• DOC,UMENTAÇAO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ARTUR BASILIO DE SA INSULÍNDIA 1.0 VOL. (1506-1549) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR LISBOA / MCMLIV
  • DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE
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  • REPUBLICA PORTUGUESA MINISTÉRIO DO ULTRAMAR DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE tf®® -MÁLo\ iu-V'v T/m; COLIGIDA E ANOTADA POR U ARTUR BASILIO DE SÁ v • INSULÍNDIA i.° VOL. (1506-1549) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR DIVISÃO DE PUBLICAÇÕES E BIBLIOTECA LISBOA / M C M L I V
  • B. N. L. DEPCSITC LEGAL £00178 *-4.IX5íj Pkgl F Estfl, publicação foi autorizada por despacho de S. Ex." o Ministro do Ultramar de 2 de Janeiro de 1954
  • INTRODUÇÃO
  • i. Razão de ser desta Obra \0. /\ Colecção documental que com este primeiro volume iniciamos é também editada pela Agência Geral do Ultramar que, deste modo, pretende trazer à publicidade os testemunhos do esforço evangelizador de Portugal, nos confins do mundo, e cujos vestígios ainda não se apaga- ram ali, de todo. Faz parte, esta obra, dum plano geral, que se propõe divulgar a documentação respeitante à história do Pa- droado português no Oriente. Coligidos e anotados pelo Dr. António da Silva Rego, com quem tivemos a honra de colaborar, foram já publi- cados dez volumes de documentos sobre a índia, e atin- giu-se o ano de 1568. Nesta data, Goa é já um centro metropolitano de evan- gelização, com suas cristandades dispersas por regiões, as mais diversas e afastadas: Malaca, Ceilão, Java, Sumatra. Solor e Timor, Molucas e outras. E para que este trabalho de Eurística, de tão vastas dimensões, possa ficar completo, importa não omitir, por mais tempo, a documentação relativa a estas cristandades, durante muitos anos, sucursais de Goa; entre as quais, as da Insulíndia, se não são das mais esplendorosas, são, I x duoUNMA, I —. B
  • de certo, das que mais árduos labores e vicissitudes con- tam. Dentro, pois, deste plano, aparece agora o primeiro volume com o título comum de DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTU- GUÊS DO ORIENTE, diferenciando-se, porém, pelo subtí- tulo — «Insulíndia» — desigrtativo geográfico daquela vasta zona de arquipélagos, em que ficam situadas as cris- tandades de que nos vamos ocupar: Molucas, Amboino, So- lor e Timor, Macáçar e outras circunvizinhas. Esta zorip costuma designar-se também pelos nomes de Malásia, Mares do Sul e Indonésia. Preferimos, contudo, a designação Insulíndia, por esta significar, pelo menos eti- mologicamente, o prolongamento insular do Continente Indiano, uma vez que também as sobreditas cristandades constituem a extensão filial da sede cristã de Goa. Queremos dizer ainda que dois motivos nos levaram a optar pela publicação documental referente a estas cristan- dades, abstraindo da prioridade cronológica, que imporia outra ordem a seguir. Primeiro, o especial interesse, no momento actual, em salvar do esquecimento, a que está sendo votado, o justo mérito da acção evangelizadora de Portugal, naquelas para- gens. X
  • Segundo, o facto de nesta zona ficar situado o único ponto que nos resta destas cristanãades, Timor, cuja glo- riosa história missionária é já tempo que se faça. 2. Características deste volume Consta, este primeiro volume, de oitenta e sete do- cumentos, situados entre 1506-154.Ç. Nenhuma razão espe- cial ditou tal dcmaròação. Podemos, contudo, considerar este período como início do estabelecimento português na- quela zona, e da pregação do Evangelho a seus habitantes. Ficavam, então, ali, a uma distância imensa, os termos da influência lusitana, e os últimos progressos da expansão da fé cristã no Oriente. Por razão desta distância e do con- sequente isolamento, muitos feitos apostólicos terão, forço- samente, passado despercebidos, e não ficaram registados para a posteridade. Não podemos, pois, congratular-nos, hoje, com uma riqueza documental superabundante, rela- tiva ao despontar da fé cristã na Insulíndia. Por isso, e ainda por se identificar, nesta primeira fase, o imperativo da expansão nacional com o zelo do aposto- lado, procuramos coligir toda a documentação existente, de interesse, quer directa, quer indirectamente missionário. x 1
  • Da primeita espécie, as cartas de S. Francisco Xavier são os mais importantes, porque, reflectindo o fulgor da sua passagem por tantas daquelas ilhas, ainda nos deixam ver o cuidado dos vigários, dos capitães, dos navegadores e comerciantes, na conversão do gentio, antes da sua che- gada. São da segunda espécie os documentos que nos descre- vem as terras e seus habitantes. ^4s terras, com seus recur- sos e privações, suas vias de comunicação, clima, etc. Os habitantes, com seus usos e costumes, sua vida social e politca, grau de civilização, sistemas religiosos, supersti- ções, etc. Dizem-nos ainda, estes documentos, dos processos por- tugueses nas suas relações com os povos descobertos na- quela parte do Mundo; e neste particular, destacamos as cartas dos reis de algumas ilhas, solicitando a soberania de Portugal, para, sob protecção firme, moldarem a sua vida pelas normas da civilização cristã. 3. Normas a seguir Devendo esta obra fazer parte dum plano geral, as nor- mas deste são as que nos devem orientar, e que o Dr. Antó- x 11
  • nio da Silva Rego deixou indicadas no seu primeiro volume de documentação sobre a Índia. Publicaremos também duas séries de volumes sucessivos; uma, contendo todos os documentos que possamos coligir nos arquivos nacionais e estrangeiros; outra, a síntese histórica, dividida em Perío- dos cronológicos. Aquela intitular-se-á, como já foi dito. Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente (Insulíndia); e esta, História das Missões do Padroado Português do Oriente (Insulíndia). Assim, a certos volumes de documentação deverá cor- responder um volume de síntese histórica, e este deverá suceder àqueles. Por este sistema, os leitores, mais fàcil- mente, poderão constatar a verdade das nossas afirmações, a exactidão de wpssos juízos, o acerto de nossas interpre- tações, enfim, a honestidade do nosso trabalho, entenden- do-se que a síntese histórica há-de, naturalmente, fluir da documentação, a parte que mais interessa e vale; sem dúvida, a mais custosa e difícil, pelo complexo de diligên- cias a que nos obriga uma pesquisa cuidadosa. Este trabalho de pesquisa ainda se agrava e complica muito mais, quando tenha de ser feito em arquivos estran- geiros, pelos encargos a que obriga, pelo limite de tempo a que temos de nos condicionar e por tantos outros obstá- culos q>ue se nos deparam inesperadamente. XIII
  • Por isso, .não podemos deixar de exultar com a cria- ção oficial da Filmoteca Ultramarina Portuguesa, por despacho de S. Ex.* o Ministro do Ultramar, Com. Sar- mento Rodrigues, e sobre a qual, no seu Boletim n.° i, o seu organizador escreveu estas palavras: «Os estudiosos portugueses vêem assim aproximar-se de si mesmos todo o recheio documental existente no estrangeiro e referente à acção lusíada np Mundo. Dentro de alguns anos, não será difícil a consulta, em Lisboa, de qualquer livro raro, de qualquer carta geográfica, de qualquer documento, relacio- nados com a Lusitanidade, mas pertencente a arquivos ou bibliotecas situadas além-fronteiras. A Filmoteca Ultramarina Portuguesa prestará, desta forma, relevante serviço à ciência portuguesa, facultando aos investigadores a consulta de espécies de difícil e cus- tosa aproximação, até hoje privilégio de alguns mais afor- tunados». No que nos diz respeito, saudamos com incontido entu- siasmo este moderno arquivo de consulta e deixamos aqui registado o nosso agradecimento pelas facilidades que, desde já, nos são concedidas, para a consulta dos seus filmes e para a aquisição, através da sua orgânica, daqueles que necessitemos coligir. Seria, apesar de tudo, presunção rematada, fazer crer x I v
  • que nenhum documento poderá subtrair-se à nossa investi- gação. Documentos há, cartas de alguns reis das Molucas, as primeiras notícias enviados por Francisco Serrão, por exem- plo, a cfue temos visto referências e que não pudemos ainda encontrar; outros hão-de escapar às nossas diligências, e com os quais poderemos vir a deparar, por mero acaso, ou por tentativas mais felizes. Tais documentos, cuja data te- nha sido ultrapassada pelo curso da publicação, devem ser depois incluídos, atendendo-se à melhor oportunidade. Quer dizer; a ordem cronológica que, em princípio, desejamos manter, na publicação dos documentos, terá que ser forço- samente quebrada, uma e mais vezes. Na leitura e transcrição dos textos, tendo em conta estas três notas, inviolabilidade, clareza e divulgação dos do- cumentos, adoptamos também as seguintes regras principais: a) Respeitamos a ortografia do texto, muito arbitrária de um para outro, e até no mesmo documento, uma vez que todos os sistemas de representação fonética serão sem- pre mais ou me rios convencionais. Dentro deste critério, a falta da acentuação moderna, principalmente, exigirá do leitor a devida atenção. Em casos de especial dificuldade, indicaremos, em nota, a nossa leitura. b) Separamos vocábulos independentes, entre si, pala- vras enclíticas e proclíticas, etc., e que em muitos documen- XV
  • tos aparecem juntos, formando um só termo; e desconges- tionamos a leitura, por meio de uma pontuação, tanto quanto possível adequada, introduzindo, assim, novos pe- ríodos e parágrafos. Estes períodos e parágrafos novos serão indicados, grafando a palavra que o introduzir, em itálico. Este recurso à pontuação, para esclarecer o texto, torna-se absolutamente necessário, em certos casos de redacção con- fusa, devido ao estilo da época e, muitas vezes, à pouca perícia do escritor. Apesar de tudo, documentos haverá com passagens duvidosas e obscuras, o que sempre pro- curaremos indicar. c) Pelos documentos vê-se que o emprego das abrevia- turas era corrente. Podê-las-iamos dividir em três espécies: paleográficas, como as de escrever, serviço, justiça, etc.; especiais, as dos nomes próprios, principalmente; e comuns.. como par ou pr (para); p (por); qu ou q (que), e tantas outras de fácil leitura. Damos em nota as abreviaturas es- peciais, dispensando-rtos de o fazer nas paleográficas, por falta de símbolos próprios, e nas comuns, por desnecessário. No texto desenvolvemo-las todas, segundo a índole do do- cumento. d) Modernizamos o emprego das maiúsculas, corri- gindo o texto do documento; o mesmo se diga das letras u e v que serão usadas conforme o seu valor fonético de XVI
  • hoje. Assim onde o u nos aparecer com o valor de v substi- tui-lo-emos por este fonema, e vice-versa. e) Conservamos o ç antes das vogais e, i, em confor- midade com o texto dos documentos, e usamo-lo também nas palavras que, modernamente, o exigem, excepto se no texto o valor fonético de ç for representado por um s; neste caso, respeitamos a ortografia do documento. f) Nos documentos a nasalização é quase sempre repre- sentada pelo til. Conformamo-nos com esta norma, nas palavras em que ainda hoje vigora também; mas nos casos como tãto, hu, falta e outros semelhantes, escreveremos tan- to, hum, faltão ou faltam, conforme a índole do documento. g) No fim e no princípio das palavras, eliminamos as consoantes duplas e mantemo-las no meio. h) Consta esta obra, como já ficou dito, de duas par- tes em publicações distintas: documentação e síntese his- tórica. Já se deixa ver que a publicação documental não pretende ser uma edição crítica. Os documentos interessam- -nos, pois, corno fontes históricas, na sim autenticidade, no seu estado de conservação, no valor do seu conteúdo, na clareza do seu texto. Agora, o nosso objectivo principal è coligir toda a documentação possível, pertencendo à sín- tese histórica o necessário estudo crítico, com as notas con- venientes aos documentos; mesmo porque, de contrário. XVII
  • este trabalho de publicação documental teria que ser muito moroso e reduzir-se a um ou outro período. Limitamo-nos, por isso, aqtá, às notas indispensáveis à clareza e fácil compreensão do texto, e dividimo-las em duas espécies: intrínsecas, numeradas com simples algarismos; e extrínse- cas, numeradas com algarismos entre parêntese. Aquelas, indicam as abreviaturas, palavras corrigidas, ou substituí- das; vocábulos de leitura duvidosa ou incerta, passagens do documento danificadas, etc. Estas, são explicativas ou históricas e dão uma identificação, esclarecem um ponto, comentam uma passagem, rís primeiras, registam porme- nores do próprio texto; as segundas, dizem-lhe respeito. 4. Nota de gratidão lnicla-se esta publicação por despacho de S .Ex.* o Sr. Ministro do Ultramar, Com. Sarmento Rodrigues. A credita-se assim, como obra de interesse nacional, a missão que nos foi confiada de trazer a lume a documenta- ção que, registando os defeitos próprios de uma época re- mota, as fraquezas e falhas dos homens de então, ainda proclama, bem alto, a excelência do sistema evangelizador de Portugal missionário, entre as gentes retraídas e bravias daqueles inacessíveis confins do Mundo. XVIII
  • E se, por este encargo oficial, nos sentimos justificada- mente lisonjeados, muito mais rios confessamos sincera- mente gratos; primeiro, para com S. Ex.* o Sr. Ministro do Ultramar que, absorvido por uma pasta do Governo, hoje das mais complexas, distinguiu, com a sua superior anuência, a nossa modesta mas laboriosa boa vontade em colaborar no reconstituição da história do Padroado Portu- guês, de tantas páginas esquecidas ou falseadas. Depois, para com S. Ex.* o Sr. Agente Geral, distinto mentor dum organismo operoso que tantos e tão valiosos monumentos literários tem construído em prol da causa do Ultramar por- tuguês. Foi ele que deu a esta obra as condições de se poder levar a cabo, e a nós, a confiança para o seu empreendi- mento. Mais que a nossa gratidão pessoal, porém, apraz-nos registar a das Missões para com o Governo, que, ordenando, deste modo, a recplha de testemunhos de méritos passados, arduamente ganhos naqueles sítios, concede multiplica- rem-se as razões da assistência a que as mesmas têm jus, no presente e no futuro. É ainda para mim de suma satisfação deixar aqui ex- presso ao meu Prelado, D. Jaime Garcia Goulart, vene- rando bispo de Dili, o meu reconhecimento, pela necessária autorização, de boamente concedida, para me poder dedi- X I X
  • car a este trabalho, entre as obrigações que por S. Ex.* Rev.ma me estão confiadas. Sei quanto de interesse S. Ex.* Rev.™ porá nesta obra, em que devem ficar escritas páginas repletas de feitos es- trénuos da convulsa história das Missões de Timor, cuja reconstrução espiritual ele foi chamado a erguer sobre os escombros que uma ocupação nefanda deixou. Expondo as vastas dimensões do seu plano, o Dr. An- tónio da Silva Rego, em nota oficiosa, escreveu estas pala- vras: «Urge publicar toda a documentação sobre o Pa- droado, na índia, nos Mares do Sul, na Malásia, na Cochinchina, etc., etc., etc. Portugal foi mal visto enquanto foi ignorado. Patentear a documentação existente nos nossos arquivos aos estudiosos do mundo inteiro é serviço de inte- resse nacional. É a melhor propaganda que de nós se pode fazer. O meu colaborador, P.' Artur Basílio de Sá, encon- tra-se em posição de poder encarregar-se do estudo do Padroado noutra região — a dos Mares do Sul — por exemplo, abrangendo Java, Molucas, Amboino, Flores, Timor, etc. Convém iniciar, pois, nova série da ((Documentação», dedicada aos Mares do Sul, coligida e anotada pelo P.' Artur Basílio de Sá. Após alguns volumes documentais, viria na- X X
  • turalmente a síntese histórica, adoptando-se o mesmo sis- tema seguido para o estudo do Padroado na índia». Por aqui começou, pois, esta publicação documental, de cuja ideia o insigne especialista em história do Padroado português no Oriente foi o autor. A amizade que nos une inalteràvelmente, desde a nossa primeira convivência nas aulas, impõe limites de elegância às referências que nos seriam espontâneas. Não devo, porém, esquecer jamais a sua lealdade de carácter, probidade científica, simplicidade de mestre já com renome além-fronteiras, usadas para comigo, durante a colaboração que tive a honra de lhe Prestar, e o quanto lhe fico devendo naquela preparação técnica necessária, e adquirida sob a sua orientação. Consta este primeiro volume de documentos colhidos na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, na Biblioteca da Aca- demia das Ciências de Lisboa, e principalmente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Ainda que nos deva ser licito desejar que outros regu- lamentos oficiais venham a auxiliar melhor os leitores na tarefa das suas investigações, contudo, seria injusto negar a melhor das boas vontades, o préstimo valiosíssimo que sempre nos foi dispensado por todo o seu pessoal, ilustres Directores, funcionários maiores e menores, dentro da dis- ciplina vigente. Para todos vai a nossa estima e gratidão. XXI
  • i4s longas horas passadas nas salas destes arquivos pro- porcionaram-nos a ocasião de constatar também a pre- sença diária de muitos investigadores; do que deduzimos uma simpatia notável por estes estudos. Ousamos, por isso, esperar que os nossos volumes poderão vir a ser, ao menos, folheados, para consulta. Muito grato nos confessamos, desde já, para com todos aqueles que, comunicando-nos a existência de documentos qiie nos passarem despercebidos, ou apontando-nos correcções a fazer, deficiências a supri- mir, assim nos prestem a sua colaboração generosa e de muito apreço. Escrevemos esta Introdução dominados também por sentimentos de repulsa pelo atentado infame perpetrado contra Portugal no ponto mais indefeso das suas Possessões. Com todos os portugueses sentimos a amargura e a nobreza de podermos dizer ao Mundo que a nossa presença na índia é combatida por ser um obstáculo tenaz a uma ambição in- frene, que deseja instalar, também naquele continente, um regime de tirania desumana, o que Deus permita não ve- nha a acontecer. Lisboa, 30 de Julho de 1954.. Artur de Sá XXII
  • N. B. Corrigimos: 1. Dieguarys para Dio go Aires 2. Pedrarias de Avila para Pedro Aires pág. 152 linha 13 de Avila ... 3. Afonso Mexia para João Mexia 4. Loyosa para Loaysa 5. Melio para Nilio 6. Ylha para Yndea pág. 217 linha 7 pág. 228 alínea g pág. 307 linha 1 pág- 395 linha 21 pág. 443 linha 10 Destas correcções, as principais que notamos, durante a ela- boração do índice final, somos nós o único responsável, sem qualquer desdouro para os serviços tipográficos que, nesta obra, usaram de aturado cuidado, sob a direcção esmerada do Sr. Luís Raul Nunes, pelo que, muito grato nos confessamos Para com todos. A. S. XXIII
  • SIGLAS 1MKJLÍND1A, I — C
  • SIGLAS ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo. BACIL Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. BAL Biblioteca da Ajuda de Lisboa. BIMINEL Biblioteca do Ministério dos Negócios Es- trangeiros de Lisboa. BNL Biblioteca Nacional de Lisboa. CC Corpo Cronológico. (Colecção documental do ANTT). CVR Cartas dos Vice-Reis da índia. (Outra colec- ção do ANTT).
  • ÍNDICE
  • j. PAg. x _ ANTT, Maço de Leis, N.° 22: Carta de el-rei D. Manuel a D. Francisco de Almeida. 1506 (?) 3 y 2 — ANTT, OC-I-6-82: Regimento de Diogo Lopes de Sequeira enviado a descobrir a cidade de Ma- laca. 12 de Fevereiro de 1508 - 16 ✓ 3 — ANTT, Gaveta 14-8-21: Carta de Rui de Araújo e de seus companheiros de cativeiro a D. Afonso de Albuquerque. Malaca, 6 de Fevereiro de 15x0 20 ' 4 — ANTT, Gaveta 14-8-21: Carta de el-rei de Pedir a D. João III. Setembro de 1509 (?) 32 5 —ANTT, CC-I-22-626: Trecho de uma carta de Afonso de Albuquerque a El-Rei. Cochim, 20 de Agosto de 1512 34 6 — ANTT, CC-I-22-64: Trecho de outra carta de Afonso de Albuquerque a El-Rei. Cochim, 20 de Agosto de 1512 - 37 7 — ANTT, CC-I-13-103: Trecho de uma outra carta de Afonso de Albuquerque a El-Rei, Cananor, 30 de Novembro de 1513 39 XXXI
  • 8 — ANTT, CC-I-14-52: Carta de Rui de Brito Pata- lim a D. Afonso de Albuquerque. Malaca, 6 de Janeiro de 1514 9 y- ANTT, CC-I-14-49: Carta de Rui de Brito Pata- lim a El-Rei. Malaca, 6 de Janeiro de 1514 ..„ 66 10 j. ANTT, CC-III-5-87: Carta de Jorge de Albuquer- que, capitão de Malaca, a El-Rei. Malaca, 8 de Janeiro de 1515 75 11 — ANTT, Gaveta 15-4-1: Carta do rei de Ternate a el-rei D. Manuel, s. d g^ 12 — ANTT, Gaveta 15-21-16: Carta a el-rei D. Manuel. Malaca, 20 de Agosto de 1518 gg 13 — ANTT, Gaveta 15-15-17: Três reis das Molucas es- crevem ao governador da Índia, Lopo Soares de Albergaria. 1518 II2 14 — ANTT, Gaveta 15-10-2: Carta de Garcia de Sá, capitão de Malaca, a El-Rei. Malaca, 23 de Agosto de 1520 Il6 15 — ANTT, Gaveta 15-15-29: Carta do rei de Ternate ao capitão de Malaca, Garcia de Sá. 1520 (?) 118 16 — ANTT, Gaveta 15-16-38: Carta do rei de Ternate, Abu Hayat, a El-Rei. s. d 12I 17 ANTT, Gaveta 15-15-7: Outra Carta do mesmo rei, Abu Hayat, a D. João III. s. d 124 18 — ANTT, Gaveta 15-15-7: Jorge de Albuquerque, ca- pitão de Malaca, envia a El-Rei a tradução da carta do rei de Ternate, Abu Hayat. Malaca, 28 de Agosto de 1522 I26 XXXII
  • N.* Pág. 19 — ANTT, CC-III-15-81: Joiige de Albuquerque, ca- pitão de Malaca, envia cópia da correspondên- cia chegada das Mohicas. Malaca, 28 de Agosto de 1522 128 © 20 — ANTT, Gaveta 18-6-9: Carta de António de Brito a El-Rei. Ternate, 11 de Fevereiro de 1523 ... 132 21 — ANTT, Gaveta 18-6-6: Carta de Rui Gago a El- -Rei. Molucas, 15 de Fevereiro de 1523 159 « 22 — ANTT, Gaveta 13-6-1: Depoimento de Diogo Brandão em o Processo das Molucas. Tomar, 25 de Agosto de 1523 175 23 — ANTT, OC-I-30-78: Carta de Jorge de Albuquer- que a d-rei D. João III. Malaca, 1 de Janeiro de 1524 181 24 — ANTT, Gaveta 18-2-23: Carta de António de Brito a El-Rei. Ternate, 28 de Fevereiro de 1525 ... 192 fl 25 — ANTT, Gaveta 17-6-24: Carta de Baptista Apan- çoro e de Leão Pancado ao Imperador Carlos V. Moçambique, 25 de Outubro de 1525 197 26 — ANTT, CC-I-38-47: Carta de Afonso Mexia ao ca- pitão das Molucas. Cochim, 30 de Abril de 1527 202 27 — ANTT, CC-38-47: Outra de Afonso Mexia às autoridades de Malaca. Cochim, 30 "de Abril de 1527 205 28 — ANTT, Maço 3° de Leis, N." 12: Regimento pas- sado pdo Imperador Carlos V a D. Fernando Cortez, capitão-geral da Nova Espanha. 20 de Junho de 1527 212 29 — ANTT, CC-I-58-3: Carta de Leonel de Lima a El- -Rei. Malaca, 8 de Novembro de 1527 218 XXXIII
  • N-" Pág. 30 — ANTT, CC-I-38-47: Carta de Afonso Mexia a El- -Rei. Cochim, 15 de Dezembro de 1527 223 31 — ANTT, CC-I-40-24: Trecho de uma carta de Diogo de Salinas ao Imperador Carlos V. Tidore, 11 de Junho de 1528 226 32 — ANTT, Gaveta 17-7-9: Carta de Vicente da Fon- seca a El-Rei. Molucas, 8 de Dezembro de 1531 228 Q 33 — ANTT, Gaveta 15-10-4: Carta de Fernão de la Torre a El-Rei. Geilolo, 1 de Março de 1532 . 246 34 — ANTT, CC-I-48-61: Carta do rei de Geilolo ao Imperador Carlos V. Geilolo, 1 de Março de x532 253 35^— ANTT, CC-I-51-112: Carta de Nuno da Cunha a el-rei D. João III. Goa, 20 de Novembro de 1532 258 36 — ANTT, Gaveta 18-4-13: Carta de Pedro de Monte Maior a El-Rei. Cochim, 14 de Janeiro de 1533 261 37 — ANTT, Gaveta 18-8-20: Carta de Tristão de Ataíde a El-Rei. Molucas, 20 de Fevereiro de 1534 ... 284 38 — ANTT, CVR, N.° 95: Informação a El-Rei sobre o comércio da pimenta e do cravo. s. d 332 39—ANTT, CC-I-60-7: Outra carta de Tristão de Ataíde a el-rei D. João III. Malaca, 15 de No- vembro de 1537 342 4o — ANTT, CVR, N.° 23: Carta de Nuno da Cunha a el-rei D. João III. S. Mateus, 10 de Dezembro de 1537 370 XXXIV
  • N • 41 _ ANTT, CC-I-65-72: Inquérito sobre o Padre Diogo de Morais, vigário de Goa. 17 de Setembro de 1539 375 42 — ANTT, CC-I-71-19: Carta de Aleixo de Sousa a el-rei D. João III. Goa, 24 de Novembro de 1541 376 43 _ ANTT, CC-I-4-1: Trecho de uma carta do vigário geral, Padre Miguel Vaz, a El-Rei. Cochim, 6 de Janeiro de 1543 37® 4 4 ANTT, CC-III-15-49: Carta do sultão Mahamat, rei de Pedir, a D. João III. Malaca, 15 de No- vembro de 1543 382 45 —ANTT, Gaveta 18-8-30: Carta de D. Jorge de Castro a El-Rei. Molucas, 10 de Fevereiro de 1544 383 46 —ANTT, Gaveta 18-8-1: Carta do rei de Ternate a D. João III. Ternate, 18 de Fevereiro de 1544 401 47 — ANTT, Gaveta 18-8-27: Carta de Jerónimo Pires Cotão, feitor da fortaleza de Ternate, a El-Rei. Ternate, 20 de Fevereiro de 1544 4°4 48 — ANTT, CC-I-76-4: Acordo de paz entre Jordão de Freitas e Rui Lopes de Vila Lobos. Ternate, 8 de Janeiro de 1545 4°9 49 — Epistola S. Francisci Xaverii, I-272-278: Carta de Francisco Xavier aos confrades de Roma. Cochim, 27 de Janeiro de 1545 4*3 50— ANTT, CC-I-76-15: Carta de Jordão de Freitas a el-rei D. João III. Temate, 1 de Fevereiro de 1545 4I9 ® XXXV
  • N.* Pág. 51 — ANTT, CC-I-76-20: Trechos de um Regimento que Matias de Alvarado apresentou em Ter- nate, 6 de Fevereiro de 1545 434 & 52 — ANTT, CC-I-76-22: Carta de Jordão de Freitas a el-rei D. João III. Teraate, 13 de Fevereiro de *545 436 53 — ANTT, CC-I-76-27: Outra carta do mesmo a El- -Rei. Molucas (Temate), 20 de Fevereiro de *545 442 © 54 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-284-288: Carta de Francisco Xavier ao Padre Francisco Man- silhas. Negapatão, 7 de Abril d 1545 445 55 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-291-294: Carta do mesmo ao Mestre Diogo e ao Padre Micer Paulo. S. Tomé (Meliapor), 8 de Maio de *545 449 5Ó — ANTT, CC-I-76-84: Carta de Gaspar Nilio a el-rei D. João III. Malaca, 10 de Agosto de 1545 453 57 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-298-301: Carta de Francisco Xavier aos confrades da Europa. Malaca, 10 de Novembro de 1545 460 58 — ANTT, CC-I-77-40: Carta de António Paiva à rainha. Goa, 30 de Novembro de 1545 463 59 — ANTT, CVR, N.° 159: Apontamentos do vigário Padre Miguel Vaz sobre as cristandades da ín- dia. Évora, Novembro de 1545 467 60 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-308-310: Carta de Francisco Xavier aos confrades de Goa. Ma- laca, 16 de Dezembro de 1545 470 XXXVI
  • §> N.* l'áil 6 1 ANTT, CC-I-77-71: Carta de Quechil Aeiro, rei de Ternate, a D. João III. Cochim, 18 de Janeiro de 1546 473 62 — ANTT, CC-I-5-76: Carta dos moradores de Ter- nate a el-rei D. João III. Ternate, 20 de Feve- reiro de 1546 475 63 — Documenta Indica, 1-92-107: Instruções de D. João III sobre as cristandades das Molucas, Almeirim, 5 de Março de 1546 488 64 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-318-330: Carta de Francisco Xavier aos confrades da Europa. Amboino, 10 de Maio de 1546 ... 490 65 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-331-335: Infor- mações enviadas de Amboino por Francisco Xavier, s. d 498 66 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-339-344: Carta de Francisco Xavier aos confrades da índia. Amboino, 10 de Maio de 1546 502 67 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-346-348: Carta de Francisco Xavier a D. João III. Amboino, 16 de Maio de 1546 507 68 — ANTT, CC-I-78-125: Carta de Frei Jerónimo de S. Estêvão a el-rei D. João III. Cochim, 22 de Janeiro de 1547 510 69 — ANTT, Gaveta 18-2-26: Carta de Baltasar Veloso a El-Rei. Molucas, 20 de Março de 1547 513 g> 70 — Documenta Indica, I-253-255: Notícias da índia. Goa, princípios de 1548 (?) 523 71 — ANTT, Gaveta 18-5-15: Carta de Jordão de Freitas a El-Rei. Cochim, 7 de Janeiro de 1548 525 XXXVII
  • N-' Pág. 72 — ANTT, Gaveta 18-5-15: Outra carta de Jordão de Freitas a El-Rei. Cochim, 7 de Janeiro de 1548 528 73 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I-375-396: Carta de Francisco Xavier aos religiosos da Com- panhia em Roma. Cochim, 20 de Janeiro de !548 534 74 — ANTT, CVR, N.° 26: Carta de Jordão de Freitas a el-rei D. João III. Goa, 31 de Agosto de 1548 550 75 — ANTT, CC-I-81-62: Parte de uma carta de Tomé Lobo a El-Rei. Goa, 13 de Outubro de 1548 ..569 76 — ANTT, CC-I-81-86: Carta de Francisco Palha a el-rei D. João III. Goa, 20 de Novembro de 1548 571 77 — BAL, 49-IV-49: Carta do Padre Francisco Peres, ao Padre Inácio de Loyola. Malaca, 4 de De- zembro de 1548 579 78 — BAL, 49-IV-49: Informações de Manuel Pinto ao bispo de Goa sobre algumas conversões em Ma- cáçar. Malaca, 7 de Dezembro de 1548 589 79 — Documenta Indica, I-410-426: Trecho de uma carta do Padre António Gomes ao Padre Simão Rodrigues. Goa, 20 de Dezembro de 1548 595 80 — Documenta Indica, I-436-444: Trecho de uma carta do Padre Lanciloto ao Padre Inácio de Loyola. Cochim, 26 de Dezembro de 1548 597 81 — Documenta Indica, I-456-462: Trecho de uma carta do Irmão Manuel de Morais aos confrades de Coimbra. Goa, 3 de Janeiro de 1549 598 XXXVIII
  • N.« PàB- 82 — Epistolae S. Frattcisci Xaverii, II-69-80: Trecho de uma carta de Francisco Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Cochim, 2 de Fevereiro de 1549 6°° 83 — BAL. 49-IV-49: Carta do Padre João da Beira ao reitor do colégio de Goa. Molucas, 5 de Feve- reiro de 1549 ò°2 0 84 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II-in-115: Carta de Francisco Xavier ao Padre João da Beira e companheiros nas Molucas. Malaca, 20 de Junho de 1549 606 85 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II-123-135: Trecho de uma carta de Francisco Xavier aos Padres de Goa, Paulo, A. Gomes e B. Gago. Malaca, 20-22 de Julho de 1549 611 86 — Documenta Indica, I-551-570: Trecho de uma carta do Padre Baltasar Gago aos Irmãos de Coimbra. Goa, entre 14 e 20 de Outubro de 1549 613 87 — Documenta Indica, I-518-523: Carta do Padre An- tónio Gomes, reitor do Colégio de Goa, ao Pa- dre Inácio de Loyola. Goa, 25 de Outubro de 1549 615 XXXIX
  • DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE INSULÍNDIA (1506-1549)
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  • 1 CARTA DE EL-REI D. MANUEL A D. FRANCISCO DE ALMEIDA 1506 (?) (1) ANTT: Maço de Leis, N.° 22. Cópia passada com letra clara e bem legível. Consta de dez folhas, oito das quais formam um caderno, a que depois juntaram mais duas, soltas. A folha 1 r. contém vários títulos que foram riscados, e a folha 1 v. está em branco. 0 texto começa a folhas 2 r., sendo, ao todo, sete folhas e parte de uma página escritas. A margem tem, por vezes, períodos que fazem parte do corpo do texto, no qual se devem intercalar, na sua devida altura, onde se vê certo sinal indicativo. Assim copiamos já no seu devido lugar estes períodos, indicando- -os, entre parênteses. A folhas 6 v. e J r. encontram-se ainda umas notas inutilizadas, cujo assunto vem depois tratado a fl. 8 r. Mede 310 x 2/5 mm. a) Instruções para se construir uma fortaleza em Socotorá. b) Urgência em ir a Malaca e aí se levantar também uma for- taleza. (1) Apensas ao documento, andam duas folhas que lhe servem de capa, onde se lê a seguinte nota que indica a data aproximada que damos: «Este documento, ainda que sem data expressa, pelo facto, se conclui ser dantes de 6 de Abril de 1506. Barros na sua 2,a Década, L.° i.°, cap. 1, diz que Tristão da Cunha e Affonso de Alboquerque partio de Lisboa a 6 de Março de 1506; e nos Comentários do dito Affonso de Alboquerque, Parte 1.*, cap. 7, se diz que Tristão da Cunha partio a 5 de Abril, Affonso de Alboquerque a 6 deste mez do anno de 1506; logo em todos os casos o documento he anterior ao dia 6 de Abril, como fica con- cluído». Foi publicado já em Cartas de Afonso de Albuquerque, Tomo III, pp. 268-276. 3
  • c) Notícias de que os castelhanos se propõem navegar até Malaca, pondo em dúvida que esta cidade ficasse situada na zona dos des- cobrimentos pertencente a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas. d) Viagem a Sumatra e ilhas do cravo, levantando padrões, em sinal de posse, e colhendo informações. e) Construção de uma fortaleza em Ceilão, no regresso da viagem. /) Tomam-se estas empresas como ordenadas por desígnios de Deus. Dom Francisco 1 amigo, Nos, el-rey, vos emviamos muyto saudar. PeUo regimento noso, que levastes, vos mandamos o que devies de viir fazer na boca do Mar Roxo, pera se- gurança das cousas de noso serviço, e por, aliem diso, ser cousa de muyto noso gosto se verem ally nosas naaos e jemtes, e se saber que tynhamos aly aquela boca ocupada. E porque nos pareceo que, pella ventura, pello muyto que avieis de provar e fazer, nesas partes da Imdia, os darya o tempo 2 lugar, parecemdo-nos que Tristam da Cunha, ymdo agora de caminho com a armada que leva, e Afonso ' de Alboquerque, que com elle vay, poderya fazer o que desejamos, pois fazia por aly seu caminho, sem perder nada da viajem, pella emformaçam que temos da ylha de Çocotora, que he junto da boca do Mar Roxo, e vinte 4 legoas do Cabo de Gardafuue, a qual nos dizem que he de muy boons portos, de todo tempo, e cheya de muytos mantimentos, e povorada de muytos cristãos da terra e de muy poucos mouros, e que he perajem muy primcipal das naos de Mequa e de todallas outras dos mouros, estar junto de Zeylla, Barbara, Adem, e asy 1 — fr.; 2 — tpo; 3-A.O; 4 - XX. 4■
  • mesmo da Gramuz, e de todollos outros lugares da costa, daquem e daallem, e muy principallmente, pello grande desejo que teemos de ally ter forteleza e jemtes, acordamos que o dito Trystam da Cunha e o dito Afomso de Albo- querque, / / que com elle vay, tomasem a dita ilha e fe- 12 zessem ally huuma fortelleza, com ha metade de huuma villa de madeira que levam. E fazemdo-a, ficase ally noso capitam e jente, pêra a guarda e defemsam delia, e asy ficase, o dito Afomso de Alboquerque, com nosa armada que lhe ordenamos, pera gardar a boca do Mat Roxo, e tomar as naaos dos mou- ros, e se aproveytar de todas as presas que nelles podese fazer, e asentar trauto nos lugares em que lhe parecese proveytoso, asy como Ceylla e Barbora e Aden. E pera também yr a Gramus e (Cambaya), e saber de todas as cousas daquelas partes, em que ha tanto que veer, e de que se esperam tantos proveytos, segundo que de todo lhe deemos noso regimento. Noteficamos-vo-llo asy, pera saberdes como ho mam- damos, e o que nos moveyo; e ao dito Tristam da Cunha mandamos que, loguo em aly chegamdo, vos emviase huum navyo com esta nosa carta 5 e todo aviso do que fazia, e asy mesmo pera lhe terdes e mandardes ter pres- tes sua carga, e, aliem diso, estardes avisado e vos fa- zerdes prestes pera o abaixo decrarado, que muyto releva e compre a noso serviço. Item. Por Cyde Barbudo vos temos esprito, encomen- dando-vos que, se aimda nom tynheis emviado navyos a Malaca, segumdo vollo encomendamos / / por regimento, u r-l os emviaseis, damdo-vos pera yso o tempo lugar, e po- demdo-se fazer sem pejo das cousas de noso serviço desas partes ' da Imdia, porque se oferecia ca huum pejo 5 — cta; 6 — ptes. 5
  • dhuuma certa armada de Castella, que nos foy noteficado que se fazia prestes pera, neste varãao, aver de hir em busca da dita Mallaca, fazemdo duvidoso ser dentro das nosas marcas; e que, por ser tomada, primeiro, por nos a posse, que nestas cousas daa muito direito ', aliem do que nos creemos que nyso temos, como por ser cousa tam principal desas partes, e de que tamta riqueza e proveyto se espera, follgaryamos de asy se fazer. E agora, comsyderando acerqua disto, nos parece que quanto mais cedo ysto se fezer tanto sera mais noso ser- viço, e que ainda, sabemdo-se como teemos la nosas jem- tes e forteleza e trauto, poderya mais asynha desarmar o pemsamento que sobre esta cousa teem allguuns que ho procuram. E pella enformaçam que temos que com o tempo com que as naaos que de ca vãao atravesam pera a Imdia se pode de hy, da Imdia, fazer ho caminho e viajem pera Malaca, parece-nos que, leixamdo vos em hordem a carga das naaos de Trystam da Cunha, e asy segura e certa, como comveem, por noso serviço, e fora de duvida, pera elle poder partir no tempo em que ha-de partir com sua carga, e nam aveemdo hy cousa que vollo torvase, pera nam deverdes leixar as cousas desas partes da Imdia onde li v.i estaaes, // que vos devyes partir, em booa ora, com as naaos e navyos que la temdes, e com os mais que leva Tristam da Cunha, pera la ficarem, e vos yrdes via de Mallaca, leixando soomente hy, na Imdia, as duas galles, e duas caravellas com ellas, e os bragantiins, que parece que abastaram pera todo o que convier as fortellezas da Imdia, e pera qualquer outra cousa que se posa oferecer (ou mais, se mais vos parecer que devees leixar, porque niso fares o que vos bem parecer, e mais noso serviço 7 — dr.<«. 6
  • for). E (trabalhardes) por vos mesmo por fazerdes asento em Mallaca, e asy trauto, e fazerdes huuma fortelleza naquele lugar em que milhor vos parecese, ora fose com prazer dos da terra, ora sem elle, se elles nisso nam qui- sesem viir por suas vontades; o que primeiro que asy fose, muyto e com toda a temperança e sofrymento se devya trabalhar, pera se fazer com muyto seu prazer, e apresentando-lhe pera yso todas as rezões que parecesem necesarios, pera elles perderem toda sospeyta, e conhece- rem que folgaremos de ter ally nosa casa e j entes pera com elles trautar, e que ha dita fortelleza se faz somente pera segurança dos nosos e de nosas mercadorias, tam- bém porque a viajem e o caminho nom consente que nosas naaos vãao aly asy amyude, como folgaryamos, e por- que, quamdo fosem, achasem suas cargas mais prestes; com todas outras booas rezões que lhe vos muy bem sabe- res apresemtar. Porem, muyto vos encomendamos e mandamos que, por ysto rellevar tanto a noso serviço, por este ympidi- mento de Castella // que hy ha, e por a mesma cousa ser u t.i tal que requere se fazer, vos desponhaes ha niso nos yrdes servir, porque com vosa ida, se ha-de aproveytar este feyto, segundo -que nos parece, e sem vos nom sabemos como se bem poderya fazer, principalmente por vosa pe- soa, e depois, por a companhia das naaos e navyos que podes levar; e trabalhay por asentar na terra, e fazer a dita fortelleza, e poer padrões e todo outro synal, como de pose. E aveemos por bem que leves comvosquo Manuel Fe- çanha, porque, posto que de todos eses fidallguos, nosos criados, que la estam, temos muy grande confyança, pella experiência da pesoa 4 do dito Manuel Peçanha, avemos 8 —p». 7
  • por bem que elle fique por capitam na fortelleza que fe- zerdes no dito Mallaca, e com elle, por alcaide, seu filho e leve elle comsyguo seus parentes e criados que comsy- guo levou. E pêra feytor, Dieguo da Fonseca, que esta hordenado por allcaide e feytor de Anjadyva; e ficara por capitam em Anjadyva, Vasco 10 Gomez de Abreu; e por allcaide, aquela pessoa que vos a vos bem parecer; o qual também servira a feytorya de hy, como o dito Diego 11 da Fonseca 11 o fazia. E Dieguo da Fonseca nos praz que aja, com a allcai- darya de Mallaca, todo o que lhe tynhamos hordenado com a feytorya e alcaidarya de Anjadyva; e dir-lhe-es que, pella confiança que delle temos, aveemos por bem esta sua mudada; e se, pella ventura, Manuel Peçanha fose fallecido ou ympedido, de maneira que nam podese hir comvosco, pera asy ficar, como dito he, em tal caso, 14 r.i avemos // por bem que vaa, pera ficar por capitam, Lou- renço 11 de Bryto, e em Coullam, se elle hy estever na fortelleza, (se hao tal tempo fose fecta) ficara quallquer outra pesoa que vos pareça que deva hy ficar, esgardando que seja tal que nyso nos sayba bem servir; e pera o dito Manuel Peçanha e pera o dito Lourenço de Brito vos emviamos cartas de crença, pellas quaes, aquele soomente que ouver de hir, mandares da nosa parte que vaa. E se ambos forem vivos, nom sabera mais que o que ouver de hir, nem nosa carta nam dares, salivo ao que ouverdes comvosco de levar. E nom imdo Manuel Peçanha, e indo Lourenço de Brito, entam ficara Vasco Gomez 14 em Cou- lam. Item. Ymdo vos esta viajem, como prazera a Noso Senhor que ho fares, e fazemdo o dito asento, e ficamdo fecta ha fortelleza, aveemos por bem que fique la nosa 9 —fi; 10 — V.CO; 11 —do; 12 — da°sec&; 1J — L.«>: 14 — goi„ 8
  • armada, a saber: huuma naao e huum navy o e huuma caravella, que parece que abastaram pera guarda da dita fortelleza e pera o maneyo do trato e cousas delia, e pera o mais que vos viseis que ella poderya fazer, de que dei- xareiis voso regimento. E olhando por quem ficarya por capitam da dita ar- mada, pareçe-nos que, pellas calidades que tem Joham da Nova, asy pello conhecimento 15 que tem das cousas do trauto, como do mar, e pella boa conta que, em ambas estas cousas, de sy tem dado, que elle deve ser; e vos mandamos que a elle leixes na dita armada por ca- pitam, com voso regimento do que aja de fazer, como dito he. E os navyos que aveemos por bem que lhe fiquem sam, //a saber: a naao em que ora vay Francisco de Tavora, por ser naao nova e muy booa pera tal navega- çam; (e hum navyo outro, e huuma caravella, ques (sic) vos milhor pera yso parecerem); e o dito Francisco de Tavora se pasara a nao Frol-de-la-Mar, que hordenamos que venha com carga de especiarya, segundo que vos temos scryto, e estamdo ella de maneira que vos pareça que, com segurança, pode viir com cargua; e na outra de Vasco Gomez, pode viir o mestre e pilloto, pareçendo-vos (que sam ornes pera darem recado da dita nao, e Vasco Gomez poderá mandar sua carga. E quamdo nam vos parece que deve a dita nao asy de viir com estes, poeres nella qualquer outra pesoa que vos bem pareçer), porque tanbem ordenamos que venha asy com carga de espiciarya. E se vos parecese que deve ficar mayor armada, leixay mais aqueles navyos que vos bem pareçer, porque a vos ho leixamos que, segundo o que da terra viirdes e vos pareçer, asy o façaes, porque somos certo que pera o que 15 — c.«o. 9
  • la ouverdes de leixar e trazer comvosco, teres pera tudo tal respeyto, como compre a noso serviço). Item. Pera o fazimento desta fortelezza vay, nestas naaos de Tristam da Cunha, ha metade de huma fortelleza de madeira, porque a outra metade mandamos que ficase em Çocotora; e vãao trinta " tiros, e duas bombardas grosas, e quatro pasavollantes, pera servirem na dita for- telleza ; e esta metade da dita villa de madeira se asentara em tanto espaço, como ella posa ocupar; e porque nom he ynteyra, o que ficar por çarrar (2) se çarrara com booa cava e todo outro repairo, como vos bem sabes, pera poder ficar forte e segura. Item. Vãao allfecees (3), enxadas, paas e outras cou- sas semelhantes pera o fazimento da dita forteleza. Item. Vãao, asy mesmo, soma de lanças, de que vos podes aproveytar pera la levar. Os homeens pera a garda e defensam da dita fortelleza is v.) leixamos a vos pera lhe leixardes aqueles que vos bem / / parecer, e com que posa ficar bem gardada e segura, e asy na armada. E esta sera de jente que leva Tristam da Cunha, de criados nosos e outras pesoas, pera la ficarem, como tan- bem dos que la estam; dos quaes, pera yso, escolheres os que milhor vos parecerem; e dos que la estam, cremos que tenhaes ja bem conhecido quaes seram, pera nos bem po- derem servir, em semelhante fecto. Item. Os regimentos pera o capitam e feytor, e asy os outros ofeçiaes, sam taes como os que levastes pera as (a) Çarrar ou cerrar, i. é. concluir. (3) Parece-nos ser esta a leitura mais a propósito, significando, 0 termo, uma espécie de alvião, picareta. 16 —XXX. 1 O
  • outras fortelezas; e com esta vos vãao outros taes, asy- nados por nos, os quaes lhe dares, pera por elles se re- gerem. Item. Se, quando em booa ora partiseis da Yndia pera Mallaca, vos parecese que dos navy os que podees levar comvosco podereis escusar dous ou ate tres, pera os em- viardes pera Afonso de Alboquerque, a boca do Mar Roxo e aquela parajem por homde ha-de amdar, folgaryamos de lho emviardes, porque, pello muyto que la ha-de ter de fazer, comvyria que ande bem acompanhado, e ao me- nos, quando nom fosem tres, fosem dous (4). Item. O asento e sytyo da fortelleza, posto que say- bamos que ho aves de escolher tal como comvem, nom ouvemos por pejo vos dar allguumas lenbranças que ave- emos por princypaes, a saber: que seja //o sytyo forte '•) e sadyo, e de boom porto, pera o acolhimento de nosa armada, que com viria senpre la a vermos de teer; e que tenha agoa dentro ou junto comsygo, e de maneira que se lhe nom posa tolher; e que seja em lugar que se posa fazer delle bem o trato das mercadaryas. (E nam podendo fazer a forteleza dentro em Ma- laca, fazey-a) em qualquer outra parte que vos bem pa- recer, asy da terTa (fyrme, como de all)guuma vlha, porque o saberes escolher tal como (cumpra ha noso serviço). Esta vosa yda a Mallaca, como dito he, ha-de ser com as salivas que atras vos dizeemos, a saber: que nam ouvese cousa outra nesas partes da Imdia omde estaaes que, com vosa sayda de hy, podese ficar em comdiçam dallguum rysquo ou ventura, e parecemdo-vos que se pode asy beem fazer, que de vosa yda de hy se nam po- (4) Este parágrafo encontra-se riscado no documento.
  • dese seguyr yncomvenyente allguum; porque a nos abasta vos screver quanto relleva a noso serviço ysto de Malaca se fazer, e por que respeytos; e sobre yso farees vos o que mais noso serviço e bem de noso trauto vos parecer, porque imteira confyança temos de vos, que saberes bem escolher o que for mais noso serviço. Item. Ymdo-vos, emquanto la andardes, vos traba- lhay de saber das cousas daquelas partes, a saber: das riquezas e proveytos delia; e da grandeza da terra; e de quem he senhoreada; e de que senhoryo sam; e a parte que hy tem os mouros; e que jeemtes outras ha na terra, e com quem tem trauto; e do que vale mais, de merca- daryas das de ca; e quaes sam as milhores mercadaryas is v.) de la, e os preços delias; e se tem alguumas // guerras, e com quem; e que jeente sam de guerra, e como arma- das; e se teem hy casas mercadores doutras partes, e de que nações; e se ha hy muytas naos da terra, e em quamta soma e tamanhas; e se tem abastança de mantimentos, e de que sortes; e se sam providos de fora, se os ha na mesma na terra; se tem rey antre sy, ou o modo de que vyvem; se sam governados em justiça, e que modo tem no provymento delia; e toda outra enformaçam que vos pareça que deves aver das cousas da terra, pera de todo nos screverdes, prazemdo a Deus. Acabado de asentar e fazer todo o que dito he, vos tornares, em booa ora, a India, e proveres no que com- priir, e fares todas as outras cousas que por noso regi- mento levastes, e as outras que mais vos pareçerem por noso serviço; e de tudo o que fezestes nos fares saber por it r.i vosa carta largamente sprita. // Item. Nesta viajem e yda que asy aves de fazer, pra- zemdo a Deus, nos pareceo bem vos dar lenbrança da ilha de Çamatra, que hy he perto de Mallaca, segundo nos dizem, que diz que he muy rica ylha; e asy da ilha I 2
  • do cravo, e doutras ylhas pricipaes, aquy comarquãs, que somos enformado que sam muy ricas e de que se pode tirar muito proveyto. Todas estas e quaesquer outras semelhantes vos enco- mendamos que, deste caminho, trabalhes por ver e apal- lpar o que nellas se pode fazer, e fazerdes loguo o que loguo poder ser feyto; e de em todas // poerdes padrões e fazerdes qualquer outra cousa que comvenha pera synal de pose, e que se sayba e veja como aly chegastes. E também de verdes se podes sojugar e meter sob nosa obidiencia os reys e senhores delias, e no los fazer tre- butaryos e asentardes com elles naquele milhor modo que poderdes, por noso serviço. E de todas estas ylhas e terras tomay enformaçam, asy como ho avees de fazer nas cousas de Mallaca, como antes vos fica apontado; e tudo o que vi irdes e achardes e nestas cousas fazerdes manday meter em sprito pera, nas primeiras naaos que, prazendo a Deus, despachardes pera estes reynos, nos screverdes de tudo, porque muyto prazer 17 e serviço nos fares nisso (5). // Item. Da torna viajem, prazemdo a Deus, segundo a enformaçam que temos, (nos parece que) poderes bem fazer o caminho por Ceyllam, que he cousa tam primcypal da Imdia, como sabees, e em que ha tanta riqueza, e de que se pode tirar tanto proveyto. E por asy o poderdes fazer, averemos por bem que vos venhaaes a ella, e tra- balhes, se com o que trouxerdes, de navyos e gente, vos parecer que ho podes fazer, de fazerdes aquy, no dito Ceyllam, huma fortelleza, e leixardes nella allguuma gente (5) O documento deveria terminar aqui, mas em folhas soltas acrescentou-se o que se segue. 17 — pz.
  • e navyos, com que posa ficar mais segura; e parecemos que ho deves muyto trabalhar, por as callidades que esta ylha tem; a primeira por ser cousa tam rica e tam princy- pal; e aver nella a canella fyna, e toda ha frole do aljôfar, e todos os alyfamtes da índia, (e outras muitas mercadarias e cousas de grande vallor e proveyto); e ficar tam perto de Malaca e do Golfam de Bymgalla, dhomde say todos ou a mayor parte dos mantimentos " da Imdia; e estar junto de Cayle; e ficar na travesa de todas as naaos de Mallaca e Byngalla, e nam poder pasar nenhuma, sem que dally seja vista e se sayba delia parte; e estar junto do arcepeleguo das doze mil " ilhas, (em que se diz que ha muitas, muy ricas e proveytosas, e que muyto se deve procurar de se acharem); e ficar a fortelleza que ally se fezese tam perto da Imdia, porque, segundo o que temos •8 t.j sabido, he caminho de dous ou tres dias; e aimda nos // (parece) que voso asento primcipal devya ser ally, por parecer que estaaes ally no meo de todas as cousas, e que estardes ally, daa mays autorydade a noso serviço e a vosa pesoa. E também muyto nos prazerya fazer aqui este asento da fortelleza, nom tam soomente por todos os respeytos que ditos sam, mas porque serya cousa de muy grande gosto e contemtamento noso estardes vos e nosa forteleza na Tapobrana, posto que se agora chame Ceyllam; da qual, por todos os autores do mundo, tanto se dise e escre- veo, e em tamto louvor se pos, de riquezas e outros beens. Por o qual muy grande prazer receberyamos de asy ysto aquy fazerdes e ser nesta ylha de Ceylam voso primcipal asento, pois daquy parece que podees milhor prover e acodir a todas as cousas do que doutra parte, por estardes no meyo de todas as fortellezas e cousas que la teemos. 18 — m.to»i 19-xij. I 4
  • E posto que pareça que estas cousas sam muytas pera fazer desta viajem, porque ho começo delias e asy o fym em que sam postas foy tudo mais de mão de Deus, e por elle fecto, por sua infynda piedade, (mais) do que por outra allguuma rezam que pera yso ouvese, como espe- ramos nelle que pera tudo nos dara, por sua piedade, ajuda, folgamos de asy em tudo mandar entemder, e espe- ramos que, / / pera o fim diso, vos dee sua ajuda; e muyto 19 vos rogamos que da vosa parte trabalhes por ysto fazerdes asy deste caminho, e asy como de vos confyamos. E bem certo somos que vos nam ha-de parecer traba- lhoso o que for noso serviço; e esta cousa nos averemos por huuma das principaes em que la nos podes servir. í 5
  • 2 REGIMENTO DE DIOGO LOPES DE SEQUEIRA ENVIADO A DESCOBRIR A CIDADE DE MALACA 12 de Fevereiro de 1508 ) ANTT: CC-I-6-82. (1) Cópia muito perfeita na caligrafia. Consta de 18 folhas, das quais só as primeiras 15 estão escritas Mede 310 x 220 mm. a) Referências a ilhas e terras da Insulíndia, onde devia deixar pa- drões. b) Interesse pelos cristãos, caso os encontrasse, durante a viagem. c) Instruções para usar sempre de meios pacíficos, recorrendo à guerra, só em defesa própria. in. 10 v.) Item Em todas as ilhas per que fordes, e em que este- verdes, e asy nas lihas do cravo, Çamatra e as outras ilhas, poerees dos padrõees que levaees, e asy mesmo em Mallaca, naqueles lugares que vos pareçerem mais convy- nientes. Item. Em todas as terras em que chegardes pregun- (1) Este documento encontra-se publicado, na integra, em Cartas de Afonso de Albuquerque, Tom. II, pp. 403-419. Diogo Lopes de Sequeira, chegou, de facto, a Malaca, a 11 de Setembro de 1508, depois de ter passado por Sumatra, onde deixou padrões, nos reinos de Pedir e Pacem. Viu-se, depois, obrigado a dei- xar a cidade, para fugir às traições que o rei nativo lhe urdia, fi- cando ali cativos alguns portugueses. i 6
  • tarees por cristãaos, ou se ha hy novas delles, e asy por todas as cousas do trauto; e achando cristaãos, os agasa- lharees e farees toda homra e boom trauto, e esforçarees na fee, damdo-lhe esperança que muy cedo Noso Senhor ordenara de serem postos em liberdade, e o servirem com inteiro conhecimento e obras de verdadeiros e fiees cris- tãaos, e com mais beens esprituaees e temporaees, dizendo- -lhes nosos descobrimentos e noso grande cuidado delles, com zeello e temçam de mayor / / emxallçamento e acre- 112 r.] çemtamento de nosa santa fee católica; e dizendo-lhe as fortellezas que teemos na Imdia e nas outras partes, e como a ellas, cada anno, emviamos nosas armadas de muytas naaos e gemtees, e esforçamdo-os, quanto possível vos for, com pallavras e obras; e que tamto que a nos chegardes, nos emviaremos, as ditas terras, nosas arma- das e gemtes, pera hy asemtarem, asy como nas outras partes da Imdia o fazeemos. Item. Vos emcomemdamos e mamdamos que em todas 11J r.j as partes omde chegardes naam façaees dano neem maal algum, antes, todos de vos reçebam homra e favor e gua- salhado, e boom trauto, porque asy cumpre, nestes co- meços, por noso serviço. E aimda que, pella vemtura, comtra vos se cometa allguma cousa, desymula-llo-ees o melhor que poderdes, mostrando que, aimda que teveseis cauza e rezam pera fazerdes dano, o leixaes de fazer, por asy vos ser mamdado por nos, e nam quererdes senam paz e amizade; pero, o armando sobre vos, ou vos fazemdo allgum emgano tall que vos pareçese que vos queiram desarmar, emtam, farees a quem isto vos cometese todo o dano e mal que podeseis; e em outro caso nam farees nenhuma guerra nem mal. E porque mais segurees as gemtes dos lugares omde fordes e esteverdes, trabalharees por vos fazer hir aos navios, e nelles hos comvidardes e 1 7 INSULÍNDIA, 1 — 2
  • lhe dardes das cousas que levaees pera dar, e em tudo os tratardes ho melhor que se posa fazer, e em tal maneira que todos posam ser de vos e de voso boom gasalhado comtentes, e deem em toda parte nova do boom trauto U3 v.i e homra que de vos / / reçebem, porque, neste começo, nas terras semelhantes, relleva muyto a noso serviço fa- zer-se asy. E portamto, muito em espeçial vollo emco- memdamos e mandamos pera o quando asy a geente for aos navios terees tal resgardo que nam entre tamta que pareça maao recado, mais sempre o fazey em tal modo que sejaees seguros delles, pera vos nam cometerem em- gano allgum; e disto sede muito avisados. Item. Vos defendemos e mamdamos que em todo o caminho que fezerdes nam façaees, no mar neem na terra, nenhuma tomadia, porque asy o aveemos por noso ser- viço, salivo armando sobre vos, porque, em tal caso, fa- rees a guerra que poderdes, e quamdo por este caso ho ouveseis de fazer, farees asemtar a todos hos escrivãees de vosa armada como pera a dita causa ho fazees, pera por todos os asemtos vermos como compristes e gardastes noso mamdado. us r.i Item. As cousas que levaees, pera dardes de presente, asy a el-rey de Mallaca, como allguns outros reys e se- nhores das ilhas e terras omde tocardes e esteverdes, lhe mandarees apresemtar, asy como vos pareçer que a cada hum deves dar, e mandar-lhe-es hos ditos presemtes da vosa parte, e nam da nosa, fazemdo-lhe rellaçam aquelles, us v.! por quem as // ditas cousas emviardes, como nos teemos mandado a nosas gemtes e armadas aquellas partes, com desejo e grande vomtade de com os reys e senhores delias nos conheçeermos, e prestarmos nosas gentes com as suas, e com elles termos paz e amizade, e que vos pior noso mandado soees hido a o fazer e trabalhar, e com ysto lhe i 8
  • dara, aquelles que emviardes com os ditos presemtes, re- zam das fortalezas que teemos na Imdia, e das gemtes e armadas que no mar da Imdia trazeemos, e asy das outras fortellezas de Çufalla e Quylloa, e dos reys e senhores daquellas partes que estam nosos amyguos, mostrando- -lhes sempre booa vomtade, e apresentando-lhe hos pro- veitos que de nosos trautos receberam, todo a fim de os trazer a todo boom comçerto, e pera que fiquem suas vomtades asemtadas e seguras pera comnosco, e nosas geemtes follgarem de trautar, e elles terem segurança de nos, e nos, delles. E este seja, neste prinçipio, voso prin- çipal fundamento. * 9
  • 3 CARTA DE RUI DE ARAUJO E DE SEUS COMPANHEIROS DE CATIVEIRO A D. AFONSO DE ALBUQUERQUE Malaca, 6 de Fevereiro de 1510 ANTT: Gaveta 14-8-21. Cópia escrita em duas longas colunas formadas de uma folha com qi$ x 810 mm., dobrada ao meio, no sentido do seu comprimento. Depois de escrito, o documento foi ainda dobrado sobre si mesmo, várias vezes, constituindo um ca- derno, cuja consulta requere o devido cuidado, por se encon- trar já muito desfeito. As grandes manchas, as várias passa- gens rotas, as muitas dobras da folha a desfazer-se, a tinta a esmaecer, a caligrafia descuidada dificultam, particularmente, a leitura deste documento e, em muitos casos, é impossível. Indi- camos com reticências as palavras que se perderam, onde o documento se apresenta roto, e incluímos entre parênteses as palavras reconstituídas hipotèticamente. Neste mesmo caderno encontra-se também copiada a carta que damos a seguir. O documento foi publicado já em Cartas de Afonso de Albu- querque, Tomo III, pp. yi2. a) Informações para a tomada de Malaca. b) Más intenções do rei para com os portugueses prisioneiros. c) Protecção que lhes tem dispensado, secretamente, um certo rico mercador da cidade. d) Pressão que os cativos sofreram para que fabricassem pólvora. e) ódio do potentado de Malaca para com os cristãos. /) Malaca, porto comercial a que afluem gentes de várias partes. g) Avisos a D. Afonso de Albuquerque, para quando aportasse a esta cidade. h) Habitantes da cidade afeiçoados já aos portugueses. 2 O
  • Senhor, Nam podemos dar conta a Vosa Merçe emteiramente das cousas desta terra, porque, como homens cativos e cheos de medo, que estam entre a mais ma gemte que Deus cryou, nam ousamos a pergumtar por elas, nem pratica-las com nyngem; estando desta maneira, no que podeemos saber he ho segynte: Em Malaqua poderá aver dez mil 1 fogos, pouco mais ou menos; estes todos asentados ao longo do mar e da rybeira, e os que mais longe vyvem seram do mar hum tyro de besta, pouco mais; e destes as quynhentas casas sam terradas, que nam podem queimar as mercadaryas que nelas alojam. E todalas outras sam de palha, como as da Imdia, e piores. Poderá aquy aver quatro mil homens de peleja, e no mais, porque todolos outros sam escravos de serviço, que nam abrangem senam a ter huma faca ou huma adaga que trazem na cynta; e as armas deses, que podem pe- lejar, sam lanças, e algumas espadas que vem dos gores, e outras que se fazem na terra, e arcos e zarabatanas, posto que disto ha (muito poucas) armaduras de seus corpos, adargas poucas que nam abrangem (mais que) os principaes que regem. As suas bonbardadas, esas que ahy ha, a maior parte delas, sam como spyngardões, e outras como as que soya aver em Calecut, que tiram com pelouros atochados na boca; e pera humas e outras carece muito de bombar- deiros e polvora, que huma das maiores opresões que nos deram, e ainda agora recebemos, foy e he por isso; e quys Noso Senhor, que destes homens que aquy esta- mos, nenhum deles ho soubese fazer, e segundo 2 a fra- 1 — x; 2 — seg. I
  • queza dalgums, e muita trebulaçam que tyvemos, nam duvydo que, por sua salvaçam, algum nam fizera mao recado. Poderá aver neste porto contynos noventa ou çento juncos, entre gramdes e pequenos, e cento e cincoenta 5 paraos, a saber, do rey e mercadores da terra, trinta4 juncos; e os paraos, e os outros de froresteyros, todos sam tam fracos como Vosa Merce terá ja la sabido. Se pera sua defensam os queiram fazer mais fortes, nam podem, porque na terra nam ha hy armas nem aparelho pera iso. Na entrada deste ryo ha pouco mais de huma braça de preamar, e dentro tem (altura) asaz; e de largo, tres lamças darmas, e entra pelo meo da cidade, com casas sobre auga, de huma banda e doutra; e de baixa mar he tam baixo que escasamente pode nadar hum batel; po- rem, do ryo pera a banda do norte, tres tiros de besta, pouco mais ou menos, ha muito boom deserabarcadoiro. El-rei de Malaca nam tem nenhum socorro por terra, mao nem boom; somente el-rey de Pão, que he seu ami- go, e casa agora huma sua filha 5 com hum seu filho príncipe; e em terra deste, vão por mar e por terra, em cinquo dias, pera bandâ do Sul, e he muito pequeno rey e de muito pouca gente; por mar nam tem nenhum tanto seu amigo que por ele faça nada; e tem gerra com el-rey de Siom, que tem muita terra e gente, e muitos portos 4 de mar ,aimda que sam avydos por homens muito fracos. Este rey he cafre, e avera, daquy as suas terras, oitenta 7 legoas, e antre ele e Malaqua esta el-rey de Pão; também tem gera por mar com el-rey Daru, que he mouro, a que ha muito gramde medo, porque lhe da muito grande apre- sam; e a terra deste esta na ilha de Çamatra, e agora nos S —L; 4 —xxx; 5 — fa; 6 —ptos; 7 — Lxxx.
  • dixeram que era desconcertado com el-rey de Java, que vem sobre ele, daquy a sete ou oyto meses, com muitos navyos, pera lhe tomar este porto; porem a terra destes todos he de tanta fraqueza, a meu parecer, que nunca chegarão a concrusam. Malaqua he huma terra tarn esterylle que, de sua co- lheita, nam tem nenhuma necesarya, nem mantymento, e os lugares domde lhe vem sam estes, a saber; Java e Bengala, Peguu e Cinde; e de Siam lhe soe também vyr muito, e per caso da guerra lho... (Vosa Mer)ce sabera que el-rey de Malaca nam rege, nem tem ho mando da terra, nem he esty(mado) nem temydo como rey, he hum homem que esta sempre me- tido em huma casa, como observante; tem dado ho mando e governança a bendara (i), seu tyo. Este bendara tem tomado pose de tudo, em tal maneira que, ainda que agora o mesmo rey lhe queira hir (a mão), em algumas cousas, nam pode, por ser homem manhoso e muito apa- rentado com os principais da terra. Porem, tyrando estes, com que tem esta liança, nam ha nenhum homem, asy estrangeyro (como) os outros naturais, que nam desejem sua destruyçam, pellas perraryas e roubos... seus todolos dias recebem. E não duvyde Vosa Merce que estes nam sejam os pri- meiros (que primeiro) tomem as armas contra eles, quando vyrem o tempo aparelhado pera isso; e os mesmos homens que diguo que poderá aver, pera pelejar, cuydo que a mayor parte sera contra ele, por serem de jaus e chetys(2), (1) Este vocábulo aparece sob várias formas nos documentos: bendara, bandara, pandar, bandar, etc. Estas formas aportuguesadas traduzem, possivelmente, as variantes da palavra nos diversos pontos do Oriente. Os dicionários malaios registam a forma bendahara, título honorífico de gente nobre, ou de altos oficiais. (2) Vocábulo registado também com muitas variantes e que entre nós tomou um sentido depreciativo como os seus sinónimos tratante,
  • que sam os principais mercadores da terra que mais gente tem, e mais sentydos estam dele. Nam íalo nos outros estrangeyros, que nam são estan- tes, nem tem aquy parte, que também desejam porem-lhe o fogo, como cada hum dos outros. Crede, senhor, que nam fez Deus homem tam mao, nem tão tyrano, nem que tamanho mal quer haos christãos, e a toda outra geraçam, como nam são da sua ley, e ajuda estes, a maior parte, bem descontente. Este foy ho primeiro que cuydou e hor- denou a treyçam e roubo que nos foy feyto, com ho mais falso desemulado rosto do que se nunca vyo em homem, e sua treyçam foy, quando isto cometeo, que, despois de matar os que tinha em terra, poderya bem toma-las naos; e tomando-as, que nam verya ja ca mais nyngem; e quando vyo que seu desejo não se podia por de todo em obra, nem ouve neles estamogo nem maneyra pera ho cometerem, e que as naos eram ja partydas, e dous juncos seus, tomados, fe-se em outra vollta comnosco, descul- u *•] pando-se // que aquylo nam fora feyto por seu conselho nem mandado, que os guzarates e jaus ho hordenaram, sem ho elle saber, que os castygarya por iso, e seu desejo era trautarem aquy os portugueses e ter sua amizade; e dizendo estas palavras, nos teve, comtudo, presos ate gora, sem nunca nos prover com cousa que nos fose necesarya; e se nam fora Nenachata, chetim, mercador desta çidade, que nos proveo com muitas esmolas, e pro- curou sempre por nosas cousas, sem nenhuma duvyda, pasaramos muito maior perygo em noso catyveiro, e pa- decêramos fome; a este he Vosa Merce em mais obriga- çam, pelo que nos tem feyto, que a nenhum homem que nesta terra aja, e a requerymento seu nos soltou agora traficante. Na linguística oriental, com as suas múltiplas formas, significa, geralmente, comerciante. Contudo, em malaio, cheti hoje quer dizer agiota, cuja evolução semântica se admite com facilidade. ^ 4
  • bendara, e nos mandou dar huma casa e dez mil cala- hyns (3) em panos de Cambaia, rotos, dos que trouvemos nas naos, dizendo-nos que aquylo nos dava pera comer- mos e tratarmos, e que, quando vyesem as naos, farya a conta e satisfarya toda a perda que aquy reçebemos. Porem, a nos nos pareçe, segundo a sua maldade, que tanto que este junco daquy partir, em que ele espera que va nova a Vosa Merce desta boa obra que nos tem feyta, que nos torne a tomar tudo, e nos tenha presos, como da primeira, e asy nollo dizem alguns; e se ho nam fizer, sera porque ha grandisimo medo a vossa vynda que es- pera, e esperamos, prazendo a Noso Senhor, que seja da- quy a cinquo meses; e se isto lhe nam parecera, cuydo que nenhum de nos nam fora ja vyvo. E porque sabemos que Vosa Merce ha-de ter disto mi- Ihor cuydado do que ho nos sabemos pedir, hey por es- cusado fazer disso mais lembrança; somente, senhor, que saibais que, ate este tempo, temos... a esperança comprida. E pasando daquy, posto que na vontade deste mouro nam esta aquillo, e que Noso Senhor nos garde o medo que diso tem alguns, pode ser qiue lhe fara fazer grande ser- vyço a Deus, e isto he huma das cousas a que maior medo hey, e que agora todolos dias me da mayor cuydado. Senhor, quando fosemos tam mal ditosos que por algum respeito Vosa Merce nam posa vir nem mandar neste tempo, nem neste ano, serya grandisimo bem, se podese ser, sermos avysados o mais secretamente que Vosa Merce pudese e a tempo que, antes que de qua serem diso desesperados, nos ho soubesemos, porque poderya ser que nos dara Noso Senhor remedio pera nos podermos (3) Moeda de estanho que, então, corria em Malaca. Rodolfo Dalgado. no seu Glossário Luso-Asiático regista o termo Calaim, cuja etimologia procura aventar. A forma malaia julgamos ser Kaling. significando estanho.
  • hir daquy pera outra parte, honde nos pareça que pode- mos estar mais seguros. Senhor, posto que noso pareçer seja escusado, como quem esta pera a forca, e nam pode deixar de falar, digo que a nos nos pareçe, pello que cumpre a nosa salvaçam, que tanto que Vosa Merce embora vyer a esta costa, se tomar alguns jumcos, que aa gente deles nam deve ser feyta nenhuma crueza, e destes mesmos deves, senhor, mandar algum a terra com recado a bendara, dizendo que vosa tençam nam he fazer gerra a Malaqua, nem tomar- des-lhe nenhuma cousa sua, se ho rey delia quiser ter comvosco paz e vos entregar os vosos homens que aquy tendes; e com estas taes palavras que os faça segurar ate nos a verdes aa mão, porque despois achara Vosa Merce asaz de causas justas pera com elle ronper, sem quebrar vosa palavra. E temos sabido que bendara tem determi- nado, tanto que souber que Vosa Merce he nesta costa, de nos mandar por a todos daquy tres ou quatro legoas, dentro pello sertaom, ate ver e saber vosa determinaçam, e isto porque se teme que, estando aquy, vos pudesemos dar avyso per alguns homens que bem poderyamos, a ese tempo, achar que folgasem de ho fazer; e por iso, se Vosa Merce nam vyr achegando logo noso recado, cuyde que he por este respeyto. Senhor, Nevacha (4) nos pedio que vos escrevesemos que, destas cousas que tem feyto por nos, se nam dese ne- nhuma conta aos mouros de Cochim, porque se teme que de la escrevam a bendara, e que lhe venha por iso algum (4) Nevacha, Nenacliatu e Chatu, são nomes com que nos do- cumentos se designa o rico mercador mouro que protegia os portu- gueses. Como acontece em todas as línguas, poderíamos decompor este nome próprio em vários elementos de significação comum. Mas tais operações são sempre mais ou menos fantasiosas e, neste caso, pouco interessa determo-nos em considerações filológicas do idioma malaio. 2 6
  • mal, e elle foy ho que nos deu azo pêra podermos espre- ver e mandarmos este mouro neste junco, que sem elle nam tyveramos maneira pera ho poder fazer. A este mouro que se chama Amdala, mande Vosa Merçe dar do meu dinheiro " vynte cruzados ' que me ca emprestou, antes que nos bendara isto dese, e nam lhos pagey, por tem milhor cuydado de levar estas; alem disto, lhes deve, senhor, fazer merçe, porque sempre nos acompanhou e mostrou que lhe pesava com todo noso mal, e açeitou este caminho muito levemente com quanto risco corre em no fazer, se lho souberem, confiado no proveito que espera que lhe diso venha. Vosa Merçe deve de vyr com a mayor posança que puder, e de maneira que ho mar e a terra nos ajam medo, que, posto que tanto nam seja necesaryo, he boom, por mostrar o poder del-rey, noso senhor, logo em tam pouco tempo. Os tempos que soem a vir os juncos a estes portos sam estes: Os gores vem aquy em Janeiro, e partem pera sua terra em Abryl, detendo-se no caminho quarenta 10 dias, aa ida; e quarenta, aa vynda, pouco mais ou menos; estes trazem por mercadarya damascos, e almisquere, e cofres dourados, espadas, adargas, cobre, triguo, e ouro em pasta; e levam daquy pimenta, algum cravo, muito pouco. E destes vem, cada ano, juncos que -sam do mesmo rey da terra, e nam consente que venham de la outros, senam os seus... os chins em seu proprio tempo em que vem, em Abryl, e partem daquy pera sua terra em Mayo e... e detem-se no caminho vinte 11 e trinta 13 dias, aa ida; e outros tantos, aa vynda, trazem de pr... e almisquere, e damascos, cetins baixos, colnijam, canfora, e algum ruy- 8 — dip.0; 9 — cdos; 10 —Et.»: 11 —XI; 12 —xxx. 2 7
  • barbo, e aljofare... muito fina, pedra hume, que vem, cada ano, oyto, dez juncos, e levam pera sua terra muita pimenta (e algum) cravo. Os de Java vem em Outubro e Novembro, e trazem todo arroz, escravos, e allgumas cubebas, e daquy vam a Pedir, por pimenta, e destes vyram, cada ano, antre gran- des e pequenos cincoenta e sessenta e vam e vem. Os bengalas vem aquy em Abryl, detem-se no cami- nho, aa vynda, trinta e cinco 1S, quarenta dias e out..., aa ida; partem daquy pera la em Setembro; as merca- doryas que trazem, arroz, algodam e panos... dos, açuqre, conservas; levam pimenta de Pedir, e vem, cada ano, hum, dous juncos d... e outros tantos que vam daquy la. Os de Pegu vam e vem no mesmo tempo, e detem-se outro tanto no caminho, e trazem também arroz e ala- quer, e muito bom almisquere e alguns robis, e vem cada ano quatro juncos, e outros tantos que vam daquy, e a carrega que levam he pimenta. De redor de Malaca ha duas outras minas douro, e destas e da terra dos gores dizem que tiram aquy, cada ano, nove, dez bahares (5) douro; e huma destas minas esta na terra de Pão, e vam daquy la, em sete ou oyto dias, por mar e por terra; e outra esta em Menamcabo, da banda de Çamatra, e vam (daquy), por mar e por hum ryo, em nove, dez dias. Doutras terras donde vem o lenho aloes, e laquer, e mais mantimento, e outras cousas, a esta terra, nam es- crevo a Vosa Merçe, por nam termos diso sabido o certo, asy como destas outras cousas aquy escritas, porem, de tudo isto vem também boa cantydade a este porto. (5) Bahar, baar, ou bar: peso indiano equivalente a 250 quilos, aproximadamente, variando, contudo, conforme os lugares. 1J — xxxb. 2 8
  • (Nam) escrevo nesta ho cravo e outras mercadoryas que poderá aver na terra pera carregaçam das nosas naos, nem as que Vosa Merçe deve de mandar trazer de la, nem asy os preços delas, porque em outra carta / / que fiz, pera 12 r.) se poder amostrar em qualquer parte, vay todo decrarado. Beijamos as mãos de Vosa Merçe. De Malaca a seis dias de Fevereiro de 1510 anos. Os guzarates se foram no fim deste mes pasado, deste porto; partyram tam tarde com medo das nosas naos, que tinham nova que andavam ainda nesta costa. Nos baixos de Caparçia se perdeo a maior delas, e partyo der- radeyra, encalhou em quatro braças e meia M, segundo dizem, e levava tres mil bahares de carrega, e os dous mil de cravo, e maças, e noz moscada, e mil de sandalo, e lacar, e calahins, e outras mercadorias que fezeram de custo, com toda a carrega da nao, sessenta mil Is quin- taes 14 e levava duzentas e cincoenta " pessoas, que agora aquy estam a maior parte e pedem por amor de Deus. Senhor, as cousas passadas, depois daquelle dia de nossa desaventura, e da partida de Diogo 18 Lopes deste porto, nam as escrevo a Vosa Merce meudamente, porque ho mais diso redonda sobre ho mao trato que nosas pesoas sempre receberam ate gora, que Noso Senhor quys que bendara ouvesse por bem mandar-nos.dar huma casa em que estamos dezanove " pesoas, e asy dez mil 20 calahins em mercadaryas da vosa, e isto diz que pera comermos e tratarmos com os mercadores da terra. Quer-nos mostrar que lhe pesa do pasado, e diz que esta prestes pera satis- fazer toda a perda 21 que aquy recebemos, tanto que em- bora... vyer o mandar, fazendo-lhe, porem, justyça dou- 14-ma; 15-lx; 16-qtaes; 17-ljU; 18-di.»; 19-xix; 20-"í: 21-pda. 2 9
  • tras que ele tem recebidas das nosas naos em seus..., e que nam deseja mais bem que nosa amizade e trato, e ser vasalo del-rey, noso senhor; e os guzarates e jaus que tal come- teram, em seu porto, que elle os tem ja castygados, de maneira que daquy avante nam ousarão de cometer outra tal; e destas cousas, e doutras muitas por que passo, por nam fazerem o noso caso, nos diz, cada dia, mil abon- danças. A vynda de Vosa Merçe ou mandado seja çedo, que tudo se bem fara, com ajuda de Noso Senhor, e po- des, senhor, trazer as naos que quiserdes, que espero em Deus que pera tudo aches carrega, posto, senhor, que os guzerates levaram daquy agora pasante de quatro mil bahares de cravo, afora muitas maças e (outras) merca- daryas que pera as naos eram boas; na terra nam ficou senam... ou seiscentos bahares de cravo, e mil e duzentos ou mil e trezentos de maças, e muita noz moscada que trouxe num junco que veo das ilhas, quando as nosas naos daquy partyram; porem, esperam este ano por tres juncos dos mercadores daquy, que sam as ilhas (6), e poderam trazer de cravo quatro mil22 ou quatro mil e quinhentos 22 bahares, afora maças e nos noscada. Estes sam daquy somente, afora outros de Java, por- que também esperam das outras mercadaryas, a saber: col... cubebas, canfora, ruy barbo; também se achara algum almisquere boa cantydade, e de aljofre e merca- darya dos chins quanto Portugal quiser; robis ha ahy poucos; esperam agora por eles nas naos de (Pe)gu, e ham-de vyr daquy a dous meses; de diamães veio aquy mais cantydade que de nenhuma outra mercadarya. As mercadaryas que Vosa Merçe deve de mandar tra- (6) Que são as ilhas, i. é., que foram às ilhas. 22 —iiij; 2J — iiijebc. 3 o
  • zer sam estas, a saber: azougue, toda sorte de... azer- nefe, açafram, escarlatas, qualquer outro pano de Iam, e de linho de toda sorte, outra de panos..., porque tem mais valia do que soubemos, quando logo aquy chega- mos; veludos, cetins, se hos ahy ou ver, também se des- pacharam, e ocolos, e contas de qualquer sorte, pergun- tam muito por elas, sejam das de Portugal. E ho preço das mercadaryas, asy das de la, como das de ca, ho çerto delas nam se sabe, porque alevantam e abaixam, segundo a cantidade que vem delas, porem ho cravo e maças, se nam vyerem guzarates, pareçe-me que nam pasara de dez cruzados ho bahar, e daquy pera baixo. Os nomes das pessoas que estamos sam estes: Jam Vyegas, Jam Alvarez, Jam Diaz, Manuel Nunez, Duarte Fernandez, gybeteyro; marynheyros: Pero 24 Lopez, Pero Anes, Jam de Cohinbra, Jam de Arruda, Affonso 25 Ra- beca, Gaspar de Gymarães, Diogo de Elvas, Francisco 24 de Atalaia, Manuel Ruiz, Jam Fernandez, Francisco Pi- rez, Diogo de Elvas, Francisco, sobrinho de Jorge Anes, piloto; Bastyam, moço meu. Estes todos e eu beijamos, senhor, vosas mãos. A seis 27 dias de Fevereiro de 1510 annos. 24—P.O; 25 —a.O; 26 —fr.w; 27 —bj.
  • 4 CARTA DE EL-REI DE PEDIR A D. JOÃO IH Setembro de 1509 (?) ANTT: Gaveta 14-8-21. Cópia que se encontra no caderno anteriormente descrito. Esta carta pode ainda ler-se com relativa facilidade, apesar de todos os danos sofridos pelo documento. ,4s palavras entre pa- rênteses faltam, por estar roto nesses pontos o caderno, mas sub entendem-se fàcilmente. Esta cópia é a tradução literal, em português, do original, de certo, escrito em malaio, pois o de- nunciam certas formas características de expressão, como: lugar da folgança, para significar o reino de Deus, ou o céu; e rece- bemos com nossas mãos, para traduzirem o bom acolhimento que fizeram. A carta não está datada, mas o nosso parecer aceita-se pelo facto de Barros, Góis e Castanheda, assinalarem a passagem de Diogo Lopes Sequeira, portador da mesma, pela ilha de Sumatra, nos princípios de Setembro de 150Ç, a caminho de Malaca, embora Gaspar Correia afirme tal facto ter-se dado no regresso da viagem. Existe uma outra cópia, posteriormente feita e muito deturpada, na BNL: Fundo Geral, N.° 7.638, fl. 61. Louvores ao Deus que troquou os profetas pelos reis da terra, em suas províncias, por sua rezões pera serem regidos por elles pera o seu reino e ao lugar da folgança. Salve Deus com sua paz aos profetas e aos mensa- geiros e seja louvado ho Senhor de sempre. E depois da paz, este he o esteo fundado sobre ho amor e amizade posta em vosas mãos, por os vosos chegarem a nos, e descerem a nos, a alcançaram ban(deiras) de contrato, 3 2
  • e amostrarão sinal de amor, e vierão a nosa companhia; e nos os recebemos em nosas (mãos com) a milhor ma- neira que pudemos. E aguora antre nos e vos ha amizade e amor, e o (odio he) longe de nos; he concertado que, cada ano, mandares vosas naos e vosas gentes com as mer (cadorias) dfe vosa terra, pera se começar o (trato) e proveito e ga- nho; e tornarem com ho que nos tyvermos, do que ouver em nosa terra, e a paz sobre os que forem mercadores delia. E o Deus que he verdade amostre o caminho da verdade. INSULÍNDIA. I — 3
  • 5 TRECHO DE UMA CARTA DE AFONSO DE ALBUQUERQUE A EL-REI Cochim, 20 de Agosto de 1512 ANTT: CC-I-22-66. (i) Original em quatro grandes folhas escritas com letra bem legível. Mede jço x 245 mm. а) Capitães que tomaram parte na conquista de Malaca. б) Viagem de António de Abreu às Molucas. Os capitãees, que foram a Malaca, das naos e navios, em minha companhia sam estes: Fernam Perez, na nao de Deogo 1 Mendez; Dom João 2 de Lima, na nao de Ji- ronimo Cerniche; Gaspar de Paiva, na nao de Pero * Coresma; James Teixeira, na caravela da mesma com- panhia; Bastiam de Miramda, no Bretam; Aires Pe- reira4, na Taforea; Jorje Nunez, em Xobregas; Denis Fernandez s, na nao Çabaya, de Goa; Pero de Alpoem, ouvidor, na nao Samta Catherina ", de Goa; Symam de (1) Publicado, na íntegra, em Cartas de Afonso de Albuquerque: Tomo I, págs. 65-75. 1 —de.°; 2—J.o; 3 — p.»; 4 — pra; 5 — frz; 6 — 0.». 3 4
  • Amdrade na nao Joy a, de Goa; Amtonio ' de Abreu, na nao Sam Tiago, de Goa; Nuno Vaz, na nao Sam Joham, que se fez em Camguiçar; e achamos no rio, em Goa, Duarte da Silva, na Gale Gramde; Symam Martinz, na Gale Pequena; Afonso 8 Pesoa \ numa galeota de Goa; Symam Afonso a Caravela Latina; a Caravelinha Re- domda, Jorge Botelho. Aa minha partida de Malaca, se quis vir Dom João de Lima, e ficou na sua naao Fernam Perez de Amdrade, por tapitam no mar; veyo-se também Gaspar de Paiva, e fycou na sua nao João Lopez Alvim; veyo James Tei- xeira, e ficou Lopo de Azevedo, na caravela; veyo-se Bastiam de Miranda, e ficou, no Bretam, Vasco 10 Fer- nandez Coutinho; veyo-se Duarte da Silva, e ficou na gale Pero de Faria, filho 11 do comendador Alvoro de Faria; veyo Denis Fernandez, e ficou, na sua nao, Fran- cisco Seram; veyo-se Pero de Alpoem, ouvidor, e fycou, na sua nao, Amtonio de Abreu; veyo-se Nuno Vaz, e ficou, na nao, Aires Pereira; e a nao Sam Tiago, que tinha Amtonio de Abreu, ficou nela Cristóvam Mazca- renhaz; veyo-se Symam de Andrade, ficou, na sua nao, Cristóvam Garcees; fica na Caravelinha Redonda Am- tonio de Azevedo, e na Latina Symam Afomso. // 12 '•) Estas naos que aquy nomeo ficaram em Malaca; as duas dos mercadores e a caravelas ficaram aguardamdo por carga, com dinheiro e mercadarias suas. A nao Çabaya, e a nao Samta Catherina, e a Cara- vela Latina, sam carregadas de mercadarias aas ilhas do cravo carregar de cravo; vay nelas, por capitam-moor, Amtonio de Abreu; sota capitam, Francisco Serrão; vay, na Caravela Latina, Symam Afomso; vay por fey- tor das naos João Freire, criado da senhora rainha 1 — amt.o; 8 — A.®; 9 —p.»; 10 — V.coj 11 — f.o; 12 — P.». 3 5
  • vosa irmãa; vay por escrivam Diogo Borges, criado de Vosa Alteza. Partiram no mes de Novembro, dous meses e meo, amtes que eu partise; levam dous pilotos da terra e tres portugueses; he um, Gonçalo 1S de Oliveira; e o outro, Luis Botim; e o outro, Francisco Roiz, homem mamçebo que quaaa amdava, de muy boom saber, e sabe fazer pa- drões. Hiam bem furnecidos de mamtimentos e de artelharia; e em todos tres navios, semto e vimte omeens brancos, e vimte escravos cativos, pera a bomba; com mais bam- deiras e booas elas e boons aparelhos, calafates, estopa e breu. Praza a Noso Senhor que os queira levar e trazer a salvamento; e com fumdamento de irem a ilha de Bam- dam, ilhas das maças e noz nozcada; e de y irem espal- mar a hum cabo que se chama Ambam, de huma ilha gramde que esta quatro 14 dias de caminho das ilhas do cravo; reconheçe a mare aly muito; e isto se lhe cum- prise. Feita em Cochim a 20 ls dias de Agosto, Antonio da Fonseca ha fez, de 1512. (Com letra de Afonso de Albuquerque) Feytura e servydor de Vosa Allteza, as. Afonso 14 de Albuquerque lT 13 —g.°; 14 — q-to; 15 —xx; 16 — A.»; 17 — dalbiiqq. 3 6
  • 6 TRECHO DE OUTRA CARTA DE AFONSO DE ALBUQUERQUE A EL-REI Cochim. 20 de Agosto de 1512 ANTT: CC-I-22-64. (1) Original em duas grandes folhas, muito uem conservadas, e escritas em letra muito perfeita e clara. Mede 590 x 245 mm. a) Malaca foi conquistada à força, por não aceitar nenhumas condições de paz. E diz mais Vosa Alteza que asy mesmo asemte com 12 r.i Malaca; ela nam quis 1 receber voso trato nem asemto, e cuidou que nam éramos homeens pera ousar de por ho pee em terra; e mais que su armada, que fez, nos desbara- tariam; e se fez forte em terra e comfyou que a mouçam que vinha çedo nos lamçaria fora de ãeu porto l: e am- dou sempre comnosco em pomtos, e fezeram-nos sempre oitocemtos homeens; e eu creo que nam éramos mais jemte bramca. (1) Publicado, na íntegra, em Cartas de Afonso de Albuquerque: Tomo I, págs. 75-80. 1— Qs; 2 —p.to. 3 7
  • Prouve a Noso Senhor e a Nosa Senhora que nos deu vitorea comtra eles; despois de muitos requerymemtos e protestaçõees que lhe fiz, e ho desbaratar, huma vez, e tornar-lhe a largar a cidade, sem dano nenhum, nunca quis vyr a comcerto. E ho negoceo de Malaca me pareçeo cousa ordenada por Deus, porque nam souberam comservar seu estado com muyto dinheiro que tinham, nem com trato e asemto de Vosa Alteza, que lhe tam bem vynha, nem com força de jemte e artelharia, temdo gram soma delia. 38
  • 7 TRECHO DE UMA OUTRA CARTA DE AFONSO DE ALBUQUERQUE A EL-REI Cananor, 30 de Novembro de 1513 ANTT: CC-I-i3-103 (1) Original em quatro folhas, das quais três escritas; do- cumento bem conservado, escrito com letra perfeita e de fácil leitura. Mede 313 x 213 mm. Ho rey das Ilhas pede vosa ajuda e quer estar a vosa 13 rl obidiençia, e eu nam poso la ir, nem mamdar, porque tenho pouca jemte e poucos navios. El-rey de Pegu leva gramde comtemtememto de vosa amizade; quer 1 vosos tratos e vosa jemte e vosa ajuda; em seu regno recebe vosa jemte que vay de Malaca; sam trazidos em amdor cubertos de panos de ouro e da-lhe gramdes dadivas; desta maneira sam reçebidos os vosos homeens del-rey de Syam e Tanaçary e Sarnao. Os Bemgalas reçebem vosos seguros e desejam em seus portos vosas mercadarias e naaos. El-rey de Çamatora fares dele quamto quiserdes; e todolos rex da Imdya asy estam asombrados e asenho- reados do feyto de Malaca; el-rey de Campar e de Me- (i) Publicado, na integra, em Cartas de Afonso de Albuquerque: Tomo I, págs. 135-139. 1 —qr 3 9
  • nemcabo, onde esta a mina do ouro, todos vem com suas mercadarias e ouro a Malaca; el-rey de Campar vos paga trebuto e amda na gerra em ajuda dos vosos; el-rey de Pam, domde vem ouro a Malaca, qer-vos pagar tre- buto e qer ser voso servidor; ho primçipal rey de Jaoa qer vosa amizade e a deseja; e esas povoaçõees que hy ha em sua terra, ho seram de neçesidade, ou com muy pyquena armada que vaa em ajuda deste jaao, rey prim- çypal, os destroyrees. As outras ilhas, segundo me dise Amtonio de Abreu, fracas sam e ficam todas a vosa obediemçia. Os chins servidores sam de Vosa Alteza e nosos ami- gos, e os gores faram ho semelhamte, como ouverem conhecimento de nos; Urmuz paga como soya, e esta hum pouco mais forte do que soya com esta carapuça e adoraçam de Xeque Esmael que reçeberam; nam me comtemta nada, qeria amtes ver em poder de vosa Alteza com hum capitam posto nela e jemte, porque ela por sy pagara bem os custos e despesas que aly fizerdes e quy- serdes fazer. As vosas jemtes amdam seguras por toda a terra da U * l Imdia, asy pelo mar como pelo sertam; em toda a terra // de Cambaya lhe nam pregumtam pera omde vay, e em todo o reyno de Daquem e em toda a terra do Malavar compram e vemdem em toda a terra, e amdam tam segu- ros como neses regnos. Os vosos capitães e naaos nam tomam nao, pager, nem parao, nem lhe dam caça, nem arribam sobre eles, qer tragam seguros, qer nam. Os que aparto de mim, em seus regimemtos levam a mesma determinaçam asemtada neles; pregumte-o la Vosa Alteza a estes que vom de Malaca e os que foram desco- brir ho cravo. 4 o
  • 8 CARTA DE RUI DE BRITO PATALIM A D. AFONSO DE ALBUQUERQUE Malaca, 6 de Janeiro de 1514 ANTT: CC-I-14.-52. Original com catorze folhas escritas e numeradas, e duas em branco e por numerar. 0 documento encontra-se algo dani- ficado no sentido de uma dobra, o que, felizmente, não pre- judica a sua leitura. A ortografia é muito incerta, com o em- prego variável do i e do y, do plural verbal ão e am, de letras dobradas e simples, etc. A caligrafia, um pouco descuidada, obriga a certa atenção. Encontra-se publicado, na íntegra, com alguns lapsos de leitura, em Cartas de Afonso de Albuquerque, Vol. Ill, pp. 216-231. Mede 2ço x 210 mm. a) Medidas para se consolidar em Malaca uma nova vida de prospe- ridade. b) Bom acolhimento concedido a todos os comerciantes, que nova- mente voltam a afluir àquele porto. c) Recepção honrosa feita a todos os embaixadores enviados por vá- rios soberanos, optando-se por uma politica de bom entendimento. d) Diligências para que se propaguem estes propósitos de paz. e) Viagens de reconhecimento e de intuitos comerciais à Insulíndia. /) Trato com Banda e Bornéu. g) Primeiras noticias de Timor. h) Conveniência em dotar Malaca com algumas naus de maior tone- lagem. 4 '
  • Senhor, Pella mouçam pasada, pelas naos que Fernam Perez levou, largamente escrevy a Vosa Merçee do que ate ese tempo se pasou. Agora, por esta nao Santa Ofemea es- crevo as cousas de emtam ate agora aconteçidas, por- que sey quamto prazer com ellas a Vosa Merçee ha-de aver, pois sam de Malaca, que he vosa feytura, e obra de vosas mãos, a qual eu espero em Noso Senhor que fara tam nobre e tam prospera e pupulosa como o damte era; e he isto nom poder tardar, segundo 1 vemos, cada dia, as cousas ir em creçimento, nom por meus meriçi- mentos, somente porque Noso Senhor asy ho quer, e que- rerá deixar-vo-la ver neste estado que digo, por tal que imteira groria aja Vosa Merçee das cousas em que levou tanto trabalho e apresam, como todos sabemos, porque çertamente isto sera causa as oraçõees del-rey Noso Se- nhor fazer isto, e eu espero que daquy aja Sua Alteza, alem de omrra que todos sabem que ouve no ganhar desta terra a seus senhorios, gramde proveyto 2 a sua fazemda, e prazera a Noso Senhor que lha deixara por muitos anos 11 *■) a seu serviço. // Item. Depois de Fernam Perez ido, chegaram os em- baixadores del-rey de Sião com Antonio 3 de Miranda, e com os homens que consyguo levou, somente 4 huum que la faleceo, trouxera arroz por pilar huum junco e certos presemtes s pera Vosa Merçee; todo foy entregue ao feitor *; quando chegaram foy-lhe feita muita homrra, gramde reçebimento de gemte, e a fortaleza jogou toda a artelharia grosa e meuda; depois de reçeber suas cartas, mandey-lhe que lhe desem casas; dixeram que no junco estariam; mandey-lhe dar mantimento pera toda sua 1 — seg.o; 2 — pveyto; 3 — Ant.<>; 4 — mm.«- 5 —pr; 6 — f.tor. 4 2
  • gemte e regra; foram muyto bem agasalhados, elles e toda sua gemte, sem receberem escamdalo; vieram de- pois ver e falar sobre huma carta que lhe Vosa Merçee escrevera a el-rey de Sião, em que diziam Vosa Merçee lhe cometer a governança de Malaca; ao qual lhe res- pondy que aquilo seria, se sua ajuda viera ante da to- mada de Malaca, ou se fizera diligençia, segundo por vos lhe era decrarado em vosas cartas, e isto com todo bom gasalhado, sem elles receberem escamdalo; larga- mente lhe screvy que elles deviam açeitar amizade e trato com el-rey, noso senhor, emformando-os quanto proveyto, honra e acreçentamento de suas terras seria, e que a paz e amizade seria pera sempre, e que Siam tratase, como antigamente faziam, com Malaca; que vise que os que eram rebes a esta paz, a fim que a aviam, e pois Vosa Merçe, em nome del-rey, noso senhor, lhe dava a paz, que a deviam tomar, que lhes seria proveitosa; folgaram, mostraram prazer disto; ficaram espantados de ver tal obra em tam pouco tempo; mostrei-lhe artelharia e cousas de guerra; folgaram de ver // todas estas cousas. Final- 12 r.j mente partiram contentees; armou o bemdara para Sião dous juncos, em que mandou o seu filho 7 mais velho, e o tomungo (1) armou huum; tenho nova que por homde foram lhe foy feita homrra e gasalhado; prazera a Noso Senhor que viram com tal recado que sera a serviço de Sua Alteza, como ho eu espero. Item. Sua detriminaçam era vir apalpar o negoçio da governamça; eu lhe faley largamente da paz, e que diso fezesem fundamento, largamente lhe recomtamdo o que (1) Tomungo, tumungão, timugão e outras variantes ainda, do malaio Temenggong, dignidade correspondente ao nosso almirante. 7 - f.o.
  • fazia ao caso elle; foram comtemtes com a paaz, cada dia aguardo por seu recado nos juncos; nom he gemte de que tenhamos neçesidade; a paz a elles he mais provei- tosa que a nos. Item. Depois disto, vieram os embaixadores del-rey de Pão, pidimdo paz; eu lhe respondi que a paz lhe seria dada, quamdo elles contribuisem a el-rey, noso senhor, o que amtigamente davam a el-rey que foy de Malaca, porque estas pareas e trebuto hera o sinal verdadeiro pêra se saber se queriam esta paz, alegamdo-lhe quantos reis as pagavam a el-rey, noso senhor; estes embaixa- dores vinham com muitas lancharas (2) homrradamente; Pão he terra que sempre teve trato com Malaca; he gemte que emtende o trato da mercadoria; fiz-lhe muita homrra; sua gemte e pesoas , bem tratadas; compraram algumas cousas na çidade; foram-se com as cartas que lhe dey em reposta das que troxeram; depois vieram com cartas, e dous cates (3) douro que ham-de pagar em cada huum 12 ▼.] ano; e fez-se el-rey de Pão vasalo del-rey, noso senhor. // Item. E vieram embaixadores del-rey de Amdra- guiri, que sam homens mouros que confinam com Me- namcabo; pareçem homes homrrados; vinham com cartas do dito rey pera mim, e vinham ver a terra em que ter- mos estava, porque Amdraguiri sempre tratou com Ma- laca: fiz-lhe omrra, favor, despachei-os; escrevi a el-rey de Amdraguiri quanto avia de paguar de pareas a el-rey, (2) Pequena e ligeira embarcação, vulgar na Insulíndia. Possivel- mente da expressão malaia perahu lancharan, barco veloz, formaram os portugueses os dois vocábulos parau e lanchara, ambos significando um pequeno barco a remos. Rodolfo Dalgado regista também a palavra no seu Glossário Luso- -Asiático. (3) Medida de peso, equivalente a 625 gramas. 8 —ps.» 4 4
  • noso senhor, em cada hum ano; dixe-lhe como el-rey de Pão, e de Campar pagavam; foram-se comtentes com detriminaçam de virem com as pareas; he terra que nom pode viver sem Malaca; agora espero por seu recado que he tempo em que aquy vem; esta terra tem ouro e tra- tam de mercadoria aqui todo o ano. Item. Vieram mercadores de Menamcabo e de Çiae comprar e vemder a esta çidade como damte faziam; sam mercadores; trazem aquy ouro; aquilla levam daquy; muitos mercadores vam e vem ja sem temor; sam mer- cadores, he gente homrrada; estes dois reis nom pagam pareas porque sam vasalos del-rey de Campar, que he vasalo del-rey, noso senhor, e lhe paga pareas. Item. El-rey de Canpar he noso amigo; de sua terra vam e vem a Malaca, quando alguma cousa pera esta fortaleza he necesaria de sua terra, asi como breu e cousas semilhantees acodem com ellas; mostra-se grande servidor del-rey, noso senhor. Item. Ruy Nunes, que Vosa Merçe mandou a el-rey de Pegu, falou com elle, por elle me escreveo, folgou com nosa amizade; he gente çimpres; sabem bem a merca- doria; trouxe hum anel; mandey-o entregar ao feitor pera vo-lo / / mandar com as outras cousas que trouxeram u r-J pera Vosa Merçee; he gemte de Pegu que tem muita neçe- sidade de Malaca, por rezam do arros, e cousas de sua terra que aquy despacham; he gemte mansa e rústica, de boa vontade (sic); a terra he boa pera noso trato; fez-lhe este Ruy Nunes o que lhe Vosa Merçe mandou em Pegu bem; he bom homem; perdeu-se la em huma chaupana; mereçe merçe. Item. Pero * Paeez, que ho ano pasado mamdey a Pegu a carregar huum junco de arroz pera esta fortaleza, 9 — p.o. 45
  • foy a salvamento; o junco que la estava, que lhe mandey arrecadar, que diziam que hera del-rey de Malaca, nom no achou; conprou la huum junco outro, que levava por regimento; trouxe carregados anbos, e trouxe quinhentos e tamtos quintaes 10 de lacar que la vam, e bemjoym; fez boa viajem; alem de seu trabalho, he dino de merçe. Item. Com elle, e amte e despois, vieram aqui de Pegu oyto juncos de arroz, fartou gramdemente a terra delle; he muito barato; nesta çidade e arredor de Malaca he caro; foy-lhe feyta aos pegus muita honrra; nom lhe foy feita tiranya nem roubo; ante, favor e gasalhado; vende- ram sua mercadoria a sua vomtade; do que avia na terra levaram o que acharam; foram muito comtemtes com tem- çam de tornarem mais, e mais nom ha rezam pera se isto deixar de fazer, pois lhe fazem onrra e favor, que he a cousa que hos mercadores querem mayormente; os Pegus sam dinos delia, porque nom fazem mal a ninguém, e he gemte de mercadoria, e sua terra nom pode viver IJ vi sem Malaca. // Item. Vierom, depôs, estes tres juncos de Burney, que a gente desta ilha sam luçõees, de cuja terra hera o to- mungo desta çidade; dous delles heram de mercadores luções de laa, e hum era do mesmo tomungo; trouxeram mercadoria, venderam-na; foi-lhe feita honra, bom trato a suas pesoas; do que acharam carregaram o milhor que puderam, foram-se comtentes; sam bons homes insinados na mercadoria; da nosa conversação e verdade ouveram prazer; mostraram prazer comnosco; estes navegam por mouçõees; de sua terra trazem canfora e outras cousas; antigamente trataram com Malaca; nom podem viver com ella; levam daquy roupa de Cambaya, e outras merca- dorias; toda esta gemte hera de valia do tomungo. 10 — qts. 4 6
  • Item. Tamto que euvya terra ja alguum tamto paçi- ficada, e tomey o temto da terra e dos reis comarquãos, e lamçey minha comta o milhor que me Noso Senhor deu a emtemder, esguardando o serviço del-rey, noso, (sic) e ho que me hera encommendado de minha obrigaçam, vemdo como hera rezam que devia catar modo e maneyra como el-rey, noso senhor, ouvese algum proveito a sua fazemda, pêra se tenperar com as despezas que se fazem, determiney de mamdar tres navios a Java com huma caravella ,com gemte e artelharia, abitalhados de manti- mento, e todo neçesario, com mercadoria que neles man- dey meter, posto que fose com o trabalho que Deus sabe que os remedeava, que a todos pareçia imposivel, porque o mestre diz que lhe caye o masto, que nom tem esteres imposibildades de gente do mar e ma vontade da gente da terra, que lhes parecia que a Java hera cousa que comia homens, e que nom podiam deixar //de pelejar, H ri e cousas que os homens dizem, quando os mandam nave- gar pera terra, que se nom esperam ajudar de seus tratos proprios; mas eu que a sustamçia do caso tinha tomado, e também por dar a entemder aos jaós que heramos ho- mens de mercadoria, quando compria, o milhor que pude remediar os navyos de enxarcea e cabres de canos (?), e do que me Noso Senhor ministrou, posto que fose com trabalho que Deus sabe, escrevendo brandamente aos se- nhores de Java, quanto proveitosa hera a paz com el-rey, noso senhor, que oulhasem o que em Malaca fizera Vosa Merçee com tamta rezam e justiça, depois de tanto com- primento com el-rey que foy de Malaca, e que nom avia rezam pera a Java deixar de tratar com Malaca milhor que damte, porque nom avia ja as tiranias e opresõees pasadas. Item. Ja tudo prestes, deixando Malaca provida, asi no mar como na terra, do que me compria, por emtamto, 4 7
  • mandey as naos caminho da Java, porque tinha emfor- maçam que avia la cravo; mandey por capitão-mor Fran- cisco 11 Lopes de Alvim, e a Tome Pirez, escrivãm desta feitoria, por feitor desta armada, pera fazer carrega; fo- ram e vieram e trouxeram perto de mil e duzentos quin- taes de cravo, que sera emtamto pera remedear, como tenho dito. Item. Neste meo tempo vieram aquy da China quatro juncos; nom traziam mercadoria, porque vinham ver a terra; heram dous do Chulata que aquy achou Diogo Lo- pez de Sequeira 12, e hum do sogro do tomungo, e outro h »•) de Çunadeu; // traziam muito pouca cousa; os chins mostraram gramde prazer, fizeram festa por a terra estar a obidiençia e governança del-rey, noso senhor, e da dis- truiçam do rey que foy de Malaca, folgou muito, e dos mouros que foram mortos na distruiçam de Malaca, por- que este Cheilata queria mal a el-rey de Malaca; fiz-lhe muita homra, muito favor; esteve aquy muito comtente; elle vendeo aquy hum junco ao tomungo; dizia que nom queria mais bem que levar nova a China de como a terra estava. Item. Neste meo tempo mandey chamar o bemdara e lhe dixe que se lhe pareçia bem ir daquy hum junco pera a China com mercadoria del-rey, noso senhor, que estava aquy aquele junco, que viera novo do Pegu, que la fora comprado; que vise nisto o que era serviço de Sua Alteza, pois era bemdara que devia catar toda maneyra de ser- viço do dito senhor, cujo bemdara elle hera. Item. Dixe o dito bemdara que lhe pareçia bom com- selho, e que elle carregaria a metade do junco, por mais segurança da fazenda do dito senhor; foy carregado de pimenta ls que aquy tinha Sua Alteza, que veo de Paçe, 11 — F.o; 12 — seq.ra-, 13 — p.u. 48
  • que Vosa Merçe mandou de la trazer por Pero Paees; e no junco do Cheilata foy também mais fazenda do dito senhor, e do bemdara; pera laa foy feytor e escrivão por- tugueses, por parte del-rey, noso senhor, e asy outros por parte do bemdara; o tomungo carregou outro pera a China, e outro do sogro do tomungo, e outro de Cheilata, que Vosa Merçee mandou a Sião; todos juntamente vam a China; prazera a Noso Senhor que tudo vira, como todos esperamos, porque tudo vai a recado. / Item. Daquy partiram tres juncos pera Sião, como ja tenho dito a Vosa Merçee atraz; dous do bemdara, e huum do tomungo; cada dia, agora, aguardamos por elles, por- que agora he tempo de mouçam; traram muito arroz e benjoym, lacar e quallquer mercadoria da terra. Item. Despois, partio daquy huum junco todo de bem- dara, e de mercadores da terra pera Bemgalla; foy la invernar pera trazer roupa e mercadorias de la; roguey ao bemdara que mamdase la aquele junco pera dar nova na terra de nos verdadeiramente, e pera que venham qua sem medo, e que lhe screvese meudamente de nosa ver- dade e justiça, e de como tratavamos os mercadores, por- que nosos imigos nom lhe daram de nos a emformaçam verdadeira que temos. Item. Senpre aguardey aquy na mouçam de Mayo, e na de Agosto que Vosa Merçee nos mandase prover de cousas neçesarias pera naos, de enxárcias, vellas de linho, de cousas de que temos neçesidade, as quaes \ osa Merçe milhor sabera, pois sabe a terra e o de que tem neçe- sidade, porque se nos qua nom formos providos per Vosa Merçee, que tamto trabalho tem levado por a poer neste pomto, e que tamta vomtade tem de a reformar, e que he obra de vosas mãos, a quem pertençe dobrado cuydado do que nos compre, de quem esperaremos que nos pro- veja? Aguardava por naos nosas com tudo o que pudese 4-9 IXSULÍNDIA, I 4
  • de la vir, que aqui catamos com muito trabalho hum pouco de cravo e cousas semelhantes; e nos, com olhos abertos por recados, vimos huma nao malabar; e o que is v.j me mais agastou nom ver carta //de Vosa Merçee nem recado, somente por ouvyda, nam por meu coraçam dei- xar de estar repousado, pois sabia que com tamtas naos e gemte Vosa Merçe partira, que a nova nom pode deixar de ser boa; porem, folgara eu muito de ver novas do pay da patria que, com rezam, nos deve socorrer. Veo a dita nao com iso que puderam de la mandar, no que se fez serviço a el-rey, noso senhor, porque, nom vindo nas monções ordenadas, não perde a terra ho credito, que se nom deve perder por nenhuma cousa. Item. Logo despos esta nao, huma nao guzarate de Nila Gobim, que trouxe muita mercadoria, posto que muita deixou em Paçee, trouxe grande copia, que fez grande credito na terra, porque de Cambaya he aquy gramde o trato e todos gastam a roupa delia; foram reçe- bidos honrradamente; mandei-lhe dar gudões (4) dos mi- lhores da cidade; toda sua gente foy honrrada, favoreçida e elles prinçipalmente nom lhe foy levado nenhum di- reito 14 por esta primeira 15 veez; sobre isto mandey cha- mar o bendara e tomungo e feitor e ofiçiaes da feitoria; com todos pratiquey que lhes pareçia, esguardamdo intei- ramente o serviço do dito senhor e a conservaçam da terra e havemdo respeyto a terra, por agora nam ter tamta mercadoria; foy dito que Vosa Merçe, por três anos, lhe dera liberdade; por todos foy determinado que (4) Loja ou armazém onde os mercadores guardavam os seus artigos de venda. Do malaio gudang. Vid. Rodolfo Dalgado, Glossário Luso-Asiático, na palavra Gudão. 14 — dir.t©; 15 — prm.A 5 o
  • por esta primeira vez nom pagasem direito; e eu, vendo o pareçer de todos, em nome do dito senhor, mo pareçeo que, esta primeira vez, vemderam muita mercadoria, a sua vomtade; tornaram-se comtentes e muy bem carre- gados, prometendo de virem, pera o ano, tres ou quatro naos, no que Vosa Merçe deve trabalhar, / / porque tra- r-i zem de toda a sorte de panos e outras mercadorias que alumiam muito a terra; e çerto nisto se deve gramde- mente trabalhar, porque Canbaya trate com Malaca, como damte fazia. Item. Vieram de Choromandel tres naos, com muita mercadoria, que çerto fez gramde credito na terra, de que o povo ficou alegre, por ver acudir as naos com as mercadorias. Sobre estas tres naos, tamto que me dixe- ram que vinham, veo o bemdara a mim e me dixe que vinham tres naos; que ouvese por bem que elle levase os direitos que diso lhe pertenciam sobre estas naos; man- dey chamar os ditos ofiçiaes e lhes puz em pratica, com todo o resguardo do serviço do dito senhor, se asy mesmo deviam de ser libertados estes mercadores de Choroman- del; vindo, foy acordado que, por esta primeira vez, deviam ser libertados; e a mim asy mo pareçeo, pela mesma maneyra, por tal que a terra se reformase; tamto que as naos chegaram perante o bendara, feitor e ofiçiaes, e perante o tomungo e mercadores, em nome do dito senhor, lhe foy quitado o direito, por esta primeira vez; e asy mandey ao bendara que nom levase nenhum di- reito aos ditos mercadores; e asy mandey aos merca- dores, que nas naos vinham, que nom pagasem os direitos que eram obrigados aquy a pagar; somente por esta pri- meira vez francamente comprasem e vemdesem, sem a ninguém darem nada, nem pagarem, defendendo ao ben- dara e tomungo que levando-lhe alguma cousa, que a ve- ria desprazer. // 16 v 5 1
  • Item. Aquy junto com Queda, amtre Malaca e Queda, por huns rios, ha quatro lugares, donde soyam vir o esta- nho a Malaca; chamam-se estes lugares Minjam, Celam- gor, Barnaz e outro; estes homens, que nestes lugares viviam, por a guerra, e também por os Darus virem sobre elles, e Queda também querer meter a mão, amda- ram amorados; agora, que a terra vay tomando asemto, vivem mais seguros. Eu, vendo que nom estavam firmes, mandey la Antonio de Miranda, na Galle Nova, com mer- cadores da terra, em lamcharas, ver a terra e em que fantesia estava; e os lugares sam por rios demtro. Final- mente que veo hum senhor de huum lugar deles; fiz-lhe merçe, veo ordenado pelo povo daquelle lugar; confir- mey-o na governança delle; pagua duas mil timas (5), por este primeiro ano, por a terra estar despovoada; os outros me mandaram dizer que, pera esta outra lua, vi- riam. Espero em Noso Senhor que venham, e todos esta- rem a obediençia del-rey, noso senhor. Estas naos que agora vam, a prinçipal mercadoria que levam he esta- nho, e quando nom levam timas, levam bastardos (6) amoedados; como a cousa for mais mansa, em tal ma- neyra, como eu espero, a mercadoria vira a terra. Item. Estava nesta feitoria copia de pedra-hume e do cobre, que he mercadoria que se aquy nom gasta, 17 r.j porque o cobre vem dos lequios e a pedra-hume / / vem do Pão. Pus em pratica com ho betndara, feitor e ofiçiaes se seria bom esta mercadoria hir para lugar omde el-rey, noso senhor, recebese algum proveyto. O bemdara dixe que pera Paleacate he muito boa mercadoria, e que se dobrava o direito, e as vezes dous e tres por huum; que $ w°e
  • se la fose junco del-rey, noso senhor, que elle meteria e armaria a metade do junco. Estava aquy ho junco que veo de Pegu; determinou-se que fose laa; vay de cobre e pedra-hume e outras cousinhas, doze ou treze mil cru- zados, a parte do dito senhor; vay por feitor Simão do Pino; escrivão, Eytor de Valadares, da parte do dito senhor; vam asy mesmo ofiçiaes, por parte do bemdara. De tudo vay o gasto de tudo, por meo 14; com ajuda de Noso Senhor, vira muita mercadoria por retorno, porque toda a roupa de Paleacate vai muito nestas partes e na Jaoa. Vay por capitam huum mouro homrrado que foy quilim (7); vam muitos mercadores e pesoas homradas. Espero em Noso Senhor que tudo venha como se espera vira, com ajuda de Noso Senhor, na monçam de Setem- bro ", este primeiro que vem; asy lho mando dar por regimento. Item. Se na armada pasada, que o ano pasado man- dey a Java, levey trabalho em correger as naos e a vir cousas com que pudese naveguar, quanto mayor o tenho agora ávido, porque certamente Deus he o que ajuda, como se pode crer, aparelhar naos pera Bandam / / avendo w cavar cada cousa com tamto trabalho e nom no vemdemdo na terra, o que he necesario somente quatar e remediar. E louvado seja Noso Senhor, aparelhey o Bretam, e Sam Cristóvão 18, e Samto Atidree pela milhor maneyra que pude, avendo tudo com gotas de sangue,-como creo que Vosa Merçe poderá sentir. Pus em pratica com o feitor e ofiçiaes e capitaes se lhe pareçia serviço del-rey, noso senhor, pois todos sabiam que os jaós, posto que ja intei- (7) Quilim ou quelim, nome dado pelos portugueses aos naturais de Coromandel, à imitação dos malaios que chamavam assim a todos os emigrantes da costa daquele reino. V 16 — m.o; 17 —8t.n>; 18 —Xvam. 5 3
  • ramente conheçam a potençia del-rey, noso senhor, pelas cousas que Vosa Merçe fez e que se depois fizeram, nom sam ainda tam mansos que queiram navegar a Malaca, pois nom navegamdo, o cravo e maça, que nos he neçe- sario, nom viria; se lhes pareçia serviço do dito senhor, pois estavam estes tres navios aly, que eu os remediaria como la pudesem ir, se pareçese serviço do dito senhor. Dixeram que era bem, aparelhando-se os navios; traba- lhey nelles, que os mestres '* e pilotos dixeram que po- diam ir a Bamdam e vir; abitalhei-os de mantimentos e gemte, polvora, artelharia e roupa que ainda estava na feitoria, e outra que mandey comprar aos guzarates; mandey fornir cerqua de cinquo mil cruzados de roupa; tudo prestes, fiz capitão Antonio de Miranda; Diogo Bor- jes, feitor da armada; meti dentro chatis mercadores, para ajudarem a fazer a carga; foram-se em boa ora. Item. Partiram a vinte e oito 20 dias de Dezembro 21; dei-lhe seu regimento; escrevi cartas aos senhores da Jaoa, onde chegasem; dei-lhe toda sua maneyra de que aviam !8 r j de fazer; vay tudo também ordenado, tudo // por seus apontamentos, e que tomasem enformaçam da terra, e que, se achasem Francisco Serrão e os que com elle se perderam, que os trouxiram (sic). Espero em Noso Se- nhor que, segundo tudo vay a recado, que viram carre- gados de espeçiaria, e asi lho mandey, pois levavam mer- cadoria em abastamça, que fretasem junco e trouxesem quanto mais pudesem, e noz, no junco, pera os pegus e guzarates, quando viesem. Item. A Timor quisera mandar e, por nom ter junco, nom foram esta monçam laa; pera o ano, prazemdo a Noso Senhor, yram la, pera trazerem o samdalo; he muito boa navegaçam. 19 —m.'«; 20 — xxbiij; 21 —Dez.""". 5 4
  • Item. Daquy partyram pêra Çumda tres juncos; Çunda he ylha da mesma Jaoa, corta hum rio estreito; he terra de cafres e mouros, poucos; he gemte que sem- pre tratou com Malaca; vem de la pimenta, muito boa, e escravos, e muito arroz, he terra que tem muitos mer- cadores; esta pimenta ha-de vir aquy pera a monçam dos chins; os juncos que la vam, hum he do tomungo; outro, de Nina Pacho; e outro, em que vay o Bemgaçale, mer- cador. Daquy levam mercadoria do guzarate; he boa viagem; he a gente, a de Çumda, paçifica, de bom trato, de laa he gramde trato pera Malaca. Também parte outro junco do Tuam (8) Colaxaquar para Dema, que he terra do Pate (9) Rodim, que he o mor senhor mouro que ha na Jaoa; he cunhado do Pate Onoz; diz o Colaxaquar que o quer la mandar, e fazer paz com o Pate Rodim. Eu lhe escrevo o que compre ao Pate Rodim, porque me dizem que he homem sesudo e muito bom homem; e asy escrevo a el-rey de Çumda, meudamente, // apregoamdo-lhe sem- is v.) pre paz, manifestamdo-lhe que el-rey, noso senhor, nom quer senão paz com todos, e que isto oulhem quanto pro- veito lhe he, e que nom ha rezam pera que os jaós tenham inimizade comnosco, e quanto mais proveitosa lhe sera a paz, e quanto acrecentamento de sua omrra, estado, e terra sera, serem verdadeiros amigos e servidores del-rey, noso senhor; a cada huum ho escrevo, segundo mo Noso Senhor da a emtemder; os que vem de fora, ora venham com mercadoria, ou ver a terra, a todos faço omrra, favor e gasalhado. Item. De Java vieram ja aquy duas pangajavas (10) (8) Tuam, ou Tuan, palavra malaia que significa senhor; trata- mento usado para pessoas de categoria. (9) Outro vocábulo da aristocracia malaia devido a pessoas no- bres. A sua forma exacta é Pati. (10) Do malaio penjajap, antigo tipo de barco de guerra malaio. 5 5
  • com arros; bem podem vir ver a terra; a quallquer cousa que venham, folgo, porque por todas as vias lhe comvem ver o asemto da terra, tomar emformaçam; porem, a Java nom pode viver sem Malaca, porque este he o eixo omde se tudo revolve. Item. Palibam, com toda sua destruiçam, que ouve, quando Pate Onoz veo a Malaca, posto que sam sob- jectos a Pate Rodin, senhor de Maa, todavia, vem como podem, porque daquy se forneçem do que lhe he neçe- sario. Item. Eu tenho, ora, por novas certas que os de Paçee mataram el-rey, e ho bemdara, porque ho tem por ma- nha. Reina agora hum filho 22 del-rey de Pedir; a terra, com estas cousas, nom pode estar muito de asemto, e 19 r.i também //me afirmaram que a gemte desejava muito ho erdeiro 23 de Paçee, que Vosa Merçe aquy teve, que fugio. Esta com el-rey de Malaca. Neste meio tempo, como hos Darus sejam pesoas que nestes casos nom averam muito desprazer e quereram meter a mão en Paçee, eu deter- mino de mandar la huma caravela, e a galle, para ver se poso aver Paçee a mão, pera lhe meter rey ou gover- nador; e se puder, fallo-ey ate ho Vosa Merçee saber, porque seria gramde serviço del-rey, noso senhor, po- der-se isto asi fazer. Nom deixarey, podemdo, de apalpar o que se pode fazer, sem escamdallo. Praza a Noso Se- nhor que venha a bem tudo, fazemdo-se alguma cousa, porque, segundo o acomteçido, a terra deve de estar em balamço, posto que este fose o custume de Paçee, ma- tarem sempre o rey. Item. Tenho aqui por novas, por huma pamgajava, que agora aquy chegou de Pedir, carregada de pimenta, que Pedir esta ja em paz, e que vem de Paçee, por mar 22 —1.°; 23 —erdi.ro. 5 à
  • e por terra, e que a guerra pasada he amtre elles com- certada, e reina o filho del-rey de Pedir, que dam te ale- vantaram os da çidade; sera causa agora acudir aquy mais pimenta de que vinha na guerra; esta pamgajava, que veo carregada pimenta (sic) he do tomungan, que foy desta cidade; tem neçesidade de arroz; daquy parte agora hum junco de hum Coja Amet Pejamdor la carre- gar, a Pedir, de pimenta, pera vir aquy a monçam da China. // " *•' Item. Estes Darns he gemte malvada; nom vivem de mercadoria, sempre andam a furtar; este he seu ofiçio; pera nada prestam; he gemte sem proveito, de que nom temos nenhuma neçesidade; furta por omde pode e aco- lhe-se por rios e esteiros por demtro da terra; nisto pa- sam sua vida; avera hum ano que nom vieram aqui. Item. O tomungo que Vosa Merçe aquy fez, que era lução, eu o tinha por muito bom homem; em tudo nos ajudou sempre; sempre amou o serviço del-rey, noso se- nhor; nunca o achey em deserviço de Sua Alteza; por seus juncos nobreçia a terra o que podia, porque diso também lhe vinha proveito; estes homens apanham todos por onde podem, mayormente em Malaca que he terra de que nom temos ainda, por inteiro, tomada a notiçia de tudo, e elles, que o emtendem, se ajudam. Finalmente que tendo muita fazemda espalhada, quis sua fortuna que foy montear com hum bufaro; deo-lhe huma cornada por hum joelho, morreo em doze ou quatorze 24 dias 25; neste mez estamos sem tomungo; eu nam quis, por sua morte, fazer nenhum, nem bulir com isto, ate ho nom fazer saber a Vosa Merçee, pera nisto determinar o que lhe pareçe; a casa do tomungo, e sua molher, e seus filhos, esta como estava; mando-a visitar, nom lhe fazem agravo; a mo- 24 —xiiij; 2S —dia. 5 7
  • lher e o filho mayor regem sua fazemda, como seu marido no p.] o fazia. Nisto veja Vosa Merçee //o que se ha-de fazer; far-se-ha segundo a determinaçam que neste caso tomar- des. Se algum mouro ha mister justiça, vem-ma requerer; faço-lha; vam-se contentes; a terra, louvado Noso Se- nhor, esta de paz. Item. Malaca esta farta e muito mais sãa pera os na- turaes do que soya gramde parte de mantimentos; esta abastada muito mais que todos os outros reinos comar- quãos; a gemte creçe cada vez mais; ha cada vez mais trato; os mercadores vem de Pão; avera obra de vinte dias que vieram bem trimta mercadores de paços; quando agora la foy o tomungo, trouxe mercadores mouros, ho- mens homrados; todo chatim deseja vir viver a Malaca. O filho do raja Modebar, que estava em Pão, veeo; cada dia vem; e posto que daqui sejam muitos juncos fora, comtudo, ha muita gemte na cidade; nom ha amtre os da cidade brigas nem alvoroços; o que faz o que nam deve sam castigados; os que merecem merçee, façe-lhes da maneyra que a gemte da cidade esta em paz. De nos outros nom reçebem apresam, nem consento que homem noso pase as marquas e sinaes que tenho postas; o que o pasa paga a pena e mais he castigado; tudo isto faço, porque asi me parece serviço de Sua Alteza, por nom se escandilizarem os mercadores de nos; e quando algum, ora nom digo a mercador, mas ao mais pobre negro, se lhe faz o que nom deve, nom me ha-de ir a Roma pela 110 v.) penitençia, posto que seja milhor. // Item. O bemdara he agora quem mais por noso amigo temos; este bemdara he homem são em nosa amizade, deseja senpre o asemto da terra; trabalha niso o que pode; sua pesoa he tam fiel como se fose fidalgo por- tuguês que muito desejase o serviço del-rey, noso senhor; no que toca as cousas da terra e mercadorias e fazemda 55
  • do dito senhor, sempre o mamdo chamar, e elle diz ver- dadeiramente o que entemde; nom tenho outrem agora dos da terra senam a elle; no serviço de Sua Alteza e cousas destas que tocam a fiamça he verdadeiro e sem engano. Item. Porem, elle he mercador, faz-se gramde rico; tem as manhas de mercador, nom he pêra vos aproveitar, se o ouverdes mister; usa, as vezes, as cousas de mer- cador; quando vem a minha notiçia, he repremdido como deve, e segundo sua pesoa sam quilis; delle nom temos somente esta confiança e lealdade, porem, elle ajuda-se na mercadoria como pode; e se de mim nom fose refreado, segundo a cobiça tem, faria as cousas que os dante fa- ziam; manda juncos a todas as partes; por sua parte, trabalha por seu proveyto; quando vem gemte de fora, da dadivas; he sagaz mercador; he homem de bom com- selho e são, que homem no pode escusar; esta he sua condiçam, por imteiro. Item. El-rey Mafamede, rey que foy de Malaca, esta em Bintam, cheo de agonia e sem gemte, somente com alguns mandarins; elle me mandou // ja aqui, duas ou i" tres vezes, recados, dizendo que se queria meter em mi- nhas mãos, pidindo misericórdia; eu lhe respondy, se- gundo me escrevia, largamente; depois me mandou em- baixadores dizendo que, vendo-se perdido e desterrado de sua terra e que seu filho lhe diíia cada dia que no fizesse a paz com el-rey, noso senhor ,que nom hera bem, e punha-se contra elle, gramdemente, que conveo a el-rey matar seu filho, como de feito ho matou; elle o poderia matar por isto, ou por outra cousa, porem o filho he morto. Item. Mandou-me dizer que elle estava a obediençia e ordenamça del-rey, noso senhor, e que queria mandar embaixadores a Vosa Merçee, ou a Sua Alteza e que neste 5 9
  • meio tempo os seus mercadores e paraos pudesem vir seguramente a Malaca. Eu lhe dixe que sy, que por em tamto era contente e que fizese prestes seus embaixadores; neste meio tempo despidio hum mandarim seu, que he seu capitão do mar, qiue viese a Muar e outro da banda de Çalangor e Baruaz, e outro da banda de Alem; isto seria arrecadarem alguns direitos; eu, como o soube, que so a paz, queria fazer aquilo, e mais me mandaram dizer de Muar que tomava escravos, ho mandey la prender a elle e a hum seu filho e a outros mandaris fidalgos mançebos que eu tenho presos com elle. Item. Depões de os ter presos, me mandou outro re- cado, que aquelle homem saira com os outros sem sua liçemça, que lho mandase, que elle faria justiça e ho castigaria; e eu, porque tenho sabido que el-rey, que foy de Malaca, he testampado (n), cheo de amjiam (12), 111 v.) e que lhe nom obedeçem e que nom he ja nada, nem // aproveita pera nada, lhe respondi que so ar 2" de paz queria mandar arrecadar os direitos da terra que he del- -rey, noso senhor; que se isto se fazia sem ho elle saber, que asy a veria o castigo sem ho elle também saber; que se tinha seus mandarins mal insinados e ho aconselhavam mal e nom amavam sua onra que sua seria a perda; nom lhos quis dar, e os tenho presos, e ate ho fazer saber a Vosa Merçee, pera delles fazer o que Vosa Merçee or- denar. (11) Ou talvez destampado, i. é., tomto, segundo idêntica refe- rência na carta seguinte a el-rei, na qual diz: he como homem sem tento... fia) Anfiam ou anfião, o mesmo que ópio. O malaio regista a forma apium, e o Tetun de Timor, afian. Vid. Rodolfo Dalgado, op. cit. no vocábulo Anfião. 26 — no ar. i é. sob ar. com aparências de paz .. 6 o
  • Item. Este rey nom tem salvaçam nem vida; esta em Bintam perdido; diz que se quer meter em minhas mãos; elle me pareçe que nom serve de nada; diz que quer pagar pareas; nunca me dacrarou quanto, para vo-lo escrever; dizia que avia de mamdar embaixadores com sua determinaçam; pareçe-me que nom vieram. Veja Vosa Merçee que determino neste caso, porque ho rey esta deses- perado e perder-se-ha; nom tem força nem gemte, somente o que de nos espera. Item. Pera tamanha cousa, como he Malaca, e tama- nha empresa, ha mister muito provida, porque nom se pode suster com tam poucos navios e tam mal carregidos; que com muito trabalho aparelhey os que agora vam a Bamdam; e pera correger os que ham-de-ir a Paçee nom pode homem cuydar domde, e ja agora avia mister outros no canal de Bintam, e também avia mister para a banda de quaa; devia Vosa Merçee atentar bem nisto. // í ha 112 r.i mister virem navios bem enxarçeados e com muitos ofi- çiaes, ferreiros 27, carpinteiros, calafates; e também ha mister gemte de novo, que a que aquy esta, esta ja emfa- dada dos trabalhos pasados e dos que cada dia padeçem; e posto que a terra agora seja milhor, das doenças pa- sadas ficaram muitos doentes e nom sam homens. Oulhe Vosa Merçee isto bem, e proveja, porque huma cousa tam gramde nom se ha-de guardar com dous navios po- dres, que se os imigos nos virem mal atabeados, terão coraçam contra nos; asi, senhor, que compre isto acudir, da milhor maneyra que se posa fazer em cada monçam. Item. Em mentres os juncos de Java nos trazem aquy a especiaria de Maluco e Bamdam, ha mister que mande Vosa Merçee huma nao de quatrocemtos e quinhentos tonees, pois ho caminho he sabido; e esta tal he fortaleza, 27 — fer.ro» 6 I
  • e trás graúdo 28 e meudo, e he proveitosa, e nam andara homem com sindeiros que os nom pode homem corregar; e mais vam a risco e nom trazem nada em respeito de trabalho que homem leva; e isto deve Vosa Merçee de oulhar e prover, porque desta maneira se fara inteyra- mente o serviço del-rey, que doutra, trabalhar e nom trazerem o que os outros podiam trazer, e também pera credito da terra, que nom cuydem que tudo sam cara- velas; e çerto, senhor, que isto deve Vosa Merçee acudir com a mais grosa nao que na monçam se achar, porque estes tres navios, que sam os milhores que qua ha, nom (12 v.i poderam trazer dous mil quintaes 2* de especiaria. // Item. Quanto as obras da forteleza, asi pela pouqui- dade dos oficiaes, como por nom aver pela primeira ta- voada, quando se corregeram todos os çabaios que qua temos, nom foy pouco, que nom avia remedio de se poder fazer mais que remedear, que he mais trabalho que fazer de novo. Item. Agora se correge a galle gramde que se fez de novo tirar tavoa e mete-la outra, e isto com dous carpin- teiros doentes e amarelos, que nom podem comsigo; por aquy vera Vosa Merçe o que se pode fazer, se nam com muito trabalho, catando negros que ajudem, quando se acham. Item. A torre tenho determinado de a fazer cinquo so- brados, e sera de altura, acabada, de çento trinta palmos em alto; o corucheo he, no meio, de cincoenta e cinquo palmos; pelas asnas, sam sesemta; espero, com ajuda de Noso Senhor, que pera a Pascoa sera de todo acabada. He tam alta e tam formosa que amtre os nosos portu- gueses he gabada que faz temor e espamto aos estran- geiros de tam fermosa cousa, que certo he fermosa obra. 28 — leitura hipotética; 29 — qts. 6 2
  • Os sobrados sam muito altos, de muito formosas traves e tavoado, que tenho qua descoberto Galiza e Biscaya em tavoado, em hum lugar, duas legoas de Malaca, que chamam Caçam, que ha ma // deira infinita tam direita tu r.i que se vam ao ceo; sey que avera Vosa Merçe prazer de ver tam formosa madeira que se podem aqui fazer naos e navios e carraquas pela infinidade de madeira; e com a que emmadeirey a torre, he direita, de tavoado que toma de huma banda a outra, e mandey solhar os sobrados de meio fio. Item. O curucheo esta armado, acabado o sobrado de cima, e o curucheo; o chumbo também se lavra. Prazera Noso Senhor que, para a Pascoa, sera tudo feyto o da torre, e sera acabada. Item. Alevantei esta torre tanto, porque descobrise o mar, por de tras do outeiro; e certo esta altura que nela faço he com trabalho; trazem-na pedra de longe; os bates sam velhos, podres; corregidos, tornam a quebrar, que a gente do batel, por nom trabalhar, o quebra, pera folgar, emquanto se correger; os ofiçiaes doentes; Vosa Merçee julgara com que trabalho se as cousas fazem, e mormente aquy, que a gemte amda cansada e a obra he grande, como Vosa Merçee sabees; comtudo, nam se deixa de fazer a obra, e esta he a milhor que aimda he feita em gram partida. Item. Qua me fica agora a caravela Redomda e a cara- vela Comceiçam e a Galle Nova e estas, / / mal emxarçea- tu v.i das, ficam varadas na ilha Samta Catarina30 e Sam Tiago; a madeira e mastos no faleçe; que somente ofiçiaes, fer- reiros, carpinteyros, calafates ha mister que venham, que estas cousas nom se podem fazer sem ajuda de braço sagrado. jo—C.». 6 3
  • Item. Gemte fica pouca; deve Vosa Merçe reformar Malaca doutra gemte, como dito tenho, porque a de qua ja he camsada e enfadada. Item. Per a terra ser boa, e pera homens casados, aqui se casaram sete ou oyto homens homrados, e eu fui-lhe a mão, porque, se lhe alargara a tala, casaram-se aqui todos, que a terra he pera iso; requerem os privilégios e liberdades que tem os casados das Imdeas; e acerqua de seus casamentos, estes, que casaram, nom lhe mandar dar nada, por nom ter voso regimento, e nom quis mais con- sentir, ate nom saber de Vosa Merçee o que quer: se casem, ou nam; e se casarem, se lhe ham-de dar seus casamentos; asy, senhor, que o que toca a estes casados Vosa Merçe lhe deve mamdar suas provisões e a maneira que eu com elles devo ter; estes que sam casados vivem bem e onestamente, ao presente. Prazera a Noso Senhor ii4 r.i que asi seja, ao diante. // Item. Ho Tuam Colaxaquar, mouro jao de Yler, he bom homem, sesudo; mostra-se servidor de Sua Alteza, vive em paaz, he homem que, se tem ofiçiaes, acode com elles; faz-se rico. Também manda fora junco e pamga- javas, mas ho seu fundamento he na terra; tem muitos darões (13), de que paga certa cousa cada mes; nom acho nele mimtira; daquy manda agora hum junco a Pate Rodim carregar de arroz, e huma pengajava a Madura. He asi mesmo bom pera os jaós que vierem, pera dizer seus custumes; trabalha e deseja muito de se esta paz fazer; folgaria que a terra estivesse em paz pera seu des- camso, que he velho. (13) Assim parece estar escrita e assim tem sido lida esta pala- vra. Julgamos, porém, tratar-se do termo aportuguesado dução, pro- veniente do malaio dusum, pomar, quinta, que os nativos de Malaca possuíam nas terras circunvizinhas da cidade. 6 4
  • Ao presente nom ha mais. Prazer a a Noso Senhor que prospere vosa homra, e vosas cousas vam adiamte, por tal que del-rey, noso senhor, aja Vosa Merçee o galardam que mereçe, e depois, de Deus. Feyta nesta famosa fortaleza de Malaca a seis 31 dias de Janeiro de quinhentos e quatorze 32 anos. as. Ruy de Brito Jl-bj; 32 — bdiiij. INSCLÍNDIA, t J
  • 9 CARTA DE RUI DE BRITO PATALIM A EL-REI Malaca, 6 de Janeiro de 1514 ANTT: CC-I-14-49. Original com seis folhas, das quais, cinco escritas; a última é já apenas um pedaço solto. Encontra-se este documento muito deteriorado, com as folhas desmaiadas e poídas, palavras a apagaram-se, e roto ao comprimento dos vincos pelos quais foi dobrado, para ser remetido. A letra e caligrafia obrigam, por vezes, a uma certa atenção. Apesar de tudo, a sua leitura ainda se consegue fazer com relativa facilidade. Foi já publi- cado, na íntegra, em Oartas de Afonso de Albuquerque, Tomo III, pp. çi-ç8. Mede 290 x 210 mm. а) Resumo dos assuntos tratados na carta escrita, na mesma data, a D. Afonso de Albuquerque. б) Política de amizade com os soberanos de terras e ilhas circun- vizinhas. c) Bom acolhimento feito aos embaixadores e comerciantes, enviados a Malaca. d) Viagens de reconhecimento e contacto a vários lugares daquelas paragens. e) Notícias de Timor e conveniência em lá mandar embarcações que façam crédito e possam trazer especiaria. Senhor, Na monção pasada escrevy a Vosa Alteza de minha ficada aquy. Nom dey imteira conta das cousas de Ma-
  • laca, porque as escrevi ao governador das Imdias, que as escreveria a Vosa Alteza. Agora escreverey nesta as cousas que depois aconteçeram, ate agora. Depois que mandey Fernam Pires a Imdia, vieram aquy embaixadores del-rey de Sião; foi-lhe respomdido a sua embaixada; foram em boa ora. Sião he terra gramde, o rey he cafere; ha em sua terra lacar, bemjoym, brasil, gramde copia de arroz. Ha muitos annos que navegarão em Malaca; nom vieram aquy dobra de quinze anos a esta parte; nom vieram mais; indo la juncos, trazerão, ou naos nosas; la sam agora juncos daquy; sam nosos amiguos, açeitaram a paaz. Depois vieram embaixadores del-rey de Pão, pidindo paaz; foi-lhe dada; paguam pareas a Vosa Alteza. Pão he terra pequena; teve sempre guerra com Sião. Ha em Pão ouro; / / he terra de mercadores; he muyto parente n v.i o rey delia del-rey que foy de Malaca; he bom homem; trata-se mercadoria em sua terra. De Malaca tem seu for- niçimento; pagam sete marcos de ouro, cada hum ano. Depois vieram embaixadores del-rey de Amdraguiri; he rey mouro, comfina com Menamcabo; tem ouro, huum aloes de butica. Parece-me que ha-de vir paguar outro tamto; he de mercadores, forneçe-se de Malaca do que lhe he neçesario. Asi mesmo vieram embaixadores de Menamcabo e Çiae pidir paaz e tratar nesta cidade; estes nom paguam nada, porque sam vasalos del-rey Andelaa, rey de Campar, que he vasalo de Vosa Alteza, e paga pareas outros sete mar- cos, em cada huum ano; a terra destes he de ouro, o mais fino destas partees; sam reynos pequenos, porem ricos; seu trato he em Malaca, tem outrosi lina-aloes (i) de bu- tica; tem breu, canas e cousas semelhantes. (i) O mesmo que lenho-aloes, ou seja a aguila. 6 7
  • El-Rey de Campar, como dixe, he vasalo de Vosa Al- teza, pagua pareas; he homem mamcebo, jenro del-rey que foy de Malaca; he noso amigo; esta de quebra com seu sogro; a molher esta com ho pay; elle ha nom quer tomar; seu reyno he pequeno, metido por rios; ha em sua terra ouro, lina-aloes de butica, e outras cousas pobres; he terra de mercadores, tratam em Malaca seguramente. El-rey de Pegu he noso amigo, tem grande terra, he rey cafre, he boa gente; o ano pasado mandey daquy hum junco de Vosa Alteza a cidade de Martamane, e a Tana- 12 r.i çarym, carregar de arroz; trouxe muito arroz, grande // copia de laquar; trouxe bemjoym; he terra de muito arroz; vem a esta cidade e vam com mercadorias, levam em retorno mercadorias da China, sam homens pacíficos, sabem a mercadoria, he terra que mais firme trato tem com Malaca, porque aquy despende suas mercadorias, e daqui se fornece, e vem muitos juncos, cada ano. Vieram de Burneo três juncos a esta cidade, trasem ca, fora de comer, aljoufar, mantimentos; ho rey he ca- fre, os mercadores sam mouros. Burneu he ylha gramde, jaz antre a China e Maluco, no Golfam das Ylhas; a gente da ylha chama-se luçõees; sam bons homens nosos amiguos, levam por retorno roupa de Cambaya e dos Quilis Depois de alevantada a guerra, e eu ver a terra estar paçifica, pareceo-me bem em tamto mamdar alguns na- vios a Jaoa, em busca de espeçiaria, pu-lo em pratica com os capitães e ofeciais; foy acordado que hera bem e ser- viço de Vosa Alteza. Mandey la tres navios e huma cara- vela; hia por capitão-mor João 1 Lopez, e por capitão do navio Sam Cristóvam s, Francisco de Melo, e por capitão do navio Santa Madre, Martins Guedes; e por capitão da 1—qllg; 2 — J.o; J —Xovam. 6 8 y
  • caravela, João da Silveira; e por feitor da armada, Thome Pires, escrivão desta feytoria e contador delia; partiram daquy a quatorze de Março; tornaram a vinte e dous 4 de Junho, trouxeram obra de mil e duzentos quintaes * de cravo. A navegaçam pera Jaoa e mais diamte he por mon- ções ordenadas, por ser canal de correntes; he muito se- guro naveguar com monçam e muito prestes, e asy mesmo partem de la pera aquy; asy he caminho ajodado. // 12 A Jaoa he ylha gramde, tem dous reis cafres; hum se chama rey Çunda, outro rey da Jaoa. A ylha toda he huma somente, he partida por hum rio; a lugares secos, he terra de muito arroz imfimdo, de culelas, de tamari- nhos. A Çunda he de pimenta preta e de pimenta lomga; todos navegam aquy; os chins levam muita de sua pi- menta; he melhor que a de Paçem. As beiras do mar sam de mouros e muito poderosos, gramdes mercadores e senhores; chamam-se governadores, tem muitos juncos, grande copia; tiveram sempre trato com Malaca; alguns delles sam nosos amigos, os outros nom podem fazer menos. Sam homens os mais fidalgos destas partes; sam cheos de prosunções, de bons atabios de cavalos, espadas e enses de boa tauxia; sam homens de pouca fiança, porque querem sempre asenhorear por suas fantasias e, postos que sejam nosos amigos, sempre he bom conhecer suas manhas. Vieram aqui da China, este ano pasado, quatro jun- cos; nom traziam mercadoria, senam muito pouca; vi- nham como de armada a ver a terra; vinha por capitão deles o Cheilata, velho chim que aquy achou Diogo Lopes de Sequeira; tornou-se comtente; com conselho do bem- dara desta çidade e ofiçiaes foy la hum junco de Vosa 4 — xxij; 5 — qts. 6 9
  • Alteza, carregado de pimenta *; a metade por Vosa Al- teza, e outra metade, pelo bemdara; aguardo cada dia por elle; foy a bom recado e com ele foram cinquo, daqui; no de Vosa Alteza vam dous homens nosos; hum por fei- tor, e escrivam o outro. Da China vem almisquere, aljoufar, todo o genero de çetis e damascos e porcelanas, borcados e cousas seme- lhantes; sam tiranos, vendem tudo grandemente; a terra 13 r.i he a maior que se ca sabe; levam daqui pimenta e quall / / quer outra especiaria, se a acham, grãs, e ouro, e cousas outras muitas; trazem gramde copia de seda e trazem prata; he gente que sabe bem a mercadoria, nom lhe ti- rarão da mão a cousa senam por seu justo preço. Partiram daqui tres juncos pera Çunda a carregar de pimenta pera monçam da China, com carta e presentes pera os reys; os juncos sam de mercadores da terra. Partio daquy outro junco do bemdara pera Bemgalla; leva muita mercadoria, vira carregado de roupa, de muita valia; trazem de la também todo o genero de conservas de açuquar, de que se fornecem todas estas terras, e Bem- gala he terra gramde de gemte e peleja; ho rey he mouro, he de muitos mercadores e de gramde trato. Vieram naos de Paleacate, Choromandel, e de Naor; trazem mercadorias ricas, de panos de toda a sorte, roupa que vai nesta terra, e de que forneçe todos os reis comar- quãos; e trazem logo sentados os panos, segundo 7 a terra. Os juncos destas partes sam os mais ricos que aquy ha, porque a roupa de huum junco vai çem mil cruzados; vieram naos de la, venderam, tornaram-se; levam daquy estanho, ouro, cousas da China, canfora, de comer, e cou- sas semelhantes. Veo aqui huma nao guzarate que trouxe muita roupa; 6 — pM; 7 — eeg.o. 70
  • fez gramde prazer na terra, porque Cambaya tem roupa de toda a sorte baixa que se gasta; tem outras cousas que se comem na terra e na China e em Jaoa; he muito pro- veitoso pera Malaca o trato de Cambaya; pera Malaca e de Malaca pera Cambaya, levam daquy cousas da China e camfora, estanho, e cousas semelhantes. // As terras donde vem os timos, que he estanho, vem ja agora alguns delles pedir paz; estavam alevamtados pelas guerras e também pelos Darus; he terra de estanho. De Malaca ate junto com Queda sam cinquo lugares do se- nhorio e reyno de Malaca, e por isto nam ha agora aqui estanho e também levam-no pera fora. Agora vay sendo a terra paçifica; vira daqui avamte; também Caçam, e Muar esta a obediençia de Vosa Alteza; vem de la muita madeira; sam do reyno de Malaca, aqui junto da banda de Pão. Item. Daquy foy mandado huum junco de Vosa Alteza a Paleacate; a metade por Vosa Alteza, e a outra metade por bemdara; trazerão muita roupa que he de grande valia nesta terra; leva três homens nosos: hum feitor e outro escrivão, e outro com elles; he terra segura, de merca- dores que sempre trataram com Malaca. Agora, vendo que os jaós e gente desas bandas nom ousa ainda navegar em Malaca, puz em conselho que seria bom yrem tres navios a Bamdam e a Jaoa catar espe- ciaria, ate elles virem a Malaca, como damte se fazia; foy acordado que era bem; forneci-os de gente, artelharia e roupa; mandey pera, ao menos ,se seguir algum proveito; vay por capitão-mor Antonio de Miranda, que veio de Sião; e Francisco de Melo, de Sam Cristóvão; e Martim Guedes, de Santo Andre; ho Bretam he capitaina; vay por feitor Diogo Borges, que ja la foi outra vez, da primeira. Timor he de huma ilha alem de Jaoa, tem muito sam- dalo, muito mel, muita çera; nom tem juncos pera nave-
  • gar; he ylha grande, de cafres; por nom haver junco, 14 r' nom foram la. // Os de Paçem mataram o rey e o seu bendLara, por ser este seu custume; fizeram hum filho 8 del-rey de Pedir, rey; he terra, Paçem, prospera em mercadoria, de muitos mercadores e mercadorias e gramde povoaçam. A terá he pequena, nom muito; esta agora asi; he de seda, bei- joim, infinda pimenta, esta desta maneyra. Quero agora mandar la huma galle e huma caravela, por ver e apalpar se poso tomar a pose delia, pera a fazer tributaria a Vosa Alteza e estar a sua obediência. Praza a Noso Senhor que seja asy. Pedir esta agora de paz; he rey hum filho do rey velho; ha muita pimenta que vem aqui; esta a obediência de Vosa Alteza. De la veo agora huma pamgajava grande carregada de pimenta. Os Darus estam nosos amigos, sam ladrões, vivem diso; nom tem mercadoria em sua terra; furtam por onde podem; esta he a manha desta terra, quem mais pode, quando vee a sua, ha-de furtar e asenhorear-se huns dos outros. Ho que governa a terra, Nina Chatu, bemdara, he Chatim, mercador; he grande rico, tem toda a manha de mercador e niso trabalha; porem he homem muito fiel, ama muito o serviço de Vosa Alteza; no que toca a isto he verdadeiro; pesoa de que seguramente se pode fiar; manda juncos a todas partes, asy por seu proveyto, como por nobrecer a terra. Ho tomungo moreo; agora he outro homem; hera mouro, tinha outra tamta jurdiçam; hera bom homem, regia o povo bem; morreo; ficam-lhe filhos e molher; 8 - t.o. 72
  • nobrecia muito este porto e trabalhava niso também por seu proveito. // M *.i Da banda de Hiler governa hum jaoa mouro, velho homrado; tem jurdiçam sobre os jaós, he homem repou- sado, sesudo; esta em paz, trabalha o que pode por tam- bém nobrecer seu bairro; chama-se Colaxaquar, serve bem seu ofiçio, mostra-se servidor de Vosa Alteza, he homem que acode com o que lhe peço de oficiaes e outras pesoas he gramde rico e muito amtigo na terra. El-rey que foi de Malaca, depois do desbarato, fugio pera huma ylha que se chama Bimtam, lonje daquy; chama-se rey delia, mandou ja aquy muitos recados; diz que quer ser vasalo de Vosa Alteza; eu ho tenho escrito ao governador das índias; elle matou seu filho, porque nam queria consentir em sua vontade, porque o pay que- ria paz e elle, não; he morto. O rey tem pouca gemte, he velho, cheo de anfião, nom ata nada, nem he nada, e deixam-no os seus; e segundo leva caminho, perder- -se-ha, que nom tem remedio; nunca me dixe, por suas cartas, em que se afirmava ou que dizia; he como homem sem tento. Malaca esta abastada, reforma-se de mercadores; cada dia vem fazer-se mercadores, asi mouros como quilis; ho trato vay-se reformando; sam daqui muitos juncos fora; comtudo, ha muita gemte na çidade; vam pera fora, cada dia, e vem outros, trata a terra pacifi- camente; fazem homra aos mercadores; vam-se com- tentes, todos, com proposito de tornar. // [5 r.i Maluco e Bandam, Timor e Jaoa, em mentres elles estam atemorizados, he neçesario grandes naos; eu escrevi ao governador das Imdias que devia de mandar huma nao ou duas, de quinhentos tonees; porque, alem de fazer 9 — PB.*. 7 3
  • credito, se vay, traz gramde copia de especiaria, e que se nom pode fazer com navios pequenos, pois ho caminho he ja sabido e podem navegar, e mais as taes naos sam seguras e nom temem ninguém; porque nom cuydem que todo noso serviço he navios pequenos. Nas obras da fortaleza se trabalha; ha torre he em formosa altura e largura, de fermosas casas, bem amadei- radas; cada sobrado fa... 10 de vinte e hum e vinte e dous palmos; tenho detriminado fazer a torre de cinquo so- brados de altura ", com as ameas de cento e trinta pal- mos, por tal que, por çima do outeiro, descubra o mar. Madeira vem muita e em abastança, muito direita 13 e boa pera se aqui poderem fazer naos, avendo o al. O curucheo da torre, de alto a baixo, he de cincoenta cinquo palmos, e pelas asnas he de sesenta; tudo, se Noso Senhor quiser. Quanto a torre, sera acabada, pera Pas- coa, de tudo. O chumbo trabalha-se nelle para a cubrir, depois de acabada. Sera cousa gramde, de que nosos ami- 15 vj gos averam prazer; e nosos emigos, desprazer. // Ao presente não ha mais. Prazera a Noso Senhor que reformara as cousas de Malaca por tal que Vosa Alteza aja muito proveito delia, como espero em Noso Senhor que sera, porque nom podem deixar de ser o que em mim for; em meu tempo, espero que nenhuma cousa não seja demenuyda, mas acresçentada. Praza a Noso Senhor que acreçemte voso real estado de bem em melhor a seu ser- viço. Feyta nesta formosa forteleza de Malaca, a seis w dias de Janeiro de mil quinhentos 14 e quatorze 1S annos. as. Ruy de Bryto 10 —O docnmento está. neste ponto, um nadinha rascado; talves «fara»! 11 —palavra hipotética; 12 —dr.t»; 13 —bj; 14 — b."; 15 —xiiij. 7 4
  • 10 CARTA DE JORGE DE ALBUQUERQUE, CAPITAO DE MALACA, A EL-REI Malaca, 8 de Janeiro de 1515 ANTT: CC-III-5-87. Original em quatro folhas, das quais, duas e meia escritas. Este documento encontra-se muito danificado, rotas as folhas, em vários pontos; a letra muito descuidada, admitindo variantes de leitura. Todas estas dificuldades explicam as frequentes reti- cências, no texto, por palavras que já se não podem recons- tituir, e parênteses que encerram palavras hipotéticas, subenten- didas com alguma segurança. Apensa a este documento anda uma cópia sem data, com muitas lacunas também, e de cuja leitura discordamos numa ou noutra palavra. Publicado, na íntegra, em Cartas de Afonso de Albuquerque, Tomo III, pp. 133-139. Mede 310 x 220 mm. o) Necessidade que terras e ilhas circunvizinhas têm de Malaca. b) Boa disposição destes povos para se converterem. c) Noticias que António de Miranda trouxe das Molucas, com cartas para el-rei, de alguns soberanos daquelas ilhas. d) Qualidades do clero que deve servir nestas partes. Senhoi, Estava em Quochym por capytam, como escrevy a Vosa Alteza; ho capytam geral me mandou que vyese ser capytam a Ma (laca), onde (estou); que Vosa Alteza por 7 5
  • muitas vezes tinha ouvydo (as) gramdezas de Mallaca, a mim que parecem maiores... (Vosa) Alteza nam tevese a Ymdea. Mallaqua so he pera resta... todas as cousas que na Yndea ha e mays que os reinos... (se)nhorios e terras que nam podem vyver sem Mallaqua e outro... ado por sy. E quem, senhor, Mallaqua milhor emtemde, por milhor e mayor a tem, por ser posta e asentuada em co- meço de muitas monções e cabo de muitas monções, e as terras da banda da Yndea, que sam Cambaya, toda a Yndea, todo Bengalla, ho reino de Pegu, tem necesydade das mercadoryas que vem da China e Quachymchyna, Syom, Lequios, os Luções de Burneo, ho cravo de Mal- luquo, e de maças e noz de Banda, e do samdollo de Timor; e asy ho ouro dos rios de Menenquabo e de Java, e de Çunda. E os que destas partes vem tem necesydade das mercadaryas que das outras partes dytas vem. E quando huns vem com huma monçam nam podem ir pera as outras partes com aquella monçam, e por yso he grande, e chave de tudo, omde todos fazem escapolla; e ayinda que os homens queiram Mallaqua fazer, nam pode ser em outro lugar, senam honde he. E muyto a deve Vosa Allteza de amar, porque a ne- cesydade de todos estes reinos, aqui nomeados, tem de Mallaqua, am-de obedecer a Vosa Allteza aynda que nam queiram; que como os reis todos souberem que Mallaqua esta pacyfyqa, que aynda agora tem gera, logo man- daram seus embaixadores, e asi todos os mercadores destas terás viram logo a Mallaqa, que he cousa do mundo que mais desejom. Mallaqua nam tem nada de seu e tem todallas cousas que a no mundo; e mais, senhor, he gente desposta pera toda boa chrystamdade se fazer, que mais de toda a jemte sam gemtios; Vosa Allteza he posto no cabo da zizania semeada por Mafamede; que em Maluquo e Banda, que 7 à
  • ■ sam as deradeiras terás, dizem que se a vosa fe for mi- lhor que a dos mou(ros que a) tomaram, asi como agora começavom de tomar a dos mouros... Deus quer que Vosa Alteza seja principiador nam se deve (esquecer?) (pro- mo) ver tamanho serviço de Deus. // 11 v.j Senhor, Como chegei, mandei feitor e esprivam a Pacem, e estam ahy fazendo fazenda de Vosa Allteza; ho feitor a nome Gaspar Machado, e ho escrivam, Pero Pesoa; e asi mandei feitor e escrivom a Pegu, o feitor a nome Pero Paez, e ho escrivam, Antonio Diniz, outrosy fazerem vosa fazenda e cousas necesarias pera a fortelleza; Pero Paez tem bem servido Vosa Allteza nestas partes e dado de sy boa conta; estas cousas faço todas per mandado do capy- tam geral. Senhor, Como chegei, por mandado do capytam, mandei vy- sitar os reis vasallos de Vosa Alteza, e mandar-lhe suas (car) tas do dito capytam com outras minhas e seus pre- sentes, segundo custume da tera; antre os quais mandei ver el-rei de Campar; foy a yso Jorge Botelho, capytam; levou consygo Allvaro 1 Vaz, em huma galle pequena e duas lamcharas. Acharam nova que estava cerquado de hum... de Lymga e dous capytaes outros del-rey que foy de Mallaqa ; et... mandado do dito rei; por este ser o mais verdadeiro voso vasa (lo) ...mdou-me Jorge Botelho recado do cer- quo; fiz logo preste toda a je(nte) e lamcharas; foram 1 — AUv.o. P
  • em sua ajuda; os capitães que niso eram... de Miranda, Jorge Botelho, Antonio de Miranda, Ayres Pereira, Fr(ancisco) de Mello; capitães de lamcharas: Pero Soa- rez de Sousa, Nuno Freire, (Gil?) Guedez, Jeam Pereira, Diogo2 Vaas, Jorge Mesurado, Diogo Diniz, Bras da Costa, (Pero?) N?unez, Jorge Vaas; estes todos yam em lamcharas, os capitães em ba(tes) e lamcharas, que as naos, nem galles, nam podem chegar aquelle lugar, onde ho cerquo estava posto. Foram oyto dias pollo rio arriba com suas noites; avera no ryo, aho parecer delles, coremta legoas. Sendo ya perto, os ymygos ouveram novas dos portugueses hyrem sobre elles; vyeram-se logo as suas lamcharas e fustalha que tinham, que seriam perto das noventa ou cento, em que sesenta ou setenta delias eram lancharas; soube por alguns que tomaram que vynha dizendo el-rei de Linga que os portugueses ho nam quonheciam, que elles seriam, aquelle dia, todos seus cativos; trazia comsygo dous myl homens de pelleja, affora os remeiros da sua fus- talha. Estavam os bates de repouso comendo; Jorge Botelho estava mais diente delles, a huma pom ta que descobria o rio, mais aho lomge; vyo-os viir, fez synais aos bates; fizeram-se prestes, foram a elles; el-rey de Lymga vinha diente; como tiravam a artelharia que levavom, come- çarom todos de se lançar a augoa, que, por muito que os portugeses remarom pera chegarem a elles, nam poderam tam asinha; que quando chegaram a sua armada ja todos eram em terá, porque ho rio e estreito; os portugeses se- riam, por todos, cento a corenta, ate cento cinquoenta; matariam e cativariam, por todos, cynquoenta ate sesenta pesoas; depois soube que morreram muitos delles a fome 2 — d.o. 7 8
  • e afogados, por a terra ser muito alagadiça; os que se salivaram sallvaram-se muito doentes e desbaratados. El-(rei) de Campar que estava ja pera se perder, e, segundo o que elle (dis?), nam durara mais de (três) dyas qua lhe tinham a sua fort(elesa cer)quada de lenha, pera lhe porem ho fogo a elle com qua ...eram, // ven- 12 r.i do-se fora da opresam, nam sabendo donde lhe vynha, quando ho soube, veo aos bates; era nelle tamanho prazer que nam sabia onde estava, dizendo que nam tinha a Vosa Allteza feito serviços por onde tamanha merce lhe fezese; tinha mandado que me viese ver, pera ho fazer gover- nador de Mallaqa, como me manda ho capytam geral, debaixo do poder do capytam desta fortaleza, e ho seu oficio he bendara, e por honra e conservaçam da terra, ho mandou ho capytam geral por se (tor)nar a povoar e fabriquar, como dantes era. Elle veo e tem tomado o carego, e deseja muito de nisto, e em todas as cousas, servir a Vosa Allteza; agora parece-me boa pesoa e fiel; e como gente 3 via que lamcemos el-rei que foy de Mal- laqa, de Byntam, onde esta, e aos jaós mouros derem hum castigo, que com seiscentos homens tudo se pode fazer, Mallaqua sera milhor cousa do que nunqua foy nem que a no mundo. Crea Vosa Allteza que Mallaqua he outro mundo per (iso muitas) merces fas Deus a Vosa Allteza, com outras muitas que feitas... comfirmaçam foy ysto de os vosos vasallos ho follg... de ser. Senhor, Veo Antonio de Miranda de Banda, homde ho tinha mandado Rui de Brito; veo a fallar em Anbom com Mar- tim Gedes, Francisquo Saram, que se perdeo, quando 3 — leitura hipotética. 7 9
  • foram a descobrir Banda; esta em Malluquo nas ylhas do cravo. Todos aquelles reis daquellas ilhas querem ser vasallos de Vossa Allteza, e todos desejam que se façam fortellezas vosas, nas suas terás, e todos escrevem a Vosa Allteza em mellaio. Eu as mandei tralladar aqui de mellaio em por- tuges, e os mando com os trellados, e asy outra carta dos omrados de Anbom, e as cartas de Francisquo Saram. Manda huum ramo com folha de arvore do cravo e hum paao da mesma arvore, e vai huum treçado pera Vosa Allteza que vos manda el-rei de Tarnate, com que dizem que venceo duas batalhas; deseja muito de ver naos vosas na sua tera; como vier gente e naos, logo la ei-de mandar, e asy a descobrir a navegaçam antiga que soia de ser, pera poderem ir e vyr naquelle tempo que vom e vem a Banda. El-rei de Tarnate diz que tem pillotos que sabem ho caminho, e por a emformaçam que tenho dos maquaçeres, que he huma ylha perto do porto de Ambom, parece-me leve cousa de se saber o caminho. Muitas cousas do ser- viço de Deus e de Vosa Allteza ahy que fazer, como ouver gente e naos. Este anno nam mando a Banda mas que Antonio de Miranda, no Bretam, e hum junquo com elle, pera tra- zerem maças e nos e cravo que acharem, e pera virem dar recado e reposta das cartas que tem mandadas, e que sejam certos que am-de ser providos per Vosa Allteza em toda perfeiçam, e ho prazer que Vosa Allteza tem em quererem ser verdadeiros vasallos; e que Vosa Allteza lhe dara o gallardom; as outras mais meudezas he... hum homem que este Francisquo Saram que as comtara, e... esta huma ylha da outra e quantas ylhas e ho que a em... ylha. E asy per Rui de Brito o po(de) Vosa Allteza saber, e por (outros) que da qua vom, pollo caminho velho que 8 o
  • soya a ser pera as ylhas de... a outras ylhas; dizem que tem ouro e alljofar; deixaram os jaos ca(rre)gar pollas muitas escallas que vom fazendo polio outro caminho, que de humas ylhas a outras ganham dinheiro \ // 12 r Senhor, As cousas necesarias pera a ygreja sam estas: bons crellygos, vystymentas riquas, ou quem nas benza, que qua se faram equallez; e lyvros de canto e orgos, porque vem aqui gentes de muitas partes e vem a ver a nosa ygreja e as cousas delias, e bons synos; crelligos e frades mancebos nam sam pera estas terás; que se alguma parte das Yndeas estas cousas sam necessárias, mais ho he em Mallaqua, que crelligos nem frades das dúzias, perde Vosa Allteza ho que lhe da e elles danifiquam e nam apro- veitam aos capytães das fortallesas; devem de ter poder sobre elles ate prisam. Senhor, Garcia Chainho e feitor, e, segundo meu parecer, ser- ve-vos munto bem e com muita diligencia e hum dos escrivães no... Sallgado; ho outro he Francisquo Pereira; ho outro he Jorge a... que nos fis escrivam, por ser ornem soficiente pera yso e vos ter... em outras cousas, como na yda da China, em que foy... feitor de hum jumquo de Vosa Allteza, e ser ho primeiro 5 homem que poos marquo per Vosa Allteza; foy mui bem la recebido; os chins f(oll- gam?) com nosa companhya; ho feitor escreve haa rasa da Yndia ho necesario pera esta feitoria, e asy as cousas que manda. 4 — dr.®; 5 — prm.1". 8 1 INtULÍKDIA, I — 6
  • Senhor, Faço gera a el-rei que foy de Malaqua, porque nunqua em al trabalha senam como destrua Mallaqa, que grande empydimento faz a Mallaqua não ser ja tamanha como dantes era, e mayor. A gera que faço he por mar, por nam ter tamta gente que posa sair honde elle esta em tera, por estar forte; nesta maneira ho ei-de persegyr quanto a minha posibylydade abranger; que Byntam, onde elle esta, he na boqua do estreito de Cymgapura, donde vem os junquos da Chyna e Quamchymchyna, e os regnos de Syam, de Burneo, e Luções, e Tamjunpura, homde he a mina dos dyamantes, como Tome Pirez milhor leva todas estas cousas decraradas. De todas estas partes pasam por Byntam, e, se vem pera Mallaqua, sam detidos por elle que nam venham, por honde faz grande nojo aho trato, afora outras muitas terás, que por seus muitos emganos faz que nam sejam nosos amigos, nem venham pagar trabutos a Mallaqa, que soyam de pagar; ho principal bem de Mallaqa e em sua datriminaçam, como milhor Vosa Allteza sabera per Rui de Brito; quanto nos pode danar com os reys comarquãos tanto trabalha por iso, e muito dana; se Vosa Alteza deseja Mallaqa, proveja ysto. E asi escrevo aho capytam geral meudamente e como os jaós outra vez tornam armar sobre Mallaqua e el-rey que foy de Mallaqa he ho tecedor de todas estas cousas. Senhor, Os capitães que aqui fiquam servindo Vosa (Allteza) sam: Antonio de Miranda, Jorge Botelho, Tristam de Miranda, F... ello Anrique Leme, meu cunhado; Pero ' Soarez de Souza, Gonçalo 7 da Silva, ... de Faria; por 6 — p.o; 7 —g.°. 8 2
  • seus serviços merecem que Vosa Allteza lhe faça merce, que (os tra)balhos, senhor, qua sam grandes; lembre-se Vosa Alteza de seus serviços que beem vollo merecem, e a mim, senhor, nam desempare. // u r.i T Senhor, Estes sam os oficiaes necesarios: carpinteiros da ri- beira, callafates, pedreiros, carpynteiros de casas, armei- ro, couraceiro, carvaçam, ou quem na faça, fereiros, sa- radores, jente de mar, que tudo ysto que estes oficiaes podem fazer, nam vos custa nada, que todas as outras estam em vosa maão, e nam he asy nas outras fortellezas, porque Mallaqa paga todos estes oficiaes, asy de solldos como de mantimentos; e mais emchera Vosa Allteza de dinheiro que pella carega que daqui vai, sem despesa vosa, vera Vosa Alteza ho que aho diante pode ser; que ainda agora começa, e as meudezas dos proveitos nam sam ainda sabydas das cousas tamanhas como Mallaqua; nam se esqueça Vosa Alteza que ho bem delia era em ter muita gente, que todollas outras couzas logo sam posydas em pas; e asy cordoeiro he muito necesario. Senhor, (Nes)ta tera se podem fazer todallas galles, naos e quaesquer outros (navios) que quiserem, sem custarem dinheiro a Vosa Alteza; somente breu, est..., que em Byn- tam a muito ferro, asy sam necesarios bombardeiros, que de noventa, que aqui deixou ho capytam geral, nam ahy (mais) de vynte a cynquo. Senhor, Ho que diguo do castigo dos jaós, que yndo la huma 8 3 J
  • ves seyscentos homens lhe queimaram a fustalha e navios que tem, e junquos, que tudo se faria em huma monçam, nam seram mais poderosos pera cousa nenhuma contra Vosa Allteza poderem fazer, que estes que se ajuntam sam Pate Quiter, Pate Anaz, Pate Rodym, que cada hum per sy nam podem fazer nada, que em quanto os mouros nam recebem de nos dano, sempre lhe parece que sam poderosos comtra nos; como huma vez recebem, logo nos tem acatamento, e de nenhuma outra gente que trazem em Mallaqua me nam pode fazer dano. Senhor, Todas as mais meudezas que sam necesarias a esta forteleza, e cousas que logo sam mister, e da carega toda que daquy vay pera Chochim, e alljofar que vay, e anéis com robiis, peças de damasquo, e borquados que vem da China, de que vem a Vosa Allteza as amostras, escrevo largamente aho capytam geral, e elle escrevera a Vosa Allteza as necesarias a voso serviço; por yso deixo de o fazer, e pella feitoria vay tudo bem decrarado a Vosa Allteza, como pasa e ho que custa cada cousa, que asy lho tenho... dado, aliem de ser seu oficio, e vam quatro diamantes p ...rar, pesam huma oytava dez gramas. Feita nesta famosa forte (leza) de Mallaqua, a oyto dias do mez de Janeiro... de quinhentos e quinze 8 annos. Beijo as mãos de Vosa Allteza as. Jorge de Alboquerque ' 8 —xb; 9 — dalboqrq. 84
  • 11 CARTA DO REI DE TERNATE A EL-REI D. MANUEL s. d. ANNT: Gaveta 15-4-1. (1) Cópia em duas folhas, sendo uma escrita, sem data e sem nome do rei, que supomos ser o velho Bayan Sirrullah, a quem João de Barros chama Boleife, e que parece ter morrido enve- nenado pelo rei de Tidor, f>or ambos se disputarem a supre- macia do domínio das ilhas Molucas. Talvez seja esta uma das cartas que António de Miranda trouxe, às quais se faz referência no documento anterior. a) Diz colocar-se sob a obediência de Sua Majestade. b) Entende que bastaria um rei para todas as quatro ilhas Molucas. c) Pede a El-Rei armas para se defender de seus inimigos. d) Folgaria em possuir, enviados por El-Rei, um capacete e uma cadeira, como ofertas honrosas. El-rey Dom Manoel, por graça de Deus, senhor de todos hos reys. Senhor, Muy alto he muy poderoso e senhor de nos outros todos, esta carta mando a Vosa Alteza a dar hobydiemçea (1) Publicada em Cartas de Afonso de Albuquerque, Tomo III, pp. 182-193.
  • he fazer acatamento que sempre lhe tive como a meu senhor, e ysto faço aos seus pes, e ysto faço porque no mundo não ha mor senhor do que Vosa Alteza, he que he como o sol que pareçe em hum cabo e alumya em todo ho mundo, e asy se pode chamar Vosa Alteza senhor da justiça dereyta. Tenho por fama que Vosa Alteza dos muy pequenos faz grandes e ysto he ho que eu desejo. Eu sam seu, e estou nesta terra de Maluquo a obydiencya que Vosa Alteza mandar. Faço saber a Vosa Alteza que eu vyvo hum pouquo descontente, e peço a Vosa Alteza que me de mezynha pêra ysto, pera hos contrayros que contra mym sam, por- que, senhor, eles sam muytos e eu sam so. Ysto he ho que faço saber a Vosa Alteza, como seu vasalo, porque ha hy quatro ylhas e quatro reys, e todas quatro não ha hy huma boa, porque hum so rey abastarya pera elas; ysto lhe faço saber a Vosa Alteza, quanto he a mynha ylha, li v.l e mynha terra, he meu porto com todo ho que / / nela ha entreguo a Vosa Alteza, que ho mande guardar he prover como cousa sua. E eu, como vasallo que sam de Vosa Alteza, peço que sobre ysto aja Vosa Alteza bom conselho, e me mande prover com algumas armas com que posa defender esta terra e esta ylha, pois que he de Vosa Alteza com todo o que nela ha. Desejo muito humas coyraças pera mynha pesoa, pera com elas pelejar em servyço de Vosa Alteza, como ja dixe e torno a dizer, que eu sam vasalo com todo ho que de- bayxo de mym ha; e ysto sera em quanto vyver, e de- poys hos que de mym vyverem ho seram, porque no mundo, debayxo das estrelas, nam ha tal rey como Vosa Alteza. Hos outros reys que nas ylhas de Maluquo ha, não 8 6
  • querem conheçer Vosa Alteza por senhor, e não deyxam por yso de erar, senão a mynha so que he Ternate; esta he de Vosa Alteza pera fylhos e netos, e quantos de mym desçenderem. Item. Se nesta carta forem algums eros pelo não enten- dermos aquelas cortezyas que a Vosa Alteza he bem que se façam, perdoe-me Vosa Alteza. E asy folgarya muyto aver de Vosa Alteza hum capaçete e huma cadeyra, pera ter cousas de Vosa Alteza pera me honrar. Fiquo demtro nesta sua terra de Maluquo beyjando hos pes de Sua Alteza. 87
  • 12 CARTA A EL-REI D. MANUEL Malaca, 20 de Agosto de 1518 ANTT: Gaveta 15-21-16. Documento em doze folhas escritas, algumas sendo pedaços a desfazerem-se, com grandes manchas, letra difícil, e palavras apagadas. Perderam^se, deste modo, muitas passagens e em muitos pontos a leitura è duvidosa. Semelhantes lacunas desva- lorizam muito este documento, adivinhando-se informações inte- ressantes, mas cujo sentido já não se consegue apanhar. Resol- vemos, mesmo assim, publicá-lo também, pelas referências a inúmeros pontos da Insulíndia nele contidas, com notícias va- liosas, e para que fique salvo o que ainda ali se pode ler. Não está assinado, mas julgamos poder-se atribuir, pelo contexto, ao capitão de Malaca, Afonso Lopes da Costa, su- cessor de Jorge de Brito. Mede 510 x 21.5 mm. a) Falsas informações sobre a defesa e segurança de Malaca. b) Regressa à cidade o gentio que andava fugido. c) Necessidade em se dotar Malaca com uma armada de, pelo menos, dez navios, para sua defesa e comércio. d) Procedimento condenável de alguns feitores e escrivães. e) Ilhas e reinos da Insulindia em contacto comercial com Malaca. /) Produtos e mercadorias transaccionadas nesta cidade, vindas de várias partes. g) Natural aversão dos reis de Banda e Timor para com os mouros. Eu escrevy, este anno pasado, a Vossa Alteza, que o Governador 1 detreminava vyr a Malaca, e quando veo 1 — g.dor. 8 8
  • de Goa, que hera ho tempo pera partyr, não lhe pareceo nescesario sua vynda, e mandou Dom Haleixo, porque fora de ca, em Fevereiro *, hum junco, no qual foy hum irmão de Graçia de Resende, por feitor; e porque já tynha parte na destruyção desta çidade, nas cousas que nella heram feytas, e asy polia leixar em tal tempo, afir- mou que Malaca estava muito bem, e que nella avya seis centos homens; e asy todas as outras cousas que compre 3 a Malaca, (huma) tal fortaleza, que esta tão longe. E crido pello Governador o que lhe asy dizia, mandou Dom Aleixo com trezentos homens de armas, e marinheiros, em tres navios, parecendo-lhe que o que asy dizyão que era verdade, porque seis centos, que ho dito irmão de Graçia de Resende dise que avya, e trezentos, herão nove centos *, que era jente pera se acabar o feyto desta çidade. E isto asy posto em obra, partymos a sete dias do mes de Mayo, e por ser ja tarde, pasamos muito grande trabalho e tromenta, na qual me eu açertey, e hum navio de meu irmão, em que fuy de todo perdido, e se não alargaramos // ao... acen... naos de Cambaya, os quaes [1 T-J trouxe a esta çidade que ellas per... cheguey aqui a sete dias de mes de Julho, onde ja achey Dom Aleixo, que ja tynha entendido na destroyção desta çidade, que crea Vosa Alteza, que se mais tardaramos oyto dias e nom mais, ao menos, a jente toda da Fortaleza estevera reco- lhida dentro nela, porque por toda a jente que nesta çidade havya, pera tomar armas, foy achada, por alardo, sessenta 3 ou setenta * hommens, pera poderem pelejar e vygyar. Creu Vosa Alteza que quando Dom Aleixo se vyo tão enganado em sua vinda, asy com pouqa gente, como com pouqas naos, e eu com elle, que se então se poderá tomar vyngança de quem o causara, que o fize- 2 — fevero; 3 —cfipr; 4—jxc; 5 —Lx; 6—Lxx. 8 ç
  • ramos; porque esta foy a mais desesperada cousa que nunca se vyo, porque estando sem nenhuma jente, nem tynha outra nao, senão Santa Barbora, sem enxarcea, nem outro nenhum aparelho para andar a vella, e huma caravela que se hya ao fundo, e huma gale que ha dous annos que esta em estaleiro, sem se poder corejer... por mingoa de oficiais e de mesteres; e isto ti(nha) asy des- baratado ho Rey de Byntão, daqui cinquo legoas, com muita gente, e o capitão da fortaleza com ha candea na mão, que ho dia que heu chegei se fynou. Hora lançe Vosa Alteza conta de que feyção se achou Malaca, se se Deus nom lembrara delia, asy nestas cousas de fora, como nas de dentro que herão de tão taes mas calidades, que ho ey por escusado dizer a Vosa Alteza, porque, pellas delygencyas que Dom Aleixo fez, o poderá milhor saber 12 r.} e julgar, porque asy das cousas da Igreja, como // dos... bondade, e verdade... nos servira... asy o leyxarey... pera sempre a Vossa Alteza... tão desbaratada, e ousada de a tomar, em tal tempo. Item. No outro dia... chegada, em que se o capitão finou... podia, me meteo Dom Aleyxo de pose da dita forteleza e capitania, honde me deu tanto que entender, que soo em mandar varer monturos tyve que fazer oyto dias, e asy em outras muitas cousas que estavão sem dono, como cousa horfaa, ou vyuva. Item. Dom Aleyxo veo com os poderes de seu tyo, e começou logo a entender muitas cousas tão perdidas, que , forão causa da perdição de Malaqua, nas quaes fez tanto, que, em menos de hum mes, se tornarão muitos da terra que estavão fogidos, e cada dia vem mais; e parece-me, Senhor, que, com ajuda de Deus e vosos merecimentos, que ele, em mentre aquy estiver, e eu, depois que elle se for, se tornara Melaca a seu estado, com condição que Vosa Alteza, em Portugal, e o voso Governador, da índia, ço
  • tenhaes, daqui aveante, milhor cuidado da milhor cousa do mundo, que he abastante pera manter a sy e a toda a India e parte de vosos reynos, se andar grangeada, e favorecyda de Vosa Alteza, asy com navyos, como de jente e mercadorias. E nom crea Vosa Alteza que digo isto por estar nella, como estou, mas pergunte-o aos que de qua forão e elles vos dirão ha neçesydade que Vosa Alteza tem de ter sempre em Malaqa, ao menos, dez navios ou doze; por- que se // hos... obriga a ter... agora tem... velha vay... 12 v.j a nenhuma parte que... se nom perca e indo em com- panhya... navio de Vosa Alteza hyrão e vyrão... segu- ramente. Hora veja Vosa Alteza a quantas partes, cada ano, he neçesario mandar, outras mais naos se am mester, per a dita segiridade; as que de necessydade se nom po- dem escusar são, a saber: huma a Pane, pera o arribar das naos, e tomarem-se as mercadorias, que pera esta çidade, cada hum ano, são neçesarias de Pane pera China e outros cabos, que compre muito a voso serviço; e outra a Pegu, em companhya dos junquos que la ouverem de t ir; e a Bengala, outra; e a Jaoa, outra; e a Chvna, outra; que são cynco, e as mais pera ficarem em corpo pera guarda e defensão desta çidade, e acudir ao que se . cada hora socede, e fazer o que a voso serviço compre, porque nunca falecera que fação em cousas que apro- veytem em voso estado, salvo se se ocuparem em outras descordias taes, como as pasadas, em que se fez pouco voso serviço; e crea Vosa Alteza que a mor parte delias nacerão de hay aver capitão do mar, salvo aquelle que ho capitão da forteleza ordenar, e vyr que he mais per- tencente para o serviço e milhor fazer. Item: Pois nisto fallo, quero logo dizer o que para isto cumpre a Vosa Alteza fazer, que deve tanto de esty- 9 I
  • mar Melaqa, que ha deve fazer ysenta e o capitão delia yzento, porque segundo as cousas de qua sam grandes, u r-i nom devem de ser feytas // ... ver... conta a Vosa Al- teza... e tãobem... as negociações... de mor importância, que toda... capitão que nella estever tener... a pose, e poder de todo prover, e aproveytar... mor feyto, e onra que ha governação da índia; mas asy como agora esta he a pior capitania de todas as outras fortelezas; asy, se- nhor, que estas cousas digo a Vosa Alteza, porque ja o deve ter sabido, e lançado conta o que vos nisto vay; que certo ey por peqado mortal deyxar perder cousa de tanto preço, porque quando me vejo com tamtas cousas, e tam grandes, com tão grãa perdição dyante dos meus olhos, sem poder servir Vosa Alteza pello presente como eu de- zejo, quizera antes nom ter qua vindo, porque quando vejo o almazem, e nom acho nelle enxarçias, nem velas, nem pergadura, armas, nem breu, nem estopa, cabres nem ancoras, e per mingoa de todo isto nom navegarem os navyos que aqui ha; veja Vosa Alteza ho que devo de sentir, vendo a perda que nisto recebes; porque he çerto que ão-de dizer a Vosa Alteza que deu Afonso 7 Lopez a melhor cousa da India, e ella he-o asy, e eu nom poso servir Vosa Alteza como quem eu sam, e como ella he, porque agora neste derradeiro quartel quisera mostrar em minhas hobras ho primor de minha bondade, e pera Vosa Alteza conheçer que ainda Malaca he pouco pera meu merecymento; e agora quero confesar a Vosa Alteza que a mor door que nesta parte tenho he que ainda que Vosa Alteza queyra mandar prover Malaqa, que ja nom sera em meu tempo, segundo as vyagens tão compridas, e 13 T.i ir-me-ey para // Portugal... porem por... ainda que o 7 — A.». 9 ^
  • não veja... tempo, terei gosto do serviço de Vosa Alteza e estado ser exalçado. Item. Nom quero falar nas culpas dos capitães pa- sados, porque ja sam mortos, e porque também nom falecera quem as diga, nem menos nas culpas dos fey- tores e ofyçiais, porque nos que forem daqui em dyante, em meu tempo, eu trabalharey por o elles fazerem de outra maneira, porem saberei dizer a Vosa Alteza que nom ha feitor em toda a índia, nem escrivães que vos não mereção a forca, e toda a fazenda perdida, porque neste paso he Vosa Alteza por elles destroido, porque nam tam somente o que furtão, mas ainda o leyxão fazer a todos aqueles que lho negocyam e consentem. E so nesta feytoria de Malaca se acha que de hum anno para qua se receberão pasante de cincoenta mil 8 cruzados, e agora nom entregou mil cruzados em roupa podre, e o feitor, que foy, gaba-se que tem quarenta mil * cruzados seus, e asy he pubrica voz e fama; e asy, senhor, que por quanto eu counheço de mim pera o que sam, e asy o que devo a Vosa Alteza, por quanta honra e merce me tem feyta, que se me Vosa Alteza dese carego de vosa fa- zenda, de a olhar e prover sobre vosos ofyçiais delia, eu me atrevo a fazer-vos tanto serviço nyso como na guerra em que me criey, porque a vontade que tenho de voso serviço, e acrescentar nas cousas da fazenda de Vosa Alteza me acabarão de ensynar, tanto que posa escusar Fernão de Alcaçova em Malaca, e asy me cumpre que entenda sobre todos os da feytoria, como Jorge de Brito tynha, que era provedor //da fazenda e... He... Vosa w Alteza ...em cazo que Lopo Soares... tirando-me o que Vosa Alteza me dava per seus regymentos, porque o fez soo... de me fazer maa hobra, e não por ser voso serviço; 8 — ET"; 9 —BT 9 3
  • e se o nom fizer, ficarey com menos trabalhos e com mais escandollo de o ver roubar a quatro moços, criados de nom sey quem, e com tudo não mo ha o coração de consentir, se o vyr fazer mal, de nom acudir sobre iso, como a quem a-de doer mais que a eles, a perda de Vosa Alteza, nem lhe ey-de consentir fazer o que Vosa Alteza defende em seu regymento, nem muito menos dar pra- çarias com suas cousas acostumadas; asy senhor, que Vosa Alteza pode dormir seguro, de como tendes Malaqa povoada, pois eu estou nella. Lembre-se Vosa Alteza e de mim e de nos prover com as cousas neçesarias a voso serviço, porque espero em Noso Senhor que eu sirva Vosa Alteza esta jornada tam bem e milhor que as outras, que tenho feytas que sam muitas, e a minha vontade; e de- pois que Vosa Alteza me mandar muitas naos e jente, pera o que dito tenho, beyjarei as mãos a Vosa Alteza que se lembre de mim, e de minha honra, porque creo, que segundo Melaqua he cara, que eu hirey ho mais prove homem do mundo, porque ja entrey nella, tendo gastado na ida do Mar Roxo, e no tempo que estive na índia, quanto tinha, porque segundo os gastos e os muitos ir- mãos e parentes, e eu ser mao chatym, tenho menos oje neste dia do que trouxe de Portugal. Asy, Senhor, que o que quero dizer he que ho soldo desta capitania sam duzentos mil reis, e mais as drogarias que se carregasem H T.i pera Cochym // ho... e dos outros capitães... e eu agora gasto... dou tamanha mesa como... por, porque tãobem a da gran... gasto por qanto, senhor, beyjarei as mãos de Vosa Alteza, que ao menos me de o que onestamente me abaste, ainda que ponha no mais as lynhas de minha casa, porque por estas cousas deu Afonso de Alboquer- que ha Pero l# de Alboquerque, em Ouramuz, quatro 10 - P.o. 9 4
  • centos mil 11 reis por ser terra de neçesidade, e nom sendo com a metade desta em que estou; quero leixar de falar mais nisto, por tornar a dizer algumas do voso serviço. Item. Senhor, Lopo Soares mandou a esta çidade e fortaleza por alcaide-mor a Duarte de Mello e por feitor a Gaspar Rodriguez, ao qual deu grandes poderes na fazenda de Vosa Alteza, e duzentos 12 mil reis de soldo, e cincoenta quintaes 15; e asy mandou escryvão para a feytoria, a saber, Fernão de Almeida, Ambrosyo do Rego, Bastyam Lopez, o qual Bastyam Lopez he homem de preço e pera muito, porque em algumas cousas que se aqui acharão feytas, e muito graves, ele mostrou mais fineza que ho mesmo feitor, o qual elle e eu nom podemos resystir, porque crea Vosa Alteza que honde pende o capitão-mor todos pendem com ele; nom falo mais nisto, nem menos no que pasey com Lopo Soarez, depois que se partyo Frenão de Alcaçova, que me ele quis dar conta do que pasara com ele e da negociação que niso tevera, e pello que lhe eu dise, e responder, me quis grande mal, que se me poderá destroir, fizera-o, ate favorecer Lou- renso 14 // Moreno contra mim... quando veo de Goa... (5 r.i hos roubos, que tenha... cargo, e tratos que tem em... E Paleacate per mão de huma... estrangeyro, e na pra- çaria Diogo15 Pereira 14 e ajun... como digo que lhe dise por voso serviço, e asy o de Fernão de Alcaçova e onde Lourenço Moreno me prendeo, e dizya que me nom queria mandar a Malaqua, nom olhando meus mereçimentos, nem quanto favor lhe fyz com minha pasada aquele anno, que foy ao Mar Roxo, e la quanto serviço fyz a Vosa Alteza, e nom olhando a tudo isto, e a outras que nom escrevo, porque o ey por baixeza, provou todos os estados de sua presunção e de sua malquerença contra mim, pera 11 — ilQõ; 12 — ijc7 1J —Qi; 14 —L.«0; 15 — Di.o; 16 —p.r». 9 5
  • me danar meu mereçimento; e também Diogo Pereira, como culpado em muitas outras cousas, com que cada dia he achado, se me deu por parte para sospeição do que elle podia dizer. Item. Diogo Pereira tem atravancado toda a índia com tratar em todas as mercadorias defezas, que não fica feytoria em que nom tenha hum homem seu; agora aqui em Malaca se acha que tem Lopo Vaz, que foy aqui fei- tor, ter mandado a muitas partes juncos e naos com mer- cadorias suas; asy o diz alto a quem o quer ouvyr e creyo verdadeiramente que outros são niso com ele, pois tanto se favor da a todo e por esta carta que ele escreveo a meu Irmão que ya para Dio, a qual aqui mando a Vosa Alteza, em que lhe encomenda hum zambuquo (i) seu, [5 t.) que hya carregado de pimenta // que... ja la era ven- dido ao... soube aqui a gran soma... que mandou do roubo que fez... Silveira tomou nas ilhas e asy (mandou) feitor a esta terra, que toda esta (ocupada), com cousas suas; e para mais dyabrura, ordenou, sob tytulo de voso serviço, que desem esta feytoria a Gaspar Rodriguez IT, pello tirar da India, e para qua fazer suas cousas; o qual ja temos sabido pelos favores que contra razão e sem justiça que se fazem ao dito Lopo Vaz, seu cunhado, e eu creo que Bastyão Lopes escrevera e dara conta de algumas delias a Vosa Alteza, porque as sabe de porta adentro; nom fallo mais nisto, porque espero em Noso Senhor que as cousas do serviço de Vosa Alteza as faça j Zambuquo, sambuco, e çambuco: pequeno barco oriental, de fundo chato e sem coberta, que se usava antigamente na Índia Oci- dental, na África Oriental e ainda hoje se usa na costa da Arábia (Dalgado. op. cit.). 17 - Hz. 9 6
  • e as vygye, que ellas se fação em meu tempo, como todos os bons servidores devem fazer. Item. Senhor, a despovoação de Malaca he em tanto estremo que ho não sey acabar de dyzer a Vosa Alteza, porque acho que nunqua se tratou vosa fazenda; somente foy sempre morta, e as despezas 18 carregarão sempre todas sobre vosa fazenda, e para iso tinhão tantos modos e maneiras de roubar que he encribily; e para que Vosa Alteza seja avisado, por quantas maneiras o sam e se faziam, e ora o voso feytor me parece que começa a levar mao caminho, porque ja nas cousas de Lopo Vaz, que tam herradas se acharam contra voso serviço, nom fez o que devia e hera obrygado, como voso feitor e pro- vedor ", que pello capitão-mor lhe foy dado, como ja tenho dito a Vosa Alteza, asy que tudo vy fora do que a voso serviço cumpre, //o que nom durara... Aleixo aqui [6 rI estiver que... day en dyante carrega a culpa... do que agora ate então se fezer... Vosa Alteza tomar esa conta ate o dito tempo, porque eu ate hora nom entro em jogo, nem ouso fazer o que de voso serviço comprir, por ver que as cousas levão outro bordo: seja Vosa Alteza certi- ficado que se ouver quebra com Gaspar Rodrigues, que hora he feitor, que ha-de ser pello que tanto a voso ser- viço compre, desviallo do caminho, que leva, que ate aqui vay muy herrado, e nom no ey de consentir, pois esta craro que nynguem se ha mais de lembrar do voso serviço que eu, e esta confyança deve Vosa Alteza de ter sempre em mim, pois a certeza diso ha tem ja Vosa Alteza per experiençia. Item. Ho capitão-mor mandou a Dom Aleixo que em caso que esta cidade estivese em muita necesydade de jente, que nom leyxase nela mais que trezentos e vynte 18 — desp.&s; 19 —pp.dor. ihsulíndia. I — 7 9 7
  • homens, a saber: duzentos pera o mar e cento e vinte 20 pera terra: hora veja Vosa Alteza como se ysto pode sofrer, porque contynuadamente ha metade de jemte he sempre doente, afora outras neçesydades que pera muitos cabos Malaca tem, per acupação da jente, que os mes- mos junquos, que cada hum anno se podem de neçesy- dade armar, são quinze 21 ou vinte 22 per as partes que Malaca nom pode escusar, e cada hum destes junquos ha mester dez homens, e estes de neçesydade, pera o que compre a navegação e trato de Malaca e a vosa fazenda se tratar, como compre a voso serviço, pera se aproveytar e ser senhor do grande trato que tendes nesta cidade; e sua terra e senhorio, que são muy grandes e de grande preço, como ja outra vez tenho dito nesta a Vosa Alteza, que he mor que toda a India; e pois se nella nom em- prega o poder que nella ha mester, no que a voso serviço compre, fico asy com quatrocentos 23 homens sem nyso 16 v.i Dom Aleixo querer quebrar o mandado // de... da Vosa Alteza e porem elle... obrygação de Malaqua e esta aparte onde... socorrida em qualquer neçesydade que sobra... de estar contynos mil homens, porque hy esta... (setecentos) porque lhe pareceo razão sendo... e que não tem tanta obrigação, como esta cidade, que ha mester o dobro, quer comprir o que Vosa Alteza manda e leixar perder o ser- viço de Vosa Alteza, por a mim fazer maa obra, nom sabendo la em Portugal a neçesydade que hora tem Ma- laca. Item. Senhor, eu trabalhey agora com Dom Aleixo que mandase hum junquo, em que Vosa Alteza tynha ametade, a Syam, porque sey quanto gosto Vosa Alteza niso levara, da qual hida se espera muyto proveito, e todo boom conçerto, porquanto estava descontente desta 20 — ctoxx; 21— xb; 22 —xx; 2J — iilj.o. í>s
  • cidade, por lhe Jorge de Brito mandar queimar hum lugar seu, que se chama Queda que he comarqão desta cidade, e este rey foy senhor de Malaca e todas suas terras e he o mayor que nestas partes ha, e tem em seus reinos muitas e muito riqas mercadorias, entre as quaes, são beyjoym e brasyl, que he grande cousa pera Cam- baya, marfim, chumbo, salitre, sal e muitos robys, ouro, e açuquar e outras muitas e muito grande abastança de mantimentos, que agora he a principal mercadoria para esta cidade; e vay la hum Duarte Coelho, que he homem muito honrado e foy la outra vez, a çerto; sabe muito bem a terra e fala, e mais he homem que ca tem muito bem servido Vosa Alteza honde quer que ho mandem, e asy nesta cidade, gastando muito sua fazenda em guardar huma tranqueira que fez a sua custa, e he homem que sempre tem dado de sy boa conta. Item. Fernam Pirez nom he vindo da Chyna, espe- ramos que seja aqui por todo Outubro, ate quinze dias do mez de Novembro; prazera a Deus vira a salva- mento. Item. Senhor, compre muito a voso serviço mandar e defender ao voso capitão-mor que nom mande nenhuma armada as Ilhas, porque ajudão com elas a destroir esta cidade, porque doutra meneira o fazia Afonso de Al- // Ur buquerque por esta... a ganhar e fazemos nas... que nom venham ou... ho por muito pera Vosa Alteza... a menos parte lhe cabe e o mais he... ofyçiais, como ja melhor tera sabido... e outro anno de quinhentos desasseis se la tomou que todo o proveyto foy de... Diogo Mendes com os outros que furtarão e Vosa Alteza... toda perda asy no damno que causão a esta cidade como em nom aver nada das taes presas. Item. Senhor, as cousas vão de ca de tal bordo que, se algum homem quer entender nas cousas que ententa se 9 9
  • fazem contra voso serviço e se as estranhão e contradizem de ser mal feytas, logo são ponidos e os desonravão, e faziam todo ho mal que podia ser; estes são os vosos criados, aos quaes nunca per Nuno Vaz e Lopo Vaz da vão os carregos e ofycios com que os Vosa Alteza manda prover, aos quaes dooy mais o voso serviço que a outra pessoa, e por acudirem por elle, erão destruídos; como achey aquy hum Luis de Alvarenga, voso moço da camara, que foy per estes muito maltratado, por procurar pelas cousas de voso serviço, que nesta cidade se fazião, em roubarem tão altamente Vosa Alteza, como ate quy fizerão; e certifyquo aqui Vosa Alteza que, pela infor- mação que deste Luis de Alvarenga tenho, he que nestas partes tem feyto muito asinados serviços a Vosa Alteza; e asy o fizerão a outros muitos vosos criados, que se me diso agravarão grandemete, tanto que aquy che- guey. Item. Senhor, sabera Vosa Alteza que as terras que de antigo tempo sempre tratarão e soyam vyr a esta cidade, são estas, as quaes agora nom vem por culpa dos capitães pasados e armadas com capitães-mores no mar de Malaca, que he cousa bem escusada, pera o que ao serviço de Vosa Alteza compre. Item. Quambaya, e toda costa da India e terra de Boom Qulim, e Bengala, Pegu e Tenaçarim, que he do reyno de Syam, e confina com Pegu, pela banda do Sul, e em Teneçarim, ha todalas merquadorias, como em Pegu, e vem a ella muitas roupas de Bengala e de outras it v.] partes. // Item... muitos reys e da banda do... a saber, Pedir e a Pindara pasar... Frol de la Mar, com Affonso de Alboquerque em... com muitos cristãos naturaes desta... e ainda dizem que hahy estão as bombardas e muita fazenda de Vosa Alteza; e Afonso de Alboquerque deixou i o o
  • em seu testamento 24, que estes cristãos se resgatasem a custa de sua fazenda; veja Vosa Alteza o que niso hor- dena; e Aru, reyno grande, mais chegado a Malaca, tem guerra comnosco, e a poucos dias que veo a destroyr Pane, honde achando-se Verisimo Pachequo, com a cara- vella em que hya pera a índia, ajudou o de Pane; e com sua ajuda e favor tornou a lançar o Rey de Aru fora de sua terra; e Pam, que he terra e reyno sobre si, e o Reyno de Cyaca, donde he o ryo de Manacabo, honde ha ho ouro pelo dito rio acyma, oytenta legoas; este he muito grande rio, e tem tres bocas muito grandes, que vem ao estreyto de Palymbão; e o reyno de Campar donde hera Raja Abedola, que Jorge de Alboquerque mandou degolar, por se achar ser tredor a voso serviço, o qual reyno ora esta a obediência del-rey de (Byntão). Item. Ho Rey de Andregy que he na mesma... que hora casado com a filha 25 do rey de Byntão, e esta com elle em Moar, e o Reyno de Palymbão, que he no cabo da terra da ilha contra Java, e ha terra de Ragalynga, que são ilhas pegadas com Bymtão; este Regalinga foi ja desbaratado da vosa armada, e agora me diserão quer nosa paz, porque esta emigo do rey de Bymtão, porque lhe não deo a filha, que casou com Rajanara, que he rey de Andregy, que hora esta com o sogro em Muar, como ja em cyma he decrarado. / / E todos estes reys da banda do Norte e da banda do Sul dizem quê são grandes reys e senhores e terra de muito grande soma de ouro que ainda nom he por nos descoberta. Item. A terra de Java, que he muy grande e mayor que a de Çamatra e da banda do Norte, he navegada por nos e tem estes reys e senhorios, a saber: começa em o reyno de Çunda, da banda do Nordeste, onde ha muita (8 r.I 24 — testm.to; 25 —f.». I O 1
  • pimenta e arroz, escravos e ouro; esta de guerra e ma- tarão agora la, em tres 26 junquos que Nuno 27 Vaz tinha mandado, dez ou vinte homens, e tomarão toda a fazenda dos ditos juncos, tudo por mao recado do dito Nuno Vaz, por mandar por capitão-mayor dos ditos junquos, hum Nuno Freyre, casado em Goa, de muito maa cabeça, avendo aquy muitos vosos criados, pera darem conta de couzas de grande pezo; e a estes destroia, e mandava albardeiros e homens que Vosa Alteza nunqua vyo, per honde se fizerão este e outros maos requados, que per elle nestas partes são feytos. Item. Ha terra de (Dema?) que he reyno sobre sy, donde he Pate Niz, que veo a esta cidade e pelejou com a vosa armada, senhor de um porto; porem na terra ha rey de grande senhoryo. Item. Tubão e Cedão são na costa do mar e tem se- nhores, porem, a terra dentro ha outros reys que nom são ainda mouros. Item. Ho porto de Agaçy, que he o mayor e mais principal de Aga... a por onde hão de yr os nosos jun- quos, que vão pera Banda e Timor e Maluquo; este esta de paz e pouquos dias ha, despois de minha chegada, que veo de la hum pangajava, que são navios de carga, e trouxe novas de hum junquo noso que la mandou Nuno Vaz, que ardeo com toda a mercadoria, estando ja car- regado para vyr, per mao cuidado que ho capitão e feitor do dito junquo teverão; o Capitão hera hum Bezerra, castelhano; e o feitor, hum Barbudo; nenhum deles, voso criado, que ja com outro junquo a costa (sic) em Banda; is v.] asy, que desta maneira andava // Vossa... hos e os vosos criados por... nesta ilha outros mouitos portos 2"... que são ja mouros, e de dentro da terra ha grandes reys, que 26 —iij; 27-N.O; 28 —P.tos. I O 2
  • senhoreão os portos e são gentyos, nom forão ainda visi- tados por parte 22 de Vosa Alteza, e dizem que dezejão muito vosa amizade. Item. A ilha de Madura, que sera de corenta legoas de costa, per cada huma das bandas, e esta pegada com a da Java, da banda do Norte, corre-se noroeste-sueste, e faz grande enseada e porto antre ella, e a Ilha de Java; e no começo e entrada desta banda do noroeste he o Porto de Agacy, por onde os nosos junquos vão e vem para Tymor, Banda, Maluquo; e te (?) este porto he necesaryo ir com eles huma nao, e caregar ahy de man- timentos e tornar a esta cidade, isto cada hum anno; e quando os ditos junquos tornão, a mesma nao compre andar na boca de estreyto de Palymbão, pera os nom vyr aly tomar Pa te Niz (?), que pera isso tem sempre feyta armada no canal, dante a ilha de Madura, e da Java; o mais baixo he de duas braças e meia 30 escasa ate sahir de fora do canal, pela qual razão os junquos, quando vem caregados, se lanção per fora da ilha de Madura, e vem a Tubão, que he costa brava, e ahy, o mais prestes que podem, tomão mantimentos de que trazem neçesydade, e outras cousas, e mercadorias pera esta cidade. Item. No cabo desta ilha de Java estão dous reis; hum de Cynbaba e outro de Bymba; estes estão mais chegados as ilhas de Timor e Banda, e he a primeira 31 terra que tomão os que vem das ditas partes; ha dahy a Banda setenta 32 legoas de travesa, estes dezejão muito a paz e amizade de Vosa Alteza; nom forão ainda de vosa parte vysitados; de como sais do Canal de Agacy, ate alem de Maluquo, nom ha nenhum fundo em todo este mar; em Banda e Timor, estes Reis, tem portos muito 29 —p.M; 30 — m.»; 31 —pnn.»; 32—Lxx. I O £
  • bons e muitos mantymentos, e são gentios e avorrece-lhes r.i 0. conversação dos Mouros. // Item. Na costa desta cidade... da banda de les-sueste... Sião e asy o hira o Rey de Bytão; em Pão ha ouro, esta contra nos, e tem tomado fazenda de Vosa Alteza; Pa- tane esta em paz, ho Rey de Syão cynge todos estes rey- nos, e outros muytos, e toda a terra de Malaqua, pela banda norte e do sul, como Castela a Portugal, e tem hum porto corenta legoas desta cidade, que se chama Queda e Torão e outros lugares, e este Queda he o que Jorge de Brito mandou queimar. Item. As Ilhas de Bruneo, que tem muito grande terra, e rey sobre sy; destas ilhas são os que se chamão os aluçães, jente muito leal; esta vão aqui dous junquos, ao tempo da minha chegada; foy-lhe per mim e Dom Aleixo feita muita honrra, e escrevy ao rey de Bruneo como mais voso serviço me pareceo, estes trazem qu... de comer, que he mui grosa e de grande valia para... ala, e todo Guzarate, ouro e cera e muitos ma... Item. Ho Reyno de Champar, donde soya a vyr o lenho alohe e calambuquo (2) a esta cidade, aquy leixou Manoel Falcão o batel e homens e bombardas; este rey nom foy ainda vysytado, nom esta em guerra nem paz. Item. Achym, terra dos Lequeos, que jas ao leste da ilha donde hos navios vão fazer a carrega a esta terra ,dos Lequeos, nom foy ainda nenhum homem voso; soiam a vir a esta cidade; na Lequea ha as muito fynas mer- cadorias das sortes da China: todas estas terras, e outras muitas, que serião largas de escrever, tratavão e vynhão (2) Ou também calambá, como em malaio kelambak, pau odorí- fero que os nossos escritores assemelhavam ao pau de incenso, aguila. I04.
  • a Malaca, como dito he; tem Vosa Alteza muita neçe- sydade, segundo " a informação que diso tenho, de aver feitoria em Banda, onde ha mester fazer-se caza forte; se Vosa Alteza niso ouver de mandar fazer alguma cousa, parece-me que tem neçesydade de Luiz de Alvarenga, que he homem que diso sabe, e tem visto destas partes o mais, e he pesoa para diso dar // boa conta... de voso serviço, e fico... servir, e como a voso serviço compre, que outra nenhuma pesoa, por ser homem pera feitor de huma grande fazenda. Item. Cumpre a Vosa Alteza, pera esta cidade aver de tratar com as partes sobreditas, pera Banda do sueste... tem muita neçesydade das mercadorias e roupas de Cam- baya e Bengala e Boomquelym, e compre fazer arribar os navios desta Banda, que nom fyqeem em Paçem nem outro porto algum, nem vyrem a esta cidade, como sem- pre foy de antygo costume, no que Vosa Alteza recebe muito proveyto, nos direitos das ditas naos e mercadorias de que esta cidade tem muita neçesydade, no que sempre huma nao compre ser ocupada contynuamente; esas rou- pas valem em todas as partes da banda do sueste, e em toda a ilha de Çamatra, e terra de Java, e na China, pomo... daly caro e que vendem de Cambaia e com outras mercadorias. Item. Outras mercadorias ha na Java que se... com os da Cambaya, Bengala e Quelím que valem... ilhas de Bandão e Tymor, porem nom leixão por iso... la valia as ditas mercadorias de Guzarate e Bengala e Booque- lym. Item. De Banda vem a maça e noz e cravo, que dahy vão por elle a Maluquo; e sandell que ahy vem ter de outras ilhas, junto com Timor, que ainda nom são (desço) 33 — eeg.do. 105
  • bertas per nos; são sabidas, he sandollo... (some)nte he meudo, e vem ferro da outras ylhas que se acha de Ben- gaya, que outrosy ainda nom som descobertas, são mui- tas; jazem, quando vão de Banda pera Maluquo, ao norte, e o caminho pera Maluquo de Banda he ao norte, asy que destas e outras muitas ilhas Bandão he a escala principal, e asy ha marfym; as quaes servem pera Ben- galla e Cambaya e Boomquelym, honde se gasta algum pouco cravo, como da Chyna, e o mais pera eses reynos de que Vosa Alteza tanta neçesydade tem, que per esa no r.i causa lhe conveo tomar Malaqua. // Item. De Timor... (sandado) cana fistola... Bengala terra... (Boo)quelim e toda a costa da índia. Item. Da China vem ouro, e prata 34 ,e seda solta, e em muitas sortes de peças, feitos em panos, de muitas cores e sortes; canfor, atria (?), ruy barbo, ferro e açu- quar, almisquar e aljôfar... calambuquo que vay do reyno de Champar pera o ...nom virem a esta cidade, como soyam; e outras muitas mercadorias, que valem em toda a terra de Guzarate, Bengala, e terra de Booquelym, e em toda a Costa da índia. Item. De Pegu vem almisquer, beijoym, alacre, mui- tos robres e procelanas... andas para Cambaya e muitos enfyndos mantymentos. Item. Nas (ilhas) de Tanjampura, ao Mar da Java, ha diama(ntes) e ouro, e em Champar, marfym, e lenho al... calaboquo, como ja dito he. Item. De... muito ouro, e aggyla alguma... Item. ...muita pimenta e seda solta, beijoym pouco e... breu (ro)tantas e cairo que vem das ilhas de Mal... asy tem azeytes e outras muitas cousas. Item. De Queda, breu, e pimenta ", e azeyte, e todas 34 —p.<»; 35 — pm.". I O 6
  • outras fruytas de seus beteles (3) e coqos; he do reyno de Syam quarenta legoas a esta cidade, e asy ha isto em Torão que outrosy... Reyno de Syão. Item. Na... ha pymenta longa, e cubebas e canafis- tollas... e mantimentos e çafyras. Item. Calanga, e de Bernão, e Michão, e Buruez, terras de Melaqua, que estão alevantadas, esta he a terra do estanho, sam cincoenta " legoas desta cidade; em todas estas terras, e outras, ha muitas mercadorias que nom sam ainda a nossa notyçia, pelas quaes trabalhão muito os da Cambaya e doutras partes, polas averem, o que tudo se acharia nesta çidade se se navegasem e a ela viesem, como sempre soyam fazer, e de antyguo cos- tume hera, e se leixa de fazer por mao regimento. // no Item. Nos lugares... neçesarias, asy... desta cidade, e que a ella venha tudo, como parte principal, donde hão-de emanar todallas... como a feytoria de Pacem, que Vosa Alteza per sy... que esteve com Joanes, que hera causa pera dest... hua tão honrrada cousa como Malaca... cousa tal e tão rica que no mundo nom ha semelhante, pera que ha mister naos, jente e cousas que a Vosa Alteza tenho aqui dito, se Vosa Alteza quer posuir a melhor cousa do mundo. Item. Polio que compria as cousas do voso serviço escrevy, antes que da índia partysse, cartas a Meliquoaz de Dio e a el-rey de Calecut e a Paleacate, notefycando- -lhes como eu vynha pera esta çidade e que mandasem a ella suas naos a tratar honde... mim seria feita muita (3) Os nossos dicionários registam também o nome desta planta da família das labiadas, cujas folhas são utilizadas pelos povos orien- tais para a confecção da masca, adicionando-lhe cal, areca, e outros ingredientes aromáticos. 36 — L.ta. I07
  • honra e favor p... mo manda Vosa Alteza fazerem... muito em seus regimentos das quaes ouve... e del-rey de Calecut em como per ellas por... monção vyndoura man- darem a esta çidade... como os tratam, e que se o bem como eles... que cada anno fariam o semelhante. Item. Ao tempo que chegamos a esta çidade achamos preso, o mais desonradamente que nenhum homem foi, Antonio Pachequo, por Nuno Vaz, e segundo as (culpas) são pequenas, mais era a tal prizão com... do que com razão, porque agora, depois de solto, o vejo e todos os mercadores muito seus amigos, e nom se queyxa nin- guam delle, e porque, por sua parte som suspeito, nom quero mais niso falar. Item. Pero de Faria também estava preso, sem acu- sador, nem parte, nem causa feyta, porque o devesem prender, mas antes fazer-lhe merçe, como elle muy bem (ii r.i mereçe por ter feito muito serviço, e amigo das cousas / / de voso serviço... e somente por as procurar de ma- neira... he. Item. Senhor... Ant (Fi)gueiredo veo por mandado do governador qua, pera ir a Maluquo... recado com Francisco Serrão avya de yr, se o pod... falo-ey como o dito governador mandou senom... ou lhe fara ha merca em nome de Vosa... alguma vyagem proveitosa, pera que posa manter-se e dous filhinhos que traz consigo. Item. Ho... para acabar de lançar a perder esta... e proveo todallas capitanias e junquos e feitores, que daqui ouvesem de partir pera as partes que dito he, as quaes deo a homens, que nom sabem as terras, e o que nyso am-de fazer, pelo que os mercadores estam de bordo, pera nom armarem por esta... Jorge de Brito fez outro tanto logo ho... chegou e se perderão por mao re... as pesoas, que niso meteo, nom saberem as... ou oyto jun- quos que os fizerão muito esta... e foy grande aos mer- i o 8 >
  • cadores, e a vosa fazenda pelo... nom olhando o dito... mor que avya aquy criados de Vosa Alteza... honrados, e que sabem bem estas cousas... aver muitos tempos que andam, e vos servem, e sabem... cumpre ao trato, e mer- cadoria das terras. Item. Mais, senhor, sabera Vosa Alteza como este homem faz todallas cousas como quer e não como Vosa Alteza manda, que agora, nesta minha vinda, mandava que Nuno Vaz estivese por capitão, ate partyda de Dom Aleixo, que avia de ser por Janeiro desta era que vem, de quinhentos e dezanove, e elle, dito Nuno Vaz, tynha embarcação, e se podia ir agora, per Agosto, e por aqui vera Vosa Alteza como se as cousas ca fazem, per (ade- rência) e não per razão nem como Vosa Alteza manda que se faça. // 111 v.i ...nom compre o capitão... Vosa Alteza ha ordenou como fez a... Alcaçova, e Ayres da Sylva, Antonio de Saldanha... handa se não esgaravatando culpas ao... como se elle nom tevese nenhuma e como... todallas cousas da índia feitas tendo a... fez, e ganhou des- troidas. Item. Vosa Alteza deve escrever e mandar... com alguma merçe ao Colesequar, e a ou... principais, que ha nesta cidade... que por yso... muito serviço feyto no concerto desta çidade, Colesecar e Nynacuradeva, ho Tamungouru de Raja, e prinçipalmente o Colesecar que he homem cavaleiro, e que sempre ajudou a soster... e tranqueira sua, que tem fora desta... ao bandara ja esta contente e tem... a que lhe Vosa Alteza mandou, a qual foy... festa e eu fuy com ele a sua casa com... carta por ser... honradamente, que... ser, e asy se fez. Item asy me parece que compre a voso serviço man- dar algumas peças e joyas pera se darem a este... senho- res comarquães, que com ajuda de... espero deles tor- i o ç
  • narem todos os voso serviço... da maneira que ate aqui esteverão. Item. Compre muito a voso serviço que o capitão desta çidade ande mais estymadamente que os outros capitães da fotraleza da índia, por ser terra de muitas treyções e a-de (representar) voso grande estado, honde vem muitos embaixadores de grandes reys e senhores, com quem Malaca confina; e pera esta neçesidade e res- guardo compre fazer-se hum pouco de mais gasto, e se por caso o eu fizer, beijarei as mãos de Vosa Alteza [12 rj avello por bem e não. (estranhar) // ...trazer algumas, ...outras... aos taes casos necesarios... minha casa. Item. Que... Alteza apropriadamente de Portugal sem- pre botyca pera... per que alem de estar longe, e mal... de calydade, que ha mais mister as... outras nenhuma e agora aceitamos aquy... nosa botica mais que o nome de botica, sem poder remediar para se dar huma a hum ornem, onde tanta jemte adoece (como a Vosa) Alteza tenho dito. Item. Estando esta caravela pera partir, veo aqui hum par ao (4) del-rey de Bytão; creo que Dom Aleixo tinha falado com hum mercador e dando-lhe licença que po- dese niso travar (sic), pelo qual a vynda do dito... a iso e trouve huma carta do mesmo rey pera... e outra pera Dom Aleyxo, dos mandarins em que (diz) folgaria com paz; e asy outras cousas... ouvy dizer a carta nom vynha muito cortes e por iso a nom mostrou Dom Aleixo, e eu creo que a elle lhe nom mandou... hum seguro que podesem seguramente vir asy... e tratar estas pazes, como quaesquer mercadores que... que se quizesem vyr; porem (4) Pequeno barco, dito também paní. Em malaio, perahu, e em Tetun, parau, com dois flutuadores de bambu; R. Dalgado, op. cit., (q. v.) refere-se à etimologia da palavra. IIO
  • eu diso nom sey mais... que se guarde de todo, como faz, seu tio, que... conta a ninguém de nada do que faz, cui- dando... de mim, que devyam de me mandar buscar ao... pera tal negociação destes tratos, e porque... foy tão frya, que parece que nom vyra. De Malaca, a vinte dias de Agosto de quinhentos e dezoito. ill
  • 13 TRÊS REIS DAS MOLUCAS ESCREVEM AO GOVERNADOR DA ÍNDIA, LOPO SOARES DE ALBERGARIA 1518 ANTT: Gaveta 15-15-17. Cópias cm duas folhas escritas com letra um tanto difícil de ler. Esta é já a segunda vez que os reis das Molucas escrevem para a Índia a pedir que se lhes construísse uma fortaleza naquelas partes. As primeiras foram remetidas por intermédio de António de Miranda de Azevedo, com outras de Francisco Serrão, cujos originais ou cópias não pudemos ainda encontrar, se é que não se extraviaram. Do procedimento de Alvaro Diogo Coelho, enviado às Mo- lucas pelo capitão de Malaca, Jorge de Brito, pouco se sabe, mas por estas cartas vê-se que procurou cativar as simpatias do rei de Geilolo, na ilha do Moro, o que parece ter desgostado o rei de Ternate. Saibam quantos este estromento de fee e trelado, dado em puvrica forma, per mandado do senhor Affonso1 Lopez da Costa, capitam desta fortaleza e çidade de Malaca, por el-rey, noso senhor, virem, como no anno do nascimento de Noso Senhor Jesus Cristo, de mil quinhentos e dezoito annos, aos dez 2 dias 3 do mez de Outubro, da sobre dita era, em a dita fortaleza, dentro na torre de menagem, estando hy o senhor capitam, em presença de mim, taba- 1 —A.O; 2 —X; J —di. 112
  • liam \ loguo per elle foy dado juramento nos Santos Evangelhos a Jorge Alvarez, homem de armas que sabia a lingoa de Malaca, que bem e verdedeiramente interpre- tase tres cartas dos reys de Maluco, que foram trazidas per Alvaro " Diogo * Coelho, capitão do navio Sam Cristóvão que pêra laa foy enviado por Jorge de Brito, capitam foi nesta fortaleza, (sic) na era de quinhentos e dezasseis annos, pera ho senhor governador da índia, em lengoagem portuguesa; as quaes elle, dito Jorge Alvarez, declarou, lendo-as Lebeucem, mouro natural de Malaca, o qual em sua lei, peramte o senhor capitam, de as ter fielmente, os quaes eu tresladey aqui de verbo a verbo, a saber: Carta de Yçufo, rey de Geilolo, pera o senhor Lopo Soarez, governador das Índias, per el-rey, noso senhor. E poderá haver quatro annos que a ilha de Ambosy (?) chegou hum Martim Gonçalves (?), capitam del-rey de Portugal, homde achou hum capitam... João Cami- nho (?), pelo qual me escreveo huma carta de parte del-rey, a qual eu laa mando pera que vejaes se faltei em alguma cousa // das que da parte del-rey nella me i1 T-i mandaram. O mais que desejo, este capitam que qua man- destes dira de palavra, porque elle he booa testemunha 7 de muitas cousas que qua pasaram e poderam pasar, se eu a iso dera lugar. O prezente que o capitam de Malaca me mandou to- mey e a carta lhe torney a mandar, ate ver o conselho que tem sobre estas cousas de Francisco 8 Sarão el-rei de Ternate. Em todalas cousas que pude o ajudey como elle sabe. A graça de Deus seja comtigo 4 —5 — Alv.o; 6 —Di; 7 —t.»; 8 — Fr.«>. II 7 INSILÍNDIA, 1 — 8
  • Carta del-rey de Ternate ao governador da índia. Eu avera cinquo ou seis annos que no mando de Ma- luco tenho conhecido por senhor a el-rey de Portugal. Esta vontade creyo que se me non mudara, enquanto viver. Este capitam que ca veo per mandado de Jorge de Brito, capitam de Malaca, se sérvio de minhas cousas, enquanto as elle quis, ate que se lançou a parte (i) del- -rey de Geilolo, o que não devera fazer, pois eu também sou servidor del-rey de Malaca, espero ser. Diz-me o capitam de Malaca, em sua carta, que pera o anno mandara caa muitas naaos. Com isto folgarei, que muito ha que o desejo, pera que se conheça quem he ver- dadeiro amigo del-rey de Portugal. Deus seja comvosco Carta de Lebechuçem, rey de Maquiem, pera o senhor governador das índias del-rei de Portugal. Escreves-te-me que sedo mandaríeis naos fazer for- taleza em Maquiem. Deos sabe quanto ha que eu iso de- sejo, mas nom quis Deos que iso fose em meu tempo, porque sou desaposado de tudo; e isto por parte e com ajuda del-rey de Ternate, porque nos vio çego e sem filhos ', reynou contra mim. Perdoe-me porque não pude fazer honra a este capi- tam. Se naos mandares, mande que nos ouça e de a cada hum o seu. Conserve-te Deus (i) Parece ser a correcção de par. 9 - f°s. 114 » A
  • O qual trelado de cartas eu Antonio Roiz, escrivão pubrico judicial, treladey pela maneira que dita tenho, aos dez dias de Outubro da dita era. Tabalião que sou no sobredito, per mandado especial do senhor Dom Aleixo de Menezes, capitam-mor nestas partes e por Diogo 10 Pereira ", tabalião pubrico, per el-rey, noso senhor, de todas estas partes, e asy nas partes da India que este estromento escrevy e meu pubrico sinal fiz que tal he. 10 — DM; 11 — l>ra. * ' 5
  • 14 CARTA DE GARCIA DE SA, CAPITAO DE MALACA, A EL-REI Malaca, 23 de Agosto de 1520 ANTT: Gaveta 15-10-2. Original em duas folhas, sendo uma escrita com letra muito livre e de leitura difícil. Mede 300 x 210 mm. a) Notícias de Francisco Serrão. b) Suspeita de que três naus vistas perto da ilha de Java fossem de Fernão de Magalhães. Senhor, Este homem veio de Maluco; he homem que ha nove anos que la esta com Francisco Seram. Mando-ho a Vosa Alteza, porque lhe sabera dar recado da terra e das cousas dela. Francisco Serão não veyo, por causa da monçam do tempo, e Dom Tristão, podendo pasar e vir ha Malaca, se deixou fiquar, por trazer, pera ho ano, Francisco Se- rom he outro gunco (sic) que com elle vinha carregados de cravo. Agora, senhor, me deram nova que na ilha de Jahoa, na costa de alem, pera a ilha de Sam Lourenço, que vi- ram tres naos; dizem que eram portuguesas, no que não pode ser, e se he verdade, pola sospeita, cuydo que sera 1 1 ó
  • Fernão de Magalhães. Vosa Alteza sabera milhor a ver- dade. Heu escrevo ao capitam-mor que proveja sobre yso, e se a nova se mais acender, detrymyno, com quam fra- qua esta Malaca, socorrer ho mylhor e mais cedo que poder, porque, se he verdade, a presteza he o mais nece- çario, antes que façam algum acento com a terra, porque não sam senão com quem mais pode. Beijo, senhor, as reaes mãos a Vosa Alteza. De Malaca, ha vinte e tres 1 de Agosto de quinhentos e vinte '. as. Garcia de Saa l — xiiij: 2 — b« e xx. r i 7
  • 15 CARTA DO REI DE TERNATE AO CAPITÃO DE MALACA. GARCIA DE SA 1520 (?) ANTT: Gaveta 15-15-2Q. Cópia em duas folhas escritas com letra clara e bem legível. Esta carta, sem data, foi levada por Tristão de Meneses, enviado às Molucas por D. Aleixo de Meneses, que da índia viera a Malaca pôr termo às questões que ali se levantaram, por causa da sucessão, na capitania daquela fortaleza. Com Tristão de Meneses partiu também de Ternate, em junco próprio, e como embaixador, um enviado do rei que chegou primeiro, e se de- morou cerca de seis meses em Malaca, regressando à sua terra sem se ter convertido. Mede 2ço x 215 mm. Senhor, Por os nosos corações estarem hum pouquo descon- tentes e vivermos em aças de trabalhos, ordenamos de mandar este meu filho la, com aquella obydiemcya que he bem que aos taes senhores se de, e também, senhor, por ter fama que (a) todos os reys que vasalos e servy- dores sam del-rey de Portugal daes ajuda. Eu, senhor, folguey muyto de ouvyr a tal nova; entam detreminey loguo com esta boa nova de mandar este meu filho e Vosa Merçe porque, senhor, tamto monta elle como eu, poys vay em nome de minha pesoa. Senhor, ho que aquy peço he que, se for cousa que 1 1 8
  • posa ser, de vos haver huma bombarda groça, grande, e outra meam, e outra mais pequena, e com polvora e seus pelouros e todos seus conçertos; ysto peço a vos, senhor, porque tenho nova que el-rey de Portugal ayuda a todos hos reys que com elle sam, e asy acreçemta hos reynos // daqueles que seus sam, e por este respeyto u v detremyney mandar este meu filho a vos (i). Senhor, se em alguma cousa ele errar, pelo não em- tender nem saber hos costumes da terra, perdoe-lhe Vosa Merçe, asy como eu, senhor, farey a vosas couzas, se a Maluquo vyerem ter, he mays per Maluquo estar debayxo da mão del-rey de Portugal e vosa. Senhor, nesta terra de Maluquo vos quero dizer as mercadoryas que nela ha, que he cravo e maça e noz, e asy ho reyno de Maluquo esta a voso mandar, porque, senhor, eu tenho por nova el-rey de Quochym quem foy, he aguora quem he e as merçes que lhe el-rey de Por- tugal faz, porque, senhor, vos saberes que pequeno rey como eu sam, nunqua a rey pasado que em Malaca fose, nem a outro, me abayxey, nem menos lhe mandey embai- xador nunqua a Malaca senão aguora a el-rey de Por- tugal, porque, senhor, saberes que nem eu nem gemte de Maluquo não queremos outro senhor senão el-rey de Portugal. Senhor, para verdes quamto desejo cousa vosa, e por não aver diferemça nos portugueses com a gemte de Ma- luquo nas compras e vemdas, mande Vosa Merçe fazer hum ctachym a sua vontade, dentro em Malaqua, com sello dey-rey de Portugal, e mande-o por nesta terra, para por ele pesarem // quando forem e vyerem, porque 12 (1) João de Barros, Década III, cap. VII, diz chamar-se este enviado do rei de Ternate, Cachilato. que regressou à sua terra, após seis meses de demora em Malaca, pretendendo também o governo da ilha, por morte do velho rei, Boleife, amigo dos portugueses. IIÇ
  • hos que qua vem não querem pesar por ho dachym de Maluquo. Senhor, manday a terra de Maluquo como a terra vosa, porque, senhor, aguora nam fiqua demtro em Ma- luquo português mao nem bem, que se posa chamar português. Hp porque la mandey meu filho por embayxador a Vosa Merçe, he porque não era bem que la fose outrem a fazer as cousas de peso, em que me tamto fiase, como nele. i 2 o
  • 16 CARTA DO REI DE TERNATE, ABU HAY AT, A EL-REI s. d. ANTT: Gaveta 15-16-38. Original escrito em tnalaio com caracteres árabes, cons- tando apenas de uma folha, já um pouco danificada. Outras cartas existem, escritas pelos reis de algumas ilhas das Molucas, e de que apenas conhecemos os treslados contemporâneos, fei- tos pelos línguas da fortaleza de Malaca, e que também publi- camos neste volume. Desta presente carta, porem, nenhuma tradução pudemos encontrar, feita por estes línguas. Foi já em nossos dias que o Rev. P.' Schurhammer, S. J. se interessou Por esta e pela que a seguir publicamos, fazendo uma comuni- cação à Associação de Arqueólgos em 1. de Dezembro de 1930. O mesmo distinto religioso solicitou do conhecido orientalista C. O. Blagden a reprodução das mesmas em caracteres latinos e a sua tradução em inglês. Ê esta mesma reprodução que aqui publicamos com a sua tradução em Nota. Para mais pormeno- rizada critica deste documento Vid.: «Two Malay letters from Temate in the Moluccas, written in 1521 and 1522». Edited and translated by C. O. Blagden. (Reprinted from the Bulletin of the School of Oriental Studies, London Institution, Vol. VI, Part. I, 1930). Raja (1) Sultan Abu Hãyat surat datang ka-pada mama Raja Portukal raja (be)sar al-dunia 'alam se- (1) Letter of Sultan Abu Hayt to his uncle the king of Portugal, the (great) king of the whole world, the great lord. Because formely the king of Portugal ordered Francisco Serrão to come to the Moluccas (and he) came to grief at Amboina, and all the Rajas of the Moluccas heard that Europeans had come to grief at Amboina, the Rajas of 12 1
  • muha-nya tuwan basar karana dahulu Raja Portukal manyuroh Fragshisko Sera datang dari Muluku binasa dari Ambun maka Raja Meluku semuha-nya dengar Fe- ringgi ada binasa dari Ambun maka Raja Tedore dan Jailolo di-suroh Ambun semuha-nya berhimpah mau bunoh pada Frangshisko Sera maka Raja Ternateh den- gar di-suroh saudara duwa membawah perauh tuchoh buah di-ambil Frangshisko Serra membawah ka-Ternate maka nageri Ternate saperti nageri Portukal maka Raja Portukal suroh karawal membawah surat datang pada Raja Ternate karawal dan herta dan lashkar aserahkan pada tangan Raja Temate maka jong Ternate dan karawal balayar ka Melaka musin kasip dayam di Bajahan maka Tedore dan Jailolo di-suroh Raja Bajahan bunoh pada orang Feringgi dayan di-Bajahan herta dan lashkar se- muha-nya di-rampas maka Raja Ternate dengar maka Raja Ternate kata bagimana Raja Portukal jong dan herta dan lashkar aserahkan pada tangan kita mari-lah jong han herta dan lashkar kita suroh kembalek ka-Melaka jika tiada kembalek Raja Portukal jong dan herta dan lashkar tiada kembalek beparanglah pada Raja Bajahan maka Raja Bajahan pun hadir-lah senjatah Tedore dan Jailolo Tidore and Jailolo ordered all Amboina (to assemble together?) in order to saly Francisco Serrão. When the Raja of Ternate heard it, he ordered two brothers (of his) to take seven ships and fetch Fran- cisco Serrão and bring him to Ternate. So the country of Ternate (was) even as the country of Portugal. And the king of Portugal ordered a caravel to bring a letter to the Raja of Ternate, to deliver the caravel, goods and soldiers into the hands of the Raja of Ternate. And the junks (from?) Ternate and the caravel sailed for Malacca at the close of the monson (and) stopped at Bachian. Then (the Rajas of) Tidore and Jailolo ordered the Raja of Bachian to kill the Europeans stopping at Bachiang, and the goods and soldiers were all seized. When the Raja of Ternate heard it, he said: «How shall the junks, goods and soldiers of the king of the Portugal be delivered into our hands? Come, let us order the junks, goods and soldiers to return to Malacca. If the junks, goods and sol- 12 2
  • pun sertã Bajahan semuha-nya lengkap-lah Tedore dan Jailolo Bajahan lekas suroh anak perempuan itu anak Raja Bajahan dalam Raja Ternate perempuan itu kaseh maka dapat di-beri-nya rachu(n) maka wafa' at Raja Ter- nate dahulu Raja Tedore suroh jemput membawah Fran- gshisko Serra ka Tedore beri minum waktu itu di-beri rach(un) maka datang ka rumah empat hari sakit mati berapa hari... Raja mati maka ia waktu mati itu Raja Abu Hayat aserahkan dari-pada mama Raja Portukal kara (na)... Ternate pelabuwan Raja Portukal karana Tedore dan Jailolo dan Bajahan bagi herta Raja Portukal beparang pada Te (mate)... (kembalek)mama kaseh lekas thulong pada Ternate surat ini saperti kita membawah baik ja(hat). diers of the king of Portugal do not return, there will be war with the Raja of Bachian». The Raja of Bachian too was furnished with weapons. Tidore and Jailolo also together with Bachian, were all equipped. Tidore, Jailolo, and Bachian quickly gave orders to a young woman, a daughter of the Raja of Bachian, whom the Raja of Ternate loved, and she succeeded in giving him poison, so that the Raja of Ternate died. Previously the Raja of Tidore ordered Francisco Serrão to be invited and brought to Tidore and given drink. On that occasion he was given poison and going home was sick for four days and died. Some days... the Raja died. At the time of his death he entrusted Raja Abu Hayat to his uncle the king of Portugal. (For?)... Ternate is a port of the king of Portugal, because Tidore, Jailolo and Bachian, for the goods of the king of Portugal, are making war against (Ternate)... (return) Let my (Loving) uncle speedily help Temate. This letter is as if we brought good (and bad?)... 12 3
  • 17 OUTRA CARTA DO MESMO REI, ABU HAY AT, A D. JOÃO III s. d. ANTT: Gaveta 15-15-7. Original escrito em malaio com caracteres árabes também, numa folha de papel especial, de cor amarelada, conforme era uso, entre aqueles povos, em cartas aos reis. Desta carta existe a tradução contemporânea, que constitui o documento seguinte. Pelo contexto ve-se que é posterior à chegada das primeiras naus castelhanas, ali aportadas. A reprodução da mesma, em caracteres latinos, e a respectiva tradução em inglês, são do mesmo autor a que no documento anterior nos referimos. Ini (1) surat kaseh Sultan Abu Hayat surat datang ka-pada ayahanda Sultan Portukal dunia 'alam ia-lah yang maha-besar keri mengatakan hal negeri sangkalah sanakdah Sultan Bayan Sirrullah meninggalkan negeri (1) This is a loving letter of Sultan Abu Hayat, a letter to his father, the king of Portugal, he is the greatest king in the world. Now to set forth the unfortunate condition of the country, his rela- tive sultan Bayan Sirrulat having departed from the country of Ter- nate, the whole condition of the country of Ternate at present. Two ships of the king of Castile have come bringing his weapons and goods and they protect the port ofr the Raja of Tidore, (now) in very truth a port of the king of Castile, while the king of Portugal pro- tects the Sultan of Ternate, because the port of the Sultan of Ternate is a port of the king of Portugal. At this present time the king of Castile is giving the Raja of Tidore forty guns and promises that seventy crossbows are coming to Tidore this year. One ship sailed in the month of Muharram, one remains bahind awaiting twenty ships that are to come"next year. Now your son Sultan Abu Hayat has no other hope but his trust in his father the king of Portugal, that in very truth the king of Portugal will protect his son, an orphan and (still) a child, and in very truth will protect the country of Ternate! Your son's gifts are inadequate. Fare Well! I 2 4
  • Ternate sakalian-lah hal negeri Ternate sekarang Raja Kastila datang dua buah kapal mengatarkan senjatanya dan herta-nya dan memeliharakan bandar Raja Tedore bandar Raja Kastila sa-benar-nya-lah Sultan Portukal memeliharakan Sultan Ternate dari karana bandar sultan Ternate bandar Sultan Portukal sekarang ini Raja Kas- tila memberi Raja Tedore bedil empat puloh buah bedil gandi tujoh puloh gandi janchi t(a)un ini kan datang ka-Tedore sa-bu(ah) kapal belayar bulan Muharran sa- -bu(ah) kapal tinggal nantikan kapal dua puloh bu(ah) taun lagi kan datang ada pun anakdah Sultan Abu Hayat tiada harap lain harap ayandah Sultan Portugal sa-benar- -nya-lah Sultan Portukal memeliharakan anakdah pihatu lagi kanak kanak sa-benar-nya-lah memeliharakan ne- geri Ternate chendor mata anakdah tiada saperti-nya wa-s-salam bi-l-khair (2). (2) i. é. Wa selamat bi' llahi, saudação árabe: Adeus. 12 5
  • 18 JORGE DE ALBUQUERQUE, CAPITAO DE MALACA, ENVIA A EL-REI A TRADUÇÃO DA CARTA DO REI DE TERNATE, ABU HAY AT Malaca, 28 de Agosto de 1522 ANTT: Gaveta 15-15-7. Este documento é a tradução da carta em malaio do nú- mero anterior. Vê-se, pelo confronto com o original malaio. que é uma tradução bastante livre. Em nota final. Jorge de Albuquerque justifica o motivo porque abriu a carta para a mandar traduzir. Todos estes documentos: a presente carta, os dois originais em malaio. a publicação de C. O. Blagden sobre os mesmos, e umas notas escritas pelo P.' Schurhammer, fazem parte duma pasta com a cota supra. Carta que vem do Soltan Abohad para el-rei de Por- tugal. Rey muito grande e poderozo e senhor do mundo. Dou novas a Vosa Alteza por quanto sei que com elas lhe ha-de pezar, as quaes sam que meu pay he morto e eu estou agora aqui em seu lugar. Sabera Vosa Alteza que aquy vieram ter duas naos de Castellaa, nas quaes nam vinha mais que fazemda e armas para fazerem fortee a ilha de Tidoree, dizendo que aquellee lugar era seu, como de facto esta por eles. Mande Vosa Alteza agora goardar a terra de Ternate, porque em terra de Vosa Alteza deram hos castelhanos a el-rey de Tidoree 126
  • quarenta bombardas e sesemta bestas e lhe prometeram que para estrouto anno viram com vinte naaos. Peço, senhor, a Vosa Alteza, outra vez, que mande oulhar e defender esta vosa terra de Ternate e a mim mande emparar, porquanto sam moço e orfam. Senhor, nam // diguo mais a Vosa Alteza senam que u ' eu e esta terra que he vosa. Senhor, se nesta carta vay alguma cousa de descor- tezia a Vosa Alteza, perdoi-me, porque sam moço e não entendo mais. Tresladada foi esta carta por Alvaro Fernandez, lingoa em esta fortaleza de Malaqua. Esta carta he o trelado desta que vay em lengoagem malaya, a qual abri, porque nam sey se ha vera em Por- tugal quem a saiba leer, e por yso o fiz. De Malaca, 28 1 dias de Agosto de 522 2 annos. as. Jorge de Albuquerque 1 — xzbiij; 2 — bcxxij. 7 2 7
  • 19 JORGE DE ALBUQUERQUE, CAPITAO DE MALACA, ENVIA CÓPIA DA CORRESPONDÊNCIA CHEGADA DAS MOLUCAS Malaca, 28 de Agosto de 1522 ANTT: CC-1 II-i5-8I. Documento escrito com muito boa letra, mas danificado na Parte superior, o que não prejudica a sua leitura, felizmente. Mede 550 x 250 mm. a) O capitão das Molucas e oficiais pedem socorro a Malaca, com receio dos castelhanos, fc) De António de Pina, que partira de Malaca para as Molucas, com roupas, não havia noticias. Senhor, Esta he a carta que me escreveo Amtonio 1 de Brito 2 das neçesydades que tem. «Eu cheguey a Bamda omde achey humas cartas de Pero 3 de Lourosa, em que dava comta nellas a Gonçalo * Alvarez 3, como partira Fernam de Magalhaes de Cas- tella, com çimquo naos, e chegara a Burneo, com duas. Pareçe que por ese caminho matara a alguns homeens homrados. Como chegou a Burneo nataram-no (sic) e dahy vye- 1 —Amt.o; 2 —Brt; 3 —po; 4 —Go; 5 — alvi. 128
  • ram a Tidore, com pilotos da tera, e ahy caregaram e se hiam. Pareçe que huma delias, pola muita agoa que fazia, tornou a arribar a Tidore, omde estam de asemto; não me sabem dizer os negros se fazem fortalleza. Dizem que sam cento e çimquemta homeens, ou duzemtos, com muita imfymda artelharia. O senhor Dom Garçia e Amrique de Figueiredo vam comigo; e asy eses portugueses, que qua achey nese junco, mata (sic) (i). Eu, senhor, vos requeiro da parte del-rey, noso se- nhor, como me elle manda no meu regimento, que vos requeira que vos me mandees a armada e gemte para que posa resystir aa sua 6, porque a que eu levo vay toda doemte, e alguma morta, e alguns que vam sãos, vam sem armas, porque, a minha partida, fiz alardo e achey çem homeens sãos e dezasete com armas, como la escre- vera o senhor Dom Garçia a Voça Merçe. Olhay, senhor, que aqui vay todo o estado del-rey, noso senhor, e quamto vos emcomenda no voso regi- mento, e asy nas cartas // (a) este caso. Huma pouca u de roupa que trazíamos, com o gra(mde) tempo que pasamos, se danou a moor parte delia, e esa roupa que la veo de Mallaca desa fazemda que la fycou hia no jumco de Amtonio de Pina, ategora, não ouvemos novas delle. Tenho-o a mao synal, porque escoreo a fusta e dous na- vios, e coreram todas esas ilhas e não souberam nenhumas novas delle. Diz-me el-rey, em meu regimento, se ouver mester alguma fazemda que requeira a Vosa Merçe e ao feytor (i) Neste ponto o sentido não é claro, parecendo haver alguma omissão. 6 — i. é. dos castelhanos I 2 Ç INSVLÍNDIA, I—9
  • de Mallaca que ma mande. E eu asy, senhor, vos requeiro da sua parte que ma mandees, porque para fazimento de huma fortalleza bem sabees, senhor, o gasto que ha-de ter. Beijo as mãaos a Vosa Merçe. Feyta neste porto de Bamda, aos 28 7 dias 8 do mes de Abryl de 522 9 annos». A carta do feytor e offiçiaes de Maluco he esta que se segue: «O feytor e offiçiaes de Maluco escrevemos esta a Vosa Merçe, em que lhe damos comta de huma outra que ao feytor e offiçiaes escrevemos, em a qual largamente lhe mostramos a muita neçesydade que a fortalleza, que em boora hemos fazer, tem de gemte, como cuidamos que Amtonio de Bryto o escrevera a Vosa Merçe. E porque o feytor Rui Gago traz em seu regimento que del-rey, noso senhor, tem, que achamdo-se esta fey- toria em alguma pequena neçesydade, logo requeira ao capitam e feytor de Mallaca, e asy ao veedor da fazemda na India que proveja com a mayor deligençia e brevidade que ser poder; e pois o tempo noso senhor quis que a tamanha neçesydade chegasemos, por esta, da parte del- -rey, noso senhor, requeremos, e da nosa, pedimos muito a Vosa Merçe que, avemdo respeito ao muito serviço que niso a el-rey, noso senhor, fara, asy no socorro da gemte como da fazemda e a muito gramde perda e dapmno que o dito senhor reçebera, nam o fazemdo, queira e aja por bem, com toda a diligemçia e brevidade que poder ser, [2 r.i nos mandar de tudo prover, / / mamdamdo logo ao feytor que a fazemda, que la deixa (mos), mamde logo toda com toda a outra que mais poder. 7 — xxbiij; 8 — da; 9 — b'Jtxij. i 3 o
  • E porque cremos e temos por çerto que destas novas de qua que o senhor seu cunhado o fara sabedor, e pola carta que delas ao feytor escrevemos, o deixamos de fazer. E esta, senhor, fica registada no Livro dos Registos desta feitoria, comprymdo o que el-rey, noso senhor, manda em seu regimento, regista-la. Beijamos as mãos de Vosa Merçe. Feyta nesta ylha de Bamda, aos 28 dias de Abryl de 522 annos». Por mim Jorge Correa, escrivam desta feitoria. E os proprios ficam em minha mãao. De Malaca, 28 10 de Agosto de 522 11 annos. as. Jorge de Alboquerque 10 — xxbiij, 11 — bcxxij. r 3 1
  • 20 CARTA DE ANTÓNIO DE BRITO A EL-REI Terna te, n de Fevereiro de 1523 (1) ANTT: Gaveta 18-6-ç. Original bem conservado, com doze folhas, letra perfeita e de fácil leitura; as palavras, separadas entre si; as abrevia- turas, poucas; e os números que aparecem no texto são, geral- mente, representados pelo sistema romano. Nesta carta, o autor, insere um resumo do roteiro da armada de Fernão de Magalhães até às Molucas, feito pelos restantes tripulantes da nau Trindade aprisionada. Este resumo, que não temos visto sitado, revela-nos alguns pormenores de certo inte- resse e julgamos que pouco divulgados. Mede 305 x 220 mm. a) Captura da nau Trindade. b) Evasivas do rei de Tidor perante António de Brito, que o acusava de se ter subtido aos castelhanos. c) Medalhas religiosas vendidas pelos indígenas deste ilha, que as houveram dos castelhanos. d) Roteiro de Fernão de Magalhães e valor dos artigos apreendidos pelos portugueses na Trindade. e) Preço do cravo, moeda cunhada, pesos e comércio de Ternate. (1) No ANTT: Gaveta 18-2-2$. existe uma outra carta, escrita por António de Brito a el-rei, com a data de 6 de Maio de 1523 e que é cópia deste que publicamos, apenas com a ordem dos assuntos alterada e com poucas notícias mais. Em nota, e no seu devido lugar damos ambém as novas passagens deste outra carte com as notícias então enviadas. 132
  • - Senhor, Eu tenho escryto a Vosa Alteza, de Banda, as novas que hahy achey dos castelhanos, meudamente; e asy mandado as cartas dum Pero de Lorosa (2) que era ydo I com eles. Eu, senhor, party de Banda, aos dois 1 de Mayo de quinhentos e vinte e dois 2, e foy sem monção e sem tempo, para ver se podya tomar esta nao que partio dera- deira, porque a outra avia tres meses que era partida, como ya tenho escryto a Vosa Alteza; e asy para ver quamto vay de portugueses a castelhanos, e para fazer este pequeno serviço a Vosa Alteza, em lhas mamdar, como me ele manda em seu regymento. Eu, senhor chegey a ylha de Tidor a quatorze 3 de Mayo da dita era, onde os castelhanos fezeram sua aby- tação e caregua duas das cinco * naos; que avya quatro meses que a prymeira era partida, e esta deradeira, huum mes e meo. E o porque leyxou de partir com a outra foy por caso duma agoa que abryo, em estando ya de vergas de alto; tornou a descaregar e coreger-se o melhor que pode, e partyo. Omde achey // cymquo castelhanos, o qual huum u vi deles ficava por feytor com mercadorya; e outro bom- bardeiro. E como surgy no porto, mamdey loguo a terra o feytor Ruy Gaguo, com recado a el-rey que me mamdasse loguo eses castelhanos, que hahy tinha, e asy artelharya, como fazemda. E lhe mamdey dizer, se a terra era descuberta (2) Destas cartas, e de tantas outras a que encontramos refe- rências, não pudemos saber se ainda se conservam e a onde, apesar do nosso interesse e diligências feitas. 1-tj; 2 — b»exxij; J —xiiij; 4-b. i 3 3
  • por naos e navios de Vosa Alteza, avya tantos annos, como agasalhava ele castelhanos, nem outra gemte al- guma? E ele me mamdou dizer que os agasalhava como a mercadores; ysto, mays com medo que com vontade; o qual, ao outro dia, me mamdou entregar tres castelhanos que ahy estavam, em que entrava o feytor, com huma pouca de fazenda, que lhe ahy fiquou; e o bombardeiro, com artelharya, o qual bombardeiro ahy leyxavam os castelhanos, para pelejar com alguns poucos portugeses, se ahy vyesem ter. E hum dos cinco castelhanos que ahy ficaram era ya em Banda, num junco, a saber a terra e o trato; o qual escoreo Banda, e foy ter a huma ylha que se chama Gouram, omde eu tinha mandado huma caravela por ele, e mo trouxeram, em eu estando para partyr para ca. E por yso não dey conta a Vosa Alteza, na carta que lhe, de Bamda, escrevy. E outro era numa ylha, que se chama Moro, sasenta legoas de Maluco. Ao outro dia segynte, me veo el-rey ver a nao; eu lhe fiz aquela omra s que comprya a estado de Vosa Al- teza, e asy se me desculpou o porque recolhera estes omens, e ysto perante eles, dezemdo como era vasalo de Vosa Alteza, avia tanto tempo, ele e todas as ylhas de Maluco; e que asy lho tinha dito; que, quando quer que armada de Vosa Alteza vyese, que se avya de emtregar a ela, como seu vasalo que era, o que eu não creo que ele fezera, se me não vira no seu porto surto com temção de me pagar o recolhymemto que fezera dos castelhanos. E todas estas palavras que me ele dise eu lhe lamçey mão por elas e lhe fiz fazer hum conheçymento, para que em 5 —ora i 3 4
  • todo o tempo não negase ha / / verdade, o qual conhe- çymento me fica na mão para o levar a Vosa Alteza, por- que lhe certefiquo que se entregaram, estes castelhanos, em seu poder, de tal maneyra, como que foram crystãos e seus naturaes. Achey toda a terra chea de cruzes de estanho, e delas de prata, com Noso Senhor crucyfiçado, e Nosa Senhora, da outra banda ; vendiam bombardas, espymgardas, bes- tas, espadas, dardos e polvora. Estas cruzes que asyma diguo a Vosa Alteza, eu as comprey todas e eles as vendiam como omens que sabyam ho que era. Achey a terra, por caso das armas que vendiam estes omens, alevamtada, como que com elas se esperavam defender, o que prazera a Deus de eles verem o contrayro, quamdo detrymynarem de não fazer o servyço de Vosa Alteza. Item. Estando surto no porto de Tidore, avya dous dias, veo hum filho bastardo de el-rey de Ternate, com muytos par aos e gente, para me levar para a sua ylha, eu me vym com ele, que os outros navyos ja estavam no seu porto, que não cabyam comyguo no porto de Ti- dore, por caso de ser pequeno. Este rege o reyno por o erdeyro ter oito ou nove annos, que ao tempo da minha chegada avya sete ou ayto meses que ho pay era morto. Esta ylha he a mor e mays pryncypal de Maluco, onde Francisco 7 Serão sempre esteve e Dom Tristão , quando ca veo. Esta ylha, se as outras dam myl bares, da esta dous myl. Daly a dous dias me veo el-rey ver a nao por man- 6 — biij; 7 —fr.o»; 8 —tretft.
  • dado de sua may, que he a pesoa * que mays manda no reyno, omde lhe dey huma carta que trazia de Vosa Al- teza para seu pay, com outras cousas que lhe dey em seu nome, por me pareçer seu servyço. Ele se me entregou por vasalo de Vosa Alteza, e que na sua ylha pudia fazer tudo o que quysese. Não lhe quys loguo falar em fortaleza, ate não ver ho asento de todalas ylhas, para se fazer omde fose mays serviço (sic) de Vosa (2 v.] Alteza, //as quaes por mym foram vystas e por alcayde- -mor e capitães e feytor destas naos de Vosa Alteza que comyguo vyeram. A mym pareçeo seu servyço fazer-se ela aquy, e asy a eles, por a ylha de Tidor não ter porto, e ser Ternate a mayor ylha destas, e onde mais cravo ha, como acyma tenho dado conta a Vosa Alteza. Item. Senhor, estamdo eu em terra, numa fortaleza de Madeyra, a mays forte que eu pude fazer, averya obra dum mes, me adoeçeo toda a jente; que de duzemtos homens que trazya nestas naos de Vosa Alteza, fequey com cynquoenta sãos, e destes me moreram bem sesenta omens 1#, em que entrou Lourenço 11 Godinho, que vynha por capitão dum galeam, e outro seu yrmão, que se cha- mava Pero Botelho, que vynha por capitão duma cara- vela; e asy Francisco de Melo, com outros omens onrados que aquy não escrevo a Vosa Alteza, em que lhe certe- fiquo que me vy no mor trabalho, com estes negros, que pudia ser; que quando me viram toda a yente doente, estavam cada dia para dar em mym. Eu ho sostive, com asas de trabalho, asy com mynha fazenda, repartyndo-a por eles, para fazer este pequeno servyço a Vosa Alteza, que ate quy tenho feyto; e asy fico desejando de lhe fazer outros mores, se me a mão vyerem ter. Item. Senhor. Estando asy em terra, como asyma 9-p.»; 10 — lx; 11— l.«o. 136
  • tenho dito a Vosa Alteza, pondo mãos em a fortaleza, com asaz de bem pouca yente, porque despoes que ma- taram meu irmão, achey nesta armada duzentos omeens, asy jente de armas como marynheyros, e ysto por culpa de Diogo Lopez, capitão-mor da Indea, que mandou apre- goar que todo ornem que vyese obrygado a esta armada, que quysere ficar na Indea, que ele lhe porya soldo e mantymento, // como ya meu irmão escreveo a Vosa Al- teza, e asy o veador da fazenda me dise que darya conta diso a Vosa-Alteza, e eu, por me pareçer seu serviço vyr esta armada, vyera com cynquoenta omens, quando não achara mays. De seys navyos e huma fusta que vynham para Ma- luco eu leyxey huum aYorge de Albuquerque, por não ter jente para ho navegar. Eu lha pedy da parte de Vosa Al- teza, e ele ma não quys dar; la dara conta a Vosa Alteza o servyço que lhe fez nyso. E asy me fecaram vinte cinco ou trinta 13 omens fogidos em Malaca, os quaes eram ma- rynheyros he espyngardeyros, que he a jemte de que eu tinha mays necesydade pera fazer o serviço de Vosa Al- teza, como eu deseyo. Hos marynheiros deu-os a nao de Dom Nuno, que hya para a Indea, e leyxou vyr esta armada asy, e despoes que party de Malaca, se me ouvera de perder huum navyo por não ter jemte para ho navegar. Item. Eu, senhor, trouxe Dom Garçya, de Banda, co- rny gao, que o achey no navyo que eu leyxey em Malaca a Jorge de Albuquerque, por não ter jente para ho na- vegar, como ja tenho dito a Vosa Alteza, por as novas que ahy achey destes castelhanos. Eu ho mandava por o camynho de Burneo, porque ha por ele quatrocentas legoas a Malaca, e por o camy- nho, por onde eu vym, ha seiscentas 14 legoas, e em cinco 12—xxb; 13 —xxx; 14— bj°.
  • que ha de Banda a Maluco, ha mister esperar outra mon- ção; porque me pareçeo muy grande servyço de Vosa Alteza, o mandava a descubryr, e asy porque lhe fose recado, no ano de quinhentos e vinte dois 1S, de tudo o que se ca pasava; que por este camynho podem vyr de Malaca a Maluco, num mes, e foy ya descuberto, e no tempo del-rey de Malaca navegavam de Burneo ate Ma- luco. Neste Mayo de quinhentos e vinte tres ", no fym tf dele, eu espero em Noso Senhor, de // ho acabar de des- cobryr a Vosa Alteza, porque Dom Garçya não ho des- cobryo, por ho piloto nam ser omem para yso e tornou aribar aquy a Maluco. Item. Aos vinte " de Outubro da dita era, estando em terra, como ja tenho dito a Vosa Alteza, me veo hum parao dar novas como andava huma nao detrás destas ylhas de Maluco. A mym, porque me pareçeo que ela não podia ser de Vosa Alteza, senão deles, porque era polo camynho por onde eles vyeram, mandey loguo lançar tres navyos fora do arecyfe, com esa gente que aquy avya, pera ma tra- zerem; onde acharam nela vinte quatro 18 omens, a mayor parte doentes, porque quando daquy partiram, não quy- seram tornar por ho camynho por onde vyeram, porque avyam mester tres annos para tornar a Castela. Antonce detrymynaram de yr a tomar a Daryem, que he huma terra fyrme que esta nas costas das Antylhas, vinte oito19 grãos da banda do norte. Os ventos lhe foram escasos, porque nam souberam tomar monçam, quando avyam de tomar, e foram ter em quarenta 20 grãos da banda do norte. Neste Daryem detrymynaram de pasar ho cravo em camelos a outra banda, porque me diseram que andavam 15 — b^exxij; 16 — boexxiij; 17 — xx; 18 — xxiiij; 19 — xxbiij; 20 — r. I38
  • de armado navyos de Castela e que neles ho pasaryam. E quys Deus que ho que cuydavam que lhe sayse ao reves. Deste Daryem a a Castelaa mil quinhentas e cin- coenta 21 legoas e faziam-se polo seu ponto novecentas 2" legoas desta terra, quando arybaram. Item. Quando de Tidore partyram para Castela, leva- vam cincoenta e quatro 23 omens; como foram em grãos, moreram-lhe trinta 24. Eu mandey ho alcayde-mor desta fortaleza, que he Symão de Abreu, filho 23 de Pero Gomez de Abreu, porque me pareçeo que serverya nyso Vosa Alteza como devya; e com ele huum escryvão da fey- torya, que escrevesem toda ha fazenda que ahy vynha del-rey de Castela, e que tomarem (sic) todas as cartas e estrelabyos / / aos pilotos, o qual por ele foy feyto. h r.i Item. Eu mandey vyr perante " mim o capitão, que se chama Gonçallo 27 Gomez de Espynosa; e o escryvam, que se chama Bertolameu Sanchez; e ho piloto, que se chama Leom Pancaldo; e o mestre, que se chama Joam Bautysta, que andou ya em naos de Vosa Alteza, em Purtugal, e lhe dise como vynham a terá que era des- cuberta, avya tanto tempo, por naos e jente de Vosa Al- teza, e que achavam aquy a huum portuges que se cha- mava Pero de Lorosa, para lhe dizer a verdade; e que não avya quatro meses que daquy partira huum navyo, de que era capitão Dom Trystão, e que el-rey de Castela lhe defendya, em seu regymento, que não entrasem por terras de Vosa Alteza; que como fazyam caregua nela e se yam asy? Eles me deram por reposta que o que eu dizya que era verdade, porem que Fernão de Magalhães dixera a el-rey de Castela que Maluco que era seu e que estava no seu lemyte, e asy trazya huma carta em que lhe fazya % 21 —jb°l; 22—ix°; 23—liiij; 24—xxx; 25-f.»; 26—p&; 27—G.°»; 28-J.o. 139
  • crer que era seu, a qual carta eu mandey vyr perante mym e lhe amostrey que avya muytas cousas nela falsas; e asy me dixeram que não sabyam cujo era Maluco, senão despois que vieram a ele; que lhe os negros dixeram que era de Vosa Alteza, e que estavam prestes a pena que lhe eu quysese dar. Eu os mandey logo arrecadar, e lhes dise que eles nam podyam vyr por mandado del-rey de Castela a huma cousa tam sabyda como era Maluco. Item. Despoes que faley com estes omens e os mandey arecadar, mandey yr a nao a huma calheta, obra dum tiro de berço desta fortaleza de Vosa Alteza, para se des- caregar, porque não podia entrar por a bara, caregada; a qual nao serya de cem tonnes ate cento e dez. E estan- do-se descaregando, averya obra de oyto dias, e era ja case tudo descaregado, veo hum tempo forte e abryo sobre a mara, e ysto por caso que era muito velha e fazya muita agoa, e avya quatro annos que andava no mar, sem a tyrarem a tera, e com pendores a tynham sostida. // Onde se perderam obra de quarenta " bares de cravo que não eram ynda descaregados, e eses, por a a muyta agoa que fazya, todos molhados. A madeyra dela toda aproveytou para esta fortaleza, e asy os aparelhos dela aproveytaram para estoutros navyos, porque certefico a Vosa Alteza que ainda de Cochym nam partyram navyos seus tam mal aprecebydos, por vyrem para huma tera tam longe. Item. Daly a dez ou doze dias, mandey chamar o capitam e o mestre, e os tomey huum e huum, e lhes per- guntey quem armara esta frota, e ho que pasaram, des- poes que partyram de Castela, e a que portos vyeram ter, como Vosa Alteza vera abayxo. E eles me dixeram que os omens que armaram era ho byspo de Burgos e Crystovam 29 — xxxx.
  • de Arão, e ysto me descobryrão amedrontados, porque sempre diseram e dizem que el-rey de Castela a armara, e ysto quys saber deles, para enformar Vosa Alteza na verdade. Item. Senhor, huum Pero de Lorosa, de que ja tenho dado conta a Vosa Alteza, que era ydo com eles, que ficou fogy do do navyo de Dom Trystam, nesta Ylha de Ternate, tornoií a vyr nesta nao que arribou. Eu lhe mandey cortar a cabeça, por tredo, e lhe tomey esa fa- zenda que tinha, para Vosa Alteza, porque ajudava a dizer aos castelhaos que era esta terra del-rey de Castela, e fazya crer aos negros que serya asy; e asy outras cousas bayxas de que não dou conta a Vosa Alteza. Ele levava nesta nao quarenta quyntaes de cravo; e na outra, que partyo primeiro 30, outros tantos; estes eu os mandey tomar para Vosa Alteza. Este he a viagem que fezeram de Castela ate chegarem a Maluco. Item despoes que partyram de Sevylha, foram ter as Canaryas, / / e estyveram surtos em Tanaryfe, e tomaram 15 r ' ahy agoa e mantymentos; e daquy se fyzeram a vela, e a primeyra terra que tomaram foy o cabo dos baxos de Âmbar, que vyeram ao longuo da costa ate ho Rio, ate ho Rio, (sic) que se chama de Janeyro, onde esteveram quinze 31 ou desaseis 33 dias. E dahy partyram sosteando (sic) a costa, e vyeram ter a huum Rio que chama de Solyz, omde Fernão de Magalhaes cuydou achar pasa- gem. Aquy estiveram quarenta dias, e mandou yr huum navyo, que se chamava São Tiaguo, obra de cincoenta 33 lageoas, por ele, para ver se avya pasagem; e como não JO —prmro; 31 —xb; 32 —xbj; 33 — 1. 141
  • na achou, etrevesou o rio que sera de vinte cinco 54 legoas em boca, e achou a costa que se core Nordeste-Sudueste; ate este rio tem descuberto hos navyos de Vosa Alteza. E foram costeando ate huum rio que se chama de São Giam, omde envernaram quatro meses; aquy lhe compe- çaram a dizer os capitães castelhanos que onde hos le- vava, pryncypalmente, Yão 55 de Cartagena, que dezia que levava huum alvara del-rey, para ser cojunta pesoa com ele, como era Ruy Faleyro, se vyera aquy; se quy- seram alevantar contra ele e matarem-no e tornarem-se para Castela ou yrem-se para Rodes. Item. Dahy vyeram ter ao Rio de Santa Cruz, onde o quyseram por por obra. Ele, quando vyo o feyto mal parado, porque dizyam os capitães que o matasem ou o levasem preso, mandou armar sua nao e prendeo a João 36 de Cartagena e os outros capitães. Como vyram o pryn- cypal preso, não curaram mays de fazer ho que tinham comytydo. Aquy os prendeo a todos, porque a gemte bayxa, a mor parte, era com ele; a Luys de Memdoça mandou matar as punhaladas, por o meyrynho, porque se não quys dar a prysão; a outro que se chamava Gaspar Queyxada, mandou degolar; a Jam de Cartagena, em se fazendo a vela, para se yr, leyxou em terra, a ele e a hum [5 T.i crelyguo // onde não avya ornem nem molher. Aquy tor- naram a envernar tres meses, e mandou Fernão de Ma- galhans a descobryr avante o navyo São Tiaguo, onde se perdeo, e se salvou toda a gemte. Item. Daquy partyram, a quinze 37 de Outubro de quinhentos e vinte 3", e foram dar com hum estreyto, avera quinze legoas; e despoes que compeçaram a entrar, pareçe-lhe todo çarado e sorgiram, e mandou Fernão de Magalhães huum piloto purtuges, que se chamava João 34 — xxb; 35 — Yà; 36 —J.®; 37 — xb; 38 —b e xx. 14 2
  • Carvalho, a terra, que se sobyse num monte, e que vyse se era aberto. Veo o Carvalho e dise que lhe pareçya çarado. Antomçe mandou duas naos, as quaes se cha- mavam, huuma, Santo Antonyo; e outra, a Conceyção; que fosem a descobryr o estreyto, e yryam por ele ate trinta legoas, e dahy tornaram a dar recado a Fernão de Magalhaes, dizendo que vyram yr o rio e que não sabyam o que hia la. Antomçe abalou com todas as naos e foy polo estreyto, ate omde as outras tynham discuberto e mondou a nao Santo Antonio, de que era capitão huum seu prymo, que se chamava Alvaro 34 de Mezquyta, e era piloto Estevão Gomez, português, que fose a descobryr por huma aberta que fazya ho estreyto, ao Sul, a qual não tornou mays; e não sabem parte dela; se se tornou para Castela, se se perdeo. E foy polo estreyto avante, com as tres naos que lhe ficavam, ate lhe achar sayda. Item. Este estreyto esta em cincoenta e dous 40 grãos largos, he de çem legoas em comprido; e core-se Norte- -Sul, a mor parte dele, de larguo; he a lugares de cinco legoas, e huma legoa, e mea legoa, e hum quarto de legoa. Como se vyram no mar larguo, governaram dereyta- mente a lynha, por caso dos grandes fryos que fazyam. E como // foram em trinta e dois 41 grãos, fezeram o camynho de Loes-Noroeste, e por este rumo foram mil e seiscentas 42 legoas; Aquy toparam duas ylhas despo- voadas, duzentas legoas, huma da outra; e por este rumo atravesaram a lynha, e foram doze 43 grãos da banda do Norte. Dahy governaram a Loeste quinhentas 44 legoas, omde toparam humas ylhas, onde acharam muyta gente bestial e entraram tantos nas naos que, quando se acor- daram, não os podiam lançar fora senão as lançadas. 39 — alv.°; 40 —lij; 41 — xxxij; 42—jbj: 43 —xij; 44—b.
  • Mataram deles muyta cantidade e eles estavam-se ryndo, cuydando que folgavam com eles. Dahy fyzeram seu camynho sempre a Loeste, senam quando qucryam tomar altura governavam huma quarta fora de seu camynho, para saberem omde estavam, ate darem numa ylha a que puseram nome, a Primeira 44; esta em doze grãos da banda do norte. Item. Dahy vyeram por amtre muytas ylhas dar numa que se chama Maçava, e esta em nove 44 grãos. Este mesmo rey de Maçava os levou a huma ylha que se chama Çubo, porque era huma ylha farta, omde esteve açerca dum mes, e fez a mayor parte da yemte desta ylha crystãa e asy o rey dela e mandava a todas esas ylhas que vyesem obedeçer a este rey de Çubo. Algumas vie- ram; humas duas não quyseram vyr; e quamdo ele vyo ysto, detrymynou de yr a pelejar com elas, e foy a huma ylha que se chama Mata; tynha-lhe ya queymado huum lugarynho, e não se contentou, e foy a huum lugar grande, omde, pelejamdo com os negros, o matarão loguo a ele e a hum seu cryado. E quamdo os castelhanos vyram seu capitam morto, vyeram-se recolhendo omde mataram mays cynquo. Item. Daly se veo a jemte para as naos, que seryam duas legoas, domde o mataram, omde ordenaram eses 16*1 omens // honrados de fazerem dous capitaes, a saber: Duarte Barbosa, portuges, cuinhado de Fernão de Maga- lhães, da molher com quem casou em Castela, e outro João Seram, castelhano. Este João Serão foy capitão do navyo que se perdeo, e despoes que cortou a cabeça a Gaspar Queyxada, fe-lo capitão da nao que se chamava a Comceyção. Loguo como hos armaram capitães, o rey os mandou 45 —prmra; 46 —ix. * 4 4
  • chamar, que lhes pedia que jamtasem com ele, porque era asy seu costume. Eles lhe diseram que lhes prazia. Daly a cinco dias, despoes da morte de Fernão de Maga- lhães, foram a terra a jamtar, e com eles a mays da yemte, que alguuma estava feryda de quamdo mataram ho capitão. O rey tynha detremynado de os matar e de tomar as naos. Como, de feyto, estamdo eles para jamtar, deu a jente neles e mataram a Duarte Barbosa e a Luys Afonso que era capitão duma nao, e mataram aquy, com eles, trinta e cinco ou trinta e seis omens. Como os omens ferydos e alguuns sãos que estavam nas naos viram a gente morta, levaram as amaras para se fazerem a vela. E estamdo para desferyr e vyr na volta de Burneo, trouxeram, os negros, a Jam Serão nu, que ho queryam resgatar, e pedyam por ele duas bon- bardas e dous bares de cobre e bretanhas que eles trazyam para mercadarya. Eles lhe davam tudo, que o trouxesem a nao; os negros queryam que eles que fosem a terra. E porque ouveram medo doutra trayçam, se fizeram a vela e ho leyxaram e dahy nam souberam mays o que se fizera dele. Item. Como foram dez ou doze legoas da ylha, quey- maram huma nao que se chamava a Comceyção por não ter quem a navegar e fizeram capitão a João Carvalho, piloto purtuges, e deram capitanya duma nao a este Gon- çalo Gomez, que vynha por meyrynho da armada. Item. Dahy foram ter a huma ylha que se chama Myndanao; esta em oito grãos escasos da banda do Norte. Falaram com o rey de Myndanao e lhe dise omde era // 17 r-i Burneo e amostrou-lhe para omde estava, e eles gover- naram asy, e foram dar com huma ylha que se chama 47 — A.». 1 4- 5 INIULÍNDIA, I IO
  • Puluam, trinta legoas da ylha de Burneo; esta em nove grãos. Nesta ylha esteveram hum mes; he muito farta. Aquy souberam novas de Burneo e tomaram dous omens que hos levase la. Item. Daquy party ram e chegaram ao porto de Bur- neo que esta em cinco grãos, a outra ponta da banda do Nordeste. Esta em sete grãos; core-se a costa Nordeste- -Sudueste, dos sete grãos ate os cinco, que he ho porto. E como sorgiram, vyeram muytos paraps a eles, cuy- dando que eram naos de Vosa Alteza, com grandes pre- sentes de mantymemtos, e eles mamdaram a terra os dous omens que tomaram em Puluão com huum ornem cas- telhano. Quando lhe diseram que não eram suas, que eram castelhanas, não ho podyam crer. Dahy a sete ou oyto dias, lhe mandaram hum presente, em que entrava huma cadeyra guarneçyda de veludo e huma roupa de veludo cramisym, por Gonçalo Gomez de Espinosa, ca- pitão desta nao. Item. Quando lhe levaram este presente, preguntou- -Ihe el-rey que jemte era e que vynha fazer aly, a sua terra, paresendo-lhe que era como armada de Malaca, que lhe vynha ver ho porto, para lhe fazer fortaleza. Eles lhe diseram que eram castelhanos e que vynham em busca de Maluco, se lhe querya dar pilotos que os levasem la. El-rey lhe dise que lhe darya pilotos ate Myn- danao, da outra banda, por onde eles não vyeram; e que dahy navegavam para Maluco, que logo acharyam quem os levase la. Estando neste porto, avya ja huum mes, e para se partyrem, lhe fogyram dous gregos para terra, a faze- 17 v.i rem-se mouros. Ao outro dia, pela manhã, mandaram // a terra tres omens em que entrava hum filho de João Carvalho. E estando asy, vyram vyr muytos paraos. Andavam ja tão amedrontados que cuydaram que vy- 146
  • nham para hos tomar, por dito dos gregos, e fizeram-se a vela, sem esperarem poios outros tres. Dous outros juncos, que estavam no porto, tomaram- -nos e roubaram-nos e puserão-lhe o foguo e vyeram ter a Mindanao, onde tomaram omens que os trouxeram a Maluco, onde pasaram tudo do que acyma tenho dado conta a Vosa Alteza. Este Myndanao he huma ylha muito grande he farta. Item. Senhor, a detrymynaçam que levava a nao que partyo prymeyro era yr de Maluco dereyto a Tymor, com pilotos que lhe el-rey de Tidore deu, que os levase la e dahy, se achasem mar grande, yrem tomar a ylha de sam Lourenço ", e fazerem o camynho que fazem as naos de Vosa Alteza, que vão de ca da Indea; o que me a mym, senhor, pareçe que sera tamanho mylagre yr a Castela, como foy virem de Castela a Maluco, porque a nao era muyto velha, e roins mantymentos, e os caste- lhanos não query am obedeçer ao capitam, e fora outros muytos laços que Vosa Alteza tera por a Indea, que lhe podiam fazer o que eu fiz a esta, se a toparem. Senhor, a fazenda desta nao e asy ha que ficava em Tidore, em poder dos cinco castelhanos, he esta: Item. Cemto e vinte e cinco quyntaes e trinta e dois arates de cobre, e cem arates de azouge, e dous quyn- taes de fero, e tres bonbardas de çepo de fero; huum he pasa-muro e duas roqueyras, e quatorze berços de fero, sem nenhuma camara; tres amcoras de fero, em que entrava huum fugareo, e outra grande, e huma quebrada. Esta he ha que tomey da nao. Item. Nove bestas, doze espyngardas, trinta e dois peytos //. (8 rj 48-1,.™. I 4 7
  • J Item. Onze cervylheiras, tres casquos, quatro anco- ras, e tres baras de fero; seys berços de fero, dous fal- cõis de fero, duas bonbardas grosas de fero, com quatro camaras. Item. Dozentos trinta e cinco " quymtaes de cravo. Neste tinha, Pero de Lorosa, Jrinta e cinco, como acyma tenho dado conta a Vosa Alteza. Aqiiy levava Fernão de Magalhães, nesta nao, vinte sete quyntaes e meo, e na outra nao levava outros tantos. Estes eu hos mandey tomar para Vosa Alteza, por perdidos. A outra sua fa- zenda era tão pouca que não quys atemtar nela. Senhor, não escryvy a Vosa Alteza dum padram que asentey em Banda, dos maes fremosos e mores que se podem achar, com as armas de Vosa Alteza, na outra carta que lhe de hy escrevy, e asy dos preços que ahy asentey, porque me pareceo que o mandase mays çedo por o camynho de Burneo, como acyma tenho dado conta a Vosa Alteza; os quaes preços são do cravo que hahy fose ter, e asy da maça e noz que ha na terra; e os asen- tey, para sempre, com todos omens omrados e xaban- dares que ha na ilha, porque nela não ha rey. E asy me asynaram todos, e me ficaram de ho compryr; e o que o comtrayro fezese, de morer por yso. Esta gemte de Malaca para ca, pesam por huum peso, que se chama dalchytn (3), e fazem por ele ate hum bar, e tem, poios pesos que vem de Purtugal, de Vosa Alteza, (3) E também dachem; pròpriamente, balança. «Em Macau cha- ma-se, indistintamente, às balanças de diferentes espécies, dachins; mas convém distinguir que às balanças pròpriamente ou de braços iguais chamam os chins tien-ping... e à balança romana toh-ching (pesar), de onde deriva a palavra datchin, e que é de uso geral nos mercados, lojas, etc. (Vid. Revista J~a-Ssi-Yang-Kuó, II, IV, 5). Em R. Dal- gado, op. cit. 49 — ijxxxb. i 4 8
  • quatro quyntaes e meo. Eu peso por ele, ate ver ho que Vosa Alteza mamda que faça nyso, e ysto por ho grande proveyto que he. Trelado dos preços de Banda. Item. Tres synabas (4) por huum bar de cravo. Item. Seys beyrames (5) vermelhos por bar. Item. Nove bretangins vermelhos por bar. Item. Quynze bretangis pretos por bar. Item. Dozoyto mamtazes por bar. // I" *•> Item. Huma capa enteira de Chaul por bar. Item. Nove çades (6) por bar. Item. Gozerys (7) malayos oyto por bar. Item. Panchavelyzes (8) tres por bar. Item. Vinte cinco mandalytões por bar. Item. Vinte cinco mandis capazes por bar. Item. Dous panos enrolados por bar. Item. Ajaraz (9) e turyas (10) cynquo por bar. Esta roupa que acyma diguo a Vosa Alteza, que vai tamto huum bar, he a sua valya mil reys, que sae ho quyntal a luzem tos e cynquoenta reis; e esta he a valya de toda, pouco may ou menos. Item. Senhor, eu fiz de Maluco, estando presente el-rey de Terna te e o regedor da terra, com voz de todolos reys das ylhas onde ha cravo, estes preços, e para todo (4) Talvez o mesmo que sinabafos, tecido de Bengala, de algodão, branco e fino. (5) Também um pano fino de algodão. (6) Moeda indiana. Não encontramos referência a esta palavra, significando qualquer espécie de pano. (7), (8), (9). (10) O mesmo se diga das que assinalamos sob estes números, algumas das quais os dicionários registam como nomes de certas árvores. 149
  • sempre, se a Vosa Alteza asy parecese bem, os quaes eles asynaram e todos os omens onrados da ilha, e fecaram de os compryr por enteyro, e quem o contrayro fezese, de morer por yso. O trelado deles he este. Item. Huma patola (n) grande de cambaya, por quatro bares. Item. Huum chantar, dous bares. Item. Huum sabe, huum bar. Item. Huum pano enrolado, huum bar. Item. Huma chypa, huum bar. Item. Huma synaba e mea, hum bar. Item. Huum panchavelyz e meo, huum bar. Item. Huma capa enteyra de Chaul, huum bar e meo. Item. Tres beyrames vermelhos, hum bar. Item. Huum beyrame branco, huum bar. Item. Cynquo bertangys vermelhos, huum bar. Item. Cynquo bertangys azues, huum bar. is *.] Item. Seys çades, huum bar. // Item. Quynze xabones pequenos, huum bar. Item. Mandalytões de banda de seda, oyto, huum bar. Item. Capazes de bandas de seda, oyto, huum bar. Item. Capazes outros, dez, huum bar. Item. Mandalytões, dez, huum bar. Item. Çybyas, dez, huum bar. Item. Mantazes, oyto, huum bar. Item. Virolas, cinco, huum bar. (n) Peça de vestuário, de seda ou de algodão, «...da cinta para baixo se cobrem com panos de seda e de algodão que chamão pá- tolas...» Castanheda, II, c. 22. Dos outros nomes aqui designados, chantar, sabe e chypa não encontramos referências, com a significação de qualquer espécie de pano. 150
  • ■ Item. Turyas, oyto, huum bar. Item. Bertangys, oyto, huum bar. Item. Vinte cinco porçelanas grandes, vermelhas, huum bar. Item. Trinta porçelanas pequenas, vermelhas, huum bar. Item. Vinte porçelanas brancas, huum bar. Item. Senhor, a roupa que açyma escrevo a Vosa Alteza, tantos panos por bar, he a valya dela ate oito- centos 50 reis, e vem o quyntal a duzentos, e polo emprego de cambaya vyra a cem reis, o quyntal, em muytas sortes de roupa. Ho nome desta roupa eu ho escrevo ao veador da fazenda da Indea que mas mande, porque he huum dos mores proveytos para Vosa Alteza que pode ser. A pimenta esta asemtada em Cochym a myl e vinte cinco reis o quyntal, que ho asentou ho almyrante, quando veo a descobryr a Indea. E o mays que pode custar o quyntal do cravo, por estes preços que eu asentey a Vosa Alteza nesta sua fortaleza de Maluco, sera a duzentos 51 reis. Olhe Vossa Alteza a valya duum e do outro, asy ho de Purtugal, como o de ca, porque se não foram estes caste- lhanos que compraram a cinco e a seys cruzados o quyn- tal, a mym me pareçe que eu pusera estes preços a Vosa Alteza mays baxos do que os pus. Olhe Vosa Alteza este serviço que lhe tenho feito // e 19 T) asy em lhos mandar, para pagarem ho que fizeram, e que lhe faço huum (sic) fortaleza com cento e quarenta omens, e com lhe dever quatro e cynquo meses de mantymento e soldos, nunca pagos, e que tenho gastado, ese pouco que tinha, em manter alguuns cryados de Vosa Alteza, e muytos omens onrados que amdam todo dia com a pe- dra e cal as costas, e eu com eles. Olhando a todos estes 50-bíIJ; 51 — U 1 1 5 1
  • servyços, que lhe tenho feytos, peço a Vosa Alteza que me faça merçe da fortaleza de Malaca, por tres annos, para nela ganhar quatro reis, para ter com que o suyva. Eu, senhor, mamdo por Dom Garçya a Jorge de Albu- querque, para dahy os mandar ao capitão-mor da Indea, como me Vosa Alteza em meu regymento mamda, deza- sete castelhanos. Ho nomes deles são este (sic): Gonçalo Gomez de Espinosa, capitão. João de Campos, feytor, que ficou com fazenda em Tidore. Alonso de Cota, que hya ver o trato de Banda. Luys dei Molyno, Dieguarys, Dioguo Martym, Leom Pamcaldo, piloto; Yoão Rodryguez, Genes de Mafra, Yoão Navaro, Sam Remo, Amalo, Francisco Dayamonte, Luys de Vras, Segredo, Mestre Haus, Amtam Moreno. Quatro leyxo ca, os quaes he huum deles o mestre, que he o prymcypal ornem que eles trazyam, porque despoes que mataram a Femão de Magalhães, ele foy ho que trouxe esta armada a Maluco; e o escryvam que era huum marynheyro, e muy bom piloto; e despoes da morte de todos, o fezerem escrevam, e também ho leyxo ca; e o contra-mestre, e huum carpymteyro, para coreger ho navyo em que os ey-de mandar por Burneo, que hos que trazya me moreram, e esta esta fortaleza sem nenhum carpynteyro, e com huum calafate e com cynquo navyos e huma fusta. Não hos mandey nesta caravela de Dom Garçia, por- no r.i que yam mays // castelhanos que purtugeses; e asy por descobryrem este camynho de Maluco a Malaca, por ho caminho de Burneo, por omde eles vieram, porque de 152
  • Burneo a Maluco ha cem legoas, e ahy acharão pilotos que os levem la, porque sempre navegam de Burneo a Malaca muytos juncos. Despoes deste camynho descoberto, eu cuydo que he huum dos mores servyços, em que nesta dou conta, que tenho feyto a Vosa Alteza, pola grande brevydade que he do camynho, e polas monções que se aguardam por ho camynho de Bamda, que em levar e trazer hum recado, a mister huum anno e meo. E por este podem partir de Malaca e vyr a Maluco, num mes, como acyma tenho dado conta a Vosa Alteza, e por Burneo ser huma das mais riquas ylhas que ha nestas partes, homde ha muyto ouro e camfor e muyto gramde trato para muytas partes, onde Vosa Alteza pode receber muyto grande proveyto. Vay por capitam dele Symão de Abreu. Item. Quanto he ao mestre, escryvão e piloto, eu escrevo ao capitam-mor que sera mays servyço de Vosa Alteza mandar-lhe cortar as cabeças que lhos mandar la. Eu hos detyve em Maluco, porque he terra doemtya, para ver se os podia matar. Não me estrevy a mandar- -lhas cortar, porque não sabya o gosto que Vosa Alteza levarya nyso. Eu escrevo a Jorge de Albuquerque que também os detenha em Malaca, porque he terra não muyto sadya. Eu mando a Garçya Chaynho, para mandar as naos da caregua duzentos e cincoenta 52 quyntaes de cravo, ainda estes em junco de mercador, porque ho navyo he pequeno e despoes que lhe meteram seus mantimentos e fato, não pode levar mays que cem quyntaes e os outros leva ho junco. Item. Estroutos (sic) navyos que me ca ficam não me estrevy mandar agora nenhum deles, porque, a partyda 52 — 1J1 r 5 3
  • deste navyo, me ficavam cento e quarenta " omens, e os quaremta aynda doemtes. Eu tenho mandado pedir socorro a Jorge de Albu- querque e asy haho capitam-mor da Indea, e lhe mando pedir que me mande huma nao; e ao veador da fazenda mando pedir a roupa que asyma tenho dado conta a Vosa Alteza, e fazenda para comprar o cravo, como me Vosa no v.] Alteza manda em meu regimento, // que lho compre todo, porque hum navyo que eu ca tenho em que vym, que se chama Santa Ofemea, com esa outra nao, se me vier, lhe mandarey, cada ano, tres ou quatro myl quyn- taes em que Vosa Alteza pode receber muy grande pro- veyto, porque nestas ylhas de Maluco se podem bem apanhar, huuns anos por outros, quatro myl bares de cravo. Estes todos o feytor desta fortaleza hos pode com- prar para Vosa Alteza, se tiver fazemda para yso. Eu, este anno, dey liçemça aos mercadores de Malaca, a alguus que achey aquy, por não trazer fazenda para ho comprar para Vosa Alteza. E ysto por hos omens da terra me vyrem chorando e com muytos furos de trayção que lhe leyxase vender o seu cravo, poes lho não query a com- prar. A mym, porque me pareçeo servyço de Vosa Alteza e alguma justiça, lha dey, ate vir recado seu, o que me manda que nyso faça, e ysto porque tynha huma fortaleza por fazer, em que tanta honra vay a Vosa Alteza fazer-se, e a mym, acaba-la. Item. Senhor, a fazenda que achey nesta armada, despoes que mataram a meu yrmão, foram dous myl e quynhentos cruzados que Gaspar Fernandez, seu feytor, empregou em Dio, dum pouco de cobre que la foy ven- der, que trouxe de Purtugal; o azougue que trazya ficou na mão do veador da fazenda, quando fomos para Dio, 5J - jer ' 5 4
  • para se vender. No se vendeo; trouxe-se para Pacem, onde ele vai alguma roupa. Pacem estava, a minha chegada, destroydo; leyxey ahy ho feytor, numa caravela, para ho vender, e eu vym-me para Malaca, para fazer a frota prestes a ele // nam não (sic) fez mays de seiscentos 54 cruzados, como ja tenho dado conta a Vosa Alteza. Em Malaca mandey ao feytor que ho entregase todo a Garcya Chaynho, para ele dar alguma roupa que valese ca, em Maluco, deses mercadores. Ele lhe darya ate qui- nhentos cruzados, em roupa, e dise que nos jumcos que para Banda vyesem, ou neste navyo de Dom Garçya, mandarya outra contydade, porque eu party em Outubro, de Malaca, sem mouçam, para ver se podia ca achar estas naos. Achegey a Agaçym, huma çydade que esta na Java, onde achey jumcos de Banda e de todas partes, e ne- nhuum me soube dar recado delas. Despoes que fuy em Banda, me deram as novas como estavam em Tidore, como ja tenho dado largamente conta a Vosa Alteza. Garçya Chaynho me mandou num jumco em que vy- nha huum Antonio de Pina, por capitam, myl e duzentos cruzadoes, empregados em roupa, do azouge que lhe ley- xey em Malaca, que tynha valya de quatro myl cruzados. Este jumco nunca soube recado dele ate agora; não sey se se perdeo, se não pode pasar. Do cobre que acyma deguo a Vosa Alteza, que tomey a estes castelhanos, eu mandey fazer moeda dele, porque vy tamanho servyço fazya a Vosa Alteza nyso, que se pagase mantymento a esta yemte que aquy esta, em roupa, para por ela comerem, que nam quereryam os 54-bj
  • negros apanhar ho cravo por caso de cam barato vai. Eles a tomaram (12). Eu escrevo ao capitão-mor da Indea e ao vedor da [u v.i fazenda que me mandem cobre e moedeiros // para a fazer; que fazendo-se moeda, todo o cravo pode o fevtor comprar, como asyma diguo a Vosa Alteza, pela roupa que vyer de Cambaya, e sera huma das fortalezas de que Vosa Alteza pode reçeber grande proveyto. A feytura, senhor, desta, tenho o lanço da banda do mar todo feyto, que he de vinte sete braças em comprydo e de larguo doze palmos; e a tore da menagem no pry- meyro sobrado; ysto sem ajuda de nenhum ornem da terra, com cento o coremta omens portugeses, e traba- lharyamos obra de cynquo meses, porque todo outro tempo esteve a jemte toda doente, como acyma tenho dado conta a Vosa Alteza (13). Eu aperto agora com todolos reys destas ylhas de Ma- luco que me ajudem; eles me tem dado palavra de sy. (12) Na carta enviada a el-rei a 6 de Maio. e que é cópia desta, lê-se nesta passagem mais o seguinte: «Eles a tomaram ate aquy mal; a partyda deste navyo ya a não tomaram e amdam muyto alvoroçados, ordenando alguma trayçam, ou ruymdade. Eu os contenho com algu- mas peytas e asy com boas palavras, dezemdo-lhe que era muy bem; e ysto sera ate acabar de fazer esta fortaleza, e despoes de acabada, eu lhe farey fazer este servyço a Vosa Alteza e outros mores, quando lhe forem necesaryos. Porque certefico a Vosa Alteza que nunca vy jemte de tamtas trayções nem ruyndades, porque depois que tenho compeçado esta fortaleza, me ordyram myl, e nunca me ajudaram a trazer huum pao nem huma pedra pera ela, nem por soldada, nem por amizade. Eu espero em Noso Senhor de acabar bem çedo sem sua ajuda. (13) Deste ponto em diante, o texto da segunda carta é como se segue: «Senhor, eu mando ao capitam-mor da Yndea hum homem que se chama Diogo Lopez, e esteve ya em Maluco com Francisco Seram; e outro Jorge Corea, moço da camara de Vosa Alteza, em que lhe certefiquo que cada hum deles he poderoso para revolver a Indea toda, dando-lhe credito. 156
  • Prazera a Deus que sera asy, para acabar de fazer este servyço a Vosa Alteza que eu tanto deseyo de acabar. Senhor, a carta que acyma tenho escryto a Vosa Al- teza, que tomey de Fernão de Magalhães, não lha mandey agora, por me não pareçer seu servyço leva-la omem, se não que lha soubese decrarar. Ela tem trezentos e sesenta grãos de Leste ao Este; repartyo nela cento oytenta grãos da banda de Leste para Vosa Alteza, e cento e oytenta a Loeste para el-rey de Castela. Nestes cento e oytenta del-rey de Castela pos Maluco. Eu fys crer a estes que era falso o que ele fezera. A mym me dixeram que o capitão-mor da Imdia man- dava capitão a Maluco. Não olhou // quanto servyço eu '1Z rJ tenho feyto a Vosa Alteza nestas partes, nem a meu irmão, que moreo em seu serviço. Poes o ele asy fez, eu lhe yrey dar comta meudamente dysto, e asy, de todas outras cousas que nestas partes tenho feytas. O Diogo Lopez foy ho omem que fez matar meu yrmão em Da- chem, porque esteve ya hahy, e ysto porque lho fez tam fácil que lhe dise que não tynha mays de cynquenta negros no lugar. E meu irmão, vendo quanto servyço era de Vosa Alteza destroyr este lugar, poios deservyços que lhe tynham feytos, deu nele; homde o mataram por sua causa. E os mando presos ao capitam-mor, para os castygar como eles merecem, porque eu não me estrevy a lhe dear a pena que me- recyam, asy por esas cousas que asyma digo a Vosa Alteza, como por outras muytas que me ca cometeram. Senhor, a merçe que lhe nesta peço he olhar todos estes servyços que acyma diguo que lhe tenho feyto, e asy os desejos que tenho de lhe fazer outros mores, quando me a mão vyerem ter, e olhando-os, não lhe esquecer de me fazer merçe, quando ho por seu servyço ouver. Não lha peço aqui nomeadamente, porque a Vosa Alteza lembrara de a fazer a quem tanto servyço lhe tem feyto. Fico rogando a Noso Senhor vyda e estado de Vosa Alteza. Feyto em esta sua fortaleza Sam Yoão de Ternate, aos seys dias de Mayo de 523 annos. as. Amtonio de Bryto» i 5 7
  • Fico rogando a Noso Senhor por vyda e estado de Vosa Alteza. Feyta em a sua fortaleza Sam João de Ternate, aos ii dias de Fevyreyro de 523 annos. as. Antonio de Bryto 158
  • 21 CARTA DE RUI GAGO A EL-REI Molucas, is de Fevereiro de 1523 ANTT: Gaveta 18-6-6. Original em um caderno com seis folhas escritas e soltas; letra compacta, mas legivel. Todo o documento se conserva em bom estado. Mede 300 x 223 mm. a) Notícias sobre os castelhanos da armada de Fernão de Magalhães, retidos nas Molucas. b) Procedimento do régulo de Tidor. c) Carga e armas apreendidas aos castelhanos. d) Preço do cravo e moeda portuguesa posta a correr em Ternate. e) Dificuldades e trabalhos na construção da fortaleza. /) Medalhas e estampas religiosas espalhadas em Tidor. g) Referências a outras ilhas daqueles sítios. Senhor, « De Banda escrevy a Vosa Alteza, dando-lhe conta desta sua armada de Maluquo, e das novas, que emtam na tera avya, das naos del-rey de Castela, que a Maluquo eram chegadas. Item. De Bamda party o Amtonio 1 de Brito, que por capitam ficou, per morte de seu irmão, Jorge de Brito, 1 — Amt.°. 159
  • aos 2 de Março de 522; e cheguou ao porto da ilha de Tidore, que he huma das de Maluquo, aos 13 do dito mes, homde achou estarem, na terra, tres homens caste- lhanos, que ahy ficaram das duas naaos que ahy vyeram ter, das que ficaram, que trazya Fernam de Magualhães; a huum dos quaes homens ficava emcarregada huuma pouca de fazemda e artelharya del-rey de Castela, que aquela e outra leyxaram por estas ilhas, como que a trazyam para homens cristãaos e seus naturaes. Item. Nesta propya ilha de Tidore, que he a prim- cipal, tiramdo Ternate, de todas as outras de Maluquo, fizeram os castelhanos sua demora e carregua, fazemdo com eles gramde festa o rey dela, porque sempre ao rey de Ternate, que do tempo que Francisco 2 Serrãao a ele chegou, se ouve por vasalo de Vosa Alteza, quis gramde mal; e em tempo que Francisco Serãao, com o rey de Tidore, ouve muitas pelejas, em que sempre foy vem- cedor, e depois de muito pelejados, e o de Tidor reco- lhydo a serra, se fazyam amiguos, a roguo doutro rey doutra ilha, que chamam Geilolo; e também por a mo- lher do rey de Ternate ser filha dele-rey de Tidor; e durava-lhe, como sempre duror, verdade de mouro. Ao tempo que as naaos de Castela cheguaram ao seu porto, era ja morto o rey de Ternate e Francisco Serãao, ti v.) que os matara o rey de Tidor, em huum / / convite que lhes deu, com peçonha. E quamdo as naaos ao seu porto vieram, temendo-se que as de Vosa Alteza ao rey de Ter- nate sempre aviam de favoreçer, as recolheo, como ja diguo, com gramde guasalhado; e aos de Ternate amea- çou que lhe paguaryam os males ja pasados, nam se comtentando ter-lhe morto o rey e ficar seu neto por erdeiro 3 do reino. 2 — fr.°o; J — erd.rc i 6 o
  • Estiveram as duas naoos, na dita ilha, sete me- ses; e nese tempo fizeram sua carregua com grãas veludos, cobre, coral, e compraram tam caro que, posto o cravo em Castela, nam se forravam guastos das naaos. Huma das naaos, ao tempo da cheguada da armada de Vosa Alteza, que foram aos 13 4 de Mayo de 522, avya quatro meses que era partida; e a outra, nam avya mais de dous. Item. O proprio dya que cheguou a armada ao porto, me mandou Antonio de Brito a tera, para que, de parte de Vosa Alteza, pidise a el-rey da ilha aqueles homens e a fazemda que deles tinha; os quaes loguo me entre- guou, e a fazemda e artelharya; e no propyo dia foy ver, o rey, Amtonio de Brito, a naao, com dar-lhe des- culpa de reçeber outra gem te que de Vosa Alteza nam fose, em sua tera; dizemdo virem a ela, como homens mercadores que se meteram em seu poder; que ele sempre lhes disera que era vasalo de Vosa Alteza; e a tera, sua, do tempo que Françisco Serrãao a estas partes chegara, e depois, Dom Tristam de Meneses; que ja dise tinha escrito a Vosa Alteza. E todas estas cousas me ele ja tinha dito em erra, peramte os castelhanos, e eles diseram ser verdade o que el-rey dezya. Do qual, senhor, ti- rey huum estromento, asynado por el-rey, em que con- fesava ser asy, porque me pareçeo serviço de Vosa Alteza faze-lo. O qual estromemto me tomou Amtonio de Brito-e me dise que ele o mandarya a Vosa Alteza, o qual era feito por Jorge Correa, moço da camara de Vosa Alteza, que em tam era escrivam da feitorya. Outro tenho, senhor, do mesmo theor que tirey em 4 - xiij. 161 IN1UL ÍNDIA, . If
  • Bamda, asynado por todos os xabandares (i) e primcipaes da ilha, que espero em Deus de levar a Vosa Alteza; que aimda que Antonio de Brito me tomase este, que tyrey, del-rey de Tidor, para que este serviço nam alegase a Vosa Alteza, sabya que avya doze annos que lhe tinha feitos muitos na Imdia, porque lhe mereçia fazer-me merce e se o Vosa Alteza, ate aguora, nam soube de meus tios e primos, serya porque sempre fuy tam prove (2 r.i que lhe fazya averem-me por esqueçido. // Item. A outro dia, chegou ao porto de Tidor huum filho bastardo del-rey de Ternate, que se chamava Que- chil de Aruez, e nam o mais velho dos bastardos, que el-rey tinha, senam este, que mais leal foy ao filho erdeiro, depois da morte de seu pay, e neste tempo guovernava o reino, polo moço ser muito pequeno. Com ele se veo loguo Amtonio de Brito, com toda a armada de Vosa Alteza, ao seu porto, que he huuma leguoa da povoaçam, homde el-rey estava. Dahy a dous dias, veo o propeo moço erdeiro ver Amtonio de Brito, as naaos, por mandado de sua may, que he a pesoa que mais no reino manda, aimda que he molher. Aly lhe deu Amtonio de Brito huma carta que Jorge de Brito de Vosa Alteza para seu pay trazya, e com ela, algumas cousas que pareçeram serviço de Vosa Alteza darem-se; e dey da fazemda de Vosa Alteza a sua may e ao regedor e outros homens honrrados da terra. Item. Senhor, depois de bem vista a despoçisam da terra, dahy a tres ou quatro dias, por Amtonio de Brito (ii) Xabandar (Persa shah-bândar, «rei do porto»). Capitão do porto, patrão da ribeira, chefe da alfândega. Nos grandes empórios comerciais do Oriente havia bairros separados, habitados por nego- ciantes de cada nacionalidade ou religião, e cada um desses bairros tinha um chefe, por vezes, da mesma nacionalidade, nomeado pelo rei do país... (R. Dalgado, op. cit.). IÓ2
  • e por mym, com conçelho dos capitães e cryados de Vosa Alteza, asentou ser melhor e mais serviço de Vosa Alteza fazer-se a fortaleza nesta ilha e povoaçam, homde el-rey de Ternate esta, por esta razam, por ser el-rey de Ter- nate, por sy, mayor senhor de todos os das outras ilhas, e ter muitas ilhas e terras debaixo de seu senhoryo, e mayor servidor de Vosa Alteza, e ter milhor porto que nenhuma das outras ilhas e mais cravo. Asy, senhor, que por estas cousas, pareceo mais ser- viço de Vosa Alteza fazer-se aquy; homde, depois de feita huuma tranqueira, em que se apousemtou Amtonio de Brito e nela se recolheo a fazemda de Vosa Alteza, se primçipiou a fortaleza, aos 24 s de Junho de 522, em dia de Sam Joham, de que lhe ficou o nome. E nela se fez sempre, o mais que pode ser, sem mais ajuda que dos purtugueses, que estes da terra, com dizerem que ajuda- ryam, paguaram ate aguora que sempre o dizem. Item. Depois desta naao derradeira de Castela ser partyda, avya sete meses, cheguou aquy huum mouro, em huum paraao, que dise que, desta ilha a trimta leguoas a vista doutra, andava huma naao, a qual loguo dise que era de Castela. E loguo no propio dia se fezeram prestes dous navyos e huma fusta, para hirem por ela e nuum dos navyos hya Dom Guarçia Anrriquez, filho * de Dom Afomso 7 Amrriquez; e noutro Pero ®. Botelho, filho do corregedor Estevam Guaguo. Estes foram por huma parte da ilha; e pela outra, foy Quiachil de Arruez, regedor, com muitos pormos da terra, e purtugueses neles. Foram dar com a naao no lugar honde o mouro desera, a qual loguo trouxeram aquy. Era huma das duas que diguo a Vosa Alteza, a derra- deira que partyo, que tornou a arribar, com vemtos con- 5 — xxiiij; 6 — f.0; 7 — afom; 8— p.®. i 6 3
  • trarios. Mandou-a Amtonio de Brito sorgir em huma ca- lheta, que esta huum tiro de besta fora deste arreçife, homde os navyos de Vosa Alteza estam; porque demtro nele, porque demtro nele (sic) nam podem entrar, senam despejado de todo. E naquela qualheta despejaram as de Vosa Alteza, e emtraram demtro no arreçife; e despe- jamdo-se, senhor, a naao, para poder emtrar demtro no arreçife, veo tamanha tormenta a esta ilha que diziam os da terra nam se lembrarem de tal tempo. Com a qual tormenta a naao deu, huma noute, a costa; e da pri- meira pancada que deu, abryo loguo toda, porque era naao velha e de cavilha. O que eu ja, senhor, desta naao tinha recebido pelo escrivam dela, que por peso mo emtreguava, que eu dou- tra maneira o nam quis receber, por me nam fazerem, do pouco, muito, eram dozemtos e setemta e quatro quin- taes, e vimta quatro arrates de cravo, os quaes, este anno, em huum navyo, que daqui vay para Malaqua, em que vay Dom Guarçia Amriquez, e nenhum jumco; que tam- bém daquy ira easy todo. Item. Mais se tinha tirado da naao estas cousas, as quaes o almoxarife * recebeo, por mandado do capitam Amtonio de Brito: as velas da naao, trinta 10 petos, com doze espaldeiras, e vimte cervilheiras, e tres castos, e trinta e nove 11 piques, e setenta e seis 13 lamças da gua- vea, e dez 13 dardos, seis berços de ferro, dous falcões de ferro, duas bombardas grosas de ferro, doze espimguardas, nove bestas. E asy depois da naao ser quebrada se tira- ram muitos preguos e pernos14 (?) que o capitam mandou guardar, dizemdo que ele o emtreguarya ao almoxarife. Comtudo, senhor, eu trabalharey com o almoxarife que me de conhecimento como os recebeu, e asy todas outras 9 — almxr; 10 — xxx; 11 —xxxix; 12 — lxxbj; 1J —x; 14 — pnos. 164.
  • que em seu poder sam, que lhe o capitam mamdou dar, somente sey eu quantas sam, pela emtregua que o escri- vam dos castelhanos fez. Item. Senhor, eu escrevi ao vedor da Fazemda da Imdea as mercadaryas com que avya de acudir a esta feitorya, asy as per que se compra o cravo, como as per que homens nela esteverem amde comer, as quaes aqui nam nomeo a Vosa Alteza, porque sam panos de Can- baya e Bengala, de muitas sortes. // W Item. Os preços per que se este cravo aguora compra, e que nesta feitorya estam asemtados, sam estes, o qual preço he em roupa; e porque he de muitas sortes, nam nos nomeo a Vosa Alteza. Chega o bhar a tres cruzados, que sam quatro quimtaes e dezaseis arrates. Destes pre- ços que o feitor trazya, os quaes foram pesados pelo peso novo de Cochim, e soubemos serem estes (2) do peso velho, os quaes preços, senhor, foram asemtados com asaz trabalho, asy pela ma compra que os castelhanos feze- ram, que davam quatro braças, cimquo braças de gram (3), por huum bar de cravo; e de cobre, davam huum bar de cobre, por. quatro de cravo, que naquele tempo nam valya mais o bar do cravo que a dous cru- zados, e a menos o comprou Dom Tristam, e asy o coral e azougue, por esta maneira. Polo qual, senhor, eles nam quiseram vir a menos de tres, e alguma roupa; que, em outra muita, vem a dous. E asy, senhor, escrevo ao vedor da Fazenda da Indea estas sortes quaes sam, para as mandar de Canbaya, honde nam custa mais de hum cruzado, a qual, qua, vale tres. Outro respeito, senhor, teveram, por homde fezeram os preços desta maneira; que he nam aver nestas terras (2) Palavra riscada. (3) Tecido cor de escarlate. i 6 5
  • mais moeda que huma pouca que aquy veo em huuns juncos que aquy vyeram de Jaoa, pela qual moeda, que he chamada caixas (4), se compra o comer e roupa. E nesta feitorya nam avya nenhumas caixas, porque as que eu fiz na Jaoa, da roupa que vemdy, o tempo que ahy esteve a armada, nam ouve para mais que para paguar o man- timento do tempo que ahy esteve, que foram tres meses. Asy, senhor, que foy neçeçaryo dar-se aquy o man- timemto e roupa e no preço que aos homens a dava, quando a vemdiam, nam achavam por ela tamto, pola pouca moeda que na terra avya, e eu, senhor, nam podia fazer dinheiro 15 para paguar, porque guasto, cada mes, trezemtos cruzados, ou mais, em mantimentos, e em dez annos, se nam ajumtara outra tamta moeda. Asy, senhor, que estes homens da terra, porque aviam a roupa pelo comer, nam curavam muito do cravo que se apanha com mais trabalho. Hordenou, emtam, Amtonio de Brito, com dizer-lhe, que se nam podya soster esta feitorya com paguar roupa, fazer moeda, e po-lo por obra, porque nas terras homde Vosa Alteza tem fortaleza se faz; a qual, senhor, se fez de cobre que eu aquy tinha dos castelhanos que estavam » »•) em Tidor. // Item. Senhor, a moeda da tera que aqui trouxeram os jaós, como ja diguo a Vosa Alteza, he de metal e cobre, e valem cimquoemta caixas " huum vimtem e mil caixas huum cruzado. Fez-se, a de Vosa Alteza, de duas ma- neiras; huma caixa, que vai cimquo das suas; e outra mais pequena, que vai duas. Tem de huma bamda as quinas; e da outra, a espera ". Começou-se de fazer de (4) Caixa, caxa ou caxe; nome genérico no Oriente, dado a uma moeda de cobre, de muito pouco valor. 15 — dr.o; 16 —cae; 17 — i. é. a esfera. I 6 6
  • Outubro para qua; toma-se, senhor, com muito grande trabalho, porque todos os dias me he neçeçaryo hir a rainha, a dizer-lhe que nam querem tomar a moeda de Vosa Alteza, temdo mais razam para yso que a dos jaaos. Manda loguo apreguoar por toda a cidade e terás que a tomem; dura-lhes oyto ou dez dias tomarem-na bem, e despois que se enfadam, he neçesaryo tornar-lha a dizer, vemdendo-lhe eu a roupa por ela, aimda que lha nam ouvese de vemder, porque eles a vam tomando, como fazem a estoutra que damtes tinham. E se esta moeda, senhor, aquy nam corre, e asy em todas estoutras ilhas, nam se pode soster a fortaleza com quamta roupa a em Cambaya, nem Vosa Alteza sera bem servydo. E porque, ao presemte, com o fazer da fortaleza, he neçesaryo que os homens andem espalhados a trabalhar, nam se faz mais que roguarem-lhe que a tomem. Os desta ilha dizem que folgam com ela, mas que tra- zem os mantimentos de fora, e que nas outras ilhas que lha nam querem tomar, as quaes estam todas huma leguoa huma da outra; e daqui, da fortaleza, se vem todas. Pasa-se, senhor, este trabalho asy, com fazerem sem- pre esta lembrança a el-rey, porque os reis desta terra nam sam mais reis que no nome, e fazerem-lhe aquele- acatamento que eles cuydam que he devydo a reis; e na& outras cousas, que toca as suas fazendas, se lhes man- dam cousa que nam he de sua vomtade, nam na querem fazer; e eles tem tam pouqua renda como quallquer outro homem homrado. asy de cravo, como de todas as outras cousas. A desculpa, senhor, disto diz este regedor que he por-u que o rey he moço, e que em vyda de seu pay, o que ele mandava fazer, que era feito. Diz-lhe, senhor, Amtonio de Brito que homde esta capitam de Vosa Alteza nam he neçesaryo o rey ser I 6 7
  • y gramde, nam aproveita, porque eles sam cafres, e se o regedor podese, desejoso he ele do serviço de Vosa Al- teza; senam el-rey de Tidor sempre quis mal a este rege- dor, porque recolheo este moço, porque o queryam seus irmãaos matar; e dizem que por mandado del-rey de Tidor, porque se querya fazer senhor danbas as ilhas; e ele faz com a filha que va a mão ao regedor em todas as cousas que manda; e isto, senhor, tam cuberto que lhe nam podem dar culpa diso; e se em alguma cousa sabe que o culpam, manda loguo recados ao capitam, dizemdo (4 r.i que he vasalo de Vosa Alteza e seu servydor; e porem, // ele tem feitas bem maas cousas, asy no recolher destes castelhanos, como na entrega de hum, que lhe la ficou, ao tempo que emtreguou os outros, dizemdo que nam estava ahy, que mandarya por ele e, de dya em dia, o teve dous ou tres meses, ate se desaverguonhar a dizer que, se o tinha, era porque avya medo de virem as naaos de Castela e lhe tomarem comta de como emtregou os outros, que tinha aquele para sua guarda, e desculpa. E por derradeiro, veo a dizer que se tornara ja aquele homem mouro, e que, por yso, o nam dava. Creo-se ser asy, porque eles todos o amdavam, asy no ter das mo- lheres e trajos^ como em vemder as cruzes, com o Cru- çufixo, e estampas e imagens de Nosa Senhora; que os outros santos, e vemder espadas e artelharia tinham eles per nada. E disto fizeram tam mal acustumados estes mouros que pedem aguora as bombardas, como se fosem de cana. E quanto, senhor, ao castelhano que ele tinha em Ti- dore, ele dise que o darya a mim; se eu la fose. Mandou-me,emtam, Amtonio de Brito laa; faley com el-rey; emtreguou-mo, dando-me desculpas, e trouxe-o. E, ate aguora, esteve sempre preso em ferros, porque i 68
  • nam fugise para os mouros, e aguora vay para a Imdia com todos os outros. Item. As ilhas em que qua ha cravo sam cimquo, e a mayor e mais prinçipal he esta de Ternate, em que dizem que, quamdo ahy ha abastança de cravo, pasa de mil bares, que sam quatro mil quimtaes, como ja diguo a Vosa Alteza. Loguo a caram 11 desta, esta a de Tidor, que também dizem que da quinhentos bares de cravo. A outra perto da de Tidor, que se chama Montel, em que avera dozem- tos bares; e loguo perto desta, outra, que se chama Ma- quiem, em que avera oytocemtos bares; e alem desta, outra, que se chama Bacham, que dizem que tera tre- zentos bares, a qual aguora esta fora do serviço de Vosa Alteza por este respeito: Quando aqui Dom Tristam de Meneses esteve, o anno pasado, em huum navyo, estava nesta ilha de Bacham huum jumco de huum mercador de Malaqua, que se chama Cutya Deva; em ele estavam sete portugeses, am- tre os quaes estava hum moço da camara de Vosa Alteza, chamado Simam Correa, por feitor da fazemda que Vosa Alteza nele trazia; os quaes o rey da ilha, com os da terra, se alevantaram comtra eles e os mataram e lhes tomaram as fazemdas. Nam pode Dom Tristam niso fazer nada, porque tinha pouqua jemte. Aguora, quando Am- tonio de Brito agora por ahy veo, porque he a primeira que, quamdo vem de Bamda, se toma, sorgio jumto com o porto e sayo em terra. Era o rey recolhydo a serra, com toda a outra jemte. Tornou-se loguo Amtonio de Brito a embarcar, sem fazer mais nada, // porque vinha com H *•) nova de estarem as naaos de Castela em Tidor. Despois de estar aquy, em Ternate, mandou o rey de 18 —«a caram de», o mesmo que «a caret de»; rente; a res de. i 6 ç
  • Bacham dizer aquy, a rainha, que o fezese amiguo do capitam. Reqtiereo a rainha a Amtonio de Brito, por este respeito. Esta rainha de Ternate he filha del-rey de Tidor e da molher que agora tem o rey de Bacham; que semdo ela casada com o rey de Tidor, temdo ja esta filha e outras, de la fugyo para o rey de Bacham, e ele tomou-a por molher, e nam ficaram, per yso, os reis, mais imiguos que dous ou tres dias, ate que o de Tidor ouve outra molher, irmã que foy do rey de Ternate, pay deste. Estg custume tem amtre sy, como tem outros maaos. Asy que, por este respeito, requereo esta rainha ami- zade de el-rey de Bacham com o capitam. Perguntou-me Amtonio de Brito o que nisto farya, aserqua da fazemda e da amizade. Dise-lhe que me pa- recya serviço de Vosa Alteza mandar-lhe pedir toda a fazemda que la tinha, asy de Vosa Alteza, como dos pur- tugueses e armada. Deu-o asy por resposta a rainha, e que quamto a mais amizade, que niso nam podia fazer mais que escreve-lo a Vosa Alteza, e faze-lo que lhe mandase, pois que tinha os homens mortos. Mamdou ele aquy os escravos e escravas que foram dos purtugueses, e que querya qua vir. Man- dou-lhe dizer Amtonio de Brito que aimda nam tinha feito serviço a Vosa Alteza, para que vyese diamte de seu capitam, nem ele lhe podya dar tal liçemça, ate lho Vosa Alteza nam mandar. De como os ele matou Vosa Alteza o terá ja la sabydo por hum homem que deles escapou, a nado, que foy com Dom Tristam para Malaqua; que estes da terra poem a culpa aos purtugueses, nam sendo asy. Ficaram daquy huum pouquo soberbos, e an-se por mais cavaleiros que os das outras ilhas. Item. Nestas ilhas todas nam a mais reis que em qua- tro: de Tarnate, e Tidor, Bacham, e Geilolo, que he huma / 7 o
  • ilha em que nam a cravo, e a muitos mantimentos. Aqui mandou alguns escravos que eram para la fugidos, de quando aqui Dom Tristam esteve. E nestoutras ilhas a guovernadores sogeitos a Ternate, que, depois da morte deste rey, se alevantaram, com as terras, ate esta armada de Vosa Alteza cheguar; que começaram de vir, mais por medo que por vertude. O custume deles he furtar o mais que podem, e quando os acham com o furto, nam lhe fazem mais que tomarem- -lho, porque asy he o custume da terra. Se alguum he devedor a outro dalgum dinheiro ", que sejam pesoas ambas iguoaes, se lhe nam quer paguar, nam faz queixume dele a el-rey; somente faz penhora, se pode, na fazemda doutro homem mais homrrado, e depois que a tem feita diz-lhe: «eu //te tomey isto, por- is r.i que foãao me nam quer paguar». Vay-se, emtam, este, a casa do primeiro devedor, e toma-lhe a contya da fazemda que deve ao outro, e ele torna-lhe o seu; e asy fica paguo; que doutra maneira nam tem justiça. Vam daquy, em paraaos, a humas ilhas, que estam cimquenta legoas daquy, a furtar, e asy Amboyno, e a Banda; e os que podem tomar, resguatam-nos por bem pouquo dinheiro, porque eles nam se tem em muita comta. Outras ilhas ha, daqui quoremta leguoas, dhuns ho- mens que chamam Calebes, que tem ouro e dam-no por humas continhas, que se chamam marguaridetas, e dam peso douro por peso de comtas. Outras comtas valem, das que a em Benguala, das quaes eu escrevo ao veador da fazenda. E por este caminho, daquy para Malaqua, que dizem que he caminho dhum mes, pode Vosa Alteza ser milhor 19 — dr.o. i 7 i
  • 4 servydo da Imdea, nestas partes, porque o caminho de Bamda he de aguardar tempo de quatro ou cimquo meses. Item. Todos estes reis, asy o de Ternate, como os das outras ilhas, nam tem dada nenhuma ajuda a se fazer esta fortaleza, senam dizem que ajudaram. Faz-se com os purtugueses, que seram cemto e vimte homens de tra- balho, que todos os dias trabalham, repartidos em tres quartos, e cada quarto seu dia. Todos os mais sam doentes e muitos mortos; e com esta pouqua jente he feito o lamço do mar caise todo; asy a compridam da fortaleza, como a altura do muro e a torre, ja no primeiro sobrado, faz-se com muito trabalho, porque trazem a pedra e lenha para a quel, de longe; porque, com a morte de Jorge de Brito e dos que com ele morreram, ficou esta armada tam min- guoada de omens fidalguos e criados de Vosa Alteza que, depois que aquy faleceo Lourenço 20 Guodinho e seu irmãao Pero Botelho, meus primos com-irmãaos, filhos do corregedor Estevam Guaguo, nam ficou homem a quem se desem os navios de que eles eram capitães. E aqui a huma naao, em que veo Amtonio de Brito, e huum gualeam, e tres navy os e huma fusta; somente huum navyo e a fusta tem capitam. Aqui nam sam mais neçeçaryos que dous navios de carregua, e tres ou quatro fustas, que mandasem da Imdea, para guarda da terra, is v.i nam se esperamdo por armada de Castela; // e porque mayores navyos nam tem qua corregimento, por mingoa de carpimteiros, e de todas as outras cousas neçesaryas a eles. Item. Este cravo que diguo a Vosa Alteza, que nestas ilhas avera, dizem que he quando os annos sam abas- tados, que o que eu tenho visto deste he partir daquy 20 — l.eo. J 7 2
  • huum navyo e dous jumcos sem ele pelo não aver na terra; e vam buscar a carregua de nos e maça a Bamda. Somemte mando eu este, que tomey da naao de Cas- tela, e aimda que na terra ouvera muito, nam o poderá comprar, pela pouqua fazemda que tenho, como ja diguo a Vosa Alteza; que he a que eu receby, por morte de Guaspar Fernandez ai; e o azougue que ele, de Por- tugal trouxe, eu o lexey todo em Malaqua a Guarcia Chainho, feitor de Malaqua, porque nam pude vemder dele nenhum. A quem eu aguora escrevo e faço reque- rimento, de parte de Vosa Alteza, que com a comtya da fazemda, que lhe eu la deixey, e com a mais que ele poder, acuda a neçecidade que aguora esta fortaleza tem, porque, se sempre lhe ouverem de acudir com tam pouqua fazemda, como eu trouxe, tera sempre muito guasto e pouquo proveito. E asy também mande Vosa Alteza que se faça tomar esta moeda, por estas ilhas, porque com roupa se nam pode soster, e de la mande Vosa Alteza o cobre e homens para yso, que a saibam fazer, porque eu de tudo isto escrevo ao veador da Fazemda. Remde, senhor, o quimtal do cobre, que eu, por peso, emtreguo ao moedeiro, e ele, por peso, torna a emtreguar moeda feita, quinze mil caixas das da Jaoa, que sam quimze cruzados; humas vezes, mais; outras, menos; porque se nam faz fundida, e batida o martelo, as vezes, he mais grosa, e outras, mais delgada; e sempre emtre- gua, em retalhos, perto dhuma arroba; e o que mais faleçe do quintal, que lhe emtreguam, quebra na moeda; e o proveito que se dele aqui tira e aver moeda, porque se nam pague em roupa, por se nam danar o trato do 21 - frz. i 7 3
  • cravo, e também porque nam a hy roupa que tamto abaste. Item. O que eu receby dos castelhanos que estavam em Tidor sam cento e vimte quintaes de cobre, e dous quintaes e tres arrobas de ferro, e cem arrates de azou- gue, e ao almoxarife foram entregues onze berços de ferro quebrados, e duas bombardas de cepo e dous falcões; hum de ferro, outro de metal e duas bombardas outras, a que eles poseram nome pasa muros, de ferro, postas em çepos, e elas todas sam tam mas que cuydo que, por este respeito, as levaram por estas ilhas, se nam era por 16 r.) outro pior. // Item. Ate aguora nam a outras novas que a Vosa Alteza escreva; e das que daquy por diamte ouver, sem- pre farey sabedor delas a Vosa Alteza, aqueles que forem mais seu serviço. Fico roguando a Deus por saúde de Vosa Alteza e acreçentamento de seu estado. Desta fortaleza e ilhas de Vosa Alteza de Maluquo, oje, 15 dias de Fevereiro, de 1523 annos. Cryado de Vosa Alteza. as. Ruy Gaguo ' 7 4
  • 22 DEPOIMENTO DE DIOGO BRANDAO EM O PROCESSO DAS MOLUCAS Tomar, 25 de Agosto de 1523 ANTT: Gaveta 13-6-1. Este depoimento é o último de uma série deles, reunidos num caderno de vinte nove folhas, sendo vinte e cinco escritas, e que homens com assinalados serviços prestados no Oriente fizeram, quando da célebre Questão das Molucas, entre Por- tugal e Espanha. Existe sobre o assunto uma documentação profusa que não interessa ao nosso objectivo. O debate terminou com o Tratado de Saragoça, assinado em 22 de Abril de 132Q, pelo qual a Espanha recebia de Portugal 330.000 cruzados, com a obri- gação de renunciar a qualquer direito que pudesse ter nas Molucas. Estas convenções diplomáticas não evitaram, porém, que os incidentes entre portugueses e espanhóis continuassem lá nas paragens daquelas ilhas distantes. 122 r.l Item. Diogo Brandam, cavaleiro da casa del-rey, nosso senhor, testemunha jurado aos santos Avangelhos e preguntado na maneira seguinte: Item. Preguntado se sabe que Affonso 1 dAlboquerque tomou Malaca, mandou logo tomar Maluco, dise que he verdade que elle, Affonso dAlboquerque, como tomou Malaca, por achar que hi nom avia drogaria, mandou, pollo regimento que levava del-rey, que Deus aja, logo 1 — À.o. 17 5
  • descobrir Maluco, per tres navios, a saber: Antonio de Abreu, por capitam moor, e Francisco Serrão, por capi- tam doutra naao; e hum cavaleiro a que nom lembra o nome, em huma caravella. E sendo em viagem estes tres navios, na paragem de Jaoa se perdeo a nao em que hia Francisco Serrão, e elle, com os homens que levava, se pasaram a nao de Antonio de Abreu, e sendo em Banda, nom a poderam tomar, que a escorreram, por nom servir o tempo, e forom em- vernar a hum porto, vinte e cinco legoas de Banda, que se chama Gully-Gully. E servindo-lhe o tempo, pasados tres meses, se foram a Banda, honde os mouros da terra lhe fezeram muyta homra e mandaram por elle obediência ao capitam de Malaca e ao governador da índia. E por estas naaos serem velhas, e nom poderem sofrer augoa, detreminaram de se tornar a Malaca, por canto as naaos nom estavam em despoisiçam pera hirem a Ma- 122 v.) luco; e tornando estas // duas naaos pera Malaca, vinha Francisco Serrão em hum junco, com alguuns homens, e se perdeo no mar, vimte e cimquo legoas de Banda, em huma ylha que se chama Lucepinho, ylha deserta, sem gemte, e hi esteve o dito Francisco Serrão, com os portugueses e negros que hiam com elle, dous ou tres meses. E neste tempo houve hum par ao, como batel, e se meteram todos nelle pera hirem caminho de Maluco; e sendo na ylha Amboyno, ahii os deteveram a gente da terra. E sendo el-rey de Tarnate, que he o principal rey das ylhas de Maluco, sabedor em como aquelles portugueses ally estavam e que hiam pera Maluco, mandou por elles e lhes fez muyta homra em seu regno, loguo mandou hum Pero Fernandez, que hia em companhia do dito Francisco 176
  • Serrão, com obediência e cartas pera el-rey, que Deus aja, e que estava como vasallo. E o dito Francisco Serrão ficou la com os ditos por- tugueses honde receberam muyta homra, e asentou o trato e a terra por de el-rey e os preços das mercadorias. E logo o outro anno, Ruy de Brito Patalim, que hera capitam de Malaca, mandou tres navios a Banda a bus- car drogarias, e Antonio de Miranda por capitam delles, e Domingos Gelez, por capitam de hum, e Francisco de Mello, por capitam doutro, os quaes forom ter a Banda e vieram carregados de drogas. // 123 r.i E loguo o anno seguinte, que foy o anno terceiro, despois de descuberto Maluco, mandou Jorge de Albo- querque, que entam era capitam de Malaca, o dito Anto- nio de Miranda outra vez, em huma naao, a Banda, o qual carregou e trouxe consigo juncos carregados ha Malaca. E no quarto anno, mandou Jorge de Brito, que entam era capitam, hum junco a Maluco, em que hia Alvaro Diogo 2 Coelho, por capitam, e dous a Banda, dos quaes, de hum delles era capitam Francisco Pereira, e do outro, Jorge de Lancoees, os quaees carregaram ambos em Banda muyto bem, e tornando pera Malaca, se perderam no mar com toda a gente, tirando Francisco Pereira, que hia por capitam, que escapou. E o junco que foy a Maluco, em que hia Alvaro Diogo Coelho, foy a Ternate e carregou muito bem, com outro jumco de portugueses, que hiam com elle, em os quaees juncos veo recado do dito Francisco Serrão e del-rey de Maluco em como toda a terra de Maluco estava a obe- diência e serviço del-rey, e o trato asentado, os quaees jumcos vieram a salvamento a Malaca. 2 - D.o. INSULÍNDIA, 1 12 17 7
  • E logo no quinto anno, mandou o dito Jorge de Brito, capitam de Malaca, Manuel Falcam, com huma caravella a Banda, com hum junco da terra, os quaees carregara 123 v-i em // Banda e vieram com suas drogarias a salvamento e leixaram terra e trato asentado por el-rey. E no seisto anno, mandou Nuno Vaaz Pereira, sendo capitam de Malaca, a Banda hum junco em que hia por capitam Simam Vaaz; o qual junco carregou por muyto boons preços. E no seitimo anno, mandou Dom Aleixo, capitam moor, que entam estava em Malaca, huma caravella e hum junco a Maluco, e hia por capitam Dom Tristam de Meneses, o qual foy a Maluco e levou a reposta del-rey que Deus aja, as cartas e obediência que el-rey de Maluco mandou per Pero Fernandez, com algumas dadivas; e a dita caravella e juncos caregaram em Maluco com muyta paz e aseseguo, e vieram a Malaca, com sua mercadoria, a salvamento; e em companhia desta caravella veo hum junco del-rey de Maluco, em que vinha hum seu filho s, por capitam e embaxador pera o capitam de Malaca, e trazia comsigo cento e cincoenta, ou duzentos homens, e vinha dar obediência ao dito capitam de Malaca; e pera servir el-rey em todo o que o dito capitam mandase, tra- zendo cartas pera el-rey, noso senhor, e pera o dito capi- tam de Malaca; e esteve hii em Malaca cinquo ou seis meses, servindo el-rey, noso senhor, em todas as cousas 124 r.i e necesidades de // Malaca, e tronou a se hiir, com muyta omra e dadivas e com todo o que el-rey de Maluco man- dava pedir em suas cartas. E no oytavo anno, mandou Garcia de Saa, que entam estava por capitam em Malaca, a elle, testemunha, com certos juncos em companhia, a Maluco; e chegando a 3 - f.o. 178
  • Banda, veo hii ter com elle, testemunha, Dom Tristam, que vinha de Maluco, e por em Banda, neste tempo, aver muyta drogaria, elle, testemunha, carregara em Banda, e nom fora a Maluco, por serem hii vimdos os mercadores de Maluco; e elle, testemunha, se viera caregado, com seus juncos, a Malaca, a salvamento, e Dom Tristam se tornara dally, de Banda, a Maluco, e depois, viera de Maluco Dom Tristam, a salvamento com toda a merca- daria que de la trazia, ficando o dito Francisco Serrão, e portugueses que com elle estavam, em Maluco, com o trato asentado. E dise elle, testemunha, que estando carregando com seus juncos em Banda, o dito rey de Maluco e el-rey de Tidore, sabendo que elle, testemunha, era chegado a Banda, lhe mandara obediência, com dous nores (i) de presente. E logo no nono anno mandou o dito Garcia de Saa, capitam de Malaca, certos juncos pera Banda e Maluco, e hia por capitaees Antonio 4 // de Pina e Gonçalo s Cor- 124 rea, os quaees vieram com suas drogarias pellos preços em que o cravo estava, com os feitores del-rey, noso senhor, asentado. E no decimo anno, el-rey que Deus aja, mandou deste regno a Jorge de Brito, por capitam de seis naaos, com feitores e oficiaes e ornamentos da ygreja, pera fazer fortaleza em Maluco, e hia com elle seu irmãao, Antonio de Brito. E por seu irmãao morer no caminho, elle sobcedeo a capitania, per regimento del-rey, e he la, em Maluco, a (i) Do malaio nuri; papagaio. Eram muito apreciados os das Molucas, por sua rica plumagem. 4 —An.»; 5 — G.o. i 79
  • fazer o que el-rey per seu regimento mandava, a reque- rimento del-rey de Maluco. E disse elle, testemunha, que estas cousas sabe, por- que todo o que diz vio pasar e foy presente. Item. Preguntado se sabe que foy defeso o trato de Maluco aos portugueses e asy aos mouros da terra, dise que el-rey, que Deus aja, o defendeo, que nom podese nymguem hiir a Maluco, senom os moradores de Malaca, e estes, com licença do capitam de Malaca; e outros ne- nhuns nam hiam la. Item. Preguntado se ao tempo que Fernam de Maga- lhaees foy descobrir, era ja o trato de Maluco descuberto e asentado por el-rey, noso senhor, dise que he verdade que, no anno de 511 foy descuberto Maluco e o trato asentado e continuado per a maneira que elle, teste- 125 r.) munha, dito tem; // e Frenam de Magalhaees vay em quatro annos que foy a descobrir. Item. Preguntado se na India e todallas outras partes, esta notoryo Maluco ser descuberto e ser del-rey, noso senhor, dise que, nas partes da índia, esta notorio a todos que Maluco hesta a hobediencia del-rey, noso senhor, e per seus capitaees e feitores navegado. E dos apontamentos dise que mais nam sabia. Item. Preguntado pellas cousas de custume, dise que he criado del-rey de Portugal, e contudo, dise a verdade do que vio e pasou; e das mais cousas dise nichil. Gomez Annes ho escrevy Diogo ' Brandam Alvarus 6 — D.o 180
  • 23 CARTA DE JORGE DE ALBUQUERQUE A EL-REI D. JOAO III Malaca, i de Janeiro de 1524 ANTT: CC-I-30-78. (1) Original em seis folhas, das quais cinco escritas, com letra muito estendida, obrigando a certa atenção. Este documento anda já algo danificado, com a tinta das palavras a desbotar, fazendo manchas que, por enquanto, ainda não prejudicam a leitura. Mede 315 x 215 mm. a) Notícias de Bornéu, Banda e outras ilhas. b) Revés sofrido pelos portugueses no Estreito de Singapura. c) António de Brito escreve das Molucas, pedindo socorro a Malaca. d) Notícias da China e dos portugueses ali idos, entre os quais Tomé Pires. Senhor, • Despois de ter escrito a el-rei, que Deus tem, voso pay, per Deniz Fernandez l, patram, e per Joam Lopez de Alvim, e j>er Martim Afomso de Melo, de que de todos tenho conheçimento, de todas as cousas que me sam acom- teçidas as quaes sey que sam dadas a Vosa Alteza, por (l) Publicada em Cartas de Afonso de Albuquerque. Tomo IV, pp. 35-42- 1 — fro l8l
  • el-rei, voso pay, que Deus tem, ao tempo da chegada das ditas cartas, ser ja faleçido deste mundo, por yso escuso novamente começar a dar conta, per ter çerteza destas cousas todas serem em mão de Vosa Alteza. E aguora quero dar conta a Vosa Alteza do mais que ao diante se segio. Mandey Amtonio 2 de Pina a Burneo, por saber que hos castelhanos que vieram com Fernam de Magalhães heram chegados a Burneo, e que eram ay ficados alguns deles, por gera que ouveram com el-rey de Burneo. Cando o dito Amtonio de Pina chegou a Burneo, achou que nom havya ay mais que huum so byscainho, que ficara ay da armada de Fernam de Magalhães, que outro era ja morto, e outros dous, que eram greguos, eram feitos mouros. Da carta que eu escrevy a el-rey de Burneo sobre estas cousas, mandou-me dizer que ele era verdadeiro amiguo del-rey de Portugal e que sempre ho avia de ser; e mandou-me o byscainho, per nome Domynguos, escre- vendo-me que lhe escrevese toda minha vontade, que asy ho faria como lho eu escrevese, a que tenho respondido li largamente ho que compre a servyço de Vosa Alteza. // Ho que tenho sabydo da terra de Burneo, por o dito Antonio de Pina. Este Antonio de Pina he sobrinho de Rui de Pina, que tem carego do Tombo, e nisto tem bem servido Vosa Alteza, afora outros serviços que cada dia faz. A terra de Burneo nam tem mais que canfora, que se chama de Burneo, a qual he de comer, e gasta-se primçipallmente em Bengala e Paleacate, Narsygua e tera dos mala vares, Cochim e Calecut, com todos hos outros malavares, e alguuma, pouca, em Cambaja, que a can- fora da China he de botica, segumdo o costume dos cris- tãos, e nam he pera comer, como estoutra de Burneo. 2 — Amt.o. I 8 2
  • E esta canfora que vem ter a Burneo nom he do se- nhorio de Burneo, senam doutro rey que esta na ilha de Burneo, e he senhor por sy, e he cafre; e el-rey de Burneo he mouro, e os da sua terra, mouros; e estes cafres, a que chama os gentyos, que colhem esta canfora, dam-na a estes de Burneo per pannos que levam de Malaca, que vem de Cambaja e de Bemgala, que sam de muitas sor- tes, posto que todos estes pannos sejam de algodam. E segundo o que me pareçe, e as navegações forem milhor sabidas, nam se a-de aver neçesydade de Burneo ne- nhuma, porque ha terra de Burneo, e estes cafres, he tudo huma ilha, e quem for a huma pode hyr a outra. Por yso diguo que nom avera hy neçesydade de Burneo, e nom he tera pera se sobre ela nada dever de trabalhar, salvo querendo fazer caminho pera Maluquo per Burneo, que ho ay, e emtam podem nele fazer escala. Outras cousas nenhumas mais nam ha em Burneo, que seja trato de mercadoria. Ysto he o que somariamente tenho sa- bydo. Hos castelhanos vieram ter a Maluquo, como a Vosa Alteza tenho escrito, digo a Vosa Alteza, porque era escrito a voso pay, que Deus tem. A nao (2) que dise que partira da Hylha dos Galeãos, segundo tive per enfor- maçam, nunqua mais tive nova dela; que junquos vieram este anno presente, de quinhentos e trçs (sic) e nam me trouxeram nova nenhuuma de laa; e nom se sabe o que dela he feito. Ho meu pareçer pareçe-me que deve ser perdyda, porque me diseram que fazia muita augoa; e se foy a salvamento, la em Portugal se a-de saber mylhor, que nam qua nestas partes. // A outra nao (3) que ficou em Maluquo, coregendo-se (2) A nau Vitória que regressou a Castela. (3) A nau Trindade, aprisionada, e que se afundou na baía de Ternate. 183
  • de muita augoa que fazia, acabou-se de coreger, e tornou tomar sua carega, e partio-se pêra Castela; e quis hir pelo caminho por omde viera; e semdo ja mil e trezentas ou quatroçemtas leguoas, sempre pela bolyna, que eles am- -de-ir em Leste, e os tempos sempre foram lestes, e les- -suestes, e nordestes, faleçendo-lhe ja hos mantymentos e augoa, e vendo que ho seu poder hyr hera de balde, tornaram aribar outra vez, caminho de Maluquo; e semdo naquela paragem de Maluquo, no caminho de Burneo, por omde ha muitas ilhas, Dom Garçia Amrriquez, que f°y ter a Maluquo com Amtonio de Brito, como ja tenho escrito, querendo vyr descobrir Burneo, como escrito te- nho, e de Burneo vyr-se a Malaqua, no caminho achou a nao e tomou-a, que hos castelhanos se emtregaram a ele, e tornou-a ha levar a Maluquo; e a nao ficou em Maluquo, omde se perdeo; e hele tomou os castelhanos no seu navyo e os trouxe aquy a Malaqua, domde hos mando pera Cochim, ao capitam mor, como el-rey, que Deus tem, me tynha mandado per sua carta, que a Vosa Alteza mostrarey, cando ha ver quyser. Esta outra nao nom foy ter a Castela. Hos castelhanos sam todos em mão de Vosa Alteza. Mamdey Duarte 1 Coelho a descobrir Canchimchyna, como ja tenho escrito a Vosa Alteza. Imdo no caminho tanto avamte como ryo fermoso, que sam quynze ou dezaseis legoas de Malaqua, caminho de Cinquapura, vyo vyr hobra de cinquoenta lancharas de el-rei de Bimtam, que vynham pera Malaqua. Dom Samcho Amrryque hera partydo com hum navyo e huma fusta e duas lancharas e tres manchuas (4), e hia (4) Embarcação malabárica de um mastro e vela quadrada; ga- leota. Havia também manchuas de luxo, como a do vice-rei e outros fidalgos. (R. Dalgado. op. cit.). J — dr.". 184
  • pêra estar sobre Bimtam. Duarte Coelho, cando vyo as lancharas, tornou caminho de Malaqua a dar nova; achou Dom Sancho duas legoas de Malaqua; asy como falou com Dom Sancho, loguo Dom Sancho me mandou recado como vynham aquelas lancharas; e eu armey todos hos paraos, grandes, e pequenos, que pude achar, //em que [2 *.) per todos, seriam quinze ou dezaseis, grandes e pequenos, com hos que Dom Sancho comsyguo levava, hos quaes se partiram com boa mare e tempoo; deram a minha carta a Dom Sancho, que sobre iso lhe escrevy, acor- dando de dar neles dentro no rio de Muar, homde ja estavam hos emmiguos, hymdo de noyte, pera em ame- nhecendo, serem sobre eles. Quiseram nosos pecados que, de noyte, veho huma trovoada tamanha que çosobrou todos aqueles paraos e maruchuas que de qua hyam, em que se afogaram vimte ou vimte cinquo homens portugeses, em que entrou Ma- noel de Mello e Amrrique Leme, meu cunhado, e Ruy de Atougya, e hum filho4 de Diogo5 de Lemos, com os outros que nom nomeo; e nom se salvou mais, desta trovoada, que a fusta e huma lanchara e huma manchua. E a outro dia, pela manham, querendo Dom Sancho entrar com seu navyo dentro do ryo, pera com navyo, fusta, e lanchara aver de pelejar, e dise a fusta que nom fose aos emmiguos, ate ele nom chegar. Vimdo a vela e queremdo entrar, a fusta, nom esperando por ele, quis dar nos emmiguos, ela e huma lanchara e huma man- chua. Começando de pelejar, apertaram os emiguos com eles, que os de manchua meteram-se na lanchara e os da lan- chara meteram-se na fusta; e por ser a fusta cousa pe- quena, foy-se a banda e çosobrou, e asy moreram afo- 4 — f.o; 5 —ili®. i85
  • gados todos, que nenhum dos que remavam na fusta, que andavam aforolhados, nom escapou, que todos foram afogados. Perdeo-se aly huma mea ' espera, que caio na vasa; hos berços ouveram todos a sua mão, com Cama- ras, em que se perderam vimta cinquo ou trinta berços; e os cristãos, por todos que se perderam, seriam cin- quoenta e dous, ou cinquoenta e três, com hum negro. E ysto faz nom proverem as fortalezas, que Vosa Al- teza nestas partes faz, aqueles que diso tem cuidado; e bom seria tomar-se comta, porque, ou como mal sam provydas as cousas que de Vosa Alteza sam tam enco- mendadas; e se estas leixarem de fazer, por se fazerem alguuns grandes feitos, menos mal seria. Nom dou mais larga e meuda conta a Vosa Alteza, l» r.i porque espero ser presente com esta; // camdo me per- gundar, lhe diey (sic) como estas cousas pasam; que tudo canto Vosa Alteza de Portugal manda que se qua bem faça, e nam se faz, deve de ser tomada bem estreita comta, porque nom aproveitam leis nem ordenações, omde nom ha emxucaçam delas, que he, aos çerviços, merçes; e aos males, castiguos. Perdo-me Vosa Alteza se falo mais do que devo; por- que cuido que som verdadeiro vasallo e fiel servidor, tomo esta ousadia. Agora tornaram outra vez os emiguos sobre nos, em que vyeram oytenta lancharas e paraos, com muita gente. Armey hum navio, em que veo Dom Gracia, de Banda, e pus por capitam Gracia Queimado, criado de Vosa Al- teza, com hobra de vimte homens, amtre grandes e pe- quenos. Foy-se em busca destes paraos; levava seis ber- ços, huum falçam e hum camello. As lancharas, como ho viram, vyeram-se loguo direitas a ele, pelejaram com ele, 6 — m*. I S Ó
  • quebraram-lhe çertos piães dos berços, e quebraram-lhe as chaves do falcam; per aquy vera cam piadossamente ca temos as neçesydades; quebrar-lhe-yam dous piães de berços; ficaram-lhe quatro. As lancharas tynham cada hum seu berço; çercaram ho nayo de ambas as partes; e foy tanta a bombarda de frechadas e paos tostados e azagaidas (sic) que fyzeram ho navy o como porquo espym. Pelegou ho capitam tam omrradamente com os seus, que com elle heram, que tres combates que dos mouros reçeberam, nom lhe fyriram mais de cinquo homeens, todos com frechas, e eles, segundo a nova que tenho, seram, antre mortos e feridos, pasante de cin- quoenta homens, e aymda nom sey a verdade da cousa como he, ate oje, que sam vimta hum dias de Outubro 7. E se Vosa Alteza dos taes, como Graçia Queimado, tyvese na índia quatro mil omens, eles fariam maiores feitos do que fazem sete ou oyto mil que qua amdam; e bem he, senhor, que quem vos bem serve, e se oferece a morte, por servyço de Deus e vosso, que ho saybaes, pera, em seu tempo, reçeber merçe. Foy tamanho ho medo que hos emiguos reçeberam do navyo que nom ousam ja de o cometer, e asy como ho vem, aredam-se delle. Esta he agora a maior mercadaria que qua temos. / / u • Hos navios que tenho pera me defender sam os se- guintes: hum cara velam que agora fiz, muito pequeno; e aquele navyo que trouxe Dom Graçia, de Maluquo, e hum navyo em que amda Dom Sancho, e outro em que amda Ambrosyo do Reguo; e ho maior deles sera ate cinquoenta tonees; e muitos navios vam e vem a Ma- laqua, que todos sam de homens que tratam, e nom que- rem gera, por ser de muito gasto e mao de sofrer, e de 7 — out.™. i 8 7
  • pouquo ganho e pouqua merçe. Proveja Vosa Alteza a quem vos bem servir com algumas merces, ou ao menos, com cartas de comtentamentos de seus serviços, que muito alegra aos homens saberem que seus servyços sam agradeçidos; que la diz huum dito: a virtude louvada creçe. Por aquy pasou Bastiam de Sousa, filho de Ruy de Abreu, com hum novio de Vosa Alteza e outro de arma- dores, que vam caminho de Banda, ao qual Bastiam de Sousa eu requeri, da parte de Vosa Alteza, que me dei- xase aquy o navyo seu que levava, em que me respomdeo ho que Vosa Alteza vera em meu requirimento e sua re- posta. Proveja Vosa Alteza as cousas de seu serviço, que a meu pareçer vam em desordem, e se ysto asy muito durar e a Portugal nom forem espyçiarias e drogas, nom se espante, que hos caminhos sam pera iso. Outra vez torno a lembrar a Vosa Alteza que castige males e faça merçes por çervyços. Nom me detenhuo mais, por esperar ser com esta presente, por acabar meu tempoo; que quem vyo o tempoo de Affonso de Alboquerque, que Deus tem, e ve ho de aguora, certo, senhor, que sam cousas muy estranhas. Ate este dia de hoje, que sam vimta dous dias de Dezembro, era de vimta tres, nunqua a Malaqua foy feito nenhum benefyçio, nem de capitam-mor, nem de vedor da fazenda. Mantemo-nos por graça de Deus, com, as vezes, fazeremos as cousas fora de ordem, eu e os hofy- çiaes, pelas neçesydades que nos a yso costramgem; e pera pior ser, nom abasta nom seremos providos, mas aimda da Imdia mandam aqueles lugares, domde alguma provisam nos pode vir; por omde a Vosa Alteza nom mandamos drogas nenhumas e tudo em nos comsomimos, com grande medo de dar com a carega no cham. i 88
  • Agora me tem escrito ho governador " // das Imdias r> que este Abril de quinhentos e quatro (sic), huum deles a-de vir pêra Malaqua a prover das necesydades que tanto tempoo ha que Malaqua padeçe. Eu lhe tenho escrito, asy a hum como a outro, ou a quem seu carego tiver, de huum e de outro, dos navy os que devem de trazer, e jemte, artelharia e armas. Praza a Deus que se cumpra, como dizem que ham-de fazer, a que aimda tenho grande medo, pelos muitos pro- mitymentos atras pasados, que nunqua foram. He vindo huum navio de Maluquo, e veo pelo caminho de Burneo, contra monçam, e partiram em fim de Abril, e ouveram de partir em Março, por omde poseram no caminho sete meses; e se partiram em Fevereiro, ate Março meado, vieram em dous meses ate tres. Escreve Antonio de Brito, capitam, que tem neçesydade de jente e mantymentos. Nom lhe poso mais socorer que com algumas roupas, pera ajuda de seus mantimentos; e niso trabalharei canto poder, por ser cousa de cervyço de Vosa Alteza; e asy ho escrevo ao governador. Acerqua das cousas que sam acomteçidas em Paçem, nom dou mais comta a Vosa Alteza que nas desculpas dos culpados vera quem tem na culpa, e nom ser cousa de minha obrigaçam, e se fazer, como se fez, sem se esperar aquele tempoo que, em taes casos, muitas vezes se espera, de trabalhos e afromtas; e porque huuns vam e outros escrevem, nom escrevo mais. Antonio de Miranda de Azevedo veo aquy ter em huma nao; e vymdo no caminho, topou huma nao guza- rata, a qual diz que requereo que viese pera Malaqua, e que nom fose pera tera de nosos emigos; e ela nom quis. Pelejou com ela ate que se rendeo, porque, se Antonio 8 — «<:or- I 8 Ç
  • de Miranda tirava huma bombardada, tirava ela duas. Trouxe-a a esta fortaleza, demandou-a por perdida; dise que ha nom avya de julgar por perdida; que ho remetia ao governador das Imdias, porque nom quero fazer guera, sem saber se he neçesario fazer-se, ou nam. Ho que feito he, he o seguinte: ela esta toda reçeitada sobe lo feitor, Gracia Chainho, pelos escrivães de seu careguo e pelos escrivães dos mouros e mercadores da tera, pera se nada poder enlear daquilo que nela veho. Asy ho escrevo ao governador das Imdias; e como me mandar, asy ho farey. 14 v.i Porque de todas //as cousas ey-de dar comta a Vosa Alteza, que a esta fortaleza vierem ter, dou esta. A valya de tudo sera, pouquo mais ou menos, oito mil cruzados. Posto que Vosa Alteza, muitas vezes, tenha escrito que mande prover Malaqua, diguo a Vosa Alteza, porque a el-rei, voso pay, que Deus tem, lho escrevy, sempre o ey-de fazer, pela obrigaçam que tenho das cousas que me encomendaes das cousas de voso serviço; e nom he sem rezam serem providas, pois que a fama de Portugal tanto se estende, que a cabo de tres annos que el-rei, que Deus tem, he faleçido, aimda se nom sabe nos fins da tera que conquista, e por boa se deve haver a despeza * pela tal fama, que cando a nova for ter a Maluquo, ja hos tres annos seram pasados, amdando as naos sempre sem tardar, com suas monções. Dom Sancho Amriquez, capitam-moor do mar de Ma- laqua per Vosa Alteza, foy estar sobre Bimtam, na entrada de Junho; e dahy foy ter a Patane, e Ambrosyo do Reguo com ele, e outro navio, esperar hum junquo que era em Syam, de Vosa Alteza, e a saber novas da China, dos chins que ay vem ter. Mandou Ambrosyo do Reguo diante, e ele ficou aimda la, que hos junquos nam sam 9 — desp.o. IÇO
  • vimdos; e perguntei-lhe per novas da China. Respom- deho-me que lhe disera hum lymgoa que antre os chins e os portugeses tratava, cando estavam de paz. Dise-!he que eram vyvos de oito ate treze portugeses; e nom se afirmaram em quantos, porque huum (sic) dizem oito e outros dizem treze; e que diziam que ho embaixador, Tome Piriz, que era aimda vyvo. Veho hum recado a el-rei de Bimtam de seu embai- xador, ho qual ornem que ho trouxe tornou loguo, a fama que el-rei de Bimtam lançou pela tera he que hos chins aviam de vir sobre Malaqua. Isto nom he muito çerto; porem, sam cousas que podem ser. Se vierem grande damno faram, salvo se o capitam-mor acudir a tempo, como lhe eu escrevo; porem, o meu parecer he que tal nom faram, que também dizem na China que desejam paz comnosquo. Este anno nom se manda nenhuma carega de espe- çearia, pera Vosa Alteza, por aver muito pouquo e aver ay muitas dividas pera se averem de pagar; e mais, se- gundo //a nova que tenho, que a que mandamos, estes is i annos pasados, pera Vosa Alteza, ouço dizer que a gastam toda, e que a menos parte fiqua pera Vosa Alteza. Por nam saber as cousas como sam, nom decraro mais. De Malaqua, oje, primeiro dia de Janeiro de 1524 10 annos. as. Jorge de Alboquerque 11 10 — jb«exxiiij; 11 — dalboqerq. i 9 i
  • 24 CARTA DE ANTÔNIO DE BRITO A EL-REI Ternate, 28 de Fevereiro de 1525 ANTT: Gaveta 18-2-23. Original com quatro folhas, sendo três escritas com boa caligrafia. Conserva-se em bom estado. Mede 300 x 220 mm. a) Privações em Ternate. b) Dificuldades na construção da fortaleza. c) Portugueses mortos em Tidor. d) Prisão do régulo de Ternate. e) Guerra ao régulo de Tidor. /) Descrição da fortaleza de Ternate. g) Comércio do cravo. h) Queixa-se de não serem atendidos seus pedidos. Senhor, Ja la tenho espryto a Vosa Alteza, dando-lhe comta meudamente das cousas destas partes, e como tomava a nao em que vyera Fernam de Magalhães, e como man- dara os castelhanos, presos, para Malaca, para daly os mandarem a Purtugal, porque asy mo mandava seu pay, que samta gloria aja, em meu regymento; e asy espryvy a Vosa Alteza da estrema neçesydade em que fycava, que era tamta que se não pode esprever. Porem, dalguma quero aquy dar comta a Vosa Alteza. 1 ç 2
  • Item. O feytor trazya de Purtugal, para ryzymento desta fortaleza e mantymento de jemte, huum pouco de cobre e de vermelhão e de azougue. O cobre vemdeo-se em Dyo, em que se fez quatro mil cruzados; estes vyeram empregados. O vermelhão e o azougue não tynham ne- nhuma valya na índia; trazya-o meu irmão para o vem- der em Malaca. Despoys que moreo meu irmão, como ja tenho dado com ta a Vosa Alteza, eu, como chegey a Malaca, mandey-o emtregar a Garcia Chaynho, para o vemder. Vemdeo obra de myl cruzados, os quais emtre- gou ao feytor. A outra quamtydade, que seram quatro ou çymquo myl cruzados, lhe rogey que mo mandase empregado em roupa que lhe deyxey, por item a que qua vallya, a qual, ate o dya de oje, não veo ter, a esta for- taleza, nenhuma, nem desta fazemda, nem doutra, que elle mandase. Dyseram-me que a mamdava em hum jumco, que se perdera. Per / / aquy vera Vosa Alteza como se poderá fazer u v.i huma fortaleza, e dar de comer a duzemtos e vymte, ou duzemtos e trymta homens que trouxe comiguo, e cor- regymento de seys navyos, com tam pouca fazemda. Eu, huma pouca de fazemda que trouxe, que nam foy tam pouca que nam fosem obra de quatro mil cru- zados, eu a gastey, toda, em dar de comer a cryados de Vosa Alteza, e a outros homens, porque- me pareçeo seu serviço, e se tenho dejejo de ter vymte mil cruzados, nam he senam para servir a Vosa Alteza com elles. Asy, senhor, que, quamdo me vy em tamta neçesy- dade, trabalhava de dya e de noyte, porque a jemte da tera, como me vyo asy, ordenava de fazer trayções e ruymdades. Eu apagava-os, com dar-lhe dyso que me fycava a eses prymçipaes. Como me serquey, detreminey a tomar a el-rey e me- 19 3 1NSULÍNDIA, I — 13 *
  • tello nesta fortaleza de Vosa Alteza, porque tynha huraa mãy que o tynha em seu poder, que era fylha del-rey de Tydore, omde se agasalhavam os castelhanos, quamdo aquy vyeram ter. Este rey de Tydore me matou dez ou doze homens, que se perderam, em huma fusta, que foy dar a costa, na sua terra. Item. Huma amtemanhã, tomey eses poucos de pur- tugezes, que seryam obra de cymquoemta, e fuy tomar a el-rey; e sua mãy me fogyo, em que folgara muito de a tomar, porque me pareçe que fyzera nyso gramde ser- viço a Vosa Alteza. Tomey, com ele, dous irmãos seus; nam me mataram, nem me feriam nenhum homem. Como o tyve demtro, mandey chamar eses homens prymçipaes, e lhe dyse que nam ouvesem medo; que eu o nam tomava senam para o fazer gramde senhor, e que asy mo mandava Vosa Alteza. Com estas palavras e com outras, que lhe eu dyse, abramdaram. Este rey sera de obra de doze annos, e os outros seus irmãos sam mays moços. Tem Vosa Alteza nelle hum 12 rj bom servidor // e vasallo. Despoes que o tyve demtro na fortaleza, me deu pa- raos e gemte; e com eses poucos de purtugezes, mortos de fome, fiz a gera a el-rey de Tydore, em que lhe terey mortos mil e duzemtos homens, ate a feytura desta; asym que lhe tenho tomado muitos lugares, com grytos a Vosa Alteza. A fortaleza tenho-a ja cerquada e ameada; o muro he de oyto palmos de largura, he de vymte e cimquo de alto. A fortaleza he quadrada, e tem em cada lamço vymte e quatro braças; a tore de menajem esta em dous sobrados; as genellas e os cunhães he de camtarya, he a porta da fortaleza também com as armas de Vosa Alteza, muy bem acabadas. Item. Ja tenho escryto a Vosa Alteza que se apa- i 9 4
  • nharam, em Bamda e em estas ilhas de Maluco, amtre cravo e maça e nos, pasamte de quatro mil baares, e este anno, de quynhemtos e vymte e quatro, se apanhariam, so em estas ilhas de Maluco, cimquo mil baares. E asy, tynha escryto a Vosa Alteza como tynha dado lyçemça aos jumcos de Malaca que vyesem tratar para estas partes, com tal comdyção que a metade dos jumcos podesem ir caregados da fazemda de' Vosa Alteza. Esta lyçemça dey-lha, porque me pareçeo seu ser- viço; isto, ate vir recado de Vosa Alteza o que nyso manda. E asy, porque se ajumtaram eses mercadores de Mallaca, dyzemdo que, se lhe defemdesem o tratar para estas partes, que elles despovoaryam a tera, o capitão e feytor e offiçiaes me fyzeram hum requerymento, por parte de Vosa Alteza, como deyxase tratar estes merca- dores para qua, senam que se despovoarya Mallaca; os seus dytos, com juramento, eu os tenho ja mandado a Vosa Alteza. // Item. Eu tenho escryto ao veador da fazemda, desne (sic) o anno de quynhemtos e vymte e hum, que me mandase fazemda, para comprar este cravo e maça e nos, em que Vosa Alteza recebera gramde proveyto, e asy para comer esta jemte, porque a que trouxe era tam pouca, como ja tenho dado arryba comta a Vosa Alteza; ate feytura desta, numca vy hum escryto seu. E asy espryvy ao capitão-mor que me mandase jemte para fazymento desta fortaleza, e offiçiaes para correger seus navios, porque os que trouxe me moreram todos; numca vy nenhuma reposta sua. O porque o fyzeram, elles dem a Vosa Alteza comta dyso. E por este esqueçimento, que elles fyzeram, em que comprya tamto a serviço de Vosa Alteza, me puzeram em tamta neçesydade que creo que homens naçidos numca tamanha pasaram. Porem, com ella, detreminey a morer, 19 5
  • para lhe fazer este serviço, que, com ajuda de Deus, tenho feyto. A feytura desta, avya tres o quatro meses que nam tynha que dar de comer, senam o que cada huum ga- nhava, por suas mãos, a pescar e a fosar, e eu com elles. Fyco aguardamdo se me mandaram alguma provysam de Malaca ou da Imdia. Com este recado mandey huum galeam que trouxe comiguo. Vay por capitão delle Martym Afonso 1 de Mello. Mando-o ao capitão-mor da Imdia, comtando-lhe a ne- çesydade em que fyquo, porque as cartas que lhe tenho mandadas, ate gora, numca me fez mensão delias, como que numca as vyra. Eu mando nelle quoremta betares de cravo e dez de nos, e em outros jumeos que aquy estavam, de merca- dores de Malaca, vam çemto. Estes amdey pedymdo em- prestados, e empenhamdo huma pouca de prata que me tJ r.i fycava, para os mandar. Se me o veador da // Fazemda mandase fazemda, para comprar este cravo e maça e nos que ha nestas partes, poderya Vosa Alteza reçeber mays proveyto que de nenhuma fortaleza que ouvese na Imdya. Eu escrevo ao veador da Fazemda, meudamente, a roupa que me ha-de mandar, que qua vai, nestas partes. Bejarey as maos a Vosa Alteza mandar-me dar huma nao para me yr, quamdo de qua for destas partes. Eu esprevo a meus irmãos que pesam esta merçe a Vosa Alteza e que me mandem o alvara 2. Fyco rogamdo a Noso Senhor por vyda e estado de Vosa Alteza. Feyta em esta sua fortaleza Sam Joam de Tarnate, aos 29 dyas de Fevereiro de 525 annos. as. Antonio de Bryto 1 —a.»; 2 — alv.». I Ç 6
  • 25 CARTA DE BAPTISTA APANÇORO E DE LEÃO PANCADO AO IMPERADOR CARLOS V Moçambique, 25 de Outubro de 1525 ANTT: Gaveta 17-6-24. Cópia em duas folhas escritas, de fácil leitura. Mede 295 x 210 mm. a) Referem os trabalhos que passaram, depois que partiu a nau Vitória. b) Socorro que pediram aos portugueses de Terna te, de quem ficaram prisioneiros, tendo sido enviados para a índia. c) Como conseguiram sair da India, com destino a Castela, e como foram detidos em Moçambique. d) Pedem ao Imperador que os liberte do poder dos portugueses e enviam algumas informações de várias ilhas por onde passaram. Senor, Su Çezara Magestad sabera las cozas que haca nos han socedidas, despues que la nao Vitoria se partio de Maluco, conviene a saber: como nosotros, senor, tomamos a des- cargar la nuessa nao y la dobamos muy bien, con buena ayuda dei rey de Tidore; el qual, senor, nos hizo, en el nombre de Su Çezara Magestad, muy mucha honra, que no podia, senor, esser mejor. Y quando, senor, la dicha nao fue muy bien adobada, la tomamos a cargar en buen ora; y quando fue cargada, nos partimos desta dicha isla de Tidore, a los seis dias dei 197
  • mes de Abril, ano de mil y quinientos y veinte y dos anos, y hizimos nuesso camino para yr a demandar la tierra firme; adonde, senor, Andre Nino hizo las caravelas, que es en la Mar dei Sur; donde, senor, sabera Su Çezara Magestad que desta dicha tierra firme a las yslas de Ma- luco no hay mas que dos mil léguas, a lo mas, lexos ca- mino y demora la una tierra con la otra, la mas parte dei camino a Leste quarta dei Nordeste, y a lo Este quarta dei Sudeste. Donde sabra Su Çezara Magestad que desque partimos de la isla de Tidory, que fue a los seis dias dei mez de Abril, hasta el fim de Agosto, sempre andovimos traba- (i vj jando por la mar y haziendo / / nuessas fuersas de tomar la dicha tierra firme. Y porque, senor, los vientos heran siempre contrallos, que nos hizieron hir asta quarenta y dos grados y medio de la parte dei Norte, donde hallamos grandes tormentas de mar y mucho frios; e porque, senor, la gente no tenya ya que comer ni tenian ropa que vestir, se nos adolessian y morian, sin le poder dar ayuda ninguna, porque, senor, avya ya quinze mezes que no comian syno arros; y como el fastio los tomava, luego se morian. Y quando vimos que los vientos nos heran contrallos y vimos que la gente nos moria, nos determinamos de arribar, y arribamos camino de Maluco, el qual estava ya de nosotros mas de mil y trezientas léguas; donde, senor, a quinientas léguas de Maluco, aviamos descubier- tas quatorze islãs; las quales fuemos desta via a deman- dar, que ellas estan desde veinte grados hasta diez grados de la parte dei Norte; donde, senor, el miedo que tenia la nuestra gente de ver murir sus companeros, se nos fuyeron quatro hombres, los mas sanos que teniamos, donde no podimos tomar mas de uno dellos, y los três se quedaron en la dicha isla de Mao; la qual isla de i ç 8
  • Mao esta en veinte grados, y no tenia sino veinte per- sonas; las otras islas, senor, son mucho llenas de infi- nitissima gente de Sunda, de la color de los de las índias. Y de alii nos partimos para Maluco, y antes que, senor, allegassemos a las tierras de los reis de Maluco, nos mu- rieron treinta y siete ombres, y no quedaran en la nao mas de seis ombres que podiessen trabajar; los quales, senor, dieron la vida a los otros. Y el dia que descobrimos la tierra de los reys de Ma- luco, luego vino una barqueta a nos, y nos dixo como los portuguezes heran Uegados, en siete velas, a la isla de Ternate, y que ellos esta van haziendo una fortaleza; y luego quando ouvymos estas nuevas, luego mandamos un ombre de los nuessos al dicho capitan mayor, el qual se llamava Antonio de Brito, con una carta, la qual dezia que, de partes dei rey de Portugal y de partes dei Empe- rador, nuesso senor, le requeríamos que nos mandasse alguna gente, para nos ayudar a levar la nuessa nao adonde ellos estavan, por quanto la nuessa jente estava, doliente. // Donde el dicho capitan mayor luego mando una cara- vela redonda e una fusta, con otros navios de remos de la tierra, donde vénia por capitan destes navios Don Gar- cia Manriques; y luego que ellos llegaron a nos otros* luego entraram dentro y nos llearon a la isla de Ternate* adonde estavan haziendo la fortaleza, y luego que fuemos alli llegados, luego nos hecharon en tieerra, a todos, ansi sanos como dolientes, y se senoriaron, senor, de la nao e mercadoria, y nos tuvieron en esta isla de Ternate, quatro meses; y de Ternate nos embiaron a las islas de Banda que, senor, tambien son de su corona real. y de Banda nos llevaron a Melaca, donde estuvimos. cinco mezes; e de alli nos levaron a la índia aprezentar i ç ç
  • al governador de la India, donde estovimos en la çiudad de Cochin, adonde cargan la espeçiaria, diez mezes, que no nos davan de comer, ni o teniamos; se non fueran estados algunos estrangeros que nos socorrian, murieramos de hambre. Y quando, senor, vimos que no nos querian dar pas- sage, nos embarcamos ambos a dos, maestro y piloto, escondidamente, con ayuda de buenos amigos estrange- ros, en una nao de las que venian a Portugal, para venir, senor, a dar nuevas de lo que Su Çezara Magestad aca tiene, que nos avemos visto con nuessos ojos; que, por- que non vengamos a dar estas dichas nuevas a Su Çezara Magestad, no nos quieren dexar alia venir. Senor, sabra Su Çezara Magestad como esta dicha nao, adonde nos embarcamos, no ha podido passar a Portugal, y le hizo menester arribar a Moçambique a invernar; y estando, Senor, em Moçambique, vino aqui una nao de los que venian de Portugal, y luego nos to- maron ambos a dos, y nos entregaron al capitan desta dicha nao, prezos en grilhones, que nos levasse a entregar en la índia, al governador de la dicha índia, donde sabra Su Çezara Magestad que esta dicha nao, adonde nos han embarcado, no ha podido passar a la India, que nos haa sido fuerçado de tomar a invernar em Moçambique, otros siete o ocho mezes; adonde, senor, aviemos miedo de morir, por çer la tierra muy dolentia y mas porque, senor, se van aquellos ombres honrrados que nos davan de comer; y agora senor, quedamos desamparados, sin ropa e sin dinero y sin amigos. Por lo qual, senor, suplicamos a Su Çezara Magestad, porquanto fuimos prezos en serviço de Su Çezara Ma- 12 v.i gestadr nos quiera hazer // tanta merçed que nos de- mande al rey de Portugal para que, senor, vengamos a socorrer nuessas mujeres e hijas que tenemos para cazar. 200
  • Y se pudiere, senor, esser, que vengamos con estas primeras naos que agora vendran, no sea senor, mas tarde, porque, senor, una ora nos parece ciento, que ven- gamos dar quenta a Su Çezara Magestad de las cozas ricas que aca, senor, tiene su corona real; por lo qual hazemos saber a Sua Çezara Magestad como tiene aca tres vergeles, los majores que ay oy en el mundo, con- viene a saber: Maluco, por el clavo; y Banda, por nues moscada y massa; y Timor, por el sandalo; con muchas otras islãs ricas de oro y perlas que aqui, senor, son al derredor; las quales, senor, son de su corona real; y porque no lo vengamos a hazer saber a Su Çezara Ma- gestad, nos dan tanta pena que bien nos desea la muerte. Senor, yo sertifico a Su Çezara Magestad que yo estuve en una isla. que se llama Nassara Sanguin, y los portu- guezes se pusieron a resgatar oro, a pezo por pezo, de unas quentas que se llaman margaridetas, las quales valen mui poco dinero en Espana. Senor, no escrevimos mas largamente, porque, senor, no caberia en una mano de papel, sino que quedamos rogando a Nuesso Senor Jesu Cristo que guarde la vida y estado de Su Çezara Magestad. Fecha en Moçambique, a los veinte y cinco dias del mez de Otubro, ano de mil y quinientos y veinte y cinco. Los que quiedan siempre rogando a Nuesso Senor Jesu Christo pela vida e estado de Su Çezara Magestad. Baotista da Ponçoron y Leon Pancado, maestro y pi- loto de la nao que fue tomada em Maluco.
  • 26 CARTA DE AFONSO MEXIA AO CAPITAO DAS MOLUCAS Cochim, 30 de Abril de 1527 1 ANTT: CC-I-3S-47. Cópia incluída num caderno juntamente com as duas car- tas que se seguem, com a mesma cota. A carta a el-rei, de 15 de Dezembro deste ano, vem em primeiro lugar, neste caderno. Publicamo-las, contudo, por ordem cronológica. а) Modo como devia tratar os castelhanos chegados a Tidor. б) Socorro que envia às Molucas, via Malaca. Senhor, Caa nos chegou nova, e nam muito çerta, que erão castelhanos la nesas partes, e nom parece que eles iram com temçam de abitarem nesas terras que tam bem ga- nhadas e tam çertas sam del-rey, noso senhor; salvo que hiram por sy portar, sem saber domde hiram, porque se outra temçam levasem, o que se nom espera, registir- -lhe-eis vos, por bem, e mansamente, a primeira; des- poys, pela rija, comprimdo como quem soees e se espera de vos, por virdes da çepa de que vimdes, e nom vos ha-de falecer pera iso todo esforço, ajuda e lealdade deses portugueses que comvosquo achardes. E porque poderá ser que serão outra gemte doutra 202
  • naçam, e nom castelhanos, quaeesquer que sejam, meu parecer he que vos vos (sic) trabalheis por lhe cortardes todollos guovernos, pera que sua temçam nam vaa avamte, compramdo e esguotamdo toda a mercadoria da terra, pera que nom tenhão que levar. E asy nisto, e no al que poderdes, comtrafar-lhe e desfazer-lhe seus ardis, pera que, visto o pouco proveito que se lhe segue de suas vimdas, as ajam por escusadas, e isto, em quamto ho po- derdes fazer ocullto, nom seja pubrico. Amtes parecemdo- -vos bem, pubrico ', semdo castelhanos, porque el-rey, nosso senhor, he tamto paremte e amiguo do Emperador, sejam com boãas palavras e bõos requerimentos amoes- tados e requeridos, que nos nom ocupem o noso, amtes o larguem, pois ha // tamto tempo que com tamtas mor- n v i tes, gastos e despesas he descuberto, e ávido, e temos a pose desas terras que dizem que elles, por dito e conselho de portugueses desleaees, que se foram e ausemtaram do serviço del-rey, noso senhor, a quererem aver por sua, semdo os taees sospeitos e sem credito, por lhe ser com- cedida e prometida tamta parte do proveito do dito des- cobrimento, que por ello diram que o alheo he seu, porque lhe cabe niso imteresse. Estas e outras rezoees lhe deveis, senhor, apomtar e responder, segundo disto estareis mais larguamente em- formado do senhor governador Lopo Vaz e de Pero Maz- carenhas. E pera isto vos emvio loguo aguora tamta mer- cadoria que em Malaqua vale cimquo mil cruzados. Requery ao capitam e feitor de Malaca que logo vo la mandasem toda, sem bolir com ella, e mays navio e gemte e lloguo nomeadamente o que leva Gomçalo Guo- mez de Azevedo que vay bem aparelhado. Se por boaas palavras, requerimentos e amoestamentos 1 — pp.co. 203
  • se nom quiserem afastar das terras e lemites del-rey, noso senhor, devei-los de tomar e premder, podemdo-ho fazer. E pomdo-se em registemcia, segureis o regimento que temdes del-rey, noso senhor, e do senhor guovernador que sobre isto ja devem ter provido. Eu, por agora, nom tenho mais vos dizer e apomtar acerqua destas cousas, senam que o tempo e calidade e conçesam das cousas vos mostrara o caminho do que aveis de fazer; somemte vos lembro que vosas cousas sejam feitas com todolos comprimemtos e resguardos e cautelas que virdes que, ao presemte, e ao diamte, vos comprir em semelhamtes casos; e que, quamdo neles vos 12 r.i comprir seguyr equexecuçam e rigor // contra os sobre- ditos, per vos, ou por outrem, o que puderdes fazer se- creto e oculto, era milhor que pubrico. E pêra vos, se- nhor, nom he necesaryo mais lembramça. Emcomemdo- -me, senhor em Vosa Merce. De Cochim aos 30 dias de Abril de 1527. Eu tenho esperamça de em voso tempo quebrardes ese emcamtamento, de mamdardes algum fruto desa terra pera el-rey, noso senhor, que ate quy nom veyo senam de partes que levam o proveito, e el-rey, noso senhor, muita despesa. A qual carta foy tresladada da proprea e comcertada por mim, Manuel 1 Lobato, escrivão desta feitoria de Cochim, de verbo a verbo, na verdade. Oje, 27 dias de Novembro de 1527 annos. as. Manuel Lobato 2 — m.*l. 204
  • 27 OUTRA DE AFONSO MEXIA ÀS AUTORIDADES DE MALACA Cochim, 30 de Abril de 1527 ANTT: CC-I-38-4.7. Outra cópia inserta no mesmo caderno da anterior, em último lugar. Pelas recomendações feitas nesta carta vê-se que, muitas vezes, o socorro destinado às Molucas era absorvido por Malaca. a) Barcos enviados com mercadorias destinadas a Malaca, Sunda e Molucas. b) Vinho de missa para Malaca e Molucas. Senhor Capitam, feitor e officiais de Malaca, Aquy mandey emtregar a vos, Pero Barrigua, que ora his por feitor, esta roupa abaixo decrerada de que leixaste comto 1 raso, ao pee do mandado que fiz, pera Duarte Teixeira, tee lhe nom dardes outro, em forma, e se romper este outro. Duzentos e trimta e simquo corjas (1) sinabas muito booas e sãas. (1) O mesmo que vintena, no seu significado primitivo. Sobre a etimologia e evolução semântica desta palavra R. Dalgado (q. v.) regista várias opiniões. 1 -c.to 2 0 5
  • Item. Vinte corjas de pamgevelis, e quinze corjas de satopas, e sete corjas de chipas, e trimta corjas e meya de biatilhas curadas, grosas; e oyto corjas e sete peças de biatilhas cruas. E trimta e duas peças de biatilhas azuis, e trimta e cimquo peças de carças, e quatro corjas de sinabafos. E quatro corjas e dezoito peças de synabafos larguos, mircolis, e sesemta e huma corja, e omze peças de panos listrados de Bemguala, e oito corjas e oito peças doutros panos listrados, de Bemguala, e huum sobre-çeo de rede e quatorze outros sobre-çeos pequenos, baxos. As quaes roupas foram estimadas qua em sete mil 2 cruzados 3. E asy, mais levais no gualeam cimquo fardos gram- des de roupa, que vieram no navio de Gomçalo Guomez de Azevedo, e outro mais pequeno; todos de roupa de Quambaya, e vam bem emfardados, dos quaes nom lei- xarees comto raso, nem em forma, por quamto nom sa- bemos a calidade, sorte, nem camtidade da dita roupa por a trazer sobre sy huum escrivam que hia a Malaqua e fiquou em Guoa com a outra mais roupa que la vinha e nom veyo a tempo pera hir. E per esta maneira vam no navio de Gomçalo Guo- u v.] mes */l vymte e quatro fardos da dita roupa de Quam- baya, que o dito escrivam sobre sy trazia, os quaes sam muito gramdes. E tereis maneira que a ora que la chegar, asy o navio do dito Gomçalo Guomez, como Pero Barrigua, esteis ao tirar da roupa sobre dita dos fardos que nom vom per comto, nem deram deles comto, pela presa com que da- quy partiram e tam tarde; e os façaees hir direitos a feitorya, omde, presemtes todos, vereis se vam imteiros, 2 —biT: S —erds; 4 —g.°. 2 O 6
  • e os comtareis, e as sortes e calidades dos panos que sara, e da comtia que forem, carreguamdo-os, cora receita sobre o feitor, com decraraçam que os reçebe de Duarte Teixeira. Pasareis conheçimento em forma, que mamdareis qua, per Gomçalo Guomez; e temde sobre iso aviso e bõoa deligemçia, porque vai a dita roupa desatada, e nom tam aviada como compria ho serviço del-rey, pelo desmancho do dito escrivam e presa da partida destes navios, que por expidir a mouçam, vay mal asada; a qual roupa foy estimada em quatro myl cruzados 5 por ser muito bõoa e hir sam. E porque temos emformaçam que Maluquo e Çumda tem necesidade principalmente de mercadorias, e asy dal- guma gemte, alem deste navio pequeno, em que vay Gom- çalo Guomez, que somemte para la vinha despachado do senhor governador *, eu fiz prestes este outro gualeam, em que vay Pero Barrigua, e mamdey apreguar solido para hir quamta gemte pudese; e vay esa que la vereis, que mais nom pude nem avia aquy outro nenhuum navio que podese hir, nem estes nom puderam levar mais gemte nem mercadorias; somemte trimta e tamtas mil pregos e quoremta e cimquo quimtaes de quabazees de linho para estopa, e perto de quoremta quintaes 7 de cairo groso e delguado. E asy çertas pipas de vinho pera as mysas de Malaca, Çumda e Maluquo, e pipas de // vynagre e cer- [2 r.] tos camdiz de triguo, e no nomeo quamtos poderem qua- ber, e diso vos ira certidam. E por quamto Maluquo, principallmente, tem neçe- sidade, pelas novas que nos qua deram, de ser soprido e soquorido, as quaees eu soube tam tarde que fazemdo muita deligemçia nom pude com mais soprir que com a ida 5 —à margem: iiij crzdos; 6 —g.°r; 7 —des. 2 o 7
  • deste gualeam e mercadoria e gemte, sem ter recado nem comisão, para iso, do senhor guovernador, por nom aver tempo pera ma mamdar, que se primeiro nom espidise a monçam da ida. Eu vos peço, por merçe, e riqueyro da parte del-rey, noso senhor, que vos proveiaes a dita for- taleza da mais roupa desta que poderdes, e logo vos no- meyo que lhe mamdeis cimquo mil cruzados 8 delia, na- quellas sortes que la valerem, a qual podeis mamdar, segundo me dizem, por Burneo, tee meado Julho primeiro que vem. E se pela nova que dala 9 souberdes, virdes que tem neçesidade de gemte e soquorro, alem da dita roupa, asy o façaes, e lhe mamdeis o navio ou navios e gemte que virdes que lhe compre, segundo a neçesidade e nova te- verdes; e se for tal que ha todos, a saber: vos, senhor capitam, e Gomçalo Guomez de Azevedo, e feitor, e offi- ciais, fidallguos, criados del-rey, noso senhor, pareça que deve la hyr Gomçalo Guomez, com este navio que vay bem aparelhado, e asy outro (sic) quallquer ajuda que puder ser, fazemdo diso asemto, e acordamdo-ho asy, por serviço del-rey, noso senhor, o poreis em obra, vemdo se he bem e conviniemte mamda-lo pelo caminho de Burneo 12 v.] e asy o por em obra, porque parece // qua neçesario, e isto he quamto momta a Maluquo; e imdo asy Gomçalo Guomez, porque o senhor guovernador mamda que lhe traga nova e recado de la, sereis emtam lembrados de o mamdar noutro navio, porque compre fazerde-lo. E quamto a Çumda asy mesmo vereis neçesidade que tem, asy de mercadorias, como de gemte e a provereis, porque, prazemdo a Deus, pera Setembro, vos proveremos de tudo. E pera Çunda deveis mamdar e vos requeiro que mamdeis quatro mil cruzados 10 desta mercadoria, das 8 —à margem: b czdos; 9 —i. é. «de ala»; 10 —à margem: iiij czdos. 2 O 8
  • sortes que na terra valerem. E asy destes cabos para estopa que vos mamdo, por cabos, e partireis com Ma- luquo e Çunda também. E desta carta, senhores, me fiqua ho treslado pera emviar a el-rey, noso senhor; portamto, vos torno a requerer, da sua parte, que vos nom bulys nem despem- daees as ditas roupas, que vos mamdo e nomeo pera Maluquo, Çumda, e lha emvieis na sobre dita maneira; e nom ho fazemdo asy, todo o dano e perda que sobre isso se reçreçer (sic) ao serviço del-rey, noso senhor, e bem ha comservaçam das ditas fortalezas, vos sereis obri- guado a dar comta diso; e desta que vos mamdo me lei- xou conhecimento Pero Barrigua, feitor, nem a gastareis em dividas, se as teverdes feitas, nem em outra neçesi- dade; somemte no sobre dito. E mais eu fuy emformado que os feitores pasados tinham tomados pera a feitoria cimquo mil e cemto e oytemta e seis cruzados 11 dos orfãos, pelos quaees avia de paguar ganhos, e porque me pareçeo rezam e neçe- saiyo des // imdividar o dito senhor, eu pus em obra de u r.j paguar a dita divida, e dey tamta fazemda ao feitor Pero Barigua, em que se momtou o dito dinheiro 12; a qual fazemda, por meu comsymtimento, elle emtregou com fiamça abastamtes a pesoas que a levaram, pera la fa- zerem o dito paguamento, no jumquo de Duarte Coelho, que daquy partio, ha dez ou doze dias. Letnbrovo-lo asy também pera que saibaes como tudo pasa, e que por vos ter aluado de dividas, e mamdo sempre a fazemda que pude, sem de alia, tee quy, mamdardes nenhum retorno, podeis prover as ditas fortalezas da sobre dita asy como vollo requeiro. Aquy emvyo tres maços de cartas del-rey, noso se- 11 — & margem: bclxxxbj czdos; 12 — dro. 2 O 9 INIUL ÍNDIA, I — 14
  • nhor; huum pera os officiaees desa feitoria, sem carta de capitão, porque caa as dey a Pero de Mascarenhas; e outras, dous; huum pera Çumda, e outro pera Maluquo; emvia-lhas. Este gualeam, em que vay Pero Barrigua, me dizem que pudera muy bem vir carregado de cravo e maça, porque he novo e avera quatro meses que he feito, e dizem-me que pode ter huum pequeno de corregimento de cairo delguado, e para iso, se lhe comprir, ho mamdo; lembro-vos, senhores, quamto serviço nyso fareis a el-rey, noso senhor, e como de la numqua mamdays fazemda pera ele, que toda he de partes, e Sua Alteza faz despesas e nom tem os proveitos, mamday-o carregado e asy o navio de Gomçallo Guomez, se caso for que loguo aja de u v.i vir, ou quamdo vier, //em bõa ora. Em Vosas Merçees me emcomemdo. De Cochim, oje 30 dias de Abril de 1527 annos. O escrivam veyo imda a tempo que vay nestes navios. Elie estara ao comto da roupa e receita e cobrara e em- viara caa o conhecimento. A qual carta foy tresladada da propria e comcertada por mim, Manuel Lobato, escrivão desta feitoria de Co- chym de verbo a verbo na verdade. Oje eje, (sic) 27 de Novembro de 1527 annos. Manuel Lobato Para Castro Luis. Mamdar-me dizer por vosa certidam quamta gemte veyo com Pero Mazcarenhas, capitam de Mallaca, quamdo 210
  • dela veyo, o qual vereis pelo caderno delia, que da feitoria de Malaca veyo. Afonso 13 Mexia Em comprimento do que Vosa Merçee mamda, eu proprio 13 vy os cadernos que este anno presemte veeram de Mallaqua, e acho vieram despachados de laa cemto e oytemta e huma pesoas, o que asy certefiquo a Vosa Merçee. Em Cochym, a 5 dias de Setembro de 1527. Castram Luis 13 — A.»; 14-p. 211
  • 28 REGIMENTO PASSADO PELO IMPERADOR CARLOS V A D. FERNANDO CORTEZ, CAPITÀO-GERAL DA NOVA-ESPANHA 20 de Junho de 1527 ANTT: Maço j.° de Leis, N.° 12. Documento com quatro folhas escritas e de fácil leitura. a) Armadas castelhanas que já foram enviadas às Molucas. b) O provimento que deve dar à nova armada, agora, enviada a saber do que se passa nas Molucas. c) Informações minuciosas a colher de todas as terras por onde pas- sarem. d) Qual o comportamento havido para com os castelhanos da parte dos indígenas, nas ilhas das Molucas? e) Como se houveram os portugueses com estes mesmos castelhanos» que ali tenham chegado nas armadas, anteriormente enviadas? El-Rey. La horden ques mi merced e mandado que guarden la persona, o personas, que Dom Fernando Cortes, mi governador e capitan general de la Nueva Espana, por mim mandado, ade enbiar a las mis yslas de Maluco, en las caravelas e vergantines quel tiene hechas en la costa de Mar dei Sur, es lo seguinte: Primeramente, porque para la continuation e contra- tation de la especiaria, e las traher a estos mis reynos 212
  • de Castilla, el ano de mill e quinientos e diezenueve enbie una armada de cinco naos a las dichas yslas de Maluco, de que fue por capitan General Fernando de Magalhanes, de la qual algunos navios llegaron a las dichas yslas de Maluco e rescataron e cargaron. En ellas yestando cargadas para fazer vela, la nao capitana, llamada la Trenidad, e la nao Vitoria, por la dicha nao capitana fazia mucha agua, quedo en las dichas yslas, con hasta cinquenta e siete onbres. E despues, el ano de quinientos e vynte e cinco, enbie otra armada de ocho naos a la dicha contratation, de que fue por capitan general Fray Garcia da Loaysa, co- mendador de la Horden de San Januario. E ansi, este presente ano de quinientos e veynte e siete anos, enbie otra armada, de que fue por capitan general Sebastian Gavoto, mi piloto mayor. E porque conviene mucho a mi servido e al bien de la dicha negociacion e trato de la dicha especieria saber el suceso e llegada de las dichas armadas, para que, ynfor- mado de todo ello, mande prover lo que mas convenga a mi servido e continuation del dicho trato, e que com mas brevedad venga la dicha especieria, enbie a mandar al dicho Dom Fernando Cortes que enbie la dicha per- sona, o personas que el le paresciere, com las dichas caravelas a saber e se ynformar de todo lo que dicho es, e traher mui larga relacion dello e buelvan por la dicha via del Mar dei Sur. Ase de mirar mucho, ante de todas cosas, que re- cabdo tienen las dichas caravelas de todo o nescesario para semejamte viagen e lo que les faltare, luego, com mucha diligencia e cuydado, como la calidad e ympor- tancia desta negociacion lo requiere; el Dhom Fernando Cortes las faga adereçar e proveer, ansi de gentes como de mantenimientos e provisiones; e las otras cosas nesce- 213
  • sarias al dicho viage, poniendo los mejores pilotos e ma- rineros e la otra gente de mar que en la dicha tierra se hallare e pudiere aver, por manera que de todo lieven el mejor recabdo que sea posible. E ansi aderesçadas e proveydas, como dicho es, e puestas a pronto para poder fazer e seguir el dicho viage, las encomendara a una persona cuerda (?) e de espe- riencia, e servidor mio, que en mi nonbre e como teniente (2 r.] de mi capitan general las lieve. // El qual seguira su viage direchamente a las dichas mis yslas de Maluco e hallando a los dichos Fray Garcia de Loaysa, e Sebastian Gavoto, o a qualquier dellos, les dara las cartas mias que para ello lieva, e se ynformara ansi dellos como de los otros que con ellos fueron, e del estado de las cosas de aquellas partes e armadas, muy larga e particularmente, para que me pueda traher muy larga y entera relation de todo ello. E demas de aquello, e de lo que a elle parescier que devo ser informado se ynformara e sabra se, despues que la nao Vitoria partio de la ysla de Tidori, descargaron la carga que thenia la dicha nao Trenidad, en tierra, los cristianos que en ella quedaron, e a adereçaron, para lo qual e lo demas que ovieron menester, durante el tiempo que alli estovieron, que pudieron ser cinco meses, poco mas o menos, si dio favor el dicho rey de Tidori e des- pues cargaron la dicha nao de clavo e de outras cosas. Ansi mismo trabayara de se ynformar e saber se, du- rante el dicho tiempo, los que quedaron con la dicha nao Trenidad descubrieron algunas yslas e tierras, e quales fueran, e en que parage, e que hallaron en ellas, e de la dispusicion delias, e que fizieron, e pasaron con las tf ▼•) gentes delias. // Ansi mismo se ynformara que tantos cristianos que- daron en la dicha ysla Tidori, en guarda de las merca- 214.
  • dorias e clavo que alii quedo, de lo que la dicha nao trayer, quien, e quantos heram, e como se llamava, e del tratamiento e acogimento quel rey de la dicha ysla les fizo; e de lo que con el pasaram; e si despues fueron presos por portugueses, e adonde los llevaron, e si les tomaron el dicho clavo, e que fizieron dello, e de todo lo que es suscedio, porque aca se ha dicho que lo cargaron em quatro juncos e lo truxeron a Malaca e Cochin e Ca- nanor, e alii lo vendieron a moros de Cambaya, e cierta parte dello se truxe a Portugal, e lo demas se vendio en la India, Malaca, a precio de treynta e dos cruzados, el quintal. Ansi mesmo se ynformara en que ano e por que tiempo los dichos portugueses tomaron la dicha nao Trenidad e alios que en ella yvan; e adonde los llevaron e que mer- caderias, cobre e vermellon, e otras cosas les tomaron, de mas del dicho clavo, e que fizieron dello; e por cuyo mandado, e quien hera el capitan dellos. Ansi mismo procurar de saber e ynformarse si Juoan Serrano, mi piloto, e los otros que fueron presos en la ysla de Cebu, de la dicha armada, que llevo Magallanes, si son bibos, gabanse (?) de los rescatar con las dichas mercaderias que levarem, o alo menos, de fablar corr alguno dellos, o con las gentes / / de las yslas donde esto- ts r.) vieron, para poder traherme relation de -todo. E porque soy ynformado que los dichos portugueses tienen hecha una fortaleza en una de las dichas mis yslas de Maluco, ynformarse ha si es ansi, e que fortaleza es, y en que ysla e lugar esta, e quien la hizo, e por cuyo mandado, e que gente, e recabdo, e otras cosas ay en ella, e si la fizieron contra la voluntad del rey e senor de la dicha ysla. Ansi mismo ha de saber e ynformarse que fizieron los dichos portugueses de la nao Trenidad, despues que la 21 S
  • tomaron e descargaron; e si la dexaron perder, despues de aver sacado delia toda la hazienda, e haparejos, e artelheria, e cosas que en ella avia; e si tomaron de la dicha ysla de Tidore las armas e artelheria, ancoras e aparejos, e otras cosas mias, que en ella avian quedado, dela dicha armada, contra la voluntad del dicho rey. Otrosi trabajara, con gran cuydado e diligencia, de tomar noticia e saber que yslas e tierras ay en la comarca de las dichas yslas de Maluco; si ay en ellas oro e otras cosas de mercaderias de valor, para se poder contratar, por mi parte, e ansi en ellas, como en las otras yslas e tierras, que en la rota de su navigacion hallar, resgatara [J ▼.] todas las cosas de rescate que llevase en // la dicha cara- vela, e trahera la dicha relacion de todo lo que en el dicho viage e torna viage hallare de yslas e tierras, po- niendo mui especicadamente lo que fuera, cada una, e que rescates ay en ellas y en que parage estam. Porque soy ynformado que, noventa legoas de las dichas mis yslas de Maluco, esta la ysla de Banda, donde es el conoscimiento de nuez e macia, e ynformarse ha que tanto ay de las dichas yslas de Banda, podiendo lo hacer, sin aventurar su viage, e si ay en ella la dicha nuez e macia o otras cosas e mercaderias, para que de todo ' traya entera relacion. Ansi mesmo hade trabajar de saber e ynformarse que leguas ay desde las dichas yslas de Maluco a la ysla de Çunda, e si nasce en ella pimenta e gengibre, e para donde se saca e navega, e si estam en ella los portugueses, e si tienem hecha fortaleza, e de lo demas que en ella oviere. Ansi mesmo mando que sepa e se ynforme que fizieron los dichos portugueses de la casa que en la dicha ysla de Tidori tenian e fizieron la gente nuestra que en ella avia quedado de la dicha armada de Magallanes. 2 i 6
  • E fecho todo lo suso dicho, e dadas las dichas cartas a los dichos mis capitanes, e cobrades sus repuestas, e tomado toda la mas ynformacion e relacion que / / ser u r.i pueda, cargara la dicha caravela, o caravelas de specieria, o otras mercaderias de aquellas partes, se venira con ellas a la cibdad de Panama, donde, hasta agora, a residido Pedrarias de Avila, por mi governador, e de nuevo e enbiado a Pedro Los Rios, porque alii a parescido que es, al presiente, mejor lugar e mas a proposito e mas estrecha tierra para lo pasar a la Mar dei Norte, de alli navegallo para aca. Lo qual haran e conpliran con mucha diligencia e feedelidad, como la cosa lo requiere. Hecha a 20 de Junio de mill e quinientos e 27. Por mandado de Su Magestad Francisco de los Cabos 2/7 %
  • 29 CARTA DE LEONEL DE LIMA A EL-REI Malaca, 8 de Novembro de 1527 ANTT: CC-I-58-3. Original bem conservado, constando de duas folhas escri- tas com letra aperfeiçoada e clara. Mede 305 x 205 mm. a) Mau governo de alguns capitães das Molucas. b) Descontentamento dos indígenas. c) Insurreição dos cristãos da ilha de Moro. Senhor, Ho ano pasado escrevi a Vosa Alteza como, vindo de Maluquo pera Malaqua numa nao de Vosa Alteza, vim ter a Panaruqua, terra de Java, quasy perdido, nem me podendo soster sobre o mar, em muita augua que fazia, pola nao vir aberta, duns baixos em que ho piloto co- miguo deu. He nom cuido que me fez Deos pequena merce em me deixar cheguar a este Penaruqua, donde loguo des- peyei ho navio, pera ver se tinha corregimento pera nele me ir para Malaqua. E depois de despejado, eu e os oficiais dele, achamos que não tinha nenhum remedio pera nele hir a Malaqua, 218
  • pola qual causa envernei eu e os omens que comiguo trazia, onde recebi muita omra e cortesya do senhor da terra. Parti de Maluquo sem nenhuma carga de Vosa Alteza, e coisa nada meu. E não por não aver cargua pera ela e que sobeyara; somente porque hum Lisvarte Caeiro, mercador e senhorio dum junquo que carreguava oitocentos bares, trouxe ao capitão de Maluquo duzentos bares forros, e lhe deram a ele a cargua, e a nao de Vosa Alteza veio de vazio, que, se viera a frete, poderá guanhar pera Vosa Alteza setesemtos quintaes de cravo, sem Vosa Alteza niso meter nenhum cabedal, somente dos fretes, como he uso e cus- tume. E porque na nao de Vosa Alteza não avia de trazer estes bares forros, quis dar o proveito a este Lisvarte Caeiro, e estes setecentos quintaes, que acima diguo, vem- didos em Malaqua, e empreguados em fazemda pera Ma- luquo, valiam bem vinte mil cruzados, das quaes custas ho senhor governador e veador da fazenda serão bem enformados dos seus hoficyais de Maluquo, a que tudo eles foram presentes, aymda que certefiquo a Vosa Alteza que ya qua não ha quam ouse de falar verdade a Vosa Alteza, porque os vosos oficiais / / amdão mais amedron- u v. tados que os outros omêns, e isto porque são tantas as espias sobre eles que não ousão escrever nenhumas cou- sas de voso serviço. E eu, se algum proveito não trouxe de Maluquo, foi por dizer algumas cousas que via mal feitas contra voso serviço. Estando em Penaruqua, onde envernei, como ja digo a Vosa Alteza, fiz hum junquo pera nele me ir pera Ma- laqa; e no mes de Junho de 536, veio ao porto, omde eu estava, huma nao dum Baltesar do Casal,mercador, e me deu novas que Maluquo ficava alevantado com todalas 2 1 ç
  • ilhas e terras da redor, onde matarão muitos portugueses no alevantamento. E eu, vendo tal nova, me embarquei pera Malaqua com o Baltesar do Casal, por ho meu junquo não estar aymda acabado, pera poder vir a Malaqua nele; e o deixei que mo carregasem e tivesem prestes, aho Dezembro se- guinte, de muitos mantimentos, pera nele hir socorrer a dita fortaleza, e ysto por ha fortaleza estar muito aper- tada de fome e guerra. Espero em Noso Senhor que com minha cheguada laa e com o credito que amtre eles tenho, fazer algum serviço a Vosa Alteza, porque eu, antes que de la partise, dise a Tristão de Taide que aquela gente que se avia de le- vantar contra ele, e que olhase bem polo serviço de Vosa Alteza, porque me foi dito, por muitas vezes, que se avião de levantar. Verdadeiramente, senhor, que lhes nom deve Vosa Alteza de dar culpa, porque as cousas de Maluquo são de calidade que as não pode omem falar, porque os bra- gas (i) das guales de Vosa Alteza não são tam mal tra- tados como hos reis e fidalguos das terras sam. Has ilhas de Maluquo tem em sy mui pouquos man- timentos e os reis destas ilhas de Maluquo tem huma terra, que se chama ho Moro, repartida amtre sy, a qual terra estava de Maluquo sessenta ou setenta leguoas; e os ditos reis não tem outros mantimentos nem remdas de que se sostenhão, senão daquele Moro, domde ha muitos arrozes, e çagu, e porqos, e galynhas, de que meyãamente abasta as ilhas de Maluquo. Esta gente desta terra do Moro são escravos dos reis, e eles, por lhes dizerem que sejão livres e forros se se (i) Os condenados das galés. Braga, argola que prendia a perna dos condenados a trabalhos forçados a uma corrente. 2 2 O
  • fizesem cristãos, se fizerão christãos, e se alevantarão comtra os reis, sem lhe mais darem mantimentos, nem consemtirem gemte, nem para os seus irem la. El-rei de Ternate, que rege dous, pedira a Tristão de Taide que hos que se fizesem christãos se viesem pera fortaleza, e que ali lhe daria chãos e casas em que vi- vesem e que lhe despeyase sua terra do Moro em que vivião. Ao qual Tristão de Taide respondia asperamente, e mandou loguo muitos omêns e vigairo a faze-los christãos e favorece-los; por onde os ditos reis determinarão, por isto, e por outras cousas mais, que Vosa Alteza não pode saber senão por quem dese reino vier dirigido para iso, de se alevantarem, estamdo eu la. E se por ventura ho deixarão de fazer, foi por lhes dizer muitas cousas, e que Vosa Alteza o proveria com justiça, e comtudo, detreminarão de nos deitar fora huns poucos de omens que viemos, e depois de minha partida, lhes forão tamtas cousas feitas, segundo se diz por esta Malaqa que, certo, senhor, pera se salvarem, foi-lhes ne- cesario acolherem-se as terras, e os portugueses se acolhião ha igreya, se lhe valese. Dizem que estam esperamdo por capitão, que como chegar que fara pazes, e que, emquamto Tristão de Taide for capitão, que as não ham-de fazer. E praza a Deus que Antonio Galvão que la vai que as faça, pois tem (?) Vosa Alteza tam mal lembrado Ma- luquo que sempre Maluco foi tão mofino que nunqua, nem quem veio a ele que não quisese dobrar ao Gualarym (?). Lembre-se Vosa Alteza mais dele, antes que ho eles des- 12 r.i povoem. // Nesta terra do Moro, onde se fizerão cristãos, os mes- mos cristãos se alevantarão também e matarão os portu- gueses e vigairo que la estava; por omde vera Vosa Alteza 221
  • quanto seu serviço foi fazerem-se christãos, porque as cousas sem conselho não trazem outro fruito senão deser- viço de Vosa Alteza, porque no fazimento destes cristãos nom deu nenhuma parte Tristão de Taide a ninguém, senão a sy mesmo, e muitas outras guerras que se ca fizerão, bem desnecesarias, como Vosa Alteza sabera, quamdo ho mamdar saber. Eu estou prestes pera neste mes de Dezembro partir pera Java ha tomar o meu navio, que esta carregado de mantimentos, pera nele socorrer Maluco; e certefiquo a Vosa Alteza que o mais do que levo he emprestado, pera ho ir gastar em seu serviço, porque meus deseyos niso se criarão e niso se am-de hacabar. Pelo que peço a Vosa Alteza me faça merce de Ma- luquo, na vagante do capitão que for, porque eu estou tão pobre e endividado, e a origem donde ora vou he tão perlongada, como Vosa Alteza vee, he eu não tenho la quem por mym requeira a Vosa Alteza, senão meus ser- viços, dos quaes eu creo que Vosa Alteza he enformado ynteiramente; e se a Vosa Alteza lhe parece que Maluquo esta provido por muytos annos, faça-me merce de Bamda, pera nela fazer huma casa, pera se sua fazemda fazer milhor do que se faz, e eu me obriguo a lhe avantejar em sua fazenda cimqo mil cruzados mais, por anno Beyjo as mãos de Vosa Alteza, cuya vida e estado Noso Senhor acresente. De Malaqua, a oyto de Novembro de 1536 annos. as. Leonel de Lima
  • 30 CARTA DE AFONSO MEXIA A EL-REI Cochim, 15 de Dezembro de 1527 ANTT: CC-I-38-4.J. Caderno com a cópia de três documentos: esta carta e as duas anteriores, com a mesma cota. São, ao todo, dez folhas, cam as seguintes, em branco: 2 v., 4. v., 8 r. e 8 v. Letra muito perfeita, e as várias manchas não prejudicam a leitura. а) Novas dos castelhanos nas Molucas. б) Socorro que enviou com destino aquelas ilhas. \ Senhor, Depois de aquy cheguar, de Malaca, Pero 1 Mazca- renhas, daly a dias, vim saber, como estando elle em Mallaca, vierão hy ter novas, em companhia de Amtonio 2 de Brito, capitam que foy de Maluco, as quaes achou em Banda, em vindo pera Mallaca, como avia alguma pre- sumçam e synaes, naquellas partes, de aver catelhanos em Maluco. Eu, a ora que o soube, me emfformey loguo das pe- soas que de Malaca vieram, e pollo mesmo Antonio de Brito; e tirey diso huma emquiriçam que a Vosa Alteza mando. 1 —P.O; 2— Amt.o. 2 2 3
  • E por ao tempo que isto soube e o Guovernador estar em Guoa, com toda armada, e asy non ter nenhum navio pertemçemte, pera la aver de mandar, nem menos era tempo pera fazer saber esta nova ao Governador s aguora, pera delia prover, por ser ja na emtrada do imverno, e nom poder vir a tempo, pera na mesma monçam poder hir, nom tive outro remedio de socorro pera lhe mamdar, somente huum navio de caa da terra, que de Bemgualla trouxera Ruy Vaz Pireira, que la tomou a huns mouros; no qual navio, e noutro que ja estava ordenado de hir Gomçalo Gomez de Azevedo, mamdey a mais gemte que nelles coube, com fazemda de vallia de sete mil cruzados e escrevy, e avisey o capitam de Malaca por minhas car- tas e asy ao dito Gomçallo Guomez, que achamdo la alguma nova de castelhanos, a qual ja la aquelle tempo per rezam devia de ser, que loguo lhe soquorresem com os ditos navios e gemte, e outra mais, se comprise, e asy li com fazemda de cimquo mil // cruzados da que eu mam- dava; e a Çumda com quatro mil, e em Mallaca, dous mil, alem de cimquo mil cruzados que lhe ja diamte, avia pouquo, que mamdara, segundo Vosa Alteza pode ver, pello trellado das cartas que emtam pera la escrevy e aquy mamdo, e asy o trellado doutra que mandey ao capitão de Malluco. Dou esta comta a Vosa Alteza pera saber as novas que hao presemte ca temos, e o pomto em isto, tee feitura desta, esta. Esperamos cada dia por novas, e poderá ser que, ate a partida das naaos derradeiras desta carregua, vira alguum recado de la, polia nova que vier, que prazera a Deus que seja bõoa, se ordenara sobre iso o que for mais voso serviço. 3 — £.dor. 224
  • Senhor, Caa vy o regimento do Emperador que levou Fernão de Magalhães, o qual leva Antonio de Brito, e fiquou-me delle o trellado em pubrico. E alem delle, por hir por duas vias, mamdo outro a Vosa Alteza, porque poderá ser que sera la neçesario, por capitólios que nelle a, com que sy Vosa Alteza pode escusar, se açertarem de pidir a fazemda que lhe la foy tomada, e outros pomtos que nelle vera que podem ser necesarios pêra cousas que se podem acomteçer e recreçer. E parecera melhor e mais voso serviço, com tal nova, os cento e oitenta homeens, que Pero Mazcarenhas, em sua companhia trouxe, com os gualeões de Vosa Alteza carreguados de suas mercadorias, irem la socorrer e saber se avya hy necessydade, e nam a Imdia com taees novas; mas como em tudo nam tem respeyto (i), senam seus imteresses, nom lhe lembra mais outra cousa. // Aquy vay certidam dos homees e navios que Pero Mazcarenhas trouxe, quamdo veio de Mallaca. Escrita de Cochim, a 15 de Dezembro de quinhentos e vinte sete. Afonso Mexia (1) Palavra rasurada. 2 2$ IMVUndia, I — 15 J
  • 31 TRECHO DE UMA CARTA DE DIOGO DE SALINAS AO IMPERADOR CARLOS V Tidore, n de Junho de 1528 ANTT: CC-I-40-24. Original em dez folhas, com a primeira em branco. A fre- quente justaposição de palavras e contracção de vogais, a cali- grafia irregular, e algumas linhas manchadas, dificultam, um pouco, a sua leitura. Deste documento, que se ocupa, princi- palmente, das desavenças entre portugueses de Ternate e cas- telhanos de Tidore, publicamos apenas a notícia referente a um clérigo chamado Jorge Baez. Despues de lo suso dicho procuraron los portogueses de tener amistad con nosotros, y teniamos platicas con elos, diziendoles la mucha sin razon que tenian en nos combater, sabiendo que luego que Vuestra Sereníssima Magestad lo supiese, como aca pasaba, lo pagaria el-rei de Portugal, su seiior; y otras muchas cosas que el ca- pitan Martin Ynheges de Carquiçana que al presente hera, les desia, declarondoles como estos Malucos estavan en la demarcacion de Vuestra Sereníssima Magestad; y como se abian puesto juezes sobre ello. A ningunta cosa daban credito. De palabra desian querian paz con nosotros, mas nunca las quiso asentar. 16 r.i Don Jorge de Me // neses, que despues bino por capitan general de Terrenate, sino so capa de pazes buscaba 1 ordenaba mill trayziones. 226
  • Y hizo bene dizo a nosotros un hombre que se llama Francisco Perez, que es Castellano i natural de Cia, se- gund el desia. Estubo aquy muchos dias como otros que se abian venido; i un dia que bino de Terrenate un pi- nei (i) e nel tres portugueses, en son de negociar otras cosas con ele capitan, el dicho Francisco Perez puso fuego artificial en el navio que teniamos echo, para embiar a hazer saber a Vuestra Sereníssima Magestad de nos otros, con dez granada confecionadas, que le trujo el uno de los portugueses, que se llama Jorge Baez, que es clérigo, por mandado dei dicho Don Jorge, capitan. I dios, por su ynfinita misericórdia, nos libro que no tomo fuego la granada; y biendo sus triziones comen- zamos guerra com ellos, porque asy parezio al capitan general i a todos que nos seria mas seguro que no con su falsa paz que con ellos tenyamos. Cibdad de Tidor de vuestra sereníssima Magestad, en honze de Junio de mill y quynientos i beinte i ocho anos. Dyege de Salinas (i) Leitura incerta. Talvez se trate da pequena embarcação ma- laia pelang, aportuguesada em pelan e pilão. 2 2 7
  • 32 CARTA DE VICENTE DA FONSECA A EL-REI Molucas, 8 de Dezembro de 1531 ANTT: Gaveta 17-7-9. Original em bom estado, com seis folhas, cinco das quais escritas com letra clara e legível. Mede 300 x 210 mm. a) Incúria do Capitão Gonçalo Pereira em velar pela segurança da fortaleza de Ternate. b) Traição dos naturais desta ilha. c) Morte de Gonçalo Pereira, apunhalado. d) Litígios pelo direito à sucessão na capitania da fortaleza. e) Nomeação de Vicente da Fonseca, e medidas por ele tomadas. f) Seu resumo biográfico, enviado pelo mesmo a el-rei. g) Vigário da fortaleza e o Padre Afonso Mexia. Senhor, Eu tenho escripto a Vosa Alteza as desavemturas e maos aqecinientos que sam aqeçidos nesta sua fortalleza de Maluco por Luis de Amdrade, feitor e allcaide-mor. O qual daquy partio, pela via de Borneo, em hum navio, por nome, Fiees de Deus, de Vosa Alteza, aos oyto dias de Dezembro da era de 531 na qual carta, que asy escrevy, escrevia tudo o que acomteçeo e era aqeçido. 1 — b°exxxj. 2 2 8
  • E asy o torno aquy a escrever, e outras cousas que des- pois para ca 2 soeçederam, a qual o theor delia he o segymte: Senhor, As cousas acomtecidas em esta fortaleza escrepvo a Vosa Alteza nesta, em soma, que, pera meudamente, era e serya muyto papel e vagar que, a feitura desta, se nam podia ther, polio tempo e neçeesidade nam dar vagar. Asy, senhor, que deve de saber que, bespora de Santo Espiryto, que foram vinte e sete 3 dias de Maio, da dita era, jazemdo o capitão Gomçallo Pereira dormimdo a sesta, nesta torre da menajem, em huma sua camara que, parede meio, tinha com outra, homde tinha e estava apou- semtado el-rey, moço, de Ternate, e tres ou quatro irmãos seus, mais pequenos, as quaes camaras sam repartidas de canas; e jazemdo asy dormymdo a sesta, fechado na dita camara, avemdo ja hum dia ou dous que a gemte da tera amdava allvoroçada, vimdo e temdo este alvoroço de lomge, de que o dito capitam ja por muytas vezes era e fora avisado, e dizemdo-lhe que soubese çeerto que lhe aviam de pedir el-rey que demtro na fortaleza estava, asy para o deixar hyr a sua casa, como para o fanarem, e se lho não desem que se aviam de ajumtar todas as ilhas e aviam de vyr pelejar a esta fortalleza e povoaçam, e outros muytos avisos que sempre teve e de çeerto sabia; e chegamdo-se a sua Pascoa, elles ho requererão para lho leixarem hyr a mezqyta, o qual, despois de muytos brados, aprouve ao dito Gomçallo Pereira, capitam, de lho leixar hyr; e leixou-ho achegar ate hum bayleu, que 2 — paca; 3 — xxbi j. 2 2 Ç
  • se fez mais perto desta fortalleza que da sua mesquita; e mamdou em sua guarda a Luis de Amdrade, allcaide- -mor, com a mais gemte desta fortaleza, armada, com muyto mais resguardo do que estava em custume, em tempo dos outros capitaaes pasados; que a meu pareçer, o teve a gemte da terra em desgosto, com outros que li t.) damtes tinham, pelo terem pedido / / para o fanarem e pera hir per a sua casa, pois se hia fazemdo homem e conheçia ja molheres, e os tinha despedidos e desemga- nados que lho nam avia de dar, de que tudo ysto, e outros achegos que se a ysto ajumtaram, tinham muito desgosto, que a toda esta nosa povoaçam era notorio, e o capitam era cada dia avisado. E semdo as cousas desta maneira, ja de lomge, qymta feira, que eram vinte cinco * dias de Maio, da dita era, se ajumtou a ysto huma paixam que ho dito capitam ouve, a porta desta fortalleza, com hum homem da terra, estamdo de presemte Qechillato, regedor da tera; na qual paixam lhe deu pamcadas com huma cana de Bemgalla; e ysto, por duas vezes, que se ajuntou as paixões velhas e odeos que nos traziam. Pelo qual, por ysto e por outras cousas, e ditos de palavras que dizem o dito capitam dizer comtra a may del-rey, por jurubaça (i), ao dito regedor, dizemdo e mamdamdo-lhe dizer que se deitava, a dita raynha, com os seus mamdarins ou fidallguos, e com elle regedor; e asy lhe nomeamdo outros que com ela domiam, que, a pareçer de todos, foy gramde escam- dallo a terra. Pelas quaes rezoes, e outras muytas, que (i) Intérprete. Palavra formada do termo malaio juru (perito) e do sânscrito bahasa (lingua). Ainda hoje em Timor chamam aos intérpretes Durubaças. 4 — xxb 230
  • represemtam, despois do feito, cada dia, hordenaram de nos fazer traiçam, segumdo temos sabido por hum escravo que na ylha de Tidor foy tomado com outros, e fogido, e veio ter a esta fortaleza, despois do feito, tres dias, a meia noute; e nos comtou como era determynado, amtre elles, de vir huma cora-cora, com gemte da dita ylha fallar com o capitam, porque lhes fazia gramde festa e os deixavam emtrar em esta fortaleza, e eram recebidos do dito capitam muy aprezivellmemte e se asemtava nesta torre a fallar com elles e, muytas vezes, o deixavam so- memte com os ditos homens de Tidor. E era-lhe feita esta festa, por darem muyto tavoado que era neçesario para coregimento de hum jumco del-rey, noso senhor. E çerto que se mostravam fiees e bons servidores, e cada dia traziam o dito tavoado e outra muyta madeira. E asy, aviam de vyr e aviam de estar falamdo com o dito capitam, na dita torre, homde lhe sempre soyam de fallar, e despois de asy estarem, se avia de chegar muyta gemte da terra a meter pedra da praya demtro em esta fortaleza, a qual pedra avia poucos dias que, a requerimento do capitam, elles tinham caretado em seus paraos e deitada na dita praya, pegada com os muros desta fortalleza, e ha tinham começado acaretar para - demtro, por huma ou duas vezes. E que, amdamdo asy acaretamdo a dita pedra, com as portas todas abertas, e em çyma tinham e estavam sempre com el-rey quatro e cymqo mamçebos, e as vezes, mais, e numca menos, que ho serviam, e hiam e vinham cada veez que queryam, deixamdo as armas ao porteiro, como era de custume. E também a outra gemte de fora, toda jumta e prestes como estava, temdo-nos cerqado pelas costas toda nosa povoaçam e fortaleza, armada. E determinavam de ser 257
  • despois de jamtar, ao tempo que a gemte nosa se recolhia a suas casas, e esta fortaleza fycava soo. E semdo tudo asy, os que aviam de estar com ho ca- pitam aviam de começar nelle e despois os da pedra, que era muyta gemte, com armas secretas, que todos traziam, 12 rj se aviam //de recolher, e fechar a porta e matar hum velho porteiro 5, e todos hos mais que demtro achasem, que podiam ser bem poucos. E a outra gemte de fora dar na povoaçam, com foguo e com armas; e asy tinham determynado de levar tudo nas mãos, mas Deus que tem cuydado de tudo, ho remedeou desta maneira. Estamdo elles aguardamdo polia dita cora-cora de Tidor, que ja vinha por caminho, e temdo a gemte jumta pera a pedra, e toda a outra em seuus lugares hordenada, armada, o dito sabado, bespora de Samto Espirito, o qual dia amanheçeo, e o damtes teve o capitam gramdes avisos pelos portugeses, pelo muyto allvoroço que se nelles sem- tia e emxergava, e muito tomar de roupa fiada, e emprés- timos que amdavam pedimdo; e estamdo o capitam asy, muyto avisado e arreçeoso, e asy toda a gemte desta povoaçam, porque, loguo pela menhaa, se lhe dise que amdava hum homem primcipal da terra, per nome Ouro- bachela, com muita gemte com ele, em cyma, as casas da rainha, que sam perto desta fortaleza; e asy, outros muytos synaes foram vistos, aquele dia, por muita da nosa gemte, que todos foram ditos ao dito capitam, e elle muy acautelado delles. E estamdo as cousas asy, chegaram-se as oras de co- mer, e pareçeram paraaos pequenos, que vinham para esta fortaleza, e eram huma soma delles. E chegaram a praya, e deitaram pedra que traziam demtro nelles, e pasaram te mezquita; e os outros, que amdavam care- 5 — port". 2 3 2
  • tamdo a pedra demtro, se recolheram e se foram para tornarem despois de comer. E o capitam se asemtou a comer, e como acabou de comer, se recolheo para çima, a repousar na dita sua camara, parede menos com a dell-rey, como dito he; e a mais gemte nosa se recolheo em suas casas, a comer e repousar. Eu estava preso nesta casa, homde o dio capitam ti- nha e estava na dita sua camara, avia dias, cam huma adoba (2) de quatro ellos (e isto, por sua vomtade, que por cousas que tivese feitas, como a todos he notorio) fora, na casa diamteira, homde dormiam quatro homens seus, e outros tamtos do allcaide-mor; que todalas noites vinham dormir a dita torre, a vigiar a ell-rey, os quaes todos dormyamos como em tollda de naao; e delles, os mais, em cateres; e os outros, pelo chãao, com alampada sempre açesa, sem aver nenhum repartimento de roupa nem doutra nenhuma cousa. Somente em hum camto da dita casa estava hum catre, homde dormya hum moço pequeno, irmão dell-rey, com tres ou quatro, e mais ne- gras da terra, suas, e allguns menynos; este somente tinha hum repartimento, com huns panos pymtados; e como digo, o meu catre, sem nada a redor delle, de mistura com os outros que mais diguo. Asy, que semdo o dito capitam recolhido a repousar, - como dito he, e semdo tam avisado do desaseguo e allvo- roço da gemte da tera, pelas sobre ditas rezoes velhas, que a todos nos eram notorias e maiormemte de dous dias ou tres com aquelle que o feito cometeram, que foy o dito sabado, em que lhe foy emtemdido muyto mais alvoroço, e outros muytos maos synaes, e outras cousas, que todas foram, aquele dia, e o damtes, ditas ao capitam, e elle muyto arreçeoso delles; e eu, pelas novas que me davam (2) Termo antigo; o mesmo que algema. 233
  • e me deziam, acabava de escrepver hum escripto a hum 12 »•) meu // amiguo, que me tinha em guarda minha casa e me olhava por ella, no qual lhe pedi e emcomemdava que, pois as cousas amdavam tam danadas, que amtes que mais fose, me mamdase comprar allgum mamtimento, e fose loguo, por me reçear de poder ser, como fora no tempo que se matara Qechil Daroez, em que fiquey, e todos ficamos em muyta neçesidade de mamtimentos. E por tal lhe escrevia o sobre dito. E temdo-o acabado, e estamdo esperamdo que me fose trazido de comer, asemtado em hum catere, homde dor- mia, chegou Qechelato, regedor, com dous ou tres moços, nem gramdes, nem pequenos, e o maior lhe trazia huma espada, como sempre estava em custume, e vinha de casa do feitor que esta defromte da porta desta fortaleza, perto, avemdo pouco damtes que se sahira da dita fortaleza para a dita feitoria, domde emtam chegava. E chegamdo, emtrou para demtro, para a camara dell- -rey, homde o dito rey estava com todos seus irmãos e moços e molheres de seu serviço, que na dita fortaleza sempre dormiam. E estavam e hiam e vinham, e aquelas oras estava comemdo com suas portas ceradas. Amtre aquelles que estavam com ell-rey demtro, esta- vam dous mamçebos, seus criados, homees bem despostos e que allgumas vezes tinham vymdo ver ell-rey e hiam-se. E estava mais hum seu prymo comirmãao, homem que allgumas vezes o tinha vymdo veer. E neste tempo esta- vam todos estes demtro como digo. Ao dito tempo que o dito Qechellato emtrou, e despois que emtrou, sahio de demtro e com elle o prymo comir- mão dell-rey e o moço que lhe trazia a espada, e pos-se o regedor a huma janella, e o outro paremte dell-rey pa- seava pela casa, e o capitão dormya, e eu estava asem- tado no meu catere. E no sobrado debaixo estavam tres 2 5 4
  • ou quatro homes do capitam jugamdo. E dizem que amtre elles estavam dous ou tres moços gramdes. Todos estes nam emtravam com armas nesta fortaleza, por lhes serem tomadas a porta pelo porteiro aqueles que as traziam. E estamdo tudo asy, como açertou de ser na sua po- voaçam hum portuges noso, e segundo parece, elles ho qeseram tomar amtre sy e matallo, por nam vyr dar aviso de como estavam armados e jumtos. E pareçe ser que remeteram com elle, e elle lhes escapou, damtre todos, fogymdo. E vieram apos elle, ate jumto dos muros desta fortaleza, homde o derribaram e acabaram de matar. E a este tempo foy gramde rumor na sua povoaçam, e descobryo-se muyta gemte, que estava na dita povoa- çam, por aquela bamda da sua mezqita, e também por par aos pequenos. A este rumor, me allevamtey do catere, ate ho meio da casa, que nam pude mais hyr, pelos gramdes feros que tinha, e preguntey ao prymo dell-rey que se asomou a janella contra aquella parte, que era aquylo. E elle me respomdeo que era a gemte que vinha a negra pedra. E porque eu domde estava nam descobria senão o maar, estava espamtado de tamto rumor de paraos e da gemte na povoaçam sua; e estamdo para chamar o capi- tam, elle fallou e pregumtou prymeiro allto: «que he yso»? E eu lhe respomdy: «Senhor, gramde alvoroço em Ternate». E também seus homens que estavam no sobrado de- baixo, ao dito rumor, estavam as janellas, olhamdo o que era. Asy que o capitam //se alevamtou loguo, e che- '3 r-J gou-se a janela daquella bamda domde descobria a tera, e vio vyr o dito português fogyndo e, apos elle, a dita gemte, e bradou altas vozes. Como elle bradou, loguo sairam da camara dell-rey 2 3 5
  • os ditos dous mamçebos, com cada hum seu cris (3) na mãao, e vieram demandar a porta do capitam, que a este tempo ja abria a porta, para sahir, com huma espada dambalas mãaos. £ em a abrimdo, porque a dita porta se abria para fora, homde estavam os dous negros, elle ouve vista delles, prymeiro, sem lhe poderem fazer nojo allgum, e ally lhe teve a emtrada. Ao tempo que elles sayram da camara dell-rey, eu quis bradar com elles, e lhe bradey, pelo qual hum delles leixou a porta e aremeteo comiguo, com o dito cris; e porque eu estava perto do dito regedor, me lamçey a elle e me abraçey com elle, e o dito negro me leixou e tornou a porta. Era o rumor gramde das molheres e moços dell-rey, que tive tempo de bradar e bradey: «que matam o capi- tam», sete ou oyto vezes. E porque eu falava portuges, parece que me nam emtemdiam os negros, e também era o rumor gramde. E acudiram tam asynha os criados do capitam que eram com a cabeça ja em cima, no sobrado, quamdo ho prymeiro dos dous negros emtrava com o capitam. E em acabamdo de emtrar no lomiar da porta o deradeiro, era ja tam apegado, o dito criado do capi- tam, com elle, que lhe deu huma lamçada com huma chuça que trazia, e loguo rodeou o outro, que nas costas deste vynha, e lhe deu huma cutillada, com huma espada que trazia, elles ambos, de fora, e o negro, de demtro; e ally o derybaram, ametade atravesado demtro, e ametade cahio para fora da porta. E loguo ambos emtraram, por cyma delle, demtro homde o dito capitam amdava com ho outro, que ja com elle tinha çerado e pareçe que o tinha mal ferido, e demtro amdaram emboiylhados, (3) Cris: punhal malaio, geralmente com a lâmina ondulada; do malaio Keris. 236
  • domde o dito negro escapou, e veio fogyndo e se acolheo a camara dell-rey que, como dito tenho, he parede menos desta, e fechou a porta; e hum dos mamçebos, criado do capitam, sayo apos elle, e deu couçees na porta e a der- rubou, e emtrou demtro, e la o acabaram de matar, com os mais que demtro estavam, que eram para tomar ar- mas; e ell-rey sayo fogymdo para fora e seus irmãaos. Ao tempo que os ditos negros sahiram da camara dell-rey, para emtrarem a porta ao capitam, e eu lhe bradey, e hum delles remeteo comiguo, como dito he, bradava o regedor aos ditos negros que estivesem qedos, mas nam arremeteo com elles, com huma espada que logo tomou a hum negro que lha trazia; que bem poderá fazer. Somente de boca lhe dezia que estivesem quedos. No tempo que os de çima asy arremeteram a dita porta do capitam e eu bradey: «que matam o capitam», loguo estes dous seus criados, que ja estavam em baixo, as janelas, allvoroçados, sobiram, e em sobymdo, deçia de çyma o primo dell-rey para baixo, coremdo; homde o mataram loguo, porque nam trazia senam hum cuytello na mãao. E os outros dous negros, que em baixo estavam, amtre os ditos criados do capitam, como viram sobir os outros dous que sobiram a socorer o capitam, e viram que nam ficavam senam dous por dous, meteram-se com elles, e ficaram os dous portugueses feridos, e os dous negros se // salivaram pelo muro, comtra o maar, que esta baixo l» *•) e sem ameas e pouca altura. Asy que o capitam foy morto, da maneira que dito he, e também morreo outro criado seu, que demtro emtrou, aquele que prymeiro ferio o deradeiro negro que com o dito capitam, que Deus tem, emtrou demtro, o ferio o outro negro das quaes ferydas loguo moreo. A esta revolta se repicou o sino, e a sua gemte que estava prestes para a dita traiçam, que tinham ordenada, 2 37
  • como dito he, que nos foy descuberta, despois que ma- taram o capitam, dally a tres dias, pelo dito negro que de Tidor fogio, cristão e meu se amostrou, e asy se lam- çaram de todas as bamdas, que de maar a maar nos tinham cerquado, e no mar muitos paramos carregados de gemte, e começaram de por o fogo a dita povoaçam, pelas pomtas desta foralleza, a saber: da bamda do mato e polio meyo, e o prymeiro foy mais perto desta fortaleza. E os do mar, no cabo de nosa povoaçam, se achegaram a tera e se lamçaram as nosas casas a roubar e por fogo. Asy que tudo ysto, que se nam pode comtar senão asy, pareçera a Vosa Alteza que se pasou muyto espaço, nysto tudo. Ysto foy feito tam em breve que se nam pasou em hum espaço, mas amtes muy açeleradamemte. Ao dito repique acodio a nosa gemte, e despois que tivemos a fortaleza ja desembaraçada e todos mortos, que demtro na dita fortaleza moreram oyto pesoas ou negros da tera, homde moreo hum irmão del-rey, menyno; e foy o dito Qechellato preso em feros, e emtam, despois da dita fortaleza posta asy a recado, acodio a mais da gemte a suas casas e fazemdas, e moças e filhos, pera os reco- lher a esta fortalleza. Amtes disto, senhor, me esqeçia que aimda bem nam eram os ditos negros mortos, que despois se acharam escomdidos na camara dell-rey e em cyma do telhado, um ou dous, a Qechellato nam tinha feros, e aimda não era apagada a revolta, deçy eu de çima para baixo, para me tirarem os feros e achey o allcaide-mor, Luis de Amdrade, que para esta fortaleza veio com os cargos de feitor e allcaide-mor, pelo governador * Nuno da Cunha, e Bras Pereira, capitam-mor do mar, apegados a braços, dezemdo o dito allcaide-mor que estevese preso e pe- ' 6 — gor. 238
  • dymdo feros para lhe deitar, e o dito Bras Pereira 7, também com elle a braços. E pegavam nas lamças e tomavam as espadas, cousa que para tal tempo punha a cousa em gramde comfusam; e asy ambos deziam ser capitaes e lhe vir, por dereito. Çerto que se me não açertara ally, não poderam leixar de danar muyto tudo, mas eu mety amtre elles e os apar- tey, a primeira vez, pedimdo-lhes, por mereçe, e reque- rendo-lhes de vosa parte, que deixasem aquelas cousas que nam eram para tal tempo. E despois de os ter apar- tado, me tiraram os feros, e sollto, lhes torney pedir, por mereçe, que fosemos socorer a nosa povoaçam e recolher a gemte e mantimentos, que todos tínhamos fora, em nosas casas, que na dita fortalleza não ouve nunqua nem avia, por nosos peccados, amtes que no-los qeymasem. E ao sahir o allcaide-mor dezia: «say vos primeiro», // o ao dito Bras Pereira; e o dito Bras Pereira lhe dezia que sayse elle. E asy se tornaram a emborylhar, outra vez, que os nam podia apartar, por estar tam fraco, que me nam podia ther, e com as pernas imchadas, dos feros. E asy os apartey, pomdo-lhe muytas cousas diamte, que compriam a bem de voso serviço, e pedimdo-lho por mereçe. E temdo-os, asy ao hum, como a outro, e asy os apartey, com comdiçam de se porem a direito, e lhes fiz dar a mãao, hum ao outro, que estevesem a juizo. E asy fomos para fora recolher nosa gemte e manti- mentos; e os recolhemos, o milhor que podemos; que não pode deixar de ser com muyta perda de fazemda; que muytos ouve que nam salivaram nada mais que ho que traziam vestido; e o mamtimento se queymou muyto, ou a maior parte delle. E asy nos recolhemos, o milhor que podemos, a esta fortaleza, com tudo o que a cada hum 7 — P™. 2 39 >
  • ficou, que era ese bem pouco, como em comvees de naao. E loguo, a outro dia, que foy domymguo, dia de Samte Esprito, hordenamos de fazer capitam e nos ajumtamos todos para ho fazer, homde houve muytas defferemças, e asy amtre o dito Bras Pereira e allcaide-mor, e também Graviel da Costa; este, escrivam desta feitoria e criado do mestre de Sam Tiaguo, que com outra provisam de Vosa Alteza tinha e apresem ta va e demamdava o dereito que nyso tinha. Asy que o povo, todo jumto, lhes deo juramento, des- pois de lhes terem tomadas as provisoes, para as verem, o qual cada hum tinha e apresemtava e que estevesem pelo que ho povo hordenase e que obedeçeriam a qual- quer que ho povo hordenase, como dito he. E despois deram juramento a todallas pesoas desta fortaleza, sem ficar nenhuma, gramde nem pequena, que estevesem e obedeçesem a qualquer capitam que se asy hordenase. E todos ho prometeram asy de ter e mamter. E emtam tomaram os ditos de todos, por asynado, os escrivaaes de feitoria, e o Padre Vigário e outro Padre Johão Mexia. E todos jumtamente demtro nesta fortaleza, somente o allcaide-mor e capitam-mor do mar ficaram de fora; e asy foram pergumtados todos, como dito he, por seus ditos, em que ouvesem de vagar, porque queryam todos dar suas rezoes por este escripto, que era caso im- fenyto, porque deixávamos de fazer outras cousas que nos mais relevavam, que era recolher allguns manti- mentos que aimda estavam fora, homde também me coube minha voz, a qual foy que o fose o allcaide-mor, e que asy mo pareçia e asy o asyney. E despois amdou a roda e se fez tam tarde que eu, de camsado e fraco, me fuy damtre elles e me fuy deitar, P°r estar imchado das pernas. E estamdo asy soo, vieram 240
  • ther comiguo e pegaram de mym e me deseram que era capitam e me allevamtaram pelos braços, dizemdo-lhe eu que o não queria ser; sem me quererem ouvyr, me dise- ram que o avia de ser, por força, e em que me pees, pois que compria asy a serviço de Vosa Alteza; e, por cyma de tudo, que asy mo requeryam de sua parte. E eu, vemdo que asy mo requeryam, mostrando-me e dizemdo-me que asy compria ao serviço de Vosa Alteza, emtam lhes dise que nam dezia capitam, que era cousa tam homrada, mas se lhe comprise eu ser carvoeyro, que ho faria. E asy me tamgeram as trombetas e me chamaram seu capitam, dizemdo todos que me nam podiam ouvir o que lhes eu querya dezer. E loguo me fezeram jurar de os ter e mamter em justiça, com todalas cyrymo // nyas que M se em taal terra podiam fazer. E o ouvidor me to- mou a menagem da dita fortaleza, e disto se fizeram asemtos. E do dia que eu asy fuy alevamtado por capitam, como dito tenho, a dous dias, chegou hum navio de Vosa Alteza, que o capitam Gomçallo Pereira, que Deus tem, tinha mamdado a Bamda, com algum cravo a vemder, e nelle vinha hum Denys de Paiva, voso moço da camara, e homrada pesoa, por capitam; o qual vinha nelle de Bamda para caa, por capitam, por em Bamda ficar Any- bal Cerniche, que daquy foy enviado nelle por o dito capitam, e nelle mais vinham outras pesoas que daquy foram, que por todas seryam quinze 8 ate desasseis ". E tamto que chegou, loguo hordeney de ho mandar, por esta via de Borneo, fazer saber a Imdia, ao gover- nador, e a Vosa Alteza, e capitam de Malaca, o que era pasado e nos socorese, asy de manttimentos e gemte e í — xb; 9 — xbj. 241 INSULÍNDIA, I — l6
  • fazemda l0, e para da India o fazerem saber a Vosa Alteza. Nos ficamos recolhidos todos demtro em esta forta- leza, nosas choupanas feitas, homde nos não podemos revollver, polas muitas allmas cristãas, asy escravas, como filhos, como noras, que polios muytos portugeses que nella ficam, que podem ser çemto e dez, pouco mais ou menos, porque quamto para defemsaa da fortaleza nam mais abastara para a deffemder, mas não ja para nos defemdermos de fome, porque nunca ouve fazemda para nos os nosos mantimentos serem pagos, quanto mais solido. Asy, senhor, que a prymcipal gera que nos fica, e nos podem fazer esta gemte da tera, he tolherem-nos estes mantimentos. Quis meudamente dar comta a Vosa Alteza de como estava hordenada a traiçam e de como lho foy descuberto ho ardyl que tinham hordenado, por caso da morte da- quele prymeyro portuges que mataram, porque, como o tinham hordenado, nam se poderá remedear, se lhe Deus não posera em meizinha que para yso lhe pos. Foy morto da feiçam que açima tenho escripto a Vosa Alteza, sem tirar nem por, tudo ao pe da letra. Os castelhanos, des que ysto foy acomtecido, nunca mais tive nenhum recado delles, por yso lhe não sey mais dizer; somente estarem em Geylolo. A gemte deste lugar se foy a maior parte e o lleixaram despovoado; ouve falia delles e estava em comçerto que me desem arrefees de quatro ou cymco dos prymcipaes, em que lhe deixaria el-rey. Estiveram em o fazer, des- pois não concordiram (sic) e desvairaram. Ficam asy como digo; mamdam de comer a ell-rey a esta fortaleza, 10 — fai.«. 242
  • homde fica, e asy a Qichilato, regedor que com ele esta em feros e também demtro em esta fortaleza. Aquele dia que mataram o dito capitam foram mortos sete portugeses, a saber: nesta fortaleza, o capitam e hum criado seu, e ho que mataram jumto com a fortaleza; e dous que eram em hum lugar desta ylha que chamam o Toloco, e outros dos na ilha de Tidor, e foram feridos tres e sam mais, fora quatro, de que nam sabemos nenhuma nova. // [5 r.i E pera saber quem sam, que tudo he rezam que Vosa Alteza sayba e seja emformado, eu fuy moço da camara da raynha Dona Maria, vosa madre que samta gloria aja, por nome, Viçeente da Fomseca, de Momtemor-o-Velho natural, e filho 11 de Vasco 12 da Fomseca. E despois pasado a ell-rey Dom Manoel, que Deus tem, voso padre, e agora a Vosa Allteza. Party de voso regnno para estas partes, no anno de mil e quinhentos dezaseis 13, domde tenho bem servido a Vosa Alteza e com muyto trabalho e feridas, sempre em suas armadas, sem me nunqua afastar do seu serviço, amtes a elle muy chegado sempre, asy pela Imdia, como em Malaca, em tempo de muyta guera e fome, e como neste seu Maluco, homde lhe tenho, outosy, muyto ser- viço feito e espero de fazer, asy em lhes vestir muytos homes, a minha custa, e de minha fazemda, por respeito de terem muyta neçesidade, e nam aver fazemda de Vosa Alteza, por muito tempo, com que lhe podese ser feito pagamento, tam somente de seus mantimentos, em outro tempo atras pasado, homde sempre tive as mesas postas a todos os que a queryam e o nam tinham, por servir Vosa Alteza. E outros remedeamdo em suas casas, e outras muytas cousas que se aquy nam podem dizer, que 11 — f«; 12 —v«°; 13 — b^xbj. 2 4.3
  • todas sam por servir e mereçer; e alem de tudo, e de ser em ajuda de tomarmos muytos lugares e os estroyrmos e queymallos, pelos capitaees desta sua fortaleza o ave- rem por seu serviço, neste Maluco, quamdo Dom Jorge de Meneses, capitam desta fortaleza, ouve e lhe pareçeo comprir asy o voso serviço, foy desta dita fortaleza sobre a ylha de Tidor e castelhanos que nela estavam, em hum gramde lugar, que todo era cercado de pedra e cava, povoado del-rey do dito Tidor e sua gemte; homde, dem- tro deste, a hum cabo, os castelhanos tinham huma sua fortaleza e povoaçam, todos de mestura, domde avia muytos dias que faziam guera a esta vosa fortaleza e hilhas suas e terás, e tinham el-rey de Geylolo por sy e comtra nos, e a ilha de Maqiam revelada contra voso serviço e por elles. E semdo eu em Bamda, por socorro para esta for- taleza, enviado por Dom Jorge de Meneses, em hum navio de Vosa Alteza, por capitam, tomaram huma fusta, os ditos castelhanos, gramde e bem artelhada, nosa, com outra sua. E temdo outras cousas muytas feitas, que nam compryam ao voso serviço, como ja la deve de ser em- formado, ho dito Dom Jorge partio desta fortaleza e foy sobre elles, comtra vomtade de todos, e fomos; homde fuy o prymeiro que entrey, estamdo a cousa com muyta comfusam e semdo-nos ferida alguma gemte. Eu me lamçeey, com huma espada dambas as mãaos, no muro e os fiz despejar, para a nosa gemte poder entrar nas minhas costas, homde receby cutiladas a mão tenente, e me foy quebrado o capaçete na cabeça, por dous luga- res, de pedradas. E asy foram entrados ho dito lugar, domde o dito rey de Tidor e castelhanos que defemdiam, fogiram. Somente tomamos dous, e foy hum morto, e nos deixaram hum baluarte, com toda artelharia grosa e meuda que nelle 244
  • tinham. E os outros que escaparam se recolheram a huma sua fortaleza que tinham feita de pedra e barro, que nam era tam forte como o dito lugar e balluarte, o qual, todo foy queymado, sem ficar casa, e a povoaçam // dos cas- [5 v.i telhanos também; e despois, sederam e fizeram seus par- tidos com o dito noso capitam; foy muyta gemte da tera morta. E asy outros muytos serviços, que lhe tenho feito, que, a feitura desta, vay em dezaseis 14 annos que o sirvo em estas partes. Fuy capitam de fustas e de navios e feitor em esta fortaleza, e ora sou capitão da dita fortaleza, escolhido, e por vomtade de todos, como dito he; que deve de crer que allguma cousa ou boos respeitos me acharam. Nam tenho pay nem may, segundo 15 ca tenho por nova, e tenho dous irmãos que, por seu desemparo, lhe beyjarey as reaes maaos ave-los por seus, se vivos sam. E avemdo-o por bem, me mamdar pasar seu allvara, nam esperamdo que lho por mym nem por elles requeira nem lembre nyngem, nem menos parente nem pay, pois não themos outro senão Vosa Alteza, em quem, despois de Deus, he nosa esperamça e remedeo. E a mym faça merce, para bom exempro aqueles que bem servem, não deixamdo de trabalhar. O vosa regedor Johão da Sylva pode mais largamente enformar Vosa Alteza de quem sam, avemdo por bem de me fazer mereçe, como for seu serviço. Acfecemte Deus o real estado de Vosa Allteza por lomgos dias de vida a seu samto serviço. Capitão de sua fortaleza de Maluco. as. Vicente u da Fonseqa 14 —xbj; 15 —sego; 16 — v*«. 2 45 %
  • 33 CARTA DE FERNÃO DE LA TORRE A EL-REI Geilolo, i de Março de 1532 ANTT: Gaveta 15-10-4. Original com três folhas, duas das quais escritas com letra perfeita e clara. Mede 2ço x 210 mm. a) Desinteligências entre portugueses e castelhanos. b) Traição dos indígenas de Ternate, e morte do capitão da fortaleza, Gonçalo Pereira. c) Elogio de Vicente da Fonseca, sucessor de Gonçalo Pereira. Sereníssimo Senor, Hernando de la Torre, servidor y basallo natural de Su Magestad, y su capitan general y gobernador 1 en estas yslas de Maluco, y sus demarcaciones, beso los pies y manos de Vuestra Alteza, a quien me parecio que hera bien de dar alguna cuenta de las cosas que en estas partes an pasado, despues que yo llegue a estas yslas, que fue a primero dia dei ano de quinientos e beynte e siete, con sola una nao, que hera la capitana, de syete que su Ma- gestad mando a estas partes, el ano de beynte e cinco, de que vénia por capitan general, e gobernador destas 1 — g.d°r. 246
  • yslas, Fray Garcia de Loaysa, comendador 2 de la Hor- den de San Juan, el qual murio desta parte del estrecho. Y de todas las dichas naos no bino a Maluco mas de la capitaria; y al tienpo que llegamos a estas islãs, hera capitan y gobernador Martin Yrriquez de Carquiçano; y hallamos en las dichas yslas una fortaleza de Vuestra Alteza, y en ella un capitan, que se llamava Dom Garcia Enriquez, el qual nos ynbio a recebir, fuera de las dichas yslas, con su armada, de una fusta, y un batel, y dos caravelas, e mucha cantidad de nabios de la tierra, con yntencion de nos tomar, o hechar al fondo. Mas plugo a Dios que nos hizo tal tiempo que no dio lugar a su proposyto, e asy, pasamos adelante e llegamos a la ysla de Tydory; y a cabo de quinze dias, poco mas o menos, bino el dicho capitan, Don Garcia Enriques, con una fusta y un batel, y otro navio de remos, y otros muchos de la tierra, a nos hechar la nao a fondo. E asy nos dieron conbate de bateria, tres dias, y rom- pieron la nao por algunas partes, por lo alto; e con esto, e con la artilleria que de la dicha nao se tiro, y tanbien porque ella venia muy trabajada, se fue al fondo, que no se pudo sustener en la mar. Y asy, de ay adelante, en tiempo que fue Martin Yrriquez capitan, y despues que murio el, que sucedio yo, en su lugar, syempre nos han dado guerra fasta 3 que nos hecharon de la dicha ysla de Tidory, que abra obra de dos anos y medio, poco mas o menos; y asy hechados, me recoji en esta tierra del-rey de Gilolo, que es gran servidor de Su Magestad, y amigo nuestro, des- pues que estamos en estas yslas. Y asy mismo, despues que hemos estado aquy, nos han dado guerra los capitanes de Vuestra Alteza; asy 2 — com
  • Dom Jorje de Meneses, como Gonçalo Pereyra, de los quales todos me quexo; que por elos hemos sydo mal tratados, asy por obras, como por palabras, como Vuestra Alteza sera informado por Pedro de Monte Mayor, que al presente, dara a Vuestra Alteza, que sabe bien como ha pasado, porque a todo a sido presente; y por otras personas, vasallos de Vuestra Alteza, que de aca ban, que lo saben bien. Solamente dire a Vuestra Alteza lo que ha pasado, despues que saly de Tidory, entre la fortaleza de Vuestra li vj Alteza y los negros de la // tierra, en tienpo de Dom Jorje de Menezes. Quichil de Rebes, como era gobernador e gran senor en estas partes, a causa dei favor de tener aquella for- taleça e portugueses en su tierra, creciole la soberbia, e quiso matar al capitan e a todos los portugueses, y tomar la fortalesa y artilheria, e hazer-se rey de toda Maluco. Mas Dios, que es todo poderoso, no le dio lugar para lo poner en efeto, porque fue descubierto por una moger de la tierra; y como Dom Jorje lo supo, prendio al dito Cachil de Rebes, y a otros principales, y dioles ciertas preguntas, y conocieron lo mismo, que aquy digo. Mas Quichil de Rebes no conocio nada, y como Dom Jorje bio la conficion de los principales, mando traer el rey, que es pequeno, e metiole en la fortaleça, y a otros quatro hermanos suyos, y como los tubo dentro, mando degollar a Quichil de Rebes, perante todos los yndios de la tierra, de lo qual quedaron todos muy espantados, y escandelizados, y asy se començaron alebantar contra la fortaleça, no les queriendo dar mantenimientos ny otras cosas necesarias; y a cabo de poços dias, llego Gonçalo Pereira, con una galiota, y otros nabios, por la qual be- nida, se aseguro la gente de la tierra, en ver como prendio a Dom Jorje, y le ynbio preso a la yndia. 2 4 8
  • Y luego le pediron que les diese su rey, para que les regiese su tierre; y el diziendoles que si daria, y trayen- dolos en palabras, de dia en dia, como ellos vieron que les mentia tantas vezes, hordenaron la reyna y los prin- cipales de les hazer treycion, e asy la cometieron desta manera. Senalaronse un primo del rey, con seis hijos de hon- bres principales, para entrar dentro, y matar ai capitan, y los que allasen dentro; y toda la otra gente estaba enboscada en la montaria e yerbas, que son muy gran- des, cerca de la fortaleza y pueblo de los christianos. Y asy lo cometieron; al tienpo que toda la gente estaba comiendo en suas casas, entraron los siete companeros en la fortaleça, como que iban a ver al rey, con sus punales escondidos; y como se bieron dentro, mataron al capitan, y a otros dos o tres criados suyos, que non avia mas gente dentro de la fortaleça. Y plugo a Dios que fue sentido por los portugueses, y acudieron alia primero que tubiesen tienpo de llegar los yndios, que staban en la enboscada; de manera que no pudieron hazer nada y mataron otros dos o tres por- tugueses, que staban en otros lugares, y asy mismo ellos mataron muchos yndios, aunque les hizieron mucho dagno en les robar sus haziendas, e quemarles muchas casas, y con tanto se apartaron de ay, y se despublo el lugar grande, donde el-rey e reyna havian su abitacion. y de ay adelante determinaron de nos les dar mante- nimientos ningunos, mas antes darles la mas guerra que ellos pueden. Y asy alborotaron y levantaron el rey de Bachan, e al rey de Tidoiy, y al gobernador de Maquian, y al de Mocyl, y a otros muchos, dandoles haziendas, // porque 12 r.) no diesen de comer a los portugueses. y asy venieron al rey de Gilolo e a my, para que no 249
  • les diesemos los dichos bastimientos, dandonos muchas dadibas y promesas. y bisto por el rey de Gilolo lo que pedian, me pedio le diese mi parecer y concejo de lo que debia de hazer; e yo, como bi que lo dechaba en mi mano, le dixe my parecer, e le aconseje lo que debia de hazer. Y todabia, los de Ternate iban e vinian, requerien- donos con las dichas dadibas, e a my prometiendome muchas cosas, asy de hazienda como de otras cosas, y que los ayudasemos a destruyr los portugueses, y despues que nos entergarian la fortaleça y artilleria, y que nos ternian en zima de sus cabeças; e yo defendiendome con buenas razones, diziendo que la fortaleça hera fuerte, y dentro muchos portugueses, y mucha artilleria, y que tenian mucho bastimento; que no heran parte todos los Malucos, ny otros tantos que biniesen a les hazer enojo, sy no hubiese quinientos o mas Castellanos, para le poner zerco. E deziendoles estas cosas, y otras semijantes, acabe con el rey de Gilolo que les diese mantenimientos, y todo lo que hubiesen menester; e asy bino aquy una galera, con cartas dei capitan, Bicente de Fonseca, para el rey e para my, e haziendonos saber como abia pasado, y como por muerte de Gonçalo Pereira le abian hecho capitan. Y como lo supo el rey de Gilolo quel hera capitan, e yo asy mismo, por ser tal persona que de todos es bien quisto, asy de nos otros, como de los yndios, holgamos mucho dello, y luego les dieron muchos mantenimientos, por dos bezes que vino aqui la galera. Y luego yo y el rey de Gilolo tomamos la mano de los poner en paz con los yndios de Terrenate, con que les diesen su rey, y fueron muy contentes, y quedaron de pagar todo lo que abian robado, y las casas quemadas, 250
  • y otras muchas cosas que sobre ello paso, como mas lar- lamente Vuestra Alteza sera ynformado por Bicente de Fonseca, por su carta y relacion. Y crea cierto que ha sydo causa ser el capitan de estar la fortaleza en pie, como esta, por ser bien quisto con los yndios de la tierra, y con los portugueses e Castellanos; y en hazer sus pazes tan bien como las hizo, lo qual pienso que si fuera en tienpo de Don Jorje, o de Gonçalo Pereira, creyo se perderia la fortaleça, y todo lo demas, por estar muy mal la gente de la tierra con ellos, y asy los portugueses y Castellanos, por lo qual Vuestra Alteza le deve mucho, y es merecedor que le haga muchas mer- cedes; y mas que hizo pazes con esto rey de Gilolo para siempre, lo que nunca han podido alcançar todos los capitanes que han sydo desta fortaleza, ni por fuerça, ny por grado, ny por ninguna bia. Si yo, en esto que ha pasado, le parece que yo aya hecho algun serbicio a Vuestra Alteza, por esta carta lo puede juzgar y de Pedro Monte Mayor se // ra infor- 12 *■) mado. Sepa Vuestra Alteza que en el tienpo que Don Garcia Enriquez estaba en Terrenate, y Don Jorje de Meneses hera capitan, ubo ciertas diferencias entre los dos, en que hubo mucho escândalo, y Don Garcia prendio a Don Jorje, por lo qual se absentaron fasta treynta honbres de los amigos de Don Jorje, y se pusieron en un lugar, por la montana, y de ay me enbiaron a pedir y requerir, por Symon de Vera y Pero Fernandes, de parte de Su Ma- gestad y de Vuestra Alteza, que les diese lugar para estar em mi conpania, y que para ello les diese un seguro, que cada, y quando, que les diesen a su capitan, se pudiesen tornar a su fortaleça. E yo biendo lo que pasaba, y pareciendo-me mal prender al capitan de Vuestra Alteza, de aquella manera, 251
  • les di y otorgue todo lo que pedian, y dello les di una escritura, firmada de mi nonbre, con la qual hizieron su partido con Don Gacia, y soltaron a Don Jorje, su ca- pitan. De todo esto, en que tengo hecho algun servicio, no pido ni suplico a Vuestra Alteza mas, al presente, de que me tenga en su memoria por un serbidor suyo, no ece- diendo contra el serbicio de Su Magestade, para que, sy en algun tiempo, Dios me llebare por esas partes, y tu- viere necesidad para con su Magestad de algun favor e ayda de Vuestra Alteza, que sea servido de me la dar, y esto pareciendole lo meresco, e sy no, no. Nuestro Senor guarde y prospere el estado y honra y fama de Vuestra Alteza, con acrecentamiento de mu- chos mas reynos y senorios. Desta muy leal ciudad de Gilolo, a primero dia de Março, de mil e quinientos e treynta e dos anos. Serbidor y criado de Vuestra Alteza. Hernando de la Torre 252
  • 34 CARTA DO REI DE GEILOLO AO IMPERADOR CARLOS V Geilolo, i de Março de 1532 ANTT: CC-I-48-61. Documento escrito com letra muito miúda e perfeita, em duas folhas, sendo uma escrita. Mede 2ço x 221 mm. a) Declara-se vassalo de Sua Majestade. b) Protecção que tem dado aos castelhanos ali chegados. c) Auxílio que prestou aos portugueses nas sublevações dos indígenas de Ternate. Su Cezarea Catholica Magestad, Sultan Fim Zorlab Vandinxa, rey de Gilolo, vassalo y servidor de Vuestra Magestad, que sus muy sacras manos veso, le ago saber como abra doze anos, poco mas o menos, que leegaran a estas yslas de Maluco dos naos de Vuestra Magestad; y en aquel tiempo el-rey, mi pa- dre, fue a ablar a los capitanes delias y a se les oferecer com toda su tierra y quanto tenia, que estaba a servycio de Vuestra Magestad; e asy envio una carta com los dichos capitanes para Vuestra Magestad, ofereciendosele y dandose por su vasallo y servidor como ya he dicho. Abra cinco anos, poco mas o menos, que asi mismo llego e nestas yslas una nao de Vuestra Magestad, y hizo 2 53
  • su asiento en la ysla de Tidori, y el-rey, mi padre, envio alia sus mensajeros a preguntar si le trayan algun recabdo de Vuestra Magestad; y el capitan le dio una carta de Vuestra Magestad y otras cosas, de que le hazia merced, por lo qual quedo en mayor obligacion de servir a Vuestra Magestad. Y de ay adiante, los portugueses, que estaban e estan en una fortaleza que en la ysla de Terranate tienen fecha, le dieron siempre guerra, y el capitan y gente que venia en la nao le dio mucho favor, asi de gente como de artil- leria, para defender su tierra. Y con todo esto le quemaron y robaron algunos lu- gares de su tierra, y asi han tenido guerra con el rey de Tidori, y con los Castellanos, procurando, por todalas vias, de echarlos desta tierra, y por destruyr a los va- sallos y amigos de Vuestra Magestad; por lo qual estas yslas han recebido muy gran dano, y perdida de gente, y de muchas arboles de clavo. Y en este tiempo murrio el rey, mi padre, y me dexo mandado que quanto yo tibuese fuese de Vuestra Ma- gestad para su servycio; y que a los criados de Vuestra Magestad, que aqui estaban, que los faboreciese y fuese sienpre su amigo, dandoles lo que ubiesen menester, como sienpre lo he hecho. Y asi digo que yo y todas mis tierras son de Vuestra Magestad y seran todo el tiempo que Vuestra Magestad mandare. El capitan y gente de Vuestra Magestad tengo en mi tierra, despues que los portugueses los echaron de Tidore, que abra dos anos y medio, dandoles y les doy las cosas necesarias para su mantenimiento; ya tengo poco que les dar, que es todo gastado, por lo qual suplico a Vuestra Magestad se acuerde de mi y dellos, con nos mandar su armada y socorro, de que tanta nescesidad tenemos y con ella me mande satisfazer y hazer algunas mercedes (?) 2 54
  • para en pago de lo que tengo gastado en su servycio, como mas largamente lo escribe el capitan Hernando de la Torre, en su relacion que con Pedro de Monte Mayor a Vuestra Magestad manda; el qual lo sabe bien, de quien mas enteramente se podra ynformar de todo lo que asta aora ha pasado. Abra nueve meses que los reys de Maluco y senores de todas las yslas se avian concertado con el rey y reyna de Terrenate, de echar los cristianos de Maluco, o ma- tarlos. Y asi lo pusieron por obra, que // entraron dentro ti v.i en la fortaleza, y mataron el capitan delia y otros sey portugueses, y les queimaron y robaron parte de su pueblo y haziendas. Los portugueses, viendo la traycion, socorreronla luego, y mataron mucha gente de la tierra; y desta ma- nera fueron huyendo a la montaria y lebantaron contra los portugueses, sin les querer dar ni vender bastinimiento ninguno; y vinieron a mi los reys y senores de Maluco, dandome y prometiendome muchas y grandes dadivas, y asi mismo al capitan de Vuestra Magestad, para que los favoresciesemos y ayudasemos a echar los portugueses de Maluco, y que no les diesemos bastimientos ningunos. Luego en continiente pedi mi parecer al capitan, el qual juntamente com Quichil Catara Bumi, mi gover- nador, y con todos mis cavalleros, se juntaron y acor- daron y tuvieron por bien de tomar el parecer y consejo que el capitan dio; el qual fue que los portogueses heran muchos, y tenian buena fortaleza, y mucha artelleria, y municiones, y buenos navios de remos; que por esta razon todos los de Maluco no heran parte para la tomar ni tan poco con los castelhanos que estaban aqui; y que, aunque al presente no toviesen bastimentos, que con sus navios los podian yr a buscar; y que le parescia mejor darle de comer y favorescerlos y ser sus amigos, pues 2 5 5 %
  • que Vuestra Magestad y el-rey de Portugal heran her- manos, y al presente heramos amigos y teniamos pazes con ellos; y ysto todos tovimos por bueno, este pensar, y por tal lo acepte. Luego vino una galeota vien armada de gente, de parte dei capitan de la fortaleza, con cartas para mi y para el capitan de Vuestra Magestad, en que nos daba quenta 1 de todo lo sucedido, y rogandonos que, pues éramos sus amigos, les diesemos nuestros mantenimientos, por sus dineros. V con lo que teniamos acordado les dimos tolo lo que ubieron menester, y mas los concertamos con la reyna de Terrenate, y los de su tierra, con que les die9en su rey, que eles tenian preso en la fortaleza, y que les pagarian todos los danos que les havian hecho. Y con este concierto el capitan de Vuestra Magestad e Quichile Catarabumi, mi governador, fueron y entenderon en ello, y a los dos .juntamente con la madre dei dicho rey se le entregaron el capitan Vicente de Fonseca, que es, al presente, de la fortaleza, en lugar del que mataron los de Terrenate, con el qual asentaron pazes el capitan de Vuestra Magestad, y mi governador, para siempre que estuviesen em Maluco portugueses, que no nos hariam guerra mi dano ninguno. I or la buena obra que les hizimos y luego el capitan de Vuestra Magestad Fernando de la Torre pidio al ca- pitan de la fortaleza que, pues heramos todos amigos, que le diese lugar para enbiar por la Yndia un ombre a Vuestra Magestad ha hazerle saber las cosas de aca y asy se la dio. Tomo a suplicar a Vuestra Magestad se acuerde de mi y destos sus muy leales criados y servidores que en mi tierra estan, que tantos trabajos y males han pasado, y pasan, por ser leales, y por servir a Vuestra Magestad, 1 —q». 256
  • y son merecedores que les aga muchas mercedes, asi al capitan, como a los otros. Esperando su gran socorro que todos tanto deseamos, y no menos lo desean todos los reys de Maluco y senores de Banda y Anbon. Y con esta confiança quiedo en este lugar y tierras de Gilolo por Vuestra Magestad, a la qual Dios prospere y guarde con acrecientamiento de muchos mayores reynos y senorios. Hecha a primero de Março dei ano de mil y quy- nientos y treynta y dos. as. Sinal do mesmo, em caracteres árabes INtULÍNDlA, I — 17 2 57
  • 35 CARTA DE NUNO DA CUNHA A EL-REI D. JOÃO III Goa, 20 de Novembro de 1532 ANTT: CC-I-51-112. Original com duas folhas, mas só a primeira escrita com letra perfeita e facilmente legível. Mede 280 x 205 mm. a) Provisão de el-rei para que se enviassem ao reino, em boas embar- cações. os castelhanos retirados das Molucas. b) Prisão de D. Jorge de Meneses, ex-capitão de Ternate, que depor- tara, preso, para a Índia, o régulo da mesma ilha. Senhor, Vosa Alteza me escreve em huma sua, em que mande de quaa hos castelhanos. E nas prymeiras que me escre- veo, em que me dava conta do contrato que tinha feito com o Emperador, me mandava que se me qua reque- resem que lhes dese embarcaçam, que lha dese muito boa; e que para yso tinha pasada uma provysão, para ma apresentarem. Qua, senhor, nunqua me foy apresentada nem reque- rydo por parte de ningem que hos mandase. E por yso dy- symuley com eles te gora. E também porque tenho escrito a Vosa Alteza como Dom Jorge de Meneses, pola guerra que os castelhanos lhe faziam, e poios navios que lhe 258
  • tomaram, deu neles e os prendeo, e lhe tomou a fazenda, e destroyo a sua fortaleza, e alguns deles se vyeram para Malaca. E Garcia de Saa os tem ahy e lhe faz muita onrra e gasalhado, e lhe manda dar soldo e mantymento e cousas mais, emperrando que se foram para huma ylha em que estam; e por ysto ser qua pasado, nam hos quys mandar vyr nem consentir que se vyesem, por se nam irem para laa, por ver que Vosa Alteza o soubese e pro- vese nyso o que se ha-de fazer, porque nam soube ho muito como se tomara ysto laa. Dom Jorge de Menezes, senhor, que ho fez, vay agora laa preso a Vosa Alteza. Elie lhe dara laa conta, porque ho fez, aimda que neste caaso ele teve muyta rezão e justiça, e eu folgara de ho ter feyto, pelo que cumpre ao serviço de Vosa Alteza. E porque espero por seu re- cado, nam provejo em nada. Dom Jorge, senhor, vai preso, porque matou Quechyle de Aroez, rey judeo de Maluquo. Se teve rezam de ho matar ou não, polas inquyryções, o vera Vosa Alteza. E agora sam a tyrar outras laa a Maluquo, porque ele dezia que esas nam eram judiciais, por as tyrar Gonçalo Pereira, que ele dizia que lhe quiz grande mal, cujo foy causa muy prejudicial a voso serviço, porque todos tí- nhamos Quechyle de Aroez por mui grande voso servidor e dyno //de muita merce, por quam leal e verdadeiro se d v.] mostrou em todas suas cousas. E parece mui ma paga para quem vos bem serve, e pera terem menos confiamça em nos do que tem; a mim nam me veyo nyngem pedir justiça dele. Veyo quaa hum embaixador, que a raynha mandou a ver ho que se dele fazya, para lhe levar nova. Eu o tive sempre preso em ferros, de que o embai- xador vay hum pouco contente, por ver que nunqua quis ver Dom Jorge nem falar com ele. E lhe dixe que ho 259
  • mandava a Vosa Alteza, para lhe daar o castygo que merecya; e por ele mandey presentes a rainha e lhe escryvi gramdes palavras de amor para a pacificar. E porem, meu parecer aquy he, senhor, que se Vosa Alteza não acudir a ysto, com muitos ryjos castigos, que cada dia vos farão cousas por homde se alevante a terra e nos matem a todos. A vida e real estado de Vosa Alteza Noso Senhor, por muitos anos, acrecente e seu serviço. De Goa, a 20 de Novembro de 1532. Feitura de Vosa Alteza que as reaes mãos beija. Nuno 1 da Cunha l-No. 2ÓO
  • 36 CARTA DE PEDRO DE MONTE MAIOR A EL-REI Cochim, 14 de Janeiro de 1533 ANTT: Gaveta 18-4-13. Original em bom estado, constando de um caderno, com seis folhas escritas com letra muito miúda, e ortografia algo arbitrária. Mede 313 x 220 mm. a) Notícias da armada castelhana, enviada às Molucas em 1525. b) Lutas entre portugueses e castelhanos naquelas partes. c) Sacerdote espanhol que vai a Terna te confessar-se e onde fica retido, durante oito meses. d) Revolta dos indígenas de Ternate contra os portugueses, em que foi morto o capitão da fortaleza, Gonçalo Pereira. e) Os castelhanos enviam aos portugueses, apesar de tudo, socorro em mantimentos. /) Lembra a el-rei os serviços pessoais, prestados aos portugueses, do que pede mercê. Senhor, Pedro 1 de Monte Mayor, vasalo de Sua Magestade, e servidor de Vosa Alteza que, ao presente, estou em Co- chym, por mamdado de Fernamdo de la Torre que resvde em Maluquo, por capitam-mor do Emperador, dalguma pouqua gente que lhe fiquou de huma armada que o anno 1 — P.o * 261 %
  • de 525 Sua Magestade despachou na cydade da Crunha, de que sayo por capitão-moor Frey Garcia de Loaysa (que Deos aja) comandador da hordem de Sam João s, e porque vim a saber do governador de Vosa Alteza se tinha algum recado de Sua Magestade ou de Vosa Alteza, pera que se determinase o que se devia fazer, neste noso caso, e porque nam achey o governador aquy em Co- chym, dey alguma parte de minha vimda a Pero ® Vaz, veeador da fazenda de Vosa Alteza nestas partes. E ele me rogou que quisese daar conta, por esta minha carta, a Vosa Alteza, e eu, com desejo de servir Vosa Alteza, me pus a o fazer, o milhor que posso. Deixarey de dizer a rota e viagem que trouxemos, que foy trabalho para nam crer, porque nosa partida foy, como acima digo, o anno de quinhentos e vinte cinco, e chegamos o anno de quinhentos e vinte sete; e por escusar prolixidade, começarey daar quonta a Vosa Al- teza de quando entramos na demarcação de Malluquo, e esto com a naoo capitanya soomente, porque todas as outras se perderam. Naquela naoo vínhamos cemto trimta e tres homeens, e a este tempo, vinha por noso capitão-mor Martim Ynheqez de Carquiçena, porque, nesta viagem atras, eram jaa falecidos quatro capitãees-moores que fize- mos. E tamto que chegamos ao primeiro porto, por nome Çamafo, que he del-rey de Tidor, e são quarenta legoas de Tarnate, veyo a nos hum escrapvo, que foy de por- tugueses e andava fogido, o qual escrapvo nos dixe que no porto de Tarnate avia portugueses, e que tinhão feita huma fortaleza, em que poderia aver obra de cem portu- gueses; e que tinhão duas caravelas *, huma fusta e hum 2 — Y.O; 3 —P.Oj 4 — 0.'". 262
  • batel; e que avia pouquo tempo que o rey de Tidor era morto, por nome Almamçor. E despois de morto, dahy a oito s dias, os portugeses lhe queimarãoo o lugar, e roubaram e fizeram todo o mal e dapno que poderam. E nos outros, sabemdo o que pasava, posemos por obra mandar, por terra, recado ao rey de Gilolo, fazem- do-lhe saber de nosa vymda. E asy lhe mamdamos pidir que nos dese embarcação, pera o fazermos saber ao rey / / de Tidor, que he filho * del-rey Almamçor, que falleçeo, e sera de idade de quimze7 annos. Ele o pos logo por obra, e o capitão da nosa armada, Martim Ynheqez, mamdou seys homens com cartas pera os ditos reys de Tidor e Gilolo, e esteveram laa, pasamte de hum mes, sem nos fazer saber cousa nenhuma do que tinhão feito, do que estávamos muito espamtados. E no cabo do dito tempo, veyo hum paraoo de Tidor e dous de Gilolo, nos quaees vinhão dous homens dos nosos e alguns homens primcipaees dos ditos reys a ofe- reçer-se por vasalos e servidores de Sua Magestade. E os nosos nos enformaram do boom apparelho que el-rey de Gilolo nos queria fazer, pera noso repayro, e também da boa vomtade del-rey de Tidor, posto que tinha mao apparelho para noso remedeo, por terem o lugar todo queimado, e estarem todos nos matos. E, desta vez, ficarão com o rey de Gilolo quatro ho- mens nosos, pera ajudarem a lhe defemderem a terra, os quaes lhe foram boons, porque, tamto que os portugeses souberam da nosa naoo, determinaram de hir logo, com todo seu poder e do rey de Tarnate, sobre o rey de Gi- lolo, cuidando de ho destroyr, amtes que ouvese noso socorro. 5-biij; 6 — f.0; 7 - xb.
  • E tamto que os portugueses e gemte da terra come- çaram desembarcar, tomarão hum paraoo muito gramde, do dito rey, e lhe cortaram muitas palmeyras. E os nosos quatro castelhanos, que estavam com o dito rey, tamto que aquilo virão, foram contra 8 os portugeses, com toda a gemte da terra; e deram neles. De maneira que lhes comveyo, aos portugeses, tor- narem-se a recolher, cremdo que avia muitos castelhanos, porque a terra he muy fragosa. E despois disto, os portugeses pidiram ao rey que lhes mandase entregar os quatro castelhanos, e que lhe da- riam por eles o que quisesem. E o rey lhe respondeo que os não podia daar, porque eram vasalos do Emperador, e que os nam podia dar, porque, se os entregase, lhos demandariam depois. E despois disto, os portugeses falaram com os nosos quatro homens, dizemdo-lhe que lhes dariam escravos e fazenda, e faryam muito bem, que se fosem pera eles e pera o serviço de Vosa Alteza. E eles lhe responderão que vinhão em serviço do Emperador e que nele aviam de acabar. E emtam se tornaram os portugeses a Tarnate. Despois que vyeram os ditos paraoos de Tidor e Gi- lolo, homde a nosa nao estava, que era o porto de Ça- mafo, nos fizemos aa vela, jumtamente com os ditos pa- raoos, pera hirmos aas ditas ylhas de Malluquo; e por nos daar hum temporal, se perderam de nos e tornaram a Gilolo, e o rey os quisera matar a todos, por hirem sem a nosa naoo, posto que eles nam tinham culpa. Sesta feira, que foram trinta de Novembro de qui- nhentos e vinte seis, amanhecemos jumto de huma ylha de Gilolo, por nome Erabo, e chegamdo cerqua de huma pomta que aviamos de dobrar, vimos vir a nos hum pa- 8 — et.'. 264
  • moo, no qual vinha hum portuges; e em huma canoa, que he pequeno barquo, veyo hum mensageiro 9 pidir se- guro pera o portuges vir falar-nos, o qual seguro lhe foy logo dado. E o portuges veyo aa nosa naoo, com o qual muito folgamos, por ver cristão, ainda que contrario. E a embaixada que trazia era huma carta do seu ca- pitão, por nome Dom Garcia 10 Amrriquez, //a qual 12 mandava ao noso capitão que, por quamto ele não sabia que naoo era a nosa, e ele estava nas ditas partes por capitam de Vosa Alteza, em huma fortaleza que tinha, que lhe rogava que se fose a ela, e que ahy lhe fariam muy boom tratamento e dariam todo o neçesario, e que lhe mandase dizer se ele vinha por mandado do Empe- rador. E que lhe rogava que não fose a outra nenhuma parte, porque nam era serviço de Vosa Alteza. 0 qual noso capitão, primeiro que outra nenhuma cousa, lhe mostrou hum capitulo do regimemto que trazia do Emperador, em que lhe mandava que viese aas vlhas de Maluquo, e fizese nelas fortaleza, especialmente na vlha de Tidor. E que pois Sua Magestade asy o mandava, que asy o queria comprir. E com esta reposta se tornou o mensageiro, ao qual foy feito todo o boom tratamento que ser podia; e nos outros, ymdo todavia aa vela, e chegamdo a huma pom- ta, nos foy o vemto comtrairo, de maneira que a nam podemos dobrar. E emtam, nos foy forçado tornar domde damtes par- timos; e avemdo tres dias que aly estávamos, veyo a nos hum portuges, escrivão da feitoria de Tarnate, e nos fez requerimento da parte de Vosa Alteza que nos fosemos aa sua fortaleza, pois estávamos em vosas terras e de- 9 —leitura hipotética; 10 —gçia. 265
  • marcação, ou que nos fosemos a outras partes; e nam o queremdo fazer, que eles nos defemderiam que nam fose- mos a Malluquo, e que pera elo nos estavam aguardando, detrás da dita pomta, com duas caravelas, huma fusta e hum batel e novemta paraoos da terra. O capitam Martim Ynheqez tomou comselho com to- dos, que era o que nos parecia que devíamos de fazer: se hiriamos diamte, ou nos tornaríamos atras, porque pera hir, a nosa naoo estava muy velha, e se saysem a nos, receberíamos muito dapno; e se nos tornasemos a Espanha, aimda que nam levasemos nada, soomente fazer saber a Sua Magestade como Vosa Alteza tinha fortaleza feita, e as ylhas sugidas (sic), que Sua Ma- gestade lhes mandaria pagar suas quyntalladas e solldos. E o pareçer de todos foy que queriam morrer e hir comprir o mandado do Emperador. E todos, com alegres corações, deziam que, pois o Emperador dizia: mais adiamte; que nunqua Deus quisese que por eles fose revo- gada a tal palavra. E esta foy a reposta que todos derão ao capitam Mar- tim Inheqez. E emtam se tornou o mensageiro com esta reposta. E dahy a tres dias dobramos a pomta, e tamto que nos viram os portugeses, se fizeram aa vela, e o vemto nos refresquou, que nos não poderam fazer dapno ne- nhum. E asy fomos teer a ylha de Tidor, que foy ao derradeiro dia do armo de quinhentos e vinte seis, homde demos muytas graças 11 a Deus, por termos chegado ao fym de nosa viagem. E o primeiro dia do anno de quinhentos e vinte sete, começamos de tirar nosa artelharia a terra e asemta-la, pera que, se vyesem os portugeses, nos achasem aperce- 11 — grau 2 66
  • bidos. E fizemos hum baluarte, a maneira de fortaleza, de pedra soomente, em que, com muyto trabalho, posemos a dita artelharia. E a gemte da terra era com nosquo muyto comforme e nos ajudava, de que estávamos muyto ale- gres e, cada dia, descarregávamos a nao, porque esperá- vamos que os portugeses vyesem a nos. // 12 Quinta feyra, dezassete de Janeiro do dito anno de quinhentos e vinte sete, aa mea noyte, veyo huma fusta, e hum batel, e outros muitos paraoos, em que vinhão muytos portugeses, muy quedos, pera se chegarem aa dita nosa naoo e a meterem no fundo. E da nosa nao semtidos e vistos, pela boa vigia que tinhamos, e de terra, os vimos também vir. E de huma pom ta, homde nos tinhamos postas duas peças grosas de artelharia, tirarão os nosos a dita fusta, que vinha ao longo da terra, muyto queda, com huma bombarda, das duas que tinhamos em terra. E a nosa bombarda não fez dapno aa fusta, pela não acertar. E entam, os portugeses tiraram huma bombarda aa nosa naoo e a herrarão; e logo tornarão tirar outro tiro, que deu no costado da naoo, pela bamda de estibordo, na qual naoo fizeram hum buraquo grande. E tirarão logo outra bombardada, que deu jumto da primeira, o qual tiro matou hum homem na naoo e ferio outros tres. E nos, de terra, lhe tiramos com a iíosa artelharia e não lhe fizemos dapno. E sesta feira, vinte oito dias do dito mes, em ama- nhecendo, vieram os ditos portugeses, desviados da nosa naoo, e começaram tirar muyta artelharia a nosa naoo, te ora de comer, e deram na naoo algumas bomba rdadas grosas, que lhe fez muyto dapno. E porem na nosa gente não se fez dapno nenhum. E nos nos defendíamos com a nosa artelharia, tiram- do-lhe muytos tiros, mas como a nosa artelharia estava 267 %
  • mal asemtada, soomente dous tiros dos nosos lhe acer- tarão, em que lhe fizemos muyto dapno, primcipalmente na fusta; de maneira que lhes comveo tornarem-se detrás de huma pomta repayrar do dapno que lhe fizemos, e pera mandarem os feridos a Tarnate e tomarem seu acordo. E neste mesmo dia, aa tarde, sabemdo nos que os portugeses estavam detrás daquela pomta, foram quimze homens dos nosos besteiros e espyngardeiros, com muyta gemte da terra, e derão nos portugeses, que esta vão co- mendo em terra, bem descuydados, e ferirão quatro ou cimquo portugeses e matarão dous cavaleiros, homens da terra de Tarnate, que vinhão com os portugueses. E os nosos se tornarão, sem dapno nenhum, posto que do maar lhe tiravão muitos tiros. Nestes dias, amtes de sol posto, duas oras, tornarão os ditos portugeses e traziam na fusta huma bamdeira por proa '2, ao lume dagoa, que sygnificava samge e fogo, e se foram aa nao e lhe tirarão muitos tiros, de ma- neira que fiquou toda aberta e rota e tão mal tratada que não prestou para nada. Sabado, dezanove do dito mes, em amanhecemdo, tor- narão os ditos portugeses e derão na nosa naoo outros muitos mais tiros, te ora do meo dia, que lhes arrebemtou hum tiro groso e emtão se tornaram a Tarnate. E no dito dia, sendo jaa tarde, e os portugeses ydos, vyeram cimquo paraos, os quaes vinhão de Gylolo em noso socorro e nos ditos paraoos vinhão dous homens nosos dos quatro que laa estavam, e nos traziam mamti- mento pera a nosa gemte. E no outro dia seguimte, vinte do dito mes de Ja- neiro, estamdo estes paraoos jumto da nosa naoo, vimos 12 — poa. 2 6 8
  • sahir da ylha de Motil dous paraoos, que he tres legoas desta ylha de Tidor. E então, se meteram em cada paraoo dos nosos qua- tro, cimquo espimgardeiros, e foram demamdar // os » r.j dous paraoos que vimos. E neste, que tomarão os nosos, vinha hum homem portuges e vimte e tres 13 escravos, o qual portuges, com medo dos nosos, se lançou ao maar, pera se salvar a nado, e se afogou. E o paraoo era do dito Dom Garçia Amrriquez, e poderya trazer cem quin- taes 14 de cravo. E pasado tudo acima escripto sumariamente, deter- minamos fazer hum navio, para todo fazermos saber a Sua Magestade como pasava; e o apparelho pera o navio era tão maoo que em muitos dias fazíamos muy pouqua obra. E a este tempo asemtamos tregoas com os portu- geses, em maneira que eles vinhão a nos e nos a eles, com este concerto que amtre nos avia. E amdando desta maneira o negocio, veyo pera Ma- luquo outro capitão de Vosa Alteza, para a fortaleza de Tarnate, por nome Dom Jorge de Meneses; o qual, tamto que tomou pose da fortaleza de Tarnate, dahy a pouquos dias, nos mandou hum meirinho e escrivão e alcaide -moor da fortaleza, requeremdo-nos que nos fosemos das terras de Vosa Alteza, ou que nos fosemos aa vosa for- taleza de Tarnate; e queremdo-nos hyr a qualquer parte, nos darya pasagem. Ao qual foy respomdido que se nos dava a fortaleza, que nos hiriamos pera ela, por nosa; e que doutra ma- neyra, que estávamos nas terras do Emperador e que nellas aviamos de morrer. E asy requereo o noso capitão-mor, Martim Inhegez de Carquiçana, a Dom Jorge de Meneses que lhe dese e 1J —xxiij; 14 — qz; 15 —al.4e. 2 6 ç
  • emtregase Dom Garcia Amriquez, capitão que fora de Vosa Alteza em Tarnate, por quamto metera no fumdo huma nao de Sua Magestade. Pasarão muitas cousas, de parte a parte, que seryão largas de contar. Aos onze de Julho, de quinhentos e vinte sete, faleceo este noso capitão-moor, Martim Ynhegez, e foy por nos homrradamemte emterrado em Nosa Senhora do Rosayro, e foy amtre nos fama que morreo de peçonha que lhe mandou daar Dom Jorge de Meneses; a qual também nos lamçarão em hum poço, e Noso Senhor nos proveo de maneira que so o noso capitam faleçeo. E logo, no dito dia, elegemos por noso captiam-moor e governador Fernando (i) de la Torre, o qual, do dito tempo te gora, he capitão-moor de Sua Magestade, e por seu mandado vym a Imdia; o qual Fernamdo de la Torre tem feitos tamtos serviços a Vosa Alteza, como vera por cartas de vosos capitãees e outra gemte, os quaes são muy manyfestos e se nam podem negar. E tamto que o dito Fernamdo de la Torre foy eligido por governador, começou por toda deligencia pera se acabar o navio que estava começado, para o mandar com novas a Sua Magestade. E posto que as pazes amtre nos e os portugeses nam eram asemtadas, todavia, tínhamos conversação, huns com os outros. E neste tempo, Dom Jorge de Meneses, capitão de Tarnate, mandou hum homem dos seos, a maneira de fo- gido, o qual homem recolhemos, e era castelhano, e lhe foy feito o milhor tratamento que podemos. E dahy a quinze " dias, vyeram outros portugeses, como costu- mavão, os quaes traziam materiaes de fogo, pera nos (i) Este nome é a correcção de Aalomso, palavra que se encontra riscada no texto. 16 - xb. 270
  • queimarem o navio e os emtregarão na mãoo daquele castelhano, que se fez fogido pera nos, para que, em anoiteçemdo, os deitasse no navio; e asy o fez, e os portugeses o estavão esperamdo, e o recolherão e levarão a Tarnate. E asy se nos queimou o navyo, de maneira que não aproveitou mais. // Dahy a pouqos dias, ouve gramde devisam, amtre os portugeses, em Tarnate. E foy que Dom Garcia Amrri- quez, que damtes fora capitão de Tarnate, se alevamtou e premdeo Dom Jorge de Meneses, semdo capitão de Tar- nate, de que nos a noos outros muyto prouve, e o teve em ferros; e começou protestar comtra ele, e dizemdo que Vosa Alteza não lhe mamdava que nos fizese gerra, e que ele, não tão soomemte não obedecia ao mandado de Vosa Alteza, em no-la fazer, mas que, com traição, nos mamdara queimar hum navio que, com tamto trabalho, fizéramos. E dezia outras muytas cousas, mas a verdade era que o premdeo, porque o Dom Jorge de Meneses o teve, amtes disto, preso em ferros e o quisera matar. E tamto que Dom Gorge foy preso, logo os de sua parte se ajumtarão e se foram aos matos; e mamdarão hum homem a Fernando de la Torre a pidir seguro, pera que os acolhese e emparase, e que, todo o tempo que Dom Jorge estevese preso, queriam servir Sua Magestade e fariam gerra a nosos ymigos. E Fernamdo de la Torre, vemdo ser serviço do Em- perador e homrra de todos nos outros, o fez, com certas comdições, as quaes Symão de Vera, que era alcaide- -moor de Tarnate, nam qis comçeder, sem as primeiro hir comunicar com os outros portugeses, que estavam no mato, porque este Symão de Vera foy o que veyo com a embaixada de todos. Das comdições que lhe eram requeridas per Fernamdo de la Torre são estas: que eles, portugeses, entregasem
  • as armas e fazendas e alguns filhos dalguns primcipaes, e que jurasem de nunqua nos fazer gerra, ate ser solto o seu capitão, ou vir de Portugal outro recado. E tamto que Dom Garçia soube da hida dos portu- geses pera o mato, se comcertou logo com Dom Jorge e o soltou, a cabo de trimta dias que o teve preso. E o Dom Garcia se foy a hum porto, tres legoas da fortaleza, e tinha em seu poder toda a artelharia e armada, que asy foy o comcerto que fez com Dom Jorge de Meneses. E amdando nestas revoltas, se veyo a Fernando de la Torre o governador-moor da ilha de Maquian, que he huma das cimquo ylhas da especiaria, e estava pelos por- tugeses, dizemdo que ele e a moor parte da dita ylha queriam ser vasalos do Emperador. E pera firmeza disso deu logo huma joamga (2), que he moor que nenhum paraoo, e pidio que lhe dese seis castelhanos, pera aju- darem a defemder a terra, em nome de Sua Magestade, os quaes lhe deu Fernando de la Torre e hum alçam- buz (3), pera se defemderem. E daly a dez 17 ou doze 18 dias, foram aa dita ylha de Maquian Dom Gacia Amrriquez, com huma caravela e huma fusta, hum batel e vinte 19 paraoos de Tarnate, em que hiam sesemta portugeses. Asy foy combater a dita ylha e povoação em que os nosos estavam. E o com- bate durou dous dias, com suas noytes, e em fym deles tomaram o lugar e matarão hum castelhano e prenderão (2) Embarcação grande. R. Dalgado (op. cit.), informa não se encontrar este vocábulo nos Dicionários malaios, a não ser que esteja desfigurado. Somos inclinados a crer que seja, de facto, o termo ma- laio Wangkang, aportuguesado; e que R. J. Wilkinson regista no seu Dicionário, como antigo barco chinês, etimològicamente provindo, talvez, da tão conhecida embarcação chinesa tancá (tán-kiá). (3) O mesmo que arcabuz? 17 — X; 18 — lij; 19 — II. 2 7 2
  • outro; e matarão muyta gemte do lugar e o roubarão. E ao tempo que os portugeses vyeram pera combater este lugar, porque os nosos sabiam sua tenção, queimarão quinhemtos quintaes 20 de cravo que tinhão na povoação. E entam se tornou Dom Garcia, e veyo caminho de Mal- laqua. E dahy a pouqos dias, o noso capitão-moor mandou alguma nosa gemte, com outros da terra, tomar huma povoação gramde, em Maquian, per nome Gimta, e se deu a partido por vasalo do Emperador. // El-rey de Gilolo mamdou pidir socorro ao noso capitão-moor e ao rey de Tidor, pera combater hum lugar, que he de Quichil de Roes, regedor de Tarnate, o qual lugar se chama Tuboabe, e estaa na mesma terra de Gylolo. E Fernamdo de la Torre lhe mamdou quo- remta castelhanos e hoytocemtos homens da terra, nosos amigos; os quaes esteveram sobre o dito lugar sem o poderem tomar. E estamdo com cerquo posto ao dito lugar, e no dito combate, viram vyr hum navio aa vela e vinha muyto ao maar demandar Maluquo. E tres ho- mens nosos, castelhanos, foram ao dito navio ver que navio era e domde vinha. Souberam que vinha de Es- panha, e que eram vasalos do Emperador, e lhes mos- trarão huma bamdeira real de Sua Magestade, por homde conheceram os nosos ser verdade. E logo emtrarão demtro no navio e hum deles fiquou hy e os dous tornaram faze-lo saber a Fernamdo de la Torre e a el-rey de Gilolo, como o navio era do Emperador. De Tarnate sahyo huma fusta de portugeses ao dito navio, sem saberem que os nosos la estavam. Este foy no dia seginte, e pergumtou ao navio domde era e domde vinha. 20 — qs. 27 3 INSULÍNDIA, I — 18
  • E respomderam-lhe do navio que vinhão de Espanha- -a-Nova, que erão vasalos do Emperador, e que vinhão, por seu mandado, saber de suas gemtes, que nas ditas partes estavam. E os da fusta lhe dixeram como soomente vyera ter huma naoo de Castela, a qual se perdera; e que os cas- telhanos fizeram hum navio pequeno, em que se todos foram pera Castela; e que, por quamto aquela terra hera de Vosa Alteza, requeriam ao capitam do navio, de vosa parte, que se fosem ao porto de Tarnate sorgir, homde Vosa Alteza tinha fortaleza. E que aly lhe darião todo o que ouvesem mester imteiramente; que asy o mandava Vosa Alteza. E o capitam do navio respomdeo que não trazia pro- visão de Sua Magestade para fazer tal cousa, senam que se fose dereyto aa ylha de Tidor, e que despois de com- prir o que lhe mandava o Emperador, se nam achase os castelhanos, nem naoos, na dita ylha, que então se hiria aa fortaleza de Tarnate. E o capitão do navio requereo ao capitão da fusta de Vosa Alteza que o deixase fazer o que o Emperador lhe mandava. E então o capitão da fusta, vemdo que não lhe apro- veitaram palavras, mandou daar fogo a hum tiro groso, que trazia, e tres vezes lhe dera fogo, sem o nunqua tomar, e os do navio, em todo este tempo, não tiravam nenhum tiro. E os portugeses, vemdo que o tiro groso não queria tomar fogo, começarão de o descarregar, e tiraram com outros pequenos ao navyo. E logo o na- vio começou também tirar alguns tiros; e veo-lhe boom vemto e foy-se ao porto de Gilolo, sem fazer nem receber dapno. E ao dia seguimte, veio hum batel de Tarnate, armado, com portugeses, e jumtamemte com a fusta; ambos come- çaram de tirar aas bombardadas ao navio e não lhe fize- 274.
  • ram dapno nenhum. E o navio foy socorrido de huma nosa fusta. E este nayio, com outros dous, foram mandados por Dom Fernando Cortees, governador da Nova Espanha, que os mandou fazer da bamda do Sul, os quaes vinham em busca da nosa armada. E vinha capitão-moor destes navios Alvaro de Sayavedra Çeral; os dous dos ditos navios se perderam, não se sabe por que maneira, nem homde. E este, que quaaa veo ter, trouxe tão boa viagem que veio a terras de Maluquo, em sessenta 21 dias. E neste meyo tempo, Fernando de la Torre mamdou aparelhar o dito navio que veyo //de Espanha, pera o 14 v.i logo tornar envyar pela via que veyo; e mandamdo hum pafaoo noso em busca de mamtimentos pera o dito navio, sahio a ele Quichil de Roes, regedor de Tarnate, com quatorze 22 paraoos, pera o tomar. E vemdo isto Fer- nando de la Torre, porque tudo era a nosa vista 23, man- dou, a presa, armar a nosa fusta, que el-rey de Gilolo nos mandou fazer, a qual era de dezasete 24 bamquos, pera hirmos socorrer aaquele noso paraoo. Quichyl de Roes, vendo a nosa fusta, se tornou a Tarnate e dixe a Dom Jorge que, se queria tomar a fusta dos castelhanos, que entomçes tinha boom tempo, porque estava fora. E Dom Jorge mamdou armar a sua gale e a mamdou hir em busca da nosa fusta, e aaquela razão, a nosa fusta era jaa tornada demtro ao noso porto. Isto foy e acom- teçeo a quatro 25 de Mayo de quinhentos e vinte oito. E como nos outros soubemos que a gale nos vinha buscar ao porto, saymos a os receber, com a nosa fusta, e o Quichil de Roes, com os seos paraoos, se afastou fora, e se pos a ver como o nos fazíamos. Abalroamos esporão com esporão e despois da arte- 21 -Lx; 22 — xiiij ; 23 — v.t»; 24 - xbij; 25-ÍÍÍj. 27 5
  • lharia desparada, começamos as lamçadas e espimgar- dadas huns e outros; de maneira que nos fomos vemce- dores e emtramos a gale, em que morreram hoito homens portugeses, e prenderam dezasete ", e cimquo fogiram. Os portugeses que vinham na gale eram trinta e seis 21 homens. E a artelharia que trazia he a segimte, a saber: huma peça salvagem, e dous camelos, e tres fallcões, e quatorze 28 berços. E estes presos tevemos repartidos polas nosas povoa- ções, nas momtanhas, porque nam tínhamos apparelho pera os ter jumtos, de que se agravavam, dizemdo que os tínhamos amtre os mouros. E certo que não se podia menos fazer, porque nos nam tínhamos fortaleza, pera os ter todos jumtos presos, como nos era neçesario. E destes presos, dez deles estavam feridos, os quaes se man- daram curar. A nosa fusta levava esta artelharia, a saber: hum canhão pedreiro 29, e dous sacres, e dous falcões de ferro, e hum berço e dous alcambuzes. A vinte e dois 20 de Mayo de quinhentos e vinte oito, despois da tomada da gale, vyeram em socorro aos por- tugueses, de Mallaqua, seys navios, em que vinha huma galeota e hum bragamtym e tres navios outros e hum jumquo gramde. E vinha por capitão deles Gomçalo Gomez de Azevedo ", e trazia cem to çimquoemta ho- mens, e em Maluquo, na vosa fortaleza, estavam çim- quoemta portugeses, que fazem duzentos. A caravela que nos veyo da Nova Espanha foy des- pachada brevemente e tornada mandar pelo mesmo caminho que veyo, porque asy o mamdava o Empe- rador. E a este tempo se pasou pera nos hum portuges da fortaleza de Tarnate, per nome Symão de Brito, e 26 — xbij; 27 — xxxbj; 28 — xiiij; 29 — pedr.»; 30 — xxij; 31 — claz.do. 2 7 6
  • dizia que se pasava pera nos, porque tinha morto hum Diogo 32 Gago, e que avia medo de ho premderem, por yso, e que se vinha ao serviço do Emperador, o qual o jurou, e de ser seu servidor e vasalo. E porque nos tínhamos neçesidade de piloto, se ofereçeo de levar a caravela a Nova Espanha; e asy tomou carrego de piloto e foy a caravela despachada. E semdo dozentas legoas de Maluquo, pouquo mais ou menos, comçertou-se com outros portugueses de se ale- vantar, com a dita caravela, // e nam vemdo apparelho is r.i pera o poder fazer, por serem pouqos, determinaram de furtar o batel do navio, com outras cousas, e o pos por obra; pelo qual o navio deixou de fazer sua viagem, que certa estava de se fazer; e quis seu peccado, de Simam de Brito, que veo ter as mãos de Fernando de la Torre, o qual o mandou degolar, por o ter muy bem mereçido a Vosa Alteza e ao Emperador. A caravela amdou oito 33 meses 34 perdida, sem batel, no cabo dos quaes tornou arribar ao porto de Tidor, homde estávamos, e a tornamos a repairar, de novo, e fizemos batel, e tornou outra vez partir pera a Nova Espanha, e amdou outros seys ou sete meses sem poder pasar; e tornou, outra vez, arribar a nos; a qual cara- vela, desta segumda vez, quamdo tornou, jaa nos per- dêramos a terra, e asy acabou a caravela de se perder. Despois de partida a caravela, mamdou Dom Jorge de Meneses a Dom Jorge de Crasto a noos, pera faze- remos pazes, e nos pediam os portugeses que tínhamos presos, e a gale que lhe tomamos, com toda artelharia, e asy o regedor de Maquian, noso amigo. E Fernando de la Torre lhe respomdeo que a gale tomara de boa gera, pelejamdo, e que o regedor se vyera 32 — di.°; 33 — biij; 34 — m.*v 277
  • meter em suas mãoos, e estava sob o emparo do Empe- rador, e que estas duas cousas lhe nam avia de daar, e o al todo faria e se faryão as pazes. E com esta resposta se tornou Dom Jorge de Castro, sem aver efeito. E neste tempo mamdamos a Tarnate hum padre de misa, noso, pera se hir laa confesar aos outros padres, e Dom Jorge de Meneses o mandou premder em ferros e o teve, asy preso, hoyto meses, cuydamdo de fazer com ele o partido a sua vomtade. Faço saber a Vosa Alteza que, o anno de quinhentos e vinte nove, faleceo o rey de Tarnate, em Outubro; e asy, o governador de Tidor pidio a Fernando de la Torre armada e gemte pera hir dahy a cimquemta legoas, a hum lugar com que tinha gerra, dizendo-nos e afirmando que de Tarnate não podiam sayr, nem fazer os dahy ne- nhuma gerra, demtro de quoremta dias contra nenhuma pesoa, por caso do luto que aviam de trazer por el-rey que morrera, porque esta he a sua amtiga usamça; a qual Quichil de Aroez, regedor de Tarnate, nam guar- dou; porque, tamto que soube que a nosa armada hera fora e estávamos pouquos, fez-se prestes, ele e Dom Jorge de Meeses, com toda sua gemte armada, e vyeram, a vinte nove 35 de Outubro ,dia de Sam Symão e Judas, do dito anno de quinhentos e vinte nove, e amanheçeram sobre a nosa povoação de Tidor, a qual povoação emtra- ram, por força, e a nosa gemte se acolheo aa fortaleza de que eu era o alcaide-moor. E despois de emtrado o lugar e apousemtados na nosa povoação, daly nos mandaram hum homem com huma bamdeira alçada, que nos desemos a partido. Comçer- tow-se que eu sayse da fortaleza, com poderes de Fer- nando de la Torre, meu capitão-moor; e que Dom Jorge J5 — xiix. 278
  • de Crasto vyese, com poderes de Dom Jorge de Meneses; e que, o que comçertasemos, fose feito. E asy se fez, que nos ajumtamos no meo do caminho, o dito Dom Jorge de Crasto e eu, e asemtamos que nos deixasem sahyr com hum noso bragamtim, com todo o que nele podesemos levar; e que Quichil de Roes nos emprestase dous paraoos gramdes, pera neles levaremos todo o que podesemos; e pera isto eu ficase em arreies, te tornarem os paraoos; e esto avia de ser demtro de vinte quatro oras, e quando se fez este conçerto, / / seriam is v.i oras do meo dia. * E todo o comçerto foy que nos outros nos aviamos de hir a huma povoaçam, per nome Çamafo, que he fora das Ylhas da Especiaria; e asy se comprio que nos outros metemos todo o que podemos no bragamtim e paraoos, e todo o al fiquou a Dom Jorge, e quamto estava na nosa terra. E tudo foy roubado, tamto que se os nosos par- tirão, a quem mais podia levar. E também os negros, que foram nos par aos, roubarão quamto nos levavam; de maneira que soomente nos fiquou o que levávamos no bragamtim; e eu fiqey em refens, trinta dias, te tornarem os paraoos. No cabo dos quaees me fuy pera o meu capitão-moor. E pera se comprir todo o açima, se fez juramento solene, de parte a parte. E Deus sabe como se por todos comprio. El-rey de Gilolo, sabemdo tudo, como pasava, mam- dou a Çamafo, com todo seu poder, com Fernando de la Torre, e por todos nos outros, e por força nos trouxe a Gilolo, homde estamos te o presemte. Aos treze " de Outubro de quinhentos e trinta, man- dou Dom Jorge de Meneses degolar Quichil de Roes, re- gedor de Tarnate, porque tinha comçertado, ele e Quichil 36 — xiij. 27 9
  • Catarabumy, regedor de Gilolo, homde nos estávamos, que matase Dom Jorge com todolos portugeses que com ele estavam, e o outro que avia de matar Fernando de la Torre com todolos castelhanos, e esto pera serem se- nhores e reis das terras, por os reis serem ambos moços e eles as regerem então. E isto pasa em verdade, que asy estava comcertado, porque, como soubemos que Quichil de Roes era morto, mandamos logo a Tarnate saber o que pasava. E tamto que o soubemos, nos posemos em armas, e o noso re- gedor comfesou ser tudo verdade. E pasadas algumas cousas amtre nos, ele com muitos seus armados, e nos também, pera pelejarmos, ouve amtre nos fala e com- certo de nova amizade, de maneira que ficamos amigos, pela muita neçesidade que tínhamos. Huma quimta feira, tres " de Novembro de quinhen- tos e trinta, chegou Gomçalo Pereira " a Tarnate, com huma gale, e hum navio e hum jumquo, a qual vinha armada; trazia e vinha por capitam da dita fortaleza, por mandado de Vosa Alteza (4). E aos vinte " de De- zembro do dito anno asemtamos e comfirmamos nosas pazes e amizades com o dito Gonçalo 40 Pereira, com- forme aas que com nosquo fez Dom Jorge de Meneses. Nas quaes pazes se comtinha que se se pasasem cris- tãoos de huma parte pera outra; que o que levasem fur- tado, se tornase, e porem não as pesoas. No qual tempo se pasaram dous homens dos nosos pera Gonçalo Pereira, e Fernando de la Torre mandou pidir o que levavam os nosos homens, per rogo, e depois, per regimento. Ao qual (4) O sentido destes períodos, embora se perceba, não é claro, pela má redacção 37 —iij; 38 —p.™; 39 —xx; 40 — g.o. 2 8o
  • regimento Gonçalo Pereira respomdeo, com mamdar daar muytas pamcadas a quem lho fez. E com todas estas e outras muitas vexações, que Gom- çalo Pereira fez a Fernando de la Torre, nem por yso deixou de ho avysar, por cartas, como era sabedor que os negros amdavam contra ele muy dapnados, e que te- vese boa vegia na fortaleza. Ao qual ele, Gonçalo Pereira, respondeo que não era minino que mamase os dedos e que sabya o que lhe comprya. Sabbado, vinte sete de Mayo, de quinhentos e trinta e um, matarão os negros de Tarnate Gonçalo Pereira, capitam, a qual gemte da terra estava toda comçertada com o rey de Tidor e com o rey de Bachão, e com toda a gemte de Malluquo, / / salvamte este rey de Gilolo, [6 r.) homde nos estávamos, porque se temeram que o podiamos saber e descobrir aos portugeses. E Deus, Noso Senhor, nam permitio que sua maa temção fose avamte, como eles quiseram e desejavam. E soomente foy morto o capitão e nove portugeses na revolta. E ouve muitas causas pera ysto asy soçeder, e duas primcipaes direy a Vosa Alteza. A primeira, que Gonçalo Pereira tinha preso o rey da terra e a may del-rey, e os primcipaes lho pidiam, muitas vezes, e numqua o deu, te que o mataram. E a outra também a morte Quichil de Roes, que era muyto prinmcipal homem. Tatnto que Gonçalo Pereira foy morto, ouve alguma divisão amtre os portugeses sobre quem seria capitão da fortaleza. De maneira que fizeram Vicente 41 de Afon- sequa ", criado de Vosa Alteza, e a quem nam vinha de direito mas certo que a todos nos pareçe que, se Vi- 41 — v.te; 42 — da°seq.a; 43 — dr.t®. 28 1
  • cente de Afonsequa não fora capitão, de todo se perdera a fortaleza. E esto digo a Vosa Alteza, porque o remedio dela, despois de Deus, esteve em nosas mãoos; a qual nos socorremos de mantimentos e todo o neçesario, da ma- neira que ho Vosa Alteza laa saberaa. E de mim, senhor, digo a Vosa Alteza, posto que outrem devera fazer, que eu soo, lhe socorry com dez mil ganpas (5) de arroz e quatroçemtos fardos 44 de çagu, e trezemtas galinhas, e vinte jarras de vinho da terra, e com cem pãees de sal, e com outras muitas cousas, de que tinham gramde neçesidade. E fuy com minha pesoa e com quatorze 45 homens, meus amigos, a ilha de Tidor, e livrey dous homens portugeses e os fiz soltar, os quaes estavam pêra matar. Tudo fiz com minha fazenda e pe- soa. A hum dos homens chamam Francisco de Saa e o outro, Francisco Fernandez. E alguns serviços outros nam alego a Vosa Alteza, que quero que de mim se ynforme por outrem. O capitam Fernamdo de la Torre foy muy requerido e lhe davam e prometião dadivas, porque nam mandase mantimentos aa nosa (sic) fortaleza, e trazião-lhe aa memoria os agravos que dos portugeses recebera. E ele, esquecemdo-se de tudo e vemdo serem cristãoo e o parem- tesquo e rezão que amtre Vosa Alteza haa e o Emperador, determinou de hos basteçer de tudo e ajudar, como o fez, e o Vosa Alteza laa sabera. E asy el-rey de Gilolo, comformando-se com Fernando de la Torre, se deu por muyto servidor de Vosa Alteza e lhe manda suas cartas. (5) Medida de capacidade; do malaio gangang. 44_f.d«.: 45 — xiiij. 282
  • E beem pode Vosa Alteza crer que, pera comservar as ilhas de Malluquo, teem muita neçesidade de sua amizade. E se esta leitura parecer algum tamto comprida, ou não tão copiosa como fora mester, peço a Vosa Alteza que soo minha tenção reçeba, que e servir Vosa Alteza em todo o que minhas fraquas forças abrangerem. E ao menos vay escripta em toda a verdade, de que sempre usey. Peço a Vosa Alteza que asy com Sua Magestade me seja ajudador e valedor, como também lhe peço que tenha Vosa Alteza lembramça de mim, como vos mereço, e mamde qua ao governador e veador da fazenda que me favoreçam e homrrem, e a receberey muito grande de Vosa Alteza, em me mandar escrepver duas regras, de como esta lhe foy dada e a vio. Noso Senhor acrecente os dias de vida de Vosa Alteza e prospere seu real estado pera seu serviço. E eu, Fernão de Lemos, contador 44 de Sua Alteza, nestas partes, que esta fiz, a rogo de Pero 47 de Momte Mayor, em Cochim, a quatorze 48 de Janeiro de 533. Bejo las reales manos de Vuestra Alteza (6). as. Pero de Monte Mayor (6) A terminação formular, em espanhol, desta carta, foi já escrita pelo próprio, com a mesma letra da assinatura. 46 — cont.or; 47 —p.°; 48 — xiiij. 283
  • 37 CARTA DE TRISTÃO DE ATAÍDE A EL-REI Molucas, 20 de Fevereiro de 1534 ANTT: Gaveta 18-8-20. Original em bom estado, constando de doze folhas escritas em letra muito miúda, com frequentes contracções de palavras e abreviaturas, o que exige certo cuidado na leitura. Mede 2ço x 205 mm. a) Pouca solicitude dos governadores da índia pela fortaleza das Mo- lucas. b) Contratempos na viagem de Goa para Malaca, em que morreu Francisco de Ataíde, em um recontro com indígenas do reino de Achem, ao norte de Samatra. c) Dificuldades em Malaca, e viagem para as Molucas, por via de Bornéu. d) Bom acolhimento feito pelo rei desta ilha. e) Chegada a Ternate, que se encontrava em paz. /) Guerra com o rei de Geilolo e prisão dos castelhanos, ali acolhidos. g) Notícias de algumas ilhas, e conversões ao cristianismo. h) Ordenados do pessoal, na fortaleza de Ternate. Senhor, Da Imdia tenho escrito a Vosa Alteza sobre as cousas de Maluco; e porque emtam as faliava como pesoa que ho não tinha visto, como aguora vejo, lhe quero daar meuda conta, asy delle, como do que me soçedeo, depois 284.
  • que da Imdia party ate a elle chegaar. E porque sam muytas, e não poso leixar de fallar nellas larguo, bey- jarey suas reaes mãos quere-las ouvir, porque sam cou- saas que tocam muyto a seu serviço. Da Imdia party a vimte dias de Abril de 533, no navio Sam Salvador, de Vosa Alteza, com hum bregam- tym; e fuy despachado pelo seu governador 2 Nuno da Cunha, com ther na Imdia nova que era morto Gom- çalo 3 Pereira 4, capitam que foy em Maluco, a traiçam; e a terra estar toda alevamtada; e homde eu esperava que ho governador me dese tres ou quatro velas e ceemto cymquoemta, ou duzemtos homens, para acordir ao tal socoro, em que tamto emportava a voso serviço, me deo ho dito navio e bergamtym, não muito bem aparelhado, como eu entam ho avia mester, para tamanha viagem, e com ho piloto muyto velho e que muy pouco sabia de seu officio, e não me deu nenhuma jemte, senão a que eu buscase. E porque, senhor, a Maluco hos homes darmas nam vam, senam presos e degradados, e os que vam lhe paga sempre ho governador trymta, quaremta cruzados de seu solido, porque he a viagem muy compryda e de muyto pouco proveito e menos presas. Aquamdo eu ysto vy, e querer usar comiguo de tamta desomanydade, e lembrarem-se tam pouco de voso ser- viço, em que tamto vos hia, detremyney de me socorrer a muitos paremtes e amiguos que na Imdia tinha, me emprestasem allguma fazenda 5, porque de meu, çertefico a Vosa Allteza que ha não tinha. E com o que me emprestaram começey a buscar e aquerir para trazer comigo allgumas pesoas, damdo-lhe muyto do meu a allguns; e a outros, muita // esperamça U 1 — p.'7; 2 — g.or; 3 — g.o; 4 —p.r»; 5 — fz.d». 2 8$
  • de lhe fazer ca o que podese. E com estas duas cousas ajumtey oytemta homes, em que entravam fidallguos e cavalleiros e vosos criados, e asy marinheiros. E desta maneira party com a mais luzida jemte, aimda que pouca, do que nunca foy da Imdia para Maluco. Tamto, senhor, que de Cochym party, comecey fazer meu caminho para Malaqaa, e o piloto, que açima diguo a Vosa Alteza, em vez de me levar a Malaca, me levou a ylha de Çamatra, da Bamda do sul, homde nunca nymgem la foy ther que não não fose perdido. E eu, se- nhor, o fuy tamto que naam pode mais ser. E quamdo me ally achey, e os desejos que trazia de vos servir, e vemdo-me tam perdido, estive para emforcar o piloto, por fazer a tal navegaçam. E porem, senhor, a cullpa disto a ponho ao gover- nador e vedor da fazenda, porque não fazem mais comta de Maluco, por estar tam lomge como esta, como que nam fose de Vosa Alteza, e quamdo allguma ora he provida, he com o mais triste navio que se pode achar na Imdia, e com os pilotos e mestres asy como estes que me a mym ora deram. De fazenda não quero falar nela, porque ha que mam- dam não he senam rota e molhada, e a pior que se pode achar em todo Cambaya; e esa mandam para pagarem os mantimentos a esta mysera jemte que nesta fortaleza vos servem de quatorze ' anos a esta parte; e por mal de seus pecados, quamdo esta roupa ca chega, vem toda danada e molhada, por caso do navio em que a mandam se hyr ao fumdo, como aguora o fizeram a mym que, com duas bombas, o não podia soster em cima daguoaa. E desta maneira, senhor, provem esta mal provida for- taleza, que lhe pareçe que nam he de sua jurdiçam. 6 — xiiij. 286
  • E quamdo me achey, senhor, em tal parajem, e com taal piloto, como trazia, dise-lhe que não me mamdase mais o navio; e eu, por ther espiriemçia do mar, começey a mandar o navio de piloto e de mestre, e de tal feiçam qtie me quis Deus fazer tamta merçe que me tirou desta paragem e me trouxe da outra bamda do norte da mesma costa, que he da bamda de Malaca, com a jemte muy sãa e rija; na qual costa amdey hum mes, por não poder menos fazer e surgir, cada dia, duas vezes; na qual costa se tomou, ja no porto de Dachem, hum galeam com çem homes, muito artilhado, e huma gale, outrosy, muy bem armada, com muita jemte, como que ja Vosa Alteza sa- bera, com outros bregantis. E eu, como aquy fuy ther, say o hum ballaam (i), que he navio muy sotil, muy bem esquipado, e vinha ver como e de que maneira vynha; o qual me vio tam aper- cebido e em som de pelejar, com toda a jemte posta em seu lugar, e estaa de feição que todo o poder de el-rey de Dachem me não podia fazer dapno, que lhe eu mais não fizera, não ousaram de me cometer. E aquy estive hum mes, e neste tempo ja não tinha aguoaa nenhuma, por a ther gastado da outra bamda da costa, homde fuy ther; por homde me comveio manda-la buscar, pela muita necesydade que dela tinha. Entam fiz o batel prestes, e nele mety a Francisco 7 de Taide, fidallguo e meu paremte, homem de vinte cinco 8 anos, e que ja na Imdia se achara em muitas cousas, e que de sy sempre dera muy boa comta; o qual vinha em (i) Desconhece-se o étimo desta palavra; Sebastião Dalgado aventa várias origens hipotéticas. Os portugueses tomaram-na, provà- velmente, do malaio balang e generalizaram-na. aportuguesada, por toda a Insulíndia, para designar uma pequena embarcação, feita de um tronco de árvore, cavado. 7 — f.<*>; 8 — xxb. 287
  • minha companhia, para vos servir de capitão-mor do maar de Maluco. E com ele mamdey vinte cinco homes, e eu 12 r.) fjquey no // navio, com outra mais gemte, esperamdo o que me podese vyr. E pus-me tam perto de terra, para que, se soçedese allguma cousa, do navio os favoreçer com artelharia. E tamto que em terra foram, e themdo ja mea aguoada feita, sayram os Daches de terra, escomdidos pelo mato, e com frechas e azagayas os feriram a todos; e asy feridos, pelejaram com eles ate se darem com as espadas a mão tenente. E pelos negros serem muytos e os nosos amdarem todos feridos e camsados e verem que muytos dos negros se lamçavam ao mar e tinham tomado o batel, os nosos se lançaram apos eles e de demtro do batel os enxo- raram (sic) e mataram muytos, asy no maar como na terra. E por meus pecados, mataram a Francisco de Taide, com outros tres homes, e todolos outros que ficaram, muyto feridos; e asy se vieram ao navio com allguma demtro no batel, o qual veo ther ao navio, de noite; e quamdo os eu desta maneira vy, não sem muyta paixam, os recolhy e curey e remedeey, com dar muytas graças a Deus, por me não tomarem o batel; porque, se mo tomaram, não podia deixar de me perder, o que Noso Senhor quis remedear. E com a outra jemte que me ficou sãa vegiey o dito navio, e pus todo a bom recado, e fiz-me prestes para pellejar com elles, se comiguo viesem ther. E como me o vemto sérvio, fiz meu caminho para Ma- laca, homde chegey, a entrada de Julho, da dita era. Tamto, senhor, que a Malaqa chegey, achey novas de Maluco, por hum homem que entam chegara, como o rey de Maluco, que se chamava Dayalo, e a rainha V sua 9 — r.i». 288
  • mãy, eram deitados da terra, e ellevamtado pelos por- tugeses, que nela estavam, outro rey, seu irmão, por o Dayalo fazer outra trayção. E quamdo taes novas ouvy me pareçeo que, ja quamdo chegase, não avia de achar fortaleza nem portugeses nella, pelo que loguo com a mais presteza que pude fiz descaregar o navio de todo o que trazia, e começey de lhe dar pemdores e corege-lo, por- que, ja quamdo a Malaqa chegey, o não podia soster sobre aguoa, sem de noyte nem de dia leixar de levaar mãao da bomba. Ao qual coregimento, que lhe querya fazer, eram mes- tres, pilotos, comtra mym, que ho nam fizese, senam que ho posese a monte e ally o coregeria de vagar. E ysto, senhor, tudo era por eu nam vyr por Borneo, e se me pasar a mouçam, por eles virem pela Jaoa e Bamda, homde se fazem ricos e por Borneo, não; e he estrada coymbrãa. E como a mym ysto doya mais que a eles, com minha fazenda contentey a huuns e dey a outros, e de maneira que com pemdores que dey ao navio o co- regy, sem ther ajuda de capitam nem feitor e oficiaes de Malaca, nem quyseram pagar mantimento a jemte que comiguo vinha, dizemdo que não tinham dinheiro 10 para yso, avemdo para outras cousas muytas que eles querem. Entarn mamdey ao feitor, que comigo vinha, que da fazenda que trazia pagase os mamtimentos a dita gemte, e asy comprase outros para a viagem, homde aquy, em Malaca, des ho dia que chegey, ate o dia que party, sem- pre tive a mesa athemdida (sic), damdo de comer a huns, por me não ficarem nella, e a outros, pelos trazer comi- guo, e asy a todos quamtos a ela queryam vyr comer; homde em hum mes que em Malaca estive gastey quy- nhemtos cruzados, e com todo isto he tal a vosa fortalleza 10 — dr.o. 2 8 Ç INSULÍHDIA, 1 — 19
  • de Maluco que aquy, em Malaca, me fycaram vymte homens, pelo mais proveito que nela ha que em Maluco. E ja com o navio prestes e coregído nam achava piloto 12 v i para me trazer / / pela via de Borneo, porque dous que em Malaca avia João 11 Roiz de Sousa os levara, em dous jumcos, em que fora a Bamda, e nam avia ahy nenhum em Malaca que soubese o caminho de Borneo, pois para me meter em mãaos do pyloto que trazia, e por caminho não sabido e tam dovidoso, como Vosa Alteza ja pode ser enformado, nam era syso em suas mãaos me meter. E outro que hy avia, que veo por mestre 13 do navio em que veo Gonçalo Pereira, me fogio, por se nam atrever levar-me. A quem diga a Vosa Alteza que em Malaqa avia piloto mouro que me soubesse levar pelo caminho de Borneo nam ho avia hy em Malaca. Somente me aven- turey com hum piloto, que se chama Pero 13 Anes, homem muyto certo dallturaa, e com ele comety o dito caminho; e le dava trezemtos cruzados em Malaca, por ficar, e assy me fogio o mestre por se não atrever vyr comiguo, avem- do-me por perdido. E com ho qual Pedro Anes party, por não esperaar a vyr por Bamda, que era dahy a seis meses, como me muytas pesoas deziam que fizese, e que em esta viagem pela Jaoa e Bamda me faria muito rico. E eu, senhor, por olhar a vosa fortaleza estar em taal apertada, por aver tam pouco tempo que mataram a Gonçalo Pereira e estoutro rey desterrado, e feyto outro de novo; e saber que avia deferemças amtre os portu- geses huns com os outros, por não quererem hobedeçer ao allcaide-mor por capitam, e fizeram outro por nome Vicente 14 da Fomseca, voso criado, e nysto se pasaram gramdes onyões; quamdo eu tudo isto via, e me pareçia 11—J.O; 12 —m.t«; 13 — p.«; 14 —V>. 2 Ç O
  • que ja quamdo viese não avia de achar portuges nem fortaleza; e vemdo quamto isto emportava a voso ser- viço, nam me lembrou riquezas nem outras cousas que poderá ganhar, e comety o caminho com este piloto, avemturamdo-me a tudo que me podese vyr, para so- correr a fortaleza. E de Malaqa party, a sete 1S dias de Agosto, e chegey ao porto de Borneo no fym delle; homde mamdey, em nome de Vosa Alteza, ao rey da terra, hum presemte muy bom; e asy trazia para ele huma carta do governador, a qual também lhe mamdey; o qual pre- semte ele mamdou receber com gramde acatamento, e dizemdo que o estimava em muito, e que sempre teria a Vosa Alteza em cima de sua cabeça, e outras muitas cousas de gramde amor. No qual porto estive, senhor, quymze dias, tomamdo mamtimentos e aguoa. E dahy party, e fez-me Deus tamanha merce que por tam endiabrado caminho, de tamtos baixos e de tamtas coroas de baixo de agoaa, e restymgoas, e sem pyloto que ho soubese, senam por hum item, e por muy bons resguardos e cautellas e boa vegia, e nam navegar senam de dia com marinheiros na verga que viam as coroas debaixo de aguoa; e com huma allmadia pela proa esqipada pasey todos estes baixos de Borneo, e vym ther a Maluco, mais cedo que os outros capitaes que a Maluco vieram por este caminho, trazemdo pylotos que ho muy bem sabyam, sem me acomteçer ne- nhum desastre. E pus, senhor, na viagem, quaremta dias, o qual, senhor, se viera por bamda, como me acomse- lhavam meus amygos, que farya muyto proveito, como de feito o fezera, punha na viagem, te chegar a Maluco, homze meses. Tamto, senhor, que a esta fortaleza chegey, achey 15 —bij. 2 Ç I
  • nela por capitam Viçemte da Fomseca, que o povo tinha feyto, como açyma diguo a Vosa Alteza, a qual fortaleza 13 r.i entregou tamto que lhe // mostrey minha provisam. A qual terra achey de paaz, a saber: Ternate e Tydore, Moutel e parte da ylha de Maqiem. E çertefico a Vosa Alteza que Vicente da Fomseca vos tem nesta terra tam- bém servido que he mais dyno de lhe fazer merçe que nam de aver castiguo. Senhor, açima diguo a Vosa Alteza que estas ylhas estavam de paaz, e as que estavam de guerra sam estas, a saber: a ylha de Caya, e a metade da ylha de Maqiem, e o rey de Geylolo, homde estavam os castelhanos, o qual, tamto que aquy chegey, lhe escrevy huma carta e asy outra ao capitam dos castelhanos. Ao rey, senhor, escrevy huma carta, dizemdo-lhe, de vosa parte, quamto folgava com sua amizade e pedimdo- -lhe quisese a esta fortaleza de Vosa Aalteza vyr, para lhe fazer todo favor e gasalhado que aos outros reis, como elle, aquy faziam; e se lhe aquy tinham feito allgum agravo que mo mamdase dizer por allgumas pesoas prym- çipaes e eu ho desagravaria, com muitas dadivas e merçes que de vosa parte lhe daria, com outras muitas palavras de amor, para o provocar a o trazer a voso serviço. E com ysto lhe mamdey hum presemte que trazia da Imdia que para esta terra se pode chamar rico. E com esta carta e presemte mamdey hum fidalgo, por nome Amtonio Pereira, com outros quatro homes por- tugeses. E asy escrevy outra carta ao capitam dos castelhanos, rogamdo-lhe muyto e pedimdo-lhe se quisesem vyr para esta fortaleza; e que para elles trazia dous mil cruzados, que lhe Vosa Alteza emprestava, para provimento de suas neçesidades e dyvidas, sem ca aver nenhuma provisam do Emperador para os constramger a se virem; somemte 2 ç 2
  • hum escrito, muy magro, dese embaixador que ora esta nese regno; o qual escrito dizia que o Emperador, seu senhor, lhes mamdava provisam que se viesem, a qual, eles, porque tal não viram nem eu taal trouxe, pola não aver na Imdia, elles refusavam. E não me valia dizer-lhes que Vosa Alteza era comçertado com ho Emperador. Com as quaes novas a eles nam aprouve muyto e deram quamto tinham por lhe tal recado nam mamdar. Porque, senhor, o seu fumdamento era estarem nestas ylhas ate verem se lhe vinham allgum socorro pela Nova Espanha, que cada dia estavam com os olhos lomgos, esperamdo por ele. E çertefico, senhor, a Vosa Alteza, que estavam tam liados com este rey de Geylolo como nunca pesoas esti- veram, e a causa diso he este ser o prymeiro porto que eles tomaram, quamdo a estas partes vieram ther e ele os recolheo e lhes deu sempre de comer e os sosteve, te o dia de oje. E alem disto, despois que estes castelhanos em Geylolo se foram meter, quamdo os deitaram de Tidore, sempre o rey de Geylolo lhes deu mantimento para cada dia, a saber: a cada hum castelhano cymqo reis ", em moeda da terra, e outro mantimento, afora o que aviam do Emperador. E com esta amizade, que estes castelhanos tinham com el-rey de Geylolo, todos estoutros reis e senhores estavam sempre reynamdo maliçia comtra nos e tinham aos cas- telhanos por valedores. E como semtiam allgum regedor destes lugares prymçipaes agravado desta fortaleza, loguo lhe mamdavam recado se viesem para el-rey de Geylolo, que também tinha bombardas, como os portugeses, e a elle desem a obidiemçia, e elles hos defemderyam de nos, 16 - r.«. 29 3 %
  • se lhe quysesem fazer allgum dapno; e asy o fizeram a quatro ou cymquo lugares sogeytos a esta fortaleza. E eu, senhor, por nam ther estes homes aquy tam perjudiçiaes a voso serviço, e que emquamto aquy esti- verem nunqua esta terra avia de ser paçifica, com suas 13 v.] esperamças vaas, a que todas estas / / ilhas comvertiam com a vymda do navio, que de Espanha-a-Nova veo, em quaremta dias, trabalhey o mais que pude para trazer a minha amizade a el-rey de Geylollo, para com ella os arramcar dally, homde estavam metidos. Com ho qual rey de Geylolo, os castelhanos, trabalhavam de não vyr comiguo a nenhuma amizade das que lhe mamdava cometer, dizemdo-lhes muytas cousas, que eu depois soube dos negros, que lhe diziam; que era não fazerem pazes comnosco, e que eles estavam aly para morrerem com eles, e que com eles aviam de morrer, e asy o jura- ram aos samtos Evamgelhos, e os negros em sua ley, se eu la fose pelejar com elles. Estes castelhanos, senhor, queriam usar comigo de manha desta maneira: A mym diziam que eram muy comtemtes de se virem para esta fortaleza, e que estavam ally, de per força, e que lhe tinham tomado sua arte- lharia, sabemdo eu que a maior parte delia lhe tinham vemdido e dada para comtra nos. E aos negros deziam que com elles aviam de morrer e que nunqua deles se apartariam senão per morte. E ysto eles mo escreviam, para desemularem com os negros, porque estavam de guerra comnosco, e que como estevesemos de paaz com hos negros, se poderyam vyr a esta fortaleza. E eu, senhor tinha sabido o contrario 17 por mouros que mo diziam e por allguns castelhanos, outros bos ho- mens que desejavam ja de se vyr; e o porque se não 17 — oont.ro. 294 X
  • queria vyr o capitam com todollos outros, que com elle estavam, eu o direy a Vosa Allteza. O capitam era criado do comemdador e servia de dar regra na naoo, e qa ve-se feito capitam do Emperador, e ally, homde estava, em Geylollo, fazia o que queria, e todos, o que elle mamdava. E mandava dar pregões que era capitam de Su Sacra Magestade, e enforcava hum castelhano, porque queria fogir para a vosa fortaleza; e deu tratos a mais de dez ou doze, que estavam para fogir para esta fortaleza; e a outro, porque lhe nam falou a vomtade, matou-o as estocadas, e era muy amado de todos estes mouros da terra. E tinha muitos cães de monte com que amdava a momtear, cada vez que lhe vinha a vomtade, e tynha muytas negras de que tinha filhos, e nam via Deus nem Samta Maria, com que ele muito folgava. Ora veja Vosa Alteza se este se se desejaria de hyr para Arroyo del Puerco a ser recoveyro. Hos outros eram dezoito ou vymte velhacos, os quais hum deles era capitão- -mor do mar, o qual era syrgeiro e punha boas borllaas de sombreiros na Rua Nova e tinha muy bom hordenado, o qual lhe pagavam desa myseria que avia. Ho outro era feitor do Emperador, de huns poucos de casqaves e espe- lhos, e outras cousas tam tristes que não são para nelas falar a Vosa Alteza; tinha muy bom hordenado e era hum judeu cordoves, de demtro de Cordova; e avia dous escrivães da feitoria 18, do mesmo theor, e seus horde- nados, e tinham allquazil maior, com seu hordenado, e hum allcaide-moor, com seu hordenado, e tabalião pu- blico ". Pera que he mais, senhor, senam saber Vosa Alteza que eram dezoito 80 ou vinte homens, com todos estes officios, e hum que era asestador de campos. 18 —ft.»; 19 —p.">; 20 —xbiij. 2 9 5
  • Ora como estes homens quereriam hir desta terra, [4 rj domde eram tam amados e // queridos, com muitos filhos que de muytas negras tinham, e aviam ja esta terra por natureza, e faziam com os negros que nam viesem a nenhuma amizade comiguo? E quamdo eu iso vy e conheçi suas manhas e lhas emtemdy muy bem, emtam mamdey chamar fidallgos e cavaleiros e vosos criados e homens de bem, que nesta fortaleza haa, e que comigo vieram, e com eles tomey o pareçer de todo, sobre estas cousas que compriam tamto a voso serviço, e asy a paaz del-rey de Geylolo, que a nam queria ther comiguo, themdo-lhe eu feito muytos comprimentos; como sobre a tirada destes castelhanos, que tamto a voso serviço compria serem daquy fora, por quallquer via e maneira que fose. Hos quais os pareçeres de todos eu tenho em minha mão; e com os seus pareçeres me fiz prestes, com cemto cymqoemta homes, deixamdo a fortaleza muy bem pro- vida; os quaes homens sam daqueles que Vosa Alteza muy bem sabe que nestas partes ha: mamcos, aleyjados e pitaniuros (2). E porem elles e eu muy desejosos de morrermos em voso serviço, com proposyto de os trazer- mos de força ou de grado. E levava dous bates com muy boas arrombadas que lhe aquy fiz com, cada hum, seu camello, pela proa. E em hum delles hia Beltezar Vogado, voso criado, com quinze 21 portugeses; e no outro hia Joham de Canha, hum cavaleiro homrado, e eu hia no bregamtim que (2) Julgamos tratar-se de uma expressão, talvez, corrente naquele tempo, por aquelas partes, composta de dois elementos malaios, hitam (preto) e turum (descendente), e aportuguesada. 21 -xb 9 à
  • trouxe de Imdia, gramde, e outros muytos navios de remos. E asy levey comiguo el-rey de Ternate e el-rey de Tidore; e com esta armada me fuy poor na bara de Geylollo e me mety em huma almadia, para hyr ver a maneira que avia de ther, para a desembarcaçam. A qual, senhor, eu vy muy perygosa, porque tinham muytas tramqeiras e vallos, e muy gramdes estacadas-me- tidas pelo maar, homde tinham muy boas estamçias com muita artelharia, com a qual me tiraram muytas bombar- das e espymgardas, os castelhanos, que eu muy bem vy. E com tudo isto, esperey todo aquele dia, e também para me conçertar e hordenar a maneira de minha saida; o qual, senhor, este dia, a tarde, mamdey deitar hum pregam, que nymgem posese mãao em castelhano, para o matar, nem ferir, nem fazer nenhum mal, nem toqase em sua fazemda, com pena da vida, e ao outro dia say em terra. Nem el-rey de Ternate, nem o Tidor, nem nenhum outro dos negros que comigo hiam de pazes, não quy- seram sahir em terra comigo, pareçemdo-lhes emposyvel tomar-se este Geylolo, que eles tinham por a mor cousa que nestas ilhas avia; e esta era a collor que eles davam, mas a verdade disto, senhor, era amtre eles todos, asy negros, como castelhanos, que, se não podese tomar Gey- lollo e me qysese recolher, que huns e os outros fosem comtra mym. O qual quis Deus que não foy como eles cuydavam, mas amtes, com os portugeses somente, entra- mos as tramqeiras e lhes tomey todalas estamçias que eram mea legoa; homde lhe tomey toda artelharia que nelas estavam, as quaes eram vymte sete peçaà, amtre berços e tiros grosos, e lhe quymey cymco ou seis lugares, em que emtrava o seu prymçipal; a asy lhe matey allguma jemte, porque não esperaram. 2 07
  • E asy tomey loguo os castelhanos todos, com sua fa- zemda, e sem nygem lhe tocar nella, e os trouxe comiguo a esta fortaleza; e estive em Geylollo tres ou quatro dias, 14 v.) para salvar o que ficava // por queymar e estroir, por me mamdar dizer el-rey e seu regedor e fidallgos que lhes nam fizese mas maal, e que queryam ser yasallos de Vosa Allteza e a elle queriam obedecer e ther por rey e senhor, e a nenhuma outra pesoa naam. E que, aliem disto, me queriam daar quamto quysese de 9uas fazemdas. E eu, por me pareçer ser voso serviço, nam lhes quis tomar nenhuma cousa de seu. E porque este rey não them cravo em sua terra, so- memte muytos mantimentos, de que esta fortaleza tem muyta neçesidade, asemtey paaz com ele e com toda a terra, damdo, prymeiro, a obediemçia a Vosa Alteza, como de feyto a deu loguo. E porque o rey he muyto cryamça e doemte, em seu nome e de todo o regnno, a deu Qechil Catrabume que aguora eu fiz regedor da terra toda, em nome de Vosa Alteza, e que por dereito lhe pertençe ho reyno; e este he o primeiro 22 rey que nesta terra lhe deu vasalajem por carta patemte que lhe, em voso nome, dey, a quaal elles tem em muyta estima e veneraçam. E com ysto todos estoutros reis e regedores lhe fazem outro tamto, e lhes fiz dar a obidiemçia e vasallajem, como todos lhe escreveem, e eu em seu nome a tenho reçebida. E todolos outros reis e regedores destas ilhas, que a esta fortaleza nam queriam vyr, como vyram Geylolo destroido e os castelhanos tirados dally e toda a sua arte- Iharia, em que elles tinham toda sua esperamça, vieram a esta fortaleza e sam seus vasalos, e toda a terra asem- 22 — p.«>. 2 ç 8
  • tada e paçifica, que daquy a ceem legoas pode hyr hum portuges seguro, sem lhe fazer nymgem nenhum nojo. E asy, com o medo gramde que lhe ficou deste Geylolo e com tam poucos portugeses fazerem tamto, muytas espymgardas e berços que por estas ylhas estavam sone- gadas e escomdidas, todas mas trouxeram a esta forta- leza, que foy buma das gramdes cousas, para eles, que ge qa fez, que çertefico a Vosa Alteza que, despois que Maluco he descuberto, nunca esteve tam pacifico como aguora estaa. E ysto, senhor, tudo fiz do dia que chegey, a dous meses; e asy neste tempo alevamtey a tore de madeira, que de pedra, ao presemte, nam pude, por ser o tempo curto, ate partida destes navios, a qual tenho corregida e comçertada, que pareçe fortaleza e nam como a achey, que pareçia hum corral de cabras. Senhor, Eu mamdo estes castelhanos caminho da Imdia repar- tidos, a saber: no navio em que vym, o capitam delles, com outros sete ou oyto, os piymçipaes; os quaes levam muy bos gasalhados e com Jurdam de Freitas que he iCapitam do navio; he pesoa que lhe faraa todo bom tra- tamento; e eles, emquamto aquy estiveram, lhe foy feyto muyta homra e gasalhado e muyta justiça nas cousas que me requeriam, prymcipalmente em lhes fazer tornar sete ou oyto escravos, que lhe eram fogidos, em tempo de guerra; e asy, allguma roupa que tinham dado aos negros de Geylolo, para lhe fazerem cravo, e tudo lhe fiz tornar da mãao del-rey de Geylollo as suas. E em todalas outras cousas em que tinham justiça se lhe fez muy imteiramente; e com todo, senhor, bem sey 299
  • que vam agravados de mym, polos nam leixar hir pelas ylhas a comprar cravo para levarem, porque naam me pareceo rezam, pois que Vosa Alteza tinha feito comçerto com ho Emperador, e que nos custava tam caro, e que eles tam pouco mo aviam de agradeçer, lho nam quis is r.i deixar comprar nenhum // cravo nem ho levaram desta terra. E asy ho escrevo a Bamda a Dioguo Leal, criado de Vosa Alteza, que lhe nam comsemta levar nenhuma noz, nem maçaa, porque em tudo ysto me pareçe faço voso serviço. E os mais castelhanos reparto por os outros jumcos, de maneira que nam fiqa aquy nenhum. Os quaes castelhanos, senhor, vaam desta terra tam destroidos que, por yso, me pareçeo milhor hirem proves que ricos, e me parece que tomaram por partido leixa-los amtes aquy estar, com toda a proveza do mundo, amtes que hirem para o paraíso. E ysto porque estavam tam arreigados e casados asy com negras da terra como com suas negras e filhos, como ja acima tenho dito a Vosa Alteza, com cousas que lhe metiam em cabeça, com esperamça de socorro pela Nova Espanha, por homde os negros de todas estas ylhas os tinham em muyta estima. E por eu ysto ver, escrevo a Dom Paulo, meu sobri- nho, que esta por capitão em Malaca, e asy a Dom Es- tevam, se ja for vymdo, que quaalquer deles tenha ma- cieira, com boa desymulaçam, que os nam deixe pasar de Malaqa, e segundo ella he sadia e de bos ares, eu espero em Deus que ela de boaa comta deles. E isto, senhor, faço, reçeamdo-me, se forem ther a Castela, e segundo sam lymguarazes e faladores e de huma cousa pequena fazem muyto gramde, que, posto que Vosa Alteza tem feito comçerto com o Emperador, ho provocarem a muita cobiça, e lhe dizerem que não tão somente nestas ylhas ha cravo, mas que estas terras 300
  • •sam todas de ouro e pedraria, e com ysto, e com outras piuitas que lhe em cabeça meteram, e por eles, qa dese- jarem de tornar, não ha cousa que nam digam. E porque, senhor, eu achey qa ese trelado, que Vosa Alteza, aquy vera, de huma provisam do Emperador, que veo pola Nova Espanha a estes homens, e asy huma carta que escrevia a Fernando Cortes, para mamdar na- vios e gemte a estas ylhas, me pareçeo voso serviço nem de Malaca nem da Imdia, como outrosy escrevo ao gover- nador e vedor da fazemda, os nam deixarem pasar, nam ficamdo eles agravados. E porque nam sey se com a chegada destes homes a Castela, como açima digo a Sua Alteza, não sera muito, segundo a cobiça creçe, e faz fazer cousas muy desara- zoadas, ho Emperador mamdar secretamente outra pro- visam a Nova Espanha, que mamde ca huma dúzia de navios, muy bem aparelhados, e com muyta gemte, que em muy breve tempo podem ca ser; e se vierem, sera muy gramde apresam em que pora esta sua fortaleza que, mal pecado, segundo ela he provida da Imdia de jemte e navios e fazemda e ca ouver capitães como te guora ouve com tamtas divisões, nam sera muito entre- garem-lha. E, porem, eu espero em Deus que eles não venham ca tão asynha. E se eles vierem, Vosa Alteza me ha-de perdoar, porque eu detremino de não hyr de ca nenhuma nova deles, se eu posso. E se me não perdoar, eu lhe pro- meto de lhe hyr a emtregar esta minha cabeça, sem a outra nenhuma parte me hyr, porque sayba çerto Vosa Alteza, se o capitão que em Maluco estiver, ysto não fizer a qualquer navio que da Espanha Nova vier, que logo toda a jemte desta terra he alevamtada contra nos, por- que asy // hos desejam e querem os negros desta terra, 15 v.i como os da Imdia aos rumes. 301
  • Peço, senhor, a Vosa Alteza se nam descuyde desta sua fortaleza, mas amtes a tenha nos olhos e a mamde prover espicificamente, como a huma das milhores que tem em toda a Imdia, pois nyso lhe vay tamto e lhe custa o que Deus sabee; e mamde a seus governadores e ve- dores da fazemda destas partes a provejam com fazemda para pagarem os mantimentos a gemte; e allgum pouco de solido que, segundo o gasto desta terra he, e a muita proveza nella, ho seu mantimento que lhe pagam lhe não avomda para quinze dias. E por yso he neçesario socorrer-lhe com alguma cousa de solido; e asy mamdem fazenda apartada para a com- pra de cravo, porque agora, quamdo vym da Imdia, de- ram-me a mais baixa roupa que hy avia, que para a paga dos mantimentos não he boaa, quamto mais para fazer cravo, que a-de ser muy fina e rica, como a trazem os mercadores que o vem fazer. E sobretudo eu o escrevo ao governador e vedor da fazenda a maneira que nyso am-de ther, e o que mais compre a voso serviço. Senhor, como aquy chegey achey o trato da terra todo alevamtado e de todo danado, e esto, por achar no porto tres jumcos, muyto gramdes, que cada hum levara mil baares de cravo; e asy outros dous jumcos de quatro- çemtos baares, cada hum, os quaes traziam mais de çem mil cruzados de fazenda para o comprarem; e em todas as ylhas, quamdo o Deus daa em todalas arvores, não da mais de quatro mil baares, os quaes eram seus e de partes; e por hy o não aver, e eles muyo desejosos de o averem, davam pelo baar a quarenta cruzados, que na Imdia nam vale mais. Por homde esta terra se lamçava a perder e Vosa Alteza recebera muyto deserviço, se ysto fora mais por diante, o qual evitey desta ma- neira: Mamdey que os ditos jumcos e mercadores se par- 302
  • tisem, logo a emtrada deste mes de Fevereiro 23 de qui- nhentos trinta e quatro, com cravo ou sem elle, porque emtam he a propria mouçam de sua viagem; porque, se os leixara estar para a outra mouçam, perdera-se a terra toda e Vosa Alteza nunqua poderá aver hum baar de cravo; e não estivesem mais em nenhuma destas ylhas. O que eles compryram, logo como lho eu mamdey, da vosa parte, polo qual eu espero em Deus que, deste Maio por diamte, que eu o torne a poor nos dous cruzados, como Vosa Alteza o soya acomprar e como esta asem- tado. £ se o Deus der na terra, Vosa Alteza sera servido de mym milhor do que nunca foy de capitaam que em Maluco estivese, e desta proveza, que eu trouxe, eu lhe mamdarey para a Imdia, para o ano que em hora vier, cravo quamto lhe abaste para sua carga para o regno. E asy, senhor, como chegey, mandey deytar pregoes em voso nome, que nenhuma pesoa 24 fizese cravo, so pena de o perder para o recolher todo na vosa feitoria, e por o não aver ao presente, se não fez mais que quatro- cemtos quymtaes, que mamdo a Imdya, com ter homes mamdados por todas as ilhas a o fazerem; e allgum que ahy haa e os mercadores darem por ele quarenta cru- zados, como ja açima digo a Vosa Alteza, e o seu feitor não da por ele mais que a dous cruzados, por não pasar o regimento, se nam pode fazer. Sobre o qual cravo trago gramdes guardas e vegias, asy nas ilhas de fora, como nestas, para todo o que se poder aver, avello // pera a carga do navio que ora vay. [6 r.i E porque eu mando este navio com os castelhanos logo nesta mouçam, por me não estarem mais na terra e não 23 —fev.o; 24 —p.». 30 3
  • aver cravo, esta mouçam, não pode mais esperar; e com- tudo, ca me fica hum jumco de Vosa Alteza para o ano ho mamdar com o mais cravo que poder aver. Senhor, Este he o trelado da carta que o Emperador mamdou a Dom Fernando " Cortes e asy o regimento a el-rey. Dom Fernando Cortes, noso governador e capitam jeral da Nova Espanha: Bem avees de saber que no ano de quinhentos e deza- nove mamdey huma armada de cymqo naaos as nosas ylhas de Maluco, e a outras partes homde hay espeçiaria, que caem demtro dos lymites da nosa demarcaçam, para com eles comtratar, de que foy por noso capitam geral Fernão de Magalhaes, e da qual allguns navios chegaram as ditas ylhas de Maluco e resgataram e caregaram nelas; e a naao capitanya, chamada Trymdade, ficou la, por fazer muyta agoa, com çimquoemta sete homes. E despois, o ano pasado, de quinhentos e vinte cinco, mamdey enviar outra armada as ditas ylhas, e comtra- taçam de espiçiaria, com oyto navios, nos quaes vay por capitam geral o comemdador Fray Garçia de Loaysa, cavaleiro da Ordem de Sam Joam 24, ate chegar ao porto; que, depois de caregadas as naaos mais grosas, que leva, com as demais, com çerta gemte que de qa leva horde- nada, ham-de ficar nas ditas ylhas comtratamdo nellas e governamdo-as. E asy este presemte anno de quinhentos e vinte seis " partio Sabastiam Gavoto com outra armada de tres naaos e hum acaravella, a qual também ha-de hyr as ditas 25-f.ío; 26 — Jm.o; 27 — bexxbj. 3 o 4
  • ylhas. Asy, para saber que se fez da dita naao capitanya, chamada Trymdade, e da gemte que aly ficou nas ditas ylhas de Maluco, como para saber a chegada das ditas naaos e armadas a elas, e a soçesam que am thido, com- vem que, com muita diligemçia, se mamdase, por esas partes, huma caravela, ou duas, para trazer recado do que lhes tinha mamdado; com muita diligemçia a prover, para que, se tivesem visto, por vosas cartas e diligemçia, ouvesem emviado aver memoria das quatro caravelas e bregantym que tinhais feyto e deytamdo-se na agoa da costa do Mar do Sul. E como dizes que as temdes feitas, para o mesmo proposito do descobrimento da especiaria, pela gramde comfiamça que tenho da vosa vomtade para as cousas de meu serviço e acreçemtamento da nosa coroa real, acordamdo-me de encomendar-vos este negoçeo; porem, eu vos emcarego e mamdo que, logo tamto que esta virdes, com gram diligemçia e gramde cuydado que a tal caso se requere, e como vos sabees prover as outras cousas que sam a voso cargo, que vos dees hordem como duas das ditas caravelas ou huma delas, com hum bre- gamtim, ou como milhor vos pareçer que posam aver milhor remedeo, mamdando nela huma pesoa descreta, e de que tenhaes comfiamça, abastecida e marynhada de gente, e todo ho demais, vaa em demamda das ditas ylhas de Maluco, ate achar nosas gemtes. E mamdarees da minha parte, e eu pela presente mando, que ho capitam e as outras gemtes que nelas mamdardes, asy em sua // viagem e derrota, como des- te * J pois de chegardes as ditas ilhas, guardem a hordem com- theuda em nosa estruçam que demtro nesta vay, a qual vos vede. £ o de mais daquylo lhe day vos hum regimento, firmado de voso nome, do que em tudo vos parecer e de tudo aquyllo que devem fazer, porque, como pe- 305 INSULÍNDIA, I 20
  • soa de tamta espiriemçia e que tam adiamte them a cousa, o saberes milhor fazer do que vos podemos es- crever. E sera bem que provejaes como nas ditas caravelas e bregamtim levem allgumas cousas de resgate para que, aimda que não ache as ditas nosas armadas, ou porque se toparem allguma ylha ou terra rica, posa contratar e resgatar nela. E proveres como leve o milhor piloto que se pode achar e todalas outras pesoas expertas na nave- gaçam, sobre o qual escrevo a Luis Pomçe de Liam, e nosos ofiçiaes, que provejam o que for neçesario e que vos ajudem. Feita em Granada a 27 do mes de Junho de 526. Este he o trellado do regimento que enviou a Fernando Cortes, el-rey. A hordem que minha merce mamda que guardem a pesoa e pesoas de Dom Fernando Cortes, noso gover- nador e capitam geral da Nova Espanha, por mym mam- dado a demandar as ylhas de Maluco nas caravelas ou bregamtis que ele them feyto na costa do Mar do Sul he o segimte: Item. Primeiramente, porque pera a comtinuação e contartação da espeçiaria, para a trazerem a estes nosos regnos, o ano pasado, de mil quinhentos e dezanove, mamdamos huma armada de çinco velas as ditas ylhas de Maluco, por que foy por capitão geral Fernão de Maga- lhães, dos quaes alguns navios chegaram as ditas ilhas de Maluco e caregaram e resgataram em elas; e estamdo caregadas, para se fazerem a vela, a nao capitayna, cha- mada Trymdade, e a nao Vitoria, porque a dita capitayna fazia muita agoa, ficou nas ditas ilhas com fasta çym- qoemta sete homes. E despois, o ano pasado de quinhentos e vinte cinco, mamdamos outra armada, de oyto naos, a dita comtrata- 306
  • ção, de que foy por capitão geral Frey Garçia de Loyosa, comendador da Hordern de Sam Joham. E asy mesmo, este presemte ano de quinhentos e vinte seis, mamdamos outra armada, de que foy por capitão geral Sabastião Gavoto, noso capitão e pyloto-mor, por- que comvem muito a noso serviço e bem da dita nego- çeaçam e trato da dita espeçiaria, e saber o que dela se soçedeo, e sua chegada das ditas armadas, para que, enformado de tudo, mandemos prover o que mais for noso serviço e comtinuaçam do dito trato e que, com mais brevidade, venha a dita espeçiaria. E asy mamdamos ao dito Dom Fernando Cortes que mamde a dita pesoa ou pesoas que a ele lhe bem pareçer, com as ditas caravelas, a saber e se enformar de todo o contheudo, e trazer- -nos larga enformaçam e tornarem para a dita parte do sul. Item. Avees de olhar muito, amte todalas cousas, que recado them as ditas caravelas de todo o neçesario, como comvem para semelhamte viagem e o que lhes fal- tar, logo, com muita diligemçia, e cuidado, como a cali- dade e importançia desta negoçiação requere, o dito Fer- nando Cortes as faça aderençar e prover, asy de gemte como de mantimentos 28 e provisoes e das outras cousas neçesarias // para a dita viagem, pomdo os milhores n r.i pillotos e marynheiros e outra gemte de maar, que na dita terra se achar e poderem aver, por maneira que tudo leve o milhor recado que pode ser. Item. Ja que sejam aderemçadas, como dito he, e postas a pomto pera poder fazer e segir a dita via- gem, as emcomemdara a huma pesoa que seja para yso de espiriemçia e noso servidor, e que em noso nome, e como capitam de noso capitam geral, as leve. 28 — mto». 307
  • O qual segira sua viagem ate as ditas ylhas de Ma- luco. E achamdo os ditos Frey Garçia de Loays e a Sabas- tiam Gavoto, ou a qualquer deles, lhes dara as nosas cartas que para eles levam. E se emformara, asy delles, como dos outros que com elles foram e hy estiveram, do estado das cousas daquelas partes e armada, muy larga e particularmente, para que nos posa trazer muy larga e verdadeira enformaçaam de todo ello e de mais daqylo do que lhe a ele parecer que devemos ser enformado. E se enformara e sabera se, despois que a nao Vitoria partio da ylha de Tidore, se descaregaram a carga que tinha a dita naao Trymdade os cristãos que nela ficaram, e a comçertaram, para o qual e o demais que ouveram, duramte o tempo que ally estiveram, que poderyam ser cymco meses, pouco mais ou menos, e se lhe deu favor el-rey de Tidore e se despois caregaram a dita naao; e doutras cousas. Asy mesmo trabalhares de vos emformar e saber se, durante o dito tempo, os que foram na dita nao Trymdade se descobryram allgumas ylhas outras, e quaes sam, e em que parajem, e que acharam nelas; e da des- posiçam delias, e que fizeram e que pasaram com a gemte delas. Asy mesmo se emformara que tamtos cristãos ficaram nas ditas ilhas de Tidore e guardadas mercadarias e cravo que ally ficou, e do que a dita naao trazia, e quem e quamtos eram e como se chamavam e de que companhia; e se depois foram presos por portugeses, ou homde os levaram, e se lhes tomaram o dito cravo e que fizeram dele; e de tudo o que lhe soçedeo, porque nos diseram caa que o caregaram em quatro jumcos e o trouxeram a Malaca e a Cochym e a Cananor, e ally o vemderam a mouros de Cambaya; e çerta parte dele se trouxe a Por- 308
  • tugal e o demais se vendeo em Malaca, a preço de trinta " cruzados o quymtal. Asy mesmo se emformara em que ano e porque tempo os ditos portugeses tomaram a dita naao Trymdade, e os que nela hiam, e homde os levaram, e as mercadorias, cobre e vermelham; e outras cousas que lhe tomaram, e mais ho dito cravo; e que lhe fizeram, e tudo o que lhe tomaram, e por cujo mandado, e quem era ho capitam delles. Asy mesmo procurara de saber e enformar-se-ha se Johão Seram, noso pyloto, e outros que foram presos nas ylhas de Cebruu, da dita armara que levou Magalhaes, se sam vivos, ou em que poder sam; e se estiverem vivos, trabalhay muito pelos resgatar com as mercadorias que levardes, ou, ao menos, falar com allgum deles e com as gemtes das ditas ylhas e terra domde estiveram, para nos poderem trazer novas de tudo. Asy, porque somos enformados que hos ditos portu- geses them huma fortaleza em huma das ditas ilhas, nosas, de Maluco, // enformar-se-ha que fortaleza he, e em que (7 v.j lugar esta, e quem a fez e por cujo mamdado; e que gemte e que recado esta nella, e que outras cousas ha nella; e se a fizeram comtra vomtade del-rey ou senhor da dita ylha. Asy mesmo ha-de saber e enformar-se-ha que fizeram os ditos portugeses da naao Trymdade, despois que a tomaram e descaregaram; e se a deixaram perder, des- pois que a tiveram descaregada; e toda a fazenda e apa- relhos e artelharia e cousas que nela avia; e se tomaram da dita ylha de Tidor as armas e artelharia e amcoras e aparelhos e outras cousas nosas, que la aviam ficado da dita ncsa armada, comtra vomtade do dito rey. 29 — xxx. 3 09
  • Outrosy trabalhara com gramde cuidado e diligemçia de tomar noticia e saber que ylhas e terras ahy na co- marca das ylhas de Maluco, e se ha nelas ouro e prata ou pedras preçiosas ou perloas, e outras cousas, e mer- cadorias de valor, para se poder comtratar por nosa parte; e asy nas outras ylhas e terras que na derrota de nosa navegaçam achardes; e resgatarão todalas cousas de resgate que leva na dita caravella; e trara larga enfor- mação de todo o que na dita viagem e torna viagem achar de ilhas e terras, pomdo muy espeçificadamente o que for cada huma, e que resgate a nelas, e em que parajem estam. Porque somos enformados que, novemta legoas da na- vegaçam das ditas nosas ylhas de Maluco, esta huma ylha de Bamda, domde vem a noz e maça, enformar-se-ha quamto ha das ditas ylhas a Çumdaa, e se naçe ahy pimenta nela e gemgivre, e para homde se leva e navega, e se estam nela os portugeses, e se tem nella feyto for- taleza, e de tudo o mais que nela ouver. Asy mesmo mamdamos que sayba, e que se enforme, que fizeram os portugeses da casa que em a dita ilha de Tidore tiveram e fizeram nosa gem te que nela ficou da dita armada de Magalhães. E feito tudo açima dito, e dadas as ditas cartas nosas aos ditos nosos capitães, e cobradas suas respostas 30 e tomada a mais enformação e relaçam que posa ser, e caregar a dita caravela, ou caravelas, de espeçiaria e outras mercadorias de valor daquelas partes, se vira com ela a çidade de Panana, domde te guora ha estado Pedro Ayres de Avila, por noso governador, e de novo avemos mamdado, por noso governador, a Pero 31 de los Rios, porque aly pareçe milhor porto e mais a preposyto, e 30 — rp<*«; 31 —p°. 3IO
  • mais estreita terra para o pasar ao Mar do Norte, e daly traze-lo para qua. A qual comprirão, com muita diligemçia e fedelidade, como a cousa ho requere. Feito32 em Granada a 20 de Maio de 526 anos. El-rey. Por mandado 33 de Sua Magestade. Francisco 34 de los Covos a feez. // Estas provisões, senhor, vieram aquy ther em huma caravella, em que vinha por capitam hum fidallguo, por nome Sayvedra, paremte do dito Dom Fernando Cortes, o qual da ylha de Tidore partio, por duas vezes, e levava de todo enformaçam; e desta deradeira vez moreo no ca- minho, e a caravela tornou aribar a estas ylhas, por nam saber tomar a mouçam; a qual deu a costa, como aquy chegou; e todos os avisos que nela hiam tornaram a poder dos castelhanos, os quaes romperam todos, como para aquy vieram desta vez que os trouxe de Geylolo. E desta maneira me parece que ho Emperador não sera sabedor, te o presemte, do que he acomteçido. E por estes castelhanos lhe não levarem nenhuma nova destes, e de como ja sabem ho caminho que ham-de fazer daquy para Nova Espanha, como estou enformado de hum piloto, deles, de toda sua navegação, me pareçeo muito voso serviço eles nam hirem ao reyno, senam dete- -los em Malaca e na Imdia, e ally, segundo vam mal despostos e a terra não sadia, lhes tomara conta com em- trega. E sobre isto escrevo a Dom Paulo e a Dom Este- vam, a Malaca, como açima digo a Vosa Alteza. Deste piloto castelhano tenho ávido huma carta sua, muy boaa, em que me mostrou o caminho que fizeram da Nova Espanha ate quy, e daquy te homde tornaram arribar; e o caminho que agora detremynavam de fazer, 52 — feo; 33 —m. 3 i i
  • o qual era o verdadeiro, e que não podiam erar a Nova Espanha. E amtre outras cousas muytas, que me dise, certeficou que huma caravella, por nome Patay, que vi- nha em companhia de Frey Garcia de Loaysa, se perdera das naaos, e fora ther a Nova Espanha, e dera recado a Fernamdo Cortes como esta armada vinha para Maluco, pelo qual loguo fizera prestes esta caravela e qisera mam- dar este Patay em sua companhia; e porque tinha neçe- sidade de coregimento, o leixou com detreminação de fazer tres velas outras e com o Patay as mandar nesta demanda; e que para isto tinham mamdado a Castela por amcoras e amaras e toda a monyção e aparelho para as aparelhar e coreger, e que lhe pareçia que, todavia, aviam de vyr e eles por elas esperavam. E porque nam sey o que nysto soçedera, o escrevo asy a Vosa Alteza, meudamente, por me pareçer comprir a voso serviço e sobre ele prover como lhe mylhor pareçer. Senhor, Desde o dia que aquy chegey, ate feitura desta, tive tamto que fazer, asy com fazer guera e asemtar pazes com a gemte destas ylhas, e com o coregimento da torre, que huma so ora não tenho de repouso do trabalho do mar, pelo que foy muyto. E alem disto, trouxe do governador para tirar humas imqirições, asy sobre a morte de Gonçalo Pereira, que mataram aquy os mouros, a traiçam, para saber se lhe deu allgum portuges allguma endustria e azo para yso. E outra sobre a morte de Quechil de Aroez, que foy re- gedor desta ylha de que Vosa Alteza sera ja la enfor- mado; e asy da tomada dos castelhanos e do que lhe tomaram, e esta he por parte de Vosa Alteza; e outra sobre estas deferenças da capytanya, damtre Vicente de 312
  • Afonseqa 35 e Luis de Amdrade, allcaide-mor, e outras cousas que se neste meyo amtremetem, que sam de muita apresaam e fadiga, por o tempo ser muito curto da mou- çam com que se ham-de partir; as quaes mamdo çeradas e aseladas ao governador. Achey a gemte desta terra tam prove que, para reme- dear alguma parte de sua proveza, mandey deitar pre- gam que a quem fose devido / / mantimento do tempo de (8 v.i Amtonio de Bryto e de Dom Garcia e de Dom Jorge e de Gonçalo Pereira e de Vicente de Afonseqa, te minha che- gada, o fose reçeber a feitoria. E acudiram tamtos que, a poucas, me não levaram toda a fazenda, porque aviam muitos homes que lhes era devido dous anos de manti- mento, e os quaes pagey todos, sem ser devido, ate o presente, nenhum mes; e agora lhes pago, mes entrado, mes saido; de maneira que, senhor, que amda a gemte muy comtente e satisfeita; e nos mantimentos que eram atras devidos seryam seiscentos 38 ou setecentos cruzados. O mantimento, senhor, que se paga a esta gemte he tam pouco que he muy gram cargo de comçiençia; e isto fizeram-no os capitães que para esta fortaleza vieram, os quaes vinham pela Jaoaa, domde traziam muyta moeda, que se chama caixas, a qual he de metal; e tamto que a -esta fortaleza chegavam, se avia poucas .caixas, faziam o cruzado de seisçeemtas; e se eram muytas, faziam o cruzado a mil caixas. Asy que cada hum, como vinha e trazia estas caixas, ou as nam trazia, fazia este cruzado a sua vomtade; e tudo isto maal pelos proves; e do tempo de Dom Jorge para qua, he posto o cruzado a oitocentas 37 caixas, e o mantimento em quynhemtos reis, por mes, o qual se lhe torna em bos trezemtos reis, porque quamdo a roupa vaal 35 — v"' da°3eqa; 36 —bjC; 37 —biijc. SIS
  • muito na praça, nam lhe pagam senão caixas; e quando vaale pouco, pagam-lhe em roupa, e asy lazera o pecador. E eu também me queixo a Vosa Alteza dos seisçeemtos mil reis que me faz de merçe, de meu hordenado, cada ano, que se me tornam, a este respeito, em quatroçentos mil reis, os quaes me faleçem, e aimda busco dinheiro emprestado para soster esta pobre gem te, e asy vosos criados, como homes de bem a que dou de comer, e se lho não dese, não se poderyam soster, com ho mantimento que lhe asy he paguo. A Vosa Alteza tenho escrito como trazia em minha companhia a Francisco de Taide, meu paremte, para vos servir de capitão-mor do mar de Maluco, o qual mataram em Dachem; e asy trazia outros fidallgos e cavaleiros e vosos criados, amtre os quaes he hum, que se chama Diogo " Sardinha, voso moço da camara, e ha dez anos que vos serve nestas partes; o qual veio com o comde allmiramte, meu cunhado e foy seu pagem e paremte, e sempre vos sérvio em todas vosas armadas que se na Imdia fezeram, em seu tempo; homde foy ferido e aleijado em hum braço, em voso serviço, o qual, por me pareçer que vos saberya bem servir em todo aquilo que lhe fose emca- regado, lhe dey a capitanya-mor do mar, em nome de Vosa Alteza, e asy como a trazia Francisco de Taide. Isto, senhor, por eu ther nele comfiamça que vos ha-de saber servir, como de feito, te o presente, o tem feito. Foy comigo a Geylolo e lhe dey a dianteira, na qual lhe juro em boa verdade que se mostrou para tamto nela, e deu de sy tarn boa comta que he nele muy bem empre- gado o tal cargo. E despois que desta fortaleza me torney de Geylolo, o leyxey la, com trimta homens, para recolher a gemte 38 - di* 3 '4
  • que ao lugar se tornava e acabar de asentar a paaz que eu leyxava começada com el-rey de Geylolo e toda a terra; o qual todo fez como eu desejava; he mereçedor de toda merçe que lhe Vosa Alteza fizer. Eu, senhor, tenho detremynado de o mamdar no bre- gamtym Sam Jeronimo, que da Imdia trouxe, o qual tenho varado para coreger de novo, a descobrir hos ma- caçares que estam amtre Borneo e estas ylhas //de Ma- i» r.j luco, no meio deste arçipeligo; nos quaes tenho por nova que ha ouro neles, e que vam ter a Malaca; e allguns navios pequenos sotis desta ylha vam la ther e trazem allgum ouro para resgatar. E por tamto, mando ora a Diogo Sardinha no bregamtim, com duas ou tre cora-coras da terra, que se remam muyto e sam navios muy sotis, para quamdo lhe comprir, o rebocarem, e para o meterem em algum rio e o tirarem, por ser muito grande, e asy para hirem diamte, descobrymdo allguns baixos. O qual bregantim ha-de levar roupa de Vosa Alteza, para se resgatar por ouro. E se me Deus faz tamta merçe que este bregamtim descubra domde vem este ouro, eu espero Nele que Vosa Altza tenha pouca neçesidade de cravo. E nam cuyde, senhor, que isto lhe escrevo por allbi- " tre, senão por emformaçam çerta, porque estes mouros desta terra toda mo tem çerteficado, e dizem que muy perto daquy ha esta terra, domde este ouro vem, que seram sesemta ou oytenta legoas, e aquy vem ther huma gemte que se chama Celebes, que comfina com este Ma- caçar; e vem aquy em par aos pequeos, nesta terra. E eu deles tenho ja ávido hum piloto mouro, e outro portuges, que amda ja por eles em hum navio, e he homem que da diso boa rezam. E asy tenho também detreminado, logo apos este, fazer outro bregamtim prestes, para mamdar descobrir 5*5
  • este caminho daquy para Malaca, que he por fora da ylha de Burneo, da bamda do Sul; o qual camynho me them dito mouros que se poderá descobrir e que se na- vega; o qual he tam perto que, em hum mes, yram a Malaca; e em outro, viram. E asy, senhor, acabado de coreger hum jumco que aquy achey, o qual tinha Vicente de Afonsequa mam- dado a Malaca e tornou arribar, para este ano que vem ho mamdar, com todo o cravo que poder, a Malaca, o qual he de Vosa Alteza os dous terços, de que he capitão Lionel de Lyma. E asy também começo de coreger hum navio, que aquy estava ja como cousa perdida, e nam faziam os capitaes comta dele, para o fazer e acreçentar, para o mamdar que amde daquy para Bamda, para trazer provimento para esta fortaleza, se me não vier da Imdia. E nestas cousas trago acupados toda a gemte da for- taleza, carpymteiros, calafates, e não para fazer jumcos para meu proveito; somente trazer o pensamento acupado em como Vosa Alteza seja de mym bem servido em esta terra; e asy espero nele que me fara as merces, segundo meus serviços. Senhor, quamdo fuy a Geylolo, foram em minha com- panhia dous governadores de huma povoaçam das vlhas do Moro; a qual povoaçam sera de çynquo ou seis mil almas, os quaes eram sogeitos a este rey de Ternate. E como viram a estroiçam que eu neles fiz, com tam pouca jemte, e de como trouxera os castelhanos e sua artelharia a esta fortaleza, e vemdo cam posamte Vosa Alteza era, e desejamdo serem seus; e despois de eu ser tornado a esta fortaleza, me diseram que queriam ser cristãos, com tamto que os libertase del-rey de Ternate e de todos os seus, que hos tiranyzavam e lhes tomavam todo quamto tinham. E eu lhes respomdy, se eles quysesem ser cristãos, eu 316 I
  • os faria isemtos del-rey de Ternate e dos seus e que, alem diso, lhe daria allgumas cousas, em nome de Vosa Alteza ao qual rey de Ternate mandey chamar, e lhe dey comta de tudo; e me respondeo que era diso comtemte, pedimdo-me que a ele nem aos seus nam is v.] a - // premase a leixarem sua ley. E eu fuy diso com- temte. Aos quaes governadores fiz logo cristãos, com muyta homra, damdo-lhe allguma cousa; e asy se fizeram outros sete ou oyto, que em sua companhia vinham, dizemdo-me que, como tornasem para seus lugares, e os seus os visem tornados cristãos, logo todos o aviam de ser e que por amor diso se queriam logo partir para os com- verter. E mamdey com eles dous portugeses que sabiam a terra e tinham com eles amizade. Aos quaes mamdey que visem a desposiçam da terra, e asy a deles, e se era sua vomtade tornarem-se a nosa fee. E quamdo, senhor, os la viram e feitos cristãos, foy tamanho prazer em toda a terra que mais não podia ser, e todos, a huma mãao, se fizeram logo cristãos, se la este- vera algum creligo. E com este fervor diseram logo outros dous gover- " nadores que queriam vyr a esta fortaleza a se fazerem christãos, os quaes se meteram em hum navio de remos que chamam cora-coras e meteram a outros dous seus filhos em outra cora-cora, para também serem cristãos. E com ho tempo muyto que acharam, tornaram arribar, e os filhos vieram aquy ther, os quaes tenho em meu poder, e espero poios paes, para os fazer cristãos, com muyta homra, por serem homes muy primçipaaes. E como estes forem feitos cristãos, mando logo o Padre Vigário, com dez ou doze portugeses espymgardeiros, com hum par de berços, a fazerem huma igreja, a sua 3 1 7
  • custa, que eles mamdam pedir que querem fazer. E espero em Deus, segundo eles dizem, que se ha-de fazer a mor parte da gemte do Moro cristãa. E estes que agora vem, para o serem, sam governa- dores de outra povoaçam de outras seis ou sete mil almas; e todos os outros que ficam, como virem a estes feitos cristãos, farão o mesmo, o que sera gramde serviço de Deus e bem de Vosa Alteza, porque, senhor, os mora- dores destas ylhas de Moro, quamdo se agora virem que sam isemtos dos reis de Maluco e que não sam tirany- zados e que them o seu, sem lho tomarem, todos se ham-de fazer cristãos. E aquy nestas ylhas de Moro ha muyto mantimento de arroz, carnes, domde todas estas ylhas se forneçem de mantimentos, e agora, com serem cristãos, todo o ham-de trazer a vemder a esta fortaleza, que he o mor bem que pode ser. E asy tem muitas cora-coras prestes para o que comprir a bem desta fortaleza. E como, senhor, estoutros de todas estas ylhas, a saber: desta de Ternate, Tidore, Geylolo, Moutel, Ma- quiem, Cayoa, Bacham e Abocanora com todo o Sabugo, virem a todos hos de Moro, ou a mor parte deles, feitos cristãos e ysemtos de tamta tiranya, como lhe estes reis faziam, e que eles tomam a sua patola (3) e o seu syno (?) e molheres e filhas, todos os lavradores que tem o cravo em sua mão, e pescadores e jemte baixa, por se verem fora de tamanha apresam, se farão cristãos. E esto com eu ther posamça de duzentos 39 homes, que eu mando pedir ao governador e vedor da fazenda, a Imdia, o que muy levemente podem fazer, pera com eles, afora a jemte que me ora fica em esta fortaleza, amdar (3) Pano rico de seda, geralmente estampado. 39 — ijc. 3 18
  • sojugamdo todos estes reis e senhores, e ser Vosa Alteza senhor de toda esta terra; o que muy levemente se pode fazer, com me mamdarem da Imdia estes homes que mamdo pedir. Porque, senhor, como eu tivese a jemte meuda de minha mão, a qual logo teria, pelas rezões que açima digo a Vosa Alteza, e com eu amdar, com estes duzentos homens, comqistamdo, todos estoutros reis e senhores eram desposados da terra, e mamda-los homde nunqua mais pareçesem, porque nestas ylhas he escusado aver nelas rey, nem pesoa poderosa, porque como os hy ouver, sempre ham-de hordenar, cada dia, traições como o fa- zem. E nunqua, senhor, vy ntaior erro como os capitães pasados fizeram, que era trabalharem tamto poios faze- rem poderosos e lhes ganharem, com tamta morte de homens portugeses, tamto senhorio de terras e de rique- zas, com tamto gasto de artelharya, polvora e fazenda de Vosa Alteza, sem aver diso hum vymtem de proveyto; mas amtes, com ysto, como se eles acham tam poderosos e ricos, // trabalham o posyvel de nos deitarem da terra no r i e nos matarem, como, cada hora, hordenam. E pois isto, senhor, esta tam craro e manifesto, se me eu vise com esta gemte que peço, eu porya estas " ylhas pelo chaam, e as faria todas de Vosa Alteza, e remderem todas para ele; porque, a huns, com amor e dadivas, e a outros, com themor, me nam ficaria rey nem poderoso na terra (e mais com ter o Moro por de Vosa Alteza e feito cristão, para me daly vir todo o mantimento) e me atrevia fazer desta terra outro Por- tugal Novo. Porque crea Vosa Alteza que lhe tenho tomado bem os pullsos, e sey a fortaleza e fraqueza que ha na terra, e a tenho tam asentada dyamte dos olhos que he mais façil de fazer do que aquy escrevo a Vosa Alteza. 3 i ç
  • E como eu ysto tivese feito, e tirada esta ma casta fora, ficava com os lavradores que me aviam de dar todo o que davam aos reis e regedores; e com o que me pagasem teria Vosa Alteza tamto cravo que, alem do que fose para a Imdia, para a carga do reino, lhe ficava cravo para pagar todalas despesas que se em Maluco fizesem, e lhe sobejava muito dinheiro; e todo o outro cravo que hos lavradores, a sua mão, ham, o voso feitor o compraria pelos preços que estam asemtados e despois vemde-lo a quem quysese. E as ylhas que tal cravo nam them daryam a Vosa Alteza muytas mantimentos de arroz, carnes e pescados para provimento de sua for- taleza e para a gemte que nela estevese. E para ysto avia de poor em cada ylha hum regedor de minha mão, para me recolher tudo isto e fazer todo o que compryse ao voso serviço. E com isto, senhor, seria Vosa Alteza, emtam, senhor de todolos Macaçares e Celebes, domde vem todo este ouro e Vosa Alteza averia muito enfymdo. E tudo, se- nhor, se pode fazer, sem gastar nem avemturar Vosa Alteza nenhuma cousa. E asy o escrevo ao senhor gover- nador e vedor da fazemda da Imdia, se enformem de todo e nelo provejam, como virem que he mais voso serviço. E ysto, senhor, faço, porque ja quamdo ouver re- posta desta me ha-de achar na Imdia, e quamdo o não qiserem fazer, não me ficara daquy mais que não ser negrigemte em avisar a Vosa Alteza o que tamto a seu serviço compre. E por fym de tudo, quero a Vosa Alteza dar comta meudamente como mercador e que tam adiamte them estas cousas bem vistas, como detremyno de fazer o que diguo desta terra para a asemtar e trazer toda ao serviço de Vosa Alteza e ser senhor delia e o que nysto ganha ou perde. 320
  • Vosa Allteza sabera que nesta ylha de Ternate avera nela quatro mil 40 moradores amtre os quaaes avera mil homes de pelleja, e amtre estes mil homes avera doze prymcipaees, a saber: el-rey, que sera de hidade de dezassete 42 ate dezoito 43 anos, e dous moços, seus irmãos bastardos; hum, mais velho; e o outro, mais moço; e o governador que governa e mamda a terra, e o seu mordomo-mor, que amtre eles se chama pynati, que lhe arrecada todas suas remdas e them cargo de lhe hordenar o comer, e come per sua mãao; e dous outros que them cargo da justiça e de ouvirem as partes; e outros tres ou quatro primcipaes. E esta ylha daa de tres em tres anos, quamdo daa a novidade do cravo, mil quynhemtos bares, que fazem qymtaes, pelo peso velho desta feitoria **, a rezam de çimqo quintais 45 huma arroba " vinte cinco " arrates, oyto mil duzemtos e deez quymtaes — 8210 quymtaes. E he este rey tam tirano que, se o quiser aver todo para sy, todo lho tomara, dizemdo que todos sam seus escra- vos e todo o que eles them he seu. A ylha de Tidore terá perto de tres mil moradores, e avera nela trezentos 4 homens de peleja; e o rey sera de ydade de vinte * ate vinte quatro anos, e avera outras sete ou oyto cabeças, da propria maneira de Ternate; e avera oytoçeemtos ate mil bares, que fazem ao mesmo respeito — 4.400 quintaes // Moutel nam teem nenhum rey, senam governadores que governam a terra; e avera outros dez ou doze prym- cipaes, e da quatroçeemtos bares, e tera duzentos homes de peleja; que fazem ao respeito — dous mil setecentos e quarenta 52 quintaes. 40-iuj: 41-m.ore»; 42-xbij; 43-xbiij; 44-fr.bi; 45-qe; 46-air.»- 47-xxb; 48-iijc; 49-xx; 50-xxiiij; 51-qea; 52-ijbijor. 3 2 1 INSULÍNDIA , I — 21
  • Maqiem nam them, outrosy, rey senam governadores que governam a terra; e hum deles queria ja ser cristão; e por nam ther posamça, o leixo de fazer; e terá tres mil5S homes, e avera quatrocentos 54 homes de peleya; e tera outros sete ou oyto principaes; e da tamto cravo como esta ylha de Ternate, que são mil e quinhentos 5 bares que fazem — 5210 qymtaes. Bacham tera dous mil homens de peleja, e de pesca- dores e gemte baixa, a saber: cento e cincoenta 6 ou duzentos " homes de peleja, em que emtram outros sete ou oyto principaes; e o rey sera de hidade de trinta e cinco 5", ate quoremta anos, e daa trezemtos bares, que fazem a este respeito — 1640 quintais. Geilollo tera tamta gemte como Ternate; o rey sera de hidade de dez anos, e muyto doemte; them hum go- vernador que por sua morte lhe vem o reyno por dereito, que sera homem de trinta " anos; tera dez ou doze prim- cipaes. Nesta ylha nam ha cravo, somente muytos im- fimdos mantimentos, como ja a Vosa Alteza tenho dito. Gabocanora e o Sabugo e outros lugares, seus comar- qães, que hobedeçem ao rey de Ternate, com estoutras terras todas, afora Geylollo, tera cimqo ou seis mil vezi- nhos; amtre eles nam ahy rey, senão governadores; e a maior parte se tornaram cristãos, se me visem com po- sança; nem ha cravo, somemte muytos imfimdos mam- timentos. O Moro he huma tera firme gramde, de muita gemte e de muitos imfimdos mamtimentos. Neste nam fallo, porque, com ajuda de Deus, sera logo todo de Vosa Alteza, por caso dos muytos cristãaos que nela se fazem. As quaes ylhas açima, tiramdo ho Moro, teram, todas, 53 —fíl; S4 — iiijc; 55-Tb0: 56 — JC1; 57-ij»; 58-xxxb; 59-xxx. 5 2 2
  • vinte mil 60 homes, amtre os quaees, seram os dois mil " de peleja, e todos os outros lavradores, pescadores e jemte baixa que vivem do que trabalham por suas mãos. Avera de cravo em todas estas ilhas quatro mil qui- nhentos bares — 4500 bares, que fazem quymtaes vinte quatro mil seiscentos e quarenta " — 24640 quintaes. Este cravo dam estas ylhas, de tres em tres annos que vem a novidade; verdade he que em cada hum ano daa como rabisco, e bem se apanharam, em todas estas ylhas, setesemtos ou oitocentos " bares de cravo. E se eu, senhor, tivese estes duzentos ,4 homes que digo a Vosa Alteza, e mamdo pedir ao governador e vedor da fazemda a Imdia, afora os que comigo tenho, eu faria que nesta terra nam ficase rey, nem regedor, nem pesoa 65 poderosa; somemte os lavradores, pesca- dores e toda outra jemte meuda; e faria que todo rem- dese para Sua Alteza, e que lhe não desem nem pagasem, em cada novidade, de tres em tres anos, mais que mil ou mil e quinhentos 66 bares de cravo, que he muito menos do que pagam aos reis de Maluco, sem custarem a Vosa Alteza hum soo vymtem, mo dariam e lhes pareçeria que me não davaam nada, a ora que hos não tiranizava, como os reis lhes fazem. E o que ficase o teriam seguro em sua mão. Entam o feitor que aquy estevese bo comprarya, sem lhe nymgem hir a mão, todo, pera // Vosa Alteza tu r.i todo, e o mamdaria a feitoria de Cochim, que a faria muito rica. E com o cravo que de qua fose, de tres em tres annos, que seryam dous mil bares, que lhe custariam la postos, dous mil pardaos, empregados na Imdia e la vemdidos a dez, doze pardaos, o qymtal, e a quatorze "ea quinze ", 60..T.x*;„61~:y; 62 —xxiiijbjcr; 63 — biijc; 64 —ijc; 65 — p.»; 66 —jbc- 0 / — Xlllj; 68—• XD. ' 323
  • se farya çemto vymte mil cruzados; e que fizesem de custo dez mil cruzados, ganharia Vosa Alteza çeem mil cruzados largos. E isto com o voso feitor comprar estes dous mil bares de cravo a jemte que ho recolhe, o que poderya muy bem faazer, porque como eu tivese a terra por minha, e Vosa Alteza fose senhor delia, tudo isto poso fazer. E pera Vosa Alteza agora veer o que ganha ou perde com lhe darem de trebuto mil ate mil duzentos " bares, que sam seis mil quymtaes de cravo, que he easy nada para o que dam aos reis destas partes, lhe quero dar bem meuda conta. A saber: seis mil 70 quintais. Destes mando para a carga que ha-de-hyr para o reyno mil qymtaes — iooo 71 qymtaes. E ficam-me cimqo mil. Destes mamdo para a Imdia, para me vyr o emprego, tres mil qymtaes, que, vemdidos em Goa a doze, a treze e a quatorze pardaos, o quymtaal, sam quaremta mil pardaos. E estes, senhor, não vos fazem de custo nenhuma cousa, porque daquy vam no voso jumeo a Imdia; os quais quaremta mil pardaos, empre- gados na índia, dobro aquy pelos preços da terra tres vezes o dinheiro 72 que sam — cento e vinte mil 75 cru- zados; e que nam sejam mais de çeem mil, e asy me ficam aimda na mãao dous mil quymtaes, para mamdar a Malaqua e a Bamda, para me vyr retorno para esta fortaleza, ate que me venha o da Imdia. E desta maneira esta sempre esta terra abasteçida e a jemte satisfeita, com lhes pagar seus soldos e manti- mentos, cada ano, e alguma largeza a fazerem dous bares de cravo. E para Vosa Alteza ver o que lhe esta fortaleza fara 69—IU°; 70—bl; 71 —J; 72 —dr.®: 7J—cxx.
  • de custo, em cada hum anno, lho quero especificadamente dizer. Faz esta fortaleza, de custo, a Vosa Alteza, cada ano, sete 74 contos " setecentos cincoenta mil 78 reis com os duzentos 77 homes que me mamdarem da Imdia, quamdo poder; que são, com os que qua tenho, trezentos e cin- coenta 78 homes, por esta maneira: A saber: seiscentos mil " reis de meu hordenado. E cem mil reis 80 ao feitor e alcaide-mor. E cem mil reis a dous escrivães de feitoria. E cem mil reis ao capitão da galeota e bregantym. E cem mil reis ao capitão mor do mar. E cincoenta mil 81 reis ao almoxarife e escrivaam. E quatro 82 contos e duzentos mil 83 reis de soldos, que se pagaryam cada anno a trezentos e cincoenta ho- mens, emtramdo aquy os duzentos, quamdo poder, com hordenados de carpimteiros ", calafates, ferreiros 85, cria- dos de Vosa Alteza, e homes de armas, huns por outros, a mil reis, por mes, que fazem trezentos e cincoenta mil reis de custo, por mes, que sam os ditos — 4.200.000 reis. E dois contos e cem mil reis que se pagam de man- timento a dita jemte, a rezam de quinhentos reis, por mes. E quatrocentos mil reis de custo dos alijiazes, de com- pras de azeites e breu, que se aquy compra, cada hum ano, com outras despesas. Asy que soma o que Vosa Alteza faz de custo, cada anno, dezanove mil trezentos setenta e cinco cruzados; e tem pagos todos os solldos e mamtimentos e custos, e ganha noventa 88 ou cem mil cruzados e ficam aimda os dous mil quymtaes, para comportamento da feitoria, // m *.) 74 — bij; 75 — ctosj 76 — bijol; 77 — ij«; 78 — UJ«1; 79-^bjo; 80—07 81—1; 82 — iiij; 83 — ijo; 84 — carpimts''; 85 — ferso; 86 —lr. 3 2 5
  • que sempre ham-de estar de resguardo e os um mil quym- taes que mamdo, para a carga, para o reyno. Asy, se- nhor, que esto he o que Vosa Alteza ganha, se me man- darem estes duzentos homes que digo; que ha pela Imdia muytos que folgaram muito darem-lhes esta saida para estas partes, porque, como eu tivesse estes trezentos e cincoenta homes comigo, eu desaposaria a terra, que nela não ouvese rey nem senhor, e todos faria cristãos e rem- deria muito imfyndo dinheiro a Vosa Alteza. Afora muitos imfymdos mantimentos que os outros lugares, que nam them cravo me dariam, para pagar a jemte seu manti- mento " nelas, o qual não lhe custava, senhor, tão so- mente huma cousa; e aliem disto, teria Vosa Alteza todo o ouro destes Macaçares e Celebes, que era outra riqueza muito grande. E porque isto tenho visto e alcamçado com os olhos da alma, o escrevo asy meudamente a Vosa Alteza, para que saiba quamto a seu serviço isto emporta, e que lho manyfesto para, se me manda estes homes, fazer a Vosa Alteza ganhar tudo isto e mais ser senhor de toda a terra. E se os outros capitaes pasados disto lhe não qiseram dar conta, seria por quererem amtes fazer e olharem por seu proveito que nam pelo de Vosa Alteza; e eu iso não o ey-de fazer, amtes aquerir e trazer tudo a seu serviço, porque com lhe isto fazer, sey que me fara as merçes ygoaes a meus serviços. Senhor, Aquy, em esta fortaleza .achey muitos homees do tempo de Amtonio de Brito e de Dom Garcia e allguns 87 — m.to. 326
  • outros que foram em todos os unyões (sic) que se em esta fortaleza fizeram, asy do premdimento de Dom Jorge e de Dom Garçia, como em serem cullpados em mortes de homes; os quaes, por serem muy prejudiçiaes ao voso serviço e a bem desta fortaleza, os premudey, como fra- des, e os mamdo a Imdia, e la amdaram; e com os que trouxe e com outros bos homes que aquy achey fico paçifico em esta fortaleza, asy com os portugeses, como com os mouros, de que dou muitas graças a Deus. E crea Vosa Alteza que me nam ham-de tomar, a lume de palhas, senão sempre muyto apercebido, como compre a voso serviço. E a Imdia escrevo ao governador as cullpas de cada hum, para por elas fazer o que for justiça. E creya Vosa Alteza que amdavam estes portugeses tam asolutos, nesta terra, que nam conheçiam a rey nem a capitam, porque fazia, cada hum, o que querya; e avia aquy mais mortes de ornes e mais omiziados que em Mertolla, porque, asy como fizeram a Vicente de Afonseqa capitam, ficaram tam soberbos que, cada dia, queryam fazer outro; e a ele o tiveram, depois de ser feyto capitão e obedeçido, dahy a sete ou oyto meses, desaposado da capitanya. E por aquy vera Vosa Alteza de que calidade he Ma- luco; e estavam tão danados que veo aquy ther hum homem, a fazer seu proveito, e era criado de Vosa Alteza; saltaram com ele huuns poucos de vilãos desta maa terra, e meteram-lhe em cabeça porque se não punha a gastar e aquerir homes, que os tivese também seria capitam, como fora Vicente de Afonsequa; e meteo-se ho coytado, com cobiça de ser capitam, a gastar o seu; e depois que lhe tiveram comido yso que tinha, asoviaram-lhe as bo- tas. E todos estes homes sam de novidades, e por yso os permudey, como frades, e os mamdo, como açima digo, a Imdia. 327
  • Ja digo a Vosa Alteza que o cravo nam ha quem o faça, porque eles them a todos estes mouros atravam- cados, com roupas suas, e emtam dam-lhe hum pano de... (4) por hum baar, a pagar para o anno; e o mouro he tam cobiçoso como eles; tomam-lho e depois nam lho podem pagar. E com ysto, se vem a mym, para que lho faça pagar, a mor valia, e se lho não faço pagar, asy como eles querem, dizem que nam ha tam mao homem no mundo; e o mouro, se lho faço pagar, quer-se alevamtar e fo- gem, por nam pagar. E asy, senhor, que me vejo, cada dia, na moor fadiga do mundo, com estes portugeses e mouros, porque, huuns e os outros, he a pior gemte que topey em minha vida. E agora, para se acabar de todo comçertar, foy com a vimda destes jumcos, que tenho com eles a mor fadiga, [12 r.i e ey-de ter muytos mais com a tornar a por no primeiro / / preço, porque estes mouros estam tam allevamtados, em tamta maneira, com ho preço que pollo de Vosa Allteza não sey como se ha-de fazer cravo nenhum; porque os chetiis que vieram em estes jumcos deixaram esta terra tam farta da roupa que çertefico a Vosa Alteza que tenho bem que fazer, com estes mouros, sobre yso, porque me dizem: como tomarão huma patola gramde, para da- rem por ella quatro bares de cravo, se acham quem lhe dee por hum baar, quatro? E sobre ysto dizem que não querem amtes apanhar cravo e querem cortar as arvores. Ora veja Vosa Alteza de que maneira esta terra para fazer cravo, se nam amdar com estes mouros as lamça- das. E para ysto e ho mais que açima digo, mando pedir (4) Palavra que não pudemos ler, por se encontrar roto o do- cumento. 328
  • a gemte que digo a Vosa Alteza, porque se me viram poderoso, nam farão nada, mas amtes farey deles o que quyser. Verdade he, senhor, que eu hos tenho muyto atromen- tados, e porem eu mamdo daquy muitos portugeses, por serem muy prejudiçiaes nesta terra; e por yso, fico hum pouco symgello. E isto, para ofemder, que para me de- femder, sobeja-me gemte. E porem, senhor, não he re- zam que homem esteja ca a defemder-se, senão a fazer- -lhe fazer, por força, o que não quiserem, de grado, pois ha-de ser para o serviço de Vosa Alteza e não para os meus jumcos e navios. Senhor, quando fuy a Geylolo e trouxe os castelhanos, trouxe, outrosy, a esta fortaleza, esta artelharia que Vosa Alteza vera, a saber: dous tiros de metaal, que os cas- telhanos tinham por seus; e hum pasa-muro de ferro, e dous alcabuzes pequenos de ferro; e huma bombarda roqueira 88, com duas camaras, e duas camaras de pasa- -muros. Esta artelharia de ferro tomey aos mouros em Gey- lolo, que eles tinham em seu poder, que lhe os caste- lhanos tinham vemdido, muito tempo ha, segundo tenho por certa enformaçam. E asy também lhe tomey estoutra artelharia abaixo, que elles tomaram na fusta, a saber: quatro berços de metal e seis berços de ferro, e hum falcão de ferro; a qual artelharia trouxe comigo a esta fortaleza e asy aos castelhanos, como ja tenho dito a Vosa Alteza. 88 — roq.". 3 29
  • Senhor, Nesta fortaleza vos fica servyndo ese Diogo Sardynha, que he capitam-mor do mar, voso criado; e o feitor Fer- não de Alvarez 8®, que he homem que vos serve muy bem em seu ofiçio e he para muyto; e asy Jorge de Tayde, meu paremte; mamçebo e bem desejoso de vos servir; e asy Beltesar Vogado o qual vos tem muy bem servido; e asy João ,0 de Canho, cavaleiro muy hom- rado, a quem dey a capitanya do navio que ha-de amdar daquy para Bamda; e ainda que não he seu criado, seu pay e irmãos e paremtes o foram; Antonio de Teives, moço da camara da rainha, homem mançebo e de bem; e asy Amtonio Pereira, de quem ja a Vosa Alteza fiz mençam, homem fidalgo e que vos serve muy bem; e asy Jorge de Brito, mançebo e fidalgo que, houtrosy, he muy espeçial mançebo e desejoso de vos servir; e Afonso Figueira e Belchior do Çouto, escrivães de feitoria; os quais todos, huns e outros, sam muy bos homes. Afora outros que nesta fortaleza estão, que não nomeo a Vosa Alteza, por não ser prolixo, e sem onyões nem nenhuma das velhacarias dos outros pasados. Espero em Deus que com estes todos e comigo Vosa Alteza tenha esta fortaleza tam segura de mouros e de castelhanos, para lhe nunqua empeçerem, ou todos mor- rermos na demanda. De todos estes serviços, que tenho feito a Vosa Alteza e espero sempre fazer, ao presemte, lhe não peço nenhuma merçe; somente te-los e sabe-los e serem lembrados para, quando neses reynos for e me vyr, mas fazer muitas, que ele muy bem sabe fazer a quem o bem serve; e eu nesa esperança vivo. 89 — dalluz; 90 — J.o; 81 — fig.™. 3 30
  • Somente me fara merçe de hum allvara para huma nao, quando me desta Ymdia for, não vaa por pasa- geyro. E com esta, ao presemte, me comtemtarey. Npso Senhor seu real estado com muitos dias de vida. Desta sua fortaleza de Maluco, a 20 dias // de Fe- <12 v.i vereiro de mil quynemtos e trimta e quatro annos. as. Trystam de Tayde 33 *
  • 38 INFORMAÇÃO A EL-REI SOBRE O COMERCIO DA PIMENTA E DO CRAVO s. d. ANTT: CVR: N.° 95. Cópia em quatro folhas, todas escritas com letra clara e bem legível. a) Tempo em que as naus deviam navegar. b) Abusos a eliminar no comércio da pimenta. c) Novas sugestões apresentadas. d) Informações sobre o comércio das Molucas. Banda e Sofala. Enformação da pimenta. Por me pareçer neçesareo ao serviço de Vosa Alteza, pois de oyto anos que ha, que na índia sirvo, me não fiquou mais que saber as cousas de voso serviço, para laa usar diso como usey, quis fazer lembrança do que tanto importa; que não poso crer que Vosa Alteza deyxa de prover, senão ha nimguoa de lembrados que as saiba, porque os mais nesas partes trabalham por saber as que lhes trazem proveito, e do de Vosa Alteza se não curão. E cousa muy forte pareçe aver trinta e tantos anos que Vosa Alteza senhorea a Imdia, e o primcipal fruito que deela espera he a pimenta, e não aver quem fale a verdade do que se deve prover, para a negoçeação deela ser de maneira que as naos partam de Cochim a tempo que pasem seguras, e nenhuma nao inverne nem ande 3 3 2
  • tanto tempo ao pairo, onde se gastão muito mais que com muitas viagens. Porque, partindo de Cochim, de 15 ate 20 de De- zembro, tomão Moçambique, onde se enchem de agoa, para que, não açertamdo Santa Elena, posão pasar sem risquo de sede; o que não podem fazer, partimdo a 20 de Janeiro e dy para çima, como partem; que não podem vir senão por fora da ilha de Sam Lourenço, e não podem fazer agoada senão na ilha de Santa Elena, que he huma boya no maar, que os mais herrão; e erramdo-se, bem craro estaa quoão em perigo de sede chegarão a Portugal, so com agoa que tomarão na Imdia. Eu ousaria afirmar que as naaos que não pareçem se perderão todas ha sede sem aver quem as marease. Partimdo estas naaos da Imdia, de 15 ate 20 de De- zembro, vem a Moçambique a 15 ate 20 de Janeiro, que he o tempo em que o sol anda nos signos da banda do Sul, e pasão o Cabo ate meado Fevereiro, e alcanção o sol, antes que chegue ha linha, e pasando o sol a linha, também a pasão as naaos. E sendo desta maneira, aalem de serem seguras de se perderem ha sede, também se segurão das tormentas, porque nese tempo vem sempre por verão, e nestoutro em que partem, por inverno. // u A rezão porque as naaos partem tão tarde da Imdia hee pela pimenta não estar aviada, por falta de dinheiro, as mores das vezes; e pelo credito que o feitor, que a negoçea e feytoriza, não tem, e lho tira todo o vedor 1 da fazenda, porque para o negoçio da cargua ele não tem nenhuma inteligençiá, e para o estorvo dela, muita; pois avendo este feytor de ser o que tenha este credito, e o que aja de levar as graças (?) para o bem fazer, tem por imconvenientes o vedor da fazenda e o tisoureiro; 1 — yoT, 3 3 3
  • que hum lhe tira o poder e o outro, o dinheiro 3 para o pagamento. De maneira que o mercador da pimenta, por ver que o que lha compra lha não pode pagar, pois não tem poder nem dinheiro para iso, não largua a pimenta da mãao, sem o dinheiro na outra. O que não seria, se este feytor tevese o dinheiro sem hy aver tesoureiro nem vedor da fazenda, porque teria tal credito que, sem di- nheiro, quando o ahy não ouvese, encheria as casas de pimenta, como fez Lopo de Almeida o anno que Pero 3 Vaaz foy a Ormuz, que meteo na casa 8400 quintais * de pimenta, os mais deles fiados, soo com fiquar aquele ano soo, sem vedor da fazenda. Esta pimenta he colhida toda poios cristãos da terra, e eles mesmos a vem vender ao peso, porque cairão no ganho que os mercadores mouros e judeus de Cochim com eles ganhavão, que mandavão suas naaos a Cam- baya carregar de algodões e roupas grosas, que davão aos colhedores da pimenta por ela, e vendião-na a Vosa Alteza por cruzados, e ja agora não ha destes mercadores quem venda pimenta, senão os mesmos que a colhem e dous ou tres judeus. E asy os judeus, como os cristãos, se o feytor tever em sua mão o meneo de tudo, asy do poder como do dinheiro, tudo quanto quiser achara fiado, asy a pimenta como tudo o mais neçesareo aos almazems, 12 r-i para o aviamento da cargua e partida das naaos çedo. // E pois se escolhe hum vedor da fazenda para ter poder de fazer deela o que quiser, sem lhe ninguém pedir conta, muito mais se devia escolher hum feitor para esta fey- toria, sem lhe porem nenhum sobre oso 5 que lhe aja * de tirar credito. E pois se manda Vicente 7 Pegado a Çofala e Moçambique para experiência, nisto que mais importa, se avia de espirmentar o que fumdiria, esco- 2 — dr°; 3 — po; 4 —qz; 5 — sobroeo; 6 — lhaja; 7 — V»«. 3 3 4
  • lhendo hum homem zeloso do serviço de Vosa Alteza, sem cobiça e favoreçido, para que perdese o cuidado do proveito com a esperança da merçe. E não lhe avia de ser dado este carguo em satisfação, senão para nele me- recer; nem por tempo çerto, mas emquanto fezer o que deve, porque credito he o prinçipal que se nisto requere, e tiramdo huns e metemdo outros, não o pode hy aver. Este feitor pode ser alcaide-moor e tesoureiro, e com iso se poupa 250 mil reis ", cadà ano, de alcaide-moor e tesoureiro, e seu esprivão, e o ordenado de vedor da fa- zenda, porque, quamdo o Vosa Alteza la ouvese de ter, avia de ser como regedor * numa quomarqua, que andase pelas fortalezas provendo nas fazendas, e não em Co- chym, onde causa os inconvenientes que diguo. E ficaria asy tudo em tal ordem que Vosa Alteza fose servido, de maneira que este feytor, com pender tudo sobre ele e com saber que as graças do que bem fezer hão-de ser suas, tera muita estopa para calafetar, e muito breu e azeite 10 para brear; tera muitos arcos de ferro para as pipas, e muitas, feytas e corrigidas; e tera muita pimenta na casa e fora dela prestes, para, quando as naaos che- garem, não aver mais que avia-las em quatro dias: o que tudo não avia agora em Cochim, quando parti para Dio, que nem a taforea se podia aviar para hir pela canela a Çeilão. E ordenamdo Vosa Alteza isto, desta maneira, e posto que o não ordene, he cousa muy neçesarea daar regimento aos capitães das naaos, que não tomem Goa em nenhum caso e se vão a Cochim tomar a cargua; e tomando Goa, não estem nela mais de oyto ate dez dias, porque, por venderem melhor suas fazendas, gastão o tempo da car- . gua, e não ha quem lhes vaa ha mão, / / porque todos 12 *•' 8 — rs; 9 —ror; 10 —ar". 3 3 5
  • tem que vemder, e aalem de se perder o tempo da cargua, se danefiqua Cochim, de maneira que não ha quem nele tenha nada de seu, porque, daneficamdo-se a terra, se daneficam os moradores que soião emprestar o dinheiro para a pimenta, o que os de Goa nunqua fezerão, e em Cochim se podem vender estas fazendas como em Goa sempre foy. Ysto he quanto ha pimenta, e quoamto ha pouqua neçesidade que Vosa Alteza tem de capitão-moor do maar, na Imdia, e do ordenado que leva, e navegarem laa galees, nem fazerem-se bergamtis, e no gasto deles, e do que se podia poupar, com a guerra ser melhor feyta, semdo Vosa Alteza servido, darei largua emformação. Emformação das Ilhas de Maluquo. A novidade do cravo, nas ilhas de Maluquo, he de tres anos, e avera de novidade, em todas elas, 4.000 baares ao mais, que nunqua ouve, ate o ano de 34, e antes que se acreçemtase o peso, em tempo de Dom Gar- Çia, que o pos em tres quintais e tres arrobas e dezoito 11 arráteis, que dantes eram menos, e agora he jaa de cinco quintais e huma arroba e vinte cinco 11 arrateis do peso velho, e do peso de agora avera de 3.000 ate 3.500 bares. Nesta comarqua e paragem destas ilhas ha muitas outras delas, a legoa e a mea legoa, que tem cravo, a saber: Ternate tem huma ilha pequena, ao norte de sy, que chamão Hire, que tem cravo; e outra ante sy e Tidore, que chamão Maytara, que tem cravo; e outra ante Tidore e Moutel, que também tem cravo. E soya ser asentado o preço do cravo na terra, com os portu- 11— xbiij; 12 —xxb. 336
  • gueses, em Ternate, a dous cruzados, posto na feytoria; e em algumas destas ilhas soya a valer, o cravo, //a par- 13 r.i dao e a cruzado, em tamgas, ou roupas, ou caixas da Jaava; e por aver agora muitos mercadores se perverteo o preço, porque comprão huns por çima doutros. Poder-se-hia correger e emmendar, vedamdo e mam- dando Vosa Alteza que se não compre nenhum cravo, senão por mão do feytor, que o deve recolher em sy e a ele devião de requerer os mercadores que de fora vye- rem, portugeses e mouros, que lho venda, os quais lhe darão por ele as mercadorias de roupas e caixas que valem na terra, e ele, a eles, o cravo, em pagamento. E loguo, duma mão para outra, ganhara o feytor o dobro nesta maneira, a saber: compra o feitor o baar a dous cruzados, pelas ditas roupas, em seus preços, e neles lhe dão loguo, os mercadores, a quatro por baar, e não lhes dara o feytor tamto que mais lhe não levem e folguem de lhe tomar, por não andarem de ilha em ilha, que mais despemdem niso; e o feytor não faz nenhuma despesa, porque, estamdo isto em sua mão, tirar-lho-hião ha feytoria. Não se lançar mão por cousa tão crara hee porque os capitãies e ofiçiais se afastão de cousa çerta e trabalharão sempre por emcobrir isto, para emlear e emborilhar, de maneira que se aproveitem na inçerteza, e para com- prarem e tomarem, ha sua vontade, e o doarem como lhes bem pareçer, porque estamdo liquido e craro, quamdo lhes tomão a conta, não podem fazer o que cum- pre a seus proveytos, e asy vão emcobrimdo huns aos outros, asy os de Maluquo como de Malaqua. Começa a moução em Outubro e dura o apanhar sete meses. Pera atravesar e apanhar e comprar toda esta fazenda na moução para Vosa Alteza avera mester tres jumquos de gramdura de 1.300 baar es, e cada jumquo desta car- 3 37 INflJLÍNDIA, I — 22
  • gua avera mester dois mil e quinhentos w cruzados de empreguo, afora os gastos de esteyras e carregar e outros u v.] comçertos. // De empreguo de 5.000 cruzados em chaul ou Cambaia valera em Maluquo mais do dobro, polas quais, himdo a Maluquo a salvamento, em roupas sorteadas, se comprara toda a novidade do cravo de toda a moução, não havemdo outro comprador senão o feytor de Vosa Alteza. E avemdo isto de ser, não se hão-de pagar os mantimentos ha gemte em roupas, porque asy de ramada avate, de maneira que valeo jaa laa tam barata como em Chaul. E se ouver hum soo mercador na ilha, temdo as mercadorias em abas- tança sorteadas, todo o cravo de todas as outras lhe virão aly vender, queremdo o feytor fazer verdade e não o estorvamdo os capitais. Nos dous anos em que não ha novidade avera, de rabisquo, çem baares, pouco mais e menos, segundo a novidade das mouções, porque quamdo a moução he gramde, o rabisquo he gramde, e quamdo he pequena, pequeno. Emformação das Ilhas de Bamda. As ilhas de Banda onde naçe a nooz e maaça são çim- quo, como as de Maluquo, e também de arredor destas ha outras perto e lomge; e não naçe a nooz e maaça mais que nestas çimquo. Na ilha de Bamda, onde Vosa Alteza tem o padrão, que he a moor e melhor, avera, em cada hum ano, 1560 baares de noz e maça, huns anos por outros, a qual ilha tem em si estes lugares que vemdem, em cada hum ano, o que se segue, a saber: Leitatão, onde esta o padrão, remde 60 baares; Lontor remde 400 1 j — Ijb°. 3 38
  • bares; Pombel, 150; Burite, 60; Amar, 80; Vaer, 300; a ilha de Neyrão, com suas alldeas, remde 150; a ilha de Reçamgim, 6o; soma ao todo 1560 baares; os pesos de Bamda são iguais dos de Maluquo e são alguma cousa mores, 40 ou 50 cates. O baar da maaça he asentado com os bamdaneses a vinte oito 14 bretamgins comuns, papas (?) e o baar da noz, a quatro bretangins, // e cada quatro bretangins M r.i valerão laa hum cruzado; e desta maneira vai o baar da noz hum cruzado, e o baar da maça, sete cruzados; e lamçamdo meudamente a comta, acho que o quintal da nooz custa em Bamda, pelos preços das roupas em Cam- baia, trimta reis. Ora veja Vosa Alteza tão gramdes pro- veitos sonegados, e quamto proveito deles poderia vir, e como se poderia escusar mamdar Vosa Alteza de qua dinheiro para a cargua das naaos, gramjeamdo-se as cousas da Imdia como cumpre. Emformação cLe Çofala e Moçambique. As mercadorias em Çafala e Moçambique he cousa vergonhosa serem da maneira que são, com tão pouquo proveito de Vosa Alteza, porque a faraçola (1) de comtas vai em Çofala 60 mitiquais (2), e ha no bar 20 faraçolas, o qual baar custa na India, ha moor valia, 18 ate 20 par- daos, e faz-se com seis mil reis, que o baar custa 1200 mitiquais, e a faraçola das contas amarelas e azues vai (1) Peso antigo, variando, segundo as localidades, entre 8 e n quilos. (2) Moeda usada na África e no Oriente, de valor variável tam- bém. 14 — zxbiij 3 39
  • a 40, 45 mitiquais; e na Imdia custão a 12, 13 par- daos, e o baar he das mesmas 20 faraçolas; e o calaim custa, o quintal, na Imdia, 20, por pardaos, quamdo tem boom preço e em Çofala vai 150 mitiquais e tern hum mitical 467 reis, e na India val 500 reis. Val hum bretamgil patane (3) azul, dos somenos, dous mitiquais e hum quarto, e na Imdia val huma tam- gua, que são 60 reis, e os sabones, (?) dous pardaos, e na India custão mea tamgua; e as tradas (?) valem na Imdia tamgua e mea e em Çofala quatro miticais e meo; e os dotes (4) valem na Imdia huma tamgua, e em Çofala tres miticais; os mantazes gramdes valem na Imdia huma tangua e em Çofala 13 mitiquais, as quais mercadorias valem em toda a costa, tiramdo Moçambique, muito mais que em Çofala, porque os mercadores que as em Çofala comprão, as comprão para nelas ganhar, e em Cuama |4 v.] tem muito moor valia. // O baar de marfim val em Çofala, a troquo destas mer- cadorias, a 35 miticais; e na India val a 120 pardaos, os quais 35 miticais se comthem em 14 bretangins, que va- lem na Imdia sete tamgas, que são 420 reis. E este mar- fym se toma por hum peso de pedra que em cada baar creçe huma faraçola muito largua. E de tudo isto não ha Vosa Alteza mais que o marfym, que pode remder, na índia, dez mil cruzados; e quamdo mais se mamda são 120 baares, que pela comta verdadeira custa, em Çofala, pelos preços das roupas em Cambaia, 120 cru- zados; e o navio dotado leva sempre tres mil e quinhentos, e quatro mil cruzados de empreguo, que vemdido, este empreguo, pelos preços que digo, bem se pode ver o que (3) Provàvelmente tecidos à venda em Patane, porto da Penín- sula de Malaca. (4) Panos brancos em forma de saio. 34O
  • " » remde. Tudo isto apremdy, pelejamdo em serviço de Vosa Alteza, e não mercadejamdo; e o zelo que nisto sempre tive me ensynou as cousas da Imdia, de maneira que destas cousas e do remédio delas poderia daar mais larga emformação. Pelo que peço a Vosa Alteza se queyra emformar de meu serviço, porque a esperança de Am- drey (?) tenho-a posta em Vosta Alteza querer valer da maneira que tenho servido e quamto tenho perdido e gas- tado por servir.
  • 39 OUTRA CARTA DE TRISTÃO DE ATAÍDE A EL-REI D. JOÃO III Malaca, 15 de Novembro de 1537 ANTT: CC-l-60-7. Original em bom estado, com doze folhas, escritas com letra clara e de fácil leitura. Mede 300 x 200 mm. а) O régulo de Geilolo persegue os cristãos, incendiando-lhes e des- truindo-lhes muitos lugares. б) Comportamento digno dos régulos cristãos, D. Luís e D. João. c) Chegada às Molucas de António Galvão e desinteligências com o mesmo. d) Considerações sobre o comércio do cravo. e) Sua viagem para Malaca e ataques dos achens a esta cidade. Senhor, O anno passado escrevy a Vosa Alteza, e lhe dey conta da gerra que socedeo ate o anno de quimhemtos e trinta e seis, e como mandava a Malaqua o capitão- -moor do maar, em hum navio, a pedir socorro. E porque, senhor, depois do anno pasado para aqua, sam socedidas muitas cousas, quero nesta dar meuda comta a Vosa Alteza de tudo, pelo que beyjarey suas reaes mãos quere-las ouvir; que, alem de serem muito 3*2
  • de seu serviço, sam ellas de meu gosto, porque cuydo eu que ho tenho nyso muy bem servido, outrosy, emfor- mado na verdade das cousas de Maluquo, que creo que, pouquas ou nenhumas vezes, os seus capitães, que ate gora aqui esteverão, lhe terão escrito tam especificada- mente como eu, os annos atras, fiz e agora faço; e ysto também, por comprir com o que devo e sam obrygado a Vosa Alteza, me não ficara nenhuma cousa de que lhe não dee comta. Depois, senhor, deste navio partido, me veyo recado que el-rey de Geillolo, com todo o seu poder, e com o ajudarem todos os reis de Maluquo, fora sobre os cris- tãos, e lhe queimou e destroyo muitos lugares; pola qual rezão eles lhe obedecerão, muyto contra sua vontade, e como se mostra pello que fez Dom Luis, regedor de Çu- qalla, do qual eu, depois, darey conta a Vosa Alteza, e do mais que nesta gerra muy bem provarom, sendo tam novos cristãos; aos quaes eu não pude socorrer, por- que o nam soube senam depois de serem perdidos; e emtam, comveyo-me // acudir ao mais necesario, que u eram mantimentos, que desta terra me vinhão; porque, senhor, esta fortaleza nam se pode sostentar sem estes cristãos, que tem muitos mantimentos em suas terras, como ja em outras tenho escripto a Vosa Alteza. Pelo qual estes mouros de Maluquo desejão tamto de trovar este benaficio a Deus e a Vosa Alteza, por terem estes mantimentos em suas terras e, nos, deles comermos. Esta nova de serem perdidos me chegou a vimte de Março, ja depois de serem os navios, que tinha mandado para a Imdia, partidos e fora de mouçam. Fiz, em quatro dias, huma caravella prestes, e a man- dey a Bamda, a pedir socorro; e nela, Dinis de Paiva, voso moço da camara, e que fose por Amboino, com dadivas e recado aos regedores da terra, que fosem se- 3 43
  • guros em nosa amizade, e para que carregase hum navio de mantimentos, que eu ja hy tinha mandado. E que tanto que a Bamda chegase, fizese tornar o navio em que hia o capitão-moor do maar, que levava o cravo de Vosa Alteza, e que o cravo se carregase em huma taforea vosa que anda de Bamda para Malaqua; o qual navio e cara- vella me veeram carregados de mantimentos, a saber: çaguu e arroz, que este he o que ha na terra. E asy me mandou Amrrique Mendez 1 (hum capitam que ahy Dom Estevam mandou fazer fazenda de Vosa Alteza) mil cru- zados de fazenda; socorro de gente me não mandou, por- que me escreveo que ha não tinha. No tempo, senhor, que eu mandey esta caravella a Bamda, me fezerão a gerra, os reis de Maluquo, mais azeda que nunqua, por rezão de terem os cristãos por sy, e lhes parecer que ja delles não podíamos aver ne- nhum mamtimento. A qual eu regesty, e empeso a lhe queimar muitos lugares fortes e de grandes tramqueiras, temdo eu muito pouquos omeens, pellos ter mandado a Bamda, na caravella, e asy em dous navios que deste porto forom para a Imdia, que também os levarom; e estes com que os queimey, muyto doemtes, e camsados de quatorze meses de gerra. E com a muita que lhe fiz, neste tempo, receberom eles muy gramde quebra, e asentey esta ylha de Ternate, e a fiz de pazes, que he a primcipal, e de mais gente, e a mais omrrada, e que fez alevantar todalas outras. E quando asentey esta ylha, traziam eles gramdes 12 r.i armadas e poiavam // em terra, em muitos lugares, para fazerem dano a estes que fyzerom pazes comigo, onde, por vezes, lhe armey cilladas, e lhes matey muita jente, e também trazia e trouve todo este tempo, armada no 1 — médz. 3 44
  • maar, e nestas armadas gastey muito do meu, e mais neste tempo de tamta furtuna e tam cara. Neste tempo, senhor, se ajuntarom todolos reis e se- nhores de Maluquo, e fizerom huma muy grosa armada, omde foy jumto todo este arcepelago, e que seriam dozentas cora-coras sobre o porto de Talamgame, omde surgem os navios, para queimarem huma nao de Vosa Alteza; e pera isto tinham feito muitas jamgadas de madeira muy grosa, com determinação de as abalroarem a nao e lhe porem o fogo (i). E vemdo eu quamto se arrescava em mandar la, por- que me temia de me queimarem a povoação, omde tinha todolos mamtimentos, porque esta sua fortaleza, mal pe- cado quem na fez, nem he para guardar homeens, nem mamtimemtos; que allguma cousa se ella tem bem aca- bada, eu a acabey, como ja em outra tenho escripto a Vosa Alteza. E por ysto me sostive alguns dias que lhe não socorry, e jaa quando vy que tinham muita necesydade delle, aventurey dous bragamtis, omde mandey a Amtonio Pe- reira 2, sobrinho de Diogo 3 Pereira, e Amtonio de Teive, voso moço de camara, e se ajumtarom com outro bra- gamty, que Francisco de Sousa, capitão de vosa nao, tinha em Talamgame; e cometerom a sua armada e a desbaratarom, e queimarom-lhe as jangádas que eles ti- nham para aqueimar a nao, e foy a quebra, que eles receberom, tamanha, vendo-se desbaratados de tam pou- qua armada, que descomcertarom, e cada hum deles se tornou pera sua terra. (i) A falta de acentuação torna esta frase confusa e que por isso aclaramos: «com determinação de as abalroarem à nao, e lhe porem o fogo». 2 — P.™ 3 — D.o. 3 45
  • Tamto, senhor, que me chegarom os navios de Bamda, determyney de destruir el-rey de Geilollo, que era o que nos mais gerra fazia, porque nunqua me esqueceo esta magoa, que era Deus fazer tamanho serviço, como he o que tinha feito, naqueles cristãos, e não no podia fazer, 12 v.i porque sempre trazia armada grosa no mar. E para os / / descuydar, fiz querença que lhes queria queimar Tidor, e para yso fiz prestes huma caravella, e nella mandey a Dinis de Paiva, muy bem artilhada, e asy mandey a Johão da Cunha ao porto de Tabamga, que dese garda aos negros, que ja tinha asentados, desta ylha de Ter- nate, e tinha em Talamgame omeens para guarda da nao de Vosa Alteza e doutras que no porto estavom. E em todos estes lugares tinha repartido sesenta ho- meens, e eu tinha na fortaleza, por todos, maos e boons, cimquoemta. E mamdey a Amtonio Pereira, que era capitão-moor do maar, depois de eu ter mandado Diogo Sardinha para Malaqua, a destruir ho reino de Geillolo, com sesenta homeens fidalgos e cavaleiros, e os primcipaes que na fortaleza havia; o qual destroyo e queimou o seu lugar primcipal, e lhe tomou cora-coras, e o rei fogio para a sera. E eu fiquey na fortaleza e povoação, com trimta homeens, dos mais fraquos e doentes que nelle havia. E isto, senhor, nam tenha Vosa Alteza a mal, avem- turar-se ysto, desta maneira, porque cumpria asy a seu serviço; que se eu ysto nam fezera, e me não aventurara muitas vezes, não nos ouverão tamanho medo, nestas partes de Maluquo, como nos agora hão. E toda esta gerra, senhor, que forom dezoito meses, não foy a minha pousada na torre da menagem, como fazem outros capitães; mas antes, a porta da fortaleza foy minha vivenda, em todo este tempo deste cerquo; omde dormia e dava de comer a muitos fidalgos e criados 3 4<>
  • vosos, e a outros muitos pobres que diso tinham muita necesydade. E ysto, porque na vosa fortaleza não havia nenhuma fazenda, maa nem boa; que, mal pecado, os governa- dores da Imdia prouveem tão bem esta sua fortaleza, que de nenhuma cousa a proveem, nem de gente, nem de fa- zenda; de maneira, senhor, que não fazem comta delia, como que não he vosa, nem custase a Vosa Alteza o que lhe custou. E asy pagey muitos solldos de minha fazemda a ho- meens muito povres, criados vosos; que nenhuma forta- leza a tam apartada de todollas cousas; bem pode Vosa Alteza saber quão bem providos elles serão. Os quaes * me são devidos, e asy me devem mil e seis centos cru- zados que emprestey ao seu feitor, com que mandou bus- car mamtimemtos, naqueles navios que acima digo a Vosa Alteza, que eu mandey buscar; e mais, senhor, me ficou devendo hum anno de meu ordenado. // Acima digo a Vosa Alteza que lhe avia de fazer men- ção dos cristãos. Parece-me que he rezão de tam homrado serviço, e o que se diso fez, nam pase sem dar comta a Vosa Alteza. Sabera, senhor, que o primeiro cristão que se fez se chamava Dom Johão, senhor de hum lugar dos primci- paes do Moro. E ficou-lhe tam homrada opinião deste nome que he tão boom cristão que não deve nada a ne- nhum português. Foy o primeiro cristão sobre que el-rej' de Geillolo foy, e com dadivas e peitas que lhe mandou prometer, o quisera comverter, nunqua o pode mover. Asy, quando vsto vyo el-rey, cometeo-o por muitas partes, com grande armada, por maar, e muita jemte, 4 — i. é. os qnais «solldos». 3 47
  • por terra, por espaço de cimquo ou seis dias; e o cris- tão, com ajuda do Senhor Deus, sempre se defemdeo demtro de suas tramqueiras, com dous portugeses que dahy tinha, em que entrava hum criado meu, muy hom- radamente; de que os mouros se espamtavão, vemdo tam pouquos cristãos poderem-se soster a tamtos mouros. Pos-se entam el-rey a lhe queymar seus arrozaes e seus palmares; quamdo ysto virom, os fraquos emtre- garom-se, por que lhe não fizesem tamto mal, por omde matarom os dous portugeses, em serviço de Deus e de Vosa Alteza; e o Dom Johão, cristão, foy preso e entrege ao rey de Geillolo, o qual elle traz aimda preso, e não no ousa de soltar, e fez outro senhor na terra. E muita parte dos parentes deste Dom Johão, e outros muitos, que são muito boons cristãos, fogiram e povoa- rom a serra, e esperam por socorro, para todos se virem. Pello qual, vendo os outros o dano que se neste pri- meiro lugar e mais homrado fez, se forom entregamdo os pequenos, e os outros mayores se sostinhão alguns dias, porque eram aimda fraquos cristãos e de tam pou- quo tempo feitos; e também o rey, com dadivas que lhe dava, os remdeo a todos. E quem diga a Vosa Alteza que se podiam ajudar huns aos outros, não estavam tam perto que se podesem socorrer. E porque também, emtre estes lugares de cris- tãos, havia outros que eram de mouros e pelejavam com eles; que esta terra de Moro he grande e tem muita gemte, e he em sy muy povoada, por caso dos muitos manti- mentos da mesma terra, que por yso vive tamta jemte nella. Venho, senhor, a Dom Luis que acyma digo a Vosa Alteza, que estava por senhor, naquelle lugar de Çu- 13 T-' qala, // derradeiro de todolos outros que se tomarom. Depois que vio todolos cristãos perdidos, defemdeo-se 348
  • comtra el-rey. E quando vio que se não podia defemder de tamta jemte, e que os seus o desemparavam, dise alto que todos ouviram: que numqua Deus quisese que fose vasallo de nenhum rey mouro, sendo elle vasallo de tarn poderoso rey cristão, que tamtos reinos senhoreava; quanto mais ser vasallo do reizinho de Geillolo, e mais, semdo ele cristão; que nunqua Deus quisese que tomase outra ley; que de cimquemta annos que era, vivera sem- pre na mimtira dos mouros, e que depois fora cristão, e conhecera que a nosa ley era verdade, e a dos mouros, mimtira; e que na ley dos cristãos avia de morrer, elle e seus filhos. Pello qual, se foy logo a sua casa e matou a molher e hum filho seu; e tomou seu fato e dinheiro, e quei- mou-o; e tomou huma corda, para se enforcar. E neste meo tempo acudiram seus parentes e tolheram-lhe que ho nõo fizese. A este tempo era ja el-rey de Geilolo entrado, com toda sua jemte na villa, e como soube que este Dom Luis, senhor deste lugar, isto fizera, mandou-o trazer atado, diamte de sy, para o mamdar matar. Acudiram, entam, os parentes delle, que eram muitos e muito homrados, e pydiram-lho; o qual lho deu, para nam fazer escamdolo na terra. E como se vio solto, to- mou cimquoenta, ou sesenta paremtes seus, dos prim- cipaes, todos cristãos, e foy-se para huma serra alta: e hy fez hum lugar forte, homde esta recolhido, com todos eses cristãos, para se não emtregarem a nenhuns mouros, esperamdo por socorro da fortaleza. E destes, outros mui- tos, que sam fogidos para as serras, e não obedecem a nimgem, senão a Vosa Alteza, e sam muito boons cristãos. E isto certifiquo asy a Vosa Alteza, porque ho tenho muito bem sabido, por pesoas que de la vierom, asy mouros como cristãos. 3 49
  • Comto isto, soo destes dous senhores do Moro, porque ambos fezerom fineza; e os outros, aimda que obedeçam aos reis de Maluquo, não são tornados mouros, que aimda sam todos cristãos; porque os mesmos reis de Maluquo não ousarom de apertar com elles, porque ouverom medo de se despovoar a terra, se os quysesem tornar a fazer mouros; os quaes, huns e outros, estam esperando por cimquoemta ou sesemta portugeses que la vão, para todos [4 r.i se virem para a faldra do mar e povoarem seus lugares. // Polia mouçam de Burneo chegou Amtonio Galvão a esta fortalleza, a qual lhe eu emtregey, tamto que vy sua provisam. Com a jemte que trouxe, e com a que eu qua tinha, asemtou a ilha de Tidor, e como foy em Maluquo e se vio capitão, cousa que a todos os que na Imdia amda- vamos nos fez espamtados de Amtonio Galvão ter forta- leza, quis logo usar comigo, como Dom Jorge com Dom Garcia. Porque soube que eu tinha hum pouquo de cravo pera esas ilhas, mo quis tomar para sy, sem nenhuma justiça nem rezam; que aimda se o quisera tomar para Vosa Alteza, fora gramde remedio para mim, porque bem sey que ho paga, por derradeiro, milhor que nimgem. E para isto, me cometeo com escripturas falsas, e querer-me to- mar meus criados, e nam lhe querer dar licença; e asy, meus amigos, que ha muito tempo que me acompanham e vivem de mim. Crea Vosa Alteza que toda a maneira que Dom Jorge teve com Dom Garçia, queria ter comigo; parece-me que ho trazia, por ytem de la. Z? sobre yso crea Vosa Alteza que me foram feitas tamtas perrarias que, se nam fora tam velho, que muitos, naquella fortaleza, me fezeram fazer algum gramde desatino. Quamdo os homeens de Maluquo virom, asy os que estavam na fortaleza comigo, e os que elle trouxe, fidalgos 3 50
  • e cavaleiros, e toda a outra meuda, que se me fazia tama- nho roubo (como era tomar-me dous mil quimtaes de cravo, que eu tinha feitos com minha fazemda, porque os fiz quamdo na vosa feitoria nam avia fazenda ne- nhuma, maa nem boa, como hacima tenho dito a Vosa Alteza; este cravo fiz, como mercador, porque este favor daes vos aos mercadores que la vão, quando não ha fa- zenda na vosa feytoria; o qual cravo, senhor, eu avia de carregar, nos vosos navios, a meus fretes, e asy pagar- vollos terços, como he costume; e o que me mais ficase, para o voso governador ou vedor da fazenda fazer delle o que lhes bem parecese para voso serviço) eu fuy delles por muitas vezes cometido que ho mamdase caminho da Imdia, que não era para reger, nem governar a forta- leza, e que asy aviam por voso serviço, porque nam era eu soo a quem elle esta sem-rezam fazia; que a merca- dores e ha homeens de armas, a todos, punha o dado (2) na testa. Parece-me, senhor, que // ysto he maa vemtura, que is r> amda nesta vosa fortaleza de Maluquo, nam podemdo de la vir os capitães senão presos, senam eu, que me quis Deus fazer esa merce. O qual cravo fiz eu serviço delle a Vosa Alteza, e diso me deu Mellchior Botelho, voso feytor, huma çertidam em como fiqua reçeitado sobre elle e ja se começava a arrecadar. E asy tenho registada esta certidão, nesta fortaleza de Mallaqua, e dito ao capitão, Dom Estevão da Gama, e ao feitor, que todo o cravo que de Maluquo vier, tomem e arrecadem para Vosa Alteza; se por ven- tura o capitão de Maluquo o quiser mandar escomdido por alguma via, que lhe façam represaria nelle, que he (2) Não encontramos o que venha a querer dizer, precisamente, a expressão por o dado (ou o dedo) ? na testa, embora se perceba a ideia do autor desta carta. 3 5 1
  • ja de Vosa Alteza. E daquy, de Maluquo, escrevo ao ve- dor da fazenda que pode escusar, por estes dous annos, mandar roupa a Maluquo para cravo. Estes serviços, que aquy digo, neste capitólio, a Vosa Alteza, alego por hum dos mores que se lhe fez, a muitos dias, aimda que ho cravo que eu dou a Vosa Alteza seja muito contra minha vomtade; que se mo antonio Galvão nam quisera tomar ,ou lho dera, ou não; e comtudo, eu espero em Deus que Vosa Alteza mo satisfara, com muita homrra e mercee, como elle faz a quem no bem serve. Estive tres annos em Maluquo, e hum soo tive de paz, e os outros dous forom de muita gerra e muito trabalho; o primeiro, com tirar os castilhanos domde estavam e asentar todallas ilhas que estavam, humas, alevamtadas; e outras, meas 5 alevamtadas; humas, obidiciam a Vosa Alteza; e outras, ao Emperador. Mandey a Vosa Alteza, por hum navio em que eu fuy, dozentos e cimquoenta quimtaes de cravo, e não pude mandar mais, neste primeiro anno, porque, de minha chegada a moução que se avião de partir os navios, não avya mais que tres meses, e eu avia de mandar este na- vio, de per força, com o capitão dos castelhanos e os outros primcypaes que com elle avião de vir, porque para yso trazia hum regimento do governador, em que man- dava que viesem neste proprio navio e nesta moução, bem agasalhados e com boom tratamento. E asy lhes foy feito e, por esta rezão, o navio, nesta moução, não pode vir carregado; e também ser o tempo is v.] curto e não aver nenhum // cravo que se apanhase, para poder vir na moução, e la estavam tres navios de merca- dores com muita enfimda fazenda, a que o governador Nuno da Cunha dera leçenças; e eu os fiz vir todos des- 5 — mas. 352
  • carregados, com suas fazendas, porque não danasem a terra, que toda a tinham danada. E posto o cravo a cimquoenta cruzados o bar, ora veja Vosa Alteza como lhe poderia dar o seu, pello seu preço, que he a dous e a tres cruzados. E por esta rezam os mouros da terra o não queriam dar ao voso feitor. Comveo-me entam asy o navio de Vosa Alteza, como todos, manda-los caminho da Imdia, polas rezões que acima digo (3) do regimento do governador, que mandava que em toda a maneira mandase o navio com os caste- lhanos, como polia perda que na terra faziam huns e os outros, e os mouros, como veem muitas embarquações, alevamtam os preços ao cravo. E de tudo isto, senhor, trago meus estromentos para o governador e vedor da fazenda verem como pasa tudo na verdade, tirado por Amtonio Galvão que, nesta parte, e em todo o mais, teve estromentos de meus serviços. Quando veyo o outro anno, os mouros de Maluquo não teverom castelhanos na terra. Todos se liarom e ami- garom contra a fortaleza, como ja tenho escrito a Vosa Alteza, a qual treiçam eu fuy delia sabedor por huns cris- tãos que mo descubriram; mamdei-os presos estes (4) que la são na Imdia; e por esta rezão não pude mamdar o outro anno mais que ho navio de Lionel de Lima, omde mamdey dozemtos e cimquoemta quimtais de cravo, por- que os mouros, pelo alvoroço do allevamtamento e destes outros presos, se alevamtarom com as roupas que tinham nas ilhas e nam me pagarom ese anno mais que trezentos quimtaes e destes tomey cimquoenta para mandar a Bamda provimento desta fortaleza. E quando veyo a moução de Bamda que vem para (3) Em carta do mesmo, de 20 de Fevereiro deste mesmo ano. (4) Estes, não os cristãos, mas sim um régulo de Ternate e seus validos deportados para a Índia. 3 5 3 1NSULÍND1A, I — 23
  • Maluquo, veyo a nao de Vosa Alteza que mandou Pero * Vaaz, que então era vedor da fazenda também negoceada e aparelhada como eles fazem as cousas na Imdia, quando as mandam a estas partes de Maluquo, com quatro mari- nheiros e quatro arabios que a mareasem e sem nenhuns 16 r.i aparelhos de // sobre-salemte para a nao que avia de fazer tamanha viagem. E como he da Imdia a Maluquo, que poem tres annos, e se imverna hum, poem quatro, como esta agora fez; e pois que começo a Vosa Alteza a dar comta desta nao, ela vos custou ao primeiro dinheiro, sem outros gastos em Cochim, doze mill cruzados, feita em Cangranor, domde toda a madeira tem a porta. Fizefom outra de moor carrega que ella, em Cochim, por cimquo ou seis mill cruzados, que foy huma de Diogo 7 Botelho; a qual nao de Vosa Alteza levava hum homem fidalgo, por nome Francisco de Sousa, por ca- pitam, que tinha de ordenado cemto e vimte mill reis, e o feitor tinha setenta; e o escrivão, cimquoemta; e o mestre, sesemta; afora o contra-mestre e marinheiros e arabios, e o piloto que tinha dozentos quimtaes forros. E a nao, senhor, carregou em Maluquo, pello peso da vosa feytoria, setecemtos bares, com ficar eu e todolos omeens sem nenhuns gasalhados e sam tres mill e qui- nhentos quimtaes que he cousa muy vergonhosa; que qualquer jumquo, por muito pequeno e triste que seja, carrega yso, que nam tem custo nem despesa que valha dous çeitins; e esta nao, acabada a jornada, Vosa Alteza sabera o gasto e despesa que lhe fez e o ganho que diso tirou. Estes sam os ganhos que hos vosos vedores da fazenda vos ca sabem dar. E cuido aimda, senhor, que vinha com outros par- 6 —P»; 7 —Di». 3 54
  • tidos dos mercadores que nos faziam a muitos ter gram suspeita; e porem, por nam dizer mal de nimjem, me en- colho e me calo. E torno, senhor, a nao. Tamto que chegou e me mostrou as cartas do gover- nador e vedor da fazenda, logo reparty a roupa por esas ilhas, como he custume, omde reparty trezemtos bares, que sam mil e quinhentos quimtaes, porque começava entam a mouçam ser gramde e nam lhe queria dar toda fazenda que tinha em minha vomtade, porque os conhe- cia, que cada vez se me alevamtavam com ha fazemda e numqua acabam de pagar. E asy também tinha man- dado hum homem de bem, voso criado, ao reyno de Ba- cham, que he huma ilha desviada destas outras, arrecadar mil e dozentos quimtaes de pareas que lhe pus, quando sobre elle fuy; ao qual de toda esta fazenda de Vosa Alteza eu tinha ja recolhida, amtes que // se os negros 16 v.i alevamtasem, como se alevamtarom, mil e dozemtos e setemta quimtaes de cravo. E aquele anno, por ha gera ser gramde, e eu ter pou- qua jemte para mandar nesa nao, detreminey de mandar hum navio que ahy tinha de Vosa Alteza, o qual mandey com seteçemtos e vimte quimtaes de cravo, que nam coube mais nelle, e eu nam tinha outro que mandar, porque me pareçeo que teria o vedor da fazenda "neçysydade delle para carrega dese anno; e o de mais ficou na fortaleza para quando eu agora viese o trazer comigo para com ho demais que podese aver, o qual ouve, depois que asemtey esta ilha de Ternate, e recolhy yso que me ficava de- vemdo, e tudo foy entrege ao feitor que na mesma nao foy, por mandado do vedor da fazenda. E tamto que Amtonio Gallvam foy entrege da sua fortaleza e me eu ouve de vir, levava elle hum navio do governador para minha embarquaçam, boom e estamque, em que me eu poderá embarquar. 3 5 5
  • Nam me quis nelle embarquar, mas amtes tomey por embarquaçam esta nao que ho vedor da fazenda laa man- dou, com aver quatro annos que estava no maar, e no porto nam alargavam mão da bomba, e o masto grande quebrado, e sem velas nem aparelhos que podesem apro- veitar; e com hum piloto muito velho e que muito pou- quo sabia de seu offiçio, com cimquo marinheiros me embarquey nella, com o cravo que lhe tinha ja ávido da fazenda de Vosa Alteza. E asy ha fiz carregar a seu frete a todolos meus ami- gos que commigo de Maluquo vinham e criados e outros que la ficavam; e isto porque me viram nella embarquar e meter também outro pouquo de cravo que me ficou da paaz pasada. Porque também nisto cuido que alego ser- viço a Vosa Alteza, alem de me embarquar nella, como acyma digo, dar-lhe proveito da fazenda de meus amigos e criados e minha. E por me Antonio Galvam por nesta minha partida muitos estrovos, não pude deixar de partir de Maluquo tarde e muito fora de mouçam. 17 r.i E porque trazia o masto gramde // quebrado, nam pude chegar mais que a vista de Bamda e dahy me acal- marem os ponentes, e derom-me os Levantes polia proa; e as corremtes sam aly gramdes que em huma noute me meteram em Amboino e aly, senhor, imverney com muito trabalho e gasto de minha fazenda, asy na jemte que comigo vinha, em lhe dar de comer a minha custa, como na entrada do rio, omde imverney e asy com muitas cora-coras que me demtro meterem, que, se fora imver- nara, perdera-me. Ahy estive tres meses, ate que veyo a mouçam, e dahy me party com ajuda do Senhor Deus, sem nenhum con- traste achar, ate este porto de Malaqua, omde, quando a elle cheguey, quasy todollos meus escravos e de meus 3 56
  • amigos e criados chegarom mortos e doemtes de asos- terem a bomba. Aquy foy logo provida de Dom Estevam da Gama e descarregou e concertou, para a mandar caminho da Im- dia, com todo o cravo que dela trouxe; e asy dos fretes que daquy recebeo, meus e de meos amigos e criados, como acima digo, foram mil quimtaes. Tanto que cheguey a esta fortaleza de Malaqua, dahy a quimze dias, estando huma noute sem sospeita que os Acheens de cento e tamtas legoas, que a daquy a sua terra, viesem quaa, emtrarom huma noute em esta çidade de Malaqua, na povoação dos mouros, que he alem da ponte, e senhorearam-se delia, saqueamdo-a e queimam- do-a, e fazemdo-lhe todo o dano que podiam. Isto seria meado o quarto da modorra. Tamto, senhor, que ouve repique na cidade, acom- panhado de muitos amigos que trouxera de Maluquo, e asy meus criados, me fuy a porta da fortaleza, omde achey o capitam que mandara la alguns homeens e vie- ram feridos e fogindo, de serem os Acheens muitos e eles muito pouquos. Pydy ao capitam, Dom Estevam, que me deixase pasar a ponte com os homeens que eu trazia e com os que elle quisese mandar, o qual elle fez logo, e me deu, per todos, cem omeens, com os quaes pasey a pomte e me fuy chegamdo para eles, que tinham // todalas ruas 17 v.) tomadas. Como fui da outra bamda começarom-me logo a ferir ommens, porque avia muitos freicheiros amtre eles e os demais de erva, os quaes os nosos muito arreçiavam, porque era de noute e nam viam quem os feria. Mandey apagar algumas tochas que comigo levava, porque nos tiravam a elas, em que faziam muito dano; fuy-me asy, senhor, melhorando, comtra suas vomtades, 3 57
  • ate o pelourinho que esta easy no meo da cidade; fuy isto asy cobrando, as vezes por se eles apartarem de mim, por suas vomtades e as vezes em que lhes pes, com algumas espimgardas que comigo levava, que eram muy pouquas e tiravam de maa vontade, que estes portugeses desta terra temem muito estes Acheens, porque, senhor, estes homeens tem ávido muitas vitorias de nos, a saber: Tomarom-nos huma fortaleza com muitos homeens e muita artelharia, e asy matarom Jorge de Brito, que para Maluquo hia com muitos homeens. E depois nos tomarom huma galee que também ya para Maluquo, com novemta homens, e com muita artelharia; e o galeam que daqui mandou Garçia de Saa com oytenta omens e muita arte- lharia; e asy hum bragamtim noso, afora outros navios de mercadores portugeses, que crea Vosa Alteza que anda- vam tam vitoriosos contra nos que nam pode mais ser que partirem eles com esta opiniam de sua terra a to- marem esta fortaleza e cidade de Malaqua, a qual entra- rom senhores delia da maneira que atras digo a Vosa Al- teza. E torno, senhor, ao meu proposito. Fuy-me senhoreando desta cidade, ate o pelourinho, que he easy no meo dela, omde recolhy muitos portu- geses mercadores que na cidade dos mouros viviam e omeens e molheres e muitos myninos da terra, e asy lhes defendy que lhes nam queimasem nem saqueasem a ci- dade. E isto, senhor, nam se podia fazer tam leve que nam correse muito risquo de minha pesoa e de meos ami- gos e criados e de toda a outra jemte. Estamdo eu neste lugar descamsamdo, pareceo-lhe aos [8 r.i mouros que eu que // nam ousava dar neles, vierom-se chegamdo para mim com suas bamderas e tambores e gri- tas muy allvoroçadas; conveyo-me, entam, senhor dar neles. Certafiquo a Vosa Alteza que de cem omeens, pou- 3 58
  • quo mais ou menos, que aly podiam ser, que depois que forom com os mouros envoltos, nam éramos cimquoemta; e deste encontro que com eles tive os fiz arredar tamto que cobrey mais da metade da cidade, omde recolhy muita mais jemte da terra de que eles ja eram senhores, omde ferirom alguns homeens de bem que comigo eram. E a mim, senhor, me derom huma frechada de peçonha em huma perna. E ysto seria ja na entrada do quarto de alva; terey a frecha, ficou-me la o ferro emervado, omde tive dores e alguns desmayos, porque a erva lavrava e também andava camsado. Ahy fuy requerido de meus amigos que me fose para a fortaleza a curar. Não no quis fazer, porque se o fizera também se perdera. Como o capitam soube que eu estava desta maneira, mandou hum pouquo de pao que eles aqui tem, que he contra esta peçonha, o qual eu comi e beby de sua augoa e me achei logo milhor, quanto a disposiçam do corpo, mas as dores da perna, nam. Deixei-me estar aly ate que amanheceo; nam quis pasar adiante, porque a nosa jemte estava ferida e ame- dromtada; que nos, senhor, somos maos hommens de pelejar de noute, que não pelejam senam os homens de muita vergonha. E porque he rezam que faça mençam dos homeens que aqui forom comigo, asy de Maluquo como de Malaqua o farey, a saber: Antonio Pereira \ sobrinho de Diogo * Pereira; e Jorge de Taide, meu parente, e Antonio de Terves, voço moso de camara; e Jorge de Brito, filho de Manuel de Brito; e Amdre Pinto, criado do mestre de Sam Tiago, e Dinis de // Paiva, voço moço de ca- mara; e Gaspar Pimheiro 10, pagem do conde de Penella, 8 —Pr»; 9 —D»; 10 —Pinh".
  • e Luis de Braga, voso moço de camara e Joham Cer- veira cavaleiro homrado e outrosy Baltesar Mendez e Belchior do Couto, criado da rainha, e Johão da Sil- veira, voso criado. E porque estes e outros, que deixo aqui de nomear a Vosa Alteza, trouxe de Maluquo comigo, e nestes tra- balhos me acompanharom, omde muitos deles forom fe- ridos, e asy fallo a Vosa Alteza em meus criados, porque sam eles omeens que em todas estas guerras, asy de Ma- luquo, como nestas, forom feridos, omde me huns e outros acudiram nesta briga, muitas vezes, muito bem. E os de Malaqua eram estes: Dom Francisco de Lima, filho de D. Diogo de Lima, e Francisco Brandam, filho de Johão Brandam. Certafico a Vosa Alteza que provou tam bem que nam sera rezam que, aimda que seja moço, deixa-lo de gavar a Vosa Alteza, omde foy também fe- rido; e Diogo da Cunha, omem fidalgo, e Francisco Bo- carro, voso feitor, e Baltezar Leyte, cavaleiro de vosa casa e rico 12 omem; e Gaspar Zeymoteo e Rui Coelho, vosos criados, e outros muitos omeens de bem que, por nam ser prolyxo, nam nomeo aqui. Atras digo a Vosa Alteza que me deixey estar aly, ate que amanheceo; asy o fiz, e como foy easy manhã, mandou-me Dom Estevam hum recado que nam pelejase com eles, ate que nam fose comigo; o qual logo veyo com toda a gente que tinha, deixamdo capitãis repartidos em lugares de sua cidadella, porque nos temíamos que, como fose manhã, que estes mouros nos acometesem por muitas partes. E tamto que a mim chegou, com toda a jente que trazia, eu lhe pedy que tomase elle guardar sua fortaleza e que me dese alguma daquella jente e que eu 11 — Cervr»: 12— r«. 560
  • daria // naqueles mouros, e que, com ajuda de Deus, os 19 r.i desbarataria. Elie, senhor, me falou como filho de seu pai, e me respondeo que lhe pesava muito de lhe dizer tal, e que me doya pouquo de sua homra, e que seu pay nam no criara para outras bodas senam para aquellas; e que me pedia que tomase trim ta homeens, quaes eu quysese, e me apartase por outra rua e que ele yria com toda jente pola primcipal, e eu asy o fiz. Os mouros eram muitos, e ambas estas ruas tinham ocupadas, e polia domde me coube a sorte matamos mui- tos deles e os fizemos ir fogimdo ate omde estava toda * a outra força da jemte, que era a tranqueira do bamdara, domde huns e outros, todos aly forom recolhidos, e aly se fizerom fortes. E por duas vezes com eles arremety, nos ferirom muita gente, porque eles estavam demtro da tramqueira e nos de fora, descubertos, e faziam-nos muito mal, e nos, pouquo a eles. Pello qual, senhor, eu dise ao capitam que estes mouros estavam muito fortes e muito descamsados, como omeens que nos tinham feyto mal, e nos, pouquo a eles. E tinham-nos huma porta aberta e outra fechada, como quem nos nam tinham em comta, e huma bandeira de huma bamda e outra da outra, com suas trombetas e tambores, como omeens que determinavam de aly se fa- zerem fortes, ate lhe de suas terras vir socorro, ou nos levasem nas mãos. E então dise ao capitão que se fose pola outra bamda, porque lhes parecese aos mouros que nos que hos que- ríamos cometer por outras partes, e que, deste jeyto, afrouxariam hum pouquo da porta e que eu entraria com eles na tramqueira ou morreria; que a cousa, senhor, nam estava para menos, porque ho sol do dia era ja quente e os omens, do grão trabalho da noute pasada, ?ói
  • cansados e com muito medo que com suas frechas de erva is »■] tinham, se yão muitos para a fortaleza, // deles feridos, e outros, nam. Como o capitão ysto, que lhe eu dise, pareceo bem e asy a eses omeens fydalgos e cavaleiros que com ele esta- vam, foy-os logo a cometer pola outra bamda e mandou 4 que muitos homens fecasem comigo, o qual eles tal nam fizeram, porque viam e conheciam quão craro estava o perigo em entrar por aly com eles, e parece-me a falar verdade com Vosa Alteza, que seriam boons vinte e cimquo ou vimte e seis purtugeses que com vergonha, semdo eles omeens de bem, me nam quiserom desem- parar. E tanto que eu vy abalar o capitam pela outra bamda, os cometemos, pola porta, tam rijamente que, por mais registencia que a yso nos os mouros poseram, entramos de roldão com eles, omde logo a porta derrubamos hum gollpe dos primcipaes, e eu demtro com eles; eram os mouros tamtos e nos tam pouquos que nam avia quem olhase hum pelo outro; que ate meus criados e meus amigos, nenhum me pode mais ver nem eu a eles. Aqui, senher, me derom outra ferida na outra perna, de huma azagaya que me atravessou, de huma banda a outra, e aqui recrecerom tantos mouros sobre mim que, se me nam acudiram alguns portugueses, me perdera. E todavia, com ajuda do Senhor Deus, remediamos tam- bém estes pouquos que aly éramos, que de mortos e fo- gidos desembargamos a tramqueira, e say pela outra porta que say ao campo, que, com favor da vitoria que nos Deus dava, nam me alembravam feridas, e mais em taes lugares, pergumtando pelo capitão, porque o não via, e me pareceo que seria tão mal acompanhado como eu, e perguntava, senhor, por elle, porque me doya a carne. 4
  • Tanto que ho achey vivo e são, cora tanta omra em voso serviço ganhada, nam foy pequeno meu parzer // no r.i que certafiquo a Vosa Alteza que, se o neste dia vira, lhe fizera muita merçee. Daly, senhor, fomos emburelhados com os mouros, ja então muitos, que nos ajumtamos e outros que nos recre- cerom da fortaleza com ha vitoria sabida, matamdo e ferimdo neles pelo campo fora, que ja então todos nos yão fogindo, omde eses espimgardeiros matarom e ferirom muitos deles, ate os lamçarmos fora de todo campo e embrenhados pollo mato se forom enibarquar pelos seus navios que estavam dahy lomge. Morreram aqui, senhor, nesta batalha, asy na tram- queira como na cidade, no campo, muita soma delles e alguns capitães e seus primcipaes que demtro na tram- queria moreram; o numero de quamtos sam Dom Este- vam escrevera a Vosa Alteza. Pelo qual, senhor, como eu vy tudo desembargado, dey muitas graças a Noso Senhor que asy o remediara e me vim para minha casa a curar, omde estive em huma cama, dous meses, tão mal, por muitas vezes, que fuy comfesado e comungado e feito autos de morto. Prouve a Noso Senhor de me dar saúde, aimda que nam de todo, porque a peçonha imda em mim lavra; vou-me, com tudo, achamdo bem, corri muitas mezinhas que para yso tomo, que me daqui dam os negros desta terra. E como atras digo que em ambas as pernas fuy ferido, nam fiquey mamquo delas, louvores a Noso Se- nhor, nem menos me farey para lhe por yso pedir merçee, como muitos sabem fazer. Estes mouros, senhor, forom a sua terra, destroçados e desbaratados, com perdas de muitos capitães e doutros primcipaes. Quando os el-rey vio, ouve diso muito pesar e mandou que nenhuns desembarquasem dos seus navios. 3à 3
  • no v.] E soube que hum capitam / / dos seus o nam fezera muito bem, logo o mandou matar, porque esta he a maneira que este rey traz com sua jemte; ou hão-de vencer, ou hão-de morrer; os que escapam, mata-os. Fornecep outra armada de mais jente e mais navios, e mandou-os que tornasem logo, outra vez, ha tomar Malaqua, pello qual tornarom. Eu ja, senhor, andava em pee, aimda muito mal tra- tado, porque quem desta erva he ferido, em lomgo tempo se vai achando bom e com boons regimentos, se logo não morre. E como soube que tornavam, me alevamtey, o milhor que pude, e fuy pera o que ho capitão tinha ordenado em suas tramqueiras, as quaes achey ja ordenadas com seus capitães, fidalgos e cavaleiros repartidos em suas estamcias, para que, se os mouros viesem, achasem regis- temcia; os quaes mouros, depois que chegarom de fronte desta cidade, fizerom huma estancia em terra, omde esti- veram dous dias fornecemdo-se; pello qual o capitão fez comselho com estes fidalgos e cavaleiros que aqui tinha que era o que lhe pareçia que devia de fazer na vimda daqueles mouros. Ouve muitos pareceres; o meu foy que aqueles mou- ros não tornavam aly sem esperança de grão socorro; que também me pareçia que aviam de ter alguma liamça com estes outros reis, a saber: de Gamtana, e de Am- dargiam, e doutros que ha por aquy de redor; e que por yso, antes que se mais ajuntasem, que nos aviamos de por a todo o risquo e desbaratar estes primeiros; que se estes daqui fosem desbaratados, que eram os primcipaes, que averia grande quebra entre eles e desconcertariam do que traziam determinado. Eu me oferecy, haim da que andava da maneira que 564
  • atras digo a Vosa Alteza, ir com o capitão, se la quesese ir, ou sem ele, se me jemte pera yso quisese dar, a pelejar com eles, porque a sua tramqueira que eles faziam / / era ui r.j a vista da nosa. Ouve niso desvairados pareceres, de maneira que, se- nhor, que quando ysto vy, dise ao capitão que trabalhase esa noute de tomar huma espia, para saber destes omeens como e de que maneira tornavam a esta terra. O qual ordenou a Antonio Pereira, sobrinho de Diogo Pereira, que eu comigo trouxe de Malquo, com outros omees de bem, que eram mancebos e destros para yso, os quaes se forom por em seu lugar, ao terceiro de a noute. Estamdo na cillada, para fazerem a presa, viram vir toda jemte que vinham a cometer os muros, e ver se podiam outra vez entrar a cidade. Derom o rebate nas tramqueiras e recolheram-se trabalhosamente, porque forom sentidos dos mouros. Como os nosos souberom a vimda deles, aprecebe- rom-se todos, de maneira que os mouros, desta primeira acometida, receberam grãa perda, e durou o combate por espaço de quatro ou cimquo oras, mandando o capitão Dom Estevão prover tudo muy bem, e tudo também ordenado. E asy tinha ja feitos tamtos muros de taipas e tamtas tranqueiras que os mouros não teveram lugar para poder entrar por nenhuma parte. Estes mouros, sua maneira he pelejarem de noute, pelo escuro. Nesta noute e nesta peleja receberom eles tama- nha perda que não ousarom mais a nos ir cometer, mas amtes se mudarom daquella sua tramqueira para mais lomge, e se fezerom logo prestes para se yrem. E porque ouve negros que de la vyerom fogidos para nos, que nos derom a nova de tudo, depois que ysto soube o capitão, fez dous navios prestes, aparelhados e comcer- tados, e asy 9eis catures e outros cinquo ou seis cala- 365
  • luzes (5), a qual armada me deu que fose pelejar com eles. Eu me fiz logo prestes o milhor que pude pera ese dia sahir para fora e me ver com eles; hum dos navios, se- nhor, ya Estevam Sodree e eu no outro e fornecidos de muito boa jemte, fidalgos e cavaleiros. E tanto que fuy para fora, foy-me o vemto escaso, surgy. Como os mouros viram nosa determinaçam par- tiram-se esa noute e forom-se; e eu, senhor, como me esa noute deu o terrenho fiz-me a vella, fazendo sinaes aos navios de minha companhia que me segisem. Andey toda esta noute ate chegar ao cabo Rachado, que são sete ou oyto legoas desta fortaleza; e eles, esa noute, atravesarom caminho de sua terra, que não ousa- ram acorrer mais ao longo desta costa da bamda de Ma- laqua. Quando foy pola manhã, que os não vy, mandey os calaluzes e alguns catures descobrir a terra, alem do cabo, e aquém, e em muitos rios que por hy avia, se estavam por hy alguns metidos. Tornarom os navios, e não me derom novas de ne- nhuns deles, porque ja eram desaparecidos. Quando ysto vy, e que ir apos eles, ate outra costa, não podia este anno qua tornar, e não partira de Malaqua senão com pão fresquo e mamtimento para quatro ou cimquo dias, e me parecer que, a vista de Malaqua, pelejase com eles, ou ate aquele cabo que os achase, para o poder fazer, me torney para Malaqua, com ate gora não termos mais novas nenhumas deles, com depois deles se partirem, ate feitura desta, aver obra de vinte dias. E depois disto, aos nove dias do mes de Novembro, (5) Antiga embarcação pequena e a remos, comum nos mares índicos. 366
  • estamdo eu ja prestes com todos meus amigos e criados que nestes trabalhos comigo forom presentes, e que co- migo vierom de Maluquo, e meo embarquado, com minha matalotajens feitas, para minha viajem, me mandou aquy o capitão Dom Estevam amostrar hum requerimento que lhe fezerom os casados, em que lhe requererom, da // ui v.i parte de Vosa Alteza, que não deixase ir nenhuma jemte, este ano, para a Imdea, de nenhuma calidade, porquamto tinhão sabido, por certeza, de mouros da terra, que aviam de tornar a esta cidade e, se a ela viesem, que aviam de vir poderosos e com muita jente e ajuntamento de muitas partes. E nas costas dele vinha outro requerimento para mim de Dom Estevam da Gama, em que me requeria, da parte de Vosa Alteza, que vise aquele requerimento da- queles moradores da terra, e asy, a necisydade em que estava esta cidade e esperamça que tinham destes mouros tornarem a ela; que se a ela tornasem, que corria esta fortaleza de Vosa Alteza muito risquo, e outras muitas palavras de obrigações e protestações que nos requeri- mentos se fazem; e que me requeria, da vosa parte, que este ano me não fose ha Imdia, porque eu tinha muitos amigos casados que com eles e com minha pesoa podia ficar esta cidade bem segura; e se os imigos a ela vye- sem, podíamos bem registillos e ser ela" bem guardada. Eu, senhor, vendo ysto, e que me punham diante voso serviço, respondy que, ainda que viese de Maluquo de dezoito meses de cerquo, omde tive muita fome e muita gerra, e depois que aqy chegey, dahy a quimze dias, com a briga dos Acheens, senhor, muito ferido, e que estive a morte, de que ainda agora não sam bem são, e com muitas cãas, fuy eu mui contente e ledo de ficar nesta terra, servindo a Vosa Alteza, como sempre fiz. E não digo eu estar nesta cidade e temdo tamta obri- 367
  • gação a mynha pesoa e a quem eu sam, e asy a voso serviço, mas estamdo eu neses reinos, e sabendo que as vosas fortalezas tinham necisydade dos taes, como eu, com muito boa vontade viria logo a socorrellas, quanto mais, estando aqui; polas quaes rezões fiquey obrigado 112 r.i a tudo o que me socedese, // e mandar caminho da índia alguma pouqua de fazenda por homeens que ma mal farom, que qua, mal pecado, os feitores asy o soem a fazer; e asy também o gasto que farey nesta fortaleza, com os homeens que acima digo a Vosa Alteza, que co- migo fiquam, e outros que se me sobrevirão, que não sera tão pouquo que não sejam tres ou quatro mil cru- zados, porque Malaqua he muito cara e esperamos por gerra, que ha ha-de fazer muito mais cara. E contudo, senhor, eu fiquo nesta terra, porque he servir Vosa Alteza com minha pesoa e amigos e criados e fazemda, com os quaes, se os imigos vierem, eu espero em Deus que Vosa Alteza seja de mim bem servido. Atras (6), senhor, nam tenho feyto nenhuma menção dos omens que serviram Vosa Alteza comiguo, em Maluquo. He rezão que ho faça, poys que são eles para yso, e vos tão bem servyrão, e eles de saberem que heu hysto faço, fiquão muito contentes: Francisco de Sousa, capytão da nao que mamdou la o veador da fazenda, naquele cerquo e gerra que tive com os mouros de Maluquo, sempre com omens que lhe eu para yso dey, asy por mar, como por terra, servyo Vosa Alteza: tãobem que he dino de lhe fazer muita merce. E asy Amtonio Pereira, sobrinho de Diogo Pereira, que heu fiz capytão-mor do mar, que servyo Vosa Alteza tão bem que não pode ser mais. E nesta entrada desta tranqueyra, aquy em Malaqa, onde (6) Este último parágrafo da carta está escrito com letra dife- rente, como em aditamento. 3 08
  • heu entrey, foy elle o diamteyro, e pello que fez, dino de lhe fazer merce. E asy Antonio de Teyves, voso moço da camara, vos tem servido em Maluquo tãobem que a nynguem da a vemtayem; que em Maluquo numa tran- queyra, pelleyando, lhe derão com hum zarguncho num olho, de que não ve bem, e outras feridas, por voso ser- viço; e aquy tãobem, nesta tramqueyra, foy dos dyan- teyros. E Dinys de Paiva, voso moço da camara, andou huma caravella em Maluquo, que lhe eu la dey, servyndo a Vosa Alteza e gastamdo nella omrradamente, como atraz diguo, e o mandey a Bamda e ao Moro, em busqua de mamtymemtos, na mesma caravela, e asy nesta for- taleza de Malaqua, nesta noyte, na entrada da tram- queyra vos servyo tãobem que não pode ser mais. E rezão que faça menção dos omens que nestas partes a Vosa Alteza bem servem, que não no fazemdo asy, hey que faço o que não devo. Noso Senhor acrescente seu real estado com muitos dyas de vyda. Feyta nesta cydade de Malaqua, aos quymze de No- vembro de 537. as. Tristam de Taide 369 INSULÍNDIA, I — 24
  • 40 CARTA DE NUNO DA CUNHA A EL-REI D. JOÃO III S. Mateus, 10 de Dezembro de 1537 ANTT: CVR: N." 23. Original muito bem conservado, escrito com muita per- feição e clareza de letra. Contém notícias gerais das possessões Portuguesas no Oriente. Publicamos aqui, apenas, a parte que nos interessa. a) Noticias das Molucas. b) Baptismo de um rei de Ternate, deportado para a índia. c) Deferências com que é tratado, pensando-se em o enviar ao seu reino, do que poderá resultar a conversão daquele povo. Senhor, I. Do estado da terra quero dar comta a Vosa Alteza, e sera breve, porque minha maa desposysaom nam me daa lugar a mais. E começarey loguo de Maluco, e diguo, senhor, que depois que Tristam de Ataide premdeo ho rei e mo mam- dou caa, fez outro rei, irmão deste, o qual, ou por sua ruimdade, ou por culpa do capitam, se levamtou com ha terra e fez levamtar todalas outras gemtes, de maneira que poos em muito aperto a fortaleza, de fome, e de lhe fazerem a guerra por todalas partes, e mataram portu- gueses que estavam laa, fazemdo cristãos na terra de 3 70
  • (Moro) (i); e alguns cristãos se revelaram he outros, porem, ajudaram mui bem Tristaom de Ataide com man- timemtos; a fortaleza ficava asy milhor, porem, do que estivera a primeira, como laa vera pelas cartas de Tris- taom de Ataide. Aguora sera laa Amtonio Gualvaom que corregera tudo, ou, por ventura, descorregera. 2. A isto, se me Vosa Alteza perdoar, dir-lhe-ey meu parecer, aimda que por cartas o nam devia de fazer, por nam cobrar imiguos, porque as cartas que eu de caa escrevo, de cousas de seu serviço, que se laa querem ver, como lhe jaa escrevi, loguo ao bem; e se comprir dar com o dedo na lei, pera que saiba que lhe falo eu niso verdade, heu o farei; e as cousas que lhe de caa escrevo nam querya que por elas me dese Vosa Alteza tamtos imiguos, que bem abasta os que tenho, por defemder voso serviço e fazemdas, que outros agravos nam haom-de dizer de mim, nem deshomra que lhe fizese. E disto Vosa Alteza tem culpa, porque provee as cousas de maneira que a mim me nam fica que dar, nem com que pague aos homens ho serviço que lhe vejo fazer diamte dos meus olhos; que naom taom soomemte provee as fortalezas todas, mas aimda idas e cousas que caa avia com que os homens se comtentavão // e com esa esperamça ser- u v-i viaom, tudo vejo que he bem provido e por muitos anos. E aimda sobre ysto me escreve Vosa Alteza cartas cartas (sic) de emcomemdas sobre homens que caa pro- veja de carguos, os quaes eu nam sey que carguos estes haom-de ser, pela qual rezaom todolos homens se me desmamchaom, este ano, e se querem ir pera o regno; que a nova de quamtos Vosa Alteza laa proveo, e por vemtura, pesoas que eles vem que nam tem tamtos ser- (i) A palavra entre parênteses, Moro, é nossa; no documento encontra-se um pequeno espaço em branco. 3 7 1
  • viços nem calidades como alguns deles; e apomtarya em Pero de Farya, que fez gramde espamto nesta terra dar- -lhe, Vosa Alteza, Malaca. E muito mayor o foi em mim dizer-se que por minha carta lho dera Vosa Alteza. Nam sei se lhe lembra que eu escrevi que devia de dar huma comemda a Pero de Faria e dar-lhe de comer, que o mereçia mui bem, por amçiamdade 1 e por aver muito tempo que amda nesta terra, e alem de com iso lhe pagar seu serviço, fizera-lhe mui boa obra pera sua sal- vaçam. E fora mais voso serviço que te-lo caa nesta terra; se nam, pareçe-me que Vosa Alteza ha por mais huma comenda que dar huma fortaleza. Pois nam devia de ser asy, e devia mui bem de oulhar a quem nas daa e a que pesoas, primçipalmemte aquelas que estaom afas- tados (sic) domde esta o voso governador. Porque, se por culpa do capitam se levanta huma fortaleza, e pomde la Imdia em comdiçaom, cada ora, e faz pareçer a gemte que tem Vosa Alteza em pouco esta terra. Escolha boons homens, e os que tiver por taes, tenha-os caa e, se com- prir, estem outros dez anos, como haa que eu caa estou, comtra minha vomtade, porque, as vezes, o que ornem cuyda que he barato, say caro. 3. Leixo, senhor, isto porque Vosa Alteza teraa res- peito ao que for mais seu serviço, e torno ao preposyto de Maluco, que naom sey nenhumas novas que estas que lhe escrevo somaryamemte, porque as naos de Malaca nam saom aimda vimdas; amtes que estas partaom, viram as novas mais çertas do que laa ouver. 4. E quamto ao rei de Maluco que aquy estaa, ho ano pasado, lhe escrevi como vira os autos que sobre seu negoçeo coom ele mamdou Tristaom de Taide, os quaes vy com o doutor Fernaom Roiz e com Martim 1 — amçiamdade ou amcianidade, i. é., velhice. 372
  • Afomso de Sousa e com Dom Gomçalo Coutinho, capi- tam de Goa, e Garçia de Saa, outros muitos fidalguos que para iso ajumtei; e a todos pareçeo que por suas culpas ele nam mereçia castiguo, mas amtes deixarem-no ir, he // que eu o devia de mamdar, por nam cryar 12 r.i escamdalo; e porque eu tinha as novas do alevamta- mento da terra, pareçeo-me bem e serviço de Vosa Alteza dete-lo caa, este ano, pera ver as cousas como laa pa- savaom. 5. Hasy, senhor, que por esta rezaom o nam deixei ir, estamdo nesta çidade comversamdo comnosco e vemdo nosos modos e custumes, com que ele muito folgava. Pa- reçeo-me bem mamdar-lhe dar huma temça por Jurdam de Freitas que de Maluco ho trouxe no seu navio com quem ele tem muita amizade; polo qual lhe mamdei dizer que ele se devia de tornar cristão, porque nosa lei e fee era verdadeira; e que, pois, ja em sua terra se faziam muitos cristãos, que era rezam que o fose ele, para que todos os outros o fosem, e a terra ficase mais firme no serviço de Vosa Alteza, para lhe, por iso, fazer muita merçe e amizade. Nisto se trabalhou por muitos dias, e agora, no cabo deste imverno, depois que vio a morte del-rey de Cambaya e o noso poder, ouve por bem tor- nar-se cristão e o he, de que eu dou muitas graças a Noso Senhor, por em meu tempo se acomteçer fazer-se hum rei cristão, e espero eu nele que faça muito serviço em toda sua terra e derrador, para que Vosa Alteza seja milhor servido e suas obras pareçaom em toda parte. 6. Eu, senhor, como diguo ho fiz cristão, nesta çi- dade, e fui seu padrynho; e Jurdam de Freitas, outro; porque, pola amizade e conheçimento, o quis ele fazer-lhe toda homra e solenidade que pode ser, e o levei e trouxe de sua casa, e o tive a misa, decraramdo-lhe todas as solenidades dela; e se lhe fez toda çervmonia de rei, de 3 7 3
  • que ele estava muito comtemte e satisfeito e, alem disto, lhe mamdei dar vestidos he todalas cousas neçesarias, e lhe mamdei acresemtar mais o mamtimemto do que tinha da primeira. Isto, porque o quis ele ser de muito boa vomtade, sem niso querer tomar pareçer da may nem dos regedores que aqui estam com ele. Esta agora asy; prazera a Deus que, amtes que se vaom, o sera a mai e todolos outros que com ele vieram. 7. Quamto a Malaca, estaa de paz agora; prazera a Deus que asy sera sempre; nam sey se fara algum abalo a defesa do cravo e das drogas, porque a gemte sera mui maa de ter laa, se nam ouverem de ter trato, porque todo outro he mui fraco. Viram as naos, este ano, e trarão as novas certas que poderam levar a Vosa Alteza. A vida e real estado de Vosa Alteza, Noso Senhor acrecente por lomgos dias de Vida a seu santo serviço. De São Mateus, a dez de Dezembro de 537. (Com mão própria) Feitura de Vosa Alteza que suas reaes mãos beija. as. Nuno 2 da Cunha 2 - N». 3 74
  • 41 INQUÉRITO SOBRE O PADRE DIOGO DE MORAIS. VIGÁRIO DE GOA 17 de Setembro de 1539 ANTT: CC-I-65-72. (1) Cópia em dez folhas, bem conservada. a) Quesito sobre o baptismo de um régulo das Molucas. E pergumtado se sabia reger o que a seu officio per- 12 r.j temçia, asy ministrar os sacramentos, bautisar, etc, e que quamto ao regimento da igreja, dise que o dito vigairo o não sabia, nem as cerimonyas delias, segumdo os tempos; e quanto aos bautismos disse que elle, testemunha, esti- vera de presemte, ao fazer cristão a ell-rey de Malluquo, o qual bautisara o dito vigário, e se o vigário geral não fora de presemte, e elle, testemunha, e outros padres, não dizia nada nem fazia as cerimonias que em tal auto pertemçia, se não o que lhes elles diziam, e que o tesou- reiro disera a elle, testemunha, como o vigário não sabia bautisar, que pera que o deixavão bautizar. (1) Publicado em Documentação, para a História das Missões do Padroado Português do Oriente (India), Vol. II, pp. 270-271. 37 5
  • 42 CARTA DE ALEIXO DE SOUSA A EL-REI D. JOÃO III Goa, 24 de Novembro de 1541 ANTT: CC-I-71-iç. Documento original em bom estado, constando de duas fo- lhas, uma das quais escrita, com letra clara e de fácil leitura. Mede 300 x 200 mm. a) Conversão do rei das Molucas, D. Manuel. Senhor, El-rey de Ormuz he preso e trazido a esta cidade de Goa, e a primcypal rezão dizem que por ser bêbado. E se por isto se ouverem de premder hos reys destas partes, folgam com ho vynho tamto que hum dia e dous estam sem dar rezão de sy, pecena 1 casa he o Lymoeyro de Lisboa, pera caberem os que ouverem de premder, por este caso. Ha tam pouco que aquy cheguey que nam poso falar nas cousas de Ormuz, para as certeficar, e por iso nam falo senam no que vy, que he estar aquy el-rey de Ormuz. El-rey de Maluco se fez cristam, e depois que ho he, tam prove que nam tem que comer, nem quem no sirva, e ha omens que lhe acudirão com ceroulas e camisas para 1 — i. é. pequena. 37 6
  • vistir, e os yrmãos da Miserycordia me diseram que, por saberem sua proveza, lhe davam hum pouco de dinheiro 2 e que elle lhes respondera que nam tinha necesidade diso, porque Vosa Alteza lhe mandava dar tudo o que ele avya mester, e que lho aguardecya muito, que nam era nece- sario; e que sabiam que morria a fome. E pera rey que se fez cristão e vasalo de Vosa Alteza, parece-me que he muito necesario fazer esta lembramça a Vosa Alteza, e a ele soste-lo com palavras e obras, atee Vosa Alteza mamdar recado. Noso Senhor acrecemte vida e real estado a Vosa Alteza. Oje, 24 de Novembro de 541 annos. as. Aleixo de Sousa 2 — dr>. 3 7 7
  • 43 TRECHO DE UMA CARTA DO VIGÁRIO GERAL, P.« MIGUEL VAZ, A EL-REI Cochim, 6 de Janeiro de 1543 ANTT: CC-I-4.-1. (1) Original em doze folhas, com as últimas cinco rotas, fal- tando, por isso, palavras nesta parte do documento, o que indi- camos por reticências. Inserimos nesta nossa série documental somente as passagens que nos interessam. a) Licença para os vigários administrarem o sacramento da Confir- mação. b) Abandono a que foi votado um régulo das Molucas, depois de se converter, pelo que se lhe deviam desculpar certas fraquezas. c) Conveniência no regresso deste régulo às suas terras, com o que se converteriam seus súbditos. d) Despacho régio sobre este assunto. A outra, a maes necesarea, he que os vigários das for- talezas, omde o bispo não for, possam crismar e como he sacra... necesareo nacem e morem sem ele, em Maluqu... laqa, Ceylam, Sam Thome e sua costa, Hurumuz, Mo- çambique e Çofala, omde numqua vay bispo nem ha-de ir, e quamdo muyto amdar, sera ate Dyo, se aimda la for, porque ate guora não foy pêra la o bispo, nem pode- (1) Publicado em Documentação... (India). Vol. II, pp. 324-344. 378
  • rya, de maneira que pera toda esta gente que he gramde cristamdade // e por vemtura a mayor, poder usar e re- 19 r-' ceber este sacramento he forçado que ho avyam de mi- nistrar os vigários dos mesmos lugares, e doutra maneira numqua ho recebem. Sobre el-rey de Maluqu que he cristão do tempo de Nuno da Cunha, que Deus aya, screvy a Vosa Alteza muytas vezes, lembrando-lhe seu emparo e alguma deter- mina çam, se sobre ele se ouvese de ter. Quando se fez cristão, e despoes, requereo sempre que lhe desem quem dele tivese cuydado e o encamynhase, como convinha a sua homra. Não teve pesoa que dysto tyvesse ho cuydado que era rezam, porque hum homem, que por seu proveyto quis presumyr que ho fazya, não tynha autorydade nem cuydado, como convinha, e vivya dele sobre sy muy afastado, de maneira que ho que ysto vynha a fundir era manter-se. E por asy careçer de im- syno, de casa, e ser mamcemo, e a criação damtes que em mouro teve ser a sua vomtade, como a quem estava no seu, não viveo tam registado e honesto que não tivese mocidade, e ate quy chegariam seus desconçertos. E pode ser, segundo os homens tem mor facilidade a rezar ysto que outras partes milhores, que também a Vosa Alteza daryam delle alguma... formaçam, porque qua, omde ele estaa e omde feito... comta -terya cada hum muyto pouco nele que reprender... eci muytas vezes ale- gar com justiça e muita... que tem dela, vemdo-a tam bem como eu. ...ornem foy mouro e a creaçam que teve foy a yso confor... despoes de cristão, não teve cura especial de sy. Teve muytas necesydades e ysto de maneira que pera ser muyto perdido teve gramdes ocasyões, e tem pera tudo desculpa. Eu, se nam tyvera outra cousa que fazer se nam ter 379
  • cuydado dele, muito bem ho fizera, mas tenho tarn pou- i» ti cas oras, como sabem todos; vysyto-o quamdo // posso, mas como não he continu oulhar, fica obramdo pouco; e porque digua tudo, muytas vezes me aconteceo deyxallo de ver, por magoa de suas necesydades, e não lhe poder valer, e chegaram ja a tamto que lhe acomteceo hir falar ao governador Dom Estevam da Gama, quamdo veo do Estreyto, com huma camisa emprestada dum casado, seu vezinho, pela não ter de seu, e o mesmo casado mo com- tou, bem pesamte de ver hum homem, como este, tam necesytado, e por saber que ho via neste estremo, por ser homem homrado, e dos da Casa da Misericórdia, fez na mesa huma lembrança pera o proverem, e o rey me dixe que não avya de açeptar provimento da Misericórdia, porque lhe pareçia desomra dos officiaes de Vosa Alteza. Ho governador Dom Estevam numqua me dixe de nam, requeremdo-lhe pagamento diso que lhe tem orde- nado por mes, e mamdava-lho pagar, mas os oficiaes que lho ham-de dar, se lho nam querem dar, não lhe fazem nada por yso. Os mouros bem sabem que teve este homem e tem nome de rey e que ho foy e filho de seu, e bem sabem a miserea em que vive e estaa, e não nos hão-de desculpar com dezerem que ho tratam asy, porque oulha pera as janelas. Senam diram, e he rezam que diguam que desta maneira tratamoss os que se com vertem... e a meu ver, não devera ysto acomtecer... nem que deste nome e cali- dade se f... ysto bem poderá não ser tam erado mas... pa- rece-me tam mal que não poso deyxar de... petir tamtas vezes. Ho governador Marty Afonso, como che... lhe man- dou loguo pagar certos meses que lhe... viam, que lhe eu requery, e asy ho fara sempre, quamdo lho pidirem, mas nem ysto pera mym basta senam que dum homem deste 380
  • nome, que se fez cristão e estaa amtre nos, se ha-de ter lembrança pera o homrar, aga // salhar e prover, sem no r.] que ho lembrem, o que se fara, se Vosa Alteza mamdar e souberem que se ha diso por servido. E quamto ao mamdare pera sua tera, eu tenho de Maluqu cartas dos padres que la amdam que a tera toda espera por este homem e o deseja e que nam averya du- vyda nenhuma a se converter toda, indo ele. Não no sey doutra maneira, nem eles diram ysto senam pelo que vem e semtem. Não se fizeram nem fazem gramdes cousas sem se ter cuydado delas e procura-las, e asy se podia fazer deste, segundo nesta tera tenho ouvydo a homens de bem, tra- tamdo-se com pessoas sem sospeita e de qualquer maneira se devya ter lembramça deste homem, por amor de Deus e homra desta tera. À margem: Ou a Marty Afonso que tenha cuidado deste rey e do provimento e tratamento dele, e que quanto a manda-lo a sua tera, faça niso o que lhe parecer seu serviço e ao vigário que o lembre a Marty Afonso. De Cochym, 6 de Janeiro de 54 e 3. as.* Miguel Vaz 381
  • 44 CARTA DO SULTÃO MAHAMAT, REI DE PEDIR, A D. JOÃO III Malaca, 15 de Novembro de 1543 ANTT: CC-lII-i5-4ç. Original em duas folhas escritas e muito rotas, com prejuízo da sua leitura, em várias passagens. Mede 300 x 220 mm. a) Refere-se a cartas anteriormente enviadas. b) Como perdeu o reino de Pedir, por ajudar os portugueses contra os naturais de Pacem. c) Pede a El-Rei algumas mercês e auxílio, para a reconquista de seu reino. Senhor, Todos homens... fortuna comtraria como a mim... descomfiados ho que omem... quedou ja perdemdo a espe- ramça... tes dias me sostinha eu perdi o reyno de Pedir, avera dezoito anos, pouquo mais, porque mo tomarão hos dachens. 0 ano de coremta esprevi a Vosa Alteza acerquas disto, pedindo-lhe merçe e soquorro pera ser restetuido em meu reyno. Estas carta (sic) levou Amtonio1 Gallvão, capitão que foy de Maluquo, per huma via; ha outra via 1 — Amt® 382
  • foy no maço de Pero 2 de Faria. O que nas cartas esprevi jaa Vosa Alteza o tera sabido, se lhe forão dadas. Quamdo não vi reposta de Vosa Alteza, fequey muito descomsolado, per não ver reposta delas; pode ser que não sejão dadas. E, porem, pera que Vosa Alteza saiba a rezão // que tem de me fazer merce, lhe quero dar tf r.j comta de como perdi o meu reyno. Hos achens sempre forão inimiguos dos portugeses. Eu sempre me tive por vasallo de Vosa Alteza. E estamdo em Pedir, requeri a Jorge de Allboquerque que a forta- leza que avia de fazer em Pasem que a fizesse em Pedir; todavia, a fez em Pasem, por allguns respeitos que pera iso deu. A gemte de Pasem levantou-se comtra Amtonio de Myramda, que era capitão da fortaleza. Eu fuy de Pedir ajudar Amtonio de Miramda comtra hos pasens. E neste meio tempo vyerão-nos achens e to- marão-me Pedir, e estamdo eu em Pasem, em cousas de voso serviço. E desta maneira perdi o meu reyno. Ora veja Vosa Alteza se (tem) rezão de me restetuir nelle. Pois que os rumes... este anno de quoremta e (tres) a índia, o tempo esta desposto pera Vosa Alteza me fazer merçe, e os achens estão aguora pera, com menos tra- balho e periguo, serem desbaratados. Eu escrevo a Martim Afonso ' de Sousa, guovernador, açerqua disto, e tãobem lhe mando pedir que, em nome de Vosa Alteza, me faça merçe, por hum allvara, para mandar ao reyno hum homem português, ou dous, com cartas a Vosa Alteza, dallgumas cousas de voso serviço. Os moradores de Malaqa ajudão também nisto, por- que eu não tenho posebelidade pera o poder fazer so. Mando-lhe pedir que me seja dado guasalhado a estes 2 — P°; 3 — A«. 38 3
  • (2 v.] omens em quallquer nao em que forem, // e que tãobem me de lugar, pera o dinheiro * que houverem de levar estes homens, para o seu gasto, posa hir empreguado de Mallaqua e da Indea em mercadaryas, que são defesas, para o reyno, pera soprimento destes gastos, porque me- nos disto eu afirmo a Vosa Alteza que o não poso fazer; a quantidade sera ate quatro cemto cruzados. Peço a Vosa Alteza que o aja por bem de me fazer esta merçe, para quoando houver de mandar allgum ho- mem ao reyno. Eu fiquo a... que semdo restetuido em Pedir... so mandado de lhe dar de... cada hum ano mil bares de... inha de serviço a Vosa Alteza... emviar a Vosa Alteza, que a ylha de Çamatra, omde esta Achem e Pedir e Pa- sem, he muito riqua; e que pode Vosa Alteza delia re- ceber ferveyto (sic) e serviço, e o tempo sera a serteza do que diguo a Vosa Alteza. Muito estremada merçe e comsollação sua pera mim ver huma carta de esperamça vosa pera me fazer prestes. De Malaqua, a quimze de Novembro de 1543. (Segue-se uma linha em caracteres árabes) Vasallo de Vosa Alteza, Soltam Mahamat. as. (Em caracteres árabes) Eu, Rodrigo 5 Marquez, fiz esta carta por mandado * de Soltam Mahamad, rey que foy de Pedir e me mandou que a escrevese e me asynase para fee de como ho fiz. as. Rodrigo Marquez 4 — dro; 5 — K*o; 6 — m<>o 384.
  • 45 CARTA DE D. JORGE DE CASTRO A EL-REI Molucas, io de Fevereiro de 1544 ANTT: Gaveta 18-8-30. Original em seis folhas, das quais, cinco escritas com letra clara e certa em todo o documento. Mede 21Q x iço mm. a) Motivos por que se encontra capitão da fortaleza de Ternate, vai para cinco anos. b) Diligências para afastar das Molucas novos castelhanos que ali aportaram, comandados por Rui Lopes de Vila Lobos. c) Fidalgos e cavaleiros que servem na fortaleza de Malaca. d) Guerra com os indígenas de alguns lugares de Moro, que perseguem os cristãos convertidos daquela ilha. e) Regimento do capitão-mor da índia, que não pode ser cumprido nas Molucas. Senhor, Pelas naaos do anno pasado, de quinhentos e qua- remta e tres, escrevy a Vosa Alteza allgumas cousas desta fortaleza; e como por morrer em Malaqua, em hum de- safio, Leonel de Lima, que para aquy vinha por capitam, soçedeo ficar eu mais hum ano; e pelo comsegimte, vimdo este ano Fernam de Crasto, também faleçeo em Malaqua, e por partir da Imdia muyto doem te, e dizerem os mes- tres que nam poderia viver muyto tempo, por ser tocado INSCLÍKDIA, I — 25 3 8 5
  • de tegidade (i), mamdou o governador1 Martim Afonso2 de Sousa huma soçesam çerrada, a qual, por sua morte, se abrio em Malaqua e nela se achou soçeder Gil de Crasto, a quem o governador dizia, na dita soçesam, que avia por bem que, faleçemdo Fernam de Crasto, lhe soçedese Gil de Crasto. Ao qual mamdava ao feitor e ofiçiaes e toda outra gemte desta fortaleza que lhe obedeçesem no allto e no baixo e o ouvesem por seu capitam, e que o feitor fizese decraração, em seu titulo *, de seus hordenados e lhos pagase, sem mais falar no capitam desta fortaleza, nem me mamdar que lhe fizese dela emtrega, e sem me aver por alevamtada a menagem. Pelo qual, eu, vemdo a forma da menagem que tinha dada, como dela me nam desobriga vão, nem expecifica- damente me mamdavam entregalla ao dito Gil de Crasto, como se requere e he uso e custume da emtrega das for- talezas, nam emtregey esta fortaleza. E posto que ho acomteçimento era de calidade para nelle soçeder allgum allvoroço, nam ouve nenhuum, porque todos viram craramente nam dever eu fazer outra cousa. E como ysto aguora vaa ao governador por estro- ii T-l mentos e protestos // que comtra mym sobre yso fez Gil de Crasto, nam sey como o governador ho tomara, que, posto que muy crara este a rezam por minha parte, nam sey se, a minha custa, quererá o governador pagar a Gil de Crasto ho desfaleçimento das cousas neçesarias de sua soçesam. E comtudo, muy comfiado estou que me guardara muy imteiramente justiça *. Dou de tudo comta a Vosa Alteza, para que sayba as (i) Palavra que não encontramos registada; talvez tepidade, ti- rando-se, pelo sentido, que se trata de qualquer mal. l — got; 2 — AO; 3 — t»; 4 — just». 3 8 6
  • cousas e razões porque nesta fortaleza estou tamto tempo. E pode Vosa Alteza crer que nenhuma cousa resulta em meu proveyto, porque com estes terços e com o gasto que nesta fortaleza tenho, e eu estar de emprestado e fora do fumdamemto que fazem os capitães que sabem que estam çertos na terra, amtes se perde do proprio. Verdade he que muyto ganho se, no que faço nesta terra, açerto o serviço de Vosa Alteza, como na vomtade ho desejo fazer. A vimte oito de Junho de quinhentos quarenta e tres soube por çertas cora-coras (2) que desta ylha, por açerto, foram a Mymdanao, cousa muy poucas vezes costumada, como da bamda do Sul, em huma ylha pegada com Mym- danao, a que chamam Maludo, era aportada huma armada de gemte estramgeira, dizemdo loguo serem castelhanos, de que me trouxeram mostras e synaes muy çertos, o que, posto que me fose duro de crer, pelo comtrato que Vosa Alteza tem asemtado com ho Emperador, todavia, loguo em breve despachey duas cora-coras caminho de Bamda, pera ver se podiam alcamçar a nao de Vosa Alteza, que estava para partir pera a Imdia, pera mamdar estas novas ao governador, a Malaqua. E porque isto era hir comtra mouçam, homde se avia de pasar muyto risco e trabalho, escolhy para hir com este recado huum fiddalguo que aquy esta em mynha compa- nhia, per nome Belchior de Sequeira5, pesoa*, certo, dese- josa de servir Vosa Alteza e que em tudo o faz, e bom ca- valeiro. O qual, nesta hida, o feez de maneira que, posto que nam ouve efeyto, nam ficou desmereçemdo dever-se-lhe de fazer merçe, porque, como o tempo 7 fose comtrayro e sempre pela proa, hordeney que fose a remo, pela comtra- (2) Embarcação malaia. 5_8eqar; 6 —leitura hipotética, devido a um borrão; 7 —tpo. 3 8 7
  • -costa de Amboyno, pelo Arçepeligo das Papuas, por homde foy, com muyto trabalho, e por muytas vezes cometido ri- jamente de armadas de ladrões, e com lhe ferirem alguma gemte, foy sempre avamte tamto que se pos em paragem, domde em popa veio a demamdar Bamda, domde padeçeo tamta fome e sede que foy çerto ele e toda a gemte das cora-coras beberem, seis dias, aguoa sallgada, por não arri- bar homde a podesem tomar. E vymdo ja sobre Bamda, a noyte que fazia com ela, se lamçou ao payro, a creçeo tamto o tempo e tromemta com ceraçam que escoreo Bamda, sem a poder tomar, nem o tempo lhe comsemtir outra cousa, de que, ao presemte, nam sey se diga que foy 12 ri por milhor, porque segundo 8 a nova era de // myl e du- zemtos castelhanos, porvemtura, fizera em Malaqua e na Ymdia outro allvoroço defferemte do que o caso requere. E aguora, com a certeza de tudo, se provera ao ne- çesario, ou como ao governador milhor parecer, e como o capitam de Malaqua, emtretamto, pode acudir, posto que, se Belchior de Syqueira tomara Bamda, neste Mayo, per rezam tivéramos aquy allgum socorro de Malaqua, que nam fora pouco neçesario. Tamto que esta nova me deram, temdo eu por çerto que esta gemte nam vinha pera sequmdaria ou terçeira- mente serem qa perdidos e desbaratados, mas pera se vimgarem do pasado, como esta fortaleza nam tenha mais de forte que de nome, loguo reparty per quartos a gemte com que me aquy achey, que per todos foram çemto e vimte çimquo homens, maos e bons, moços e velhos, sãos e doemtes; e huns, a madeira; e outros, ao carvam; e outros, a pedra e caal; e huma caravela velha que aquy te- nho e hum batel e huma fusta reparey e fiz como de novo. E fiz um baluarte novo de pedra e cal, homde nos 8 — sego. 388
  • pareçeo mais neçesario para nosa defemsam, o qual em- tulhey ate o amdar do muro em que o tenho posto; e emtulhey outro baluarte e çerqey a fortaleza toda, em redor, de grosas vigas e fiz muytos repayros novos e de sobresalemte, e recolhy quamtos mantimentos pude, e começey hum batel novo, gramde, e tudo fiz em tres meses; somente o batel que não pude acabar. Çertefico a Vosa Alteza que ho trabalhamos todos de maneyra como boons portugueses e leais vasalos; e ate as molheres, com todas suas escravas, tinham seu quarto de amdar a terra. E el-rey de Ternate, rey proprio desta ylha, e el-rey de Tidore, noso vezinho *, e homde os castelhanos da outra vez fizeram sua fortaleza, nos ajudaram, e tudo, por sua parte, muy bem. E com isto jumtamemte despachey logo duas cora- -coras, caminho de Mymdanao, a saber a verdade desta gemte, e a que vinham, e por cujo mamdado. E loguo escrevy e mamdey hum requerymemto ao capitam-mor da armada. E nestas cora-coras mamdey a Amtonio de Almeida, que Deus perdoe, e ora qua mataram os mouros em hum lugar em que mamdey dar, por me fazer guerra aos lugares cristãos do Moro, o qual Amtonio de Almeida foy em huma cora-cora; e em sua companhia, e de res- guardo, em outra cora-cora, hum Belchior Fernandez Correa, meu criado, de quinze 10 anos, que também le- vava outra segunda via. Chegadas as cora-coras a propria ylha de Maludo, junto com Mymdanao, homde me os negros tinham dito acharam imvernando huuma armada que, segundo pareçe e diz, sahio da Nova Espanha em dia de Todollos Santos, da era de quinhentos quarenta e dois, e aportou em Mym- danao, em Abril da dita era, a saber, quatro navetas de 9 —vez»; 10 —xb. 3 8 9
  • gavia e hum galeam, tudo de ate çemto e çimqoemta to- nees, e huma galeota e hum bregamtim, que tudo veio 12 ther a Mymdanao. // Na qual armada diz que partiram quinhemtas rações (?). Nela vem hum Ruy Lopez de Villa Lobos por capitam, que por seu ditado se chama capitam geral destas ylhas do Ponente e da Nova Espa- nha. Traz frades e creligos, diz que vem de licença 11 do Emperador e por mamdado do viso-rey da Nova Espa- nha, com o qual se vio e falou Amtonio de Almeida e lhe deu minha carta e requerymemto; a que tudo respomdeo com muytas cortesyas e comprymemtos. E como sua reposta, em parte, me nam satisfizese, e eu soubese, como tamto que chegaram a Mimdanao, Ruy Lopez despachou hum navio para a Nova Espanha com recado domde era aportado e mamdamdo a derota que segiria hum Amdres de Ordaneta, perque este Abril espe- ram e se fazia prestes para partir o anno segimte, detre- miney segumdariamente lhe repricar com outro requery- memto e carta minha. E esta segunda vez torney a mamdar la, com este requerymento, este meu criado Belchior Fernandez Correa, o qual, como criado de quinze annos e que em tudo tinha crido que faria o que lhe eu mamdase e o que fose serviço de Vosa Alteza e como pesoa 12 que teria segredo em mi- nhas cousas, ho mamdey la com ho requerymemto que digo, e para dahy pasar ao boqueyram de Tagima, por homde as naos de Vosa Alteza vem para esta fortaleza a dar-lhe aviso; o qual foy, e tudo negoçeou o milhor que pode e de maneira que eu fiquey satisfeito, e que ele dara comta a Vosa Alteza, porque a yso ho mamdo. Pode Vosa Alteza saber dele tudo, particularmente, porque comfio que em tudo lhe falara verdade, posto que 11 —Lça; 12 — pa 3 90
  • da lymgoa nam seja muyto bom dador. Elie leva a Vosa Alteza, por carta testemunhavel, o trelado dos requerymen- tos todos que fiza Ruy Lopez e suas repostas. E asy hum requerimento que Jemes Lobo lhe fez no Moro, quamdo Ruy Lopes la aportou. E pelo comsegimte de fora lhe mamdo ho trelado das cartas que amtre nos sam pasadas. E como nesta terra nam ouvese outro mylhor bacharel que eu, fuy soo nestas cartas e requerymemtos e sem saber qual era o bom nem ho maao, fiz e dixe ho milhor que soube e emtemdy. E se nam foy tudo como devia, respeyte Vosa Alteza a mais nam alcamçar, que a tem- çam Deus sabe quam-limpa e desemganada he para seu serviço; se esta se ouvese de por em balamça e pesar-se o mereçimemto dela, por çerto, terya nam me ganhar em seu serviço nymgem. Como tive por certo serem emirados castelhanos nes- tas ylhas, como em todas elas, ao menos estas a nos propymcas, nam tenho cousa porque que (sic) se muyto devam cobiçar, senão este cravo e maça e noz de Bamda, loguo tive por certo que, ou esta // gemte vinha derro- U tada, ou se vierão meter comnosco, procurey de ver o que tinha nos vezinhos. E estamdo Geylolo emtre a paaz e guerra comiguo, fiz e asemtey com ele paazes, com me prometer de nam recolher esta gemte nem lhe dar nenhuma ajuda, nem mamtimemtos; o que prometeo e asynou e diso se feez auto e asemto pubrico, mas nam durou mais que ate doze de Janeiro desta era de quinhentos quarenta e quatro, que huma galeota com quaremta e çimquo castelhanos se veio meter em seu porto, e ahy estam, e foram muy bem reco- lhidos; e no proprio tempo veio ter Ruy Lopez de Villas Lobos, em huuma naao, ao Moro, homde ao presemte esta; e os recados vão e vem ao dito rey de Geylollo e la mamda dar mamtimemtos de allguns lugares que la them. 39 1
  • A naao tenho por nova que por hum paso (3) que them pella terra, que esta amtre Geylollo e a naao, se veio ver o dito Ruy Lopez com el-rey de Geylollo. E el-rey de Tidore me prometeo de em tudo e por tudo ser com esta fortaleza e de nam recolher em sua terra os castelhanos, nem lhe darem nenhum mamtimemto; o que ate o presemte cumpre muy bem, e o acho em tudo o que me he neçesario bom amigo. E mamdou a todos seus lugares que nam desem ne- nhuma provisão aos castelhanos e lhes mamdou gramde desemgano, mamdamdo-lhe eles alembrar o tempo ls pa- sado e fazer gramdes hofereçimemtos; nam sey o que pelo tempo em diamte se socedera. A gemte desta ylha, tamto e mais pelo que lhe com- pre, como por vertude e amizade, tenho que teram sempre mãao comnosco. Eu, asy por ocupaçam da nao de Vosa Alteza, que ora daquy esta para partir com sua carga, como com outras duas de partees, que aquy estam; huma que da Imdia veo por licença 14 do governador, outra que aquy se fez nova, afim de buscar mamtimemtos para esta for- taleza; que todas, este ano, vam com carega, polas des- pachar, como também por meos tempos agora serem com- trarios 15 pela proa, e esta naao em que Ruy Lopez esta, esta a ballravemto de mym, trymta ou quarenta legoas, nam me poso hir ver com ele; mas asemtado tenho, como o tempo me der lugar, faze-lo e, por vemtura, acabarey com ele que se queyra vyr para esta fortaleza, e reçeber de mym os serviços que lhe ofereço. (3) Paso ou passo, espécie de alfândega na passagem de um rio ou de um estreito. 13 —tpo; 14 —Lça; 15 —oomtros. 59 2
  • E quamdo nam, me detreminarey com ele, como po- der, e emtemder sua temçam, que bem descuberta esta. Porque, enquamto de Vosa Alteza nam vir recado que quer que esta terra seja doutrem senhoreada, pela obry- gaçam que tenho de seu capitão desta fortaleza, farey todo posivel polo não comsemtir fazer a nymgem, e com protestaçam; que como entemder que faço o que devo, como bom e leal vasalo e portuges, posto que a vontade / / tf v.i de Vosa Alteza errei, emquamto a dele nam sey mais çerto, farey o que digo; e se comprir, depois, pagar-se meu erro com me Vosa Alteza mamdar cortar a cabeça, o terey em estremada homra e merçe, com tamto que por mym se nam diga que os regnos de Vosa Alteza e de Por- tugal perderam ho qilate do nome que sempre teveram, pois ate gora se nam pode menos dizer da casa de Mom- samto. Yames Lobo, que ate gora sérvio de capitão-mor-do- -mar desta fortaleza, e agora, posto que sirva, ja nam vemçe hordenado, que asy mo escreveo o Governador que Vosa Alteza ho mamdava. He fidallgo que vay em cimqo anos que nesta fortaleza serve. Ele quysera hir, a primeira vez, a Mymdanao saber desta gemte, e porque eu fazia fumdamemto de o acupar (sic) em outra parte, homde, comforme a seu carego, me pareçia que serya mais ne- cesario e Vosa Alteza servido, nam comsemty que la fose. Ao presemte, a tres meses que esta no Moro, homde o mamdey, em Novembro, com duas fustas e com sasemta homens favorecer os cristãos de Moro, porque adevinhava que poderya la hir ter esta gemte, ou allguma cousa sua, pareçeo-me bem acharem tudo ocupado de nosos navios; e pera soster a gemte do Moro que esteve fixa comnosco, porque, mal pecado, todos sam de pouca virtude e follgam com novidades. E mamdey que destroisem hum lugar ou dous que 3 9 3
  • fazião gerra aos cristãos do Moro; e aquy foy homde mataram Amtonio de Almeida, que Deus them, e feriram muytos portugeses, homde Yames Lobo sahio com tres ferydas; e da prymeira vez nam poderam emtrar o lugar, amtes, semdo ja demtro hos nosos, hos botaram fora os mouros e nam por fraqueza que os nosos fizesem, que todos pelejaram de maneyra que os mouros ficaram espam- tados. Logo mamdey mais gemte a Yames Lobo, homde foram as primçipaes pesoas desta fortaleza que, sabido pelos mouros e achamdo-se mal tratados da bryga pa- sada, despejaram o lugar e outros dous, que tudo se queymou. Com allguuns feridos que ouve mamdou Yames Lobo huma fusta a esta fortaleza e deixou-se la ficar. E pelo anno ser biseisto, ou a terra, neste tempo, doemtia, lhe adoeçeo toda a gemte, e ele proprio, que nam ficou homem em pee e de doemça perigosa. Nestes comenos aportou la Ruy Lopez de Villa Lobos em huma nao, a que logo James Lobo mamdou huma carta e hum regymento, comforme ao regimemto meu que levava, como tudo Vosa Alteza vera. Ruy Lopez açertou de hir ther a huum lugar de Gey- lolo, e ally se deixou estar ate o presemte. E por eu saber como Yames Lobo estava, e a gemte toda doemte, lhe es- crevy que logo se viese, porque nam me pareçeo bem estar daquela maneira la a fusta, e por meu preposito ser outro, 14 r.i espero cada dia por ele; sem em / / bargo que nam feez la pouco serviço a Vosa Alteza. E juro, asy me Deus salive e emcaminhe acertar em tudo voso serviço, como tem custado tamto esta hida a Yames Lobo, que me doy o cora- çam de ver seu gasto, e saber que por ser tam lomge de Vosa Alteza, ou do seu governador da Imdia, ficam seus serviços apagados. Mas desemcarego minha comçiemçia com ho çertificar a Vosa Alteza, que he rezam que lhe 3 9 4
  • faça merçe. Porque, pois, mais nam poso, com ysto cum- pro hum pouco. Ele traz la allguns fidallgos e cavaleiros que servem a Vosa Alteza, prymçipalmemte Belchior de Sequeira Francisco 17 de Bryto e hum Amtonio de Azevedo; e em verdade que Yames Lobo e Belchior de Sequeira me tem ajudado a soster meu trabalho e em tudo muito bem, e muy leves de aparelhar, de noute e de dia, que he cousa mais para agradeçer e que mais comtemte faz hum capi- tam que quamtos huum homem pode ter. Porque algumas outras pesoas de bem e cavaleiros a nesta fortaleza, que vos servem, mas sam tam caregados e querem tamtas çirymonyas que lhe comfeso que muytas vezes compre milhor deixar de acudir a allguma cousa que cumpre que negocea-lo por elles. E ysto causa asy aos pouquos que na terra somos como ho pouco que hum capitam desta fortaleza pode fazer a nymgem; e comtudo eles e todos, por deradeiro, fazem tudo o que podem e voso serviço. E nesta fortaleza a allgumas pesoas hom- radas e cavaleiros para emcaregar em qualquer cousa de sustamçia, a saber, Gaspar Melio, feitor e allcaide-mor, que aquy foy o anno pasado; Gaspar Pinheiro, ouvidor que aquy foy; Fernam Certão, homem de hidade de quarenta e cimqo anos, criado de Vosa Alteza e diligemte e frageiro em voso serviço; e Francisco Palha, seu moço de camara, que ora serve de feitor e allcaide-mor que bem mostra a criaçam que Vosa Alteza nele feez, e hum Afomso 18 Figueira 19 e Luis Afonso e Antonio de Fige- redo, seu moço da camara, que ao presemte esta aleyjado do braço direito 20 e da perna ezqerda, por ser dos que muyto fereriram no Moro; e asy hum Gaspar de Azevedo e outros muytos que aquy servem; allguns, a hum anno; 16 — seqr»; 17 —ir»; 18 —A»; 19 — fig»; 20 — dr<«. 39 5
  • e outros, mais; e outros quatro, afora allguns homes fidallgos, que este anno aquy vieram, e na terra ficaram, por estar da maneira que esta; a saber, Manuel 21 de Sousa e hum Ruy de Crasto, que vieram em companhia de Gil de Crasto, que da Imdia vinham com Fernão de Crasto. E porque Gil de Crasto espera que lhe venham seus papees de capitam desta fortaleza, como cumprem, porque diz que logo de Malaqua o escreveo ao gover- nador, os vay la esperar, para que, se lhe vierem, trazer o milhor socorro que poder. Jeronimo Pirez 22 Cotam, cavaleiro da Hordem de Cristo, que aquy sérvio de feitor, provido de Vosa Alteza tres annos, estamdo agora para se hir, com a vimda desta t4 v.] gemte e com esperamça e çerteza que eles mostram ther, / / que em Março lhe vera novo socorro, leixou Jeronymo Pirez o barquo e as redes e fica nesta terra, ate que para o ano acudam de Malaca, como he rezam. Ele he homem que tem muytas calydades pera se fol- gar com sua pesoa em toda parte, e eu faço muyta comta e sam muy comtemte com sua ficada, que espero ter nele hum bom companheiro, que nam he dos pesarosos nem cyrymoniaticos para as cousas do voso serviço; e he abastado, que he o mylhor nervo da gera. Ja que os homens fazem seu dever e de tam boaa vomtade vos ser- vem e ca ficam, rezam sera sabe-lo Vosa Alteza, para lhes fazer merçe e para o gosto que tera de saber quem bem ho serve. De mym nam tenho que dizer a Vosa Alteza, senam que sam tam desemparado de meus paremtes e pesoas que por mym lhe façam allguma lembramça que, se Vosa Alteza a nam tever, de nymguem a espero; e juro a Deus, pela fee e lealdade que a Vosa Alteza devo, que com ser 21 — m'1; 22 — piz. 3ÇÓ
  • capytam çymquo anos, nesta terra, nam levo dela, por yso, mais nem tamto que os outros, que em outro tempo esteveram tres. E yso pouco que tenho esta semtemçeado a se desfazer em poo ou em pãao e carne e pescado, por seu serviço, e para o que mais compre, que Deus sabe se o faço e como. De modo que tenho que daquy yrey, quamdo for, como vym; e digo se me for, porque, se estes castelhanos durarem e outros vierem, que destes pouca comta faço, sayba Vosa Alteza que, imda que capitam venha, nam deyxarey esta terra, senam quamdo muyto, como cum- pre ao serviço de Vosa Alteza e com minha homra, o eu poder fazer, e aquy espero seu receado, aimda que pra- zerá a Deus que soçedera tudo da maneira como Vosa Alteza seja servido e eu me posa hir. E creya que, aimda que por lascarym aquy fique, a despeza 21 sera como capitam, pela neçesydade da terra; e no de mais serey qualquer gurumete, muito leve de aparelhar. E tudo para que de mym nam tenha nenhum pejo o capitam que vier, como homem que sey quão bom ou mao ysto he, e como quem disto faz homra, pois a faço por vos servir. E posto que minha ydade esta ja pera este deradeiro quartel da vida gastar aos pees de Vila Eranca, ou Car- monyta, themdo por çima de tudo que em toda parte o peccador se pode salvar, e vemdo-me muyto prove, peço a Vosa Alteza, com pura neçesydade, que me faça merçe de allguma cousa de que posa tirar dous reis para sos- temtar a nojosa e doemtia velhiçe, fazemdo-me merçe da capitanya de Malaqua, Ormuz ou Çofala, qual me mais prestes posa ajudar, porque vejo que o sol se me vay pomdo. 22 — desp». 3 97
  • E se ysto nam, ou por a vomtade de Vosa Alteza nam ser esta, ou por estarem tam providas que me nam posam vir a tempo que aproveyte, porque, como digo, ja estou no deradeiro quartel da vida, se me Vosa Alteza quiser fazer merçe de huma naao em que da Imdia vaa para eses reynos, e com licemça para nela levar sos dez 15 r.i bares de cravo de cabeça, pelo peso de Maluco, //em gram merçe ho receberey, por ser mais chegado ao re- pullso. E senam, seja tudo como Vosa Alteza for mais ser- vido, e que em foro de comçiemcia mo deve, pois na carta da merçe que me fez desta fortaleza diz que maa daa, com todolos proes e percalços que teveram os pa- sados; os quaes, nam tam somemte se me tiram, mas aimda o que os pasados nam deram eu fuy ho prymeiro que de minha propria fazenda a Vosa Alteza tenho dado, nesta terra, pasamte de seis çemtos qymtaes, digo, de mil quymtaes de cravo, de terços. E bem sey de mym que nam desmereço fazer-me merçe. E que ao menos, se esta comtemda de castelhanos durar em Maluco, poucos capitaes para Malaca viram de que esta terra milhor posa ser socorryda que de mym, como quem dela ja tem feyto easy natureza. O governador mamdou ca este anno çertos regimemtos novos, e de que ha por bem que se faça, que para a costa da Imdia sam muy boons, que em dez dias pode prover em tudo, mas homde em hir e em vir se poem dous annos, em nenhuma maneyra pode ser, senam quamdo hos capitaes nam derem menagem desta fortaleza, porque manda 24 que nenhuma despesa nem gasto se faça sem seu espeçial mandado. De modo que o navio, se for velho, nam se ha-de 24 — m
  • coreger; o lamço de muro, se cahir, nam se ha-de erger, sem lho prymeiro fazer saber; nem se a-de fazer de novo hum batel, posto que muyto neçesaryo seja. Também mamda que se nam pague a nenhuma pesoa, mais que hum cruzado de soldo e mamtimemto, cada mes; e este se nam poderá pagar a hum, em espeçial, sem se pagar a todos, em geral. E para ysto nam veio nenhuma fazemda, nem para hum nem para todos, de modo que se na feytoria ouver çem cruzados e hum homem prove ou deez morrerem a fome, que, porque naam podem pagar ao rico, nam pagam ao prove e o deixam morrer. E se he neçesario mamdar fora vymte homens, e cum- pre dar-lhe de comer, porque nam podem pagar aos que ficam, nam pagarão aos que vaam; e outras cousas desta calidade; as quaes, vista a neçesydade da terra, e hos ospedes que vieram, que nam dam lugar a viver por regra, que geral cousa he em tempo de ospedes sayr dela e despemder largo, eu com ho pareçer do feitor e oficiaes e ouvidor e fidallguos sobre estive este anno com estes regimemtos e escrevy ao governador as cousas porque. E porque nam sey como com ele estou sobre huma pratica que acerqua dos rumes, em hum comselho, diamte do viso-rey Dom Garçia de Noronha, que Deus tem, se teve, homde ele de mym reçebeo desprazer, peço a Vosa Alteza me faça merçe de hum allvara seu, em que aja por bem que tudo ho que eu, semdo aquy capitam, se mostrar que fiz ou mandey em sua fazenda que fose feito, com pareçer do feitor e ofiçiaes e com evidemte neçesy- dade, mostramdo diso asemtos, aja poi bem e mamde que se leve em comta. Porque, posto que ysto // per (5 v.] justiça asy seja rezam, e nesta feytoria este registado lmum allvara de Vosa Alteza, per que ha por bem que os capitães de Malaca e Maluco emteradam em sua fa- 3 99
  • zemda, eu nam querya ver-me sobre yso em demamda, porque quem sera justificado amte hum governador da Imdia, se o elle arguir de pecado? E se este alvara peço com ma temçam, ou para desor- dem, e como homem culpado nas comdições dele, o vera Vosa Alteza e por hy jullgara mynha temçam, porque com outras nenhumas o pèço. Noso Senhor o real estado de Vosa Alteza prospere e reallçe e guarde com muytos dias de vida. Amem. Desta sua fortaleza de Maluco, a dez de Fevereiro de 1544 anos. Também mamdo a Vosa Alteza o regimento que Am- tonio de Allmeyda, que Deus tem, e Belchior Fernamdez levavam, da prymeira veez, o qual mamdo autorizado asy e da propria maneyra, que era o proprio que Amtonio de Almeyda levava. Ao qual emcomemdey que, quamdo se vise com os castelhanos, o levase comsygo no peyto desymuladamente, pera se, por caso soçedese deytarem dele mão, lhe achasem o regimemto meu comforme a carta e regymento que levava. Se lhe a Vosa Alteza pareçer o dito regimento sobejo de comprymemto, a Belchior Fernandez me reporto, que nyso dira mais largamemte minha temçam, porque me pareçeo que daquela maneira açertava mais o serviço de Vosa Alteza (4). as. Dom Jorge de Crasto (4) Sobre o que se passou entre Jorge de Castro e o capitão cas- telhano Vila Lobos existe um longo Processo, que tudo contém, sem interesse missionário. Vid. ANTT: Gaveta 18-8-31. 400
  • 46 CARTA DO REI DE TERNATE A D. JOAO III Ternate, 18 de Fevereiro de 1544 ANTT: Gaveta 18-8-1.. Original em duas folhas, uma das quais escrita; letra fàcil- mente legível. Mede 21Q x 795 mm. a) Pede a El-Rei que esqueça nele o mau procedimento de seus ante- passados. b) Promete colaborar na expulsão dos castelhanos, fortificados em Geilolo. c) Desejaria receber uma carta de El-Rei com instruções de como melhor o poderia servir, apesar de não ser cristão. Senhor, Aquele poderoso Rey dos reis e Senhor dos senhores, sempiterno Deus, a quem querem e adorão mouros e cris- tãos, prospere e exalçe ho real estado de Vosa Alteza. Natural cousa he dos vasalos procurarem de dar boas novas a seus reis e senhores, e calarem as que taes não são, ou ao menos procurarem de serem por outrem da- das, avemdo que nyso fazem ofyçio de boons servydores. E posto que meus desejos sejam de servir Vosa Alteza, não arreçeo de lhe dar as novas, quaesquer que sejam. Portamto, reçeba de mym atemção, que he viver e morrer em seu serviço, não como ornem de Maluco e rey desta 401 INSULÍNDIA, I — 26
  • terra, mas como hum vasalo e bom portuges, de que dou o tempo por testemunha \ poys estamos omde cada hum mostrara quem he. Peço a Vosa Alteza que em mym esqueça algum mao nome ou culpa, se meus antepasados a tyverão e mere- çerão, e não gardaram aquela lealdade que erão obri- gados a voso serviço; nem se faça ja comta amte Vosa Alteza de nenhum rey desta ylha e terras de Ternate que amte mym fosem; mas em mym se começe agora, para eu, e os que de mym deçemderem, mereçermos muito favor, omra e merçe de Vosa Alteza, como espero que lho mereçerão meus serviços. El-rey de Tidor e eu mamdamos, em Abryl de 543, a Mymdanao, tres cora-coras, como por graça, por ser cousa que pouqas vezes custumamos fazer; as quaes fo- ram dar a huma armada de castelhanos, que, segundo se ja se sabe, vem da Nova Espanha, com o qual recado se tornarão logo. E como eu esta nova soube, logo me fuy aa fortaleza de Vosa Alteza, com a gemte das cora-coras, 11 v.] e dey de tudo comta ao capitão / / Dom Jorge de Caas- tro; e logo praticamos no aperçibymento daa fortaleza e todas mays cousas neçesaryas a vosa serviço, como lhe mays largamente o capitão escrevera. Emfym que agora he chegado a estas ylhas o capitão- -mor da armada em huma nao e huma galeota comsyguo, e muy desbaratados; pubrycão esperarem, cada dya, por outra armada. Ho que açerqua dyso he pasado e o que se ordena fazer escrevera mays largamente o capitão a Vosa Alteza. Asemtamos, por mylhor remedio, que a gemte e reis desta terra fosemos todos em hum corpo e vooz e ajuda desta sua fortaleza e que nymgem recolhese esta gemte, 1 — ta. 4 O 2
  • nem lhe dese mamtymemtos, em que todos asemtamos, e nyso estão, ao presemte. Somente el-rey de Geilolo que temdo comygo e com ho capitão feyta paaz, e prometvdo e asynado de não recolher os castelhanos, como chegarão, os reçebeo, favoreçe e ajuda. Fez nysto suas manhas acus- tumadas. El-rey de Tidore se mostra muito fyxo da nosa parte, e tenho que asy ho fara, como quem conheçe que hos- pedes sãoo; e como ele for da nosa parte, negra vemtura tem os castelhanos e el-rey de Geylolo com elles. Nysto não sey mays que dizer a Vosa Alteza senão que de mym lhe afyrmo que com esta sua fortaleza ey-de ser aate morte, e o que for dela, sera de mym. E espero no Senhor Deus que tudo sera por bem noso e mal de nosos ymygos. A merçe que a Vosa Alteza peço he momorya de mym e de meus filhos 2, e que aos capitães desta fortaleza lhes faça de mym lembramça, e a mym mande duas regras de como seja por servydo de mym e da maneyra que quer que o syrva nesta terra; que aymda que meu yrmão, que esta em Goa, seja cristão, para o serviço de Vosa Alteza não me ha-de fazer nenhuma enveja. E a ysto lhe empenho mynha ley. Beyjo as reaes mãos de Vosa Alteza. , Desta ylha de Ternate, a dezoyto de Fevereiro de 1544 anos. as. (em caracteres árabes) 2 — f™ 403
  • 47 CARTA DE JERÓNIMO PIRES COTAO. FEITOR DA FORTALEZA DE TERNATE, A EL-RE1 Ternate, 20 de Fevereiro 1544 ANTT: Gaveta 18-8-27. Original em duas folhas escritas, com letra muito apurada e de fácil leitura. O documento encontra-se um pouco dani- ficado, com as folhas a desfazerem-se, e rotas. Mede 2ço x iç§ mm. a) Boatos que corriam em Ternate sobre a chegada de uma armada castelhana a Mindanau, com mil e duzentos homens. b) Pouca confiança que alguns reis das Molucas inspiravam. c) Fidelidade do rei de Ternate. Tenho escrito a Vosa Alteza algumas vezes, depois que estou nesta fortaleza, em que lhe dava conta da terra e do que entendia ser neçesario pera ho seu serviço; e como quer que a obrigação de seu me obrigua a faze-lo sempre, enquanto vir que he neçesario Vosa Alteza a yso acodir, e por o caso ser de calidade que não tem somente os seus, mas os estranhos, sam obrigados dar-lhe diso conta. Este anno pasado de quinhentos quarenta e tres, em Yunho, chegarão a esta fortaleza duas cora-coras de Tidor, que vinhão de huma ylha que se chama Myn- danao; e dixerão que em hum porto da mesma ylha estavão quatro naos e huma gale e huma galeota de cas- 404
  • telhanos, em que vinhão mil e duzentos omens, as quaes novas puzerão as yentes destas ylhas, principalmente a desta ylha de Ternate, em tanto estremo que anda vão buscando lugares polos gunos (i) para recolherem suas fazendas e molheres, como omens que determinavão a largar-nos; e em parte, não he muyto, porque a yente destas ylhas he fraqua. Dom Jorge de Castro, que ora he capitão desta for- taleza, tamto que o soube, mandou duas cora-coras da mesma ylha de Myndanão, em que foy Antonio de Al- meida com hum requerimento que fez ao capitão dos cas- tenhanos; ao qual responderão como Vosa Alteza la vera, porque ele o manda a Vosa Alteza, com outra resposta por hum criado seu, que também la foy. E amtrementes forão estas cora-coras, ficamos fazendo nesta fortaleza hum baluarte e outras obras que nos pareçeo ser neçe- sario pera repayro delia, em que se levou muito traba- lho, mas como quer que he servir Vosa Alteza, não se sentyo. // u v.i (Este Janeiro) pasado, de quinhentos quarenta e qua- tro, chegarão a esta fortaleza a saber (num lugar) do Moro, huma nao dos castelhanos em que vem por capytão geral delias, e asy de huma galeota que chegou a huma fortaleza del-rey de Geilolo, hum Ruy Lopes de Villa Lobos, e sem embarguo del-rey de Geilolo estar defe- rente com esta fortaleza, se lhe entregarom e lhes derão toda a artelharia e munição de guerra que trazião, e lha meterão em seu poder, como omens que querem fazer finqua-pe nesta terra. Ho capitão geral dos castelhanos respomdeo a hum requerimento que lhe Dom Jorge mandou, não conforme as respostas pasadas, em que decrara bem ho seu mao (i) Termo malaio, gunong: montanha. 405
  • proposito, e crea Vosa Alteza o que entemdo deste caso, e queira Deos que seya eu o mentiroso, que estes omens vem pera estas ylhas, e o so color de descobrir terra, se vem aqui meter e o que eu tenho sabido por hum mari- nheiro purtugues, natural de Vila Franqua, que com elles vinha, e partio de Nova Espanha, e o qual fogio para esta fortaleza, e o agasalhei em minha casa, por saber dele a temção destes omens; e me tem dito que amtre elles se não dezia somente descobrirem a China e os Le- queos e que yso se porvinquava (sic) na armada. E porque antre elles vinhão homens que ya aqui esteverão em com- panhia dos castelhanos, em Tidore, os quais deseiavão muito de vir a estas ylhas, e não falavão em outra cousa, e que hum Amtão Corço, escorçes, piloto da mesma ar- mada, que ja aqui estivera no tempo dos outros, trazia huma peça de gran, que em Espanha-a-Nova comprara, e asy hum punhal guarnecido douro, para dar a hum des- tes reis, e que se afirmavão que era pera el rey de Geilolo, e que nelle falia muitas vezes, polo caminho, o qual Am- tão Corço, piloto, veyo na galeota a Geilolo, onde fiqua. E tanto que chegou, da mesma peça de gran fez vestidos a el-rey, e ele mesmo diz que vem os castelhanos busquar a estas ylhas hum penhor que qua deixarão. Asy que por esta amostra, como por outras que omem cada dia ve, crea Vosa Alteza que não vem para outra parte senão pera estas ylhas. Tanto que chegarão a Mindanao, despacharão hum navyo para Nova-Espanha a dar recado a huma armada que se estava fazendo prestes para qua. Esperão por ela este Março que vem. A jente destas ylhas, eu não estou muito contente delia, porque el rey de Geilolo, como diguo a Vosa Al- teza, tem-nos ya recolhidos e prove-os de mantimentos e tem mandado hum regedor seu com cora-coras ao Moro, 406
  • para darem fundo a naao e a trazerem pera Geilolo. E tenho sabido que el rey de Geilolo e o capitão dos cas- telhanos se virão em hum paso que estava da outra banda de Batachina. El rey de Tidor, ate ao presente, // mostra-se ser- 12 «•.] vidor de Vosa Alteza, mas tanta saúde de Deos a minha alma, quanto ele com a vynda delles folgua. O regedor de Maquiem tem deles ya recebidos presentes. Soo ho rey desta ylha avemos que sera comnosquo, se for alguma cousa. Mas eu não estou nada contente pela mudança que veyo nele, em cousas que esta fortaleza ha mister, e que são serviço de Vosa Alteza, a que ele não acode tam bem como he rezão; ho (?) custume deles serem vagarosos pode ser que yso causara, mas ele he casado com huma filha de el rey de Geilolo, e tem per contraste Tabarija, em todalas monções, de virem naaos para esta fortaleza. Anda asombrado, e de maneira que não repousa ate saber se Tabarija não vem, e faz prestes cora-coras para que, se vier, lhe despejar a terra. Asy enquanto tiver Tabarija na Yndia, e com esperança de vir, eu o não vy por fixo, e ey medo que fara de sy abalo. Athe se partirem estas naos, não se pode saber delles o que farão. Deos o ordene como for mais seu serviço. Eu acabey de servir o carrego de feytor desta forta- leza, de que me Vosa Alteza fez merce em Outubro de quinhentos quarenta e dois, e fuy forçado ficar, este ano pasado, de quinhentos quarenta tres, para negoçiar papeis e outras cousas que compria ao carreguo que servy, para bem de minha conta. E estando embarcado em hum navyo meu, com a minha fazenda, para me ir para a índia, chegarão estes castelhanos. E como que Vosa Alteza me deu ho que te- nho, rezão he que em seu serviço se gaste, porque gas- tando-se Vosa Alteza me dara outra; e para seu serviço 4.07 %
  • a tenho não tão somente esta, que qua ganhey, com o bafo de Vosa Alteza, mas antes a que me leixou o Doutor Jorge Cotão, meu tio, que Deos tem, e se fara emxemplol, asy nesta fortaleza, como em qualquer outra parte que comprir o seu serviço. E não poso mais fazer que o que faço, que he alargar barco e redes e ficar nesta terra, ate saber a determinação destes omens, porque eu a Vosa Alteza devo mais do que a minha casa e mulher. Dom Jorge escreve a Vosa Alteza as cousas de qua; elle he tão amigo do seu serviço que em tudo lhe falara a verdade. Noso Senhor acreçente o estado real de Vosa Alteza e de seus filhos. De Terna te, a vinte de Fevereiro de 544. Criado de Vosa Alteza as. Yeronimo 2 Pyres Cotão 1 — epo; 2 — Yr"ic.
  • 48 ACORDO DE PAZ ENTRE JORDÃO DE FREITAS E RUI LOPES DE VILA LOBOS Ternate. 8 de Janeiro de 1545 ANTT: CC-I-7Ó-4. Cópia em bom estado, com duas folhas e só uma escrita; letra clara e perfeita. Mede 2ço x 205 mm. a) Amizade que deve existir entre cristãos e súbditos de soberanos, parentes entre si. b) Obrigações mútuas sobre viagens, escravos, comércio, etc Conosciendo que somos christianos, por lo qual somos obligados a amamos unos a otros, y tener paz verdadera tal como Nuestro Senor Jhus Christo nolla mando tener y nos la dio por insignia, para que fuesemos conocidos por sus discípulos y mas siendo vassalos de dos príncipes tan hermanos en parestesco y tan amigos de voluntad y coraçon y sabiendo que en esta concórdia y paz que ordenamos hazemos serviçio a Dios Nuestro Senor y a nuestros principies, despues de cada uno aver dado al otro enterra satisfaçion pior la qual se conociese cada uno de nos ser sin culpa de la cizana que el ombre enemigo avia començado a sembrar, nos, Jordan de Freitas, capitan e governador desta fortaleza de San Juoan de Temate y yslas y archipielago de Maluco por el sereníssimo rey de 409
  • Portugal, y Ruy Lopez de Villa Lobos, capitan general delas yslas dei Ponente dela Nueva Espana, en lugar dei yllustrissimo senor Don Antonio de Mendonça, visorrey e governador e presidente de la Nueva Espana e yslas de S. C. C. Real Magestad dei Emperador, nos concor- damos y asentamos la dicha paz y concórdia desta ma- nera: Que todos estes conciertos de paz que se ordenarem se entienda que se an de guardar y ande durar hasta que su magestad dei Emperador, o el senor vissorey dela Nueva Espana, o el sereníssimo rey de Portugal, o el senor governador dela Yndia manden lo contrario, cada uno a los suyos. Que no nos podamos hazer guerra por mar ni por terra unos a otros, ni a los de Ternate ni de Tidore ni a sus subietos; y que encontrandose Castellanos con portu- gueses, se traten como christianos y amigos y si alguno dieze caussa de discórdia, sea castigado por su capitan conforme al delitto hoziere. Que los Castellanos no vengan a Ternate ni a los otros pueblos del sereníssimo rey de Portugal ni dei rey de Ternate sin especial liçençia de entrambos nosotros; ni los portugueses vayan a Tidore ni a los pueblos a el subjettos sin la misma liçençia; y por esto, que permite por razon de paz que los portugueses no vayan a Tidore ni a sus pueblos durante el tiempo desta paz y concórdia, no se entienda que el sereníssimo rey de Portugal pierda el derecho e senorio que en Tidore e sus pueblos a tenido e tiene. Que los negros delos portugueses no pueden yr a Tidore ni a sus pueblos a hazer mercaduria ni otros tra- tos algunos, ni los delos Castellanos vengan a Ternate ni a sus pueblos, si no fuere llevando cartas de algun Cavallero português aios Castellanos, o de Castellano a 410
  • portugueses a los pueblos de Tidore e Ternate y no a otra parte. // Que en lo que toca a la compra dei clavo, sea la con- tratation desta manera que yo Ruy Lopez de Villa Lobos escrivire al senor Jordan de Freytas, quando los naturales de Tidore tubieren allegado su clavo y donde esta, para que mande a quien le paresciere que lo vaya a comprar. Que los portugueses ni sus negros ni los de Ternate e sus vasallos no pueden conprar comida en los pueblos subiettos al rey de Tidore y que lo mismo guarden los Castellanos y los de Tidore en los pueblos del sereníssimo rey de Portugal y dei rey de Ternate. Que se algunos de nuestros subjetos cometieren trai- çon contra alguna de nuestras personas, o quemare, o cometiere a quemar las muniçiones, que seamos obligados a lo entregar de una parte a la otra, aviendose huido a nos. Que los esclavos o naborias que de aqui adelante se pasaren de una parte a otra y vinieren a nuestros ma- nos seamos obligados a los entregar luego a sus duenos, viniendo o enbiando por ellos y estando en nuestro poder. Que si los vasallos dei sereníssimo rey de Portugal y los de Tidore e Ternate y sus subjettos se hizieren guerra los unos a los otros que los avisemos y mandemos que no lo hagan y que mandemos al agresor que satisfaça el dano que ubiere hecho y que, no queriendo hazer qual- quiera destas cossas, que tenga licencia qualquiera de nosotros de ayudar a su acometido y agraviado y que, por dar a la tal ayuda, no se entienda venir contra estas pazes y conciertos entre nos hechos. Que veniendo a cada uno de nosotros recabdo o man- dado de nuestro superior, en que nos mande hazer otra cossa contra lo aqui entre nos concertado, que en tal casso nos avisaremos uno a otro, quinze dias antes que 411
  • alguna cossa contra estes conciertos hagamos. Lo qual todo juramos a Dios Nuestro Senor de lo asi mantener y guardar, asi como todo aqui esta escripto, so pena de caer en mal casso qualquiera que lo contrario huziere, acerca de su príncipe y senor. Fechos estos conciertos en esta fortaleza San Yuoan de Ternate, a ocho dias dei mes de Henero de myl e qui- nientos e quarenta e cinco anos. 412
  • 49 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AOS CONFRADES DE ROMA Cochim, 27 de Janeiro de 1545 Epistoles S. Francisci Xaverii: I-2j2-2j8. (1) Liam-se na Europa, com santa avidez, as cartas do P.' Mes- tre Francisco, já pelas suas empolgantes narrativas, já porque nelas transparecia a radiosa personalidade do fogoso missio- nário. Delas se tiravam cópias, para serem enviadas às várias casas da Companhia, e delas se foram publicando peças dis- persas ou colecções, mais ou menos completas. Cópias antigas de muitas destas cartas andam também incluídas em deter- minados e preciosos Códices de alguns dos nossos arquivos. A nova e moderna edição critica das cartas do fulgurante Apóstolo, feita pelos padres jesuítas Jorge Schurhammer e José Wicki, é, incontestàvelmente, a mais segura e mais com- pleta que se tem publicado. Preferimos, por isso, tomar desta edição as cópias das cartas de Xavier, referentes às Molucas, indicando, porém, a cota dos códices portugueses, onde tam- bém se encontram reproduzidas com ligeiras diferenças. Nesta carta, depois de algumas notícias respeitantes à Índia, Xavier refere-se às primeiras conversões feitas na ilha de Ma- cáçar. • Ihus La gracia y amor de nuestro Senor sea siempre en wuestra ayuda y favor. Dios nuestro Senor sabe quánto más mi ánima se con- solara en veros, que en scrivir estas tan inciertas cartas, (1) BAL: 49-IV-49, fls. 5 V.-7 r.; BACIL: Cartas do Japão, Vol. I, fls. 6 v.-8 r.; BIMINEL: Cartas da Índia, fls. 12 r.-i3 v. 4 I 3
  • por la mucha distancia que destas partes ay a Roma; mas pues Dios nuestro Senor nos separo a tan distantes tierras, siendo tan conformes en un amor y espírito, si no me engano, no causa desamor ni descuido, en los que en el Senor se aman, la distancia corporal, pues quasi siempre nos veemos, a my parecer, dado que familiar- mente como soliamos no nos conversemos. Pero esta virtud tiene la mucha memoria de las noticias pasadas, quando son en Christo fundadas, que quasi suplen los effectos de las noticias intuitivas. Esta presencia de animo tam continua, que de todos los de la Compania tengo, más es vuestra que mia, pues vuestros contínuos y acceptos sacrifícios y oraciones, que por my, triste pec- cador, siempre hazéis, son las que causan en my tanta lembrança. De manera que vosotros, charissimos en Christo Hermanos mios, imprimis en mi ánima continua memoria vuestra; y si la que en my causaes es grande, confiesso ser la vuestra que de mi tenéis, maior. Dios nuestro Senor os quiera dar por my el pago que en ello merecéis, pues yo no puedo pagaros con otra cosa, sino puramente confesando mi impotentia para poder satis- fazer a vuestras Charidades, quedándome un conosci- miento impresso en mi ánima de la grande obligación que tengo a todos los de la Compania. Nuevas destas partes de la índia, os hago saber cómo Dios nuestro Senor movió, en hun reyno donde ando, mucha gente a hazerse Christiana: fué de manera, que en un mes baptizé más de X (dies mil) personas, guar- dando esta orden: quando llegava en los lugares de los gentiles, los quales me mandaron llamar para que los hiziesse christianos, hazia ayuntar todos os hombres y muchachos dei lugar a una parte, y començando por la confissión dei Padre y del Hijo y dei Spiritu Sancto, los hazia trez vezes sanctiguar y invocar las tres personas, 414
  • confessando un solo Dios. Acabado esto dezia la con- fession general, y después el Credo, mandamientos, Pater noster, Ave Maria y la Salve Regina: y todas estas ora- ciones saqué avrá dos anos en su lengua y las see de coro; y puesta una sobre pelliz, a altas bozes dezia las orationes por la orden que dicho tengo. Y asi como yo las voi diziendo, todos me van respondiendo, asi grandes cono pequenos, por la orden que las digo: y acbadas (85 v.) las orationes les hago una declaración sobre los artículos de la fee y mandamientos de la ley en su mesmo lenguage. Desppués hago que todos demanden perdón públicamente a Dios nuestro Sen or de la vida passada, y esto a altas bozes, en presencia de otros infieles que no quieren ser christianos, para confusion de los maios y Consolación de los buenos. Espántanse todos los gen- tiles en oir la ley de Dios, y confúndense en veer cómo biven sin saber ni conoscer que ay Dios. Muestran los gentiles mucho contentamiento en oir nuestra ley, y me hazen honrra, dado que no quieren consentir en la verdad conosciéndola. Acabado el sermón que les hago, demando a todos, assi grandes como pequenos, si creen verdade- ramente en cada articulo de la fee: respóndenme todos que si; y asi a altas vozes digo cada artículo, y a cada uno les demando si creen; y ellos, puestog los braços en modo de cruz sobre los pechos, me responden que sí; y asi los baptizo, dando a cada un su nombre por escrito. Después van los hombres a sus casas y mandan sus mu- geres y familia, las quales, por la misma orden que bap- tizé los hombres, baptizo. Acabada la gente de baptizar, mando derribar las casas donde tenian sus ydolos, y ago, despues que son christianos, que quiebren las ymágines de los idolos en minutíssimas partes. No podria acabar de escriviros la mucha Consolación que mi ânima lleva en veer distrair ydolos por las manos 415
  • de los que fueran idólatras. En cada lugar dexo las ora- ciones escritas en su lengua, dando orden cómo cada dia las ensenen una vez por la manana y otra a oras de bís- peras. Acabado de hazer esto en un lugar, voy a otro, y desta manera ando de lugar en lugar haziendo chris- tianos; y esto con muchas consolaciones, mayores de las que por cartas os podria escrivir, ni por presentia explicar. E notra tierra a cinquoenta legoas desta donde ando, me mandaron dezir los moradores delia que querían ser christianos, y que me roga van que fuesse a baptizarlos; yo no pude ir por estar occupado en cosas de mucho ser- vicio dei Senor. Rogué a un clérigo que fuesse a bapti- zarlos; y después de aver ido y baptizándolos, con mu- chos delles el rey de la tierra hizo grandes estragos y crueldades, porque se hizieron christianos. Gracias sean dadas a Dios nuestro Senor que en nuestros dias no faltan mártires: y pues por piedades tanto devagar se vaa po- blando el cielo, permitte Dios nuestro Senor, por su grande providencia, que, por crueldades que en la tierra se hazen, el glorioso número de los electos (86 r.) se vaya cumpliendo. El Governador de la India, dei qual os tengo escrito muchas vezes de quánto es nuestro amigo y de toda la Compania, sintió en tanta manera la muerte destos chris- tianos, que así como le hablé, mandó grande armada por mar a prender y destruir aquel rey, de manera que me fué necessário aplacar su ira sancta. El rey que mató estos christianos tiene un hermano, el qual es verdadero heredero del reyno, y está fuere dei reino por temor que tiene dei rey su hermano que lo mate. Dize este hermano dei rey que si el Governador lo pusiere de posse en el reyno, que él será christiano con los principales y los demás dei reyno; y así manda el Governador a sus capitanes que, haziéndose christiano este hermano del rey con los suios, 4. i 6
  • le entreguen el reyno, y al rey que mató los christianos que lo maten, o hagan lo que yo de parte del Governador les dixere. Espero en Dios nuestro Senor y en su infinita misericórdia, y en las orationes devotíssimas de los que martirisó, que verná en conoscimiento de su ierro, deman- dando a Dios misericórdia, haziendo salutable penitentia. En un reyno destas partes, que es quarenta léguas, donde andamos Francisco de Mansilhas y yo, el príncipe de aquel reyno determino de hazerse christiano; y el rey, siendo sabidor, mandólo matar. Dizen los que pre- sentes se hallaron que vieron en el cielo una cruz de color de fuego, y en el lugar donde lo mataron se abrió la tierra en crus; y dizen que muchos infieles que vieron estas senales, están muy movidos para hazerse chris- tianos. Un hermano deste príncipe, como vió estas se- nales, requirió a los Padres de aquellas partes que lo hiziessen christiano, y asi lo baptizaron. Hablé con este príncipe christiano, el qual va demandar socorro al Go- vernador, pera defenderse del rey que mató a sua her- mano. Paréceme que antes de muchos dias aquel reyno se convertirá a nuestra sancta fee, porque la gente esta mucho movida por las senales que vieron en la muerte dei príncipe, y tanbién porque el herdero dei reyno es el príncipe que se hizo christiano. En otra tierra muy lexos, quasi 500* léguas, desta donde ando, se hizieron, avrá ocho meses, tres grandes senores christianos con mucha otra gente. Mandaron aquellos senores a las fortalezas dei Rey de Portugal a demandar personas religiosas, para que los ensenasen y doctrinassen en la ley de Dios, pues hasta aora avian bivido como brutos animales, que daqui en delante que- rían vivir como hombres, conosciendo y serviendo a Dios; y así los capitanes de las fortalezas dei Rey pro- veyeron de clérigos para hazer aquel sancto (86 v.) mi- INSULÍNDIA. I — 27 4 1 7
  • nisterio. Por estas cosas que os escrivo podéis saber quám despuesta estaa esta tierra para dar mucho fructo. Or ate igitur, Dominum messis quod mittat operários in vineam suam (2). Confio en Dios nuestro Senor que este ano haré más de cem mil christianoso según ay mucha des- possición en estas partes. Micer Paulo está en Goa en el collegio de Sancta Fee. Es confessor de los estudiantes; ocúpasse en las enfer- medades, así spitiruales como corporales, dellos continua- mente. Haze tanto el Rey de Portugal por acrescentar esta sancta casa, que es cosa para dar gracias al Senor. Los que a estas partes por solo amor y servicio de Dios nuestro Senor vinieren para acrescentar el número de los fieles y limites de la sancta Yglesia, madre nues- tra, — pues ay tanta dispossición en esta tierra — halla- rán todo favor y ayuda necessária en los portogueses desta tierra con mucha abastança, y serán dellos rece- bidos con mucha charidad y amor, por ser la nación portoguesa tan amiga de su ley, y desseosa de ver estas partes de infieles convertidas a la fee de Christo nuestro Redemptor, y aunque no fuesse por más que por satis- fazer a la charidad dellos y al amor que a nuestra Com- panía tinen, devríades mandar a estas partes algunos de la Companía, quánto más aviendo tanta despossición en estas partes para hazer christianos. Y así cesso, ro- gando a Dios nuestro Senor que nos dé a conoscer y sentir su sanctíssima voluntad, y, sentida, muchas fuerças y gracias para en esta vida cumplirla (con) charidad. De Cochin.a XXVII de Henero de 1545. (Vester in Christo filius minumus, Franciscus) (2) S. Mt. 9, 38 418
  • 50 CARTA DE JORDÃO DE FREITAS A EL-REI D. JOÃO III Ternate, i de Fevereiro de 1545 ANTT: CC-I-76-15. Original com seis folhas numeradas a lápis e todas escritas com letra desenvolta, fluente e descurada. A tinta começa a desbotar; algumas dobras, pequenos borrões, e uma ou outra passagem do documento rota, permitem, apenas, num ou noutro ponto, leitura hipotética. Mede 310 x 210 mm. a) Entendimento com os castelhanos, comandados por Rui Lopes de Vila Lobos. b) Alvará publicado, proibindo, sob pena de morte, a ida de quem quer que fosse, a Amboino, para guerrear ou furtar, visto que uma grande parte dos seus habitantes era já cristã. c) Certo frade agustiniano espanhol vem a Ternate com o fim de procurar um entendimento, em nome de Vila Lobos. d) O que Jordão de Freitas soube, por este frade, a respeito das inten- ções do mesmo Vila Lobos. e) Ternate prepara-se para receber, vindo da índia, «o seu rei cristão, que ali se convertera, e que ficou a chamar-se D. Manuel. Senhor, De Malaca escrevi a Vosa Alteza, com a nova que hay achey dos castelhanos, a quall lhe mandava Dom Jorge de Crasto, por huma carta testemunhavel, o que 4 1 ç
  • fiz a saber ao governador ', a Yndea, por minhas cartas, e lhe mandei pedir socorro e ajuda pera os botar fora, e comissão pera ho poder fazer, porque sem isto nam avia de cometer contra eles nada, salvo se eles começasem. E quoando aguora aqui cheguey, a esta fortaleza, achey que estavam mais do que Dom Jorge, em suas cartas, dezya; porque hum navio que eles tynham espe- dido pera a Nova-Espanha, com recado do que lhe era socedido e a pedir socorro, tornou arribar, e veeram-se ajuntar com estes outros, de maneira que sam agora do- zentos homeens, e day pera cima. E esperam cada dya por recado e socorro, porque dizem que o visu-rey da Nova Espanha lhes prometeo de mandar, depois eles, dous navios outros. Ho seu general, tanto que soube minha cheguada, me escreveo loguo huma carta de cortesias e visytação, por minha vynda, mostrando nelas esperanças que, depois de asentar-me, requeryrya algumas roupas; a que res- pondy com muitas mais cortesyas e oferecimentos. E porque sua tenção era, ho que ate hy esperou, quem lhe darya aviamento, para se eles daly yrem; e porque eu soube que eles, se algum aviamento lhe dese, avia de li v.i ser pera se yrem para outra algures, daqui perto, // onde fezesem seu asento, como traziam por seu regimento, que he o proprio que eu escrevi a Vosa Alteza, de Malaca, que presumia que era ho seu proposyto; e nos ofereci- mentos que fiz, emtemdia que o aviamento que lhe dese avia de ser pera se yrem daquy, caminho da Yndea, calaram-se e nunqua me mais requeryram para nada, so- mente fazendo-se fortes quoanto puderam, com baluartes e tranqueiras. E o rey de Tydore, onde estam, os sostem, a sua 1 — gdor. 420
  • custa, que eles nam tem ja que despender, nem me pa- reçe que daquy avante se manteram senam de saltos que deram pelos vezinhos jemte da terra; pola qual rezam detreminey, ouvindo dezer que queryryam yr a Amboyno, de mandar preguoar aqui, em Ternate, na nosa povoação, hum alvara que me pasou o governador Martym Afonso2 de Sousa que, so pena da morte, nenhuma pesoa, cristão, mouro, nem jemtyo, nam vaa furtar, nem guerrear as ilhas e terras de Amboyno, so pena da morte, e que seja eu diso ho enxuquetor. E eu detreminava de lhe mandar notefycar ho alvara, depois que o mandey preguoar, e mandar-lhe pedir, por merce, que nam curase de mandar la saltear, por ser terra em que ja avia muitos cristãos, e mais que era minha, que me tinha dela feito merçe el-rei de Maluco, polo con- verter a ser cristão, e como cousa minha ha avia mandar defender, e como Jurdam de Freytas, e nam como ca- pitão de Vosa Alteza que era desta sua fortaleza. E estando eu com este fundamento, antes de o por em obra, fiz com a may de Dom Manuel, rei de Maluco, meu afilhado, que ficou em Malaca, a qual trouxe aguora aqui comigo, e o Pate Cerangue (i), seu marydo, regedor que foy desta terra, a qual rainha 1 he irmãa deste rey que ora he de Tidore e em cuja ilha e terra estam os castelhanos e ele os sostem, o qual esta ja muito arre- pendido e emfadado com eles e nam nos pode soster. Sabendo eu isto, fys com ela que mandase dezer ao irmão, secretamente, que quem no metya com esa fa- digua e obriguaçam? E pera que se querya perder? Que ja outra vez castelhanos esteveram em sua terra, e bem sabya (i) Do malaio Paii Serang: regente ou vice-rei. 2 —A»; 3 — r®. 4 2 1
  • ho proveito que tyrara deles, pois fora sua terra perdida e destruyda e pobre, e daly ficara somente desonra. 12 r.i E que ela vinha da Yndea aguora // comiguo, onde estevera nove annos, e que lhe fazya a saber que a Yndea era mayor cousa do que ele podia crer, porque avia nela muita jemte, e muitas armadas, e muito poder e dinheyro *; que se quisesem aquy mandar mil ou dous mil homens, que o podyam muito brevemente fazer, e vindo, que lhe não ficarya pedra sobre pedra. E, portanto, lhe aconselhava que dese ao demo tal companhia em sua terra. E que se ele quisese não lhe acudyr com ho neçesairo, como o eles não tevesem, por força, sayryam fora da sua terra ou se meteiyam em nosas mãaos. E que ela se atrevia acabar comiguo, por quamto era muito seu amiguo e os trouxera da Yndea a ela e a seu marydo ;e me tynha como a hum irmão, por quanto suas cousas eu as fezera em Portugual com Vosa Alteza; que fazendo ele o que lhe ela aconselhava, como a sua irmãa mais velha, eu lhe perdoarya, em nome de Vosa Alteza, a culpa e erro que ele fezera em recolher esta jente, estando de paz comnosco, e lhe darya paaz de novo. Polo qual andaram nestes recados de hum para o outro; e por esperimentar ele, se era verdade, mandou huma noyte, secretamente, hum seu privado a falar com ela. E ela e ho marydo mo trouxeram, a mesma noite, aqui dentro a fortaleza a falar comiguo. E me dise que el-rey tudo farya, porem que se temia, porque os castelhanos eram muitos, não no matasem, e porque eu não lhe soltava o que fezese, senão que, se ele verdadeiramente fose servidor de Vosa Alteza e se conformase comiguo, por amor da rainha que estava pre- 4 — dir° (?); um pequeno borrão nào permite a leitura certa. 4 2 2
  • semte e de Pate Cerangue, eu farya tudo o que lhe ala comprise. Espedio-se de mim com dezer que ele não trazya co- misam pera mais, senão vir ver se era verdade a amizade que dezia aver a seu irmão, que eu tinha com ela e com seu marido, e que agora que ho via. Antes de muitos dias, el-rey se veria comigo, secretamente, ou pesoa de quem ele muito confiase. E este homem adoeçeo e não pode mais tornar; e porem, mandou outro ha rainha e mandou-lhe dezer que me pedise huns apontamentos do que querya que ele fezese. E eu não lhos quis dar, por- que me temi que darya dyso conta aos castelhanos, nem quis falar com ho // que de novo vinha; somente lhe 12 v.i dise a ela que lhe mandase dizer que, se nos visemos secretamente, nos poderíamos entender, mas que asy, não podia ser, porque ou avia de falar português ou castelhano. Tornou ele a mandar outro recado ha irmãa, muito apertadamente, que ele queria antrevir na amizade dos castelhanos comiguo e fazer com eles que fezesem o que eu quisese e que fose a paz por todos. Acabey emtão de crer que elle lhe dava conta ou alguma parte do que pasava. Mandey-lhe, emtam, dizer que eu não entemdia outra lynguoajem senão português; que quando
  • ho pãao da terra, e dez caxas, cada dya, que he huma moeda feyta como ceitis furados polo meo, e valem, do- zentas, huma tangua, que he da nosa moeda tres vyn- tens, e começou yr descomfiando os castelhanos, e na sua Paiscoa, que ora pasou no noso Avento, lhe pergun- taram os seus que vida aviom de ter, se avia de ter guerra conosco. Respondeo que não. Ouveram os castelhanos acordo e fezerão com hum Frey Geronimo de Santo Estevão, priol de çertos frades da Ordem de Samto Agostinho (2), que eles trazem com- syguo, que escrevese a Ruy Vaz, viguaryo desta forta- leza, dezendo que os dias pasados, depois que eu che- guara, esteveram com esperamça que amtre seu general e mim ouvese alguma detreminicam (sic); e depois que me escreveram huma carta e lhe eu respondera outra, nunqua mais se falara cousa alguma e me çerrava, de maneira que não sabyam o que diso tomasem, porque dantes, com Dom Jorge, ouvera muitas praticas, reque- rymentos e prepostas; e eu pouco nem muito, não falara niso; somente souberam de el-rey de Tydore que hum mouro honrrado, que eu trouxera da Yndea, falava em paz e amizade, e depois aquilo arrefeçera, como cousa 13 r.i que não / / vinha de raiz e que daly não tomavam outra cousa, senão que Noso Senhor Deus nos enverguonhava e reprendia, pois espirava num mouro que espertase o que nos os cristãos não fazyamos. E que, se ele, padre vigário, quisese antrevir comiguo ele, ho prior Frey Ge- ronimo, farya outro tanto com su (sic) general e prazerya a Deus que nacerya day algum seu serviço. Mostrou-me ho vigaryo a carta e eu dise-lhe que lhe mandase dizer que porquanto eu era emformado de quoam (2) Eram quatro estes religiosos Fr. Jerónimo de S.10 Estêvão, prior; Fr. Sebastião de Tassierra (de Reyna); Fr. Nicolau de Sala- manca (de Perea) e Fr. Afonso de Alvarado. (Cf. Epistola, I, pág. 343, nota n.° 13). 424
  • vertuosa pesoa ele era, e de sua vida e exempro; que, se quisese vir folgar a festa do Natal conosco, que emtão vinha, me farya merçe e pera iso ouvese leçença de Rui Lopez de Villa Lobos, seu general, e que se desenfadarya qua e nas praticas, trazendo comisam sua larga pera tudo, poderya ser que nos entemderyamos. E se não, que se não perderya nada na jornada. E como quer que estavam ja muito maduros, veo lo- guo; e no meo da Consoada e nestes dyas das Oytavas correram as praticas que veo com huns apontamentos, aos quais respondy e ele repricou. E foram recados e veeram, de maneira que asentamos em não bulyr, de parte a parte, ate vir recado da Yndea do governador, a quem tenho mandado pedyr jemte e navios para os daly botar fora; o que aynda que para iso não fose tanto neçesario, so pera destruyr huma fortaleza que tem feta el-rey de Yeylolo convém muito vir poder da Yndea, pera se desfazer aquela ladroeyra. E nestes conçertos em que andamos lhe pedi que me mostrase como aqui vieram ter forçadamente e não por suas vontades, como me eles mostravam em suas rezões, porque dantes andaram com Dom Jorge muitos requery- mentos, como Vosa Alteza la verya, pela carta testemu- nhavel em que pareçia virem aqui com cmtra tenção, e portanto lhes pedy que me mostrasem o regymento que trazyam do visu-rey da Nova-Espanha, porque dezyam que vinham mandados, e a merçe que dezyam que fora feta a Dom Pedro de Alvarado e ao dito visu-rey deste descubrymento destas partes qua. O qual me mostrarão, asy huma cousa, como outra, e quisera dyso tomar ho trelado e loguo que mandaram dezer que avia de ser com expresa condição que daly não treladase senão o que fazya a noso caso sobre Maluco e demarcação de Vosa Alteza. 42 5
  • E mandaram hum castelhano com eses papes ao dito frade que qua estava conosco, e que tamto que os vise lhos tornase loguo, e day treladase o que fose neçesareo. E porque não avia niso de que lançar mão mais que o que na memorya nos podia fycar, amostrey tudo aos que 13 v.) estavam presentes, com quem / / estas cousas pratiquei, que foram Dom Jorge, capitão que aqui foy, e meu irmão Domingos de Freytas, e Francisco de Azevedo, capitão da nao desta carreira; e Amrrique de Saa, e Estevão de Chaves, e o ouvidor e o feitor e escryvaens da fei- torya. E por lhe mostrarmos que nos davamos por satis- feitos, não curey de mandar treladar nada, porque ho regimento do visu-rey não tratava senão do modo que avya de ter do aviamento de sua armada; e o regymento que avia de ter na terra, onde fosem ter, com a jemte dela. Somente que lhe mandasem amostra das cousas que ouvese na terra de canela ou outras cousas quoaysquer, espiçiaryas, ou mercadoryas. E que goardaria em todo o que Sua Magestade mandava, de não entrarem na de- marcação de Vosa Alteza, a qual não vinha lemitada nem decrarada por onde he. Somente dezya: nem em Maluco. E na merçe do Emperador dezya que ele fazya merçe a Dom Pedro de Alvarado do descobrymento das ilhas do Ponente da Nova-Espanha e da parte do Sul, contamto que não emtrasem na demarcação de Vosa Alteza, nem em Maluco, e o al eram tudo as condições do que lhe fazya merçe, a saber: das vinte cinco 5 partes a hua do que descubryse, e tytolo de conde e tres mil cruzados de juro pera sempre, nas rendas que sua Magestade tevese nas terras que descubrise, e mil cruzados mais, para ajuda 5 — xit 4 2 6
  • de custo e alguoazyl (3) mayor das ditas terras de juro, e governador em tres vidas, ele e seu filho e neto, das ditas terras e outras cousas semelhantes que, porque não fazyam a noso preposito mais que saber que lhe era defeso que não emtrasem em Maluco, e a detreminação por onde era a demarcação não estava decrarada, não apertei em- tão com eles por aver ho trelado, pelos não escandelyzar nem mostrar que fazya tanto caso dyso, mas desque os tever mais conversáveis ey-de-aver a mão, ao menos o trelado, ha merçe conçedyda do Emperador a Dom Pedro de Alvarado que he o que faz o novo caso com achaque ', que quero ter aquilo para minha emformação de certas cousas que quero mandar pedyr a Vosa Alteza sobre Amboyno. Eles fazyam fundamento de asentarem aly em Min- danao, onde prymeiro vieram ter, e a jente he mui atre- çoada, e nunqua mal nem bem quiseram consenti-los na terra, nem conversar com eles // nem dar-lhes manti- M r.i mentos, e teveram algumas pelejas e rebates, de maneira que forçadamente se vieram aquy meter em Maluco, como terra ja sabida; e isto, porque vinham com eles alguns castelhanos que ja aqui esteveram, a saber: hum Antam Corço e outro Martym Dislares e hum Pedro 7 de Ramos que aqui aynda fycou dos primeiros, e nuhqua quis tomar soldo de Vosa Alteza; e aguora quoando soube que anda- vam asy perdydos, foy-se para eles e trouxe-os a Tydor onde aguora estam. E amtes que abalasem das ilhas de Mindanao, duma ilha a que eles poseram nome a Felypina, mandarão hum navio caminho da Nova-Espanha com nova ao visu-rey (3) Do árabe al-uasir, oficial de diligências, governador, etc. 6 — leitura hipotética; 7 — P°. 427 *
  • de como eram aportados aly e do que ate emtão lhe era socedydo, com esperança que nas costas lhe avya de man- dar ho visu-rey hum Andres Durdeneta, com dous na- vios, porque lhes prometeo que o anno segynte ho farya e que, se lhe não fose nova nenhuma, não mandarya mais ninguém, ate aver nova deles. Ho Andres de Urdeneta não aportou qua; não sabe- mos se se perdeo ou não partyo; e estes com ho seu ge- neral, depois de ter expedido ho dito navio, posera huma cruz, na ilha donde espedira ho navio, com hum letreiro, que ao pee da cruz cavasem e acharyam huma panela com cartas e regymentos do que faryam e omde os acha- ryam quem nos aly viese buscar. Ho navio que espediram não pode alcançar a Nova Espanha, como fezeram quoantos ate aguora aquele ca- minho cometeram, e tornou arribar, e esta agora aqui, outra vez, com eles. E dizem que chegou ate dozentas legoas da Nova Espanha; não sei se mentem; e porem eles o tem, outra vez, prestes; não sei se he para o tornar mandar. Pra- zerá Deus que fara o que fezeram ate gora todos os outros pasados. E estam com fundamento que, se lhe vier recado, se mudarem daqui para outra parte que pareçe, segundo ouço, que sera para aquela ilha Felypina que he nas costas de Mindanao e day tratarem pera Chyna e para os Lequios e pera outras partes comarcãas, ate pasar o tempo do contrato. E segundo tenho apreso detreminava ho visu-rey da Nova Espanha, com estes qua asentes, e quando acabase seu tempo de visuery, pasar-se para qua e trazer muita jemte ou mandar hum seu filho, porque eu vi huma carta sua, feita por sua mão, que ele escreveo a este Frey Gero // nimo, a quall eu mostrey a Dom Jorge e a meu 4 2 8
  • irmão e a Francisco de Azevedo, que dezya no cabo: «e prazera Deus que vos dee boa viagem e que çedo nos vejamos la todos, que de tornardes qua me pesarya muito». A qual carta me mostrou o frade, porque nela trazya mençam doutro tal regymento como ho que trazya ho seu general, porque lho eu pedy para o ver, por me mostrar e çertefycar que o trazya, e que se lhe molhara e perdera com outras cousas. E porem seu fundamento era este e Noso Senhor Deus lho tem atalhado ate gora; e pareçe-me que, se este anno lhe não vem nenhum recado, que eles se entreguarão a nos, se vier jente e socorro, como espero, porque se não vier cousa que seja pera forçadamente ho fazer, asy se deixarão estar toda sua vida, ate lhe vir recado; e ven- do-nos com poder, me afyrmo que não pelejarão e se emtergarão. E com este fundamento que, se lhe vier socorro, me convém estar apercebydo de mantymentos, porque depois não poderey soltar daqui ninguém a busca-los, e se lhe não vier, e se vierem para mim alguns deles, convém que lhes de de comer, e o fornecimento da Yndea, mal pe- cado, nunqua he tal que faça arrebentar homem de farto, me conveo vender dos terços de Vosa Alteza çem bares, pera ter fornecimetno para estas necesy^ades, se sobre- vierem. E para mais meu trabalho e confusam mandou ho governador este anno aqui huma provisam que eu, nem nenhum capitão, daqui avante, não mande na fazenda e que, se vender terços, que perca seus ordenados e o feitor que tal consentir e os escryvães que tal lançarem em lyvro, alem de perderem seus ordenados, paguem quatro vezes dobrado o que lançarem em lyvro; de maneira que as neçesydades evidemtes dum tal, e os requerymentos e protestos dos oficiais do outro, me punha em estremo: 429 %
  • ou alarguar a fortaleza e capitanya, ou faze-lo contra todas estas prematicas 8. E confeso a Vosa Alteza que, se não forem estarem castelhanos na terra e ir nisto honrra e lealdade que devo a Vosa Alteza, que eu me fora e alarguara a capitania; mas em cuidar que syrvo a Vosa Alteza, aynda que minha fazenda corra risco, pois por seu serviço ponho a vida e a pesoa, não he muito arriscar a fazenda, mas ja ao menos terey contemtamento que sayba o que eu qua paso, por seu serviço, no cabo do mundo. E pode saber que com as 15 r.j prematicas vay o neguoçio em tanto aperto // que ey por menos da-lo meu que fazer nada aos homens com ho de Vosa Alteza, pelo qual a minha custa tenho de conta duas mesas, ao jantar, e duas, a cea; huma de muitos homens, que comem comiguo; e outra de homens proves e meus cryados, afora muitas rações para fora a pesoas necesytadas, que me não abasta com muita parte meu ordenado que Vosa Alteza me daa. De maneira que estes sam os proveitos que tenho com a fortaleza de que me fez inerçe em paguo e galardão de meus serviços. Peço a Vosa Alteza que respeite isto tudo e se lembre quoão lealmente ho sempre servi, e aguora, no cabo do mundo, ho em que estou posto. E contudo, desque Maluco he descuberto, nunqua tanto proveito foy dele a Vosa Alteza, como lhe vay este anno, prazendo ao Senhor Deus, porque dantes se vendyam qua muitos terços; e aguora, avendo tantas neçesydades, se nos venderom somente estes çem bares, e vallera, o que este anno lança Maluco, cincoenta 9 e mil pardaos, ao menos, pera Vosa Alteza. Quanto ao rey, meu afylhado, ja este anno pasado 8 — i. é. «pragmáticas; 9 — 430
  • escrevy a Vosa Alteza como o deyxey em Malaca, pola nova que ay achey dos castalhanos, e trouxe a may e o regedor comigo, para com eles qua saber e discubryr o que hya na terra. E com eles soube quam malquisto este outro he e em quoanto risco esta terra esta com ele, por- que se tem lyado com todos estes reis que qua ha, e leva caminho, e vay-se ordenando, porque se o dexasem muito tempo estar asy nos dar com hum machado na cabeça, ele quisera ordenar mao (?) 10 fym a este regedor e a rainha que trouxe e a todolos da terra que sabe que lhe querem mal e desejam ho outro. Pelo qual soube, por vya destes, que trouxe, suas detreminações e vou desymulando com ele e fazendo-ho amigo ou reconcylyando-ho com os que ele quisera des- truyr. E porem tenho, a mayor parte, todos os principais entemdydos comiguo, por via do Pate Cerangue e rainha, sem falar com eles, pera que, prazendo a Noso Senhor Deus, des que tever recolhyda a novydade do cravo e se não desaviar a carregua do anno que vem, antes de cheguar recado de Malaca, lançar mão por ele, porque quoando esperam // qua por iso, com reçeo que tem de ts v.i vir ho irmão, anda resguoardado, e hum mes primeiro sera bom faze-lo; e isto, se não vierem mais castelhanos que me torvem. E para isto mando vyr este ano meu afylhado de Ma- laca, que aynda que ele seja bragante este outro he maao e mais mais (sic) braguante que ele, porque tenho sa- bydo, se e verdade o que me dizem, que nam abasta tomar as fylhas e molheres alheas, mas que com suas próprias irmãas dorme, e as tem tomadas a seus marydos e outras parentas suas, por onde he fortemente malquisto. E espero na miserycordya de Deus que, se me o go- 10 —roto neste ponto o documento. 4 5 i
  • venardor mandar jente e socorro, sedo tenho aquerydo as vontades da jente da terra e os castelhanos conformes comigo, se lhe ate este Mayo de 1545 não vier recado; que não tam somente os ey-de despejar daqui, sem escân- dalo, e destruir Yeylolo, que esta com huma fortaleza feita, ha ja muitos dias, e aguora se faz aynda mais forte com huma cerqua nova que faz, ho para que tenho ja alguma palavra dos castelhanos com fee de o nam aju- darem, o qual rei de Yeylolo he sogro deste noso que aqui temos e estavam muito conformes. E, como diguo, que espero em Noso Senhor de meter meu afilhado em pose do seu e fazer tudo ho mais. E desta vez, se se daqui espedem os castelhanos, creo que nunqua mais am-de tornar nem curar desta empresa, segundo estam escarmentados e escandelyzados dos muitos trabalhos que tem pasado. E com isto feito, prazendo ao Senhor Deus, pode Vosa Alteza la milhor sacar seus partydos e fazer o que for mais seu serviço. Lembro a Vosa Alteza, porque sam obriguado faze-lo, de quem no serve; que Rui Vaaz, viguayro desta forta- leza, me ajuda muito a soster estes trabalhos que qua paso, asy com seu conselho e com sua fazenda, gastando muito do seu; e asy meu irmão Domingo de Freytas, que veo comigo de Malaca, quoando soube que qua avia cas- telhanos; e seus filhos que trouxe comigo de Portugal; e Anrrique de Saa e Anrrique Fernandez de Lordelo; e Guaspar Pinheiro, ouvidor; pedem a Vosa Alteza, por merçe, que de la lhe queira aguardeçer estas boas von- tades e escrever-lhes. E ao viguayro queyra tomar por seu capelão, que pode ser que nunqua yra la a requery-lo para nada, e [6 r.i para ele qua sera contentamento, / / vendo que se lembra dele, de tam lomje, para lhe fazer merçe. 432
  • Detreminey de acabar esta por ser ja muito compryda e começar outra das novidades que me começaram agora a soceder, estando ja as naos para partyr. Noso Senhor Deus acreçente ho real estado de Vosa Alteza com muita vida e saúde. Desta sua fortaleza Sam Johão de Ternate. De Maluco, ho primeiro dya de Fevereyro de 1545. as. Jurdhão de Freytas 1NSULÍNDIA, I 28 43 3
  • 51 TRECHOS DE UM REGIMENTO QUE MATIAS DE ALVARADO APRESENTOU EM TERNATE 6 de Fevereiro de 1545 ANTT: CC-I-76-20. Cópia em oito folhas escritas com letra muito clara e certa. Começa por incluir uma Provisão Geral de Carlos V a todos os navegadores e conquistadores espanhóis, com o fim de evitar abusos que se cometiam contra os indígenas das terras desco- bertas. Consta, depois, de vários capítulos com as condições e cláusulas em que concede a Pero de Alvarado os direitos sobre as terras que pudesse descobrir a Oeste e Sul da Nova-Espanha. A este regimento se refere Jordão de Freitas, em carta a El-Rei, datada de 1 de Fevereiro deste mesmo ano. Pero de Alvarado faleceu, antes de chegar às Molucas, tendo passado para Rui Lopes de Vila Lobos, ao que parece, os mes- mos direitos. Matias de Alvarado, que aparece em Ternate, será qualquer parente de Pero de Alvarado. Deste regimento damos apenas os capítulos que excluem as ilhas das Molucas, pertencentes a El-Rei de Portugal. Aos seis dias de Fevereiro de mil quynhentos e qua- remta e cimquo annos, dentro na torre da menagem desta fortaleza Sam Joham de Ternate, em prezemça de Jur- dam de Freytas, capitam da dita fortaleza e ylhas de Maluco, por el-rey noso senhor, pareceo Mathias de Alva- rado por parte Ruy Lopez de Villa Lobos, capitam-geral da armada dos castelhanos que em Tidore estam, e apre- sentou ao dio capitam huma estruçam e capitolaçam do viso-rey da Nova Espanha, Dom Amtonio de Memdonça, 4-3 4-
  • acerqua do que ho dito Dom Amtonio avia de fazer, de que ho trelado de verbo a verbo he o seguimte; e a qual capitulaçam hera de Sua Magestade e não do viso-rey, e he a seguinte abaixo decrarada: Porque entre nos e el serenysymo rey de Portugall, (2 v.i nuestro muy caro e muy amado irmão, ay ciertos asyen- tos y capitolaciones cerqa de la demarcacion e reparti- mento de las Imdias, y também sobre lias yslas de los Maluqos e espeçiaria, vos mando que lo guardees como nela se contem, y que no toquees em cosa que perteneza ali serinysymo rey. Outrosy. Com condiçion que, quando salierdes de la w r.j dicha provynçia de Guatemala, ayayes de levar y aleveis, com vos, y los officiales de nuestra hazienda, que por nos fueren nombrados, y asy mysmo las personas religiosas ho eclesyasticas que por nos seram senhaladas para estru- cyon de los naturales de las dichas yslas y provimcias a nuestra samta fee catholica. A los quales religiosos o clérigos aveis de pagar el frety y matolotagem y los otros mantinymientos necesa- ryos comfforme a sus personas, todo a vuestra costa, syn ello lhes levar cosa allguna, durante todalla dicha vuestra navigaçion. Lo qual mucho vos emcaregamos que amsy hagais y cumplais, como cosa dei servido de Dios e nuestro, porque de lo contrario nos tenyamos por deser- vido. 43 5
  • 52 CARTA DE JORDÃO DE FREITAS A EL-REI D. JOÃO III Teraate, 13 de Fevereiro de 1545 ANTT: CC-I-76-22. Original em quatro folhas, das quais três escritas, com a mesma letra de todas as outras cartas do mesmo autor, livre e descuidada, mas clara e legível. A tinta começa a desbotar, manchando as folhas. Mede 303 x 203 mm. a) Prisão do rei que governava a ilha de Ternate, na ausência do que se encontrava na India e que se convertera, com o nome de D. Ma- nuel, afilhado de Jordão de Freitas. b) Motivos porque o enviava preso. c) Entendimentos que teve com os castelhanos que se encontravam naqueles sítios. d) Socorro que esperava da Índia para submeter o rei de Geilolo, que estava bem fortificado nesta ilha. Senhor, Porque depois de ter estoutra primeira escryta a Vosa Alteza, socederão outras cousas, de que convém lhe dar conta, fyz esta. Eu, senhor, não determinava de prender ho rey, irmão de meu afylhado, que oora regya, senão hum mes antes que viese a nao da carreira, que anda neste ca- minho. 436
  • E porque ele se começava a antecypar, com cousas que quis fazer, e esperava fazer, lancey mão por ele, e quis prevenir, antes que ser prevenido; e mandey-o a Yndea, por estar la mais aseseguado, e mando trazer de Malaca meu afylhado que, prazera a Noso Senhor Deus que sera para muito seu serviço e aseseguo desta terra; o que fyz com quoanto trabalho e risco de minha pesoa, como Noso Senhor Deus sabe; Ele seja muito louvado, que mo deyxou fazer. E porque foy ho negoceo feyto com muito segredo e desymulação, sayo, louvores a Noso Senhor Deus, de maneira que, o mesmo dya que o premdy, se tornou outra vez asentar a praça, e venderem e comprarem nela, como dantes, que he cousa que se nunqua vyo, em seme- lhantes casos. Ele vay com esperança que o tornarão a mandar cedo pera qua, e que lhe darão bandeira (?). Lembro a Vosa Alteza que tal não faça, aynda que se torne cristão, porque serya cousa mui // perjudicial para este terra. u t.i Ao regedor e a hum seu irmão que também prendy por asesego da terra, des que o a terra estever com meu afylhado nela, bem pode mandar tornar, porque o re- gedor, segundo tenho emformação, tem bem servydo nela; e o irmão, posto que ja alguma ora •fez aqui guerra a esta fortaleza, ao presente, não no prendy, por culpas que lhe achase, senão por segurar a vyda de meu afi- lhado. E porem a el-rey, em nenhuma maneira, não mande qua mais, porque a princypal cousa que me qua requere a jente da terra he que, aynda que se torne cristão, não no torne qua mandar, porque serya mai grão confusão e desaseseguo, posto que lhe fezese merce de bandeira (?), porque day se vyngarya mais fortemente e desaseseguarya a terra. 4-3 7
  • Lembro a Vosa Alteza quoão lealmente e com que vontade o syrvo, sem me lembrar se perco ou poso per- der, com trazer hum rey e prender outro, nos meus tres annos; e que quomtos capitães, antes de mim, para qua vyeram, não quiseram fazer, por lhes não torvar fazerem seu proveito quoaisquer revoltas que na terra ouvese. E com aver castelhanos na terra, e estar tão dovydosa, lhe mando, este anno, a Yndea, mais proveito de que nun- qua lhe foy de Maluco, ate gora, em anno nenhum. E asy, mando aqui a Vosa Alteza hum estormento que os castelhanos tyrarom, ante mim, do que lhe tem socedydo, ate gora, para se saber como não foy sua tem- ção emtrarem em Maluco. E isto lhe aconselhey, por- que, com ese achaque, podesem la ser vistas 1 suas pro- visões e regymentos. E asy lhe mando o trelado da merce concedyda a Dom Pero 2 de Alvarado do descobrimento destas partes, e o concerto da paz que com eles asentei, porem tanto até 12 r.] me vyr recado da Yndea. // Espero na miserycordia de Noso Senhor Deus que cedo se a-de converter toda terra a fee de Noso Senhor Jeshu Cristo. E ja se vão fazendo alguns; e porem, com a vynda de meu afylhado, me parece que se a-de por e acender o foguo e lume do Espirito Samto. E não peço mais vyda a Noso Senhor Deus, ate ver feetas e cabadas estas obras. Ho rey de Yeylolo, que tem feita huma fortaleza de pedra e cal, muito forte, e aguora, de novo, faz huma cerqua, e houtra com baluartes, desque aguora vyo que eu estava emtendydo com os castelhanos, e que prendy ho rey daqui, que he seu jenro, com cujo favor e ajuda e avisos, porque estava aqui em braços comnosquo, que 1 — VtM; 2 — PO. 43 8
  • não podya homem fazer nada sem ele, com tudo nos tor- vava e danava, e na prysão deste ouve a mão a molher que he filha 3 do de Yeylolo, anda tão metydo por dentro para que lhe de a fylha, que espero na miserycordia de Noso Senhor, se da Yndea me vem este anno alguma ajuda, que por força, ou por concerto, hey-de fazer der- rybar a fortaleza e quanto tem feito. Peço a Vosa Alteza, por merce, (por quoanto ho go- vernador não adevinhando que me eu avia de ver qua nestes trabalhos, defende que nenhum capitão não mande na fazenda, como tem defeso em toda a Yndea) que a Francisco 4 Palha, que agora qua he feytor, mande levar em conta quoaysquer despesas que eu mandar fazer agora nestes trabalhos e necesydades, asy de dadyvas aos prim- cypaes da terra, pela asentar e segurar, que lhes soya a mandar, cada anno, da Yndia; e este anno, porque avya de aver mais necesydades, não lhe mandarom nada. E asy também algumas que darey aos castelhanos que se vyeram para mim, porque com suas fortunas andam tão esfarrapados e proves que sera esmola. E porque eu pasey a Francisco Palha hum asynado meu, que não lhe levando isto em conta, que eu lho pa- garya de minha fazenda, peço a Vosa Alteza que me desempenhe, pois he tudo para seu serviço. // 12 E porque os castelhanos me pedyam estromentos para Vosa Alteza e para o governador da Yndea, lhes mandey dezer que os pasarya com condição que o seu general avya de jurar numa ostia consagrada nas mãos do sacer- dote, perante quem eu la mandase, como não tynha mais provisões nem ynstruções mandadas nem palavras pubry- cas nem secretas que aquellas que me mostravam de que 3-f»; 4-Fr. 4 5 9
  • eu tomava o trelado; e foram dyso contentes; e mandey la Guaspar Pinheiro, ouvidor, com sua vara na mão e a Anrrique Fernandes aqui morador, almotace outrosy com a vara, e o meirinho, e a Duarte Lopez, escrivão, para perante eles se fazer o juramento e não parecer que por estarem em Maluco perdyamos a nosa pose, porque fose aquela ilha em que estavam trilhada por nos e as varas da justiça de Vosa Alteza vistas e obedecydas nela. E com isto feito, fys ajuntar aquy a porta da forta- leza todolos mouros mais onrados velhos cacyzes, e fyz- -lhe huma fala, representando-lhe as cousas pasadas e quoantos trabalhos e guerras teveram, porque lhe pren- deram seu rey, meu affylhado, o qual eles fezeram e sus- tentaram como boons e leaes vasalos a seu rey, e depois sofreram muitas tyranyas a Cachyl Aeyro, seu irmão, que regya como a tyrano e não como rey natural e que soo eles sofryam, era por noso favor; e algum pejo que eles tynham em Dom Manuel ser cristão com o qual lhe Aeyro e os da sua valia fazyam medo, que não avyam de fazer a ninguém por força, porque a nosa ley o defendya e mais que bem vyam eles que Pate Ceramgue e a rainha may de Dom Manuel andaram na Yndea muitos annos e r.i nunqua os ferezão cristãos por força como todos vyam. // E que pois viam que Vosa Alteza, por fazer justiça e verdade, mandava meter de pose a Dom Manuel, por dar o seu a seu dono, era de crer que, pois o tomava debayxo de sua encomenda e favor, era pera sempre ter cuidado dele e de sua terra para ser goardada e favo- recyda. E portanto, pois viam o que era feito, emquanto Dom Manuel não vinha, tevesem obydyencia a esta fortaleza de Vosa Alteza e que Pate Cerangue os regerya como ja dan- tes fezera em outro tempo. 4.4.0
  • Foram dyso contentes e mandaram vyr hum ...ça- fo (i) no qual juraram todos de obedecer a fortaleza, em nome de Vosa Alteza, e a mim, em nome de meu afylhado, seu rey Dom Manuel e que regese Pate Ce- rangue. E asy fyca isto asentado ate que venha, praza ao Senhor Deus que seja para seu serviço e de Vosa Alteza, por muitos annos, Amen. O Senhor Deus acrecente o real estado de Vosa Alteza com muita vyda e saúde. De Maluco, oje 13 de Fevereiro de 595. as. Jurdhão de Freytas (1) Parece-nos tratar-se duma palavra indígena que um pequeno rasgão não deixa ler. 4.4.I
  • 53 OUTRA CARTA DO MESMO A EL-REI Molucas (Ternate), 20 de Fevereiro de 1545 ANTT: CC-I-76-27. Original com duas folhas, sendo uma escrita, com as mes- mas características da anterior. Mede 305 x 205 mm. a) Pede, em nome dos principais de Ternate, que o rei que ele deportou não seja mandado regressar. b) Pazes feitas com os reis de algumas ilhas vizinhas. c) Os principais de Ternate pedem que o seu legitimo rei, D. Manuel, case com uma sobrinha de Jordão de Freitas, quando chegar da Índia. Senhor, Depois de ter mandado daqui Cachil Aeyro, rei que aqui foy desta terra, para Amboino, se veeram a mim muitos destes princypaes mouros, e me diseram que escre- vese a Vosa Alteza que por lhe fazer merce lhe pediam que nunqua em nenhum tempo qua mandase a ele nem ao regedor; porque, posto que o regedor fose dilygente para o serviço de Vosa Alteza e de sua fortaleza, que o era a sua custa delles, e que tinha tyranizada esta terra toda. E me diseron cousas tam feas dele e do dito rey, que fazya aqui na terra, que ey vergonha de as escrever. E parte disto mandey por huma carta testemuenhal ao go- 4.4.2
  • vernador da Yndea, e diguo-lhe que se mais quiser saber que mande qua tyrar huma ynquyrição dysto. Ja tenho pazes branquas com estes reis vezynhos, ate me vir jemte da ylha, com que posa cometer el-rey de Yeylolo, que tem huma fortaleza, feita de pedra e cal para entamto apanhar esta novidade do cravo e nos provermos de mantymentos. E louvores a Deus, esta a terra mansa, que cuydey que ouvese mais alvoroço com a pesoa do rey que la mando caminho da Ylha. Estes mouros honrados com a mãy de meu afilhado // tt v ' e seu padrasto, o regedor Pate Ceramgue, me cometeram, falamdo-lhe eu se algum rei destes vezinhos darya huma filha que se fezese cristãa, para a casarmos com meu afi- lhado; e diseram-me que serya milhor casa-lo com huma molher portuguesa, porque milhor lhe vinha a eles lya- rem-se com a fortaleza de Vosa Alteza que com ninguém outrem. E porque eu trouxe da Yndea huma minha sobrinha, filha de meu irmão, Domingo de Freitas, e de huma mo- lher da terra, moça allva, e gyntyl molher, e ja no cami- nho a mãy do rey, meu afilhado, e o padrasto, me vinham dizendo que, se o filho viese a reinar, folgaryam que casase eu aquela minha sobrinha com ele, agora juntamente todos me cometeram isto. Polo que detremino de o fazer com ajuda do Senhor Deus, quando embora vier de Ma- laca, por serviço de Noso Senhor Deus e de Vosa Alteza, porque prazera Ele que nacerão daqui muitos beens. E pois eu a todolos riscos me ponho por serviço de Noso Senhor e de Vosa Alteza, peço-lhe que, daqui avante, no dar da fortaleza de Maluco, resgoarde nosas filhas, minha e de meu irmão, porque a não de a algum capitão sandeu que nos desonre, porque não estando eu aqui, ou para que lhe doa, ha qua nesta terra muitos desmandos. 443
  • E se em eu aqui acabando, mandase a meu irmão isto, por outros tres annos, receberya eu isto em mui grãa merce e meu irmão ho tem meresydo a Vosa Alteza, por seu serviços. E porem de quallquer maneira que seja, beijarey as mãaos a Vosa Alteza lembrar-se sempre dysto e aver este respeito e favorecer hum tamanho serviço de Noso Senhor Deuz, como se começa a cryar nesta terra. A Santisyma Trindade prospere seu real estado com muita vyda e saúde. De Maluco, a 20 de Fevereiro de 1545. as. Jurdhão de Freytas 444
  • 54 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AO P.* FRANCISCO MANSILHAS Negapatão, 7 de Abril de 1545 Epistola S. Francisci Xaverii: I-284-288. а) Deseja ir a Macáçar, mas ainda não se determinou. б) Em Maio espera tomar uma resolução. c) Indo, tenciona escrever ao governador de Goa, para que o reco- mende ao capitão de Malaca e lhe dê todo o auxílio necessário. d) Diligência e zelo no exercício do munus apostólico, recomendando ainda outros assuntos ao P.e Mansilhas. Charissimo Padre e Irmão meu. Deos sabe quanto mais folgara de vos ver, que não escrever-vos, para vos informar do modo que em esta Costa haveis de ter em servir a Deos Nosso Senhor, olhando por esses christãos. Isto vos digo, porque não sei athé agora o que será de mim. Deos Nosso Senhor por tempo nos dê a sentir sua san- tíssima vontade; e quer de nós que sempre estejamos prestes para comprir todas as vezes que no-lla manifestar e der a sentir dentro em nossas almas; e para bem ser em esta vida havemos de ser peregrinos para hir a todas as partes, donde mais podemos servir a Deos Nosso Se- nhor. Eu tenho por novas certas que em as partes de (37 v.) Mallaca há muita dispozição para servir a Deos, e à min- goa de quem a isso trabalha, se deixão de fazer muitos 445
  • christãos e de acrescentar-se a nossa sancta fé. Não sei o que será disto de Jafanapatão, por isso não me deter- mino se hirei a Mallaca ou ficarei: por todo o mez de Mayo determinarei de me hir. E se for cazo que Deos Nosso Senhor (se) queira servir de mim, hindo eu às ilhas de Macaçar, donde agora novamente se fizerão chris- tãos, e mandou o rey daquellas ilhas a Mallaca por Pa- dres, e não sey os Padres que de lá forão para que lhes ensinassem a nossa fé e ley, se for cazo que eu me deter- mine de hir lá por todo o mez de Mayo, mandarei pa- tamar (i) a Goa ao Senhor Gouvernador, fazendo-lhe a saber como me parto para aquellas partes, para que me mande ao cappitão de Mallaca que me dê ajuda e favor, que para servir a Deos Nosso Senhor se tem necessidade. Se for cazo que me for para as ilhas do Macaçar, eu vos escreverei. Rogo-vos muito que não canseis de trabalhar com essa gente, pregando continuadamente por todos esses lugares, baptizando com muita deligencia as crianças que nascem, e fazendo ensinar por todos os lugares as oraçoens. De João da Cruz cobrareis dous mil fanoens (2), que nesta pescaria arrecadou para ensino dos meninos; e os fanoens que deixaste ao P.' João de Liçano, também arrecada- reis; e com muita deligencia fareis ensinar por toda esta costa as oraçoens; e não estareis de assento em nenhum lugar, senão continuadamente andareis de lugar em lugar vizitando todos esses christãos, como eu fazia quando lá estava, porque desta maneira servireis mais a Deos. E também tomay conta em Manapar dos gastos que fizerão com aquella igreja, porque a Diogo Rebello dei (1) Palavra oriental de origem incerta com a significação de embarcação, correio, mensageiro, estafeta, etc. Vid. Dalgado, op. cit. (2) Antiga moeda de ouro ou de prata corrente na Índia, valendo entre vinte a quarenta réis. 446
  • eu guarda dos dous mil fanoens, que deo Iniquitriberim para fazer as igrejas em sua terra. OP.' Francisco Coelho sabe o que se gastou; e o que sobejou dos (dous) mil fanoens gastareis em ensinar os meninos. E vizitareis os christãos que se fizerão em a pray a de Travancor, repar- tindo por todas essas terrsa, como melhor vos parecer, estes Padres malavares; olhareis (que vivam) muito bem e castamente, trabalhando em serviço de Deos, dando bom exemplo de sy. Ao P." João de Liçano dareis cem fanoens, que me emprestou, estando vós em Punicale, para couzas dos christãos: estes pagareis dos fanoens do ensino dos me- ninos. Em outra couza nenhuma gastareis os fanoens dos ensinos dos meninos, senão em mestres que ensinão ós meninos as oraçoens com muita deligencia. Duas couzas vos emcommendo muito: a primeira, que andeis peregrinando continuadamente de lugar em lugar, baptizando as crianças que nascem, e fazendo com muita deligencia ensinar as oraçoens; a segunda, que olheis muito por esses Padres malavares que não se danem (a si e aos outros. E se virdes que fazem mal, repreende-los heis) e castiga-lo (s) heis, pois hé muito grande peccado não dar o castigo a quem o merece, principalmente aos que com seu viver escandalizão a muitos. Ao Cosme de Paiva (38 r.) ajudareis a desencarregar sua conciencia dos muitos roubos que nesta Costa tem feito, e dos males e mortes de homens que por muita sua cobiça se fizerão em Tutucorim; e mais, aconcelha-lo- -heis, como amigo de sua honra, que torne o dinheiro que tomou dos que matarão os portugueses, pois hé couza tão fea vender por dinheiro o sangue dos portugueses: e não escrevo, porque não espero emmenda nenhuma em elle. E assim lhe direis da minha parte, que o avizo que tenho de escrever a El-Rey suas malfeitorias, e ao Senhor 44 7
  • Gouvernador para que o castigue, e ao infante Dom Hen- rique, que por via de Inquizição castigue aos que perce- guem aos que se convertem a nossa santa ley e fé; e por isso que se emmende. Se lá for João de Artiaga não consintais que esteja mais nesta Costa; e direis a Cosme de Paiva que não lhe pague nenhuma couza, porque não hé para estar nesta terra. A Vasco Fernandez, que esta minha carta leva, agazalhareis, porque espero em Deos Nosso Senhor que será da nossa Companhia e parece-me muito bom filho, e com grandes dezejos de servir a Deos, e hé rezão que o favoreçamos. Escrever-me-heis largamente de vós e desses christãos, e de Cosme de Paiva se (se) emmenda e se restitue o que leva destes christãos. Nosso Senhor seja sempre em vossa ajuda, como de- zejo que seja em minha. De Negapatão a 7 de Abril de 1545. Vosso em Christo Irmão, Francisco 4.4.8
  • 55 CARTA DO MESMO AO MESTRE DIOGO E AO P.' MICER PAULO S. Tomé (Meliapor), 8 de Maio de 1545 Epistoles S. Francisci Xaverii: I-291-294. (1) a) Decide-se a ir a Macáçar, por ser da vontade de Deus. b) Para instruir os cristãos, ali convertidos, propõe-se traduzir para malaio os principais artigos da nossa íé e as orações. c) Mesmo que não encontre transporte português para Malaca, embar- cará em navio de mouro ou de gentio. d) Promete escrever de Malaca mais extensamente. Charissimos e en Christo Jesu amantíssimos Hirmãos. A graça he amor de Christo Noso Senor seja sempre en nosa ajuda e favor. Amen. • Nam se tomô Jafanapatan, ni se puso de pose aquel rey que habia de ser christão. Dexô-sse de fazer por- quanto deu à costa una nao d'El-J?ey que vinha de Pegu, he tomô ha fazenda el-rey de Jafanapatan; he fasta co- brar-sse ho que el-rey de Jafanapatan tomô, nam se feze ho que o Senor Governador mandaba. Prazerá a Deos que se fará, si fore seu serviço. (1) BAL: 49-IV-49, fls. 8 V.-9 v., BACIL: Cartas do Japão, Vol. I, fls. 9 v.-xo v., BIMINEL: Cartas da índia, 15 r.-v. INSCLÍNDIA, I — 29 449
  • En Negapatan estebe algunos dias e hos ventos nam me deron lugar pera poder tornar aho Cabo de Cumurin. Anton fui-me forçado vir a Sant Thomé. En esta sancta casa tomê por officio de occuparme en rogar a Deos nues- tro Senor me desse a sentir dentro en minha alma sua sanctissima vontade, con firme proposito de ha cumprir, he con firme esperança que (Habit perficere qui dederit vel(e)(2). Quise Deos por sua acostumada misericórdia lembrar-se de mi, e com muita consolaçon interior senti e cognosci ser Sua vontade de eu ir àquelas partes de Malaqua, donde novamente se fezeron christãos pera dar- des razon e doctrina de nosa sancta fee e verdadera, sa- cando hos artiguos e mandamentos de nosa lei e fee en sua lingua deles, con alguna declaraçon; e pois volunta- riamente vieron a fazer-sse christãos, en razon está, cha- rissimos Hirmãos, seren muito faborescidos de nós. E pera que saiban a Deos pidir acrescentamento de fee he graça pera guardar sua ley, sacaré en sua lingua o Pater noster e Ave Maria e otras oraçõis como hé a confission geral pera que confesen a Deos seus pecados quotidianamente. Esta les servirá en lugar de confission sacramental, fasta que Deos probea de sacerdotes que entendan sua lingua. Ho Padre Francisco de Mansilhas con hos otros Pa- dres malavares fiquan con los christãos do Cabo de Cu- murin, e donde eles estan nam faço mingua. Hos Padres que hibernaron en Moçambique con otros que este anno espero (que viran, ir) an en companhia desses príncipes de Celon quando foren a suas (22 v.) terras. Espero en Deos noso Senor que en este vieje me há de fazer muita mercê, pois con tanta satisfaçon de minha alma e conso- laçon espiritual me faze mercê da dar-me a sentir ser sua sanctissima vontade de eu ir àquelas partes de Maquaça (2) Phil. 1, 6; 2, 13. 450
  • que novamente se fezeron christãos. Estô tan determinado de cumprir ho que Deos me deo a sentir en minha alma que, a nam o fazer, me paresce que iria contra a vontade de Deos, e que en esta vida ni en otra não me faria mercê; he si nam foren navios de portugueses este anno para Malaqua, irei en algun navio de moros ô de gentios. Te- nho tanta fee en Deos Noso Senor, charissimos Hirmãos, por cujo amor solum faço este viaje, que, ainda que desta costa nam fosse este anno navio ninhum, he partisse un catam (aran) (3), iria confidenter en ele, toda minha esperança posta en Deos. Por amor e serviço de Deos Noso Senor vos roguo, charissimos in Christo Hirmãos, que en vosso (s) sacrifícios e continuas oraçõis vos lem- breis de mi pecador, encommendando-me a Deos. Aho fin del mês d'Agosto espero partir pera Malaqua, porque estan as naos, que an de partir, aguardando por aquela monçon. Hao Senor Governador escrebo pera que me mande una probison pera o capitan de Malaqua, que me dê embarquaçon e todo o necessário pera ir às ilhas de Maquaça. Por amor de Noso Senor que tenhais cargo de a recadar de Sua Senoria, e mandar-la por este patamar. Un briviario romano pequeno me mandareis con este pa- tamar. A noso grande amiguo he verdadjero, Cosmianes, me encommendareis muito. Não le escrebo, pois esta é pera todos tres. Si de nosa Compannia vieren algunos estrangeros que não saben falar português, hé necesario que aprendan a falar, porque de otro jeto não haberá topaz (4) que os (3) Jangada de três ou quatro pranchas, usada nas costas de Choromandel. Do tam. kattumaram; kattu. «ligadura»; maram, «pau». Dalgado, op. cit. (4) Discute-se a origem e formação desta palavra que foi corrente 11a índia e na Malásia, com várias acepções: mestiço, cristão indígena e, mais geralmente, intérprete ou língua. 4-5 1
  • entenda. De Malaqua vos escreberey muito largo, dando- -vos conta dos christãos que se fezeron e da disposition que há pera fazerem-sse, pera que de lá probejais de pes- soas que acrescenten nosa sancta fee; pois essa casa se chama Sancta Fee, hé necessário que as obras correspon- dan hao nome. Por hos patamares que partiran por julio vos escriberê mais largo. Noso Senor nos juncte en sua sancta gloria, porque en esta nam sê si nos veremos. De Sant Thomé a VIII de Maio anno 1545- Vester minimus frater (Franciscus) (23 v.) Inscriptío: Alii charissimi mei in Christo fra- teli, Mestre Dioguo e Micer Paulo en Goa mei amantissimi. 4 5 2
  • 56 CARTA DE GASPAR NILIO A EL-REI D. JOÃO III Malaca, 10 de Agosto de 1545 ANTT: CC-I-76-84.. Original com três folhas, duas das quais escritas; letra ní- tida e clara, e uma ortografia certa. Mede 323 x 210 mm. a) Diligências dos castelhanos para se estabelecerem nas Molucas, com referências a Pedro de Alvarado e a Rui Lopes de Vila Lobos. h) Notícias sobre Amboino: abusos que alguns mercadores cometem. e a particular simpatia destes indígenas pelos portugueses. c) Lugares de cristãos existentes já nesta ilha. Senhor, Mui estranha e ousada pareçera a Vosa Alteza esta mi- nha carta, mas como a temção dela seja* de seu serviço, loguo fica com aquela licenca 1 que tem os dos que a tem de Vosa Alteza pera o poder fazer. E portanto deve ser recebida como de vasallo que muito deseja seu serviço; e por elle detreminei escrever o que em Malluco, com ha vimda e estada dos castelhanos que a elle vierão, em Janeiro de 543, deles soube; que dado caso que por os capitães da fortaleza de Vosa Alteza seja enformado de sua vimda e estada e negoçios da terra 1 — Lça.
  • muito pello meudo, eu, polia groseyra, direi o que nesta parte vy e sey, por aver que em no fazer seja Vosa Alteza diso servido. Vosa Alteza sabe a comtratação que Dom Pedro de Alvarado fez com el-rey de Castela sobre o descobri- memto das ylhas do Ponente, e por elle morrer, mandou o viso-rey da Nova Espanha, Dom Antonyo de Men- donça, com ha jemte e armada com que estava para vir ou mamdar o Dom Pedro 2, hum Ruy Lopez de Vilha Lobos (boa pesoa 3) com fundamento de vir elle com esta jemte povoar em Mindanao ou derrador delle, omde mi- lhor aparelho para yso achase. E dahy mamdarem loguo navios ao viso-rey, carregados de canella e gemgivre que a na terra. E a voz de quando partirão da Nova-Espanha era que vinhão a espeçearya e tomado asento na terra, avião de mandar a China e a Borneo e asy por todalas outras partes a comtratar, e por * toda a terra por omde o Ruy Lopeez vinha e chegava, tomava pose dela, com todos ofiçiaes que trazia del-rey e do viso-rey; e cortavão ra- mos e fazião os escrivães asento da pose, que asy to- ma vão. E também vimdo a vella, pesamdo perto 5 dalgumas ilhas, asy mesmo ho fazião e escrevião que lho não com- tradizia ningem. Porem, isto não fizerão quamdo entrarão no Moro nem em Geilollo nem Tidore, porque aqui en- trarão elles com a neçesydade que dizem de fome. » E huma das cousas, segundo tenho entendido, / / por- que o Dom Amtonyo de Mendonça mamdou este Rui Lopez qua, mais que a outra pesoa, foy por ser omem que entemde e sabe matamatica, e que lhe poderya escre- ver e mandar certa enfformação do que descobryse. E 2 — Po; J — pa; 4 —p; 5— p«o. 4 5 4
  • elle se deu muito a tomar altura por toda a parte, omde amdou, e a fazer larguos roteiros diso, e a tomar ho eclise da lua e do sol, sobyndo-se para yso nos mais alltos momtes que podia, e tem asentado comsiguo que todo este arcepeliguoo de Maluco e da demarcação del-rey de Cas- tella; e dixe-me que não podia nimgem saber isto bem senão quem no vise, dizendo mais: «devia-se de mandar qua a ver ysto pesoas que o entendesem». E eu lhe respondi de la: «esta ysto bem entemdido, e por yso esta como ho achastes». E aimda que a sua jornada lhe socedeo tam mal que perdeo a metade dos navios e jemte que trazia, e pasase tamto trabalho e minguoa, como pasou, se elle pudera tornar por omde veyo, imda que fora com hum soo navyo, imda ouvera que aproveitara muito na tornada, soo pollo descobrimento da vollta; a qual elle ha por mui certa, tendo navyo para yso; e o que elle mamdou a Nova Es- panha, que lhe arribou, diz que foy por ser pequeno, e não ser para pairar; e mais que partirão no fim de Agosto, avendo de partir em Mayo ou ate Junho; e agora estavão para o tornarem a mandar neste tempo. E perdoe Noso Senhor a quem tiver a culpa diso. E este navyo sera de cincoenta toneis, e trazem tam matinados, os castelhanos, a el-rey de*Geilollo e de Ti- dore, com ho que lhe dizem, que lhe tem feyto crer que toda a terra e do Emperador, estes reis chamam-se seus vasallos, e a Ruy Lopez chamão guovernador. E por se os castelhanos mostrarem mays propios da terra que os portugeses asentarão de fallar a estes reis por M., achando-os acustumados a falarem-lhe por A., os capitães da fortaleza de Maluco. E vimdo asy desbaratados, e sem nenhuma cousa que comer, senam ho que esperavão delles, os não quiserão lizomjar (?), e fizerão-lhe entender que vinhão para asen- 45 5
  • tarem sua terra, porque ate hum frade, de quatro que vierão com elles, aprende a fallar a limgoa de Tidore e faz vacabularyo delia. E elles não tem outra nenhuma cousa que comer, senão o que hos os negros dão, que he hum pouquo de arroz ou çaguu e dez caixas * para cada dia, que lhe aymda não bastão para pescado. E se não fora Jurdão de Freitas, que veio por capitão da fortaleza, que tratou com elles amizade da maneira que a elles quiserão e sem na pedirem, e comtratou com o Rui Lopez que lhe vendese todo o cravo que ouvese em Tidore a treze mil caixas, que he a treze pardaos, o 12 r.j bar, e lhe deu loguo roupas / / pera yso, perderão-se todos a fome, porque perto de duzentos omens que elles são, não nos podia ja o rei de Tidore manter, que he muito prove. E aimda que Jurdão de Freitas fizese ysto, dizendo que era serviço de Vosa Alteza, a mim não mo pode pareçer que o cravo da terra de Vosa Alteza seja vendido ao capitão dela por castelhanos que entrarão e estão na terra como forçosamente, e que a tem alevamtada, e estão nella como poderosos; e de sua estada se tem causado muitos maos ymconvinientes ao serviço de Vosa Alteza e perda 7 dos seus vasallos, que em Malluquo estão, por- que o cravo que em Tidor lhe devem, não lho pagão, e os escravos que fogem da fortaleza para os castelhanos, não lhos querem tornar, e servem-se delles, e tem-nos, como seus. E nom me allarguo mais nisto, por nom pareçer que digo mal de algem. E quando o navyo que arribou amdava buscamdo ho Rui Lopez, temendo-se que veese ter com os portugeses e que viese a fortaleza, rompeo e lamçou o mar, o capitão 6 — c«*; 7 — pd». 45 ó
  • e piloto que he meo 8 portuges, todas as cartas e enfor- mações que leva vão ao viso-rey da Nova Espanha, do que tinhão amdado e visto. E vimdo elles para Mindanao, acharão huma ilha rasa, sesenta ou oytenta legoas amtes de Mimdanao, norte-sul com elle, que esta em omze graos, de que elles faziam muito fumdamento, porque nella forão muito bem reçe- bidos e agasalhados e davam-lhe mamtimentos. E aqui detreminavão asentar, por os em Mindanao não quererem comsentir; e por causa de corremtes e hum contraste que lhe deu se apartarão os navios e não pu- derão ir la. E asy acharão outra ilha, em que lhe mostrarão ramos de cravo verdes, colhidos. E ja que esta jente qua pasou, milhor foy virem ter a Tidore que asentar nesta ilha. E este rey de Tidore e tamanho amigo dos castelhanos que ally lhes ouvera de mandar levar cravo, e elles trazião detreminado que domde asentasem teryão suas emtiligemçias com elle para yso, e com a certeza que tem deste rei de Tidore ser muito ami- guo dos castelhanos, e desejallos muitos, fez arribar a Malluco e yrem-no buscar, por esperarem que dele seryão bem remedeados e providos de sua necesydade. E tamto que o rey soube que eles estavão no Moroo logo se foy ver com elles; e a causa deste rei de Tidore e dos prymcipaes dos seus desejarem e quererem caste- lhanos em sua terra e porque o rei da ilha de Ternate, com o favor da fortaleza, se mostra ao de Tidore muito superior, e lhe faz muitos desprazeres e ofensas. E se fora cousa que pudera ser com justiça ', não de- vera de aver destas ilhas mais que hum soo rei, porque desta maneira estivera mais segura // e pacifica a terra. 12 8 — m»; 9 —juat». 4 57
  • Fernão de Sousa de Tavora vai agora a Maluquo, como Vosa Alteza sabera, e me afirmo que virão os castelhanos com elle, se se não puderão ir; e creio que terão ja des- pachado ho navio para a Nova Espanha. E se Vosa Alteza ouver por escusado estas cousas que escrevo, ao menos não aja esta que agora direi: que he que Vosa Alteza deve de mandar aos capitães que forem de Maluco que em nenhuma maneira mandem cora-coras a Amboino, nem a Bamda, porque querendo elles fazer amizade e favor a alguns omens, de que são amigos, lhe dão cora-coras para irem la, fimgimdo que vão a algum negoçio, e também sem yso, e vão a roubar a jemte destas ilhas de Amboino, que he mesquinha e prove, e que vivem sem nenhum prejuízo dos portugueses, nem lho podem fazer, mas amtes quando elles chegão a eles, os recebem muito bem e lhe dão tudo que ão mister, e em certas ilhas destas vão envernar as naos de Vosa Alteza que vem de Malluquo. E muitos lugares destes são de cris- tãos; e sem embarguo disto, alguns dos que la vão lhe fazem algumas tiranias, o que verdadeiramente e muito deserviço de Noso Senhor e Vosa Alteza mui obrigado a deffender que esta jemte não seja roubada, Cativa e morta por purtugeses. Também em darem para isto cora-coras aos purtu- geses reçebe niso a jemte de Malluco muito trabalho e os reis descontentamento, por lhe ocuparem niso a jente de seus lugares. Verdade he que também os reis e regedores de Maluco mandão a estas ilhas de Amboino cora-coras a furtar; e porem ja estes não são mandados nem consentidos por os capitães de Vosa Alteza. E quando se offereçer ser neçesaryo ir alguma cora- -cora a Amboino ou Bamda, com algum recado, bem pode ser de maneira que não vaa saltear. 458
  • E se nam arreçeara que Vosa Alteza ouvese esta carta por grande, maior a fizera, por desejar apomtar nela algumas cousas mais a Vosa Alteza, cuja vida e real estado Noso Senhor prospere e acreçemte por muitos anos. De Malaca, a dez de Agosto de 545. as. Gaspar Nilyo % 4 59
  • 57 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AOS CONFRADES DA EUROPA Malaca, 10 de Novembro de 1545 Epistola S. Francisci Xaverii: I-298-301. (1) a) Suas ocupações em Malaca, onde esperava por ocasião de ir a Macáçar. b) Conversão de João de Eiró. c) Sacerdotes chegados da Europa, consolando-se com a leitura das cartas que trouxeram. Jhus Charíssimos en Christo Hermanos. La gracia y amor de Christo Nuestro Sehor sea continuamente en nuestra aiuda y favor. De la índia os escrevi mui largamente de mi antes que partiesse para los Macaçares, donde se hizieron dos reis christianos. Ha mes y medio que legé en Malaca, donde estoi esperando monçán para ir a los Macaçares. Partiré, Dios siendo servido, de aqui a un mes y medio. Están estos Macaçares mui lexos de Goa, más de mil lé- guas. Dizen los que vinieron de aquellas partes, que es (1) BAL: 49-IV-49, fls. 13 r.-v. BACIL: Cartas do Japão, Vol. I, fls. 14 V.-15 v. BIMINEL: Cartas da índia, fls. 18 V.-19 v. 460
  • tierra dispuesta para se hazer mucha gente Christiana, porque non tienen casa de idolos, ny tienen personas que los muevan a gentilidad. Adoran el sol quando lo veen, y no ay más religion de gentilidad entre ellos. Es gente que unos con otros siempre tienen guerra. Después que llegué en Malaca, que es una ciubdad de grand trato de mar, no faltan occupationes pias; todos los domingos predico en la See, y no estoi tan contento de mis praedicationes, quando están los que tienen pa- cientia de me oir. Todos los dias enseno a los ninos las orationes una hora o más. Poso en el hospital, confiesso los pobres enfermos, digoles missa y los comulgo. Soi tan importunado en confessiones, que no es possible poder complir con todos. La maior occupación que tengo es de sacar las orationes de latin en lenguage que en los Maca- çares se pueda entender. Es cosa mui trabajosa no saber la lengua. Quando parti de la India, que fué de un lugar de Santo Tomae, ado dizen los gentiles de la tierra que está el cuerpo de Santo Thomae apostol. Ay en Santo Thomae más de cien portugueses casados. Ai una iglesia mui de- vota, y todos tienen que está ally el cuerpo dei glorioso Apostol. Estando en Santo Thomae aguardando por tiempo para ir a Malaca, allé un mercader, que tenia un navio con sus mercaderías, el qual conversé en las cosas de Dios, y diólo Dios a sentir que avia otras mercadorias, en las quales él nunqua trató, de manera que dexó navio y mercaderías, y imos los dos a los Macaçares, determi- nando de bivir toda su vida en pobreza, sirviendo a Dios nuestro Senor. Es hombre de treinta y cinco anos. Fué soldado toda su vida dei mundo y ahora es soldado de Christo. El se encomienda mucho en vuestras orationes. Llámasse Juan de Hierro. 4 6 i >
  • Después en Malaca me dieron muchas cartas de Roma y de Portugal, con las quales tanta consolation recebi y recibo (todas las vezes que las leo), y son tantas las vezes que las leio, que me parece que estoi yo allá, o vosotros, charissimos Hermanos, acá do yo estoi, y si no corporalmente, saltem in spiritu. Los Padres, que de allá vinieron este ano con Dom Juan de Castro, me escrivieron de Goa a Malaca, Agora les escribo que vaian al Cabo de Comorin a tener com- pania dos dellos a nuestro Hermano charissimo, Fran- cisco de Mansillas ,el qual quedó allá con tres Padres de (87 v.) missa de la misma tierra, doctrinando los chris- tianos dei Cabo de Comorin: el tercero que quedasse en el collegio de Sancta Fee ensenando grammática. Por estar el navio tan de prissa no torno a escrevir lo que de la índia escrevi. Para el ano que viene os escri- viré mui largamente de la gentilidad de los Macaçares. Sobre todo, charissimos Hermanos, os ruego, por amor de Dios, que todos los anos embiéis muchos de nuestra Compania, porque hazen mengua — y para andar entre gentiles no son necessárias letras, sino que vengan mui bien exercitados. Assi cesso, rogando a nuestro Senor que nos dee a sentir dentro de nuestras ánimas su (sanctis- sima) voluntad, y fuerças para cumplir (la) y ponerla eri obra. De Malaca a 10 de Noviembro de 1545 anos. Vester minimus frater et servus, Franciscus 462
  • 58 CARTA DE ANTÓNIO PAIVA A RAINHA Goa, 30 de Novembro de 1545 ANTT: CC-I-77-40. Original em duas folhas; letra perfeita e legível. Mede 295 x 205 mm. a) Conversão dos reis de Macáçar. b) Tempestade no mar. c) Veneração por uma bandeira que se dizia ter sido tecida pelas mãos da rainha. Senhora, Como quer que a Vosa Alteza, por rainha alta e po- derosa senhora, se deve alto acatamento, onesto era que dovydase e temese, por ser ornem symprez, cometer allgum desmamcho por que minha carta merecese ser lyda e nam oulhada. Mas por ser forçado da neçesydade e costramgydo do serviço que a Deus e a Vosa Alteza nesta parte comprya, determiney emvyar esta, para nella fazer saber a Vosa real pesoa da nova crystandade doos reis do Macaçar, novamente cristãos, vosos vasalos, que Noso Senhor por emxalçamento da sua samta fee fez, o anno de 544. Porque Ele, por sua miserycordia, foy servydo no çeo que eu fose terçeiro a esta samta obra na terra preposto 463
  • a todolos erros e faltas, foy rezam emvya-la a Vosa Al- teza, para que de vosa real vertude estes reis sejam socor- ridos e ajudados. Porque tem Sua Realydade tamta força e mereçimento amte Deos que ja os vemtos por vosas rogaryas e preçes nestas partes da Imdia se movem. Dou esta nova a Vosa Alteza, não para que a receba por ymçerta, mas para que o credito lhe seja dado, segumdo a temçãao com que Vosa Alteza fia humas bamdeyras que qua nos dizem que de sua real mam sam feytas, para com elas se salvarem todos aqueles que em perygosos mares naveguão, poderosa rainha e senhora. Eu me achey em huma naoo de Alomso Amrriquez, u v.i fidalgo de sua casa, / / este presemte ano de 545, quamdo vim trazer novas destes reys cristãos ao senhor gover- nador '. E semdo amtre Malaqua e a terra das vosas for- talezas da Imdia com comtrastes de tempo que nos le- vavão mais a perdição que a salvamento, por ser em huma corda de ylhas e na naao nom aver que comer, nem beber, por ser tudo gastado no caminho e em cal- maryas, finallmemte que por se nom poderem tomar nem menos terra, ouve determinação de comermolos escravos ou deixala naaoo, porque no mumdo todo avia cousa que vemto nem ar se pudese dizer. Nesta naao vinha hum Gil de Crasto, paremte de Fer- nam de Crasto, defumto, que ya por capitam da sua for- taleza de Maluquo, ao qual no leilam que lhe fizerão foy achada huma bamdeyra com humas letras que diziam: Cristus vemcit Cristus reinat (sic) etc, omde loguo foy dyto que fora fiada por Vosa Alteza. Nãao se vemdeo, mas amtes este Gyl de Crasto a to- 1 —gr. 464
  • mou e acertou de a levar nesta naao, e lembrarado-lhe nesta perseguyção e miserya em que estávamos a tyrou e com gramde reveremçia foy arvorada no mastro da mezena a oras de Trymdade. E loguo amtes de noute deu hum vemto ryjo nella que parecia que a querya levar, com ficar outra vez calma. E easy a mea noute, deu outro que nos fycou geral sem deyxar de vemtaar com o qual foy a naao posta a salva- memto na barra da sua fortaleza de Cochim. Demos de esmol, em louvor das tais obras, hum caliz de prata de çimquoemta cruzados a Madre de Deus de Guoa. Estas novas dou a Vosa Alteza para que sabidas se emerynem as outras raynhas cristams a lhe ajudar a trocer cousa que tamto fruto de sy da. // 12 r.i E pois Vosa Alteza com sua real vertude e animo em Deos move os vemtos, não he muito moverem-se hos cora- çõees destes reis a tomarem-na por rainha e senhora, pera que também parta com elles e se posam salvar da perse- guyçãao e tormemta em que a carne e o mumdo e diabo os ha-de meteer e temtar. Peço a Vosa Alteza que com magestade de alta ray- nha e realydade de poderosa prymçesa comsymta e reçeba a petiçãao destes reis, para que sejam favorecidos, que sem as de Vosa Alteza, ser-lhes-hya trabalhoso, posto que a Deus templos levamtasem, poderem-no alcançar nem merecer. E pois ja por este caminho da fee ha vyeram receber por senhora e o poderoso Deus, amtre todas as rainhas cristãs, para yso a escolheo, cesso, cremdo como em Deus que, por sua parte, eles nom poderão serem me- reçedores do reyno do çeo e eu também da omra da terra, pois pela obra e servyço de vimte anos a mereço. Deus a conserve em sua alteza e poderyo com tamta saúde e anos de vyda com el-rey, noso senhor, como deseja. 465 1NSULÍNDIA, I — 30
  • De Guoa, ao derradeiro de Novembro da sobre dita era de 545. Com letra diferente: Lembre-se Vosa Alteza de meu irmão Jeronimo 2 de Paiva. as. Antonio de Paiva 2-Jo. 4. 6 6
  • 59 APONTAMENTOS DO VIGÁRIO P.* MIGUEL VAZ SOBRE AS CRISTANDADES DA ÍNDIA Évora, Novembro de 1545. ANTT: CVR, N.° i5ç. Original em bom estado, constando de doze folhas, onze das quais escritas. Deste documento publicamos somente o que diz respeito às Molucas. Encontra-se publicado na íntegra em Documentação... (India), Vol. Ill, pp. 202-233, on^e se indicam também outras obras em que foi publicado, na íntegra, ou em parte. ■a) Auxilio material a dar aos que se ocupam na obra da conversão dos gentios, por várias razões, ó) Nas Molucas, o cravo, poderia ser utilizado para esta medida. c) Notícias sobre D. Manuel, rei de Ternate, que partira para Ma- laca, com destino às Molucas, falecendo, porém, naquela cidade. 24. Em todolos lugares, omde se este beneficio da comversam tratar, comvem que tenham os homens, que ysto ouverem de fazer, alguma temporalidade para favor « ajuda desta espiritualidade, porque, como se comvertem os da terra, perdem todo o socorro e bem fazer dos seus naturaes, e ficam-lhe por imigos. Se nam acharem em- paro naqueles que os convertem, em casos de grandes necesydades que forçadamemte requerem favor, perder- 467 >
  • -se-am; nem os homens que ysto tratarem, temdo cha- ridade, poderam sofrer verem muytas cousas que amtre eles ocorrem, sem lhe poder valer. Pelo que he necesareo, omde Deus da, partir Vosa Alteza com ele pera cousas de tamto seu serviço e domde tamtos beens procederam. Em Maluquu pera provisam destas cousas nam sey outro remedeo senam virem cada ano de laa corenta bares de cravo lymytados pera estas obras de comversam, os quaes seram emtregues no colégio de Goa, pera o homem que das cousas da casa tiver sarreguo, os vemder e mam- dar o retorno pera os que no dito Maluquo amdarem, e teram com ysto com que suprir as necesydades e bas- taram vim ta cinquo ate trinta (i). A margem: Carta ao governador encomendando-lhe isto muito, e que ele ordene a esta gente o que lhe parecer, e que se lhe asente em parte onde seja bem pago, e que escreva o que eles fazem. 29. El rey de Maluquu ficava agora em Malaqua (21) ; sam seus trabalhos muyto largos de comtar. Ouve sempre o desemparo de sua vida por hum gramde nam bom exem- pro noso. Ordenava Deus como naquela terra ouvese rey christão e português, poes, se nam oulhou, parece que ou nos ham ha bom o nam merecemos. Sey que a per- diçam sua he huma gramde culpa nossa amte Deus e o (1) A frase em itálico é posterior, e reduz quase a metade a quantia proposta pelo P.° Miguel Vaz. 468
  • mumdo, e se nam pode imputar a ele, poes se offereceo sempre a ser bom homem, imsynamdo-o. Parece caso de lhe fazer justiça e oulhar por ele, e nam ir tamto ao cabo o descuido dhum homem, o primeiro deste nome e ser que recebeo agoa do baptismo, com quem nos os outros dam em rosto e tem muyta rezam. 469
  • 60 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AOS CONFRADES DE GOA Malaca, 16 de Dezembro de 1545 Epistola S. Francisci Xaverii: I-308-310. (1) a) Comunica ter desistido da viagem a Macáçar, para ir a Amboino. b) Recomendações a vários religiosos. c) Referências a Simão Botelho que regressava de Malaca à Índia, onde fora capitão interino da fortaleza. Con el Padre Comendador vos escrevi largamente cómo estava de partida para el Macasar: y por seren las nuevas de llá no tan buenas como pensávamos, no> fui allá, y voi para Ambueno adó ai muchos christianos y mucha desposición para se hazeren más; de allá vos escreviréy la desposición de la tierra y el fruto que nella se puede hazer. Y por la esperiencia que tengo dei Cabo de Comorín y de Goa, y de la que, praendo a Dios, teréy de Ambueno y de las partes de Maluquo, segundo vir do más pudéis servir a Dios y acrecentar la sanc- tíssima fee de Christo nuestro Senor, vos escreveréy. Por esta carta vos pido, charíssimos Padres y her- manos Joam da Beira y Antonio Criminal, que, vista ésta, vos hagaes prestes para irdes al Cabo de Comorín, donde haréys más servido a Dios que estando en Goa; (1) BAL: 49-IV-49, fls. 11 r.-v. BACIL: Cartas do Japão, Vol. I, fls. 13 r.-v. 470
  • donde allaréys el P.e Francisco Mansillas, el qual sabe la tierra y el modo que avees de terner en ella. Y sy el P.e Francisco de Mancillas estuviere en Goa, yréys todos 3; y por amor de Dios vos ruego que no hagáys el con- trario, y no dexéys por nynguna cosa de ir al Cabo de Comorin. Y el P.6 Nicolau Lanciloto s(e) quedará en S. Pablo ensenando grammática, ansy como de Portugal venía ordenado. Y porque confio de vuestras Chari- dades que no haréys el contrario de lo que escrevo, no digo más. Micer Paulo rógoos mucho por amor de Jesú Christo que miréys mucho por essa casa, y sobre todo vos enco- miendo que seáys obediente a los que tienen cargo de governar essa casa, y en esto me haréys muy (11 v.) grandíssimo plazer; porque sy yo allá estuviera, nyn- guna cosa haría contra voluntad de lios que tienen cargo desa sancta casa, sino obedecerles en todo lo que me mandasen, y porque espero en Dios que os tiene dado a sentir dentro en vuestra ánima que en nynguna cosa le podéys tanto servir, quanto por su amor negar vuestra propria voluntad. Escrevireme(e)is nuevas de todos los Padres, nuestros Hermanos y del P.® Francisco de Mancillas con la nave que partir para Maluquo, y sea que me- escreváis mucho largo, porque mucho holgaré con vuestras cartas. Rué- goos, charíssimos Hermanos, que rogéys siempre a Dios por my en vuestras devotas oraciones y sanctos sacrifí- cios, que por tierras ando do tengo mucha necesidade de vuestras oraciones. Allá vay Symón Botello, amigo desa sancta casa. El os dará nuevas particularmente myas. Soi yo mucho su amigo por ser el hombre mucho de bien, y amigo de Dios e de la verdad. Pídoos que tengáis su amistad. El lo hizo muy bien comigo, mandandome dar todo el ne- 4 7'
  • cessario para my embarcación con mucho amor y cha- ridad: nuestro Senor le dé el galardón, que yo le quedo en mucha obligación. Dios nuestro Senor, charissimos Hermanos en Christo, nos aiunte eu su sancta gloria, pues en esta vida andamos tan esparzidos unos de los otros. De Malaqua a 16 de Deziembro anno de 1545. Vester minimus Frater en Christo. Franciscus 4.7 2
  • 61 CARTA DE QUECHIL AEIRO, REI DE TERNATE, A D. JOAO III Cochim, 18 de Janeiro de 1546 ANTT: CC-I-77-71. Documento com duas folhas, em bom estado; só a primeira está escrita com letra não muito clara, e livre. Mede 205 x 195 mm. a) Queixa-se de Jordão de Freitas, que o prendeu e deportou para a Índia. Senhor, Tenho escrito a Vosa Alteza da maneira que o servia em Maluco e cam certo seu vasalo era, e que ho reyno que tynha como cousa sua pesoya, pois me pos Vosa Al- teza, e em nome, rey dado; e também escrevi a Vosa Alteza per hum criado de Dom Jorge de Crasto em que lhe dava comta dos castelhanos, como heram chegados a Maluco. E esperava de servir a Vosa Alteza como meus avos e pay sempre fyseram. E estamdo com esta vomtade, trabalhamdo p>or vos servir, chegou a Maluco Jordão de Freitas, capitam provido por Vosa Alteza, o qual, sem vosa permisam nem do voso governador da Indya, me premdeu em grylhões a mym e ao meu regedor Çamarao, 47 3
  • velho de setemta annos, a quem Vosa Alteza deve muito, por seus serviços. E nam comtemte de me premder, sem ter cousa de voso deserviço, me saquearam minha casa e fazemda, e sabemdo Vosa Alteza da maneira que foy, o nam havera por seu serviço, com dizer que me premdya por meter de pose Dom Manuel, meu irmão, que Deus tem, o que fora bem escusado, porque abastava quallquer mamdado do voso governador pera em tudo lhe ser obydyemte. Mas pera sua desculpa do que fez me poem algumas li v i que eu nam // tenho, como se Vosa Alteza pode emfor- maar; e como homem cortado do deserviço que em mym e em minha casa em Chonysa foy feyto, me calo, e peço a Vosa Alteza que se emforme de meus serviços; pois meu irmão he morto e a mym me vem ho reyno de dy- reyto. E como rey e senhor e justiça aja respeyto a meus serviços, pois sam seu vasalo, me restetua em meu reyno Chonysa que por Vosa Alteza tenho e seu he e hos se- nhorios dele, e de sua mão o quero pesoir. Nam escrevo a Vosa Alteza da desposysam da terra e como ficam, com os castelhanos nela, porque chegou a esta fortaleza de cochim a tempo que se as naos faziam a vela pera o reyno. E porque Dom Jorge de Crasto escreve a Vosa Alteza, em tudo lhe escrevera ho que he. Noso Senhor acresemte a vyda e o real estado de Vosa Alteza. Desta fortaleza de Cochim, a dezouto de Janeyro de quinhentos e coremta e seis anos. Vasalo de Vosa Alteza. as. (em caracteres árabes) 47 4
  • 62 CARTA DOS MORADORES DE TERNATE A EL-REI D. JOAO III Ternate, 20 de Fevereiro de 1546 ANTT: CC-I-5-76. Original em seis folhas, das quais, cinco escritas com letra difícil, redacção confusa, sem pontuação, e abreviaturas fre- quentes. Este interessante documento, encontra-se, felizmente, bem conservado, permitindo decifrar o texto. Mede 305 x 210 mm. á) Acusam-se os capitães das Molucas de fazerem mais a sua vontade do que o serviço de El-Rei. b) Quanto importa prover esta fortaleza de homens, e coisas neces- sárias. c) Privilégios que devem ser concedidos aos moradores casados. d) Desentendimentos entre o capitão da fortaleza e o capitão dos mares. e) Privações que passam os portugueses ali residentes. /) Pedem para que aquelas ilhas não sejam arrendadas, como se dizia. Senhor, Este cativo povo de Maluquo, lançado em numa ilha muy pequena, senhoreado, de tres anos, de capitais que, por estarem qua tam longe, fazem mais sua vontade que o voso serviço, porque ha hy tais que, nem em todo, nem em parte, cumprem seus regimentos, nem menos querem consentir aos outros oficiais que se cumprão, nem as suas Justiças ', suas ordenaçõis. 1 — jU8tcas. 4 75
  • Faz-se em tudo quanto querem, tem sentença (?) 2 quem lhes apraz; he senhor de sua casa quem nos adora; em ho que querem nos he forçado que lho conçedamos e asynemos; por nos mesmos lhe são suas culpas apro- vadas por serviços, do que a Deus e Vosa Alteza pedimos perdão; a quem damos enformação da cousa para que nos proveja com justiça que lhe, senhor, pedimos, tanto de coração, como vir rezão que no-lo faça, que ha boa fee, que não sentimos nação que tal catyveiro padeça, que não desobedeçera a tal capitão. Mas lembrados de nosa nação, e termos Sua Alteza por rey e senhor, que a todos nos deve prover, sostemos ho seu serviço com asaz trabalho, pela obryguação em que lhe somos. Vosa Alteza deve ser muy lembrado desta terra e a prover com capitão que nela ho syrva para mereçer Ma- laqua ou Urmuz, por fym de seo tempo *; e não de ca- pitãis velhos que, desesperados de outras merçes, se entre- guão, nesta fortaleza de maneira que o cravo que ha terra daa, tal cerquo nos poem que, sendo largo, por real pro- vysão, o fazemos as escondydas. E como nesta fortaleza não haja outra mercadoria nem para outra parte trato, o porque os seus governadores, avendo respeito, nos alar- gam ho dito cravo com tal que paguasemos ho terço a u v.i Sua Alteza, e os seus capytãis // no-lo defendem, o que a Deos nem a Vosa Alteza deve aprazer. De merçe e esmola, senhor, pedymos que seja lem- brado de nosas filhas, molheres e filhos e tanta alma cristãa, e nos proveja com se lembrar de nos, e encomen- darmos aos seus governadores que nos vysytem com as cousas neçesaryas e por vosos apontamentos naquelas que forem voso serviço, porque nosas pesoas não requerem al. Esta terra, senhor, de continuo ha mester de trezentos 2 — scnça; 3 — tpo 4 7Ó
  • homens, e que não sejão forçados como todos estamos, por- que daquy não vay nenhum que não seja fugydo ou com presa licença. Asy que esta fortaleza he carçere perpetuo, gale de forçado cativeiro, de que ninguém não say, senam pela dita maneira, e como asy seja, a ela não querem vir. Ora ja que os tristes (?) * de nos casados ho sejamos e com molheres da terra e nos mantenhamos com pão de pao, e sem carnes, sem azeite, nem vinho 5, nem pa- nos; e nosas cuberturas sejão armas; nosos bordõis, meas lanças, e vyvamos em terra tam longe das nosas, deses- perados da glorya da vista 6 de nosos pais, e ereos, e patria, seja senhor, movydo a compyedade, e dele seja- mos lembrados com carta de encomenda a seus governa- dores, e queremos sejão concedydas aquelas cousas que por nos são pedidas, sendo voso serviço e de Deos, porque al não requeremos. E porque apontar as cousas que nos são neçesarias he nunca acabar, por apontamentos as mandamos ao senhor governador, a quem pedymos que sejamos encomendados; e pela sobeja neçesydade em que nos poem seus capytãis, apontaremos em algumas cousas de que temos sobeja ne- çesydade sejamos providos, pera de todo Sua Alteza me- lhor ser servydo. Vosa Alteza seja lembrado que como homem he velho, que por sy se rege, como não he ante Vosa Alteza, por o qual lhe ja nesta fortaleza matarão hum Gonsalo 7 Pe- reira 8 e ora Jordão de Freitas, seo capitão, sem conselho, nem parecer, prendeo ho rey desta ylha e da mor parte da terra, e a que todos davão obediençia, estando em Tydore perto de duzentos castelhanos, pelo qual, se eles quyserão, ou se esta fortaleza perdera, ou a puserão em toda a estreyteza, por rezão do dito rey ser casado com 4 —trates; 5 — v°; 6 — v'»; 7 —g°; 8 —pr». 47 7
  • as filhas 9 de todos os reis e prynçipais, e os outros reys com suas filhas e irmãas, e a jente, huma com medo e 12 r) outra com pesar, andava muy alvorota // da. Asy qua confiança do homem velho e sua condyção, em terra tam longe, faz muytos ynconvynyentes, que pela espryencya que deles qua emos sabydo he enconvenyente do voso servyço; do que lhe fazemos lembrança; para remedio do qual Vosa Alteza deve prover com hum alvara 10 que aja çinquo ou sete pesoas dos prynçipais casados, procuradores deste povo, lybertados das armadas e em todo que os capitais os posão ocupar, para que estes tais syrvão todo o tempo de hum capytão de procuradores do povo e que, so graves penas, com eles se não entanda, e se lhe cumpra todo o que requererem, sendo voso ser- viço, porque com aquesta provysão ousarão a requerer procurar escrever em tudo o que neçesaryo seja. E sem a qual não ha quem ouse lembrar voso serviço mas a estes todos e a cada hum por sy, por quão longe qua estamos, em poder de quem faz mais sua vontade e proveito que o voso serviço, nos he foraçado que lhe asy- nemos, conçedamos e aprovemos suas culpas e pecado, por serviço, do que a Deus dizemos nosa culpa e a Vosa Alteza pedimos perdão. A nosa notiçia he vyndo que Maluquo se fala em arrendar. A ysto não ha mais que dizer; soomente que, como Vosa Alteza anda a fym do serviço de Deus e de seu proveyto, que veja bem qual ho sera mais. E que seja lembrado que toda a vinha arrendada dura pouquo, e que esta não durara muito. E de merçe e esmola pedimos, se tal for, embarcaçõis, porque se nos não forem conçedidas, seja-nos de levar em conta buscar noso remedyo, porque Maluquo, sem cravo, ou 9 — f"; 10 — alvr». 4.7 8
  • arrendado, he ylha deserta, em a qual não mereçemos ser lançados; e no que de merçe e esmola, senhor, pedimos que neste arrendar ou na defesa do cravo haja bom conselho. E porque em toda a parte se cata toda a cortesya aos casados, e he rezão que eles sejão os derradeiros que se embarquem de armada, e os capitais, por fazerem sua vontade, e nos fazerem fazer o que querem, somos os pry- meyros que nos mandão embarcar, não avendo respeyto a leymparmos nosas casas, com lascaryns por vezinhos, e dando-nos muita perda ", o porque nos faça merçe de nos aver por escusados, pois somos muito poucos e os lascaryins muitos, e servi / / mos de mordomos, mynys- 12 v.] tradores das santas confraryas, ao que se não ha respeito como eles querem. E que sendo necesaryo para negocyo e prol desta po- voação ir algum casado a Malaqua ou Indya, que lhe não seja tolhida a yda, por rezão dos capitãis, com arreceo de suas culpas nos tolherem a tal lyçença, trazendo tais vy- gyas que fogydo não pode nenhum ir. E asy nos faça merçe de podermos trazer huma naao ou junquo nesta fortaleza, para com a qual irmos ha Java e Macaçar e Amboyno e por outros lugares buscar mantimentos, de que tanto careçe esta terra. E para que, avendo carregua, depois das suas naaos carreguadas, posamos carreguar de cravo para Malaqua, como vão muitas naaos carreguadas dos capytãis de Ma- luquo e desta fortaleza, por rezão das suas naaos não poderem levar todo o cravo. E asy que todo casado fronteiro 12 que em suas sham- panas (i) quyser ir ou mandar mantymentos, que posa ir, (i) Pequena embarcação. Do malaio sampan. (Chin, sam-pan, três tábuas). ll — pja; 12 — frof°. 47 9
  • sem aver mais que faze-lo saber aos capytãis, porque ora, por a linçença pera yso, querem que o pobre homem, que vay buscar mantimentos para sua casa, prol do povo, quer o capitão que partão com ele, avendo mais rezão de a estes tais se dar polvora, chumbo, pois vão buscar mantimento a fortaleza, que he ho mylhor muro que ela them. E asy que, pois ja que somos casados e temos nosas casas e cova çerta na terra, que nos sejão feytos nosos paguamentos sem mais condição da matrycola, por quanto os feytores no-las pedem, e nem nas temos nem no-las querem deixar ir buscar. E asy tais que ja na Indya não conhecem a quem nas mandamos requerer, e deve abastar servirmos para se nos paguar. E porque nesta terra ha muyto que reque- remos, leyxamos as mais para ao seu governador, que por serem tais nos serão conçedydas, com ele aver que nyso lhe fazemos mais serviço que merçe em nos serem con- çedydas, sem embargo do qual, a Vosa Alteza pedimos que mande ho seu governador que, sendo voso serviço, nos faça merçe delas. E por a esta terra ser vynda a armada dos castelhanos •3 *•' que perderão // por estas ilhas, dos quais ficarão perto de duzentos que se recolherão a ylha, desta mea leguoa, aos quais foy mandado Fernão de Sousa de Tavora, por capytão-mor, com huma armada, e por dizer esperar-se por rumes, trouxe somente çento e corenta pesoas, delas podres, delas sãas; e por os castelhanos estarem soberbos e terem huma fortaleza muito forte e por sy el-rey de Tydore e de Geilolo, o porque se nunqua quyseram dar nem vyr a esta fortaleza, mas antes pedirem artelheria e bom tratamento a jente da terra, como que se fose sua, como Vosa Alteza la tera sabydo por os requerimentos pasados, Fernão de Sousa, enformado de suas rebolarias, 480
  • se esqueceo de Çofala e sua pesoa, e se detremynou, em cheguando, yçando as verguas, fazendo-se prestes com sua gente; e por que era e o voso serviço, nos também, o que vendo os castelhanos, tendo que não podyão deyxar de ser viyndos seisçentos portugueses, se veyo ver o seu general com o dito Fernão de Sousa, onde achou todo que o comoveo a se lhe entregoar, representando-lhe suas neçesydades, dizendo-lhe que devião todos ser lembrados que erão vasalos de cristyanysymos prynçipes irmãos, e que de guerras naçião mortes, perdas, escândalos e muitos inconvynyentes, o qual ele dito Fernão de Sousa, por quem era, devya de olhar, mandando frades a esta for- taleza representar suas neçesydades; e o dito Fernão de Sousa, por não alargoar nunqua que trazia mais de çem pesoas mal dispostas do mar, com as quais partira e era cheguado para o servir, e com lhe fazer fazer aparato e representar do ayro (?)(2) como que asy trouxera mil protugueses, e com mandar apreguar que todos se fosem logo para ele, os meteo em hum çapato, não querendo fazer com eles nenhum partido, e por todos, vemos que ho dito Fernão de Sousa não trazia mais de çento e co- renta e tantas pesoas, e na fortaleza aver ata (sic) çento e vynte, que dela pudesem //ir fora. '3 E por não termos rey na terra, por ho prenderem em tal tempo, a gente dela andava descontente, e os caste- lhanos estarem perto de duzentos, e terem a fortaleza muyto forte, e a gente da terra segura, que havião de defender, e el-rey de Geilolo por sy, e certeza de serem ajudados de muitos; e nos não termos confyança nos nosos; e por a vytorya avermos por mui duvidosa, e por guera, com a gente que havya, estava çerto não se po- derem lançar fora, avendo respeito ao sobre dito e muitos (2) Foi o que conseguimos ler. 4 8 I INtULÍNDIA, I — 31 %
  • inconvynyentes, e as grandes despesas que se mais espe- rava que se fizesem com vyndas doutras armadas, se asentou, por todos, ser muito voso serviço ave-los caste- lhanos por qualquer maneira, por a todos pareçer muito seu serviço e de Deus. Todos forom que os castelhanos se vyesem e que despysymos as camysas e lhas desemos, o como fazemos; e ele, dito Fernão de Sousa, dando-lhe sua propria 15 cama; e asentados se vyrem, lhe deu logo, em arrefens, a artelharya, e se fez prestes para huma fortaleza de Geylolo, daquy çinquo leuguas, de gente que nos não deyxa viver, que, por quem he, levou consygo easy todos os castilhanos. Por a dita fortaleza ter tres çercas, cada huma de milhorya, a ferrou bem peguado com hum baluarte de huns muros, donde dava baterya com huma espera-camelo e artelharya pertençente, ba- tendo por espaço de doze ou treze dias, por o muro e baluarte terem cavas, e do muro a hum grande jogo de barreira estava estrepado de estrepes grandes e meudas, que estrovavão não poder-se abalroar, senão por muitas partes (3). E por o capitão da fortaleza, Jordão de Freitas, estar de tras, em tranqueiras, a borda de augoa, poupando nosas vydas, que nenhuma em conta temos para o voço serviço, e porque se tornou a armada, com morte de dez ou doze portugueses, e com alguns aleyjados e feridos, e não por falta do capitão-mor, que por ele ver que Gey- lolo se não podya thomar, senão com se entreguar ao noso capitão Jurdão de Freitas, em pouco 14 e em pre- sença de todos se lhe entregou duas vezes, dizendo-lhe (3) A redacção é confusa obrigando-nos a uma pontuação du- vidosa. 13 —ppya; 14 — pc°. 482
  • que ele mandase em tudo e por tudo, que ele estava aly, com sua gente, para fazerem o que lhe / / mandase, ofere- (4 r.i cendo sua pesoa 15 como lascary e não como capytão- -moor. E que ele, Jordão de Freitas, mandase, que ele ho seguirya e serya o dianteiro, e que se detremynase, e que todo farya por conheçer que Geylolo se não podya tomar nem destroyr, senão com Jordão de Freitas, ca- pytão da fortaleza, querer, por rezão de ter a gente da fortaleza consygo, e toda a gente da terra; que como a seu capytão era forçado que lhe obedeçesemos. E por Jordão de Freitas conheçer que ho ouro da vytorya era de Fernão de Sousa, ho não ajudou; mas antes, com espada arrancada, fazya recolher alguns dos seus que o yão ajudar, pelo qual não ousavão de lhe sayr do mando. E por fym, querendo el-rey fazer pazes e conçerto com Fernão de Sousa, bradando por ele, por se dele ver perseguydo, e vyndo com ele a fala, dos muros, de pesoa a pesoa, por não querer fazer pazes, nem falar com outro, se diz Jordão de Freitas não querer conçeder em pazes, nem em nada, e se detreminou de embarcar; e Geylolo se fycou, por rezão de duas culheres e huma panela entor- narem a cozinha. , E numqua Deus queira que de nos seja neguado o serviço de cada hum. Fernão de Sousa ouve todos os castylhanos a seu po- der, e como complya a voso serviço, do que estão bem pesarosos, por ora verem noso pouco poder, mas ele com suas meyguyces, manhas, dadyvas, largua mantença, so- bejas abastanças, os traz tam asoseguados, seguros como lyndos portugueses; o que lhe deve custar mui caro e curteza de seus dias, o que não sentimos com que se lhe 15 - p». 483
  • deva de paguar, porque, dado que nos sejamos os quei- xosos dele, por quão destroy da de mantymentos nos a tera deixa para a mantença dos castelhanos e toda a sua armada, nos fycamos contentes, pois nos também leva esa canalha que, não lembrados de Algybarrota, nos qua vi- nhão demandar sua caldeira. Tais, senhor, estamos que hum voso feitor Fran- cisco 17 Palha, que em sua feitorya entrou rico e vay po- bre, o qual carrego, sendo provido por vos, e não que- 14 v.) rendo servir, por dele sabermos quem he, requeremos / / ha Dom Jorge, voso capitão, que não consentise outro servir ho dito carrego, e por quem he e nosas pobrezas, nos socorreo a elas, com sua fazenda, e nosas paguas, dante mão. E sendo este que sempre tyveramos por requerer voso serviço, yso mesmo lhe foy arguydo de pecado, sendo preso em feros e tronquo, com escravos e negros, em hum muy pequeno luguar, debaixo da torre da menagem, desa- posado de seus carregos, tratado a como sua pesoa nem carregos mereçya, sem querela nem qeyxume, fazendo-lhe em nosos nomes ryquyrymento falso de acusaçõis que nele não avya, o que pareçya ser que se lhe fazya, por obedecer a vontade de tal capitão, como nos qua man- dou, e chamando-nos para que asynasemos no dito reque- rymento, que por não ser tal o que se lhe punha, forão rotos em publico, por mão dele, capytão, requerendo ele, feitor, que se fyzese justiça de quem lhe tal punha e fyzera e se lhe desem os papeis asy rotos, para Sua Alteza saber o como se trata sua justiça na terra. E yso mesmo em nosos nomes dizem ser feitas humas cartas falsas de abonaçõis de algumas pesoas e acusaçõis contra Dom Jorge, capytão que desta fortaleza foy, que 16 — for; 17 — Irou. 484
  • tal prouvera a Deus que tyveramos para sempre, porque sua casa era nosa botyca e remedyo dos nosos e de nosas enfermidades. E porque, como se fyserão tais papes e cartas contra o voso tal feitor e Dom Jorge, tal capitão, he de crer que a Vosa Alteza se farião outras semelhantes, o porque escrevemos esta, com nosos nomes e synais. E vendo outra em contraria aja-a, senhor, por nenhuma. Todos os annos lhe escrevemos com emformação da terra; dado que a resposta não tenhamos, sempre lhe escrevemos pela obryguação que para yso ha. E quando se de tal maneira trata seu tal feitor e escri- vão da feitorya, e da mesma maneira seu ouvydor, por não fazerem a vontade a seu capitão, os tristes de nos, não lhe fazendo, honde serão lançados? He-nos forçado que asynemos, conçedamos e apro- vemos e queyramos em tudo e por tudo o que ho noso capitão quyser, do que ha Deus pedymos perdão, o que se desta tera não poderá escusar que façamos / / emquanto (5 r.i Vosa Alteza nos não prover da provysão das lyberdades dos procuradores, que lhe atras pedimos, no que Vosa Alteza nos fara esmola e merçe e seu serviço. E não sendo providos de tal alvara, aver-nos por deso- brigados nosas consyençyias na sua, porque ysto he terra para nos requerermos senão o que seu capitão quyser. E ysto mesmo asynarão os prinçipais da terra, porque eles ante o capitão farão quanto lhe mandarem, inda que seja a pesar de sua vontade, por não terem rey. E por tal não aja Vosa Alteza por aprovado nosas cartas nem synais, nem menos os da gente da terra. Pareçe-nos mui neçesario que aja rey, por quem reja a terra a usança dela, por rezão de aver el-rey de Gey- lolo e o rey de Tidore, e rey de Bachão, e outros incon- vynientes de que se syguyra ser destruydo. 485
  • E asy nos pareçe mui neçesario nesta terra aver hum ouvidor que faça o serviço de Vosa Alteza e não vontade de capytãis, e que os capytãis, nesta parte, não tenhão jurdição, ou que ele mesmo seja a propria justiça, e de a não fazerem, lhe seja estrytamente demandado. Por rezão de fazerem ouvidor quem querem, e com a mão de gato tomarem a castanha, tal, senhor, estamos, que os ofycios de que Vosa Alteza nos fez merçe para noso sostymento, os quais logo asentou que, ao dar deles, serya junto o capitão e feitor, e o ouvidor, e alcaide-mor, e prynçipais pesoas, e em cabydo se asentarya a quem se devyão dar, por seus serviços, sendo pesoas pera yso. E o voso capytão, Jordão de Freitas, os provee de seus cryados e mestiços, em cuja pose estão os escrivãis da feitorya e almoxarife e escrivão dos almazeis, pro- vendo de feitor quem lhe aprouver, por ter o feitor preso, sendo os ditos carregos nosos, por real provysão, o por- que não ousamos a requerer, e que mais voso serviço he que syrvamos, que não cryados de capytãis. E como ora Jordão de Freitas, que se vay para Am- boyno, onde diz que quer fazer fortaleza, que deve pro- ver de vosos almazens e feytorya, pois os tem todos de is sua mão, a noso pesar e seu // deserviço, demandamos, senhor, perdão de pela dita maneyra representarmos nosas neçesydades e o voso serviço, que, por quem he, e quem somos, se nos deve levar em conta. E como pesoas que vivemos no mato ou neste ilheo, como garajaos (4) não sabemos tamsõis (5) requerer o que nos seja neçesario, no que Vosa Alteza deve prover, como em todas as mais cousas o faz, de que não pode aver tanta neçesydade como a nos ha, com o qual pro- (4) Garajau é uma ave marítima. (5) Tamsõis, talvez o aumentativo de tanso no plural, ou o mesmo que tam sois, i. é. tão sós. 486
  • vymento nos sosteremos; emquanto roguamos por dias de vyda, saude e real estado de Vosa Alteza, com todo o mais" que sejamos obryguados a rogar. De Maluquo, aos 20 de Fevereiro de 1546. as. Bras Gil Baltasar Veloso Pero Jorge Manuel Pays Pero Afonso Teixeira Antonio Teixeira (6) (6) E ainda outras assinaturas, sòmente rubricadas. 487
  • 63 INSTRUÇÕES DE D. JOÃO III SOBRE AS CRISTANDADES DAS MOLUCAS Almeirim, 5 de Março de 1546 Documenta Indica, I-ç2-ioy. Documento de grande interesse missionário, de que exis- tem duas formas no ANTT: uma no Maço 1, Leis sem Data, n.° 23; e outra em Chancelaria 33, fls. 216. Encontra-se também publicado, na íntegra, em Documentação..., índia, Vol. 3°, págs. 238-266. Deste mesmo documento apenas tomámos os parágrafos que nos interessam. a) Aviamento a dar aos padres que hajam de ir às Molucas. b) Que disposições existem em Macáçar para receber a luz da fé? c) Recomendação para que os padres destinados às Molucas orde- nem, quando ali chegados, a hospitalização dos nativos pobres. 7. Tereis muitto cuidado, tanto que vier a monção pera Maluco, requeiraes ao Governador a embarcação para os Padres que lá ouverem de ir, fazendo com elle que lhe dê todo o aviamento, assy para o que lhe for necessário como pera suas pessoas, de maneira que por falta de qualquer cousa não deixem de ir, aos quaes dareis lembranças do modo que nestas cousas devem de ter, e lhes encomendareis muito, da minha parte, o grande cuidado que tenho dos christãos e dos que o não são para que o sejão. 488
  • 8. Procurareis saber a ilha do Macasar como está, e a gente dela se esá apparelhada para receber a sancta fee catholica, como tenho por informação, e sendo assy orde- nareis as pessoas, com parecer do Bispo e de mestre Fran- cisco, que pera lá ayão de ir, as de mais authoridade e confiança e de melhor exemplo que vos parecer, porque em todo o tempo e principalmente nestes começos con- vém que sejão tãoto ensinados com isto e mais que com palavras. 15. Eu escrevo ao Governador que p>era as obras da conversão dos lugares de Ceilam e Maluco ordene a des- p>eza, com vosso parecer, que for necessário para isso. Encommendareis aos Padres que la ouverem de ir, que p>era os pobres da mesma gente da terra ordene (m) alguns hospitaes e os proveja (m) disso o melhor que puderem, e a maneira que nisso tiverem e necessidade, e lhe direis que me escrevam se alguma ouver pera prover nisso. 48 ç
  • 64 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AOS CONFRADES DA EUROPA Amboino, 10 de Maio de 1546 Epistola S. Francisci Xaverii: I-318-330. (1) a) Relato da sua viagem para Malaca e os trabalhos apostólicos em que se ocupou nesta cidade, enquanto aguardava passagem para Macáçar. b) Opta por ir a Amboino e às Molucas, por não regressarem os navios que tinham sido enviados àquela ilha. c) Em Amboino encontra já sete lugares de cristãos, onde adminis- trou o sacramento do baptismo às crianças ainda gentias. d) Muitas ocupações que teve com portugueses e espanhóis de Rui Lopes de Vila Lobos, que se entregara a Fernão de Sousa e os conduzia à Índia, passando por Amboino. e) Parte para as Molucas, com determinação de ir à ilha de Moro, para visitar os cristãos ali abandonados, e também com desejos de dar a vida pela salvação das almas. /) Perigos em que se viu durante a viagem para Malaca e Molucas. Charissimi in Christo Fratres La grada y amor de Christo N. S. seya siem- pre en nuestra ayuda y favor. Amen. En el ano de 1545 os escrevi largo, haziendoos saber cómo en una tierra llamada Macaçar se hizieron dos reis (1) BAL: 49-IV-49, fls. 16 V.-20 r.; BACIL: Cartas do Japão, Vol. I. fls. 18 V.-22 r.: BIMINEL: Cartas da Índia, fls. 27 r.-3o v. 4ÇO
  • christianos con mucha otra gente; y por la mucha dispo- sition que en aquella tierra avia para se acrecentar nues- tra sancta fee, segun la information que me dieron, parti del Cabo de Comorín para Macaçar por mar, por quanto no se puede ir por tierra. Ay dei Cabo de Comorín hasta las islãs de Macaçar más de 900 léguas. Dy orden primero que dei Cabo de Comorín partiesse, cómo los christianos de aquella tierra fuessen proveidos de cosas spirituales, dexando com ellos cinquo Padres, los tres naturales de la tierra, y a Francisco de Mansillas con otro Padre spanol. Con los christianos de la isla de Ceylán, que está cerca dei Cabo de Comorín, quedaron cinquo flayres de la Orden de S. Francisco con dos otros clérigos. Viendo que no era necessário, ni menos hazía falta con los chris- tianos dei Cabo de Comorín ny con los de Ceylán — por- que no ay otros christianos nuevamente convertidos en la índia, fuera de las fortalezas dei Rey, y los que están en las fortalezas los vicários tienen cargo de ensenar- los y baptizarlos — determiné de partir para Macaçar. Y yendo al puerto dei qual me avia de embarcar para hazer mi viage, hallé um mercador con un navio suyo, el qual me rogó que lo confessasse. Y lo que con mucha prudência humana no acabara de determinar, con mucha violência se venció y escogió el camino flel (17 r.) cielo. Quiso Dios por su misericórdia darle tanto dentro de su ánima a sentir, que un dia se confessó, y en otro seguinte se determino (en el mismo lugar donde mataron a S. Thomé apóstol) de vender el navio y todo lo que tenia, dando a los pobres todo, sin guardar nada para si, como liberal dispensero; y así embarcamos camino de Macaçar. Llegamos en la mitad dei camino a una ciudad llamada por nombre Malaca, en la qual el Rey tiene una for- taleza. Y el capitán desta fortaleza me dixo cómo avia mandado un clérigo, persona muy religiosa, con muchos 491
  • portugueses en un galeón bien apercebido de todo lo necessário para favorecer a los que se hizieron christianos, y hasta que uviéssemos nuevas suyas no le parecia que devia partir para aquella isla; y asi estuve en Malaca tres meses y medio sperando nuevas de los Macaçares. En este tiempo no me faltaron accupaciones spiritua- les, asi en predicar los domingos y fiestas, como en con- fesar muchas personas, asi los enfermos dei hospital donde posava, como otros sanos. En todo este tiempo ensehé a los muchachos y christianos nuevamente convertidos a la fee la doctrina Christiana. Con la yuda de Dois N. S. hize muchas pazes entre los soldados y moradores de la ciudad, y las noches iva par la ciudad con una cam- pana pequena encomendando las ánimas dei purgatório, llevando comigo muchos ninos de los que ensenava la doctrina Christiana. Pasados los tres meses y medio acabaron de ventar los vientos con que vienen los navios de Macaçar. No sabiendo ningunas nuevas dei Padre, determiné de partir para otra fortaleza dei Rey llamada Maluco, y es la última de todas. Acerca desta fortaleza, 6o léguas delia, ay dos islãs; la una es de 30 léguas en redondo, mucho poblada, la qual se llama Ambueno. Desta isla tiene hecha merced el Rey a un hombre mucho de bien y buen chris- tiano, el qual ha de venir a bivir en ella daqui a un ano y medio con su muger y casa. En esta isla hallé siete lugares de christianos: los ninos que hallé por baptizar, baptizé, de los quales murieron muchos después de baptizados; y pa- rece que Dios N. S. los guardo hasta que estuviessen en camino de salvación. Después de aver visitado todos estos lugares, llegaron a esta isla ocho navios de portugueses. Fueron tantas las occupaciones que tuve en tres meses que aqui estuvieron, en predicar, confesar, visitando los enfermos, ayudándolos a bien morir, lo que es muy tra- 492
  • bajoso de hazer con personas que no bivieron muy con- formes a la ley de Dios. Estos mueren más descon- (17 v.) fiados de la misericórdia de Dios, de lo que bivían muy cofiados biviendo en peccados contínuos sin querer desa- costumarse dellos. Hize con la ayuda de Dios muchas amistades entre soldados, que jamás biven en paz en esta isla de Ambueno. Ellos se partieron para la índia en Mayo, y mi companero Juan de Hierro y yo nos par- timos para Maluco, que está daqui 60 léguas. De la otra costa de Maluco está una tierra, la qual se llama Omoro, a sesenta léguas de Maluco. En esta isla de Omoro avrá muchos anos que se hizieron grande número de christianos, los quales, por muerte de los clé- rigos que los baptizaron, quedaron desemparados y sin doctrina y por ser la tierra de Omoro muy peligrosa, por quanto la gente delia es muy llena de traición, polia mu- cha ponçona que dan en el comer y beber, por esta causa dexaron de ir aquella tierra de Omoro personas que mi- rassen por los christianos. Yo por la necessidad que estos christianos de la isla dei Moro tienen de doctrina spiritual y de quien los baptize para salvación de sus ánimas, y tanbién por la necessidade que tengo de perder mi vida temporal por socorrer a la vida spiritual del proximo, determino de me ir al Moro por socorrer in spiritualibus a los christianos, offrecido a todo peligro de muerte, puesta toda mi sperança y confiança en Dios N. S., des- seando de me conformar, según mis pequenas y flacas fuerças, con el dicho de Christo nuestro Redemptor y Senor, que dize: «Qui enim voluerit animam suam sal- vam facere, perdei earn; qui autem perdiderit animam suam propter me, inveniet eam» (2). Y aunque sea fácil de entender el latin y la sentencia en universal deste (2) Mt. 16, 25. 4 9 5
  • dicho del Senor, quando el hombre viene a lo particula- rizar para disponerse a determinar de perder la vida por Dios para aliaria en el, offreciendose casos peligrosos, en los quales probablemente se presume perder la vida sobre lo que se quisiere determinar, házese tan obscuro, que el latin, siendo tan claro, viene a oscurecerse; y en tal caso me parece que sólo aquel lo viene a entender, por más docto que sea, a quien Dios N. S. por su infinita mise- ricórdia lo quiere en casos particulares declarar. En se- mejantes casos se conosce la condición de nuestra carne, quán flaca y enferma es. Muchos de mis amigos y devotos procuraron comigo que no fuesse a tierra tan peligrossa; y viendo que no podían acabar comigo que no fuesse, me davan muchas cosas contra ponçona. Yo, agradecien- doles mucho su amor y buena voluntad, por no carregarme de miedo sin tenerlo, y más por aver puesta toda mi spe- rança en Dios, por no perder nada delia, dexé de tomar los defensivos que con tanto amor y lágrimas (18 r.) me davan, rogándoles que en sus oraciones tuviessen continua memoria de mi, que son los más ciertos remedios para contra ponçona que se pueden hallar. Em muchos peligros me vi en este viege dei Cabo de Comorín para Malaca e Maluco, assi entre tormentas dei mar, como entre enemigos. En uno specialmente me hallé en una nao en que venía de 400 toneles: con viento rezio navegamos más de una légua, tocando siempre el leme en tierra. Si acertáramos en todo este tiempo con algunas piedras, la nao se deshiziera; o si halláramos menos agua en una parte que en otra, quedáramos en seco. Muchas lágrimas vy entonces en la nao. Quiso Dios N. S. en estos peligros provamos y darnos a conocer para quánto somos, si en nuestras fuerças esperamos, o en cosas cria- das confiamos; y para quánto quando destas falsas spe- ranças salimos, desconfiando delias, sperando en el Cria- 49 4
  • dor de todas las cosas, en cuya mano está hazer-nos fuertes quando los peligros por su amor son recebidos. Y tomándolas por sólo su amor, creen sin dudar los que se hallam en ellos, que todo lo criado está a obe- diência dei Criador, conociendo claramente que son mayo- res las consolaciones en tal tiempo, que los temores de la muerte, dado que el hombre acabasse sus dias. Y fene- cidos los trabajos y acabados de pasar los peligros, no sabe el hombre contar ny escrevir lo que por el possó al tiempo que estava en ellos, quedando una memoria impri- mida de lo pasado, para no cansar de servir a tan bueno Senor, así en lo presente como en lo porvenir, sperando en el Senor, cuyas misericórdias no tiene fin, que le dará fuerças para lo servir. Estando em Malaca, que es la mitad dei camino de la India a Maluco, me dieron nuevas cómo llegaron tres companeros nuestros en Goa en el ano de 1545. Ellos me escrevieron y me mandaron las cartas que de Roma tra- hian, con las quales Dios N. S. sabe quánta Consolación recebi en saber tan buenas nuevas de nuestra Compania. El uno dellos venía para ensenar gramática en el collegio de S. Fee, y los otros dos para andar por las partes que a mí me pareciese que harían más servido a Dios N. S. Yo les escrevi que quedase uno dellos, el que venía para leer gramática, en Santa Fe, y los dos que fuessen al Cabo de Comorín a tener compania a Francisco de Man- sillas. Agora les escrivo en este ano de 1546 que vengam a Maluco para el ano que viene, pues ay mayor dispu- sición para servir a Dios en estas partes que no donde (18 v.) están. Estas partes de Maluco todas son islãs, sin ser des- cubiertas hasta ora tierra firme. Son tantas estas islãs que no tienen número y quasi todas son pobladas. Por falta de quien les requiera que sean christianos, dexan de 49 5
  • lo ser. Si uviese en Maluco una casa de nuestra Com- pania, seria mucho el número de la gente que se haría Christiana. Mi determinación es cómo en este cabo de Maluco se hiziesse una casa, por el mucho servido que a Dios N. S. se haria. Los gentiles en estas partes de Maluco son más que los moros. Quiérense mal los gentiles y moros. Los moros quieren que los gentiles o se hagan moros o sean sus ca- tivos, y los gentiles no quieren ny ser moros ny menos ser sus cativos. Sy uviesse quien les predicasse la verdad todos se harían christianos, porque más quieren los gen- tiles ser christianos que no moros. De 70 anos a esta parte se hizieron moros, que primero todos eran gentiles. Dos o tres cacizes que venieron de Meca, que es una casa donde dizen los moros que está el cuerpo de Mahomet, comvertieron grande número de gentiles a la cecta de Mahomet. Estos moros lo mejor que tienen es que no saben cosa ninguna de su secta pre versa. Por falta de quien les predique la verdad dexan estos moros de ser christianos. Esta cuenta os doy tan particular para que tengáis special sentimiento y memoria de tanta perdición de áni- mas, quantas se pierden por falta de spiritual socorro. Los que no tuvieren letras y talento para ser de la Com- pania, sobrarles ha el saber y talento para estas partes, si tuvieren voluntad de venir para bivir y morir con esta gente; y si destos veniessen todos los anos una dozena, en poco tiempo se destruiria esta mala secta de Mahoma, y se harian todos christianos, y asi Dios N. S. no se offenderia tanto, como se offende por no aver quien re- prehenda los vicios y peccados de infidelidad. Por amor de Christo N. S. y de su Madre sanctíssima y de todos los sanctos, que están en la gloria dei paraíso, os ruego, charíssimos Hermanos y Padres mios, que ten- 496
  • gáis special memoria mia para encomendarme a Dios continuamente, pues bivo con tanta necessidad de su favor y ayuda. Yo, por la mucha necessidad que tengo de vuestro favor spiritual continuo, por muchas expe- riências tengo conocido cómo por vuestra invocación Dios N. S. me tiene ayudado y favorecido en muchos trabajos del cuerpo e spiritu. Y para que yamás me olvide de vosotros, por continua y special memoria, para mucha Consolación mia, os hago (19 r.) saber, charíssimos Her- manos, que tomé de las cartas, que me escrevistes, vues- tros nombres, escritas por vuestras manos próprias, jun- tamente con el voto de la professión que hize, y los llevo continuamente comigo por las consolaciones que dellos recibo. A Dios N . S. doy las gracias primeramente, y después a vosotros, Hermanos e Padres suavíssimos, pues presto nos veremos en la otra vida con más descanso que en está, no digo más. De Ambueno a X de Mayo ano de 1546. Vester minimus Frater et filius, Franciscus 1NSULÍNDIA, I 3a 49 7
  • 65 INFORMAÇÕES ENVIADAS DE AMBOINO POR FRANCISCO XAVIER s. d. Epistola S. Francisci Xaverii: I-331-335■ (1) o) Notas sobre alguns costumes de Amboino. b) Notas linguísticas. c) Novas da China dadas por um mercador português. La gente destas islãs es muy bárbara y llena de tray- cyon. Es más baça que negra, gente ingrata en grande estremo. Ay islãs en estas partes, en las quales se comen unos a otros: esto es quando uno(s) con otros tienen guerra y se matan en la pelea, y no de otra manera. Quando mueren por enfermedad, dan por gran banquete las manos y carcanos (2) a comer. Es tan bárbara esta gente, que ay islãs donde demanda un vizinho a otro (quando quire hazer una fiesta grande) su padre, si es muy viejo, emprestado para comer, promotiendole que le dará el suyo, quando fuere viejo y quisiere hazer algún (1) Estas informações em muitas cópias andam juntas à carta anterior; Xavier enviou-as na mesma carta, em nota separada. Em BAL: 49-IV-49, fls. 19 r.-20-r., tem esta indicação: Parte desta misma carta arriba scrita que vénia sin conexion metida dentro delia como hijuela. BACIL: Cartas do Japão, Vol. I, fls. 21 r.-22 r., com a mesma indicação. (2) BAL: calcanares. 498
  • banquete. Antes um mes spero de ir a una isla, en la qual se comen unos a otros, quando se matan en la guerra, en la qual isla también se emprestan unos a otros los padres, quando son viejos, para hazer banquetes. Los desta isla queren ser christianos, y ésta es la causa para que voy allá. Ay abobinables peccados de luxuria antre ellos, quales no podríades, ny yo me estrevo a escrevir. Son estas islãs templadas y de grandes y spessos arbo- ledos. Llueve muchas vezes. Son tan altas estas islãs de Maluco y trabajosas de andar por ellas, que en tiempo de guerra suben a ellas para su defensión, de manera que son sus fortalezas. No ay cavallos, ni se puede andar a cavallo por ellas. Tiembla muchas vezes la tieera y el mar, tanto que los navios que navegan, quando tembla el mar, parece a los que van en ellos que tocan en algunas piedras. Es cosa para spantar ver temblar la tierra, y principalmente el mar. Muchas destas islãs hechan fuego de si con un ruido tan grande, que no ay tiro (19 v.) de artellaria, por más grande que sea, que haga tanto ruido, y por las partes por donde sale aquel fuego con ímpeto grande que viene trahe consigo piedras muy gran- des. Por falta de quien predique en estas islãs los tor- mentos dei infierno, permitte Dios que se*abran los infier- nos para confusion destos infieles y de sus abominables peccados. Cada isla destas tiene lengua por sí, y ay isla que quasi cada lugar delia tiene habla diferente. La lengua malaya, que es la que se habla en Malaca, es muy ge- neral por estas partes. En esta lengua malaya (el tiempo que yo estuve en Malaca) con mucho trabajo saqué el Credo, con una Declaración sobre los articulos, la con- fessión general. Pater noster, Ave Maria, Salve Regina, y los mandamientos de la ley, para que me entiendan, quando les hablo en cosas de importância. Tienen una 4 9 9
  • grande falta en todas estas islãs, que no tienen escrituras, ny saben escrevir sino muy poços; y la lengua en que escriven es malaya, y las letras son arabias, que los moros cacizes ensenaron a escrevir y ensenan al pre- sente. Antes que se hiziessen moros no sabian escrevir. En esta isla de Ambueno tengo vista una cosa, que ya más en mi vida vi, y es que vi un cabrón, el qual continuadamente tiene leche y engendra mucho; no tiene más de una teta propre genitalia, y da cada dia más de un escudila de leche; los cabritos le beven la leche. Por cosa nueva lo lleva un Cavallero portugés a la índia para o embiar a Portugal. Yo, por mis manos próprias, le saqué una vez leche, no creyendo que era verdad, pare- ciéndome ser cosa imposible. Un portugés mercader halle en Malaca, el qui venía de una tierra de grande trato, la qual se llama China. Este mercader me dixo que le demando un hombre chino múy homrrado, que venía de la corte dei rey, muchas cosas, entre las quales le demando si los christianos co- mían carne de puerco. Respondióle el mercader portugés que sí, y le dixo que por quê le demandava aquillo. Res- pondi el chino, que en eu tierra ay mucha gente entre unas montarias, apartada de la otra gente, la qual no come carne de puerco, y guarda muchas fiestas. No sé que gente es ésta, o sy son christianos que guardan la ley vieja y nueva, como hazen los dei Preste Juan, o si son los tribos de los judios, que no se sabe dellos, porque ellos no son moros, como todos dizen. De Malaca van todos los anos muchos navios de por- tu (20 r.) geses a los puertos de la China. Yo tengo encomendado a muchos para que sepan desta gente, avi- sándoles que se informen mucho de las cerimonias y costumbres que entre ellos se guardan, para por ellas se poder saber si son christianos o judios. Muchos dizen que 500
  • S. Thomé apóstol fué a la China y que hizo muchos chris- tianos; y que la Iglesia de Grécia, antes que los portu- geses senoreassen la índia, mandava obispos para que ensenassen y baptizassen los christianos, que S. Thomé y sus discípulos en estas partes hizieron. Uno destos obis- pos dixo quando los portugeses ganaron la India, que después que vino de su tierra a la índia oyó dezir a los obispos que en la India hallo, que S. Thomé fué a la China y que hizo christianos (3). Si supiere cosa cierta (yo os la escriviré para el ano que viene; os escriviró lo que por experiência destas partes tubiere visto y co- noscido). (3) BAL: Si supiere cosa cierta destas partes de la China e de otras, o que yo por experiência aya delias visto y conocido. yo os lo escrevire. 50I
  • 66 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AOS CONFRADES DA ÍNDIA Amboino, 10 de Maio de 1546 Epistola S. Francisci Xaverii: I-33Ç-344. (1) a) Dá conta das suas ocupações em Amboino. b) Espera que toda a ilha se faça cristã com a ida de Jordão de Freitas, a quem El-Rei concedeu o senhorio dela. c) Ordena aos Padres Francisco Mansilhas e João da Beira que ve- nham para as Molucas. d) Instruções aos mesmos para a viagem. e) Vários assuntos de interesse para a religião na índia. Jhus A graça e amor de Noso Senhor seja sempre em nosa ajudaa e favor. Amen. Ho anno de mil e quinhentos e coremta e cimquo vos esprevi de Malaqua por duas vias, em que por ellas vos rogava polo amor de Deus, a vós Padres Joham de Bei- raa, e a vós Padre Amtonio Criminal, que fosês, vista a presemte, ao Cabo de Comorym, haa doutrynar e favo- recer aqueles pobres crystãos, e terdes companhia ao Padre Francisco de Mamsylhas, ho qual lleyxey com (1) BAL: 49-IV-49, fls. 20 r.-2i v.; BACIL: Cartas do Japão. Vol. I, fls. 22 V.-23 v.; BIMINEL: Cartas da índia, fls. 30 V.-32 v. 5 0 2
  • hos christãos no Cabo de Comorym, e com ho Padre Joam de Llisano e tres outros Padres naturais da terra, e pera maior merecimeno voso, em virtude da samta hobi- diemcia vo-llo mamdavaa. Eu parti de Mallaqua pera Maluquo ao primcipio de Janeiro e chegei a estaa ilha d'Amboyno a quatorze dias do mes de Fevereiro, e chegamdo, lloguo visytei hos lugares de crystãos, que nesta ilha há, bautizamdo muitas cryamças que estavam por bautizaar. E acabando-as de bautizaar cheguou ha esta ilha ha armada de Fernão de Sousa com hos castelhanos que vierão da Nova Espanha a Maluquo, que erão hoyto navyos, que forão tamtas as acupaçõis esprituaes com esta armada, asym comfisõys comtinuas, como em pregar-lhes aos domimguos e fazer pazes, e visytaar hos emfermos, comfesamd'os e ajudam- d'os a bem morrer, que me mymguava tempo pera com- pryr com todos; de maneira que não me mymguavão hocupaçõis, asym em coresma como em fora dela. Eu tenho vista a desposysão desta terra; espero em Deus que, como vier o senhor desta ilha a morar em ella, que hé Jurdão de Freytas, capitão que ao presemte hé de Maluquo, homem muito de bem e zellozo do acresemta- mento da nosa samta ffee, que toda esta ilha se fará crystãa; e virá a morar nella deste Novembro que vem de 546 a huum anno, que será no anno de 547. Esta ilha d'Amboyno hé de vimt(e) e cimquo até trymta lleguoas em redomdo, e hé muyto povoada, na qual há sete lluga- res de christãos. Há outra terra que está d'Amboyno cemto e trymtaa lleguoas, a qual se chama a Costa do Moro, domde há muitos christãos sem nenhumaa dou- tryna, ao que me dizem. Eu me parto pera llá ho mais sedo que eu pod(er). Dou-vos esta comta pera que saybais a nesecidade que de vosas pesoas nesta(s) partes haa. Aimda que 503
  • muyto bem sey que llá erês neseçario, mas por serdes mais neseçaryo nestas partes, vos roguo muyto, polo amor de Christo No (so) Sennhor, que vós, Padre Fram- cisco de Mamsylhas, e vós Johão de Beyraa, venhais ha estas partes. E pera que mais mereçais en esta vimda, vos mamdo que em virtude da samta hobidiemcia ve- nhais; e semdo caso que alguum de vós outros ffoor morto, houtro Padre com ho Padre Antonio Criminal vyrês; de maneira que dos tres hum ficará com hos chris- tãos do Cabo de Comorym e com hos Padres naturais da terra. E se este anno vierem alguns da nosa Com- panhya, que lhe roguo muito polo amor de Deus Noso Senhor, que vão todos ao Cabo de Comorym a doutrynar e favorecer aquelles christãos. E me espreverês a Mal- luqu (o) larguamemte novas dos que de Portugal este anno vierem, e me mamdarão has cartas com hos Padres que am de vir a Maluquo (72 v.). E pera mais merecerem hos que este anno do Reino vierem pola virtude da samta hobidiemcia irão ao Cabo de Comorym. Estas cartas minhas me parece que vos não podem ser dadas senão por todo o mês de Fevereiro do anno de 1547, e no mesmo ano, ao prymcipio do mes d'Abril, parte de Guoa huma nao d'El-Rey pera Maluquo, e na- quela embarquação virês. E vistas esta(s) cartas minhas, lloguo vos partirês do Cabo de Comorym pera Guoa, e fazer-vos-eys prestes pera virdes a Maluquo como vos tenho dito; e na mesma nao esperão hos de Maluquo que á de vir el-rey de Maluquo, o qual llevarão preso; esperão tãobem os portugueses de Malluquo por outro capitão novo, pera emtrar na fortalleza de Malluquo. Se el-rey llá se fizer christão, espero em Deus Noso Senhor, que nestas partes de Maluquo se am de fazer muitos chistãos: e aimdaa que elle se não façaa christão, crede que com 5 0 4
  • vosa vimda Deus Noso Senhor á de ser muito servido nestas partes. Hos dous que pera estas partes vierdes, trarês cada huum de vós outros todo ho guysamemto neseçario pera dizerdes misa; e os callez sejão de cobre, porque hé metal mais seguro que ha prataa pera hos que amdamos emtre jemte não samta. Porque comfyo em vós outros como em pesoas da Companhia, que farês o que tamto por amor de Deus Noso Senhor vos roguo, e pera maior merecimemto por obidiemcia vo-llo mamdo, não diguo mais senão que com muito prazer aguardo por vós outros, e przerá a Deus que será pera muito serviço seuu e com- sollação das nosas almas. Myser Paullo, Irmão, o que muitas vezes vos tenho rogado polo amor de Deus Noso Senhor, asym em pre- zemcia como por cartas, houtra vez vos torno a roguar tamto quamto poso, que procurês em todo de fazer a vomtade aos que tem carguo de governação dese samto collegio, porque se eu llá me achase em voso lugaar, em cousa nenhuma tamto trabalharya, como em obedecer aos que regem esa samta casa. E crede-me, Irmão meu Myser Paullo, que hé cousa muito segura pera comtinucdarr.emte asertar, desejaar sempre de ser mamdado, sem comtraa- dizer ao que vos mamda; e por o comtrairo, cousa muito peryguosa hé ffazer homem sua propia vomtade comtra ho que lhe mamdão; e ainda que acertês fazemdo o com- trairo do que vos mamdão, cre(de)-me, Irmão meu Miser Paullo, que hé maior o erro que ho acerto. Ao Padre Mestre Diogo em todo lhe obedecerês e lhe farês a vomtade, por ser ell(e) sempre comforme à vom- tade de Deus Noso Senhor. Fazemdo isto, que tamto vos roguo, crede que em cousa nenhuma me farês tamto a vomtade. Hos frades castelhanos da ordem de Samt'Aguosti- 505
  • nho (2) que vão pêra Guoa, vos daram novas de mim, hos quais vos roguo muito que em todo o que poderdes hos favoreçais, mostramdo-lhe muito amor e carydade, porque elles sam pessoas tão relligiosa(s) e samtas, que todo o boom gasalhado merecem. Llogo aos nosos Irmãos, que estão no Cabo de Co- morym, mamdareis esta carta pera que venham a Guoa, pera no mês d'Abryl virem a Maluquo na nao d'EI- -Rey (73 r.). Roguo-vos muito por serviço de Deus Noso Senhor, Irmãos meus, que trabalheis de trazerde(s) em vosa com- panhia algumas pessoas de boa vida, que nos posão aju- dar a imsynaar a doutrina christãa por hos llugares destas ilhas: aldemenos cada hum de vós outros trabalhe muito por trazer huum companheiro: e se não for Padre de misa, seja alguum lleiguo, que se semte e tem por imju- ryado do mumdo, demonyo e carne, que ho tem desom- rado diamte de Deus e seus samtos, e deseja de se vim- gar delles. Noso Senhor nos ajumte em seu samto reino por a sua imfinita mizericordia, que será com mais prazer e descamso do que nesta vida temos. D'Amboino a dez de Maio de 1546 annos. Vester minimus frater, (Franciscus) (73 v.) Inschiptio manu Xaverii: A meus charyssymos Hyrmãos, Mice(r) Paulo e Joham de Veira et ceteri (s) fratribus em Goa. (2) Os quatro religiosos que faziam parte da expedição de Vila Lobos. 506
  • 67 CARTA DE FRANCISCO XAVIER A D. JOAO III Amboino, 16 de Maio de 1546 Epistola S. Francisci Xaverii: I-34.6-348. a) Necessidade que a Índia tem de pregadores. b) Conveniência em se estabelecer também na Índia a Santa Inqui- sição. c) Recomenda a El-Rei dois capitães portugueses que se distinguiram nas operações de Fernão de Sousa, capitão-mor do mar, quando aprisionou Rui Lopes de Vila Lobos e seus companheiros. Senhor, Por outra via tenho scripto a Vosa Alteza da muita nesecydade que a Yndia tem de preguadores, porque à minguoa deles a nosa Samta fee amtre. nosos portugueses vay muito perdemdo-ce a fee. Ysto diguo por a muita espiriemcia que tenho por as fortalezas domde amdo: hé tamta comtratação continoa que temos com os ymfiês, hé tão pouca nosa devação, que mais azinha se trata com eles proveitos temporais, que mistérios de Cristo Noso Re- demtor e Salvador. As molheres dos casados naturais da terra, e filhas e filhos mestiços, comtemtam-se em dizer que são portugeses de jeração e não da lei: a causa hé a mimgoa que hé quá de preguadores, que emsinnão a lei de Christo. A segunda nesecydade, que a Ymdia tem pera serem 507
  • bons christãos os que nela vivem, hé que mande Vosa Alteza a Sam ta Ynquizisão, porque há muitos que vivem a ley mozaica e seita mourisca, sem nenhum temor de Deus nem verguonda do mundo. E porque ysto(s) são muitos e espalhados por todas as fortalezas, hé neseça- ria (i v.) a samta Ymquizisão e muitos preguaodres: proveya Vosa Alteza seus leaes e fiês vaçalos da índia de cousas tão necessárias. Com Fernnão de Sousa, capitão-mor duma armada, quue veio da Yndia a Malluco em soquorro da forta- leza, por causa dos castelhanos que vierão de Nova Es- panha, viera (m) tres capitões leaes e fiês vaçalos de Vosa Alteza. Destes matarão huum os mouros de Yeilolo duma bombardada, chamado por nome Yoam Gualvão; dous outros, por nomes chamados Manuel de Mesquita e Lio- nel de Lima, servirão muito a Vosa Alteza em ajudar a librar a presão, em que estava a fortaleza de Vosa Alteza de Maluco, gastando ho seu e de seus amiguos em dar de comer a pobres lascarins, e aguazalhando os caste- lhanos que da Nova Espanha vierão, provemdo-os de vestidos e comer, mais como a proximos que como ymi- guos. Estes capitães de Vosa Alteza, co(mo) são mais cavaleiros que chatis nem mercadores, não se souberão aproveitar pera ajuda de seus guastos do fruto crawo, que Deos nesta terra daa; esperão ho gualardão de seus servviços de Deus primeiramente, e despois de Vosa Al- teza, pois tem tamto bem servido en esta trabalhosa via- gem de Maluco, com tamto periguo de suas almas e vidas. Lembre-se V. A. de Manuel de Mesquita, que vay numa nnaao com muitos castelhanos e portugeses, a que(m) dá de comer à suua custa, e asy leva a sua fusta em que veo a carguo a que(m) dá de comer. Lionel de Lima leva tãobem muito gasto. Lembre-se V. A. deles pera lhes fazer mercê, pois tão bem lhas 508
  • merecera. Deus Noso Senhor acresemte o estado e vida de Vosa Alteza por muitos annos, pera muito serviço de Deus e acrecemtamento da nosa samta fee. D'Amboino a dezaseys de Mayo ano de 1546. Servo inútil de Vosa Alteza, Francisco 509
  • 68 CARTA DE FREI JERÓNIMO DE S. ESTEVÃO A EL-REI D. JOÃO III Cochim, 22 de Janeiro de 1547 ANTT: CC-I-78-125. Original em duas folhas, sendo uma escrita, com boa letra e uma redacção elegante. Mede 305 x 205 mm. a) Motivos por que se encontra com seus companheiros na índia. b) Foram as privações e fome que levaram às Molucas a expedição de que fazia parte, e não a ideia de ali se estabelecerem. c) Pede a El-Rei que se interesse pelo resgate de alguns castelhanos que ficavam prisioneiros numa ilha, perto das Molucas. Senor, En una armada, que por mandado dei Emperador embio el viso rey de la Nueva Espana, a descubrir unas yslas que le informaron que estavam al poniente de aquella tierra, vinimos quatro religiosos sacerdotes de la Orden de Sancto Augustin, con deseos de ensnar el Evan- gelio de Ieshu Cristo a los mercadores de aquellas yslas. Ordenandolo el Senor, herramos las yslas que se bus- cavan, y despues de aver padecido muchos travajos y necesidades y muertes, por no nos acabar de consumir, venimos a Maluco y de alli a la Yndia; ha seys dias que llegamos a Cochin. 510
  • Como nosotros sallimos de Castilla, y despues, de la Nueva Espana, con deseo de doctrinar infielles, teniendo. esperança en el favor dei Senor, antes que aqui llegase- mos, y despues de llegados, hemos procurado informamos de los costumbres y maneras destos infieles, y oymos cosas que nos combidan a quedarmos entre ellos, y cosas que nos desvian mucho. Entre estes pareceres diversos hemos escogido de to- mar la experiência por maestra y estamos este ano en esta índia, mirando y rogando al Senor que nos de gra- tia que nos determinemos en aquello de que El sea mas servido. Algunos ay en esta tierra que dizen que los Castel- lanos fueron, esta vez, embiados a Maluco. // Digo a u Vuestra Alteza la verdad, como soy obligado a mi Senor y rey, que el viso rey dela Nueva Espana mando, por su regimento, a Ruy Lopez de Villa Lobos, que embio por su capitan mayor, que guardase lo capitulado entre el Emperadory el adelantado de Guatimala, y el en que no estrasen en Maluco, ni en la demarcacion de Vuestra Alteza; que por cumplir este mandato, padecio en la tierra y en la mar mucha hambre y enfermedades, y se le murieron muchos hombres. . Y" que cuando se determino de arribar a Maluco, por salvar las vidas, que no dava a un hombre, cada dia, mas de cuatro onças de arroz, con su cascara, sin otra vianda, y que, despues que estuvo en Maluco, en qual- quier tiempo que llegara persona, con poder del gover- nador, que se compliria en la índia lo que con el se asen- tase, que luego se salliera de Maluco. Y ansi fue que, llegando Fernando de Sosa de Tavara, se concertaron que los Castellanos se viniesen por la índia, y que el prometia, en nombre de Vuestra Alteza, de les dar envarcacion y lo necesario hasta esos reynos. 5 11
  • Y mientra los Castellanos estuvieron en Tidore, los portugueses rescataron el clavo y lo demas que quisieron, con la libertad que antes, y aunque hallamos aqui, en Cochin, a Lorenço Piris, no se envarco este ano Castellano alguno, porque no ha venido Fernando de Sosa, ni hablado al governador. Entre lo que se capitulo con Fernando de Sosa, en nombre de Vuestra Alteza, fue que el capitan de Ternate embiase a rescatar doze Castellanos, que quedavan pre- sos, entre infieles, en unas yslas, ciento y cincuenta léguas de Maluco, poco mas o menos. Hasta agora, no sabemos que los ayan embiado a re- demir, y temo que no lo haran, si no les fuere mandado por Vuestra Alteza. Por amor de Dios que, porque aquellos pobres apar- tados de cristianos no pierdan la fe, que Vuestra Alteza les mande redemir los cuerpos y las animas. Cumpla Dios los sanctos deseos de Vuestra Alteza para augmento de su sancta fe. De Cochin, de la índia de Vuestra Alteza, 22 de He- nero de 1547. as. Fray Jeronimo 1 de S. Estevan 2 1—Jer°; 2 — Prevâ. 5 12
  • 69 CARTA DE BALTASAR VELOSO A EL-REI Molucas, 20 de Março de 1547 ANTT: Gaveta 18-2-26. Original escrito em três folhas com letra cuidada, perfeita e muito clara. Mede 295 x 205 mm. а) Desacertos dos capitães da fortaleza de Ternate, no governo da mesma. б) Procedimento de Jordão de Freitas quanto à rainha de Ternate, que o autor desta carta recebe em sua casa, depois de ser deposta. c) Prestígio de Baltasar Veloso entre os indígenas, por ter casado com uma filha do rei de Ternate, convertida ao cristianismo. d) Mais de quarenta mil cristãos na ilha de Moro, e razão porque alguns voltaram novamente para os mouros. Senhor, Quero dar comta a Vosa Alteza desta sua fortaleza de Malluquo, porque creio que nam he enformado do que nella pasa. E pela obrigação que ha seu serviço te- nho, me atrevy dar-lhe esta comta, aliem de duas que- lhe ja tenho esprytas, desta terra e asy lhe quero fazer lembramça de meus serviços. Eu party de Purtugal para a Imdia o ano de vimte, c cheguey a Guoa, omde loguo aquele ano me embarquey 1 — tr». INSULÍNDtA, I — 33 5 1 3
  • numa armada, com Amtonio de Azevedo, que hia por capitão-moor; omde ajudey tomar muitos lugares, na costa de Cambaia. E neste tempo me fuy com Dioguo Lopez de Siqueira a Dioo e .tornamdo a Guoa, fuy, por muitas vezes, a terra firme, com Ruy de Mello Punho, e ajudey tomar muitos lugares e a fortaleza de Pomda. E nestas cousas, e em outras que me achey, não hera dos trazeiros, mas sempre me esmerey em servir Vosa Alteza, como pode saber destes seus capitães, com me darem muitas feridas e derramar meu samgue em seu serviço, sem por iso me ser dado nenhum galardão nem merce de nenhum seu capitão. E vim ter a Mallaca, estamdo por capitão Jorge de Allboquerque, que estava com muita apresam de guerra, omde também fuy no que me mamdavão, também que a ninguém dou a vamtagem em todalas cousas e também fuy, por seu mamdado, a soquorro del-rey de Limga, com Alvaro de Brito, que hia por capitão-moor; omde peleyamos com tres reis, no caminho, que trazião gramde poder de gemte, e os desbaratamos no mar, com lhe ma- tarmos noveçemtos omens, e não sermos mais de oitemta portugueses. E depois que tornamos, por aver novas que avia cas- telhanos em Malluquo, me embarquey loguo para la, omde aguora estou, desdo tempo que Dom Graçia foy capitão, que haa aguora vimta tres anos. E dese tempo, [i v.] poso dizer, em verdade, que sempre me achey //em todallas cousas de Malluquo. E neste tempo de Dom Garçia cheguarão duzemtos e tamtos castelhanos, em que vinha por capitão Martim 'Niniquez de Carquiçena, e se poserão em Tidor, que he hum rey, noso vizinho, que estara desta foraleza duas leguoas, omde fizerão huma fortaleza e desembarcarão muita artelharia, e se fizerão fortes comtra esta fortaleza, 5*4
  • sem quererem obedecer a nenhum requerimento, nem mamdado do dito Dom Gracia. Pella qual rezão elle foy la, omde estavão com a nao, com muita artelharia, omde Graçia me escolheo, amtre muitos omens, e me mamdou num batel que lhe fose ajudar a meter aquela nao no fumdo, omde nos deram muitas feridas a bombardadas, e fizemos de maneira que a nao se foy, aquella noite, ao fumdo, pelo qual eles estiveram nesta terra muito tempo; e com favor deste rey de Tidore e doutros da terra tiveram sempre ousadia e nos fizeram muita guerra. E depois de Dom Graçia, fiquou por capitão Dom Jorge de Meneses, e fuy com elle sobre esta fortaleza, que hos castelhanos tinham em Tidore e os emtramos, por força, e os botamos fora desta ilha, e se foram para outro rey de Geillollo, que estava seis ou sete leguoas desta fortaleza de Vosa Alteza; e se fizeram também fortes com este rey. E neste tempo chegou Tristão de Taide, por capitão, que loguo foy sobe los ditos castelhanos, e os botou daly fora, omde me eu achey também, com ele, e o fiz tam- bém. E depois se allevamtou esta terra toda comtra esta fortaleza e esteve alevamtada desaseis meses, sem nella termos nnhum mamtimento, nem domde nos vir; e com muita guerra e trabalho a sostivemos, e nam symto ca- pitão, que nella estivera, que a não pusera a gramde ris- quo de se perder, senão Tristão de Taide, que, como bom capitam, a sosteve; omde eu, por muitas vezes, fuy ferido de muitas feridas, e hum braço quebrado, de huma espimgardada, como Vosa Alteza pode saber de Tristam de Taide e de Framçisquo de Sousa, que aquy se achou, neste tempo; e asy em tempo doutros capitães de la, fa- zemdo de minha pesoa 2 e com minha fazenda 3 e escrap- 2 — p»; S — faz». 515
  • vos sempre servimdo, de noite e de dia; e estava prestes para o que me fose mamdado e por este respeito me não qyzeram nunqua, seus capitães, dar licença 4 pera me ir desta fortaleza. E neste tempo sempre me escolhião para o serviço de Vosa Alteza, sem numqua sair fora da dita fortaleza, avemdo dezasete 5 ou dezoito 6 anos que o servia, sem me quererem dar licença, como digo, para me ir, ser- vimdo-se de mim, do tempo de Dom Graçia, e o de Dom Jorge de Meneses, e o de Gonçalo 7 Pereira e o de Tristam de Taide, e o de Amonio Guallvam, e cimquo i2 r.i anos de Dom Jorge de Castro. // Estes sabem bem quam- tas vezes derramey o meu samgue em serviço de Vosa Alteza, sem me os seus guovernadores, nem capitães, darem guallardam diso; somente me terem nesta forta- leza e follguarem muito comigo, por me verem sempre prestes. Somente Dom Jorge de Castro me deu liçemça para fazer hum navio, como jumquo, para mantimemtos desta fortaleza; e temdo-ho ja feito, chegarão novas que esta- vão castelhanos no Moro, pelo qual, Dom Jorge, temdo a nao de Vosa Alteza carreguada, e sobeyar muito cravo, nesta fortaleza, me dixe que carreguase o navio e que levase o cravo ao governador. Em cheguamdo a Mallaca, que dey novas dos castelhanos, me requereo Jurdam de Freitas, que ay estava, que vinha por captiam desta for- taleza, que me tornase, e asy também mo requererão Sy- mam Botelho, capitam de Mallaqua, e muitos fidallguos e cavaleiros, pelo qual me pareçeo serviço de Vosa Alteza, me torney. E trazendo huma irmãa del-rey de Tarnate que averia nove ou dez anos que se fez cristãa, por amor de mim, 4 —1<»; 5 —xbij; 6 — xbiij; 7 —g«; 8 —p". 3 i ó
  • a minha partida, casey com ella; e vimdo asy, como diguo, com detreminaçam de me ir para huma desoutras fortalezas de Vosa Alteza, vemdo que compria isto a seu serviço, me torney outra vez, com molher e fi- lhos a esta fortalleza de Malluquo, omde aguora estou, com detreminaçam de sempre nella servir, como ate qy fiz. E neste tempo que acheguey com Jurdão de Freitas a esta fortaleza, loguo entrou por capitam, e sahio Dom Jorge de Castro; e neste comenos premdeo o rey, que aqy estava, e o samarao (i), que hera regedor, sem conselho de nenhuma pesoa, nem de Dom Jorge, de quem se po- derá tomar comselho para iso, por elle ser pesoa que o poderia nesta parte dar, e asy doutros fidalgos e cava- leiros, que aquy estavam. Sem o fazer a saber a ne- nhuma pesoa, os mandou chamar a torre da menagem, e os premdeo, estamdo duzentos castelhanos em huma fortaleza, duas leguoas de nos, em Tidore. E deu a terra gramde aballo de todo se allevamtar. E por o scastelhanos nam quererem nos não puseram em mui grande apresam, e eu, por minha parte, por ter este credito amtre eles, hos apaçifiquey, o milhor que pude; e os mamdou ambos em feros a Imdia, por omde a terra toda levou mui gramde descontemtamento diso, e me parece verdadeiramemte que, se eu não estivera aquy, com minha molher, irmãa deste rey, que a terra se allevamtara. // 12 t.i E neste comenos veo ter aqy Fernão de Sousa de Tavora e trouxe mui pequeno soquorro para tomar estes castelhanos, que estavam em Tidore, em huma fortalleza, e tinhão el-rey de Geillollo, com outra for- talleza; e a dez ou doze anos que esta desta maneira. (1) Talvez o mesmo que samurai. 5 1 7
  • E vemdo eu aquy tam pouquos portugueses, e a terra caye (sic) mea alevantada, pela prisam del-rey e do samarao, dise a Fernam de Sousa que seria bom fazer pazes com heste rey de Geillollo. Elle me dise que follgaria muito com iso, pelo qual eu mandey dizer a el-rey de Geillollo se queria paz, que eu me atrevia fazella com Fernão de Sousa, que a fizese com elle; me mamdou dizer que eu hera seu pay e mã}-, e a acabase. E na propria noite que ho recado del-rey vinha para mim, mandou Jurdão de Freitas hum Molledo-Turo, que he mamdarim, com huma cora-cora, a cortar a cabeça a hum homem, seu privado, e isto lhe fizerão as portas do seu lugar; de maneira que, quamdo isto virão, diserão que eu lhe não falava verdade e desarmaram da paaz e foy la Fernam de Sousa e Jurdam de Freitas, com quatrocemtos homens, e leixaram la dez ou doze ho- mens mortos, afora outros feridos, sem fazerem nenhuma cousa. E isto tudo, por cullpa de Jurdam de Freitas, que se quis por em pomtos com Fernam de Sousa, por omde se nam tomou a dita fortaleza de Geillollo, nem se fez nada, e ficou asy como estava, muito mais forte; e nos pode fazer, a nos, muito dano, e nos a ella, nenhum, em nos tolher os mamtimentos, que nos não venha a esta for- talleza. E depois que se foy Fernão de Sousa, este rey de Geillollo se fez mais forte do que estava, e el-rey de Tidore fez outra fortalleza, que aguora tem apeguada com a nosa, também muito forte, com muita artelharia e espim- gardas, que lhos castelhanos derão, e a terra toda aballada e mui soberbos, por verem isto. E quamdo Jurdam de Freitas veio por capitão desta fortaleza, trouxe a mãi de Dom Manoel que estava na 518
  • Imdia, e quamdo premdeo este rey, Aeyro, que o mam- dou a Imdia, tomou a mãi de Dom Manoel e a meteo de pose da terra, e allguns Samgayes (2) ou todos, por ve- rem o outro preso, lhe vieram dar a odediemçia por rai- nha e lhe obedeçia a terra toda. E loguo, day a pouquos dias, a tornou tirar da pose em que estava, e mandou que lhe não bedeçesem a ella; que a elle aviam de bedeçer, e a ella nam, por omde esti- verão todos caye allevamtados e asy a terra toda. E eu, quamdo isto vy, a tomey e levey para minha casa e a sostive do que lhe hera neçesario. E el-rey de Tidore, seu irmão, quamdo isto vio, semtio muito gramde nojo diso, e mamdou sete ou oito cora-coras, e hum seu irmão, e mamdaris primçipaes, por ella; e eu fiz com que a não levaram, / / que não estava mais que toda a 'J r-i terra se allevamtar contra esta fortalleza que ir-se ella la. E eu, pelo credito que tenho nesta terra, hos sostive e apacifiquey todos, com Dona Caterina, minha molher, yrmãa deste rey, meter a mão niso, damdo-lhes espe- ramça que o seu rey viria, por omde elles fizeram o sobre dito e esperaram ate a mouçam. E quamdo matarão o samarao, que Jurdão de Freitas tinha preso, dentro nesta fortaleza, também se foram para os matos e despovoavam os lugares, eu os fiz tornar e estar em paaz, ate a vimda de Bernalldim de Sousa, que trouxe o seu rey, Aeyro, com que elles muito follga- ram e se tornaram todos pera elle. E esta mãi de Dom Manoel faz aguora hum ano que esta em minha casa e a sostenho, o milhor que poso, omradamente, com minha molher; e aguora a tenho feita cristãa, sempre favoreçida, por se fazer cristãa; o que (2) O mesmo que sangages, do malaio sangaji, príncipe, prin- cipal, etc. O termo malaio sangaji compõe-se de dois elementos: sang (designação honorífica) e aji (real). 5 19
  • nesta terra oulham muito pouquo, o que não devia ser asy, que também diguo isto por minha molher, que se fez cristãa, semdo irmãa imteira de Quechil de Aroez, e a primcipal filha del-rey de Tarnate, a quem seu pay queria muito gramde bem e a casou com hum Samguay de Moutel; e por se fazer cristãa, tudo o seu perdeo, e com ella não ouve cousa que valese dez cruzados, ho que nam devia de ser asy. E também dou conta a Vosa Alteza do Moroo, que he hum reino sobre sy, tem em sy mais de coremta mil allmas cristãas, e muitos mouros, que comquistam com elles, sem terem nenhum favor desta fortaleza. Jurdam de Freitas mamdou la hum seu paremte, a buscar mamtimentos, e foy estar num lugar que se chama o Tollo, que tera quatro mil allmas cristãas; e fez-lhe tal companhia que se tornaram mil allmas, das que heram cristãas, para os mouros, e fora outros muitos que va la sam, pelo pouquo favor e maa companhia que desta for- talleza tem; e aimda la estão, sem de nos receberem ne- nhum favor nem bem, semdo esta terra do Moro de que esta fortalleza tem muita neçesydade e lhe foy ja boa, no tempo da guerra; porque os capitãis que vem a esta fortaleza não vem mais que a vemdimar este cravo se não allembra cristãaos, nem oulham o seu serviço, nem fortaleza, que asy he ella aquy, como pode ser hum cur- ral de cabras. Hum vem e faz demtro hum chiqueiroo de porquos, e outro vem e faz da torre da menagem bamgaçal de cravo e olham muito pouquo, que mataram a Gonçalo * Pereira, capitam desta fortaleza, demtro nella, e isto por is v.] nam ser a porta delia vigiada, // nem allcaide-moor a ella, porque ha vimta tres anos que aquy estou e num- 9 — g«. 520
  • qua vy allcaide-mor aquella porta, somente em tempo de Dom Garçia; se allguma fortaleza e na Imdia que tenha neçesidade de hum allcaide-mor, que nam seya feitor, he esta, porque tem a gemte desta terra muitas traições come- tidas, e os feitores bem tem que fazer em suas feitorias e não podem estar a porta da fortaleza. A terra esta da maneira que diguo a Vosa Alteza: com estas duas fortalezas apeguadas comnosquo, e nos matam cada dia purtugueses, sem termos poder para lhe irmos a mão. He muito neçesario que mamde Vosa Alteza cor- tallas 10 raizes a isto e alimpar esta terra toda, amtes que va em mais crecimento, porque estão de maneira que, se quallquer navios de castelhanos vierem, nos daram gramde apresam. Isto se pode fazer tudo numa moução, vimdo da Imdia hum capitão com soquorro que venha para iso, nam para comprar cravo. Nesta fortaleza, senhor, avera sessenta casados e a vera outros tamtos lascarins 11 e esta fortaleza tem neçesydade de trezentos omens, porque ha tres reis aqy, nosos vizi- nhos, que tem muita gente e artelharia de sobeyo, com todalas cousas que lhe sam necesarias. Nam ha mais de que dar conta a Vosa Alteza desta terra, senam que, em satisfaçam de vimta sete anos que o tenho servido, nestas partes, como se poderá emformar dos seus capitães que daquy forão, me faça merçe da capitania do mar, com o seu ordenado, em minha vida, porque isto cabe bem em mim e poso servir Vosa Alteza niso e em outras cousas, como sempre fiz. E se não tenho tirado estromento de meus serviços, ate guora, he porque não tenho em Purtugal quem lhe faça lembramça de mim; e aguora a faço a Vosa Alteza para que me faça merçe, pois a mereço por meus serviços 10 —i. é. «cortar a§ raírea»; 11 — lx. 5 2 I
  • feitos de tamtos anos, sem me ser feita nenhuma merçe pelos seus guovernadores nem capitais. Noso Senhor acreçemte os dias de vida e estado a Vosa Alteza, como ele deseya. Feita em Maluquo, a 20 12 de Março de 1547 IS. as. Beltesar Veloso 12-xx; 1J — ibrbij. 522
  • 70 NOTÍCIAS DA ÍNDIA Goa, princípios de 1548 (?)(i) Documenta Indica, /-25J-255. Documentação... (índia), Vol. 4°, págs. 35-37. Nas partes de Maluquo, omde o Padre Mestre Fran- cisco anda, há humas ylhas, encima das quais, asi em enverno como em verão, sempre arde foguo e cada oyto dias treme a terre nelas, e he tam grande o cheiro que delas say, das arvores do cravo, que dizem ser cousa muito pera ver. Estas ylhas são muyto altas, he lá não comem senão pam de paoo; tem muytas carnes. Ho Pa- dre Mestre Francisco quando se partio de Malaqua, que hé huma fortaleza d'el-rey de Purtugal, muito riqua, domde morão muytos portugeses casados, dizem que nun- qua ali pode fazer fruto neles; que alem de serem ca- sados, tem tres e quatro mancebas; e muitos, mea dúzia; e outros dizem que se despedio emterou os vestidos e se vestio de peles; mas não me parece ser verdade mais que ho dos sapatos. A primeyra oytava da Pascoa florida de 1547 (2) (1) Estas notícias parece terem sido tiradas da carta enviada por Xavier, de Amboino, a 10 de Maio de 1546. (2) Em 1547 a Páscoa foi a 10 de Abril. 5 2 3
  • partirão desta cidade de Goa de demtro deste colégio o Padre João da Veira, chamado pelo Padre Mestre Fran- cisco em virtude da samta obediência pera Maluquo; o Padre Ribeiro e o Irmão Nicolau forão pelo parecer dos Padres; o Padre Amtonio e o Padre Cipriano Francisquo Henriques e o Padre Anrique Anriques e o Irmão Morais e outro Irmão da casa andão no Camorym. 5 2 4-
  • 71 CARTA DE JORDÃO DE FREITAS A EL-REI Ccchim, 7 de Janeiro de 1548 ANTT: Gaveta 18-5-15. Original em duas folhas, a primeira das quais escrita com a mesma letra desenvolta e clara de todas as outras do mesmo autor. Mede 500 x 220 mm. a) O que se dizia a seu respeito na índia. b) Receia ser mal recebido pelo Governador. c) Pôr-se-ia a caminho do Reino, para dar conta do seu procedi- mento, se não tivesse deixado nas Molucas mulher e filhos. d) Suplica a Sua Majestade que tome conhecimento da exposição que lhe envia. Senhor, Cheguando aqui a Cochym, achey tanta novidade de cousas que me dyseram e de juizos que se qua lançavam sobre mim que me fezeram medo. E Rui Gonçalves \ veador da Fazenda, me dyse que me fose logo para Goa, em busca do guovernador, porque não serya muito acha-lo ja em Baçaym, e que em meus negoçeos não avya de aver despacho nenhum, porque o guorvenador tynha escryto a Vosa Alteza, e que, ate de la não vyr recado, não podya ser despachado. 1 — giz.
  • E doutra parte me diz que eu me verey com ho gover- nador, e que meus trabalhos se tornarão em prazer e con- tentamento. Asy, senhor, que estas contraryedades me poem em muita confusão, e certefyco a Vosa Alteza que se me não fora ter minha molher e fylhos minynos em Maluco que nestas naaos me embarcara logo, a yr-me ver Vosa Al- teza; que pola cabeça por onde cuido que tenho ser- vydo me querem meter em cabeça que fyz o que não devya. E outros me dizem que o governador estaa muito arre- pendydo e medroso, por ter tanto errado em mandar a Maluco aquele rey tão perduçial (sic) ao serviço de Deus e de Vosa Alteza, // e que a-de querer atabucar-me e fazer-me lyações, porque me contente com quoallquer cousa, e me torne para Maluco, por Vosa Alteza não saber nem ser enformado da verdade nem dos seus supytos e desconçertos. Asy, senhor, que me fara Vosa Alteza merce em quereer ver os meus papes que leva secretamente o Padre Frey Geronimo de Santo Estevão, priol dos Padres Agos- tinhos. E leva recado meu que os entregue a Alvaro da Mata, morador 2 (?) em Lysboa, ornem muito meu amigo, ate vyr recado de meu irmão, Gonçalo 3 de Freytas, a quem escrevo que venha ay, a corte, dar rezão deles a Vosa Alteza e a requeryr minhas cousas, pois Dom João la manda a sentença que qua deu na Yndea, contra mim, com desembargos. Mande Vosa Alteza ver la tudo, asy o que ele manda, como estes que eu aqui mando. E por hy sabera os erros que tenho feitos, e sayba dos castelhanos o que pasou na verdade e asy me julgue. 2 — mor; J — G'°. 5 2 6
  • E mande provysam do que se faça açerqua do rei que Dom João la mandou meter de pose, porque, segundo me afyrma, he que ele o não a-de mandar desaposar, ate ver recado de Vosa Alteza; e eu, por remedyo e por me não ver tão perdydo, tornar-me-ey para minha casa, ate ver remisam por Vosa Alteza, a quem Noso Senhor Deus acreçente seu real estado com muita vyda e saúde. De Cochym, oje, sete de Janeiro de 1548. as. Jurdhão de Freytas 527
  • 72 OUTRA CARTA DE JORDÃO DE FREITAS A EL-REI Cochim, 7 de Janeiro de 1548 ANTT.Gaveta 18-5-15. Original com quatro folhas, das quais, três escritas com a mesma letra carregada, mas bem legível. Mede 500 x 220 mm. a) Queixa-se dos agravos sofridos. b) Abusos que o novo rei de Ternate Quechil Aeiro tem praticado contra a rainha cristã, D. Isabel. c) Treslados que mandou tirar de vários documentos respeitantes ao Testamento que D. Manuel, rei de Ternate, fez de suas ilhas a E!-Rei de Portugal, antes de falecer, em Malaca. Senhor, Porque as dilygençias de quem faz o que nam deve sam muitas, nam he muito levarem ho preço e mereçi- mento de quem faz o que deve. Diguo isto, porque cuidando eu que servia a Deus, Noso Senhor, e a Vosa Alteza, como cuido que day naçeo estar tam azado fazer-se huma cousa e a outra, nam tam somente no tempo que a Martym Afonso 1 coube de sua governança fui mal tratado, com mandar Fernão de Sousa ao negoçeo dos castelhanos, que eu tinha tam mansos e 1 — A° 5^5
  • quietos, como se vio por espiriençia e o tempo deu teste- munho, mas aynda aguora, no tempo que Dom João de Crasto governa, íuy tyrado da fortaleza, de que me Vosa Alteza fez merçe, por tres annos, com muita ofemsa e desonra, de que dara suas rezões, que não sey como po- derá pareçer bem a ninguém; e mandou meter de pose ho rey de que Dom Jorge de Crasto, capitão ante mim, de Maluco, fazya muitos queyxumes em suas cartas a Vosa Alteza sobe lo negoçeo dos castelhanos, e agora ele foy o que mais fez e requeryo polo dito rey, não lhe per- tençendo o reino, por direito, e sendo Vosa Alteza ale- vantado por rei, não tam somente polo testamento que Dom Manuel, que Deus aja, fez, mas aynda polo povo ho asy // pedir, requeryr, açeytar e consentir; a qual u vj diligençia eu fiz com todalas solenidades, como se requere para semelhante auto. Que eu tenho que Noso Senhor Deus quis permityr que viesem em semelhante tempo ter a Maluco, por se não poder, nunqua, aleguar nem dizer que foy feito sorratiçio. E não tão somente me mandou yr caminho da Yndea, a dar conta destes pecados de que sam acusado, mas aynda me foy vendyda minha fazenda, em preguão, a menos do justo preço, pera se paguarem perdas, dánnos e custas ao dito rei. E aynda me dizem que me mandavam yr preso em ferros, e me foy tyrado ho anno da monção do cravo, em que me ouvera de aproveitar, que me fezeram de perda pasante de quarenta mil 2 pardaos. E porque alegava embarguos a sua carta (?), asy por ser dada contra parte não çitada e se fazer com tanta desordem, que a patente que foy dada a Bernaldym de Sousa, que me veo tyrar, dezya ser feita a 28 3 de Março, e a sua carta dezer ser feita a 23 * de Março, e o mandado 2 — B ; i — xxbiij ; 4 — xxiij. 5 2 9 1NSITLÍNDI A , ( 34
  • do governador, per que mandava que se fezese a exucação, dezya ser feita a seis de Março, não tam somente me niso quiseram goardar nenhuma justiça e todo ho emxuquetado mandaram emtreguar a partes, não lhe tomando nenhuma fyança nem mandado socreto, como Vosa Alteza manda em suas ordenações, de que la mando a Vosa Alteza estro- mentos, mas aynda outros que tyravam, que fazyam muito a meu caso, em que pedia ho trelado duma devasa que se tyrou contra ho rei, e o trelado da patente de Bernaldym de Sousa; e da perda que me era feita que lhe a ele Ber- naldym de Sousa ficava tudo em proveito, por lhe não danar as merçes que lhe Vosa Alteza podia fazer, como de feito fez, em lhe dar Ormuz, me tomou forçosamente, com poder da justiça, sendo entregues a Duarte de Mi- u r.i randa, capitão da carreira de Maluco, por // autoridade da justiça. De que tyrey hum cstronamento, dado pelo escryvão de seu oficio, que mando a Vosa Alteza com muito... (i) verdade que qua foram feitos em ser soneguado o testa- mento de Dom Manuel, em que deixava Vosa Alteza por erdeiro e não apresentado ao tempo do dar da sentença contra mim; de que naçeo mandarem meter de pose o dito rei, o que eu recramei e diso tyrey estromentos, como de tudo mando a Vosa Alteza recado. E creo, segundo o que tenho alcançado, que Dom Johão, governador, foy mal enformado por pesoas 5 que apasygouadamente o quiseram enformar mal, que não he de crer que hum homem de tão boa notiçia, segundo fama, e mais que tanto estremeçe nas cousas do serviço de Vosa Alteza, se o testamento vira ou soubera dele parte, que (i) Palavras sobrepostas que não conseguimos ler. 5 — p»». 5 30
  • tal mandara fazer, sendo tanto em perjuizo do seu ser- viço. E eu vou agora dar conta destes pecados, de que me dizem que Dom Joam estaa ja bem arrependydo, por tal ter feito. La mando Galaz da Mata, meu criado, com todas estas cartas e papes, e recado a meu irmão Gonçalo * de Freitas que venha ay, a corte, dar conta meudamente a Vosa Alteza de todos estes negoçeos, a que peço por merçe que queira ouvir e manda-los ver por leterados, porque me temo não queira sustentar ou afermosentar sua maa rezão quem nisto fez o que não devia; e a meu irmão, se para qua quiser vir, e pedir a Vosa Alteza alguma merçe, querer-lha fazer, e dar huma nao em que venha, por- que ha-de trazer minha cunhada, molher de meu irmão, Diogo 7 de Freitas, com huma fylha e fylhos. E quisera mandar nestas naaos Antonio de Freitas, meu filho ", que he o que fez fazer a Dom Manuel ho testamento de que não avia nenhuma lembrança em Ma- laca, a quem Vosa Alteza e seus governadores qua dão as suas fortalezas. E por estar e vir muito doente de Ma- laca comigo ter aqui a Cochym, //o não fiz. 12 E mando também a Vosa Alteza huma carta de Dona Ysabel, rainha * de Maluco, may de Dom Manuel, que Deus aja, a qual me mandou asynada em branquo com outra tal para o governador, para que pusese o que pa- sava açerqua de seus negoçeos, o que me ela mandou dezer por huma carta de minha molher, que me escrevo a Amboyno, depois de eu partydo de Maluco, donde lhe foy tolhydo e empedido que não viese, e easy como presa e reteuda, fycou em casa dum casado de Maluco, porque quisera ela vir a Yndia ou yr-se a Portugal fazer quei- xume de tantas sem rezões e agravos, como lhe foram 6 — G<*>; 7 — D»; 8 — f°; 9 — r». 5 3 '
  • feitos pelo rei que novamente veo, e da presumção que teve e se tem de seu filho ser morto com peçonha. E também dezer como estavam abalados os primçi- paes da terra para serem cristãos, esperando por seu fi- lho; e asy o fezerão, se o rei Aeyro, que eu mandey preso a Yndea, não viera; o que tudo isto torvou quem tal meada ordenou. E destas cousas não peço a Vosa Alteza vingança, mas antes perdoo tudo, por amor de Noso Senhor Deus, porque me perdoe meus pecados. E asy peço a Vosa Alteza que perdoe a quem me nisto ofendeo e fez o que não devia; somente me mande res- tetuir minha fazenda, com todalas perdas e danos que me são feytas, que pola parte que cabe a minha molher e filhos não he rezão que perqua, alem de quoanto trabalho e perda e despesas me he feyta e dada em dous annos fora de minha casa, afora o que Deus sabe aynda quoanto mais sera; que se me não fora pola lealdade que devo a Vosa Alteza, e por seu serviço não pereçer a mingoa de quem no requerise, antes paguara tudo e me calara. Lembro a Vosa Alteza que na yda de Benim, onde 12 r.i me mandou, o que pasou e quoantos // desgostos me fo- ram feitos, servindo eu com tamta lealdade, e asy o foy agora nesta, que por ser tanto mayor e de mayor ympor- tançia, he rezão que o synta mais. Item. Em Malaca quis saber que era feito do testa- mento de Dom Manuel, porque requeryo Antonio 10 de Freitas, meu filho, a Garçia de Saa, que era capitão e a Antonio Barbudo, ouvydor, o trelado dele, para mo levar a Maluco, e não lho quiseram dar, porque eu não fezese por ele a obra que fyz, nem menos ho mandaram lançar nas notas (?) polo risco que podya correr. 10 — At». 5 3 2
  • E sayo-me a isto Antonio Barbudo, vendo que querya eu fazer dilygençias com a justiça sobre ysto. E deu-me hum asynado, e çertydam de Garçia de Saa, em que con- fese que recebo dele o dito testamento, para ho entregar ao governador da Yndea. Requery, emtão, ha Justiça que tyrase ho testemunho de Antonio de Freitas, meu filho, que he o que fez fazer a Dom Manuel o testamento, e o testemunho de Antonio Barbudo, que he o que fez a minuta por onde se fez, e o testemunho do tabalyão que o aprovou e das testemunhas que ay achey em Malaca, que foram testemunhas da aprovação; e o testemunho de Antonio Lopes, que he ho que o fez, por mandado do dito rey Dom Manuel; e o trelado do auto que tynha em seu poder ho escryvão que fez a notefycação, quando se abryo. E com tudo isto provado me pasaram hum estromento que levo para mostrar ao Governador, para que quando nisto fose feito algum conluyo, por aqui fycar provado. A Santisyma Tryndade acrecente o real estado de Vosa Alteza, com muitos dyas de vida e saúde. De Cochym, oje, sete de Janeiro de 1548. as. Jurdhão de Freytas 5 3 3
  • 73 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AOS RELIGIOSOS DA COMPANHIA EM ROMA Cocbim, 20 de Janeiro de 1548 Epistola S. Francisci Xaverii: I-375-396. (1) a) Noticias das Molucas. b) Novas referências à passagem por Amboino da armada de Fernão de Sousa com portugueses e castelhanos. c) Fruto de sua missão às Molucas. d) Sua visita à ilha de Moro. e) Riscos e necessidades que se passam nesta ilha. /) Descrição desta ilha, de seus povos, etc. g) Regresso a Ternate e viagem para Malaca. h) Instruções que deixou aos cristãos das Molucas, em língua malaia. i) Referências ao rei de Ternate que falava muito bem o português, mas que não chegou a converter-se. j) Encontro em Malaca com os Padres João da Beira e Nuno Ribeiro, e o Irmão Nicolau Nunes, que iam para as Molucas. I) Demora em Malaca, durante três meses, à espera de transporte para a India, e suas ocupações na cidade. »i) Informações sobre o Japão, dadas por um natural daquelas ilhas, chamado Anjirô, que mais tarde se baptizou com o nome de Paulo de Santa Fé, e por um mercador português que de lá veio. La gracia y amor de Christo nuestro Senor sea siempre en nuestra ayuda y favor. Amén. Charíssimos Padres e Hermanos en Christo Jesú. En (i)BAL: 49-IV-49, fls. 23 r-27 v.; BACIL: Cartas do Japão, Vol. I, fls. 28 V.-34 v.; BIMINEL: Cartas da Índia, fls. 41 V.-46. 5 3 4
  • el ano de 1546 os escrevy largamente de las islãs de Am- bueno, las quales están a 60 legoas de la ciudad de Ma- luco. Esta ciudad de Maluco estaa poblada de portogueses, donde el Rey de Portogal tiene una fortaleza, y senorean los portogueses todas las yslas que dan clavo, y no a otras yslas que dan clavo, sino éstas de Maluco. En las yslas de Ambueno estuve tres meses donde allé siete lugares de christianos. El tiempo que ay estuve, me occupé en bap- tizar muchas crianças, que estavam por baptizar a falta de Padres; porque uno que tenia cargo dellos, murió avia ya muchos dias. En acabando de visitar estos lugares, y de baptizar los ninos que estavan por baptizar, llegaron siete navios a estas yslas de Ambueno de portogueses, y entre ellos algunos Castellanos que venieron de las índias dei Empe- rador a descubrir nuevas tierras. Estuvieron en Ambueno toda esta gente tres meses. En este tiempo tuve muchas occupaciones spirituales en predicar los domingos y fies- tas, en confessiones continuas, en hazer amistades y vi- sitar los dolientes. Eran de manera las occupaciones que para estar entre gente no santa y de guerra, no esperava aliar tantos frutos de paz; porque a poder estar en vij lugares en todos ellos aliara occupaciones spirituales. Alabado sea Dios para siempre jamás, pues commonica tanto su paz a las personas, que fazen quasi profession de no querer paz con Dios ni menos con sus próximos. Passados estos tres meses se partieron estos vij navios para la India dei Rey de Portogal, y yo me parti para la ciudad de Maluco, donde estuve tres meses. En este tiempo me accupé en esta ciudad en predicar los domingos y fiestas todas y confesar continuadamente; todos k>s dias ensenava a los ninos y christianos nuevamente conver- tidos a nuestra fee la doctrina Christiana; y todos los domingos y fiestas, después de comer, predicava a los 5 3 5
  • nuevamente convertidos a nuestra fee el Credo, en cada dia de fiesta un artículo de la fe. De manera que todos los dias de guarda hazía dos predicationes, una en la missa a los portogueses y otra a los nuevamente conver- tidos, después de comer. Era para dar gradas a nuestro Senor el fruto que Dios fazia en emprimir en los coraçones de sus criaturas can- tares de su loor y alabança en gente nuevamente con- vertida a su fee. Era de manera en Maluco, que por las plaças los ninos, y en las casas, de dia y de noche, las ninas y mugeres, y en los campos los labradores, y en la mar los pescadores, en lugar de vanas canciones can- tavan sanctos cantares, como el Credo, Pater noster, Ave Maria, mandamientos, obras de misericórdia, y la con- fessión general, y otras muchas oraciones todas en len- guage, de manera que todos las entendían, así los nueva- mente convertidos a nuestra fee, como los que no lo eran. Quiso Dios nuestro Senor que en los portogueses desta ciudad y en la gente natural de la tierra, asi christianos como infieles, que en poco tiempo inverti magnam gratiam coram oculis eorum. Passados los tres meses, parti desta ciudad de Maluco para unas vslas, que están 6o legoas de Maluco, que se llaman las vslas dei Moro porque en estas avia muchos lugares de christianos y eran passados muchos dias que no eran visitados, así por estar muy apartados de la índia, como por averen muerto los naturales de la tierra un Padre que allá fué. En aquellas yslas baptizé muchas criaturas, que allé por baptizar, y estuve en ellas tres meses y visité en este tiempo todos los lugares de christianos; consoléme mucho con ellos y ellos comigo (i v.). Estas yslas son muy peligrosas por causa de las mu- chas guerras (que ay entr'ellos). Es gente bárbara, ca- recen de escripturas, no saben leer ni escrivir. Es gente 5 3<>
  • que dan ponçonha a los que mal quieren, y desta manera matan a muchos. Es tierra muy fragosa: todas son sierras y mucho trabajosas de andar. Carecen de mantinimientos corporales. Trigo, vino de uvas no saben qué cosa es. Carnes ni ganados ningunos ay, sino algunos puercos, por grande maravilla. Puercos monteses ay muchos. Mu- chos lugares carecen de agoas buenas para beber. Ay aroz en abastança, y muchas árbores que se llaman çagueros, que dan pan y vino (2), y otros árbores que de su cor- teza hazen vestidos, con que todos se visten. Esta cuenta os doi para que sepáis quán abundosas yslas son éstas de consolaciones spirituales; porque todos estos peligros y trabajos, voluntariosamente tomados por sólo amor y ser- vido de Dios nuestro Senor, son thesoros abundosos de grandes consolaciones spirituales, en tanta manera, que son yslas muy despuestas y aparejadas para un hombre en poços anos perder la vista de los ojos corporales con abundancia de lágrimas consolativas. Nunqua me acuerdo aver tuvido tantas y tan continuas consolationes spiri- tuales, como en estas yslas, con tan poco sentimiento de trabajos corporales; andar continuadamente en yslas cer- cadas de inimigos, y pobladas de amigos no muy fixos, y en tierras que de todos remedios para las enfermedades corporales carecen y quasi de todas ayudas de causas se- gundas para conservación de la vida. Mejor es llamarlas yslas de esperar en Dios, que no yslas de Moro. Ay en estas yslas una gente que se llaman tavaros. Son gentiles, los quales ponen toda su felicidad en matar los que pueden, y dizen que muchas vezes matan sus (2) Sabemos que o pão de Sagu ainda hoje é feito pelos indí- genas de Timor, obtendo a fécula da estipe desta palmeira, que amassam, depois, e cozem. O vinho obtêm-no por meio de destilação em certas incisões que fazem na árvore. Ao sagu ou fécula do sagueiro chamam alguns autores também farinha de pau. 5 37
  • hijos o mugeres quando no allan que matar. Estos matan muchos christianos. Una ysla dstas quasi siempre treme, y la causa es porque en esta misma ysla ay una sierra que continua- mente echa fuego de sy y mucha ceniza. Dizen los de la tierra que el grande fuego que debaxo está, quema las sierras de piedra que están debaxo de tierra; y esto pa- rece ser verdad, porque muchas vezes se acontesce salir en fuegos piedras tan grandes como grandíssimos árboles. Y quando faze grande viento, echan los vientos de aquella sierra tanta ceniza para baxo, que los hombres y mugeres que están trabajando en los campos, quando vienen a sus casas, vienen todos llenos de ceniza, que no les parece sino los ojos y narizes y boca, que parecen más demonios que hombres. Esto me dixeron los naturales de la tierra, porque yo no lo vy. El tiempo que ay estuve no fueron estas tormentas de viento. Más me dixeron, que quando aquellos vientos reynam, que la mucha ceniza que los vientos consigo traen, ciega y mata muchos puercos mon- teses, porque passados los vientos los allan muertos. Y tabién me dixeron los de la tierra, que quando estos tiempos cursan, que allan a la orilla de la mar muchos pescados muertos, y esto que lo causava la mucha ceniza que los vientos traen de aquella sierra; y que los pes- cados, que bivían ágoa mesclada con tal ceniza, morian. Y quando ellos me perguntavan qué era aquello, les dizia que era un inferno, adondo yvan todos los que adoravan en ídolos. Era el tremor de la tierra tan grande, que un dia de San Miguel, estando en la yglesia diziendo missa, tremió tanto la tierra, que tenia miedo que no cayesse el altar: forte Sam Miguel por virtud divina los demonios de aquellas partes, que impedían el servido de Dios, los punia y mandava que se fuessen al infierno. Después de aver visitado todos los lugares de chris- 5 38
  • tianos destas yslas, torné otra vez para Maluco, onde estuve otros tres meses, predicando dos vezes todos los domingos y fiestas, una por la manana a los portogueses, y otra, después de comer, a los christianos de la tierra, (2 r.) confessando continuadamente por la manana y por la tarde y a medio dia, ensebando todos los dias la doc- trina Christiana; y después de la doctrina Christiana aca- bada, en los domingos y fiestas predicava a los christianos de la tierra los artículos de la fe, guardando esta orden: que en cada fiesta declarava un artículo de la fe, repre- hendendolos mucho de las ydolatrias passadas. En estos tres meses, que estuve en Maluco desta 2." vez, predicava los miércoles y los viernes a las mugeres de los portogueses solamente, las quales eran naturales de la tierra, v les predicava sobre os artículos de la fe, y mandamientos, y sacramentos de la confession y communion, porque en este tiempo era Quaresma, y así por la Paschua muchas se commulgaron, que antes no se comulgavan. Con ayuda de Dios nuestro Senor, en estos vj meses que estuve en Maluco se hizo mucho fruto, así en los por- togueses y sus mugeres, hijos y hijas, como en los chris- tianos de la tierra. Acabada la Quaresma, con mucho agior de todos, así de los christianos como de los infieles, parti de Maluco para Malaca. Por la mar no me faltaron occupaciones. Y en unas yslas (en) que allé quatro navios, estuve con ellos en tierra algunos XV o XX dias, donde les pre- diqué trez vezes, confessé a muchos, y hize muchas pazes. Quando me parti de Maluco, por evitar lloros y plantos de mis devotos, amigos y amigas, en la despedida, me embarqué quasi a media noche. Esto no me bastó para los poder evitar, porque no me podia esconder dellos; de manera que la noche y el apartamiento de mis hijos e hijas spirituales me ayudaron a sentir alguna falta, que 5 3 9
  • por aventura my absencia les podría fazer para la sal- vation de sus ánimas. Dexé ordenado antes que de Maluco partiese, cómo todos los dias se continuasse la doctrina Christiana en una yglesia, y una Declaration, que en breve hize sobre los artículos de la fe, se continuassen, y la supiessen en lugar de orationes los nuevamente convertidos a nuestra fe. Un Padre clérigo, devoto y amigo mio, quedó que en my absencia los ensenaria todos los dias dos horas, y un dia en la semana predicar a las mugeres de los portogueses sobre los artículos de la fe, y sacramientos de confession y communion. Y también el tiempo que estuve en Maluco ordené que todas las noches por las plaças se encomendassen las almas de(l) purgatório, y después todos aquellos que biven en peccado mortal; y esto causava mucha devotion y per- severancia en los buenos y temor y espanto en los maios. Y así elegeron un hombre los de la ciudad, vestido en hábitos de la Misericórdia, que todas las noches, con una lantierna en la mano y una campana en la otra, andu- viesse por las plaças, y de quando en quando se parasse encomendando con grandes vozes las ánimas de los fieles christianos que están en el purgatório, y después por la misma orden las ánimas de todos aquellos que perseveran en pecados mortales, sin querer salir dellos, de los auales se puede dizer: «Deleantur de libro viventium et cum iustís non scribantur» (3). El rey de Maluco es moro y vasallo dei Rey de Por- togal, y honrrase mucho de lo ser, y quando en el habla, lo llama «el Rey de Portogal, mi Senor». Habla este rey muy bien portoguês. Y las principales yslas de Maluco son de moros. Maluco no es tierra firme, son todas yslas. (3) Ps. 68, 29. 5 40
  • Dexa el rey de ser christiano por no querer dexar los vicios carnales, y no por ser devoto de Mafoma. No tiene otra cosa de moro sino de ser de pequeno circuncidado, y después de grande ser cien vezes casado, porque tiene mugeres principales y otras muchas menos principales. Los moros de aquellas partes no tienen doctrina de la seita de Mafoma; carecen de alfaquis, y los que son, (2 v.) saben muy poco, y quasi todos estrangeros. Este rey me mostrava muchas amistades, en tanto que los moros principales de su reyno le tenían a mal; des- seava que yo fuesse su amigo, dándome esperanças que en algun tiempo se haría christiano: queria que o amasse con esta tacha de moro, dizendome que christianos e mo- ros teníamos un Dios común, y que en algún tiempo todos seríamos unos. Holgava mucho quando o visitava; nun- qua pude acabar con él que fuesse christiano. Prometióme que haría uno de sus hijos christiano, de muchos que tiene, con esta condición, que depois de christiano fuesse rey de las yslas dei Moro. Daquy a IV meses, Dios nuestro Senor queriendo, le mandaraa el Gobernador de la índia todos los despachos que le manda pedir, para que su hijo, después de chrystiano, sea rey de las yslas dei Moro. En el ano de 1546 escrevy de Ambueno, antes que partiesse para Maluco, a los de la Compania, que aquel ano venieron de Portugal, que para el ano de 1547, en las naos que partiessen de la índia para Malaca, veniessen para aquellas partes algunos dellos, y así lo hizieron. De manera que partieron de la índia para Malaca tres de la Compania, dos de missa, Joan de Bera y o P. Ribeiro, y Nicolao, lego, los quales allé en Malaca, quando de Maluco venía para Malaca. Con elos recebi mucha Con- solación un mes que estuvimus juntos, en veer que eran siervos de Dios, y personas que en aquellas partes de Maluco avião de servir mucho a Dios nuestro Senor. Ellos 5 4*
  • partieron de Malaca para Maluco en el mes de Agosto dei ano de 1547. Es naviagación de los meses. Díles este tiempo, que con ellos estuve en Malaca, larga información de la tierra de Maluco, de la manera que se avia de hazer en ella, conforme saber nuevas dellos sino una vez en el ano. Mucho les encomendé que escriviessen todos los anos muy largamente para Roma, dando cuenta menudamente de todo el servido, que a Dios nuestro Senor fazen en aquellas partes, y de la desposición que en ellas ay; y así quedamos que lo avian de hazer. En Malaca estuve IV meses esperando tiempo para navegar y venir a la índia. En estos IV meses tuve mu- chas occupaciones, espirituales todas: predicava dos vezes todos los domingos y fiestas, a los portogueses por la manana en la missa, y después de comer a los christianos de la tierra, declarando en cada fiesta a los nuevamente christianos un artículo de la fe. Acudia tanta gente, que fué encessario ir a la yglesia mayor de la ciudad. En confessiones continuas era muy occupado; tanto que, por no poder cumplir con todos, esta van muchos mal comigo; y por ser estas unas enemistades fundadas en un avor- recimiento de peccados, no me escandalizava dellos, mas antes me edifica van viendo sus sanctos propósitos. Los domingos y fiestas eran muchos los que se comulgavan. Todos los dias después de comer ensenava la dactrina Christiana. A esta doctrina acudia mucha gente. Venían los hijos y hijas de los portogueses, mugeres y hombres de la tierra nuevamente convertidos a nuestra fe; y la causa porque venían muchos paréceme que era, porque siempre les declarava alguna parte dei Credo. En este tiempo fui mui occupado en hazer muchas amistades, por causa que los portogueses de la India son muy belli- cosos. Ababada de ensenar la doctrina Christiana, ense- nava a los ninos y a la gente Christiana de la tierra una 5 4?
  • Declaración, que hize sobre cada artículo de la fe en len- guage que todos entienden, conformandome com las capa- cidades de lo que pueden alcançar a entender los natu- rales de la tierra, nuevamente convertidos a nossa sancta fe. Y esta Declaración, en lugar de oraciones, les ense- nava (3 r.) así en Malaca como lo hize en Maluco, para fazer en ellos firme fundamiento de creer bien y verda- deramente em Jesú Christo, deixando de creer en vanos ídolos. Esta Declaración se puede ensenar en un ano, ensenando cada dia un poco, 20 palavras, que pueden bien decorar. Después que van entendiendo la historia dei advenimiento de Jesú Christo, y repetidas muchas vezes estas declariones sobre el Credo, quedan más fixas en la memoria; y desta maneira vienen en conoscimiento de la verdade, y avorrescimiento de las ficiones que los gentiiles passados y presentes escriven de sus ídolos y de sus echi- zarías. En esta ciudad dexé muy encomendado a un Padre de missa, que ensenasse aquela doctrina todos los dias de la manera que yo ensenava, y así me lo promittió de fazer. Espero en Dios nuestro Senor que lo llevará adelante. Fui muy requerido a mi partida de todos los princi- pales de Malaca, para que fuessen allá dos de la Compania a predicar a ellos y a sus mugeres y christianos de la tierra, y a ensenar la doctrina Christiana a sus hijos y hijas, y o todos sus esclavos y esclavas de la manera que yo fazia. Fui tan importunado dellos, y veo que es tanto servicio de Dios nuestro Senor, y una deuda que les devemos todos, por lo mucho que aman a nuestra Compania, que me parece que tengo de fazer todo lo possible para que vayan dos de la Companhia este mes de Abril dei ano de 1548, porque en este tiempo parten los navios de la índia para Malaca y para Maluco. 5 4 5
  • Estando en esta ciudad de Malaca me dieron grandes nuevas unos mercadores portogueses, hombres de mucho crédito, de unas yslas muy grandes, de poco tiempo a esta parte descubiertas, las quales se llaman las yslas de Japón, donde, segundo parecer dellos, se faria mucho fruto en ecrecentar nuestra sancta fee, más que en nen- gunas otras partes de la índia, por ser ella una gente desseosa de saber en grande manera, lo que no tienen estos gentilos de la índia. Vino con estes mercadores portogueses un Japón, 11a- mado por nombre Angero, en busca mia, por quanto los portogueses que allá fueron de Malaca le hablarón en my. Este Angero venía con desseo de confessarse comigo, por quanto dió parte a los portogueses de ciertos pecados, que en su juventud tenia hechos, pediéndoles remedio para que Dios nuestro Senor le perdonasse tan graves pecados. Diéronle por consejo los portogueses que veniesse a Ma- laca con ellos a verse comigo, y así lo hizo, veniendo a Malaca con ellos; y quando él vino a Malaca era yo par- tido para Maluco, de manera que se tornó a embarcar para ir a su tierra de Japón, como supo que yo era ydo para Maluco. Estando ya a vista de las yslas de Japón, dióles una tormenta tan grande de vientos, que se uvieron de perder. Tornó entonces otra vez el navio en que yva, camino de Malaca, donde me alló, y holgó mucho, y me vino a buscar con muchos desseos de saber cosas de nues- tra ley. El sabe hablar portogués razonadamente, de ma- nera que el me entendia todo lo que yo le dezía, y yo a él lo que me hablava. Si así son todos los japonês tan curiosos de saber como Angero, paréceme que es gente más curiosa de quantas tierras so descubiertas. Esta Angero escrívia los artí- culos de la fee quando venía a la doctrina Christiana. Y iva muchas vezes a la iglesia a rezar; fazíame muchas 5 4 4
  • preguntas; es hombre muy desseoso de saber, que es senal de un hombre se aprovexar mucho, y de venir en poco tiempo en conoscimiento de la verdad. Dahy a ocho dias que Angero llego a Malaca, parti para la India, y holgara mucho que veniera este japón en la nao(en) que yo vénia; mas por el conoscimiento que tenia con otros portogueses que veniam a la India, no le pareció bien dexar la companía, de la qual tenia recebida (s) muchas honras y amistades. Espero en Cochim por él de aqui a X dias. Pregunté a (3 v.) Angero, sy yo fuesse con él a su tierra, si se harían christianos los de Japón? Respon- dióme que los de sua tierra no se harían christianos luego, diziendome que primero me farían muchas preguntas, y verian lo que les respondia y lo que yo entendia, y sobre todo si vivia conforme a lo que hablaba; si hiziesse dos cosas, hablar bien y satisfazer a sus preguntas, y bivir sin que me hallassen en qué me reprehender, que en medio ano después que tuviessen experiência de my, el rey y la gente noble, y toda otra gente de descrición se harían christianos, diziendo que ellos no son gentes que se rigen sino por razón. A un mercador portogues, amigo mie, que estuva en Japón muchos dias en la tierra de Angero, le rogué que me diese por escrito alguna información de aquella tierra y de la gente delia, de lo qua avia visto y oido a personas que le parecia que hablavan verdad. El me dió esta infor- mación tan menuda por escrito, la qual os envio con esta carta mia. Todos los mercadores portogueses que vienen de Japón me dizen que, si yo lá fuesse, faria mucho ser- vido a Dios nuestro Senor, más que con los gentiles de la índia, por ser gente de mucha razón. Paréceme, por lo que voy sentiendo dentro en mi ánima, que yo, o alguno de la Compania, antes de dos anos iremos a Ja- 5 45 INSULÍND1A, I — 35
  • pón, aunque sea viage de muchos peligros, así de tor- mentas grandes y de ladrones chinos que andão por aquel mar a furtar, donde se pierden muchos navios. Por tanto rogad a Dios nuestro Senor, charíssimos Padres y Hermanos, por los que allá fueren, porque es una navegación donde muchos navegantes se pierden. En este tiempo Angero deprenderá más la lenguage porto- guesa, y veraa la India y los portogueses que en ella ay, y nuestra arte y modo de bivir; y en este tiempo cate- cizar-lo emos, y sacaremos toda la doctrina Christiana en lengua de Japón, con una declaración sobre los artículos de la fee, que trata la historia dei advenimiento de Jesú Crysto nuestro Senor copiosamente, porque Angero sabe muy bien escrivir letra de Japón. Ocho dias a que llegué en la India, y hasta agora no me e visto con los Padres de la Companía, y por esta razón no escrivo dellos ny dei fruto que en estas partes tienen hecho, después que llegaron. Paréceme que ellos os escriven largamente. En este viage de Malaca para la índia passamos muchos peligros de grandes tormentas, tres dias con tres noches, mayores de los que nunqua me vi en la mar. Muchos fueron los que lloraron en vida sus muertes, con promitti- mientos grandes de jamás navegar, si Dios nuestro Senor desta los librasse. Todo lo que podimos echar en el mar echamos por salvar las vidas. Estando en la mayor fuerça de la tormenta me enco- mendé a Dios nuestro Senor, começando de tomar pri- mero por veladores en la tierra todos los de la bendita Compahia de Jesús con todos los devotos delia; y con tanto favor y ayuda, entreguéme todo en las devotíssimas oraciones de la esposa de Jesú Christo, que es la sancta madre Yglesia, la qual delante de su esposo Jesú Christo, estando en la tierra, es continuadamente oyda en el cielo. 5 46
  • No me descuidé de tomar por veladores todos los sanctos de la gloria dei paraíso, começando primero por aquellos, que en esta vida fueron de la sancta Companía de Jesú, tomando primeramente por veladora la beata anima dei Padre Fabro, con todas las demás que en vida fueron de la Companía. Nunqua podría acabar de escrevir las con- solaciones que recibo quando por los de la Companía, así de los que viven como de los que reynan en el cielo, me encomiendo a Dios nuestro Senor. Entreguéme, puesto en todo peligro, a todos los angelos, procediendo por las nueve órdines dellos, y juntamente a todos (4 r.) los pa- triarchas, prophetas, apóstolos, evangelistas, mártires, confessores, vírgines, con todos los sanctos dei cielo: y para más firmeza de poder alcançar perdón de mis infi- nitíssimos peccados, tomé por valedora a la gloriosa Vir- gen nuestra Senora, pues en el cielo donde esta todo lo que a Dios nuestro Senor pide le otorga. Y finalmente puesta toda mi esperança en los infinitíssimos mereci- mientos de la muerte y passión de Jesú Christo nuestro Redenptor y Senor, con todos estos favores e ayudas alléme tan consolado en esta tormenta, forte más de lo que fui después de ser libre delia. Alhar un grandíssimo pecador lágrimas de plazer y Consolación en tanta tribu- lación, para my, quando me acuerdo, es una muy grande confusión; y así rogava a Dios nuestro Senor en esta tor- menta que, si desta me librasse, no fuesse sino para entrar en otras tan grandes o mayores, que fuessen de mayor servido suyo. Muchas vezes Dios nuestro Senor me tiene dado a sentir dentro em my ánima, de quántos peligros corpo- rales, y spirituales trabajos me tiene guardado por los devotos y contínuos sacrifícios y oraciones de todos aquellos que debaxo de la bendita Compania de Jesus militan, y de los que están agora en la gloria con mucho 5 4 7
  • triunfo, los quales en vida militaron y fueron de la dicha Companía. Esta cuenta os doy, charíssimos en Christo Padres y Hermanos, de lo mucho que os devo, para que ayudéis a pagar todos, lo que yo solo ni a Dios ni a voso- tros puedo. Quando comienço a hablar en este sancta Companía de Jesus no sé salir de tan deleitosa communicación, ni sé acabar de escrivir. Mas veo que me es forçado acabar, sin tener voluntad ni aliar fin para ello, por la prissa que tienne las naos. No sé con que mejor acabe de escrivir que confessando a todos los de la Companía, quod si oblitus unquam fuero Societatis nominis Jesu, oblivioni detur dextera mea (4), pues por tantas vias tengo conos- cido lo mucho que devo a todos los de la Companía. Hízome Dios nuestro Senor tanta merced por vuestros merecimientos, de darme, conforme a esta pobre capa- cidad mia, conoscimiento de la deuda que a la sancta Companía devo; no digo de toda, porque en my no ay virtud, ni tanto talento, para ygual conoscimiento de deuda tan crescida; mas para evitar en alguna manera peccado de ingratitud, ay por la misericórdia de Dios nuestro Senor, que, pues nos juntó en su sancta Com- panía en esta tan trabajosa vida por su sancta miseri- córdia, nos junte en la gloriosa companía suya dei cielo, pues en esta vida tan apartados unos de otros andamos por su amor. Y para que sepáis quán apartados corporalmente esta- mos unos de otros, es que, quando en virtud de la sancta obediência nos mandáis de Roma a los que estamos en Maluco, o a los que fuéremos a Japón, no podéis tener respuesta de lo que nos mandáis en menos de tres anos y IX meses; y para que sepáis que es así como digo, os (4) Ps. 136, 5. 5 4-8
  • doy la razón. Quando de Roma nos escrivis a la índia, antes que recibamos vuestras cartas en la índia se passan ocho meses; y después que recebimos vuestras cartas, antes que de la índia partan los navios para Maluco, se pasan ocho meses esperando tiempo: y la nao que parte de la índia para Maluco, en ir y tornar a la India, pone XX y un mes, y esto com muy buenos tiempos; y de la índia, antes que vaya la respuesta a Roma, se passan ocho meses: y esto se entiende quando na vegan con muy buenos tiempos, porque, a acontecer algun contraste, alar- gan el viage muchas vezes más de un ano. De Cochin a XX de Janero de 1548. Minimus servus servorum Societatis nominis Iesu, Franciscus (4 v.) Inscriptio: Ihs. A mis charíssimos en Christo Padres y Hermanos, et Padre Ignigo et caeteris fratribus dilectissimae Societatis nominis Iesu, qui sunt Romae et ubique terra rum. 5 49
  • 74 CARTA DE JORDÃO DE FREITAS A EL-REI D. JOÃO III Goa. 31 de Agosto de 1548 ANTT: CVR, N.° 26. Original em oito folhas, das quais, seis e uma página escri- tas, na mesma letra fluente e descurada de todas as outras suas cartas. A sua leitura, contudo, não oferece dificuldade especial, e todo o documento se encontra bem conservado. Mede 300 x 210 mm. a) Queixa-se de D. João de Castro que não o quis ouvir. b) Expõe as razões do seu procedimento para com os castelhanos que chegaram às Molucas, de que foi acusado por seus inimigos. c) Justifica a resolução que tomou de expulsar o rei de Ternate. d) Lamenta que o Padre-Mestre Francisco tenha também interferido para impedir o seu regresso às Molucas, para completar o tempo de governo daquela capitania, que lhe fora dada por mercê. Senhor, Agora que sam lyvre, por sentença, de que aqui mando ho trelado a Vosa Alteza, com todolos autos e estromentos e proçesos, de que sayo ha sentença em carta testemunhavel, poderey mais ousadamente falar, porque sou enformado que ouve homeens de tão maa conçiençia que nam abastou quoanto mal me fezerão e azarão, com fazerem-me tirar da fortaleza, de que me Vosa Alteza fez merçe, e tomarem-me ho anno da monção do cravo, em 5 50
  • que me ouvera de aproveitar; mas aynda me çertificarão que emformaram Vosa Alteza mui gravemente contra mim; e a prova diso vejo em não ter ávido de Vosa Alteza huma soo carta, em reposta de muitas que lhe tenho escritas, de cousas que tamto ymportavam a seu serviço, e que me pasaram polas mãos, depois que qua sam. E porem, tenho presumido que me seriam soneguadas, por- que tenho sabido que algumas, que de Malaca escrevi a Vosa Alteza, quando hay achey novas de castelhanos, foram furtadas e não foram ha Portugual; e no meu feyto foy escondyda huma carta, que eu daqui levava, do go- vernador Martym Afonso 1 de Sousa para Rui Vaaz Pe- reira, capitãao de Malaca, em que lhe emcomendava quallquer aviamento que me hai fose neçesario, pela desymulação com que avia de levar Dom Manuel, que diz a ja rey de Maluco, na qual se provava crara- mente manda-lo ele meter de pose, em Maluco, de seu reino. E achando eu Rui Vaaz faleçido, e soçedendo em seu lugar Symãao Botelho, dey-lhe a carta, pera quoando fose tempo, se fazer obra por ela; a qual carta // achei u r-i agora acostada ao feito por onde me condenaram, e diz agora ho chançeler Francisco 2 Toscano' e o doutor Pas- coal Froiy, desembargadores, que foram juizes nas sen- tenças que foram dadas contra mim, com tamta regni- dade (sic) e agora foram também nesta, em que totall- mente me asolverão, e afyrmam-se que nunca tal carta lhes foy mostrada nem vysta, porque, se a virãao, nun- qua tal sentença deram contra mim, nem mandaram meter de pose ho rei que la a Maluco tornaram a mandar, e se virãao o testamento que Dom Manuel fez em Malaca. E pois semelhante galantarya foy feita a Vosa Alteza, 1 —A": 2 — fr«o. 5 5 1
  • não foy muito fazerem-me a mim o que me fyzerão, e mais, ao dito tempo, estava ho testamento de Dom Ma- nuel em Guoa, que ho trouxe Garçia de Saa, de Malaca; e diz que o deu a Dom Joam de Crasto, governador que então era e nunqua foy apresentado no feito, nem ha homem em Guoa que digua que ho vyse, nem pareçeo mais rasto dele, ate ho presente. E desta maneyra me mandaram vir preso em ferros de Maluco, pola primeira sentença, e depois virãao que era cousa sobeja, e fezerão outra que também anda nos autos, em que moderarão mais ho caso; e esta foy a Maluco, por onde me foy tomada ha fortaleza, e o rey metydo de pose, e minha fazenda vendyda em preguão por quatro reis, e me mandaram vyr ha Yndea de Ma- luco; que ha tornar laa ha mester agora dous annos e meo. E Bernaldym de Sousa estaa logrando, tres annos, a forteleza de que me Vosa Alteza fez merçe; e mais yra agora lograr Ormuz, muito mançebo, e mais, fazendo-me tantas sem-justiças e sem-rezões. E quoando Dom João de Crasto, governador soube que eu era vyndo, não me quis ve-lo rosto de corrydo, e aynda que ele querya dar a entemder que de grandezas de governador ho fazya, ate que me lyvrase, e me pasou huma provisam, para me loguo despacharem com muita brevidade, e porem, os desembargadores, com medo de seus supitos, nam me queryam despachar, sem ele ser presente; ao que ele nunqua quis chegar, pondo por escusa sua doença. E estando ho feito concruido, faleceo. E soçedeo Garçia de Saa, a quem também pedy, por merçe, que estevese no despacho; e tendo-me prometydo que o farya; despois de muitas vezes se escusar, e quoando 3 — gdO! . 5 5 2
  • vio a concrusão, dyse ao chançarel que me despachasem eles, porque ele tynha hum peso comiguo, de que ho avia por yncomvyniente ser presente. E então me despacharam eles da maneyra que Vosa Alteza la vera pola sentença, de que mando aqui ho trelado / / para que peço a Vosa (* r-i Alteza que me faça tanta merçe, e pelo em que tamto vaay a sua conçiençia e bem de justiça, que cometa estes papes todos a alguns desembarguadores, de quem Vosa Alteza muito confye, e os veja todos, meudamente, em segredo, por não aver quem nos soborne. E isto, não tamto polas sem rezões e sem justiças que me foram feitas, como pelo que toca ao estado de Vosa Alteza e aos nego- çeos de Maluco. E pareçe-me que ha primçipal cousa que a isto moveo ho governador Dom Johão de Crasto foy cuidar ele que castelhanos não era ja posyvel sayrem de Maluco, sem la mandarem aquele rei; isto lhe meteram em cabeça. Então não quis esperar rezão nem eu ser ouvido com minha justiça, se não desarmou a besta e descri-me, fazendo-me tantas ofemsas e sem-justiças, como la vera por estes papes que agora la mando. E soçedeo loguo Garçia de Saa, que também foy cul- pado nas emformaçoes, e ja quis levar'aavante ou sus- tentar o maao recado que era feito, com deyxar fycar de pose ho rey; que devera loguo tornar meter a Vosa Alteza, outra vez, e restetuy-lo, pois ele he aguora ho esbulhado. E não lhe sento outra rezão, nem aos desem- barguadores, senão dezerem que tem agora neçesydades na Yndea. E ordenou Dom João mandar Bernalldym de Sousa a meter ho rey de pose e tyrar a mim da forteleza; e sem nenhuma ordem de juizo, me mandou vender mi- nha fazenda e entregua-la ao rey, porque lhe fazia huma nao, com dar-lhe as madeiras, e avyamentos, e carpin- teiros, e outros muitos proveitos e yntereses; e qua não 5 53
  • se oulha por outra cousa nem se a 4 respeito ha verdade. E eu tyrava estormentos destas cousas para mandar a Vosa Alteza, e foram-me tomados forçosamente e man- dado aos (sic) esciyvão que outros nam pasase. E também Vosa Alteza teve seu quinhão de perda nos seus terços do cravo, vendydo sem nenhuma neçesidade, sendo tão defeso poios regimentos dos governadores, e foram vendydos, aquele anno, ao menos mil bares, que mandou vender Bernalldym de Sousa; o que eu, com aver castelhanos em Maluco e avermos mester alguma roupa pera seu sustentamento, quando se vieram para nos, e para as despesas de Fernão de Sousa, por derra- deiro, com conselho e asynados dos ofyçiaes de Vosa Alteza e doutras pesoas 5, mandey vender cento ' e dous bares, hum anno; e outro, setenta; e agora, sem nenhuma neçesydade, somente porque tynha muitas roupas some- nos, que ouve dos defuntos de seus deposytos; do que fez hum partydo bem perjudiçial aos defuntos, e por se 12 v.] tyrar das semelhantes roupas, lançou-as //na feitoria, e tomou ho cravo para sy. Item. Huma das cousas de que fui acusado, por cuja cabeça fezera Gonçalo 1 Pereira 8, curador de Vosa Al- teza, me vyese acusado, foy por dezerem que eu fezera as tréguas com os castelhanos yndyvydamente, não res- goardando a promynençya que comprya ao estado de Vosa Alteza em vez de requeryr ao Governador que man- dase loguo restetuir Vosa Alteza a sua pose, o de que não fez nada, nem tam somente ousou falar niso ao governador, que tamanho ho medo lhe tynham todos. E por ser emformado na verdade da maneyra que pasou tudo, darey aqui conta a Vosa Alteza. Tanto que cheguey a Maluco, me mandou vysytar, por huma carta 4 — sa; 5 — p*"; 6 — c*°; 7 — ; 8 — 5 54
  • sua, Rui Lopes de Villa Lobos, capitão geral dos caste- lhanos, com palavras de cortesya e de boas oras e boa vynda, a quem respondy ho mesmo. Estando ele vezado a requerymentos de Dom Jorge e suas respostas, em que não acudyrãao em nada, somente fycarão gabando-se, hum ao outro, de elequoentes e bem falamtes, e fycou tudo no aar, cuidou ele que eu levase a mesma regra. E como a minha não seja se não ha de tr\es alcofas seis asas tem, pasada ha primeira carta e vysytação, não travey mais com ele nem tyve mais ne- nhuma pratica. Somente, secretamente, trazia yntelygen- cias com a raynha, may de Dom Manuel, que levara da Yndea comiguo, e com seu irmão, el-rey de Tydore, em cuja terra estavam os castelhano, pera que lhe tolhesem e lhe não desem de comer. E entanto esperava ho recado de Martym Afonso, da Yndea sobre o que lhe tynha escrvto de Malaca, ho modo que querya que tevese com eles, a quem mandava pedyr que me mandase, por seu regymento expresa (?) bem o que querya que fezese, porque não querya que me fose estranhado fazer ho contrayro, por- que sabe bem Vosa Alteza, quoando me mandou a Guinee, que levando regymento seu, porque mandey enforcar hos françeses, aynda amdey hum anno e meo sem me despa- char, em poder de Bernaldym Esteves, dando ha entemder que tynha feito o que não devya. E vendo eles que eu não movia nenhuma novidade, fezeram que hum padre da sua companhia, prioll dos pa- dres Agostinhos, escrevese huma carta ao vigário de Ma- luco, pera que soubese de mim se querya eu tomar alguma concrusão em seus negoçeos. A quem respondy que lhe mandase dezer que viese folgar a fortaleza comnosco, aquela festa de Natal que então vinha, e que, se me quisese cousa que fose serviço de Vosa Alteza, que o faria, e se não, que se não perdia nada na jornada; o 5 5 5
  • {3 r.i que logo // fez ele e outro seu companheiro e me mo- veram ho negoçeo; a que eu respondy que se eles aquilo queryam, como mandavam dezer a Dom Jorge, capitão de Vosa Alteza, que fezese bom tratamento aos vasalos de Su Magestade, e que lhes dese ha artelharya que la ficara dos outros castelhanos pasados? Responderam-me que Dom Jorge nunqua tevera nem tomara com eles nenhum asento, nem lhe compryra muitas cousas a que se ofereçera; e vendo eles quão pouca çer- teza achavam nele, lhes mandaram dezer aquilo, por comtemtar el-rey de Tydore e os mouros da terra, que lhes davam de comer e o neçesareo; e porem, que a mim dezyam ha verdade, que as muitas sortes e fomes e neçe- sydades os trouxeram a Maluco, e que lhes era defeso por seus regymentos. Pelo qual lhe dise que me fezem (sic) apontamentos do que queryam, e feitos, os mostrey a Dom Jorge que aynda la entam estava e a outras pesoas prinçipaes que se ay acertaram, que foy meu irmão, Diogo 9 de Freitas, e Francisco de Azevedo, capitão da naao da carreira, e feytor e ofiçiaes de Vosa Alteza, e outros. E todos me de- ram por seus asynados e pareçeres que, ate vyr recado da Yndea do governador, a quem eu escrevera de Malaca, não bulyse com eles, por nenhuma via, porque aynda que quisese fazer outra cousa, não estava poderoso para iso. Respondy, emtão, ao padre que me mandase mos- trar Rui Lopez de Villa Lobos a capitolação e regimento que trazya do Emperador e o regimento do visu-rey da Nova-Espanha, e se por eles eu vise que lhes era defeso não entrarem em Maluco, eu era contente de ter com eles trégua, ate me vir recado da Yndea do governador; e não lhe sendo defeso, e eles, de seu moto proprio, se 9-d®. 5 56
  • vieram meter em Maluco .apresentando aquelas neçesy- dades, nao querya com eles nenhum conçerto. Pelo qual foram contentes e mos mandaram mostrar, de que eu tomey ho trelado que anda acostado aos outros de meu lyvramento; e achey que lhes era defeso; e por esa rezão asentey com eles que estaríamos quietos, ate vyr recado da Yndea do que me mandava fazer, ou a elles, da Nova Espanha, aparelho para se yrem. E depois me mandaram cometer que lhes mandase justificar seus estormentos que tinha tirados dos traba- lhos, fomes e mortes que pasaram, primeiro 10 que se viesem meter em Maluco, para os mandarem a Vosa Al- teza, e day ao Emperador, por se saber como não teve- ram culpa na entrada de Maluco. E mandei-lhes dezer que, se Rui Lopez de Villa Lobos, seu general, jurase em huma ostia consagrada pubricamente, perante 11 toda sua companhia e perante as pesoas que eu la mandase, como não tinha outros regi- mentos pubricos, nem secretos, mais que os que dantes mostrara, que eu lhes mandarya justiçar seus estromentos; ao que me respondeo que era diso muito contemte, //
  • E entam, fizeram diso hum asento em que asynou o dito Ruy Lopez, com os ofiçiaes do Emperador, o qual anda no meu feito acostado. E entam lhes justificaram seus papes e estromentos que la mandou a Portugal a Vosa Alteza. E tanto que isto tyve feito, lancey mãao do rey e do seu regedor, por meter de pose Dom Manuel que fycava em Malaca, a saber, sua may e Pate Çerangue e regedor por ele e mandei-os para a Yndea, a recado, por entamto, atee ate (sic) a terra asentar e vyr Dom Manuel de Malaca. E tendo-os espididos, ouve pola via de Banda huma carta dum Gaspar Vaaz, a quem tynha encomendado a casa e regimento de Dom Manuel, na qual me dezia que ele ficava muito mal, e que lhe pareçia que aly acabarya, pelo qual o fiz a saber a sua maay, secretamente, e a Pate Çeramgue, seu regedor, e lhes dise que vyse o modo que querya ter, se ele faleçese. E de muitas praticas e movimentos que ouve antre eles, asentaram por meu con- selho, que faleçendo ele, erguesemos Vosa Alteza por seu rei e senhor, porque esteveram eles para fazer outro, e não este que eu premdy e mandei para a Yndea, porque lhe queryam mal todos. E com isto asentado secreta- mente, estávamos esperando que recado vinha por Borneo de Dom Manuel, morto ou vyvo. E emtanto, em Malaca veo ter Antonio de Freitas, meu filho ", que Deus aja, que me ya a buscar a Maluco, e achando Dom Manuel ay, muito doente, pola rezão que sabia que tinha com ele de ser seu padrinho, o fez con- fesar e fazer autos de cristão, o de que em Malaca avya pouco cuidado, e lhe fez fazer testamento. E porque ele estava yncrinado a deixar por rei hum seu sobrinho, lhe aconselhou Antonio de Freytas que não deixase senão a 12 - fo. 55*
  • Vosa Alteza, porque seu sobrinho era mouro e com boa comçiencia não podya ser rei senão outro rei cristão, pelo qual lhe pareçeo bem, e asentou em deixar seu reino a Vosa Alteza, do que lhe mando aqui o trelado, feito ate ly onde se fez, pola minuta que fez Antonio Barbudo, ouvidor de Malaca; do qual testamento qui // sera An- h r.) tonio de Freitas levar-me ho trelado em pubrica forma ha Maluco (i). E porque era cheguado Dom Jorge de Crasto, capitão que foy em Maluco, hum dya despois de ser faleçido Dom Manuel, e o rei, seu irmão, que ya preso ate Malaca, por sua segurança e não fugyr, achando tal novidade, forjarão loguo novos conselhos e movimentos. E Dom Jorge vendo com maguoa de enveja, por eu prem- der ho rei, sem lhe dyso dar conta, tendo ele tomado, dantes que eu la fose, duas vezes, conselho para se pren- der, ho não ousou fazer por cousas que ya ja nele conhe- çendo e também por alguma culpa que podia ter na pouca dilygençia que teve na entrada dos castelhanos em Maluco, e ver que eu tão mansamente os tinha quietos e avyndos, desejou de botar quoanto çisco, esterco, avia no mundo, em minhas cousas, e que não tevese nenhum nome nem louvor. E com isto ouve antre ele e Garçia de Saa movimento para casar Dom Jorge com huma sua filha, de maneyra que tomaram amtre as mãos favoreçerem o rey e darem comiguo a travez, e enformarão Dom Joham de maneira que ele me destruio e fez de mim tão maao pesar, como Vosa Alteza agora la vera por estes papes e estromentos. E Noso Senhor, como he justo e não deixe de aver cas- tiguo quem mal faz, azou Dom Jorge falsar ha Garçia de Saa e ao governador, que era terçeyro nos casamentos, (i)Até esta data, não nos foi ainda dado encontrar esta e tanta outra documentação a que vemos feitas referências, e que poderão talvez conter dados de muito interesse. 5 59
  • vyndo de Malaca ja movidos. Casou Dom Jorge com huma molher solteira que tinha por mançeba, e o gover- nador, com merencorya, degradou-ho para Malaca, preso em ferros. E estando eu em Maluco, não sabendo parte de tais negoçeos, chegou Antonio de Freitas, meu filho, e me deu conta como Dom Manuel era faleçido, e deixava Vosa Alteza por seu erdeiro, e ya nesa companhia de Fernão de Sousa, Lyonel de Lyma, e Manuel da Mizquita, e Dom Antonio Coutinho, e Eytor de Melo que foram tes- temunhas no testamento que Dom Manuel fez. E dizendo- -me Antonio de Freitas que Garçia de Saa lhe não qui- sera mandar dar ho trelado do testamento, por conselho de Antonio Barbudo, porque foram todos numa consulta, nem ho lançaram nas notas, cousa que tanto ymportava ao serviço de Vosa Alteza, para os negoçeos de Castela. Vendo eu isto, pola emformação que tive e çerteza de ser asy verdade, mandey chamar a may de Dom Manuel, rei defunto, e Pate Ceram, regedor, com todo ho povo e todos hos prinçipaes mandariins, a porta da fortaleza e aly lhe dey nova que Dom Manuel, seu rei, era faleçido, e que deixava Vosa Alteza por rei e senhor de Maluco; 14 v i que lhes pareçia a eles que devia // mos de fazer niso, e em que asentavam. E eu tinha ja praticado com eles, meudamente, dantes, o que avyam de fazer e o que me avyam de responder. Responderam, então, todos juntamente, que pois ele era faleçido e deixava Vosa Alteza por seu erdeiro, que ho aceytavam e queryam por seu rei e senhor. Mandey loguo fazer hum auto dyso por dous tabelyãis em que asynaram a rainha, regedor e prinçipais e alguns portu- gueses por testemunhas com eles. E estavam presentes muitos castelhanos, que eram vyndos para nos, antes que la chegase Fernão de Sousa, que fogiram da com- 560
  • panhia dos outros; o que foy sabydo de todolos outros que estavam em Tydore, day duas leguoas; e nunqua ninguém recramou nem dise que era mal feito; o que eu tenho que quis Noso Senhor Deus permitir que fosem ter a Maluco em semelhante tempo que tal avya de acon- teçer. E isto feito, tinha eu ja mandado fazer huma bam- deira de seda branqua e verde, por serem as cores de Vosa Alteza, e huma cruz de seda vermelha de Cristo 13 no meio; e alevantei-me em pee com ho barrete fora, e a bandeira nas mãaos erguida, dizendo: «Real! Real! Real! pelo muito alto e muito poderoso rei Dom Joam, noso senhor, rei de Portugal e dos Algarves daquem e dalém maar em Africa, senhor de Guinee e da conquista, naveguação e comerçio de Etiópia, Arabia, Persya e da Yndea e destes reinos de Malaca e de Maluco». A qual respondeo todo ho povo, homens, molheres ", dando as trombetas e desparando toda ha artelharia da fortaleza e navyos; e a mesma çerimonia fyz por toda ha povoação dos mouros, de que tyrey estromentos; hum que la man- dei, ho anno pasado, a Vosa Alteza, e outro que trouxe ha Yndea, que acostei ao feito do meu lyvramento. E se algum governador ou governadores de Vosa Al- teza, ou outras pesoas, ho quiseram enformar doutra ma- neira e tyrando de sy as culpas, por mas botarem as costas, sayba que esta he a verdade, e asy ho achara provado por estes autos que ora la mando, que he ho tre- lado de todolos outros por onde me lyvrey; e aynda que em alguma cousa eu não fora tão sofiçiente, por não ser leterado, ouvera-se de aver respeito ha minha tençam, tão leal e tão verdadeira como sempre foy e sera para ho serviço de Vosa Alteza, quanto mais que, quoantos , I 13 — xpns; 14 —mo. 56l IKSUL ÍNDIA, 1 — 36
  • leterados iso virão, afyrraãao que não errei em nada, mas foy muito açertado; mas o pecado da enveja he muito perjudiçial. E nesta empresa me morreram dos is r.i filhos bastardos, ja homens de trymta annos, // cada hum; que me eram boons companheiros, a saber, hum em Maluco e outro aqui, em Guoa, que trazia para man- dar a Vosa Alteza com todos eses papees e agravos; asy que por todalas vias me tem bem apalpado a fortuna. E, por tamto, peço a Vosa Alteza, por merçe, a dous meus sobrinhos que qua traguo comiguo, filhos de meu irmão Diogo de Freitas e de sua molher, lydimos, queira tomar com a minha moradia e foro, os quoais são ja seus, por alvaras de lembrança. E agora me yrei tornar a servir o tempo 15 que me fi- cava por servir da capitania, que sera de bem pouco pro- veito, pois não he anno de moução, que hese me tirou Bernaldim de Sousa; que se não fora fycar-me minha casa em Maluco, nunqua la tornara, por tão pouco pro- veito. E la esperarey aver o que Vosa Alteza ordena e manda que se faça na fycada do rey na terra, e traba- lharey polo ter manso e contemte, ja que tão fora de ordem foy la tornado ha mandar, temdo eu a terra mansa, e quieta, e tão paçifica, e eles tão contentes de serem de Vosa Alteza. E trabalharey, com hajuda do Senhor Deus, aver se poso com ho rey que se faça cristão, que se o for, não sera maao fycar ja governando, em nome de Vosa Alteza, aposto que ele trabalhou loguo, quoando chegou, de se fazer forte; e pedio a Dom Joam hum alvara para poder fazer humas casas de pedra e cal, e pos em obra de fazer huma forteleza num sytio muito forte, desviado da nosa povoação; e isto me escreveram que fora despois que eu de la vym. 15 — tpo. 562
  • E seu sogro, el-rey de Geilolo, tem outra, ha ja muitos annos, e o de Tidore fez outra com favor dos castelhanos; e arreçeando-se que tornasem a mandar este rey, outra vez, da Yndea como como (sic) dyso escreveo huma carta a Vosa Alteza e outra ao governador, pedyndo-lhe, por merçe, que o não tornasem a mandar a Maluco, mas ele ya ja por caminho, e com este reçeo se meteo na for- teleza, que damtes esteve sempre quyeto, despois dos castelhanos fora; de maneyra que estaa ho negoçeo como cumpre, pera seu favor deles, mas contudo, estando ha Yndea paçifyca, isto não he nada de emmendar, porque com pouquo poder se pode tudo fazer chão, com ajuda do Senhor Deus. E posto que muitas pesoas me reprendiam de ser tão maltratado de seus governadores, dezendo-me que quem me metya senão fazer meu proveito, e que me não ma- tase polo serviço de Vosa Alteza, o quoal conselho tomam qua muitos e os mais. E porem a mim lembra-me que sam cryado de Vosa Alteza e seu natural, e dele tenho reçebydo // honra e merçe, e pase por onde puder, que is v.i com esta fe ey-de acabar, aynda que seja no cabo do mundo. « E portanto, diguo que, emquoanto ho negoçeo de Castela não estaa não esta (sic) acabado de detreminar, não he maao estar Maluco asy maao de esmontar, por- que eles menos sam agora de fyar dos castelhanos que de nos, e isto polo desengano que ja tem sabydo da sua conversação de como tratam a jemte da Nova Espanha. E que se não contentão com tratar nas terras, como nos fazemos, mas que se fazem senhores avsalutamente, e deles seus escravos. E como tenham isto sabydo, não du- vido que os reçebam ja aguora de pior vontade que a nos. E emquoanto este tempo estaa por correr, se se pri- meiro não tomar alguma cooncrusão, não he maao dey- 565
  • xa-los estar asy, porque de Amboyno, estando da nosa mãao, se pode aver ho cravo que for neçesareo a Vosa Alteza, e os castelhanos ser-lhes ya neçesareo, quoando outra cousa fose, fazerem fortaleza em outra parte para day os conquistarem. E sendo Vosa Alteza conçertado com ho Emperador, eu me afyrmo que mui levemente, e em pouco tempo, poderá botar fora os reis de Maluco, o que eles tem ja agora bem mereçido, he fycar-lhe ha terra despejada, com ho povo somente, porque eu espermentey, este tempo que tyve a pose por Vosa Alteza, em Ternate, serem todos dyso muito contemtes; e isto porque tynha de mi- nha mão a valya de Dom Manuel, que Deus aja, que era sua may e Pate Çeranangue regedor, com outros mandariis primçiipais que agora, este rey Aeyro, que la tornaram a mandar, desterrou da terra, e tomou suas fazendas, e tratou muito mal, porque foram em favor e consentymento de alevantar Vosa Alteza por rei; os quoais levo em vontade que, não nos podendo tornar aa vir, faze-los yr viver ha Amboyno e ahy lhes dar alguns lu- gares que comam. E todavya, averão mester serem favo- reçidos de Vosa Alteza, por alguma via, dos quoais tinha convertidos alguns deles a serem cristãos, se não tor- naram la mandar aquele rey. E a rainha, may de Dom Manuel, se fez por entamto, por dar amostra do que estava ordenado de se fazer, com esperança que aynda Vosa Alteza ha-de tornar ha restituir isto. E isto somente com mea duzya de catures esquipados de canariis, jemte da terra da Yndea, em huma caravela 16 rJ e oytenta homeens / / acupados nisto dous annos ou tres ou mais, quando proprio conto da jemte, que he orde- nada ha fortaleza de Maluco, se podya fazer; somente na esquipaçam he neçesareo ser de fora, porque eles sam parentes e amiguos huns dos outros, e nunqua hão-de 564.
  • dar bom jeyto a fazerem mal aos vezynhos; e nem por yso se a-de perder a carregua da nao de Vosa Alteza, que eles não sabem ja viver sem iso. E isto da maneyra que aponto se pode bem fazer, se se tever a ordem que dise. E perdoe-me Vosa Alteza em me querer emtremeter a tanto, como he falar no negoçeo de Castela que como a quem deseja seu serviço e estaa qua presente lho ousey a fazer. E pera Vosa Alteza saber quão malsynado e mexi- rycado fui, asy la ante Vosa Alteza, como com ho gover- nador da Yndea, achara que homens culpados, huns, por em Maluco quererem furtar cravo, sem pagar os direitos, e por muitas culpas em que foram compreendydos, cujos nomes aqui não ponho, e porem a meu irmão Gonçalo de Freitas mandey hos autos e estromentos dyso, para que os dese ao procurador de Vosa Alteza, asy de cravo, muito, de cabeça, sendo tão defeso 14 pelos regymentos que qua estão nesta feitorya de Maluco, e porque lhe ya ha mãao me queryam mal, e ya dezendo de mim muitas ynfamias. E asy por muitas outras sensaboryas que qua come- teram, a que lhe eu fui a mãao, como la vera por estro- mentos que la mandey. E porque fui çertificado dyso, mando la ho trelado da minha sentença e os autos do que sayo, porque Vosa Alteza seja enformado na verdade. E he çerto que farya laa grandes cofres de serviços e despesas, que foram feitos com os castelhanos, as quoais foram todas a custa de Vosa Alteza, e bem a sua custa, pois se poderam bem escusar muitas delas, se me a mim mandaram que fizera eu iso, pois, por derradeiro, se os não teveram tam metydos em rezão, nunqua de qua fo- ram. E o anno pasado mandey a meu irmãao hum rela- 16 - defo. 565
  • toryo de como cada huma destas cousas pasou meuda- mente. Mande Vosa Alteza a meu irmãao Gonçalo de Freytas, se lho não mostrou, que lho mostre, e aly sabera e vera meudamente quantas cousas pasadas e quoantas cousas escusadas. E não tam somente isto, mas Bernaldim de Sousa que depois, por mandado do governador Dom Johão de Crasto, t6 v.i foy meter ho rey de pose da terra que ja não // era sua, e vendo que eu tinha feyto tanto o que devia, e ele, a mim, muitos agravos, na exucação, como la vera por estes papes, pareçendo-lhe que se não podia escusar os desembargadores de me tornarem ha restituyr, temendo-se que quando tornase me podia vyngar dele, teve maneira de meter em cabeça a Mestre Francisco 17, que la estava, que viese a Yndea a dezer ao governador que em ne- nhuma maneyra me tornase la ha mandar, e que antes me desem qua outra mayor satisfação. E não somente o rey se alevantarya e porya he se porya (sic) a terra em muita confusam, e que os mesmos casados lhe come- teryam que me não emtregase a forteleza, e tam emper- rado niso que dava a entemder que, quoando mais não pudese, se daria azo para se por alguma maa fama em minha casa, por onde pareçe rezão que me não tornase la a mandar, por onde foy forçado ao governador fazer- -me dar hum asynado, com gardes Salvoes, que com ho rey nem com Bernardym de Sousa não fezese nenhum eyçeso, ate yr outro capitão que me fezese justiça, e pe- rante quem requeryse a exucação e restituição de minha fazenda; asy que nom ficou escontadura que me não apalpase; e por aqui vera Vosa Alteza quoanta he a maliçia nos homecns e quoanto reina ha cobiça qua. Pareçe-me bem, pelo que devo a minha conçiencia, não 17 — m«® fr«. 5 6 6
  • deixar de fazer esta lembrança. Garçia de Saa, ate gora neste carrego da governança, se ha como homem bem atentado e sesudo, e manda fazer muitos navios neçe- sareos, da sorte que se requere para a Yndea, e manda fazer muitos tyros grosos, de muita artelharya quebrada que avya na Yndea; e muitas espingardas e estes negros da terra, que sam, elles, mui grandes ofiçiaes dyso. De maneira que ele se perçebe para os ospedes que se esperam, como convém, e quoando ja vyerem eu fico por fyador que não vam muito contentes de qua, com ajuda de Noso Senhor Deus. E alguns navios velhos e podres que hy avia mandou desfazer para a fundição da artelharya e ja pareçe isto cousa que ha quem a tente por iso; e pode ser que estas dilygençias farão perder a esperança de virem qua nun- qua ver. E sobre iso Vosa Alteza acodio, aguora, com tão onrado socorro de jente que fez logo os vizinhos virem cometer pazes, de que pareçe que eles estavam algum tanto duvidosos, polo odio que tinham tomado a Dom Johão. // 17 rJ E asy também manda fazer muita polvora polas for- talezas, que se dantes não fazya senão em Guoa, de que qua avya muita falta. E porem se hay ouver de aver rumes, como se espera, convém muito que Vosa Alteza proveja doutro governador, porque ele, de ser velho, he ja muito pesado. Item. Agora no aviamento de minha partida, se ouve mui secamente como homem que conheçidamente me tem maa vontade, por saber que ouve eu ha minha mãao ho conto 18 do testamento de Dom Manuel, que diz a ja rey de Maluco, que ele deixou em Malaca ha Antonio " Bar- budo que la entam era ouvydor. 18 — et®; 19 — an'« 567
  • E asy sabe que fyz eu muitas dylygemçias sobre ese caso, e que mando agora la ho trelado dos autos, por onde me lyvrey, onde estaa iso provado largamente. E agora se quis vingar em muitas sem rezões que me fez, no me- ter-me de pose outra vez da capitania, buscando por acha- que dezer que o rey se alevantarya e ouve asynados de omens que qua para isso buscou secretamente, para fazer formosa sua rezão; o que ele ouvera de fazer pubrico, com conselho de muitos, e não sorratiçyamente; e eu a tudo me caley, porque não ousey a falar. E faço conta que la em Maluco, quoando vyer ao tempo da entregua, fazer minhas emcampações, porque não ousey aqui a falar. E ja quoando lhe vier recado, tera Vosa Alteza pro- vydo doutro governador, perante quem posa requerer minha justiça. E por aqui vera Vosa Alteza as mentyrias que tenho pasadas por seu serviço. Noso Senhor Deus acreçente o real estado de Vosa Alteza com longos dias de vida e muita saúde. De Guoa, ao derradeyro de Agosto de 1548. as. Jurdhão de Freytas 5 6 S
  • PARTE DE UMA CARTA DE TOMÉ LOBO A EL-REI Goa, 13 de Outubro de 1548 ANTT: CC-I-81-62. Documento publicado na íntegra em Documentação... (Ín- dia), Vol. 4.", págs. 66-72. Lembre-se Vosa Allteza quanto e vai a voso serviço não se governar a índia por tres annos, quanto mais que ha muito tempo que se governou bem de vezes por dous, porque haimda que queira como todos desejão de servir Vosa Alteza, não ho podem fazer, e nam semdo asy todos ho compadicemos porque ho contentamento de vosos va- sallos não esta em mais que ser Vosa Alteza bem servido, porque em tres annos mail pode o voso governador em- temder em Maluco, nem bem em Malaca, como cumpre e he rezão, que são fortalezas lomgue, e vão a ellas com monções, afora outras partes muito mais longe, domde Vosa Alteza nam tem fortalezas, como he na China e Japão agora descuberto, e Sião, Patane, Çumda, todas estas são de trato pera China, em grão maneira meneadas e mandadas por nosos capitãis de Malaca, afora Pegu e Bengalla, e toda a costa de Caramandell // omde amda a quarta parte da gente que do reino trouxe solido de Vosa Alteza, e pode ser que muitos o vencerão segundo amda arrecadada a matricolla em poder dos moços, asy
  • que pelo tempo ser pouco nam faz mais ho governador que ho primeiro ano ordena, como lhe bem parece, e no segundo manda, e no terceyro tem asaz trabalho de tem- perar agravos e de se embarcar, e por esta rezão nam pode fazer o que deseja. E crea Vosa Alteza que em Maluco e Malaca convém muito saber o que fazem vosos capitães, porque no ga- nhar e escamdalizar ha naturais e estramgeyros fazem cousas que o diabo não fara, e com tudo vão avante, nem dão resydencia como Vosa Alteza manda, que todos se negoceão por rezão que cada hum a-de vir ao mesmo, e os ouvidores neste caso fazem o que querem, e que menos sera pois também estão asaz compremdidos e tratão como querem, e vivem como querem. 570
  • 76 CARTA DE FRANCISCO TALHA A EL-REI D. JOAO III Goa, 20 de Novembro de 1548 ANTT: CC-I-81-86. Cinco folhas, das quais, três escritas com rasuras, tinta a desbotar, letra de leitura algo difícil. O documento encontra-se já um pouco danificado também. Mede 295 x 195 mm. « a) Injustiças de Jordão de Freitas. b) Sugestões que apresenta para remediar os males e dificuldades que sempre se fizeram sentir nas Molucas. c) Noticias sobre os cristãos de Moro, onde um regedor convertido, chamado Dom João, confirma os indígenas na fé. d) Considerações sobre o comércio do cravo. Senhor, Todos os annos escrevy ha Vosa Alteza ho que me parecia que era seu serviço, e em tudo que ho pude servir ho fiz, ho que me tem custado ser destroido. Hora farei lembraamça ha Vosa Alteza dallgummas cousas ha que Vosa Alteza nom pora duvida, as quaes são em Maluquo matarem ho Samarao, regedor, que sos- teve a vosa fortaleza nas geras, em tempo de Tristão de Taide e cão 1 leal e... (1) do voso serviço, este regedor, (1) O documento encontra-se roto neste ponto. 1 — i. é. equâo leal». 57 1
  • hera pode saber por Tristão de Taide, Amtonio 2 Galvão, Geronimo Perez \ que foy feitor; ho qual, por ser tal quomo digo, saio em relação que fose regedor propeto e que ficase por herãoça ha seus filhos e desemdemtes. E em vez de ho tornarem meter de pose, matarão-no as cutiladas e o trouxerão ha rastos a deitar nuns arre- cifes, defronte da fortaleza. Di-se primeiramente que Jurdão de Freitas capitão, ho mãodou matar, de que o feitor tirou estromentos e mãodou ha vosa relação, e nom se presemtarão contra Jordão de Freitas. Hos reis de Maluquo são muito pobres, nom tem poder pera requerer sua justiça, mas simtem, se lha fazem, e são mui lembrados de cãotos hagravos lhe são feitos, e são muitos, e tem muita artilharia, e espimgardaria, e navios ligeiros, e tem-nos tão perdida a vergonha que quometem de rosto ha rosto, e nom recebem favor da vosa fortaleza senão os com que nom podemos; e os que são comnosco tem de nos, cada dia, escãodollos, prizões, trezemtos reinos que laa saqão; os capitães para se ser- virem delles, tomarem-lhe seu cravo e pagarem-lho a como querem, fazerem-lhe fazer naos, premderem-lhes reis e primcipaes pesoas, matarem-lhos regedores, e tudo isto somente se fas aos nosos amiguos, e que sostem a tera; que para se perder nom ha mister maes que levãotarem- -se; no que Vosa Alteza deve prover com de la mão- (i dar // ho regedor a tirar devasas e castigar os culpados. Hallgumas cousas que escrevi a Martim Gonçalo 4 da- va-lhe credito e em tudo provia, e por saber quem eu era, me mandou que entendese na fazenda, e o capitão, não; e que per seu mãodado nom fizese nada, somente nas cousas da guerra, e por eu querer fazer o voso serviço 2 —Amto; 3 —pr»; 4 — 0». 5 7 2
  • e querer fazer fazenda para elle, porque era em prejuízo do capitão, Jurdão de Freitas me premdeo, tirou da fei- toria e pos feitor da sua mão e pos ouvidor, escrivães, porque todos tirou de seus carreguos. Ha mim pos graves cullpas, sendo capitão em Mallu- quo, nom me provou nada; saio em relaçam que me pa- gase custas, perdas, danos, e torne servir meus caregos; nom me atrevo tornar a servillos com capitães que la nom comsimtem servir-vos. Has cousas de que Maluquo tem necesidade são has seguintes: porque em Maluquo nom ha outras mercado- rias senão cravo, pera se todos poderem soster, se alar- gou com tal que desem ho terço a Vosa Alteza; hos capi- tães ho tolhem e nom se pode fazer senão as escondidas, que escandaliza ha tera; que Vosa Alteza livremente ho alarge, que todos ho poção hyr comprar por as hilhas; com penas aos capitães. Que em Maluquo haja cimquo homens libertados com que o qapitão nom entenda, pera poderem requerer, escre- ver livremente ho que cumpre ao povo e voso serviço, porque nom avemdo estas pesoas libertadas, todos hasinão ho que o quapitão quer, que nom he sçrviço de Deus e nem de Vosa Alteza (2). Por minhas enfformações e por ser voso serviço pasou Martim Afonso, sendo governador, provizão que todo o officio que nom fose provido por Vosa Alteza, nem por elle, que ho servisem os casados de Maluquo e os capitães ora amallnaram (3) dos guovernadores que elles poçam dar e prover todo ho oficio vaguo, ho que e em prejuijo do serviço de Deus e voso, porque provem ovidores, me- (2) Também nesta parte se encontra roto o documento, mas as palavras em itálico subentendem-se claramente. (3) È o que nos parece estar escrito talvez em lugar de alcan- çaram. 513
  • nistros e escrivães, emqueredores; e semdo os oficiaes providos por os capitães, fa-se maes o que os capitães querem que o que e justiça, tãobem metem seus criados por escrivães da feitoria, e por allmoxarifes e seu escri- vão, so porque fazem maes seu proveito que voso ser- viço. Deve Vosa Alteza prover que os capitães nom pro- veyão nenhuns caregos e que se cumpra ha provizão que Martim Afonso mãodou, em nome de Vosa Alteza. Que querendo os moradores de Maluquo mãodar algu- ma pesoa ha índia requerer quousas que cumpra ao povo, que posão mãodar sem lho ser tolhido. Que os capitães nom mãodem de armada modormos comfrades, oficiaes de confrarias, nem vão senão com a » *J pesoa do capitão. // Que toda pesoa posa hir mãodar buscar mantimentos 5 fora qada e cãodo quiserem. Histo tolhem as capitães, por lhe trazerem mantimentos, e porque os paraos são pe- quenos, por lho nom poderem trazer, o nom vão buscar e perece a tera a fome. E mãode que lhe sejão pagos seus solldos e manti- mentos; e por a tera ser qara e verdade que lhe nom abasta a callçados e baretes, de dia, de noute, e vigiar, trabalhar, comprar o cravo, a vinte e trinta, tomar-lhe Vosa Alteza o terço e pagar-lho a tres, e dão-lho debaixo da verga. E poes hos nom leixão vir para a India e os tem la em que lhe pes 8 que a rezão que lhe pagem. Hem Omoro ha lugares cristãos em que ha igreias mal providas; e na jente da tera, ma doutrina; e de nos, mao exempro; que se nom fose hum Dom Johão, regedor duns lugares que chamão Momoia, ja todos serião tor- nados mouros. 5_mtos; 6 —i. é. pese. 57 4
  • Este, por servir a Deus e a Vosa Alteza, padece muitos trabalhos; são-lhe mortos muitos irmãos e parentes e jemte de seu lugar; e por soster os cristãos, ficare destroido; lembre-se Vosa Alteza delle e escreva-lhe e mãode-lhe dar da sua feitoria des pardaus (4), cada ano, e peças para exempro e emqomende-o a seus capitães. Hora quero fazer lembrança ha Vosa Alteza do que ja qa fiz lembrança a seus veadores da fazenda, ho que lhe pareceo bem e se nom pos por obra; ho qual he o seguinte: He defeso em Maluquo que nom venha cravo de ca- beça (5), e elle fese-o e o bastão mesturão-no com o cravo, e Vosa Alteza perde o terço deste cravo de cabeça, que, por ser defeso, vem escondido. E, senhor, em outro tempo cortavão os craveiros para apanhar o cravo, e era que nom avia cravo senão de cimquo em cimquo anos. (4) «A duas espécies de moedas se aplicava antigamente este nome na Índia: a uma moeda de ouro, do valor de 6 tangas, ou 300 réis. O pardau de ouro era de procedência indígena, da Índia ocidental, corrente ao tempo de Afonso de Albuquerque, e conhecido vernaculamente, de ordinário, pelo nome de varãha ou varã (vid. orã), «javali», em sânscrito, por ter em geral, a efigie do javali, um dos avatares de Vixnu. Por esta razão os nossos escritores também o denominam pagode (q. v.) que quer dizer: «idolo indiano». A le- genda sânscrita pratãpa («majestade, esplendor») que figura em algu- mas moedas como epiteto do rei que as mandou cunhar, corromper- -se-ia vulgarmente em partãp, ou pardãp, e na boca dos portugueses se converteria naturalmente em pardáo ou pardao. Os pardaos indí- genas que por mais tempo e em maior quantidade correram em Goa eram de Bisnagá ou Narsinga». Em Timor ainda corre esta designação, embora não exista a moeda correspondente, como termo de referência. Assim, um búfalo de um pardau, é um búfalo pequeno; de dois pardaus, já é maior, e assim por diante. (5) Havia duas qualidades de cravo: o de primeira qualidade, o cravo pròpriamente dito, que era a flor em botão; e o cravo de qualidade inferior, que era o pecíolo da flor. Ao primeiro chamavam cravo de cabeça; ao segundo, bastão. 57 5
  • E ora apanhão o cravo a mão e emtereirão (6) (sic) os craveiros e dão cravo, huns, o ano e outros, não; e huns anos por outros dara Maluquo dous mil bares de cravo de que vem a Vosa Alteza o terço e o frete da sua nao ha Maluqua de des, tres; ho terço de dous mil bares são seisemtos e setemta e seis bares, que a sua nao que ca mãodão pode caregar, com maes alguns bares foros, que os governadores dão, estes, ao presente na índia vinta seis mil pardaos, porque podia valer o quintal a dezoito 12 v.] e vinte, e ora / / vai ha oito pardaos ho quintal, por o muito cravo que ia e nom se poder gastar tãoto. Ha for- taleza de Maluquo faz de custo quimze mil pardaos de solldos ordenados das pesoas. A nao da careira fara de despeza quatro mil, e cus- tera a Maluquo, de despesa, e dezanove mil pardaos, e rendera vinte seis. Estas duas naos ocupadas na careira, perdidas cada ora, por mui pouquo ganho, para Vosa Alteza tirar pro- veito, deve de defender que todo o cravo que de Maluquo vier seia de cabeça, e que nom venha nenhum cravo de bastão, porque a nao que carega seisentos bares de Bas- tão qarega mil de cabeça que valerão nesta cidade, ho quintal, ha quarenta, quomo valeo, pouqo tempo ha, muito dinheiro; ganhara muito maes mãodãodo na mom- ção duas naos. Histo dixe ya qua haos veadores da fazenda; ouvi- rão-me e fizerão-me perguntas; ha todos parece voso serviço e parece-me que porque o elles nom moverão e que se nom fara, se Vosa Alteza de la o nom mãoda, e ao menos de me mãodar que se olhe se e voso ser- viço; e sendo, que se faça, porque elle se fara quomo diguo. (6) Talvez quisesse dizer emterrão 5 7 6
  • E se Vosa Alteza asemtar que nom venha de Maluquo senão cravo de cabeça, haja respeito a vimta cimquo anos de serviço e ser feitor em Maluquo e destrohirem-me os capitães, per servir, e ser muito pobre, e aleijado do braço escerdo, e muito ferido, e por quem são, os mer- cadores (7) sempre me deram caregus; e porque quom elles fiz voso serviço, nom tenho de comer, e semdo Fran- cisco Palha, a cabo de quoremta e tres anos e vinte cinco de serviço, ora pede escrivão da careira de Malluquo, com licença para embarcar na nao de Vosa Alteza sem bares de cravo, de que page terços e saques de Vosa Al- teza, qomo cada hum he custume pagar e que posa trazer minha camara fora, sem pagar nada. E porque la nom tenho quem requeira por mim, senão Vosa Alteza, que se alembre de mim, como do seu serviço serei sempre lem- brado, e histo sem embarguo de ter servido outros ca- regos. Nom apomto nas cousas da Imdia, porque avera mui- tos que tratem delia; somente diguo que se diz jeralmente que os vereadores desta cidade nom fazem maes que o que os guovernadores querem, e que Vosa Alteza lhe nom devia dar credito, senão depois dos guovernadores acabar seu tempo, porque taes dizem que ouve quem fa- zião as cartas a sua vomtade e os vereadores asinavão para Vosa Alteza. E nom hasemtãodo Vosa Alteza que venha de Maluquo tudo cravo de cabeça, então me fara merce de tanadar- -tnor (8) de Baçaim prepeto, porque eu de meus care- gos // nom tenho maes que meus hordenados que me H r.i nom abastão ha mãotenza, e por hiso sam pobre; hou (7) Palavra subentendida, onde se encontra roto o documento. (8) Termo oriental com várias acepções, mas geralmente com a de cobrador das contribuições de uma aldeia, ou da tesouraria de uma alfândega. 1NSULÍNDIA, I — 37 57 7
  • recebedor prepeto da allfãodiga desta cidade, como hora hordenou o guovernador; e porque bem, senhor, mereço dar-me de quomer e Vosa Alteza ho da aos seus e que o servem, lho peço, porque mo nom hão-de tirar, por cullpas. De que, senhor, receberey justiça e me fara merce. Em Goa, aos 20 de Novembro de 548 anos. He poes, senhor, são destroido, aleixado, por vos ser- vir, e sempre fui adarga dos vosos lascarins, e sempre se nomeou meu nome omde pelejavão, faze-me merce, porque com ella vos sirvo. as. Francisco 7 Palha 7 —fro. 57*
  • 77 CARTA DO PADRE FRANCISCO PERES AO PADRE INÁCIO DE LOYOLA Malaca, 4 de Dezembro de 1548 BAL: 4.9-IV-4Q. Fls■ 34 r -36 v. (1) a) Notícias das Molucas sobre a conversão dos gentios. b) Suas ocupações em Malaca. c) Conversões nesta cidade. La gracia y paz de nuestro soberano Dios sea siempre en nuestra ayuda. Amen. / / Aun que ni el primer ano que "llegamos ni el se- »J gundo escrevi a Vuestra Reverencia, no fue, por cierto, por falta de amor (ni por no me acordar de aquella quasi celestial conversacion de mi en aquel tiempo mal cono- cida, la qual, despues de perdida, halle menos, y no po- diendo ya cobraria, lloro, acordandome quan mal me aproveche de los exemplos bivos de vertudes que tenia) sino (2) por las grandes occupaciones que tenia en el collegio de Sancta Fee, porque ensenava gramatica y hazia otras muchas cosas que la obediência sancta me (1) BACIL: Cartas do Japão, Vol. I, fls. 34 V.-38 r. (2) Correcção de empero fue. 5 79
  • mandava, la qual aora tanbien me haze escreviros, aun- que yo ya de mi lo queria hazer. Yo, con la gracia del Serioi, despues que me parti de vos, hasta llegar a la India, siempre vine bueno, loores sean dados al Seiior; y los tres companeros que venimos en la nao truximos muy buen viage, porque no uvo grandes tormentas ni peligros en la mar; llegamos a Goa a n de Setiembre de 1546, primero, ocho dias que todas las otras naos, y ahi en Goa me occuparon siempre en el collegio, hasta que el Padre Mestre Francisco me em- bio para Malaca, donde aora estoy; el qual, veniendo de Maluco, llego a esta cidade en el mes de Julio de 1547 y hallo aqui el Padre Juan da Bera y el Padre Nuno Ribero, Nicolas Nunez y otro hermano, que se llama Baltasar que por su mandado ivan a Maluco; los quales, estando alii con el, un mes, aviendo mes y medio que ya alli estavan sperando por tiempo, se embarcaron; de los quales tenemos nuevas que llegaron bien (3), y fueron recebidos en Maluco de los hermanos de la miseri- córdia con alegria, porque los estavan esperando, porque el Padre Mestre Francisco avia prometido de embiarlos alia. En Maluco y por muchas islãs de redor ay muchos christianos; unos que eran ya baptizados; y otros que baptizo nuestro Padre Mestre Francisco, entre los quales esta una rayna, madre del rey que aora es de Tarnate, donde esta la fortaleza, y muchos se convertirian si uviesse obreros qui non quaerant quae sua sunt, sed quae Iesu Ckristi; or ate, igitur, jrastres in Domino charissimi, Do- mbmm m&ssis ut mittat operários in messem suam (4). En Maluco se apartaron el Padre Juan da Bera para (3) Correcção de a salvamiento. (4) Cf. S. Lucas, 10, 2. 5 8 O
  • las islas del Moro, donde ay muchos christianos que pe- tunt panem et non est qui fran gat eis, con Nicolas y Bal- tasar, de los quales no sabemos hasta ora nuevas ciertas; y el Padre Nuno Ribero vino para Ambueno que son unas islas adonde estan las naos quando vienen de Maluco quatro meses; en el qual tiempo no estuvo ocioso, porque baptizo, segun dizen los que vienen de alia, quinientas o seiscientas animas, visitando los lugares de christianos, quebrando muchos ídolos, ensenando la fe y doctrina aquellas gentes que estan sin ley, como animales, porque no avia alli quien los ensenase; y acabados los quatro meses, las naos se venieron para Malaca, y el quedo en aquella tierra con algunos portugeses que con buen zelo y fe Christiana le quisieron favorecer en aquella conquista de animas, // pues si en quatro meses hizo tanta obra, us con el favor divino, que seria en todo el ano? Despues de nuestro Padre Mestre Francisco aver es- tado en Malaca seis meses, con trabaio (sin nenguna afe- cion hablando) mas sobrenatural, que natural, porque todos los dias gastava dos horas y mas en ensenar los ninos, hijos de portugeses, esclavos y mugeres, y todos los domingos y fistas predicando a los* portugueses, y los jueves, por la manana, deziendo missa y predicando a las mugeres casadas. Confessiones no lo dexavan, visi- tando dolientes y hospitales, haziendo pazes, y aun ani- mando a los nuestros, en las batallas, porque una gene- racion de gente, nuestros enemigos, de la seta de Ma- homa (5), quisieron dar vista a esta ciudad y desembar- caron en tierra, mas sin hazer dano, se tornaron(6), porque era noche y no avia aperelo para luego ir atras ellos; mas despues, el capitan Simon de Melo, mando (5) De la seta de Mahoma é correcção de mahumetanos. (6) Mas sin hazer dano se tornaron é uma frase escrita por cima da forma original: y llevaron un pato y fueronse. 58 I
  • aparejar ciertas fustas, donde se embarcaron ciento y ochenta hombres, diez, mas o menos (7); y fueron a buscarlos, y hallaronlos cem léguas dela ciudad, o mas, ala boca de un rio, donde se travo la batalla naval, y alli les tomaron muchos navios los nuestros, y el mesmo pato (8), moriendo solamente, de los nuestros, dos o tres, segun cremos; y de los suyos, muchos; y asi se tornaron con gran vitoria, Dios sea loado. Y porque tardavan mucho, la gente que quedo en la ciudad tenian grande temor que fuessen perdidos y des- baratados ; y unos dezian que dezian los hechizeros (de las quales boverias y artes diabólicas ay muchos en estas partes) que eran desbaratados los nuestros de los con- trários. Y un dia, predicando el Padre Mestre Francisco, dixoles, reprehendiendolos de poca fe, diziendo que di- xessen un Pater Noster y una Ave Maria, por la vitoria que el soberano Dios avia dado a los nuestros, y esto sin aver venido nadie de la armada; y de ay a poços dias, entraron los nuestros por la barra con muy gran alegria, y el Padre Mestre Francisco con los de la ciudad los recebio con mayor. Y asi es publica voz y fama, entre la giente desta tierra, espanoles, que estando otra vez predicando Mestre Francisco en Maluco dixo: «digan un Pader Noster y una Ave Maria, en memoria de la Passion de Nuestro Senor Iesu Christo por el anima de Araujo (9) que murio, el qual avia fallecido lexos de alli en otra isla, y no se sabia ni se podia aun saber en Maluco; y asi me dixo a mi un hombre de aquesta ciudad, casado y honrrado y que haze muchas limosnas, y es tenido por muy buen christiano, que estando un hombre doliente y endemoniado le tiro, Mestre Francisco, el demonio, des- (7) Diez mas o menos, a saber, fastas. (8) O mesmo que ponte. (9) João de Araújo, que morreu em viagem para as Molucas. 582
  • pues de aver dito una missa a la Sacratíssima Virgen Maria». En este tiempo de seis meses que aqui estuvo en Ma- laca se convertio a nuestra sancta fe (afuera de otras muchas gentes de la tierra) una judia con dos // hijas y i" un hijo, ricos; y geralmente es tanta la devocion que en estas partes tienen a nuestro Padre Francisco, portugeses, moros y gentiles, que asi chicos como grandes le llaman, todos, a boca llena, el padre sancto. De aqui de Malaca se partio para la índia en el mes de Deziembre; de lo que alia en aquellas partes de Maluco, donde anduvo, sucedio, creo sereis informados por sus cartas. Llegado Mestre Francisco a India, fue a visitar los christianos dei Cabo de Comorin, adonde anda van nuestros padres; y llegado por aquella costa fue tanta la alegria y conso- lacion que recebio aquella gente que no se puede escre- vir, particularmente porque le tienen tanto amor, acata- miento y reverencia, como si fuera un sancto, como creo que es; llamanle todos el gran padre, y despues de los aver visitado y consolado, se bolvio para Cochin, e de ay viene a Goa y de ay se fue a Baçain a hablar con el ^ Governador Don Juan de Castro, al qual aun no tenia visto, sobre algunas cosas pera augmento de la christia- nidad de aquellas partes donde vénia. Y fue recebido dei governador e todo su exercito cun mucha beninnidad, y rogado que no se partiesse tan presto mas el, avidas provisiones para mandar dos de la Compania a Malaca, se bolvio luego a Goa y de ay nos embio luego a mi y al hermano Roque de Olivera para Malaca. Y asi tomada sua obediência y despediendonos de los padres y hermanos, nos embarcamos a 8 de Abril de 1548, y llegamos a ella a 28 de Mayo dei dicho ano; y antes de ser en tierra, los devotos dei Padre, como 5 % 3
  • supieron de nos, luego con un batel nos venieron a buscar y llevaronnos a unas casas que ya estavan hechas iunto a la misericórdia, donde el provedor y hermanos delia, vicário y clérigos nos venian a ver con mucha alegria. Luego el dia seguiente, Roque de Olivera empeço a ensenar a leer y escrevir y a rezar por oras de Nuestra Senora, algunos princípios de gramatica a los hijos de los portugeses, y en poços dias se juntaron mas de cien mo- ços, y agora son ciento e ochenta, a los quales no per- mitimos leer por pleitos ni otros libros vanos, mas por algunos traslados de vidas de sanctos, donde se puede tomar doctrina para la vida, y por una declaracion de los artículos de la fe, que el Padre Mestre Francisco ordeno y hizo muy propria para la gente desta tierra. Desto los infieles moros y gentiles se espantan y re- ciben mucha edificacion, viendo que de tan lexos vienen dos hombres, no por dineros, ni por perlas preciosas, mas puramente por amor de su Senor Iesus, a ensenar con tanto trabaio a todos los que quieren recebir doctrina. Yo empece a predicar por la mariana, los domingos y fiestas a los portugeses; y a la tarde a sus hijos y esclavos y christianos de la tierra, y a los hijos y hijas y esclavos y esclavas de los portugeses; y a estes mismos todos los dias, en la misericórdia, enseno la doctrina Christiana, por espacio de una hora y media, y a las vezes, dos; la doctrina que les enseno, y el modo que en ello tengo, es el que el Padre Mestre Francisco insti- IJ6 r.i tuyo. Los jue // ves digo missa en una iglesia de Nuestra Senora dei Monte, y despues, por media hora, hago una platica y esto especialmente a las mugeres de los portu- geses, las quales son mugeres de la tierra. Los hijos de los portugeses y muchas hijas y esclavos saben ya toda la doctrina, y tienen por costumbre, de noche, en casa, dezirla cantando, y yendo despues dei 584
  • Ave Maria por la ciudad holgarian de oyr en una casa y otra dezir cantada la doctrina y la declaracion de los articulos de la fe; la qual costunmbre dexo el nuestro Padre Mestre Francisco. Y andan tan encendidos en esto que por donde van siempre van cantando y loando a Dios, Nuestro Senor, con estas oraciones, lo que haze mucha devocion, por ser entre gente que no conosce a Dios. Ruegen al Senor que nos de gracia y esfuerço para que non deficiamus quandiu in hac militia sumus, y para que sermo Dei crescat et jructificet. Porque esta casa de la Misericórdia es pobre, me mando nuestro Padre Mestre Francisco que la ser- viesse, diziendo en ella missa, todos los miercoles, y tambien que tuviesse cargo de confessar y administrar el Sanctissimo Sacramento en el hospital a los dolientes, deziendoles, cada semana, una missa; y assi lo hago con el favor divino. Con estas cosas que tengo dichas y otras occupaciones muchas que no escrivo, pues que por el instituto de nues- tra Compania os son manifestas, soy tan occupado que a las vezes no me se dar consejo. Con todo, recebi mi anima tanta consolacion que bien parece que quiere el Senor ayudar mi fraqueza, con recrear mi espiritu; El sea bendito para siempre. Muchas personas se confiessan y toman el Santissimo Sacramento todos los domingos; y muchos mas lo harian si yo tuviesse quien me ayudasse; mas porque ya sola- mente soy sacerdote (10), no puedo setisfazer a sus devo- ciones; y para que meior supla, repartiles los dias y a los domingos y fiestas digoles missa en la iglesia ado tengo de predicar, y doyles luego el Santissimo Sacramento; (10) Mas porque ya sohamente soy sacerdote é correcção de outras duas formas: porque soy solo sacerdote e porque no ay otro sacerdote. 58 5
  • y despues se siegue la predicacion. Eran aqui muy ne- cessários mas sacerdotes, porque es esta tierra gran esca- lera para diversas partes, y ansi a ella concurre mucha gente, la qual Dios sabe quanto han menester que les enderecen sus intenciones y ayuden sus animas. Ay en estas partes judios; unos son blanquos, que venieron de Turquia y vienen por el estrecho de Meca; los otros son mala vares, gente negra desta tierra, de modo que tanbien el diabo trahe por aca sus capitanes y con- quistadores. Estos converten algunos gentiles a la ley ya antiguada, por ser cumplida y envejecida. Tanbien de aquella parte passan acca algunos moros, arabios y de la Persia y aun de Turquia a predicar la ley maldita de Mahoma, y por eso no tenen hanbre ni sed ni mares ni enimigos ni otros qualesquier peligros, los quales han hecho y hazen muchos danos en las manadas de la gen- tilidad. Son mucho prejudiciales y grandes nuestros ene / / migos, porque dizen a los gentiles que somos gente sin ley y ladrones. Pues que hazemos? Porque dormimos? Por- que somos maios siervos? Porque escondemos los talentos que nuestro Padre y gran Senor nos dio para que bus- cássemos las ovejas perdidas? Y si los Apostoles no sa- lieron de Judea, no se convertiera la Grécia, la Italia y Espana, ni la Ethiopia del Preste Juan, la qual aun aora tiene harta necessidad de ser visitada y con diligencia, porque lo desea y llama que le socorrean y quiere con- formarse con la Iglesia Romana. Destos judios que vienen por el estrecho de Meca han estado algunos aqui en esta ciudad, y desde que yo vine, uno que aqui estava y se dize ser natural de Roma oya siempre mis sermones, y algunas vezes vénia el y otro que despues vino a esta ciudad, a nuestra casa, perguntar cosas de la Bíblia; y una cosa no se les podia encaxar, y es como Dios avia de querer ser hombre y ser açotado 586
  • y crucificado; y yo con mi poquedad davale algunas razones, y assi passamos algun espacio de tiempo avien- dome yo con el con toda la mansedumbre y cortesia que podia. Finalmente, Nuestro Senor lo quizo alumbrar, en que un dia, por la manana, que fue miercoles, a 7 dias de Noviembre de 1548, estando yo en la iglesia de la Mise- ricórdia entro el y tomo agua benta; llamaronme ciertas personas y como me vino, vinose a mi con los braços abiertos, deziendo que queria ser christiano, que ya, glo- ria a Dios, conocia la verdad y el yerro en que andava. En quatro o cinquo dias supo el Credo con una pro- testacion que aca ensenamos, y el Pater Noster y Ave Maria, de que el es muy devoto: la Salve Regina, Con- fession General y Mandamientos; con el se convertieron seis o sete personas de su casa, y assi los baptizamos, hallandose a su baptismo el capitan Don Pedro da Silva con otros hidalgos y otros cavalleros y todos los princi- pales de la ciudad. Aora se parte para Cochin a baptizar un hijo chiquito, que alia tiene; espero en la divina bondad que sera causa ocasional para que muchos se conviertan. Queda aqui uno que continua mis predicaciones. Nuestro Senor Iesu Christo que alumbre al ciego, que nunca vio a lumbre, su entendimiento, que nunca ha conoscido la verdad, para que la conosca y no se pierda. Amen. Algunas personas, desque aqui estamos en esta ciu- dad, me han mucho requerido y instado que les reciba, para servir a Dios, en la Compania; y yo, por no tener liecencia, aun que ellos tenian partes para ello, no los re- cibo. Todavia han mudado vida con esperança que el Padre Mestre Francisco los recibira, y ansi andan en hábitos humildes, serviendo en el hospital los pobres y exercitandosse en otras obras de misericórdia, con mucha edificacion. Ruegen por mi al Senor, para que me haga 587
  • verdadero obediente y humilde en su servido. El conso- lador que da alegira a los angeles y a todos los sanctos, quiera consolar a todos nuestros padres y hermanos, y asi aquellos que nos quisieron consolar con sus cartas este ano. De Malaca, a 4 dias de Deziembre de 1548. Vester in Domino frater indignus. Francisco Perez 588
  • 78 INFORMAÇÕES DE MANUEL PINTO AO BISPO DE GOA SOBRE ALGUMAS CONVERSÕES EM MACAÇAR Malaca, 7 de Dezembro de 1548. BAL: 4Ç-IV-49. Fls. 7 v.-8 v. Cópia em espanhol, com letra muito legível, estilo claro, e sem passagens confusas ou duvidosas. Pelo contexto, parece ter sido escrita alguns anos depois dos acontecimentos que nela se descrevem. a) Conversão de alguns reis indígenas. b) Acção apostólica do Padre Vicente Viegas. c) Descrição de alguns reinos da ilha. d) Esperava-se ali a ida de missionários e de outros portugueses. Yo llegue a esta ciudad de Malaca, de los macaçares, a XX de Noviembre deste presente anno; y por me pa- recer servido de Dios dar cuenta a Vuestra Senoria de la tierra y de los christianos que en ella hizo el Padre Vicente Viegas, porque yo fuy con el, y quede alia, donde estuve, tres annos, y por eso, me atrevo a dar cuenta a Vuestra Senoria largamente. Yo estuve alia con un rey christiano, que se llama rey de Supaa, que es el primero que se hizo alia christiano, con su muger y hijos, y mucha gente suya. 589
  • Este rey es el que mando una manilla de oro al rey, nuestro Senor, que llevo Antonio de Payva; y con este rey estuve un ano y medio, y siempre me hizo muy buena compania, y se pregona por christiano; y muy spantado, porque no ivan alia ni padres portugeses, me perguntava porque razon no mandava el senor governador provello, como le prometio Antonio de Payva? Y el Padre Vicente 17 y.i Viegas y yo no teniamos otra respuesta / / que le dar, sino que me parecia que sus negocios avian ido a Por- tugal y que aguardarian por recaudo, mas como veniesse, luego seria proveydo de personas y portugeses. Esta berra es muy byen abastecida de todos los mantenimientos. Despues, me passe para otro rey, muy grande senor, que aca es llamado Emperador, y es suegro deste rey. Esta por la tierra dentro, cinquo o seys léguas, en una ciudad suya, que se llama Sedemrre. Este es el senor de mas gentes que en estas partes se halla; dizem que terna trezentos mil hombres. Es su tierra la mejor, a mi ver, que en este mundo vi, porque toda se liana tierra de mucho arroz, y carnes, y pescados, y frutas, y tiene la ciudad asentada iunto a una laguna, adonde andan muchos barcos grandes y pequenos, los quales lamam par aos, y asi, al reredor (sic) desta laguna, ay muchas ciudades muy prosperas. Esta laguna es de veinte léguas, en largo; y de quatro o cinquo léguas, en ancho; tiene muchos pescados y de muchas maneras, en grande abundancia. Y desta laguna sale un rio e corre por la tierra dien- tro, un mes de camino, y va salir al mar de la parte dei leste, en una ciudad que se llama Maluvo, cuyo rey es muy grande senor y gentil, y desea mucho nuestra amistad. Y desta, que se llama Sedemrre, van en paraos, em XX dias, a la otra que se llama Maluvo, y puede entrar 5ÇO
  • por este rio una fusta grande, hasta llegar a la ciudad de Sedemrre. Aqui estuve ocho meses y siempre me hizo, el rey, muy buena compania y, cada dia, me perguntava se avia de tornar alia algun padre; para lo conservar siempre en este deseo que tenia, yo le dava la mejor desculpa que podia. Despues, me vine par el Macaçar de baxo, donde vine a llegar a una ciudad que se llama Sian, que era de un rey christiano, grande amigo nuestro, y ay muy mucha gente Christiana. Este rey murio y heredo el reyno un su hermano gen- til; yo le pergunte se queria ser christiano; y el me dixo que si, y que haria aquello que hizo su hermano; y este es grande nuestro amigo, y su reyno es muy abundante de muchos mantenimientos; y el me dizia que, si fuessen alia padres con allgunos portugeses y hiziessen asiento en su tierra, que se haria christiano, con toda su gente, que sera cerca de quarenta mil hombres, y que daria todos los mantenimientos necessários para esta fortaleza de Ma- laca, en mucha abundancia. Junto a este rey esta otro rey, que es tio deste, el qual es christiano, que lo hizo // el Padre Vicente Vie- 18 r.i gas, el qual es un buen christiano; pero, por la poca communicacion de las cosas de Dios, parece que esta frio. Es grande nuestro amigo y tiene muchos manteni- mientos; continuamente espera por padres, de los quales espera averse de perficionar en toda doctrina de nuestra sancta fee catholica, y dize que no desea mayor bien que ver los padres y algunos portugeses. Asi, que digo a Vuestra Senoria que a esta isla de Macaçar, donde ay el sandalo, vino un Francisco Nunez, capitan de una nave de Garcia de Saa. Este Francisco Nunez hizo un rey christiano, con alguna gente suy; 59 1
  • este Francisco Nunez era manco y andava con dos mu- letas; y supitamente fue sano y hizo una cruz y fixola y colgo dela las muletas; la gente quedo muy espantada de tal acontecimiento y desearon de se hazer todos chris- tianos; y porque Francisco Nunez se torno para Ma- luco, quedo todo imperfecto pero sus deseos son ha- zerse christianos y no aguardavan otra cosa sino por un padre. En este medio vino a mi un su hijo gentil, al Ma- caçar, y me pergunto porque no tornaron alia portu- geses, porque su padre era christiano y el tanbien deseava de serio; y perguntavame si avian de ir alia padres y algunos portugeses; yo le dixe que este anno serian pro- veidos. Desde entonces, hasta ora, no hàn ido alia padres ni menos portugeses. Si Vuestra Senoria no provee esta gente Christiana, podra ser que se desedificaran, y por eso, devria Vuestra Senoria de los proveer, porque con estos christianos se harian otros muchos, y seria camino para esta isla ser toda de christianos, porque ella es tierra muy buena, donde ay mucho oro, y sandalo, y aquila, y lacre, y muchos esclavos, y muchos mantinimientos, asi arroz como carnes. Es tierra muy cerca de Maluco, que en siete o ocho dias se puede ir de alia a Maluco, con todos los mante- nimientos y socoro de lo que le fuere necessário; y asi es muy cerca de Ambueno, que en tres o quatro dias se puede ir desde Macaçar a Ambueno, en parôs pequenos o grandes. Esta isla de Macaçar me parece que sera, em redondo, de trezientas léguas; y al de redor desta isla ay muchas tierras, todas pobladas de gentiles; son tierras muy ri- quas. En esto me parece que devia el rey, nuestro senor, 59 2
  • de proveer no las dexar tomar de moros, que son los jaós, porque, quando me vénia, aora, dei Macaçar para esta ciudad de Malaca, arribamos, com tiempo, a java, adonde estava el-rey; y mando-me llamar y me pergunto por muchas cosas, entre las quales, me pergunto por Macaçar, y me dixe que queria mandar alia diez mil / / is v.j hombres. Yo le dixe que no mandasse, porque la tierra de Ma- caçar era dei rey de Portugal y que, si los mandasse, daria en esso disguesto al senor governador, porque en el Macaçar avia muchos christianos y que, este anno, avian de ir muchos portugeses para hazer alia chris- tianos. Y porque, a mi parecer, este rey de Java anda aca muy vitorioso contra los gentiles que no se quieren tor- nar de su secta de Mahoma, y sy se tornan de su secta, dales muchas dedivas y hazelo con ellos muy bien, y trahe consigo mucha gente, y no trabaya por otra cosa, sino por azer estes gentiles, moros, no quieren oro ni plata, sino que se hagan moros, porque dize este rey de Java que, despues que tuviere estos generos de gentes hechos moros, que sera un segundo turco; y que sera para el poco, Malaca; porque, segun lo que yo vi en el, esta es su intencion y determinacion: quitamos los man- tenimientos, que no vengan a esta ciudad, que es la mayor guerra que se puede hazer a esta ciudad de Malaca. 1 por esta razon, digo a Vuestra Senoria que seria grande servicio de Dios e de su Alteza proverlos de pa- dres y alguna gente, para tomar posession de la tierra, porque ay en esta ciudad de Malaca muchos casados y soltieros, que tomaran por grande empreza ir con dos o três padres alia, para principiar la Christiandad, porque todo resulta en servicio de Dios y de Su Alteza. INSULÍND1A, I — 38 59 3
  • Por aora no mas, sino que Dios, Nuestro Senor, acre- ciente los dias de vida a Vuestra Senoria. Amen. Desta ciudad de Malaca, a los 7 de Deziembro de 1548 annos. Servo de Dios. as. Manuel Pinto 5 9 4
  • 79 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE ANTÓNIO GOMES AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Goa, 20 de Dezembro de 1548 Documenta Indica, I-4.10-426. Documentação... (índia), 4..0 Vol., pdgs. iyç-içi. Agora vay Mestre Francisco a Cochim para dar começo a hum colégio, e dá-lo-á pola gente lhe ser muito afeiçoada a elle e à Comanhia. Em Coulam também á de dar começo a outro. Spreve a Ell-Rey sobre Su Alteza dar dous mil cruzados de renda para se gastarem no colégio de Cochim e de Coulam e de Chalé, e no que se á de fazer em Malaqua e em Maluquo; e que esta renda se pague e entregue ao reytor do colégio de Goa, para daquy se gastar conforme as necessidades de cada colégio, por- que muito han de soprir os paes dos myninos que aly entrarem; e creo que quase sem El-Rey se sostentará muita parte disto pola enformaçam que das terras me deu mestre Francisco. De maneira que este colégio será universidade de toda a India, e este e o de Coulam seram propriamente da Companhia, e dos outros teremos nós a administraçam, para que de lá venha gente ja feita a este, onde aprendam artes e theologia. Eu tudo isto escrevo a Ell-Rey porque sey que nysto á de receber muito conten- tamento, porque se aumentará por esta vya a fé em estre- 59 5
  • mo, e mais, quase em todas as fortalezas d'El-rey aberá pregadores da Companhia e confessores; e teremos gente para tamta conquista como esta da índia, que de laa bem sey que nam pode vyr tanta como yso. Estes 2.000 cruzados, se El-Rey os der, diz o Padre mestre Francisco que faça Vosa Rerevencia com que a paga delles se faça ao que tem carrego desta casa, porque duzentos cruzados empregados em roupa de Baçaym, que caberá numa caixinha, fazem em Maluquo mil, nem na- quelas partes nam core moeda senam panos, e mais para ficar tudo ysto a (o) colégio que detriminadamente seja da Companhia, como hé este. 596
  • 80 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE LANCILLOTO AO PADRE INÁCIO DE LOYOLA Cochim, 26 de Dezembro de 1548 Documenta Indica, I-4.36-444. Documentação... (Índia), 4° Vol., págs. iç2-içç. Neila costa dei Moro, cioè in Malucco, stanno quatro, cioè el Padre Jan de Bera e el Padre Nuno Ribero, et doi laici, cioè Nicolao Nunez e Belchior Nunez. Forno là fará questo Aprile que vene doi anni. Aspettamos al pre- sente nove de loro. Queila è terra molto orida e gente molto bistiale; vivono de pane le legno e pexe. Non gle manca travaglia a li Fratelli che là sono; se exercitano sempre in ensignare le cose de nostra fè segondo possono; congregano li fanciulli e li insegnano le oratione; bate- zano grandi e picoli segundo che se gle oferiscono, anco- rachè non credano nè intendano tanto perfettamente como seria neccessario. Questo mesmo fanno tutti li altri che qua vanno in questo negotio. In Mallaca sonno doi, cioè el Padre Francisco Periz, molto bono home e de mediocre letre, et Rocco d'Olivera, laico, molto bon giovene. Questo è quello che fece li Exer- citii in Goa che scrissi a Vostra Reverentia; será contento che o recivessomo; forno là questo Aprile che vene fará un anno. Adesso receveremo riposta. Mallaca è cità di portugesi. 5 97
  • 81 TRECHO DE UMA CARTA DO IRMÃO MANUEL DE MORAIS AOS CONFRADES DE COIMBRA Goa, 3 de Janeiro de 1549 Documenta Indica, I-4.56-462. Documentação... (India), 4° Vol., págs. 212-217. La gracia y paz de Christo nuestro Dios y Senor seya de continuo en nuestro favor y ayuda. El ano passado os escrevi dándoos cuenta de lo que acá passava, mas, como por la dificultad del viage no sepa si os son dadas mis cartas, os daré aora cuenta de todo brevemente. Nos, con la gracia dei Senor, passados los trabajos, y peligros y enfermedades de la mar, llega- mos a Goa a 17 de Setiembre de 1546. Y luego de ay a poços dias vinieron cartas de M. Francisco, que escreviò de Malaca, en que mandava que todos los Padres que veniessen aquel ano de Portugal fuessen al Cabo de Co- morín, y Juan da Beyra y el Padre Francisco de Man- sillas, o el Padre Antonio Criminal, se fuessen para Ma- luco. Y porque el Padre Antonio estava muy lexos para venir (1), quando se dieron las cartas, y era el tiempo breve en que se azia de partir la nave, de manera que no podia venir a tiempo y porque el Padre Francisco de Mansillas se halló indispuesto, fué determinado que (1) O Padre António Criminal encontrava-se então no Cabo de Comorim. 598
  • fuesse el Padre Juan da Beyra, y el Padre Nuno Ribero, y nuestro Hermano Nicolau Nunez, y otro Hermano que acà entró, llamado Baltezar (2), para Maluco; y des- pués de llegar a Malaca bolvió el Padre M. Francisco de Maluco y halló (lo)s ay. (2) Baltasar Nunes (Documentação, IV. Notas, pág. 212). 5 99
  • 82 TRECHO DE UMA CARTA DE FRANCISCO XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 2 de Fevereiro de 1549 Epistola S. Francisci Xaverii, II-6ç-8o. Documentação... (índia). 4..0 Vol., págs. 2J5-285. Laetos e Malaca nuntios accepi de re Christiana a Francisco Pere et Rocho Oliveria praeclara gesta. Ex eorum literis omnia cognosces. Optimi autem ex Moluco nuntij perferuntur. Quippe in maximis aerumnis perpe- tuisque vitae discriminibus Ioannes Beira eiusque socij versantur, magno cum Christianae religionis incremento. Rumor de Beirae caede dissipatus mihi quidem inanis videtur. Ipse ad me paulo ante de suis rebus, aerumnis ac periculis diligentissime scripsit. Eius socij post disces- sum avium ex Moluco tres menses hyemarunt in Amboino. ínterim Ioannes Beira eò ex Maurica (1) venit ad Prae- fectum, rogatum, ut Lusitanorum manum mauricis Chris- tianis grauius accidisse dicitur, quod ego neque villius literis neque idoneis autoribus comperi. Illud pro certo affirmare audeo, tanquam aurum in fornace probari eos, qui Deum ac proximos diligunt. Equidem haud seio, an nusquam in toto orbe Christiano ij, qui Deo student et (1) Ilha de Moro. ÓOO
  • saluti animorum tot laboribus tantisque mortis peri-(82) culis exerceantur, quot quantisque in Maurica regione. Velim Deum depreceris pro ijs, qui illuc ierunt, et deinceps ituri sunt. Nimirum opinor Mauricas insulas plurimos nos- trae Societati martyres parituras, vt brevi non Mauri, sed Martyrij insulae sint appelandae Itaque Socij, qui vitam profundere expetunt pro Christo, bono animo sint, prae- cipiantque gaudium licet: siquidem paratum habent semi- narium martyriorum, vbi cupiditatem expleant suam. 601
  • 83 CARTA DO PADRE JOÃO DA BEIRA AO REITOR DO COLÉGIO DE GOA Molucas, 5 de Fevereiro de 1549 BAL: 4Ç-IV-4Q. Fls. Q3 r.-ç3 v. (1) o) Descrição sumária das ilhas Molucas. b) Propensão dos naturais para se converterem. c) O rei de Ternate promete enviar um filho a Goa para se educar no colégio de S. Paulo. d) Ocupações apostólicas. e) Construção de um colégio em Ternate. Son estas islãs, donde nos embio el Padre Mestre Francisco muchas y muy pobladas de muchas gentes de diversas lengoas; es tierra, la major parte delia, muy sana y fértil pela templança de los ayres, tanto que por la fertilidad delias los hombres son pobres, por no darse al trabajo de sembrar assy vino como pan, y otras cosas; es gente que tiene diversos ritos y sectas, gentiles y moros; y ansi, hasta aora, la secta de Mahoma a crecido entre ellos, y contodo, los convertidos a nuestra sancta fee son muchos, y se dexaron de multiplicar, hasta aora, muchos mas por temor de los moros, porque los que se convierten luego comiessam a sufrir persecutiones dellos por Christo, (1) BACIL: Cartas do Japão. Vol. I, fls. 108 V.-109 v. Ó02 <1 \
  • y donde no llega el favor de los portugeses, dexan muchos de venir a nuestra sancta fee, por temor de los moros, y tambiem por no aver quien liembre, entre ellos, la palavra de Dios. Los gentiles son mas domables, y destos se an con- vertido tres províncias, las quales estan cincoente y ses- senta legoas desta fortaleza, que es hasta donde puede llegar el favor de los portugeses. En estas províncias de gentiles se haze mucho fructo, baptizando adultos y ninos y doctrinandolos siempre en cosas de nuestra fee, y qui- tandoles los males costumbres de sus ydolatrias. El rey de Maluco es el mas poderoso entre los destas islãs; publico que queria hazer un hijo Cristiano, y assi lo dixo al Padre Mestre Francisco, al tiempo que aquy estuvo, y despues me lo dixo a my. A 25 de Hebrero de 1549, que vino a la fortaleza, y hablo con el capitam y comigo, y afirmo que queria complir lo que tenia pro- metido, que era hazer su hijo christiano, y sobre esso escrivio a Su Alteza. Espero que tambien se haga chris- tiano el hijo primero, que es príncipe y senor del regno; y convirtiendose, esto cierto convertirse todo el reyno y las mas islãs, o quasi todas que ay en estas partes, hasta el Macaçar, donde ay ya muchos cristianos. Prometionos este rey, al capitan y a my, de embiar a Goa este su hijo al collegio de San Paulo, y luego este anno que viene, le embiara com este capitam que es mu- cho su amigo, y llevara consigo algunos hijos de hombres principales. El governador de la índia le embio, este anno, una provision que sea rey de todos los christianos que se hizieren, y de los que conquistare con la ayuda de su padre y de los portugeses, y tambien de los que se convertieron ya; y esto, haziendose el christiano y siendo caso que el príncipe se convertise, queria / / este rey que 1« *•) Su Alteza huviesse por bien que el fuesse senor de todos 605
  • los christianos que de aquy adelante se convertiessem, y que el, que agora se converte, fuesse senor de los que hasta aora son christianos. Estamos aora, el hermano Nicolas y yo, aquy donde esta la fortaleza, donde venimos dolientes. Despues que convaleci, ajude al prelado esta Quaresma, para despues tornar a visitar los christianos; predico un dia em la semana a las mugeres, cosas de nuestra sancta fee, por mandarmelo assi el Padre Mestre Francisco; y enseno la doctrina Christiana, todos los dias, a los hijos y esclavos de los portugueses, y a los nuevos christianos; y asi mis- mo, en los mismos portugeses se haze mucho fructo; las mugeres, aun que nuevas Christianas, son capaces para recebir los sacramentos y algunas delias se confiessan y reciben el Sacramento de la Eucharistia em algunas fiestas del anno, y muchos portugeses, cada ocho dias; las mu- geres con sus parientes y naturales nos ajudan mucho a traerlos a nuestra sancta fee. El hermano Nicolas ensena a leer y escrevir y buenos costumbres a los niiios. Aqua able con uno hombre, por mandado dei Padre Mestre Francisco, para que aplicasse cierta hazienda suya para hazer unas casas en que se ensenasse la doctrina Christiana. Como se lo dixe, holgo mucho de hazerlo, y asy, dexa su hazienda, para que se haga un collegio en que se ensene a leer y escrivir a todos los hijos de chris- tianos, asy portugeses, como los que nuevamiente se convertieren a nuestra sancta fee. Y queria el que la Compaiiia se encargase desto para mas serviço de Dios, Nuestro Senor, y quando no que la misma la reciba para se gastar en Ia esta obra pia de ensenar los simples, dan- doles de comer y vestir a quantos bastaren su hazienda, asy a los de aquy, de la tierra, como a los de las otras islãs, que nuevamiente venirem a nuestra sancta fee, y 604.
  • que aquy los ensenem en unas casas nuevas que para esso ya quasy tene hechas, o que hagamos otras, como mejor nos parecier. Aqui ay algunos ninos de los chris- tianos de la isla del Moro a aprender, que son los prin- cipales daquellas tierras con sus esclavos que tambien aprenden (2). (2) A data desta carta está indicada no titulo das cópias.
  • 84 CARTA DE FRANCISCO XAVIER AO PADRE JOÃO DA BEIRA E COMPANHEIROS NAS MOLUCAS Malaca, 20 de J anho de 1549 Epistola S. Francisci Xaverii: II-111-115. a) Da sua ida para o Japão. b) Novos religiosos que partem para as Molucas. c) Notícias completas que deve enviar-lhe sobre os progressos daquelas cristandades. d) Sobre as mesmas deve escrever ao Padre Inácio e Padre Simão. e) Quem lhe deveria suceder, dado que tivesse sido morto na ilha do Moro, como correra na índia. Jhus A graça e amor de Christo e favor seja sempre em nosa ajuda e favor. Amen. Os Padres que lá vão vos darão novas de todos os Irmãos que estão em a India, e dos que estão em Por- tugal, e do fruito que fazem, asi os Irmãos da Yndia como os de Portugal: por iso não me alargo em vos escrever nesta parte. De mi vos faço saber como vou ao Japão, por ter por informação da muita dispossição, que naquellas partes á pera acrecentar nosa santa fé. Vamos tres portugueses, e trez japães muito bons homens e bons christãos; todos tres se fezerão christãos em Goa. Aprenderão a ler e 606
  • escrever no colégio da Santa Fee; fezerão todos tres os Exercícios Spirituaes: cada huum delles esteve huura mês em os Exercícios, e cada huum deles se aproveitou muyto. Vai com gramdes desejos pera fazer christãos os de sua terra. Os japães mandão huma enbaixada a El-Rey de Portugal, em que lhe mandão pedir Padres pera ensi- narem a fee dos christãos. Todos vamos muito confiados em Deus Noso Senhor que se á de fazer muito fruito: e eu, pola esperiencia que tenho dessas partes, se vir que mais fruito se fezer em Japão, ey-vos de escrever pera que venhais onde eu estou: portamto estai prestes pera todo tempo que vos mandar chamar. O Padre Afomso vai pera estar em a fortaleza de Maluquo pera pregar, asi aos portugueses, como aos escra- vos e escravas de purtugueses, e aos christãos forros da terra, e ensinar a doutrina cada dia, como eu lá fazia quando lá estava; e pregar huum dia na somana às mo- lheres dos portugueses sobre os artigos da fee e manda- mentos da ley, e huma ordem como se ão de confesar e despoer a tomar o Santo Sacramento. Parece-me que será bem que estê Afomso em Ternate hum anno, e o mais tempo que a vôs parecer; porque estando em Tarnate poderá despachar todalas cousas, de que tiverdes necesidade pera favorecerdes os christãos, asi com el-rei como com o capitão he feitor, mandando- -vos o necesario, asi pera vosas necesidades corporais, como pera o favor dos christãos. Manoel de Morais e Francisco Gonçalves vão pera irem onde vós estais debaixo de vosa obediência: asi elles como Afomso são pesoas (79 v.) com que aveis de ser muito consolado e vos ão de ajudar muito. Escrever-nos-eis muito particularmente o fruito que lá fazeis, e se o filho d'el-rei se fez christão, e se os christãos do Moro se tornarão a vós, e de como estão aquellas 607
  • ilhas, e da disposição que ahi nelles pêra se converterem a nossa santa fee; e se algumas partes, como no Macaçar, ou em Totole (i), ou nas Cellebes, ou por aquellas partes a disposição que há pêra acrescemtar nossa santa fee, e el rei o favo(r) e ajuda que daa. Escrever-me-eis a Ma- laca tudo meudamente pera que saiba o que de vós outros ey de fazer se lá não fazeis fruitos; e se lá se fezer fruito, escrever-me-eis se será bem mandar mais Irmãos a Ma- luco. O Padre Ignatio e ò Padre Mestre Simão escrevereis huma carta muito comprida, dando-lhe comta mui meu- damente do fruito que lá fazeis todos os que lá estaes; e seja de cousas de edificação; e as cousas que não sam de edificação, guardai-vos que as não escrevaes. E a carta que escreverdes ao Padre Mestre Inácio e ao Padre Mestre Simão, fazei comta que muitos as am de ler; por iso seja de maneira escrita, que ninguém se dese- difique; e asi a mandareis fechada e selada ao Padre Francisco Perez a Malaca, e o sobreescrito será: Pera o Padre Inácio e o Padre Mestre Simão. Outra carta escrevereis a todos os Irmãos da Imdia, em que lhes fareis saber o fruito que lá se faz, pera que dem todos graças a Deus Noso senhor. Das cousas que teverdes necesidade, asi de favor do Senhor Governador, ou cousas necesarias pera o corpo, escrevereis ao Padre Amtonio Gomez huma carta parti- cularmente a elle, porque elle vos proverá de todo o ne- cesario pola nao que for a Maluco. Todas as cartas man- dareis dirigidas ao Padre Francisco Perez, porque elle as mandará daqui pera Portugal e pera a índia por hum regimento que lhe tenho dado. E a mim me escrevereis a Japão largamente; e se não teverdes tempo pera o (i) Toli-Toli, nas Celebes. 6 O 8
  • fazer, a carta que escreveis aos Irmãos da India, em que lhes dais conta de todo o fruito que la fazeis, mandareis aberta ao Padre Francisco Perez pera que elle a trelade e me mande o trelado dela a Japão. De todos os Irmãos me escrevereis novas muito par- ticularmente ; e se alguum deles fezer o que não deve, pola provisão do Senhor Bispo, que vos mandei o anno pasado, o despidireis da Companhia e obrigareis em virtude de obidiencia, sô pena d'escommunhão, que pareça diante do Senhor Bispo. Isto se entenderá fazendo elle cousa (8o) por omde mereça ser despedido da Companhia. E se alguém for desobidiente, que for contra obidiencia e não vos quiser obedecer, a este tal despidireis da Com- panhia: e asi lhes manifestareis minha vontade a todos; porque se o contrario fezerem, tenhão pera si que não am de ser de nosa Companhia. Deus Noso Senhor nos ajunte em sua santa gloria, pois em esta vida amdamos tam espalhados, que não vejo caminho como nos vejamos. De Malaca oje XX de Junho de 1549. Se vós não poderdes escrever pera o Padre Mestre Inácio e Mestre Simão da maneira que tenho dito, e asi pera os Irmãos da Companhia, mandai huma minuta a Afomso do fruito que lá fazeis, e dos trabalhos que levaes, e da disposição da te(rr)a, porque Afomso escreverá as cartas estando em Tarnate: e das cousas necesarias, asi vestido como calçado, como favor do Governador; por- que Afomso escreverá todas estas cartas, pois escreve boa letra, e sabe o istilo da maneira como se ão de fazer. Todos os outros Irmãos receberão esta por sua, dos quaes me escrevereis muito particularmente novas de como estão, e do fruito que fazem, e de como se aproveitarão. Quá nos diserão em a Imdia que vos matarão no Moro; não ho tivemos por nova certa. Prazerá a Deus que vi- vereis muitos annos pera seu santo serviço. Se Deus de 6 o ç insulíndia, i — 39
  • vos fez em alguma cousa, mando que todos obedeção ao Padre Afomso, asi os que la estão como os que com elle vão. O Padre Ribeiro e Nicolau, se João da Beira for morto, obedecerão ao Padre Afomso; e a mesma obidien- cia terão ao Padre Afomso Manoel de Moraes e Francisco Gonçalves: e asi lhes mando em virtude de obediência, sendo João da Beira morto, que obedeção a Afomso de Castro; e sendo João da Beira vivo, obedeceram todos ao dito Joam da Beira. (8o v.) Se o Padre João da Beira for mort(o) abriraa esta carta o Padre Afomso e le-la-á diante de todos. (Manu Xaverii): Francisco Inscriptio manu scribae: Aos meus caríssimos em Christo Yrmãos, o Padre João da Beira e o Pad(r)e Ri- beiro e Nicolao em Maluco. Do Padre Mestre Francisco. 6 i o
  • 85 TRECHO DE UMA CARTA DE FRANCISCO XAVIER AOS PADRES DE GOA, PAULO, A. GOMES E B. GAGO Malaca, 20-22 de Julho de 1549 Epistola S. Francisci Xaverii: II-123-135. a) Mercê que esperava de El-Rei para D. Isabel, mãe do rei de Terna te. b) Idem, para Baltasar Veloso. As cartas que vierem de Portugal, primeira via, d'El-rey abri-lla (s) heis, e depois de lidas mas man- dareis. E se nellas fallar da raynha Bonna Izabel (1), mãy que foi d'el-rey de Maluco, sobre certo despacho que escrevi a Su Alteza sobre esta mãy d'el-rey de Ma- luco, a qual foi christãa o tempo que estive em Maluco, e se algum despacho vier d'El-rey para esta raynha D. Izabel, manda-llo heis a muito bom recado aos Irmãos que estão em Maluco, em Abril, na nao que for para Maluco. E se em minha carta não fallar nenhuma couza (1) Segunda mulher do rei Baiang Ullah (Cachil Bolief, segundo Barros), e filha do rei de Tidor, chamado Almansor, e que, em gen- tia, teria envenenado o marido e Francisco Serrão. O nome de Baiang Ullah também é grafado com as variantes de Bayan Sirrulah e Baião Cerola. 6ll
  • desta raynha D. Izabel, faltareis ao Senhor Governador, pedindo-lhe muito por mercê que olhe se El-Rey lhe manda algum despacho ou cartas a esta raynha D. Iza- bel, em que lhe faz mercê de alguma comedia para seu sustentamento, e nisto tereis muy especial cuidado vós c Antonio Gomes. Se na carta que El-Rey me escreve fallar de hum homem que está em Maluco por nome Balthezar Velozo, cunhado d'el-rey de Maluco, cazado com huma irmã sua, homem muito amigo de nossa Companhia, e que muito ajuda aos Padres que lá andão a fazer christãos, e se lhe manda certas couzas que por mercê lhe mandei pedir a Su Alteza para o dito Balthezar Velozo, se algum des- pacho vier, manda-llo heis com as cartas que escreverdes aos Irmãos de Maluco. E se não vier o tal despacho, fallareis ao Senhor Governador pedindo-lhe muito por mercê que olhe Sua Senhoria nas cartas que El-Rey lhe manda, se vem algum despacho para hum homem de Maluco, chamado por nome Balthezar Velozo; e se alguma mercê El-Rey lhe manda, recebe-lla heis do Senhor Go- vernador para mandar a Maluco com as cartas que aos Irmãos mandardes. E assim escrevereis a Balthezar Ve- lozo, dndo-lhe muitas graças de quão amigo he da Com- panhia. Isto fareis com muita diligencia.
  • 86 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE BALTASAR GAGO AOS IRMÃOS DE COIMBRA Goa, entre 14 e 20 de Outubro de 1549 Documenta indica: I-551-570. Documentação... (India), 4.0 Vol., págs. 325-555. En su compania tanbien llevó (1) al Padre Manuel de Morales y al Padre Alfonso de Castro, que aquy se ordenron de missa en febrero de 1549, para quedaren en Maluco, con los Hermanos Joan Fernández, que nos era espejo y creo será por donde fuere, y Francisco Gon- çálvez: por este sospiró Antonio Gómez, porque apro- vechó aquá en grande manera y dexó mucho edeficado este collegio de fervores que lleva, por seren naquella tierra necessários. Los recados desta tierra se reciben muy tarde. Te- nemos por nuevas que el Padre Joam da Beira que nesta tierra estava, le mataron, sy ansy fuere, y como tenéis recado por las naves que partirán para Enero de 1550, porque esta va en un galeón que parte a 30 deste Octobre de 1549, porque hasta antonces esperamos que vendrá recado de Maluco y Malaca, que están cerca uno de otro, y ansy de la partida de maestro Francisco de Malaca para (1) O Padre-Mestre Francisco, quando foi para o Japão. 613
  • Japón; porque se no haze viagen por estas partes a todo tiempo, porque esperan las monções, y por esta causa no puede venir a nos recado de lo que el Senor obra en Japón menos de un anno: para las naves que con aiuda de Jesú Christo aribaren a esse reyno nel de 1550 teréis, charíssimos, recado certo do que nesta terra de Japón passa. 6/4
  • 87 CARTA DO PADRE ANTÓNIO GOMES REITOR DO COLÉGIO DE GOA AO PADRE INÁCIO DE LOYOLA Goa, 25 de Outubro de 1549 Documenta Indica, I-318-323. Documentação... (índia), 4..0 Vol., págs. 336-33Ç. Oito Yrmãos staam nas ylhas de Ambueno em Ma- luquo e (n)o Moro (1). Estam daqui 1.200 legoas. Há muita gente feita christã e faz-se muito fructo, e daqui os ey de prover cada anno do necesario, por ser terra muy esteril e desemparada; porque, ainda que todos elles estem mui adiante no spiritu e abnegaçam, hé-lhe tudo necesario, por ser a pior terra que há -cá. Em Malaqua estam tres Yrmãos, hum delles prega e faz muito fructo nos portugeses, porque hé cidade grande e de muito trato; hé mui devota da Companhia polo muito fructo que se tem aly feito. Hé terra boa e farta, nam entendem os Yrmãos senam com chrsitãos, porque nam há gentilidade ay perto. (1) Nem todos os religiosos inicialmente designados foram envia- dos às Molucas. Assim não eram oito os religiosos colocados naquelas cristandades mas seis: Padres João da Beira, Nunes Ribeiro, Afonso de Castro, Manuel de Morais e os Irmãos Nicolau Nunes e Francisco Gonçalves. 615
  • ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO
  • ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO Observação — As páginas indicam-se, simplesmente, por números; e as notas, por números entre parêntese. Na trans- crição dos nomes indígenas, principalmente geográficos, pouco importantes e menos conhecidos, seguimos a grafia portuguesa dos textos. A Abedula, rajá do reino de Campar — 101. Abocanora (Ilha de), nas Molucas — 318, 322. Abreu (António de), desco- bridor das Molucas — 34, 35, 40, 176. Abreu (Pero Gomes de), pai de Simão de Abreu, alcaide- -mor da fortaleza de Ter- nate — 139. Abreu (Rui de), pai de Se- bastião de Sousa, capitão de navio — 188. Abreu (Simão de), alcaide- -mor da fortaleza de Ter- nate, filho de Pêro Gomes de Abreu — 133, 139. Abreu (Vasco Gomes de), nomeado para capitão de Angediva — 8. Achem ou Dachem, reino ao norte de Sumatra — 104, 284, 287, 288, 314, 342, 347- 358, 367. 383. 384- Adem, cidade — 4, 5. Afonso (Luís), moço de câ- mara — 95. Afonso (Luys), castelhano, capitão de uma nau, morto na ilha de Cebu — 145. Afonso (Symão), capitão da Caravela Latina, na pri- meira viagem às Molucas — 35- Africa — 561. Agacim e Agaçy, porto de mar, ao sul de Java —102, 103, 105. Albergaria (Lopo Soares de), governador da índia, su- cessor de Afonso de Albu- querque — 112, 113.
  • Albuquerque (Afonso de) — 3, 4, 5, 6, 11, 16 (1), 20, 34- 36, 37. 39- 4i. 52 (6), 66' 75- 93- 94- 99. 100, 175, 181, 188. Albuquerque (Jorge de), ca- pitão de Malaca — 75, 84, 101, 126, 127, 128, 131, 137. 152, 154. 177. 181, 191. 383. 514. 575 (4)- Albuquerque (Pero de), ca- pitão da fortaleza de Or- muz — 94. Alcaçova (Fernão de), resi- dente em Malaca — 93, 95. Aljubarrota — 484. Almançor, rei de Tidor — 263. Almeida (António de), en- viado a Mindanau pelo ca- pitão Jorge de Castro, e morto, depois, no Moro — 389, 390, 394, 400. Almeida (Fernão de), escri- vão — 5. Almeida (D. Francisco de) — 3. 4- Almeida (Lopo de), feitor — 334- Almeirim — 488. Alpoim (Pêro de), ouvidor e capitão que tomou parte na conquista de Malaca, em a nau Santa Catarina — 34, 35- Alvarado (Frei Afonso de), frade da O. S. A. — 424 (3)- Alvarado (Matias), castelha- no nas Molucas — 434. Alvarado (Pêro de), explora- dor castelhano, enviado às Molucas — 425, 426, 427, 434' 453. 454- 455- Alvarenga (Luis de), vedor da fazenda — 100, 105. Alvarez (Fernão de), feitor — 330. Alvarez (Gonçalo), piloto- -mor — 128. Alvarez (João), prisioneiro em Malaca — 31. Alvarez (Jorge), homem de armas, que sabia a língua de Malaca — 113. Alvim (Francisco Lopes de), capitão-mor — 48. Alvim (João Lojes de), ca- pitão de nau — 35, 181. Amalo, castelhano nas Molu- cas — 152. Amar, lugar na ilha de Ban- da — 339. Ambão (Cabo de), nas Mo- lucas — 36. Âmbar (Cabo dos Baxos de), — 141. Amboino, ilha nas Molucas — 79, 122, 172, 257, 357, 388, 419, 421, 442, 453, 458, 470, 478, 490, 492, 493- 497- 498. 500. 502, 503, 506, 507, 509, 523, (1). 531. 534- 535. 541. 564, 581, 592, 515. Ambozi (?), ilha — 113. Anas (Pate), régulo comar- cão de Malaca — 84. Andala, mouro de Malaca — 27. Andargião, reino na Penín- sula de Malaca — 364. 620
  • Andela, rei de Campar — 67. Andrade (Fernão Perez de), capitão — 35. Andrade (Luís), alcaide-mor — 228, 229, 313. Andrade (Simão de), capitão da nau Joia — 35. Andraguirim, reino confim de Menancabo, em Sumatra — 44- 47- Andregy (Reino de), na ilha de Java (?) — 101. Anes (Cosme), vedor da fa- zenda na índia — 451. Anes (Gomes), escrivão — 180. Anes (Jorge), piloto — 31. Anes (Pêro), marinheiro — 31. 290. Angediva, ilha perto de Goa — 8. Anjiro ou Angero, japonês convertido por S. Francisco Xavier — 534, 544, 545, 546- Antilhas, 138. Apansoro (Baptista), piloto espanhol — 197, 201. Arábia — 561. Arão (Cristóvão de), caste- lhano — 141. Araújo (Rui de), prisioneiro em Malaca — 20. Arquipélago (das Doze Mil Ilhas) — 14. Arruda (João de), marinheiro — ». Artiaga (João de), pessoa indesejável — 448. Aru (Reino de), chegado a Malaca — 101. Ataíde (Francisco de), fidal- go, 287, 288, 314. Ataíde (Jorge de), irmão de Tristão de Ataíde — 330, 358- Ataíde (Tristão de), alcaide — 219, 221, 222 284, 331, 342, 369, 370, 371, 372, 515, 516, 571, 572. Atalaia (Francisco de), ma- rinheiro — 31. Atou guy a (Ruy de), soldado português — 185. Avila (Pedro Ayres de), governador de Panamá — 217, 310. Azevedo (António de), fi- dalgo cavaleiro — 395, 514. Azevedo (António de Miranda de), capitão de nau — 1x2, 189. Azevedo (Francisco de), ca- pitão da carreira das Mo- lucas — 426, 429, 556. Azevedo (Gaspar de), portu- guês que servia nas Molucas — 395- Azevedo (Gonçalves Gomes), capitão de navio — 203, 206, 207, 208, 210, 224, 276. Azevedo (Lopo de), capitão de caravela — 35. B Baçaim — 525, 583. Bachão e Baixão, ilha das Molucas — 169, 179, 281, 318, 322. Baier (Jorge), clérigo — 226. Baiez (Jorge), soldado por- tuguês — 227. 6 2 I
  • Bajão (Raja) — 122, 123. Balão, navio — 287. Barnia, ilha das Molucas — 36, 41, 54, 61, 71, 73, 76, 79, 80, 103, 105, 106, 128, 130, 131, 133, 134, 138, 148, 149, 152, 155, 159, 162, 176, 177, 178, 179, 194, 199, 200, 216, 222, 223, 241, 244, 257, 286, 289, 290, 300, 316, 324, 332, 339- 343. 344- 353. 357. 369. 388, 391, 458. Baptismo do rei das Molucas D. Manuel — 373, 375, 376, 379, 431, 469. Barbora, porto de África — 4- 5- Barbosa (Duarte), cunhado de Fernão de Magalhães — 144. 145- Barbudo (António), ouvidor — 532, 533. 559- 567- Barbudo (Cide), cavaleiro e capitão-mor de armada — 5, 102. Barnas, lugar em Malaca — 52; Barriga (Pero), feitor — 205, 206, 207, 210. Barros (João de) — 3, 32, 85, 119. Baruaz, lugar na Península de Malaca — 60. Bastião, prisioneiro em Ma- laca — 31. Batista e Bautista (João), mestre de nau — 139. Beira (PS João da), missio- nário das Molucas — 470, 502, 504, 524, 534, 541, 58o, 597. 598. 599- 6o°. 602, 606, 610, 613, 615. Bengala — 23, 49, 55, 70, 76, 105, 179 (4), 165, 182, 206, 229, 230. Bernão, terra de Malaca — 107. Bezerra, castelhano nas Mo- lucas — 102. Bimba, reino de Java — 103. Bintão, ilha e reino ao sul da Península de Malaca — 61, 73, 79, 82, 83, 90, 101, 104, 110, 184, 185, 190, 191. Bisnaga, Bisnagar e Bisnegar, cidade no Indostão — 575 (4). Blagden (C. O.), orientalista inglês — 121, 126. Bocarro (Francisco), feitor — 360. Boleife, rei de Ternate — 85, 119. Bomim (Catara), governador indígena — 225, 256, 280. Boom-Quilim, na costa da ín- dia — 100, 105, 106. Borges (Diogo), feitor — 36, 54- 71- Bornéu — 41, 46, 68, 76, 82, 104, 128, 137, 138, 145, 146, 148, 152, 153, 181, 182, 183, 184, 228, 281, 289, 290, 291, 315, 316, 350, 454- 558- Botelho (Belchior), feitor — 351- Botelho (Diogo), senhor de uma nau — 354. 622
  • Botelho (Jorge), capitão — 35- 76, 78. 82. Botelho (Pero), capitão de navio — 172. Botelho (Simão), homem de bem e amigo de Francisco Xavier, vedor da fazenda — 471, 516, 551. Botim (Luís), piloto — 36. Braga (Luís de), moço da câ- mara — 360. Brandão (Diogo), cavaleiro da casa de El-Rei — 175, 180. Brandão (Francisco), filho de João Brandão, cavaleiro — 360. Brandão (João), pai de Fran- cisco Brandão — 360. Bretão, nau — 34, 35, 71, 80. Brito (Álvaro de), capitão- -mor — 514. Brito (António de), capitão das Molucas — 128, 130, 132, 158, 159, 162, 163, 166, 167, 168, 169, 170, 172, 179, 181, 184, 189, 192, 196, 199, 223, 225, 313. 326. Brito (Francisco de), fidalgo nas Molucas — 395. Brito (Jorge de), capitão de Malaca — 88, 93, 99, 108, 112, 114, 159, 162, 172, 177, 178, 179. Brito (Jorge cie), moço fi- dalgo que servia nas Mo- lucas—330, 358, 359. Brito (Lourenço de), capitão — 8. Brito (Manuel de), pai de Jorge de Brito — 359. Brito (Simão de), português que se passou para os caste- lhanos nas Molucas — 276. Burgos — 140. Burite, lugar da ilha de Ban- da — 339- Buruez, terras de Malaca — 107. C Çabaia, nau — 34, 35, 105. Cabo Comorim — 450, 462, 470, 471, 491, 494, 502, 503, 504, 506, 525, 583, 598. Cabo Guardafui — 4. Cabo Rachado, em Malaca — 366. Cabos (Francisco de los), cas- telhano — 217. Cachilato, principal das ilhas Molucas, enviado a Malaca — 119 Ci). Caeiro (Lisvarte), mercador — 219. Caia e Caya, ilha nas Mo- lucas — 292. Calangor, terras de Malaca — 60, 107. Calecut — 21, 107, 108, 182. Çamafo, porto nas Molucas, 262, 279. Cambaia — 5, 40, 46, 50, 51, 71, 76, 89, 100, 106, 156, 165, 182, 183, 215, 286, 308, 338. 340. 373 . 5T9- Caminho (João), capitão (?) — 113. 625
  • Campar, reino de — 39, 40, 45, 67, 68, 77, 79, 101, 109. Campos (João de), feitor — 152. Cananor, cidade na Costa do Malabar —2x5, 308, 354. Canárias — 141. Canguiçar, onde se fez a nau S. João —35. Canha (João de), cavaleiro honrado — 296, 330. Caravela Latina — 35. Caravelinha Redonda — 35. Carlos V, Imperador — 197, 212, 226, 253, 434. Carmonita — 397. Carquicena (Martin Ynhegues de), capitão espanhol — 226, 247, 262, 264, 266, 270, 514- Cartagena (João de), espa- nhol, capitão de nau, na armada de Fernão de Ma- galhães — 142. Carvalho (João), piloto por- tuguês na armada de Fer- não de Magalhães — 142, 145, 146. Casal (Baltasar do), merca- dor — 219, 220. Casamentos — 443, 5x7, 521. Cassão, lugar de Malaca—63. Castanheda (Fernão Lopes de) — 35- Castela — 5, 6, 7, 104, 125, 126, 128, 138, 139, 140, 141, 142, 144, 147, 157, 159, 161, 162, 169, 172, 173, 197, 213, 274, 300, 312, 454, 511. Castelhanos, nas Molucas — 124, 160, 183, 197, 202, 212, 223, 226, 242, 246, 258, 262, 293, 388, 402, 405, 420, 439, 454, 479, 510, 514- Castro (P.e Afonso de), mis- sionário jesuíta das Molucas — 607, 609, 610, 6x3, 615. Castro (Fernão de), capitão nomeado para a fortaleza de Ternate e que morreu na viagem, em Malaca — 385. 386, 396. 464- Castro (Gil de), capitão no- meado para a fortaleza de Ternate — 386, 396, 464. Castro (João de), vice-rei da índia —462, 526, 527, 529, 530. 531. 550. 552- 553. 566, 583- Castro (Jorge de), em serviço nas Molucas e depois capi- tão de Ternate — 277, 278, 279. 385. 4°°. 402, 4r9. 473- 474' 484. 485. 516, 517. 529. 559- 56o. Castro (Rui de), mercador nas Molucas — 396. Catarina, rainha de Ternate — 519- Caul — 149, 150, 338. Cayoa, ilha — 318. Cebu e Çubu, ilha de — 144, 215. 309- Cedão, na costa da Java — 102. Ceilão — 4, 13, 14, 378, 489, 491. Celangar, lugar em Malaca — 52. 624
  • Celebes, ilhas — 315, 320, 326, 608. Çeral (Álvaro de Sayavedra), castelhano, capitão-mor — 275- Cerangue (Pate), principal nas Molucas — 421, 423, 431, 440, 443, 558, 560, 564- Cemiche (Aníbal), capitão em Banda — 241. Cemiche (Jerónimo), capitão de uma nau — 34. Certão (Fernão de), criado de El-Rei — 395. Cervia (João de), cavaleiro — 360. Chainho (Garcia), feitor — 81, 155, 172, 189, 193. Chaves (Estêvão de), mora- dor em Ternate — 426. China — 48, 49, 57, 68, 69, 70, 71, 81, 82, 84, 91, 99, 104, 105, 106, 182, 191, 196, 454, 498, 500, 501, 549- Chonysa, local em Terna- te (?) —474. Chulata e Cheilala, chinês em Malaca — 48, 49, 69. Cia, em Espanha — 227. Ciaca (Reino de) — 101. Ciae, reino na Península de Malaca — 45, 67. Clérigos, nas Molucas — 81, 240, 317, 435. Cochim — 34, 36, 37, 84, 93, 119, 140, 151, 182, 184, 200, 204, 210, 215, 225, 261, 283, 286, 308, 323, 332, 334- 335- 336. 354- INSI LÍVDIA, I — 40 381, 418, 564, 474, 510, 512, 525, 527, 528, 531, 533- 549- 583. 587. 595- 597, 600. Cochinchina — 76, 82, 184. Coelho (Álvaro Diogo), ca- pitão do navio S. Cristó- vão — 113, 177. Coelho (Duarte), homem honrado — 99, 184, 185, 209. Coelho (Padre Francisco) — 447- Coelho (Rui), criado de El- -Rei — 360. Coimbra — 598, 613. Coimbra (João de), mari- nheiro — 31. Colão e Coulão — 8, 596. Colaxaquar (Tuar), principal em Malaca — 55, 64, 73, 109. Colégio de S. Paulo ou da St." Fé, em Goa — 418, 452, 462, 471, 579, 602, 603, 607: 615. Colégio, em Ternate — 604. Comércio da pimenta — 332. Comércio do cravo — 29, 165, 196. 303. 323. 332. 351. 479- Companhia de Jesus — 416, 418, 496, 504, 534, 543, 545. 546. 547. 548. 583. 595, 604, 608, 609, 612, 615. Conceição, caravela — 63. Conceição, nau espanhola — 143, 144, 145. Corço (Antão), piloto escocês — 406, 426. 6 2 5
  • Córdova — 295. Coresma (Pero de), capitão de nau — 34. Corotnande — 1, 51, 70, 569. Correia (Belchior Fernandes), criado de Jorge de Castro — 389, 390. Correia (Gaspar)—32. Correia (Gonçalo), capitão — 179. Correia (Jorge), escrivão — 131, 156, 161. Correia (Simão), moço da câ- mara —169. C or tez ( Fernando ), capitão- -geral da Nova Espanha — 212, 213, 275, 301, 304, 306, 307, 311, 312. Corunha — 262. Costa (Afonso Lopes da), ca- pitão de Malaca — 88, 112. Costa (Brás da), capitão de lancha — 78. Costa (Graviel da), escrivão da feitoria de Terna te — 24. Cota (Alonso de), castelhano nas Molucas — 152. Coutinho (António), testemu- nha — 560. Coutinho (Gonçalo), capitão de Goa — 373. Coutinho (Vasco Fernandez), capitão de nau — 35. Couto (Belchior do), criado da Rainha — 360. Covos (Francisco de los), es- crivão — 311. Criminal (P.c António), je- suíta na Índia — 470, 502, 504, 524, 598. 626 Crisma (sacramento) — 378. Cristãos em Amboino — 458, 492. 503- Cristãos em Macáçar — 446, 450, 461, 465, 489. Cruz (João da), português na Costa da Pescaria — 446. Cuama — 340. Culto, alfaias — 81, 179, 207. Culto, despesas — 467, 488. Çunadeu, mercador em Ma- laca — 48. Cunha (Diogo da), fidalgo — 360. Cunha (João da), capitão de navio nas Molucas — 346. Cunha (Nuno da), governa- dor da Índia — 238, 256, 260, 285, 352, 370, 373, 379- Cunha (Tristão da), capitão- -geral da armada — 3, 4, 10, 116, 135, 139. Cutão (Jerónimo Pires), ca- valeiro da Ordem de Cristo — 396, 404, 408. Cutão (Jorge), doutor — 408. Cutia-Deva, mercador de Ma- laca — 169. D Dachem (Reino de)—40. Dalgado (Rodolfo)—25 (3), 148, 205, 272, 446. Dayalo, rei das Molucas — 288, 289. Dayamonte (Francisco), cas- telhano nas Molucas —152.
  • Danem, lugar nas costas das Antilhas — 138, 139. De ma (Reino de) — 55, 102. Dias (P.' Baltasar), jesuíta na índia — 580, 581. Dias (João), prisioneiro em Malaca — 31. Diego (Ariz ou Aires), caste- lhano nas Molucas — 152. Diniz (António), escrivão — 77- Diniz (Diogo), capitão — 78. Dio — 96, 107, 154, 193, 335, 378, 462, 514. Diogo (Padre Mestre), serve no colégio de S. Paulo em Goa —449, 452, 505. Dislares (Martim), castelhano nas Molucas — 427. Doutrina cristã — 415, 540, 541. 543- E Eiró (João de), mercador amigo de S. Francisco Xa- vier — 460, 461, 493. Elvas (Diogo de), marinheiro — 3i- Erago, ilha nas Molucas — 264. Espanha — 175, 274, 275, 389, 586. Espinosa (Gonçalo Gomes), capitão — 139, 146, 152. Esteves (Bernardim) — 555. Etiópia — 561, 586. Europa — 460, 490. Évora — 467. F Fabro (Padre), jesuíta na Europa — 547. Falcão (Manuel), capitão de caravela — 104, 178. Faleiro (Rui), castelhano — 142. Faria (.■■), capitão—82. Faria (Álvaro de), comenda- dor — 35. Faria (Pero de), capitão de nau, filho do comendador Álvaro de Faria — 35, 108, 372. 383- Feringe, Frangi e Franqui, nome por que eram conhe- cidos os portugueses no Oriente —122. Fernandes (Alvaro), língua em Malaca — 126. Fernandes (Alvaro), portu- guês, amigo de Francisco Xavier — 448. Fernandes JBelchior) —400. Fernandes (Diniz), capitão -34- 35. 181. Fernandes (Duarte), gibeteiro — 3i- Fernandes (Francisco), por- tuguês nas Molucas — 282. Fernandes (Gaspar), feitor — 154- I73- Fernandes (Henrique), mo- rador nas Molucas — 440. Fernandes (João), Ir. Jesuí- ta — 613. Fernandes (João), marinhei- ro — 31. Fernandes (Pêro), compa- 627
  • nheiro de Francisco Serrão — 176, 178, 251. Fiéis de Deus, nau — 228. Figueira (Afonso), moço de câmara —330, 395. Figueiredo (António de), mo- ço da câmara — 395. Figueiredo (Henrique de), ca- pitão — 129. Filipinas — 427, 428. Fonseca (António da), escri- vão — 36. Fonseca (Diogo da), feitor — 8. Fonseca (Vasco da), pai de Vicente da Fonseca — 243. Fonseca (Vicente da), capi- tão de Ternate — 228, 243, 245, 246, 250, 281, 290, 292, 3x2, 313, 316, 327. Fortaleça em Ceilão —13, 14. Fortaleça em Çocotorá — 4. Fortaleça em Geilolo — 438. Fortaleça em Malaca — 7, 8, 10, 11, 62, 74. Fortaleça em Quiloa — 19. Fortaleça em Sofala — 19. Fortaleça em Ternate — 136, 156, 194, 302, 330, 434. Francisco, marinheiro — 31. Freire (João), capitão — 35. Freire (Nuno), capitão de lancha — 78, 102. Freitas (António de), filho de Jordão de Freitas — 531, 532, 533- 558. 559- 56o. Freitas (Diogo de), irmão de Jordão de Freitas — 426, 443- 531. 556. 562. Freitas (Gonçalo de), filho de Jordão de Freitas — 526, 531. 566. Freitas (Jordão de), capitão de Ternate — 290, 373, 409, 411, 419, 421, 432, 434, 436, 441, 442, 444, 456, 473. 477. 482, 488, 503, 513. 517. 5i8, 519. 520, 525, 526, 527, 528, 533, 550, 568, 572, 573. Froi (Pascoal), doutor — 551. Frol-de-la-Mar, nau — 9, 100. G Gaboto (Sebastião), capitão espanhol da armada — 213, 214, 304, 307, 308. Gago (Diogo), morto por Si- mão de Brito — 277. Gago (Estêvão), corregedor 163, 172. Gago (Padre Baltasar), je- suíta na índia — 611, 613. Gago (Rui), feitor —131, 133. 159. 174- Galé Grande — 36. Galé Nova — 52, 63. Galé Pequena — 35. Galvão (António), capitão de Ternate — 221, 342,^ 350, 352, 353- 355- 356^ 37G 382, 516, 572. Galvão (João)—508. Gama (Estêvão da), gover- nador de Goa — 344, 331, 357- 360, 367. 380. Gamtana, reino na Península de Malaca — 364. 628
  • Geilolo, ilha das Molucas — 112, 113, 122, 160, 170, 243, 244, 246, 249, 250, 251, 252, 253, 257, 263, 264, 268, 273, 274, 279, 280, 281, 282, 284, 293, 294, 295, 296, 297, 298, 299, 3ii, 314, 315, 316, 318, 322, 329, 342, 343, 346. 347- 348. 349. 391. 392, 401, 405, 406, 407, 425. 432, 438, 439, 454, 481, 482, 483, 485, 508, 515, 517, 518, 563. Geles (Domingo), capitão de nau — 177. Gil (Bras), morador em Ter- nate — 487. Ginta, povoação de Maquiam, nas Molucas — 273. Goa — 34, 35, 88, 95, 206, 224, 258, 284, 324, 335, 336. 373. 376. 403. 4i8. 445, 460, 463, 465, 466, 468, 469, 470, 471, 504, 506, 514, 524, 525, 552, 562, 567, 568, 569, 571, 575 (4). 578, 580, 583, 597- 598. 602, 603, 606, 611, 615. Gobi (Mina), guzarate — 50. Godinho (Lourenço), capitão dum galeão — 136, 172. Góis (Damião de) —32. Golfão das Ilhas — 68. Golfão de Benguela — 14. Gomes (Estêvão), piloto por- tuguês de Fernão de Maga- lhães — 143. Gomes (Gonçalo), marinheiro de F. de Magalhães — 145. Gomes (Padre António), rei- tor do Colégio de S. Paulo em Goa — 595, 608, 611, 612, 613, 615. Gomes (Vasco), capitão de Coulão — 8, 9. Gonçalves (Ir. Francisco), je- suíta — 607, 610, 613, 615. Gonçalves (Martins), capitão — 113. Gonçalves (Rui), vedor da fazenda — 525. Gourão (Ilha de) — 134. Gramuz, vid. Ormuz. Granada — 306, 311. Grécia — 501, 586. Gualarym (?) — 221. Guatemala — 435, 510. Guedes (Gil) (?), capitão — 78. Guedes (Martins), capitão do navio Santa Madre — 68, 71. 79- Guimarãis (Gaspar de), ma- rinheiro —. 31. Guiné — 555, 561. Gully-Gully, ilha — 176. H Haus, mestre — 152. Hay at (Abu), rei de Ternate — 121, 123, 124, I25t 126. Henrique ou Anriquez (Afon- so), pai de D. Garcia Hen- rique — 163. Henrique (Alonso), fidalgo — 464. Henrique (D. Garcia), capi- tão —129, 137, 138, 152, 6 2 ç
  • 153. 155. 163, 164, 184. 186, 187, 199, 247, 251, 252, 265, 269, 270, 271, 272, 273, 313, 326, 327, 336. 350. 514. 515. 516, 521. 524- Henrique (Infante D.) — 448. Henriques (Padre Henrique), jesuíta na India — 524. Hire, ilha nas Molucas—336. I Ilha das Especiarias — 279. Ilha do Poente — 454. Ilha dos Galeões — 183. Ilhas do Cravo — vid. Molu- cas. Ilhas das massas e noz — 36. Índia — 5, 6, II, 12, 19, 21, 39, 40, 67, 73, 76, 81, 90, 91, 96, 100, 106, 110, 112, 113, 114, 115, 118, 151, 154, 156, 162, 172, 180, 188, 189, 190, 195, 199, 200, 215, 225, 241, 242, 248, 256, 258, 270, 284, 286, 287, 293, 301, 302, 303. 3". 314' 3i8, 319- 320, 323, 324, 327, 331, 333- 336. 340. 341. 345- 347- 351. 353. 357- 372. 384. 385. 387. 388, 392. 394- 396. 398. 407. 4I0> 413, 416, 419, 420, 421, 424, 425, 435, 436, 437, 439, 440, 442, 443, 446 (2), 462, 463, 464, 467, 470, 473, 478, 480, 488, 491. 495. 501. 502, 506. 507, 508, 511, 523. 525, 529. 531. 532. 533. 534. 535. 536. 541. 542. 544. 545. 546. 549. 555. 556. 557. 558. 561. 563. 565. 566, 567, 569, 574, 575 (4). 577. 58o, 583. 595. 603, 606, 609. Inquisição — 448, 507, 508. Insulíndia — 16, 41, 88. Isabel (D.), rainha de Ter- nate — 586. Ismael (Xeque)—40. Itália — 586. Jafanapatão — 449. Japão — 498, 502, 534, 544, 545- 546. 548. 569. 602 (1), 606, 607, 608, 609, 613 (1), 614. Java — 22, 23, 28, 30, 40, 47. 48. 53- 54- 55- 61, 69, 7i. 73. 76. 101, 103, 105, 116, 155, 166, 173, 218, 222, 289, 313, 337, 479. Joanes (?) —107. João (D.), rei de Geilolo — 342. 347. 348. 571. 574- João III (D.), rei de Por- tugal — 32, 124, 181, 342, 370. 376. 382, 401, 436, 453. 473. 475. 488, 507. 510, 550. 571- Jóia, nau — 35. Jorge (...) (?), escrivão — 81. Judeia — 586. 630
  • L Lanciloto (Padre Nicolau), je- suíta na India — 471, 597. Lancois (Jorge de), capitão de navio —177. Leal (Diogo), criado de El- -Rei — 300. Lebeucem, mouro de Malaca — 113, 114. Leitatão, lugar de Banda — 338- Leite (Baltasar), cavaleiro — 360. Lemos (Diogo de), capitão — 185. Lemos (Fernão de), conta- dor — 283. Lemos (Henrique), soldado — 185. Lequeos, ilhas ao Sul do Ja- pão — 76, 104, 406. Liçano (Padre João de), je- suíta na índia — 446, 447, 503. Lima (Diogo de), pai de Francisco de Lima — 360. Lima (Francisco de), filho de Diogo de Lima — 360. Lima (João de), capitão — 34. 35- Lima (Leonel de), capitão de navio —218, 222, 316, 353, 386, 508, 560. Limoeiro — 376. Linga (Arquipélago de)—77, 78. Linguística — 24, 450, 499. Lisboa — 376, 526. Livro dos Registos — 131. Loaysa (Frei Garcia de), co- mendador da Ordem de S. João — 213, 214, 262, 307, 308, 312. Lobato (Manuel), escrivão da feitoria de Cochim — 204, 210. Lobo (Tomé), português em Goa — 569. Lobo (Yames), capitão espa- nhol — 391, 393- 394- 395- Lobos (Rui Lopes de Villa), capitão - mor espanhol — 381, 39°> 391' 392> 394' 400 (4), 405, 409, 411, 419, 425, 434, 453. 454. 456, 490, 506 (2), 507, 510. 512, 555. 556' 557- 558. Londres — 121. Lontor, lugar na ilha de Ban- da — 338. Lopes, capitão-mor — 68. Lopes (Afonso), capitão de navio — 92. Lopes (António), testemunha no Testamento feito por D. Manuel, rei de Ternate -533- Lopes (Bastião), escrivão — 95. 96- Lopes (Diogo), português que esteve em Maluco com Fran- cisco Serrão —156 (13)* Lopes (Pêro), marinheiro — 31- Lordelo (Henrique Fernan- des), filho de Domingos de Freitas — 432. 6 3 I
  • Loyola (Inácio de), 549, 579, 597, 606, 608, 609, 615. Lucepinho, ilha perto de Ban- da —176. Luís (Castro), funcionário em Cochim — 210, 211. Luís (D.), rei de Geilolo — 342. 343. 348- Lurosa (Pêro de), castelhano — 128, 133, 141, 148. M Maa (Reino de) —56. Macáçar — 315, 320, 325, 450, 451, 460, 462, 463, 470, 478, 488, 489, 490, 491, 492, 589, 591, 592, 593, 603, 608. Maçava (Ilha de) — 144. Machado (Gaspar)—feitor, 77- Madura, ilha perto de Java — 64, 103. Mafra (Genes), castelhano — I52. _ Magalhães (Fernão de)—116, 117, 128, 132, 139, 141, 142, 143, 144, 145, 148, 152, 157. 160, 180, 182, 192, 213, 215, 216, 225, 304, 306, 309, 310. Mahamat, rei de Pedir — 382, 384- Maior (Pedro de Monte), cas- telhano nas Molucas — 248, 251. 255, 261, 283. Maitara, ilha das Molucas — 336. Malaca — 3, 4, 5, 6, 7, 8, 632 11, 12, 13, 14, 15. 16 (1), 18, 20, 21, 22, 26, 28, 29, 32. 34- 35- 37. 38. 39. 40. 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 58, 59, 60, 61, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 73, 74, 75, 76, 79, 81, 82, 83, 84, 88, 89, 90, 92, 93, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 105, 106, 107, no, 111, 112, 113, 114, 116, 117, 118, 119, 121, 122, 126, 127, 128, 129, 130, 131, 136, 137, 146, 148, 151, 152, 153, 154, 155, 164, 169, 170, 171, 173. 175. 176. 177. 178, 179, 180, 181, 183, 184, 185, 187, 188, 189, 190, 191, 193, 194, 195, 196, 202, 205, 206, 207, 210, 211, 215, 218, 219, 220, 222, 223, 224, 241, 243, 259, 273, 276, 284, 286, 288, 289, 290, 291, 301, 308, 310, 311, 316, 324, 337. 342. 344- 356, 357- 358, 360, 364, 366, 368, 372. 373- 382, 383, 384, 385. 388, 396, 397, 398, 399, 419, 420, 421, 431, 432, 445, 446, 449, 451, 452, 453, 458, 459, 460, 461, 462, 464, 468, 469, 470, 472, 473, 476, 478, 490, 491, 492, 495, 498, 500, 503, 504, 515, 516, 523. 528, 532. 533. 534. 542. 543. 544. 545. 546. 551. 555. 558, 559. 56o, 561, 567, 569, 570, 576,
  • 579- 58I, 582, 583, 588, 589. 593. 594. 595- 597. 598, 599, 600, 608, 609, 613, 615. Malavar — 40. Maludo (Ilha de), perto de Mindanau — 387. Maluvo, reino de Macáçar — 590- Mansilhas (Padre Francisco de), jesuíta na índia — 444, 450, 461, 470, 471, 491, 502, 504, 598. Manuel (D.), rei de Ternate — 376, 419, 421, 436, 440, 441, 442, 467, 474, 528, 529. 530. 531. 532, 533- 551. 552. 554- 558, 559- 560, 564, 567. Manuel I (D.), rei de Por- tugal — 3, 4, 85, 88, 243. Maomé — 496. Maquiam (Ilha de) — 244, 249, 272, 273, 277, 292, 318, 322, 407. Mar de Java — 106. Mar do Norte — 216, 217, 3"- Mar do Sul — 198, 212, 213, 305. 306- Mar Roxo — 4, 5, 11, 93, 95. Maria (D.), rainha, mãe de D. João III — 243. Marquez (Rodrigo), escrivão — 384- Martamane, cidade — 68. Martins (Simão), capitão da Galé Pequena — 35. Martym (Dioguo), castelhano nas Molucas — 152. Mascarenhas (Pêro), capitão — 203, 210, 223, 225. Mata (Galaz da), criado de Jordão de Freitas — 531. Mata (Ilha de) — 144. Mau, ilha — 198, 199. Meca — 586. Meleapor — 449. Meliquaz, capitão de Dio, do rei de Cambaia — 107. Melo (Duarte de), alcaide- -mor — 95. Melo (Francisco de), capitão — 68, 78, 136. Melo (Heitor de), testemunha no Testamento de D. Ma- nuel, rei de Ternate — 560. Melo (Manuel), soldado por- tuguês — 185. Melo (Martim Afonso de), português na índia — 181, 196. Melo (Simão de), capitão — 581. MenancaÕo, terra na ilha de Sumatra, defronte de Ma- laca — 28, 40, 45, 67, iox. Mendes (Baltasar), criado da rainha — 360. Mendes (Diogo), capitão de nau — 34, 99. Mendes (Henrique), capitão — 344- Mendonça (D. António de), vice-rei da Nova Espanha — 41°. 434. 554- Mendonça (Luís de), morto por Fernão de Magalhães — 142. Meneses (Aleixo de), capitão- 63 3
  • -mor — 89, 90, 97, 98, 104, 109, no, 115, 116, 178. Meneses (Jorge de), capitão de Ternate — 226, 244, 248, 250, 251, 252, 258, 259, 269, 270, 271, 272, 275, 277, 278, 279, 280, 313, 327, 350, 405, 408, 424, 425, 426, 428, 515, 516, 555. 556. Meneses (Tristão de), capitão — 118, 141, 161, 169, 170, 171, 178, 179. Mercadores (Direitos de), — 51- Mercê de Bandeira — 437.' Mértola — 327. Mesquita (Alvaro de), capi- tão espanhol da nau St.0 António — 143. Mesquita (Manuel de), mer- cador — 508. Mexia (Afonso), escrivão — 202, 205, 211, 223, 225. Mexia (João), clérigo — 228, 240. Mezorado (Jorge), capitão de lancha — 78. Michão, terra de Malaca — 107. Mindanau (Ilha de) — 145, 146, 147, 384, 387, 390, 402, 404, 406, 426, 428, 454. 457- Minejam, lugar em Malaca — 52- Miranda (António de), capi- tão — 52, 54, 71, 78, 79, 80, 82, 85, 177, 383. Miranda (Bastião de), capi- tão — 35. Miranda (Duarte de), capitão da carreira das Molucas — 530. Miranda (Tristão de), capitão — 82. Misericórdia (Casa da) — 376, 380, 540, 586, 587. Moçambique —197, 200, 201, 333- 334» 339» 378. 450. Modebar, rajá — 58. Moledo-Turo, mandarim nas Molucas — 5x8. Molino (Luiz dei), castelhano nas Molucas — 152. Molucas — 39, 61, 69, 73, 75, 76, 79, 85, 86, 87, 102, 103, 105, 106, 112, 113, 116, 118, 119, 120, 121, 122, 128, 130, 132, 134, 135, 138, 139, 140, 146, 147, 149, 151, 152, 153, 154. 155» 156. 157» 159» 160, 174, 175, 176, 177, 178, 179, 180, 181, 183, 184, 187, 194, 197, 198, 199, 200, 202, 205, 207, 208, 209, 210, 212, 213, 214, 2x5, 216, 218, 219, 220, 222, 224, 226, 228, 243, 244, 253, 254, 255, 256, 258, 259, 261, 262, 264, 265, 273, 275, 276, 277, 281, 283, 284, 285, 286, 288, 290, 291, 298, 301, 304, 305, 306, 309, 310, 312, 314, 315, 320, 323. 331» 332. 336. 337» 338. 339» 342. 343» 345» 350, 351» 352. 354» 358. 359» 36o. 365. 367. 369» 370. 372. 373» 375» 376» 634
  • 378- 379. 38I. 384. 385. 387. 398. 399. 4°°. 401' 404, 409, 413, 421, 425, 426, 427, 430, 432, 434, 435- 438. 44°. 441- 442' 444, 445, 453, 454, 456, 457- 458. 464. 467. 468. 471, 473, 475, 478, 487. 488, 489, 490, 492, 493, 494, 495, 496, 498, 502, 503. 504. 5o6, 508, 510, 511, 512, 517, 522, 523, 524. 525, 526, 529, 530, 531. 532. 534. 535- 536. 539. 54°. 541' 542. 543. 549- 550. 551. 552, 553. 554- 555- 556. 557. 558. 559- 56o. 561. 562, 563. 565. 566. 567. 568, 569. 570. 571. 573. 575. 576. 577- 579. 58o, 582, 583. 592. 595. 50' 597- 598. 599, 600, 602, 603, 606, 608, 611, 612, 613, 615. Monsanto — 393. Monsões — 27, 28, 36, 49, 66, 303. 387- Montemor-o-Velho — 243. Morais (Padre Diogo de), je- suíta na India — 375. Morais (Padre Manuel de), je- suíta enviado às Molucas e demitido da Companhia — 524, 598, 607, 610, 613, 615. Moreno (Antão), castelhano nas Molucas — 152. Moreno (Lourenço), capitão — 95- Moro, ilha das Molucas—112, 134, 220, 221, 316, 318, 319, 322, 327, 348. 350. 369, 371 (1), 385. 389' 391. 393- 394- 395- 4o6' 454, 490, 493, 503, 513, 516, 519, 520, 534- 536. 537- 571. 58o, 597. 605. 606, 607, 615. Mossil, ilha — 249. Moutel, Motel e Moutil, ilha das Molucas — 169, 269, 318, 321, 336, 520. Muar, rio — 60, 101, 185. N Naor, terra de relações co- merciais com Malaca — 70. Narsinga — 182, 575 (4). Navarro (Yoão), castelhano nas Molucas — 152. Negapatão — 445, 448, 450. Nenechata e Nevacha, prin- cipal de Malaca — 24, 26, 72. . Neyrão, ilha — 339. Nilio (Gaspar), feitor e al- caide-mor — 395, 453- 459- Nina-Curadeva, principal de Malaca — 109. Nino (André), espanhol nas Molucas — 198. Nis (Pate), principal de De- ma — 102, 103. Noronha (Garcia de), vice- -rei da índia — 399. Nova (João da), capitão de armada — 9. Nova Espanha — 275, 276, 277. 293, 294, 301, 304, 306, 311, 390, 400, 410, 655
  • 419. 420, 425. 426, 427. 428, 434- 454- 457- 45». 5»3. 5o8, 510, 511, 556, 557- 563- Nunes, capitão de lancha — 78. Nunes (Francisco), capitão de uma nau — 591, 592. Nunes (Ir. Baltasar), jesuíta na Índia — 599. Nunes (Ir. Belchior), jesuíta na Índia — 597. Nunes (Jorge), capitão da nau Xobregas — 34. Nunes (Manuel), prisioneiro em Malaca — 31. Nunes (Ir. Nicolau), jesuíta na Índia — 524, 534, 541, 58o, 597, 599, 604, 610, 615. Nunes (Rui), embaixador ao rei de Pegu — 45. Nuno (Vaz), capitão da nau São João — 35, 137. O Oliveira (Gonçalo de), piloto — 36- Oliveira (Ir. Roque de), je- suíta na Índia — 583, 584, 597, 606. Onoz (Pate), principal nas terras de Malaca — 55, 56. Orçamento da Fortaleza de Tema te — 325. Ordaneta (André de), caste- lhano nas Molucas — 390, 428. Ormuz — 40, 94, 376, 378, 397- 476. 530. 552. 636 P Pacem, porto na ilha de Su- matra—16 (1), 48, 50, 56, 69, 72, 107, 128, 155, 189, 384, 385. Pacheco (António), preso em Malaca por Nuno Vaz — 108. Pacheco (Veríssimo), capitão de caravela — 101. Pais (Manuel), morador de Ternate — 487. Pais (Pero), capitão de um junco —45, 49, 77. Paiva (António), português na Índia — 453, 466, 590. Paiva (Cosme de), português na índia — 447, 448. Paiva (Dinis de), moço de câmara —241, 343, 346, 359- 369- Paiva (Gasjar de), capitão — 34- 35- Paiva (Jerónimo de), irmão de António de Paiva — 466. Palha (Francisco), moço de câmara — 395, 439, 440, 484. 571. 577. 578. Paliacate, cidade e porto no Indostão — 52, 53, 70, 71, 95, 107, 182. Palimbão (Estreito de), 56, 101. Panamá — 216, 310. Pancado (Leão), piloto — 139, 152, 197, 201. Pão, Pam e Paham, cidade e porto na Península de Malaca — 22, 28, 40, 44,
  • 45. 52- 58. 67. 91- I01. 104. Papuas (Arquipélego dos) — 388. Patai, caravela — 312. Patalim (Rui de Brito), ca- pitão de Malaca — 41, 65, 66, 67, 74, 79, 8o, 82, 117. Patane (Reino de) — 340, 569- Paulo (Padre Micer), jesuíta na Índia — 449, 452, 461, 504, 506, 611. Pedir, porto e reino na ilha de Sumatra — 16 (1), 28, 32, 57, 100, 382, 383, 384. Pegado (Vicente), enviado a Sofala — 334. Pegu — 23, 28, 29, 30, 39, 45- 53- 68, 76, 91, 100, 106, 569. Pejandor (Coja Amet), mo- rador em Malaca — 57. Penaruqua — 218, 219. Perea — 424 (2). Pereira (Aires), capitão — 34; 35- 78- Pereira (António), fidalgo — 292, 330. 345. 346, 359. 365. 368. Pereira (Brás), capitão-mor do mar — 238, 240. Pereira (Diogo), feitor — 95, 96. "5- 345. 359- 365. 368. Pereira (Francisco), escrivão — 81, 177. Pereira (Gonçalo), capitão de Terna te — 228, 229, 241, 246, 247, 248, 250, 251, 259, 261, 280, 281, 285, 290, 312, 477, 516, 519, 520. Pereira (Gonçalo), curador de El-Rei — 554, 572. Pereira (João), capitão — 78. Pereira (Nuno Vaz), capitão de Malaca — 178. Pereira (Rui Vaz), capitão de navio — 224, 551. Peres (Fernão), capitão — 34. 42- Peres (Francisco), castelhano — 227. Peres (Padre Francisco), je- suíta na Índia — 579, 588, 597, 600, 608, 609. Peres (Jerónimo), feitor — 572. Pero (Jorge), morador em Temate — 387. Pérsia — 561, 586. Pessanha (Manuel), capitão -7. 8. Pessoa (Afonso), capitão — 35< . . Pina (António de), capitão — 128, 129, 155, 179, 182. Pitta (Rui de), tio de António de Pina — 182. Pinheiro (Gaspar), ouvidor — 359. 395- 432, 44°- Pino (Simão do), feitor—53. Pinto (André), criado — 359. Pinto (Manuel), português em Macáçar — 589, 594. Pires (Fernão), bombardeiro — 67. 99- Pires (Francisco), prisioneiro em Malaca — 31. Pires (Lourenço), castelhano — 512. 637
  • Pires (Tomé), escrivão — 48, 69, 82, 181. Pires Cotão (Jerónimo), mo- rador em Terna te — 396. Poerco (Arroyo dei)—295. Poloão (Ilha de), perto de Bornéu — 145. População de Bacham — 322. População de Geilolo — 322. População de Maquiam — 322. População de Moutel — 321. População de Ternate — 321. População de Tidor — 321. Portugal — 4, 30, 90, 92, 93, 104, 110, 114, 119, 121, 122, 123, 124, 125, 127, 139, 148, 154, 173, 175, 180, 182, 192, 199, 200, 215, 226, 255, 272, 393, 410, 418, 422, 434, 435, 500, 513. 521. 523. 528. 531. 535- 54°. 544. 551. 561. 593- 59s' 6o6- 6o8« 611. Preste João — 500, 586. Punho (Rui de Melo) — 514. Puni cale — 447. Q Quechil-Aeiro, rei de Ternate — 440, 442, 473, 528, 532, 564- Quechil-Amez, rei de Tidor — 162, 163, 234, 248, 259, 273. 275, 278, 279, 280, 281, 312, 519, 520. Quechil-Catara-Bumi, regedor de Tidor — 298. Quechil de Rodes, vid. Que- chil Aruez. Queda (Reino de) —52, 71, 99, 104, 106. Quelim — 105. Queimado (Garcia), criado de El-Rei — 186, 187. Queixada (Gaspar), degolado por Fernão de Magalhães — 142, 144. Questão das Molucas — 175. Quexilato (Quechil-Hato), re- gedor em Ternate — 230, 234, 243. Quiloa —19. Quiter (Pate), principal de Java — 84. R Rabeca (Afonso), marinheiro — 31- Ragalinga (Ilhas de), ao sul da Península de Malaca — XOI. Rajana, rei de Andragi — 101. Ramos (Pedro de), caste- lhano nas Molucas — 426. Reçalgim, ilha — 339. Rego (Ambrósio do), escri- vão — 95, 187, 190. Reina, em Espanha — 424 (2). Religiosos Agostinianos—424, 5«5- Remo (São), castelhano nas Molucas — 152. Resende (Garcia de)—89. Ribeiro (Padre Nuno), mis- sionário jesuíta em Amboi- no —524, 534, 541, 580, 581, 597, 599, 610, 615. 638
  • Rio de Janeiro — 141. Rio de Santa Cruz — 152. Rios (Pedro de los), gover- nador do Panamá — 217, 3ro. Rodes (Ilha de)—142. Rodim (Pate), principal de Java — 55, 56, 84. Rodrigues (Gaspar), feitor — 95- 96. 97- Rodrigues (João), castelhano nas Molucas — 152. Rodrigues (Padre Simão), je- suíta na Europa — 595, 600, 606, 608, 609. Roiz (António), escrivão — "5- Roiz (Fernão), doutor — 372. Roiz (Francisco), piloto — 36. Roiz (Manuel), marinheiro — 31- Roma — 413, 414, 418, 534, 542, 548, 549, 686. S Sá (Francisco de), preso em Tidor— 282. Sá (Garcia de), capitão de Malaca —116, 117, 118, 178, 179, 259, 358, 373, 532. 533. 552. 553- 559. 560, 567, 591. Sá (Henrique de), morador em Ternate — 426, 432. Sabugo (Ilha do) — 318, 322. Salamanca (Frei Nicolau de), religioso de S. Agostinho — 424 (2)- Saldanha (António de) — 109. Salgado (...) — 81. Salinas (Diogo de), caste- lhano nas Molucas — 226, 227. Sanches (Bartolomeu), escri- vão — 139. Sancho (D.), capitão — 184. Sândalo — 76, 106, 200. Sanguim (Nassara), ilha — 201. Santa Bárbara, nau — 90. Santa Catarina, ilha — 63. Santa Catarina, nau — 34, 35- Santa Eufêmia, nau — 42, 154- Santa Fé (Paulo de), jesuíta japonês, convertido por S. Francisco Xavier — 534. Santa Helena (Ilha de) — 333- Santa Madre, nau — 68. Santo André, nau — 53, 71. Santo Agostinho (Ordem de) — 510- • Santo António, nau espanhola — 143- Santo Estêvão (Frei Jeróni- mo de), prior — 424, 429, 510, 526. São Cristóvão, nau — 53, 68, 113. 171- São Francisco (Ordem de) — 491. São Jerónimo, bergantim — 315- São João (Fortaleza de), em Ternate — 157, 158, 196, 409, 412, 432, 434. São João, nau — 35. 639
  • São João (Ordem de) — 247, 304- São João, rio — 141, 142. São Lourenço (Ilha de) — 116. 147. 333- São Mateus, na Índia — 370, 374- São Miguel, anjo — 538. São Salvador, nau — 285. São Tiago (Ilha de) — 63. São Tiago, nau — 35. São Tiago, nau espanhola — 141, 192. São Tiago (Ordem de), — 240. São Tomé, Meliapor — 449, 450, 452, 461, 501. Sardinha (Diogo), capitão de um bergantim — 315, 330, 346- Sarnão, região da Índia, além- -Ganges — 39. Savedra, capitão espanhol de uma caravela — 311. Schurhammer (Jorge), jesuí- ta investigador histórico — 121, 126, 413. Sedenrre, reino de Macáçar — 590, 591- Segredo, castelhano nas Mo- lucas — 152. Sequeira (Belchior de), por- tuguês nas Molucas — 387, 388, 395- Sequeira (Diogo Lopes de), capitão, 16 (1), 29, 32, 48, 69, 136, 514. Serrão (Francisco), português nas Molucas — 35, 79, 80, 108, 112, 113, 116, 122, 135. 156 (3). 160, 161, 176, 177. Serrão (João), castelhano — 144, 145, 215, 309. Sevilha — 141. Sião (Reino de)—23, 39, 42, 67, 71, 76, 82, 98, 100, 104, 107, 190, 569. Silva (Aires da), capitão — 109. Silva (Duarte da), capitão — .35- Silva (Gonçalo da), capitão — 82. Silva (João da), regedor — 245- Silveira (João da), capitão de caravela — 69. Silveira (João da), criado de El-Rei — 360. Singapura — 148. Sirrulah (Bayan), rei de Ter- nate — 85, 124. Soares (Lopo), capitão — 93. 95- Socotorá (Ilha de)—3, 4, 10. Sodré (Estêvão), capitão de navio — 366. Sofala — 19, 322, 339, 340, 378, 397- 481. Solys, rio — 141. Sousa (Aleixo de)—376, 377- Sousa (Bastião de), filho de Rui de Abreu — 188. Sousa (Bernardim de), capi- tão de Ternate — 519, 530, 552, 553. 554- 562, 566. Sousa (Francisco de), capitão — 515- 640
  • Sousa (João Roiz de), ca- pitão de um junco — 290. Sousa (Manuel de), morador em Ternate — 396. Sousa (Martim Afonso de), governador da Índia — 373, 383, 386, 421, 528, 551, 573. 574- Sousa (Pero Soares de) capi- tão de lancha — 78, 82. Souto (Belchior do), escrivão de feitoria — 330. Sucuala, lugar de Geilolo — 343. 348- Suja, reino de Macáçar — 589- Sumatra — 4, 12, 16 (1), 22, 28, 32, 39, 101, 105, 284, 286, 384. Sumbaba, ilha — 103. Sunda — 55, 69, 70, 76, 101, 199, 207, 208, 209, 210, 224, 310, 569. T Tabanga (Porto de)—346. Tabarija, rei de Ternate — 407. Taforeia, nau — 34, 343. Tagima (Boqueirão de) — 390- Talangame, porto nas Molu- cas —345, 346. Tanaçarim e Tenacerim, ci- dade na índia, além-Gan- ges —39, 68, 100. Tanarife, nas Canárias — 141. Tanjunpura — 82, 106. Taprobana — 14. Ta-Si-Yang-Kuó (Revista) — 148. Tassiera (Frei Sebastião de), frade de Santo Agostinho — 424 (2). Távora (Fernão de Sousa), capitão da armada nas Mo- lucas — 554, 560. Távora (Francisco de), capi- tão — 9. Teives (António de), moço de câmara —330, 345, 359, 369. Teixeira (António), morador em Ternate — 488. Teixeira (Duarte), feitor — 205, 207. Teixeira (James), capitão de cavalaria — 34, 35. Teixeira (Pero Afonso), mo- rador em Ternate — 487. Ternate — 80, 85, 87, 112, 113, 114, 132, 136, 141, 149, 157 (13), 158, 159, 160, 162", 169, 170, 171, 172, 176, 192, 197, 221, 226, 227, 228, 229, 235, 246, 250, 253, 254, 258, 26l, 262, 264, 265, 268, 269, 270, 271, 272, 273, 274, 275, 276, 277, 278, 279, 280, 284, 292, 297, 3l6, 317, 318, 321, 322, 336. 337- 344- 346. 353 (4)» 355. 385. 389. 401. 402, 403, 404, 405, 408, 410, 41X, 419, 420, 421, 434, 436, 442, 457, 473, 475, 512, 5x3, 515, 516, 5x9, 520, 528, 534, 580, 602, 607, 609, 611. 1NSULÍNDIA, I — 41
  • Tidor — 85, 122, 126, 129, 132, 136. 139' I47. 159, 160, 162, 170, 174, 192, 198, 202, 214, 227, 230, 232, 247, 248. 249, 269, 274, 277, 282, 292, 293, 309, 310, 311, 336' 350. 389. 403, 404, 406, 411, 420, 421, 454- 456' 457. 485. 510. 512, 517. 5i8, 519. 557- 56i. 563- Timor — 41, 66, Ji, 76, 102, 103, 105, 106, 147, 200, 537 (2). 575 (4)- Tolo, ilha —519. Toloco, lugar de Ternate — 243- Tomar — 175. Torre (Fernão de la), capi- tão espanhol — 246, 252, 254, 256, 270, 271, 272, 273> 275, 277, 278, 280, 281, 282. Toscano (Francesco), chance- ler—551. Tratado de Saragoça — 175- Tratado de Tordesilhas — 4. Trindade, nau espanhola — 183, 213, 214, 215, 304. 305. 3o6, 308, 309- Tubão, na costa de Java — 102, 103. Tubuab, povoação de Geilolo — 273- Tuli-Tuli, lugar nas Celebes — 608. Turão, lugar na costa da Pe- nínsula de Malaca — 104, 107. Turquia — 586. Tutucurim — 447. V Vaer, lugar de Banda — 339. Valadares (Heitor de), escri- vão — 53. Vandinxa (Fim Zorlab), rei de Geilolo — 253. Vaz (Alvaro), capitão de uma galé — 77. Vaz (Diogo), capitão de lan- cha — 78. Vaz (Gaspar), morador em Ternate — 558. Vaz (Jorge), capitão de lan- cha — 78. Vaz (Lopo), feitor — 96, 97, 100, 203. Vaz (Nuno), capitão — 35, 100, 101, 102, 108. Vaz (Padre Miguel), vigário- -geral na índia — 378, 381, 467, 468 (1). Vaz (Pêro), vedor da fazenda — 262, 334, 354- Vaz (Rui), vigário de Ter- nate — 424, 432. Vaz (Simão), capitão de um junco — 178. Veloso (Baltasar), morador em Ternate — 487, 5x3, 522, 611, 612. Vera (Simão de), português nas Molucas — 251, 271. 123. 125. 133. 135- 152. 155. 168, 169, 193. 197. 216, 226, 243, 244, 253. 265, 278, 281, 297, 308, 3Í8, 321. 392. 402, 407, 410, 424. 434' 477- 480, 514. 515. 554. 556' 642
  • Viegas (Padre Vicente), mis- sionário em Macáçar — 589, 590. 591- Viegas (Simão), prisioneiro em Malaca — 31. Vieira (João de), jesuíta na índia — 506. Vila-Franca — 397, 406. Vras (Luys de), castelhano nas Molucas — 152. Vitória, nau castelhana —183 (2), 197, 213, 214, 306, 308. Vogado (Baltasar), criado de El-Rei — 296, 330. W Wilkinson (R. J■), autor de várias obras em malaio — 272. X Xavier (Padre-Mestre Fran- cisco)— 413, 448, 452, 460, 462, 469, 470, 472, 489, 490, 497, 498, 502, 506, 507. 509. 523. 524. 534- 549- 55°. 566. 58o, 581, 582, 583. 584. 586, 587. 595- 598. 599. 600, 602, 603, 604, 606, 610, 611, 613 (i)- Xobregas, nau — 34. Y Yçufu, rei de Geilolo — 113. Yler e Hiler, lugar de Malaca — 64, 73- Z Zeila, fortaleza na costa da África — 4. Zeimoteo (Gaspar), criado de El-Rei — 360. 643
  • GLOSSÁRIO
  • GLOSSÁRIO O recurso frequente dos escritores portugueses a ter- mos indígenas aportuguesados ou na sua forma vernácula, muitos dos quais se encontram nos documentos deste vo- lume, levou-nos a supor ser de alguma utilidade prática reuni-los, por ordem alfabética, para maior facilidade de consulta. Não se trata de um trabalho erudito de lin- guística, mas, simplesmente, de umas notas, com alguns elementos elucidativos dos vocábulos registados, colhidos directamente nos vários documentos e, principalmente, no Glossário Luso-Asiático de Rodolfo Dalgado, no Malay- -English Dictionary de R. J. Wilkinson e no English- -Malay Dictionary de Sir Richard Winstedt. Os números entre parêntese indicam as páginas onde estes vocábulos se encontram. Aguila — Também aparece, frequentemente, esta palavra, com a forma aquila, o que bem se compreenderá, tendo em consideração a frequente equivalência fonética entre o k e o g. Designa uma espécie de loureiro aromático. Muitos autores chamam-lhe ainda lenho-aloes, ou lenho-loes e linaloes, do latim lignum-aloes. Ajaras — Não encontramos qualquer informação sobre a pa- lavra, com esta forma. Somos levados a crer que seja uma grafia imperfeita dos termos maratas ang-rakh, de onde se formou o termo oriental angracá, espécie de blu- são ou cabaia, usada pelos índios e maometanos (149). 6 4.7
  • Anfião ou Anfiam — Termo que os portugueses da Índia for- maram, provàvelmente, do árabe afiun, ópio (6o, 73, etc.). Bahar, baar e bar — Peso oriental, de valor variável, con- forme os lugares; do árabe bahar (30, 135, 165, 169, 302, 355. etc.). Balão e bailam — Nome duma pequena e ligeira embarcação, variando de forma e construção, conforme os sítios. Na Insulíndia, balang, é um pequeno bote, rematando à proa, a imitar um longo pescoço de girafa. Bendara — Termo de Malaca, para designar a autoridade que superintendia no governo da cidade, em nome do rei, e depois, em nome do capitão da fortaleza, durante o do- mínio português (23, 25, 43, 48, 52, 69, etc.). Bastardos — Moeda de estanho, mandada cunhar por Afonso de Albuquerque, em Malaca. Beirame — Pano de algodão e de várias cores, fabricado na India, e com várias aplicações. Pelas descrições feitas, em vários documentos, podemos compará-lo aos actuais panos timores, bastante grosseiros e crus. Dos beirames conta Duarte Barbosa que os naturais da terra os vestiam, primeiro, enquanto crus, e depois de amaciados pelo uso, eram branqueados e engomados, para serem vendidos, mui- tas vezes, já rotos (149, 15). Bengala — Este vocábulo designa, primeiro, a cidade de Ben- gala; depois, bastões de cana especial, existente naqueles sítios; panos fabricados naquela cidade, e ainda, os seus naturais. Bertangi, bertangil e bretangil — Pano de várias cores, ven- didos em Cambaia (149, 150). Bétel, bétele, betle, bétere e betre — De todas estas maneiras costuma grafar-se esta palavra; nome de uma espécie de trepadeira, cujas folhas os indígenas de várias terras, no 64.8
  • Oriente, utilizam na preparação da sua masca. A esta mistura, feita de cal, areca, e de outras essências aromá- ticas, tudo envolto na dita folha, formando um adstrin- gente masticatório, chamam bétel (107). Bregantim — Não encontramos qualquer referência à palavra, com acepção de pano. Será, no texto, uma alteração de bertangi (149, 150, 152). Çade — Julgamos tratar-se da palavra oriental sadi ou sati. que se divulgou, depois, sob a forma mais conhecida sari. o característico pano de algodão ou seda, usado pelas mu- lheres hindus, à maneira de manto (149, 150). Caixa, caxa e caxe — Moeda de cobre, de muito pouco valor, corrente no sul da índia, Sumatra, Java e Molucas (166, 173. 313. 314. 337. 456). Calaim — Esta palavra significa, pròpriamente, estanho, do malaio kaling. Cremos ser da mesma origem o vocábulo te tun de Timor, calén, lata ou zinco. O Arquipélago ma- laio era celebrado pela abundância e qualidade do seu estanho. Os portugueses deram também este nome a uma moeda corrente em Malaca, naturalmente, cunhada em estanho (25, 29). . Calambuco — Parece designar-se, por esta palavra, o lenho- -aloes ou aguila; outras formas calambá, calambac e ca- lamba, devem também ser afins (104). Capazes — Inclinamo-nos a que esta palavra deva ser uma das muitas formas por que era designada a cabaia, espécie de túnica, símbolo da riqueza oriental. De facto, nos vá- rios documentos, aparecem também as formas cabaja, cabas e, provàvelmente, capas. Catamaran — Jangada feita de várias pranchas, usada no Co- romandel. Cate — Medida de peso, do sistema chinês e malaio, equiva- lente a perto de seiscentas gramas. Assim, o pico (pikul) tem cem cates, e este, tem doze taeis (tahil) (44). 649
  • Chatim e chetim — Por este termo designava-se a classe hon- rada dos mercadores. Adoptada, depois, pelos portugueses, tomou, com o tempo, um sentido pejorativo (23, 24, 54, 72, 94). Chipa — Não encontramos referências a esta palavra, com o sentido de qualquer espécie de pano. Será, no documento, uma alteração involuntária de chita, termo de origem oriental também? Cora-cora, cara-cora e corcora — Barca de fundo mais ou menos chato, e movida por uma vela, feita de esteira, comum na Insulíndia. A sua origem etimológica é muito discutida (231, 232, 317, etc.). Cris — Palavra formada do malaio kiris, punhal com a lâ- mina ondulada. Cybyas — Será uma variante da palavra diviá, ou divá, rico brocado persa? (150). Dachem e dachim — Em geral, esta palavra, designa uma grande balança; no malaio de Java significa também peso, equivalente a cem cates. Em certos documentos, ainda, aparece para indicar o reino Achem; e no plural, os seus naturais. Darus — Os habitantes das ilhas Aru, ao sul de Java. Dato — Termo malaio, corrente também na ilha de Timor, significando chefe, maioral, etc. Dução — Palavra também de origem malaia (dusum), cor- rente em Malaca, com a significação de quinta, her- dade, etc. Durubaça, yurubaça e jurubaça — Palavra composta de dois termos orientais, juru (perito) e bahasa (língua); e signi- fica, geralmente, intérprete (230). Fanão — Antiga moeda, cunhada em ouro ou prata e de valor variável, muito em voga na índia meridional. Na Insulíndia não era corrente (466). 650
  • Faraçola — Peso equivalente entre oito e quinze quilos, con- forme os lugares, usado no comércio oriental (339). Ganias — Medida malaia (gantang) de capacidade (282). Godão e gudão — Termo malaio também (gudang) com a significação de armazém, adega, casa de arrecadação (50). Guno — Palavra malaia, que os portugueses divulgaram por toda a Insuh'ndia, significando monte. Alguns autores dão-no como corrente em Timor também, o que não é exacto. Naquela ilha serviam-se deste termo, os portu- gueses, que não os indígenas. Guzeriz, ou (pachori, passori?) — Espécie de chalé branco ou de cor (149)- Joangá — Embarcação grande. Note-se a aparente afinidade com os termos também orientais jangá (embarcação), e jangada (conjunto de barcos ligados uns aos outros) (272). Junco — Nome de outra grande embarcação oriental, muito vulgar por toda a parte. Lanchara — Pequena embarcação, ligeira e a remos. A desi- gnação, talvez, provenha do adjectivo malaio lanchar, ligeiro, fluente, notas características destes barcos (44). Lina-aloes. Vid. Aguila (67). Línguas — Termo português, usado no Oriente, com a acepção de intérprete (127, 191). Luções — Habitantes da ilha Luzon, nas Filipinas. Manchua — Nome de uma embarcação à vela e que os por- tugueses divulgaram também, designando-se, por este no- me, outros tipos de barco (185). Mandalitões — Não encontramos nenhuma referência mais a esta palavra a não ser que seja uma variante do termo Massulipatão, panos tecidos numa terra com este nome, na costa do Coromandel. (149). 651
  • Mandis—O mesmo dizemos deste vocábulo (149). Mantazes — Panos de Cambaia (149). Margaridetas — Continhas de pouco valor, mas que, segundo se diz em documentos, os indígenas das Celebes adqui- riam a peso de ouro (201, 271). Miticais, maticais e meticais — Antiga moeda e peso, usada em África e no Oriente (339). Noborias — Nome indígena, dado aos escravos, nas Molu- cas (411). Nores — Termo formado do malaio nuri, papagaio (179). Panchaveli e panchavelão — Pano com ramagens, tecido no Coromandel (149, 150). Pangajava — Antigo tipo de embarcação malaia, ligeira e de guerra. Do malaio penjajap (35, 56, 67, 102, etc.). Parao e paro — Nome genérico de pequenos barcos, com flu- tuadores de bambu, e de outros tipos. Do malaio perahu (no, 146, 162, 171, etc.). Paso e passo — Termo muito frequente nos documentos, para designar uma espécie de quartéis de guardas fiscais, nas passagens de rios, onde era obrigatório pagar direitos aduaneiros. Patamar — Vocábulo com a significação de estafeta, correio, etc., e designando também um tipo de embarcação pe- quena e ligeira (446). Pate e Pate-Cerang — Títulos honoríficos da nobreza malaia. Pátola — Tecido de seda ou de algodão, simples ou com la- vores (150). Pinaty — Vocábulo indígena das Molucas, traduzido nos do- cumentos por mordomo-mor (321). 652
  • Pinel, pilão e piló — Grande embarcação de carga. Do malaio pilang (272). Pitanturos — Termo a que não encontramos referências, e que alvitramos ser formado de dois elementos malaios, hitam (preto) e turum (descendente) (296). Quelins e quilins — Nome dado pelos portugueses aos naturais da costa do Coromandel (53, 59, 68, 73, etc.). Sabe — Não encontramos nenhuma referência mais a esta pa- lavra. Terá, por ventura, qualquer relação com o termo sabagages, registado por Diogo do Couto, como espécie de panos, também tecidos em Cambaia? (149). Samarau — Depreende-se do texto tratar-se de um título de nobreza e de poder, equivalente, talvez, ao hindu çamorim, ou ao samorai japonês (473). Sampanas — Pequena embarcação, principalmente, da China, constituindo, para uma grande maioria dos seus habitantes da costa marítima, o seu lar. A palavra é composta de dois elementos chineses: sam (três) e pan (tábua). Sangage — Título da nobreza malaia, com o sentido de prín- cipe, governador, principal, etc. A palavra é formada de dois elementos malaios: sang (prefixo honorífico) e agi real. Sangue-de-Pate — Expressão muito comum, entre os escritores portugueses, no Oriente, para designarem os príncipes e outras pessoas de estirpe real. A palavra é formada por vários elementos malaios aportuguesados: sang-adi-pati, títulos honoríficos. Sinaba — Uma variante, talvez, do termo seguinte (149). Sinabafos — Tecido fabricado em Bengala (149, 150). Sucu — Palavra malaia (suku), com o sentido de quarteirão, tribo, ou divisão de um povo. Pertence também ao voca- bulário geral de Timor, na acepção de divisão territorial, pequena zona, espécie de distrito, a que superintende um chefe (Dato). à 5 3
  • r Tancá e tancar — Palavra formada de elementos chineses: tan (ovo) e kia (casa). Embarcação de idênticas caracterís- ticas dos sampanas (272). Tavaros Nome dado aos indígenas da ilha de Moro (537) - Timas — Moeda de estanho. Do malaio timah, estanho (52, 7i)- Tomungo, tomungão e temungo — E muitas outras variantes. Do malaio temenggong, nome de alto dignitário malaio (43, 46, 48, 49, 50, 5i. 55- 57. 72)- Topaz Discute-se muito a origem desta palavra, muito em voga nos escritos portugueses sobre o Oriente, com o sen- tido de intérprete (451). Tuan e tuão Apelativo reverenciai: senhor, amo, etc. Do malaio tuan (55, 64). Turia Não encontramos esta palavra registada em qualquer outro documento; será qualquer espécie de pano? (149). Virola Palavra que só encontramos registada no documento deste volume, designando qualquer espécie de pano (149)- Xabone e sabone — O mesmo se diga deste vocábulo (149). Xabandar — Palavra de origem persa, com a significação de patrão do porto, chefe de alfândega (148' 162). Zambuco e sambuco — Pequeno barco oriental (96).
  • Este livro, realizado pela casa Paulino Ferreira, Filhos, Lda. R. Nova da Trindade, 18-B — Lisboa, foi impresso em Agosto de 1954
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