AZIA SINICA E JAPONICA PÓSTUMA E INÉDITA DO FRADE ARRABIDO JOSÉ DE JESUS MARIA EDITADA PELO MAJOR C. R. BOXER VOL. I OBRA ESCOLA TIPOGRÁFICA DO ORATORIO DE S. J. BOSCO (SALESIANOS) — MACAU 1941 -
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OF FR AZIA SINICA E JAPONICA OBRA PÓSTUMA E INÉDITA DO FRADE ARRABIDO, JOSÉ DE JESUS MARIA EDITADA PELO MAJOR C. R. BOXER. VOL. I. ESCOLA TIPOGRÁFICA DO ORATORIO DE S. J. BOSCO (SALESIANOS) - MACAU 1941 -
INTRODUÇÃO Xa primavoi'a do ano de 1939 apareceu à venda na Li- vraria (Joelho, em Lisboa, uma obra manuscrita, oitocentista, cujo titulo reza assim: Axia Si nica, c Japonica // Macao conse- guido c perseguido // Obra gosthuma do R. P. Fr. jjJozé de Je- sus Maria, Arrabino, Missionário nos Estados da Judia. In-fólio, do xvi, 352 páginas. Ao vermos esta descricção, julgámos que se tratasse da obra cuja publicação foi começada polo falecido Orientalista, João Feliciano Marques Pereira, na sua conhecida revista Ta-Ssi- Yang- Kno, publicada cm séries, em Lisboa, nos anos de 1899-1903. Por morte do abilisado editor, esta valiosa revista deixou de ser publicada, ao tempo em que a impressão do manuscrito do Frade Arrábido não ia além da página 83 do próprio original. (1) Julgando, pois, que o manuscrito oferecido à venda lóssc o mesmo exemplar de que se serviu Marques Pereira, pedimos ao nosso amigo o ilustro investigador, Frazão de Vasconcelos, que averiguasse a nossa suposição em Lisboa; o nosso amigo assim fez. Observou o manuscrito e, em face da descrição de Marques Pereira, confirmou plenamente a nossa suposição. Poste- riormente, porem, tendo lhe nós dada noticia de existência de outra copia na Biblioteca de Ajuda, ficámos indeciso. (I) Ta-Ssi- Yang-Ktto, Serie 1, vol. I, 1899, pp. 203/212, 265'273, 327/337; Vol. II, 1900-1901, pj). 389-401, 101-473. 021-630; Serie II, vol. Ill, 1902, pp. 147- -170; Vol, IV, 1903, pp. 701-722, 781-790, com valiosas notas tie J. P. Marques I'c- reirn. Nesta nossa reimpressão, conservámos nlgnmas «las notas dé*te editor que dis- tingui mos pelas suas iniciais J. F. M. P., insertas no fim de tais notis. Acrescen- tamos que as notas do próprio antor, Frade Arrábido, são indicadas pais letras (a), (b), (c), etc., enquanto que as do actual editor são numeradas, (1) (2) (3) etc.
11 Asia Si nica, e Japonica Verificando assim que possivelmente se tratava do mes- m > exemplar que serviu a Marques Pereira, tratámos de com- prar o precioso manuscrito, quando nos pareceu evidente que as bibliotecas públicas em Lisboa não se interessavam pela compra, talvez em razão do preço avultado em que foi avaliado pelo seu possuidor de então. Feita a compra, o tendo o livro entre mãos, não perdemos tempo em facultar ao director do Boletim Eelesiáti- co dn Diocese de Macau, Pe. Manuel Teixeira, poder continuar a publicação do mesmo a partir do ponto em que foi suspensa a st:a publicação nas páginas do 4° volume do Ta-Ssi- Yang - fino, tor- nando, desta maneira, a perda de tal jóia bibliográfica, para Por- tugal, menos sensível, pela publicação e divulgação do seu texto no mundo dos erudi tos e Orientalista». I)e acordo com o director do Boletim Eclesiástico fazemos também a reimpressão da parte já impressa por Marques Pereira na revista referida, socorrendo-nos das suas notas, quando necessárias, de maneira que terão os leito- res, diante de si, o texto original e completo do Frade Arrábido. Acerca do próprio autor pouco podemos acrescentar aos factos já divulgados por Marques Pereira: Oonta-no os autor fradesco, no seu manuscrito, que êle viera a Macau no ano de 174*2 com o novo bispo da Diocese Macaense, Frei Hilário de Santa Rosa, e que voltou à sua pátria, Lisboa, três anos mais tarde, na monção de 1745. (2; Marques Pereira, citando o céle- bre bibliógrafo, Barbosa Machado, diz que houve três Frades Arrábidos com a mesma denominação de Frei .Tozé de Jesus Ma- ria, mas «d'estes só um natural de Lisboa, de quem diz que te- ve por paes a Gaspar Rebollo de Azevedo o Isabel Maria da Silva; que abraçou o Instituto Seráfico em o convento de Nossa Senhora dos Anjos, situado em a villa do Torres Vedras da Pro- (2) A píg. 329 do manuscrito do nntor, quando se refere à chegada dn fra- gata S. Pedro e S. João a Macau em 1742, diz.... «chegou também o Exnio. Snr. D. !• r. Hilário de S. llosa... a quem eu 6 Pr. Albino da Assumpção acompanhã- ni.s»... emqurnto no Index (Cap. X do Livro X) escreve... «desde o ano de 1740 athé o de 745 em que estamos, no qual dou fim a esta obra ».
Introdução M viueia do Arrábida, onde professou solemnemente a 26 de mar- ço de 1704; que se applicou a todo o genero de erudição em que saliiu egregiainente versado; que fci pregador do Infante D. Fran- cisco, e tres vezes Guardião do Convento de Santa Catliarina de Riba Mar,
IV Azia Sinica e Japonica Obra posthuma do P. Pe. Fr. José de Jesus Maria, Arrabino, Missionário nos Estudos da índia. Entre este frontispício o a primeira página do Index, qne se segue, está inserta ama outra folha, de formato muito mais pequeno, encadernada com o manuscrito, mas escrita em letra diferente, com o seguinte Soneto: Em aplauzo do R. P. Preg." Fr. Jozé &c* na Compozição DE Hl' LIVRO Q INTITUELA DA AZIA SyNICA e Japonica S O A E T O Neste Urro se vem sempre notórias Da Asia, e do Japam suas grandezas, Que vencerão as Armas portuguesas, Com guerras, com façanhas, com victorias. Eternas ficam sendo estas memorias Nestas vossas noticias, e claresas. Dos Lusos as conquistas, e proezas, Que lhe cantão na fama tantas glorias. Quem este livro Jér, sempre jucundo, Verá sem confusãm, e raridade, Qne sois sábio cscriptor, alto, e profundo: Pois na historia mostrais tanta verdade. Que sendo a Azia a mór parte do Mundo Foi vencida da Lusa hcrocidade. DICE Fr Jozé de (3) ex-provinda A Igarbiorum (3) curioso notar que o non e foi propositadamente rasgado e não comido o papel pela traça.
V / nlrodiição Segue-se o Index, escrito pela mesma mão que traçou to- do o manuscrito. Transcrevemo-lo, 11a íntegra, porque por éle, verá logo o leitor a importância da obra que agora apresenta- mos aos estudiosos. Em muitos pontos da obra, Frei Jozé de Jesus Alaria extrai dados (nem sempre exactos) de outros autores; mas em outros, presta informações de grande valia que não se encon- tram em quaisquer outros escritores, como, por exemplo, a narra ção da embaixada de Manuel de Saldanha ao Imperador Kang Hsi em 1667-1670, e a entrega forçada da prata das Igrejas e con- ventos de Macau ao Vice Rei de Cantão, em 1679. Não encontrará o leitor, nela, grandes belezas literárias, mas o valor histórico da obra é indiscutível, porque o seu autor baseou-so nos Acton e livros do Senado da Camara muitos dos quais já em seus dias estavam a d es fazer-se e hoje não existem. E com isto damos a palavra ao Frade Arrabido. Hong-Kong, Novembro de 1930. C. R. Hoxku
' ^ Azia Sinica e Japonica Obra poxthuma do It. Pe. Fr. doze de Jesus Maria, Ar rabino, Missionário nos Estados da India. Entre cate frontispício o a primeira página
V Introdução Segue-se o Index, escrito pela mesma mão que traçou to- do o manuscrito. Transcrevemo-lo, mi íntegra, porque por ele, verá logo o leitor a importância da obra que agora apresenta- mos aos estudiosos. Em muitos pontos da obra, Frei Jozé de Jesus Maria extrai dados (nem sempre exactos) de outros autores; mas em outros, presta informações de grande valia que não se encon- tram em quaisquer outros escritores, como, por exemplo, a narra ção da embaixada de Manuel de Saldanha ao Imperador Kang Hsi em 1667 1670, e a entrega forçada da prata das Igrejas e con- ventos de Macau ao Vice Rei de Cantão, em 1679. Não encontrará o leitor, nela, grandes belezas literárias, mas o valor histórico da obra é indiscutível, porque o seu autor baseou-se nos Acton e livros do Senado da Camara muitos dos quais já em seus dias estavam a desfazer-se e hoje não existem. E com isto damos a palavra ao Frade Arrábido. Hong-Kong, Novembro de 1939. C. 11. liOXElt
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INDEX DOS LIVROS, E CAPÍTULOS, QUE SE COMTEEM NESTE VOLUME LIVRO I Rpparato a esta obra. Cap. I. — Mostra-se summariamente o Estado do Mun- do, desde o seu principio até o tempo prezente, 11a Azia ins- truído, o destruído. Cap. II. — Mostra-so em suinina o que é a Azia: a vas- tidão do terreno que esta primeira parto do Mundo comprehen- de: a multidão de Reynos, e Impérios, em que se devido. Cap. III. — lia falsa Relligião, Seitas, e Idolatrias, em que quazi toda a Azia, o Indostão, Japão, e China se prevaricou. Cap. IV. — Quiz Doos acudir a perdição de tantas Al- mas redeuiidas já com o preciozo sangue de seu Filho, e man- da-llie ministros Evangélicos, para os instruir na verdadeira Relli- gião, com a Doutrina, e Luz da Fé. Cap. V. — Dos volúveis estados, em que depois de morte do Apostolo S. Thomé se vio a Igreja nos seguinte séculos, com repetidas opposiçoens á Fé e Ohristianismo, nesta Azia Mayor tão perseguido. Expoem-se socessos vários. Cap. VI. — De como os Sereníssimos Reys de Poitugal noticiados de tão infaustos socessos da Christandade na Azia, intentarão propagar nella a Fé de Chrísto, e em fim o pozerão em execução ahinda a força de armas, sendo entre <»s nações Euro- peas os primeiros descobridores e conquistadores deste Emporio. LIVRO II mudança que os Portugueses fizerão do Indostão para a China, depois de alcançar tantos triumfos Cap. I. — Do motivo que alguns Portuguezes tiverão, para vir habitar este terreno.
— 10 — Cap. II. — Chegão os Portugueses a Li am pó; e emquan- to cuidão no modo de se estabelecer, se mostrão alguns socessos, que a outros derão muito que cuidar. Cap. III. — il/ostra-se a Liam pó, primeira habitação dos Portugueses na China brevemente elevada ao ser de Cidade po- pulosa, e einfim a breves cinzas reduzida. Cap. IV.—De como sendo Liampó já desbaratado, le- vantarão os Portugueses nova Povoação em Chineheo: nota se o que ali lhe socede. Cap. V. De como os Portugueses que escaparão da perdição de Chineheo, andarão bastante tempo foragidos por es- tas Ilhas da China, e buscarão as de Sanelioão, e Lampacau, pa- ra ahi refugiados negocearem. Cap. VI. — De como os Portugueses conseguirão dos Chinas a Peninsula do Amagao (hoje Macao) para sua habitação e comercio. LIVRO III Da famoso Império da China, em que Illacao se acha situado. Cap^ I. — Do principio, antiguidade, e primeiros Impe- radores desta Monarch ia. Cap. II. — Das soblovaçoens, divisoens, o motins, que houve no Império da China em tempo de seus antigos Monar- chas conforme o que em suas genealogias Mendonça e Moiery escreverão. Cap. III. — Da grandeza extensiva d'este Império, seus lemites ordinários edeticios, cidades o numero dos seus habita- dores. Cap. IV. — Da principal Corte da China, em que ha- bita o seu Monarchal Pallacio de sua Residência: guardas e Es- tado, quando salie a publico. Cap. V. — Continua a mesma materia com coriosos ad- ditamentos. Cap. VI. — Da abundancia de generos que ha neste Im- pério, preciosíssimos para a subsistência de tal multidão de gente,
— 11 — o AP. VII, — Das riquezas e preciozidades que lia nes- te Império. Cap. VIII. — D«> modo do governo, justiça e politica do Império Sinioo: Moeda que nolle corre: Ley que seus habi- tadores proffeção: e modos com que no comer, dormir e vestir, o morrer, se tratão. Gap. IX. —Continua e concluo a materia do capilulo procedente. Attoncioso Protesto sobre os Capítulos deste 3." Livro. LIVRO IV ÍUacao conseguido Cap I. — Das primeiras acçoens dos Poríuguezes em Macao, tanto que conseguirão o habitar neste terreno. Cap. II. — Dão conta os moradores de Macao a seu le- gitimo Rey e Senhor Dom Sebastião dos felices progressos em que esta colonia se achava: pedem-lhe Bispo para bem de tan- tas Almas que neste Império, como 110 do Japão se podião re- duzir, além das que já estarão. Cap. III. — Do todos os Illustrissimos Bispos, com que os Pontífices Romanos e Roys do Portugal tem concorrido a favor do Ohristianismo da China, e Japão, depois de terem os Bispos. Sirianos prevertido a China. A ão 11a apostilla, e a mar- gem, para boa intelligencia as clarezas necessárias. Cap. IV. — Catalogo especial dos Illustrissimos Bispos Diocesanos desta Cathedral de Macao: tocão-se algumas cousas particulares suas: mostra-se quem forão os Governadores que nas suas vacancias teve este Bispado. Cap. V. — Dissertação problemática, em que prevalece a parte affinnativa sobre o Capitulo penúltimo, que contem o Catalogo geral de todos os 111.— Bispos que tem vindo á China; e comprova com effeito terem sido Relligiosos Francisca- nos os primeiros que tiverão a sua conta toda esta Christan- dade.
— 12 - Cap. VI. — Dos incidentes que occorrerão, e motivos que houverão para se faltar ao provimento socessivo de Prelladosa esta Diocese de Macao, do que rezultarão tão prolongadas vacancias. Cap Vil. — Socessos na maior vacancia desta Sede: resollução no provimento destes Bispados, e acção justificada que para isso tin hão os Reys de Portugal, fundada em diversas Bulias, com que os Pontífices Romanos llie tinhão concedido o Direito do Seu Real Padroado. Cap. VIII. — Catalogo dos Missionários, que tem vindo a Macao: numerando também muitos que forão para o Japão, da Companhia de Jesus, Tratados das Relligioens Dominicana, Augustiniana, e Franciscana. Cap. IX. — Catalogo dos Relligiosos da Sagrada Compa- nhia de Jesus, que por este porto, e porta de Macao entrarão Missionários Evangélicos, para propagar a Fé neste Império da China, e daqui se dividirão para outras missoens como de Tumkim, Conchincliina, e alguns ficarão nestes 2 collegios de Macao. Faz-se também menção de outros P. P. de diversos Ins- titutos. Cap. X — Explana vários accidentes, que 110 espiritual e temporal se observarão em os annos sucessivos, atlié o de 1623. LIVRO V Ifíacao ennobrecido, e augmentadc. Oap. i. _ Nova mudança de governo: creação desta Co- lónia em Cidade: Privilégios que lhe concederão: Cappitaens Mo- res, que a principio, e depois Cappitaens Geraes que até o tempo presente a governarão. Cap. II. — Achão se os Portugueses de Macao satisfeitos do novo modo de governo desta cidade: empenbão-se para con- cluir o seu Cerco, e novas Fortalezas, guarneçendo-as de boa ar- telliaria; continuão ao mesmo tempo suas negociaçoens ás feiras de Cantão, e ao Japão suas viages, como também a Manila, Ti- mor, e outros portos.
Cap. III. — Decadenc-ias, e infelicidades grandes, que desde o anno de 1638 Macao experimentou com persegniçoens e perjuizos de todos seus habitadores. Oap. IIII. — Do como não obstante a hinibição do Im- perador do Japão (juiz Macao tentar sua Fortuna: Sucessos que experimentou, e varias reprezentaçoens que delles fez, na dilli- gencia de evitar maior mal. Oap. V. — Entra o Senado do Macao ein requerimentos com El-Rey Fellippe, para conceder a esta Cidade livre o nego- cio do Manila para sua subsistência, soluto o impedimento das feiras de Cantão: toca no final sucesso de todas as dependências do Japão e remette bum expresso, anno de 1640. Cap. VI. — Do como resolveu o Senado de Macao se preparasse luim navio, para mandar quatro Embaixadores ao Ja- pão: expoem-se o socesso desta Embaixada. Cap. VII. — Coutinuão os sucessos mais notáveis deste tempo: acha-se Macao com o maior excesso perturbado, posto em guerras eiviz: acode a Malaca com o possível soceorro, e re- cebe a infeliz notticia de estar já pellos Hollandezes rebeldes tomada aquclla importante Praça. Cap. VIII. — Oontinuão a Macau nos tres seguintes ân- uos os seus justos sintiinentos, e irremediáveis perdas, com emi- nente perigo da total ruina, que pertende obviar. Expoem-se al- guns socessos que occorrerão nestes annus. LIVRO VI Toma IJlacau novos alentos com o Fénix da Lusitânia renascido, esperando melhorar-se nas fortunas com o seu Rey natural. Cap. I. — Chega a Macao a certa e feliz noticia da gloriosa acclamação de El-Rey Dom João o 4o deste nome em o Reyno de Portugal; e com ella recebe logo esta Cidade mui generozos favores de um Legitimo e verdadeiro Rey. Cap. II. — Toma posse desta Praça de Macao o novo Capitão Geral, e a poucos dias manda requerer ao Senado se
— 14 — convoque, paru lho apresentar as ordens do V. Rev que trazia, concernentes ao bom governo. Cap. III. — 1)<> Soleinne Juramento que fez a Cidade de Macao a Seu Legitimo, natural e novo Rey D. João o 4o des- te nome. Cap. IY. — Do que se passou com os Castelhanos que l.inhão vindo de Manila, e termos com que o Senado se houve aos requerimentos que tizcrão: toca-se em algumas dependências q.' 110 mesmo anuo oecorrerão. Cap. Y. — Entrão os Portuguezes de Macao 110 systema de novamente conunerciaiem com os Japoens, por meio das ein- barcaçoens de Chinas. Chega de Goa Fragata de Guerra com Embaixador para o Japão: dá-se noticia do em que parou este projecto. LIVRO VII Djpão descoberto, e encoberto. Cap. J. _ Da, situação, grandeza, e qualidades deste Im- pério do Japão: das suas demarcaçoens, divizoens, viveres, e ri- quezas que nelle ha. Cap. 1L — Da figura, génio, inclinaçoens, e artes da gente Japoneza: dos seus costumes, ceremonias, Ritos, e Idola- trias, que cegamente observão. Cap. III. — Ho descoberto pellos Portugueses o Japão: declara-se o socesso, as temporaes convencionaes que adquirirão, e as espirituaes fellicidades que os Japoens alcançarão. Cap. IV. — Principião com effeito as espiriluaes felli- cidades 110 Japão, com a chegada do S. Xavier; continuão 110 Japão aos Portuguezes as temporaes fellicidades. Cap. V. — Mandão três Revs do Japão seus Embaixa- dores a dar obediência ao Papa, reconhecendo-o Cabeça da Igre- ja: da-se sumariamente noticia da viage, e sucesso da Embaixada. Cap. VI Partem de Roma para se recolherem a seu Paiz, os Embaixadores Japonezes; faz-se sumaria menção do seu
— 15 — regresso e dá-se breve notticia y de Portugal. Expende-se abreviada notticia das guerras entre as naçõens Tartar» o China. Cap. II. — Socessos vários em Macao, depois de acelama- dos os dons Mona relias Portuguez, e China. Cap. III. — Ooiitinuão os socessos infaustos a Macao athó anuo de 1662, e acabarão dentro deste tempo ambos os Monar- clias acclamados. Cap. IV. — Chega Fragata de Goa no anuo de 1663 coin a notticia de ser fallecido El-Rey D. João o 4o, soceden- do-lhe no Tlirono de Portugal El-Rey D. Alfonso 6U seu filho. Recebe o Senado de Macao linma carta deste novo Monarcha. 0AP. y. _ Manda El Rey D. Alfonso 6o de Portugal a Manuel de Saldanha por seu Embaixador a Kam-hi Imperador da China, e Tartaria. Referem-se os socessos da Embaixada. Cap. VI. — Chega a Macao o Secretario da Embaixada: dà conta ao Capitão Geral, e ao Senado da morto do Embaixador na China: Mostra a Carta Imperial, para se traduzir: com ella,
— 16 — e prozente que trazia so embarca para Goa, a avistar-se com o Y. Key, antes tie passar a Portugal. Cap. VIT. — Entra <» novo Imperador Tartaro Kam-hi no Império da China a governar; e antes de ter pleno conheci- mento e notticia, so aproveita o Regulo de Cantão deste meio tempo para perseguir, e exliaurir a esta Cidade de Macao, pe d in do 47 mil taeis. Cap. VIII. — Rezollução admittida pelo Senado e Po- vo de Macao, no modo de pagamento do Regulo de Cantão: Ili- da da Prata das Igrejas: Chegada do Enviado que tinha liido a Pekim. Noticias, cartas, expedições e socessos athé o fim do anno de 1679. LIVRO IX Illacao já felliciíado, mas perigoso. Cap. I. — Chega a Macao feliz noticia da Imperial re- sollução, permittindo lhe o comercio na China, com insinuação para maiores esperanças. I)á-se notticia das disposiçoens, varie- dades e socessos que occorrerão desde o anno 1680. Cap. II. — Acha-se Macao embaraçado com vários acci- dentes socedidos desde o anno 1683, os quais (sendo-lhe appli- cados os meios úteis) ficarão remediados. Cap. III. — Socessos de Macao com variedade de synto- mas, desde o anuo de 1686. Cap. IV. — Entra Goa toda cuidadoza em applicar re- médios etlectivos a Macao no anno de 1689, asignando lhe o exacto regimento que havia ter, para evitar as recahidas, mas estas por outros princípios se augmentarão. Cap. \ . — Continuão a Macao no mesmo anuo de 1689 mais perigozos syntomas, aehando-se quasi de todo malignado Cap. VI. — Modifica-se o padecimento do Macao desde o anuo de 1693, suposto que pel la. grande extracção de sangue se ache muito debilitado. Cap. A II. — He Macao ameaçado de hum tremendo ac-
— 17 cidente 110 ano de 1705, em quo chegou a esta terra o S.OT D. Oarllos Thomas Maillard de Tourn ou Patriarcha de Antioquia, pellas consequências que logo se recearão, e notticias da Nau em q.' veio de Manila. O AP. VIII. — Continua a Macao o mesmo accidente com syntomas vários. Cap. IX. — Aclia-se Macao com perplexia, aggravado com maior excesso e accidente que sintira, chegando de Cantão o S.or Patriarcha Antiocheno, de quem se dizia, que com re- médios violentos, fora da Regra e Arte. lhe occazionara. Cap. X. — Aggrava so a Macao com muito excesso o accidente, atlié o anno de 1710, vendo-se estúpidos seus membros com maior repetição de perplexia, sem produzirem effeito os re- médios applicados. LIVRO X ITIaoao novamente por outros princípios perturbado Cap. I. — Sente Macao desde o anno de 1710 a perda do tres navios: acha-se com dezuniões o Senado: mostra-se hum Comandante dezatento: tomão-se rezolluçocns varias atlié o anuo de 1713, e não se esquecem os Chinas de inquietar a cidade. Cap II.— Manda o Senado hum Enviado a El Rey da Ooohinchina, com um prezou te: chega a notticia (jue dons na- vios Francezes vinlião esperar fora os de Macao: sabe-se que por fora destas Ilhas andavão muitas embarcaçoens de ladroens Chinas á pilhagem : cuida-so em expulsar da terra muitos que nella havia, o dão-se algumas notticias desde o principio do anno 1713: 110 de 14 vae prezonte ao Imperador. Cap III. — Propostas, rezoluçoens, e socessos vários que se observarão no govrno Politico desta Cidade de Macaoe desde o principio do anno 1715. Cap. IV. — Chega notticia de sor falleeido Kain-hi Im- perador da China, o Tartaria: faz Macao publicas e politicas demonstraçoeus de sintimento: sobe ao Throno Iung-Cing seu *
— 18 — Filho, sem lhe obstarem os oppoentes: toma vingança destes e Novo Imperador: entra a perseguir a Christandade, e Macao de novo a sintir perdas, e padecer. Refereni-se socessos desde o an- no 1721. O AP. V. — Sente-se magoada e aflicta a Cidade e Igre- ja de Macao, tiranamente offendida com herezias de Jansenius: mas cortado um membro podre, ficou menos perseguida: soce- dem mollestias á Cidade pella morte de hum China: faculta o Imperador embarcaçoens aos Chinas; e referem-se alguns soces- sos desde o anno 1723. Chega hum Embaixador. Cap. VI. — Manda El-Rey de Portugal a Alexandre Metello de Souza e Menezes com o caracter de sou Embaixa- dor a Iun-Cing novo Imperador da China com hum presente grandiozo: referem-se as duvidas que occorrerão em Cantão, e a grandeza com que em Macao o na corte de Pekin foi recebido. Cap. VII. — Manda El-Rey buscar 20 peças de arte lliaria, e outras armas para Cantão: passa o Imperador Decreto para os Missionários serem expulsos da China: chega outro De- ci-oto imperial para que em Macao se não recebão mais mora dores do que havia, o de todos pede lista: occorrem entro os do Governo de Macao grandes discórdias: vem socorro de Goa para Timor: tocão-se alguns socessos desde o anno 1725, athé o do 32. Cap. VIII. — Renova o Pezeinbargador Sindicante seu procedi meu te para com o novo Senado: este, e o Ouvidor se conspirão contra o tal Ministro: procura este com ajuda do braço militar prender ao Ouvidor: ha varias dezordens lio Se- nado: chega de Goa novo Sindicante: ha pertençoens, o movi- mentos nos chinas. Roforom-se alguns socessos de Macao desde o anno de 1733. Cap. IX.—Morre Iun-Cing Imperador da China e Tar- taria; sobe ao Throno Kiuenlung: excita-se na China nova per- seguição contra os Missionários, e Christandade: sente-a Macao por consintir: acha-se esta Cidade atenuada com empenhos, o grandes perdas. »
— 10 Cap. X. — Soeessos de Macao, que por alquiuas circuns- tancias parecerão tnais notáveis, e occorrerão desde o anno de 1740 athé o de 45 em q estamos, no qual dou tini a esta Obra, e me retiro antes que o veja perecer. Rppendice a esta obra Cap. L.—Do estado deste Império da China no tempo prezei) te. Cap. I f. — 14o estado desta Cidade de Macao no pre- ze ti te tempo. Fim
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ASIA SINICA, E JAPONICA p-" MACAO CONSEGUIDO, E PERSEGUIDO. LIVRO I Rpparato a esta obra Capitulo 1 Mostra-se summnriamentc o estado do Mundo desde o seu principio utlié o tempo presente, na Azia instruído, e destruído. Quando Deos coin sua Divina Omnipotência, e Sabedoria infinita em o principio não da Eternidade, não do Evo, mas no principio do tempo, e do mundo, quando com o mesmo mundo principiou d'este a duração, creou o Ceo, e a terra, (a) não em tempo, mas em o primeiro momento no tempo ou primeiro ins- tante do Mundo, antes de outra alguma cousa ser creada (b) (contra o que Platão, Aristóteles, e outros antigos Filosofes sin- tirão, entendendo não ser o mundo eterno, pois Platão com os Estoicos disserão que o mundo sim fora feito por Deos, mas de materia eterna, e ingenita: Estraton Lampsaceno, que o mun- do fora ingenito, e só por sua propria actividade e virtude ab íeterno existira: os Peri patéticos, que Deos não livremente, nem por vontade, mas por necessidade de natureza, ab esterno creara o mundo: Epicuro, que o mundo por fortuita conjunção de áto- mos fora produzido:) (c). Logo á Soberana Voz de seu Divino Império appareceo instantaneamente creada esta famoza maquina orbicular//do Universo, podendo crear outros mais mundos, e 2 (a) Gene». I. cap. I. V. I. = (b) D. August. Lib. I in Genes / D. Ambros. D. Basil, hoinil. I. Exam. Cnncil. Lnternn. Cap. — Tirmiter (c) Tertulianus. / Hermógenes.
desfazer a todos o mesmo Senhor que os creara, pois Sua Di- vina Omnipotência não se exhaurira, e para toda esta Obra tão magnifica hum só Fiat 1 lio bastara (d). Hera o inundo em seu principio hum corpo vacuo, e to- do de escuridoens coberto (e), athé que a poucos instantes crea- ra Deos a Luz coin que o iIlustrou (f), hera vacuo porque aliin- da sem creatura alguma racional, ou irracional que o habitasse (g), sem arvores, plantas, fontes, rios, montes, metaes, nem mi- neraes (li), sobre o que cantou Ovidio: Uiuix erat foto nofitra; viiflux íii orbe, Quem dixere Cimo.v, ntdix, iiidiyextuqiie molex: Sec 1/nidi/num, nisi pondux iiierx, conyextnqiie iodem, Son bene jnni fiti uin dixcordiít .seminu remiu. Bem poderá Deos, se quizera, logo nnquelle instante de tempo ein que creou o Mundo todo, deixa-lo na sua ultima per- feição; mas sendo congruência que a natureza das cousas (cujo Croador lie Deos) proceda de menor a maior perfeição e luzi- ineuto, (juiz mostrar aos homes que havia de erear, serem depen- dentes de Deos as cousas todas, não só em seu primeiro principio, mas em seu felix e final adorno: ou porque se Deos 110 princi- pio creara o mundo na sua perfeição ultima, muitos 110 tempo futuro o considerarião inereado (i), ou porque com sua ultima providencia o dispôs assim, para que os homes á imitação Di- vina nesta obra, guardassem a mesma ordem em as suas, ope- rando, e proseguindo com augniento, e esplendor suas acçoens (1). Também Deos, se quizesse, bem poderá depois de creado (d) Kr. P*. 32. V, S.'/Ksdim ;p \*. ;(s I). B:i»iliii*./Rnpertip* (e) Gene*. I. V. 2. (f) Genes. I. V. 8. (;;) Jnniitb:i8 ClmlduMl* r_ (li) Symaehiis Theoitosion./Gnketo» ail. Lib. Snp./II et 70 liie. = (i) Ita \). Ambros. iip'Hexain. c. ~— (1) Ita etiani I>. Amin*. =
23 — o Mundo todo, e posto eui sua perfeição ultima, pois que uâo o creou por partes, como nós o dividimos, mas todo junto de- pois do Geo, no mesmo instante de tempo (depois das obras to- das prodigiosas que formal e potencialmente fez nos sinco pri- meiros dias da Creação do Mundo) mostra-lo todo não só a Adam nosso primeiro Pai que no sexto dia formara (m), mas aos filhos que teve de Kva sua Esposa, assim como a Caim mostrou parte das terras da Azia, como foi Edem, Haran, e Mesopotamia cir- cumvezinlias (n), e outras a seus descendentes, na primeira idade do Mundo; mas por seus altíssimos jnizos passados já 1057 annos que tantos correrão desde a Oreação do Mundo, atlié o fim do diluvio en- tão lie que aos filhos de Noé deu permissão de habitar a terra toda (o), e ahiuda estes a não descobrirão toda, tendo a posse (p). / Alargou-se mais este conhecimento do Mundo aos Netos •'««• a de Noé, que forão descobridores e fundadores, dividindo entre sy Ilhas e terras (q), levantando povoacoens, e cidades (r), e em fim Sem, Chain e .laphet, para varias partes do Mundo se dividirão (s), e Sineo filho 5o de Chanaan Neto de Noé deseobrio e po- voou a China ou Sina nas vizinhanças do Japão, como enten- deu o Alapide, cujas palavras são para notar (t). Simnm Si- no'i, hie sunt tiiiur jnxta japoniam ãegentes, de quibus a d Chris- turn convertèudis prophetavit Isaias, Cup. lit. I . 12 in H et nau, ut ibi d ire rut. Muitos P.P. e Doutores ai tendendo ao que se lè no Livro do Genesis (u) entendem que esta primeira divizão dos Netos de Noé, forão tão somente nos continentes a que chamamos Azia, primeira parte de Mundo descoberta; e depois do louco intento (III) GelleS. i. clip. I. =: (n) (iene*. 4, V. IS. //Gems. S. V. II. //E/ecli. 27 Iniiie. 37.— (o) Gene». C. 0. V. 7. = (j») Kx Hebraico. = (q)^Gene». 10. V. "> = (r) Ibi. V. 10 = (») Genes. 10 V. 32. = (t) Coin. Alap. a«l cap. 10 Genes, n." 17. (ii) Gene». Cap. 10 / litem, cop. II. =
— 24 a que se applicavão tie fundar a torre de Babel, vindo de Arme- nia a Babilónia, e Campo de Sennaar, confundindo-llie Deos as lingoas (x), a principiarão a faliar diversas, dividindo-se então pello Mundo todo (z), não faltando athé a(]uelle tempo mais que a Hebraica. Destes he que nascerão todos os Povos, Impérios, e Rei- nos com diversas Lingoas, permittindo-o assim o Creador para feri noz ura do mundo, atlié que com o decurso dos tempos, ven- do já Deus ao mesmo mundo povoado e a Moyzés nascido no anno 2374 da creação do Universo, 717 depois do Universal Diluvio (a) tendo-se em todo este tempo regulado os homes pel- la Ley natural já adulterada, cotiza porque Deos tinha procedi- do com vários castigos, e também uzado das suas Mizericordias (b), tendo já elejido a Moizés por capitão do seu povo (c), lhe deu por ministério de um Anjo no alto do monte Si nay os pre- ceitos do Decálogo, para fazer observar (d), e depois de ter Moi- zés recebido todos os preceitos e Leis ceremoniaes, e judiciaes (e), final mente para corroboração de tudo, o chamou Deos ao alto do mesmo Monte (na Azia situado), adonde lhe deu as ta- boa8 da Ley Escrita, a cuja observância todo o povo se obrigou (f), mas prevaricando e faltando em breve tempo no que a Deos por Moisés tinha promettido, logo principiou a idolatrar (g), dando as costas ao Verdadeiro Senhor, de quem tinlião re- cebido incomparáveis benefícios e quebrando-se a Santa Ley, foi tão grande a Divina Mizericordia, que não só compadecido 4 das supplicas de Moizés,//mas das lagrimas daqueles peceado- res, lhe perdoou Deos, e reconciliando-os a Sy, lhe reformou as (xi Genes. II. V. 6, o 7. = .(i) Genes, ibi. V. 8. = («) Exod. et ejus Exposit. = (b) Vide Exod. usque ad cap. 17 = (<•) Vid. per tot. Exod. usq. ad cap. = (d) Exod. cap. 2d. = (e) Ibi, et cap. 21. usque ad. 23. = (f) Exod. dap. 24 per tot. et cap. 31. V. IS. = (g) Exod. cap. 32 ibi. =
— 25 - taboas (la Ley despedaçadas (li). Em fim passando Moizés da prezente vida no anno 2494 da creação do inundo, 837 annos depois do diluvio, com 120 de idade, o forão substituindo outros famosos Capitaens. Em ta li to se liia cada vez mais propagando o Universo, e extendendo-se cada vez mais os racionaes viventes pel lo âmbito da terra, que liião descobrindo, sendo a todos os mais incognita, fundando povoações, e estabelecendo novos Reinos, call irão tam- bém em novos erros, pois já a multipicidade de indivíduos sub- diviza em um confuzo labvrintho de systemas, sujeitando as idéas loucas no seu entendimento aos cegos apetites da vontade, se des- penharão em um profundo pélago de innumeraveis delírios, cer- tamente repugnantes à Ley Escrita, porque negado o culto a hum só verdadeiro Íleos, fundando-se huns em apparent es ra- zoeus, e outros em próprias opinioens sofisticas, viciando outros o que os Profetas escreverão e as Sybillas vaticinarão seguirão com peccado grande só aquillo que quizeram, e a innumeraveis idolos (affectando n'elles divindades) rendião culto. Neste deplorável estado se achava já o mundo quais todos arruinado -e perdido, cometendo os homes mil barbaridades, do que novamente Íleos compadecido, vendo que á sua Divina Ima- ge e semelhança formara o home (i), que cativo do Demonio pella culpa perecia, se não lho acudisse com a eficaz providencia de Sua Infinita Mizericordia, determinou que seu proprio Eillio viesse ao mundo a assumir natureza humana nas entranhas de huina Virgem pura, para que assim capacitaiulo-se a poder dar pelos memos homes a vida, os resgatasse do captiveiro do De- monio com Seu Sangue Preciozo; e se as terras da Azia tinhão já sido gloriozo theatro de maravilhas desde que Deos criara o Uuiverso, na mesma Azia se admirassem todos os mistérios da Redempção do mesmo mundo. Encarnação, Nascimento, Vida, Paixão, e Morte de Jezu Cliristo. (li) Exutl. rap. 34. (i) Geues, 1 cap. I.
— 2(i — Em o anno pois
— 27 — mostrar aos homes a estupendíssima fabrica do mundo todo que creava, e aos mesmos homes deu conhecimento e ciência dos modos com que podião, ao menos conjectural mente, perceber que couza o mundo hera, logo estes, ou por coriozidade e appetencia de mundanas glorias, 011 por ainbiciozo dezejo de lograr delicias e riquezas, (a não serem altos juizos de Deos, para a propaga- ção do L ni verso), uzando de varias artes adqueridas coin labo- riozo disvélo, Aritlimetica, e Mathematica, e Geografia, por esta o mensurarão, e em partes o dividirão, chegando a perto de oito mil léguas a circumferencia que lhe derão, sem mencionar a altura dos Oeos, / grandeza, e movimento dos planetas, que a Pag. t tuilo confiadamente se atreverão, fazendo globos, mapas, 011 cartas geográficas para a humana percepção ; e como a Azia fora a pri- meira parte do mundo descoberta, conciderando alguns a esta com maioria entre as outras (suposto, haja opinioens contrarias) a subdividirão em Azia maior, e Azia menor, expondo os dila- tados Reinos e Impérios que liuma e outra em si contem. Para eu dar alguma breve noticia dos continentes da Azia, me deverti em lei coriozamente o que escreverão o P. .Martinio Martin Italiano (p), o P. Athanazio Kischavi Romano (q) João Vighoviuin Olandez (r) M. de Seinierrs France/ (s) D. Francisco Giustiniaui em Hospanhol (t) Manoel de Faria e Souza Portuguez (u), tenho já lido em Portugal, sem este in- tento as Décadas de Barros, Fernando Lopes de Castanheda, e as obras de Diogo de Couto, que das terras da Azia nos dãe vasta uoticia (x), como não menos Nicilao Trigaucia e Marco Paulo \ eneto, que entre lodos se reputa o mais antigo (z); mas (l>) Martin. Mart.. Alias et in tom Ital. idiom. eonser.— (. Brane. Giust. en el Alias itbreriaiio impr. em França— (n) Manoel lie Far. e Souza nas suas Azias Poitllg.= (s) Vide etiam Snpr. diet. A. A. si plae.= (x) Nicol. Trigauc. / M. Paulo Venet — vide •
— 28 — como os discursos dos homes sempre forão vários, e difficilimo sempre o poder conciliar a todos, difirindo alguns nos graus de longitude o Latitude do tereno, outros nos continentes dos rios e mares pellos quais liuma da outra Azia dividirão, exponho o que mais comuamente escreverão e se reputa verídico quanto aos Paizes. Acha-se a Azia cercada pello septentrião com o mar de Galacia ou Tartaria; pello meio dia com o mar Oeeeano, ou das índias, e Arabia : pelo Oriente com o mar da China : pello Oc- cidents com o mar Roxo, que a separa da Africa, ficando em 73 graus de Latitude Septentrional que fazem 1450, e sua lon- gitude entre os 35 e 195 grãos, mas em opinião moderna se tem observado ficar entre os 47 e ICO grãos, contando desde a extre- midade da Natolia atlié á China, occupando liuma grande parte da Zona Tórrida, toda a Temperada Septentrional, e alguma par- te da Fria. Tem a Azia seu principio em os Dardanelos junto a Cons- tantinopla, e girando grande parte do âmbito da terra finaliza em a Russia ou Império dos Moscovitas, incluindo em sy parte d'este Tmperio, todo o da China, o do Japão, o dos Tartaros, o dos Gram Mogol, o dos Persas, e dos Abixins, e grande parte do Império Turca», todos com muitas Províncias, e innumeraveis Reinos, mas quanto á Tartaria não abraça o Império todo. As províncias prineipaes que o Império Turco tem na Azia são a Natolia, Syria, Turcomania, Diarbek, Georgia, e liuma parte da Arabia, com varias Ilhas de maior e menor grandeza. // Em a Natolia, tem Bithvnia, Smirna, Ancira, Paplagonia, Mitridate, Nicomedia, Nicéa, Chalcedonia, Epheso, Erostrato, Halicarnasso, Sardo, Lídia, Mileto, Tróia, Perganio, Carainania, Tarso, Antio- chia de Piriade, Amazia, Trapizonda, Capadócia, Cesarea, Ma rast, e Jasso. Na Syria tem a Phenieia, Palestina, Judêa, An- tiocliia, Alexandreta, ou Escanderone, Samosate, Tripcdé, Ptole- maida, Sidónia, Jeruzalein, Sicliem, Bethlem, Joppé, e Gaza. Na Turcomania, a Armenia maior Erzeron e Berlis, com outras muitas povoaçoens Na Diarbek. a antiga Syria, que em
— 29 -T- huma parte tomou o nome de Mezopotainia e em outra a de Chaldéa, ou Babilónia, Mossul, Edessa, Haviam Na Georgia a Miugrelia, Oolcliide, Oardual, Suram, e outras que por menos conhecidas não repito. Na Arabia, a Petrea, a Dezerta, a h eliz, Meca, Medina, os celebres montes Horeb, e Synai, Iaman, Mo- ca, Mascate, e outras muitas terras com varias e notáveis Ilhas, em que entrão as de Ohypre, Rliodes, Metelim, Samos e Pathmos, ao que tudo incluindo os Abixins chamão os mais dos Escrito- res e Geógrafos Azia Menor. Na Azia Maior se comprehende muito parte da Gram Tartaria ou Império dos Tartaros, hoje diminuto, e dividido em Tartaria Meridional e Septentrional tendo n'esta só o Czar de Moscovia sinco Província, Astracan, Cireassia, Bolgar, Oassan e Siberia, com outros muitos Paizes, e em toda tem o Impera- dor da China e outros Princepes dilatado seus domínios; seus Limites são ao Septentrião o Occeano Septentrional, ao meio dia as índias da Persia, mar Caspio e Georgia; do Oriente o mar Oriental o a China; do Occidente a Moscovia. Entre os Tartaros e os Turcos ficão os dous Impérios dos persas e dos Mogoles, ambos famosos, suposto este se ache hoje em grande parte dis- truido por Tamar Kaulikan, (1) que vendo não estar o Império dos Persas tão grande como quando Dario o possuhio, o quiz á forsa de armas e industrias extender. Outros Princepes lhe pos- suem rauyta parte, e todo o Indostão, que hé grande porção des- te celebrado Império. Dividia-se antigamente em trinta e sinco Reinos, hoje con- tem só 19 governos, e lie o Indostão a parte mais concideravel da India, e tomou este nome do famozo rio Indo, que o rega com crystalinas aguas, conservando-lhe este nome todo o dilata- do terreno a que chega a sua profiuencia. Os geógrafos dividem este Império em tres partes, Septentrional, Occidental e Orien- (1) Referc-se a Tomás Kali Khan, main celebrado sob o nome de Nadir-shali Hei de Pérsia, que tomou Delhi aos lieis Mogores do Indostão, voltando ao seu país carregado do despojos e riquezas de tôda a sorte.
^ 30 tal: á primeira asignão por confins, de Oriente a Grani Tarta- ria, e a peninsula Oriental «la índia; «lo Poente a Persia: do- meiodia o golfo de Bengala, e a Peninsula da índia da outra pHg. * parte do Ganges. A segunda que lie Peninsula Occidental, e es- tá cercada do Occeuno Oriental, ou Mar da índia, excepto da parte do Septentrião «pie está unida ao Mogol, se divide // em sin- co partes: la. contem o Reino de \ isapur, ens «pie se aclia a grande Ilha de Goa, Dio, Damão, Onor, Cananor. Baçaini e ou- tras muitas que os Portugue/es coinpiistarão, «lo que em seu lo- gar farei menção. 2a. contem o Reino de Galionda ou Heidera- hel. 3a. o governo «le Bisnagar, ein que está situada a cidade Mel ia por que possuliimos. 4a. a Costa de Coromandel hoje so- geita a diversos Princepes. 5a. a Costa «le Malavar, em que te- mos a Oochim, e ha varias Ilhas. Ainda se reputa maior que as outras, a terceira parte, que lie a Peninsula Oriental, e tem por Remites ao Oriente a Chi- na, e o Oeeeano Indico: pel Io nieio-dia e Poente o mesmo Oe- ceano ou mar da índia: pello Septentrião a Gram Tartaria. Sub- dividem esta Peninsula aliinda em outras tres partes, Septentrio- nal, Meridional e Oriental: A Ia. tem o grande Reino de Ava. a que may tos «hanião Império, suposto «pie tributário antiga- mente, contem seus Estados e sine,o Reinos que lhe pagão feu- do. A 2a. tein o Reino de Sião com onze Províncias, e o Rei- no de Cainhoya ou Camlxxlia seu tributário: nesta vizinhança fica a Peninsula e Estreito «le Malaca. A 3a. «pi«í lie a parte Oriental se divide em dons Reinos, «pie são o «le Tunkiin com sete Províncias da sua obediência, tributário ao Impeiador da China; o outro hé «» Reino de Cocliincliina subdividido no Rei- no de Chiampa «pie comjuistou, e IYgvi, com seis populozas Pro- víncias. Enilini para «lizer em siinima tudo «» «pie contem o gran- de terreno da Azia, e o «pie chamamos Ilidia assim Oriental como Occidental, lie tudo o «pie corre o mar Indico, lie pella perte do norte «la Costa e Contra-costa todos os Reinos, Provín- cias e diversas naçoens de gentes que as habituo, lie tudo o que
— 31 — einbóca c dezembóca o estreito de Malaca, em muytos e gran- des Ilhas povoadas e despovoadas, mencionando as Molucas, Maldivas, Borneo, Ceilão, e Sumatra, atlié chegar a parte de Moscovia, cornprehendendo toda a China I)a parte Occidental se pode já numerar a famoza Ilha de Java, as de Solor, e Ti- mor, as Fillipinas com sua capital que lie Manilla tudo povoa- do; as Ilhas do Império do Japão com vários reinos feudatarios, atlié fexar outra vez com a China, da quel dista tão pouco que em 40 oras de viage se pode estar cm ambos os Impérios, dos quais em seu lugar foliaremos, pello que respeita á prezente obra./ CAPITULO III Da falsa Itelligião, ■seitas, e Idolatrias, com que quasi to- da a Azia, o Indostão, Japão, c China, se prevaricou. P.ig. o Bem poderão os Egypcios pelas pragas e castigos que 110 tempo de Moizés experimentarão (a), ter com evidencia conhe- cido quain poderoza e pezada he a mão de Deos, para que re- trocedendo de uma vez os caminhos errados da perdigão, nem elles, nem os (Iregos em tempo algnin por doutrina de seus sá- bios o seguissem, nem a outras naçoens da Azia os participas- sem. Consta por asseverações de Herodoto, Plinio, Diodoro, Pauzanias, Plutarcho e outros antigos Etc ri to res (b), que depois da invazão feita no Egypto por Cambisses Rey dos Persas, sen- do então Munia Pompilio o segundo Rey dos Romanos, destrui- rá em grande parte nquelles povos e procedera rigoroso contra os Sábios e Sacerdotes dos ídolos, mandando queimar os simu- lacros de umas Deidades fementidas, despedaçar Altares e de- molir Obeliscos e pirâmides, damlo principio a esta acção pelo I,!,,!,,—Apin—que reputarão sua maior Deidade, ou Boi Sagra- do que loucamente adorarão vivo, e tudo reduzio a cinzas. (st) Exod. st «'til». us,l- et liic v. 14 = (b) Herodoto, 1'liniii». Diodoius, l'auziui., Plutarch, et alii_ in Tar. Libr. et liintor. in ti it ti i. =
— 32 — Os Sucerdotes com outros muitos Sábios, e insipientes do povo por escaparem à morte ou a algum áspero desterro, o to- marão voluntário, fugindo peregrinos a diversas regioens: e como a gente hera muyta, alguns por maior segurança dezencontran- do-se, entrarão pello seio Arábico, vindo parar á ilidia ou In- dostão, como já muitos annos antes tinlião feito (conforme a sua traddição) Hermete, Baclio, e Ozirides; e nestes paizes tão remotos entrarão com deligencio a suscitar o que El-Rey Cam- bisses destruirá no Egypto, empenhando-se com o pretexto de grande zelo a influir nos entendimentos simpleees o quanto hera precizo ter muytos e vários Deozes levantando lhe Estatuas pa- ra adorar, como meio eficaz de os ter sempre propícios. Tornou logo aqui primeiramente a reviver o Boi Sagra- do com o nome de Apides, a quem sem muita repugnância aquel- les povos persuadidos derão culto, sendo capacitados primeiro que ninguém no futuro século havia ter salvação, se 110 extremo da vida se não pegasse á cauda dhuma vaca, tendo a 11a mão athé Pug 10 os últimos alentos. Logo se seguiu a seita da Transmigrá'/ ção das Almas de cuja superstição fora Pythagoras o Mestre, e entendendo com certeza passavão com effeito as Almas de liuns animaes para os outros se abstinhão de comer tudo o que fosse animal vivente, e o que delle procedesse, como Leite, queijoi ovos, etc., para que não socedesse engolir e gastar com o 1111- trimento huiua Alma de algum Heroe que 110 mundo tivesse florecido. Herostrato escreve que com effeito forão os Egypcios quem 110 Indostão ensinou esta doutrina (c) que por toda esta parte da Azia athé Camboya, Tunchim, Laos, Oonchinchina, Japão, e China toda foi seguida e praticada, athé o prezente tempo, e em varias naçoens com todos os seus apices e rigor. O mais acérrimo sectário desta falsa e supersticioza dou- trina foi hum Architeto chamado Brachman, que em todo o Oriente a praticou, acrecentando a esta outras superstiçoens in- numoraveis, introduzindo também a fabula do Elefante bran- (c) Erostr.it. in vita Apolionii,
co, cujos aniinaes desta cor ti verão por estes Reis gentios tanta estimação como a mesmo Monorchia, repntando-se bemaventura- dos os que os chegarão a possuir, para idolatrar. Esta iinpio Brachman a que os Chinas cliamão Xéxian, e os Japoens Xaca, e atrevidamente de si propria afirmou que nem na terra nem no Oeo havia outro Santo que ello, teve tão numeroso séquito de discípulos, que chegarão a oitenta mil, e por elles semeou tan- tas e tão horríveis sizanias, que parece incrível o dizer-se, pra- ticando finalmente oitenta íuil transmigraçoens em todo o genero de animaes, incluindo sempre o Elefante branco, e que em seis giros ou rodas se mudavão as Almas de liuns a outros por seis penas, ficando na sexta rotação com participaçoens de Divin- dade, feitos Pagodes (d). Outros ahinda hoje entendem, observando aquella doutri- na, que esta transmutação das almas se regula pelos méritos e deméritos, vstudes e vicios dos sogeitos com oorrespodencia; por- que as dos Tiranos se transmutão em Tigres, as dos Lascivos em Porcos, a dos Gulozos em Caens, e pel lo contrario as dos brandos e pacíficos em ovelhas, etc., mas sempre as dos Reis em Elefantes brancos; o finalmente chegaram a praticar outros ahinda mais especulativos delírios que não relato por fugir á extensão e se podem ler em vários e doutíssimos Escritores (e/. Os Rrachinanes dizem trazer de Xaca já mencionado a sua origem, e se querem confundir nas ideas e ciências tão su- persticiozas com o mesmo Pythagoras e Trimegisto. Tem por especiaes Deozes a Bruma, Vesue, e Butzem, aos quaes dizem se subordinam trinta o tres milhoens de Deidades, e que do Deos Bruma procedera toda a geração dos homes, e de catorze partes do seu corpo catorze mundos, correspondendo os homes com suas inclinaçoens e génios áquelle mundo em q.' cada hum foi nasscido. // (<1) P. Robert. Nob. in Theol. Rrachin. = («) 0 lot ions o <1. M./Bolbuid. in Vita S. S. tom í. Jan. lõ.//Mnriti. in. anaí //et alii,=
— 34 — Quanto á origem e mearão do inundo pratição vários disparates que boje os Sarracenos ou Mahometanos i mi tão, tendo estes que (pello vocábulo — Gabala) na ponta de lium Boi se sustenta todo o globo da terra, aquelie que em buiua serpente de mil cabeças ajudada de oito elefantes se sustenta. Outros Brachinanes (isto lie Sábios e Mestres) ensinão que buiria Aranha lie a primeira con/,a de todas as couzas, a qual coin uma continua evolução de/entranhada formara primeiro os Celestes Globos, e continuava a sua obra athé completaim nte aperfeiçoar o mundo a que bade também cauzar o tini. Outros Bracbinaues, Mestres ou Discípulos do Demonio, com inaudita deinencia praticarão não menos que dés incarna- çoens em Deos (f), e os Indianos d'alem e d'aquem do (ranges lhe derão inteiro credito. Ajuntarão três pessoas, ou seus ídolos em arremedo da Diviníssima Trindade: Bracbma, Bexno, Ma- bex; dizião que o primeiro bera natureza ou eseneia do Ente Supremo: o segundo, dizião ser o seu apetite concupieivel, e o terceiro seu apetite irasei vai; davão-lbe seiscentos nomes para in- sinuar daqnelle Ente os atributos, e reputarão liuma só natureza em todos tres. Jíao exponho os modos das desincarnaçoens, por ser prolixa e infructuosa leitura. Os ídolos e Idolatrias, as Seitas, e Superstiçoens que des- tes se derivarão e segue este cego Paganismo, são innumeravois: buns adorão o Sol, outros a Lua: outros, quando esta lie nova ado- rão e festejão ao som de hatigas o Dragão para que Ília não coma; outros tem ídolos com figura do Demonio (como eu vi n'esta Cidade em hum Pagode publico), e o adorão para que os não persiga nem 1 lies fassa mal algum. IIuns adorão (e são niuytos) a Ainidas, outros a Menipe, .lano, .lupiter, Diana e Plissa Cybe les siuica, em varias e diferentes figuras, tudo partecipado dos Egv- pcios e Gregos. Tem públicos templos e Pagodes dedicados a mur- tas Deidades: Templo do Dragão do Mar; Templo da Rainha do Ceo, isto lie da Lua no seu sintir: Templo ao Ceo: Templo aos (f) P. Hemic. Geot.
— 35 Demonios: Templo aos Montes e Rios: Templo a Marte: Templo do grato animo: Templo á Paz: Templo ao Espirito da Medici- na: Templo ao Prezidente dos Muros: Templo ao Presidente dos Matos. Em fim, ao Deos da Chuva, ao Rei das Aves, e a outras Deidades fementidas (g). Para ultimante sejf/cominunicarem ao Pag. 12 coriozo leitor todas as Seitas, Superstiçoens, Leis, Ritos, Oeiemo- nias, doutrinas, idolatrias, modos de adoração, pagodes sumptuozos e multidão de ídolos, q 110 conforme os Escritores são mais de no- venta mil em todo o mencionado Continente, seria hum proces- so infinito; só concluo com dizer, que como estes barbaros gen- tios le van tão facilmente pagodes e idolos a quem querem, com a mesma facilidade se lhe não diferem promptamente ao que suppli- cão, transmutão todas as adoraçoens em desprezos fazendo-lhe vilipêndios, arrastando-os, despedaçando-os, queimando-os, pois tem em tudo inconstancies. Capitulo HIT Quer Deos acudir á perdição de tantas Almas, redemidas já com o predozo sangue de. Seu Filho e manda-lhe ministros evan- gélicos para os instruir na verdadeira Belligião, com a Doutri- na e Luz da Fé. Por mais ingratos e desatentos que os homes farão sem- pre a Deos, desde que no inundo houve homê, sempre Deos co- mo Pay de Misericórdia lhe foi propicio, acudindo com pro\ i- dencia de reinedio ás suas penalidades (a), dissimulando culpas e suspendendo castigos por esperar piedozo a nossa emmenda, athé que vendo ao Mundo já nos últimos paracismos, em o le- targo dos vicios. com achaque quazi irremediável, lhe applicou (g) Vid. in Jainbalico/M Paul. Veuet./Clero. Alexadiin./Atlian. Kircher./Mra- tinio Martin./Ludovic. Froea./P. Gruberus./Chrietopli. Bui./Joan. Lopes./Apollon. Tbyando./Erotrato./LudoTÍc. Gusm./Trigautio/Faria o Sobra./Mendes Pinto. (a) Vide Lib. Genes.//Exodi, et tot. Sacr.//Sciipt. in ant. et//novo Testnni.
— 36 — o mais efficaz remédio com o preciosíssimo sangue de Seu que- rido Filho resgatando-nos, e pondo-nos com a Luz da Fé em o caminho da Graça; que suposto deixara a estes livre a vontade, não tivessem depois desculpa se illustrados com a Luz do Ceo' e doutrina Evangélica a não seguissem. Para este erfeito, antes de Christo dar pello nosso amor a propria vida conferio com os Apostoles seus Discípulos tudo o que em utilidade das nossas Almas ensinando e pregando lia- vião de obrar (1»); emfiin depois já de ressucitado e subido ao Ceo, depois de ter vindo o Espirito Santo sobre o Collegio Apos- tólico, depois de lhe ter infundido a Divina Graça e partecipa- do também o dom de Lingoas fc) sahirão pello mundo todo a pregar a Evangélica Doutrina (d), e estabelecer a Fé Catholica, destruindo pagodes e ídolos de falsos Deoses que adorava o Geu- tilismo, e erigindo Altares ao Verdadeiro Deos, que tao somen- te havião adorar.// p«g. 13 Cheios de Graça e espirito entrarão os Apostolos Sa- grados nesta Missão, e dividindo-se para abraçar a todo o Mun- do, coube ao Apostolo Evangelista S. João, a Azia Menor, e a Azia Maior (de que tratamos) ao Apostolo S. Thomé como as- sim já dissemos. Sabio este Sagrado Apostolo de Jerusalem pa- ra o district*) que por distribuição lhe coube, (e ha opiniões que os Apostolos S. Fellippe, S liartholomeo e Thadeo o acom- panharão na Empreza) suposto so consta da Historia Ecclezias" liça a vinda de S. Thomé (e). Sabio este S. Apostolo por Judea, Siria, Armenia e Mesopotamia, chegou á Persia, e na Cidade Soldania se dilatou propagando a Fé Catliolica, e reduziu gran- de numorosidade de gentios; daqui passando pellos Reinos de Oandahar, < Cabul, ou Galabor, atravessando com grande tra- balho altos montes, chegou á região de Gavorstan, ou cidade de (b) M.-iili. c. 24 p r toi.//ct. in aiii'C = (o) Acta Ap. c. i. v. 4.= (d) Ma c. 16. v. 14.= (c) Hiiter. Erclcs. Iiic.=
Oapliurstan (f), penetrou Guzaratam Menor, que não dista niuy- to do Reino de Oasmir, subindo os montes Thebeticos, não mui- to longe de Bengala, e pello Reino de Deean chegou a Melia- por, fazendo maravilhas sempre na conversão de Aluías innuinera- veis que reduzio, baptisou, e illustrou com a fé de Cliristo (g). Que este Sagrado Apostolo fora primeiro aos Parthos, lie opinião do Origeues, e Eusébio (hj; que fora aos Iudos ao mes- mo fim de Evangélica Doutrina lie sentir de 8. Gregorio Na- zianzeno e Tbeodoreto (i), asseverando este que aos Persas, Par- thos, Medos, Brachmanes, e Indos, pregara a Evangélica Dou- trina. Nicephoro diz chegara este S. Apostolo á Trapobana, que hoje chamão Sumatra, e que por ser nesta visinhança da Chi- na certamente a penetrara (1); mas deixando isto só em proba- bilidade e fé de tradicçoens, he sem duvida que mediato on immediata, isto lie que ou por si proprio ou por seus Discípu- los, foi naquelle tempo propagada felizmente em toda a China a Fé de Christo, e também em a Tartaria como sente Ortelio (m). Que o Apostolo S. Felippe acompanhara a S. Tliomé e viera a Asia superior prégando o Evang." na Georgia, Iberia, Albania, Micrelia e Armenia, e em Reinos de Tebet, e Tancut tem com probabilidade Niceplioro (n); que S. Bartholomeu pre- gara aos povos de Licaonia sitos na Armenia Maior, diz Çhri- sostomo (o), Sofrino q.'aos de Abania (p), Origenes, e o Filoso- fo Pantheno, que também aos Indos (q). (f) Benedict. 6oes.//Nicol. Tiiganc.= (g) Athan Kirclier Chin, illustr //Cap. 7. foi. 91.//rol. 1.= (h) Origeu. 2 Gen. lib 3. / Euzeb. Lib. 3. c. 1. (i) Greg. Nazinnz. / bom. contr. Arian/Tbeodo et. de • erit.//Evangi 1- Lib. 9 = (1) Nicephor. 1. 2. c. 40. = (m) Ortelius et vid. / Aneam Sylviuin / d- tel.. Ind. = (ni Niceph. trad. L. 2. / Cap. 39. = (o) Chriaost. nora. de 12. / Apoatol. = (p) Sofrinu» de prsedic. / Apoat. = (q) Origin, in Gen. 1. 3. / Hiato», Anneiiior.
— 38 — Em Meliapor fez rezidencia o Apostolo S. Thomé, de donde coin sen grande espirito e por meio de sens Discípulos asistia a quazi infinitas Almas que já estavão convertidas á Fé em toda esta Asia Mayor, comproliendendo a China, occu- pando-se em reduzir outras de novo; e para melhor comodida- de lhe instituhio Bispos que consagrou e mandou rezidir em varias partes, occupando-se todos em tão Sagrado Ministério ao mesmo tempo; athé que finalmente querendo-lhe já Deos dar o premio de seus trabalhos, o chamou desta para a melhor vida Pág. 14 por meio do martírio, ficando em grande veneração huina cruz feita com o seu sangue, circulada de vários earatheres, que pa- recem ser Liugoa Talmul, ou Tamul, que explicados por hum Braclnnane, e traduzidos da lingoa Malavar na Portugueza os expõem o douto Lucena (r) na seguinte forma: « Depois que apareceo a lev dos Ohristãos em o mundo, «dali a trinta ânuos a 21 do mez de Dezembro, morreo o Apos- « tolo S. Thomé em Meliapor, adonde houve conhecimento de « Deos e mudança da Lev, destruição do Demonio. Naseeo Deos «da Virgem Maria, esteve em sua obediência trinta annos e « hera hum Deos Eterno. Este Deos ensinou a doze Apostolos « Sua Ley; hum delles veio a Meliapor com um bordão na mão, « e fez luuua Egreja, e El-Rey de Malabar e o de Churomaudel, «e o de Pandi, e outras diversas naçoens, e Seitas se determi- « narão todos de boa vontade, couoertandose entre si de se so- « geitar á Ley de S. Thomé varão santo e penitente. Veio tem- « po que S. Thomé morreo por mão de hum Braclnnane, e de «Seu sangue se fez liuma Cruz». Esta Cruz he perfeitamente feita com o sangue do S. Apostolo, tem nas quatro extremidades a figura como flor de liz: lie miraculoza, e cada anno em o dia 18 de Dezembro no tempo da Missa Solenuo se muda em varias cores, e algumas (r) Juan. de Lucena. / Osorius. / quem Baronia» / citat tom. 1. anno / Cbristi 57.
— 39 vezes fica em sangue vivo lançando copiozissimo suor, que por experiência lie prognostico de alguma eminente calamidade. Muitos e muy veneráveis vestígios deste Sagrado Apos- tolo se encontrão nestes Paizes: No Breviário Olialdeo da Igre- ja de S. Thomé do Malavar, a qual se chama — Gaza — isto lié Thezouro — em huina Lição do segundo nocturno que se reza no dia do S. Apostolo, traduzida em Portuguez, se aclião as palavras seguintes: = Por S. Thomé se desvaneceo o erro da idolatria dos índios. = Por S. Thomé os Chinas e Etíopes se converterão á Verdade. - Por S. Thomé receberão o Baptismo, e adopção de filhos. = Por S. Thomé crerão e confeçarão ao Padre, Filho, e Espirito Santo. = Por S. Thomé guardarão á Fé recebida de hum Só Deos. = ■ Por S. Thomé nascerão os esplendores da Doutrina do Ceo a toda a índia. =' Por S. Thomé voou o Reino do Ceo e chegou aos Chi- nas. (1) Em uma Antifona do officio do mesmo S. Apostolo se diz: = « Indiae, Sinae, Perme et caeteri Insulanij et qui in Syria Armenia, Grwcia et Romania in commemora- tione Divi Thomw, offerunt adorationem Nomini Sancto tuo. Isto he que todas estas naçoens mencionadas em cominemoração de S. Thomé offerecem adoração ao Nome Santo do'Verdadeiro Deos (s).// (1) Como já notou o Rev. Padre Manuel Teixeira nas páginas dês te Boletim (Me- moria sobre a Diocese de Macau, Ano, XXXVI, png. 326 seg.) estudos modernos vieram demonstrar <)iie esta tradição é inaceitável, pois quo o Apóstolo São Tomé nunca veio à China. Quem quiser aprofundar mais esta questão consulte o trabalho de Pe. A. B. Duvigneau, C. M., intitulado Saint Thomas a-t il porté VErangile jusque'en Oh.net (Peiping, 1936). (s) Lucena supra cit.//et plurique Scriptores//qui do Indianis/et Sinis dixerc.
— 40 — Pag. 15 Não menos bé de admirar aquela famoza pedra ou cele- bre monumento antiquíssimo que se suppoem ser do tempo do Apostolo S. Thomé ou seus Disci polos, e foi descoberto em Sin- ganfú Metropoli do Reino de Xensi em o fundamento ou ali- cerce de hum edifício no anno de 1625 a qual tinha esculpida liuma cruz o hera semelhante na figura á que já dissemos do S. Apostolo com forma de flores de liz nas quatro extremida- des; tinha esta pedra de comprimento mais de nove palmos, sin- co de largura, e quazi hum de groço; acabava como em pirâ- mide, e este hera o lugar da Cruz. Toda esta pedra estava cheia do caratheres sinicos, muitos delles tão antigos, que nem os mes- mos Letrados nacionaes os entendião e parecião syriacos. Conti- nha toda esta inscripção vinte e quatro pontos, em que com va- ria historia do Antigo Testamento envolve successos prodigiosos na China experimentados. No quarto ponto expressava mistérios da nossa Redempção mencionando 27 livros do Novo Testamen- to: 4 dos Evangelhos, Actos dos Apostolos: 14 Epistolas de S. Paulo: 3 de S. João: 1 de Santiago: 2 de S. Pedro: 1 de S. Judas Thadeo; e o Apocalipse de S. João; e como muitos e sa- pientissixnos Escritores trazem com individuação explicados os caratheres desta pedra erecta (como delia consta) em o anno 782 do Nascimento de Cliristo, e não pertence esta exposição formalmente ao meu assumpto a elles me reporto (t) ponpando- -me ao trabalho de os copiar. (2) Em outras partes da China se descobrirão varias Cruzes e sinaes da antiga Cbristandade que houve neste Império: apon- to aquela grande Cruz de ferro que se descobrio nas marges do rio Chiang (u), os caranguejos que aparecer com huma cruz • (t) P. P. Trigaucius//Alvar. Semedo.//Michael. Boiin.//Athnn. Kirclier.//Maitin. Miitiu.//Math. Riccius.//Manoel
— 41 — branca nas costas, e isto em varias províncias (x): Cruzes que se achavão esculpidas ein varias pedras: Cruzes com que se acha- vão muitos feitas cm a testa e frontes da cabeça: Cruzes de que se vião cheios os vestidos: Cruzes que em muitas ocazioens se virão em o ar e no mesmo Ceo; finalmente Christãos antigos que nesta e em diversas partes deste Emporio, liuns se denomi- na vão Thomés, e outros Christiferos; do que claramente se col- lige que na China e Tartaria hora separada, hora unida flore- ceo antigamente a Ohristandade, que depois em diversos tempos se tem visto pellos mesmos Tartaros, Chinas, e Japoens tão per- seguida. Capitulo V Dos volúveis estados em que, depois da morte do S. Apos- tolo, se vio a Igreja nos seguintes séculos, com repetidas oppozi- çoens d Fé e Christianismo, nesta Azia Maior tão perseguido. Expoemse successos vários. Mal pode hum grande rebanho de ovelhas ser bem guar- dado entre lobos, se não houver quem com bons perros e soli- cito// cuidado as vigie, nem o das Ovelhas de Christo entre tau- !«• tos inimigos da Alma sem bons caens (quais são os Prégadon 8 da Evangélica Doutrina) (a), e sem haver Vigilante Pastor, que com solicito zello os governe. Em quanto o Sagrado Apostolo foi vivo, e em quanto durarão ahinda bastantes annos os prela- dos, que para varias Igrejas da Ohristandade instituirá, que com a Celestial Doutrina industriara, constituindo-os como herdeiros de seu generozo Espirito, se foi conservando nesta Azia Mayor a observância da Divina Ley e Eé de Christo, mas como todos, chegado o tempo, pagarão o tributo comum á natureza, faltando já quem fomentasse, e protegesse, o Christianismo, descahio e muyta gente de diversos povos novamente idolatrou. (x) Idem. et Trigaucius.= (a) Comua, interpret. / S. S. P. P. et Doctor.
— 42 Não bastara para corroborar, e convencer a estes Bárba- ros, Indus, Tartaros, Oliinas e Japoens, as Profecias do Antigo Testamento a seu favor, que os Discípulos do Sagrado Apostolo lhe insinuarião; corno são as de David Profeta Key (b); as do Profeta í/aias (c): as do Profeta Sofonias (d): as do Profeta Abdias (e), então por aqueles sabiamente discorridas, e hoje por sábios Escritores interpretadas (f); e é opinião assertiva que o V. Pe. Matheus Riccio da Sagrada Companhia de Jezus ahinda quando entrou na China achou vestígio de Livros do Testamen- to Velho, que antes do Nascimento de Christo e Pregação dos Após- tolos lie provável levarião alguns Israelitas ou Judeos que no tem po do Cativeiro de Nabucodonozor entrarão na China pella Per- sia; e acliou também ahinda o mesmo Testamento Velho em cara- theres sinicos em mãos de alguns Hebreos, que na China guarda- vam a Ley de Moizés, como ignorantes da vinda do Messias, (g). Não falando em muitas Profecias modernas que elles ignoravão. Tão cegos se achavão os Chinas e tão obstinados já no- vamente em seus erros, allucinando-os para isso Ministros de Satanaz, que nem os proprios dictames escritos nos Livros de seus antigos Satrapas (sendo delles muyto observantes) atten- dião; achando mencionado na primeira Chronica dos 86 Reys da China a cominunicação que havião de vir a ter com os Euro- peus, e que se havião converter todos á Pé e conhecimento de Deos Vivo e Verdadeiro; ficando-lhe só e sempre atlié o dia de hoje, impresso o temor, occazionado de outras suas profecias, que em o decurso do tempo, Europeos os havião subjugar (li), e reviveu- • . í i! J í í (b) Ps. 85 v. 9 et 10. / Ps. 116. I. / Ps. 2. v. 8.//P». 64 v. 9 = (c) Iaaiíe II. 19.//Ií«a.ife 18.//Isaiae 66.//Isaise 43.= (d) Soplion. cap. ult.//v. 9 et 10. (e) Alalia; cap. «lt.= (f) Vid. Acosta, t. I.//cap. 6. iuipr. atin.//1588.//Herlog. tom. 3.//Incant. vertig.//34. fl. 85.//Solorzan. Pali6,//fndian. t. I. c. 7.//Osor. Avias Mont.//Alnp. Pr. Ant//et alii.= (g) Fr. Aooton,
— 43 — do a antiga sequela do sen Confuzio, cuja Moral Filosofia ti- nlião já bem adulterado novamente seguirão, maliciados, os seus dogmas em que os Letrados fundarão seita, sendo couza de tres mil as que havia, levantarão lhe grandes Templos, e como a "Deos o adorarão.// bag. 17 Compadeceo se Deos da mizeravel cegueira destes Barba- ros, e attendeo ao credito de sua Igreja, porque não muytos an- nos depois da morte do S. Apostolo, e ultimo fim dos Prelados e Discipolos que deixara em seu lugar, dispôz por altíssima Providencia que hum devoto varão, Surio ou Sirio vindo deste Paiz, o qual tinha por nome Martomé, qne na Lingoa nacional quer dizer=Senlior Thomé=e atravessando vários Revnos com trabalho grande guiado pellas suas virtudes e viva Fé, chegou aos continentes de Meliapor, vindo por fim parar á China que com dor do sen coração discorreo; e vendo quanto a Doutrina do Sagrado Apostolo, de quem tinha o nome, estava tão vicia- da e tão perdida, dezejozo de suscitar os dogmas e Santas Dou- trinas do Apostolo para credito da nossa S. Fé, e, persnadio lo- go por avizos a vários Bispos da Siria, ou Sufis, Babilónia, Ohaldêa, e Egypto, para que o viessem ajudar n'esta tão em por- tanto empreza, a que os Surianos assentirão com promptidão. Chegou com brevidade o anuo 400 do Nascimento de Ohristo, e tendo já a este tempo feito obras maravilhozas, e grande fruto nas Almas, por meio da Evangélica Doutrina, ten- do já reduzido a muytos, e posto no caminho da Fé e Salvação por meio da Doutrina e Prégação Evangélica, tendo finalmente na China despedaçado ídolos, abrazado^Pagodes, dissuadido Sei- tas, e destruído herezias, introduzio de novojo Demonio as tre- mendas Seitas de Nestorio, Arrio, e Dioscoro com tal actividade, que passando já o numero dos Ohristãos, nestes paizes de cento e sincoenta mil, não só se arruinou em breve tempo a Ohristan- dade toda espalhada pella Tartaria e China, mas athé muytos dos mesmos Prégadores Evangélicos por instincto do Demonio, parece que cahirão lastimozainente nos mesmos erros, ficando jun- tamente Nestorianos e Arianos os que herão Sirianos ou Surianos,
44 — entrando cada hum dispoticamente a viver na seita que queria, (i) Atlió o anno de 699 se entende esteve a observância des- tas malditas seitas em seu vigor, que sabendo o Presbytero João, (a quem os Portnguezes costumavam chamar Presto João) que já os Bonzos publicamente blasfemarão a Fé de Christo e Sua S. Ley, tomou o expediente de vir da índia cujo tlirono naquel- le tempo oocupava, e tinha 72 Reinos sogeitos, catbolicos alguns» outros scismaticos, e ou por persuassoens effectivas, ou por força de armas se rezolveo a introduzir outravez na Tartaria e China a Fé de Christo; e como os ânimos destas gentes são por natu- reza inconstantes, e volúveis, não se lhe dificultou o conseguir a em preza, interpondo a autlioridade dos Monarchas. (1)// Pa^. 18 //Ahinda reputo por opinião mais certa, quanto ao compu- to das eras, o que escrevem o Pe Manoel Dias com data em Macao aos 23 de Agosto de 1625, o Pe. Francisco Hurtado, e outros modernos Escritores que corioza e doutamente liquidarão estas matérias; porque mencionando a inscripção do huma notá- vel pedra de vinte palmos de comprido qne se descobriu na Chi- na com inscripção de vários caratheres, consta ter sido levanta- da no anno de 782, e que no de 633 tinha vindo á China a Ley de Christo por meio de uns Prégadores que vierão de Pales- tina. O mesmo Pe. Dias parece o repete em outra carta também escrita em Macao com data do 21 de Novembro de 1627 (m): sendo esta a mesma que outros Escritores dizem (apontando a mesma era asima dita) faz menção em seis ordens do caratheres siriacos que nella se divizavão escritos, florecera a Ley de Chris- to na China, e houvera Ministros Evangélicos com o alto da ca- beça rapada, os quais prégavão os Mistérios da Santíssima Trin- dade, Encarnação do Verbo, e os mais que a S. Fé contem (n). (i) M. Paul. Venet..//fliiyton.//Jofto do Barros.//Diogo de Conto.//Man. de Far. o Souza.//nas Azias Port.//P. Gasman, in lliít.//de Espea. Jnd cis.//Marlin. Mart //el Annales Soe. Jesu.//ac etiam Annalef//.Vlalabariuii. = (1) M. Paul. / Venet.//Arias Montai). / et alii in Aniilib.= (ro) P. Manoel Dias. / P. Franc. Hurtado.= (nj P. Mart. rt. / Boino Dan. / Bartbolo.s;
45 — Da mesma inscripção da pedra constava o numero e os nomes dos principaes Ministros que lierão (56: lium delles Bispo, e 30 kerão sacerdotes: O doutíssimo Pe. At.hanazio Kirclier traz ex- pressos e vertidos em inteligível lingoa (o); e sendo estes os So- rianos já ditos como a lingoage dos caratkeres insinua, venlio a inferir que mais annos depois do de 400 durou por meio destes Ministros a Pé de Christo na China, sem a interrupção das sei- tas, que no de 699 se empenhou o Presbítero e Imperador João a disbaratar. Athé o anno de 1253 andou a Fé de Christo nesta Azia Mayor hora recebida e hora repudiada; e neste chegou em pro- pria pessoa (movido por Deos) Hayton ao Imperador dos Tár- taros rezidente no Catayo e corte do Cambalú, a persuadir-lhe pacificamente e só com efficazes rezoeus que admitisse com per- sistência a Christandade nos seus domínios, aceitando-a na sua propria pessoa para dar exemplo a seus vassalos o imitarem; e convencido de Hayton Rei Christão tomou o expediente de ba- ptizar-se, acção em que o seguirão os grandes, e grande parte daquella Monorchia athé os fins do Catayo (p); e logo mandou matar a Califo sectário Mahometano, quo a este tempo andava solicito a seita de Mafoma n'estes Impérios (q); bastantes annos durou, mas emfim novamente enfraqueceo. Em o anno de 1256 entrou o Imperador dos Tártaros na China com hum poderozo ezercito e em breve tempo a sogeitou, difundindo-so por todo o Catayo a Christandade (r); por este no- me Catayo o entenderão alguns historiadores antigos liuma // Pag. 18 suposta porção de terra entre a China e Tartaria, do qual terreno hera Cambalec a Corte; outros confundindo a Tartaria com a Chi- na reputarão hum a ambos estes Impérios, pellas continuas guerras de seus Monarchas, estando hora hum, hora outro senhor de ambas as Coroas, o que ainda no prezente tempo se está vendo, em que a (o) I'. Atliiin. Kirrli. / in Cliin. ijlustr. (]>) Armrn. On|». 24. (>l) S. Antonin, t. 8.//lit. 19. o. 8. $ 21. (r) M Paul V«'net.//Hayton.
— 16 — China lia mais de hum século se acha dominada pellos Tartaros, intitulando-se seu Monarcha Imperador da Tartaria e China; mas pellos modernos e doutíssimos Escritores que indagarão e observarão esta materia está já unanimeute assentado que Cata- yo propriamente lie a China, nem fora delia ha terra alguma que tivesse ou tenha este nome, e que Cambalú ou Cambalec nenhuma outra cotiza senão a Corte de Pekiin, que em outro tempo e estado poderia ter aquelU nome (s). Teve noticia em Roma o Sumo Pontifece Nicolao 5.° das repetidas inconstancias e rezistencia destes Povos já abrindo e já fechando as portas á Luz da Fé, que como Universal Pastor da Igreja lhe dezejava com toda a permanência introduzir; e para este efteito em o anuo 1287 que hera o primeiro século de mi- nha Relligião Seratica, se dignou de a querer honrar nas Prima- rias determinando que os Filhos de S. Francisco de quem tam- bém elle hera Filho tivessem a gloria de serem os primeiros Mis- sionários Relligiozos e os primeiros Prellados das Igrejas destes dilatados Impérios. Para tal empreza nomeou este Pontifece a Fy. João de Monte Corvino, Italiano, e o expedio á Corte de Cambalec do gram Catayo, que como assima fica dito e explicado, era a Cor- te de Pekim no Império da China (talvez na supozição de que seria como agora o Imperador Tártaro); deu a este Rolligiozo varão as honras e ca rather de seu Embaixador e Legado Apos- tólico para vir a prezença deste Princepe, como fez; e prezen- tando-lhe as Cartas de Crença o recebeo com applauzo assentin- do á vontade do Pontifece, e concedeu a Fr. João ampla licença para pregar a Fé em todo o Império, suposto o povo estava en- velhecido nas Idolatrias, e adorando o mesmo Imperador ao Cram Lama. Deteve-se Fr. João na Corte algum tanto, com tal fructo que por sua mão baptizou mais de seis mil pessoas, e só (s) Espondan. 1268.//Feio Beued. t. 5. (1. 10.//fol. 2õ2.//Orb. Seraph, foi. 451// F. Mat. Ricins.//Nicol Trigaue //Alvar. Seined.//Mich. Boin.//Martin. Martin.//Joan. Grub»rt.//et Late F. Kirchei//in Cliiu. illustr.—
47 — no dia seguinte ao de todos os Santos 400; fundou ali uma boa -greja, aprendeu ein breve tempo a lingoa, fez Catheeisinos para 'ndustriar aos novos Christãos e Ccthecumenos, e finalmente muitas acçoeus momoraveis CO-// Pl,s- 20 Informado o Papa Nicolao 5.° destes fel ices progressos por Pr. Thomáz de Tolentino Minorita, se rezolveo a crear pri- meiro Arcebispo Cambaliense ou Pekinense a Pr. João de Mon- te Corvino, determinando logo ao Geral de nossa Orde que en- tão hera o K.mo Pr. Gonçalo de Balboa para que lhe nomeasse sete Relligiozos Pranciscanos com virtude e letras para mandar Bispos a China, e foi feita elleição nas pessoas dos P. P. Pr. Gerardo, Pr. Peregrino de Peroza, jubilados em Tbeologia, Pr. André de Pugubio Leitor de Theologia, Pr. Nicolao de Banthe- ra Provincial, Fr. Pedro de Castilho, Pr. Aiulruzio de Assiz, e Pr. Guillelmo de Vilalouga todos inuy beneméritos: «juiz o Pa- pa que se sagrassem logo em Boina para virem sagrar á China Pr. João de Monte Corvino a quem pellos mesmos mandou o Pa- lio (u). Chegarão todos a salvamento: sagrou-se o Arcebispo de quem ficarão sufraganeos, recebeu o Palio e entrarão todos com grande zelo e espirito a pregar e propagar a Pé de Christo, o- brando Deos maravilhas na eonverzão daquellas Almas; levanta- rão Oratorios, fundarão Igrejas, fizerão Hospitaes, baptizarão Prín- cipes, e innumeravel povo, abrazarão ídolos, destruhirão Pagodes, tirarão superstiçoens e desfizerão Seitas, vindo einfim a governar a Belligião Seralica todas aquelas Igrejas desde o anno supra de 1287 athé o anuo de 1400 sem interrupção (x) e isto especifica- damente no Império da China: Ah anuo itaque circiter 1287 ut de Joanne de Monte Corvino diximus, in Sinarvm Regno ad litev tosque têmpora Fidem Christi sane pradicaveruut Franciseani (z). (i) Ciiron. (hi Pior, de//S. Paul. 1. 1. c. 18 a iiniii. 115. pi) Cornejo p. 4 Livr. 3.//cap. 54.//Orbis Seraph.= (x) Giilievnntii-//toin. 5. ,fol. 456//nnin. 305 ex.//Hul. Pont. et Inslr.//ool. in Vaticano. = (/.) Idem ibi.=
48 — Por este tempo sobre vierão cruéis e grandes guerras entro os Tartaros e Chinas, que lastimosamente espalhando o rebanho de Ohristo, as dezemparadas o fugitivas ovelhas derão em gran- de numero a vida por Gliristo, e Sua S. Pé com os seus Pasto- res, sendo muitos martirizados, e o barbaro Paganismo tornado ás suas Seitas, o antigas Idolatrias por toda esta Azia Mayor, com perdição do tanta multidão de Almas difundidas, e com as novas seitas de Nestorio, Arrio, e Mafoma ahinda muyto mais inficionadas. (3) Capitulo VI De como os Sereníssimos Reis de Portugal noticiado,s de tão infaustos successes da Christandade na Azia, intentarão pro- pagar nulla a Fé de Christo, e emjiin o pozerão em execução a- hiuda ú força de armas, sendo entre as naçoens Europeus os pri- meiros descobridores, e conquistadores deste Emporio.il Pag. 21 //Se a famoza Luzitania foi primeiramente descoberta e gloriosamente povoada por hum Neto de Noé vindo da Azia a occupar este terreno (a), bem hera que aos Luzitanos ficasse re- zervada a gloria, atravessando mares desconhecidos, de subirem a descobrir e povoar a Azia, por muvtos princípios já adultera- da, pois abuzando seus habitadores mais que os mesmos Israelitas dos estupendos favores que Deos lhe partecipou nos primeiros sé- culos, e dos qne nos últimos em a Divina Pessoa de Sen Pilho lhe tinha feito quando Humanado, subindo em fim os Apostolou Sagrados a prégar-lhe a Fé de Christo, e Sua Evangélica Dou- trina, desta estava já a Azia tão remota, que povoada toda de cego e idolatro Paganismo, não só negavão o culto ao Verdadei- (2) Para a história das Mi.-sões Católicas na China na idade média e ante» da „hegad.i dos Portugueses pela via marítima, consulte —Pe. Pascoal d'Elia, S. J., Lei Minion* Cutli diques en Cliine (Shanghai, 1934); M»ule, Christian» in China before the year 1500 (London, 1980); Pe. Henri Bernard, S. J., La Déc&uverte des Nesto- rieiu Mongols anx Ordos et Vhistoire ancienne du Christianisme en Extréme-Orient (Tientsin, 1935); e Pe. A. Van dor YVynguevt. « Sinina Franceicana » (Qunrachi, 1934)• (a) Vid. na M. Acid.//Singul. e Univers //ex piurib. A.A.
— 40 — ro Deos, mas inficionada de perniciosas Seitas, pevsistião em tri- butar adorações a Deidades fementidas. Pelos ânuos 1412 do Nascimento de Xp°—(12 só depois do sucesso mencionado no precedente Capitulo) sendo Rey de Portugal Dom João o 1.° da glorioza memoria intentou seu 5.° Fillio o Infante Dom Henrique entrar neste projecto animoso de conquistar e propagar a Fé na Azia, mas não teve esta acção o completo effeito que muyto appetecia; porque só poderão os Argonautas chegar ao Cabo do Bojador, entendendo não hera possível exceder-se por navegação este termo, por tão espaçozos mares de que não havia aliiiula alguma notticia. Em o anno de 1434 se repetio a dilligencia, e excederão mais 30 legou» este termo em que tomarão terra, e no de 1435 chegarão mais so 12 legoas adiante, e sahirão também a terra, como quem já tomava posse desta vastíssima conquista, (b) Eni o anuo de 1489 tendo a Coroa de Portugal El-Rey Dom João o 2.°, noticiado da intentada emprcza do Infante a quiz coin intrépido animo por em praxe, persuadido á infalí- vel consecução do terminativo fim. Para este effeito determinou se preparasse huma armada de sete nãos, nomeando Capitaens delias a sete valerozos Portuguozes, Conquistadores já de outros Reinos; mas Deos que lie Rey de todos os Reys, e Senhor de to- dos os exércitos, por seus Altíssimos Juízos lhe atalhou com a morte os dezignios, e ficou por então desvanecido este sistema, (e) Revive»» o seu generozo espirito na Pessoa de El-Rey Dom Manoel que na Coroa do Portugal lhe socedeo, e lembrado de que as Reaes Armas no Escudo desta Monarchic e Reaes Bandeiras, dadas por Jezu Ohristo no Campo de Ourique a seu primeiro Rev herão os Sinaes da Redempção do Mundo, adver- tido das condiçoens coin que recebera a Investidura Real, e ca- pacitado que a propagação da Fé Catholiea hera o meio mais seguro//e eficaz para se perpetuar com felicidade a Coroa, asen- pag. 22 (b) Man. de Far. e//Sonz. Azia Port.//tom. 3.= (c) Idem ibi.//e João de Barros//Decnd,=
— 50 — ton em seu generozo animo por em execução o projecto que Kl- -Rey seu Antecessor já ideara; e rompendo todas as dificuldades que se lhe opunhão, sem querer dar mais tempo ao tempo, no mesmo anno em que entrou a reinar, que foi o de 1493 do Nas- cimento de Christo, entrou também a dispor as conzas para es- ta gloriozissima Conquista, (d) Chegou o anuo de 1497 quando El-Rey 1). Manoel man- dou ao descobrimento desta Azia Mayor quatro embarcaçoens que constarão de tres náos de guerra, e uma caravela com so- brecelentes, destinando para esta expedição a Vasco da Gama por Capitã») Mór em a primeira: na segunda a Paulo da Gama seu Irmão: na terceira a Nicolau Coelho, e na caravela a Gonçalo Nunes. Todos partirão animozos e cheios de Valor e Pé, levando em Deos confiança certa que como o primário e terminativo fim daquella ompreza hera não tanto a dilação do Luzitano Domínio, quanto a exaltação da Fe de .Tezus Christo a quem hera devida toda a honra e toda a gloria não obstante os traba- lhos de viage tão extensa, e atlié aquele tempo não seguida, com o favor e assistência Divina, chegarão a fazer na Azia o des- cobrimento primeiro, sendo terras do Indostão as que aportarão. Vendo pois com indizível gosto se não mrtllograra o seu catholico intento, voltou Vasco da Gama a Portugal para dar parte ao Soberano do que observara, podendo assim El-Rei in- sinuar o que entendesse hera mais conveniente ao serviço de Deos, e concervação da Real Coroa. Ficou aquelle grande Monarcha muy satisfeito deste des- cobrimento, era que por tantos princípios se avultarão a Portu- gal os créditos, gratificando ao Gama e mais descobridores com expressoens Regias, verdadeiramente filhas de seu generozo animo, o bem que obrarãd, nem fiara menos do seu agigantado valor; e como a este famozo Rey parece não cabia no peito o coração igualmente generozo e animozo, asentou logo coinsigo a conti- (d) Vid. os mesmos Author.
— 52 — e o elmo, significando a fortaleza com que, como propugnador da Fé se havia roborar contra os inimigos da Igreja, asistido com a Graça do Espirito Santo, cuja figura entre preciozos ru- bis se divizava no mesmo elmo. Tudo consta do Breve do mes- mo Pontifece que coin o mimo lhe remeteo, e principia — Imi- ta ti vetus instituí um Romanorum Pontificam, — com data em Roma aos 30 de Janeiro de 1530 (g). Continuou emfiui este famozo Rei na Azia e Indostão suas Conquistas com tão feliz successo e tauta gloria, que por muitos foi acclamado Imperador do Oriente, pois podião cons- tituir num grande Império os povos que já tributavão sogeição e obediência a seus Régios Estandartes arvorados; e desde o anuo 1497 em que Vasco da Gama fizera o descobrimento primeiro, athé o de 1521, em que o Reinado se lhe acabou com a vida, expedio com grande zelo duzentas e noventa quatro uaos pelo de- curso dos tempos, remettendo sempre Missionários Evangélicos, com que deixava quazi todo o Oriente conquistado a Jezu Christo (h). El Rey I>. João 3." lhe socedeo, e desde o anuo 1521 em que entrou a reinar athé o de 1557 em que morreo, tendo 36 annos a Coroa de Portugal, continuou com grande activida- de e zello a mesma empreza mandando nestes annos do seu go- verno cento e doze nãos em diversos tempos a esta tão celebra- da conquista; e parecendolhe que talvez ahinda os Operários Evangélicos herão poucos, pois a messe que lhe dizião hera L>ag. 24. muyta, // rogou primeiramente ao Papa Paulo 3.* que então go- vernava a Igreja de Deos lhe confirmasse Bispo e Pastor para este Rebanho de Jezus Christo já muy crecido expondolhe para este effeito a Pessoa do doutíssimo Fr. João de Albuquerque Franciscano reformado da S. Província da Piedade em Portu- gal, e foi este por quem Goa teve o primeiro titulo de Bispo não no anno de 1575 como por equivoção traz Faria (1) mas no (g) Vid. Bullarum .// Collectionem impre. // ann. 1707 jussu Petri 2. Reg. Por- tug. // foi. 72. (h) Faria e Souza. // Azia Portug. in // Epitome. (1) Far. e Sonza p. 4. // tora. 3. // Az. Port. // cop. 17.
— 53 — 534 como expressa a Bulla da sua erecção que principia — Aequum reputamos Ec. Dat. Bomae apnã S. Petr. anno 1534. nonas novembri» Pontificatus... anno 1. (m) — ; e logo também o mesmo Rei sollicitou cuidadozo no anuo de 1540 viesse de Roma o P. Francisco Xavier, que já florecendo em virtudes se guia o novo Instituto de S. Ignacio na Sagrada Companhia de Je/us, e fora nascido em Pamplona de Navarra em o mesm- anno de 1497 em que, como fica dito entrarão primeiro que to- dos os Relligiozos de S. Francisco na Conquista do Oriente a Je/us Oliristo (n), sem que deva de haver que com rezão o con- tradiga, nem prive a minha Relligião Sagrada desta Gloria, co- mo nem da que tem de dar ao Oriente Conquistado hum Filho seu para primeiro Bispo, pois lie Author grave e sem suspeita o que primeiro do que eu o escreveu (o). Chegou o P.e Francisco Xavier finalmente a Goa no anno de 1542 acabado o governo de D. Estevão da Gama, tendo saliido de Roma a 16 de março de 1540 em companhia de O. Pe- dro Mascarenhas Embaixador de Portugal naquella Curia, a quem EIRei recomendara muyto a sua condução, para que com em- penho o pedisse ao seu R."° Geral aliinda que interpozesse a authoridade do Papa, se necessário fosse, pois hera grande o de- zejo que tinha de oceupar em empreza tanto do serviço de Deos, e remedio de tantas Almas necessitadas; e se no caminho de Roma athé Lisboa tinha já feito milagres (p), de Lisboa athé a índia obrou prodígios, e em todo o Indostão assombros sendo já venerado como Santo antes de canonizado, e hoje co mo tal reconhecido. Trazia o S. Xavier a intendência de Lega- do, ou Nuncio Apostolico, e como grande Ministro da Igreja entrou solicito com dous companheiros que levava a pôr em execução altos dezignios. Em varias terras daquelle continente (m) Bailar. Collect. // a foi 80, usq. 98. (n) P. Franc, de Souz. // I p. do Or. Conq. n. 3. (o) Man. de Faria // e Souza ubi supr. (p) P. Souza ubi sup. // u. 10, 11, 12, usq./ad n. 15 e outros // Escritda. ua / vida, e milag.
— 54 — se descobrirão pel lo decurso do tempo vários vestígios da antiga chnstandade (q), e de que o S. Xavier fez de novo com suas giatidos virtudes, e Evangélica Doutrina se devião levantar im- mortaes padroens; forão quazi infinitas as pessoas que baptizou, iuuumeraveis os gentios que reduzio, sem conto os Pagodes e ídolos que em diversas partes desbaratou; e se já pella Fé de Ohristo tinhão sido naquelle Paiz martirizados defronte de Ta- ná 4 Relligiozos Filhos de Francisco que já no anno 1320 ti- nhão demandado a Persia a pregar a Fé (r) outro Francisco pella axaltação da mesma Fé sofreo na índia inexplicáveis tra- balhos e martírios em sua vida (s). LIVRO II 171 udança de Paiz que Portuguezes fizerão do Indostão para a China, depois de alcançar tantos triumphos. Capitulo I Do Motivo que alguns Portugueses tiverão, para vir habi- tar este terreno. Se as heróicas proezas que o valor do braço Luzifano aju- dado certamente com a Mão Poderosa do Altíssimo, e obradas em todas as quatro partes do Mundo não fossem tão publicas e constantes ás Naçoens, dificilimamente merecerião credito as que obrarão, deixando levantados muvtos troféos de maravilhas, para servirem á posterioridade de assombro. Como não hó o meu in- tento fazer volume, e niuvto contra o meu génio o admittir dis- sertaçoens de leitura extensa, gostando só muyto do laconico estylo, já que tomei por me divertir e divertir a outros, esta empreza, não lie justo me exponha a que algum me critique de que arrumo paginas. (q) Vid. João de Bar. / llist. da Ind. e ao / mesmo P. Souza / sujir. cit. (r) Clirou. de S. Franc. / et P. Souza ibi. (s) Vide a Vida Sing, do S. Xavier.
Por me a expender individualmente as acçoens qné na Azia ou. índia fizerão os Portuguezes em diversos tempos seria supor já acabados e extintos os volumes que doutamente escreverão não só João de Barros e Manoel de Faria e Souza, mas outros Escritores que na mesma materia compozerão; e se naquelles Livros com admiraçoens se podem leer, eu conffeço não ter ani- mo para com importunaçoens neste as copiar. Bem poderia fa- zer abreviado mapa das muitas terras e liei nos que os Portugue- zes senhorearão, e fizerão a outros tributários, nesta tão celebra- da Conquista, mas como isto lié o amago da historia, não quero cometer peccados de estorvo fazendo os coriozos preguiçozos, abs- tendo-os de ler o que fizerão os antigos Portugueses, aquém no vallor e zelo da Relligião Ohristãa devem solícitos imitar. Xo Capitulo ultimo do primeiro Livro deixámos o Indos- tão 110 temporal e espiritual quazi conquistado, e ao S. Xavier em Goa fazendo milagres e maravilhas nesta empreza, (que para outra não menos singular, qual lie a do Japão, o buscaremos a seu tempo), mas coin as guerras daquelles Reis gentios se exci- tarão, sendo fallecido Kl-Rey Dom João o 3.° e entrando a rei- nar, pois lhe socedeo 110 throno, El-Rey Dom Sebastião, nos 19 annos que teve o ceptro mandou á índia cento e duas náos em soccorro, e onze o Cardeal Rey D. Henrique nos dous annos que em paz o Religião governou esta Monarobia (a). i/No anno 1577 experimentou o Sol Portuguaz o maior Png. 20 eclipse da Lua Mauritana; e 110 de 1580 entrando os Reis de Castella a tomar deste Reino injusta posse, que em tal cazo a fazem as armas justa, suposto também mandarão á índia algu- mas naos, ti verão muitas dezastrado fim. Annos antes florecia a índia 110 Cliristianisino, para cuja espiritual utilidade 110 de 1557 se achava a Igreja de Goa elevada á Dignidade Archiepiscopal o Primacial por graça que lhe fez o Papa Paulo 1 110 anno 3 do seu Pontificado (b) e as Relligoens tão avultadas de Ministros que (a) Fatia e Souza./ Azia Portug. / Bairos. liic. (b) Fatia e Souza. / Azia Port. /tom. 3. p. -1. c. 17.
— 56 — por aquelles aunos, coin pouca diffrença, tinlia minha Relligião Serafica 22 Igrejas ou Conventos, a Dominicana 19, e a angus - tiniana 16, e a Jesuítica em diversas partes outras muytas, com o disvóllo de acudirem todos com promptidão ao bem das Almas (c) mas continuando sempre as guerras, e achando se o Reino nas mãos de quem lhe não dohia por espaço de 6 an nos, se aproveitarão algumas naçoens Estrangeiras e Heréticas fazendo á força de armas muitas invazoens, entrarão a senhorear praças e terras, que os Portuguezes á custa de muvto sangue tinhão conquistado, e desde então esfriando o sangue Portuguez, forão lastimosas as perdiçoens, e continuadas as decadencias (d). Tornando pois ás acçoens que se obrarão no tempo de El-Rey D. João o 3.°, e por conseguinte no de El-Rey D. Sebas- tião (por não truncarmos a historia), tendo já lavrado entre os Gentios e Ohristâos varias guerras, alguns Portuguezes observando nos governos varias discençoens, do que lhe não rezultavão nem espirituaes, nem temporaes conveniências, sendo estas as que ar- rastrão os ânimos dos mundanos, tendo já pellos annos de 1530 (com pouca diffrença) entrado valerozos e destemidos a vezitar todo o Estreito de Malaca da qual ficarão senhores, subordinado já os Reis de Batá, Sião, Arau, Java, e Achem, que em Jacur e Lingau os tinhão insultado, í-etirandose (na sua supozição) airozos a buscar fortuna em mais remoto Paiz, para que livre- mente sem o estrépito de armas podessem negocear, elegerão a Ilha de Liampó no vasto Império da China; eu não sei se para decantarem os seus triumfos e proezas, ou se para lamentarem as não esperadas ruinas e disgraças (e). Tudo forão sempre facilidades nos Portuguezes; e se por força de seu altivo génio parecia a cada um que era hum Ale- xandre, bastandolhe para triumphal* o vir e ver, a mesma faci- (c) Faria e Souz. ibi. / tom. 3 Epitome. (d) Vide Limiers Franc. / Cience de la Cour. / Giustiniani, t. 2. p. 1. / Banos. Faria e Souz. Azie / Port, in divers. (e) Vide Fernand. Mend. / Pinto na sua Peregr. /e Faria na Azia / Portug. liie.
— 57 — lidade os perdia quando se intentarão mais felicitar. Em todo o Indostão cuidarão muito os Portugueses em dar batalhas, tomar cidades, avassalar Reinos, e destruliir inimigos, dilatando quan- do lhe liera possível o domínio Lusitano, mas não attendendo que estes herão poucos, e aqueles sem conto em nunieio, lhe secedia muytas veses vir nas suas costas// o inimigo, e ficai 27 outra vos logo senhor do que lho tinlião tomado, sendo ceito que inuyto melhor fora o cuidarem em tomar e cativai menos tene 110, cuidando melhor na coucervaçao deste, tendo gente com quem o podessem bem presidiar; alem do que como parece tinlião acabado aquelles primeiros Portugueses que olhando só para o bem das Almas e propagação da Fé entrarão nesta Conquista com a espada eiu uma mão, e Christo Crucificado em a outia, e os que naquelle succossivo tempo existiao só valerosa piesumção desvanecida, e propria conveniência os arrastava, deixavao a piin- cipiada empresa no seu estado antigo, e sem mais consideiação, retirando-se pouco a pouco, se liia perdendo tudo, seguindo so cada hum o que para sua conveniência, o discurso e amor proprio lhe ideava. Em fim: poserão na ultimada resollução seu intentado pro- jecto; e ao mesmo tempo que ficava o S. Xavier na India com outros Apostólicos Varoens occupados na espiritual conquista de tantos uiilhoens de Almas, sofrendo pello amor de Jesus Christo mil trabalhos, vivendo em pobresa, e oífrecendo a Deos sacrifícios pellos peccados do povo, acção que primeiro de todos ali fisera o P. Fr. Pedro da Covilliãa Relligioso da Santíssima Trindade que co- mo Capel Ião de Vasco da Gama primeiro descobridor naquelle terreno aportara (f), vários portugueses, que no proceder forão vários, embarcando em próprias e alheas nãos suas fasendas, e famílias, cegos da conveniência e absortos na appetencia de ri- quezas, ordinariamente fonte e rais de mil pecados, abandonarão a índia fazendo viage a Liampó que a devide da China intentando perpetuar-se nesta que entre todos supunhão riquíssimo terreno. (f) Mantl. de Far. e// Souza na Azia// Port, cit,
— 58 Capitulo TI Chegão os Portugezes a TÀampó, e emquanto cuidão no mo- do de se estabelecer, vejamos alguns sucessos que a outros derão muyto que cuidar. He fatal mizeria dos homes buscar voluntariamente os perigos para loucamente caliir nelles (a), porque suposto seja Fi- losofia certa que = nenhum apetece o mal como mal, senão de- buxo da razão de algum bem — muytas e as mais das vezes o 1'ag- ideado bem se não chega a conseguir, e o mal appetecido//se vem a experimentar. Emquanto os Portugezes se occupão des- velados na fundação de Liam pó reprezentandoselhe os bens que haviãó daquele sitio lucrar, outros Portugezes girando mares veziuhos, tantos inales oeazionarão, que uns e outros privados dos adqueridos bens, emfim se vierão a destruir. Antonio do Faria bem conhecido Portugez querendo (já retirado das guerras) avultarse em bens de que se achava desti- tuído, acompanhado de outros, em cujo numero entrava Fernan- do Mendes Pinto, carregarão liuina embarcação de varias mer- cancias. Saliio de Malaca o Faria com a incumbência do rati- ficar com El-Rey de Patane as pazes feitas, e ao mesmo tempo levando dez ou doze mil cruzados de empréstimo empregados em fazenda sua para negocio, que remetida para o Reino de Sião por não ter ali sabida, logo toda na barra de Ligor (*) lhe foi tomada, sendo Mouros o Turcos levantados os que ficarão senho- res destes bens, deixando a Antonio de Faria e Souza só os males. Matarão 10 Portuguezes e 37 moços, e de vários Mercadores le- varão daquella embarcação mais de sessenta mil cruzados, (b). Em Mavo de 1510 saliio Antonio de Faria para a Ilha de A\ não a buscar quem o roubara, e sendo envestido no ca- minho por outro Ladrão Syniilau inimigo dos Portugezes, o des- ti (;i) Com. Pbilosoph. cum. I'. P. et D. D. (,) Povoayào da Península malaia no jrolfo de Siam. (J. F. M. P.) (b) Mendes Pinto//cap. 37 e 88//fol. 44 albé 47.
59 trull io em portando a pre/a que lhe tomou sincoenta e quatio mil cruzados (c); liindo já a demandar a Ilha e perto delia fez An- tonio de Faria segunda preza a outro inimigo Quiay Taijão que eraportou mais de sessenta mil cruzados, além da prata lavrada, e dourada, etc. (d). No rio de Tanaquir cativou a hum corsá- rio poderozo que encontrou, ficando senhor de tudo que leva- va (e). Na ponta de Tilaumera tomou tres embarcaçoens peque- nas (f) que emtim buscando o porto acomodado dos Cattchins vendeo aly toda a fazenda que trazia por cento e noventa mil cruzados (g). Cuidava eu que Antonio de Faria satisfeito já com tan- tos bens se retirava ao descanço sem mais se lembrar dos que o Coja Acem lhe uzurpara; mas obrando pello contrario, Deos o castigou, porque nesta Ilha dos Ladroens vezinha de Macao perdeo tudo, hiudose a embarcação a pique, e só elle com algu- mas pessoas 11a mesma Ilha se salvaram, animando os compa- nheiros com dizer, se ali tinlião perdido 3000 cruzados, antes de pouco tornarião a ganhar 6000 (h). Em huina pequena embar- cação de Chinas que furtarão n'esta Ilha, e 110 caminho se ine- Ihorão de outra, tomarão o expediente do retiro a Liainpó, para se reforçar de tudo e tornar logo em busca de Coja Acem, cujas me- morias tinha aliinda vivas; assim o fez: e dispondo melhor as suas cousas em a Ilha de Lailó, o apanhou, e completamente o destru hiu (i), e tornando para Liam pó, tudo o que saqueou, perdeo (1). Pag. 29. //Foi tão venturozo o Faria que obrando no caminho liuina acção de soldado valerozo, passando pela Cidade de Nouday, e mandando pedir ao China Mandarim sinco Portugezes, qne sa- te) Men. Pint. // Cep. 40. foi. 50 - (d) Idem ibi // C. 45. f. 54 = (e) Idem e. 46. = (f) Idem c. 47. <1. 60. — (g) Idem Cap. 46. 64. = (h) Idem C. 53 foi. // 69= (i) Idem C. 60 11. 80. = (1) Idem. C 61 H. 82. =
_ (>() — bia estarem nella prizionados e cativos, lhe mandou este tão in- juriosa resposta, que precizado do brio e animando os compa- nheiros, se determinou em pessoa de os li ir soltar, a que opondose o Mandarim com muita gente de armas, envestio, matou, soltou, saqueou, e abrazou a cidade toda (111); e não se rezolvendo já de aportar em Liampó, por não perjudicar com este sucesso ou suas consequências aos Portugezes habitantes, determinou hir invernar a Pulo Hinhor, e aos sinco dias de viage foi acometido de hum Ladrão Corsário, a quem venceo, e ensacou com for- tuna cento e viute mil cruzados (n); e emfim tornou a mudar de conceito e hir á (que estava já Cidade) de Liampó. Não rela- to a magestade com que foi nella recebido, por não dizer que na prezente acção se fez muy odioza para os Chinas, e ficou hem redicilíada. Ahiiula não satisfeito o Faria com tais sucessos correo a anceada de Nankim embarcado outra vez, e tendo ouvido que na Ilha de Oampeluy estavam muvtas riquezas ouro e prata em hutnas hermidas e sepulchros dos antigos Reys da China, se dei- xou vencer da ambição, o a foi buscar com grandes perigos e trabalho, sahindo de Liampó para este effeito em Mayo de 1542. Chegando a ella sahio a terra primeira e segunda noite com mais gente de equipage, e todos carregarão muyta soma de prata e ouro, que furtarão e extraliirão, enchendo quantidade de caixoens destes preciozos metaes (o), olhando para a propria conveniência tão somente, sem attender ao bem communi, nem considerar que a cidade de Liampó habitada de Portugezes naquelle mesmo Paiz, poderia ser pellos mesmos Chinas assolada; mas Deos o quiz cas- tigar: porque tornandose pella mesma enceada de Nankim lhe deu um tufão, ou tempestade tão grande, que para poder salvar as vidas lançarão tudo ao mar, hindo ouro, prata, e o proprio mantimento, atlié que emfim no dia seguinte se foi a embarca- (111) Mendes Pinto. // Cap. 64. foi. 86. (n) Idem Cap. 66. // foi. 88. col. 2. = (o) Idem á Cap 74 // usq. Cap. 76 induz. =
— 61 — ção a pique aberta em agoa, e de 50 pessoas, só se salvarão 14 liindo levados pella agoa como a rolo atlié a prava, feridos to- dos, e lastimados (p). Fernando Mendes Pinto amigo inseparável do Faria ca- bendo-llie sempre mayor parte nos perigos que nos lucros, che- gando a terra com os mais, se meterão pello mato dentro a bus- car algom povoado, que depois de bastantes dias de grandes to- mes e mizerias encontrarão, o sendo alii remedeados os que che- garão vivos, conduzidos brevemente a Taypor, nesta Ilha forão nellos Chinas cruelmente prezos e remettidos a Rellação de Xan- ii i kiin para // serem sentenceados (q); e executada nelles huma parte da sentença qual foi a de cruéis açoutes que sofrerão, os mandarão prezos a Pekim para donde tinham apellado da outia mais tirana parte (r). Chegarão em Outubro de 1541 ( ), adon- de forão algemados e metidos todos em huma corrente com fer- ro ao pescoço; assim estiverão muytos dias athé que se julgou que os soltassem por nao haver contra elles, no que lhe impu- tarão, sufficients prova (s); só sinco forão mandados por degre- do a Quansi, adonde por huma louca pendência que só entre os mesmos Portugezes liove de que alguns sahirao mal feiidos, forão do novo cruelmente açoutados (t). (p) Idem Cap. 79 // foi. 106 e 7 = (
— (52 — Finalmente escapando da China como poderão por meyo de hum Embaixador Tartaro, e vendo os grandes lucros que ti- verão do negocio, que foi o perder cento por cento, pois de ca- torze que herão, so se acha vão vivos sete ou oito, se embarca- rão na companhia de hum mercador, que depois de vários tra- balhos e destemperos dos mesmos Portugezes os botou na Ilha de Lampacau, deixando os naquelles matos ao dezemparo, adon- de passados dias socedeo aportar um Corsário China, que os to- mou, e brevemente partindo, lhe deu hum tempo, que os fez arribar a Tanixumá, Ilha do Japão (u). Depois de estarem sinco mezes nestas terras Diogo Zei- moto, Fernando Mendes Pinto, e Ohristovão Borralho, quo en- tre nós ti verão a gloria de serem os primeiros descobridores do Japão, e lhe observarão as riquezas com grande profluencia de negocio, depois de hirem a Bungo, adonde acontece*) um dezas- tre, se embarcarão finalmente, e chegarão á nossa nova Cidade de íjiampó, adonde forão recebidos (x). (1) Capitulo III Mostra-se sumariamente a Liampó primeira habitação dos Portugezes na China, brevemente elevada ao ser de Cidade po- puloza e em breve tempo a cinzas reduzida (*) He opinião de doutíssimos Theologos, que mais faz Deos em conçervar o Mundo, do que fez em criar o Universo, supos- to huina e outra cousa publiquem a sublimidade da sua Omni- (11) Idem a Cap. 132//usq. 134. (x) Idem cap. 137. foi. 200. (1) Convém acrescentar que nem todos os historiadores modernos aceitam a versão de Fernão Mendes Pinto sAbie o descobrimento do Japão, nem tão pouco a sua história da povoação Portuguêsa de Liampo (Ningpo). Mas nem por isso faltam ao céiebre aventureiro defensores qualificados, sendo o último destes o Sr. Dr. Ar- mando Cortesão no seu belo ensaio na História da Expanião Portuguesa no Mundo, Lisboa, vol. II, p. 169, e seg. (*) Xo Index, como'* vimos na transcripção a pág. 351 de No. 430 dêste Boletim, e.''á « a breres cimas reduzida », o que não fazia sentido. Xo titulo do ca-
— 63 potencia; de semelhante modo dividido o Mundo em Monaicliias e cidades populosas, quanto melhor fora não as erigir, se ha\ ia nos homes faltar a prudência, a justiça, a concórdia, e o go\ei- 110 para as conçervar. Faltou tudo em a Cidade de Liam pó, des- de que se erigio, e por isso muyto mal se concervou; porque olhando seus habitadores mais para o bem particular, que para o comum, e obrando dispotieo cada hum o que queria, foi a mesma Justiça quem por obrar injustiças lhe occasionou seu deplorável estrago.// //Estavão já os Portngezes tão ufanos e tão senhores de 1 ag. 31 sy, que gastando seus çabedaos em erigir edifícios e fabricar pallacios, em terras que não eram suas, mas sim de Idolatras gentios, com quem tinhão pouco trato, sem conciderar que so o tempo que estes quizessem se poderião concervar naquelle ter- reno alheio, se forão cada vez mais influindo cuidando só 110 modo de negocio para mais se avultarem em riquezas. Ouvirão contar a Fernando Mendes Pinto os muytos avanços que se lu- cra vão com o negocio do Japão que deixava descoberto, depois de lhe narrar as mizerias, perigos, e contratempos que sofrera, e logo não dando attenção a estes, sim aquelles, cheios já seus corações de cobiça entrarão logo a contender quais havião ser os primeiros que para esta expedição se havião preparai (a). Estava Liampó a este tempo mais cheia de Estrangeiros e Chinas que de Portngezes, e todos igualmente habitarão, (grave principio para se ver esta Cidade a pouco teiupo destruida, co- mo em outras se tem experimentado): queria cada um sei o pii- nieiro, e entre sy obrarão os mesmos Portugezes escandalozos excessos, chegando a tais extremos que juntos em bandos e divi- didos, com as armas nas mãos principiarão a atravessar as fazen- das todas que na terra havia, do que gostarão os Chinas levan- pitul» nimbem primitivamente sc tinha escripto d'esse mesmo modo, mas depois, com outra tinta, porém com a mesma letra, fui emendado para « brae tempo a cinzae reduzida ». (J. F. M. P.) (.1) Mend. Pinto // Cap. 187.
— 64 — tando-as do repente a tal preço que o pico de seda valendo a quarenta mil rs. (*) subio logo a preço de cento e sessenta, e aliinda assim o tomavão (b). Em onze dias se fizeram promptas e carregadas nove em- barcações, todas tão mal preparadas e destituídas de Pilotos, que entendendo os donos bastarião sós para o marítimo governo de que sabião bem pouco, sahirão á profia todos juntos contra mon- ção, contra vento, e sem maré (**), sem reparar no perigo gran- de a que se expunhão; e assim velejando ás cegas naquelle pri- meiro dia entre Ilhas e terra firme, llie sobreveyo lium tão gran- de chuveiro e tempestade, que fez caliir a todos sobre o parcel de Go tom (***), salvando-se por milagre só duas das nove embar- caçoens que hião, e as sete dérão á costa sem se poder salvar uma só pessoa morrendo seiscentas, em que entravão cento e quarenta Portugezes, todos afogados, reputando-se a perda da fa- zenda em mais de trezentos mil cruzados (o). Estas duas embarcaçoens que ficarão, tiverão tão disgra- çado fim como as primeiras, porque querendo seguir viage, lhe deu um tão grande vento que as separou sem mais se verem, ficando os mares tão altos, e tão cavados que metião grande horror; foi preciso cortar mastros pois hião abertos em agoa, de uma se não soube, e a outra deu costa fazendo-se sobre biuna restinga em pedaços com morte de 62 pessoas; e os poucos que escaparão nadando depois de indizíveis trabalhos e mi/crias fo- rão prezos na Ilha de Lequios, dalii levados em ferros á cidade (•) Fernão Mondes Pinto diz quarenta taeis, o que representavii, pouco mais ou menos, o mesmo.fJ.F.M.P.] fb) Idem ibi. («•) M. Pinto diz com inais elegância e propósito:... contra vento, contra mon- ção, contra maré, e contra razão... [J.F.M.P.] (***) F. M. Pinto diz Gorom. Se fosse Gotom podia-se admitir que o parcel seria um dos ilhotes de Goto nas proximidades da grande ilha japoneza de Kiu-siu. Mas isso não é admissível por ficar muito longe para navegação d'um dia. Gorom ou Gotom não eucont.io nos mappas antigos nem nos modernos que possuo. (J. F. M. P.) (c) Idem Cap. 137. sup.
— 65 — (lo Po n go r (****), e em fim se lhe deu sentença de serem como ladroens esquartejados, se a Raynlla may d El Rey não interviera a impedir a execução com o seu respeito, e forão mandados em huina embarcação de Chinas a Liampó (d). Estos os desmanchos e desgovernos porque Liampó não se conservou, agora vejamos como o pouco temor de Deos e a injustiça completamente a destruhio//. //Ahinda Liampó quazi defunto remedeou como pode o não 1 "8- 32 licar desta vez já sepultado, porque esquecida a lembrança de tão infaustos successos, applicou o mesmo remedio que lhe tinha servido de veneno, porque calcinado, lhe fosse antídoto á sua mizeria e enfermidade; dos poucos Portugezes com que ficou ha- bitada ( porque antes de tão grande estrago herão de 1200, alem de 1800 de naçoens diversas) determinou o hirem cada anno alguns poucos navios ao Japão para que neste comercio se po- dessein utilizar os moradores; com effeito se fizeram as viages, e delias extraliirão em poucos annos muytos lucros com que a Cidade muyto se avultou, no serviço de Deos com erecção de Templos e hospitaes para pobres, despendendo-se cada anno na Gaza da Mizericordja trinta mil cruzados; nos officios e beneffi- cios da Oidado grande e copiosa somina. Bem hé verdade lhe não faltavão Ministros para a Jus- tiça e governo, mas nunca houve nella (como hoje em tudo o que lie Eudia) nem governo nem justiça, injustiça sim, parade todo a destruir. Lançarote Pereira Portugez de Ponte Lima hum dos celobres companheiros do Faria no roubo das Hermidas e destruição de Nouday que já tratámos, servindo, dizem, de Ou- vidor em Liampó, parece dera buns mil cruzados em ruins fa- zendas a certos chinas homes de pouco credito, os quais se le- vantarão com ella retiraiulo-se sem lhe fazer pagamento, nem (••»«) e' o tiorne que Fernão Mendes Piuto, também dá a essa Cidade. Con- vém notar que nas cartas estão as ilhas dos Pescadores com o nome de Pong-hu ou Pang-hu. [J. F. M. 1'.] (d) Idem a pag. supr.//usque ad Cap. 14.3.
darem satisfação; quiz elle por sua mão satisfazer-se desta perda, ein outros que não tinhão culpa: ajuntou para isto liuns quinze ou 20 Portugezes de larga concincia e inao procedimento, com que liuma noite foi dar sobre uma Aldeã de Chinas que distava duas legoas chamada Xipatom, roubou nella dez ou doze lavra- dores que aly vivião, tomou a todos suas mulheres e filhos, alem de treze pessoas que matou sem rezão nem couza alguma que estes lhe occazionassem ( e ). No dia seguinte soou logo este cruel rebate naquella co- marca toda, e os habitadores delia se forão queixar de tão hor- rendo sucesso ao seu Chubim, que hera o official mayor de Jus- tiça, o qual tirando devaça deste facto, e sabendo que o agressor fora Lançarote Pereira, que tendo nos annos passados sabido de Liampó adonde asistia, cometera contra os Chinas insolências, de que se achavão ahinda bem estimulados, deu parte por liuma petição ao Ohae do governo, que lie como \ ice-Rey d'aquella Província, o qual mandou logo hum Avtao, que lie como Almi- rante com huma armada de trezentos juncos, e oitenta embaica çoens de remo, em que hião sessenta mil homes; a qual em 17 dias se fez prompta, e dando repentinamente sobre Liampó des- percebido, dentro de sinco horas ficou tudo abrazado, e posto por terra com morte de doze mil pessoas christãs, em que entiaião oitocentos Portugezes, que com quantidade de embarca çoens com ellas foram queimados vivos, e se reputou a perda só das fazen- das em dous milhoens o meio; e assim acabou de huma vez Liam- pó no anno de 1542 governando a índia Martini Affonço de Sou- za, e Ruy Vaz Pereira Capitão mór de Malaca (f) outros dizem que depois do de 1544 (g) //' (!)• (e) Man. de Far. o Sou*.//A*ia Portug. t. 2.//p. I. Cap. 8. tab. Fern.-Mend, na sua Peregrin / ubi supr.= (f) Faria o Souza//Azia Port. hic.= (g) Mend. Pinto hie. (1) Como já dissemos na nota no tini do capítulo anterior, poueos historiado- res modernos aceitam como verificável esta história do saque e incêndio de Liampó.
67 — I'ag. 33 Capitulo IY De como sendo Liampó já desbaratado levantarão os Portugezes nova Povoação em Çhincheo; notase o que alei lhe socede. He cegueira lastimoza em os homes, tanto que deixão cativar seus ânimos ambição e cobiça, o não se poderem conven- cer, nem ahinda da natural rezão, quanto mais da mesma expe- riência; porque attribuindo os successos desta aos incidentes e acazos da Fortuna, sempre a esperão ter propicia, se com repe- tiçoens e delligencia a tentarem. Boas reconheço serem estas, quando o fim a que se dirigem é santo e justo, mas quando es- te lie com sinistro intento, parece permittir Deos que a mesma Fortuna lhe dê de rosto, pois tendo em cabeça allien mil expe- rioncias, nem ahinda se etninendão, se com toda a actividade e pezo a não cliegão a sintir na propria. Mas que digo em a propria? pois observo que nem isto basta, pello que dos Portugezes estou lendo. Boa experiência tinhão estes pello que lhe sucedera havia bem pouco tempo em Liampó, mas como a memoria suponho hera fraca, quizerão em Çhincheo voluntariamente recordar o que já lhe tiniu esqueci- do. Certamente raaos gramáticos; pois ensinando-lhe os Chinas a fazer a oração pela passiva, tomarão muv mal as partes, cuida- rão hera sum es fui por ter, não se lembrando que também se uzava por cauzar. Oauzarão em Liampó muitas mortes e mil distúrbios as insolências que Portugezes obrarão, e os que poderão fugir com vida neste transe, forão para Çhincheo refugiar-se. Hera na Chi- na hum e outro sitio: e buscarem os homes seu a/ilo entre os Chinas, que lhe tinhão sido agressores, parece hera querer liir Não é mencionado por nenhuma fonte contemporânea chinesa ou japonesa, nem ain- da Frei Gaspar da Cruz, que, aliás, estava bem informado sôbre os acontecimentos dos anos 1540-1550. Se qualquer matança houve, dovia ter sido de 10 ou 15 homens e mais nada.
_ tí8 — entregav a propria vida nas mãos de quem, sem temeridade po- dião prezuuaii-, 1 lie quereria dar a morte. Muito bem o experi- mentarão á sua custa; porque dando-se aliinda por estimulados estos gentios do que nas suas terras os de Liampó obrarão, se prevenirão atbé ver se em Ohincheo socedia o mesmo, para muy- to a seu salvo se despicarem. Os Portugezes que do fatal estrago de Liampó poderão com trabalho escapar occultos, e das ruinas chegarão a extraliir algum ouro e prata, passados já dous annos forão com disfarce a Ohincheo tratar com os mercadores chinas seus negocios, e es- tes por propria conveniência assentirão lhe desse o Mandarim permissão para rezidir e fazer provoação naquelle porto, o que lhe disfarçou subornado com quantidade de patacas. Já os meus Portugezes a este tempo cuidarão que herão absolutos senhores do Paiz, porq., todo o seu cuidado só pozerão no modo com que havião fabricar cazas e Cidade (a). // //Logo que se divulgou esta noticia se aggregarão mais Portugezes dispersos, e entendendo que neste sitio poderião res- sarcir mais aliinda do que em Liampó se perdera, concorrerão gostosos no por em praxe suas mercancias, e com cffeito vião que o comercio hera bom, pello quo principiarão a fabricar muy- tas e boas casas para rezidirem, como também Templos a Deos sem reparar em despozas, com o empenlio de quo creeendo a povoação em breve tempo, e erigindo-a em Colonia ou populoza Cidade, nella podassem estabelecer se, e tranquilamente habitar, pois ticando-lhe só cem legoas distante de Cantão principal por- to da China, com menos de meia distancia do que a de Liampó se situara, lhe herão muito mais fáceis as conduçoens e exlrac- çoens da fazenda, por benefício da qual se intentarão avultar. Com effeito, e em breve tempo se fez huma boa povoa- ção em que chegarão a viver couza de seiscentos homes com boas cazas, famílias e esci-avos, tendo já seu modo de governo (a) Man. de Par. e Souza//Azia Poitug.//e outros.
— 69 — till o «Jiiiil (quo oni tudo o que lie India ou habitação do Portu- gese* nesta A/iii lie o mesmo); a essas tais ou quais .Justiças (quando lhe parecia, como cá se uza) obedeeião, e polios seus dic- tames subornados com dinheiro (como cá se pratica) sendolhe conveniente, se governarão (b). Dons annus e meio tinha só esta povoação de Chinclieo; e sendo tão criança ou pigmeu no nascimento, já avultava gi- gante, mas logo houve quem a fez tornar aos annos ein que nascera, porque como na ambição e cobiça não houve eminenda, sendo o desgoverno e injustiça quem com poder absoluto domi- nava. riscadas totalmente as memorias do passado que lhe po- dião servir de exemplo, que se havia de seguir? senão disgra- ças repetidas com mil infellieidades, vindo em fim Ohincheo a ficar transsumpto lastimozo do que Liaiupó fora original. Foi expedido por Malaca para Ohincheo com a incumbên- cia de Provedor dos defuntos e auzentes hum Ayres Botelho de Souza, o qual não attendendo ao bem comum, mais que ao seu particular, fez ao Direito torto, cuidou só como havia de extrahir, por lhe não chamar roubar; assim socede na Azia don- de os officios se dão a quem mais da, o ficão precizados (110 seu juizo) com boa ou má conciencia a ressarcir se da despeza que fizerão, querendo com mais do tresdobro ntilizarse, pois com este intento se fizerão pertendentes aos officios e cargos(e) ,'■/ //Procedeo com tão péssima administração da Justiça este fág. 35 Ministro, que não só dos vivos mas defuntos e auzentes parece se queria constituir herdeiro universal. Falleceo naquella terra um Armênio christão, o qual fez seu Testamento, declarando nelle ser cazado, ordenou se remetessem a sua molhei* doze mil cruzados que tinha, de cuja importância se tirasse primeiro hum tanto que deixava por legado pio á S. Gaza da Mizericordia de Malaca, e isto parece hera além de huma parcel la grande que lhe devião huns mercadores chinas com que contratava. (I>) Fur. e Souza ilji. = (c) Idem ihi e outros, ás
Fez-se logo este tal Ministro senhor dos doze mil cruza- dos do defunto, impedindo aos Testamenteiros tanto a satisfação do legado como a da remessa, dizendo lhe hora que mandassem vir Procuração da Armenia, hora que recorressem ao V. Key da India, que como para ou liuina ou outra parte hera diticil e havia de gastar annos o recurso, emtauto se achava o da sua Provedoria, e se retirava (como cá cos tu mão) levando-o furtado, e dizendo que se deu a risco e se perdeo, sendo com effeito mal levado (d). O mais lie que chegando a embarcação dos mercadores Chinas com quem o defunto tivera contas, logo o tal Provedor como absoluto e dispotico se pagou por sua mão não só de tres mil cruzados que os Chinas devião, mas fez se senhor de toda a carga do junco ou embarcação que viera, que constava de se- das, peças de Damasco, persolanas, almíscar e outros generos, dizendo hera tudo do defunto, por mais que os Chinas clama- rão que hera muyto seu, 110 que trazião empregados mais de oito mil cruzados; pello que offendidos de tão violento roubo, forão com suas molheres e filhos relatar tudo ao seu Chaem (e). Informado do cazo este ministro China mandou logo pre- goar que nenhuma pessoa sob penna de morte coinunicase mais com os Europeos que habitavão Chincheo, pello que foi grande a fome que aquelle povo padeceo muitos dias athé que se resolveo a fazer-lhe entradas nas Aldeãs, do que se despicou o China mandan- do huma armada de 120 juncos que queimou treze naos que achou 110 porto, entrando na povoação fez hum horrível estrago que de 500 Portugezes só escaparão 30 para testemunhar que Chincheo (totalmente) para os Portugezes acabara (f) (1). // (d) Idem il>i-// Mend. Pinto hic. fe) A. A. supra cit. ( f) Vid. ubi supra. = ( I ) Também esta história da destruição da colónia Portuguêsa de Ch'uanchow ( & M ) é pouco verosímil, baseada como é nas asserções exageradas e erradas de Fernão Meudes Pinto. A verdade é que a colónia portuguêsa de Ch'uancliow foi mui pequena, e se casas houve, não passavuui duma feitoria.
71 — Capitulo V Pág. 86 De como os Portugezes que escaparão da perdição de Chin- cheo andarão bastante tempo foragidos por estas libas da China, e buscarão as de Sanchoam e Lampacan para refugiados, negociarem. Quando os homes cavão por suas próprias mãos as dis- graças, parece que com razão se não devem queixar dos infor- túnios; e se estes com repetição são á experiência mais sensíveis, queixem-se os homes de sy, pois que os occazionarão. Deixou Deos aos homes a vontade livre: deu-lhe Santíssima Ley para regullar suas acçoens, mostrando-lhe nella o bem que haviam de seguir, e os males que liaviao de obviar; mas se a vontade como potencia cega fixa os olhos ao lume da rezão, não há absurdo em que se não exponhão a call ir, achando mil despenhadeiros para se perci pi tarem. A Deos nada pode ser occulto, porque ainda recôndito dos coraçoens humanos lhe lie patente: assiste com inspiraçoens aos bornes, dezejando-lhe os acertos no sen obrar, para que procedão com rectidão, sem que liajão de offender; mas se desprezados os celestiaes dictanies atropellão as normas da rezão, seguindo só seus inconsiderados sistemas, lhe acontece muytas vezes não guar- dar Deos para o outro mundo os castigos, pefmittindo para con- fuzão dos mesmos homes, que pellos mesmos princípios que de- linquirão, venlião infelizmente a pagar. Muito bem o experimentarão os Portugezes habitadores em Chinoheo; pois tendo-os Deos advertido, e posto diante de seus olhos como espelho o que pella ambição, cobiças e injustiças socedera aos que povoarão Liampó, já que os de Chinclieo se constituirão tanto seos imitadores em as culpas e abomináveis deli- ctos, comettendo ambiciozamente a mesma Justiça com injustiça tais insultos, foi justo Juizo de Deos, que todos o viessem a pagar. De quinhentos homes Portugezes por permissão Divina escaparão trinta que talves não serião tão culpados, e para se refugiarem (pois se não supunham delinquentes) vierão buscar
— 72 - os mesmos Chinas aos portos ou Tílias de Sanchoam, e Lampa- cao, adonde se aquartelarão, e ou por compaixão ou por futura conveniência com disfarce, fazendo-se como ignorantes dos suces- sos já passados sem repugnar os consintirão (a). Hé a Ilha e porto do Sanchoam distante só dezoito le- goas (e ahinda mais perto Lampacau) desta hoje chamada Cida- de do Nome de Deos na China, em que isto escrevo: lugares po- bres e de limitado comercio, por isso sem muitos concursos ha- bitados, suposto que os Chinheos por princípios affectados tem i*ág. 37 sua destinção de //honra entre os mesmos Chinas, e já havia al- gum tempo se admitia chegarem a este porto de Sanchoam al- gumas einbarcaçoeus Portugezas a fazer com os Chinas seu contrato: aqui se acomodarão pacíficos depois de andarem vagos por estas Ilhas pobres e necessitados. Porão mais bem afortunados nestas Ilhas, por isso mesmo que sufreráo suas inizcrias e trabalhos; os que na de Sanchoão viverão, alcançarão maior fellicidade, porque estando abençoada pello prodigioso S. Francisco Xavier, que também nella como em outras miiytas partes da Azia e toda a índia obrara inexplicáveis maravilhas, terião a fortuna de participar o cheiro de suas gran- des virtudes e santidade. Já mencionámos em outra parte a vin- da deste grande Heroe para missionar na índia, á instancia de EIRev D. João 3o de Portugal; a seu tempo diremos o que obrou á instancia de seu geuerozo espirito partindo da índia para o Japão a converter Almas; e agora suposto pareça ser contra a serie dos escritos já que com os nossos Portugezes foragidos em San ehoam nos achamos, antepondo os socessos aos tempos, em poucas palavras mostrarei que também a toda a China desejava ancio- zamente e com effeito queria reduzir. Como toda a ancia do S. Xavier hera salvar Almas intro- duzindo-lhe efficazmente a Luz da Fé, e regenerando-as com as agoas do Baptismo, tinha assentido ás inspiraçoens repetidas, que para este santo fim lhe dava Deos; e buscando com delligencia (a) Vide A. A. supra cit.
73 - os meios para poder entrar na China, persnadio ao Vice-Rey de Goa que então hera D. Affonço de Noronha, íillio de D. Fernando Marquez do Villa-Real, que approvando estes tão santos intentos respectivamente aos fins, também tez aceitação da pessoa de hum Diogo Pereira, que o santo para esta empreza honorifica (pello bom conceito que tinha dele) lhe propoz, e este queria corresse por sua conta toda a despeza da Embaixada (b). Preparado tudo com custo/a. e cuidadoza delligencia, como também o Santo, que o havia de acompanhar, partirão de Goa em 14 de Abril de 1552. e chegando em Mayo a Malaca acha- rão para tomar posse do governo a D. Alvaro de Atayde; e como este fidalgo tinha grande opposição ao tal Diogo Pereira de quem vivia aggravado, por lhe ter negado dez mil cruzados que lhe emprestara, além do que também a euveja da honra e conveniência produzia seus effeitos, por mais que dissimulou o ve- neno, o veyo emfim a vomitar impedindo com todas as suas forças, e colorados pertextos esta embaixada, de sorte que por mais delligencias que fez o Santo, por mais meyos que buscou, nem por bem nem por mal o pode reduzir, e ficou a embaixada sem se effectual- (c).// // Desconçoladissitno ficou o Santo vendo impedidos e to- p«g. 88 tal mente frustrados os meios para a conversão dos Chinas, a cujas Almas dezejava anciozamente acudir, e D. Alvaro bem castigado por Deos pello bem que estorvou e mal que fez, ser- vindo-lhe também de suplicio o ver que Diogo Pereira fora por El-Rey grandemente premiado. Ahinda o S. Xavier intentou, sein a tal embaixada, entrar na China; mas vendo tantas difi- culdades na empreza, seguio em bem das Almas outro rumo» fazendo sempre prodígios e milagres; sim chegara defronte da cidade de Cantão, sim aportara a Ilha de Cliincheo, adonde fez conversões admiráveis (d); e emfim veio parar a de Sauclioam adonde os Portugezes interinamente rezidião. (I>) P. Souza Oriente //Conq. C<>uq. 4. I). 1. (<•) Ldeni ibi mini. 71.//.iisque 73. ( i) P. Souza ubi »U|>//82.
— 74 ~ Quando os Chinas conointirão aoa Portugezes nesta Illia foi a condição de não fabricarem uella cazas de dnva, senão de palha on ramos de arvores, em que pod esse m habitar e ter as suas mercadorias, e estas se houvessem de desfazer, quando a outros portos a fazer negocio se retirassem, pois hera contra as leis do Império o habitarem nelle Kuropeos com permanência. Em huma dessas palhoças ou caza de ramos som abrigo entre amorosíssimos coloqnios com Deos que quiz por termo e darlhe o premio por tantas fadigas e trabalhos que sofreo pello seu- amor e bom das Almas, chamou e recebeo a sua nos eternos tabernáculos no dia 2 de Dezembro de 1552 (*), tendolhe sobre- vindo enfermidade aos lí) de Novembro; seu santo corpo foi sepultado na mesma Ilha, que ficou dictoza, e abençoada (e); nella forão admitidos e em Lampacau os Portugezes, atlié o anno de 1557 em que mudarão de terreno, e não sei se melho- rarão de fortuna. Capitulo VI De come os Portugezes conseguirão dos chinas a Penin- sula de Ama Quo (hoje Macao) para sua habitação, e comercio. He proloquio certo entre os homes que = o tempo cura tudo , porque metido o tempo em meio faz não lembrar mui- to as couzas, e se em tanto occorrem occazioens de gosto, ou (e) Idem ibi num. 90.//tt>i. 627. * Ainda que o Pr. Lucena diga que o Santo falleceu na sexta feira e na ante-manhã do sabbado e Ferdinand Dinis á meia noute; parece ser mais certa esta data que o nosso auctor apresenta, porque concorda com o que diz o Pe. Francisco de Sousa no sen Oriente Conquistado quando uffirma : « Constou-nos o dia e hora da «na morte por um diário de Francisco Gonçal- ves o líico, mercador da China, que estava presente em Sanchoão, quando morreu o Saucto Apostolo e da sua mesma letra o escreveu: e cotejando este memorial com o ultimo dia do suor do Crucifixo, regeitamos com moral certeza todas as mais opi- niões n'esta materia. Nem" os 2 de Desembro podião u 'nquclle anno cair ao Sabbado, como alguém imaginou por erro de contas. » (.1. F. M. !'.)
— 75 —- também de conveniência, tudo faz ahinda mais facilmente es- quecei1; atlié n'isto se vê a Providencia do Altíssimo, porque a terem prezentes sempre os homes as afrontas e injurias que pas- sarão, as injustiças e sem razoes que padecerão, seria viver nes- te mundo como em hum inferno vivo, ardendo sempre em cha- mas de odios, de vinganças, e de iras som se poderem extinguir, nem aplacar. Quando entre os Portugezes e os Chinas houve em Lianipó . e Ohincheo tantos absurdos, cometerão estes con-//tra aquelles exor- rag 89 bitantes excessos, se achavão preoocupados todos por diversos modos, como cegos todos á Luz da Fé, e da rezão, porque huns se deixarão preocupar da ambição e cobiça para cometer insultos, outros se deixarão vencer do odio e da vingança para ficarem triumfadores, fulminando estragos; mas como se meteo tempo em meyo, e se representarão conveniências, tudo esqueceo, concorren- do também para isto alguns incidentes de successes vários. Naquelle tempo para os Portugezes certamente infeliz, se achavão os Chinas absolutos e destemidos, porque todo o Império estava corn evoluçoens levantado; tinha naquella con- junção inorido o Imperador da China, e se achava soblevado o Imperii» com treze opositores á Coroa, postos todos já em armas com exércitos em campo, porque cada hum a pertendia levar, e o Tutão Nay que hera a primeira pessoa depois do Rey 110 go- vernq com mero e mixto Império de Magestade, se achava cer- cado na Cidade de Quoansi pelo Imperador dos Cauchins, em cujo favor se dizia vinha o Imperador da Tartaria com novecentos mil homens de soccorro (a). Agora porem que os Chinas tumultuados se achavão já postos em socego, e estavam as sediçoens acabadas, regendo-os o novo Imperador (*) oin boa harmonia, como sempre ordinaria- mente ao principio para melhor auxiliar ao amor as vontades, (a) Meniles Pinto ui» sua |m regi'. C. 68. (*) Rifeie-íe ao iuiprrad'-r Chi-taung que reinou
e'captivar os ânimos dos vassal los costumão os Príncipes fazei, entrarão os mesmos Chinas mercadores a tentar os 101 tngezes (não lembrando já nada do passado) que delligenceassem ficar de asento em a China, porque suposto as suas invioláveis leis o não permittião fazer em terra firme, tinha a Ilha do Anção hiima Peninsula, adonde podião fazer singular porto de comercio, e boa povoação para habitarem. Os Portugezes que andavão ahinda como foragidos e estra- nhos, e tem mais acrimonia no sangue que os Chinas, lá se resell-1 tião 'ahinda, porque o brio natural os excitava; mas como a pobreza e mizeria, assim como o padecer trabalhes faz abater muyto os fumos, concidernndo que poderia» ter muito avançados interesses em um novo sitio que se lhe propunha, e que delle mais comodamente poderião continuar ao Japão snas viages, «sen- tarão entre sy reentrar nesta pertenção para o que se offreeião aquellés mercadores Chinas a concorrer com os seus bons officios, e se sortisse bom effeito, poderião neste sitio livres já de tantas afliçoens e fadigas, descançar (b>).,/; ^ 40 ' //Entrarão emfiui neste projecto, e os Mercadores Chinas concorrerão com eífoito, por se lhe reprozentar conveniência, po- dendo assim facilitar melhor a sabida aos seus generos que po- derião vender como quizessem, e naquelle tempo nenhuma outra nação vinha á China comerciar, que só os Chinas levavão deste Império nas suas somas alguma fazenda a Malaca, e outros di- versos pontos para negocio, experimentando repetidas perdiçoeus os mais dos annos, porque sendo neste continente os mares muito alterosos e entre Ilhas, as tais somas os não poderião agoentar. Corria o anuo 1557 do Nascimento de Christo, e depois de terem os Portugezes plena noticia do mencionado sitio e sabe- rem que toda a Ilha de Anção, a qual terá com pouca differen- ça vinte e sinco legoas de circuito, incluindo a Peninsula que estavão rezolutos já a pertender, hera sogeita ao Viee-Rey e fb) Faria e Souza//.'.:. Asin Port.//Medes Pinto. /Barros. Conto.
— i t — Mandarins de Cantão província das principaes do Império, e es- pecial porto do maior commereio, fizevão attencioza supplies, para que se lhe concedesse o habitarem neste sitio em boa paz, reco- nhecendo-se sempre súbditos da Real Coroa PortQgeza (c). Houve na rezollução deste despacho varias duvidas, fun- dadas huinas nas leis irrefragaveis do Império, outras nas suas profecias e supevstiçoens; mas em fim concluhiose o negocio, e concederão aos Portugezes habitar nesta Peninsula sem passar dos lemites que lhe assignarão, os quais forão meia legoa com pouca difrença de comprido, e a largura que tem e será como liuin tiro de peça, do qual chão Pagarião foro ao Imperador (*), não farião cazas de pedra, e serião primeiro de tudo obrigados a lançar fora da Ilha os ladroens, que nesta Província fazião a principal rezidencia, e daqui os sahião a insultar, pello que os temião muito, e isto foi o que mais os convenceo. Concedido já este indulto, se ajuntarão todos os Portuge- zes dispersos, e vierão a este sitio em armas, que como herão muy diversas das que uzavão os ladroens, os destruhiram, e de huma vez a afugentarão, botando fogo ao inato que lhe servia de canto. Acharão logo um pagode 110 qual estava um idolo que elles chamavão Ama e Gao (**), que quer dizer na lingna chi- na bahia de bom surgidoiro de navios, donde se derivou o no- me de Macao, logo o desbaratarão, dando culto tão somente ao verdadeiro Deos (1). Observarão ficar este pedaço de terra em (<•) P. Marti». Martin.//Novus Atlas 8ineng.//P. Allin». Kircher.//Cliina Illus- trata. /Giustiuiaui.-//Nuevo Atlas.//Limiers. Ciencede//la Cour.//João de Barros. Dec.//Man. de Far. e Souz.//na Asia Port./ P. Souza uo Or:ente//Conq. e outros muitos. = (*) Mais tarde e não logo no princípio
— 78 — vinte e clous grãos e meio da parte do Norte com bom porto a- berto ao sueste, e comodo surgidouro para as naos, só com a bre- ve distancia de 30 legoas a Cantão para conduzir as fazendas. Ouidão já em erigir gostosos liumá colonia ou cidade; e em quan- to n'este projecto se occupão com o Império da China, de quem he por propriedade este terreno, vamos nos a ver sumariai! ente as grandezas e excellencias deste tamozo e tão celebrado Império. ai /) , . I • i / Pag. 41 LIVRO IÍI Do famoso Império da China, em que ÍTlacau se acha situado Capitulo I. I)o principio, antiguidade, e primeiros Imperadores desta Manarchia. Do grande e celebrado Império da China são tantos os Escritores, e tanta a diversidade com que falão, que sinceramen- te conffeço, em tanto labyrintho de eonfuzoens, não me ser pos- sível em conciliar os sistemas, nem acreditar os que perecem paradoxos. Bem reconheço que há Fé não só Divina, mas hu- mana; e sendo só aquella infalível, esta pode ser por vários prin- cípios viciada. Os doutíssimos Escritores que estiverão na China, e expozerão as antiguidades e grandezas deste Império, não o virão, mais que alguma pequena parte, obstando-lhe a inhibição, e he de supor ter sido por informe dos mesmos Chinas o que dis- serão, extrahidas as noticias dos seus antigos Livros, e Clironi- cas dos 80 Keys, que certamente sei estão cheios de loucas fa- te nasilizado) em cantonê*, i. é Pórto de Ama, deusa dos navegante» (também cha- mada Ma eliu-p'o-tgãífllH]) » 'l'"51" haviíl ,,m te,uPl0 d«dicado eI" Mac»". O nome Chinês mais comum de Macau é Ou-Mun (i^PD é Porta do Abrigo. Vide tam- bém o artigo dg citado Padre Teixeira Posição geográfica de Macau e origem do no- me (Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Agôsto de 1988, p. ItiO e seg.)
79 — bulas que elles muito acreditão, de superstiçoens e profecias que elles como oráculos venerão. Os que da China escreverão na Europa, ahinda fazem mais sospeitozo o seu dizer, quando nelles se encontrão exage- raçoens e excessos; que como = Facile eat inventis addere «■=, não só propoein (sem allegação) o que os outros já disserão, mas como são matérias que se não podem liquidar, sempre para a admiração poderão pôr de sua eaza alguma conza de novo que quizerem. Venero reverente a todos, e nem pello pensamento me passa criticar o que elles escreverão, só entrei a duvidar pello que tenho nesta materia de escrever, satisfazendo á empreza co- rioza que tomei. Nas chronicas dos SO Reys da China, e outros muj tos Livros que compozerão os seus Doutores entendo conterem mais de 800 mentiras, vicio a que seus nacionaes gentios são propen- sos; e como nas suas ciências não tem algum principio certo, só sim por fundamento quiméricas e gentílicas conjecturas, com probabilidade se deve prezumir que os seus méritos são apócri- fos, e dirigidos a deixar fama do seu nome para lho idolatrar (como costuma) a posteridade. Muitas vezes diz que ouvira Fernando Mendes Pinto ler nas Chronicas dos 80 Reys da China, no tempo em que neste Império o perseguirão seus trabalhos (a); e sendo certo o que elle diz, não se segue que o seja o que lhe lerão. Nestas se acha que viera do Ceo á terra um Rey a cavalo em hum grande Dra- gão ou fatal serpente a tomar posse deste Império, por cuja ra- zão he II huma serpente as armas delle, de cujo brazão por a- P«g. V2 quela memoria se prezão tanto, que não só a trazem esculpida nos seus escudos, e a tem em todos os logares públicos, mas atlié. nos proprios vestidos como eu aqui vi em (Mandarins) a tra- zem tecida, pintada, ou bordada. Tem que os Imperadores da China são filhos do Sol, allegando para isto, e para outros gen- (a) Villi) L'llimiuo // Fern. Mend. I'int. jj ua nua peiegliu.
— 80 — tilicas loucuras da Divindade fictas e affecíadas íiiuytas fabulas que o doutíssimo Kirelier corio/amente menciona (b). For estes e outros princípios me não parece ser digno de credito o que Mendes Pinto difuzamente escreve que nas Çhro- nicas da China ouvira ler, quanto á origem, antiguidade, e pri- meiros mouarchas deste Império (c), porque como bornes tão fal- tos de fé como cheios de superstiçoens, fundados só 11a sua au- thoridade e sofisticas doutrinas, roputandose como oráculos, es- creverão em abono do Império, e lizonja de seus Imperadores tudo o que lhe pareceo, para com elevaçoens os divinizar. Pareoeme historia ou fatal arenga o contheudo no Cap. 13 e primeira parte das Chronica» dos 80 Revs, em que, Men- des Pinto allóga (d), expondo o celebre successo de Turbão e Naucá a quem attribuem o feliz nascimento deste Império 110 anno 030 depois do diluvio, suposto haja alguns poucos escrito- res que o assentirão, pella mesma razão que Pinto o escreveu; do qual sintir diferem muyt.o e em grande variedade outros His- toriadores. Paulo Veneto que se reputa o mais antigo entre os Europeus, que escreveo do Império da China pellos annus de 1400 não está em tudo deste accordo, e diz quanto á origem e denomina ção deste Império, que seus antigos satrapas pozerão como lhe pa- receo, significando sempre quimeras de Soberania e Divindades (e). A este parecer se inclina o nosso Pr. Hyacinto de Deos, que dizem fora natural d'este Paiz (*), e refere tres barbaras opi- nioens que estes gentios tem do seu Monarcha: a primeira que o primeiro Rey da China se chamava Rey do Ceo; a segunda (b) P. A than. Kirch, // iu Sina illustrnt. (c) Pern. Mend. Pint. // na ana Peregrin. / Late. (d) O mesmo A. // difuzamente ibi. (e) M. Paul. Venet. de Sinic Imper. (*) Fr. Jacinth» de Don» era efectiva mente natural de Macau. Morreu em Goa etn 8 de maio de 1681. A'sun pessoa e à sita curiosa obra « Vergel de plantas e florei da província da Madre de Deus doi Capuchos reformados da Índia Orien- tal », nos referimos no nosso artigo « Um Macaense lllustre 1611-1681 » publicado no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, 1937, pp. 186-192 (C. R. B ).
— 81 — que o segundo se eliamava Rey da terra, e que <> terceiro se chamava Rey dos homens (**), governando seus descendentes es- te Império muytos milhares de annos; em cuja opinião se táz este Império crendo antes da Creaçâo do l niverso, e íoi doutii- 11a de Qum, fit, çu seu antiquíssimo Doutor e primeiro em suas escolas (f). Outros Letrados Chinas querendo em seus livros di- frençar-se na opinião tem que seus monarchas principiarão a rei- nar duzentos annos depois do universal diluvio, o que já difere 439 do que nas suas chronicas se lè, e elles não deviao ignorai (g). Já o douto P. Martinio lie de opinião que este Império a que muyto chamão Oatayo, tomou o nome China do hunia fa- mília Real, que o dominou duzentos e quarenta e seis annos an- tes do Nas/'/cimento de Ohristo (h). Giustiniani no seu Atlas já p»g. t:l varéa nos duzentos annos da antiguidade, dizendo que a este Império provem o nome de China de hum Monaroha chamado Sina, quarenta e seis annos antes de Ohristo (i). Todas as couzas antigas padecem duvidas grandes, ou por- que a incredulidade dos homes as dificulta, ou porque á recta reftão são repugnantes; que quanto mais agudo e perspicaz he o juízo, tanto menos o capacitão á credulidade; e se em matérias tão antigas e tão dúbias quanto mais se diz menos se crê, tarei eu muyto por dizer o menos, já que me lie precizo o fallar deste Império da China como fundamento desta historia, pois na Chi- na se acha Macao situado. Tenho por certo que Netos de Noé forão os primeiros po- voadores (e fundadores talvez) da Siniea Monarchia, quando pel- lo mundo se dividirão depois do Universal diluvio, e accomo- dando-se mais o meu discurso (que também pode ser falivel) ao que escreve o douto Fr. João Gonçalves de Mendonça, julgo que (•') São os Ires Hoangs, success»res do Io homem, chamado Pan-Ku. fJ. 1-. M. P .]. (f) Fr. Hj-ncint. de Deos // uo Vergel de plant, e flor. = (g) Idem ibi. (h) P. Martin. Martin. // Lib 6 Sinie» histor. // (i) Giustin. Atlas // abrev. foi. '29.
— £2 — Vitei foi o primeiro Mouarcha d'es te emporio, e o que reduziu a China a ser Império (1); mas por não me expor á crize de alguns antagonistas, que talvez supponhão ser a minha inclina- ção affeetada por respeito do Instituto, tenho lido tantas e tão diversas opinioens sobre a fundação e Reino o Rei primeiro da China de quem o douto P. Martinio diz que Ximo Imperador, a dividira em doze Províncias, Yvo seu sucessor a pozera e redu- zira a nove, 224 an nos antes do Nascimento de Christo (m), e no mesmo lugar ahinda aponta mais antiguidade a este Império, pois fallando do nome Hoangri (*), que vale o mesmo que Imperador da terra, nome que os Chinas attribuião a seus Monar- chas, diz que o primeiro que o uzou reinara 2697 annos antes de Christo vir ao mundo (n); entro ahinda a duvidar no meu systoma vendo tal variedade. Deante dos meus olhos tenho duas genealogias dos Monar chás e fundadores deste Império da China, tão absolutamente disparadas, que lendo a minha eoriozidade a ambas, me fez admi- ração o ver, que um só nome de Imperador que está em huma se acha na outra, nem algum dos nomes acima mencionados se lê em alguma d'ellas; a primeira lie do douto Mendonça que aleguei asima em que poem primeiro Mouarcha a Vitei que diz reina- va 100 annos, e só da sua liuhage lho sucederão no tlirono 116 Reis, que conforme a sua Historia parece durarão e reinarão 2257 annos. A outra genealogia lie do famozo Morery author Francez, cujos escritos são dos Europeos muito estimados: este traz Fohi por fundador e primeiro Mouarcha deste Império 2952 annos antes da vinda de Christo, o qual reinara 115 annos e na família Hia continuara a sua descendência atlié o anno (1) Fr. Juan. Gonçalv. //■ « Mend. tii■ //impr. nn. 1586. ( n) Martin. Ma it i . 1/ Nov. Atlas ia Piaef. 3, (*).Vo inanuscripto ustá, ccrtamenie por engano, Unam/ri; pois «leve ser Hvang. ti, nome do Imperador com o qual começa a cliiouologia po.-itiva dos chins. Pnuthie> dá a Hoang-ti a significação de Imperador ama reli o (J.F.M.P.). (ti) Idem ibi in Prtef..'/foi. 12.
— 83 — 1818, que ncjibnu em /vir Imperador, vindo a durar 113-1 aitnos (o).' //A viata puis de genalogias em tudo tão diversas, e de opi- p;iíI. 44 nioeus por toda os priucipios tão discordes, vendo que o Império da China não lie nem foi em algum tempo mais que linm, aliinda quando com guerras continuas acometido, ou por alguns Régulos e:n diversas Províncias sublevado, e por isso lia de só ser huina genealogia a verdadeira, como não seja possível averiguar se o lie alguma destas, ou qual o seja, segundo a variedade dos Autliores, e estou corto que a nenhum dellos se deve attrilmir esta disso- nância, porque ex propria Morte não as compozerão, sim só se regularão pel lo que os mesmos Chinas que prezumidos do doutos (ptd piar,iturn) sem alguma uniformidade escreverão em suas his- torias; e nestes termos tomo a rezolluyão de 1110 met ter 110 escuro, respeitando tudo o que todos dizem, e não afirmando nem negando o ([iie escrevem; mas porque o discreto Leitor me não julgue ava- rento de noticias, (pie ou seja nesta materia verdadeiras ou sofisti. cus, sempre divertem, seguindo o que contem ambos os mapas ou genealogias referidas que trazem em seus escritos Mendonça, e M< irery, exponho 110 Capitulo seguinte as dovizoens e subleva- çoens (pie padoceo este Império (*). (o) Lmys M uery Lo grand Dictionaire//histwri-|iie, Lit. O, (*) Entte Mendonça o Moréri, não [iode ao leitor restar duvida de que deve [ireferir o que diz ente último, que na lista dos iinpersdoros pouco iliftere do que asseveram os escriptores modernos. Os nomes dados por Mendonça não existem cita- dos em nenhum do. escriptores qne tenho consultado. Em 1744, em que escreveu Kr. José de Jesus Maria, já havia elementos pa- ra que este preferisse o eseriptor fraucez ao pmtugnez, que, como muitos dos nos. bos compatriotas, tinham uma singular |i edileção para alterar os nomes asiáticos tor- nando-os quasi iniutelligiveis. (J. P. M. 1'.)
— £4 - LIVRO III Do famoso Império da China em que ITIacao se acha situado CAIMTUIiO II Das soblevaçoens, dirizocns, e motins que houve no Império China em tempo de seus antigos Monarehas conforme o que em suas Genealogias Mendonça e Morerg escreverão. Aliinda quero continuar hum pouco com o nosso enredo, suposto que por nenhum principio posso clarificar-llie a verdade; e attendendo o «pie estes Autliores ambos graves em duas tão diffrentos genealogias dos Imperadores Sinicos difusamente escro- verão, exporei primeiro as sublevaçoens que Mendonça rellata houve neste Império em tempo de diversos Monarehas, e logo referirei as que Morery na sua Genealogia Sinica menciona. Depois que a legitima descendência de Viteg primeiro fundador e Monarclia deste Império da China (conforme o pare- cer de Mondonça (a) se acabou, tendo oceupado o tlirono 116 Imperadores por tempo de 2257 annos, ao ultimo que foi Trin- zou, que reinou só 40 annos, matarão por huina conjuração seus inimigos sublevados, pondo no tlirono Auchosan que impei ou < muitos seus descendentes, athé Yantei. Contra este Imperador houve grande motim e sublevação no Império, chegando a rom- pHg 45 por guerras civis, e // para se aplacar a terrível ardência d este fogo, foi preciso dividir em tres partes o Império, seguindo e obedecendo huma a Laupg, outra a Sosoc, outra a Cincoan seu sogro, e emfim veio a reinar só Cut eg filho de Laupg. Contra este depois de reinar 4 annos se levantou hum tirano chamado Cgmbuteg, e o matou ajuntando o Reino que ainda reputava divizo; e socedendo-lhe 15 Reis por tempo de 176 annos depois de elle imperar, entre o ultimo que foi Çugonteg (;i) Fr. Juno Gone, (le // Mend, ex Scrip. / et liiet. Sinic. ubi // supra.
— 85 se levantou tiraiiioamente Tzobú, e desta linliage houverão so 8 Reis que obtiverão o ceptro 62 annos. Contra o ultimo, que foi Sutey, se levantou Cotey, de cuja liulni socederão 5 Reis só no espaço de 24 annos; e ao ultimo que foi Othey matou Dion, que entrando a imperar se conservou 56 annos em 4 Reis seus descendentes; e contra o ul- timo se levantou Tzui, reinando 37 annos em três legítimos suc- cessors. Contra o ultimo se levantou Touco, e obteve o Impé- rio 294 annos eon 21 Reis seus sucessores. O ultimo chamado Troncon foi morto por industria de sua mulher, e ella só reinou 41 annos, athé que por seu lascivo procedimento a privarão do Império, e levantarão Rei a Tout son filho de seu piimeiro ma- rido, que a mandou justiçar como merecia. Houve d'esta liuhage 7 Reis que durarão 120 annos. Contra o ultimo chamado Coucham se levantou Dion, cu- ja descendência só em 2 Reis não durou mais que 18 annos. Con- tra o 2° se levantou Outom, e lhe socederão 3 Reis que gover- narão 15 annos. Contra este ultimo se levantou Outzini, de quem procederão só 2 Revs, e governarão pouco mais de 9 annos. Contra o ultimo se levantou Toso, este, e hum filho seu reinarão só 4 annos, porque a este matou Ánchiu, entiando a governar, e socedeiido-lhe hum filho, sem duração mais que a de 10 annos, porque contra o tal filho se levantou Atuitzon, que hera da linliage de Vitey, que fora Mona relia primeiro deste Im- pério, e o matou, conservando-se no tlirono 17 Reis seus suces- sores legítimos por tempo de 320 annos. Contra o ultimo desta linliage, que se chamava Tcj.y poz guerra o Imperador dos Tartaros, denominado Yzou, que com exercito formidável invadio a China, e tomou todo o Império; pel lo que houve 9 Imperadores Tartaros que senhorearão a China e a governarão com muitas tiranias: toi o ultimo Lsin-izovni, até que os Chinas impacientados se ajuntarão, e elegerão secre- ta-//mente para Imperador a Homhú, expellindo e matando aos l>ug Tartaros; este se dizia pertencer á família dos antigos Rois da China e reinou com seus descendentes 295 annos, athé o de 1645
—- 86 — em que os Tar ta vos novamente á força de industria o de armas se fizerão outra vez senhores do Imperiq da China, e athé o pre- zente tempo em que isto escrevo o estão absolutamente domi- nando com o titulo de Imperador da Tartaria e China; mas pa- rece que conforme as suas profecias 1 lie não pode durar mais de hum Século que neste anno acaba, e se sabe haver já alguma occulta-revolta com a China. Se pois já vimos o que nesta materia genealógica escre- veu Mendonça, vejamos também agora o que Morery na mesma materia escreveu, ambos a respeito da propria Monorchia (b). Depois que Fo-hi, primeiro fundador e Monarcha do Im- pério da China no anno 2952 antes do Nascimento de Christo, reinou 115 annos, e deu leis a este Império lhe sucederão 7 Beis, dos quaes o ultimo foi Ann, que no anuo 2257 empunhou o ceptro, o reinou 50 annos. No anno 2207 entrou a imperar a família Hia 11a pessoa de Tu, chamado também Ta-Tú, a quem sucederão 17 Reis, dos quaes o 5o que foi Tis iam querendo-se aliviar do pezo da Monarchia, cometeo o governo delia a hum vallido, o qual se levantou com o Império: hera o seu nomo Hanzo, e reinou 40 annos; athé que Xao-cam filho de Tisiam escaudescido lhe tirou outra vez o Reino com a vida, e sobio ao throno uzurpado. Ti-man 9.° Rey vizitou as Províncias oriental's que achou qu.izi sublevadas, o industriozainento as aplacou Ti- verão estes 17 Reis o throno imperial da China 458 annos. O ultimo destes Monarchas chamado Kie tendo reinado 52 annos foi deposto em huina sublevação e se tinha feito muito odiozo no Império. Entrou a imperar XumTao, de cuja família lhe socede- rão 28 Imperadores 110 espaço de 644 annos, principiando 110 de 1766 antes de nascido Christo, o extinguiu toda a família do Im- perador que lhe precedera. Contra Yum ky houve sublevação 110 Império por rezão dos Princepes tributários, e hera este o 6." su- cessor. Contra o 8° houve uma grande in vazão de Bárbaros. Con- t (b) Moreri ubi supra.
— 87 — tra o 9." chamado Vai-gin principiarão guerras civis, entro os li lhos o Irmãos do Rey defunto. Xan-kem 15." Imperador leve também 110 seu tempo guerras civis, e aqui houve interrupção na família. U-vie 25.° Rey porque hera impio, foi morto, e Tai- -tim seu ti lho teve guerras. Cheu 28." Rei governou com tira- nias, por cuja causa o matarão no ano de 1122 antes de Christo. Sucedeu no Império Vu-vam que em 35 Imperadores da sua família reinarão 873 annos. O 5.° chamado Mo-vam fez guer- ra aos Tartarus occidentaes, e foi vencido. Pcin-va 13." Rei outra vez moveu guerra aos Tartarus, e os subjugou; mas os Reys tributários fizerão liuma sublevação contra elle, e mallogrou o triunfo.// /. C/tuam-vani 15." Rei descobriu huma grande conspiração 4- no Império, e a castigou asperamente. Hiei-vam Rey 17.° teve guerra com os Tartaros que venceu. Gueilie-vam Rei 29.° teve guerras civis por facção dos Reis Tributários. Xan-vam Rei 34° foi terrível, e houverão no tempo que imperou varias guerras ci- vis. Cheu 35*. Rei governou com tiranias, e o matarão, entrando a tomar posse do Império a Família Cin pellos annos 249 an- tes de Christo, tirando da mão de Cheu-Jeim o ceptro. Entrou Chunm-siam com a dita família Cin, e não durou mais que 43 annos, sucedendo só 4 Imperadores: o 2.° que foi Xi-hoam se odiou pellas crueldades que fez, e foi o que deu principio ao celebrado muro para impedir as invasoens dos Tar- taros. In-ram, que foi o 4.°, ficou vencido por Lieu-pam, e perdeu a Coroa. Lieu-pam entrou no anno 207 (**) antes de Christo com sua família, que durou 420 annos, reinando nelles 25 Imperado- res. Vu-ti que foi o 5o einprendeo seis conquistas contra os Tar- taros, e Indus. Hoay yam 13°. Imperador foi privado da Coroa por ser demaziado em beber. Lim-ti 24°. alcançou liuma grande victoria entre os barbaros. Hienty pel lo mao governo expoz o Império a grandes guerras de Estrangeiros e domésticos; pello (**) No ins. original está 2007; mas é evidente o engano. (J. F. M. P.)
— 8S — quo defnittido entrou a governar outra tamil ia uo anuo de 221 depois do Nascimento de Christo, durou só 44 anitos com 2 Im- peradores, porque ao 2o. despojou do tlirono Sum-chuo que eia general das suas armas. Entrou este a reinar com a família Gim pellos annos de 265 depois de Christo; teve o Império 150 annos coin 15 suces- sores; em tempo dos primeiros 2 houve grandes revoluçoens; e Gum ti que foi o ultimo tiranamente inorreo ás mãos de hum seu capitão. Entrou a família Sum no anno de Christo 421, reinou 50 annos em 8 Imperadores: foi o 1° Lieu-vu. O 3o. teve guerras; o 0°. foi cruel e odio/o; no oitavo que foi malquisto aca- bou esta família. Entrou a familia Si na pessoa de C(to-ly Im- perador, a quem sucederão 4 no tempo de 25 annus, e aqui não tenho que notar Introduziose outra familia no anno 502 por cabeça de Siuo-i/en, que com mais 3 sucessores durou 55 annos, o se lhe seguiu Chin-pnsxen no anuo 557. que com mais 4 su- cessores ti verão o ceptro 33 annos. Entrou a imperar a família Sut/ pellos annos de Christo 590; foi Yum-hien o primeiro Imperador, teve só 2 sucessores, c reinarão 29 annos: ao ultimo chamado Cum-li/ tirou do tliro- no Li-goon, Rey tributário; entrou esto com sua familia a imperar no anuo de Christo (118: teve 20 Imperadores que lhe sucederão cm 289 annos. Tui-çum 8.° Imperador teve guerra com os Tar- tarus: Hi-çum Imperador 18.° teve contra sv varias rebellioens. Celos annos de Christo 907 entrou a reinar outra familia, (pie se não conservou no tlirono, e logo no 2o. Imperador, acabou. Nobio ao tlirono Chuam-çum general das armas no anno de 923, teve só 4 Imperadores em 13 annos. '/Cito-çu entrou a imperar no anno 936 depois de ( liristo uzurpando"ao seu antecessor a Coroa; e a seu filho Ci-vam fez o mesmo Lino-Chi-i/vcn no anno de 947; mas também a seu filho Ynti/ sucedeu o mesmo, por hnina grande sedição. Entrou Tui-çu no anno 951, e em 9 seguintes acabou com 2 sucessores. Tui-çu como tutor de Oum-ti ultimo imperador sobio ao tlirono no an- uo de 960, teve na sucessão 18 Imperadores, que durarão 319
— 89 — ânuos. O 4.° teve guerras, e fe/ pazes com os Tártaros, que o aprizionarão, e morreo na Tartaria, para onde foi cativo, no anno 1101. O 9." tambeill teve guerra cem os Tártaros, que toiunndo- lhe Pekini no anno 1126 o levarão para Tartaria prizioneiro. O 10.° que foi Xau-çum seu irmão estabelecei) Corte em Nankiin. O 16.° Giiin-çnm também em bania batalha foi feito prizioneiro dos Tártaros, e lá morreo cativo. O 17." por medo dos Tartavos fugio para a Província de Qiiaiiff-tuni (hoje chamada Cantão na qual estamos) e nella morreo. O 18.° que foi Tim-pim seu irmão, morreo em uma batalha que os Tartaros lhe derão tomando o Império da China. No anno de Ohristo 1280 entrou a governar a China Xi- çu Imperador Tartaro, que com a sua familia Yven dominou este Império 89 annos, soeedendolhe mais 8 Imperadores. O ultimo por ser muyto dado ao ocio, e não cuvdar do Império, o perdoo, entrando outra vez Imperador China Tui-çum pello anno de 1369, e governou 15 Imperadores da sua familia Mim 276 annos. O 2.° foi Kien-ven sobrinho do primeiro Imperador, que deslier- dara seu filho, mas este lhe fez guerra, e o queimou vivo dentro do mesmo Pallacio, e entrou a governar. O 5.° Sivem-çum venceo aos Tartaros em hnma entrada que lhe fizeram no Império. O 6.° Yn-çum foi prizioneiro em grande guerra que tiverão. Em tempo do cativeiro governou o Império China seu Irmão Kin-ti, e tornado do cativeiro imperou ainda 7 annos. O 8." que foi Kien-çum teve outra vez guerra com os Tartaros, e alcançou delles vitoria. O 11.° Xi-çum desfez os Tartaros e os Japoens. O 13.c Xin-çum expelio da China huns Tartaros, que o vinhão insultar. O 15.° Hi-çnm continuou guerra com os Tartaros. O -16.® Houi- -çum tendo varias soblevaçoens no Império, o perdeo, porque acliando-o os Tartaros em guerras civis, se aproveitarão, e lho tomarão, do que elle desesperado se enforcou no seu jardim. En- trou o Imperador Tartaro Xun-chi no mesmo anno, qne hera o de 1645 a imperar a China, adonde se conserva Imperador. Atlié aqui Moreri, no tempo prezento de 1744 continua no Império Tartaro o Império China em 4 Imperadores Xun-chi, ( am-hi
— 1)0 — que foi amigo dos Europeus o deu toda a Liberdade aos Obris- tãos; Yum-ehim, que logo os perseguiu e...(*) que boje reina não 1 lie sendo afeiçoado. O discreto e coriozo Leitor poderá destas notticias acre- ditar as que lhe parecer; porque eu (attendido todo o procedente) liada me rezolvo a verificar, nem negar. 1'Mg. 40 CAPITiriiO I I I Da yranHezn extensiva
— ill - Peninsula de Gorea tributaria ao Imperador; a esta se ajuntão outras muitas ilhas, que também pagão tributo, entre as quais se especial isa a de Hay não. A Ilha do Anção. em que se com- prebende a Peninsula de Macao, tem outras muitas na sua cir- cuinterencia, mencionando também a Ilha Formo/a, que não lie muito distante, e nas vezinhanças do Promoiitorio Ningpo a nobre Ilha de Cheuxan, e outras mais de menos porte (b). O douto P. Martino Martinio da Sagrada Companhia do .Tozus, que com coriozidade e ciência (entendese que por insi- nuação Imperial) correu e discorrei) esta vasta Monorchia, em que fez observaçoeiís elegantes, lhe numerou 150 cidades da maior grandeza, e 1220 de segunda ordem, todas cercadas de muralhas com seus fossos, e fortalecidas com militares prezidios; alem de muitas outras povoaçoens tão grandes como cidades, municípios, lugares, castellos, e fortalezas, que quasi parece se não podem reduzir a verdadeiro numero (c). Admittem as cida- des sua d is ti neção, polia authoridade e titulo dos que as gover- não, de sorte que algumas cidades que se reputão inferiores tem ahinda mais grandeza que as maiores.// I/O mesmo douto P. 110 tempo que escrevei) o seu novo 1 ' ^ Pág. o0 Atlas Sinense que parece foi pelos nonos de 1654, tocando só de passajc nas Cidades movediças em que logo faltarei, diz que conforme os Computes dos Livros Sinicos, se lié que são dignos de credito, diz que tinha este Império sincoenta e oito milhoens, novecentos e catorze mil, duzentos e oitenta o quatro pes- soas, sem numerar as famílias de sangue real, os Magistradcs, Fuuuchos, Ministros dos sacrifícios, nem ahinda mulheres e me- ninos, donde se inferia conter mais de duzentos milhoens de ho- mens mencionando todos; nestes números vareão muitos A. A. conforme o tempo em que escreverão; e não me faz esta materia escrepuloza credulidade, porque sei com certeza hé nes- te Império a gente tanta como formigas, não só pel lo muito (<•) Idem in Praefnt. (1») P. Marli 110 Martin.// Nov. Atlas Sineus.// in Praefal./
— IhJ — quo multiplicão não contente algum Cliina com liuma só mu- lher, so pode, pois o comum lió ter ao menos duas, mas porque se as guerras, peste, ou lepra não diminuo a gente, leni os pais cuidado de matar seus proprios filhos pequeninos principalmen- te sendo fenieas, e em algumas cidades lia a providencia de an- darem carros todas as manhãs, polias portas, para as conduzirem mortas, vivas e semi-vivas á proHueneia dos rios, do que muitos Missionários em disfarce se aproveitava para lhe admitirem o sacramento do Baptismo fazendose encontvadiços, ahinda que dispêndio alguma couza aos carreiros que o costumâo im pugnar (d). Algumas das Aldeãs vizinhas de Macao as vem aqui vender por limitado preço, quasi moribundas, e eu por minhas mãos algumas tenho baptisado. Bem parece dever fazer duvida grande numerarse a mul- tidão de gente, que asima referimos, mas quem tiver notticias dos estylos e Leis sinicas facilmente a pode dissolver, lie Ley entre os Chinas que todos os pais de famílias habitadoras deste Império (com muita especialidade nos povos grandes, eiu que me- nos se conhece a gente ten hão penduradas ás suas portas tabellas em que cada hum mostra numerada com desti lição toda a família que tem, e isto sob graves pessoas, de sorte que nem hospedes pode admittir por muytos dias, só sim expondo-llie também os seus nomes nas tabellas; para cada dez eazas se nomea um offi- cial que tem a seu cargo fazer lista de todas as pessoas que contem, observandose se lia alguma couza de novo, e obrigan- dose a dar conta de tudo ao Perfeito 011 Governador da Cidade, que tudo manda lançar em Livros públicos, e por estes sem muita difficuldade se sabe a gente toda que ha. (
— 98 — As cazas em que os Chinos liabitão todas são baixas sem sobrados altos, e como são tantas necessa- riamente hão de oc- Pag. ãi capar grandes terrenos, a limpeza lie mui pouca, e nellas tem juntamente a sua criação de animaes. As eazas nobres e palla- ctos dos titulares, governadores e Mandarins de Armas e Letras tem entre sv destinção, porque cada hum lie edificado conforme o titolo e grandeza de quem mora n'elle, coin maior on menor architetnra, altura e destricto, mas sempre hão de estar direitos ao Sul as portas principaes, e não podem edificar maior nem mais altos palácios do que pella pragniatiea ou Ley do Império lhe está determinado. As eazas que tem estes Fallacies são em muito diver- sa ferina da que na Europa se pratica, porque 11a China não oecu pão o ar, mas tão somente a terra. Oonstão estes pallacios de vários alpendres, ou pateos grandes, e 110 meio de cada hum (que ordina- riamente são ladrilhados, ou lagiados) está liunia ca/a, excepto 110 primeiro em cujo circuito estão varias eazas ordinárias para a família, e alguns aliinda 110 segundo tem eazas de despenca. Os Chinas que vivem nas Cidades movediças, as quaes para a vista são galantes, parece que tem maior recreio. Enten- do que talvez por ser a gente tanta, que parece não caber em a terra, inventarão os Chinas industrio/amento fazer Cidade 110 Mar, ou em espaçozos rios (*); oonstão estas de niuytas mil einliarca- çoens, que cada liunia lie linma morada de eazas ou mais pe- quena conformo a graduação de quem as habita, e as comuas se- i ■ (*) A verídica discripção «| 11 •- <> nnctor faz d'e-mns cidades flueluautes que em ponto pequeno, se vêem ainda 110 pôrto interior de Macau e, cm grande, 110 rio cni fronte de Cantão, pode ser verificada por todos os que vigilarem os portos da China, onde a aeciunnl ição de embarcações fundeadas chega a causar assombro ao viajan- te desprevenido. Á noite, então, essas povoações fluctnantes tomam nm aspeto plain- tas tico, com as luzes que se reflectem nas aguas e com os cantos e pregões dos ven- d «dores de comestíveis que, em ligeiros barcos com lanternas, perenriem os arma- mentos ou Cannes que separam entre si as embaicaçõe", entre as quaes os barcos de Hares, feericaineale íllnminados, convidam ao prazer os chins barrigudos, expostos a entregarem 04 ventres aos taifas dos piratas, em quanto nog braços das loquis, e en- voltos no fumo «lo opio, sonham e se deixam embalar pelas sussurrantes aguas do rio, negro como tinta ... (J. P. M. P. )
— ill — giiudo a possibilidade do dono que nellas mora. Nas einbarca- çoous ha distinção de varias salas ornadas, coin suas janellas, em que tem vidraças de ostras como neste Paiz se est ilia e es- tão todas com boa ordem arruadas, havendo einbarcaçoens pe- quenas e ligeiras que andam continuamente por aquelas ruas a comprar e vender, a negociar e vigiar. Nas occazioens de Lua em que tem os seus festins, se tol- dão todas de seda, e poem nelles vários estandartes e bandeiras coriozas acendendo de noite muita quantidade de lanternas altas galantemente pintadas; no mais tempo tem por obrigação, doze lanternas acezas de noite em cada rua que feito sinal se eostumão fixar com cordas, e cada noite os capitaens do governo sabem a rondar bem armados com seus soldados, o outra mais gente nas suas ruas. Aqui exercitam todas as suas Artes e officios, sem fal- tar todo o necessário e comestível que facilmente se conduz: as mulheres principalmente aqui nascem, vivem e morrem sem por o pé em terra, nem conhecerem mais mundo. fug. 52 Capitulo IV I)a principal Carte da China cm que habita a sen Mnnarcha: Paliado de una residência, (j nardo* c Estado quando sake a publico. Nada me admirou o que em vários Kscriptores li, defeca- dos já os paradoxos, depois que exactissimamente, de pessoas muv fidedignas que estiverão na Corte e entrarão em alguma parte do Pallacio Imperial da China, me enformei. He Pekim a prin- cipal Corte deste Império, e certamente a reconheço por Cidade muito grande, não só porque o Imperial Pallacio lhe oceupa inuy- ta parte pel Io modo da sua architétura, mas porque tem muyto povo, cercos, jardins, hortas e triplicados nuiros, não sendo as cazas de vivenda humas sobre outras, como na Europa se uza, mas humas depois de outras em muito largas ruas, assim como também o hé o mesmo Pallacio Imperial e todos os templos ou Pagodes
— 05 — Alguns Escriptores que faltarão desta corte, e regularão os seus ditos por hum pequeno livro sinico intitulado Aqnesedo (?) em que não faltão hipérboles, tendo-lhe demarcada a situação ua altura de 41 grãos da parte do Norte dizem constar o circuito de seus muros, não menos que de trinta legoas, dez de compri- do, e sinco de largo: outros já vareão tanto, que affirmão ter 50 Legoas: 42 de comprido e 8 de largo, que á pri- meira vista, e sem se declarar o modo com que os Chi- nas con tão legoas, parece nos queiem capacitar que só Pe- kim lie tão grande como hum Reino, pois reguladas as le- goas pello modo que as costumamos medir, não ha no mundo todo cidade alguma que tal comprimento e largura haja de conter. De semelhante modo, cm hum Livro que tratava desta Corte o Império, o qual eu li em Portugal antes de vir. achei que só o Pallacio do Imperador da China tinha 18 legoas em circuito, e logo o reputei mentira, do quo informado, pois o tra- zia na memoria, o continuei; o indagando noticias mais verídi- cas porque agora que peguei na penna mo houvesse de regullar, tiandome não só de modernos Escritores, mas cabalmente infor- mado de pessoas gravíssimas e doutas niiiv dignas de todo o cre- dito que naquella Corte estiverão, e proximamente do Exino- e Revmo. Bispo 1). Polycarpo de Souza que de Pekim veio a Macao sagrarso, direi só o que por estes escritos e not- ticias curiosamente collegi, não desprezando o que os mais disscrão.' l/Os accident.es e occiHTcncia dos tempos fazem muvtas vc- 53 zes mudar t< do o estado das eouzas, e sendo mais comum o des- truir que o auginentar, algumas vezes sucede melhorarem-so do seu antigo ser, ou por industrias concervarein-se. A grande Cor- te de Pekim que está situada em hum plano com figura quazi quadrada, o clima hastan temeu te áspero e frio, mas abundante dos viveres necessários para a subsistência de tanto povo, di- zem ter de cada lado 12 estádios Chinas, que são 3 milhas Italianas ou liuma legoa Portugueza, havendo cm seus muros
— 9(5 — nove portas, 8 110 lado que olha para o ílul, e 2 em cada liuin dos outros lados (*). Com o decurso dos tempos, e multiplicação de gente se foi extendendo o povo, e os Imperadores lhe mandarão fazer se- gundo e mais largo muro (**), por ficarem cercados todos, o qual terá em cada lado mais ti estádios chinas de extensão, sendo o que olha para oeste mais populoso por entrai e sahir das suas portas tudo o que vem por caminhos de terra, pois se costumão servir de rios. Dividese a cidade toda junta em sinco bairros, que todos se destinguem por seus nomes. As ruas principaes correm todas norte a sul, as menos principaes de leste a oeste, sendo to- das muito espaço/as, e nellas se vein muytos Fallacies dos gran- des, e cazas nobres coin a formalidade já mencionada. No meio desta cidade populoza está o Paço Imperial (♦**) cercado de muros o tudo com as principaes portas ao sul, como também as do outro muro exterior feito de paredes altas e gro- ças, cobertas por dentro e fóra de cal vermelha, e telhados vidra- dos de amarelo, com suas perspectivas coriozas. O muro interior, que lie todo de tijolos fortes e groços se faz ahinda mais vistozo pelos baluartes e tores envernizadas de vermelho coin tloroens dourados, e telhados vidrados de amarelo com seus coruchéus, e outros brincos, á roda tem grande fosso de agoa com pontes le- vadiças, excepto da parte do Sul, em que os há de tinos mármo- res. A cada hutna de 8 portas que este muro tem estavão no tempo do governo sinico 20 Eunuchos de guarda, e agora no go- verno presente estão quarenta Tartaros com dous cabos. O muro exterior tem 4 portas correspondentes ás 4 faces» cada portal com 3 portas, que estão abertas menos a do uieio desde o romper da menhain atlie tocar o sino da vigia, estando a cada portal de guarda, agora 20 tartaros com seu cabo, e no (*) Refere-se «> auctor certamente á vida o propriamente dita, ou cidade in- terior. (J. F. M. I'.) (**) E' o que cerca a cidade inteiior. (J. F. M. 1'.) (••*) u' ;l cidade interdict», «ituada no meio da cidade imperial (J. F. M. I'.)
— 97 — tempo do governo cliina 30 soldados coin seu capitão, e 10 Eu- nuchos, não tres mil homes, e sinco elefantes, como alguns dis- serão «|ue continha esta guarda. / //He o Pallacio Imperial certamente famozo e magnifico: Pnjí -,4 consta de 20 andares ou 20 patios muy grandes com huma Kcal Sala 110 meio, o á roda junto do muro varias eazas olhando do Sul ao Norte em o centro destes muros; lie a primeira entrada muy magestosa, a que faz frente huma grande e larga rua ador- nada de arcos triuufaes, e ao entrar das portas, se ve o primeiro pátio ornado com 200 colunas e varias perspectivas, tendo sobre as mesmas portas huma caza elevada a que outras columnas com seus chapiteis dourados servem de vistoso adorno, o da exterior guarnição varias figuras de serpentes que são as armas do Im- pério e altos coruelieos dourados; todas estas grandes salas do Paço tem seu nome, e todos alusivos de Divindades afectadas. No 4o andar ou 4° pátio está huma sala mais grande e magestosa, e em seus ângulos 4 torres com boa idéa, correndo galarias e eazas, a que se sobe por alguns degraos: 110 meio desta sala principal está o tambor e cino do Paço que lie de grande- za desmarcada. O fi° andar ou sala 110 (i° patio, que se chama supremo e Imperial, a que se sobe por 5 escadas de mais degraos por ficar alta do chão, e pella do meio só o Imperador se serve, tom 110 meio o Imperial throno, e está riquissinianiente ornada, suposto que não com tanto custo como quando 11a entrada dos Tartaros se queimou; nesta lio que recebe o Imperador as ado- raçoeus de todos* os grandes do Império nos dias que se lhe asi- nalão, e não são muytos, porque appareoe raras vezes, que lié uma especie de Divindade. O undécimo pátio ou sala IP lie o lugar em que o Im- perador ordinariamente assiste e terá grande adorno; á roda del- le como dos inais patios espaçosos estão outras muvtas salas mais pequenas, e aqui asistem as suas tres mil concubinas, ou mais se elle quizer, ein quartos separados as tres Rainhas com seus fi- lhos, que havidos de qualquer destas são legítimos herdeiros pel- las leis do Império, mas os da Imperatriz precedem, e 11a falta
— Í)S de todos esto» entrão a soceder os das .concubinas; mas sendo qualquér deles já adulto os manda para diversas cidades, adon- de para isto tem vários Pallacios. Ser a habitação dos Imperadores nesta sala 11* tem 110 seu conceito mistério: porque como se reputão vice-Deoses na ter- ra, e ti lhos do Sol, oil do Ceo, sendo estes onze na sua opinião devem na 11* casa habitar, por ser a mais elevada; O Tarto po- rem que não admitte mais de 9, exclue do seu serviço a 1* e 2" sala, tirando nesta 11* como 9* a que chama o Nono Ceo, e sua exterior architetura he admirável e mui custoza; as outras salas servem humas de Tribunaes, e outras de diversos ministérios. Tem jardins e recreios deliciosos.'/ Cai'iTi'i,o V Continua a mesma materia, cum eoriozos addict a mentos. Tendo já summariumonte explanado a magnificência do Pallaoio Imperial da China, em cuja descripção se apararão e apurarão doutas pernios, sem que eu duvide haja na sua materia e forma mais singularidades do que expuz, pois reconheço são os Chinas todos elevados em apparencias, alem deste proprio e principal Pallaoio não quero deixar de fazer menção de outros Paços como particulares e contíguos com seus fauiozos Pagodes que estão liuns doutro do primeiro, e outros dentro do segundo muro que lhe servem não sei se de vistoso adorno, se de caute- losa guarda. Aos lados deste Real Pallaeio dentro do primeiro muro interior á parte de Oeste está hum Pallaeio mais pequeno, mas coin a mesma preciosidade e forma que o principal; interpretaso seu nome em a nossa lingua ■= liai o e cruel guerra = ; a elle se retira o Imperador (por ser mais forte) quando ha alguma rebollião ou guerra; e os concelhos de guerra se fazem nelle. A parte de Leste tem outro Paço cujo nome ein o nosso idioma se diz = Paço do acatamento dos reis definidos = ; nelle estão suas efigies sem thronos, e lie fabricado de paos cheirozos.
— íl!) Á parte de Oeste está outro que lie o terceiro, e se cha- Paço de Misericórdia e, Prudência, sempre está adornado, e tem no meio da sala principal huui riquíssimo leito sobre taber- náculo magestozo, ao qual levão o Imperador a depozitar tanto que morre; e depois de todas adoraçoens e cerimonias o fecbão em hum caixão de certo madeiro preciozo, e de muito custo, que dizem concerva o corpo incorrupto muitos séculos. Á parte de Leste outra vez, está outro, e é o 4° que se chama —faço da Com paira o e alegria =para onde é mandado morar o Principe herdeiro do Império; e os filhos segundos e terceiros do Imperador vão para outro Paço á banda de Oeste que se chama — Paço de União =-ein que habitão athé cazar. Á parte de Leste está outro, que se chama ^ Pago das Núpcias Rears —adomle quando quer casar o Imperador ou Prin- cipe remette o Tribunal das Oovtezias com cadeiras fechadas as moças mais ferinozas e graves ahinda que sejão pobres que ha na Corte, para que feitos vários exames da sua honestidade, pos- sa eleger o noivo a que melhor lhe parecer, que íecebida com supersticiosos ritos, e ceremonias a taz coroai Rainha, Imperatriz e Senhora deste Império, consignando-llie copiozas vendas.// !/Á parte de Oeste está outro Paço chamado ~de Piedade, Pag. 5« no qual mora a Rainha May com suas donzellas, e Damas de honor. Da banda de Leste está o Paço da Fermosura, e a Oeste O Paço bem afortunado: nestes inorão as Infantes antes de caza- rem; e tendo idade para isso é obrigado o 1 ribnnal das Oortezias a buscar meninos de 15 annos para o Imperador fazer a escolha. Da parte de Oeste estão 2 Paços: 1 lie = Paço do Justo Titulo, e o outro = Paça de Comprida Vi da; da banda de Leste outros 2 — Paço da lioadita, e Paço da Quietação Celeste; nestes 4 vivem as terceiras Rainhas e segundas, as Concubinas, Damas, e Donas de honor do Rey morto, das quais o Imperador Reinan- te se não serve. Tem mais 6 Pallacios a Leste e a Oeste, com semelhantes nomes, e para diversos uzos, occupando-se dons des- tes com o Thesouro Real, que lie muito grande, e rico.
100 — Esta multidão de .Fallacies que certamente fazem bulha grande na leitura e duvidas á credulidade, me não soçobra; por que reconhecendo nos Chinas tudo fantásticas apparencies, julgo que todos estes denominados com distinção Fallacies, não são mais do que vários quartos do Fallacio imperial, medindo entre elles alguma divizão de patios ou paredes como no Paiz se uza, tieando por este principio mais verificado o que alguns Escrito- res dizem ter o Fallacio do Imperador da China setenta salas. Entre o primeiro e segundo muro dizem se uchão 9 Paços todos com seus nomes, e d iff rentes uzos, mas fabricados com boa architectura e galantarias; entendo que são cazas de campo. O Io tem 9 torres e sign i ti cão os 9 dias da Lua que os Chinas com muitas superstições festejão. O 3o sérvio de se retirar a elle hum Rey a estilar pella alquimia, o segredo da vida eterna, damlo- -llie um Bonzo o concelho, e acabou a temporal abrazado. O Io também serve de festejar a lua oitava, a que os Chinas se ajun- tão. O 5° está em hum grande lago com arvores, adonde o Im- perador, se quer, vai passar o rigor da calma. O (5° também es- tá na agoa e serve de jantar o Imperador quando vai a caça. O 7o serve de hir ver os Passares e os animaes. O 8° de hir ver brincar os Eunuchos, e coin este está unido o 9o. Tem neste continente muytos Templos com seus ídolos, destes são 4 os principaes a que os Imperadores e toda a Im- perial família vão fazer suas adoraçoens, e deprecaçoens. Tem mais entre os mesmos muros '24 Tribunaes com grandes cazas, e os mandarins são mordomos do Imperador, independentes dos outros Tribunaes; e em roda entre estes muros que tem destrie- to grande ha varias quintas com boas cazas nobres em patios como fica dito e não só tem cazas ordinárias toda a guarda Ileal que se diz ser de 40 mil homes, aposentos para Procuradores de todas as Cidades se vem á Corte, quartéis para soldados apo- zentados, e hospitaes. Quanto ao estado e comitiva do Imperador, como o faus- to lie muyto, o soldo pouco, e a gente quasi in numerável, nada me assombra o (pie leio nem o de que tenho nottieia, e muyto
— 101 — menos tendo visto e coriozainente registado varias entradas de Maiujarins grandes liuns de armas, outros de letras, que por vo- zes tem vindo a esta cidade, de cujo estado (suposto que nume- rozo) mo não animei a fazer nenhum conceito parecendo-me tu- do rediculos e gentílicos fantasmas, tudo apparencies. Quando o Imperador salie a publico, que raras vezes soce- de, e quazi nunca lie visto, porque toda a gente á vozaria dej ' •; ^ pregoeiros, que lhe precedem, tem obrigação coin graves penas* f. 1 >V de recolher-se, fexando portas e janellas, o estado todo que leva de acompanhamento lie o seguinte: ■= 2-1 trombetas, 12 por cada banda em fileira: de metal ou prata. = 24 trombetas, 12 por banda de hum pao em que os Chinas dizem descança o passam do Sol, quando vem a terra: são muito grandes, e bocas largas. = 24 tambores ou baticas de cobre que acompanlião es- tas trombetas. = 24 bastoens, 12 por banda de 15 palmos, envernizados de encarnado com ambos os remates dourados. = 100 Archeiros, 50 por banda coin alabardas, e ferros em figura de meia lua. 100 Homes com maças douradas, altura de uma lança. = 400 Lanternas grandes douradas, 200 por banda. = 400 Tochas bem lavradas, feitas do hum pao que con- cerva muito tempo o fogo: 200 por banda. =, 200 Lanças ornadas de frocos de seda, com varias figuras de auimaes. = 4N Bandeiras, 24 por banda com os Signos Celestes que elles dizem ser 48. = 5(5 Bandeiras, 28 por banda com 28 consteilaçoens pinta- das, a cujo numero reduzem os Chinas as Estrellas do Firmamento. = 200 Abanos muitos grandes, 100 por banda, com o Sol e Dragoens pintados. = 8 Caixas do uzo d'El-Rei com a sua copa, e alguma roupa do uzo.
—102 — = 10 cavai los brancos, 5 por banda com .jaezes de ouro, e todo o ornato vico. = A pessoa do Imperador em bum bom cavallo ricamen- te ornado e coberto com bum grnmle e precioso sombreiro, en- tre duas fileiras de lanças, e outras de moços de Camera a cavalo. = Seguem-se por sua ordo os Princepes de sangue, Régu- los, grandes e Titulares preciozainente vestidos, em bons e bem ornados cavallos. = 500 Gentishomos do Imperador singularmente vestidos. = 1500 Lacaios vestidos de opas vermelhas com barretes tudo brincado de Estrelas. = 1 Cadeira magnifica descoberta, levada aos bombros de 35 bornes. = 1 Cadeira coberta e rica levada aos bombos de 120 bornes. 2 Coches grandes Reaes, puxando a cada buiu dons Elefantes. = 2 Ooclies de Estado bum com oito cavalos puxando, e pel lo outro quatro. — 50 Soldados com seu Capitão, acompanhando a cada cadeira e cada coxe. = 2000 Mandarins de Letras, 1000 por banda a cavalo. = 1000 Mandarins de armas, todos a cavalo e ricamente vestidos a quem segue muyta soldados» a, fazendo a todo esta comitiva a retaguarda. Quando o Imperador sabe á caça ou a espairecer, o acom- panlião os Princepes de sangue, Régulos, grandes do Reino, e mandarins liindo com as suas politicas procedências, todos rica- mente vestidos, e com inuytos soldados da guarda, escoltados. Quando sabe a função publica ou vai de jornada, be as mais das vezes em cadeira e para isto vão 12 da mesma qualidade, poi- se não saber oui qual vay o Imperador. As milícias que tem em seu serviço se diz serem vinte mil homens na Corte; os militares que lia em todas as provín- cias, cidade, Praças de arma e fortalezas do seu Império (se se der inteiro credito ás suas listas sinicas) passão de seis milhfies
— 103 — de pé e cavallaria, porque só na Corte alem dos vinte mil as- sima ditos, que se reputão por guarda da Pessoa, dizem constar o prezidio de dons millioens de homes com pouca difrença entre Infantaria e Cavai la ria, e todos com o mais povo fieão dentro do terceiro muro, que reduzido o seu circuito ao nosso modo de contar, tem 12 Legoas em roda; mas nem tantos muros e sol- dadesca (fracos o cobardes por natureza, sem ordem na peleja, maos cavai lei ros) pode obstar o ser esta Corte por vezes já ca- tiva, e o mesmo Imperial Pallaeio 110 anuo de 1536 inteiramen- te abrazado, suposto que já se reedificou. Capitulo VI 58 Da abnnduncia de géneros gue há neste Império, preciozissimos parei a subsistência de tal multidão de gente Não podem as creaturas humanas subsistir no mundo, nem conservar a propria vida, se lhe faltar o natural alimento; por isso Deus com alta Providencia, depois que Adam peccon, lhe insinuou que comeria pão com o suor do seu rosto (Genes. 2); e os Chinas observando mais do que as mais naçoens este sistema, e adiuittindo em si todos os vícios, só lhe não hé permittido o da ociozidade. Esta hé o originário motivo de viverem muitos homens no Mundo pobremente, querendo antes mendigar, que trabalhar; e os Chinas como o mendigar (pellas suas Leis,) lhes he prohibido fazem da necessidade virtude, cuidando muito, li- cita ou iIlicitamente, de ganhar a vida, servindolbe de estimulo, a ambição e conveniência para haver de trabalhar, pois de ou- tra sorte deixando os campos sem cultura, deixavão os seus corpos sem sustento. Não ha eazal neste Império, que ao seu Imperador não pague foro; e como todos necessariamente, estando alistados, hão de pagar este tributo, para também ficar cobertos, cuidão muito em trabalhar; lavrão, semeão, plantão, e cultivão, mas buscando
— 104 Piíg. 59 sempre algum modo, que menos lhe moleste o corpo, porque //co- mo hé pella tenuidade do mesmo alimento, ordinariamente molle e franzino, facilmente se chega a fatigar; e estou certíssimo pel- lo que com os meus olhos repetidas vezes tenho visto e observado neste terreno sahindo ao Campo, que nenhum China faz tanto serviço em seis dias quanto hum Portuguez em dous na sua fa- zenda; e isto lie quando o China trabalha no que lie seu, porque em serviço alheio ahinda que o jornal lie limitado pois ordina- riamente são sete condrins, isto lie 70 rs., o não merecem, e hé vergonha dizer-se o pouco que fazem. A sementeira e cultura do arroz lie a sua especial fadiga pois não só serve a liuns de pão, mas taiubem a outros de con- duto; este semeão com abnndancia tanta que não só possa man- ter todo o povo numeroso deste Império, mas também servir-llio de bebida, pois destilão quantidade delle cada anno para fazer vinhos e aguardentes, com vários mixtos, que a muitos facilmente embebeda. Também semeão trigo em muito menos quantidade, para pão de que nzão os Principaes, e algum destilão; como também o milho, alguma sevada, que ou junto ou disparado de Marinei- los, Gajús, e Canas de assucar lho serve para fazerem esquipa- ticas bebidas destilado, uzando para estas sementeiras de Bufaras e de Bois que não são muyto corpulentos, nem tão pouco os seus arados; e por este serviço ou beneficio que fazem á terra, hé prohibido entre os Chinas que o gado vacum se mate para co- mer, que suposto alguns o fazem, tem castigo, sendo apanhados. Não se occupão muito em semear legumes, de que pouco uzão, pois arroz, carne, e peixe lie o seu ordinário alimento: plantão ou semeão legumes que pouco se parecem com Favas; tem outra planta que arremeda a Ervilhas e tacos que imita a Feijoens. As Couves e Alfaces, Espinafres, e Pepinos são bons; como também as Batatas e Inhames: as Patecas ou Melancias são sofríveis: os Meloens não prestão: as Aboboras e Tomates são pequenos, e com pouco gosto; as mais Hortaliças, Oancom, Mungo, Mostardas, Rabãos, e Nabos podem passar, como outras
105 — (le diversos nomes que plantão: mas os Nabos sempre tem sua esquipação, porque cozidos e temperados como tais, sabem ao que são, e feitos em sellada, com o tempero desta, sabem a Ra- bãos; também tem Abobras chamadas da Guiné e outras brancas e grandes Oauibalengas, destas uzão ordinariamente para doces, porque também não faltão Canaviaes de Assucar neste Império, e do seu melaço muito se aprovei tão para Vinagre, deixando-o azedar bem, e para caldear, como Xinamo, que lie Cal de Ostras, com que os edifícios se costumão rebocar, o que estou vendo muitas vezes. As arvores fructiferas são muitas, e seus frutos buns peio- res que outros, que suposto alguns no cheiro e na vista inculcão formosura, não chega algum 110 gosto aos da Europa e só lhe imj. so basta o credito de que na China, adonde os não ha melhores, sejão reputados pellos Escritores, singulares. Em diversas províncias deste Império alguns se especializão; e como á Província e por- to de Cantão de que Macao lie a porta, concorrão os melhores que se podem conduzir frescos e secos, porque em tudo há negocio, athó o vinho celebrado da província de Sansi parte única adonde se fabrica por haver só neste terreno melhores uvas e passas tam bem vem a Cantão, e assim deste genero como das melhores frutas se fazem ospeciaos mimos, a que neste Paiz chamão Sau- guates, conffeço que participando eu parte de algum neste Palacio, offreeido a S. Exa. pello Governador que tinha liido a Cantão, parti huma Pera e hum Pero admiráveis no cheiro e na vista, mas não me atrevi a acabar hum quarto, achando o gosto tão insípido como desconçolado. As boas e excellentes Lixias celebradas dos Escritores que comumente dizem as não ha senão nesta Província de Cantão, mas o P. Martini» diz que também na de Sueli nen de donde as conduzem á de Pekim, sim tem sua galantaria no gosto que arremeda alguma couza ao das nossas Uvas Moscatéis: sua figura lie da grandeza de hum Bugalho, não tão redondas, por fora tem casca algum tanto aspera, por dentro hum grande ca- rouço, e só entre este e a casca tem outra a modo de pelle
— 100 — branca e suave da grossura de Imitia pataya com pouca difrenya e lie tão somento o que se como, sua qualidade lie quente, e occazionando abafamento, se lhe não ajuntão algum sal. Ha muitas Laranjas, sendo melhores as chamadas — Casca tina,—tem quantidade de pevides, e não são tão sumarentas como as de Portugal, adonde da China forão conduzidas; e se cá os Chinas virão huina das que lá há na Ribeira, de Barcarena, e Loures, ou hum Limão doce, que cá não há, e dizem ser im- possível haver, ficarião sem duvida pasmados. Na Província de Chincheo as há excellentes para doce, aqui vem e são medicinaes. Há Liuioens azedos, e os mais del- les tem quazi o feitio das Laranjas. Ha Sidras e Jamboas, Muis (pie arreinedão a Ameixas, Mayans que a tal não sa- bem e tem de liuma Bolota o feitio: Marmellos o Romans deque fazem vinho: Figueiras e Amoreiras, Castanheiros e No- gueiras, mas não Amendoeiras, nem Oliveiras, razão porque todo o anno, Quaresma e Advento se come carne (isto hé) man- teiga de Porco, feito do toucinho derretido e se não sabe fazer de outra casta, nem o leite das vacas ou Bufaras pa- rece que hé capaz disso. Quem se pode prover da Europa o faz, e em fim se tornão ao tal toucinho, acabado que seja o provimento. // .//Também tem Pessegos por sinal que disgosfosos: algumas Piíg. fii outras frutas menos más e em diversas províncias; todas se re- putão por boas, porque cá se não vem melhores, entendo que pellas qualidades do clima e do terrreno. Das que há na Asia e eu provei na America, adonde são muito mais gostozas, tem bastantes: Coqueiros, Jacas, Mangas, Atas, Goyabas, .Jam- bos, Figos a que lá chamão Bananas, Papayas que lá se dizem Mamoens. Ananazcs, e varias outras, que todas servem de sus- tento a tão numerozo povo: conforme as qualidades das Provín- cias em que vive. São os Chinas affectivos nas criayoens de gados, não só Vaoiim e Bufaras, mas de Cabras, Ovelhas, Galinhas, Capoens, Ades, e Porcos, sendo deste ultimo genero o seu sustento mais
— 107 oomiim, poréiu não muito gostozo, e carne balofa criada com arroz e algum trigo, quo outros cozem para 1 lie dar, depois de o terem destilado, andando a pasto no mais tempo. O modo de tirar e criar as Ades lie mui celebre; porque juntos muitos centos de Ovos os estendem e poem buns sobre outros em ga- lante armadilha como rede de canas coberta, alta do chão cou- za do hum palmo, e pondo-lhe por baxo espalhado hum fogo lento em palhinha de neli, quo lie a casca do arroz que guar- dão quando o pilão, voltando os taes ovos por espaço de dias certos que a experiência lhe tem mostrado, salie hum vistoso numero de Patinhos, que conduzindo-os cada China á sua bar- ca, pois são muitos os que o uzão, nellas os alimentão os pri- meiros dias, e estando capazes de sahir, os lanção todos a pas- to por h unias ta boas, donde ao por do sol e tocada em cada embarcação huiiia batiga, ao som delia se recolhem, sem errar cada hum seu apozento. Eu não sei se o instructo lie mera- mente natural. Em algumas províncias se cuida em Egoas, o muita Cavailaria, que lie de pequeno corpo e poucas forças; tenho visto vir (por occazioens de Mandarins) a esta cidade bastantes, calçados todos pello seu dinheiro. Em algumas Províncias que tem portos de mar, ha abun- dância de pexe, como se vê nas de Xantung, Suchuen, Nankim, Quang-tung, em que se peseão boas Robalos, Tainhas, Lingua- dos, Oaçoens, Oorvinas e alguns Sáveis nas duas ultimas e na de Huquang, alem de outros que são especiaes deste Paiz. Nas Províncias que estão pella terra dentro ha varies Rios o Lagos com algum pexe de agoa doce para se remediarem. Também nos portos e Ilhas tem quantidade de mariscos, com especia- lidade Mixilhoens, Ofás, e Ostras, que ambos entendo serem a mesma especie, e disto em tanta abundancia, que das suas graúdos cascas não só se fazem paredes, mas toda a Cal neces- sária para os edifícios, queimando as no fogo, pois não ha ou- tra : servem de grande remedio aos pobres (que são os mais deste Império) o sendo-lhe prohibido o pedir, lié o marisco e o seu arroz o melhor meio de se alimentar, que se alguns tem
— 108 — seu gado, ahimin que muito necessitem não o comem, só por- que o querem vender.// i'ág. 62 Capitulo VII Das riquezas e preciosidades que há neste grande Império Todas as Monarcliias que o mundo admirou famozas se tizerão celebres pellas preciozidades e riquezas de que abunda- rão; porque assim como hum corpo se não pode sustentar sem sangue, que 1 lio dá forças e alentos, também o corpo de bum Império não pode subsistir sem ter amplíssimos tbezouros que Ibe dão alentos e vigorosas forças para com pompa e luzimento avul- tar; e sendo o Monarclia quem para as maiores expensas tem de concorrer, ficarião talvez com menos lustre da Magestade exhau- ridos os tbezouros, se não superabundassem a tudo o necessário. Reconheço que são, e necessariamente hão de ser copio- síssimos os tbezouros e riquezas do grande Imperador da Chi- na, não só pelos ricos mineraes e preciozidades que há neste Império, mas porque sendo a gente quazi innumeravel, e pa- gando todos seu tributo, álem de outros vários rendimentos de iuuito grande importância, tem annualmente em diversos géne- ros notável somma, alem dos tributos que lhe pagam os feuda- tarios, que, a não ser assim, como havia de suprir aos gastos de tantas famílias Reaes que tem em Pai lúcios diversos, ao es- tado e luzimento de tantos Régulos e Princepes de sangue, á existência de tantos Tribuuaes políticos e eiviz, á sustentação de tantos Vice-reis, Governadores e todos os mais Ministros de 17 Províncias que contem esta Monarchia, aos ordenados de tantos mil Mandarins, á reedificação de tantas Cidades, Fallacies, e fortalezas, finalmente ao excessivo numero de Militares que lia em todo o Império; porem isto não obstante, satisfaçasse o meu Leitor com o que tenho dito, porque confeço não me atrevo a copiar nem escrever o que sete Escritores que tenho diante dos meus olhos, com diversidade, e supondo rendimento certo deste Império, regulado pelos Livros sinicos, expressarão.
— 109 Discorrendo pois coriozamente pellas muitas, e dilatadas províncias deste grande Império, observando o que os Escriptores dizem, concervando 110 meu conceito com particularidade o que douta e noticiozamonte o P. Marti 110 Martinio no seu Novo Atlas Sinense escreveo, pello que laboriosa e pessoalmente inda- gou, como nem em toda a parte há tudo, e são algumas destas províncias mais ricas do que outras, em que certamente lia gran- de pobreza, direi o que algumas tem de prèciozo, só por não ser avarento desta noticia já participada.// As províncias de Sucliuen e Kiansi se repntão entre os Chinas as mais ricas deste Império, não por meio do negocio com (pie os Mercadores avultem 11a Monarcliia, mas porque delias recebe annualmente o Monarclia grandes computes com que o Império enriquece, concorrendo para isto ver só os grandes tri- butos de seus numerosos povos, mas a profluencia dos ricos rai- neraes, que há nos continentes destas dilatadas províncias; e co- mo 11a China lie a mais ordinária praxe pagar tudo ao Impera- dor nos mesmos generos que a terra produzio, destas duas pro- víncias lhe vão os mais preciosos e estimáveis. Há nellas varias pedras preciosas, e algumas de tão alta es- timação, que pello excessivo luzimento são reputadas Carbúncu- los, e com raridade achadas. Nelles há o estimado Lapislaznli, e outras pedras singulares de varias sortes, e finos Jaspes. Tem minas de Ouro em abundancia nos seus cerros suposto não lie o do mais quilates, e ahinda que os particulares não podem com penua de morte natural abrir mina alguma, se satisfazem e abun- dão com o que as agoas lhe cavão, porque no tempo de chu\as grandes o esporão e colhem nas ribeiras; com elle se utilizão mui- to, e taiubem muito desperdição, por lhe não chegar ahinda o modo de bem o saberem bater. Nellas há também minas de Prata, e não tem estas menos estimação do que aquellas, por seus supersticiosos aphorismoa; os poderozos e grandes com a que tem são enterrados, conduzindo- 1 lie esta no seu gentílico conceito athé para felicitar as almas, o terem adoraçoens seus corpos em os sepulehros. Há também
110- b&atautes minas de Azougue, Salitre, Chumbo, o Ferro; também se achão de Estanho a que neste paiz chamão Calaim de Cobre ainarello quo parece quazi a mesma espeeie do que chamamos Latão, e de Cobre branco, que tem grande estimação e valor: o fino escolhido tem o toque da prata, e a ella se assemelha; delle se fazem varias obras para outros Reinos, mas já muy falsifica- do e com liga, que lhe faz perder a cor e quebrar com facili- dade, sendo prohibido saliir algum puro e fino, do Império, pello dólo que dizem lhe fizerão há ânuos os olandezes que vem com- mercial-, pois carregando quantidade, e passado pouco tempo o mandarão fundir e delle bater moeda, que outra vez na China in- troduzirão por prata, etfeituando com ella grandes mercancias, em perjuizo dos nacionaes contratadores, que ficarão muitos per- didos, e arruinadas suas casas, só ricas de prata falça.// Pájf. 64 //-A- Província de Fokieu contem muita riqueza, porq' não só tem boas minas de Ouro, Prata, Cobre e Ferro, álem de boas pedras preciosas, mas o melhor assacar e outros generos que a tazeni florecer 110 commercio e mercancias; nella há celebres la- goas, cujas agoas sem mais mixtos são tintas naturaes, com que dão cores azuis e verdes aos seus panuos. A esta Província pertence a Ilha Formosa que pellas prcciozidades de inine- raes que em si conserva bastava para a fazer muy opulenta e celebrada. Na província de Xensi ha minas de Ouro e Prato, como também as celebres pelles de auiinaes, chamadas zebellinas, que são de grande vallor, e o excellente Ruibarbo. Na de Xansi ha muito bons jaspes finos. Na de Quansi dizem que há pedras pre- ciozas e Carbúnculos pellos grandes resplendores que de noite brilhão em seus montes, com especialidade no monte Hó que pertence a cidade de Guohou ; também se acha no seu torreno o Cinamono. Em a Província de Junnan tem minas de prata, e Ouro que se acha nas areas dos seus Rios, destas se aproveita occul- tainente o povo, que do Imperador são as minas quando as man- da abrir; também há nesta Província o Lapislazuli, excellentes
— Ill — Mármores de varias cores, Incenço, e Beijoim. Na de Queicheú também dizem que lia minas, e muita quantidade de azouge. Na de Honan ha muitas pedras de cevar e vários medicamentos bons. N'esta província de Quangtnng, ou Cantão em que JMa- cao he situado, lia minas de Ouro e prata, estanho, cobre, azou- ge, ferro e chumbo; tem muita seda, pau Rosa, pau Aguila e outros paos cheirosos; há Aljofro, e algumas pérolas finas, que as mais são falsificadas; mas lie Província rica pello comercio, porque o principal porto do Império todo, ao qual vem as Naçoens Es- trangeiras comerciar e deixão cada anno milhoens que emprega- rão em vários generos; isto álem dos despachos, que so do Ma- cao sendo cidade pequena, rendem cada anno ao Imperador, com o foro da terra, mais de 35 - (350.000?) tacis que são 870500 cruzados sem fui lar no que se emprega cada anno em carga de 13 Navios que ha na terra, isto álem da fa ruga ta da Compa- nhia de Portugal em que costumão hir de emprego muito mais de 20 - (200.000?) cruzados cada hum anuo. Para excellente louça eoncorem as duas Províncias de Kiansi, e Kiangnan, esta só com barro branco (que não são Ca- racoes nem Ostras como alguns entendem) e aquella concorre para a fabrica em que se especializão seus habitadores pella ex- cellente agoa só apta para este ministério, ahinda daqui vai pa- ra outra//Província para ser vidrada, dourada e pintada athc que ultima e novamente hindo ao fogo fique na sua ultima per- feição para ser a esta Província e Cidade de Cantão como porto principal reconduzida, havendo os navios estrangeiros de fazer nella o seu emprego, sendo n'este género, no das Sedas te- cidas e em rama, no Chá, Charoens, Azougo e Salitre, o seu negocio, mas sobretudo e em especialidade em paens de ouro com liom coinodo, deixando muitos caixoens de prata, pella qual, como em muito a es ti mão, querem tão somente os seus pagamentos. Em as mais das Províncias d'este Império há quantida- de de Seda, com especialidade nas de Chekian, e Nankim; só nesta se coutavão mais de sessenta mil chinas occupados no mi- nistério de tecer, álem da quazi innumeravel gente occupada
—112 — em a beneficiar. O Charão certamente singular com que se dá lustro primoroso á pinturas, e na lingoa sinica Soa Cie ou Ci, lie hum licor que ilistilão certas arvores que lia especialmente n'esta inesina Província de Nankim, ao qual temperão os Pin- tores; e para por as tintas lhe serve de Oleo azeite pao que tam- bém lie licor de outras arvores, outros uzão de azeite de coco; e para verniz uzão de liumas fructas oleosas que ha em diversas partes, espremidas, cozido e temperado o sumo. As arvores e plantas do Chá (em que pouco creio) nasce em diversas Provín- cias, e o vendem tão falsificado, que hum mercador velho chi- na que ha annos vive n'esta Cidade da Macao nie certificou que a China produziria cada anuo 10 ou 12 mil picos de chá do qual a maior parte gastavão os grandes e os Mandarins, mas q. cada anuo se vendia aos navios estrangeiros mais de 80 mil picos, e ignorava o como isto hera, com o que acreditei o meu conceito. CAP. VIII Do modo de governo, Justiço, e politica do Império Sini- co, moeda que nelle corre, lei que seus habitadores profeção, e modos com que no comer, dormir, vestir, river e morrer se tratão Hé a materia do presente capitulo tão difuza, que tem feito cançar a muytas e uiuy doutas pennas querendo-as tratar ex-proffesso em repetidos volumes; e suposto huns com os outros se não achem unidos nos sistemas pel la variedade dos conceitos, fazendo a historia duvidoza ao discurso de quem coriozamente Pág. 66 a 'er> P°'a entre opinioens disparadas não sabe qual hade ac//cre- ditar, todos em louváveis e encarecidas expressoens avivão mais as cores ao seu elegante dizer; eu porém que não ex-proffesso, mas tão somente por corioza notticia do Leitor, já que debaxo da minha tão mal aparada pena calie o tocar também nestas matérias sem dissonância do meu assumpto, em at tenção a estar Macao neste Império da China situado, e n'esta cidade habitarem tantos Chinas de diversas Províncias do mesmo Império, com l
—113 - que se faz precizo o tratar, direi sumariamente, e sem a menor aftectação o que tenho observado não só pellos seus informes incoherentes, mas pello que a experiência mostra, e pello que com os meus olhos tenho visto. O modo do governo d'este Império, que a tantos Escri- tores tem roubado as attenções, certamente deve muito poucas á minha rusticidade, pois observando e lendo a formalidade que tem o das outras Monarchias desde o Romano Império que soube dar leis ao Mundo, vejo que este governo sinico, nem no moral, nem no politico, nem no militar me oecaziona a menor admiração não em o moral, por não haver alguma uniformidade no culto; porque suposto seja idolatra e gentílico, parece devia ter identidade nos ritos respectivamente ao objecto idolatrado, e não quererem os Imperadores e os grandes d'este Império liuns deuses para si, e outros para os outros, do que nasce serem liuns e outros desprezados se não satisfazem com promptidão a seus idolatras no que justa ou injustamente lhe supplicão, observando cada hum a Lei que quer sem a nenhuma se obrigar para dimissão dos vicios, e reformação dos costumes; e Império donde fixamen- te não ha hum Deus nem huma Ley por donde todos moral- mente se regullem uniformes, lie impossível o poder eoncervar moralmente bom governo. No governo politico, em que incluo o Monarcliico, civil e economico, não concidero possão haver tão encarecidos acertos, e isto por vários princípios: primeiro porque os Monarches que contra o justíssimo e praticado costume, não costumão dar pu- blica audiência aos seus vassalos ouvindo-os e deferimlo-lhe como entender aos seus requerimentos e supplicas, lie faltar-lhe com o premio, e com o castigo, bastando isto para já ser o seu go- verno injusto. Porque fiar um Monarcha dos seus Ministros e grandes os méritos ou desnieritos dos seus vassalos para ordina- riamente obrar dispoticos, sendo pessoas que por particulares in- clinaçoens se governão, e tão ambiciosos como os Chinas, que facilmente com a prata se subornão, necessariamente hade ser mal administrada a justiça, pella falta de rectidão nos prémios
— 114 e castigos, como so esta vendo com os olhos em seus suplícios bárbaros.// lYijr. <>7 ;/3.° Porque sondo os Mandarins e mais ministros de letras e armas tão prezumidos de políticos, que tem no Império por bum Tribunal supremo o das Cerimonias, nenhuma fazem contra todo o direito e universal politica das mais naçoens 110 mundo, o abrir qualquer as cartas, a que chamam Chapas, que se es- crevem a seus maiores, ahinda que sejão escritas por bum Rey, ao seu proprio Imperador, de sorte que ninguém pode fazer re- cursos immediatos, nem por uzo os mesmos grandes, nem o mes- mo Imperador os acceita sem correrem as mãos de todos os man- darins subalternos, os quaes abrindo e remettendo a copia de buns a outros, se be queixa contra algum por injustiças, se sufoca, se lie conta ou requerimento de pessoa a que tenhão opposição, se oc- culta, se lie de afilhado ou pessoa que dê prata, se remette, man- dando o primeiro aviso do que a chapa contem, porque sendo de displicência ao Imperador, ou aos principaes Ministros jn se rasga e não vai, ahinda sendo buma Embaixada; e por tal cere- monial observado sempre, não me posso persuadir do motivo por- que tanto se applauda o bom governo deste Império. 4." Qualquer chapa, carta, suppliea ou representação que se fassa pellas Naçoens Estrangeiras ao Imperador ou seus Mi- nistros, não se acceita sem ser copiada na Letra sinica e como este se escreve da parte direita para a esquerda, não em regras direitas como a grega, mas de cima para baixo, e a formalidade dos caratheres ou geroglilicos com que se expressa tem vários si- gnificados, e a Lingoa Mandarina tem distinção da vulgar, a en- tendem como querem, e sucede dar lhe intelligencia totalmente alheia do que se lhe representou, o que parece arguhir descon- venieneia grande ao bom governo. 5." Os Ministros e Mandarins de Letras e armas que lia no Império suposto tem innytos exames na inteligência e capa- cidade de decorar mais caracteres, que dizem chegar a nove mil, e em saber mais dogmas e aphorismos dos seus Philosofos anti- gos, Leis, ritos e costumes do Império, comprão por grande so-
— 11 ;> ma do dinheiro os officios, e ahiiida soccde o mesmo nos de me- nor graduação provendo-se huns e outros a quem mais dispende, o tem pessoa que melhor os partrooine, porque 110 governo ou Mandarinado para que vão, logo se entrão a ressarcir para re- fazer o gasto feito, pois o ordenado do Imperador bastara para se sustentar; e os Mandarins de armas, como os militares são tan- tos, e em tempo de paz não tem exercício, os mandão ganhar a vida, porque com os seus soldos, se possão utilizar, o que pa- rece desconvir ao bom governo. (i.° Todos os Monarchas do mundo se fazem conhecer de seus vassallos pela moeda que mandão bater com proprio cunho, estampadas de uma parte as suas reaes armas, e da outra sua re- gia effigie ou alguma euipreza, com inseripção, que denote a Mo- narchia, cujo costume desde o tempo dos Romanos se observa, julgando-se preciso não só por esplendor da li Magesíade e des- i»ag. tfs tincção dos outros príncipes que teem propria Monorchia e Coroa, mas por ser assim preciso ao bom governo e utilidade publica para a boa economia de seus vassallos, e melhor expedição dos interesses; no Império da China nenhuma moeda corre, nem ha cunho algum em moeda batida d'esta Monorchia, mais que tão somente um pequeno dinheiro de cobre da grandeza de um real e meio do Portugal, a (pie cá chamam Sapeca, e vale menos de um real,porque sete ou oito fazem um eondriin que são dez réis conforme os chiuozes querem; e contam outro dinheiro ima- ginário, pois não existe, a (pie chamam caixa, dando-lhe o valor de um real completo. Para as compras e vendas admittem o dinheiro das mais nações só pello valor intrínseco, como qualquer pedaço de prata, tendo o toque de pataca, porque não sendo assim, 1 lie dão aba- timento, sem haver n' isto regra certa e persistente: pello que se faz preciso o trazer cada um na algibeira balança, e prata cortada em bocados, occasionando a industria entre gente tão pouco verdadeira de terem alguns duas balanças, uma maior por onde cobram e outra diminuta porque pagam, correndo a mesma praxe nas medidas, pois nem medidas nem pezos se
— 116 costumam afilar, em prejuízo do bem commum e economia do governo. Logo se os Imperadores da Ollina por se divinizar, não apparecem, se não costumam dar publica audiência aos seus vas- salos, se immediatamente e com amor os não governam, se de ministros dispoticos sós fiam, se não lia entre todos uniformidade de culto, se cada bum segue a Lei que quer (menos a de Oliisto a que rupugnão) se não se extirpam os abomináveis vieios, se os Ministros se subornam, se aos mandarins é permittido abrir todas as cartas ainda que vão para o mesmo Imperador, de ou- tros Princepes, se está na sua mão acrecentar, diminuir ou occul- tar a materia em que tratão, se os logares de Mandarins de le- tras e armas se vendem, se os preços porque comprarem logo com astúcias e violências aos povos se extraliem, se não lia a commodidade de moeda corrente e diversa como nas mais Mo- narcliias bem governadas se pratica para a utilidade publica, se por esta falta e tantas juntas se dá occasião a mil insolências.e la- trocínios, segue-se por infalível consequência não ser o governo d'este Império tão singular como o pin tão, nem accredor a tantos louvores com que o applaudem, concorrendo para os seus deza- res suas muitas mas muitas mal exercitadas milícias, do que pro- vem tantas sublevações e levantes, que tem a China padecido, achando-se emfim tão grande e famoso Império (ha já hum sé- culo) segunda vez pellos tartaros dominado//. piig. 6ít Capitulo IX Continua e conclue a materia do cap. antecedente Quando as notícias que se tratão são tão vastas, que en- volvidas em confuzo labyrintho mal se podem perceber, lie muy difficil o fazer só escolha das verídicas para as comprehender, se em breves palavras se pretendem rezumir. Já uo capitulo 6o d'es- te terceiro Livro insinuei a abundanoia copiosa de fructos que
— 117 — lia n'este siuico Império, preciosíssimos para a sustentação de tanto povo; e se acaso também hó de louvor seu o expessar (sic) quando são de boa bocca, direi não lhe faltar também esta ex- cellencia que conduz para se poderem mais comodamente sus- tentar. As mezas dos Princepes, Kegulos, Grandes e Mandarins, não tenho duvida que possão ser esplendidas e limpas; esplen- didas, porque tendo que gastar, conforme o seu estado, tem to- das aves e caças, galinhas, capões, frangos, patos, lebres, coelhos perdizes o codornizes, etc. além da abundancia de cochinos (por- cos), cabritos, capados, carneiros, bufaras e vaccas, etc., supposto n'este genero ultimo pelas razoes que no dito capitulo já disse, não é comum o emprego. Limpas: porque usando de toalhas e tinos pratos, não costumam tocar com as mãos cousa algu- ma, para o que ordinariamente n'elles quasi nunca se põem peixe, e todos os guizados de carne, são cosido e assado, qne tudo vae já sem ossos, pelles e nervos, feito em bocadinhos, com aptidão de o poderem comer com um palito, como ó seu costume. O povo commum, que.suposto muito tenha prata, a idola- tra, admitte menos asseio nas suas me/as; porque usando pouca roupa, comem ordinariamente em louça grossa posta sobre ta- hoa nua, sendo arroz cosido na agoa o seu commum alimento, e chegando o tal prato á bocca sem mais ceremonia e em hum motu continuo vão com seu palito do meio para deante xato e comprido empurrando para a bocca o comer, de quo em breve tempo dão conta como se o inundo lhe fugira; sobre elle bebem o seu chá ou urraca, mas agua por nenhum principio a usão pa- ra simples bebida. Os que já mais se estimâo e tratão melhor do individuo, supposto hajão as carnes e caças que mencionei, e 110 emprego d'ellas não querem fazer tanta despeza, usão com vulgaridade de outros, pois comem carnes de cavai los, jumentos, abadas, tigres, antas, lontras, texugos, cães, gatos, ratos e outros animaes de que lia na China, almazens e açougues públicos, e ainda d'estas
— 118 — Mg- 70 carnes já salgadas, // o que Fernandes Mendes Pinto testifica que com seus olhos vira, em abuudancia grande, e as costumão co- zer com casca de laranja que para isto se gnardáo e vendem, pois lhe modera o mau cheiro (a). Outros ainda mais se exce- dem, usando para comer de outras não menos nojentas sevaiuli- jas, como são cobras, sapos e lagartos e outros animalejos im- mundos para saciar o appetite, não por falta tie outros alimen- tos; nos chinas que vivem n'esta cidade de Macao estamos vendo isto, do que entendo lhe resulta o haver n'esta nação tantos le- prozos. As camas em que os chinas dormem, se parecem na com- posição e asseio, coin que tem as cazas em que vivem: n'estes não usão de trastes para adorno, e cuidão mui pouco na limpe- za; aquelles são de pouco valor e custo, porque constam ordi- nariamente de uma ou duas taboas, e tem por cabeceira uma caixa xata de madeira fechada á chave em que guardão o seu dinheiro, para que de noite lh'o não furtem, os que teem mui- to ou o escondem em ferros e paredes ou na terra o onterrão. Os grandes do Império, Mandarins e chinas ricos que vivem em a Corte, tem nas suas cazas e camas formalidade; os de segunda condição já usão nas suas camas do uma manta. Os vestidos que comummente usão não são de muito cus- to, nem iueulcão grande asseio: aqui tenho visto por vezes Man- darins grandes e ordinários, homens de negocio e mercadores ri- cos, além de gente vulgar, em cujos trajes niuvto reparei: ne- nhum uza camisa para limpeza do corpo, nem de vestido ajus- tado á sua feição, sim só de huma vestes largas, que imitam 110 feitio a tuuieellas com a distincção de serem abertas por dian- te, tendo até à cintura poucos e mui pequenos botoens de me- tal que podem e querem; são os calções como ceroulas largas até meia perna, não usam meias nem sapatos, sim só umas chi- nelas esquipaticas que cobrem os dedos o calcanhares trazendo (a) Mend. Pinto - Peregrinaç. Cap. 107. Idem. Cap. 97 e Cap. 98
-119 — o mais pé à mostra: a solla he do rota ou de papel batido que tem um dedo de altura, e no inverno com facilidade se desfa- zem. As cabeças são rapadas, trazem so liuma delgada trança que dece do alto da cabeça a que muitos a enrolão, e do cha- péus nunca usão. Os grandes, os Mandarins e pessoas de respeito se distin- guem na qualidade dos vestidos, não na forma 5 porque sobie a primeira veste trazem mais uma ou duas cabayas com o mesmo feitio ou de seda ou de panno da Europa fino, calçoens de seda largos, 011 de panos que atão por baxo do giolho juntamente com umas quasi pulai nas que calção e cobrem todo o pé e comum- mente são brancas até altura de quatro dedos asima do artelho, e para cima de seda azul; as chinelas teem o feitio das mais, só são forradas de seda e brincadas; trazem coberta a cabeça com um casquete de róta, 110 meio algum tanto alto, de que dece uma borla encarnada, e a ninguém o tirão, reputando por gran- de descortezia tal acção.// //As molheres chinas gentias me edificam mais com a com- PAg- ~' postura dos seus trajes, do que as nacionaes desta cidade, prezu inidas de catholicas; n'estas fallaremos a seu tempo: daquellas lie o costume trazer as vestes exteriores do mesmo feitio que os Chinas como tunicellas, huinas sobre as outras, porém mais com- pridas, e por baxo d'ellas tunicas talares; de sorte que cobrindo as mãos sc podem, e também a cara debaxo de hum sombreiro que todos trazem só meio aberto, unicamente lhe apparecem os pés em que costumão trazer chinélas não como as dos chinas que sempre são razas, mas com seu meio salto, so 110 qual quasi todas andão como tolhidas ou coxas, não assentando os pes 110 chão. Na cabeça trazem ca bel los grandes, e com estes tazein seus toucados que ornão conforme a possibilidade que tem; mas nos pés lie a sua presunção maior, cuidando-o como cada hum o ha- de ter mais pequenino; de tal sorte que quando algum China as quer receber por molheres não attende tanto á sua fennozura, nem elles por acauteladas se deixam ver facilmente, quanto res-
120 — peita a pequeuhez do seu pé, mandando-se-lhe liuma chinela á mostra. Para oste fim cuidão muito suas macns quando cilas são de tenra edade em lhe pôr no comprimento dos pés umas como facas de bambú, apertando lhes em róda com fortes ligaduras 110 que padecem grandes dores o tormento alguns annus, vivendo como aleijadas, o a natureza que sempre liade produzir os seus efteitos, concorrendo para a proporção do corpo, achando-se em- baraçada coin esta industria, emana para os tornozellos a porção que havia informar os pés, de sorte que ficando estes com ex- cesso pequeninos lhe vem a ficar aqueiles groços com excesso, trazendo-os sempre entrapados e cobertos, para nunca lhe serem vistos. Nunca as vi comer, mas dizem-rae que o fazem na mes- ma forma que os chinas, com um ou dois palitos xatos entre os dedos, e gastão dos mesmos animais mundos e iinmundos. Nos seus casamentos, que são hum simples contracto, tem vários ritos, e ceremonias gentílicas; são poucos os Chinas, por muito pobres que sejão, que se contentem em ter liuma só mo- lhei', e he esta 110 seu conceito liuma das difficuldades maiores com que se oppoem ao ser catholicos; ordinariamente as compram a seus pais para as haver de receber e passados os dias de fes- tins ao seu noivado cuidão de as separar para diversas casas, ou as dividem para outras torras, que assim só evitão dissonân- cias e contendas (abomináveis 110 seu ceremonial) sobro qual del- ias he a mais querida e estimada; se alguma foi coinprehendida por adultera e o marido a acuza lie punida com penna ordiná- ria, sendo este e o homicídio voluntário entre os Chinas o maior crime, depois dos de leza-Magestade; se o marido lhe perdoa com- passivo he opada ou açoitada com grande injuria, e a pode livre- mente repudiar o marido, cuidando ella 110 evitar o modo com que a não apedrejem como infame; e se o marido apanhou 11a acção ambos os cúmplices, logo os pode matar; hindo dar parte ao Man- dai im que o costuma premiar com certa porção de dinheiro, e luiina gala nova.// Pég. 72 //Nos seus enterros e funeraes tem superstições sem conlo, chegando a obrar mil disparates. Não fallo 110 juizo que fazem
— 121 — quanto ao estado da Alma, porque regulão este conforme a sei- ta que cada hum segue e a opinião a que se inclina, tendo mui- tos por verídica a transmigração das almas para os corpos dos aniinaes; os que de diverso modo opinão que [touco depois de se- pultados os seus defuntos revivem, rezão porque não só esco- lhem mas enmprão, ás vezes por grande preçô, os melhores logares e sitios alegres e do bom ar para os corpos dos seus mortos que nunca sepultãu em a terra e muito menos a calção, mas só metendo-os em caixoens de madeira groça lho botão solta cal de ostras, e pregado o tal caixão o conduzem com acompanhamento e choradeiras, a quem pagão, athé que [tosto no sitio destinado, cavão a terra á roda e lhe botão alguma so- bre o caixão, com suas bandeirinhas de papel em que escrevem o epitáfio, e logo euidão em lhe pôr varias iguarias para o defunto comer. Outros salgão dentro do caixão o corpo do defunto, e o tem em casa hum. anuo, com choradeiras, instrumentos dissonan- tes,varias bandeiras altas, e assistência de Bonzos (isto se tem posses) e finalmente o levão ao Campo com fúnebre pompa. Aos corpos dos Priucopes ordinariamente queimão em lenha de san- dole e outros paos cheirosos, e querendo alguma das suas molhe- res ou concubinas accreditar o seu amor de extremoso, vestida das melhores galas e ornada com todas as suas jóias, vae dançar á roda da fogueira, athé que emfim se arremessa 110 mesmo fogo em obsequio do defunto aquém amava e ambos ficão reduzidos a cin- zas naquellas abrazadoras chamas. «= Attencioso protesto sobre os /X Copifotos deste 111 Livro.== Não tenho boca para fali ar, nem pen na para escrever con- tra o quo Doutíssimos Escritores proferirão sobre a grandeza, ori- gem, policia, justiça, opulência, abuudancia, milícias, e modos de viver deste grande Império, descrevendo tão vasta, como va- riamente em muitos e graves Livros que tratão d'estas matérias, e observando coriozamente que quasi nenhum confére com outros
— 122 — nos oonceitos, parecendo cada linra mais exagera ti to que o outro nos elogios, do tudo venho a inferir por venerar o que dizem todos sem contradizer algum (por isso não os aleguei) que bas- ta para excellencia deste Império, o ser tão antigo, que ao cer- to se lhe não sabe a origem; a posse de seus Monarchas tão oc- culta que se lhe não sabe o nome; o rendimento e riqueza de seus thezouros tanta, que se lhe não percebe o vallor; a multi- dão de seu povo tal, que se lhe dificulta o conto; os Militares em todo o Império tantos que se lhe não conhece o numero; os fructos tão profícuos, que lhe não pode mencionar a abundaucia; a sua politica, cermonias, ritos, costumes e modas de vida tan- tos, e tão diversos que se não podem expressar; e como esta opinião seja verídica, não me resolvo a acreditar o que dos Livros sinicos seus nacionaes entre fabulas escreverão do que tantas e tão varias noticias e opinioens emanarão // P»k 73 LIVRO IV íllacao conseguido 0 A fit L'LO I I)as primeiras acçoens dos Portugese* em Macao, tanto que conseguirão o habitar neste terreno. Se o expôr antigos successes á luz publica foi sempre no sintir dos escritores dificílima ompreza, pois sendo a sua ave- riguação duvidosa, tem risco de o leitor imprudente os criticar, eu que já metido no perigo, tive (por me divertir) o não pe- queno trabalho de reduzir a breves períodos bastantes notticias do grande Império da China, de que se tem escrito muita quanti- dade de volumes, muy poucos com recta conciliação nos sistemas, porque fundados nas sofisticas e varias opinioens dos Chinas an- tigos escritores, que dispoticos escreverão o que quizerão, fazendo opinião cada hum por si em muy incertos e mal fundados apho-
— 123 - rismos, que seus philosofos gentios sem terem em cousa al- guma principio certo, ou ciência lhe ditarão, entro agora em outro não menos dificultoso argumento, pois por novo modo encontro não menores dificuldades nesta em preza por diminuição, assim como na passada por excesso: por excesso as do Império da China que acabei de escrever, offrecendo-se superabundantes notticias, por diminuição as desta cidade de Macao, mendigando as notticias de seus faustos e infaustos suecessos que entro a explanar, com muitos e vários incidentes que occorrorão pello decurso dos annos em que teve fundamental erecção, materia, em que ninguém até agora escreveo. Tanto lie digno de louvor nos chinas os muitos livros (suposto apócrifos) que escreverão para exaltar as glorias do sen Império, e créditos da sua propria nação, como nos portugezes de Macao digno de oprobrio o pouco que cuidarão em deixar á posteridade, ao menos para aresto, notticias escritas dos sue- cessos felizes e infelizes que tiverão, ou para gloria, ou para credito, ou para cautella dos seus nacionaes portugezes que lhe havião soceder, privando a Monarch ia Portugeza de algumas gloriosas acçoens de seus vassallos, que ao menos accidentalmente lhe podião occasional' honra, se não ficassem sepultados ou sup. primidos no esquecimento.// Inventarão se no mundo os caratheres e letras para fazer Pag. 74 inemoiaveis as aççoens dos homes, e eternizar seus nomes, sem que o tempo se atrevesse a escurecer suas façanhas; dirão por- que os Romanos não só em papeis e pergaminhos, mas em cipos de pedras, e laminas de bronze com pennas, estímulos, e sinceis deixarão copiados os seus triumfos para credito da nação, par- ticipando notticias a toda a posteridade; também os chinas os imitarão, e certamente merecerião bastante credito se com tan- tas quimeras, superstiçoens, e gentílicas fabulas não se envol- verão, nem seus escritores em tão mal fundadas opinioens se dividirão. Nesta acção se occuparão pouco os primeiros Portugezes fundadores desta colonia hoje cidade de Macao; pois cuidando só
124 — nos seus livros da razão, nenhuma ti verão para não deixar aos seus vindouros memorias do <|ue obrarão. Chegou sua inércia a tal extremo quo estampando em laminas de pedia com earathe- res si nicos matérias que importarão menos, como são regimentos de navios e de officios, como se estão vendo nas paredes interio- res da casa do Senado, para o que bastaria hum livro, ou per- gaminho, e da mesma sorte em outras duas laminas também de pedra consentirão se abrissem caratheres indicativos na sua so- geição a hum Rey estranho, as quaes com prudente acordo man- dou depois o mesmo Senado extrahir das paredes do pátio em que esta vão, pois só servião aos Portugezes de opprobrio, nas matérias mais emportantes, e aeçoens de credito nem buma só palavra se acha que escrevessem, e totalmente se ignoraria tudo, senão soceder tocarem nestas matérias alguns escritores de Por- tugal por curiosidade. .Tá o nosso grande Rey Dom Manoel, depois de descoberta a índia, noticiado do in numerável paganismo deste em por i o, man- dara ao Imperador da China liuma Embaixada, com o desejo de lhe introduzir a Fé, por hum Tlionié Pires, em a nau de Fer- nando Peres de Andrada, governando o Estado da India Lopo Soares de Albergaria; e suposto foi mal recebido, não haveria notticia deste facto, se Fernando Mendes Pinto a não deixasse escrita (a), e dalii a muitos annus em tempo dos seus trabalhos se não encontrasse elle mesmo na China com liuma filha do mesmo Embaixador que individuou este sucesso (b) (1). De Goa 110 tempo de El-Rei D João o vinha outra semelhante Em- baixada por idéa do S. Xavier que a acompanhava, e em Mala- ca iniquainente se impediu (<•). Xo principio do Reinado de EI- -Rei I). Sebastião se expediu outra, e alguma mais 110 tempo (a) Fern. Mend. Pint. -- Peregrin, cap. 65. (b) Idem—õbi cap. 91. (1) Aqni Inl êrro manifesto da parte do alitor fradesco. O mau fxito da em- baixada de Tomé Pires a Peking é referido por Barros, Castanheda e outros Cronis- tas quinhentistas, embora bastante sumariamente. (c) P. Souza—Orient. Conquist.
— 125 - dos lieis seus successores, vindo todas pov Macau,dc que se não acha aqui notticia, se vários livros não tocassem na materia, quando so 11a vinda da primeira Embaixada lie que Macao não existia. // (2) //Da mesma sorte nos livros de escritores estrangeiros tenho 'J|1o 15 encontrado notticias (suposto não individuacs) que por três vezes pedirão os chinas soccorro a Macao, e conforme a sua possibilidade lhe deu, pois com guerras se acharão opprimidos, mas sendo a ter- ceira vez no tempo do ultimo Imperador china antes da invasão dos Tartaros, e sua antiguidade só 400 annos, ha memoria sim por trad- dição, mas em livros nada se acha escrito (3); porque revolvendo todos os de ambas camaras ecclesiastiea é secular, nos antigos que como cadáveres desanimados, pútridos, e comidos todos do bicho a que cliamão polilha, tendo só principio (os que se achão) desde o anno 1586, 30 annos depois da fundação de Macao, nada consta dos annos 1557 em que vierão para Macao os Portugezes, até o de 1622 em que os olandeses com quinse naos invadirão esta cidade, que comtodo o vallor se deffenden e os rechassou, como em seu lugar diremos. Indagando pois já sem digressoens o que fizerão os nossos Portugezes, e as acçoens primeiras que em Macao obrarão, já que no capitulo ultimo do segundo livro desta obra os deixamos occupados em dar principio á sua nova fundação, me aproveita- rei de migalhas de vários escritores para expender os sisthemas em que se occuparão. Desbaratado e afugentado totalmente o ladrão Similao rebelde, que com numerosa multidão de ladroens (2) Esta asserção não ó tia» mais exactas. De facto não houve em baixada real (por assim dizer) desde a malograda embaixada tie Pires em 1520 até à em- baixada de Manuel de Saldanha em 16G7 9. Os enviados referidos pelo autor nos séculos XVI e XVII eram só capitães ou mercadores nomeados pelo Vi sore i da Índia como enviados diplomáticos, mas não podem ser classificados rigorosamente de em- baixadores. (3) Sôbre o envio de socorros de petrechos de guerra e homens de armas de M.tcau em auxílio da dinastia Ming contra os tártaros, consnltem-se os nossos artigos « Portuguese Military Expeditions in aid of the Mings against the Manehvs (1621 1647)* in Tien Shin Monthly, August, (1938), id. em português no Boletim Eel. de Macau, Março de 1940 e « A cidade de Macau e a queda da dinastia Ming» no Boletim Eel. de Macau, Maio de 1938, pp. 787-809.
— 12G — chinas seus sequazes tinlião habitado este terreno, e alguns fi- carão escondidos por não caberem nas embarcaçoens que tinlião; que suposto herão muitas, parte delias pel los Portugezes se quei- marão em castigo dos continuados insultos que com ellas tinlião feito não só aos seus mesmos nacionaes, mas aos estrangeiros que dos Reinos veziuhos vinhão por este porto a fazer comercio para a China, cuidarão de reduzir o sitio ao melhor de se habitar com sign rança de suas pessoas e vidas, que ahiuda es ta v ao perigosas. Vivendo pois interinamente em os seus pobres albergues feitos de ramos de arvores, emquanto os materiaes para fabricar casas e Igrejas com formalidade, pellos chinas se conduzião, do negocio não se descuidarão, considerando ser este o com que tem- poralmente avultão as Republicas; e como pellos infaustos suc- cessos que antes tinham experimentado estavão faltos de bens, con- fiando em Deos que os ajudaria, pois ao mesmo tempo cuidavão no modo de se introduzir o christianismo novamente neste Im- pério, aprestarão o melhor que poderão duas embarcaçoens que tinlião, liuiua para Japão adonde tinlião os seus maiores interes- ses, e outra para correr diversos portos de Reis veziuhos, com al- gumas fazendas suas e fretes de mercadores chinas, íorão e vierão a salvamento coin bom sueoesso 110 que se utilizarão para melhor poderem cuidar na sua subsistência. Em o seguinte anno de 1558 até o de (>0, achando se já aqui alguns Padres da Sagrada Companhia do .lesus, como nos 7t! Meinoriaes se acha escrito (d), com sua l>oa asistencia e idea entrarão a formar duas ou três pequenas Igrejas S. Lazaro, S. Lourenço e S. Antonio, e junto a esta (que há duvidas em qual fosse a primeira) concorrerão para se fazer hum comodo hospí- cio em que os ditos Padres podessem habitar, servindolhe de es- piritual conçollação, pella indigência de sacerdotes e Ministros que havia, suposto que com brevidade concorrerão. (4) Aggregarãose (.1) Memor. da (Jomp. "a Procuratura (la 1'rov. d» Japão no Colleg. do Macao. — l\ Sousa Or. conq. (4) 1*11111 recti li caça o desta história da fuudaçuo das igrejas |»aror|uiai§ «le Macau veja o artigo de J. M. Braga 110 jBoi. Kvl. de Macau, |>p. 142-159, Ag. 1938.
— 127 — Vil vi os Hispanhoes das Fillipinas, e alguns outros estrangeiros, que (sem antever possíveis futuros) inconcideradamente permitti- rão, e todos juntos ajudados de oftieiaes chinas que vierâo, não se desprezando os Portugezes daquelle tempo de se occuparein 110 trabalho, u/ando cada hum o ministério que sabia, não só com plectarão as Igrejas ou Hennidas, mas fabricarão bastantes casas pequenas para morarem. Nos 16 an nos seguintes se avultarão em cabedais estes mo- radores, e comprando mais navios em que ti verão prospera for- tuna pellos negocies e mercancias, extrahindo principalmente do Japão conveniências grandes, e dando também já aos chinas in- teresses, pois com permissão dos Mandarins liião á cidade de Can- tão capital desta província, e por mar só distante 30 legoas, ás suas feiras, Deos lhe multiplicava os bens, e lhe angmentava as fortunas, do que notticiados muitos Portugezes de Malaca, e ou- tros que de vários infortúnios perseguidos amlavão por vários por- tos dispersos, se aggregarão e concorrerão a Macao com animo cons- tante do fazerem nesta colonia sua habitação, que gostozamente lhe permitirão os que já neste continente se achavao. Xeste breve tempo creçeo este Povo tanto que melhorando de domicílios todos os que tinhão mais riqueza, se extendeo mais a colonia, e dimittindo as casas pequenas que ao principio ti- nhão feito, para nellas viverem os moradores de menos eabedaes, principiarão a fazer casas nobres para a sua vivenda, e não se esquecendo do muito que a Deos devião cuidarão muito de le- vantar em obsequio de sua May Santíssima hum grande Templo que houvesse de ser Igreja Matriz desta Povoação toda; com etteito se pozerão mãos a obra, concorrendo todos com grande zel- lo, e com o mesmo também as outras pequenas Igrejas se aug- mentarão para que em todas fosse Deos louvado, e os christãos tivessem adonde asistir aos santos sacrifícios. Em todo este tempo se governarão sem formalidade nem de politico, nem de militar governo, tendo só feito eleição de pessoas mais capazes, com authoridade de decidir os pleitos e contendas sumariamente; e como adonde há dinheiro logo sobre-
— 128 — vom temores e se applicão cautellas, forão cuidando de se refa- zer de anuas, eonciderando estar em Paiz estranho, sendo seus uacionaes havia tão pouco inimigos, e ideando os modos da mais segura defeuça propozerão entrar na fabrica de suas fortalezas, e também na de boa artelliaria para nellas levantar.// Capitulo II Dão conta os moradores de Macau a seu legitimo lieg o Senhor D. Sebastião dos felices progressos em que esta colonia se achava: pedem-lhe Dispo para bem de tantas Almas que neste Impé- rio como no do Japão se podião reduzir, além das que já o estarão. Como sempre o principal impulso e animoso desejo dos bons e verdadeiros Portugezes, lembrados da amorosa falia que no Campo de Ourique fez Christo a seu primeiro Rey, foi o propa- gar e exaltar a Fé Catholica, e nesta Asia primeira parte do mun- do tinhao com penetrantes e cortadoras espadas a impulso de seu braço valeroso, debelado em repetidas vitorias tantos inimigos de Deos, e sogeitado á Igreja innumeraveis povos destas dilatadas e tão remotas Monarchias, quizerão já cançados de batalhas mudar agora de sistema, capacitnndo-se que sem armas, mais que as da Igreja, não sendo necessário intervir poder humano, senão tão so- mente o Divino havia a Igreja de enarbolar fellicissimos triumfos. Para se conseguir este ditoso fim, lhe applicarão com ef- licacia os meios, tendolhe já dado principio; porque instruindo nas verdades da Relligião catholica muytas molheres chinas que vivião idolatras no gentilisiuo, com o pertexto de que se ellas recebessem o Baptismo as receberião por molheres (e hera este o melhor meio de as radicar no christianismo) quantidade delias o fizerão, e elles á face da Igreja voluntariamente as receberão, sendo o mesmo exercício do negocio e mercancia instrumento ou meio 11 ti 1 para facilitar esta empreza; para isto concorrião os pais das noivas sem disgosto, pella muita ambição a que são propenços com o sentido na riqueza que poderião haver por tempos vendo a opulência que havia, e os Portugezes muito mais gostosos por ver
— 129 — que com esta industria não so lucravão aq lie lias Almas, mas por observar que com seus filhos, netos, e descendentes se propagaria felizmente em Macao o cliristianismo. como com effeito socedeo. A esto tempo no Japão (de cujo Império em seu lugar trataremos) avultava já por inuv diverso principio a christan- dade; e sendo já fallecido da presente vida no anno de 1557 com universal sentimento EIRey II. João o 3o, derão conta no de 1573 a El Rey D. Sebastião que lhe socedeo na Coroa de por- tugal, e tinha sido acclamado Rey na miiioridade de seus annos, propoiulolhe estes zellosos portugezes, á vista do que tinhão obser- vado no .Japão e China, o quanto hera nescessario o soccorro de Mis- sionários para instruir na Fé Catholicn estes povos, pois conduziria mui to para o auginento espiritual e temporal de Macao, adonde por habitar já de assento hum numeroso concurso de Portugezes jun- tos, carecião e os mais christãos de hum Rispo que os regesse. / Ficou El Rey contentíssimo com esta feliz notticia; e co- Pag 7» mo o zello da 1 c hera tão ardente e efficaz em seu generoso peito como comprovarão as suas ultimas acçoens, cuidou logo sem admittir demoras de fazer representação ao Summo Pon- tífice, que então hera Gregorio XIII para de novo ser erecto este Bispado, do que esperava tanto créditos e augmentos ao seu Reino, como á Igreja de Deos glorias, e esplendor. O Papa que com justa razão ficou muito alegre e satisfeito, logo se inclinou propicio para sem duvida diíirir a esta snpplica, e honrando a Ma- cao com o titulo de Cidade, não só mandou expedir Bulias Appos- tolicas, mas dando a El Rey louvores lhe concedeo o Direito de Pa- droado Real, determinando que a ehristandade do Japão, pois não estava muy distante, governasse também o mesmo Bispo, sendo su- fraganeo ao primás de Goa. Passou-se a Bula principal em Roma 110 dia 23 de Janeiro do anno 1575, como delia consta, (a) da qual ex- traindo a substancia, contem as palavras do tlieor seguinte: (1) (a) Bultar. Collect, foi. 172. (1) Sobre a erecção
— 130 — Gregorirs Episcopus Serves Seryorum Dei. Au Perpetuam Rei Memoriam «Super specula niilitantis Eeelesiae Et propíerea idem « Sebastianns Rex pro Diviui cultas inibi incremento, et aniiua- « rum salute, locam de Macau praodictuin, qui in dicta Insula «de Macao percelebris turn incolarum mnltitudine, turn etiam ma- « gno Lusitanonun, et niercatoruin, ac aliorum convenarum di- « versas illuc merces convelientium, et conquirentiuni numero, « refertas, et frequentatus existit in civitatein, ac Ecclesiam Bea- «tae Mariae liujnsinodi in Oatliedralem Ecclesiam erigi pio affe- « ctn exoptet. « Nos, habita super his cum Fratribns Nostris delibera- « tione matura, de illorum consilio et assensu, ac Apostolicae « potestatis plenitudine, praefato Sebastiano Rege super hoc no- « bis per suas litems lunniliter snpplicante, ad Omnipotentis Dei « laudem, et gloriosissimae ejus Genitricis Virgiliis Mariae, totius- « que triumpliantis Eeelesiae gloriam, et ejusdein Eidei exaltatio- « nem, locum de Macau praedictum civitatis nomine, titulo, et lio- « nore decoramus, ac ilium in civitatein, quae Macaonensis nun- « cupetur, et in ea praefatara Ecclesiam sub invocatione ejusdem « Beatae Mariae pro uno Episcopo Macaonensi nuncupando, qui « i 11 i praesit, et ipsam Ecclesiam Beatae Mariae, seu illius structu- ♦ ras, et aedeficia aiupliari, ac ad formam Catliredalis Eeelesiae re- « digi faciat: necnon in ea et dicta civitate, ac ejusdem Eccle- « siae infrascripta Dioecosi tot dignitates ac cannonicatus, et prae- « bendas, aliaque Beneficia Ecclesiastica cum cura, et, sine cura, « quot inibi pro Divino culto, et dictae Eeelesiae // Macaonensis « servitio... Episcopo videbnntur convenire, de praedicti Sebastia- « ni, et pro tempore existentis Portugaliae, et Algarbiorum Re- «gis consilio, et assensu, ac praevia eoruin côngrua dotatione, « quam primuin fieri poterit, erigat Necnon Episcopalem ju- « risditionem, ac authoritatem exerceat, omniaque et singula, quae « alii in Portugaliae, et Algarbiorum Regnis et Dominiis cons- « tituti Episcopi in suis Ecclesiis, Civitatibus, et Dioecesibus, de
— 132 — * nibus &c... inf,ingere, vel ei ausu temerário contraire. Siquis «autein hoc attentare praesumpserit, iudignationem Oinnipoten- « tis Dei ac Beatorum Petri et Pauli... se noverit incureurnm. « Dat. Komae apud S. Petrnm Anno Incarnationis Doininieae P r * 1575' Kale,,d; 10 Februarii, Pontificatus nostri aiíno 4». // Chegou este Breve Apostolico ás mãos de El Rei que o recebeu com gosto, mas como a este tempo se acharão os seus cuidados divertidos no empenho do outra grande em preza, a que o compelia o ardentíssimo zoilo da exaltação da Fé Oatholiea e destruição do Paganismo, dirigindo cem ancioso disvello a jor- nada de Africa, que dentro de dous anhos poz em execução, fi- cou interinamente demorada a promoção deste Bispado,' como alguns escritores entenderão, talvez com o fundamento de ser o Papa Pio V o queexpedio as Bulias para a confirmação do pri- meiro Bispo; mas l.é certo que El Rei D. Sebastião o promoveo no seu tempo, porque sendo Rei ncclamado no anno de 1557 de menor idade, entrando a governar dispotico no de 1578, e che- gando a Africa no de 1580 (b) entendo que no de 1576 fez es- ta primeira eleição do Bispo para Macao e China, como também do Japão, cuja christandade logo a pouco tempo já florescente governava no espiritual este Prelladó. (2) Ha alguma duvida em quem foi este P rei lado primeiro, e eu a encontro maior no anno em que alguns escritores dizem que fora elleito Prellado. Antes que as proponha, note e advir- ta^) leitor que Gregorio XIII no anuo retro mencionado de 1575 hé que creou e erigio de novo este Bispado, como consta da sua Bulla exposta. O Padre Orasset diz que no anuo de 1566 fora nomeado primeiro Bispo do Japão o P. Oviedo Patriaiclia de Ethiopia, o qual não acceitara e falecera no de 1597 (c). O Padre Souza escreve fora o primeiro Bispo da China (isto hé de (b) 1'aria e Souza — Epitom. dft Asia Portuguezn. (2) A história dos Bispos o Bispado de Macau é elaborada pelo Padre .Manuel Teixeira uo seu artigo «Diocese de Macau,* no llvl. bel. da Diocese de Macau Julho de 1938, pp. 30-03. (e) P. Cras.-et — (,oiu. 30 ibi.
— 133 Macao, que antes de liaver mais Bispados, sempre se intitularão assim), o Japão, o Ill.rao 1). Belchior Carneiro da Sagrada Com- panhia de Jesus, natural da cidade de Coimbra em Portugal, o qual no anno de 1555 fora nomeado Bispo de Nicea e futuro suc- cessor do Patriarch» da Ethiopia, depois do Bispo 1) André de Oviedo (d), que no anno de 1507 tivera Bulla do Papa Pio V, que o constituhia Bispo da China e Japão; que o Patriarcha de Ethiopia João Nunes Barreto o chamara a Goa das Missoens de Cochim e Malavar e o sagrara Bispo no anno de 15(50 (e), que finalmente governara primeiro Bispo esta Diocese com grande exemplo o nella fallecera, renunciando final mente o Bispado com licença de sen R.mo Geral, e recolheu dose outra vez á Companhia no anno de 1583 em que passou desta para a melhor vida. Que este digníssimo Prellado fosse o primeiro Bispo de Macao e China eu o reputara por sem duvida; mas tenho a gran- de no anno da sua promoção, com solido fundamento; porque computando este com a era expressada supra na Bulla da erea- ção deste Bispado por Gregorio XIII, a qual se deve dar intei- ro credito, está a contradição patente; porque se não houve Bis- pado nem Bispo de Macao até o anuo de 1575 em que de novo foi este Bispado erecto, como podia ser Bispo primeiro de Ma- cao e China o Padre Oviedo na opinião de Crasset no anno de 156(5, e o senhor 1). Belchior Carneiro no de 15(57, // no sintir do Padre Souza, e outros Authores que o escreverão? Seguia-se destas opinioens que onze aiuios antes de existir tal Bispado fo- ra o Padre Oviedo Bispo delle; e da mesma sorte, quasi no mes- mo tempo, só hum anuo mais adiante, o senhor D. Belchior Carneiro, notado o computo dos annos que vão de 1575 da dita erecção até a elleição do primeiro, e da mesma era sobredita á promoção do segundo, tendo sido esta no anuo 1567, e aquella no de 1566. por Breve do mesmo Papa Pio V, como os mesmos (<1) P. Souza no Orient. Conquistado — tom. 2." couq. 4, liv. num, 104. (e) Idem ibi et. u. 105 — Diogo Barbos. Mnchad. na Bibliot. Lusit. lit. B. pngin. 488.
— 134 — escritores dizem. Logo parece não foi o senhor Patriarcha Ovie do primeiro Bispo da China e Japão depois do anno 1400 do Nascimento de Christo (f) nem quanto ao titulo, nem quanto ao exercício, não só porque este Bispado ahinda não tinha naquelle tempo existência: não só porque a Bulla hera condicional — se não estivese (como de facto estava) occupado na Ethiopia donde hera legitimo Prellado — mas porque nem admittio esta incum- bência, nem dimittio aqnella Patriarchal Prellatura, nem passou á China com tal exercício. Semelhante duvida podia occorrer na Ill.m" Pessoa de Senhor Prellado o Io Bispo da China e do Japão (g). Reconhe- ço sor digníssima a Companhia de Jesus de todas as primazias: mas propõein-se-me ao discurso as razoens supra mencionadas respectivamente aos annos da sua elleição, e da erecção deste Bispado, que lié supérfluo repetir; álem do que attemlo ao que escrevo o douto Diogo Barbosa Machado (li), que se este Prella- do fora eleito Bispo de Macao ou constituído Bispo da China e Japão por Pio A' no anno de 15(17, tendo sido este grande Pontí- fice coroado no anno de 15(16 (i) e depois de viver (1 annos fal- locido no de 1572, e neste mesmo anno coroado o Papa Grego- rio XIII que de novo creou este Bispado, parecia seguirse o mesmo que ja acima fica dito, e este Bispado erecto nove ou dez annos autos de se erigir, o que á recta rezão lié repugnante. Sendo pois sem duvida alguma que o senhor 1). Belchior Carneiro foi sagrado com o titulo de Bispo de Nicéa, e certo o que escreve o P. Souza (1), que =■ o Papa Pio Y o constituirá Bispo da China e Japão não quanto ao titulo mas quanto ao exercício episcopal, em caso (nota) em caso que não soccedesse á Missão de Ethiopia nem delia podesse sahir o Patriarcha 1). André de Ovideo = e álem de ser esta Bulla condicional, e não (f) Vide retro de Rellig. Seraph. (g) Act. Soe. Jesti. (h) Barbos. Math, uhi sup. lit. B. (i) Bullar. Mago. tom 2. (1) P. Souza verba ibi Orient. Cout|. C. + diviz. 2, u°. 105.
inculcarem as suas clausulas nora promoção, suposto com ettei- to veio á China, e desta cidade de Macao em (pie esteve, gover- nou com Apostolico zello e fervoroso espirito tantas Almas, pa rocia não se seguir daqui que este Prellado digníssimo Bispo de Nicea fora Bispo de Maôao, 011 da China e Japão, como o ap- pellidão, mas sim só que estivera Bispo em Macao com Epis- copal Jurisdição, e governara esta christandade antes de nella haver Bispado, sendo o primeiro Bispo
— 136 — Acutlio logo ;i primacial e Metropolitana de Goa proce- dendo contra este prellado com annulatorias e censuras, capitn- lando-o de uzurpar a Jurisdição neste Bispado: logo se o clero sem cabbido lié certo lha não podia dar, nem este prelado Bis- po de outra distinta Dioeeze podia por authoridade propria exer- citar nesta os actos da ordem Episcopal (o), claro fica que só foi Bispo do Japão em Macao, mas não Bispo de Macao ou China pois não teve tal titulo nem exercício com as condiçoens reqnizitas. mas só sim foi governador deste bispado ; e se reti- randose logo a Goa como fez no anno de 1624, tornando com a mesma incumbência para Macao 110 de 1631 trouxe mais ampla Jurisdição que ou o Papa ou o primas Metropolitano lhe conce- dese e delegasse, nem por isso 1110 parece se devia pôr 110 Cata- logo dos Bispos de Macao sem renunciar o do Japão já separa- do (p), tendo novas Bulias, mas sim ter o titulo de Bispo do Japão Governador do Bispado de Macao com a tal Jurisdição e authoridade que lhe fosse concedida. IIEm nenhuma materia, e menos nesta pertendo fazer opi- nião por mim: assim o atlirmo e a ninguém pareça chega a mi- nha temeridade a tanto excesso que criticamente me oponho ao que outros mais doutos historiadores escreverão; porém se os dis- cursos em todos os homes são livres, bem poderão errar como home, mas a ninguém intento nem levemente offender 110 que escrevo. O campo da Historia hé muy vasto, e tem plantas syncathegoreinaticamente infinitas: quem as colhe aproveita-se das que mais lhe lisonjeão o gosto, e socede muitas vezes não achar todas as que quer para a composição de hum perfeito ra- milhete; já que pois eu tive essa fortuna, e 110 campo ameno da Igreja são Flores os Illustrissimos Prellados de que agora aqui trata esta historia, oftereçó o ramilhete que sem affectação pude ornar, expondo no catalogo seguinte não só os primeiros Bispos (o) Com. DD. ex Sac. Can. et. Cone. Tiid. (p) S. Paul. ad Thini. 3. — Unius uxoris virara et Sacri Can.
— 137 — de Macao, não só os da China e Japão, antes e depois de ser este Bispado erecto e dividido, mas de todos os qne não só por nomeação dos reis de Portugal, mas também pella dos Pontífices Romanos tem sido elleitos ou vindo á China com titulo e exercício, e com exercício só e titulo in partihus, depois dos Bispos sirianos ou surianos, que com os falços dogmas de Nestorio, e admissão de outros infestarão o Chris- tianisino que os Discípulos do Apostolo S. Thomé tinlião propagado. (3) Capitulo III. CATALOGO ])e lodos os [llusirissimos liispos com
— 138 — S. () 111""0 D. Fr. Guilhelmo] de Villalonga, Franciscano, (a) !>. O Lllm' D. Andre de Ovie.lo, Patriarch» de Ethiopia, Jezuita.(b) 10. O 111"'0 I). Belchior Carneiro, Bispo de Nicea, Je/uita, e o primeiro que em Macao governou com exercício Episco- Pag «4 pai. (c)// (Erigio-se o Bispado de Macao pello Papa Gre- gorio XIII no anno de 1575, à instancia de El Key D. Sebastião). 11. O IIlmo D. Diogo Xunes Ferreira, Presbítero do Habito de S. Pedro, primeiro Bispo de Macao com titulo em Igre- ja e Dioce/e propria, (d) denominandose Bispo da China e Japão. Sendo Papa Gregorio 13, anno supra, e Key D. Sebastião. 12 O Illmo D. Leonardo de Sá, Religiozo da Ordem de Chris to, segundo Bispo de Macao (dito da China e Japão) com titulo proprio, e exercício, sendo Papa Gregorio 13, anno de 1577, e nomeado ahinda por EIRey Dom Sebastião, (e) (Desmembrou-se o Japão deste Bispado da China pello Papa Sixto V, no anuo de 1588, governando já Portugal Fellipe 2°, e ficarão dous Bispados destintos, o de Macao, e o de Funay no Japão: para este logo se elegeo Bispo, e o de Macao esteve vago athé o anno de 1(504). (a) Estes primeiros oito Prellados (pie teve a China depois dos liispos Siri.inos forão nomeados, e continuado. pello Papa Nicolao 5" no anuo de 1287, antes de descobrirem os Portugueses a India e China, adomle passarão com outros Missioná- rios da Ordem Seráfica, a qual governou toda a Christnndade athé o anno de 1400 sem interrupção, e as guerras entre Tártaros e Chinas a destruhio. Tiverão os ditos 8 Proibidos exercício e titulo das Províncias de China, poique forão destribuidos pello dito Arcebispo com authoridade Apostólica. (b) Foi condicionalmente nomeado por Pio V Dispo para a China havendo ja tiella Portuguezes, mas não Bispado. (c) Foi nomeado também por Pio V no ar.no de 1567 para Bispo na China, antes de Della haver Bispado. Não aceitou a incumbência. (d) Não ha plena noticia deste Frellado, e se ignora se renunciou ou morren na viagem, porque se veio, não chegou. (e) Vindo para Macau, o cativarão no Achem. Livre, governou este seu Bis- pado só 3 annos, e aqui falleceo no de 1597 ; no seu tempo se abrirão as poitns da Chiua aos^Missionarios Evangélicos.
— 139 — 13. O III™0 1) Sebastião de Moraes da Companhia de Jezus. primeiro Bispo de Funay no Japão, coin proprio titulo, por Sixto Y no dito anuo de 588, á instancia de EIRey Fe- lippe 2o (f). 14. O 111™0 1). Pedro Martinz da Companhia de Jezus, segundo Bispo do Japão, (g) 15 O 111™0 D. Luis de Cerqueira da Companhia de Jezus, 3o Bispo de Japão, (li) 16 O III™" D. Diogo Valente da Companhia de Jezus, 4° Bis- po do Japão; nomeado por Fellippe 3o anuo de 1617, e confirmado por Paullo V, anno de 1618. (i) 17. O 111™0 D. Frei João Pinto ou da Piedade da Ordem Domi- nicana tinha sido elleito 3o Bispo de Macao com proprio titulo e exercício, no anno de 1604, governando aliinda Fellippe 2o, e sendo Pontifeee que o confirmou Clemente VII. Renunciou depois o Bispado nas mãos de Urbano VIII no anno de 1623, reinando Fellippe 4o, e foi para Abrantes sua Patria donde morreo no de 1628 (1). (Ficou vago outra vos este Bispado de Macao sem legi- timo e proprio Diocezano 67 annos, porque athé o de 1690 em que esta Igreja se proveu tendo neste tempo Governadores postos pello Metropolitano de Goa, c ulti- mamente vindo de Roma hum Bispo Vigário Apostolico que nau chegou, e morreo; ignorase o nome). 18. O 111™° D. Fr. Gregorio Lopes da Ordem dos Pregadores. Bispo de Bazilea, mandado Vigário Apostolico para Naii- kini. (ni) (f) Este Prell.iilo não chegou a tomar posse «Io Bispado, e falleeeo arribando a Moçambique a nau em que vinha de Portugal paia Goa. (g) Achei memorias antigas que este Prellado estivera Bispo Governador da Christandnde de Macao. (h) Hum só destes dons Piellados foi o único Bispo que pode entrar 110 Jappão. (i) Governou este Bispado de Macau; da segunda ves coin Episcopal exercício. (1) Foi o terceiro Bispo legitimo com titulo e exercido em Dioceie propria de Macao. (ui) Bisem que falleeera uiex< 9 antes que chegassem as Bulias.
— 1-10 — Pai. S5 19. O III"" I). Kr. Bernardina . Alexandre Cicero da Companhia de Je/.ns, man- dado para substituir a falta de Prellado em Xankim. (o)// (Neste tempo, e nos seguintes anitos em qne bonve guer- ra de Oastella com Portugal por can/a da Acclamação, e se não proverão os Bispados, mandou Roma por Vigá- rios Apostólicos para governar estas Christandades nas Pro- víncias da China os seguintes), (p) | Anno em que vierão 1080 21. •)•) 23. 24. 25. 20. 28. 29. O Illmo I). Fr. Alvaro de Benavente, Bispo Aroalonense, Vig. Ap. Aug O 111"'0 1>. Carlos Tureatti, Bispo Amlrialen- se, Vig. Apost., de/ O 11lmo I). Francisco Baliu, Bispo Heliopoli- tano, Vig. Apost O 1111"0 D. Carl los Maigrot, Bispo Canonense, Vig. Apost O 11 lm" 1). Francisco de Leonissa, Bispo Be- ritrense, Vig. Ap., K ran cise O III"'0 I). Ludovico dc Cicé, Bispo Sahulen- se. Vigar. Apost O Illmol>. Ludovico Keinner, Bispo Surence, Vigar. Apost O III"10 D. Magino l enlalhd, Bispo Caristen- se, Vig. Ap. Domin O III"10 1). Frei António de Castro Caro Bis- po Lorinense. Vig. Ap. Krancise. (q) . 1681 1084 1084 1084 1085 1085 1 oso 1081 (ii) Foi ili*pois iioine.'iilo por Kl liei e coiittriiuiilo pelo Papa Bispo em Diocezt» propiin ile Pekini. (o) Da mesma sorte no Bispado ile Xankim. (p) Destes Prellinlos vierão alguns já sagrados Bispos Titulares Vigários Appos- tolico», e outros ti n li Ao só vindo Missionários, e cá se lhe manilon a Ordem, inetuu- beneiu e Bulias parti a sagrnção. (q) No atino de 1690 compostas as Pazes entre Castell» o Portugal, se pro-
— 141 — Anuo em que vierfto 1(199 30. O 11 lmo D. João Mullener, Bispo Miriopo- li ta no Vig. Ap 31. O 111"10 I). Frei Thomas tie Sestri, Bispo de Nvcéa, Vig. Apost Dom. 1700 32. O III™ D. Frei Pedro Mártir, Bispo Auricas- trense, Vig Ap. Dom ltlõ 33. O 111™ I). Frei Franciscano Ottaiano. Bispo Dense, Vig. Apost. Francisc 1710 31. O III™ D Frei Francisco da Conca, Bispo Lorimense, Vig. Ap. Francisc 1
— 142 — 42. O III"" 1). João do Cazal do habito de S. Pedro 4* Bispo de Macao, (r) 43. O Lllmo Frei Francisco da Purificação da Ordem de S. Ag", B" do Pekim. O III"" D. Frei Manoel de lezus Franciscano, Bispo de Xankim. O Ex™' D. Frei Eugénio Trigueiros da Ordem de S. Ag". 5* Bispo de Macau, (s) O Ex™ D. Frei Hilário de Santa Roza, Franciscano, 6o Bis- po de Macau; existe, (t) O Ex"10 L). Policarpo de Souza, Jezuita, Bispo de Pekim • existe. O Ex" D. Frei Francisco de S. Roza de Viterbo, Fran- cise., Bispo de Xankim; existe. (V ierão á China em diversos annos tres Prellados por Vi- zi tadores Hemes Appostolicos, de que no próprio tempo fa- rei menção).// Capitulo IV Catalogo Especial Dos Illnstrissunos Bispos Diocesanos desta Cathedral de Macao; tocão-sa algumas cousas particulares suas; mostra-se quem foruo os Governadores, que nas suas vacancius teve este Bispado.(J) Sabido já pellos coriozos e discretos a numerosidade de Bispos com que a S. Igreja Romana nossa piedosa May tom (r) Veie no anno de lt>91 de Portugal para Goa; chegou a Mncao no de 692; sendo Key 1). Pedro 2' e Papa Alexandre 8. (») \ eio coin o titulo de Bispo de Vranopoli coadjutor e futuro socesgor do Bispado de Macao, de que foi propriO Dioeezano atino de 1735 em que se tomou posse sendo Kev D. João 5 e Papa Heuedito 13. . (t) Veio no auno de 1742, sendo Kei de Poitugnl D. João 5, e Papa Bene- dito 14. (1) Convém rtcliflcat algumas das afirmações de Frei Joseph de Jesus Ma- ria neste capítulo; reuietei mos o leitor para os aitigos eiuditos sôbre o mesiuo a- 44 45. 46. 47. 48. Pag. 86
acudido a este cego Paganismo, para como solícitos Pastores nao só illustrarem as suas Almas, mas para as conter, e sus- tentar com o pasto espiritual no grémio da Igreja, como reba- nho de Ohristo, vejamos agora com especialidade os que só fo- rão Bispos Diocezano» nesta Sé Cathedral de Macao, dando delles alguma pouca noticia. Foi o primeiro Bispo Diocezano desta Cathedral depois de erecta o III0" D. Diogo Nunes Ferreira (como fica dito) Presbítero do Habito do São Pedro, e logo deste ha noticia tao pouca que apenas consta hera Conego, ou Thesoureiro Mor da Sé de Évora em Portugal; já houve escritor que entendeo fora nomeado pel lo Sor Cardeal Rev D. Henrique, mas a opinião mais certa lie que por EIRey I). Sebastião ao Papa Gregorio XIII logo quando lhe pedio no anno de 1575 a creação deste Bispado; e noticiados assim o Papa como EIRey da muyta Christandade que aquelle tempo havia 110 Japão, convierão em que denominasse com proprio titulo Bispo da China e Japão. Nao surgio este Prellado, nem 11a China apareceo, ou porque a morte lhe cortaria os passos ou porque as expediçoens de Afri- ca uue a EIRiv oecupivão os sintidos lhe dificultaria a viu da. (2) Foi o segundo Bispo Diocezano desta Cathedral, com o mesmo titulo proprio da China e Japão o 111'"0 D. Leonardo de minto do Rev. Padre Manuel Teixeira 110 « Boletim Ecclesiástico da Diocese de Ma- cau, » Ano XXXVI pp. 30-53 (com os retratos dos Bispos e mais Prelados); pp. 326- -364; 493-496; 731-748 e 880-883, incluindo nestas últimas páginas a reprodução da obra inédita do Padie Joseph Montanha S. J., contemporâneo do Frade Arrábido com quem chegou a Macau na mesma nau em que vinha embarcado o Bispo Fr. Hilá- rio de Sauta Rosa, no ano de 1742. Vid.Boletim Set. e Out. de 1940. (2) A data da erecção da Diocese de Macao foi estudada pelo Padre Manuel Teixeira per longurn et latum no sen trabalho publicado no Boi. Kccl. de Macau, A- bril de 1937, Auo XXXVI num. 397, pp. 707 e seg., para onde remetemos o lei- tor. Efectivamente, D. Diogo Nunes Figueira (e não Ferreira, como diz o nosso au- tor) foi elevado a bispo de Macau logo ao ser erecta a diocese em 23 de janeiro do 1576, mas renunciou o cargo antes de ser consagrado, aceitaudo-lhe a renúncia o Papa Gregório XIII.
— 144 — Sá Relligioso da Ordem de Ohristo, nomeado já por Fellippe 2o que governava Portugal, e confirmado pello mesmo Papa Gregorio XILi. Veio a India no anno de 1578 em que se sa- grava, e se deteve em Goa athé o de 1585; dalii navegando a Macao experimentou grandes perigos, dando á costa no .Achem adonde ficou cativo nove annos, tollerando pennalidades e mi- sérias com grande paciência. Sendo posto em liberdade no anno de 1594. chegou a esta Cidade, e tomou posse da sua Igreja, que governou só 8 annos, porque no de 1597 talleceo, e está se- pultado na Capella do S.S. nesta Se. (8) Foi terceiro Bispo de Macao com proprio titulo (omitti- do já o da China e Japão, porque no anno de 1588 pello Papa Sixto V fora o Japão constituído Bispado á parte) o Ulmo D. Fr. João Pinto, onda Piedade, que alguns escritores entenderão tinlião sido dous; hera este Prellado llelligiozo de S. Domingos, natural de Villa de Abrantes e foi nomeado Bispo desta Cida- de por Fellippe 2o confirmado por Clemente no anuo de 1004; no de 1008 se recolheu a Macao, e não governou muitos annos, porque disgostoso se retirou a Goa no anno de 1618. adonde achan- do Ordem dei Rey que o chamava para outro Ministério, re- nunciou este Bispado nas mãos de Urbano 8o no anno de 1623, e falleceo em Abrantes, sendo sepultado no Convento de 8. Do- Pág. 67 mingos no anno de 1628. (4). // Foi quarto Bispo Diocezano desta Cathedral de Macao o LUm° D. João do Oazal, Presbítero do Habito de S. Pedro. natural do Castello de Vide Província de Alentejo no Reyno de Portugal, Douttor da Sagrada Theologia em a Universidade de Évora; foi nomeado por EIRey Dom Pedro 2o no anno de 1690, e confirmado pello Papa Alexandre VIII; tinha 41 annos de idade quando se sagrou em Lisboa pello Bm° Sor Cardeal de Alencastro, asistindo o lllmo D. Fr. Agostinho da Anunciação (3) Vida Boi. liccl., Anno XXXVI p[>. 33S-341 para as vei .ladeiras datas do cativeiro tie Kr. I^GOimnlo de Sh eiu Achéni. (4) Vtvja Boi. Eccl.
— 145 — Primús de (loa, e o lllm° Bispo da Madeira; partio de Lisboa a 25 de Março de 1691, chegou a Goa em 18 de Setembro do dito anno, e finalmente a Macao no de 1692 a 16 de Julho, a- donde tomou posse da sua Igreja no dia 27 do dito me/. Dos sucessos < | ne houve no tempo se pod ião dar largas nottioias, pois forão muitos os annua «pie governou: tocaremos em alguns mais notáveis quando for ocea/ião, sendo o primeiro logo 4 annos de- pois que tomou posse, porque no anuo de 1696 se vio inquieto por nova introdução de Vigários Appostolieos inaudito Kege, e coniuzao de Províncias para seus distritos, estando já repartidas com Authoridade Appostoliea, por estes Bipados. Como desde o anuo de 1623 estava vago este Bispado, a- chou este Prellado a sua Igreja espiritual e materialmente arrui- nada, sendo-lhe preci/o ao mesmo tempo acudir com a espiritual reforma, e coin o material reparo, intentando juntamente redu- zir esta se aquetla formalidade que costuma ter Ininia Cathedral; para este effeito representou a Kl Rev I). Pedro 2o o quanto hera conveniente para excitar a devoção dos Fieis, e facilitar a reddueção dos Gentios, ser Deos louvado no sagrado deste templo, propondolhe com attenciozas palavras a obrigação que S. Mag.* tinha como Padroeiro deste Bispado, e conforme a Bulla da sua Erôcção parecia dever constituir ao menos tres Dignidades, e alguns Oonegos nesta Sé consiguundolhe côngruas sutlicientes. Foi Kl Rey servido de o haver assim por bem, determinan- do a I). Pedro Antonio de Noronha, Conde de Villa Verde Vice Ret' da India lizesse estes novos provimentos, (a) e aos elleitos con- signasse as côngruas «pie entendesse. Foi nomeado Deão primei- ro desta Sé o R. Douttor João Fialho de Campos, asinandoselhe a côngrua de trezentos xeratins pagos da Fazenda Real na Fei- toria que então havia nesta Cidade de Macao, como se asentou em Goa a 7 de Mayo de 1698 (b). No anuo de 1707, reinando (:i) Urro Velho dos Keg. da Camara Epucopal. prine. em Janeiro de 1094 a foi. 49. (b) Ibi á foi. 50.
— 146 — já EIRey 1). João V, Nosso Sor expedi o este Monarch» liuma Portaria ao Sor D. João do Ca/al coin data em Lisboa aos 4 de Fevereiro, para promover á Dignidade de primeiro Chantre desta Sé o li P. Manuel Freire, a quem se passou carta de con- tinuação por ordem de EIRey com data do Io de Setembro do dito anno (c) Por outra Portaria de S. Mag.® ao mesmo Prel- !'ag. 88 lado com data de 24 de Fevereiro de 1708 foi nomeado e con- firmado na Dignidade de primeiro Thezonreiro Mor desta Sé o R. P. Lourenço Gomes aos 9 de Julho de 1710, como tudo consta do mesmo livro antigo dos Registos da Camara Episcopal, (d) Não menos se foi cuidando também logo na promoção de Conegos para esta Cathedral; o por Portaria do 24 de Feverei- ro de 1708 foi apresentado o P. Francisco Marques, confirmado a 10 de Julho de 1710. (e) Para meio Gonego o P. Jozé Gon- çalves, por Portaria do mesmo dia, e anno, confirmada com o —cumprase=» 15 de Julho do dito. (f) O P. Balthezar Borges também com meia Prebenda, por Portaria do mesmo tempo, coin o cuniprase a 16 de julho do mesmo anno, (g) O P. Paullo Garcia das Neves, com meia Prebenda, e o enmprase a 17 de Julho (li). O P. Rafael Corvo Pereira, coin huraa Conesia, e o cum prase em 19 do dito. (i) O P. Luis Lobo da FMnceca, com huina Conesia, e o cumprase em 19 do dito. (1) O P. Manuel de Pinna Malho, com huina conezia, confirmada no mesmo dia e Mes; (in) e para a Dignidade de Arcediago foi nomeado o P. Manoel Queirós Pereira, todos por Portarias de EIRey, com da- ta em Lisboa: esta a 24 de Fevereiro de 1708, e lançada no (c) Ilii ií foi. 61. (d) Vide supra folio 62 verso. (r) Ibi a foi. 63 (f) Ibi Tol'. 68 (g) Ibi a foi. 64 (h) Ibi a foi. 64 (i) Ibi foi. 65 (1) Ibi foi. 65 (iu) Ibi foi. 66
— 147 — mesmo Livro a foi. (a) Oom esta individual noticia se mostra quem forão os primeiros Ministros desta Cathedral. Já a este tempo se achava removida a Feitoria de Macao por dispoziçfio dos Vice Keys de Goa; e como o Estado da ín- dia se via em consternação deplorável, por motivos vários, e nem ao mesmo Bispo se pagava a sua côngrua por mais ordens Reaes que de Portugal se remetessem, e muito peior seria a satis- fação para as Dignidades e Oonegos, influído este Prellado no zello da honra de Deos e Divino Culto, suposto via a deca- dência em que Macao se achava, persuadiu a algumas pessoas deste Povo mais pias e ricas quizessem concorrer em vida e mor- te com legados e esmollas a esta Igreja, para assim se fazer hum fundo que dado aunualmeute a risco do mar e terra, fosse applicado o seu producto e destribuido nestas côngruas, sem as quais as novas Dignidades e Con6gos não poderião subsistir. Produzio feliz effeito esta persuasão do Prellado, mas co- mo hera precizo dar tempo ao tempo, dispostos já os meios pa- ra a consecução dos tins, havendo quazi sufficiente fundo, se es- perarão alguns annos para que avultassem os rendimentos, athé que no de 1710 em o Io de Novembro foi a primeira ves que o novo Cabbido teve choro, e este continuou cotiza de 18 annos com tanto augmento, que superabundando os redditos, cresceo o numero dos Ministros. Achava-se já a este tempo o Sor D João do Cazal muy avançado em annos, e cheio de achaques que o imped ião a exercer como dezejava as acçoens e funçoens de seu Pastoral officio, e o representou a El Rey, pedindollie com instancias se dignasse de nomear hum Bispo para seu coad- jutor, o que EIRey fes, sabendo o justo motivo desta suplica.// pa„ s() Foi quinto Bispo Diocezano nesta Cathedral de Macao o Ex.""' (o) D. Fr. Eugénio Trigueiros Eremita de S. Agostinho, natural da Villa de Torres Vedras em Portugal, adonde nasceo (n) Ibi foi. 66. (o) Por Ley novíssima 'los Tratamentos promulgado no anno de 1739, man- dou EIRey D. João V dar o titulo de Exílios e Revmos u todos os Arcebispos, Bis- pos e Prinoipaes da S. Igreja Patriarchal em o seu Reyno.
_ us _ no anno de 1(J!)4; entrou na Relligião anno de 1720: pavtio TNIis- sionario para (loa donde esteve algum tempo; partio a Benga- la por Yizitador e Commissario das Missoens: oeenpou o Cargo do Governador do Bispado de S. Tliomé ou Meliapor; alii rece- heo as Bulias de Bispo coadjutor e futuro soeessor do Sor. 1). João neste Bispado do Macao, expedidas por Benedicto XII1 com a nomeação de Kl Rey anno de 1724; este Prellado Dioce- sano o sagrou em Macao coin o titulo de Bispo de 1 ranopoli, no dia 7 de Dezembro de 1727, e ticou sendo seu coadjutor. Passado bastante tempo depois da sua sagração, por ne- cessidade se Mie fes preoizo ter com o Sor D. João do Cazal iiutna Conferencia sobre o modo de subsistir, pois via faltarem- 1 lie os de se poder alimentar, e observando que o dito Prellado se excluía de Ilie dar côngrua, pois nem a sua llie pagarão, to- mou a rezollucao de hir a Portugal a prezença de Kl Rey, fazen- dollie deste facto liuma pessoal representação, para prover de remediu esta indigência. Dispôs as suas couzas, e como via ao Prellado, de que havia ser futuro sucessor, já decrépito, deixou Procuração sua ao R Deão desta Se para em seu nome tomar posse, no ca/o que o Prellado lallecesse, como socedeo na sua auzencia. Na monção de 1734 partindo a Cantão se embarcou em liuma Nau Franceza, que fazendo viage os primeiros dias com vento prospero, sobrevindo bum horrível tutao lhe trocou a scena, porque dezalvorado de todos os mastros o navio, e levandolhe o Mar o leme, foraó por Mizericordia de Dcos parar a Mcregui terra do Revno de Pògú, adonde invernarão, e na monção do seguinte anno forão a França, donde se restituliio a Portugal, donde achou notticia que no mesmo anno em que partira falle- cera em Macao o Sor D. João do Cazal, ou pouco depois, por- que no anuo de 1735; e assim decedida a duvida de sua Côn- grua, com beneplácito de Kl Rey se recolheu a Macao donde já então hera Bispo em Dioceze propria. Veio na iragata 8. Pedro e S. João, que fes escala ao Rio de Janeiro, e chegou a esta Ci- dade Macaense cm Agosto de 173S.
— 149 — Descançado já este I'rei lado dos ineomodos e contra tem- pos da Viage, entrou na posse do seu Bispado, que 110 decurso de tão pouco tempo achou já bem mudado de semblante, porque quazi esgotado o fundo que houvera no Cobbido, sem se poder cobrar nem o principal nem os rcdditos para a Côngrua o sub- sistência dos Benefficios, pella má administração do Procurador do Cabbido, contra quem (como dissipador dos bens da Igreja) procedeu, mas nada remedeou porque lhe foi procizo despedir o tal Cabbido, por não haverem emolumentos «pie lhe consignar; e como 110 mesmo anno que bera o de 1739 lhe chegou nova merce// de Portugal, em quo Elltey o constituirá Arcebispo p„p, so Primas de Goa, se preparou para fazer viage ao Estado da Ili- dia 11a monção de 1740, deixando ao Oonego Jozé Gonçalves por . Governador do Bispado; mas foi Deos servido que desembarcan- do com bom sucesso ein Callccut, para esperar a Fragata de Goa, vinda, se embarcou nella com a sua família 110 dia 18 de Abril, teudose achado no mesmo dia inuy mollesto, e 110 seguinte estan- do logo disposto, com morte apressada, e não sei se ajudada (por indícios) entregou sua Alma ao Creador; e cauzando a sua mor- te siutimento grande a todos, não condisse este com o sucesso de meterem o seu corpo paramentado em bum caixao lançandoo impoliticamente ao mar por ordem do cappitão de Mar e guerra ou Oommandaute Caetano Correa de Sá, induzido por buiria má cabeça, isto estando perto de terra, e Igreja á vista, donde di- gnamente o podião sepultar. Sabio á terra o seu corpo 110 Cai- xao e se achou 11a praia junto ao Bio de Vaipor, entre Tanioi e Callecut, mas já desfardado dos Gentios, e com grande fétido, pois havia dias, e o Pe Agostinho Machado 110 mesmo lugar e o melhor que pode, o sepultou. Foi sexto Bispo Diocezano de Macao o Exm° D. FreieHi- lario de S. Boza (que existe) Relligiozo Franciscano 11a Refor- mada Província da Arrabida, e nascido 11a Corte de Lisboa em a Freguezia de N' S* dos Mártires. Foi 11a dita Província Lei- tor do Philosophia. o Theologia Moral coin toda a estimação e applauzo, e bera Guardião do Convento de S. Jozé de Riba
150 — mar. El Rei D. .Toão o V X. Sm conhecendo a capacidade e prendas deste Prei lado o nomeou Bispo desta Dioceze de Macao em 11 de Fevereiro de 1739; foi confirmado pel lo Papa Bene- dicta XIV em 19 do Dezembro de 1740, e sagrado em Lisboa na S. Igreja Patriachal pello E1"" S" Cardeal Patriaroba sendo asi8tentes os dons Ex""" Bispos da Ilha e de Laceden.* em 5 de Março de 1741. Fes viage de Lisboa para Macao na Fragata primeira da nova Companhia e S. Mag.* por sua Real grandeza o mandou comboiar por hunia Fragata de guerra da Coroa athé as Ilhas, por lhe evitar o perigo dos Corssarios; partimos com felix socesso no dia 14 de Março de 1742, e chegamos a 5 de Novembro do dito anno, com muy extensa viage, por falta de ventos, vendonos em perigos glandes de que Deos pello Patro- cínio de sua May Santíssima, e da S" Santa Anna, de quem com Fé nos valemos foi servido livramos, e contra monção vie- mos á salvamento, e em aggradecimento deste singular beneffi- eio mandou S. Ex.5' fazer na Sé hnnia priinoroza Cappella á nossa Santa que com singular asseio ornou, paramentou, e sagrou. De bordo em distancia de sete legoas, tendo a Nau dado fundo com vento contrario defronte da Ilha dos Ladroens, es- creveo S. Ex* ao Guardião de S. Francisco avizando-o que no seu Convento interinamente se dezejava recolher, e como che- gasse primeiro a bordo hum escalér, ou escucha dos Padres Pag. 9i da / Companhia a buscar para terra quatro Padres seus que vinlião no mesmo navio, (5) persuadido por elles S" Ex:i* se embar- cou também, e por ser já tarde quando chegarão pernoitamos todos no Collegio de São Paullo, adonde S Ex.c* foi com todo o ap- plauzo recebido, sem que a tarde e a noite fosse impedimento para o Governador desta Praça lhe ter prevenido na praia uma companhia de soldados, e o seu Palamquim que não aceitou por hir com os Padres: ao mesmo tempo se deu salva de artelharia. (õ) Entre ê*tes Padres Jesuítas estava o Padre .José Montanha que escreveu a sua obra Aparatos para a História do Bispado de Macau (manuscrito agora conser- vado na Biblioteca da Ajuda e em via de publicação nas páginas do Boletim) pe- los mesmos anos eiu que o nosso Frade Arrábida compôs a sua A tia Si nica e Japonica.
— 151 — No dia seguinte e sedo se recollieo occulto ao Convento de S. Francisco, adonde foi cumprimentado de todas as Relli- gioens, clero, Senado, e Nobreza desta Cidade. Esteve nelle per- to de tres semanas primorosamente insistido, em quanto se lhe pre para vão casas para residir; delle fes entrada solemne e jinbli - ca á sua Cathedral com magnifico acompanhamento 110 dia 17 de Novembro, e celebrou o primeiro Pontifical 110 Io Domingo de Advento, que foi a 2 de Desembro do dito anno. Vio o las- timozo estado etn que a Sé se achava com espéques ao tecto, que estava cahindo, e tendo já congregados de novo os conegos que achara disgregados, a mudou para a Mizericordia, adonde attenciozo celebrou exéquias por seu Antecessor defunto, e man- dando botar abaixo todo o tecto da Cathedral o fes de novo com madeiras novas, telhado, forro e pintura, entrando ao mesmo tempo emparamentar com aseyo a Igreja de alguns ornanen- tos novos, e reforma dos antigos, em fazer Pontifieaes que não achou, tudo com expensas suas, da Camera, e de outras pessoas principaes, cujas esinollas com zello adquirio. Tornou a restituir o Cabbido e Choro á Sé, delligeneiando com ancia por lhe no- vo fundo para subsistir. No primeiro anuo sagrou dois Bispos, hum que veio das Fillipinas, e o hera de Nueva Cárceres y Ca- marines, e o Exmo 1). Policarpo de Souza Bispo de Pekim. No 2o anno lhe fes sua Magestade a merce do dar casas próprias, ou Pallaeio para os Prellados desta Dioceze que o não tinhão. Nas vacancias dos Diocezanos forão Governadores do Bis- pado além dos IIlmo* D. Pedro Martins e D. Diogo Valente Bispos do Japão: (6) O Pe. Manoel de Aguiar, ha- O Pe. Fr. Bento de Christo, bito de S. Pedro. Franc. Cap. O Pe. Frei Miguel dos San- O Pe. Manoel Fernandes Co- tos, Agostinho. nego da Sé. (6) Parece que esta lista não vai pela ordem cronológica,
— 152 — O Pe. Frei António do Rosá- rio, Dominicano. O Po. Adriano da Cunlia. O Fe. Pedro Tavares Mexia, Licenciado. O Pe. Manoel Pereira, Tlieo- logo. O Pe. Francisco de Senna, Dominicano. O Pe. Pedro Tavares, e outros 2" vez. O Pe Luis Borges Deão de Malaca. O Pe. João Pereira Mourato. O Pe. Frei Miguel dos Anjos, Agostinho. O Pe. João Marques Moreira, Licenciado. O Pe. Manoel Pereira. O Pe. António de Moraes Sar- mento, Liceno®. O Po. Jozé da Sylva. O Revdo Oabbido por com- missão O Pe. Jozé Gonçalves Conego desta Sé. O Sor D. Diogo Valente, o Pe. Fr. António Rozario, o Pe. Licenciado Pedro Tavares Mexia, o Rdo Pe. Luis Borges, e o Pe. Fr. Miguel dos Anjos, forão os que tiverão esta incum- bência repetida./ Piíg. 92 Capitulo V Dissertação problemática, em que prevalece a parte afirmati- va, sobre o Capitulo antcpreccdente que contem o Catalogo geral de todos os IIIm" Bispos que tem vindo á China, e comprova com effeito terem sido Ilclligiosos Franciscanos os primeiros que tive- rão á sua conta toda esta Christandade. (1) Não por afectar primazias em quein teve por berço a hu- mildade, nem por querer fazer maiores aos que nascerão com a (1) Acerca da prioridade dos missionários Franciscanos na Ásia Centr.il e na China durante a idade média, veja I'. Anastásius Van deu Wyngaert, 0. F. M., Sinica Franciscana, Tomo I (Quarrachi, 1929) e Streit, Bibliotheca Missionum, Tomo IV, pp 1-101 (Aachen 1928) e os artigos do Padre Manuel Teixeira no Boletim Bclenastico da Diocese de Uacau.
153 — gloria, e creilifco de Menores, mas por mostrar que devo zellar a honra de hurna May a quem devo o ser, sem parecer Filho in- grato aos favores que me fez, já que cheguei a escrever não só no Livro 1.° Cap. 3.° desta obra, mas no Cap. deste 4.° Livro, expondo o Cathalogo de todos os Ill.n,°* Bispos que tem vindo a China, que aos Filhos de minha Kelligiao Serafica se deve a gloria de terem esta primazia, sendo Franciscanos os primeiros Missionários, e os primeiros Bispos que entrarão na China, e governarão athé o anno de 1400 toda a christandade que havia, se me faz precizo dar a rezão do meu dito, por virtude da jus- tiça destrihutiva que manda dar a cada hum o q lie seu. Não sem cauza chamei a esta dissertação, problemática, pois he, e nao lie assim o que nesta materia deixo i-eferido, e só perteudo que prevalleça a verdade, que em couzas tão antigas sempre bá escrupolos. Eu já de plano me conffeço do que tive, lendo (depois de escrever) a mais doutros Escritores, avocando para suas Relligioens sagradas esta primazia, e nao obstante ter lido, o que escrevi, na Chronica da Província de S. Paullo Li- vro 1.° Cap. 18, a No. 115 citando a Vuandingo, Cornejo, e Gu- bernatris no tom. 5.° foi 436. n.° 305 que diz Ab anno itaque circiter 1287, nt de Joanne de Monte Comino diximus, in Sina- rum Refino ad hoc usque têmpora Fidem Christi sane praedicave- runt Franciscani, reparando eu muito no anno.que aponta, e no Pontifeee reinante Nieolao 5.° que nonien, conciderando serem erradíssimas (como a experencia mostra) muitas impressoens de Hespanha, me pus pella parte negativa, se não podesse melhor verificar o facto. Coinprovouse com o sucesso o meu conceito, porq buscan- do no Catalogo dos Pontifeces Romanos o anno dito de 1287 achei que no tal tempo hera Papa Honorário IV anno 3.° de seu Pontificado, e não Nieolao V que foi assumpto ao Pontifi- cado no anno de 1447, ficando ja manifesto o erro, que se o não fosse quanto a formalidade do sucesso, ja o hera quanto ao nome de Pontifeee que mandara, e quanto ao anno em q isto so- cedeva.//
154 — p*k- 93- //Não achando em Macao as obras do nosso famozo Anna- lista Vuandingo, só siiu as chronicas do nosso doutíssimo Cor- nejo, allegados ambos pello chronista da Província de S. Paul- lo, achei notticia de varias expediçoens feitas ao Oriente por Rel- ligiosos de S. Francisco á ordem de alguns Pontifeces Romanos atim do propagar a Fé, e dilatar o Christianismo. No anno de 1232 mandou o Papa Gregorio IX Relligiozos Franciscanos ao Soldão, por Bulla expressa sua que principia Gregorivs Epis- copus & C' (a). Mandou fazer outra expedição por Pe. Jacobo Rus- sano para a Georgia parte muy remota da Azia a ensinar e pregar a Fé com outros Relligiosos, todos filhos de S. Francisco, por Bul- la, que principia Gum det omnia ah Omnipotente Majestas... Sane dilecto Filio Jocobo de Ilussano de Ordine Fratrum Minoram; (b) mandou outra para Califa de Balaac e outra para o Miramolim por Relligiozos Franciscanos, ao mesmo fim, ambas com a mes- ma Bulla, mutatis mutandis, que principia In al-iis Literis nos- tris, quas per dilectos Filios fratres de Ordine Fratrum Minoram (a); o mesmo Papa Gregorio IX mandou ahinda fazer mais duas expediçoens de Missionários Franciscanos, sinco para hi rem a Africa e ao Oriente em que entravão Fr. Leão, Fr. Hug." e Fr. Domingos, e outros sinco directamente só para o Oriente: cita Cornejo Uvandigno (d), e está em ser a parte negativa do meu sisthoma, porque não se prova individualmente de facto, só de possibili a expedição questionada. Buscando ja a fonte limpa e com opinião sem sospeita li em os Annaes Ecclesiasticos de Odorico Ray n aid o que no an- no 1246, e 4° do Pontificado de Innocencio IV, 27 do Império de Frederico II, estando o Imperador dos Tártaros preocupando por annas parte da Russia, e querendo o Papa introduzirllie a Fé de que ja antes tinhão recebido luzes, intervindo o Abbade (a) Couojo tom. 2 cap. 60. Cornejo tom. 2 cap. '>0. (c) Cornejo ibi tom 2. cap. 61. (d) Cornejo tom. 2. Cap. 60 ex Vvand. tom. i anuo 1232 a num. 38.
— 155 - Opii'011, forão mandados os Minoritas pel la Russia, o o Impera- dor os recebera sem displuencia tornando com Embaixada: (e) Meminere... Russorum Minor ita, qui gesta apud Tartarorum Impc- ratorem legatione reddierant. Spoiulano nos Anuais Eccleziasti- cos e additamentos a Baronio, anuo de 124b supra, dis = Ma- gnum Cham Tartarorum suscepissc Sacra Christianorvm scribunt Blondus, Sabelli cus, et Joannis Capino Franciscannis in libello quem de liac re exprofesso scripsit, cum Missus fuisset ab lnno- ventio Papa ad Regem in Relligione inxtruendum. (f) Neste mesmo anno de 1243 ou 4b dis Cornejo fora a ce- lebre Legacia quo o Papa Innocencio IV encomendou aos Fra- pes Menores, para o Imperador dos Tartaros, e mandara duas Embaixadas consecutivas: na 1" a Fr. Lourenço de Portugal com outros Belligiosos companheiros, todos da Ordem dos Menores, como consta da Bulla, que principia:» Dei Palris immensa Be- nignitas; na 2* a Fr. .Toão de Plano Oarpino (nota) com Rescrip- to Appostolico, e Cartas de Crença em que certeficava ao Tartaro fizera elleiçao dos tais Embaixadores como mais úteis para o pro- jecto intentado: (g) principia o Rescripto=6-wwi non Hum homines &c* e a carta — Hos inter alios praelegimus &c.\\ /No anno 1247, e 3o de Pontificado do Papa Innocencio Rag. 94 l\ dis Ray n aid o— .... Populos quamvis in extremis Orient is Oris agentes, ad Ecclesiae sinum revocare est conatus, virosque Rel- ligiosos Propagandas Fidei Studio ardentes, acdoctrina pollentes, Legationis Appostolicae Munere, trauctos ansmisit, inter quos Lau- rentio Ordinis turn Minorita Penitentiario suo, Provintiam amplis- simam in Oriente, dedi; (h) que esta Província amplíssima fosse o Catayo, adiante se conhecerá com evidencia, e se entenderá q (e) Odorec. Raynald. Anual. Eccles. sub. Inuoc. 4 verbis ibi num. 28. 29. Vinci-lie. Beloii. Spec. Hiifor. 2. 32. Cap. 39. ad. an. 1246. (f) Spondao. in Auctas ad Baron. Anual. Eccles. ad an 1246. cum Blond. Sabal. ed Joan. Copin. (g) Cornejo tom. 2. c. 64. foi. 428. Nota o nome Fr. João de Plano Carpino; (li) Annal. Eccles. Odoric. Rayn. ann. 1247. Vid. num. 30. 31.
— 156 — cottza seja; mas como esta legacia ao Oriente, nem quanto ao Papa que a mandou, nem quanto ao anno em que se expedio, nem quanto aparte do Oriente a que determinadamente veio pro- ve comformalidade a materia proposta, o mesmo Odorico Ray- naldo nos Annaes Eccleziasticos, reinando outro ontifece em diverso anuo, mostra o facto com singular evidencia. Xotem. Em o anno 1307, 3o do Pontificado do Papa Clemente V, e 24 do Império de Andrônico, em o num. 20 dis assim =r=Acc tantum conditas olirn Ecclesias... toe ri Pontifici cura fuit, vet um ad noras in Oriente condendas, sollicitudine Appostolica, incubai!!,*... uc Pontifex hoc unno Joannem de Clonic Gorvino disseminando Fidei studio incensam, qui in Tartar ia piares infidelcs ad Chris- tianas Fidem suscipiendam pellexerat, Archiepiscopum Cambah- ensem in Gatliay Regno creavit; Nonnulos alios, laboram et gloriae futuros participes, submisit, qaos Archiepiscopi Cambai icnsis cons- tituit sufraganeos, e Sacris Episcopalibus initiari jussit. Tantt viri, quibus augusta adeo tenebricoso Orienti Evangélica Lucis inferen- da Provinda data est, fuere Andreas de Perusio, Nicolaas de Banira, Gerardus, Ulricas, Sayfustorfd, Peregrinas de Castello, Guillelmus de Villa Nova Minoram Fratres Ordinis, quorum no- mina digna immortalitate, silentio praeterirc non potuimus. (i) E logo mais abaxo no seguinte num 3o dis. = I)e hac Episcoporum Creatione, celebrata a Clemente pro infirendo Tarta- ris Catayensibus Evangel io, Odor is as Foroiuliensis, ex eo Yuandin- gus in Minoram Annalibus Meninere; (1) affert Odoricus partem diplomatis Pontifitii ad Joannem de Monte Corvino Cambaliensis Ecclesie Condilorem... Joannem Archiepiscopum Omnibus Episco- pis et Praesulibus earum partiam praeficit ca ljcge at se Ro- mano Pontifici obnoxium profiteatur, atque ab eo asam Palii accipiat: turn dandi Ecclesias, Sacrandique Episcopos, Sacerdotes et Clericos authoritate instruit (m). (i) Anonl. Eccles. Odoric. Uaynald. anuo 1307. vid. num. 29. com Voandmg. tom. 3 hoc// .n. li. 0 et seg. (1) Ibidem num. 30 cum Vuandig. supra liic. (m) Idem ibi
Mais adiante no anno de 1325, e 11° do Pontificado do Papa João XXII. § 3. d is *— Proferebat se lalinis per id tempus in remotioris Orientis Oris Fides Christiana, atque in Tartaria Jmperator Missos a Horn. Pontificibvs Fpiscopos excepit, ut An- drea de Perusio Episcopi e sacro Minorum Online, svfraganei Archepiscopi Canibaliensis. aã Pernsinorum Minoram Praefectum, litera tcstantur (n).// IIDe tudo o referido pel los Annaes Eccleziasticos, em que naó está palavra que naó mereça inuyta advertência, c naó jul- guei necessário traduzi las ein Português, pois as exponho á pon- deração de Doutos, se extrálie pella parte afirmativa do Proble- ma bania concluzaó irrefragavel, e mais ampliada do que se entendia; porque se conhece com evidencia que naó só desde o de 1232 uzaraó os Pontifeees Romanos de Relligiosos Seráficos para varias expediçoens a este Oriente, más que de facto sollu- ta toda a duvida no socesso em que questionávamos, foraó Rel- ligiosos de S. Francisco os primeiros Bispos e primeiros Mis- sionários, que depois dos sirianos» propagaraó na China a Fé catholica, e governarão todo este christianismo, salva toda a equivocação dos escritores, e todo o erro das imprensas, respec- tivamente aos annos, e aos nomes dos Pontifeees, e dos Relli- giosos; porque se naó foi Xicolau V o que mandou no anno de 1287 como fica mencionado na fé do douto Chronista da Pro- víncia de S. Paullo, foi no anno de 1307, sendo Papa Clemen- te V., como nos Amines Eeclesiasticos hé constante; e se nos nomes dos que foraó Prelados com o Illmo Fr. Joaó de Monte Corvi no, os quais se acliaó escritos no Oatlialogo oecorrer algu- ma duvida, esta facilmente como accidental se dissolve, com a certeza de que foraó muitos mais os companheiros que vieraó dos quais liuns primero do que outros poderiaó soceder nas Pre- llaturas. Só fica ahinda buma duvida, que não sendo grande para os notticiosos da Historia Sinica, para os mais facilmente se (n) Ibidem: ann 1327 Vid. num 30
— 158 — dissolve, tirandose a todos o escrúpulo: esta consiste eni sempre se nomear nestas expediçoens a Tartaria, on Imperador dos Tár- taros, 011 Oatayo, e não a Cliina, ou o Imperador dos Chinas. He a rozão, e sirva aos coriosos de notticiu: consta da Historia Sinica e T.irfcarioa que há muito mais de quatro mil annos ti- verao sempre guerras os Tártaros com os Chinas, e desde o an- no 1206 athé o de 1406 em que os Chinas (por então) os lan- çarão fora se vio a China tão destruída, e embebida no Império e domínio Tartaro, que de tudo junto se fassa só menção como Império dos Tártaros, reputaiulose só como hum Pai/ sogeito a China. Marco Panllo Veneto, e Havton o escreverão, os P. P. Martino Martin, Jarrico, Athana/o Kircher, e outros o confir- marão, e athe dos mesmos Annaes Eccle/iasticos se collige, pois Odorico Raynaldo fallando na Embaixada que no an. de 1517, e 4o do Pontificado do Papa Leão X mandou a China, EIRey D. Manoel, d is assim = Decreta est alia Legatio ah Emmanuele ad Regem Sgnarum. Hg na gorro, Tartaric') Olim Vastissimi impe- rii, pars extitit: (ailega Marc. Paul. Venet, e toca no nosso cazoJ Miss ig ue et iam fnere a Riminis Pontificibus Episco pi, et Sacer dotes, a Clemente V, et, Joanne XXII, ad eas gentes Lace Evan- gélica collustr andas... quibns vero hoc tempore Moribus ex insti- tiitis proditi sinensis essent, cum novas ad eos add it us non per sep- tentrionales oras, sire Tartaricas Regiones, sed per índias evan- gelic panderetur, describunt Joan. Barr. Osor. Maffei. dc. (o)// 9f>- //Ultimamente: se alguns antigos erradamente entenderão que Oatayo hera hnma Província ou Rey no, que mediava entre a China álem do celebrado muro. e a Tartaria, chamando á sua Metropoli Oambalú. Canibalex, ou Oaiubaliense, já hoje entre todos os Escritores modernos lie asentado por opinião constante que tal reino separado nunca existio nem existe, e só lie no- me coin que os Tartaros appellidavão a China, reputando-a co- mo Reyno ou Província sogeita á sua obediência (como nova- (o) Anui. Eeclesiat. Odor. Ruynal. ad ann. 1317 hie a num. 107 cum Marc. Paul. Venet. et allis.
meute liá lium secnlo se acha), e a tal Metropoli então chama- da Oambalú oil Oainbalek lie a famosa Cidade de Pekim (p) de que foi primeiro Arcebispo Metropolitano e teve mais sete Bispos sufra- ganeos (todos da Ordem de S. Francisco) divididos pellas outras principaes Províncias, o IIlmo D. Fr. João de Monte Corvino, com o titulo proprio e exercício de Arcebispo Oambaliense, co- mo fica snperabundantemerte provado, não sendo nescessario tanto para desmentir qualquer opinião contraria a esta verdade, sem affectaçao, patente. Capitulo VI. Dos incidentes que occorerão, e motivos que houverãó para se faltar ao provimento socessivo de Prellados a esta Deoceze de Macao, do que rezul farão tão prolongadas vacancias. (1) Sendo perdição total de hum rebanho faltar lhe Pastor que o guarde e apascente, porque de outra sorte vãó perdidas e desgarradas as ovelhas, que perdas lastimosas se nãó vierãó nes- te rebanho de Christo, que nãó só constava de Catholicos Por- tuguezes, mas de muitos novos Christãos que extraliidos das tre- vas do Gentilismo pella Lus da Fé e conduzidos ao grémio da Igreja, e conhecimento do verdadeiro Peos, lhe faltava o pasto espiritual das suas Almas em o tempo que mais delle carecião, pois se achavãó sem Pay e sem Pastor que as governasse e edu- casse; sim haveria algum que como mercenário lhe asistisse, mas donde faltava o zello e amor de hum Pastor proprio e verda- deiro que poderia suceder no decurso de tanto tempo, senãó dis- trubios, perdiçoens, e de/arranjos. Varias forãó as vacancias que esta Cathredal teiu pade- cido em repetidos socessos, sendo lhe funesto anuncio o acharse esta Igreja veuva ao mesmo tempo que desposada, porque dei- (p) P. P. Nicol. Trigane. Jarsic. Atlian. Kirc. Semnied. Martin. Mart Nov. Atlas Sin. Jacob Golio do Rega. Catay. Addit. ad P. Martin Mart, et alii. (l)Sôbre êste assunto veja-se o artigo do P. Manuel Teixeira Diocese de Ma- cau. Noticia Histórica (Boi. Eel. da Diocese de Macau, Julho de. 1938, pp. 30-53).
— ICO — Xandoa seu primeiro Esposo enfaixada em o benjo de sua pri- meira infancia, mostrou terllie amor tãó pouco, que nem a che- gou a vir ver com os seus olhos, eu nãó sei se por culpa dos Pag. 97 Padrinhos, ou se o foi pella propria; o certo lie/que este Bis- pado foi creado e o primeiro Bispo foi elleito, logo íicou Bispa- do vago; isto se sabe porque a experiência o mostrou, mas nãó sabe com certeza quem teve a culpa desta falta: poderia ser ou da parte do Eleitor, ou do Eleito, porque ou ao Bispo poderia faltar a vida, ou EIRey só nas expeditions de Africa teria to- dos os seus cuidados occupados. Dós annos só, nesta primeira occaziáo esteve esta Cidade sem Prellado, podendo já ter Bispo proprio e nãó o tendo: pouco o sintio. porque nãó o conlieceo. (1) Entrando pois segundo Prellado no anuo de 1585, a dei- xou vaga no de 1597, em que a morte lhe impedio continuasse o governo, e durou 11 annos a vacancia, sendo muy poucos os que governou, porq no infelis cativeiro que no Achem padeceo esteve esta Igreja quazi 9 annos vaga sem o estar. (2) No anno de 1608 sim entrou o 3o Bispo (3) neste governo, mas oprimido de disgostos, deque reznltavâó consequências, lhe perdeo o amor, e a deixou: deixou-a com o seu retiro no anno de 1613, e de todo adimittio por renuncia no de 1623, ficando tãó estimulada do seu desamor e ingratidão, que nãó menos de sessenta e tantos annos devendo estar enxugando as lagriniaz, as chorou muyto, e mui- tas, repetidas vezes, lamentando a espiritual mina em que se achavão quazi ja de todo oprimidos os ânimos e as conciencias de homes viciosos e mal morigerados. (1) De facto, o primeiro Bispo de Macau, D. Diogo Nunes Figueiía, renun- ciou a dignidade atites do sei sagrado e entrar no governo da sua diocese. Aceitou o P.tpa Gregório XIII a renúncia, e nonteou D. Leonardo dc Stí em seu lugar, o qual chegou a Macau em 1580 ou 1581. (2) Sôbre o cativeiro de l). Leonntdo de Sá em Achem vide as notas eluei- dati as do Padre Manuel Teixeira n Memoria sobre a Diocese de Macau (pp. 339- 340 ilo Boi. Eccl. de Macau, 1938). (3) Dom Frei João da Piedade (Memoria ob. cil. p. 843)
— 161 — Aos Reis de Hespanlia que então senhorearão Portugal se imputarão com justa cauza as ruínas e perdiçoens que este Rey no exprimentou, porque nelles se observou maior cuidado de extraliir, do que tinlião em o concervar. lauto que loitugal estimulado aclamou ao Sor 1). João o I\ por seu Rev Legitimo, e principiarão as guerras de Castello, que durarão annos, cies- cerão as dificuldades, porque dezejando o novo Rey acudir com providencia ao bem temporal e espiritual de seus vassalos, que- rendo nomear Bispos ás Igrejas vagas, Castella em Roma com todo o empenho lhe obstava, e Roma que duvidava reconhecei a este novo Monarcha por Rey de Portugal, o impedia. Eu não me atrevo a dizer quem desta tão grande falta e de suas terríveis consequências teve a culpa, so sim que a não tiverão os Sereníssimos Reys de Portugal; porque instando repe- tidas vezes á Santa Sé Appostolica por Bispo e clamando com enternecidos suspiros as ovelhas que se lhe dessem Pastores, co- mo em seu nome reprezentou hum douto Escritor (a), a nada se diferia, prevalecendo as rezoens politicas, e desconve niencias at- rag. 98 fectadas de hiima Monarchia mundana, ás conveniências e utilita- des precizas desta Monarchia espiritual de Jezus Christo; e se todo Portugal padeceo tanto, estando até nelle radicada, que seria nes- te pobre Macao, e em toda a christandade da Azia, em que até se divizava vacilante, pella inconstância de muitos e novos proffe- cores, que reparando no que socedia, facilmente a abandonarão (1). Vendo pois Ellley que os Governadores postos, pellas ses Metropolitanas, a que também faltarão já Prellados não podião (a) Vid. labr. cujiis titul. Ballatus Ovinia. (1) Sftbre a questão dos bispados vagos há centenares de livros, quer impres- sos quer inéditos, e. entre os que informam melhor salienta-se o volume iinepresso em Paris em 1658 intitulado Bullidos tias Igrejas, que é a tradueção Portuguesa da obra em latim citada pelo nosso Frei Joseph. Contudo, não se deve esquecer que foi com a rend a dos bispados vagos que em grande parte se sustentava a guer- ra da Restauração contra Castela; por isso, a recusa dos Papas de os prover resul- tou em proveito de Portugal, enquanto Castela, inspirando a política pontifícia neste sentido, contribuiu para a sua própria ruiu».
— 102 — eflicasuieulo reuiedear as dezordens que socedião, tomou o expe- diente de mandar aos pés do Papa não só Enviados, mas os tres Estados do Reyno a representar lhe tão grande indigência que as Igrejas de todo Portugal, e suas conquistas todas tinhão de ispos que regessem tão numeroso Oliristianismo, as quais nes- cessitavão muito de se prover, porque estavão vagas, e S. San- tidade parecia que como Pastor universal devia acudirlhe com o remedio; porém como estava preocupado por EIRey de Hespanha, e as paixoens prevaleeião, a nada quis o Papa differir, sendo muito mal recebidas as pessoas que EIRey mandava. Nestes termos: havendo já só hum Bispo em Portugal, (1) mandou EIRey convocar junta de Teologos, para ponderarem o que em tal cazo havia de obrar; e observando os seus pareceres, mandou também consultar as Universidades mais celebres da Europa nesta materia; todos quazi uniformes rozolverão que pon- deradas as circunstancias todas que occorrião no presente facto, a nescessidade precizisssima de tantas Ovelhas sem Pastor, a gran- de mina que em Portugal e seus Domínios podia rezultar á Igre- ja, a resistência do Papa persuadido e instado por EIRey de Cas- tella, sem fundamento justo, podia S. Mag.e nomear os Bispos de que mais nescessitasse, sagrando-os o que só estava vivo. EIRey, que em tudo hera prudentíssimo, mostrando o maior respeito e attenção a S. Sé Apostólica como Pilho obediente, não quis por em execução este projecto, sem primeiro mandar bum Embaixador ao Papa, diligenciando concluir pacificamente es- tas dependências; mas o Papa negando ao Embaixador audiência, se valleo este da industria de o esperar em publico, dia em que fosse a Bazilica, adonde lhe fallou com rezolução intrépida, con- cluindo seu argumento, que se S. Santidade não queria dar Bis- Pag. 99 pos a Portugal e seus Domínios, não se offendesse, porque El//Rey seu amo ja sabia o que havia de obrar, e so quizera ter com S. Santidade esta previa attenção. O Papa se vio perplexo, conhe- (1) Dom Mannel da Cunha, Bispo de Elvas, e Capeláo-Mór dei Rei D. João IV.
— 163 — cendo o rezoluto, o vendo que o Embaixador logo delle aly se despedira, e se faria de partida para Portugal, ponderando o fac- to eiu apressa, com esta lhe mandou dizer que attemleria a su- plica do seu Soberano. (1) Hera então Pontifcce da Igreja Alexandre VII, e que- rendo obviar algum contingente absurdo que mais lhe desse que siutir, e ao mesmo tempo condescender com EIRey Catholico, cometeo á Sagrada Congregação de Propaganda que nomeasse por Vigários Apostólicos alguns Bispos in Partibus para gover- narem as Igrejas vagas da Azia e China em lugar dos ordiná- rios, conforme a destribnição que já tinha mandado se fizesse, e logo se pos este projecto em fiel execução, nomeando aos Bis- pos que ja deixo mencionados, e depois novamente EIRey por attenção ao Papa os nomeou. Já a este tempo parece que o Romano Pontifece queria moderar o seu rigor, pois se tratava ajuste de pazes entre Por- tugal e Castella, donde se esperava que cessando já todo o em- penho de EIRey de Hespanha nesta injusta dependência, se po- derião prover as Igrejas vagas de Portugal e todas suas conquis- tas com proprios Bispos e legítimos Pastores que as governas- sem ; mas entrou outro novo obstáculo por parte da Sagrada Congregação do Propaganda, respectivamente ás terras dos infiéis e gentios, querendo lhe competisse a nomeação de Bispos Mis- sionários, allegando para este effeito que o Direito do Padroado Real não fora concedido, pellos Romanos Pontifeces aos Monar- elias Portugezes com tanta extenção; pelo que entrou a prover de Vigários Apostólicos estas terras, e continuando ahinda em diversas partes, depois de durar bastantes annos este Letigio.// (I) Parece que se refle à embaixiula do célebre escritor, D. Francisco Ma- nuel de Melo, a Roma em 1663-4.
— 164 — Capitulo VII. Socessos nesta prolongada vacancia: resolluçdo no provi- mento destes Bispados, e acedo justificada, que para isto tin It d o os Begs de Portugal, fundada em diversas Bulias, com que os Ponti feces lhe tinhdo concedido o Direito de seu Beal Padroado. Muito teria o meu discurço que expender nesta materia, se não cuidasse tanto em ser concizo nesta historia, empenhan- dome não em fazer papellada e volume que enfade, sim só a escrever o precizo e mais notável em breve historia que reeree. r.-ig. 100 Em todo o tempo desta dilatada vacaucia não// faltarão eui Macao espivituaes dezasocegos, e inquietaçoens têmporas, pois estas senão podião reprimir, e aquelles não tinlião quem eficás- meute os pudesse moderar. Não fazião pouco os Portugezes eui se lembrar do ser que tinlião de catholicos, e ahiiula mais se esforsavão os seus ânimos, delligenciando com todas as suas forças se eoncervasse a Eé e Ohristianismo, sem que os Novos christaõs a abandonassem, pois os vião ser por natureza fracos e inconstantissimos; muitos retrocedião o caminho buscando a laxidão de vida, e tornando á sua idolatria se rocelhião ao azillo de seus Pagodes, outros vendose desprezados de seus parentes, e illudidos, de seus Bonzos se retiravão fugidos pella terra dentro, tornando apóstatas da Eó á sua antiga vida, pois não havia Prellado que por si, e por seus Ministros tivesse por obrigação o cuidado das suas Almaz. Bem sintião os Portugezes de Macao estes desmanchos, e com o pertexto do negocio os dezejavão obviar, continuando as feiras de Cantão, tratando com os chinas amizade, persua- dindo os quanto estava da sua parte, a huns que não dimitis- sem, e a outros que abraçassem a Rolligião cliristaã, pois hera o meio único de se salvarem, reprezentandolhc que pois entre as duas naçoens Sinica e Portugeza havia já tanta amizade que tinha esfa recebido em Macao por molheres e cazado com mui-
— 165 — tas do suas filhas, o deixadas estas suas idolatrias e erradas sei- tas, vivendo no pressente tempo como fieis Christans, elles obran- do como homes do juizo, devião com maior rezão fazer o mes- mo, porque Deos nunca lhe havia de faltar. Nos coraçoens de alguns sim fazião impressão estas pa- lavras, mas nenhuma em outros, porque os Mandarins os per- seguião pello que conhecendose os tais Portugezes homes illite- ratos sem notticia de Letras Divinas nem de humanas, implo- ra vão o auxilio dos 1\ P. Missionários que não se descuidavão, e conduzião com exponças próprias a (}ue sempre muitos mais Missionários concorressem. Socederão em todo este tempo varias perseguiçoens e distúrbios, oecazionados em parte por algum zello imprudente, de sorte que se transmutava em veneno a mesma composição do remédio; outras vezes houve rigoroso pro- cedimento dos Mandarins contra os novos Ohristaõs que desco- brião, e outras contra os mesmos Portugezes, o que tudo entre- afliçoens e sustos; só com muita prata se compunha, ou se acabava.// / Neste meio tempo se forão na Europa decidindo e com Pag. 101 pondo os pleitos que tinhão occorido não só entre Castella, ma entre a Guria Romana e esta coroa, postas as couzas todas em boa harmonia, reinando já o Sor D. Pedro 2o polios annos de 1690, diferindo rezolutivãmente o Papa Alexandre VII que de Jure et facto competisse aos Keys de Portugal o referido Direi- to do seu Real Padroado, concedido pellos Ponti feces que adi- ante veremos cx meritis fundationis, et dotation is, para o que cometeo a El Rey esta demarcação de terreno, com que ficasse dividida em tres partes a Ohristandade da China, áqnal se no- mearião tres Prellados hum em Macao, outro em Pekim, outro em Nankim, de sorte que cada hum soubesse athè donde se ex- tendia sua Episcopal jurisdição. Por esta Appostolica Commissão foi destribuido ao Bis- pado de Pekim as Províncias de Pecheli, Xantum, Leaotum, Honan, Xansi, Xensi, e Suchuen; Ao de Nankim as Províncias de Hiamnan, Ohexiam, okien, Kiamsi, Huquam, Gueiclieu e
— 1(5(5 — Yuiiaii; ao
do que muitos Pontifeees da Igreja llie tinlião generosamente concedido, os quais por notticia aos Coriosos, e para que reco- nlieção o quanto deve a Nação Portugeza á S. Igreja Romana aqui exponho. — Nicolao Y a EIRoi I). Affonço no Brove=/>»»t divertias nobis licet immeritis & Pat. Roma 9 Jan. 1454. Sixto IV, na Bulla=Aeterni Regis Clementin, a EIRey D. Affonço e ao Infante D. Henrique Seu Filho, mencionando as Bulias do Nicolau V, etc Calixto IX, como também outras de Mar- tinho V, e de Eugénio IV, sua data em Julho de 1481 con- firmado tudo por Leão X lio Breve Prascclet deration is a EIRey D. Manoel a 1514. Leão X, a EIRey P. Manoel mencionando o zello de EIRey P. João 1° no Breve = Providian Universalis Pcclesia Pastorem anno de 1514. Leão X a EIRey P. Manoel, no \\vc\e—()ratoris Majestatis tua an. 1514. Leão X ao mesmo Rey P. Manoel no Breve - Saepe egimus jam gratine Omnipotcnti Deo tf: Pat. Roma anno. 1516. Leão X em outro Breve mandado antes a EIRey P. Affonço e ao Infante P. Duarte, que principia = Dum Fidei Constan- tiam. an. 1514 Paullo HL a Elltei P. João 3o no Breve-Aequum reputamos Pat. Roma anno 1534. Paullo III, a EIRey P. João 3o no Breve= Romani Pontificis cir- eunspectio, expressam!olhe o Pireito que lhe deu—a Capite de Bona Esperança, usque ad Indium inclusive, et ah índia usque ad Chinum, cum Omnibus Loeis, in terra firma, quam Insulis, et terris repertis, et reperiendis ubi plurcs Christiani ad Fidem Orthodoxain conversi &. Pat. Roma 8 Julii. an. 1539. Julio III, a EIRey P. João 3" no Breve~A7o» dnbitamus— om urde à propagação da Fé e Pireito das Regaliaz. Pat. Rom. an. 1550. Julio III. a EIRey P. Joao 3° no Breve= Protelara Charissimi in Christo Filli Nostri Joannis. Pat. Rom. an 1551
168 — Pio IV. a El Key I). Sebastião, no Brevo= Litems tuas, av. 1563. Pio IV. a El Rey 1>. Sebastião, no Breve =Romanum decet Pon- ti/icem, que muito se deve notar pel lo que contem. Dat. Rom. 1563.// fug. 102 II Pio Y. a ElRev D. Sebastião, no Brcvs= Cum ex Venerabilis Patris.. .earuni Na tio num quotiescumque flvangelii praedica- tioni restitcrint Subigciidarum Jus Concession est. Dat. Rom. an. 1569. Gregorio XIII, a EIRey D. Sebastião, no Breve— Dion intra Mentis Nostrae arcana & revalidando o Jus do Padroado Real= mera liberalitate ac ex certa Scientia Jus pratdietum revalida mus. an. 1574. Sixto Y. a EIRey D. Sebastião, no Breve= Super Specula Mi- litant-is JFJcclesiae, que se deve notar, pel lo que incluo. Dat. Rom. an. 1575 Gregorio XIII Viva Voeis Oráculo, que se aelia no Bullario impresso em Roma no anno de 1606, tinha feito patente no dia 11 de Outubro de 1577 que o Jus Patronatus Re- gain Portugal iae se extend ia a ser — Dominei, Conquesta, Comertii, et Narigationiz. Eiii liuina Constituição precedente do mesmo Papa d is = Im- pcriiun Chinense et Japonivum cum terris ex Insulis adjaccu- tibus, Subjccta existerc Conquesta Portugália. Eiii outro Breve do mesmo Pontifece ao Sor Cardeal Rey D. Henrique, que principia =* Simoni Sacerdoiii Curam com da- ta de 13 de Dezembro de 1577 explica bem o Direito con- cedido aos Reys de Portugal em suas Conquistas, por au- thor idade Appostoliea. Ein liuiua Constituição logo seguinte, tirando todas as duvidas, foliando do Reyno do Congo, que nunca foi de Portugal, dis assim = Scbastiaui Regis, et pro tempore existentium Re- gion Portugaliae Conquestae, et Ditioni Appostoliea autho- ritafe Concession, adliuc tamen (Nota) a (jenlili Rege detention; pel lo que não só os Reynes tomados a Gentios por torça de
— 169 — annas so entendem Conquistas de Portugal, como alguns quo vieriió, supondo só nestas o Direito do Padroado Renl, mas também os Impérios, Rey nos e Ilhas descobertas pellos Portugezes, como são China, e Japãó em por concessoens Pontifícias tem o mesmo Direito de Padroado Ileal. : ! i O que tudo assim sabido e assentado, sem perjuizo do 3o, e já ultimamente com beneplácito Real, tem mandado a Sa- grada Congregação álem dos Bispos Vigários Apostólicos nãó Bispos, para donde nãó há Pooeezanos: estes forãó — = O R.rao D. João Danato Merratalce V. A. = O R.01" D. Phi liberto le Blanc. V. Ap. = O Rm° D. João Basset. Vig. Ap = O R.m' D. Arclio de Leone. Vig. Ap. — O R.rao D. Fr. João Bapt. Castro Novo V. A. O R.mo D. Fr. Pedro de Al- cala V. A. = O R. D. Ludovico Antonio 1 <• ■ Aprani Pro V. A. = D R- D Francisco le Brot- ton P. V. A. = O R. D. João Danato. Pro i > Vig. Ap. = O R. D. João Basset Pro • » '. j v ■' ; Vig. Ap. =-= O R. Fr. Antonio de Cas- i- ; trocaro P. V. >>• = O R. D. Francisco Mouti- gni Pro V. Ap.V CAP. VIII. Catalogo dos Missionários gue tem rindo a Macao para entrar na China, numerando também os que forão para o Japão da Compa- nhia de Jezus. Annos em que vierão os primeiros 1556 1 /■ Da Ordem Dominicana (1) 1. O P. Fr. Gaspar da Cruz, (2) Portuges Pág. 104 (1) A pesar-de não estarem estas listas absolutamente completas, julgamos que são «le grande valor por mencionarem tantos uomes e porque dão os missionários e padres de tôdas as ordem religiosas que vieram para Macau e que daqui passa- ram à China. (2) Êste é o autor do conhecido livro Traclado em que se coutam muito por extenso as cousas da China, publicado cm Évora, em 1569-70.
2. O P. Fr. Bertholameu Lopes 1587 3. O P. Fr. João de Castro 1590 4. O P. Fr. Miguel do Benavides 1590 5. O P. Fr. Diogo Duarte. 6. O P. Fr Luis Gandullo. 7. O P. Fr. Tliomás Mayor 8. O P. Fr. Bartliolomeu Martins. 9. O P. Fr. Tliomás Serra. 10. O P. Fr. Angelo Coqui, Ital. 11. O P. Fr. João Baptista Morales. 12. O P. Fr. Francisco Diaz. 13. O P. Fr. Pedro de Cbaves. 14. O P. Fr. Antonio de la Torre 15. O P. Fr. João Garcia. 16. O P. Fr. Francisco Cappillas 17. O P. Fr. Manoel Rodrigues. 18. O P. Fr. Themotheo Botigli, Ital. 19. O P. Fr. Francisco Varro. 20. O P. Fr. Raymundo do Valle. 21. O P. Fr. Domingos Coronado. 22. O P. Fr. Diogo Rodrigues. 23. O P. Fr. João Pollanco. 24. O P* Fr. Fellipe Leonardo. 25. O P. Fr. Domingos Sarpotro. 26. O P. Fr. Victorio Rissio, Ital. 27. O P. Fr. Jacobo Berga. 28. O P. Fr. Domingos Navarrete. (3) 29. O P. Fr. José de Madrid. 30. O P. Fr. Pedro de S. Domingos. 31. O P. Fr. Francisco Lnxan. 32. O P. Fr. Arcádio dei Rosario. (3) Autor dos célebres Tratados Históricos, Políticos, Ethicos y Religiosos de la Monarchia de China (Madrid, 1676), quo tão importante papel exerceram na ques- tão dos Ritos Chineses e controvérsias entre os missionários Jesuítas e Dominicanos.
— 171 33. O P. F 34. O P. F 35. O P. F 36. O P. F 37. O P. F 38. O P. F 39. O P. F 40. O P. F 41. O P. F 42. O P. F 43. O P. F 44. O P. F 45. O P. F 46. O P. F 47. O P. F 44. O P. F 48 O P. F 49. O F. F 50. O F. F 51. O F. F 52. OF F 53. O P F 54. O P. F 55. O P. F 56. O P. F 57. O F. F 58. O F. F 59. O P. F 60. O P. F 61. O F. F 62. O F. F 63. O P. F 64. O P. F Amlve Lopez. Fedro Alcaron. Salvador do S. Tboináz. Manoel Trigueiros. Magi no Ventalot. Tlioinás Oroquer. João Romero. Francisco Cantero. Francisco Gonzales .1 oão Carvallero Antonio Diaz. Fedro Munos. João Astudillio. Manoel de Escobedo. Francisco Cavallero. Miguel de Arriba. Martin dei Royo Paul lo Matlieuz. Brás da Serra. Onofre Vaz. Pedro Barreda. Francisco Serrano. Manoel Tenorio. Matheus de Villafanba. João Alcobar. Fraucisco Soares. João da Cruz. Luis Espinhosa. Francisco Villa. José Noval. Francisco Diaz. João Maldonado. Manoel Rijo.
172 — Pag. 105 1. O 2. O 3. O 4. O 5. O íi. O 7. O 8. O 9. O 10. O 11. O 12. O 13. O 14. O 15. O 16. O 17. O 18. O 19. O 20. O 21. O 22. O 23. O 24. O 25. O 26 O P. P P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F Da Ordem de S. Agostinho Martinho (la Htírada. Hyeronimo Marin. João Ribera. Miguel ltubio Francisco Passino. João de Aguilar. José Gil.// José Gomes, Hesp. Thomas Ortis, Hesp. João Nunes, Hesp. João de S. Agostinho, Hesp. Niculão Cima, Ital. João Barruelo, HeSp. Francisco Fontaiíilha, Hesp. Fulgêncio Rubio, Heap. Ignacio de S. Thereza, Manil. Patricio Sans, Hesp. Guilhelmo Bonjur, Frances. José Ferrer, Hesp. Gabriel Pallacios, Hésp. Francisco de S. Patrício, Portug. Agostinho Molinch. Hesp. ....Sagarminagas, Hesp. Manoel Guttierres, Mexie. Simão Texedo, Hesp. Thomas de Torres, Hésp. Da Ordem Seraphica 1. O P. Fr. Pedro de Alfaro, He.Vp. 2. O P. Fr. João Pissarro, Ita 1. 3. O P. Fr. Sebastião de Baeza, Hesp. 4. O P. Fr. Agostinho Tordecillas, Hesp. 5. O P. Fr. Hyeronimo de Burgos, Hesp. Ânuos em que vierão os primeiros 1575 1575 1680 1683 A mios eVn que vierfio i.s primeii os 1579 1579 1579 1579 1581
— 178 — 0. O 7. O 8. O 9. O 10. O 11. O 12. O 13. O 14. O 15. O 16. O 17. O 18. O 19. O 20. O 21. O 22. O 23. O 24. O 25. O 26. O 27. O 28. O 29. O 30. O 31. O 32. O 33. O 34. O 35. O 36. O 37. O 38. O 39. O 40. O P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F Martinho Ignacio, Hesp. Hyeronimo de Aguilar, Hesp. Antonio de Villanova, Hesp. Christovão Gomes, Hesp. Antonio do S. Maria, Hesp. Gaspar de Adenda, Hesp. Francisco de Escalona, Hesp. João de S. Marcos, Hesp. Onofre de Jezus, Hesp. Luis Urquizo, Hesp. Boaventura Ybanos, Hesp. José de Cazanova, Hesp. Oliristovão do S. Diogo, Heap Agostinho de S. Paschosil, Hesp. Jacobo Rarin, Hesp Francisco da Conceição Hesp. João Marti, Hesp. Bras Ga rd ia, Hesp. Miguel Flores, Hesp. Pedro de la Pinuela, Mexican. Miguel Peres, Mexican. Lucas Este van, Hesp. Jaochim Risson, Hesp. João de 8. Fruetuso, Hesp. Manoel de S. João Bapt., Hesp. Agostinho Ricoio, Hesp. José Navarro, Hesp. José Osea, Hesp. Bernardino das Chagas, Manil. Lucas Thomas, Hesp. Gregorio Ybafies, Hesp. Miguel Fernandes, Hesp. Diogo de S. Rosa, Hesp. Martinho Aleman, Hesp. Miguel Rossa, Hesp.
— 174 — 41. O P. Pr. Francisco de Oonsuagra, Hesp. 42. O P. Fr. José Martines, Hesp. 43 O P. Fr. João Fernandes, Hesp. 44. O P. Fr. Francisco de S. José, Hesp. 45. O P. Fr. Antonio da Conceição, Hesp. 46. O P. Fr. Francisco Langasco, Ital. 47. O P. Fr. Nicolao de S. José, Hesp. 48. O P. Fr. Lourenço da Assumpção, Hesp. 49. O P. Fr. Francisco de Vaide Penas, Hesp. 50. O P. Fr. Roque da Soledade, Hesp. 51. O P. Fr. José Bornay, Hesp. 52. O P. Fr. João Baptista Ortuíio, Hesp. 53. O P. Fr. João de Albarete, Hesp. 54 O P. Fr. Miguel do Torrejon, Hesp. 55. O P. Fr João de Villa Castim Hesp. 56. O P. Fr. Diogo de S. José Hesp. 57. O P. Fr João de Villena, Hesp. 58. O P. Fr. Manoel das Chagas, Portug. 59. O P. Fr. João Bapt. do Esp. S., Portug. 60. O P. Fr. Antonio de S. Martinho. Portug. 61. O P. Fr. Thomas de S. Maria, Hesp. 62. O P. Fr. Francisco dos Santos., Hesp.// Pag. 106 63. O P. Fr. Antonio de Almaden, Hesp. 64. O P. Fr. José Sencio, Hesp. 65. O P. Fr. Fernando de S Ant io Hesp. 66. O P. Fr. Silvestre Marco, Hesp. 67. O P. Fr. João da Purificação, de Ceilão. 68. O P. Fr. Alexandre Anguiano, Hesp. 69. O P. Fr. João (Jarrobilla, Hesp. 70. O P. Fr. Francisco da Conceição, Hesp.
175 — Relligiosos (la mesma Ordem Seraphica, que diem (los III""" Bispos já expostos, e (los mais R. R. Missionários asima ditos forão expedidos pella Sagrada Congregação de Propaganda. 1. O 2. O 3. O 4. O 5 O 6. O 7. O 8. O 9. O 10. O 11. O 12. O 13. O 14. O 15. o 16. O 17 O 18. O 19. O 20. O 21. O 22 O 23 O 24. O 25. <) 26. O 27 O Os P. Pissar P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F P. F o Sup Plácido de Valcio, Polonês. Boaventura de Koina, Ital. Antonio de Trossolone, Ital. Estevão de Illiceto, Ital. João Baptista de Illiceto, Ital. Gabriel de S. João, Ital. Carlos Castorano, Ital. Vincencio Royate, Ital. Antonio Ripabottoni, Ital. João Bapt. Serravalle, Ital Gabriel de Taurino, Ital. Angelo a Burgo S. Siri, Ital. Seraphino de Borja, Ital. Roque Vonsidler, Bobemo. Tiburcio de Milão, Ital. Simpliciano de Cauegrate, Ital. João Antonio de Ohimpoli, Ital. Bernardo Maria ab Scala, Ital. Egidio de Snxelo, Ital. Aleixo de Roina, Ital. Seraphino Rumpler, Bobemo. Herculano Sebaider, Bobemo. João Baptista a Lucera, Ital. Urbano de Cancio, Bobemo. João Baptista de Bormis, Ital. Eduardo de Oolate, Ital. João Bapt. de Serravalle, Ital. Francisco de Langasco, e Fr. João pertencem a este numero. Pello vnrio decurso dos IIII l)OS &C
— 176 — Da Ordem Dominicana álem dou III""" Bispos Supra, vierão Missio- nários pela Sagrada Congregação os seguintas= 1. O P. Fr. José Maria Maccion, Florentino. 2. O P. Fr. Alberto Seifoni. Prenest. Da Ordem Augusliniana vierão Missionários pel la mesma Sagrada Con- gregação os Seguintes. 1. O P. Fr. Nicolao Cima, Jtal. 2. O P. Fr. Guilhotino Bonjour, Frances. Dos descalços de S Agostinho. 1. O P. Fr. João (lo 8 Agostinho, Ital. 2. O P. Fr. João Francisco do S. Jorge Ital. 3. O P. Fr. João Francisco de S. José, Ital. I. O P. Fr. Hilário do Jesus, Ital. 5. O P. Fr. Roberto Barros, Ital. 6. O P. Fr. Hyeronimo do 8. Fellipe Neri, Ital. 7. O P. Fr. Lourenço Maria da Conceição, Ital. 8. O P. Fr. Agostinho Maria de S. Roberto, Tunkin. í). O P. Fr. Seraphiuo de S. João Bapt., Ital. 10. O P. Fr. Sigisinundo do S. Nicolao, Ital. II. O P. Fr. Adrião do S. Tecla, Ital. 12. O P. Fr. Domingos Maria de S. Martinho, Ital. Alem do 111"" Bispo Supra.
Gap. IX. Pag. Continua o Catalogo dos Relligiosos da Sagrada Companhia de Jesus que por este porto e porta de Macao entrarão Missionários Evan- gélicos, para propagar a Fé neste Império da China, e daqui se dividi- rão vários para outras Missoens, como de Tumkim, Conchinchina, &'etc. e alguns ficarão nestes dons Collegios de Macao; sem mencionar nem desta nem das mais Relligioens os Irmãos Leigos vindos para os servir. (1) Amios cm que vierão os primeiros 1. O P. Miguel Rogério, Ital. 1581 2. O P. Francisco Pasio, Ital. 1582 3. O P, Matheus Riccio, Ital. (2) 1583 4. O P. Duarte de Sande, Portuges. 1585 5. O P. Francisco Pedro, Ital. 6. O P. Lazaro Oataneo, Ital. 7. O P. João Soeiro, Portug. 8. O P. Niculao Longobardo 9. O P. João da Rocha, Portug. 10. O P. Jacob Pantojo, Hesp. 11. O P. Manoel Dias, Senior, Portug. 12. O P. Barthelomeo Tudeschiui, Ital. 13. O P. Pedro Ribeiro, Portug. 14. O P. Gaspar Ferreira, Portug. 15. O P. Alfonço Vagnoni, Ital. 16. O P. Feliciano da Silva, Portug. (1) Muitos senão todos êstes missionários Jesuítas, enumeiados por Frei Jo- seph de Jesus Maria, vêm biografados lia conhecida obra do Padre Louis Ptister, S. J., Notices Biog raphiques et Bibliographiques sur les Jesiiites de Vaneienne mtsston tlc Cliine (1552-1773), 2 tomos, Shanghai, 1932-4, para onde remetemos o leitor. (2) Sobre a vinda dos primeiros Padres Jesuítas e fundação da missão de Shiu- hing veja os trabalhos recentes do Padre Henri Bernard, S. J., Aux Portes de la Chine (Shrughii, 1933) e Matthieu Ricci et la Société Chinoise de son temps (Tien- tsin, 1937),
— 178 — 17. O P. Hyeroniino Rodrigues. Povtug. 18. O P. Sebastião Durrio. Ital. 19. O P. Manoel Dias, Junior, Portug. 20. O P. Nicolao Trigaucio, Belga. 21. O P. Julio Aloni, Ital. 22. O P. Pedro Spira, German. 23. O P. Francisco Saiubragio, Napol. 24. O P. Alvaro Seminedo, (3) Portug. 25. O P. Francisco Furtado, Portug. 26. O P. João Adamo, (4) German. 27. O P. João Vreman, German. 28. O P. João Terencio, German. 29. O P. Rodrigo de Figueiredo, Portug. 30. O P. João Fernandes, Portug. 31. O P. Jacob Rlió, Ital. 32. O P. André Rodomina, Polon. 33. O P. Martinho Burgense, Belga. 34. O P. Simão da Cunha, Portug. 35. O P. Estevão Fáber, FVances. 36. O P. Pedro Canevari, Ital. 37. O P. Bento de Mattos, Portug. 38. O P. Miguel Trigencio, Belga. 39. O P. Tranquillo Grasseti, Ital. 40. O P. Agostinho Tudeschini, Ital. 41. O P. Ignacio da Costa, Portug. 42. O P. Antonio de Gouvea, (5) Portug. (3) Álvaro Semedo (1585-1658J, natural de Nizea, e autor de vários trabalhos sôbre a China que tivernui circulação eu» diversas edições e línguas. (4) O célebre Padre João Adão Schall voa Bell (1591-1666), natural de Kõln, e mm das maiores glórias da Companhia de Jesus na China. É pouco sabido que por ocasião do ataque do» holandeses a Macau, em 24 de Junho de 1622, o Padre Schall tomou parte activa no combate, chegando até a aprisionar por suas próprias mãos um dos oficiais holandeses. (5) António de Gouvea (1592-1677) natural de Casale, e autor de numero- sos trabalhos, incluindo a Iuiioceníiu Ocírúr, impresso em latiiu com caracteres síni- cos, em Cantão, em 1671.
43. O P. Ignacio Lobo, Portug. 44. O P. João Monteiro, Portug. 45. O P. Hieronimo Gravina, Ital. 46. O P. Ludovico Buglio, Ital. 47. O P. Francisco Bran cato, Ital. 18. O P. Miguel Yalta, German. 49. O P. Nieulao Viva, German. 50 O P. Francisco Ferrari, Ital. 51. O P. Gabriel de Magalhaens, (6) Portug. 52. O P. Estevão de Almeyda. Portug. 63. O P. Martino Martines, Ital. 54. O P. Nicolao Smogolenski, Polon. 55. O P. Andre Xavier Oofler, German. 56. O P. Miguel Boim, (7) Polon. 57. O P. João Vallat, Frances. 58. O P. Felliciano Pacheco, Portug. 59. O P. Manoel Jorge, Portug. 60. O P. Math ias da Maya, (8) Portug. 61. O P. João Baptista Brando, Ital. 62. O P. Diogo lo Faure, Frances. 63. O P. Adriano Grellon, Franc. 64. O P. Cláudio Motel, Franc. 65. O P. Diogo Motel, Franc. 66. O P. Huberto Augari, Franc. 67. O P. João Forget, Franc. 68. O P. Ludovico Gobbe, Franc. 69. O P. Felleciano da Sylva, Portug. (6) Gabriel de Magalhães (1609-1677), natural de Pedrógão, e autor duma obra »i«. chamada Dose excellencias da China, que, publicada em francês com o título de Rouvelle Relation de la Chine (Paris, 1688), teve uma grande voga na Europa. (7) Sôbre este Padre polaco veja a obra recente de Robert Chabrié Michel Boym, Jésuite Polonai», et la fin des Ming en Chine, (Paris, 1933) e o artigo a teu respeito pelo professor P. Pelliot em T"oung Pao, Tomo XXX, pp 95-151. (8) Veja o meu artigo A Cidade de Macau e a queda da Dinastia Ming (1644- 1652), Macau, 1938, p. 4.
— 180 — 70 O P. André Ferrão, Portug. 71. O P. Bernárdo Ditei, German 72. O P. Alberto Dorville, Belga. 73. O P. João Domingos Gambiani, Ital. 71. O P. Prospero Introcetta, Ital.// Pag. 108 75. O P. Francisco Rogemonte, (9) Belga 76. O P. Estanislao Torrente, Ital. 77. O P. Fernando Vorbiest, Belga. 78. O P. Felippe Oouplèt, Belga. 79. O P. André Lnbelli, Ital. 80. O P. João Grueber, German 81. O P. Oliristiano Herdricb, German. 82. O P. Germano Macret, Frances. 83. O P. José de Magalhaens, Portug. 81. O P. Diogo da Rocha, Portug. 85. O P. Diogo de Soutto Mayor, Portug. 86. O P. Aleixo Coelho, Portug. 87. O P. Carolo de Rocca, Ital. 88. O P. Francisco da Veiga, Portug. 89. O P. Francisco Grimaldi on Felipe, Ital. 90. O P. Francisco Xavier Fellippe, Ital. 91. O P. Manoel Pereira, Portug. 92. O P. Thomas Pereira, Portug. 93. O P. Simão Rodrigues, Portug. 91. O P. Antonio Possaterri, Ital. 95. O P. João de Trigoien, Hesp. 96. O P. Francisco Gayoso, Hesp. 97. O P. Ignacio de Montes, Hesp. 98. O P. Alexandre C (10) 99. O P. José Monteiro, Portug. (9) Autor da Relaçam do Estado Politico e Espiritual do Império da China pelos annos de 1659 até o de 1666, (Lisboa, 1672), 4'". (10) Assim está no manuscrito, mas trata-se, sem dúvida, de Monsenhor Allessandro Cicer: (1637-1704). Vide Pfister, Notices, I, pp 391-2.
181 — 100. O P. Manoel Laurifice, Ital. 101. O P. Ludovico Azzi, Ital. 102. O P. Joachim Galmes, German. 103. O P. José Soares, Portug. 104. O P. Manoel Mendes, Portug. 105. O P. Antonio Thomas, Belga. 106. O P. José Raymundo Arjo, Ital. 107. O P. João Antonio Arnedo, Heap. 108. O P. Diogo Vidal, Portug. 109. O P. Francisco Noel, Frances. 110. O P. João Fontaney, Frances. 111. O P. João Francisco Gervillon, Franc. 112. O P. Ludovico le Oonite, Frances. 113. O P. Joachim Bouvet, Frances 114. O P. Pedro Vanliamme, Belga 115. O P. Manoel Ozorio, Portug. 1L6. O P. Francisco Simoens, Portug. 117. O P. Francisco Pinto, Portug. 118. O P. Manoel Rodrigues, Portug. 119. O P. Miguel de Amaral, Portug. 120. O P. Francisco da Silva, Portug. 121. O P. Francisco Nogueira, Portug. 122. O P. Izidoro Lucei, Ital. 123. O P. Fellippo Felix Oarrossio, Ital. 124. O P. Francisco Capacci, Ital. 125. O P. Pedro da Gosta, Portug. 126. O P. Kvliano Stumph, German. 127. O P. João Paullo Gozzani, Ital. 128. O P. Antonio Faglia, Ital. 129. O P. Lucas Adorno, Ital. 130. O P. Simão João Bayard, Franc. 131. O P. Cruillelmo Vanderve, Belga. 132. O P. Carolo Ammiani, Ital. 133. O P. Antonio Francisco José, Ital. 134. O P. Antonio da Sylva, Portug.
— 182 135. O P. J osio Baptista, Portug. 136. O P. Luis de França, Portug. 137. O P. Carlos Rezende, Portug. 138. O P. Mathias Correa, Portug. 139. O P. Leonardo Teixeira, Portug. 140. O P. Manoel da Maya, Port. 141. O P. André Carneiro, Portug. 142. O P. João Pereira, Portug. 143. O P. Antonio de Barros, Port. 144. O P. Antonio da Costa, Portug, 145. O P. Manoel da Matta, Portug. 146. O P. João Laureato, I tal, 147. O P. Gaspar Castnen, Germ. 148. O P. Agostinho Baralli, I tal. 149. O P. José Pereira, Portug. 150. O P. João Baptista Regir, Franc. 151. O P. Carlos de Brossia, Franc. 152. O P. Ludovico Peruou, Frances. 153. O P. Gabriel Baborier, Frances. 154. O P. Carolo Doiro, Frances. 155. O P. João Domèngues, Franc. 156. O P. José de Premare, Frances. 157. O P. Philiberto Genex, Frsmces,// Pag. 109 158. O P. Domingos Parreuiin, Frances. 159. O P. Antonio de Beauvoiller, Franc. 160. O P. João Francisco Pellison, Franc. 161. O P. Francisco Xaverio Dentrecolles, Franc. 162. O P. João Pouquet, Frances. 163. O P. João de Ssi, Portuges. 164. O P. Manoel Marques, Portuges. 165. O P. Domingos de Magalhaens, Port. 166. O P. João Cardoso, Portuges. 167. O P. João Duarte, Portuges. 168. O P. Antonio Dantas, Portug. 169. O P. José de Almeida, Portug.
183 — 170. O P. João Bapt. de Chambevil, Franc. 171. O P. João Gollet, Frances 172. O P. Domingos de Brito, Poring. 173. O P. G-uillelino Mellon, Franc. 174. O P. João Francisco Xoellas, Franc. 175. O P. Estevão Guill. le Oouteulx, Franc. 176. O P. Pedro do Goville, Frances. 177. O P. Antonio Ohomel, Frances. 178. O P. Emeric do Ohavagnac, Franc. 179. O P. Pedro Vinconto do Tartre Lotaring. 180. O P. Ludovico Povquet, Frances. 181. O P. Juliy.no Plácido Hervieu, Franc. 182. O P. Pedro Jartoux, Frances. 183. O P. Hyeronimo Franchi, Ital. 184. O P. Cilicio Oontancin, Frances. 185. O P. José Anna Maria de Maillu, Franc. 186. O P. Cláudio Jacquemin, Franc, 187. O P. João Festand, Frances. 188. O P. Manoel (lo Souza, Portug. 189. O P. Antonio Ferreira, Portug. 190. O P. Marcos da Silveira, Port. 191. O P. Manoel Telles, Portug. 192. O P. José Simoons, Portuges. 193. O P. Emberto Xaverio Fideli, Germano. 194. O P. Antonio de Magalhaens, Port. 195. O P. Leopoldo Liescataiva, Germano. 196. O P. Romano Hinderer, Germano 197. O P. Ludovico Gonzaga, Ital. 198. O P. João Bauu Koski, Polono. 199. O P. João Mouras, Portuges. 200. O P. Francisco Cardoso, Portuges. 201. O P. Francisco Tellesk, Germano. 202. O P. Manoel Ribeiro, Portug. 203. O P. José de Quesno, Belga. 204. O P. Phellippo Cazier, Belga.
— 184 — '205. O P. João Xaxier Armado, Frances. 200. O P. Alexandre Catales, Frances. 207. O P. João Baborier, Frances. 208. O P. Mauricio du Bandorv, Franc. 209. O P. José Labbe, Frances. 210. O P. Carolo Havicek, Bohemo. '211. O P. Ignacio Kegler, Bavaro. 212. O P. Nicnlao Giampriamo, Napolit. 213. O P. Francisco da Costa, Portages. 214. O P. André Pereira, Portages. 215. O P. Caetano Lopes, Portnges. 216. O P. Pedro de Figueiredo, Portuges. . 217. O P. Phillippo Simonelli, Italiano. 218. O P. Balthezar Miller, Germano. 219. O P. Manoel Pinto, Portuges. 220. O P. Francisco de Oordes, Portnges. 221. O P. Antonio Xavier Morabito, Ceziliano. 222. O P. Luis de Caldas, Portuges. 223. O P. Carolo Jacques. Frances. 224. O P. Antonio Gobil, Frances. 225. O P. Antonio de Mello, Povtug. 226. O P. Francisco Alberto, Portug. 227. O P. Domingos Pinheiro. '228. O P. Paulo de Mesquita. '229. O P. José de Souza. 230. O P. Antonio Qeixoto. 231. O P. Martinho Correa. '232. O P. Alexandre de Charme, Frances. 233. O P. Valentino Ohalliex, Frances. 234. O P. Policarp ja dito 111.°* B. 235. O P. José de Siqueira, Port. 236. O P. João Silvano Nouvial, Frances. 237. O P. João Baptista Pattalle, Franc. 238. O P. João Zeu, China Sacerd. 239. O P. Paullo Lé, Sacerd. China.
— 185 — 240. O P. João Estevão, Sacevd. China. 241. O P. Agostinho de Barros, Port. 242. O P. Gabriel Bonssel, Frances./ Pllg. ,,<> 243. O P. Pedro Toaro, Frances. 244. O P. Jacob Antonini Ttal. 245.- O P. Felix da Rocha, Povtuges. 246. O P. Manoel José, Portuges. 247. O P. Ludovico José le Febure, Frances 248. O P. Ludovico José des Roberts, Frances 249. O P. Veríssimo de Carvalho, Porluges. 250. O P. Antonio José Henriques. Portug. 251. O P. Ludovico du Gard., Frances. 522. O P. Antonio Pogeisl, Germano. 253. O P. Agostinho Hallersteiu, Austríaco. 254. O P. Horiano Balor, Bohemo. 255. O I*. Vveuceslao Paleirek, Bohemo. 256 O P. João Grubes, Bohemo. 257. O P. João Sierbexth, Bohemo. 258 O P Godfrido Lambeekoven, Austriae. 259 O P. Oraneiso Lupin, Frances. 260. O P. José Hoppe, Germano. 261. O P. José Raisser, Germano. 262. O P. Mer ai ano Angers, Germano. 263. O P. Jacobo Graff., Germano. 264. O P. João Vvalter, Germano. 265. O P. João Koffler, Germano. 266. O P. João Simoens, Portuges. 267. O P. Autonio Gomes, Portuges. 268. O I' Domingos da Silva, Portuges, 269 O P. Ignacio Sichelbantb 270. O P Ohristhiano de Huymis. 271. O P. Miguel Bento., Port. 272. O P. Bartholomeo de Azevedo, Port.
18<> — Padres que cá forào aceitos para Missionário, paticos na Lingoa. 1. O P. João Rodrigues, (11) Japonês 2. O P. Manoel do Siqueira, China. 3. O P. Francisco Xavier do Rosario China. 4. O P. João Pacheco, Macaense. 5. O P. Thomas da Cruz, China. 6. O P. Thomás Ignacio, China. 7. O P. Leão Gonzaga, Tunkinense 8. O P. Paullo Yanes, China. 9. O P. Simão Xavier da Cunha, (12) China 10. O P. Bazilio Terbiest, China. 11. O P. Ludovico Fan, China. Missionários Eccleziasticos Francezes que tem vindo. 1. O P. D. João Pin. 2. O P. D. João Carpon. 3. O P. D. João Grave 4. O P. D. Nicolau Charinot. (11) Há equívoco nqui. 0 Padre João Rodrigues (1561-1631), embora tivesse eu • trado na Companhia no Japão quando não contava ainda 20 nnoa de idade, não era ja- ponês mas natural de Semancheles na diocese do Lamego (P. Scliurhammer, S. J. — P. Johann Rodrigues Tçuzzu ais Qesohichtschreiber Japans in Archivuni historicuiu Soe. Jesu, 1932, pp. 23-40). (12) Denominado no século Wu-Yu-Snn ( jjy jfa jjj ), nasceu em 1632, mor- rendo em 1718, tendo sido admitido na Companhia em 1682. Foi pintor célebre. Vide o artigo a sen respuito em Monnmcnta Seiica, Vol III. 1937-8, pp. 130-170.
5. O P. 1). Francisco Guetlii. 6. O P. T). João Li rot-. 7. O P. D. João Bernard. 8. O P. D. Pedro Herve. 9. O P. D. Alexandre Dandri. 10. O P. I). Francisco de la Baluere. LL. O P. D. Francisco Mobtigni. 12. O P. D. João la Motte. 13. O P. D. Antonio Guigne... Apostat. 14. O P. D. Francisco de Vigieror. 15. O P. I). Jocobo Pedro Fauxier. 16. O P. D. Alexandre Noenville. 17. O P. I). Carolo San Plialle. 18. O P. D. João Baptista Baurgine. 19. O P. D. Antonio Coinen. 20. O P. D. Hugo de Pui. 21. O P. D. Joachim Martilliat. 22. O P. D. João de la Cur. 23. O P. D. Edmundo Bennetat. 24. O P. D. Pedro Bergier. 25. O P. D. João Ludovico Roux. 26. O P. D. Ludovico Deveaux. 27. O P. D. Menrique José du Frenay. 28. O P. D. João de Carbon. 29. O P. D. Jacobo Dartigues. 30. O P. I). Dazema. Maigrot. Poivre. Griffés. Baurgine, e Vertarion. Saõ 35.//
— 188 — in Missionários de diversos Institutos Reyulures; li heeleziuslicos, que diem dos já mencionados vierão reniettidos pedia Say rada Conyra- yração para propagar a Fé na China. Vaó expostos sem a Ordem dos annos em que vierão. Dos Caraelitas Descalços 1. O 1'. Fr. Reginaldo do S. José, [tal. 2. O I'. Fr. Vul tango do Nascimento. Bohem. 3. O P. Fr. Gottardo de S. Maria Germano. 1. O P. Fr. Ildefonço da Natividade, Ital. 5. O P. Fr. José Maria de S. Theresa, Germano. Da Ordem Silvestrina. 6. O P. Fr. José Martiali, Ital. Da Ordern dos Servitas 7. O P. Fr. ãolsteno Maria Viani, Ital. 8 O P. Dominion Fabri. Germano. 9. O P. Phellippo Serrati, Ital. Da Ordem dos Ministrantes aos Enfermos. J.O. O P. Hyacinto Jord, Napolitano. 11. O P. Stophano Signoriui, Romano. Da Ordem dcs Clérigos Regulares. 12. O P. Nieolão Tomacelli, Ital. 13. O P. João Oerá, Italiano. 14. O P. A reli an gel o Miralta, Ital.
- 189 — 13. O P. Francisco Maria Gttillelmi, Uai. 16. O P. Amon Soffieti, Grego. Dos Clérigos Regulares de S. Paullo. 17. O P. D. Phellippo Cessai, Italiano. 18. O P. Honorato Ferraris, Ital. 19. O P. D. Segismundo Maria Calelii, Ital. 29. O P. 1). Alexandre ab Alexandro, Ital. 21. O P. D Salvador Ratini, Ital. Dos Clérigos Regulares, das Escolas Pias. 22. O P. Cássio de S. Luis, Italiano. E os Clérigos Regulares da Madre de Deos. 23. O P. D Miiingos Perroni, Italiano Da Congregação das Missoens 24. 0 P. Thciodorico Pedini, Ital. Da Congregação de S. Fellippe Nery. 25. O P. Joiõ Gnrgo, Italiano. Clérigos Seculares 26. O P. D. Ignacio Giampe, Ital. 27. O P. D. Sabino Martini, Ital. 28. O P. D. André Candila, Ital. 29. O P. D. José Ignacio Cordeiro, Ital. 30. O P. D. João Baptista May, Ital. 31. O P. D. Carolo Sardi, Ital. 32. O P. D. Jauuario Amodei, Ital.
— 190 — 33. O l\ D. Matheus Rippa, Ital. 34. O P. D. Domingos Volti, Ital. 35. O P. D. Benedicto Roveda, Ital. 36. O P. D. Ferdinando Horavanti, Ital. 37. O P. D. Bernardino Campi, Ital. 38. O P. D. José Maria Vittoni, Ital. 36. O I'. D. Domingos Sala, Ital. 40. O I'. D. Miguel Arailza, Ital. 41. O P. D. Francisco Faure, Ital. 42. O P. D. Dominion la Magna, Ital. Sacerdotes Chinas que fotào mandados a estudar as Ciências, e vierào para Missionar aos Chinas. 43. O P. Panllo Ciií. Sn 44. O P. Pedro Oil 45. O P. Estevão Ciú. Sin. 46. O P. João Hú. 47. O P. João Evangelista. Siu Advertendos: A uuiytos Chinas novos Christaons em que se conheceo melhor capacidade, se tem mandado para Europa estudar; com especialidade a Companhia de Jezus para os seus famozos Oolle- gios do Italia e França, alem dos que na India e Macao ensi- não, conduzindo tudo para a propagação da Fé. Alem destes há innnmeraveis Cathequisthas. Os Irmãos Leigos da Companhia e mais Relligioens que são muitos, coucorrem para o mesmo ef- feito de Cathequizar./
— 191 — CAP. X. Pap. 112 Explana curios accident es, que no espiritual e temporal se observarão cm os annos socesivos athé o do 1fí23. (I) Se a volubilidade dos tempos, e a inconstância dos homes não fizessem mudar de semblante muitas vezes os accidentes que chainão da Fortuna, e com permanência se concervassem as cou- zas no estado feliz da sua prosperidade e augmeuto, tanto nas es- pirituaes, como nas teinporaes fellicidades, não terião merecimento as humanas Oreaturas, nem experimentar ião do mundo os traba- lhos a que desde a culpa de Adam todos ficarão sogeitos; mas he a nossa mizeria tal, que se qualquer boui soceço nos alegra, qualquer infortúnio ao mesmo tempo sucedido nos pennaliza. Com vento apoupa, e grande fellicidade proseguirão os Portugezes suas viages a vários portos, com especialidade ao do Japão donde extrabiáo as maiores conveniências, com que cer- tamente avultava muyto esta Cidade; uias a notticia de que os Vice Reis de Goa por Ordem do Soberano tinhão determinado, que, por evitar despezas, se despacliasem os Oapitaens mores de Macao com huina ou duas viages do Japão, por premio do seu trabalho, e as tais viages fossem venaveis para a fazenda Real com inhibição de que nenhum outro morador de Macao pudes- se mandar áquelle porto os seus navios, mas só neste embarcar as fazendas que quizessem, pagando os frettes, com esta nova se disgostarão muyto, vendo tão mal remunerados os Serviços que á Coroa tinhão feito, pois por premio os deterioriavão na for- tuna, minorando os nos Cabedais. (2) (1) Daqui em diante é a parte maia interressante e valiosa da obra de Frei Joseph de Jesus Maria, pois que vem a ser uma história de Macao desde o primei- ro quartel do século XVII até o anno de 1745, quáiti toda baseada nos Acto* e outros documentos então existentes no Arquivo do Senado. (2) Não nos diz o autor o ano eiu que tal determinação íôs
— 192 — Xo Espiritual, no mesmo tempo se lhe fes também mui- to sensival outra notticia participada do interior da China, eons- tandolhe haver dissonância uu materia de Doutrinas sem uni- formidade nos Missionários Evangélicos, que com sua oceurren- eia se tinhão introduzido; pois alem de haver alguns que se- guião se não devia pregar a Christo Crucificado, nem publicar o mnvto que padecera, por não meter tédio nem escandalizar os Ouvidos destes Gentios, que com mais dificuldade se sogei- trarião á nossa Crença, nem terião a Christo por \ erdadeiro Deos, tinha o P. Matheus Riccio por sua idéa entrado a pra- ticar hnma nova Doutrina para que os mais adres a seguis- sem, como logo fes o 1*. Miguel Rogério, e os mais daquella Santa Companhia. O seu fim hera fundado no activo zelo de facilitar os Chinas aque com menos ressitencia se convertessem, e chegassem á Sacra Fonte Baptismal sem o que se não pod ião salvar: a materia hera sobre os Ritos Sinicos; e os Chinas, co- mo tinha com as suas politicas coherencia a abraçarão sem dificuldades. Continha esta Doutrina-l.° que se devia licitamente estar pel los Ritos Sinicos, que o mesmo dito Padre mencionava. 2.°- (jue os Chinas antigos tinhão concedido a Deos vivo e verda- deiro, o que significavão pellas vozes-Tien, e Xamti. 3.° que o Piíg. íia mesmo verdadeiro Deos se chama//' vulgarmente-Tienchu-que quer dizer-Senhor do Ceo; e desde então athégora por este nome fora chamado na China o Deos dos Christaos. 4." que a veneração e culto que os Chinas costumarão dar a seu grande Mestve o Con- fnzio, significado polia voz, e letra-ci-, não hera supersticiosa, mas só politica, e aos Chinas Christãos também se podia permittir. 5.° que o mesmo culto que os Chinas davão a sens progeni- tores defuntos, também a os Christãos Chinas se permittisse. 6." que também a estes se Licitasse o uzo de humas tabellas ou tabizas com que os Chinas Gentios costumão escrever os nomes dos defuntos seus progenitores, para sua memoria e veneração politica. Estas couzas que á siuceridade do P. Riccio parecerão
— 193 — justas, não fovão fazendo boa harmonia nos ouvidos dos outros Missionários Evangélicos, que de diversos Institutos tinlião entrado, e forão liindo pel lo decurso do tempo a serem operários na vinha do Senhor, e delia muy affectivos cultores; porque reprezentando se lhe mais industriosa e politica, do que Catlioliea e verda- deira esta Doutrina, pello que com varias intelligencias en- volvia, parecia ser muy repugnante á Santa Ley Evangélica, pois delia não hera deduzida, e os Chinas Ohristãos que ha- via, desta sorte o fica vão só sendo a seu geito, com as condi- çoens que elles querião muyto á sua vontade, e por sua industria insinuadas. Vendo-se pois os mais Missionários perplexos em tão re- •moto Paiz no que devião obrar nestas matérias, tomarão o sis- tema de não estar pella admissão desta Doutrina, sem que a Igreja Romana a approvasse; e entre tanto oppondose, derão par- te a S. Só Appostolica, para que rezolvesse o quo nestes parti- culares se havia, de obrar. Cometeo o Papa esto exame á Sagia- da Congregação de Propaganda Fide, que com tão activa delli- gencia como pedia esta materia entrou miudamente a examinai todas as circunstancias deste facto chamando da mesma ( bina Missionários difrentes, e aliinda Chinas Christãos, ouvidos tarn- bein os Padres, e bom ponderadas todas as circunstancias e in- telligencias desta nova Doutrina, a reprovou por Decieto que o Papa Innocencio X confirmara já no anno do 1045. Não parou aqui esta contenda, porque respuindo os 1. 1. esta rezultancia com varias intelligencias e epicheas, forão pro- seguindo no seu sistema. Correndo o tempo, e a Roma também novos informes, continuarão os Decretos dissolvendo as duvidas e prohibindo os Ritos, mas novamente se // excitarão questoeus e paí. 114 duvidas na materia, continuandose na sequella da Doutrina. Para de hum a ves dizer o quanto isto tem custado a S. Igreja Ro- mana, há jà hum Século que dura, sempre excitadas novas du- vidas, basta verificarse que 10 Pontifeces Romanos em todo es- te tempo refutarão a nova Doutrina e Ritos Siuicos por illici- tos e supersticiosos ao uzo dos Gatholicos; forão estes: O Papa
- 194 — Innocencio X. Innocencio XI. Innocencio XII. Clemente VII. Clemente IX. Clemente XI. Clemente XII. Alexandre Ali. Clemente XII e N. S. S. P. Benedicto XIV; dos quais expe- dindo Clemente a tremenda Constituição Appostolica — Ex illa die com gravíssimas peiinas aos que não obedecessem, dimittin- do totalmente os tais Ritos e Doutrina, prestanto authentieo Juramento, como nella devé com Data de 1715, ahinda houve recursos, duvidas e explicaçoens com o pertexto de que o Papa fora mal informado; athé que finalmente N. S. S. P. Benedicto XIV por seu novíssimo Decreto, ou Constituição expedida no anno de 1742, que principia— Ex quo segulari Dei Providencia confirmou, e innovou a Clementina, com Noya forma de Jura- mento mais aretado, e com Comuiinação de todas as graves pen- nas com que a Igreja costuma proceder, para o concluzivo ef- feito da sua Omnimoda observância. (3) (4) Para a deffença do bem espiritual de tantas Almas esteve propicia a Igreja, o para a Ooncervação das próprias vi- das e fazendas, delligenciarão meios os Portugezes de Macao; porque sabendo o quanto as naçoens Estrangeiras emulavão esta Peninsula cheios de enveja e ambição, com especialidade os Olandezes que já nos annos proxiiuos com o labeo de Corsários tiuhão cometido contra suas naos desta terra grave insulto, não só se prevenirão com mais armas do que tiuhão mas cuidarão logo em se fabricar boa e grande artelharia de bronze, que montarão em bons reparos na Fortaleza da Barra, que para boa deffença desta Cidade, e porto se achava primorosamente acabada, e a guarnição da geute e povo coin grande augmen- to crecida. Em tanto hião continuando no liir a Cantão ás suas fei- (3) Não nos cabe a nós referir a Ião discutida "questão dos Ritos Sinicos," inas os leitores, que queiram aprofundar mais o assunto, podem consultar as co- nhecidas ohr.is bibliográficas de Cordier (Bibliotheca Sinica) e Streifc (Bibliotheca Mi- ssionum) onde vêm citadas centenas de livros sobre o assunto. (4) O resto dêste capítulo, narrando o ataque dos holandeses à Macau em 1622, foi já transcrito por J. F. Marques Pereira no seu artigo "Holandeses contra Macau " em Ta Ssi Yang Kin, (Vol. I pp. 164-165.)
— 395 — ras levando muitas vezes em sua Companhia Missionários dis- farçados, jà para os hirem fazendo práticos na Lingoage e cos- tumes do Paiz, jà para os hir introduzindo pouco a pouco com vestes Sinicas, sendo este o modo único de poder entrar, respec- tivamente á Lev inviolável do Império que (com já temos dito) o prohibia. Os Chinas liião também continuando, e cada vez mais, com suas garamufas e trapaças, portando se coin infedila- des como gente que hera por profição infiel; com os Portugezes que já vião em mais numero, e sabião quo em Macao estavão muvto mais fortificados se havião com tais cautellas, que por receio e ciúme lhe não consintião dormir em terra, temendo de noite algum levante, e os fazião hir dormir ás embarcaçoens; e nos cappitaens mores de Macao que ja existido, havia annos, hera tão pouca a cautella e cuidado, que// só tinhão em auguien- P«g. 115 tar seus interesses, e tratar da Propria conveniência, como quem do Estado da India vinha a Macao, para este effeito: continua- vão as suas viages do Japão, premio dado antes de algum me- recimento, e certamente nenhum tinhão porque de Macao nada cnidavão. Informados os Holandezes deste desgoverno, como tam- bém de que em Macao havido já mais de setecentas famílias Portugezas, e tinhão edeficado Fortaleza em que avoravão a Ileal bandeira de seu Mornareha, o que por enveja e soberba mal sofrido, pois nenhuma outra nação, em terras de tão po- deroso Império, tal regalia lograva, couciderando estaria mal disciplinada a gente, por não ter Cabos de guerra para a regu- lar deffença, se rezolverdo intrépidos no anuo de mil seis centos e vinte e dons a vir sobre Macao com liuma armada de quinze Nãos, para conquistar esta Cidade; com tantos navios para tão pequena terra e tão pouca gente, ahinda buscarão subterfúgios, pois occultamente íizerão o dezembarque em hum lugar chamado Cacilhas distante couza de hum quarto de legoa aparte posterior da Cidade, o que feito, se vierão as naos por na sua frente, e em tanto marchou a sua gente a querer investir, com boa Ordem. Os Portugezes de Macao tanto que o souberdo, tomarão
— jno — armas, e com grande valor os sahirão a receber no Campo, bindo alguns para a fortaleza da barra, a deffendila; envesti- rão-se liuns aos outros, e os Portugezes de tal vallor e animo se revestirão quo em poucas horas rexassarão o inimigo com tal impeto, que matarão mais de seis centos Olandezes, fugindo os mais tão precipitadamente a buscar as Lanchas, que muitos se afogarão; e as naos combatendo a Fortaleza forão de tal sorte coin a nossa fatal artelharia tão vigorosamente rebatidas, que nunca mais se servirão delias por desbaratadas. Ufanos os Portugezes de Macao com esta primeira e tão feliz vitoria, que em quadros se acha estampada na Oaza da Camera desta Cidade, aliinda asim (suposto que valorosos), ficarão como o receio de que poderião tornar os Olandezes com mais navios e gente, e como toda a cautella em semelhantes occazioens he util, e alguns Portugezes tinhão morrido na ba- talha, (cujo coin socesso atribuirão ao glorioso Baptista, a quem no mesmo sitio odeficarão hermida, e no seu dia por memoria (suposto que arruinada), vão os Militarez asistir á Missa que se celebra, e o Senado a esta Oathredal adonde como Patrono se festeja) se rezolverão a pedir algum soceorro a Manila, que lhe mandou duzentos homes, com hum Mestre de Campo, por cuja industria se entrou a fortificar a Praça com baluartes e muros, cuidandose em novas fortalezas e boa artelharia, para o que os Chinas concorrerão, vendo que também para a sua deftença hera util, por ser Macao porto, e porta do seu Império. (5) i (5) Pari n verdadeira história do famoso ataque dos holandeses contra Macau em 24 de Junho de 1622, vide o meu artigo « A Derruía do» Holandeses em Mueau no auo de 1611, » publicado no BoDIim Eclesiástico da Diurese de Macau, de Agosto de 1938, pp. 86-122, baseado nrs melhores fontes contemporâneas quer Portuguesas quer holandesas. Convém notar, como já apontou Marques Pereira que Frei Joseph de Jesus Maria fala em quadros reproduzindo a vitória, emquauto os mais autores, que mencionam o assunto, apenas se referem a um só quadro.
— 197 — LIVRO V. I'«ta- i «t macao ennobrecido, e augmentado O AP. I. Nova mudança de governo, erecção desta Colonia em Cida- de, Privilégios que se lhe concederão, Cappitaens Mores ao prin- cipio, e depois Cappitaens Cernes que athc o tempo presente a governarão. Agora so vio verificado o que já havia muito tempo tinha sido aphotismo dos antigos, que — Há males que vem por bens, e há hens que vem por males —; porque se os Portugezes de Macao não fossem polios Olandezes tão repentina e impetuozamenle inva- didos, não seria, tal vos Macao com gloriosos Créditos elevado. Bem lie verdade que já anteriormente por authoridade Pontifí- cia quando o Papa Gregorio XIII deu a esta Colonia o pri- meiro Bispo, logo mesmo então se dignou de a honrar também com o titulo de Cidade (a), mas como athé o prezente tempo não tinhão impetrado a confirmação e authoridade Regia, se denominativamente podia lionrarse com o titulo, não gozava no politico e civil, foros nem preheminencias de Cidade. Foi a guerra dos Olandezes incentivo para despertar os ânimos Portugezes, porque suposto bastou para os rebater tão somente o seu valor e animo, não deixarão de reconher o pe- rigo grave em que estiverão, pois não lie pequeno o pelejar sem forma sem Cabos e sem officiaes de guerra que coin regularidade liajão de mandar. De todo o socesso que tiverão derão logo parte ao Vice Rey da Ilidia, reprezentandolhe ao mesmo tempo o quan- to hera desnecessário e inútil Cappitão Mór nesta terra, pois em poucos mezes do anno nella rezidia occupado o mais tempo nas suas dependências próprias e viagez do Japão, e a tudo o mais fal- tava; pello que em concideração do sucedido lhe pedião queresse dar a esta Colonia o titulo de Cidade, concedendolhe e a seus Ci (a) Compunil. [iravil. in Bulla erect, luijus Epiacopat. rf
— 108 — dadoens os da fainoza Cidade de Évora, como já seus predecesso- res tinhão concedido á de Ooeliim: que Tosse servido nomcavllie Governador ou Oappitão Geral que a regem, e nella residisse, mandando também Infantaria coin que se prezidiasse. Hera neste tempo Vice Rey da Índia, não o Conde da Vidigueira, como escreve o 1*. Souza no seu Oriente Conquis- tado (l») mas sim I). Duarte de Menezes, (1) como consta das Pag. j 17 sua" mesmas//Provizoens e Alvarás, como também das Confir- mations de Plielippe 4 ° de OaStella que então governava Por- tugal o que se aclift expresso no Livro grande chapeado de Pra- ta dos Foraes do Sen nado da Camera desta mesma Cidade de Macao, ao qual se deve dar inteiro Credito (c); Este dito Vice Rey concedeo benignamente em nome de S. Ma gesta tie a Macao o titulo e honra de Cidade, com os previlegios para ella e seus Cidadoens, que EIRoi D. Attbnço Henriques tii.hu comedidoá dita Cidade de Évora, os quais depois corroborara e tinha redu- zido a melhor forma EIRey I). Manoel no anuo de 1500. Em a primeira confirmação de EIRey Fellippe lançada no mesmo Foral consta que Vice Rey foi o que em seu nome os concedeo a Macao, poi d is: — Eu EIRey fasso saber aos que este Alvará virem que — por alguns respeitos que me a isso movem, hei por — bem de fazer mercê á Nova Cidade de Macao nas par- — tes da China de lhe confirmar os previlegios, que o — Vice Rey Dom Duarte de Menezes lhe concedeo em — meu Nome; pello que mando a omen Vice Rey ou — Governador das partes da India, que a oprezenle lié e (l>) Oriente Conq. C 4. D. 1. 11. n. 11. (1) Caín aqui o autor fiadesco nuin êrro gravíssimo, pois que Macau tinha o foral e os privéligios de Cidade muito antes da tentativa holandesa, sendo, ne facto, neste último tempo, D. Francisco da Gama, IV Conde de Vidigueira, o Visorei da índia, como correctamente notou o Padre Fiancisco de Souza no seu Oriente Con- quistado; einquanto que a denominação de Cidade com privilégios semelhantes aos de Évora lhe tinha sido concedido iá no tempo do Visorei Dom Duarte de Menezes, que governou a índia nos anos de 1585-1588, no reinado da Felipe I. (e) Livr. dos Fornes da Cid. de Macao.
- líiii — — adiante for, que cuiuprâo este Alvará, como nelle se — contem, o qual vai lerá como Carta, e não passará pel- — la Chancelaria, sem embargo das Ordenaçoens 1.° 2 o — em Contrario &Vn (d). O Alvará do sobredito Vice Rev, no qual em nome de EIRey Fellipe então reinante concede*» os mencionados previle- gios se acha no mesmo Livro dos Fornes (e), e principia: —Dom Fellipe Rey de Portugal e dos Al- —garves &Y* Rey de Hespanlia, e dos Reynos —de Maluco. . .. fasso merco de conceder á —Nova Cidade de Macao todos os previlegios, —Liberdades, honras, e prelieininencias, assim —e da maneira que são concedidos á Cidade —de Évora, em geral, e em especial. &Y\ Foi expedida (como delia consta) por D. Duarte de Me- nezes do Concelho do Estado de S. Magestade e Yice Rey da índia. Passada em Goa com o Sello de ElRev aos 10 de Abril de 1621. (2) Os sobreditos Privilégios se achão no mesmo Foral por extenso copiados (f). Concedidos pois pello Yice Re}* D. Duarte de Menezes em nome de EIRey, e por elle e seus socessores confirmados a Macao as honras de Cidade e tão amplos Privilégios, lhe no- meou logo também por primeiro cappitão Geral a Dom Fran- cisco Mascarenhas, Fidalgo muito prudente, Yaleroso, e enten- dido, como suas accoens sempre comprovarão; (3) destinoulhe (*l) Ibi f»l. 1. (e) Ibi foi. 14. (2) Visto que o Visorei Dom Duarte de Menezes morreu em Goa nos 4 de Mnio de 1588, em quanto o Visorei Conde de Vidigueira governava n índia em 1822-1028, vê-se que se trata duma confirmação de privilégios já concedidos, e não, como julgou Frei Joseph de Jesus Maria, duma primeira doação em 1622. (f) Ibi a fl. 2. usque ad. foi. 13. (3) Outro êrro grosseiro. Dom Francisco Mascarenhas foi nomeado primeiro Capitão-Geral de Macau pelo Visorei D. Francisco da Gama, Conde de Vidigueira.
_ 200 cem soldados Portugezes para este novo prezidio, supondo bas- tante este numero para deffetider liunia terra, em que liavin tão animosos Portugezes que sós e sem este subsidio a deffenderão. Pag. lis Acabarão os // Cappi taens Mores; o como D. Francisco Mascare- nhas já nomeado Capitão Geral se demorasse, e fesse o ultimo anno do governo do V. ltey D. Duarte de Menezes, a quem logo no anno de 1623 socedeo Dom Francisco da Gama Conde da Vidigueira (g), (d) este em attenção de bum Decreto Kcal de El Rey Fellippe que tinha em remuneração de seus serviços Lou- renço de Mello de Eeça, o despachou ahinda por ultimo Cappi- tão Mór de Macao com liuma viage do Japão; (5) e acabado o atino entrou no governo o Cappi tão Geral Nomeado. Para que de luuua vez sem fazer tantas Concizoons na historia possa dar notticia de quem forão os Cappitaens Mores que Macao teve, o também os Cappitaens Goraes que athe este anno de 1744 go- vernarão esta Cidade, exponho na seguinte Tabella os de que tive notticia, extrahindo a dos Livros da Camera por antigos já podres, e despedaçados. Cappitaens Mores, que teve Macao antigamente. Lopo Sarmento de Carvalho. João Serrão da Cunha. Hyeroniino de Carvalho Martinho da Cunha de Ecça. Antonio de Oliveira do Moraes. (g) Fiiria e Souza. tom. 3 Epit. (4) Como já dissemos na nota anterior, tudo isto é engano. Dom Francisco Mascarenhas foi nomeado Capitão Geral de Macau em 1623, no segundo ano do vi- ce-reinado de D. Francisco da Gania; enquanto que D. Duarte de Menezes morreu meio século antes, em 4 de maio de 1588. (5) Outro èrr.) estranho. Nunca houve um tal Lourenço de Mello de Eça, Ca- pitfto-Mór da viagem de Japão. É possível que haja qualquer confusão com Diogo Car- dozo de Mello que foi como capitão-mór de 8 velas ao Japão em 1623, mas que nada teve com o governo de Macau.
201 — Vicente Rodrigues. Luis de Souza. Gaspar Pinto da Rocha. Hyeronimo do Macedo. Lopo Sarmento de Carvalho—segunda ves. Manoel Peres Fronteiro. Francisco Cardim Froes. Luis Paes Pacheco. Dom Fellippe Lobo. Lourenço de Mello de Ecça. Mais Cappi taens Mores haveria suposto não tenho notti- cia de outros; e nem nestes, nem nos seguintes Oappitaens Geraes pude observar a serie direita por sua Ordem, ((i) Dom Francisco Mascarenhas. Dom Sebastião Lobo da Silveira. Dom Diogo Couttinho, que matarão. (7) João de Souza Pereira. Antonio da Camera do Noronha. João Rodrigues Teixeira. Manoel Tavares Bacarro. (8) (6) De facto, esta lista 6 muito incompleta e ile pouco valor. A lista completa «lo» Capitães Mores da viagem de Japão desde 1549 até 1639 encontra-se no códice ua Bibliotheca de Ajuda, chamado .Jesuítas na Asia, 49-1V-66 a tis. 41 rerso-12-rec- to. Além de estar esta lista de Frei Jost-pli de Jesus Maria incompleta, deve uotar- -se que Vicente Rodrigues, Luis de Sousa, Manoel Peie», Francisco Cardim Froes, e Lourenço de Mello de Eeça nunca foram Capitães ruorcs da viagem de Japão, ou pelo menos, nnnci foram lá em tal qualidade. (7) Sôbre a morte que em Macau se deu a Dom Diogo Coutinho Doeein (tam- bém chamado em alguns documentos Dom Rodrigo Coutinho) servindo de geral «la- queia praça, há dois manuscritos no Museu Britânnico (Add. Mes. 20877 fl. 19S ; 20878,9.27), mas temos de confessar que o acontecimento fica envolvido na maior obscuridade ainda hoje, mas parece que teve lugar pelo ano de 1646. (8) Sic por Manoel Tavares Bocarra, o célebre funtlidor de artilharia que tra- balhou em Macau desde 1625 até 1645, mas que nunca foi Capitão Geral «1a Cidade. Capitaens Geraes desta Cidade athe o prezente anno de 1744.
— 202 - Simão Gomos da Sylva. Antonio Barbosa Lobo. Antonio de Castro de Saiule. Luis de Mello Sam Payó. Belchior de Amaral de Menezes. Antonio de Mesquita Pimentel. André Coelho Vieira. 1). Francisco da Costa. Antonio da Sylva de Mello. Gil Vaz Lobo Freire Cosme Rodrigues de Carvalho e Souza. Pedro Vaz de Siqueira. Diogo de Mello Sam Payc. José da Gama Machado. Diogo de Pinho Teixeira. Francisco de Mello e Castro. Antonio de Siqueira de Noronha. D. Francisco de Alarcão Soutto Maior. Pag- Hl» Antonio de Albuquerque Coelho.'/ Antonio da Sylva Tello. D. Ohristovão Severino Manoel. Antonio da Sylva Tello, outraves. Antonio Carneiro da Alcaçova. Antonio Moniz Barretto. Antonio do Amaral de Menezes. Cosme Damião Pereira Pinto. Manoel Pereira Coutinho. Cosme Damião Pereira Pinto, outraves. (9) A Provizão Real ou Alvará concedido a Dom Francisco Mascarenhas primeiro Cappitão Geral desta Cidade hera tão honorifica e tão ampla, que lhe dava poder, mando, jurisdição e (9) Também esta lista não < stá completa, e deve ser completada pela publi- cada no Anuário ãe Macau (vários anos) e lio Boi. Eccl. da Diocese de Macau (1938) pp. 24-25.
— 203 alçada sobre toda a gente de Guerra, podendo julgar nas couzas e cazos crimes athé morte natural induzi vãmente, tomando por adjuntos á sentença o Ouvidor, o Sargento Mór, liuin Vereador, e hum .Fuis Ordinário (que para todos estes oíficiaes vinlião ordens e pautas de nova erecção) excepto a Fidalgos e Ceppitaens, que a estes só poderia depor, e remetteria os auttos das suas culpas e crimes á Cidade de Goa, para nella serem sentencçados (li). Ao mesmo Dom Francisco Mascarenhas expediu o N. Rey Conde da Vidigueira mais duas Provizoens: lmnia para que o Cappi tão Mor das Viages do Japão não tivesse já mais poder algum nem mando nesta Cidade de Macao; e outra para que senão podesse em Macao fazer mais artelharia sem ordem do Cappi tão Geral, (i) (10) CÀP. ri A ehaõ se os Portugeses .de Macao satisfeitos do novo modo de governo nesta Cidade, empenhaõse para concluir o sen Cerco, e obra d ts Novas Fortalezas gnarnecendo-as de boa artelharia; con- tináaj ao mesmo tempo suas negoceaçoens ás Feiras de Cantaõ, e ao •J.toaõ suas viages, como também a Manila, Timor, e outros portos distant s Suposto 110 mundo naõ haja couza mais appetivel do que a propria liberdade, para a qual tem appetite innato a humana natureza, e aos bourns deixou livres os actos da vontade o su- premo Oreador do Universo, desde que ao primeiro home for- mou, há com tudo oceazioens. cauzas, e tempos, em que a so- geiçaõ se naõ tas monos appeteeida, se polias normas da rezaõ e prudência hé discretamente regullada. Os moradores de Macao ahinda que tiveraõ athegora Capitaens Mores e Ouvidores que Pellippe 3.° no anno de 1611 lhe tinha posto para o seu bom (li) Livr. mais antig. do Regitt. da Ctuu. nn. 1623. (i) Ibi au. 1623. (10) Os papéis originais de Dom Francisco Mascarenhas, incluindo os auto» e provisões dos quais fala Frei Joseph de Jesus Maria ainda hoje se conservam na Bibliotheca Pública e Arquivo Distrital de Évora onde tem a marcação de Cod. CXVI
— 204 regimen, (1) <»s roputavaõ» em taõ pouco que viviao como abso- lutos e dispotiços, segundo (principalmente os de menos n 11 nos) só o q ue lhe ditava o seu gosto, como homes mal movi gera dos, do que se seguiaõ repetidas dissonâncias e mil desordens, que os ancioens estranhavaõ o reconlieciao absurdos, pois tinhaõ mais entendimento, cheios ja de experioncias; pcllo que entendendo dis- 1'jig. 120 cretos que a sua concervação// pendia de hum recto, solido, e au- thoritativo governo, com muito contentamento o abraçaraõ, pon- derando que se senaõ prevaricasse com o tempo, sem duvida floreceria esta nova Cidade cada vos com Maiores fortunas e augmento que lhe appetteciao, rezoens porque aos Superiores dic- tames gostosamente se subordinavaõ. Com expensas próprias, e naõ sei se com dinheiros pedi- dos de empréstimo a EIRey de Siaõ com quem este povo tinha contrahido amizade (se he que nao foi para remir alguma vexa- çaõ pedido) acaharaõ com toda a ancia e empenho os muros e Fortalezas desta sua nova Cidade, para que assim bem deffen- dida ficassem seguros de quaisquer insultos. Foraõ sinco as For- talezas que fizeraõ: duas delias coroando a dous grandes oiteiros, huma que lie a principal com a invocaçaõ de N. Senhora do Monte, (2) e naõ» só cobre a Cidade toda; mas deffende o mar e a terra; 11a qual montaraõ tremenda artelharia de bronze, e outra com a invoçaõ de N. Senhora da Guia a hum lado, supos- to que místico, fora do Corpo da Cidade, que de terra deffende todo o Campo pello qual se communica com a China, sendo to- do descortinado sem o menor embaraço, e do mar deffende a Bahia, recebe as salvas e as dá aos Navios Estrangeiros que pas- saõ para Cantar», sendo para tudo isto muito bem artelhada; como em lugar eminente seja a sua consistência, e tem para to- do o mar huma larga vista, tem a incumbência em apparecendo (1) Já em 1587, Alexaudre Rehelo tinlia sido nomeado Ouvidor em Macau, cujo título ãe Regimento, datado do mesmo ano, f»i impresso 110 Archivo Portuguee Oriental, Tomo V, pp. 1114-1151 e nos Arquivo* ele Macau, I, p. 67 et s
205 qualquer navio, Maio de 193o*
— 206 — Oatheeumenos a X. Senhora (lo Amparo: a Igreja do hospital de S. Lazaro a X. Senhora da Esperança: a Igreja da Fortale- za da Guia dedicada á mesma Senhora; a do Forte do Bom Par- to, tainbem a X. Senhora com este titulo. Alem destas doze Igrejas e Conventos dedicado tudo a May de Deos, tem mais o Convento de S. Clara de Relligiosas Capuchas, dedicado á Con- ceição de X. Senhora, o Collegia do S. dose, a Igreja de S. An- tonio, e a Hermida do Bom Jezus da Penha, que ultimamente á sua custa edificou a esta milagrosa Image Francisco Xavier Doutol home Fidalgo, hoje Governador das Ilhas de Timor, e a Hermida de S. João. (4) Com estas inexpugnáveis Fortalezas, mais aptas e vigo- rozas para a deffença de Macao, do que as outras todas, se po- dia dar esta Cidade por segura; e tendo ella o soberano Titulo de — Cidade do Nome de Deos — com o qual foi condecorada, parece naõ devia de haver 110 Mundo quem contra ella se hou- vesse do atrever; acabaraõse em fim os edefficios naõ só dos mu- ros mas das materiaes Fortalezas, o em todas se levantaraõ ban (leiras com as Iteaes armas de Portugal, que tudo os Chinas consintiraõ, e as Xaçoens Estrangeiras o mal sofrerão envejosas, vendo que em terras de hum taõ soberbo Império tinhaõ tal previlegio só os Portugezes, e ninguém em outra alguma parte do mundo, sem debatida Conquista tal lograva. Acabada pois toda esta magnifica Obra, e a de mais 2 Ca- zas fortes, e boa caza da Polvora, fabricada também na Forta- leza do Monte huma estrada encoberta, e abertas (de dia) tres portas na Muralha para o Campo, em ordem ás sabidas da Ci dade, e serventia dos Chinas que todos os dias conduzem a ven- der o comestível, e todas as mais couzas nescessarias, como tam- (4) Para ampliação desta lista das igrejas de Macau, veja o artigo do nosso a- íiiigo e colaborador J. M. Braga, intitulado As Igreja» Paroquia» de Macau (no Boi. Hele», de Macau) e outros estudos. É curiosa a notícia que Frei Joseph de Jesus Maria nos dá acêrca de Francisco Xavier Doutol (célebre na história de Macau por ser inimigo pescai do Governador António de Albuquerque Coelho) e ser Governa- dor do Timor e Solor em 1744
— 207 — bem por mar, tia qual parte a Cidade não lie murada e só das Fortalezas deffendida, ficou Macao por rezão dos Montes fazen- do a figura de hum - Z - com as duas pravas, liuina aparte de Oeste, e outra da banda de Sul Suduostel a Cidade se augman- tou muito desde então com cazas nobilíssimas, como muitas a- hiuda se estão vendo, suposto outras se achão já arruinadas, e só lhe vom alguns vestígios que deixou para memoria a bran- dura da materia, a inclemência dos tempos, e o vigor precipi- tado dos tufoens que neste Paiz são horríveis. Já dezembaraçada esta Cidade com as viages livres do Japão e extrahidos, como dissemos os Cappitaens que tanto se utilizavão delia forão os moradores continuando-a com feliz au- g men to, como também as de Manila, Timor, Conchinchina, Sião e outros portos da Asia, de sorte que sendo já tão nume- roso este Povo, que excedia o numero de vinte mil pessoas,// todos abundavão em riquezas, sem haver pessoa que conhecida- mente fosse pobre; desta notoria opulência rezultou, que muitas pessoas ahinda graves e illustres, pois não só forasteiros, e fo- ragidos, deixando as terras da India, e alguns também de Por- tugal se vierão a fazer compatriotas nesta terra, para nella re- zidirem, e aqui cazarem, porque naquelle tempo acliavão dotes de Cabedal importantíssimo. D is Pessoas graves que vierão de Portugal trazendo suas famílias se coucervarão memorias athé os aunos de 1710 em 1). Garcia de Souza Sidv. i). Luiza de Souza Sidy sua Irraãa, I). Izabel da Cunha de Eeça, D. Anua Maria Tello de Menezes, cujos appellidos mostrão o iIlustre do seu sangue, não menos illustres e graves houverão aqui vários cavalheiros, como com- provarão seus nobilíssimos appellidos de Noronhas, Tavoras, Sou- zas, Menezes, Telles, Sylvas, Pereiras, Vasconcellos, Ecças, Cu- nhas, Meiulonças, Sarmentos, Vargas, Abreus, e outros muitos que não repito, cujos desceudetes liuus se retirarão experimentando pello decurso dos annos decadencies na fortuna, outros adulte- rarão de tal sorte a nobreza do sangue participado de seus Pro- genitores, que o rubicundo delle se acha hoje com variedade de
— *208 — sombras tão inficionado, deslustrado, e denegrido, que apennas apparecem não sei se figuras, se borroens do que antigamente os seus maiores forão; e se concervão algumas pessoas menos vulgares e limpas por Nascimento, não lhe faltão emulos, por- que todos indiferentemente, aliinda os de baixa sorte, pobies como Job, se reputão Fidalgos como as Estrellas, sendo soberbos como os Demónios. Cai*. Ill Decadência#, e infelicidades grandes, que desde o anno 1638 Macao experimentou, com preseguieoens e perjuizo de todos os seus habitadores. Não obraõ muitas vezes os vassalos em serviço de seus Monarchas proezas e acçoens heróicas que fiquem a posteridade em memoria nos im mor ta es padroens de Fama, porque se lhe falta com o premio aos seus merecimentos, vendose pouco at- tendidos e mal remunerados; e muitas vozes socede que os lu- gares e postos se conferem, por valimento, aos indignos, naõ sem justo estimulo daquelles que em occazioens expozeraõ o sangue e a vida polia deffença do seu Reyno e Patria. Não sei se con- ciderou isto Fellippe 3o de Hespanha achandose governando Por- tugal, pois padecendo este Reyno inclemências e tantas perdi- çoens em seus Domínios 110 tempo que os tais Monarchas o ob- tivoraõ, naõ ponderando as continuas guerras, e terribilissimas batalhas que os Portugezes tiveraõ e aliinda tinhaõ em as Pon- quistas da índia, contentãndose por premio com o provimento dos lugares que vagavão, já no anno de 1610 tinha orde- nado por huma Provizaõ Real ao Vice Rey D. Hyeronimo !»., r 123 de Azevedo, que vendosse todos os lugares, officios e// Forta- lezas para as occurrencias do Estado, e subsidio da Real Fazen- da: ignoro se supondo que os Portugezes só pello natural impul- so de seu sangue e brio sempre o haviaõ de servir, porque naõ tanto ás conveniências, quanto para a sua reputação c credito olhavaõ.
— 209 - Quanto a Macao tinha o mesmo Rev também quazi ao mesmo tempo seguido a mesma idóa, como quem parece que de huma vos queria acabar tudo; porque naõ satisfeito a se vende- rem entaõ por sua ordem (como ja dissemos) as viages do Ja- pan a estes Portuges, fes mais 110 anno seguinte de 1611, por- que à instancia da Rainha tinha mandado segunda Provizaõ, applicaudo por dous aunos os rendimentos da tal viage para as obras das Agostinhas descalças de Madrid, como consta da mes- ma Provizaõ sabscripta pello Duqne do Villa Hermosa Oonde de Ficalho. (a) Fellippe 4o que com mais zello parece que attendeo a Macao, immitou emfim a seu Antecessor; porque depois ter erocta esta Oolonia ao titulo da Cidade, depois de varias Pro- vizoens expedidas á sua ordem nos annos de 1624, 25, e 26 pel- lo Oonde da Vidigueira seu Vice Rey e Cuppitão Geral do Es- tado da índia, huma para novamente haver Ouvidor, Juizes, e officiaes do Senado para o governo Politico e da Justiça, como também officiaes do Guerra para o regimen Militar: outra para que os Castelhanos naõ levassem fazendas da China em perjui- zo dos Portugezes que fizessem viages do Japaõ, nem os Mer- cadores de Manila se consintissem o vir aqui comerciar com a sua prata extrahiudo os generos: outra, para que fossem expul- sos, o remettidos para Manila os Castelhanos que nesta Cidade houvesse, dispençandose só com alguns nella cazados, ou os que fossem nescessarios para o prezidio: em fim couciderando-se. os moradores de Macao já mais adiantados com as viages do Ja- paõ, poucos annos lhe durou esta fortuna, porque sendo Vice Rey da índia D Miguel de Noronha Conde do Linhares no anno de 1634, reinando ahinda o mesmo Fellipe 4, e por Ordem sua, lhas tirou, e as pós na Fazenda Real, ou por conta delia; (a) Livro (leaped, da Camera — e — Livro maia autigo da Camera de Macao, anno — 1638 — ab anno 1624.
— 210 — mas cam taõ in fel is sucesso, que a Fazenda Real pouco se lo- grou pois logo no anno de 1038 o Comercio do Japaõ se per- deo (polias rozoens que em seu lugar diremos) e Macao se prin- cipiou a arruinar (1) Os chinas que nos génios, ritos, e costumes coin os Ja- poens se parecem, sabendo logo que os receios de algum levanta- mento do Portuguzos e Castelhanos, estes liindo do Manila e aquellos de Macao, aos quais todos reputavão huma só nação sabendo que bum só Rey ambas governava, fora em parte cuu- za motiva de os excluirom, entrão com os moradores de Macao em maior ciúme o desconfianças, porque como os vifto muyto ricos e poderosos, a Cidade já com muito povo, e grandes fortificaçoens, o rio com bastantes navios e grandes mercancias, temerão se levantassem contra elles os Portugezes, e cuidarão em lho pro- hibit que não entrassem ás Feiras em Cantão como havia tantos aunos já que praticavão, e suposto deste nogoceação extrai»ião os Pag. 124 Chinas grandes interesses, seu grande receio os acobardava. / Foi ccrtamento esto anno de 1038 para Macao bem infeliz, não só palio que (ica referido, mas por outros socessos também infaustos. Foi hum o queimarselhe neste rio por disgraça hum navio carregado de einportante fazenda e iuuita prata sem lho po- derem acudir a tempo, que com trabalho só pode escapar a gente, que nolle se achava. Outro por diverso principio, mais infausto foi, que vindo duas ombarcaçoens de Malaca com alguns gene- ris e varias fazendas, dando com bum grande tempo á Costas nas Ilhas veziuhas a este Porto o salvandose a gente com a maior parte da fazenda lha roubarão os Chinas, e os que escaparão do Naufrágio se não livrarão da doshuroana tirania destes ambieio- s >s gentios, porque tirananente os matarão, escapandollie só três, que valendose da escuridão da noite para poderem fugir, ticarão escondidos no mato, athé Deos lhe deparar algum meyo com que podessem por em seguro as suas vidas. (1) Como já notámos, esto assunto foi por nós estudado per languiu et lutum no nosso trabalho Portuguese Commercial Voyages lo Japan 300 years ago f1030 1639) nos Transactions of the Japan Society (Londres, 1934), Vol. xxxi.
— 211 — Deos que tudo sabe e ve, muytas vezes não guarda para o outro mundo os castigos; e ou fosse para vingar este insulto pellos Chinas cometido, ou talves para com este meio junta- mente punir finalmente os peccados dos moradores de Macao, permittio que aos mesmos Chinas socedesse outra fatalidade se- melhante; porque vindo dalii a alguns mo/09 outras duas embar- cacoens suas de próprios ou alheios portos, em que eonduzião vários genoros de fazendas, lhe sahirão ao encontro hnmas em- barcaçoeus também de Ladroens Chinas que andavão bem arma- dos, e nelles derão com tal impoto que não só lhe roubarão tu- do, mas tirarão a vida a todos seus mesmos naturaes, que em numero lierão setenta e quatro; e porque entre os Chinas he crime do maior Cabeça o matar hum home, e tantas mortes juntas não hera fácil occultaremse, receando ao mesmo tempo a infedilidade que entre os mesmos Companheiros podia haver (no que são facílimos) entrarão a divulgar que os moradores do Macao tinlião commotido esto excesso, meio admirável para novamente os roubar e destruhir. Com esta dissonante vós e notticia falça não lie crivei o quanto ficarão escandescidos contra os da Cidade de Macao to- dos os Mandarins do mar, de Aução, Cazabranca e Cantão, como também seus superiores, reputando a todos verdadeira, e cui- dando logo em darem parte á Corte de Pekim para que se cer- toficasse o Imperador deste socesso; para rezolver o que na ma- teria se havia de obrar. Achavão-se a este tempo na feira de Cantão os Portugezes mercadores de Macao, e sem duvida foi rnuyto o que ás mãos destes Gentios sem rezão, e sem justiça padecerão; pois não satisfeitos de logo prender em ferros com cadoas ao pescoço os quatro homes principaes atlié chegar do Imperador a resposta, não quizerão largar aos outros as fazen- das para que tinlião dado o seu dinheiro, embargando lorchas o mautimento para se transportarem a esta terra, e rezolvendo- 89 também já a querer por Macao em sitio, sem deixar passar para ella algum sustento: em sitio digo, porque da China he que vem a Macau todo o provimento, sem o não podia subsistir.
— 212 — Passado o tempo de tres mezes chegou ordem do Impe- rador para que se tirasse hum exacto informe e devaça sobre Pag. 12» materia proposta, e// cazo soccedido, sem o que, visto por elle naõ houvesse procedimento algum judicical contra os Euro- peos de Macao. O Sennado da Camera ao mesmo tempo por seus Procuradores cuidavaõ em que os seus Oidadoens fossem soltos, e com outra devaça que os Ministros tiraraõ, e depois de vista a rometteraõ aos Tribunaes de Oantaõ para justificar a innocen- cia dos moradores deste povo, a fidelidade com que sempre aos Imperadores servira, o soccorro de gente e artelharia com que por vezes já aquelle Império ajudara, e que naõ tinhaõ sido Por- tuguezes, senaõ ladroens Chinas os que tinhaõ cometido taõ gran- de hostilidade e roubos naõ só nas suas mas nas embarçoens desta terra, liindo acompanhado este papel com boa somma de dinheiro, sem o qual 11a China a nada se attende, forao soltos os quatro prezos, entregue aos mais com muyta diminuição sua fazenda, e tirada a prohibiçaõ de se virem vender mantimentos á Cidade. Em observância da Imperial rezolluçaõ foi determinado que sahissem muytas einbarcaçoens a cruzar os mares e rios des- te continente, o o Tutaó e Haytaó (2) sahiraõ com armadas pa- ra prenderem os Chinas homicidas e ladroens: Estevão Pires, e Gaspar Borges da Eonceca, Portugezes de Macao que se aclia- vaõ retidos 0111 Ançaõ, (3) se naõ negaraõ com mais outros com- panheiros em algumas barcas bem armados a ajudar os Chinas tomando duas passages daquelle Rio: mas como os ladroens es- tavaõ opulentos com as prezas, e pagavão bem ás espias, pois sabiaõ com certeza o que lhe havia soceder se os apanhassem, tiveraõ tempo para fugir a outras Ilhas mais distantes, meten- dose pel la terra dentro a salvar as vidas, sem de todas estas del- ligencias que se faziaõ rezultar effeito algum. (2) Tilu, Comandante Militar das Tropas Chinesas — Bandeira Verde; na província de Kwangtnng. O Haitáo (jfej J^) era o Almirante do luar. (3) Anção ou Ancião é a transliteraçilo do chinês Eleong Shau (§ fij) que ó a moderna Siac-ki, capital do distrito da ilha, à qual está ligada a península de Macau. 0 nome de Chung Slian (rp Jj) foi dado modernamente.
Neste pleito foi correndo o anno do 1639, o tirando os Mandarins devaças repetidas, ein que com effeito conhecerão que naõ os Portugezes, mas os Ladroens homicidas chinas foragidos e occultos habitadores destas Ilhas heraõ os culpados, bastando lhe o indicio vehemente de sua precipitada fuga da qual por outros seus nacionaes tivcraõ plena notticia; mas como neste anno para mais pennas sentir, aconteceu haver em Macao outras mortes, pois liuns negros estando muito bêbados cliegaraõ e ma- tar tres Chinas, novamente se irritarão os Mandarins, naõ obs tau te se lhe mostrar que os seus Chinas foraõ a cauza motiva deste excesso, porque mesmo os tinliaõ embebedado, e os mora- dores naõ podiaõ evitar estas dezordens: em fim naõ socegaraõ sem que a Justiça os mandasse enforcar; e para lhe serenar os ânimos a que houvessem de dar fim ao outro pleito, pois estava todo a negoceaçaõ parada sem os mercadores poderem liir a Can- taõ ás Feiras, para com os géneros que trouxessem vir carregar os seus navios, com grande emportancia de prata que esta aflic- ta Cidade segunda ves lhe despendeo, lie que toda esta tormen- ta se aplacou. Com esta perseguição dos Chinas, peida do Comercio do Japaõ, e novas ordens que chegarão de Fellippe 4.° intimadas pello V. Rey da India, prohibindo a esta Cidade o comerciar com a de Manila, por evitar a extracçaõ da prata, que traziao pellas fazendas que os Portugezes levavaõ, ficou Macao em tao deplorável decadência, que a breve tempo se vio na maior mi- zeria, cuidando já seus moradores no retiro, em que podessem achar providencia, e refugio. //
— 214 Ca.1». iv I 'air. I'Jfi De como naõ obstante a inhibiçaõ (lo Imperador do Japaõ, quis Macao tentar sua fortuna: socessos que experimen tou, # varias reprezentaçoens que delles fes, na delligencia de evitar mayor mal. (1) Tanto que a roda da Fortuna principia a dezandar, o os homes a conhecer á custa de experiências as inconstancias e vo- ltibilidades deste mundo taõ caduco, em cujo theatro tudo o que se vê saõ apparencias entre sombras de realidades, logo en- tão os ânimos mais generosos e constantes se acohardaõ, porque a naõ surtirem prósperos effeitos das delligencias activas feitas para seu melhoramento e de/afogo, atlié a mesma soberba que as opulências, e riquezas oecazionaõ, se chega a humilhar e a abater. Naõ sei se foraõ do Céo estes castigos que Macao che- gou a experimentar; porque naõ obstante ser seu objecto primei- ro a dilataçaõ da Fé e propagaç-aõ do Ohristanismo, já as mur- tas riquezas que possuhiaõ me parece tinha nellas produzido hum espirito arrogante de soberba, pello dispotico que obravaõ. Em o anuo passado de 1G38 lhe principiou a Fortuna a dar de rosto como o excesso que elles naõ esperavao; e neste de 39 entraraõ a dolligenciar todos os meyos, para que a taõ sen- sível perda das viages do Japao o Manila se podesscm restaba- lecer outra vés, e novamente com os seus productos podessem os moradores de Macao novamente respirar. Para a consecução deste fim, naõ se dando por achados do Edicto que mandara promulgar o Imperador do Japao, talves reputando por particu- lar paixaõ o facto, ou talves por idéa sugerida de ambiciosos Olandezes rebeldes, pois já alguns áquelle porto navegarao, se rezolveo o Senado da Camera a convocar para dia e hora asina- lada ao Cappitaõ Geral, ao Governador do Bispado, a todos os Prellados das Itelligioens e homes doutos, juntamente com os (1) Os documentos reproduzidos neste capítulo por Frei Joseph de Jesus Ma- ria, extraliidos por êle do antigo Cartório do Leal Senado, são ainda inéditos, se- gundo cremos, e do mais alto valor histórico.
— 215 - que tinliaõ servido neste mesmo Senado, e congregados todos lhe propôs a mizeravel decadência e atiiçaõ ein que Macao se achava, porque tendo feito esta Cidade e povo despezas taõ e- xorbitantes como se sabiaõ, parecia justo tentar aliinda a for- tuna em mandar alguns navios ao Japaõ (se assim lhe pareces- se), pois sem esta negoceaçaõ Macao naõ podia subsistir, nem es- ta Christandade conçervarse, no que se mostrava cooperar com activas delligencias da sua parte, mostrando no serviço de Deos e de EIRei o seu zello, vendo finalmente o em que esta impor- tante dependência parava. Approvaraõ quazi todos o sistema de que com effeito a- hinda este anno se mandassem ao Japaõ alguns navios coin fa- zenda; o nomeados officiaes suffieientos, se aprestaraõ com toda a delligencia quatro naos, para o que negandose a concorrer os Administradores o Feitores da Fazenda Real, se empenharão os pobres moradores á sua custa, para que se naõ mal lograsse o intento. Naõ só estos mas alguns estrangeiros que aqui se acha- vão e vários Japoens que nesta Cidade interinamente rezidiaõ embarcaraõ em as quatro naos suas fazendas de comercio para aquelles portos, e o Senado escreveu bastantes Cartas attenciosas e politicas áquelles Frincepes e Governadores, implorando a sua boa amizade, auxilio e // soccorro para que fossem os que nave- 1>ae- 127 gavaõ, bem recebidos, e as fazendas bem aceitas, recoinemlnn- dolhe a efficáz expedição e protestandolhe perpetuarse em hu ma solida amizade, com a mais fiel correspondência. Achasse a copia destas cartas em o Cartório do Senado, copiadas em hum pedaço de Livro, com semelhanças de que o foi e nesta era sér- vio, que por crivado e podre só em partes se podem ler; mas do que rezultou desta liida ao Japaõ no anno de 39 mostro nas cartas seguintes por naõ multiplicar desnecessárias entidades, e são do mesmo Livro extrahidas. (b) (1>) I.ivr. Velha lio Sen. da Cam. de Macao anno 1639.
— *21(5 — Carta qne o Senado da Camera escreveo a FA Ren FeUippe 4. governando Cantella e Portugal SENHOR. «Muitos annos há quo esta Cidade aviza a V. Real Ma- « gestade, e ao V. Rey da India dos vigores e ameaças, com que «continuamos este comercio do Japaõ, em rezaõ dos Relligiosos, « que tanto contra vontade daquelle Rey lhe entraõ em seu Rey- « no, contemporizando esta Cidade, o remedeando quanto podia « pel la concorvar a Y. Mag.'; mas como os poderes saõ taõ limi- « tados, maiormente para negocio do tanta concideraçao, foi o « S°' servido de executar o que tanto receávamos. « Partiraõ este anno para o Jappaõ quatro navios de que « só dons lá chegarão, (2) por hum grande temporal que ti verão. « Chegados ao dito Jappaõ só a gente deixaraõ dezembarcar, pa- « ra se lhes notificar hnma sentença daquelle Rey, pella qual nos «oxcluiaõ do Comercio, com as pennas e regor da dita sentença, « que cora esta enviamos, para que V. Real Mag.e se sirva de « mandar ver. « Notificada a sentença, fizeraõ embarcar a gente, sem con-, « sentirem se naõ dezembarcasse couza alguma, nem aliinda as car- « tas desta Cidade para a quelle governo, como lié costume: nem o « coin que a mesma gente se podesse sustentar, emquanto lá es- « tavaõ; e fizeraõ tornar os navios com as mesmas fazendas, o da « mesma sorte que fovaõ: com tal odio e aborrecimento, que nem « quizeraõ receber as fazendas dos seus mesmos natuvaes, que nos « mesmos navios hiaõ, com ser muyta quantidade, dizendo que »nem o que hera seu queriaõ de nós; e como estas fazenda só « para aquelle Reyno servem, e não para outro nenhum, taõ grande « mal foi o tornarem por vender, como a mesma quebra do coiner- « cio: tudo occazionado por respeito da passage dos Padres, e de « tres que actualmente haviaõ prezos, com que mais se irritarão, (£) Sob o comando do capitâo-mór da viagem, Vasco Pallm de Almeida.
— 217 - « sendo assim que naõ hoje naqaelle Reino Cristão, nem quem « se atreva a agazalhar hum, nem lá pode entrar, e se segue de « intentarem tantos desserviços de Deos N. S.", o de V. Real « Mag.% como V. Real Mag.e mandará ver pel la carta dos Prel- « lados destas Relligioens, que será com esta. «Como esta Cidade de V. Mag.' e seus Vassalos naõ tinhaõ « outro meneio para se deffender o sustentar, ficamos hoje com tan- « tas nescessidades e dezemparo, que receamos podella sustentar, « atlié V. Real Mag.e ser avizado,//e lhe mandar acudir como 1>!t„ ,2S « taõ Christianissimo. Como a occaziaõ de todo este socesso e de- « zemparo procedo da passage dos Relligiosos aquolle Reyno, pa- « recendollie a V. Real Mage mandar fazer liuma suplica a S. « Santidade, em que com penna de Cençuras, e excomunhoens não « passem Relligiosos áquelle Reyno, durante esta perseguição, e « constando delia a este Rey, poderá ser que com esta segurança « naõ só nos admitta outra ves, senaõ que nem consinta em seu « Reyno o rehelde Glandes. « Ao Vice Rev da India avizamos do estado em que esta- « inos, o lhe pedimos nos soccorra para coneorvaçaõ desta Cidade « de V. Mag.e e lhe remettemos hum apontamento dos remedios « mais próximos, com que de prezente nos pode soccorrer, e lhe «pedimos avize e informo a Y. Mag.'; e porque o estado em que « ficamos, e o rebelde tanto portende esta Praça, hoje com mais « vontade vendo-a destruída, nos paroceo reinetter com esta a V. « Mag." os mesmos apontamentos, assim para que conste o como « avizamos, como também para que Y. Mag.e os mande ver, e « conforme a elles pór seus olhos de sua Real Clemência no de- « zemparo em quo ficaõ estos moradores e vassalos que taõ afli- « gidos se vem. Deos N S0' prospere e guarde a V. Mag.e por « largos e tolices annos para maior augmento de nossa Santa Fé, « destruição dos inimigos delia, e bem de seus Yasslos. Macao &e." Copia da sentença que aos das naos foi notificada: Cap. 1 — Sabendo muyto bem que EIRey tem prohibido rigoro- samente em todo o Jappaõ a Lev Christam, sem embargo disso mandaraõ athégora ás escondidas Pregadores da mes-
— 218 — ina Ley a estes Reyiios. 2° —EIRey castiga com penna de morte aos Oliristaõs que unidos entro sy inventaõ e trataõ maldades, e couzas to- ra da rezaõ. ;{* — Deraõ, e mandaraõ de seus Reynes sustentação aos Pa- dres e Christaõs, que estaõ escondidos em Jappaõ. Sentença— « Por ser na verdade o contbeudo nos três Capitolos « asima prohibe e manda EIRey que daqui por diante nao « liaja mais esta viage e comercio; e i Toshikatsu. Oi-no-kami ,1573-1644) Daimyõ do Saknra; Matsudaira Nobut- suna, Ieu-no-kami (1596-1662) Daimyõ de Knwngoe; Abe Tadaaki, Bungo-no-kawi (1605-1675) Daimyõ de Oslii; Abe ShigeUugu, Tsushima-no kami (1 -1651), e li Nao- taka, Kamon-no-kami (1590-1659) Daimyõ de llikone.
— 2IÍ) « Partirão para o Jappaõ quatro navios, de que só dous lá « cliegaraõ, por rozaõ de hum temporal que tivoraõ, em que hum « se perdeo, o o outro arribou quazi destroçado, e com todas as « fazendas perdidas o podres. Chegados os dous ao Jappaõ, como « dizemos, maudaraõ dezembarcar toda a gente, sem consintirein « (pie para terra levassem mais do que os seus corpos; e depois « de alguns dias estarem em torra lhe foi nottificada a sentença, « cujo treslado será com esta: pella qual nos botaraõ fora do Jap- « paõ para sempre, com as pennas, e rigores que da mesma seu- « tença consta, sem nos quererem admittir rezaõ nem caminho « per donde possamos ter alguma esperança da qual hajamos de « fazer fundamento, que se apiedaraõ do nós. «He tal o rigor daquelleRey e o odio com que nos des- « pedirão, que bem o mostrou naõ só em nos tirar o trato, mas « também em naõ consentir que se vendesse couza alguma, nem « ahilula para sustento da mesma gente em quanto lá estavaõ, nem « nos quizeraõ receber as cartas desta Cidade para os seus Maio- « res, como hera costume, e assim tornaraõ a botar os navios da «mesma maneira que foraõ, sem também quererem receber as fa- « zendas que nos ditos navios hiaõ de seus moradores, e naturaes, «com ser quantia de perto de quinhentos mil taois, dizondo « que nem o que hera seu queriaõ receber de nós. cvkVi''/!«•/ « Foi ocaziaõ desta deliberação o verem-se irritados com a «'» tos- « entrada dos Ralligiosos em seu Reyno, e os muitos avizos que ""vs' 6 « todos os annos nos íaziaõ, som haver emmenda, mormente de « Manila, o de prezonte haverem prezo tres Rolligiosos, (4) naõ « attentando o nenhum frutto que fazem, nem podem fazer, antes « muitos desserviços a Deos N. Senhor, e a S. Mag.e, como me- « lhor V. S.* mandará ver pella conta, ou carta, dos Pretlados « destas Relligioens, que com esta enviamos. (4) Pareço que se refere ao Padre Italiano, João Baptista Porro, S. J., e aos «lois Pa ires Jesuítas Japoneses, Francisco Mngoyetnon C pq ) e Bernar- do Icbizayemon ( jfj 25c í*íí PI )■ Estes dois últimos foram martirizados mais tar- do no" mesmo ano, sendo queimados vivos em Yudo; enquanto que o Padre Italiano renegou a Fé, tomando o nome Japonês de Sliohnktt ( H )' debaixo do qual viveu até à sua morte, alguns anos mais tarde.
— 220 — i Com a chegada dos navios a esta Cidade, e com as tris- « tes novas que trouxeraõ, comessaraõ as lagrimas dos pobres, as « lastimas e dezamparo de todos, com que ficamos mais cercados «de mizorias e confuzaõ, por ver o como poderemos sustentar es- « ta Cidade a S. Mag.*, atlié ello e V. S." ser avizado, e nos man- Png. 130 « dar soccorrer. // « A Y. S." lhe hé prezente o grande perigo e risco em que « esta Cidade fica, pois só do Jappaõ se sustentava, e do Estrei- « to, para que naõ há de que lançar maõ para o sustento destes « moradores; e assim V. 8.* se sirva mandamos acudir e prover « como Princepe e Senhor com os mais convenientes remedies, « que vir mais convém á concervaçaõ desta Cidade de S. Mag." em « que tanto lhe vai: para o que com esta mandamos a V. S.* linns « apontamentos, assim dos remedies mais convenientes á prezen- « te occaziaõ, como para diante, athé S. Mag." ser avizado; dos « quais também V. S.' verá o que do ditto senhor pertendemos « para sustento, e concervaçaõ desta sua Cidade, e seus vassalos; « atteiulendo juntamente que a fazenda que do Jappaõ tornaraõ, « só para aquelle Reino tinha sabida, e naõ para outro alguiii, sen- « do de tal qualidade que em pouco tempo se perderão, e os que < entre nós viviaõ, e nola vendiaõ, se foraõ, e nos dezampararao, « vendo o estado em que estávamos. « Pedimos a V. 8.* que com 8. Mag." nos favoreça com tan- « to encarecimento, quanto convém a que se isto naõ dezempa- « re; e como a materia he de tanta consideração e emportancia, « e o tempo taõ breve, nos remettemos aos capítulos que disse- « mos; nelles verá também V. S.* como intentamos que S. « Mag." mande fazer liuina supplica a S. Santidade em que lhe « possa seja servido mandar passar hum Rulleto, para que com « rigorosas cençuras naõ passe Relligioso algum áquelle Reyno « durante o tempo deste rigor, o que nos parece será bastante as- « tisfaçaõ para que ElRcy se apiade, e nos admitta. V. S." nos fas- «sa mercê avizálo a 8. Mag." com todo o encarecimento, pois «com elle se pode interessar tanto as duas Magestades Divina, e « humana. Deos guarde a V. S." Macao & c."
- 221 — Neste mesmo anuo esoreveo o Senado da Camera desta Ci- dade varias cartas á Manila: ao 11 lmo Arcebispo, á Audiência Real, ao Governador, e a lodos os Prellados das Relligioens que há naquella Cidade, reprezentandolhe o infeliz socesso que esta tivera com o Japaõ, no que tanto se perjndicava El Rei de Hespanha, que ambas estas Cidades e Reynes dominava; a to- dos com encarecimento se pedia quizessem por em tanto suspen- dor a liida, e passage do quaisquer Missionários ao Japaõ, pois por cauza delles tanto se escandeçera aquelle barba 10 Rey, ten- dollie já proliibido, e conciderando vilipendiarão os seus Decre- tos, e menos preciavaõ a sua Lev; mas ponderando melhor, 110 seu conceito, que este projecto naõ poderia cabalmente eífecituar a suspençaõ que portendiaõ, juntos em Camera, tomaraõ nova re- zolluçaõ de escrever também ao Papa a seguinte carta. Beatíssimo Padre. « Posto que seja couza nova, não estranho V. Santid.® ver « cartas desta Cidade do Nome de Deos (por outro 1101110 de Ma- t cao) fundada na China, e últimos confins do Oriente; porque o « respeito e devoção a essa S. Sé Apostólica nos obriga ao menos por esta via a liirmos beijar os pés de V. Santid.®// « Esta Cidade e Povo depois da sua fundaçaõ sempre prof- 111 « feçou servir, e ajudar os Ministros Evangélicos, e varoens Ap- < postolicos, que de Europa vein prégar a Eé nestes Reynes do Jap- « paõ, China Oonchinchina. Tumkim, Camboja, e mais Christan- « dades desta banda de Eudia, naõ só com esmollas continuas mas < aliinda com Navios, o groços prezentes que mandamos a estes « Reis Gentios, afim de favorecerem a propagaçaõ do Evangelho; « porém por quanto EIRcy do Jappaõ como exasperado contra os « Relligiosos que lá vaõ, e naõ menos contra esta Cidade por lhe < dar Navios para isso, mandou passar pregmaticas muy rigorosas, « com penna de queimar os Navios, gente, e fazendas, matar os « Padres, e quebar o Comercio, sem o qual naõ pode durar esta « Cidade, se algum Pregador Evangélico lá for por qualquer via, « nos pareceo bem reprezentar a V. Santid.® que ao menos por
* since «a seis auuos seria conveniente subitarein os Padres sem « li ir, visto que por lii rem continuamente naõ só se indigna mais < o Tirano, más akinda de pre/ente naõ há frutto nenhum, e se >< perdem as esperanças de adiante o haver, pois perdido este co- < mercio, se perderá esta Cidade, com grande perda do Estado da « India, e destas Ohristandades mais vezinlias, cujo Seminário se « podo chamar este Emporio; e temos grandes indícios de se a- < brandar aquelle Rey, se os Relligiosos dissimularem por alguns < annos, mostrando guardarem suas pregmaticas. «Julgando V. Santid.* que seria bom este meio, teríamos < em inuyta estima ser disso satisfeito: e quando parecesse melhor « o contrario, desde agora offrecomos fazendas, vidas, molheres, e íi- «lhos que temos, para tudo se arriscar e perder a troco da Maior pro- « pagação da Nossa Santa Fé, que pomos sobre as nossas cabeças, « e mais a estimamos que quanta riqueza cada anuo nos vem « do Jappaõ, e passa de tres milhoens, porque sempre fomos e « seremos filhos obedientes da S. Madre Igreja Romana, naõ fal- « tando nunca em servir o ajudar os Pregadores Evangélicos; e «como tais pedimos de joelhos a Y. Santid.c nos lance sua San- « ta bençaõ, e a todo este mundo Oriental, para todo elle co- « nhecer o Sol de Justiça e verdadeiro Oriente Ohristo Jezus. « Macao Cidade do Nome do Deos « Poraõ remetidas estas cartas por via de Manila e Goa « com outras mais repetidas vias, atlié chegarem ás maõs de El- « Rey Eollippe 4.° as que lhe pertencessem; para cujo effeito se « escreverão outras de inuyta recomendação a D. Francisco Mas- « carenhas, (5) a 1). Fellippe Mascarenhas, ((>) a D. Joaõ Perei- « ra (7) e outros Cavalheiros da índia, pedindo lhe também qui- * zossem interceder ao Vico Rey por esta mizeravel Cidade, naõ (5) Anus nnles, tinha êle sido o primeiro Governador e Cnpitão-Gernl de Macau (1623-1026), e era então (1639) membro do Conselho de Portugal em Madrid. Era primo co-iraião do então governador da índio, António Telles. ("6) Mais tarde Visnroi da India, em 1645-1650. (7) Dom João Pereira era Capicão-mór da viagem do Japão em 1638, e Ve- reador principal da Cidade,
« só polios estranhos, mas polios mesmos Vice Reys seus anteces- « sores quazi sempre perseguida, como se a senhoreasse outro Ma- 's nareha estranho; o lhe rogassem que pois o Comercio do Jappaõ « se acabara com detrimento tanto da Real Fazenda o deste Povo, « se lhe permittisse do novo as viagos de Manila que o V. Rey « D. Miguel de Noronha Condo de Linhares desde o anno 1030 « lhe tinha proliibido e posto em venda para a Fazenda Real, se « he que queria que os moradores de Macao naõ o dezemparassem.// Cai», v. Entra o Senado de Macao em requerimento com EIRcg i>,lg. 132 h ellippe para conceder a esta Cidade livre o negocio de Manila para sua subsistência, soluto o impedimento das feiras de Cantaõ: toca no final socesso de todas as dependências do Japaõ, c remet- te o seguinte expresso. Anno de 1640.- (1) SENHOR * Nenhuma couza aclarou mais a vista aos homes, que a Lin-, despe- « nescocidade, maiormente se as prosperidades motivaraõ descui- tlav <ío Sc"- . da Cam. an- « dos, quais se concideraõ nesta terra em tilo largos dias, rezao »» 39 e -to. « que escureceo todo o bom entendimento para naõ ver o cami- « uho por donde V. Mag.e cuidadoso tras prezontes as calamida- « des e trabalhos da índia; inuyto em particular esta Cidade, « para a olleiçaõ do qual Governo aviza, e manda se antepouhaõ Rell-.içaó « as pessoas de mais experiência: grande fundamento tem esta „ 1 ° pa (io eiftfítlo « Ordem, pois em hum só anno de governo que teve Domingos de Macau. « da Camera do Noronha se adiantou tanto a Fortificação e exer- « cicio militar, que se pode trazer para exemplo. « As Cartas que V. Mag.e escreveo de Madrid e Lisboa em « vários annos aos Condes Almirante, e de Linhares, (2) guiados (1) Como aponta Frei Joseph de Jesus Maria na sua nota margina', êste re- querimento ou carta dirigida a EIRei D. Felippe é uma relação mui noticiosa do estado de Macau 110 ano de 1640, nas vésperas da Restauração, e 110 auge do crise mais angustiosa das muitas, a quo Macau têm sobrevivido na sua história tão agitada. (2) Dom Francisco da Gama, Conde da Vidigueira, Visorei da índiu, 1622- -1628, e Dom Miguel de Noronha, Conde de Linhares, Visorei em 1629-1635.
— '224. — * polios quais nos pavece quo as pessoas para Cappitaens Geiaes < do Malaca e Macao, convém serem sempre de innyta prudência, < e experiência, Praças que por seus asentos pedem soldados bons « Militares, e esta nossa a quem o mar circunda por mais de tres « partes, convém darlhe V. Mag.« pessoa pratica e militar, que < saiba reconhecer, eleger, alojar, e fortificar, porque podem so- « ceder muitos accidentes em o tempo de guerra, com sitio de « mar e torra, e esta com padrastos, montes, penedos, quebradas, < barrancos, tora chãa, longe e perto das nossas fortificacoens, si- < tas ein parages, que sobre a melhoria delias ha opinioens con- « sideráveis, as quais em cazos de monos qualidade podem des- < baratar o animo superior, se elle ajudado da experiência naõ re- < guiar os pareceres com animo e asento militar, que fuja do « mais nocivo; e tudo convém prover brevemente, pois "V. Mag. * conffeça saber o dezojo que o Rebelde tem da sua expugnaçao « na qual naõ somente consistem os males que vamos mostrar á « Y. Mag.e, se por ella naõ houvesse o Rebelde de subir a ou- « tras em prezas. « Esta Cidade tem setenta peças de artelharia cavalgadas « em quatro Fortes Reaes, e sinco beluartes: atiraõ com bala de « doze atlió quarenta libras: mais vinte peças de Campanha, e bons Pa« íss * reparos// para os trances de tortificaçoens, reductos e tiinchei- < ras, boa fundição de todos os metaes, e copiosos moinhos de < Polvora. Os cazados Portugezes cliegaõ a seis centos; os filhos < que podem tomar armas, pouco menos; a gente da terra entre < cazados e soldados, mais de quinhentos; os escravos sinco mil < de sorte que o computo mais certo fas 110 campo duas mil boas « armas de fogo; mas tudo isto nao lie o que a hade deffender, « pois seu 1-emedio depende do que nesta reprezentaçaõ pedimos « a Y. Mag.e « Esta Praça, e o grande numero de mercadores de toda a « índia asistontes, e tudo o que corre da ponta de Dio atlié Ma- « laca viveo e se sustentou de tres viages que nella se faziaõ, In- « dia, Manila, e Japaõ; e o meneio delias foi athégora cauza de € o rebelde Holandês nao ser Senhor desta grande pai te do
— 225 — < Mundo, fazendo os Portugezes compras e sacas de todas as dvo- < gas que o Bey no da Oliina dá. t A primeira está destruída na asistencia que o Rebelde fãs continua 110 Estreito dy Siucapúra, adonde naufragou a < maior parte do Cabedal da India; e este impedimento bade ser < verdadeiramente a cauza de naõ renderem as Alfandegas, naõ < os subidos preços de Jappaõ e Manila, como escreveu a \ . Mag.e «o Conde de Linhares por carta de 25 de Julho de 1631: au- < tes o grande dezejo que os Moradores de Macao sempre tive- < raõ de augmentar a fazenda de V, Mag.® lhe tem feito perder < grandes partidas. « A segunda: de Manila se prohibio á instancia de ambas « as coroas; Portugal com pouco fundamento; e esta verdade ti- < nlia já alcançado o Condo Almirante, sendo antes de contrario < parecer: pois fora de que por seu respeito naõ passaõ fazendas < à India, naõ se acha outra rezaõ alguma, e a esta desfaz a < impossibilidade da passage, (pie havendo a livre, levaria o mer- « cador suas drogas e Cabedal, dando á mercancia o que he seu. < A Coroa de Castella segue mais fundamento e rezaõ: pois « havendo passage taõ franca de Saõ Lilcar á Nova Hespauha, « naõ lié rezaõ que a fonte perenne do Potosy deixe a Castella « para correr á China; porém ahinda esta desculpa estamos cer- « tos naõ alegariaõ os Contratadores de Sevilha, se soubessem a «conveniência de se fazer esta viage, e o muito que nisso ga- « nhaõ, entendeudo (pie perdem, segundo adiante mostraremos, dci- « xaudo as rezoens que tocaõ a esta parte, do que naõ tratamos; ■< advertindo só que todas as rezoens de 1). Joaõ Gruo Prócura- « dor de Manila, (3) dadas em sua deffença e abono se escuzavaõ, (8) Dou Juau Grau y Moufalcóu, Procurador General de las Islas Filipinas cu Fspaíia apresentou uni extenso Memorial de 36 capítulos ao Conselho
— 226 — tendo o dito Procurador notticia do quanto emporta eoncervar •< aquella Praça, por convir á segurança de Macao, e da perda ' desta lie corta e conhecida a queda, e ruina do Império de V. Mag.e; de sorte que sabendo elle ro prezou ta r o pezo, gravidado, * o substancia deste argumento, bastava para V. Mag." acudir a « hunia o outra parte se concidoramos o porto das Ilhas Felippi- Pag. 134 1 ,lttS 801,1 mercadorias algumas, nem trato sufficiente para// mo todos os remedies que aponta saõ topicos, sem passar ao des- « cobri men to do que esta rolaçaõ e supplioa vai clarissimameiite (4) Os holandeses edificaram o forte de Casteel Zeehuidia uo sítio do moder- no Anpitig (Tainan), na ilha de Taiwan ou Formosa, no ano de 16U4, dei» suo» de- pois di suu malograda tentativa para tomar Macau, e da sua ocupação efémera das ilhas dos Pescadores. O Castelo do Zeolandia foi tomado pelo corsário Chinês Koxinga em Fevereiro de i662, após um cêreo de nove meses. (5) Acapulco, pôrto da costa ocidental de México, aonde aportavam as naus da carreira das Filipinas.
_ 227 « mostrar a \'. Mag.*; o nella so descobrirá como da perda do « Macao so perdem as esperanças de poder sustentar grande par « to da Monarcliia do Hcspanlia, quanto mais melhorar o partido «contra o Holandês Rebelde. r . ■- Mas será força mostrar a V. Mag.* como tirando esta via- « ge do Manila aos moradores do Maoao, nem por isso deixaõ de « vir as mesmas perdas á contrataçaõ de Sevilha, com maiores < inconvenientes em desserviço de V. Mag.e: pois os Chinas vezi- « nlios de tão porto faltandolUe a compra destas fazendas em Can- << taõ por maõ dos Portugozos, as lovaõ a Manila: ahi as compraõ, « e passaõ á Nova Hospanha, do que vem o retorno em prata, que « lie o tudo adonde topa; o so V. Mag.* pertonde desviar este um- « do do Comercio, será tendo continuamente I). Pedro do Quiro- « ga (6) asistento toda a vida em Capulc,o, pois de outro modo lio < irremediável a extinção da prata que passa Fellippinns, donde < naõ convém tirar aquolla que for bastante á sua concervaçnõ e < desta Cidade polias rezoens abaxo. -< Pois Rey o senhor: so a viage senaf» desfás, vale mais dar « o paõ aos Filhos, que aos Caens; o por quanto também os mo- « radoros do Manila pedem a liida dos Chinas, e naõ a nossa: ei> « tendendo que naõ hindo nós, hiraõ olios, a quem compraõ mais « barato, dizendo que lhe lovaõ mantimentos, nos lhos levaremos « também, e podese impedir que naõ passem lá os Chinas; maior- x mente que se erra nesta petição de Manila, a quem desculpa « buscarem sempre os homes o mais nocivo; que se os Portugezes « de Macao lhe levarem tudo o que aquelles levaõ, qual pode ser « a rezaõ de negarom a liida a vassalos de EIRey Leaes e Chris- < tnõs, dando a aos Chinas traidores tantas vezes.// 135 < A outra, que hera a do Japaõ acabouse por nossos pecea- « dos, não deixando de a criminar o Rebelde pello nosso proceder, Í6) 0 Licenciado Don Pedro Quiroga y Mora, Visitador do México, foi man- dado a Acapulco em 16.15, para fazer inquirições sAUre o comércio das Filipinas com o Méxi 20, o condenou tal trato ser cru men te. Morreu em 1637, n Kl Hei mais tarde revogou muitas «las suas ordens e disposições. Vide Catalogo de los documentos re- latiros a las tslas Filijnnas, Tomo VIII, pp. 55-57, 87, 92-8, 147 e 165.
228 — « coin petiçoeus cheas de falcidades, atlié que polia sentença que < por treslado foi o anno passado a V. Mag.*, se mandou naõ tor- « nassem mais de Macao a seu Bey no, 110 que se vio quam fáceis «são de destruir grandes edeticios, e dificultosos de reparar, e nos « quatro Embaixadores que esta Cidade ali mandou com til pes- < soas, aquém cortaraõ as cabeças gloriosamente, pondo hum íuu- < ro entre nós e elles por segunda sentença, de que em outra < avizamos. (7) * Chegando pois a ultimo e mais perigoso aperto, nos pa- * receo mostrar a V. Mag.® como esta terra se naõ pode concer- < var, sem os moradores delia fazerem feiras em Cantaõ, e coin- < pras de todas as fazendas que o Império da China manda a es- < to trato, a qual compra e saca de mercadorias se não pode fazer « (como estamos) pois naõ há parte algumaad onde as levar a ven- « der, tendo as três viages prohibidas; de sorte que impedindose « os lugares adonde se faziaõ as vendas cessou também o uzo das « compras; e nestes termos se poem a perda de Macao perto dos « olhos. « Se naõ houver compras e vendas, naõ ha Direitos para « EIRey da China, nem interesses aos Mandarins; e naõ havendo « estes, na mesma hora seremos obrigados a buscar nova vivenda, •< pella desconfiança desta naçaõ, que só tem alguma segurança « nossa em quanto nos ve occiipados na mercancia, parecendolhe < que na falta de prata, havemos buscar o comer por força, e as- « sim correrá a Mercancia á parte donde lhe comprarem, em cujo « ponto se acharaõ as cauzas e rezoens quo vaõ a V. Mag.® Notii « Tanto que Macao faltar no trato, logo os Chinas acudi- Anpfiincnste « raõ com tudo o que nos vendiaõ á Ilha Formosa, e a Jacatará, 'ne"t'è" I'ui'g * de sorte que sem atirar o Rebelde huma baila, nem gastar bum < pezo pode chegar a ser hum grande no mundo, pois ficará Se- " nlior do Comercio da China e Jappaõ, pello mesmo modo que « o vamos relatando; para intelligencia disto lie nescessario pri- (7) A relação i-ontuiuporânea «lesta tragédia vein reproduzida por 0. li. Bo- xer no sen artigo ]ímbairada de Macau ao Japão em 1640, nos A uaix do Club Mili- tar yaral, Tomo LXII, Nos. 9 e 10 (Lisboa, 1993).
— 229 — < mt;iro saber com que Cabedal se meneavaõ us ditas tres viages, Kotil e como 110 exercício delias atlié o prezente naí> podo o Rebelde cmiu tael *aõ « alcançar o introduzirse nellas, a qual introdução e ruína se vai tostoenu < descobrindo. « Quatro milhoens de Cruzados andava» nesta mercancia; « verdade que se aclarou algumas vezos, e em particular 110 anno «de 34 e 37 que vieraõ do Japaõ dons milhoens e quarenta mil « tacis, que deraõ a V. Mag.c duzentos e quatro mil cruzados do «fretes de des por cento; do Manila pouco, o qual pouco junto á « outra quantia grande que fica em prata, e fazendas das viages «da India, Solor, Macassar, Camboja, Concltinchina, e Tunkim « fazem a mesma// quantia, que tudo se entrega aos Chinas, e se |>il{, J3li « embarca; e sendo a nossa mercancia taõ má, por isso cara nas « compras, o barata nas vendas, nunca se levantaõ os ganhos a « tanto, como será na Companhia de Holanda. « Metido pois o Inimigo neste trato com o Cabedal dos «ditos quatro inillioeus, sendo a sua Companhia taõ prevista, to- « dos julgara» que os ganhos subaõ mais que os nossos, os quais « ordinariamente saõ de cento por cento, e a elles lhe damos o « mesmo, por naõ admirar a quem nau tem notticia «lesta gran « deza, deixando os advertidos que para entrar o Rebelde com «este Cabedal, naõ lie nescessario tirar nada do proprio que «agora tem. « A quatro milhoens em poder de Holandezcs que haverá «todos os annos deste comercio, lhe tiramos quinhentos mil eru- « zados para os gastos, Naos, e da gente que nellas andar; e da- « solhe muvto, porque o barato das terras pede menos; fica logo « todos os annos de ganho limpo de despezas tres milhoens e meio. « Eita quantia empregada na China em soda crua, cosida, e teçi- « da, Almíscar, Aljofre, Louça, Assucar, pao, Cingibre e outras « mercadorias para Europa, e para as Costas de Cambava, Persia, «e Chromandel: outra quantidade de Ouro, Louça vários teei- « dos, concerni de Oingibre, Toutinaga, (8) Vermelhão, Á zougue, (8) Tutunaga »u Tutinaga, cobre
— 230 — «e infinitas mercadorias ein qne se ganha muito dinheiro, miõ «queremos que 110 Cabo do anno em Holanda se ache multipli- « cado o Cabedal dobrado mais do que o fato, se ajuntaõ do pro- « prio o ganhos ao menos sete milhoons: naõ devendo estimar em « taõ pouco outras gentes este interesse, pois navegar de Flandes «á China naõ lie para se esporar se naõ muito mais, maiormente « polias inaõs de feitores a quem o rigor obriga a falar verdade. « Naõ se duvida dos quatro milhoons para o Rebelde se « introduzir 110 dito comercio, parecendo dificultoso nchálos de « contado, porque 110 Jappaõ deraõ sempre seus mercadores com « onzena a responder quanta prata os Portugozes e Holaiulezes « quizoraõ, e naõ faltaraõ em Macao homes prudentes que tiveraõ «para si convinha sustoutarmos a viage daquelle Reyno sòniente « com a sua prata, antevindo o que veio a soceder, pois nas per « das do már e mercancia, nunca a podia haver para nós, e nos « ganhos sustentávamos as vidas, famílias e Cidade, como tam- « bem as viages de Jappaõ, tendo sempre seguro de naõ pertur- « liarem os Rebeldes a tal navegaçaõ: e padrinhos nos datarios, «para nos trabalhos nos serem valledores entre o Rey, ou « Privados. «Fazendo pois òoncideraçaõ e computo dos Cabedars e for- « ças com que o Rebelde aecreditou athegora sua obstinação e re- « beldia, achamos que com os rendimentos só da sua Companhia «na Seda da Persia, roupas de Cambava, Chroinandel, e ospeeia- Pug. 1 « ria do Sul, cruzando todos os / mares com seus navios e ban- « deiras em varias partes de Europa e Azia desde o anno de 1024, «e ahinda do de 622, ganhando em Flandres a illnstre villa de « Mastriehe, Vessel fortissimo, Grol, Roremunda, Benalon, e to- « das as mais Praças do entre mura e Rins, alem de Rimberche, «e Jule, Abalduclie, Alen, Arientales, e outras; escalou e roubou « Atrilimont: Sechem. e todo o Paiz de Voas e Barbante pade- « ceo queimas, e roubos nunca vistos athé os mesmos muros do « Brnxellas; restaurou a Estinche, Stimberg, e outros lugarez, in- « tentou a Anvers, UIst, e Remberclie, sem se poder soeeorrer a « Friza, vendose o Marquês de Aitona abarbado todo hum veraõ
— 231 — « com o graúdo exercito de Holanda, sem lhe ser possível obrar « acçaõ alguma. &c.* « Ganhou no Brazil as Cidades da Bahia, Pernambuco, o « Prahiba, do sorte que naquella Costa teve por seu tudo o que «corre desde o Cabo do S. Agostinho, athé o Rio de Janeiro. « Assaltou na Nova Hespanha e roubou a Porto Rico: fes preza tom toda a frotta do D. João de Benavides, (9) e na Almiran- « ta de Funduras, (10) andando ali de armada I>. Bernardino « do Lugo; passou ao Perú, o doutro no porto de Calhau quei- « mou dos navios, tomou oito prezas, saqueou a Goachil, quei- « moil ahi hum Galeaõ, e dosfos os navios e barcas que guarda- « vaõ o rio. «Foi ao Rio do Janeiro e Mina; brigou tantas vezes no « mar com as nossas armadas; sustenta o Parcio a Unnús com « sou amparo, e ellea Jacatará Metropoli sua no Estreito de Sun- « da, Tornate, Amboino, Banda, o forte do Taivan na Ilha Foi- « luosa, e o de Peliecate na costado Chromandel; ganhou na Ilha « do Oeilaõ Vatecalo, Gallo, Nebungo, e Trinquilimale; tras ar- « madas desde Moçambique athé a Persia o Jappaõ; com 150 naus « antes mais quo menos; tem levado a reputação e opinião do guer- « reiro entre todos os Reis do Oriente, e com rezaõ: pois querem «que com armada pequena de galeoens se sustente a India, sen- it do ella sua total perdição,'athé V. Mag.* a fazer tal, e taõ po- « derosa, que com ella se busque ao inimigo em sua caza as- « sim como elle agora o fás na barra de Goa, em tanto descre- «dito da Naçaõ Portugeza, consumpçaõ o ruina do Estado, e da «Fazenda de V. Mag.*, que apoquenta os dias da vida à pobre «índia. (11) « Havendo visto as principaes obras e feitos com que o (9) Rofere sp à t mntln «la frota de prata hespnnhola pelo Almirante Pirt Ileyn em 1628. (10) Honduras (11) Sôbre o bloqueio da barra de Goa poios ludomlescs lios anos do 1630- -1640, veja o nosso ««tudo, O General do Mar Antonio Telles e os sens combales navais contra os holandeses na barra de Goa ( Boletim do Instituto Vasco da Gama, Nos. 37 o 40, Nova Goa, 1938 )
— 232 — « Holandês rebelde adiantou seu partido, e o temer com que as « nos ias Costas e fortifieaçoeus vivem velando sobre seus intentos, «e havendo também conciderado o estado mizeravel a que a b a- « /enda de V. Mag' veio polias forçadas e continuas despe/as a « que seus Ministros a obrigaraõ, e havendo sabido o Cabedal e « fazenda de que sahiraõ todos aquelles exercites de terra, e ar- « madas de mar: tantos soldados, marinheiros, artollieiros e artc- ,:,tS « lharias, uaos, e munições que 7 tudo come, havendo nottado co- « mo as armas de V. Mag.' naõ foraõ poderosas a sustentar o pro- « prio, quanto mais a ganharlhe nada; menos se deve esperar da- « (|iii em diante, pois o Rebelde vem achar ontro Potosy que se- « rá proveitoso só á sua rebeldia, e ruina toda da Christandade. « Paia assim discorrer com jui/o e prudência o que virá « a ser, se o Rebelde tira agora sete milhoens donde naõ tinha « nada, e aereeenta esta quantia ao Cabedal primeiro, para ver « se se acha alguma rezaõ ou caminho de o dissuadir de qualquer « intento, ou se lie possível que os Filhos da Igreja naõ tinhao « parte certa em que viver, nem V. Mag.* asistencia segura na «Corte de Madrid, confliçaõ que poderão fazer os que sabem eo- « 1110 no tempo pre/ento França, Sabóia, Veneza, e Alemanha « naõ víraõ o rosto alegre a A'. Mag.' e vendo crecido de forças « o Inimigo de Hespanha, todos lhe dezejaraõ por a lança, e tro- « car em ingratidoens os benefícios recebidos. « E quanto todos estes conheçaõ o bom fundamento nesta « nossa rellacaõ, e importância do remediu, nao há duvida quejul- « gam por infalível ser nescessaria a brevidade delle, se lie que nao « tem por impossível liavelo a taõ grande ruina e trabalho, vendo a « cõmossaõ que fizera» na Real Fazenda as guerras atrazadas, pe- « nuria de Soldados, falta de navios maior de artelharia. e mari- « nlteiros, quando a Monarchia de Hespanha uescessita mais delles « que qualquer Império. « Naõ será pouco proveitoso para intelligencia da materia «tratada, entenderom os Ministros de V. Mag.' que se o Rebelde « Holandês se houvesse apoderado dos portos de Cartagena, Vera « Cruz, ou no Perú do de Calao e Panama, assim como no lira-
— 233 - « zil o está iiliimla (lo
«oo, ordenando que se naõ admittaõ Chinas em Manila; e Ma- « eao se obriga a mandar niunieoens e mantimentos, e tudo o « mais que elles levavaõ, com o que estará a terra provida de « tudo, e segura de gente qual tem experimentado tantas vezes, « podendo em alguma soe,ceder mal: e que esta viage restituída «seja mandada lazer de modo que os Ministros Reaes em Maca» « naõ sejaõ executores do tempo em que haò de partir, ou dos na- « vios que liaõ de ser, pois só pertence esta elleiçao aos donos das «fazendas «pie sabem o que lhe convém; e quando senaõ conceda « isto, pedem: (12) « 2 — Que V. Mag.® dé licença para mandar cada dons annus « hum navio á Nova Hespanha, ou Peru; e este para eseuzar as « replicas da Contratação de Sevilha, uao levará fazenda alguma « que se encontre com as de Cantella; más so levará ceito geneio «de roupas brancas, e outras de algodaõ de cores, papel, agulhas, « Azougue, de que há tanta ialta nas Minas, Almíscar. Aljoíie, « Vermelhão, Rubins, Louça, alguma Seda de cores para lavrar, « linhas, botoeus, trastes de «'aza. como colxas, cochins, armaçoens, «camas, e alguns dourados de serviço, Arcabuzes, artelharia e « chumbo, que tudo aliviará a \ . Mag.® do cuidado no provimen- « to daquelas terras. « — Que V. Mag.® conceda permissão para mandar Ma- « cao hum navio cada dons annus em direitura a Portugal: sendo «esta viage e todas as mais o remediu dos Mercadores da índia, « que faltaudolhe as que tinhaõ da Persia, Mombaça, Bengala, Ma- « laca, Cochitn, acodem com suas pobrezas a esta Cidade, para «nos intereces delia alentarem a vida, nem licaraõ sendo de per- (10) sòbre as íazóes <|it«* concorreram paru levar u lilltei a manter a proi- bição tio trato tie Macau com Manilla c México, vejum-se os seguintes documentou no Arquivo de lai índias do Sevilha: (a) Teatimonio de uma caria de Dou Pedro Qui- roga a Don Sebastian Hurtado de Corcuera (Governador das Filipinas) sobre las fruit- (Irs en el comercio que se bacian cu Acapulco g tltiúo que causaba a las Islas filipi- nas el trado e los portugueses dc Mtictiu. Mexico, 7 -111 -1 H:ít» (Catalogo, \ III, p. 17) (b) Memorial de Dou Jtiai. Grau, eu nombre de la ciitdud de Manila, suplicando se mande pvvcr remedia g césar el trato que eu las islãs liun introducido los portugueses tie Martin. Acuertlo en 'J9. de Agosto. (Catalogo, VIII, p. 08.)
— 235 — * da as do dappaõ, quando se abra, e seja prospera; porque 110 mes- «ino instante em que se abrir o dito comercio, ou se dezeni pedir «o Eítreito de Sineapúra, nesse mesmo eessaraõ as cjue de novo «se pedem, e nesta do Reino terá V. Mag." augmento na sua Real « Fazenda sem dispêndio, e com reputacaõ; porque caso que o Ini- « migo Chi jo com ella dê novos cuidados, ou espere a Nau, ticaõ € tres derrotas mais, e vem nesta mudança provimentos a Malaca «e India, pel lo desvio que em parte bade fazer do// Estreito de l'ng. uo « Sineapúra, e passaraõ nossos navios, ínaiorinente cjue na perda «quando a liaja. perdem os de Macao pouco, em rezaõ do muito « que estimaõ sua vivenda no Reino da China, pel la s rezoens ditas. « Se tomar Angola, que naõ seja crime: porcine suposto lia- « de saliir do Archipelago por onze ou seis grãos, e vai furados « Chuveiros e tempos que correm de quatro atlié des, com tudo « pode a novidade da viage trazer oceaziaõ de tomar aquelle porto. « Este navio liade saliir carregado de todos os géneros: de «seda crua, cosida, trucida, solta, branca, e decores, peças tecidas «de todas as cores. Almíscar Aljofre, Rubins: e por lastro gin- « gibre, Tutunaga, Azouge, e varias miudezas de importância, que « todas daraõ a V. Mag.' muytos Direitos. «Facilitasse com a liida deste navio a volta, pella qual (ler- « rota pode V. Mag.' acudir a Malaca, Manilla, e Macao coin o soc- « corro e governo que lhe parecer, sem estar dependendo do gran- « de rodeio cjue levaõ as ordens a troa, ou Nova Hespanha, e da- « hi a estas partes. « A ordem deste navio, e sua armaçaõ naõ convém trazer « particularidade alguma, senaõ que pertença ao Governo da Ca- « mera, para se cominunicar o bem a todos por via de Companhia; «e que os Ministros Reaes naõ tenhaõ nella jurisdição tal cjue ve- « nlia a ser impedimento da viage, pellas utilidades que nesta par- « te se concederão, segundo o prezente governo. « Deixa se liir esta rellaçaõ sein mais acompanhamento de « outras rezoens, porque melhor se deixaraõ entender nos Reaes « Concelhos de V. Mag.', do cjue nós as saberemos dizer; e sómen- « te se adverte que vai aos pes de A'. Mag.' em nome de toda es-
— 230 — « ta Cidade de \Lacao e seus moradores, protestando diante do Ceo, « e da Terra que assim o entendemos, e que Macao se perde sem « duvida alguma, se V. Mag.® uaõ remedea brevemente o que se « pede, sendo de taõ pouco custo; e depois de sabido em toda Ku- * ropa e índia como mostrámos o caminho da perdição e do re- « medio, ninguém terá que arguliir falta, ou descuido ao governo « delia, adondc Deos nos mande fellicissimas novas de Y. « Mag.® ao Papa, a Kl Key, ao V. Rey, mas á Audiên- cia Real, Arcebispo, Governador, e P reli ados das Relligioens de Maiiita, varias cartas, como no Capitulo 4 deste livro fica dito, chegadas «laqueila Cidade logo as repostas com firme pro- Paj:. 141 A
• > i messa <1*5 impedir interinamente a hida dos Missionário» a Jap- paõ: entrou logo o Senado de Macao eni o novo projecto de mandar ao mesmo Jappaõ liuina embaixada prometendo nesta materia Intuiu inviolável Observância e solicitando pacificar a- quelles eseandecidos ânimos com politicas e attenciosas snppli- cas para se renovar a antiga amizade e Contrato. Naõ se podia pôr em praxe este sistema, Sem outra ves serem convocados ao Senado da Camera, os Governadores do Bis- pado, e o do Prezidio. os Prellados das Helligioen», e os bornes bons; a todos foi proposto o que se intentava, se o julgassem ser conveniente. Houve a approvaeaõ de qnazi todos, e todos prometerão de ajudar (como se lhe pedioj conforme as suas pos- sibilidades; cuidou-se logo em capás navio, e se destinguirao em o aviar os H. R. P. P. do Collegio migo de S. Patillo da Com- panhia de Jezus: naõ menos na elleiçaõ de quatro Embaixadores dos mais graves e capazes Porlugezes que viviaò nesta terra, para corn zelo do bem comum delligenciarom affective* o que se pertendia. Poraõ nomeados para Embaixadores ÍSimaõ Vás de Paiva, Rodrigo Sanbes ile Paredes. Gonçalo Monteiro de Car- valho, o Luis Paes Pacheco; entrou-se a preparar e prover a Nau com o mayor cuidado: tiomearasse Pilotos e officiaes mais intel li gentes, também alguns soldados para comitiva dos em- baixadores, e já aprestado tudo o necessário se fes a nau á vella. (1) 7 Cbegaraõ coin feliz viage ao Jappaõ no fim de Julho, uo (2) e depois de dar fundo e ancorarem a nao, sabiraõ a terra, (1) Coiisulteii:-se, ii cote lespeito, i s lieii«I«>st nos A rqiii- rot
cujos natiimes tiranos logo se alborotarâo vendo que hei ao 1 01- tugezes os que liiaõ, contra quem estava o Imperial Decreto, e já Sentença dada. Vieraõ logo os Mandarins Japoens pergun- tarlhe o que qneriaõ, arguindo os do atrevimento e pouco res- peito que tinliaõ asseveras Leis do seu imperador; e notician- do os de como levavaõ huma Embaixada attenciosa e politica mandada pello Senado de Macao ao seu Monarelia, e varias car- tas para os Heise Governadores daqnelle Império, sem os que- revem mais ouvir nem deixarem hir dar sua Embaixada, e me- nos o entregar carta alguma, envestirão a elles como Leoens furibundos, e lançandolhe as garras, naõ só tiranicamente os prenderão, más hindo logo ao navio outra quadrilha de algozes, a todos os que nella estavaõ cruelmente agarraraõ trazendo os para terra e fechando-os em bum cárcere tenebroso. (3) As pes- soas que foraõ em o Navios, lieraõ por todas setenta e quatro, cujos nomes e final socesso achei autentico em hum especial ca- derno antigo que se eoncevva no Gartorio da t amera Ecclczias- tico deste Bispado de Macao, coin .1 ustiíicacao teita perante o H. P. Er. Bento de Christ» Helligioso de meu P. S. Francisco, Governador (pie hera deste Bispado, requerida á instancia do Senado da Camera pello Procurador da Cidade, Antonio Ribei- ro Raya. A copia da Petição, ditos das Testemunhas, e Rol jun- to daõ cabal notticia do socesso. (I) Peticaõ do Procurador desta Cidade. r mo p
— 2.Í0 — « estar todo este Povo em mizeravcl estado por fui ta do trato e ■< comendo do .Tappaõ, em reza o do aqnelle Rov o naõ querer ter < («om os Christãos e moradores delia, puramente ein odioda Tm*. « dizendo que ellcs levavaõ a seus Reinos Progadores do Sagrado ■< Evangelho, e lá es suslentavao coin as suas csmollns, e todo o mais neseessario para efteito de pregarem a Fé de Christo «em seus Reinos aos seus vassallos, e converterem muitos « delles contra suas ordens, e mandatos Reaes, tratara o os ■< ditos ofticiaes da Camera de mandar ao dito Rey hnina em- « baixada, e com effeito a mandaraõ de muito custo em Junho « proximo passado da mesma era, para por ella pedir ao mesmo « Rev tornasse a admittir os Cliristaõs e moradores desta Cidade « em seus Reinos, e corresse com elles o trato da mercancia co « mo sempre corroo; a este lim negocearao luuua embarçaõ com « quatro Embaixadores dos mais nobres e principaes da terra, a < saber: Simão Vás de Pawn, e Rodrigo Sanches de Paredes ça- «zados com obrigaçaõ de molher e Filhos: Gonçallo Monteiro de « Carvalho, e Luis Paes Pacheco veuvos com a mesma obrigaçaõ «de Filhos, com outras pessoas, ofticiaes da dita embarcaçaõ, e 113 - soldados que os acompanharaõ nomeados no rol junto, e a mai- « or parte delles cazados na terra: e chegando a Jappaõ, o dito «Rey alem de os naõ querer admittir, nem ouvir como Tirano e « inimigo da Fé os condenou á morte, tazendo primeiro a todos « perguntas por três vezes, dizendo quo se elles tornassem atiás, «e deixassem a Nossa K. há* lhos dariao vidas; o que vendo to- dos os sobreditos responderão, quantos queriaõ elles morrer, e «dar suas vidas, pella Fé de Christo que proffeçavan, que deixá- « la; e ouvido isto mandou o dito Tirano com os do seu concelho «queimar a dita enibavcaçaõ em qtie tbraõ com tudo o que nella « Ilia, e degolar a sessenta e liuma pessoas ( com os quatro Km < baixadores), o (jual martírio padeceraõ coin grande animo e dim, S. .1., paia a soa
— 240 — « valor aos tres dias do Mes de Agosto desta mesma era em Nnn- « gazaque, e somente soltaraõ treze pessoas da gente mais inútil. < para virem denunciar do soeesso a esta Cidade, dandollies para ( isso huma embarcaçàõzinhsi muv pequena, a qual inilagvosa- « mente chegou a vinte deste prezente mes de Setembro; e por- « que pertendè ml in form mui um justiticiir o contheudo nesta pellas < ditas treze pessoas que vieraõ—, I*. a V. Rm* como Governador, 40: nomeou para Nota. rio desta Inquisição ao Padre Licenciado Brás Pinto Presbíte- ro do habito de S. Pedro, a quem deu Juramento na fornia do estilo; e adinittio o rol. cuja copia exponho. Rol ou Lista dos Embaixadores, e da gente que foi em sua companhia, que a Cidade do Nome de Deos da China mandou ao Imperador do Jappaõ, e por nossa S. Fé foraõ martirizados (11 por mandado do mesmo Imperador em Nangasaqne hunia sextafeira 3 de Agosto de 1(540. (o) PORTUGEZES - Luis Paes Pacheco natural da Cidade de Cochim ven- vo de 68 annos. ((») 2 - Rodrigo Sanches de Paredes natural da Villa de Tlio- mar Arcebispado de Lisboa., eazado nesta Cidade de Macau: sua idade 55 annos. (7) (5) Esta lista vem também impressa ua Relação do Padre Cardini, S. .1., publicndi e anotada por mim no nio i artigo nos Anais do Club Militar Sarai, To- mo I.XII, (Lisbon, i968) (ti) Luis Paes Pacheco viveu muitos anos em Malaca antes de ir a Macau. Foi Copitáo-Mor da viagem Japão em 1626, e Vereador do Senado em 1687. (7) Rodrigo Sanches de Paredes era Vereador em 1G82, e repretenlante do poro 4 auos mais tarde. Baiiros ou freguesias dos que sabe 1
— 241 — •í - Simão \ az do Payva natural da (lidado de Lisboa, e cazado em Macao: sua idade 53 anitos. (8) 4-Gonçalo Monteiro de (larvallio veuvo, natural da \ il- ia de Meujaófrio Bispado do Porto: idade 51 annos. Estes os quatro Embaixadores. (9) • > - Domingos Franco natural de Lisboa, cazado ein Ma- cao: idade 50 annos. 0 - Francisco Dias Botto natural de Lisboa, cazado ein ''...ateimil,. Goa: idade 55 ai lUt* vi",u 7 - Manoel Al veres (10) natural de Lisboa cazado em Ma- T)<> Buõrode cao: idade 33 annos. s. Amin. •S Diogo Dias .Milhão natural de Ba reel los Arcebispado |m de Braga, cazado ein Macao: sua idade 40 annos. 0- Bento de Lima Gardoso natural da (Vi dad e do Forio: s. Nicolno. sidteiro de 19 annos. LO - Diogo Fernandes sidteiro: natural da Bemposta Bis- pado de Ooiínbra, idade 2.S annos. 1 1 - Luis Barreto Fialho natural de Ormuz cazado ein Macao: idade 25 annos. 12 - Manoel Nogueira natural de Lisboa, cazado em Ma- cao: idade 25 annos. 13- Diogo dos Santos natural da Villa de Cascaes, sid- teiro, idade 35 annos. 14-João Pacheco de Siqueira, natural de Lisboa, cazado s.Cutheiina. em Macao: idade 30 annos. 15-Gaspar Martins solteiro, natural de Vianna de Ca- minha: idade 35 annos. 10- Damião L ran cisco natural de S. Olaia junto a Pico de regalados Arceb. de Braga, cazado em Macao. Sua idade 50 annos (8) Simão \íií d« 1'iiiva (ou i|o 1'avia) foi Emlinixadnr ao Japão i-in Julho de 1680. (9) Oonçaln Monteiro dn C.uv.illio rr.i Yrremlor ein lli:!l <■ enviado u Canino mu 168». (10) Manoel Alvares Kraiu-o, segundo n Itrlução do Padre Cardim.
Hespaiihoez: 17 - Alouro Gallegos natural
— 243 — 33 - Lazaro, (le idade 17 annos. / 34 - Domingos, de idade z7 annos. 35 - Amaro Marim, de idade 30 annos./ 30-Manoel, de idade 35 annos./ De casta Bengálaz: 37 - Paschoal. de idade 30 annos, pouco mais ou menos. - 33 - .Toaõ, de idade 50 annos, pouco mais ou menos. 30 - Sebastiaõ. de idade 23 annos, pouco mais ou menos. 40-Manoel, de idade 30 annos. pouco mais ou menos.// Pag us 41 - Matheus, de idade 34 annos, pouco mais ou menos. 42 • ÍTonçallo, de idade 34 annos, pouco mais ou menos. 43-Agostinho Correa eazado em Macao: idade 40 annos, 44 Diogo, de idade 35 annos, pouco mais ou menos. Casta Malavares: 45-Nienlao, casta Balalla. de idade 16 annos pouco mais ou menos. 10 - Antonio, casta Balalla (12) de idade 19 annos. 47 - Antonio, de idade 29 annos, pouco mais on menos. 45 - (louçalio. de idade 20 annos. 49 - Thomé de idade 25 annos. 50 -.loaf»' de idade 27 annos, pouco mais ou menos. 51 - Jerónimo, de idade IS annos pouco mais ou menos. Casta Cafres: 52 - Francisco, cazado em Macao, de idade 50 annos. 53-Alvaro, de idade 40 annos pouco mais ou menos. 54 - Antonio, de idade 25 annos, pouco mais ou menos. 11 -J) Htilala <>ii líelala é indivíduo da pauta agrícola na índia meridional, sendo n vocábulo derivado do 1 iinil velnlu segundo Dalgado, Qloituiio Ituno-Atiatico, I. |>.S4.
— 244 — Varias castas: 55 - Diogo de Mendom;a natural de Cbaiil eoiu 30 annus de idade, Filho de Pay Portugas, e de May Índia: cazado ein Macao. 50 - Domingos, casta Malayo, de idade 2N aunos. 57 - Antonio, casta Nolor, de idade 40 annus, pouco mais ou menos. 5S - (iaspar Monteiro, casta Solor, de idade 3;» annus. 50-Joaõ da (luerra de Manila, casta Painpago, deidade 30 annus. 00 - Alberto, casta Timor, ». si-mln, |ior isso. muito curiosa.
245 — S - Antonio Fernandes natural de Macao, e aqui ca/ado. idade .'»(> an nos. !)-Joao 1'ereira, Bengala, on de Dio ca/ado cm Macao, idade 47 annos. 10- Miguel Teixeira, natural da Illia de Chorão de (loa, solteiro, idade 5:1 annos. 11 -Miguel Carvalho, natural dc .Macao, aqui ca/ado, ida- de 47 annos. 12-.loan Delgado natural de (loa, ca/ado em Macao, idade 52 annos 1.1 - Agostinho do Rozario Malavar, ou dc (loa ca/ado em Macao, idade 40 an rodas estas treze pessoas forno testemunhas da vista em | (( tudo o que no Japan ohraraõ pel la Fé de Christo os quatro Embaixadores e mais pessoas mencionadas, todas em numero sessenta e liuina: foi lhe dado o Juramento dos Santos Evange- lhos pello U. (lovernador do Ilispado, na forma do estilo, e per- guntadas por interrogatórios cada huina de per si, e contestan- do todas sem discrepar, que todas as ditas sessenta e liuma pes- soas, naõ querendo abandonar a Ley de Christo que prolfecavaõ, nas três instancias dos tiranos com as promessas da vida, se quizeraõ antes de boamente sacrificar e padecer glorio/o ínarti- riu pello seu amor, em credito da nossa S. Fé Catholjca, isto coiu as circunstancias todas já expressas na Fetiçaõ supra; e to- das ouvindo ler os seus depoimentos ratifiearaõ novamente o que tinhaò dito e jurado. ( oiicluida esta Im|iiiricao ou Processo, observada cm tu- do a lorina do Direito, naõ só passou e ajuntou o R. Lieencea- do Bras Finto, que tinha sido Notário, huma Certidão de que as ditas tre/e testemunhas lieraò os próprias tjue com os mais tiuliaõ Ilido ao Japao, e tornado, porque a todos conhecia mui- to bem, más também mandou chamai <» R. Governador do Bis- pado dons labaliaens. Fscrivaens tia Ouvidoria, e tio Publico Judicial desta Cidade tie Macao Domingos tie Abreu, e Manoel Godinho Colaço a quem deu o Juramento dos Santos Evange-
— 246 — ]lios pura que dissesem e declarassem sc as 13 pessoas, cujos nomes Ilie deu em rol, heraõ as mesmas e próprias que tiuliao liido ao .lapaõ com os (> 1 martirizados, e 110 seu Processo ou Inquirição tinliaõ sido Testemunhas; ao que responderão que conheciaõ, e reeonlieciaõ serem com etfeito as próprias, que do dito .lapaõ tinliaõ vindo, mandados pellos mesmos .lapocns para cevte ficarem o martírio que os (11 tinliaõ padecido, do que co- mo Escrivaons e Tabaliaens que lieraõ davaõ a sua té, do que tudo se tés termo que asignaraõ em o dia 27 de setembro de 1640; e feita nova Petição pello Procurador da Cidade, para hi rem os Autos coueluzos. <1 i ti rida, e aprezentados ao R. Gover- nador do Bispado, profirio o seguinte despacho. « Visto que consta deste Processo, o Inquirição íeita ante nos « sobro os quatro Embaixadores, chamados Simão \ ás de Pai- < va, Rodrigo Sanches, de Paredes, Gonçallo Monteiro de Carva- « lho, e Luis Paes Pacheco, com os mais contidos e declarados « na mesma Inquirição, e rol atrás, que sao sessenta e hum por « todos, que gloriosamente padecerão em .lappao na ( idade de « Naugasaquo em 3 de Agosto desta prezente era, dando suas < vidas pella nossa Santa Fé com grande animo e valor: reinct- * temos a dita Inquirição á S. Sé Appostolica, a quem perten- « ce dar determinaçaõ nella, adonde as partes podovao requerer «de seu Direito; e querendo para o dito et feito, e para o que « mais llie cumprir, os transsmnptos, deste Processo, se lhes dom « por mais vias, que nescessarias forem. Macao três do Outubro «de 1610. Fit Bento i>k Chuisto, (Ioyhkxaimm:. Carta pella qual se deu conta a Fillippe 4 deste socesso. Senhor Aos 22 de .luiilio deste anuo despachámos desta Cidade para o .lapaõ os quatro Embaixadores, de q em out ra demos já conta a V. Mag.'; e depois da sua chegada áquclla Reino a 26 di-
247 — as, (jne foi a 2 de Agosto, os mandaraõ levar a caza do Govenador com todos os da sua Companhia, «pie heraõ 74, entrando nestes l!t Portugezes, adonde pcrguntandosclho o como liaviaõ liido, sendo o anuo atráz notificados por sentença q o naõ fizessem, sem lhe ouvir descargo algum, lhe lerão a segunda, que também com esta remettemos a V. Mag.'. O que leito: foraõ prezes atlié o ou- tro dia, em cuja ínanhaã ti rand o-os do tronco lhe fizeraõ per- guntas, se qneriãõ deixar a Ley de Deos, e naõ morreriaõ; ao <1 todos em huina, e alta vós conffeçaraõ a Christ», e por elle foraõ degalados 6'/, deixando aos IS, cm que só entrou hum marinheiro Por tuges; dandolhe huina pequena embarcaçaõ, os mandaraõ para avizar, e dar notticia «lo « azo, com as declaiaçoens que vaõ ao pé da sentença. O Governador deste Bispado proeedeo nas informaçoens «los ditos Mártires via ordinária, segundo o que a Igreja deter- mina, do que vaõ as vias authenticas para Y. Mag.' e o Sumo Pontifece, e toda Europa terem notticia de huina grandeza, qual lie que em ti/ pessoas de varias nacoens, e pouco juizo, e alguns cathe«|uizados, e baptizados á véspera da partida, merecessem a Co- roa do Martírio com tanta firmeza, para gloria dc 4)eos e honra desta Cidade que com as ditas pede muito affectuosamente a X. Mag.' mande examinar nossa Petição, e peso delia, provendo com toda a brevidade no remedi», pois nella o dá a todos os Senho- rios de Sua Monarchia, que o Ce» augmente e deffenda Ma- cao 4 de Outrubo de 1040 Sinaes dos officiaes da Camera &.* Escreverão os mesmos officiaes «la Camera varias cartas para o X. Rey da Iudia, para os Princepes vezinhos, p.* a Au- «lieucea Real de Manila, e para o Sen nado «1a Corte de Lisboa ao «piai mandaraõ hum retrato copiado. Xaõ exponho aqui as Car- tas por treslado, pel lo naõ julgar precizo, nem fazer este volume enfadonho por extenso, amontoando notticias desnecessárias.// (14) (1+) Como consta rio nata bibliuijráfica
— 248 ■'"s lls Cai». VII Continuaõ ox xoccxxox maix notavcix dente tempo; acha-xe Macao com o maior excexxo perlnhado, poxto como cm pnerrax ciriz; acode a Malaca com o poxxiccl xoccorro; c recebe a in feliz nottiiia de exfar já pcllox Olandczcx rebcUlcx tomada ai/iiclla im- portante /'raça. Ahindtt .Macao naõ tinlin enxugado as lagrimas que con- forme os affect os e os etteitos costmnaõ cau/ar ordinariamente assim os gostos, como as penmts, se saõ grandes, quando nova- mente se vio cercada de sintimentos e affictaiens. sem descobrer meios ettica/es de se poderem remediar. Irremediável concidera vaõ já a perda do comercio do dappaõ, em que Macao se inte- ressava tanto, e com a sua falta ficava arruinado; sintia a per- da das suas fazendas e navio, para o que tinhaõ feito eoncide- ravel empenho; lamentava*"» a morte de tantos Portugezes, e mais pessoas a (|uem os barbares dapoens tinhaõ tirado a vida; lilás tudo isto se serenava coin a incomparável gloria que naõ só os defuntos mas os vivos ditosamente logravaõ em terem a- quelles padecido valerosamente martírio por dezus Christ*»; e ficando porque assim mortos, vivos, estes quo estavaõ vivos se reputa vaõ por vários princípios (sem aquella gloriosa ( oroa) «piazi mortos. Vio-se por este tempo amotinado Macao pellos absolutes e ini*|Uos procedimentos de seu cappitaô (Serai I). Schastiao L*>- bi» da Syl veira, que como Lobo «pie hera, parece que tudo do çôes dest» relação *1» ih(los embaixadores c «> seu séquito, «ouvem n sitlier. «luas a edição Portuguesa de Hi43, fizeram-Su traduções em írancès( lti43). flamen- go (1«44) e nitras línguas. comi» se vê de pp.357-3H0 da HibU"theeti Ja/ionira de Henri Cordier. O retrato a óleo do martírio da embaixada ainda existia no l.eal Se- nado. lia 30 *s tal anos, mas infelizmente já »iã» existe lá hoje, e não nos consta de que a cópia enviada à Câmara de Lisboa, da ijual fala Frei José de Jesus Maria, tenha chegado lá.
— 249 — liunia ves queria sem respeito, nem attençaõ devorar; e como naõ havia a. providencia de recursos prómptos pellas distancias serem grandes, suposto se fizera o repetidos, continuava nos seus sistemas, dizem que todos fundados em exfracçaõ, e muito mal nteuconadosii. O Governador do Bispado Fr. Bento de Christo líelligio- so muito temente a Dens, vendose obrigado por rezaõ de seu officio a proceder contra hum Clérigo de quem se lhe tinhaõ delatado certas culpas graves, o mandou prender, mas perselitin- do-o como Criminoso que hera, se refugiou 110 Collegio dos Padres da Companhia. 110 qual hum delles hera commissario do S. officio a este tempo, e patrocinava o delinquente, que delle se valleo; más dissiiiiulandose interinamente o facto, sábio, e logo foi prezo.(l)// Apennas se divulgou o soccesso, quando logo principia- ra»"» a concorrer para o Governador' do Bispado os empenhos; más como á rectidão da sua couciencia hera repugnante deixar sem castigo algum (como por cá se pratica) a hum Keo, de quem tinha culpas provadas, se p»'»s em Campo contra o Prellado des- ta Igreja, o R,. Comissário seu Patrono, allegando pára ser lo- go solto o criminoso, que hera escrevente de papeis do S. offi- cio, intentando com este pertexto, que sem demora o posesse em liberdade; achou em o Prellado toda a resistência, capaci- tado racionavelinente q nem, com caso q <» Keo fosse escreve- nte de alguns papeis do S. officio, deixava de ser seu súbdito, nem aquelle S. Tribunal como taõ recto, (o qual se naõ costu- (1) Existe uma relação circuinstnncindii desta controvérsia intitulada : -Infor- mação que o Padre Frui/ Bento dc Christo da Seráfica Ordem do» Minores, Governa- dor do Bispado da China apresenta ante 01 Senhores Inquisidores do Estado da índia, em sessão do agravo e violência que o Padre Gaspar Enis da Companhia de Jesus, Comissário do Trilai uai do Saneio Officio nesta Cidade de Macau fas a sua Jurisdição ordinária retendo no Collegio do Companhia Paulo Teixeira clérigo suhdiaeono fugido da prisão do Juiso Eerlesiaslieo aonde istara qireso peita suas tulpas e ainda decla- rado por cxcomnlgado por outras disohediennias e rcecldias a seu legitimo Prelado. - Feita nesta Cidade aos J6 de Julho de 1641. - (Mae, de 16 ft'._citado jior It. St re it em Bibliothe.ca Missionam, Vol. V, |>. 782.)
— 250 — ma servir com gente mal procedida) se havia de offender, nem repugnar de dar castigo a liuni clérigo, no qual tinha sna .Ju- risdição Ordinária, naõ quis ceder por isso mesmo que o Comis- sário reputava isso por violência. (2) Ambos tiraraõ a mascara, e pucharaõ pellas espadas, o comissário pella do S. officio, e o prellado pella da sua autho- ridade e Jurisdição, que como ambas as armas herao da Igreja, cauzou aos Christaõs e aos gentios o mais horrível escândalo, vendo fixadas nas portas das Igrejas Excomunhoens do Comis- sário contra o Prellado, e logo outras do Prellado contra o Co missario, resgandose humas, e pondose novamente outras, naõ me intrometo a dizer, quais com maior fundamento e rezaõs Chegou o cazo a tal excesso que as mesmas Igreja e os seu- fieis o sintiraõ, vendose huns ligados, e inhibidos outros à re- cepção dos Sacramentos, posta a Igrejas de Peos em bandos em huma terra de Gentios, que os naõ costnmaõ admittir na vene- ração dos seus Pagodes. Todo o Clero, e Relligioens Sagradas que aqui há, Do- minicos, Franciscanos, e Agostinhos se poseraõ pella parte do Prellado mostrando empapeis doutissimos as justas rezoens que tinha para o seu procedimento. O Comissário com os seus Pa- dres. que nestas distantes terras (se dis em opinião comua) que- rem ser tidos por mais poderozos e sábios do que todos, vendo naõ podiaõ levar ávante como costumaõ o seu projecto, reco- nhecendo o génio, orgulho, sinistras inteuçoens, e inclinaçoens do Oappitaõ Geral, o fizeraõ da sua maõ, querendo levar este (2) Segundo Papel que se liico en defensa de la Jurisdicción Eclesiástica dei Governador dei Ohispado de Macau, Fr. Benito de Christo de Nra. Serafica Orden. com lasAddiviones en sn confirinación del P. Fr. Domingo Gonsále:, Ordinis Prae- dicatorum, Comisario dei Santo Oficio de Pliilippinas en la Ciudad de Manila, feita a. US de Mano de 1642. (.Mss. de 8 ft'.) Terceto Papel g pleyto de Ciudad de Macau contra los desaeiertos y violências i/M" hiso cl Commissario do Santo Officio Gaspar Luis, 8. -/■, y su sucessor P. Gas- par do Almaral en la cisma que r.iovieron contra el Governador dei Ubispado de Chi- na en dicha Ciudad Fr. Benito de Xpo pretendiendo depunerle del Officio. En la Ci- dade de Macau, 3. ii. 1641 (Fddcm)
— 251 — negocio a força de armas, enxovalhando a tudo; com esta violên- cia foraõ tirar o prezo da eadea, e o recolherão os Padres da Companhia no sen Collegia, e como havia apaixonados por hn- ina e outra parte se poseraõ em armas, e em teimos de hnma guerra Civil, amotinada novamente com mais excesso a Cidade toda. Pleiteouse o cazo, pediraõse a Manila pareceres, honre prizoens, e violentas solturas; fizeraõ-se a Goa recursos por ap- pellaçoens e aggravos; viraõse os dons Tribunaes perplexos na decizaõ: reputaraô se tudo imprudências; e com a alegre noticia de ser acclamado em Portugal Kl Rev D. .Toar» 4, tudo se ata- bafou. (3).// Neste meio tempo tinha chegado a Macao, hum avizo do Cappitaõ Mor de Malaca, dando notticia ao Senado de se achar aquella Praça invadida dos Hollandezes rebeldes, e pedindo lhe acudisse com algum prompto soccorro; e nao obstante se ver Macao todo taõ aflicto, cheio de tantas confuzoens, revolto, e perseguido da Fortuna pel lo proximo e infeliz socesso da perda de comercio no Jappaõ, que pressagiava a total destruição des- ta Cidade, conciderando o Senado outras ahinda mais horríveis consequências, quais heraõ liabilitaremse os Holandezes, se to- massem com eífeito a Malaca, vir fazer o mesmo a Macao como sem isso havia taõ poucos annos o tinha vindo intentar senaõ fossem vigorosamente rebatidos, tomaraõ a rezolluçaõ de expedir o soccorro pedido, naquela forma que cabia na esfera da sua (3) Memorial dirigido al Tribunal de la luquisición de Goa eu de/e tua propria contra la luquisición de Macao. — Eu Macau 6 de Septiembre de UU1. (Ms*
possibilidade, e consta da copia abaxo escrita, por extracto do antigo Livro da Camera, (j sérvio no mesmo anno de fí44, (4) e be a seguinte. Carta do Senado de Macao ao de Malaca e seu Capitaõ Mor. «Recebemos a carta de \ . M'., pel Ia qual, e pellns pes- « soas que vieraõ dessa terra ficamos inteirados do aperto e nes- < cessidades delia, com geral sintimento deste Povo, assim pella «cauza sor taf» comua, quanto pello tempo em que nos alean- « çou, segundo \ . M*. já do anno passado ha\eriao \ isto de nos- « sas cartas pella sentença do Rey do .Tapaõ, donde esperando «agora a resposta da nossa Embaixada, chegarao tieze bonus « marinheiros do Ghó (5) em que baviaõ liido, com novas de « serem os quatro Embaixadores degolados, com (>1 pessoas da « sua Companhia, que todos dera o a vida por ( liristo havendo ' lhas prometido se tornassem atrás; de sorte que atlié o navio, «e tudo o que levavaõ, foi queimado. « E tendo nossas esperanças naquelle comercio, para com «sua vinda tratarmos do socorrer a essa Cidade nao ficou mais « lugar, que de recorrer ao Ceo, donde confiamos faraó nossos «Cidadãos e Mártires melhor officio com Deos, do que fariaõ «cá na terra. Com todo nosso trabalho e tristeza, se ordenou «da nossa Conta duzentos Arcabuzes, duas peças pequenas de « artelharia, dezaseis boioens de Polvora, mais bum dos mesmos « Ohós, que o deu também a esta Cidade. (4) Sic por 1640. Veja também " dojumento impresso nos Arquivos ($*), junco de iilto bordo.
— âõâ — « Salte Deos o pezar que nos fica, e o cuidado que sobre « os efieitos do Rebelde nossa Fortaleza sempre temos; e para « ver se sua Mage pode ser avizada mais brevemente que pel la < índia, ou Manila determinamos mandar liuma Nau ao Reino, f(5) « Deus lhe dè bom socesse, e a V. M.' gd.c m.' anu
— 254 Coin estes sucessos experimentados e referidos se princi- piou apor Macao em breve tempo 11a mais lastimosa decaden- cias, porque, como naõ há aqui outro modo de vida admittido mais que taõ somente o Comercio, nem os que por este princi- pio licita, ou illicitamente adquirirão Cabedaes, os costumao ou sabem coucervar, nem prever futuros, principalmente os nalu- raes da terra chamados Nhons, e Xonlias (8) (bem imitados de 1 nay tos Portugezes) t|iie se hoje tem 10 [ iniloeis? ] hoje mes- mo os gastaraõ, estando perdido o principal comercio, foraõ em- pobrecoiulo, porque o dinheiro depressa se consome, e vivendo ociosos, porque dosprezadores de todo o officio mechanico, trans- ferindose pouco a poneo a prata aos Chinas, que tem inuy di- versa industria, e em tudo sorvem, torão entrando os vicieos pa- ra Maior ruína, praticaiulose lascívias, roubos, traiçoens, jogos, bebedices, rixas, hulhas, mortes, trapaças e outros semelhantes vícios, que parece ahinda hoje em muita parte continuai», sendo por inveterados inuy difíceis da expellir. por isso as mizerias e perdas continuai», talves porque a Divina .Justiça assim quer cas- tigar tantas insolências e peccados.'ff Cal*. VIU. Continuaõ a Matuto nos tres seguintes «unos os seus justos sintimentos, e irremediáveis perdas, com eminente perigo da total ruina que pertendem obviar. Krpoem-se alguns socessos, que oecor- reraõ nestes a unos. Conforme a Doutrina de Christo, e normas da piedade Catliolica, he digno de eompaixaõ e sintimento o ver padecer males e infortunies, a quem estava na posse de (sem estranhos perjuizos) lograr prosperidades; mas lie certo que as magoas e pennas se fazem mais sensíveis ao proprio coraçaõ que as pade- (8) Shorn, quere dizer própriamentu «tenhor»,e nliotiha, « lenhora o« dama » uo dialecto Português antigo, ainda falado em Macau, Vide Dnlgudo, Olonnrio, II. p. 107.
— "255 — ce, min to mais se naõ descobre proporcionados e promptos mei- os, de com eflicacia as poder remediar. Bem pouco, ou quazi já neiílium remediu concideravaõ os Portugezes de Macao aos Próximos infortúnios sucedidos as suas pessoas c fazendas, e os viaõ maiores e eminentes ao Co- mum desta Cidade, sobre a qual tem ião com racionarei discur- so. nova e mais violenta invazao dos Hoiandezes, como fica di- to, e como esta terra respectivamente a seus habitadores se acha- va sogeita ao pezado jugo de Castella, com quem aquella na- çaõ naõ estava em paz, receavaõ naõ só perda mas as affeetiva- consequencias que costuma produzir a guerra de infiéis Catbos licos, e a lamentável perda das Missioens e tanto Christia- nismo. I ara atalhar tao concideraveis damnos, poseraõ da sua parte todos os possíveis esforços, applicando os meios mais con- venientes; porque suposto empenhados, destruídos apresfaraõ huma embarcaçaõ para hir de avizo a quem lhe acudisse com socorro; e como a naõ podiaõ na prezente conjunctura mandar a Goa porque em Malaca Uni luiviao de cativar os Hoiandezes, e impe- dir o passo, se rezolveraõ com mais votos em a mandar a Ma- nila Capital do Fellippinas, dando conta da perdição daquella infeliz Cidade, e do risco em que ficava esta Se como Senhorio do mesmo Rey de Castella logo com navios, gente, e armas, que lhe pedi ao (pois de tudo se achava destituída) a naõ viessem soc- correr, escrevendo para este effeito varias cartas que nos livros da Camera se achaõ copiadas, para a Audiência Real, Governa- dor, e Arcebispo, do que rezultou bem pouco frutto; naõ so por- que Manila se achava também atenuada e temoroza, más porq o sangue derramado nestas dilatadas Conquistas tinha sido dos Portugezes, cujas dores aquelles naõ sintiáo e estes se aehavão sem ter Rey natural.'/ (1) (1) Consultem-»e Arquicas de Marini. Vol. III. pp. 221-222. Termo rabie mau dar as embarcações necessárias para esperar as nanias que se esperam de Manila tra- zendo os direitos reais e a praia deslc poro, devendo os pastor para isso serem pa- pos da fazenda de 8. Majestade, 9.ix, 1641, É interrnsnnte liotni <|tie os Portugueses
— 256 - Xcstn consternação referida em que Macao se adiara des- 1 i,K 1:>3 titnida dos precizos meios para sens moradores subsistirem, pois naõ tinliaõ adonde liir comerciar, toinaraõ a rezolluçao de no- vamente escrever, e mandar expressos a vaiios Princepes vezi- nlios com protestos de firme amizade, como aliança para admitti- rèm a negociar nos portos de sens Reinos em boa paz os navios desta Cidade, suposto para isto bem concideravaõ o pouco lucro, (jue poderiaõ extrabir; e coin effeito alguns dos ditos 1 rincepeo o concederão, outros mandara») propor algumas condiçociis, que por se julgarem desconvenientes ao bem miiuiB, naõ se aceitas raõ; e se foi cuidando interinamente em algum modo occulto de mandar avizos a Goa, sem que pellos Holamlezes fortificados em Malaca fosse esta delligencia persentida e estorvada. (2) Nestes annos foi Macao experimentando repetidos moti- vos de justo sintimcnto, vendo-se este mizeravel Povo por todos os princípios perseguido, e seus moradores quazi de todo já de- zanimados, pois com a consuinpçaõ de algum dinheiro que a poucos ficara depois de satisfazerem quinze mil taeis com pouca difrença, o saõ quarenta e sinco mil cruzados, que tanto, e taõ mal empregado, emportou o apreitar-se o Navio que fora á Em- baixada do Japaõ, alem do muyto cabedal de particulares que levava, se viaõ em termos de naõ terem que comer, e os chinas ambiciosos, que conhecendo faltas de prata, naõ concorrem com os nescessarios viveres, sendo elles só os que os Tendem, e an- davaõ entre sy bem inquietos, com revoltas no Império, em naõ trazer nem vender com eoinodo os mantimentos precizos, nao faziaõ a Macao pequena guerra. de Macau não só pediam socorro a Manila mas também llio concediam, como se vê do documento impresso a p. 225 e seg. da referida obra,— Termo sobre o socorro a prestar ao Governador de Manila que )icdia alguma artilharia de ferro, pois receava que os holandeses haviam de atacar aquela praça. 15. ir. 1642. (2) Não lui vestígios de tais cartas para os Príncipes retinhas no Cartório do Leal Senado, nem foi preciso escrevê-los po:s (pie o trato dos Portugueses do Ma- cau com os régulos vizinhos da Indo-China (Tonquim, Cambodia, Cocliiucbina), Sião, Macassar, Timor e Solor, continuava sem interrupção, a-posar-da quebra do comércio corn o Japã) cm 1639-40, ou, mais tarde, a perda do de Manila.
— 257 — O Povo hastantemente inquieto se dividia em ranxos e opinioens, vendo poucas esperanças de se melhorar na fortuna com as pençoens e sogeiçoens a Castel la: e como seja adagio an- tigo que em caza adoinle naõ há paõ, todos pelejaõ, nenhum, tem rezaõ, aqui se verificou á risca por muitas e varias dezor- dens que se observarão, havendo inimizades dissonantes, roubos e pendências; de tal sorte que athé os mesmos negros, que havia então bastantes, naõ só se atreverão a fazer cara a sens senhores, más intentarão levantarso contra a Cidade tomando armas tumul- tuados, o fazerem se senhores de liuma Fortaleza, por cuja inso- lentíssimo acçaõ, foraõ oito delles como cabeças, senteneeados pella Justiça a morrerem enforcados.// Com estes, e outros distúrbios semelhantes se viraõ deza- P««- 154 sosegados, e disgostosos vários cavalheiros dos muvtos que tin- irão vindo a habitar nesta terra; e propondo entre sv as deca- denc as «jue nella viaõ, o que se naõ, poderiaõ sustentar nem a suas famílias com o precizo decoro, se poserão 110 sistema de buscar meios modos para o retiro, intentando buns passarse a Goa donde tinhaõ vindo, ou a alguma terra daquellas costas, em que vivessem incognitos, e rezolvendo-se outros a ficar mais alguns annos em Macao, pois aqui já estavaõ radicados, athé ver se depois de tantos azares experimentavaõ alguma sorte da Fortuna. Os Chinas suposto conheicaõ terem já os moradores de Macao muy pouco sangue em as veas, euidavaõ muvto de lhe esgotar por todos os meios e modos que podião, naõ, só para dar pabulo á sua insaciável ambiçaõ, mas para terem com que con- tribuir as imposturas e tributos de seu Imperador, ameaçado to- do o Império pellos Tártaros, de que reeeavaõ alguma vigorosa, e repentina invazaõ. Os Mandarins por outra parte faziaõ acti- vas delligencias por extrahir do pobre senado algumas soturnas de dinheiro com velhaeosos e enganosos pertextos, fazendo a alguns moradores falços e aleivosos crimes, e entendendo com as pou- cas naus que havia, depois da perda de tantas, pondolhe novos tributos, e querendo fazer lhe estranhas inediçoens, proliibindolhe
— 258 — finalmente o lugar da sua anchorage, tudo com o nome de Im- perador insciente de velliacarias taõ grandes, dirigidas só a ex- trahir prata. Por estes annus, com pouca diffrença pois se naõ perce- be totalmente a era de liumas cartas que acliei avulsas nos li- vros quazi perdidos, da Camera, escritas para o V. Rey de Goa a quem o Senado se queixava das arabiçoens do Cappitaõ Geral de Macao D. Diogo Coutinho de sem, (3) culpando-o na tomada de Malaca por naõ querer acudir a tempo com o soccor- ro que se pedio, naõ concorrendo com a cidade tomar a juro dinheiro de alguns cofres para a poder remediar, se lhe expres- sa a notticia de que uzurpando o dito Cappitaõ Geral o di- nheiro destinado para o prezidio, faltando com o pagamento de- vido aos soldados, alguns delles ou por vicio, ou por remirem a sua vexaçaõ forão rezolutos, e sein temor pellas onze horas do dia ás cazas e hortas de dons moradores cazados, e com vio- lência lhe levaraõ as vacas, carneiros, e ovelhas que de seu ti- nliaõ, com o qual latrocínio se tinliaõ liido à Fortaleza da Guia, donde despedirão logo o Cabo que nella asistia; procurarão a- panbar a prata do serviço da Igreja de N. Senhora q está na mesma Fortaleza, queimando para este fim as portas da caza p-ig 150 Fabrica / e naõ contentes ahinda com taõ execranda insolên- cia, ainanheceraõ editais seus postos nas portas das Igrejas, em que couvocavaõ a todos os mais soldados que se recolhessem lo- go á ditta Fortaleza, fazendo alarde de seu intrépido animo com repetidas descargas de Mosquetaria q ao romper da ma- nhã» deraõ por alvorada, e eutaõ se vio também parte da arte- (lí) Os acontecimentos relatado» a seguir por Fiei José de Je»us Maria tive- ram lugar pelo imo
— 25!) — lliaria abocada com pontaria para a Cidade, sem isto fazer a minima inquietação 011 soçobro ao dito Cappitaõ Geral, a quem competia acudir, e estorvar maior ruina, aliinda sendollie pello Senado requerido, e estava sem exemplar castigo esta acçaõ, sendo como bera, crime de Leza Magestade. O Senado que se achava totalmente destituído de dinhei- ros, e com empenhos, porque com a falta de navios de comer- cio naõ tinha Direitos que cobrar, querendo atalhar a eminen- te consequência de se levantar o Povo contra o Capitaõ Geral e soldados soblevados, pois estava com disposiçoens de huma guerra civil, sabendo que o Cofre da S. Caza da Mizericordia tinha por deposito algum dinheiro de hum Cidadaõ que morre- ra llie pedio por empréstimo duas mil patacas cobre liumas pe- ças de artelharia que parece liiaõ desta Cidade para Goa, as quais a requerimento do Povo se embargaraõ; más nem ja to- madas, e remettidas as ditas duas mil patacas, ficaraõ nem os soldados, nem o Cappitaõ Geral satisfeitos como queriaõ: este pel la cega ambiçaõ que o dominava, e hera fauttor de taõ gran- de insollencia, aquelles porque tendo no mesmo Cappitaõ Geral as costas quentes, e se reputavaõ seguros, obravaõ absolutos e dispotieos sem temor de que os fossem dezalojar. O final suces- so desta Scena ao certo naõ me consta, nem dos ditos Livros, nem das Cartos nelles insertas; dis se por traddiçaõ que o povo pegando em armas, hindo-se huns meter 11a Fortaleza, outros impedindo os mantimentos, e investindo outros, os renderão, parece que havendo algumas mortes. (4) (4) Na verdade, houve algumas morte*, incluindo a do próprio Capitao-Gernl Doiu Diogo Coutinho Decent, que foi assassinado pelo povo furioso da maiíeita re- ferida por Frei Domingo Fernandez, Navarette, a p. 363 do* seus Tintados: « aco- inetieron ranchos Portugueses armados a la casa dei Capitani-Generai, el pobre s« escondi» debaxo de uma escalera, dieron con el y cosieronle a pnftaladas. » Escie- vendo ao Visore: «la índia, em carta datada 26-111-1650, sôbre este « cazo atros, » ElHei I). João IV, diz que «... residvej, «pie por liora (alhe haver melhor occa- /.ião) se devia dissimular, sem dar occazião a sucederem novos motins, que qual- quer «leligençia judical que ahy se mandasse fazer fposto que o caso meiecia outra tezolnção) assint por não constar de culpados certos como por ser neceasaiio para
— 260 Por este tempo chegou avizo á Cidade de varias vevolu- çoeus e revoltas nas Ilhas de Solor e Timor, em que se dizia concorrem os vassalos do Rey de Macassa; más como este Rey sabendo-o, escreveo cartas de satisfaça» a este Senado, protes tando amizade e desmintindo o conceito que delle se fazia, na» foi necessário tomar o expediente sollicitado; sim só se preveni» a Cidade vigorosamente para qualquer novo accidente bellico. por oculta nottieia de que os Olttiulezee estavaõ novamente pre parando armada para a verem insultar. (5) Os Chinas movidos pel lo Regulo de Cantaõ nos continua vaõ com excesso a perseguir; do que tudo noticiado o Rey de Camboja nosso amigo escreveo a esta Cidade offrecendo lhe Li- beralmente terras no seu Reyno, se para elle quizessem mudav- se deste Sinico terreno. O Senado lhe aggradeeeo muvto esta attençaõ, o est i em ser a offerta / castigo haver mais prova, o mais justificado. » Mandou ma's El-Rei tirar uma de- vassa do caso em segrêdo; mas desnecessário é acrescentar que nada mais -aconte- ceu, « os culpados ficaram sem castigo algum. A morte violenta do D. Diogo Cou- tinho Docem foi a razão porque I). Biàs de Ca«tro rejeitou o governo de Macau quo lhe foi oferecido por ondem del-Hei em "16+6. (British .1lueetum. Adi. Mss. 20877). '(5) A expedição do regulo de Teldo (reino no sul de Celebes. avassalado no da Macassar) contra Solor e Timor em 16-11 é narrada por Affonso de Castro no seu conhecido livro As possessões Portuguesas na Oceania (Lisbon, 1807), a pp. 23-26, o m lis miudamente no livrinho raríssimo de Frei Antonio da Encarnação. Brcre fíelaçam das Cousas. que nestes annos proximos fiseão os Religiosos da Ordem dos Pregadores e. dos prodígios que succede-ão uns Christandades tio Sul, &c.. (Lisbo i 1665), Capitulo— Fui o Reg de Tolo com poderosa armada sobre as illias de Solor; referese o sucresso i/ue tere. FIM DO PRIMEIRO VÒLUMÉ ) A.