• DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ARTUR BASÍLIO DE SÁ INSULÍNDIA 2.0 VOL. (1550-1562) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR LISBOA / MCMLV
  • DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE
  • REPÚBLICA PORTUGUESA MINISTÉRIO DO ULTRAMAR DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENT COLIGIDA E ANOTADA POR ARTUR BASILIO DE SÁ INSULÍNDIA 2.® VOL. (1550-1562) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR DIVISÃO DE PUBLICAÇÕES E BIBLIOTECA LISBOA I M C M L V
  • r Esta publicação foi autorizada por despacho de S. Ex.a o Ministro do Ultramar de 2 de Janeiro de 1954.
  • INTRODUÇÃO
  • i. Breves Considerações AO iniciarmos esta colecção documental, numa hora carregada de graves e temíveis apreensões, bem poderíamos recear, ou a indiferença por uma obra que se propõe reconstituir factos passados em épocas remotas e lugares desconhecidos, ou o desinteresse pelas páginas que desses tempos nos ficaram escritas. Não obstante, entre o que de mais louvável se enca- receu a respeito desta publicação, ao aparecer o primeiro volume, parece ter sido, precisamente, o mérito da sua oportunidade. E concordemos que muito importa frisar esta nota. Portugal já esteve nos postos de comando da história humana. Hoje, outras nações ocupam o seu lugar. São agora diferentes as rotas, desvairadas as descobertas, incer- tos os destinos. E não sendo já a vontade dos homens a dirigir o curso dos acontecimentos, preocupam-nos, acima de tudo, as surpresas do Porvir. Numa conjuntura assim, dominada pelo signo de abruptas novidades, chega a compreender-se o desdém por tudo o que pertenceu a outras eras, exagerando-lhe as faltas e os erros, citando com azedume nações com res- ponsabilidades no Passado. i x
  • Nesta conta entrou Portugal, atingido por detracções suspeitas nos fundamentos da sua grandeza ultramarina, quando viu apoucarem-lhe o valor da sua missão evan- gelizadora. Ao esforço missionário português como que se instaurou uma espécie de sindicância, falha, porém, de testemunhos e de provas. Nada, portanto, mais legítimo, honesto e oportuno, do que trazer a público todo o ma- terial de acusação e defesa, útil a todos os interessados neste pleito, depredadores ou não, das Missões do Pa- droado Português. Fiéis a este objectivo, sem qualquer preocupação apo- logista, e sem que restrições ou interferências esconsas nos tenham sido impostas, prosseguiremos esta publicação, apresentando agora o segundo volume. Assentámos, logo de início, neste propósito: os do- cumentos ultrapassados, e que na sua devida altura não pudemos encontrar ou adquirir, seriam publicados no pri- meiro volume a sair, logo que nos fosse dado possuí-los. Dentro deste critério a ordem cronológica, que pro- curamos respdtar, o mais possível, teria de ser constante- mente interrompida, porque, além de muitos documentos escaparem à nossa pesquisa, apesar de aturadas diligên- cias, outros há que omitimos, considerando-os, primeiro, sem interesse para o estudo da acção missionária, mas X
  • cuja utilidade acabámos, depois, por reconhecer, em pre- sença de posterior documentação. Escapou-nos, por exemplo, o termo de doação dos direitos sobre a ilha de Amboino a Jordão de Freitas, pas- sado por ordem de D. João III, mas excluímos, delibe- radamente, a documentação respeitante à presença dos primeiros mercadores portugueses em Sunda, que não deve ficar esquecida, conforme verificámos depois. Em tais casos, a publicação dispersa destes documen- tos no decurso da obra, além da constante quebra da ordem cronológica, daria aso também a certa confusão e dificuldade na consulta, enquanto não fosse publicado o seu índice geral. Resolvemos, por isso, e de acordo com o parecer amigo de alguns leitores interessados nesta publicação, apresen- tar, só mais tarde, em volume à parte, os documentos que, pelos motivos expostos, tenham ficado por coligir e que também devam ser incluídos no âmbito desta série do- cumental. Ao anotarmos também neste volume, cm breve glos- sário final, alguns termos indígenas na sua forma ver- nácula, ou aportuguesados, temos em mente, sobretudo, coligir elementos que possam servir de subsídio, em traba- lhos especializados e de maior folgo, para o estudo do pro- x I
  • ccdimento dos portugueses com as populações da Insulín- dia, tio campo linguístico. Também neste particular se há-de reconhecer, certamente, um papel de relevo exercido pela acção missionária. 2. Características deste segundo volume Os setenta e três documentos deste segundo volume, co- ligidos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) e na Biblioteca da Ajuda de Lisboa (BAL), abrangem o período que vai de 1550 a 1562. Os códices 4Ç-IV-4.Q, 4Ç-IV-50 e 4Q-IV-51, da colecção geralmente designada Jesuítas na Ásia, existente na BAL, constituem a principal fonte de que extraímos a maior parte deles. Embora esta colecção tenha sido já muitas vezes des- crita, julgamos útil, apesar de tudo, fazer-lhe algumas referências, tendo em vista aqueles nossos leitores que, por circunstâncias várias, se encontrem menos familiari- zados com estes assuntos de arquivologia. Consta a preciosa colecção de muitos volumes, con- tendo cópias de cartas, trabalhos históricos, monografias, informações, notícias, papéis diversos sobre múltiplos X 11
  • assuntos, nomeadamente sobre as Missões da índia, Mo- lucas, China e Japão. Os dois grossos volumes, em cadernos soltos, com a cota 49-IV-49 e 49-IV-50, são os mais importantes desta colecção, pelo seu conteúdo, formado de cópias tiradas da correspondência enviada pelos padres jesuítas das Missões do Oriente, e pertencentes, outrora, à casa de S. Roque dos padres da Companhia, em Lisboa. Constantemente consultados, deles se têm extraído cópias e realizado microfilmagens por estudiosos nacionais ou em nome de entidades estrangeiras; porque, embora não se trate de cartas originais, mas sim de cópias, mais ou menos fiéis, o seu valor é inegável, como fontes histó- ricas de informação. A restringir-lhes este valor, anotam-se, com funda- mento, os erros e faltas dos copistas, principalmente em nomes próprios; a substituição ou rasuras em nomes de religiosos demitidos da Companhia e em termos menos convenientes ou de sentido equívoco; e, finalmente, o fim edificante a que se destinavam, o que obrigava a omissões de factos desagradáveis, mas importantes, por vezes, para a compreensão exacta de um período, de uma situação, etc. Mais duas colecções se conhecem, ainda, em Portugal, contendo, pouco mais ou menos, a mesma correspondência, XIII
  • e que pertenceram, uma, ao colégio de Évora, e outra, ao de Coimbra. Os três volumes da colecção eborense encon- tram-se, actualmente, na Biblioteca da Academia das Ciências com o título comum: Jesuítas no Japão. Da colecção conimbricense, o primeiro tomo pertence, hoje, à Biblioteca do Ministério dos Negócios Estrangeiros; o segundo e terceiro, à Biblioteca Nacional de Lisboa; e o quarto, ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Os dois códices existentes na BAL têm sido consi- derados os de maior valor histórico, admitindo-se que muitas das suas cópias tenham sido para ali transcritas directamente dos originais. Deles tomamos a maior parte das cartas publicadas neste segundo volume, servindo-nos também dos outros códices para a necessária comparação dos vários textos, em casos de leitura difícil ou duvidosa, e ainda copiando dos mesmos um ou outro documento omitido nos da BAL. Como síntese do intrépido apostolado de S. Francisco Xavier nas Molucas, publicamos também os trechos que lhe dizem respeito na História do P.' Sebastião Gonçalves, cujos primeiros seis capítulos constituem o códice 4.Ç-IV-51 da mesma colecção da BAL, Jesuítas na Ásia. Certos esboços históricos, certas relações ou resumos organizados a pouca distância dos factos, embora de valor XIV
  • muito relativo, não devem, contudo, omitir-se numa obra destas, desde que não tenham sido ainda divulgados. Damos também neste segundo volume as passagens, referentes às Molucas, de algumas cartas gerais publicadas já em Documenta indica, do Rev. P.' José Wicki S. J., ou na Documentação do Rev. P.' António da Silva Rego. No período a que se refere este volume é já mais abun- dante a documentação exclusivamente missionária. Por ela veremos que não foram tanto as trevas da superstição indí- gena que a intrepidez da fé teve de vencer, mas sim a oposição da seita de Mafoma. Quer dizer: os portugueses, que foram os primeiros europeus a entrar na Insulíndia, já chegaram tarde, para assegurarem uma evangelização fácil, sem obstáculos e sem revezes. 3. Nota de gratidão Pelos documentos até aqui publicados, já se percebe que também nos vários lugares da Insulíndia o zelo da con- versão do gentio inspirou heroísmos de sacrifício e martírio. À grandeza e prestígio do Apostolado Católico interessa, pois, directa e propriamente, o testemunho destes feitos, bem característicos também da sua autenticidade divina. xv
  • Por isso, depois da nossa gratidão pessoal, muito nos apraz renovar as expressões de reconhecimento das Missões para com S. Ex." o Sr. Capitão-de-mar-e-guerra Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar, que, autorizando supe- riormente a publicação desta colecção documental, remo- veu os óbices que forçavam ao esquecimento as primeiras tentativas de conversão à fé, realizadas naquelas ilhas insu- líndicas, e que, sobretudo, exaltam a obra da evangelização. Pertence à Agência Geral do Ultramar a edição desta publicação sob a égide do Ex.m" Sr. Dr. Leonel Pedro Banha da Silva. A S. Ex.', pelo valioso e solícito empe- nho a favor de nossos trabalhos; a todos os dignos fun- cionários daquele organismo, por tantas deferências, de que nos confessamos devedores, deixamos também aqui registados os protestos da nossa gratidão. Guardamos, com proveito, as palavras de estímulo que a propósito do primeiro volume se dignou escrever-nos S. Ex.' Rev.m" D. Jaime Garcia Goulart, querido bispo de Timor e nosso venerando Prelado, e que muito reconhe- cidamente agradecemos. Prouvesse a Deus que pudéssemos realizar plenamente os votos que S. Ex." Rev.'"" formula por esta publicação. Para recolher a documentação de que se compõe este segundo volume, trabalhámos no Arquivo Nacional da XVI
  • Torre do Tombo, na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa e na Bi- blioteca Nacional de Lisboa. Junto dos seus ilustres Directores, entre todo o seu atencioso pessoal, encontrámos sempre a melhor boa von- tade e compreensão para os nossos trabalhos de investi- gação, tantas vezes, impertinentes. A todos renovamos os nossos agradecimentos. Pelas facilidades excepcionais que nos foram conce- didas na consulta e cópia da maior parte dos documentos agora publicados, releve-se-nos uma referência especial de reconhecimento para com a Ex.m" Directora da Biblioteca da Ajuda de Lisboa e seus subordinados; e para com o Ex. Director da Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa e funcionários em serviço na sua sala de leitura. E, finalmente, incluímos nesta nota de gratidão todos aqueles que têm colaborado, com seus pareceres e suges- tões, na valorização desta obra. Lisboa, 30 de Março de IÇ55. Artur de Sá 'WIVLÍKDIA, II — B XVII
  • Correcções: No Índice do primeiro volume, por lapso, incluímos em os nomes de Brito (Jorge de), capitão de Malaca, Brito (Jorge de), moço fidalgo que servia nas Molucas, respectivamente, os nú- meros 159, 162, 172, 179, e 358. 339. que se referem ao des- ditoso Jorge de Brito, morto pelos Achens, quando se dirigia às Molucas, como primeiro capitão da fortaleza que ia fundar. Neste volume deve ler-se: Padre Marcos Prancudo, valenciano: em vez de Padre Mestre Prancudo, Valenciano ... pàg. 482 Padre Sebastião Gonçalves: em vez de Padre Sebastião Alvares pág- 608 (48) A. S. XVIII
  • SIGLAS «
  • SIGLAS ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo. BACIL Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. BAL Biblioteca da Ajuda de Lisboa. BNL Biblioteca Nacional de Lisboa. CC Corpo Cronológico (Colecção do ANTT). CVR Cartas dos Vice-Reis (Colecção também do ANTT). F- G Fundo Geral (Divisão de Manuscritos da BNL). X X I
  • ÍNDICE
  • N.« I • 2 — 3 — 4 — 5 — 6 — 7 — BAL, 49-IV-49: Carta do Padre Francisco Peres a seus confrades. Malaca, 2 de Janeiro de 1550 Documenta Indica, II, 14-20: Trecho de uma car- ta escrita ao Padre Inácio de Loiola pelo Pa- dre Nicouau Lanciloto. Coulão, 27 de Janeiro de 1550 BAL, 49-IV-49: Carta do Padre João da Beira ao Padre Inácio de Loiola. Molucas, 13 de Fe- vereiro de 1550 Documenta Indica, II, 116-119: Carta do Padre Francisco Peres aos confrades da índia. Ma- laca, 26 de Novembro de 1550 BNL, Fundo Geral, Caixa 61., N." 17: Cópia autêntica do Testamento de D. Manuel, rei de Ternate, com outros documentos contemporâ- neos. 1550 Documenta Indica, II, 144-149: Carta do Padre Nicolau Lanciloto ao Padre Inácio de Loiola. Coulão, 6 de Janeiro de 1551 ANTT, Gaveta 18-2-40: Francisco Palha envia cópias de duas cartas de el-rei de Ternate. Molucas, 16 de Março de 1551 P4g. 10 12 17 19 40 42 XXV
  • N.° 8 — BAL, 49-IV-49: Carta do Irmão Nicolau Nunes. Molucas, 10 de Abril de 1551 9 — BAL, 49-IV-49: Carta do Padre Francisco Peres. Malaca, 24 de Novembro de 1551 10 — ANTT, Gaveta 2-6-9: Carta do rei de Ternate em favor de Álvaro Carrilho. Molucas, 10 de Janeiro de 1552 11 — ANTT, CC, I, 71-87: Final de uma carta de D. Afonso de Noronha a el-rei. Cochim, 27 de Janeiro de 1552 12 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 470-475: Tre- cho de uma carta do Padre Mestre Francisco ao Padre Gaspar Barzéu. Estreito de Singa- pura, 21 de Julho de 1552 13 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 475-478: Carta do Padre Mestre Francisco ao Padre João da Beira. Estreito de Singapura, 21 de Julho de 1552 14 — Documenta Indica, II, 578-602: Parte de uma carta escrita ao Padre Inácio de Loiola pelo Padre Barzéu, Vice-Provincial da índia. Goa, 12 de Janeiro de 1553 *5 — BACIL, Cartas do Japão, Vol I: Trecho de uma carta do Padre João da Beira ao Padre Simão. Cochim, 7 de Fevereiro de 1553 *6 — BAL, 49-IV-49: Outra do Padre João da Beira ao mesmo. Molucas, 7 de Fevereiro de 1553 J7 — BAL, 49-IV-49: Carta do Padre Afonso de Cas- tro ao Padre Inácio e Padre Simão. Molucas, 7 de Fevereiro de 1553 Pág. 48 5i 68 73 75 77 79 81 85 92 XXVI
  • N.« P4e' 1 8 ANTT, Gaveta 18-2-22: Carta de Francisco Pa- lha a el-rei. Goa, 26 de Dezembro de 1553 102 19 — Documenta Indica, II, 611: Carta para os cris- tãos das Molucas. 1553 (?) 129 20 — Documenta Indica, II, 619: Religiosos da Com- panhia nas Molucas. 1553 (?) 130 21 — BAL, 49-IV-49: Carta do Irmão Nicolau Nunes ao Padre Francisco Peres. Moro, 8 de Janeiro de 1554 131 22 — BAL, 49-IV-49: Carta do Padre Afonso de Cas- tro para o Reitor do Colégio de Goa. Ternate, 29 de Janeiro de 1554 *33 23 — BAL, 49-IV-49: Carta de Vicente Pereira ao Rei- tor do Colégio de Goa. Amboino, 26 de Feve- reiro de 1554 136 24 — BAL, 49-IV-49: Carta do Irmão António Fer- nandes ao Reitor do Colégio de Goa. Amboino, 28 de Fevereiro de 1554 139 25 — BAL, 49-IV-49: Outra carta de Vicente Pereira ao Padre Reitor do Colégio de Goa. Amboino, 29 de Março de 1554 143 26 — Documenta indica, III, 90-95: Trecho de uma carta do Padre António de Quadros ao Padre Inácio de Loiola. Lisboa, 8 de Junho de 1554 146 27 — Documenta indica, III, 119-128: Trecho de uma carta do Padre Melchior Nunes Barreto ao Padre Inácio de Loiola. Malaca, 3 de De- zembro de 1554 '. 148 28 — BAL, 49-IV-49: Trechos de uma carta do Irmão Aires Brandão aos confrades de Portugal. Goa, 23 de Dezembro de 1554 149 XXVII
  • N° Pig. 29 — ANTT, Tombo da índia, Núcleo Antigo, N.° 296: Apontamentos sobre as Molucas. 1554 151 30 — Documenta Indica, III, 226: Religiosos da Com- panhia nas Molucas. Coulão, 12 de Janeiro de J555 157 31 — BAL, 49-IV-49: Carta de um Irmão da Com- panhia a seus confrades de Goa. Cochim, 1555 158 32 — BAL, 49-IV-50: Carta do Irmão Luís Fróis aos confrades de Goa. Malaca, 1 de Dezembro de 1555 160 33 — BAL, 49-IV-49: Parte de uma carta do Padre António de Quadros para o Padre Mirão. Goa, 6 de Dezembro de 1555 171 34 — BAL, 49-IV-49: Carta do Irmão Luís Fróis aos confrades de Portugal. Malaca, 15 de Dezem- bro de 1555 I74 35 — Documenta Indica, III, 4x2: Religiosos da Com- panhia nas Molucas. Goa, entre 21 e 31 de Dezembro de 1555 ^0 36 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. I: Carta de El-Rei D. João III a D. Pedro de Mascarenhas. Lis- boa, 28 de Março de 1556 181 37 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. I: Notas biográ- ficas do Padre Mestre Francisco, s. d 183 3® — BAL, 49-IV-49: Carta do Padre Baltasar Dias a seus confrades de Portugal. Malaca, 19 de Novembro de 1556 233 39 — BAL, 49-IV-49: Parte de uma carta do Irmão Aires Brandão. Goa, 29 de Novembro de 1556 273 XXVIII
  • N.« Pá^ 40 — ANTT, Gaveta 15-9-28: Parte de uma carta do Governador Francisco Barreto a El-Rei D. João III. Baçaim, 6 de Janeiro de 1557 275 41 _ ANTT, Bulas, Maço 7, N.° 25: Bula de Paulo IV «Pro Excelenti Prominentia». Roma, 4 de Fevereiro do ano da Encarnação do Senhor de 1557 279 4 2 BAL, 49-IV-50: Carta do Irmão Paulo Gomes aos confrades de Goa. Malaca, 11 de Novem- bro de 1557 < 2^5 43 — BAL, 49-IV-49: Parte de uma carta do Irmão Luís Fróis. Goa, 30 de Novembro de 1557 292 44 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. II: Carta do Ir- mão Fernão do Souro ao Padre Francisco Vieira. Tolo, 1 de Janeiro de 1558 294 45 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. II: Outra carta do Irmão Fernão do Souro ao Padre Fran- cisco Vieira. Molucas, 8 de Janeiro de 1558 301 46— BACIL, Cartas do Japão, Vol. II: Carta do Pa- dre Nicolau Nunes ao Padre Francisco Vieira. Tolo, 5 de Fevereiro de 1558 .*..... 3°4 47 — BAL, 49-IV-50: Carta do Padre Francisco Vieira ao Padre Baltasar Dias. Ternate, 13 de Feve- reiro de 1558 307 48 — BAL, 49-IV-50: Trecho de uma carta do Padre António da Costa. Goa, 26 de Dezembro de 1558 309 49—BAL, 49-IV-50: Nota final de uma carta escrita pelo Padre Mestre Belchior aos irmãos da Companhia em Portugal. Cochim, 25 de Ja- neiro de 1559 311 XXIX
  • N-* Pág. 50 — BAL, 49-IV-50: Carta do Padre Francisco Vieira aos padres e irmãos da Companhia em Por- tugal. Ternate, 9 de Março de 1559 313 51 — BAL, 49-IV-50: Trecho de uma carta do Irmão Luís Fróis. Colégio de S. Paulo de Goa, 16 de Novembro de 1559 334 52 — BAL, 49-IV-49: Trecho de outra carta escrita pelo Irmão Luís Fróis. Goa, 24 de Novembro de 1559 336 53 — BAL, 49-IV-50: Carta do Padre Baltasar Dias ao Provincial da Companhia, Doutor Miguel Torres. Malaca, 1 de Dezembro de 1559 341 54 — BNL, Fundo Geral, N.° 4.534: Carta do Padre Baltasar Dias ao Padre Provincial da índia. Malaca, 3 de Dezembro de 1559 344 55 — BAL, 49-IV-50: Parte final de uma carta do Ir- mão Luís Fróis. Goa, 1 de Dezembro de 1560 349 56 — BAL, 49-IV-50: Trecho de outra carta do Irmão Luís Fróis. Goa, 12 de Dezembro de 1560 351 57 — BAL, 49-IV-50: Religiosos da Companhia nas Molucas. Janeiro de 1561 353 58 — BAL, 49-IV-50: Carta do Irmão Fernão do Souro ao Irmão Luís Fróis. Bachão, 5 de Maio de 1561 354 59 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. II: Trecho de uma carta do Padre Cristóvão da Costa a um irmão da Companhia em Portugal. Malaca, 1 de Dezembro de 1561 358 60 — BAL, 49-IV-50: Parte de uma carta do Padre Luís Fróis. Goa, 1 de Dezembro de 1561 360 XXX
  • N.. Pá*" 61 _ BAL, 49-IV-50: Carta do Padre Jerónimo Fer- nandes a seus confrades. Malaca, 2 de De- zembro de 1561 362 62 —BACIL, Cartas do Japão, Vol. II: Trecho de uma carta do Padre Manuel Teixeira. Ba- çaim, 4 de Dezembro de 1561 3^9 6 3 BAL, 49-IV-50: Final de uma carta geral do Pa- dre Luís Fróis. Goa, 4 de Dezembro de 1561 37° 6 4 BAL, 49-IV-50: Trecho de uma carta do Irmão Fernão do Souro, s. 1. / s. d 372 65 —BACIL, Cartas do Japão, Vol. II: Trecho de uma carta do Padre Mestre Prancudo. Ma- laca, 10 de Dezembro de 1561 374 66 — BACIL, Cartas do Japão, Vol. II: Final de uma carta do Padre Luís Fróis. Goa, 15 de De- zembro de 1561 376 67 — ANTT, Gaveta 20-7-51: Exposição a El-Rei do Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha sobre os interesses da cristandade, s. d 379 68 — BAL, 49-IV-50: Carta do Padre Manuel Álvares aos confrades de Coimbra. Malaca, 5 de Ja- neiro de 1562 381 69 — BAL, 49-IV-50: Carta do Irmão Francisco Jorge aos irmãos da Companhia em Portugal. Co- chim, 3 de Fevereiro de 1562 43° 70 — BAL, 49-IV-50: Trecho de uma carta do Padre Baltasar da Costa. Goa, 4 de Dezembro de 1562 433 XXXI
  • N-* Pág. 71 — BAL, 49-IV-50: Carta do Padre Pedro Masca- renhas ao Padre Provincial. Molucas, ano de z56z 435 72 — BAL, 49-IV-50: Religiosos da Companhia nas Molucas. 1562 445 73 — BAL, 49-IV-51: Apostolado de Francisco Xavier nas Molucas 446 Índice Onomástico, Geográfico e Ideográfico 611 Glossário 645 XXXII
  • DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE INSULÍNDIA (1550-1562)
  • 1 CARTA DO PADRE FRANCISCO PERES A SEUS CONFRADES Malaca, 2 de Janeiro de 1550 (1) BAL: 4.Q-IV-4Q. Fls. Í05 r.-ioó v. (2) Por esta carta, sem correcções ou notas à margem, vê-se que Malaca, nesta altura, se constituirá já sede de apoio às cnslandades mais distantes da China, Japão e Molucas. Ali chegavam, pois, quase sempre, as primeiras notícias, por cor- respondência, ou levadas pelos mercadores. a) Conversão em Malaca de um mouro jogue. b) Princípio de um colégio nesta cidade. c) Trabalhos e morte do Padre Nuno Ribeiro, em Amboino. d) Apelo aos religiosos da Europa, para virem trabalhar nas Missões. e) Chegada de um barco a Malaca, vindo do Japão, com notícias do Padre Mestre Francisco. La gracia y amor de Nuestro Sehor sea siempre en nuestra ajuda y favor, Amen. Mientras mas lexos estoy, y apartado de la conver- sasion suave de Vuestras Charidades, padres myos y her- (1) Há, de certo, qualquer confusão na data desta carta, que não pode ser exacta, visto que, adiante, se refere a factos passados em • bril e dia da festa da Ascensão. Em Documenta Indica. II, 103-110, mihca-se a data 24 de Outubro do mesmo ano. (2) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 136 r.-i39 r. 3
  • manos, mas ensiende mi coraçon en vuestro amor, acor- dandome de la charidad com que mi Padre Provincial (3) me reçebio a la Compania, sen yo lo mereçer, y dei amor con que el Padre Miron, Santa Crux y Francisco de Rojas y todos los otros padres myos y hermanos me trataron, me ensenaron, y sufrieron mis imperfeiciones y maldades; Nuestro Senor, por su infinita bondad, se lo pague, Amen. Aca he recebido cartas de algunos de Vuestras Cha- ridades, con las quales me Consuelo, animo y me sostento, scilicet, de Luis Gonçalvez, Dom Rodrigo (4), que esta en el paradiso, y de otros hermanos y padres; por lo qual les pido, por charidade, no dexen de consolar a este pobre, cargado de pecados, de trabajos y deseoso de verse con ellos, aun que la razon no me dita al presente estar alia, nos v.i mas porque, se al presente me // aliara entre ellos, me parece que me sabria aprovechar del tiempo que no me aproveche, por mi culpa, nigligencia y poquedad. El anno passado, de quarenta y nueve, escrevi a Vues- tras Charidades (5), de todas las cosas que aca passavam a cerca dei servido de Nuestro Senor y acrescientamento de nuestra fee catholica, scilicet, como esta ciudad tiene necessidad de quien le parta el pan que bien se cumple aquy aquello: parvuli peú&runt panem et non erat qui fran- geret eis (6). Y esto, asi en confessiones, como en exor- taciones, y en otras cosas semejantes, y porque yo soy solo para estas cosas, tengo mucho trabajo y hazese mu- cho fructo, el nombre de Dios sea loado, en doctrinar los nihos, en exortar a los grandes, y en confessar y mi- nistrar el Sacramento Sanctissimo, en tener algunas pra- ticas con los gentiles y judeos y moros, de los quales (3) Padre Simão Rodrigues. (4) D. Rodrigo de Meneses S. J. (5) Vuestras Charidades foi corrigida para Vuestras Reverencias. (6) Thren. 4, 4. 4
  • vienen muchos en conoscimiento de nuestra sancta fee catholica; entre los quales vino uno, que era entre ellos sacerdote de los ydollos, que aca llaman jogues, hombre viejo de 107 annos, segun el dize, y ansi parece ser. Este se hizo christiano, de buena voluntad, con los hijos y una muger, con mucha fiesta que le hizieron el vicá- rio y el capitan, Don Pedro da Silva, por ser hombre, entre ellos, principal; el qual bivio despues seis meses y murio, criendo en la fee de Nuestro Senor Jesu Christo, aunque fue trabajoso de convertirse, porque uno anno todo anduve en platica con el. En esta ciudad, por ser parte conveniente para daquy se prover a muchas partes, scilicet, Maluco, Moro, An- bueno, Japon, Chyna, se a dado principio a un collegio, para aquy se criar alguna gente para este fin, y para los que passan de la índia para estas dichas partes se puedan recoger, donde aora estamos el Padre Manoel de Morales y Francisco Gonçalez y Juan Bravo y Thome Arnao y Bernardo, todos de salud, Dios sea loado; yo he estado muy doliente, de grandes dolores de stomago, que me ha durado esta dolência dos annos, y agora, me hallo alguna cosa mejor. • De las partes de Maluquo y del fructo que alia se haze no digo nada, porque el Padre Juan da Beira y Alonso de Castro escriven, segun me parece, largamente; mas de la vida y del fin del Padre Ribero no escriven, el qual passo desta vida para el paraíso, estando obrando en la vinha dei Senor, en Ambueno, despues de aver passado muchos trabajos, en aquella isla, peligros, assi por la mar, como por la tierra, en que dos o tres vezes escapo, padeciendo naufrágio; y en la // tierra, comiendo pan tmr.i de paio; y los moros, por el mal que nos quieren, mu- chas vezes anduvieron para le matar, y una vez, le pu- sieron fuego en la casa, estando el dentro, para lo que- 5
  • mar; y otra vez, me disseron que davan dineros a cierta persona, para lo matar, o con hierro o con peçona, de la qual a mucha en estas partes, y ellos usan mucho della; y aun fue fama que della murio, no se si es verdad, por- que, despues de aver comido, dia de Nuestra Senora de Augusto, anno 49, aviendo dicho missa, aquelle dia, y segun me dixeron los que estavan presentes, con mucha devocion. En tanto, quando llego a Gloria in Exelcis (sic) Deo, levando la boz en modo de canto, le dio grande calentura, con grande color de estomago, y de ay a siete dias, con mucha fee y esperança, abraçado con un Crucifixo, dio el anima a Nuestro Senor Jesu Christo, que la crio y redimio. Y su cuerpo fue enterrado por los christianos de la tierra y portugueses, en una eclesia de Nuestra Senora, que el mismo hizo, con mucho trabajo, despues de aver baptizados dos mil ochocientas y seis almas, los quales, en aquella tierra, lo tienen por padre y valedor, y todos los portugeses lo tenian por hombre sancto, y se espantavan de ver un hombre, tan mancebo, passar tantos trabajos, que no solamente de los christianos de la tierra tenia cuidado, baptizandolos y ensenandolos y conservan- dolos, que ya eran de otro tiempo hechos, defendiendolos de los moros, mas aun tambien confessando los portugeses, con trabajo quasi intolerable. El qual usava con ellos de tanta charidad que, muchas vezes, vénia para casa syn camiza, o syn calçones, o syn jubon, por lo aver dado a los pobres. Estando doliente, que no podia andar, lo llevavan a visitar los lugares, en una savana atada por una parte y por otra, con un paio por el medio, llevandolo un hom- bre, por una parte; y otro, por outra. Y despues dei muerto, quedo gran desemparo naquella tierra, porque los moros hazen muchos insultos a los chris- 6
  • lianos; no quedo otro padre ninguno por los animar, y fortalecer, y ensenar en las cosas de nuestra sancta fee, aviendo muchos lugares de christianos en aquela isla. Asi que, desde antonces, no tienen doctrina, que avra, aora, anno y medio; por lo qual son necessários muchos obreros, muy zelosos y amadores de la homrra de Jesu Christo, no de la suya. Por cierto que ay mucha necessidad en el tiempo que estamos, mas de apostolos, que no de hermitanos; mas de hombres que desean andar peregrinando por el Mundo, predicando la palabra de Dios, y ensenando, y pade- ciendo muchos trabajos, por su sancto nombre, llevan- doLo delante los reys y príncipes; que no de anacoritas que esten quedos en el hiermo, aunque no // dano a los 1106 v.j sanctos contemplativos y quietos, que no son para mas; porque, se viessen vuestras charidades tantos milhares de gentes perdidas, por falta de doctrina y de hombres, ver- daderos amadores de la crux, derian con voluntad: «mu- chas son las meses y poços los hobreros» (7). Portanto, animosamente nos devemos offreçer y sacrificar a Nuestro Senor Jesu Christo, y venir a estas partes, donde a tanta necessidad de trabajar en esta amplíssima vifia, rogando al Senor que respiciat et visitet vineam, para acabar en el servido de nuestro Emperador y Senor, como vemos que an acabado, en estas partes de la Compania, el Padre Ribero, que aora diximos, y Adan Francisco, y el biena- venturado Antonio Criminal, los quales biven para siem- pre jamas, regnando con nuestro Senor Jesu Christo. Despues de aver partido de nos el Padre Mestre Fran, cisco, con sus companeros, el anno de 49, como ya escrevi el anno passado, estávamos esperando, con mucho cui- dado, y assaz congoxa, las nuevas muy deseadas; y ya (7) Mat. 9-37. 7
  • quasi desesperávamos de venir navio de Japon, porque se yva ya acabando el tiempo para poder venir, llego a este puerto de Malaca un navio, a 2 dias de Abril, deste anno de 50, en miercules, por la mariana, con el qual nos alegramos mucho, no solamente los hermanos, mas aun toda la ciudad; y el seiior capitan, luego que supo las nuevas dei navio, me mando pedir alviçiras, estando yo diziendo missa en la Misericórdia. Y acabada la missa, me fuy a la yglesia major, donde alie al capitan, Don Pe- dro da Sylva, como loco de plazer, y me dixo que seria bueno hazer una procession, y lo disse al vicário, de que el fue muy contento, porque no estava con menos con- tentamiento y alegria. Y luego day, en procession, fue todo el pueblo a Nuestra Senora, y el padre vicário dixo una missa cantada, a la homrra de Dios y de la Virgen Maria su Madre. En el qual navio venian quatro hombres japonês, los qual es fueron muy bien recebidos (8) en una casa de un hombre chyna, christiano, y muchos portugeses desta ciu- dad los agasajaron, muchas vezes en sus casas; y muchas vezes venieron a nuestra casa, y les ensenavamos las cosas de nuestra sancta fee, entanto que muy contentos rece- bieron el agoa dei sagrado baptismo, dia de la Ascenssion, y a dos dellos mando vistir el capitan; otros, Pedro Gomes de Almeida. El mismo capitan, Dom Pedro da Sylva, fue su padrino. El vicário los bautizo, con mucha homrra, quanta se podia hazer en Malaca. Los tres dellos se tor- naron para Japon y el otro a estado aquy. Assi mismo, reçebi cartas dei Padre Mestre Francisco y de Cosmo de Torres y de Jeronimo Fernandez y de Paulo de Sancta Fee. O trelado de la carta dei Padre Mestre Francisco, que manda para los hermanos de la índia, dey obra a que (8) Correcção de agasayados. 8
  • se tresladasse, para mandar a Vuestras Charidades, pa- dres mios y hermanos, por dos vias. Y porque muy menu- damente haz mension de su viagen, no escrivo mas destas cosas, remetiendome a el. Hecha en Malaqua a 24 de Enero de 1550 annos. Vestro siervo y ainda indigno Francisco Perez 9
  • TRECHO DE UMA CARTA ESCRITA AO PADRE INÁCIO DE LOIOLA PELO PADRE NICOLAU LANCILOTO Coulão, 27 de Janeiro de 1550 Documenta Indica: II, 14.-20. (1) A esta carta indicam-se, principalmente, os lugares e os religiosos jesuítas que aí exerciam o apostolado. Publicamos aqui as referências relativas aos missionários das Molucas. In Malaca, terra de grandíssimo tratto et de moita gente, città de portughesi, está Francesco Perez, Castellano, molto buon literatto, huomo de molto spiritu et virtú. Quelli que vengono de llà dicono che lui ha riformato quella città, la quail era molto dessoluta et non si può scrivere il molto fructo che li si fa, et ha seco Roque d'Oliveira, il qualle porta le medessime fatiche. In Moluquo, terra molto discota di qua et molto grande paese, stanno 8 delia Compagnia, scilicet, 4 che ande- tero adesso fa tre anni, scilicet, il Padre Joanne da Beira, ii P. Nuno Ribeiro, Nicolao Nunez, Balthasar Nunez. Adesso fa 1'anno andetero il P. Alfonso de Castro, il P. Emanoel de Moraes et Joan Fernandez (2) et Francesco (1) Documentação... (India), vol. VII, págs. 12-16. (2) Este não chegou a ir para as Molucas.
  • Gonçalvez: tutti quanti huomini de molto spiritu et de moita vertu. Di queste Maluque fa doi anni che non ha- biamo hautto littere nè nuova nissuna. Piacerà a Dio Nostro Signore che para 1'anno che venne, scriveremo a V. R. molto buone nove di quelli.
  • 3 CARTA DO PADRE JOÃO DA BEIRA AO PADRE INÁCIO DE LOIOLA Molucas, 13 de Fevereiro de 1550 BAL: 4.Q-IV-4Ç. Fls. 103 V.-105 r. (1) Esta carta, precisa no estilo, exacta nas informações, mode- rada no relatar dos factos, reflecte bem o cuidado e reverência com que deve ter sido escrita, conforme as instruções do Padre Mestre Francisco, neste particular. A cópia de que nos servimos encontra-se também limpa, sem aditamentos, ou emendas pos- teriores. a) Distância entre a India e as Molucas, e tempo de viagem. b) Os cristãos são perseguidos pelos reis mouros. c) Sublevações indígenas. d) A obra da evangelização paralizada por estas sublevações. e) Nome dos religiosos jesuítas, em serviço nas Molucas. e suas ocupações. La summa gracia, pax y amor perpetuo de Jesu Christo, Nuestro Senor, sea siempre en nuestro contínuo favor y ayuda, Amen. El anno de 1547, al fin del, escrevi a Vuestra Reve- rencia, dandole cuenta de lo que en estas partes Dios, Nuestro Senor, ha obrado y cada dia obra por sus siervos, (1) BACIL: Carteis do Japão, vol. I, fls. 134 V.-135 v. I 2
  • en exalçamiento de su sanctissimo nombre y augmento de nuestra sancta fee, por el Padre Mestre Francisco y por los demas, que debaxo de su obediência militamos, y lo que despues aca se ha augmentado, dire en esta. //El Padre Mestre Francisco visito esta tierra, el anno 1104 r.i de quarenta e seis, que son unas islãs que se llaman de Maluco, las mas distantes de la índia, porque, de la índia a llegar aca, ponen siete meses de navegacion, y de buelta y de estada, ponem quinze meses, de manera que una nao pone dos annos en ir y venir de la índia aquy. Son islãs muchas, y muy pobladas, y de muchas gen- tes, y diversas lenguages. Tienen diversos ritos y sectas gentiles y moros. Los que se convierten, luego comiesan a sufrir persecutiones, por Christo, de los moros. Muchos se dexan de convertir, por temor de los reys y senores, que toman sus haziendas. En estas partes estamos los hermanos que el anno passado escrevi a Vossa Reverencia; los dos de nos otros estan en una de las províncias que dixe, que es a la parte de la India; y en las otras, que estan a la parte contraria, estamos otros dos; la mayor parte del anno, y en este tiempo, desde la Nativitad, hasta el Spiritu Sancto, veni- mos ajudar el prelado, que no tiene consigo mas de un padre de missa. Un rey destos, que es moro, ha perseguido y persigue los christianos, y muchos hizo retraherse de la fee. Avera seys meses que cativo a un regidor principal de los chris- tianos, con su muger y hijos, y tomo esta fortaleza dei rey de Portugal, que en su poder tenia, por lo qual le hizo guerra el capitan dei rey de Portogal, que en esta for- taleza esta, en tanta manera que lo tiene puesto en mucho estrecho, porque le ha muerto mucha gente, y no osa salir de su fortaleza. Como fuere vencido este rey moro, que tanto mal ha hecho a los christianos, esperamos en el 1 3
  • Senor sea para mucho fructo en estas partes; los chris- tians biviran en pax y siempre seran visitados, y mu- chos, que por su temor se retrahyan, vernan a nuestra fee. A guy, en estas islãs adonde agora nos estamos con los portugeses, ay muchos que desean ser christianos, mas P°r temor del rey, que les toma sus haziendas y los per- sigue, hasta la muerte, no osan de hazerse. Este y otro rey de Maluguo, que es el del clavo, ambos son moros; el uno tiene quasi vencido y destruído. Este rey de Ma- luguo tenia prometido de hazerse un hijo christiano, mu- chos dias ha, mas tenemos para nos que nunca lo aga; lo uno, porque lo dilata con palavras; lo otro, porque el es el que mas mal haze a los christianos que otro. El governador dei rey de Portugal tenia dado el se- norio de los christianos de una província a este hijo dei rey de Maluquo, despues de hecho christiano; hasta agora, no se hizo christiano, mas su padre procura quanto puede de senorear los christianos, matando en ellos, y hazien- dolos retraer de la fee. Crea Vuestra Reverencia que quitado aquel rey, y haziendo este a su hijo christiano, se abrira una puerta iio4 t.) muy grande, // por donde muchos entren en el corral del Senor. Hagallo encomendar a Dios ut desideratum nobis suae propitiationis abundantiam, multiplicatis intercesso- ribus, largiatur. Estamos aqui el hermano e yo, donde esta la fortaleza; algunas vezes visitamos los christianos; despues que sé hizo guerra, no podemos salir a visitar los portugeses y sus mugeres y esclavos, que son todos naturales desta tierra, y nuevamente convertidos; para conservados, les predicamos un dia entre la somana, y algunas fiestas y domingos, en la yglesia mayor; todos los dias, a los hijos y esclavos y esclavas, les ensenamos la doctrina Chris- tiana; y asi mesmo, en los portugeses se haze mucho i 4
  • fructo. Tambien ensena el hermano a leer y escrevir y buenos costumbres a los niiios, porque yo, en las con- fessiones, amistades, predicationes, apenas me resta tiempo para rezar las horas. Ay en estas partes muchas islas y muy pobladas de gentes que se an visto por los portugeses. En algunas delias começaron de hazer christianos, dandoles a entender algunas cosas de nuestra fee; dandoles el baptismo, por- que ellos lo pedian, dexaronlos sin doctrina, porque no leva van sacerdotes y eran navegantes; no les emos po- dido socorrer, hasta aora, por estar acupados en lo que tengo dicho. Aver a quatro meses que venieron tres companeros, que mando el Padre Mestre Francisco, para que nos ajudas- sen: los dos sacerdotes y un hermano; el uno es predi- cador, llamasse Alonso de Castro; predica todos los do- mingos y fiestas, en la yglesia mayor, y todas las quartas feiras, a las mugeres, cosas de nuestra fee; y todos los dias, a los hijos, criados y esclavos de los portugeses; y el Padre Manoel de Moraes. Estamos nos todos aqui juntos, por causa de la guerra que se haze a este rey, perturbador de los christianos; como fuere estirpado, pla- zera al Senor, que ay tanto que hazer en su vinha quam plantavit dextera sua (2). De lo que Dios Nuestro Senor, fuere servido que se haga y por sus siervos obrare, avisa- remos a Vuestra Reverencia, el anno venidero, porque solamente una vez en el anno podemos escrevir, que es quando las naos de la India vienen a visitar esta for- taleza. El anno passado de quarenta e nueve no escre- vimos, porque la nao que partio de aquy para la índia arribo y no tuviemos por quien escrevir. En otra província, que se llama Malaca, esta otro (2) Cf. Ps. 79, 16. 1 5
  • padre con dos hermanos; es mucho para alabar a Dios el mucho fructo que hazen; sera de aquy a quinhentas legoas, donde ellos andan. Esta ally otra fortaleza dei rey de Portugal, y por as naos que van y vienen, cada anno, nos visitamos, escreviendo, animandonos y corro- borandonos en el Senor, para que nyngun desmayo o nos r.i descudo passe por nos en esta su vinha. // Por amor de Dios, Nuestro Senor, que siempre se acuerdan de nos y a los padres y hermanos lo mismo pedimos. El Padre Mestre Francisco es passado a la Chyna, una tierra que se llama Japon; es tierra firme, ay muchas islãs en ella y muy pobladas; dizen que es gente blanca y muy llegada a razon. Segun escrevio el Padre Mestre Fran- cisco, y lo que algunos dizen, que alia anduvieron, espe- ramos en el Senor que sea para mucho bien su yda. El padre Manoel de Moraes es ido a visitar unos chris- tianos a unas islãs, cerca de aquy, con otro hermano que se dize Francisco Gonçalvez; nos otros quedamos aquy, a ver el fin en que para esta guerra, que tienen contra este rey moro, porque, vencido este rey, ay mucho en que entender en las islãs de los christianos, que nos estan esperando. Mucho deseamos saber nuevas dei sagrado con- cilio; supimos, por una letra, el castigo que subieron (3) los perseguidores de Nuestra Senora, la sancta Madre Yglesia, cuya conservacion y defensa aquel buen Jesu, esposo suyo y Senor Nuestro, siempre guarde y augmente y a Vosas Charidades y a nos, indignos sus siervos, de su sancta mano siempre tenga. Amen. De Maluquo, a 13 de Hebrero de 1550. Deste indigno siervo en Christo de Vuestras Charidades Juan da Beira (3) A expressão que subieron los está substituída por que dieron a los... j 6
  • 4 CARTA DO PADRE FRANCISCO PERES AOS CONFRADES DA INDIA Malaca, 26 de Novembro de 1550 Documenta Indica: 11, 116-nç. Repetem-se nesta as informações sobre a morte do Padre Nuno Ribeiro já referidas na caria anterior, sob o número 1. Charissimos Padres e Irmãos meus em ho Senhor. Das cousas de Maluco e do fruto que lá se faz e pode fazer não direy aquy nada, porque o Padre João da Beira e Afonso de Castro cuido que escrevera largamente, mas da vida e fim do Padre Nuno Ribeiro não escrevem nada; pasa asi em verdade, por sabê-lo de muytas pesoas dignas de credito, e por eu aver conhecido muyta parte de sua vida, que foi no collegio de Coimbra, aonde nos criamos, e depois nese collegio de Sancta Fee, onde elle dise missa nova, e eu ho confessei geralmente. Depois de ser mandado polo Mestre Francisco pera Maluco, se veo pera Amboyno, que hé huma ilha onde há muitos christãos, onde esteve anno e meo com muyto trabalho e perigo de sua vida, asi pelo mar como pola terra: porque duas ou tres vezes escapou, padecendo nau- fragio, na terra comendo pão de pau, e às vezes arros; e os mouros, polo mal que nos querem, muytas vezes andarão pera ho matar, e huma vez lhe poserão ho fogo à casa, estando elle dentro, pera ho queymar, e outra vez me diserão que peitavam a huma certa pesoa pera ho matar (o qual depois foi christão e Diogo de Sousa foy iniulImdia, 11 — a
  • seu padrinho), ou com ferro ou peçonha, da qual hahy muita nesas partes; e ainda foi fama, não sei se hé ver- dade, que delia morreo, porque depois de aver gentado, dia de Nosa Senhora de Agosto, anno de 1549» avendo dito missa aquelle dia, que foi a derradeira que elle dise, e, segundo me diserão hos que estavão presentes, com muita devação, e tanto que, quando chegou à Gloria in excelsis Deo, levantou a voz em modo de canto: lhe deu grande febre com muy grandes dores de estamago, e dahy a 7 dias, com muita fé e esperança, com hum crucifixo nas mãos, deu a alma a Deus Noso Senhor Jesu Christo, que a criou e remiu. E o seu corpo foy enterado poios christãos da terra e portugueses em huma igreja de Nosa Senhora, que elle mesmo com muyto trabalho fez, depois de aver baptizado 2.086 almas, as quays e outras muitas que há naquella ilha ho tinhão por pay e valedor, e todos os portugueses ho tinhão por homem sancto, e espanta- vão-se de ver hum homem tão mancebo passar tantos trabalhos com tanto cuidado e fervor, que não somente tinha cuydado dos christãos da terra, baptizando-os e ensi- nando-os, e conservando os que já erão outro tempo feitos, defendendo-os dos mouros com muyta charidade, em tanto que muytas vezes lhe acontecya vir pera casa sem vestido, por ho aver dado aos christãos pobres, mas ainda confe- sando os portugueses com trabalho quasi into-(57) leravel. E muytas vezes estando enfermo, não podendo ir visitar os christãos, ho levavão metido em hum lançol, e asi os visitava com ho zelo soo da fé. Ó charissimos Padres e Irmãos, quem não desejará ser membro desta sancta Companhia, que tanto ama a noso Capitão Geral e Senhor universal, Redemptor noso, Jesu Christo? De Malaca, oye vinte e seis de Novembro de 550 annos. 1 8
  • 5 COPIA AUTÊNTICA DO TESTAMENTO DE D. MANUEL, REI DE TERNATE, COM OUTROS DOCUMENTOS CONTEMPORÂNEOS 155° BNL: Fundo Geral, Caixa 61, N.° 17. Em vários documentos, já publicados no primeiro volume da nossa Documentação, encontramos referências a este Tes- tamento, cujo original ou cópias, feitas na data própria, não pudemos descobrir. Publicamo-lo agora segundo uma cópia tirada do original, como nela se afirma, em 1550. Juntamente com a cópia deste Testamento encontram-se as de outros do- cumentos a ele referentes, formando um caderno que deveria fazer parte de qualquer tomo, como se pode ver pela pagi- nação que começa a fls. 45 r. a) Testamento de D. Manuel, rei de Ternate. b) Sentença a favor de Quechil Aeiro, contra Jordão de Freitas. c) Auto de posse do Reino de Maluco por Jordão de Freitas, em nome de D. João III. d) Embargos de Jordão de Freitas à sentença dada contra si. e) Resposta de Bernardim de Sousa, então, capitão das Molucas. Trelado do testamento de Dom Manuel, Rey de Ternate, em as partes de Maluquo: Em nome da Samtissima Trinidade, Padre, Filho, e Esprito Samto, tres pesoas, hum só Deos, Jesu Cristo Noso Senhor, e da gloriosa Virgem Maria, Sua Madre, 1 9
  • Raynha dos Anjos, e dos bemavemturados Apostolos, Sam Pedro, e São Paulo, e Sam Joam. Saibam todos os que esta cedola de testamemto, ultima, e derradeira vontade, ou como em dereito mais valer, virem, como eu, Dom Manuel, por graça de Deos, Rey de Ternate, Montel, Ma- quiem, e Cayo e todas as terras do Moro na Batachina em partes de Maluquo, jazemdo emfermo em esta cidade de Malaca, em todo meu siso e emtemdimento, e natural juizo, em minha liberdade, como demtro em meu proprio reino, e emfermo da infirmidade que ao Senhor Deos aprouve dar-me; tememdo a ora da morte, a que natu- rallmente somos sogeitos, e queremdo, por isso, ordenar as cousas de minha comciencia como seja mais serviço de Noso Senhor e salvação pêra minha allma, ordeno, faço e mamdo ser escrito este meu testamento na maneira seguimte. Item. Primeiramente emcomendo minha alma a Jesu 145 v.] // Cristo meu Sallvador, que ma creou, e remio com seu precioso samgue, e peço a gloriosa bemavemturada Virgem sua Madre, que seja minha intercesora, e me alcamse perdam de minhas culpas do seu bemdito Filho, e, falecemdo eu da vida presemtc, mamdo que meu corpo seja levado a emterrar na capela da igreja Matrix desta cidade de Malaca, e no dia do meu emterramento me sejam feitos os ofícios por minha allma na mesma igreja, se semdo custume, e como melhor parecer, e ordenar Gracia de Saa, capitão que agora he da Fortaleza desta cidade, por El-Rey de Portugal, meu senhor; e no mesmo dia se diram cinquo misas rezadas por minha allma, ha omra das cimquo chagas de Noso Senhor Jesu Christo, e me diram mais tres ha omra da Samtissima Trimdade, e outras tres a Nosa Senhora do Outeiro desta cidade, e huma ao bemavemturado Sam Joam Bautista. Item. Se faram mais, por minha allma, todos os ofi- 2 O
  • cios, segundo custume, a saber, mes e anno, com todas as devações, e orações acustumadas. Item. E, pasados dous annos, depois de meu faleci- memto, mamdo que meu corpo seja dezemterrado e meus osos sejam metidos em huma caixa, que pera iso se orde- nará, e seram levados aa Imdia, aa cidade de Goa, e se emterrem na igreja catredall da dita cidade, porque ahy fui eu feito // cristão, e ahi dezejo, e quero que seja mi- i46 r.i nha propia sepultura, e, no dia que lá for tresladado, se fará por minha alma hum oficio com aquela solenidade que for posivel. E mamdo que em todolos annos, emquanto ho Mundo durar, em todalas sestas feiras de cada hum anno, se me digua por minha allma huma misa rezada ha omra da morte, e paixão de Noso Senhor Jesu Cristo, e, aca- bada a missa, se dirá hum responso sobre minha sepul- tura. E diguo mais eu, sobredito Rey Dom Manuel de Ter- nate e em Maluquo, testador, que eu fui filho de Culamo Magira, rey que foi do dito Reino de Ternate, e de Pan- cachilt Pocaraga sua molher, filha dEl-Rey Almançor, de Tidore, raynha, e principal molher de todas-as que teve o dito rey, meu pay; e por eu ser filho damtre ambos, e me pertemcer diretamente e eramça do dito reino, por ser primcepe, depois da morte de meus irmãos mayores de idade que eu, a saber Quechile Bohayate, e Quechile Dayalo, que reinarão amte mim, todos os grandes, e pe- quenos do meu Reyno, me beijarão o pee, por seu rey e senhor, e asy fui alevamtado, e jurado por rey, segumdo usamça do dito reino; e, estamdo eu, pela maneira que dito he, em pose do dito reino, semdo muito leal a El-Rei de Portugall, meu // senhor, como ora sou, Tristão de i« ▼.] Ataide, capitão que emtão era em Maluco pelo dito se- nhor, por falsas emformações, que dise, que de mim ti- 2 I
  • nha, e por me ter maa vomtade, me ouve manhozamente demtro na fortaleza, e me premdeo; e mamdou-me a Imdia, semdo Governador Nuno da Cunha, que Deos aja, ho qual, vemdo com o ouvidor geral os autos de minha prisam, me asolverão e jullgaram por sem culpa, do que me pozeram, e alevamtarão. Estamdo eu ja livre em Goa, vemdo a ley dos cristãos ser samta, e vertuosa, e chea de toda a verdade e esperamça de salvação e jus- tiça, espritou Noso Senhor Deos em mim, e me comverty, deamte a sua graça, ha fee de Cristo, deixando a seita, e cegueira em que amtes me creara, e amdara, e receby ho sacramento do samto bautismo na See de Goa, onde me bautizou o vigário que emtão era. E foram meus pa- drinhos o Governador Nuno da Cunha, que Deos aja, e Jordam de Freitas, que ora he capitão em Maluquo, e, despois, receby ho sacramento da Samta Corfirmação, de maneira que eu sou fiel, e verdadeiro cristão, e na samta fe de Cristo espero e protesto viver e morrer. Item. Diguo mais que, depois de eu ser feito cristão, fui despachado pera me ir pera meu reino, ho qual cami- nho, ate agora, não acabei de fazer, porque o Viso-Rey [47 r.] Dom Garcia de Noronha, e // Dom Estevão, ho Gover- nador, me nam acabarão de aviar, pera me ir, como era rezão. E agora, semdo ja nesta cidade de Malaca despa- chado do Governador Martim Afonso de Sousa, pera me ir pera meu reino, adoecy de doemça de que ao prezente ja so emfermo; e porque não sei quamdo Noso Senhor sera servido de me levar pera si, por descarguo de minha comciemcia, quero dispor de meu reino como mais seja serviço de Noso Senhor, como de feito despacho na ma- neira seguinte. Item. Diguo que eu sou cristão, e ja que meu reino he de rey cristão, não o deve erdar, nem soceder mouro algum, nem meu irmão, filho de outra may, que não 2 2
  • era íilha de rey, como a rainha minha may, e he mais moço que eu, e he aimda mouro, o qual possue agora imdividamente ho dito meu reino; esta em ele comtra toda rezão e justiça, porque, pois, ho reino he meu, a quem Noso Senhor fez merce fazer-me cristão, não ho ouvera mais de pesoir, daquela ora, por mim, em minha ausemcia, senão outro cristão, como eu, pera converter meus povos aa fé de Noso Senhor Jesu Cristo, como eu esperava a fazer em breve tempo, se me Deos la levar. E pois eu não tenho socesor cristão, que me aja de erdar, e aos mouros nam pertemce sobceder, de direito, em tal reino de rey cristão, por serem imdinos e nam capazes de tal reino de rey cristão, eu, / / desta ora, estamdo em meu 147 T-i prefeito siso e emtemdimento, e livre alvedrio, instituio por erdeiro do dito rey no, e por meu testamento, a El-Rey Dom Joam, Rey de Portugall, cujo vasalo eu sou, por ele ser meu erdeiro de dereito, e, portamto, nelle renumcio de mim, deste dia pera todo o sempre, todo o dereito real, e autoal, que no dito reino tenho, pera Sua Alteza fazer dele como de cousa sua propria que he, porque, doje avamte, lhe ey por emtregue ho dito reino, reallmemte e com efeito. E, porem, peço por merce a Sua Alteza que, avemdo nele de poer rey ou governador de sua mam„ que o ponha tal, que tenha preposito de fazer cristãos todos aqueles povos de Ternate, e comverter assy mesmo, e fazer os outros ao redor comarcãos, porque assy o detri- minava eu de fazer, se me Deos la levar, porque com isto sera a minha alma descansada, e Noso Senhor sera ser- vido. E pois Sua Alteza tem esta obriguação de o fazer assy, por quam cristianíssimo he, também lho peço, por amor de Noso Senhor, que queira Sua Alteza aceitar este meu testamento, e ser meu universal erdeiro e testamen- teiro, pera em todo e por todo comprir e mandar comprir todo ho que neste meu dito testemento se comtem, e com 23 %
  • isto tenho que vay minha allma descamsada desta vida pera outra perdurável. [48 r.] Item. Eu tenho em Maluquo tres lugares, a saber, // Dimaconora, e Tadunia, a que os portugueses chamão Terra Alta, estes ambos em Ternate; e Biçoa no meio; os quaes lugares eu ja posoya, e eram meus, semdo eu em- famte, antes de ser rey, que mos tinha dados el-rey e a raynha, meus padres, os quaes lugares eu deixo a Amtonio de Freitas, filho de Jordam de Freitas, meu padrinho, e quero e ey por bem que ele os haja, e sejão seus assy e da maneira que meus amtecesores e eu os pesoyamos, e tínhamos; e isto, por muitas boas obras, que do dito seu pay tenho recebidas, como eu sei e he manifesto a muitos, e porque do dito Amtonio de Freitas fui em minha doemça muito visitado, e servido, e bem acomselhado; dos quaes tres lugares, que lhe assy deixo, poderá fazer como de cousa sua propria, porque assy he minha vomtade, e peço a el-rey, meu senhor e meu erdeiro e testamemteiro, que o aja assy por bem, e lhos comfirme. Item. Declaro que Bastiam, ho qual comiguo veo de Maluquo, e me serve de menino pequeno, até agora, eu o tive sempre por forro em minha vomtade, e assy quero que o seja, e lhe deixo os vestidos da minha pesoa e armas e ho mais movei que ha em minha casa, salivo allgumas cousas, que mamdo dar a Mecia que foi minha escrava, [48 Y.i a qual eu forrei, as // quaes cousas lhe asinara Amtonio de Freitas ou quem ele pera iso ordenar. Item. Eu esperava certa fazenda, que me ha-de vir de Maluquo, agora; e semdo caso que venha depois de meu falecimento ou quallquer outra cousa que me per- tença, a recadação da dita fazemda, ou do que asy vier . pera mim, emcomemdo a Antonio de Freitas, ao qual rogo que o queira por sy, ou por quem ele quiser nego- cear e haver aa sua mão, pera de tudo fazer como lhe 2 4
  • tenho emcarreguado, segumdo a camtidade da fazemda, porque quero que diso satisfasa allgumas obrigações mi- nhas, o qual comfio de sua verdade. E por aqui ey por feito e acabado este meu testamento e minha derradeira vontade, assy e da maneira que se nele comtem, e todos os outros testamentos e codecilos que amtes deste tenha feitos, quero que não valham nem tenham vigor, e os ey por quebrados e revogados, e soomemte este que quero que valha assy, e da maneira que se nele comtem, e ro- guei a Amtonio Lopes que o escrevese e o asinase aqui comiguo. E eu, Amtonio Lopes, escrevi este testamento, por mo roguar, e mamdar o dito senhor Dom Manuel, Rey de Ternate, e asinei aqui com Sua Alteza como tes- temunha. Feito nesta cidade de Malaqua, nas pousadas do dito senhor rey, sendo ele presemte. Oje, trinta dias do mes de Junho de mill e quinhemtos e corenta e simco annos. Dom Ma // nuel, Amtonio Lopes. [49 r.] Em nome de Deos, Amen; e de Samta Maria sua Ma- dre. Saibam quamtos este estromento de aprovaçam de testamento virem que no anno do nacimento de Noso Se- nhor Jesu Cristo, de mill e quinhemtos e coremta e cim- quo annos, aos vimte e nove dias do mes de Junho do dito anno, nesta fortaleza e cidade de Malaqua, nas pousadas do senhor Dom Manuel, Rey de Ternate, e Maluquo, estamdo ele doemte em huma cama, da emfermidade que lhe o Senhor Deos deu, em todo seu siso e emtem- dimemto, foi por Sua Alteza dito a mim tabalião e teste- munhas, adiamte nomeadas, que lhe aprovase ese estro- memto que Sua Alteza tinha feito, porquanto o ele avia por bem firme e valioso, e por descarguo de sua com- ciemcia, ho quall testamento eu tabalião vy todo de verbo a verbo, e vay escrito em duas meas folhas de papel, ti- ramdo a minha aprovação, e vay em nove capitolos im- 2 5
  • cluhindo primeiro e derradeiro do dito testamemto, e vay todo escrito em letra latina, e leva quatro amtrelinhas, que dizem de dereito, e por serem imdinos e nam capazes do tall reino de cristão / se comtem / a / e nos corregidos que dizem fiz / osos / na / a faça / agora nam direito peço / peço ha / nas quaes amtrelinhas nam riscadas nem corrigidas nam haja nenhuma duvida, porque tudo vay [49 v.] na verdade. E dise Sua // Alteza que requere que este testamemto lhe seja comprido assy e da maneira que se nele contem, porquamto o ele há por bem, firme, e va- lioso, e quer que se cumpra como nele se comtem, por ser esta sua ultima, e derradeira vomtade. Testemunhas que forão presentes: Fernam Machado Mamrique, e Bel- chior Carregueiro, morador na dita cidade, e Lionel de Lima, Gomçalo Pereira, e Dom Amtonio Coutinho, e Manoel de Mesquita e Eytor de Melo, fidalgo da casa del-rei, noso senhor, e eu Gaspar Martins, tabalião pu- blico na dita cidade, por espyciall mamdado do senhor Guarcia de Saa, capitão, que isto escrevy e o asiney de meu pubrico sinall, que tall he ho seguimte. Dom Ma- nuel, Fernam Machado Mamrique, Gomçalo Pereira, Lyo- nel de Lima, Manuel de Mesquita Pimentel, Dom Amtonio Coutinho, Eytor de Melo, Belchior Carregueiro. Saibam quamtos este estromemto de emtregua deste Reino de Maluco, e suas terras e senhorios, a El-Rey Dom Joam, noso senhor, virem, que no anno do naci- memto de Noso Senhor Jesu Cristo de mill e quinhemtos e coremta e cimquo annos, aos vimte dias do mes de Outubro do dito anno, nessa Fortaleza e cidade de Ma- [50 r.j luquo, e a porta da // dita fortaleza, estamdo ahy o Senhor Jordam de Freitas e capitam da dita fortaleza, pelo dito senhor, e a may dEl-Rey Dom Manoel, que santa gloria aja, rey que era destas ilhas de Maluco, por 2 6
  • nome Quechil Pucaraga, e o senhor Dioguo de Freitas, fidalguo da casa do dito senhor, e outros muitos fidalgos, e cavaleiros do dito senhor, e o ouvidor Duarte Lopes, em prezemça de mim, Duarte Godinho, pubrico tabalião, pelo dito senhor; e logo pelo dito capitão foi dito ha Que- chil Paje, irmão do dito rey Dom Manuel, e Trava, e Quechi Agaja, irmãos do dito Dom Manuel defumto, e o Piticole e Mohama, ouvidor, e Quechil Vaidua, e Quaque Embima, irmãos do rei velho, e tios do dito rey defumto, e Quechico Raque, regedor de Toloco, e Ciborede, me- tade, Nicolaio e Cugala, da outra metade, e Molldoturro, e Chaquamole, e Gape, e outros muitos mamdarins e cava- leiros da dita terra, e Patac-Rangue, regedor em nome do dito senhor, que porquamto Dom Manuel, rey destas ilhas de Maluco, era falecido desta vida presemte em Malaca, ho qual fizera seu testamemto, e nele leixara por seu erdeiro e testamemteiro de todas suas terras e senhorios a El-Rey Dom Joam de Portugal, noso senhor, se eram eles comtemtes de alevamtar a el-rey, noso senhor, por lidimo erdeiro e rey destas ilhas, e senhorios de Maluco, assy e da maneira que a ele lhe pertemcia e tinhão, e isto lhe pergumtou peramte mim, // dito tabelião, e todos, e iso v.j cada hum por sy, e em especial, e todos jumtamente, assy regedores, como irmãos e tios do dito rey defumto, dise- ram que, pois El-Rey Dom Manuel era morto e leixava a el-rey, noso senhor, por erdeiro destas ilhas e senhorios de Maluco, asy e da maneira que os ele tinha e lhe pre- temcião de dereito, e eramça, eles alevamtavão, e aviam por bem seu rey e senhor El-Rey Dom João, Rey de Por- tugal, noso senhor, e lhe obedecião, e davão a obediemcia, deste dia pera todo o sempre, e lhe obedecerem a seus mamdados e aos capitães da sua dita fortaleza como a seu rey e senhor, como dito tem. E porquamto el-rey, noso senhor, estava tão longe destas ilhas e em pessoa os não 2 7
  • podia governar, pedião a ele, dito senhor capitão, que a dita Quechil Pucaraga, may do dito rey Dom Manuel, que Deos tem, e Pata Gramoia, seu marido, guovernasem a terra e a regesem em nome del-rei, noso senhor, asim e da maneira que ategora regerão, e guovernarão pera se fazer, digo pera se poder fazer melhor ho serviço de Deos e de Sua Alteza, e bem e comservação da terra, e de como assy o diserão e prometerão aqui, tãobem estamdo de presente Cuche, regedor de hum lugar de Maquiem, por nome Cuche, e em testhemunho de verdade outorgarão todos de ser feito este estromento demtregua do Reino de t5i r.i Maluco a el-rey, // noso senhor. Testimunhas que pre- sentes estavão: o dito Senhor Dioguo de Freitas, e Manuel de Mesquita, e Lionel de Lima, fidalguos da casa do dito senhor, e Amrique Fernandes de Lordelo, e Fernam Lei- tão, cavaleiro da casa do dito senhor, e Luis Afonso, que ora serve de feitor, e Francisco de Brito, outrosy, fidalguo da casa do dito senhor, e Luis de Paiva, e o dito Duarte Lopes, ouvidor, e outros muitos fidalguos e cavaleiros, e cascarus (i) e o gerrabaça (2), por nome Francisco de Fi- gueiredo, patrão desta ribeira, peramte quem se tudo isto dise, e Bastiam Fernandes, casado, que também emtende a lingoa, e outros, e eu Duarte Guodinho, tabalião, que o escrevy, e em minhas notas o notei e delas o tresladey bem e fielmente, e comcertey como propio e original, que em meu poder fica, e comcertey com Vicemte Nunes, escrivão do judiciall, que aqui pos seu concerto, e no propio ficão e os atras escritos asinados com as testi- munhas que forão presemtes, e eu Duarte Guodinho, ta- (1) Julgamos tratar-se de um termo empregado pelos portugueses, para designar gente da plebe, o mesmo que, em Timor, cascados. embora, rigorosamente, se designem assim os indígenas atacados de uma doença especial, conhecida pelo nome de lepra-seca. (2) O mesmo que juro-bahasa, ou duru-baça, intérprete. 2 8
  • balião que ho escrevy e asiney de meu pubrico sinal fiz que tal he como se segue. Concertado por mym escrivão Vicente (3) Nunnes. E logo no dito instamte, o dito Jurdam de Freitas, capitão desta Fotraleza de Maluco, peramte os sobreditos, em nome del-rey, noso senhor, // aceitou o dito Reino de [51 v.i Maluco, e seus senhorios, mamdando loguo trazer huma bamdeira de damasco verde, e tafetá branco, que pera yso mamdou fazer, por serem as cores de Sua Alteza, com huma cruz de Cristo no meo, alevamtamdo-se logo em pe, com ho barrete fora de sua cabeça, e tomou na mão a dita bamdeira, estando os sobreditos cristãos, como mouros, em pee, e começou a dizer em voz allta, que todos ouvi- rão, desta maneira: Real! Real! Real! pelo muy alto e muy poderoso Rey Dom João, noso senhor, Rey de Pur- tugall e dos Allgarves, daquem e dalém mar em Africa, Senhor da Guine, e da Comquista, Navegação, Comercio de Etiópia, Ariabia, Persia, da Imdia, e dos Reinos de Malaqua, e Maluquo. E loguo todos os trás asinados, e com outro muito povo, que de presemte e§tava, come- çarão e responderão em voz alta: Reall! Reall! Reall! pelo muy allto e muito poderoso El-Rey Dom João, noso senhor, Rey de Purtugall! E com isto começarão has trom- betas a tamger, e desparou a artelharia da fortaleza e dos navios, que no porto estavão, e loguo o dito capitão, com todos os sobreditos, e com outro muito povo que de pre- semte estava, e comiguo Duarte Guodinho, tabalião, se foi a povoação dos mouros e a cada bairro, com as ditas trombetas, e solenidade, se fez outro tamto como a porta da dita fortaleza era feito. Imdo de prezemte a dita // 152 r.í (3) Entre o nome Vicente e o apelido Nunes, lê-se a abreviatura Minz (Martins), riscada. Noutras passagens o nome deste escrivão apa- rece simplesmente Vicente Martins, sem qualquer correcção. í 9
  • Pucaraga, may do dito rey defumto, que Deos tem, com todolos outros aqui asinados, e assy outro muito po- vo, e loguo, peramte ele, o dito senhor capitam, vemdo auamto serviço de Deos e del-rey, noso senhor, e comser- vação da terra era, terem os sobreditos o dito carguo, e pela muita espiriemcia que neles tinha visto, que tinhão feito a el-rey, noso senhor, despois que desta terra tinha mamdado Aeiro a Imdia preso, ouve por bem e serviço do dito senhor a dita Quechil Pucaraga, rainha que foi desta terra, may do dito Rey Dom Manuel, com o dito Pata-Ramge, regerem e governarem a dita terra, em no- me del-rei noso senhor, até que Sua Alteza niso prouvese ho que fosse mais seu serviço. Ho que tudo asy pasou em presemça de mim Duarte Godinho, publico tabalião, pelo dito senhor, e dele me foi mamdado pelo dito senhor capitão Jurdão de Freitas que fizese este auto pubrico e lhe dese dous treslados, ou os que ouvese mester, pera mamdar hum a el-rey, noso senhor, e outro pera o senhor Governador da Imdia, e eu dito tabalião dou minha fee todo pasar assy na verdade. Testemunhas que presemtes esta vão: o senhor Dioguo de Freitas, e o dito Duarte Lopes, ouvidor, e Amrique Fernandes de Lordelo, e Luis Afonso, que ora serve de feitor, e outros, e eu Duarte Guodinho tabalião que ho escrevi e em minhas notas o 152 ▼.] notey, e dela o treladei bem, e fielmente, // e o com- certey com o proprio, que em meu poder fica concertado com Vicemte Martins, escrivão do judicial, que aqui pos seu comcerto, ho qual no propio ficão asinadas as teste- munhas sobreditas; e do teor deste, e do atras, he pasado outro ao dito capitão, hum pera el-rey noso senhor, e outro pera o senhor Governador da Imdia, tal hum como outro, e eu Duarte Guodinho tabalião que o escrevi e asiney de meu pubrico sinall fiz que tal he como se segue. Comcertado por mym escrivão Vicemte Nunes. 3 o
  • Trelado dos embarguos com que veo Jurdam de Freitas aa semtemça que contra ele ouve Aeiro, Rei de Maluquo, apresemtados a Bernalldim de Sousa, capitão da Fortaleza de Maluquo aos ... dias ... do mes ... (4). Por modo de embarguos, ou como em dereito mais valer, diguo, eu, Jurdão de Freitas emtemdo provar que a semtemça que comtra mim tem // avida El-Rey Aeiro, t53 rj he nenhuma e de nenhum vigor, porquamto foi avida e dada a revellia, sem eu, nem outrem allgum, por mym, ser citado, como se determina na Ordenação do terceiro aas Lx. 6, p. 4.0, Lx. (5) da semtemça, que por dereito he nenhuma, temdo eu meus procuradores em Goa, homde a dita semtemça foi dada, a saber, Vicente Colaço, e Bas- tião Lopes Lobato, ahy moraderes, e Manuel Alvarez, homem de armas, estamte, ao dito tempo, em Goa. Em- temdo provar, que diz a dita semtença que eu prendy o dito Rey Aeiro, por lhe tomar sua fazemda, ho que tal não he, nem se achara por verdade, mas amtes mamdei por muyto bom recado nela, a saber, mamdei a sua casa, tamto que o premdy, o ouvidor Guaspar Pereira 1 e o Feitor Francisquo Palha, pera lha guardar e olhar por sua fazenda, e lá dormirão e estiverão até se fazer o imvemtario dela, e com muitos homens outros, seus pa- rentes, dele, Rey Aeiro, a saber, Ballthezar Veloso, e Gom- çalo Fernandez Bravo, seus cunhados, e Amtonio Ribeiro, e Lopo de Ribalda, todos quatro seus parentes, e Quechil Gape e Guzarate, seus irmãos, e assy muitos homens outros honrados, e de comfiamça, a saber, Fernam Lei- tão, e Salvador Memdes, e outros; a qual fazemda foi (4) As reticências são do texto da cópia, onde faltam as datas. (5) Abreviaturas que não conseguimos desenvolver. 1 —P.™. 3 I
  • toda emtregue por imvemtario a seus paes e ate a mam- dou vemder em leilão, e assy aa porta da fortaleza muita parte, e mamdou fazer dela ho que lhe bem veo, e muitas [53 v.] peças, // que dizia que achava menos, eu as ouve aa mão, por diligencias que niso fiz, e lhas mamdei emtregar, de que tenho hum asinado de sua mão, em que diz que as recebeo, a saber, peças de ouro, e de prata, patolas e panos de seda, e por ho metal alevamtarem e asaqua- rem (6), protesto por dez mil cruzados de injuria pera quem direito for. Emtemde provar que a semtemça que diz que foi dada aos vinte e nove dias de Março do corrente com hum mamdado do senhor governador, que está ao pee da sem- temça, em que manda que sede a exclusão, diz que foi feito a seis dias de Março da dita era, por honde esta craro ho erro ser da semtemça, e do escrivão que a tirou, que não he de crer que o erro seria do escrivão que fez o mandado, porque em tão pouca leitura não se podia muito embaraçar, e mais que tal fose, de crer he que Sua Se- nhoria veria ho que asinava, mas de qualquer maneira que seja o erro está evitado, e Vossa Merce, senhor capi- tão, não deve mamdar fazer obra por tal sentença tão duvi- doza, mas deve remete-la, outra vez, ha mor alçada, pera homde eu vou, e parte, va la requerer sua justiça, ou mande porque la lha farão. Emtemde provar que ja em Malaca me forão embar- [54 r.i gados pela dita semtença valia de // quatro mil pardaos emtregues a João Criado, por homde pode ser bem pago o dito Rey Aeiro, quamdo comtra mim alcançase alguma couza. E, porquamto, todo julgador pode por direito em todo o tempo imterpretar sua semtença, quando nela há algumas palavras, ou decysão duvidoza, como ha Orde- (6) A margem lé-se a palavra achaquarem. 3 ^
  • nação do 3.0 p. Lx. 61 no paragrafo derradeiro manda fazer. Vossa Merce deve de remeter a dita semtemça a quem a deu, que declare o dito erro e decizão, e não uzar da tal sentemça, nem por ela fazer alguma hobra. E posto que todos estes embarguos sejão evidemtes, e farão tamto ao proposito da minha justiça, primcipal de todos, e o porque se nam devia falar em tal semtemça, mas antes tremer a carne a quem alguma execução fizese, ou mamdase fazer por ela, por ser tanto em prejuízo del-rey, noso senhor, e de seu serviço haver-se de meter de pose pela dita semtemça, desta ilha de Ternate e Reino de Maluco, Quechil Aeiro, sendo tamto em perjuizo de Sua Alteza, e do direito que se nestas partes tem, em que lhe tamto vay, pelo qual, em nome del-rey, noso senhor, quamto devo e quamto poso, recramo a tal pose, e protesto ser nenhuma, e de nenhum vigor, e protesto numca em nenhum tempo ser valioza, porquamto os na- turaes desta terra, de seu propio mo // to, e livre allvc- 154 vj drio, requererão e aceitarão, receberão, e jurarão Sua Alteza por seu primcipal rey e senhor, como as leys pri- mitem, comsemtem e concedem ao povo, por se fazer, e, aalem disto, por justo titulo e ligitima sobcesão del-rey, noso senhor, he legitimo erdeiro, e socesor deste reino, instituido pelo testamento de Dom Manuel, que samta gloria aja, rey natural e verdadeiro deste Reino Maluco, e, se eu estivera de pose desta fortaleza, e não fora desa- posado dela, como me foi mamdado que loguo fizese, numqua tal pose se tomara nem eu tal comsemtiria, e, portamto, requeiro a Vossa Merce, senhor capitão, da parte del-rey noso senhor, pois esta nesta terra, e estas couzas lhe são notorias, que sem niso mais pronumciar, nem faser outra cousa, remeta esta semtemça ao senhor governador e aos senhores desembargadores, e, aimda que nao he de presomir que, se ao tempo que tal semtemça ímiulIKDU, 11 — 3
  • derão, forão sabedores do que Vossa Merce, ao presemte, sabe e vee, que tal semtemça prenumciarão, nem mam- darão fazer obra por ela. E de como eu tudo isto requeiro, e protesto, vos Manuel Dias, tabalião das notas, e escri- vão do judicial, me pasares dous estromemtos tal hum como outro, hum para mamdar ao reino a el-rey, nosO 155 r.i senhor, e outro pera levar //ao senhor governador. E não queremdo Vossa Merce conhecer de meus embarguos, nam cabemdo em sua alçada tamanha quantidade, como o dito Rey Aeiro vem pedindo, e temdo tamtas e tam evidemtes resoens, apelo de execução de sentença e pro- testo por todalas perdas e danos e intereses por quem direito for. E, aalem de todas estas cousas e rezõens, Vossa Merce, senhor capitão, me he muito sospeito e não deve de conhe- cer de nenhuma cousa, de qualquer maneira que seja, a que o dito Rey Aeiro seja parte, porquamto o trouxe da Imdia pera o meter de pose desta terra, pela qual rezão ho dito Rey Aeiro lhe he em muita obrigajão, e he muito seu amiguo, como se mostra em lhe dar todolos avia- mentos para a nao que Vossa Merce começa ora fazer exame, ajudar carpinteiros da terra, e todalas madeiras, e outras cousas, e ir ele, dito Rey Aeiro, em pesoa, ao cortar da madeira, e escolher-lhe o lugar homde se faz a nao, e a negocear-lhe as cousas necesareas ao fazimemto dela, e outras ajudas e favores que com sua valia pode dar, e por caso de tamanho proveito como nisto recebe, e outros imtereses que do dito Aeiro lhe pode vir, he de [55 v.i crer // que Vossa Merce lhe folgara de comprazer e fazer a vomtade em todo, pelo comtemtar, pelo qual, visto ta- manho imcomveniente pera me poder (ser) feita, nem guardada minha justiça, eu, desta ora por diamte, pro- testo de não requerer mais nada, peramte Vossa Merce, nem peramte o seu ouvidor, porque ambos me sões sos- 3 4
  • peitos, por ser posto o dito ouvidor de sua mão, e deixo tudo ermo, e nam faço mais nada e protesto todalas cousas que Vossa Merce e o seu ouvidor, desta ora por diamte, mamdar comtra mim, ser tudo nenhum e de ne- nhum vigor, e pode mamdar fazer quamtas riguridades quiser, que eu protesto de mais não responder palavra, e voz, Manuel Dias, tabalião, me pasares de todo o sobredito dous estromentos, como vos tenho pedido, tal hum como outro pera guardar e resguarda de minha jus- tiça. Jurdão de Freitas. E jumtos assy os ditos embarguos, como dito he, hos fiz concruzos ao senhor capitão, e lhos levey aa dita for- taleza, aos vinte e sete dias do mez de Novembro de mil quiquentos e coremta e cimquo annos. Manoel Dias da Maya, escrivão o escrevi. // Despacho do senhor capitão e Sentença \ Vistos por mim estes autos da execução, e bem assy os embarguos com que ora vem Jurdão de Freitas aa sem- tença que contra ele ouve El-Rey Aeiro, Rey de Maluco, dada pelo senhor governador e dezembarguadores, dos quaes embarguos, mandei fazer os ditos autos concruzos, pera sobre eles prenunciar, por desembarguo, os quaes, examinados por mim, por ha materia destes não ser de calidade, que desfasão a dita semtença, nem por nenhuma via serem de receber, não recebo os ditos embarguos, por não serem de receber. Respondo ao que o sopricamte dis no fim dos artiguos homde começa; e posto que o sopri- camte dis que se não devia de meter de pose o dito rey do seu Reino de Maluco, por ele ter tomado pose dele, por el-rei noso senhor, por vertude de hum trelado de hum 2 - 8n.«. 3 5
  • testamento, que dizem que fez Dom Manuel, quamdo fa- leceo em Malaca, que se o senhor governador fora sabedor que tal pose era tomada, que nunca o mamdara meter de pose do dito reino, a isto respondo que mal podia ho se- 156 v.i nhor governador saber // que tal cousa era feita, pois se fes sem mamdado del-rey, noso senhor, nem com sua pro- visam, porque não he de crer que cousa de tanto peso se avia de bolir, senão com especial mamdado, e o que dis que, se ele imda agora ho seu carguo tivera, que numqua tal pose dera ao dito rey, nem comprira tal semtemça, parece que ja o senhor governador receava iso, pois por ese caso me mamdou qua; e, portamto, o tenho metido de pose, e feito tudo que pelo governador me he mam- dado, quamto mais em que estivera em minha escolha, se lhe não tirara ho reino, por niso semtir que fazia melhor o serviço del-rey, noso senhor, e o proveito, e bem desta fortaleza, e ser ele rey, e regedor de suas terras, e outro nenhum gramde, nem pequeno que nela aja, por sempre em tudo ter dado de sy prova de bom vasalo, por quam fiel, e verdadeiro sempre foi, de muito, atee gora, ao ser- viço del-rey, noso senhor, como per todos os moradores desta fortaleza he comprovado e notoreo; e que, se mais tempo se regera por regedores postos por mão do capitam da fortaleza, esta terra se não poderá soster; e se estar [57 rj destoutra maneira que // achey, me parecera mais ser- viço de Sua Alteza, posto que o não poderá fazer, por me não ser mamdado polo senhor governador, não no leixara de dizer, porque nam sei eu, nesta parte, pesoa que mais rezão tenha e obrigação pera o serviço del-rey, noso senhor, que eu. E bem asy respondendo a humas rezões de sospeição, mesturadas com hos ditos embarguos, J respondo que, quamto ao que diz, que lhe são sospeito, por trazer o dito Rey de Maluco da Imdia, e o meter de pose do seu reino, confeso que não pode ser moor rezão» 3 6
  • mas esta ouvera de ser com qualquer outro, que o senhor governador com ele mamdara; e quamto ao que mais diz, que me daa carpinteiros e achegos pêra a minha nao, digo que folgara de mos ele assy dar, soo pelo interesse de o eu assy trazer, ho qual ele não he senão pelo guanho e proveito que lhe diso dou, como esta craro ser asy, quamto mais que, imda que lhe eu fora em tamanhas obrigações, como em sua sospeição alegua, não lhe conhecera dela, por ser posta a mim, que sou executor e não sou julguador que a mamda fazer. Bernaldim de Sousa. Pobricado foi o despacho acima do Senhor Capitão Bernalldim de Sousa, na fortaleza e torre da managem dela, homde eu escrivão // fui, aos vinte e nove dias do (57 v.i mez de Novembro do anno de ... Manoel Dias de Maya, escrivão, ho escrevi. E despois disto, aos seis dias do mez de Dezembro do anno de ... eu, escrivão, fui aas pouzadas de Jurdão de Freitas, ao qual notefequei ho despacho do senhor capi- tão, atras, de como lhe não recebia seus «mbarguos, e como mamdava que a execução fose por diamte, pera a qual o ouve por requerido, e pera todolos termos dela, ho qual Jurdão de Freitas dise que ele agravava de lhe não receber seus embarguos pera a moor alsada, e pera o reino, pera el-rey, noso, senhor, e asy de se ho senhor capitão não dar por suspeito, porquamto lho era, e que, portamto, que ele se não dava por requerido, nem por citado para cousa que neste caso ... nem nenhum outro que toquase ao dito rey, e comprise, e que todo ho avia por nenhum, e de nenhum todo o que ele, dito senhor capitão, fezese, como de pesoa tamto sospeita, como ele era neste caso, e que ele protestava por todalas custas, perdas, e danos que recebese, por esta causa, to // do o 1*8 r.] 3 7 %
  • havia pela fazenda de quem dereito fose, e de como o assy requeria, e dezia, requereo a mim, escrivão, que todo escrevese e lhe dese hum estromemto pera a Imdia pêra o senhor governador, com o teor destes autos, assy como estão, e assy do que mais recrecese, e assy outro pera o reino, pera el-rey, noso senhor, homde e peramte quem requeria sua justiça, homde protestava ser provido. Manuel Dias da Maya escrivão o escrevy, etc. O qual testamento foi aqui tresladado do proprio, que estava assinado por Dom Manuel, Rey de Maluco, de seu sinal, feito em letra portugueza, por saber ler, e escrever portuguez, e o estromento de aprovação que em elle estava feito o era por Gaspar Martinz, geral tabalião, serve e servia no tal tempo na Fortaleza de Maluco, e estava asinado o dito estromento de aprovação do sinal propio do dito tabelião, e bem asi o estava do sinal do dito Dom Manuel, testador, Rey do dito Maluquo, e por Fernam Machado Mamrique, e por Gonçalo Pereira de Boredo, e [58 \.i por Leonel de Lima, // e por Belchior Carregueiro, e Dom Antonio Coutinho, e Eytor de Mello, e Manuel de Mesquista Pimentel. E o auto de pose que se tomou do Reino de Maluco por el-rey, noso senhor, era feito por Duarte Godinho, tabelião no dito Maluco. E bem asy forão aqui tresladados os embarguos com que veio Jurdão de Freitas a semtença, que se deu em favor dEl-Rey Aeiro, de hum trelado que de Maluco veio, que foi apresentado por o dito Jurdão de Freitas, e bem asy ha sentença dada por Bernaldim de Souza, capitão no tal tempo, do dito Maluco, e os mais textos atras tres- ladados, todo se tresladou fielmente aqui do dito treslado, aonde esta vão os ditos embarguos. E, portamto, foi aqui ora tresladado o dito testamento, como dito he, com o auto da pose do reino, e os embarguos e mais termos, bem 38
  • e fielmente, o verdadeiro testamento do proprio, e o mais do trelado que do dito Maluco veio autorizado, e tudo bem, e verdadeiramente, e sem couza que duvida faça, somente huma antrelinha, que diz: mando / e hum ris- cado que diz / dito / Seramga / Quezulir / lo / em / e senhora / quamtas / que / e am / / trelinha / regedor / e 159 r.] riscado que diz / governador / que inda ... / ele / ouvese / porque todo se fez por verdade, e vay escrito todo em oito meas folhas de papel, afora esta do concerto, e consertado todo com official aqui asinado, e não faça duvida o que ficou de papel em branquo, as folhas tres, na primeira lauda, e as cinquo folhas, na primeira lauda, porque se fez com verdade, e, portanto, a este trelado que se pasou por mandado do senhor ouvidor geral, pela maneira que fica dito, se lhe dará inteira fé e onde se apresenatr, asi em juizo como fora dele, e como aos propios donde ema- nou, porque para certeza de todo vão asinados pelo licen- ciado Christovão Fernandes, do desembarguo del-rei, noso senhor, nestas partes da índia, ouvidor geral em elas, com alsada, e aselado do selo das armas reaes em esta cidade ... aos vinte e sete dias do mez de Janeiro. Lopo da Graça, escrivão do cargo do dito ouvidor geral ho mandou escre- ver e sobescrever, por licença que pera ello tem. Anno do nacimento de Noso Senhor Jesus Cristo, de mil e // qui- 159 v.r nhentos e sinquioenta anos. O licenciado Christovão Fer- nandes. Conncertado por mim escrivão com ho propio testamento e com os mais autos e com o escrivão aqui asinado, Rodrigo '1 (?) Fernandes. Gonçallo Pero * (?) de Aguiar. 3 — E.o; t, — P.O. 39
  • 6 CARTA DO PADRE NICOLAU LANCILOTO AO PADRE INÁCIO DE LOIOLA Coulão, 6 de Janeiro de 1551 Documenta Indica: II, 144-149. Desta carta transcrevemos, apenas, a passagem referente ao Padre Afonso de Castro, missionário nas Molucas. Também temos quá outro Padre quue tem o mesmo empedimento (1), quue foy frade allguns meses: chama-se Afonso de Crasto. Este é muyto bom filho e muito bom manseboo. Eu tive carreguo delle mais de huum annoo, scilicet, que estivemos no mesmo colégio de Guoa, e eu lhe dey os Egercicios e o comversey spirituallmemte todo ese tempo. Estou muyto edificado delle, asi pela sua muyta oraçam e comtemplaçam e modéstia de vida; e portamto se a Vosa Reverencia pareser bem, de ele ser recebido na Companhia, spreva-nos o que se faraa deste. Ele de lletras sabe muyto pouquo, porque nam sabe senam hum pouquo de gramatiqua. Mestre Francisco o mamdou fazer sacer- dote, e depois mamdou (-0) pera Maluquo cora alguns outros companheiros, e lhe deu carreguo de todos aqueles quue llá amdão, por ser descreto e vertuoso. Aguora, á (1) Antes, fala do Padre Henrique Henriques, que fora religioso franciscano, durante algum tempo, e que desejava ser admitido na companhia. 4 o
  • dous annos, des amtam pera quá, nam ouvymos novas deles, porque nam veo nenhum requado desa terra, por- que é longe, que sam mill e seicemtas lleguoas. Estamos agora esperamdo por novas de Mallaqua e Malluquo e de Japão, porquue vem todas num tempo. As novas que vie- rem, se tornarem aquy as naos, as mandaremos a Vossa Reverencia. 4 '
  • 7 FRANCISCO PALHA ENVIA CÓPIAS DE DUAS CARTAS DE EL-REI DE TERNATE Molucas, 16 de Março de 1551 ANTT: Gaveta 18-2-40. Este documento, escrito em duas folhas, com letra um tanto confusa, contém as cópias de duas cartas escritas pelo rei de TernatiQuechil Aeiro; uma, a Francisco Palha; e outra, a D. João III, com alguns comentários do mesmo Francisco Palha. a) Queixa-se o rei de Ternate, em ambas as cartas, das perseguições que tem sofrido por parte de alguns capitães, e do desprezo a que tem sido votado. b) Pede nas mesmas algumas mercês, invocando a sua fidelidade a el-rei de Portugal. Trelado de hua carta, que el-rei de Malluco escreveo ha Francisco Palha, ha quail propria, per houtra via, vay ha Sua Alteza. «Senhor, Hua carta de Vossa Merce me derão, com ha quall levei muito contentamento, e bem se parece nella não ser de poalha, senão de cousa muito pezada, haimda que em todas suas veniaguas e parte dallgumas cousas nom pode neguar ho nome, mas, porem, creia Vossa Merce que eu 4 2
  • ha tirei nallma sempre escrita, como cousa sua, a quem eu tãoto devo. E quãoto ao que me escreve das lembrãoças, que de mim tem, pêra manifestar meus serviços a el-rei, meu senhor, bem creio que, nesa parte e em todas has houtras cousas, são em muita hobriguação a Vossa Merce, e asi tãobem creio que el-rei, meu senhor, da muito cre- dito a suas cartas, como he rezão que se de as taes pes- soas, que lhe nom escreverão senão ha verdade, e, por hiso, sera escuzado querer dar-me tão licita prova, homde esta tão craro ser asy (i). E quãoto as armas, como ja tenho escrito a Vosa Merce, maes as estimara que me fazerem senhor de toda Turquia, por ser a primeira peça que el-rei, meu senhor, me maãodava, porque, com ellas, quebrara os holhos a todos los meus inymiguos, mas bem vejo que nom são houvidos la meus serviços, porque, se o forão allembrados, não mas tomarão, mas ja nisto nom quero fallar, por me nom ter por emportuno. (El-Rei, que seja em groria, mãodava húas armas ao dito Rei, e Dom Afonso mãodou-as ao Rei de japão, polo que asima se queixa) (2). Qua veo dom Duarte Desa por capitão desta fortalleza, e entrou mui bravo pêra mim, que huzou comiguo ho que nom fizerão hos houtros atras, em mãodar vender os pe- nhores em que me tinhão penhorado, por parte de Jurdão de Freitas. Seriamente que ho senti muito, não ja tãoto polia perda delles, mas polia dezonrra que niso recebi, em amdar ho meu nome nos leilões, por que nom habasta (1) A margem: a prova joy mãodar-lhe hua carta minha de Sua Alteza. (2) O parêntese da nota de Francisco Palha é nosso. 4 3
  • quãotas hofemsas me fez Jurdão de Freitas, se não aimda aguora, com esta, lhe ponho ho sello; e dizem aguora hos houtros reis que este (e) ho paguo que me ão-de-dar por minha lealldade e serviços, mas, porem, nem por hiso ei-de deixar de sempre ser quem ate qui fui, porque, aimda que pase quallquer vergonha, por servir tão allto prim- cipe, ei tudo por bem empreguado, por que el-rei, meu senhor, nom tem nisto cullpa, porque se elle soubesse ha verdade, eu confio que, aliem de me fazer justiça, me faria merce, mas coitado de quem esta tão lomge. Aimda com isto dizem que nom são contemtes, senão que me ão-de penhorar; ja guora nom tenho em que, senão se for em a molher hou hos filhos. Allguma cullpa dou disto ha Vosas Merces, poes que são la meus precuradores, não requererem minha justiça, mas sera por suas hacupa- sões. Qua mandarão ha guarnição do cavallo que me mão- dou ho senhor governador; verdadeiramente que follguei muito, porque me parece que ja vou hallenbrãodo, e que nom estou tão esquecido como me parecia, que era por- que, quãodo eu nom hallembro, pera mandarem as pes- soas que me mãoda el-rei, meu senhor, parece-me que não seria llembrado pera ho maes. Uv.i // La escrevi ha el-rei, meu senhor, e aho vizo-rei, per allgumas vezes, que me desem licemça pera vimte bares de cravo na nao del-rei, forros, pera mãodar trazer allgumas peças pera minha caza, e asi licença pera mão- dar huum jumquittho (navio) a Mallaqua com allgum cravo, com paguar terços e direitos, e de nada me mão- darão reposta; nom sei se he por esquecimento, se por me nom quererem dar. Novas desta terra nom escrevo a Vossa Merce, porque la as sabera, senão fiquar de saúde e prestes pera fazer ho que me mãodar. 4 4
  • Noso senhor lhe acrecente os dias da vida, pera seu serviço, e lhe de muita saúde, como elle deseja. Deste Malluco, aos dezasseis dias de Março de 551 anos. E porque sei que se nom ha-de enfadar de ho enco- mendar nas cousas que delle me comprirem, lhe peso muito que la me aja hiia sella, muito boa, e hua saia de malha, muito forte, e seja da medida que Vossa Merce ja sabe, que a mister a minha barrigua; e asi húa espim- garda, muito boa, e isto me ha-de aver Vossa Merce do senhor governador, em nome del-rei, noso senhor, por- que de Vossa Merce me contento com hua oipa (?), muito boa, pera ha minha turca (?). E poes mãoda qua vinigua de palha (3), mãode hua sella de couro, porque eu ha paguarei ca muito bem». Este ho trellado de hua carta que me el-rei de Malluco escreve, que por houtra via vai a propria. «Vossa alteza nom tenha ho rei de Malluco, que (e) hum negro por si, por (a) quelle emperador dos arce- pelliguos daquellas partes, e mui grão senhor, mas como se criase com os portuguezes, he tão soxeito ao serviço del-rei, noso senhor, e am-no hos capitães por tão seguro e leal que ho deshacatão, deshobedecem em cãotidade, alguns capitães, que chegão a o prender, e despois, como ho fes Jurdão de Freitas, e aguora Dom Duarte, e tudo afim de seus imtereses; e por se nom castigar Jurdão de Freitas, fes Dom Duarte houtro tãoto, que a causa do estado, a que ha fortalleza cheguou, e tudo naceo da pri- zão de Jurdão de Freitas, contra ho quall ho rei houve (3) vttitagua de palha, i. é. artigos feitos em palha (?). No texto: vmiagua (ou niniagua?) de palha...
  • sentença, que lhe paguase hua cãotidade de dinheiro, ho quall se lhe paguou. E depões de el-rei ser em Malluco, sem ser houvido, foi tornado a mãodar que o (4) dito rei tornase ao dito Jur- dão de Freitas ho que lhe tinha levado, pello qual ho dito rei deu penhores, pera mãodar a Imdia requerer sua justiça. E Dom Duarte, capitão, foi comprar esta demãoda contra ho rei, e os penhores que tinha dados po-los loguo em leilão, vemdemdo-lhe sua fazenda toda, cincoenta por dez. E por lhe nom hachar maes fazenda, pera se paguar, perceguia ho rei em cãotidade que se emfadava, e dos enfadamentos ho detrimynou de premder, polo qual este se levãotou. Hasi, que de se nom castiguar hum mal ca, tem mil malles, de que eu nom tenho a cullpa, por cãoto, polo meudo, cada ano, ho tenho escrito e dito aos governa- dores, mas, poes, me nunca quiserão houvir, nem crer, pera prover, proveja noso senhor». Quãoto as pesas de que se o (?) (5) rei agrava herão húas armas brãocas e hum estoque, tudo muito riquo que el-rei, noso senhor, que esteja em groria, ha meu requi- rimento mãodava ao dito rei, e os padres de São Paullo pedirão as taes peças, que ião pera ho tall rei, pera as mãodarem ao rei de Japão e a carta de Sua Alteza mão- (2r.i darão-na ao rei //de Malluco. Vemdo ho rei que na carta dizia que lhe mãodavão armas, e esto, que perguntãodo por as peças, foi-lhe dito que se mãodaram ao rei de Japão, que he de que se aqueixa na carta. Ho que diguo pera Vossa Alteza saber (4) No texto: quo. (5) de que se o è a leitura incerta que pudemos decifrar. 4 6
  • ho cão hasertado foi, nom se lhe dar ho que se lhe mão- dava, que elle muito estimara. Hasi que nunca ho rei de Malluco foi aguardecido de seus serviços, mas escãodillizado, e quãoto me ha mim, certamente, (?) isto maguoa, deve-o Vossa Alteza semtir, pera prover com justiça, ja que lhe nom fazem merce. Heste rei he mouro e naturall de Malluco, e eu são de Portugall, cristão; e ho tal rei, amtão, me fez merce, mas amtes eu lhe tenho dado ho caprovo (6), com per sua carta se ver que me pede, e nom manda; e a sella, que diz que lhe mãodou ho governador, eu a fis, pera lha mãodar e, depões de feita, dixe o governador (7) que eu lhe mãodava hua sella, em nome del-rei, por ver que nom tinhão conta com tal rei, polo quall Francisco Barreto me mandou paguar la sella; e se a eu nom fizera, pera lha mãodar, nom lhe fora mandada. Ho que diguo, pera me Vossa Alteza nom ter por sospeito, por que eu nom pertendo senão de Vossa Alteza fazer justiça, ja que nom faz merce a hum rey, que tãoto he, por seu serviço, tão agravado. He por ho que diguo ser verdade, me acino haqui. Francisco Palha (6) i. é. o que aprovo (?). (7) Ou seja: disse ao Governador.
  • 8 CARTA DO IRMÃO NICOLAU NUNES Molucas, io de Abril de 1551 BAL: 4Ç-IV-4Ç. Fls. 142 V.-143 r. (1) Cópia limpa também de correcções, em estilo simples e sintético, mas rico de notícias. a) Ocupações apostólicas dos P." João da Beira e Afonso de Castro. b) Visita à ilha de Moro, onde o P.* João da Beira adoece gravemente. c) O rei de Geilolo submete-se e promete converter-se. d) O rei de Ternate, inimigo dos cristãos. Pax Christi. Muito nos alegramos, charissimos irmãos, com as boas novas que temos, do que Nosso Senhor por la obra. Elie seja de todo bendito. Também, faz por caa muito fruito, jx)lo Padre João da Beira, em a conversão dos enfieis, e consolar e vi(si)tar os enfermos, socorrendo-lhes em suas neceissidades, e emparar muitas viuvas. He mui occupado em fazer amizades e em ouvir confisõis. São tantas as occupações spirituaes que não ha tempo de escrever-vos largamente. O Padre Afonso de Castro prega com muito fervor e aproveitamento em spirito; faz-se muito fruito com seus sermões; todos os dias faz doutrina; confesa-se (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 180 r.-i8o v. 48
  • muita gente e recebem o Santo Sacramento, muitas vezes, tirando-se de seus maos custumes. Fomos visitar, o Padre João da Beira e eu, as ilhas do Moro, onde elle, poios muitos trabalhos de fome e cal- mas e persecuçõis, caio mal, de humas grandes quinturas, e, com pouca sperança de vida, se veo a esta fortaleza, a curar. Eu fiquei, la sustentando os christãos, onde, por duas vezes, fui entregado a morte, e me vierão busquar os mouros, para me matar; milagrosamente me guardou o Senhor, que he verdadeira guarda de todos, quia nondum venerat hora mea (2). Depois me vim a fortaleza, por mo mandar asi o pa- dre, para me curar na fortaleza de Malaca (3), por estar doente; onde, ao presente, estou insinando a ler os mi- ninos, ate que vamos, outra vez, visitar os christãos. Agora, quando vinha a esta fortaleza, me perdi com o navio e os livros que trazia dos padres; milagrosamente me salvey a nado, com muito trabalho, padecendo depois muita fome e cede, com pigo (sic) de me matarem; ate a fortaleza vim nuu; bem que me aproveitey pouco destas merces de Nosso Senhor. Certo, charissimos, que podem com verdade dizer: «estes padres, propter te tnortificamur tota die (4), dormem humas vezes in cima das arvores, en dizertos e cerras muy frias, sem comer, e o milhor pão desta terra he pão de pao, e comem-no por recreação, algumas vezes; são vindidos; outros, presos e cativos dos infiéis; outros, meos afogados, escapão. Sed venientes, venient cum exuMatione, portantes manipulos suos et in novíssimo die absterget Deus omnem lacrimam ab oculis eorum» (5). // (2) Cf. Joan. 7, 30. (3) Palavra corrigida para Maluco. (4) Cof. Rm. 8, 36. (5) Ps. J25, 6. ■ nsitlINDIA, U — 4
  • Huma ilha chamada Geilolo tinhão os portugueses cer- cada; quis-lhe o Senhor dar-lhes vitocria; o mesmo rey lha entregou ao capitão dos portugueses, e se offereceo ao capitão, para ser christão, aynda que, por persuadisão de alguma gente de Tanarte, o difirio por algum tempo, to- davia, mandou dizer ao capitão que compriria o que avia prometido, ainda que, por algumas razões, o deixara de fazer loguo, principalmente por temor del-rey de Ter- narte. Dis que, como for christão, fara com todo o Ma- luco que se faça christão. O anno que vem, com o favor do Senhor, se escrevera boas novas de sua conversão. He homem constante e muy temido nestas partes; encomen- dem-no a Nosso Senhor, para que lhe de sua graça, e con- fyrme em seu bom proposito. Ate agora, fomos muy mal ajudados e favorecidos del-rey de Tarnate, em nos não dar embarcação, para yr visitar os christãos, por ser mouro e muy enimiguo dos christãos; persegue-os e mata-os; trouve a sua obedientia as ilhas de Omoro, e da christandade não faz conta. Nisto ha também que padecer. Deos seja bendito por tudo. Amen. De Maluco, a 10 de Abril de 1551. Vosso irmão em o Senhor Nicolau Nunes 5 o
  • 9 CARTA DO PADRE FRANCISCO PERES Malaca, 24 de Novembro de 1551 BAL: 4.Ç-IV-4.Ç. Fls. iji V.-134 r. (1) Esta carta narra, especialmente, mais um ataque a Malaca, jeito pelos indígenas circunvizinhos. Contudo, alguns factos e referências nela contidos interessam-nos também. Ê de notar a diferença que nesta carta se faz, entre jaós e malaios, tipos raciais distintos, e que, geralmete, se confundem. a) Em Malaca não há noticias do Padre Mestre Francisco. b) Cerco posto à cidade por jaós e malaios. c) Morte de D. Garcia de Meneses, que ia para capitão das Molucas. d) Outros portugueses mortos na igreja, aos domingos, durante a missa, por tiros dos inimigos. e) Ataque à cidade, por vários pontos. /) Socorro levado por Gil Fernandes de Carvalho, e vitória que alcançou sobre os atacantes. £) Necessidades que Malaca sofreu, durante o cerco de cento e três dias. A graça e amor de Jesu Christo, Nosso Senhor, seja sempre em nossas almas. Amen. Ho anno passado de cinquoenta, padres meus e irmãos Christo, escrevi a Vossas Charidades, como estava (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 162 r.-iôg r. 5 1
  • aqui em Malaca, como me mandou ho Padre Mestre Fran- cisco e hos exercitios em que me mandou occupar, os quaes se continuarão, ate guora, com muyto fructo dos portu- geses. Ho Senhor, cuja obra he, seja louvado. Ate gora, não sabemos cousa nenhuma do Padre Mes- tre Francisco, porque, o anno passado, de cinquoenta, [ij2 r.i não foy daqui nenhuma / / embarcação; não sey se o estorvou Mamona, se Lucifer, porque, seis ou sete vezes, se aparelharão mercadores para ir, com muyto deseo, e finalmente não forão. Este anno de cinquoenta e hum, assi mesmo, não foy la embarcação nenhuma, porque, estando huma nao no porto aparelhada para ir, a 7 de Junho foy queimada com outras tres naos e hum navio pequeno, que qua cha- mão junquo; isto, porque Deos Nosso Senhor quis cas- tigar a esta cidade, com a ter cerquada cento e tres dias, em que se começou o cerquo, a 5 de Junho, e forãosse os mouros a dezasseis de Setembro; no qual tempo se pas- sarão grandes cousas dinas de saber, para dar graças ao Senhor que castiga e nunqua aparta a sua misericórdia do seu povo, e castiga por onde pecamos; porque acus- tumavão os deste povo aguardar muy mal os domingos, com seus tratos e banquetes, que se esquecião de Deos, pois se equecião das cousas divinas; portanto, o domingo, mostrou o Senhor seu castigo; em sesta feyra, a sua mi- sericórdia; porque em domingo se queimarão as naos; em domingo, aos 14 de Junho, matarão a Dom Garcia de Meneses, que ya por capitão de Maluco, os jaós, as lan- çadas, com outros quatro ou cinquo, entre os quaes, ma- tarão a Pero Vaz Guilherme; e ao recolher, morrerião, afogados em hum rio, dez ou doze, com outros tres que tomarão vivos, os quaes os imigos matarão, porque nãa da vão vida a nenhum christão. Não digo per que julgue a Dom Garcia e aos que com 5 2
  • elle morrerão por pecadores e quebrantadores das festas, como seja verdade que Deos Nosso Senhor castiga a este mundo (sic) os pequenos pecados e os muy grandes os deixa, por ser castigados (sic) no outro, para sempre. Mas, antes, segundo ouvi aos que o conhecião, era homem bem acustumado, lido, muy bom christão, porque, ao sabado, se desembarcou com huns certos homens, e logo se confessou e recebeo ho Santíssimo Sacramento, ao do- mingo, polia manhã, et certe fuit rapbus ne malicia mu- taret cor illvus (2). Em domingo, aos dous de Agosto, matarão a hum homem, chamado Duarte Madeira, com hum tiro de ca- mello, estando de giolhos, junto do altar, para receber ho Santíssimo Sacramento, tendo ja o clérigo dito missa, de modo que, se se não apartara ho padre hum pouco, para a mão direita do altar, fora também feyto pedaços. E este Duarte Madeira dava de si, assi mesmo, boons sinaes de christão. Ho que eu tenho para mim, he que foy aqui sacrificado a nosso Deos e Senhor polias mãos dos infiéis. Elle avia muyto bem trabalhado por defender a cidade. E outro domingo adiante, tirarão, outra vez, com o mesmo tiro, e cortarão huma perna a hum homem, de que morreo; e ao outro domingo, tirarão com berços, e matarão outro homem; de maneira que mais frequente- mente nos tiravão aos domingos, que não aos outros dias, e sempre nos tirarão a igreja, porque elles sabião, polia gente infiel que estava entre elles, que aquelle dia nos juntávamos na igreja. Outro domingo, matarão a hum homem, com huma espinguarda, dando-lhe polia garganta, que se sayo fora, depois de comer e beber; e assi que, por onde pecou, foy castigado neste mundo, para que a sua alma fosse salva (2) Cof. Sap. 4, 11. 5 3
  • em ho outro, porque morreo confessado e arrependido de U32 T.i seus peccados. // Aos 15 de Agosto, dia da Assumpção de Nossa Se- nhora, mandou ho capitão Dom Pero da Silva, sair gente polia manha, a dar em huma tranqueira, em que estavão os imigos, da parte do oriente da cidade, donde se quey- marão dous homens, que não morrerão, mas matarão dous nossos, os imigos, os quaes, estando ouvindo a pre- gação, a deixarão, que parece ser mistério do Senhor. .í4ssí que não somente nos tiverão cerquados, mas to- marão a parte da cidade onde habitavão os mercadores quillins e mouros e chins e outras muytas gentes, donde se se levarão (sic) grande presa de ouro e prata e çeda, sandalo, e muyta roupa, e não pouca porçelana. E dizem que levarião mais de vinte mil almas, entre as quaes, erão alguns christãos, que soma a perda que fizerão hum conto de ouro, segundo dizem os homens que disso sabem. Tudo não aconteçe sem causa, immo regnum a gente in gentem transfertur, propter injustitias et contumelias et diversos dolos (3). E não se me persuade, como ja arriba apontey, que os que aqui padeçerão erão mais pecadores que todos, pois os israelitas que cometerão a cidade Hay tornarãosse fugindo, e morrerão trinta e seis delles, e o povo de Esrael padeçeo esta ignominia, e o escomungado de Achão, e os reaes e David peca, e o povo paga, e ainda Adão comeo a fruyta e Nosso Senhor Jesu Christo por ella foy crucificado, quae non rapui tunc exsolvebam (4). O qual, per sua infinita misericórdia, assi como so- correo ao genero humano, livrando-o do poderio do de- mónio, padescendo em sesta feyra na cruz, assi, por seme- lhante maneira, quis socorrer a esta cidade, porque, em (3) Cf. Eccli. 10, 8 (4) PS. 68, 5- 5 4
  • sesta feira, que forão doze de Junho, se desembarcou gente de tres naos que chegarão da India, com as quaes recebeo toda a cidade alegria. E logo sairão a ellas, dos imigos, mais de oitenta fustas, que chamão lancharas, antre as quais ya huma galee, com hum tiro grosso, e com muitos berços, e as outras todas com muita arte- Iharia; e des que chegarão a tiro, começarão de tirar, mas Dom Garcia mandou ajuntar as naos em hum corpo, e assy se começarão os nossos a defender com tiros gros- sos; de maneira que, sem chegar, fizerão recuar os immi- guos, não sem dano delles, e os nossos não recebendo nenhum, segundo dizem. E day em diante, começarão os pescadores a sair a pescar e a tomar alguns peyxes para comer a gente, que avia ja sete ou oito dias que não ousavão a sayr ao mar a pesquar, por medo dos imiguos. ,4ssy que, em sesta feira, começou o Senhor a mostrar sua misericórdia, para livrar do poderio dos barbaros esta fortaleza e habitação dos portugueses, onde estão as igre- jas onde Sua Divina Magestade he louvada e servida ~ Estavão os nossos com grão temor, por serem poucos, que não erão portugeses senão dozentos e sesenta, pouco^ mais, e o circuito que se guardava era grande, e os muros; fracos, de humas taypas de terra. E por a parte do mar e do rio não avia emparo nenhum, e os immiguos erão muitos, que, segundo dizem, os jaós erão tres mil; outros dizem que mil e quinhentos, mas bem creo eu que erão mais de tres mil, com a gente que se levantou com elles, que vivia com nosco em o tempo da paz. E estes jaós he huma gente muito barbara, e acometem sem medo, e ainda que os firão e matem, não dizem hay. Suas armas são humas lanças muy longas, mais em grande // quantidade i133r que as nossas, e algumas espingardas e berços, e tinhão entonces sete ou oito peças que nos tomarão, quando to- ■5 5 %
  • marão a parte da cidade, honde esta vão os mouros e gen- tios, honde não ay ygrejas nosas; tomarão muytos man- timentos. A outra gente, que tinha cercada a cidade pela parte do oriente, por nome mallayos, dizem que serião sete ou oyto mil homens de pelleja, e dizem que trarião sobre trezentas vellas; ja podem ver, padres e irmãos meus em o Senhor, que comparação ay, de trezentos homens a doze mil, polo qual estavão os nossos com muito trabalho, não dormindo toda a noyte, vigiando cada hum em suas estan- cias, esperando pela misericórdia de Jesus Nosso Senhor, o qual os esforçava com as suas sacratíssimas chaguas, porque os companheiros nosos andavão com crucifixos nas mãos, fazendo algumas exhortações e praticas, com as quais se esforçavão muito em o Senhor. A dezasete do mesmo mes, quarta feira, antes do dia, acometerão os jaós a cidade, por huma estancia que guar- dava hum velho honrado, casado e morador nesta cidade, por nome Francisco de Payva, e puserão-lhe escadas, e subirão alguns em cimas (sic) das paredes, mas o que guardava a estancia, com a pouqua gente que tinha, que erão três homens portugueses, com quinze ou vinte escra- vos, lhe defendeo a entrada, e logo acudirão dous esqua- drões de gente, que serião ate trinta homens, e pellejarão com elles, obra de huma hora, com bombas de foguo e espinguardas, lanças, e paos tostados; e com a ajuda de Nosso Senhor Jesu Christo, pella qual elles chamavão, os fizerão recuar e deyxa-las escadas que trazião para su- birem, e lanças para offender, e frechas de peçonha, e zarvatanas (5), que são armas com que elles pelejão, fi- quando muitos deles mortos, que eu vi com os meus pro- (5) E ainda zaravatana, zervatana e zabatana: tubo, geralmente, de bambu, que serve para arremessar pequenas setas. 5 6
  • prios olhos peccadores; antre os quaes matarão a hum homem entre eles cavaleiro, que segundo dizem, que era parente do capitão geral dos jaós, e polo levar morto, para lhe fazer as exequias, segundo seus costume, morrerão tres, porque lhe atiravão com as espingardas, mas todavia ouverão de levar. Este dia foy o primeiro, digo, mostrou o Senhor a sua grande misericórdia comnosco, porque dos nossos nenhum morreo, nem foy ferido. Aqui poderemos notar que nin- gem confie na multidão de gente, senão somente no Senhor Jesu, em o qual so os nossos tinhão suas esperanças e confiança: falax equus ad salutem, in abundantia autem virtutis suae non salvabitur (6). A tres dias de Julho, se ajuntarão os jãos e malayos, que serião ate dez ou doze mil homens, como ja dissemos, t determinarão de combater a cidade, por todas as partes, e assy o fizerão em huma sexta feira, depois da mea noyte; huma hora, pouquo mais ou menos, jaós e mallayos come- çarão de combater a cidade, pela parte do oriente, e os nossos, que estavão vigiando em suas estancias com lan- ternas, os sintirão; chamando pelo nome de Jesu, Nosso Senhor, começarão a defender os muros com ânimos de christãos, com panellas de polvora, espinguardas, ber- ços, com todo o genero de armas de tiro; e com vigas grossas, que tinhão atravessadas nas paredes, quebravão as escadas dos barbaros e os matavão. E os nossos com- panheiros acudirão loguo cada qual a suas estancias, por- que estávamos repartidos com crucifixos nas mãos, ani- mando a gente, tomando por voz o nome de noso Capitão Geral Jesu Christo, Nosso Senhor. E assy pelejarão duas ou tres horas, desta parte do oriente. E, emfim, pela misericórdia divina, os fizerão recoar, (6) Ps. 32, 17. 5 7
  • com aver morto, os nossos, muitos dos barbaros, que matarião, desta parte, mais de dozentos, segundo se disse; e dos nossos ningem morreo, senão hum escravo que se desmandou, e dous homens que se queimarão elles [ij3 v.] mesmos com huma panella de // polvora, mas não mor- rerão. E depois, acabado este combate, da parte do oriente, logo (7) acometerão os jaós, que he gente mais po- drosa (sic), pela parte do poente. E com vir o capitão geral dos jaós em pessoa, por aquela banda, passando hum rio por bayxa mar, e acomoterão muy fortemente, por aquela parte, honde estava o nosso capitão Dom Pero da Sylva; e os nossos, ainda que estavão cansados do vigiar toda a noyte e pelejar, não mostravão fraqueza, mas, esperando na misericórdia de Nosso Senhor Jesu Christo, por Quem estavam aparelhados a morrer, pelo qual todos os mais estavão confessados e avião recebido o Santíssimo Sacramento, os dias pasados, lhe começarão a resistir a passada (sic) com tiros de artelharia grossos, que estavão na fortaleza, junto do rio, e com panelas de polvora e com outras armas defensiveis; e não lhe po- derão resistir tanto, aynda que matarão muitos deles, que não entrarão na cidade, mas entrarão em humas casas de madeira, que tinhão as paredes de tavoado, e os nossos correrão toda a noite, por huma rua, que (8) não saissem dahy, e se derramassem pela cidade. E se sairão e se espalharão, deram muito trabalho, e não pode (9) ser senão que nos matarão muita gente, (7) Nesta passagem encontram-se algumas palavras riscadas e a sua leitura não é clara. (8) i. é. para que. (9) O emprego antigo do pretérito perfeito pelo mais que perfeito simples ou condicional torna este ponto do documento também um pouco confuso. 55
  • mas Dominus inclusit illos, que foy grande mistério divino, que estiverão ay, ate dia claro, e os nossos defendendo- -lhes as portas. E como foy de dia, soube-se mais claramente onde estavão, e os nossos tiravão com as espinguardas e pas- savão as tavoas e os matavão, e elles não podião ferir aos nossos com suas lanças, e assi estiverão pelejando, ate as nove do dia. E todos quantos barbaros entrarão, morrerão, caindo huns sobre os outros, que não avia onde por o pee, que não fosse sobre elles. .4ssy, que ficarão tres casas cheas deles, mortos, os quais vy com muita dor do meu coração, em ver tantas almas perdidas; e, por outra parte, com a allegria, por ver a cidade livre, a qual tinha em sy muitos mininos fieis de Nosso Senhor Jesu Christo, que bradavão e dizião: «Senhor Deos, ave misericórdia de nos! Jesu Christo, Filho de Deos, ave misericórdia de nos! Spirito Santo, ave misericórdia de nos»! E muitas molheres que podião perder suas almas, sendo cativas dos infiéis. Aqui morreo hum mancebo, por nome chamado Paulo Serrão, por mãos dos immiguos; e outros nossos forão mortos das nossas próprias espinguardas. E despois das dez, que a gente se vio livre de hum periguo tamanho, todos, claramente, confessarão ser esta victoria não alcançada por forças humanas, pelo qual o Padre Viguayro, com todos os cleriguos, com hum cru- cifixo diante, correrão os muros, dando graças ao Senhor, que avia remido a cidade, a sesta feira. Hos que aquy estavão mortos, nestas casas, dizem que serião duzentos e setenta e com toda a gente que morreo, este dia, dos barbaros, dizem que serião sobre seiscentos homens. Diguo a Vossas Reverencias, padres e irmãos meus, que as tais cousas fazem ter maior fee, crer fortissima- mente em Nosso Senhor Jesu Christo, descrer do mundo 5 9
  • e suas pompas, confiar em soo Deos, que socorre em o tempo opportuno, a quem o chama de verdadeiro coração. Despois disto, nos começarão a fazer guerra, com tiros de artelharia, e a cercar a cidade por todas partes, com tranqueiras, não deixando sair gente a buscar alguns man- timentos de ervas, nem deixavão entrar outros manti- mentos nenhuns; quasi padecia a gente muita necessidade de fome; e por ser a gente pouqua, como ja se disse atras, não se podia revezar e vigiar. Era forçado que passassem as noytes sem dormir, pelo qual adoeçia muyta gente, e estavão em muyta necessidade, mas a Suma Bondade, que socorre, quando lhe apraz, e como lhe apraz, quis socorrer a esta necessidade, em que viesse, este anno, a esta cidade, mais triguo que nunqua avia os outros passados vindo, e muitas tamaras. E assy estavão esperando que nos avião de combater, ii34 r.i dizendo aguora, mas aguora, neste escuro da // lua, por- que elles nunqua nos cometerão, senão de noyte, e pollo escuro, de modo que, com esta tristeza e cuidado estando toda a gente, não se esperava outro socorro, depois do de Nosso Senhor Jesu Christo, senão o de Gil Fernandez de Carvalho (10), que estava em hum reyno, que se diz Queda. E determinousse de o mandar chamar, e assy se fez. E elle, como o soube, com muita ligeireza apparelhou os seus navios, e com assaz de trabalho, porque tinha o vento pola proa, chegou a vista de Malaqua, a seis dias de Agosto, dia da Transfiguração de Nosso Senhor. E a cidade foy transfigurada, porque da cara que tinha, triste, se tornou alegre, de quansada, e que não podia tomar folguo, começou a respirar. E loguo lhe sairão setenta ou oitenta lancharas, para (10) Por cima destas palavras encontra-se a seguinte nota, escrita com letra diferente: era irmão do nosso Padre Anriquei de Carvalho. 6 O
  • pellejar com elle, mas Gil Fernandez mandou arribar sobre ellas, e como virão os emmiguos a determinação, se forão fogindo pêra terra, onde não podião cheguar os navios de Gil Fernandez, por serem de alto bordo, que era hum galeão, e huma nao, e huma fusta. E assy veo ao porto; em huma sesta, desembarcou e meteo dentro na cidade sua gente, que serião sobre cem homens arcabuzeiros bem aparelhados, e deseiosos de pellejar. Foy recebido do capitão Dom Pero da Sylva com muita honra e allegria, e o Padre Vigayro Joam Soa- rez, com os padres vestidos, os sairão a receber a porta da Misericórdia, com a cruz levantada, e assy entrou na igreja o Capitão Geral Dom Pero da Sylva, e ouvirão missa do Nome de Jesus, a qual quasi sempre a dixe hum padre, des que se começou o çerco, todalas sextas feiras. E por- tanto, creo firmemente, sem duvida, que o mesmo Jesu fecit salvam civitatem ab inimicis cruris Christi (li). E des que ouvirão missa, se forão ambos a fortaleza a comer. E passado isto, Gil Fernandez determinou por obra ao que veo a esta fortaleza, que, segundo dizia, era servir a Deos e a el-rey; fez que se concertassem certas fustas e as lançassem o mar, com todo o aparelho necessário, e assy o fez fazer o Capitão Dom Pero da Sylva. Elie, a saber, Gil Fernandez, se aparelhou para ir pelejar, con- fessandosse e recebendo o Santíssimo Sacramento, não somente elle, mos toda a mais gente que vinha com elle, porque era homem bem acostumado, manso, temeroso de Deos, e amiguo de pelejar, que ver a necessidade que avia; mas, depois, não pareceo bem ao capitão Dom Pero da Sylva, nem aos do povo, que saisse a pelejar. Os Malayos, que tinhão acercada a cidade, pela parte do oriente, tinhão sentado seu arrayal em terra, e tinhão (u) Cf. Phili. 3, 18. 6 i
  • huma tranqueira mais cheguada a cidade, donde fazião muito dano com a artelharia. E segundo parece, vista esta determinação, que avia, de hir a pellejar com elles, pelo mar, desempararam a tranqueira e o arrayal, e reco- lherãosse as embarquações, a huma sexta feira, a noyte, que forão 14 de Agosto, octava do dia de Sam Lourenço. 4ssy que as sextas feiras nos mostrava o Senhor suas misericórdias. E os jaós, que he gente mais podrosa, pola terra que occuparão os malayos, aquela mesma noyte que ama- nheceo, dia de Nossa Senhora de Agosto, a tranqueira desemparada dos malayos (12), e puserão nella artelharia, e começarão a fazer guerra a cidade; aponta vão para huma igreja de Nosa Senhora, que he nosa, e para a nosa casa, donde tiraram muitos tiros, assy como avião feito, ate entonces, os malayos, passando, as vezes, por antre as pernas dos homens e junto polias cabeças. E Nosso Senhor os guardava, que não nos matarão, em todo este tempo, mais de dous portugueses e hum homem christão da terra. A qual tranqueyra determinou o Capitão Dom Pero da Sylva que Gil Fernandez de Carvalho saisse com ses- senta homens, e assy saio, hum sabbado, pela menhãa, avendosse confessado e tomado o Santíssimo Sacramento, vestido no habito de Christo, de que elle he Comendador, porque assy acustumava muytas vezes a se confessar e comungar, dizendo que não achava outras armas mais fortes, nem que mais o animassem, para pelejar com os immiguos da cruz de Christo. E assy que, armado com huma coura de laminas e (12) A redacção desta passagem é também imperfeita e obscura. A comparação com a cópia da BACIL nada esclarece, pois é precisa- mente igual, parecendo que a frase ficou por completar. 6 2
  • huma celada (13) na cabeça, que lhe cobria o pescoço e a barba, em pernas, e huns çapatos bayxos nos pees, e hum montante na mão, depois de aver tomado a benção do sacerdote, sayrão pela porta, tomando o caminho para a tranqueira, com muita detreminação, donde estavão os immiguos, os quais se começarão a defender com espin- guardas, paos tostados, e // lanças, das quais elles se sabem bem aproveytar. Mas os nossos, com o nome de Jesu e de Nossa Senhora, combatião a tranqueyra com espinguardas e bombas de foguo, sem descançar, e o que levava a bandeira, que era hum soldado de Gil Fernandez, irmão de Bento Fernanrez, quis-a por dentro, como poos, entrando por huma porta estreyta, que tinha outra contra porta, que a guardava, onde estavão os barbaros com lan- ças, defendendo a porta. E junto com a sua bandeyra entrou Gil Fernandez, para a defender, e como entrasse, derão huma lançada, pola barriga, ao que levava a bandeira, de que cayo morto. E Gil Fernandez, vendo que a bandeyra estava no chão, e que day podia vir algum desmayo a gente, se abaixou para a alevantar, como levantou; e ao abayxar, hum velho jao, que dizião ser o capitão, parente do capitão geral, lhe deu huma lançada pelos peitos, que lhe rompeo a coura de laminas, e lhe passou pela carne huma gram ferida, que lhe saya ao sovaco dereito. Mas Gil Fernandez, dando a bandeyra a outro soldado, não perdendo animo, mas acrecentandosse mais a yra, deu hum golpe ao mesmo que o ferio, que o partio <^e alto a bayxo, e logo a outro, e a outro, que cayrão logo mortos, com cutiladas muy feras, de que se espantarão os jaós e sayrão, e Gil Fer- nandez, com toda a gente, ferindo e matando nelles, ate (13) Antiga armadura de ferro para a cabeça. (Grande Dicionário, de Cândido de Figueiredo).
  • que os meterão por huma terra allaguadiça, esses pouquos que escaparão. E entonces fizerão tornar os nossos a Gil Fernandez, dizendo-lhe que estava ferido, e que se lhe hya muito sangue, ainda que este dizia que não, e que não era nada, por animar a gente. E assy se recolherão os nossos com a victoria que Nosso Senhor Jesu Christo nos deu aquele dia, por ro- guos da Virgem Nossa Senhora, Santa Maria, tomando- -lhes a artelharia e toda a monição de guerra que tinhão na tranqueira. Morreo aquele soldado, se morte se pode dizer tam bem empreguada, como bom christão. Antes que saisse, se recomciliou, e poucos dias avia que tomara o San- tíssimo Sacramento. A outro firirão em hum pee, no artelho, que morreo day a poucos dias, de pasmo, como bom christão. A Gil Fernandez deu-lhe Deos saúde, a qual todos pedião ao Senhor, por ser elle bem quisto, affabel, franco, esmoleiro e assy casto, com ser mancebo de ate vinte seis ou vinte e sete annos. Assy que a cidade ficou desapres- sada, desde entonces, desta parte do Oriente. Ja se abrião as portas, ja a gente pobre se hia a colher ervas e lenha e outras cousas necessairias para a vida humana. E com o socorro que nos veo de Gil Fernandez, como ja se relatou, tomou a cidade animo para offender, pello qual mandou o Capitão Dom Pedro da Sylva a Gaspar Mendez, com doze balões, que são humas embarcações pequenas de remo, a queymar huns navios dos jaós, que estavão varados da parte do poente da cidade, a huma quarta feira, a tarde. E queimou duas ou tres delas, e trouxerão outras duas, com mantimentos e vinhos de pal- meyras, que chamão orraqua, as quais defenderão os barbaros com espinguardas e berços, pello qual nos ma- 64.
  • tarão hum homem casado, de huma espinguardada, pella guarganta, e morreo como bom christão, e ao mesmo Gaspar Mendez ferirão com huma frecha em hum qua- dril, de que recebeo saúde, Deos seia louvado. Neste tempo, a gente da cidade padescia muita fome, principalmente da terra, por carecer de arroz, que he mantimento comum nesta terra; e as frutas e ervas esta- vão em poder dos immiguos; dos espanhoes (14) adoe- cião muytos, com os trabalhos e frios e calmas grandes e mas comidas; e os doentes não tinhão gualinhas nem fragãos nem outras cousas necessárias para a fraqueza humana, pello qual convalecião tarde; de maneira que, ainda que os imigos não nos cometião, desde que nos veyo o socorro, porem padescião os nossos muyto tra- balho, pellas causas ja ditas, e desejavão muyto os sãos de sayr aos imigos e fazelos embarcar e irem por força. Sobre o qual se tomou conselho, e sayo que não devião de sayr, por estar pouqua gente sãa para pelejar com os immigos e guardar a cidade. Mas o Senhor, que em tal tempo soe mostrar a sua misericórdia, a mostrou, com desapressar a cidade, da banda do ponente; e yndosse os jaós, a huma quarta feita, Quatro Têmporas, depois de Santa Cruz, de 15 de Setembro, pella manhãa, estando embarcado o Pate, que he o nome do capitão ou guover- nador, estava hum pouco descuidado hum navio em que elles embarcarão a artelharia que nos tomarão, e sayrão a elles certos navios de remos, como ja temos dito, e pequenos, e começarão de querer chegar ao navio, para o renderem, e os mouros a defendersse com espinguardas. Mas nisto acudio logo huma // fusta que trouxe Gil Fer- 1135 r.i nandez, e tirou dous ou tres tiros de falcão para humas fustas dos mouros, que vinhão favorecer ao navio; e assy (14) BACIL: corrigido para dos portugueses adoecido... 6 5 inOUNDU, II — 5
  • chegarão os nossos, e fizerão lançar ao mar aos barbaros; de modo que o trouxerão com a artelharia e arroz, e outras cousas de munição. Nosso Senhor seja louvado. Desde aquelle dia, ficou a cidade desapressada de to- dalas partes e entonces se pareceo mais claramente o dano que fizerão os verdugos que o Senhor mandou para cas- tigar esta cidade. Praza a Elie que todos nos emmendemos e façamos sempre sua vontade. Era hum espanto de ver huma cidade chea de merca- dores e de tanta riqueza, agora, toda queimada e des- truída; os palmares, que estavam muitos e bons, que estavão ao redor da cidade, ve-los todos destruídos, cor- tados, en tal maneira que quasi não se conhecia de quem ho avia visto dantes; pois (15) sairão logo alguns cria- dos de Dom Gracia, e acharão o seu corpo ja gastado, o qual conhecerão polios vestidos, que estavão ainda sem ser de todo corrompidos; e polas botas que tinha nas pernas, ja sequas e gastadas; e os ossos de Pedro Vaz Guedez, e compostos os trouxerão, acompanhando-os a Miseri- córdia com toda a gente da cidade. E assi forão enter- rados, estes que morrerão, por testemunho da fee. O peccador de mim, se esta descruição e mudança particular pos espanto e temor, que sera o dia de juizo, quando todas as cousas serão movidas e mudadas, e arde- rão de maneira que tudo ficara abrasado, que isto he hum sinal mui pequeno do daquele dia do juizo?! Depois de ter o Senhor (usando da sua misericórdia para a gloria de seu Nome Jesus) descercado a cidade, começou a gente a sayr, a buscar algumas fruitas que achavão, e arroz verde, polios campos, e outras cousas de mantimentos, mas isto não matava a fome, que, to- davia, padecia a gente. Se não quando asomarão humas (15) BACIL: depois sairão... 6 6
  • naos, que forão a buscar mantimentos, a huma sesta feira, vinte seis dias de Setembro, as quaes trouxerão muito arroz e galinhas, que qua, pola cidade, se não podião achar para os doentes; e essas que acha vão, va- lião a dous ou tres cruzados, cada galinha. E assi trazião cebolas, alhos, lentilhas, ovos, e outras maneiras de man- timentos. E depois vierão mais, assi que, ao presente, esta a cidade remedeada, pola misericórdia divina. Quanto aos mantimentos espirituaes, praza ao Senhor de a remedear c emmendar, reformando-a em boons cus- tumes, temor de Deos, dereiteza de justiça, e semplicidade de fee, ao qual he necessário Vossas Charidades, padres meus e irmãos, ajudem, rogando ao Senhor polios que aqui morrerão, que herão mais de cem portugueses, e isto digo, a mãos dos imigos, afora outros muitos, que são mortos, e estão para isso, poios grandes trabalhos, e pou- cos e não convenientes mantimentos; e assi poios que fi- camos, que nos emmendemos. Assi que estas são as cousas que este anno de 51 são passadas nestas partes de Malaqua. Nosso Senhor, por cujo nome estamos tão apartados, nos ajunte en seu santo reino, poios méritos de sua sacratíssima Paixão. Amen. Feita em Malacua, aos vinte e quatro de Novembro de 1551 annos. Servo de Vossas Charidades Francisco Perez 6 7
  • 10 CARTA DO REI DE TERN ATE EM FAVOR DE ALVARO CARRILHO Molucas, 10 de Janeiro de 1552 ANTT: Gaveta 2-6-ç. Original em duas folhas, sendo uma só escrita. A esta carta está adjunto um Alvará de Cavaleiro, passado pelo capitão de Ternate, Bernardim de Sousa, a favor do mesmo Alvaro Car- rilho, e que também publicamos. a) O rei de Ternate pede a D. João III a mercê de Moço da Câmara, para Álvaro Carrilho, e que lhe seja autorizado levar para o Reino cinco quintais de cravo, para negociar. b) No Alvará, Bernardim de Sousa descreve o cerco posto ao rei de Geilolo, em que o mesmo Alvaro Carrilho tomou parte, e, pela distinção com que se portou, o armou cavaleiro. Senhor, Qua, nestas partes, estaa hum Alvaro Carrilho que tem servido a vosa alteza vimte anos, e asy nesta guera de Geylolo, com gastar ho seu, e faze-lo muito bem de sua pessoa, com Bernaldim de Sousa armar cavaleiro, e ser hum homem, que eu devo muito, e mais ser muito homrrado, beyjarei as mãos a Vosa Alteza, ave-lo por seu moço da camara, e acreçemta-lo a cavaleiro, e com- firmar-lhe ho seu Álvara, e manda-lo Vosa Alteza qua. 6 8
  • E asy, lhe fazer merçe delgum carguo, pera ho poder vender, porquamto não sabe esprever, ou de meirynho de Malaqua, ou de Aramus. E asi que poça levar pera ho Reyno çimquo quimtães de cravo, pera neguoçiar cousas minhas, por que quero la mandar, posto que Vossa Alteza não faça esta merçe a nimguem, não se entemdera em mim. E toda a mais merçe que fizer a Alvaro Carrilho ma faz a mim, e isto tudo vira no seu Álvara, pera esta for- taleza de Maluquo ou de Malaqua. Beyjo as mãos a Vosa Alteza. Deus lhe acreçemte hos dias de vida e estado e homra, pera que me faça muitas merçes. Feita hoje, a dez de janeiro de 1552 anos. Do seu leal vasalo rei de Maluco. as. (Com o sinal do mesmo) (ALVARÁ DE CAVALEIRO) Bernaldim de Sousa, capitão da fortaleza de Maluquo e etc., faço saber a quamtos este meu alvara de cavaleiro virem, que por aver desaseis meses que el-rey de Geylolo estava em guerra comtra esta fortaleza del-Rey noso sen- nhor, e reyno del-rey de Maluquo, vasalo do dito sennhor, em que o mais do tempo avia sempre mortos e ferydos e cativos, duma parte e doutra, pelo qual ordeney dir sobre o dito rey de Geylolo, e lhe por serquo a sua for- taleza, omde ele mesmo estava^ E aos vimta dous dias do mes de Dezembro, de quimhemtos e cymquoemta, party desta fortaleza, com levar comigo hum galeão e huma nao e duas caravelas com muyta artelharya e munyções, 6 ç
  • e com toda a gemte que pude ajumtar, que serião du- zentos homens, e com ir el-rey de Maluquo em minha companhia, com muytos navios de remo, e com pasamte de tres mil homens. E aos vimta cimquo dias do dito mes, fuy surgir na barra de Geylolo, defronte da dita fortaleza, e loguo lhe mandey dar batarya dos ditos navios. E aos vimte oyto dias do dito mes, desembarquey em terra, com levar comygo el-rey de Maluquo, com toda a gemte; e fuy asemtar estamcia da bamda da terra firme, a tiro de berço da fortaleza, e logo no mesmo dia mamdey tra- zer alguma artelharya grosa. E vimdo com ela, lhe sahirão ao caminho pasamte de quatroçemtos mouros, e lhe foy defemdida pela gemte que mamdey em sua defemção, em que forão mortos e ferydos alguns dos ditos mouros, e me trouxerão a dita artelharya ha estamçia, omde eu estava. E loguo naquela noyte sahirão mouros da for- taleza, e vierão ao arrayal, omde eu estava, e lamçarão panelas e tirarão allgumas espimgardadas e frechadas, em li v.] que me matarão e feryrão alguns homens. E loguo / / ao outro dia lhe fiz hua estamçia mais, per toda fortaleza, omde lhe pus a artelharya; e por estas estamçias me pa- reçerem aimda lomge pera batarya, detryminey de ir ro- dear a fortaleza, pera ver se achava estamçia, domde a milhor pudese combater. E neste descobrimento me ma- tarão e feryrão, da dita fortaleza, alguns homens. E sem embarguo de a, emtão, não poder achar, da maneira que era neçesaryo, pelo sytio da terra ser muyto forte, detry- myney, comtudo, de me mudar pera outro lugar mais perto da da (sic) fortaleza, e dahi me fuy achegamdo, com canas e bastiães, ha fortaleza, athe me por tão perto delia que serya a tiro de pedra, omde mamdey asemtar a artelharya, e lhe estive damdo batarya aos seus muros e baluartes. E dahy lhe fuy, com muitos bastiães, sem- gimdo a fortaleza, athe lhe tomar a sua primçipal agoa 7 o
  • de que bebião, mamdamdo-lhe todos os dias dar por par- tes, por omde os mouros sahião da fortaleza, omde lhe matava e ferya sempre gemte; em que forão mortos alguns seus capitães e primçipaes homens. E asy lhe mamdey queimar alguns lugares, omde lhe matarão e cativarão muyta gemte; nas quaes cavas e bastiães, que asi fiz, pus pasamte de dous meses, trabalhamdo sempre, de dia, em os fazer e, de noyte, em os asemtar, com muyto perygo, pelas mais das noytes, ao asemtar deles, e fazer as ditas cavas, me feryrem e matarem gemte, asy com a artelharya da fortaleza, como em me virem lamçar pa- nelas e polvra, e tirarem com frechas e espimgardas. E vemdo eu que em todo este tempo, damdo-lhe sempre batarya, de dia e de noyte, lhe não derrubava os seus muros e baluartes, por serem muito fortes, pelo sytio em que estavão, e sobre iso, lhe não poder emtulhar a cava, que tinhão, por me ser muito defemdida, com muita arte- lharya e espimgardarya, que tinhão, de- // trymyney de 12 r.i lhe acabar de tomar huma agoa, que tinhão debaixo dos seus muros, da bamda do mar, de que soomente se sos- tinhão; a qual lhe tomey, com huma estamçia de bastiães, que lhe mandey fazer, de noite, sem embarguo de por eles ser muito revestida, e me matarem e feryrem alguns homens, homde lhe também matey e fery muyta gemte ,- amtre a qual foy morto o seu primçipal capitão, sobrinho» e gemro do dito rey. E semdo jaa neste serquo pasados: tres meses, com lhe ter mortos pasamte de quinhentos ou- seisçemtos homens, asy em pelejas e emcomtros, que tive com eles, como demtro na fortaleza, com a artelharya e espimgardarya, pelo quall, vemdo-se o dito rey de Geylolo sercado por mar e por terra, e posto em tamanho aperto^ asy de fome e sede, como da morte da sua gemte, a desa-, nove dias de Março, me mamdou someter partido, o quall lhe eu fiz, com comdição que ele me entregase a fortaleza 7 7"
  • e asy toda a artelharya e espimgardarya e armas e fa- zenda, que nela tivese, e não se nomease mais por rey, senão samgage do dito Geylolo, com ficar obrygado a dar sempre a obidiemçia a esta fortaleza del-rey, noso sennhor, nem fizese mais fortaleza, nem casa de pedra; e com dar a obidiemçia a el-rey de Maluquo, vasalo del- -rey, noso sennhor, asy e da maneira que lhe os outros seus saw gages são obrigados; soomente com as vidas ele c a sua gemte se podia sahir, sem levarem outra cousa, senão o vistido que trazião. O que ele tudo ouve por bem, pelo grande aperto em que o eu tinha posto. E loguo, ao outro dia, emtrey na dita fortaleza com toda a gemte que comygo tinha; a quall foy saqueada, em que todos ge- rallmente ouverão muitas prezas; amtre os quaes ouve auguns, de quinhemtos, e mil, e dous mil pardaos; e lhe tomey toda a artelharya e espimgardarya e armas que tinhão. E porque neste serquo se achou Alvaro Carrilho 12 ▼.] e o fez muito // bem de sua pessoa, em todas as cousas em que o emcarregey, e por seu mereçimento o mereçer, a seu requereymento ho armey, por mynha mão, cava- leiro, com as comdições e serymonyas que o tal auto re- quere. E, portamto, o notefico asy a todolos ouvidores, juizes e justiças, a que este for apresemtado, pera que lhe guardem suas omras, previlejios e liberdades, como Sua Alteza mamda. Domyngos Lopez o fez em Maluquo, aos treze dias de Junho de 551. Bernaldim de Sousa pagou 100 reis Álvara de cavaleiro a Alvaro Carrilho, por se achar no serquo e tomada da fortaleza del-rey de Geylolo. 7 2
  • 11 FINAL DE UMA CARTA DE D. AFONSO DE NORONHA A EL-REI Cochim, 27 de Janeiro de 1552 ANTT: CC, 1, 71-87. Original com seis folhas em bom estado, dando várias e boas novas: a fortaleza de Catifa, destruída por D. Antão de Noronha; a de Baçora, sujeita a fácil conquista; o Xá da Pérsia e o Grão Turco, obrigados a pedir pazes; a cidade de Malaca, é socorrida; dois reis de Ceilão e um das Ilhas Maldivas, con- vertem-se ao cristianismo. Publicamos apenas as referências às Molucas com que termina esta carta. Mede 320 x 220 mm. De Maluquo tive também novas por Christovão de Saa, que de laa veyo, e estava por capitão; e por huma provisão que laa mamdou Jorge Cabral, emtregou a for- taleza a Bernalldim de Sousa, que laa estava. O qual, despois de ser capitão, foy com çemto e oytemta portu- gueses a çerquar a fortaleza de Geylolo, e levou comsygo el-rey de Maluquo, com dous mill homens da terra, que ho ajudarão muito bem. E teve-a çerquada, três meses, e lhe fez muito dano, e lhe matou mutia gemte, com reçeber pouqa perda da sua. E apertou-ha de maneyra que, sem embargo de ser mui forte, por lhe faltarem os mamtimemtos, se lhe entre- 7 3 %
  • gou e toda ar telharia e espimgardas e armas que nela avia, e ha derribou, de todo, por terra. E desfeyta, e lamçada a pedra no maar, per seu mara- dado, ho rei de Geylolo ficou vasalo del-rey de Maluqo, e lhe fez a sumbaya (i), semdo damtes o mais poderoso rey que naquela terra avia, e que mais trabalho dava a fortaleza de Vosa Alteza. De maneyra que a terra fiqua quieta e asesegada, sem laa aver cousa de que posa reçeber dano nem prejuízo algum, e jaa os castelhanos não tem quem os agasalhe laa. E porque el-rey de Ternate se vio nesta guerra muito bem, com muita gemte e navios, e sem sua ajuda nam se poderá 15 r.j fazer tamanha // cousa, estou propemso no que deter- minava fazer com elles, se parcere bem esperar por recado de Vosa Alteza, pois laa vão hos autos. E, porem, em Goa, tomarey niso determinaçam. E Mestre Francisco veyo do Japão, e vem comtemte da terra e gemte, e que lhe pareçe que se fara laa muito fruito. Trouxe comsyguo hum japão. Trouxe huma carta del-rey pera Vosa Alteza e humas armas que entreguey a Dioguo Lopez de Sousa. Escrita em Cochim, a 27 de Janeiro de 1552. Beijo as reaes mãos a Vosa Alteza Dom Afonso (1) Cumprimento reverenciai, significando sujeição. 74
  • 12 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE MESTRE FRANCISCO AO PADRE GASPAR BARZÉU Estreito de Singapura, 21 de Julho de 1552 Epistola S. Francisci Xaverii: Vol. II, págs. 470-475. а) Urgência no regresso do Padre João da Beira às Molucas. б) Convinha que fosse também para aquelas missões algum sacerdote mais, ou irmão, ou até mesmo dois leigos de virtude e perfeição. c) Pede que lhe sejam enviadas noticias de Portugal e de toda a índia. d) Encomenda-se às orações dos Padres e Irmãos. A João da Beira darês toda ajuda e ffavor que pu- derdes ,asy favorecemdo-o com o Sennhor Viso-Rey, como damdo-lhe os Irmãos que puderdes pera que o ajudem nas partes de Maluco a fazer (99 v.) cristãos; e ffarês como, em toda a maneira, como o Padre Joam da Beira parta na naao que vay pera Maluco em Abril, porque sua ausemça faz muita mimguoa em Maluco. Se ouver algum Padre que posa ir com ele a Maluco, que veyo este anno de Portugual, aimda que não tenha letras, com algum outro Irmão de muita comfiamça e vertude poderá ir a Maluco, porque pera laa não são neceçárias letras, senão vertude e constamcia; e se nam ouver Padre que posa ir com Joam da Beira, em tal caso irão dous leiguos de muita vertude e perfeiçam. 7 5
  • Muyto meuda (mente) me esprevereis pera o anno a Malaca com o Padre Joam da Bera, porque dahy me seram mamdadas à China as cartas; e se acaso ffor, o que Deus nam quererá, que eu nam vaa à China, tornarê à Imdia por todo o mez de Dezembro ou Janeiro, Deus Noso Sennhor damdo-me saúde e vida. Esprever-m'eis novas de toda a Imdia e Portugall, do Sennhor Bispo, dos frades de Sam Francisco e Sam Domingos, aos quais darês muito afimcadamente minhas encomendas, roguamdo-lhes muito que em seus samtos sacreficios e orações me enco- mende (m) a Deus Noso Sennhor. Em casa especialmente farês lembrança a Deus de mym, e dos Padres e Irmãos que estão em Japão; porque sabey certo que temos muita ne(ce) cidade de ajuda de Deus. Noso Senhor nos ajumte na gloria do paraiso, que será com mayor descamso do que nesta vida temos. Do estreito de Symquapura, a XXI de Julho de 1552. Alvaro Fferreira vay comiguo, e Amtonio China que estava em Cochim, e ambos de dous estam doemtes de febres, que levo o mayor trabalho e cuidado com eles do que o poderia esprever. Prazera a Deus Noso Senhor que lhes dará saúde. (Manu Xaverii): Francysco Inscriptio manu scribae: A meu Irmão em Cristo, o Padre Mestre Guaspar, rretor do colégio de Guoa. Do Padre Mestre Francisco. 76
  • 13 CARTA DO PADRE MESTRE FRANCISCO AO PADRE JOÃO DA BEIRA Estreito de Singapura, 21 de Julho de 1552 Epistola S. Francisci Xaverii: Vol. II, págs. 4.75-478. a) As graças internas, o Padre João da Beira não as revele a ninguém. b) Os assuntos relativos às suas cristandades sejam tratados com o bispo e com o vice-rei. c) Procure regressar às Molucas, por todo o mês de Maio, acompa- nhado de novos operários: sacerdotes, irmãos ou leigos. d) Devia munir-se de novas provisões do vice-rei, que anulassem os privilégios concedidos por D. João de Castro ao rei de Ternate, perseguidor dos cristãos. Jhus. A graça e amor de Christo Noso Senhor seja sempre em nosa ajuda e ffavor. Amen. Joam da Beira. Por serviço de Deus Noso Senhor vos emcomemdo e roguo, que das cousas interiores, que Deus vos tem dado a semtir, não deis parte a nenhuma pesoa: emtemdo da- quelas cousas, que não são pertemcemtes ao bem e pro- veito esperitual dos cristãos de Maluquo e Mouro (1), e asy doutras partes (2). Todalas cousas que tocão ao bem e proveito dos cris- tãos, trabalharás de as despachar com o Senhor Viso-Rey, (1) i. é. ilha do Moro. (2) Parece tratar-se de ideias extravagantes que o Padre João da Beira tinha àcerca do Apocalipse. 7 7
  • ffalamdo ao Bispo pera que vos ajude se ffor neceçario, pêra aver alguas provisões do Senhor Viso-Rey pera el-rey de Maluquo, pois como dizeis não hé noso amiguo. Com toda brevidade vos despachareis pera tornar em Mayo na nao que for pera Maluquo; e se não puderdes trazer Padres, trarês Irmãos, porque, pera aquelas partes, tamto ffazem os que não sam Padres como os que o são; e pera viver em mais umildade e paaz, parece-me que são milhores Irmãos leigos; e ficará ordenado com Mestre Gaspar como cada annio vaa alguém da Companhia, ou leiguo ou Padre. E oulhay que por nenhuma cousa leixês de tornar pera o anno em Mayo a Maluco, porque vosa ausemça ffaz laa muita mimguoa; e guardares esta carta pera que lá na Imdia nimgem vos ponha empedimemto a vossa tornada a Maluco; e oulhay que não comuniqueis as cousas que me dixestes na igreja de Malaqua. Eu esprevo ao Padre Mestre Gaspar pera que vos dee todo favor e ajuda pera tornardes asynha a Maluco; e virês de tal maneira acautelado pera com el-rey de Ma- luco, de provisões do Viso-Rey, que revoguem as que deu Dom João de Crasto em favor d'el-rey de Maluco, pois tam mal cumpre el-rey de Maluco sua palavra. Noso Se- nhor nos ajumte na gloria do paraíso. Do estreito de Cimquapura a XXI de Julho de 1552 annos. (Manu Xevarii) : Vosso Hyrmão em Chrysto, (Francisco) Inscriptio manu scribae: Pera o Padre João da Bera em pessoa. Do Padre Mestre Francisquo. 78
  • 14 PARTE DE UMA CARTA ESCRITA AO PADRE INÁCIO DE LOIOLA PELO PADRE BARZÊU, VICE-PROVINCIAL DA ÍNDIA Goa, 12 de Janeiro de 1553 Documenta Indica: II, 578-602. (1) Esta carta vale por um relatório, e nela se mencionam os feitos dos religiosos da Companhia, dispersos por diversas par- tes. Dela extraímos, apenas, o que diz respeito às Molucas. а) Notícias de Malaca, e religiosos ali residentes. б) Missionários que trabalham nas Molucas. c) Privações e grandes trabalhos sofridos nestas cristandades. d) Moro e Amboino são as fortalezas onde há mais cristãos. Malacaa hé huma cidade muito populosa no reino dos malayos, do império de Jantanaa, que hé hum grande senhorio que tem debaixo de sy o rei de Cyon, Patanes e Achens, onde temos uma fortaleza fronteira, onde con- core(m) todas as naos que vem da China e Japão, e outras provindas comarcas ao mar Scithico. Aqui temos hum Padre Francisco Perez, homem de 40 annos, prin- cipiado em theologia, o qual faz muito fruto em pregar e confessar, e outras obras pias; e os muitos trabalhos que (1) Documentação... (índia), vol. VII, págs. 167-190. 7 9
  • leva, causarão nelle huma infermidade, que hé grande empedimento a não obrar mais. Aly temos hum collegio feito, pequeno. Estão (!) com elle hum Irmão latyno, que se chama Joam Drago (2), e faz muito fruto no ensino dos meninos. O ano pasado esteverão cercados de muitos exércitos de infiens, aguora esperamos por nuovas boas. Ainda não vyerão, porque com ellas (virão) as de Ma- luco e Japão e da China; quando vierem eu terei cui- dado de as mandar a Vosa Sancta Charidade. Em Maluco, que sam humas ilhas onde nasce ho cravo, temos algumas fortalezas, estão os Padres Joam da Beyra e Afonso de Casto, o qual hé pregador, bom grammatico e confesor, e o outro anda correndo a christandade, que hé muita nestas partes. Ambos fazem grande fruto na vinha do Senhor, segundo os talentos que tem. Padecem grandes trabalhos polo contino chover que ay na terra e contradição dos gentios e mouros; comem pam de fa- rinha de paao. Com elles está hum Irmão, que se chama Nicolao Nunez. Hobra o Senhor maravilhas naquela terra, louvores a ele para sempre. As fortalezas onde mais chris- tãos ay sam Moro e Ambueno. Não escrevo nada de Ja- pão, porque arriba fiz memoria que abasta ao presente. (2) Ou Bravo.
  • 15 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE JOÃO DA BEIRA AO PADRE SIMÃO Cochim, 7 de Fevereiro de 1553 BACIL: Cartas do Japão, Vol. I. Fls. 227 r.-228 r. Antes deste trecho de uma carta do Padre João da Beira, encontra-se a seguinte nota: Este pedaço desta carta do P.* João da Beira se pos aqui, pêra que vejam que, também nas cousas temporaes, os da Companhia, que andão naquellas partes, pro- curão o proveito del-rey de Portugal. o) Referências a Nova-Guiné. b) No exercício do seu múnus, os religiosos também procuram o ser- viço de el-rei. c) Trabalhos e perigos nas Molucas. El anno passado, escrevi al Padre Ignacio el Apoca- lipse, y sepa Vuestra Reverencia que es una tierra a que llaman Nueva Guinea, y toda aquella tierra, hasta las islãs do Moro, (se verifica) (1) se entiende el Apocalipse, asi (2) toda la India traen armillas, etc. Es tierra fértil de sus mantenimientos, que son como (x) As palavras entre parênteses foram escritas com letra dife- rente, à margem. (2) Por cima da palavra asi encontra-se escrita outra que parece ser Asia. 8 1 imclINDIA, H — 6
  • de las islãs do Moro, y muy sana gente, simple; no ay entre ellos moros. Certifique Vuestra Reverencia al rey que, alien de salvarse las animas, que es lo que pretendemos, que en ella ay otro provecho. Crea Vuestra Reverencia que, des- pues dei serviçio de Dios Nuestro Senor, una de las cosas que mas advertimos, es attentar el servicio de Su Alteza, assi en las confessiones, como tambien generalmente en las exhortationes y predicationes. Y puedo dezir a Vuestra Reverencia que un padre (3) delia Compania 1 fui occa- sion de se tomar Gilolo, puesto que el rey de Maluco pro- curo quanto pudo de hazer todo mal; y cinco vezes que trabajo de se levantar con Maluco, y de todas cinco quiso Nuestro Senor que 11o alcançasse este padre (4) a saber, y luego, con mucha diligencia, dava el aviso a los capi- tanes de Su Alteza, muy en secreto. Y Gilolo no se tomo, sino con mucha arte. Quando me truxeron enfermo a la fortaleza, todos los 1227 v.) christianos que esta van en el Moro, a todos rebolvio y // enganno con muchas pieças de oro y ceda, que dio al regidor; y una de sus hijas la tenia como para ser mu- ger (5)> y ellos todos por sus vassallos, y que no avian de acoger padres ni portugueses. Asi lo assento con ellos, a furtas de los portugueses, quando alia fueron a pelear con ellos. Quando alia fui escondido, halle que los reis de Maluco todos estavan concertados pêra se levantarem contra los portugeses, confessado por los mismos vassallos dei rey (3) un padre de la compania é correcção de yo. (4) este padre é também correcção de yo. (5) A frase la tenia como para ser rnuger está corrigida, nas entrelinhas, para la tenia prometida para ser muger del-rei de Maluco. 1 — cop». 8 2
  • de Tidor, con muchos fieros que hizieron a unos hombres que yo alia tenia embiado a llamar unos que avião ferido antes. Luego di el aviso al capitan, el qual, con mucha diligencia, derroco (sic) la otra fortaleza que estava en Tidoro. Outras vezes embiava a llamar los Geleves, que es otra gente que confina cerca de Maluco, y en Maluco viven muchos (de los quales bautize algunos y el vicário), y los mismos Geleves, que andavan de partida, me lo dixeron. Luego di el aviso al capitan, y luego se remedio. Otra vez, andando yo agora en Amboyno, visitando y haziendo algunos christianos, supe de un navio que traya el hermano dei rey de Maluco, con mucho cravo, que llevava para la Java, y vénia muy a furtas de los portugueses; no vénia por donde esta van las naos, mas por otro camino, escondido, y hallandome alia solo, con los christianos, con mucha diligencia, di el aviso a Don Rodrigo de Meneses, el qual fue alia, y tomole todo el cravo, que serian mas de cien quintales, y embiolo con su gente para la fortaleza. Y quando llegamos a la Java, hallamos en un lugar, que se llama Cajoa, como el rey estava esperando por el hermano dei rey de Maluco, y crea Vuestra Reverencia que si alia fueran, que Maluco se perderia. Y no sola- mente los jaós, mas cada uno de los otros, que alia fue- ran, currian mucho perigo, porque el rey de Maluco se ponia contra los portugueses. Todas estas trayciones plugo í. Nuestro Senor que el padre (6) las alcançasse saber, y las deshize (sic). Y tanbien supo el contrato que tenia el rey de Maluco con el rey de Gilolo, y lo descobrio el padre (7) al capitan, y el mismo rey de Gilolo lo dixo, estando cercando al mismo rey de Maluco, despues. (6) el padre é também correcção de yo. (7) Idem. 8 3
  • Y bien puede Vuestra Reverencia certificar a Su Alteza que este padre (8) fui occasion para que se derrocassen las fortalezas de los moros, y el capitan me dixo que tenia [228 rJ antes escrito a Su Alteza que / / Maluco no lo tenia, si el rey quisiesse. Mas, bendito Dios, seguro esta, aunque el rey es alli muy perigoso. Despues que yo me parti de alia, a llamar compa- nheros, el capitan Bernaldim de Sousa dixo a los portu- gueses que uno de los nuestros (9) fuera occasion de se tomar Gilolo, y que nunca se tomara, si el padre (10) no fuera, etc. Mande Vuestra Reverencia, por amor de Dios, com- paneros y no cure de muchas letras; hartas ay en el inferno; vengan con buen espiritu, etc. 7 de Feverero de 553. (O que se segue encontra-se escrito com letra dife- rente). Esta hija dei regedor de Omoro, que el tenia prometida al rey de Maluco, yo la case con un moço que se crio en San Paulo de Goa, que yo truxe comigo. Es un bueno christiano y de honrrada gente, natural dei mesmo lugar onde agora fican los companeros. Dios Nuestro Senor evi- dentemente amostra grandes mistérios y maravilhas coram omnibus. Mande Vuestra Reverencia, por amor de Dios, muchos companeros y no cure de muchas letras; ayan buenos espiritus. 14 de Feverero de 553. (8) Idem. (9) Idem. (10) Idem. 84
  • 16 OUTRA DO PADRE JOÃO DA BEIRA AO MESMO Molucas, 7 de Fevereiro de 1553 BAL: 4.Ç-IV-4Ç. Fls. 779 r.-i8o r. (1) Cópia clara e desembaraçada de correcções posteriores. Jun- tamente com informações de ordem geral, contém dados con- cretos dos sacrifícios e riscos que a obra missionária impunha naquelas paragens. a) Fadigas e perigos por que tem passado. b) Os mouros dificultam a obra da evangelização. c) Cristãos apóstatas. d) Erupção vulcânica na ilha de Toloco, tida como castigo de Deus. e) Conversões em massa dos seus habitantes, após este castigo. Pax Christi. Ho anno passado, escrevi a Vossa Reverencia; agora, direi nesta, brevemente, o que Nosso Senhor, despois, ca tem obrado. Eu, como tenho escrito, me exercito, muitas vezes, em visitar os christãos das Ilhas de Omoro, insi- nando-lhes a doutrina, trabalhando com eles, que deixem seus maos costumes, como o Padre Mestre Francisco mo tinha mandado. Custa isto muito trabalho, e he hum prolongado martírio. (1) BACIL: Cartas do Japão. vol. I, fls. 224 r-225 r. 8 5
  • El-rey de Maluco e el-rey de Xibolo (sic) e el-rey Tidore e de Barchão trabalhão quanto podem por per- turbar aquelles christãos e tira-los da fe, especialmente o rey de Maluco e de Gilolo (2); e tanto trabalharão, com suas amoestações, procurando o demonio por sua parte, que fizerão apostatar da fe a muitos que o Padre Mestre Francisco avia insinado. Dipois, eu e meus companheiros (especialmente Ni- colao Nunes, que comigo se achou em alguns trabalhos) levamos grande trabalho em insinar e reduzir de seus maos costumes, passando grandes quinturas, não ousando sair fora, de noite, porque andavão alguns, que vivião nas montanhas, para nos matar; e, por outra parte, os mouros não sessavão de distrair toda a doutrina que lhes insi- navamos; andando-os insitando, me perdi tres vezes no mar, andando por elle, sem saber nadar; e, de huma vez, andei dous dias sobre huma taboa, sem comer; mas Nosso Senhor me quis livrar, et ab omnibus his liberatus sum quare dominus adiutor noster. Em terra de inimigos andei noites e dias, escondido polas ribeiras, fugindo dos mouros que trazião gerra com os portugueses. Com isto cay em huma infermidade de frio e febres mui rijas, sangrando-me as mãos, pés e bra- ços e nas espaldas. De huns apóstatas fomos vindidos, e entregados em poder dos mouros; queríamos, muitas vezes, comer, meu companheiro e eu, e não tínhamos que, e passavamos dias e noutes sem comer. Mas Nosso Senhor nos livrou destas traiçõis e trabalhos, ou, por melhor dizer, merçes e beni- fycios de sua mão; e aos christãos que apostatarão cas- tigou maravilhosamente: primeiramente, com fome, por- que, sendo, de antes, aquellas ilhas, das mais fertiles que (2) Correcção de Xilobo. 8 6
  • ai naquellas partes, logo, como apostatarão da fe, ouve grande fome, e, despois que eu me vim delia, por estar mui enfermo, nem figos tinhão para comer. O arros que tinhão guardado e canas, quando o tiravão, achavão-no comido, e o que sameavão lhes comião os ratos; e o que lhe não comião, nenhuma cousa produzia, cousa que em nenhum outro tempo ha acontecido. As agoas se fizerão mui salobras; o vinho que dantes suião ter, Nosso Senhor lho tirara, de maneira que morrião, com isto, de fome, muitos; e outros, de sede, mas nem com tudo isto dei- xavão os mouros de lhes persuadir que não fossem chris- tãos. Foi de maneira que se cercarão de amparos (3), que são os muros de la, pera contra os nossos; e nos caminhos fazião / / amparos pera se defender, tendo armas mui pe- (179 T ] rigosas, de maneira que os não podião entrar os nossos, sem grande perigo, persuadindo-se elles que estavão mui seguros com isto, e com aiuda doutros das montanhas que se lhes aiuntaram. Mandou la o capitão de Maluco acerca de 30 portu- gueses; e ia também el-rey de Maluco com muita gente sua; e, como os portugueses chegarão ao lugar de aquelles apóstatas, que asi se tinhão fortalecido, rogarão-lhes que se tornassem a fe de Christo, Nosso Senhor. Mas elles respondião que não querião, e que tinhão armas e forças para lhes resistir. Os christãos responderão (porque na verdade, em comparação dos apóstatas, tinhão poucas for- ças) que elles não tinhão armas maiores que a fe e ver- dade que era Deus, o qual os avia de aiudar. Ao que, todavia, replicarão que não querião ser christãos. Logo neste ponto começou a terra a tremer e se abrirão (3) Defesas levantadas pelos indígenas, conforme o uso de cada ilha. 8?
  • humas montanhas, deitando de si muitas pedras de fogo, e tanta sinza que parecia o dia de Juizo. Ouve tão grandes trevas que não se vião huns aos outros, nem se conhecião; o sol parecia que tinha perdido sua claridade, acontecendo isto no meo dia, pouco mais ou menos. Foi tão grande a chuva de pedras, fogo e sinza, que caio sobre suas casas e Ídolos, que todos os pos por terra. Juntamente, com grande tremor de terra, as arbores quebra vão e se desareigavão, por grandes que fossem. Elles tremião, de maneira que não podião ter as armas nas mãos, e de tal maneira se lhes adormecião que as não podião alevantar para pelejar. Com o grande estrondo dos trovões, e com o fogo que este monte de si deitava, caia a gente por terra, que day a hum grande pedaço se não podião alevantar; todos se aiuntavão e amontoavão, sem se poderem valer nem fugir a tão grande castigo de Deus, o qual, não somente foi para elles, porque ainda as criaturas irationais se estendeo: muito genero de serpentes e cobras morrião, as aves caião do ceo, de maneira que as mãos se podião tomar, e nos montes, da mesma maneira, se poderão tomar os porcos e outras bestas feras. Os portugueses que estavão no mar, com a armada, se recolherão a huma ilha, com medo de se alagar com a sinza que caia nas embarcaçõis. Cousa foi mui digna de admiração que, caindo as casas todas e arvores, com este terremoto e tempestade, somente ficou em pe huma pobresinha casa, em que os padres e irmãos de nossa Companhia soião pousar, a qual estava num lugar alto, junto da igreja que elles tinhão antes derrubado, cortando as imagens delias. Nem pas- sarão os que isto fizerão sem castigo de Deus, como abaixo direy. Despois que sessou a tempestade, que tinha destruído 8 8
  • as moniçõis destes maos christãos, e abertos os caminhos, vierão os portugueses, que facilmente os vencerão, matando muitos delles, sem que podessem matar nem firir alguns dos portugueses; e desta maneira castigou Deus aquelles que dElle se avião apartado, e com justo juizo mandou esta pena sobre aquelle lugar, chamado Tollo, mais espe- cialmente, que sobre nenhum dos outros, por ser o mais principal, donde os outros tomarão exemplo pera apos- tatar; e asi, donde primeiro começou o mal, veo o castigo mais forte, o qual foi principio da salvação desta gente, porque ficarão com isto tão obedientes ao Senhor e sua fe que, tornando nos outros, depois, de Maluco pera este lugar, nos receberão com muita alegria e consolação, como gente tocada da mão de Deus, poios quais se podia dizer aquillo do profeta: cum occideret eos querebant eum et revertebantur, et diluculo veniebant ad eum, et reme- morati sunt quia Deus excelsus redemptor eorum est (4), do que antes parecia que se avião esquecido. Fezerão logo huma Igreja, de novo, muito grande, e, os domingos, vem a ella com muito fervor e devação. Agora nos ocupamos em os casar e por nos custumes de nossa santa ley, com o que elles muito folgão. Deu-lhes Nosso Senhor logo manti / / mentos, em muita fartura e abastança. Despois de limpa a terra dos maos humores, sendo primeiro doentia, he agora mui san. Bendito seia Deus, que assi mostra a sua benignidade e misericórdia com suas criaturas, e ho cuidado que tem de aiuntar suas ovelhas no curral de sua Igreija. Despois se vierão a nos outros apóstatas, mostrando grande arependimento de seu erro, e muita vontade de perseverar em nossa santíssima fe; alem destes vierão (4) Cf. Ps. 37. 34- 89
  • outros, que ainda não avião sido christãos, dizendo que querião ser: ai dia que vem cinco mil (5.000), e somana de vinte mil (20.000) (5). Deus Nosso Senhor seia lou- vado por tão grande misericórdia, como tem usado com esta gente. Temos bautizado muito numero delles; em huma parte deixo 4 companheiros; noutra 3, para que os insinem e doutrinem em as cousas da fe, a qual, tam mo- vidos de Deus, receberão com grandes deseios. Ele, por sua bondade, lhes de em tudo perseverança, e os confirme em a vocação em que os chamou. A um lugar fui chamado dos regedores, que antes avião apostatado, donde bautizey a muitos; era tanto o prazer e contentamento da gente, que não me querião deixar vir, mostrando-se mui deseiosos de saber as oraçõis e as cousas de Deus, e de como se avião de salvar. Di- zião-me que, pois me queria tornar, lhes mandasse, em toda a maneira, algem que os insinasse. He cousa mara- vilhosa ver gente tam brutal e simples, com tanta fome e sede, e sem as cousas de Deus; Ele seia por tudo lou- vado. Vinde, charissimos, a partir o pão aquelles que Deus deu tanta fome de suas cousas. Em outro lugar de apóstatas (como dizem os que ouvi- rão) em este mesmo dia em que ouve a tempestade que v os tenho escrito, creceo tanto huma alagoa que estava perto, e afogou muitos dos que arenegarão, e caio nela huma pedra de fogo, os quais, atemorizados, desampa- rarão o lugar. O castigo, que prometi arriba de vos escrever, he que, indo huns dos apóstatas, mui atrevido e sem temor de Deus, para lhe fazer alguma desonra, entrou na igreja, e deu huma cutilada em a imagem de Nossa Senhora; e logo a espada se lhe pegou na mão, e sempre, depois, (5) Os números por extenso foram escritos, com letra diferente na entrelinha. 9 o
  • lhe ficou aleijada. E outro, que também lhe aiudou neste mal, indo ao mar, com outros perversos, a buscar não sey que peixe, lhe atravessou huma perna, com huma ponta que tinha na cabeça. Hay nestas partes huma terra chamada Nova Guine, e, por outro nome, Papuas (6); he terra muy grande, tem perto de si muitas ilhas. A terra firme tem mais 700 legoas em comprido; nella ai quatro reinos (7) e todos se entendem com huma mesma lingoa. Regem-se polas estrellas, e contam seus meses por elas; huma destas he a mão, e tem tantas estrellas, como a mão de conjunturas, e chama-se em sua lingoa Fale; outras são como hum arco, outras como huma nao e, assi, outras figuras que as estrellas representão. He terra fértil e de muitos mantimentos, que são como os das ilhas de Omoro. E mui so, e a gente simples, nem ay entre elles mouros, aqui se pode fazer grande serviço a Nosso Senhor e aiudar a salvar estas almas. Também nestas ilhas de Maluco, como entendereis pola carta do Irmão Niculao Nunes, se quer agora fazer hum rey christão; ay ca muita messe e poucos operários. Agora, indo a Goa a pedir irmãos, que são ca mui necessários, topey o Padre Mestre Francisco em Malaca; dei-lhe conta disto, e que fosse a Goa, e que logo neste ano me tornasse. Mande Vossa Reverencia muitos padres e irmãos para tão grande messe. Deus nos de perseverança em o santo serviço. Amen. A 7 de Fevereiro de 1553. João da Beyra (6) Nas entrelinhas da cópia BACIL encontra-se esta nota: «esta muy separada de las islãs de Omoro». (7) Na mesma cópia, à margem, lê-se o seguinte: «hum se chama Mian, outro Missol, outro Ogulo, outro Noton». 9 1
  • 17 CARTA DO PADRE AFONSO DE CASTRO AO PADRE INÁCIO E PADRE SIMAO Molucas, 7 de Fevereiro de 1553 BAL: 4.Q-IV-4Q. Fls. 180 0.-182 v. (1) Copia com alguns pequenos descuidos do escriba. A com- paração com a do Códice BACIL esclareceu-nos certas pas- sagens, de leitura duvidosa. a) Desejos e considerações piedosas. b) As suas ocupações são pregar e ensinar a doutrina. c) O Irmão Belchior de Figueiredo ensina os filhos dos portugueses. d) Conversões na ilha de Moro. e) Perseguição dos cristãos no lugar de Tolo, na mesma ilha, onde trabalha o Irmão Nicolau Nunes. /) Progresso do cristianismo em Amboino. g) Primeiras conversões na ilha de Buro. Pax et consolatio Spiritus Santi sit semper in cordibus nostris. Amen. Não posso deixar de, com mui grande contentamento, escrever o fructo que Deus Nosso Senhor, por estas par- tes, obra, mostrando claramente sua liberalisisma mise- ricórdia. Bendito seia Elie, pois foi sirvido de trazer a (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 225 r-227 r. Ç2
  • gente, em tanta escuridade e trevas mitida, o verdadeiro conhicimento, para serem participantes da verdadeira lus, que a todo o homem, que a este mundo vem, alumia: Quia gens indómita, suis voluptatibus subiecta, a ratione et recto iudico aliena, quae venbrem pro Deo colebat, nu- lius tribulationis adversitatisque capax, similis brutis in moribus, vidit lucem magnam, quando da graça divina seus coraçõis alumiados, assi como gente dormida, et in pecatis soporata, com a força da graça invensibilis, as cadeas e prisões, com que estavão pelo demonio atadas, se romperão: na qual soltura poderão cantar ao Senhor e dizer ilud spalmistae: laqueus contritas est et nos libe- rati sumus a vinculis peccatoris in quibus a propria con- cupiscentia a demonibusque detinebamur: adjutorium nos- trum in nomine Domini qui fecit caelum et terram (2). Bem se ve e mostra o Senhor quanto suas criaturas ama, pois tam intensamente procura sua salvação, por infinitos meos, para que pola culpa não fiquem ingratas a tam grande beneficio e merce; e do sangue justíssimo do Filho de Deus, que na terra, por sua redenção, foi der- ramado, lhe seia pidida estreita conta! O quem pudesse fazer de si má! corpos, para que, com tantos, servisse ao Senhor, e levar ao ceo tantas almas, das quais temo que caião algumas, por falta de operários, quia messis multa operarii sunt paucissimi (3)! Mas nos poucos favoricidos da graça e ajuda do Se- nhor, na qual ommia pessumus, pomos muito exercitio em fazer esta colheita, para que não ache o demonio que vindimar. Estas são as riquezas que reparte o Senhor com os seus: huma consolação e alegria interior nos tais tra- balhos, hos quais se convertem em verdadeiro descanso,. (2) Cf. Ps. 123, 7. (3) Cf. Matt. 9. 37- 9 3
  • entanto qua a alma tão ensanchada da visitação do Senhor diga ilud psalmistae: renuit consolari anima mea: memor fui Dei et delectalus sum et defecit spiritus meus (4). Ella corrobora e fortalesse o spiritus e animo cansado na desconsolação e tribulação, pera que em tudo possamos mostrar igualdade e conformidade com a vontade do Se- nhor, que não he pequena gloria e merce saber homem gostar tanto de Deus, na desconsolação, como na conso- lação e adversidade; mas, coração não cerece da fome do pecado, cheo da fartura da casa do Senhor; não podendo, como Adão, 9ofrer em si tanto bem, temo, esfriamento da charidade, que o deixe perder. Mas vivo com a esprança que não sera asi, pola união que ha entre os benditos padres e irmãos desta sagrada Companhia, que asi como um membro cansado de nosso corpo he aiudado do outro, assi nos todos, em hum corpo místico, quando por minha negligencia desfalecer, minha fraqueza e pusilanimidade, por tão santos sacrifícios e oraçõis, se tornara em fortaleza e ousadia, para que com rezão possa ia dizer ilud spalmistae: Mihi autem absit nisi gloriem in cruce Domini Nostri Jesu Ckrisli, qu-are mundus mihi crucifixus est et ego mundo (5). Do fruito mais em particular que, mediante a graça, aiuda e favor divino, se faz, são, ao presente, ficar nesta ilha de Maluco, onde estão os portugueses, aos quais prego aos domingos e algumas festas, e, as tardes, a gente 1181 r.i christã da terra e, todas as quar // tas feiras e cada dia, a doutrina cristãa. Bendito seia o Senhor, que com todos sua santíssima graça reparte, pera que, alcansando o gosto e suavidade delia, se venha a perder e ganhar fastio as cousas mun- (4) Ps. 76, 3- (5) Galat. 6, 14. 9 4
  • danas e transitórias. Elles se emendão muito de sua vida, apartando-se de estarem em peccado mortal, adquirindo, interiormente, hum conhecimento de suas próprias culpas, pelos quais, arrependidos, se exercitão em obras de chari- dade, nas pregaçõis e cousas espirituais, mostrando muita devação, como quem tem alcansado o gosto de tam exce- lente e suave manancial; isto principalmente, as mo- lheres, as quais acho serem mui frequentes nas igrei- jas, deseiosas de saberem o caminho de sua salvação. Ho Irmão Belchior de Figueiredo insina aqui em casa os filhos dos portugueses a ler e escrever, e o principal pera, no principio, os ámpormos na vitrude e bons cus- tumes, para que, quando grandes, pareça terem-na ja, por natureza e, com areceo, tocados da tentação, deixem o bom principio que sempre tiverão, e ia conhecedores dos enganos do inimigo, com mais fortaleza, com aiuda da graça divina, os resistão. Todas as noites tange huma campainha por toda esta fortaleza, encomendando as almas do Purgatório os que vivem em pecado mortal; e quasi vão todos os meninos da povoação com ella; em casa, encomendando-se, asen- tão todos de guelhos (sic) no chão com as mãos alevan- tadas, rezando, cousa de que todos recebem grande con- solação e edificação, com huma alegria espiritual, por verem sua simplicidade e devação. No Omoro, bendito o Senhor, se fas muito grande fruito, e estara adiante desta ilha de Maluco quarenta legoas, e todo o Omoro se chama Morotia e Morotai; chama-se Morotia huns lugares, que estão na terra firme, e são oito lugares, todos christão; chama-se Morotay duas ilhas, que estão no mar, huma pequena, outra grande: a pequena tem tres lugares, e a grande tem dezoito e gente christã, que, ao presente, em estes lugares de Omoro, pode aver, segundo a enformação que de muitos tivemos, 95
  • trinta e cinco mil almas, que receberão agoa do santo bautismo. Da banda da Morotia esta hum lugar principal, que se chama Tollo, e tera, ao presente, dois mil visinhos e no tempo que se fizerão christãos serião tres mil, pouco mais ou menos, e são agora tam poucos, porque não faltarão ca Diocletiano e Maximiano, Desio e Licínio, que cruel- mente persiguirão e matarão, não tão somente os destes lugares, mas todos os mais que tenho nomeados, por con- fessarem e tomarem a fe de Nosso Senhor Jesu Christo. Bendito o Senhor, que em nossos tempos não faltão per- siguidores da fe e quem, pella confessar, padeça; mas como o Senhor não fas merces, senão onde ha merice- mento, por falta delle, não fui tão dino que tal merce recebesse do Senhor, que juntamente com elles, por seu santíssimo nome, padecesse; mas o Senhor satisfaça nossos desejos como sabe ser mais seu santo serviço. E aos que não ma tão, os desapossão de suas erdades e fazendas; e, para mais vingança, quando se algum fas christão, o fa- zem vender em almoeda, dizendo ser cativo; e muitos, com temor de tanta pena que, por ser christãos, recebem, senhoreados da fraqueza que a muitos, de mais rezão e conhecimento, domina, se retrahem de o ser, não havendo quem os anime e console e esforce a receber tam grande coroa, porque, se algum secretamente isto pudera fazer, como fazia o glorioso mártir São Sebastião, ainda que soubera justamente com os tais padacer martírio, ho fizera. Ii8i v.i Mas ay! que a tudo a empedimento pera homem // não comprir seus deseios. Vossa Reverencia ho encomende ao Senhor, para que alcansem fortaleza, para não enfraque- cerem, e nos graça pera sempre perseverar, quia iUe salvus erit qui usque in finem perseveravit (6). (6) Matt, to, 22; 24, 13. 9 6
  • Neste lugar esta agora com estes christãos o Irmão Nicolao Nunes, nos quais fas muito fruito, insinando-lhes as cousas da fe. Sabem ja quando he domingo, porque, de quando a que o são, nunca o souberão, e isto para elles he muito, no qual vem muitos a igreija, na qual lhes prega e declara os artigos da fe e reprehende seus maos cus- tumes, o que todos ouvem com bons deseios de se confir- marem na fe. De hum mao custume que tinhão, que era creer em sor- tes, chamarem o diabo, e darem-lhe de comer, são ja de todo fora, quanto ao que sabemos; e onde não podião viver sem muitas molheres, os que casamos, mostrão guar- dar muita castidade, por não viverem mais que com a sua, com que são casados, e isto com muita pas, amor e charidade. Quando algum esta em pasamento, nos vem chamar, e o que vai, os anima e corrobora na fe, lembrando-lhe a contrição e arrependimento que de seus pecados deve ter; e, passado desta vida, aiunta quasi todos os mininos do lugar, e, com a cruz e ladainhas, a que todos os mi- ninos respondem, o levão a enterrar a igreija, o qual a nos mete em grande fervor e a gente em devação. Esperamos em Deus nosso Senhor que os dotara de graça com que, alumiados, conhecção o verdadeiro cami- nho de sua salvação, e aos errados traga ao verdadeiro caminho e deixem seus maos custumes. Neste lugar fes o irmão, de des meses a esta parte, trezentos e corenta mininos christãos, pouco mais ou me- nos, dos quais treze ou catorze morerão, do que nos rece- bemos muita consolação, os quais temos por fe estarem com o Senhor em sua gloria. E outros infinitos morrem por todos estes lugares que tenho nomeados, sem rece- berem agoa de bautismo, por não aver quem lha de, cousa, 9 7 iksclINDIA, II — 7
  • certo, para chorar e muito pera temer dizer o Senhor (7) ijs qui sedent secus pedes Domini (8), gosando do otio da contemplação quid statis hie tota die otiosi (9), pois nElle parece buscar homem seu interesse e consolação propria e não a do Senhor, que he imita-Lo em tanta charidade, como en nos buscar mostrou, anima sua tradens pro ovibus suis (10), para que a mingoa não se percão tantas almas, doendo-nos do sangue de Christo asi ser derramado sem aver quem o colha. E, corporalmente, não podendo os meus charissimos, por estarem atados, saltem com o espi- rito inflamado no Senhor, se doão da perda de tantas almas, dizendo: ecce ego, mitte me (11), fazendo da von- tade sacrifício ao Senhor e do corpo, quando mais for seu serviço. Da banda do Morotia, pola terra dentro, esta hum lu- gar que tera cem homens de peleia, pouco mais ou menos; he gente muy gerreira e atreiçoada, que ningem matão senão a treição, que de rosto a ningem esperão; por esta causa, são mui tímidos de toda outra gente e sogeytão o seu mando quantos querem, sem ningem lhes poder empecer, por ser gente que não sabe viver senão entre matos mui espessos; e destes foram sempre mui perse- guidos os christãos, mas, como quer que o Senhor nihil odit eorum quos fecit (12), se lembrou de gente tão bar- 1182r.i bara, visitando-os com bons deseios // e santos prepositos de deixarem sua infelicidade e conseguirem o verdadeiro conhecimento de seu Criador, dos quais tenho novas e recado seu em que dis que os tenhão ia por christãos, mos- trando ser esta sua vontade e deseio. (7) BACIL: corrigido para dizer o Senhor. (8) Cf. Luc. 10. 39. (9) Cf. Matt. 20, 6. (10) Cf. Joan. 10, 11. (11) Cf. Isai. 6, 8. (12) Cf. Sap. 11, 25.
  • Esperamos que, mui cedo, tam bom deseio e santa vontade venha a effeito de o por por obra, do qual estão todos os christãos mui alvoroçados, com deseios de isto verem, por ser esta a gente com a qual os reis comarcões aos christãos dissimuladamente persegem; e alegria não somente he destes christãos, mas dos infiéis, que o mes- mo deseião, para livremente receberem nesta santíssima fe Deus Nosso Senhor, do qual omne datum optimum et omne donum perfectum ad nos descendit (13), os visite com sua graça, para consiguirem o feito de tão sagrada obra, quebrem as forças ao demonio, para que delle persiguidos não desfaleção e tornem atras de tão bom proposito, polo qual Vossa Reverencia, em particular, mande orar, por- que, se antes da oração, para este fim feita, o forem, pas- sara para na fe serem confirmados e estabelecidos. E crea que, vindo isto a effeito, e caminho (14) para se fazer por meo delle (por de todo ser mui timido) grande fruito e proveito nas almas. Sincoenta legoas aquém desta ilha de Maluco esta huma ilha, que se chama Burro, e não sem causa tem este nome, pera que homem saiba levar com alegria a carga dos tra- balhos, e a elles se offereça sem murmuração e muita pacientia, porque, as vezes, carega e tudo se a mister para se levar, da qual ilha seis lugares, que todos po- derão ter quatro mil almas, pouco mais ou menos, se se fizerão christãos; e em outra, que se chama Amboino, desta mesma banda, muitos lugares delia a gente, dos quais seria duas mil almas, antes mais que menos, e estes erão mouros, que mais indurecidos são, por na vida sen- sual terem sua bemaventurança. Bendito o Senhor, que coraçõis tão duros modifica, (13) Cf. Jac. 1, 17. (14) e caminho, ou seja, é caminho. 99
  • para conhecerem a verdade. Não falo desta ilha de Am- boino, mais que daquelles que agora receberão nossa san- tíssima fe, que, dos ja feitos, he mui grandíssima copia e multidão, e asi sera grande a copia de seus erros, porque não tem consigo quem os doutrine na fe e insine apartar de suas gentilidades, tendo elles disso muito bons deseios, mandando buscar padres; pola falta delles, não são satis- feitos seus deseios. Jam, charissimi, tempus, putationis advenit (15), na qual foram cortadas as raizes e troncos de sua cegueira, pola graça do Senhor, que empedia o crecimento do fruito e conhecimento seu. Não falta mais que, em terra ia limpa das superfluidades, seminetur semen verbi Dei (16), para crecerem em fe e amor de Deus Nosso Senhor, antequam veniat inimicus homo assumens secum alios septem spiritus nequiores se, e entre na alma quam iam videt scopis man- data et ornata et fiant novíssima istarum animaram peiora prioribus (17), o que temo, pola experientia de muitos que, por falta de conservação, apostatarão e retrairão da fe, cousa, certo, muito para chorar. Deus Nosso Senhor, que he verdadeira consolação e remedio dos aflictos, sua aflição mude em consolação, para que, por ella, recebam animo e esforço, para poderem contradizer o espirito mao que ri82 tj os fas desfalecer e tomar atras, desviando-os do ver // dadeiro caminho da salvação. E, pois a Vossa Reverencia são manifestas as neces- sidades que se ca padecem, e homem não pode ter outro milhor recurso que o Senhor, para em tudo alcansar favor, não deixe, com as custumadas entranhas de charidade, oferece-las ao Senhor, para que no tempo da tribulação e adversidade mostrem ser columnas fortes, pera que se (15) Cant. 2, 12. (16) Cf. Luc. 8, 11. v 17) Matt. 12, 44 e 45. IOO
  • não possão brandir a todo vento de que forem comba- tidos; mas, tocados com a suavidade da graça, que todas estas cousas mitiga, gaudeant pro nomine Jesu contulelia pati (18). E nos não fiquemos esquecidos, para nosso espirito ser corroborado e aumentado na virtude, para sabermos sintir com quanta diligencia e charidade, nesta vinha do Senhor, a saúde das almas devemos procurar, pera sermos bons despenseiros do talento da graça a nos comi tida. Todo o qual conceda o Senhor, como vir ser mais neces- sário, pois tudo he deseiado, para consiguir a perfeição, com que a seu santíssimo serviço somos obrigados. Amen. Feita nesta fortaleza de Maluco, aos 7 de Fevereiro de 1553- Servus inutilis A. de Castro (18) Cf. Act. 5, 41. 1 o 1
  • 18 CARTA DE FRANCISCO PALHA A EL-REI Goa, 26 de Dezembro de 1553 ANTT: Gaveta 18-2-22. Original em dez folhas, sendo oito escritas. A letra, bem legível e clara, em certas passagens oferece alguma dificuldade, devido à junção de palavras, independentes entre si, ao uso constante das abreviaturas, e à semelhança de certos caracteres, que podem ser interpretados diversamente. Uma grande man- cha de água apanha a parte central de todas as folhas, não pre- judicando, apesar de tudo, a leitura, e podendo considerar-se, o documento, em bom estado de conservação. а) Sugestões que se propõe apresentar. б) Comércio do cravo. c) O que se passa em Banda. d) A venda da canela, gengivre e pimenta. e) Parecer de Francisco Palha sobre alfândegas, fretes e provisões. /) Pessoas que recomenda para o serviço de el-rei. g) Alvitres para organização de uma armada. h) Moradores das Molucas, dignos de mercê. i) Abusos que se têm cometido nestas ilhas. j) Reis que há nas mesmas, e seus rendimentos. I) Devia manter-se a autoridade indígena, contra a opinião de muitos. Senhor, Porque todo christão tem obrygação de fielmente servir seu rey, numqua tive em comta mynha pessoa e fazemda, por vos servir, o que me tem custado prezo e destroido. 102
  • E porque Gaspar Cardoso me escreveo, que Vossa Alteza me mandava que eu lhe escrevese sempre do seu serviço, o faço; por a neçeçydade que esta tera tem de que digua a verdade, farey lembramça dalgumas cousas do Regi- mento da fazemda e da guera, por que, como huum home paça de vimte anos, nela pode ser ouvido; em somma, senhor, diguo que se Deus se pom de parte, e Vosa Alteza nom socore, que outrem senhoreara esta tera; e não, se- nhor, se comfíe em a porver de frades e Relíquias, por- que muitas avia em Rodes, Belgrado, e na Espanha, e muita parte de crystamdade, que, por descuidos e nosos pecados, se perdeo. Pelo que, senhor, diguo que Vossa Alteza ha-de prover de la com as cousas e regimentos que, ao diamte, apomtarey. E porque esta tera se não pode soster, senão com dinheiro, apomtarey o como se pode aver, pera se soster a guera, que são os dous esteios a que esta tera esta alymada, pera a qual guarda e despesa de dinheiro e guera Noso Senhor depare pessoas que pera yso serão. (i) Em mynhas cartas, nos anos pasados, apomtey a Vossa Alteza que mandase que de Maluquo não viese cravo de bastão, mas todo de cabeça, do qual a sua naao que la manda trara em sy quatro mil e trezentos 1 e tamtos quin- taes, porque, de cabeça, caregua, huma naao, a terça parte, mais vem de terço e choque (2) a Vossa Alteza dois mil 2 e tamtos quimtaes que nesta tera valerão çem mil pardaos. E todo preço que lhe quyyerem por por rezão de se gas- tarem para Yava e Malaqua e China e naquelas partes, 900 quymtaes, e yrem pera o Reyno de Vossa Alteza e (1) A margem: cravo. (2) choque, choquei e chuquel, do maiaio chukai: imposto, frete do cravo nas Molucas. 1 — IiTj" e iije; 2-ÍJ. JO?
  • partes mil e trezentos 3 quymtaes, asy que não fiquão na Ymdia mais de dois mil e duzentos 4 quymtaes, pelo qual seguro que, como se gastar o muito, que ha na Ymdia, de bastão, amtes de cimquo anos, valha o quymtal do cravo na \ mdia pasamte de 6o pardaos. E dado que Vossa Alteza la não quis symtir o serviço que lhe nesta parte fazia, qua me avemturey a faze-lo fazer com ho viso-rey e vedor da fazemda que, por craramente lhe mos- trar ho proveito que Vossa Alteza nyso reçebia, me di- xerão que fizese as porvizões, a mynha vomtade, e Symão 11 Tj Botelho, que la vay, dira o gran //de serviço que nestas partes, e em outras muytas, na sua fazemda, tenho feyto, o porque não mereço pequenas merçes. (3) Vossa Alteza saiba que de Bamda não tem nhuum proveito, nem no tera, senão pela maneyra que aquy apomtar. De Bamda se ão-de paguar terços e choques, como do cravo, da qual caregua da nao, que nela for, poderá aver trinta mil 5 pardaos, que lhe eu seguro, se la for por capitão. O capitão que la for ser-lhe-ha defezo que não leve outra vazilha, senão a nao de Vossa Alteza, porque traz os enconvinyentes que apomto, a saber, leva muyta fazemda a tera, que deita por ela, ho porque espa- lha os purtugueses por as ylhas, por careguar seu navio. E porque os negros não podem paguar, apertão com eles, pelo qual se alevamtão, e matão os que podem, porque fazem conta que, pera ho outro ano, yra outro capitão, que lhe rogue com pazes. E muytas vezes caregão os seus navios e mandão-nos a Malaqua, e fiqua a nao de Vossa Alteza na tera. E tãobem a causa da doemça, he amdar a yemte por as ylhas, a fazer a fazemda, por levarem (3) A margem: bãoda. 3-jiijc; 4 —TJijc; 5 — xxx. I O 4
  • muyta. E ymdo huma, se não careguara sem apreção da tera, nem pryguo, e trarão os negros a noz e maça a nao. Estes navios que os capitães seus levão, e a causa de se as suas naos perderem e estarem em muyto risquo (he) por rezão de adoçar a yemte, e por terem, os capitães, os purtugueses e marynheiros e aparelhos da sua nao, por seus navyos. E yaa no tempo de Pero de Farya, por estas rezões, sey perder-çe a nao de Vossa Alteza e navio do capitão, pelo qual aquy ho apomto, por ho descareguo de minha conçiemçia. (4) Ha canela devia Vossa Alteza mandar defemder, porque, em seisçentos bares, que de la vierem, valervão nesta tera trinta mil ' pardaos, não na podemdo vender senão Vossa Alteza. Tãobetn ho yemgibere devia de man- dar defemder. E deste cravo e noz e maça e canela e yemgiber e quatrocemtos qiuymtaes de pimenta devia mandar, cada ano, a Ormuz, huma nao; nas quaes drogas, que se la mandasem, faryão setemta mil pardaos, cada ano, defem- demdo-se que la as não podesem levar outrem, e todo mais cravo e noz e maça que cada huum de Maluquo ou Bamda trouxesse, o vendese pela Ymdia, e não podese levar, nem mãodar dar fora desta quosta, nem mouro o puedese levar; pelo qual, cada huum folguarya de ho vender ao seu vedor da fazemda, que ho devia de com- prar; pelo qual, todo mouro verya a esta çidade contra- tra-se (sic) com ho seu vedor da fazemda nas drogas, e lhe daryão por elas muyto, com liçemça pêra as poderem levar pera fora, omde quysesem, como as aguora levao; e semdo asy nobrecerçia esta çidade e Vossa Alteza, tirya (4) A margem: canella. 6 — xix. 10 5
  • proveito e fazia tezouro na Ymdia destas droguas, por- que eu não lhe symto outro, e no quaes desta propia çidade 12r.i esta ho propio // luguar pera a feitorya destas droguas, o que serya açertado fazer-çe. (5) Vossa Alteza deve mandar que todas as fazemdas que vierem de Moçãobyque, Melymde e todas outras par- tes, se venhão despachar a esta çidade, com ho qual sua alfamdegua remderya muito mais. E que todo mais que a alfamdegua remder, de sessenta mil ' pardaos, se entregue a Camara, pera por contrato se fazerem galeotas; ysto diguo, porquamto este ano foy a alfamdegua aremdada no que diguo; e como Vossa Alteza alarguar o que mais remder, pera se fazer armada, todos seremos garda da alfamdegua e sobira a renda, e Vossa Alteza te-la-a segura e fara armada cada ano. (6) Eu, senhor, são enformado que, da Ymdia pera o reyno, se leva de frete de cravo de bastão tamto quamto por carvo (sic) de cabeça; lembro a seus veadores da fazemda que ho payol, que em sy aloya duzentos 8 quym- taes de cravo de bastão, aloya trezentos 9 de cabeça, e que tamto se a-de levar por quymtal de cravo de cabeça, como por de pimenta, porque tamto acupa huum como ho outro. Tãobem lembro que ho comtrato, que se fizer das droguas, que não metão nele cravo de bastão, porque de Maluquo não ha de vir senão de cabeça, e tãobem creçer-Ihe o preço, que se la põe, porque qua ha de valer muyto, em ho qual contrato deve aver avizo, porque os mercadores am-vo Io de ter neste cravo. (7) Vossa Alteza deve mandar huma grave porvizão, (5) A margem: allfãodegtt (6) A margem: fretes. (7) A margem: bares. 7-lT; 8-ljc; 9 — iijc. i o 6
  • pera que se não de bares foros, e defeza das droguas, como atraz apomto, a quall provizão mande ngistar nos contos, pera que os bares que derem se nao levarem em conta, e que nenhumas merçes de direito se faça. (8) E asy deve mandar outra porvizao, que toda merçe que seus governadores da fazemda fizerem, asy de dinheiro como de ofícios e fazemdas e doutra qualquer couSfi, que tenha nome de merçe, que seia registada nos contos em huum livro que pera yso avera em poder do escryvão da fazemda dos contos, e cada ano la mandara a Vossa Alteza huum caderno de todas as merçes, que no tal ano forão feitas, com decraração a quem e por quanto serviço, porque, com saberem que Vossa Alteza pode saber as ditas dadivas, e por que maneira se dao, com mydirção nelas, as quaes merçes tem esta terá em tamta necesidade que, ao pareçer de todos, não se pode soster, com pobreza de Vossa Alteza, pelas sobredytas rezoes, que me dão ouzadia apomtar, no que não cabe em mim, ho que diguo, pela tera, ya de muyto, estar aforada nas taes merçes, que yaa se não podem neguar, se Vossa Alteza as não defemde por esta maneira, que todo con- tador ou veedor da fazemda dos contos, que tal levar em conta, pague a mesma contia; e ho que a tal provizão paguar, sem o tal registo, lhe não sera levada em conta. (9) Tãobem Vossa Alteza deve mandar huma por- vizão a matrycola, pera se regystar nela, em a qual mande que todo ho* soldo, // que seus guovernadores paguarem 12-1 de çimquoenta pardaos pera syma, seia registada em huum livro. E asy, todo soldo que se mandar paguar dc tres- pasões, e que, cada ano, lhe mandem huum caderno destes pagamentos de soldos, o com que atelhara a muyta desordem. (8) A margem: provizão. (9) A margem: matriqulla. 10 7
  • Taobem Vossa Alteza defemda que nhuum pagua- mento de soldo se faça de trespaçasão, senão se for feito a íidalguos que dão mesas e agazalhão laxarys, e capitães de navyos, porque a estes seia-lhe tudo lybertado e feita toda a merçe. Nas quaes sobreditas provizões virão com salva de nhuum governador ter poder pêra as quebrar. (io) As taes provizões não am-de vir dirygidas aos governadores, mas ao vedor da fazemda, pera que seião registadas em seu luguar, e se entreguem a quem per- temçer, e pera se compiyrem, busque pessoas pertem- çemtes aos careguos, porque qua não se busquão senão careguos, pera cada huum dar aos seus, pelo qual esta tera esta pera me fazer avemturar ao que apomto, do que, senhor, peço perdão. (n) Tyramdo Vossa Alteza os bares e outras taes semelhantes merçes aos guovernadores, que eles repartem por pessoas que as podem escusar, e por alguuns que vendem dez bares de cravo foros por trymta pardaos, deve- Aa arguar
  • feitor, fiquou devendo quarenta e oito mil 10 pardaos dou- ro; e huum Yoão Lopez, que esta prezo, que tãobem foy feitor, fiquou devendo dezasseis mil 11 pardaos; huum Jur- dão de Sosa, que foy feitor oyto mezes, fiquou devendo vinte mil 13 pardaos; esta prezo. Belchior Gonçallvez, que servyo dous anos, moreo; fiquou devendo doze mil " pardaos; huum Pero Lopez, que foy feitor, muyto boom homem, fiquo devemdo bom dinheiro; amda prezo. Os quaes todos forão seus feitores nesta cidade. De quimze anos ate aguora, não ouve feitor que dese conta, mas todos prezos e destroydos e Vossa Alteza com perda de muyta de sua fazemda, que a esta terá aguora fora boom socorro. /Is regões por omde se estes homens e vosa fazemda perde he a seguymte, a saber: hy não ha feitorya em que sua fazemda se recolha, // nem regimento aos ofi- Ur.j çiaes. As fazemdas de Vossa Alteza amdão por casas de alugueres, sem aver mais chave que a que ho feitor tem, que entregua aos seus homens, que roubão e fiquão riquos, e eles, no tromquo. A qual vosa fazemda os feitores ven- dem muyto barata, pera paguarem suas divydas e, alguns, pera paguarem as mesmas feitoryas que comprão, e tão- bem a mandão a Bemguala e pera partes omde se lhe perde; pelos quaes gastos demaziados que tem, e ruins vendas que fazem, e armações que tem, se perdem e vosa fazemda he perdida, no que Vosa Alteza deve porver, pera que se não perquão os que ho tem servido e me- reçem merçe, no que tudo pode porver, com poupar dinheiro e segurar sua fazemda, per esta maneira. (13) Eu soube de oficiães que com dois mil e qui- nhentos 14 pardaos se faryão humas casas nobres, e de (13) A margem: casa das drogas. 10 — Bbiij; U-rti: 12 — xx; 13—"xij; 14 —ijbe. 1 O Ç
  • huma logia pera cravo, e outra pera noz e cravo e maça, e outra pera canela, e outra pera yemgibere, e outra pera pimenta, e outra pera fazemdas ladrylhadas e pertem- cemtes as ditas cousas, com seu patio pera a balamça, e por sima destas logias, sala gramde, com suas varamdas, pera a qual casa esta ho pertemçemte luguar, que he de huum baluarte, que esta no mar e qcontra (sic) o quaes desta çidade, em huum tereyro gramde, que se ali faz; em as quaes logias se recolheria sua fazemda, e he muy necesario, porque saiba que estas casas am-de ser ho seu thesoureiro, em que ha-de recolher as droguas que he forçado que defemda. E nesta mesma casa se am-de fazer os contratos. E por estar ao quaes, se ve embarquar e desembarquar sua fazemda, e se lhe não pode furtar. Escusara trezemtos pardaos, cada ano, de alugueres de casas e poupara setecemtos pardaos de caretos de suas fazemdas. Atalhara não se lhe furtar, por esta maneira. Cada logia tera quatro chaves: huma tera ho feitor, e outra ho yuiz do pezo, outra os escryvaes, outra huuma guarda, que ha-de viver nas casas, que tenha cuidado delas, pessoa omrada e de confyamça, que ha-de ter huum caderno, em que escreva toda a fazemda que entrar e sair, pera de cada cousa dar rezão, sendo-lhe pergumtado; ao qual Vossa Alteza a-de dar cem myl reis, cada ano, por- que, em ser esta pessoa, a quem se ha-de dar este orde- nado, poupa muito; hasy que, com dous myl e qui- nhemtos pardaos, segura fazenda e gainha, cada ano, mil, que poupa, e atalha não se perderem seus feitores. E quando se estas logias abryrem, am-de ser todos os das chaves prezemtes. (14) Porque estou de asemto nesta çidade, servy de escryvão da feytorya, de que me Vossa Alteza, a vinte (14) A margem: scrivom na feitoria. I I O
  • e quatro " anos, fez merçe; e porque hera escrerva- ninha, numqua a quis servir, senão aguora, pêra me mão- ter tres anos, que dela tinha, e aho tempo que ha qua sirvo, alçãoçey muytos segredos que descobry aos seus veadores da fazemda, que não apomto, porque se não pode atalhar-lhe, senão com pessoa que vos deseye servir e tema a Deus; os quaes, senhor, me atrevo apomtar e fiquar que, fielmente, vos sirvão, os quaes são. huum Francisco Gonçalvez, casado no // Maodovim; huum Uv.i Duarte Guomez, casado em Baçaim; ambos de coremta e oyto anos, de molheres muito vertuosas, sem fylhos nem esperamça de os averem, vertuozos, pezarozos de não serdes muyto bem servido; Yoão Camelo, que foy escryvão da feitorya de Baçaim; Fabiam da Mota, que /» aquy foy thesoureiro; vosos cryados, sem vaidades, te- mentes a Deus, amiguos dos que vos servem; e Nuno Alvarez, que serve na matrycola, he pera ela e cumpryr os regimentos que lhe mandardes. E se destes omens quyser servir-se, por serem taes, pergumte por eles a Fernão Rodrigues, que qua foy veador da fazemda, ou, a Simão Botelho, que de qua vay, se ouver que são sos- peito por falar neles. Busquay, senhor, omens pera vos servirem os careguos e, se os achar, não nos tire deles, mas faça-lhes merçes. Não poso, senhor, aporvar os ser- viços que vos nesta escrevanynha tenho feitos, porque he em peryuizo de partes, mas la vay Simão Botelho; pergumte quem eu são, na vosa fazemda. So quero dizer que em huum ano e dez dias, que servy no thesoureiro, fuy tão ditozo que me não morerão mays de vimte e quatro cavalos; e dous escryvães, que servirão huum so ano, lhe morerão cemto e tamtos cavalos, que se acharão por mortos, a conta e o livro da despesa dos cavalos 15 - xxiiíj. iii
  • perdido e outro de novo; e tãobera nas avaliações da madeira que se compra fuy cometido; a estas e a outras cousas não ha poder atalhar. (15) Eu, senhor, são de coremta e sete anos, e de boom calate, sem filho, nem cousa que me obrygue a mais que ter de comer, nesta curta e trabalhada vida; atervo-me a servyr-vos de guarda da vosa fazemda, pou- samdo nas mesmas casas, que he forçado que se fação, e ter eu cuydado delas, omde verey embarquar e desem- barquar os cavalos, de que tãobem me atrevo a tomar careguo; os quaes não sairão fora desta ylha, senão com nos tomar em huum livro, em que os tomarey, a entrada e a sayda, e lamçarey os mortos, e as contas dos thesou- reiros, se coteyara o meu livro com ho dos seus escryvães; c a madeira, que se não avalihe sem mym, e que nos mandados, que os feitores pasarem aos almoxarifes, pêra se careguar em reçeita, que se não leve em conta, se não for asinado por mym, porque esta madeira ey-de tomar em huum caderno e quoteya-la com os mandados, pera ver se esta çerta com a minha lembramça. E porque todas as cousas de cavalos e madeira e leilões e prezemtes lam- çava em huum livro de minhas lembramças, pera me não enganarem, e Vossa Alteza ser servido, tãobem me atrevo a servi-lo de escryvão da fazemda dos contos, omde se am-de regystar todas suas porvyzões, fielmente lhe man- dar o trelado, com todas as decrarações, porque eu não quero fazer outro serviço a Deus senão servir Vossa Alteza, porque esta he a mais samta ordem que cada huum pode escolher. Day-me, senhor, de que posa fazer quinhentos par- M r.i daos, // quada ano, que he o que ey mester, e day-me alçada no voso serviço, nas cousas que apomto, de cava- (15) A margem: o que peço. 112
  • los, madeira e registos, que eu compryrey commyguo e com ele, e aporvo com huma cemtemça que la mando, que ouve contra Yurdão de Freitas, capitão de Maluquo, pela qual me he em obrygação de merçe, pois me prem- derão, pelo querer servir; e a merçe, que me fizer, sera sem embarguo de ter servidos outros careguos. (16) Tãobem peço a Vossa Alteza que me mande pa- guar meus soldos e ordenados, que me são devidos, de quaesquer fazemdas que ouver nesta feitorya, porque tal são com vosos ofiçyaes que não poso aver ho meu; que me mande paguar, pois, aos vosos ofiçiaes mereço não me paguarem, por vos servir. Destes çimquo homens, que atras apomto, escolha Vossa Alteza hum pera os contos, outro pera yr por ca- pitão e feitor das droguas a Ormuz, e, forçadamente, a-de ser capitão da nao, pera vos servyr, e lhe aveis de dar mil pardaos de ordenado, porque tem abryguação de gastos, e não ha-de levar droguas suas, senão trymta bares de cravo e noz; e pera guarda dos apousamentos da fazemda, omde ho feitor não pousar, nem tera mais que huma chave, como cada huum, porque he enconvinyente pousarem nas casas da fazemda. (17) Pera os contos não deve Vossa Alteza mãodar le- trados, mas Amtonio Afonso, ou Francisco da Maya, que se ciyarão neles e na vosa fazemda, em que são mais le- trados que todos os de Parys, e acrecemtando Vossa Al- teza os boons contadores a seus veadores da fazemda, quada huum trabalharya por quem o milhor farya, e esta he a verdade; e não letrados que, com suas condições, estrovão ho voso serviço e lamção fora Amtonio Afonso, contador que a casa trazia a direyto. (16) A margem: solldos que peço. (17) A margem: contos. IXtULfNDU, 11 — 8 113
  • (18) Yaa que, senhor, faley na fazemda e a vinte 16 anos que uzo a guera, e nela são tal que aconselhão ho seu vizo-rey que me leve no seu galião aos rumes, do que he testemunha Simão Botelho, que la vay, e de minha pessoa e serviço todos os que de qua forão, por quão conheçido são, direy ho que entemdo, e pera mim tenho que, enquamto os rumes não tiverem sabido que temos vimte galiotas ligeiras, sem toldos, nem bailéus, como qua custumamos, pera acudirymos omde nos cometerem, que nos não am-de deixar de fazer trimta ymyurias, porque, com estas, e vimte fustas, se defemdera huma armada, se no-la vierem cometer; por que, galeões, soryem lomye huns dos outros, e me ruma calmarya, mal se podem ayu- dar e defemder, pelo qual he forçado estas vimte galiotas e vimte caravelas, que devem estar sobre picadeiros, pera numqua servirem, senão aos rumes, ou a huma estrema necesidade. E com estas dez gales reaes, pera huma ba- tarya, ou ho que comprir, e, postas nos picadeiros, pou- pa-se muyto, e faz-se a guera a Suez, e estaremos seguoros 14 v.i e Vossa Alteza descãosado. // (19) Pera as quaes vinte " galiotas e vinte " caravelas que, em todo caso, deve mãodar que se loguo fação do dinheiro do cravo ou doutro qualquer, que mais a mão estyver, deve escrever a esta çidade, que ayyaa por bem, e conçimtão que, de toda a fazemda que cada huum nesta alfamdegua despachar, pague, a rezão de tres cruzados por çem pardaos, pera azeyte, çifa (20) e porvimento da dita armada, e poder estar prestes e aparelhada, com a qual se não bolira, senão quando muyto comprir. E os (18) A margem: armada. (19) A margem: capitães. (20) Untura que, de tempos a tempos, se dava nos navios. 16-xx: 17-xx. I I 4
  • mesmos vereadores tenhão cuidado dela, pera milhor ser provyda, e que a eles seia entregue este dinheiro, e eles os gastem por seus mandados, e que eles posão por vimte capitães casados, pera vimte navios destes, o que Vossa Alteza lhe conçeda, por que ha muytos fidalguos e cava- leiros cazados, amtiguos na guera, os quaes, os mesmos guovernadores, em huma necesidade, ande escolher. E com esta omra a çidade apresemtara os vimte capitães e terão cuidado da armada, sem a Vossa Alteza fazer gastos. (21) Também lhe Vossa Alteza apomte que he enfor- mado que todos os navios que vão pera fora e navegão vão com liçemças comprados, do qual dinheiro esa tera não faz fruito, pelo qual Vossa Alteza ha por bem que todo o navio que for pera fora e pera omde styver suas fortalezas, que lhes seia dada lyçemça livremente, e os navios pera Bengala e outras partes, que não ayya for- taleza, que lhe seia dado lyçemça por seu guovernador na camara, pela qual paguarão çimquoenta pardaos, cada huum, pera a camara; do qual dinheiro estara sempre huma fusta e huum quatur pera corer de Batecala ate Chaul, pera guarda da costa, do qual dinheiro se pa- guara soldo a trymta casados, que eles, pera guarda da costa, escolherão; e se fara a despeza aos navios e, por seus mandados, se levara em conta todo o que mandarem gastar; do qual dinheiro sera tomado conta nos contos, ou por os veradores, que em seus luguares soçederem, qual eles veradores mais quyyerem; e pela mesma ma- neira darão conta do que se gastar na armada; do qual que asy, senhor, apomto, se podem ayumtar nove mil pardaos, com que se guarde a costa e çife e armada e se paguem trimta purtugueses, sem a Vossa Alteza custar nada; e lembramdo ysto, a camara avera que se alembra (21) A margem: liçemças aos capitães. 115
  • dela e da tera; estara segura e Vossa Alteza servido e nos descãosados. (22) Conseda Vossa Alteza a camara que posa dar licemça a qualquer nao, que quyyer(ir) a ylha de são Louremço, com tal que seja obryguado a trazer oytemta caferes omens, os quaes não poderão vender por mais de dez pardaos, cada huum, os quaes os veiadores repartirão, pelo dito preço, pelos moradores desta çidade, com obry- guação de, duas vezes na semana, os mãodarem remar, neste rio, em duas galiotas, pêra se ymsinarem. E desta maneira pode-se por amtre nos ajuntar esquypação pêra isr.i quymze ga // lyotas, sem a Vossa Alteza fazer custo, e estarem prestes pera os rumes. E porque ysto eu, muytas vezes, tenho praticado com muytos moradores, e lhes pa- reçer bem, ho apomto a Vossa Alteza, pera que, se lhe parecer seu serviço apomta-lo, com as mais cousas que, se Vossa Alteza os cometer, far-se-ão, pelo que a esta tera releva, pelo qual as apomto. (23) Vossa Alteza deve de defemder espadas compry- das, com graves penas, aos barbeiros e meyrynhos; e porque a ela se não obedeçem, graves escominhões do Papa ou Numçio a quem na tiver, ou souber quem na tem, que a descubra, porque saiba que se custumão taes que pera a guera se não arma nynguem com elas, por serem comprydas e, nem em tera, nem nos navios, se podem trazer na çimta. (24) Deve prover com muyta artelharya de toda çorte, porque a não ha, e camaras, e fio de fumdição, e apelação de gales e galeotas, e bombardeiros, e marynheyros, do qual tudo esta tera careçe e sem o qual se não pode nave- guar. (22) A margem: Ilha de São Lourenço. (23) A margem: espadas. (24) A margem: monições. Il6
  • (25) Vossa Alteza deve de mãodar, em Março, huma armada de caravelas, que la valem pouquo, e qua, muvto, com a qual pode prover esta tera, com os ditos mary- nheyros, e bombardeiros, e apelação, e munnições, que tão necesaryas a esta tera são; e vimdo em março, virão sem pryguo e em tempo que nos dara prazer, e aos ene- myguos, pezar. (26) Eu requeyro aos guovernadores e veadores da fazemda o que cumpre a Maluquo, e pera as cousas dele se toma enformação de mym, e por rezões que dey, fiz boom ser muyto serviço de Deus e de Vossa Alteza da- rem-se os ofiçios da tera aos cazados, não sendo feitor, nem alcaide-mor, nem ouvidor, e todos os outros Martim Afonso mãodou que eles serviçem; e, pela maneyra que apomtey, forão dados, e aguora fiz confirmar esta por- vyzão por ho vizo-rey, mas nada se cumpre. Fossa Alteza me faça merçe, que lhes mande os ditos ofiçios, por sua patemte, os quaes se darão a cada huum pela maneyra que a porvizão de Martim Afonso decrara, e ho capitão, que a tal porvizão não comprir, pague dois mil 18 pardaos pera a parte agravada e esprytal, e a mesma pena o segumdo capitão e ouvidor, que a tal enxuquação não fizer; e que, provendo os guovernadores os taes careguos de Maluquo, por suas porvizões, se não cumprão, por que os ha por dados aos ditos cazados, por seus serviços, e por aver por enconvinyente ao seu serviço servyrem-nos os cryados dos capitaes e outras pessoas. E nesta dada de ofiçios aos cazados faz muyto seu serviço, e ponho em segurar a tera, porque os casados ryquos a fazem forte, (25) À margem: caravellas. (26) A margem: ofícios a Maluquo. 18 — ÍJ. I T 7
  • com escravos, armas, porvymentos de muytos mãotimen- tos, e casas de pedra, por que tãobem daria a Ymdia por segura, se seos guovernadores, capitãs e ofiçiaes não fosem da tera. E, em todo caso, lhe a-de mandar estes ofiçios, por i5y.J lho pormeter, // porque consimtão fazer-çe carvo de ca- beça, em que tamto vay, pois lhe aguora não ha-de ir a tera, se não huma so nao, devem çer favoreçidos. (27) Em Maluquo esta huum Fernão de Magualhães, voso moço da camara, que vendeo a escrevanynha de Malaqua, por yr a Maluquo, em soquoro, quando se ale- vãotou, a muyto; deve-lhe mãodar yuiz do pezo, por tres ou quatro anos; huum Fernão Leitão, velho e seu cryado, escryvão da feitorya; huum Afonso Figueira, outro escry- vão da feitoria; huum Francisco de Bryto, fidalguo, ca- pitão da caravela; huum Duarte Guodinho, seu moço da camara, tabeliam perpeto, porque ho foy yaa; huum Guomez Fernandez, aleiyado em seu serviço, tabeliam, tres anos; os quaes são muyto pobres e de serviço, e estão de asemto na tera, por se não poderem vir, com filhos e pobreza. (28) Na Ymdia, a vimte anos que amda huum Fran- cisco de Baros, parente de Lionel de Lima, pessoa de muyto serviço; fiqua no esprytal, com pobreza e doemça; huum Francisco de Almeida, que foy de Amtonio Sal- danha, voso moço da camara, de serviço em Purtugual e qua, sem numqua ter merçe. Destes, senhor, ha muytos que, por não terem quem digua de suas pessoas, trabalhão ate não prestarem pera ho serviço, e fiquão por ahy. E pera enxempro de outros, faça-lhes merçes, que bem na mereçem. (27) A margem: por pobres. (28) A margem: Francisco d'Almeida. I I 8
  • Ho viso-rey, dom Graçia, por a enformação de minha pessoa, me requereo que fose a Maluquo servyr Vossa Alteza, de me enformar da tera, e lhe escrever de laa, pelo qual, sempre, de la lhe escrevy, e os seus guoverna- dores de laa, sempre, de mim se enformarão. E Marfim Afonso de Sousa, por quão ayroso me muytas vezes vio peleyar, me ouve a feitorya de Maluquo, que eu me não atrevy a servir, por me não perder, pelo qual, ho povo e Dom Yorye, capitão, me requererão que a serviçe. Por serem castelhanos na tera, e ser forçado pera os ditos careguos, nos taes tempos, taes pessoas, por vos, senhor, servir, a servy. Ao segumdo ano, cheguou Yurdão de Freitas, com sua condição me estrovou o voso serviço, (sic) com me premder e me destruyr, ao que tudo me ofreçy, por voso serviço. La mando a çerteza de como requery que se tirase devasa de meus males e bens, o que ele não quis, por me querer mal, e por a semtemça que dantre nos saio da rolação, o que padeçi, por seu serviço, e como mandão que torne a servir meu careguo, e me pague custas e danos. E visto como me premdeo, por requerer o voso serviço, e tãobem nesta escrevanynha, que sirvo, me ofereçy a desguostos, por vos servir, e na. lembramça da vosa fazemda, desguostado. Estes, senhor,, são os entereçes dos que vos servem, que merece paguar com outros galardões neste seu reyno, pera me soter (sic^ e vos servir. Yaa, senhor, apomtey os careguos e seus regimentos, e as pessoas que os comprirão. Da parte de Deus, senhor faço lembrança //a Vossa Alteza que, no que apomto, i«r.i proveya, pelo que ao seu Estado e esta tera cumpre.. Diguo mais, senhor, que veador da fazemda de fora, Fran- cisco da Maia; e veador da fazemda dos contos, Amtónio Afonso, que forão contadores; Francisco Gonçallvez e sua molher Maria Fernandez, cazados ao Mãodovim, com suas i iç
  • vertudes, guarda da vosa fazemda da casa que apomto, que ao caes se faça, com ter careguo dos cavalos; Fabião da Mota, que aquy foy thesoureiro, feitor, capitão da nao das droguas, que foi a Ormuz; Duarte Guomez, ca- zado em Baçaim, seu escryvão; eu, escryvão da fazemda / dos contos, com lhe mãodar o trelado de todolos registos das merces, e ho que me mais pareçer que ho saberey y servir, e na madeira; Yoão Camelo comprar-lhe a feitorya de Baçaim e syrva, porque foy dela escryvão e sabera servir-vos; com as quaes pessoas, que apomto pera os ditos careguos, não tenho mais rezão que ter pera mim que, verdadeiramente, neles o saberão servir, fielmente. (29) Maluquo, ao meu pareçer, esta aguora seguro, com Geilolo tomado e destroido, e a fortaleza de Fidire derribada, e todos darem a obidiemçia aa fortaleza, ho que Vossa Alteza deve ao saber e cavalarya de Bernaldim de Sousa, he pelo qual Vossa Alteza deve, sempre, escrever ao Rey Aeyro que, aguora, porque esta seguro por rey, tem a tera segura e os castelhanos não podem entrar na tera, pelo qual, senhor, mande que ho rey esteya as dadivas dos ofiçios, quando se derem aos cazados, por- que ho averão por grão omra, que he rezão e necesaryo que lhe, senhor, faça, e emcomendar-lhe que lhe escreva, sempre, e dos capitães, se lhes fazem agravos a tera, pera que el-rey confiee de se lhe fazer yustiça, e os capitães averem alguum arreçeo delaa. Pelo yuramento que por sua senhoria me foi dado, pera que dixese se me pareçia serviço de el-rey, noso senhor, aver rey em Maluquo, diguo que, pera serviço de el-rey, noso senhor, e seguramça da tera, he nece- saryo aver rey nela, pera a reger e guovernar. E porque a-de aver muytos, que serão contra meu (29) A margem: Maluquo. I 2 O
  • parecer, darey as rezões que pera yso tenho, e por que em cousas que tanto vay, se deve de tomar boom con- selho, dele faço lembramça, por quão lomye Maluquo esta de socoro, e quão mal, sempre, pode ser provydo. Nom he novo aqueixar-se sempre ho povo dos reis e regedores e, com tudo, por serem naturaes, os sofrem. E como asy seia, mal deve ho povo de Maluquo sofrer ser guovernado ou teranyzado por capitães e christãos, semdo eles mouros e yemte cryados no mato e no mar, muyto poderosos, por ho noso poder não ser nenhum. Em Maluquo, a o rey de Ternate, omde a vosa for- taleza esta; a el-rey de Tidor, meia leguoa da vosa for- taleza // e hilha; a el-rey de Bachão, dezanove " leguoas da vosa ylha; a o Sãogaye de Maquyem, nove 20 leguoas da vosa ilha; e a outros regedores, grãodes pessoas, que sempre se lamção com os castelhanos, e os recolhem, e gramdes amigos seus e ynymyguos nosos. Dado que se premda ou desapose o Rey Aeyro, e os capitães guovernem, fiquão na tera, guovernão os sobre- ditos reis e regedores, nosos ymyguos, que são reis sobre sy, sem darem a odibiemçia ao Rey Aeyro, que esta por nos; os quaes, como virem que he desaposado o dito rey, que se cryou amtre nos, e nos alevamtamentos pasados se veyo pera a vosa fortaleza, e comnosquo, ele e o re- gedor, levarão muyta fome e trabalho, e que forão con- nosquo e contra os seus propios naturaes, e aguora, com Bernaldim de Sousa, foy tomar e destroir Geylolo e der- ribar a fortaleza de Tidor, o qual tem duas yrmãs casadas com purtugueses, que esperão os sobreditos reis e rege- dores da tera que a suas pessoas seia feito? Pelo qual, vemdo eles que ho tal rey he desaposado, revolverão toda a tera, e se alevãotarão em tempo que ho posão fazer, com 19 —xix: 20-ix. 12 1
  • toda a yemte da tera; huuns, por amor de seu rey; e outros, com reçeos de os desaposarem, e muytas sem- -rezões que os capitães fazem, em lhe tomarem o cravo e o seu. E muyto pior sera, se não ouver rey, que ey medo e por çerto tenho que a tera não sofra, por ser yemte que de qualquer paremte de el-rey farão pessoa. Ora veya se se se (sic) pode prender ou matar, yumtamente, todos os prymçipaes, que ha naquela tera, porque, semdo mor- tos, diguo que se farão christãos, se ouver capitão per- peto, vertuoso; que pera de tres em tres anos nom no compadese a tera. E crea, senhor, que os purtugueses, por sy, sem ayuda da yemte da tera, não podem fazer guera, e o provo: Fernão de Sousa foy a Geylolo com pasamte de quatrocemtos purtugueses; matarão-lhe dezaseis omens, e fryrão-lhe sesemta, e nos a eles; huum Bernaldim de Sousa foy la com çemto e tantos omens; matou-os a todos c tomou toda a tera e fortalezas, com a yemte que ho rey levava. Dizem os reis daquelas ylhas que, por as sem-rezões que os capitães neles fazem, e reçeozos de se por elas alevãotarem, os capitães premdem e matão os reis e rege- 17 r.i dores, e os ão por alevãotados, por se desculparem de // suas cullpas; e que aos imiguos, per que nom podemos com elles, que lhe damos dadivas e somos seus amiguos, e que nos esqueçemos dos servisos que nosos hamiguos nos fazem, e nos alem bra delles allguma cousa, se vo la nom fazem a vomtade, de que os mesmos capitães tem a cullpa, e que a pena que os capitães merecem elles mes- mos a dão aos reis, com os mãodarem matar, quomo ao samarao; e a outros, de que nunca virão castiguo; o por- que he milhor nom estarem bem connosquo, pera sermos seus amiguos, e lhe ca termos omra. El-rey, noso senhor, e muitos, terão que, asi como Jurdão de Freitas teve a tera pacifiqua, dous anos, sem 122
  • se allevãotar, com premder el-rei e reguedor, que deça. propia maneira, com se tornar a desapoçar o rey, íiquara a terra muito pacifiqua. Pode ser que, se o rei e reguedor nom enquomendarão, afimcadamente, aos seus, que se nom allevãotacem, que elles o fizerão, porque eu são tes- temunha de huma falia, que o reguedor, que se matou, fes da parte do rei aos seus e aos portuguezes, emcomen- dãodo-lhe que se sostivesem, que elles confiavão em seus servisos e justiça, que elles focem empoçallos de seus senhorios, e satisfeitos de suas imjurias, e feito-lhes merce e outras pallavras de notar. E dizerem aos portuguezes que se alembrembrem (sic) que a castelhanos na tera, que tamto os deseia, e que ficaríamos sos; que, poes, os manda o capitão prezos, e nos não podem ajudar a de- femder a tera, que olhemos por ella, e nom durmamos, poes ficam os seos, porque elles encomendãao aos seus que nos obedeção, e que olhem por serviço de el-rei, noso senhor. E com estas e outras muitas palavras, que lhes milhor que eu sabião dizer, se afastou o batell da praia, com tamanho prãoto dos portuguezes, quomo o da jemte da (sic), sem o rei nem regueldor mudarem seu rosto, pera maes que trocerem-ce dos grãodes grilhos que trazião. E também se nom alevãotou a tera, por os castelhanos estarem nella, os caes, dos outros reis, eram bem comi- tidos, mas quomo estavão desesperados da torna viayem, e que não tinhão tornada, senão por a Ymdia, se sosti- verão ata ir Fernão de Sousa de Tavora, que os trouxe. E estes sam as rezões, que a tera teve, pera se nom alle- vamtar, que aparelhada estava, por se perder com taes prizõeszões (sic) em tall tempo. E se cumpre dizer-ce que el-rei, noso senhor, esta em pose dos reinos de Malluquo, a mister que se desponão os outros reis, e grãogiar-se o propyo rei de Ternate, 123
  • pera que da mão de el-rei, noso senhor, aceite o reino e reye e guoverne, em nome de Sua Alteza, pera o que e mister ser grãogiado com pallavras, dadivas e cartas de el-rei, noso senhor, femgidas; e ornem descreio e de que elle confie, pera o armar ao que cumpre, porque o rei e vão e descreio, e a mister todas estas e outras cousas neceçarias. Pera isto, Dom Jorgue de Castro, que sabe tf v.i da tera, e os quonhece, e elles, a elle. / / Mas aguora, que o rei esta seguro de o desapoçarem, olhara por a terra como sua, e confiado de se lhe fazer justiça dos capitaes, se queixara delles, polo quall os ca- pitães, em ci, terão huum freio e o rei sofrimento. He lembro a Vossa Alteza que ja os propios portu- guezes em Malluquo prenderão os capitaes e, muitas vezes, estiverão pera os premder, por os nom poderem sofrer. E cãodo os propios portuguezes isto fazem, como se nom halevãotara a jemte da tera? Por o que, diguo que me parece que se nom pode escusar rei, com o quall os capitaes nom farão taes as ordens, quomo sem elle. E Malluoquo he a tera omde os capitaes am-de ir a me- recer, e não a satisfazer-ce de seu mercimento. E isto e o que entemdo que sera bem deferemte do parecer dall- gunns, o que diguo, por o juramento que me foi dado. Quãodo dey este parecer ao vizo-rei, me pregumtou ho que podia remder Malluquo. He se Vossa Alteza pertemde do Reino de Malluquo, pera se llograr do remdimento delle, na tera nom se pagua dereito de nenhuma cousa, e o rei se sostem por esta maneira, a saber: as molheres, que tem os paes delias, as mãotem, e ata lenha* e aguoa, e quem nas sirva, lhe dão; ellas amdão quem milhor bamqueteara o rei; elle tem hum lugar, que lhe da o sagu, que e o pão; outro, o vinho; e por esta maneira, sertos lugares, que cada hum tem obrigação de lhe dar cada cousa. Estes lugares 124.
  • são lybertados, cada hum, verballmente, e jullguado e pagua com fato a cullpa. A pena e para o rey. 0 rey, cãodo quer fato, fas huma armada; cada lugar vem cos paraos, que tem obrigação; cada hum embarca o quomer pêra sy, e como são no parao, bons e maos, comem irmaamente; por omde vão, tomão o cachão (3o) > Pera quomer. Core seus lugares; cada lugar, a que chegua, lhe da seu prezem te; esta he a sua remda. Quãoto ao cravo, quãodo vem a novidade de dous em dous, e quatro em quatro anos, cada lugar lhe da o que pode, e repartido, as monções, humas por outras, pode vir ao rei, cada ano, de cravo, vinte bares, dos quaes Vossa Alteza tem o terço e choque, que são des bares e meio, e nom fiqua ao rei maes de nove bares e meio, e isto he o que remdera Malluquo ao rei. E aguora, que a-de vir cravo de cabeça, nom lhe remdera seis bares, o que decraro, porque nom aja emgano no remdimento, se ouver pessoa que lhe escreva o contrairo, pertcmdera de imtirece, e o meu he desejar de servir Vossa Alteza. (31) Ha cimquo mezes, que se me acabou o tempo de escrivão da feitoria, que imda sirvo, por o vedor da fazemda me mãodar que o ajudace no grão trabalho que llevei nesta armada, por cer so, por o feitor e os outros escrivães saberem pouco do careguo, e por o escrivão do tesoureiro estar empedido, servi por elle. Aguora che- guou de Gandel, costa do Cimde, humaa nao de cavallos muito fermozos; e, por daquella // costa, ata guora, se '8r 5 numca pagarem direitos delles, me requererão que taes cavallos nom caregase em receita. E por os ditos cavallos ja nom terem outro empidimento, se não a sertidão, que lhe eu avia de paçar, por ella me davão hum cavallo de (30) i. é. o que achão. (31) A margem: cavalos. 12 5
  • duzentos pardaos, o quall nom quis aceitar, mas re- querer ao vedor da fazenda que os mãodase hyr diãote si, e olhase bem que cavallos erão, os que da costa do Cimde vinhão, de que se nom pagava direitos, que elle mos mandase caregar em receita, e pagarem delles direitos, e asi se detriminou. E por costume, e haderemcias, e pei- tas, se forão, cada ano, cem cavallos, muito formozos, que daquella costa vem, em que perde cada ano duzentos pardaos. Vossa Alteza mande que todo cavallo, que da- quella quosta vier, pague direitos. E estes e outros per- callços dos careguos, que os oficiaes tem, perdi eu, sem- pre, por lhe dar proveito, de que Vossa Alteza nom deve ser esquecido, poes em taes lembrãoças tenho e faço ho seu serviço. Mynha carta, em si, e comprida; has resões de cada cousa, certas; que nom devem estrovar a prover-ce no que apomto. E muitas cousas e grãodes a, de que fazer lembrãoça; que, por serem taes, nom aponto, e leixo aos oficiaes e pessoas que delias tem hobrigação de lhe escre- ver. Somente me ocupei nestas de que faço lembrãoça, pera que Vossa Alteza a tenha de prover nellas. Nom acreso as rezoes que pera iso a, por averem de ãodar nos seus ofeciaes, que, polias obrigações e saber de taes pes- soa», devem tomar minha comtemção e pregumtar por minha pessoa e serviso e, comforme a elle, ser favorecido na merce, pera o soer servir. Nom peso allcaide-mor desta cidade a Vossa Alteza, porque parece rezão dallo a hum Francisco de Gallvão Viegas, que aguora ffaleceo, e, nom lho avemdo de dar, ffaça-me merce, e não pera me iso estrovar acupar-me em toda maes cousa, em que elle vir que são pera o servir. Porque atras apomto a Vossa Alteza que o vedor da 21 — Ijc. J 2 6
  • fazenda divya comprar todo cravo, nos e maça, que as partes de Malluco e Bamda trouxecem, porque avemdo tudo ysto a sua mão, por-lhe-ia todo preso que quisese. E se diguo que mãode a Ormuz, cada ano, huma nao, com drogas, tãobem diguo que defemda que nimguem as poça levar a Cãobaia. E mande a Dio as drogas nece- çaryas, as quaes, se vemderão as naos que as caregarem, polio quall darão, por ellas, muito, e as naos hirão la tomar caregua e remdera a allfãodegua muito maes, eno- brecer-se-a a cidade, que de todo esta desbaratada. Pera se quomprarem mil e duzentos *' quintais de cravo e mil e duzentos de nos e duzentos " de maça, po- de-ce aver mister setenta mil 21 pardaos, e esta e toda força de cravo, nos e maça, que se nesta cidade vemde, por que todo maes e gastado, e Vossa Alteza o tem do terço e choque, de que lhe cada hum pagua. Trinta mil 25 pardaos, ^que Vossa Alteza nesta cidade tome, a caibo, lhe custarão cada ano tres mil "6 pardaos, e com trinta mil pardaos se quomprarão o sobredito cravo e nos e maça, que cada hum, quomo tivese certo pagar- -ce-lhe, vimdiria, com lhe darem loguo hum terço ou a metade (sic) dinheiro; e o maes, fiado; hasy que, com trinta mil pardaos, a traveça, cravo, nos e maça, que vali setemta mill pardaos, quom que ganha, muito, e maes poem todo preço que quer ao maes que tem. Pera Vossa Alteza achar estes trimta mill pardaos, e quãoto quiser, nom a mister maes que abonar huma quall- quer pessoa quonhecida, com a casa da quontratação das drogas, que ao caes diguo que se fara; e com verem que Vossa Alteza as recolhe todas, em sy, terão por certo ser-lhe paguo, e cada hum dara o seu dinheiro, a dez por cemto, quãoto maes que amda muito dinheiro de orfãos 22 —jijo: 23 — ijc; 24 — 5x1 25 —xxx; 26 —iij. 12 7
  • na rua direita, (?) que Vossa Alteza pode mãodar tomar, com outro que, cada dia, se da ao ganho. Com isto ga- nhara muito, soquorera a suas necesidades, e nom se lhe emxergarão, e tera dinheiro pera mãodar comprar a pi- menta, que se tera sequa, e a caregua feita, pera as naos partirem sedo; e nom avera piditorios, cada ano; que tall apreção da a tera que desquobre sua pobreza, que aos imiguos se deve emquobrir. He tão nececario prover-se em todos estas cousas, que fiquo nesta cidade esperãodo a groria de o ver; e, pera no que me mãodar, o servir fiellmente, com amor e cem temor de nymguem. Deus acresemte o reall estado de Vossa Alteza, com descãoso e muitos anos de vida, e com saúde e groria. De Guoa, vinte seis de Dezembro de 553. Francisco Palha 128
  • 19 CARTA PARA OS CRISTÃOS DAS MOLUCAS 1553 (?) Documenta indica: II, 611. Documento em que o Padre Gaspar Barzéu apresenta a El-Rei D. João III os pedidos dos religiosos que se encontram nas diversas Missões da índia. Tem o seguinte titulo: Apunta- mentos de las cosas que los Padres de la Compania de Jesú, que están en la índia, piden. No ANTT, CVR, N.° 167, encontra-se uma folha solta s. I. / s. d., onde, entre outros, se regista também o mesmo pedido: A mester, alem das outras cartas, huma para os chris- tãos de Maluco do mesmo theor das outras; e outra para aquele rey da ilha do Macáçar. Maluco Pieden una carta de S. A. para los christianos de Ma- luco, con la qual se animarán mucho y confirmarán más en la fee. Dixo que sí. I 2 Ç iNiLL INDIA, 11 — 9
  • 20 RELIGIOSOS DA COMPANHIA NAS MOLUCAS «553 (?) Documenta Indica: II, 6rç. Por disposição do Fundador da Companhia, deviam orde- nar-se, em todas as casas, catálogos com os nomes de todos os religiosos, suas ocupações e lugares onde as exerciam, para serem enviados a Roma, de quatro em quatro anos. Este parece ser o primeiro que das partes da índia se fez, intitulado: Rol de los Padres y Hermanos que están en la índia. A identificação exacta dos dois irmãos nomeados não é possível, devido à data incerta do documento. O Padre Wicki sugere serem eles Mel- chior de Figueiredo e, talvez, o candidato Vicente Pereira. Maluco Padre Juan da Beyra Padre Afonso de Castro Nicolao y otros dos Hermanos
  • 21 CARTA DO IRMÃO NICOLAU NUNES AO PADRE FRANCISCO PERES Moro. 8 de Janeiro de 1554 BAL: qç-IV-qç. Fls. 206 V.-20J r. (1) Esta brevíssima carta, sem aquele começo invocativo e con- sagrado, parece parte de alguma outra mais extensa, de que nenhum dos Códices insere qualquer indicação. a) Lugares e ministérios em que cada religioso se ocupa. b) Falta de obreiros e urgência em que venham mais. Do fructu que nesta terra se fas, sabera Vossa Reve- rencia mais em parti // cular. Ao Padre João da Beira, 1207 r.i Francisco Godinho, Melchior de Figueiredo e a mim, nos coube Omoro, por sorte, onde fazemos igrejas, doutri- namos, tiramos ruins custumes, e bautizamos muitas almas. O Padre Antonio de Castro e Antonio China, que com o glorioso Padre Mestre Francisco andava, estão na fortaleza de Maluco. O padre prega e fas munto fruito, c he muito bem quisto e amado de todos, e tem huma fermosa escola de mininos. Antonio Fernandez vay pêra Anmboino, porque se convertem la muitos lugares. Por amor de Nosso Senhor, que escreva Vossa Reverencia a (x) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 271 r-271 v. 13 1
  • Goa, que nos mandem ca companheiros, porque somos poucos e ha obra he muita; e ao Padre Anrique Anriquez, que se alembre de Nicolao. Isto faça, pola charidade, e que não posso escrever, por ser muito ocupado. Não escrevo mais largo, por ter muito que escrever. Lembre-se Vossa Reverencia sempre de me encomendar a Nosso Se- nhor. Elie nos aiunte na gloria. Amen. Deste Moro, oje, outo de Janeiro de 1554. Minimo filho em Christo de Vossa Reverencia Nicolao Nunez 1 5 2
  • 22 CARTA DO PADRE AFONSO DE CASTRO PARA O REITOR DO COLÉGIO DE GOA Ternate, 29 de Janeiro de 1554 BAL: 4.Ç-IV-4.Q. Fls. 207 r.-208 r. (1) Cópia sem emendas e clara, com a mesma redacção em ambos os Códices. São de notar os louvores que nesta carta se tecem ao rei de Ternate, que outros religiosos acusam de perseguidor dos cristãos. a) Lugares diversos onde os religiosos da Companhia exercem o seu ministério. b) Elogio do rei de Ternate, Quechil Aeiro. c) Providências para segregar, de entre os mouros, os cristãos con- vertidos na ilha de Moro. Gratia et comunicatio sancti spiritus sit semper in cordibus nostris. Amen. A chegada do Padre João da Beira a esta terra me deu muita consolação, por ser cousa esperada de tão longe. Depois de o padre ter aqui repouzado alguns dias, se foi pera o Moro com ho irmão Belchior de Figueiredo e Antonio China, e o irmão Nicolao Nunes, que la no Omoro estava. António Fernandes e eu ficamos aqui, entretanto; o Padre João da Beira esta num lugar prin- (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 271 V.-272 r. 13 3
  • cipal, que se chama Tolo, e com elle Francisco Godinho; Figueiredo esta noutro lugar muito apartado, que se chama Siquita. Nicolao Nunez, em outro, que se chama Chao, cuio exercício he bautizar os mininos e tirar aos grandes seus maos custumes e erros. Todos andão com grande fervor de amplificar o nome de Jesus. O irmão Antonio Fernandes vai para Amboino, 1207 t.) com licença do Padre João da Beira, polo // muito de- seiar. Ho capitão desta fortaleza (2), com quasi toda a gente, se foi ao Moro, pera meter os Christãos em con- certo e os tirar de antre os mouros. E de hum so lugar tiraria perto de duzentas almas, afora outros, donde tam- bém tirou muitas; e, pelo grande zelo que tem da fe, quis ser o primeiro que la fosse, no que não deixou pequeno exemplo aos que ao diante vierem, pera fazer o mesmo. El-rei de Ternate (3), que he mouro, foi com o mesmo capitão, e deu todos os meos, pera se apartarem os chris- tãos dos mouros. Trazia huma espada nua nas mãos, fazendo grandes ameaças aos próprios mouros, e que os avia de destruir, se não entrega vão os christãos. E alem disto, dava-lhes muitas resões, por onde os avia de alar- gar, dando-se a si mesmo por exemplo, que suas irmãs, que se fizerão christãs, esta vão com os portugueses, e que folgavão com isso, e que, estar christãos com mouros juntamente, era uma cousa insofrível. E isto não fes por huma ves somente, senão por muitas, levando muitas mas noutes e dias, e passando algumas veses sem comer, e fazendo gasto, a sua custa, sem ser requerido do capitão; e como sabe que em seu lugar esta algum christão, não sofre te-lo mais, e ameaça-o e manda-o logo a fortaleza. Huma molher trazia consigo muito honrrada, não sabendo (2) Francisco Lopes de Sousa. (3) Quechil Aeiro. * 3 4
  • ser christã; e sabendo dum seu parente que o era, logo a dispidio de si, com muitas lágrimas, dando-lhe hum pano com que estava vestido. Certo, digo a Vossa Reverencia que fiquei edificado, porque de hum mui chatolico christão não se espera mais do que elle fes, indo em tudo contra sua lei. Na amizade que com os português tem se mostra mui leal, e nos aiuda em quanto pode; para connosco também se mostra folgar de nos favorecer com embarcações, como agora fes ao Padre João da Beira, mandando-lhe dar duas cora-coras, pera com os Irmãos se ir para o Moro. Deus Nosso Senhor lhe de graça pera perseverar no bem, porque não sei se terá firmeza nestas cousas, pois carece do temor e conhecimento de Deus. Isto escrevo a Vossa Reverencia, pera que o diga ao viso-rei e se escreva a Portugal, para que, sabendo Sua Alteza mostrar-se tão amigo de seu serviço, agradeça e remunere, porque, em ves de ser assi, temendo que digão mal delle, cada anno, espera-se o mandara prender. Eu disse ao capitão para mandar vir alguns mininos de Moro, pera nesta casa se insinarem na fe e bons cus- tumes e ler e escrever, pera poderem ler nossas lingoas, e nos aiudarem a frutificar nas almas; o que pera este effeito // não he pequeno principio. Elle mandou logo que viessem; ja lhes tenho huma casinha ordenada. Novas de mim são estar do espirito necessitado e do corpo sempre enfermo, que me causa alguma desconso- lação, por deixar algumas vezes de dizer missa, e ocupar- -me no serviço do Senhor e proveito das almas quanto eu deseio. De Ternate, a 29 de Janeiro de 1554.
  • 23 CARTA DE VICENTE PEREIRA AO REITOR DO COLÉGIO DE GOA Amboino, 26 de Fevereiro de 1554 BAL: qç-IV-qç. Fls. 208 v.-2oç r. (1) Cópia também sem quaisquer correcções, e conforme com a da BACIL. O seu autor teria sido enviado a Amboino, como candidato à Companhia, a título de experiência. As crónicas da índia falam-nos de um certo fidalgo, também chamado Vicente Pereira, e só posteriores documentos nos poderão dizer se se trata de uma e mesma pessoa. a) Insiste para que seja admitido na Companhia. b) Conversões na ilha de Buro. c) Notícias dos Papuas. A graça de Cristo seia sempre com Fossa Reve- rencia. Chegado de Maluco, mandou o Padre João da Beira ao Irmão Antonio Fernandes para Amboyno, por não aver padre que pera la fosse; e também, por falta de Irmãos da Companhia, que fossem com elle, me mandou a mi, por seu companheiro, e que aqui andaria, ate que (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fl. 273 r. 136
  • Nosso Senhor de mi aver misericórdia: são tantos os laços do imigo que não sinto poder delles escapar, senão sendo servo dos servos da Companhia. Muito bem sabe Vossa Reverencia quanto tempo a que ando nesta demanda; pola paixão //de Cristo lhe pesso que se alembre de mim 1209 r.j e me mande como súbdito, posto que não mereço de o ser. Ho Irmaão Antonio Fernandes me parece que escreve a disposição desta terra. A orfandade delia he muita, por falta de obreiros, porque a nella muita christandade; muita mais se faria, se ouvesse quem os quisesse bautizar. No Burro grande e pequeno bradão e clamão que os fação christãos; e he tanta sua vontade, que, indo huns homens, com hum navio, a fazer viniagoa, vararão em sua terra, e não os deixarão lançar ao mar, ate que os não fizessem christãos. Então os fizerão, assi como sou- berão que serião quatro mil almas; e depois que foram christãos, lhe preguntarão de que maneira avião de viver; não lhes disserão mais que mandar-lhes fazer huma crus e que, quando passasem por ella, fizessem reverencia. Dizem os homens, que de la vem, que serão feitos seis mil christãos. A outra gente, que se chama os Apapuas, em outra terra, de tres castas: huns são brancos, como gente de Cambaya; outros, mais pretos; e outros, cafres de todo, não tem cabelo na cabeça, mas todos são calvos. Estes dizem que também querem ser christãos. Outra terra, a vinte legoas de Ternate, que se chama Alaboa, que todos se querião fazer christãos, vierão pedir padres a Ternate, e quando se virão sem o remédio neces- sário, fizerão-se sujectos a el-rei mouro de Ternate, por conselho de muitos caçizes e feiticeiros. Assi que digo a Vossa Reverencia que muito a que fazer nestas partes, e bem conheço não ser dino de tanta merce do Senhor, como he ser chamado pera tão grande 137
  • officio. Todavia, peço-lhe polas chagas de Cristo, que tenha misericórdia de mim. De Amboyno a 26 de Fevereiro de 1554. Vicente Pireira a 1 3 8
  • 24 CARTA DO IRMÃO ANTÓNIO FERNANDES AO REITOR DO COLÉGIO DE GOA Amboino, 28 de Fevereiro de 1554 BAL: 4.Ç-IV-4Q. Fls. 208 r.-2o8 v. (1) Cópia conforme em ambos os Códices, embora com dife- renças ligeiras de ortografia e de pontuação. Esta carta deveria ser a última, escrita por este religioso, morto em naufrágio, numa de suas missões apostólicas. a) Maus tratos infligidos aos cristãos de Amboino pelos mouros. b) Dez portugueses, em quatro cora-coras, poderiam evitar estes males, fiscalizando a costa. c) Baptismos na ilha de Buro, feitos por comerciantes portugueses. d) Referências a Vicente Pereira. A graça e amor de Christo Iesu faça continua morada em nossas almas. A men. Cheguei a esta província de Amboino, a 22 de Feve- reiro. Creio que ja Vossa Reverencia sera enformado como a nella infinita gente e, a maior parte delia, christã; antre os quais a muitos mouros que os distruem, matão e cati- vão e os vão vender; e, quando lhos não comprão, os botão, com pedras ao pescoço, ao mar, e põe-lhe fogo aos (1) BACIL: Carias do Japão, vol. I, fls. 272 r.-273 r. I39
  • lugares, assi os mouros do reino de Ternate, como os Lu- cebates, que são doutro reino sobre si. Des homens portugueses, pagos a custa del-rei, que andem em quatro cara-colas, por todo anno, nesta terra, podem impedir todos estes males, porque, nem os chris- tãos podem sair de suas casas, ate a praia, nem eu fazer tão seguramente o que devo, porque, sendo so, ando em- prestado, a risco de me matarem, cada dia, ou de me venderem a outros mouros, e ficarem os christãos sem nenhuma doutrina, pois que, com pancadas, se não satis- fazem de mim. Antes que aqui chegasse, me querião levar a huma ilha, onde avia infinidade de gente, que se querião fazer christãos, e rogavão aos portugueses que levassem la pa- dres; e, fazendosse esta gente christã, seguravasse mais esta terra dos imigos. Não fui la, por não ter possibilidade para os sustentar, porque sou so, e também por serem os lugares diversos, e o numero de gente tanto que, a seis, de muito fervor, que ca venhão, sobeiara em que se exer- citem. Ha, daqui a doze legoas, huma terra, que se chama Burro grande, que he de duzentas legoas. Chorão e pe- dem misericórdia que os vão bautizar, e ja la avera obra de tres ou quatro mil christãos, que fizerão homens por- tugueses Chabins (2), que la vão fazer suas fazendas, poios importunarem; não a quem la va. O Padre me mandou em um regimento que, se podesse, a fosse visitar, mas o tempo não me da lugar, e mais, a mister muitos companheiros. Os homens, que os fizerão christãos, pu- serão ay huma crus e disserão-lhe que, quando passassem 1208 t.] por a par da crus, se asentassem de guelhos (3) e ale- // (2) Assim está escrito e na BACIL, cabins. Julgamos, porém, tratar-se do termo chatins. comerciantes. (3) BACIL: jiolhos. I 4. O
  • vantassem as mãos pera os ceos, e isto fazem, por amor de Jesus, que aja misericórdia com elles. A outra terra, que se chama Burro pequeno, que he maior que o grande, gente para louvar a Deus, chamão que os bautizem e não ay quem. Outra terra ha, que se chama Alabua, a qual pidio bautismo e, por não aver quem lho desse, são agora mouros e perderão-se a mingoa. Vicente Pireira, que ainda não he recebido, o qual ya em busca do Padre Mestre Francisco a China, e o Padre João da Beira o mandou comigo, pera me aiudar; anda nos vistidos de soldado, muito virtuoso e perseverante. E assi fico nesta província de Amboyno, sem mais com- panheiros, onde não posso ver nem falar com ningem da Companhia, senão de anno em anno, por não vir a esta terra gente de Maluco, fora da monção. Considere Vossa Reverencia que perfeição a mister, quem a-de andar hum anno sem se confessar e sem comu- nicação dos da Companhia; polas chagas de Cristo, que pro veia com companheiros. No Moro vem ao padre João da Beira, cada dous dias, e eu ainda corro risco de o ver cada anno; la bastão os que estão, porque não a gente pera converter, mas aqui a muita e mui desposta pera isso. Deus nosso Senhor sabe as necessidades que aqui pade- cemos, alem dos trabalhos, porque, se temos de iantar, não ceamos, nem ai possibilidade pera se comprar meo quartilho de vinagre, e he muita a fome, pola pouca pro- visão que vem de Maluco. Oie me derão novas que numa terra, perto desta, se querião muitos fazer christãos; he necessário bautiza-los, por ser infinidade de gente: fa-lo-ei, porque esta entre christãos e são muito nossos amigos. A muitos mais faria também christãos, que so, não posso sustentar. Achei aqui as igreijas desbaratas, porque, dispois da morte do Padre Ribeiro, não veo ninguém a esta terra i 4 T
  • pera os insinar. Agora determino de por em cada lugar homens meirinhos, que insinem a doutrina. Sinto que, pola bondade de Deus, se a-de fazer muito fruito, e assi me irei sustentanto, ate virem companheiros, que possamos todos abarcar o muito que esta pera fazer. Nosso Senhor nos confirme em seu amor. A 28 de Fevereiro de 1554. Filho de Vossa Reverencia no Senhor Antonio Fernandes 1 4.2
  • 25 OUTRA CARTA DE VICENTE PEREIRA AO PADRE REITOR DO COLÉGIO DE GOA Amboino, 29 de Março de 1554 BAL: 49-/K-49. Fls. 2oç r.-20ç v. (1) Cópia de outra carta do mesmo aspirante à Companhia de Jesus, também sem emendas e sem diferenças em ambos os Códices. Julgamos ser este o primeiro documento que se refere aos conhecidos habitantes de Amboino, os Alfuros. a) Naufrágio do Irmão António Fernandes. b) Como escapou do mesmo o autor desta carta. c) Acolhimento que lhe fizeram os cristãos de certo lugar, aonde foi ter, e o pesar que sentiram pelo infortúnio. Ho amor e graça divina seia sempre em Fossa Reverencia. Amen. Dispois que ho Irmão Antonio Fernandes escreveo a Vossa Reverencia, avendo vinte dias que éramos chegados a estas terras, nos partimos a requerimento da gente pera os lugares, que se querião fazer christãos, em companhia de hum sobrinho de Jordão de Freitas (2), que he senhor (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fl. 273 v. (2) Vasco de Freitas. 143
  • destas terras, que ca foi capitão-mor, o qual nellas he mui necessário pera favor dos christãos. Porsiguindo no nosso caminho, por meus pecados, se foi a embarcação em que iamos ao fundo, numa parte longe da terra, onde se affogou o irmão e outra muita gente. Eu me sai com elle, com quatro negros do capitão, pera o salvar, mas, e pelo temor que tinha, por se ver longe da terra, não sabendo nadar, saltou-se de hum catre sobre que o trazíamos, nadando, e apegou-me do pes- cosso. Afirmo a Vossa Reverencia que nosso Senhor me livro, polo muito que me oprimia, e contudo, provera a Deus que antes fora eu morto que elle, pois tanto pro- veito fazia nesta terra, e eu, tão pouco. Tornou-se, dis- pois, ao negro do capitão, e foi tanta a força, ja com o trabalho da morte, que o sangue lhe fes deitar poios olhos. 1209 v.i Parece que Nosso Senhor o quis levar, porque o achou / / em estado de graça; crea Vossa Reverencia que sua vir- tude era muita. Eu sai, pola bondade de Nosso Senhor, em huma rocha, onde o mar me lançou, e ferio-me por muitas partes do corpo, de maneira que não podia andar senão com mãos e pes polo chão; e assi andei tres dias, sem achar pessoa alguma, nem caminho algum, para ir a povoado. Quis Deus, pola sua clemência infinita, que veo ter comigo hum homem da terra, dos que vivem no mato, que se chamam alifuros (3), e me levou as costas, ate hum lugar dos christãos. Era pera ver o pranto que fizerão, (3) Os Alifuros. ou Alfuros, designação dada aos montanheses de Amboino. são considerados, modernamente, como individuos cons- tituindo um tipo racial indonésico especial. Deve notar-se que em quase todas as ilhas da Insulindia existem, do mesmo modo, nomes indígenas designativos, pelo menos, de grupos populacionais, resi- dentes no interior. Como tais são tidos também, em Timor, os Caladis, os Firacos, e os Lamaquitos (Lamak-Hitos). habitantes, res- pectivamente, dos reinos de Basar-Tete, Baucau e Bobonaro. I 44
  • por todos os lugares dos christãos. Tanto que fui no lugar, vinhão-me muitos ver, e huns me trazião o pano pêra camizas, com que me cubrisse; outros, a patola pêra gas- tos, outros a galinha para comer. Certifico a Vossa Reverencia que não achei nenhuma diferença dos portugueses, que forão christãos toda a sua vida; sei-lhe dizer que bradão e chorão por padres, que os insinem e fação christãos. Seia, contudo, Nosso Senhor louvado e bendito pêra sempre. Eu, padre, não faço mais que insinar a doutrina; não bautizo, porque o Padre Antonio de Castro não me deu esse poder: folgara de o fazer, por se não perderem as almas, que se perdem, a mingoa. Não digo mais, senão que fico numa cama muito mal tratado, esperando, se o Senhor me der vida, de ser muito consolado por Vossa Reverencia, ainda que o não mereça. De Amboyno, a 29 de Março de 1554. Vicente Pireira INSULÍND1A, II — IO * 45
  • 26 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE ANTÓNIO DE QUADROS AO PADRE INÁCIO DE LOIOLA Lisboa, 8 de Junho de 1554 Documenta indica: III, 90-95. Relalam-se nesta carta as concessões e favores concedidos por el-rei às cristandades da índia, incluindo as das Molucas. Tais favores haviam sido pedidos em nota enviada pelo Padre G. Barzéu, de que também publicamos a parte referente às Molucas, sob o número 16. Quanto a lo que toca más inmediatamente al fructo de las ánimas escrivió Su Alteza a todos los capitanes de las fortalezas, que ayudasen en lo que pudiessen, o en lo que fuessen requeridos, a los Padres de la Compania en la conversion de los infieles en qualquiera parte que fuesse, dándoles toda ayuda necessária para ello. Especialmente les manda que ninguno dé licentia a moros para poder navegar j>or una cierta parte adonde están los christianos dei Cabo de Comorín, porque impidían nuestros Padres que allí andan a hazer fructo, y pechavan los senores de la tierra que persiguiessen los christianos de la tierra nueva- mente convertidos. Y por más aiudar los dichos christianos manda que no se dé la dicha licentia a los moros, sin la qual no pueden navegar porque los matarán los por- tugueses. También scrive Su Alteza a estos christianos / 4 6
  • del Cabo de Comorín y a los de Maluco nuevamente convertidos, animándolos a perseverar en la christiandad con lo qual nos escrivieron los (Pa)dres que andan en aquellas partes se animarían mucho y confortarían en la fe aquello(s) christianos. * 4 7 »
  • 27 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE MELCHIOR NUNES BARRETO AO PADRE INÁCIO DE LOIOLA Malaca, 3 de Dezembro de 1554 Documenta Indica: III, nç-128. Contém esta carta alguns pormenores sobre a morte do Pa- dre Mestre Francisco, notícias das várias cristandades, pedindo que seja enviado à índia como Provincial um novo Xavier. Termina com ligeiras referências às Molucas. De las partes de la Imdia el fructo que allá se haze, el Retor que queda em Goa y los Padres que están en las otras fortalezas ternán cuidado de escrevir a V. Rv." y complir la obedientia que para esso tienen. De la chris- tiandad de las partes de Maluquo, de las islãs de Moro y de Amboino, avemos aqui em Malaqua tenido cartas, que va la ffe em crecimiento, y que los travajos de los Padres de la Compaiiia que allá andão, son con mucho fructo, loado sea aquel de quien todo lo bueno procede. 148
  • 28 TRECHOS DE UMA CARTA DO IRMÃO AIRES BRANDAO AOS CONFRADES DE PORTUGAL Goa, 23 de Dezembro de 1554 BAL: 4Q-IV-4.Ç. Fls. 182 V.-186 r. (1) Ocupa-se esta carta, principdlmete, da trasladação do corpo do Padre Mestre Francisco e da ida ao Japão do Padre Mestre Melchior, acompanhado por Fernão Mendes Pinto. Está publicada, na íntegra, em Documentação... (India), Vol, V, fls. 382-3Q4; de onde extraímos esta parte final, com as res- pectivas notas. a) Distância a que se encontram as Molucas da índia. b) Religiosos residentes naquelas cristandades. Tendo ia escrito ate qui, me derão huma carta escrita por comissão do padre nosso Ignatio, das cousas que principalmente quer nosso Padre ser informado la em Roma. E quanto ao que nella diz, que os padres que andão por diversas partes lhe fação escrever alguns meses antes que partão as naos de Portugal, para que se saiba inteiramente de todos, não he possível, porque muitos delles estão em parte que, polia muita distancia, (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 233-238. 149
  • se passa hum anno e as vezes dous que nem elles sabem de nos, nem nos delles, como são os de Maluco, Japão, Malaca, e Ormus, onde esta o Padre Antonio (2). Esta terra he huma ilha pequena e seca, onde todas as cousas vem de fora em abastança; esta no começo do Estreito de Baçora; da parte do Norte tem a Persia, da qual dista duas legoas; do meio dia, Arabia, de que esta nove ou des. Ai em Ormus muitas naçõis, entre as quais, por graça do Senhor, esta o Padre Antonio (3) e com sua aiuda faz muito fruito. Em Malaca, que esta quasi setecentas, 700, legoas da- qui de Goa, esta agora o Padre Antonio Vas; em Maluco, esta o Padre João da Beira e o Padre Antonio (4) de Castro, com dous irmãos, onde nos dizem que se a feito gran numero de christãos; esperamos por cartas suas, para sabermos a verdade, porque he viagem tão longe de aqui de Goa a Malluco, que se poem nella tanto ou mais que de Portugal a índia. (2) BACLL: o nome e várias palavras riscadas. (3) Correcção de Heredia. A cópia de BIM1NEL omite o nome; BACIL: idem, encontrando-se várias palavras riscadas e substituídas por onde está a Companhia e se jaz muito fruto. (4) BIMINEL: Afonso. 150
  • 29 APONTAMENTOS SOBRE AS MOLUCAS '554 ANTT: Tombo da Índia. (Núcleo Antigo N.° 2çó). Fls. çç r.-ioi v. Publicamos aqui os apontamentos anotados neste livro de Simão Botelho, pelas informações, particularmente interessantes, sobre as designações das verbas destinadas à fortaleza de Ter- nate e às despesas do culto. a) Referências ao inicio dos portugueses nas Molucas. b) Disposições várias sobre o comércio do cravo. c) Ordenados da fortaleza de Ternate. d) Despesas do culto. No ano (1) mandou Dioguo Lopez de Syqueira, sendo governador, Jorge de Brito e Antonio de Brito, seu irmão, com dous ou tres navios, a Maluquo, pera asemtar pazes com el-rey dele e fazer fortaleza. E antes que ambos che- guasem a Malaqua, quis Jorge de Brito sair em Dachem, omde foy morto, pelo que seguio a dita viagem o dito Antonio de Brito, e asentou a dita paaz, e feez a dita fortaleza. E ho contrato que se diso fez nom o pude achar.. Somente soube per enfformação que lhe deu o dito reey lugar pera fazer a dita fortaleza, e asentou com elle o preço do cravo, o qual foy, por cada baar do peso do (1) Espaço em branco, devendo subentender-se o ano de I52r. 15 1
  • dito Maluquo, que são (2), tres pardaos em roupas de Cambaya ou Choromandel ou Benguala ou quoallquer outras, que valesem na terra, per avaliação que fose feita na terra per avaliadores pera iso ajuramentados. E depois de asentar a dita paaz, e feita a dita forta- (2) Outro espaço em branco. Sobre o valor do baar em Maluquo transcrevemos a seguinte passagem do Livro dos Pesos, Medidas e Moedas, de António Nunes, a folhas 32 r.: «O baar de Maluco tem 200 cates, cada cate tem 2 arráteis, 15 ■/« onças; pesa o baar 4 quim- taes, 2 arrobas, 19 arráteis. O arroz que vay a dita fortaleza se mede polas gamtas de Ma- laca, que tem 140 gamtas o camdil, de 15 paraas, 30 medidas o camdil, das de 42 medidas o paraa. E as gamtas de Malaqua de medida tem 5 cortilhos. E as gamtas de Maluco são mayores que as de Malaqua; e huma jarra de meação tem 18 gamtas das de Maluco, a qual jarra tem 24 canadas; e ao respeito desta medida tem huma gamta de Maluco 5 '/• coartilhos. Nesta fortaleza se husa as roupas del-Rey noso senhor, que se entregam ao feitor; logo como lhas entregam, lhas avaliam, e pelas avaliações se despendem em todalas cousas pellas mesmas roupas, e se faz comta de 1.000 caixas huum pardao, de 300 reis o pardao. E na terra ha algumas caixas que vem de Jaoa, que são de cobre, mayores que centis, furadas pelo meo; quando se hão mester, se vendem allgumas cousas, pera se com ellas comprarem cousas meu- das na praça. E agora ha em Maluco bazarucos, que foram da Imdia, de lei de 50 huma tamga, de 60 reis a tamga, de 5 tamgas pardao, de 300 reis o pardao; aos quaes 50 bazarucos se faz comta de 200 caixas. O cravo custa a El-Rey, noso senhor, o baar 3.000 caixas, pago pelas avaliações das roupas; e por ser defeso que nimguem tratase nelle, os moradores da dita fortaleza, por se não poderem soster, sem tratarem, requererão em tempo do guovernador Nuno da Cunha e do Viso-Rey Dom Garcia que os deixassem tratar nele, o que foy comcedido com tal comdição que de todo o cravo que comprasem na terra, desem para o dito senhor o terço delle, pello preço que estava asentado na feitoria, que são 3.000 caixas, e desta maneyra se usa ao presente; e trazemdo as partes nas naos de Sua Alteza os terços que lhe ficão, pagão de chuquel, que he frete, the Mallaqua, a rezam de 3 cruzados por baar de Malaqua de frete, e as vezes mais ou menos. E cada 10 bares, que se embarcão, de terços e chuqueis a dita rezam acima, vem a Sua Alteza 5 '/, bares, e ficaa a parte 4 */, bares; e a este respeito todo ho mais que se embarca nas ditas naos. E quamdo se em Maluco não pagão as 3.000 caixas do preço da compra dos terços do cravo, se pagam na Imdia 2.085 '/« reis por baar». 15 2
  • leza, e o dito reey de Maluquo dar obediência e vasa- lagem a el-rei, noso senhor, se veo o dito Antonio de Brito pera a índia. E dahy a alguns anos, per morte do dito reey, fiquoa- rão quatro filhos. E sendo ho mais velho alevantado por el-rey, cometeo, ele e seus irmãos, treyção ao capitão da fortaleza, que ao taal tempo hera Dioguo Pereira, o qual matarão as crisadas dentro na fortaleza, pela qual rezão foy o dito rey mandado trazer a índia pelo governador Nuno da Cunha, onde esteve dez ou doze anos, e se tor- nou cristão, e ficou no reino, por reey, hum seu irmão, que era loguo apos ele. E neste tempo, que foy no ano de 535, vendo o gover- nador Nuno da Cunha que pelo contrato que o dito An- tonio de Brito asentara em Maluquo vinha muito pouquo cravo para el-rey, noso senhor, porque todo o que se fazia pelo dito preço ho tomava laa os officiaes (sic) para sy, alem de se não poder fazer na terra senão muyto pouco e com muyto trabalho, e pelo dito preço, com pareceres de omens que esteverão em Maluquo e Dom Francisco de Lima que la foy, ordenou o dito governador que não fizese Sua Alteza mais cravo pela maneira que ho fazia dantes, e o fizesem o capitão e todos os moradores da dita fortaleza, pelo preço que quisesem, e que de todo o cravo que se embarcase, asy nas naaos de Sua Alteza, como nas de partes, depois de enbarcado debaixo da vergua, fosem as partes obriguadas a daar o terço do dito cravo a el-rey, noso senhor, e o feitor lhe paguase, a custa de sua fazenda, tres pardaos por cada baar e fazendas per avaliação, segundo valesem na terra; e o terço do dito cravo ficase forro para o dito senhor, de que os ditos mo- radores forão contentes; somentes paguase os choqueis, se vindo em naaos de partes de Maluquo atee Malaqua, que he a rezão de cada dez, tres pera o senhorio do navio 15 3
  • de choque, que he frete; e o que vem em naaos de Sua Alteza, não paguão nada. O qual choque he atee Malaqua, porque day pera a India he outro frete, segundo se con- certão com as partes. Asy que vindo o cravo em navios de Sua Alteza, paguando os terços e choquees, vem-lhe, de cada trinta bares, dezaseys pera el-rey, noso senhor, em que o dito Nuno da Cunha fez muito serviço a Sua Alteza. Pelo que vaay cada ano a dita fortaleza huma naao del-rey, noso senhor, com ho provimento pera ela asy de monições como de roupas e fazendas, que la tem valya, e pera o que cumpre ao serviço de Sua Alteza he neçe- saryo levar, cada ano, oyto mil pardaos empreguados em 199 v.i roupas de Benguala e Cambaya, e alguns bazarucos, // que abasta para todas as despezas da fortaleza, scilicet, asy de ordenados, como da pagua da gente que la resyde, que são duzentos homens, pouquo mais ou menos, huns anos por outros; e pera outras quaisquer despesas da dita fortaleza; e asy, pera a despesa da naao, que laa vay levar as roupas e trazer o dito cravo, e pera os tres par- daos que o feitor pagua por cada baar, que as partes entreguão do terço que açima diguo. E indo o dito em- preguo, pode vir todo o cravo que se montar nos terços; e indo menos, vende o feitor do dito Maluquo do cravo dos ditos terços ho que ha mister pera provimento da dita fortaleza, em que Sua Alteza reçebe muita perda, porque, nom vindo ho dito cravo, compra-se na índia, pera se mandar nas naaos do reyno. O Viso-Rey Dom Afonso Noronha mandou provisão sua, per duas vias, o ano de 553 e 554, para que em Malaquo se fizese todo o cravo de cabeça, por comprir asy muyto ao serviço del-rey, noso senhor, e bem das partes. He neçesaryo que se ponha por obra. 15 4
  • I Titolo dos ordenados da fortaleza de Maluquo. It. Ao capitão da fortaleza, seysçentos mil reis, por ano, bj1® reis. It. Ao alcaide moor, feitor, provedor dos defuntos e obras, que tudo anda juntamente em cem mil reis, c'° reis. It. A dous esprivães da feytorya, çem mil reis, a saber, çincoenta mil reis a cada hum, por ano, reis. It. Ao almoxarife do almazem, em mantimentos, trinta mil reis, xxx reis. It. Ao esprivão dos ditos almagens, vinte mil reis, xx reis. It. Sobrerolda (3), dezoito mil reis de ordenado, e quatroçentos reis de mantimentos, por mes, que tudo vaal, por ano, vinte dous mil oitoçentos reis, xxij — biijc reis. It. Ao condestrabre da fortaleza, trinta e hum mil e quinhentos e sesenta reis de ordenado e seys çentos de mantimento, por mes, que tudo vaal, por ano, trinta e oyto mil seteçentos sesenta reis, xxxbiij — bij° lx reis. It. Ao porteiro da porta, doze mil reis de ordenado, xij reis. It. Ao ouvidor, çem mil reis de ordenado, c10 reis. It. Ao meirinho, quinze mil reis de ordenado, por ano, xb reis. It. A seys piãees, a pardao cada hum, por mes, que monta, por ano, vinte hum mil e seysçentos reis, xxjbj'° reis. / / 1101 v.i Despesa da igreja. Ao vigário, vinte çinquo mil reis de ordenado, xxb reis. (3) O mesmo que sobrerronda, vigia. 15 5 t
  • It. A dous benefiçiados, dezoito mil reis, a cada hum, que valem, por ano, trinta e seys mil reis, xxxbj reis. It. Pera a despesa da igreja, sesenta mil reis, por ano, pouquo mais ou menos, a saber: çera, vinho, azeite, tri- guo e outras meudezas, Lx reis. A despesa do esprital não he çerta, porque tem o feitor cuidado dele e faz as despezas de mistura com as outras, e portanto se não decrara aqui o que guasta. 156
  • 30 RELIGIOSOS DA COMPANHIA NAS MOLUCAS Coulão, 12 de Janeiro de 1555 Documenta Indica: III, 226. Esta informação é tirada de uma carta do Padre Nicolau Lanciloto S. J. ao Padre Inácio de Loiola, em Roma. En Malaqua está o Padre Antonio Vaz e huura Irmão, por nome Manoel de Tavora. Nas partes de Maluquo está o Padre Jão (!) da Beyra e o Padre Afonso de Crasto e tres Irmãos, scilicet, Ni- culao Nunez, Antonio Fernandez (1) e Francisco Guo- dinho. (1) Este irmão, à data em que foi escrita esta carta, já não era vivo, pois havia perecido naquele naufrágio, a que se refere o do- cumento N.° 25 deste volume. i 5 7
  • 31 CARTA DE UM IRMÃO DA COMPANHIA A SEUS CONFRADES DE GOA Cochim, 1555 BAL: 4.Q-IV-4.Q. Fl. 206 v. (1) Com a seguinte nota, à margem: esta carta de 1555 se poem com as de 1554, por fazer relação das sinquo que se seguem escritas no mesmo ano. A data desta carta encontra-se corrigida do ano 7554 para o de 7555, acontecendo o mesmo na da BACIL e MIBINEL, sendo, nesta última cópia, a correcção feita para o ano de 1556. Em Documenta Indica: III, 258-25Q, indica-se o ano de 7555, pouco depois do dia 29 de Janeiro. a) O muito fruto que os padres da Companhia fazem nas Molucas. segundo uma carta do capitão daquelas ilhas. Cristóvão de Sá. b) Notícias chegadas a respeito do apostolado que o Padre Melchior exercia na cidade de Malaca, enquanto aguardava passagem para o Japão. Gratia Domini Nostri Iesu Christi sit sempre nobiscum. Amen. Charissimos Irmãos. Estou vendo se vos posso em alguma maneira escrever algumas novas dos nossos pa- dres, que andão por aquellas partes Ião remotas, como (1) BACIL: Cartas do Japão. vol. I, fl. 271 r. BIMINEL: Cartas do Japão. fl. 288. 158
  • he Malaca, Maluco e ho Japão, posto que as naos estavão pera la tão depreça, que pode-las ainda tomar estas mi- nhas regras foi muito, e por isso não curo senão me ir as novas. A vinte outo de Janeiro de 1555, chegou aqui huma carta do capitão de Maluco, pera o Padre Francisco Peres, e outra pera o reitor de Goa, nas quais dava conta do muito fruito que os padres por aquelas partes fazião. E o muito que este os ajudar e favorecer em tudo não he muito, porque he grande amigo da Companhia, em espe- cial do Padre Mestre Gaspar, o qual tinha especial dom de Nosso Senhor pera atraher a gente ao caminho da ver- dade. E logo ao dia seguinte chegarão novas do Padre Mestre Belchior e dos mais companheiros que levava con- sigo pera o Japão, e como não puderão passar, pera ir a sua santa vinha, e do muito fruito que fizerão esses dias que istiverão em Malaca, pola muita devação que aquella gente tem a Companhia; mas, todavia, logo espera vão de se partir. As naos, como ficarão atras desta, que nos deu as novas, não sei se poderão chegar a tempo que possão ir, mas confio que Deos me a-de ajudar pera que ainda as aqui mande, ainda que nos disem que não vem este anno naos do Japão, nem da China, nem de Maluco, por- que as novas e cartas que vierão de Maluco foi pola via de Banda, as quais cartas vão escritas nesta, posto que com muita pressa (2). (2) Estas cartas são: uma do Irmão Nicolau Nunes; outra do Padre Afonso de Castro; outra do Irmão António Fernandes; e duas do candidato Vicente Pereira, todas do ano de 1554, e já atrás publi- cadas. i 5 9
  • 32 CARTA DO IRMÃO LUÍS FRÓIS AOS CONFRADES DE GOA Malaca, i de Dezembro de 1555 BAL: 4Q-IV-50. Fls. çi V.-Ç4 v. Cópia com algumas abreviaturas de nomes próprios, muito conhecidos, e sem correcções no texto. Certas referências a pes- soas com assinalados serviços pelo Oriente, e as notícias finais sobre as Molucas, levaram-nos a inclui-la nesta colecção. a) Apostolado do Padre Mestre Melchior em Malaca. b) Sua partida para o Japão. c) Ocupações dos religiosos jesuítas em Malaca. d) Circunstâncias que levaram o Padre Mestre Melchior a desistir, durante a viagem, da ida ao Japão, e seguir para a China. e) Novas levadas a Malaca das guerras entre japoneses e chineses. f) Notícias das Molucas. A graça e amor de Jesu Christo, Nosso Re- dcmtor, seja sempre em nossas almas. Amen. Sperey ate o derradeiro de Novembro que viesse algum da índia, ou da China, para ser eu a mesma carta, e pre- sencialmente vos relatar, charissimos irmãos, muy por extenso, tudo o que ca soçedeo, despois que se partio de nos outros o Irmão Andre Cardoso. E aindia (sic) que com minhas cartas, por meus peccados, vos fui sempre mais pedra de escândalo que materia, nem occasião de 160
  • algum contentamento espiritual, todavia, vencido com â força do muito que a todos em minha alma trago e amo, e juntamente com esta obrigação de servo, que tantos benefícios, doutrina e exemplo recebeo, sempre direy nesta, para gloria de Deos, Nosso Senhor, e para vos dar noticia do que soçedeo, o que se me oferecer, e o tempo me der lugar. O Padre Mestre Belchior esteve em esta terra onze meses, lavrando e agricultando esta vinha do Senhor, com muyta frequentação de sermões e continuas confissões; hera em tudo muy aceito ao povo, e estavão muytos ho- mens bem instruídos em o temor de Deos, mas como se apartou o semeador, veo o homem enemigo e encheo todo de çizania, e tornarão-se, todos, ao que dantes erão, por falta de quem continuasse o que o padre tinha começado. Tomarão aqui os exercícios o Sacristão Rui Pereira e Guilhelmo, e todos os demais os tomarão, se para isso ouvera tempo. Achou-se sempre tam mal, em esta terra, o Padre Mestre Belchior, asi de camaras de sangue, como da pedra, que, três dias antes que se partisse, estava para não se poder alevantar da cama, em muitos dias, mas os muitos negoçios e ocupações que carregavão sobre elle, o fazião alevantar, ainda que fraco. Huma sexta feira, em a doutrina da penitencia, se des- pedio, em o púlpito, deste povo; sem duvida que foi o pranto, lagrimas e sentimentos tam grande, em os ho- mens, que era para por espanto, e muito mais, para causar admiração, os alaridos e gritos // que, por espaço de tres 192 r.i horas, tiverão os meninos desta terra, com o irmão sam- cristão, dos quais muytos, com grande vontade, renun- ciarão os pais e as mais por lhe serem companheiros. Aqui acrecentou o padre em os ornamentos da capella peças muy lustrosas e riquas, de muito preço, e em tudo se ouve bem. 161 iksilINDIA, II — 11
  • O feitor de Malaca deu para a matolotagem mil cru- zados, e Dom Antonio, que era então capitão, deu a cara- vela de el-rey, que estava aqui, somente, para por os padres e irmãos em Japão, de maneira que se partio daqui com muyto contentamento espiritual, e não menos desejosos de acrescentar nossa santa fee em os reynos de Japão, domingo de Lazaro, primeiro de Abril de 1555. Eu, como cosa inútil, e cheo de muitos peccados e iniquidades, como todos muito bem sabeis, pois tão mani- festas vos forão sempre muitas desedificações, fiquei em este collegio, para o varrer e oulhar por elle, ate que viesse padre ou irmão desse collegio; e deu Nosso Senhor isto bem a sentir ao padre, sabendo quam pouco necessário eu era, para onde tanta firmeza e perfeição de virtudes se requeria. Fiquei aqui com Manoel, que, por ser muy enfermo em o mar, não se atreveo o padre leva-lo, para que, agora, em estas naos, se fosse ao collegio. E elle esta bem ins- truído do Padre Mestre Belchior, e tem partes, para se servir delle muito Nosso Senhor, mais que de mim. Em o que aqui nos ocupamos, ate agora, ainda que, por ser mandado pola santa obediência, he muito, mas, poios defeitos e descuidos com que o faço, he tam pouco que me pareceia melhor cala-lo. Tenho cuidado de tanger, todos os dias, a campainha, emsinar a doutrina em a igreja mayor; a noite, vou enco- mendar as almas do Purgatório em a praça, ensino tam- bém a doutrina, de noite, hum pouco, quando vou com a campainha aos escravos que se chegão; e em outros dous ou tres lugares da cidade. Em casa pasamos as lições (Manoel e eu) que aqui ouvimos ao padre, fazemos nosso exame e meditações, pola ordem do collegio; confessamo- -nos aqui com hum padre, cada oito dias, e em a Mise- ricórdia recebemos o Santíssimo Sacramento. 162
  • Dous moços jaós, mouros de nação, se converterão aqui, com que, sem duvida, muito me consoley, consi- derando o preço de tam precioso sangue, com que forão resgatados. Vede, charissimos irmãos, qual estara meu espirito apartado de vossa comunicação e doutrina; ha anno e meo que careço de todo o genero de pesoa, com quem minha alma se podese consolar, entre gente tão apartada de Deos, onde ha tanta confusão e desordem, e tam pouco lume de santa e religiosa vida, com que poder alumiar os pees de minhas afeições, mas, todavia, confiado com o muito que diante Nosso Senhor serão aceitos nossos mere- çimentos e orações, espero que Nosso Senhor me favoreça e ajude, agora, que de todo fico soo, para que nunqua me aparte do que mais agrada a sua santa e divina vontade. Sendo o padre daqui, de vinte legoas, ouve huma muy súbita e temerosa tempestade, que grandemente os des- pertou para os trabalhos com que adiante se avião de achar. E sabey, charissimos, que a cousa // mais temida [92 v.j e receosa dos homens, em estas partes, he o ouvir falar, ou por por obra a viagem de Japão, polas grandes difi- culdades e perigos de tormentas que ha em este tam largo caminho. Tanto que chegarão ao estreito de Sincapura, onde reside el-rey de Jantana, nosso capital enemigo, ya, çerto, huma noite, a dar a caravela em humas pedras, de que logo começou a fazer agoa, e por não ter maneira para sair delias, sem ayuda de outra nao, que hia diante, foy necessário metersse o Padre Mestre Belchior em huma manchua, com o Irmão Fernão Mendes e outro homem, ainda que com muyto perigo das vidas, passando junto de muitos navios de enemigos e ladrões, que estavão em
  • Deu-lhe logo o capitão delia seu mestre e piloto e o batel da nao, mui bem esquifado (sic) de marinheiros, que lhe fosse ajudar, e vindo, vierão também quatro arca- buzeiros em guarda do padre. Pola bondade e socorro di- vino, começava a caravela, em aquela hora, a sair das pedras. Saídos fora do estreito, era ja isto em a Somana Santa, fez-se em a caravela o Offiçio das Trevoas, com grande devação e solenidade, e pregou o padre, a quinta feira santa, o Mandato, quasi ate a manhã, e a Paixão. Dali, hindo para o reyno de Patane, se proverão de muitas cousas, que avião mister, de matalotagem, e achando alguns navios de cosairos (sic) do reyno de Ja- pão, que andão por aquella costa, a roubar, pos-se a cara- vela em termos de pelejar com elles, e foy necessário, para defender a vida, deixar, os irmãos, os hábitos, e fiquar em jaquetas, huns com arcabuzes, e outros com rodelas. Emfim, quis Nosso Senhor, por hir a caravela bem artilhada, e responder-lhes com bons tiros, deixar de a seguir. E foy tanto que o temor da guerra moveo tam- bém a Guilhelmo, e o pos em termos de deitar mão as armas, ainda que bem contra sua vontade. Providos em Patane do que avião mister, estando ali dez ou doze dias, tornarão a proseguir sua viagem, e, estando ja daqui, mais de dozentas legoas, querendo atra- vessar o golfo de Pulo-Condor, para estar a vista da costa da China, asanhou-se tarn bravissimamente o mar, e forão os ventos e chuvas tam grandes que a caravela, total- mente, se hia ao fundo, e hera ja tanta a agoa que com gamelas andavão deitando a agoa da cuberta, porque não avia bomba que bastasse, e também a caravela fazia muyta agoa, dos golpes que tinha dados em as pedras. ' E entendendo o padre que Nosso Senhor não se tinha I9J r.i disto // por servido, deixa, este anno, de ir a Japão. i 6 4
  • E chamando todos os offiçiais da nao, vendo que se per- dião, determinarão de arribar, para vir a Malaca, e arri- bando, com assaz trabalho, e chegarão a huma ilha, que se chama Pulo-Timão, chegarão ali dous galeões da índia, que hião a China, hum deles, em que vinha Francisco Toscano, grande amigo da Companhia, pay do menino que foy a esse collegio, o anno passado, e Antonio Pe- reyra, cunhado de Simão da Cunha. Ali determinou o Padre, com elles, de hir a China, levando consigo somente o Irmão Mendez, e Estevão de Gois, e os demais, que se tornassem ao collegio de Ma- laca. Todavia, depois, a instancias dos capitãis, os levou, o padre, todos consigo, com determinação que, se ouvesse alguma passagem em a China, que fosse a Japão, ainda que era muy tarde, que hiria, e quando não, que faria toda a diligençia possível e todos os modos que se pu- dessem buscar, para cometer a entrada em a China, que tanto desejou nosso bendito Padre Francisco, porque he a mayor cousa, despois do Grão-Turco, que ha em o mundo sabida, aonde se possa milhor receber a ley evan- gélica, nem onde aja mais capaçidade em a gente, se- gundo vereis polas enformações, que de quaa forão, o anno passado. Levava também, o padre, determinado que, quando Deos Nosso Senhor não ordenasse alguma destas cousas, se viria a Malaca, em a primeira embarcação que partisse da China, para alcançar estas naos e ir-se, este anno, a índia. Agora, esperamos, cada dia, navio da China, donde saberemos o que a Deos mais agradou e o que laa se ha feito. Prazera a sua divina bondade que serão as novas tais qual he o desejo, que em todos ha, de que seu santo nome seja divulgado e glorificado entre nações e gentes tam apartadas do conhecimento de seu Criador, e que as r 6 5
  • trara ainda, a tempo que possão hir, em estas na os, para que as saibais, este anno. O anno passado, forão duas naos da China a Japão, e daqui, de Malaca, huma; a qual era partida hum mes antes que aqui chegássemos; as duas da China arribarão, sem poder laa chegar; e a que foi daqui, se perdeo em Liampo, e os ladrões matarão toda a gente delia, aonde hia algum provimento para os irmãos, que estão em Ja- pão, que aqui alguns homens honrrados avião ajuntado de esmolas, de maneira que, vay em cinco annos, que os benditos servos de Deos, que laa andão, não sabem novas algumas da India, e em terra tão esteril e estranha, aonde careçem de toda a maneira de provimento e con- solação de cartas e de irmãos, porque dali não se podem mandar novas, nem menos recebellas de quaa, por não aver com quem. Tudo isto creo, verdadeiramente, que o permite asi o 193 v.i eterno e todo poderoso Deos, a quem, com tantos // tra- balhos e continuos perigos, servem, para os confirmar e corroborar em mayor amor seu, e dar-lhe, em a futura gloria, mui mais copioso e abundante premio e partici- pação da feliçissima vista e gloriosa presença de sua visão divina, e mais do que merecem os servos, que tam fria e tibiamente o servem, como eu. Todavia, quando partio daqui o Padre Mestre Bel- chior, estava também huma nao muy grande da China, para partir pera Japão, que era de Duarte Gama, que ja algumas vezes tinha ido laa, e, se Nosso Senhor a levou e chegou a salvamento, agora, em o primeiro navio que vier da China, se poderão saber as novas que delias vie- rão, as quais, não pouco, desejo saber, para vo-las escre- ver, muy particular e meudamente, pois que meus poucos mereçimentos e muitos peccados me empidirão não ser eu dino instrumento para obra em que Deos tanto se serve. i 66
  • O anno passado, soubemos aqui das novas que vierão da China, que avia grandíssimas dissenções e discórdias entre a China e Japão, e como de Cangoxima foy huma grande armada, que tinha destruídos muitos lugares da China, que estavão junto do mar, e huma populosa ci- dade, aonde os japões fizerão grande destruição e cati- varão senhores muy grandes, que estavão em ella. Estas guerras dizem estar tão travadas que em muitos annos não se apaziguarão. Esta discórdia de entre os chinas e Japões he grande meo para os portugueses, que quiserem hir a Japão, porque, como os chinas não vão laa a tratar com suas fazendas, tem grande meo os mercadores por- tugueses para tratar seus negocios temporaes. E he tão dificultoso ir laa padres, como não forem portugueses, por falta de pasagem, que em nenhuma maneira poderão pasar laa, como elles não forem, salvo se trouxerem da índia galeão ou nao deputada para Japão, porque, ainda que a caravela que aqui derão ao Padre Mestre Belchior, com lhe pareçer que lhe fazião muy grande charidade e esmola, foi necessário gastar o irmão Fernão Mendez e Cosmo Roiz, que hia por capitão delia, mais de oitoçentos cruzados, e se não os gastarão, não avia maneira para poder partir daqui. E daqui vereis, charissimos, as dificuldades que ha, para se achar este tesouro escondido de Japão. Não digo isto, porque deixeis muy intensamente de folgardes e glo- rificardes a Deos, quando, pola sagrada obediência, for- des eleitos para hir laa a trabalhar, porque, então, para que vades mais purificados em o amor de Deos, tudo sera vir aqui a Malaca, e daqui ir a China a buscar pasajem para Sion, e em Sion envernareis / / hum anno, ate achar- des pasajem para laa. O Padre Mestre Belchior esteve aqui, o anno passado, mui movido, quando soube que os portugueses tinhão i 6 7
  • entrada em Cantão, e que se começavão a tratar pazes e capitular conçertos, os portugueses com os chinas, para ir a volta da China; se a evidencia da necessidade não fora tão grande em Japão, como tem de ser ayudados aquelles bemaventurados padres e irmãos, dos quais, por ventura, assi pola pobreza da terra, como poios intensos trabalhos que tem, pode ser que alguns delles sejão mor- tos, e que padeça a christandade muito detrimento, por falta de quem os va a doutrinar e exortar. Todavia, o padre tinha aqui quasi determinado de mandar hum irmão, em os navios que forão a China, para que, quando os portugueses fossem a capitular os con- çertos, em a cidade de Cantão, o deixassem em a mesma çidade, e ali, entre os chinas, estivesse dous ou tres annos, aprendendo mui bem a lingua, e informando-se das parti- cularidades e qualidades da terra para que, quando de qua fossem padres, tivessem ja quem lhes podesse bem interpretar a lingua, mas, por não se poder escusar quaa nenhum dos irmãos que o padre trazia, tenho que o dei- xou de fazer. Não escrevo largo de Maluquo, porque laa sabereis as novas, particularmente, polas cartas dos padres e irmãos. Somente, Afonso de Castro fica agora em Amboino, e o Padre João de Vera em Omoro, com Belchior de Figuei- redo, e Nicolao Nunez, e Antonio China; e em Maluquo, o Padre Antonio Vasquez (i), com o Irmão Manoel de Tavora, aonde se faz muito fruito, pola bondade de Deos. O vicário que estava em Maluquo morreo; por não ter consigo outro algum clérigo, serve agora o Padre Antonio Vasquez, de tudo, e faz o offiçio, e diz missa como o cura, mas fica muy mal desposto de terçans e quartans. Maluquo queimou-se, de mui pouco tempo para ca, (i) Antonio Vasquez por Antonio Vas. I 6 8
  • quatro ou cinco vezes, e a derradeira foi o fogo e ardor tam grande que faltou muy pouco para se queimar a povoação dos portugueses, da banda do mar e da terra, e foi de maneira que não se pode salvar mais da casa da Misericórdia, segundo dizem os que vem de laa, que hum crucifixo e a bandeira. Malaca esta acostumada a arder, e não em amor de Deos, que, despois que se foi o Padre, não duvido aver nella incêndio, seis ou sete vezes; e a huma vez, mui perigoso, porque deu o fogo junto da casa da polvora, aonde, se tocara, ardia a casa de Nossa Senhora, e todas as casas deste collegio e muitas outras do povo. Escrevemos assi, charissimos irmãos, // esta carta, ma- * terialmente, porque nem com mais espirito nem verdadeira humildade, que em mim ha, a podereis esperar de mim. Çertos, irmãos meus mui amados, grande fora minha consolação oferecer-se-me tempo, papel e oportunidade, para escrever a cada hum em particular, e não ha duvida senão que o fizera com tanto gosto e contentamento de meu fraco espirito, como se vos estivera servindo a todos, presencialmente, e gozando de sua interior comunicação e doutrina; mas afirmo-vos que, para escrever esta, foi necessário velar huma noite ou duas, ate a manhãa, por- que, segundo minha fraqueza e possibilidade, podesse com- prir, de dia, com o que a santa obediençia me manda. Charidade grande e muito serviço farão a Nosso Se- nhor, polas chaguas e memoria de sua Paixão, de se acor- dar deste indino servo e miserável peccador, em o interior de suas orações mentaes, principalmente em o tempo que se acharem a fonte e thesouro das riquezas de Deos, em a Cumunhão do Santíssimo Sacramento, pidindo cada hum, em particular, a Nosso Senhor, que tire de mim aquelas faltas e defeitos, ou porque milhor me entendais, os peccados com que a Sua Divina Magestade ofendo e i 6 ç
  • desagrado, e me queira vestir de hum novo homem, com aquelas vestiduras nupciais que, para entrar em as vodas da vida eterna, me são necessárias. E se a charidade de Deos e o fervente amor de Jesus vos inçitar ou der a sentir que me escrevais, polo mesmo vos peço que seja reprehendendo meus viçios, mortifi- cando minhas mas inclinações, ensinando-me a obedeçer, emduzindo-me a verdadeira e propria abnegação de mim mesmo; como seja asy, que he essa a çela vinaria em a qual Deos ordena e instruye em seus servos a perfeita charidade. De Manoelinho saberão as mais novas de Malaca, e de Cosmo Roiz, que veo da India com nosoutros, filho espiritual do padre, e grande amigo de Fernão Mendez, que foy por capitão da caravela, poderão saber o demais, que em viagem lhes socedeo. Nosso Senhor Jesu Christo, por sua infinita bondade, confirme com inteira perseverança, em cada hum de nos outros, a perfeição da obediência, pobreza e limpeza inte- rior, e vos corrobore, para muyta gloria sua, com todos os dons de seu Santo Spirito. Amen. De Malaca, o primeiro de Dezembro de 1555. Servo inútil de todos Luis Fróis 170
  • 33 PARTE DE UMA CARTA DO PADRE ANTÔNIO DE QUADROS PARA O PADRE MIRAO Goa, 6 de Dezembro de 1555 BAL: 4Q-IV-4Ç. Fls. 226 r.-23i v. (1) Refere-se, esta carta, à estima que os religiosos da Com- panhia gozam em toda a índia, desde o tempo do Padre Mes- tre Francisco, do qual se recordam alguns factos tia os por miraculosos. Foi publicada na integra em Documentação... (índia). Vol. VI, págs. 30-32. a) Apostolado do Padre Nuno Ribeiro em Amboino. I) Vida edificante do Padre Afonso de Castro nas Molucas. c) Sofrimentos do Padre João da Beira no Moro. E assi, de verdade que, quando a gente desta terra ve a Companhia ca espargida em tão remotas e trabalhosas terras, crea que edifica muito, principalmente vendo que nos soos nos metemos em a onda, e a força do trabalho, e disto, especialmente, achei muita gente edificada, em verem que em terras trabalhosas não se achão outros reli- giosos, senão nos, como em as ilhas de Maluco, em Japão, e em Ormuz, e na ilha de Amboino, que he huma das de (1) BACIL: Cartas do Japão. vol. I. fls. 292 v.-301 v. 17 1
  • Maluco. Andou ali, antigamente, nosso Padre Mestre Francisco, o qual mandou aly o Padre Nuno Ribeiro, o qual, dispois de fazer muitos christãos, alem dos que fez o Padre Mestre Francisco, andando elle so com elles, sem a\ er aly portugueses, mais que hum que, por devação, quis ficar com elle, não levando outro tratamento corporal que o da gente da terra, que, como gente misera, não tem outro, senão dormir e manter-se com pouco mais que nada, os quais doutrinou algum tempo, com muito tra- balho, despois, adoecendo mortalmente, se mandava levar em hum pano, como cobertor, e ya visitar e doutrinar os christãos em suas casas, em sua infirmidade, assi como o fazia na saúde. E andou nesta santa ocupação, ate que deu a alma a Deos. Agora esta nesta terra o Padre Antonio Vaz, doutrinando e ajudando esta christandade, do qual ainda não temos novas nenhumas. Em Maluco esta hum padre nosso, chamado Afonso de Castro, cuja vida e doutrina tem muito edificado aquella terra, porque he homem mui dado a oração e de muita virtude. Nas ilhas do Moro, aonde ha muita christandade, anda João da Beira com tres irmãos, aonde padecem muito, por a estrelidade da terra ser mui grande, pelo que dizia Mestre Francisco, que mais se avião de chamar, aquellas ilhas. Ilhas de esperar em Deos, que do Moro. Delias se perdeo ja o padre, indo por mar, tres vezes, e de todas, o Senhor, o livrou, e de huma, andou dous ou tres dias pelo mar, sobre huma taboa, e andou muitos dias embrenhado, fugindo aos mouros, que andavão pêra o matar. Outro Irmão também no mar, indo pera a for- taleza, onde chegou nu de todo. O trabalho que se tem em converter aquelles gentios e conservar os que são convertidos e sofrer as persicuções dos mouros he muito, alem da falta temporal do neces- 172
  • sano, assi acerca de comer, como dormir, como do outro socorro e ajuda humana, pelo qual o Padre Mestre Fran- cisco deixava sempre mui encomendados os padres de Ma- luco e Japão, poios muitos trabalhos e necessidades que, como esperimentado, sabia que padicião mais que os outros padres, que por ca esta vão. \ i 7 3
  • 34 CARTA DO IRMÃO LUIS FRÓIS AOS CONFRADES DE PORTUGAL Malaca, 15 de Dezembro de 1555 BAL: 4Ç-IV-4Ç. Fls. 234. V.-235 v. (1) Esta carta é um resumo da publicada com o número 23. Notam-se nela algumas correcções feitas com letra diferente para esclarecer melhor certas passagens. a) Viagem do Padre Mestre Melchior ao Japão. b) Noticias, em Malaca, de guerras entre grandes senhores do Japão e da China. c) Contratempos que obrigaram o Padre Mestre Melchior a lazer viagem para a China. d) Não se efectua a viagem projectada de Luís Fróis à China, para estudar a lingua. e) Noticias das Molucas. /) Frei Gaspar da Cruz, religioso dominicano, parte para Cambaia. A graça e amor de Christo Nosso Senhor seia sempre em nosas almas. Amen. O anno passado escreveo daqui, largo, o Padre Mestre Belchior, e, juntamente, os irmãos que consigo levava para Japão, acerca da sua viagem, e de como, por ser (1) BACIL. Cartas do Japão, vol. I, fls. 304 r.~305 v. 1 7 4
  • impidido de alguns (sic) que sobrevierão, deixara de pro- çeder sua viagem. Esteve aqui, neste collegio de Malaca, onze meses, esperando que por a via da China viessem algumas novas de Japão; juntamente esperava também pola monção dos ventos, pera se fazer prestes. Chegadas as naos da China, tevemos aqui por nova como forão tres naos de portugueses, o anno passado, para Japão, e que as duas delias, com grandíssimas tem- pestades, aribarão pera Cantão, e a outra se perdera com muita gente, onde ya algum provimento pera os padres. E tudo se perdeo, de maneira que, faz agora cinco annos, que de nenhuma calidade os nosos padres, que estão em Japão, sabem no // vas da índia nem da Companhia, 1235 r.i nem menos delles sabemos o que Nosso Senhor ordinária, neste discurso de tempo. Disserão-nos que alguns reis da costa do Japão fazião grandes armadas contra os governadores das cidades ma- rítimas de China, e que avia grande destruição e discórdia de huma parte e de outra, por onde, agora, era muito mais dificultoso poderem ir daqui embarcações para la. Todavia, o Padre Mestre Belchior, confiado na infinita bondade de Deos, e em a esperança que sempre em seu divino favor devem ter os que O amão e servem, fez-se aqui prestes, em huma caravela del-rey, que os avia de levar, e levava peças mui ricas pera os reis e senhores da terra, e os mais custozos ornamentos que ca vi, nestas partes. Derão-lhe nesta feitoria de Malaca mil cruzados, pera sua matalotagem e, segundo a careza (2) e esterilidade da terra de Japão he grande, ainda isto não foi superabun- dante, senão o que boamente avia mister. (2) i. é. carestia. 17 5
  • Partio-se daqui, o primeiro de Abril de 1555, levando consigo hum sacerdote de missa, por nome Gaspar Vilela, e quatro irmãos, scilicet, Fernão Mendez (3), Antonio Dias, Estevão de Goes, Belchior Dias, e tres mininos orfãos, com alguma gente que na caravela ia, pera detenção dos muitos piratas que ha polo mar. Saindo pola boca de hum estreito, que esta daqui, obra de trinta legoas, começou a caravela a dar em humas pe- dras, e fazer alguma agoa. Dali forão ter ao reino de Patane, pera se negociarem (4) de algumas cousas que avião mister. E porque muitas vezes encontravão com embarcações (sic) de imigos, e aquella costa ter gerra e os portugeses (5), era necessário, de quando em quando, os irmãos, mostrarem aparências de homens bellicosos e deseiosos de guerra, tomando suas espinguardas nas mãos, pera que os juncos temessem e se desviassem. E sendo ja mais de duzentas legoas daqui, querendo atracar hum golfão, pera terem vista da costa da China, foi tão grande a revolução do mar e a força do vento que a caravela se metia no fundo, e fazia tanta agoa que, de todo, assentou o padre não ser vontade de Deos aver de ir elle, este anno, a Japão; e tornarão logo arribar pera virem a Malaca; e la no caminho acertarão de encontrar com duas naos de portugueses, que da Sunda hião para a China. Passou-se nellas o padre com hos irmãos, detriminado, mediante o adjutorio divino, de buscar na China embar- cação que fosse pera Japão, e quando a não pudesse aver, que trataria (6) quanto podesse por cometer a entrada da China, que he maior empresa, segundo pareçe, de quantas (3) Fernão Mendes Pinto. (4) Corrigido para proverem. '5) Também corrigido para guerra com os portugueses. (6) Palavras sobrepostas. 176
  • ate agora estão descubertas, assi pola grandeza da justiça e lealdades da terra, como pola capacidade e grande enie- nho que ay nos chinas, pera reçeberem a santíssima fe chatolica. E porque naquelle porto, onde agora o padre estaa, que são humas ilhas despovoadas, nas quais morreo o Padre Mestre Francisco, que Deos em sua gloria tem, anda vendo se pode aver detriminação de modo pera entrar na terra, quando o padre vir que de todo, sem embaixada de el-rey de Portugal, não poder entrar, então se tornara pera Malaca, pera ir-se pera a India, e fazer aquillo que Nosso Senhor lhe der a sintir. Antes que o padre daqui se partisse, tinha determinado de mandar-me a China, e lãoçarão-me (sic) os portugueses na terra, pera que na cidade de Cantão me pusesse com algum dos senhores da terra, e ay andasse, dous ou três annos, aprendendo a lingoa, ate que viessem padres da India, pera que, quando la fossem, achassem quem lhes soubesse interpretar a lingoa. Sem duvida, charissimos, que a alegria e contentamento espiritual, que meu espirito recebeo, com esta merçe de Deos, foi tão grande que de nenhuma calidade me pareçe que a pena poderá explicar o que minha alma sintio, ainda que avia muitas pessoas que me punhão grandes dificuldades e temores de to- mertos (sic) que receberia, se cometeçe a entrada. Mas ate nisto conheci quão grave era a multidão de minhas iniquidades (7), sendo (8) necessário que fycasse eu neste collegio de Malaca, por onde, por nenhuma maneira, se pode por isso por (9) efeito; e as mais novas que do Japão ou do Padre Belchior vierem, vindo ao tempo que possa (sic) ir pera o reino, terei cuidado de as escrever. // 1235*. (7) A frase: grave era a multidão de minhas iniquidades encon- tra-se sublinhada e na entrelinha: indino era desta merce. (8) Idem na palavra sendo, corrigida para pois que foi. (9) por corrigido também para em. 177 INSI'LIKDIA, II — 12
  • De Maluco, onde agora estão tres padres nossos, e quatro irmãos, vierão aqui novas que fazem muito fruito. A christandade daquellas partes he mui grande, os tra- balhos com que he conservada pelos da Companhia pa- reçem intolleraveis; padecem grandíssima necessidade em suas infirmidades, e a maior consolação que terião, quando estão pera morrer, seria hum bocado de pão, se o ti- vessem. Acertou agora de morrer, em Maluco, o vigário que ai estava; e por não aver outro nenhum sacerdote, o Padre Antonio Vaz, que ay reside, serve de tudo. O Padre João da Beira esta em Omoro (10), com o irmão Belchior de Figueiredo, e o Padre Afonso de Castro esta em Am- boino, com o Irmão Francisco Godinho, e o Irmão Niculao Nunez esta noutra província, soo. São todos muito mal despostos, grandes trabalhos, nudeza, fome, calmas, e frios, que continuamente pedeçem, mas porem, desta ma- neira, se vão apurando no fogo das tribulações, e se vão despondo pera serem pedras, caa neste valle, muito bem lavradas, para o celestial edifycio. Daqui se partio, avera obra de tres meses, hum frade de São Dominguos, que se chama Frei Gaspar, pera o Reino de Caibaia, que esta perto da China, por mandar o proprio rei da terra pedir que lhe desse noticia do criador do ceo e da terra, e desta lei evangélica em que vivem os christãos tãobem de Santo Thome. Partio agora outro padre françes, da Ordem de S. Fran- cisco, pera ir aos reinos de Pegu de Braga e de Sião, con- quistar e ver se pode fazer nelles algum fruito. He elle mui suficiente pera Nosso Senhor obrar muito por tão bom instrumento, assi pola virtude que tem, como pola suficiençia de letras. (10) Omoro é correcção de o Moro. I?8
  • Lembra-me, charissimos irmãos, que ha oyto annos, que não fazem de ca, os da Companhia, senão chamar e pedir que venhão de la operários a esta vinha tão grande que, ja de madura, se perde. Quem poderá ver tantos reinos, tanta diversidade de gente, e tanta multidão de almas jacentes sicut oves non habentes pastorem? Quem se não doe muito de tão grande perdição? E, polo amor das chagas de Christo, que sintais muito a destruição que a fera besta faz nestas almas, e o demonio tem sobre tan- tos reinos (n), e trabalhar com oração e continua me- ditação, lagrimas, gimidos das entranhas, pera serdes ca- pazes de tamanho bem, como he comprir-se em vos a profecia: in omnem terram exivit so nus eorum (12). Por amor de Nosso senhor que me encomendeis muito particularmente em vossas frequentes miditações, porque sem duvida tenho disso asas de necessidade. Ostou (sic) neste collegio de Malaca; leo, insinando a doutrina, e encomendando as almas do porgatorio, onde, por falta de um sacerdote pregador, se deixa de fazer muito fruito, por ser esta huma terra em que muito trabalhou o Padre Mestre Francisco, e donde se ve claramente a perdição tão grande que a, pola falta de exortações; e quantos se deixão de confessar; outros, de converterem, por não te- rem quem lhe parta o pão e a sagrada doutrina. Jesu Christo, Nosso Senhor, restaurador de todas infe- liçidades, ordene como venhaes, e se não percão os tizouros do seu precioso sangue nas almas que tão caro lhe custou. Deste collegio de Malaca, aos 15 de Dezembro de 1555. Luis Fróis (que por outro nome se chama Polycarpo) (11) A frase: e o demonio tem sobre tantos reinos encontra-se corrigida, na entrelinha, para e o domínio que o demonio tem sobre tantos reinos. (12) Cf. Rom. 10, 18. 179
  • 35 RELIGIOSOS DA COMPANHIA NAS MOLUCAS Goa entre 21 e 31 de Dezembro de 1555 Documenta Indica: III, 412. Intitula-se este documento: Lista de los Padres y Hermanos que están en la India, e a data supra é indicada pelo Rev. Padre Ioseph Wicki S. I. Damos apenas os nomes dos religiosos colocados nas Mo- lucas. Maluco Padre Joam da Beira Padre Alfonso de Castro Padre Antonio Vaz Nicolao Nunez Francisco Guodinho Melchior de Figueiredo Manuel de Thavora 180
  • 36 CARTA DE EL-REI D. JOAO III A D. PEDRO DE MASCARENHAS Lisboa, 28 de Março de 1556 BACIL: Cartas do Japão. Vol. I. Fl. 383 r. Por esta carta D. João III ordena que se recolham junto de pessoas dignas de crédito, e nos lugares respectivos, infor- mações fidedignas sobre a vida edificante do Padre Mestre Francisco. Os dados biográficos do documento seguinte são o resultado das inquirições feitas em obediência a esta ordem régia, constituindo tudo uma espécie de processo, numa só peça documental, incluída no Códice indicado, com o titulo: Extraio dos testemunhos autênticos que vieram da India a El-Rey Dom João, o terceiro, da vida e milagres do Padre Mes- tre Francisco, da Companhia die Jesus. Publicamos, a seguir, a carta de el-rei e, def>ois, as notas biográficas, distinguindo, assim, os dois documentos. Viso rey amiguo. Eu, El-Rey, vos envio muito saudar. A vida e trabalhos que o Padre Francisco passou, foy de tanto exemplo e edificação, que averia por grande serviço de Nosso Senhor manifestar-se, pera sua gloria e louvor. E pera que todo se possa fazer com autoridade que se requere, vos encomendo muyto que, com a mayor dily- gençia possível, façais tirar em todas as partes da índia, onde ouver pessoas dignas de fee, que o saibão, em estro- 181
  • mentos autênticos de todas as cousas de edificação e obras sobrenaturaes, que em vida do dito padre, e depois delia, Nosso Senhor, por elle, obrou. E como for feita, me enviareis, por duas vias, apro- vada com toda autoridade, e muyto vo-la agardecerei. Escrita em Lisboa, a 28 de Março de 1556. E, posto que digua que se tirem instromentos, tirareis huma inquirição, onde o dito Padre Mestre Francisco, nessas partes, esteve, e em qualquer outra parte, que ouver pessoas, que disto saibão, as quaes pessoas serão perguntadas, outrosy, com juramentos, pola vida que o dito Padre Mestre Francisco fazia, e de suas obras e cos- tumes, e dos lugares em que esteve, entre infiéis, e do que nelles fez. Das quaes inquirições me enviareis o terlado, por tres vias, concertado pelo chançaler da Casa da Rolação (sic) e polo Ouvidor Geral, e asinada por vos e por elles, ata- dos e aselados. 182
  • 37 NOTAS BIOGRÁFICAS DO PADRE MESTRE FRANCISCO s. d. BACIL: Cartas do Japão, Vol. I. Fls. 384 r.-399 v. Estas notas biográficas, com a carta anterior, constituem um conjunto que nós publicamos separadamente. Escritas sem nexo e desordenadamente, por certa passagem do texto, talvez se possam atribuir a João de Eiró, depois, religioso franciscano, grande amigo e devoto do ínclito Apóstolo das Índias; ou se- rão, antes, a reunião dos depoimentos de várias testemunhas. A margem, ou nas entrelinhas, encontram-se muitas frases intercaladas, esclarecendo melhor o sentido, ou dando mais algum pormenor. Indicamos estas frases, transcrevendo-as no seu devido lugar, mas em itálico e entre parênteses. Várias cenas da vida do Santo, passadas em algumas das ilhas insu- líndicas, a que se faz referência nestes apontamentos biográ- ficos, levaram-nos a incluí-los também nesta colecção. Como se trata de um documento, um tanto longo, procurámos, de algum modo, dividi-lo em alíneas, cujos títulos são também nossos. a) Chegada à India e primeiras viagens a vários dos seus lugares, e a Malaca, Amboino, Molucas e Moro. b) Suas virtudes, mortificações e trabalhos apostólicos por onde pas- sava, incluindo as Molucas. c) Poder sobrenatural concedido ao Padre Mestre Francisco no acal- mar os mares, predizer os acontecimentos e curar os enfermos. d) Morte de João de Araújo num lugar das Molucas, e outros sucessos maravilhosos naquelas ilhas e noutras partes. e) O que se passou com João de Eiró, e outros casos prodigiosos. I83
  • /) Pratica heróica da caridade na viagem de Portugal para a índia e noutras circunstâncias. g) Sua morte em San-Choão; trasladação do seu corpo incorrupto para Malaca e, depois, para Goa. h) Graças obtidas por sua intercessão, após a sua morte. i) Vitória dos portugueses sobre os Dachens, anunciada pelo Padre Mestre Francisco, em visão sobrenatural, na cidade de Malaca. a) Chegada à índia e primeiras viagens a vários dos seus lugares, e a Malaca, Amboino, Molucas e Moro. 1384 r.i / / Começa a vida do Padre Mestre Francisco. Todo o tempo que o Padre Mestre Francisco andou nas partes da India, ate que faleceo, o virão sempre viver muyto vertuoso e sanctamente, e fazer vida de homem muyto vertuoso, e de muyto bom religioso, e amigo de Deus, mantendo-se de esmolas, dormyndo em lugares de pobres, e em ospitaes, curando e visitando os enfermos, e pregando e doutrynando (nos troncos aos presos), por todas as partes onde se achava, e menistrando os sanctos sacramentos, etc. (E convertendo infiéis) a nossa santa fe. E nisto o virão mays perseverar que nenhum homem desta vida. Logo como chegou a cidade de Goa, com o governador Martim Afonso 1 de Sousa, que foy em Maio, no ano de começou a trabalhar e entender na doctryna e ensino de todas as gentes; e era continuo em visitar as cadeas e espritaes, onde ya confessar, e vinha a desoras, com huma alegria e espirito 2 de devação e de dar louvor a Deos; 1 —A®; 2 — espB. 184.
  • e em curar os enfermos, visitando-os de dia e de noite, com muyto trabalho, e amortalhando-os, e dizendo mysa por os que morião; era tanto o trabalho que a todo o homem punha espanto. E por tomar enformação da cristandade do Cabo de Comorim e da necessidade que ahy avia de ser aquela gente administrada, ordenou partir para la 3 e as suas matolotagens foram dizer a Cosme Anes, veador da Fa- zenda (querendo entender en algumas cousas para o Padre Mestre Francisco) que ja tinha humas botas e hum couro para o sol i (sic) se partio. (E da tornada vierão com o padre dous christãos da terra, principaes, porque por suas obras, tanto que la foi, começarão todos ter muita fe e crença no padre). Em todas as partes onde andou, gastava a mayor parte do tempo em converter infiéis a nossa sancta fe, e tra- balhou por yso muyto, começando em Tutucurim, e des- pois, em Maluco, e Amboino, Omoro, e Japão, e no Cabo de Comorim, nas quais partes fez senpre muyto fructo, convertendo muytos infiéis a fee de Christo 4, e polo zelo das almas, punha, muytas vezes, sua vida, en perigo, asy por mar como por terra. Metia-se no mar, sem nenhum reçeo, fora de moções, // pola confiança que tinha e zelo das almas; partio de 1384 ▼.) Malaqua para Japão, fora de monção, vespora de São João, afyrmando-lhe, pilotos e mestres, que não podia pasar; e foy la ter, contra toda rezão e tempo, pasando na viajem muytos perigos de ladrões; e não foy a China a outra cousa que a denunçiar e pregar a fee de Christo, e desejou muyto entrar na terra, pondo-se a todos os pe- rigos que lhe podesem soçeder. E estando no porto de São Chão, na China, dava trezentos cruzados s, que lhe 3 —pala; 4 — X»; 5 — x1»'. 1 8 5
  • derão de esmola, a hum siami para que, somente, o posese no caes de Cantão, na China, sem mais nada, afirmando- -Ihe, muytas pesoas *, que não pretendese yso, porque o avião de matar. E neste tempo faleçeo, pobremente. Foy o Padre Mestre Francisco a prymeira pessoa que naquelas províncias de Maluco entrou a converter aquela gente, onde ha grande numero de povo christão, que o Padre Mestre Francisco andou por aquelas partes conver- tendo. E so em hum lugar, na ilha do Moro, que se chama o Tolo, que he toda de christãos que o padre converteo, ja se afirma aver, entre pequenos e grandes, mylhoria de vinte e çinco mil almas cristãas, afora outros muytos lu- gares que naquela provyncia ha, a sete, e oito, e dez legoas, e a vinte, huns dos outros, onde ha grande numero de povo cristão. E também nas ylhas de Anboino converteo muytos lugares e grão numero de gente, e fez muyto serviço de Noso Senhor, e edificou muytas igrejas, onde continua- mente andava pregando e doutrynando as cousas de nossa sancta fee. E por os ditos lugares deixou muytos moços doutry- nados, para ensinarem e doutrinarem a gente da terra, os quais povos, te o presente, vivem debaixo da nosa obediência, da igreja, e cada dia vão multiplicando. De Beringão ate Parmanel, converteo Nosso Senhor, por o padre, nove ou dez lugares de gentios, e a redor de Beadella e Tramanacor converteo, Noso Senhor, por o padre, seis ou sete lugares de infiéis; e ate seu faleci- mento, andou nas ditas partes da índia, Malaca e Maluco e ilhas de Anboino e outras muytas províncias e lugares remotos, pregando e doutrynando as cousas de nosa sancta fee, asy aos portugeses, como a outras muytas gentes de 6 — pae. I 8 6
  • diversas nações, por terras de infiéis, onde converteo grande numero de gentes, con suas muytas vertudes, e exemplo de vida, e edificou e pasou muy grandes tra- balhos, te seu faleçimento. / / uss r.j b) Suas virtudes, mortificações e trabalhos apostólicos por onde passava, incluindo as Molucas. Senpre o souberão muyto umilde, chão e senjelo e mal vestido e sinples, e isto lhe virão mais que a nenhuma outra pesoa, te gora, e sem nenhuma ponpa de onrras. Trazya huma cabaya muytto velha remendada e hum sayo e hum barrete muyto çafado, e não se lenbra hum homem,que o conversou muyto tempo, ver-lhe en sua cama colchão nem lançoes, senão huma almofada muyto dura e huma colcha que lhe mandou Martim Afonso de Sousa, sendo governador, e dous barris de vinho ', e hum sayo de Portugal, muyto fino; logo deu tudo aos pobres, não vestindo nunca o sayo, e nem provando nunca o vinho, e lhe virão fazer continuamente muyta austi- nencia de vida e comer muyto pouco, somente huma vez no dia e poucas vezes comia carne e esas que a comia era en companhia, quando se ofereçia. Trabalhava muyto nom beber vinho, nem comya pão, ainda que o tivese; e quando ya a casa dos portugeses, comia e bebia o que lhe davão, por se não mostrar ypo- crita, ou o não terem por escândalo; e quando se queria ir, sempre fazia huma colação (i) espiritual. E o seu co- (i) Corrigido para consolação. 7 — v«. 187
  • mer, comumente, era este arroz, mal conçertado, e peixe muyto pior temperado, e leite azedo, as vezes, com arroz; (algum bolo de arroz por festa), e dezia sempre a seus súbditos que tanto comesem quanto avião de servir a Deos; que não comesem por sy, mas para sostentar o corpo e o offereçerem a Deos, para seu serviço. Em sua conversação, palavras e obras, castidade e honestidade e tratamento, era muito aceito a todas as pesoas que o vião e conhecião, e com todos aquelles que o conversavão, assi christãos, como infiéis, todos, com suas palavras, erão consolados; ate dos mesmos mouros e infiéis era acatado e venerado e lhe chamavão, antre si, o padre santo. Em todas as partes era ávido e tido, publicamente, por virgem e fora de todos os estimolos e coração da carne, e que morrera virgem como nacera do ventre de sua mãi. E seu proprio confessor o affirmava. Sempre em seus costumes foi casto e fervente no zelo do serviço de Deos, e vivia tão bem que não avia nelle nenhuma cousa que parecesse pecado venial, nem se vio a nenhum soldado murmurar do padre, nem venialmente; antes, a todos comprazia, em cabo, sua conversação, assi no espiritual, como no temporal. E he verdade que nunca o virão nem sintirão fazer mostras de se querer mostrar 1385 v.i virtuoso, por sua grande humildade. Nem //se soube nunca cousa do padre, por onde merecesse deixar todo o fiel christão de o ter por homem santo. E foi sempre muito honesto e pacifico, e se lhe vinha alguma adversidade, sabia ser muito paciente, não se dar por achado nas honrras desta vida, e sendo muito avexado em Malaca, e vendo-se em muitos trabalhos, por lhe impi- direm sua viagem para a China, o virão muito parente, e com muita humildade soffrer os trabalhos que lhe isto dava. E o capitão o persiguio e lhe disse palavras muito i 8 8
  • feas e desonestas, e tudo sofreo com muita paciência, sem por isso se mudar do que antes era. Huma pessoa conversou o Padre Mestre Francisco meudamente, como seu discípulo, desque desembarcou em Goa, vindo Portugal, ate que se embarcou em S. Thome pera Malaca, e nunca lhe vio fazer nem dizer cousa que parecesse nem fosse pecado, e sempre falava em Deos, e era muyto suave na sua conversação; fingia ter ira contra hos que peca vão, e na alma, era cheo de amor de Deos; ho que mostrava por fora, era avorrecer-lhe os que pe- cavão; interiormente, avorrecia os pecados, e roguoava a Deos poios viciosos e fracos. Era tão fervente no amor de Deos que, reprehendendo o padre a hum mercador chatitn portuges, por muitas vezes, de noite, indo polo mar, por ser tão amigo das mercadorias e cobiça delias, e não querendo o mercador apartar-se, algumas pessoas, que o espreitavão, virão sal- tar as lagrimas ao padre fora dos olhos, por o chatim não se querer tirar de suas cobiças. Trabalhava muito, por onde andava, com suas pre- gações e doutrina, de evitar os pecados do povo, com muita charidade e amor. Avia tanta fe em sua boa vida e virtudes que, quando dizião que pregava, todas as pes- soas trabalhavão polo ouvir. Era tão virtuoso que, para qualquer cousa de necessidade que avia delle, assi pera confissões, como pera cousas de obras de misericórdia, que era chamado, acudia com grande animo de charidade. E continuamente o padre trabalhava na conversão dos christãos, andando de hum lugar a outro, com muito trabalho e perigo, doutrinando-os nas cousas de nossa santa fee. Pretendia com estas cousas, sobretudo, apartar e tirar os pecados do povo, com muita charidade e amor, e que todos tivessem amor e charidade, huns aos outros. i 8 ç>
  • Se sabia que na terra havia amançebados, quer fosse solteiro, quer casado, a estes dizia: «foão, eu vou jantar convosco»; e tantas vezes perseverava nisto, ate os trazer em conhecimento da verdade, e destas cousas e doutras (386 r.) (da mesma calidade), fez muyto fruyto na // quella terra. E nas partes de Malaca e Maluco, tirou muitos homens de pecado mortal, amançebados, fazendo-lhe vender as escravas que tinhão por amiguas; e outros, casar com ellas, por lho elle pedir, o Padre Mestre Francisco, pola muita obediência que lhe tinhão, e vergonha que delle avião, pola muita autoridade e limpeza santa; de maneira que, naquellas terras, todo ho homem que vivia desta maneira os trazia a bom viver e fora de pecado mortal. Em Maluco, onde andava pregando a nossa santa fee, se soube dos moradores da terra da vida do Padre Mestre Francisco, e disserão que confessava todo o dia, depois que dizia misa, e insinava a doutrina christã, assi aos mininos, como a homens e molheres, em huma irmida de Nossa Senhora da barra, em que se recolhera, onde acodia muita gente. Sempre o virão pregar e ministrar os sacra- mentos e converter a nossa santa fee os infiéis, e o mesmo fez em Amboino, e edificou huma igreja no mesmo Am- boino, onde celebrava e fazia os officios divinos. c) Poder sobrenatural concedido ao Padre Mestre Fran- cisco no acalmar os mares, predizer os aconteci- mentos e curar os enfermos. Vindo o Padre Mestre Francisco do Japão, onde fez muyto numero de gente christãos, na nao de Duarte da Gama, para Malaca, lhe deu hum temporal tão grande que duvidarão de suas vidas, e com muyto temor de se perderem e por o tempo ser muyto, quebrou o cabo ao iço
  • batel, e se foy desgarrado, levando dentro quatro mari- nheiros (2); e depois de o batel desaparecer, e perde-lo de vista de gavia da nao, e não terem esperança de o averem, e com o tempo ser muyto, asentarão de yr com a nao, e deixarem o batel. Vendo o Padre Mestre Francisco esta conclusão, ro- gando, pedio ao mestre e piloto que se não fosem, e espe- rasem polo batel, que logo viria, e que amainassem. E contradizendo-lho o piloto, que os comeria o mar, se tirassem a pouca vela com que fogião ao mar, e por o mestre e piloto verem que não era possível puderem ja recuperar o batel, ensestirão em marearem as velas, e se yrem. E o padre ensestio muito nisto, dizendo que se não fosem, que o batel viria logo; parecia (3) ao mestre e piloto que era enpossivel o que dizia o padre, começarão a levantar a vela de proa, para se fazerem a vela, a que logo o padre acudio, e pos a mão na verga, para que a não alevantassem, e estando nesta deferença, hum ho- mem, por mandado do padre, sobio na enxarçia e não vio o batel, e querendo deçer, o padre lhe disse que espe- rasse mais hum pouco, que logo se deçeria, e o padre se pos em oração a bordo, com as mãos alevantadas, e dise a gente e dono da nao que se não agastassem, que ele confiava en Deos que o batel viria a salvamento a elles, prometendo certas misas por os que vinhão no batel e polo mesmo batel, e logo, neste comenos, e no mesmo instante, começarão a ter vista do batel, e sentirão vir-se chegando, e o esperarão, e em muyto pequeno espaço veo o batel a bordo da nao, sendo o temporal muito grande; e estando para lhe dar hum cabo, disse o padre que não era necessário, que o batel chegaria muyto mansamente, (2) Corrigido para dous marinheiros. (3) Corrigido para parecendo. 19 1
  • 1386 t.) como de feito chegou, e se desembar // carão os que neles (sic) vinhão, pos as mesas da guarnição, onde o batel esteve quedo, sem ningem ter mão nele, a borda da nao, ate outros marinheiros entrarem dentro e o ama- rarem, de que todos ficarão muito espantados, e logo este caso, entre todos, se notou por cousa notável. Vindo o Padre Mestre Francisco do Japão, na nao de Duarte da Gama, atracando ao porto de São Chão, na China, achou ahi hum Diogo " Pereira \ que avia muitos dias que estava prestes para partir para Malaca, o que não poderá fazer, por ter o vento contrario, sendo o tempo da monção, o qual vento contrario era o que servia a Duarte da Gama para poder chegar de Japão a China; o qual, tanto que chegou, se pasou Mestre Francisco a nao de Diogo Pereira, e logo, no proprio instante, elle vio o tempo da monção a popa, e se partio, quebrando o vento que dantes ventava, e por ser grande parte da monção da China para Malaca gastada, vinha muyto re- çeoso, Diogo Pereira, de não achar ja nenhuma nao da índia, por o qual lhe disse o padre que se não agastase, porque ainda acharia em Malaca Antonio Pereira, de verga de alto, para partir aquele mesmo dia, e que, por amor dele, esperaria tres dias; a qual nao avia de chegar a Cochim a tempo que elle achase ainda naos pera o reino, pera escrever a Sua Alteza e a Roma; e tudo soçedeo da maneira que o padre dise, pontualmente, por- que, estando Antonio Pereira sobre huma amarra, e com as verga en çima, para partir para a índia, ja desapegado de todo o negocio da terra, chegou huma carta do padre para Antonio Pereira, na qual lhe dizia que bem sabia que estava ainda em Malaca, (antes para partir, que esperasse por elle, para o levar para a India, e lhe tivesse prestes 8 — d°; 9 — pr». I Ç 2
  • gasalhados para quatorze ou quinze japões que levava); a qual carta foi feita no Estreito de Sincapura, trinta le- goas de Malaca, en tempo que era rezão que não estivesse nenhuma não por partir do porto de Malaca para a índia. E Diogo Pereira, com quem o padre vinha da China, vinha bem desesperado de achar ja nao, e Antonio Pe- reira, vista a carta do padre, esperou por elle, tres dias, como o padre tinha dito na nao em que vinha, que tres dias avia Antonio Pereira de esperar por elle. E o padre se embarcou na sua nao, e com ella ser muito velha, e lhe cortarem na mesma viagem corenta e tantos liames, por lhe tomar agoa que fazia por muitos lugares, sempre o padre a toda a gente da nao consolava e lhes dizia que se não agastassem, que a nao viria a salvamento, e muyta parte de sofrerem os trabalhos que pasarão, alem da espe- rança de Noso Senhor, foi o credito que a gente trazia no padre. Onde quer que o Padre Mestre Francisco chegava, en poucos dias tomava e falava a lingoa da terra, como foy no Malavar, e em Maluco, e em Japão, e huma pesoa, que isto afirma, e sabe estas lingoas, as falou e praticou com o padre, e também a malaya, e dizião que o padre se entendia com os negros, e elles com elle, de que muyto se espantavão. Ao tempo que o Padre Mestre Francisco chegou a çidade de Malaca, hum moço, de idade de quinze anos ate dezoito, adoeceo de huma doença, da qual esteve doente por espaço de algum tempo, e por parte de sua may o vierão ver as mais das molheres da terra, por ser ela de casta jaoa, que sabião curar ao modo de gentios, c destas curas lhe fezerão tantas, sem lhe aproveitarem, que, por derradeiro, // foy chamada huma molher na- U87r.] tural de Maluco, que tinha fama de boa feitiçeira, a qual, antre outras cousas e cerimonias que lhe fez, atou hum i ç 3 INSILÍNDIA, II — 13
  • sedenho no colo do braço esquerdo, e neste tempo perdeo o moço o sentido e a falia,, e esteve tres dias sem ella, fazendo muytos esgares e sinais de dimuninhado, cospindo para retabolos ou outras imagens, se lhas mostra vão, e cousas semelhantes. E estando neste termos, foy chamado o Padre Mestre Francisco, pola devação que lhe tinha o pay do moço, o qual o foy chamar. E entrando pola porta, perguntou o padre que quanto avia que o moço estava doente, e espantando-se de o mandarem chamar tão tarde, e antes que o Padre Mestre Francisco chegase, o moço estava quieto, e entrando elle pola porta, começou a alvoroçar e desenquietar, fazendo muytos momos e esgares, e dar grandes brados, que estavão espantados os que ali estavão. E o padre, muyto sereno, e dizia que se não agastasem, que não seria nada, com ajuda de Deos, polo qual, não podendo o moço repousar na cama em que jazia, foi ne- cesario toma-lo hum homem nos braços e te-lo apertado. E o padre Mestre Francisco se pos em joelhos, diante dele, rezando por hum livro, (por espaço de duas horas, pouco mais ou menos); e mandou vir huma estola e hum misal e hum crucifixo e agoa benta, e com isto lhe fez çertas çeremonias, e lhe lançou hum relicairo, que tinha, ao pescoço. E estando-lhe rezando a Paixão, ao tempo que dizia Jesus, não avia cousa que ho tivesse, cuspindo para a cruz, e fazia outras cousas feas; e com isto, acabada a Paixão, sosegou o moço, e fiquou quieto, (de que ho pai ficou tão contente que o deu logo por são); e o padre dise que se fosem todos, e que o deixasem dormir, e que lhe desem huma amendoada, que a mea noite avia de acordar, e que prometesem nove dias a Nossa Senhora, e que não se agastasem, que não era nada, que ao outro dia diria elle huma misa a Nossa Senhora, e que esperava em ' 9 4
  • Deos que com iso falaria logo e ouvese saúde. E asi foi tudo como o padre tinha dito, que estando o padre na misa, ao evangelho, entrou o mestre, que curava o moço, e lhe tomou huma mão, e lha apertou, e com isto falou o moço, dizendo: «Ay! Ay!». A que o pay respondeo ao físico: «não sois vos o que lhe fazeis dar eses ays»; e acabando a misa, falou logo muyto bem, e dahi a poucos dias, sarou de todo. Alem das obras sobrenaturaes que Nosso Senhor polo Padre Mestre Francisco obrava no cabo de Comorim, como era, sarar os enfermos, e outras cousas, veo nova agora que o padre reçucitara hum mançebo, e assi se tinha, e tem oie em dia, e pesoas que vierão de Comorim o disserão a hum Mestre Diogo, que trazendo, muita com- panha de gente, hum mancebo aparentado, morto, o apre- sentarão, com grande clamor, ante //o Padre Mestre imv.i Francisco, e dizem que o tomou o padre pola mão e o alevantou vivo. Isto dise Mestre Diogo e Cosme Anes, veador da fazenda del-rei, dizendo que o certificarão assi, e que o quisesem ambos perguntar ao padre Mestre Fran- cisco, que então chegara de Comorim (?). Disse o veador que elle não ousaria meter-se em tal auto, mas que o preguntase Sua Reverencia, (e ficou de o fazer assi). E logo, day a poucos dias, disse Mestre Diogo a Cosme Anes que o perguntara ao Padre, pola maneira que o ouvira, dizendo-lhe: «O Padre Mestre Francisco, para gloria e louvor de Deos, como passou acerca daquelle mançebo que reçucitastes no Cabo de Comorim»? A isto lhe respondeo o padre muito envergonhado, sorrindo-se, abraçando-o, e dizendo-lhe: «Jezu, Senhor, Padre Mestre Diogo, eu reçucitar? O pecador de mim!... Trazião aquelle mançebo assi, e vinha vivo, e eu disse-lhe que se alevan- tasse, em nome de Deos, e ele alevantou-se, e a gente fazia disto admiração». E disse Mestre Diogo a Cosme 19 5
  • Anes: «Não tenhais nenhuma duvida, que o padre, pola graça de Nosso Senhor, reçucitou aquelle mancebo, que hia morto». Dizem que nas Ilhas das Vacas reçucitou o Padre Mes- tre Francisco hum morto mouro ou gentio. Em Bandar, se diz que o padre reçucitou hum morto, e huma pesoa o perguntou ao padre, mas diz que não lho quis dizer, porque não custumava vangloriar-se nas obras de Deos, mas atribuya a gloria a Deos, cuja era. A pessoas de muyta aotoridade e verdade se ouvio dizer que, naquelas partes do cabo de Comorim, estando huma molher morta e huma menina, por orações que o Padre Mestre Francisco fizera a Nosso Senhor, tornarão a vida e resuçitarão. Perguntando Antonio Cardoso, secretario na índia, ao Padre Mestre Francisco, que lhe disese de huma criança que no cabo de Comorim dizião que ele resucitara, que estava morta, por se afogar em hum poço, o padre lhe respondeo que era verdade, que elle lhe disera o evan- 1388 r.i gelho, e que a criança estava viva // e não morta. Mas a outras pesoas se ouvio que a criança estava morta, e que o padre lhe dera saúde, com ajuda de Noso Senhor, e que vindo a may do moço chorando, diante do padre, o padre lhe disera que se (não) agastase, que não era morto seu filho, e chegando o padre onde estava o moço, o resuçitara, segundo todos dizem e affirmão. Sendo partido hum João Galvão, de Anboino para Maluco (onde o esperava muita gente, que he viagem de sesenta legoas), em huma enbarcação, e o Padre Mestre Francisco, em outra, depois de o padre chegado a Ma- luco, disse no púlpito ao povo que resasem hum Pater Noster e Ave Maria pola alma de João Galvão, porque era falecido, e asy foy, porque, dahy a três dias, veo ter 0 fato a costa. 1 ç 6
  • Disse o Padre Mestre Francisco que a huma çerta pessoa avia Nosso senhor de dar trabalho e fadigas e per- siguições na fazenda, e na pessoa, e na onrra, dizendo que lhe pesava disso, e por este respeito o encomendava, muytas vezes, a Deos, e rezava por elle; depois, soçedeo da maneira que o padre tinha dito. Sendo o Padre Mestre Francisco rector da casa de São Paulo de Goa, a deixou, e se embarcou para Malaca, pera dahi ir a China a fazer fructo sancto. E aconteceo, atra- vesando o golfo de Necubar, terem hum grande temporal, com que o galeão ya trabalhosamente; e querendo o ca- pitão dele alija-lo, lhe requereo o Padre Mestre Francisco, da parte de Nosso Senhor, que não alijasem nem se agas- tase a jente, porque naquele propio dia, antes que o sol se pusese, virião terra, e o tempo abrandaria; e deixando de alijar, virão terra, no tempo que o padre dise, e antes do sol posto, abrandou o temporal e foy salvo o galeão, e duas fustas da armada, que hião em companhia, se perderão. Ysto foy tido por todos por inspiração de Nosso Senhor, porque todos, com as palavras do Padre Mestre Francisco, erão consolados. En Manapar, lugar grande de christãos, estando o Padre Mestre Francisco ocupado a ensinar a doctrina ao povo, lhe vierão dizer, huns homens, que estava hum homem rico e afazendado, demuninhado, e que o demonio o atormentava muyto, e lhe pedia, polo amor de Deos, lhe dese algum remedio. O padre mandou la hum dicipolo seu, que fose com os mininos da doutrina, e com a cruz, e acabado de rezar o evangelho ao demoninhado, sem nenhuma tardança, foy são. Vindo o Padre Mestre Francisco de Amboino para Malaca, se não quis embarcar em huma nao del-rey, em que vinhão todos os officiais dela, todos muyto amigos do padre, e se embarcou em houtra. E vindo todos de 197
  • U88 v.i companhia a nao del / / rei (deu em huma pedra, no estreito de Saabão, do qual perigo, milagrosamente, Nosso senhor livrou a nao); perigou duas vezes, muito grande- mente, e logo se disse que dissera o padre ao mestre da nao e a outras pessoas: «não me embarco nesta nao, por- que ei medo que vos aconteça algum grande desastre». (E outro maior perigo passou a nao nos baixos de Ceilão). E chegando a Malaca, começou logo o padre a confessar e a pregar e ensinar a doutrina christã na casa da Santa Misericórdia, onde concurria muita gente, (assi mininos como molheres e homens). Pregando o Padre Mestre Francisco em Maluco, disse que dissessem hum Pater Noster e Ave Maria pola alma do capitão-mor dos castelhanos (4), o qual falecera em Amboino, onde o dito capitão viera ter (com Fernão de Sousa de Tavora, que trazia os castelhanos de Maluco, donde partirão, avia dois meses). E he tanta a distancia que não se podia saber a nova, e também era fora de monção. Isto dezião, geralmente, todos os que vinhão de Maluco com Fernão de Sousa de Tavora, e despois se achou que faleceo ao tempo que ho padre isto disse no púlpito. Antes de huma nao partir de Malaca para a índia, disse o padre ao mestre delia, muito afincadamente, tres vezes: «Gonçalo Fernandez l0, ei medo que vos aconteça hum grande desastre». E vindo a nao a vista de Ceilão, veo dar na baixa de Ceilão, onde se vio a nao com a proa em cima da pedra, e todos chamavam pola Virgem Maria, do qual perigo Nosso senhor, milagrosamente, livrou a nao, e vierão a salvamento a índia. (4) Rui Lopes de Vilalobos. 10-Pri. i ç 8
  • Quando o Padre Mestre Francisco partio para a China (onde faleceo) disse a huma pessoa despedindo-se delle, que trabalhassem por se verem todos na gloria, que nesta vida ja se não virião mais. A outro seu amigo disse, quando partio de Goa para a China, que se ficasse, embora, que ia se não virião mais, senão no Vale do Jasafat. A outra pessoa disse que o encomendasse a Nosso se- nhor, porque ja nesta vida se não virião mais, mas na gloria. Despedio-se de outra pessoa, seu amigo; antre outras praticas que tiverão, disse esta pessoa ao padre, quando se tornarião a visitar? E o padre / / lhe respondeo que ia (389 r.i se não virião senão no Valle de Jasafat; e, day a dous ou três dias, se embarcou para a China, onde faleceo da vida presente. Praticando hum Antonio de Sousa com o Padre Mestre Francisco, lhe disse o padre que o Gouvernador Graçia de Saa duraria poucos dias, estando muito são e bem des- posto; e, day a dous meses, faleceo o dito governador. Estando o Padre Mestre Francisco em Cochim, escre- veo huma carta ao Padre Cosme de Torres, dizendo nela que huma sesta feira seria com elle, na cidade de Goa: e na mesma sesta feira, virão desembarcar Mestre Fran- cisco no cais, e se vio e leo a carta que o padre disto escreveo. (Tendo Cosme Anes, veador da fazenda, despachado as naos do reino, chegou ao Cabo de Cotnorim o Padre Mestre Francisco e... porque era grande seu devoto e amigo do padre; e perguntou-lhe o padre como lhe era na carrega; e respondeo-lhe: «muito bem, Padre Mestre, que vão carregadas sete naos, a Deos graças, com muita pimenta e drogas»). Dizendo o veador da fazenda ao Padre Mestre Fran- 199
  • cisco que em huma tal nao, de sete que partirão, aquele ano de 1545, para Portugal, carregadas de espeçiaria, mandava hum diamante (5) a El-Rey, que custara dez mil pardaos, e valia no reino vinte cinco ou trinta mil cru- zados; e mandava-o a seu risco. Respondeo, logo de enproviso, o Padre Mestre Francisco: «nao quisera que o mandareis nesa nao»: (de que Cosme Anes se alterou dizend... dilo Fossa Reverencia pe... aconteceo aquela nao da agoa que lhe entrou dentro. Respondeo o padre estas palavras pon... aes no por isso. Tornou o veador pa... o padre: apor amor de Nosso Senhor que tenha lembrança em seus sacrifícios e orações de lhe encomendar aquella nao e as outras) (6). E depois se soube como aquela nao, na viagem, se lhe abrio huma agoa polo pe do mastro grande; estyverão, muytas vezes, todos os que hyão nela detryminados de yr varar em terra, ou se pasarem a outra nao. E por não acharem outro remedio, cortarão o mastro grande, (e tanto que cortarão, a taboa tornou a çarrar e esgotarão a nao); e asy foy a nao de mestura com estas outras, e todas entrarão em huma maree, em Lisboa, per que he de crer ser tudo obra de Nosso senhor, mediante as ora- ções deste beato padre. Hum dia, dizendo o Padre Mestre Francisco missa no esprital de Malaca, sendo presente, disse o Doctor Mestre Cosmo, que esteve presente em hum paso, despois das palavras da consagração, lhe pareçe que vio o padre com os pees alevantado. (Vai adiante, por iso se cerrou) (7). (5) Correcção de robi. (6) As palavras em itálico encontram-se à margem, por onde as folhas do livro devem ter sido cortadas, juntamente com algumas palavras, que não podemos ler. (7) Esta passagem está riscada nesta altura da cópia, passando para diante, conforme diz a nota, entre parênteses, que também se encontra no documento. 2 0 0
  • Continuando o Padre Francisco os sermões em Malaca, hya ouvi-lo hum judeo, sábio na ley, o qual zombava do padre e sua doctrina, e estava muyto duro e pertinaz, e em seus erros e maos costumes. E tanto que impedia a outros que se não convertesem; o qual judeo o padre veo conversar e hya comer com elle; e tanto continuou nisto que o judeu se veo a converter, e julgado depois por muyto boom cristão, ate sua morte. Esta obra foi julgada por todo Malaca, por cousa mesteriosa, por o judeu ser tido por duro e pertinaz, e douto. Indo o Padre Mestre Francisco para Malaca, lhe deu tamanho temporal que hya a Deos mysericordia 11 (sic); em a qual, o padre trabalhou muyto consolar e esforçar a gente (sic), e foy tanto o tempo que // não ficou nada na cuberta do galeão, que não lançasem ao mar. E vendo o padre a gente toda ja desconsolada, sobio ao chapiteo, onde ya o mestre do navio, mandando a via, e pedio-lhe o padre huma soldares, e lançou o padre a mão ao seu abito, e atou hum pedaço de pano na soldares, e não se afirma o mestre, se herão relíquias, se hum pedaço do seu abito; e pola popa da nao lançou aquilo ao mar, que hia benzendo: «en nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo, tres pessoas, hum çoo Deos, avey misericórdia de mym e deste povo que aquy vay». E ysto lhe ouvirão muytas pessoas, e se recolheo a sua instancia, e alguns se forão confessar a elle, e em espaço de duas oras ficou o mar e vento quieto, como se não levasem temporal ne- nhum; e a tarde, indo ja o tempo quieto, dise ao mestre: «nesta viagem aveis de ter muyto trabalho», e asy soce- derão, despois, duas vezes que pasarão por riba de pe- dras. Estando hum João de Eiro em Malaca, em huma er- [389 y.J 11 — mia. 2 0 1
  • mida que elle fezera, onde se recolhia, estando assi na ermida, lhe aconteceo, huma noite, não se acorda se dor- mindo, se esperto, lhe apareceo a Madre de Deos, asem- tada em hum estrado, que pareçia estar na capella-mor de huma igreja, que tinha entrada da porta contra o Sul, e hum menino a par delia, que tomava ao João de Eiro polia mão, e o chegava a Senhora. Mas ella não consentia que elle chegasse, e depois de fallar com João de Eiro (8) certas cousas, se allevantava, e se fora contra o corpo da igreja, e depois de isto passado (vindo tempo de se con- fessar e estando aos pes do Padre Mestre Francisco), estando a seus pes, lhe perguntou, o padre que lhe avia aconteçido na igreja; e João de Eiro lhe respondeo que nada. Tornou-lhe a perguntar (o padre) (9), certas vezes, o que lhe aconteçera, e o penitente sempre lho encubrira. Mas quando o Padre vio que lho não queria (elle) contar, (o padre), por sua boca, lhe começou a contar o mesterio todo, como elle João de Eiro o vira, tudo enteiramente. De que ficou muito maravilhado, e quasi fora de si, e tam cheo de medo, lhe contou tudo, e confirmou aver-lhe acon- tecido o açima dito. E então acabou de conheçer que Deos morava no padre. Estando Gonçalo 12 Garcia, piloto da nao (Busar?) muyto agastado em hum grande perigo, iunto a Ceilão, lhe disse hum homem (10) que se não agastasse, que o Padre Mestre Francisco lhe dixera, em Malaca, que aquella nao, em que vinha, avia de passar hum grande perigo. (8) João de Eiro foi substituído por elle. (9) Palavra riscada. (10) Palavra substituída por João de Eiro. 12-go. 2 0 2
  • Estando Cosme Anes, veador da fazenda, em Goa, com a matalotagem feita, e tudo prestes, pera partir para c reino, somente esperava huma sentença do provedor- -mor, que era cousa que lhe certificava o provedor se despachar logo. Nesta coiunçãq, confessandosse a molher delle, / / [390 r.i veador, com o padre Mestre Francisco, na confissão ou depois delia, disse a molher ao padre, como esta vão pres- tes pera partir; a que o padre respondeo que ainda esta- vão de vagar. Depois disto, por maliçia, e fazerem ma obra a Cosme Eanes, ordenarão hum embaraço, no dito iuizo, com que se não pode vir, e agastando-se muito disto, Cosme Anes, lhe disse a molher que se não agas- tasse, que o Padre Mestre Francisco lhe dissera na con- fissão isto, que esta dito. E a este tempo, partio o padre pera Japão. Antes do cerco de Malaca, e assi da enfermedade que depois soçedeo nella, a maneira de peste, foy visto o Padre Mestre Francisco, muitas vezes, doer-se de Malaca di- zendo: «O Malaca, rogemos todos a Deos por Malaca»; e fazer oração por ella, e pregando, muitas vezes, nos sermões que fazia, se queixava das devaçidões, de cousas, e sem justiças que se fazião na terra. E dizia muitas vezes, que prouvesse a Nosso Senhor, que a sentença que estava dada sobre Malaca, a quisesse revogar, prenosticando a desaventuras (sic) grandes que depois soçederão, como foy o cerco e o mal grande contagioso que veo a çidade, a maneira de peste, que não ficou homem que não adoe- cesse, e muitos poucos escaparão. Estando o Padre Mestre Francisco na China, em Chin- cheo, quando Malaca estava cercada, disse: «rogemos a Deos por nossos irmãos, que estão em Malaca, em grande appreção». E aiuntou os portugueses, e lhes disse que se viessem pera Malaca a aiudar a nossos irmãos portugueses, 203
  • que estão de gerra, e tem disto estrema neçessidade, e assi se achou. Em Malaca, pousando o Padre Mestre Francisco em humas casinhas, da banda do mar, onde o padre tinha huma casinha sobre si, em que se recolhia a fazer oração e contemplar, depois que o companheiro e outro homem, que pousava nas mesmas casinhas, fica vão dormindo, se hia a confessar e rezar de giolhos (asy vestido como an- dava, com huma loba de theada e com as mãos alevan- tadas) a casinha, onde estava huma mesa pequena posta, e sobre ela, hum crucifixo de pao de São Thome e huma cruz com hum veo e hum breviário; a ilharga desta mesa, i39o v.i estava hum seixo preto, de grandura //de huma grande cabeça, ou mais comprido. Este homem o espreitou algu- mas vezes, e duas ou tres delas, via ao padre encostado com a cabeça sobre aquele seixo e outras pedras a par da mesa; e ante manhãa, se alevantava a rezar e dizer mysa. Outros dous homens, que muyto conversavão o pa- dre, querendo saber em que o padre gastava o tempo de noyte em Malaca, o espreitarão, algumas vezes, por huns buracos e fendas das paredes, que se chama casois, de ramos de palmeira, e virão-no gastar a noute, estando de giolhos, em oração, diante de hum cruçifixo que em casa tynha, posto sobre huma mesa, em a qual contemplação e oração gastava quasi toda parte da noute, e quando, depois de contemplar, repousava, lançava-se sobre hum catre de cairo, com huma pedra a cabeçeira, e no repousar gastava muy pouco tempo, a qual cousa o padre fazia, sem lho ningem sentir. Estando o Padre Mestre Francisco em Goa, no colégio de São Paulo, ya algumas vezes, de noute, a orta do colégio, onde paseava, e enlevado, com os olhos no ceo; e huma noite, andando asy paseando, lhe ouvirão di- 204.
  • zer: «Senhor, ja são oras»! E isto como se falasse com alguém. Indo o Padre Mestre Francisco de Nagapatão, em hum navio, para São Thome, não comeo, des o dia que partio, que foy domyngo de Lazaro, depois de jantar, ate sabado de Ramos, estando, o mais deste tempo, o navio surto; e perguntando-lhe hum homem, seu amygo, se queria comer, que lhe mataria huma galinha para, ao menos, tho- mar o caldo, o padre lhe respondeo que não, mas que lhe fezesse hum caldo de çebolas, do qual o padre bebeo, sem outra nenhuma cousa, de que o mesmo homem se espan- tou, por aver tantos dias que não comera, e duas pesoas que vinhão na camara, onde o padre vinha, juntamente, o contarão a este homem que também vinha nela. Vindo o Padre de Malaca para a índia, lhe deu hum grande temporal, em que se virão em grande perigo e tra- balho, e andando todos trabalhando, hum Francisco Pe- reira, que vinha na mesma nao, foi ter com o padre, de noute, a sua camara, com tenção de se consolar com ele, polo grande perigo em que estavão, o achou em oração, de guelhos (sic), diante de hum cruçifixo, e polo asy ver estar em oração, não lhe falou, por lhe não enpedir sua devação; e ao outro dia, praticando elle com o padre, e dizendo-lhe do trabalho de que estavão cansados, res- pondeo o padre que não era aquilo nada; e isto, confiado que Nosso Senhor os livraria do perigo. // Estando o Padre Mestre Francisco em Amboino, (39ir.j disse a hum Antonio Gonçalo, mestre de hum navio, que avia grande medo que acontecesse algum perigo a nao, a qual, vindo, depois, de viagem, esteve perdida de todo, no estreito de Sabão, por passar por çima de huma pe- dra, e quebrou os ferros de leme, todos, pelo que se davão por perdidos. E na baixa de Ceilão, na mesma viagem, esteve a nao com a proa em cima da baixa; e de huma 205
  • cousa e outra Nosso Senhor, por sua misericórdia, os livrou. E indo o Padre Mestre Francisco de Goa para Ma- laqua, disse na viagem: «a gente, filhos de Malacua, esta com muito trabalho». E chegando despois, acharão que era morta muyta gente portuguesa, afora muyta da terra, e estava tão peçonhenta a terra que do proprio galeão em que foy o padre, falecerão trinta e seis homens e outra muyta gente da armada. Muitas vezes ouvirão falar ao Padre Francisco na nao São Thome, em que foy o governador Martim Afonso de Sousa, polia qual esperavão, cada ora, em Goa, por se meter o dito governador no navio do trato, e a dita nao vir apos elle de Momçanbique, onde invernara; e fallando o padre asy nella, dizia aquella nao, com outras palavras, de que não acordavão, porque ainda então se não com- prendia serem suas palavras mestiriosas, e sobre algum mistério; e dahy a poucos dias, veo nova ser a nao per- dida, no qual caso nunca lhe ouvirão falar mais, pouco nem muito. d) Morte de João de Araújo num lugar das Molucas, e outros sucessos maravilhosos naquelas ilhas e nou- tras partes. Indo o Padre Mestre Francisco para Maluco com hum João de Araujo, a quem o padre, muitas vezes, tinha pe- dido, em Amboino, algumas cousas de doente, e vinho, que o João de Araujo levava para sua pesoa, e por o padre lhe ter, muitas vezes, pedido estas cousas (que elle ia lhe dava de ma vontade, por arrecear de lhe faltarem, polas aver mester) disse o padre a hum homem honrrado que, de sua parte (e não do padre) tornasse a pedir-lhe 206
  • hum pouco de vinho para hum doente; e indo-lhe o ho- mem pedir, João de Araujo lho deu, dizendo que não tornasse la mais; e indo o homem com esta reposta ao padre, o padre lhe disse: «que cuida João de Araujo que a-de lograr o seu vinho? Saiba certo que eu lhe ei aqui de repartir seu fato, porque a-de morrer. E o padre, em pre- sença do homem, lhe disse que folgasse de dar de boa von- tade o que lhe pedisse para os doentes, // porque avia de [S9i v.j morrer em Amboino. (E desembarcando em Amboino o padre com elle, fez o padre huma choça, onde se agasalharão ambos, e lhe disse o padre que curasse de sua alma, porque lhe parecia que aquella era a derradeira terra, onde desembarcaria; e assi foi). Ficando elle em Amboino, por não poder ir na embar- cação do Padre Mestre Francisco, por ser pequena, fale- ceo, day a poucos dias, em o lugar de Oibi (?), setenta legoas de Maluco. E estando o Padre Mestre Francisco em Maluco, dizendo missa, lho revelou Nosso Senhor, e quando foi a offerenda, se virou para o povo e disse: «Senhores, João de Araujo, que estava em Amboino, he falecido, onde disse missa por elle, e esta também he por elle; pe- ço-vos que o encomendeis a Deos». E pregando, disse do púlpito que disessem hum Pater Noster e Ave Maria por João de Araujo, que era falecido em Amboino, o que não podia saber senão por inspiração divina, por não ser mon- ção para irem por mar nem por terra, e a distancia do caminho ser longe, de que o povo ficou mui maravilhado, de como o padre soubera este segredo; quasi que esta vão suspensos, sem determinarem aquilo poder ser assi. E pas- sados dez ou doze dias, chegou a nova como era falecido. E hum João de Eiro escreveo de Amboino a Maluco, ao Padre Mestre Francisco, muito meudamente, como mor- rera, e vendo o povo a carta e as horas em que faleceo, 207 %
  • então se espantarão mais, e derão credito ao que o padre tinha dito. Diz o Doutor Mestre Cosme Saraiva que tendo elle muita devação no Padre Mestre Francisco, lhe ouvia con- tinuamente sua missa, e hum dia, dizendo missa o padre no ospital, lhe parece que em hum passo delia, depois das palavras da consagração, vira ao padre com os pes alevan- tados do chão; e diz que era tamanha a devação que elle tinha ao padre, pelo ter e conhecer por hum varão santo, 1392 r.i que não se affirma se isto fora imaginação (n). // Disse o Padre Francisco o dia e a hora em que avia de falecer, e chegando o Padre Francisco a Ceylão, foy vi- sitar hum doente que estava em cama muito mal, e havia hum dia todo e huma noyte que não podia ourinar. O pa- dre o consolou de muito boas palavras spirituaes, e lhe disse que se não agastasse, que elle iria dizer missa, e ho encomendaria a Nosso Senhor. E logo foi dizer missa, e o doente se esforçou a yr ouvi-la, e, depois de dita, se tor- nou pera sua pousada, onde, chegando, chegou também o padre, dahy a pouco; e tanto que o padre entrou, lhe perguntou como se achava; e nestas palavras o enfermo estava ja ourinando, e logo se achou bem e fora de pe- rigo. E o padre lhe disse que se confessasse, que Nosso Senhor o proveria com saúde. Huma pessoa, avendo muito tempo que tinha huma tentação do demonio, desejou de se confessar com o Padre Mestre Francisco, e, confessandosse com ele da tentação, com muytas lagrimas, depois da confissão, lhe disse o pa- dre que logo seria livre, como de feyto nunca mais lhe veo. Confessando-se esta pessoa, outra vez, com o padre, sentio tanta consolação spiritual, em tanta maneyra, pon- (ii) Já noutra passagem, atrás, se fazia referência a este por- menor, onde, então, foi riscado. 2 O 8
  • do-lhe o padre a mão na cabeça, que desejava que se não acabasse absolvição, por lhe pareçer e sentir huma vir- tude santa que saia do padre. Outras vezes, confessandosse esta pessoa com ho pa- dre, sentio em sua alma tamanho contentamento e aligria quanta ja nunca mais sentira. Dizendo ella isto ao padre, elle lhe respondeo que desse graças a Nosso Senhor, que seus peccados lhe erão perdoados. Andando o Padre Mestre Francisco em Japão, lhe fo- rão feytas muytas enjurias e ofensas poios da terra, e lhe derão muytas vezes pancadas, e fazião-lhe muytos males e vexaçois que elle sofria por amor de Nosso Senhor, con- tinuando em sua doutrina. E duas vezes o prenderão, e tirarão, pera o matar, e sobreveo tamanha tempestade na terra, em tanta maneyra, assi da primeyra como da der- radeira vez que ho querião matar, que com medo o alar- garão. Indo o Padre Mestre Francisco ter a Amboyno, lhe sairão dous navios de ladrõis ao seu, em que elle ya, pola qual rezão se fizerão na volta do mar, e os ladrõis ho deixarão. E arreceando toda a gente do navio de se tornar a fazer a volta da terra, por causa dos ladrõis, o padre mandou navegar pera ha terra, dizendo que não ouvesse temor, e se fizerão na volta da terra, sem achar ladrõis. Indo o Padre Mestre Francisco pera ho Moro, ilhas de christãos da terra, no caminho, indo todos na embarcação, contentes e folgando, o padre se adeantou agastado, e rompendo o vestido de agastamento, disse: // «Jesus, 1392 T.j aquelles homens! Que matão aquelles homens!» E depois, chegando la, acharão que naquelle tempo em que dissera as palavras, tinhão os ladrõis mortos a çertos homens portugueses. Estando o Padre Mestre Francisco em Malaca, lhe deu huma pessoa honrrada conta de sua consciência, a quem o 2 o ç insulIndia, II — 14
  • padre, antre outras cousas, disse que se viesse pera Por- tugal, e se confessasse muytas vezes. E vindo esta pessoa pera a índia, foy servido de hum officio em Baçaim, onde o Padre Mestre Francisco o achou, e vendo esta pessoa por huma rua vir o padre, se foy a elle, com muyto prazer, pola amizade que com elle tinha. E em chegando, o afas- tou o padre de si, e lhe disse: «Ay, filho, este sois vos? Como não compristes o que me prometestes, não ey-de ser vosso amigo, nem ey-de falar mais comvosco, ate que vos não confesseis». E he verdade que elle se não confessara dous annos. E vendo que o padre, em chegando, lhe dissera estas pa- lavras, e com sua virtude, alcançara que elle se não con- fessara, avia dous annos, se foy com o padre, e se con- fessou, e conheceo que o padre o conhecera por pecador. Andava em Cochim hum homem, com a consciência danada, e com hum proposito mao que trazia, e encon- trando cem o Padre Mestre Francisco, e chegando ao pa- dre, pera o saudar, e beijar-lhe a mão, o padre lhe pre- guntou como estava. Respondeo que estava bem; a que o padre tornou, que do corpo estaria bem, mas que na alma teria trabalho. E por esta pessoa entender que o padre alcançara o mao proposito que trazia, se foy a con- fessar, e a fazer autos de christão. Tendo-se alevantado no Moro (12), hum regedor de hum lugar, que se chama o Tolo, e destruído as igrejas, e feitos outros muitos males, com favor doutro rey comar- cão, Bernaldim de Sousa (13), capitão de Maluco, a re- querimento do Padre Mestre Francisco, mandou alguns vinte portugueses com a gente da terra, que por todos podiam ser quatrocentos (14), e hia por capitão deles o (12) Palavra acrescentada. (13) Idem. (14) Quatrocentos é correcção de quatro mil. 2 10
  • mesmo rey de Maluco, e em sua companhia, o Padre Mestre Francisco (15). E indo assi o rey, com esta gente, sobre esta cidade do Tolo, a qual he toda de christãos (que o Padre Mestre Francisco converteo, onde se affirma aver melhoria de vinte e cinco mil almas) e esta situada em hum alto, em tanta maneira que não he possível entraren- -nos; e ao redor da cidade, da banda de fora, por espaço de hum tiro grande de pedra, esta o chão plantado de estre. pes, que os da terra fazem, pera a for / / taleza do lugar. [j9j rJ E indo assi o rey de Maluco, pera os entrar e reduzir a obediência da Igreja, desembarcando de madrugada a nossa gente, assentarão entrar o lugar, e indo na volta dele, choveo, e caio do ceo tanta cinza, em tanta quan- tidade (na cidade e ao redor, aquela menhãa, em que os nossos derão na terra) que cobrio os matos, e na ci- dade, e ao redor dela, foy tanta quantidade que cubrio os estrepes, em tanta altura que a nossa gente andava por riba, sem lhes fazor nojo, com que os nossos teverão maneira pera poder entrar, porque, doutra maneira, todo o poder do mundo os não entrara, por razão do sitio da terra, que esta situado em huma grande altura, e nenhuma entrada tem, senão por hum caminho muyto estreito, feito a mão, e muyto íngreme; e os estrepes estavão altos do chão, huum palmo e palmo e meo, e mais (e com a muita chova que choveo, fogirão, com grande medo que disso tiverão). E nunca se ouvio, nem vio, nem se lembram que em algum tempo acontecesse, naquela terra, cayr a dita cinza, e se teve por hum grande mistério, e ficarão os (15) Relatando este facto, o Padre Francisco de Sousa, religioso da Companhia de Jesus, na sua obra ORIENTE CONQUISTADO A JESUS CHRISTO, Vol. I, C. Ill, D. I, P. 52, tem este comen- tário: «A Bulla da canonização attribue este successo a S. Francisco Xavier ainda vivo, e sendo cousa certa, que o Sancto por este tempo estava em outras regiões muito distantes, somos obrigados a dizer, que se achou então no Moro milagrosamente reproduzido». 2 11
  • infiéis tam espantados de tamanha maravilha (16) que dizião que Nosso Senhor fazia aquela obra, e que dEle vinha aquella cinza, pera se destruir aquella gente que se alevantara contra os christãos. De maneira que os nossos entrarão o lugar, e o quei- marão, e matarão alguma gente, e a mor parte dela fogio pera os matos, e ao outro dia mandarão pedir pazes, que lhe aceitaram, e se reduziram todos a obediência da Igreja, e ficou na terra o Padre Mestre Francisco, por algum espaço de tempo, pera os tornar a encaminhar e doutrinar, t refazer as igrejas, as quaes tornaram a fazer; a qual gente, te o presente, he doutrinada poios padres da Com- panhia de Jesus, que la antre eles andam e residem. Partindo o Padre Mestre Francisco de Negapatão pera S. Thome, lhes deu hum tempo contrario, com que sor- girão, doze legoas de Negapatão, onde esteverão surtos, alguns dias, e antes que se fizessem a vella deste lugar donde estavão surtos, o padre preguntou ao mestre se era o navio forte; e lhe respondeo que era muito velho e fraco. E logo o padre lhe respondeo, rogando-lhe que se tor- nassem pera ho porto de Negapatão, donde sairão. E de- pois de aver nisto alguns pareçeres, mandou ho mestre marear ho navio. E começando a fazer viagem, lhes deu hum tam grande temporal que lhes foy necessário, pera bom remedio, arribarem a Negapatão, e ho mestre notou isto, por onde lhe pareceo cousa de mistério, antes que ho (393 v.i // temporal lhes desse, o padre dizer que arribassem a Negapatão. Hum homem, que saira do mar perdido, foy ter com o padre Mestre Francisco, e lhe pedio huma esmola, e em lha pedindo, meteo o padre a mão em huma algabeira (sic), e a tornou a tirar vazia; e logo o padre pos os olhos no (16) tamanha maravilha é correcção de disso. 2 12
  • ceo, e disse ao homem que se não desconsolasse, que o Senhor era muyto misericordioso; e dizendo estas pala- vras, tornou a meter a mão, e tirou huma mão chea de /anões, e os deo ao homem. Partindo o Padre Mestre Francisco na nao de hum Diogo Pereyra, pera a China, onde hya hum homem, pera negociar a fazenda de Diogo Pereyra, ho padre lhe disse que mandasse outro homem, porque aquelle que mandava, pera lhe fazer sua fazenda, avia de morrer, e não avia de ir naquella nao. E respondendo Diogo Pereyra que ho homem estava bem, o padre lhe certificou, outra vez, que aquelle homem avia de morrer; e depois da nao partir do porto, dahy a tres ou quatro dias, faleçeo ho homem em Malaca, onde ficou, por se não poder embarcar. Vindo o Padre Mestre Francisco de Chincheo para Can- tão, estando surtos na altura do porto que hyão buscar, não ho conhecendo, nem sabendo pera onde avião de ir, polo assi dizer o piloto (17), o qual disse: Eu não conheço onde he o porto; busquemo-lo com çedo, não nos venha ho tofão»; que he hum tempo muy furtuyto. Estando disso todos muyto agastados, disse ho padre que se não agas- tassem, que, antes de duas horas, virião ter com elles, portugueses, com refresco, e assi vierão. Estando o padre na China, disse que ho capitão de Malaca, e Bernaldim de Sousa, que também estava ali, que veo ay ter de Maluco, ambos tinhão hestorias e tra- balhos, e assi se achou depois. Em Punicale, lugar grande de christãos, não adoecia pessoa nenhuma, que não chamasse o Padre Mestre Fran- cisco, pera que lhe rezasse ho evangelho. E todos, // geral- [394 r.i mente, com isso recebião çaude, e humas contas que ho padre trazia ao pescoço, nunca as tinha em seu poder, (17) Francisco de Aguiar. 2 13
  • porque as vinhão também pedir, pera tocarem com ellas alguns enfermos, e pelo conseguinte, recebião saúde. Em Punicale, hum discípulo do Padre Mestre Fran- cisco, por misericórdia de Deos, e poios merecimentos do padre, resuscitou hum menino a huma molher. e) O que se passou com João de Eiró, e ouros casos prodigiosos. Muitas cousas fazia e dizia o Padre Mestre Francisco, que paredão serem inspiradas pelo Spirito Santo, como em San Thome, onde ho eu fui buscar, por seu mandado, por me dizer o padre que não me avia de confessar, senão la, por occupaçois que tinha, o que parece fazia, por ver se era eu fervente, no que lhe requeria, e chegando a San Thome, me fuy onde pousava o padre, e ho achey so, lendo por hum livro, e, quando me vio, me mandou asen- tar. E depois de asentado, lhe disse: «Padre, eu vos pedi em Ceylão que me ouvísseis de confissão, e vos me dissestes que avieis de vir aqui a San Thome, e que aqui me con- fessaríeis». E lhe dei conta de quem era, e quanto tempo avia que andava na India, e como os meus deseios eram de servir a Deos, avia muito tempo. E por não achar aparelho pera isso, por ser pobre, e não ter pessoa a quem pudesse seguir, o deixara de fazer, mas que ja que tinha pessoa com quem pudesse viver, e por Sua Reverencia ser tal que me podia dar o remedio, que era necessário pera minha salvaçam, lhe pedia que me levasse consigo pera onde quer que fosse; ao qual o padre me deu muytas escusas, e, não mo querendo conceder, então lhe disse que tomasse minha fazenda e a desse a pobres. E enfim de muitas praticas, ficou determinado que me confessasse, primeiro, e por espaço de três dias que andey em me 214.
  • confessar (18), sobre certos negoceos passamos grandes cousas. E por derradeiro, com a graça do Spirito Santo, que da sua boca saya, me venceo, de maneira que, dali por diante, obedecia a seus mandados. Não tão somente a mim, mas a muitas pessoas fez sair da boca do lobo, especialmente hum homem honrrado, por nome João Barbudo, que, por dito de muytas pessoas, bem avia quinze annos que não recebera o Santíssimo Sacramento da Ostia, e como quer que, em quatorze, ou quinze dias, falassem ambos na igreja, em a maneira de confissam, enfim dos quinze dias o trouxe a receber o sacramento, de // que todos ficaram espantados. E assi [394 em outras muitas pessoas fez grandes fruytos, em casar e desamancebar; por estas cousas, e outras muitas, trouxe a Deos muytas almas. Passadas estas cousas, vendo satanas que me hia saindo de suas mãos (19), saltou comigo, e me fez peccar carnalmente e fez desobedecer as palavras do padre, e, alem disso, me fez comprar hum navio; e depois de o ter comprado, com grande estancia (20), me fez aviar todas as cousas necessárias, de tal maneira que mandava em- barcar a caxa, pera me logo ir embarcar, que, a meu parecer, não avia de tardar huma hora, sem disto dar conta ao padre; o qual, inspirado pelo Spirito Santo, man- dou hum moço, por nome Antonio, a grande pressa, que me fosse chamar. E o moço, em achegando a mim, me disse: «Senhor, o Padre Mestre Francisco vos manda cha- mar». E eu, espantado, fiz-me de novas, dizendo ao moço: «Filho, eu não sou a quem manda chamar». E o moço me tornou: «Não vos chamão Joam de Eiro»? Eu lhe res- (18) em me confessar foi corrigido para em confessão. (19) saindo de sua mão para perdia. (20) estancia para astúcia. * I 5
  • pondi que sim; e então tomou o moço: «pois a vos cha- ma». E vendo eu tamanha novidade, não quisera la ir, e estive em certos pensamentos de vir, ou não; enfim, fuy; e entrando pola porta, me disse o padre: «Pecastes, pe- castes», duas ou tres vezes. Então me incliney e disse: «he verdade que pequey». E me respondeo: «confissão, confissão». E me fuy pêra casa, e logo no mesmo dia, vendi o navio, e dey todas as cousas que tinha a pobres. E daqui nos fomos pera Malaca, onde fez o padre muyto serviço a Nosso Senhor, e ouvi dizer ao Padre Mestre Francisco que nunca fora a terra, onde tam boa gente achasse, como aquela de S. Thome, nem que tanto bem a Deos fizesse, e assi como disse de Malaca que avia de aver bom castigo, como depois foy. Assim, também disse de San Thome que avia de ir en grande crecimento, como vay. Assi que podia dizer, com verdade, que tinha espi- rito de profecia, e profetizou-me que avia de ser frade da Ordem de Sam Francisco, como sou. Estando Antonyo de Sa Pereyra falando com o Padre Mestre Diogo sobre a vida do Padre Mestre Francisco, de como vivia virtuosa e santamente, disse Mestre Diogo que o Padre Mestre Francisco era tam santo que fazia mila- gres, porque vira por huns papees, que lhe vieram de Ma- laca, ser verdade que o Padre Mestre Francisco resuscitara huma moça, que era defunta, em huma casa, filha de huma sua devota, e que ela se convertera. E estes papees mandava aquele anno a rainha, nossa senhora, os quaes eram de crer. Em Malaca, foy chamado o Padre Mestre Francisco pera confessar huma pessoa honrrada, que avia dias que estava enfermo, e chorado de sua mai, por estar no der- radeiro quartel de sua vida. E acabando o padre de con- fessa-lo, foy o padre a consolar a may do enfermo, di- 2 i 6
  • zendo-lhe que não ouvesse medo, porque seu filho averia saúde; depois do padre ido, o enfermo se levan / / tou e [395 r.) pedio de comer, avendo ia tres dias que não comia; e, dali por diante, foy guarecendo, e viveo, como oie em dia vive, o qual estava quasi desconfiado de viver e o pran- teavão como morto. Em huma nao que hia pera Banda, em que o Padre Mestre Francisco hia, pera o deixarem em Amboyno, fez muitos christãos, e lhe pregava por sua lingua; e o piloto da nao estava desconfiado de poder botar ao padre em Amboino, e assi o disse a todos que hião na nao. O padre se foy ao piloto, e lhe disse que não tinha ainda discorrido Amboyno, que, ao outro dia, irião ama- nhecer ao boqueiram do mesmo Amboyno. E tanto que ao boqueirão chegarão, acalmou o tempo e o lançaram em Amboyno, onde ficou e fez muytos christãos e muyto ser- viço. Tudo o que fazia o Padre Mestre Francisco parecia ser mais pola graça divina que de homem desta vida mise- rável. Vindo o Padre Mestre Francisco do Japão a China, onde estava hum Diogo Pereira, lhe pedio Diogo Pereira, por amor de Deos, pois tanta merce lhe fizera Nosso Senhor, que, por seu serviço, quizesse livrar os cativos que estavam na China, e elle, Diogo Pereira, lhe ofereceo tudo o que elle quisesse; e vindo ambos para Malaca, pera o padre vir a India negocear a embaixada e as mais coisas necessárias pera levar à China, pera a soltura dos cativos, tendo-lhe elle, Diogo Pereira, pera isso oferecido sua fa- zenda, o padre, neste caminho, quasi os mais dos dias, praticando ambos, lhe dizia que o diabo avia de estrovar esta obra e caminho que queria fazer; e dizendo o padre isto, por muitas vezes, Diogo Pereira, quasi avendo disso menencoria, se espantava do que o Padre dizia, e todavia o padre insistia no que fica dito, dizendo: «vo lo vereis». 2 17
  • E de feito, Diogo Pereira deu ao padre tudo o que lhe pedio, e tornado o padre da índia pera Malaca, pera dai ir à China, com a embaixada, como tinha assentado, Dom Alvaro de Tayde lhe estrovou a ida, de maneira que a embaixada não ouve effeito. Vindo o Padre Mestre Francisco da China, com Diogo Pereira, muito antes de chegarem a Malaca, disse Diogo Pereira ao Padre que folgaria muito de tomar huma lin- goa (sic), pera saber se Malaca estava de guerra, e porque duvidava poder tomar a lingoa, porque era necessário toma-la em terra que estava de guerra com Malaca, o padre lhe disse que elle, Diogo Pereyra, avia de tomar a lingoa, como depois tomou; e vindo todos agastados, e fazendosse prestes de armas, por lhes parecer que, che- gando a Malaca, estivesse ainda de çerco, pola assi dei- xarem, quando foram pera a China. Vindo a gente assi agastada, o padre disse muitas vezes [395 v.i que se não agastassem, çertificando que // Malaca não estava de çerco, e que estava de paz, e sem nenhum tra- balho; e que, quando chegassem, acharião ainda naos pera a India, as quaes elles todos duvidavão poderem-se achar, por ser ja muito tarde, e se ir gastando a monção; e chegando a Malaca, acharão que estava tudo ja de paz, e acharão duas outras naos. Estava em Malaca hum menino de tres annos, doente de gota coral, em tanta maneira que parecia mais demonio que enfermidade de gota, polo muito trabalho e tregeitos que fazia, por ser de tam pouca idade; e dava muy gran- des gritos, e acudia-lhe o mal muitas vezes em ho mesmo dia, e assi por muitas vezes lhe tinha acudido. E vendo Diogo Pereyra, hum dia, o menino com aquelle trabalho, foy chamar o Padre Mestre Francisco, o qual logo veo a casa delle, honde o menino estava, e lhe rezou os Evan- gelhos todos quatros, com a mão posta sobre a cabeça, e 218
  • hum reliquario, que trazia ao pescoço, ho tirou e ho lan- çou ao pescoço do menino. E des aquella hora, não acodio ao menino aquelle mal, ate o presente, que pode aver oito annos, e ho menino he vivo e são. f) Prática heróica da caridade na viagem de Portugal para a índia e noutras circunstâncias. Na nao em que o Padre Mestre Francisco partio de Portugal para a índia fez muytas obras de charidade e doutrina, a saber: socorrendo os enfermos e pobres das cousas necessárias que ho padre na nao acquiria de esmo- las, e curava os doentes e enfermos, e confessa e doutri- nava a gente, e pregava, de maneira que destas obras de charidade e ensino christão nunca cessava hum momento. E tudo fazia com muita alegria, e de todos era julgado por hum virtuoso e justo varão. E chegando a armada do mesmo anno a Moçambique, o padre teve tal diligencia e cuidado da gente da armada que vinha enferma, e que depois adoeceo, por invernarem em Moçambique, que toda a gente julgava e tinha por hum grande caso e cousa mila- grosa não morrer da armada, que erão cinco naos, mais que quorenta, ou quorenta e hum homens, que logo se pos em lembrança, por se aver por cousa notável, e averem que, por a virtude e diligencia do padre, Nosso Senhor obrara por elle tal obra. / / E o padre, com os muytos tra- U96 r.) balhos que nisso passou e teve com os doentes no hospital (onde pousava) e fora dele, veo adoecer de febres, e che- gou a estar muyto mal, e sangrado nove vezes, e com hum írenesis que lhe durou três dias, e notou-se que nas cousas divinas e espirituaes mostrava estar em seu perfeyto juizo, e nas outras cousas de sua saúde não falava a preposito, enquanto esteve com frenesis. 2 i ç
  • E visitando o medico ao padre, lhe pedio que se tirasse Sua Reverencia dos trabalhos que tinha, pois estava tão doente, dizendo-lhe que se não quisesse matar; que, de- pois de convalescer, tornaria a elles; a que o padre lhe respondeo que, naquella noyte seguinte, tee ho outro dia, tinha hum pouco que fazer com hum irmão que estava muy trabalhado e desemcaminhado; e, como isto fizesse, deixaria o trabalho; o qual irmão era hum gromete que estava frenético e muyto mal, avia ja dias, e fora de seu juizo. E ao outro dia, pola menhã, acabando o medico de vizitar o hospital, onde o padre pousava, entrou a visitar ao padre, que estava em huma casinha, e achou o gro- mete na propria cama do padre, a qual cama era hum catre de cairo, e hum pedaço de pano velho, e almofada, e não mais. E o padre estava deitado em cima de hum repairo de falcão, que estava ao longo do catre, onde jazia o gromete, sem outra nenhuma cousa mais, que tivesse debaxo de si. E estava praticando com o gromete, o qual gromete, estando frenético, depois de o padre o deixar no catre, tornou em seu juizo perfeito, e o padre o con- fessou, e lhe fez tomar o Santíssimo Sacramento. E isto feito, faleceo naquelle proprio dia, a tarde; disto ficou o padre muito contente, porque continuadamente o andava, por mais trabalhos que tivesse. Convalecendo o padre, tornou a continuar seus tra- balhos assi, e da maneira que antes, te tornar a índia, onde na mesma viagem continuou as mesmas obras que atras fica dito (21); e chegando a Guoa, emquanto nella esteve, continuou sempre suas pregações, confissões, e habitava no hospital, consolando os enfermos, de todas (21) Sobre as palavras em itálico encontra-se outra redacção da frase; deste modo: perseverou nas mesmas obras ate chegar a índia. 2 2 0
  • as obras espirituais, reconciliando os homens que estavão em odio, e fazendo outras muitas obras de serviço de Nosso Senhor, sendo venerado de todo o povo e de toda a gente, com grande respeito, que todos lhe tinhão, e obe- deciam ao que lhes aconselhava pera bem de suas cons- ciências. E nisto continuou, te se ir pera o Cabo de Co- morim, pera onde foy, por tomar emformação da chris- tandade // dali, e da necessidade que hi avia, de ser 1396 v.j aquella gente administrada, onde, depois de la andar, por espaço de tempo, veo a cidade de Goa a nova das obras do padre que la fazia, e das obras sobrenaturaes que Nosso Senhor por elle obrava, como era sarar enfermos, e outras cousas, e em Malaca fez as mesmas obras da maneira que atras disse. Estando o Padre Mestre Francisco em Amboyno, no tempo que chegou ali Fernão de Sousa, deu muy grande enfermidade na gente portuguesa que se ali achou, de sete navios, da qual morreo muita parte; com a qual gente o padre levou muy grande trabalho, continuando, de dia e noyte, nas suas obras, que eram confessar, curar, e amor- talhar aquela gente, e outras muitas obras espirituaes e de charidade que fazia; e dizia huma missa por cada hum dos mortos, e o trabalho que nisto tinha era de maneira que a todo homem punha espanto. Chegando o Padre Mestre Francisco a Malaca, quando hia para a China, avia grande doença na terra, e morria muyta gente, e o padre andava vizitando os enfermos, buscando-lhes o remedio de sua vida, e nunca cessava, de dia e de noyte, em confissões, e visitações, sem nunca adoecer, adoecendo todos, sem ficar pessoa alguma. E em voz, dizia o povo que, por seus grandes merecimentos ante Nosso Senhor, lhe dava saúde, pera a dar as almas dos homens que confessava, que tinham perdão de seus pecca- dos, ante Nosso Senhor, porque vivia muito virtuosa e 221
  • santamente, e conversava com os homens, e falava com elles sem hipocresias, doutrinando-os com palavras muy santas, e a muytos emendou de seus erros, e alguns aman- cebados em Malaca se tiraram do peccado, por lho pedir o padre, pola muita obediência que lhe tinhão, e vergo- nha que dele avião, por sua autoridade e limpeza santa. Em Comorim, no enterrar dos defuntos, bautizar das crianças, no visitar dos enfermos, usava desta maneira: erguendo-se pola manhã da cama, depois de rezar suas horas, ainda que dizia que era muito bom rezar, acudir e acquirir as almas dos proximos, tomava consigo hum menino, pola menhã, com huma cruz na mão, e hiasse polo lugar, preguntando se avia enfermos, ou mortos, ou algumas crianças, ou grandes que quizessem receber o bautismo; e onde lhe socedia alguma occupaçam destas, com as mãos e olhos alevantados aos ceos, com voz alta, como quem pregava, dizia muy devotadamente o Credo com os mandamentos. Aqui se aiuntava sempre muy ta gente; se era sobre enfermo, ou sobre bautizado, rezava-lhe por derradeiro o Evangelho, e se era sobre defunto, despois das orações 1397 r.i / / ditas, rezava o officio que a igreja custuma fazer sobre os defuntos. Ate as dez, ou doze horas, andava nestes trabalhos, e em tanto, hum discípulo seu aiuntava os me- ninos do povo, e ensinava-lhes a doutrina. Por cansado que o padre viesse de fora, sempre tomava liçam aos meninos; enquanto se fazia o pobre jantar, o padre rezava e repousava hum pouco, porque, acabando de iantar, fazia audiência aos christãos que tinhão deman- das, meti-os (sic) todos em paz e concórdia. As tardes, e as vezes, de noyte, hiasse poios baileos, por onde avia mais aiuntamento de gente, e pregava o que lhe Deos dava a entender. Se os reys da terra, ou os portugueses, fazião ma com- 222
  • panhia aos christãos e os tratavão mal, trabalhava o padre poios defender e libertar. Aos domingos, costumava aiuntar toda a gente do povo, e pregava-lhes, e ensinava a todos em huma igreja ou ramada (22), que pera isso era feita; isto fazia em lingoa malavar, que o padre pera isso aprendera. Assi, mais visitava todos os christãos, desde Traman- canor ate Berinjão, e nunca estava hum mes, nem vinte dias, em hum lugar; sempre andava de hum lugar nou- tro, vizitando sempre, a pe, e, as vezes, descalço. Se por ventura, o padre adoecia de febres, em sua casa não avia outra conserva, nem inguentos, senão livros. Por todos estes lugares de christãos ordenou que ouvesse homens que ensinassem a oraçam a todo o povo, aos me- ninos, pola somana, e aos domingos, geralmente, a todos. Outras muytas virtudes avia no Padre Mestre Francisco, as quaes homem não era capaz de entender nem praticar. g) Sua morte em San-Choão; trasladação do seu corpo incorrupto para Malaca e, depois, para Goa. Estando o Padre Mestre Francisco no porto de San- chão, na China, onde tinha ido, somente por denunciar e pregar a fe de Christo, e deseiando muito entrar na terra, pondosse a todolos perigos, neste tempo faleceo pobre- mente, e o enterrarão debaxo do chão (23), em huma (22) Acerca deste vocábulo, R. Dalgado, informa: «Tem esta palavra na fndia o significado peculiar de barraca de olas ou de panos, que se erige ordinàriamente defronte da casa e se ornamenta profu- samente por ocasiões festivas, assim dos cristãos como dos hindus. Nesta acepção, o vocábulo é sinónimo de mandapa, que não está actualmente em voga. Por extensão, designa qualquer barraca de abrigo». (Vid. Glossário Luso-Asiático). (23) A margem e na entrelinha foi acrescentado o seguinte, neste ponto: dentro em huma campa de chea (?) de cal, com a mesma loba e barrete e botas, assi como andava em vida, sem outro vestido nenhum. 223
  • tumba, com cal virgem, que o padre mandou que lhe bo- tassem, e estaria enterrado três meses, pouco mais ou menos; e, por mandado do padre, quando a nao partisse, pera a índia, desenterra-lo, pêra lhe trazerem huma ossada pera a índia, o acharão inteiro, e sem fedor, e sem nenhuma corrupção, e assi o trouxeram com tripas, e fí- gado, e todo o mais, inteiro, a Malaca (onde, como che- gou seu corpo, não morreo mais gente daquelle mal que, avia tempo, que andava na terra e cessou), e os vestidos com que andava; e o enterrarão sãos, sem se gastarem da terra. Em Malaca recebeo o vigário seu corpo, com toda sua 1397 v.] // solenidade, e o vestio com sua alva e vestimenta, e o tornaram a enterrar de baixo do cham, fora do caxam, onde esteve oito meses, ou mais, na casa de Nossa Senhora do Outeiro. E antes de partirem as naos de Malaca pera a índia, tornaram a desenterrar o corpo, pera lhe trazerem seus osos, e o acharam inteiro e com os vestidos sãos, e loguo o tornaram a meter em hum caxam, e esteve quatro meses en casa dum irmão dum Diogo Pireira, ate partirem as naos. E dali foi levado a Goa, onde foi visto inteiro, sem nenhuma curruçam e sem fedor, tendo as tripas em si, e com os vesitdos sãos, e os tinha assi como o enter- rarão na China, e sem se gastarem, avendo ano e meo que era morto; em que bem se mostrava ser corpo de santo e obra miraculosa. E foi levado com procisam solene, com toda a cleresia e grande concurso de gente, a casa de Sam Paulo de Goa, onde agora esta assi, e da maneira que o trouxeram, inteiro, com seu recheio, sem nele aver min- gua, sem corrumpimento, nem cheiro. O Doutor Ambrosio Ribeiro, provisor e vigário geral da índia, vio o corpo na mesma casa de Sam Paulo, por muyto espaço de tempo, estando duas velas acezas, as nove oras do dia, e diz que pos as mãos nas suas per- 224.
  • nas (24), e as correo ate os giolhos, e vio a maior parte do corpo e braços. E nestas partes que tocou e vio, se afirma estar a carne cuberta com todo seu couro, por sima, inteiro, e sem curruçam, e a carne com sustancia c umidade, pola mor parte do corpo. Em a perna esquerda, em riba do artelho, huma mão travessa, da banda de fora, tinha còuro cortado, a maneira de huma faxa de compri- mento, de hum dedo, que parecia ser quebradura de golpe de alguma cousa que deu na perna, e ao redor da ferida se mostrava huma nodoa de sangue, que manifestamente se conhecia, ser sangue, mas estava ja preto, como cousa que parecia de muito tempo. E na barriga, da parte da banda esquerda, tinha hum pequeno buraco, que também pa- recia ser quebradura, por onde o provisor meteo os dedos, te reygada (sic), e dentro na barriga, achou que estava vão, e somente, dentro, tocou em alguns pedaços pequenos de cousas que, a seu ver, serião algumas partes dos intis- tinos, que estavam secos, polo muyto tempo que o corpo assi estivera sepultado, e nenhuma curruçam sentio no corpo, pondo o rosto por sima dele, muyto chegado. De- baixo do pescoço, trazia huma pequena almofadinha de damasco da China, a qual, a maior parte delia, onde o pescoço asentava, vinha passada de huma nodoa, que mostrava ser sangue, da maneira que mostrava o que trazia na perna, e, porem, de huma cor ja gastada e preta. O Doutor Mestre Cosmo vio e tocou o corpo em Goa, com suas mãos, na barriga, na qual achou tacto e corpo- lencia, e não estava balsemado, e lhe parece que tinha seus entestinos, polo tacto; e juntamente pera se afirmar, disse a hum irmão da Companhia que metesse os dedos por hum buraco, que o corpo tinha, parte do coração; c qual meteo o dedo, e tornando a tirar, saio polo mesmo (24) pernas é correcção de próprias. INIVLÍNDIA, II — 15 2 2$
  • oreficio hum sangue acoso (25), que o doutor cheirou, e não cheirava a curruçam nenhuma, somente hum pequeno de abafio, que parecia de cal e o olfato que o corpo trazia; e as pernas e outras partes do corpo vinham inteyras e com alguma carne, que ainda tinha tacto, que, segundo o curso da natureza e regra de física, não se podia con- servar da maneira que estava, por aver estado muyto espaço de tempo, o corpo, sepultado debaxo da terra. Trazia em algumas partes hum sinal de sangue, que sayo dele, depois de morto. De seu corpo ha muytos de- votos, e tem todos que he santo e bem-aventurado, con- forme a sua vida, que foy muyto santa. Algumas pessoas viram a almofadinha, que o padre Mestre Francisco trouvera (sic) de Malaca, debaixo do pescoço, a qual era de dasmasquilho azul, e a viram chea de suor ja seco, como de hum homem vivo; e huma destas pesoas ouve huma pequenina da carne de seu corpo, a qual carne era vermelha e enxuta. E cortando esta pesoa a carne, pera a meter em huma nomina, tingio o papel em que envolveo a carne, a qual deitou hum cheiro tam suave, e a mostrou a muytas pessoas, de que muyto se espantaram. Na sobrepelis, em que o padre veo amortalhado de 1398 r.) Malaca a Goa, vinham duas nodoas // de sangue, como hum tostão, as quaes nodoas erão grossas, e tinhão huma cor de sangue, e a pessoa que lavou a sobrepeliz as ras- pou com huma faca, e as tem, ao presente, num reli- quairo, as quaes nodoas cheiravão suavemente. h) Graças obtidas por sua intercessão, após a sua morte. A muytas pessoas dinas de fe se ouvio que, avendo em (25) acoso, i. é. aquoso. 2 2Ó
  • Malaca grande peste, que avia muyto tempo que andava na terra, de que muyta gente morreo, e muy poucos esca- param, como chegou o corpo do padre ali, des aquele dia, não morreo mais gente, e cessou a peste, da qual, day por diante, nenhuma pessoa mais adoeceo. Chegando o corpo do Padre Mestre Francisco a Bate- cala, huma molher, mal desposta e prenhe, pedio a seu marido que a levasse a nao, onde vinha o corpo do pa- dre; e concedendo-lho seu marido, depois de entrar na nao, a rogos dela, lhe mostraram o corpo do padre, e o vio, e pola devação que disso recebeo, pedio que lhe dessem hum pequeno de cordam, que o padre trazia cin- gido em cima da alva, e lhe derão quantidade de quasi hum palmo, que ela guardou e meteo em hum reliquario; e depois de parir, sendo a criança ia de sete meses, derão humas febres à criança, com que perdeo a esperança de sua vida. E estando assi desconsolada, lhe lembrou o cordão, e o lançou ao pescoço da criança e, daquela hora em diante, convaleceo, e se achou bem, de maneira que sarou do mal e oie em dia a tem viva. E despois disto, por espaço de seis meses, chegou a criança a estar muito mal, e não lhe aproveytar muitas mezinhas e cousas que lhe fizerão, polo que a may lhe tornou a por o cordam, e tanto que lho poz, a criança lançou lombrigas, e se achou, daquela hora em diante, muito bem. Estando huma moça dous dias de parto, que não podia parir, lançarão-lhe o cordão da alva do padre, e pario. Huma molher estava doente de febres, e dali a huum mes ou mais, lançando-lhe o mesmo cordão, se lhe foram, e não vieram mais. Duas crianças adoeceram de bexigas, de que se cubrio todo corpo, sem aver lugar, donde se pudesse por o dedo, 2 2 7
  • que não estivesse cuberto de bexigas; a may lhes botou o dito cordam a cada huma das crianças, ao pescoço, e lhe não sayo a nenhuma delas nem huma soo bexiga no pescoço, estando todo o corpo cheo. Huum homem estava muito doente de febres que o maltratavão, e com lhe fazerem todos os remedios pos- síveis, se não achou bem nem lhe aproveitaram, e offere- cendo huma pessoa o reliquario, em que estava o dito cordam, à may do doente, e que o pusesse ao pescoço do 1398 v.i filho, que esperava em // Nosso Senhor que sararia, o qual cordam ela lhe poz ao pescoço, e logo se achou bem. Ao tempo que o corpo do Padre Mestre Francisco che- gou a Goa, estava huma dona Joana, molher de Christovão Pereira, muyto enferma em cama, de huma enfermidade que a pos em artigo de morte (que lhe durou por espaço de tres meses) e em termos que a vigiavão, parecendo que morreria, desconfiada ia dos medicos. E estando nes- tes termos, ouvio dizer como o corpo do Padre Mestre Francisco vinha de Malaca à cidade de Goa, e que Nosso Senhor, por o padre, obrara em Malaca muytos milagres. (E que tinha Nosso Senhor dada saúde a huma irmã dela e a seu cunhado, em Malaca, indo-os o padre vizitar, e consolar, dizendo-lhes que confiassem em Nosso Senhor, porque esperava nEle aver-lhes de dar saúde, como assy foy). E com isto que ouvio, dahy por diante, lhe teve muyta devação. E com este fervor que ia tinha, a fé, estando da maneira acima decrarada, ia todos descon- fiados de sua saúde, ouvio repicar os sinos; e preguntando a que tangião os sinos, responderão-lhe, os que erão pre- sentes, que se tangião, porque entrava o corpo do Padre Mestre Francisco. E logo a enferma começou a pedir e rogar que a levassem ao collegio de Sam Paulo, com grande instancia, ao marido e aos mais parentes, pera 2 2 8
  • veer o corpo do padre, que deseiava toca-lo, porque espe- rava em Nosso Senhor que logo teria saúde. E não a leva- rão, por estar muyto enferma, occupada de todos os sen- tidos; mas quiz Nosso Senhor que com este fervor teve ao outro dia, pola menhã, melhoria de saúde, e, daquele dia e propria hora em diante, melhorou em tanta maneira que, em pouco espaço de tempo, convaleceo da dita enfer- midade, e dela ficou sãa, e esta, ao presente. Estava huma escrava de parto, com a criança atra- vesada, ia morta, e não se fazia nenhuma conta de poder a escrava viver, por estar de pasmo, quasi morta; e o senhor dela foy a Sam Paulo a hum irmão, que tem hum reliquairo de cabelos do Padre Mestre Francisco, e tanto que foy posto na escrava, milagrosamente foy livre, e sayo a criança morta, e a escrava viveo milagrosa- • mente. Pera outra molher pobre da terra tornarão a buscar as mesmas relíquias, e a tinhão ia chorada por morta, por estar muito inchada e pasmada; vindo as relíquias, ao quarto da alva, à mesma hora, foy alumiada, e a criança viva; e a mãy, sãa. E ao tempo destas pressas chama vão muito abertamente por Mestre Francisco bemaventurado, e assi todo o povo o tem por homem santo. A nao em que foy levado seu corpo correo grande perigo, porque esteve envazada em huma ponta de huma restinga, donde se salvou sobrenaturalmente // e, des- t399 r.j pois deste perigo e trabalho, correo outro, antre as ilhas de Pulo Pinão, e a costa da Queda, de que também esca- pou; disse o capitão da nao que neste trabalho chamou e chamarão todos tam fortemente polo Padre Mestre Fran- cisco que lhe valesse, que quisera Nosso Senhor aver deles mérito, e tirar a nao de cequeiro, e a posera em nado, e, a iuizo de oficiais, dizião que não era possível vir à índia, por trazer o mastro grande quebrado de pedaços, e fez 2 2 9
  • muyto boa viagem, e veo a salvamente à India, primeiro que as outras. Estava huum homem muyto doente dos olhos, cubertos de névoas e belidas, por espaço de seis, ou sete meses, de maneira que não via deles, e muyto mal podia conhecer quem lhe falava. E despois de fazer todolos remedios pos- síveis, achando-se cada vez pior, foy ao collegio de Sam Paulo, onde esta o corpo do Padre Mestre Francisco, em huma caixa metida, e, a rogo do enfermo, lhe derão os padres lugar, como fazião a outros, pera chegarem ao corpo, e o verem, ao tempo que o trouxerão de Malaca, e o mostrarão no dito collegio, ao povo. 0 enfermo chegou a beiar as mãos e os pes do Padre Mestre Francisco, e com os olhos tocou a propria carne, e logo, dahi em diante, • começou o doente a achar-se com melhoria, e cada vez em creçimento, e de maneira que, dentro em dous meses, pouco mais ou menos, ficou são, e o esta, ao presente, sem por nos olhos nenhuma outra mais mezinha; somente pedra hume, moida e delida no sumo do limão, que pos ao redor dos olhos e não dentro. Estando doente hum padre da Companhia de Jesus do collegio de Goa, de huma esquinencia, que nenhuma cousa podia levar pera baixo, lembrando-se do corpo do Padre Mestre Francisco, tomou a chave da caixa, onde estava o corpo metido, e abrio e tocou com a garganta nos pees do padre, e logo sintio correr da garganta a infirmidade, e, pola menhãa, se achou são. i) Vitória dos portugueses sobre os Dachens, anun- ciada pelo Padre Mestre Francisco, em visão sobre- natural na cidade de Malaca. Sendo partida da cidade de Malaca huma armada, apos os Dachens que vierão (com sessenta ou setenta lançaras), 230
  • t ao porto, huma noite, pera queimarem as naos (tinhão ia casi tomada a nao da Banda), avendo mais de hum mes, que se não sabião novas da nossa armada, de que esta vão todos muito tristes, e o capitão e o povo se começava de agastar muito. Nesta coniunção, acabando o Padre Mestre Francisco, hupm domingo de pregar, disse do púlpito (ao povo que tinha pouca fe): «Aqui a molheres e outras pessoas que botam sortes, e falam com feiticeiras que dizem que a nossa armada he tomada, e chorão ia os maridos, e podeis todos dar graças a Nosso Senhor, e dizer-lhe um Pater Noster e Ave Maria, pola vitoria dos nossos, e outro Pater Noster, poios que morrerão, que forão tres ou quatro, porque oie, neste dia, ouve a nossa armada victoria con- tra os inimigos, e os desbaratou e os trara com suas em- barcações e fustas». De que ouve logo em todos grande espanto e alvoroço, assentados ser assi, pola devação que todos tinhão ao Padre. E assi foy que os vencerão, e trou- xerão suas embarcações e artelharia e gente, e muita fa- zenda //de presa, e, no proprio dia e hora que o padre H99tJ. dissera, ouverão vitoria em Parles (26). E vindo com esta vitoria a Malaca, o Padre Mestre Francisco veo ter a praia, a embarcaçam, com o capitão da cidade, e levava o padre hum Crucifixo nas mãos, e com muyta alegria e contentamento que todos tinhão da victoria, abraçou o padre ao capitão da embarcação e a todos os cavaleiros e soldados que nella vinhão, e logo na mesma embarcação o capitão da cidade disse ao ca- pitão da frota e a todos e toda a gente geralmente da cidade que o Padre Mestre Francisco dissera no púlpito, acabando de pregar, daquella vitoria que ouverão contra os Dachens, ao tempo que foy a guerra assi e da maneira que socedeo. (26) Rio na península de Malaca, *3 *
  • E sendo preguntada huma pessoa, que veo nesta armada, em que dia peleiarão, e a que horas vencerão, declarando o dia e hora da vitoria, lhe responderão os que lhe isto per- guntarão: «O Padre Mestre Francisco, estando pregando, disse a essa mesma hora que os nossos tinhão vencido»; cousa que o padre não podia saber, senão por inspiração divina, e em nenhuma maneira, naturalmente, por ser fora da monção, sem tempo; que nem por mar nem por terra a tal nova podia vir, senão dahi a alguns dias, que veo a nova, e era dali setenta (27) ou oitenta legoas. (27) Na entrelinha está escrito cento e corenta. 232
  • 38 CARTA DO PADRE BALTASAR DIAS A SEUS CONFRADES DE PORTUGAL Malaca, 19 de Novembro de 1556 BAL: 49-IV-4.9. Fls. 279 T.-28Ò v. (1) Esta carta é um dos mais ricos documentos, em informações missionárias, referentes à fase inicial da evangelização das Molucas. Os ligeiros apontamentos geográficos nela contidos, a descrição primitiva da sua fauna e flora, da índole e indús- tria indígena, são também elementos de valor e de interesse. Assinada pelo Padre Baltasar Dias, Superior dos religiosos da Companhia, em Malaca, logo no início se diz ser escrita por ordem e em nome deste, com dados fornecidos pelo Padre João da Beira e do Irmão Nicolau Nunes, recém-chegados àquela cidade, com destino à índia, aonde se dirigiam, para tratar de assuntos relativos às suas cristandades. Certa passagem de uma carta do Padre Baltasar Dias, publicada neste volume, sob número 53 autoriza-nos a podermos, talvez, considerar como redactor desta o Irmão Paulo Gomes; mas supõe-se, geralmente, ter sido escrita pelo Irmão Luís Fróis. E o Padre Wicki funda- menta esta opinião no contexto e na forma de estilo da mesma carta. A cópia da BACIL é conforme a esta, apresentando, apenas, variantes de ortografia, e em dois ou três vocábulos, que se indicam, em nota. a) Transferência do Padre Baltasar Dias, da índia para Malaca. b) Monções em que se viaja para diversas partes. c) Informações de Malaca. d) Apostolado dos padres da Companhia nesta cidade. e) Actividade e ocupações do Padre Baltasar Dias. (1) BACIL: Cartas do Japão. vol. I, fls. 367 V.-377 r. 233
  • /) Chegada a Malaca do Padre João da Beira e do Irmão Nicolau Nunes, vindos das Molucas. g) Descrição destas ilhas; situação, área e produções. h) Carácter de seus habitantes; seus usos e costumes, e ocupações. i) Frutos da sua evangelização: inúmeros cristãos convertidos, ins- trução das crianças, assistência aos enfermos, cristianização dos costumes, etc. ) Missionários e cristãos perseguidos, principalmente pelo rei de Geilolo. I) Habitantes de várias ilhas que pedem o baptismo. 1,1' Falta de missionários; Amboino, ficava sem nenhum. n) Apelo aos religiosos da Europa para que deixem ciências e letras, e venham trabalhar na conversão dos gentios. Jesus Gratia e amor de... (2) Como seia muita parte de nossa reboração e conten- tamento espiritual aos que estão tão distantes nas provín- cias, e tão hunanimes em ho amor, esta comunicação per cartas, coligindo da consolação que se qua recebe nestas regiones tão remotas, como as que de la escreveis, pareceo ao Padre Baltezar Diaz que não seria menos consolação vossa saberdes, por extensso, algumas particularidades do que o Senhor ca obra pellos da Companhia. E como no Collegio de Goa esta ordenado a escreversse, dahy a ordem que se tem no proçeder, assi das outras fortalezas da índia, onde os da Companhia residem, como do mesmo Colle- gio, he isto estar qua tão alheo da índia, mandou-me o padre que a todos charissimos vos escrevesse esta carta, (2) Nesta cópia a fórmula inicial e consagrada das cartas não foi completada: Gratia e amor de Jesu Christo seja sempre em nosso con- tinuo javor e ajuda. Amen, conforme a da BACIL. 2 34
  • em seu nome, porque as ocupações continuas que tem, não lhe dão oportunydade pera, por sua mão, o poder lazer assy, por extenso, como elle deseia; he porque, como digo, que das cousas da índia tereis largas novas das cartas do Collegio de Goa, nesta somente tocarey algumas qua destas partes. En Goa, depois de feita a eleyção geral, e que nella saio o Padre Antonio de // Quadros, provincial, orde- 1279 t.i nousse que ho Padre Baltezar Diaz, que ate então tivera o carrego de reitor do Collegio, fosse procurador de casa, assy pella experiência que tinha da terra, como por Deus Nosso Senhor, lhe dar um talento e particular dom com estes senhores temporaes, pera delles aver, com muita facilidade, o que outros dificultosamente hão. Depois disso, que as rendas dos paguodes padecia algum detrimento, pelas terras do Collegio, antre os brammanes, andarem sonegadas, foy mandado a humas ilhas, que estão da banda da terra firme, a fazer o tombo, onde andou perto de vinte cinco ou trinta dias. He, soçecendo nisto entrar a Coresma, se acabou, pera que em huma freguesia das da cidade pregasse; hahy pregou também z Paixão, que foi a primeira vez que se ay disse, com muita satisfação do povo, de maneira que, na Somana Sancta, se assemtou que viesse pera Malaca, a residir neste collegio, para daquy prover as cousas do Japão e Maluco, he mandar as vias a Cochim para este Reyno. Partio de Guoa, o primeiro domingo, depois da Pas- cua, e com elle veo o Irmão Pero d'Alsaceva; na nao, emsinava a doutrina, e o padre se exercitava em pregar e comfessar. Deu-lhe Nosso Senhor, por sua bondade, prósperos tempos, com que chegarão aqui, vespora do Espirito Sancto. Neste collegio achou dous Irmãos: hum, que o Padre Mestre Belchior aqui deixou, quando foy pera Ja- . 235
  • pão; e o outro, dos que levara, que da China veo con- valeçer a esta terra de humas terças grandes, que lhe la socederão, das quais aprouve loguo o Senhor dar-lhe saúde. Esteve aqui o Irmão Pero d'Alcaseva, obra de hum mes, esperando pola monção em que se a naao das drogas avia de partir pera a China, porque nella levava todo o provimento dos padres. Neste meio tempo, acabou o padre de negocear nesta feitoria de huns dous barris de seda, que do governador ouve, em nome del-rey, pera as neces- sidades de Japão, os quais importão, postos la, muy perto de mil cruzados. Assy, que de tudo inteiramente nego- çeado, se partio, he nos portos da China, onde os portu- gueses fazem suas fazendas, a-de esperar outra monção, desde Agosto, que chegam, atee Maio seguinte, que são dez meses, pera dahy ir a Japão, que he viagem de treze dias. Estas dilações dos tempos e das monções, para se na- vegar, em extremo, são trabalhosas, he omde os varões perfectos sumamente apurão, porque, carecendo muitas vezes de toda a comunicação espiritual, andando soos, de necessidade an-de ver e ouvir fazerem-se cousas muy pere- grinas e alheas de quem pretende buscar a Deus e a omrra e glorificação de seu nome. Nesta viagem de Goa a Japão tem gastado o Padre Mestre Melchior passante de dous annos, e ainda não sabemos se he la chegado; mas crede, charissimos, que he tão suave o fim, que destes trabalhos resulta, que ficão todos, posto que grandes, parecendo nada, em comparação do menor gosto que se recebe na conservação de huma alma, que Christo, Nosso Senhor, resgatou com seu pre- cioso sangue. Os que também vem da China ou Japão, pera pas- sarem a India, he açertão de não poderem aqui chegar, ate veinte e sinco de Dezembro, que se as naaos todas 2 3 6
  • partem, fiquão aqui, esperando pela monção, ate o outro Dezembro, que he hum anno. Da índia, comumente, vem aqui sempre, em duas monções: huma, em Maio, e outra, em Setembro; mas daqui, como digo, não se pode ir mais de huma vez no anno. Desta terra de Malaqua, charissimos Irmãos, vos direy alguma cousa, antes que fale do fruito que o padre nella faz, porque tudo fiqua resultando em maior gloria da Divina Magestade. Ho sitio em que os portugueses nella vivem he muy pequeno, mantimentos nenhuns ha, //da propria terra, ueor.i porque o trigo e algumas carnes vem da India, e o arroz vem da Java. Tem muitas diversidades de fruitas, dentro pellos matos, he antre ellas huma, a que chamam duriões, a qual, segundo a openião de todos os que aqui vem, dizem ser hum dos pomos mas suáveis, que Deus criou. A aguoa de que os portugueses bebem, esta fora da po- voação, hum tiro ou dous de bestas, antre os matos, mas vaysse sempre buscar com armas e espingardas; he isto, pello temor de ladrões, que andão polios matos, salteando he matando, como também por receo das animais bravos, que por hy andão, a saber: alifantes, tigres, liões, onças, reymões (3), os quais, muitas vezes, matão a gente que achão descuydada. No trato he esta terra mais grossa, segundo dizem, que Veneza, porque a ella acode, comumente, no ano, de todas as partes, muito ouro, prata, pedraria, ambre (4), almiscre, beijoim, agilla, seda, damasquos, pimenta, mar- fim, espravos e todo o genero de cousas que se busquar, em muita superabundância. He aqui mandam todos os reys destas partes seus (3) Keimão: do malaio rimau, tigre de Malaca. (4) O mesmo que âmbar. 237
  • embaixadores, mostrando deseios de se confederarem na amizade com el-rey de Portugal. Aqui, finalmente, tenho para mim que acode muita parte de todas as nações do mundo, por estes tratos serem muy grandes; mas con- quanto esta cidade prospera em todas estas e outras muitas cousas, he nellas he muy superabundante, no negocio de pretenderem os homens sua salvação e alcarisarem os ti- zouros da gloria, he das mais pobres e infrutíferas vinhas da Igreja de Deus, porque qua, os homens, totalmente vivem e se governão mais pello apetite de sua sensua- lidade que pello destinto da rezão que tem. Esta foy huma das terras em que, com mais vehe- mentia, o nosso bendito Padre Mestre Francisco, que em gloria esta, trabalhou por tirar de grandes honzenas, hido- latrias e carnalidades, que nella avia he, mediante a graça do Senhor, da qual elle andava muy ampliado e favo- recido, fez muito, maxime no insino da doctrina cristãa, porque totalmente era ignorada. • Depois que elle se passou a outras partes, ficou tra- balhando nella o Padre Francisco Perez, quatro ou cinco annos; veio, depois, o Padre Mestre Belchior, e posto que de passagem pera Japão, todavia, o tempo que aqui esteve, faziasse a gente capaz de sua doctrina, e mostravão senais de penitencia e, depois, de se salvarem. Mas, como isto, ate vinda do Padre Baltezar Dias, ficou sem padre da Companhia, perto de hum anno e meio, e como faltavão exortadores, que os conduzissem aa perseverancia do bem começado, desistirão e forãosse esfriando. O Padre Francisco era nesta terra dos portu- gueses e mouros e gentios tão amado e reverenciado, pella sua tão grande benegnidade e charidade, que com todos tinha, que lhe não chamavão senão o padre sancto, he continuamente andavão os meninos diante delle cantando e bendizendo a Deus e beijando-lhe a mão, por alcansarem J2 3 8
  • sua benção. Ficou isto tão abituado, principalmente na gente da terra, assi cristãos, como gentios he mouros, que oje em dia, quando vem perguntar pelo Padre Baltezar Diaz, lhe chamão o padre sancto, e quando sae da Igreja, ou vay pera ella, vem os meninos ao redor delle, pedindo- -lhe sua benção, e beijando-lhe a mão. Tanto que o padre chegou, determinou loguo ordenar suas pregações, todos os domingos e sanctos, nas quaes Deus, Nosso Senhor, o tem favorecido e ajudado na satis- fação da gente e emmenda de vidas; e quanto mais pella esperiencia que foy tomando, vay cayindo nos tratos ilí- citos delia, tanto isto fica sendo ocasião, pera se hevitarem maiores pecados, e assi em todos os seus sermões aplica sempre alguns casos de consciência, pera lhe declarar as circunstantias que o agravão, e o escândalo que dão, com suas dezordenadas vidas, de cuio entendimento, por estas partes, andão os homens muy faltos. E como tratou, loguo de principio, estranhando muito embarcaremsse os ho- mens, sem se confessarem, onde os perigos de morte esta- vão tão evidentes; pella bondade de Deus, eram tantas as confições, //ao tempo de se embarcarem pera a China wor.i e pera Sião, que escaçamente podia suprir a todos os que lhe concurrião. E assi, vão cahindo no seu erro, que cometião, com muita enmenda, e vaisse, por suas prega- ções, tendo vigilância nos que se daqui embarcão, os quais hião carregados de negras ou de graves ofenças de Deus. Hera cousa de que se muy pouquo usava nesta terra, virem as molheres casadas a igreia, aos domingos e sanc- tos, e aynda quando vinhão, pela Coresma, confessar-se, era mais por temor da escumunhão e semsuras eclesiás- ticas, que movidas por zello de sua salvação; e o que mais nisto sera de estranhar, serem os seus maridos os proprios obstáculos e impedimentos de suas molheres virem a igreia, e donde lhe avião de dar exemplo, incita-las a 2 39
  • isso, elles mesmos deixavão as misas e as pregações, por irem tomar suas recreações sensuaes, naquelle mesmo tempo dos domingos e sanctos. Aguora, o que he muito pera glorificar a Deus, muy poucos ou nenhuns fiquão, que não tenhão suas molheres na igreia, e donde, dantes, em semelhantes dias e festas, estava vazia, aguora se queixão de que não tem lugar he que a igreia he pequena. Ate hum velho dos principais desta terra, meio entrevado, aos domingos he festas, entra na igeria, levado por seus escravos em hum grabato, a ouvir a palavra de Deus; e como este negocio de tratos helicitos fosse tão geral que se estendia ate os sacerdotes, ouve nelles muito temor do escândalo, que davão, e retra- herãosse, mostrando papeis ao padre, como não querião levar o que, injustamente, não podia ser seu. Estava nesta cidade hum pregador religioso, e como o padre chegou, sendo-lhe rogado pelo vigário desta terra que pregasse na igreia maior, alternatim, com o Padre Baltezar Diaz, o não quis mais fazer, ate guora; assi que Nosso Senhor, por sua infinita bondade, lhe da forças com que a estes trabalhos e outros possa, continuamente, suprir. Algumas pessoas frequentão a confissão e comunhão, cada ou to dias, e outros vão deixando suas concubinas, antre os quais foy hum que, tendo quatro, avia muito tempo, e vinha, as vezes, embuçado com entender alguma cousa, perguntar por duvidas das Escrituras e por pontos escuros de Sam Paulo; dizendo o padre, huma vez, em hum sermão, que os que avião de entender a Escritura, lhe era necessário muita humildade, e as consciências esta- rem limpas de pecado mortal, moveo Nosso Senhor, de modo que, antes de hum mes, se quasou e tirou de si a grande ocasião que dava, de se escandalizarem os que pu- nhão os olhos em sua ma vida. Aos domingos e sanctos, a huma ora depois do meo 240
  • dia, vay o padre, com a campainha, rodeando a cidade, e com elle os mais dos meninos desta terra, ou todos, en altas vozes cantando a ley de Deus pelas ruas, as vezes, com seus ramos nas mãos; e da edificação que disto os portugueses recebem, vem alguns, sendo casados, a se esqueçerem de suas idades, e amtre os meninos irem tam- bém cantando a doutrina, que nelles he muito pêra se louvar. Na igreia ocorre grande concurso de escravos e chris- tãos da terra, forros, e, juntamente, portugueses que, muitas vezes, não cabem, e depois de hum pedaço se dizer a doutrina e lha ensinarem, vay o padre declarando os dez mandamentos da Ley, e tem aly consigo hum dos meninos da doutrina, que na lingoa malahia daa a en- tender aos christãos da terra o que o padre diz. Ho tempo que lhe resulta (5) do seu estudo e pre- gações gasta-o no proveito espiritual do proximo, visi- tando algnus enfermos e hospital, comfessando, fazendo amizades, acodindo também aos prezos; acompanha sem- pre os padecentes, porque assi o fazia, quando estava em Goa, de que o povo recebe muyta edificação. Havendo obra de hum mes e meio que o padre aquy sera chegado da índia, vierão aqui ter de Maluquo huma nao e huma caravella; nestas embarcações vinhão o nosso Padre Joam da Beira e o Irmão Nicolao Nunez, clamando e pedindo, com muita instancia, que, pello amor de Deus Jesu Cristo, socorrecem aquela grande christandade de Maluquo, que, por falta de padres e Irmãos, perecia. Afir- mo-vos, charissimos, verdadeiramente que, se vos achás- seis presentes a ouvir o que daquellas partes contavão, e cada dia contão, e de quantas almas se se perdem pura- mente ao dezemparo de não aver quem // lhes acuda e izsir.j (5) BACIL: O tempo que lhe fica... 2 4.I INSULÍNDIA, II — 16
  • OS baptize, que não deixareis de aver grandíssimo senti- mento de tão evidentíssima perdição; mas eu sou ainda tão miserable, e acho-me tão inabilitado pera vos exa- gerar isto, quanto deve ser, e pera vos propor esta tão grande necessidade de operários que, totalmente, não sinto outro meio milhor, senão pedir e pedirmos, os que qua estamos, com grande instancia, a Nosso Senhor, que inte- riormente vollo de a sentir, pois que tanto zelais sua honra. Depois da chegada do Padre Joam da Beira e do Irmão Nicolao Nunez, de Maluquo, moveo Nosso Senhor o pa- dre, pera que pusesse olhos em huma grande obra de seu serviço, nesta terra, que foy acudir a tantos pupilos de horphãozinhos desemparados, como aquy ha, e dizendo, primeiro, pera isto, suas missas, e os irmãos encomendando a Nosso Senhor o negocio, em o domingo, tratou disto no púlpito; por hum Irmão os queria mandar ensinar a ler e a escrever e instruiremsse em bons custumes, pera que, ao diante, se não perdessem. Declarou-lhe, conforme as Constituições e Regras da Companhia, a maneira que os moços nisto avião de ter, assi nos custumes, como no aprenderem; e logo a segunda feira seguinte, que forão a treze de Julho deste anno de 1556, os mestres de outras duas escolas, que aqui avia, mandarão todos os seus discí- pulos, sem lhe ficar nenhum. O numero destes, que aprendião, podião ser obra de sincoenta ou sesenta e, polia bondade de Deus, dahy a hum mes, chegarão ou passarão de cento e vinte. Ordenou o padre, logo ali, com o Irmão, hum caderno, em que fos- sem escritos, porque os mais destes andavão, por si, total- mente perdidos, sem aver quem se condoesse de sua per- dição. Entre estes cento e vinte, tenho pera mym que não passarão de vinte os que tem pays e mãis, e todos os demais são puramente orfãos de parentes, porque os pais 242
  • portugueses, muitos delles, morrerão aqui, no tempo do çerco (6); os outros contiamente morrem, por estes nau- frágios do mar, polios homens não terem ca outra vida, se- não aganharem de comer, navegando pêra diversas partes. .•Is mãis, ou são mestiças, ou molheres da terra, as quais ignorão muito as cousas de Deus e a doutrina cristã, e, morrendo, ha na terra muitos mouros e gentios, com que os meninos, comumente, comversão, e, polia maior parte, destes maos custumes da poericia, em que se forão criando, lhes fica hum abito empreso nas mentes, de não gostarem da doce carrega e suave jugo da ley de Deus e dos santos c vertuosos costumes; assi que, atalhando a tantos encon- venientes, ordenou-lhes, o padre, a ordem seguinte de seu proçeder. Todos os dias do Mundo vem de suas casas, cantando toda a doutrina cristã, por estas ruas, ate chegarem a igreia, onde o Padre Joam da Beira lhes diz a sua missa; ally, huns rezão por suas contas, outros por horas de Nossa Senhora, e os que não podem chegar a contas, por- que levão meo cruzado de feitio por humas, rezão pellos dedos. Acabada sua missa, vão-se a escola; cinquoenta des- tes escrevem, e os mais aprendem a ler, porque, natural- mente, são elles delgado (sic) do engenho, e mais facilmente escrevem do que lem. Cada mes, comfessa o Padre Joam da Beira todos os que ya tem annos de descrição e capa- cydade pera se comfessarem; a doutrina cristã, os mais delles, a sabem e muito bem, e, em suas casas, todas as noites, aos escravos e escravas a ensinão. Acabadas suas lições, fazem, primeiramente, sua oração de giolhos na igreia e assi se tornarão pera suas casas, cantando sempre a doutrina; e resulta disto tanto proveyto e edificação, que homem, que hia pera quebrantar mandamento de Deus, (6) Cerco a que se refere o documento N.° 9 deste volume, no ano de 1551. 2 4.3
  • ignorando, ou não se lembrando delle, pello ouvir ir can- tando aos meninos, teve que erão mensageiros de Deus, que lhe vinhão denunciar a ley, e se retrahia e apar- tavão (sic) do pecado que tinha determinado de cometer. Alem disto, todo o homem que ve jurar, ainda que seia seu proprio pay, o reprendem, pedindo-lhe, por amor de Deus, que não jurem; e as vezes, os soberbos que não cahem na boa obra, que lhes nisto os meninos fazem, os i28i v.i maltratão com bofetadas e outros // injustos castigos, de que elles se mostrão muito alegres, por receberem aquillo, pollo nome de Deus e por sua honrra. A todo o homem que vem nas igreias fazer oração com juelho no chão, se poem, com ambos em terra, diante delle, pedindo-lhe que os ponhão ambos, e que tenhão respecto e reverencia a Magestade de Deus com quem falão, e nisto andão mui instruídos. E assi, quando se vão pera suas casas, as vezes, se deixão ficar no jogo da pella, ou de bola, ou em outras partes, onde o nome de Deus he vituperado, pera que ali tenhão ocazião de milhor reprenderem os juramentos que vem fazer. E alem de ensinarem as noites a doutrina em suas casas, outros a ensinão na praça, ao pe do pelourinho, pera todos os que forem e virem, que a quiserem aprender; e outros a ensinão nos hospitais, assi no del-rey, onde se recolhem os portugueses, como no da gente da terra. Estes, da escolla, o irmão, que os ensina, vay todos os dias, depois de jantar, com a cam- painha polia cidade, he na igreia maior se ocupão, huns, aprendendo, outros, ensenando a mesma doutrina. E oras de vespora, se tornão todos juntos, assi, entoando-a; re- cebem elles muito gosto nesta doutrina e bons costumes, em que se crião, e são muy sogeitos ao mestre que os ensina. Outras muitas cousas extraordinárias fazem de muita gloria de Deus e de que em estremo o povo se edifica. 244
  • Rogay, charissimos, a Nosso Senhor, pois que destes desamparados he ajudador, e verdadeiro pay, e amparo dos orfãos, que de a estes perseverança no bem começado, e que serão dignos da vida eterna, pêra a qual os criou. Avia aqui outra cousa, em que Deus Nosso Senhor hera muy deservido, he tenho que huma das graves ofen- ças, que se lhe podião fazer, era que nos proprios navios dos portugueses se embarcavão, ate gora, mouros casizes na ceyta de Mafamede, he, com pretesto de serem merca- dores e que levavão suas fazendas ally, se deixavão fi- quar, nas terras dos gentios, donde, polia largueza e ví- cios de sua nephanda ceyta, tem pervertidos grandíssimas terras e reynos destas partes a se fazerem mouros; e são nisto tão solicitos e industriosos que vem de dentro de Meqa e do Cairo e de Constantinopola a estas tão remo- tisismas partes a exalçar e amplificar a sua venenosa ceyta ; em tanto que na propria nao, em que o Padre Baltezar Diaz veio da índia, se embarcou em hum lugar que se chama Batecala, vinte legoas de Goa, hum mouro, com alguma gente sua, carregada de armas, apregoando-se por parente de Mafamede, por onde era tido em grandíssima veneração de todos os mouros, pêra daqui se embarcar pera Borneo, onde esta outro companheiro seu, que ia tem feita a mor parte daquella gentilidade moura. E esta la tão venerado, que me contou aquy hum português, que de la veio, que tres vezes no dia lhe faz o rey da terra a sumbaia (7). Este mouro que digo, pera se mais enco- brir, quando na nao, por causa dos roins tempos, se ty- ravão algumas esmolas pera os sanctos, a sua era das primeiras. Estando ja com o fato embarcado, pera se partir com (7) Do malaio sembahyang. acto de adoração a Deus; e também saudação reverenciai. Palavra composta de dois elementos: sembah. saudação; yang. divino. 245
  • hum português, ouve o Padre Baltezar Diaz noticia disto; fe-lo loguo dezembarcar, e reprendeo isto, muy severa- mente, no púlpito. FizerãoAhe loguo dar fiamça grosa de se tornar pera a India, e assi se vay ja tendo nisto mais vigilância; e andou este negocio tão corrupto, que os pró- prios marinheiros arabios dos navios portugueses se dei- xavão ficar por essas terras dos gentios, e tem pervertidos grandíssimas multidões delles. Hum destes lasquarens (8) trouxerão, este anno, de Japão, que la se deixou também ficar, dum navio de portugueses, que por sua parte trabalhava o que podia, pera que os japões tivessem noticia da mafametica ceyta; 1282 r.i mas quis Nosso Senhor que nenhum // efeito teve, no que pretendia. Estes mouros he a mais pestífera e odeosa cousa que ha por estas partes, porque tudo abrazão, aonde che- gão, e são tão venerados dos gentios, novamente conversos na sua ceyta, que em Sião, que he hum dos principaes reynos, que ha nesta costa, quando estes casizes falão, estão os ouvintes com as bocas abertas, avanando com a mão, dizendo que o ar daquellas palavras, que lhe entra pella boca, os santifica nos corações, cousa que me a mym poem em grande comfusão, cada vez que ouço as palavras da Escriptura divina, que tem em si, nam fingida, mas puramente eficácia de vida eterna. Pellas cartas que, o anno passado, forão escritas a esse reyno, tivestes, charissimos, larga informação da chris- tandade de Japão e das calidades da terra e dos abita- dores delia. Também o Padre Mestre Gaspar, que Deus tem, vos escreveo largo sobre as couzas do Preste, e das informações que daquelles cristãos tinha, por huns portu- gueses, que de la vyerão. (8) Nome por que eram designados, principalmente, os mari- nheiros indígenas, na Índia. 246
  • E alem disto, da christandade do Cabo de Comorim tem, pollo conseguinte, scripto por algumas vezes, o Padre Anrrique, grande agricultor da vinha do Senhor, e assi o Irmão Baltezar Nunez, quando de la veo, de Comorim, escreveo todas as particularidades de seus usos antigos, he novo modo de proceder. Agora, o Padre Baltezar Diaz me mandou que, com a enformação do Padre João da Beira e o Irmão Nicolao Nunez, vos desse de Maluco alguma noticia, e da chris- tandade que la ha, porque, como Maluco seja a ultima fortaleza, que el-rey tem nestas partes, he viagem de dous annos, por hida e vinda, ate a India, e os padres andarem tão ocupados que, pera estas particularidades, lhe não vaga tempo, assentou o padre que, com as enfor- mações dos que aguora vierão clamar por gente da Com- panhia, recebeceis muita consolação in Domino, pera que vos fique servindo de grandes desejos de ajudar a tantas almas, que totalmente, todos os dias e oras, perecem, por falta de obreiros. Não digo isto pera todos, igualmente, mas pera os que se começam a exercitar, ou em virtudes, com mais ins- tancia, desejem de se commsumar e perfeiçoar nellas, e os ja provados e desejosos de a exercitar, achem aquy mo- tivos que mais os espertem, oferecendosse muitas vezes a Nosso Senhor pera que os faça cooperadores desta obra tão- aceyta a sua Magestade Divina. A fortaleza de Maluquo, Irmãos meus, esta situada hum grao da linha, pera a banda do sul, e esta na terra- do mais poderoso rey daquellas partes, que se chama rey de Terna te. E elle, todavia, obediente a fortaleza, e, todas as vezes que os capitães o mandam chamar, vem; he con- versavel com os portugueses, e presta-se, em grã maneira, de servir a el-rey de Portugal, porque por isto he elle; obedecido de todos os seus e não seus. 2 4 7
  • Vay-se elle fazemdo muy poderoso, em dilatar e esten- der seus reynos, e, posto que se mostra servidor, la por de traz, deita a pedra he esconde a mão, em perseguir os christãos e manda-los matar. Muitas vezes diz elle mal desta ceita de Mafamede, mas tem por grave jugo deixar as muitas molheres que tem, e seguir a vertude da ley evangélica. Porem, se, todavia, o frequentassem, farçia(ç) nelle alguma cousa, e, pera isto, não ha necessidade de (282 v.i interprete, porque elle entende e fala bem português. // Da progenia deste rey são feitas algumas pessoas cris- tãs. Hua raynha, que se chama Dona Isabel (10), molher prudente, que se confessa e comunga quasi sempre, com os da Companhia. Foy esta a mais entendida na ceyta, que todos quantos mouros ha, em Maluquo; converteo-a o Senhor pelo nosso bemaventurado Padre Mestre Fran- cisco, e foy com pura desputa; não fora muito, com ella, todo Maluquo ser cristão; mas socedeo, per morte de seu filho Dom Manoel, rey de Maluquo, que na índia se fez christão, e morreo nesta Malaca, hum seu emteado, que agora he rey, o qual tem muito perseguida e suas terras usurpadas, ajuntandosse, com isto, também ser ella pou- quo favorecida dos capitães, sendo ella, alem de sua vir- tude e onestidade, do mais alto sangue de Maluquo, por- que he rainha he may del-rey e irmã dEl-Rei Tidore. E assi cristã, quando vay fora, he muy temida e venerada dos seus; tem ella comsigo alguns filhos seus, cristãos, muito amigos dos portugueses. Também se fizerão cristãos duas irmãs deste rey, que aguora he, que ja são falecidas; e ahy, alem destes, em Maluquo, dous sobrinhos seus, cristãos, cuias mãis se con- verterião, senão que o rey e muy tirano, e toma-lhe as terras e as fazendas, e, com isto, todos ão medo. (9) i. é. far-se-ia... (10) Isabel Niachile Pocaraga. 248
  • Esta ilha, onde a fortaleza esta, sera de sinquo legoas, em roda. Diz o Irmão Nicolao Nunez que he das mais altas terras, que virão, segundo o parecer de todos; tem em o cume da principal serra humas furnas, que conti- nuamente deitão fumo, com chamas de fogo e faíscas, e pedras tamanhas, que moos de ataphona. He das cousas espantosas, que se tem visto no mundo, e da, as vezes, esta furna, estouros como de bazaliscos ou de artilharia muy grossa. O fumo, que lança, he muy negro e, com elle, grande copia de cinza. Conta, o irmão, de homens, que o forão ver, que dezião ser hum buraco em fundo, mais de quinhentas braças; e alguns destes, que, por coriosidade, se chegarão perto do buraco, ficarão como alheos de si, e lançarão a correr pella serra abaixo, dizendo huns aos outros: «fuiamos da ira de Deus». Alguns destes vierão, agora, aqui ter, a Malaca, na propria embarcação em que veo o padre e o irmão, e dizem que na coroa deste monte, antes do fogo, esta hum grande vale, o qual, enchendosse de agoa, pella força da chuva do Inverno, que, depois, o fogo a consumira e gastara. Toda esta ilha tem cravo e canas, muy grossas, e delias tem agoa dentro, muy serina, de que os portugueses be- bem; muy ta copia de larangas doces, das milhores que ha, por estas partes. Tem as mais admirables cobras que se virão, e entanto que engolem hum cão inteiro, e huma cabra, e hum porco, mas estas não fazem mal a gente, senão quando hão grandíssima fome, e não achão pelos matos que comer. Hum tiro de camelo, defronte desta, esta outra ilha de cravo, que se chama Tidore; esta tem rey sobre si. Ha hy outras duas, que se chamam Maquian e Mou- 249
  • Icl (n), sobjeitas ao rey de Ternate, também de cravo;
  • podem, por lhe apanhar o fato, toda sogeita a el-rev de Ternate. Tem esta ilha em si muitas nações, a saber: hum reizi- nho, a que chamão de Loloda (13), o qual, antigamente, dizem que foy poderoso; os geilolos, ganes, bedas, mabas, bicholas (14), e outras diversas nações; he muita diver- sidade de lingoas; hem tanto que, em duas legoas, vio, ho Irmão Nicolao Nunez, lingoas mais diferentes que da por- tugueza a franceza. Tem estas terras, em que os nossos irmãos andão, aro- zes, gengivres e outros mantimentos, em que entra o mais comum de todos, a que chamão sagu, o qual tirão de humas arvores grandes, como palmeyras, mais groças algum tanto. Estas fendem-lhe o tronco, e aquelle miolo botão-no em suas gamelas de agoa e, depois de mechido e a casca fora, fiqua no fundo de agoa, como maça. He escorrido de agoa, peneirão-no brevemente, sem mais esperarem por levedura, e botão aquella farinha, que parece de trigo, muito alva, em humas telhas vermelhas, cm as quaes ahi huns repartimentos fundos, de dous em dous, onde se coze e sabe como fatias de pão, mas ha-de-se comer em quanto esta quente; dizem que o achão por milhor mantimento que o arroz. Ha também nesta terra do Moro humas galinhas do mato, mais pequenas que as nossas, as quaes tem as cores, como perdizes; poem ovos tão grandes ou majores que de pata, he o mais delles he gema. Estas galinhas poem os ovos nas areas moles, junto com as praias, ou na terra molle do mato, e poem os ovos tão fundos que he perto de huma braça, onde os metem; e dizem que os poem, de dous em dous, e sem mais choquar, com o calor do sol, (13) Esta passagem presta-se a certa confusão, devendo notar-se que o lugar de Loloda fica na ilha de Geilolo ou Halmahera. (14) Bitjoli e os outros nomes são lugares sitos na ilha Halmahera. 2 5*
  • saem os filhos, e per si se sostentão, sem nutrimento nem favor das mãis. Dezia a gente da terra aos irmãos que as vião, quando querião por os ovos, sem esgaravatarem, furarem pola area dentro, ate la onde poem os ovos. E poios regedores da terra se defende muito mata-las, pola grande copia de ovos que a gente acha polo mato, com que se mantém. Tem mais, esta terra, duas maneiras de cangrejos (15), em grandíssima maneira, diferentes; huns, que tem as per- nas como lagostas, mas são muito majores, tem huns bu- chos, cousa muito suave, e as femeas tem ovos. Estes can- grejos crião ou se recolhem em tocas de arvores e não se tomão, senão com fogo, ou com cortarem as arvores; ay hi outros, pretos, que tem humas çedas compridas, por onde são conhecidos; estes, no mesmo ponto em que se comem, logo morrem, sem aproveitar nenhum defen- sivo (16). Ahi também, nos rios destas terras, grandes lagar- tos (17) e poem ovos, quatro ou cinquo braças, pelo mato dentro, de que se gerão os filhos. No mar destas partes ha tartarugas, mui grandes, as quaes poem os ovos na area das praias, e cavão com as mãos, obra de mea braça, e cobrem-nos com a mesma area, e com a quentura do sol gerão os filhos; e quando (283 v.i asertão de tomar algumas femeas, que tem ovos, // tem- -nos em tanta cantidade que diz passarem, as vezes, de quinhentos, os quaes são mui pouco menos que os das galinhas, mas são muito redondos. A carne delas, dizem ter alguma aparência de carne de carneiro; são muito gordas e achão-nas por bom manjar. (15) O mesmo que caranguejos. A falta de rochas nestas praias explica o facto de estes crustáceos se esconderem nas tocas das árvores. (16) O sentido desta frase é o seguinte: estes, últimos, venenosos causavam a morte imediata a quem os comesse. (17) Os temíveis crocodilos. 252
  • Tem mais esta terra, no mar, huns peixes mui grandes, que cada hum delles, em postas, enchera cinco ou seis jarras; chamão-lhes, os naturaes dequelles lugares, pexe vaqua (18). Parece que quis Nosso Senhor dar-lhes, no mar, isto, porque a terra carece das vacas; as femeas des- tas tem tetas, como de mulher, no peito; o fucinho quasi como vaca, tem sedas, como de porco, ralas; as tripas, como da propria vaca; e os fígados, o mesmo; e o milhor comer delles he a cabeça, pescoço e peitos. Os seus man- timentos são ervas do mar; pescão-se com redes, ou quando se poe a lua que vem a paçer (sic1; destes comem la os irmãos, e tem-no por muito bom mantimento. Polas arvores ha grande copia de papagaios. Dizem qua que são os milhores do mundo, pola facilidade que lhe acham em tomar qualquer lingoa, que lhes ensinão. Ao norte da ilha do Morotai, conta que ha huma gente branqua, bestial, que se não cobre, não sabem que cousa são armas, e, se asertão de se encontrar com quem as tem, metem-se por ellas, como criaturas irracionaes. Vio ho Irmão Nicolao Nunez mais huma gente, que em suas terras veo pescar no mar, e deu-lhes huma grande tormenta e corrente de agoa, com a qual vierão ter, em três ou quatro dias, ao Morotai, terra dos cristãos. E huma gente bem desposta, de boas estaturas, a maneira de brazis, que trazem todo o corpo pintado, a maneira de ferretes de Africa. Vinhão em humas embarquações, como chiqueiros em que comem porcos; e como ali chegarão, em poucos dias, morrerão todos; somente hum (19), o qual, despois que soube a lingoa, dixe que na sua terra avia muitas ilhas baixas, e que, naturalmente, erão todas pacificas, e que (18) Talvez a foca. (19) BAC1L: tirando hum... 2 S3
  • não tinhão faqua nem ferro, nem anzol pêra pescar, e que pescavão ho peixe com humas casquas de hum genera dostras, que la ha, e fazião as embarquações com ma- chados das mesmas ostras, e que o seu comer era tarta- rugas, galinhas e huma maneira de figos verdes, assados, coquos; he o vinho delles. He esta gente, em estrema maneira, brutíssima, mais que a outra de todas estas partes. Dezião que nunqua virão outra gente; vivem em humas choupanas, encubertas com huns ramos de palmeiras. Alem desta ilha do Morotai, que asima dixe, para leste, esta a terra dos papuas, humas das grandes terras que ha ay (20). Dizem ter setecentas legoas de costa, e chegar mui perto da Nova Espanha, segundo a enformação dos castelhanos, que de la vierão; he gente mui preta, quasi como cafres, toda gentia. Tem muitos reis. Dizem que ha nesta terra muito ouro; he gente viva de engenho, segundo os escravos que qua ha, entre nos; e facilmente tomarião a fee, se ouvesse obreiros delia. Esta he a gente que continoamente esta chamando: «Senhor, não ha ho- mens que nos metão na pesina do sancto baptismo» (21). Segundo o que hum castelhano, que la esteve cativo, dez ou doze anos, dezia em Maluco, que sabe muito bem a lingoa, que, por aquelles tesouros de tanto numero de almas, era muito pera se despovoar grande copia de reli- giões, quanto mais alguns obreiros da Companhia; e po- de-se, tão facilmente, ir da fortaleza de Maluco a ella que não he mais que seis ou sete dias de caminho, tudo, por entre ilhas, ate chegar a elles. Gente que folga muito de ver hos portugueses, e mui domestica. Grandes deseios teve o Padre João da Beira de lhe ir (20) Nova Guiné. (21) Cof. Joan. 5, 7. *54
  • dar a bendita nova do Evangelho; mas o conservar os que ja erão feitos, o empedio, estando no Moro. Antre esta terra dos papuas he a fortaleza del-rey de Portugal, ahi outras ilhas inumeraves, de diversas gentes e varias nações, das quaes me dezia o irmão que os nomes lhe erão ignotos; porem, que estes sabia e alguma gente delias vira, os quais se chamão sumas (22), ge- bes (23), garçeas (24) e que facilissimamente tomarião a fee, se ouvesse quem lha fosse denunciar. Tornando, charissimos, a terra do Moro, pola bondade de Deus, a hi muitos christãos; o numero // dos quaes, 1204 •• 1 segundo o Irmão dezia, poderá ser de vinte mil almas c ja, bendito o Senhor, pela grande continoação dos tra- balhos dos da Companhia, vão tomando as cousas da fee, e tendo fee nellas, e dando muito credito aos padres e irmãos, e tendo-lhe grande obediência e acatamento, por- que vem nelles, como em espelhos, fazerem primeiro aquilo que lhes ensinão. Em toda esta terra do Moro ha quarenta e seis ou quarenta e sete lugares christãos, antre pequenos e gran- des, e alguns delles, de setecentos ou oitocentos vezinhos. Muitos mais se aumentarião, cada dia, se não tivessem dous enconvenientes: hum deles, ho temor dos reis mouros, e os medos que lhe poem, por se fazerem christãos; e o outro, a falta de quem lhes mostre o caminho dos tizouros da gloria, porque não podem, os irmãos, com toda sua diligencia e zelo, tão veloces e ligeiros andar que, muitas vezes, antes de chegarem aos lugares, que vão visitai, não morrão muytos mininos sem baptismo, quanto mais, de novo, converter outros. Por aqui podeis julgar, irmãos meus no sangue de Jesus (22) Naturais do promontório de Suma, em Halmahera. (23) Indígenas da ilha de Gebe. ao oriente de Halmahera. (24) Habitantes da ilha de Waigeo, mais ao oriente de Halmahera 2 .$ 5
  • Christo, a necessidade de que qua poderá aver de padres e irmãos, porque isto na realidade da verdade asi passa. Esta gente do Moro, alguma dela, era sogeita ao rei de Terna te, onde esta a fortaleza; otra o rei do Geilolo. E vendo-se asi este de Geilolo desapossado de alguns lu- gares, e por ser mais mouro que todos os outros reis, começou a perseguir os portugueses e christãos do Moro, matando e cativando muitos delles, e deu-lhe tanta guerra, com gente de mato, grandes frecheiros, que, no lugar do Tolo, quazi cada dia, ma ta vão christãos. E esta perse- cução ja se continuava, quando o padre nosso Mestre Francisco o foi visitar. Erão os christãos pouco favore- cidos dos portugueses, e recebião delles mais escândalos que exemplos; e sendo este lugar de perto de tres mil homens de peleja, agora, se tiver mil, sera muito, de maneira que, com a pouca paciência que tiverão, vendo-se dos reis mouros destruídos, e dos portugueses, desem- parados, estes, de Tolo, e outros alguns lugares, ao de redor, retrocederão, obedecendo e dando parias ao dito rei. E estiverão asi, pouquo tempo, ate que mandou, o capitão portugueses, a fazer-lhes requerimento, que se tornassem; elles insistirão, porque vião ainda o rei mouro de Geilolo, que lhes fazia tiranias e persucuções, estar em pe, e não ser destruído. Acabado os tres requerimentos, outras furnas de fo- go, que estão no mesmo Moro tres ou quatro legoas do lugar do Tolo, pelo mato dentro, por grande juizo divino, e manifestação de seu infinito poder, começarão a exceder o modo mais do que nunqua se avia visto, fazendo gran- díssimo estrondo, como de artilharia mui groça, lançando fogo e fumo, tão escuro, que o sol se não via, e parecia noite, e também deitava tanta cinza no mar e na terra que se não podia estar. Era de maneira que, com o pezo da sinza, cairão os ramos das palmeiras, e asi ficarão 256
  • cortados, que, por espaço de dous ou tres annos, não derão fructo. As casas suas também caião, com o pezo da sinza; as agoas se lhe tomarão amargas; os animais do campo e bestas feras do mato não acharão pasto nem ervas que comer, por tudo ser cuberto de sinza, em tanto que se acha vão por hi os porcos bravos e montezes, a quem os queria tomar. Os caminhos, que estavão tapados com estrepes, para que os portuguezes não entrassem, se abrirão com a mul- tiplicação da sinza, que crescia, que, se ella não fora, nunqua os poderão entrar. E asi aprouve a Deus, Nosso Senhor, a quem obe- decem as tempestades do mar, que os indómitos corações destes se amamsasem; e despois de entrados, a muitos matarão, e assolarão o lugar, que foi exemplo vivo e grande admiração pêra elles. E agora, com o rei de Geilolo ser também desbara- tado, se reformarão e restaurarão muito, claramente conhe- cendo que, por seus pecados, o Senhor os castigara, e que nenhuma cousa aversa os apartaria deste novo conserto, que tem tomado, da fee, e isto, avera quatro annos que socedeo. Contarão alguns portugueses e christãos do lugar da Chiua ao Irmão Nicolao Nunez que, quando socedeo este retroceder aos christãos, que huns dous, daquele mesmo lugar, parece que, pelo pouquo conhecimento que tinhão da fee, que pegarão ambos em huma imagem de Nossa Senhora, pera a ofenderem, e que a hum delles se lhe tolherão as mãos, e pouquo e pouquo, se lhes forão todas comendo; e ao outro que, indo-se lavar ao mar, viera hum peixe agulha, e se lhe metera pela testa, de que loguo morrera. A ordem que ha, de proceder na fee, com esta gente, he esta: todos os filhos e filhas dos christãos vem, todos 257 INItlLÍNDU, It — >7
  • os dias, pela menhã, a doctrina; e isto, muito cedo, por- que naturalmente he gente pobre, que sempre andão no campo, com suas sementeiras. Em o lugar de Tolo ahi muitos mininos e mininas que sabem a doctrina, e na missa ve-los rezar todos juntos, he pera louvar a Nosso Senhor, como cada hum reza, como o padre manda; e pera nenhum faltar, em cada bairro fazem hum meirinho, e ahi trazem mininos mei- rinhos, os quaes, por isto, não tem nada, porque também 1284 v.] elles não fazem mais que acuzar os que // não vem. Ahi hum sobre estes, que lhe toma conta do que fazem, e os castiga, por mandado do padre ou irmão, quando os seus não vem a doctrina; e quando também elle he culpado em alguma negligencia ou descuido, da-lhe o irmão sua penitencia. Tem, todos os mininos, mui grande obidiencia aos pa- dres e irmãos, e nenhum vai fora da terra, sem licença. Hos homens e molheres ouvem, aos domingos e santos, a palavra do Senhor, e lhes ensinão os artigos da fee e decrarão-lhe, na lingoa, o evangelho ocurrente; tem gran- díssima fee na agoa benta, e como as crianças ou os grandes adoeçem, logo chamão o padre ou o irmão, que lhe reze o Evangelho. Avia, pelos pecados desta gente, grande numero de ratos, na terra, em tanta maneira que não lhes deixavão crecer os arozes; e, antes que nacessem, lhe comião a semente e, depois de nado, não somente o comião, mas ainda o estraga vão; e erão tantos que dentro, nas casas, vinhão, de noite, roer os dedos ao irmão, que totalmente parecia praga; e despois que o Padre João da Beira tor- nou da índia, hia pelos campos, deitando-lhe agoa benta nas sementeiras, he, misericordiosamente, pela clemência de Deus, ouve aquele ano muito aroz, e dizião os chris- tãos da terra que, totalmente, porque ahi tinhão o padre 2 5 S
  • João da Beira consiguo, lhes dava Nosso Senhor aquela fertilidade. E despois, quando semeavão, diz o padre que furtavão quanta agoa benta benzia, pera irem deitar nos campos de suas lavouras. E os mininos enfermos, tra- zem-nos a igreja, e lavão-nos com agoa benta, e muitos, pela bondade de Deus, recebem saúde. Outra cousa, que não he menos de maravilhar que a de sima, socedeo no mesmo Moro e, serto, digna de muita admiração. Despois de os ratos serem lançados fora das sementeiras dos christãos, quis Nosso Senhor, pera maior confusão dos gentios, porquanto se elles jactavão de os christãos não terem que comer, como elles, que os ratos, ou aquelles, ou outros, se multiplicarão tantos, nas terras dos gentios, que dezião aos christãos: «vos outros nos deitastes qua os ratos, pera destruição de nossos man- timentos». E os christãos lhes respondião que, porque elles erão gentios, lhes dava Deus asi, de rosto; e, as vezes, tinhão com os outros tantas disputas sobre quem tinha milhor Deus que, quando não achavão rezões, pelo zelo que tem da fee, vinhão averiguoar seus razoamentos, as cotiladas e as punhadas, que não era pequeno trabalho dos padres e irmãos, em nos apaziguarem, porque os gen- tios tem Deus de seus paes e de sua mães e filhos, tem Deus do aroz, Deus do peixe, Deus do vinho, Deus grande e Deus pequenino, e a cousa com que mais crem, he em sortes. Seria cousa mui difusa, contar os generos delias. Arvorão grandes madeiras, em estatuas de homens, e armão em sima casas, e cobrem-nas com panos, e fazem- -Ihes seus altares, e tem outras casas, muito grandes, onde comem e bebem, ate se embebedar, a onrra dos finados. Aquellas terras tremem muitas vezes, cousa que os christãos mete em muito terror, porque excede muito o modo, e difere grandemente a maneira do que la treme em Portugal. E pera isto, pondo-se em oração, invocão 2 5 Ç
  • o adiutorio divino, mas os gentios batem todos com paos na terra, e dizem que espantão as almas, que estão de- baixo, e fazem tremer a terra. Açerqua do credito, que os christãos tem nos padres e irmãos, he tanto que, algumas vezes, estando alguns enfermos, vinhão parentes seus perguntar ao Irmão Ni- colao Nunez que lhes dixesse a verdade, se avião de morrer ou não; ao que o irmão lhe respondia que homem nenhum lhe podia sertifiquar, nem saber aquilo, porque soo a Deus partencia; outras vezes, aconteceo estarem, outros enfer- mos, muito mal, que ja de todo desconfiavão delles; e, chamando o irmão, lhes rezava o Evangelho e algumas orações e, despois que Nosso Senhor se avia por servido de elles convalescerem, tinhão elles tanta fee que lhe di- zião: «Tu não fizeste viver outra vez ao que ja estava morto»? E o mesmo ao padre João da Beira. Hum velho christão, pareçe que lhe ficou ainda hum pagode de vulto, e foi-se a elle, e pos-lhe muito de comer, diante, dizendo-lhe que, se comesse e bebesse tudo aquilo, que teria fee nelle, mas que se o contrairo fizesse, que elle o veria; e quando vio que o pao não comia, deu-lhe com tudo no rosto, e não se curou mais delle, nem de sua adoração. Indo o Irmão Nicolao Nunez, huma vez, visitar, pas- 1285 r.i sou por hum lugar de christãos, a que / / chamão Alilivo, e vierão-se a elle os principães do lugar, dizendo que, pois elles lhes tirava seus ritos gentílicos, que farião, que as sementeiras se lhes secavão sem chuva, porque elles estavaão aparelhados pera guardar os custumes da lei que tomarão. Dixe-lhes o Irmão, então, o que os christãos fazião nas igreias, e que, pois elles ahi não tinhão ne- nhuma, que se fossem a cruz, que em todos os lugares tem arvoradas, e que puzessem algum azeite diante delia, ardendo, e pidisem ali a Deus chuva, e que Nosso Senhor 2 6 o
  • averia misericórdia delles e lhes daria a satisfação, con- forme a sua fee e pi tição. E partindo-se logo dali, estando-se daquelle lugar duas legoas, vio sobre o lugar huma grande escuridão, em que não pouquo foi no Senhor consolado, e, de alegria, cho- rava, pela confirmação que nos christãos averia das pala- vras que lhe tinha dito. E tornando-se a pasar por ali, ja todavia sabendo, perguntou se chovera. Disserão que si, era verdade tudo aquillo que lhe dizião. Dixerão-lhe mais, que neste lugar ouvera hum homem medo de hum fan- tasma, que dizião que ali andava e, arvorando ali huma cruz, não vira mais nada. Esta gente, naturalmente, não tem copia de vocábulos que lhe sirvão para entendimento das cousas de Deus, nem tem noticia do diabo, mas, se- gundo o que ho irmão collegio da lingoa deles, entendeo que, ao que antigamente os poetas chamavão nimphas. chamão estes charvisique (25), que quer dizer gente que esta ou anda no mato, e dizem que estão pelas arvores, e que aquilo he o que lhe faz mal. Dizia mais, o Irmão que vira este genero de idolatria: estarem tres velhos, com grandes tangeres, metidos em huma tumba muito paramentada, com muitos velhos e velhas de redor, tremendo e escumando, e mandavão ser- (25) Na Insulíndia, o feiticeiro e o adivinho eram personagens que entravam também no sistema supersticioso das populações indí- genas. O feiticeiro, aquele indivíduo soturno e esquivo, horrendo de feições, a quem atribuíam poderes diabólicos, invisível, recolhia-se num poço de água, ocultava-se numa encruzilhada, suspendia-se numa árvore, para devorar as vítimas desprevenidas contra seus malefícios. Quando de alguém se dissesse ser feiticeiro, o povo, atemorizado, per- seguia-o para o liquidar. Em Timor, a morte dos régulos, dos chefes e de outras pessoas principais, era-lhe imputada, e, nestes casos, muitos infelizes acabavam, massacrados, às mãos da população, sob acusação de serem feiticeiros. O adivinho, indivíduo solerte, prestidigitador nas maneiras, acre- ditado por seu saber, recebido por herança, ou ganho por indústria própria, compreensivo para com os clientes que o consultavam, por 2 6 I *
  • tas moças, ornadas com panos ricos, a huma ponta de huma praia, onde, de arvore em arvore, punhão humas sertas tiras de panos e com hum fole que levavão colhião ali qualquer vento e levavão-no muito quedo, onde esta- vão os velhos a tremer. E ali dizião que levavão as res- postas de seus paes, que erão passados desta vida, se avião elles de morrer ou não, e com a concruzão dos velhos, que ali dizem estar fora de seu sizo, tinhão serteza de suas mentiras (26). Conta também o Padre João da Beira que o aroz, que os christãos tinhão guardado em suas casas, pera semear, que todo lho comião os bichos, e o que, despois de semeado, recolhião, que também os ratos lho comião; e pela fee ser grande, que tinhão em suas orações, quando hião semear, lho levavão primeiro, para que o benzesse, e permitiria Nosso Senhor, pera mais coroboração delles, que de todos estes enconvenientes fiquassem os mantimentos preser- vados. Quando alguns dos christãos morre, vai o padre ou irmão, que ali esta no lugar, com todos os christãozinhos, cantando a doctrina christã e rezando as ladainhas, com sua crux alevantada diante, e asi o levão de sua casa ate a igreja, cousa que muito anima os christãos, ver aquelle zelo dos padres he caridade dos mininos, em acompanhar entre um ritual mirabolante, descobria nas entranhas de um animal a pedra causadora duma doença, o gérmen duma fatalidade, a sorte duma guerra, todos os labirintos do porvir. E enquanto o feiticeiro penava o destino maldito que lhe atribuíam, o adivinho exercia uma profissão que muito lhe prestava. Em Timor, os feiticeiros chamam buang e ao adivinho matan-dooc, à letra, olhos longínquos ou olhos de lince. No texto, segundo a explicação dada, da palavra indígena char- visique, deve tratar-se do feiticeiro; mas. se ela é, como supomos, a aproximação fonética dos termos malaios, de etimologia árabe, ahli (versado) e sihir (secreto), a justa posição de ahli-sihir significa, pròpriamente, adivinho ou mágico, no sentido acima descrito. (26) Parece tratar-se de práticas xamanlsticas. 2 6 2
  • os defuntos. Isto fiquou asi ordenado per regimentos, que disso tinhão, do Padre Mestre Francisco. Mandou, huma vez, o padre Afonso de Castro, que agora la naquellas partes reside, por reitor, huma carta ao Irmão Nicolao Nunez, ao Moro, que fose a huns luga- res, que novamente querião ser christãos, e lhes pergun- tasse, antes de os instruir, que cousas erão as que os movião a se fazerem christãos; se era por algum inte- resse, ou medo do rei, ou de outra alguma cousa. Res- penderão que a verdade que tínhamos, e nossa verdadeira justiça e bons custumes, totalmente os movia a tomarem a fee. Afirma ho Irmão que, de toda a christandade daquellas partes, não vira em dez annos, que la estevera, gente ne- nhuma receber a lei de Deus, com tanta alegria, nem com tão pura entenção; e desta maneira os instruio e doctrinou nas cousas da fee. Foi esta gente, dantes, mui inimiga dos christãos, e tinha-lhes feita mui crua guerra, e avorrecião-lhe, em grande maneira, portugueses, e com elles, não tinhão ne- nhuma comonicação; despois que forão todos da mão do Senhor, e que se apartarão delles as trevas de sua igno- rância, e que virão la o Irmão Nicolao Nunez, que hos bia ensinar, erão tão grandes os júbilos de todos, e o de- sejo que tinhão de viver e morrer pella fee, não sendo ainda baptizados, que dizia o Irmão, ser huma das mais insignes consolações, que do Senhor nesta vida recebera» quando se vira delles tam bem recebidos, sendo, primeiro, tão inimigos, ve-los, depois, com ânimos tão prontos, para receberem o sancto baptismo. Ate as velhinhas, que se não podião ter, vinhão ali ensinar os filhos e netos a fazer o sinal da crux e aprender as orações. E da abundancia deste contentamento e nova alegria, que tinhão nas almas, lhe resultava no exterior, de modo 2 6 3
  • que bailhavão e saltavão de prazer, por terem noticia de tal lei e de tão bom Deus. Estes, por se fazerem christãos, 1285 v i tem continoa // guerra com os gentios, por serem estes, novamente conversos, os em que elles mais estribavão e que com suas armas fazião mais forte guerra aos chris- tãos; e dahi a hum mes, foi la ho Irmão Melchior de Fi- gueiredo, e ambos os lugares baptizou, com grande con- tentamento em o Senhor. Os padres e irmãos da Companhia, que naquellas par- tes andão, tem passados e passão grandes persecuções e trabalhos, e andão, continuamente, mui propinquios ao martírio, e parece que, se Deus, Nosso Senhor, em algu- mas partes destas remotas, dilata fazer esta merçe a seus servos, que he pella falta que suas mortes darião aos christãos, avendo qua tão pouquos pêra tanta messe. O rei de Geilolo, que com os portugueses e christãos tinha muita guerra, desejou, grandissimamente, ver se podia acolher o Padre João da Beira e o Irmão Nicolao Nunez, pera os matar, somente, porque frutificavão nas almas. Foi-lhes dado huma embarquação, em que se salvarão delle, e se vierão curar a fortaleza, de grandes enfirmi- dades, que tiverão, alem da persecução. Depois de convalescidos, se tornarão a baptizar a agri- cultar a vinha do Senhor, onde, de novo, tiverão gran- díssimas persecuções, por verem todas as oras, os mouros lhe matarem, diante de seus olhos, os christãos e as mo- lheres delles, e os filhinhos, e se lhe vinhão lançar as por- tas, com os rostos em terra, varrendo com os cabelos o chão, pidindo justiça dos mouros, e misericórdia ao padre e ao irmão. Ora vede, charissimos, que crux esta seria pera elles, ver diante de si estas magoas, e os christãos tiranizados s mortos, sem lhe poderem valer. Ainda que, por outra 264
  • parte, se gloriavão em Deus, Nosso Senhor, vendo a cons- tância com que padecião tantas aflições e martírios, pura- mente, polia fee, e porque erão christãos. Depois disto, teve o Padre João da Beira outros mui árduos e grandes trabalhos, posto que, o padecellos por tão bom Senhor, lhos fazia suaves e toleráveis de sofrer. Indo do Moro pera a fortaleza de Maluquo falar com o capitão sobre estas cousas, tres vezes se perdeo no cami- nho; no primeiro naufrágio, perdeo os livros e o breviário, ate a loba que trazia vestida. Depois da embarquação ser desalagada, tornou-se, outra vez, a perder na mesma viagem, donde, misericordiosamente, foi socorrido de hum senhor de Ternate, mouro, que lhe deu embarquação, que o lavasse a fortaleza. E não querendo o Senhor deixar de acomular mais seu merecimento, por sentir que o seu servo o louvaria com tudo, e daria mais odor de sua virtude na prova destas cousas adversas, querendo atravessar hum golfão, pera vir ter a Maluquo, asertou de lhe quebrar huma taboa da embarquação em que hia, e socedeo, por misericórdia do Senhor, que estando-a concertando no golfão, passou o rei de Geilolo, seu capital inimigo, com sua armada, e enquanto asi estiverão, ao pairo, amai- nados, consertando a taboa, passou o rei, sem aver vista delle; e não ha duvida, se o vira, que o ouvera de onrrar com a força do martírio, como ia a muitos christãos tinha feito, mas sua ora ainda não era chegada. Conta mais o padre, que duas vezes ho venderão, e huma delias, acabando de comer, com sua copia de gente, querendo-se encostar, hum pouquo, pera repousar, que ti verão todos mui boa vigia nelle, e o serquarão, com suas armas nas mãos, pera, como adormeçesse, o matassem. Parece que sentio o inocente padre o rumor que entre elles avia, e não podendo dormir, assentando-se, lhe perguntou a causa porque asi estavão alterados, e com as armas 265
  • prestes; elles, confuzos da treição, que lhe fazião, não avendo nada que com elle estiverão comendo a huma mesa, mudarão o preposito em outra cousa. Parece que não se ouve o Senhor por servido, que alli acabasse. Dizia o padre que, depois, dixerão elles a hum português, que o proprio rei de Temate o mandava ma- tar, e porque nisso não comprirão o que lhe mandara, que, dahi a alguns tempos, lhe mandou estruir o lugar e quei- mar huma igreja, que ahi estava, e que matarão, em huma menhã, oitenta e tantos, por este mesmo negocio. Ho Irmão Nicolao Nunez, vindo também, outra vez, visitar os christãos, se perdeo e saio a nado, com muito risquo, e com ter bebida muita agoa salgada; perdeo-se, a mea noite, com grande escuro e mares mui empolados, em huma rocha de pedras agudas como faquas, e com chuva muito grande; meteo-se com outros debaixo de huma lapa, ate o outro dia, e, sendo a terra dos inimigos mui perto, estavão-nos vendo dali, com as armas as cos- tas, cousa que nos meteo em muito terror. Quis Nosso Senhor, por sua infinita bondade, que viessem ali ter embarquações dEl-Kei de Tidore, que hião a sua terra, e nellas se foi ho irmão, com os compa- nheiros; estes, como erão mouros, estiverão, no caminho, 1286 r.i // pera o entregarem ao rei de Geilolo. Os trabalhos da fome e çede, que aqui passou, e outras adições de crux, seria largo particulariza-las, de maneira que de presente ho trouxerão os mouros ao capitão de Maluquo asi nu, todo dispido. Dahi foi ter com o Padre Afonso de Crasto, que não pouquo se alegrarão no Senhor, quando o virão, polo ter ja por morto e missas ditas por sua alma. He crede, charissimos, realmente, que em todos estes trabalhos tão continos e diversos, asi dos que estão em Maluquo, como no Japão, no Preste e Comorim, e por 266
  • todas as partes da India, que huma das cousas em que mais estribão, e que lhe causa muito maior fervor he magnanimidade, em tão varias aflições e angustias, que he a confiança que tem, que são, continoamente, por vos todos ajudados, sem nenhuma intermissão, asi nos santos sacrifícios dos padres, como em vossas orações e medi- tações, tendo que estes são os meos por onde, com maior facilidade, cometem cousas mais arduas do que, natural- mente, farião, se não fossem ajudados de vossas orações. E quando algum tempo lhes fiqua de suas ocupações e sanctos exercícios, dilatão e estendem sua memoria na concideração do exemplo que receberão de vos, nesse ben- dito collegio, onde forão criados, que não são pequenos motivos, pera muito mais espertarem. E porque seria exceder o modo, aver meudamente de tratar de cada cousa per si, dar-lhe-ei somente novas de outras terras, de que ho Irmão Nicolao Nunez me afir- mou, onde ha grande numero de almas perdidas, sem conhecimento de seu Criador, antre as quaes ha huma gente, que se chamão Selebes, onde ha hum rei christão, que se chama El-Rei do Manado (27). Em esta terra dizem que ha muito ouro, mas nenhum de valor infinito, porque ignorão todos ao Sumo Bem; he gente bem despostas, bem acondicionada, mas não tem nem huma so, para que lhes diga: «fazei-vos christãos». Alem destas terras, hai outras que se chamão os Ma- quaçares, onde ha tres reis christãos. Estes, irmãos meus, estão sem ninguém que os ensine, nem baptize, nem ins- trua na fee; ha mingoa de operários, se perdem. E se dizeis, charissimos, porque lhe não acodem do Collegio de Goa, tereis muita rezão, se ouvesse quem mandar, mas (27) Menado, no extremo norte das Celebes. 267
  • se ainda, muitas vezes, faltão pêra as necessidades de casa, que sera pera acudir fora? Ai também outras terras, perto destas, a que chamão Mindanaao, Tapima (28); tem muita canela e outro, e muitas almas perdidas, que facilmente receberião a fee; outros, que se chamão Xulas (29), em que não ha menos facilidades, que nos outros. Alem destas terras de Maluquo, esta Amboino, que he huma das partes da christandade de Maluquo, onde os nossos padres tem muito fructifiçado em o Senhor; ahi nesta terra de Amboino huma ilha, que se chama o Buro, que terá cincoenta legoas em volta, em a qual ai ja muitos lugares christãos, e toda a ilha se faria, se ouvesse quem a sostentasse com doctrina. Dez legoas desta ilha, estão as terras de Amboino, onde ha muitos lugares de christãos e duas igrejas. Na primeira ilha hai muitos lugares christãos, e muitos mais se farião, mas não ai gente; esta sera de vinte cinco le- goas, em redondo. Alem desta, esta outra, dahi a huma legoa, a qual toda he de christãos; chama-se Ciasse (30), terra, em roda, seis ou sete legoas. Juntamente com esta, obra de hum tiro de bersso, ai hi outra, que se chama Soreçore (31), em a qual havia ja alguns lugares chris- tãos, e agora, vindo ho Irmão por ahi, fez hum dos maiores lugares destas partes de Amboino, christão; e, com elle, outro lugar, mais pequeno, era de maneira, que se não podia valer, com a multidão da gente, que lhe pedia baptismo. E tinha por novas virem-se outros povos a elle, e por não ter tempo e a nao não poder esperar, os não baptizou ; (28) Tapima, i. é. Taguina, a ilha Basiian. (29) Naturais da ilha de Sula, entre os Celebes e os Molucos. (30) A ilha de Oma; hoje. Haruku. (31) Lugar Siri-Sori, na ilha Saparua. junto de Amboino. 268
  • e asi a outros, de muitos lugares diversos, que o mesmo pidião, cousa de que interiormente se afligia, compade- cendo-se muito, de ver tanta perdição e tantos deseios de se converterem, em tantas mil almas, sem lhe poder valer, porque o mandava, a obidiencia, a índia, clamar e pidir misericórdia e socorro pera tanto numero de gente que, a mingoa, pereçem, porque, com a christandade da Am- boino e do Moro ser tanta, que poderá aver, nestas duas partes, cinquenta mil almas christãs, ou passante delas, não anda agora no Moro mais que dous Irmãos e outro padre, que he Afonso de Crasto, que esta com outro com- panheiro na fortaleza. Amboino não tem agora ninguém, porque hum Irmão que la foi, indo visitar huma ilha de christãos, quis-se Nosso Senhor antesipar, com o premio, e leva-lo pera si, porque morreo em hum naufrágio, afogado, todavia, de- baixo da obediência (32). Baptizou ali, em Amboino, então, ho Irmão, perto de mil e trezentas almas, todos por rol escritos seus nomes, pera que lhes não esquessesse, e huma bespora de hum Apostolo, baptizou, desde pera menhã, ate a noite, que serião perto de setecentas almas; e mais baptizara, se não que, por elle mesmo lhe escrever os nomes, não deo o tempo lugar, porem, mais farto da consolação interior // 1286 v.i que da satisfação corporal. Contava ho Irmão, alem de todas estas cousas, que, quando estavão tão quarecidos de todo o remedio umano, em aquellas tão remotas ilhas, que não tinhão mais que comer, que figos verdes, assados, lhe dava Nosso Senhor tanta saúde e consolação e alegria espiritual, sendo a terra muito doentia, que totalmente se confundião; e quando da fortaleza herão providos, com algumas (33) que, pera (32) O Irmão António Fernandes. (33) BACIL: algumas cousas... 2ÓÇ
  • prova da confiança e esperança, que so em Deus se deve ter, adoecião e se achavão mais dibilitados. Chegou também ho Irmão a hum lugar, onde ali o quiserão vender, e diante de seus olhos via levar os reca- dos a gente del-rei de Geilolo, que o pidia, e, a mea noite, por divina clemência, veio hum homem dizer aos imigos que tal não fizessem; e, dali a dous dias, chegou el-rei de Ternate, com portugueses, e asi foi tirado de manibus Caldeorum (34). Ai hi outra ilha, que se chama Varanura, junto destas terras, que sera de cento e setenta legoas, em redondo, onde muitos lugares pedem baptismo. Averem-se, charissimos Irmãos, todas estas gentes de multiplicar e baptizarem-se, seria cousa fácil, mas a difi- culdade que ha, he não aver operários, que os instruam e os conversem. Junto desta esta a Banda, onde ha a noz mosquada e a maça; e outras muitas terras e reinos que, totalmente, pareçem estarem esperando por quem lhe va dar a alegre nova de sua redenção; alguns destes, que dixe, com tanta instancia dezejão e pedem o baptismo que, dentro, a nao, estando pêra se partir, mandavão recado, que os fossem baptizar. Hora, charissimos, polas chagas e Paixão de Cristo, e polo amor de sua propria onrra, que tanto zelais, dei- xados os fervores de cartas e istimulos que se podem escre- ver, pera este mesmo efeito, pondereis que conta sera pi- dida, no dia do grão juizo, por Aquele Soberano e Sumo Bem, a quem servimos, a todos aquelles que disto tiverem noticia, sem lhe acodirem, com grande presteza he dili- gencia? E pois o officio apostolico e o nome delle anda tão unido nesta tão bendita congregação, olheis, reverendos (34) Cf. ler. 32, 4. 2 7 o
  • padres, e charissimos irmãos, que estas são as partes de sua herança. Parece que estes tesouros, de tantos tempos incognitos, que os não dilatou Deus, ate agora, senão pera ser cavado, buscado e achado, pelos que militão debaixo de sua bandeira. Deixai letras, desamparai ciências, inhabitai esta mul- tidão de collegios, onde ha tanto tempo, que vos estais criando, e vinde pregar a estes, com exemplo de vida, porque mais almas se converterão pelo minimo exemplo, que lhe derdes, de virtude, que por toda a eloquência e argumentos e questões solidas. Não digo que isto, asi qua, como em todas as outras partes, não seja bom, mas antes, mui necessário; mas que sejão as sciencias queridas em tal tempo, que não padeção as almas, que custarão o san- gue de Cristo, tanto detrimento. Oh irmãos, se cada dia ouvísseis dizer da China tem setecentas legoas de costa; Japões, seiscentas; São Lourenço, seiscentas e outros mui- tos reinos e impérios, que por qua ha, que paixão teríeis, não lhe poderdes valer?! A christandade dessa Europa, muitas religiões tem e muitos varões, de mui sanctidade e virtuosa vida, que podem conservar o que la he feito, pois ha tanto numero delles, por todos esses reinos da christandade. Estas partes, charissimos, são pera vos; qua se aqui- rem, em mui breve tempo, quilates de mui grande gloria e merecimentos; oito ou nove annos ha, que não vejo outra cousa senão chamarem as cartas, que de qua vão, que venhais a esta tão madura e desemperada vinha, colher o fructo de vossos trabalhos, e gozardes dos suaves gostos da crux de Jesus. E quando qua chegão algumas relíquias (35), o zelo da casa de Deus os consume e os gasta logo. Pelo amor de Jesus Cristo, que inclineis vossas (35) i- 6. alguns religiosos. 2 7 r %
  • orelhas ao amor destas almas, pidindo, continuoamente, ao Dador de todos os bens, que vos conceda, sendo sua gloria, parte destes trabalhos, porque inda que venhais a ora undécima, dito esta pelo Senhor: «comesai dos derra- deiros, ate os primeiros» (36). Ate o presente, isto he o que podemos saber. Quanto do Japão, este ano, não temos ainda novas, por se irem as naos pera a índia deste Malaqua, çedo, e a China não ter vindo. Se a Deus trouxer, e se puder negociar, far- -se-ha tudo. Nosso Senhor nos de asi mesmo, pera seu sancto ser- viço. Amen. De Malaqua, 18 de Novembro de 1556. Pobre de virtudes Baltezar Diaz (36) Cf. Matt. 20, 6. 272
  • 39 PARTE DE UMA CARTA DO IRMÃO AIRES BRANDAO Goa, 29 de Novembro de 1556 BAL: 49-IV-49. Fls. 54 r-59 v. (1) Carta escrita por obediência, para dar conta das cousas do colégio de Goa e do mais que se soubesse de outras missões, e que ainda não tivesse sido noticiado aos religiosos de Por- tugal. Está publicada em Documentação... (índia), Vol. VII, págs. 134-149. a) Malaca destinada a prover as cristandades do Japão e das Molucas. b) O Padre Baltasar Dias, escolhido para esta missão. Acabada a Coresma, quiz o Padre Antonio de Quadros despedir algum padre que residisse na cidade de Malaca, por ser muy necessário ali, para proveito do povo, como para que, com mais facilidade, se prover Japão e Ma- luquo, do necessário, por Malaca estar entre nos e elles, em meio do caminho, ou quasi, e onde as naos, que vão para Maluco da índia, vão ter; e para Japão partem dahi mesmo. Escolheo para este negocio ao Padre Balthezar Diaz, (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. I, fls. 329 v.-334 v. 1NIULÍND1A, II l8 27 3
  • ao qual mandou, asas contra vontade da gente desta ci- dade, porque antre elles era muito acepto, asi em suas pregações, como consolação. 274
  • 40 PARTE DE UMA CARTA DO GOVERNADOR FRANCISCO BARRETO A EL-REI D. JOÃO III Baçaim, 6 de Janeiro de 1557 ANTT: Gaveta iyç-28. Original em bom estado, constando de doze folhas, sendo onze escritas. Neste documento o governador responde a uma carta de el-rei para o Vice-Rei D. Pedro de Mascarenhas, então, já falecido. Nesta resposta Francisco Barreto dá conta de vá- rios assuntos sobre que o monarca desejava ser informado, dis- cordando de muitos pareceres e resoluções tomadas pelo vice-rei. Desta carta tomamos apenas o que diz respeito ao arrenda- mento das viagens para Malaca, encontrando-se publicada, na íntegra, em Documentação... (índia), Vol. VI. págs. 167-187. a) Condições em que D. Pedro de Mascarenhas desejava arrendar as viagens para Malaca. b) Tais condições seriam desastrosas para a fazenda de el-rei. c) Os confessores de D. Pedro desaprovam tal resolução. d) Francisco Barreto espera fazê-lo com mais proveito. Quanto ao que o Viso Rey Dom Pedro escreveo a Vossa Alteza, que tinha arrendado Malaqua, elle começou de tentar isso, e da maneira que elle concedia as condições aos rendeiros, baixo era o lanço, que escreveo a Vossa Alteza, que nella lançavam. E eu me afirmo que, com as
  • condições que o Viso Rey concedia, faça com pouco tra- balho dar a Vossa Alteza por ella cem mil pardaos. Mas, segundo o que parece, e assento que sobre isso tenho to- mado com theologos, Vossa Alteza o nam deve mandar, nem seus governadores consentir, sem seu especial man- dado, porque com conciencia o nam pode fazer. E quanto ao que toca a bem da fazenda de Vossa Alteza, direy eu, porque o entendo, se se Malaqua arren- dara com as condições que o Viso Rey dava, as quaes eram estas: que ninguém podesse naveguar pera aquellas partes, a saber, Timor, Patane, Peguu, Çunda, China, Sião, Iapam, e todas as mais partes do Sul, sem licença asynada pelos rendeiros; e se lhes concedera mais que toda a pimenta, calaytn, ouro de Monancabo, e outras certas fazendas, se tomassem as partes per hum certo preço; e que ninguém tratasse nellas, senam os mesmos rendeiros, com todas as mais liberdades, que lhes o viso- -rey dava, per que elles ficavam como governadores da- quellas partes; se isto asy passara, e o viso-rey com isto fora avante, lançava de todo a perder estas partes quaa, no r.i e a mesma terra laa, porque a ella // nam ouvera de ir nenhum mercador, nem naos, nem fazendas, senam de tudo, pela mão dos rendeiros. E como isto asy he, veja Vosa Alteza que rendimentos teriam as suas alfandeguas, e os homens como poderiam viver. Resultavam também daqui outros gastos e obrigações, muyto mores a vossa fazenda e Estado, que era que, tanto que Malaqua se assy arendasse, pela falta dos mercadores, que nella residem, e per que se ella segura e defende, era necessário residirem sempre quinhentos soldados nella; que paguos seus quartéis, sam vinte mil pardaos, cada anno, e pera suster as mesas, em terra tam cara, e mal provida de mantimentos, principalmente, entam, que laa nam fossem naos, avia mister outra gram copia de di- 276
  • nheiro, e ficavam asy os proveitos do arrendamento em perdas do povo, e risco da fortaleza, e o peor, encarre- gando seus governadores, athe o Vossa Alteza saber, suas consciências, em o consentir. E porque também, na verdade, o viso-rey nem foy com isto ao cabo, por seus confessores lhe irem a mão, e por ir entendendo que deserviços de Vossa Alteza este negocio trazia, nam arrendou, mas mandou Affonso Gentil, por vedor da fazenda, e que usasse estes tratos em nome de Vossa Alteza, nam tam largos como os dava aos ren- deiros. O qual Affonso Gentil faleceo, dahy a poucos dias que foy a Malaqua; e, a hora da sua morte, o nam absol- veram, sem tornar o que nisso tinha ganhado. E eu, por entender quam grossa cousa he Mallaqua, e poder dar algum tallo, per que a fazenda de Vossa Alteza recebesse algum proveito, segurando, porem, a conciencia, mandey laa, o anno passado, Fernam Gomes, criado de muyto tempo de Vossa Alteza, e de muytos serviços nesta terra, homem hábil e de muyta conciencia e experiência das fazendas e cousas daquellas partes, por vedor da fa- zenda de Mallaqua, com apontamentos meus daquellas cousas que entendy que me convinha saber, pera a poder arrendar por outra via, e nam pella que o viso-rey levara, porque nunqua por aquella me pareceo vosso serviço, e assi lho tinha dito muytas vezes. E sem // as condi- no rj ções do viso-rey, me davam, este anno, por ella, qua- renta mil pardaos; e eu, por esperar polias emformações do vedor da fazenda, que, agora, com ajuda de Deos, vi- raam, a nam arrendey, porque com ellas espero que me cheguem a sessenta mil pardaos, sem as condições do viso- -rey, como digo. E do que sobre isto assentar, escreverey a Vossa Alteza, porque, segundo as que tive, este anno passado, Mallaqua chegou a cincoenta mil pardaos, em tempo de Dom An- 277
  • tonio; e nisso tenho sabido que foy elle muyta parte. E como as naos de Mallaqua embora (i) chegarem, escre- very a Vossa Alteza mais larguo o que disso tenho enten- dido. Com esta mando também hum regimento, per que Vossa Alteza pode ver quanto tempo haa que se avia, por \osso serviço, tomar-se todo o trato aos mercadores; e como nam pode ser, Martim Affonso de Sousa, Gover- nador que foy destas partes, quando poos os direitos da alfandegua de Mallaqua, defendeo que se nam usassem destes costumes que estavam em lugar de direitos, e os levava ao senhor da terra, porque dois direitos numa alfandegua, hum por costume de mouros, e outro por nosso direito acostumado, mal se podem compadecer. E se se consentirem hum e dous annos, pelos outros em diante, se perderaa a terra e trato delia. E do mesmo Martim Affonso de Sousa pode Vossa Alteza saber se pode levar o bully-bullião (2), que he o nome destes direitos, que em Mallaqua pagavam jun- tamente com os direitos que elle poos na alfandegua. (1) i. é. em boa hora... (2) Expressão formada, certamente, do termo malaio belian. compra.
  • 41 BULA DE PAULO IV «PRO EXCELLENTI PROMINENTIA» Roma, 4 de Fevereiro do ano da Encarnação do Senhor de 1557 ANTT: Bulas, Maço 7, N." 25. Erecção da Diocese de Malaca. Paulus episcopus servus servorum Dei ad Per- petuam Rei Memoriam. Pro excellenti preeminentia sedis apostolice in qua, post beatum Petrum apostolorum Principem, mentis quam- quam imparibus, pari tamen auctoritate constituti sumus, dignum arbitramur in agro irriguo militantis Ecclesie, ubi potissimum novi cultores, evulsis vepribus et spinis, agram ipsum copioso semine ac fragibus letissimis fecun- dant, novas episcopales sedes et ecclesias plantare, ut per id novas plantationes popularis augeatur devotio, cultus divinus floreat, et animaram salus proveniat, ac loca in- signia, ea presertim, quorum incole, benedicente Domino, multiplicara noscuntur dignioribus titulis, et condignis fa- voribus illustrentur, ut propagatione nove sedis ac hono- rati presulis assistentia, et regimine cum apostolice aucto- ritatis amplitudine, et orthodoxe fidei augmento, populi ipsi prepositum eis eterne felicitatis premium valeant faci- lius adipisci. Sane cum oppidum Malachanensis, Goanensis diocesis, in Asiam versus Occidentem, et in regno Mala- chanense consistens ipsius regni caput, portuque et em- 279
  • porio insignibus ornatum ac celeberrimum, ubi mercatores Lusitani ac diversarum aliarum partium, pro conquirendis, convehendisque mercibus, copiose affluunt, a civitate Goa- nense usque adeo remotum sit, et christianorum multitudo, per gratiara Spiritus Sancti sic inibi coaluerit, ut Episcopus Goanensis, pro tempore existens, ad illud ejusque fines, citra periculum, transmeare, ac singulorum vultus, ut Episcopum decet, inspicere, aliasque partes boni pastoris in universum exercere nequeat; et postquam Portugallie et Algarbiorum Reges, vastíssima regna, províncias, insu- las, civitates, oppida, portus, et loca in illis partibus sum- mis viribus ac diuturnis et frequentibus bellis periculisque felicissime subegerunt, eorumque populos divini humani- que juris eatenus expertes, abactis inde tenebris sathane, ad fidem catholicam, extra quam nulla est salus, atque amabilissimum sancte matris ecclesiae gremium, assiduis sanctorum virorum concionibus, preceptis, exemplis et monitis alliciendos studiosissime curaverant, et a fide ipsa abhorentes, dum expediebat, vel salutaribus armis confu- derant, vel procul arcuerent, peculialiter dictam civitatem tanquam regiam suam et proregum suorum sedem ac dictam diocesem sumptuosis Dei templis, monasteriis, xe- nodochiis, et sacris locis necnon ministris ecclesiasticis locupletaverant et ornaverant, hisque rationibus, religio chnstiana eis in locis sic sensim longe lateque propagata sit ut, ad illos adhuc debilles in fide confirmandos reti- nedosque, novorum presulum constitutio omnino expe- diat; preterea, difficile reddatur, per tam latam tamque diffusam diocesem, ad unum tantum, pro justicia conse- quenda a personis ecclesiasticis et secularibus, recursum habere; nos qui hodie, ex certis tunc expressis causis, de fratrum nostrorum Consilio et assensu, ac de apostolice potestatis plenitudine, ecclesiam Goanensem eatenus suffra- ganeam ecclesias Ulixbonensis, ac dietas civitatem et dio- 2 8 o
  • cesem, necnon dilectos filios earum clerum et populum a província Ulixbonense, cui tunc metropolitico jure sube- rant, ac oppidum Cochinensem, cum provinciis insulis, et locis, olim dicte diocesis, per venerabilem fratrem nos- trum archiepiscopum Ulixbonensem cum consilio charis- simi in Christo filii nostri Sebastiani Portugallie et Algar- biorum Regis illustris specificandis, et certis limitibus dis- tinguendis ab eadem diocese Goanense, ita quod posthac, tres inibi dioceses existerent, perpetuo divisimus et sepa- ra vimus; illaque omnia ab Ulixbonense, necnon quoad le- gem diocesanam, dictum oppidum Cochinensem a Goanen- sium archiepiscoporum, pro tempore existentium, necnon dilectorum filiorum Ulixbonensium et Goanensium capitu- lorum ac prefatarum Ulixbonensium et Goanensium eccle- siarum respective superioritate, jurisdictione, potestate, subjectione, visitatione et correctione prorsus exemimus e libera vimus; ac ecclesiam Coanensem, certo tunc ex- presso modo pastoris solatio destitutam, in metropolitanam, et sedem episcopalem Goanensem in archiepiscopalem, archieepiscopalisque et metropolitanis presidis provintie sedem pro uno archiepiscopo Goanense nuncupando; nec- non oppidum Cochinensem prefatum in civitatem ac par- rochialem Sancte Crucis ejusdem oppidi Cochinensis in cathedralem ecclesiam, pro uno episcopo, qui archiepiscopo Goanense, pro tempore existenti, metropolitico jure su- besset, ereximus et instituimus. Ac ipsi ecclesie sancte Crucis sic in cathedralem ecclesiam erecte civitatem Co- chinensem pro sua civitate necnon unam ex dictis tribus distinguendis diocesis, cum provinciis insulis et locis, ut prefertur, specificandis, pro sua diocese ac civitatis et diocesis Cochinensis clerum et populum hujusmodi pro suis clero et populo concessimus et assignavimus, prout in diversis nostris, inde confectis litteris plenius continetur, dictum oppidum Malachanensem civili et episcopali titulo 281
  • - ac prelatione dignum judicantes, matura super hiis cum dictis fratribus deliberatione prehabita. Necnon prefato Sebastiano Rege instante et effícaciter postulante, de Con- silio et assensu ac potestatis plenitudine similibus, oppi- dum Malachanensem prefatum, cum provintiis insulis et locis predictis, ut premittitur, specificandis et distinguen- dis, ab eadem diocese Goanense, ita quod posthac, tres inibi dioceses existant, auctoritate apostólica perpetuo se- gregamus, dividimus, et separamus; illaque omnia a pro tempore existentis archiepiscopi et capitoli ac ecclesie Goa- nensis predictorum superioritate, jurisdictione, potestate, subjectione, visitatione, et correctione, similibus quoad ditam legem diocesanam prorsus eximinus, et liberamus. Necnon dictum oppidum Malachanensem in civitatem et parrochialem ecclesiam Annunciationis Beate Marie Vir- giliis ejusdem oppidi, per vicarium perpetuum, loco illius rectoris hactenus regi solitam in qua una perpetua viçaria pro dicto vicário et tria perpetua simplicia beneficia eccle- siastica portiones nuncupata, de jure patronatus prefati Sebastiani Regis existentia, pro tribus clericis inibi per- / petuis beneficiatis portionariis nuncupatis instituta sunt viçariam, cujus sexaginta et beneficia hujusmodi quorum cujuslibet triginta ducatorum auri de camera fructus redditus et proventus, secundum communem extimatio- nem valorem prejudicio illa obtinentium, penitus supri- mendo et extinguendo in cathedralem ecclesiam pro uno episcopo, qui inibi resideat; omniaque et singula, que ordinis, et jurisdictionis, ac cujuscunque alterius muneris episcopalis sunt, exerceat, et eidem archiepiscopo Goa- nense, pro tempore existenti jure metropolitico subsit, cum sede, et mensa episcopalibus, aliisque cathedralibus insi- gniis, ac in eadem ecclesia Malachanense unum decanatum post pontificalem maiorem, et unum archidiaconatum, ac unam cantoriam, et unam scolastriam, ac unam thesaura- 282
  • riam inferiores dignitates, necnon duodecim canonicatus, et duodecim prebendas pro uno decano, et uno archidia- cono, ac uno cantore, et uno thesaurario, ac uno scolastico, et duodecim canonicis, qui insimul capitulum faciant, etiam cum mensa capitulari, archa, sigillo, et alliis collegialibus insigniis dieta auctoritate erigimus, et instituimus, ac oppi- dum civitatis, et ecclesiam Malachanensem prefata cathe- dralis nomine titulo, et honore decoramus, necnon ipsi ecclesie Malachanense sic in cathedralem ecclesiam erecte, civitatem Malachanensem pro sua civitate, ac unam ex predictis tribus distinguendis diocesis, cum provinciis, in- sulis, et locis, ut prefertur specificandis, pro sua diocese, et illorum clerum, et populum pro suis clero, et populo perpetuo concedimus, et assignamus. Ac mense episcopal i Malachanense, unum mille, et decanatui alium centum, et unicuique ex ceteris dignitatibus alium septuaginta quin- que, ac singulis canonicatibus, et singulis prebendis pre- dictis pro eorum dote reliquum annuos redditus quinqua- ginta ducatorum similium ex dicte civitatis Malachanensis redditibus ad ipsum Sebastianum Regem spectantibus com- prehensis in eis redditibus vicarie, et supressorum hujus- modi, quos ipse Rex, ex proventibus hujusmodi vicário, et beneficiai tis prefatis persolvebat episcopo Malachanense, necnon decano, archidiacono, cantori, thesaurario, scolas- tico, singulisque canonicis, pro tempore existentibus, vel pro eis capitulari mense prefatis, per eundem Sebastianum et pro tempore existentem Regem, annis simgulis, integre persolvendos, similiter perpetuo aplicamus et appropria- mus. Ac ipsi Sebastiano et pro tempore existenti Regi jus patronatus, et presentandi personas idóneas ad ecclesiam Malachanensem Romano Pontífice similiter pro tempore existenti, intra annum, ob locorum distantiam, per eun- dem pontificem, in episcopum et pastorem illius, ad pre- sentationem hujusmodi preficiendum, necnon ad decana- 283
  • cum, et alias dignitates ac singulos canonicatus et sin- gulas prebendas predictos; etiam hac prima vice necnon ad omnia et singula alia beneficia ecclesiastica, cum cura et sine cura, que posthac in ipsis ecclesia civitate et dio- cese Malachanense canonice erigi, et per ipsum Regem, pro tempore existentem, fundari et dotari contigerit, quo- tiens ilia perpetuis futuris temporibus simul vel successive quibusvis modis et ex quorumcunque personis vacaverint, eidem episcopo Malachanensi, pro tempore existenti, simi- liter per eum ad presentationem hujusmodi instituendas, de simili consilio, dicta auctoritate, etiam perpetuo, reser- vamus et concedimus, decernentes jus patronatus hujus- modi Sebastiano et pro tempore existenti Regi prefato, ex meris fundatione et dotatione competere, nec illi, ullo unquam tempore, quacunque ratione, derogari posse. Et si ei quoquomodo derogaretur, derogationem hujusmodi, cum inde secutis, nullius roboris et efficacie fore, necnon irritum et inane, si secus super hiis a quoquam, quavis auctoritate, scienter vel ignoranter contigerit attemptari, non obstantibus constitutionibus et ordinationibus aposto- licis, ceterisque contrariis quibuscunque. Nulli ergo omnino hominum liceat hanc paginam nostre segregationis, divi- sionis, separationis, exemptionis, liberationis, erectionis, institutionis, decorationis, assignationis, aplicationis, apro- priationis, reservationis, concessionis, et decreti infringere vel ei ausu temerário contraire. Si quis autem hoc attemp- tare presumpserit, indignationem omnipotentis Dei ac bea- torum Petri et Pauli apostolorum ejus se noverit incur- surum. Datum Rome, apud Sanctum Petrum Anno Incar- nationis Dominice Millesimo quingentesimo quinquagesimo septimo, Pridie Nonas Februarii Pontificatus nostri Anno Tertio. 284.
  • 42 CARTA DO IRMAO PAULO GOMES AOS CONFRADES DE GOA Malaca, n de Novembro de 1557 BAL: 4Ç-IV-50. Fls. 178 r.-180 r. (1) Quer nesta cópia, quer na da BACIL, a reprodução da presente carta é clara e sem correcções. Entre uma e outra, apenas se notam insignificantes diferenças na ordem desta ou daquela palavra, e no uso de um ou outro sinónimo. a) Zelo do Padre Baltasar Dias. b) O seu apostolado em Malaca. c) Os Dominicanos escusam-se a pregar na Sé daquela cidade. d) Fruto das pregações do Padre Baltasar. e) Chegam a Malaca, e partem para as Molucas, os religiosos desti- nados àquelas missões. Jesus, Maria. A graça e amor do Espirito Santo, consolador, seja em continuo favor e ajuda nossa. Amen. Charissimos padres e irmãos. Despois que desta terra partio o Padre Mestre Belchior, com os mais irmãos, que em sua companhia da China vie- (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 23 r.-24 v. 28S
  • rão, dos quais saberão as novas que ate então nesta terra avia, veyo logo aqui ter o Padre Frei Gaspar, que de Cam- (178 v.i boja // foi ter a China. Ordenou logo o Padre Vigário que pregasse elle e o Pa- dre Frey Francisco, e assi o nosso Padre Baltasar Diaz; todos de maneira que pregava cada hum seu dominguo, pregando elles dous dominguos e o padre hum. E isto por espaço de hum mes, pouco mais ou menos. E como quer que neste oomenos entrássemos loguo em a Septuagessima, fizerão os irmãos da Misericórdia cabido, acerqua de quem avia de pregar na Misericórdia, e assen- tarão todos, tirando huma voz, que pregasse o nosso padre, de maneira que lhe vierão falar, para que fosse pregar a Misericórdia. E como quer que elle esta sempre aparelhado para as semelhantes cousas, lhes disse que si, pregaria. E pre- gando elle na Misericórdia, de que algum tanto os padres de S. Domingos se agravarão, mas tudo se pacificou bem, de maneira que pregou o padre na Misericórdia, todas as quartas feiras da Quaresma, acudindo-lhe, sempre a mor parte da gente, que nesta terra avia. E aconteceo não que- rerem hir os padres de S. Domingos pregar a Se, e ficou o padre pregando, todos os domingos, na See, como ainda agora prega. E assi pregava todos os dominguos, a tarde, aqui em Nossa Senhora do Monte, a materia de como se avião de confessar, acudindo-lhe sempre muita gente, assim homens, como molheres; e desta materia pregou, o padre, toda a Quoresma, os dominguos, a tarde. E como quer que nesta terra, por causa da guerra, se não acustumava apregar a Paixão, polias Endoenças, porque, em seme- lhantes dias, commumente, se espera aqui, sempre, por reboliço da guerra, detriminou o padre de pregar a Pai- xão, todos as sestas feiras da Quaresma, a paços, de que, bendito Deos, se fez muito fruito, porque era a gente tanta 286
  • na igreja que erão de muita admiração, principalmente molheres, assi casadas, como das da terra, de maneira que se enchia todo o corpo da igreja de molheres, ficando algu- mas de fora, por não poderem entrar; e os homens fora, no alpendre. Era a grita e o choro tamanho que era muito para se louvar a Deos, por ser nesta (terra, pola boa fama que ella) (2) ate agora tem; acodindo também muitos homens com disciplinas, assi casados como solteyros, que se aiun- tavão mui perto de trinta ou quarenta, e isto, dentro na capella, porque não consentia o padre que fossem elles fora, por caso da gentilidade que ha nesta terra. E a esta disciplina vem ainda alguns a toma-la, depois da Qua- resma, casi todas as sestas feiras, e alguns dias da somana, ate o escrever desta. E era o cuidado tamanho, que elles tinhão, de man- darem as isteiras à igrejas (sic), por terem lugar certo para a pregação, que ha quinta feira estavão algumas his- teyras para a cesta, e algumas ficavão já ali, de quarta feira, de maneira que, quando vinha a sesta feira, pola manhã, a igreja estava toda histeirada, tornando muitos as histeiras para casa, por não ter lugar. E quando vinhão as christãazinhas da terra, achavão a igreja toda isteirada, e assentavãosse nellas, por virem mais cedo que as // outras. E quando as outras vinhão, 1179 r.] algumas delias não achavão lugares, de maneira que se assentavão no alpendre, algumas de mantos (3), por não poderem entrar, por causa da muyta gente que vinha. E isto poios primeyros dias, porque, depois, tomavam ellas (2) Nesta passagem algumas palavras encontram-se comidas pela tinta; as palavras em itálico e entre parêntese são da BACIL. (3) Algumas de mantos, i. é. algumas pessoas principais, pois os panos indígenas, usados a modos de manto, eram sinal de grandeza e distinção, como ainda hoje. 287
  • por partido virem mais cedo que as outras, ainda que pa- descião grande trabalho, assi por estarem tanto espacio vestidas, como pola grandíssima calma que na igreja fazia, polia muita gente que nella avia. Escrevo, charissimos, estas particularidades, para que daqui possão collegir o que por pena se não pode escrever. E o padre, todas as cestas feiras, mostrava de vulto o paço da Paixão de que pregava; e era o esbofetear, e descabelar que ellas fazião, com tantas lagrimas e choro, que durava hum bom espaço, depois que o padre acabava de pregar, e chorando também, por muitas vezes, estando o padre no púlpito, que quasi o não ouvião, e era-lhe necessário faze-las, por algumas vezes, calar. E quando se acabava a pregação, algumas com ase- dentes, que era necessário levarem-nas a palanquim para suas casas. Em verdade, charissimos, que era cousa para muito o Senhor ser louvado, e que fazia muyto espanto, assi os desta terra, como a alguns que dessas partes aqui enver- narão; e era o espanto tão grandíssimo que elles tinhão de ouvir as oousas que Christo padecera, porque as mais delias não tinhão ouvido pregar da Paixão, que lhe não posso encarecer. E hum homem casado desta terra, veio dizer ao padre que lhe perguntara a molher, muito espan- tada, se aquelas cousas todas, que o padre dizia, se pade- cera Christo; pois esta era, charissimos, das honrradas e filhas de portugeses. Que farão as outras, se esta isto per- guntava? Uma das sestas feiras, pregando o padre acerqua dos peccados e tamanho (4) mal fazia, que fora necessário pa- decer Christo, se alevantou huma molher da terra, viuva, e em altas vozes disse, estando o padre pregando, que ella (4) BACIL: quamanho mal... 288
  • era peccadora, e que por seus peccados padescera Christo, pedindo a Nosso Senhor, em altas vozes, perdão delles, cousa, por certo, de muita confusão; e saindo as chris- tãazinhas, hião falando, humas com as outras, acerqua daquilo que pregara o padre, e isto com grandes espantos. E nestas pregaçõis das sestas feiras tinha o padre tal maneira que sempre acabava a Sol posto, antes das Ave Marias, de maneira que ficou o padre pregando toda a Quaresma, quatro vezes na somana, e as vezes, pregava cinquo, por causa de algumas festas que na Coresma vi- nhão, e confessava também muita gente, que a elle vinha que a confessasse, posto que lhe era muito trabalhosa, por causa do pouco tempo que lhe ficava para estudar. Mas, contudo isto, sempre se achou, // Deos seja louvado, bem U79 v., desposto. 4ssi que nisto se exercitava, trabalhando também, jun- tamente, por tirar ocasiões de peccados, assi como caso de Joges e amancebados, e por fazer amizades, e outras seme- lhantes obras, e yndo também com os padecentes, que aqui padecem, confessando-os e consolando-os, e vay tam- bém visitar os prezos e enfermos, assi os do hospital, como os outros, que em suas casas estão, fazendo-os confessar. E assi também fez com que fossem as molheres em as por- cissõis, principalmente em aquellas em que vay o Santís- simo Sacramento e na das Endoenças, não lhe custando isto pouco trabalho, porque o não avião quaa por custume. Certo, charissimos, que fazia muita devação a todos, o Senhor seja louvado. E presigindo o padre com as preguaçõis dos domin- guos, a tarde, depois da Pascoa, pregou loguo da Resur- reição de Christo e dos aparecimentos que fez, e desta maneira pregou todos os dominguos, a tarde, da Pascoa, ate o Penthecoste, acodindo-lhe, sempre, muita gente. E estas pregaçõis fazia o padre quaa, em Nossa Senhora do 2 8 ç IMULÍNDIA, II — 19
  • Monte; e depois do Pentecosthe, determinou logo de que- rer pregar do Espirito Sancto, como, de feito, pregou, ate que vierão os padres que para Maluco forão, e com a che- gada da India, e com os muitos negocios que socederão, não pode levar avante as pregaçõis. E o padre vay algumas vezes pola cidade tangendo a campainha, e ensina a doutrina aos meninos, principal- mente aos dominguos e santos, e acabando de se dizer a doutrina, faz huma pratiqua aos escravos e escravas dos portugueses, vindo também alguns homens casados desta terra, com suas molheres, decrarando-lhes os Artiguos da Fee e os Mandamentos. E esta doutrina faz quaa o padre, em Nossa Senhora do Monte, assi os dominguos, como os outros dias da somana, porque, dantes, a fazião la em baixo, na see. Aqui nesta terra confessãosse muytos e comungão a meudo, assi em São Dominguos com em as outras igrejas, principalmente aqui, em Nossa Senhora, com o padre: assi casados com suas molheres, como solteiros; huns, cada mes; e outros, cada quinze dias; e outros, cada oito dias. Principalmente se confessarão quasi todos, para rece- berem o jubileo, que aqui nesta terra se pubricou; con- fessarãosse muitos e comungarão aqui, em Nossa Senhora, porque, neste comenos, estavão aqui os padres, que para Maluco forão, que todos ajudarão ao padre a confessa-los. O padre Francisco Vieira, com os mais, que de laa vierão, chegarão aqui a dezanove de Junho, e estiverão aqui, ate dez de Agosto; foi o dia que daqui partirão. E forão daqui algum tanto desconsolados, por terem roins novas de Maluquo, e não saberem a certeza delas, por- ti8o r.] que, //ao tempo que de quaa partirão, não era a nao de Maluquo chegada. Não lhes escrevo mais novas deles, por- que me paresce que elles o farão. A nao de Maluco, em que veio o Irmão Belchior de 2 9 o
  • Figueiredo, chegou aqui a onze de Setembro, muyto tarde, e a tempo que quasi estávamos desconfiados de ella poder quaa vir a tempo que veyo. La vay o irmão, que lhes dara muitas novas de Maluquo, dos muytos fervores que laa ha, com esperanças dos padres, e assi lhes dara algumas desta terra, posto que nella esteve pouquo. Deste collegio de Malaqua, donde ficamos rogando a Nosso Senhor nos acabe, a todos, em seu santo amor e serviço. Aos honze dias de Novembro de 1557 annos. Por comissão do Padre Baltasar Dias Paulo Guomez 2 ç 1 >
  • 43 PARTE DE UMA CARTA DO IRMÃO LUIS FRÓIS Goa, 30 de Novembro de 1557 BAL: jç-IV-JÇ. Fls. q8 r.-io8 r. (1) Nesta carta geral relatam-se os jactos concernentes à obra da evangelização, desde as últimas noticias enviadas no ano anterior. Dela extraúnos as referências às Molucas. Encontra-se publicada, na íntegra, em Documentação... (índia). Vol. VI. págs. 327-357. a) O Padre João da Beira e o Irmão Nicolau Nunes chegados a Goa, a pedir gente para as cristandades das Molucas. b) Diversos lugares naquelas ilhas, onde os religiosos da Companhia trabalham. De Maluquo veyo, este anno, o Padre João da Beira e o Irmão Nicolau Nunez, pedir gente, polia muyta falta que Ia avia de obreyros, e grande numero de gentes que quere receber a fee, como largamente verão por huma carta que vay por tres vias, que se escreveo em Malaqua, na qual, particularmente, conta todas as cousas de Ma- luco, conforme as informações do Irmão Nicolau Nunez, que la andou dez annos; ao qual aqui ordenarão logo em (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 1 r.-i3 r. 2 Q 2
  • Goa, por saber bem as lingoas daquellas partes, e outro padre, que se chama Antonio Fernandez, e o Padre Fran- cisco Vieira, ora superior daquella província, com tres irmãos com elles, a saber: Fernão do Souro, Balthezar de Araujo, Simão da Vera, com o Padre Afonso de Cas- tro, que la estava ja, e Manoel de Tavora e Belchior de Figueyredo, que são, todos os de Maluquo, nove. O Padre Afonso de Castro e Antonyo Fernandez, com hum irmão ou dous, pera fiquarem com a christandade de Amboino, aonde ha perto de quinze ou vinte mil almas cristãs, sem nenhuma pessoa que os doutrine, e ate agora perecerão. Morão estes, os mais delles, por serras muy sitas, e por penedos muy Íngremes, entanto, que apenas se pode subir em gatinhas por ellas, apeguados com os pees e mãos, e vivem em lapas, como animais, pollo te- mor que tem dos mouros salteadores, que andão pollo pee das serras tirenizando aos pobres christãoszinhos desem- parados de todo o socorro e todo o favor humano, e mui- tas vezes acontece, soomente, por serem christãos, os ma- tão os mouros e fazem em postas. Agora, com aquella ajuda de dous padres e dous irmãos, se ão muito de ani- mar e corroborar na fee. O padre Nicolao Nunes a-de andar no Moro com outros dous irmãos, porque sabe (como digo) as lingoas daquellas ilhas, onde ha passante de vinte mil almas christãs, em corenta e sete lugares. Vede, charissimos, pollo amor de Deos, ho como se poderá acudir a tanto numero de chris- tãos, com tão pouqua gente? Em a fortaleza de Maluquo a-de residir o Padre Fran- cisco Vieira, para dali prover aos outros, com sagu, para comerem, e com alguma cousa de suas necessidades, quando vay a India, que he de anno em anno. 29 3
  • 44 CARTA DO IRMÃO FERNAO DO SOURO AO PADRE FRANCISCO VIEIRA Tolo, i de Janeiro de 1558 BACIL: Cartas do Japão, Vol. 11. Fls. 47 r.-48 v. (1) Esta carta, na cópia da BAL, encontra-se ilegível em mui- tas passagens, devido a uma grande mancha de água que dani- ficou um grande número de folhas. Utilizamo-nos, por isso, da cópia inserta no código da BACIL, clara e sem correcções. a) Noticias que chegaram a Bachão da prisão do rei de Ternate. b) Alusão à morte do Padre Afonso de Castro. c) Constância do rei de Bachão na fé, e sua fidelidade aos portu- gueses. d) Os naturais desta ilha mostram-se ainda receosos do irmão reli- gioso. «) Quinze baptismos administrados. /) Pouco tem podido fazer, por várias razões. g) Muitas vezes pensou, então, em regressar a Ternate, ao que o rei se tem oposto. h) Privações que tem passado e doença que o tem afligido. i) Pede instruções e licença para baptizar e pregar. ;') Elogio do rei de Bachão, que se negou a atraiçoar os portugueses, tendo sido para isso solicitado pelo rei de Ternate. Charissimo Padre. Muytos dias ha que tinha escrito a Vossa Reverencia, (1) BAL: 49-IV-49, fls. 304 r.-305 v. 2Ç 4
  • mas nunca foy de qua cousa alguma pera la, porque cada dia estávamos pera ir pera la, senão quando nos forão dar novas da presa deste rey. Determinou, este nosso rey, de mandar saber o que era, donde foy este mesmo portador em huma cora-cora, pera saber as novas, onde chegou a Maquim (sic), onde lhe correrão a pioguada. Quis Deos que o não tomarão, onde trouxe as novas certas do Padre Afonso, como era morto. Consolado foy no Senhor, por ver que hum dos nossos, dos de Maluco, estava ia com Deos, e o tempo aparelhado pera, os que agora vieram, o mesmo alcançarem. Tanto que estas novas chegaram, aiuntou-se muyta gente com el-rey, onde lhe fiz huma fala perante todos, a qual não escrevo (2). E confesso a Vossa Reverencia que não foy com pouco animo, e foram cousas de Deos, e também das guerras; elle sempre se mostrou esforçado, e bom christão, posto que também lhe disseram que vinham sobre elle muytas cora-coras, pera o destruir, ou fazer tor- nar mouro, onde elle mostrou grande animo. E bom chris- tão como digo, porque alguns lhe perguntaram que, se morressem os portugueses, que avia de fazer, e elle lhe respondeo, que se fossem mortos, que elles afiassem suas espadas e o viessem matar, porque elle avia de morrer christão. E isto passava la com os seos, e logo se fez prestes com sua gente, e espera cada dia por elles, ate gora que nos vierão estas boas novas, e chegarão vespora do Natal», onde foy tanto o contentamento que tivemos, que não a sey dizer, pois o nosso rey não cabia em si. EUe faz-se prestes pera fazer a guerra, porque eu ey-de ii com elle nesta iornada, a dar San Tiago, porque elle sempre diz «nome de Jesu». Muytas cousas tenho passadas com elle, e sempre o (2) As palavras: a qual não escrevo estão escritas na entrelinha, com letra diferente. 29 5
  • acho de huma maneira, porem ainda não tenho feito nada, nem casa, nem igreia, mas, porem, não se pode mais fazer, porque vim em tempo que logo socederam huuns trabalhos todos grandes, por onde eu bem veio que se não pode mais fazer. E também digo a Vossa Reverencia que o fruyto nesta terra quebra muy asinha; parece-me que quem quer que aqui estiver, que a-de ter a arte do nosso Irmão Fran- cisco (3), porque doutra maneira não fara nada. Parece-me que neste lugar avera trezentos meninos, 147 t.] mas ainda agora hão medo // de mim, se não vou pouco (sic), assi para que não ajam medo. Nos grandes não faço ainda, ate gora, nada; somente falar com elles, para os conhecer e, ate gora, não tenho feito mais que quinze cristãos, per duas vezes; os pri- meiros, que forão quatro, pus nome Francisco; agora offreça-os Vossa Reverencia a Deos, pois forão feitos em seu nome. Os outros onze, forão feitos em dia de S. Thome, aos quais pus nome Thome; os mais erão minings Fm me quisera ir, pera me confessar, e também para enformar a Vossa Reverencia do que qua passa, mas el-rei não quis, porque me não acontecesse algum de- sastre. Eu, por não fazer nada, me quisera ir desta terra; esta tão cara como Tarnate, porque se não acha nada para comer; apenas se acha saguu; os meus pescadores não pescão, com medo, e mais estão qua contra sua vontade, porque são homens que são acostumados a levar boa vida e comer e beber tuaqua muito bem. Agora acham-se sem nada, porque eu passo qua as vezes com bredos e na terra não ha nada, porque depois que vim, nem figos achei, nem fruta nenhuma; quando qua achamos algum peixe, (3) A seguir ao nome Francisco encontra-se riscada a palavra Enes, que se lê claramente na cópia da BAL. 2 ç 6
  • que he tão poucas vezes, he tão caro como dentro em Tarnate. La mando huma jarra de azeite para a candea, por me parecer que avera la necessidade delle, e mais hum pouco de peixe seco, e mais outras poucas de sardinhas, porque agora não poderão pescar, e tudo me custou dous belha- rinis (4), os quais dara Vossa Reverencia a esse portador, que se chama Thome Vaz; faça-lhe Vossa Reverencia muito gasalhado, porque me faz qua muitas charidades. Ca me saio huma comichão polias pernas, as vezes se vai; as vezes, torna; ca andei huns não sei quantos dias com febre; não sei ainda se estou com ella; ca folgara com a lanceta, para me sangrar, se for necessário; também folgara com o modo de baptizar, em lingoagem, em meio quarto de papel, para meter entre as folhas doutro livro, para fazer gente (sic), porque estes negros olham para tudo, e declare-me tudo o que posso fazer acerca do sal c da candea e de tudo, porque eu estava posto em não baptizar, mas foi-me forçado, por me pedir el-rei que baptizasse, porque escusava-me com o padre que avia de vir, mas agora he necessário faze-lo, e por isso mande-me Vossa Reverencia. O lugar para fazermos a ygreja e casa he tomado o milhor que ha na terra, porque tem muitas palmeiras; a igreja não se pode fazer, senão depois que el-rei vier de Tarnate, que não sei quando poderá la ir, polias poucas cora-coras que tem, e por esta causa me quisera ir, mas (4) Não conseguimos descobrir a origem desta palavra, a não ser que se trate de um dos termos orientais, bertangil, ou brigalim, fonè- ticamente evoluídos, ou alterados pelo copista. O primeiro designa um tecido de algodão, fabricado em Cambaia; e o segundo, aquela peça do traje oriental, com que se cobrem da cinta para baixo, com vários nomes, conforme os lugares e a qualidade do tecido. Em Timor chamam-lhe lipa ou sarong, vocábulos de etimologia malaia. 297
  • elle não quis. Mande-me Vossa Reverencia dizer o que farei. Agora, cora a chegada destes cristãos, que no outro lugar estavão, determino de fazer praticas sobre as ora- çõis, porque os mais sabem falar portuges. Se Vossa Reve- rencia determina de eu estar nesta terra, a-me de dar que falle, porque não ha quem falle; hum christão malavar, por nome Anrrique Botelho, ou Francisco Botelho, me disse que me daria hum seu filho, que la estava em Ternate, e que sabe ler e escrever; fale Vossa Reverencia com elle e mande-mo, porque estou agora ca como pão (sic), por- que Thome Vaz não he senão para os domingos, quando (48 r.i não tiver que fazer. // Eu muito desejo de me ver com Vossa Reverencia, para o enformar das cousas de ca: esta terra he fria, chove muitas vezes, e, as vezes, se alagão as casas, que estão baixas; faz tam grande orvalho que parece que chove. Soia a ser que morria aqui muita gente, e agora, depois que se fizerão christãos, nom morre ninguém e, se mor- rem, são mouros, por onde os poem em grande espanto. Este lugar he muito fresco, que tudo he mato; ainda ate agora não vi cousa, que ouvesse no mato, que fosse para lançar mão; depois que vim, não comi mais de tres figos e, por isso, tudo o que me Vossa Reverencia man- dou, me foi dado e veio a muito bom tempo. Quanto ao que me Vossa Reverencia diz, que me con- forme da fazenda que deu o nosso rei aos de Tarnate, nam me espantei, porque os negocios passão caa de outra ma- neira que la não sabem, que são mui deferentes; mais me espantei, quando vi que se nam deu elle mesmo, que tão travada estava a cousa, e por isso este nosso rei se chama Dom Joam, por graça de Deos rei de Bachão. mais no- vas, quando for as darei, porque não se podem escrever. Ainda ate gora não tenho insinado a ningem a oração; 2 ç 8
  • aqui começarão a vir ver-me; comecei a insinar a oração, e nunqua mais quiserão tornar; sempre falo com el-rei; elle mostra contentamento, quando lhe falo algumas cou- sas de Deos; grandes praticas tivemos ca, com elle, em hum banquete, que lhe derão, porque fuy chamado de sua parte, para elle; assi que digo a Vossa Reverencia que me vou metendo com elles pouco, para que não ajão medo; faço-me agora a sua cara, pera depois os fazer a nossa, porque me parece que tudo he necessário. Não tenho mais que escrever, somente que tenha Vossa Re- \erencia lembrança de mim, e bem creio que nam es- queço (sic). As principais novas me esquecião. Por estas sabera Vossa Reverencia que homem he este rey. Depois de eu estar qua, e antes que viesse, recebeu, este nosso rey, quatro ou cinquo cartas desse, que agora esta preso, em que lhe tornou todo seu fato, que lhe tinha tomado, e muito mais, que se fizesse mouro, e que matassem os portugeses, porque elle queria tomar a fortaleza, e matar todos os portugeses, porque ja tinha falado com os gan- gas e que fazia tres cora-coras grandes, para fazer-se amigo del-rei, para matar os portugeses que para aca viessem. Juntamente lhe mandou com as cartas hum bom pe- daço douro, e elle lhe respondeo que não avia mester seu ouro, que ja era mui rico, e que avia de morrer cristão, e que avia de ser da banda dos cristãos e que, quando elle tomasse a fortaleza e matasse os portugese, que tam- bém se fezesse prestes para o matar. Todas as cartas tem, para as mostrar ao capitão e outras cousas muitas, que não escrçvo. Por certo, padre, que me parece que he o tempo che- gado, para não ficarem imagens, nem as do briviario; e por isso não de Vossa Reverencia nenhuma a ningem, porque temos para nos que agora se ão-de fazer todos 299
  • christãos, porque este nosso rei tem proposito de fazer estas ilhas todas cristãs. Ca fiz fazer grandes cruzes: huma a porta del-rei, num campo; e outra, na entrada do lugar; e outra, no cabo do rio; a el-rei, por bons meios, dei huma feita por minha mão, para ter dentro de sua casa, e disse-lhe que duas vezes: huma, pella manhã, e outra, a noite, se pu- sesse // de giolhos e que dissesse: «Senhor Jeshu Christo, conformai-me em vossa graça, que são peccador», com as mão alevantadas. Pouco a pouco, imos fazendo o que nos o tempo da lugar. Feita oje, dia de Jesus, de 1558. Indigno filho de Vossa Reverencia Fernão do Souro 300
  • 45 OUTRA CARTA DO IRMÃO FERNÃO DO SOURO AO PADRE FRANCISCO VIEIRA Molucas, 8 de Janeiro de 1558 BACIL: Cartas do Japão, Vol. II. Fls. 48 V.-49 r. (1) Na cópia da BAL esta carta foi atingida também pela grande mancha de água, que fez desbotar a tinta, tornando impossível a leitura de muitas passagens. Servimo-nos, Por isso, da cópia que vem na BACIL. Quer seja por defeito do original, quer por falta do copista, a redacção desta, em certas partes, é pouco clara, percebendo-se, apesar de tudo, o sentido. a) El-rei de Bachão, depois de algumas hesitações, autoriza a colo- cação de uma cruz em lugar público. b) Descrição desta cerimónia, em que o mesmo rei tomou parte. c) Ordem sua, para que todos respeitem e venerem esta cruz. Charissimo Padre. São tantas as cousas que cada dia me socedem que as uão posso escrever, porque o demonio esta nesta terra tão arreigado que não hay remedio para o lançar fora, por onde me parece que, pois elle tanto lhe pesa, que grande fruto se a-de fazer. Isto digo, porque ha muitos (1) BAL: 49-IV-49. fls. 305 V.-306 r. 3 o r
  • dias que tenho pedido a Sua Alteza que mande fazer humas cruzes, e nunca o poz por obra, ate vespora dos Reis, que foi polia manhãa cedo, me fuy pelo rio asima lesando, onde encontrei (sic) com Sua Alteza. Elie me perguntou polias cruzes, onde lhe disse muitas cousas, por asenos, ate vir hum homem em que faliava malayo, entre as quais lhe disse que Sua Alteza queria grandes honras, e que não queria cruzes, nem queria ouvir muitas palavras. E elle logo me deo dous carpinteiros, pera fazer a cruz, e me disse que aquella noite sonhara que lhe apa- recera hum mancebo com huma caixinha, na qual trazia huma cruzinha pequena, e que lhe dizia que tomase aquella cruz, que avia-de ser grande homem. Sobre isto falamos muitas cousas. Dia dos Reis, polia menhãa, se aiuntarão aqui, em huma ramada grande, por não se poder fazer a igreja, muitos cristãos de Tarnate, com suas molheres, e mais os portugueses com suas molheres, e el-rey com os seus mais principais, pera levarem a cruz onde se avia de por; tinha feito hum altar com a cruz que de la trouxe; tudo enramado e ajuncado. Fiz huma pregação sobre os Reis, e, então, comecei a dizer as ladainhas em joelhos todos e Sua Alteza. Entonces, me levantei e dei ordem como se levasse el-rei; e, então, logo os principais, muito quietos, eu rezando as ladainhas, digo, cantando em alta voz, ate aquele lugar, onde se avia de por. El-Rey logo fez hum poyal no pee da cruz e, depois de acabada, se assentarão todos de giolhos e eu rezando huma oração. Crea Vossa Reverencia que foi com tanta devação que quasi me fez chorar e todos forão muy consolados. El-rei disse a sua gente que, so pena de lhes mandar cortar a cabeça, que todos, polia menhãa, pusessem os giolhos no chão a cruz e levantassem as mãos e que ainda que não soubessem mais, que Deos os ouviria e também 302
  • lhe pedi reis (2), porque os príncipes fazião grandes mer- ces naquele dia. Elie me disse que tudo me daria que lhe pedisse; que, se fosse fato, logo mandaria dar. E eu lhe pedi que me desse pao para fazer duas cruzes e que mandasse a sua gente que aqueles que // tinhão mininos e molheres que 149 r.) os trouxessem, para os fazer christãos e que mandasse que me trouxessem os mininos, para os insinar; e que Sua Alteza viesse aos domingos a igreja com todos os seus. Elie folgou muito e me disse que si e também lhe pedi hum sino, para tanger aos domingos e dar as Ave Marias. Não tenho outro remedio para trazer estes mininos, por- que ão grande medo desta loba preta, senão com lhe dar de almoçar huma casca de saguu. Affago-os, e assi, desta maneira, me hei com elles e despois os virei açoutar: Outras cousas muitas poderá asas escrever, mas ey medo de enfadar. Feita oje, 8 do mes de Janeiro de 155®- De seu indigno filho Fernão do Souto (2) Conforme o uso de certas terras, em que, dia de Reis. se pedem e dão presentes. 303
  • 46 CARTA DO PADRE NICOLAU NUNES AO PADRE FRANCISCO VIEIRA Tolo, 5 de Fevereiro de 1558 BACIL: Cartas do Japão, Vol. II. Fls. 4Q r.-4ç v. Carta em que as noticias são dadas também, sumariamente, e da qual se depreende bem, como era difícil e arriscada a acção missionaria naquelas cristandades, com os religiosos dis- persos por vários pontos, incomunicáveis entre si, podendo movimentar-se, apenas, em transportes marítimos ocasionais ou expostos aos assaltos do gentio. O Códice da BAL não insere a cópia desta carta. a) Trabalhos sofridos no mar. * b) Portugueses mortos e muita gente ferida. c) Necessidade e privações em que se encontravam. d) Vinho e farinha para o culto. Muitas tenho escrito a Vossa Reverencia, sem ver re- posta (1). Bem sei que meus pecados forão causa, assi como também o forão de não chegarmos la; arribamos ao Tolo. La escrevi a Vossa Reverencia, como tinha escrito ao Padre Antonio Fernandez, que nos ajuntássemos. Nos nos ajuntamos aqui no Tolo, e daqui nos fomos com Baltasar Veloso ao Morotay, a Saquita, ao junco do capitão. Acha- mo-lo ja carregado e prestes; viemos nelle ter onde estava a nao de Baltasar Veloso; ay nos detivemos alguns dias, ate que veio a armada de la, para tomar o junquo, e pele- (1) O Padre Francisco Vieira encontra va-se em Terna te, para onde era enviada esta carta. 3 04
  • jarão mui fortemente muito com elle. E quis Nosso Se- nhor que os nossos fizerão muita matança nos mouros e logo os alargarem, com morrerem dos nossos tres purtu- geses e alguma outra gente, e feridos estavão, neste co- menos, mais de metade dos purtugeses. em terra, com Baltasar Veloso. Logo nos embarcamos todos nas cara-coras, junquo e no navio pequeno, que qua fez Baltasar Veloso. E em nos partindo, deu outra vez a armada com nosquo, em que nos fez algum estorvo. Andamos as voltas para dobrarmos huma ponta; ja por nossos peccados, nunqua podemos, por aqui não yr ningem que saiba navegar; fugirão-nos algumas cora-coras nossas para o Tolo, e hum navio de Baltasar Veloso veio-se ao Tolo; e a armada atras de nos, e anda ainda aqui ladrando, sem nos poder empecer. Baltasar Veloso determina de se não ir, nem pode, salvo se lhe de la vier artelharia, polvora, e quem sayba man- dar // este navio, que he Gonçalo 1 de Oliveira, que la [49 v.] esta. Vossa Reverencia crea que não ha outro remé- dio, por isso ajude la com que isto se faça, e seja cedo. Com esta vay huma carta para o capitão; vay aberta, para que veja Vossa Reverencia. A terra do Moratay esta algum tanto desinquieta; o lugar, onde estava o padre, deitou-se com os tarnates e outros lugarinhos; o padre não pode trazer o fato todo, quando se veyo; vemos pouco remedio para nos irmos; não a polvora nem artelharia, para nos podermos ir; dos portugueses que de la vierão são mortos seis na gerra e de doença; se de la vier alguma cousa, mande-nos Vossa Reverencia, se lhe parecer, algu- mas mezinhas para os sarados e para as febres dos doen- tes; eu tenho que a guerra a-de durar muito, se não vem socorro; o padre esta bom, o irmão esta com febre e com 1 — Glo. 305 INSILÍNDIA, II — 20 h.
  • poucos remédios, por não aver ca conservas nem nada de doentes; se de la puder partir (2) comnosco, não deixe de o fazer. Saber a Vossa Reverencia que o vinho do padre se da- nou; eu tenho um pouco, em um frasco, de que nos pro- vimos para as missas, e farinha ja muito pouca; em todo o modo, nos mande Vossa Reverencia farinha e vinho para as missas, ou trigo, que ca a pedra. Dizião ca os purtugeses que, se el-rei de Geilolo desse refens la na fortaleza, que poderião yr por sua terra, mas eu digo que, se nos de la vier hum falcão, com berços e polvora, que melhor iríamos em nossas embarcaçõis, com alguns mantimentos. Isto lembro a Vossa Reverencia, para que nos ajude de la a dar algum remedio, para nos salvarmos. O Padre Afonso levava muitos livros, hum retavolo, mui rico, e hum crucifixo do Padre São Francisco, e huma vestimenta sua, hum calis, com outras cousas que esque- cem, das quais todas eu faço pouca conta. Não sei que mais lhe escreva do muito que tinha para lhe escrever; somente pedir-lhe que nos mande muitas novas, que he o que agora mais desejamos. Deus Nosso Senhor nos de a todos sua graça, para que perfeitamente o sirvamos. De Tolo, a 5 de Fevereiro de 1558 annos. O Irmão Simão da Vera esta mui mao, com desatinos; parece-me que ira seu caminho; encomende-o a Deos. Ao irmão que nos encomende muito ao Senhor, pois tanta necessidade temos disso. Inutilis Niculao Nunez (2) i. é. repartir. 306
  • 47 CARTA DO PADRE FRANCISCO VIEIRA AO PADRE BALTASAR DIAS Ternate, 13 de Fevereiro de 1558 BAL: 4.Q-IV-50. Fds. 518 r.-5i8 v. Nesta carta, embora muito resumida, transparece bem a situação especialmente agitada que, então, atravessavam as cristandades das Molucas. Os acontecimentos aqui referidos, concisamente, poderão ser esclarecidos pela comparação com outros documentos contemporâneos. a) Cerco à fortaleza de Ternate por Babú, filho de El-Rei Aeiro, pri- sioneiro dos portugueses. b) Conversão do rei de Bachão. c) Ferimentos de D. Jorge de Eça, capitão da armada, numa batalha naval contra os ternatenses. Jesus. Maria sit semper nobiscum. Amen. Padre Reverendo e charissimo. Nos ficamos de cerco, louvado seja Deos, e com o nosso Padre Afonso morto, hoc est, crucificado nuu, e degolado, pelas grandes misericórdias de Deos; e Simão da Vera de caminho para outra, no Moro, de febres e fernesis; e os outros, com perto de cinquenta portugueses, que laa forão d vingar huma injuria feita aos christãos, adoecerão tam- bém dos inimigos e da terra, por ser muy doentia, onde, se ficarem, não se cre poderem escapar alguém, como ja // por experiência se vio em dous. ists v.j 307
  • A nao que nos trouxe vay agora a Banda chamar outra, pera nos socorrer e trazer alguns mantimentos de que vamos muito carecendo. Esperamos, agora, aqui, hum rey (i), com seu reyno, que achamos feitos christãos, pera nos ajudarem; tivemos ja muitos recontros com estes negros e grandes victorias delles, per quem Deos he, e seremos cem pessoas, entre mancos e aleijados e sãos. Dom Jorge e sua molher e sua gente estiverão quasi queimados, com duas jangadas grandes, que lhe deitarão, de que Deos os livros, e logo ao outro dia lhes deu vento, com que se vierão para a par da povoação; fica ainda sarando de huma espingardada; e seu cunhado noutra, de hum braço, que lho quebrou o seu cafre; Gaspar (2), doutra, pellos peitos, e outro seu casado criado morreo doutra. Peço-lhe, charissimo padre, nos encomende muyto a Deos e a todo este povo. Aqui estamos eu e Araujo as vezes sãos, as vezes doentes; e os moços, outro tanto. E a terra, que he a mais estremada, para padescer, que vy outra, sem medico nem cousa por elle, senão Deos; Elie nos cure. Tivemos huma surriada de bexigas, de que falecerão muytos; ja vam abrandando. Por agora, me não ocorre mais que encomendar-me em seus sanctos sacrifios e orações. E os nossos fazem o mesmo. Deste Ternate, oje, 13 de Fevereiro de 1558. Seu em Christo frater e filius Francisco Vieira (1) O rei de Bachão. (2) Gaspar Veloso. 308
  • 48 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE ANTÓNIO DA COSTA Goa, 26 de Dezembro de 1558 BAL: 4.Q-IV-50. Fls. 131 V.-143 r. (1) Carta geral, escrita por obediência, para dar conta e notícia dos lugares por onde os religiosos da Companhia andavam exer- cendo o apostolado. Nelas se encontram referências às Molucas, que aqui damos. Foi publicada, na íntegra, em Documen- tação... (India), Vol. VI, págs. 442-466. Em Maluquo esta o Padre Francisco Vieyra; tem con- sigo, ou por outras terras, como se vera por suas cartas, o Padre Afonso de Chastro, e o Padre Nicolao Nunez, e o Padre Antonio Fernandez, e o Irmão Simão da Vera, Fer- não do Coutou (2) e Balthezar de Araujo; e vay tudo, polia bondade de Deos, em muyto crescymento, segundo o que sabemos por cartas e pessoas que de la vem, da gentilidade daquellas partes, pella facilidade que tem em ouvirem a palavra de Deos, e a instancia com que muytos pedem ser christãos. Em Malacha reside o Padre Balthezar Dias; tem con (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 50 r.-so v. (2) BACIL: Fernão do Souro. 3 09
  • siguo dous irmãos; lemos por novas que faz muyto fruyto naquella terra, com suas pregações e doutrinas; tem-lhe, a gente, muyto respeito ou medo; he grande caminho de emmenda; estaa muyto aceyto de todo o povo. 310
  • 49 NOTA FINAL DE UMA CARTA ESCRITA PELO PADRE MESTRE BELCHIOR AOS IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Cochim, 25 de Janeiro de 1559 BAL: 4Q-IV-50. Fls. 263 r.-2Óç r. (1) Este trecho foi escrito, como nota final de uma carta, já datada e finda. A carta encontra-se publicada, na íntegra em Documentação... (India), Vol. VII págs. 243-261. Nesta breve nota, a morte do Padre Afonso de Castro e relatada com certa variante, aludindo-se à sua crucificação, em discordância com outros documentos. a) Referência ao cerco posto à fortaleza de Ternate por Quechil Aeiro. b) Morte do Padre Afonso de Castro, crucificado como Santo André. Este anno passado, depois de partidas as naos para o reyno, chegarão cartas de Japão, de muyto boas novas; as que vierão a Goa lhes mandarão de laa, as que me vierão a mym, lhes mando este anno. Não vierão ainda as naos de Malaqua, nem temos car- tas, ate agora, de Japão nem Maluquo, mais que ter nos (j) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 105 r.-ii2 r. 3 11
  • aquy huma nova de estar Maluquo sercado dos jaos. Se vierem a tempo que possão ir, as mandarey. Feyta esta, chegou huma nao de Malaqua, que trouxe por nova, Maluquo estar de serquo, e ter os portugueses o rey da terra preso por treição, que querião fazer contra nos; ho cerquo he periguoso, pelos mouros serem sem conta, e os nossos muyto poucos. Tãobem contão os que vem na mesma nao que os mouros, nas ylhas de Maluquo, tomarão a hum padre da Companhia, o qual afirmão ser Afonso de Castro, e que o puserão em hum pao, a maneira de aspas, e hai o cru- cificarão como a Santo Andre. Isto creo que aconteceo nas ilhas do Moro, pegado com Ternate, onde esta a nossa fortaleza, andando o bemaventurado padre ahy pregando a fee aos christãos e aos infiéis. As mais circunstancias de tão bom acontecimento não as sey, porque as cartas de Maluquo vem em outra nao, que vem atraz. Se chegarem a tempo, escreverey mais particularmente, ou mandarey as cartas, porque segundo c então parece que foy mártir. A partida destas naos, não era ainda chegada a Ma- laqua nao da China nem de Japão e por isso não temos de laa mais novas que as do ano passado, que quaa esta- vão. Encomendem-nos em seus sanctos sacrifícios e ora- çõis. Minimo servo da Companhia Mestre Belchior 3 i 2
  • 50 CARTA DO PADRE FRANCISCO VIEIRA AOS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Ternate, 9 de Março de 1559 BAL: 4.Q-IV-50. Fls. 26Ç r.-2j3 v. (1) Diferem entre si, notàvelmente, ambas as cópias desta carta nos Códices indicados, não sendo a mesma a ordem dos pará- grafos, nem a redacção de muitas passagens. Contudo, o sen- tido principal mantém-se no relato das informações fornecidas. a) Promete, nesta, escrever todos os anos. b) Cerco de Ternate, com todos os seus riscos e privações. c) Caluniado, por repreender os desmandos do capitão. d) Morte do Padre Afonso de Castro. e) Declarações de vários indígenas sobre o martírio deste religioso. f) Conversão de um rei de Bachão, e progressos do cristianismo entre os habitantes. g) Baptismo, em Ternate, de uma filha deste rei de Bachão. h) Indígenas de outras ilhas, que aportam a Ternate. e dão infor- mações da sua terra. i) Prisão do capitão da fortaleza pelos moradores, que puseram em liberdade o rei de Ternate. ;) D. Jorge de Eça dispersa a armada indígena do rei de Tidor. I) O Irmão Fernão de Souro, enviado a Malaca, em missão especial. m) Portugueses e indígenas mortos em Ternate. (r) BACIL: Cartas do Japão, vol. II. fls. 135 r.-i40 r.; BNL: Fundo Geral, N.° 4.534, fls. 96 r.-98 v. 3 13
  • Iesus. Maria. Cuius gratia et paz sit semper nobiscum. Amen. Reverendos padres e charissimos irmãos. Bem creo que esperaríeis todolos anos cartas minhas, como das outras partes. Não no fiz tão continuamente e tão largo, como desejáveis. Disto tenho por escusa serdes vos quem sois, e estardes tão rodeados de Deos que mi- nhas cartas ante vos não possão servir de mais que de 1269 v.i hum // ser. Bem la dizeis, os philosophos, aversse de fundar as proposições em maximas e princípios notos, como he o grave buscar sempre o centro, a que, redu- zindo minhas tardanças, diguo que escrever-vos, ate aquy, não ouve para que, pois não avia chegado a Maluquo, centro de minhas esperanças. Aqui vos confesso que, depois de mo Nosso Senhor conceder, deixarão de fluctuar minhas cogitaçõis pelas eleiçõis dos lugares, com este bordão de poder milhor servir a Deos, em que os fraquos religiosos, como eu, mal nus de seus quereres, as deixão andar vagando, pelo que quaa, por minha conta, venho a chamar-lhe centro de meu querer, em que, com aiuda de quem mo minis- trou, espero manere et permanere usque in finem. Sem este, logo, charissimos, que vos podia eu escrever? Certo, em verdade, nenhuma cousa. Ora aver-vos eu de escrever quero, e não quero; con- trario he do que escrito estaa: sit rationabile obsequiam vestrum, qual eu sempre queria fosse o meu para convosco. Deste espero, charissimos (vita comité), de oje em diante, não perder anno em que de mi, por estes papeis, vos dee estreita conta. Esta promessa para vos guarday. 3 i A
  • com mor confiança de assi poder comprir, e por ella me requerey, quando dela faltar. Eu fico neste Maluco, cuja discripsão, com outras da China, vos mando, onde, da chegada, a dous meses, ate agora, que pode ser anno e meo ha que estamos de guerra, e a mor parte deste tempo, de serquo, em que ouve e ha muyta mortandade, causada da guerra, fome, e peste, assi dos nossos pretos, pardos e brancos, como dos alheos, sem de alguma calidade tocar nesta nossa pousada, gloria seja a Deos e a sua Santíssima Madre. Também, fomos calumniados e infamados, por em mi- nhas pregaçõis, rijamente, reprehender a hum tirano, ca- pitão com mediocridade, porem, na maneira e no modo de morrer, que tudo manifestou seu desaventurado fim, como largamente enviamos a índia, donde vos ha-de hir ter (2). Tivemos sempre as occupaçõis que o exercitio bélico daa de si: confiçõis a meudo, visitaçõis de enfermos, pre- dicas e doctrynas, segundo que, mais ou menos, estávamos em aperto. Os nossos, que forão desta fortaleza inviados, sofrerão os mesmos, senão que lhes coube, mais hum poucachinho, grandes infermidades que a terra de si daa, tolhimento de peis, mãos, e de todo o corpo, o que chamão bere-bere, e muy agudas febres e dores de cabeçe graves, com incon- paraveis pontadas, de que se vinhão a esta fortaleza curar, por meo de muytos periguos de enemigos e mar. Hum soo bem tinhão, que em lugar de medico, suprya eu com o que sabeis, charissimos, disto aver aprendido, não avia ahi senão encomendar a Deos. E assi creo que mais me curavão elles, com o bom esforço que para as (2) Na BACIL falta, este parágrafo. Deve referir-se a D. Duarte de Eça. 3 1 5
  • sofrer tinhão, do que eu para lhes alguma cousa saber aplicar. Purgavamo-los, contudo, e chamavamos essas mestras da terra, que, a poder de desordens, a nosso parecer, tra- zião a saúde ou Deos por ellas. Experimentamos muytas traiçõis, do que sempre nos Deos Nosso Senhor livrou. O quantas vezes nos vimos queymados! O quantas alagados! Outras, quasi entrados de tanta infinidade de gente, quanta nestas ilhas ay, em respecto da nossa, muyto. pouca. Agora não ficamos com menos arreceo, antes com mais, por termos os inimigos de dentro e de fora. Soltamos, com grandíssima necessidade, este rey de Ternate (3), que he hum pestífero mouro, e andão ja os nossos, de dous annos, que sedo forão, a esta parte, tão trilhados das continuas vigias, que tomão por partido deixarem-se prender, que faze-lo. Nossa alma, porem, se gosa, quando cuida estar tão perto da porta, por que, sem duvida, se entra a gloria: hum acelarado martyrio, que facilmente se pesca na agoa envolta, como foy o do Padre Afonso, que, de meu con- selho e persuasão, a estas partes veo; hum grande reli- gioso, de que ja o anno passado escrevy alguma cousa, ou tudo, em suma. E agora, particularmente, detrymino faze-lo nestas, segundo que, com a mais diligencia que 1270 r.i pude, alcansey destes negros. // Assi que do Padre Afonso, alem do que o anno passado a Roma escrevy, ainda soube mais, que vindo elle ter a huma ylha, na volta que fez do Moro, por nome Ires, que a vista desta de Ternate esta, distancia de huma legoa, ou pouco menos; onde, tanto que chegou, informados os que (3) Na mesma cópia falta também a passagem: soltamos com grandíssima necessidade, este rey de Ternate. JIÓ
  • o trazião na caracola (embarcação desta terra) como seu rey estava preso, detryminarão de o prender, e começarão pelos escravos, que erão tres; atados estes, prenderão o padre e o dispirão, encaxando-o com hum trapo (4), e atado de peis e mãos, com grossas cordas, segundo seu custume, por serem crudelissimos, e nos terem grande odio; dezião fazerem-lho, porque elle fora o que prendera seu rey. E esteve assi preso no parao cinquo dias, e dei- xando os moços dispersos por donos alheos, o trouverão a esta ylha, em que estava o filho do rey, com toda a gente, pondo-nos serco. De sua chegada e estada nos disse o proprio rey preso, e offerecendo-o ao filho do rey, os que o trazião assi prezo e nuu, ou vendo delles vergonha, e dispioçe logo da camisa e calçõis que lhe deu, para se cobrir, qui-lo também reter, para o mandar por em garda de sua mão. E os de Ires não quiserão, dizendo que elles o gardarião, como me contou o proprio rey, diante do filho; encarregou-lho então o filho do rey, e forãosse com elle. Se o capitão fora amiguo do Padre Afonso, como pu- blicamente se sabia não ser, elle o mandara tomar por pessoas suas amigas que para isso se offerecerão, pois que não estava mais da fortaleza que ate tres tiros de espin- garda. Tornando o padre outra vez a ilha Ires, onde, logo que chegou, lhe deitarão huma Iara ao pescosso, cortada de fresco, de huma arvore, e de pao muyto pesado; he esta Iara da feição das pegas que deitão aos bois (5), iadrõis ou fregõis (?) nessa terra, e puserão-no ao sol, onde esteve, de dia e noite, ao sereno, encachado com hum trapo, por ate a camiza e calçõis, que o filho do rey avia (4) BACIL: «com huma fisa. pano do Moro. feito como papel de arvores, da feição dos lenços de Japão, que lá vistes já...». (5) BACIL: ...bois que entrão nos surrados... 3 17
  • dado, lhe tornaram a tomar. E foy cometido, por vezes, se queria ser mouro, e alguns dizem que o açoutarão. Durou desta maneira trinta dias, sem numqua comer, segundo alguns nos dicerão; outros dicerão comer algum cravo, somente, e que respondera alguma vez que per- guntado foi, se querya comer, desta maneira: «vos outros, que tendes para me dar? Ignames e sagu? Eu sou negro?! Dai-me pão e vinho» (6); de que entre nos somente se mantinha. E vendendosse hum de seus moços para hum lugar desta ylha, pedio o troxessem onde o padre estava, que lhe foy concedido. Este moço me contou como chorava muito com elle, e afirmava ave-lo visto da maneira ja dita, sendo-lhe tão contraryo o ar, por sua ma dispocissão, que nem huma camisa podia vestir, senão ao meo dia, por naquele tempo bolir menos ar, nem podia ter a cama onde lhe tocasse ar, nem se avia de despir, e dormia assi, como andava de dia, de que eu sou boa tistimunha, por dormirmos, depois que vim, ambos, em huma camara. Hum cacis veo aqui ter, depois das prymeyras pazes com esta ilha, a casa de hum seu matalote-mor, e casado, que disse ave-lo visto da maneira dita, e sempre bolindo com os beiços, como quem resava, sem comer todos oito dias que na ilha estivera, e notou o caciz nem por isso o ver desfalecido das carnes, do que o antes conhecera, e que lhe perguntara se queria ser mouro; a que soo com a cabeça respondera, sobrindosse, que não; e pergun- tando o mouro porque lhe dissera aquilo, respondeo que para levar aquela nova ao filho do rey, para que vinha. Assi que visto seu não comer, segundo huns, cuidando (6) BACIL: uDai-me pão e vinho! E em alguma maneira creo. porque, quando aqui esteve, quando o trouxerão ao filho do rei, veio hum parao, com huma bandeira branca, pedir, da sua parte, pão e vinho, de que, entre nos, somente se mantinha...». 3*8
  • humanamente não poder durar, para o gardarem assi como o tinhão prometido ao filho do rey, asentarão de o matar, para também de todo se não acharem sem parte desta morte. // vj Tomarão-no dous negros, com as mãos atadas atras, e encaxado, e levarão-no diante de si, ao longo da praia, hum grão pedaço, muito empedido de pequenos e grandes penedos, por cima dos quais ya diante os negros, com tanta ligeireza que deu que falar aos mouros, e, como contou hum pescador que neste tempo andava pescando, e o seguio para o ver morrer, a hum Bastião Mendez, christão honrrado da terra, que a sua ossada me foi bus- car, no primeiro dia ou segundo que as pazes se publi- carão com esta ylha, de cuja jurisdição he ha de Eires. E este pescador lhe foi mostrando tres pouzos que o padre fez no caminho, debruçandosse sobre alguma pe- dra, e dizendo: «he aqui»? Ate chegar a hum madeiro que junto a agoa estava, em que, finalmente, debruçado e falando da maneira dita, responderão os negros: «sim». Onde logo virou hum delles, com hum golpe, de alto abaixo, e cortou-o pelas costas, de que logo não morreo, e acodindo o companheyro com outro, o acabou, e che- gando-lhe hum terceyro, ja depois de morto, lhe deu outro pelo rosto. E logo o deitarão no mar, que naquele lugar leva grande corrente (7), onde, e mais acima hum pedaço, saio dahi a tres dias, que logo os mouros notarão, dizendo- -no-lo qua. Outros dizem a doze, como me o rey disse averem-lho os negros dito. Saio tão fresco, com as feridas, como se naquela hora as recebera, e tão luzente que pa- recia dar de si algum desacostumado lustre. Estava a (7) BACIL: corre como per canal... 3 I Ç
  • maneira de assentado, diante hum grande penedo, que na mare chea ficava rodeado de agoa, onde esteve por muytos dias, sem se desfazer. O que o foi buscar me disse achar os ossos compostos, a maneira de quem esteve assen- tado; alguns dos ossos mingarão e a caveira e o queyxo veo, que hum grande seu amiguo conheceo, pelo ter o padre maior que os outros homens, comumente, e a barba fendida; algumas costellas vem como cortadas pelo meyo, e assi, segundo que os padres sabião de sua estatura, por algum tempo se averem medido, diserão serem os ossos das pernas aqueles. Vierão mais os ossos muy alvos e leves e alguma cousa gastados, por onde jogão as juntas, pelo continuo sol, vento e chuva, e bater do mar nelles, a que estiverão sete ou oito meses. Affirmousse o portador delles aver ouvydo, por huma soo boca, a todos os com quem falou daquela ilha, serem estes. Assi me trouxe dous moços dos tres que lhe avião to- mado, por mandado do rey, que no-los mandou dar. Estes nos dicerão como os negros tinhão a caveira posta em hum certo alto penedo; o terceiro moço nos veio a mão, fugindo desta ilha, para que fora vendido, da mão de hum caciz, que nunqua no-lo quiz dar, posto que, muytas vezes, mandado polo rey, na qual contenda fugio o moço, huma noite, deixando hum madeiro em seu lugar, cuberto com o pano com que se cobria. Gastou tres noites, andando pelo mato, ate chegar aqui. O rey, por outra vez, fez perguntas, e perante mym, ao regedor de Ires, e seus mandaris, logo nas primeiras pazes, sobre Afonso, que dixerão como era morta toda a parentalha dos que na morte de Afonso forão; huns nas guerras, com tyros de artelharya; outros, de fidissimas bexiguas, com que em vivos fogos ardião, esfolando-se-lhe a pele, como dizem da de São Bertolomeu, falando lin- goajeins novas, porque dos seus não erão entendidos, qual 320
  • se afirmão ser huma de portuguez; e o mesmo dos man- cebos que o matarão afirmou aquy ao rey que, por seu filho aver vendido o cálix que ao iPadre Afonso tomarão (e despois se tornou a comprar, sem patena, dos geilolos), seu filho adoecera, inchando tam descompassadamente, que facilmente se não podia crer, e assi morrerão, não cessando com as mãos alevantadas chamar por Deos, a Senhor Deos! Pela qual maneira dizem forão alguns, que de bexigas morrerão. E hum soldado, que em Geilogo avia estado alguns meses, para com outros portugueses ajudassem a defender aquela fortaleza, me disse aver ouvydo ao rey de Gei- lolo // e seus mandaris palavras desta maneira, em favor [271 rj do Padre Afonso, contando-lhe o grande anymo e esforço, antes que se debruçasse, para o cortarem, pedir a espada ao mouro, que não lha querendo dar disse: «não temas». E vendo-a disse: «vay-a afiar bem, que não estaa boa». E pos isto, disse o rey que nossos cacizes fazem assi. Muyto me afirmou, este soldado, estar entre elles em mor reputação que entre nos. Mais me disse aver contado o rey que, depois de o mouro aver tomado a espada, a alevantara para nelle cor- tar, com tanto ympeto que se firyra na testa, por onde o não cortou, a sua vontade, nem o padre morrer deste golpe, como fica dito, senão do segundo; que se aquilo não fora, as espadas destes são tais e tão pesadas que de hum golpe bastão para ofender hum homem dalto a baixo. Outro morador casado, a quem, ao fazer desta, mandei chamar, por dizerem saber alguma cousa deste feliz tran- sito, e disse que hum negro de Eires, seu amiguo, lhe dissera como estando defronte daquele lugar, em hum tyro de pedra ao mar, pescando, vio vir o padre, com os dous atras de si, com suas espadas para o matarem. E se che- gou a terra, para ver aquilo; a que chegando, vio pedir 321 1NSCLÍNDIA, 11 — 31
  • o padre lhe desatassem as mãos, para se encomendar a Deos hum pouco, que os negros não quiserão fazer. E respondendo o padre: «desatay, e não ajais medo, que vos não ey-de fugir»; subrindosse com hum certo ar, de que os negros, espantados, o desatarão, e logo se pos em giolhos, com as mãos alevantadas, por hum pequeno tempo, de que alevantando, se debruçou sobre o madeyro. «Agora fazey o que aveys de fazer». Deu-lhe logo hum com a espada, pelas costas, e o outro, pela cabeça, com que morreo. Acabado isto, o deitarão no mar, e, dahy a dous ou tres dias, o acharão no mesmo lugar, da maneira dita. Mais disse aver-lhe dito o mesmo negro que adocerão, dahy a poucos dias, estes que o matarão, de pestíferas bexiguas com que ardião em vivos fogos, sem sessar de chamar pelo Padre Afonso, ate que acabarão. Isto he o mais que deste felice transito pude saber. Se me Deos der vida, e tivermos pão, yrey avante, inquy- rindo o que resta. Pelas do anno passado, sabereys como temos ja neste Maluquo hum rey, com seu reyno, christão, e, segundo me contão os padres e irmãos que la andão, são dos mi- lhores que nestas partes ham. O rey veo nesta fortaleza, ja duas vezes, com sua gente, nesta guerra; he mancebo, muy bem acondicionado e cavaleyro. Anda para tomar molher; parece-me tem vontade para casar com huma filha de hum portugez (8), para com ella se aiudar mi- Ihor nas cousas christãs. Quando vão, andão e vem da guerra, vão cantando segundo o costume da terra, em suas embarcações, ao (8) BACIL: «Anda pera tomar molher; parece-me tomaria huma filha de hum fidalgo e honrrado português, pera com elle se ajudar melhor nas cousas cristãs». J 2 2
  • som de cestros (9), tabaques e sinos, a sua feição, can- tigas nossas, em lugar das suas. Todos querem receber suas molheres, segundo o costume da igreja. Estão, po- rem, tão impididos com parentescos que esperamos o cabo destas guerras, para nos pormos a ordenar isso, com outras muytas cousas da policia christãa, para o que mostrão muytos desejos. Ja vão gardando nossas cortesias, e deixão, de boa vontade, as reverendas antigas. Hum Padre, que qua anda, ha dias, Nicolao Nunez, lhes declarou, ainda que com as armas as costas, os arti- guos da fee, na lingoa, de que muyto folgarão, dizendo que seus cacizes nunqua lhes ensinavão nada, nem sabião como aquilo. A lingoa he a mais fácil que se pode achar; tem somente o tempo presente do infinitivo, e a primeira e segunda pessoa, eu e tu; para as demais ha-de de usar de circunlóquio (10); he assaz cupiosa, loução e discreta; hum ou dous dos que viemos a falão e entendem muy bem, // por se darem muyto a ella. Estes são enviados, 1271 v.i por amor disso, agora, desta vinda, que o rey qua fez, com elle; e os outros dois, que laa esta vão, ficam aqui descanssando e refazendosse, e, como Christo Nosso Senhor diz, sacodindosse do po que esta maneira de trato com- sigo traz, para que esta casa sempre aqui a-de estar (11), como também para suas e nossas infirmidades, a que se vem, para delias serem curados, por ser esta ilha muvto sadia, e nela aver algum maior remedio das cousas da botica. (9) O mesmo que sistro, antigo instrumento de música. (10) BACIL: upera as demais, ha-de de usar de circunlóquio; pelo que nellas se não podem, ad veritatem. tirar as oraçõins, quanto he o que eu ya delia entendo; fazer-lhe praticas e declaraçõins sobre ellas sy. As oraçõins lhe ensinamos na nossa lingoa, que lhe fica como a nos o latim...». (11) BACIL: aonde se guardam as constituiçõins e regras da Com- panhia ad unguem...». 323
  • Esta também aqui, esta casa, como despensa de todos os que estão espalhados por outras ilhas, aonde, faltando- -lhe a provisão, mandão pedir outra. São os myninos do novo reyno do Bachão tão obe- dientes aos mandados dos padres que, pera fazerem os dos pais, maxime quando os han-de mandar fora, pri- meiro an-de saber dos padres, se querem, com que os pais também folgão, porque sabem fazerem-lhes isto, por não perderem dia da doutrina christã, que polas ruas andão cantando, e, de noite, pelas soas, que, entre nos, são os bairros, se ajuntão para a dizerem e ensinarem aos de suas casa, para o que se milhor fazer, se ordenarão meirinhos mininos, antre elles, que tem este cuydado e de os acusar aos padres, não querendo acudir, a que os mesmos mininos (dizem os que de la vem) terem tanta reverencia e medo como os próprios padres, de quem a tal doctryna tem. Também me dizem serem tão espertos e cuydadosos de se trazerem huns aos outros ao bautismo e acusar os novamente nascidos, se logo não vem dar rebate ao pa- dre, que he grande contentamento e espora para os que andão na obra. Desta segunda vez que o rey christão e de Bachão veo a esta fortaleza, fizemos ou fez o vigário delias se lhe entregasse huma filha, que este rey de Ternate, tio delia, e avo da minina, que então fazia hum anno e tantos meses, lhe avia a seu reino mandado tomar, ou lha man- dou o mesmo mancebo, com medo, segundo outros; cuja may, filha deste de Ternate, avia falecido logo que a pario, que foi a causa de se o mancebo, que ainda então estava em poder do pay vivio, tornar christão, por con- selho do mesmo pay, por escapar de perder o reyno, por- que lhe alevantava este de Ternate aver-lha morta, ou, 324
  • como elle tem para si, comida, a que chamão soangas (12), como nos laa, bruxas, se as ay, pelo qual perguntão, Lionel de Lima. se vivio he, dara, mais pelo particular, rezão (13). que, entregue o rey de Bachão da minina, detry- minamos de a fazer christã, o que o rey não queria aqui, diante o de Ternate, pelo medo que ainda lhe tem, ainda que, exteriormente, o de Ternate para isso disse muytas mostras, ate dizer que avya de gastar aquele dia muvto. Este mouro he muyto sabedor e o sobrinho não tem de ver com suas palavras, senão com o que lhe fica. Não tivemos nos de ver com isso, posto que sabíamos estar atemorizado, com causa, o reizinho, e apertamos a fazer a mynina christãa, antes que corresse algum periguo. Respondeo, finalmente, o pay da minina, que nos en- tendíamos milhor as causas de fee, que elle, que fizéssemos o que nos parecesse milhor. Pregei aquele dominguo, incin- tando a gente a honra deste bautismo e devação de tão nova festa, tão nova nestas partes, pedindo a todo o ge- nero de pessoas, assi molheres como homens, se ajun- tassem, aquela tarde, em casa do rey, para acompanhar a nova princesa christã de Bachão, que he huma das cin- quo ilhas do cravo. Fizerão-no assi e, in primis, o padre vigário, que, en dar, he muyto largo, aimda que seja a mouros e gentios. Fez aquele dia hum banquete ao rey e seus mandarins e muytos portugueses, tão lauto, quanto se não esperava em tempo de hum anno de serquo, onde huma galinha custava hum cruzado, a que também eu (12) Soangas, i. é. pawang (buang, em Timor) termo malaio da superstição indígena, mais on menos generalizado em toda a Insu- lindia, para designar o feiticeiro, o lobisomem, etc. Desta palavra, aportuguesada, formaram os nossos orientalistas a expressão suangue (feiticeiro) siumguice (feitiçaria). (13) Esta passagem obscura esclarece-se pela da BACIL: «...a que chamão joangas, como nos laa, bruxas, se as ha, do que o Padre Leonel de Lima, mais pelo particular dara razão...». 3 2 5
  • fuy com outro padre, assi por aver dito o evangelho, aquele dia, como por eu aver pregado. Aquela missa se disse com hum muy rico pontifical de borcado, que este anno chegara da India para a Mysericordia desta povoação e fortaleza, e que entra vão muy ricas peças de prata dou- 1272 r.] rada, quais // pode ser laa não vy. E para que o banquete fosse de todo perfeito, as escon- didas, mandei amaçar pam, para elle, do triguo que para as hóstias tynhamos, que foy grande novydade o quantos o tomarão e o beijarão, louvando a Deos, dizendo huns: «agora avera tanto que o não comy»; outros, menos; outros, mais. Vindo a tarde, se ajuntou a gente ornada e vestida de toda a ceda que, quaa, mais facilmente acharão, que la, buréis; e pos-se a cousa em ordem, e na dianteyra hia a cruz de Nosso Senhor arvorada, atras ella, os padres reves- tidos de pontifical, por não aver capa do mesmo geez; atras dos padres a criança e os compadres, a qual levava muyto ricas pessas douro, que lhe o avo mandara, ainda que bem contra sua vontade, porque era neta da única filha sua, a quem muyto queria, e ir em tempo de perder o nome de Patenia, por cobrar o de Constância, que então avia. Diante a cruz hia huma boa capella de cantores, que aqui são muyto boons; diante os cantores, hião as trom- betas, e por toda esta ordem, andava huma dança de mo- ços riquamente vestidos. Chegamos a igreja, que logo na primeyra entrada ti- nha hum cadafalsso armado, cuberto de boas alcatifas e no meio, huma grande bacia alevantada, hum pouco, sobre o cadafalsso, cuberta de lavrados e finos panos. Sobre este cadafalço se armou hum rico sobre-ceo de setim roxo de Portugal, franjado e apassamanado de ouro e de retrós; pelas paredes, de huma parte e doutra, avya 326
  • muytos paninhos de paijagens (sic), e arvoredos da China, cousa muyto fresca. E feyto o exarcismo e chatequismo a porta, vierão a pia, onde, acabadas as serymonias, tocarão os padrinhos a menina, Dom Diogo, filho do Conde da Feyra, que, de socorro, avia vindo, este anno, aquy; e outros fidal- guos é honrados homens, e assi mesmo outras donas. E acabada de bautizar, tyrou a artelharya da fortaleza. E acabado ysto, e de a encomendarem a Deos, se tornarão a casa do rey, com boa ordem, acompanhada de todos. O padres e irmãos da Companhia, que fazeis? Não vedes quantos se perdem pelo mundo, principalmente onde nos querem, como são os destas partes, pois também aquela aotoridade de Oseas, 6.°: misericórdia volo et non sacri- fxcium, etc., estaa entendida, por São Gregorio, do zelo das almas, cuyo sacrifício excede todos os outros, juxta illud Proverbiorum, a saber, 21: facere misericordiam, a saber, convertendo peccatores, plus placeo Deo quam victima holocaustorum. Se vos hum perguntasse se vos deseião e fazeis falta nesta terra, onde ate os filhos dos reis fazem muytas dili- gencias, para saberem os mistérios da nossa santa fee e cousas de sua salvação, avendo tanta falta de quem lho ensine, que diríeis? Nesta ha e isto sabeis que as filhas dos reis pedem licença para yrem ver nossas igrejas, e meudamente querem que lhes digais as historias dos sane- los, cujas ymagens vem. He muy grande principo este para hum padre, hum irmão zelozo, falar de seu Deos e da-lo a entender. * Não vedes o sacramento que aquy estaa escondido? Olhay que, a vossa falta, introduzem servos de Mafamede sua danada doutryna, tendo por ley que, a espada, a defendão, sed de his hactenis. Antes de se comessar esta guerra, veo ter ao Moro 327
  • hum parao de oito remeyros que, ao parecer, vinhão des- garrados de perto, porque trazião ainda quasi frescas humas folhas de ynhames com que se cobrião, que andâo todos nus, por na terra não aver pano; destes morrerão logo os sete e ficando o octavo, per dias, entre aqueles moros e nossos portugeses, casado (sic) por laa, e tra- 1272 v.] tante na terra, // onde, vindo-nos a entender e nos a elle, começou a dizer que na sua terra não avia aquele acender de candeas, di (sic) noite, que entre nos avia, mas em lugar disso, avia humas pedras, antre elles, muy estimadas, que davão grande claridade. E fazendosse os nossos prestes para hir laa, quando socedeo a guerra; e o primeyro homem que matarão foi este. Dizem, porem, que bem se acertara com a ilha, poios sinais que dela deu, antes afirmão verem-na em tempo claro, de hum alto pico e serra, caminho de dous dias. Cujo regedor dizia ter huma (14) muy to maior que os honrrados (porque soo antre elles andão) e de muito mor claridade, de que usava nos grandes banquetes e festas. Pode ser seião os cabrun- colos estes. Carece esta ilha de todo o metal, ouro, prata e ferro; servem-lhe as cascas de ostras para o necessário, que nos a ferramenta; pescão com anzóis de tartaruga, de que ay tanto no mar, que fazem sebes ao longo da praya, para lhe não yrem comer os ynhames; mantemsse com peixe, de que ha muyta cantidade e fruytas do mato; he rasa e dizem versse de hum pico do Moro (15); correm nella muyto as agoas e a-se de navegar para ella, entre monção de noroeste e sul, para cujo discubrimento, estando ja pres- tes hum portuges e alguns christãos homrrados do Moro, com boas embarcaçõis, entreveo a guerra em que matarão o homem de la. (14) Subentenda-se huma pedra. (15) Correcção de morro. 2 2 8
  • Depois de ter esta nestes termos, e ja para a cerrar, acordarão os de este povo, depois também de terem o ca- pitão preso, de soltar el rey de Ternate, por de outra ma- neyra se não estreverem a escapar a fome que ia em grande crecimento, e tínhamos pouco menos de dez meses por passar, ate a vinda das naos e socorro que esperávamos fose asi; com esta sahida do rey, começou acudir algum mantimento, ainda que muy pouco, e ja agora muyto mais, e a terra paresce se vem a obediência da fortaleza, com a qual soltura el-rey de Tidore também começou a temer e mandar requrer pazes, a que se respondeo que si, com lanto que quebrasse os quatro juncos dos jaós que tinhão carregados de cravo, ficando-lhe o cravo para o venderem a mor valya, e mandarem a esta fortaleza o tavoado delles. E ysto feito, lhe farião as pazes. Respondeo o tidore, não ao capitão, mas ao rey de Ternate, que ja tinha deitadas suas contas. Espos isto se detryminou Dom Jorje de Saa de ficar com sua nao, para lhe fazer a guerra. Concertarãosse as duas fustas que aqui tínhamos, afora a que nos avião tomado, com vinte e tantos homens, entre portugeses e mestiços, a poder de fogo que tomou a polvora, e muytos escravos, com toda sua artelharya; hum falcão pedreyro, e quatro breços (sic), e couras ricas de laminas, e outras armas, que foy causa em se este povo detryminar no prender do capitão que atras disse. Para o que logo se forão as naos, que na ga- lheta estavão, que he perto da fortaleza Atalanguame, porto em que se inverna e perto de Tidore, asi a de Dom Jorge, como a de Antonio Pireyra Brandão, que este anno avia vindo; e o rey de Ternate começou também juntar sua gente e fazer prestes suas caras-coras; e posto tudo a pique em Talanguame, saio huma manhã da banda de Tidore a nossa armada, que hia para Moutel (outra ilha do cravo) huma cara-cola, fazendo-lhe algazares, tendo o 3 2 9
  • resto da armada escondido, que erão oito joangas, navios que cada hum rema, cento e tantos pan gaios, e quatro cara-colas grandes. Amainarão logo nossas fustas que a vela hião, e fize- rãosse prestes para pelejar. E logo remeterão a capitania, em que Dom Jorge hia por capitão-mor da armada, quatro valentes joangas, ficando as oito embarcaçõis em garda contra a outra fusta, e a cara-cola de Ternate; e abal- roarão a fusta, em que se travou huma crespa briga. Parece cuidarão de a caçar como a outra, que, por fogo que nella tomou a polvora, foi tomada; e desabalroada a fusta, com morte de muytos dos mouros e dous dos [273 r.i nossos portugeses, se afastarão sem / / nunqua quinze ou mais embarcaçõis (pequenas, porem), dos ternates que- rerem achegar, ainda que para isso pusesse sua força el-rey de Ternate, que em hum parao andou sempre a par da fusta, capeando-lhes que chegassem, no qual matarão dous parentes, de duas berçadas, convidando-os, outras vezes, com lhes fazer a sumbaya para os incitar, e pelejando com sua espingarda. Dizem aver tirado elle soo mais de trinta tiros. A outra fusta lhe acodio, somente, em que hia Bas- tião Machado, charissimo Fernão da Silveira por capitão, a qual algum tanto andava apartada, pelejando com as oito; e acodio ao fogo que ja na grande andava, por acertar de cair no parol (sic) da polvora, no tal tempo, aberto, por esquecimetno de hum, que delle saio, da qual saltou na fusta pequena, e em huma e outra ouve grande destruição, principalmente na grande, porque refinou ao mar o proprio parol (sic), masto, e quantos quasi estavão no corpo da fusta, queymando-os bravamente, de que tres ou quatro não durarão mais que dous ou tres dias, outros mais, e os demais estão tais que, se escaparem, sera maravilha; afora alguns marynheyros que também logo morrerão. 3 30
  • Com tudo ysto, por mostrar Dom Jorge aos immiguos ficar o campo por nosso, fez a el-rey levantar seu som- breyro e elle meteosse (ainda que ferido) em huma cara- -cola, seguindo os emmiguos que hião fogindo, ate não aparecerem, e fez logo vir aqui a fortaleza toda a armada com o rey e os doentes e ferydos. Muyto louvor lhe deu a gente, aquele dia, porque, sem armas, mas somente com huma rodela e espadas, exotou os emmiguos ao mar e os fez desbalroar a fusta. Ouve aly soldado que, depois de com a espingarda andar as tro- chadas e tyrar com ella aos que abalroavão, tomou o capacete, e fez tyro a hum que o demo levou com o ca- passete a esse mar. Foy tanta a mortalha nos tidores que, se não fora o fogo, aquele dia, se acabarão nossas queixas, mas pareçe quis Deos fosse assi, para hum pouco mais ver para o que prestamos, ainda que creo sera para pouco, porque, estando agora escrevendo esta, chegou ja manti- mento de Gamoçanora, que apertava da parte deste Ti- dore muito com nosco, e fazia grande mal aos do Moro. Asst mesmo chegou novas como erão passadas a Ta- langame, onde nossas naos estão, não sey quantas mo- lheres christãas do Moro, e moços de portugeses, tomados dos tidores, e outros fugidos para laa, que dixerão serem muytos tidores mortos, assi honrados como da gente co- mum, e que tinhão ja a armada varada e muy destroçada da artelharya nossa, e que padecião muyta fome. Diserão mais, que todos se embebedarão naquele dia, para o efeito de se perderem ou ganharem. Agora me pedio o capitão quisesse mandar a Banda, e day a Malaqua, o Irmão Fernão do Souro, que aqui tinha comiguo (afora o Padre Nicolao Nunez) para levar as cartas em hum junquo que em Banda para isso se a-de mercar, e avisar o capitão, que agora vem, para entrar nesta fortaleza, a se prover de muyta gente e mantymentos. 3 3 1
  • Eu lhe concedi, como ja noutra pressa, em que aquy nos vimos, oferecy a outro irmão, Baltasar de Araujo, da laya do Reverendo Padre Godinho, homem para muyto, para hir ao Moro com huma joanga a trazer cinquenta por- tugeses que la tínhamos, antes desta guerra, fazendo-a, pelos christãos, aos goleias, por os mal tratarem, para o que não avia portuges que se quisesse offerecer, o que vendo o irmão e nossa necessidade, que de gente tynha- mos, pedio-me o mandasse laa. Mandey-o ao capitão; fol- gou muyto com a offerenda, aviou-o e foisse laa, onde 1273 v.i ja os achou embarcados // em hum grande junco de mantimentos, que em nenhuma maneira podia aqui vir, sem tirnda (?) (16) no qual vinhão também dous padres nossos. Estando nos agora na mesma necessidade de gente, por nos ser morta, nesta guerra, perto de sessenta por- tugeses (17), e passante de mil homens, entre gente da terra e escravos, ficando na povoação, que he grande, ate quarenta homens de peleja, e não mais, pareceo justo acudirmos a tal necessidade, assi que elle e o portador desta, ate Malaqua, que sera jornada de dous meses. E com isto acabo esta, sem poder acabar nem querer acabar de muytas vezes me encomendar em sacrifícios ao muyto Reverendo Padre Provyncial, Rector de Coimbra, Lisboa, e São Roque, Évora e de todas as outras pro- víncias, como dos mais reverendos padres, e oraçõis dos charissimos irmãos ahi dispersos, e do charissimo, solicito (16) Palavra que não conseguimos ler. (17) BACIL: «...afora mais de mil homens christãos da terra e escravagem e não avendo oportunidade pela outra ficar mui ferida e queimada pera tirar daqui algum, que tam poucos ficamos que, pera vigiar tamanha povoação, se não achão na vigia somente dous velhos em huma das tranqueiras, foi constragido a dar-lho. Elle sera, com ajuda de Deos, o portador desta ate Malaca, que sera jornada de dous meses 332
  • em nos prover, Bernardino (o quem o visse quaa!), cujo pequeno escrito neste distantíssimo Maluquo, recebi e obe- dici, com a quaixa dos oculos, poios quais lhe deseio ver esses, com que, de tão longe, nos tem muyto melhorados, e acabados em patientias, humildade e charidade, Amen. Eu não escrevo a meus amiguos dessa cidade, em par- ticular, por me ficar podereis vos, charissimi, dar-lhe parte desta, como fazeis das outras: sunt equidem catelli, que se contentão com as migalhas que caiem da mesa do Se- nhor. Favorecei-nos sempre com as solitas amoestaçõis ; in hoc n. (?) reficietis viscera mea. E perdoay-me não ser mais largo, porque escrevy para muytas partes (18). Deus, Dominus Noster, dives in omnibus et per omnia, det nobis in hoc século folgar com o que elle mais amou, Amen. De Temate, oje, 9 de Março de 1559. Frater in Domino Francisco Vieira (18) BACiL: Nesta cópia, antes do final da carta, vem o seguinte: «Huma breve vay com esta pera a família do meu antigo amigo ff 1140 r.J Gracia Fernandez, em que lhe dou conta de hum seu filho que na China faleceo, se parecer a quem esta for ter a mão dar-lha». 3 3 3
  • 51 TRECHO DE UMA CARTA DO IRMÃO LUIS FRÓIS Colégio de S. Paulo de Goa, 16 de Novembro de 1559 BAL: 4.9-IV-50. Fl. 113 r.-i20 v. Esta carta está publicada em Documentação... (índia), Vol. VII, págs. 297-326. Depois de relatar os acontecimentos religiosos nas várias cristandades da índia, refere-se, resumi- damente, à morte de alguns religiosos em diversos sítios, entre as quais, a do Padre Afonso de Castro nas Molucas. a) Virtude do Padre Afonso de Castro. b) É preso e morto pelos indígenas, em viagem de visita às cristan- dades das ilhas do Moro. c) Abandono em que vivem e morrem os religiosos, naqueles sítios. Hum destes foy o Padre Afonso de Castro, que Nosso Senhor, por sua clemência, com glorioso triunpho levou pera si, avendo perto de onze annos que continuava aquelle desterro com grande edificação de seus trabalhos e paciência, o que tudo lhe remunerou Deos amplissima- mente, com morrer nas mãos dos mouros tiranos, vindo em huma embarcação de visita as ilhas do Moro, e dizem que por elles foy nuu e posto em hum pao, a maneira de Cruz; e, segundo affirmão, sobre muytos açoutes, degolado com tres ou quatro christãoszinhos, que trazia pera a fortaleza 3 3 4
  • de Maluco, os quais, pêra lhe serem companheiros na glo- ria, o quiserão também, nesta vida, acompanhar no cutelo. Faleceo também nas mesmas ilhas do Moro hum dos com- panheiros, que o Padre Francisco Vieyra levou para Ma- luco, que era o Irmão Simão da Vera, grande exemplar de virtude. O falecer naquellas partes he absolutamente morrer em braços com a cruz nua de Jesu Christo, porque dos remedios humanos pera as enfermidades corporaes he a terra tão esteril, como expermentão, milhor do que eu o saberey dizer, nossos dilectissimos padres e irmãos, que naquelles desertos se exercitão na redução de nações tão barbaras ao conhecimento do seu Deos e Redemptor. // 1117 v) 3 3 5
  • 52 TRECHO DE OUTRA CARTA ESCRITA PELO IRMÃO LUIS FRÓIS Goa, 24 de Novembro de 1559 BAL: 4Ç-IV-4Ç. Fls. 120 V.-131 v. (1) Esta carta foi também publicada já, na íntegra, em Do- cumentação... (India), Vol. VII, pâgs. 327-364. Ocupando-se toda ela de factos relativos à vida cristã na índia, termina, resumindo as consoladoras noticias vindas das Malucas, refe- rentes à conversão de alguns chefes indígenas daquelas partes. Incluímos, por isso, nesta colecção, a parte final desta carta. a) Breves informações sobre a ilha de Bachão, nas Molucas. b) Conversão do seu rei, baptizando-se com o nome de João. c) Espera-se que o baptismo deste rei facilite a conversão de muitos dos seus habitantes. d) Um dos reis de Timor escreve ao Padre Baltasar Dias a pedir um religioso para o instruir nas verdades da Fé. Bendito seja Deos para todo o sempre, pois tanto acre- dita esta sua Companhia que o odor da vertude e zello delia seia ainda estimado dos pérfidos e capitães imiguos de sua sanctissima fee. Deixo, charissimos irmãos, muytas outras particulari- (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 118 r.-i34 v. 3 36
  • dades, em que me poderá dilatar, porque, com o que ja tenho escrito, creio terey satisfeito ou enfastiado o deseio que terão de ouvir novas desta christandade, mas, porque ate agora tratei de pessoas particulares e cousas de Goa, não poderey deixar de acrecentar mais nesta (para com mayor vehemencia estimularem o afecto e deseio que terão de se verem nestas partes, e o pedirem afetuosamente a Nosso Senhor) algumas cousas de outros estados mais altos, e pessoas de major preminencia, como he de allguns reis, que se converterão e outros que, mediante o divino favor e frequentação de suas orações, esperamos que se venhão a converter. Se as cartas do anno passado, que de Maluco vierão la forão ter, saberião brevemente por ellas, como o Irmão Fernão do Souro ficava em Bachão, vinte legoas de Ma- lucuo, soo com os reis da mesma terra de Bachão, que se convertera, e porque agora fica recebido da Companhia em este collegio o padre que o baptizou, e por comissão do padre provincial, me deo a relação do modo que se nisso teve, por aver tão pouco tempo, e estar tão ne- cessitado de gente que o ensine, pareceo bem ao pa- dre apontar-lhe nesta conversão que foy na maneira se- guinte : Bachão he huma ilha que esta a vinte legoas de Ma- luquo, pera a banda de Amboino, da qual tomão nome o reyno que tem em si, outras, ainda que pouco povoadas. // São abastadas dos mantimentos daquelas partes, que 1130 r.j he pão de farinha de pao, e peixe. He este rey de Bachão filho de huma irmã de el-rey de Maluquo, e era casado com huma sua prima com-irmã, filho do dito rey, a qual lhe morreo de parto, e foy sua morte causa (mediante Deos Nosso Senhor) da vida ispi- ritual e conversão do mesmo rey, porque estava o sogro mal com elle, por lha levar para Bachão furtada, sem sua 3 37 IKSULfNDlA, II — 22
  • licença, e, quando vio que lhe morria, logo pouco depois de a levar, cuidando que o sogro tomaria mal a morte de sua filha e lhe faria guerra, se detreminou deixar a fal- sidade da ley de Mafamede, em que vivia, e tomar a ver- dade da nossa santa fee, de sua parte, com amizade dos portugueses e, assi, loguo mui secreta e assi loguo mui secreta (sic) e apressadamente, mandou hum parao esqui- pado dizer ao capitão de Maluquo, Dom Duarte de Eça, que lhe mandasse hum padre, que queria ser christão elle com seis ou sete dos seus regedores. Visto o recado polo capitão, entendendo como vinha por Deos, com muyta pressa e diligencia, na mesma noite em que lhe chegou o recado, fez embarcar o padre que lhe o rey pedia e, porque o fez com parecer dos casados da fortaleza, temendo que pudesse algum i-lo dizer a el-rey de Maluquo, que pousa dahi muyto perto, que disso avia de ter mortal paixão e sentimento, por ser inimicissimo dos christãos, e hum dos mayores tiranos e cruéis mouros pera os cristãos, que ha em todas estas partes, porque se não impedisse tão notável serviço de Deos, Nosso Senhor, teve o capitão a todos, sem deixar nenhum sair da forta- leza, ate que o padre ja hia polio maar, a vella; e desta maneyra esteve a cousa secreta. Chegou o Padre a Bachão, vesporas de São João; e como o demonio sentia muito aquelle bocado, tentou de fazer que o rey se arrependesse, e nesta perplexidade e em conselhos com os seus, sobre as razões que o padre lhe dava, andou ate o primeiro dia da oitava de Sam João, no qual pela manhã se determinou ser christão, com toda a gente que consigo tinha, e assi se baptizarão, fazendo o rey primeyro baptizar aos seus todos que presentes se achavão, e por derradeiro se baptizou elle com hum irmão seu e outros primos e parentes, ao qual se pos nome de Johão, assi polo dia ser do Santo, como por amor do ze- 3 38
  • loso rey Dom João, que estaa em gloria, de cuio faleci- mento ainda laa não era a nova chegada. Ouve logo cutiladas e golpes na mesquita, desfazendo-a e desenxerceando-a como casa de falsidades e enganos, e assi foy loguo a nova a Maluquo, recebendo-a o capitão e portugueses e os mais christãos da terra com muyta festa e tiros e grande contentamento de todos, fazendo, por isso, procissão, com seu repique e festas posiveis, e pollo con- trario nos mouros grande espanto e tristeza, e puserão-se em armas com magoa, querendo cometer a fortaleza, mas não poderão. O padre esteve em Bachão quatro meses e meyo, cor- rendo as ilhas e fazendo cristãos todos, andando o mesmo rey com elle de lugar em lugar, trazendo-os ao baptismo, assi homens como molheres, crianças, escravos e escravas, entrando também neste numero huma menina, filha del- -rey bastarda, com sua mãy, e tres irmãas del-rey casadas c toda a outra mais gente principal, que naquelle tempo se pode alcançar e aynda fica muyta no reyno, // que se U30 v.) não baptizou, por o padre adoecer de huma enfermidade periguosa, pollo qual el-rey o mandou aa fortaleza de Ma- luquo a convalecer, ficando então soo. O rey de Bachão sera mancebo de vinte e quatro ate vinte cinco annos (segundo diz o padre), bem assombrado e gentil homem, e, se fora hum pouco mais branco, jul- garam-no por português; estaa muyto contente de si e de todos os seus de sua conversão; disse-lhe loguo o padre missa, dahi a poucos dias, a qual ouvirão com muyta atemção, assi adorando o Sanctissimo Sacramento, como se forão christãos de mais tempo, folgando em grande maneira de ouvir as cousas de Deos, que o padre lhe com- tava, e em tudo mostrando sinaes de interior conversão. E logo na guerra que socedeo antre os portugueses e, como bom christão, se aparelhava para se defender e ofen- 3 39
  • der os imigos da cruz. Esperamos em o Senhor que, aca- bado o cerquo de Maluquo, com o favor de Jesu Christo, Senhor Nosso, o mesmo rey de Bachão sera causa da con- versão doutros muitos que ja antes da guerra andavão para se liar com elle. Quererá Nosso Senhor, por sua infi- nita bondade, abrir caminho para que muitos desta maa ceita se salvem, at qui operarii pauci satisque rarissimi sunt. Deixo, charissimos irmãos, de lhe contar del-rey de Ceilão, que ha dous annos se converteo, e del-rey de Ti- mor, que he a terra donde vem o sandalo, porque la lhe mandarão, o anno passado, o terlado de huma carta que este mesmo rey escreveo a Malaqua, ao Padre Baltezar Diaz (2), pedindo-lhe muyto que quisesse la mandar hum padre, para lhe ensinar as cousas da fee, por ser ja chris- tão, com muytos principais do seu regno e esperar que, com a ida de algum padre, se acabasse a mais gente de converter. (2) Carta que se deve ter perdido. 3 40 i
  • 53 CARTA DO PADRE BALTASAR DIAS AO PROVINCIAL DA COMPANHIA DOUTOR MIGUEL TORRES Malaca, i de Dezembro de 1559 BAL: 49-IV-50. Fls. 328 r.-328 v. (1) Cópia clara e sem correcções ou palavras acrescentadas; embora pouco extensa, contém referências interessantes às cris- tandades das Molucas. а) Notícias de Malaca. б) Desta cidade se abasteciam as cristandades das Molucas. c) Vai em três anos que não vêm novas daqueles sítios. Jhus. Christo, Nosso Senhor, more em nossas almas. Amen. Esta lembrança faço a Vossa Reverencia, para que me encomende a Nosso Senhor, e tãobem para lhe dar conta de mym, pois Vossa Reverencia tem tanta parte em // [329 r.i minha estada na India. E se os annos passados lhe não escrevy, foi por não saber aonde residia. Este anno de 1559, soube pelas cartas, de como estaa em Portugal; então quis tomar este atrevimento. (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, £1. 140 r. 3 4 1
  • Eu, padre meu, vai em quatro annos que resido nesta fortaleza de Malaqua, que são seiscentas legoas da Yndia, e quatrocentas a Maluquo. Ate agora estive soo com dous iimãos; hum que tem carrego da casa, e outro tem escola de ler e escrever, que he hum dos fruytos que nestas partes se faz a Nosso Senhor, a saber, estas escolas de ler e escrever. Este anno, me mandarão hum padre (2), para me ajudar a confessar. O que eu faço he isto: preguo aos dominguos e santos na see, e confesso, assi em casa, como fora; os mais dos dominguos, vou com huma campainha pela cidade, ajuntando os escravos e escravas e filhos, e os ajunto na nossa igreja, lhe ensino a nossa doutryna, e no cabo, algumas cousas da fee. Nas monções, faço daqui o provimento para os padres de Maluquo, a saber, em cada hum ano lhe emprego seis- cemtos cruzados em roupas e outras cousas para seu man- timento, e mando-lhos; e assi, outros tantos aos padres de Japão; ysto tudo, que nos da el-rey. E, as vezes, ysto me custa muytos trabalhos; e contudo, padre meu, eu são de cada vez pior. Vossa Reverencia me mande muyto encomendar a Deos Nosso Senhor. Este anno, por mandado do nosso Padre Antonyo de Quadros, fiz os votos de coadiutor formado, espiritual. Deos Nosso Senhor me de a graça, para o bem amar e servir. Estava esta terra muito mal acostumada; agora, pola bondade de Deos, esta muyto boa, e fazsse serviço a Deos Nosso Senhor. Os padres de Maluquo, vay em tres annos que tem muytos trabalhos, com muytas guerras e fomes; vay em (2) O Padre Jerónimo Fernandes. 5 4 2
  • dous annos que não temos novas de la. Cartas, algumas duvidosas, são aver muytos trabalhos. Deos, Nosso Se- nhor, esforce a Vossa Reverencia com essa carrega que tem, e lhe dee graça para seu santo serviço. De Malaqua, o primeiro de Dezembro de 1559. Pobre em virtudes Baltasar Diaz
  • 54 CARTA DO PADRE BALTASAR DIAS AO PADRE PROVINCIAL DA INDIA Malaca, 3 de Dezembro de 1559 BNL: Fundo Geral, N." 4.554. Fls. 101-102 r. (1) A cópia desta carta, como a de todas as outras incluídas neste Códice, parece revelar um maior cuidado dos escribas no apuro da letra. No Códice da BAL, encontra-se já fora da ordem cronológica que se procurou manter, e entre os últimos documentos, inseridos como que em apêndice. Reputamos esta carta como um dos mais interessantes e pre- ciosos documentos sobre o início da evangelização nas ilhas de Solor e Timor, fornecendo-nos elementos que não têm entrado em conta, quando se pretende fazer a história daquelas missões. a) Situação de Solor e Timor. b) Influência dos mouros. c) Monções para estas ilhas. d) Informações sobre os seus habitantes e Ungua. e) Ilhas em redor. /) Cristãos convertidos em Lavunama, na ilha das Flores, pelos por- tugueses. g) Parte de Malaca um clérigo, com o fim de os visitar. h) Preparativos para ali serem enviados padres e irmãos da Com- panhia. «) Noticias de Macáçar, Panaruca e de Camboja. j) O Padre Baltasar Dias diz escrever aos reis de Solor e Timor. (1) BAL: 49-IV-50, fls. 617 V.-618 v. 3 44
  • Christo, Nosso Senhor, more em nossas almas. Amen. Nesta não farei senão dar enformação de Solor e Ti- mor, que me Vossa Reverencia manda pedir, porque o mais escrevo pollo Irmão Paulo Gomez. O que tenho colligido assi de Timor e Solor, como de outras partes que aqui direi, he o seguinte: Solor esta oito grãos he três quartos da linha da banda do Sul; e terra aonde ha poucos mantixentos; vem-lhe de redor, de muitos lugares, aonde ha muitos. He terra muito sadia. Ha na mesma ilha muitos christãos que fazem por- tugueses que ahi residem. Entra muito na ilha a seita de Mafamede; em a mesquita ha muitos mouros. São todos bestas, todavia, tirando-lhe tres ou quatro cacizes que nelle andão, dous de Calecut, e tres de Bengala. Hum destes, de Calecut, fez porvora. E tirados estes, tornara a terra, porque ia lhe tiramos hum principal, que não foi pouco trabalho; laa vai, se for. A este Solor e Timor partem daqui em suas monções, a saber: huma no fim de Setembro, e outra na entrada de Fevereiro, e o mesmo de la vem duas vezes no anno, a saber: Junho e em Outubro. A gente deste Timor he a mais besta gente que ha nestas partes. A nenhuma cousa adorão, nem tem idolos; tudo quanto lhe dizem os portugueses, fazem. A lingoa desta gente dizem ser muito curta, conforme em algumas cousas com a malaia. De Malaqua a Solor são trezentas legoas. De Solor a Timor, assi a banda de fora, como a de dentro, são vinte ate quorenta legoas. Solor he huma ilha de dez legoas em redondo; os comeres da terra são algum arroz, milho, muitos inhames, galinhas, grãos, feijões. De fronte deste Solor, tres legoas, esta huma ilha 545
  • muyto grande (2), aonde avera duzentos e mais chris- tãos, que fez hum João Soarez; chama-se este lugar, aonde estão estes christãos, Labonama, em que entra o rey da ilha, christão, com todos os grandes; pedem muito que os ensine, e outros muitos, que se querem fazer chris- tãos. No mesmo lugar, o anno passado, mandou la o vigário hum clérigo com o cargo de ir vizitar este rei christão e toda sua gente. Eu disse ao padre vigário que não mandasse leaa o padre, porque sabia que tinhão elles armação de mercadoria; e, todavia, foi e esteve em Solor, e não foi ver os christãos, e não sei se lhes alembrarão; empregou seus empregos, e trouxe seus bares, e veo-se. Esta ilha he muito grande e tem infinidade de gente e outras, ao redor, com muita gente; os mantimentos destas são: arroz, muitos inhames, grãos, muitas galinhas, fei- joens, porcos, cabras, muito mel. Não adora, esta gente, a nenhuma cousa, nem tem pagodes; não morão a borda do mar, por causa dos ladrõis; habitão por dentro das ilhas, de maneira, padre meu, que tenho para mim que he mais que o Brasil, e mais gente que em Maluco, con- forme a enformação que tenho, e muito milhor terra que o Cabo de Comorim. Em algumas destas ilhas ha alguns feiticeiros, mas tudo he nada; quantos quizerem fazer christãos, tanto farão, e se lhe não acodirem ou tolherem os cacizes, hão-se de salgar de Mafoma. A este Solor podem vir de Maluquo e hir pera Ma- luquo; vai ter muyta gente da China; continuamente estão nelle portuguezes. Este anno envernarão la duzentos e mais portuguezes; he este Solor muito sadio. Eu, padre meu, ando aprecebendo cousas para laa, pera os padres e irmãos que para laa hão-de hir, con- (2) Ilha das Flores. 346
  • forme a minha possibilidade, a saber: machadinhas, para fazer cazas, algumas vestimentas. Enfim, faço conta que ei-de ter, pera o anno, muitos hospedes pera la; aqui se faz, agora, huma embarquação prestes para huma terra que se chama Amaquaça (3) terra muito grossa, tudo gentios e gente de bons enten- dimentos. Foi ahi ter hum padre que aqui mora, por nome Vicente Viegas, e fez quatro reis christãos, com outra gente, e todos se querião fazer christãos; veo-se o padre, e nunqua la mais tornou ninguém. Agora derti- mino de tomar grandes informações desta terra, que tem grande nome por estas partes; he terra muito grossa; os bazares e a mercadoria he ouro; enfim, padre meu, pera o anno, irão desta terra as informações. Entretanto, Vossa Reverencia anime a estes irmãos e tome gente, porque para qua he o mundo e la he hum quarto. Indo de Malaqua para Solor e Timor, vão ter (a) hum reino por nome Panaruqua, terra jaoa e tudo gentios; nunqua quiserão consentir a lei de Mafamede e por isso lhe fizerão muitas guerras; não querem, são muito nossos amigos e dizem, segundo me disserão, que não avião de tomar outra lei senão a dos portuguezes; segundo me infor- marão, estão dispostos pera tudo; he esta Panaruqua a mais farta terra que ha na Jaoa, de carnes, arroz e outros legumes; estes tem pagodes e são idolatras. O reino de Camboja, aonde foi hum padre de São Do- mingos, continuamente estão pedindo que se querem fazer christãos; he íeino grande, e de muita gente, e muito farta, e por estas partes disse Christo: «messis quidem multa, operarii autem pauci» (4). Alembro a Vossa Reve- rencia que ia este anno tive por enformação em Camtão, terra da China, aver passante de seis mil mouros feitos; (3) Corrigido para Macaçar. (4) Matt. 9, 37. 5 4 7
  • chins, tanto que se faz mouro, fica logo sogeito pera as armadas. Esta he a breve enformação que a Vossa Reverencia mando; não seia Vossa Reverencia avarento de gente; mande, porque terra ha pera isso, e não curemos de por- tugueses; vamo-nos ao que he nosso, e acudamos a tantas almas perdidas que se perdem, a mingoa, e quasi que avemos de ter escrúpulo. Eu, padre meu, este anno, es- crevo a Solor a este rei e a sua gente, que lhe dou grandes esperanças de la os irem visitar e morar com elles. Vossa Reverencia comesse de os nomear, digo, aos padres e irmãos. Nam atente a enfermidades, nem a dores de cabeças, porque o som das campainhas lhes faz dor de cabeça; como são no campo, com a vista das almas, e com as verem ir para Deos, sarão. De Malaqua, 3 de Dezembro de 1559. Pobre de virtudes Balthesar Diaz Depois de aver escrito o valete, soube grandes infor- mações de Macaçar, e soube não aver nella ainda entrado Mafoma, por causa do porco, por não comerem outra cousa; e isto sem ninhuma duvida, e ser terra muito grande, e servirem-se com muitos cavalos, polia serra dentro, e serem ainda vivos alguns reis, que fizerão chris- tãos, e a estes, fiz com o capitão daqui de Malaqua que lhe escrevesse por esta embarquação, que pera laa foi, e sera mais desposta terra que ha nestas partes. Isto soube, depois da mais enformação, que tenho escrita a Vossa Reverencia (5). (5) Esta última parte falta na BAL. 3 4-8
  • 55 PARTE FINAL DE UMA CARTA DO IRMÃO LUÍS FRÓIS Goa, i de Dezembro de 1560 BAL: 4Ç-IV-50. Fis. 203 r.-2i3 r. (1) A carta geral, de que extraímos estas referências às Mo- lucas, encontra-se publicada também em Documentação... (índia), Vol. VIII, págs. 13Ç-162. Nela se relata, principal- mente, o sistema de ensino seguido no colégio de Goa, com breves notícias sobre algumas missões. a) Frutos da religião cristã em Malaca. b) Das Molucas, sabe-se apenas que os religiosos padeciam grandes trabalhos. De Malaca veio este anno o Irmão Paulo Gomez; o íruyto que se naquellas terras faz sempre he muito, espe- cialmente, depois que o Padre Baltasar Dias nella reside, porque alem do proprio que na mesma terra se faz com os portugueses, gente da terra, he Malaqua huma porta para as maiores impresas que ha nestas partes, como ve- rão claramente por huma carta que este anno escreveo o Padre Baltazar Diaz a este collegio, acerqua de muytas partes que totalmente perecem por falta de gente, donde (1) BNL: F. G., N.° 4.534, fls. 149-154 r- 3 49
  • sem nenhuma duvida parece estar a messe madura e co- lhersse delia muyto fruyto certo. De Maluco não tivemos o anno passado nenhuma carta nem recado dos padres e irmãos que laa andão, por não vir de laa a nao de el-rey, que vem huma vez no anno. Sabemos somente pelas cartas do outro anno atras que avião-de ter muy grandes trabalhos, por estarem de cer- quo e carecer muyto a terra de mantimentos e de gente para se defender. E ainda que não tiverão estes extraor- dinários, os que comumente se laa tem por aqueles deser- tos, e antre naçõis barbaras e incognitas, bastão para se conhecer e crer que padecem muyto. Quererá Nosso Se- nhor que, antes da partida das naos para este reyno, nos virão grandes novas de el-rey de Bachão, o qual ja he christão e das mais partes do Moro, Maluco e Amboino. 3 5 o
  • 56 TRECHO DE OUTRA CARTA DO IRMÃO LUIS FRÓIS Goa, 12 de Dezembro de 1560 BAL: 4.Q-IV-50. Fls. 312 r.-jzj r. (1) O Padre Marcos Prancudo, a quem esta carta é dirigida, Partira para Portugal, com o propósito de ali dar a conhecer a grande necessidade de religiosos, que havia na Índia, com irremediável perda das almas que, por toda a parte, desejavam converter-se. Nesta carta, Luis Fróis lembra-lhe isto mesmo, enumerando-lhe as cristandades que se encontravam totalmente desamparadas. Publicada em Documentação... índia, Vol. VIII, págs. 237-24.2. а) Grande movimento de conversões e falta de religiosos. б) Na ilha de Batjan reside o Irmão Fernão do Souro, apenas. c) As cristandades de Amboino, e outras, abandonadas, sem pastor. d) Na ilha de Moro, com cinquenta mil cristãos, estavam sòmente dois religiosos. Por amor de Deos, que diga Vossa Reverencia laa a gente que he necessária para Goa, e honde, este anno somente, se fízerão vinte mil christãos, e que ha mister de Divar todo christão, e Chorão todo christão, e Bade, (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 251 V.-253 r.; BNL: F. G., N.° 4.534, fls. 201 V.-202 v. 3 5 ' »
  • e Salcete, aonde ha tantos desemparados; e dahi salte em Ormuz, onde não esta ninguém da Companhia, por não aver quem para laa va; e Dio, onde esteve o Padre Misquita, e Baçaim, que tem hum padre doente, e Tanaa, e a Trindade, com os padres João da Beyra e João Bravo; 1312 v.i e Chaul, aonde ha tantos annos que pedem padres da // Companhia e o mesmo pedem de Cananor. E em Cochim ci Padre Mestre Belchior so, pera pregar, e em Coulão o Padre Cuenqua so, e Malaqua fica agora somente com o Padre Iheronymo Fernandez enfermo, e o rey de Inham- bane com o Padre Andre Fernandez soo; e el rey de Cei- lão com deseio dos da Companhia, e Dom Antonio (?), rey de Triquinamale, que agora se metera de posse com Pero Luis, o bramene, seu discípulo; el rey de Bachão com Frenão do Souro, que escassamente sabe rezar as ladainhas. As chrisandades de Amboino, sem ninguém; a christandade do Macasar, onde ha dous reis christãos, sem ninguém; el rey de Timor christão, que esta suspirando por padres da Companhia e os pede para fazer seu reyno christão, sem ninguém; o Moro, onde ha cinquoenta mil christãos, com dous padres doentes. Socotora, chea de christãos, sem ninguém. O Padre Dom Gonçalo, cami- nho do império de Manamotapa, sem ninguém. Ora para que he falar na China, Japão, Sião, Patane, Jaoa, Peguu, Bengala, Mortavão, Liquio, Samatra, Bisnaga, Cambusa e essoutros mundos que por aqui descoreem? 352
  • 57 RELIGIOSOS DA COMPANHIA NAS MOLUCAS Janeiro de 1561 BAL: 4Q-IV-30. Fls. 330 V.-332 r. (1) O documento donde tomamos os nomes aqui indicados tem o titulo: «Lista dos Padres e Irmãos que ha nestas partes da índia, ate Janeiro de 1361», onde vêm enumerados todos os religiosos da Companhia, segundo os lugares em que exerciam o seu apostolado. Em Maluquo: O Padre Francisco Vieyra O Padre Nicolao Nunes O Padre Antonio Fernandez O Irmão Fernão do Souro O Irmão Baltasar de Araiujo (1) BNL: Fundo Geral, N.° 4.534, íl. 173 v. IMDLÍKDIA, II — 33 3 5 3
  • 58 CARTA DO IRMÃO FERNAO DO SOURO Bachao, 5 de Maio de AO IRMÃO LUIS FRÓIS 1561 BAL: 4Ç-IV-50. Fls. 401 r.-4oi v. (1) Cópia com algumas correcções, feitas com letra diferente nas entrelinhas. Na cópia da BACIL encontram-se muitas passa- gens riscadas ou com uma redacção diferente, mantendo-se o sentido principal. a) Peripécias por que passou em Amboino. b) Trabalhos sofridos em Tidor. c) O rei de Bachão proteje os cristãos em Amboino. d) Ataque dos indígenas desta ilha em que ficou ferido. e) Encomenda-se às orações dos irmãos. A graça de Nosso Senhor, etc. Charissimo Irmão Luis Froes. De Ternate lhe escrevi largo, e agora, polio que me socedeo, lhe torno a escrever, porque não quero que se passe cousa de que lhe não de conta. Bendyto seya Deos, que, depois que eu sou nesta terra, (1) BACIL: Cartas do Japão. vol. II. fls. 276 r-276 v. BNL: Fundo Geral. N.° 4.534, fls. 289 r.-289 v. 5 5 4
  • sempre andey muy provado aos dados, e crede que passey pello poo do gato (2). Não sey que quer isto ser, e eu a mym mesmo me não entendo, porque, trabalhos de huma banda, e a guerra da outra, crede que, continuamente, que andey em bem de danças; e eu, em Amboyno, acolhy-me por pes, ate me esconder debaixo de hum ramalho; credo que tão afron- tado que as ceroulas me fazyão noyo, porque erão bran- cas, e a noite escura, e era porque reluzião. Arranquey delias, e pullas ao peacoço, e tantas quedas dey aquella noite, e tão afrontado e cançado cheguey a casa, que tres dias migei (3) sangue. Porque zombais vos a hum fogir a mais de mim ho- mens de espadas e solavanquos, e ficarem dous portu- gueses no terreyro? Crede que a vontade era correr como 3 ventuinho, mas o mato e as ervas erão tamanhas que eu não podia correr, e hum meu negro, que de tras de mym vinha, dizia: «yrmão, nos a guera, nos agora, nos mais morrer». Parece-vos que erão estes bons conceytos? Em Tidor também me vy asaz com bem de trabalhos, com huma mão passada de hum callavay (4), e agora, quando parti da fortalleza pera Baixão, estiverão cynquo cora-quoras de Tidores esperando por huma de Paixão (5) mas quis Deos que viemos tarde não as achamos. E depois que cheguei a Paixão (6), detriminou el-rey de vir caminho de Amboino asentar a tera e favorecer os christãos, e eu vim com elle, e demos em hum lugar que tinha morto hum português e destroido muitos lugares de christãos; e ao tempo que demos no lugar, tinhão peitado (2) poo do gato, expressão corrigida para pola fieira. (3) Corrigido para ouriney. (4) Do malaio cherawat, espécie de dardo. (5) Corrigido para Baixão. (6) Idem. 3 5 5
  • a huns criados del-rey de Ternate, porque, tanto que de- sembarquassemos, dessem sobre nos por mar; e assi ho fizerão, e nos embarquamos tão depressa que nem vagar para tirar os cotungos (7) tivemos, e elles vinhão com perto de corenta cora-coras, e nos éramos seis, os que pellejavamos, porque as mais nossas erão tres e apertavão o pangaio (8) a fogir, de maneyra que nos demos com elles, que na embarquação em que eu hia, que era a de el-rey, matarão sete homens e ferirão muitos, e eu sai do yoguo com huma espinguardada por hum braço, e quasi que não fuy de todo mal tratado, porque me tomava pellas ylhargas, mas quis Deos que me tomou o braço torto. Estes são os exercícios em que andey toda a mais parte do tempo, despois que estou nesta terra. Ysto vos digo eu, yrmão, que he fervor e fervor arre- zoado. Peso-lhe muito, por charidade, que tenha sempre lembrança de me encomendar ao Senhor, e asy pesa por mym aos yrmãos, aquelles que mais me amão, que sem- noi T.i pre //se lembrem de mym. Eu estou caminho deste Amboino para Baixão com as novas que me derão, que estavão esperando por nos co- renta cora-coras, o qual não ha mais que fazer que enco- mendarem-me todos a Deos; e eu, se vir que elles vem pera nos, não ey-de deixar de os castiguar, com algumas espinguardadas, porque na outra escaramuça passada (9), e isto no mais, senão por defender meu habito, porque elles a mym não dizem tir-te nem tirai-vos. (7) Assim parece estar escrito e na cópia da BACIL: tutanguos. Julgamos porém tratar-se do termo indígena cotumba, barco pequeno. (8J Também embarcação de mastros e velas, comum na África Oriental e na Índia, cuja origem etimológica se discute. (9) Neste ponto foram riscadas passagens, como se pode ver na cópia da BACIL. 3 5 6
  • Não tenho mais que escrever, senão que me de muitas encomendas a todos eses yrmãos. Nosso Senhor nos de sua graça para verdadeiramente o servirmos e amemos (sic). Feyta em Baixão a cinquo de Mayo de 1561 annos. Deste que muito os ama, pobre de virtudes Fernão do Souro 3 57
  • 59 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE CRISTÓVÃO DA COSTA A UM IRMÃO DA COMPANHIA EM PORTUGAL Malaca, i de Dezembro de 1561 BACIL: Cartas do Japão, Vol. II. Fl. 361 v. Além de cartas gerais e cartas particulares, os Códices ci- tados incluem também trechos de cartas, sob o titulo de Ca- pítulos. Esta é um deles, apenas com a indicação da data. a) Religiosos da Companhia, destinados às Molucas, ordenados em Malaca. b) Deferências do bispo de Malaca para com estes religiosos. c) Faz-lhe doação da igreja de Nossa Senhora do Monte. Alguns dos companheiros do Padre Marcos Prancudo se ordenarão aqui, de missa, que são, por todos, seis os que vão para Maluco. O bispo D. Jorge de Santa Lusia os ordenou, o qual he tão amigo e devoto da Companhia que lho não sei dizer, e esta tão sugeito e obediente a qualquer de nos, que não ousa negar e contradizer cousa que lhe digamos. Ontem, que foi dia de Santo Andre, e o primeiro do- mingo do Advento, por lho nos pedirmos, veo a nossa igreja, com o cabido, e nos fez livre doação delia, mos- trando em suas palavras que não somente isto merecia a Companhia, e elle deseiava fazer, mas que quanto fosse em sua pessoa, por amor da Companhia, faria. E asi inci- 3 58
  • tou e moveo todos os padres a este mesmo deseio, os quais, ainda que sempre, em outro tempo, repunhasem (sic) muito a isso, todavia, vendo seu pastor tão affeiçoado, lhes pa- receo licito o que pedíamos, e assi mui livre e liberalmente no-la concederão. Prazer a a Nosso Senhor que sera para nella o servirmos e para que a Virgem, Nossa Senhora, cuia casa he, nos queira também aceitar por seus ministros e servos, etc. Tivemos aqui hum jubileu, que tomarão na casa o Santíssimo Sacramento quinhentas pessoas, afora outros muitos confessados nossos, que tomarão em outras partes. Foi nesta terra, segundo dizem, mais que em Lisboa, tres mil, etc. 3 59
  • 60 PARTE DE UMA CARTA DO PADRE LUÍS FRÓIS Goa, i de Dezembro de 1561 BAL: 49-IV-30. Fls. 334 V.-357 v. (1) /Is informações contidas nesta carta referem-se ao colégio de Goa, aonde estão os padres professos e os colligiaes, escolas publicas e casa de probação»; ao colégio dos meninos da terra, a que aqui se crião e ensinão nas cousas da fee e nas sciencias de que são capazes»; à casa dos catecúmenos, «aonde se cathe- cisão, no tempo que aqui estão, antes de se baptizarem»; e, finalmente, ao hospital da gente da terra, «que este collegio tem anexo a sin. Conclui a carta com algumas notícias sobre as missões sitas em partes remotas. Foi publicada, na íntegra, em Documentação... (índia), Vol. VIII. págs. 384-397'. a) Novos religiosos enviados para as missões das Molucas. b) Para Malaca partem também religiosos, em companhia do seu bispo. Quanto as missões, para as partes remotas, antes do ynverno, partirão daqui, em diversas naos, alguns padres e irmãos para Maluquo; outros para Malaqua, para onde também hia o bispo Melchior Carneiro, a ver se podia con- (i) BACIL: Cartas do Japão. vol. II, fls. 264 r-267 v.; BNL: F. G., N.» 4.534, fls. 250-252 r. 360
  • valecer da sua asma, por naquella terra se acharem, os doentes destas infirmidades, bem. O Padre Arboleda, com outros irmãos, hia para Japão; deu-lhe huma tempestade tão grande, com ventos contrairos, que todos arribarão, sen nenhuma nao de Goa nem de Cochim poder passar a Maluquo. Tornarão-se para este collegio onde estiverão esperando 5 ou 6 vezes pela monção de Setembro. Neila se partirão para Maluquo e Amboino os Padres Marcos Prancudo, Pero Mascarenhas e Francisco Vieira, que o anno passado desse reino (sic) (2), e os irmãos Fernão Alvarez, Manoel Gomez, Diogo de Magalhães. Pera Malaqua foi o Padre Christóvão da Costa, que era ministro deste collegio, com os irmãos Yoão Fernandez e Gonçalo Fernandez, polo bispo de Malaqua ir, então, pera la, o qual tinha, com ins- tancia, pidido alguns cooperadores da Companhia, pera o ajudarem naquelle seu bispado. (2) BACIL: que o anno passado veio desse reino. 361
  • 61 CARTA DO PADRE JERÓNIMO FERNANDES A SEUS CONFRADES Malaca, 2 de Dezembro de 1561 BAL: 4Q-IV-50. Fls. 401 V.-403 r. (1) A cópia desta carta encontra-se em cada um dos Códices com datas diferentes, ou seja, 4 de Dezembro de 1561, em BNL, e 4 de Janeiro de 1561, em BACIL; esta última, sem dúvida, errada. a) Partida do Padre Baltasar Dias, e referências ao seu apostolado. b) Numerosa frequência à doutrina. c) A cidade encontra-se, agora, mais emendada de seus costumes gen- tflicos, que no tempo do Padre Mestre Francisco. d) Intensa prática de vida cristã, e recepção dos sacramentos. e) Chegada do Bispo D. Frei Jorge de Santa Luzia. /) Suas especiais deferências para com os religiosos da Companhia. g) Auxílio prestado pelos habitantes da cidade aos companheiros náufragos do Padre Manuel Álvares, chegados ali. h) Navios em Malaca, vindos de várias partes: Java, Bornéu, Sião, Pegu, Bengala, China, Sunda, Macáçar, Timor e Solor. ') Muitos reis destes lugares desejam ser cristãos. j) Padres destinados às Molucas, aguardando passagem em Malaca. A graça e amor do Spiritu Santo, etc. Pelas cartas do Padre Balthezar Diaz, dos annos pas- (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 337 V.-338 v.; BNL: Fundo Geral, N.° 4.534, fls. 289 V.-290 v. 362
  • sados, terão entendido o fruyto que Nosso Senhor tem feito nesta cidade, por meio dos nossos padres, e assv o sitio e custumes deste Malaca, e as mais particularidades delia, polo que, somente, nesta, brevemente, direi algu- mas cousas que, depois de sua partida, sucederão. O Padre Balthezar Diaz, despois de estar aqui soo, sem outro padre, quatro annos, com ter muito trabalho em pregaçõis e confissões, e mais obras de misericórdia, com lazer muito fruito nas almas, se partio no ano de sessenta para Goa, per mandado do Padre Provincial, ficando eu aqui soo com hum irmão; e assi estive espaço de hum ano, ate agora, que veio por reitor, pera aqui, o Padre Christovão da Costa, onde estávamos, agora, quatro pes- soas, a saber: dous padres e dous irmãos. Hum delles se ocupou sempre em ensinar a ler e escre- \er; fas-se muito fruito com estes mininos; ensinão a dou- trina de noite em suas casas, as quaes parecem mosteiros de freiras, pella muita escravagem que ha, e se ouvir a doutrina em toda esta cidade. Nesta parte, bendito Nosso Senhor, pois creo não aver cidade tão instruída. Este bom odor lhe ficou ainda de nosso bendito Padre Mestre Francisquo, que insinou aqui algum tempo, indo tangendo // pellas ruas, com huma campainha, como (402 r.i agora fazemos, aos domingos e santos. Vem a esta doutrina muita gente; no cabo se faz huma pratica sobre os Mandamentos e Artigos da fee a gente da terra, e dizendo-lhe muitas cousas na sua lingoa. Esta terra, por estar cerquada de mouros e gentios, e as mais das molheres dos portugueses serem mestiças, mui sogeitas a feitiços e mais custumes gentílicos, e por ser habitada de mercadores, tendo comercio com todo ho ge- nero de nação, esta mui chea de onzenas e de muitos casos novos e dificilles; comtudo, agora, pola bondade de Deos, esta mui emmendada e mui deferente do que ho 3 6 3
  • Padre Mestre Francisco a deixou, por ser, então, mais terra de mouros e de gentios que de christãos. E agora em todos os bons custumes he huma das milhores da Yndia, em sua porção. Nesta nossa casa se confessa muita gente, e os mais dos domingos se toma o Senhor, em duas, tres mesas, alem doutros que Ho tomão pella somana, por se embarcarem pera fora, como ca se usa frequentemente. Ha mais honr- rada gente de toda esta cidade se confessou aqui, este anno, geralmente, com muito fruito e proveito de suas almas. Algumas delias derão a volta, de verdade, ficandosse con- fessando frequentemente, deixando alguns custumes gen- tílicos em que vivião, como de sertos comeres e trajos mou- riscos, asaz desonestos pera molheres, e ensitativos pera muitas offensas de Nosso Senho; outras muitas, por exem- plo, destas molheres, ainda que se não confessarão, de- xavão os mesmos maos costumes, vistindosse, quasi todas, a portuguesa, com seus mantos, de maneira que tem agora posta a honrra nisso, tendo-a, dantes, posta em andarem em cabellos, sem mantos, com asaz desonestidade. Saibão aver sido este hum meo divino, pera se evitarem muitas offensas de Deos. Avera quinze dias que Nosso Senhor consolou esta terra com lhe trazer ho bispo Dom Yorge, frade dominico, pastor religiosíssimo. Ya deu mostras de muita edificação, com pregar e confessar como qualquer padre, neste yubi- leo. Esperamos em o Senhor que, com sua prezença. se evitarão muitos malles. Ja começou a entender em cousas da Inquizição e vicio sensual, como o mais pestífero e (402 v.i dominativos nestas partes. Mostrasse amicíssimo //da Companhia. Esta igreja, em que ate agora habitamos, por ser anexa a cee, e dada ate sua vinda, concedeo, a Irinta de Novembro, solemenemente, a Companhia, mos- trando muito gosto nisso e consolação em ter pessoas da 364
  • Companhia consiguo. Comsiguo trouxe hum jubileo polo Consillio de Trento. Nesta primeyra somana, tomarão aqui o Santíssimo Sacramento duzentas e setenta pessoas, e na segunda, duzentas e vinte e quatro. Isto pera esta terra he muito, e mais de tres mil pessoas pera Lisboa. Tam- bém na see e mosteyros dos frades domynicos tomou o Senhor muita gente. Com este bom principio terá, com a ajuda divina, mylhor e mayor occasião, pera imprimir nos maos alguma virtude e aumentalla nos bons. Avera seis meses que chegou aqui o Padre Manoel Alvarez com ho Yrmão João Roxo, de saúde; perderão-se na ilha de Samatra; muita consolação tivemos com sua vinda; pregou aqui aos sabados, com muita devação da gente; qua, como não são letrados, são boons de con- tentar de nos; pola afeyção que todos tem a Companhia, tudo lhe parece bem; aumentou-se o fervor das confissões com estas pregações, e o padre nos ajudou medianamente. Suprio Nosso Senhor a falta em que estava, com sua vinda. Nesta nao perdida vierão cento e trinta homens perdidos, aqui os agasalharão e ayudarão; gastou-se com elles mais de trezentos cruzados em vistidos e dinheiro, tudo de de- votos, que ho manda vão, alem de outras muitas chari- dades, que elles, por si, fazião. Nunqua vi tão liberal tharidade pera perdidos; foi huma obra de muita gloria de Deos, não esperando de terra tão pequena; muitas outras particularidades se oferescyão, mas, por serem das ordenarias da Companhia, bastara entenderem, os padres e yrmãos, estarem e andarem no campo, exercitando toda a ordem de misericórdia com seus proximos. Esta terra, quasi toda, he de christãos; tem alguns gentios e mouros mercadores // forasteyros; não ha nella conversão de [mj r.j gente natural, por ser de matos inhabitaveis; negros e gente cativa se faz muita christã. Vem aqui muitos navios carregados delles: de Java, Borneo, Cyão, Pegu, Ben- 3 6 5
  • galla, China, Sunda, Macasa, Timor, Solor e outros mui- tos regnos maiores, allguns delles, que toda a Europa. Por aqui poderão, charissimos padres e yrmão, enten- der ser Mallaca porta para as mais gloriosas myssões e empresas que ha na índia, pois confina com todos estes reynos. De alguns delles mandarão allguns senhores pidir a esta casa padres, pera lhe ensinarem a ley de Deos, e, por os não aver aquy nem em Goa, lhes não mandarão, dando-lhe allgumas esperanças, pera o anno. Pera Ma- luquo chegarão, os dias passados, seis padres e yrmãos, sendo pera 11a necessaryos muitos mais. Muytas vezes, vendo estas falltas e as muytas almas que se perdem, a myngoa, lembrando-me dos doutores em cânones, e em outras siencyas, que se la fazem bacharéis nas artes, e de outros muytos padres e yrmãos doentes, gastados de muito estudo, não me farto de os deseyar nestas partes, tendo pera mym que os doentes sararião com o gosto de con- verter allmas, e os doutores faryão muito fruyto, em detryminar muytos e dificees casos que por ca socedem. Seya Nosso Senhor, contudo, bendito, pois de tudo se serve; e Elie se lembre destas pobres almas, redemydas por seu precioso sangue. Em os santos sacrificyos e ora- ções de Vossas Reverencias me encomendo. De Mallaca, oje, dous de Dezembro de 1561 annos. Omnium servus in Domino Jeronimo Fernandes 366
  • 62 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE MANUEL TEIXEIRA Baçaim, 4 de Dezembro de 1561 BACIL: Carias do Japão, Vol. II. Fl. 276 v. Em a BAL: 49-IV-50. fl. 371 v. encontra-se a cópia de uma carta, escrita pelo Padre Manuel Teixeira, e com a mesma data, mas a que falta esta parte final. Na BNL: Fundo Geral, N.° 4.534 af>enas existe também este trecho, publicado já em Documentação... (India), Vol. VIII, págs. 431-433- a) Morte do Padre Francisco Vieira. b) Sublevações indígenas nas Molucas. c) Notícias de outras várias terras. De Maluco tivemos, este ano passado, polo Padre Antonio Fernandez, que de la veo, novas como o Padre Vieira era falecido de febres, de quem aquele povo diz que ficou muito sentido e solto, polo muito que nele tinha feito e fazia. Anda aquella terra e christandade toda envolta, com os alevantamentos, que la ouve, dos reis comarcões, com a prisão do rei de Ternate, que ja he solto, e anda agora peleijando por nos, com os nossos, mas não sei com quanta lealdade, porque sempre teve pouca. Pera la hião, na Monção de Abril, dous ou tres padres e irmãos, mas, por- que arribarão, forão nesta de Setembro alguns cinco sacer- 367
  • dotes e hum irmão. Foi o Padre Prancudo, por superior, e de tudo aquella terra tem necessidade. De Japão não lhe sei dar outras, senão estarem la os que estavão, ainda que o Padre Baltasar Gago nos escre- veo, a monção passada, que vinha por enfermo; espe- ramos, esta, por elle, que nos enformara na verdade do que la passa. Ainda que o anno passado, depois da partida de Vossa Reverencia, nos escreveo de la que o Padre Gas- par Vilella, que no Meaco era, fizera muito nelle, com a ajuda de Nosso Senhor, de se converterem muitos e to- marem nossa santa fe, com a affeição, como sabe, daquella gente, que tinha ja dado casas ao padre e chão para mais, em que ja tinha feita huma igreja, e mandado pedir com- panheiros a Manguche, de donde os mandarão ca pedir. Este Abril hião de Goa hum padre e hum irmão, mas arribarão a ella, com quase todas as embarcações que então para aquellas partes do Sul hião. Este anno me disse o Padre Antonio de Quadros que determinava de o prover milhor, e esta assentado em mandar, se elle não for a China com Diogo 1 Pereira s, que o conde viso-rei la manda por embaixador. Prazera a Nosso Senhor que entrara o Evangelho naquella terra, como entrou nas outras, onde os da Companhia forão, etc. Em Coulão esta o Padre Francisco Lopez, com hum irmão, e (i) Francisco Perez veo para o collegio de Goa, e antes que se viesse, fez la bom numero de christãos, que Nosso Senhor colheo em huma rede. Do Preste veo este anno o Abexim que la era mandado, e depois, veo hum judeu mais de fresco, etc. Diz que ouve la humas deferenças sobre quem avia de reinar, por morte (i) A conjunção e parece ter sido riscada. 1 — D"; 2 — Pr». 368
  • do que era, que morreo; se hum seu irmão, ou hum filho bastardo, e que huma das partes reteve ou prendeo o padre bispo e os mais delles, pera com elles reter a sua banda os portugueses que la andão. Não sei em que pararão. O Padre Dom Gonçalo, depois de dexar em Inham- bane bautizadas mais de quatrocentas almas, e o Padre Andre Fernandez com elles, se foi a Manamotapa, terra do ouro, ao emperador daquellas terras. E aprouve a Nosso Senhor, depois de alguns dias, bautizou a elle e a muitos dos seus; creo que passarão de mil, etc. Em a ilha de Manar (para onde se mudou a chris- tandade do Comorim) estão os Padres Anrriquez e So- veral, Cuenca e os irmãos Durão (sic), etc. Escrevem que estão ja os christãos quietos, e que fazem alguns bons saltos nos de Jafanapatão. Servesse Nosso Senhor naquella christandade, como sempre se sérvio, que he muito, como sabe, etc. Manuel Teixeira insulINDIA, 11—24 369
  • 63 FINAL DE UMA CARTA GERAL DO PADRE LUÍS FRÓIS Goa, 4 de Dezembro de 1561 UAL: 4.Q-IV-50. Fls. 350 r.-35i r. (1) Refere-se, nesta carta, à decisão do arcebispo de Goa, D. Gaspar, em reservar para o seu múnus apostólico a admi- nistração dos baptismos, e deixar aos religiosos o cuidado de conservar e sustentar na fé os cristãos convertidos. Indica-se, ainda, o sistema seguido no ensino da doutrina cristã, na ilha de Goa; transcrevem-se partes de algumas cartas enviadas a Goa, e termina com as informações que a seguir damos. A carta está publicada, na íntegra, em Documentação... (índia), Vol. VIII, págs. 41q.-4.30. a) Primeiras conversões nas ilhas de Solor. b) Um dos chefes destas ilhas envia a Malaca um sobrinho seu, a fim de se instruir nas verdades da fé. Agora, faz dous annos, lhes escrevemos como em hu- mas ilhas, donde vem o sandalo, longe de Malaqua, fizera hum fidalgo (2), que ali foi negocear sua fazenda, o rei de Solor, christão, com sua molher e gente principal do seu reino; e la foi huma copia que elle escreveo a Malaqua (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 268 r.-275 r.; BNL: F. G., N.° 4.534, fls. 253-256 v. (2) João Soares. 370
  • ao Padre Baltazar Dias (3), em que lhe pedia fosse ou fizesse la ir alguns padres da Companhia, para o instruírem nas cousas da fe, e para se baptizar a mais gente, que ainda não era feita christã, porque o fidalgo que o bap- tizou morreo e ficou elle dezemparado. Esperando, depois, algum tempo, que fossem laa, e não indo, pelo dezejo que tinha de sua salvação, não tendo filho nenhum, tomou hum príncipe do reino, filho de hum seu irmão, e o mandou a Malaqua ao Padre Bal- tazar Diaz, com um recado, que dizia que, pois ali avia falta de padres pera o irem insinar, que la lhe mandava aquele sobrinho seu, por não ter outro filho que lhe man- dar; que lhe pedia muito o tivesse ahi em casa, e lhe fizesse aprender a doctrina, para que, como fosse ins- truído nas cousas da fee e doctrina chritam, tornasse o mesmo minino a ensina-lo. E ahi fiqua na casa de Ma- laqua, aprendendo oraçõis; tem bom natural e habilidade, para em breve tempo as saber todas; chama-se Lourenço. Quererá Nosso Senhor prover-nos dessas partes da Eu- ropa, para que estas e outras muitas necessidades sejam remediadas. Deos Nosso Senhor os tenha de sua mão t lhes de a sentir sua santa vontade e essa comprir. Deste collegio de São Paolo de Goa, aos 4 de Dezembro de 1561. Por comissão do Padre Antonio de Quadros, Provincial da índia. Servo inútil de todos Luis Fróis (3) Não conseguimos ainda encontrar esta carta. 37 1 >
  • 64 1 TRECHO DE UMA CARTA DO IRMÃO FERNÃO DO SOURO s. 1. / s. d. BAL: 4.Q-IV-50. Fl. 353 v. (1) Estas notícias encontram-se em ambos os Códices, sem se indicar a carta a que teriam pertencido, incluídas na carta do Padre Luís Fróis, publicada sob o número anterior. a) Constância dos cristãos de Amboino. b) O que dissera a um, chamado Manuel, o Padre Mestre Francisco. Vindo eu de Maluquo as terras de Amboino, a hum lugar de christãos, que se chama Ative, os quais, todos os dias, antes de minha chegada, pelejavão com todo Am- boino, e tres vezes tiverão o lugar de cerquo, e isto tudo, porque se não querião fazer mouros, o regedor do lugar, que sostentava os christãos na fee, era dali mesmo natu- ral; chamasse Manoel, e a doctrina, que alguma sabia, era do Padre Mestre Francisco, e, segundo me dizia, mui- tas vezes, este christão, andava com a sobrepeliz e bre- viário do Padre Mestre Francisco, acompanhando-o por aquelles dezertos de Amboino, e que aquellas istorias e doutrina, que o padre lhe dizia, se lhe emprimirão tanto no coração que, muitas vezes, se aquilo não fora, se tivera (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, íl. 274 r. 37 2
  • feito mouro, segundo a grande perseguição e trabalhos em que se via com elles, dizendo-me mais: «Eu sou hum amboino do mato, que não sei que cousa he christão, nem que cousa he Deos, somente isto, que o Padre Mestre Francisco me dixe, que era bom morrer por amor de Nosso Senhor Jesus Christo»; e que isto so, lhe dava animo e vontade pera trabalhar, ate morrer. Quando ali vão os irmãos, recebe-os com grande ale- gria e gazalhado, ministrando-lhe o necessário desa po- breza que tem. Este anno passado, mandou dous filhos seus e hum criado a este collegio, pera aqui aprenderem a doctrina christã, e se ensinarem a ler e escrever. Quando agora forão nossos padres pera Maluquo, lhe mandou, o padre provincial, algumas cousas que lhe erão necessárias, por ser tão bom homem, que sem nenhum ajutorio humano, ha tantos annos persevera, com tanta constância, na fee que tomou. 37 3
  • 65 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE MESTRE PRANCUDO Malaca, 10 de Dezembro de 1561 BACIL: Carias do Japão, Vol. II. Fl. 2Ò^ v. A carta completa não se encontra em nenhum dos Códices de que nos servimos. A data mencionada é do copista, com a indi- cação de que a mesma carta se destinava ao Padre Mauricio, em Portugal. fl) Contentamento nos trabalhos apostólicos. 6) A caminho das Molucas com cinco companheiros. Ainda que esquecido de mim, eu sou lembrado, muitas vezes, de Vossa Reverencia, o qual não me causa pequena devação, poios grandes deseios que via em Vossa Reve- rencia, de grande e santo aumento da Companhia, e, par- ticularmente, de vir a estas terras de infiéis. Padre meu, qui querit inveniet, et qui petit accipiet (1); e ainda que os superiores o neguem, huma e duas vezes, e que se mostrem por isso agastados, propter improbi- iatem tamen dabunt, pois tem condição de Deos, que da mil bens aos que lhos pedem, quanto mais aos que lhe pedem trabalhos por seu amor e honrra, etc. Procure Vossa Reverencia vir para ca, para que saiba (1) Cf. Matt. 7, 7. 3 7 4
  • que cousa he levar ma vida, por amor de Deos, e levar nisso muito contentamento, etc. E não seia tudo: nomi- nativo, musa; porque differente cousâ he ensinar quod Dominus ipse est Deus, que hum par de frases de Ci- cero, etc. Estou, ao presente, em Malaca, onde achei o Padre Manuel Alvarez, destruído com seu naufrágio, etc. Vou de caminho pera Maluco, com cinco companheiros, onde temos bem que trabalhar, por aquella christandade estar distruida com guerras passadas. He terra onde não ha pão, nem vinho, nem carne; e sempre comem peixe, e o pão he como de cinza, misturado com vidro, porque reluz muito; e quem pode comer arroz, he rei, etc. (2). (2) Nota à margem: carta do collegio de Goa. 3 71
  • 66 FINAL DE UMA CARTA DO PADRE LUIS FRÓIS Goa, 15 de Dezembro de 1561 BACIL: Cartas do Japão. Vol. II. Fls. 302 r.-302 v. (1) Esta carta encontra-se publicada em Documentação... (ín- dia). Vol. VIII. págs. 438-442. Depois de se referir à morte do Padre Dom Gonçalo; à prisão do Irmão Fulgêncio Freire, entre os Rumes; e do Padre Bispo Dom André, no Preste João; às virtudes do Padre Patriarca, e do Padre Bispo. Mel- chior Carneiro, o Irmão Luis Fróis resume o martírio do Pa- dre Afonso de Castro, servindo-se de uma carta, escrita pelo Padre Francisco Vieira. a) Martírio bárbaro do Padre Afonso de Castro. b) Sua coragem na morte. c) Castigo do assassino. d) Veste do Padre Mestre Francisco reavida. De huma carta que hum padre nosso escreveo, este anno pasado, de Maluquo, tirey hum capitolo, pera lho mandar nesta. Creo folgarão com ele, porque não sey se o saberão la, tanto por extenso, que he o seguinte: Quanto ao martírio do bom Padre Afonso de Crasto, (1) BNL: F. G„ N.» 4.534, fls. 316 V.-317 v. 376
  • Begundo os moços nossos, que com ele hião, que, depois, por pazes, os ouvemos, e, segundo os mesmos mouros con- fesão, sua morte foy a mais acérrima e terrível que se vio em nossos tempos, porque estes mouros são tão tiranos que isso e muyto mais se pode crer deles. Ele vinha do Moro na mesma embarcação, com a gente del-rey de Ternate, que la nos avya levado a todos, sem o padre saber da prizão del-rey, e parece que antes que cheguase a cora-cora a fortaleza de Maluquo, sou- berão como seu rey estava preso. Tomarão, então, ao bendito padre, e amararão-no com cordas e puserão-no na mesma embarcação, dizem que crucificado a hum pao, ou a maneyra de coluna. E neste comenos amararão também os moços; e o fato, e retabolos devotos que tra- zia, e livros, dividirão entre sy; os livros forão rotos e os retavolos, quebrados, deytados no mar. E foy despido nu e posto, cinco dias, ao sol, com lhe darem muytos asoutes, e lhe fazerem muytos oprobrios, perguntando-lhe por seu rey, e cometendo-lhe que fose mouro; o qual tudo o bom padre tomava com muyto sofrimento, e com boca chea de rizo, e davão-lhe alguma miséria a comer, o qual ele não podia fazer, por ser, ja em são, muy mal desposto. Parece que, neste comenos, lhes matarão qua, os nossos, hum cacis, na guerra, e avendo obra de vinte dias que o bom padre estava nestes martírios e dores que di- guo, o tomarão, então, com as prisõis muy fortes em que estava, e o levarão a huma praya. E aly, em sima de huma pedra, se poz o varão de Deos de giolhos, com as mãos alevantadas pera os ceos; e hum daqueles tiranos, de dous golpes, o matou, e foy deitado ao mar; e dizem que, dahy a hum mes, se tornou a sentar sobre a pedra, com as feridas ainda frescas, sem feder. E quando os negros o virão, ficarão muy espantados, e diserão que 37 7
  • eles matarão ao inocente e que, por isso, avião de ser muy castiguados de Deos; o qual logo virão, que aquele por quem foy morto, dahi a três dias, morreo com todos os seos. Estas são as mais certas novas que do bom padre te- mos. De tudo o que lhe foy tomado não ouvemos senão huma casula de huma vestimenta que qua tínhamos do nosso Padre Mestre Francisco, de santa memoria; a qual o rey de Ternate, mouro, indo a hum luguar seu, ouve e ma deu (2), que não foy tão pouco pera mouros. Luis Fróis (2) BNL: e a mandou..
  • 67 EXPOSIÇÃO A EL-REI DO PADRE MESTRE PEDRO FERNANDES SARDINHA SOBRE OS INTERESSES DA CRISTANDADE s. d. ANTT: Gaveta 20-7-51. Este documento eneontra-se publicado, na íntegra, em Do- cumentação... (India), Vol. IV, págs. 558-564. Dele extraímos as referências às cristandades das Molucas. Estas são as couzas que parecera se devem prover na índia pêra reformação dos custumes e bem da christandade e serviço de Vossa Alteza. Do Espritual: Item. Que em todas as fortalezas aja pregadores, prin- cipalmente nas que estão muito afastadas da índia, como são Maluquo, Malaqua, Ceilão, Choromandel, Çofala, Moçambique e Ormuz, ou ao menos se provejão de vi- gários sufficientes que, quando não tiverem abilidade pera dar doutrinas, deiem bom exemplo, e preguem com a vida, e folguem de ensinar a doutrina christãa. Item. Pera que esta santa obra da christandade seja 37 9
  • favorecida e os que se convertem sejão doutrinados na fee, devia Vossa Alteza encomendar muito ao bispo que proveja as fortalezas, principalmente Maluquo, Malaca, Ceilão, Ormuz, Dio, Baçaim, Chaul, Çofala, de vigários mais zelosos da virtude, e de fazer christãos, que fol- guem de ensinar cada dia a doutrina, como se faz em todo este reino. Do Temporal: Item. Que se pague soldo aos quartéis, como se fez em tempo de Dom João, e se dem mesas aos soldados, como se fazia antiguamente, porque desta maneira avera sempre gemte prestes na India pera as armadas, e ser- viço de Vossa Alteza, e não se espalharão os homens per Bengala, Malaca, China, Pegu, Banda e Choromandel, e alguns por posta a obrigação de sua fee, e antiga lial- dade, fazem outros desarranjos piores. 5 8 o
  • G8 CARTA DO PADRE MANUEL ALVARES AOS CONFRADES DE COIMBRA Malaca, 5 de Janeiro de 1562 BAL: 4Ç-IV-50. Fls. 40Ç r.-^iç v. (1) A tormentosa viagem em que tomou parte o Padre Manuel Alvares foi por ele descrita em duas cartas. A primeira narra o que se passou no desvio para o Brasil, a caminho da Índia. Nesta, as tempestades, tribulações e revezes, do Brasil até Ma- laca. A cópia desta longa carta encontra-se nos três Códices com uma ou outra ligeira variante, que se anota. /Is infor- mações nela contidas são preciosas, para bem se conhecer a índole dos aborígenes com quem os portugueses procuravam contactar, e dos riscos a que, para tanto, andavam expostos. a) Arribam ao Brasil. b) Tempestades e contratempos, a caminho da Índia. (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, lis. 321 r.-337 r.; BNL: Fundo Geral, N.° 4.535, fls. 179 V.-190 v. Ainda na BAL existe um impresso N.° 129/130/G 31, com o titulo: Compendio Universal de todos os Visos-Reis, Governadores, Capitáes-geraes. Capitães-mores, Capitães de naos, Galleões, Ureas e Caravellas, que partirão de Lisboa para a Índia Oriental e tornarão da índia para Portugal. Com os nomes de todos, dias, mezes e horas em que partirão deste reyno. Ordenado e feito pello Padre Manoel Xavier, da Companhia de Jesus. Ms. do século XVII. pertencente à Biblioteca do Visconde de Faria, Consul de Portugal em Lausana. A pág. 27 vem a seguinte indicação referente a esta viagem: «Em 20 de Abril de 1560: ...6." Ruy de Mello da Camara em S. Pau/Io, arribou ao Brazil, e. depois, fazendo viagem, foi dar à costa em Su- matra, salva a gente». O Padre Sebastião Gonçalves, na sua História da Companhia, também se refere a esta viagem, Livro Nono, Cap. 19. 38 I
  • c) Naufragam nas costas de Sumatra. d) Privações, doenças e mortes sofridas nestas paragens. e) Conseguem chegar à ilha de Sunda, onde encontram uma armada portuguesa. /) Viagem para Malaca. g) Acolhimento que tiveram nesta cidade. Gratia et pax Domini Nostri Jesu Christi sit semper nobiscum, frates charissimi. Amen. Confesso-vos, dilectissimos e amantíssimos em Christo irmãos, que avia muitos annos que, conversando e an- dando nesse collegio entre vos, muitas vezes, trazia como diante dos olhos este apartamento tão grande, que avia de fazer de vos, ate que o Senhor ouve por bem de ser, e verdadeiramente que, se não fosse por amor do mesmo Senhor, que era mui duríssimo apartamento, pois tão longo e pera sempre apartado de tão suavissima conver- sação, como he a dos yrmãos da Companhia e desse colle- gio. Isto me consola, que todas as linhas do ponto a cir- cunferência são iguaes. Outra verdade vos confesso que, como homem e fraco, me lembravão, algumas vezes, os trabalhos e perigos de tão comprida viagem, e quis o Senhor que os pasasse e que ainda per hum pouco me ficasse a vida, para que me consolasse convosco, ainda que não fosse mais que por vos dar conta delles, do que sey que vos aveis de alegrar muito, e porque, a verdade, a viagem foi estranha forsam et haec olim miminisse iuvábit, per vários casus per tot discrimina rerum tendimus in Indiam (2). Ja creio que tereis sabido, pellas cartas que do Brazil escrevemos, em como ho Senhor primitio que andássemos (2) Cf. Eneida, Liv. I, vs. 203, 204 e 205. 382
  • tanto tempo na costa da Guine, sem poder passar a linha, que ouvemos ahi de adoecer quase todos. Dos quaes, alguns morrerão, avendo eu tanta parte na infirmidade que, ao meu quinhão, houve dez sangrias, e estive, per duas vezes, a morte; tão fraco e gastado que soomente fiquei nos ossos. Donde nos determinamos a tomar a Bahia de Todos os Santos, que he terra do Brazil, pera nos refazermos das cousas necessárias e convalecermos das infirmidades E assy o fizemos. D ahi vos escrevi largamente todo ho successo de nossa viagem, desde Lisboa ate hy. Agora, com o favor divino, detrimino, ho mais breve que puder, dar-vos conta do que, dahy ate estas partes, nos aconteceo em nossa via- gem. E forão ellas tantas e taes que, todavia, ey medo que algum tanto seya longuo. Mas não me dara muito, por- que sei quanto folguais com as novas de vossos irmãos, e mais, destas partes, e de viagem tão estranha. E por- que, sendo avisados destas cousas, deis connosco muitas graças a Nosso Senhor (como acostumais) pelas grandes merces, que de sua mão temos recebidos. Chegamos a Baia, a dezassete dias do mes de Agosto, a hum sabbado; vimos a terra, pella menhã, muito cedo, e, as duas horas do dia, pouco mais ou menos, estaríamos ja dentro anchorados, aonde estivemos quarenta e sete dias, convalescendo, e aviando-nos; partymos dahi, a dous de Outubro, era de 1560. O Padre Luis de Agrã, com muito amor e charidade, foi comnosco // ate a nao, (e dando a vela, foi ainda hum [409 T.i bom pedaço; e não podendo ja aturar com a nao huma barca em que se avia de tornar, se despedio de nos, com sua acostumada charidade) (3); e deitando-nos a sua ben- (3) As palavras entre parêntese encontram-se à margem. 38 3
  • ção, se tornou elle e ho Padre Rodrigo. Da nossa nao lhe deixamos tres mancebos, ja na Companhia, homens de muita maneira. Ventava ho vento leste, e mui fresco, e a nao infu- nada com todas as vellas, em breve espaço de tempo, nos desapareceo a terra, que, quando veio a noite, ja a não viamos. A os 7 dias do mesmo mes de Outubro, passamos por entre humas ylhas; huma delias se chama Asenção; e a outra, a Trindade; mas não as vimos, tomando ahi a altura, a saber, dezoito grãos e meo; levamos o vento noroeste e corríamos ao leste e quarta de oeste. E aqui tivemos grandes chuivas, e estaríamos, aquele dia, cem legoas da Baia. A os quinze dias do mes de Novembro, a huma sesta feira, vimos Cabo de Boa Esperança; hiamos governando a les-nordeste, e podíamos estar delle, quinze legoas, ou menos; hiamos com vento sul e bonança e governávamos ao sueste. Aos dezasseis do dito mes, ao sabado, está- vamos trinta e cinco grãos e hum terço, e defronte do Cabo Falço, e aparecia ainda o Cabo de Boa Esperança, por popa; podíamos estar delle vinte legoas; levávamos vento este em popa, rijo. E aos vinte quatro do mes de Novembro, que foi dominguo, vimos huma ilha, em ama- nhecendo, mui fermosa, alegre e nunqua, ate então, des- coberta de ninguém; fomo-la vendo ao romper do Sol, ho qual deitava por entre humas nuvens, huns raios, que era cousa muito para folgar de ver, porque parecia huma bella pintura. Esta esta ilha em trinta e oito grãos; podíamos estar delia tres ou quatro legoas e hiamos governando a les- -sueste, e ho vento era norte; achamos em redor delia muitos lobos marinhos. Estaa esta ilha norte-sul com a 3 84
  • Ylha dos Romeiros e com a Ylha das Sete Yrmãs; esta nordeste-sudueste com a Ylha de Ceilão (4). Passada esta ylha, tivemos mui grandes ventos e muita chuiva, e fazíamos neste tempo nosso caminho, tendo bem de sobresaltos. E caminhávamos pelo maior golfão que ha em todo o oceano; com mais verdade, podíamos nos dizer aquillo de Virgillio, do que elle por Enéas: Ut pelagus tcnuare rates nec iam amplius utla occumt tellus, maria- que undique et undique coelum (5). E dai a muito tempo, não vimos terra, ate que a vimos, pêra grande tristeza e desconsolação de todos. Aos vinte dias do mes de Janeyro, 1561, segunda feira, as tres oras, indo correndo com grande temporal, sem vellas nenhumas, vimos huma ylha que dizem ser a Ylha do Ouro, que esta na linha, trinta legoas, da grande Ylha de Samatra. Tanto que a vimos, quiséramos dobrar huma ponta que demorava a nor-nordeste e não pudemos; vira- mos na volta do sul e quarta do sueste, e o vento era oes- sudueste, e tanto, que falava; a chuva, que parecia que nos queria alagar; os mares tão grandes e espantosos que parecia que nos querião absorver. A nao hia tão desin- quieta que nos não podíamos ter; os ventos erão taes que em nenhuma maneira lhe podies ter ho rosto; era a cousa de maneira que os mareantes hião, // e todos, ja asom- 1410 r-i brados da ora da morte; ainda ho mestre, que era hum robustissimo homem, confessando todos que nunqua taes tempos virão, nem tão espantosos. (4) BACIL: Nesta cópia e neste ponto da carta lê-se mais o se- guinte. escrito com a mesma letra: A forma da ilha (e com letra dife- rente) é a seguinte. A margem tem a seguinte nota: não se tirou do original. (5) Na entrelinha lê-se a indicação L.° 26. A passagem citada da Eneida, encontra-se, porém, no Livro 5, versos 8 e 9, como se segue: «ut pelagus tenuere rates, nec jam amplius ulla ocurrit tellus, maria undique et undique coelum...». 38 5 INSVLÍND1A, II — 25
  • E caminhando neste bordo, e com estes tempos, come- çarão-nos a quebrar os aparelhos e costeiras e matilhos do mastro grande, e os braços grandes. E rompeu-se-nos a moneta grande e ho papafiguo de proa, dalto a baixo; e levou-nos o vento a çevadeira, sem ficar pano na vergua. Metemos, então, outro traquete e com os papafiguos fomos trinquando toda a noite, com ventos e mares gran- díssimos; andamos com esta tormenta, parece-me que dous dias e duas noites; as noites não parecião senão imagens do ynferno. Destas duas noites, a ultima me pus a con- fessar no camarote do piloto, e ahi confessei ao capitão e a outros homens fidalguos e a outra muita gente con- fessei; ao mestre e ao piloto não acabei, pella muita per- turbação da nao, e elle acudir. Erão tantas as confissões que não podia acodir a tantos, porque huns me chamavão de huma parte; e outros, de outra; e eu não sabia a quem acudir-se; apertando-me também ha desconsolação, que eu tinha, por não ter a quem me confesasse, vendo também a morte diante dos olhos. Reconciliavãosse neste tempo huns com os outros, por- que avia muitos contrairos (era a maior parte desta gente dura e indómita); avia outros males grandes, de que eu me temia muito, antes que de Lisboa me partisse. Assi que, finalmente andando toda esta noite, da maneira que diguo, que parecia hum ano, quando veio a madrugada, achamo-nos antre humas restingas, aonde arrebentava ho mar, e mui iunto de nos, que foi causa de grandíssima perturbação pera todos. Os escouves hião abertos, e a nao arfava muito, e to- mava muita agoa, de huma parte e da outra apparecião terras; não avia ja quem soubesse dar concelho; deitarão huma ou duas ancoras, e com a força dos ventos e dos mares, não pode aguardar a nao que não quebrasse loguo 386
  • a amarra, e assi, caçando com a outra, a cortarão, por- que fazia muita aguoa pelos esconves. E assi, começando ja amanhecer, achamo-nos mui junto a terra; a tromenta não cessava; hos homens esta- vão, que parecia aquilo que a-de acontecer no juizo, que huns a outros se metião medo. Chamei, pela menhã, meu companheiro e confessousse; os outros erão muitos, aos quaes ja não podia acudir, que andavão também em ne- gocio de se salvar. E assi, atorando a trovoada e a bra- veza dos ventos, sem aver remedio nem socorro, e pellos altos juizos de Deos, deu a triste da nao a costa, com tão grande alarido e clamores da gente que paredão que che- ga vão ao ceo. E não avia quem se ouvisse; os marinheiros e outros que sabião nadar, como virão a nao a costa, lão- çãosse ao mar, a nado; alguns sairão fora a praia, outros se affogarão. He mui differente contar isto e ve-lo como passou. A terça feira, pela menhã, que forão vinte e um de Janeiro, demos a costa em huma ylha pequena, que dizem estar diante da de Samatra. Vendo a gente aquelle spectaculo espantoso, como foi ver dada a poderosa nao a costa, de fronte deste ylheo, e quis ho Senhor que não ficasse hum pouco mais / / atras, L4io sobre hum rochedo, onde logo em breve espaço acabara com sua gente, nem também entrar de todo em esta baya, aonde ficara mui segura. Mas o Senhor, como pai mise- ricordioso e justo, que não deixa os males sem castiguo, quis-nos aqui nesta castigar, por seus segredos. E assi, vendo a gente o castiguo de Deos, e deseiando elles sal- var suas vidas, vendosse assi perdidos, muitos dos mais antiguos marinheiros (como disse) se deitarão a nado, e outros muitos com elles; aynda alguns que não sabião nadar, de desatentados e perturbados se deitarão a nado, por ser perto da terra, dos quaes morrerão muitos, por 387
  • pouco advertir, porque pondo a nao a quilha na vaza, e sendo muito forte, esteve sem se desfazer, de todo, ahi, muytos dias. Shaio, neste tempo, ho esquife da nao, com grandíssima difficuldade, fora, com detrimento de algumas pessoas, ao menos de hum marinheyro, que saio muyto ferido, e ho batel quasi alaguado. Saio a terra com alguns, e outros, dos que se deytavão a nado, se affogavão, cujos corpos, depois, ao menos de alguns, enterramos nessas praias. Era cousa de piedade, ver as molheres, que neste tempo estavão meas mortas, humas em huma parte, e outras em outra, as quaes erão muitas, que foy do mayor ympidi- mento que nesta viagem tivemos. Eu estava neste tempo duvidoso do que avia acerqua de minha salvação, espicalmente vendo que dos mylhores e mais antiguos marinheyros estavão ja postos em terra, a nado. E tendo huma taboa na mão, detirminava dey- tar-me também a nado, com os outros, mas todavia, to- mando conselho, me pareceo milhor que aguardasse, por- que mais seguramente poderia sair no batel. E assi foi que, embarcando-me com alguma outra gente, aonde sai- rão algumas molheres fidalguas e honrradas (6), e assi, posto em terra, com outra mais gente, os comecey ani- mar, que Deos se lembraria de nos, e que nos uníssemos e ajuntássemos em hum parecer, e que nos não derra- mássemos, que nos perderíamos todos. E assi, olhando a nao, me ficou aquella ymagem de morte, tão frequentemente diante dos olhos que a não podia tyrar da ymagynação. Posta a gente em terra e duvidosa do que avia de fa- zer, vendo, todavia, ho capitão que a nao se não desfazia (6) Na cópia da BAC1L foi riscada a frase: aonde sairão algumas, molheres fidalguas e honrradas. 388
  • de todo, logo determinou, com alguma gente, fazer tirar alguns mantimentos da nao, porque, ja que das tromentas do mar aviamos escapado, podessemos ter algum refugio a fome, por estarmos em ylhas perdidas e terras estra- nhas. E assi o fizerão, ajuntando em hum lugar tudo ho que se podia. Postos em terra, procurei que se aparelhassem pera se confessar todos, pera que, com a boa disposição spi- ritual, nos desse Nosso Senhor mais animo, para passar a miséria grande em que estávamos. Começandosse a confessar, levantou ho demonio huma discórdia, tanto que se começava a gente amutinar, e a dizer, alguns, que ja não avia capitão; e assi andava ho mestre com hum montante nas mãos, e muytos dos mari- nheiros com elle, e muy alterados, de modo que ja come- çavão a tomar espadas huns pera contra outros, de ma- neyra que foi necessário meter-me no meio, trabalhando de os applacar. E aviasse, neste tempo, muyto temor de se acolherem alguns, especialmente se mormurava do mes- tre, que foi também mestre da nao que se perdeo, indo pera a índia, aonde hião os nossos padres que se per- derão, a saber, o Padre Pascoal e outros, que foi outro dessastre, quasi como este, e que, assi como ali fizera, fa- ria aqui. Determiney, aquela tarde, de correr os marinheiros, / / [411 r.] trabalhando de os applacar da yra e yndinação que tinhão contra ho captião Ruy de Mello, que avia sido capitão da dyta nao, para que se sogeitassem a elle, e ho conhecessem por capitão. E elles assi mo prometião. Quando veio a madrugada loguo seguinte, estando eu e meu companheyro dormindo, veo ho capitão Ruy de Mello a mym, e acordando-me, me levou dahi, para me falar apartado, e me disse que elle sabia que o mestre se queria acolher com alguns, que era grande inconveniente, 389
  • e que me roguava que metesse a mão nisto e puséssemos a cousa em paz, pera que nos não perdêssemos todos. E pranticando isto, ao longuo da praya, por não sermos sentidos da outra gente, vierão ter comnosco Dioguo Pe- reyra de Vasconsello, que vinha nesta nao com sua molher e casa, e Antonyo Diaz, ho piloto da nao, e João Gon- çalvez, hum cavaleyro de ca da India, e assi, praticando todos no caso, pareceo bem a todos que eu fosse falar ao mestre, pera ver de que modo ho achava, pera ho de- suadir de seu proposito. E mandando-lhe hum recado, aonde elle repousava, me mandou dizer que elle veria ter a praia comiguo, aonde determinamos todos de o aguardar, o qual parece que entendeo de nos o que delle presumíamos. E tendo entre nos detreminado de mandar ho batel a Sunda, a pedir socorro, que he hum reyno que esta pouco menos de du- zentas legoas aquém de Malaca, aonde estão portugueses, e determinávamos de mandar a elle, por escusarmos ne- gócios. E propondo-lhe ho caso, lhe pareceo bem, mas quanto a yr elle, que ho não avia de fazer, porque não confirmasse ho que dezião; que elle avia de ser ho derra- deyro que avia de partir daquella ylha. E com isto nos determinamos loguo que, vindo ho dia, nos ajuntássemos todos, e fizéssemos huma ladainha, e no cabo delia faria eu huma pratica ao povo, pera lhes dar conta da determinação, pidindo-lhe que se aquie- tassem, que Nosso Senhor faria tudo por milhor, e assi o fizemos. Feita a pratica, todos, una voce, responderão que lhes parecya muyto bem. E, sobretudo, lhes propus, pera quie- tar mais a cousa, que Ruy de Mello avia de ser capitão, como ho avia sido ate hi, e ninguém falasse outra cousa, e eu que por capitão ho conhecya, para que com isto os provocasse mais, especialmente alguns que lhe não tinhão 39°
  • boa vontade. E estes quis Nosso Senhor que fossem os que isto mais aprovavão e com vozes muy altas. E assi, por então, ficou a cousa pacyfica. Postos ja todos em terra, e com grande detença e difi- culdade, e asentado nosso arraial junto a huma praia, defronte donde se a nao perdeo, começou a gente a yr pella ilha, em que estávamos, a ver se se achava alguma maneyra de mantimentos. Vierão dar novas que virão aparecer huma almadia de negros, e assi nos começamos a temer e a fazer vigias de noite. Acharão também, neste tempo, algumas palmeyras na mesma ylha, com cocos, e alguns cangrejos do mato. Despois de estarmos aqui, neste lugar, dous ou três dias, determinando de se fazerem alguma maneyra de embarquações, pera nos podermos salvar, pareceo bem que nos passássemos para outro lugar mais conveniente da mesma ylha (como no debuxo delia se mostra) aonde a dividia hum braço de mar muyto pequeno e alto. E aqui, neste // lugar, detreminamos asentar nosso arraial, aonde demos ordem pera as embarquações. Esta ilha era tão deserta que parecya nunca aver entrado ali homem, ainda que nas palmeyras achamos algum sinal. Aqui, entre estes matos, achamos hum li- rnoeyro como os de Portugal, ainda que sem fruyto; avya tantas e tão grandes arvores nella que era hum espanto; toda era chea de arvores, ate a praia, e de muytas ma- iieyras; algumas davão alguns fruitosinhos que comyão os bogios, dos quaes avia também boa soma. Feytas as estancias da gente, ordeney eu também huma casa pera igreja, pera que ali se ajuntasse o povo, a pedir socorro a Deos, Nosso Senhor, e se pudesse dizer missa e se confesassem aly. Derão alguns pera isto panos de armar e guadamiçins, e com muytos paninhos de Frandes, e assi, começando a pregar, começarão muytos ja aqui a 3 9 *
  • confessarsse, aynda que outros muytos, mui remissamente, se chegavão. Neste tempo, vegiando nos, não somente neste lugar aonde ja estávamos, mas ainda nas outras estancias pri- meiras, e com muyta difficuldade, porque se sintião ja sinaes de negros, que nos andavão espreytando, pareceo bem que ali, aonde estávamos, se fizesse huma tranqueyra para nossas guardas, porque nos temíamos dos Dachens, que he gente muy contraria dos portugueses. E assi se fez huma fortíssima tranqueyra, com cortarem, pera isso, grandíssimas arvores, e com muyta dificuldade e trabalho, e assi vigiávamos aos quartos de noyte, tendo em alguns lugares, pera isso convenyentes, alguns tiros de artelharya, que ja da nao avyão tirado. Desta maneyra nos vigiamos com temor, por estarmos em ilhas tão estranhas e periguosas, aonde nunca parece que vierão portugueses, e, por outra parte, apertando-nos muyto a fome, por ser muyta a gente, e não poder ho mantimento, que da nao se tirou, cumprir a todos, nem na ilha em que estávamos se achavão ja mariscos, que, ao principio, achavamos, nem aynda da outra parte, junto a nos. Determinarão os homens de irem mais longe buscar alguma maneyra de mantimentos, assi pera a parte do sul como do norte. E assi, dai a pouco, nos trazem novas que se achavão sinaes de gente, e assi, crecendo a curio- sidade e a necessidade ha gente, e com acharem alguns peixes e mariscos, ao longuo da praia, desemparão ho arraial, como homens que não fazião conta que se avyão de ir daly. Alguma gente, que tinha mais concideração e obri- gação que estes, como erão alguns homens honrrados e casados, da vão ordem as embarquações que se ja fazião, como forão ho piloto, que deu grande ordem pera tudo 39 2
  • isto, por ser homem muy engenhoso, João Gonçalvez, Bento Caldeyra Antonio Soarez, Alvaro Freyre, criados del-rey e onrrados, trabalhavão muito em todas as cou- sas, trazendo traves e paos as costas e outros muytos; assi, destes, ho capitão Ruy de Mello, com sua gente, hera o mais continuo. Ho soto-piloto // ordenou, per si. de [412 r.] dar ordem a outra embarquação, pera salvar nellas os que pudesse, .e asi o fez; outra gente, a maior parte, tudo hera ho comer e beber e o fazer forçadamente. Andando por la asi, alguns dias, vierão os negros apa- recer, e desejavão de aver fala dos nosos, segundo que por sinaes aparecia; e nos também ho mesmo desejá- vamos, por saber que gente avia, e se poderíamos aver delles alguma maneyra de mantimento. E assi se ajun- tarão os nossos com alguns dos negros, que algum tanto se achegavão arreceosos huns dos outros. Enfim, que persuadirão a não sei quantos dos negros a que viessem ao nosso arraial, pera que ho capitão os visse e lhe falasse, aos quaes derão barretes e vestidos, pera os animar, a que nos quisessem favorecer com man- timentos. E, contudo, arreceosos não ousarão chegar ao arraial. E dando novas ao capitão, que foi com alguns aonde estavão, e falando-lhe por huma lingoa que levavão, lhe prometerão que tornarião. Achandosse, neste tempo, algumas palmeyras, os nossos as cortavão, e tira vão os palmytos; e isto nos ajudou a sustentar, algum tempo, e parece-me que, sa- bendo os negros a destruição das palmeyras, o sentirão muy to. Vierão despois em hum parao perto de vinte ou vinte cinco negros, e chegando defronte do nosso arraial, não ousarão chegar com a embarquação, e vendo-os o nosso capitão e o piloto, se forão la, com alguns poucos mais, 39 3
  • e entrarão com elles, sem armas, e creio que dous dos negros vierão ao arraial. E assi, falando com elles, con- sertarão que, dahi a poucos dias, traryão muytos man- timentos de huma povoação, que dizião estar dahi perto. E partindo-se os negros, com sua embarquação, dando- -Ihe muytos barretes vermelhos e outras peças, e elles disi- mulando a partida, se forão de redor do ilheo, aonde demos a costa, e assi, rodeando a nao; e creo que alguns entrarão dentro que ainda não era de todo desfeyta, e desimulando com os nossos, e fingindo amizades, cha- marão alguns dos nossos, que ay andavaão, e, acenando- •Ihes com peixes, dous homens, confiados delles e nas amizades passadas, se forão a nado a sua embarquação, e chegando dentro nus, os negros lançarão as mãos nelles, e, derribando-os, lhe punhão os crises nas gargantas; e, segundo dizem alguns, que logo os matarão, mas não ha outra certeza delles. Os crises são como adaguas. Era hum soldado, que chamavaão Reguo, e hum mancebo mari- nheyro, muyto valente homem. E sabendo isto, os nossos ficarão muy salteados e ate- murizados. Vierão correndo a elles, mas os negros se aco- lherão logo, muy a presa, com muytos remos de mão, que chamão pan gaios, e parecem que voão. E nos não tínhamos aynda embarcação alguma acabada. E assi nos t4i2 v.i começamos a vigiar e aparelhar, porque nos temíamos // que fossem dachens, hos quaes he huma gente fogitiva e alevantada, de muytas nações, e ynimicissimos dos por- tugueses, e peleyão muy fortemente, e os nossos mui des- cuidados, pelo qual lhe aconteceo muytas vezes, e, assi, muitos delles (7), descuidados do periguo, e com a neces- sidade do comer, se tornavão alongar muyto de nos, por (7) BACIL: espantados como animaes muitos, e descuidados do perigo... 394
  • essas praias, huns por huma parte, e outros por outra, sem nenhuma ordem, e os negros, com grandes deseios de nos apoquentar, esta vão entre os matos; e vendo os nossos desordenados e apartados (como fazião sempre) saltavão com elles, de supito, e os mata vão. E assi acon- teceo, dai a poucos dias, que levarão os dous no barco, que indo alguns dos nossos ao longuo da praia e apar- tandosse dous delles, sairão os negros dantre as arvores, e arremetendo a elles, como animaes bravos, hum delles, sentindo-os, teve maneyra com que se acolheo, e o outro, que estava algum tanto mal desposto, não pode, ho alan- cearão mui cruamente. E assi, vendo o que passava, se vierão todos acolhendo ao arraial, dando novas do que passava, que era causa de grande magoa. E tomando logo conselho, se seria bom deitar o esquife no mar, e gente armada nelle, a ver se os podião acolher em huma ylha defronte, aonde os sentião, de noite; e assi, posto em ordem isto, puserão hum berço no batele, arma- rãosse alguns homens, e outros por terra, por outra parte, pera os poderem assi colher. Não sei se pela pouca manha e diligencia dos nossos, se pello grande ardil e ligeireza dos negros, dando sobre elles, se acolherão, que nem os de terra, nem os do esquife lhe puderão achegar. Sairão em terra, onde acharão sinaes de sua estada, aonde acharão muytos pregos e ferro da nossa nao, que andavão apanhando por esssa praias, e assi se tornarão, sem lhes poder empecer. Dahi a poucos dias, como gente sem memoria do pas- sado, se hião muytos a buscar mantimentos, e deixavão-se la dormir, com pouco cuidado e vigia de suas pessoas. E assi, de noite, andando com murrões acezos, ao longuo da praia, a buscar peixes e mariscos, estavam os negros, como ja dixe, entre as arvores, espreitando-os. E huma noite destas, vendo alguns que se apartarão dos outros, 39 5
  • saltarão com tres, que estavão apartados, e derrubarão loguo dous, dando-lhes muy cruas feridas, e o outro foisse acolhendo, e remetendo a elle hum ou dous, escapou com muyta dificuldade dentre suas mãos, e se meteo por entre os matos. E assi, muyto mal tratado, veio ter com os outros. E assi, todos juntos, se forão aos negros, os quaes se acolherão loguo e, chegando, acharão os dous portu- guezes mortos, com muy feas feridas e as cabeças levadas, e assi se tornarão ao arraial, dahi alguns dias. Dai a pouco, vindo huns poucos dos nossos pera o [4i3 r.] arraial, era ja tanto // ho desavergonhamento e atrevi- mento dos negros, que defronte da ilha os vinhão esperar, e assi, saindo a elles, a hum que ficava atras, derão nelle tres ou quatro, e elle defendendosse com hum pedaço de espada, e os nossos de qua do arrial bradando, nenhuma cousa aproveytou, que emfim o matarão e, dando-lhe muy feas cutiladas, lhe cortarão a cabeça e creo que as mãos, e levarão-lhas, e assi se acolherão, sem ninguém lhe poder valer. Causou este atrevimento dos negros tanto temor nos nossos que ja não ousarão hir buscar que comer, ainda que padecião muyta necessidade, e assi, avisados a sua custa, e com morte de tantos, se ajuntarão muytos com as armas que podião e machados e com huma bandeyra pasavão a outra banda, donde estávamos, e, dai a pouco espaço, se achavão humas arvores, que se chamão su- gueyros, que são como palmeyras, e cortando-as com asaz de trabalho, trazião os palmytos, e isto comião, parte crus, e parte cozidos; e com isto se sostinhão, porque ja não achavão outra cousa, ainda que lhes causava muito dano a sua saúde. Era eu também participante do trabalho dos palmitos e da sustentação delles, indo com os outros a corta-los com hum machado. Tendo determinado, como asima dixe, de mandarem 396
  • ho esquife a Sunda, para nos trazer remedio de embar- quações, avendo de ir nelle algumas pessoas asinaladas, das que se confiava que farião isto bem, a saber, hum Dioguo Pereira de Vasconcelos, e hum João Gelez, cava- leyro, morador de ca da India, ho soto-piloto da nao e outros homens, e começando a mormurar e dizer algumas cousas, como he costume ao povo, tornousse a deixar o conselho, a qual cousa foi causa de aver grandes des- guostos, que foi asaz de enconveniente. Eu, neste tempo, tinha contínuos trabalhos em con- fissões, de noite e de dia e de madrugada, e quasi me não ficava tempo de repousar, e fazendo-lhe algumas praticas, a noite, despois da ladainha que tinhamos, e algumas pre- guações, ao dominguo, lhes encomendei sumamente ao capitão, especialmente, que todas as cousas que determi- nassem, que fossem com bom conselho e aprovação de lodos, porque, doutra maneira, nos aviamos de perder; e que olhassem bem longe, que as embarquações que fazião se abastarião pera toda a gente, do que eu duvi- dava, pera que, ho tempo de embarquar, não ouvesse confusão, como eu temia, e se visse bem o que cada hum avia de levar, porque via eu a gente mui ocupada com as fazendas, como que a nao tornara a resuscitar, e que olhassem bem que lhe ficava (sic) que ao tempo da par- tida, que avia de aver muytas troxas; e se lhes parecesse bem que eu lhes fizesse por em hum lugar os panos e rou- pas, pera que dali, igualmente, fosse cada hum provido, pera suas necessidades, e sem carguo de conciencia, pera que desacupados destes embaraços, e desenganados pello capitão, se occupassem todos em trabalhar, // e se desen- mu o ganassem de longe, pera que, ao tempo da partida, não ouvesse embaraços, por rezão do fato, como eu temia que avia de ser; e ainda, os que de seu tinhão fato, se despo- 3 97
  • sessem a não embarcar nada, se necessário fosse, pois as embarquações se não fazião senão pera salvar almas. Propus-lhe isto, em particular, ao capitão e principaes, e, despois, a todo ho povo; e a todos pareceo muy bem, e eu queria também que se se achasse algum fato nosso, ainda que fossem os lenços, que fosse ho primeyro a que se puzesse foguo, se algum impidimento ouvesse de fazer. Com todas estas cousas, era muyto o desejo que alguns tinhão de quererem levar a fazenda que aly avia, não tendo conta com a salvação da gente, e as pequenas em- barbarquações, pera este effeito, lhe parecião grandes. Detriminei, neste tempo, de os ajudar com confissões, exortando-os com praticas, que algumas vezes, despois das ladainhas, a noite, lhe fazia. E por me parecer cousa mui justa, que fizéssemos alguma maneyra de penitencia pellos pecados passados, determiney, algumas vezes, fazer huma precissão com ladainha e com disciplinantes; e com ho crucifixo, com vellas, davamos huma volta pello ter- íeyro donde tínhamos a capela. E muytos, movidos, aco- dião a confissões, e, chegandosse ja o tempo de nossa partida, era tanto que, de noite, nem de dia, não tinha descanço, e a madrugada, e quasi não tinha tempo de rezar minhas oras. E Nosso Senhor, por sua bondade, me dava despocissão pera todo este trabalho, com aver todos os inconvenyentes, como tenho dito, por falta de manti- mentos, e por estar quasi debaixo da linha equenuncial, com comer caramujos, cangrejos do mato, palmitos bra- vos e isto assi aremedear. Considerando eu a maneira da nossa gente e que, quando tivessem lugar pera si mesmos, que não seria pequena a merce que lhe Nosso Senhor fa- ria, lhe dizia que se não enganassem, que, ao tempo da partida, se lhes avia de ver tudo ho que levavão, e isto por lhes meter medo; e que, ainda as cousas próprias, se avião de deixar, por amor da gente, que era muita, 398
  • e de suas vidas, e que hos livros e ho que pude salvar, que ho queria primeyro queimar, como queimamos algu- mas cousas. Não posso contar todas as particularidades desta ylha e dos trabalhos, necessidades, que aqui se te- verão, porque seria huma infinidade, não porque eu não folguava, irmãos meus, de vos escrever mui larguo, por- que sei quanto com isto folguais. Cheguando ja, finalmente, ho tempo de nossa partida, tínhamos aparelhado tres embarquações; huma maneyra de navio, que se armou sobre pedaços de batel da nao; dous esquifes; hum que foi ho da nao, algum tanto acre- cido, e outro que ordenou e fez, a maior parte, com sua ajuda, ho soto-piloto que avia sido da nao. E este navio grande se mandou preparar com repartimentos pera agua- salhar molheres. que serião algumas trinta ou trinta e tan- tas; e outros como pera paioes e pera meter fazendas. Finalmente, // que lançadas as embarquações no mar [«4 r.i e aparelhadas, e cheguando o tempo da partida, era tanto ho fato e as trouxas que se aparelhavão e embarcavão que era cousa de medo. Hum dia antes da partida, entrando ho capitão em ho navio, e vendo ho muito fato e carreguo que o navio ti- nha, e as muytas trouxas que recrecyão, estava o navio quasi carreguado, sem gente, manda levar a ancora e fez que o navio fosse pera baixo, aonde ficasse mais longe da terra, pera que não embarquassem mais fato e do que estivesse embarcado, ainda lançasse fora. E dai a pouco, vindo recado que nos fossemos abaixo, as primeiras estancias, pera que la nos embarquassemos, começou a ver loguo na gente hum grande rebuliço, e porque não ficasse nenhuma cousa aos negros, em quanto pudéssemos, determinarão por foguo as choupanas e pa- nos e fatos que estava sobre ellas. E assi, posto o foguo, começarão muytos, com grãode pressa, a iremsse pera 3 99
  • baixo, alguns, levando consiguo algumas cousas; outros, deixavão, por se não empedir. Assi que estando o navio ja defronte das primeiras estancias, junto donde demos a costa, e mui largo da terra, acodimos ali quasi todos com, cada hum, seu fati- r.ho as costas, pera se aver de embarca (sic). Era tanto o alvoroço e perturbação no embarcar que era cousa de espanto, porque entravão hos homens pello mar tanto que lhes dava a agoa pellos peitos e mais. E dali vinhão os bateis e levavão-nos ao navio; erão tantos os que esta vão por embarcar que em todo o dia não puderão. Neste tempo, eu estava em terra, vendo como se embar- ca vão, e via quão pouca capacidade tinha ho navio pera tanta gente, e de tal maneira se hia metendo no fundo que tive grande temor que fosse assi a pique, e chamando- -me, muitas vezes, que me embarcasse, ho não fiz, por ver que aquilo nenhum caminho levava, ate que, estando assi, ate tarde, e quasi noite, e vendo ho captião a tur- bação da muita gente, que não podião caber todos, se veo em hum dos bateis a terra, e perlongando (sic) por onde eu estava, me chamou, e a outro homem, que nos fossemos as estancias velhas, que elle se hia la. Fizemo-lo assi e chegando, era quasi noite. E desem- barcando ho capitão em terra, se veio a mim e me tomou pela mão e que queria meu conselho no que devíamos de fazer. E assi, ajuntando-nos ja alguns homens, e me começou a dizer diante de todos: «enfim, padre, não te- mos embarquações pera toda esta gente»; e mui triste ao parecer, e que faríamos. E eu lhe respondi que eu ja avia muitos dias que ho temia, e que nada me espantava. Determinousse, então, que se tomasse concelho do que se avia de fazer, pera dar remedio a tanta gente, e ficou 400
  • pera outro dia, porque era ja muito tarde e ho navio estava la fora; mandousse trazer. Chegando o navio onde estávamos, manda ho capitão por a todos em terra, ficando alguns poucos // pera ho v.] vigiarem; ficou elle com sua gente. Estavão ja nossas choupanas queimadas; deitamo-nos essa noite, por esse chão, ao longuo do mar. E estando assi, veio ter comiguo este cavalleiro, que atraz diguo, dizendo-me que notasse bem em que parava o negocio de nossa embarquação, e quão differente fora a cousa, se mandaramos ho esquife a Sunda e que, se nos dali aviamos de embarcar pera outro lugar, certas pessoas, que elle nomeava, avião de ir por terra, pera que sentissem ho trabalho, e doutra maneira, não; mas foi a causa bem diferente disto. Estávamos, todavia, preplexos e tristes, sem sabermos o que aviamos de fazer, pera tanta gente, e que não avia embarquações. Estando aquela noite, como digo, apartado assi, a huma parte, com meu companheiro, ate ver o que se determinava, veo ter comigo Diogo Pereira, hum fi- dalgo, a dizer-me da parte do capitão, que me rogava me quisesse chegar pera onde estava o capitão, pera deter- minarmos de nossa partida. Ficou assi a cousa, ate o outro dia, pella manhã, e, sendo ja de dia, me fui ao navio, por causa de concertar huma caixa, que me ai ti- nhão embarcado; e chamandosse, neste tempo, algumas pessoas, pera o que avião de determinar, tornou outra vez ho mesmo fidalguo a chamar-me; e, ajuntados alguns homens, se começou a tratar em o que faríamos de nossa partida. O capitão, primeyro que todos, deu logo seu parecer e era que elle lhe parecia bem que, quanto aquelle lugar onde estávamos, que necessariamente nos aviamos de aba- lar, porque nem tínhamos mantimentos, tudo estava ja 4 o i insul India, 11 — 26 >
  • desbaratado, mas que nos fossemos dahi a quatro ou cinco legoas, que dizião que estava hum ryo, aonde avia man- timento e palmeyras, e que ahi determinarião o que, final- mente, avião de fazer. Isto, sem mais nada, pareceo bem a todos. E eu respondi que também me isto parecya bem, mas que as fazendas, que ocupavão o navio, as pusessem fora, pera embarcar a gente e que a minha cayxa fosse a pri- meyra. E me responderão, e que ho fato, que o navio tinha, se não tirasse, que era necessário para lastro. Determinado isto assi, ordenarão logo que, os que estavão mais bem despostos, se fossem por terra. Estava neste tempo a mayor parte da gente na praya e, ouvindo isto, nenhum se quis offerecer a yr, antes, alvoroçados todos e movidos com hum grande temor, deixa vão muytos delles as trouxas e o fato, de que dantes erão tão solícitos, e deytavãosse a nado as embarquações, porque doutra maneyra não podião vir. E vendo isto o capitão, que a gente se acomodava tão mal ao que se determinava, começa de defender a entrada no navy o e das outras embarquações. Tinha pera yr com estes homens por terra hum mam- cebo soldado, o qual também pessadamente (sic) se offe- receo e, não se contentando os homens com elle, pidirão a hum Antonyo Diaz, homem casado na Yndia, morador em São Thome, muyto amiguo da Companhia e muy bom homem, ao qual propondo o capitão, se offereceo liben- tissimamente. Estando o negocio daquela maneyra, pi- dirão mais que lhe desse hum de nos pera yr com elles; 1415 r.i aos quaes eu lhes respondi que pedissem / / quem qui- sessem, estando eu determinado de me yr com elles. E pidindo meu companheyro, que ja lhes tinha falado, lhes disse que sy. E aparelhandosse todos os que estavão nas embar- 4. o 2
  • quações, que avião de yr por terra com os outros, era a cousa de maneyra que não avia quem quisese yr, antes muyto mais trabalhavão de vir a nado ao navio. E vendo o capitão que quasy os não podia deffender, aynda com espadas nuas, manda levar anchora, aynda que com grande clamor e sentimento dos que estavão em terra. Assi, começando-nos a yr, e assy alguns se come- çavão ya passar da banda dalém. E como tevemos ma- neyra, pusemos em terra ao Antonyo Diaz e ao Irmão João Ruxo, e hum moço brazil, que connosco veio de la do Brazil, e alguns outros. E outros da terra se acolherão as embarquações, e aynda que tendo determinado e que- rendo tomar os mal despostos, o não poderão fazer, com medo dos outros, que não querião yr por terra. E eu, tendo pera mym por muy aviriguado e serto que a cousa se avia de fazer, como se determinava, eu mesmo os amoestava que caminhassem e que, a noite, ou ao outro dia, pela menhã, seriamos todos juntos. Finalmente que, postos em terra os que avyão de yr, começarão os das embarquações a caminhar e muitos dos que em terra ficarão se vinhão em pos de nos e bradando e metidos pela agoa ate tanta que, vendo-nos dar a vella e apartados, ja longe da terra, começarão a desconfiar, e se forão pera os outros. E assy, ajuntados todos, aynda que deixavão na ylha hum moço pagem, que avia sido da nao, chamado Manoel, que ficava morrendo, e ay ficou com muyta magoa nossa. Eu tive sempre pera mym que aviamos de tornar a ylha a tomar os mal despostos, mas foy a cousa de maneira que, ou por o temor dos que ficavão em terra, que querião todos embarcar, ou enfim, pelo que quiserão, não quiserão tornar a ylha. Alguns se atravessarão a nado, muy largos, ao mar, e assi forão tomados, e despois, todavia, chegando hum dos esquifes 4.0 3
  • a ter fala com os que fica vão em terra, se lançarão a nado outros dous ou tres homens e assy forão tomados. Quando os da terra virão isto, determinarãosse a não deixar mais chegar a nenhum, por ficar mais corpo de gente, porque os que se deytavão a nado erão os mais valentes, porque a multidão dos mininos e dos enfermos, que por terra ficava, era muita. E assy, vendo os que vinhão em pos de nos que ja de todo em todo os não tomávamos, se forão muy a pressa ayuntar com os outros que ja estavão da banda de alem, ao longo da costa, pos- tos em caminho, pêra caminhar. E assy forão todos. Nesta ylha, donde demos a costa, estivemos sessenta e seis dias; perdermo-nos a 21 de Janeyro de 1561 e a 28 de Março seguinte partimos dela, caminhando os que fica vão por terra, ao longo da praya, e serião por todos cento e oitenta e tres; e as embarquações se forão pouco e pouco apartando, ate que os da terra e os do mar se forão perdendo de vista. A gente que iha no navio grande, com ho capitão, cento e vinte pessoas; e o barco de Pedro Alvarez, trinta; e o esquife, dezassete. E assy navegando, com pouco vento, nos anoyteceo, pouco mais ou menos, passado o ryo, em que ficamos de nos ajuntar, o qual era huma enceada da costa. E ao outro dia nos quisemos chegar a terra, para tomarmos alguns palmitos e agoa, e vimos na praya homens e, acenando-nos, conhecemos que era da nossa companhia. E chegando a terra com o esquife, os tomarão, que erão dous mancebos, muy bem despostos, que se adiantarão dos outros e assy nos derão novas dos que ficavão atraz, e nos partimos. E aquele dia se chegou a mim hum homem honrrado, criado del-rey, e me disse que os que ficarão em terra desejarão muito que elle fosse com elles e que não era em consentimento que elles ficassem por terra, ao menos de 404.
  • lhe não esperarmos no lugar aonde ficamos, e que elle se queria sayr em terra e esperar por elles e morrer com elles. Andamos todo aquelle dia ate noyte, e apparecendo- -nos huma ylha ao cabo de huma ponta, que cuydamos que era ryo, aonde determinavão, segundo dizião, de ancorar, e finalmente que, derradeyro dia do mes de Março, fomos surgir antre huma, que demoravão a les- -sueste, e achamos huma bahia muy quieta, aonde deter- minarão de fazei agoada, em que nos deteríamos algum dia, e sayo alguma gente em terra a buscar agoa e a ver se avia alguma cousa que comer. Estando assi anchorados, hum dia,a tarde, vimos junto a huma ylha hum vulto que // parecia embarquação, e, [415 parecendo bem a todos que fosse a elle, se aparelharão os esquifes com gente, a ponto de guerra, com cada hum seu berço por pessoa e algumas panellas de polvora. E era huma embarquação grande e altarosa, que nestas partes chamão juncho, que estava anchorado com alguns mouros daly perto, e falando-lhe em paz, para lhe pidir manti mentos, e se querião vender o junquo, dixerão que erão dachens e que não querião senão pelejar e, pondosse em conclusão de se deffender, tyrão com muytas frechas aos nossos e com pedras muy grandes, com que os tratavão inuyto mal, e os nossos lhe tiravão muytas bombardas, sem se quererem render, e com panelas de fogo. (E vendo nos, que ficávamos longe, que tanto duravão as bombar- dadas sem se render) (8), tememos que não fosse outra cousa. E assi, levando anchora e remando fortissimamente, nos fomos chegando a elles; e, antes que chegássemos, nos veo nova que era hum junquo muy grande e que ja era tomado, e matarão alguns negros e cativarão os de- (8) As palavras entre parêntese encontram-se riscadas. 405
  • mais, que serião doze ou quatorze. E trazendo-os ao na- vio, os degolarão a todos, somente (9) hum, pera que pudesse dar alguma enformação da terra. Forão feridos alguns dos nossos, com frechadas e lanças, e com pedras, e a hum, que se meteo dentro no junquo com elles, ferirão muy mal, com gravíssimas feridas, e a outros algumas frechadas, e creo que de peçonha, de que estiverão muito tempo doentes. E estando assi anchorados, nesta bahia, dahi a hum dia ou dous, amanhecerão de redor de nos duas embar- quações, que chamão lançaras, arezoadamente grandes, e despertando assi. algum tanto temerosos, que seria alguma armada que veria sobre nos, levamos anchora muy a pressa, e mandando o capitão aos esquifes que se fizessem prestes, e assy o fizerão e se forão loguo a huma das embarquações e, remetendo a ella, os fizerão fuguir. E vendosse muy apressados os negros com alguns tiros que lhe fizerão, se lançarão todos no mar e a nado se acolherão a huma das ylhas, e deixarão a embarquação carregada de farinha de sagueyro, que he hum serto mantimento que se come em algumas partes destas, e ynhames e figuos desta terra, e outras algumas cousas assy. E remetendo os nossos a outra embarquação, fizerão o mesmo, dei- tandosse, a nado, a outra ylha doutra parte; e assy, nos deixarão a embarquação (da mesma maneira que a outra) (10), e cada huma destas trazia outras embarqua- ções pequenas consiguo, pera o serviço destas. Sendo ja de dia, apareceo outra embarquação da mes- ma maneyra que a outra, que veio dar consiguo na enceada aonde estávamos, a qual parece também que acaso veio aly ter; a qual também, remetendo os esquifes, a tomarão. (9) O mesmo que excepto um. (10) Palavras riscadas. 406
  • E os negros que nella vinhão, vendosse assy salteados, baldearão ao mar tudo o que trazião, e elles mesmos se lançarão a nado, e andando em pos delles, hum bom espaço de tempo, os tomavão. E parece-me que matarão a hum, e a outro ferirão; e assy trouverão ao navio dous; hum ferido e o outro não. Hum destes fugio, despois, e ao outro deixarão yr, dando-lhe algumas cousas, conside- rando a grande miséria que os nossos companheyros, por terra, vinhão padecendo, e o periguo grandíssimo que ti- nhão de poderem vir a salvamento, e a fome e neces- sidade que todos padecíamos em tão estranhas terras. Parece que Nosso Senhor quis ali trazer aquelas em- barquações, porque, aynda que com perda de alguns daquelles que erão ynimiguos de Deos, pudessem ser aju- dados os christãos, aynda que pecadores, por meo de alguma pessoa que poderia vir antre nos, e o mais certo, porque Deos he bom e acode ao tempo necessário e con- veniente, e também para mostrar a pouca piedade que hos homens tem huns com os outros. De qualquer maneira que seia, eu tive esta cousa por milagre e mui especial providencia de Nosso Senhor, como íorão outras também que no descurso desta viagem acon- tecerão, das quaes foi huma, que vindo os que vinhão por terra, para averem de passar hum rio ou braço de mar, o qual dantes aly hião mariscar, que serião quatro legoas, donde nos perdemos, não podião passar senão a nado ou com jangadas, e em nenhum tempo nem lugar, assi mare chea como vazia. E quando esta gente, que ficava por terra, ouve de passar, parece que quis Nosso Senhor, vendo quantos ali vinhão doentes e fracos, que todos o podessem passar a pee. Aiuntadas todas estas embarcações que tomamos com as nossas parecia que tinhamos huma frota. Ordenousse logo que se aparelhasse hum dos esquifes, para que tor- 407
  • [416 r.i nasse correndo //a costa, a dar estas novas a gente que vinha por terra, pera que se animassem da grande tris- teza que trazião, que ia tinhão embarcações. Offereoeo-se pera isto Bento Caldeira e Pedro Alvares com o seu batel, e partirão-se logo, e chegarão muy cedo a elles; e dando-lhe a nova, que quasi, com prazer, o não podião crer, deixada a ordem que trazião no seu caminhar, com grande alegria começaram a caminhar a quem mais cedo chegaria, e o batel se partio e veo diante dar o recado de como os avia encontrado. E como vinhão ia caminhando a toda a pressa, e assi chegarão a baia adonde estávamos, creo que day a dous dias. E sabendo o capitão que vinhão, saio a espera-los ao caminho hum bom pedaço, ao longo da praia. E assi chegarão a nos tão cansados e desbaratados que era huma grande piedade de ver e pera contar os muitos trabalhos que nesses dias que andarão por terra (ainda que poucos) pasarão, averia mister muito tempo, e mais o Irmão João Roxo, que foi participante deles, os poderá milhor contar, que a ver- dade, segundo a enformação que eu tomey, forão elles muy grandes, porque comião quaisquer cousas que acha- vão, ate comer hum lagarto e outras cousas e palmitos. E o caminho era tão áspero, por onde pasavão, que lhe era necessário romper os vestidos pera emburilhar os pes, pera poderem passar. E chegando a nos, se consolarão em grande maneira, como homens que resuscitavão, segundo a desconfiança que trazião de seu remedio. E animados e esforçados aly aquele dia, ao outro, que foi dia de Pascoa, nos partimos daquela baia, atravessando hum golfão de huma enseada muy grande, que aly fazia a ilha de Samatra; na volta dela parecião muy altas serras. Repartimos aly a gente por todas as embarcações; no navio grande fiquarão a maior parte das molheres e outra 408
  • mais gente, que serião, por todo, cento e sessenta. No junco grande hia Antonio Diaz, hum homem casado qua na índia, em São Tome, de que ya atras fiz menção, muy valente cavaleiro. Levava consigo oitenta pessoas. E huma lanchara, aonde hia Alvaro Freire, hum criado del-rey, homem muy honrrado e muy valente cavaleiro; levava cincoenta e cinco. E em outra lanchara, aonde ya João Gonçalvez, também muy esforçado homem, e muy bom cavaleiro, casado ca na índia, de que ia atraz fiz men- ção, levava cincoenta pessoas. E no esquife, que foi da nao, hia Pero Vaz, que avia sido guardião da nao, muy bom homem, 8 que foi dos primeiros que se achou em lodos os trabalhos e ajudou ao navio grande, ahonde hia o capitão, em muitas cousas, a saber, fazendo aguadas, descubrindo as terras, peleiando, e outras muitas cousas; hia nele por capitão e levava vinte pessoas. E Pedro Al- varez, soto-piloto, hia também por capitão na embarcação que ele ordenou, que era como huma galiota (11). Este he muy mancebo, muy esforçado e muy sabido na arte de navegar, e aiudou muy valentemente no arrayal; levava consigo trinta e quatro pessoas. E em huma cara-cola pe- quena hião dez pessoas. E as outras embarcações mais pequenas yão por popa dos navios grandes. Yamos fazendo nosso caminho ao leste, vimos huma ilha dez legoas desta baia donde partimos, que dezião ser a terra donde vinhão estas embarcações que tomamos, e sendo ya duas legoas ao mar, donde partimos, fezemos nosso caminho ao Sul, caminhando pera Sunda. Esta noite tevemos huma trovoada, que nos pos em muito trabalho, por o meo deste golfão, que era hum pouco antes de lua nova, que nestas partes he tempo muy (ix) Correcção de galveta. 4.09
  • tiabalhoso, e o junco grande, toda a noite, não fez senão amostrar fogo, para que lhe acodisse, por aver feito muita agoa, que se hia ao fundo; e as outras lancharas também hião muy atribuladas, com muita agoa que fazião, porque são estas embarcações muy fracas, sem pregos e sem breu. Trabalhavamos de tomar algum lugar seguro e quieto, pera esperarmos a lua nova e também concertar as em- barcações. E andando assi, espalhados huns dos outros, o navio chegou primeiro a terra. E indo correndo ya, ao longo da costa, vimos como humas cousas semeadas de arroz, aonde determinamos de chegar, por nos parecer cousa povoada; e andando todo aquelle dia, não podemos chegar, e remando e com grandíssimo trabalho, e vendo que não podíamos vingar huma ponta, anchoramos ao rolo do mar, perto da costa, aonde nos deo huma tro- voada, com tanta agoa que parecia que nos queria ala- gar; aonde estevemos toda aquela noite, com asas de tra- balho e temor que não desemos a costa. ,4s outras embarcações com esta tormenta desgarrarão ao mar, de tal maneira que, ao outro dia, com grande difi- culdade, tornarão a ter vista de nos, que ya estavão quasi pera irem seu caminho. E finalmente, ao outro dia. le- vando anchora, nos fomos chegando, pouco a pouco, a enseada, aonde começamos a ver gente na praia e algu- tn6 ▼.] mas almadias // pequenas e aparecia como a maneira de hum rio. E chegando muy perto a elles e acenando-lhes, não quiserão vir a nos. E chegando o esquife com huma lin- goa, ouverão fala delles, e assi trouxerão ao navio hum daquelles negros, deixando em refens hum dos nossos, ao qual agasalhavão e davão a comer. E assi, tomando enformação delles, nos disserão que, dahi a pouco espaço, estava hum rey que era filho de Menancabo, que era onde nos deseiavamos chegar, que 410
  • diz que são amigos dos portugueses, e vão a Malaca, a tratar com elles. E assim, com este recebimento e confiança, começa- mos, pouco a pouco entrar o rio, o qual, tendo a entrada algum tanto dificultosa, por causa duns baixos que tinha a entrada, e assi, chegadas as embarcações todas, começou o nosso navio a entrar diante, e as outras embarcações começarão a vir em pos de nos. E vindo o junquo, o grande, e huma das outras lancharas, embaraçou-se huma com outra, de maneira que, sendo aly costa brava e o lugar estreito, foi o junquo dar consigo a costa, indo dentro dele tanta gente, como disse, entre homens e mo- Iheres. Foi coisa piedosa de ver, e assi, acodindo-lhe com os bateis e homens a nado, nunqua lhe poderão valer, ate que finalmente começarão a despeiar a gente e tiravão as molheres metidas pelo mar, parece-me que ate a garganta. Tirarão o que poderão, e sendo o mar groso, começou a desfazer o junquo e em breve espaço o acabou. Entradas as mais embarcações, somente huma pe- quena, que vinha por popa, em que vinhão não sei quan- tos homens, a qual a largarão, por estar ya perto a terra, na qual se meteo Bento Celdeira para os aiudar, que vi- nhão muy cansados, não avia chegado; e tendo-a ya por perdida, foy o esquife por duas vezes ao longo da costa em busca delles, ate que quis o Senhor que os achasse muy atribulados com fome e trabalho. E assi, deixando a embarcação, os trouverão no esquife. E assi entrados no rio, anchoramos logo a entrada delle. Depois de entrados neste rio, recrecia de cada vez mais gente destes negros, como que avia aqui perto alguma povoação; assi chegou logo hum homem principal destes, que elles chamão xevandar, que he como hum capitão, ou como guarda-mor deste porto, e que tem aqui gente em 4 i i
  • ■ guarda neste rio, porque parece que tem elles guerras com os jaós, que he outra gente muy belicosa, e com os da- chens, segundo dizião. E este senhor quis entrar no nosso navio a falar comnosco e dar ao capitão os agradecimentos por el-rey, porque lhe avia mandado hum adia (12), que he hum presente, em reconhecimento de sermos portu- gueses. E assi, falando comnosco elle e outros, muy paci- ficamente, e dizendo-nos que el-rey estava day perto, e que elle nos faria todo o que quiséssemos, para nossa viagem, por quanto elle era amigo dos portugueses, e a gente de aquella terra tratava em Malacha. E assi man- dou o mesmo rey, ao outro dia, hum presente, mas todavia como de negros, a saber, humas poucas de canas de asu- quere, e huma ou duas galinhas, e humas panelas de arraqua, que he qua o seu vinho. E o capitão lhe mandou dizer que elle mandaria a el-rey hum adia muy bom, que o que lhe avia mandado não era para mais que pera saber que erão portugueses e homens de paz, que se avião per- dido, que não querião mais que mantimentos, e concertar as embarcações, e ir-se logo para Malacha. Aos 13 dias do dito mes de Abril, veyo el-rey polo rio abaixo, com tangeres de atabalinhos e campainhas e bu- zinas, com obra de setenta ou oitenta almadias carregadas de negros armados com seus crises, azagaias e rodelas. E veo-se el-rey sentar em hum baleus (13), com todos seus principaes, e logo o capitão lhe mandou, antes que lhe fosse falar, hum presente em que lhe mandava hum pedaço de grã e hum pedaço de veludo cremesim e humas (12) Termo árabe significando «presente feito ao superior ou ao mestre que ensinou o alcorão». O vocábulo introduziu-se no hindustam; de que o tomou Barros, e no malaio, onde o apanhou Fernão Mendes Pinto, grafando-o odiá, e levou consigo, segundo o seu costume, na sua peregrinação para várias partes». (Rodolfo Dalgado, Glossário Luso-Asidtico). (13) O mesmo que palhal, casa de palha? 4 12
  • copas de vidro cristalino e hum espelho muito rico. E el-rey lhe mandou dizer que pera que era aquilo; que de homens perdidos não esperava nada. E o capitão, logo de ay a pouco, se embarcou em huma almadia com huns poucos de homens, e foisse ao bandar, aonde el-rey estava. El-rey se ofereceo ao capitão, dizendo-lhe que queria e o que avia mister para salvação de aquella gente, que elle estava prestes pera lhe buscar todos os remedios, porque elle era filho de el-rey de Mo- nancabo, muito amigo dos portugueses; que visse que avia mister. E assi concertarão o modo que aviamos de ter, ate a partida, e que mandaria ao xevandar nos mandasse dar todos os mantimentos por nosso dinheiro ou a troca do que trazíamos. Assi, logo acabada esta maneira de reconhecimento e concerto entre sy, começou logo a gente que com el-rey vinha a espalhar-se por entre os nossos com mantimentos que ia trazião, a saber, galinhas, arroz, canas de asuquere, iganhames, e outras // fruitas da terra. E ainda que o 1417 r.i capitão tinha mandado a nossa gente que não passasse de hum certo lugar e que não comprassem nada, que elle compraria para todos da parte de el-rey, que aly vinha, erão tantos os desejos que tinhão das cousas de comer, polas grandes fomes e trabalhos, que ate ly avião passado, que não tiverão conta com isto, antes cada hum dava o que tinha por cousas de comer, assi dinheiro como panos, facas, pregos, pedaços de espadas, vidros, e outras cou- sas. Finalmente que nada ficava que não quisessem vender pera comer. Vendo isto o capitão, e que não deixavâo de pasar do termo que lhe pusera, deixou-os. E a verdade nisto, ouve grande desconcerto, e avia entre elles amutinações e des- concertos, arezoando huns huma cousa; e outros, outra; sem se ter nisto huma prudência e maneira de se resguar- 4 i 3
  • darem e vigiarem, como homens que estavão entre intieis; não porque eu não sintia muito não fazerem elles hum conselho e detriminação, unindo-nos e ajuntando-nos todos em hum corpo e parecer, porque eu os sintia aparelhados para muitos danos de suas almas e vidas, confiando-se tanto destes negros, como que forão portugueses. Era este rio lugar muy conveniente para aguardarmos a lua nova e concertar nossas embarcações e pera nos defendermos de quem quer que nos cometera, assi por terra como por mar, porque o navio grande tinha a ponto de guerra cinco tiros de artilheria, afora os que tinha em baixo; e cada hum dos esquifes, seu, por proa; o areal era muy estreito; se teveramos ordem e conselho, esteveramos muy bem. Finalmente que estando aqui obra de sete ou oito dias, recrecião de cada vez mais os negros, e com tantas cousas de comer, que ia não queríamos tantas. Todavia, o capitão avia dado ao xevandar alguma prata pera trazer manti- mentos pera a viagem; dos quaes avia trazido poucos ainda; e chegando-se o capitão com o seu navio polo rio acima, ate estes baleus, que acima digo, e ficando as outras embarcações em baixo, a entrada do rio, aonde estava a gente das duas embarcações, em terra, ate que se concertassem as embarcações, que também pera isso prometeo gente o rey daly, estando desta maneira, muito confiados, comendo e bebendo, como quem estava em Lisboa, feitas choupanas em terra e durmindo grão parte da gente nestes baleus, por baixo e por cima, e eu me say em terra a durmir nelles também, polia segurança que a todos via, aconteceo que hum fidalgo (de que acima faço menção, que se chamava Diogo Pereira) (14) que aqui levava sua molher e casa, lhe deu huma dor como (14) Palavras riscadas também. 4 l 4
  • de cólica, e saindosse em terra, pera lhe fazerem algum remedio, sayo a molher também com elle; e agasalhan- dosse em hum destes baleus e estiverão aly duas noites, ao qual eu confessei. Aqui me quiserão fazer ficar a segunda noite, mas eu não o fiz esta noite; e choveo e ventou em grande estremo, como aqui faz frequentemente nesta Samatra. E fazia grande escuro, e eu dormia sobre huma arqua que tinha debaixo de hum destes baleus, junto ao rio. E não po- dendo toda a noite quasi dormir, com a tormenta, quando veyo a madrugada, que parece repousa vão todos e muy descuidados, senão quando, supitamente, ouço huma grita e alarido muy grande de gente e campainhas, e assi espan- tado, sem saber o que era, e alevantando-me a ver o que seria, e o alarido e grita crecia de cada vez mais. He cousa lastimosa pera contar, mas muito mais espan- tosa e triste pera quem o vio, e espcialmente de aqueles a quem tão supitamente tomou a morte, e alguns não sey em que estado. E vendo eu muita gente que corria, me cheguey a borda do rio, defronte donde estava o navio que ya hya de largo, porque toda a noute esteve pegado a terra, e estando assi emburilhado em hum cobertor, veio muita gente, que parecia da nossa, que vinha correndo; e che- gados junto ao rio, se arremeçavão assi vestidos como vi- nhão, com o temor da fúria dos cãis danados que se avião fingido nossos amigos. E quando vi a cousa assi tão perturbada, sem aver quem falasse, nem quem pelejasse, alargo o cobertor em que estava emburilhado, ficando com roupeta, chapeo e barrete, etc. E no orelo, com que estava cingido, os oculos e humas contas, me lancei a nado, em pos dos outros, ao navio, o qual se hia alargando quanto podia. E creo certo, que logo em me deytando, não sey se algum dos nossos 4- 1 5
  • andava no fundo da agoa, afogandosse, afogandosse (sic), me puxarão pola ponta da roupeta e me levarão ao fundo, e temendo-me não me emburilhasse, tornando acima, co- mecei a nadar rijo; e chegando a hum cabo que estava da proa do navio, em terra, e querendo-me alar por elle, [4i7 v.i pera hir chegando assi ao navio, logo supitamente //o cortarão, e eu, ficando em vão, me fui outra vez ao fundo. E tornando acima, fuy nadando com pressa ao navio que se hia alargando quanto podia. E querendo chegar, car- regava-me ja tanto o vestido que outra vez me fui ao fundo, com beber arrezoadamente de agoa. /Issi andava ia muy atribulado e temeroso de minha vida, e tomando animo, remeti, ao navio, e chegando, vinha ia tão cansado que quasi não tinha força, e lan- çado (sic) a mão de huma perna de hum que também entrava me entreconhecerão, e dando-me a mão, me aley acima. Derão logo os negros da parte do haleu, donde estava este fidalgo com sua molher, e aly foi o aperto tão grande que elle, escapando por entre as armas, não sei de que maneira, lhe ficou a molher, da qual não soubemos certo que se fezera dela, aynda que alguns dizem que ficava viva, e que o mestre da nao, que também dormia em terra, que com hum montante que tinha peleiara hum espaço de tempo, pera que se ella fora, e matando alguns negros, finalmente matarão a elle. Disto não sei bem a certeza; emfim ella ficou la. E quando cheguei ao navio, ya la estavão algumas pessoas que avião entrado, parte a nado, e parte acudirão antes que se alargasse; e também este fidalgo la estava. Neste tempo, cousa miserável de ver quantos dos nossos corrião ao rio alanceados, como touros que se acolhem a agoa, muitos dos quaes não sabião nadar, e bradando e gritando lastimosamente, não avia quem lhes podesse va- 416
  • ler; huns se afogarão, outros, as lançadas, os atravessarão, e alguns, assi feridos, se vinhão ao navio, e outros ace- teados. Aly matarão hum fidalgo, que chamavão Antonio de Refois, que vinha por capitão de huma fortaleza, e outros homens honrrados. Estavão os do navio, e todos, tão desa- percebidos que nem fogo para porem a huma bombarda tinhão, nem avia gente que quisesse entrar em hum batel com o capitão, pera chegarem a terra e tomar alguns. Todavia, forão pera la, e alguns me parece que tomarão. Os negros aparecião ir defronte de nos, correndo de huma parte a outra, matando e tomando tudo o que acha vão, e ainda que tirando do navio com hum berço, não teverão conta com isso. E assi, ajuntados ia alguns poucos no navio, come- çamos a ir pera baixo, aonde estava a outra gente, com a qual ja os negros andavão emburilhados, e, segundo me disserão, que tinhão quasi tomado hum dos esquifes. Huns fugião, outros peleiavão, segundo dizem que serião, os negros, alguns dous mil; a mim não me parecerão tantos. No fundo do areal, junto ao arvoredo, a entrada do rio, andava Antonio Diaz de San Tome, de que acima faço menção, homem muito amigo de nossa Companhia, muy bom homem e muy esforçado, que he o que avia vindo com os homens por terra da ilha, aonde nos per- demos. Este, com huma espada e huma rodela de cortiça, peleiou tão espantosamente com estes negros que merecera fazer-lhe huma grandíssima merce, porque elle soo fez embarcar gran parte da gente, e erão os negros como sobre touro. E remetendo, elle os fazia fogir. E assi, pelas suas costas, se ia a gente embarcando, assi homens como molheres, a meter no rio, ate cinta, e mais, e vinhão os bateis a toma-la; e assi peleiando com as mãos, e com os pes deitava hum caixãozinho seu ao insulIndia, II — 37 417
  • rnar, em que levava alguma pobreza. Era hum corro, em redor deste homem, de azaigaias que lhe tiravão. Aqui acontecerão alguns casos miseráveis. Hum man- cebo casado, que levava aqui sua molher, sobre os quaes carregarão os negros, e encaminhando elle a molher para as embarcações, metidos na agoa, lhe tiravão muitas za- gaiadas, e amparando elle a molher, o atravessarão, o qual, day a poucos dias, morreo. Outra pessoa, que não trazia, hora, muy boa fama, metendosse na agoa, dizem que caio e assi, miseravelmente, se afogou. Huma probre molher, vindo muito doente, se não pode alevantar, e ali me parece que ficou; não sei se a matarão; algumas outras pessoas me disserão que se forão meter polo mato, não sei que fim tiverão. Finalmente que, depois de embarcados todos os que puderão, tomarão por derradeiro ao Antonio Diaz. Meu companheiro João Roxo, que a outra noute dantes avia dormido nos baleus, também por causa deste Dioguo Pe- reira, quis Nosso Senhor garda-lo, porque a noite do de- sastre se veo recolher a choupana, aonde vinha João Gon- calvez por capitão, a quem eu roguei que o agasalhasse ali, porque no navio não tinha gasalhado. Daqui levamos a muitos e muy feridos, dos quais alguns morrerão e outros convalecerão, ainda que levarão muy espantosas feridas. Hindo nos assi, saindo pera fora do rio, tomamos alguma pouca agoa, que estávamos muy desaprecebidos, e muita da gente vinha nua; era cousa lastimosa de ver como de aly saimos, com tempo muy áspero, costa de mar brava, sem mantimento, sem vestidos e sem nada. Viamos os negros, que, depois de cevarem nos corpos dos míseros homens, andavão a quem mais levaria do que lhes ficava. Parece-me que acharão por conta que ma- [418 r.] tarão aqui cinquoenta pessoas ou mais. // 418
  • Saidos ia todos os que podemos fora deste rio e descon- solados quanto se pode crer, demos as vellas, pera hirmos correndo e continuando esta costa de Samatra. Partimos de aqui, a dezoito dias de Abril do dito anno, com muito pouca agoa e poucos mantimentos, e sem lenha, e em coniunção da lua, que he aqui muy perigosa; e avendo de hir por hi, em certa maneira, a ventura, por via- ' gem nunqua navegada, segundo dizem, de portugueses. As embarcações que nos ficavão erão quatro, a saber, as tres que fezemos na ilha, e huma das outras embar- cações que tomamos; no navio grande irião cento e oitenta pessoas, pouco mais ou menos, que era huma piedade de ver como hião huns sobre os outros, como sardinhas e feridos e muy mal tratados; e na embarcação de João Gonçalvez irião cincoenta e cinco ou cincoenta e seis, pouco mais ou menos, e nos bateis irião algumas trinta, pouco mais ou menos. Começamos a navegar ao longo da costa e passamos, aquella noite, perto de huns baixos, que nos causarão \ muito temor, e os esquifes hião diante do navio grande, sondando, pera ver por onde avião de hir, ate o outro dia. E logo day a pouco tempo se apartou a embarcação aonde hia João Gonçalves, e também o batel de Pero Alvarez; somente o esquife da nao ficou sempre comnosco. E assy se foi a primeira apartando, ate que de todo o perdemos de vista, do qual também contarei hum caso desestrado, que foi que, querendo fazer aguada e saindo em terra algumas pessoas, a nado, quando se quiserão tornar a embarcação, embraveceo-se o mar de tal maneira que hum moço de dezasseis ou dezassete anos não se atreveo a deitar a nado, e acenando que o fossem tomar diante, não poderão, e aly ficou; parece que o tomarião e ma- tarião os negros, porque adiante dizem que virão casas. 41 ç %
  • E assi se forão fazendo sua viagem, caminho da Sunda, com padecer bem de trabalho. O esquife de Pero Alvarez também se foi apartando de nos, aos quaes aconteceo outro desastre semelhante, que saindo também em terra, a fazer aguada, dous ho- mens, saltarão os negros com elles e, aynda que fugindo, todavia matarão hum delles, e o outro se acolheo, a nado, ao esquife; e, remando pêra remeter a elles, se acolherão pera o mato, com a cabeça do morto, de que ficarão muy tristes, e com temor de sair a fazer aguada, por andar a terra apilidada. Caminhando assi, alguns dias, ao longo da costa, nos alargamos algum tempo ao mar, e faltando ia a agoa, que era a gente muita, padecíamos muita sede. E que- rendo chegar a terra, não podiamos, e assi, com a grande cuentura e sede. avia grande aflição, por ser também de- baixo da linha. Trabalhamos o que podemos, todavia, pera chegar a terra, a força de remos e trabalho, e metendo-nos em huma enseada, não podemos; mandamos o esquife a ver se achavão agoa, e quis Nosso Senhor que não somente acharão hum rio de muy boa agoa, mas ainda acharão na praia huma jangada de bambus, que são como canas grosas, as quaes cortando, trouverão muita agoa ao na- vio, com que se fartou a gente. E assi fez aguada, aquela noite, ate pela menhã, e ao outro dia nos partimos. E vindo assi correndo algumas pontas desta costa, hia- mos ia sospirando por acabar a ilha, aonde esperávamos de encontrar com o boqueirão, que chamão entrada da Sunda. E assi caminhando, por espaço de tres ou quatro dias, viemos tei a huma ponta, aonde nos pareceo que aly se acabava a ilha. E indo assi com estes deseios, che- gando a ponta, nos achamos no principio de huma muy grande enseada, e tudo parecia cercado de terras, aonde todos ficarão muy desconsolados e sem saber pera onde 4 2 O
  • aviamos ia de navegar quasi. E assi sobola tarde, ya creo que posto o sol, diserão que virão aparecer huma vela, e caminhando assi por entre muitas ilhas, nos hiamos a ella, ate nos anoitecer. E anchorando, aquela noite, em hum lugar conveniente, ao outro dia, demos a vela, e indo assi, como digo, por entre estas ilhas, afirmavão-se que apa- recia huma vela, e dizião que era a de Pero Alvarez, e que ya avia alguns dias que a não aviamos visto. E che- gados mais, se certificarão ser elle, e mandando ao esquife que fosse a elle. os encontrou tão perdidos que era huma cousa lastimosa de ver, porque ya quasi desesperados, sem mantimentos, nem agoa, e sem poderem ir por detrás nem por diante, que avia ya muito que ali andavão, e muitos delles doentes e muy mal tratados dos estamagos, por comerem algum arroz cru, por não terem fogo, e alguns fruitinhos verdes que acharão e muitos roins. E vendo-nos, se alegrarão e consolarão muito com- nosco, e o capitão lhes mandou dar alguma farinha de sagu e algum vinho pera alguns, e agoa, e assi nos fomos saindo dentre as ilhas; e sobido hum marinheiro acima do masto, nos disse aparecer da outra banda huma aberta, como cousa que aly seria o boqueirão. E caminhando todo aquele dia, fomos atravessando huma grande enseada; e sendo ia tarde e quasi noite, embocamos para dentro, aonde o piloto se certificava que aquele era o boqueirão da Sunda, e a verdade assi o parecia, porque, tendo muy bons ventos, pera caminhar, não podíamos sorgir avante, porque dizem que aqui correm muito as agoas // pera [418 v.] fora, e que se perdem aqui naos, por isso. E determinando de passar huma ponta, pera anchorar- mos, não podíamos. E indo assi correndo a costa da outra terra, de fronte da Samatra, nos deu huma grande tro- voada, e temendo-nos que desse comnosco a costa me- 4.2 1
  • temos de loô (15) quanto podemos pera o mar, e assi, sofrendo as velas, com grande força de vento, nos fomos entrando, toda aquela noite, o boqueirão; e levando ainda por popa os dous esquifes, ate que, não podendo sofrer mais, alargamos o de Pero Alvarez, que andava mais a vela. E ao outro dia nos achamos ia bem dentro, e appa- recião algumas ilhas por muitas partes. E ainda que alguns profiavão com o piloto que não era para ly a Sunda, e elle mais se certificava; e mandando deitar o prumo, acharão fundo, e não de muitas braças, e assi mais se certificou, que he muy certo sinal desta terra. E não me lembra bem se este dia se a outro, pela menhã, vimos grande soma de embarcações pequenas, que corrião de huma parte para outra, e certificavão-se que erão pescadores. E deseiando de tomar fala deles, para saber aonde estávamos, manda- mos o esquife, porque nos não tínhamos vento pera andar. E andando assi em pos de algumas barcas destas, não queria aguardar. Andando assi, acertou de passar huma barquinha pequena, em que hia hum mancebo português, que vinha do reyno de Calapa, e chegando a fala com o nosso esquife, e entendo (sic) que erão portugueses e per- didos, se veo a elles, com grande alegria, e trazendo-o ao nosso navio, foi tão grande o alvoroço e alegria que com sua vista tevemos, e elle com a nossa, que não avia quem retevesse as lagrimas. E perguntando-lhes o capitão pela terra, nos disse que a Sunda era aquella terra que estava defronte de nos, e que estava aly huma boa armada de portugueses, e por capitão-mor hum fidalgo, chamado Pero Barreto, com a qual nova se alegrou muito, porque (15) «Termo náutico. He a parte do navio desde o masto até hum dos bordos; ou mais claramente, he a metade do navio igual- mente dividido por huma linha, que se considera de popa à proa, deixando huma metade a estibordo do masto grande, e outra metade a bombordo. Meter de lô. He quasi o mesmo que ir pela bolina...» (R. Bluteau, Vocabulário Português e Latino). 4 2 2
  • dezia que era seu parente e deu ao mancebo, de alvisaras, huma cabaia de grãa. E logo se tornou a embarcar o man- cebo, com grande pressa, a dar as novas de nos ao capitão e aos portugueses, e nos em pos delle; andamos todo aquele dia, ate tarde, ate chegarmos a vista das naos. Chegamos a esta Sunda, a vinte nove do dito mes de Abril de 1561. E sabida a nova dos portugueses, se aparelharão com grande alegria e gosto de nos vir tomar ao caminho, e assi o fizerão com embarcações muy esquipadas, pera nos levar cada hum a sua nao ou aposentos em terra. E entre estes vinha hum Gonçalo Vaz de Carvalho, capitão de huma nao, e senhor delia, homem muy asinalado, muy valente cavaleiro e de muitas obras qua nestas partes da índia, o qual, não somente elle, em pessoa, com grande fervor e charidade, nos veo buscuar, mas por muitos sol- dados honrrados da sua nao a que nos persuadissem que fossemos a sua nao, e pedindo-nos, primeiramente, os doentes e feridos, e especialmente lhes encomendou que a mim, em todo caso, me levassem a sua nao; e achando- -me este Gonçalo Vaz na nao do capitão-mor, que o fui a ver, e tomando-me pola mão, e, pedindo-lhe licença, me levou pera sua nao, hindo eu muy mal tratado de hum pe, de huma nacida (16), que me durou por muito espaço de tempo, que me deu muito trabalho. E, ficando na nao do capitão-mor meu companheiro, que avia vindo com João Gonçalvez, que chegou primeiro que nos, e erão neste tempo em busca de nos e nos desencontramos, e levando-me consigo Gonçalo Vaz a sua nao, me fez la- var, tendo para isso muy bom aparelho; e elle, per sua mão me lavou, com tanto gosto como que eu fora hum sancto, e isto por ser eu da Companhia, da qual elle he (16) O mesmo que abcesso. 425
  • muy afeiçoado e do Padre Mestre Francisco, porque a verdade he elle muy virtuoso e homem mais liberal e da milhor fama que eu vi outro homem, porque todos, comu- mente, dizem muitos bens delle. E vistindo-me logo, ao modo da India, com ceroulas e gibão, e me fez lançar em seu proprio leito, depois de me mandar dar muy bem de cear e me mandar curar, não podendo eu em nenhuma maneira escusar-me. E aly me mandava curar com todos os remedios neces- sários, e prover de todas as cousas necessárias, que me pareceo que estava mais que na Companhia e entre os charisimos irmãos delia. Trouxe consigo outros muitos homens, assi doentes como sãos, e por mor de mim fez agasalhado particular a alguns delles, vestindo-os muy bem, e dando-lhe todo o necessário. E assi mandava dar de comer a todos, como hum príncipe, com muitas galinhas e muitas outras igua- rias, e isto por muito tempo e continuamente, e na terra avia duas mesas, afora isto, a sua custa, a quantos aue- rião hir aly comer. E todos esses, que digo, se vestirão na sua nao, e da maneira que digo, a tanta copia de gente, mas aynda alta noyte se foy ao navio do nosso capitão, aonde ficarão muita gente e muitas molheres, mandando levar grande soma de comer pera todos. Ficamos em grande maneira espantados da grande liberalidade deste homem. Estevemos aqui, nesta Sunda, alguns dias, que he o ieyno aonde os portugueses tratão, ainda que não tem 1419 r.i aqui fortaleza. Estava // aqui muita soma de portu- gueses, e bem luzida gente, dos quaes recebemos todos muita charidade. Aqui lhes preguei duas vezes e confessei a muitos, de que mostravão consolarem-se muito e davão graças a Nosso Senhor, por me aver trazido por aly, para tamanho seu bem. E eu me consolava muito de lhes poder 4*4
  • aproveitar em alguma cousa. Muitos me oferecerão, de- pois, algumas cousas; algumas tomei, pola necessidade em que vinha de tudo. E começando-se a tratar da nossa ida daly para Ma- laca, se achava que não podíamos ir nas embarcações em que viéramos, por serem poucas e pequenas, e também porque se temião dos dachens, que andassem no estreito que aviamos de passar com armada, e poderíamos correr perigo. O mesmo Gonçalo Vaz se offereceo com sua nao, que se estava carregando para a China, a nos levar a Ma- laca, asy por podermos ir mais comodamente e seguros, como por nos defender dos achens, e, aynda que nisso muito perdesse, por fazer serviço a Deos e a el-rey. O qual offerecimento agradeceo muito o capitão-mor, e todos nos alegramos muito com esta nova. E assi, com muita pressa e diligencia, se aparelhou pera nos partirmos, deixando a nao sem a carga neces- sária para ella, ainda que foi algum tanto contra vontade dos mercadores, que duvida vão de perder a viagem. E finalmente nos partimos de Sunda pera Calapa, para que ay nos aviássemos, de todo, das cousas necessárias para o caminho, e day nos partimos. He aquele rey muito amigo dos portugueses e especial- mente deste Gonçalo Vaz, porque faz por aqui grandes liberalidades com estes negros e tem qua grande amor. O capitão Ruy de Mello se partio no seu navio; Pedro Alvarez no seu esquife, e outros forão diante e a nao se partio logo depois delles. Aconteceo que deu hum tempo a Ruy de Mello, que o tornou ao boqueirão, aonde estiverão quasi perdidos; outra vez, com grande dificuldade, voltarão a Sunda, e alguma gente se saio e vierão ter a Calapa, e a mais da gente queria ir com Gonçalo Vaz na sua nao. Finalmente que aparelhado em Calapa o necessário, aonde Gonçalo 425
  • Vaz fez muitos gastos, e partindo-se daly Rui de Mello diante, foy necessário a Gonçalo Vaz comprar outras em- barcações, porque a nao não podia chegar ao porto de Malaca. Finalmente nos partimos de Calapa e nos fomos an- chorar entre humas ilhas day perto, a esperar huma em- barcação da nossa companhia. E esperando aly, aquele dia, me fuy a hum junquo grande, que estava hum pe- daço ay, a rogo do capitão delle, e ay estando toda aquella tarde e ate noite, confessei sete ou oito pessoas, de que ficarão sumamente consolados. E ao outro dia, ante-me- nhã, me parti para a nao, a qual, antes que chegássemos, se fez a vella. E remando com grande força, chegamos a nao. E fazendo nossa viagem, passamos hum golfão grande, que ha daly ate hum primeiro estreito, antes de Malaca, aonde passamos com algumas trovoadas, viemos ter a huma paragem não muy longe de Malaca. Vinha em com- panhia da nao João Gonçalvez na sua lanchara com Bento Caldeira, seu companheiro. E Pedro Vaz, que avia sido guardião da nao, com o esquife e outra embarcação, em que vinha hum Manoel Cardoso, parente de Gonçalo Vaz. Aly, deixada a nao, nos embarcamos todos nestas embar- cações pequenas, e o mesmo Gonçalo Vaz se embarcou em huma embarcação pequena de remos, que trazia por popa da nao, com alguns soldados, valentes homens, com espingardas para peleiarem, se fosse necessário; e repar- tido da nao, deu a cada das embarcações muitos manti- mentos. E deixada a nao, nos partimos para Malaca, e no caminho tivemos algumas trovoadas, especialmente huma, que nos pos em muito aperto, que estivemos quasi perdidos, especialmente nesta embarcação aonde hia Gon- çalo Vaz, por ser muy pequena para tão grandes mares e vento. E alijando quasi todo o mantimento e muitas 4. 2 6
  • outras cousas, quis Nosso Senhor que, amanhecendo, nos achássemos quasi sobre huns ilheos de rochedo, aonde não escapáramos de noite, se aly déramos. E cesando a tromenta, nos partimos daly, e guiando- -nos o Senhor, por sua misericórdia, por meo destas tro- mentas, fomes e grandíssimos trabalhos, nos trouxe a Malaca, com a qual vista nos alegramos sumamente, por a vermos ya chegado a terra de portugueses. Estava por capitão desta fortaleza hum fidalgo muy nobre e muy bem quisto e de boa fama, chamado João de Mendonça, ao qual fomos logo visitar, acompanhados de muita gente muy honrrada, que nos vierão esperar ao desembarcar, e ao mar também nos forão esperar. Tinha ia este capitão aparelhado a gente soma de vestidos qua, ao modo da índia, para os mandar cobrir, aonde acha- mos também hum padre da nossa Companhia, que tam- bém tinha gran soma de vestidos pera elles, que lhes tinha pedidos, e dinheiro e camisas e ceroulas e comer, que lhes deu não sei quantos dias. Chamasse este Padre Hie- ronimo Fernandez, que socedeo aqui ao Padre Balthasar Diaz, o qual avia muito tempo que aqui residia nesta ci- dade e avia aqui delle muy boom odor. Estava aqui tam- bém outro irmão, chamado Francisco Jorge, dos quaes fomos recebidos com // tanta charidade e amor como aoostumão a fazer os da Companhia, e especialmente a nos, que vínhamos perdidos, e virmos aqui ter por mais estranho caminho que nunqua veo gente de Portugal. Alegrarão-se sumamente com nossa chegada, e tinhão ia mandado ao caminho a esperar-nos com duas fustas, com muitos mantimentos e refrescos, das quaes, todavia, nos desencontramos, mas chegarão a nao de Gonçalo Vaz, por outro caminho, e trouxerão muita da gente que la ficava doente. Aqui nos detevemos a esperar a monção para ir para 427
  • a India, no qual tempo esperavão as naos que acostumão a vir aqui, cada anno, de la, as quaes não vierão este anno, por não terem tempos, que arribarão todas; somente hum galeãozinho se aventurou, e veo aqui ter, que deu algumas novas da India, e nos disse como avião chegado quatro naos das da nossa conserva, e também a Deos Mi- sericórdia e as outras não sabião parte, a saber, S. Paulo e o Cedro. De duas cousas se espantavão aqui muito, que nunqua virão vir nao do reyno, por estas partes, e não virem naos da India, em sua monção. E porque alguns avião ia vindo diante dos nossos, e alguns deles deitando fama que eu que era pregador, me fezerão aqui pregar ate a chegada dos padres que avião de vir da India. E querendo o vi- gário da see que fosse na mesma see, aos domingos, alter- natim, com hum religioso da Ordem de São Domingos, que aqui pregou sempre, depois da ida do Padre Bal- thasar Dias, e nos detriminamos que fosse aqui em nossa casa, aos sabados, que he festa de Nossa Senhora, aonde se aiunta muita gente. Comecei aqui a pregar, dia dos Apostolos São Pedro e São Paulo. E assi fui continuando aos sabados (ate a chegada dos nossos padres da India, que foi ia no fim da monção de Setembro). Vinha muita gente, e, segundo mostravão, se satisfazião, especialmente este fidalgo João de Mendonça, a quem eu dizia que era afeição e amor que nos elle tinha. Acodirão confissões, e, aos domingos, tomavão muitos o Sacramento, e também pola somana. A outros doentes hiamos a confessar fora, e nisso me ocupei aqui nesta cidade de Malacha o tempo que aqui estive. Algumas febres me acodirão, ainda que não forão muitas; sangrarão-me, e, pela bondade de Nosso Senhor, convalesci. Chegou aqui o bispo tanto tempo esperado; vinhão 428
  • também muitos padres e irmãos; parte com elle, e parte em outras naos, aonde vinha o Padre Christovão da Costa, por reytor de Malacha, com dous irmãos; e o Padre Marcos Pranculo para Maluco. E vinha com elle o Padre Francisco Vieira, que partio do reyno quando nos, que veo com o Padre Arboreda, com outros tres companheiros. Trouverão consigo hum Jubileu do Papa Pio IIIj que se ia apregoou. Estamos aqui, agora, nesta cidade, treze pessoas da Companhia, e estamos esperando o tempo da partida, pera caminhar cada hum por sua parte. Ainda que se possa dizer de mim ser muy comprido, dilo-ha quem não souber a rezão que ha entre mim e vos, charissimos e amantíssimos irmãos, e não tera tanta espe- riencia, como eu tenho, de quanto vos deleitais e con- tentais com as cartas de vossos irmãos, por muy com- pridas que seião, tnaxime, desta terra. Pois crede-me em verdade que, se vos ouvera de con- tar todas as meudezas e particularidades desta grandíssima e trabalhosa viagem, que ouvera mister muito tempo e papel. Baste isto, por agora, ainda que me não basta o tempo pera fazer actos de vossa lembrança e amor que em Jesu Christo vos tenho, ao Qual peço, pelas entranhas de sua charidade, nos deixe ver e gozar no ceo, pois por seu amor tão longe nos apartamos. Ao Qual seia gloria, iouvor e honrra, com o Padre e o Spiritu Sancto, pera sempre, Amen. Aos 5 de Janeiro, dia de Reis, 1562 (17). Minus servus vester in Domino Manoel Alvarez (17) BACIL: Tem a seguinte nota: Esta carta, segundo parece, foi feita no ano de 1561 em Malaca, e a data em Janeiro de z$br, na índia, onde ficava ja o padre que a escreveo. 4.29
  • 69 CARTA DO IRMAO FRANCISCO JORGE AOS IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Cochim, 3 de Fevereiro de 1562 BAL: 4.Ç-IV-50. Fls. 400 V.-4.01 r. (1) A carta de que terá sido tirado este extracto não se encontra em nenhum dos Códices citados. Este resumo, porém, já nos permite suspeitar dos jactos que, então, obstavam ao desenvol- vimento das cristandades naqueles sítios. a) Notícias sumárias das Molucas. b) Frequência dos sacramentos. c) A guerra com os indígenas de Tolo dificulta o progresso da evan- gelização. A graça de Nosso Senhor seya sempre em nossas almas. Amen. Mandou-me, charissimos em Christo irmãos, o Padre Mestre Belchior, nosso reytor deste collegio da Madre de Deos de Cochim. que, sumaryamente, vos desse conta dos yrmãos e padres que estão em Maluquo. E isto tirado de huma carta, que de la escreveo o Yrmão Balltesar de Arauyo. Estão, charissimos yrmãos, na fortaleza, o Padre Ni- (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fl. 276 v. 430
  • colao Nunez, e os yrmãos Balltesar de Arauyo e Fernão do Souro. Ocupa-se o padre em confissões e, por ser soo, tem tantos trabalhos; tem feyto muito fruyto com toda a gente, asy da terra como casados, e he tanta a devação que se confessão muitos, que dantes se confessavão muy raramente, cada oito dias. E vai-lhes o padre a ministrar os sacramentos a Mysericordia, asy da Eucaristia como da Confissão, por não termos ygreya. E assy mais o padre faz, aos domingos e dias santos, sua doutrina aos christãos, com muy fervor, assy dele como dos ouvyntes. Foy ho padre com o Yrmão Frenão do Souro, em companhia do capitão, ao Tolo, se chama (2), que são tarnates, a dar nelles, por fazerem muyto mal aos nossos la. Deu o capitão nelles; e levava o padre hum Crucifixo; matarão allguns portugueses, e tornou-se o capitão sem fazer nada. Esta he a causa, charissymos, diguo de guerra, por onde vai em três annos que os portugueses la padecem muytos trabalhos, asy da guerra como da fome e cede e outras desaventuras; e também de nossos yrmãos não poderem vizitar os christãos do Moro e Amboino e de todos os mais lugares, o que he muyto pera sentir, ver perder aquellas allmas, que são muitas, que estão ja fey- tas membros de Yeshu Christo, e não tão somente os coutados christãos, mas ainda muitos outros, que poderão nossos yrmãos terem encoiporados, pello bautismo, na igreya catholica, e outros, por seo meo, estarem no ceo. Bem podereis, charissimos, congeyturar que cruz tão grande sera a nossos yrmãos, estarem tanto a porta, sem poderem entrar. Nosso Senhor, por sua misericórdia, lhes (2) BACIL: em companhia do capitão a hum lugar, por nome Tolo... 43 1
  • metigue sua dor e lhes queira dar fim aquela guerra, cujo premcipio foy hum Dom Duarte (3), do qual todo o mundo se queixa. E o padre e os yrmãos, ya que elles não possuem a grey, tem consigo muyta conta, guardando as Regras muito bem, e fazerem-no de maneyra que edi- ficão naquela terra, com ser tão pessyma, como sabem. Tem necessydade de serem encomendados em vossas ora- ções, asy eles, como os que aguora vão. [4oj r.] Isto he, asaz, //o que se vos pode dizer. Nosso Senhor seya com todos. Amen. Escrita a três de Fivereyro de mil e quynhentos e se- senta e dous anos. Tresladada pela do Padre Payo Correa. Deste que em Christo muito vos ama Francisco Jorge (3) BACIL: foy uma certa pessoa, em vez do nome do capitão Duarte de Eça. 432
  • 70 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE BALTASAR DA COSTA Goa, 4 de Dezembro de 1562 BAL: 4Q-IV-50. Fls. 463 r.-474 v. (1) Carta publicada já, na íntegra, em Documentação... (India), Vol. IX, págs. çi-124. Desta extensa carta geral tirámos as referências às Molucas, já no final da mesma. a) O Padre António Fernandes, enviado às Molucas. b) Socorro enviado aos cristãos de Amboino. Tãobem mandou o Padre Provincial hum padre, que se chama António Fernandez, o qual sabe a linguoa ma- laia, a Ternate, com hum irmão para Amboino, em compa- nhia de hum capitão (2), que o visso-rei la mandou, com gente, a instancia dos padres, pera favorecer os christãos daquella terra, e pera ajudar a muitos outros, que tãobem dezejão de se converter. Temos esperança que, de maneira que aguora hião, se servira muito Nosso Senhor nesta ida, a qual o demonio muito trabalhou de a impedir, fazendo que o visso-rey não mandasse la este capitão, por ver (1) BAC1L: Cartas do Japão, vol. II, fls. 286 r.-2gó r.; BNL: Fundo Geral, N.° 4.534, fls. 355 V.-363 r. (2) D. Jorge de Eça. 43 3 INSiaÍMDlA, 11 — 28
  • o muito que, com sua ida, naquella terra se podia fazer, por caussa dos mouros que nella ha, que são grande impe- dimento pera se fazer christandade. E teve tudo quasi entornado, mas quis Nosso Senhor que, com o trabalho e diligentia que os padres nisso poserão, se effectuou. Pra- zerá a Nosso Senhor que sera pera muito serviço seu. 4 3 4 -
  • 71 CARTA DO PADRE PEDRO MASCARENHAS AO PADRE PROVINCIAL Molucas, ano de 1562 BAL: 4.9-IV-50. Fls. 373 r.-574. v. (1) Os acontecimentos relatados nesta carta e as informações por ela fornecidas sobre as cristandades de Amboino classifi- cam-na entre os documentos ricos de interesse histórico. Nesta cópia notam-se algumas correcções posteriores, sem importância. а) Viagem para as Molucas. б) Recebidos em Amboino, com alegria dos cristãos. c) O rei de Terna te persegue também os cristãos desta ilha. d) Procedimento inaudito de um tal António Hércules e seu compa- nheiro, religiosos de S. Agostinho. e) Atitude corajosa de um cristão amboinense, chamado Manuel. /) Destruição da cristandade das ilhas de Buro por um capitão de el-rei de Ternate. g) Henrique de Sá prende um chefe amboinense, chamado Ratiputi, inimigo dos cristãos. h) Este, condenado à morte, pede o baptismo. i) A pena foi-lhe comutada em desterro para a Índia. j) Restauram-se as cristandades de Amboino. I) Manuel, cristão de Amboino, aprecia as lembranças que o Padre Provincial lhe enviou, e pede dois berços para se defender. m) Algumas informações sobre as ocupações dos amboinenses. (1) BACIL: Cartas do Japão. vol. II, fls. 75 r.-77 v.; BNL: Fundo Geral, N.» 4.534. As. 370 r.-37i v. 4-3 5
  • A paz de Nosso Senhor seia sempre com Fossa Paternidade. Atnen. Padre, escrevi de Malaqa a Vossa Reverencia o bom tempo que Nosso Senhor nos deu, com que, em poucos dias, nos pos em Malaqua, e dahi pêra Jaoa no-lo deu também muito bom, louvado seja Elie pera sempre. O primeiro porto da Jaoa que tomamos se chama Ga- çaim, onde ha muito mantimento e barato, a saber: arroz, galinhas, e vacas, e outros muitos mantimentos e fruitas da mesma terra, boas. Ahi esteve a nao alguns dias, tomando arroz e o mais necessário pera Maluco, porque a gente que ha nesta terra são mouros, e taes que nenhuma noticia tem de Deos, porque preguntei eu alguns, para que Deos os criara, e a íeposta foy que não sabião nem conhecião mais criador que a seus pais. Veta Vossa Reverencia quam poucas letras são necessárias para alumiar gente tão cegua. Dahi nos partimos para outro lugar que esta na mesma costa, que se chama Panaruca, e estes são gentios, e mais conversáveis com os portuguezes, que os outros. Esti- vemos ahi seis ou sete dias, e no cabo delles, nos partimos para Amboino, e fomos recebidos com muita alegria dos christãos, principalmente de Manoel, e de outros dous ou tres lugares, que não arrenegarão (2), e parece que, depois de Deos, Manoel foy causa disto. Destes contarey duas outras cousas não esperadas de gente que tem tão pouca doutrina. Depois de começada a guerra contra os christãos, por hum capitão del-rey de Ternate, que ha quatro annos que anda por esta terra, e este fez com os mouros desta terra que avexassem os (a) Corrigido para apostatarão. 436
  • christãos, e avexarão-nos tanto que os fizerão arrene- gar (3), ameaçando-os com a morte, se o não fizessem. T ornarão-se, quasi todos os lugares dos christãos, mou- ros, e não lhe ponho muita culpa, comprarem-na vida polia fee, porque, alem de não terem doutrina, depois que são christãos, nesta terra, senão per accidens, huns desaventurados portuguezes, que aqui ficarão, alguns delles favorecerão aos mouros contra os christãos, e dous delles ouverão loguo a paguoa que merecião, scilicet, Antonio Hercules, que he o frade de Santo Augustinho, que por estas partes andava, e o irmão, os quaes forão mortos por outros portuguezes, a quem elles querião ma- tar, e derão a cada hum sua espingardada, e delles mor- rerão, sem falarem palavra, mas ficarão tão negros e feos que fazião medo aos que os vião. Estes erão mui cruus, em grande maneira; esta crueza usarão com os christãos, porque chegados a hum lugar, que se chama Homa, tomarão hum christão e lhe cortarão os pes e as mãos, diante dos outros, do mesmo lugar, e mandarão atar os pes e as mãos a doze christãos deste mesmo luguar, que hião em huma embarcação, em que hião outros dois portuguezes. E mandarão que assi como estavão, atados, lhes pusessem pedras nos pes, e os dei- tassem em o mar. E padescerão os pobres christãos, se os portuguezes, que hião na embarcação, os não defenderão as espingardadas. E destes desaventurados dous irmãos tomavão os christãos, e vendião-nos aos mouros da Banda. E por- tanto, digo que não ponho culpa aos christãos, deixarem a fee, pois os mesmos portuguezes os tratavão tão mal. E este lugar de Homa, com todas estas vexa // ções, [573 v.i nunqua se quis tornar mouro, peleiando os mais dos dias (3) Também corrigido para tornarão atras. 43 7
  • com huns christãos arrenegados, que se chamão os Atuaas, que são os que mais trabalho dão, agora, em Amboyno, aos christãos e ao capitão, porque todos os demais estão de paz. A este lugar de Homa foi o capitão del-rei de Ternate, que arriba diguo, pera ver se podia fazellos mouros. Elles se defenderão mui bem, quanto poderão, e depois que virão que não podião resistir, fizerão concerto que os não fizessem mouros, e que, por isso, lhe darião trezentas pa- lolas, que são mais de mil pardaos. Quilão, que também he christão, sendo muito perse- guido dos mouros, e tendo-o emcerrado em hum monte, dizendo-lhe os mouros que se entregassem, porque ja não avia portuguez nem christão que não arrenegasse, res- pondeo que, enquanto Manoel de Ative fosse vivo, elles se não avião de emtregar, mas depois que o tomassem, pode ser que lhes farião algum partido. Esta huma molherzinha christã em Homa, da qual parece que depende todo o lugar, e parecia-lhe aos mou- ros que, tirada esta do lugar, não averia muito que fazer, pera os tornar mouros, por ser ella filha do regedor de Homa, a qual elles obedecem. E mandou-a buscar o Leliato, que he o capitão del-rei de Ternate, com afagos, dizendo que casaria com ella, e que não avia ja portuguez. Respondeo que bem pode ser que iria a seu chamado, mas não viva, e que portuguezes, enquanto ouvesse mar, não avião de desemparar Maluco. Manoel fez também huma cousa muito notável; he elle regedor e ajudava-o hum seu cunhado, por nome Antonio, que la agora manda Anrrique de Sa, preso; este se alevantou contra Manoel, pera o matar, e ajuda- vão-no dous portuguezes, os quaes puserão as espingardas no rosto, pera tirarem a Manoel, e matarem-no, segundo dizem (porque andavão tão desemeaminhados que não 438
  • achavão a quem era christão, pera o ajudarem, senão a quem lhe dava mais dinheiro). Quando Manoel vio que assi o querião matar, aremeteo a huma cruz, e abraçou-se com ella, e disse que avia de morrer na cruz, porque assi lho ensinara o Padre Mestre Francisco. A grande christandade do Burro, que em grande ma- neira venerava a cruz, he toda destruída por este capitão del-rey de Ternate, que arriba diguo, e teve hum modo diabólico, para os apagar: descasou-os, e as molheres, dava-as aos mouros, e a elles, casou-os com as mouras; e não contente com isto, os pos de dez em dez, por lugares de mouros, pera que de todo se esquecessem de christãos; mas não basta tudo isto, pera perderem o amor da cruz; e quando vem algum portuguez ou christãos, chorão, per- guntando-lhe se se hão-de lembrar delles, em algum tem- po, os portuguezes. Isto nos contou hum portuguez que agora passou no Burro, e diz que lhe contou isto hum christão, e lhe disse que não avia mais que elle e outro, em aquelle lugar, que dantes era dos christãos; e cantão, estes christãos de Burro, quando remão, huma cantiga muy triste, que fi- zerão e as palavras são estas: «O mundo, mundo falso, quantas voltas das! Quem cuidou que aviamos de pa- decer tantos trabalhos, por sermos christãos»?! Finalmente, os mouros do Burro quebrarão e quei- marão as cruzes. Veja Vossa Reverencia se são cousas estas pera cortarem o coração de quem as ouve, de tão perto, sem lhe poder acudir. Nosso Senhor se lembre delles, por sua misericórdia. Forão os christãos deste Amboino muito mal tratados polios mouros, em espicial, por hum mouro, por nome Ratiputi, regedor de hum lugar grande, que se chama Roçadive, que esta huma legoa e mea ou duas do lugar onde estão as naos dos portuguezes, e metesse hum braço 439
  • de mar, antre as naos, e este lugar, e he esta enseada de duas legoas. Este Ratiputi tem feitos muitos males aos christãos, queimando e arrancando as cruzes; fez arrenegar a mui- tos, e hia-se fazendo tão poderoso que se nomeava ja por rey, e lhe fazião a subaya. Era tão timido dos lugares, que lhe obedecião, que mandou Anrrique de Sa fazer algumas cousas, que lhe não erão necessárias, por estes [574 r.] / / lugares, e dizião os dos lugares que não avião de fazer nada, sem que Ratiputi o mandasse. Prendeo então Anrri- que de Sa ao Ratiputi, a requerimento dos christãos, que se queixavão dos males, que lhe tinha feito; prendeo também a Bauta, que foi christão, e arrenegou duas ou ties vezes; este tem qua por mao homem e dizem que matou hum ou dous portuguezes; he rejador, juntamente com Ratiputi, em Rosavive, e, com a ajuda que os por- tuguezes derão ao Ratiputi, o deitarão fora. Ficou então o Ratiputi principal no lugar, e o Bauta acolheo-se com sua gente, que serão oitemta pessoas, pera Manoel, que estava com elle foguo e sangue, e diz Manoel que o re- cebeo e lhe perdoou, porque se lhe deitou os pees, pidin- do-lhe perdão; prendeo também a Antonio, cunhado de Manoel, por se allevantar contra elle (como arriba tenho dito). Estes tres vão a índia. A culpa das ladroices e males do Ratiputi se dilataram tanto ha dos capitães del-rey de Portugal, que por aquy passão, e mais se dilatarão, com perda de muitas almas, se Nosso Senhor não trouxera pera aqui a Anrrique de Sa, que o estrovou. Diguo he dos capitães del-rey, porque dizia Ratiputi que não tinha conta com os portuguezes, e que não avia de deixar de ser rico, furtando e fazendo o que quisesse, porque, pera contentar os capitães del-rey, tinha duas jarras douro. Antes que Anrrique de Sa o prendesse, nos tinha dito 440
  • Manoel e os outros christãos os males que este homem lhe tinha feito. Mandou, emtão, Anrrique de Sa chamar ao Ratiputi e aos christãos, e disse-lhe que se queixavão delle, e lhe tornasse o que lhe tinha tomado. Respondeo o Ratiputi que não tinha tomado nada, e que, se ouvesse alguém que se queixasse delle, que tudo o que dissesem lhes daria. Não ouve nenhum que o accusasse, e isto, de medo que tinhão, que ido o capitão, paguassem dobrado, porque assi o costumão nesta terra; que, quando, ou por peita, ou por concerto, dão alguma cousa ao capitão, pa- guão por hum, dez; e estes, por lhe não acontecer outro tanto, não ousavão falar, mas tanto que virão a Anrrique de Sa fazer huma cousa tão desacostumada em Amboyno, que foi prendello e fazer justiça, detreminarão-se, então, accusa-lo, e juntarãosse todos os lugares, que elle tinha agravado, e pidirão a Anrrique de Sa que lhe mandasse paguar o seu, que lhe tinha tomado; tem ja pago a alguns lugares, e parece que paguara, antes que se va. Deu o capitão a entender que o Ratiputi avia de mor- rer enforcado, antes que elle se partisse de Amboino pera Malaca, e isto pelos muitos males que tinha feito. Isto lhe pos muito temor, e pidio que o fizessem christão; ajun- tarão-se também os principais do lugar de Rosanive, e pidirão ao padre que os fizesse christãos a elles e a toda a gente de seu luguar, que são de mil e quinhentas almas; dissimulou o Padre com elles, sete ou oito dias, e nunqua deixarão de o pidir. Ditriminou-se, então, bautiza-los, visto que, por todas as vias, se ganhava nisso, e ganhou-se, não somente as almas deste lugar, mas também as dos outros a roda, que lhe obedescião, porque também se converterão; alem disto, os males que, sendo mouros ouverão de fazer aos christãos, cessarão com se converterem, e, juntamente com isto, não receberão em seus lugares a este capitão 4.4.1
  • del-rey de Ternate, que anda neste Amboyno, e ajudarão aos christãos. Partio-se o padre pera os ir doutrinar e bautizar, se- gunda feira da Somana Santa; veo ter onde estão os por- tuguezes, dominguo da Resurreição, e bautizou mais de mil e quinhentas pessoas, neste tempo ficão ainda muitas 1574 T.i por bautizar, o Padre Francisco Vieyra, que fiqua em Amboino e, com elle, //o Padre Dioguo de Magalhais, pera doutrinar os christãos. A primeira cousa que o padre fez em Rosanive, foi oueimar-lhe huma misquita e derribar-lhe outra, mui grande, que tinhão começado, e desmanchou hum pagode dos gentios, que estavão na mesma terra. E assi lhe der- ribou as sepulturas, e depois da mayor parte delles ser bautizada, que foi em dia de Nossa Senhora da Anun- ciação, lhe levantamos huma cruz, que elles fezerão, muito iermosa. Nos e elles, juntamente, a adoramos com muita alegria nossa, e elles a festeiarão, saltando e bailando, fazendo jogos e festas, e mostrando muito contentamento com a ley de Deos, que toma vão, e dizendo que antes avião de morrer que deixar a lei dos christãos; e que isto tivéssemos por mui certo; são conversáveis os mininos, r.ão fogem de nos. Dous meses a-de gastar o Padre Fran- cisco Vieira neste lugar, que he ate a partida das naos, e o Padre Dioguo de Magalhais em Ative. Praza a Nosso Senhor que os alumie, e a nos esforce em seu serviço. Respeitando o capitão fazer-se Ratiputi christão com toda a sua gente, lhe deu a vida, porque também lha pidirão os principais do lugar, que lha desse de qualquer maneira que quisesse; elle lha deu, com o mandar pera a índia. Seu nome he Antonio de Abreu, que he o nome de seu padrinho, que qua he capitão do mar, posto que este homem tantos males tenha feito, como mouro os podia fazer, sem muita culpa, pois, ate agora, viveo em ley tão 4 4.2
  • ceguoa, mas, se se viesse a ser bom christão, bem se lhe podião perdoar. Não he nada, pode ser que depois que vir os muitos portuguezes, que ha na India, e nossos cos- tumes, se mudara; o bom he todavia estar la, dous ou tres annos. Nosso Senhor lhe escolha o milhor. Por amor de Nosso Senhor, Vossa Reverencia se lem- bre, muito particularmente, da christandade destas partes, porque, 9e são tão brutos, he por não terem quem os ensine, e veia Vossa Reverencia bem, como dous padres, que agora fícão em Amboino, podem insinar a doutrina a trinta e tantos lugares de christãos; a mim me parece, em verdade, sem nenhuma affeição, que huma das mi- lhores cousas da Companhia tem em a India, he Maluco, porque he gente mui fácil em a conversão, tomão aquillo que lhe ensinão; seus filhos trazem-nos, de muito boa vontade, pera lhos bautizarem, e não somente os dão, mas vem buscar quem lhos faça christãos. Foi-se o Padre Francisco Vieyra bautizar, por esses iugares, os filhos dos christãos; tem ja bautizado mais de seiscentos. Quem quer Vossa Reverencia que não folgue mais de morrer insinando esta gente, posto que tão longe do exemplo e doutrina dos nossos padres, que estar no collegio em Goa?! Eu o quero, porque Deos mo deu, e, de verdade, que o não troquarei por nenhum do collegio. Lembre-se Vossa Reverencia dos filhos de Manoel que aprendão a ler e escrever, e, por amor de Deos, que olhem por elles, porque Manoel também nos ajuda muito, e o oue tem, temo-lo mui certo, pera o que nos for necessário. Muito folgou com as peças que o Padre Provincial lhe mandou; bem lhe podia, o viso-rey, dar hum ou dous berços, pera se defender, e não he muito. O Padre Marcos Prancudo lhe escreve, e na carta lhe pede que de hum ou dous, e sera bom dar-lhos, pois he tão fiel. 44 3
  • As lavouras da gente de Amboino são ortas, e a fruita he figuos e inhames e grãos; estas ortas estão no mato; as molheres as grangeão, e os maridos, em casa, pera as defenderem dos ladrõis, que são muitos. Ha neste Am- boino, como tenho dito, mais de trinta lugares de Chris- tãos; e ha, de huns a outros, huma legoa ou duas, e o mais longe, quatro e cimquo, e aos mais destes se vay por mar, ainda que, comumente, todos estão postos no mais alto dos montes. Isto, por estarem mais fortes. Estes montes são mui altos e Íngremes. Anno de 1562 (4). De Vossa Reverencia em Christo servo Padre Mascarenhas (4) No Códice da BNL foi aposta, com letras diferentes, o dia e o mês, 16 de Abril. 4 4 4
  • 72 RELIGIOSOS DA COMPANHIA NAS MOLUCAS 1562 BAL: 4.Ç-IV-50. Fls. 51JV.-514.V. (1) Documento intitulado: «Lista dos Padres e Irmãos que estão em este collegio de Goa, e de todos os Padres e Irmãos que estão em diversas partes da Índia, no ano de 562». Desta lista extraímos os que se indicam nas cristandades das Molucas. Os de Maluquo: Padre Marcos Prancudo, superior. Padre Nicolao Nunez. Padre Pero Mascarenhas. Padre Fernão de Alvarez. Padre Francisco Vieyra. Padre Diogo de Magalhães. Irmão Balthesar de Araujo. Irmão Fernão do Souro. Irmão Manuel Gomez. Irmão Antonio Fernandez. Irmão Antonio Gonçalvez. (1) BACIL: Cartas do Japão, vol. II, fls. 303 1.-304 v. Nesta cópia a data aposta à lista é a de 1561, e nela se indica o nome de mais um religioso nas missões das Molucas, o Irmão Diogo de Maga- lhães, omitindo os nomes dos irmãos António Fernandes e António Gonçalves. 4 4 5
  • 73 APOSTOLADO DE FRANCISCO XAVIER NAS MOLUCAS BAL: 4Ç-IV-51. Fls. 87 V.-144 v. Da «HISTÓRIA DA COMPANHIA NA ÍNDIA», composta pelo Padre Sebastião Gonçalves S. J., em 1614, transcrevemos os Capítulos que, a seguir, damos. Esta História nunca foi publicada, por se considerar dema- siado profusa, como diz o Padre Francisco de Sousa S. J. na sua dPrefação Isagógica» do «ORIENTE CONQUISTADO A JESUS»: «Ainda achou que acrescentar às noticias remettidas a Europa o nosso Chronista, o Padre Sebastião Gonçalvez, na- tural de Ponte de Lima, que passou à India, no anno de 1593 e morreu no Collegio velho de S. Paulo, a 23 de Março de ióiç, depois de ser muitos annos companheiro dos Provinciais e Prepositos da Casa Professa. Alcançou este Padre mui vivas as memorias de S. Francisco Xavier e escreveu com muita ver- dade, com estylo claro e corrente, porém, com demasiada eru- dição, que lhe arrebatava a penna a digressões mui largas e pouco conducentes ao seu assumpto e por esta razão se não imprimiu...». Existem nos arquivos portugueses, em manuscrito, duas cópias da História do Padre Sebastião Gonçalves. Uma, na Bi- blioteca Nacional: Fundo Geral, N.° 9/5, completa, num vo- lume encadernado, com o seguinte título na lombada: ((Gon- çalves. HISTORIA DA COMPANHIA DE JESUS»; e na segunda folha: «Jesus Maria. Primeira Parte da Historia dos religiosos da companhia de Jesus; e do que fizeram com a divina graça na conversão dos infiéis à nossa Sancta Fee catholica nos Reynos e Provinda da índia Oriental, composta pello Pa- dre Sebastiam Gonçalves religioso da mesma Companhia, por- tuguês natural de Ponte de Lima. Sogeita o autor suas obras ao juizo da Sacrosanta Igreja Romana. Anno do Senhor 1614». Segue-se o Prólogo, fls. 3 r.-6 v.; e depois o índice, fls. 7 v.- 446
  • -12 r. Começa, então, o texto em folhas numeradas i r.-^2ç r., constando de dez livros, com vários Capítulos cada um. Os sucessos apostólicos de Francisco Xavier, na sua viagem às Mo- lucas, encontram-se relatados nos últimos capítulos do Livro 2." e em todo o Livro 3°, e que neste lugar publicamos. A factos passados, depois, naquelas ilhas, referem-se ainda os capítulos iç e 20 do Livro Sexto, o Capítulo 3 do Livro Oitavo, o Capítulo 27 do Livro Nono e o Copítulo 30 do Livro io.°. Esta cópia diz o Padre Wicki ter sido revista pelo autor, e enviada para Portugal, em 1613, para ser impressa (Documenta Indica, Vol. Ill, pág. 33). A outra cópia encontra-se na BAL, 4Q-IV-31, incompleta, constando também de um volume encadernado, que intitularam: «HISTORIA DA COMPANHIA DA INDIA, i." PARTE»; com a seguinte observação: «Esta primeira parte era dividida em 10 livros; os primeiros cinco tratão do principio das Missões dos Jesuítas na Asia, e principalmente dos trabalhos apostólicos de S. Francisco Xavier; os últimos, digo os outros livros falião. Veja-se o indice hum pouco adiante». E na primeira folha nu- merada vem mais a seguinte nota: «Este livro o mando para a Procuratura da Provinda do Japão em Lisboa, este Janeiro de 174.7, na nao S. Pedro e S. João, para se conservar na dita Procuratura e delia não sahir. O propria. Macao, primeiro de Janeiro. João Alvarez». Alguns leitores têm-se permitido tam- bém escrever a lápis as suas notas, num espaço em branco da primeira folha não numerada. Nas primeiras páginas numeradas este volume contém ainda os seguintes documentos: Os breves Cum sicut charissimus e Dudum pro parte; uma carta do Car- deal de Compostela a D. João III, de 8 de Janeiro de 1534. e uma declaração do Padre João Alvares, atestando serem estes documentos transcritos dos originais, conservados no arquivo da Província do Japão, no colégio da Madre de Deus, em Macau. Segue-se, depois, o Prefácio, o Index dos dez volumes e o texto só dos cinco primeiros, faltando os outros. /Is cópias são iguais, diferenciando-se, apenas, na forma da letra, na ortografia e num ou noutro descuido e erro dos copistas. Por nos ser mais facilitada a consulta desta última, dela nos servimos em nossa transcrição. 0 desejo, sobretudo, de faci- litar aos estudiosos esta síntese dos trabalhos apostólicos do Padre Mestre Francisco nas Ilhas das Especiarias, levou-nos a incluir também em a nossa documentação os capítulos da 4-4-7
  • HISTÓRIA do Padre Sebastião Gonçalves, que lhe dizem res- peito, ainda que muitas passagens não sejam rigorosamente exactas. Respeitamos a ortografia do texto, procurando, ape- nas, ajustar a pontuação e actualizar o uso das maiúsculas, sem introduzir novos parágrafos. LIVRO SEGUNDO DA VIDA DO BEATO PADRE FRANCISCO XAVIER Das novas que vierão a India do Macaçar e quanto 188 r.i dezejou //o beato Padre Francisco ajudar aquella gente. CAP. 15 He Macaçar huma ilha ao levante das Malucas, como corenta Legoas; de trezentas em roda; he muy abastada de arros, sal, carne, pescados, fruitas, e mais mantimen- tos; nella se cria sandalo (1), e pao de aguila; fazem os Macassares alguns panos groços (2) com que se cobrem, e podem na índia servir de cobertores; tem lacre, mar- fim, minas de ouro; a gente, forte e robusta, grandes (1) O sândalo era considerado uma das apreciadas especiarias, provenientes de várias ilhas da Insulíndia: Timor, Sunda e outras. (2) Esta indústria, ao tempo, seria uma das mais aperfeiçoadas entre os habitantes das várias ilhas, sitas naquela zona. A par destes panos grosseiros, que lhes serviam de cobertores, e com os quais confeccionavam os seus sarongs, teciam também panos artísticos, com desenhos da sua fauna e flora. E ainda hoje os conhecidos panos de Timor são muito apreciados, como peças curiosas e típicas da arte indígena. 448
  • homens de mar (3). A terra he vestida de frescos arvo- redos; as campinas, a perder de vista, regadas de perennes rios; huns que decern das altas serras, e outros que pro- cedem de hum lago da agoa doce (4), comprimento de vinte legoas, e cinco de largo, cercado de fermozas po- voações. He a ilha devedida em estados, e reynos defferentes; de hum dos quaes, os annos atraz, vieram a Ternate dous homens nobres, e ambos entre si irmãos; os quaes, per- suadidos pello capitam Antonio Galvam, receberam o Santo baptismo (5); e tornando pêra suas terras, disseram taes couzas a seus naturaes, da santidade da nossa ley, que mandaram embaixadores ao mesmo capitam, com navios carregados de todo o bom que a terra produzia, e alguns mancebos nobres, pera receberem o sagrado baptismo; (3) Os estudos modernos de vários etnógrafos convêm em reco- nhecer naquelas ilhas, com mais ou menos vincada nitidez, a exis- tência de dois tipos de população: a do interior, e a da orla marítima, de raça malaia, homens do mar, fortes e robustos, com os quais, naturalmente, os portugueses tiveram os primeiros contactos. (4) O rio Tjenrana. (5) João de Barros: Quarta Década, Livro Nono, Cap. XXI, re- fere-se a estes acontecimentos: «Naquele mesmo tempo, vieram a Ter- nate dous irmãos macaçares, homens nobres, que se fizerão cristãos, de que um se chamou António Galvão, como seu padrinho, e outro Miguel Galvão. Estes tornaram à sua terra; e, querendo depois vir visitar seu padrinho, trouxeram certos navios carregados de sândalo e algum ouro e mercadorias, que disseram havia nas ilhas e nas dos Celebes, aonde, se os portugueses fossem, se converteriam e fariam proveito em suas mercadorias. Com estes vinham alguns mancebos fidalgos, com tenção de se fazerem cristãos, como de feito fizerão. Vendo António Galvão que de um caminho se podiam ganhar almas e fazemda, mandou àquelas partes um cavaleiro honrado, cha- mado Francisco de Castro, e com ele dous sacerdotes, a quem deu hum regimento para que assentasse amizade com os reis daquelas terras, e que os induzisse a tomarem nossa Fé, e lhes deu peças e presentes. Partido Francisco de Castro de Ternate, deu-lhe um tempo tão rijo, que lhe foi forçado correr à vontade dos ventos; e no cabo de alguns dias foi dar com umas ilhas ao Norte de Maluco mais de cem léguas, até então não descobertas, nas quais soube que aquela a que INSLLÍNDIA, II — 29 4 4 9
  • nam pretendendo mais dos portuguezes que ministros do Evangelho, de quem ouvissem e recebessem a fé. Estimou muito Antonio Galvam a embaixada; baptizaram-se os fidalgos com solemnidade; partio com elles Francisco de Castro, com o aparelho necessário e satisfaçam de seus desejos, levando hum rico presente, em retorno do que trouxeram. Mas esta viagem tinha Deos ordenado, pera que levasse as boas novas do Evangelho a outras ilhas daquelle arcipelago; onde Francisco de Castro trouxe ao conhecimento e adoraçam de Christo, Nosso Senhor, a (88 v.] cinco reis com / / a principal nobreza e povo; e pondo muitas vezes a proa no Macaçar, nunca pode ferrar, atte que arribou a Ternate. Em tempo de Martim Afonço de Souza, Governador da índia, aportou ao Reino de Supa (que he na mesma Ilha Macaçar) Antonio de Paiva, a aportou se chamava Satigano (Sarangani ao Sul de Mindanau), cujo povo e reis eram gentios. Assentou logo Francisco de Castro com ele amizade; e para firmeza dela. se sangraram ambos no braço, ao cos- tume daquela gente, e bebeu um o sangue do outro. El-Rei se fez cristão, daí a poucos dias, e com ele se baptizaram a Rainha e um filho seu, e tres irmãos del-Rei e muitos fidalgos e gente popular; e gastando nisso vinte e dous dias. se partiu Francisco de Castro, deixando a todos muita saudade; e passando ao longo da ilha de Mindanau, chegou a um rio, ao longo do qual estava uma cidade chamada Soligano. cujo rei se fez cristão, e com ele a rainha e duas filhas suas, e muitas pessoas outras. Na mesma ilha se fez cristão el-rei de Butuano (a que chamam el-Rei D. João o Grande) e el-Rei de Pilirano, que tomou o mesmo nome de D. João, e el-Rei de Casi- mino, que se chamou D. Francisco, e assi se converteram as mu- lheres e filhos destes reis, e muita parte de seus vassalos. Querendo Francisco de Castro passar desta ilha à de Macaçar, foi-lhe o vento tam contrário, que se ouvera de perder, tentando-o muitas vezes. Pelo que os que consigo levava, não quiseram que tor- nasse a tentar o caminho tam perigoso, e voltou para Ternate com muitos filhos daqueles que se tornaram cristãos. Para os quais ordenou e fundou António Galvão, com muito gasto de sua fazenda, um seminário, que foi o primeiro de todas aquelas partes orientais, em que, criando-se aqueles moços no leite e doutrina cristã, pudessem vir a servir na conversão de seus naturais, meio que, para a reformação de toda a Igreja Católica, o Sagrado Concilio de Trento depois aprovou e escolheu». 450
  • carregar de sandalo, per ordem de Ruy Vaz Pereyra, capitam de Malaca; ao qual o rey da terra foi logo vizitar; e passados alguns comprimentos, de parte a parte, lhe perguntou qual fosse a cauza do entranhavel odio que os christãos tinhão aos mouros, e por que nas batalhas envo- cavam a San Tiago? Payva, como bom christam que era, e zelozo da propagaçam da nossa santa fée, como se fora pregador inviado a conversam dos infiéis, lhe deu noticia dos principaes mistérios de nossa sagrada religiam, des- correndo pellos Artigos da Fé, ajuntando a declaraçam que delles sabia; e como o Filho de Deos, feito homem, tevera doze discípulos principaes, entre os outros, cha- mados Apostolos; os quaes, de sua glorioza subida ao ceo, pregaram pello mundo a vida e os milagres, a dou- trina, a morte, e resurreição de seu mestre, e vinda a julgar o mundo, no fim delle; e o premio que, depois desta vida, tem apparelhado aos homens, conforme aos merecimentos de cada hum, dando a gloria aos bons, e o Inferno aos maos. Depois disto, declarou ao rey gentio quem foi Mafa- mede, cabeça da impia seita, que os mouros seguem di- zendo delle todo o mal que sabia. A cauza, logo dizia Paiva, porque os christãos dezejam extinguir os mouros, he porque sam muy different es e encontradas as leis que seguem; a dos christãos he tão santa, no que ensina e manda aos seus, que todos, ainda que infiéis, se espantam de sua belleza e fermozura; pello contrario, a nefanda seita dos mouros he tão impura, tam abominável, que só a seus sequazes parece boa: aos quaes, a nossa, por sua grande pureza e santidade, parece insufrivel, por não dar lugar a liberdade da carne e consciência. E respon- dendo a segunda questão, declarou como o Apostolo San Tiago fora o primeiro / / que a nossa Espanha levou a [89 r.i luz do sagrado Evangelho, estando ella na mesma cegueira 45 1
  • de sua infidelidade, como estava Macaçar; que nas bata- lhas que os christãos tiveram com os mouros fora delles visto, em cavalo de fogo, desbaratando, seus exércitos numerozos, em favor dos christãos, que em seu respeito eram poucos; e como nas antigas guerras contra a pérfida gente mauritana tinham, per muitas vezes, experimentado o favor do gloriozo Apostolo, por isso, no acometimento dos inimigos, com alegria, chamam per San Tiago ao som dos tambores, pífaros, e trombetas, brandindo as ianças; e com gritos e alaridos, confiados no Santo Apos- tolo de, por seu meo, alcançarem a vitoria, a redea solta, rompem os esquadrões inimigos. Muy contente ficou o rey gentio do que ouvio, ficando as palavras de Paiva como semente em seu peito, pera frutificar a tempo devido. Tomada sua carga, foi-se An- tonio de Paiva a cidade e porto de Siam, cincoenta le- goas de Supa, na mesma ilha, onde ja fora o Paiva, e recebera do rey boas obras, em satisfaçam das quaes lhe tinha dado noticia de nossa santa fe. Visitaram-se, e o rey lhe repetio a liçam que delle tinha ouvido, convém a saber, que os portuguezes creem e adoram hum só Deos, que criou as couzas, e de quem esperam as eternas. Pe- dindo-lhe fizesse huma rellaçam das principaes obriga- ções de christão. Paiva, posto que mais exercitado nas armas que nas letras, recitou na lingoa Macaçar os dez mandamentos, com sua declaraçam. Ficaram os gentios pasmados do que ouviram, vendo que tudo era santo, conforme a rezam. Continuo o pregador com as obras de mizericordia e criaçam do mundo, remetendo-se nos pontos mais diffi- cultozos a interpretaçam dos Santos Doutores. Perguntou o rey que queria dizer Santos? Santos, disse Paiva, foram homens como nós, os quaes perfeitamente cumpriram por obra a Ley de que falei; e, vivendo em carne mortal, 4 5 2
  • imitaram aos puros / / spiritos, tam livres das paixões dos 189 v.i maos, como da ira, da cobiça, e da emveja, que nelles ieyna; aos quaes Deos comunicou tanta sabedoria que podessem ensinar aos homens o caminho de sua salva- çam, sem presumçam de mentira. Perguntou o rey siamês que conza era mentira? Pedindo, primeiro, segurança da vida e fazenda dos companheiros, offerece o pregador a sua, em defenssam da verdade, se por ella o rey a qui- zesse. Alevantando entam a voz, declarou que os deozes que adoravam os siamezes eram os demonios, autores de todo o engano; os sacrifícios, falços e abomináveis; a doutrina, fabuloza; os costumes, feros e contrários a mes- ma natureza; que tudo cauzava o pay da mentira; que somente na ley de Christo, Senhor nosso, avia verdade, adoraçam, sem engano; ritos verdadeiros, doutrina e cos- tumes santos. Estava a ilha. neste tempo, necessitada de agoa, senam quando, no fim da pregaçam, o ceo fez applauzo, com suas trovoadas, caindo após ellas súbitos chuveiros, que cupiosamente regavam os campos sequiozos. Tomando o Payva animo da occaziam presente, aperta com el-rey que receba nossa santa fé. Resistem grandemente os mouros, e sacerdotes dos gentios; pede o rey nove dias de termo pera deliberar; senam quando, nesta contradiçam, appa- rece o rey de Supa, de quem antes falamos, com boa armada, o qual vinha de paz; e, ancorando, foi bem recebido dos portuguezes; aos quaes logo perguntou se era jà o siamês feito christão? Responderam que nam; folgou de poder ser o primeiro que recebesse naquella ilha o sagrado baptismo, assi como foi o primeiro em que a semente da fé, naquelle tempo, tinha lançado mais fun- das raizes. Nam cabe o Paiva de prazer em si; appara- mentam hum altar ricamente; faz o officio de sacerdote o mais bem apessoado ansiam dos portuguezes, que bap- 4 5 3
  • tizou, primeiramente, ao rey de Supa, com o nome de Dom Luiz, o qual já dobrava os setenta annos; depois, a raynha, e grande copia de fidalgos, e muita gente de 190 r.i armada; //a qual estava toda embandeirada de festa, soando vários instrumentos de guerra, e a nossa artelha- ria, per huma parte, feria os ares com seu estrondo, e per outra, toldava-o com a fumaça que sahia; tudo em sinal de festa e alegria, que punha espanto e tristeza aos mou- ros; apezar dos quaes e dos sacerdotes dos idolos, o sia- mês, imitando o exemplo do rey Supano, recebeo o sagrado baptismo da mão de Antonio de Paiva, com o nome de Dom João; a quem seguio a raynha, com sua família, e o melhor de sua corte. Chegada, pois, a monçam, se fez o Payva a vella para Mallaca, carregado do melhor da terra, e muito mais, de honra e contentamento, deixando nella conhecimento de Christo, Senhor nosso; e levando ricos prezentes ao capitam de nossa fortaleza, e comissam dos dous prín- cipes pera, em seu nome, confirmar as pazes e amizades entre os macaçares e portuguezes, pedindo sacerdotes que os fossem doutrinar na fé recebida. Kstas forão as novas que chegaram a índia, ao tempo em que o Padre Mestre Francisco andava todo occupado na conversam de Cei- lam, e restituição de Manar. Dos Macaçares escreve na oitava carta do primeiro livro, dizendo asy: «Quinhentas legoas daqui, donde estou, agora, de Macaçar, se fizerão, averá oito mezes, dous grandes senhores christãos, com outra muita gente. Mandaram (pedir) (6) a fortaleza de Mallaca a pedir pessoas religiosas que os insinassem em a ley de Deos; pois que té entam viviam como brutos; dahy por diante queriam viver como homens, conhecendo, e servindo a Deos; o capitão de Sua Alteza os proveo de (6) Palavra a mais, por conta do copista. 45 4
  • sacerdotes, que fizessem tam santo ministério». Acho em huma lembranças (sic) que hum destes padres se chama Vicente Vieigas. Continua o padre dizendo: «Por aqui podeis ver, caríssimos irmãos, quam desposta está esta terra pera dar muito fruito. E assim espero em Nosso Senhor que, neste anno, farei mais de cem mil christãos, segundo a muita disposissam que nestas partes pera isso ha. Portanto, rogay ao senhor da mece que mande muitos obreiros a sua vinha (7); e saibam, os que a estas partes vierem, que, pello amor e serviço de Nosso Senhor, e acres- centar o numero dos fieis, e limites de sua santa Igreja, may nossa, que acharão // todo o favor e ajuda neces- w v.i saria nos portuguzes destas partes, com muita abundancia; e seram delles .recebidos com muito amor e caridade, por ser a nasçam portugueza tam amiga de sua ley que dezeja ver estas partes de infiéis convertidas a nassa santa fe. E ainda que não fora mais que por satisfazer a sua cari- dade, e amor que tem a nossa Companhia, ouveram de vir muntos (sic) a estas partes, quanto mais, avendo tanta despozissam nellas, pera a conversam dos infiéis». Andando nesta ilha do Macaçar Francisco Nunes, ca- pitam de huma nao, tam manco que não podia dar hum passo, sem muletas, sarou subitamente; e, atribuindo a maravilha a verdade de santa Cruz, alevantou no mesmo lugar huma fermoza, de cujos braços pendurou, por tro- feis, as muletas, com tam grande espanto e alvoroço dos gentios que logo se baptizaram o rey e os nobres, ficando o povo morrendo a sede das sagradas agoas. Nam me consta em que tempo aconteceo; mas parece que foi em outro reyno diverso dos dous que ficam atraz. Vendo-se, poes, o beato padre em Negapatam, com a esperanças perdidas de seus intentos, determinou ir dally, em ro- (7) Cf. Matt. 9, 38. 45 5
  • maria, a caza do Apostolo Sam Thomé, per cuja inter- cessam desejava entender onde se averia Deos por melhor servido de seus trabalhos: se nestas partes da índia, se nas de Mallaca, e Macaçar, esperando na dita mizericordia que, asi como lhe dava os dezejos de acertar, e se con- formar, em tudo, com a divina vontade, assi lhe daria graça pera com effeito a executar e comprir. Da romaria que o beato Padre Francisco jez a casa do Apostolo Sam Thomé. CAP. 16 (9i r.i // Assi como nas monarquias deste Mundo há abaixo dos emperadores, reis, e príncipes, e capitães geraes e debaixo delles, outros particulares, que defendão e go- vernem as províncias, sobre as quaes tem mando, assi na monarchia da Igreja Triumphante, e Mellitante, o glorioso Arcanjo Sam Miguel, Principe da Igreja, o qual tem a seu cargo, pera a deffender (sic), tem por companheiros mui- tos bemaventurados spiritos da Ordem das Dominações, que o ajudem no governo das províncias que cada hum tem a sua conta. Alem destes bemaventurados spiritos, tem os reynos seus proprios santos; da intercessam dos quaes se valem pera com Deos, no tempo de suas neces- sidades. Assi lemos que Espanha tem por advogado ao Apostolo San Tiago; Ethiopia, ao Apostolo Sam Matheos; Judea, ao Apostolo Sam Mathias; a índia, ao Apostolo Sam Thome; Roma, aos Apostolos Sam Pedro e Sam Paulo; Goa, a virgem e martyr Santa Catherina; e assi digo das mais proveincias e cidades da christandade. Sa- bendo, pois, o beato Padre Francisco, que o Apostolo Sam Thome tem a seu cargo a conversão destas partes orien- 4 5 6
  • taes, nam se contentou de se negocear com elle per missas e orações, o que em qualquer parte do mundo podia fazer, mas quiz vizitar o proprio lugar de seu martírio, e sagra- das relíquias, pera que, a vista delias, se emflamace em mais vivos dezejos de per seu meyo alcançar qual fosse a vontade divina, acerca de sua jornada pera Mallaca e Macaçar; a quem tinha particular devaçam, como consta do relicário com que na China morreo; o qual, depois de sua morte, ouve o Padre Mestre Belchior, vindo de Jap- pam; e trazendo até Cochim sem no abrir, ally o fez, por assi lho pedir o Reverendíssimo Padre Dom Belchior Car- neiro, bispo de Nicea. O relicário era de cobre; dentro estavam tres papeis; e hum tinha escrito o nome de nosso beato Padre Ignacio, cortado a tizoura de huma carta, assinada de sua propria mão; no outro, de letra do mesmo Padre Francisco, estava a forma da Profissam que fizera; no meyo de ambos os papeis ficava //o terceiro, com a »J partícula de hum osso do gloriozo Appostolo S. Thomé. A consolaçam que estas tres couzas cauzavam em os nossos padres de Cochim deixo eu a pia meditaçam dos que esta historia lerem e ouvirem. Partio o beato Padre de Nega- patam pera Meliapor, hoje dita cidade de Sam Thomé, no domingo de Lazaro, do prezente anno, em que anda- mos, de 1545, que cahio a vinte e dous de Março; e não sendo mais a vante que até doze legoas, surgiram logo com tempo contrario, que os teve surtos sette dias; em os quaes se exercitou o beato padre na oraçam e jejum da Coresma em que estava; passou todos os sete dias sem comer bocado, como jurou depois huma pessoa, entre outras, que o acompanhavam. Alevantando-se o padre da oraçam, ventando o vento em popa, levaram ancora e largarão as vellas, tornaram a viagem; estando o tempo sereno, e o que parecia de dura, perguntou ao pilloto que tal era o navio? Respondeo que velho e podre, mas que 45 7
  • nam avia que arrecear com tal tempo. Antes convém, replicou o Padre, que arribemos com tempo a Negapatão, primeiro que nos elle obrigue a o fazer com mayor perigo. Não lhe deo credito o pilloto, mas a tempestade foi logo tal que, se por nam perder, arribou a Negapatam. Donde o padre tomou o caminho por terra té Meliapor; a qual, ao prezente, esta na costa do mar, estando antigamente doze legoas delle afastada, em altura de treze grãos de Norte, frequentada de muitas naos deste Oriente. A terra he abundante, sendo huma grande parte de comercio do reyno de Bisnagá; em cujas minas nascem os finos dia- mantes. Aqui se foram, pouco a pouco, recolhendo os por- tugueses, pera descançar dos trabalhos da guerra. A pri- meira caza em que o Padre entrou foi a do Santo Apostolo; na qual, posto de joelhos ante seu sepulcro, contem- plava a gloria da divindade de Christo, Senhor Nosso, vendo que as sepulturas daquelles que pello mundo pre- gavam suas grandezas davam claro testemunho do seu divino poder; em Roma deixava o jazigo de Sam Pedro e Sam Paulo; em Compostela o de Sam Tiago, e de Santo Andre; em Malfi, no reyno de Nápoles, na cabeça do império, a Sam Bertholameu e Sam Mathias; e achando-se <92 com o de Sam Thome, //em Meliapor, no Oriente, via quasi com os olhos abarcado o Mundo todo, e com quanta verdade dissera o real Profeta: soaram por toda a terra, por todos os fieis e rayas delia foram ouvidas suas pa- lavras (8). Em todo o tempo foi o Santo Padre muy dado a oração, porem, neste lugar se entregou mais a ella, exer- citado com a prezença do sepulcro do Apostolo Sam Tho- mé; aqui esteve quatro mezes, pedindo ao Senhor lhe desse a sentir sua divina vontade e forças pera a comprir. Porem, permittio Deos, Nosso Senhor, que o demonio o (8) Pb. I8. 458
  • perssiguice, pera temperar os gostos e lumes celestiaes que da contemplação recebia; e também pera o asegurar na divina graça, e provar a lealdade, e fedelidade que ao Senhor devia, a qual sempre foi mais de agradecer, ten- tada, que regalada; e, finalmente, pera nisto se conformar com o Salvador do Mundo, que entam se deixou ten- tar do demonio, quando mais se dava a oração, assy aconteceo ao beato Padre Francisco, por esta maneira: Agazalhou-se com o Padre Gaspar Coelho, Vigário da mesmo igreja de Sam Thomé; a caza estava junto delia de tal maneira que ambas se corrião e servião por dentro huma da outra, não avendo mais que hum quintal no meo. Dormião ambos na mesma camara; de noute, se levantava o padre, secretamente, indo a huma cazinha, que estava junto do altar de Nossa Senhora, na qual se punha em contemplação e tomava, com asperas disciplinas, vingança de seu inocente e virginal corpo, pera conservar o dom da pureza. Mas nem sempre pode fazer estas idas tão cala- damente que o não sentisse o vigário; e huma vez lhe disse que nam fosse, de noute, a igreja, porque no quintal apareciam sombras medonhas e espantozas, e andavão nelle os demonios; agradeceo-lhe o avizo; mas nam desistio de seu intento, desejando de vir a braços com o inimigo, pera delle alcançar vitorias. Estando, pois, em oração, diante do altar da Virgem, a qual via por huma tribuna, senão quando entram os demonios pella caza, e, repar- tidas entre sy as estancias, se poseram à fala e a vista, fazendo feras ameaças e espantos; soam, roncam, bra- mem como leões, reprezentão // sua crueldade em formas 192 *•) horrendas; zomba o victoriozo padre dos medos e assom- bramentos dos demonios; fica tam quieto, como se não ouvera cousa de peturbaçam. Vendo-se o inimigo afron- tado, chega-se impituozamente ao padre, dá-lhe muitos e muy cruéis golpes por todo o corpo, e soarão, tam deve- 45 9
  • ias, as pancadas que recebeo, que hum nosso malavar, que o acompanhava e dormia, a porta da caza, espertou ao som dos açoutes; porem, assi como desprezou o ini- migo, assi lhe tomou a fúria com sofrimento; valendo-se do socorro da Virgem, diante da qual estava repetindo, muitas vezes, estas palavras: «valei-me, Senhora; Se- r.hora, não me aveis-de valer»? Emfim, fugio o inimigo corrido, ficando o padre senhor do campo, e consolado da Rainha dos Anjos, do Santo Apostolo e do Rey da Gloria. O qual, depois de recolhido a caza, tam pizado e moido, se achou que lhe foi necessário estar dous diaz em cama, nos quaes nam foi as Matinas que os clérigos cantavam pella menhãa, rezando elle sempre as suas, de joelhos, na igreja de Sam Thomé, diante do altar da Se- nhora, porque, alem das dores serem grandes, nam se podia ter em pé. Pergunta-lhe o vigário se está doente? Responde: «muy mal desposto me acho». «E donde lhe veio, diz, agora Vossa Reverencia tam grande mal»? Dis- simula o padre e desvia a pratica. Estava o malavar pre- sente, e dando de olho no Padre Vigário, sairam ambos pera a sala, e lhe contou tudo o que passara, e, dahi por diante, dizia o vigário ao Padre Francisco, depois de mesa, por graça: «E pois, Senhora, nam me aveis de valer»? Ouvindo o beato padre repetir o colloquio com a Virgem, sorria-se com o rosto inflamado, e tacitamente consentia. Dalli por diante ficou o padre com mais liber- dade pera poder continuar as santas vigílias e contem- plaçam, na mesma caza, a vista da Virgem, passando todas as noites em oração no proprio lugar da batalha, com grande quietação e paz da alma, tam esquecido da peleja que, andando huma noute passeando no quintal, sem fazer cazo delles, ouvio os demonios aremedar no coro aos clérigos que custumavam rezar as Matinas; escla- recendo, pois, o dia, e achando as portas da igreja fe- 4 6 o
  • chadas, perguntou, muy singelamente, ao vigário, que clérigos erão os que rezaram, aquella noite, as Matinas no coro? E caindo ambos no que fora, espantava-se o vigário do grande animo //do Padre Francisco; aqui se 193 r.i rezolveo, de todo, em continuar com a viagem de Ma- caçar, sentindo em sua alma grandes dezejos e forças spi- rituaes pere (sic) levar esta empreza ao cabo. Do fruito que jez na cidade de Sam Thome e da conversão de João de Eyro. CAP. 17 Nam sabe o amor de Deos, encerrado no peito zelozo do bem do proximo, estar ociozo; não pode deixar quei- mar o fogo a quem com elle trata; nam pode estar o que a elle se chega; imfim, o mecânico custumado a ganhar a vida com o trabalho de suas mãos, e suor do seu rosto, r,ão pode deixar de exercitar o seu officio, ainda nas terras mais alongadas da propria; porque, assy como as cousas graves dezejam o centro do mundo, assy o custumado ao trabalho deseja ocupar-se, pêra nam gastar mal o tempo. Não doutra o beato padre ardia no zello da converssam das almas, nem podia deixar de se ocupar em seu serviço, pello que começou logo de entender na reformaçam dos custumes, arrancando as occaziões dos pecaados, plan- tando, em seu lugar, as fermosas plantas das virtudes. O primeiro que ganhou foi seu hospede, que ficou bem pago da pousada e meza; nam ficou naquella cidade ho- mem algum, de quem se presumisse que ficasse em mao estado, quando delia se partio o padre, avendo, quando nella entrou, muitos que viviam escandalozamente; muitos viviam como cazados, nam o sendo; alguns se receberam 4 6 1
  • ligitimamente; outros cazaram as escravas, libertando-as; (93 y.] outros deram de mão as ocaziões; // tiram-se (sic) as onzenas, os odios e malquerenças; restituio-se o alheo; os contratos se reduziram ao justo; e avia grande fre- quência da confissões e sagradas comunhões. Tal ouve que, à vente annos, que se nam chegava ao Santíssimo Sacramento, o recebeo com grande consolaçam sua e do povo, depois de aver gastado dias na confissam de toda a vida. Nam pretendeo cousa dos mercadores de Sam Thome, que delles nam alcançasse, pela muita brandura, prudência e facilidade que tinha de tratar com todos, nam avendo homem que nelle tocasse, nem ar de mao cus- tume, vendo-se todos transformados nos muitos e bons que tinha. Nada se lhe pegou daquelles com quem tratava, ainda que fossem de vidas estragadas; imitando nesta parte o Sol, o qual, por mais munturos que com seus íayos aquente, os recolhe sempre tam puros, como se em puríssimos christãos os empregasse. Exemplo raro, tam digno de admiraçam como de imitaçam aos religiosos que na índia seguimos as pisadas deste grande varam, pois por instituto temos a communicaçam e trato spiritual com o proximo, pêra os ganharmos de tal maneira a Deos que nam percamos punto do bom credito que por todas as vias havemos de procurar conservar, e, com nosso exemplo, aumentar, tratando de tal maneira com o pro- ximo que lhe peguemos todo o bom que temos e nada se nos apegue do mal que nelle, com razam, se nota. Dizia mais o Vigário de Sam Thome, no testemunho que deu, que nunca notara no Padre Francisco peccado venial; ajuntando o da inteireza virginal, como seu confessor que fora quatro mezes, dando-lhe conta de sua vida. Ajudava a grande força deste exemplo a openião do povo, e era que todos os que resistiam as lembranças e conselhos do Padre Francisco, nam se querendo apartar dos peccados, 462
  • quando por elle eram requeridos, morrião desastrada- mente. Nem deixava de ter seus fundamentos, pois nam fal- tou quem jurasse que assi o vira suceder a muitos, da qual boa fe nascia em todos temor e reverencia. De hum fi- dalgo sabemos que das portas adentro vivia como / / outro im r.i Heliogabalo (9), com occasiões de peccado. Entra-lhe o Padre Francisco, hum dia, pella porta, a horas do jantar, faz-se seu hospede; condiçam e largueza nam lhe faltava para o banquetear; somente lhe da pena de ver de aver elle de ser testemunha das que aviam de trazer as iguarias a mesa; o que tudo assi aconteceo, por nam aver outros pagens das portas adentro. A pratica foi santa, e tal que movesse o fidalgo ao dezejo das virtudes, nam lhe tocando, porem, na materia de que elle se arreceava. Nam lhe estranhou o serviço nem a sobejidam das iguarias; despe- desse com toda a cortezia e agradecimento delle, deixando tal a casa, como se, bafejando, espirara o temor de Deos nella. Nam repouza o prodigo, dizendo consigo mesmo: «Jesus, que novidade foi esta, que o Padre Francisco viesse a minha caza a horas da meza? Por ventura fal- ta va-lhe que jantar em casa do vigário? Algum mistério está encerrado nesta sua vinda». E descorrendo qual podia ser, cahio no que era; e como veado trespaçado com a seta hervada, a grande pressa, busca a clara fonte das agoas, único remedio de seu mal; assy se veyo novo pe- nitente lançar aos pez do beato padre, fazendo de seus olhos duas fontes de lagrimas, para que junto com ellas, com a graça sacramental da penitencia, dispidisse de sua alma as setas de suas culpas, de que estava por todas as partes ferida. «Aqui estou, dizia elle, corte Vossa Reve- rencia por onde quizer, com tanto que me salve». Reme- (9) Imperador romano, célebre por sua crueldade e devassidão. 4.6 3
  • deou a propria consciência; poz em amizade com Deos aquellas por cujas occasião a perdera; despejou-se a caza das que, sem pejo, viviam; e dally por diante viveo como christão. Aqui parece aconteceo aquelle cazo digno de toda a memoria, e foi que, lançando o mar na praya hum chatim, sem fazenda, mas com vida, por Deos lhe con- servar esta, e permittir perder-se aquella, chegandosse ao Padre Francisco, lhe pedio huma esmolla, pera fazer seu caminho, contando-lhe o desestrado cazo. Poz os olhos nelle, e, movido com piedade, meteo a mão na algibeira, e nam achando que lhe dar, o animou, dizendo que ficasse com Deos; e pregando os olhos no ceo, donde esperava 1M v.i o remedio do naufragante, tornou a me // ter a mão na algibeira, e a tirou chea de fatiões de ouro, com os quaes socorreo a presente necessidade que o mesquinho padecia. Estando o Padre Francisco em Ceylam, aconteceo com hum mercador de 35 annos de idade, por nome Joam de Eiro, o qual desejava de servir a Nosso Senhor em sua companhia; nam sei que nelle, por entam, vio, que nam c quiz por companheiro, nem por penitente, dizendo-lhe que fosse ter com elle a Sam Thomé. E estando la o Pa- dre, senam quando o chatim lança ancora no porto, cujo era o navio e fazenda que levava; vay logo ter com o padre; dá-lhe conta de seus dezejos que, dias avia, tinha de se retirar do trafego deste mundo, recolhendo-se a porto seguro; porem que, té então, o deixara de fazer, por duas couzas: a primeira, porque naquellas partes nam ha- ver (sic) pessoas, cuja doutrina seguisse; a segunda, por nam ter com que passar a vida; que, ao presente, tinha a Sua Reverencia por mestre do spirito e juntamente bens da furtuna, com os quaes, assi o mestre, como o discí- pulo, se podessem sostentar sem opressam dos fieis a quem servissem. Nam estava de todo spiritual o novo discipulo; nam entendia em que consistia a perfeiçam evangélica; 464
  • f-stava no mesmo andar daquelle mancebo, que, dezejan- do-se salvar, nam largava os dezejos dos bens temporaes, que possuir juntamente queria. Necessário era a Eyro ven- der a fazenda, e repartir o preço delia pellos pobres, se queria ser companheiro do santo padre, para que, sendo ambos pobres, vivessem de esmollas, como viveo seu Mes- tre e Senhor, Christo Jesus. Esta foi a doutrina que lhe leo, descobrindo-lhe os thesouros da santa pobreza; mos- trando-lhe quão grande engano era carregar o homem pera correr, vesthir-se pera lutar, dar armas ao emigo pera pelejar; que venda sua fazenda e a dee aos pobres; mas que, primeiro, se confesse, pera ver se he necessário res- tituir primeiro o alheo que deixar o proprio. Tres dias gas- tou o penitente na confissão, na qual passaram ambos couzas sobre certos negocios. Emfim, venceo a verdade; obedeceo o penitente ao mandado do confessor, comprindo com as obrigações que tinha, // desfazendo-se do navio 195 r.i e trato, vendendo pessas ricas, e empregando-as em grossas esmolas. Nam pode o inimigo do genero humano sofrer a perda da preza, que das unhas lhe tirarão; mil pensamentos, mil tentações oferece a João de Eyro, pera o tornar a seu ser- viço. «Que será de ty, miserável, dizia o demonio interior- mente falando; se caires em cama, quem te dará o neces- sário? Nam he muito melhor grangear pera ter que dar, que pedir? Doutrina he de Christo, melhor he dar que tomar; e por isso dizia David, falando com Deos, que o reconhecia por tal, por quanto nam tem necessidade de seus bens». Deixou-se render o noviço aos primeiros tiros do inimigo; fez pé a traz, tornou a lançar mão do arado, tem mão na fazenda, ja se arrepende de ter parte delia destribuida aos pobres; torna a comprar o navio, com grande segredo o carrega, pera logo se fazer a vella, as escondidas do Padre Francisco, parecendo-lhe que suas traças lhe são encu- 465 INSIL ÍNDIA, II — 3O
  • bertas; sendo assy, que Deos lhe tinha revelado, manda muito a preça hum moço chamado Antonio, que muito a pressa chamasse João de Eyro, que elle muito bem co- nhecia. Achou-o de verga dalto, pêra navegar; da-lhe o recado; e, não se podendo de todo escuzar, carregada- mente accudio a quem o chamava. Entrando elle pella porta, a primeira couza que ouvio, foi dizer-lhe o beato padre: «Pecastes, João de Eyro, pecastes, João de Eyro»; com tanta efficacia de spirito lhe disse estas palavras que o derrubou logo a seus pez, sem outra resposta que: «He verdade, padre, que pequei; he verdade que pequei», imitando a David, conhecido e arrependido. No mesmo dia se confessou e deu tudo aos pobres, seguindo ao pobre Jesus, em companhia de seu servo. Da qual vitoria escreve elle aos padres de Portugal na carta decima tercia do Primeiro Livro. Parte-se com grandes saudades da povoação de Sam Thome, que ja neste tempo tinha cem casais, poem a proa nas ilhas de Maluco e Macaçares; pronostica grandes bens 195 v.i a cidade do gloriozo Apostolo, // pella bondade da gente e facilidade que tem pera as cousas do serviço de Deos; o que vemos hoje comprido, crecendo os moradores e a christandade, na qual, por então, o padre se não deteve mais, por ser bem cultivada; e na Costa de Pescaria dei- xava o Padre Francisco de Manzilhas, ja de missa, e João de Lozano, Castellano, e tres clérigos do collegio da Santa Fe; em ilha de Ceilão ficavam cinco relligiozos de Sam Francisco com dous clérigos seculares. Este anno, vieram do reyno os primeiros que da nossa Companhia aportavam nestas partes, depois do Padre Francisco. Estes fooram os Padres Antonio Criminal, na- tural de Parma; Nicolao Lanciloto, de Urbino; e João da Beira, galego, de Ponte Vedra. O Padre Francisco escreve na carta duodécima do Primeiro Livro ao Reitor 4.66
  • de Sam Paulo, que os novamente vindos a índia apren- dessem a lingoa delia, para que podessem ajudar melhor aos novamente convertidos. Ao primeiro de Setembro, do prezente anno de corenta e cinco, chegou Dom João de Castro, por governador do Estado, recebendo o governo da mão de Martim Afonso de Souza, que, no anno seguinte, se partio para o reyno. Na mesma cidade de Sam Thome morava hum por- tuguez, por nome Manoel Rodrigues, o qual tinha huma iilha de dous annos, mais perto da morte que da vida, por estar gravemente doente; dezejando, poes, ver a me- nina com saúde, chamou o beato Padre Francisco, pera que lhe rezasse o santo evangelho; mas o padre, que dezejava ver aquella criança entre os coros dos anjos, mediante a graça baptismal, de que sua inocente alma estava ornada, respondeo ao pay que melhor era deixar ir a filha pera o ceo, pello provável perigo que as molheres adultas correm de perderem a Deos da vista da alma. Finalmente, ouve de ir a sua caza, pellos importunos rogos do amigo; e foi o Senhor servido dar saúde a me- nina, pellos merecimentos do santo padre, que, por espaço de mea hora, fez oração por ella, com os olhos fitos no ceo; a qual ainda era viva na era de mil e seiscentos e cinco. 467 %
  • [96 r] // LIVRO TERCEYRO DA VIDA DO BEATO PADRE FRANCISCO XAVIER Chega o Padre Francisco a Mallaca e procura a jornada dos Macaçares, ajudando em espirito aos portuguezes. cap. i Mallaca he a Metropoli, a cabeça do antigo Reyno de Sião; está situada em altura de dous grãos do Norte, numa ponta que alli faz a tema firme, doze legoas da ilha da Samatra; ganhou-a o grande Antonio (sic) (10) de Albu- querque no anno de 1511, sendo rey de Mallaca Mahamed, que contra seu rey natural se tinha rebellado; acharam aly, os nossos, tres mil peças de artelharia; a cidade era hua boa legoa de comprimento. Pagou o mouro o mao trato que fez a Diogo Lopez de Sequeira, tratando de o matar, e matando, e cativando alguns de sua armada. O Viso Rey Dom Martim Afonço de Castro fez a fortaleza de Mallaca, que era ilha, e juntamente edificou huma for- taleza na Ilha das Naos, que foi não de pouca importância, pera a segurança das naos que a ella se chegaram. Cento e trinta annos avia, quando os portuguezes entrarão na India, que a maldita seita de Mafamede tinha tomado posse do Reyno de Sião, de Mallaca, e Samatra. E posto que a fé entrou com Antonio (sic) de Albuquerque (11), [96 T.i andavam os nossos tam occupados nas armas, / / e mercan- cias, que se estendia muito pouco, lançando, os maos cos- tumes, fundas raizes nos corações daquelles que andavam mais occupados na terra que no ceo. Partindo, pois, o (10) Descuido do copista, ao ler, talvez, a abreviatura A°, i. é. Afonso, como se lê no exemplar da BNL. (11) Repetição do mesmo erro anterior. 468
  • beato Padre Francisco, de Meliapor, em Setembro de 1545 chegou a Mallaca; dando logo conta ao capitão da fortaleza do propósito que trazia, de passar aos Macaçares o que elle approvou e louvou. Mas, porquanto avia pouco que lá tinha mandado hum galeam, com soldados bas- tantes pera defenssam dos novamente convertidos e dos que quizeram receber o sagrado Baptismo das maons do sacerdote que no galeam mandara, era neccessario espe- rar as novas que esta gente trazia; e também porque a monçam era de Janeyro, pello que lhe seria necessário espera-la. Pareceo-lhe bem este concelho, porque, tam- bém, neste meyo tempo, queria traduzir o catequismo na lingoa malaya, a qual he geralmente entendida em todas aquellas ilhas mais orientaes. Depois de traduzida a dou- trina christam, com suas expozições, a decorou logo toda ; o que fez por duas razoens: a primeira, pera nos obrigar, com seu exemplo, a aprender a lingoa da christandade, que nos couber em repartição; a segunda, por encubrir o dom das lingoas que Nosso Senhor lhe tinha cumuni- cado, porque, onde quer que chegava, aprendia, em pou- cos dias, a lingoa da terra, como jurou no testemunho que deu Antonio Pereyra, e Gaspar Lopez, contador del- -rey; e o mesmo affirmaram os Padres Francisco Duram, João Lopez, e Belchior de Figueiredo, religiosos da nossa Companhia. Não se esqueceo o beato padre de ajudar a cidade de Mallaca com todos os meyos divinos, e huma- nos, a qual estava bem necessitada de bom exemplo e doutrina. E porque seu estilo era agazalhar-se nos hos- pitaes, onde os avia, e fallando elle na religiam de Sam Francisco, e onde não tinha mosteiro, com o Vigário da terra, como fez em Sam Thomé, guardando seu antigo costume, se recolheo no hospital. Ally tinha sua sella com repartimentos de esteiras. Numa pequena meza estava hum Crucifixo lavrado no pao da caza de Sam Thomé, cuberto 46 ç
  • com seu veo, e o breviário, por que rezava; havia mais hum catre, precintado de Cairo, com huma pedra a cabe- ceira. Aqui passava as noutes inteiras em oração, na qual [97 r.i reprezentava a Deos as necessidades de Mallaca, / / pe- dindo-lhe o fizesse instrumento digno da reformaçam dos costumes, de que tinha necessidade; espreitaram-no aqui, muitas vezes, alguns homens nobres; que viram e teste- munharam, foi que estava em oração, posto de joelhos diante do Cruxifixo, com os olhos no Ceo, e as mãos alevantadas, não tomando mais sono que algum forçado da natureza, com a cabeça posta sobre a pedra; e ainda que nesta postura o viram somente duas ou trez vezes, porque, de ordinário, o achavam em oração. Como escla- recia o dia, dizia missa; depois servia nos enfermos spi- ritual e corporalmente; muitas vezes andava dous, ou três dias, sem comer, para que, com sua abstinência, apla- case a justiça divina, e metesse a espada na bainha, e não castigace os malacenses pellas de mais que cometião na gula, offerecendo, por elles, sacrifícios, afim que se con- vertessem a Deos, de seus maos caminhos. Ensinava, aos domingos, e dias santos, a doutrina aos escravos; e aos meninos, todos os dias, não se ouvindo outras cantigas. Alevantavam os meninos, todas as noutes, em cada rua, seus altares, cantando diante delles a doutrina. Sahia, de- pois disto, o beato padre, tangendo a campainha pella cidade, encomendando, em voz alta, aos moradores, que rezassem pellas almas dos que estavam em peccado mor- tal; e pellas que padeciam no fogo do Purgatório. E, che- gando aos altarinhos, punha-se, com os meninos que ally achava, de joelhos, dizendo e fazendo-os dizer a todos, pella mesma tençam, o Padre Nosso, e Ave Maria; os mouros confundiam-se e edificavam-se de maneira que, não somente ao padre, mas aos meninos que o acompa- 470
  • nhavão nesta devoçam, e quando lhes ensinava a dou- trina, estimavam-no, e nomeavam-no por santo. Ninguém desespere de se poder converter alguma ci- dade, ou províncias, por mais dada que seja aos vicios; porque, que vicio ha mais tenaz que o da carne e idola- tria? Comtudo, estes tirou a ley evangélica. Que terra mais supresticiosa que Roma? Esta ficou sogeita, aba- tendo as bandeiras da soberba, e suprestiçam gentílica a pregação do sagrado evangelho. Que gente mais dada // 197 v.] ao vicio da carne que a de Corintho, como se colhe da segunda carta de Sam Paulo pera os mesmos moradores de Corintho? Esta domou a ley evangélica. E sabeis quam dada era esta gente a carne. Todos os autores dizem que era dezemfreada nesta materia. Estrabam, no Oitavo Li- vro, diz que o templo da Venus corinthia era muy rico, e tinha mais de mil molheres, taes como ella, pera o ser- viço dos impuros sacrifícios; e taes abominações se come- titão naquella cidade, que milhor he passar por ellas, em silencio, que referi-las. E, comtudo, pode tanto com os de Corintho a ley evangellica, pregada por Sam Paulo, que se pode delia dizer o que diz Izayas: «a que era ceca, e sequioza se coverteo em tanque, e fontes das agoasn: ue nas covas em que dantes moravam os dragões nasceo a verdura da cana cheiroza, e do junco» (12); os sensuaes vieram a consagrar suas filhas a Deos, com perpetua vir- gindade)); como diz Tertuliano; e da Igreja dos Corin- thos manou este santo costume pera as outras Igrejas. O que Sam Paulo fez na Igreja de Corintho, com suas pregações, foi seu grande imitador Francisco, na fortaleza de Mallaca; na qual, posto que não ouvesse templo ale- vantado, em que Venus fosse adorada publicamente, avia, porem, muitos servidores seus, que das portas a dentro (12) Cf. Isai. 35, 7. 47 1
  • lhe tinhão edificado, em seus corações, altares de impuros sacrifícios, abrazando-se no fogo da concupicencia, não somente com huma, mas com muitas discipolas de Venus; e tal avia, ao qual o Padre Francisco, por bom modo, mediante a graça divina, livrou de outros tantos demonios encarnados, quantos o Redemptor do Mundo lançou da peccadora do Evangelho; muitos foram os que partici- param da obra, graça e prudência do santo padre; aos quaes dezatou das prizoens com que esta vão atados; po- seram os moradores de Mallaca os olhos em sy, e ja se nam conheciam; tam grande foi a efficacia da divina graça que os penetrou; assy como em S. Thomé se fez hospede daquelle fidalgo, dando-lhe remedio da salvaçam, assy aqui fez o mesmo, imitando ao Creador, o qual, de- pois de lhe succeder bem o tiro, alimpa a seta do san- [98 r.i gue, e guarda em seu coldre, pera que depois // com ella asetear a outra casa. Apodrese facilmente a carne nas terras quentes; e as moscas poem varejas na carne fresca; a brandura e clemência dos ares de Mallaca irritavam e acendiam o fogo da sensualidade; a carne comrrompia seu caminho; as moscas infernaes punhão nella as verejas de mil tentações, avendo poucos que lhe rezistissem: sal- gou o beato padre a carne com o rigor do seu exemplo; preservou a muitos do mal contagioso; conservou a outros na verdade da castidade, por suas orações, aquerida; final- mente, melhorou a todos, sem dispêndio da propria cons- ciência; tudo acabava com os homens, pondo-se, muitas vezes, de sua parte, nas couzas indifferentes, para depois sahir com a sua, e os ganhar para Deos. Aconteceo, huma vez, chegar-se a mesa do jogo, na qual hum soldado tinha ja perdido seiscentos pardaos, e pouco lhe faltava pera deixar na meza o restante. E estava o pobre muito mo- fino; mas, comtudo, sobre sy, pera nam jurar e não se agastar, como fazem semelhantes; senão quando o beato 472
  • padre lança a mão das cartas, baralhou-as com suas pró- prias mãos, e tal virtude lhes impremio que o soldado se forrou; e querendo ir avante, acudio o padre, dizendo que bastava; que lhe não dava licença pera levar o alheyo, que se contentace de arrecuperar o perdido. Este foi o bom do soldado, que nunca mais jugou, em toda vida. Ninguém lhe perdeo o respeito pella facilidade que tinha em tratar com o proximo. De hum bem honrado cidadam sabemos que lho tinha tam grande que, todas as vezes que o padre lhe entrava pello pateo das cazas em que morava, o vi- nha, com toda a família, receber abaixo, postos todos de joelhos, pella grande devoçam que lhe tinhão; por aver experimentado bem sua santa vida, assy no mar, como na terra, sendo muitas vezes seu hospede, Diogo Pereyra, seu grande amigo, que nunca se ouzava cobrir diante delle. Dom Diogo de Noronha, indo huma vez embarcado com o mesmo padre numa galeota, vendo o familiar trato que tinha com os seculares, o julgou por semelhante aos outros clérigos. Saltando, porem, a gente em terra, a fazer agoa- da, o padre se embrenhou, e se foi por em oração; man- dou-o Dom Diogo espiar por hum seu criado; o qual, atentadamente, considerou sua postura, e chamando ou- tros, que fossem ver o que nunca viram, ficaram / / não i98 v.) menos espantados, que edificados. E sabendo Dom Diogo o que passava, mudou dahy por diante a lingoagem, nam se fartando de fazer penitencia do que imaginara e dissera por graça. Avia em Mallaca hum judeu versado na sagrada Bí- blia, e visto nas fabulas Talmudicas, que ouvia as pre- gações do Padre Francisco, de quem zombara, e, como outro Elimas (13), fazia que muitos judeos, que andavão (13) Judeu de Paphos, que se esforçou por obstar às pregações de S. Paulo naquela ilha, cegando em castigo da sua oposição. 47 3
  • abalados pera leceberem o Santo Baptismo, o nam rece- bessem: fingia o padre que não sabia o que este judeu dezia e fazia: quando o encontrava, o saudava com a boca chea de :izo; ate que, huma vez, o convidou pera ir jantar com elle à sua casa. Pasmava o judeu do que via no padre, parecendo-lhe que algum grande mal avia debaixo de tam grandes mostras de amor, e singeleza; mas aqui se vio com quanta rezão diz Sam Gregorio, que mais valem os exemplos, que os predicamentos; com este modo de pregar rendia o Patriarca Sam Francisco a mui- tos aos serviços de Deos, e o nosso Padre Francisco ren- aeo o Rabino, mudando de lingoagem, a opinião, o cora- ção, e pedio o sagrado baptismo, perseverando nelle com exemplo de christam ate à morte. Avia em Mallaca hum cavaleiro portuguez, por nome João Fernandez, de Ilher (14), cazado com huma Joana, da qual ouve hum filho chamado Antonio Fernandez; o qual, sendo de quinze annos pera dezoito, adoeceo gra- vemente; durou e creceo o mal tanto, que ficou sem falia e sem sentido, por trez dias inteiros; perdidas ja as espe- ranças de sua vida, da qual hoje digo ja não tinha mais que o folgo, a may buscou todos os remedios humanos, té chegar a buscar feiticeiros, sem lhes poderem valer; mas valeo-lhe Deos, pellas orações do beato Padre Fran- cisco; foi chamado, e, entrando pella porta subitamente, entrou o moço num furor orrendo, meneando a boca, os olhos, o rosto, e o corpo todo, com tão feos esgares e bra- dos tão descompostos, que punhão espanto e asombravam a todos. Entendeo o padre que o demonio se tinha feito forte, e que já, desde antão, começava de lamentar seu 199 r.i triste cazo, vendo outro mais esforçado / / que, se gueando (14) Hiler, lugar de Malaca, bairro de pescadores. 4 7 4
  • a casa, o avia de lançar delia fora. Começa o Padre a fazer os santos exorcismos, pondo as sagradas imagens sobre o enfermo, tornando-se mais ferós com estes remé- dios, e a vendo já duas horas que o padre estava de joe- lhos junto da cabeceira do doente, acabando, porem, de rezar a sagrada Paixam do senhor, com a qual se apazi- guou o ceo e a terra, ficou o enfermo, por então, quieto e pacifico, posto que sem falia. Conçolou o padre ao pay, que deixassem repousar o moço, por ser de noite, e que prometem-se (sic) de o levar nove dias a Nossa Senhora do Outeiro, que, ao dia seguinte, que era segunda feira, iria la dizer missa pello filho; que confiava do Senhor, que alcançaria saúde, por intercessam da Virgem. Ao tempo que começava a dizer na missa o Evangelho, come- çou o moço a falar; e, acabada a missa, falou perfeita- mente, sarou e viveo por muitos annos, sem nunca mais ser asombrado do inimigo. Tinha Diogo Pereyra, na mesma cidade, huma criança de trez annos, que tãobem parece era atormentada do demonio pellos gritos tam grandes que dava; posto que outros dezião que era gota coral, que frequentemente lhe vinha, ainda no mesmo dia. Estando huma vez na força do mal que padecia, foi totalmente livre o menino, re- zando-lhe o padre o santo evangelho, e lançando-lhe o seu relicário ao pescoço; e como quer que Deos faça as merces sem arrependimento, tão bem esta foi huma delias, perserverando por toda a vida sem jamais lhe tornar o antigo mal. Ruy Dias Pereyra tinha hum irmão, ja dos medicos dezemparado, e da may chorado; foi chamado o beato padre pera o confessar, e ajudar a bem morrer; confessou o enfermo, e prometeo a may a vida do filho. Couza ma- 4 75 %
  • ravilhoza. Em o Padre saindo da caza, pede o mancebo de comer, avendo ja três dias que o não fazia; e na mesma hora se alevantou são, convaleceo em poucos dias, e viveo por muitos annos. Francisco Lopez de Almeida, morador na cidade de (99 v.) Cochim, diz de si mesmo que, estando em Mallaca / / muito enfermo, e ja quasi sem acordo, o vizitou o Padre Francisco, e pondo-lhe somente as mãos sobre a cabeça, subitamente se achou sam, comprindo nisto o Senhor sua palavra, que, pondo seu servo as mãos sobre os doentes, se acharam bem. Diz mais, que não foi elle so o que re- cebeo, por meyo do padre, esta merce de Deos; porque a muitos outros sarou, de improvizo, com lhes rezar o evangelho. Crecia em Mallaca, com estas obras, a opi- nião da santidade do Padre Francisco, mas não corres- pondião os moradores aos dezejos que tinha de os ver mudados nas vidas e costumes. Vinha grandes concursos quando pregava, e nas pregações ameaçava com os cas- tigos que estavam por proa, como veremos em seu lugar. Certo que, se elle pregara aos Ninivitas, ou aos gentios de Tiro, e Sidónia, corroborando sua pregaçam com os milagres que Deos, por elle, obrou em Mallaca, ja pode ser que fizeram penitencia de seus peccados, converten- do-se a Deos: mas ficou Mallaca, nesta parte, semelhante a Corozaim, Bethsaida, e Jeruzalem, as quaes, por não obrarem conforme ao conhecimento que das couzas de Deos tinhão, foram entregues aos romanos. 476
  • Parte o beato Padre Francisco pera Amboino. Trata-se da christandade e da constância de Dom Manoel de Ative. cap. 2 Amboino comprehende cinco ilhas; mas, em particular, entendem os portuguezes, por Amboino, a fortaleza e lugar onde está situada, que he nhuma planura, perto do mar, de fronte da qual ha bom surgidouro. A ilha he muy grande e fragoza, cortada de serranias que no tempo da guerra servem de // fortalezas; e sam tam Íngremes que, 1100 r.i pera subir a ellas, nam he menos necessário, em muitos passos, valer-se das mãos, para trepar, que dos pez, pera andar (15). Entra no meyo da ilha o mar, e faz huma angra, a maneira de ferradura de cavalo, que tem da ponta a ponta huma legoa; a terra he temperada; o inverno começa meado Mayo, e dura ate Agosto (16); não tem rios oaudalozos, senam ribeiras de boas agoas. Tem algum arroz, ainda que pouco; fazem pão de certo miolo de arvores (17); o vinho he de palmeira e de sa- gueiro (18). Tem muita fruita do mato; figueiras da ín- dia, abobaras, bringelas, melões, inhames, laranjas. Tem (15) Era este o sistema de defesa praticado pelos indígenas das várias iihas desta zona. Cada região, ou cada reino, tinha as suas montanhas de cumes rochosos, onde os habitantes se acolhiam, com os haveres, e resistiam a cercos e ataques dos inimigos. Nestas for- talezas naturais, nas rochas do Cablac, em Timor, se entrincheirou, já em nossos dias, o heróico régulo D. Aleixo, de onde resistiu aos ataques ferozes de seus inimigos, comandados e apoiados por forças invasoras japonesas. (16) Por inverno, deve entender-se, aqui, a época das chuvas torrenciais, que se prolongam, mais ou menos, em cada ilha, con- forme a sua posição sob influência da monção. (17) Conhecido também por pão de pau. feito geralmente de farinha de sagu e de outras palmeiras da mesma espécie. (18) Esta bebida espirituosa, variando conforme o grau de fer- mentação, é designada no Oriente pelos nomes de araca, urraca e tuaca. 47 7
  • o districto de Amboino cinco ilhas: Veranula, Amboino, Homa, Liacer, Ronceslao. Os naturaes desta ultima ilha sam barbaros, e comem, algumas vezes, carne humana, por se vingarem de seus inimigos; o mesmo fazem os Iavaros que moram, como selvagens, nos matos do Moro, huma das Ilhas Malucas (19). Conta o Padre Mestre Francisco, na terceira carta do 2." Livro, e Antonio Galvão, no Tratado dos Descobri- mentos, que vio na ilha de Amboino hum bode, de huma só teta, a qual tinha perpetuamente leite em tanta quan- tidade que, alem de mamarem os cabritinhos, dava cada dia huma escudela de leite, que o mesmo padre vio orde- nhar. Entre estas ilhas de Amboino somente Veranula produz cravo; porem, das ilhas Malucas vem aquellas partes muito, que os Iavos levam pera suas terras, e delias a nossa fortaleza de Mallaca. Partio, pois, o Beato Padre Francisco, de Mallaca, ao primeiro de Janeyro de 46, na nao de Banda. Os mari- nheiros da nao eram mouros, com os quaes se occupou nesta viagem; na qual, como contou depois Ruy Dias Pe- reyra, que hia embarcado na mesma nao, baptizou a mui- tos, e depoz mais em seu testemunho, que lhes pregava na sua propria aravia. Também aqui exercitou o dom da profecia, como o das lingoas. Era a nao de carreira de Banda, nem demandava Amboino, por outro respeito que por lançar em terra ao Padre Mestre Francisco. Sendo pois ja em treze do mez de Fevereyro, e o vento tezo em 1100 v.i popa, parecia-lhe ao pilloto // tinha discorrido a Am- (19) Uma das notas características, comum à etnografia das vá- rias ilhas insulindicas, é a designação especial dada às populações do interior. Notem-se os Bataks, de Sumatra, os Dayaks, de Bornéu, os Alfuros, das Celebes, e os Firacus, Dagadás, Kaladis, de Timor, e outros. 4 7 8
  • boino, e assy o disse aos portuguezes, muy sentido. En- tendendo o Padre Francisco a opinião e desconçolação do pilloto lhe disse: «Não tomeis pena, porque ainda esta- mos aquém do boqueiram de Amboino; passará, embora, esta noite, e amanheceremos sobre elle». Ao dia seguinte, com a vista da manhãa, ouveram a do porto, ficando to- dos não menos espantados que alegres; e muyto mais estimaram ainda os merecimentos do padre, pello que logo socedeo. Trouxeram té então o vento tam rijo, que desperavão de poder dezembarcar; senão quando, bem defronte ao porto, ficam em calma, ordenando Deos isto assy, para que podesse ferrar o porto que dantes visto tinha com os olhos do spirito. Passa-se com seu compa- nheiro João de Eyro, e outras duas, ou tres pessoas, a hum pequeno esquife, tornando a nao a viagem de Banda; cometeram a praya de Amboino, e indo para perto delia, senão quando viram duas embarcações de corsários, com o remo em punho, que os demandavam pera os roubar. Foy grande o perigo em que se viram, por serem poucos e desarmados, e ja se não poderem valer da nao. O te- mor lhes dava azas pera fugir, o que fizeram com grande preça, engolfando-se com tanto medo que, dezapparecendo ja os inemigos, se não davam por seguros, nem ousavam arribar, outra vez, sobre o porto, por que não tornassem também sobre elles os corsários. «Ia nam ha que temer, diz o Padre Francisco, façamo-nos a terra, entremos no porto; porque Deos, Nosso Senhor, he servido de nos meter nelle, sem outro perigo nem vista dos inimigos». Servio-lhes muito o que o dia atraz tinhão visto, pera lhe darem credito; confiados em sua palavra, viram com ale- gria a proa, acham a costa limpa, tomam porto, aos ca- torze de Fevereiro de 1546, e sam recebidos dos mora- dores, com todas as demostrações de amor, principalmente o Padre Francisco, cuja fama ja la avia chegado. Aqui 47 9
  • fez huma choupana, onde se recolhia com seu compa- nheiro. Avia, neste tempo, sete lugares de christão pella terra dentro, longo da praya, por fugirem dos Mouros que sam senhores delia. Muitos viviam em lapas, e covas, como 1101 r.] animais; outros em cima das rochas, e // penedias, asom- brados dos inimigos da fé, e dezemparados de todo o fa- vor, e socorro humano: o sacerdote que tinhão era morto, avia dias, não avendo quem lhes administrasse os sacra- mentos. Aqui se esmerou a grande caridade e fervor do Padre Francisco; vizitou a ilha toda, conçolando e ani- mando, com sua prezença, aquelles desconçolados, e desa- nimados christãos. Não se pode declarar a grande alegria que o padre recebeo, vizitando esta christandade; na carta que de Amboino escreve a Goa, não fez mais cazo que dos bap- tismos das crianças, muitas das quaes esperavam por elle, pera lhes abrir a porta do ceo, no qual, muitas, logo depois de baptizadas, entraram; comtudo, sabemos que comverteo a nossa santa fe, nesta ilha, grande numero de gente, e que assy a estes, como aos christãos, catequizou de novo; vizitava os enfermos, dando sepultura aos mor- tos, cantando a sua doutrina. Foram muy grandes os trabalhos que os christãos de Amboino padeceram pella fé, do anno de 1558 te o de 1562, porque, achando-se sem padres da Companhia, e dezemparados dos portuguezes, ficaram de todo entregues à crueldade de Leliato, capitão mouro, que el-rey de Ter. nate mandara a mesma ilha, pera lhe reduzir a sua obe- diência, e a de seu Mafamede, e avia na ilha, a este tempo, mais de trinta lugares christãos, dos quaes, em 4 8 o
  • quatro annos que durou a perseguição, em nenhum du- rava a fe, se lhes não valera a christandade, o animo e o exemplo, o favor e conselho de Dom Manoel, regedor e senhor de Ative, ao qual, particularmente, doutrinou o Padre Francisco, parece fervendo (sic) (20) em spiritu a futura perseguição, pera que sua presença não fizesse falta naquella christandade, e de todo se não perdesse estando nella, em seu lugar, Dom Manoel. Diz o Padre Pedro Mascarenhas, numa sua, de 1562, que tinha o ti- rano enserrados num monte todos os moradores da villa de Quilao; apertavam os mouros com os christãos que se entregassem a el rey de Ternate, e deixassem a fe de Christo, dizendo que ja nam avia christãos nem portu- guezes // que os defendessem. Respondem que, emquanto 1101 v.i Dom Manoel fosse vivo, que bem fora estavam de se entre- gar e deixar a fé, valendo com elles mais a authoridade de hum absente que a prezença de tantos, e tam poderozos inimigos; mas era tal seu valor que os cercados diziam por afronta aos mouros que o fossem a ver com elle, do qual, por vezes, foram vencidos. Mas vejamos quem era este tam illustre cavalleiro de Christo, ouçamos o que elle mesmo respondeo a esta pergunta. «Eu sou hum Amboino do mato, que não sei que couza he ser christão, nem que couza he Deos, somente isto sei, que o Padre Mestre Francisco me disse, que era bom morrer por Jesus Christo. As quaes palavras, e doutrina do Padre tanto devo não ser mouro, que, se ellas não foram, também eu caira como os outros; mas de tal maneira me tomou posse do cora- çam que nunca mo deixou de obrar a outra fe nem ley que a de meu Senhor Jesus Christo». O autor da guerra que os inimigos alevantaram contra Dom Manoel de Ative foi hum seu cunhado alevantado, chamado Antonio; o (20) Na cópia BNL foi corrigido para prevendo. 4.8 I insulíkdia, ti — 31
  • qual, esquecido da lealdade a amizade que devia, o pro- curou matar, por todas as vias que podesse; te que, huma vez, dous soldados portuguezes, que favorecião o dito Antonio, pozeram as espingardas no rosto, pêra atirar a Dom Manoel. Dando-se elle, neste passo, por acabado, arremete com grande fé a huma Cruz, que na praya estava arvorada, e abraçando-se com ella, dizia: «Na cruz ei-de morrer, que assy mo encomendava o Padre Mestre Fran- cisco». Achou, porem, a vida onde hia esperar a morte; porque a magestade da Santa Cruz, e reverencia do nome do seu servo fez abaixar as espingardas, e trocou os cora- ções aos soldados. Finalmente, chegado no anno de 1562 Anrrique de Sá por capitam daquellas partes, prendeo o desleal Antonio, castigou os rebeldes, amançou os mouros de Amboino, e fez que se afastassem os de Ternate; e poz a ilha em termos que tornaram os nossos a entender em sua conversão; pera o qual efeito ficaram ahi os Padres Marcos Prancudo, Valenciano, e Pedro Mascarenhas, e mais devagar, o Padre Francisco Vieira, e o Padre Diogo de Magalhães, sacerdotes da nossa Companhia, que, em breve tempo, reconciliaram os que na perseguiçam ti- [íoz r.] nham caido, baptizando de // novo outros lugares, com ajuda, porem, de Dom Manoel de Ative, que não ajudou menos aos Amboinos, com suas palavras, que com sua fazenda, e espada. Da morte de Francisco Ronceslao, e do Martírio de Francisco Moro, afilhados ambos do beato padre. CAP. 3 Taes foram, depois de tantos annos, as relíquias do fruito que o beato Padre Francisco fez em os Amboinos 482
  • que ainda o mesmo spiritu durou, té o anno de 1588, em hum christam da fortaleza de Amboino, chamado Fran- cisco Ronceslao (por ser natural de huma ilheta das de Amboino, assi chamada) o qual somente baptizou o beato padre, entre muitos meninos que lhe offereceram, pera serem baptizados; e depois de baptizar-lhe, disse, com spiritu profético, que avia de morrer com o santíssimo nome de Jesus na boca, e que o avia de nomear com grande devoçam. Era couza que todos notaram; e por isso, quando viam a Francisco Ronceslao, se lembravam da profecia do beato padre. Senão quando, indo, no anno de 88, Sancho de Vasconcellos, capitão de Amboino, com os portuguezes, e christãos da terra, fazer guerra a Hia- mao, foi também em sua companhia o soldado christão, de que falíamos; e pellejando os nossos com os inimigos, foi Francisco Ronceslao delles mortalmente ferido. Eis aqui corre pello arrayal que Francisco estava em passamento; lembrão-se os portuguezes da profecia; insitam-se huns aos outros para o irem ver morrer; forão // levados, [102 vj parte, da curiozidade natural; e parte, da devaçam que tinha ao santo padre; e, achando-o ainda vivo, viram com seus olhos o comprimento da profecia que, tantos annos antes, fora denunciada, porque o bom soldado de Christo repetia, com muita devoçam, e efficacia: «Je- sus, valei-me»! E dando, em prezença dos companhei- ros, a alma ao Senhor, que a remio com o seu preciozo sangue, piamente cremos que lhe valeo, pois a somente elle, entre muitos meninos, escolheo o beato padre, vendo entam em spirito que o Deos o tinha escolhido pera a gloria. Este cazo me contou o Padre Francisco da Cunha, Reitor do Collegio de S. Paulo de Goa, o qual lhe relatou huma pessoa digna de credito, que se achou prezente na guerra, e na morte. 4.8 3 »
  • O mesmo padre me contou tãobem o cazo seguinte, em que bem oe vê a semente da fé e graça baptismal, menistrada pello Padre Mestre Francisco, quando elle foi a ilha de Moro (a qual elle chamava ilha de esperar em Deos, pello muito que nella padeceo). Baptizou, entre outros, a hum moço, ao qual poz o seu nome, e, ajun- tando o da propria terra, se dizia Francisco Moro. Quando, poes, os Ternates fizeram arrenegar os christãos da ilha de Moro, Francisco, pera não perder a fé, perdeo a fazenda e a patria, passando-se, com molher e filhos, a fortaleza de Amboino; na qual, como peregrino e desterrado, expe- rimentou bem os trabalhos de Santa Cruz, provando Deos sua fe, como a de Tobias e Job, do qual sempre deu boas mostras, e juntamente na vertude da paciência e sofri- mento, recebendo os trabalhos, que lhe vinhão, como par- ticulares merces da mão de Deos. Em poucos dias lhe morreram seis filhos, de bexigas; que parece o hia Deos dispondo pera o martírio, não avendo ja couza da carne e sangue que lho podesse impedir, ou retardar. Foy o capitão da fortaleza, Sancho de Vasconcellos, fazer guerra aos inimigos, e obrigou a Francisco Moro a tomar as armas, pera o acompanhar na jornada. A torna viagem se desviou Francisco, com outro companheiro christam, numa almadia e foram tomados dos inimigos, e levados a Varanula, onde rezedia o Roboangue, governador e capitão geral das partes de Amboino. Estando, pois, na praya em companhia de outros mouros nobres, o mandou 1103 r.i vir ante sy, com brandas // palavras e afagos o queria fazer mouro, que nada lhe faltaria, que lhe faria muitas merces, cazando-o nobremente e que seria entre os no- bres dos avantajados na honra. Porem, o bom Francisco, pondo os olhos na obrigação que tinha de confessar a Christo, Senhor Nosso, diante dos reis, príncipes, e govet- nadores da terra, respondeo, com animo dezentereçado 484
  • dos bens que em breve acabam, que mais queria trocar a vida com o martirio, pella fé padecido, que trocar a miséria, a pobreza, em que se via, por todas as felicidades mundanas; que elle está prestes pêra receber a morte, pera dar a vida por Christo, pera verter seu sangue em testemunho da santidade da ley que, como christam, pro- fessava. Indignou-se o governador com tam livre reposta, e, vendo que seus embaimentos nada aproveitavam, man- dou aos soldados, que presentes estavam, que as cuti- ladas tirassem a vida a Francisco. Executão os algozes o impio mandado do tirano em publico theatro de duas mil almas, que concorridos aviam pera ver o fim desta batalha. Mas os golpes, e estocadas, que no bemaven- turado mártir davam, foram semelhantes aos golpes de espadas da cera, não deixando nelle outro rasto de suas armas, que sinaes sotilissimos, que mostravam averem-lhe chegado. Converte, o Roboangue, as ameaças em afagos, e promessas de novas honras, com tanto que abrece a mal- ditta seita de Mafamede: porem, o soldado de Christo respondeo com a mesma constância que dantes (com a mesma, digo) (21), experimetnando naquelle passo serem muy verdadeiras as palavras do Salvador do Mundo, nas quaes promete aos santos mártires boca e sabedoria, a qual os adversários não possam rezistir; que não tomem pena do que responderam aos tiranos, porque, naquella hora, lhe sera dado o que am-de falar (22); o que tudo, ao pe da letra, aconteceo ao bemaventurado Francisco. Pedio-lhe o governador lhe dissesse com que mezinha se untara, pera lhe nam fazer mal o corte das espadas. Res- pondeu que de nenhuma erva uzara, nem mezinha a seu corpo applicara; que bem verdade estava armado da fé (21) As palavras entre parêntese não se encontram na cópia BNL. (22) Cf. S. Lucas, XII, ri. 485
  • de Jesus Christo, que, melhor que peitos de aço, ou fortes arnezes, o podiam defender dos golpes inimigos; mas que dezejava que as espadas se afiassem contra elle, e UC3 v.) os braços dos algozes se esforçassem pera / / que seu corpo em mil pedaços fosse espedaçado, pello Senhor Jesus, que com cruéis cravos na cruz deixou a vida pello livrar da morte. Mandou o tirano aos soldados que vissem se trazia alguns feitiços, porque não podia ser tal; busca- ram-no, e no braço direito lhe acharam huma conta benta, e ao pescoço, huma nomina, que o Padre Francisco da Cunha lhe tinha dado, quando o confessou, antes de se embarcar pera a guerra; também lhe acharam humas contas. Parecendo aos mouros que nestas couzas santas estavam as feitiçarias, que falçamente imaginavão, as botarão fora; e confiados que as espadas cortarião ja melhor que dantes, o tornou a mandar a praya, com novos algozes; porem, fracos foram os golpes, como os primeiros. De novo torna o tirano a tentar sua constância, mas de balde, porque o santo mártir estava mais cons- tante que diamante. Não ha rochedo no meo das furiozas ondas que, com mais presteza, rezista aos mares empo- lados, do que o soldado de Christo ao ferro e palavras do tirano. Ja se enfada de o ver diante de sy vivo; com mil tormentos deseja de lhe tirar a vida; manda que seja morto as crizadas e estocadas; mas a divina potencia, o braço poderozo de Deos, que a molle carne converte em duro mármore, e o duro ferro converte em brandas laminas de chumbo, os crizes se dobraram, ferindo o santo corpo, não fazendo nelle mais que sinaes seme- lhantes a delgados fios de retroz. Nam pode sofrer a ira rnolheril tanta tardança na morte de Francisco; toma a molher do governador hum grande pilão nas mãos, as outras mouras a seguem com as mesmas armas; e aquelle que nam pode morrer a ferro, meneado por braço varo- 486
  • nil, morreo as piloadas, dadas por braço femenil. Acre- centou tanto este odio das molheres a crua guerra, que Sancho de Vasconcellos tinha feito ao Roboangue, a quem tinha morto dous filhos, capitães do exercito, e muitos outros, cujas mãis ainda estavam muy sentidas. Tudo isto, por muitas vezes, contou o companheiro de Francisco, que escapou, o qual com tanto efeito e temor referia estas couzas, como se, de prezente, então, as vira, como na ver- dade vio, quando o santo mártir as padeceo. Como o beato Padre Francisco ajudou os castelha- nos e portugueses da armada de Fernam de Souza de Tavora. CAP. 4 Avia perto de dous anos que erão chegados a Maluco cinco ou seis navios da Nova Espanha, aos quaes el-rey Tidore agazalhou na sua ilha; veo esta gente sem ordem do Emperador Carlos quinto, rey de Castella; antes, sem que este o soubesse, como elle disse ao embaixador de Portugal; e que estimaria muito que os taes fossem cas- tigados como corssarios; a execuçam da sentença enco- mendou el-rey a Dom João de Castro, que no anno de 45 veo a estas partes, por governador. Porem, não no fez assy Fernam de Sousa de Tavora, a quem o governador Martim Afonço de Souza, em Abril do mesmo anno 45» o mandou a Maluco, sobre esta cauza; antes, chegando a Ternate, a tempo que os castelhanos estavam já descon- fiados de poder tornar a Nova Espanha, e sem nenhum remedio, detendo-se mais do necessário em Tidore, e des- baratados na saúde, a qual perderam na viagem de dous annos, os recolheo na nossa armada, com promessa de 4 8 It
  • os levar a India, e de liberdade, pera se poderem ir nas naos do reyno. Tornando-se, poes, Fernam de Souza, de Maluco, com os castelhanos, chegou a Amboyno, era tempo que o Padre Mestre Francisco tinha vizitado os lugares dos christãos, pera que tivesse por repouzo de hum trabalho outro muito mayor, como elle sempre deze- java. Era tempo de Co resma em que todos se avião de [104 r.i confessar, e, pella grande // devoçam que tinhão ao Pa- dre, nenhum avia que não quizesse fazer com elle: asy lhe relevava andar sempre em continuo movimento, ora no mar, ora na terra; de modo que, se juntamente poderá estar em sette lugares, como elle diz numa carta, em todos elles lhe sobejarão confissoens, que por toda a Coresma, e ainda depões delia acabada, foram continuas, posto que ouvesse hum sacerdote castelhano, e dous religiozos de Santo Agostinho, que da Nova Espanha tinhão vindo na armada; os quaes, de necessidade, avião de confessar tão- bem a muitos: mas como não passassem de quatro sacer- dotes, e os soldados de duas armadas fossem muitos, e os christãos da ilha fossem muitos e mais, não podiam confessar a tantos, que acabassem de ouvir suas con- fissões dentro da Coresma, principalmente chegando as armadas a Amboino, depões delia entrada. O fruito ven- ceo a opiniam do Padre Francisco; e falando das dis- córdias dos soldados, a que acudio ajunta estas palavras: cLouvado seja Deos pera sempre, jamais, poes tanto co- monica de sua paz as pessoas que cuazi fazem profissam de a não terem com os homens, ainda que seja com per- derem a do mesmo Deos». No que toca a outros vicios, em que a gente solta tem perdido o pejo, referem algu- mas testemunhas que a opiniam da santidade e pureza do padre os meteo por dentro, de maneira que a desones- tidade se desterrou do arrayal; e se, por ventura, algum mal avia, se embrenhou, escondeo nos matos, com o 4.88
  • resplandor de sua vida e doutrina. Assinalouce muito aqui a gente portugueza na caridade e mizericordia com os castelhanos, acudindo-lhes com largas esmollas; mas, como os pobres homens tinhão padecido tanto, nada bas- tou pera não adoecerem muitos, em chegando a Amboino; antes, a mesma abundancia, depões de tam larga fome, ajudou ao mal, que, em breve, se ateou por toda a armada; a qual, em poucos dias, foi feita hum hospital de doentes; com os quaes o Padre Francisco exercitou sua custumada caridade. Pellos que falecião dizia missa, cada dia; aos defuntos amortalhava, e dava sepultura, os que hião acabando, ajudava a bem morrer; e, como elle diz, em huma carta, he a boa morte cousa muy rara, e muy dificultoza aos que na vida se não conformarão com a ley de Deos; porque estes tanto morrem mais des- confiados da divina mizericordia, quanto mayor era a confiança que mostravão nella, vivendo, continuando a essa conta, em seus peccados. Dos homens que melhor // uo4 ».j acudião ao beato padre, com mezinhas, conservas e outras cousas de doentes, pera remedio dos pobres, era João de Araujo, que com elle viera da índia bem provido de tudo isto. Todavia, indo o mal muito diante, arreceou-lhe vies- sem a faltar. Sentio, o padre, João de Araujo pezado, e, sendo necessário pera certo enfermo hum pouco de vinho ae Portugal, lhe mandou pedir por Francisco Palha, mas não de sua parte, do mesmo padre, pello não cançar tanto, mas de sua propria; fello asi o devoto, deu-lhe Araujo o vinho, ajuntando, porem, que lho não tornasse a pedir, porque o avia mester; as quaes palavras o beato padre, com spirito profético, respondeo logo: «que cuida, João de Araujo, que ha de lograr o seu per muito tempo? Ora dizei-lhe, de minha parte, que folgue de dar aos enfermos o que tem, por amor de Deos; porque ha-de morrer em Amboino, e aqui lhe hão-de distribuir sua fazenda pellos 489
  • pobres». Ficou o Palha attonito, nem aceitou a embaixada de nova tão triste pera o amigo. Mas o padre deu a nova a João de Araujo, em prezença doutros, pellas mesmas palavras com que primeiro o dissera; deu-lhe Araujo cre- dito, e, dalli por diante, despoz de sua alma com mais cuidado, e da fazenda com mais liberalidade. Compriosse a revelaçam do padre: João de Araujo fallece no lugar de Ative, em Amboino, dahy a poucos mezes. Estando pois o beato padre, já neste tempo de sua morte, em Ternate, dizendo hum dia missa, se virou pera o povo no passo da oferenda e disse: «(Senhores, João de Araujo, que em Amboino esteve, he falecido; ontem disse missa por sua alma e esta também he por elle; peço- -vos que o encomendeis a Deos». De Amboino a Ternate, sam setenta legoas; aonde, depois de dez ou doze dias, chegou huma embarcação de Amboino, e nella Rafael Carvalho, que se achara a sua morte; por cuja enfor- mação, e de João de Eyro, que ficara em Amboino, con- tou como morrera na hora em que o Padre Francisco teve revelação de sua morte, e a disse em Maluco. Lavrando a fúria do mal na armada, determinou Fernam de Sousa de Tavora fazer-se a vella pera Mallacca, antes da entrada de Mayo, pera que o Inverno o nam tomasse ally; e não acabassem de morrer esses poucos castelhanos que ficavão vivos; cujo general alii fez a osada. E posto que o Padre Francisco se não embarcou, pera servir aos doentes, em- 1105 r.j barcousse, porem, com // elles sua grande caridade, pro- vendo aos pobres de todo o necessário que na terra avia; encostando-os aos amigos que nesta armada hiam, e aos de Malaca os encomendava muito, por suas cartas; como também encomendou aos religiosos de Santo Agostinho, de que acima faley, ao Padre Paulo de Camerino (23), (23) Mais frequentemente designado por Micer Paulo. 490
  • pêra que os agazalhasse consigo e fizesse boa compa- nhia. Em Amboino encontrou (-se) com hum sacerdote va- lenciano que vinha na armada dos castelhanos, por nome Cosme de Torres, no qual deixou rasto de seu grande spirito, mas porque se não acabou de todo de render a seguir as pizadas do beato Padre Francisco, não tratarey por ora delle, deixando esta materia pera o anno em que se rezolveo de entrar na Companhia. Assi como o beato padre de Malaca, despos dos companheiros que lhe tinhão vindo do Reino, mandando dous à Pescaria, e que o ter- ceiro ficasse em Goa, assy escreveo de Amboino pella armada de Fernão de Souza, que, vindo novos compa- nheiros, se embarcassem, em Abril de corenta e sete, dous padres, dos quaes andavão na costa, pera Amboino, e Maluco; e que em seu lugar fossem os que viessem do reyno aos Paravas; e que levassem alguns homens de bem consigo aquellas ilhas, pera que os ajudassem a ensi- nar a santa doutrina: e que fossem homens que se ti- vessem por injuriados do mundo, diabo, e carne, e, de- veras, tratassem de se vingar e satisfazer das afrontas e deshonras que estes inimigos lhe tivessem feitas, diante de Deos, Nosso Senhor, e de todos seus santos. Emco- menda tãobem muito ao Padre Paulo de Camerino que, em seu lugar era superior dos nossos, na India, que obe- deça a Mestre Diogo, e aos administradores do Collegio de Santa Fé. Era, o Padre Paulo, varam tão perfeito que escreveo delle Mestre Diogo de Borba ao Padre Mestre Simão, em Portugal, que fazia fugir o demonio daquella caza e de seus termos, e crecer o collegio em toda a vir- tude e doutrina. Tinha o beato Padre Francisco tanta fé nos merecimentos dos padres e irmãos de Europa que escreve de Amboino, que as merces e favores que de Deos recebia, lhe vinhão por seu meyo, e que para nunca se 4 9 z
  • poder esquecer delles, e para conservar a grande conço- lação que esta sua lembrança lhe causava, e, finalmente, por mais segurar o favor que, por seu meyo e entercessam, tinha certo em Deos, cortara as cartas, que lhe escre- no5 v.] verão, //os nomes dos sinaes de todos, escritos da pro- pria mão de cada hum, e os levava consigo por todas as partes, dando muitas graças ao Senhor, por os fazer taes, que lhe rendião a elle tanto os seus nomes. Que muito fizera hum noviço muito devoto, e dotado de simplicidade colombina, e, comtudo, era homem que fazia milagres, resçucitava mortos, e que punha aos demonios em afron- toza fugida. Navegando o beato padre de huma ilha pêra outra, sobreveo tão grande tempestade, que, com rezam, temeo poder-se, com ella, meter no fundo a embarcação, por ser pequena e fraca, pera rezistir a tam grande temporal. Vendo pois o santo padre o evidente perigo em que estava, tirou a sua cruz, pera que metendo-a no mar, se aman- çasse e tomasse brando; mas, quando a meteo, cahio no meyo das ondas, com grande sentimento seu, mas não sem o desprezo (?) (24) de sua fervente oração, ficando o mar quieto e tranquillo. Ao dia seguinte, dezembarcou o beato padre na ilha Varanula; caminhando, pois, pella prava, pera a povoação de Tamalon, senão quando vio ja ir do mar huma centola com a Cruz na boca; tanto que o padre vio, se ajoelhou, esperando por ella: tomou-a com toda a reverencia, bejiando-a com muita devoção; e, ficando na mesma postura, por espaço de meya hora, com os braços cruzados, ficou como arrebatado dos sen- tidos, dando muitas graças ao Senhor, polia merce rece- bida. A centola, tanto que cumprio com sua embaixada, se tomou a meter no mar. Acompanhava nesta conjunção (24) Em ambas as cópias se encontra a abreviatura despr" 4 9 2
  • Frausto Roiz ao beato padre, o qual em Zebu, cidades de Filipina, e hum dos desterrados moradores de Am- boino, polios olandezes, jurou perante o Vigário Geral do Bispado, o milagre relatado. Parte o beato padre de Atnboino pera Maluco. Tra- ta-se do principio // que ally teve a Christandade. uo6 v.) cap. 5 As Ilhas Malucas sam propriamente aquellas que dão o cravo, as quais são cinco: Ternate, Tidore, Moutel, Maquiem, Bacham. Maluco quer dizer cabeça de touro grande, como se estas cinco ilhas em algum tempo forão cabeça die algum império. Estas ilhas estão situadas de- baixo da linha equinocial, trezentas léguas, pouco mais ou menos, ao levante de Mallaca; todas estão em espaço de vinte e cinco legoas, huma a vista das outras, e ne- nhuma delias passa de seis legoas em roda. A ilha de Ter- nate chama-se propriamente Gape; mas, deixando este nome, tomou o da principal cidade, chamada Ternate. Da mesma maneyra a ilha de Tidore se chama Duco a sua principal cidade, Tidore, da qual aquelle rey se honra e intitula. Posto que estas ilhas (seião) de ruins ares, e mal asombradas, com tudo, o seu cravo as fez aprazíveis, e benignas, nam menos aos estrangeiros, que aos naturais. Contentar-me-hey de dar huma breve noticia de algumas couzas mais notáveis de Maluco. A ilha Gape, aonde esta a nossa fortaleza de São João Baptista, he das mais altas aue sabemos, pode competir com os Montes Pelio, Hossa, e com o Pico, huma das ilhas dos Açores. Lança de sy fogo, não tendo enveja, nesta parte, ao monte Etna, e, comtudo, nasce do monte huma ribeyra de agoa, tão 49 3
  • fria, que pode competir, na frialdade, com as de Alema- nha, no tempo dos mores frios. Nestas ilhas e na Bete- china nascem homens com esporõens nos ortelhos, como se foram galos. Ha certa casta de galinhas pequenas, que poem ovos tamanhos como de patas, as quaes metem pella terra dentro braça e mea, onde chocam os filhos, imi- tando, nesta parte, os gafanhotos, que nas terras quentes metem seus canudos nos campos, donde, com a quentura no7 r.i do sol, brotão innumeraveis exércitos desta peste das // searas mais gradas, e das arvores mais frescas e copadas. Ha galinhas de carne preta, a que na índia chmão cafras, e sam mais gostozas que as outras. Ha porcos com cor- nos, nem se pode gloriar a ilha Sam Miguel de ter agoa tão quente, que, metendo nella hum leitão, fica pelado, porque o mesmo se ve nas Malucas. Ha certos caran- gueijos da terra que, comidos, tirão o juizo a tempo, como se os pacientes foram mordidos da Tarantula, natural da Italia, ou se tomam duturo (25) tão conhecido na índia. Ha outra sorte de carangueijo, tam forçozos, que fazem em pedaços hum ferro de azagaya. Ha outros menores no corpo, que comidos, matão de improvizo. Ha tam grandes ostras que servem algumas vezes de pias, de baptizar; e destas parece que he a que eu vi no collegio de Spirito Santo, de Évora, junto da fonte que esta no pateo dos noviços. Ha certa arvore, que deve ser aquella que na índia chamão arvore triste, a qual, como se fogisse do sol, arrebenta em flor, quando elle nos esconde seus rayos; e quando, ao dia seguinte, os torna a mostrar mais fer- mozos, antão lhe caem as flores de tristezas. Muito diffe- (25) E também dutrô e datura: «Planta indiana da família das solanáceas, com propriedades narcóticas e tóxicas, sendo muitas vezes empregada para fins criminosos; produz insensibilidade ou incons- ciência temporária, e causa hilaridade e infatuação. É por isso que se sói preguntar em Goa, a quem se ri muito sem motivo, se comeu dutró...». R. Dalgado: Glossário Luso-Asidtico. 49 4
  • rentes, e mais agradecidas são aquellas hervas, e plantas, que, por seguirem sempre o sol, lhe chamamos girasois, que também os lavradores de Europa tem, quaes sam as plantas que dam tremoços, que por andarem com o sol, lhes servem de relógios. Viram-se mais, nas ilhas espa- lhadas por aquelle Arcipelago das Malucas, porcos raon- tezes, com seis dentes prominentes, convém a saber, dous ordenados, outros dous no focinho, e outros dous, por traz das orelhas; e cada hum delles, de palmo e meio de comprido; donde se colhe que sua fereza deve ser mayor que as dos nossos, posto que bravos sejão, e ferozes. O que muito espanta he aver arvore de tal natureza, que os ramos que estam para a parte oriental salutiferos, e fina contra-peçonha; e os que ficão pêra a parte occidental sam fina peçonha; o fruito desta arvore ha, que, quem come seu fruito, fica fora de sy por doze horas. Os homens destas ilhas douram os dentes. Quando algum regulo se quer fazer vassalo doutro mayor senhor, o recebe por tal, levando hum cesto de terra as costas com algum pedaço de ouro metidos (sic) nella, como dando-lhe o preciozo metal, em sinal de vassalagem, com tanto que lhe defenda a terra dos inimigos. // [107 v.i Deixando, poes, o beato padre, em ordem, as couzas da christandade de Amboino, e na mesma ilha a seu companheiro João de Eyro, pera que ajudasse aos chris- tãos, no que lhe cabia, conforme a seu talento; e não avendo já as esperanças da missam do Macaçar, pouco depois de Fernão de Souza se fazer a vella, se embarcou pera Ternate em huma cora-cora, que sahio pera Maluco, em companhia da outra em que hia João Galvam, com sua fazenda. Indo, pois, ambas de conserva, atravessando o golfam pera Ternate, se apartarão com hum temporal que lhes deu: a do Padre Mestre Francisco tomou porto de Ternate; a de Joam Galvão se perdeo. Pregando elle, 49 5
  • pois, o primeiro dia da festa, estando no meo do sermão, disse, subitamente, que todos encomendassem a Deos a alma de João Galvam, porque era fallecido. Revelou-lhe Deos sua morte, naquelle passo, pera nelle acudir e aju- dar aos companheiros, com suas orações e com as do povo. Cauzou a profecia espanto, e o fato que o mar lançou a costa, ao terceiro dia, acabou de certificar a todos ser verdade o que o padre tinha dito. Daqui vierão-lhe os Ter- natezes a ter grande respeito e reverencia, de modo que, em poucos dias, foi mui aceito a todos, e achou muita graça nos olhos, assi dos portuguezes, como dos naturaes da terra; bem necessária era a todos a prezença do beato padre, porque não estavam menos embaraçados nas cons- ciências, por rezam das onzenas, e peccado da carne, ao qual tam dezemfreadamente se entregavam, que só con- oenavão por peccado os adultereos. Tão abominável estava aquella terra na materia da torpeza, e mao cheiro que de sy lançava naquelle oriental arcipelago, que nem as arvo- res do cravo odorífero, nem as drogas, que naquellas ilhas nascem, eram bastantes, pera desterrar o mao cheiro de que os ares e as almas racionaes anda vão apestadas. Po- rem, assy como o vento norte desfaz as nuves, e o sol, com sua prezença, desterra do ar trevas, assy o beato padre, com o v'ehemente spiritu de suas palavras, desfez as nuves negras dos peccados que afeavão as almas dos Ternatezes; e com a luz e exemplo de sua santa vida, não sommente desterrou a noite da ignorância, mas tãobem illustrou e alumiou a todos, pera que, não sommente vissem as trevas de que andavam carregados, mas ainda nos r.i os mínimos argueiros que lastimão os deli // cados olhos; íorão tão grandes as restituiçoens que se fizeram, que das incertezas ficou a caza da Santa Mizericordia huma das mais ricas de toda a India; e o mesmo aconteceo a Con- fraria do Santíssimo Sacramento. Emfim, ficarão os de 4 9 à
  • Ternate tão liberaes, que, vindo-se já o padre pêra a India, encomendou ao Padre João da Beira que mandasse pera Ternate e pedisse, de sua parte, a hum portuguez, edeficasse ali, a sua custa, humas escolas de santa dou- trina; o que logo elle comprio, com grande gosto, e ale- gria; e ajuntou que deixava toda a fazenda, a qual era muita, pera se fundar hum collegio, onde se criassem e doutrinassem os meninos; e que, se nossa Companhia se não quizesse encarregar da administração daquella caza e renda, elle era contente a tivesse a Irmandade da Mize- ricordia. Nem ouve tardança no comprimento desta santa obra, porque, já no anno de 49, estava feita huma parte do edifficio e pouzada de meninos, que nella se doutri- navão. Seguiosse, apoz tanta caridade e esmola, muita limpeza, e honestidade de vida: ouve grande mudança em todos, tirando dous que se nam quizeram emendar, uzando sempre com elles grandes amostras de amor; e encomen- dando-os, sempre, a Deos, e aos amigos, em suas cartas, pera que, de sua parte, os saudassem. Antes que digamos do que o Padre Francisco fez nesta ilha, sera bem que digamos, com brevidade, do principio da christandade que achou em Ternate. O que, em geral, se pode dizer he que os nossos capitaens de Temate se ouveram com tanto descuido na materia da conversão, que do anno de 152a, te o de 36, não acho couza que nesta materia fizessem. Mas Nosso Senhor ordenou que os gentios da cidade de Momoya, na Ilha de Moro, fossem perseguidos dos mouros, cuja cabeça se chamava Cata- bruno, pertendendo tirar a todos a liberdade dos corpos e das almas, entregando-as a Mafamede; mas os gentios não querião ser mouros. Se não quando Gonçalo Velozo vay ter a Mamoya, e lhes prometeo favor dos portuguezes, se se fizessem christãos; vieram nisto facilmente, e man- darão embaixadores a Tristão de Atayde, capitão de Ter- 4 9 7 INftVLÍKDIA, II — 3a
  • nate; o qual os recebeo com muita festa, e depois de bapti- zados, os tornou a mandar, fazendo-lhes muitas merces. O Governador de Momoya, vendo a boa reposta que o capitão dera aos embaixadores, passou logo a Ternate, onde se baptizou, com nome de Dom João. Tornando para nos v.] sua cidade, // acompanhados de soldadados portuguezes, e do Padre Simão Vaz, baptizou logo a muitos, e foi tam grande o fervor dos que pediam o sagrado baptismo que foi necessário mandar outro sacerdote que o ajudasse; chamava-se Francisco Alvares (26). Depois de feitos chris- tãos, destruíram os pagodes; alevantaram igrejas; conver- tendo os templos dos idolos também nellas: aconteceo tudo isto no anno de 1534- Vo mesmo tempo se converteo em Goa el-rey de Maluco, que, em gentio, se chamava Ta- barya. Em christão se chamava Dom Manoel, o qual, indo pera Maluco, falleceo em Mallaca. Conjuram-se todos os reis mouros contra os portuguezes, e novamente conver- tidos; resplandeceo insignemente, nesta perseguição, a fé de Dom João, senhor de Momoya; o qual, depois que a sua cidade foi entrada pellos inimigos, se retirou a huma tranqueira, fora delia, e vendo que não podia esca- par com a vida do corpo, determinou de remediar a vida das almas de sua molher, e filhos; parecendo-lhe que per- deriam a fé por fraqueza, se viessem ter as mãos do inimigo, pello que degolou a molher, e os filhos innocentes, estimando mais, com este indiscreto zelo, salvar suas almas que seus corpos. E querendo-se elle tão bem matar, foi estorvado dos seus, pera que o não fizesse; e o entregaram ao tirano Catabruno; o qual o mandava degolar, por ma- tar os filhos; mas ordenou Deos que não morrese, por que os mouros principaes rogavão ao tirano que o não ma- (26) Sobre esta passagem vid. Insulindia — Documentação, vol. I, págs. 317-318. 4.98
  • tasse; posto que muito o dezejava matar, pella liberdade com que confessava a Christo Redemptor nosso. Todos os mais christãos retrocederam; mas, no tempo de Antonio Galvão, Capitão de Ternate, varam de grande zello, e vir- tude, começou de florecer a christandade de Amboino, e coube a boa sorte aos Macaçares e a muitos mouros de Ternate; entre elles, recebeo o sagrado baptismo Cachil Sabija, principal pessoa do concelho del-rey de Ternate. Chamou-se Dom Manoel Galvão; tãobem os de sua fa- mília se baptizarão, e hum sobrinho do proprio Cate- bruno, rey de Geilolo. Tãobem se fez christam hum cacis principal; e el-rey de Ternate esteve muito perto de fa- zer o mesmo. Procedia o capitão com tanto amor e libe- ralidade pera com todos, e tão venturozo foi na guerra, alcançando muitas vitorias dos inimigos, e os de Ternate o pedião a El-Rey Dom João, por capitão, em quanto vi- vesse. Mas, indo as cartas pello caminho, chegou outro de novo //a Ternate, com cuja vinda o fresco jardim da 1109 r.j Igreja se tornou mato; e a vinha do Senhor se converteo em balça. Estava a fortaleza de Ternate tão trabalhada, e tam destruída das guerras, e faltas de todas as couzas que, buscando, o Governador Nuno da Cunha, homem de valor e esforço que pudesse acudir a fortaleza, mandou ao valerozo Antonio Galvão, no qual concorriam todas as boas partes. E não se enganou na eleição; aceitou elje a empreza, em tempo tam trabalhozo, por serviço de Deos, e del-rey; e, não avendo o dinheiro pera armar o galeão da viagem, elle emprestou ao governador dez mil cruzados da fazenda que achou na índia, de seu pay, com que se negoceou o provimento. Pello que se pode dizer que res- gatou a fortaleza de Maluco com seu dinheiro, e sangue. Levou comsingo alguns cazados pobres, com suas molhe- res, e filhos, e algumas que vivião mal, pera lá as cazar, emprestando dinheiro a todos, pera se aviarem; tudo, 4 9 9
  • afim de povoar, e engrandecer com sangue portuguez a fortaleza de Ternate. Também fez hum collegio de moços da terra, no qual aprendessem os mistérios de nossa santa fé, e os bons costumes; a cuja imitação se fez o de S. Paulo. E não somente governou como capitão, mas, como se fora pastor das almas, zelava seu bem spiritual, pello que, Deos lhe deu muitas vitorias contra os príncipes de Maluco, não tendo mais que cento e vinte portuguezes. Seu pay e trez irmãos morreram no serviço da Coroa, aos merecimentos dos quaes ajuntou os seus, e foy requerer a el-rey lhe satisfizesse, conforme aos grandes serviços que tinha: o despacho foi gastar dezassete annos em seu requerimento, e por nam ter posse, pera sostentar caza, morou, todo este tempo, no hospital del-rey, onde falle- ceo, deixando dous mil cruzados de dividas, e tam pobre que do hospital lhe derão a mortalha, e a Confraria da Corte, como a cortezão pobre, acompanhou e fez o enter- ramento. Exemplo raro da inconstância mundana, e quam pouco valem grandes serviços feitos aos reis da terra que, muitas vezes, não tem tanta liberalidade pera satisfazer aos seus, quanto animo elles tem pera derramar o sangue, e perder as vidas, por conservar a honra, esforço e brio da propria naçam. Escreveo Antonio Galvam, alem do U09 v.i Tratado dos Descobrimentos, // dez Livros da India que Damião de Gois inxirio na Historia dEl-Rey Dom Manoel. Da conversam da Rainha Dona Izabel, e de muitos infiéis, a nossa santa fé, e da jornada que o beato padre fez á Ilha de Moro. CAP. 6 Reformados os da fortaleza na vida e custumes, come- çou o beato padre de entender na conversão dos infiéis; 500
  • pregava todos os domingos e festas, pella manhã, aos portuguezes; sobre a tarde, aos novamente convertidos, declarando-lhes os artigos da fé; as confissoens eram con- tinuas, e cada dia ensinava a doutrina aos meninos e gente mais rude; donde nascia cantarem, de dia e de noute, pellas ruas, a sancta doctrina, e os lavradores no campo, e os mareantes no mar e as molheres em suas cazas, edifficando-se, todos, de tam grande fevor e devo- çam, de modo que se ouvia hum continuo catechismo; e assy foi grande o numero dos gentios e mouros, que, de novo, receberão o sancto baptismo. Somente contarey a conversão da rainha Dona Isabel, a qual, tanto foi mais insigne que muitas outras da índia, quanto mores eram as difficuldades que se punhão por meyo para não aceitar nossa santa ley; mas a todas ellas venceo com / / a divina graça. Era esta senhora filha dEl-Rey Almonsor, de Tidor, e principal molher, com titulo de Rainha de Bo- leife, Rey de Ternate, que foi o que, no anno de mil e quinhentos e doze, mandou buscar Francisco Serrão, quando estava perdido em Amboino, e o agazalhou honra- damente, procurando nossa amizade, offerencendo sitio para a fortaleza. Mas os mouros, que muito isto sentirão, matarão a el-rey, e a Francisco Serram, com peçonha secreta. Ficaram-lhes trez filhos desta senhora, da qual imos fallando; aos quaes somente tocava a sucessão do Estado. Ficarão os trez infantes de tão pouca idade que foi necessário a seu pay entregar o governo do reyno a raynha, atte que o filho mais velho (que não passava de seis annos) fosse pera o tomar. Chegando, depois, na era de 1521, Antonio de Brito a Tidore, a raynha o mandou buscar; e foi levado com grandes festas a Ternate, e nelle bem recebido e tratado de todos, e fundou a fortaleza de S. João Baptista. Governava, neste tempo, hum mouro, chamado Cachil Daroez, o qual, igualmente tinha credito 1110 rj 501
  • na grandeza e ambiçam. Não se ouve a raynha com elle por segura, nem menos de nossa fortaleza; pello que, querendo livrar sua pessoa e as de seus filhos dambos os jugos, se retirou, secretamente, a Tidore, ficando os fi- lhos, comtudo, na fortaleza, aos ques Antonio de Brito tomou, por concelho do governador, muito pezarozo de não poder também tomar a rainha, sua may. Já esta afli- gida senhora, neste tempo, se via, por cauza dos portu- guezes, desterrada do reino; ao marido, morto; e aos filhos, prezos; mas não pararão aqui seus grandes traba- lhos, porque, chegando Bohaar, filho mais velho, a idade pêra reynar, foi morto com peçonha, en nossa propria fortaleza, por industria do ambiciozo mouro que gover- nava. Soccedeo-lhe no reyno o segundo irmão, chamado Dajalo, e, começando a governar, posto ja em liberdade por Vicente da Foncequa, Capitão da fortaleza, o des- terrou por leves cauzas, recolhendo-se a Tidoro; aonde, na guerra, foi morto pella gente de Antonio Galvão. O terceiro filho, por nome de Tabarija, mandou prezo a Índia Tristam de Ataide; porem, o Governador Nuno da Cunha o julgou por innocente, e se fez christão em Goa, com nome de Dom Manoel; e tornando pera Maluco, íalleceo em Malaca, com sinaes de salvação, acompanhan- uio T.i do-o sua may, // que muito devia sintir a morte de trez filhos reis, sendo ella ainda infiel; e fez a doação do reino de Ternate a Coroa de Portugal, como consta do testamento, registado nos contos de Goa. Com todos estes escândalos, recebidos dos portuguezes, não cerrou as ore- lhas a pregação do sagrado Evangelho que professavão aquelles que por cuja cauza tanto padecia. O Beato Padre Francisco disputou com ella muitas vezes sobre a ley dos christãos e dos mouros; e, com suas oraçoens e sacrifícios, alcançou de Deos Nosso Senhor, sua conversão, da qual elle se poderá, com rezão, gloriar, como S. Paolo se glo- K O 2
  • riava de ganhar a Christo a Sergio Paulo. Baptizou-se a rainha, e poz-lhe o padre por nome Dona Izabel, a qual assy veuva e sem filhos reis, ainda era de tanto respeito e authoridade, que não fora muito fazer-se todo Maluco christão com seu exemplo, se El-Rey Aeiro, filho bastardo del-rey, seu marido, não dera, entam, grande perseguidor da christandade; elle tomou a propria Dona Izabel as ter- ras que tinha em dote, e a obrigou a viver em perpetua pobreza e desterro. Mas a ditoza rainha, não somente creo no bom Iesu, e o adorou, mas perseverou em toda a paciência, e honestidade christã te a morte; conti- nuando, como a santa viuva Anna, a igreja, confessan- do-se e comungando-se muitas vezes, e conservando na íe e bons costumes aos parentes christãos, e na lealdade dos portuguezes, tão mal, por sua ingratidam, merecida. Depois do beato padre aver estado tres mezes em Ter- nate, determinou de se embarcar pêra a ilha de Moro, como ja em Amboino o tinha determinado fazer, se achara embarcação pera esta ilha. Assi os amigos de Amboino, como os de Ternate, trabalharam muito pello desviar desta jornada, pellas grandes crueldades da gente daquellas ilhas (as quaes sam muitas) e todas tem, em geral, o mesmo nome, por assi se chamar a mais principal, de cento e cincoenta legoas em roda (que vulgarmente se chama Moro, ainda que o seu proprio seja Morotia, ou Batichina do Moro) porque toda a gente he barbara em cabo, sem conta de mez nem anno, sem pezo nem me- dida; em cada lugar há lingoa diversa; e hum se vigia do outro; aos que matão na guerra, // comem; gostão jin rj muito das mãos e da cabeça; specialmente se assinalão na crueldade os lavaros, gente selvagem da ilha grande, chamada Morotia, os quaes saem dos matos a caça da gente humana, e quando não achão estranhos, nos quaes iação esta carnria (sic), a fazem nas molheres, e filhos; 5°3
  • numca os hospedes se dam por seguros, pello receo que tem da peçonha; com a qual matarão alguns sacerdotes. A terra hé esteril, não tem outros mantimentos que arros, e sagu, das quaes tirão o pão, vinho, e vinagre; nhuma sorte de gado crião: a terra hé doentia e as agoas, ruins. De modo que, rezolver-se hum homem a ir doutrinar semelhante gente, não he outra couza que offerecer-se ao martírio. Todas estas couzas sabião muito bem os amigos do Padre Francisco, das quaes, em Amboino, tinha certas informaçoens; e por isso, seus devotos o dezejavão, antes, fer consigo, pêra de sua vida, doutrina, e exemplo se aproveitarem, por muito tempo, que vello entre a gente barbara, cruel, e deshumana, entre a qual vivendo, tinha a morte mais certa que a vida; e quando com esta ficasse, serião tantos os trabalhos e desgostos que padeceria, que teria por mais barato morrer que viver. Porem, o beato padre, ouvindo estas couzas, se ouve por obrigado a ir vizitar aos christãos daquellas ilhas, desejando de perder a propria vida temporal, por socorrer a spiritual do pro- ximo. Espantavam-se os amigos de seu animo; com la- grimas de compaixão o pretendião desviar de seu intento; mas vendo que nem as rezões, nem as lagrimas, o podião trazer ao que elles desejavam, determinaram de o alcançar por força; persuadem a Jordam de Freitas, Capitão da fortaleza, que mande, sob graves penas, que ninguém lhe dê embarcação; assi o mandou. Arde o padre em zello de se ver prezo, impedindo-lhe a passagem ao Moro; mas a palavra de Deos não está preza; e assi, no primeiro ser- mão que fez, pregou com tanta vehemencia de spiritu, acerca desta materia, que todos mudarão as cores, e o coração; e o capitão manda que lhe dem embarcação. Os amigos offerecem antídotos e contra-peçonha, pêra conser- vação da vida; outros offerecerão a o acompanhar; dos quaes levou alguns, pera ajuda do catechismo e doutrina 5° 4-
  • dos Morotezes; e ao[s] que lhe offerecião remedios contra a peçonha respondia que não avia mais fino remédio con- tra o veneno, que a confiança em Deos, ao Qual / / pedia mi T.i muito o encomendassem em suas oraçõens; e, despedindo-se corporalmente dos amigos, aos quaes levava no coração impressos, se embarcou, no fim de Agosto, pera as ilhas do Moro, que jazem quazi sessenta legoas ao oriente de Ternate, onde chegou brevemente, com os devotos que o acompanharão, tanto menos receozo da morte, quanto menos solicito da vida. Do que fez na Ilha de Moro. CAP. 7 Sempre o medo fez os perigos mayores do que na ver- dade são; assi aconteceo aos de Ternate, dezejando de retrahir o beato Padre Francisco da viagem do Moro, pon- do-lhe diante as difficuldades que vimos no capitulo pre- cedente. Não achou o padre tanto, quanto lhe dizião, mas muito menos de que eram as ameaças; as quaes se fun- davam em três couzas; na incapacidade natural, pera tomarem os mistérios de nossa santa fé; na braveza de feras alimarias, pera com quem lha pregasse; na incons- tância em deixar, se acazo a recebessem. Dezembarcando o beato padre, e encontrando-(o) pello primeiro lugar dos christãos, fogião delle como se não fora homem; mas, ven- do-o alguns andar com os olhos no ceo, cantando a dou- trina na lingoa malaya, e que os chamava, e chegava pera si, abraçando-os, como a filhos, se foram, a pouco a pouco, segurando, e levando a nova de hum lugar a outro; foi grande o fervor e fruito de todos; conçolando-se o padre muito com elles, e elles muito com o padre, não 505
  • ficando lugar que não vizitasse. Baptizou muitas crianças; converteram-se e receberam o santo baptismo muitos gen- tios, e mouros. Edificou muitas igrejas e, entre os mezes que andou naquellas ilhas, fez de vinte pêra vinte e cinco mil almas christãos. Já não parecião selvagens, antes erão conversáveis e afeiçoados aos nossos costumes; e tão bem doutrinados que muitos ficaram por Canacapoles (27) nas igrejas; por onde parece que a incapacidade pera receber 1112 r.i nossa Santa fé, de que eram acuzados, mais procedia / / da falta da doutrina, que da natureza. O padre os socorria, com grandes mostras de amor e benevolência, em suas necessidades; tam longe estava de aceitar delles couza fora da salvação de suas almas. Donde se lhes pegou tam- bém a elles a brandura e humildade, a qual, os nossos, nelles não achavam, porque lha não mostravam; porque, emfim, hé verdade o que a outro disse: «a muitos fez te- mer, fazerem-se temidos; e, pello contrario, o santo amor a tudo sogeita e abranda». A nada, porem, se deve tanto a mudança na crueldade e fereza, como a luz e graça do evangelho; a qual fereza tem dous princípios capitaes: hum, no mesmo homem, que he a desordem e rebelião das próprias inclinações; outro, de fora, muy forte e violento, que he a sogeição ao demonio; ambos tem o remedio na fé e sacramentos da Santa Madre Igreja que nos livrão do inimigo, e nos curão das enfermidades erdadas de Adam. Estando o beato padre, dia de São Miguel, de Se- tembro, dizendo missa numa igreja, chea de christãos, se não quando a ilha, subitamente, começou a tremer, por hum modo tão extraordinário, que poz em grande espanto a todos: dos christãos, nenhum ficou que não (27) O mesmo que escrivão, administrador, etc., no sul da Índia. Os missionários parece designarem por este nome os catequistas e pro- curadores dos cristãos. (R. Dalgado, op. cit.). 5 06
  • fugisse, tendo por certo que a igreja cahiria; e postos em oração, pedião a Deos mizericordia; os gentios batião fortemente o chão com paos, como fazem as vezes ao mato os caçadores; e nos rios os pescadores, dizendo que compria assy, pera espantarem as almas que fazião tre- mer a terra, tão espantosamente. Escrevendo o beato pa- dre este cazo, diz desta maneira: «Tam grande foi o tremor da terra que eu mesmo temia não cahisse o altar. Por ventura que atormentava Sam Miguel, então, por virtude, e poder divino, aos demonios, que naquellas ilhas encon- tra vão (sic) o serviço do Senhor, e os mandava, e cons- trangia que se fossem dahy e se recolhessem no Inferno». Nenhum cazo fez o padre do terremoto, refreando o temor natural, e procedendo com grande serenidade no sacrifício da Missa; sabendo que ella era a de que tremendo os demonios, fazião tremer a terra. Assi como Deos Nosso Senhor deu capacidade aos Morotezes pera receberem nossa santa fé, assi tãobem lhes deu constância pera sofrer e padecer muitos trabalhos, perda da fazenda, cruel cati- veiro, // e a mesma morte, pella confissão do nome de [112 Christo, Senhor Nosso. Apegou-lhes o dezejo de padecer o beato Padre Francisco, ao qual, os barbaros do mato, chamados lavaros, e outros infiéis, lhe procurarão, por muitas vezes, a morte, a qual elle muito dezejava, pera que, regada aquella nova christandade com seu sangue, lançasse fundas raizes na fé e produzisse fruito da vida eterna. Mas Nosso Senhor o livrou de seus inimigos, pera levar a Japão seu santíssimo nome. Grande foi a conço- lação espiritual que o beato padre recebeo do bom pro- gresso dos christãos do Moro; porque não sabemos que, até o anno de 1552, algum tornasse atraz, no qual anno, avia trinta e sinco mil christãos, repartidos em vinte e nove lugares; e mostrarão grande constância na perse- guição que os reis mouros de Geilolo, Ternate, Tidore, e 507
  • Bacham alevantarão contra a christandade. Trez mezes se deteve o beato padre nas Ilhas do Moro; e depois se tornou a Maluco. Detem-se o beato Padre Francisco em Ternate e trabalha por converter a el-rey de Maluco. CAP. 8 Tornando-se o beato padre, do Moro a Ternate, aga- zalhou-se na ermida de Nossa Senhora da Barra, até se acabar de fazer prestes a nao da carreira de Mallaca: mas, porquanto, a nao se avia de deter na ilha de Am- boino, quizerão os Ternatezes que os dias que o Padre Francisco, por razam da nao, se avia de deter em Am- boino, ficasse, antes, com elles; e que, depois, o man- darião em huma cara-cola bem esquipada pera tomar a n is r.i nao a tempo que se podesse // nella embarcar pera Mallaca. Não se fez o padre muito de rogar, pera con- descender com seus dezejos, pello muito fruito que de sua ficada esperava; o tempo da detenção foram tres mezes; nos quaes se exercitou com ajudar ao proximo, socor- rendo-lhe em suas necessidades temporaes, espirituaes; as confissões, por ser na Coresma, eram continuas; aos ser- mões acrescentou mais dous, cada semana, por rezão dos novamente convertidos; porque era necessário doutrinar a cada estado de gente, conforme sua capacidade e neces- sidade; na doutrina dos meninos, e na penitencia de seu corpo, foi sempre o mesmo que nas outras partes. A gente rude, que, por sua incapacidade, não comungava, de tal maneira foi doutrinada, que comungava com devoção e fruito spiritual; desterrando as suprestições da infideli- dade, da qual ainda avia muitas relíquias. E pera que se 508
  • conservassem na fé e doutrina que receberão, trouxe con- sigo alguns moços de Maluco, que se criassem no Collegio de S. Paulo; pera que, depois de sacerdotes, fossem aju- dar a seus naturaes, convertendo a huns, de novo, a fé, e conservando aos mais antigos nella. Em Ternate com- poz a declaraçam da doutrina christã, que começa: «.Fol- gai, christão, de ouvir, e saber como Deos, criando, jez todas as couzas, pera serviço de homens», e deixou encar- regado a Irmandade da Misericórdia que todas as noutes fosse pella povoação, tangendo a campainha, e, em voz alta, encomendasse a todos que rezassem pellas almas do fogo do Purgatório, e por todos os que estavam em peccado mortal. Trabalhou muito de converter a nossa santa fé a el-rey de Maluco, por nome Aeyro; com o qual tomou grande amizade, depois de tornar de Goa, aonde Jordam de Freitas, Capitão de Ternate, o mandara prezo; a quem o Governador Dom João de Castro fez inteira justiça, absol- vendo-o da culpa que lhe punhão de se fazer parceal dos castelhanos que foram a seu reyno; e lhe fez muitas mer- ces, mandando-o, honradamente, pera Maluco, em com- panhia do novo Capitão Bernardino de Souza; e que man- dase a Jordam de Freitas pera Goa, restituindo-lhe, pri- meiro, todas as perdas, e danos que Aeyro tinha recebido // injustamente. Muy satisfeito ficou o rey, do governador, un v.j com tão bons despachos; mas soube-se aproveitar mal delles, e da comunicação, doutrina e exemplo do beato Padre Francisco; ao qual, com tudo, dava mostras de amor, por sua bondade: tarn fermoza he a virtude que, ainda aquelles, que nada querem delia, a estimão em muito. Tratando, pois, com el-rey, muitas vezes, sobre a sua conversão, respondia-lhe, algumas vezes, cortezammente, 509
  • que ja o avia de tomar, e amar com aquella tacha de mouro; outras, que não era bem se dezaviassem por tam pouco; poes, emfim, os christãos e os mouros adoravam o mesmo Deos, e eram quazi a mesma couza, e que, em algum tempo, o avião de ser sem nenhuma diferença. Cuidava o barbaro que ser mouro era pequena tacha; e sendo, na verdade, tam grande como he, pois a ley que se segue lhe concede, ou permitte tantas abominaçoens, na materia da carne, e sensualidade, na qual elle estava ato- lhado ate as orelhas, sendo cazado com cem molheres, e amancebado com muitos centenários das que o não eram, parecia-lhe que o zello do Padre Francisco o avia sofrer e ter por amigo, perseverando elle com seus peccados. E quanto ao que dizia que os mouros não são idolatras, posto que seja verdade, conhecem, porem, tão mal a Deos, como os idolatras; pois negam o mistério da Santíssima Trindade, como elles negão; nem sabem mais de Deos quem lhe tira o que Elle he, que quem lhe poem o que não he. E nada ficou ao padre por fazer, do que lhe pa- recia necessário pera a conversão deste mouro a nossa santa fé; mas nenhuma impressão nelle fizerão suas pre- gações, posto que com benevolência as ouvisse; mas a carne venceo ao spirito, o qual estava afogado entre a multidão das occaziões que das portas a dentro tinha. O mais a que chegou, foi prometer que faria a hum filho christão, com tanto que o governador da índia o fizesse rey das Ilhas do Moro; mas nem isto comprio, conforme a lealdade púnica, que ensina não obrar conforme a pro- messa dada; porque, alcançando o Padre beato Fran- cisco, de Dom João de Castro, a investidura do reino pera o filho, e mandando de Goa as provizões que lhas dessem, [ii4 r.) quando o baptizassem, elle o não quiz fazer, // antes se declarou por inimigo publico, dos christãos, tomando-lhes as fazendas, e desterrando-os de seus estados; e ainda aos 5 i o
  • portuguezes procurava, secretamente, todo o mal e guerra que podia; não se lembrando, o barbaro, que os portu- guezes o fizeram duas vezes rey; assi crece, muitas vezes, com a obrigação, o odio. Baptizou, comtudo, o beato pa- dre a muitos, aos quaes não pozeram medo os espantos do ingrato rey e cruel tirano, porque se baptizaram duas irmãs do mesmo rey; e alguns sobrinhos seus, filhos dou- tras duas irmãs; porque os mouros de Maluco não tinhão, naquelle tempo, tanta obstinação, como tem os de Ber- béria, e aos que na índia chamamos de carapuça; antes, diz o beato padre, na terceira carta do Segundo Livro, que os mouros, naturaes destas ilhas, eram rudes, e sa- bião pouco mais de nada da pestilenta doutrina que se- guião; confiando no Senhor que facilmente se poderiam tirar das ceremonias e ritos da impia seita; que, se cada anno, viessem de Portugal pessoas de bom zello e exem- plo, apostadas a morrer entre elles, converterião a muitos, ainda que tivessem poucas letras. Alem disto, avia nestas ilhas muitos gentios que dezejavão ser christãos; con- forme seus dezejos, o cazo seguinte. Indo hum navio de portuguez fazer, acazo, agoada a ilha chamada Burro Grande, que esta defronte de Am- boino, e tem duzentas legoas de Costa, baptizaram mais de quatro mil almas; as quaes não deixaram outra dou- trina que o Real Estandarte da Cruz, arvorado na praya pera que de joelhos, a adorassem. A Solor, que he terra larga, rica, e de bons ares, donde vem o sandalo, oito grãos e tres quartos do sul, chegou hum portuguez, que baptizou o rey, a raynha, e a corte; e mandaram pedir ao nosso reitor de Mallaca que os fosse doutrinar, ou man- dasse quem os instruisse na fe, e que todo o reyno se faria christão. Não podendo os nossos ir, mandou el rey hum sobrinho seu, pera que depois de bem industriado na fe, podesse ensinar a seus naturaes os mistérios delia. Cha- 511
  • raava-se o mancebo Dom Lourenço, muito hábil e de nobre condiçam. A christandade de Solor tem a sua conta d» v.) os religiozos //de Sam Domingos; hum dos quaes indo ter a huma ilha chamada Camaya (?) (28) de muitas legoas, e de gente sem numero, deo o sagrado baptismo a muitos. Partio-se, finalmente, o Padre Francisco, de Ternate pera Amboino, com grande sentimento de todos, e rompendo, ao dar a vella, em hum pranto desfeito, ate os escravos, meninos, e os mesmos mouros, que o cha- mavão Pay, Mestre, e Senhor. Como chegou a Ilha de Amboino. CAP. 9 Atravessando o golfam pera Amboino, correndo a cara- -cola em popa, indo os passageiros em boa pratica, se não quando, subitamente, se alevanta o Padre Francisco em pe, com grande sobresalto, o rosto abrazado, os olhos pera a parte onde levavão a proa, e, arremetendo com ambas as mãos ao proprio peito, rasgou a roupeta por diante, dizendo em vozes altas: «Iesus, Iesus, aquelles homens! Que matão aquelles homens»! Alvoroçou-se grandemente a embarcaçam, acodiram todos a ter mão nelle, pergun- tando-lhe que via? que dizia? que couza era aquella? Mas tornando, no mesmo ponto, sobre si, assentou, dizendo que não era nada; e continuou na conversassão com grande serenidade do rosto. Tanto que tomarão porto na ilha de Amboino, acharão que no mesmo tempo em que o padre se alevantara, dizendo: «matão aquelles homens», ma- (28) Talvez a ilha de Adunara, conhecida também pelo nome de Lamala e ainda por outros, que eram simples lugares na mesma ilha. 5 I 2
  • taram os ladrões, na mesma praya, a certos portuguezes; logo todos afirmarão que este fora o sobresalto do beato padre, a quem Deos revelou a morte daquelles homens, pera que naquella hora os ajudasse com suas oraçoens. Chegados na terra, alevantou na praya huma igreja de madeira para o culto divino, e fez huma choupana pera seu recolhimento. Estavam ally trez, ou quatro naos (29), e nenhum // ficou, dos que nellas hião, que se não con- ms r.) fessasse. Estando aqui, hum dia, pregando, parou no meyo do sermão, e disse ao povo que se pozessem de joe- lhos, e rezassem hum Pater Noster e huma Ave Mana pela alma de Diogo Gil, que naquella hora estava em passamento em Ternate; onde o deixarão, avia poucos dias, bem desposto. Antes de partirem, chegarão de Ma- luco outros navios, dos quaes se soube como Diogo Gil fallecera no mesmo dia e tempo, em que o Padre Fran- cisco o encomendara ao povo. Achou nesta ilha hum por- tuguez doente, com o qual continuou sempre confessan- do-o, falalndo-lhe de Deos; te que lhe morreo na mão; e no ponto em que expirou, com os olhos arrazados em lagrimas: «bendito seja Deos, em boa hora aqui cheguei, pera a alma deste homem»; o que os prezentes logo inter- pretarão, como se lhe fora revelado que se salvara; nestes vinte dias, que aqui se deteve, vizitou todos os lugares dos christãos da terra. Baptizou as crianças, concertou as igrejas ja feitas, fazendo edificar outras de novo; encar- regou a santa doutrina, em cada lugar, aos que melhor a podião, cada dia, ensinar aos meninos; alevantou mui- tas cruzes, por diversas partes; na adoração de huma das quaes mostrou, depois, Deos Nosso Senhor, seu divino poder, em confirmação da fe e grande conçolação dos christãos. Estava a Santíssima Cruz arvorada na praya, (29) As naus de Fernando Távora de Sousa, a caminho de Malaca. 5 13 IKSULÍKDIA, II — 33
  • a vista do mar, e terra; igualmente era venerada dos pescadores, e lavradores. Daqui perto estava ainda hum pagode, que os gentios sempre respeitarão mais que os outros; ao qual humas molheres, novamente baptizadas, vendo-se em grande necessidade da agoa, para as suas novidades, a foram pedir ozando das feitiçarias antigas, de que, naturalmente se despedem mal as molheres, ainda depois da fe. Sabendo, porem, do cazo huma molher ins- truída nos mistérios de nossa santa fe, e cazada com hum portuguez, as reprendeo gravemente de sua pouca fe, ameaçando-as com novos castigos, persuadia-lhes o are- pendimento e penitencia para que, mediante ella, alcan- çassem de Nosso Senhor perdão de suas culpas, e, junta- mente, agoa para suas hortas e sementeiras. Facilmente as persuadio ao que dezejava, dando ellas por escuza de sua superstiçam a ignorância de nossa santa ley, pare- cendo-lhes que não prohibia pedir agoa ao pagode; que esta vão prestes para receber a verdadeira doutrina, que ha ins v.i ensinasse. // Levou-as, então, consigo a cruz que o santo padre deixara na praya; emrramaram-na, varrerão-lhe o terreiro, e, pondo-se todas de joelhos, dizião: «Senhor, que conheceis as necessidades de vossas creaturas, pellas quaes padecestes morte, e paixão, dai-nos agoa, pois que somos christãs». Couza maravilhoza! Tanto que fizeram sua oração, estando o ar puro e sereno, nem avendo sinal algum de chuiva, subitamente, se começou o ar de en- grossar, e o sol de recolher seus raios, pondo-se entre elle e a terra grossas nuvens, que logo se desfizeram em tão copioza chuiva, que os ramos da Cruz ficaram mais fres- cos, e a terra apagou a grande sede que tinha, ficando tam regada que facilmente se deixou cavar, recebendo em seu grémio as sementes, com certa esperança de chegarem a dar o dezejado fruito, respondendo a cento por hum; e as novas plantas da fe, com este milagre, ficaram con- 5 i 4
  • firmadas, lançando fundas raizes para que a tempestade da perseguição as não arrancasse do campo da Igreja. Muito tempo se não fallou, por esta occazião, na ilha de Amboino, se não no infinito poder de Deos, na vertude da Santa Cruz, e nos merecimentos do beato Padre Fran- cisco que ally a posera. Deram, logo as molheres christãs, com outras que as seguirão, no pagode, e depois de o arrastarem e afrontarem, em satisfação da honra que tão indignamente lhe fizerão, em outro tempo, o lançaram por hum rio abaixo, mostrando quanto mais poder a agoa tinha nelle para o desfazer, do que elle tivera para a dar. Chegando-se, pois, o tempo da monção da mesma ilha pera Malaca, e índia, pedirão muito os officiaes da nao del-rey ao Padre Francisco que se embarcasse nella; e dado que a nao fosse mais segura e a melhor accomodada, na qual hião embarcados todos seus devotos e amigos, que lhe rogavam o mesmo, o beato padre escolheo hum dos outros navios que ficavam. E disse, tres vezes, com effi- cacia, ao mestre da nao do trato: «Gonçalo Fernandez, não me hey-de embarcar na vossa nao, porque arreceo vos castigue Deos, e vos vejais, nesta viagem, em grande pe- rigo». Partirão de companhia; e, passando juntos o estreito de Sabam, somente a nao del-rey deu numa pedra, onde quebrou todos os ferros do leme; esteve tão perdida, que não ouverão por menos milagre acharem-se fora do pe- rigo que não esperavão, que ve-los nelle o beato Padre Francisco, estando ainda em Amboino, do que logo muitos se lembrarão e o contarão // publicamente na mesma nao. im r.j 5 1 5
  • Como o beato Padre Francisco se encontrou em Maitaca com tres da Companhia. E da penitencia de João de Eiro. CAP. io Tornou o beato Padre Francisco de Amboino pera Mallaca, aonde chegou em Julho de 1547; aqui achou tres companheiros, que da índia lhe mandou o Padre Paulo Camerino, conforme a ordem que de Amboino, por suas cartas, lhe tinha dado. Tomou esta ordem do Padre Francisco, no Cabo de Comorim, aos Padres Francizco de Manzilhas, Antonio Criminal, e João de Beira; o qual, nomeadamente, mandou ir; porem, o Padre Antonio Cri- minal não foi; nem o Padre Manzilhas, porque, como diz o Salvador do Mundo, hum será tomado, e outro deixado; ordenando assy isto Deos Nosso Senhor, por seos altos e secretos juizos, que os homens não alcançam; o Padre Antonio Criminal ficou na Pescaria, pera derramar seu sangue, em confirmação de nossa santa fé; o Padre Fran- cisco de Manzilhas perseverou no bem começado (sendo o primeiro que em Portugal foi recebido na Companhia; e na índia, o primeiro que não perseverou) por não que- rer, como acho escrito, ir para Maluco. So dos tres cahio a sorte da Missão ao Padre João da Beira; e dos quaes tinhão vindo do Reyno, ao Padre Nuno Ribeiro, e no Irmão Nicolao Nunes que chegarão a Goa em Setembro de 46, e partirão em Abril de 47 para Mallaca; onde ja avia mez e meo que esperavão a monção, quando ally nu v.] chegou o Padre Francisco. Este foi o primeiro // encontro que o beato Padre Francisco teve com os da Companhia, depois que partio do Reino. Não saberei dizer qual foi mor alegria; se a que recebeo em seu coração o pay com a vista dos filhos; se a que os filhos receberam com a 516
  • vista de tal pay, os que vinhão de Portugal muito alvo- roçados, pera o ver, pello muito que delle, em Portugal, ouvirão; parecendo-lhes que, em sua vista e santa conver- sação, se farião verdadeiros discípulos de Christo, Nosso Senhor, alcançando por seu meyo a perfeição religiosa. Por outra parte, erão muy grandes os motivos de gozo spiritual que o beato padre recebia com sua vinda, conci- derando quam desapegados estavam do mundo, deixando as próprias terras, e comodidades, em que foram criados, correndo com alegria apoz a cruz de Christo, a qual tão sua he, aos que vivem nas ilhas de Maluco, posto que he doce e suave aos que com ella se abraçam, com cuja vista, paciente e alegremente se animão a sofrer as fomes e sedes, as perseguições dos falços irmãos, as treições dos mouros, os perigos do mar, e da terra, e a falta do neccessario pera passar a vida. Chegando-se a monção de Maluco mandou os tres sol- dados de Christo, de socorro a chistandade daquellas ilhas, tam dezemparadas de sacerdotes, pera que lhe adminis- trassem os sacramentos, e ajudassem a conservar na fé recebida e aumentassem o numero dos fieis. Este anno se deu principo a residência de Maluco, guardando a mesma ordem, na vizita dos christãos, que em Comorim se guar- dava. E o Padre Mestre Francisco ficou so em Malaca, exercitando com o proximo sua costumada caridade, e zello que tinha, de ajudar a todos; servindo aos doentes do hospital, pregando e confessando; sendo tantos os que se dezejavão confessar, com que muitos se queixavão de os não ouvir tam depreça como elles dezejavão. Acon- teceo aqui em Mallaca que seu discípulo e companheiro João de Eiro aceitou de hum devoto huma soma de cru- zados, sem que seu Mestre o soubesse. Não se lhe pode encobrir a liberdade do companheiro, em receber aquelle 5*7
  • dinheiro, sentindo muito aquella afronta feita a may e senhora, a santa pobreza; reprehendeo-o asperamente, e o degradou a Ilha das Naos, a fazer penitencia de seu peccado, padecendo naquella pequena e dezerta ilha grande pobreza em huma choupana que ally fez, para que a mesma pobreza, a quem ofendera, lhe desagravasse o Senhor; foi couza maravilhosa o muito que lhe rendeo 1117 r.i este retiramento, porque, estando huma // noute, das que alli passou, parecia-lhe que se achava nhuma fermosa igreja, que tinha a porta pêra o Sul; na capella-mor da qual via a imagem de Nossa Senhora, assentada nhum estrado, com grande magestade: estava com a Raynha dos Anjos o menino Jesus; o qual tomava pella mão a João de Eiro, e o levava a virgem. Via-se elle com o Menino, mas a puríssima Virgem não sofria que elle che- gasse ao estrado; vendo-se, poes, o pobre homem no meyo dos favores do filho, e da severidade e desfavores da may, diz que a Senhora lhe falou de certas couzas, que erão suas culpas, e defeitos; e não acabava de cair na conta, permittindo-o assy o Senhor, para que o fizesse depois, com mayor luz. Ouvidas, de joelhos, suas faltas, reprezentou-lhe que a Senhora sahia da capella pera o corpo da igreja; e que dezapareceo; não causando nelle, a vizam, outro effeito, que duvidar se fora sonho, ou couza sobrenatural. Acabado, pois, o tempo da peniten- cia, chamou, o Padre Francisco, ao Companheiro (que nunca foi da Companhia, senão discípulo seu) por que se confessace; assi o fez, sem tocar na confissam em couza alguma daquellas de que a Virgem o avisara. Então, o padre, com o rosto grave e sereno: «que foi? diz o que vistes, e passastes na Ilha». «Nada, padre»; negando tudo, a pes juntos. Atte que o mesmo padre lhe contou tudo quanto vira, e ouvira; ficou o penitente attonito, e quazi fora de sy, de puro temor, e respeito; acabando de 5x8
  • entender que Deos morava no padre, entendendo o mis- tério da vizão, mais pello que ouvia, que pello que vira; e fez perfeita confissão de suas culpas. Aqui, em Mallaca, deu o padre licença a João de Eiro para que tomasse outra vida, despedindo-o, comtudo, con- solado, e satisfeito, dizendo-lhe que avia de ser religioso da sagrada religião dos Menores, e que nella acabaria, como de facto acabou, como bom e santo religioso; e, ao tempo que testemunhou estas couzas, o era já. Embar- cou-se, depois disto, João de Eiro, para a India, em a nao Bujala, de que era pilloto Gonçalo Gracia; o qual jurou que, sendo tanto avante, como a ilha de Ceilão, se acha- rão subitamente, huma noite, tão metidos na baixa, que ficava a nao com a proa ja sobre a pedra. Todos se derão por perdidos; senão quando, no meyo daquella grande perturbação, sahio João de Eiro, dizendo que não temes- sem, e confiassem em Deos; porque o Padre Mestre Fran- cisco lhe dissera, em Mallaca, que a nao passaria hum perigo estremo; // com as quaes palavras todos ficarão nu v.i animados, e alegres, e, dahi a pouco, livres, sahindo a nao do banco, por mezericordia do Senhor, como to- dos crião, por oraçoens e merecimetnos de seu servo. Da devação que causava tios que ouviam sua missa. CAP. li Achando-se, por este tempo, em Mallaca, o Douttor Cosme Saraiva, diz no testemunho que deu do beato Pa- dre Francisco que, ouvindo-lhe, muitas muitas vezes, a sua missa, hum dia que a disse no hospital daquella Ci- dade, pouco depois de ter consagrado, lhe pareceo, que o 5 1 9
  • via sospenço no ar, com os pes alevantados do cham, e de- clarou, que o não affirmava, mas somente depunha o que lhe parecia; porque a devação, que lhe o padre fazia, era tão grande que podia, com ella, imaginar que via o que, por ventura, não via. Ministrando o mesmo padre, em Goa, o Santíssimo Sacramento, ao povo, na nossa igreja de S. Paulo, dizem que o fazia de joelhos, por esta pos- tura dizer milhor com a da meza da Comunhão, que era nos degraos do altar, e mais baixa, parece, do que con- vinha. Aqui foi visto, por vezes, alevantado no ar, mais de hum covado, com os joelhos dobrados, como se estivera sobre elles, na terra, tendo-os iguaes ao alto da toalha, que tinhão os que comunga vão; assy o deu por escrito hum doutor theologo, de muita authoridade, ao Padre João de Lucena que o refere; no qual escrito affirma que, por vezes, o ouvio contar, andando na índia. Estando o beato padre nas ilhas de Chincheo, de- fronte de Cantão, pertendendo a entrada na China, catte- quizou settenta pessoas, das quaes servião em as naos. Concertou-se, poes, o convez de huma delias o melhor que foi possível, desparando todas as pessas de artelharia, e soando os instrumentos da paz e guerra, embandeiran- do-se, juntamente, as naos neste dia de tanta alegria, ma r.i Andava o beato padre no meyo delles, // fazendo-lhes os santos exorcismos, com hum rosto tão alegre e cheo da devação, que levava em poz si os olhos de todos; mas a maravilha foi que, avendo entre catecumenos alguns, muito mais altos do corpo que o beato padre, elle, na- quelle acto, appareceo tanto por cima de todos, que, no- tando os portuguezes, cuidaram que devia de estar em pe sobre algum banco; e, pera se certeficarem, o foram ver com os olhos; e, achando que trazia os pes no mesmo andar dos catecumenos, e não sobre couza alguma que o podesse representar mais alto, e que, todavia, o estava 520
  • tão notavelmente sobre todos elles, ficaram attonitos, fal- lando entre si das grandezas de Deos, que seja pera sem- pre glorificado, pois he servido de honrar seus santos por tão differentes modos. Ouve, porem, muita differença entre este modo, e os outros dous: por que, nos primeiros, foi o beato padre arrebatado da força do Spirito, ou estando por ministério dalgum Anjo; porem, no derra- deiro, parece que foi por mudança das species, ou ima- gens nos olhos dos que o vião, da maneira que Christo Nosso Senhor appareceo a Magdalena, no horto, em fi- gura de hortelão; e, no caminho de Emaos, aos discí- pulos, em figura de peregrino; não avendo mudança em o Senhor, senão nas species que em diversas figuras o reprezentavão. Também me parece provável que no ter- ceiro cazo fosse o beato Padre Francisco arrebatado do Spirito ou que algum anjo bemaventurado o sostentasse no ar, pois a historia diz que apparecia por cima de todos que erão de mayor estatura que elle; quanto ao que dizem os portuguezes, que o vião com os pez no mesmo andar dos catecumenos, diria eu que aqui ouve a mu- dança das species em seus olhos; de maneira que con- cedemos nesta maravilha e levação, ou do mesmo Spirito, ou do anjo; e juntamente mudança nas imagens que o reprezentavão estar com os pez no convez; o que não tenho por inconveniente. Andando, ao mesmo tempo, na índia, Antonio de Andrade, servindo a el-rey nas armadas, ajudou huma vez a missa ao Padre Francisco, e achou-se nella tão conçolado e alegre que, ainda que mancebo, o tornou a buscar, ao outro dia, pera lhe ajudar a missa, o que fez muitas vezes, afim de sentir naquelle alto sacrifício aquella suavidade e gosto special que na primeira vez sentira. Em dous passos da missa viram sempre ao beato padre, 521
  • banhado em lagrimas; quando consagrava, e quando con- 1X18 v.i sumia: // passos verdadeiramente dignos que todos os sacerdotes tenhamos muy prezentes, quando a elles che- gamos; pois, no primeiro, fazemos, mediante as palavras da consagração, que o filho de Deos, feito homem, se po- nha debaixo das species sacramentaes; ficando, em lugar da substancia creada, o verdadeiro corpo, e sangue de Deos humanado, que he muito de notar pera nossa humil- dade, pois nos toma por instrumentos de tarn alto e sobe- rano mistério, deixando de tomar os bemaventurados spi- ritos, tanto mais dignos que nos, quanto o são em natu- reza, e estado que tem; e, se devemos ser humildes na consagração, muito mais o devemos ser na sagrada comu- nhão, porque não encorramos na ira e maldição, que São Paulo lança aos que indignamente commungão: Antes que o beato padre commungasse, tomava o Senhor nas mãons, e fazia oração pella conversão dos infiéis, que elle mesmo compoz, as quaes sam as seguintes. «Eterne Deus, omnium rerum Creator, memento infide- lium animas te solum creasse, quas ad imaginem, et simi- litudinem tuam fecisti. Ecce, Domine, in opprobrium tuum eis ipsis inplentur inferni. Memento, Domine, Iesu Chrysti, fily tui, qui sanguinem suum tam liberaliter effundens, pro illis passus est. Ne permitas, Domine, eundem filium tuum, Dominum nostrum, a paganis amplius comtemni, sed precibus sanctorum electorum tuorum, et Ecclesiae beatisemae, ejusdem filii tui Sponsae placatus. Recordare misericordiae tuae, et oblitus idoltriae et infidelitatis eorum, fac ut ipsi quoque agnoscant, quem misisti Jesum Chris- tum, filium tuum, Dominum nostrum, qui est salus, vita et resurrectio nostra, per quem salvati, et liberati sumus, cui sit gloria, per infinita seculorum secula. Amen». Em portuguez he, como se disséramos: Eterno Deos, Criador 522
  • de todas as couzas, lembrai-vos que so vos criastes as almas dos infiéis, fazendo-as a vossa imagem, e seme- lhança. Olhai, senhor, como, em afronta vossa, se vai en- chendo delles o Inferno. // Lembrai-vos vosso filho Jesus m» Christo que, derramando tam liberalmente seu sangue, pa- deceo por elles. Não permitaes, Senhor, que seja o mesmo Filho vosso, e Senhor nosso, desprezado por mais tempo dos pagãos, mas aplacado com as orações dos santos, vossos escolhidos, e da Igreja Espoza beatíssima do mesmo vosso Filho. Lembrai-vos, Senhor, de vossa mizericordia, e esquecido de sua infidelidade, fazei que elles tãobem reconheção ao que vos inviastes ao mundo, Iesus Christo, vosso Filho, Nosso Senhor, que he nossa salvação, ressur- reição, e vida, pello qual somos livres, e nos salvamos, cuja seja toda agloria, pera sempre dos sempres. Amen. Assi orava pellos infiéis vivos, e cabado ja o sacrifício, quando dava as graças ao Senhor, nunca se esquecia de fazer outra commemoração pellas almas dos fieis defuntos, que a quantos ainda (podia) ser boa, a todos se estendia sua caridade. Neste mesmo anno de 1547 avia em Mallaca hum por- tuguez cazado, cujo filho, por nome Francisco de Chaves, sendo de poca idade, esteve tam perto da morte que todos o julgavão por morto. A may, que era java, tinha corrido todos os feiticeiros que avia na cidade, sem que nenhum delles lhe podesse dar o remedio que buscava; porem, sabendo o marido a supresticiosa diligencia da molher, re- correo, como mais fundado na fe, ao beato Padre Fran- cisco, pella devação que lhe tinha, pera que rezasse sobre o filho o santo evangelho: elle o fez, e foi logo dizer missa pella saúde do enfermo, a qual o senhor lhe con- cedeo, por merecimentos de seu servo. Este he o menino sobre quem o Padre João de Lucena fez hum discurço, 523
  • fundado na relação do Irmão Amador da Costa, que o fez morto, e resuscitado. Mas o que dissemos he certo, conforme a relação que me deu o Padre Francisco Ca- bral, e o Irmão Gaspar de Araujo que o conheceo e tra- tou. Indo o Padre Balthazar Dias a Malaca, por Supperior da caza que elli temos, recolheo este menino no collegio, que lhe servia de o acompanhar; e vindo para Goa, o meteo no collegio de Santa Fé, donde entrou na Com- panhia; e sendo mandado a China, foi despedido pello 1119 v.i Padre Francisco Cabral, Supperior da caza de Maccao // que foi depois de tornar de Jappão, e fazendo-se religioso de São Francisco, morreo santamente. Antonio de Sá Pereira jurou ouvir referir a Mestre Diogo de Borba que de Mallaca lhe vierão huns papeis, pellos quaes constava ser verdade que o beato Padre Francisco reçussitara huma mossa, filha da outra molher que, pouco antes, convertera a nossa santa fé: Os quaes papeis avia por tam certos, e dinos de credito, que os mandava, aquelle mesmo anno, a sereníssima Raynha Dona Caterina. O que Mestre Diogo contava ao dito Antonio de Sa, em prova da virtude e santidade do mesmo Padre Francisco Xavier. De huma súbita afronta em que se vio a cidade de Mallaca, a qual, por industria do beato Padre Francisco, foi livre dos inimigos. CAP. 12 Huma das cruéis guerras, que se pode fazer a huma cidade, he desviar-lhe os mantimentos, entupir os poços, quebrar os canos polios quaes he provida de agoa, impedir 5*4
  • o comercio; e tomalla de improviso, em tempo que todos estão descuidados; tudo isto aconteceo a Cidade e forta- leza de Mallaca, aos nove dias do mez de Outubro, do prezente anno de 47, as duas horas, depois da mea noite, que acertou de ser muy chuivosa e escura; tempo em que todos dormião, descuidados do asalto que o inimigo podia fazer. O cazo passou desta maneira. // Mandou o tirano 1120 r.i do Achem aprestar huma frota de secenta vellas, afora muitos balões, pera a costa de Queda, onde ia esperar as naos do trato e comercio do Poente, com desenho e traça de não deixar passar nenhuma a Mallaca, metendo a ferro a todo christão que achasse; e fazer huma fortaleza naquella costa, na qual deixasse gente de guerra, pera sua defenssão; e navios que a vigiassem e corressem, todos os annos, com o mesmo intento e effeito, no tempo das monções. A frota hia muy crespa, as galeotas, e outro [s] navios jugavão cameletes por proa e algumas meas spe- ras, com seus falcões de coxia; emfim bem fornida de artelharia. Embarcaram-se nesta armada cinco mil homens de peleja, toda gente escolhida e creados do rey, qui- nhentos de manilha de ouro, que entre elles he insignia de nobreza. Mas o melhor terço era hum bom numero de Turcos, e Ianiceros; por geral, hum mouro cruel, a quem o Achem tinha intitulado Rey de Pedir. Avendo, pois, de fazer a viagem para Mallaca, determinou de cometer a cidade, a seu salvo, por mar e por terra; servindo-lhe, para seus intentos, o tempo, que nam menos escuro (por ser as duas, depois da mea noite) que chuivozo; e o des- cuido notável dos nossos, sepultados no profundo sonno. Tomou porto, de improvizo, repartindo a gente em dous esquadrões; hum dos quaes avia-de ir, por terra, apalpar a tranqueira; outro por mar, a Ilha das Naos, pera dar fogo a todas as que nella estivessem ancoradas. Em tam grande aperto acudio Dcos, espertando os da cidade, os 5 2 5
  • quaes forão receber os inimigos a tranqueira, com dife- rente gazalhado, do que cuida vão achar; porque, arvo- rando elles as escadas, tentaram a sobida; mas foram re- batidos, a força do braço; tornando-se mais apressados ao mar, do que cometerão a terra. Grande foi o perigo do fogo que no mesmo tempo ouve na defenssão, e cometi- mento das naos; porque as alcanzias e panelas de polvora começarão a lavrar de tal maneira, em os navios, que se ouve por milagre não ficarem todos abrazados. Mas, com tudo, a nao del-rey, carregada de maça e nos, se ouve com tanto valor na peleja, que fez afastar os inimigos, assinalados com o ferro dos nossos. E na cidade, aquellas horas, tudo era confuzão, querendo cada hum acudir, sem tento e ordem, a todas as partes; te que esclarecendo o dia, appareceo a armada, posta em ala embandeirada de (120 v.i festa, tão perto da fortaleza, // que delia foram feste- jados com grossos pelouros de salvagens, e bazaliscos, que se não atreverão, os da frota, a esperar semelhante salva; e se foram retirando pêra a ilha de Upe, não muito afas- tado do pouso das naos, não levando de seu assalto outro fruito que a inquietação da nossa gente, perda de sua polvora e hum pato que tomarão nas hortas. Andavam sete homens pescando, os quaes, amanhecendo ao mar da armada, forçadamente lhe cairão na mão: tomados pellos baloens, e aprezentados ao general, a todos tirarão as orelhas, e os narizes, e alguns foram jarretados pellos ortelhos, escrevendo, com o proprio sangue dos mesqui- nhos, huma soberba carta a Simão de Mello, Capitão da fortaleza; na qual dezafiavão os nossos a batalha naval ou campal; aprezentarão os mizeraveis pescadores a carta ao capitão; o qual, por huma parte, se moveo a com- paixão dos mensageiros delia; e, por outra, zombava da ronca do dezafio; considerando sua pouca ventura no assalto que, de noite, como ladrões, fezerão, nam ouzando 326
  • de cometer a cidade de dia, por não ser vista sua cover- dia, a qual esconderam com as espessas trevas da noite, retirando-se aos navios com toda a pressa. Vinha neste tempo o beato Padre Francisco, de Nossa Senhora do Outero, onde fora dizer missa, pella prezente necessidade, e parece que ja trazia o despacho de sua petição. Tanto que o capitão o vio, o sahio a receber, dando-lhe conta da carta e tinta com que vinha escrita, perguntando- -lhe que lhe parecia naquella materia. Respondeo o pa- dre que não era aquella materia pera se passar com desi- mulaçam, que devia Sua Merce mandar armar os navios que ouvesse na ribeira, pera que, ao tempo da recolhida dos inimigos, lhe fossem dando nas costas, agazalhando alguns navios, com que não fossem tão saborozos, e nos não ficássemos dezacreditados, offerecedo-se o padre pera ir em companhia da armada, com a sagrada cruz, contra os inimigos de nossa santa fé. Posto que a empreza pa- receo difficultoza ao capitão, pella falta de navios de re- mos, comtudo, assy elle, como os mais capitães, appro- varão o parecer do padre e logo caminharão pera a ribeira, a ver as fustas do estaleiro, que, por todas, erão sette, e hum catur pequeno, sem outro aparelho, que os cascos tão rotos e destroçados, que não estavão para se alançar ao mar, nem o feitor tinha na feitoria couza com que se podessem concertar e armar os navios. Mas nem por isso o beato padre / / desmayou; e pondo os olhos nos circuns- uzi r.) tantes, repartio as fustas pellos mais ricos, pera que cada hum acudisse com a sua, de todo aparelhada pera pelejar com os inimigos. Cousa maravilhosa! Nenhum ouve que, com grande prazer e alvoroço, não aceitasse o partido, e tivesse a sorte por ditoza; metendo, cada hum dos arma- dores, antes de se partirem da ribeira, passante de cem homens, a trabalhar na sua fusta, subejando tudo na mor caristia de tudo. E foi o fervor de maneira que, aos cinco 527 >
  • dias, estavão as fustas prestes de todo o necessário para a guerra. O capitão-mor foi Dom Francisco Deça (30), com cento e oitenta soldados portuguezes. Mas nunca a cidade consentio que o beato PadTe Francisco se embar- casse, parecendo-lhes que, com seus sacrifícios, e ora- ções, ficava a fortaleza mais segura, estando elle, que com as armas dos que embarca vão, se nella ficarão; tanto mais vai a virtude de hum, que o esforço de muitos. Aven- do-se o padre, sempre, neste particular, com indifferença, deixando a escolha de ir ou ficar ao capitam e a cidade, ao que venceo a demanda, ficando o padre na fortaleza. Ouvio as confissões dos que se embarcavão, com grande satisfação de suas consciências, rezolveu-lhe suas duvidas; fezerão seus testamentos, armou-os com a comunhão do Santíssimo Sacramento, dando-lhes certas esperanças de vitoria; e a todos juntos fez huma pratica, com tanta effi- cacia e vehemencia de spirito, que ja não sabião a hora em que avião, ao som dos instrumentos da guerra, de levar a ancora e soltar as vellas ao vento, em busca do inimigo, com o qual se desejavam ja ver, com o remo em punho, e a lança na mão, para derramar o seu sangue pella fe de Christo, Nosso Senhor; pella reputação do nome portuguez; pella defenssão da fortaleza; pella liberdade do comercio, franqueando o mar as nossas naos; e, final- mente, para quebrantar os ânimos dos infiéis, mostrando- -lhes, a olhos vistos, que vai mais o esforço de poucos christãos onidos, que o de muitos milhares de mouros, confiados mais na multidão dos combatentes, que no valor de suas pessoas. Mas os soldados portuguezes, que nesta jornada foram, a vozes se conjurarão entre sy, e em pre- sença de todos, jurou ally e protestou cada hum solemne- mente de pelejar com aquelles inimigos, atté vencer ou (30) Francisco d'Eça ou Francisco de Sá 528
  • morrer pella honra, e fé de Jesus Christo. Lança mil ben- ções o padre a vontades tão christans, e tam santas; da- -lhes, e tomão elles, por apellido, a Armada e Soldados do Nome de Jesus. Com o novo // appelido ficaram mais [121 T.) contentes, que se tomarão o de Cezar, ou de Alexandre, montando-lhes mais o santíssimo Nome de Jesus, contra seus inimigos invocado, que juntos todos os nomes dos emperadores romanos e gregos. Mas esta alegria e conten- tamento ficou agoado, com a perda da capitania, a qual, subitamente, no mesmo ponto em que arrancou, se saso- brou; com cazo tão lastimozo começou logo arribar na fe e opinião da jornada muita parte da gente. Estava neste tempo o Padre Mestre Francisco em Nossa Senhora de Outero, onde fora fazer oração e dizer missa polia empreza. O povo andava amotinado contra elle, e contra o capitão; manda-o chamar muito a preça; achou-o na missa o pa- gem, dizendo com o Senhor nas mãos: Domine nom sum dignus; indo para lhe dar o recado, acabando de comun- gar, o padre o deteve, fazendo-lhe sinal com a mão que calasse. Acabada a missa, antes de ouvir o recado do capitão, nem saber do mensageiro o que passava, lhe disse: «Ide, meu irmão, e dizei ao senhor capitão que logo vou, e que se não agaste Sua Merce, por couza ne- nhuma; porque nas mayores pressas he Deos. Daqui se collige, e da oraçam que em voz alta disse, acabada a missa, que ja Deos lhe tinha revelado o cazo. Acabado o recolhimento, se foi a ribeira cheo de con- fiança, a quem o capitão pedio muito aquietasse o povo: o padre lhe estranhou a perturbação que mostrava, dan- do-se por achado de que o povo rude, e ignorante dizia: que confiasse em Deos, que poes a cauza era sua, Elle acudiria por ela, como de feito acudio no mesmo tempo; porque, fazendo o povo seus protestos sobre que não fosse a armada, os soldados se mostra vão sempre os mesmos, 529 iniul India, u — 34
  • pêra cumprir o juramento que solemnemente tinhão feito, e de novo o tornarão a fazer. O padre mostrando alegria da constância dos soldados, não se escandilizou dos cida- dães, e, pera aquietar a huns e confirmar aos outros, lhes prometteo, da parte de Deos, Nosso Senhor, polia fusta sossobrada, duas; as quaes não tardaria muito, e que, no mesmo dia, antes do sol posto, as verião ancoradas no porto, como virão, nas quaes vinhão sessenta portuguezes; de humas delias era senhor e capitão Diogo Soares, o ga- lego, e da outra, seu Filho Balthazar Soares. Não se pode crer quam grande fosse o alvoroço de toda a cidade, vendo [122 r.i tam illustre profecia comprida no // mesmo dia e hora que o beato padre prometeo as duas fustas; e o capitão da fortaleza foi dar os parabéns ao Padre Francisco, a Nossa Senhora do Outeiro, pedindo-lhe fizesse com os ca- pitães das fustas que fossem naquella jornada, por quanto levavão sua derrota pera Pegu. O padre foi falar ao mar a Diogo Soares, chamando a jornada romaria da Cruz, dizendo que, depões de acabada, iriam pay, e o filho, mais seguros e mais honrados para onde lhes importasse. Acei- tou Diogo Soares ir na armada, com seguro de não pagar direito na fortaleza, que por essa cauza, se afastara delia, pondo-se na franquia. Dezembarcarão, polia manhã, os dous capitães, com sessenta portuguezes, e, acompanhados de Simão de Mello, e dos outros capitães e soldados, fo- ram a igreja matris, a ouvir a missa do Padre Mestre Francisco. Fazem-se, as oito fustas, e o catur, a vella, a vinte e cinco dias do mez de Outubro, quinze, depões dos inimigos levantados do porto. Os capitães eram estes: Dom Francisco de Sa, cunhado de Simão de Mello, e capitam, que depois foi de Maluco; Dom Jorge de Sá, seu irmão; Diogo Pereyra; Afonço Gentil; Belchior de Siqueira; João Soares, Gomes Barreto, Diogo Soares, e seu filho, Balthazar Soares; e capitam do catur, Andre 5 30
  • Toscano, cazado em Mallaca. Nestes navios hião manti- mentos pêra hum mez, e duzentos e trinta portuguezes. Levavão por regimento que não passassem da ilha Pullo (31) Sambillão: termo do Reyno, e estado de Mal- laca da parte do Poente. Da viagem que fez a nossa armada atte alcançar a vitoria dos inimigos. CAP. 13 Seguindo a armada sua derrota, chegou, aos vinte e nove do mesmo mez de Outubro, a Pullo Cambilam, que são sessenta legoas de Mallaca; e, conformando-se / / com [122 v.j o regimento, parou aqui. Mas nem sempre he prudência guardar o regimento, quando as circunstancias do tempo e lugar nos obrigão a seguir outro, qual tãobem seguira quem deu o primeiro, se prezente se achara; nem fiam menos os príncipes de seus capitães, em cazos nam espe- rados, que de suas próprias pessoas, se nelles se viram. Não tendo o capitão-mor rasto dos inimigos, fazendo gran- des deligencias pello ter, ouve diversos pareceres; diziam huns, os Achens devião ser tornados pera Samatra; pello que, não avia mais que esperar que voltassem outra vez para Mallaca. Outros diziam que fossem costeando alem do Pullo Cambilão, te encontrar com novas da frota ini- miga. Emfim, o capitão-mor se conformou com o regi- mento, pondo a proa em Mallaca; mas sobrevieram huns noroestes tam rijos e ponteiros pello olho, que foi neces- sário seguir sobre ancora, detendo-se vinte e trez dias, sem vingar hum passo. Passados elles, foram forçados (31) Pullo, ilha; do malaio pulau. 5 31
  • levar ancora, para se irem prover de mantimentos a Iun- calao, ou Tenessay, para onde o vento servia em poupa. Mas antes de serem tanto avante, o tempo e neccessidade de fazer agoada, os meteo no rio de Parles (32) cento e cincoenta legoas de Mallaca, onde, sendo ja de noite, en- contrarão hum parao de pescadores, os quaes deram novas ao capitão-mor como a povoaçam de Parles, que era da foz do rio, doze legoas, estava roubada, o rey fugido, a gente embrenhada pellos matos, a terra, emfim, toda de- serta, abrazada por cinco mil mouros Achens, que, avia mez e meyo, que ally entrarão; e faziam huma fortaleza sobre o rio. Correo logo esta nova por toda a armada, que com ella foi posta em alvoroço e prazer, vestindo-se todos de festa, embandeirando os navios, e que não ouvesse regra; e juntamente despararão toda a artelharia, pera que os inimigos tivessem, primeiro, a noticia da nossa armada que a vissem, lançando-lhe em rosto sua covardia, quando de noite cometerão a Mallaca. Ao fim de nossas bombardas, mandou logo o inimigo quatro baloens esqui- pados pello rio abaixo, a saber da nossa armada, pondo-se em mentes em ordem pera pelejar, deixando duzentos sol- [iz3 r.i dados doentes, e duas lancharas em // guarda de dous mil cativos; no mesmo tempo mandou o capitão-mor pello rio acima três baloens bem armados, pera saber se era verdade o que tinha ouvido aos pescadores; e, por quanto, o rio descarregava, com grande fúria, suas agoas no mar, esco- lheo posto detraz de hum cotovelo, que a terra fazia pera o rio, onde as nossas fustas podessem, com menos perigo, pelejar sem descorrer, perquanto, naquella paragem, aos correntes eram mais brandas, que no meyo, segurando juntamente as costas com as popas viradas a terra, entre (32) Rio e povoação marítima no reino de Queda, na parte seten- trional da Península de Malaca. 5 32
  • as quaes e ella não podia meter os inimigos. Encontrarão-se os balõens; e os nossos ferraram logo dos inimigos, e em principio da victoria tomarão três; o quarto fugio, a vella, e a remo, a dar a nova do que vira. Aconteceo isto a noyte que foi de hum sabbado pera domingo, seis de De- zembro. Estando, pois, as nossas fustas bem petrechadas, e a ponto da peleja, senão quando, as dez horas do dia, que era domingo, apparecerão os nossos balõens, gritando: «Prestes! Prestes! Com o nome de Jesus, que aqui temos os inimigos»! Acudio, com grande alvoroço, ao rebate, a armada toda; a qual o capitão foi correndo, e animando a peleja, fazendo em tudo officio de prudente e valerozo capitão; trazendo-lhes a memoria o juramento solemne de morrer ou vencer; e o appelido de Soldados de Jesus; e os merecimentos do beato Padre Francisco: escassamente se tinha o capitão-mor recolhido a sua fusta, senão quando vinhão os mouros descobrindo, repartidos em dez fileiras; as nove, de seis navios cada huma; e na fronteira, huma de trez galeotas de turcos, em companhia da lanchara do general, intitulado JRey de Pedir. O qual logo mandou por fogo a toda artelharia; da qual nenhum damno a nossa armada recebeo; posto que tão grande trovoada, som dos instrumentos, e grita de tantos mil homens podia por espanto a todos. Adiantaram-se logo as duas capitainas, e chegando-se huma a outra, de ambas se pelejavão com grande esforço; e sempre Dom Francisco correra muito risco, se Deos não guiara da fusta de João Soares hum tiro de camelo, tanto a ponto e a tempo, que meteo no fundo a lanchara do Rey de Pedir com morte de cento e tantos mouros, e foi, não somente bom pronostico da vi- toria, mas todo o fundamento da perdição dos inimigos; porque as tres galeotas turqueseas, assy se travarão entre sy, e atravessarão no rio, que não o podendo impedir, nem prever, as galeotas das segundas fileiras, vieram a cahir 5 3 3
  • tm v.] sobre ellas; o mesmo aconteceo as outras // fileiras: por que, como os navios inimigos vinhão a voga, mais esfor- çadas, ajudando-os a furioza corrente, quando se quizerão por sobre o remo, tinhão-o ja descaído huns sobre os outros, de maneira que nhum momento ficaram todos tão baralhados, e feitos barreiras dos nossos, que teverão tempo pera muito a seu salvo empregassem tres cargas de toda a artelharia, sem perderem tiro; e com tão bom effeito, que, das lancharas, nove ficaram no fundo, e todas as mais quazi destroçadas, com grande nomero de gente morta, vendo os soldados de Iesus, que, a olhos vistos, pelejara por elles o mesmo Senhor; chamando todos, a huma voz, por seu invictissimo e santíssimo nome, arre- meterão com grande animo aos inimigos; abalroando, quatro fustas nossas, seis dos mouros, e matarão, em breve espaço, perto de dous mil. Emfim, foi o numero dos mor- tos, na armada dos mouros, de quatro mil homens; onde acabarão os quinhentos de manilha de ouro, os Ianiçaros, e Turcos; o que tudo confessarão quinze dos seus, que, depois de tudo acabado, forão tomados e postos a tor- mentos e bem caro lhes custou o pato, pois tanto sangue por elle derramarão. Dos nossos faltarão quatro homens; hum delles, acho que foi certo soldado, que o beato Padre Francisco trazia consigo de Maluco; o qual fez embarcar nesta armada; dizendo que lhe faria Deos merce, se o ma- tassem; porque avia tirado de graves peccados; e naquela conjunção estava em bom estado; servindo-lhe a jornada de penitencia, e a morte, padecida em defenssão da fe, de Purgatório; que a este fim o dezejava o padre morto nesta empreza, pera que salvace sua alma, como piamente se pode crer; quebraram também a perna a hum Antonio de Bobadilha, a quem depois matarão os Jaós no cerco de Mallaca. A armada dos inimigos ficou toda em nosso poder, na qual se acharão trezentas pessas de artelharia. 5 3 4
  • e oitocentas espingardas, afora muitas armas. Sobretudo o rey de Parles, cobrando animo, a voz da milagroza vitoria, sahio dos matos com quinhentos homens, em breve se apoderou da tranqueira que os Achens tinhão feita, metendo a ferro os que ficaram em sua guarda, e o que muito estimou, pondo em liberdade duas mil almas cati- vas; e logo foi vizitar a Dom Francisco, não se fartando de dar a Deos as graças, e aos portuguezes, pello desa- pressarem de tam cruel tirano, e o restituírem a seu rey- no; fazendo-se, daquella hora, vassallo de el-rey de Por- tugal, com tributo de dous cates de ouro, todos os annos. O capitão-mor mandou a Manoel Godinho, pêra que fosse dar as boas novas da vitoria //ao capitão de Mallaca, 1124 r.i ao beato Padre Francisco e a cidade; e logo apoz elle, se fez a vella, com vinte e cinco navios, e em que entra vão trez galeotas, e catorze fustas, deixando as mais queima- das, por falta da gente que as mareassem, e levando a armada de Iesus inteira, carregada de honra e proveito. Do que neste tempo passou em Mallaca, emquanto não ouve novas de vitoria. CAP. 14 Bem disse o poeta mantuano (33), descrevendo a fa- ma, que era hum mal que não dava vantagem a nenhum outro na velocidade e ligeireza de caminhar de hum lugar a outro; que se esforça com a inconstância, e quanto mais se vai afastando, tanto mayores forças acquire: no prin- cipo he pequena e vay a medo; mas, vendo que os homens som ligeiros em crer, e que facilmente dam credito ao que (33) Virgílio. 5 5 5
  • ouvem, crece tanto, e fica tão agigantada, que esconde a cabeça entre as nuvens, e folga, como diz Ouvidio, de acrecentar cousas falças as verdadeiras; ja se os inimigos espalhão o falço rumor, de tal maneyra sabem pintar a mentira, que a fazem crente, ainda aos prudentes; e posto que saibão que a verdade se hade vir a saber, dá-se-lhes pouco disso, pretendendo, somente, quebrantar os ânimos e causar tristeza em todos, emquanto a nova certa não chega. Tudo isto aconteceo na cidade de Mallaca, em- quanto a nossa armada andou fora; porque avendo já corenta e tres dias que tinha partido e nenhuma nova che- gava, nem ainda dos balões, que Simão de Mello tinha mandado, tiveram os mouros occazião pêra devulgar que as duas armadas se encontrarão, e a nossa fora vencida e levada a Samatra; e que não se podia esperar outra couza de tão grande temeridade, qual foi a nossa, em querer com oito navios abalroar sessenta; e com menos de du- zentos soldados querer aprezentar batalha a cinco mil homens, contra os quaes entrarão os que andavão ao bafo do rey, gente valeroza: os Turcos, e Janiceros que pele- jão tão bem como os portuguezes; os quais, por serem H24 v.i tão poucos, forão logo cercados dos // inimigos, ficando de todas as partes por alvo e barreira das setas e pelouros dos inimigos. Com facilidade creo o povo de Mallaca esta mentira; e dezejando cada hum saber dos parentes e ami- gos consultarão os feiticeiros, os quaes, lançando suas sortes, dizião mil disbarates, fazendo que muitos tomassem dó pellos parentes, e amigos, que cuidavão ser mortos na batalha; e, sem duvida, este era o fruito que o demonio pretendia das falcidades que seus ministros pella terra espalharão, convém a saber, quebrantamento dos ânimos, tristezas dos grandes, mutins do povo, superstições das molheres, buscar os feiticeiros, e, sobre tudo, desacreditar a vertude e santidade do Padre Mestre Francisco. Mas 5 36
  • elle que seus pensamentos tinha posto em Deos, de quem esperava o comprimento da profecia, estava tão confiado, e certo na palavra que da parte de Deos tinha dado a cidade, que não duvidava ponto de os nossos averem de alcançar vitoria dos inimigos. Ardia o beato padre em zello contra o demonio, por se fazer buscar e valer, com puras falcidades. Andava pellas cazas, animando e con- çolando as pessoas mais afligidas, com certas esperanças de boa vinda e vitorias dos seus; affirmava-o nos sermões que fazia, as sestas feiras, na Misericórdia, e aos domingos na Matriz; e no fim dos sermões encomendava que todos rezassem hum Pater Noster, hua Ave Maria, pellas vidas e vitorias dos nossos. Porem, os Mallacenses se deixarão, de tal maneira, entrar da desconfiança, que começarão de ser pezados ao beato Padre Francisco, dizendo-lhe, ao decer do púlpito, que mais acertado fora mandar rezar aquellas orações pellas almas dos que na batalha mor- rerão, que pella vitoria, pois os nossos a tinhão perdido; mas nem por isso lhes mostrava mao rosto, negoceando-se com Deos para que trouxesse com tempo os nossos; e li- vrasse, com sua vinda, a cidade, das aflições em que estava. Neste mesmo tempo el-rey de Bintão ordia huma tea de ma digestão a nossa fortaleza, tomando occazião das novas que corrião da nossa armada ser tomada dos Achens; o cazo foi: sabendo elle da pouca gente que ficava na fortaleza, sahio do porto de Andraguire, que he na Ilha Samatra, com trezentas velas guerreyras, e se veo meter no rio Muar, seis legoas ao poente de Mallaca, pera dahy a acometer. Mandou logo saber por navios ligeiros a cer- teza de nossa armada, e a Simão de Mello // escreveo 1125 r.i huma carta chea de falcidades, que lhe pezava muito da nossa armada, por perdida; e que o Achem queria vir sobre Mallaca; que vinha ally, com aquella frota, como 5 37
  • amigo del-rey de Portugal pera pelejar com Achem, em detenção da fortaeza; que lhe desse licença para ir ancorar junto delia, antes que o inimigo tomasse o porto: que sua derota era ir dar hum exemplar castigo a el-rey de Patane ; mas que elle estimaria muito mais da-lo ao Achem comum inimigo dos bintões, e portuguezes. Bem entendeo o Ca- pitão Simão de Mello o mao animo deste mouro; e assy, respondeo mais a elle que a fingida carta, dizendo que estimava muito sua amizade; que lhe agradecia os dezejos que tinha, de com seu ferro assinalar os Achens; mas que tinha por muito certo que já, naquella hora, estavão elles bem assinalados do ferro dos nossos, prezos, e cativos, metidos no fundo, e as fustas tomadas, e muitas abra- zadas; que tivesse esta nova por mais certa que a con- traria que os mouros espalharão; pello que não tinha Sua Alteza pera que esperar, pois não tinha com quem pelejar naquelle porto; que seu parecer era continuar com a jornada, e pois tão grandes custos tinha feito, com aquella grande armada, os fosse tirar das costas del-rey de Patane, por cujo respeito tinha tomado aquella em- preza; que a nossa armada, se assy Sua Alteza ouvesse por bem, lhe iria segurar as costas. O mouro, porem, teve a cacha 23 dias, que parecerão aos nossos muitos mezes de cerco. Deste novo perigo lançarão todos a culpa ao Padre Francisco, por quanto fora o autor da nossa armada ir no alcance dos Achens; e que seria, se el-rey de Bintão viesse por cerco a Mallaca? Que gente avia na cidade, pera sua defenssão? Permitia Deos que seu servo padecesse, pera que a grandeza da illustre profecia, e o comprimento delia o não fizesse esvaecer. Estando, pois, pregando na igreja matriz, das nove para as dez horas, aos seis dias de De- zembro, no mesmo domingo em que foi a rota, estando 5 38
  • o capitam e toda cidade prezentes, indo ja pera o cabo do sermão, subitamente fez no rosto huma notável mu- dança, e, deixando o fio do sermão, começou, com nova elequencia, a propor e descrever o encontro e rompimento de duas armadas, como que apontava com a mão o que via. Estava o auditório attonito do que via; e, conti- nuando o padre, com grande fervor do spirito, poz os olhos no Crucifixo que estava sobre o arco da capella-mor, com o qual amorozamente falava, // pedindo desse vi- 112s v.i toria aos nossos, os quaes, em spirito via combater com os inimigos; dito isto, encostou a cabeça sobre o púlpito, por espaço de tres, ou quatro credos; no cabo dos quaes, tornou como se reçuscitara, com a vitoria, com o rosto tão alegre e sereno que a todos alegrou, e serenou, dester- rando de suas animas a tristeza e perturbação; e a pri- meira cousa que disse foi: «venceo, Irmãos, venceo por nos Jesus Christo. Agora, nesta hora, acabam os soldados de seu Santíssimo Nome de desbarratar a armada dos mouros Achens, seus e nossos inimigos, com morte de muitos, sem morrerem dos nossos mais que quatro. Logo parte de la quem nos aqui trara a nova, muito cedo, e sesta-feira que vem, teremos em Mallaca a armada toda, rica do saco dos inimigos, com os seus navios à toa, con- tente, vitorioza, triunfante. O que agora resta, he que fa- çamos penitencia das desconfianças passadas, e cheos de gozo e prazer spiritual, rezemos logo o Pater Noster, Ave Maria, polia merce da vitoria, pellas almas dos quatro que Nosso Senhor pera sempre levou na peleja. No mesmo domingo, a tarde, pregou em Nossa Senhora do Outeiro as molheres e christãos da terra, dando-lhes as mesmas novas da vitoria, especificando algumas particularidades, pera desterrar de seus ânimos as desconfianças passadas. E logo começarão, ao segundo e terceyro dia, de aparecer sinaes de vitoria; e foi o primeiro a retirada del-rey de 5 39
  • Bintão; chegando-lhe primeiro as novas de vitoria que a Mallaca; e cortou a cabeça ao que lhe deu as novas, em lugar das alviçaras. Chegou logo Manoel Godinho, mandado por Dom Fran- cisco dEça, confirmando as novas da vitoria que o beato padre, do púlpito, tinha dado; veo, emfim, aos onze de Dezembro, na sesta-feira assinalada pello padre, o capitão- -mor com a frota toda, com o triunfo merecido, e tantas vezes profetizado; no qual sahio o beato Padre Francisco com o Real Estandarte de Christo crucificado, acompa- nhado do capitão e da cidade; e todos juntos forão receber a praya os vitoriozos soldados de Iesus; seguirão-se, apoz isto, abraços do verdadeiro amor, com mais lagrimas de prazer, do que forão a partida as saudades, que em todos deixarão. Este foi o remate da gloriosa empreza contra os inimigos da nossa fé, na qual teve tanta parte o beato Padre Francisco; trouxerão tãobem o pato que os Achens [126 r.) levarão de Mallaca; o qual elles guardavão, // como preza singular, pera aprezentar ao tirano. Como Angero, jappão, veo ter a Mallaca com o Pa- dre Mestre Francisco. CAP. 15 Chegava-se, entretanto, a monção em que o beato Padre Francisco avia de passar a India; e para que não fosse sem alguma mostra da mercadoria, que muito deze- java, encontrou a hum japão por nome Angero, natural de Cangoxima cidade de Saçcuma, hum dos reynos de Japão, onde, sendo moço, cahio nalguns peccados; por meyo dos quaes o começou Deos de chamar. Não carecia 5 40
  • Angero nem do conhecimento, nem do temor do Creador; considerava que fazia justiça, e que tinha olhos mais que de lince, que tudo via e apremeava, conforme aos mere- cimentos de cada hum. Bastou esta pequena luz da propria consciência, para buscar o remedio de suas culpas; e não no achando nos seus bonzos, o foi pedir aos mercadores portuguezes, que esta vão no porto de Cangoxima. Foi delles bem recebido, e conçolado, dizendo-lhe que em Mallaca estava quem lhe poderia dar perfeita saúde, e rezão do mal que padecia. Mas não se acabou Angero com este primeiro brado do Senhor, pella difficuldade da viagem e perigos evidentes que nella se passão. Foi o se- gundo brado mais forte; porque, matando hum homem na propria terra, se acolheo as naos dos portuguezes; então lhe pareceo bem o primeiro concelho da jornada de Mallaca, por escapar da justiça. Alvaro Vaz, que era o que mais cabedal metia na conversão de Angero, per estar ainda de vagar, lhe deu huma carta comendaticia pêra hum Dom Fernando, que no outro porto da mesma costa estava de verga dalto: foi, deu a carta a Jorge Alvarez, capitão de huma nao, dando-se-lhe pello mesmo, a quem elle trazia; folgou muito com este alvitre, // pêra 1126 v.i o aprezentar ao Padre Francisco, de quem era muito de- voto. Levou-o, pois, a Mallaca, aonde ainda o padre não era chegado de Maluco; que foi para o jappão grande desconçolação; pedio, todavia o santo baptismo ao Vi- gário; o qual lho negou, porque, sendo cazado, deter- minava tornar a sua caza, molher, e filhos; permitindo Deos o erro do Vigário, pera bem dos jappões: porque he provável que, se recebera o sagrado baptismo, nunca mais tornara a Mallaca, fechando-se, por esta via, a porta a conversão de seus naturaes. Torna-se a embarcar, pera terra, toma porto na China; e ainda ja dahy, a vista da costa do Japão, com o vento em poupa, eis que sae da 5 4 1
  • terra huma tormenta, e em tanta força e ímpeto de vento, pella proa, que arribão ao mesmo porto da China, de- pois de passar grandes tormentas. Couza maravilhoza! Nelle achou Angero a Alvaro Vaz, o primeiro que em Jappão aconcelhou ao novo catacumeno se fosse ver com o Padre Mestre Francisco; e Lourenço Botelho, que tão bem o induzio a o ir buscar. Aqui se rezolveo, de todo, atormentado mais da propria consciência que da tormenta passada, a se embarcar pera Mallaca, com Alvaro Vaz, que ja estava sobre huma so amarra; recolhida, pois, a ancora, desfaldrarão as vellas, e, com bom tempo, che- garam a Mallaca; onde, tanto que lançarão ferro, dezem- barcarão, e na praya deram de rosto com Jorge Alvarez, que dantes o trouxera consigo. Leva-o logo ao Padre Mestre Francysco, o qual acharão em Nossa Senhora do Outeiro, fazendo hum cazamento, ficando com as primeiras vistas muito alegres e satisfeitos hum de outro, achando Angero muito mais do que tinha ouvido; não lhe deu logo o sagrado baptismo; rezervando-o pera o reverendíssimo de toda a India; e tãobem pera que com melhor solem- nidade fosse baptizado. Era de vivo emgenho; logo tomou o portuguez, quanto bastava pera se entender com o padre beato nas couzas de catequismo; o qual escrevia primeiro, e, depois, recitava de memoria, com grande facilidade; e foi gracioza a reposta que deu ao Padre Francisco, estra- nhando-lhe elle também, por graça, o modo, que tem de lançar as letras, e as regras, quando escrevem, que he de alto a baixo, e não de huma mão para outra, como se uza entre nos. Antes, o vosso, dizia, he o estranho, e menos natural, que como a natureza fez o corpo direito ao ho- mem, pondo-lhe a cabeça em cima, e os pes em baixo; asy he rezão que comesse o homem a escrever em cima, 1127 r.i e acabe em baixo; pois, em cada regra, //o fim são os pes, e o principio a cabeça. Elle, comtudo, aprendeo em 5 42
  • poucos mezes a formar as nossas letras e a escrever ao nosso modo, e o que he mais que tudo, de duas vezes que ouvio declarar o Evangelho de S. Matheus, lhe ficou todo o capitulo na memoria, com tanto entendimento, e luz das couzas da fe, que, avendo bem seis mezes, que a recebera, o ouve o Padre Mestre Francisco por capaz das meditações dos Exercícios Spirituaes. Deu-lhas o Padre Cosme de Torres no collegio de Sam Paulo de Goa, e na Sé da mesma cidade recebeu o santo baptismo da mão do bispo Dom João de Albuquerque, dia do Spirito Santo, tomando nome de Paulo de Santa fé, porque assy o quiz o veador da fazenda Cosme Anes. Também se baptizou hum seu crea- do, que nesta perigrinação e desterro o acompanhou. Embarcasse o beato padre pera o India; e do que escreveo ao Rey no. CAP. 16 Oito dias depois da chegada de Angero a Mallaca, se fez o Padre Mestre Francisco a vela pera Cochim, no fim de Dezembro de 47, deixando a cidade mui saudoza, e edificada de sua santa conversão; Angero foi em com- panhia dos mesmos portuguezes que de Jappão o trou- xerão. Também se embarcarão em outra differente nao huns moços que de Mallaca trazia, pera se criarem no collegio de Goa; encomendando-os a Gonçalo Fernandez, a quem avizou, como em principio da paga do frete, de hum grande perigo que havia de ter, como teve na via- gem, pera que se não descuidassem e fosse alerta. Elie veo na nao de Gracia de Souza; e sendo tanto a vante da ilha de Ceilão, avendo já entrado o mez de Janeyro de 48, o tempo rompeo com tanta fúria que parecia os esperava, 5 45
  • 1127 v. como em cilada, na // paragem de mayor perigo. Logo os ventos saltarão de hum rumo noutro, e os correram todos, em breve espaço; a qual tormenta o beato padre na sexta carta do Segundo Livro chama muitas tormentas, e as mayores que atte então vira no mar. Trez dias e trez noutes os assombrou a morte; os dias eram tam escuros, pella continua çarração que bem se pod ião chamar noites: as agoas que de dia arrebentavão em flor eram da cor do pez, horrendas e escuras, e de noite quebravam em fogo. A nao, quando era levada do ímpeto da tempestade sobre as altas serras das agoas, mais se parecia com a ligeira seta do arco furiozo despedida, quando vay cortando os ares, que navio que corta pellas ondas; mas abrindo-se subitamente os mares, e apartando-se huns dos outros, apa- recendo duas montanhas dagoa, assy desaparecia, como se entre ellas ficara sepultada. Esforçou-se a gente a tra- balhar, ao principio da tormenta; mas, depois que ella foi crecendo, tomando de cada vez novas forças, nem a nao acudia ao leme, nem avia lugar pera se marcarem as velas; e se alguma metia, nhum momento era dos ventos arre- batada; tudo era confuzão no meyo da escura noite: ali- jaram as fazendas, ficou a nao a arvore seca, governada da fúria do tempo; a morte andava diante dos olhos; os votos e as promessas eram quaes a neccessidade prezente pedia. O beato Padre Francisco, tendo animado e ajudado a todos, com sua prezença, santas palavras, e trablho das próprias mãos, tãobem se recolheo a fazer oração: jurou Francisco Pereyra, vereador da cidade de Goa que o achara nhum camarote, na noyte da mor força da tor- menta, f>osto de joelhos, diante de hum Crucifixo, com tanta devoção, que ainda, que o hia buscar, pera se con- fessar, vendo-o, comtudo, naquella tam religioza postura, lhe não quis falar, pello não estorvar; diz elle naquella carta que se entregou, quando o trabalho era mayor, as 5 44
  • orações da Espoza de Iesus Christo, que he a Santa Madre Igreja; a quem seu Espozo sempre ouve; e tomou por intercessores a todos os anjos, com special memoria de cada hum dos nove coros dos Patriarcas, Profetas, Após- tolos, Evangelistas, Mártires, Virgens, Confessores, e todos os santos; encomendando-se juntamente as bemaventu- radas almas dos padres, e irmãos da Companhia; e par- ticularmente a do Padre Pero // Fabro; e pera segurar, U28 r.i com mais certeza, o perdam de seus peccados, tomando por valedora a Rainha dos Anjos. Com estas e com a esperança que tinha nos merecimentos da paixam e morte de Iesus Christo, Nosso Senhor, ficou sua alma, não so- mente contente e segura, no meyo das tormentas, mas tão conçolada, e alegre, que passada a tormenta, não sentio mayor conçolação nem alegria. O que elle tudo atribue aos sacrifícios e orações de seus irmãos, dizendo assy: «muitas vezes me tem Deos Nosso Senhor dado a sentir, dentro em minha alma, de quantos perigos e tra- balhos corporaes, e spirituaes me guardou, pellos devotos t contínuos sacrifícios, e orações de todos os que militam debaixo da bemdita Companhia de Jesus; e dos que, depois que nella millitarão, estão ja na gloria, com grande triunfo. Dou-vos esta conta, caríssimos padres, e irmãos, do muito que vos devo, pera que todos me ajudeis a pagar a Deos e a vos mesmos o que por mim so não posso. Quando começo a fallar na Companhia de Jesus, não me sei sahir de tão deleytoza comunicação, mas, pois me he forçado acabar de escrever, acabo, confessando a todos os da Companhia: si oblitus unquatn fuero Societatts Nominis 1ESU, ablivioni detur dextera mea (34). Que, pois, Nosso Senhor, por vossos merecimentos, me fez merce de me (34) Cf. Ps. 136, 5. 5 45 INSCL ÍNDIA, It — 35
  • dar a entender, conforme a minha pouca capacidade, que pera alcançar quanto he, não tenho eu talento, o muito que devo a esta Companhia; rezão he que eu diga, e assy o digo, que, se alguma hora me esquecer da Companhia do Santo Nome de Jesus, primeiro me esqueça de mim mesmo». Affirmão todos que por oração do Padre Mestre Francisco cessou a tormenta, e a nao chegou a salvamento a Cochim, a doze de Janeiro de 1548, onde se deteve, emquanto escreveo pera o Reyno. A materia das cartas que escreveo a El-Rey Dom João trata da obrigação que Sua Alteza tinha, de mandar a índia pregadores de boa doutrina, e vida exemplar; que importava muito fazerem-se collegios, e dotarem-se da fazenda real, onde criassem e ensinassem na fe e bons costumes os filhos dos naturaes da terra, e dos portuguezes que morrião em serviço da Coroa; que pera a dilatação da nossa santa fe nenhuma couza mais serviria que enten- derem os governadores que avião de ser gravemente cas- tigados, e mais particularmente escreve ao Padre Mestre ii28 v.j // Simão, quanto el-rey devia estranhar aos mesmos go- vernadores, não favorecerem muito a cristandade e, em specialmente, não trabalharem por que se convertese a ilha de Ceilão; chegava a dizer que, se el-rey, nas cartas que sobre estas matérias lhes escrevesse, jurasse de os mandar meter no castello, em chegando a Lisboa, quando assy o não fizessem, mereceria muito, jurando-o, e muito mais comprindo-o; e noutra que escreve ao Padre Mestre Simão, diz assy: «He tempo, carisimo irmão meu, Mestre Simão, de dar hum dezengano a el-rey, pois esta mais perto do que elle cuida a hora em que Deos Nosso Senhor o ha-de cha- mar a dar conta dizendo: Redde rationem vilicationis 5 46
  • tuae (35); portanto, fazei que preveja a India de funda- mentos spirituaes, porque me parece, e queira Deos que me engane, que se ha-de achar o bom príncipe, a hora da morte, muy alcançado: temo que no ceo, Deos, Nosso Senhor, fallando sobre elle com os Santos diz assy: «El-rey mostra bons dezejos, por carta, pera que acrecente minha honra na India, e com rezão, pois, com este titulo, a possue; mas não castiga aos que não guardam as taes cartas, e mandados, prendendo, e castigando os que encar- rega de sua fazenda, se não procurão, como devem, os proveitos e rendimentos delia: isto vos escrevo Irmão Mes- tre Simão, para descarga da consciência del-rey, a quem toda nossa Companhia tanto deve, e se eu tivesse pera mim que Sua Alteza estava bem ao cabo do grande e dezenganado amor que lhe tenho, pedir-lhe-hia huma merce, pera com ella lhe fazer serviço, e he que, todos os dias, se occupe hum quarto de hora em pedir a Deos, Nosso Senhor, lhe de bem a entender e melhor a sentir dentro em sua alma, aquellas palavras de Christo: Quid prodest hotnini si universum mundum lucretur, anima vero sua detrimentum patiatur?» (36). Nem he de menos concideração o estillo que guardou, em escrever dos ami- gos e devotos, pello perigo que correm de fazer mercancia da devação, e uzo dos sacramentos; porque muitos ha que frequentão a confissão e a sagrada comunhão, fazendo delia grangearia, pera ganhar as vontades dos religiozos de authoridade com o príncipe, pera que, acreditando-os com elle, como testemunhas de vista de sua devaçam, tam errado no fim e na tenção, como defraudada do merecimento diante de Deos, se por seu amor, sem res- peitos // humanos, a fezerem. Mas homens semelhantes, 1129 r.i (35) Luc. 6, 2 (36) Matt, 16, 2Õ. 5 47
  • tanto que alcanção o que pretendem, facilmente se esque- cem de frequentar os sacramentos; e também dia que se cheguem a meza da sagrada Comunhão, quinta feira Santa. E assy como raramente se chegam a Deos, assy tãobem, poucas vezes, vizitam aquelles, por cujo meyo alcançarão o que pretendião. Emfim, podemos por a semelhantes na lista dos ingratos e desconhecidos a Deos e aos homens, convertendo as merces, benefícios, e boas obras, em desa- mor e ingratidão, contra seus bemfeitores, muitos seme- lhantes, nesta parte, as andorinhas; as quaes, na prima- vera, quando os campos se vestem de flores, e boninas, quando as arvores se abotoão, e as rozas, a vista do sol, se dezabotoão, deixando as terras peregrinas, entram em nossas cazas, e nellas fazem seus ninhos, com tanta con- fiança; passado, porem, o verão, depois de criarem seus filhos, nos deixam, indo-se a outras províncias. Emquanto os religiozos lhes são bons, não lhe saem estas andorinhas de caza; mas, depois que se vem alevantados, nem a porta lhe sabem, nem o nome; pello que o religiozo que fizer bem a hum deste, ponha os olhos em Deos que não pode faltar, tirando-os dos homens, os quaes, como diz o Profeta David, sam mentirozos em suas balanças. Por estas e outras couzas, avizou o Padre Mestre Francisco aos nossos, encomendando-lhes o vigiassem com cuidado aos que da devação e uzo dos sacramentos fazem mercancia, pera que melhorassem suas tenções. Escreveo tãobem o Padre Mes- tre Simão que não concentisse que seus amigos viessem a India com cargos, e officios del-rey, pellos não ver apa- gados do Livro da Vida; salvo se tivesse revelação que eram confirmados em graça, como o forão os Santos. Apostollos. Escrevendo sobre certo requerimento que hum seu devoto tinha com el-rey, diz desta maneira ao mesmo Padre Mestre Simão: «Joam me rogou vos escrevesse fal- lasseis por elle a el-rey no seu requerimento; e eu digo. 548
  • que elle acertara muito mais em andar com Deos, em requerimento do perdão de seus peccados; e se o vos poderdes la tanto favorecer, que o persuadais que se faça religiozo, e que não torne a India a ser soldado, fareis huma obra pia, que não sera menos que ganhar huma alma. Todavia, em satisfação de seus serviços, e que possa viver em Portugal, vos peço que, por amor de Nosso Se- nhor, o ajudeis». Escreveo sobre hum sacerdote rezidente em Cochim, que Sua Alteza lhe fizesse merce de o tomar por seu Capelão, sem moradia; porque, a sombra deste / / titulo, podesse cazar tres irmãs que tinha. [129 v.i Nunca escreveo a el-rei queixume de algum official seu, em particular; o que bem experimentou Dom Alvaro de Atayde, sendo capitão de Mallaca; o qual tomou, por força, huma via das cartas que o padre escrevia a el-rey, parecendo-lhe que, forçadamente, trataria nellas da sem razão, e injustiça que fez ao mesmo padre, e a Diogo Pereira; e não achando nellas o que imaginava, ficou pasmado, posto que não emendado. Numca o Padre Fran- cisco escreveo a el-rey sobre matérias tocantes ao Estado e governo da índia, sempre fugio do paço, não no po- dendo ter os governadores consigo, pera se ajudarem de seu concelho. Mais queria andar entre seus Paravas, ensi- nando-lhes as couzas de sua salvação, que entre os viso- -reis, aconlhando-os na materia do governo. Bem vio elle quam perigosa cousa he aconcelhar e numca errar; pir- mitindo Deos, muitas vezes, que os religiosos não acertem nos concelhos que dão, quando não sam conforme a sua profissão. E também via o que muitas vezes experimen- tamos, que os governadores, e capitães, dezejão ter de sua parte o parecer dos religiosos, pera que, em cazo que o negocio lhe não succeda, se adarguem com os religiosos de authoridade, lançando-lhes a culpa toda as costas; como se el-rey lhe dera os religiosos por concelheiros da 5 4 9
  • guerra, estando elles tam longe da profissam das armas, como os governadores, e capitães estam do governo da Religião. E para que a Companhia atalhace as desordens que nesta parte seus religiozos podião cometer, fez hum gravissimo decreto na Quinta Congregação Geral, que he o Cânone duodecimo, no qual manda, em vertude da santa obediência, e sob pena de inhabilidade pera quaesquer officios e dignidades, ou prelacias, e privação de voz activa, e passiva, que nenhum religioso da nossa Com- panhia se entrometa, de qualquer maneyra que seja, nem tome a sua conta tratar os negocios tocantes ao estado politico, nem dem concelho de fazer guerra; nem sejam embaixadores dos que a querem fazer, como expressamente declarou nosso Reverendo Padre Geral Cláudio Aguaviva, respondendo a duvida que aserca do Cânone lhe propoz o Padre Provincial Francisco Cabral. Numca o Padre Mestre Francisco deu em suas cartas avizos, nem alvi- tres, nem pareceres pera descobrimentos de ilhas e entra- U30 r.i das //de reynos, crecimento de rendimentos, ou fazendas reaes. Somente escrevia em favor da christandade, preten- dendo livrar os mesquinhos das vexaçoens que padeciam dos officiaes de Sua Alteza. Visita o beato Padre Francisco a christandade da Costa. CAP. 17 Dadas em Cochim as vias pera o Reyno, foi o beato Padre Francisco visitar aos christãos de Comorim, antes de partir pera Goa. Grande foi o contentamento que te- veram com sua vista; saindo os lugares inteiros a o rece- ber, cantando a doutrina, que pera elle era musica de 5 50
  • anjos. E costume desta gente e da outra, que mora pello sertão, receber seu rey, lançando os mainatos, ou lavan- deiros, pello caminho, cachas (37) brancas, pera que não ponhão os pes no chão. O mesmo recebimento fazem os christãos da Pescaria aos bispos e ao Padre Provincial, quando os vizitão, ajuntando danças e bayles. Desta ma- nera receberam o beato Padre Francisco, o qual não cabia de prazer, vendo a devoção e respeito que lhe ti- nhão os novamente convertidos; convertendo o recebi- mento de seu rey em honra dos ministros de Christo, e gloria do mesmo Senhor. Andavam, a este tempo, em serviço daquella christandade, os Padres Antonio Cri- minal e Anrique Anriques, Alonço Cypriano, e os Irmãos Adam Francisco, o qual, neste anno, faleceo em Rama- nacor; Manoel de Moraes e Baltazar Nunes, que eram todos os que tinhão vindo de Portugal, o anno de 46; tirando os tres de Maluco, e dous que ficaram em Goa, ajudando ao Padre Paulo de Camarino; que eram os Padres Nicolao Lanciloto e Francisco Perez. Com o zello e trabalho de tam boa gente estava aquella / / christandade 1130 v.i bem cultivada, de que foi bom testemunho hum moço da mesma terra; porque, indo elle embarcado com certo portuguez, deram a costa entre mouros e malavares, ini- migos capitaes da christandade; ao portuguez mataram e roubaram; ao moço, levarão a misquita pera que arrene- gasse. Respondeo: «So confesso e adoro a Jesu Christo». Acrescentam promessas e promessas, se se torna mouro; em tudo cospe, por ser christão. Vem as ameaças da morte; chama ditoza a hora em que o matarem. Levam da espada, espera animozamente o golpe, o qual Deos desviou; e, se não teve a coroa do martírio, não lhe faltou o animo nem os combates. Carrcgaram-no de ferros, andando sem- (37) Panos da índia, de algodão ordinário, feitos no Malabar. 55 *
  • pre sobre suas costas o açoute, te que, passando por ally hum capitão nosso, poz os cativos em liberdade, e os ini- migos tirou as vidas. Este mesmo contava da constância doutros, que, sendo escravos dos portuguezes e andando nas mesmas terras, entre mouros e gentios fogidos de seus amos, não somente não deixavam a fe, mas lhe pregavão a elle que tudo sofresse pella confessar; e que, quando algum delles morria na guerra, o amortalhavão e sepul- tavam com a cruz a cabeceira, cantando em lugar de Psalmos, a santa doutrina, e, postos de joelhos, emco- mendavão sua alma a Deos, os quaes acodiam ao Padre Francisco, dezejando viver entre christãos, pera que lhes alcançasse perdam de seus senhores; tornando a cativar a liberdade do corpo, pera alcançar a do spirito. Quando os paravas eram gentios, avião grande medo do demonio, o qual lhes aparecia de noyte, quando hiam a pescar; e se metia em alguns, dizendo que se não iria, ate darem fanões a seus ministros, pera o serviço dos pagodes (38); porem, de feitos christãos, estavam tam firmes e constantes na fe, que nenhum medo tinhão do animo, contra o que se esconde. Assi tinha hum christam dezafiado certo jogue muy autorizado entre os gentios, pera provarem ambos as forças no primeiro endemoni- nhado. «Vos, dizia o christam, vinde quantos quizerdes, prometei e offerecei, rogai e adoray; eu quero ir so, e [iji r.i não ei-de fazer / / nem dizer mais que estas palavras: «demonio, da parte de Jesu, Deos e homem verdadeiro, te mando que sayas logo dessa sua creatura. E apostemos o que quizerdes, que não ha-de sahir, por mais que vos façais, e, tanto que eu fallar, ha-de fugir». Grande foi, por certo, a fe deste christão, digno que por elle lançara (38) Pagode, termo empregado pelos escritores, uma vezes, com o sentido de idolo; outras, com o de templo oriental. 3 5 2
  • Deos os demonios dos corpos humanos; mas não foi neces- sário vir ao dezafio, porque o jogue se rendeo logo, di- zendo: «das leis seja o que for, eu busco de comer»; que he a mais certa reposta que podem dar, confessando sua ignorância e cobiça. Com interesse e grangearia do tem- poral dos jogues e bramanes vencerão os christãos noutra desputa, que teveram com os gentios; porque, dadas mui- tas rezões dambas as partes, alevantou-se hum christam e disse: «Pera que nos cançamos? Quereis saber quanto vay da nossa ley a vossa? Ponde os olhos nos vossos bra- menes, e nos nos nossos padres. Adoece hum gentio de vos outros, e entra o bramene a o vizitar e conçolar asy: manda ao doente que offereça tantos fanões ao pagode, tanto sandalo, tantos carneyros, e que logo receba saúde. Não vedes como o bramene segura o proprio interesse, com as offertas que logo recebe, não recebendo, o pobre enfermo, com igoal preça, a saúde? Cae doente hum christão. Que lhe aconselha o padre? Que examine bem sua consciência, que confesse seus pecados, porque Deos, muitas vezes, castiga nosas culpas com doenças; e, quando convém dar aos christãos arrependidos saúde, lha da per- feitamente, sem necessário uzar de remédios humanos. Que engano pode aver nestas palavras tam verdadeiras e san- tas, quam alheas de toda a cobiça? A mesma também he a verdade e santidade da ley que tal doutrina ensina». A reposta dos gentios foi espantarem-se do aviso e saber deste christam, dizendo: «quem poderá desputar com vos outros»? Favorecia o Senhor estes favores dos christãos com algumas obras maravilhosas. A certo enfermo lançou, hum delles, ao pescoço, as contas por que rezava, e sarou tam milagrozamente, que andavão depois as contas por todo o lugar, dando saúde aos doentes. Vizitados os lugares dos christãos, //se recolheo o uji *.i beato Padre Francisco a Manapar, com os padres que 5 5 3
  • estavam na costa, por espaço de quinze dias, no qual tempo fallou com cada hum delles, em particular, ani- mando-os a virtude e a perseverança nos trabalhos to- mados por amor de Deos, na cultivação daquella nova christandade. Repartio as estancias pellos soldados de Christo, nomeando por seu capitam ao Padre Antonio Criminal. E pera que todos se aprefeiçoassem na lingoa da terra, ordenou ao Padre Francisco Anriques fizesse arte delia, ao modo da latina, com suas declinações, e conjunçõens, e todas as mais regras da gramatica. Apren- deo o Padre Francisco Anriques, em menos de seis mezes, a fallar, a ler, e escrever as próprias letras da terra; e em breve tempo sahio com arte e vocabulário da lingoa. Mandou o Padre Francisco que hum sacerdote dos na- turaes pozesse na propria lingoa a declaração dos artigos da fe; e que os nossos padres a decorassem, aprendendo, juntamente, a pronunciação e assentos. Como o beato Padre Francisco passou por Ceilam a Goa, e daqui a Baçaim, e de duas conversões insignes. " CAP. 18 Da costa da Pescaria passou a ilha de Ceilam e dezem- barcou no Porto de Galle, onde vizitou a Miguel Fer- nandes, que estava enfermo e posto em grande perigo da H32 r.i vida, por cuja saúde foi dizer missa, // e, tornando da igreja, entrou outra vez em caza do doente, a saber como estava; e naquella mesma hora começava a sahir de hum grave accidente, que tinha, avia ja vinte e quatro horas, de que logo se achou bem, e ficou livre de todo, como elle mesmo depoz em seu testemunho. O que levava o 5 5 4
  • beato padre a Ceilam era ver se podia fazer christam a el-rei de Candéa, confiando nos merecimentos dos santos mártires de Manar e Ceylam, que lhe alcançarião de Deos, Nosso Senhor, esta merce, como Santo Estevão alcançou pêra Sam Paulo, em premio da ocazião que lhes deu de serem mártires de Christo. Nem se enganou o Padre Fran- cisco, porque achou o coração daquelle barbaro rey muito outro do que se podia cuidar, nem he de espantar que o sangue de tantos cordeyros abrandasse o coração dia- mantino, sendo o sangue de hum so cordeyro bastante para quebrar o diamante. Facilmente veio o rey no que o padre desejava, pedindo duas couzas bem justas, em lugar doutras duas que lhe concedia; que se fazia christam com todos os seus, e que se faria vassalo e tributário de el-rey de Portugal, com tanto que assentasse, o gover- nador da India com elle, firmes pazes, e lhe mandasse hum prezidio de soldados portuguezes pera que lhe segu- rassem o reyno, e que elle lhes mandaria pagar e satis- fazer de sua fazenda quanto o mesmo governador orde- nasse. Pareceo esta petição muy justa ao Padre Fran- cisco, offerecendo, de boa vontade, a el-rey, sua ajuda e favor, pera com o governador, dando-lhe esperanças de bom despacho, pedindo-lhe mandasse com elle seu embai- xador; o que elle fez, de boa vontade, com poderes bas- tantes pera contratar tudo o que dissemos, remetendo-se e obrigando-se, por suas cartas de crença, a estar por- quanto neste negocio fizesse o embaixador e o padre; os quaes, despedidos do rey, se embarcaram pera Goa, onde chegaram, a vinte de Março do prezente anno de 1548, avendo ja bem tres annos que o beato Padre Fran- cisco saira da mesma cidade, na qual achou sercadas as portas a seu intento, porque, alem da absencia do gover- nador, que neste tempo andava occupado nas guerras de Cambaya, o qual avia de responder aos regimentos dos 5 5 5
  • (132 v.i reis de Candéa, e Terna te, / / arreceava-se que, pella occupação e grandes despezas da guerra, não estivesse em tempo pera lhes difirir. Ajuntava-se a terceira dificul- dade; e era ter vindo, o Vigário Geral Miguel Vaz, do reyno, bem despachado; o comprimento do qual des- pacho avia de executar Dom João de Castro; vindo nellas muitas couzas de pouco gosto aos officiaes del-rei e a seus capitaens; e o Padre Francisco avia solecitado ao Padre Miguel Vaz pera ir ao Reyno, dando-lhe os prin- cipaes pontos da embaixada; pelo que, o governador, não estava muito saborozo da Companhia. Mas o beato Padre Francisco rompeo por todas estas difficuldades, pondo os olhos em sua inocência; pois na ida de Miguel Vaz ao Reyno não teve outros respeitos, que os divinos, pera bem da christandade, não se temendo de nada, pois em nada tinha culpa, confiado na verdade, a qual, posto que a tempos seja emcuberta, todavia resplandece, ainda nas trevas, alcançando a palma da vitoria; assy aconteceo ao Padre Mestre Francisco com o governador, a quem com sua humildade venceo e rendeo, de tal maneira, que de boa vontade e com muito gosto veo em tudo o que lhe pedio, e o reconciliou e fez benevolo com a Companhia. Deu logo ordem ao capitão de Goa e ao vedor da fazenda agazalhasem, com toda a honra e largueza, ao embaixador de Candia, e aos que o acompanhavão, os quaes o beato Padre Francisco deixara no collegio de Sam Paulo; e, avendo-se elles de baptizar, os mandou vestir ricamente. E tornando no fim de Abril a Goa, contratou com o em- baixador e o Padre Mestre Francisco as pazes, e mandou a el-rei de Candia Antonio Monis Barreto (que andava no serviço, e tinha dado grandes mostras de bom caval- leiro, e depois, por seus heróicos feitos, veo a ser gover- nador da índia, por capitão de cem soldados portuguezes, dos melhores arcabuzeros do Estado, mandando-lhe jun- 5 5 6
  • tamente peças de muito preço com que se ornasse no dia do baptismo. Também satisfez a el-rei de Ternate, fi- cando elle tam satisfeito do governador que, por seu res- peito, se baptizou; e por sua morte fez // herdeiro de seu uj3 r.i reyno a El-Rey de Portugal Dom João o terceyro. E quanto ao príncipe de Tanor tãobem lhe offereceo seu proprio filho pera que o ajudasse na guerra; e que, quando tornasse do norte, que o iria ajudar em pessoa, se fosse necessário, pello que, com grandeza de animo, em tempo de tanta necessidade, dezejou satisfazer a todos. Aqui em Baçaim encontrou o beato padre com Rodrigo ^ de Siqueira, o qual, estando o padre em Mallaca, antes de partir pera Maluco, huma noyte, foy ter com elle ao hospital, omiziado, a lhe pedir favor pera com as partes que tinha agravado; mas, antes que tratasse de buscar o remedio da paz e vida temporal que elle pretendia, pro- curou, primeiro, de lhe fazer dezejar o remedio da alma e pollo em amizade com Deos, de quem depende a vida spiritual e temporal. Exemplo, por certo, digno de me- moria pera os medicos spirituaes trazerem escrito, com letras de ouro, em seus corações e nos breviários por re- gistos, pera firme lembrança; pois o spirito he mais nobre que o corpo; primeiro se deve acudir as necessidades spirituaes que as corporaes, arrancando, primeiro, das almas os pecados, que dos corpos as doenças e trabalhos que padecem. Assy o fazia sempre o bemaventurado Pa- dre Francisco com aquelles que de sua authoridade se querião valer, e o fez com este omiziado; primeiro que falasse com os agravados, o encomendou a Deos, por muitos dias; e o confessou geralmente e fez com que frequentasse o sacramento da Penitencia e Comunhão, cada oito dias, exercitando-o juntamente em obras de humildade e caridade. Feitas estas diligencias lhe alcançou perdam de seus contrários; e porque não tornasse a recair, 5 57
  • fez com que trocasse os ares de Malacca com os da índia, a qual também lhe aconselhava deixasse, por ser occa- zionado a recaídas, e se embarcasse para o reyno, onde melhor se podia conservar na frequência de se confessar e comungar. Prometeo que assy o faria, mas, tanto que na índia se vio, logo se esqueceo da promessa, porque, provendo-o Dom João de Castro do Almoxarifado de Ba- çaim, nelle se ouve por desobrigado de comprir a palavra que ao padre tinha dado. (133 v.] Dous annos havia que se não confessava; // senão quando, hum dia, encontra com o Padre Francisco; que- rendo-lhe beijar a mão, confiado no segredo de sua ma consciência, o padre lha não quiz dar, afastando-o de sy, com o rosto grave e severo: «como, filho, disse, este sois vos? Muito mal compristes o que me prometestes, não somente em vos não irdes para o Reino, mas porque, da- quelle tempo ate agora, nunca mais vos confessastes. Não ei-de fallar convosco, nem serei vosso amigo, atte o não fizerdes». Ficou Rodrigo de Siqueira confuzo e attonito, vendo-se primeiro conhecido que confessado; confessou-se enfim com elle, com grande dor e arrependimento de seus peccados, recebendo ao dia seguinte, com muitas lagri- mas, o Santíssimo Sacramento, servindo-lhe a recaída de mor cautella. Nam foi de menor gloria de Deos, Noso Senhor, a conversam de hum soldado; o cazo passou desta maneira. Ajuntava Dom João de Castro, com toda a diligencia, huma armada pera seu filho Dom Alvaro ir tomar posse de Adem. De Goa foram, apoz Dom Alvaro, alguns na- vios de mantimentos, e oito fustas de soldados; entre os quaes se embarcou hum dos valentes da terra, que se costumão acutilar a cada canto com os da propria nas- ção e ley; os quaes tem a lingoa mais comprida que as lanças, a ninguém cometem, senão de assuada; prodigos .5 5*./
  • de palavras, os mores roncadores do Mundo; no tempo da paz, leoens; no da guerra, mais tímidos e medrozos que gamos; e na retirada, mais ligeiros que lebre acoçada dos galgos que a perseguem; finalmente, o soldado era conhecido em Goa por homem que mais tratava desta vida que da outra. Dezoito annos avia que se não confessava, e ja o beato Padre Francisco o trazia de olho; sabendo pois que se embarcava este soldado, da propria salvação tam descuidado, se foi embarcar na mesma fusta. Levadas as ancoras, largaram as vellas o vento, muy contentes todos, por levarem consigo o Padre Francisco. Chega-se na fusta ao soldado, acha-se prezente ao seu jogo, poem-se de sua parte na converçassão, não se carrega, ouvindo-o jurar, convidasse, por algumas vezes, a jantar com elle. Não lhe falta cortezia ao soldado; não estranha a nova amizade, antes levado delia, ja busca ao Padre Francisco, arrezoando bem delle; que com tal homem, o mate Deos, // que iria com elle ao cabo do Mundo. Vay pouco a [134 r.) pouco entrando em sy mesmo, conhecendo suas culpas e pezando-lhe delias. Sentio o beato padre os correos da graça, acrecenta a oração e penitencia pella salvação daquella alma, e começa a mudar a lingoagem; pergunta- -lhe, hum dia, estando sos, com quem se confessara, antes que se embarcassem? Por reposta, deu no principio hum grande gemido e suspiro, arrancando do intimo do cora- ção, que lhe roubou as cores, e arrazou os olhos de lagri- bas, e mudando o sembrante todo, respondeu: «Ay, pa- dre, muitos annos ha que me não confesso»! Nem a isto lhe dissorio (39) o padre, antes, como se no passado não fora nada, acode depressa: «Numa occazião como esta, quem não costuma fugir e pode morrer, que conta faz, se se não confessa»? «Não deixou isso, diz o soldado, (39) BNL: difirio. 5 59
  • de me lembrar, e fui ter com o vigário; não me quiz absolver, e eu o mereço». Poem-se o padre de sua parte, queixando-se do vigário e do grande rigor que com elle uzara, embarcandosse elle pera o Estreito, onde não avia parrochia, em que se podesse sacramentar; que não devia elle negar a absolvição a quem hia derramar o sangue pella fe; e deixava as occaziões em terra, sinal bastante do arrependimento dos pecados, que, por fraqueza, os soldados cometem; que com estes he o Senhor mais liberal em conceder o perdão, do que he com os outros que se não embarcão, ficando em Goa, pera levar boa vida. Ja o soldado se vai acendendo e abrasando com a pratica do padre, a qual o inflamava grandemente; ja deseja de tomar terra, pera que detrás de hum penedo, onde nin- guém o veja, tome vingança de sy mesmo; onde, lançado aos pes do padre, lhe manifeste toda sua alma, não dei- xando peccado, per minimo que seja, que lhe não des- cubra, pera que delle seja encaminhado. Cumprio-lhe Deos seus desejos, depois de bem instruído, pera se con- fessar de toda a vida; tomou a fusta terra, e confessou-se com o padre, com grandes mostras de arrependimento da vida passada, e grandes propozitos e dezejos de emmenda, no tempo que esta por vir. Deu-lhe pequena penitencia, por lhe facilitar a frequência da confissam; entendeo, contudo, o penitente, quam dezigual era a penitencia de suas culpas; porem, ficou consolado, com saber que o beato tomava a sua conta satisfazer a Deos por ellas; entrando logo no mato, e, em principio de paga, tomou (134 huma boa disciplina; e declarando //ao penitente que sua jornada era acabada, pois não viera a mais que a pollo bem com Deos, de novo o obrigou a perseverar no bem começado, entendendo por verdadeira aquella sen- tença, meyo caminho tem andado quem bem começa; e a outra: assaz se apresou quem se melhorou, e pera 560
  • mais certo e seguro quem bem continuou, entendendo que a perseverança coroa nossas obras e que, alfim, se canta la gloria; a qual o bom penitente alcançou, durando a conversam por toda a vida; a qual não somente emen- dou, mas tãobem empregou, te a morte, em satisfação de suas culpas. Lançando-lhe, pois, o padre sua bençam, o soldado continuou com sua derrota, muito outro do que se embarcara em Goa; e o beatto padre se tornou pera a mesma cidade, com mayor vitoria do que tornou Da- vid, com a cabeça do gigante pera Jeruzalem. Fundação do collegio de Mallaca: Procissam de Sam Thome, e da morte do Governador Dom João de Castro. CAP. 19 Neste mesmo anno de 1548 mandou o beato padre, no mez de Abril, ao Padre Francisco Peres, e ao Irmão Roque de Oliveira dar principio ao collegio de Mallaca, porque assy o tinha elle prometido aos moradores da- quella fortaleza; e fomos os primeiros religiosos que nesta cidade tiveram caza. Não avia, neste tempo, mais de quatro sacerdotes, e dous irmãos no collegio //de Goa; ujs r.i hum destes era o Padre Cosme de Torres, que fazia seu noviciado, a quem o Padre Nicolao Lanciloto, Superior dos nossos, no mesmo anno, dera os Exercícios Spirituaes. Dezembarcando, pois, em Mallaca, aos vinte e oito de Mayo, logo ao dia seguinte, o irmão abrio sua escolla; e em poucos dias chegarão os discípulos a cento e oitenta. Da mesma maneira fez o bom Padre Francisco Peres, occupando-se, com muita deligencia, no que lhe fora enco- mendado. Converteo aqui hum judeu famozo e grande 561 imvlÍndia, II — 36
  • rabino da ley velha; o qual se não converteo em Roma, no meo de tanta luz e resplandor da fe, onde se criara e nas- cera, pera que se veja como Deos foy o autor de sua con- versão, em terra onde menos se podia esperar. Foram os nossos aqui bem recebidos e agazalhados junto do hos- pital e Mizericordia, mas experimentando, pello tempo em diante, quanto importava sua estancia em Mallaca, os clérigos largaram aos padres a Ermida de Nossa Senhora do Outeiro, vindo também nisso o Reverendíssimo Dom João de Albuquerque, Bispo da índia, junto da qual a cidade nos deu humas cazas em que morássemos. E posto que entam éramos tam poucos, e o beato padre dezejava que ouvesse muita gente da Companhia na índia, dizia, comtudo, que mais arreceava que viéssemos a enfastiar aos homens, por muitos, que não que lhe faltássemos por poucos. Tornando o Governador Dom João de Castro, de Ba- çaim, no fim de Abril, a invernar a Goa, onde entrou, na semana de Pascoa, ordenou huma procissam, na qual mandou levar o retábulo do Santo Apostolo Thome, pa- droeyro da índia; foi o governador muito devoto do glo- riozo santo, por muitas cauzas; a primeira, porque, en- trando elle no Governo, se descobrio na cidade Melliapor, intitulada de seu nome, a misterioza cruz, altar que foi de seu sacrifício, e martírio. A segunda, porque em seu proprio dia ouve nas terras de Salcete vitoria de cinco capitães do Idalcam, com morte de tres, os mais nomea- dos, cincoenta mouros de cavallos, e seiscentos de pe, U35 v.i sem faltarem da nossa parte mais que hum portuguez, / / e dous mala vares, e sahirem feridos sete homens. A ter- ceira, por ser a primeira vez que por ordem dEl-Rey Dom João começaram os portuguezes na índia appilidar o nome do gloriozo Apostolo Sam Thome juntamente com o de Sam Tiago, ao romper das batalhas contra os infiéis. Em 562
  • reconhecimento, pois, e lembrança destas merces, mandou o governador fazer hum arco de pedra, que pêra isso trouxera da mesquita de Dio, com muitos pelouros, postos a vista, por cima da parede, e leões de pedra, com o escudo das suas arruellas nos peitos: dentro do arco ficava o retavolo do Apostolo Sam Thome, com a mão no lado do senhor, o qual acompanharam o cabido da Se, os pa- dres de Sam Francisco, os collegiaes de Santa fe, e gente nobre, e a soldadesca, em ordenança da guerra, com sal- vas de artelharia, e espingardaria, e todas as mais solem- nidades, e festas costumadas. Sahio esta pocissão da igreja de Sam Paulo. Quanto a porta, pella qual Dom João de Castro entrou triunfando, e na qual colocou o paynel do gloriozo Apostolo Sam Thome, digo que a couza passou desta maneira: junto do hospital del-rey, unidos com os muros antigos, se rompeo a muralha e pella abertura que nella se fez, entrou o governador com triunfo. Esta aber- tura se tornou, outra vez, a fechar, ficando da parte de dentro, na grossura do mesmo muro huma cappelinha do gloriozo Sam Martinho; todas as noytes arde diante de sua imagem huma alampada, da parte de fora; nas costas da capelinha estão humas ombreiras de pedra preta, com seu arco lavrado com molduras; de modo que esta mos- trando que por ally entrou o governador. Quanto ao pay- nel do Apostolo Sam Thome, ja hoje não ha delle me- moria, nem podia estar, decentemente, naquelle lugar, por estar exposto aos embates das invernadas, que são muy grandes; e ja pode ser que, por esta cauza, o tirassem dally. Da parte de dentro esta huma pedra, da qual consta aver por aquelle lugar entrado o governador. Mas não bastarão os triunfos que o governador alcan- çou dos inimigos de nossa santa fe, pera que a morte dei- xasse de cortar os fios da vida a quem tanto merecia gozar delia. Dias avia, que andava com huma febre lenta que 563
  • [136 r.j //o hia consumindo, pouco a pouco. Largou parte do governo ao bispo, capitão da cidade, veador da fazenda, e outras pessoas graves, pêra que, juntas, determinassem o que se devia fazer. Foy o mal crecendo, de maneira que, nem a tornada do Estreito, de seu filho Dom Alvaro de Castro, nem as festas com que em Goa o recebeo, nem o novo titulo de viso-rey, com mais trez annos do go- verno, que el-rey lhe mandava, por se aver bem nelle, lhe aliviaram ponto da doença ou melancolia que padecia, por se ver as portas da morte; e dezenganando-se, que se o rey pode fazer merce aos vassalos, não lhes pode conceder vida pera gozar delias, pior tanto, entendeo parti- cularmente consigo, tendo por companheiros naquela hora ao Bispo Dom João de Albuquerque, de cuja mão recebeo os sacramentos; e ao beato Padre Mestre Francisco que, muy de preposito, o encomendou a Deos, e dous religiosos de Sam Francisco, por meo de todos os quaes deo satis- fação aos aggravados, pedio e mandou pedir perdão de queixas, e com sinaes de verdadeyro christão, que sempre foi, espirou com os olhos postos em Christo crucificado, de quem esperava a salvação de sua alma, a qual, pia- mente, podemos crer alcançasse, pois morreo com mostras de grande christandade. Foy sua morte, aos seis dias de Julho, de todos muy sentida e chorada; e seu corpo foy enterrado na capella-mor de São Francisco, e sua ossada foi levada ao reyno. Abriram-se as vias; sahio na se- gunda, por governador, Gracia de Sá, em lugar de Dom João Mascarenhas, que saira na primeyra, por já ser hido pera o Reyno. 564
  • Casos notáveis, nos quaes se mostra a grande comunicação que o beato Padre Francisco tinha com Deos, // Nosso Senhor. (U6 T.i CAP. 20 Dezejando o santo Padre Francisco dar huma chegada a Costa da Pescaria, a visitar aos christãos que tanto amava, o não pode fazer, por se achar presente a morte do Governador Dom João de Castro, a qual, como fosse em seis de Junho, quando o Inverno ja na India he en- trado, as barras estavão fechadas com os bancos das areas que os tempestuosos mares e ventos lanção na foz do rio, foi forçado invernar em Goa, na qual tornou a continuar com as doutrinas e pregações, como quando veo do Reyno. Dava os Exercícios Spirituaes a muitas pessoas que com elles melhora vão as vidas; como tãobem, por sua ordem, os deu, o Padre Cosme de Torres, a tres collegiaes de Santa Fe, hum dos quaes se chamava Andre Vaz, que veo, depois, a ser sacerdote e vigário de Sam João Bap- tista; este acompanhava ao beato padre, quando hia vizi- tar o governador, e tinha ordem sua que, dando duas horas, o fosse chamar. Hia e o achava com o rosto abra- zado e os olhos abertos; sem uzo, porem, dos sentidos, porque, fazendo o moço grande estrondo com os pes e com as portas, nada bastava pera a alma acudir. Hum dia, depois que Andre o deixou estar, assy, duas horas mais do tempo limitado, chegouce, e puxou por elle, atte que respondeo brandamente: «ja sam as duas»? E dizendo-lhe que ja o relogio dera quatro, sahio com o companheiro, pera ir vizitar o governador, que estava doente. Mas, como acontece aos que dormem, levantarem-se e fazerem o que, estando espertos, costumão, sem darem fe do que passa, levados da força da imaginação, asy levava o di- 5 6 5
  • vino sonno da comtemplação tam unido com Deos o spi- rito do beato Padre Francisco, que andou o que ficava da tarde, pella cidade, passando de huma a outra rua, e correndo-as todas com grande pressa, sem entrar em caza alguma, nem fallar com a gente, nem se lembrar do a que saira, nem dar acordo da cousa alguma, te que, [137 r.i ja de noite, tornou e disse, entrando pella portaria, // ao companheiro: «filho, outro dia teremos tempo para o go- vernador; o de hoje Deos o tomou pêra sy». Avia no collegio de Sam Paullo huma tribuna sobre o altar do Santíssimo Sacramento; nella passava as mais das noytes inteiras em contemplação; outras horas lhe anoutecia e tornava amanhecer na horta, perseverando em oração; humas vezes, na hermida de Santo Antam, outras, na de Sam Jeronimo, outras, passeando entre ellas. Es- preitavam-no os padres e irmãos, para se aproveitarem do seu exemplo na oração. Huma noyte ouviram na horta dar afectuozas mostras de Deos que o enchia; e acudindo com as mãos a afastar a roupeta do peito, porque aba- fava, e parecia queria saltar fora o coração, disse: «Nam mais, Senhor, nam mais». Este o passo que, ordinaria- mente, se representa nos retratos do beato Padre Fran- cisco, como, entre outros, o retratou o Padre Manoel Tei- xeira, no principio do tratado que escreveo de sua vida, e feitos heroicos; e os Padres Horácio Torcellino e João de Lucena, nos livros que delle compozerão, pintando hum rayo ou resplandor, que do ceo o fere; o derradeyro dos quaes o retratou também, quando, no hospital de Roma, consado do serviço dos doentes, o Senhor lhe pu- nha a boca o cálix dos muitos grandes trabalhos que lhe tinha prestes na India, e elle respondia, gritando: «Mais, Senhor, mais», dezejando, com São Paulo, padecer nau- frágio; com Santo Estevão, pedradas; com Sam Pedro, cadeas e grilhões; com São Sebastião, setas; e, finalmente, 566
  • os tormentos de todos os mártires, pera satisfazer aos grandes dezejos que tinha de padecer por amor de Deos. Mas de tal maneyra ajuntou a vida contemplativa com a activa que, com Maria, se punha aos pes do Senhor, con- templando; e, com Marta, o servia corporalmente no pro- ximo, acudindo a seu desemparo e necessidade que pa- decia, como muitas vezes se vio nos hospitaes e fora delles. O mesmo foi sempre no mar que na terra. Affirmou hum fidalgo, que muitas vezes se embarcava com elle, que sem- pre o vira nos navios estar em continua oração, de huma hora, depois da mea noite, atte a manhãa; porem, quando as tormentas obrigavam a gente ao trabalho, ninguém o aturava melhor, nem ja hia // primeiro que elle ao con- n« *.] vez. Era tão vehemente a força do spirito que, por mais que o pretendia temperar e encobrir, não podia; resplan- decendo de tal maneyra nos olhos, sembrante e pessoa o mesmo Deos, que, de puro respeito e reverencia, não avia quem lhe olhase direyto para o rosto. E taes eram as consolações com que Deos, entre dia, o visitava, estando fallando com os padres e irmãos, que era necessário man- da-los sair, pera receber o divino Espozo que o vinha vizitar. E tam habituado andava em fallar com Deos, que, ainda dormindo e sonhando, fallava com elle, di- zendo: «O bom Jesus, amor de minha alma; o Creador meu, o meu Senhor». De modo que, se o corpo dormia, o coração e spirito vigiava, fazendo mil jaculatórias ao ceo. Como era fervente na oraçam mental, assy o era também na vocal, e, particularmente, quando rezava o divino officio, fazendo-se prestes pera o dizer, com grande reverencia interior e exterior, applicando-se e inflaman- do-se o mais que podia em amor e respeito da divina Ma- gestade com quem havia de falar; e pera alcançar esta mesma atenção e merce do Senhor, offerecia ao Spirito Santo, antes de começar cada huma das horas, o Hymno 567
  • Vem Creator, com tam extraordinária devação, que pa- recia lhe arrebatavam o coração pera o ceo. Buscava-o muita gente, pera couzas de sua consciência; e muitas vezes lhe era necessário fechar o breviário, pellos ouvir e despachar; acontecendo, cinco e seis vezes, interromper o hymno e torna-lo a repetir, depois de ouvir os que o buscavam. E tudo isto, com tanta paz e serenidade, que nenhuma perturbação se enxergava em seu rosto. E po- dendo, conforme ao uzo daquelle tempo, pellas grandes occupações que tinha, de satisfazer, rezando o officio de tres lições, nunca o quis fazer, rezando sempre pello Bre- viário de nove liçoens. Neste mesmo anno de 1548, vierão do reyno o Padre Mestre Gaspar, framengo; o Padre Belchior Gonçalves; o Padre Antonio Gomez; e os Irmãos Francisco Gon- çalvez, Gil Barreto, Paulo do Valle, Manoel Vaz; e os Irmãos João Fernandez, natural de Cordova, e Luiz Froes, noviços. Esta foi a quarta missão que de Portugal se fez pera estas partes do Oriente. Nestas próprias naos mandou, nosso Santo Padre Ignacio, licença ao Padre [138 r.i Paulo de // Camerino e aos Padres Nicolao Lancilloto, Alonço Cipriano e ao bemaventurado mártir Antonio Cri- minal, pera fazerem os votos de coadjutores spirituaes. Das viagens que o beato Padre Francisco jez, passado o Inverno. CAP. 2i Aos nove de Setembro se embarcou o santo Padre Francisco pera a costa da Pescaria, donde, aos vinte e dous de Outubro, fez outra vez volta pera Goa, passando por Cochim; e detendo-se nelle, por todo Janeyro do anno 5 68
  • seguinte de 1549, passou a Baçaim; e ja no mes de Março estava em Goa, em vesporas da jornada de Jappão, que foi a principal couza de todos estes caminhos. E quanto ao primeiro do Cabo de Comorim, o grande amor que elle tinha aquella christandade bastava pera se não poder ir pera tam longe da índia, sem a visitar e conçolar. O grande cuidado e vigilância que o beato padre tinha sobre a christandade era couza delle fazer tantas jornadas. E porque andava em continuo movimento, disse hum reli- gioso grave da sagrada religião dos Menores que o beato Padre Francisco era muito andejo; parecendo-lhe desne- cessárias tantas viagens, quantas fazia. Ouvio-lhe esta censura o Padre Francisco Peres, o qual a referido ao Padre Mestre Francisco. A reposta foy que tinha pera sy, que suas viagens eram muito necessárias ao bem da chris- tandade, ajuntando: «se eu não correra estas terras, não soubera a necessidade que vay. E como podia eu prover e ter a experiência, pera dar avizo aos padres como se ham-de aver, porque a experiência he huma das prin- cipaes partes da // prudência»? Também dizia que corria 1138 T.i tantas vezes a christandade, pera descarregar a consciência del-rey que tinha obrigação a mandar pregar a ley de Deos nestas partes, por pessoas idóneas, e o que o avia movido a prover as christandades de gente sufficiente era a pura necessidade que nellas avia visto. Reposta, a meu ver, sufficiente pera qualquer bom entendimento se aquietar com ella e julgar por necessárias as viagens que o santo padre fazia. Mas he dino de perdão o religiozo o que notou, pello dizer com boa tenção, e desejar que todos fossemos mais amigos da vida contemplativa que da activa, tendo os padres de Sam Francisco tam raro exemplo do gloriozo patriarca, que gastava as noytes em divina con- templação, arrebatado pellos ares da vehemencia do spi- rito, te que Christo Senhor Nosso, o fez digno de lhe comu- 5 6 ç
  • nicar suas chagas e dores que com ellas recebeo, ficando mais obrigado com estes favores e merces a continua medi- tação e recolhimento, que seus filhos procuram imittar. E o nosso Padre Francisco, alem das rezoens que por sy allegou, tem exemplo do Salvador do Mundo, o qual, no tempo de sua pregação, não estava quieto no mesmo lugar, por muito tempo, mas andava de cidade em cidade, de villa em villa, de província em província, levando a luz do sagrado evangelho a todos; outras vezes mandava aos Apostolos e discípulos, pera que de longe se exercitassem a descorrer e voar pello Mundo, pello que, o Profeta Isayas os compara as nuvens levadas do vento, e o Profeta David diz que sua pregação foy ouvida no Mundo todo. E des- crevendo poeticamente a vinda do Messias, diz que subio sobre os Querubins e voou sobre as azas dos ventos, e que deu passos agigantados do ceo a terra. Também o padre beato tem por sy os exemplos dos Apostolos; e quem ignora a perigrinação de São Paulo? Ao gloriozo Apostolo imitou nosso beato Padre Francisco, em cujo collegio mo- rava; que asy como aquelle grande doutor das gentes, conforme o cuidado que lhe davão todas as igrejas, em nenhuma repousou; antes, atado ao divino Spirito, elle o levava ja a Antioquia, ja a Chipre, logo a Frigia, Ga- laria, Misia; dahy a Macedonia, a Thessalonica, a Atenas, depois a Corintho, a Efezo, e Cesarea, a Antioquia, outra vez e muitas; outra a Efeso, a Corintho, outra a Jeru- zalem, a Roma, e alguns dizem que foi a Espanha; com 1139 r.] hum fervor // e quazi hum perpetuo movimento, que so a conta delle poderam bem chamar, como chamou, con- tinua carreyra, toda sua vida; assy o foi por todo o tempo que andou na India a vida do Padre Francisco, e com os mesmos intentos de levar o santíssimo nome de Jesus por toda ella, como he notorio. Ei-lo em Cochim, ei-lo em Travancor, ei-lo na Pescaria; ja se parte pera Ceylam, 5 7°
  • Negapatam, São Thome, Mallaca, Amboyno, Malluco; donde faz outra vez volta, tornando a Goa, donde sahio; daqui faz sahida ao Norte, torna a Sam Paulo, aviasse para Jappam; daqui torna a Goa e, finalmente, vay aca- bar a vida a vista da China. De modo que, assy como o capitão, no tempo da batalha, anda de huma parte para outra, animando os soldados para a peleja, asy o beato Padre Francisco, considerando que a vida do homem he continua guerra sobre a terra, andava com fervor de huma parte para outra, animando os soldados de Christo, pera a peleja spiritual. Nam eram de menor inportancia as jornadas que fazia pera bem dos padres, que nas christandades se ocupavam, cujo trabalho na costa de Travancor e Pescaria era mais duro e continuo, por rezam das entradas e asaltos que os badagas, frequentemente, fazião. Ao Irmão Baltazar Nu- nes prenderam por duas vezes, e, se os christãos lhe não acudiram, ouvera de ser morto; rombando-lhe, contudo, a igreja onde residia. O irmão Manoel de Moraes foi por huma vez espancado, e por outra posto em duro cativeiro e resgatado por mil e duzentos pardaos. Os encontros sobre a prohibição dos pagodes eram frequentes, defen- dendo-os os gentios a ferros e a fogo, com ameaças de abrazar nossas igrejas. Mandou, hum dos poderozos da terra, dar fogo a huma delias; e logo sentio que o ator- mentavão, e conhecendo e confessando de sy mesmo que o mandava matar Jesus Christo, pello crime cometido contra a sua caza. E logo spirou, com espanto de toda a terra. Da mesma maneira acabou subitamente outro gentio, pouco depois que arremeteo com a espada dezem- bainhada a hum irmão da Companhia, por não consentir que alevantasse hum pagode. Por outra parte, continuava Deos com as merces e favores sobrenaturaes, dando ordi- nariamente saúde aos enfermos; humas vezes, por meyo 57 1
  • 1139 v.i //da agoa benta; outras, pellas oraçoens e santo evan- gelho, rezado sobre elles, com que crecião os fieis, de tal maneira, que, em poucos mezes, baptizou, hum irmão, oitocentas almas, e assolou muitos pagodes, e, em breve tempo, chegou o numero daquella christandade a cincoenta mil almas, frequentando os christãos as igrejas, duas vezes ao dia; pella manhã, quando sahião ao trabalho; e a noyte, quando se recolhião pera suas cazas. De todas estas couzas recebia o beato Padre Francisco grande con- solação sipiritual. Menos se fazia noutra banda da costa de Travancor; mas padecia-se mais, porque a crueldade dos senhores da terra, depois de prohibirem, sob pena de vida, aos seus, que se não baptizassem, passou a fazer força aos que ja eram baptizados, pera que deixassem a fé; e ao Padre Francisco Anriques, que lha pregava, teve o rey morto sobre a mesma cauza. De modo que .ainda que escapou, foy a persseguição tanto avante, que lhe parecia ao padre ser aquelle o tempo em que o Senhor aconcelhava ao dis- cípulos que fossem pregar a outras. E, com esta consi- deração, dezejava e pretendia que a santa obidiencia lhe mudasse a estancia. Porem, o Beato Padre Francisco lhe escreveo de Punicale, a vinte e dous de Outubro, do pre- zente anno de 48, e diz asy: «Deos, Nosso Senhor, sabe quanto eu mais folgara de vos ver que de vos escrever e de me consolar com vossos trabalhos, tomados por amor e serviço de Deos, Nosso senhor, que com as conçolações dos que levam vida des- cançada, por se lograrem dos deleytes do mundo. Destes he pera aver grande piedade e compaixão; dos outros, de quem Sam Paulo dizia: quibus ttmndus non erat dignus (40), he pera aver grande enveja». E pouco abaixo (40) Hebr. 11, 38. 57 2
  • diz: «Não vos desconsoleis em ver que não fazeis tanto fruito com esses christãos, como desejais, por serem elles dados a idolatrias, e o rey ser contra os que se fazem christãos. Olhay que mais fruito fazeis do que cuidais, em dar vida espiritual as crianças que nascem, baptizando-as com muita diligencia e cuidado, como fazeis; porque, se bem olhais, achareis que poucos vão da índia ao paraizo, assy brancos como pretos, senão os que morrem em estado de inocência, como são os que morrem de catorze annos para baixo. Olhay, Irmão meu Francisco Anriques, // que [«o r.j fazeis nesse reyno de Travancor mais fruito do que cui- dais. E olhay, depois que vos estais nesse reyno, quantas crianças baptizadas sam mortas, e estam agora na gloria do paraizo, as quaes não gozarão de Deos, se vos la não estivésseis? E o inimigo da humana natureza vos tem muito aborrecimento, e vos deseja ver fora dahy, pera que desse reyno de Travancor ninguém va ao paraizo. Costume he do diabo representar mayores serviços de Deos, aos que servem a Jesus Christo; e isto com ma ten- ção, pera dezenquietar e desconçolar huma alma, que esta em parte donde faz serviço de Deos. E temo-me que o inimigo, nesta parte, vos combate, dando-vos muitos tra- balhos e desconçolações, para vos botar fora dahy. E olhay que, depois que estais nessa costa (das que salvastes) (41), que podem ser oito meses, que salvastes mais nessa costa, das que salvastes, antes que a ella viesseis; não vos espan- teis dar-vos o inimigo muitas turbações, pera vos lançar fora dessa terra, donde não façais tanto fruito como ahy». Por este mesmo tempo fallecerão aquellas duas colunas da christandade, os Padres Miguel Vaz, Vigário Geral, que em beneficio da conversão foi ao Reyno e tornou muy favorecido de El-Rey Dom João, de gloriosa memoria, e (41) As palavras entre parêntese não vêm na cópia da BNL. 57 3 \
  • Mestre Diogo de Borba, reytor do Collegio de Santa Fé; o primeiro falleceo em Chaul, não sem sospeita de pe- çonha, que os gentios lhe deram, pello grande odio que lhe tinhão. O segundo falleceo no seu collegio de Goa, e foi sepultado na capella mor. Por sua morte, ficou Cosme Anes, veedor da fazenda, com o cargo do Collegio de Santa Fe; e não podendo correr com elle, o entregou ao padre Antonio Gomez, da nossa Companhia, no anno de 1548, e o Padre Mestre Francisco o aceitou, escrevendo ao Padre Mestre Simão, a Portugal, ouvesse a confir- mação de el-rey, o que se fez, mandando Sua Alteza que o Collegio de Sam Paulo fosse entregue aos padres da Companhia, com todas as rendas que tinha, como ja dissemos noutro lugar. Foy o Padre Mestre Gaspar, em Novembro de 48, por ordem do reitor de Goa, a fortaleza de Chalé, pera ver se poderia a Companhia aver ally sitio pera huma caza de Provação, em que se criassem os noviços, por ser a terra quieta, e de pouco trafego e de bons ares pera a conservação da saúde. Ja la tinha chegado a fama das pregações do Padre Mestre Gaspar, e a confirmou, exer- (i4o v.i citando o talento, // com que fez muito fruito, asy nos portuguezes, como em os christãos da terra. E todos deze- javam ter huma caza da Companhia, e lhe ofereceram bom lugar pera ella, cercado com suas paredes, junto do rio, e setenta pardaos de renda com que podesse prin- cipiar. Estando o padre nesses termos, senão quando o beato Padre Francisco aporta aquella fortaleza, e, dando as dividas graças aos devotos que offerecião o sitio e esmola, se escuzou de aceitar a rezidencia, por falta de gente, e levou para Goa ao Padre Mestre Gaspar. Andando o beato padre vizitando a christandade de Comorim, correo em Goa fama que os badagas o pren- derão e matarão, pella fe e defenssão dos christãos. Foi 5 7 4
  • muito pera ver o sentimento geral que, assy christãos como infiéis, mostravam ter deste caso. Todos logo sahi- rão, louvando e emcarecendo mais que nunca sua virtude. Descobrião-se muitos dos milagres que fizera, nem se fat- iava doutra couza que nas verdades de suas profecias, no fervor de sua caridade, na confiança que tinha em Deos, no sofrimento dos trabalhos; emfim, em sua vida, que mais parecia angelica que humana. Sobre isto aposta- ram-se algumas pessoas a irem buscar, entre os inimigos, as relíquias do santo corpo e gastarem, sobre as aver, atte trinta mil cruzados; e ja tratavam, muito de pro- pósito, de pedir e lembrar ao Sereníssimo Rey Dom João que o fizesse canonizar pello Summo Pontífice. Fundaçam de algumas Residências, destribuição dos sogeitos, e viagem de Mallaca. CAP. 22 Estando o beato Padre Francisco em Cochim, no principio do anno de 1549, chegaram as naos de Mallaca, dando por novas, como todos os portos da China estavam de guerra // contra os portuguezes, que pera a viagem tni rj de Jappão era o que se podia mais recear, por ser quazi impossível passar de Mallaca aquellas ilhas, sem tocar nos portos da mesma China. A qualquer homem fizera este rebate a jornada duvidosa; mas o beato Padre Francisco sempre avia estas carrancas e feros por mostras do medo que o demonio ja tinha de suas emprezas. Passou a Ba- çaim, onde entam nadava o governador Gracia de Sa, ^ seguindo a guerra de Cambaya; do qual ouve as provi- zoens necessárias pera em Mallaca lhe darem embarcação; e também negoceou com elle algumas couzas tocantes a 57 5
  • christandade. E, desta vez, negoceou em Baçaim caza e renda pera os catecumenos. Tornando, pois, o Padre Francisco a Goa, mandou, antes do Inverno, ao Padre Belchior Gonçalvez, e o Irmão Luiz, a tomar posse da- quella rezidencia, e esmola, pera sostentação dos christãos e da christandade. Depois, foi o Padre Baltazar Gago, com provizão do Governador Jorge Cabral, pera que, no lugar que melhor parecesse, se fundasse a caza da Com- panhia; a qual se deu principio aos vinte e quatro de Outubro de 1549. A residência de Tana fundou tãobem o mesmo Padre Belchior Gonçalvez, algum tempo antes da residência de Baçaim, que foi no inverno do mesmo anno 49. No qual anno mandou o beato Padre Francisco, a fortaleza de Coulão, o Padre Nicolao Lanciloto, pera fundar a caza do Salvador, que ally temos. A cidade de Sam Thome do reyno de Bisnaga mandou o Padre Alonço Cypriano, que foy o primeiro Supperior daquella rezidencia. Mandou o Padre Mestre Gaspar, farmengo, fundar a residência de Ormuz; levou por companheiro ao Irmão Romão Pereyra. Também nomeou pera Maluco ao Padre Afonço de Crasto, ao Padre Manoel de Moraes, e ao Irmão Francisco Gon- çalvez; a todos elles deu saudáveis avisos, que noutro lugar avemos de referir. Nomeou por reitor dos nossos que ficavão em Goa o Padre Antonio Gomez, por se con- formar com a ordem do Padre Mestre Simão; porem, dei- xou por Superior das outras residências, fora de Goa, o Padre Paulo de Camerino. Embarcado, pois, o Padre Mestre Gaspar, pera Or- mus, se embarcou também o Padre Mestre Francisco, a oito de Abril, pera Cochim, nhuma fusta, pera ally se [i4i T.i embarcar na // nao da viagem pera Mallaca. Levou con- sigo ao Padre Cosme de Torres, e ao Irmão João Fer- 5 7 6
  • nandes, castelhano, Paulo de Santa Fé, com seu criado, bem instruídos nas couzas de nossa santa fé. Antes que partisse de Cochim, pregou, assy elle, como o Padre Alonço de Crasto, com tanta aceitação dos ouvintes que pediram padres pêra residirem naquella cidade, que depois man- dou o Padre Antonio Gomez, como em seu lugar diremos. Desta vez aconteceo que o Diogo Madeira depoz e jurou na inquirição de Goa. Era este homem já dantes conhe- cido do Padre Mestre Francisco; e, andando aquelle tempo com a consciência danada, foi tam ditozo que se encontrou, hum dia, junto a Santo Antonio com o padre. Pergunta-lhe como esta? Responde o Madeira que bem, e a seu serviço. «Bem, diz o padre, estareis do que menos importa, que he a saúde corporal; mas a alma tem tra- balho». Ficou o amigo sobresaltado e attonito, tornou em sy, seguio ao padre; confessou-se como devia, recebeo o Santissimo Sacramento, mudou a vida e a tenção que trazia, de executar hum ruim proposito. Partio o Padre Francisco, com os companheyros, de Cochim, a vinte e cinco do mez de Abril. Hia embarcado na mesma nao hum homem nobre, que levava a occasião do peccado consigo. O padre o tratou familiarmente, sem lhe tocar na materia; tocou-lhe, comtudo, ao desembarcar em Mallaca, dizendo: «senhor, agora he tempo». Respondeo: «Padre, bem vos entendo»; e logo o casou a ella; e elle se poz em bom estado. Junto a Samatra correo, o galeão, grande risco, por ser mao de vela e peor do pairo, e, sobretudo, de demaziadamente carregado. Hião, pois, atravessando as ilhas de Nicubar (42), com mares grossos e ventos tão furiosos que, em breve, meteram no fundo duas fustas; e querendo o Capitam Diogo de Souza mandar alijar, requereo-lhe o Padre Francisco, da parte de Deos, que (42) A entrada do Golfo de Bengala. 57 7 INSULÍN-DtA, II — 37
  • não lançasse ao mar a fazenda dos pobres passageiros, por que o tempo abrandaria logo, e antes do sol posto verião a terra. Tudo assy aconteceo, com espanto e ale- gria de todos, e, ao derradeiro de Mayo, estava o galeam em salvo, no porto de Mallaca. Aqui disse o padre que o Governador Gracia de Sá não viveria muito tempo, estando elle entam muito bem desposto; mas, daquelle dia a dous mezes, o enterrarão. Do discurço desta his- toria, e do que agora acabamos de relatar, e ao diante diremos, consta manifestamente que o beato Padre Fran- cisco teve particular assistência do Spirito Santo, apren- dendo em sua escola a dizer, muito antes, o que estava 1142 r.i por vir; // e foi tam asinalado, este insigne varão, no dom da profecia, que lhe parecia como natural, e muy semelhante aos hábitos sobrenaturaes que comnosco, entanto, permanecem, em quanto não admitimos actos contrários que os lancem da posse em que pacificamente estavam. Não quero dizer que sempre teve o dom da profecia actual, mas que teve tam frequente, que pello muito uzo que delle tinha, se podia, em certa maneyra, chamar habito; como disse hum doutor theologo, que andou muitos annos na India, e nella estudou e conversou com os nossos; cujas palavras, entre outras, sam estas: «Por onde, ainda que o lume da profecia de sua natureza não seja permanente, como o da gloria, mas assy va, e venha como aquelles movimentos, que os Filozofos cha- mão paixões transeuntes, contudo, no Padre Mestre Fran- cisco, pel la grande continuação, e quasi perpetuidade, mais parecia habito; de maneira que, julgara por natural, e propria ao ar, a luz e resplandor do sol nas partes que estam debaixo dos polos, a quem nellas se achasse, nos mezes do seu verão, quando tem perpetuo dia; e não sou- besse das trevas, em que caem, e vivem no inverno». 578
  • Trinta annos avia que em Mallaca estava hum Afonço Martins, natural de Covilham, sacerdote, por Vigário, a quem o Padre Mestre Francisco, da primeira vez que o encontrou naquella cidade, logo ganhou por amigo. Es- tava elle, neste tempo, doente, desconfiado da vida, e o inimigo do genero humano o metia em desesperação da vida eterna; eram terribeis as melenconias, em tudo seme- lhantes as de hum homem doudo; não tinha, porem, outra doudice que não se querer valer dos sacramentos, dizendo que já pera elle não havia salvaçam. Soasse, nisto, por Mallaca, que he entrado o Padre Francisco; levam as novas ao enfermo; foi tão grande o alvoroço do vigário, que não o podendo ter, os que nelle tinhão cuidado, se começou a vistir pera o ir vizitar; mas o corpo já não tinha alento pera obedecer; e o Padre Francisco se foi logo com o Padre Cosme de Torres ter com elle; e ven- do-o tão desesperado da salvação, fez estremos pera que Deos lhe tirasse aquella desesperação, e não foi por quem mais fizesse; fez voto de dizer hum grande numero de missas a Santíssima Trindade, a Virgem, Nossa Senhora, aos anjos, a todos os santos; e outras pellas almas do Purgatório. Acompanhou este voto com perpetua oração, não se apartando, assy elle, como seu companheyro, do enfermo, atte que // espirou com sinaes de salvação, (i42 v.] porque o Arcanjo São Miguel poz em fugida os demonios; e Deos, Nosso Senhor, com os rayos de sua divina luz, des- fez as névoas e confuzões daquella alma; e se confessou com grande contrição, e cheo da verdadeira confiança, recebendo o Santíssimo Sacramento; o qual o acabou de por em grande paz, e serenidade, que a todos parecia proprio effeito da graça, e ares da gloria, que se cre lhe concedeo o Senhor, por meyo de seu servo, ficando hum velho reverendo, depois de morto, como diz o Padre Fran- cisco Peres que entam era Supperior da residência de 57 9
  • Mallaca. Veo a festa da Santíssima Trindade, na qual o Padre Afonço de Crasto disse missa nova, na Igreja Ma- tris; e quis o Padre Francisco que a missa fosse cantada, e que o novo sacerdote fosse revestido, e acompanhado da Mizericordia atte a Matris; foram padrinhos o Vigário da Vara, e o Padre Francisco Peres; acompanhou-o tam- bém o capitão, e a cidade, e por ser a primeyra missa nova que em Mallaca com a solemnidade se disse, foi de grande conçolação e alegria pera todos; pregou o Padre Francisco; o novo sacerdote foi a offerta; porem, o padre Superior mandou entregar todo o que os cidadãos offer- tarão, ao Provedor da Santa Mizericordia, pera que a repartisse com os pobres. Ordenou também o beato Padre Francisco que todos os nossos fossem com sobrepelizes na procissão do Corpo de Deos, pella grande falta que avia de sacerdotes; por todos eram nove; convém a saber, trez que rezidião em Mallaca, tres que hião para Maluco, e os tres que se avião de embarcar pera Jappão. No galeam que o Abril passado de 48 foi pera Mallaca, hia hum mancebo por nome João Bravo, cunhado do ca- pitão da viagem; o qual, edificado do Padre Francisco Peres e seu compenheiro, determinou de servir a Nosso Senhor seguindo o exemplo de tal padre; e logo na via- gem o acompanhou, dando de mão ao mundo, exercitan- do-se nos officios de humanidade, e caridade, e, chegando a Mallaca, se agazalhou com o padre, servindo em tudo, como se fora da Companhia; fez os Exercícios Spirituaes, com grande aproveitamento seu; estando, poes, assy em caza, foi recebido na Companhia pello beato Padre Fran- cisco, no prezente anno de 49, ao qual deixou huma grave U43 r.i instruçam, pera seu bom procedimento //no spirito, a, qual trazemos noutro lugar. 5 8 o
  • Não se esquecia o Padre Mestre Francisco, no meo de muitos negocios do serviço de Deos, dos de sua viagem, para a qual os portuguezes andavam as envejas, sobre quem o levaria; mas elles aviam, primeyro, de tomar a China; e o padre não queria tanta detença. Hum junco avia em Mallaca de gentios chins, que dizião averem de ir direitamente a Jappão, sem fazer outras escalas. Cha- mava-se o junco de ladram, pello cappitão ser afamado corçario. Não foi este titulo bastante pera o Padre Fran- cisco deminuir ponto da grande confiança que tinha em Deos, Nosso Senhor; sabendo-lhe que não podiam os gentios fazer outro mal que aquelle que Deos permitise. Embarcou-se, pois, com os companheyros no junco do ladrão, confiando mais na divina Providencia, que nos fiadores que o senhor do junco deu a Dom Pedro da Silva, capitam de Mallaca, de os levar a Jappão, sem tomar outro porto, emquanto lhes durasse a monção; agrade- cendo juntamente e festejando muito (o Padre) Francisco a Paulo da Santa Fe, que dizia, a este preposito que, por divina providencia, não hião a Jappam, em companhia de portuguezes, porque não acertassem elles de desautorizar, com algum mao exemplo, a ley de Deos, que os padres havião de pregar; e que mais lhe servião, por compa- nheiros, os chins infiéis e ladrões, pois he certo que quanto prejuizo fazem a boa doutrina os escândalos dos que a professam, tanto o confirma e realça a vida abominável dos que a não seguem. Do que passou o beato Padre Francisco na viagem, te chegar a Jappão. CAP. 23 Embarcou-se o beato padre, com seus companheiros, a vinte e coatro de Junho, sobre a tarde; e na manhã do 581
  • (143 v.] se // guinte, se fez o junco a vela, e chegou a Jappão, a quinze de Agosto, ambos dias asinalados. O da partida, de Sam João Baptista; o da chegada, da Assumpção da Virgem, Nossa Senhora, a qual o Padre Francisco tomou por entercessora da empreza, pondo na viagem, passante do mez e meo; da qual escreve o beato Padre Francisco, a cinco de Novembro do prezente anno de 49, em huma carta que escreveo de Angoxima aos irmãos do collegio de Sam Paulo de Goa. Indo, pois o junco navegando com bom tempo, como quer que nos gentios reyne muito a inconstância, começou o capitão de mudar seu parecer, em não querer tomar as ilhas de Jappão, detendo-se (sem) necessidade em muitos portos. Duas couzas sentia muito o beato padre: a primeira, ver que o capitão se não aju- dava do bom tempo que Deos lhe dava, pello que se arris- cava a invernar na China. A segunda, era ver as continuas idolatrias e sacrifícios que fazião os gentios ao idolo que levavão no navio, lançando, muitas vezes, sortes, sahindo, humas vezes, boas; e outras, mas. Cem legoas de Mallaca, tomarão porto numa ilha, na qual se aperceberam de le- mes, mastros, e antenas, pera as grandes tempestades e mares da China. Deitaram logo sortes e fazendo muitos sacrifícios e festas ao idolo, adorando-o muitas vezes e perguntando-lhe se terião bom vento ou não. E sahio a sorte que aviam de ter bom tempo, e que não aguardassem mais. Assy levaram as ancoras e deram a vela com muita alegria, os gentios, confiando no idolo, que levavão, com muita veneração, na popa do navio e candeas acezas, perfumando-o com pao de aguila; pello contrario, o padre e seus companheiros, confiavão em Deos e no Salvador do Mundo, por cujo amor e serviço hião a Jappão, pera dillatar sua santíssima ley e fe. Tornarão os gentios a deitar sortes, fazendo perguntas ao idolo, se o navio avia de tornar a Mallaca; aqui acabou o capitão de entrar em 5 & 2
  • desconfiança, pera não ir a Jappão, sem invernar na China. Navegando ao longo da Costa de Cochimchina, aconteceram dous dezastres, no mesmo dia, vespora de Madalena. Andando os mares muito grossos e empolados, acertou de estar a bomba aberta, na qual // Manoel [144 r.) China, ao passar por ella, cahio, por rezão dos grandes balanços que o navio deu. Esteve, por hum espaço, com a cabeça debaixo de agoa, e fez nella huma grande ferida; esteve por muitos dias doente, e deu-lhe Nosso Senhor saúde perfeita. O (segundo) dezastre foi cahir a filha do capitam ao mar, no qual se afogou, sem lhe poderem va- ler. Fizeram os gentios grandes sacrifícios e festas ao idolo, matando muitas aves, dando-lhe de comer e beber; e nas sortes que deitaram, perguntarão a cauza porque a filha do capitão morrera. Sahio a sorte, que não ouvera de morrer, se Manoel morrera. Vendo o beato Padre Francisco as grandes offenças que contra Deos se fazião, lhe pedio por muitas vezes que não permitisse tantos erros e offenças em criaturas criadas a sua imagem e seme- lhança; e que acrecentace as penas e tormentos ao de- mónio, todas as vezes que incitasse aquelles gentios a lançar sortes. Estavão elles neste tempo sobre a amarra; e recolhidas as ancoras, depois que os mares se amançarão, deram a vela caminho da China, e, chegando ao porto de Cantão, ancorarão nelle; todos erão de parecer que invernassem naquelle porto; so os padres foram de parecer contrario; finalmente, pellos medos e ameaças que lhe fizerão, tor- narão a sua viagem, e foram caminho de Chincheo, que he outro porto da China; e estando ja pera entrar nelle, forão avizados que avia muitos corçarios no porto; de maneyra que foi o capitão forçado ajudar-se do vento que pera Jappão era em popa, tomando o porto de Congo- xima, terra de Paulo de Santa Fe, contra vontade do de- 583
  • monio e dos gentios, sendo o beato Padre Francisco e seus companheiros bem recebidos, asy dos parentes de Paulo, como dos outros, que o não eram. Mandou logo o padre vizitar ao senhor da terra, que estava nhuma fortaleza, cinco legoas de Cangoxima; o embaixador foy Paulo de Santa Fe, seu vassalo, o qual levou huma imagem da Vir- gem, Nossa Senhora, muito devota. Chegando Paulo a fortaleza, foi bem recebido do duque, que folgou de ouvir fallar do estado que os portuguezes tinhão na India e das couzas da nossa santa fé; e a este propozito lhe deu vista da sagrada imagem; elle se lançou por terra, adorando-a, e mandando a muitos fidalgos que fizessem o mesmo, com toda a reverencia. Entrou logo Paulo na outra camara, a vizitar a may do príncipe, a qual, com todas as molheres de que estava acompanhada, adorou a Rainha dos Anjos, e mandou pedir ao beato Padre Francisco, lhe deixasse tirar hum retrato da Senhora; e lhe mandasse com elle, 1144 v.) por escrito, a sustancia //de nossa ley. Donde manifes- tamente se colhe quanto a sua conta tomou a Raynha dos Anjos a converssão dos Jappões. LIVRO SEXTO (43) Das mortes do Irmão Adam Francisco, dos Padres Nuno .Ribeiro, Manoel de Morais e do Irmão Aleixo Madeira. CAP. 19 No mesmo anno de 1549 falleceo o Padre Nuno Ri- (43) Os capítulos que se seguem transcrevemo-los do exemplar existente na BNL. 584.
  • beiro, que veio do Reino, no anno de 1546; o qual, em breve tempo, consumou o curso da vida presente, e o da perfeição, com coroa de martyrio; porque, sendo en- viado pello beato Padre Francisco Xavier, de Malaca as ilhas de Amboino, falleceo de peçonha, que os mouros lhe derão, no anno de 1549, tendo-lhe ja, dantes, posto fogo a casa, onde se recolhia, pera o queimarem vivo. Foi hum varão dos que naquellas partes deixarão de sy mais suave e santa memoria, na paciência dos trabalhos, zelo das almas, e fervor da caridade. Algumas vezes lhe acon- teceo, o que huma, a Sam Martinho, partir liberalmente dos proprios vestidos com os pobres christãos, ficando sem elles, sendo-lhe necessário servir-se de dia, por capa, da propria manta com que se cobria de noite. Em suas viagens per mar, e peregrinações per terra, não teve de que aver enveja aos perigos, e trabalhos dos companhei- ros. E ja mui gastado de peçonha, que avia dias lavrava, faltando-lhe as forças pera visitar os christãos (como se conta que o fazia, na sua derradeira idade, o dicipulo, a quem amava Iesus) assi elle se mandava levar, lançado sobre hum lençol, a hombros de homens, porque doutra maneira não podia ser. E assi corria todos os lugares pellas igrejas, e casa dos particulares, doutrinando-os, e conso- lando-os, tê que, no meyo destas obras tarn sanctas, e tam próprias suas, expirou, com nome de sancto, e opiniam de martyr. E com muita rezão, conforme ao estilo da Sancta Madre Igreja, a qual, não somente escreve no catalogo dos sanctos martyres os que derramão seu san- gue, por causa de fê catholica, mas também aos sanctos que de qualquer maneira morrem polia defensão da ver- dade, como se vê em S. Joam, Papa e Martyr, a quem Theodorico, rey ariano, lançou no cárcere, onde morreo de pura fome e fedor do cárcere; // e São Sylverio mor- [201 r.j reo no desterro, por mandado da Emperatriz, que, pera 5^5 »
  • executar seu impio mandado, usou do braço de Belli- sario; e São Marcello, Papa, resistindo ao tyrano Mac- xencio, acabou nhuma estrebaria, na qual tinha cuidado de brutos animaes; e, finalmente, São Felix, repousando em o Senhor, com grande paz, depois de aver padecido muitos trabalhos, polia dilataçam de nossa sancta fee, foi posto na lista dos bemaventurados martyres; verificando-se em todos estes sanctos martyres a doutrina de Santo Agostinho: «mok ex passione certa est iustitia; sed ex iustitia passio gloriosa est)). Pello que ninguém estranhe de contaremos ao Padre Nuno Ribeiro entre os sanctos martyres, pois nam lhe faltou a causa do martyrio; nem a pena, que foi huma peçonha lenta, que lhe tirou a vida corporal, sendo-lhe occasiam de salvaçam eterna, com a desejada aureola de martyrio. Da armada que Bernardim de Sousa mandou con- tra o Tolo; do castigo que Deos lhe deu; e como se reduzio à fee em serviço del-rey de Portugal. CAP. 20 Florecia a christandade de Maluco, no anno de 1553, principalmente na ilha de Moro. Eram os lugares de chris- tãos, em diversas partes espalhados, vinte e nove; e o numero dos fieis, trinta e cinco mil; dos quaes ja se con- fessavão muitos; guarda vão as festas e castidade conjugal da lei evangélica; e todos bem instruídos e constantes na fee, não somente em tempo de paz, mas também sendo perseguidos pellos reis mouros de Geilolo, de Ternate, de [203 T.i Tidore, de Bacham, tão barbaros e cruéis // tiranos con- 586
  • tra a christandade, que os chama, o sancto mártir Affonso de Castro, os Decios, os Dioclesianos, os Maximinos, os Licinios do Moro. E com muita rezão, porque não fizerão aquelles, em sua proporção, na Batechina, menos que estes nas provincias do Império Romano, por apagar de todo a fee e nome de Iesu Christo. A muitos dos christãos, naturais do Moro, atormentarão e matarão, sô porque não deixarão de ser christãos. E que mor constância que a do martírio? Bem empregados trabalhos, ainda quando não tiverão outro premio, que criar a Christo mártires no Moro; mas aos que os tiranos, por seus proprios respeitos, deixavão com a vida, a todos confiscavão a fazenda. Lá, se algum infiel, de novo, recebia o santo baptismo, alem de todas estas penas, era logo vendido em almoeda, por escravo e cativo dos tiranos. E comtudo, não falta vão alguns que recebessem a fee, e muitos mais ouvera, se neste tempo poderá andar entre elles quem, ao menos, secretamente, lhes pregara, e os animara a gloria do mar- tírio, como noutro tempo fazia o glorioso mártir São Se- bastião, e como disia e deseiava fazer o Padre Afonso de Crasto, com desejo da coroa, que pouco depois recebeo. Mas foram tantas, e tão travadas as guerras, em todas aquellas ilhas, que, per espaço de cinco annos, não foi possível passarem os nossos da ilha de Ternate, onde resi- diam, as ilhas do Moro, na qual os christãos derão boa prova de sua constância. Não se pode dizer a devação e fervor da fee com que recebião os padres, quando, depois da guerra acabada, os visitavão. Acodião de todos os lugares a praya, chorando de prazer; da vão, com as mãos alevantadas ao ceo graças a Deos. «Estivemos, dizia hum delles, per nome Dom Jorge, sem vos, atté agora, como os padres no limbo, antes da vinda do Senhor». Traziam-lhe as crianças para as bautizarem, que só no primeiro lugar serião até cento e cincoenta; dizendo que 5*7
  • lhes não offerecião outros presentes, por saberem mui bem quanto mais os agradava a innocencia daquelles mínimos, que todas as riquezas do mundo, pois polios salvar pas- savão tantos trabalhos. Convidavão os mouros que se achassem prezentes aos baptismos. Diziam-lhes que com- parassem a alegria dos catecumenos, a devação e reve- rencia e santidade com que os padres celebravão este sacra- mento, com as superstições, torpeza, e força do seu Alco- ram, com a cubiça e carne e sangue dos cacises; que quam divinas erão as nossas cousas, tão evidente ficava sendo o engano, e maldade das suas. Mas hé tempo de contar aquelle notável caso que aconteceo, este anno de cincoenta e tres, na povoaçam de Tolo, que hé huma das principais da Batechina do Moro, forte per arte e per sitio. Os campos de que vivem os moradores, são fertilissimos de seus arrozes e sagures. A gente, a menos barbara e que, iuntamente com a fee, tomou a devação e serviço del-rey de Portugal; amigos dos amigos, e imigos dos imigos. Aqui se alevantou e daqui sahio o fogo da perseguição do rey mouro de Gei- lolo, que, com odio igual do nome christam, e português, mais que outro nenhum tirano daquellas partes, se assi- 1203 y.i nalou em toda a sorte de crueldade contra a pobre / / gente. Entrara elle primeiro na terra, como hospede, com capa de boa visinhança e amizade; depois, fazendo-se valler e temer, como senhor, fez que os christãos aposta- tassem da fee e [se] rebelassem contra os portugueses, tomando-lhes, primeiro, as armas, e metendo a fogo e a ferro todos os que tinhão a voz da nossa amizade e da christandade. Muitos morrerão valerosamente, como bons amigos e milhores christãos; porem, vendo, os mais fra- cos, as crueldades e tiranias que com os mortos se exer- citarão, renderão-se a vontade do tirano, negando, de comum consentimento, a fee divina e fidelidade humana. 588
  • Então o spirito immundo, que pello beato Padre Fran- cisco e seus companheiros fora daquellas ilhas desterrado, tornou com outros piores spiritos a sua antiga morada, embrenhandosse nos espessos matos da idolatria, e de tal maneira incitou aos renegados que, em vingança de ave- rem seguido a bandeira de Christo, desarvorarão as cru- zes, queimando-as juntamente com as igrejas e sagradas imagens; erguendo, de novo, templos e altares, nos quaes puserão as abominações de seus idolos, com que ficarão tão oufanos que, prometendo-se toda boa ventura na paz e na guerra, pellos averem restituídos a seu primeiro estado, que logo apregoarão crua guerra contra os por- tugueses, aliando-se com o rey mouro de Geilolo, que era o mor inimigo que tínhamos. Mas Deos não dormia enquanto os pérfidos e desleaes a sua ley asacalavão (sic) as armas contra o ceo e a terra. Hum de tres castigos offereceo Deos, antigamente, a El-Rey David, para que delles escolhesse qual quizesse; convém a saber: fome, pestes, ou guerra; porem, todas estas tres cousas juntas mandou sobre os moradores de Tolo. Primeiramente, os campos se esterilisaram de tal maneira que nem com a semente acodião aos semeadores. E o que mais hé, os arrozes e mantimentos que tinhão guardados do anno atras, quando delles se quizerão valler, acharão podres, e comidos da praga, que também se estendeo as agoas; porque, sendo dantes sadias e saborosas, subitamente, se tornarão carregadas, salobras e doentias. Secarão os sa- gures, corromperão-se os ares, morriam muitos a pura fome, e ardia em todos a peste. Mas estavam os mise- ráveis tão cegos, que não conhecião serem estes malles em penna e castigo de averem apostatado da fee divina e hummana; antes, mutiplicando peccados sobre pecca- dos, e ajuntando desatinos a desatinos, parecendo-lhes que os portugueses lhes avião de pedir conta dos malles 589
  • cometidos, fortificarão-se contra o cerco, fazendo baluar- tes, cavas, vales, tranqueiras, tomando e segurando me- lhor os passos das entradas, e não se dando de todo por fortificados, com toda sua industria, e sitio do lugar, sobre hum alto monte, rodearão a faldra delle de estrepes de pao-ferro, tão metidos e firmes na terra, como se nella tiverão lançado raizes, com as pontas pera fora, de palmo e meo, mui agudas; e tão bastas que, ainda em tempo de paz, poderia hum homem com difficuldade escapar de ficar nelles encravado. Ouverão também do tirano de Geilolo socorro de gente e munições, pera offenderem aos £204 r.i agressores; // ordenadas deste modo suas cousas, orde- nou também Bernardim de Sousa, capitão de Ternate, huma armada de bom numero de gente da terra com trinta portugueses. Chegados à vista de Tolo, primeiro que posessem a proa em terra, mandou o capitão dizer aos alevantados que erão ally vindos, com aquella ar- mada, mais com zello e desejo de os salvar, que de os castigar; que em sua mão punhão a paz e a guerra; mas forão tão descortezes, os apóstatas, que responderão com ferros e blasfias. «Dizei (respondiam) a esses mercadores estrangeiros que nos basta o que temos visto de seus en- ganos e tiranias; que se vão para suas terras, e nos dei- xem a nos as nossas, porque nenhuma outra paz, nem amizade queremos com elles; tudo o mais ha-de ser guerra a fogo e sangue, pera o qual temos armas, artelharia, e gente mais e melhor que a sua. E quanto a tornarmos a ser christãos, que so nos pesa do tempo que ho fomos, e nos termos, alguma hora, enformado e parecido nisso com elles». Escaçamente acaba vão de fallar, quando a ira do Senhor deceo sobre elles, com tão evidentes demonstra- ções, que té os cegos virão como Deos tomava a van- guarda e dianteira naquella empresa. Estava o Sol no meyo dia claro e sereno; subitamente, assy lhes negou 590
  • a luz, como se elle mesmo a perdera, ficando todos em escura noite. Abrio-se nisto, com espantoso estrondo, o mais alto cume de huma montanha vesinha, lançando das entranhas do inferno, ao principio, nuvens anoveladas de fumo e fogo azulado e medonho; e logo apos elle, huns trovões que assombravão a gente. Arremessou contra a povoação muita soma de pedras abrasadas, com tanto impeto e de tão notável grandeza que, em pouco tempo, arrasou os baluartes, e derrubou os muros, e poz por terra as casas, assi dos pagodes, como dos moradores, sem ficar em pee mais que huma só pobre casinha, em que se agasa- lhavão os padres de nossa Companhia, o tempo que aly residiam. O rescaldo do incêndio sahio com tanta fúria que, subindo primeiro muito alto e espalhando-se no ar, por hum grande espaço, a roda, quando, depois, vinha a decer, representava tanto ao natural os chuveiros que consigo trasem as cerrações, que chuveo cinza em tanta quantidade que, aliem de cobrir e entulhar o campo das estrepes, da maneira que sem perigo se podia correr e saltar por cima delles, enterrava no mato os porcos vivos, carregava no ar as aves, de modo que cahiam em terra e as tomavão, as mãos, alagava as embarcações no mar. A isto sobreveo hum tremor de toda a terra, que arran- cava as arvores e derrubava a gente, sem se poderem alevantar, nem ter em pé. E pera que nenhum dos quatro elementos faltassem nesta vingança dos alevantados con- tra o ceo, o lago que avia não mui longe da cidade, de tal sorte creceo e transbordou por cima da terra que cobrio e alagou os campos, matando e // levando grande numero 1204 vj de homens e animais. Durou a fúria do incêndio e tor- menta três dias e tres noites continuas. No qual tempo, os nossos, retirando-se com os navios, estiverão a la mira, vendo peleiar a Deos. Mas, dando-lhe o Senhor também lugar pera fazer a sua, apagado o fogo e restituído o 5Çi
  • tempo a natural serenidade, desembarcarão, e passearão tudo sem alguma resistência; que mais ouve que fazer em ajuntar e segurar os que, escapando da ira divina, se meterão polios matos, que em os trazer, depois de jun- tos, a obediência da ley de Christo e sogeição da Coroa de Portugal. Os portugueses, dadas, primeiro, as graças a Deos, Nosso Senhor, por tão milagrosa vitoria, achan- do-se com as forças daquella armada inteiras, determi- narão em as empregar em destruir o rey mouro de Gei- lolo. Acharão-no numa ilha, sete legoas de Ternate, bem provido de gente e armas, recolhido na sua fortaleza. Mas a maldade a tudo enfraquece. Entrarão e ganharão os nossos a fortaleza, tomarão vivo ao tirano, o qual, não podendo sofrer tão grande afronta, se valeo da peçonha, sendo algoz de sy mesmo; cuia morte foi ajuda, paz e felecidade de todo Moro. Passou logo de Maluco la o Padre Joam da Beira, recebendo-o assy os de Tolo, como todos os mais, com lastimas e lagrimas, por causa da fra- queza e obstinação passada. Aos quaes elle também re- cebeo com emtranhas de amor, animando-os a verdadeira penitencia, prometendo-lhes por ella o perdão das culpas; a qual elles fizerão com grande sentimento e satisfaçam do padre, confessando-os e reconciliando-os com Christo e com a Santa Madre Igreja, sua Esposa. Com a qual mudança a ouve geralmente em bem, por toda a terra. Logo cessou a esterilidade; as agoas recobrarão a duçura antiga, temperarão-se os ares, e trouxe, o Sol, nas penas de suas asas, a saúde, a prosperidade e alegria. Os ratos, que em todo o tempo da apostasia destruião os campos, exorcisados com a agoa benta, subitamente, os deixarão livres, fogindo pera as terras dos infiéis. Entendendo elles o castigo de sua infedilidade, todos se abalarão a receber o santo baptismo, com tanto fervor, que não bastando o Padre Joam da Beira, nem os que andavão em Maluco 392
  • a tão copiosa messe, foi buscar a índia novos compa- nheiros. Tantos forão os bens que Deos tirou dos malles de Tolo, que só porque o Elie pode fazer, há, muitas vezes, por mais gloria sua permiti-los, que impedi-los. Abre-se a patente das successões (44). LIVRO SEPTIMO Mártires da Companhia de Jesus da índia. CAP. 5 O terceiro foi o Padre Nuno Ribeiro, português, a quem os mouros das ilhas de Amboino, no anno de 1549 matarão com peçonha lenta, e vagarosa, e, por vezes, tentarão, antes disso, tirar-lhe a vida, por ser contrario a maldita seita de Mafamede. Era de grande charidade pera os pobres. Passemos dos cheirosos bosques de Amboino aos odo- ríferos jardins de Maluco, nos quaes acharemos hum cra- veiro de mayor estima que todos os que o Sol cria nas Ilhas do Cravo: este foi o bemaventurado mártir, o Padre Affonso de Crasto, natural de Lisboa, o qual, no anno de 1558, avendo nove annos que se occupava na christan- dade de Maluco, alcançou gloriosa coroa de martírio; po- serão-lhe no pescoço hum cepo forcado, que muito o ator- mentava; e desta maneira esteve cinco dias ao Sol e ao sereno da noite. Não contentes, os infiéis, com este mao (44) Tendo falecido o Vice-Provincial Padre Mestre Gaspar, suce- deu-lhe o Padre Manoel de Morais, conforme as instruções secretas deixadas por Francisco Xavier, antes de partir para a China. insulíndia, 11 — 38 59 3
  • tratamento, o açoutarão, per tres vezes, cruelmente, pera que deixasse a fee; e, depois de vinte dias, foi marti- rizado, dando-lhe hum mouro tão grande cutilada polias costa que o escalou; e outro mouro lhe levou, de hum golpe, a cabeça fora dos hombros. LIVRO OCTAVO Da conversão del-rey de Bacham e dos martírios do Padre Afonso de Crasto, e de hum Cafre. CAP. 5 Este anno de 58 se veo de Maluco pera a índia o Padre Joam da Beira, pellas muitas enfermidades que tinha e pouco remedio pera ellas. E logo na mesma mon- ção se embarcou pera Maluco o Padre Francisco Vieira, por supperior dos nossos, levando em sua companhia o Padre Nicolao Nunes, que naquelle anno tinha vindo de Maluco pera se ordenar; e os Irmãos Simão da Vera, Balthazar d'Araujo, e Fernão d'Araujo. Neste mesmo anno baptizou o Padre Antonio Vaz a el-rei de Bacham, como elle escreveo a El-Rei Dom João, o qual lhe agra- dece muito em huma de treze de Março de 1560. E foi que, sendo casado com huma filha del-rey de Ternate, não lhe queria dar sua molher, até que elle secretamente a tomou, e se foi com ella pera seu reino, que esta na ilha de Bacham, vinte legoas de Tarnate; onde lhe morreo dahy a poucos dias. E temendo-se do sogro, determinou de se fazer christam, pera que os portugueses o empa- rassem e defendessem. Deixando, pois, a Mafamede, por 59 4
  • Christo, Senhor Nosso, se converteo a nossa sancta fee, e hum irmão seu, com tres irmãs e huma filha spuria com sua may, muitos parentes e toda a nobreza do reino. E com grande fervor e devoçam se foi em companhia do padre as ilhas visinhas, comvertendo a muitos, e muitos mais convertera, se o padre não adoecera de huma enfer- midade tão perigosa que lhe foi necessário voltar pera Ternate. Era el-rey, neste tempo, mancebo de vinte e cinco annos, fermoso do corpo, destro nas armas, e, se fora mais branco, o julgarão por hum dos da Europa. Tanto que se baptizou, se achou a missa, a qual ouvio com tanta devação, e com tanta reverencia adorou o Sanctissimo Sacramento, como se fora baptizado no berço e criado entre christãos. Logo derrubou a misquita dos mouros. Forão as novas a Ternate, e os portugueses as celebrarão com grande demonstração de alegria, despa- rando a fortaleza toda a artelharia; pello contrario, os mouros receberão tanta dor e tristeza que logo poserão cerco aos nossos, mas de balde, porque os portugueses se defenderão bem, com morte de muitos mahometanos. E el-rey de Bacham não se temendo ja do sogro, socorreo aos cercados com grande animo e constância. No mesmo anno foi martirizado o Padre Afonso de Crasto, de nossa Companhia; a ocasião de seu martírio foi a seguinte. Era neste tempo capitão de Ternate Dom Francisco de Sa (45), o qual prendeo ao rey mouro da- quella ilha, por occultamente usar de crueldade com os christãos, tiranizando-os com muitas injustiças; os filhos com a gente da terra se alevantarão e poserão cerco aos portugueses. Vinha nesta conjunção o Padre Afonso de Castro de visitar os christãos da ilha do Moro, sem saber das guerras que os mouros fazião a fortaleza; chegando, (45) Corrigido para dEça. 59 5
  • pois, o padre, a ilha de Ires, foi prezo pellos imigos de nossa sancta fee; onde o despirão, ficando somente enca- chado, e o poserão em aspa, atando-o fortemente pellos i28i v.] pees // e pellas mãos, como antigamente fizerão os gen- tios ao Apostolo Santo Andre; poserão-lhe no pescoço hum cepo forcado, que muito o atormentava, por ser pezado. Desta maneira esteve na embarcação cinco dias ao sol, e ao sereno da noite; sendo elle, de sua natureza, de tão fraca compeição que pouco bastava pera o fazer cair em cama. Os moços que com elle vinhão, arecean- do-se da morte, se confessarão, aos quaes elle animou a que estivesesm constantes na confissão da fee catholica. Foi por tres vezes cruelmente açoutado, afim de verem se com os tormentos deixava a fee, e se fazia mouro, que elles muito deseiavão; mas em vam trabalharão, per- manecendo o sancto padre na confissão da sancta fee. Daqui o levarão a hum dos filhos do rey que, avendo compaixão de o ver nuu, lhe mandou dar huma camisa. Vinte dias o tiverão aqui prezo, debaixo de hum balcão; de cima lhe lançavão cascas de figos, e, como caíssem delle afastadas, se arrojava com trabalho pera as tomar; os quaes passados, o tornarão a ilha de Ires, pera nella ser martirizado. Entendendo elle isto, hia com grande ale- gria, com os braços detrás atados, caminhando per áspe- ros penedos; chegando ao lugar do martírio, pedio que o soltassem pera se encomendar a Deos; estando, pois, de joelhos, com as mãos alevantadas, e os olhos postos no ceo, lhe deu hum mouro huma tam grande cutilada polias costas que o escalou; e outro, de hum golpe, lhe levou a cabeça fora dos hombros, dando sua bemdita alma ao criador, per cuja lei e fee dava a vida. Os mouros lan- çarão o santo corpo no mar, e ao terceiro dia tornou ao mesmo lugar, donde fora lançado, lançando de sy rayos com desacustumado resplendor e com as feridas tão fres- 596
  • cas, como se naquella horas as recebera. E o que hê mais de espantar que, sendo o mar naquella paragem mais arrebatado que o rio Tibre, não levou o santo corpo con- sigo. Sua morte foi estranhada e sentida ainda dos pró- prios barbaros, porque el-rey de Geilolo, mouro e grave adversário do nome christão, falando honorificamente da fortaleza e morte do Padre Afonso de Crasto disse: «não são semelhantes a este os nossos cacises». Nem Deos, Nosso Senhor, dissimulou com o castigo que em breve deu aos matadores (?) e aos seus mais chegados, mor- rendo todos miseravelmente; porque a huns arrebentarão tão peçonhentas bustelas pollo corpo, que os abrazavão, em vivas chamas, perdendo a pelle e as vidas; outros forão na guerra despedaçados com a nossa artelharia. Finalmente, o que lhe tomou o sagrado cálix, instrumento do altíssimo sacrifficio da Missa, inchou de tal maneira que com graves tormentos deu fim a miserável vida, dando principio a outra muito mais mizeravel que nunca se acaba. E // os descendentes dos que o martirizarão (282 r.j naciam com cirro de cabellos pello fio dos lombos, ou espinhaço; e por esta causa andavão cubertos, pera que não fosse visto o sinal do castigo que Deos dera a seus primogenitores, castigando-os também a elles como a cousa sua. Finalmente, conhecendo alguns a innocencia e santidade do bemaventurado mártir de Christo, se enco- mendavão a elle em seus trabalhos. Era o Padre Afonso de Crasto português, natural de Lisboa, religioso de muita virtude, recolhimento e oraçam. E por elle ser este, o escolheo o beato Padre Francisco pera a missão de Ma- luco, na qual onze annos avia que trabalhava com grande edifficaçam de todos. Neste mesmo tempo da guerra martirizarão hum cafre de Anrrique de Lima; os mouros de Tidore o prenderão na povoação de Malayo; e tendo-o prezo quatro dias, 5 97
  • sem lhe dar de comer, o cometerão com grandes pro- meças, pera que arrenegasse e se fizesse mouro; mas, como elle fosse bom christão e muitos annos criado entre portugueses, confessou a Christo, Senhor Nosso, com grande constância; a qual, como os mouros vissem, arre- meterão a elle com grande crueldade, e, cortando-lhe sua propria carne, lha davão a comer por força, tê que neste martírio acabou com o sanctissimo nome de Jesus na boca, do qual lhe veyo a constância, animo e esforço pera derramar polia confissão de sua immaculada ley seu sangue. LIVRO NONO Do naufrágio que fez a nao S. Paulo na contra- -costa de Samatra, na qual vinhão dous religiosos da Companhia de Jesus. CAP. 19 Chegando o Viso-Rey Dom Pedro de Mascharenhas no anno de 1554 a India, a 23 de Setembro, na nao chamada São Boaventura, a qual se perdeo na barra de Goa, polia pouca diligencia que os officiais poserão ao desembarcar do fato, esquecendo-se de meter lastro nella, pella qual rezão se virou e tomou tanta agoa que se foi ao fundo. Deste desastre tomou o veador da fazenda, Simão Bote- lho, occasião pera se fazer religioso de Sam Domingos, onde viveo e morreo sanctamente. Querendo, poes, o 59 8
  • nosso viso-rey dar embarcação a Dom Afonso de Noro- nha, seu antecessor, se concertou com Antão Martins, casado em Goa, que tinha naquelle porto huma grande nao, chamada Sam Paulo, feita em Ancola, a qual esco- lheo Dpm Afonso, indo por capitão delia Antonio Fer- nandez, genro de Antão Martins, senhorio da nao. E fa- zendo-se a vela pera Cochim, tomada sua carga, partio daquelle porto, a quinze de Janeiro de cincoenta e cinco, e chegou ao reino, a salvamento. Tornou Antonio Fer- nandez, por capitão da mesma nao, no anno de 1556 na armada de Dom João de Menezes de Siqueira, o qual foi tomar o Brazil, e chegou a barra de Goa, ao derradeiro de Janeiro de 1557. E tornando a mesma nao pera o Reino, na armada de Pero Vaz de Siqueira, no anno de 1559, vinha por capitão da nao São Paulo, Ruy de Mello da Camara, o qual arribou a Lisboa. Tornou a fazer a mesma viagem no anno de 1560, e como ja sabia o cami- nho pera o Brazil, foi ter, no principio de Setembro, a baya de Todos os Santos, por partir a quinze de Abril de Lisboa. Detiverão-se neste porto obra de corenta dias, onde se proverão de agoa e mantimentos. E porquanto o guzano ally faz grande nojo às naos, poserão em conselho se era bem invernar, ou se seria melhor seguir a derrota que a primeira vez fez a nao S. Paulo. Pareceo ao gover- nador Mem de Sá, ao capitão, pilotos da nao e da terra, que não invernassem no Brasil; pello que se fizerão a vela, meyado Outubro do mesmo anno de 1560. Acharão os ventos prósperos e tiverão vista do Cabo de Boa Espe- rança, em fim de Novembro, onde aconteoeo hum caso notável. Hia embarcado nesta nao hum fidalgo, per nome Diogo Pereira de Vasconcellos, com Dona Francisca Sar- dinha, sua molher, e huma sobrinha do mesmo Diogo Pereira. Esta sobrinha cayo da varanda ao mar, e a tor- narão outra vez a tomar, a qual vinha quazi morta; e 599
  • acodio logo o Padre Manoel Alvarez, da Companhia de Jesus, pera a confessar; o que fez, conforme ao tempo, e parece que não esperava por mais, que pera se con- fessar; e logo morreo, com mostras de salvação. E por- quanto os tempos erão brandos, forão-se pondo em muita altura, porque lá os avião de achar mais espertos. E assy se forão por em corenta e dous grãos do Sul, onde acha- rão os tempos mais frescos. E por esta altura forão cor- rendo mais de hum mes, té lhe pareoer que seria bem deminuir e buscar a ilha de Samatra; e assy o fizerão até se porem debaixo do equinocial; e sendo vinte de Janeiro, a boca da noite, se acharão tão abarbados com a terra, por causa da corrente das agoas, que por muito que o piloto trabalhou fazer-se noutra volta, não pode; antes lhe foi crecendo o travessão tão rijo que não teve a nao por onde correr, e como estava tão perto da terra, e as agoas também a leva vão, foi a nao varar nella, ficando encalhada; cortarão logo o mastro grande, e a nao se 1352 p.) virou e cuspio o esquife; // e a gente se poz sobre o costado da nao, que serião, per todos, obra de setecentas almas; destes, como custuma acontecer em semelhantes casos, huns se lançarão ao mar, dos quaes alguns se afo- garão, e outros chegarão a terra, feridos dos recifes. Tanto que esclareceo o dia viram claramente a terra onde esta- vão, que era a contra-costa da Samatra. Estava perto huma ilheta despovoada, na qual todos desembacarão, servindo-se do esquife da nao; e poserão todos os manti- mentos em terra, artelharia, monições e armas, com todas as fazendas que a nao trazia. O capitão deu logo ordem com que o arrayal ficasse em segurança todo o tempo que ally estivesse, fazendo-se boas tranqueiras, com ba- luartes, nos quaes forão postas peças de artelharia contra os Achens, se por ventura delles fossem cometidos. Fize- rão-se logo muitas cabanas, servindo os veludos, damascos 600
  • e setins de toldos, lençoes e cubertores, porque de todas estas riquezas fazião pouco fundamento. Sobejando, poes, as sedas, faltavão os mantimentos, porque se perderão e corromperão no naufrágio; pello que cada hum buscava de comer pello mato e pella praya, mariscando; soldado houve que metendo a mão numa lapa tirou dezasete la- gostas, e lagostis, com que fez banquete aos amigos e ma- talotes; porem, este lanço foi único, porque, quem podia alcançar algum caranguejo, não fazia pouco. O Padre Ma- noel Alvarez e o irmão, seu companheiro, de naçam valen- ciano, se ocupavão nos ministérios de nossa Companhia com edifficação de todos. Detiverão-se nesta ilha a vista de Sarnatra, obra de mez e meyo, no qual tempo se fizerão tres embarcações e dous bateis; hum delles se fundou no esquife; outro se fez de novo; o terceiro, que era o mayor, se alevantou sobre a quilha do batel, que vinha debaixo da cuberta, feito em pedaços. Pera a obra destas embar- cações concorrerão todos, exercitando os officios que nunca aprenderão; porque huns desfazião a nao, outros arran- cavão a pregadura, outros serravão, outros se fazião car- pinteiros e outros ferreiros. Finalmente, depois que as embarcações estiverão per- feitas, e acabadas, mandou o capitão recolher os manti- mentos que avia com alguns falcões e berços com muni- ções; e mandou dar logo fogo a todas as fazendas que estavão em terra; mandou também encravar a artelharia, a qual se lançou no mar; a que ficou no lugar do nau- frágio, como também a encravada, dizem que, depois, a mandou tirar o Achem. Mas antes que passemos avante digamos o que logo depois do naufrágio aconteceo. An- dava entre aquellas ilhas huma embarcação de Saletes ou ladrões, que, por todos, serião corenta. Estando elles, de noite, em terra descuidados, derão os nossos sobre elles, e os levarão ao arrayal; pasmarão de ver tanta gente e 6 o i
  • tam polida; o capitão lhe fez muito gasalhado, dando a todos barretes vermelhos, e cousas com que aquella gente muito folga; tudo afim de buscarem mantimentos pera os portugueses que lhe serião bem pagos; prometerão elles montes de ouro; mas nenhuma cousa menos comprirão; despedirão-se com mostras de benevolência; porem, dissi- mularão e emcobrirão por antão o grande odio que nos tinhão, o qual logo mostrarão por obra; porque, estando hum grumete pescando, algum tanto afastado do arrayal, o chamarão, mostrando-lhe hum grande peixe, pera que o levasse ao capitão; lançou-se o pobre homem a nado, e 1352 v.) chegando a embarcação, lançarão mão delle // e lhe cor- tarão a cabeça; este foi o principio da paga dos favores que o capitão lhes fez; e depois, se embosca vão pellos matos, e, tanto que vião os soldados desgarrados, lhes cortavão as cabeças e as maos direitas, e as levavaão, por sinal de valentia, a seu capitão; e por mais que os por- tugueses lhes armarão, nunca os poderão aver as mãos. Querendo, pois, o capitão ordenar sua viagem, e vendo que não podião todos caber nas tres embarcações, mandou embarcar dos que lhe parecerão na embarcação grande, obra de duzentas pessoas, e nos dous bateis como cento, e cincoenta, e setenta e cinco, em cada hum; ficando em terra oento e setenta, que, por todos, fazem numero de seiscentos e vinte; de modo que ja neste tempo falta vão oitenta. Os capitães erão: da embarcação grande, Ruy de Mello de Camara; e dhum batel, Antonio de Refoyos, despachado com a capitania de Coulão; capitão dos que forão por terra, Antonio Dias, casado em São Thome; também levavão meirinho. O padre da Companhia e seu companheiro se embarcarão com Ruy de Mello de Ca- mara. Muito mal tomarão os que ficarão em terra não serem recebidos nas embarcações; porem, não podia ser al, porque não erão capazes de mais gente. Levavão armas 602
  • para sua defensão. Vendo o irmão da Companhia de Jesus quão descontentes fiquavão aquelles passageiros disse: ((nunca Deos queira que eu morra, senão em companhia de meus irmãos, pêra os animar e ajudar no que poder». E dizendo estas palavras, se deitou ao mar com o santo crucifixo na mão, fazendo-se companheiro dos que por terra caminha vão, padecendo com elles e sofrendo com igualdade de animo a dura sorte. Bem differente foi outro caso que no mesmo tempo aconteceo; e foi que hum cava- leiro, per nome Antonio Feo, se meteo polio mar, pera que o recolhessem; porem, o capitão lhe defendeo a entrada com a espada na mão; ao qual, depois, em Malaca, antes de se acutilarem, os fizerão amigos. Indo, pois, ja os navios despedidos, senão quando virão vir nadando hum homem pello qual esperarão; e depois de nadar, por espaço de huma legoa, chegou quasi morto a embarcação; acodirão-lhe com grande charidade, com o que avia, de modo que tornou outra vez a sy. Era hum mancebo, per nome Francisco Paez, que depois fez huma viagem da China, e sérvio cargos honrosos, e foy provedor-mor dos contos e teve o habito de Christo com tença; casou huma filha com hum fidalgo de nobre condição, chamado Fra- dique Carneiro, irmão do nosso charissimo Irmão Nuno Fernandez, ilustre por santidade e sangue, o qual morreo santamente no collegio de Coimbra. Duas cousas acon- tecerão aos que caminhavão por terra, dignas de memoria, com as quaes Deos, Nosso Senhor, os quis consolar em seus trabalhos; a primeira foi: Avia hum rio ou esteiro na ilha onde fizerão naufrágio, o qual, no tempo que nella estiverão, não podião passar, senão em jangadas, por ser fundo; depois, quando ja as embarcações erão partidas, o passarão, dando-lhes a agoa por baixo dos joelhos, atrribuindo todos isto a milagre. A segunda cousa foy que, indo elles caminhando, sayo do mar hum grande 603 %
  • lagarto (46) que parou diante delles; como que dizia: «Deos me manda aqui, pêra vossa sustentação». Vendo 1 j53 r.i elles que parava, o matarão as // lançadas; e, feito em postas, o cosinharão, e ficarão satisfeitos; e dizião que sabia a carneiro, muito gordo; e outros, a galinha; tal era o gosto que a fome deu a cousa que, noutro tempo, de nenhuma maneira comerão. Tres dias depois das embarcações partidas, surgirão numa enseada, onde acharão ribeiras de agoa doce, gin- givre semeado, e algumas palmeiras de cocos, que lhe servirão de bom refresco, pera matar a fome, porque ja entra vão polios tubarões, fazendo assaduras dos seus fí- gados. Estando surtos, virão, sobre a tarde, entre huns ilheos, hum junquinho, o qual forão logo demandar co- renta soldados, repartidos em dous bateis; pedirão os nossos aos negros que nelle vinhão que lhe dessem a embarcação, para se salvarem; a reposta foi negativa, e, sem demora, começaram de brigar, de parte a parte; durou a briga as primeiras duas horas da noite; e como a embarcação fosse alterosa, servião aos nossos de dardos e paos tostados; e depois de lhe faltar esta monição, aju- darão-se das armas dos judeus, servindo-lhe o lastro para a peleja; pedrada ouve que fez a rodela em duas partes; matarão-nos hum soldado e ferirão alguns. Finalmente, forão entrados; alguns mortos, e os mais se salvarão a nado; dous forão tomados debaixo da cuberta, e forão mortos. Trazião fouces de veniaga; acharão alguns fardos d'arroz, e alguns boyões de pelouros doces; levarão, os soldados, o junquinho a toa, e o mantimento se repartio pellos mais necessitados. Aconteceo este caso terça feira da Semana Sancta; e na madrugada seguinte se encontrarão tres cotias, com suas barquinhas por popa, com os nossos (46) De certo, um crocodilo. 604.
  • bateis. Advertirão os portugueses nellas, e, arremetendo, as tomarão sem resistência; trazião fouces e muitos pães de sagu, mantimento das ilhas de Amboino e Maluco. Os negros, depois de lançados ao mar, ferirão os christãos com frechas de peçonha. Achando-se os nossos com sete embarcações, convém a saber, com as tres que fizerão dos pedaços da nao; com as tres que tomarão, e com o jun- quinho; e se deu o capitão por obrigado a mandar buscar os companheiros que por terra caminha vão; os quaes não avia mais de quatro dias que tinhão deixado; mandou- -lhes recado por hum dos bateis, pera que fossem cami- nhando tê onde elle estava com os outros companheiros, por quanto avia bastantes embarcações, pera todos lar- gamente caberem. Folgarão com a nova e muito mais, quando se virão com os companheiros, abraçando-se com muita alegria, e dando graças ao capitão, por ter delles tam particular lembrança. Repartidos todos polias sete embarcações, se fizerão a vella, e ao dia seguinte, per- derão duas embarcações, que derão à costa, com huma trovoada que veyo da parte do mar; salvou-se a gente, e, por terra, foi ter a huma povoação do rio de Menan- cabo; aonde os outros também logo, por mar, forão ter; aqui se detiverão as Octavas da Paschoa, resgatando ga- linhas, e arros; a mais da gente portuguesa morava em terra, nhuns grande baileos, com costumado descuido e confiança da naçam portuguesa. Estava em terra Diogo Pereira de Vasconselos; deu-lhe, huma noite, hum grave accidente; acodio-lhe do mar Dona Francisca, sua mo- lher, tam concertada, como quando foi a porta da igreja. Esclarecendo o dia, pasmados //os naturaes da terra de 1353 v.i sua beleza e riqueza, determinarão de a tomar a seu ma- rido, pera a levarem a seu rey. A noite seguinte, veyo hum grande golpe de negros, os quaes, dando sobre a estancia de Diogo Pereira, começarão a ferir nos que acha- 605
  • rão. Tomarão os portugueses as armas, e travou-se a briga de maneira que morrerão sessenta dos nossos, e alguns negros; os imigos, ficando senhores do campo, levarão Dona Francisca, a qual morreo de paixão, ven- do-se sem marido, com a liberdade perdida, e em perigo de perder o que a honra mais estima. Vendo, pois, os portugueses a ruim hospedagem que os de Menancabo lhe fizerão, levarão ancora, e, dally por diante, forão mais acautelados. E fazendo sua viagem nas tres embarcações que fizerão e numa das tres que tomarão, ficando ally o junquinho, entrarão pollo boqueirão da Sunda e forão ter a Banta, onde acharão a Pero Barreto Rolim, o qual hia carregar de pimenta, pêra fazer a viagem de China e Japam; e outras naos e juncos de portugueses, dos quaes receberão muitos favores e gazalhados; alguns dos naufragantes se embarcarão pera a China, e os demais pera Malaca, onde estava por capitão daquella fortaleza João de Mendonça, que, com estar muito pobre, pedio dinheiro emprestado, e fez largas merces aos soldados e gente do mar, com que todos ficarão bem accomodados; e montou-lhe tanto este serviço que fez a el-rey que o nomeou, na 2.* via. E falecendo o Viso-Rey Dom Fran- cisco Coutinho, conde do Redondo, lhe socedeo no governo da índia, como em seu lugar diremos. Ao tempo que isto escrevo, que hé na era de 1607, vivem em Goa quatro dos que escaparão do naufrágio da nau Sam Paulo; o pri- meiro he Francisco Paez; a quem sempre a fortuna (como dizem) favoreceo; o 2.0 hê Pero Barbosa, ao qual sempre o mundo deu de rosto, com ser homem nobre, porem, tão pobre, que, sendo porteiro da massa da Sé de Goa, anda polias portarias das Religiões (47) e de algumas cazas principaes que, aos dias, o sustentão. O 3.0 se chama (47) Ou seja Ordens Religiosas. 606
  • Francisco Fernandes, gromete, o qual, depois de cair ao mar, se salvou, pera, depois, fazer naufrágio, e sua ventura o fez porteiro do Leilão na cidade de Goa, com o qual officio ainda continua; o 4.0 hê Antonio da Fon- seca, do serviço de El-Rey Dom João, ao qual também na índia sérvio e per seus serviços foi bem despachado; foi casado em Baçaim, onde sérvio cargos honrosos, que / pellos cidadões se custumão repartir; mas, achando-se elle sem as obrigações de casado, deu de mão ao mundo, e, no anno de 1584, entrou na Companhia de Jesus, na qual, ao presente, vive como bom religioso. Elle me deu as principaes enformações do que neste capitulo escrevo, ajudando-me também do que o chronista-môr, Diogo do Couto, escreve na Sétima Década; o qual também foi do serviço de El-Rey Dom João, e, sendo de quinze annos, veyo a India no anno de 1559 em a nao chamada Frol- -de-la-mar; de modo que há corenta e sete annos que anda na índia, na qual também sérvio a el-rey, com a espada na mão, na frol de sua idade; e depois de entrar na merce, que por seus serviços / / el-rey lhe fez, o sérvio 1554 r.j na derradeira idade com a pena, consagrando sua velhice pera escrever os illustres feitos de sua naçam, dando vida aos mortos, que, per sua historia, vivem na memoria dos viventes, fazendo aos ânimos generosos humas sanctas envejas, pera com ellas se animarem a imitação de seus antepassados. O nosso Padre Manoel Alvarez era pintor insigne, como se vê nas obras que nos deixou, quaes sam: o retavolo da igreja de S. Paulo de Goa; o do Apos- tolo Sam Thome, que estava na capella dos noviços; e Nossa Senhora da Piedade, que está na capella da enfer- maria do collegio; e, se me não engano, também pintou o de Nossa Senhora da Graça, da ilha de Chorão. Porem, não foi o padre menos insigne em debuxar e pintar as fermosas imagens das virtudes em sua alma, com as quaes 607
  • todos edifficava e ao ceo aggradava, pera onde Deos Nosso Senhor, como piamente cremos, o levou, pera lhe dar o premio de seus trabalhos. No mesmo anno de ses- senta vierão do Reino o Padre Antonio Arboleda, e o Irmão Francisco Roiz (48). (48) No décimo e último Livro desta obra do Padre Sebastião Alvares encontram-se ainda algumas referências mais a factos passados nas Missões da Insulindia, pertencentes a datas posteriores ao período de que neste volume nos ocupamos, devendo publicar-se na sua devida altura. 608
  • ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO JMSULfNDIA, tl — 39
  • ÍNDICE GEOGRÁFICO ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO Observação — Regra geral, procurámos dar, neste Índice, uma pequena nota identificativa dos nomes e dos lugares, fornecida, quase sempre, pelos documentos. Na transcrição dos nomes próprios indígenas, menos conhe- cidos e divulgados, mantemos a grafia portuguesa dos textos. Os números entre parêntese indicam as notas; os outros, as páginas. A Abreu (António de), cristão de Amboino — 442. A chão, personagem bíblico — 54- Achem (Acheh), reino ao nor- te de Sumatra — 151, 184, 231, 394. 405. 425, 531, 532. 537. 538, 540. 600, 601. Açores — 493. Adão — 54. Adunara, ilha no arquipélago de Solor — 512. Aeiro (Quechil), rei das Mo- lucas — 19, 30, 31, 32, 33, 34. 35- 38, 42, 120, 121, 133. 134(3). 137. 3". 503. 509- Afonso (António), português na Índia — 113, 119. Afonso (Luís), feitor — 28, 30. Africa — 29, 253, 356(8). A gaja (Quechil), irmão de D. Manuel, rei das Molucas, falecido em Malaca — 27. Agraã (Padre Luís), jesuíta no Brasil — 383. Aguiar (Francisco de), piloto — 213. Aguiar (Gonçalo Pêro?), es- crivão — 39. Aituas, indígenas de Amboino — 438. 611
  • Alaboa (Gamabora?), lugar nas Molucas—137, 141. Albuquerque (Afonso de), ea- pitão-mor da India — 468. Albuquerque (João de), O. F. M., bispo de Goa — 562, 563. 566. Alcáçova (Pêro de), irmão jesuíta na índia — 235, 236. Aleixo (Dom), régulo de Ti- mor, cujo nome completo era D. Aleixo Corte Real — 477 (15). Alemanha — 494. Alexandre, imperador — 529. Alfaias religiosas — 303. Alfuros, habitantes de Am- boino — 134, 144 (3), 478 (19)- Algarves — 29. Alilivo, lugar nas Molucas — 260. Almansor, rei das Molucas e pai de Pucaraga — 21, 501- Almeida (Francisco de), mo- ço da câmara — 118. Almeida (Francisco Lopes de), morador em Cochim — 476. Almeida (Pedro Gomes de), morador em Malaca — 8. Alvares (Fernão), irmão je- suíta na índia — 361, 445. Álvares (João), jesuíta em Macau — 447. Alvares (Jorge), mercador e capitão de um navio no Ja- pão — 541, 542. Alvares (Manuel), procurador de Jordão de Freitas — 31. Alvares (Nuno), português na índia —111. Álvares (Francisco), sacer- dote (?) nas Molucas — 498. Alvares (Padre Manuel), je- suíta, náufrago da nau S. Paulo e distinto pintor — 362, 365, 375 381, 429, 600, 601, 607. Alvares (Pedro), tripulante da nau S. Paulo — 404, 408, 409, 419, 420, 421, 422, 425, 426. Amboino, ilha e povoação na Insulíndia — 3, 5, 17, 79, 80, 83, 92, 100, 131, 134, 136, 138, 139, 141, 143, 144 (3), 145, 148, 168, 171, 183, 185, 186, 196, 197, 198, 205, 206, 207, 209, 217, 234, 268, 268 (31), 269, 337. 350. 351. 352, 354. 355. 356. 361. 372, 431. 433 - 435. 436. 439. 441, 442, 443, 447, 477, 478, 479, 481, 482, 483, 484, 488, 489, 490, 491, 493 . 495. 501. 503. 504. 512, 515, 516, 571, 585, 593- 605. Ana (Santa) — 503. Ancolá, lugar no reino de Achem (?) — 599. Andrade (António de), cris- tão da índia — 521. Andraguire, reino e porto da ilha de Sumatra — 537. 6 1 2
  • Anes (Cosme), vedor da Fa- zenda—185, 195, 196, 199, 200, 203, 543, 574. Anjêro, cristão japonês bap- tizado em Goa — 540, 541, 542 . 543- Antióquia — 570. António, cristão das Molucas — 440. António (Dom), rei de Tri- quinamale, em Ceilão — 352. António, moço português na Índia — 215. António, renegado de Am- boino — 482. Apocalipse — 77, 81. Apostolado leigo — 137, 140, 146, 346, 439, 451, 452, 453. 455- Arábia — 150. Aramuz, vide Ormuz. Araiíjo (Baltazar de), irmão jesuíta — 293, 308, 309, 332. 353 . 431. 439. 445. 594- Araújo (Fernão de), irmão jesuíta — 594. Araújo (Gaspar de), irmão jesuíta na índia — 529. Araújo (João de), português falecido nas Molucas — 206, 207, 489, 490. Arboleda (Padre António (?) Pedro de), jesuíta na Índia — 608. Armada do Nome de Jesus, formada em Malaca, contra os Achens — 529. Arnao (Tomé), postulante (?), auxiliar do Padre Francisco Peres em Malaca — 5. Aquaviva (Padre Cláudio), Geral da Companhia de Je- sus — 550. Ascenção, ilha — 384. Ásia — 279, 447. Assistência aos cristãos — 7, 18, 48, 315, 480, 487, 488, 517- Ataíde (Álvaro de), capitão de Malaca — 218, 549. Ataíde (Tristão de), capitão de Ternate — 21. 497, 502. Atalanguame, lugar e fortifi- cação nas Molucas — 329. Atenas, cidade capital da Gré- cia — 570. Ative, lugar de Amboino — 372, 438. 442. 477. 481, 482, 490. B Babu, filho do rei Quechil Aeiro — 307. Baçaim — xn, 120, 210, 275, 352. 367. 38o. 554' 557- 558' 569. 575. 576. 607. Bachão (Batjan), ilha nas Molucas — 86, 121, 250, 294, 298, 301, 313. 324, 325. 336' 337- 338' 339- 34°- 350. 351. 352. 354, 355. 355 (5). 456. 457- 493. 508. 586, 594- 595- Baçorá, fortaleza — 73. Baía de Todos os Santos — 383. 384- 6/5
  • Banda, ilha das Molucas, rica em noz moscada — 102, 104, 105, 119, 196, 217, 231, 270, 331, 380. 437, 478, 479. Banta, o mesmo que Ban- ka (?), ilha na costa orien- tal de Sumatra — 606. Baptismos — 6, 8, 15, 18, 22, 90, 97. I3I« *45. 222, 248, 269. 325. 327. 338. 441. 449, 450, 451, 454, 483, 498, 499, 501, 513, 541, 556, 588, 594. Barbosa (Pêro), náufrago da nau S. Paulo — 606. Barbudo (João), homem hon- rado — 215. Barreto (António Moniz), português na Índia — 556. Barreto (Francisco), gover- nador da Índia — 47, 275. Barreio (Gil), irmão jesuíta — 568. Barreto (Gomes), capitão de fusta — 530. Barreto (Pêro), fidalgo em a nau S. Paulo — 422. Barros (Francisco de), pa- rente de Leonel de Lima — 118. Barros (João de), cronista — 412 (12), 449 (5). Barzéu (Padre Gaspar), je- suíta na Índia — 75, 79, 129, 146. Basar-Tete, reino e posto administrativo de Timor — — 144.(3)- Bastião, indígena natural das Molucas — 24. 614. Batak, designação dos indí- genas de Sumatra. Batalhas navais — 531, 532, 533- 534- Bate cala (Bhatkal), porto e lugar de Goa — 115, 227, 245- Batjan, vide Bachão. Batochina, lugar na ilha de Moro — 503, 587, 588. Baucau, reino, vila e sede de circunscrição na ilha de Ti- mor—44 (3). Bauta, indígena de Amboino que se fez cristão e depois renegou a fé — 440. Beadela, ou Beadala, enseada na costa da Índia — 186. Bedas, indígenas das Molucas — 251. Beira (Padre João da), je- suíta nas Molucas — 5, 10, 12, 16, 48, 49, 75, 76, 77, 78, 80, 81, 85, 91, 130, 131. 133. 134' I35. 136. 141, 150, 157, 168, 171, 172, 178, 180, 233, 234, 241, 242, 243, 247, 254, 258, 259, 262, 265, 266, 292, 352, 466, 497, 516, 592. 594- Belgrado, cidade — 103. Belisário, executor da senten- ça de morte de S. Silvério. Bengala, região, cidade e gol- fo no Industão — 109, 115, 152, 154, 352, 362, 366, 38o, 577- Berberia, região na África — 511-
  • Beringão, Berinjam, ou Viz- hingani, lugar no reino de Coulão — 186, 223, Bernardino, irmão jesuíta em Portugal — 333. Bernardo, residente, com o Padre Francisco Peres, em Malaca — 5. Bethesaida, cidade — 476. Biçoa, lugar nas Molucas — 24. Bintão, ilha e reino ao sul da Península de Malaca — 537. Bisnaga, Bisnagar, Bisnegar ou Vijaynagar, cidade e reino no Industão — 352, 418, 576. Bispo de Goa — 78. Bispo de Malaca — 364. Bitjoli, lugar na ilha de Hal- maera, nas Molucas — 251 (13)- Boaar, filho de D. Isabel, rainha de Ternate — 195, 216, 491, 524. Bobonaro ou Onalo, reino, vila e sede de circunscrição em Timor — 144 (3). Bohayate (Quechil), irmão de D. Manuel, rei de Ternate — 21. Borba (Mestre Diogo de), O. F. M. — 526. Boredo (Gonçalo Pereira de), testemunha — 38. Bornéu, ilha na Insulíndia — 245. 362, 365- Botelho (Francisco ou Hen- rique), cristão malabar — 298. Botelho (Lourenço), merca- dor no Japão — 542. Botelho (Simão), feitor e ve- dor da Fazenda —111, 114, 151. 598- Braga, reino — 178. Brago, vide Bravo. Brandão (Aires), irmão je- suíta — 273. Brandão (António Pereira), português nas Molucas — 329- Bravo (Gonçalo Fernandes), morador nas Molucas — 31. Bravo (João), irmão jesuíta na Índia —5, 352, 580. Brazil— 346, 381, 381(1), 382, 383, 403, 599. Brito (António de), primeiro capitão de Ternate — 151, 153. 501. 502. Brito (Francisco de), fidalgo — 28, xi8. Brito (Jorge de), enviado a construir a fortaleza de Ter- nate em 1521, e morto pelos Achens, antes de chegar às Molucas — 151. Bubadilha ou Bobadilha (An- tónio de), português ferido em Malaca — 534. Búfala, nau — 519. Buro, ilha perto das Molucas — 92, 99, 136, 137, I39> 141, 145, 149, 511. Butuano, rei de certo lugar de Mindanau — 450. ó I 5
  • c Cablak ou Ablai, uma das montanhas mais altas de Timor —477 (15). Cabo da Boa Esperança — — 384. 599- Cabo Falso — 384. Cabral (Jorge), capitão-geral e governador da Índia — 73. 576. Cabral (Padre Francisco), — Provincial da Compa- nhia na Índia — 524, 550. Cairo — 245, 470. Cajoa, lugar de Java — 83. Calapa (Reino de)—422, 425. 426. Caldeira (Bento), tripulante da nau S. Paulo e criado de el-rei — 393, 408, 411, 426. Calecut — 345. Câmara (Padre Luís Gonçal- ves), reitor do colégio de Coimbra — 4. Câmara (Rui de Melo da), capitão da nau S. Paulo — — 381 (1), 389. 39°- 393- 425, 426, 599, 602. Camaya, ilha do arquipélago de Solor — 512. Cambaia, ou Guzarate, cida- de, reino e golfo — 555. Camboja, reino no Golfo de Sião —286, 344, 347. Cambusa, talvez Camboja ou Cambaia — 352. Camelo (João), escrivão de Baçaim — 120. Camerino (Paulo de), vide Paulo (Micer). Cananor, cidade na costa do Malabar — 352. Candeia ou Candia, reino de Ceilão —555, 556. Cangochima ou Kangoshima, porto do Japão —167, 541, 561, 583, 584. Cantão, cidade na China — 168, 175, 177, 186, 193, 213, 520, 583. Cardoso (André), noviço da Companhia de Jesus —160. Cardoso (António), secretário na Índia —196. Cardoso (Gaspar), português na Índia — 103. Cardoso (Manuel), parente de Gonçalo Vaz da Câmara — 426. Carlos V (Imperador) —487. Carneiro (Fradique), fidalgo — 603. Carneiro (Padre Belchior ou Melchior), bispo de Nicea — 149, 360, 376, 457. Carregueiro, morador em Ma- laca — 26, 38. Carrilho (Alvaro), nomeado cavaleiro nas Molucas — 68, 69, 72. Carvalho (Gil Fernandes de), capitão de nau — 51, 60, 61, 62, 63, 64, 65. Carvalho (Gonçalo Vaz de), capitão de uma nau — 423, 424, 425, 426, 427, Casamentos — 84. Casamentos inter - raciais — 322. 616
  • Casos prodigiosos —191, 192, 193. 195. 196. 197. I98' 199, 200, 201, 202, 205, 206, 207, 208, 209, 210, 211, 212, 213, 214, 215, 216, 218, 219, 220, 224, 227, 228, 229, 230, 23I, 258, 259, 453, 454, 455, 459, 460, 467, 474, 475, 476, 479, 49O, 492, 507, 512, 513, 515, 518, 519, 520, 521, 523, 539, 554, 565. 566, 567. 577. 591. 592. Cassimino, lugar de Mindanau — 450 (5). Castro (Afonso de), jesuí- ta morto nas Molucas — 5, 10, 15, 40, 48, 80, 92, 101, 130, 131, 133, 145, 150, 157, 159, 168, 171, 172, 178, 190, 263, 266, 269, 293, 294, 306, 307, 309, 311, 312, 313, 316, 317. 320, 321, 322, 334, 376, 467, 487, 576, 577, 587. 593- 594. 595 . 597- Castro (Dom Alvaro de), fi- lho de D. Toão de Castro — 564- Castro (D. João de), go- vernador da índia — 77, 78, 380, 509, 510, 556, 558, 561, 562, 563, 564. Castro (Dom Martim Afonso de), vice-rei da índia — 468. Castro (Francisco de), cava- leiro honrado, enviado por António Galvão a Macáçar — 449 (5)- 450. (5)- Castro (Jorge de), capitão de Ternate — 119, 124. Castro (Padre António de), vide Castro (Afonso de). Catabruno ou Catarabumi, perseguidor dos cristãos nas Molucas — 488, 489. Catarina (Dona), rainha — 524- Catequese — 4, 7, 8, 14, 48, 90, 94, 100, 131, 145, 162, 184, 186, 189, 190, 201, 223, 241, 243, 258, 262, 290. 325. 363. 371. 470. 501, 508. Catifa, fortaleza — 73. Caul —115, 352, 380, 574. Cayo, lugar nas Molucas — Cedro, nau — 428. Ceilão — 73, 198, 205, 208, 214, 352, 379, 380, 385, 454' 466. 519. 543. 546. 554- 555- 570. Celebes, arquipélago — 267, 268 (29). 449, 479. César, imperador — 529. Cesarea, cidade — 570. Chalé, fortaleza — 574. Chao, lugar nas Molucas — 134- Chaquamale, regedor das Mo- lucas — 27. Chaves (Francisco de), filho de um português casado em Malaca — 523. China — 3, 5, 16, 76, 79, 80, 103, 159, 160, 165, 166, 167, 168, 174, 175, 176, 177, 178, 185, 186, 188, 192, 193, 197, 199, 203, 213, 217, 218, 221, 223, 617
  • 224, 225, 236, 239. 272, 276, 285, 286, 315. 333 (i8), 346, 352, 362, 366, 368, 380, 425, 457, 520, 525, 541, 542, 571, 574, 581, 582, 583, 593 (44), 603, 606. China (Antônio), convertido e companheiro de S. Fran- cisco Xavier — 76, 131, 133, 168. China (Manuel), convertido — 583- Chincheo, lugar na China — 203, 213, 520, 583. Chipre — 570. Chiua, lugar nas Molucas — 257- Chorão, ilha de Goa — 351, 608. Ciasse, a ilha de Oma, hoje Haruku — 268. Ciborede, regedor de Toloco — 27. Cinde, Costa do, província e golfo onde desagua o Indo, ao norte de Cambaia — 125, 126. Cipriano (Padre Alonso ou Afonso), jesuíta na índia — 568, 576- Cochim — 73, 74, 81, 158, 192, 199, 210, 234, 311, 352, 361, 430, 457, 476, 543. 546. 549. 568, 569, 570. 575. 576. 577. 599- Cochinchina — 583. Coelho (Padre Gaspar), vigá- rio de Meliapor — 459. Coimbra — 17, 332, 381. Colaço (Vicente), procurador de Jordão de Freitas — 31. Colégio da Madre de Deus, em Macau — 448. Colégio de Coimbra — 603. Colégio de Malaca — 5, 161, 162, 175, 177, 179, 235, 291, 371, 524. Colégio de S. Paulo ou de Santa Fé, em Goa — 17, 84, 133, 136, 139, 143, 197, 204, 225, 228, 229, 230, 234, 235, 267, 334, 368, 371, 446, 466, 467, 471, 483, 491, 501, 509, 543, 563. 566, 574, 582. Colégio nas Molucas — 80. Comércio — 9, 104, 105, 106, 107, 108, 109, no, in, 112, 127, 128, 153, 154, 213, 237, 276, 277, 278, 363. 365. 366. Comorim — 146, 147, 185, 195, 196, 221, 222, 249, 266, 346, 369, 516, 550, 574- 576. Companhia de Jesus — 4, 7, 10, 18, 40, 78, 79, 81 82, 88, 129, 130. 133, 136, 137, 141, 143, 146, 148, 157, 171, 178, 179, 230, 233, 234, 238, 242, 247, 254, 255, 264, 292, 311, 312, 313, 323 (11), 327, 337, 344. 352, 353- 358, 361, 362, 364, 365, 368, 371, 374, 381 (1), 384, 402, 417, 423, 424, 427, 430, 443, 455, 480, 482, 491, 497, 516, 518, 545, 546, 547, 618
  • 550. 556. 562, 571. 576. 58o, 591, 598, 601, 603, 607. Compostela — 458. Concílio de Trento — 450 (5). Constância, princesa conver- tida nas Molucas — 326. Constantinopla — 245. Constituições e Regras da Companhia — 243, 323 (11). Conversões — 5, 14, 15, 22, 23. 48, 50. 75. 9°- 91' 96. 98, 99, 100, 141, 143, 172, 185, 186, 189, 201, 217, 248, 255, 263, 295, 346, 354 - 437- 546. 557- 558. 560, 561, 577, 579, 586, 1 594- Córdova — 568. Corinto, cidade — 471, 570. Coromandel, costa oriental da Península do Indostão — 152, 379. 38o. Corosaim, cidade — 476. Correia (Padre Paio), jesuíta na Europa — 432. Cosmo (Doutor Mestre) — 225. Costa (Amador da), irmão jesuíta — 524. Costa (Padre António), je- suíta na índia — 309. Costa (Padre Baltasar da), jesuíta na índia — 433. Costa (Padre Cristóvão da), jesuíta na índia — 358, 361, 363. 429- Coulão, porto do Malabar — 157. 368. 576, 602. Coutinho (António), testemu- nha — 26, 38. Coutinho (Dom Francisco), Conde de Redondo, vice- -rei — 606. Couto (Diogo do), cronista — 607. Covilhã, cidade — 579. Criado (João), português nas Molucas — 32. Criminal (Padre António), jesuíta na índia — 7, 466, 516, 551. 554- 568. Cristianização dos costumes indígenas — 95, 97, 131, 162, 205, 222, 239, 242, 244, 289, 364, 471, 472, 473- 496, 586. Cuche (Quechil), regedor de Maquiem — 28. Cuenca (Padre Jerónimo de), jesuíta na índia — 352, 369- Cugala, regedor indígena — 27. Cunha (Nuno da), governa- dor da índia — 152 (2), 153. 154. 499. 502. Cunha (Padre Francisco da), reitor do colégio de S. Paulo de Goa — 483, 486. Cunha (Simão da), irmão de Nuno da Cunha — 165. D Dachem, vide Achem. Dagadás, indígenas da região de Lautem, em Timor — 478 (19)- 6 1 ç
  • Daialo, filho de D. Isabel, rainha de Ternate — 21, 502. Dal gado (Mons. Rodolfo), escritor orientalista — 223 (22), 412 (12), 494 (25). 506 (27). Daroez (Quechil), principal nas Molucas — 501. David, rei, profeta — 54, 465, 548, 561, 589. Dayak, habitantes de Bornéu — 478 (19). Décio, imperador — 96, 587. Despesas do culto — 155. Deus Misericórdia, nau — 428. Dias (António), irmão jesuíta — 176. Dias (António), náufrago da nau S. Paulo — 390, 402, 403, 409, 417, 418, 601. Dias (Belchior), irmão jesuíta —176. Dias (Padre Baltasar), jesuíta na índia —233, 234, 238, 240, 245, 246, 247, 272, 273, 285, 286, 291, 307, 309. 336, 340. 341. 343- 344, 348, 349, 362, 363, 371. 427, 428, 534. Dimaconora, lugar nas Molu- cas — 24. Dio, fortaleza — 127, 352, 380, 562. Diocleciano, imperador — 96, 587- Diogo (Dom), filho do conde de Feira — 327. Diogo (Mestre), vide Borba. Divar, ilha — 451. 620 Dominicanos —178, 347, 365, 598. Duco, nome por que também era designada a ilha de Ti- dor — 493. Durão (Padre Francisco), je- suíta na índia — 369, 469. E Eça (Dom Duarte d'), capi- tão das Molucas — 43, 45, 46, 338. 432- Eça (Francisco de), vide Sá. Eça (D. Jorge de), vide Sá. Efeso — 570. Eiró (João de), mercador de- voto de S. Francisco Xa- vier—183, 201, 202, 207, 214, 215, 461, 465, 466, 495, 516, 517, 519. Élimas, judeu adversário dos cristãos nos primeiros tem- pos da Igreja — 473. Embaixada à China — 2x8. Embima (Quaque), tio de D. Manuel, rei de Ternate — 27. Encomendação das almas — 95, 162, 470. Eneida, poema — 385(5). Enes (?) (Francisco) — 296 (3). Ensino das primeiras letras — 49- 95- 135. 222, 223, 242, 243- Escolas nas Molucas — 232, 243, 258, 497, 500. Escravos —116, 240, 341, 290, 342, 363.
  • Espanha— 103, 451, 456, 57°- Esrael — 54. Etiópia — 29, 456. Etna — 493. Europa — 3, 234, 270, 495. Évora — 332, 494. Exercícios Espirituais — 40, 161, 543, 561, 565, 580. F Fabro (Padre Pêro), Geral da Companhia — 545. Faria (Pêro de), português na índia — 105. Faria (Visconde de)—381 (i)- Fauna das Molucas — 251, 252, 253, 258, 448, 478, 493. 495- Feio (António), náufrago da nau S. Paulo. Feira (Conde da) —327. Feitiçarias — 97, 325, 346, 514. 523. 552. 559- Fernandes (Antônio), capitão da nau S. Paulo — 599. Fernandes (António), filho de João Fernandes — 474. Fernandes (António), irmão jesuíta —131, 133, 134, 136. 137. 139. J42. 143. 157, 159, 269(32), 445(1). Fernandes (Bastião), mora- dor em Malaca — 28. Fernandes (Cristóvão), licen- ciado — 39. Fernandes (Francisco), gru- mete da nau S. Paulo — 607. Fernandes (Garcia), portu- guês do Reino — 333 (18). Fernandes (Gonçalo), irmão jesuíta nas Molucas — 361. Fernandes (Gonçalo), mestre de uma nau — 198, 543, 515- Fernandes (João), cavaleiro português em Malaca — 474- Fernandes (João), irmão je- suíta — 10, 568, 577. Fernandes (Maria), mulher de Francisco Gonçalves — 119. Fernandes (Miguel), portu- guês na Pescaria — 555. Fernandes (Nuno), irmão je- suíta — 603. Fernandes (Padre André), companheiro do Padre Dom Gonçalo da Silveira — 352, 369- Fernandes (Padre António), jesuíta nas Molucas — 293, 304. 353- 367. 433- Fernandes (Padre Jerónimo), jesuíta na índia — 352, 362, 366, 427. Fernando (Dom) —541. Ferreira (Alvaro), compa- nheiro de Francisco Xavier — 76. Figueira (Afonso), escrivão — 118. Figueiredo (Francisco de), intérprete — 28. Figueiredo (Padre Melchior de), jesuíta na índia — 130, 131, 133. 134, 168, 180, 264, 291, 293, 469. 621 %
  • Filipinas — 493. Firacus, habitantes da zona de Baucau era Timor — 144 (3). 478 (19)- Flandres — 391. Flora das Molucas— 251, 253, 448, 477, 494, 495. Flores (Ilha das), na Insu- líndia — 344, 346 (2). Fonseca (Antônio da), náu- frago da nau S. Paulo — 607. Fonseca (Bastião da), feitor —108. Fonseca (Vicente da), capi- tão de Ternate — 502. Fortaleza de Atnboino — 484. Fortaleza de Geilolo, nas Mo- lucas — 70, 73, 250. Fortaleza de Malaca —16, 20, 25, 49, 118, 131,. 134, 237. Fortaleza de S. João Baptista, vide Fortaleza de Ternate. Fortaleza de Ternate, nas Mo- lucas — 13, 26, 27, 29, 31, 32, 38, 49, 73, 151, 155, 501. Franciscanos — 178, 563. Francisco (Adão), irmão je- suíta — 7. Francisco (Dom), rei conver- tido, de Casimiro, em Min- danau — 450 (5). Francisco (Frei), dominicano em Malaca — 286. Freire (Alvaro), criado de el-rei e tripulante da nau S. Paulo — 393, 409. Freire (Fulgêncio), irmão je- suíta — 376. Freitas (Diogo de), fidalgo — 27, 28, 30. Freitas (Jordão de), 22, 24, 26, 30, 43, 44, 45, 46, 113, 122, 143, 504, 509. Freitas (Vasco de), sobrinho de Jordão de Freitas—143. Frigia — 570. Fróis (Luis), irmão jesuíta — 160, 170, 174, 179, 233, 292, 334- 336, 349. 351. 354- 36o, 370, 371, 372, 376, 378, 568, 576. G Gaçaim ou Agacirn (?), lugar em Java — 436. Gago (Padre Baltasar), je- suíta na índia e no Japão — 368, 576. Galácea — 570. Galelas, habitantes das Mo- lucas — 332. Galle (Porto de), em Ceilão — 554- Galvão (António), capitão das Molucas — 449(5), 450, 478, 499, 500, 502. Galvão (António), cristão na- tural de Macáçar—449(5). Galvão (João), português na índia — 196, 495, 496. Galvão (Manuel), nome que adoptou no baptismo um dos principais de Ternate convertido, e que se cha- mava Quechil Sabija — 499. Galvão (Miguel), cristão de Macáçar —449 (5). 622
  • Gama (Duarte da), capitão de nau — 166, 190, 192. Gama (Estêvão da), gover- nador da índia — 22. Gamoçanora, potentado de Tidor (?) — 331. Gandel, costa de Cinde —125. Ganes, habitantes das Molucas — 251. Gape, mandarim nas Molucas — 27. 3i- Gape, o mesmo que Teraate — 493- Garcia (Afonso), vice-rei da índia — 119. Garcia (Gonçalo), piloto da nau Búfalo — 202, 519. Gaspar da Cruz (Frei), do- minicano — 174, 178, 286. Gaspar (Dom Leão), arce- bispo de Goa — 370. Gaspar (Padre Mestre), je- suíta na índia — 76, 78, 159, 246, 568, 574, 576, 593 (44)- Gebe, ilha das Molucas — 254 (23)- Geilolo ou Djilolo, lugar nas Molucas — 48, 50, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 82, 83, 84, 86, 120, 121, 122, 234, 250, 251 (13), 256, 257, 264, 265, 266, 269, 306, 321, 499- 507. 586, 589, 590, 592. 597- Geles (João), cavaleiro e mo- rador na índia — 397. Geleves, habitantes das Mo- lucas — 83. Gentil (Afonso), capitão de fusta — 530. Gentil (Afonso), vedor da Fazenda — 277. Gil (Diogo), português fale- cido em Temate — 513. Goa — 21, 22, 31, 40, 76, 84, 91, 102, 132, 133, 139, 143, 148, 150, 158, 159, 160, 171, 180, 181, 184, 189, 199, 203, 204, 206, 223, 224, 225, 226, 228, 230, 235. 236, 341, 245, 267, 273, 280, 281, 285, 292, 293. 309. 3". 334. 336. 337. 349. 351. 36o, 361. 363. 366, 368, 370. 371. 375 (2). 376. 433- 443- 445. 456, 480, 491, 494 (25), 498, 502, 509, 510, 516, 520, 524, 543, 544, 550, 554- 555- 556, 558. 559- 560, 561, 562, 564, 565, 568, 569, 571, 574, 576, 577- 582, 598, 599, 606, 607. Godinho (Duarte), tabelião público — 27, 28, 29, 30, 38, 118. Godinho (Francisco), irmão jesuíta nas Molucas — 131, 134, 157, 178, 180, 382. Godinho (Manuel), português em Malaca — 535, 550. Góis (Damião de), cronista — 500. Góis (Estêvão de), irmão je- suíta na índia e Japão — 165, 176. Gomes (Duarte), português casado em Baçaim — 11, 120. 623
  • Gomes (Fernão), criado de el-rei — 277. Gomes (Fernandes), tabelião — 118. Gomes (Manuel), irmão je- suíta na Índia — 361, 445. Gomes (Padre António), je- suíta na Índia — 150, 568, 574- 577- Gomes (Paulo), irmão jesuíta em Malaca — 232, 285, 291. 345. 349- Gonçalo (António), mestre de um navio — 205. Gonçalves (António), irmão jesuíta nas Molucas (?) — 445- Gonçalves (Belchior), portu- guês na Índia — 109. Gonçalves (Francico), irmão jesuíta nas Molucas — 11, 16, 576. Gonçalves (Francisco), por- tuguês na Índia, casado em Mandovi — 111, 119. Gonçalves (João), português da India e náufrago da nau S. Paulo — 390, 393, 409, 418, 419, 423, 426. Gonçalves (Padre Belchior ou Melchior), jesuíta na Índia — 568, 576. Gonçalves (Padre Sebastião), jesuíta na Índia, historia- dor—361(1), 446, 448, 608 (48). Graça (Lopo da), escrivão — 39- Gramoia (Pate), marido de Pucaraga, mãe de D. Ma- nuel, rei de Ternate — 28. 624 Grão-Turco — 73, 165. Guerras com indígenas — 231, 243, 264, 308, 329, 330, 331. 332. 367. 436. 525. 526, 527, 528, 590, 597. Guilherme (Pêro Vaz), por- tuguês morto em Malaca — 52. Guiné — 29, 383. Guzarate, irmão do rei das Molucas, Quechil Aeiro — 31- H Halmahera, ilha das Molucas — 251 (13)- Haruku, ilha das Molucas — 268 (13.). Heliogabalo, imperador — 463- Henriques (Padre Francisco), jesuíta na Índia — 554, 572. 573- Henriques (Padre Henrique), jesuíta na Índia — 40, 132, 269, 551. Hércules (António), religioso agostiniano em Amboino — 435 - 437- Hiler, bairro de Malaca — 444 (14)- Hoça, o mesmo que Ossa, serra — 493. Homa ou Orna, ilha e lugar nas Molucas — 437, 438, 468. Hospital de Ternate — 156.
  • I Idalcão — 562. Idolatria — 261, 262. Igreja catedral de Goa — 21, 22. Igreja de Moro, na mesma ilha — 89. Igreja de Nossa Senhora, em Amboino — 6, 141, 190. Igreja maior, em Malaca — 8, 20. Ilha das Vacas — 196. Ilha dos Romeiros — 385. Ilhas das Naus, perto de Ma- laca — 5, 18, 526. Ilhas das Sete-Irmãs — 385. Ilhas de Nicubar, à entrada do Golfo de Bengala — 577- Ilhas Maldivas — 73. índia — 8, 12, 13, 15, 17, 21, 22, 29, 30, 36, 38, 39, 46, 75- 76. 79- 81, 104, 105, 106, 118, 123, 129, 130, 148, 149, 150, 151, 153. 154, 160, 166, 170, 171, 175. 177. l8o> i83. I86, 192. 193, 198, 210, 214, 217. 218, 219, 220 (21), 223 (22), 224, 229, 230, 234, 236, 237, 245, 246, 247, 258, 266, 267, 272, 273. 275, 290. 293, 315, 326, 334 - 336. 341. 351» 353. 356 (8), 364. 370. 371. 379- 38I. 389. 390. 397- 402, 409, 424, 427, 428, 433. 435. 442. 443. 445 (1). 448. 450, 454, 456, 462, 468, 494. 496, 497, 499, JNSILÍNDIA, II — 40 502. 510, 515, 516, 519, 521. 540, 542, 543, 547, 549- 555. 556. 558. 562, 565. 566, 569, 570. 573. 584. 593. 594- 607. Informações locais — 13, 16, 20, 24, 41, 66, 79, 81, 83, 91, 95, 98, 99, 118. 125, 137, 140, 141, 150, 165, 167, 175, 177, 237, 249, 250, 251, 252, 253, 256, 267, 268, 269, 270, 299, 304. 305. 337- 345. 346. 347. 352. 366, 448. 449. 467. 477, 493. Inhambane — 352, 369. Inquisição — 364. Insulíndia — 261(25), 448 (1), 608 (48). Ires, ilha nas Molucas — 316, 317. 319' 320, 321. 596- Isabel, rainha convertida nas Molucas, mãe de D. Ma- nuel, rei de Ternate — 248, 501. 503- Isaías, profeta — 98, 570. Itália — 494. J Jafanapatão ou Jaffna-Pa- tam. reino e cidade na par- te setentrional de Ceilão — 369- Janicero ou janizero, soldado turco —525, 526.^ Jantana, reino de Sião — 79, 163. Jaós, habitantes de Java — 5i. 57- 83. 408 ' 534- 625
  • Japão — 3, 5, 8, 16, 41, 43, 46, 74, 76, 79, 80, 81, 85, 136, 143, 149, 150, 158, 159, 160, 162, 163, 164, 165, 166, 167, 168, 171, 173, 174, 175, 176, 177, 183, 185, 190, 192, 193, 203, 209, 217, 233 (1), 235, 236, 238, 246, 266, 272, 273, 285, 292 (1), 301, 304. 309, 311 (i). 312, 313 (1), 317 (4). 336 (x), 341 (1). 342. 352, 354 (1). 358. 36o (1), 361, 367, 368, 369 (1), 372 (1). 374- 376, 381 (1). 433 (i). 435 (i). 445- 447. 457. 507. 524. 540. 541. 543. 565. 571. 575- 58o. 581, 582, 583, 606. Java — 83, 163, 237, 347, 352, 362, 365, 437. Javaros, indígenas do Moro — 503. 507• Jerusalém — 476, 561, 570. Joana, mulher de João Fer- nandes — 474. João (Dom), o Grande, rei butuano, depois de conver- tido — 450. João (Dom), rei de Bachão — 298, 336, 338, 339, 498. João (Dom), rei convertido de Sião — 454. João (Dom), vide Pirilano. João III (Dom), rei de Por- tugal — 19, 23, 26, 27, 29, 68, 80, 129, 181, 273, 447, 499. 548. 557- 562, 573, 575. 607. João (Preste), o mesmo que Etiópia — 368, 376. Job — 484. Jorge (Dom), cristão de Moro — 587- Jorge (Francisco), irmão je- suíta em Malaca — 427, 430. 432. Josafat (Val de) — 199. Judeia — 456. Juncalão, ou Juncalam, porto do reino de Sião a oeste da península de Malaca — 532. Junco de Ladrão, nome da embarcação que S. Fran- cisco Xavier tomou, na via- gem para o Japão — 581. Lamakitos, habitantes de Bo- bonaro, em Timor — 144 (3)- Lamala, ilha de Solor — 512 (28). Lanciloto (Padre Nicolau), jesuíta na Índia — 40, 157, 466, 551, 568, 576. Lausana, cidade na Suíça — 381 (1). Lavonama, ilha nas Flores — 344- 346- Leitão (Fernão), cavaleiro — 28, 31. Leitão (Fernão), escrivão — 188. Leliato, capitão indígena de Ternate — 438, 480. Léquio, ilha ao sul do Japão — 352. Liaçar, ilha das Molucas — 478. 626
  • Liampó, lugar na China — 166. Licino — 96, 587. Lima (Henrique de), cafre — 597- Lima (Leonel de), testemu- nha— 26, 28, 38, 1x8, 153, 325, 325 (13). Linguistica — 13, 135, 168, 193, 217, 293, 298, 323, 345. 363. 469. 478. 505. 554- Líquio, vide Léquio. Lisboa — 181, 182, 280, 281, 332. 359- 365. 38I (1). 383. 386, 414, 593, 597, 599- Lobato (Bastião Lopes), pro- curador de Jordão de Frei- tas — 31. Loiola (Padre Inácio de) — 10, 12, 40, 79, 92, 146, 148, 149, 157, 568. Loloda, lugar nas Molucas — 251- Lopes (António), escrivão — 25- Lopes (Domingos), escrivão nas Molucas — 72. Lopes (Duarte), ouvidor — 27, 28, 30. Lopes (Gaspar), contador de el-rei — 469. Lopes (João), feitor — 109. Lopes (Padre Francisco), je- suíta na fndia — 368. Lopes (Padre João), religioso da Companhia — 469. Lopes (Pêro), feitor — 159. Lordelo (Henrique Fernandes de), testemunha — 28, 30. Losano (João de), castelhano na Índia — 466. Lourenço (Dom), príncipe da ilha de Solor convertido — 371. 512. Lucebates, habitantes das Mo- lucas — 140. Lucena (Padre João de) — 520. 523, 566. Luís (Dom), rei de Supa — 454- Luís (Pêro), brâmane — 352. M Mabas, habitantes das Molu- cas — 251. Macáçar — 344, 347 (3), 348, 352, 362, 366, 448, 450, 452, 455. 456. 457. 461' 465, 466, 495, 499. Macau — 4.47, 524. Macedónia — 570. Machado (Bastião), português nas Molucas — 330. Madalena (Maria)—521. Madeira (Aleixo), irmão je- suíta na índia — 584. Madeira (Diogo), português na Índia — 577. Madeira (Duarte), português morto em Malaca — 52. Mafamede — 245, 246, 248, 338. 345- 347- 348. 377- 451, 480, 485, 593- 594- Magalhães (Diogo de), irmão nas Molucas — 361, 442, 445. 482. Magalhães (Fernão), moço da câmara — 1x8. 627 %
  • Magira (Culano), rei de Ter- nate, pai de D. Manuel, morto em Malaca — 21. Mahamede, rei de Malaca — 468. Maia (Francisco), português na Índia — 113, 119. Maia (Manuel Dias), tabelião — 34- 35. 37- 38. Malabar— 193, 551 (37). Malaca — 3, 7, 9, 10, 15, 17, 18, 20, 22, 25, 27, 29, 32, 36, 41, 44, 49, 51, 52, 60, 67. 69, 73, 76, 77, 79, 91, 103, 1x8, 148, 150, 151, 153. 154. 155. 158. 159. 160, 162, 165, 166, 167, 169, 170, 174, 175, 176, 177, 179, 183, 184, 186, 190, 192, 193, 197, 198, 200, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 209, 216, 218, 221, 222, 223, 224, 226, 227, 230, 231, 233, 234, 235. 238, 248, 249, 272, 273, 275, 276, 277, 278, 279, 285, 291, 292, 309, 311, 312, 313, 331, 332, 340. 341. 342 . 343. 344. 345- 347. 348, 349. 352. 358. 360, 361, 362, 363, 366, 369, 370, 371, 374, 375. 379- 38o, 381, 382, 390, 425, 426, 428, 429 (17), 436, 451, 454, 456, 457, 468, 469, 470, 471, 472, 473, 475, 476, 478, 490, 491, 493, 498, 502, 508, 510, 511, 513 (29), 515, 516, 519, 523, 524, 525. 531. 532. 534. 535. 536. 538. 539- 540. 541' 542. 543- 549- 557. 558. 561, 562, 571, 575, 576. 577- 578, 579. 58o, 581, 583. 585. 603, 606. Malaio, povoação nas Molu- cas — 597. Malaios — habitantes da In- sulíndia — 51, 57, 61, 62. Malfi, no reino de Nápoles — 458. Manado ou Menado, no extre- mo norte das Celebes — 267. Manamolapa, terra do ouro — 352. 469- Manar, ilha — 197, 369, 555. Mancebias — 190, 222. Mandovim — 111. Manguche, lugar no Japão — 368. Manrique (Fernam Macha- do), testemunha — 26, 38. Mansilhas (Padre Francisco), jesuíta na Índia — 466, 5ió. Manuel, cristão de Amboino — 372. 435- 436. 438. 439- 440, 443, 467, 481, 482. Manuel (Dom), rei de Ter- nate — 19, 20, 21, 25, 26, 27, 28, 30, 33, 36, 38, 248, 502. Manuel I (Dom), rei de Por- tugal — 500. Manuel, náufrago da nau S. Paulo — 403. Maquiem, lugar das Molucas — 20, 28, 121, 249, 433. Maria, irmã de Lázaro — 567. 628
  • Martini (Afonso), português na Índia — 117. Martins (Afonso), vigário de Malaca — 579. Martins (Antão), senhorio da nau S. Paulo — 599. Martins (Gaspar), tabelião em Malaca — 26, 38. Martins (Vicente), escrivão — 29, 30. Mascarenhas (Dom João), designado em primeira via para governador da índia, havendo-se ausentado já para o Reino — 564. Mascarenhas (D. Pedro de), vice-rei da Índia — 181, 275. 598- Mascarenhas (Padre Pêro), jesuíta nas Molucas — 361, 435, 444, 445, 481, 482. Maurício, padre a quem foi escrita uma carta pelo Pa- dre Mestre Prancudo — 374. Maxêncio — 586. Maximiano — 96. Maximínio — 587. Meaco, lugar no Japão — 368. Meca — 245. Mécia, escrava de D. Manuel, rei de Ternate — 24. Melinde —106. Melo (Heitor de), fidalgo e testemunha — 26, 38. Melo (Simão de), capitão de Malaca — 526, 530, 536, 537- 538. Menancabo, reino de Sumatra — 276, 606. Mendes (Bastião), cristão in- dígena das Molucas — 319. Mendes (Gaspar), capitão de nau — 64, 65. Mendes (Salvador), morador nas Molucas — 31. Mendonça (João de), fidalgo capitão de Malaca — 427, 428, 606. Meneses (Dom Garcia de), capitão das Molucas — si, 52. 55. 66. Meneses (D. Rodrigo de), ca- valeiro e pai de D. Jorge de Meneses, capitão das Molucas — 83. Meneses (D. Rodrigo de), je- suíta na Europa — 4. Mesquita (Manuel de), teste- munha — 26, 28. Mesquita (Padre João de), jesuíta em Coulão — 352. Mestiços — 243, 363. Mian, reino da Nova Guiné — 9i (7)- Mindanao, ilha de — 267, 268, 450 (5)- Mirão (Padre Mestre), jesuíta na Índia — 4, 171. Misericórdia das Molucas — 326. Misericórdia de Malaca — 8, 61, 168, 286. Missol — 91 (7). Moçambique — 106, 206, 219, 379- Mohama, ouvidor indígena — 27. Mollduturo, mandarim nas Molucas — 27. 6 2 ç
  • Molucas, Maluco e Malucas — 3, 5, io, li, 12, 13, 14, 16, 17, 19, 21, 22, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 31, 33, 36, 36, 38. 39- 4°. 41' 42- 45- 46, 47, 48, 50, 69, 70, 72, 73- 74- 75- 77. 78. 79. 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 91, 92, 99, 101, 102, 103, 105, 106, 113, 117, 118, 119, 120, 121, 123, 124, 125, 127, 129, 130, 131, 136, 141, 146, 147, 148, 149, 150, 151, 152, 153, 154. 155. 157. 158. 159. 160, 168, 171, 172, 173, 174, 178, 180, 183, 185, 186, 187, 189, 190, 193, 196, 198, 206, 207, 210, 211, 213, 233, 234, 235, 241, 242, 247, 248, 254, 255, 265, 266, 268, 273, 283, 290, 291, 292, 293, 295. 301. 307. 3°9' 3". 312, 314, 315, 333, 334, 335- 336. 337. 338, 339- 340, 341, 342, 344, 349, 350, 353- 358. 360, 361, 362, 366, 367, 373, 374, 375. 376- 377. 379- 38o, 429, 430, 433, 435, 436, 443, 445 (1), 446, 448, 466, 478, 487, 488, 490, 493, 494, 495, 498, 499, 500, 502, 508, 509, 510, 511, 517. 530, 534- 541. 557. 571. 576, 580, 586, 592, 593- 594. 597. 605. Momoia, ilha das Molucas — 497, 498. Monções — 13. 236, 515, 517. 6 j o Morais (Manuel de), irmão jesuíta nas Molucas — 5, 10, 15, 16, 551, 571, 576. Morais (Padre Manuel de), jesuíta na Índia — 584, 593 (44)- Moro ou O mor o — 5, 20, 48, 49, 50, 80, 81, 82, 84, 85, 91, 92, 95, 131, 132, 133, 134. x35» I41' i48. 168, 171, 172, 178, 179, 183, 185, 186, 209, 210, 2x1 (15), 250, 251, 255, 256, 259, 263, 265, 269, 293, 307, 312, 316, 317 (4), 327, 331. 332. 334, 335, 350, 351. 352. 377, 431, 478, 484, 497, 500, 503, 504, 505. 508, 510, 586, 587. 588, 592, 595. Moro (Francisco), cristão in- dígena — 482, 484, 485, 487. Morotai, ilha das Molucas — 95, 250, 304, 305. Morotia, outra ilha das Mo- lucas — 95, 96, 98, 250, 503- Morlavão e Martabão, porto, cidade e fortaleza num rei- no confim de Pegu — 325. Mota (Fabião da), tesoureiro — ill, 120. Moutel ou Moutil, lugar nas Molucas — 20, 244, 329, 493- Muar (rio), no reino do mes- mo nome, na península de Malaca, perto desta cidade — 537-
  • N Nagapatão ou Negapatão, porto e cidade na costa do Coromandel — 205, 212, 455- 458. 571- Nápoles — 458. Navios corsários — 209. Negapatão, vide Nagapatão. Nicea — 457. Nicolaio, regedor indígena — 27- Noronha (Antão de), capitão- -mor da armada — 73. Noronha (Dom Afonso de), vice-rei da Índia — 72, 74, 154. 599- Noronha (Dom António de), capitão de Malaca — 278. Noronha (Dom Diogo de), capitão de Dio — 473. Noronha (Dom Garcia de), vice-rei da Índia — 22, 152 (2). Nossa Senhora do Monte, ca- pela em Malaca, onde S. Francisco Xavier costuma- va orar — 358. Nova Espanha — 487, 488. Nova Guiné — 81, 91, 254 (20). Nunes (António), autor — (2)- Nunes (Baltasar), religioso da Companhia nas Molucas — 10, 551, 571. Nunes Barreto (Padre Bel- chior ou Melchior), vice- -provincial da Companhia na Índia — 148, 159, 160, 161, 162, 163, 166, 167, 174. 175. 177. 193- Nunes (Francisco), capitão de uma nau — 455. Nunes (Padre Nicolau), je- suíta na Índia — 48, 50, 80, 86, 91, 92, 97, 130, 131, 132, 133. 134, 157. 159, 178, 180, 233, 234, 241, 242, 247, 249, 251, 253. 257, 260, 263, 264, 266, 267, 292, 293, 304, 323. 331. 353. 43C 445. 516, 594. Nunes (Vicente), escrivão — 28, 29, 30. O Ogulo, reino da Nova Guiné — 91. Oliveira (Gonçalo de), por- tuguês nas Molucas — 305. Oliveira (Roque de), irmão jesuíta na Índia — 10, 561. Orna, o mesmo que Haruku e Ciasse, ilha nas Molucas — 268 (30). Ordem de S. Domingos — 76, 178, 286, 428, 512. Ordem de S. Francisco — 76, 178. Ormuz — 105, X13, 120, 127, 150, 171, 352, 379, 380. 5&7- Oséias (Profeta)—327. Oton, reino da Nova Guiné — 91. Oviedo (Dom André de), bis- po do Preste João — 376. 6 5 1
  • p Page (Quechil), irmão de D. Manuel, rei de Ternate — 27. Pais (Francisco), mancebo náufrago da nau S. Paulo — 603, 606. Paiva (António de), merca- dor — 450, 451, 452, 453. Paiva (Francisco de), mora- dor em Malaca — 56. Paiva (Luís de), testemunha — 28. Palha (Francisco), feitor — 31, 42, 43, 47, 102, 128, 489, 490. Panaruca (Pamanukan), ci- dade na ilha de Java — 344. 347. 436- Papuas, habitantes da Papuá- sia —91, 136, 137, 254, 255- • Paravas, pescadores da Costa da Pescaria, entre o Cabo Comorim e a ilha Manar — 481. 549- Paris — 113. Parles, rio e povoação no rei- no de Quedá, na Península de Malaca — 231, 532, 534. Parma, cidade — 466. Parmanel, terra da índia — 86. Pascoal (Padre Gonçalves), jesuíta que naufragou a ca- minho da índia — 389. Patane, reino na Península de Malaca — 164, 176, 276, 538. 632 Patanes, naturais do reino Pa- tane — 79, 352. Patenia, nome indígena de certa princesa ternatense — 326. Paulo (Micer), sacerdote je- suíta na índia — 490, 491, 516, 551, 568, 576. Paulo de Santa Fé, japonês convertido — 8, 577, 581, 583. 584- Paulo IV, papa — 279. Paulo Sérgio — convertido por S. Paulo — 503. Pedir, reino de Sumatra — 525. 532. 533- Pegu, Reino de — 178, 276, 352, 362, 365, 380, 530. Pélio (Monte)—493. Pereira (António), capitão de nau — 192, 193. Pereira (António), cunhado de Simão da Cunha — 165, 469. Pereira (António de Sá), português na índia — 216, 524- Pereira (Cristóvão), portu- guês em Goa — 228. Pereira (Diogo), capitão de fustas em Malaca — 530. Pereira (Diogo), mercador, amigo de S. Francisco Xa- vier — 153, 192, 2x3, 217, 218, 224, 368, 473, 475, 594- Pereira (Diogo), náufrago da nau S. Paulo — 401, 414. Pereira (Gaspar), ouvidor — 31.
  • Pereira (Gonçalo), testemu- nha — 26. Pereira (Guilhelme ou Gui- lherme), irmão jesuíta na Índia — 161 ,163, 164. Pereira (Romão), irmão je- suíta em Ormuz — 576. Pereira (Rui), sacristão em Malaca — 161. Pereira (Rui Dias), portu- guês na Índia — 475, 478, Pereira (Rui Vaz), capitão em Malaca — 451. Pereira (Vicente), postulante da Companhia de Jesus — 136, 138. 139, 143, 145, 159- Peres (Padre Francisco), je- suíta na Índia — 3, 9, 10, 17. 51. 67. 79- 131. 159. 238, 368, 551, 561, 569, 580. Perles, vide Parles. Perseguições dos cristãos con- vertidos — 13, 14, 15, 16, 17, 49, 80, 82, 86, 96, 98, 99, 139, 141, 248, 264, 299, 307, 312, 315, 316, 317, 318, 329, 334, 335, 355, 377- 437. 438, 440. 441. 480, 481, 485, 486, 498, 499- 5°4> 551. 587. 588, 589. 593- Pérsia — 29, 150. Pescaria (Costa da)—466, 551. 554. 565. 568, 570, 571- Pico, ilha dos Açores — 493. Pilirano, rei de certo lugar de Mindanau — 450 (5). Pimentel (Manuel de Mesqui- ta), testemunha — 38. Pinto (Fernão Mendes), mer- cador e postulante da Com- panhia de Jesus—149, 163, 165, 167, 170, 176, 412 (12). Pio IV, papa — 429. Piticole, indígena das Molucas — 27. Pocaraga e Pucaragua, rainha de Ternate, convertida com o nome de D. Isabel, mu- lher de Culano Magira e mãe de D. Manuel rei de Ternate — 21, 27, 28, 30. Policarpo ou Luís Fróis, ir- mão jesuíta na Índia — 179. Ponte de Lima — 446. Ponte Vedra — 466. Populações das Molucas — 251, 254. 255. Portugal—13, 14, 20, 21, 27, 29. 42, 47, 75, 76, 81, 118, 135, 149, 150, 174, 177, 184, 187, 189, I93, 200, 219, 233, 238, 247, 255, 311, 313, 326, 34I, 351, 358. 374- 38l (I). 430. 447. 487, 489, 49I, 502, 510, 5". 517. 538, 555. 557. 568, 574, 586, 588, 591. Prancudo (Padre Marcos), jesuíta na Índia — 351, 358. 361. 368. 374- 429. 443, 445, 482. Pregações — 7, 14, 15, 48, 50, 79, 82, 94, 95, 131. 161, 189, 190, 201, 203, 207, 222, 235, 239, 240. 633
  • 258, 286, 287, 288, 289, 290- 315- 342 , 363 . 379. 501, 5°8- Procissões — 8, 61, 563. Pulo-Condor (Golfo) — 164. Pulo-Pinão ou Pinang, ilha em frente de Kedah, na península de Malaca — 229. Pulo-Sambilão ou Sambilang, ilha no Estreito de Malaca — 531- Pulo-Timão, ilha no Golfo de Sião e na costa oriental da península de Malaca —165. Punicale. localidade na costa do Coromandel — 213, 214, 572. Purgatório — 95, 470, 534, 579- Q Quadros (Padre António de), jesuíta na índia — 146, 171, 235, 273, 342, 368, 371- Quedá ou Kedah, reino da península de Malaca — 229, 525. 532 (32). Quezulir (?) — 39. Quilão, lugar em Amboino — 438, 481- R Rangue (Pate), regedor das Molucas — 27, 30. Raque (Quechico ou Quechil), regedor de Toloco — 27. à 3 4 Ratiputi, potentado das Mo- lucas, perseguidor dos cris- tãos — 435, 439, 440, 441. Rebeliões em Geilolo — 68, 70, 71, 72. Rebeliões no Moro — 87, 88. Rebeliões em Ternate — 63. Refois (António de), fidalgo morto perto da ilha de Ja- va — 417, 602. Renegados —100, 437. Ribalda (Lopo de), morador nas Molucas — 31. Ribeiro (Ambrósio), doutor, provisor e vigário geral da índia — 224. Ribeiro (António), morador nas Molucas — 31. Ribeiro (Padre Nuno), jesuíta em Amboino — 3, 5, 7, 10, 17, 141, 171, 172, 516, 584, 586, 593. Roçadive, lugar nas Molucas — 439. 441. 442. Rodes, cidade — 103. Rodrigo (Padre), jesuíta no Brasil — 384. Rodrigues (Fernão), vedor da Fazenda — m. Rodrigues (Manuel), portu- guês na índia — 467. Rodrigues (Padre Simão), jesuíta na Europa — 4, 81, 92, 491, 546, 547, 548, 574, 576. Roiz (Cosmo), capitão de nau — 167, 170. Roiz (Francisco), irmão je- suíta na índia — 608.
  • Roiz (Frausto ou Fausto [?]). morador de Amboino des- terrado para as Filipinas pelos holandeses — 493. Rojas (Padre Francisco de), jesuíta na Europa — 4. Rolim (Pêro Barreto), mer- cador — 606. Roma — 130, 149, 157, 192, 284, 456, 458,. 471, 562, 566, 570. Ronceslau (Francisco), cris- tão indígena — 482, 483. Ronceslau, ilha nas Molucas — 448. Rovoangue, governador indí- gena em Amboino — 484, 485, 487. Roxo (João), irmão jesuíta, companheiro do Padre Ma- nuel Álvares em a nau S. Paulo — 403, 408, 418, 465- Rumes, turcos em geral — 376. S Sá (Cristóvão de), capitão das Molucas — 73, 158. Sá (Dom Jorge de), irmão de Francisco de Sá e capitão de armada nas Molucas — 307, 308, 313, 315(2), 329, 331. 349- Sá (Francisco de), capitão das Molucas—530, 534, 535. 595. 595 (5)- Sá (Garcia de), capitão de Malaca e governador da índia — 20, 26, 564, 575, 578- Sá (Henrique de), capitão das Molucas — 435, 440, 441. Sá (Men), governador no Brasil — 593. Sabão (Estreito de), entre a ilha do mesmo nome e Su- matra — 205, 515. Sabija (Quechil), principal de Ternate, baptizado — 499. Saçuma, lugar no Japão — Sacramento da Confirmação — 22. Sacramento da Eucaristia — 4, 49, 53, 240, 290, 315, 364, 520, 528, 547. Sacramento da Penitência — 4, 6, 15, 18, 48, 53, 79, 96, 161, 184, 239, 240, 290, 315, 342. 364, 389, 398, 508, 517, 528, 547. Sacrifício da Missa — 8, 13, 15, 18, 21, 53, 61, 97, 207, 242, 243, 258, 262, 302, 396, 530- Saldanha (António), moço da câmara — 118. Salsete, tanadaria— 352, 562. San-choão, ilha perto de Can- tão, na China — 184, 185, 192, 223. Santa Catarina — 456. Santa Cruz (Padre Martinho), jesuíta, reitor do colégio de Coimbra — 4. Santa Luzia (Frei Jorge de), dominicano, primeiro bispo de Malaca — 358, 362. Sanflago — 295, 451, 452, 456, 458. 562. 6 5 5 %
  • Santo Agostinho — 435, 437, 488, 490. Santo André — 311, 358, 458, 596. Santo Antão (Ermida de) — 566. Santo António (Igreja de), em Goa — 577. Santo Estêvão — 555. São Bartolomeu — 320, 458. São Boaventura, nau — 598. São Francisco — 478, 564. São Gregório — 327. São Jerónimo (Ermida de) — 566. São João, apóstolo — 20, 338. São João, nau — 447. São João, papa e mártir — 585- São João Baptista — 20, 493. São João Baptista (Igreja de) — 565- São Lourenço — 52. São Lourenço (Ilha de) — 116. São Lucas — 98, 485. São Marcelo, papa — 586. São Martinho — 563, 585. São Mateus — 78, 456, 543. São Matias — 456, 458. São Miguel — 456, 506, 507, 579- São Miguel (Ilha de), nos Açores — 494. São Paulo, apóstolo — 20, 284, 428, 456, 458, 471, 500, 502, 555, 556, 566, 570. 572- São Paulo, nau — 381(1), 428, 598, 599, 606. São Pedro, apóstolo — 20, 6 j 6 279, 284, 428, 456, 458, 566. São Pedro, nau — 447. São Roque, colégio da Com- panhia em Lisboa — 332. São Sebastião — 96, 566. São Silvério — 585. São Tomé — 296, 456, 457, 459, 462, 562, 563, 607. São Tomé ou Meliapor, ci- dade — 178, 189, 204, 205, 206, 212, 214, 216, 402, 409, 417, 457, 458, 460, 461, 467, 469, 472, 562, 571. 576- Saparua, ilha perto de Am- boino — 368 (31). Saraiva (Doutor Mestre Cos- mo) — 200, 208, 519. Sardinha (Dona Francisca), mulher de Diogo Pereira de Vasconcelos — 599, 605, 606. Sardinha (Padre Mestre Pedro Fernandes), vigário geral — 379- Satigano ou Sarangane, lugar de Mindanau — 450(5). Sebastião (Dom), rei de Por- tugal — 281, 283. Sequeira (Belchior de), capi- tão de fusta — 530. Sequeira (Diogo Lopes de), governador da índia —151, 468. Sequeira (Dom João de Me- neses de), capitão da ar- mada — 599. Sequeira (Pêro Vaz de), ca- pitão da armada — 599.
  • Sequeira (Rodrigo de), por- tuguês na Índia — 557, 558. Seranga (?) — 39. Serrão (Francisco), navega- dor perdido era Amboino — 501. Serrão (Paulo), português morto em Malaca — 59. Sião — 79, 167, 178, 239, 246. 352. 362. 366, 452. 468. Sidónia — 476. Silva (Pedro da), capitão de Malaca — 5, 8, 54, 58, 61, 62, 64, 581. Silveira, capitão de navio — 230. Silveira (Dom Gonçalo da), jesuíta na India e na África Oriental — 352, 369, 376. Singapura — 76, 77, 78, 163, 193- Siquita, lugar nas Molucas — 134. 304- Siri-Sori, lugar na ilha de Sa- parua, nas Molucas — 268 (30)- Silico (Mar) — 79. Soares (António), criado de el-rei, náufrago da nau S. Paulo — 393. Soares (Baltasar), filho de Diogo Soares — 530. Soares (Diogo), o Galego, ca- pitão de nau — 530. Soares (João), capitão de fusta — 530, 533. Soares (João), português em Solor — 346, 370. Soares (João), vigário em Malaca — 61. Socotorá, ilha na África Orien- tal, perto do Cabo de Guar- dafui — 352. Sofala, reino e cidade na Áfri- ca Oriental, no Golfo do mesmo nome — 379, 380. Soligamo, ilha ao sul de Min- danau — 450 (5). Solor, ilha e arquipélago perto de Timor — 344, 345, 346, 347, 362, 366, 370, 51X, 512. Souro (Fernão do), irmão je- suíta nas Molucas — 293. 294. 30O, 301, 303, 309, 313. 331. 337- 351. 352. 353. 354 - 357. 372. 431. 445- Sousa (António de), portu- guês na Índia — 199. Sousa (Bernardim de), capi- tão de Ternate — 19, 31, 37, 38, 68, 72, 73, 84, 120, 121, 122, 210, 250, 509, 586, 590. Sousa (Diogo Lopes de), ca- pitão de um galeão — 17, 74- 577- Sousa (Fernão de), portu- guês nas Molucas — 122. Sousa (Francisco Lopes de), capitão de Ternate — 134 (2). Sousa (Garcia de), capitão de uma nau e de Malaca — 543- Sousa (Jordão de), feitor — 109. 637
  • Sousa (Martim Afonso de), governador da Índia — 22, 43, 119, 184, 187, 206, 278, 450, 467, 487. Sousa (Padre Francisco de), religioso da Companhia de Jesus, historiador — 211 (15), 446. Soveral (Padre Diogo de), jesuíta na costa da Pescaria — 369. Suez — 114. Suma, promontório nas Mo- lucas — 225 (22). Sumatra, ilha da Insulíndia, em frente da Península de Malaca, e que forma com ela o estreito do mesmo no- me — 352, 365, 381, 382, 385, 419, 422, 468, 478 (19). 536. 537- 577- Sunda, reino e cidade na ilha - de Java, estreito com o mesmo nome, e pequena ilha, pertencente a Java — 276, 362, 366, 382, 390, 396, 409, 421, 422, 423, 424, 425, 606. Supa, reino de, na ilha de Ma- cáçar — 450, 452, 453, 454. ' T Tabarija, príncipe de Ternate que se converteu com o no- me de D. Manuel — 502. Tadunia, localidade nas Mo- lucas — 24. Talangame, porto nas Molu- cas — 331. Vide A talanga- me. Tamalão — povoação em Am- boino — 492. Fana, localidade em Baçaim — 352. Tapima ou Taguina, a ilha de Basilan (?), perto de Min- danau — 268. Távora (Fernão de Sousa de), capitão da armada nas Mo- lucas — 123, 198, 487, 490, 495- 513 (29)- Távora (Manuel de), irmão jesuíta nas Molucas — 157, 162, 168, 180, 293. Teixeira (Padre Manuel), je- suíta na Índia, escritor — 367. 369. 566. Tenasserim, cidade perto do Golfo de Bengala — 532. Teodorico, rei ariano — 585. Ternate, ilha das Molucas — 19, 20, 21, 24, 25, 33, 42, 48, 50, 68, 74, 77, I2X, 123. 133. 134. 137. 140, 151, 247, 251, 256, 265, 266, 270, 294, 298, 302, 307, 308, 3x1, 312, 313. 3!6. 316 (3). 324. 325. 329. 333. 354. 356. 367. 377 . 378, 433. 435- 436- 438, 439- 442, 449- 450. 480, 481, 482, 484, 490, 493. 495 - 496. 497 - 498. 499, 500, 501, 503, 505, 507. 508, 512, 513. 556. 557- 586, 587. 590. 592. 594- 595- Tertuliano — 471. Tessalonica — 570. Tibre, rio — 597. 638
  • Tidor, ilha das Molucas--83, 86, i2i, 248, 249, 266, 329, 331, 354, 487, 493, 501, 502, 507, 586, 597. Timor, ilha na Insulíndia — 28 (1), 144 (3), 261 (25), 276, 297, 325 (12), 336, 344- 345. 347- 352. 362, 366, 448 (1), 477 (15), 478 (19). Tiro, cidade — 476. Tjenrana, rio na ilha de Ma- cáçar — 449 (4). Tobias — 484. Tolo e Toloco, cidade prin- cipal da ilha de Moro, de- signando também, muitas vezes, a mesma ilha — 85, 89, 92, 96, 134, 186, 256, 258, 294, 304, 305, 306, 430. 431. 589. 590. 592. 593- Torres (Doutor Miguel), je- suíta na Europa — 341. Torres (Padre Cosmo de), fazendo parte da expedição de Rui Lopes de Vila-Lo- bos, entrou na Companhia, depois de se encontrar com S. Francisco Xavier em Amboino — 8, 199, 491, 561. 565. 576. 579- Toscano (André), capitão de um catur em Malaca — 531. Toscano (Francisco), portu- guês na índia — 165. Tramanacor — 186, 223. Trava, irmão de D. Manuel, rei de Ternate — 27. Travancor — 570, 571, 572, 573- Trento — 365. Trindade, ilha — 352, 384. Triquinamale, lugar na ilha de Ceilão — 352. Turquia — 42. Turselino (Padre Horácio), jesuíta na Europa, escritor — 566. Tutucorim e Tuticorim, lugar principal da Costa da Pes- caria — 185. U Upe, lugar e ilha perto de Malaca — 526. Urraca, nome genérico, no Oriente, do vinho de pal- ma — 296, 412. V Vaidua (Quechil), tio de D. Manuel, rei de Ternate — 27. Vale (Paulo do), irmão je- suíta na índia — 568. Varanura e Veranula ou Ce- ram (?), ilha perto de Am- boino— 270, 478, 484, 492. Vasconcelos (Diogo Pereira de), fidalgo embarcado em a nau S. Paulo — 390, 397, 599- 605. Vasconcelos (Sanches de), ca- pitão de Amboino — 483, 484. 487- Vaz (Alvaro), mercador no Japão —541, 542, 558. Vaz (André), aluno do colé- gio de Goa — 565. 6 3 9
  • Vaz (Manuel), irmão jesuíta na Índia — 568. Vaz (Padre António), jesuíta nas Molucas — 157, 168, 172, 178, 180, 191, 594. Vaz (Padre Miguel), vigário geral na Índia — 556, 573. Vaz (Padre Simão), vigário em Ternate — 498. Vaz (Tomé), indígena das Molucas — 297, 298. Veloso (Baltasar), morador nas Molucas — 31, 304, 305- Veloso (Gaspar), português nas Molucas — 308. Vera (Simão da), irmão je- suíta na India e nas Mo- lucas — 293, 306, 307, 309, 335- 594- Vergílio — 535 (33). Viegas (Francisco de Galvão), português da Índia — 126. Viegas (Padre Vicente), sa- cerdote secular em Malaca e em Macáçar — 347, 455. Vieira (Padre Francisco), je- suíta nas Molucas — 291, 293, 294, 301, 304, 307, 308, 309, 313, 333, 335, 353. 361. 367. 376, 429. 442, 443, 445, 482, 594. Vigários — 8, 59, 61, 168, 178, 224, 325. 346, 380, 459, 460, 462, 541, 565, 572- Vila-Lobos (Rui Lopes de), capitão espanhol, enviado às Molucas — 198. Vilela (Padre Gaspar), je- suíta no Japão — 176, 368. Visitas aos cristãos — 14, 16, 24, 49, 50, 80, 83, 85, 184, 185, 222. Vulcões — 258, 259. W Waigeo, ilha nas Molucas — 255 (24)- Wicki (José), religioso da Companhia, historiador — 130, 233, 447. X Xá da Pérsia — 73. Xavier (Padre Mestre Fran- cisco) — 3, 7, 8, 13, 15, 16, 17, 40, 51, 52, 74, 75, 76, 77- 78. 85, 86, 91, 131, 141, 148, 149, 165, 171, 172, 173, 177, 179, 181, 182, 183, 184, 185, 186, 189, 190, 191, 192, 193, 194, 195, 196, 197, 198, 199, 200, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 210, 211, 212, 214, 215, 216, 217, 218, 219, 221, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 238, 248, 256, 263, 306, 362, 363, 364, 372, 373, 376, 378, 424, 439, 446, 447, 448, 456, 457. 459. 461. 462, 466, 467, 468, 469, 471, 472, 474, 477, 478, 479. 480, 481, 482, 484, 487, 488, 489, 491, 495, 497, 6 4. o
  • 502, 504. 505. 507- 5o8, 510, 512, 513, 515, 516, 517, 518, 519, 521, 523, 524, 527, 528, 529, 530, 535- 536. 537. 540. 541. 542 . 543- 544. 546. 548. 549. 550. 551. 554- 555- 556. 557- 558, 559. 56I. 564, 565, 566, 568, 569, 570. 571. 572. 574- Xavier (Padre Manuel), je- suíta na Europa — 381 (1). Xibolo, vide Geilolo. Z Zebu, povoação na ilha Li- massava, do grupo Maria- nas. Nesta ilha morreu Fer- não de Magalhães, para submeter ao domínio de Zebu o régulo limítrofe de Mactan — 493. 64/ 1NSULÍNOIA, II — 4I
  • GLOSSÁRIO
  • GLOSSÁRIO Damos também neste volume um pequeno glossário de palavras indígenas típicas e aportuguesadas, mais ou menos frequentes nos documentos que agora publicamos. Lembramos novamente que não se trata de um tra- balho de erudição; o nosso propósito limita-se, na prá- tica, a registar vocábulos e frases que possam servir de abonações em estudos deste género, e de maior vulto. Como no primeiro volume ficaram já registados muitos destes vocábulos, para lá remetemos o leitor, repetindo-os também aqui, dando, apenas, o seu significado, para que possa enriquecer-se a exemplificação do uso e emprego dos mesmos. Na sua grafia adoptamos a forma constante dos do- cumentos, e o significado que lhe atribuímos é, quase sempre, deduzido do texto. Para um ou outro comentário útil, que nos permi- timos apresentar, servimo-nos, principalmente, dos estu- dos linguísticos sobre idiomas orientais de Monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado, R. J. Wilkinson, Sir Richard Winstedt, e, no que diz respeito ao tetum, dialecto de Timor, dos trabalhos do Rev. P.* Abílio José Fernandes e Cónego Manuel Patrício Mendes. Note-se, finalmente, que os números entre parêntese 645
  • indicam sempre a página, onde o vocábulo vem empre- gado. Achens — Habitantes do reino Atjeh, ao norte de Sumatra; maometanos e cruéis inimigos dos mercadores portugueses e dos habitantes de Malaca. Os memoráveis estragos que infligiram a várias naus portuguesas, os assaltos, de impro- viso, àquela cidade, a vida de pirataria a que se entre- gavam no mar, faziam-nos deveras, temidos. Nos do- cumentos, e com a mesma origem, encontra-se também a forma D achens, resultado, estamos em crer, da contracção da preposição de com o nome do reino Atjeh. Assim, a expressão os de Achem, que também se encontra na do- cumentação coeva, ter-se-ia simplificado em os Dachens; e a expressão o reino de Achem ter-se-ia contraído, sim- plesmente, em Dachem. Semelhantes fenómenos linguís- ticos são naturais e conformes à mecânica morfológica do idioma português. A did — Presente. Do árabe hadyia, presente feito ao superior ou ao mestre que ensinou o alcorão, segundo R. Dalgado. O malaio regista a forma hadiah, recebida do árabe tam- bém, com o significado de dádiva, presente, etc. Fernão Mendes Pinto, nas suas Peregrinações, emprega a variante odiá, que não encontramos noutros escritos (412). Alfuros — Naturais de Amboino, que viviam no mato. Quase todos os dialectos das inúmeras ilhas, que formam os vá- rios arquipélagos da Insulíndia, distinguem, por designações especiais, os habitantes da orla marítima e os do interior ou da montanha. Os Alfuros, ou montanheses de Am- boino, costumam ser considerados como os representantes dum tipo antropológico característico, talvez autóctones da ilha (144). Amparo — Termo português, com o sentido de sebes de defesa, improvisadas pelos indígenas; o mesmo que estrepes. Neste sentido, os vocábulos orientais, comummente empregados pelos portugueses, são: kota, com o sentido de muro feito 6 4. 6
  • de pedra à volta de um edifício, espécie de fortaleza ou castelo indígena; e pagar, vedação mais ou menos cerrada, feita de bambus, de paus ou de arbustos especiais, geral- mente em redor das hortas, a fim de evitar a entrada de animais (87). Atuá — Cristãos renegados de Amboino. Julgamos tratar-se dos naturais de um lugar chamado Hatuha, na ilha Ha- ruku, pertencente a Amboino. Esta povoação, onde alguns dos seus habitantes se haviam convertido, rebelou-se, por várias vezes, contra as autoridades portuguesas. O uso de se designarem os habitantes pelo nome da terra é também corrente (438). Balão — Embarcação pequena, de remos. Termo oriental, cor- rente na India e na Insulíndia (64). Vide Vol. i.°. Baléu — Alpendre, varanda, casa de palha. Supôs-se terem sido os portugueses que introduziram no Oriente esta palavra, da etimologia bailar. Se admitíssimos esta hipó- tese, poderíamos ainda considerá-la da mesma origem de tantos outros vocábulos, fonética e semanticamente aproximados, como balela, paleio, paléu e palhal. O mais provável, porém, é que o termo tenha sido recebido pelos portugueses de qualquer dialecto oriental; do malaio, por exemplo, que regista a forma balai ou belai, com a signi- ficação de casa de audiência. No telum de Timor encon- tra-se também a palavra balaun, com o sentido de baru- lho, confusão; e que reputamos afim da palavra malaia balai, que também pode significar desordem, confusão; sentido que se aceita perfeitamente, pois que se suben- tende, com facilidade, numa sala de audiências, num alpen- dre, ou numa varanda das casas indígenas da Insulíndia (412, 414, 415, 416, 418). Bandar — Capitão do porto. Muito semelhante a esta, existe ainda outra palavra, generalizada também no Oriente, Bendara, oficial superior do Estado. Os escritores portu- gueses empregam ambas as palavras indistintamente. A primeira parece ser de origem persa; a segunda, de origem 647
  • sãoscrita. O malaio regista, respectivamente, a forma ban- dara e bendahara (413, 414). Vide Vol i.°. Batak — Habitantes de Sumatra. Estes indígenas são consi- derados como os possíveis aborígenes da ilha, monta- nheses e de vida nómada (478 [19]). Be das — Habitantes de Morotia, nas Molucas (251). Belharins — Termo não identificado. No texto parece tratar-se de qualquer valor, moeda ou artigo, para remuneração de serviços prestados (297). Berlangil ou Brigalim — Panos da indumentária dos povos do Oriente (297 [4]). Bicholas — Naturais de Bitjoli, lugar na ilha de Halmahera, Molucas (251). Buan ou Puan — Feiticeiro. Termo do dialecto tetum de Ti- mor. Pawang em malaio (262 [25]). Bulibulião — Direitos alfandegários. É desconhecida a etimo- logia desta palavra (278). Cachas — Pano cru, de algodão, usado em várias partes da índia (551 [37]). Cacis — Chefe religioso muçulmano; sacerdote mouro (204, 318. 323. 346. 377)- C afras — Nome dado na índia a certa espécie de galinhas (494)- Cairo — Corda feita da fibra de coqueiro. Destas cordas escreve João de Barros em Década III-3-7: «servem-se mais destes cairos, em lugar de pregadura, porque, como tem esta virtude de reverdecer e engrossar no mar, cosem com elles o tavoado do costado das naos, e tera-as por mais segu- ros» (470). 648
  • Calade — Nome por que são designados os indígenas monta- nheses da zona em que se fala o Man-Bae, na ilha de Timor. Supõe-se, geralmente, que esta palavra seja uma designação etnográfica, e os indígenas, aos quais ela se refere, representantes de um grupo humano, primitivo na ilha. Cremos, porém, que a palavra se formou do malaio keladi, de etimologia botânica (144 [3]). Calaim — Estanho, do malaio kaling (276). Vide Vol. i.°. Callavay — Seta, flecha, ou dardo. Termo de origem sãos- crita, corrente no malaio, com a forma ckerawat (355). Canacápola ou Canacapole — Escrivão, administrador; nome que os missionários davam também aos catequistas e pro- curadores dos cristãos, segundo R. Dalgado no seu Glos- sário (506). Cascado — Doença de pele, que afecta, principalmente, os indígenas da zona de Baucau, em Timor, a que chamam, em tetum, Aba ou Abac. Consideram-na uma espécie de lepra, que levanta a pele em escamas, e dificilmente curá- vel. Em sentido depreciativo, é corrente nesta ilha chamar também cascado a qualquer indígena de aspecto sórdido e pouco civilizado (28 [1]). Cascaro — Não encontrámos elementos que nos esclarecessem sobre a origem desta palavra. Supomos que talvez seja uma variante fonética e semântica da anterior (28). Calur — Embarcação ligeira e veloz, muito em voga em toda a índia; os autores apresentam várias origens etimológicas da mesma (115). Celada — Armadura antiga, para defesa da cabeça. Termo do léxico português (63). Chabim ou Cabim — Julgamos tratar-se, no documento, de uma alteração inexacta da palavra chatim, q. v. (140). Charvisique — Gente que está ou anda no mato, pelas árvores, 649
  • como bruxos. Alvitramos que seja uma designação local, formada do composto árabe ahli-sihil, corrente no malaio, significando pessoa versada em artes secretas (261, 262). Chatim — Mercador (464). Vide Vol. i.°. Cherawat — Palavra do vocabulário malaio, com a significação de seta, flecha ou dardo (355 [4]). Choque, Choquei e Chuquel — Frete do cravo, nas Molucas. Palavra tirada do malaio chukai: taxa, imposto, direitos alfandegários (103, 125, 127, 153, 154). Cifa — Preparado gorduroso, para untura do casco dos navios. O étimo persa sift tomou vários sentidos, na sua passagem para muitos falares da Índia: azeite de peixe, gordura, etc. (114). Cora-cora — Pequena barca, muito comum nos portos da Insu- líndia (295, 299, 305, 317. 330, 356, 409, 508). Vide Vol. i.°. Columba — Barco pequeno. No texto é o que parece dever entender-se (356 [7]). Cotungo — Talvez o mesmo que Cotumba, barco pequeno (356). Cravo — A conhecida especiaria das Molucas. No seu colóquio sobre o cravo Garcia da Orta diz o seguinte: «E sam os árvores da altura e feiçam do louro; fazem os árvores copa em cima, e dam muyta frol, que se faz em cravos; e naçe como murta, e a frol he primeiro alva, e depois verde, e depois vermelha e dura, que he o cravo. E dizem-me pesoas que o viram, dinas de fe, que, quando está este cravo verde nas árvores, dam o mais excelente cheiro do mundo os árvores; e des que colhem este cravo, o sequam, e fica da cor que o vedes agora. Naçem em gomos, como o murtinhos, como já vos dixe; e dizem alguns que, se lhe chove, que se mete por dentro, e não he asi, somente nam vem à perfeiçam os cachos; e colhem-nos, porque 650
  • os ramos que fazem copa grande, deitam-lhe cordas para colher o cravo; e isto he causa que os árvores sejam açou- tados e fustigados, e não dam pera o anno tam boa novi- dade; e secam estes cravos, per dous ou tres dias, e asi os vendem e guardam pera os levar a Malaca e a outras partes; e aquelle cravo, que fica no árvore por colher, se faz mais grosso, e folgam com elle na Jaoa; e nos com o outro, que chamamos de cabeça. E mais haveis de saber, que ao redor do árvore do cravo nam se dá erva alguma, porque o cravo leva todo o çumo da terra». E o que os castelhanos chamão fusle e os portugueses bastam, «sam os páos donde estes cravos pendem, como as flores pen- dem dos páos meudos; e o cravo grande que vos dixe, he o que chamamos madre do cravo, e não porque o seja; não he macho, como dizem Aviçena e Serapiam, que tudo he hum; mas hum he mais velho que outro, porque o que chamamos madre de cravo não he do mesmo anno, senam do anno pasado; isto me dixeram pesoas que o sabiam, que foy hum feitor desse Maluco, que o tal cravo he fruito muito maduro, que cay em baixo». As ilhas do cravo eram Ternate, Tidor, Motir, Makjan e Batjan. Quanto ao nome, em português, deve ser um caso de analogia; em malaio, chama-se buah-chengkeh (14, 69, 80, 103, 106, 107, 1x8, 127, 153, 479, 593). Cris — Punhal malaio (394, 412). Vide Vol. i.°. Dachem — Balança e também o reino Achem, q. v. Vide Vol. i.°. Dagadá — Nome por que, geralmente, é conhecido o dialecto fataluco, falado em Lautem, na ilha de Timor. A palavra, entre os indígenas, designa, pròpriamente, qs habitantes do interior daquela zona, e consideram a designação ofen- siva, havendo-lhe sido dada por povos circunvizinhos, como alcunha e menosprezo (478 [19]). Daroez — Nos documentos, este vocábulo aparece como nome próprio do rei de Ternate, Quechil Daroez. Supomos tra- tar-se do étimo persa daruish, em malaio derwis, monge maometano. 651
  • r- Da-yak — Habitantes característicos da ilha de Boméu. São estes indígenas também considerados como os represen- tantes dos povos primitivos naquela grande ilha (478 [19]). Durião — Fruto típico, muito abundante em Malaca; aproxi- madamente parecido com a jaca, mas exalando um cheiro nauseabundo, o que exige uma certa iniciação, para se lhe sentir aquele sabor, que levou um desconhecido mercador a vender naquela cidade a sua nau e toda a mercadoria, para se saciar desta fruta. Da mesma informa Castanheda, História, II-112, ser de tão singular sabor que diz a gente que naquele pomo pecou Adão (237). Durubaça — Intérprete. É uma expressão de origem oriental (28). Vide Vol. i.°. Duturo, Dutró e Datura — Planta indiana, da família das solanáceas, descrita também por Garcia da Orta. Por suas propriedades narcóticas e tóxicas serviam-se dela para fins criminosos. A sua semente era lançada na comida das vítimas, provocando-lhes envenenamentos que iam desde a insensibilidade até à alucinação e morte. O uso desta planta para fins ilícitos esteve sempre muito em voga na índia, se bem que clandestinamente. Em certo modo, pode comparar-se, talvez, ao uso do ópio na China (494)- Fale — Nome de uma constelação, em uma das línguas da Nova Guiné (91). Fanão — Moeda antiga da índia meridional. A sua origem parece ser a raiz sãoscrita pan, permutar. Talvez se possa até supor que seja da mesma raiz o vocábulo em tetum fá'an, vender (464, 551, 553). Firacos — Habitantes de Timor, no interior da zona de Bau- cau. Alguns autores inclinam-se a considerar este termo como uma designação colectiva de um grupo populacional, de origens desconhecidas. Seja como for, actualmente tem o sentido depreciativo de ignorante, bravio, etc. Supomos a palavra formada de elementos do Maca-Sa'e, dialecto 6 5 2
  • falado naquela região, a saber: fi (nós) e racu (amigos) (144 [3]. 478 [19])- Fiza — Pano da ilha do Moro, feito como papel de arroz, da feição dos lenços do Japão (317 [4]). Goleias — Habitantes da ilha do Moro Grande ou Morotai (332). Ganes — Outros habitantes da mesma ilha (251). Geleves — Habitantes de Ternate (83). Gerrabaça — O mesmo que Durubaça, q. v. Kaladis — O mesmo que Calades, q. v. Jao e Jau — Nome por que são geralmente designados os habitantes de Java (51, 57, 83, 564, 534). Joangá— Embarcação grande (330, 332). Vide Vol. i.°. Joanga — Vide Suanga, feiticeiro. Jogue — Religioso ou asceta hindu. A raiz do termo é o sãos- crito yogi, homem que pratica o yoga, sistema de união com Deus por meio da contemplação e austeridade (3, 5, 289, 552. 553)- Javaros — Indígenas montanheses da ilha do Moro Grande ou Morotai (503, 507). Junco Embarcação oriental, de grandes dimensões. O ma- laio regista a forma jong. Crê-se, no entanto, que a pa- lavra tenha sido tomada do chinês, assim como este género de embarcação (44, 405, 406, 409, 411, 426). Lanchara — Embarcação pequena (406, 409, 410, 411). Vide Vol. i.°. 653
  • Lascarim — Marinheiros árabes dos navios portugueses. Termo oriundo do persa lashkar, soldado do mar (108, 246). Língua — Intérprete (218, 393). Lipa — Peça de vestuário do traje timorense, com que se co- brem, da cinta para baixo. O malaio possui a forma verbal lipat, enrolar; devendo notar-se que a lipa dos timorenses lhes cai também enrolada e presa na cinta (297 [4]). Loô — Termo náutico, e designa «metade do navio igualmente dividido por uma linha, que se considera de popa à proa, deixando huma metade a stibordo do masto grande, e a outra metade a bombordo» (422). Lucebates — Provàvelmente o mesmo que Lissabalas, habi- tantes de um lugar chamado Lucebate, na costa meri- dional da ilha Ceram (140). Malaios — Termo com várias acepções; no texto, habitantes dos arredores de Malaca (51, 57, 61, 62). Mandapa — Tenda ou barraca de olas ou panos, armada por ocasião festiva, conhecida em indo-português pelo nome de ramada, segundo R. Dalgado (223 [22]). Matan-dooc — Feiticeiro, em tetum. Palavra composta de dois elementos: matan, olhos e dooc, longínquo (262 [25]). Moroteses — Naturais da ilha de Moro (505, 507). Odiá — O mesmo que adia, q. v. Ola — Palavra oriental, designando, geralmente, a folha de palmeira (223 [22]). Pagode — Termo oriental com várias acepções; nos textos de- signa, ou os ídolos dos gentios, ou os seus túmulos (2bo, 552, 553. 57C 581). 654
  • Pangaio — Embarcação de dois mastros com velas latinas, comum na África Oriental e na Índia, segundo R. Dal- gado, cuja origem etimológica se discute (330, 356, 394). Pão de pau — Pão feito de farinha de sagu (15, 49, 80, 467 [17])- Parau, parao e paró — Barcos pequenos (317, 328, 330, 393). Vide Vol. i.°. Pardau — Nome oriental de várias moedas, com diferente va- lor (32, 103, 104, 113, 114, 117, 155). Passo — Espécie de postos alfandegários, na margem dos rios (590). Vide Vol. i.°. Patanes — Naturais do reino de Patane, na costa oriental da Península de Malaca (79, 352). Pátola — Pano que servia de chalé às mulheres (32, 145). Pawang — Vocábulo também malaio, donde devem ter diri- vado as formas aportuguesadas soanga, suangue e suan- guice, com o significado de feiticeiro (325 [12]). Pulo — Termo malaio, com a significação de ilha (53). Quatur — Vide Catur. Ramada — Termo que no Oriente tomou a acepção de tenda, pavilhão, barraca, etc. (223, 302). Reimão — Tigre de Malaca. Palavra formada do malaio ri- mau (237). Rumes — Nome por que no Oriente eram designados os tur- cos (376). Sagu — Fécula obtida do miolo da estirpe de certas palmeiras que, depois, amassado e cozido, constitui o chamado pão de pau, alimento muito comum nas ilhas da Insulíndia (251). 65 5
  • Saletes, Celates e Celetes — Piratas do mar. A designação pa- rece ter sido formada pelos portugueses, para designar as tripulações dos barcos indígenas, que infestavam os Es- treitos de Singapura. O seu étimo será o malaio selat, estreito (601). Samarao — Título honorífico nas Molucas (122). Sangaje — Título da nobreza malaia (72, 121). Vide Vol. i.°. Sarão — Pano cru de algodão, que constitui uma das peças do vestuário da gente pobre nas ilhas da Insulíndia, em vez da lipa. O malaio regista a palavra sarong (297 [4], 448 [2]). Soanga, Suanga, Suangue e Joanga — Feiticeiro. O étimo des- tas formas aportuguesadas supomos ser o malaio pawang, «homem que pratica eis artes mágicas». O tetum de Timor regista a forma buan, com o mesmo significado (325 [12]). Soas — Termo de Ternate, com a significação de bairro (324). Suanguice — Feitiçaria. Forma aportuguesada, como as ante- riores, da mesma palavra malaia. Sumbaia, Çumbaia e Zumbaia — Saudação reverenciai feita a um superior. O étimo destas formas, também aportugue- sadas, é o vocábulo malaio sembah, saudação indicativa de profundo respeito ou de homenagem. Note-se ainda o composto sembahyang, de sembah (saudação), e Yang (divino), e que traduz todo o acto exterior do culto pres- tado a Deus (74, 127, 137, 152, .154, 174, 178, 245, 330, 555- 576). Ternateses — Naturais de Ternate (. 1, 508). Tuaca — Vinho extraído de certas palmeiras. O étimo desta palavra é o malaio Tuak, com a mesma significação (296, 412). 656
  • Tufão — Vento ciclónico nos mares da China. Como étimo desta palavra aponta-se, comumente, a forma composta chinesa, t'at-fung, grande vento (213). Urraca e Araca — Vinho da palmeira. Nos documentos, as formas tuaca e urraca aparecem indiferentemente com o mesmo sentido. Tuaca, porém, pròpriamente, é o líquido que a palmeira destila num corte feito para esse fim, mas já fermentado, após alguns dias; urraca é o mesmo vinho, antes de entrar em fermentação, um tanto gazoso e adoci- cado; o étimo do primeiro vocábulo é o malaio tuak; do segundo, o termo árabe 'arak, transpiração (64, 477 [18]). Xabandar e Xebartdar — Capitão do porto (411, 413, 414)- Vide Vol. i.°. Xatitn — O mesmo que Chatim, mercador (464). Vide Vol. i.°. Xulas e Sulas — Naturais da ilha de Sula, entre as Molucas e as Celebes (268). Zaravatana e Zerbatana — Tubos, geralmente de bambu, de que os indígenas das ilhas da Insulíndia se servem para o arremesso de setas muito leves, soprando numa das extre- midades do bambu (58).
  • Este livro, realizado pela casa Paulino Ferreira, Filhos, Lda. R. Nova da Trindade, 18-B — Lisboa, foi impresso em Abril de 1955.
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