que stá em gloria, que mandasse a arma- da á Maluquo, por ter nova ser la outra de Castelhanos, de que era Geral Bernaldo de la Torre, e capitães Dom Alonso Manrique, Pero Pashequo, Gomçalo de Valos, e Joam Gar- tano, (186) piloto-mor, que avião já lá hido com Lopes de Villa Lobos, por o qual ordenou mandar a isso Dom Ro- driguo de Menezes, com quatro navios, e elle em huma ca- ravella; e outra, em que hia Joam de Almeida, e o galeão Coulão, em que hia Dom Joam Coutinho por capitão da (186) No Texto I, Part, x.*, Cap. ix, lê-se Gaitano, devendo tra- tar-se talvez do apelido Caetano. 4 5 1
carreira, pera trazer o cravo, e a náo Sancta Cruz, de Jorge de Souza, em que elle mesmo hia. E chegando a Malaqua, acharão novas que fiquava Ber- naldim de Souza em Maluquo, e que não avia Castelhanos, pello que se desfez a armada, e fiquou ahi Jorge de Souza na nao, pera a carreguar de cravo, e assi fiquou a caravella de Joam de Almeida, e elle casado, e forão os tres navios com pouqua gente, e cheguarão a Maluquo em Outubro de cinquoenta. E loguo Dom Joam Coutinho mandou a Bernaldim de Souza hum maço de cartas do Governador, em que lhe mandava huma parte da merce da capitania da fortaleza, que dizia que, em qualquer parte que estivesse, e aquella o tomasse, tornasse a tomar posse da fortaleza, sendo certa a nova dos Castelhanos, por quanto hera informado que não estava provida como convinha; e com ella o alvara pera le- vantar a menajem a Christovão de Sáa, e outra carta mis- siva de muitos cumprimentos; as quaes leo a alguuns, que a fortaleza o forão visitar; cujas lingoas (fazendo seu offi- cio) derão loguo novas da condição a Christovão de Sáa, por a qual não podia Bernaldim de Souza ser capitão, sem embarguo de dezejarem todos que o fosse. E porque estivera os quatro annos pasados sem aver cravo, e desejava salvar a sua náo, com carregua, por se não perder, e tomar a fortaleza de Geilolo, cuja guerra prin- cipiara e militara, socorrendo Nosso Senhor a estas misé- rias, acabou tudo da maneira que, embarcado em coro-co- ras, que lhe el-rei mandou, foi a fortaleza, a cuja porta o es- perou Christovão de Sáa, e Dom Rodrigo, com todos os ca- pitães e cavaleiros e cazados, aonde leo a patente e missiva. Das quáes se sintio Christovão de Saa, e começou a defen- der sua causa, dizendo que por aquellas condições não podia entreguar a fortaleza, por não aver Castelhanos. Sobre o que ouve debates, que Bernaldim de Souza re- 452
batia com suas razões, mostrando o alvara de menajem, sem condição alguma, ao que começou a afraquar Chris- tovão de Sáa, porque nenhum dos capitães fallava, sentindo ter justiça, pera a qual deixava a cauza a juizo do feitor, e ouvidor. Ao que respondeo Bernaldim de Souza que não avião de ser juizes de sua honra. E estando as couzas nestes termos, se foi hum soldado da sua companhia por, dissimularameute, a porta da forta- leza, que tinha o postiguo aberto, ao qual seguirão des ou doze, de quem se presumio, que se querião senhorear delia. Mas nenhum foi visto dos dous contendores, por a muita gente que estava anteposta antre huuns e outros, e terem o sentido no de que se tratava, sobre o que os ouvintes fa- zião seu costumado rumor. Finalmente, insistio na resposta, lhe deu Christovão de Sáa a posse, ao qual abraçou loguo, e fiquarão amiguos, e deu a menagem nas mãos de Lopo Mendes Botelho, feitor, e alcaide mor, como mandava o governador; do que fiquou Dom Rodrigo mui enfadado, assi por o que fizera Christo- vão de Sáa, como por não ser a soccessão sua, como levava imaginado da India; e entregou na fortaleza cinquoenta boas espinguardas, com muita polvora delias, e de bombar- da, e outra munição, bem necessária ao desemparo da terra, e pera o que Bernaldim de Souza pretendia; cuja posse não foi menos dezejada, que murmurada, a qual parece, que permitio Nosso Senhor, por meyo daquella falsa nova, pera destruição dos Geilolos, e restaurar-se a fama dos Portu- guezes, por o esforço daquelle rei tão diminuída. E tenho que piedosamente se achára outro na índia, tanto pera aquelle feito, com tão pequeno poder, (187) (187) A redacção desta passagem no Texto I, Part. i.», Cap. 2.® é a seguinte: «E ouzou (ouzo) dizer que nenhum homem o tomaria com tão pouco poder, como elle, porque tinha muitas partes juntas para isso necessárias...». 4 5 3
como elle tinha, por ter juntamente todas as principaes partes que se requerião, e muita amizade com o povo e rei, grande sofredor de trabalhos, e desgostos a soldados. E em estremo confiado, grave, brando, aprazível, com muita descrição, que convinha para o temerem, amarem e obedecerem, e para se não dar por achado das continuas murmurações, e pêra conhecer as malícias e ardis da guerra, nas quaes parece que adivinhava, dando muito credito a humas couzas e nada a outras; e fazer muitas em contrario, que lhes soccederão prosperamente. E assi, porque tendo zombado da hida de Fernão de Souza e Jurdão de Freitas, sem fazerem nada, com tamanho poder, e de Dom Jorge de Castro, que também la fora e se tornara, por huma nova falsa que derão, se persuadio a não crer nada, nem tomar conselho, e levar avante a empresa tão difficultosa, como era julgada dos que a virão. CAPITULO III De como Bernaldim de Souza ordenou pôr serquo á fortaleza de Geilolo, e do trabalho que nisto teve. Como Bernaldim de Souza teve a posse da fortaleza, botou a sua não ao mar, e ordenou hir pôr serquo á fortaleza, de Geilolo, e levar a Dom JRodriguo com os mais capitães em seus navios, do que lhes pezava muito, porque querião mais fazer cravo, e vir-se, que tomar a fortaleza de que es- peravão trabalhos. Assentada a ida, deixou a Antonio de Sequeira, feitor e alcaide-mor, na fortaleza, com alguuns cinquo ou seis ho- mêes mal dispostos, necessários pera á mia (Misericórdia) e hospital, e todo o mais resto de moços e velhos, armados e dezarmados, levou, avendo que a confiança da fortaleza estava na que tinha em el-rei de Ternate. 45 4
E assi com os da armada fez copia de cento e oitenta homèes, afora os que fiquarão nella. Hia Manoel Boto em huma caravella, que avia na for- taleza, com a munição, e Balthazar Velozo, capitão-mor do mar; e Chistovão de Sáa em coro-coras. E como o capi- tão entendia que os capitães da armada hião de máa vonta- de, determinou, por meyo de seu trabalho, levar avante o que começara; e meteo-se em huma coro-cora, e com ou- tras, que deu el-rei, tomou o galeão de Dom João Coutinho á toa, e polio no Toloquo, que he de Talaguame huma legoa; e tornou a tomar a náo de Bernaldo de Souza, e levando-a hum pedaço, deu a náo ao fundo, sem elle saber, por ser de noite, até que o remar em sequo lho deu a entender, do que se muito anojou; mas dissimulou, e foi tomar a caravella de Dom Rodriguo. E bradando ao piloto que se levasse, respondeo que não podia, por não estar ali o seu capitão- mor. Perguntando aonde era, respondeo que em Ternate; do que se agastou mais, por lhe parecer que tudo era meyo pera não ir, e tornou mandar ao piloto que se levasse loguo. O qual respondeo que o não avia de fazer, porque não es- tava ali o seu capitão-mor. Ao que lhe replicou bradando: «Ó fi de puta, vilão, aonde eu estou, ha hi outro capitão- -mor? Levai-vos loguo». A que respondeo autra vez, que o não avia de fazer, por o qual fez cheguar com muita fúria a bordo, e entrou den- tro, e fez levar e amarrar mui depressa, e assi foi tomada a caravela, e posta no Toloquo. E vindo loguo Dom Rodriguo, e não na achando, a foi busquar em huma manchua, e como era senhoreado da pai- xão, parece que até o tempo lha quiz augmentar por meyo de uma trovoada que o molhou e pos em risquo de o perder, mas como deu com ella, consolou-se. E ao outro dia, á tarde, sahio em terra com os mais ca- pitães, que se ajuntarão com Bernaldim de Souza; mas 45 5
nunqua travou pratica com nenhum, por sua paixão, que bem foi entendida. E ao outro dia seguinte se acabou de ajuntar ali a arma- da de el-rei de Maluquo, que tomou todos os navios a toa, correndo-os o capitão em hum paroo, e fazendo remar até que o prospero vento deu fim a seu trabalho, metendo-os todos na baia de Geilolo, vespera de Natal do mesmo anno de cincoenta. E surgirão por ordem, que não podesse nin- guém sahir da fortaleza, sem ser delles visto; a qual come- çarão de salvar, sem a verem, por o grande arvoredo que lhe estava anteposto, mas por a estimativa lhe matarão alguma gente. E assi se passou o Natal, até á vinda de el-rei, que che- gou a segunda oitava, trazendo todos os seus filhos, e pa- rentes, e ao príncipe de Bachão, seu sobrinho, e genro; aos quaes a armada fez grande festa, a custa dalgumas vidas dos novamente cerquados. E trazia huma carta que lhe mandara o Geilolo, na qual lhe lembrava a lei, parentesco e amizade que entre elles sempre ouvera, e que tinha muita artelharia e munição, e duzentos tabaros, (188) que he gente entre elles mui timida; e tem que se fazem invencíveis, porque andão muitos dias pello matto, por matar á traição qualquer pessoa, cuja fal- sidade se vio neste serquo, e outros, da nossa parte, e nelles, porque, mattando-lhe, hum tiro perdido da arma, a dous, lhe fugirão todos os outros. De maneira que pedia no fim amizade, e não fosse con- tra elle, do que o Ternate zombou, dizendo que ja era tar- de; e como o Geilolo se sentio dezenganado, temendo a pou- qua constância dos seus, (confiado nos cerquos passados) lhes mandou meter todas as fazendas na fortaleza, e metteo (188) O nome destes indígenas aparece nos documentos escrito sob as diversas formas de tavaros e javaros. 4 5 à
a seu thesouro, mas secretamente o tornou a tirar, e mattou os acarretadores, (189) por se não saber. E assi fiquarão os seus sogeitos a morrer, cuja nova esforçou aos soldados, por a fama e o sacco ser libertado. CAPITULO IV Da ordem que teve o capitão no desembarcar, e da primeira brigua que teverão os nossos com os cerquados, e dos tra- balhos que mais passarão. A derradeira oitava do Natal desembarcou o capitão no mesmo luguar de Fernão de Souza; e posto Dom Ro- driguo e Balthazar Velozo na dianteira, e Quechil Guza- rate, com a gente preta, que seria até dous mil homêes, ficou elle, com os mais capitães, e el-rei, na retaguarda. E assi começarão a caminhar, com guias, a hum outeiro que estava sobre a fortaleza, e como a gente da terra era muita, facilmente fez caminho pello espeso matto; e cobra- rão em paz o outeiro, que estava hum tiro de berço a mon- tão da fortaleza. E limpo o sitio do matto, e das rodellas, ordenarão a cama, sem jantar, nem cear, porque cuidarão os homêes, que era a saida a ver o campo, como o de Fernão de Souza. E na mesma tarde, sentado o raiai, mandou o capitão a Manoel Boto ao mar, com até vinte e sinquo homêes, e muitos escravos e gente da terra, a busquar mantimentos, e artelharia miúda, e munição, pera vir a manha seguinte. E na mesma noite começou o raiai a ser combatido de (189) I. é. matou os acarretadores do tesouro, para se não saber dele. No Texto I, Part. i.«. Cap. 16, lê-se esta passagem: «Ao rey fot tomado pouco, à comparação do que tinha fora, escondido; do qual se não sabia, por ter mortos os que o levarão...» 45 7
muitas espinguardas, frechas, e panellas de polvora, que tiravão do matto, com que derão, naquela e nas mais, con- tinuo trabalho; o que se se remedeava com tirar toda a noite, a montão ao matto. Na manhãa que Manoel Botto avia de vir, quis o capitão mandar-lhe Balthazar Vedozo, pera virem mais seguros, temendo algum desastre; e o tirou disso o rei e Christovão de Sáa, avendo que não avia couza que podesse estorvar a vinda de Manoel Botto. Mas, como Nosso Senhor favorece as couzas justas, sabendo que em ser desbaratado Manoel Botto estava mui duvidosa a distancia, assi por sua pessoa e companhia, como por artelharia e munição que trazia, com o que ouverão de fiquar com maior animo e poder, e os nossos, contudo, menos, ordenou que se não perdesse ta- manha empresa. E assi, tendo o capitão tomado o conselho, subitamente mandou a Balthazar Velozo que se fosse mais depressa que pudesse, o qual fez assi; causa de levar menos gente da que convinha; e com seus escravos, e alguns vinte portuguezes, e alguma gente de el-rei, em meyo caminho, deu nelle com grande impeto e grita o príncipe de Geilolo, com passante de quatrocentos homêes escolhidos, os quaes estavão em sil- lada, esperando a Manoel Botto. E o bom velho, com set- tenta annos, usado a aquelles sobresaltos, (190) ajuntou os seus, que hião em fio; e posto na dianteira, e Anrique de Lima, esforçado cavalleiro, na trazeira, nomeando-se ao modo da terra, fizerão-no fugir com muitos feridos, mas primeiro o fizerão os Temates, fiquando somente sette ou oito que o ajudaram bem. E sendo aqui vencedor da primeira brigua, sem nenhum ferido, se foi ajuntar com Manoel Botto, que começava a (190) Quer dizer, habituado àqueles sobressaltos. 458
caminhar, e num corpo forão ao Raiai, com muito conten- tamento de todos, porque perderão huns a fome e outros o medo. Passados dous dias, começarão o capitão (sic) mandar fazer cestos, de que assentou huma estancia mais abaxo, e noutro outeiro, sobre a fortaleza, a qual fazia a artelharia alguum damno; e como tinha dezejos de acobrar o come- çado, parecendo-lhe que de tão longe o não podia bem fazer, por fiquarem os cerquados sem o ser, determinou hir busquar luguar accomondado, junto da fortaleza, pera assentar o arraial, e deixou el-rei com alguns capitães, e com os outros; e Quechil Guzarate a foi rodear, sem nun- qua a poder ver, por o muito arvoredo, de que era cer- quada; e de tiros perdidos lhe ferirão alguns Ternates. E subindo-se a hum tezo, com alguuns poucos, a ver a fortaleza, foi visto, e loguo deu antre elles hum tiro, que ferio ao proprio regedor, e a hum Fernão Machado, bom soldado, que ali matou hum negro, e outro, na primeira brigua com Balthazar Velozo; o qual morreo, passado hum mez, por comprir sua palavra, que affirmou, antes que desembarquasse, que o avião de matar, e sohrisso fez gran- de festa bailando, e tangendo, e cantou as horas dos finados por sua alma. Tornou-se loguo o capitão, enfadado dos feridos, e de não achar o que buscava, e sabendo, no caminho, que Ma- noel Botto, e sobre ouvidor del-rei, pessoa mui principal, fiquavão com a companhia atraz, esperou-os em huma hor- ta, da qual se sahio Graviel Rebello, com dous soldados, por um carreiro, contra a fortaleza, por hum fresquo pal- mar, a ver se podia ver, ou se achava alguma espia, e a vio toda, por duas quadras, por estar perto, e o sitio do mesmo palmar mui accommodado, pera o que o capitão pretendia. E dando-lhe logo recado, o foi ver, e segurando na bon- 4 59
dade, (191) tornou-se contente, e assi por ter recado, que erão vindos os fiquarão atraz. E mandou loguo ao mar busquar artelharia pera bater o muro, que lhe foi trazida pellos Ternates, com muito tra- balho pera (pela) difficuldade do caminho, e de carecerem de carretas. E assi puzerão em cima cinquo ou seis peças; e emquanto se trazião, ordenou mandar fazer cestos, o que lhe contrariou el-rei e Chdistovão de Sáa, e outras pessoas com razões, que mais tiravão a pouca conclusão que a boa ordem, por o qual não deu gente para os fazer, escuzando- se com a mesma opinião ser de todos, do que começou o capitão a ser murmurado, porque não somente não pedia conselho, mas não tomava o que lhe davão, particularmente del-rei e da gente da terra, que sabia muito delia. E usando do tempo o melhor que pode, foi cortar muitas canas, das quais os mesmos fizerão muitos cestos; e que- rendo delles fazer huma tranqueira, tornou el-rei a repetir a desordem delia, offerecendo-se com sua gente fazer a guerra, tomando os mantimentos aos cerquados; (e pas- sando todos com este xaque) fez o capitão levar os cestos e assentallos e enchellos no lugar deputado, em huma noite, com muito trabalho, sem dormir em toda ella, nem seus amiguos e criados, covem a saber, Dom Joam Coutinho, Vasco de Freitas, Graviel Rebello, Anrique de Lima, Ra- phael Montero, e outros, que trabalhavão, e davão guarda aos Ternates, que acarretavão a tranqueira, de longe, por não ser sentido o cavar de perto; e trouxerão a artelharia (191) Pelo Texto I, Part. I.», Cap. 13, percebe-se melhor esta passagem: «£ tornando-se o capitão enfadado, assim dos feridos como de ff [29 v.] não achar sitio, hum soldado seu o boscou em hum palmar pegado com a fortaleza, que ficava sobre hum baluarte delia, o qual era muito conveniente para estar todo o rayal, e dali se bater muita parte do muro, por ser ao compasso que a artelharia requere; o qual mostrou ao capitão, com que folgou muito...» 4. 6 O
de cima, da qual, e da espingardadria, foi salva a fortaleza em amanhecendo. E feito isto, pareceo bem a todos, e a el-rei, que loguo mandou fazer outra tranqueira, hum pouco atraz, em que estava de dia; e de noite hia dormir antre os Portuguezes, de cujo animo se fiava muito, ou o fazia por evitar alguumas murmurações de máas suspeitas, correndo a ordem destas couzas a Dom Balthazar Velozo, queimando alguuns lu- guares vizinhos da fortaleza, donde veyo sempre com Vitto- ria; e assi os outros capitães fazião suas sahidas, donde os Ternates trazião muitas cabeças. Determinando o capitão cheguar-se mais a fortaleza, que sempre fazia damno aos nossos, dentro da tranqueira, com sua artelharia, e espinguardaria, mandou fazer huma cava aberta, e no cabo mandou pôr os cestos da primeira; na qual pos ao mesmo Dom Rodrigo. E amanhecendo feita, foi muito combatida por todas as partes, assi do muro e do campo, como do Sol, e porque os cestos erão poucos, e fraquos, mandou Dom Rodriguo dizer ao capitão o trabalho em que estava; o qual lhe res- pondeo que se recolhesse com hum falcão que tinha. Do que os cerquados fizerão grande festa, e cobrarão animo; o que não bastou pera o do capitão se mostrar menos forte e constante, sendo por isso murmurado. E ordenou bastiões de madeira, com os quais se augmen- tou a murmuração, attribuindo-lhos a fim de dilação, por mandar a sua náo carreguada, e não irem as outras, e que por o mesmo não escalava a fortaleza, sobre o que lhe fez Dom João Coutinho, e Bernaldo de Souza, grandes reque- rimentos e protestos, que mais sentio, que todo o trabalho do cerquo. Dom Joam se recolheo a sua estancia, a modo de doente, aonde esteve muitos dias, sem fallar ao capitão, que deu a 4.6 i
capitania da sua gente a Vasco de Freitas, que com ella sér- vio muito bem, e fez boas sahidas, até o tempo os tornar a concentrar, e fiquarão amiguos. CAPITULO V De alguuns rebates e novas, que o capitão teve para o estorvarem. O grande desejo que Bernaldim de Souza tinha de tomar esta fortaleza o fazia ter pouco repouso, maiormente por sair com a sua contra os emulos, que desesperavão tomar- se, por a ordem que levava; e que, sem a escalar, era im- possível; e que estava bem fora do seu pensamento, assi por ver a força do imiguo, e a pouca sua, como porque sen- tia muito matarem-lhe hum homêe; Pello que assentou toma-la a fome, e fazer estancias de bastiães com cavas, pera que andassem e estivessem mais seguros, porque os cestos erão causa a muitos da morte. El-rei mandou fazer tudo por sua gente, a qual assen- tava e enchia os bastiões com muito tento, de noite, nos lu- gares que o capitão mostrava, correndo com seus amiguos muito risco; porque, como os cerquados se vigiavão, com grandes foguos sobre o muro, dificultosamente andavão e trabalhavão sem sangue. E assi foi fazendo quatro ou cin- quo estancias, com cavas, de humas a as outras, pondo sempre na dianteira a Dom Rodriguo, e as mais se guar- davão do arraial. E huma vez, ao meyo dia, veyo hum negro da fortaleza, com hum cabo, e atou-o a hum camelete, por a bombardei- ra, pera o levarem dentro, mas ambos escaparão, fugindo o negro. Neste tempo sahião muitas vezes, os cerquados, a bus- quar mantimentos e fruitas, a troquo de cabeças, que os 462
Ternates lhe corta vão, que, per o costume, fazião pouco nojo, e davão contentamento. E temendo-se el-rei de Tidore confederado, genro e pa- rente do Geilolo, que, tomando-lhe a fortaleza, corria a sua muito risquo, chamado ou peitado de certa artelharia que lhe levarão, veio com sua armada, e surgio junto das naos, donde mandou a Quechil Munavari, (192) seu irmão, visitar ao capitão, e rei de Ternate. E sendo bem recebido, e respondido, tornou mui espantado da ordem do arraial, não tão somente nova a elle, mas a toda a tranqueira, e per- guntando como se chama vão os bastiães, lhos disserão, e dando á cabeça disse: «bastião, bastião, basta para tudo». E se foi ao seu rei, o qual o tornou a mandar outra vez, presumindo estorvar o cerquo, por meio do Ternate; mas não podendo, foisse com a armada, com a qual tornou, passados poucos dias. E mandou ao mesmo embaixador, a quem respondeo o capitão que, se vinha a vello, lho tinha em merce; e se ajudar ao Geilolo, folgava muito; e que lho mandasse dizer, pera mandar a armada que o deixasse entrar, porque, quantos mais la estivessem, tanto maior seria a vitoria; com o qual recado se tornou pera a sua terra, donde teve maneira de semear por o arraial, que ia queimar a fortale- za, que fiquara soo, avendo que se levantaria o capitão, para a socorrer. Ao que respondeo que lhe não dava nada, porque como tomasse a sobre que estava, a tomaria. Com a qual reposta correo outra nova, que lhe hia queimar a não, que tomava carregua; ao que disse, que não avia deixar o serviço del- rei, por seu interesse; e que lha queimassem, que elle se vingaria. . E espantados disto cristãos e mouros, cometerão a (192) Em Texto I, Part. i.», Cap. 14, lê-se Quechil-Munanate. 463
el-rei, avendo que por meio delle o dobrarião, ao qual derão novas que lhe hião queimar a vila do Malaio. Ao que res- pondeo que, se lha queimassem, que muitos paos avia no mato, pera fazerem outra. E loguo correo outra nova mais picada, que queria casar, o Geilolo, huma filha com o príncipe de Bachão, que o Ter- nate trazia criado, avia muito tempo, pera a sua; no que a mãe do mancebo consentia, por ser afeiçoado ao Geilolo, o que sentia muito o Ternate. E levemente ouvera alguum mudamento, se o capitão o não tirara de sospeita. Como o Geilolo e Tidore virão que não avia remedio pera levantar o arraial, ordenarão tornar o Tidore a arma- da, com preposito de ver se podia tomar algum navio. E sabida a nova, mandou o capitão a Dom Rodriguo pera o mar, e que pelejasse com elle, se ahi viesse, como veyo. E sahindo-lhe Dom Rodriguo em hum batel bem aparelhado, com tres boas coro-coras, em que hia Quechil Ayo, meio irmão de Quechil Guzarate, esforçado mancebo, fogio o rei, sem mais tornar. Dahi a alguuns dias se foi o Ternate, muito doente, a curar a sua casa, deixando em seu luguar ao Guzarate, de cuja vinda não faltou que dizer, avendo a doença por fingi- da, sendo, sem nenhuma duvida, verdadeira; mas como nestas couzas os mais velhos lanção maiores juizos, avião de ser com maior vigor castiguados, por o credito que tem, o qual cauza maior damno. E vendo-se o capitão com el-rei menos, e alguuns portu- guezes mortos, feridos e doentes, por comprazer aos que fiquavão, mandou fazer escadas, que se acabarão em menos tempo do que forão praguejadas, por verem muita desfalen- cia no poder, não no regulando com o da fortaleza, que, sem medida, era ja muito menor. E como o arraial estava assentado alguma couza mais alem que o muro, fiquarão os cerquados sogeitos a artelharia, da qual se guardavão em 464 A
covas, e com antemuros de pedra sequa, nas quaes davão os pelouros e fazião maior damno. E assi, sempre tinhão que chorar, o qual lhe era vedado por o rei, por não leva- rem os nossos guostos do seu mal, sabendo que lhe fazião damno. CAPITULO VI De como foi queimada a cidade dos mouros, e morto o seu capitão geral, e do desastre de hum battel. Na obediência dos soldados nunqua faltou primor, por- que, como por maior parte erão casados, obrava cada hum por a liberdade, e como isto acrescentava animo aos soltei- ros, por huma certa abição, o que os obrigava, trabalhavão por se avantajar. Antre os quaaes, Gabriel Rebello, com alguuns companheiros, dum quarto que tinha, queimou de noite humas casas, coro-coras e paraos, que estavão guar- dados ao pée do muro.e dum soberbo baluarte, fiquando- lhe huma casa, a que não pode cheguar, por participar do muro; queimou-a do arraial, com grande prazer geral, hum Tristão Lopes, mestiço, criado do capitão, com hum cala- baa de arremeso, na ponta do qual pos polvora, com hum murrão aceso, que bastasse pera, em chegando, queimar. E como estava em alto, vio-se abaixo hum valle devasso, a que a maré cobria, em que estava grande povoação; pello que o capitão mandou a Bernaldo de Souza, que até ali não tinha feito nenhuma sahida, que, com cincoenta homêes e a gente del-rei, se fosse meter no estreito dar guarda a alguuns deputados, que avião com bombas de foguo quei- mar a cidade, e a armada que ahi estava. E foi assi começado mas não acabado, porque, como se 463 INIULÍNDIA, III —- 30
acharão os soldados escandelizados (193) da profunda e mole vaza, não quizerão, e entrarão por a cidade, com grande Ímpeto, pronosticando vittoria, cujo alvoroço fez retirar aos vizinhos. E assi foi queimada a povoação e muitas coro-coras e paraos, sem fiquar couza que aprovei- tasse. E seguindo adiante, emquanto o foguo fazia sua obra, se pozerão em hum terreiro ás espinguardadas com a gente do muro, e ao pé delle, que avia muita. E como a desor- dem, geralmente, faz vencedores aos Portugueses, espanta- dos os cerquados delia, e do novo acometimento, e por parte que não esperavão, cuidarão que os querião entrar por o arraial, cometendo-os por ali, e por isso não sahirão ao campo. Mas fello Quechil Quebuba, sobrinho do rei e seu capitão geral, que sostentava a guerra por temer ao Ter- nate, cuja molher, filha do mesmo Geilolo, tinha, que era a do repudio, de que tratei no decimo capitulo da segunda parte. Mas naquelle dia deu, huma espinguardada, a seus temores fim, com a morte, na qual teve muitos companhei- ros, em que entrou hum honrado caciz. Durou a brigua hum bom espaço, e foi forçadamente quente, assi por o grande sol e foguo, como da artelharia e espinguardaria de huma e outra parte, e do arraial, a qual se augmentava com grandes estouros das canas das casas. E feridos alguns Portuguezes, e Quechil Boçaide, meio irmão de Quechil Guzarate, se recodherão por outro caminho, deixando tudo bem feito, e descubertas duas ou tres fontes donde bebião, nas quaes lhe botarão, os Terna- tes, muitas cabeças de seus mortos. 0 capitão, regozijada a boa vinda, chamou quatro ou cinquo dos principaes delia, Bernaldo de Souza, Vasquo de (193) No Texto I, Part. i.», Cap. 15, em vez de escandelizados, lê-se uescalados da vasa, que era muito mal e funda...». 4.66 é* *
Freitas, Graviel Rebello, Anrique de Lima e Guaspar de Morim, e fez o primeiro conselho, perguntando se, tomadas as fontes, se se entreguarião; no qual sahio que fiquavão de todo serquados, e sem nenhum remedio, mas que pera isso avia mester tempo, o qual se não sofria, per o mesmo capitão estar doente; e que o mais breve era, conforme ao tempo, escalar a fortaleza, pois tudo estava prestes. E dando o capitão a entender que aceitava o conselho, man- dou a Bernaldo de Souza pera a armada, aonde estava Dom Rodriguo, a quem mandou dizer que mandasse, por a gente das coro-coras, tomar certos bastiães, que o ouvidor soube mandara fazer, pera secretamente tomar as mesmas fontes (o que não acabara, por adoecer) e os posesse nellas; e sa- hisse primeiro em terra ver aonde seria melhor assentallos. Ao que tornou a murmuração a cobrar novos acometimen- tos, atribuindo tudo a fraqueza, mas sua grande constância de tudo zombava, porque sabia que não tinha força pera escalar a fortaleza, maiormente sem el-rei, a quem errava, se o fazia, (194) por ser tanta parte do vencimento com o trabalho de sua pessoa, irmãos e parentes; e ja avia de es- perar por elles, pareceo-lhe bem tomar, entanto, as fontes. Sahio Dom Rodriguo, e vio todo o sitio, aonde ferirão a Bernaldo de Souza na cabeça, de huma espinguardada. E tornando a embarquar, assentou aquella noite os bastiães, que fez ali trazer o Quechil-Aio, que estava no mar com Dom Rodriguo, por capitão-mor do rei. E custou o assentar delles hum soldado e alguuns feri- dos, e fez boa estancia, a qual lhe não pode estorvar a (194) A passagem correspondente do Texto I, Part, i.«, Cap. 15, é a seguinte: «mas a muita confiança do capitão de tudo zombava, e mostrava dar-lhe pouco, porque havia que não tinha forças bas- tantes para escalar a fortaleza, maiormente sem el-rey, a quem errava na amizade, se o fazia, pois era tanta parte na victoria, com o traba- lho de sua gente...n. 467
a pouca força dos cerquados, que a não ouverão de deixar, se não estiverão tão debelitados, pois lhe hia nella a vida. Como o rei se vio com a agoa tomada, cometteo paz, brandando (sic) hum de dentro que comerião porquo, e ate li nunqua se delles sentio desejarem-na. Somente huma noite a começarão a toquar a modo de zombaria, e que pella manhãa fallarião nella, na qual estava Christovão de Sáa prestes pera entrar o esteiro, em hum batel bem artelhado, dar por a cidade a ver o que hia nella (195); o qual chegou, em se querendo os negros pôr à falia, e a sua vista, tomou a artelharia foguo duma gamella de pól- vora, que ia a atilha, aonde saltou huma faisca de hum murrão, e fez grande matinada, arrombando o battel e queimando quatro ou cimquo soldados, de que morrerão alguuns, e marinheiros, e perdêrão quatro espinguardas, que os cerquados tirárão despois. Christovão de Sáa hia em huma manchua, e deitou-a ao bateel, e salvou-o com a gente, e dali se foi com seus criados pera Ternate, e pera Malaqua, sem tornar ao arraial; e vendo os cerquados a destruição do battel, zom- barão da paz, e ficarão com sua honra, até as fontes toma- das. (195) Note-se a redacção desta passagem do Texto I. Part. i.V Cap. 15: «Como o rey cercado se vio com a agoa tomada, cometeo paz, por não ter outro remedio com que pudesse viver, o que, até aly, nunca fizera, nem delle se sentira desejar de a cometer. Somente huma noite, estando d fala, começarão de tocar, em modo de zombaria, que farião algum partido, e que falarião ao outro dia, no qual Christovão de Sa havia de ir para o esteiro, dentro em hum batel, bater a forta- leza...». 4. 6 8
CAPITULO VII Da paz feita aos cerquados. pella qual derão a fortaleza, fazenda, e artelharia. Amanhecerão as fontes tomadas, a dezoito de Março, e aos dezanove começarão os cerquados pedir paz, estando o seu rei a porta da fortaleza, á vista do arraial, bem ves- tido e hum capacete, guarnecido de muito ouro, na cabeça ; e com elle Quechil Tirode, caciz maior, fallando nos con- certos; os quaes não vierão a effeito, porque teverão os Ternates maneira de os estorvar, até vir seu rei, que era a curar-se; o qual tardou poucos dias, nos quaes se vinha ao arraial alguma gente, tão desfalecida das carnes, que movia a piedade. E outros se punhão por o muro, sem armas, a modo de pedirem misericórdia, aos quaes mandava o capitão tirar com a artelharia, para se acabarem de entreguar, mas a desobediência dava aqui lugar a piedade, porque não que- rião os homêes matar ninguém; e como o capitão estava muito enfermo, e não podia sofrer suas dilações e aper- tava-os, mas nem isso bastava; e assi estiverão até quarta feira de Ramos, que veio el-rei e o seu ouvidor, ainda bem fraquos. E quinta seguinte, á tarde, ávido seguro, veio ao arraial Quechil Atimon (196), pessoa mui principal, e em todas aquellas partes ávido por de melhor conselho, e outro man- darim, os quais forão bem recebidos do capitão e rei, que estavão juntos, e, confessando sua culpa, pedirão paz. Ao que respondeo o capitão, que lha daria, com condição que o rei avia de perder o titulo, e fiquar Çanguaje de Ternate, e daria obediência á fortaleza, derrubando a sua, perderia (196) Quechil-Timão, segundo o Texto I, Part. I.», Cap. 16. 4.69
toda a fazenda e artelharia, e fiquaria elle e os seus somente com as vidas e terra. Ao que respondeo o embaixador, sem replicar, que aceitava com as mesmas condições, do que loguo foi feita carta, assinada por o capitão e rei, e a rece- berão e poserão na cabeça (197), e se forão. E veio loguo o seu rei, acompanhado de alguuns, menos magros, tão galante e contente como se fora vencedor e não vencido, e abraçou ao capitão e a el-rei. E assentárão que ao outro dia entrarião, e elle teria a fazenda e artelharia prestes e junta; mas os soldados por- tuguezes e ternates não consentirão na ordem, e entrárão loguo; e toda aquella tarde e a noite teverão que tirar, sem lho poder defender o capitão, nem o rei, nem o pró- prio Geilolo; e a sexta feira, vinte e sete de Março, por a manhã, entrou o capitão, e el-rei, com que creceo a de- sordem do apanhar, porque não somente esbulharão aos vencidos, mas aos vencedores, sobre o que se começárão algumas briguas, e os Ternates a mattar aos vencidos, até acodir o seu rei, que lho defendeo, com serem ja alguuns trinta mortos, mas não lhe pode vedar o cativallos. Dos quaes carreguavão, como se lhe forão concedidos, ao que o capitão não pode valer, por sua enfermidade, mas depois fez tornar muitos. E estava assentado sobre hum baileo, e os reis ambos, em hum caxão, junto delle, e dum principio de torre, em que esta vão todas as molheres e filhos do rei, ao qual se vinhão alguns que lhe valesse, a quem respondia com os olhos cheios de agoa, sem fallar nem fazer nenhum ade- mão (198) dos costumados no choro; e mui seguramente fallava, e respondia ao capitão e rei, com muita gravi- (197) Em sinal de respeito, conforme é uso entre os povos daquela zona. (198) O mesmo que ademanes. supomos. 4.7 O
dade, e comfiança como homem que não tinha recebido damno. Acabada a revolta do que se boamente achou, mandou- -lhe o capitão que tirasse suas molheres fora, porque avia de ser a torre saqueada, o que sentio muito, porque cui- dava que fiquavão ali agazalhadas, e sem serem vistas, e esbulhadas dalgumas peças, que tinhão escondidas em si, e soterradas. Mas obedeceo, levando-as com muito senti- mento, (que não pode deixar de mostrar a fraqueza da carne) junto de huma fonte, fora de todo o povuado, e a torre foi saqueada de muitas peças que se achárão. Das quas ouve o capitão huma de toalha de Frandes adamascada, que depois partio com as comadres (199). E el-rei de Ternate mandou cavar, e achou boa presa. O capitão se embarcou loguo pera a fortaleza, a curar- -se, aonde chegou a noite de sabbado de JRamos, e na atrás, os que fiquarão, poserão foguo ás cazas e mesquita, o qual mostrava do mar hum temeroso prazer, e fizerão tudo tão raso, que não fiquou couza que pod esse aproveitar. Soando esta nova por todas as ilhas, foi máa de crer, avendo-a por impossível; mas, por o testemunho do saquo, a crerão, porque fiquarão mui poucas, de que não ouvesse gente nelle, do qual todos levarão seu quinhão, mas nada do thesouro do rei, porque, como tinha mortos os carre- gadores, mattou o thesoureiro, quando se entregou, por o não descobrir. E, comtudo, foi a presa mui grossa, porque ouve quem chegou a seis mil pardaos, e ainda fiquou muito soterrado, e o rei Ternate, a seu costume, mandou por em huma praça hum tacho de azeite quente, em que avião de metter a mão (199) No Texto I, Part. I.», Cap. 16, lê-se simplesmente: «Ao capitão coube, da sua parte, huma toalha ou peça de lã, de Frandes, para mesa; o qual se veio logo para a fortaleza...». 47 1
os que não partissem com elle; e assi levou de todos e fiquou com o melhor. E desta maneira costuma paguar os serviços aos seus. CAPITULO VIII De algumas generalidades, que ouve neste cerquo. Durou o cerquo tres mezes de muito trabalho, sol, chuva, sede, e alguma fome, particularmente nos das ilhas, por virem sempre providos pera menos tempo do que con- vinha, pera os quaes foi grande remedio a muita fruita que ouve no matto. Forão mortos dezanove ou vinte portuguezes, assi pele- jando, como dentro nas estancias, por passarem, ou olha- rem desordenado, o que o capitão muito reprendia, ao revez de Fernão de Souza, por cuja causa fez os bastiães e canaes, de que alguns se não querião aproveitar, por mostrar auzadia, não se emendando por o dano doutros, nem por o capitão (que pera dar exemplo) passava por os lugares periguosos, com grão reguardo, o que lhe reputavão a fraqueza, não trazendo a memoria que, contra vontade de todos, se chegou ao muro, e que nenhuma estancia se poz, em que primeiro não fosse, e algumas vezes com muita temeridade, do que era emmendado de seus amiguos. De maneira que, no que convinha, ninguém se mostrou melhor; e no que não hia nada, ninguém se guardou mais; e assi fez mui enteiramente seu officio. Ouve muitos feridos, assi Portuguezes, como Ternates, e foi morto á espada hum gentil mancebo, irmão do sobe- -ouvidor, cuja cabeça foi posta no muro, pera maior magoa dos Portuguezes e Ternates; mas foi bem vinguado, porque, acabados os quarenta de doo, se foi o irmão levar e botar 472
fora, em companhia de Dom Rodriguo, e trouxerão ao arraial passante de quarenta cabeças, que forão enforcadas sobre os bastiães. Indo huma vez tres mancebos Ternates pello matto, encontrarão com hum geilolo, que lhes não quis fugir, po- dendo; e como o virão determinado, concertarão-se, por primor, que o acometesse hum e hum; e fazendo-o desta maneira, aos primeiros dous ferio, e o terceiro o matou, tomando-o ja cansado. Morrerão alguuns homêes de camaras, entre os quaes foi Diogo de Freitas, que com sua velhice quis continuar o cerquo mais do que convinha; e quasi morto, veio acabar a sua casa, deixando dous filhos no arraial; no qual arre- bentárão quatro peças de artelharia grossas sobre hum baluarte, a que não fizerão damno por ser de pedra e terra e muito laverado; e quanto lhe derruba vão de dia, tanto concertavão de noite; estava o arraial tão perto, que lhe tiravão, os moços, dentro, com fruitas, pera os seus come- rem. Todo o muro era feito a maneira de vallado com terra e pedra; tinha, a cerqua, dous baluartes e sua cava mui largua, estrepada por dentro, e por fora, com tão bastos estrepes e postos ao revez huuns dos outros, que nem hum gatto os podia andar, nem nenhum homêe arranquar, por serem metidos ao marão, e depois agudos, os quais erão toda a força da fortaleza, por os defenderem com muitas espinguardas e arremessos. Tinha, o castello, outros dous baluartes, com sua cava estrepada, e outro ao pée do muro, que não sérvio, porque defendia somente o esteiro. Forão-lhe tomadas passante de cem espinguardas e de- zoito berços de el-rei, todos de metal, e muitos outros da Java, e huma roqueira de ferro, e polvora, que fazião muito refinada. 47 3
Erão mui estremados espinguardeiros, o que se vio em mui notáveis tiros que fizerão, e os mais temidos que avia em todas aquellas partes, o que mostrarão no grande sofri- mento do cerquo tão novo entre elles, porque, quando os entrárão, não lhe foi achada couza que se podesse comer, nem beber, e estavão as ruas e casas cheias de mortos, huuns fresquos, outros ja gastados, por não aver quem os enterrasse, o que cauzava grande fedor. A mizeria dos mesquinhos, molheres e filhos, era mui grande, caindo com fraqueza a huma e outra parte, e assi se deixavão mattar, roubar e cativar, sem bradar, nem refusar, como se forão ovelhas. Enquanto durou o cerquo, fizerão muitas sahidas, le- vando sempre o peior delias, e em algumas se achou Dom Rodriguo, que ainda que tinha pouca gente, sempre o acompanhava muita, e foi mui sogeito, e obediente aos mandados do capitão, sem nunqua o conversar, o qual tra- zia consiguo a Bernaldo de Souza e Christovão de Souza, e Antonio de Lacerda, que depois se metteo em S. Domin- guos. Servio-se o capitão muito de Balthazar Velozo, por ser bom cavaleiro, e temido, e bem asombrado, e leve de apa- relhar, que são partes que se requerem em todo o serviço da guerra. Trazia consiguo bons soldados, particularmente Anrique de Lima, esforçado cavaleiro e famoso espinguar- deiro, e alguns parentes. E todos da sua parte favorecião ao capitão, com Ma- noel Boto, que também o sérvio como bom amiguo. Os mais o fizerão, por o conseguinte, muito bem, ainda que mos- travão máa vontade ao capitão, tendo a mal todo o que fazia. O qual usou dum bom ardil, pera se livrar dos mui- tos que lhe davão, em lhes mandar que ordenasse o mesmo que dizião, porque não sentia quem o melhor fizesse; e 47 4
como a cousa era difficultoza, escuzavão-se os ardilosos, e elle fiquava livre. E assi acabou a obra como quis, contra o parecer dos emulos, que converterão em odio a gloria de sua vitoria, que foi grande, e não menos necessária pera quem vio o poder daquelles, cuja força ouvera de enganar a todos, se se seguira o parecer commum, porque tinhão dentro mil e duzentos homêes, e no arraial averia cinquenta, que fos- sem pera feito, e outros tantos Ternates, antre dous e tres mil, que ali andarião; mas como via, que nestas cousas os fraquos e os imiguos falavão mais, dissimulava, sem mostrar escândalo, cuja confiança deve ser estimada, pois por o contrairo delia são vistos muitos damnos e descrédito do nome de Portugal; o qual elle restaurou naquella terra, e a christandade do Moro, donde vem os mantimentos a fortaleza, e a segurou com o saquo de tão forte vezinho, cuja soberba acanhava aos reis e capitães, que lhe sofrião muitas couzas, que fiquavão com perda e grande detri- mento e vergonha dos moradores, de que lhe dava bem pouco, como trazião boa mão cheia de cravo. CAPITULO IX Do principio dos desguostos de Bernaldim de Souza e Dom Rodriguo; e de como foi derrubada a fortaleza e levantada a guerra ao Geilolo. Veio-se o capitão, de Geilolo, sem derrubar a fortaleza, por sua infirmidade não compadesser dilação, e mandou huma coro-cora a Amboino, levar a nova da vittoria a sua náo, que somente hia pera a India, e na mesma coro-cora mandou, para hir na náo, a hum Pantalião das Banhas, que avia tempo que estava na terra, feitorizando fazenda de Jorge de Souza, avendo que fora causa e parte dos re- 47 5
querimentos de Bernaldo de Souza, em cuja casa ainda estava ferido, e por a perda que de sua hida recebião, se socorrerão a Dom Rodriguo que o pedisse; o qual, por sa- tisfazer a huma certa obrigação, o fez contra sua vontade, porque se afastava do capitão, não no visitando em sua doença. E indo-lhe fallar, lhe disse que se lho não dava, não avia de ser seu amiguo. Donde parece que tomou occasião pera não fazer o que lhe pedia. E assi fiquarão quebrados, mas sempre se fallarão de barrete, encontrando-se, come- tendo o capitão sempre primeiro. E como foi são, tornou a Geilolo sem Dom Rodriguo, de cuja companhia levou a Christovão de Souza e alguuns soldados, e a el-rei e Quechilo Guzarate, e foi derrubada a fortaleza em poucos dias, e não sem magoa de alguuns que acharão muitas covas, que os cerquados abrirão, donde tirarão muita fa- zenda que nellas meterão. Dali se foi o capitão a huma praya (200), aonde o Çanguaje tinha feita huma pobre povoação, donde se acolheo ao matto, sem ver o capitão, de que ficou frustrado, tendo que se não fiava delle, mas a verdadeira, por não ver ao Ternate, nem lhe fazer a Çumbaia, por lhe ter grande odio. Estava nesta povoação Quechil-Fimom (201) e Quechil Liaça, seu irmão, com família e alguuns apanigoados, aos quais mandou com Graviel Rebello pedir ao Çanguaje o viesse ver, pois era vassallo de-el rei de Portugal; e que se espantava muito de o não ter feito e hir-se a tempo que elle vinha, e levava portaria pera lhe levantar a guerra, se não viesse, quebrando a seu modo huma cana, pao ou folha, perante elle e os seus, em sinal da rotura do contrato da paz; o qual foi huma meia legoa por o matto mui espeso, (200) Chamada Todovongue. segundo o Texto I, Part. i.a, Cap. 18. (201) O mesmo que Quechil-Timão. 476
e espinhoso, e envasado, no cabo do qual atravessava huma pequena ribeira, que tinha humas fontes quentes, e junto delias algumas cabanas, em que avia pouca gente; donde o não deixarão passar. E dali forão chamar ao Çanguaje que estava outro bom pedaço, com sua família; o qual veio com a vasa, que lhe dava pello giolho, e vestido de panos grossos, mui piedoso, para quem o conheceo em sua prosperidade. E assi, mui debilitado na cor e carne, abraçou e fez grande gazalhado ao inviado, e assentou consiguo em hum pobre baleo, e os seus á roda, no chão; e dado o recado, se desculpou com sua pobreza e outras muitas misérias, que tudo redundava na pouca vontade que tinha. E repetindo ambos por razões e comparações hum bom espaço, até sobrevir a noite, assen- tou em não ir, contra o parecer de todos os seus; pello que lhe levantou claramente Gabriel Rebello a guerra, fazendo o sinal que lhe era mandado, e tornando-se, deu o recado ao capitão e ao Ternate. O qual pedio ao capitão não fizesse obra por aquelle soo recado, e tornasse a mandar outro, como fez; e tornando o mesmo enviado, com a companhia, achou as cabanas despejadas, sem couza viva. O Quechil Timom e seu irmão pedirão loguo seguro pera si, e todos os seus, e pera os que se viessem a elles; o qual lhe foi dado, e a cada pessoa seu chito, sem o qual forão achados muitos, que fiquarão cativos. O Çanguaje fogio aos matos, a que seguirão alguuns que o deixarão e se tornarão; e vendosse mui atribulado, e que não tinha outro remedio pera se restaurar e vingar do Ternate, senão fazer-se christão, mandou pedir paz ao capitão e hum padre, o qual lhe mandou a Joam da Beira, da Companhia de Jesus, cuja alma ja nesta vida parecia estar com Deos. E assi, loguo quis la levar a daquelle mouro, o que elle não queria tão cedo, e desavierão-se por parte das molheres, que não quis loguo apartar de si, como 47 7
o padre queria; e fiquando em sua ceita, morreo dahi a pouco tempo. E parece que o premittio assi Nosso Senhor, para quietação da terra, porque a ou vera de metter em revolta, pertendendo vingar-se do Ternate. Chamavasse Quechil Quatrebumo; fiquou por gover- nador do reino, por morte de hum irmão, a quem ficou hum pequeno filho que matou secretamente, fazendo-se muito servidor da fortaleza, em tempo de Tristão de Ataide, pello que o fez rei. E dahi a pouco tempo se levantem con- tra elle com alguuns berços de mettal, que lhe emprestou na guerra que os maluquos lhe fizerão, na qual tomou hum bergantim com oito homêes, que matou, com o que cobrou muita fama e acrescentou seu thesouro, porque, sendo em favor da fortaleza, com a novidade do reino, foi mui pei- tado de todos os levantados, pera que os seguisse. E estas sortes, e outras, dizem que fizera por conselho de hum homêe de Viseu, que consiguo trazia, ao qual man- dou cortar a cabeça, depois de o ver arreneguado, e de lhe ter dado a ordem da fortaleza, dizendo quem fora tredor aos seus, melhor o seria a elle. Era mui esforçado, bellicoso e ardiloso, e guardava bem a paz e honrava muito aos cavalleiros, causa de ter muitos. Era mui prudente, porque sempre buscava tempo pera sahir com a sua (202); fez em principio grande fortaleza e cava, a qual restringio, despois do cerquo de Fernão de Souza, porque, ainda que ficou vencedor, alcançou que não a podia guardar; fez a maior e melhor mesquita que avia naquellas partes, e dizem que inventou letra de sua lingoagem, com characteres que os seus facilmente podes- sem entender, por terem a mais ruim lingoa, e menos enten- (202) I. é. para levar a sua ávante. (?). No Texto I. Part. i.a. Cap. 18 íê-se: e honrava muito aos que lhe fazião sortes; era porque sempre buscou tempo para jazer a sua... 47 8
dida que ha naquellas partes, a qual invenção tirou do arabio que se lavra. Tinha tanto credito, que não faltava mais, pera o terem por Mafamede, senão ir-se Bernaldim de Souza, sem o des- baratar; ficarão-lhe tres filhos e tres filhas: o maior, a quem pertencia o estado, se chamava Quechil Guzarate, mancebo travesso e vicioso, trazia por molher sua propria irmã, do qual peccado os vituperavão os Ternates no cer- quo, e elles, aos Ternates, de quebrantadores da lei, e de irem contra elles em favor dos christãos. Cometeo este tam- bém ao capitão, que se fazia christão, se lhe deixassem ter a irmãa, a qual lhe tomou depois o Ternate; mas o capitão lhe outurgou a paz, que o pai pedia, com titulo de Çan- guaje, como dantes estava, e que paguaria de parias, cada anno, tres mil (203), das de braça, cada huma, pera se cobrir á fortaleza, e quinhentos fardos de çagu, que podião fazer dozentas e cinquoentas jarras de meação. Estas lhe tirou despois Dom Duarte de Eça, restituin- do-o no titulo de rei, pello ajudar na guerra, que lhe fizerão os Ternates, por a prizão de seu rei, o qual titulo lhe confir- mou Anrique de Sáa, sendo depois capitão, obrigando-os a paguar as ditas pareas como paguão. CAPITULO X De como o capitão fez derrubar a fortaleza ao rei de Tidore, e dos odios com Dom Rodriguo de Menezes. Acabados os trabalhos de Geilolo, quis Bernaldim de Souza, no mesmo anno de cinquoenta e hum, tomar a for- (203) O Texto I, Part, i.", Cap. 18, é mais claro nesta passagem: a...e que pagasse, cada anno, tres mil olas de braça cada huma, para se ella cobrir, e quinhentos fardos de çaguu, que podem ser duzentas e cincoenta jarras pequenas...n. 47 9
taleza de Tidore, que as pazes de Fernão de Souza não desfizerão. E, sendo neste tempo o rei ido ás presas, aos Celebes, deixou a terra encomendada ao de Ternate, seu genro e cunhado, ao qual mandou o capitão chamar e aos principaes Portuguezes, e pos-lhe diante a vittoria de Geilolo ser imperfeita, se a fortaleza de Tidore fiquava, pois casi tanto perjudicava ao serviço de Sua Alteza; e, por isso, lhe pareceia bem ir-lha tomar, pois não tinha artelharia e munição, pera esperar outro tempo, e a que avia bastava, por o rei ser fora; no que ouve muitos pareceres, sobre os quais estava bem dobrado, porque não tirava mais que a obriguar a el-rei, que sabia que o avia de roguar, sem o qual o não podia fazer. E assi foi, que disse, que enquanto ali não estava o dono da casa, não era licito devassar-lha; que o deixassem vir, e elle lha faria derrubar, por a qual palavra o penhorou o capitão, dissimuladamente, dando-lhe a entender que, por o servir, esperava; e vindo depois o Tidore, cansado, como quem vem da guerra, se foi pôr o capitão no seu porto, com el-rei, Dom Rodriguo, Balthazar Velozo, em coro-coras, e Dom João Coutinho, e os mais, em paros, por ser perto. E foi loguo mandado visitar por o rei, ao qual respon- deo seus agradecimentos, e que sua vinda era a vello, e pedir-lhe derrubasse a fortaleza, pois era vassalo del-rei de Portugal, com cujo favor não tinha necessidade delia; e, se o não era, naquillo o veria; e os embaixadores, que erão seus irmãos, forão e vierão por três ou quatro dias, muitas vezes, dos quais entendeo o capitão sua fraqueza. E assi apertava, por huma parte, com o Ternate, por outra, indo muitas vezes a terra, fallar com o Tidore, o qual con- sentia derrubar-se, mas temia a huuns sobrinhos, filhos que forão de Quechil Rade, que o defendião, por ser obra de seu pae, sem primeiro pelejar, como o fizerão os Geilolos. 4 8 o
E por a mesma cauza, aplicava o capitão muitas razões e medos; e mandar lançar preguão, que nenhuma pessoa sahisse em terra, so pena de caso maior. E mandou dizer ao Tidore, (que se queixava dalguuns desmandados) que os matasse, se lá fossem; e que nenhum dos seus viesse também tomar agoa duns poços, que esta- vão na praya, porque os avia de mandar mattar; o que fez, á sombra do queixume, para os começar de apertar, por a necessidade da agoa. Dahi a dous dias disserão ao capitão que andava gente em terra, do que se agastou muito e, despido como estava, se meteo em hum parozinho de Afonso Figueira, e correndo á armada ao longuo da praya, vio a Dom Rodriguo, a quem disse: «Alto Senhor Dom Rodriguo, não mandei lançar preguão, que não sahisse niguem em terra, so pena de caso maior? Embarcai-vos!» Ao que respondeo: «Loguo me embarcarei; os homêes hão-de caguar». E indo aviado ja longe, respondeo: «hora caguai, e seja», etc. E disserão alguuns que o ouvira Dom Rodriguo, e respondera ao consoante; mas o certo he que o não ou vio. O capitão encontrou loguo ao Ouvidor Heitor Mendez, e lhe mandou que fosse tomar a menajem a Dom Rodriguo, o qual a não quis dar, nem deixar assinar no termo a Christovão de Souza e Antonio de Lacerda, que esta vão com elle; o que foi dizer ao capitão, que voltou loguo, com a espda nua na mão, como lha levava hum pagem, e fez assinar as duas testemunhas, e tirar os barretes da cabeça, e cometteo a entrar com Dom Rodriguo, dizendo: «Assi- nai, não vos aconteça como a vosso irmão». Dom Rodriguo o defendeo, estando com huma espada e adagua na cinta, e a celada na cabeça, e huma rodela na mão esquerda, e na direita, huma azaguaia, a modo de 4.8 1 ISSILÍNDIA, III — 3I
querer tirar, dizendo: «Não entreis, Senhor Bernaldim de Souza, que sou tão bom fidalguo como vos». E vendo Afonso Figueira que insistia o capitão, estando desarmado, pedio-lhe se fosse armar, ceiou atraz (sic) (204), pello que se foi a coro-cora tomar as armas, e mandou a Gabriel Rebello, que estava nella (com outra companhia) se levasse, e se fosse por huma calheta, e defendesse a saida a Dom Rodriguo, e o mesmo mandou a Balthazar Velozo, que se fosse pôr em outra; com o qual estava hum sobrinho, chamado Manoel Velozo, o qual poz hum arca- buz no rosto, para tirar a Dom Rodriguo, vendo sua resis- tência, se lhe o capitão acenasse, o qual lhe fez mostra que o não fizesse. Indo o capitão daqui a armar-se, meteo-se Dom Rodri- guo em hum paro que tinha, e mandou aos seus que se fossem na coro-cora, e começando elles a remar, bradou o mesmo soldado (pollo lingoa) á chuzma que se botasse ao mar. E fazendo-o assi, fiquou a coro-cora queda, indo ja Dom Rodriguo remando pera terra. Neste tempo estava el-rei de Ternate na cidade, com o Tidore, assentado ver-se aquella tarde com o capitão, e fa- zer-lhe a vontade no derrubar da fortaleza; e ouvindo o rumor, perguntou a hum que hia da praia, que era aquilo? O qual respondeo que não sabia, mas que lhe parecia que era o capitão e Dom Rodrigo. E como o rei tinha sabido que não erão amiguos, temendo ter feito Dom Rodriguo (como homem assomado) alguum desacato ao capitão, sem uzar de cortezia, saltou mui depressa dum baileo, e correo a praya, despindo-se por o caminho, e em panates se em- barcou em hum paro, pondo ao remo os irmãos e parentes, bradando sempre: «contra o meu capitão! contra o capi- tão del-rei, meu senhor»!; com toda a presa a Dom Rodri- (204) Parece-nos que deve ser tomou atrás. 4 8 2
guo, que ia pera terra. E chamou-o com grandes brados: «A Senhor Dom Rodriguo, a Senhor Dom Rodriguo, metei- -vos aqui comiguo», indo-lhe tomando a dianteira, pera que não tomasse terra, com determinação, segundo dizem, de o abalroar, se lhe não obedecesse, porque não sabia o que fora. Temia não tão somente ter feito crime, mas ir-lhe estorvar o que tinha concertado com o Tidore. Dom Rodriguo se metteo com elle, e nisto chegou o capitão armado; e de longe lhe disse el-rei: «A senhor, torne-se Vossa Merce, que o Senhor Dom Rodriguo está comiguo e eu tomo sobre mim». Pello que se tornou pera a coro-cora, e Dom Rodriguo pera o seu paro, sem sahir mais fora; e el-rei pera o Tidore, e acabou com elle ver-se com o capitão, como se fez em terra, na mesma tarde; e foi bem abraçado do rei, e o rei delle, folguando muito de se ver o rei, por a fama do capitão; e o capitão, por a gentileza e pessoa boa do rei, que ganhava a todos; e com este prazer se concertou derrubar a fortaleza; á qual foi o capitão, somente com dous criados, mas refusando-o o rei, assi por lha não verem, como por temer fazerem- -Ihe alguma descortezia os do bando contrario, mas entendendo que assi os segurava mais, foi com grão tra- balho pella aspereza do caminho, e vio tudo, cuja ousadia fez espanto aos mouros. E tornando, concertou com os reis que, ao dia seguinte, iria Balthazar Velozo derrubar algu- mas pedras, em sinal de concerto, e depois se derrubarião elles o mais (205), por não ousarem, emquanto elle ali estava. Ao outro dia sahio o capitão a praya, com alguuns homêes, e mandou a Balthazar Velozo que fosse, ao outro, (205) Texto I, Part, i.» Cap. 19: «...e queria Balthasar Velloso derrubar algumas pedras delia, em signal, e depois elles a derrubarião de todo...». 4.8 3
fazer o assentado; e diante, a Quechil Mana vary (206), que fora embaixador do Tidore em Geilolo, e a Francisco Carvalho, e a Marfim Calado, portuguezes que ahi resi- dião, a fazer cravo; os quais tornárão loguo mui afadigua- dos, dizendo que esta vão na fortaleza muitos armados, pera mattar aos que a fossem derrubar, a que o capitão não deu vento, porque tevera ja muitos rebates destes, de que os soldados esta vão enfadados; e destes esperavão loguo aver pressa. E nisto chegou Balthazar Velozo e Guaspar de Aze- vedo, seus sobrinhos, ao qual perguntou o capitão (como homem que não sabia nada) a que tornava? E respondeo o que lhe disserão os outros no caminho, que estávão pre- zentes, e o capitão mui seguro lhe disse: «Espanto-me muito de vos, Senhor Balthazar Velozo, crerdes quanto vos dizem; hora ide e matem-vos». O esforçado velho tor- nou mui alegre, senhor de si, de muito boa vontade. E derrubou tudo o que quis em paz, sem achar ninguém que o empidisse, e tornou la, dahi a muitos dias, com seus escravos, e acabou de pôr tudo por terra, por o não terem bem feito os Tidores. E desta maneira tomou Bernaldim de Souza, por sofrimento e descrição, aquella fortaleza, que não podia tomar por força, com que cerrou o numero de tres, a saber: estas duas e Catifa, do reino de Ormuz. Acabado tudo o mesmo (207), ouve o Ternate licença, foi-se pera sua casa, e Dom Rodriguo, com os de Tala- guame, fizerão o mesmo, secretamente, de noite; e que- rendo-o na mesma noite prender o capitão, o não achou, do que pezou a seus amiguos; por recearem, querello ir fazer a Talaguame, aonde se aventurava mais. (206) Munavare, segundo o Texto I, loc. cit. (207) Texto I, loc. cit. «e acabado tudo isto...». 4*4
CAPITULO XI De como ordenou Bernaldim de Souza prender a Dom Rodriguo, e deixou a fortaleza, e se foi pera a índia. Como Bernaldim de Souza não achou a Dom Rodriguo, fez seu caminho pera Talaguame; e chegando a vista delle, mandou ao ouvidor que se embaraçasse com Balthazar Velozo, e que fossem dereitos a sua caza, e o prendessem, e elle iria nas suas costas, pera acodir, se fosse necessário. Como Dom Rodriguo vio ir ao capitão por aquella parte, ordenou defender-se por armas, o que lhe não con- sentirão alguuns amiguos, que despedirão loguo a hum seu cafre levar por terra recado a el-rei, que acodisse, pera evitar alguma desordem se cometesse. E entanto, o fizerão sair pera o matto, que estava de- trás; o que bem vio Balthazar Velozo e o ouvidor; mas, dissimulando, levarão recado ao capitão ( que era ja desem- barcado) que o não acharão em casa, o qual se foi assentar a porta de Dom Rodrigo, e lhe mandou esprever e depositar certa roupa que tinha, avendo que era del-rei, pera o gasto da caravella, que lhe esperava tirar. E sabendo-o Dom Rodriguo, quis dar nelle, e não sofrer aquella offensa, do que foi impedido pellos mesmos amiguos, por não ter gente pera o ajudar, e ter a caravella varada, que a não poderia botar ao mar, pello que se acabaria de perder. Acabado isto (não pouco murmurado) se embarquou o capitão pera a fortaleza e, a pequeno caminho, encontrou com el-rei, que vinha em hum pequeno calaluz, com toda a pressa acodir; e como entendeo que vinha fora de tempo, dissimulando, voltou com o capitão, em cuja companhia huma soica (208) desembarcou na fortaleza, aonde o capi- (208) Trata-se evidentemente dum erro de leitura. No Texto I, Part, r.». Cap. 20, lê-se: «...mas não pode chegar a tempo que apro- 485
tão procedeo, por éditos, contra Dom Rodriguo, e alguuns dos seus, sentenceando-os em certo degredo, antes que che- guasse a náo da índia, aonde se esperava por capitão, que não foi, nem náo, por morrer Dom Garcia de Menezes em Malaqua, que hia provido da capitania, pello viso rei Dom Afonso, em huma caravella, em que na monção de Banda foi Gomes Barreto. Vendo-se assi frustrado Dom Rodriguo, embarcou-se com Dom João Coutinho, na entrada de Fevereiro de qui- nhentos e cinquoenta e dous. E loguo foi o capitão a Tala- guame, e achou a caravella mui roubada, damnificada e arcada, de maneira que, com toda a gente que tinha, e a dos navios, a não pôde botar ao mar, quebrando-lhe muitos aparelhos, e alçapremas, pelo que foi a Batochina, no batel, com duas coro-coras, a cortar outras, e muitos rolos, e madeira necessária, o que lhe custou muito trabalho e enfermidade que depois teve; e assi, em espaço de dous mezes, a botou ao mar. Os navios se vierão todos até vinte de Fevereiro, bem carreguados, por a grande novidade que ouve. E apos elles, mandou o capitão a hum Rafael Carvalho em duas coro- -coras saber novas da India e Malaqua e Banda; o qual achou em Amboino a Gomes Barreto na caravella de Dom Garcia, com alguum provimento pera a fortaleza, e deu novas da vittoria que ouve Malaqua do cerquo que lhe pos o rei de Jantana com os Jaós, e que na primeira moção hia Francisco Lopes de Souza, por capitão da fortaleza; com as quais novas se alegrou o povo, e muito mais o capitão. E como soube que avia de achar a Francisco Lopes de Souza, seu primo, em Malaqua entregou a fortaleza a Bal- vcitasse. Foi regozijada sua vinda, porque dava a entender que hia esperar o capitão, e assim juntamente chegarão com grão regozijo a fortaleza...». 486
thazar Velozo, de quem confiava muito, e tomada mena- jem, partio-se pera Amboino nas mesmas coro-coras, com grande sentimento dos christãos e mouros; e meteo-se na caravella de que era capitão Manoel Botto, e veio a Mala- qua, aonde achou a Francisco Lopes de Souza. Dom Rodriguo adoeceo e morreo ahi, fartando-se de agoa sobre huma purgua, de que alguuns tomarão occasião de dizer que fora peçonha, e parece que seria da que trazia, por se ver pobre e tão maltratado. E dizião que dizia, que se avia de averiguar com Bernaldim de Souza, por justiça, e se fosse condenado, avia de ser seu amiguo, e vencendo, avia de fazer execução, por riguor das armas. Os que mais sabião de Bernaldim de Sousa, dizião que o fizera, por comprir ao serviço e estado del-rei, naquella terra tão aforada a desobediências, de que ja procedêrão bandos, que parárão em grande verguonha, do mao exem- plo antre mouros, e daqui veio a Jurdão de Freitas prender em ferros a Francisco de Azevedo Coutinho, capitão da não Taforea, em que hia, antes que chegasse a Maluquo. E o mesmo Bernaldim de Souza dizer a Duarte de Mi- randa o que esprevi no derradeiro capitulo da segunda parte, e a prendello despois, por não querer levar huuns berços quebrados pera a India; e a fazer a Jorge de Souza estar diante delle em pé, fallando com o barrete na mão; e fiquando-lhe huma carapuça, lha mandou tirar, e que metesse tudo debaixo do braço, e prendello e condena-lo em duzentos cruzados, que paguou, por algumas descor- tezias; e lhe não querer mandar mostrar a patente da sua capitania, nem hir, mandando-o chamar; o que procedeo duns requerimentos que lhe fez sobre Bernaldim de Souza, e não consentir envernar, chamando-se nelles algumas ve- zes capitão-mor; e em todas lhe borrou o mor, pondo-lhe por entre linha {feitor); e assi ficava, dizendo capitão e feitor, conforme a dita patente. 487
Tirou mais outro costume, de que alguns capitães se aproveitarão, ou a seus criados, que era não dar licença, maiormente aos riquos, para se virem, nem embarquarem cravo, sem aderências, que custa vão muito delle; com o qual receio não curavão la hir mercadores, que era o que pretendião. Também, era costume darem os riquos, aos pobres e aos negros da terra, roupas por cravo, a paguar na novi- dade, por menos preço do que geralmente valia. E como a novidade mancava, sobia o cravo a muito maior preço, ao qual obrigavão a paguar aos credores, do que fiquavão muito damnificados. Mandou Benraldim de Sousa que, quem não tivesse cravo, que paguasse o mesmo que recebera, ou lhe espe- rassem até que o ouvesse, e primeiro executou em si a lei, a qual fiquou em costume, por alguum tempo. Foi morrer a Ormuz, sendo capitão delle, cuja alma Nosso Senhor tenha em gloria. CAPITULO XII Em que se trata, e resumem os reis, que ouve em Maluco, depois que a elle forão Portugueses. Quando Francisco Serrão chegou a Maluco, naquella primeira idade de seu descobrimento, reinava em Ternate (segundo alguns escreverão) Quechil Boleife, e, segundo dizem seus filhos, se chamava Quechil Baiano Cirola, que quer dizer luguar bom, e limpo e couza clara. Era mui prudente, ensinado da longua idade; por sua morte, ficarão muitos filhos, de que quatro forão reis. Dos quais tratarei socintamente, ainda que em alguma maneira sahia fora de minha professão, particularmente do derra- deiro, que hora reina. 4.88
O primeiro que o socedeo, avia nome Quechil Buará, que na lingua malaia diz Quechil Lagarto, e na Arabia a go a viva. Este reinava, quando se começou a fortaleza, aonde foi metido pera segurança delia, e foi morrer a sua casa, e socedeo seo irmão Quechil Daialo, que também foi metido na fortaleza, aonde estava, quando matarão a Gon- çalo Pereira, capitão delia, por cuja morte o soccedeo Vi- cente d'Afonsequa, o qual soltou ao mancebo, por apazi- guar a terra, a roguo do povo e da mãi; mas tratando-o com desgostos, por a culpa do delitto, se forão, mãi e filho, pera o luguar da Coconora, meia legoa da fortaleza, donde se passarão para Tidore, e por essa causa fez, Vicente d'Afonsequa, rei a hum meio irmão, chamado Quechil Tabarija, que tãobem meteo na fortaleza, seguindo todos o conselho que Quechil, dantes, (?) dera á Antonio de Brito. E socedendo Tristão de Ataide a Vicente de Afonsequa, prendeo ao Tabarija e a mãi e ao regedor Pate-Çarangua, seu padrasto, e outros muitos mandarins, que mandou pera a India, e por mexeriquos de se quererem levantar. Este se fez, depois, christão, e se chamou Dom Manoel, e morreo em Malaqua, como se disse. E a mãi e padrasto o seguirão, depois de sua morte, em differentes tempos, e por diversas causas. Por a prisão destes, fez Tritão de Ataide rei a outro irmão, filho de huma molher da casta jaoa, chamado Quechil Aeiro, que ora reina, ao qual deu, por regedor, o Çamarao, homem de muita reputação, por o qual mandou lançar por todos os povos roupas, para darem cravo a Sua Alteza, de tres pardaos o bar, como era assentado por Antonio de Brito, o qual aceitárão, forçados do medo, porque lhe davão os Portugueses mais por elle. E como Tristão de Ataide era asomado, e conhecido por cavaleiro, temião-no com grande odio, o qual teve nacimento da prizão do rei, e por lhes dar outro, que avião 4.89
não ser igual, por parte da mãi; e confirmou-se, com a compra do dito cravo; e como seus irmãos erão nisto a principal parte, seguião-nos o povo, e acumulando os agra- vos passados aos prezentes, alevantárão-se juntamente com os Tidores e os Bachões, não escapando os filhos nem pa- rentes do Çamarao, que neste tempo estava na ilha de Caioa. E sentindo a nova, veio por Maquiem, donde levou casi por força hum portuguez que hai estava, e se meteo na fortaleza, aonde achou o novo rei recolhido, com alguuns poucos criados; e com seus ardis avião os Portuguezes muitas vittorias, e até virem a obediência muitos mandaris e regedores, com os quais crecião muito as vitorias de Tristão de Ataide, que fez esta guerra com grande pru- dência e esforço. E foi tal que me disse o Patc-Çarangua, dahi a muitos annos, que elle fora o milhor capitão que ouvera em Maluco, e deve ser crido, por ser seu imiguo. E socedendo-lhe na capitania Antonio Galvão, não teve mais que fazer, que dar huma batalha em Tidore, em que matou ao Rei Daialo, com a qual se concluio a paz, e ficou o Aeiro obedecido, e foi sempre leal, servindo a fortaleza com suas armas, e navios, á sua custa e de seu povo, sem lhe por isso ser dado nada; por quanto la não tem a for- taleza fustas, nem catures, nem outra nenhuma embar- quação, senão as coro-coras do Tidore, que dáa, quando são necessárias, o qual serviço se não achara em outro ne- nhum vassalo, sem ser obriguado por guerra, nem algum contrato de paz, e assi se espanta da memoria de treição, como se fora nacido do mais leal sangue lusitano. E de muitos annos a esta parte, o fazem credoro em todos, o que me parece, que procede de nossas culpas, esperando o justo castiguo delias, e da pouca consideração da milícia dos Maluquos, que nos trazem as novas, e de nós as levão a ellos, de quem contarei hum caso pera exemplo dos mais. 490 *
Sendo Dom Jorge de Castro capitão, pedio-lhe el-rei licença pera hir alguuns dias folguar com suas molheres e filhos; e dando-lha, foi e tornou ao outro dia, á tarde, assi como fora. E espantando-se disso o capitão, lhe per- guntou da praia, como vinha; o qual respondeo que por hum mexeriquo, e que por a manhãa viria á fortaleza dar- -lhe conta delle. E vindo-lhe, disse que hum negro hon- rado, que ahi trazia prezo, lhe fora dizer, que a noite antepassada, lhe dera elle capitão tormento, pera que con- fessasse a traição, que lhe elle dito rei tinha ordenada; que elle ja sabia e, por isso, que se fosse, e não tornasse á for- taleza, e o mesmo lhe aconselharão os seus. Mas elle e o Çamarao forão de contrario parecer, pelo que tornara e vinha ali saber o que era e estar á obediência. Do que Dom Jorge se espantou muito, temendo dizer o negro, que era verdade, mas sendo posto diante, para lhe fazerem pergunta, se lançou aos pés do rei, confessando que lhe mentira, pello que o mandou enforquar, e se tornou a seus prazeres. Despois foi com o mesmo Dom Jorge pôr cerquo a Gei- lolo, donde se tornarão, sem fazer obra, por outra nova falsa de treição, pera qual teve muitas vezes aparelho, se ella morara em seu peito, particularmente, quando se veio Bernaldim de Souza de Maluco, e deixou a fortaleza a Balthezar Velozo, tão damnificada, que em toda ella avia caza nem apozento coberto, salvo huma cozinha. E ouve nisto tanto estremo, que avião os negros que a querião deixar os portuguezes, o que procedeo do mao provimento delia, e duns novos regimentos de poupar; e assi na povoa- ção, como por fora, nas ilhas, não averia quarenta homês. E ajuntando-se ahi muita gente de todas as partes, ao casa- mento da primeira filha do rei com o de Bachão, sentio que se temião do tamanho ajuntamento, e mandou que ninguém sahisse. E assi foi, que nem huma faqua se vio a 4 9 i
nenhuma pessoa. E fez, á vista de todos, muito gazalhado e honra aos Portuguezes e suas molheres (ainda que erão pretas) pondo-as acima de suas irmãs. Também lhe faz justiça, mais da que recebe, porque, Christovão de Sáa capitão, a primeira vez, lhe mandou entreguar dous negros, que matarão huma negra de hum portuguez; e hum foi enforcado, e o outro morto em huma bombarda; e sendo capitão, a segunda vez, lhe fez quei- xume que huuns Tabaros, vassallos do Bauto, regedor de meia cidade da Guamoconora, derão hum salto em vin- guança doutro, no luguar de Çuguala, christão no Moro, pello que loguo foi a Gamoconora, e fez tornar a preza, e cortou a cabeça ao Bauto, e a mandou ao capitão, porque lhe deu licença. Sendo Francisco Lopes de Souza capitão, lhe pedio por huma provisão do Viso-Rei Dom Afonso, que mandasse fazer todo o cravo de cabeça, alimpando todo o bastão e madre; o que mandou loguo fazer, contra vontade dos seus, que recebião nisso grande perda, e acrecentavão trabalho, e seguirão-no os outros reis. E pedindo-lhe, a requerimento dum padre da Companhia, que lhe desse alguumas coro- -coras, pera mandar ao luguar de Çama, filho del-rei de Tidore, apresentar e tirar os christãos dos mouros e gentios, disse que aquella obra era grande, e não podia aver effeito, senão por elles ambos, e por isso seria bom hirem la; e parecendo bem ao capitão, deixou a fortaleza a Gavriel Rebello; e tomada a menajem, se embarcou em coro-coras, com alguma gente, e deixou a outra na fortaleza, (e sen- do-lhe por o caminho feitas todas as honras de banquetes e prezentes devidas ao rei) chegárão ao Moro, aonde andá- rão trinta e seis dias. E ahi foi cometido do Tidore, que matasse ao capitão e Portuguezes, e tomarião a fortaleza e fiquarião todos livres, o que dizem que abominou gra- 492 m A
vemente e com muito trabalho o (209) de Ramos, e Bas- tião Valejo que o acompanharão. Apartou muitas mulheres dos maridos, e maridos das mulheres, e paes dos filhos, e filhos dos paes, e ficando os infiéis, forão os fieis postos nos lugares dos christãos. E trazendo elle huma molher, de muito tempo, consigo, sem lha conhecerem, disse: «Hora estou bem aviado; venho tirar as molheres dos outros, e não tiro a que traguo». E loguo a despedio, com muitas saudades dambos. Adoecendo depois Francisco Lopes, e estando na der- radeira, fez soccessão da fortaleza a Christovão de Sáa, que ahi estava, por capitão da náo de carreira, por se não atrever deixa-la a Felipe de Aguiar, a quem pertencia, por alcaide-mor, o qual, por esta causa, determinou tomar, por força, as chaves ao criado que fechava a porta. E sabido por o rei, o repreendeo, dizendo que ainda podia sarar o capitão, e se morresse ahi, lhe fiquava tempo para aver o seu. O Aguiar, com boas razões, ouve que o tinha obriguado pera quando fosse tempo, pello que, no mesmo dia, apresentou Christovão de Sáa o estromento da socessão ao povo, e foi de todos obedecido. E morrendo o capitão, dahi a quatro dias, veio o rei com doo, á portugueza, a seu enterramento e, feito, se assentou á porta da fortaleza, perante quem Christovão de Sáa (incapasmente) contendeo com Felipe de Aguiar sobre a posse, allegando hum a successão e a ordenação do 2.0 Livro, Titulo dos Alcaides-mores; e outro, o regimento do Governador Nuno da Cunha, porque faz aos, alcaides- -mores soccessores das fortalezas, por morte dos capitães; e ambos fazião juiz ao rei; senão quanto (quando) o (209) Nota da edição da Academia: «Há aqui uma falta no ori- ginal, precedente de roedura de traça». O texto I omite esta descrição dos reis da Maluco. 4 9 5
Aguiar, o fazia seu rei e senhor, e que a elle avia de obe- decer, e outras couzas semelhantes, nacidas da cobiça e ambição. O rei a tudo callava; mas vendo-se apretado dambas as partes, disse em alta voz: «Senhores Portuguezes, não ha quem duvide que, antes que viesseis a esta terra, erão os Malucos mui barbaros, e ainda em suas couzas de pouco saber; e o bom que agora temos, de vos o aprendemos, porque vos governais por letrados e religiosos, e justiças que endereitão as couzas tortas, pello que o vosso enten- dimento he mais verdadeiro, e a este quero seguir. Pelo que vos peço, da parte del-rei, meu senhor, me digais a qual destas leis devo seguir, pera que Sua Alteza seja bem servido; e sobre vos seja do erro a culpa, se o ouver, porque estou prestes pera seguir o melhor». E calandosse todos, ficou livre de poder errar. E dahi a pouco, porque hum disse que obedecia a Chris- tovão de Sáa, pois ja era metido de posse, seguirão todos, em voz alta, do que o rei folgou muito, por Christovão de Sáa ser bemquisto, e o Aguiar muito mal. CAPITULO XIII Em que se prosegue, e conclue a historia. Socedendo Dom Duarte de Eça na Capitania a Chris- tovão de Sáa, acarretou o rei e seus filhos e gente toda a pedra que avia por a povoação dos Portuguezes, sem ajuda delles, nem de nenhum seu escravo, pera se fazer hum baluarte que caio da fortaleza, pera o qual deu toda a qual, que foi necessária, de graça. E ao segundo anno, por não sei que causa, o prendeo o capitão, e a mãi e o irmão Quechil Guzarate, e forão postos na logea da torre, 49 4
e a elle forão lançados dous grilhões cora huma corrente preza a huma camara de bombarda, e humas algemas nas mãos, tapando-lhe todos os buracos que podião dar luz, e tirando-lhe o comer, ate lho vir dar a Misericórdia, e alguuns casados, as somanas; e duas vezes achou nelle peçonha, a qual conheceo com hum anel que tinha de metal, e passou ali, segundo ouvi, outras muitas calamida- des, não costumadas antre christãos. Fizerão os Malucos crua guerra á fortaleza por a qual forão forçados os Portuguezes a prender o capitão, e soltar ao rei, o qual foi pouco a pouco ajuntando a sua gente, até fazer armada, com que ajudou os Portuguezes contra o famoso, naquellas partes, rei de Tidore, e chegou a fazer a çumbaia aos seus, pera que socorressem a Dom Jorge de Eça, que estava abalroado e ferido com muitos Portu- guezes em huma fusta, o que os seus fizerão esforçada- mente e ajudarão a salvar. E socedendo Manoel de Vasconcellos na capitania, foi o rei ao Moro, que estava por o Tidore, e pos cerquo ao Tolo, cabeça de toda a comarqua, e fortificado, por natu- reza, e tranqueiras e artelharia. E porque não podia guar- dar a terra e mar, foi a Cequita, no Moratai, trazer huma caravella que ahi carreguava de mantimentos pera a for- taleza. E acalmando-lhe o vento no caminho, desguarrou mui longe, com grandes correntes, que ali ha, sem nenhuma esperança de tornar, como ja ali tinhão feito algumas chou- panas, e o rei a foi socorrer com suas coro-coras. E dizen- do-lhe alguuns Portugueses que era em vão seu trabalho, e que se tornasse, disse que se não avia de perder o navio del-rei, seu senhor, aonde elle estava. E assi a tomou a toa, e a trouxe em tres dias de contino trabalho, vindo a gente morta de fome e sede, por não irem apercebidos; e dali a foi por no porto de Tolo; e se foi ao arraial, aonde esteve quasi quatro mezes, até que, por forças darmas, en- 4 9 5
trou e tomou a fortaleza e capitão delia, primo do rei de Tidore, com muita gente. E elle perdeo muitos dos seus, e quatro ou cinquo Por- tuguezes, e feridos outros, em que entrou Anrique de Lima, que la he ávido por famoso, com a qual vittoria fez o rei paz, tão forçado da necessidade, que, sendo de menos de trinta e cinquo annos, desistio do reino, com grande animo, por as não fazer como rei. E entregou o reino a hum irmão mais moço, e ficou sendo regedor, e como tal as fez e obedeceo ao vencedor, cousa digna de grande memoria. E ficando o Ternate vencedor pacifiquo, em luguar de satisfazer dos agravos recebidos, (como muitos esperavão) arrenunciou todo o seu reino e senhorio em el-rei, nosso senhor, e o recebeo em seu nome e como da sua mão, pera o governar, e lho tornar a entreguar cada vez que Sua Alteza mandasse, e se fez seu vassalo, que dantes não era. De maneira que de livre se fez servo, de modo que, com todos estes serviços e outros que nesta historia não trata, affirmo que mais se lhe deve, por o que sofre, que por elles. E não me declaro mais, por não repunhar a oupinião de muitos, mas os mais livres de paixão, e que sabem menos da terra, affirmão estar no rei a segurança da for- taleza, por cauza da fraqueza e mao provimento, e longe o socorro delia, e que em vida delle não passara detrimento da gente da terra, nem estrangeira, ainda que seja de Cas- tella, a qual alguuns desejão, por se satisfazerem de suas offensas, ainda que geralmente tenhão em mais estima e melhor conta aos Portuguezes; e daqui veio huma escrava de hum Luis de Paiva não querer cazar com hum soldado castelhano, chamado Alonso Garcia, sendo casamenteiro o Padre Mestre Francisco, o qual lhe deu por parte do noivo algumas razões, a que não podia fugir; de que se vio tão afadiguada, que lhe jurou loguo por a cruz, que 49 6 4* *
nem com el-rei dos Castelhanos avia de casar, de que o padre, depois, ria muito, gavando-a. E estando huma vez hum mandarim de Maquiem, cha- mado Quebuba em praia de Tidore, lhe disse Dom Alonso Manrique, e outros soldados, grandezas grandes de Cas- tella e pouquidades de Portugal, araindo na mesma praia Castella, mui grande, e Portugal, mui pequenino. E calan- do-se o negro a todo o mais, respondeo: «quando aquillo assi, como foi o de Algibarrota?». E outros dizem que perguntou aonde estava ali Algibarrota; mas, como quer que fosse, em no dizendo, se acolheo ao paro, bem acom- panhado de pedradas. E porque a contenda destas ilhas não he occulta aos moradores delias, tem por certo que ou huuns ou outros os hão-de senhorear; E como o Terna te tomou a parte portuguesa, em cuja policia se criou e ensinou a seus filhos, parece que delle mais que dos outros se deve ter confiança, aos quais favorecem, sendo sempre da parte contraria; e ainda que estes bêes não procedão de amor (como alguuns dizem) ao menos serão por se não ver abatido delles, como se vê delle, assi que sua ambição nos segura; alem de sua condição ser branda e pouco bellicosa e de muito sofrimento e grande obediência, no que claramente entendo ser ser- viço del-rei. E se alguma duvida ha nesta parte, procede, algumas vezes, de culpas alheas, porque diz que ninguém entende melhor o serviço del-rei que elle, que he rei, e lhe usurpão seu merecimento, atribuindo-o assi (a si) diante a Mages- tade real, desfazendo todos nelle, por fazer em si. Pello que são diminuídos seus serviços e multiplicados seus quei- xumes, sem avertirem quanto importa tello quieto, e desa- gravado, por o muito que monta aquella fortaleza, pois sem ella caira n Estado da índia em grande diminuição, particularmente, se for em poder de Castelhanos, que dali INIULÍNDIA, 111 — 3a 49 7
hão todas as drogas, a saber: o cravo, e a noz, e maça de Banda, pimenta de Jaoa, sandalo, aguila de Timor e Ma- çar (sic), canella de Mindanao, e da Jaoa, gingivre, calan- gua, pimenta longua, tamarinho, açafrão da terra, canas pera fazer açuquar; salitre, enxofre, madeira, ferro, estopa, breo, azeite; não faltão nella nem no Borneo, e por outras ilhas, muita pedraria, aljôfar, pérolas, canfora, tartarugua e ouro; e para a prata, cobre azougue, pedra ume, verme- lhão, seda e outras mercadorias riquas, não lhe fiqua Japão, China, tão afastados como he em seus corações a cobiça destas couzas, e nos dos Maluquos verem-se livres dos Por- tuguezes. Capitães que foram em Maluquo Antonio de Brito, que edificou a fortaleza. Dom Garcia Anriques. Dom Jorge de Menezes. João Pereira, e por sua morte, Vicente d'Afonsequa. Tristão de Ataide. Antonio Galvão. Dom Jorge de Castro. Jurdão de Freitas. Bernaldim de Souza. Christovão de Sáa. Bernaldim de Souza, outra vez, com Balthasar Vellozo. Francisco Lopes de Souza. Christovão de Sáa, outra vez. Dom Duarte d'Eça. E Antonio Pereira Brandão. Manoel de Vasconcellos. 49 8
E Bastião Machado, que de escrivão da feitoria soce- deo a feitor, e alcaide-mor e a capitão, por a morte. Anrique de Sáa. Alvaro de Mendonça. Dioguo Lopes da Mesquita de Lema [Lima] que serve nesta era de 1569 annos. Tempo que se guasta na viagem corrida de Maluquo, tratando do bom partir e cheguar. Partem de Goa, a 15 de Abril, cheguão a Malaqua no fim de Mayo; e dahi, a 15 de Agosto, e cheguão a Maluco, ate a fim de Outubro; donde partem, a 15 de Fevereiro, e em seis, sete dias, cheguão a Amboino. Domde partem, a 15 de Mayo, ou segura a lua chea do mesmo mes, e che- guão a Malaqua no fim de Junho. E pera bem tornarem as naos do reino, partem de Ma- laqua, a 15 de Novembro, e cheguão a Cochim na entrada de Janeiro, e descarregando ahi, cheguão a Goa, ate quinze de Março, e assi se guastão vinte e tres mezes de viagem, e per a via de Banda põem trinta mezes. Forças tiradas do contratto feito antre El-Rei Dom João o Terceiro, e o Emperador Carlos Quinto, sobre Maluco. A vinte e dous dias de Abril de mil e quinhentos e vinte e nove annos forão juntos na cidade de Çaraguoça de Aragão, Mercúrio de Guatinara e chançaler-maior do emperador Carlos, rei de Castella, e Dom Frei Garcia de Loiasa, bispo Dosma seu confessor, e Dom Frei Garcia de Padilha, Commendador-mor de Calatrava, procurado- 49 9
res de Sua Magestade, e Francisco dos Covos, seu secre- tario, escrivão e notário publico, e Antonio de Azevedo Coutinho, embaixador e procurador de El-Rei Dom João, o terceiro de Portugal, e disserão os tres procuradores de Sua Magestade que, em seu nome, per virtude da sua pro- curação, vendião, como de feito venderão, daquelle dia pera sempre, a el-rei de Portugal, e todos seus successores da Coroa de seus reinos, todo o direito, aução, domínio, propriedade, possessão, ou quasi possessão, e todo o direito de naveguar, contratar, commerciar por qualquer modo que fosse, que o Emperador rei de Castella devia, e po- dia ter per qualquer via, modo e maneira que fosse em Maluquo, com os luguares, terras, mares, segundo seria adiante declarado, por preço de trezentos e cinquoenta mil douro ou prata, que valessem em Castella trezentos setenta e cinquo maravedis, cada hum, a qual venda se fez com as condições seguintes: Item. Que em qualquer tempo que o emperador e seus seccessores tornarem o dito dinheiro, sem lhe faltar couza alguma, a el-rei de Portugal e seus successores, fique a dita venda desfeita, ficando cada hum com o direito que tinha dantes, e pera se saber a repartição avião. Item. Por deitada huma linha de polo a polo e norte sul, per hum semi-circulo que deitasse de Maluco ao Nor- deste, tomando-a da quarta de leste dezanove grãos, a que respondião dezasete grãos escaços, em a equinocial, em que contavão duzentas e noventa e sete legoas e meia, ao oriente de Maluquo, dando dezasete legoas e meia por grao quinocial. No qual meridiano e rumo de nordeste e quarta de leste esta vão situadas as Ilhas das Velas a San Thomé, por onde passaria a dita linha e semicírculo. E sendo caso que as ditas ilhas estevessem, ou distarem mais ou menos de Maluco, todavia a dita linha fiquasse lançada nas ditas duzentas noventa e sete legoas e meia, mais ao 500
oriente de Maluco; do que se farião dous padrões e guias, assinados por os reis, e assellados de seus sellos, pera fiquar a cada hum o seu, e seus vassallos saberem por onde avião de naveguar. Item. E em qual tempo que el-rei de Portugal quizesse que se visse o direito de propriedade de Maluco, e as terras e mares conteudas no contrato, posto que no tal tempo o Emperador não tenha tornado o preço nem o contrato fosse resoluto, cada hum dos ditos sensores nomeasse tres astroliquos, tres pilotos, ou tres marinheiros espertos, os quais se ajuntarião em hum luguar da arraia, que lhes fosse nomeado, onde assentarião da maneira em que se avia de hir ver o direito da propriedade, conforme as capitulações feitas antre El-Rei Dom Fernando e a Rainha Dona Isabel com El-Rei Dom João segundo de Portugal; e sendo acaso que se julgasse o direito por Castella, não se executaria nem usaria da tal sentença, sem primeiro tornar realmente os trezentos e cinquoenta mil cruzados. E sendo o direito julguado por el-rei de Portugal, seria obriguado o Empe- rador tornar o dito direito, do dia da sentença a quatro annos primeiros seguintes. Item. E vindo de qualquer parte algumas drogas ou es- peciarias aos reinos de Castella ou Portugal, serião depo- sitadas atte se saber, se erão da parte que cabia a Portugal ou Castella, e dar-se-hião a quem pertencessem, e sendo levadas a terras de imiguos, cada hum dos reis as poderia pedir pera ambos, sem outro poder nem procuração, o que se não entenderia nas que fossem pera el-rei de Portugal. Item. E da dita linha pera dentro não poderião as naos do Emperador, nem de seus súbditos e vassallos nem dou- tras nenhumas pessoas entrar com seu favor e ajuda nem se nella tratar, naveguar, commerciar, nem carreguar couza alguma, de qualquer maneira e sorte que fosse; e quem o contrario fizesse seria prezo por qualquer capitão ou jus- 5oi
tiça de el-rei de Portugal, e por elles ouvidos e castiguados, como cossarios aquebrantadores de paz; e não sendo acha- dos dentro da linha, e indo ter a algum porto outro do Em- perador, as suas justiças os prenderião e castiguarião, como lhe fossem mostrados autos, e posquizas, porque fossem obriguados. Item. E o Emperador, por si, nem por outrem, não en- viaria as ditas ilhas e mares dentro da dita linha, nem consentiria que la fossem seus vassalos e naturaes, nem vassallos fossem, nem lhes daria favor nem ajuda, antes seria obriguado a defendello que nelle fosse; e mandan- do-o, ou dando favor e ajuda, e o não estorvasse e defen- desse que nelle fosse, que o dito pauto de retrovendendo fiquasse loguo resoluto; e el-rei de Portugal não seria mais obriguado a receber o dito preço nem a retrovender o di- reito e aução, que o dito Emperador, por qualquer maneira, podia ter a elle; antes, por virtude do dito contrato, tenha vendido e renunciado e trespassado em el-rei de Portugal e, pelo dito feito, a dita venda fique pura, e veledeira pera sempre, na qual pena não encorreria, quando alguns seus vassallos, naveguando por o seu mar do Sul, entrassem com fortuna e tempo forçoso a dita linha, porque então serião bem tratados como vassallos del-rei de Portugal, e do Emperador, seu irmão, e cessando a necessidade, se tornarião loguo a sahir. E passando a dita linha por igno- rância, não encorrerião por isso em pena, ate lhe não cons- tar que estavão dentro. E se não sahissem. Item. E descobrindo-os que assi entrarão algumas ter- ias, ou Ilhas dentro da linha, serião del-rei de Portugal, como se as descobrissem seus capitães e vassallos. Item. E as naos do Emperador e de seus súbditos e vassallos poderião naveguar por os mares, por onde as armadas de el-rei de Portugal hião pera a índia, tanto quanto lhe fosse necessário, pera tomar suas derrotas pera 502 4»
o Estreito de Magalhães. E naveguando mais por os ditos mares del-rei de Portugal, encorrerião nas ditas penas, e constando que o fizerão por mandado, favor, ou ajuda do Emperador, as penas sobreditas assi, e da maneira assima declaradas, e todos serião castiguados por os capitães e justiças del-rei de Portugal, se por elles fossem achados, e indo ter as terras do Emperador, o serião por elle e suas justiças, mandando-lhe as culpas, nas quais encorrerião da notificação do Contrato em diante, o que se não enten- deria nas armadas que o Emperador tinha mandadas á aquellas partes, e do dia do outorgamento do contrato em diante, não poderia mandar outras de novo, sem encorrer nas ditas penas. E el-rei de Portugal não poderia fazer nem mandar fazer dentro da dita linha nenhuma fortaleza, de novo, nem se faria obra, de novo, na que estava feita, mas poder-se-hia sustentar no estado em que então estava, e jurava de assi o comprir, e manter. Item. E as armadas que o emperador la tinha manda- dadas serião bem tratadas e favorecidas, como se fossem del-rei de Portugal, e não lhe seria posto embaraço nem empedimento a sua navegação e contratação, e que, se damno alguum ouvessem recebido, ou recebessem, ou lhe ouvessem tomado algumas couzas, seria obriguado el-rei de Portugal emmendar, e satisfazer, e paguar loguo o que o Emperador e seus súbditos ouvessem sido damnificados, e de mandar punir os que o fizerão e de prover com que as ditas armadas se podessem hir, quando quizessem, sem empedimento alguum, e o Emperador mandaria loguo suas provisões pera os que estivessem no dito Maluco, e se hirem loguo, e não contratarião mais nelle, e que lhes deixarião trazer o que tivessem resguatado, contratado e carreguado. Item. E que nas provisões e cartas que acerca deste con- 503
trato o Emperador havia de passar, diria que o que dito era, se acentava e capitulava, contratava, valesse bem como se fosse feito e passado em Cortes Geraes, com con- sentimento expresso dos procuradores delias. E que pera validação disso, de seu poderio real absoluto, de que, como rei e senhor natural não reconhecente superior em o tem- poral, ouvesse de usar e usava, e abroguava e derroguava, cassava e annullava a supplicação que os procuradores das cidades e villas de seus reinos, e nas cortes que se celebra- rão na cidade de Tolledo o anno passado de 1525, lhe fize- rão acerqua do tocante a contratação das ditas ilhas e terras, e a reposta que a elle dera, e qualquer lei que em as ditas Cortes se fez, e todas as outras que a isto podessem obstar. Item. E que el-rei de Portugal, porque alguuns súbditos do Emperador (e outros de fora de seus reinos, que o hião servir) se queixavão que na caza da India e seu reino lhes tinhão embaraçadas suas fazendas, prometesse de man- dar fazer clara, aberta e livre justiça, sem ter respeito a nojo que delles podesse ter. Item. E que as Capitulações feitas antre el-rei Dom Fernando, Rainha Dona Isabel e El-Rei Dom João, o se- gundo de Portugal, sobre a demarcação do mar oceano, ficassem firmes e valiosas em tudo e por tudo, como neilas era contheudo, tirando as couzas em que por este contrato em outra maneira erão concordadas e assentadas, e sendo caso que o Emperador tornasse o preço que por o Contrato lhe era dado, em modo que a venda fiquasse desfeita, em tal caso, as ditas capitulações feitas antre os catholicos e El-Rei Dom João fiquassem em toda sua força e vigor. Item. E que, posto que o direito e aução, que o Empe- rador dizia ter em Maluco, que assi, per o modo sobredito vendia, valesse mais da metade do justo preço, do que por elle lhe davão; e sahia certo, por certa informação de pes- 504
soas que o bem sabião e entendião, que era de muito maior estima da metade do justo preço, do que el-rei de Portugal dava ao dito Emperador, aprazia fazer a doação, corno de feito fez, do dito dia pera sempre jamais antre vivos valideira, da dita maior valia e estimação, que assi valia mais, alem de metade do justo preço, por muito mais grande valia que fosse, o Emperador a disviaria de si e de seus successores, e desmembrava da Coroa de seus reinos pera sempre, e trespassava a el-rei de Portugal, e seus successores e Coroa de seus reinos, realmente, durando o tempo do contrato. Item. E foi assentado, que qualquer das partes que fosse contra o contrato ou parte delle, per si, ou per outrem, por qualquer via e modo, que fosse pensado, perdesse o direito que tinha, e fiquasse loguo todo aplicado junto, e acquirido a outra parte, que por elle estivesse a Cora de seus reinos, sem pera isso, o que contra elle fosse, ser mas citado, ouvido nem requerido, nem ser necessário pera isso sentença de juiz alguum, averiguando-se, provando-se, primeiramente, o mandado, ou consentimento, ou favor da parte que contra elle fosse. E alem disto, paguaria du- zentos mil cruzados douro ou prata a outra parte da pena, na qual encorrerião tantas quantas vezes contra elle fossem em parte, ou em todo. E a pena levada, ou não levada, o contratto fiquaria valioso, e firme jamais, por quem esti- vesse por elle, pera o que obriguarão todos seus bêens patrimoniais e fiscais dos constituintes e das coroas de seus Reinos. E jurárão solenemente, e promettêrão de em ne- nhum tempo hirem contra o contratto em parte nem em todo por si, nem por outrem, em juizo nem fora delle, por nenhuma maneira, que se podesse pensar, e que em ne- nhum tempo, por si, nem por outrem, pederião relaxação do juramento ao Santo Padre, a outrem, que pera isso poder tivesse, e posto que Sua Santidade, o quem pera 505
isso poder tivesse, sem lhe ser pedido, de seu proprio motu lhes relaxasse o dito juramento, que o não aceitarião nem nenhum tempo usarião da ditta relaxação, nem se ajudarião delia pera nenhuma via, nem maneira que po- desse ser. FIM Em todos os quadernos desta letra, que se achar esta pala- vra Tirode, se lerá em seu luguar Tidore, e não tem outra nenhuma errada. TA VOADA DESTE LIVRO PRIMEIRA PARTE He a que se segue. Capitulo I. Da nota de alguuns erros principaes, que achei escrito de Maluco. Cap. II. Que trata da repartição do Arcepelago de Maluco, e dos reis que nelle ha, e seus custumes e como são servidos. Cap. III. Dos costumes que alcancei dos Malucos. Cap. VI. Da policia e alguuns ritos que usâo os Malucos. Cap. V. Das alimarias, bichos e aves que ha em Maluco. Cap. VI. Dos mantimentos, fruitas que ha, e do sal que fazem na terra. Cap. VII. Da quantidade das ilhas do cravo, e a ordem delias. Cap. VIII. Da arte das coro-coras, com que navegão, e da ordem que com ellas, e nellas tem. Cap. IX. Da nossa fortaleza, e do fogo da Ilha, e do de Gamoco- nora, e das cazas de agoa. Cap. X. De algumas couzas novas, que ha no arcepelago de Maluco. Cap. XI. Que trata dos arcepelagos dos Papuas, Mouros, Celebes e Amboinos. Cap. XII. Que trata da policia dos Mouros. Cap. XIII. De algumas maravilhas acontecidas no Moro. 506
SEGUNDA PARTE He o que se segue Cap. I. Do descobrimento de Maluco pelos Portuguezes, e Cas- telhanos. Cap. II. Do que sucedeo a Antonio de Brito no fazer da fortaleza. Cap. III. Que trata da segunda armada dos Castelhanos, de que era capitão Frei Garcia de Loais, Biscainho. Cap. IV. Em que se prosegue a historia e trata de outros acon- tecimentos. Cap. V. Do fim que ouverão os Castelhanos, e doutras cousas acontecidas no mesmo tempo. Cap. VI. Da nova que veyo a Dom Jorge de Castro, e desta armada, e do que, por caso delia, fez. Cap. VII. Da armada que Dom Jorge mandou ao Moro, e do que lhe socedeo. Cap. VIII. De como os Castelhanos se metêrão em Tidore, e de como arribou São Joanilho, e tornou a partir; da che- gada de Jurdão de Freitas, e da prizão del-rei de Maluco. Cap. IX. De como chegou Fernão de Sousa de Tavora, com armada, a Maluco, e das pazes que fez com os Caste- lhanos, e do cerco que elle e Jordão de Freitas puserão a Geilolo. Cap. X. De como os capitães embarcárão a pôr cerco a Geilolo, e o levantárão, e das pazes, que depois lhe forão feitas. Cap. XI. Da morte de Rui Lopes de Villa Lobos, e do fim que teve a gente da sua armada. Cap. XII. De como Bernaldim de Sousa tomou posse da forta- leza, e entregou o reino a el-rei, e de como Jurdão de Freitas foi livre, e deixou de ser capitão. TERCEIRA PARTE Cap. I. De como Bernaldim de Sousa alevantou a guerra ao rei de Geilolo, antes de acabar a capitania. Cap. II. De como foi Dom Rodrigo de Menezes, com a armada, a Maluco, com novas de Castelhanos, pello que tornou Bernaldim de Sousa a ser capitão da fortaleza. 5 07
Cap. III. De como Bernaldim de Sousa ordenou pôr cerco á for- taleza de Geilolo, e do trabalho que nisso teve. " Cap. IV. Da ordem que teve o capitão no desembarcar, e da pri- meira briga que tiverão os cercados, e dos trabalhos que mais passárão. Cap. V. De alguuns trabalhos, rebates, e novas, que o Capitão teve para o estrovarem. Cap. VI. De como foi queimada a cidade dos Mouros, e morto o seu capitão geral, e do desastre de hum batel. Cap. VII. Da paz feita aos cercados, por a qual derão a fortaleza, fazendas, e artelharia. Cap. VIII. De algumas generalidades que neste cerco ouve. Cap. IX. Do principio dos desgostos de Bernaldim de Sousa e Dom Rodrigo; e de como foi derribada a fortaleza e levantada a guerra ao Geilolo. Cap. X. De como Bernaldim de Sousa fez derribar as fortalezas ao rei de Tidore, e dos odios com Dom Rodrigo de Menezes. Cap. XI. De como ordenou Bernaldim de Sousa prender a Dom Rodrigo, e deixou a fortaleza, e se foi para a índia. Cap. XII. Em que se trata, e resumem os reis que ouve em Ma- luco, depois que a elle forão os Portuguezes. Cap. XIII. Em que se prosegue, e conclue a Historia. 508 ►
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO Observação — Como nos volumes anteriores, os números simples de índice indicam as páginas; e os números entre pa- rênteses, as notas. A breve referência identificativa, que procuramos dar, é tirada, quase sempre, dos respectivos documentos, dos quais adoptamos também a ortografia para os nomes de pessoas e lugares. A Abreu (António de). Cristão de Amboino — 14, 34, 405. Achens. Habitantes do reino de Achem — 172, 409. Aeiro (Quechil). Rei de Ter- nate — 74, 111 (3), 200 (9), 215, 224, 420, 434, 443, 444, 445, 489, 490. Afonso (Diogo). Português nas Molucas — 406. Agostinho (Mateus). Conta- dor da Matrícula — 168. Agostinhos nas Molucas — 423- Aguiar (Filipe de). Alcaide- -mor nas Molucas — 493, 494. Aituas. Vid. Hatouahas. Albuquerque (Afonso de). Governador da Índia—360 (57). 405- Alçaras (Fernando). Jesuíta castelhano — 125. Alemanha — 32. Algália — 370. Aljubarrota (Batalha de) — 212, 497. Almeida (António de). Portu- guês nas Molucas — 197, 198, 199, 201, 202, 203, 422, 423, 424, 426, 427, 428, 428 (169). Almeida (João de). Portu- guês enviado às Molucas — 451. 452- Almeirim — 124, 131. Alvarado (Matias de). Em- baixador espanhol nas Mo- lucas — 207, 208, 210, 430, 431- Alvarado (Pêro de). Caste- lhano — 421. Alvarez (Fernando). Sacer- dote jesuíta nas Molucas — 6, 8, 9, 10, 28, 29, 31, 45, 5 11
50, 52, 83, 84, 86, go, 92. 94, 123, 135. 143. Alvarez (Francisco). Clérigo nas Molucas — 339 (71), 405- Amboino. Ilha na Insulíndia — 24, 25, 27, 28, 32, 33, 34. 35- 36. 37- 38. 40. 41. 4i (3). 45. 46. 52. 53. 54. 55- 56. 58. 59- 65. 79. 81, 83, 84, 86, 88 (4), 95 (10), 95 ("). 97- 98 (13). 100 (15), 100 (16), 106, no (3), hi (3), 115, 124, 125, 126, 128, 132, 136, 138, 140, 143, 170, 177, 181, 210, 215, 222, 224, 225, 230, 264, 281, 295, 298, 302, 317, 325, 326, 327, 327 (67), 336, 348, 353. 371. 376. 378. 379- 395, 406, 406 (37), 409, 434 (127). 442. 475. 486, 487. 499- 506. Amboinos. Naturais de Am- boino — passim. Antoneto (Pêro Fernandes). Siciliano nas Molucas — 406. Antónios. Peixes voadores nas Molucas — 310, 369. Antropofagia — 327, 395. Apostolado leigo—13, 16, 18, 34, 36, 51, 54, 126. Aragão — 499. Araújo (Baltasar de). Irmão jesuíta nas Molucas — 27, 42, 65, 143. Araújo (Brás de). Homem honrado e de crédito nas Molucas — 298. Araújo (Tristão de). Sacer- dote jesuíta enviado às Mo- lucas — 172, 176, 178. Arcebispo de Cochim — 5. Argudo. Jesuíta valenciano — 125- Armadas — 6, 9, 13, 86, 138, 170, 171, 217, 227, 295, 352, 356, 426, 427, 435, 451- Aroes. Vid. Daroes. Asia —194. Assíria — 173. Assumpção (Nossa Senhora da). Igreja em Batjan—11. Assur. Cidade que deu o nome à Assíria — 173. Ataíde (Tristão de). Capitão de Ternate—225, 230, 258, 261, 268, 291, 295, 339, 399, 419, 420, 478, 489, 490, 498. Ative. Lugar principal na pe- nínsula menor de Amboino — 12, 13, 14, 15, 17, 18, 19. 22, 33, 34, 35, 83, 89, 102, 137. Atives. Naturais de Ative, em Amboino — passim. Atue. Vid. Hatou. Atues. Vid. Hatouhas. Aves do Paraíso — 356 (25), 371 (66). Ayo (Quechil). Irmão de Quechil Guzarate — 464, 467. Azevedo (Francisco de). Ca- pitão de nau nas Molucas — 215. Azevedo (Gaspar de). Portu- guês nas Molucas—277,484. S 1 2
Azevedo (Inácio de). Mártir jesuíta — 124. B Babu. Herdeiro do reino das Celebes — 65. Babu (Quechil). Filho de Quechil Aeiro — 74, 76, 77. Baburos. Ilha — 424. Baçairn — 145. Bachão. Vid. Batjan. Baia (Quechil). Filho do Rei de Ternate — 410. Baive. Lugar perto de Ative, em Amboino — 137. Balam. Vid. Belang. Balão. Vid. Belang. Baldaia (Fernão). Feitor das Molucas — 416. Banda — 24, 25, 59, 138, 176, 190, 231, 269, 281, 285. 295, 325, 326, 371, 395. 405. 409. 486, 497- Bangai. Arquipélago nas Ce- lebes — 73, 110, ixi (3), "2 (3). Banhas (Pantalião das). Por- tuguês nas Molucas — 264, 475- Baptismos — 9, 11, 12, 17, 18, 22, 30, 31, 32, 33, 47, 48, 50, 71, 95, 96, in (3), 113, 116, 135. Baquão. Vid. Batjan. Barradas. Irmão jesuíta na Europa — 188. Barrameda (S. Lucar de). Porto de Espanha — 407. Barreira (João da). Impres- sor em Lisboa — 194. Barreto (James). Capitão e feitor da carreira das Mo- lucas — 183, 281. Barreto (Gomes). Português nas Molucas — 486. Barreto (João Francisco). Es- critor — 347. Batachina. O mesmo que Ba- tochina ou Halmahera. Batalhas navais — 58, 59, 219, 221, 465, 466. 468. Batjan. Ilha na Insulíndia — 6, 7 (4), 9, 10, 27, 28, 29, 31. 45- 50, 51. 52. 71. 72, 79, 81, 83, 87, 95, 132, J34« 135. 136. 143. 291, 300, 301, 302, 303, 353, 353 (7). 353 (8), 367. 376. 378. 379- 393. 404. 409, 411, 456, 464, 490, 491. Batochina. O mesmo que Hal- mahera — 69, 70, 285, 291, 330, 337. 352. 354- 38o, 397. 449- Baúto. Regedor de Guamoco- nora — 492. Beira (João da). Sacerdote jesuíta nas Molucas — 267, 477- Belang. Reino das Celebes, frente às Molucas — 67, 67 (5), ih (3). 120. Beleato. Lugar na ilha de Bat- jan — 284. Bengay. Vid. Bangai. Benguela — 175, 190, 314, 325- Bergoar, ilha (?) — 394. Bermudes (Diogo). Sacerdote dominicano — 3, 5. INSULÍNDIA, III — 33 5 1 3
Biçoa. Ponta norte da Ilha Halmahera—331, 397, 399. Bilato. Lugar nas Molucas — 285. Bispo Caldeu — 5. Bispo de Malaca — 104, 106, 148. Boa-Esperança (Cabo da) — 2x1, 409, 412. Boaventura (Pêro). Jesuíta castelhano — 125. Boçaide (Quechil). Sobrinho de Quechil Guzarate—466. Borges. Soldado português, morto nas Molucas — 261, 440. Borgia (Francisco de). Jesuí- ta na Europa —124. Bornéu — 178, 185, 394, 408. Botão. Enseada a sudeste das Celebes — 393. Botelho (Francisco Marques). Desembargador — 74, 78. Botelho (Lopo Mendes). Fei- tor — 264, 453. Botelho (Simão). Capitão de Malaca — 2, 13. Boto (Manuel). Morador nas Molucas — 232, 242, 243, 244, 282, 449, 450, 455, 457. 458. 459. 474. 487- Brandão (Aires). Sacerdote jesuíta em Cochim — 63, 63 (2). Brandão (António Pereira). Português nas Molucas, no- meado capitão da fortaleza de Ternate — 43, 398, 498. Brasil — 124, 309, 369, 407, 412. 5 1 4 Brito (António de). Capitão de Ternate — 74, 211, 367, 409, 410, 420, 489, 498, 5»7- Brito (Jorge de). Capitão de Ternate falecido no reino de Atjeh, na Sumatra — 408. Buaia. O mesmo que Quechil Baiona Cirola — 416. Buará (Quechil). Filho de Quechil Baiona Cirola — 489. Bufara (Nau)—227, 227 (5), 444. Bugis. Habitantes das Celebes — 355 (19)- Buleife (Quechil). O mesmo que Quechil Baiona Cirola — 488. Buro. Ilha —19, 326, 394, 411. Bustamante (Fernão de). Cas- telhano nas Molucas — 414. Butam. Ilha das Molucas (?) — 19. Buxo. [Ilha (?)]—216 (18), 434- C Cabale. Vid. Pulo-Cavale. Cabral (Jorge). Governador da índia — 234, 451. Cadaval — 345. Cafre. O mesmo que Papuas — 393- Caioa. O mesmo que Siaw (?) — 490. Calado (Martim). Português nas Molucas — 484.
Caldeira (Jorge). Irmão je- suíta na índia — 144. Çama. Filho do rei de Tidor — 492. Camacho. Castelhano — 417. Çamago. Lugar de Tidor — 296, 415, 415 (149), 417. Çamarao. Principal de Ter- nate — 214, 215, 223, 224, 225, 227, 230, 287, 295, 299, 340, 410, 411, 420, 432. 433. 434- 436, 439. 441, 442 (180, 489. Camarão. Porto de Mindanau — 423- Canária. Baía — 206, 424. Cano (Sebastião Del). Capi- tão castelhano — 408, 409, 411, 412, 413, 413 (114), 414. Cão (Diogo). Português nas Molucas — 406, 407. Capitães das Molucas — 498, 499. Çaquita. Lugar no Morotai — 495- Çaragoça — 499. Çarangua. Vid. Çarangue. Çarangue ou Sarangue (Pate). Principal de Ternate—2x4, 225, 230, 420, 433, 437, 489, 490. Carlos V (Imperador) —347, 407, 500. Carquiçano (Martin Inheges de). Castelhano nas Molu- cas — 414, 416. Carreira das Molucas — 165, 166, 167, 168, 182, 183, 185, 499. Carvalho (Fernão). Portu- guês nas Molucas — 219. Carvalho (Francisco). Portu- guês nas Molucas — 484. Carvalho (João Lopes). Pilo- to-mor — 408, 410. Carvalho (Rafael). Português na índia — 486. Casamentos — 10, 31, 32, 80, 135. 497- Casamentos inter-raciais—32. Casos prodigiosos — 54, 92, 93- 94- 95- 338, 339- 404. 405- Castela — 204, 212, 270, 407, 408, 412, 413, 416, 417, 420, 497, 499, 500. Castelhanos nas Molucas — 198, 199, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 210, 211, 212, 213, 214, 215, 216, 217, 218, 218, 219, 220, 221, 222, 223, 237, 408, 409, 411, 412, 413, 414, 415, 416, 418, 421, 422, 423, 424, 431, 432, 436, 437, 452. Castro (Afonso de). Sacerdote jesuíta, mártir nas Molu- cas—112 (3), 296. Castro (D. João de). Vice-Rei da índia — 222, 227, 233, 443, 444, 451. Castro (Fernão de). Capitão das Molucas, falecido em Malaca —197, 204, 205, 421, 425, 425 (166). Castro (Gil de). Capitão no- meado das Molucas — 204, 205, 425, 425 (166), 426. 5 1 5
Castro (Jorge de). Capi- tão de Ternate — 196, 197, 198, 199, 200, 201, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 214, 215, 222, 238, 249, 304, 340, 399, 420, 420 (156), 422, 423, 424, 424 (165), 426, 429, 429 (170), 430, 431, 433, 434. 443. 454- 491. 498. 507- Catequese — 7, 10, 14, 15, 17. 35- 71. 104, 133, 400. Catifa. Capitania de Ormuz — 484. Caul — 196. Cauripa. Praia nas Celebes — 68, 69, 120. Cebu. Vid. Zebu. Ceilão — 181. Celebes — 19, 64, 65, 66, 67, 67 (3), 68, 69, 69 (8), 70, 71, 72, 80, 81 (3), 109, no, no (3), in (3), 118, 119, 142 (2), 272, 328, 348. 353 . 391 (!")' 392. 393. 393 ("7). 394. 396 (119), 480, 506. Ceram—(5), 19 (15), 56. 72, 81, 82, 83, 88, 88 (6), 95, 97 (12), 327, 328. Cerco de Jeilolo — 241, 242, 243, 244, 245, 246, 247, 248, 249, 250, 251, 252, 253, 254, 255, 256, 259, 260, 261, 262, 263, 264, 265, 266, 267, 268, 269, 270, 436, 437, 438, 439- 440, 441, 448, 449, 454, 455. 456. 457. 458, 459- 460, 461, 462, 469, 470, 471, 491. Ceron (Alvaro de Saavedra). Espanhol nas Molucas — 416. Cirola (Quechil Baiona). Rei de Ternate—406, 410, 488. Chao. Ilha perto do Moro, nas Molucas — 331, 339, 405. Chaves. Cidade — 438. Chiaoa. Ilha ou lugar perto de Moro, nas Molucas — 338, 403, 404. 415. Chicomaraça. Enseada na ilha de Buro — 397. Chilão. Vid. Kilang. China — 57, 61, 62, 90, 144, 145, 150, 178, 190, 360, 497- Chire (Quechil). Primo de D. Manuel — 224, 441. Chorão (Ilha) — 171. Cochi. Indígena das Molucas — 363- Cochitn — 5, 62, 103, 104, 144, 145, 150, 151, 153, 154, 169, 181, 189, 499. Coconora. Lugar de Ternate — 489. Coelho (Rui Dias). Capitão- -mor do mar nas Molucas — 231, 232, 449, 450. Colão e Coulão. Galeão — 217, 235, 451. Colégio de Goa — 15, 62. Colégio de St." Antão de Lis- boa — 6. Comorim. Cabo — 108. Companhia de Jesus—12, 19, 28, 30, 32, 38, 41, 42, 45, 46, 51, 52, 62, 64, 79, 84, 106, 108, 110 (3), III (3), 119, 121, 123, 124, 132, 5 1 6
144- 145- 150, 267, 296, 298, 337. 4«o, 435 - 44«, 477. 492. Comunhões — 133. Conceição (Nossa Senhora da). Igreja em Batjan — " (9). 32, 50, 83. Confissão — 7, 8, 9, 11, 12. 28, 29, 31, 72, 89, 133. Confissão por intérprete 11, 49. Constantino de Bragança (D.) Governador da índia—105, 106, 194, 346, 348, 349. Conversões — 7, 8, 18, 29, 33. 37- 47» 50, 55. 65, 67, 68, 70, 72, 82, 90, 95, 96, 97, 106, in, 120, 121, 133, 141, 175. Cope. Lugar de Morotai — 414. Corais. Ilha — 421. Cordeiro (Bernardo). Portu- guês renegado nas Molucas — 416. Córdova — 141. Correia (António). Jesuíta na Europa — 188. Correia (Belchior Fernandes). Português nas Molucas — 199, 205, 423, 424. Correia (Martim). Português nas Molucas — 411, 416. Corso (Antão). Piloto geno- vês nas Molucas — 200, 270, 424. Cortes (Fernão). Castelhano — 416, 417, 418. Corunha — 411. Costa (Álvaro da). Português nas Molucas 407. Costa (Baltasar da). Escrivão — 180. Costa (Baltasar da). Sacer- dote jesuíta no Japão—62. Costa (Cristóvão da). Sacer- dote jesuíta em Malaca — 105, 107. Costa da Pescaria — 131 (1). Coulão. Vid. Colão. Coulão. Porto de Malabar. 144. 217, 235. Coutinho (António de Azeve- do). Embaixador de D. João III — 500. Coutinho (D. João). Capitão da carreira das Molucas — 235. 239, 246, 276, 281, 451. 452, 455- 460, 461, 480, 486. Coutinho (Francisco de Aze- vedo). Capitão da nau da carreira das Molucas—433, 433. 487- Couto (Diogo do). Cronista — 396 (120). Covos (Francisco dos). Secre- tário do Imperador Carlos V — 500. Cravo — 23, 137, 182, 283, 295. 300, 303, 304, 352, ,354- 355- 378, 379- 38o. Criado (João). Capitão da nau «Santo Espírito»—217. Cruz (António da). Domini- cano no Oriente — 175. Cruz (Pêro da). Irmão jesuíta em Malaca — 107. Çugala e Çuguala. Lugar cris- tão renegado no Moro — 205, 429, 492. 5 17
Cunha (Clemente da). Conta- dor da Matrícula — 168. Cunha (Nuno da). Governa- dor da Índia — 419, 493. Cunha (Pêro da). Português nas Molucas — 400. Cunha (Rodrigo da). Ca- pitão castelhano duma nau —411, 412, 413. Curiadeva — 411. D Daialo. Rei das Molucas — 4x9, 420, 489, 490. Dalgado (Rodolfo). Escritor — 356, 359 (5). 36o (37), 367 (57)» 376 (76), 391 (93)- Daroez (Quechil). Regedor e Rei de Tidor — 288, 295, 299, 410, 411, 415, 416, 418, 419. David. Rei — 173. Dayaoão. Rei indígena — 23. Dias (Baltasar). Sacerdote je- suíta em Malaca — 62, 63 (2), 103, 104 (5), 107. Dias (Vicente). Irmão jesuíta nas Molucas — 70, 72. Dio (Cerco de) — 271. Dislares (Martim). Castelhano nas Molucas — 270. Divar. Ilha — 171 (3). Djilolo (o mesmo que Geilolo) — 354 (12). Doe e Does. Ilhéu na ponta norte de Halmahera — 330, 331. 397- 4I5- Doeses (Francisco). Capitão espanhol dum galeão—411. Domingues (Gines). Castelha- no — 417. Dominicanos — 3, 105, 175. Doturo (Motei). Principal de Ternate — 76. Duquo. Nome indígena da ilha Tidor — 354. E Eça (Duarte de). Capitão de Ternate — 3, 4, 43, 179, 296, 298, 303, 399, 479, 494, 498. Eça (Jorge de). Capitão de armada nas Molucas — 43, 233. 322, 325. 367. 395- 447- 495- Eça (Tristão de). Vid. Cristó- vão de Sá — 367. Enfermidades — xo, 31, 48, 51, 52, 84, 133, 173, 185, 204, 260, 360, 479. Escravos — 255, 256, 257, 258. Espanha — 124, 125. Europa — 112 (3), 119, 125. Fl Fabre (P.). Autor do dicioná- rio Malais-Français e Fran- çais-Malais — 375 (75). Faria (Manuel Severim de)— 345- Fauna das Molucas — 307, 308, 309, 310, 325, 326, 327. 356. 369. 370. 371. 372. 392. 396, 30 (119. 397- 518
402, 403» 426' 429 (170), 431, 449, 455, 495. Tolomata. Lugar de Amboino — 95- Torre (Fernando dela). Capi- tão Geral dos Castelhanos nas Molucas — 270, 416, 418, 419. Torres (Cosme de). Sacerdote jesuíta no Japão—170, 187. Torres (Miguel de). Jesuíta na Europa — 124. Totolem. Vid. Motoling. Tonda (Vicente). Sacerdote jesuíta na índia — 170. U Ulate. Vid. Oulate. Usos e Costumes — 285, 286, 287, 288, 289, 290, 292, 293» 294, 3x1, 312, 313, 314, 326, 327, 330, 331, 333» 334» 352, 356, 357» 358, 359» 36o. 361, 362, 363. 364. 365. 366, 367, 393» 394» 397» 398. 400- V Vaidua (Quechil). Irmão do rei de Ternate — 406. Valejo (Bastião). Castelhano nas Molucas — 493. Valeriano — 126. Valos (Gonçalo de). Espanhol capitão de nau — 235, 451. Varela (André). Cristão de Amboino e intérprete do Padre Francisco Roiz—93. Vasconcelos (Luís de). Je- suíta na Europa — 187. Vasconcelos (Manuel de). Ca- pitão nas Molucas — 495, 498. Vasconcelos (Sancho de). Ca- pitão em Amboino — 111 (3)- Vaz (António). Escrivão dos contos —165. Vaz (Gomes). Jesuíta na ín- dia — 169, 172, 185, 187, 188. Vaz (Jorge). Capitão de nau — 279. Vaz (Rui). Vigário de Ter- nate — 433. Vaz (Simão). Vigário nas Mo- lucas — 399. Vedas. Povos das Molucas — 385- Veiga (João da). Irmão je- suíta nas Molucas — 143, 172, 176, 178, 185, 186. Velarejo (Alexandre). Jesuíta italiano — 125. Velas. Ilhas — 500. Veloso (Baltasar). Morador nas Molucas — 242, 243, 244, 248, 262, 273, 274, 276, 277, 279, 281, 299, 322, 367, 455, 457, 458, 483 (205), 484, 485, 487, 491, 498. Veloso (Manuel). Sobrinho de Baltasar Veloso—277, 482. Vera (Dioguo da). Capitão espanhol de uma nau—411. Vieira (Francisco). Vid. Roiz (Francisco). 5 3 3
Vila-Lobos (Rui Lopes de). Capitão Geral de Armada nas Molucas — 195, 196, 197, 198, 205, 206, 209, 273. 346. 348 > 405. 421. 423, 424, 426, 429, 431, 432. 435. 436. 442. 443- 5»7- Viseu — Cidade de Portugal — 268, 478. Visitas aos cristãos — 9, 10, 12, 14, 16, 17, 18, 19, 20, 24, 29, 3, 031, 33, 35, 36, 46, 48, 50, 53, 66, 69, 119, 120, 151. Vitória. Nau castelhana da armada de Fernão de Ma- galhães — 409. Vulcões — 305, 324, 328, 336, 459, 461, 480, 482, 483, 337. 38o, 386, 387. 388. 4°3- W Wilkinson (R. J.). Autor do <(Malay-English Dictionary» — 381 (93). 382 (95). X» Xapuas. Vid. Papuas. Xavier (S. Francisco) — 54, 61, 211, 233, 315. 4°°. 446. 496. Y Yaoa. Vid. Java. Yres. Vid. Hires. Yto. Vid. Hito. Zebu. Povoação na ilha de Limassava, onde morreu Fernão de Magalhães — 393. 393 (15). 408. 5 34 *
GLOSSÁRIO
GLOSSÁRIO Para melhor compreensão de certas passagens dos documen- tos, e com o fim, já por nós indicado, de reunir elementos utilizáveis em quaisquer estudos linguísticos, relacionados com a presença dos portugueses no Oriente, continuamos, neste, o resumido glossário dos volumes anteriores. Consta ele de alguns termos coligidos e anotados anterior- mente nos dois primeiros volumes; e de muitos outros que aparecem agora pela primeira vez: designações indígenas, ver- náculas ou aportuguesadas, dispersas pela obra de Gabriel Rebelo, principalmente. Sobre os vocábulos já registados, remetemos o leitor para o que a seu respeito então escrevemos; quanto aos outros, abonamo-los com a transcrição textual da passagem que os des- creve ou explica, indicando, entre parênteses, as páginas onde se encontram. Ao grafá-los, respeitámos o texto, com o significado que este nos dá ou nos sugere. É sabido como ainda hoje são arbi- trários os sistemas de transcrição, adoptados aos falares indíge- nas, sem escrita própria; por isso, não constitui surpresa a defeituosa grafia de nomes locais, usada nos documentos anti- gos, e que, por vezes, torna impossível a sua identificação, sobretudo tratando-se de formas pertencentes a dialectos correntes em zonas restritas de ilhas afastadas, e sem fontes de consulta. 5 37
Voltamos a repetir que, neste particular, um ou outro comentário, esta ou aquela sugestão nossa, longe de preten- derem ser afirmações eruditas de investigação profunda, visam apenas tentar um possível esclarecimento. Aos trabalhos de que nos temos servido, para arriscarmos algumas notas de carácter linguístico, destinadas a esclarecer melhor o sentido na leitura dos documentos, devemos acrescen- tar, com especial referência, a obra do Rv. P." P. Fabre: Dictionnaire Malais-Fratiçais e Dictionnaire Frattçais-Malais. Alanha — O mesmo que coco: E dado que o dito não abaslase, seria a dita aguoa geral em algumas outras castas de canas, por aver muitas e muito mais porosas, pois todas nacem com as mesmas folhas na propria terra, nas quaes se não acha goteira, por onde está claro ser naturalmente nacida naquella só sorte; como he a da alanha ou coco. (309, 3". 389)- Alfuros ou Alifuros — Designação local, nas Molucas, dos indí- genas que vivem nas montanhas: As principais povoações, a que chamão Guanos, são ao longo do mar, e os do sertão são seus lavradores, a quem chamão Allifuros. (363). Vid. Insulíndia, Vol. 2°. Api — Vocábulo dos vários idiomas malaios com a significação comum de fogo. [354 (17)]. Araca e aracua — Vid. Urraca. Areca e Arequa — Fruto da Arequeira ou Betele. (390). Atabaque e Tabaques — Tamboril oriental: Tangem os ata- baques e huns sinos pequenos de cobre; e a certos passos batem juntamente com os pés no chão, ao som de hum atabaquinho que huma tange no meio... (293, 320, 356, 357. 384)- 5 38
Baao — Certa massa comestível: nas ilhas do Moro, em certas duas marés do anno, qualha-se o mar duma couza como minhocas, e, sem ter proporção alguma, bolem como vivas; e os naturaes, que são como outros peixes, por ser gente muito bestial, e não ter nenhuma maneira de escriptura, fazem-se prestes, como que adivinhão, e enchem muitas vezes seus paros daquela çujidade, da qual fazem certo betume, de que comem todo o anno, e chamão-lhe baao. (327). Babi-Ruça — Porco selvagem existente nas Celebes. O nome é formado de duas palavras malaias: Babi, porco, e Rusa, veado. [396 (100)]. Baileo — Espécie de alpendre armado nas cora-coras ou em qualquer outro lugar. (286, 289, 319, 320, 321, 322, 327, 357. 365. 384. 395)- Vid. Insulíndia, Vol. 2.0. Baju — Peça de vestuário malaio, espécie de blusa: e trazido bajus de seda rica, com botões de ouro, e pedraria pela dianteira e mangas... (68, 352). Balo-balo — Expressão que parece significar à tarde. (437). Bandar a ou antes Bendara — Oficial superior do Estado: Os dias passados, se fez aqui hum christão, que he a justiça- -moor dos gentios, que se chama bandara. (105). Bangus — Elevação, morro; do malaio bangum (?): o qual linha por tranqueira huns bangus, fendidos pollo meio, e isto para alguma maneira de estorvo, por a causa andar tam travada, que ninguém ousava a sair fora dos lugares. No texto, em vez de bangus, talvez se deva ler antes bambus. (86). Baru-Baru — Hibisticus tiliaceus, segundo Wilkinson: certo miolo de arvore, chamado baru-baru, que hé como algo- dão, e mais espesso; o qual he pardo... [318, 382', 382 (95)]. Barut — Termo do idioma malaio; peça de vestuário. [367 (58)]. • 5 39
Barute — Camisões acolchoados de algodão. Do malaio Barut (367). Bassaruco e Bazaruco — Antiga moeda da índia portuguesa, feita de vários metais e de valor variável. Atribuem-se-lhe diferentes origens etimológicas. O mesmo que Bazaruco. Fez tomar a moeda de bassarucos, que no principio foi ma de receber... (297). Bazar — Mercado ou feira, no sentido geral. Neste mesmo sen- tido foi adoptada pelos dialectos timorenses, transformada, porém, em Baçar, com acento tónico na penúltima sílaba. Berindão — Árvore da índia a que se pode comparar a do cravo. (179). Beru — Nome de uma certa árvore na India, e a que nas Molucas chamavam Baru-Baru (q.v.): antre humas e ou- tras poem, pera vedar a agua, hum algodão tirado dos ramos de humas arvores a que chamão Baru-Baru, e na índia, aonde as ha, Beru. (382). Betelle — Planta cujas folhas servem de envólucro a certa mis- tura que os indígenas de certas regiões mastigam: Ha muito betelle, como o da India, e outro de espiga, como pimenta longa, que cheira muito melhor e deve ser muito medicinal. (3I5> 358). Vid. Insulindia, 2.0 Vol. Bua — Palavra malaia que significa flor, ou melhor fruto (379). Buah — O mesmo que Bua; fruto, em malaio. [379 (86)]. Bua-Lavoa — Nome que os indígenas das Molucas davam ao cravo: Enxugão-no ao sol e ao fumo, aonde se faz mais escuro, e quebra muito; chamão-lhe os da terra bua-lavoa, e bua quer dizer flor, e lavoa deve ser o nome da arvore. (379). Buto — O mesmo que mercado ou praça num dos dialectos das Molucas: Vendem seus mantimentos e cousas em praça a que chamão buto, e o malaio paçara e nós dizemos bazar. (359)- 540 4» *
Cacatua — Ave da ordem das psitáceas; papagaio branco. Termo do malaio kakatwa. [356 (29)]. Cacha — Pano de algodão com que no Oriente fabricavam os sarongs ou tangas. Desta palavra se formou a expressão portuguesa, usada na índia encachado, i. é. vestido com o sarong ou tanga. (367). Caçoais — Espécie de esteiras para coberturas: cubertos de ca- çoais muito alvas, que sam a maneyra de esteyras. (71). Çagueiro — O mesmo que sagueiro, árvore do sagú. (312). Vid. Insulíndia, Vol. 2.0. Calabas —, Termo das Molucas; espécie de arma de arremesso: usão muitos arremessos de ferro, pao e cana, antre os quaes tem farpões com que prendem os homens, como a peixes, alando por elles, e entre os de cana tem huns a que chamão calabas, delgados, e do comprimento de huma braça, em cuja ponta põem hum ferrão de pao tostado, com farpas, e na outra põem huma cana do comprimento quasi de hum covado que trazem na mão, com que despedem a calaba, mui longe e certo. (366, 367). Calaluz — Embarcação pequena: e os daqui para baixo cha- mão coro-coras, que remão de sincoenta ate setenta; e dahi pera baixo, tem outros nomes. A outros, a que chamão calaluzes, que differem somente na feição de popa e proa (381). Calanga — Vid. Galanga. Çamas — No idioma das Molucas, espécie de flutuadores, feitos de bambu, nas coracoras: As canas de fora, que chamão çamas, e nós, cangalhas, vão bojando, ora huma, ora outra, nagoa; e quando vai carregada, ficão-lhe tres ou quatro dedos de bordo, somente, e as canas vão assentadas naeoa. (3*9)- 5 4 1
Camude — O mesmo que leme, em maluquês: ao leme chamão camude, o qual he da feição da queixada dum cavallo, e vai ao longo do navio, duma ilharga da popa; e o que o governa vai em cima dum baleozinho. (321). Çangage — O mesmo que sangage, título honorífico. [255, 256, 263, 265, 266, 267, 271, 291, 294, 298, 341, 383, 383 (99)]. Vid. Insulíndia, Vol. i.°. Caquetas — Certas frutas nas Molucas: fazem azeite de coco, de peixe, e dumas fruitas a que chamão caquetas, que não comem, e nacem em grandes arvores, e he tão bom como o de peixe pera navios. (375). Carrachez — Designação que nas Molucas dão a uma certa festa: E como o rey ou reys vão acabando de comer, sahe-se hum a hum, e vão ao campo fazer o mesmo e o povo lhes da grandes grilos, e emquanto fazem sua obra, a qual se acaba com a noite, começando sempre a bespora. Chamão a esta festa Carrachez, e dizem que tomarão aquella inven ■ ção de geitos duns papagayos brancos, que la há, çagatuas. [93- 356. 356 (28)]. Catão — O mesmo que caranguejo, nas Molucas: A toda a sorte de caranguejo chamão catão. (369). Catapa Nome de certa árvore existente nas Molucas: Vi em huma formosa arvore, que está à porta da nossa fortaleza, chamada Catapa, e na índia, amendoeira, cahir huma folha mais pequena que as outras geraes, cujo pé era ca- beça de bicho. (391). Caxas — Nome genérico duma moeda de pouco valor. No texto parece tratar-se das sapecas chinesas: Não tem moeda, salvo huma a que chamão pipe e o malaio cazre (kache), nós dizemos caxas, que são de metal, fundidas do tamanho de grandes ceitis, com letras de huma banda, e nada da outra; redondas, com hum buraco quadrado no meio, pera as enfiarem em números da quantidade dos nosos; são fun- didas de boa feição; vierão ahi acaso da China, e por se- 5 42 * ►
rem ja muito tempo, são muito gastadas pera Jaoa, e agora correm bazarucos. (359). Champana — O mesmo que sampana,, embarcação chinesa (325, 411, 415, 416). Vid. Insulíndia, Vol. i.°. Chichil — Termo das Molucas, com a significação de Dom (?). (358). Chiripos — O mesmo que tamancos. Termo de Goa: ...descal- ços, e alguns trazem chiripos de pao. (362). Choquei — Frete do cravo, nas Molucas (182, 183). Vid. Insu- líndia, Vol. 2.0. Colano e Guano — Nome dos reis nas Molucas: ...que se cha- mava Collano, o qual nome he proprio de rey e he geral a todos os que o são, por a lingoa da terra. (270, 355, 355 (19). 358). Cora-cora e outras variantes — Barco típico das Molucas e descrito minuciosamente nas páginas deste volume. (7, 29, 38. 39> 59' 65. 66- 67, 70, 199, 200, 206, 219, 227, 228, 232, 236, 239, 251, 252, 253, 254, 272, 274, 276, 281, 295, 296, 298, 317, 319, 321, 322, 325, 332, 380. 381). Çuangue e Suangue — Feiticeiro: Contou-me hum mandarim de Geilolo, que hum rei seu mandara matar cento e trinta pessoas de huma geração, sem ficar casta, por serem çuan- gues, os quaes hão que se fazem inviziveis, e, com isso, quanto mal querem, e, como se fazem christãos, perdem esta virtude. (290, 365). Vid. Insulíndia, Vol. 2.0. Cuçus — Espécie de marsupiais existentes nas Molucas: são de estranha feição, entre ratos e coelhos, e o corpo mui pel- lozo e áspero; tira a crespo e ruivo, e alguns a brancos. Tem grandes e redondos olhos, o rabo comprido, e sem pello; tem muita força; fedem muito a rapazinhos; trazem a barriga por o chão... (309, 372). Çumbaia. Vid. Sumbaia. 5 43
Çuquani — Vid. Çuquão. Çuquão — Uma certa árvore nas Molucas. Do malaio seng- kuang: e pera bem peguar, untão primeiro a taboa, de leite de humas grandes arvores, a que chamão çuquão, que tem as folhas maiores que papel, e fruito quasi semelhante. (382). Çura — Vinho extraído de várias palmeiras, antes de fermentar. O mesmo que tuaca: e assim da nipeira tirão çura, a que chamão tuaqua, e outros nomes, segundo as línguas; parece na cor a çoro. [374, 374 (70)]. Dachem — Espécie de balança com que se pesava o cravo: chamando-lhe dachem, com que se elle muito parecia, que he o pezo com que se la peza o cravo. (219, 220, 437). Vid. Insulíndia, Vol. i.°. Deuuanas — Nome que nas Molucas davam aos jogues: Não costumão mendigar, salvo alguns jogues, a que chamão deuuanas, por os bazares somente. (360). Dewana — Palavra malaia, com a significação de régio, pró- prio dos príncipes. [360 (38)]. Durarios — O mesmo que durázios. (308). Fale — Nome de certa constelação numa das línguas da Nova Guiné: gente doméstica e de vivo engenho, que o tem pera se governar na conta dos meses e annos pellas estreitas, especialmente polia figura das que elles chamão Fale, que hé o mesmo que mam, entre nos, porque alem de represen- tar esta parte do corpo humano, quantas são nella as juntas dos dedos, e as que liam a palma com o braço, tantos são os lumes e estreitas na fermosa constelação, que não da vista de si ao noso hemisfério. [112 (3)]. Fiça e Fiza — Tecidos feitos da casca de certas árvores: Fazem o vestido de certas casquas de vergonteas d'arvores, mo- lhando-as e batendo-as com macetas sobre paos, e assim as estendem quanto querem, ou dão de si, e as fazem delga- das, grossas, e largas, pegando-as humas com as outras; 5 44 ►
e as pintão louç&mente, mas apodrecem com a agua, e chamão-lhe liças. (375, 375 (75), 398). Firmão e Formão — Decreto ou alvará. Palavra formada do persa farman. [76, 76 (1)]. Cf. R. Dalgado, Glossário Luso-Asiático. Frange, Frangi e Franki — Nome por que eram designados os portugueses no Oriente. Sobre a etimologia desta palavra correm várias explicações. Não deixa de ser curiosa a que no texto deste volume nos dá Gabriel Rebelo: E por ser de boa arte, como por a fama que ia tinhão dos portugue- zes, se aiudarão delles em briguas que trazido com os vezi- nhos, em que se ouve Francisco Serrão com tanto animo e prudência, que foi sua fama ao rei de Maluco, chamado Quechili Baiano Cirola, o qual ja tinha noticia dos portu- gueses da índia por chins e malaios, que la hião de Ve- niaga, e particularmente por hum caçiz da terra, que fora a Mequa em romaria e levou algumas faquas delles, a quem por essa causa, chamarão frange, o qual nome dura nellas entre todos, ate oie. [406, 406 (138)]. Galanga — Espécie de gengivre: muitas castas d'areca, pimenta longa, gengivre, lancoaz, a que nossos medicos chamão calanga. (377). Gamute — Espécie de sagueiro e também os filamentos negros, pendentes da base de suas folhas, de que os indígenas fabri- cam cordas, redes, etc. Do malaio gomuti e gemuti: a outra casta se chama nipa ou nipeira, a qual nace em vaso, e çagueiro em terra. E antre suas folhas ou ramos se cria muita estopa preta, a que chamão gamuto, que tem mui secas e rijas arestas, mas limpo e sacudido o grosso, fiqua o bom; e delle fazem todo o necessário de cordas, e algumas redes. (261, 312, 374). Garache — Vid. Carrachez. Girofo — Semente do cravo maduro: produzem muitos e del- gados braçog, naturais do proprio mato, e também 5 45 1NSULÍKDIA, 111 — 35
nace da madre, que cahe gerada de cravo maduro, que fi qua por colher, a que chamamos Girofo. (379). Golang — Vid. Gole. Golek — Vid. Gole. Gole — Nome das espadas, nas Molucas: As suas espadas, a que chamão goles, são de bom ferro; mais curias que as nossas, e de hum só corte, estreitas na empunhadura, e alargão para a ponta. Do malaio, golang e golek (?). [366, 366 (52)]. Gomuti — Vid. Gamute. Grão de Maluco — Espécie de purgueira: maçãns de Malaca, entre as quaes ha humas silvestres, cuja amêndoa faz pur- gar por alto e por baixo e assim os grãos a que chamão de Maluco. [376, 376 (76)]. Guamo — Nome por que nas Molucas designam as principais povoações: As principais povoações a que chamão guamos, são ao longo do mar. (363). Guno — Vocábulo dos idiomas malaios, com a significação comum de montanha. (354 (17), 387, 388). Hucum— Vocábulo malaio com a significação de ordem, lei, etc. [363 (45)]. Ir.agos e Inajos — Certas vigas na construção das coracoras: O casco feito, poem-lhe certas vigas, segundo o tamanho do navio, muito bem lavradas, grossas no meio, e agudas para as pontas, as quaes chamão inajos, e botão por fora, de cada banda, huma braça e meia, segundo o tamanho do navio. [319, 320, 383 (100)]. Jabaros, Javaros e Tavaros — Indígenas montanheses nas ilhas Molucas: ...e juntamente que tinha muita gente, artelharia e munições, e duzentos jabaros, que he huma gente, que anda de noite, por o matto, e de dia, as escondidas, quinze 5 46
dias, por matarem negro e metem na cabeça que se fazem inviziveis. [241, 456, 456 (188)]. Jirobassa — O mesmo que durubaça ou jurubaça, intérprete. [93. 94. 94 (8)]. Vid. Insulíndia, Vols. i.° e 2.0. Joanga — Navio grande: Em geral chamão a todas Otes, como nos navios; e, em particular, às grandes, joangas. (381). Vid. Insulíndia, Vol. i.°. Junco — Nome de certa embarcação no Oriente: E assi, forão ao luguar de Roçanive, que he todo de christãos, mais de quatro mil, dizendo-lhes que elles esperavão pellos mouros de Jaoa, que avião de vir em muitos iumcos, que são as naos daquella terra. (40). Vid. Insulíndia, Vols. i.° e 2.0. Kache — Termo do idioma malaio para designar uma moeda de ínfimo valor. O mesmo que caxa, q. v. (359). Kakatwa — Designação em malaio de certa espécie de papa- gaio. [293 (54)]. Vid. Cacatua. Kechil — Título honorífico das pessoas reais nas Molucas. [358 (30)]. Kelana — Título honorífico dos reis das Celebes. [355 (19)]. Vid. Colano. Kelang — Designação em malaio de certo engenho para o fabrico do açúcar. Desta palavra se terá formado o vocábulo quilão, q. v. [375 (71)]. Kelebel — Vocábulo malaio que significa dobra e de que se teria formado, talvez, a designação Calaba (q. v.). [366 (55)]- Kelulus — Nome em malaio de certos barcos antigos e de que poderá ser uma variante a designação Calaluz (q. v.). [381 (93)]- Kerachak — Ondulação, em malaio. Termo que poderia ter dado origem à designação carrache ou garache (q. v.). [356 (28)]. 5 4 7
Ketam— Caranguejo, em malaio. [369 (63)]. Kolek — Termo malaio; espécie de canoa [381 (91)]. Kuali — Panela, em malaio. Termo que parece entrar no nome da ilha Paulo-Cavali (q. v. Índice Geográfico). [355 (18)]. Kulur ou Kulu — Designação que se dá na Insulíndia à árvore, cujos frutos são conhecidos pelo nome de fruta-pão [136 (!)]• Lançã, Lançoã e Lançoaz — Do malaio lengkuas, espécie de gengibre: Fazem também vinho de canas de çucare, que la ha muitas e boas...; e botão-no em jarras com certa quan- tidade de lançoas, que he como gengibre. (303, 314, 316, 375. 378). Lanha — Vid. Alanha. Larangkan — Proibir, em malaio. [364 (46)]. Lascare — Vocábulo oriental com o sentido de marinheiro in- dígena. (355). Lavo a — Nome indígena da planta do cravo, nas Molucas: ...e lavoa deve ser o nome da arvore. (379). Leal — Moeda mandada cunhar por Afonso de Albuquerque, equivalente aos bazarucos (q. v.). [360 (37)]. Lengkuas — Nome de certa árvore em malaio; espécie de gen- Sibre. [375 (72)]. Maçoi — Canela brava, em Amboino: Em Amboino ha muitos christãos do nosso tempo, e muito maçoi, que parece ca- nella brava. (395). Marietta — Certa madeira, nos dialectos das Molucas: a madeira chamão marietta, da cor e veas do castanho. (318). Meãos — Carpinteiros especializados na construção das embar- cações: Aos carpinteiros destas obras chamão meãos, os 5 4-8
quaes me parece tomarão o nome de huma ilha ahi perto chamada, ou ella delles. (381, 387). Meda — Nome dum pequeno marsupial, em Timor. O mesmo que cuço nas Molucas. [372 (68)]. Nachili — Designativo feminino nas Molucas. (358). Names — Certas canas que fazem parte dos flutuadores das coracoras: E estão assentadas as viguas por tal ordem que, atados nas pontas huns páos fortes d'altura pouco mais de hum palmo, dobrados como lingoiça, em que atão certas canas grossas, que vão por a aguoa de huma a outra parte, nas quaes se sustenta o navio, e vai direito sem se poder virar, nem meter mais do necessário. Entre estas e o casco vão, de longuo. atadas outras, a que chamão names, sobre que vai, de cada banda, outra chusma dobrada de dous, e assim, por sua coonta, vão tantos remeiros por fora, como por dentro. Parece também tratar-se duma variante do termo Na- nes (q. v.) que tanto designa os flutuadores, como os remeiros que ali tomavam lugar. Nanes — Certos remeiros das coracoras nas Molucas: Os re- meiros de fora, a que chamão nanes, fazem todo o serviço do navio e da gente. Talvez seja uma forma do malaio nyanyi (q. v.). Parece também designar os flutuadores em que estes remeiros tomavam lugar. (320, 384, 385). Nipah — Palavra malaia; o mesmo que gamute (q. v.). [373 (69)]. Nipeira — Espécie de palmeira, de que se extrai o gamute: e da mesma maneira lhes deu o mantimento, o qual o mato tem cuidado de produzir em duas sortes de arvores, e cazi semelhantes, e humas delias nascem na terra seca e as outras na molhada e apaullada, e chão de vasa, e por isso he mais trabalhozo e menos saborozo; seu mantimento he muito mais geral. Chamão-se, estas arvores, desta sorte, nipeiras; remedão a palmeiras; são muito espinhozas. As outras que nascem no seco se chamão çagueiros, donde tomou o nome no matto o çaguu. (312, 365, 383). 5 49
Nores — Do malaio nuri, papagaio: Destes papagaios, a que chamão nores, ha alguns que ensinados fallão bem, entre os quaes ouvi de hum que, estando são, disse: morro, morro! E morreo. (371). Nuri — Vocábulo malaio; o mesmo que papagaio. [371 (67)]. Nyanyi — Vocábulo do idioma malaio com o significado de cantar, donde se terá formado a designação Nane, que nas Molucas indica certa ordem de remeiros das cor açoras que, para afugentar os maus agoiros, vão cantando certas pala- vras. [384 (102)]. Vid. Nanes. Ola — Folha de palmeira: O geral das casas será Pouco mais que duas braças em comprido, e huma e quasi meia de largo, baixas, à feição de moimentos, e de duas aguas, cubertas d'ola das nipeiras. (365). Ote — Nome genérico dado a qualquer embarcação nas Molu- cas: Em geral chamão a todas otes, como nós navios. (381). Otek — Nome em malaio de certo peixe. [381 (91)]. Paçajanga — Espécie de dossel feito de esteiras, que serve de resguardo contra o sol e a chuva: E sobre estes yvajos vai, por meio do navio, de longo a longo, hum grande balleo de canas, muito lavrado, e de pôpa delle vai outro pequeno, mais alto, em que vay o rey, ou capitão, cuberto, sem nunca se tirar, de humas esteiras feitas muito galantes; de cor da folha darvores, que tolhem a chuiva e sol, e são muito limpas, e parecem bem, a que chamão paçajangas. (320). Paçara — Adaptação no malaio do vocábulo português praça, com o significado de bazar, mercado, etc. (359). Pagar. O mesmo que sebe, paliçada: a frontaria e cruzeyro da igreya he de taboado, e tudo mays de pagares, cubertos com cacoais muyto alvas, que sam a maneyra de esteyras. [71. 7i (9)]- 5 50
Panete — Espécie de tanga: «geralmente pelejão em panetes ou encachados. (367). Pan gay os — Remos curtos de pás mais ou menos redondas: Remão com pangayos curtos, que tem pa redonda, os que vão dentro; e comprida, os que vão fora. (319, 384). Papagaio branco— O mesmo que Cacatua. (356). Papangana — Certa pedra usada pelos indígenas das Molucas nos seus julgamentos, para descobrir o criminoso: E quando algum ha-de purgar sua culpa por juramento, dão-lhe, ao comer, certa quantidade de pedra mole, a que chamão papangana, que costumão a comer; mas se o não engole, è condenado, e se a levão, dão-lhe em certos casos sangue da palma da mão a beber, e fica solto, (364) . Papel — Variedade de manga, na índia. [382, 382 (97)]. Paró e Parao — Barco pequeno (passim). Vid. Insulíndia, Vols. i.° e 2.0. Pássaros de Banda — O mesmo que Pássaros do Sol e Aves do Paraíso. [356, 356 (25)]. Pataga ou Pa tia — Cadeira, em Malaca: E fiz huma cadeira como das que tem, que foy grande espanto para esta gente que não tinha visto em seu modo. E logo lhe puserão este nome, padre pregar de pataga. [104, 104 (5)]. Patahan — Pedaço de madeira, em malaio, de que se teria formado a palavra pataga (q. v.). [104 (5)]. Pilão — Nome que em Malaca davão ao púlpito: Ao puipeto chamão eles pilão. (105). Pipe — Moeda, nas Molucas: Não tem moeda, salvo huma a que chamão pipe. (359). Pipeh — Chapa, em malaio. Termo de que se terá formado o nome da moeda chamada pipe, nas Molucas. [359 (34)]. 5 5 1
Pisak — Termo malaio possivelmente afim da palavra fiça ou fiza, certos tecidos grosseiros. [375 (75)]. Pulo — Ilha, em malaio. (355). Pynate — Homem principal nas Molucas: quando dão algum banquete (os reis) todos lhe acodem com seu quinhão, e tudo se entrega a hum principal, chamado por o officio Pynate, como veador. (292, 302, 355). Quechil — Título honorífico por que se nomeavam as pessoas reais nas Molucas (Passim). Note-se que em malaio Kechil significa pequeno, inferior. Quequi — O mesmo que Quechil. Título honorífico dos reis nas Molucas. (358). Quilão — Vinho feito de canas de açúcar: Também ha muita çura e atraca de palmeira, de maneira que delia ou da tuaca ou do das canas, a que chamão quilão, bebem geral- mente todos, homens, e molheres, e meninos, e apenas ha quem toque a agoa. (314, 375). Rimbaxa — No texto, o mesmo que Sumbaia. Ruça — Veado, em malaio e noutros dialectos afins. Na ilha do Buro dá-se este nome a certos porcos selvagens: Na ilha do Buro, quinze legoas daqui, ha huns porcos silves- tres, a que chamão Ruças, que tem mais comprido pés e focinho, e menor orelha que os nossos, aos quaes nacem as prezas pera cima, ao longo da queixada, e crecem tanto, que dão muitas voltas, à feição de cornadura de carneiro. (396). Sabo, Savo e Sab — Nome da aguardente, obtida da destila- ção da tuaca em Timor. [355 (24)]. Sado — Um dos nomes por que é designado o vinho: Começão geralmente à vespora, e acabão de noite, e o vinho a que chamão tuaqua, e sado, sempre à ilharga, o qual he tirado do olho da çagueira, e da nipeira, e algum das palmeiras; parece todo soro. (355, 355 (24), 356). 5 52 ¥
Sala — Termo comum nos vocabulários malaios com o signifi- cado de erro, falta, engano e pecado entre os cristãos con- vertidos: e toda a cousa errada (chamam) sala. (21 (17), 363)- Sampana — Vid. Champ ana. Sapeca e Cepayca — Nome que no Oriente se dá a uma certa moeda de ínfimo valor, com um furo quadrado no meio. Ignora-se a sua etimologia. [359 (35)]. Sengkuang — Nome de certa árvore, em malaio. O mesmo que çuquão. (q. v.). (382). Solavaco — Espécie de escudo: As rodelas, a que chamão sola- vacos, são de feição de telha, e chegão do chão à boca; e de hum palmo e meio de largura, até dous, e delgadas e fortificadas com alguma rota bem lavrada, e huma asa, ou castanha que lhe fica do mesmo pao, com hum buraco por que met tem os dous, tres dedos, e os mais andão por cima. (366). Sumbaia, çumbaia e zumbaia — Saudação reverenciai. (100, 265, 294, 355, 356, 358, 441, 495). Vid. Insulíndia, Vol. 2.0. Tabaque. — Vid. Atabaques. Tabeia — Saudação no dialecto das Molucas: São cortezes, e saudão-se com dizer tabeia, que significa: perdoai ou estou prestes para vos servir. (359, 374). Tabek — Saudação em malaio; com esta palavra deve rela- cionar-se o termo tabeia. (q. v.). [359 (2)]. Tavaros — Vid. Javaros. Tuaca — Vinho indígena, extraído de certa palmeira: destas árvores uzão como da palmeira, a qual chamão tuaca, e este nome souberão muitos capitães, porque a tem por fria e que refresca muito, e dizem que he boa para tizicos, asmáticos. (312, 314, 355, 355 (24), 360). Vid. Insulíndia, Vol. 2.°. 5 5 3
Ucom— Designação nas Molucas do regedor: Tem cada hum seu regedor das causas, ou huma pessoa principal, a que chamão Ucom, e cada reino tem hum regedor, e hum Ucom geral. Termo talvez afim do malaio hucum, governo, lei, etc. (363). Urraca, Araca e Aracua — Vinho de palma. [314, 375, 375 (73)]. Vid. Insulíndia, Vol. 2.0. Vascola ou Vancole — Nome de certo pássaro, nas Molucas: Ha outros a que chamão Vascolas, de tamanho e feição de russinoes, e a cor he de pega, o peito branco, e o mais preto. [309, 370, 370 (65)]. Yvajos. Vid. Inajos. Zabatana ou zarabatana — Arma indígena de arremesso: Das canas fazem o fogo, fregando huma em outra, e lhe servem de muitas couzas, assy para a vida pacifica, como para a militar, e de fazerem com ellas muita maneira de remeços e zabatanas. (324, 368). Vid. Insulíndia, Vol. 2.0. Zumbaia — Vid. Sumbaia.
Este livro, realizado pela casa 'Paulino Ferreira, Filhos, Lda. R. Nova da Trindade, 18-B —Lisboa, foi impresso em Dezembro de 1955.