(i iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiiiiniiiiniiiiiiiiiiiiiii'iig DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS D O ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ANTÓNIO DA SILVA REGO INDIA 9.® VOL. (1562-1565) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR LISBOA / MCMLIII -■iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinniiiiiiiiiiiiiHiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiniimiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii^
DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE
. ■M&m *
, I .fl. w REPÚBLICA PORTUGUESA MINISTÉRIO DO ULTRAMAR DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS D O ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ANTÓNIO DA SILVA REGO INDIA 9.o VOL. (1562-1565) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR DIVISÃO DE PUBLICAÇÕES E BIBLIOTECA LISBOA / M C M L I I I
B N t DEPOSITO LEGAL 201582 *-5.VI53 Esta publicação foi autorizada por despacho de S. Ex." o Ministro do Ultramar de 4 de Dezembro de *952
INTRODUÇÃO
SCREVEMOS a introdução ao último volume desta Documentação — o 8." — em 12 de Setembro do ano passado. E hoje são 6 de Maio de 1953. Me- deiam, pois, cerca de 8 meses, entre o aparecimento do 8." e do 9." volumes. Poderíamos explicar o atraso havido, mas preferimos lamentá-lo. Quadra-se mais este sentimento não só com o nosso feitio, mas também com o nosso entusiasmo por esta obra. Apesar disto, porém, ainda esperamos publicar durante este ano de 1953 mais dois volumes: o 10. (1566-1571) e o 11." (1572-1576). Após o aparecimento do 12." vol. (1576-1581) em Maio de 1954, chegará a vez de se entregar o original do segundo volume da História das Missões do Padroado Português do Oriente (1542-1580). Eis os nossos planos e as nossas esperanças. Deus nos ajude. Um relance pelo índice deste volume indica-nos que o Códice do Fundo Geral n4534, da Biblioteca Nacional de Lisboa, foi a principal fonte aonde se foram colher os do- cumentos referentes aos anos 1562-1565. E observa-se tam- bém que se vai transitando, gradualmente, deste códice para o existente na Biblioteca da Academia das Ciências de Lis- boa, Cartas do Japão, III. No próximo volume — o 10. termina o acervo documental existente neste precioso códice. Apesar de não nos faltar posteriormente bastante documen- tação jesuíta, deve confessar-se que é em 1569 que termina i x
aquela abundância que temos oferecido até aqui à curiosi- dade científica dos estudiosos. Verificámos neste volume as dificuldades já antes expe- rimentadas, oriundas da incerta pontuação e da mais incerta grafia das diversas cópias. Assim, para citar apenas um exemplo, o P.° Paio Correia aparece por vezes transfigurado em P.e Pablo Correia, P.° Payo Correia, etc. Como nos utili- zamos de cópias, e não de originais, publicamos alguns do- cumentos repetidos, para fins de comparação entre as mesmas cópias. Publicam-se também, neste volume, bastantes documen- tos oriundos do Arquivo Histórico do Estado da índia. Ao passo que nos formos aproximando do século XVII, mais oportunidade teremos de recorrer à sua enorme riqueza documental. Chamamos a atenção dos nossos leitores para o que dissemos na introdução ao último volume, a respeito do aparecimento dum novo códice entre os papéis do Arquivo da Fazenda de Goa, códice logo trasladado para o Arquivo Histórico do Estado da índia. Julgou-se que se tra- tava do famoso Livro do Pai dos Cristãos, de que o erudito Cunha Rivara tão largas transcrições fez para o seu precio- síssimo Archivo Portuguez Oriental, hoje verdadeira rari- dade bibliográfica. A comparação entre este códice, inti- tulado Provisões e Alvarás a favor da Cristandade, e as X
transcrições de Cunha Rivara inclina-nos a optar pela afir- mativa, embora não possamos ainda afirmar peremptoria- mente que se encontrou o Livro do Pai dos Christãos de Cunha Rivara. Compare, porém, o leitor os documentos do Livro do Pai dos Christãos com os das Provisões e Alvarás a favor da Cristandade. Num e noutro códices se encontram eles nas mesmas folhas. Não se tratará, pois, dum códice apenas? A comparação de futuros documentos, a publicar nesta série, deve esclarecer-nos sobre este assunto. Razão teve, pois, o nosso Amigo Prof. Panduronga S. Pissurlencar quando, ao anunciar o aparecimento das Provisões e Alvarás a favor da Cristandade, apresentou logo a hipótese de se tratar do famoso Livro do Pai dos Christãos. Nova sigla orna o presente volume: FILMUPO. A Fil- moteca Ultramarina Portuguesa — por ela significada representa, certamente, a satisfação dum anseio cultural manifestado por inúmeros estudiosos da nossa expansão ultramarina. Os esforços heurísticos dos investigadores esbar- ravam sempre, com efeito, no obstáculo da dispersão do- cumental. Se grande parte dos nossos documentos se encon- tra arquivada em Portugal, outra parte — talvez não menos importante — acha-se retalhada por diversos arquivos e bi- x i
bliotecas, fora da metrópole portuguesa: Goa, Simancas, Sevilha, Roma, Paris, Londres, Florença, etc., etc.. A verificação da existência deste obstáculo bastava para minar os mais esfusiantes entusiasmos dos nossos historia- dores. As suas investigações tinham fatalmente de se limitar aos arquivos metropolitanos. Poucos, muito poucos, dispo- riam de meios e de tempo para serem empregados em arqui- vos além-fronteiras. À alta visão cultural de Sua Excelência o Ministro do Ultramar, Com. Sarmento Rodrigues, deve já a Historio- grafia Portuguesa o início da satisfação daquele anseio. Dentro de alguns anos, a Filmoteca Ultramarina Portuguesa deve satisfazer plenamente as exigências dos nossos investi- gadores. Principiou-se pelo Arquivo Histórico do Estado da índia, o nosso segundo arquivo histórico ultramarino. Exis- tem ja na FILMUPO cerca de 100.000 páginas documentais, pertencentes às melhores colecções de Goa. Continua a tra- balhar-se activamente neste sentido, e é de esperar que, daqui a três ou quatro anos, se tenha em Lisboa o melhor do Arquivo Histórico do Estado da índia Portuguesa. Ao mesmo tempo, deve iniciar-se dentro de alguns meses a recolha do- cumental em arquivos europeus, recolha que deve continuar pelos próximos anos. Não ignoramos que não basta possuir em Lisboa, na Junta das Missões Geográficas e de Investiga- x 11
ções do Ultramar, de que a F1LMUPO é o mais recente departamento, toda a documentação referente ao nosso Ultra- mar. É necessário inventariá-la, torná-la acessível à consulta, distribuí-la em fichas e em publicações. Tudo isto é verdade. Mas, também é verdade que a FILMUPO tem de iniciar os seus trabalhos ab ovo. Há que ter paciência e não desejar saltar do nada para a perfeita abundância. Muita coisa nova se tem visto nestes últimos 25 anos, há pouco tão solenemente lembrados. Pois, a Filmoteca Ultramarina Portuguesa é, sem exagero, o grande brinde oferecido, em 1953, aos historiógrafos da expansão lusíada. É natural que a nossa deformação profissional nos leve a exagerar a importância deste acontecimento e, por isso, pro- positadamente nos coibimos de mais encomiásticas referên- cias. Antevemos, porém, a influência decisiva que a FIL- MUPO virá desempenhar na cultura histórica portuguesa. Celebrou-se em 27 de Abril p.p. o vigésimo quinto ani- versário da entrada do Senhor Professor Doutor Oliveira Salazar para o governo da Nação. Desejamos associar-nos, das páginas desta obra, a tão justa homenagem. E temos razão para isso. É que deve-se a Sua Excelência o Presidente do Conselho a ideia inicial de se libertar o Padroado Portu- guês do Oriente do espesso manto de olvido e ignorância XIII
que pesadamente o envolvia. Eis o motivo do nosso trabalho. Eis a razão da nossa obscura mas, nem por isso, menos sin- cera homenagem. Cumpre-me agradecer as facilidades concedidas tanto a mim como ao meu colaborador, P." Artur Basílio de Sá, aos Ex."'"' Srs. Dr. Estevens, director da Biblioteca Nacional de Lisboa, Dr. Perry Vidal, director da Biblioteca da Ajuda de Lisboa, Dr. Silva Marques, director do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Drs. Júlio Dantas e António Baião, da Academia das Ciências de Lisboa, e Drs. Lopes de Almeida, César Pegado e Almeida e Sousa, da Biblioteca da Universi- dade de Coimbra. A todos, os nossos mais sinceros agradeci- mentos pela compreensão e colaboração prestadas. Não posso deixar de mencionar o nome do Ex.m° Sr. Dr. Leonel Pedro Banha da Silva que, há bem pouco ainda, teve ocasião de auscultar in loco o íntimo sentir dos padres do Padroado Português do Oriente. É ele um dos mais ínti- mos e dedicados colaboradores de S. Ex." o Ministro do Ultramar, Com. Sarmento Rodrigues, a quem esta obra tanto deve. Recordo, finalmente, a preciosa colaboração do P.' Artur Basílio de Sá, e as longas horas gastas na elaboração do índice geográfico, onomástico e ideográfico pelo conterrâneo XIV
e amigo António de Araújo Coelho e Castro, distinto quar- tanista do Instituto Superior de Agronomia. Lisboa, 6 de Maio de 1953. A. da Silva Rego P. S. — Seguem algumas correcções enviadas por Amigos a quem sinceramente agradecemos. Pedimos aos nossos ilustrados lei- tores o favor de no-las comunicar sempre que as descubram. Esta obra só lucrará com isso. 1) O Sr. P." António Leite, director da Brotéria, chamou-nos a atenção para o nome do P." Luís da Grã ou Gram que saiu errada- mente grafado P.° Luís da Graça a págs. 112 do 6." vol. 2) O Sr. Prof. Panduronga Sinai Pissurlencar, director do Arquivo Histórico do Estado da India, e um dos mais certos lei- tores destes volumes, envia-nos a seguinte lista de correcções que gostosamente publicamos: Vol. V Pág. 438, linha 9. Em vez de Viasiaym leia-se Ucassaym. » 466, » 12. Em vez de Caudoby leia-se Candoly. » 468, » 4. Em vez de Velluy leia-se Nellur (Hetud Nerul). X V
Pág. 471, linha final. A igreja de Tivim não podia ser reedificada em 1625, porquanto foi construída em 1627. » 472, » 24. Em vez de Bessorá leia-se Revorâ. » 473, » 3. Ghema Saunto é Qhema Sautitó. » 473, » 24. Em vez de Virllucá leia-se Sirullá. » 475, » 24. Em lugar de Nachvolla leia-se Nachonollá. (Ketul Nachinolá). » 506, » 31. Em vez de Peccorá leia-se Revorá. » 507, » 1. Em vez de Sinclim leia-se Siolim. » 507, » 4. Em vez de Vacçaim leia-se Uccaçaim. » 507, » 5. Em vez de Querjim leia-se Guirim. » 476-477. Igrejas de Salcete: Pág. Em lugar de Avengal leia-se » » » » 509 » » » Pave Ver cova Maroby Gocay Vercavá Mahuana Usana » » » » » » » Arengai. Pode (Pahadi). Verçova. Maroly. Goray. Verçova. Malvana. Urana. No índice onomástico, a pág. (Shivagi) com Sambagi, seu filho. 536, confunde-se Savagi Vol. VI Pág. 410, linha 6. Em vez de Dramma leia-se Bramma. » 470, Vali. É a festa de Divali, isto é, das luzes. X V I
Pág. 470, penúltima linha. Guindaa é Goindá; Hai é Hari. Vitila é Vitthal. Mangisso é Manguesso (de Cortalim); Santeu é Santeri (de Quelossim); Malssadeve é Malsadevi (de Vernã). » 471, Ravalnaico é Ravalnath; Capatonato é Capatonatto; Bai- ron é Bairão; Negulatu é Naganato; Belulatu é Betai. Vol. Vil Pág. 218, nota 4. As duas abreviaturas (Y° Lço) são de Ygnacio Lourenço. » 227, nota 3. A abreviatura é M™ (Mendes). Na última linha, onde se lê Francisco Meneses deve ler-se Francisco Mendes. » 229, linha final. Em vez de Almeida leia-se Aleixo. » 292, linha 21. Pragaria é pragana. » 355, nota 5: Os zouxis não são jogues. O zouxi é o brâmane que lê o calendário e declara os dias faustos e aziagos para lavrar, semear e colher, para casamentos e outras solenidades. Cf. Dalgado, Glossário, I, p. 491- Vol. VIU » 95. Char aros são char dós. O P." Diogo Ribeiro (Dicionário Canarim-Português) regista o vocábulo chararos. Luís Fróis refere-se, evidentemente, ao estado social dos char- dós de Batim. » 164, linha 28. Em vez de jancar leia-se gancar. » 165, linha 6. Idem. XVII DOC. PADROADO, IX B
Pág. 221, linha 28. Gittaa. Trata-se do poema sânscrito Bhagvad guitá. » 221, linha 28. Detatria. Num livro marata denominado Yogaraj-tilak encontram-se recolhidas as lições de Data- tria ao seu discípulo Amricananda. Foi um dos primeiros livros da religião hindu vertidos para o português em meados do século XVI. Existe um exemplar dessa tradu- ção portuguesa no Arquivo dos Jesuítas, em Roma. » 227, linha 6. Bata. É corrupção da palavra Bhat. » 351, linha 10. Camçalim. Evidentemente, há aqui erro de cópia. Deve ser Gomdaulim. » 353, linha 23. Birgão. É Belgão. » 422, nota. Grous não são gurus. Cf. Dalgado, Glossário, vb. grou: «indivíduo da casta sudra, que serve no pagode e adora a Xiva.» 3) O Sr. P.' António Lourenço Farinha, outro assíduo leitor desta Documentação, escreve-nos a respeito do 8.° vol.: «Julgo que na pág. 122, penúltima linha, não será machina, mas marcha; pág. 137, linha 1, está disertas em vez de dispersas; pág. 138 é Monclaros, jesuíta; pág. 238, papo, em lugar de pouco; pág. 240, Semache dos olhos por Sernache dos Alhos; pág. 260, aosadas equivale a alzadas, asadas, que significam oportunas; pág. 37, a carta é de Cochim (Ver págs. 306 e 324); pág. 320, uma pequena de galinha, em vez de uma perna; pág. 364, a carta é também de Cochim, e da última quinzena de Agosto de 1560; pág. 416, apartando por apascentando; pág. 425, ensensado por ensalsado (embrulhado, misturado). XVIII
É o que me parece; mas não afirmo categoricamente que seja assim.» A estes três nossos amigos, os mais sinceros agradecimentos. Já após a impressão das folhas, e durante a feitura do índice geográfico, onomástico e ideográfico, anotámos o seguinte deslise: Pág. 71, linha 17: onde se lê: Não chegamos a Moçambique, leia-se «Nos chegamos a Moçambique...». S. R. XIX
SIGLAS
SIGLAS AHEI Arquivo Histórico do Estado da índia. ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo. APO Arquivo Português Oriental, de Cunha Rivara. BACIL Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. BAL Biblioteca da Ajuda, Lisboa. BNL Biblioteca Nacional de Lisboa. BUC Biblioteca da Universidade de Coimbra. CC Corpo Cronológico, colecção do ANTT. FILMUPO Filmoteca Ultramarina Portuguesa. F. G Fundo Geral, divisão de manuscritos da BNL.
í N D f C E
N.° Pág. 1 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 263v-267r: Carta do P.' Gonçalo Roiz ao P.' Miguel de Torres. Cochim, Janeiro de 1562 3 2 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 257r-258v: Carta do Ir. Luís de Gouveia aos Irmãos da Companhia. Coulão, 4 de Janeiro de 1562 19 3 — ANTT, CC, 1, 105-84: A Confraria de Nossa Senhora do Rosário, de Coulão, a El-rei. Coulão, 4 de Ja- neiro de 1562 25 4 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 337 r-338 r: Carta do Ir. Luís de Gouveia a seus confrades da Europa. Coulão, 8 de Janeiro de 1562 28 5 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 309r-310v: Carta do P.* Gonçalo Roiz aos Padres e Irmãos do colégio de Coimbra. Cochim, 16 de Janeiro de 1562 33 6—BNL, F. G. N.° 4534, fls. 314v-315r: Carta do P." Gonçalo Roiz ao P." Lião. Cochim, 26 de Ja- neiro de 1562 39 7 — AHEI: Registo das Cartas Régias, 1529-1611, fls. 36-37. El-rei e a Conversão de Goa. Lisboa, 11 de Março de 1562 41 XXVII
N.» Pág. 8 — AHEI: Livro Vermelho, I, 1548-1692, fls. 57v-59. Sobre a ajuda do braço secular. Goa, 20 de Junho de 1562 44 9 — AHEI: Livro Vermelho, I, 1548-1692, fls. 60v-6lv. Sobre as heranças dos convertidos. Goa, 20 de Ju- nho de 1562 47 10 — AHEI: Livro Vermelho, 1, 1548-1692, fls. 59-60. Ju- risdição dos mordomos das igrejas sobre os gentios. Goa, 20 de Junho de 1562 49 11—AHEI: Livro Vermelho, 1, 1548-1692, fls. 60r-60v. Condenações dos cristãos da terra e gentios. Goa, 20 de Junho de 1562 51 12 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 366r-366v: Carta do P.e Gaspar Coelho ao Provincial da índia. Socotorá, 30 de Agosto de 1562 53 13 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 374r-375v: Carta do P." Sebastião Gonçalves aos Irmãos da Companhia em Portugal. Goa, 10 de Setembro de 1562 56 14 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 375v-378r: Carta do Ir. António Fernandes aos Padres e Irmãos de Coim- bra. Goa, 15 de Setembro de 1562 65 15 — AHEI: Livro 111 de Registos Antigos, fls. 231. Obras da Sé de Goa. Goa, 4 de Novembro de 1562 76 16 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 378r-380v: Carta do P.e Fernão da Cunha aos Padres e Irmãos do colégio de Évora. Goa, 3 de Dezembro de 1562 79 17 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 355 v-363 r: Carta Geral do P.' Baltasar da Costa a seus confrades da Europa. Goa, 4 de Dezembro de 1562 91 18 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 380v-383r: Carta do P." Francisco Cabral aos Padres e Irmãos da Compa- nhia em Portugal. Baçaim, 5 de Dezembro de 1562 125 XXVIII
- N.° Pág. 19 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 363r-364r: Carta do Padre Baltasar ao Padre Provincial da índia. Goa, 23 de Dezembro de 1562 135 20 — ANTT, CC, I, 89-42: Carta de D. Pêro de Meneses. Goa, 30 de Dezembro de 1562 139 21 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 383r-385v: Carta do P.° Henrique Henriques aos Padres e Irmãos de Coimbra. Manar, 30 de Dezembro de 1562 . — 143 22 —ANTT, CC, I, 106-44: Carta do P.e Diogo Bermudes, O.P., à Rainha. Goa, 2 de Janeiro de 1563 154 23 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 453v-455r: Carta do P.e Paio Correia. Cochim, 7 de Janeiro de 1563 ... 156 24 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 471v-474r: Carta do P.* André Fernandes ao P.° Pêro da Fonseca. Cochim, 16 de Janeiro de 1563 163 25 — AHEI: Leis a favor da Cristandade, fls. 42-43 v. Proi- bida qualquer obstrução ao Cristianismo. Lisboa, 6 de Março de 1563 174 26 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 406r-406v: Carta do P." Francisco Dionísio ao P.° Miguel de Torres. Moçambique, 10 de Agosto de 1563 178 27 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 406v-409v: Carta do Ir. Pêro da Cruz aos confrades de Évora. Goa, 23 de Novembro de 1563 182 28 — AHEI, Livro do Pai dos Christãos, fls. 91: Expulsão de todos quantos impedirem a Cristandade. Goa, 27 de Novembro de 1563 195 29 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 409v-413v: Carta do Ir. Jácome de Braga aos Padres e Irmãos da Companhia em Portugal. Goa, 2 de Dezembro de 1563 199 XXIX
*• Pig. 30 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 338r-338v: Trecho de uma carta do Ir. Manuel Pereira a um Irmão do colégio de Évora. Goa, 3 de Dezembro de 1563 217 31 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 456r-458v: Carta do P.e Francisco Cabral aos Padres e Irmãos da Casa de S. Roque, em Lisboa. Baçaim, 10 de Dezembro de 1563 221 32 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 421 v: Trecho de uma carta do P." Belchior Dias escrita ao P.e Manuel da Costa. Goa, 13 de Dezembro de 1563 229 33 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 422r-427v: Carta geral do P.° Lourenço Peres. Goa, 17 de Dezembro de 1563 231 34 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 415v-418v: Carta do P.e Henrique Henriques aos Padres e Irmãos da Companhia em Portugal. Manar, 19 de Dezembro de 1563 256 35 — ANTT, CC, I, 106-103: A Câmara de Cochim ao Car- deal Infante. Cochim, 29 de Dezembro de 1563 ... 268 36 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 485 v: Trecho de uma carta. 1564 272 37 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 485: Trecho de uma carta de um Irmão. 1564 274 38 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 485 v: Trecho de outra carta. 1564 275 39 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 418v-321r: Carta do Ir. Luís de Gouveia aos Padres e Irmãos de S. Ro- que, em Lisboa. Coulão, 12 de Janeiro de 1564 ... 276 40 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 468 v-471 v: Carta geral do Ir. Amador Correia escrita aos religiosos da Europa. Cochim, 15 de Janeiro de 1564 288 XXX
N.« P4*- 41—BNL, F. G. N.° 4534, fls. 364r-366r: Carta do P." Mestre Belchior, irmão do Patriarca, comuni- cando a morte deste a umas irmãs suas, religiosas na cidade do Porto. Cochim, 22 de Janeiro de 1564 303 42 —AHEI, Livro das Monções, N.° 38, fls. 430: Órfãos gentios. Goa, 4 de Novembro de 1564 311 43 — BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 130 r. Trecho de uma carta do Ir. Bento Fernandes. Goa, 7 de Novembro de 1564 313 44 — Arquivo Jack Braga, Hongkong: Carta de D. Gaspar de Leão, primeiro arcebispo de Goa, a El-rei D. Se- bastião. Goa, 20 de Novembro de 1564 314 45 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 518 r-521 v: Carta do P.c Pêro Fernandes. Goa, 23 de Novembro de 1564 317 46 —BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 133 r-135 r: Carta do P." Pêro Parra. Goa, 24 de Novembro de 1564 .... 332 47 — AHEI, Livro do Pai dos Christãos, fls. 84: Sobre nin- guém impedir a conversão. Goa, 27 de Novembro de 1564 340 48 —BNL, F. G. N.° 4534, fls. 484r-484v: Trecho de uma carta do P.* Belchior Dias. Goa, 2 de Dezembro de 1564 342 49 —BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 129v-130r: Trecho de uma carta do Ir. Estêvão Dinis. Goa, 7 de De- zembro de 1564 346 50 — BNL, F. G. N.° 4534, fls. 485 r: Trecho de uma carta do P.® Dionísio. Goa, 9 de Dezembro de 1564 .... 347 51—AHEI, Livro das Monções, N.° 93, fls 350: Obras da Sé Nova. Goa, 10 de Dezembro de 1564 350 52 — AHEI, Provisões e Alvarás a favor da Cristandade, Bens aplicáveis à fábrica da Sé de Goa. Goa, 10 de Dezembro de 1564 352 XXXI
N-* Pág. 53— BNL, F. G. N.° 4534, fk. 478r-483v: Carta geral escrita pelo Ir. Jorge Caldeira. Goa, 11 de Dezem- bro de 1564 354 54 —BNL, F. G. N.° 4534, fk. 522 r: Carta do P.' André Fernandes. Coulão, 11 de Dezembro de 1564 .... 377 55 — BNL, F. G. N.° 4534, fk. 516 r-518 r: Carta do P." Fer- não da Cunha aos Irmãos da Companhia em Por- tugal Baçaim, 11 de Dezembro de 1564 379 56 — AHEI, Leis a favor da Cristandade, fk. 20-21: Pro- tecção aos convertidos. Goa, 14 de Dezembro de 1564 388 57 —BNL, F. G. N.° 4534, fk. 414r-415r: Carta do P." André de Cabreira ao Dr. P." Inácio de Tolosa. Baçaim, 15 de Dezembro de 1564 391 58 —BNL, F. G. N.° 4534, fk. 502r-504v: Carta do P.° Henrique Henriques. Cabo de Comorim, 22 de Dezembro de 1564 398 59 — ANTT, CC, I, 107-38: Carta de D. Antão de Noronha a El-rei. Goa, 30 de Dezembro de 1564 410 60 —BNL, F. G. N.° 4534, fk. 523r-524v: Carta do P." Francisco Lopes. Cochim, 6 de Janeiro de 1565 416 61—BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 221v-222v: Carta do Irmão Gonçalo Fernandes Trancoso ao Ir. André Gomes, em S. Roque. Cochim, 10 de Janeiro de 1565 425 62—BACIL, Cartas do Japão, 111, fk. 149r-150r: Carta do P." André Fernandes. Coulão, 11 de Janeiro de 1565 428 63 — BACIL, Cartas do Japão, III, fk. 150v-151r: Carta do Ir. Amador Correia. Cochim, 15 de Janeiro de 1565 , 432 X X X 11
N.« Pág- 64 — BACIL, Cartas do Japão, III, fis. 222 v-223 r: Carta de El-rei D. Sebastião ao vice-rei D. Antão de No- ronha. Almeirim, Fevereiro de 1565 435 65 — AHEI, Livro do Pai dos Christãos, fls. 81 v: Protecção aos marinheiros cristãos. Goa, 6 de Fevereiro de 1565 437 66 — AHEI, Provisões e Alvarás a favor da Cristandade: Protecção aos marinheiros cristãos. Goa, 6 de Fe- vereiro de 1565 438 67 — BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 143 r-147 r: Carta do P.° João Baptista de Ribera ao Reitor do colégio de Córdova, Alonso de Carate. Goa, 27 de Outu- bro de 1565 439 68 — BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 147 v-149 r: Carta do Dr. Dimas Bosque, médico do vice-rei D. Constan- tino. S/d 457 69 —BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 141 v-142v: Trecho de uma carta do P.° Oliver, escrita a seus confrades do colégio de Santo Antão. Goa, 1 de Novembro de 1565 464 70 — BACIL, Cartas do Japão, III fls. 2l6r-218v: Carta do P." Sebastião Gonçalves ao Ir. Lourenço Mexia. Goa, 26 de Novembro de 1565 468 71 —BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 241 r-250 v: Carta do P.4 Belchior Dias aos Irmãos de Portugal. Baçaim, 1 de Dezembro de 1565 478 72 — BACIL, Cartas do Japão, III, fls. 223 v-231 v: Carta de Jorge Caldeira ao P.6 Doutor Mirão, Provincial da Companhia. Goa, 6 de Dezembro de 1565 508 73 — ANTT, CC, I, 107-86: Carta de Martim Afonso de Melo de Castro a El-rei. Goa, 12 de Dezembro de 1565 534 X X X 111 DOC. PADROADO, IX C
N.« Pág. 74 — AHEI, Provisões e Alvarás a favor da Cristandade: Os Judeus são proibidos de viver nas fortalezas de El-rei. Goa, 16 de Dezembro de 1565 544 75 —AHEI, Livro do Pai dos Christãos, fl. 79 v: Judeus in- desejáveis em terras de El-rei de Portugal. Goa, 16 de Dezembro de 1565 546 76 — BNL, F. G. N.° 4534, fl. 522 r: Trecho de uma carta escrita em Goa. S/d 548 77 — BNL, F. G. N.° 4534, fl. 483 v: Trecho de uma carta de um Irmão da Índia escrita a Pêro Freire. S/d. 549 78 — BUC, Códice 52, págs. 1-4: D. Sebastião e o Ultra- mar. S/d 550 79 — ANTT, Col. S. Vicente, X, 83: Cristandade de Or- , muz. S/d 551 80 — ANTT, Col. S. Vicente, X, 95: Jesuítas na índia. S/d. 552 81—AHEI, Regimentos e Instruções N.° 1, fls. 1-110 v: A índia em 1565 553 82 — ANTT, Colecção de S. Lourenço, III, fls. 187-188. A Misericórdia de Chaul a D. João de Castro. Chaul, 22 de Novembro de 1545 601 83 — ANTT, Colecção de S. Lourenço, III, fl. 504. Carta do P.° Mestre Pêro Fernandes Sardinha a D. João de Castro. Goa, 1 de Fevereiro de 1547 604 84 — ANTT, Colecção de S. Lourenço, III fls. 458-459- Carta do Bispo D. João de Albuquerque. Goa, 10 de Fevereiro de 1547 608 85—AHEI, Registo das Cartas Régias, 1529-1611, fls. 34- -35: Privilégios da Cidade de Goa. Lisboa, 25 de Fevereiro de 1561 610 XXXIV
Pág. 86 — AHEI, Livro do Pai dos Christãos, fl. 30: Isenção do pagamento de dízimos, por dez anos, concedida aos novos convertidos. Lisboa, 4 de Março de 1561 ... 613 87 — APO, V, N.° 391, págs. 488-490: Restituição das terras antes tomadas aos gentios. Goa, 3 de De- zembro de 1561 615 XXXV
DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE (1562-1565)
1 CARTA DO PADRE GONÇALO ROIZ AO PADRE MIGUEL DE TORRES Cochim, Janeiro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. (1). Fls. 263 V.-267 r. Por complir lo que Vuestra Reverencia me mando, de- termine de dar cuenta a Vuestra Reverencia de lo que nos acaescio en nuestro viage a my e a myos companeros, bre- vemente. Concertada y puesta la verga en su lugar, comen- çamos nuestro viage con alguna tristeza de la gente, porque tenian muchos para sy que esta nao no seria dichosa, por el desastre que le acaescio en le quebrar la verga, luego en el principio, y per qual el viso-rey fue aconsejado que no vi- niesse en elha, per aver perdido mucho, quando la lançaron al mar. Mas el capitan, como hombre esforçado y confiando en Dios, esforçava a todos, diziendo que el mejor sennal que tenian, para acabar ben esto viage, era avernos el Senor mortificado al principio. Y assy, yendolo yo a consolar, lo alhe desta manera esforçado, y como uvimos partido, y la nao se començo a balancear, començaron mis companeros a enjoar, y assy estu- vieron quatro o cinquo dias, sin se poder levantar. Quiso Nuestro Senor que no enyoace, aunque me dolio, un dia, bien la cabeça. Y bolviendo a alharse meyor mis compane- (1) BAL: 49-IV-50, fls. 367v.-371r. BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 362 r.-366 v. Esta cópia é uma tradução em português bastante livre, em que o nome do autor aparece sempre riscado. 3
ros, ordenamos de entender en el provecho spiritual de la gente de la nao, predicando y confessando, de que la gente, segun dizian, se consolava mucho. Y per el capitan nos rogar que predicássemos, los Domingos y fiestas uvimoslo de ha- zer, y assy comence a predicarles dos Domingos y fiestas. Y procediendo ansy, cargando las occupaciones de la nao, con conseio dei Padre Pareyra y hermano Estevan Dinis, or- denamos que me ayudasse a predicar los Domingos; y assy predicávamos los Domingos, alternatim, y yo, alien desto, todas las fiestas. Era nuestro capitan tan zeloso que no nos dexava estar nada ociosos, porque, como traya las huerfanas a su cargo, insistio luego que les heziessemos platicas spirituales, y assy comunmente se las haziamos, alternatim, yo y el Padre, hallandose syempre a ellas el mismo capitan, haziendose todo muy honesta y decentemente. Allen destas huerfanas, trayamos en proa de la nao otras mugeres honrradas, las quales, as vezes, participavan deste beneficio, yendolas yo algunas vezes a confessar y hazerles platicas, con edificacion suia y de sus parientes, que las trayan a cargo y que sienpre se alhavan a las praticas. Y procediendo nuestro viage desta manera, viendo el capitan que avia muchos inclinados a yurar y jugar, y ser en esto mucho libres, por atayar a esto, de principio, mando dar un pregon por la nao que toda persona que iurasse qualquier iuramento, pagaria 100 maravedis (2) para la Misericórdia, y si en esto conprehendia algun hidalgo, el mismo le dizia que pagasse la pena. Y si era algun moço mandavalo pren- [264 r.] der en el tronco de la nao, y qualquer persona // que yugasse qualquer juego, excepto el de las tablas, por desenfada- miento, si fuesse hidalgo, pagaria viente cruzados para la Misericórdia, y si fuesse baxo, seria açotado al pie dei mas- (2) A abreviatura ê mr". 4
tro; y sy alguno quisiesse iugar, que fuesse en la tolda, pe- rante el, para que no osasse iurar ny blasffemar ny desman- darse en nada. Para evitar el abuso de los iuramientos, que tanto milita por semejantes lugares, determine de les hazer una doctrina, donde particularmiente les tratasse de los iuramientos, dei peccado que era, y de los castigos que Dios hiziera por este peccado, aprovechandome para este effecto dei librello de Soto, que hizo dei abuso de los iuramientos. Hize esta doc- trina un Domingo, a la tarde, donde se aiunto toda la gente de la nao, grandes e pequenos, yendo el mismo capitan a buscaria y a juntaria. Certifico a Vuestra Reverencia que se aprovecho tanto la gente que el capitan y todos estávamos espantados de tan nueva mudança, porque en toda la nao ya no avia quien jurasse. Y si algun, per sus peccados, des- cuidadamente hazia, eran tantos los reprehendedores y los que lhamavan el merino, para lo prender, que aquella afruenta y verguença le hazia tener cuenta en la lengua, porque en la doctrina yo encargue la consciência dei capitan para los hidalgos y honrrados, que se acojen a la tolda; para los da proa, al contramestre; en el medio de la nao, a un hombre honrrado, de manera que estava toda la nao cercada. Era tan affeado y estranado este vicio en los de nuestra nao que, viniendo unos hombres de otra nao a la nuestra, estando presente uno de mis companeros (aunque parece que no le vian) començando aquellos hombres a iurar, por muchas vezes, los de nuestra nao, espantados, les dixeron que quela nao los avia traído en sy, porque tan mal costum- bre de iurar trayan, y ellos se escusavon con su cura, diziendo que tambien jurava y iugava como ellos, que per esso no se espantassen dellos. En estos primeros dias, sientindose que la nao hazia mu- cha agua, nos mando el capitan dizer que, enquanto el la yva a buscar, hiziessemos oracion a S. Antonio, que le mos- 5
trasse por donde vénia; y acabando de lo encomendar, nos mando dizer que avia aliado cinquo furos de la berruma, que avian fiquado, per descuido de los carpinteros, que hizieron la nao, con lo qual ficaron todos muy consolados, porque no tenyan ya que temer de la agua, perque la nao, bendito el Senor, no la hazia. Y assi prosseguíamos, con alegria, nuestro viage, prosi- guiendo con la giente con edificacion delia, al parescer, ayu- dando los enfermos, aunque por la bondad de Dios, hasta Moçanbique, fueron poços y sin peligro. Jueves Sancto, a la tarde, predique el Mandato y, a la noche, hezimos nuestra procession, con muchas vellas y tor- chas encendidos al derredor de la nao, pidindo a Dios, Nues- tro Senor, misericórdia y ayuda para proseguir nuestro viage, con bien. Uvo mucho sentimiento y lagrimas en la gente, assi por el tiempo lo pedir, como por la memoria de en quam differente parte lo hazian. Uvo algunos desciplinantes, y cierto que se dieron de verdad, y que se pude dezir piedosa- mente que se hizo quanto en nao se podia hazer. Acabada la procession, predico el padre Pareyra la Passion, con mu- cho sentimiento de todos, y cierto que lo hizo bien y con satisfacion, en todas sus predicaciones, porque predica de- voto y tiene gracia. Passamos estos sanctos dias con el sen- timiento, que el Senor en tales tiempos y en tales occasiones suele dar, hasta el dia de Pasqua. Dia de Pasqua, en amanesciendo, ordenamos una so- [264 v.] lemne procession de alegria // estando la nao toda enban- derada, y desparando mucha artilleria. Ayuadava tambien para la fiesta una campana que trayamos, que en el mar causava mucha devocion. Cerca de se celebrar y festejar las fiestas del Senor, de la Virgen, de los Apostolos a todas las otras naos hahiamos grãn vantage. Tanto que los otros se espantavan. Ayudava para esto la devocion del capitan y su zelo, principalmente, y yo, se el se olvidava, lo solicitava. 6
y crea Vuestra Reverencia que se me alegrava el spiritu, en ver la nao enbanderada y de fiesta y tenia gran con- fianse, por quien el es y por intercecion de la Virgen, cuya era la nao, nos avia de guiar bien en su santo servido. En estas octavas de la Pasqua, para mayor fiesta y conso- lacion nuestra, quiso Nuestro Senor darnos vistas de las otras naos companeras, que de la barra avian partido primero, de las quales no teniamos nuevas hasta estonces, ni esperança de las hallar. Y en este mismo dia se avia despedido delias la caravela de la aguada para el reino, sem aver vista ni noticia de nos, nen nos delia, se fue; por esta causa no podimos es- crevir por ella. Fue en estremo grande la alegria que tuvi- mos, en ver las naos todas juntas a salvamiento. Elias venian ante de nos por una banda, y quedaron muy suspensas, no se sabiendo determinar que nao seria la nuestra, y affirma- vanse mas que seria nao que vénia de la India, y por no poder tomar la isla de Santa Hellena, andava en la costa de Guinea tomando agua de las trovoadas, porque assi acostu- bran hazer, e tenia por impossible podermos nos alcançarias, por aver quedado de vagar con la verga quebrada. En este medio tiempo resfresco el viento, porque como era en la costa de Guinea, avia dias que andavamos en calmarias, y luego las naos se vinieron a nos, esperandolas nosotros, tomados los tramquetes de gavia y la delantera, que allego a nuestra la nao dei viso-rei, el qual como nos conocio, quedo muy alegre, dando gradas a Nuestro Senor, por le aver ajuntado toda la armada Salvamosla con mucha alegria y contentamiento, ha- ziendo grande fiesta, e assi elle a nos con trompetas y che- remelas y con este viento que resfresco, passamos la lina, aviendo un mes que partíramos de Lisboa; y de ay a tres o quatro dias, estando en calmaria, lançaron el esquife fuera de la nao, y fue el capitan y algunos hidalgos, y yo con ellos, a visitar el viso-rey, y yo a nuestros padres y hermanos, y
hallelos bien dispuestos, y muy alegres por tener nuevas de nos. Estuve alia de vagar, hasta la tarde, que nos bolvimos a nuestra nao y passando adelante hazia las islas de Martim Vaz, teniendo vista de la tierra. Despues de las aver passado, nos escaseo el viento, de manera que fue necesario de noche andar a las bueltas, en una de las quales se vinieron de encontrar la nao Algaravia con la nuestra, de tal manera que, si Nuestro Sinor no nos valera, yvamos todos al hondo del mar, porque, como hazia escuro y ella venia sin vegilia, vénia a dar con la proa en el meo de la nuestra, y por mas que los de nuestra nao bozearon, nunqua oyeron; mas quiso Dios que era la nuestra tarn buena de leme, que luego se desvio para una parte, aunque el tiempo fue tarn breve que quasi no dava lugar a eso, y passo la nuestra rozandose por la nuestra popa, quedando libres ambas. Dia del Spiritu Sancto, se hizo muy solene fiesta en nues- tra nao, porque acostumbra, por honrra dei tal dia, elegir emperador en la nao al qual sirven todos, capitan y los mas, por todo aquel dia. Estava la nao toda de fiesta, envanderada, toldada de guadamezeles (3) muy frescos, y con un dosei de seda azul, donde el emperador tenia la cadera. Uvo la vés- pera, vesperas de canto de organo, porque en nuestra nao avia quien lo sabia hazer, y bien, y assi yo, como Vuestra Reverencia me puso en nonbre de cura de la nao, era nece- sario entonar las vesperas y la missa, y los otros repuntal- van (4) por su solfa. Assi tambien, cumpliendo mi officio, uve de coronar el emperador, porque el capitan dezia que [265 r.] aquello se hazia // para solenizar la fiesta de el Espiritu Sancto (5) y assi no avia que rehusar. (3) BAL: guadamecis. (4) BAL: repuncteavan. (5) BAL: y por devocion. 8
Despues de dezir missa cantada, predique al emperador, que estava de estado con toda sua corte, do que la gente, al parecer, quedo contenta. Diose mesa franca a toda la gente de la nao, la qual toda estava vestida de fiesta, como en corte de su Magestad. El emperador tenia sus officiales se- nores de salva, fidalgos y pages que ordeno, a los quales hazia estranas y inauditas mercedes, dandoles islãs y tierras, que ellos ni el numqua viron; dieronse prémios a los que mejores invenciones de alegria hizieron. Este dia no pudi- mos salvar la capitania, pero guardamosle su parte de la fiesta para la octava primera, la qual, llegando a nos, fue muy bien recebida, con muchas fiestas, con desparar mucha artilheria y como era ya tarde acercandose la noche, en la qual avia muy buena luna, y las naos venian todas juntas, començaron los marineros de lançar muchos fuguetes, que ten aparejados, y muchas ruedas de fuego que, como estava de alto y el tiempo era claro, se vian de muy lexos, taniendo nuestra campana, atanbor y pifaros y la capitania nos ayu- dava con sus trompetas y cheremelas. Prosseguiendo assi nuestro viage, fuemos metiendo en el Cabo de Buena Esperança, donde començamos todos a sentir otro nuevo lenguaje, porque aquel mar era muy fu- rioso y repentino, que las mas de las velas es necessário estar con la escota en la mano, y al stagro (6) alerta, porque de un momento para otro acoden pies de viento bravíssimos y furiosos, bastantes para çoçobrar una nao, si la toma con las vellas en cima. Daqui adelante no avia tanta fiesta ni alegria en la nao, porque muchas vezes nos entrava a visitar el agua con sus furiosas ondas, lavando todo el convés y aun a mu- chos que, por paresa, por el gran frio que hazia, que no lo querian hazer, ni solamente las manos sino todo el cuerpo. (6) Não conseguimos decifrar esta abreviatura. 9
En conclusion, porque no pareciese que burlava, danos una tormenta terrible, que doro todo un dia y toda una no- che; en que todos a una, no dezian mas que sospirar y llamar por Dios, porque començo de medio dia per delante a hazer viento tarn fuerte, y el mar se alborozo en tanta manera que parecia, claramente, querer vengar las injurias que teniamos hechas a su Criador. Y iugavan las ondas furiosas con nues- tra nao, como con casca de nuez, en balançandola por un cabo y por otro con mucha facilidad. Entravan las ondas, no como quiera, sino redondas a quebrar dentro en el convés, llevando de un bordo para otro caxas, todo lo que hallavan, hasta hunos animales que ay venian, que fundian la nao con brados. Veniendo la noche tam tormentosa, y proseguindo ade- lante la brabeza de la mar, vea Vuestra Reverencia quales estarian los coraçones de muchos, especialmente de aquellos que no avian visto otras semejantes. Por ventura que no se guarda tan bien el silencio en el claustro; no avia quien hablase, ni aun quien pareciesse en el convés, especialmente, de los soldados y muchos de los marineros se verian abaxo a servir al cabiestante. Verdaderamente digo a Vuestra Re- verencia que es grande cosa la obediência, y poene fuerças donde no las ay. Yo, que era dantes muy medroso, sim du- vida que me halle esforçado entonces, y que nunqua me passo pela memoria que nos podíamos perder. Començamos yo y mis companeros a buscar el favor divino, porque el humano desfallezia, y fuy donde estava el capitam y hechamos relíquias al mar; eche agua bendita por la nao, y en el mar, y por essos ayres, esforçando la gente, que no causava poca devocion y confianza en ellos esso; mas antes no se atrevian a estar en cima, en la tolda, ny en otra parte, sin nosotros, y assi yo con ellos y ellos comigo estuvimos toda la noche en la tolda, vendo a la clara la tor- menta. La qual crecia en tanta manera que, primero, via el
hombre el mar que la nao, porque andava muy alto y // as [265 r.] vezes tomava agua por los bordos la nao, de manera que siempre fue necessário dar empeto a la bomba, toda la noche, todo genero de persona, sin excepcion; y el capitan estuvo toda la noche al leme, sin aver ay pegar ojo: fugiebat enin somnus ab oculis omunium. Assi hizo su curso, hasta sus 24 horas y, despues, començo a ablandar alguna cosa. En esta tormenta dio una onda un encoentro a nuestra nao que la echo a una banda. Y endo una onda visitar el piloto y mestre, y deciendendo a la tolda a visitar el capitan y los demas y tornose a recoger, con nos levar un soldado, sin nunqua mas parecer. Con estas tormen- tas dei Cabo, començaron las naos a apartarse unas de otras mal de su grado, y assi, la nao de el viso-rey se perdio de nuestra conserva, y fue sola hasta Moçambique. \ lo mismo acontecio a la nao S. Antonio', quiso Nuestro Senor que que- damos nuestra nao y Flor de la Mar y Algaravia en conserva. Yendo alhi por nuestro viage, tuvimos vista de la tierra dei Cabo de Buena Esperança; no se puede dezir la alegria de todos, y el gritar y regocijar de los soldados, especia- mente de los moços y meninos que les parecia que dezian que ya vian la gloria. Procediendo adelante, con mucha alegria, teniendo ya el cabo doblado, entrando por la tierra dei Natal, quisonos Nuestro Senor mortificar con nos dar una tormenta bravíssima, en tanta manera que yo no la se dezir; sin ninguna conparacion, mayor que la primera. Y assi todos llamamos al Senor por ayudador, la qual hizo el mismo curso que la primera, hun dia y noche enteros. En esta avia muchos gemidos y lloros, muchos desmaya- dos. Era cosa espantosa y terrible, por ver la braveza de la tormenta y el jugar de la nao, porque iugava de una parte para otra, con los mares gruessos e cruzados, de manera que, por anbos bordos, tomaria agua, y quedava tan alto el mar, quando la nao se inclinava, que parecia como sierra, que no i i
estava hombre cuydando sino quando la capellaria y la dexa- ria por debaxo. Esta noche el piloto, con mucha devocion, pidio um pendon, donde estava la ymagen de Nuestra Se- nora, y pusulo en su estancia, arriba de la tolda, y pidio con mucha instancia que reçassemos las ledanias de Nuestra Senora Esta noche décimos cinco vezes las ladanias, por con- solar los de la nao, en diversas partes, llevando para esso el crucifixo, que de alia truxe dos, en la tolda, y uno al cabes- trante y otro iunto a la camara de las puerparas, que estavan sin sentido y las otras a proa. Passamos esta noche con gran peligro y risco de la vida, segundo todos dezian, y algunos se movieron con esta tormenta, que se confessaron. En esta tormenta perdimos de vista las otras dos naos companeras, y assi fuimos adelante, con aguna tristeza, por no saber lo que les acontezeria; ay dalgunos dias tornamos a aver vista delias. Vendo assi todas juntas, començo el viento a esquasear, de manera que nos vimo a ser contrario dei todo. Tomaron entonces consejo las naos y determinaron de se poner al pairo, y assi lo hizieron, porque el tiempo estava de vagar. Ordenamos entonces en nuestra nao una procession, pidindo al Senor nos encaminasse y ayudase y nos diesse tiempo para poder yr adelante. Demos tres bueltas al derredor de la nao, con las ledanias, con mucha cera encendida. Tentamos un altar a proa y otro a popa, a los quales, quando allegavamos, pedíamos, derredor dellos, misericórdia al Senor y prosi- giendo el tiempo muy mas contrario y fuerte con furiosos pies de vientos, estando en el cabo de las letanias, acabada la procession, diziendo todos la ultima voz: Senor Dios mise- [266 r.] ricordia, supitamente, en instante,//dieron bozes que se mudara el viento a popa, lo qual en toda la nao fue muy es- trano, y tenido por cosa dei Senor. Hizimonos luego a la vella, nos y las otras naos, nuestras i 2
companeras, muy algeres por nuestro Senor nos querer con- solar y no esperar mas que se lo acabássemos de pedir; dixe- mos luego todos juntos un Te Deum laudamus, dando gra- das al Senor. Dire con verdad una cosa a Vuestra Reverencia, que nunqua hizimos procession en nuestra nao, pidiendo tempo al Senor, que no nos oyesse y nos lo diesse luego; a las vezes en acabando de concluir, que aviamos de hazer la procession, u al principio, u al cabo de ella. Y assi tenia la gente gran devocion en la procession. Estas processiones comumente las haziamos de noche, con mucha lumbre. Hizeles por dos vezes, acabada la pro- cession, estando toda la gente devota y quieta, una platica, tratandoles dei pecado mortal, y como por el nos apartava- mos del Senor, y nos vénia por ello todo el mal, exortando- los a la confession, por estar ya perto de Moçanbique, para que todos se confessasem y pudessem comulgar, tratandoles alguna cosa de como se avian de confessar. Uvo sentimiento en la gente y muy evidente provecho por la bondad dei Senor y assi de ay adelante uvo muchas confessiones y algu- nas generales. Olvidava-me de dar cuenta a Vuestra Reverencia de el ordem que tuvimos en el proceder, con la gente de la nao, por su provecho spiritual. Alen de dezir missa, todas las fiestas de guarda y Domingos, y predicar, todos estos mismos dias, otros muchos dias deziamos missa, assi por nuestra de- voçion, como per la de el capitan y de otros particulares. Todos los dias deziamos letanias, a la noche; ordenamos que cada dia, cierto tiempo, se ensinasse la doctrina en nuestra nao. Y assi, el Hermano Estevan Denis tenia el assumpto desto, yendo con una campanilla, que tania un mozo, por la nao, donde se aiuntavan muchos moços y soldados, y todos los que no sabian, la oyan. Fue esse un exercício de gran provecho y causo mucha edificacion en la nao. En todas ®stas cosas siempre tuvimos la benevolência de el capitan, ' 3
el qual nos tenia en tanto credito que ni el hazia sino lo que nos le deziamos, ni nos sino lo que el dezia, en esta parte; nunqua falto a nuestras predicaciones, el primero era en las letanias, predicaciones y platicas. En las cosas que tocava a la consciência siempre recorria a nosotros y assi en toda cosa de pesso, de maneta que, en toda cosa, nos teniamos el se- gundo lugar. De aqui procedia teremos la demas gente benevola y, al parecer, todos se consolavan con nos, en especial el piloto mor y la gente de mar que, les parescia que avia de aver bon viage por iren alli padres de la Compania. El Senor nos de gracia pera que correspondamos a la openion que de noso- tros se tiene et plus ultra. Despues de esto, começamos a correr la costa hazia Moçambique, estuvimos quasi perdidos en unos baxos, por- que, yendo con viento a popa, escaceo el viento, de tal ma- nera que fue necessário ponernos al payro, y assi estuvimos esta noche, lo qual bien parece que fue permission divina que acalmasse el viento, porque por proa ameneciemos con unos baxos, que estavan entre nos y la costa de los Cafres, que estavan de nos a tyro de una espingarda, y si durava mas el viento, y no se tomara la vella, yvamos a dar con ellos en la proa. Quisso Nuestro Senor, por quien El es, darnos per la manana viento fresco, con que, con gran pressa y roydo dei piloto y gente de mar, salimos, porque estávamos muy cerca y las aguas chamavan mucho la nao para el, por la poca distancia que avya. Enfin pareceme verdadero el di- cho que vulgarmente dizen que las naos que van a la índia Dios las trae, Dios las lleva. No ay prudência, ni saber humano que baste para tanto, sino supliesse Aquele que es de ynfinita bondad y sabedurya. En conclusion, por no en- *■] fartar a Vuestra Reverencia con tanta particularidad// troxenos el Senor a Moçambique en um sabado, 12 de Julho de 1561, donde hallamos la nao de el visorey, que avya 1 4
■ llegado el dia de antes, por se aver apartado de nos con tor- menta. Faltava la nao S. Antonio, la qual vino, la segunda- -fera seguiente, y assi llegamos todos a salvamento a Moçan- bique y bien despuesta la gente de las naos. El Domingo seguiente, salimos todos en tierra a offere- cermonos a Nuestro Senor y a recebirlo; no tuvimos procis- sion, no por yo no tener solicitado la gente de la nao que salissemos en tierra, con procession, por amor dei viso-rey, no uvo effecto. Yo traya ya estudada my predicacion para Domingo, cuidando que la tuviessemos en el mar. Determine de predicar en tierra, porque tanbien estava informado que lo avia bien menester la tierra. Fuimos todos con el viso-rey a la iglesia mayor. Dixeron missa de canto de organo; estuvo Su Senoria con su cerimonia como viso-rey. Dicho el evan- gelio, tome una sobrepelix y la benedicion y prediqueles lo que sabia. Holgo mucho el viso-rey y todos essos capitanes y gente de las naos y mucho mas los de la tierra, segun que me dicheron despues mys companeros y otros. Fuymos, entonces, a dar obediência al Padre Pina, que ya estava apossentado en el hospital, por aver dicho primero missa, y aun no le aviamos podido hablar. Estuvimos ay en una casa dei mismo hospital apartada; estaríamos en Moçanbique un mes; hizose mucho fruito en la gente, porque aqui comen- çaron a adolescer la gente de las naos en grande manera, que es esta una pestilencial tierra. Tanbien me dio un en- quentro que pense de quedar nello. Tomome un enfermi- dad, como cólica, que si me durara mucho, tratarame bien mal. Quiso Nuestro Senor que me duro poco; tuve algunos dos o tres dias fiebre; como me bolvi a nuestra nao, luego me halle bien. En este medio tiempo predique otras duas o tres; no nos podíamos valer con las confessiones, porque la gente que adolescia era mucha, y la sana y todos se querian confessar con nosotros. Hizimos lo que pudimos y aun me- nos. En este tiempo vinieron las nuevas de nuestro bien
aventurado Padre Dom Gonçalo, de su fallecimiento, con que nos alegramos, por una parte; e por otra, nos entriste- cemos por la falta de el tal varon. El Senor sea bendito por todo; no hiziemos diligencia, pues no es necessário ny desto tengo que dar cuenta a Vuestra Reverencia, porque alia va por obras muy bien relatado. Partimos de Moçanbique, levando en nuestro viage la manera de proceder, atras dicha; pero se tuviera mucha Cari- dad llevava bien en que lo emplear, porque llevavamos la mas de la gente enferma. Quiso Nuestro Senor que aunque no nos deron ningun dinro (lo que parece que fue por ol- vido) todavia nos remediamos con buen quinon de gallinas, que compramos en el Moçanbique. Y con las de el capitan curamos lo mejor que pudimos los enfermos, y determine de tomar este officio sobre my, y assi a noche y mariana les dava de comer, (cociendo en una grande panela, que el capi- tan proveya gallinas y carne fresca y dandoles mermelada, assi nuestra como dei capitan y de nuestro biscocho alvo). Assi los fuymos sustentando hasta la India y por esta causa, quando ya allegamos, no avia biscocho ni tras (?) que parar con la grande priessa de los dolientes, porque como eran tantos agotavan a nos y al capitan, que éramos los que mas teniamos, y esto mas pertenzia. Y ya el capitan tan poco tenia, por el grande gasto que tenia, y cierto que el merecio mucho con Nuestro Senor, porque nadie pudiera mejor hazer con los pobres de lo que hizia, dandoles de lo suio y con muy buena voluntad y se yo que no comia la gallina, que guardala para semejantes necessidades, alen de visitados con el barbero de la nao, pues a nuestro, quando nos hallavamos mal, luego era con [267 r.j nos en nuestra camara y nos mandava el pan // fresco, y muchas cosas y neste viage halleme muy bien, y davame la vida el exercício que tenia de correr la nao. El Padre Pareja hallose mal muchas vezes, pero no fue / 6
cosa que le agravasse mucho. El hermano hallose mal con una pequena de fiebre algunos dias, pero no fue nadie. De Moçambique (7) trazeron de nuestra nao muchos esclavos; proveyose muy bien cerca de las esclavas, tyrando las ocasio- nes. Pidieronme con grande instancia que los bautizasse; diose priessa, el hermano a ensenarles la doctrina, y yo supe de cada uno en particular, se queria ser christiano, assentan- dolos por rol. Y antes de llegar a la barra de la Yndia, los bautize dia de Nuestra Senora, y algunos de ay a dos o três dias se fueron a gozar de su Criador. Ocupavame en enterrar (se enterrar se puede dezir) los que morian, porque no avia otro que lo hiziesse diziendoles sus recordaciones y sus missas (aunque secas) de requien, y assi baptize otros dos meninos que nos nacieron en la nao. Allegamos todas las naos a salvamiento a esta barra de Guoa a 9 de Setiembre de 1561, el qual dia se complio ses meses iustos que partimos de Lisboa. Esto es, Reverendo Padre, lo exterior de nuestra viage; lo interior dexo para Aquele Supremo Superior, pidiendo por amor de Dios, a Vuestra Reverencia, ruegue por mi al Senor me perdone el mal que en el viage y en toda mi vida hize. Estamos yo y mis companeros, por agora, aqui en este collegio de S. Pablo. El Padre Pareja a estado y esta enfermo; yo no estoy enfermo, mas la tierra siempre apalpa, estoy assi. Vuestra Reverencia se lembre de nos, y que somos sus hijos, aunque indegnos; no nos dio cuentas benditas, como acostumbra a dar a los otros, aunque no lo merescamos. Mandenoslas en especial algunas de almas, y de las estacio- nes de Roma por el ano que viene. Dios queriendo escrevere a Vuestra Reverencia mas largo de lo que toca a my. En los sanctos sacrifícios y oraciones de Vuestra Reverencia me (7) BAL: traxeron. DOC. PADROADO, IX 2 * 7
encomiendo; por amor de Dios se lenbre Vuestra Reverencia de mis misérias y necessidades. Despues se succedio enbiarenme para Cochin, donde al presente estoy, y creo que estare ya por este ano, hasta tener mas experiência de virtud y de la gente de la índia. Estoy con el Padre Mestre Melchior, consolado y edificado, porque es persona mucho para esso. Ocupome al presente en con- fessar, porque aqui ay grande frequentacion de confessiones, para Io que esta ciudade es y haze ventaj a, segun me parece, a todas las otras partes de la índia, tanto que tanto como soy amigo de presos aca torne a dar con ellos, aunque no son tanto como los de alia. Voyles a hazer platica los Domingos y assi a confessarlos; ganaron el jubileo, que de alia vino los que quisieron, y fueles dezir missa alia carcel, dandoles el Santíssimo Sacramento. Si Vuestra Reverencia me hiziese lemosna de unos opúsculos de S. Thomas, mucho holgaria, porque son aca bien necessários para las doctrinas. Por me faltar el papel no digo mas. Deste collegio de la Madre de Dios de Cochin, del mes de Henero de 1562. Indigno hijo y siervo de Vuestra Reverencia en Cristo. Gonçalo. i 8
2 CARTA DO IRMÃO LUÍS DE GOUVEIA AOS IRMÃOS DA COMPANHIA Colégio de Coulão, 4 de Janeiro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n." 4534. Fls. 251 r.-258 v. A graça e amor de Jesus Christo Nosso Redemptor faça continua murada em nossas almas, amen. Polias cartas deste anno de 1561, mui reverendos padres e charissimos irmãos, soubemos o muyto que Nosso Senhor favorece esta sua minima Companhia, exercitando e ani- mando seus soldados na continua guerra que trazem com o mundo, a carne e o diabo, e o soldo e pagua que lhes daa terem taes consolações espirituaes, como polias suas vimos, o que certo nos acrecentou o fervor e animo pera os imitar- mos, pois todos somos irmãos em Jesu Christo. Prazera a sua divina bondade refrescar sempre em nos o seu precioso san- gue, pera que não temendo derramar o nosso entre barbaros cerrados, denunciemos sempre seu santo nome. Ordenou Deos Nosso Senhor que este anno me mandasse a santa obediência fazer esta carta geral do collegio de Cou- lão. E creo, como verão, que foy pera mostrar mays minha soberba, e pera comprir com seus santos deseios que tem de muy particularmente saberem sempre as novas de quaa, por- que são ellas tantas, e acrescenta-as o bom Jesus cada anno, de maneyra que não ha quantinho onde aja bafo de nossa Companhia que não aja mister outro tal (?) e juizo diferente do meu pera as poder escrever e relatar. Mas como nesta parte, meus charissimos irmãos, minha tenção seja dar-vos quanto tenho com aquelle amor que a todos em mym tenho, '9
recebe-las-hão com aquelle estilo que a rudesa de meu enten- dimento custuma a escrever. Neste collegio do Salvador de Coulão reside agora por superior o Padre Francisco Lopez e tem consigo dous com- panheiros, a saber: o Irmão Manoel de Valadares e eu, afora outro irmãosinho, de idade de dezoito annos, de boas partes e de bom iil (1) que qua receberão. E, por estar muyto doente, foy de Goa aquy enviado, por os físicos acharem os ares desta terra serem bons pêra suas enfermidades, que he tisiqua. Bota muyto sangue polia boca. Deos Nosso Senhor lhe escolha o que vir que he mais seu santo serviço. Os exercitios contínuos com que aqui nos occupamos são o padre em preguar algumas vezes aos portugueses na igreja Matris, e os Domingos aqui em casa, aos christãos da terra, por interprete. Vay também o padre algumas vezes polia somana visitar os christãos, aos lugares onde morão; tam- bém cumpre com a devoção de algumas pessoas desta forta- leza, que se custumão confessar cada oyto dias, e outras cada mes, entrando nesta conta os moços de fora, que vem a nossa escola, e os moços de casa, que aqui se doutrinão, que serão ate corenta, e as vezes mays, porque uhns vão e outros vem. São estes todos filhos dos christãos da Pescaria e dos da Costa de Travanquor. Aprendem a ler e a escrever e as cousas de nossa santa fee. Põe também o padre muyta dili- gencia pera que os que se convertem e se vem fazer chris- tãos seião bem instruídos e insinados, pera que com mais alegria e mais lume recebão o santo bautismo. E muytos que estão amancebados faz o padre que se apartem, e aos que querem casar recebe, mostrando-lhe muyto amor, que se querem apartar de offender a Deos Nosso Senhor. Algumas amizades tem aqui o padre feitas, e outras [257 ».] cousas que cada dia acontecem //, de que Deos Nosso Se- nhor muyto se serve. Ao irmão Manoel de Valadares tem (1) Assim parece ler-se. Estará por sinal? Por natural? 2 O
o padre dado cuydado das cousas de casa. E alem disto ensina cada dia a doutrina aos christãosinhos da terra e aos filhos dos portugueses, e a seus escravos, do que se tyra grande fruyto. Eu são mestre da escola de ler e escrever e contar; os discípulos serão, por todos, assi os filhos dos portugueses e de christãos da terra, e de casa ate cento, as vezes, mays, as vezes, menos. E sobretudo como cousa mais importante se tem muyta conta pera que se cumprão as regras, pois da custodia delias depende nossa salvação. E a ysto somos muy- tas vezes ou quasi sempre pollo padre incitados a guarda-las, principalmente da obediência, porque nesta não ha descuido por pequeno que seja perdoado, trabalhando nos nesta parte de alienar a propria vontade e parecer nas cousas mandadas, recebendo-as e comprindo-as com gosto e alegria, como se fossem dantes deseiadas. Nos exercitios espirituaes, ao presente, não temos regra nem comunidade, porque somos aquy três irmãos e o padre, e todos muyto mal despostos. Do material da casa não ha que dizer, porque nas obras, ao presente, não se bole nada; quanto ao de fora, polia bondade de Nosso Senhor, apro- veita-se a gente muyto das pregações e confissões do padre, porque nisto he muy ayudado e favorecido de Deos, ainda que se não ocupa tanto com os portugueses, como com os da terra, assi christãos como infiéis, porque o fruyto destes he muy differente, e a quem parece que nos temos mais obrigação. A ordem que se tem he esta: aos sabados, a tarde, vão dous moços dos de casa a cada huma das povoações dos christãos, porque huns estão perto de legoa; e outros, de mea; e outros, mais perto. Levão huma bandeyra emrolada em hum pao, e chamão todos os christãos que estão ia jun- tos polo meirinho de cada lugar, e vem todos ao Domingo a missa. E certo, charissimos irmãos, que recebemos todos em o Senhor muyta consolação de ver aparecer hum esqua-
drão de homens e molhrees e seus filhos com huma ban- deira. Estando nesta alegria aparece doutra parte outra ban- deira, com outro ajuntamento, e desta maneyra todos se ayuntão na ygreia e alpendre delia. E assi ayuntados, começa o padre a missa, e ao tempo da pregação tira a casula, fora das grades, e por topaz lhe faz huma pratiqua em sua lingoa, como ia disse. E acabada, torna a proseguir sua missa, a qual dita, hum moço lhe faz a doutrina christã em malavar. Acabado isto, se tornão cada hum pêra suas casas, e não duvido, charissimos, que toda a gente desta terra fora ia convertida, se não ouvera tantos empedimentos dos portu- gueses, e principalmente dos capitães das fortalezas, que quando não são taes nenhuma cousa se pode fazer, porque estes busquão seus intereces, e pouquo lhe daa pollo sangue derramado de Jesu Christo, por estes christãozinhos. Nesta fortaleza ha muytas pessoas devotas da Compa- nhia, e que fazem muytas esmolas, como da roupa de vestir e outras cousas, que são necessárias a casa. Estas pessoas sem- pre tem em suas casas alguns caticuminos, principalmente molheres, e moças, porque os homens ca os insinamos no collegio, inda que neste tempo atraz não forão muytos, pera o como estava esta terra disposta. Todavia, chegarão os que se fizerão, este ano, christãos, a quinhentos christãos. Daquy por diante esperamos em Jesu Christo, nos vingaremos do [258 r.] tempo//atras passado, por esperarmos por outro capitão, que nos favoreça mais nesta obra da christandade, do que o que agora acabou, e senão, nada ou quasi nada se fara. Este Agosto passado, veio aqui o Senhor Bispo de Co- chim a visitar esta fortaleza, e com elle o Padre Mestre Belchior, da qual vinda se sérvio muyto Deos, Nosso Senhor, e entre outras cousas de que resultou muyta gloria de Deos foy esta huma de muyto louvor seu. Deu-se conta a Sua Senhoria, tanto que aquy chegou, como era necessário huma embarquação de remo pera que, com menos trabalho dos 2 2
nossos padres e irmãos, se podesse nella visitar os christãos de toda a costa de Travancor deste collegio, porque despois da mudança dos christãos da Pescaria pera a ilha de Manar, como o anno passado ia se escreveo, fiquarão os padres e irmãos da Companhia tão alongados desta costa que delia lhe não podião socorrer. E emformado Sua Senhoria de cousa tam inportante pera o bem de toda esta christandade, obrigado com zelo santo, deu mais do que lhe pedíamos, porque se obrigou a dar cem pardaos de ouro, cada anno, pera os gastos desta embarquação, e pera este dinheiro deu logo cem pardaos de ouro, e o padre vigário, que agora reside nesta fortaleza, o qual he muyto amigo de Deos e de nossa Companhia, deu de sua casa cem cruzados em ouro, de que logo se com- prou a embarquação, a qual se entregou com o dinheiro pera os gastos que da o senhor bispo, aos mordomos da confraria de Nossa Senhora do Rosario, que aqui tem a gente da terra neste nosso collegio, obrigandosse elles aos mais gastos que fizerem, alem dos cem pardaos que deu o senhor bispo. E ordenarão logo hum capitão dos mesmos mordomos que tem cuydado desta embarquação. E posta a cousa nestes términos, ordenou o Padre Fran- cisco Lopez com o Padre Mestre Melchior e Francisco Perez que fosse eu logo nesta manchua, que he embarquação de remo muito ligeira, a visitar os christãos ate o Cabo de Comorim, e parti daquy no fim de Novembro, e achei os christãós tam esfriados da doutrina christã, por aver ja dias que não erão visitados, que a maior parte da igreja (sic) estavão desconcertadas e quasi deytadas por terra, e outras larguesas de vida, que tomarão como gente a que se não tomava conta. Foi o medo tamanho ou vergonha que, de noite, ate as molheres carregavão a terra (?) a cabeça pera tornar a levantar as pedras das igrejas. E vinte e tantos dias que fiz de detença, polia bondade de Nosso Senhor, todas 2 3
fiquarão em pe, e as mais cubertas. Nesta viagem bautizaria ate trinta mininos pequeninos, e recebi alguns christãos que estavão amancebados, porque pera tudo isto levava licença, e o que me mais consolava ver ensinar a doutrina cada dia em cada hum destes lugares, onde me vinhão a receber com grande alvoroço, cantando a doutrina. Confesso-lhes, cha- rissimos meus, que me vinhão algumas vezes as lagrimas aos olhos, de prazer, com ver tantas flores em mato tam espezo e de espinhos. Assi que, polia bondade de Nosso Senhor, se tirou da viagem muyto fruyto, alem do que eu tyrei pera o corpo, porque me embarquey daquy muito fraquo e doente, com dores nos peitos e pontadas, e torney de laa sem nada, gloria a Deos. Os dias passados escreveo o Padre Provincial que logo mandaria hum padre pera visitar e consolar estes christãos de toda esta Costa de Travancor, cousa que a todos nos deu muyta consolação, por ser muy necessário, pera lhes dizer 1258 v.] missa // e ministrar os sacramentos. Os irmãos da Compa- nhia andão com seu fervor acustumado. Levão a mesma or- dem que dantes tinhão, trabalhando cada hum, por sua parte, de acrecentar o numero dos filhos de Deos. Por amor do mesmo Senhor que seião de la aiudados com suas orações e nos o mesmo pedimos. Todos fiquamos bem, Deos Nosso Senhor seja louvado. Ao presente não se offerece mais de que vos possa avisar. Somente que Christo, Nosso Senhor, nos de a todos sua graça pera que em tudo cumpramos sua santa vontade. Oje, deste Coulão do Collegio do Salvador, aos 4 de Janeiro de 1562. Por comissão do Padre Francisco Lopez Inútil servo de todos Luiz de Gouvea. 24
A CONFRARIA DE NA S.» DO ROSÁRIO, DE COULÃO, A EL-REI Coulão, 4 de Janeiro de 1562 Documento existente no ANTT: CC, l, 105-84. Mede 290 x 195 mm. Duas folhas, uma das quais escrita. Em bom estado. Jesu Christo nosso Senhor e sua bendita Madre, nossa senhora, seja sempre em ajuda e favor de V. A. e prospere sempre seu real estado, a seu santo serviço, amem. Pola armada deste anno de 61 recebemos huma carta de V. A., com a qual recebemos os mordomos e irmãos desta confraria muita alegria, onrra e merce, por veremos a bene- gnidade com que V. A. nos amima e convida pera as bodas e manjares divinos, como também por se V. A. e a rainha, nossa senhora, mandarem asentar por confrades na nossa confraria, e ja temos que deixar a nossos filhos e netos. Nosso Senhor, que he todo poderoso, pague a V. A. ho amor que mostra a este povo christão, novamente convertido. Qua recebemos ho retabolo pequeno, de que V. A. nos fez esmola e, pera ho que nos quer fazer merce, mandamos la a medida do tamanho ao provincial da Companhia de Jesu, pera que este ho alembre a V. A. os apontamentos que ho conde viso-rei trouxe sobre as cousas que erão necessárias pera o bem da christandade e aomento dela e da confraria, hum padre deste colégio da Companhia foi a Goa e levou e a lembrança pera lho alembrar e pedir. Não temos ainda reposta.
Porque ho principal intento de V. A. destas partes he a conversão dos infiéis e acresentamento de nossa santa fee, e, polo que recebe tantas merces de Nosso Senhor, lhe faze- mos a saber como este ano de 61 são baptizadas neste colégio [í v.] do Salvador, da Compa// (sic) de Jesu quinhentas almas, e as mais destas de 15 annos pera baixo, porque estes são os que de si dão milhor fruito, e não nos parece muita canti- dade esta, segundo as portas que nesta terra vemos estarem abertas, mas, porque hos impidimentos são muitos, são os christãos pouquos, e hum dos maiores que sentimos aver nesta terra são os capitãis dela, porque como venhão de Portugal famintos, pobres e individados, e ho tempo de tres annos lhes pareça tão pouquo pera fartar seus desejos, não entendem em outra cousa. E se o fazer christão lhe repre- zenta tirar-lhe algum bocado querião que em seu tempo ne- nhum se fizese. E pera isto, que he o principal que V. A. deste terra pretende, e o por que Deus nosso senhor a sos- tem, pidimos todos de jiolhos, polas cimquo chaguas de Jesu Christo, que nos proveja dum capitão, em vida homem te- mente a Deus, e zeloso de sua onrra, e porque qua, nestas partes anda hum homem, como V. A. sera enformado de pessoas de credito, o qual pera ho tal carreguo nos parece que servira V. A. fielmente e a Nosso Senhor. Este he Ber- nardo da Foncequa, tido de todos por muito vertuoso. Este pidimos a V. A., e asi cremos que ho faz todo este povo português, como também os reis da terra, que de todos he tido nesta conta e desejado (1). Ao prezente, não se oferece mais, se não rogarmos a Nosso Senhor e a Virgem Sua Madre por muitos annos de vida e acresentamento de seu real estado. (1) No CC, I, 105-85 há uma carta, de 10-1-1562, escrita pelos moradores da fortaleza, a pedir a mesma cousa. Aduzem o argumento que «...a terra he tão pobre que não sofre capitão cada tres anos...» 2 6
Desta irmandade da confraria de Nossa Senhora do Rozairo de Coulão, aos 4 de Janeiro de 1562. João Fernandez ... de Morais. Christovão Fernandez. Antonio (?) Cardoso. Alixandre Cordeiro. Bastião Pestana. Bastião Fernandez. Manoel de Brito. Manoel (?) Fernan- dez (2). (2) Algumas leituras são hipotéticas. 2 7
CARTA DO IRMÃO LUÍS DE GOUVEIA A SEUS CONFRADES DA EUROPA Coulão, 8 de Janeiro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fls. 337 r,.338 r. Paz Christi A graça e amor de Christo Nosso Senhor seia senpre em nosso favor e ajuda, amen. Muyta alegria reçebemos, charissimos irmãos, com as boas novas que este ano de la nos escreverão de toda a Com- panhia. Prazera a Noso Senhor que sempre se acreçentara o fervor e graça em seus servos, pera que por elles se multipli- que o fruito nas almas de seus fies. E porque pareçe rezão que, com a mesma charidade de irmãos que tanto se amão em o Senhor, lhe comuniquemos tão (sic) o que Jesu he Noso Senhor nestas partes obra por estes fracos instrumen- tos seus, folguei de me caber a sorte, com me ser mandado lhe escrevesse esta. E se não for tão largo nella, como suas vontades santas o pedem, emcomendem a Deos essa falta de charidade com as mais que em mim ha. Neste collegio do Salvador, de Coulão, residem dous pa- dres e dous irmãos: O Padre Francisco Lopez e o Padre Pero Colaço que visita a Costa de Travancor, ad tempus; ho Irmão Manoel de Valadares e eu; e todos, polia bondade do Senhor, ficamos com boa despossisão. O Padre Francisco Lopez prega, confessa e visita huns lugares de christãos que
estão aqui derrador, e ocupasse em outras obras da christan- dade e outros exercícios sanctos. E em tudo o ajuda Nosso Senhor muito. He muy quisto do capitão e do povo e lhes satisfaz muito em suas pregaçõis e conversação, não deixando a nossa parte, que he o cuidado que tem na guarda das Re- gras e para que se tenha muita comta com ellas, pois da custodia delias depende nossa salvação. Este imverno passado de 62 tivemos aqui, por vezes, alguns reboliços e enfadamentos dos gentios que empedião a ir visitar os christãos e trazer também alguns gentios que o quisessem ser, que sempre nestas saidas se pesquão, mas nem por isso deixou Nosso Senhor de trazer alguns, os quais, depois de bem emsinados, reçeberão o sancto bautismo e far-se-yão, aqui, neste anno, e na costa de Travancor, seis- çentas almas christãs, pouco mais ou menos. Avia aqui, nesta povoação, outra da ma semente de Mafoma que por muitos ja fora deseiado botarllos fora, por serem estes mouros muy perjudiciaes aos christãos, mas como esta // obra era do tanto serviço de Deos, estava çerto aver [337 r.] de ter muitos inconvenientes. Todavia, se botarão fora com a endustria do capitão Alvaro Fernandez de Montarroio que, por ser tão zeloso da homrra de Deos, fez muito nisto e em todas as cousas de serviço de Deos o faz sempre. Lamçar daqui estes mouros fora foy grande animo e favor pera os christãos, e com esta vitoria detriminou o padre seguir avante e levantou huma cruz alem de huma povoação de christãos, aqui vizinha, e o fez com muita alegria de todos os christãos, e todos os meninos hião cantando muitos louvores de Deos e da cruz, a qual esta aguora posta. Nosso Senhor a defenda sempre. Na costa de Travancor, que he de christãos, e esta de Coulão doze legoas, se fez este anno muito serviço a Deos, Nosso Senhor, assi em renovar ygrejas, como em asentar muytas cousas que ate guora se não poderão fazer, por os 29
christãos não serem tão domados e obedientes como aguora o são, por causa de huma embarcação que anda na costa no verão e basta pêra também no inverno estarem com o mesmo animo umilde e portanto obedesçem e açeytão o que lhe emcarregão, sabendo o amor que lhe temos, por muitas mor- tes dos nosos padres e irmãos que tem visto morrer por elles e entre elles. Os exerçiçios acustumados na costa são bautizar, e este contino, em fazer praticas das cousas da fee e vidas de sanc- tos, e casar e ouvir demandas suas, as quais, as mais das vezes, se acabão por conçertos e amizades. £ nisto ha sempre tanto que fazer que, se homem lhe não fugisse e escomdesse pera comprir com suas obrigações, impossivel era poder-lhe fiquar outro tempo nem pera as neçeccisades naturaes, por- que polia maior parte, he gente muy importuna e de pouco primor. Alguns trabalhos se padecem, tratando cem elles, causados prinçipalmente da terra, que muitas vezes nos to- lhem nosso imtento e nos dão muitos desgostos e emfada- mentos, porque os não deixão pesquar e os tiranizão, e os premdem e espanquão e outras desemquietações que nos dão asaz de trabalho, porque os desimquietão e fazem despovoar os lugares e amdarem como siguanos, o que nos impede nosso intento e não podemos mais fazer que ter paçiençia e rogar a Deos que o remedee. Avia nesta costa hum christão prinçipal e muy poderoso antre eles como também cabido antre os senhores da terra e não obediçia aos padres e não tinha conta com elles, por algumas culpas graves que tinha, de que ja fora perdoado algumas vezes. £ sendo este ano muito acosado e perseguido, assi por mar como por terra, dos mesmos gentios, por verem que era ha causa de se perderem as suas rendas, por não pes- quarem nos seus portos, detreminou de se vir emtregar ao Padre Pero Colaço, que estavão em huma embarquação no mar. £ assi o fez com por grande espanto na terra de tama- 3 °
nho animo. Reçebeo ho padre e trouxe-o presso (sic) na em- barquação alguns dias, onde era muito vissitado em todos os portos onde surgia a embarcação. £ assi andando com huma bragua ou, ao menos, dando exemplo aos outros, e tomando para si confussão e conheçimento, tanto que o padre lho sen- tio, o soltou com grandes fianças de não tornar mais a suas culpas passadas. E tornando a ellas, que o tornarião a entre- gar pera que ho padre o castigasse. E com este ser perdoado, desta maneira, ficarão os outros avendo medo para se guar- darem de cayrem em tais culpas. Nosso Senhor os guarde pera O não ofenderem. // Dos christãos, Irmãos desta confraria de Nossa Senhora do Rozario, que tem neste collegio, he pera louvar a Deos, vellos andar com tanto fervor, servindo nas cousas da obri- gação de seu compremisso, como he visitar os emfermos, os christãos da terra e fazer concertos e amizades amtre huns e outros, e ajudar a resgatar alguns captivos que se vem fazer christãos e busquar das ovelhas perdidas e metellas no curral de Christo. £ juntamente com isto nos alegra muito vellos festejar as festas de Nossa Senhora e dos sanctos, com tanto fervor e devação, que faz muita emveja aos que maior obrigação tem. São christãos honrrados e de muitos anos e abastados. Aqui, neste collegio, se doutrinão e insinão a ler e escrever seus filhos e escravos, juntamente com outros da Costa da Pesquaria e da Costa de Travancor. £ com tudo, polia bondade do Senhor, se glorifiqua sempre seu sancto nome. Elie, por sua misericórdia os faça, charissimos irmãos, participantes destes trabalhos, tão regados de contentamen- tos e consolações devinas, e a nos, faça mereçedores de tais companheiros, pera que, ajudados de seus fervores e chari- dades, possamos huns aos outros ajudar e mereçer os prémios da vida eterna, polo mereçimento do sangue de Jesus Christo, Deos e homem verdadeiro. Por amor do mesmo Senhor, nos encomendem em seus sanctos sacriffiçios e de- 3 '
votas orações e, alem da obriguação universal, lhe peço a cada hum sua Ave Maria, como mais neçessitado que sou. Deos, Nosso Senhor, nos conserve a todos no seu divino amor, amen. Deste collegio do Salvador, de Coulão, aos 8 de Janeiro de 1563 annos. Por comissão do Padre Francisco Lopez Servo inútil Luis de Gouvea. 3 2
5 CARTA DO PADRE GONÇALO ROIZ AOS PADRES E IRMÃOS DO COLÉGIO DE COIMBRA Cochim, 16 de Janeiro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534■ (1) Fls. 309 r.-310 v. Mui Reverendos em Christo Padres y charissimos her- manos. Parece que quiso Nuestro Senor, como acustumbra hazer siempre comigo, aver misericórdia de mim, y alargarme la vida, para que viniesse a estas partes, donde viendo tan vivos y efficaces exemplos de virtud, me aprovechasse, ia que no me faltando en esas partes, no lo hize, quiera el Senor que no me aprovecha tam mal de los unos como de los otros, y que no se cumpla el dicho vulgar en mim: «que quien no es bueno en su tierra tanpoco lo sera en la agena», porque no esta el puncto en la mutacion de la tierra, sino en la mu- tacion de los custumbres. Pareciendome que todos los desse sancto collegio hol- garian de saber nuevas (2) deste indigno hermano suio em Christo, occorriendo tantas obligaciones para iso, determine de se las dar. la saberan como partimos de alia para estas partes, el Padre Pareia, el Hermano Estevam Dinis e yo. H/zenos el Senor, por quien es, muchas mercedes, usando (1) BAL: 49-IV-50, fls. 511v.-512v. BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 301 r.-301 v. Na cópia BACIL esta carta não contém a indicação do autor e é um apanhado da cópia BNL e da carta seguinte, de 26 de Ja- neiro; outra parte ainda da carta de 16 de Janeiro encontra-se a fls. 347 v. (2) No texto da BNL lê-se muchas, erro evidente. 33 DOC. PADROADO, IX 3
siempre com nosotros de su acustumbrada misericórdia y bondad. No causava en nos poca alegria y confiança la me- moria de tantos y tan buenos y leales intercessores y ayuda- dores, que en essa sancta casa y en las demas quedavan. Y asi causava gran animo en nosotros, quando nos ocorria que nuestros charissimos padres y hermanos nos estarian en- comiendando a Dios. Trouximos mui buen viagen, loado sea Nuestro Senor, aunque no faltou en el trabajos y consola- ciones; todos vinimos bien, aunque el Padre Pereija (sic) se alio algunas vezes mal, pero no fue nada, segundo sus malas dispposiciones, y vino a se hallar peor en tiempo que ja estávamos a la puerta de la India. Benâho sea el Senor, que nos troxe a todos en salvamiento al puerto deseado. No les doy cuenta en esta, charissimos, de nuestro via- gen, porque todo lo que a esto toca poderan ver por el rotero de nuestro viagen que alia se manda, el qual dize todo lo que toca al proceder exterior y sucesso dei viagen, pero que- roles dizir, charissimos hermanos, que se hombre supiesse aprovecharsse de lo que en este camino sintio y experimento y se lo mandasse a la memoria, mas materia tendria que es- crevir, y mas provechosa. Esto les se dizir, que aunque no se venturasse mas que venir uno a sentir un néscio quid, que io no lo se declarar, que no seria inútil su venida. Este camino descubre grandes celladas y secretos, se al- guno fuesse prudente que andaria todo encogido por dentro. En este viagen experimenta uno, por mera obra y experiên- cia, sus flaqueza y descuidos de otra manera que con una imperfecta imaginacion ve hombre a la clara lo que aprove- cho, o no, y a la paciência sabed que desengana a todos, y la mortificacion, pues la fe, esperança y caridad no poco se manifestan en cada uno. Plaza aquel soberano Senor, que asi me sepa yo aprovechar, como yo conosci, que me era ne- cessário, pues aqua, la tierra de la India no aiuda poco para esto, porque es una tierra relaxada y seca, la misma conver- 34
sacion de la gente difference, que ha menester que tinga tanto spiritu uno que supla con el todo esso. Por esso yo aconseyaria a mis hermanos, ia que no lo hize, que se avisen en cabeça agena, que trabaien por la virtud, principalmente por la mortificacion, y esta tiengan por fundamiento, porque ella es la que ha de sostentar a todos en estas partes, porque dotra manera hallarsean, como io ora me halle, y si troxeren este fundamiento, haran maravilhas y aprovecharan, de dia en dia, en la virtud, porque cada dia se pueden mortificar mas, y tendran occasiones efficacissimas para esso. Despues que llegamos a la ciudad de Goa, de ali a poços dias, me cupo la suerte de ir a una, que es como quinta de nuestros padres de S. Pablo de Goa, que se dize Choran. Fue alli como vigário, passante de vinte e cinquo dias, en los//quales le certifico que se me alegro el spiritu. Esta isla es toda de christianos hechos, doctrinados y sustentados por los nuestros padres. Era cosa para ver, ver venir una mura (3) de ninos y moços, por esos caminos, cantando la doctrina. Y vienen todos los dias dizerla a una iglesia mui fresca que ahi tenemos; ver el concerto y orden que hazien, esto es para loar a Nuestro Senor, porque en la iglesia todos los moços estan de una parte y las ninas, de la otra; y cantan como en choro tan domésticos todos que, verdaderamente, parece esto cosa del cielo, pues que alegria era ver venir la madre con el hijo en los braços a baptizarse ambos. Essos poços de dias que ahi estuve baptize dos o tres madres iun- tamente con sus hijuelos, y otros muchos grandes y pequenos y case algunos dos o tres que, sin dubda, parece esto otro mundo. El Padre Pereija y el Hermano Estevan Dinis quedaron em Goa; el uno, lyendo; el otro, emfiermo. A mim embia- ronme para la ciudad de Cochim, cien legoas de la de Goa. (3) BAL: nuve.
Vine en una embarcacion, sin companero, en companhia de soldados, comiendo y bebiendo con ellos, haziendome a las armas, porque esta es la usança desta tierra. Aqui estoi aora en este collegio de la Madre de Dios, debaxo de la obediên- cia dei Padre Maestro Melchior, hermano dei patriarcha. Estoi bien, bendito sea el Senor, y mui edificado, porque el Padre Maestro Melchior es mucho para hombre se edificar dei; occupome al presente en confessar, voi a los presos; por aora aun no tiengo prestado para mas. Quiera Dios que aun para esto preste, que no sera poco, mientras Dios lo uviesse por bien. Estoi attonito e esppantado dei fervor, zelo, y deseo de la christiandad, que los padres y hermanos destas partes tie- nen, porque les certifico que me no attrevo a poderselo de- clarar, porque solo verlos hablar en esto, el fervor con que lo dizen, es pêra confundir quantos en estas partes andan, porque io vi, por mis oyos, de solo hablar en ésto enchierse los oyos de lagrimas a una persona de puro zello, y deseo de la christiandad. Andan tan calientes y fervorosos en esto negocio que traen entre las manos que, quanto mas lo tra- tan y ponen por obra, tanto mas engolozinados quedan. Son estranhamente inflammados con los desseos desto, por esto sospiran, por esto oran, esto platican, por esto estan apareya- dos a perder la vida, todo estúdio, todo otro negocio tienen por menos que esto. A esto son intimamente (4) inclinados y asi les certifico, charissimos, que estava avergonçado entre los hermanos, porque todo su hablar es disto, toda su con- versacion con los que desto hablan. Yo de maravilla puedo hablar en esto, aunque algunas vezes tenia deseo, pero crean que me no perdonavan, que hazian de mim mal pensar, por- que luego me dizian que no trahia fervor de christiandad, que nunqua tal padre vieran. Al fin, quien quisiere tener (4) BAL: intrlnsicamente. 36
amistad con esta gente y tenerlos contentos, hable de chris- tiandad; bendito sea Dios, que tal fuego accordio consus coraçones. No les escrivo particularidades de la tierra, lo uno, por- que no soi nada inclinado a esto, lo otro, porque otros mas entendidos tendran cuidado dello. Grande cosa es fructo de la India y quien desea venir a la índia bonum opus desiderat, grande tela de coronas y premio es, pero para los buenos cavalleros de Christo. Des que venimos, se han despachadas algunas missiones de mucho momento, y peso, como la de la Cafraria, donde acabo con su glorioso fin nuestro Padre Don Gonçalo; ia desta quedamos fuera. Restan otras dos o tres, que para esto Abril se han de mandar. No se se, por ventura a bueltas de otros, me cabera la suerte. Las missiones son las principales por aqua, Çacotora, la China, el Japan. Imagino que me tie- nen aun por mui novicio en todo, y que sera mas cierto el quedar. Ordene el Senor de mim lo que fuer mas su gloria que io ia aqua estoi. No los quiero enfadar mas, sino pedir a todos los reve- rendos padres y charissimos hermanos desse collegio tien- gan continua lembrança en sus sanctos sacrifícios y oraciones de mis companeros con todos los de mas. Padre mio chatís- simo, Miguele de Sosa, bien sabe Vuestra Reverencia quanta rezon tiengo para le amar in Domino. Tienga de mim par- ticular lembrança en sus sanctos sacrifícios y oraciones, por- que yo, aunque valgo poco con Dios, por mi miséria, no lo olvido de lo encomendar al Senor. Padre Gonçalo Alvarez, mal puedo io explicar lo que a Vuestra Reverencia, padre mio, devo; con callar, hare mas que hablando. Su hijo aun- que indigno, su discípulo, suio soi todo; bun testemunho es essa casa sancta, no olvide el padre dei hijo, ni el maestro dei discípulo. Tenga Vuestra Reverencia particular lembrança de mim en sus sanctos sacrifícios y oraciones. Padre mio 37
Ryo, lembrece deste novicio que tan tierno lo començo a T0 esforçar en esse collegio, tan vivo,//a mortificar, tan en- fermo a curar. Por todas las partes estoi cerquado, bien poderia dizir: Domine vim patior. No tiengo que dizir, sino que segun essas poças fuerças tendre lembrança de Vuestra Reverencia, para lo encomendar al Senor. Vuestra Reverencia, por amor de Dios, haga comigo como siempre lo hizo y me enco- mienda particularmente en sus sanctos sacrifícios y oracio- nes. No quiero nombrar mas, porque no acabaria ni el tiempo me da mas lugar. Pareceme que con nombrar estos no hago injuria a los otros, porque todos me quedan nel coraçon, para los encomiendar en mis flacas oraciones. Escrivanme desse collegio, charissimos, que sera gran consuelo para mim. No digo mas, sino Nuestro Senor nos conserve a todos en su sancto jervicio, en esta vocacion a que nos llamo, y nos de gracia para en todo complir su sanc- tissima voluntad. Deste collegio de la Madre de Dios. De Cochim, a dezaseis de Henero de mil e quinhentos e sesenta y dos . 1562. Su menor y indigno hermano en Christo Gonçalo Roiz. 38
6 CARTA DO PADRE GONÇALO ROIZ AO PADRE LIÃO Cochim, 26 de Janeiro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fls. 314 v,-315 r. No quisiera, por ningun precio del mundo, dexar de aver venido aca y passar el Cabo de Buena Esperança, por- que certifico a Vuestra Reverencia que se yo fuera tal que me supiera aprovechar dei//conoscimiento y experiência [3i5r.] que el Senor de mi me dio a conoscer, que yo estuviera aora de otra manera de la que por mis maldades estoi. Crea Vuestra Reverencia que descubre este viage dei reino a la índia cosas que, aun que no se aventurasse mas que vinir, por esso solo, a la India, no seria poco util. Ve hombre mas a la clara para lo que es, alli ve lo que aprove- cho en la paciência, en la mortificacion y en todo lo demas, pues la misma tierra de la India no aprovecha poco para esto, una tierra relaxada, tierra seca, la misma conversacion de la gente differente, que para bien era necessário tanto spiritu que supla todo esto. Por esso yo aconseiaria a mis hermanos, ya que nos quis hazerlo, (porque esto tiene la miséria humana, que mas presto sabe una aconseiar a otro que aprovechar a si) que trabagem por la virtud, principal- mente por la mortificacion, que esta es la que ade sustentar a todos en estas partes, porque dotra manera hallarsean des- pues aca, como yo agora me hallo, sin fervor y pusilanimo. Y si troxeren este fundamiento haran maravilhas y aprove- charan, de dia en dia, en la vertud, porque cada dia se 39
pueden mortificar mas e tendran ocasiones efficacissimas para ello. Por aca tengo publicado los deseos de Vuestra Reveren- cia, acerca de venir a estas partes. Nuestro Senor, si fuere para mas gloria suia, se lo cumpla, porque a la verdad quien desea venir a la índia, bonum opus desiderat. Grande es el fruito de las índias y grande delia de coronas y prémios es. Paresciome avisar a Vuestra Reverencia de una cosa que la puede aprovechar mucho, para estas partes, si a ellas viniere, y habilita mas a convercion de los infieles, principalmente de la China y Japon, que verissimiliter, si aca vinier, le puede caer la sorte e con alguna delias, y es que se de, quanto pudiere, a la Astrologia y a la Esfera, porque estas naciones son mucho desto y tienen en mucho credito a los que hallan peritos en semejante arte, etc. Deste collegio da Madre de Dios de Cochim, a 26 de Henero de 1562. Indino hijo, etc.... Gonçalo Roiz. Nota do copista: Este padre era das Astúrias e foi sempre de muita edificação. 4°
7 EL-REI E A CONVERSÃO DE GOA Lisboa, 11 de Março dee 1562 Documento existente no AHEl: Registo das Cartas Régias, 1529- -1611, fls. 36-37. Publicado por Cunha Rivara no APO, I, págs. 53-55. F1LMUPO, 15, 2-4. // Vereadores, procurador e procuradores dos mestres da [36 r.] cidade de Goa, eu, el-rey, vos envio muito saudar. Huma das obrigações mui principal que ha Coroa de meus Reinos e senhorios tem, e a que eu desejo muito satisfazer, he a conversão dos infies das terras de minha conquista e a con- servação dos já convertidos e por isso especialmente nessas partes da índia mamdo fazer muitas e grossas despezas ha custa de minha fazenda, e procuro prover de perlados, e pessoas de muita comfiança, e para este intento, alem dos religiosos que lá amdão, e irão sempre com ajuda de Nosso Senhor, pera com sua doctrina e trabalhos procurarem não somente que os christãos e naturaes de meus reinos//e [36r.] senhorios vivão virtuosa e exemplarmente, mas com toda deligencia possível se tragão a conheçimento de nossa sancta fee os que estão fora delia, pelo qual estes annos em que prouve a Nosso Senhor augmentar muyto o numero dos fieis dessas partes, e espeçialmente nessa Ilha de Goa e nas adjaçentes, recebi eu muy singular prazer e contentamento, e o receberey cada vez tanto maior quanto mais for em creçimento a converção, e tanto me averei por milhor ser- vido de meus vassallos, quanto mais intensamente souber que favorecem e ajudão este tão gramde serviço de Nosso 4 1
Senhor e bem das almas; e posto que eu confio dessa cidade que concorrerá nesta obra com o zello que se deve, e ella merece, e assi como he tão principal em todas essas partes, o procurará de ser em que não aja nella nem em seus con- fins nenhuns imfieis, mas que todos se convertão e reçebão nossa sancta fee, todavia me pareceo dever-vo-lo de escrever e encomendar, cremdo que de saberdes por carta minha que he conforme a minha vontade e obrigação, e que de todo o prospero suçesso desta obra receberey mui grande prazer e contentamento, folgareis de me servir nisso com muito cuidado e deligencia; e porque eu desejo que muy de pro- pósito se entemda neste negocio, e com muita eficacia se leve adiante e pera isso escrevo agora de novo ao Comde do Redomdo, meu viso-rey nessas partes, e ao arcebispo e bis- pos, e padres da Companhia de Jesus, e a outros religiosos, que tratem dos meios que pode aver mais eficazes, vos en- comemdo que vos ajunteis com elles pera o mesmo efecto, porque concorremdo todos em huma determinação e modo de proceder, e cessamdo algumas contradições que por isso [37] poderia aver, confio em Nosso Senhor em muy // breve tempo seja convertida há nossa sancta fee toda essa terra, e que tanto mais será guardada e favorecida de Deos, quanto maior cuidado e deligençia se puzer em que sua ley nella recebida, e conhecido e venerado o seu sancto nome, o que espero que vos e os vereadores, que depois de vos forem, favoreção e ajudem quanto for possível, e pera que haja lembrança disso se tresladará esta carta no Livro da Camara dessa cidade, e o escrivão delia tera cuidado que todalas vezes que de novo se elegerem vereadores lhe notificar em camara, e fazer assento da notificação delia. Escripta de Lisboa a onze de Março de 1562 anos — Rainha (1). (1) O que se segue não se encontra no APO. 4 2
A qual carta eu, Afonso Monteiro, escrivão da camara desta cidade de Goa, tresladey da propria e concertey este treslado com o offecial asinado aqui comigo, em Goa oje 26 de Julho de 1595 Affonso Monteiro (2) (2) À esquerda desta, há outra assinatura que não pudemos decifrar. 4 3
8 SOBRE A AJUDA DO BRAÇO SECULAR Goa, 20 de Junho de 1562 Documento existente no AHEl: Livro vermelho, 1, 1548-1692, fls. 57 v-59. Publicado por Cunha Rivara, com algumas falhas, no APO, V, n.° 474, págs. 510 a 512. O Conde Vice Rey da índia faço saber aos que esta virem, que o arcebispo de Goa me enviou dizer que o seu vigário geral, a petição do meirinho eclesiástico, condenava os christãos e gentios que trabalhavão os Domingos e festas conforme a constetuição, e depois de ouvidas as partes, e dous homens ajuramentados darem sua fé que os virão tra- balhar, os condenava na pena que ao mais era huma tanga, e dahi pera baxo, e porque a dieta condenação será verbal e de pouca quantia, e contra os gentios se não podia pro- ceder com as censuras ordinárias, e contra os christãos seria dar-lhe muita perda em tão pequena quantia proceder com ellas, e fazer os processos eclesiásticos, se costumara sempre o dito vigário geral passar precatória para o ouvidor da [58] cidade, o qual por // hum naique ou pião dos seus, mandava executar e penhorar as ditas pessoas, pedindo-me que man- dasse que assi e da mesma maneira se fizesse ao diante, e que o sobredicto se guardasse nas condenações de huma certa quantia para baxo, que eu taxasse; e visto por mim seu pedir, e avendo respeito ao que diz, e ao praticar e assen- tar com os Desembargadores, ey por bem e mando que assi se cumpra da maneira que pede; e que o dicto vigário geral passe os dictos precatórios, os quaes passaraa para o ouvidor 44
geral e, sendo elle ausente, serão para o ouvidor da cidade, os quaes os mandarão comprir e executar nas condenações ate hum pardao, e da dieta quantia até dez pardaos veraa o dicto ouvidor geral, sendo presente, e não o sendo, o dicto ouvidor da cidade os autos, antes de comprir os dittos preca- tórios; e passando dos dictos dez pardaos os não comprirão, sem primeiro me darem contra disso para eu mandar o que me bem parecer. E assi me enviou dizer mais o dicto arcebispo que nas causas dos dízimos contra os portugueses se procedia contra elles até os por de participantes; e porque não convinha poer enterdito na terra, pela gente que nella vivia ser nova na fé, me pedia que mandasse que tanto que o condenado fosse posto de participantes (1) do entredicto, se concedesse ajuda do braço secular conforme a huma extravagante do livrinho da relação; e visto também por mim seu pedir, e por o também assi praticar com os desembargadores, ey por bem de lhe conceder o que pede, e mando que lhe seja dado a dieta // ajuda de braço secular nos dictos casos con- [58 v.] forme a dieta extravagante, tanto que o condenado for de- clarado por excomungado, e isto até quantia de vinte par- daos, com o dicto ouvidor geral, ou o dicto ouvidor da cidade, sendo elle ausente, verem primeiro os autos, e, sem os verem, os mandarão executar e comprir até cinquo pardaos. E assi me pedio mais o dito arcebispo que por quanto nas ditas causas de dízimos que fossem de tão pouca quantia, não parecia razão sobre ellas se fazerem processos, e folmi- narem excomunhões, e assi em toda a causa dos dízimos, contra os christãos da terra, que não entendião a graveza das sensuras as temião, e assi quando fossem condenados os (1) O copista, ao escrever participantes, repetiu a última sílaba: antes. 45
gentios, mandasse que se comprissem os precatórios do dicto vigário geral, e os ouvidores e os juizes os mandassem exe- cutar, sem se procederem sensuras algumas, como se ate aqui fizera, per provisões dos viso-reis passados, pelo que ey por bem e mando que quanto aos christãos da terra novamente convertidos, e gentios, se cumprão os ditos precatórios, sem averem as dietas sensuras, os quaes precatórios se passarão pêra o dito ouvidor geral, e sendo ausente, pera o dito ouvidor da cidade, que os comprirão conforme as declarações sobredictas. Por tanto o notefico assi ao ouvidor geral, e ao da cidade, e a todas as mais justiças e officiaes a quem pertencer, que ora são, e ao diante forem, e lhe mando que assi o cumprão e fação comprir e guardar inteiramente como acima e atrás [59] he declarado//sem duvida nem embargo algum. E este alvaraa valera e teraa força e vigor, como se fosse carta passada em nome de el-rey meu senhor, sem embargo da Ordenação, que diz que as cousas cujo effeito ouver de durar mais de hum anno, passem per cartas e passando per alvaraas não valhão. E todas estas execuções se farão em nome de el-rey meu senhor, e os mandados para ella que passarem seraa com declaração que se fazem por virtude desta commição: e as partes que se sentirem agravadas poderão agravar. E esta provisão passaraa pella chancelaria, e se registaraa no Livro da Relação, e ate se não traslaar nelle se não usaraa delia. Ruy Martinz o fez em Goa a 20 de Junho de 1562 annos. — Conde Viso Rey. Para V. S. ver. Registado. Serrão. Registado. Rodrigo Monteiro. Gonçalo 1 Lourenço 2. Paga nada. A 25 de Junho de 1562. Augustinho Salvador. Registada na Chancelaria. l-G.O; 2-L.íO d 6
9 SOBRE AS HERANÇAS DOS CONVERTIDOS Goa, 20 de Junho de 1562 Documento existente no AHEl: Livro Vermelho,n.° 1, -1548-1692, fls. 60 v. a 61 v. Publicado no APO, V, n." 427, por Cunha Rivara, págs. 514-515. Dom Sebastião, per graça de Deos, rey de Portugal e dos [to v.] Algarves daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guine, e a conquista, navegação, comercio da Ethiopia, Arabia, Persia, e da India etc. A quantos esta minha carta virem faço saber que, avendo eu respeito a muitas molheres gen- tias e infiéis, casadas também com infiéis nesta cidade e ilha de Goa e minhas terras, // desejarem de se fazer christãas, [6i] e se converter a nossa sancta fee, e deixarem de o fazer por os maridos, que ficão na infidelidade, as lançarem fora de sua companhia, e ficarem com toda a fazenda que ao matri- monio trouxerão, ou durante elle adquerirão; e as que se fazem christãas se saem sem nada, por quanto, conforme as leis e foraes da terra, não são meeiras, por onde a christan- dade deixa de ir em muito crecimento; e querendo nisto prover para bem e aumento da fee, e avendo também res- peito a nesta terra aver lei minha para que os gentios tanto que se converterem sejão meeiros, pelo que parece que se deve favorecer a parte da christandade, e guardar a lei que a mais favoreça; e por assi assentar e praticar com os desem- bargadores, e por outros justos respeitos que se nisso apon- tarão, eí por bem e ordeno, e ponho por lei que da publica- ção desta em diante toda a molher gentia e infiel que se tornar cristãa, e que o marido não quiser tomar, e a lançar 47
de si por ficar na infidelidade, aja todas as jóias e vestidos de sua pessoa que tiver ao tempo que se converter, e assi a metade de toda a fazenda movei e de raiz, adquerida depois que casarão, e conforme a isto se lhe entregaraa tanto que assi se fizer christãa. Portanto notefico assi ao ouvidor geral, e a todas as mais justiças, officiaes, e pessoas a que pertencer, e lhes mando que assi o cumprão, e fação comprir e guardar inteiramente, sem duvida nem embargo algum. E esta carta se registaraa na chancelaria, e se publicaraa nesta cidade, e nos mais [6i y.j lugares necessários para a todos ser notorio. // Dada na dita cidade de Goa sob meu sello a 20 de Junho. El Rey o man- dou por Dom Francisco Coutinho, Conde do Redondo, e viso-rey da índia. Ruy Martins o fez anno no nacimento de nosso senhor Jesu Chisto de 1562. — Conde Viso Rey. (1) Registado. Serrão. Carta de el-rei per que ha por bem que toda a gentia e infiel que se fizer christã e que o marido não quiser tomar e lançar de si, por ficar na infidelidade, aja todas as jóias e vestidos de sua pessoa que tiver, ao tempo que se converteo, e assi a metade da fazenda movei e de raiz adquerida e depois que casarão e, conforme a isto, se lhe entregaraa, tanto que assi fizer chistam (sic). Registado. Rodrigo Monteiro. Gonçalo Lourenço. Pagou nichel. Em Goa, a 25 de Junho de 1562. Augustinho Salvador. Regis- tado na Chancelaria. 48 (1) Termina aqui a cópia de Cunha Rivara.
10 JURISDIÇÃO DOS MORDOMOS DAS IGREJAS SOBRE OS GENTIOS Goa, 20 de Junho de 1562 Documento existente no AHEl: Livro Vermelho, 1°, 1548-1692, fls. 59-60. Publicado por Cunha Rivara no APO, V, n.° 425, págs. 512-513. // O Conde viso-rey da índia &c. Faço saber aos que este [59 r.j virem que por quanto os christãos da terra das aldeas de Goa e freguesias das ilhas delia são muito pobres e inclinados a demandas, e sobre contias pequenas vem a esta cidade em demanda, e perdem mais do que valia a contenda, e que- rendo nisso prover, por mo também requerer o arcebispo e com parecer dos desembargadores, // ey por bem que [59 v.j hum dos mordomos das dietas freguesias ou confrarias das igrejas, qualquer delles que foi presente, ouça aos dictos christãos da terra e gentios nas contendas e differenças que tiverem, e as determine ate quantia de tres tangas, e de a execução sua determinação sem apelação nem agravo. Por tanto o notefico assi ao ouvidor geral, e a todas as mais justiças e officiaes a que pertencer, e lhes mando que assi o cumprão, e fação cumprir e guardar inteiramente, sem duvida nem embargo algum. E este alvaraa valeraa, e terá força e vigor, como se fosse carta passada em nome de el-rey meu senhor, sem embargo da ordenação que diz que as cousas cujo effeito ouver de durar mais de hum anno, passem per cartas, e passando per alvaraas não valhão. E as sobredictas execuções se farão em nome do dito senhor, e os mandados para ellas que se passarem seraa com declaração que se fazem per virtude desta commição: e as 49 DOC. PADROADO, IX 4
partes que se sentirem agravadas poderão agravar. E esta provisão passaraa pela chancelaria, e se registaraa no Livro da Relação, e ate se não trasladar nelle se não usaraa delia. Ruy Martinz o fez em Goa, a 20 de Junho de 1562.— Conde Viso Rey (1). Registado. Serrão. Per que V. S. ha por bem que nenhum (2) dos mor- domos das igrefjas} desta ilha de Goa, qualquer delles que for presente [ou]ça ao (sic) christãos da terra e gentios nas contendas e differenças que teverem, as detreminem ate quantia de tres tangas e de execução a sua detreminação, sem [60] apelação nem agravo, // como acima declara. Registado. Rodrigo Monteiro. Paga nada. Em Goa, a 25 de Junho de 1562. Augustinho Salvado (3). Gonçalo Lourenço. Registado na Chancelaria. (1) Termina aqui a cópia de Cunha Rivara. (2) Erro evidente por um. (3) Esta palavra aparece grafada diferentemente em vários documen- tos: Salvador e Salvado. 5°
11 CONDENAÇÕES DOS CRISTÃOS DA TERRA E GENTIOS Goa, 20 de Junho de 1562 Documento existente no AHEl: Livro Vermelho, n. 1, 1548, fls. 60-60 v. Publicado no APO por Cunha Rivara, págs. 513 e 514, n.° 426. //O Conde V. Rey da India etc. Faço saber aos que este [60 r.] virem que eu ei por bem e mando que todos os delinquentes christãos da terra e gentios que as justiças ecclesiasticas remeterem ao ouvidor geral por quaesquer delictos, não sejão condenados em pena de sangue, e os condenarão em degredo temporal, conforme ao que parecer, e as dietas jus- tiças ecclesiasticas mandarão os autos e culpas que tiverem dos dictos delinquentes ao dicto ouvidor geral, e não os terão presos mais que ate tres dias do dia que os tomarem. Por tanto o notefico assi ao dicto ouvidor geral, e a todas as mais justiças e officiaes a que pertençer, e lhe mando que assi o cumprão e fação comprir e guardar, sem duvida nem embargo algum, e este alvaraa valeraa e teraa força e vigor, como se fosse carta passada em nome de el-rey meu senhor, sem embargo da Ordenação que diz que as cousas cujo effeito ouver de durar mais de hum anno, passem per cartas, e passando per alvaraas não valhão. E as sobredictas execuções se farão em nome do // dito [6o v.] senhor; e os mandados para ellas que passarem serão com declaração que se fazem per virtude desta commição. E as partes que se sentirem agravadas poderão agravar. E esta provisão passaraa pela chancelaria, e se registaraa no Livro da Relação, e ate se não trasladar nelle se não usara delia. 5 7
Ruy Martinz o fez em Goa, XX de Junho de 1562.— Conde Viso Rey (1). Registado. Serrão. Per que V. S. manda que todos os delinquentes christãos da terra e gentios que as justiças eclesiásticas remeterem ao ouvidor geral por quaesquer delictos, não sejão conde- nado em pena de sangue, e os condenarão em degredo tem- poral, conforme ao que parecer, e as dietas justiças mandarão os autos e culpas que tiverem dos dictos delinquentes ao dicto ouvidor-geral como acima declara. Registado. Rodrigo Monteiro. Gonçalo Lourenço. Pagou nichel. Em Goa, aos 25 de Junho de 1562. Augustinho Salvado. Registado na Chancelaria. 52 (1) Termina aqui a cópia de Cunha Rivara.
f 12 CARTA DO PADRE GASPAR COELHO AO PROVINCIAL DA INDIA Socotorá, 30 de Agosto de 1562 # Documento existente na BNL: F. G. n.° 4354, (,1) Fls. 366 t.-366 v. Trouxe-nos Nosso Senhor a esta ilha de Socotora, como ia por outra escrevi a Vossa Reverencia, que, como sabe, esta na boca deste Estreito de Meca, a doze grãos e meio pera o Norte, e dista dessa cidade de Guoa, pera o Ponente, tre- zentas e sesenta leguoas. Tera cinquoenta ou sesenta leguoas de roda; he terra de grande serras e vales; achamo-la habi- tada de mouros e dos que la chamão christãos de São Tome, ainda que, depois que aqui viemos, achamos serem mais iudeus que christãos, polias serimonias e culto que lhe vimos. Tem por seu baptismo a circuncisão, que todos tomão; tem em muita veneração os bodes, de que usão em todos seus sacrifícios, e que matão com sertas palavras que elles dizem; e dizem que o sangue e para Deos; e o mais, pera elles; e assi o comem assado. Tem sua Quaresma quasi de mes e meo, na qual não comem carne; e os seus cacizes ou sacerdotes, nem carne, nem manteigua, nem ainda leite, que he seu comum mantimento; so se sostentão de massas e de palmeiras pisadas, enquanto a Quaresma dura. No dia de sua Pascoa, se ajuntão todos os de cada povo, e juntos na igreja delle, que comummente he de doze ou quinze vezinhos, e por aver muito pouca gente em esta ilha, matão somente bodes, e delles dão a todo o que quer comer, (1) BAL: 49-IV-50, fls. 477v.-478v. BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 141 r.-14l v. 53
e este guasto fazem a custa das igrejas, porque para isto tem cada hum delles certas cabeças de guado e certas palmeiras que posuem pêra o guasto desta Pascoa. E do mais se sos- tentão os sacerdotes que servem, a annos, porque cada anno serve hum de principal. Do dia que celebrão esta Pascoa a hum mes se tornão a juntar em suas igrejas huma noite. E toda a noite cantão ao seu modo, diante de huma cortina que na igreja tem, com seus báculos nas mãos, ao modo iudaico. Polia menhã matão seus bodes, e com o sangue delles untão as testas; alem destas cerimonias, tem outras que lhe não vi. Em todas ellas parecem muitos judeos; casão em grãos prohibidos, como primos, e repodião as molheres, quando querem. Não comem gualinha nem ave nenhuma, nem lhe poem a mão, usão de muitas feitiçarias, e são muito dados a comer e beber, tanto que, fazendo-se qua vinho de tamaras, como quer que o não fazem senão quando ellas são maduras, quando se faz, se ajuntão em maguotes, em lugares, e estão loguo sinquo ou seis dias a beber, ate que lhes tornão a sair polia boca. E alguns morrem da grãode quentura que este vinho tem. Sseus filhos e criados andão, de dia e de noite, espalhados por estas serras, com seus guados, e tem pera si que não ha terra nem modo de viver milhor que o seu. A linguoa da terra e dificultosa, nem se entende com o arabio nem com o abixim, nem ha nella ler ou escrever. O Xeque e regedor delia he mouro e muito temido dos da terra. Ainda que os não força a fazerem mouros, alguns dos pobres se fazem, por não terem o necesario, aos quais el-rei prove de [366 ».] milho, que de Milinde manda vir. // Anos depois que a esta terra cheguamos, nos visitou loguo Noso Senhor, com suas merces, e não quis que enquãoto não O servíamos (2), por falta da experiência e linguoa da (2) BACIL: não fazíamos nada... 54
terra, não estivesemos sem padecer. Em cheguando, adoeceo loguo o Padre João Lopez, meu companheiro, de febres e tão rijas que pareceo necesario tornar-se em huma fusta das da armada em que viemos. Mas como Noso Senhor detrimi- nava de deixar aqui, nesta ilha e igrejas, que dizem ser de Sancto Thome, hum da Companhia, tornou a fusta arribar com tempo a esta ilha. E foi em tão crecimento a febre que, dahi a sete ou oito dias, o levou Noso Senhor pêra Si. A sua morte foi conforme a sua vida, boa, e que me deixou tão consolado como saudoso de sua virtuosa e dezejada conver- sação. Enterei-o em huma destas igrejas, e dai sete ou oito dias, me derão a mim humas febres tão grandes que cheguei a estar sem fala. Aos que comiguo tinha derão tãobem as febres e asi nos achamos todos em huma casa doentes, olhando uns pera outros, sem ter senão dar graças a Noso Senhor de por nos visitar desta maneira. Depois nos forão mais abrandando e ja aguora, polia bondade de Noso Se- nhor, estamos milhor. O Xeque se mostra folguar muito comnosco na terra, e veo de quatro leguoas a ver-nos; fas-nos muito guazalhado, dãodo-nos do que tem. Prazera a Noso Senhor que, dando- -nos saúde e linguoa com cjue nos possamos comunicar com esta gente, porque os que trazíamos não nos provem, se fara fruito nas almas destes christãos mouros. Vossa Reverencia nos mãode encomendar em os sanctos sacrifícios e orações de todos os nossos irmãos a Noso Senhor. Elie seja sempre em nosas almas, amen. Desta ilha de Socotora, a trinta de Aguosto de 1562. De Vosa Reverencia servo e filho em o Senhor O Padre Guaspar Coelho
13 CARTA DO PADRE SEBASTIÃO GONÇALVES AOS IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Goa, 10 de Setembro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. (1) Fls. 374 r,315 v. Depois da ultima carta que escrevi a Vossa Reverencia de Lisboa, me ocorrerão algumas cousas em nossa perigri- nação, das quais, ou das principais, ao menos, darei aviso por esta, que deseio sirva de ocasião de louvar a Deos, Noso Senhor, autor de todo o bem, e pidir-lhe que, pois teve por bem de trazer-nos a estas partes da índia, nos faça poderosos em virtude ut in corporibus nostris manifestetur vita lesu Cbristi, em partes aonde tanta necessidade ha diso. He tra- tarei, primeiro, da nosa saúde corporal e viagem, e ultima- mente, do exercício que tivemos em a nao. Logo em os primeiros dias, que foi desde o Domingo de Lazaro, em que partimos, ate a Pascoa, com outros não sei quantos, o Irmão Manoel Lobo, que pareceia mais bem dis- posto de nos, enjoou e acodião-lhe algumas febres, de modo que não podia fazer nada, no tempo que nos tínhamos mais necessidade de trabalhar e concertar nosos mantimentos, e polios em parte que facilmente os tirasemos, quando fosse necesario; e de mudar outras cousas, que não erão pequeno trabalho em huma nao, aonde se não podem os homens re- volver, especialmente ao principio, porque tudo então vai ocupado. (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 81r.-82r. 56
De maneira que me foi necesario trabalhar, eu e o Irmão Vicentio, todos aquelles dias, que foy grande ocasião pera não emjoaremos, porque, segundo diz a gente do mar, o milhor remedio que ay pera não emjoar ou adoecer no mar he quasi continuamente trabalhar. E he verdade, porque eu em mim sentia alguns princípios de emjoar logo como não trabalhava corporalmente. E o Irmão Manoel Lobo, de que não sabia esta medicina tão boa, parecia-lhe que com estar deitado se lhe yria o emjoamento, e elle crescia mais. E asi foi muita parte do caminho, e se lhe recrecerão as febres, e foy sangrado não sey quantas vezes. Vicentio e eu viemos mediocremente dispostos, sem nunqua emjoar nem ter al- guma outra ynfermidade natural, tirando hum pequeno cadarrão que foy comum a quasi todos os da nao. Acerqua da viagem que fez a nao, e que foi a segunda cousa que propus, foi huma das milhores que ate o presente se faz, nesta carreira da índia, porque tivemos, por muitos dias, vento a popa, mar bonança (sic). De maneira que, aos nove de Abril, estávamos em quatro grãos e meio, havendo nos partido aos quinze de Março, e aos treze de Abril, en- contramos em a costa de Guine a nao capitania e lhe falía- mos, com lhe darmos a boa viagem. E nos consolamos muito com a vista da gente, e espicial mente, por sabermos que noso Padre Vicentio Tonda, com todos seus companheiros, esta- vão bem dispostos. Eu estava confessando, quando se lhe deu a primeira fala, e quasi que não podia ter as lagrimas que me nacião da consolação que recebia, em ver no meo de tão grande mar tanta gente e tanta alegria nella. Despots disto, andando nos em calmarias, nesta costa da Guine, que são aqui mui frequentes, vimos outra nao, a qual dizião ser a Rainha, na qual hia o Padre Fernão da Cunha e o Irmão Miguel Beltrão. E não quis esperar que lhe falasemos, por se temer que não lhe mandasse o capitão- -mor que fosse em sua companhia. Passamos a linha a vinte
seis de Abril e, por festa, veyo jantar conosco o piloto da nao, que era grande nosso amigo. Passamos o Cabo de Santo Agostinho a tres de Mayo, que foy dia da Invenção da Santa Cruz. Estando nos trinta grãos alem da linha, e sinquo ou seis antes de passar o Cabo de Boa Esperança, tivemos calmarias, mar bonança, o que nunqua se acontece quasi naquella parajem, senam grandes tormentas. Estivemos na altura do Cabo, aos cinquo de Junho, e tivemos o Cabo dobrado no fim do mesmo mes. E chegamos a Moçambique, o qual esta a quinze grãos e meyo alem do Cabo de Boa Esperança, ao derradeiro dia de Junho, aonde tevemos logo novas da morte do Padre Dom Gonçalo, as quais ja saberão polias cartas do anno pasado. E achamos ya anchoradas quatro naos da nosa companhia, e de todas as que partimos, somente faltava huma que se chamava o Cedro, que, segundo parecia, arribaria, a Portu- gal, por ser nao ruim e vir desapercebida do necesario. Depois que nos embarquamos no batel e chegamos a terra, achamos os padres, que vinhão em as outras naos, bem despostos, e achamos também tres padres nossos que quis T-1 Deos, Nosso Senhor, ayuntar ahi, // per accidens, de diver- sas partes, com que muito nos consolamos. E estivemos ahi cinquo ou seis dias, ocupando-nos em visitar e confessar em- fermos do hospital e mais gente das naos, que pedião con- fissão, administrando-lhe tãobem o Sacramento da Eucha- ristia. E nos partimos todos, asi os qui vínhamos de Portugal, como os que achamos ahi em Moçambique, a seis de Agosto, com vento a popa fresco; quasi pasamos a linha outra vez, que esta quinhentas ou seiscentas legoas de Goa, aos dezaseis dias ou dezasete de Agosto, e lançamos anchora na barra de Goa aos cinquo ou seis de Setembro, e asi ficamos com andar sobre as agoas do mar cinquo meses e meio, tirando os seis dias que estivemos em Moçambique. E asi nos socedeu quasi
tudo milhor do que desejávamos, porque se chegáramos mais cedo a Moçambique, adoecera-nos muita gente, por ser a terra muy perigosa. E se chegáramos mais cedo a Goa, fôra- mos necesario andar as voltas no mar, com perigo de dar em algum seco, porque, por amor do Inverno, que se des- pede nesta terra em Setembro, não se pode entrar segura- mente na barra de Goa, senão dos três dias de Setembro por diante. Quanto aos contraestes e perigos que tivemos, forão poucos. Tivemos a primeira tormenta em a costa da Guine, aos oyto de Abril, que foi de hum chuveiro, que nos veio subitamente. Day a dous dias, tivemos outro maior traba- lho, que foi que se acendeo o fogo na nao, de noite, depois de cantarem os gallos das capoeiras, porque se queimou huma lanterna de pao, por adormecer hum moço que a trazia. E começava ya o fogo a lavrar, e todavia, apagou-se preste, por ser em parte que se podia ver, e a nao estava molhada, de hum chuveiro. Na altura do Cabo tivemos ventos contrários com alguns chuveiros, e estivemos com as vellas em baixo, quasi dous dias, com algum temor de arribarmos. E dahi a alguns dias, na mesma paragem, tivemos calmarias e sospeitava-se que era por estarmos perto da terra, donde se não temia que não poderamos dobrar o cabo e que aviamos de arribar. Porem, eu sentia, no coração grande certeza que avia de chegar a índia deste golpe. Depois de dobrado o Cabo da Boa Espe- rança e ter andado quatro mil legoas, pouco mais ou menos, sem ver terra, vimos terra do Natal, aonde estivemos com grande periguo de dar em seco, por amor das correntes, que nos levavão a terra, e das calmarias, que não podião resistir ao impeto das correntes. Porem, logo veyo hum vento rijo que nos afastou da terra cinquoenta ou sessenta legoas. Porem, perseverou tanto que nos fez andar quatro ou cin- quo dias com as vellas amainadas, com algum temor de 59
yrmos por fora de Moçambique, com perigo de darmos em muitos baixos, e de nos morrer muita gente, por falta de agoa e de refresco, que se custuma tomar em Moçambique, e por causa dos grandes frios que sempre ay naquele cami- nho. E fizemos, huma seista-feira, huma precisão, pollo con- vez da nao, pedindo a Nosso Senhor misericórdia, e logo, ao sabado siguiente, nos veio o vento que desejávamos. E foy de tal maneira que, em breve tempo, nos pos em Moçambique. E dahi por diante não tivemos nenhum outro grave perigo, gloria a Deos. Os exercícios em que nos ocupávamos forão os que Deos acustuma exercitar polios nossos padres nesta carreira, por- que, no primeiro dia, procuramos botar fora da nao a peço- nha que o diabo custuma introduzir pera perdição dos nave- gantes. E assi botamos fora duas molheres sospeitosas e andava tão aceso nisto o Irmão Vicentio que, fallando com o capitão e outras pessoas sobre que botássemos outras, de que também tínhamos sospeitas, me perguntarão se tinha aquelle irmão alguma doença, e o capitão mesmo, maravilhado, se levantou da cama, o memo dia, a noite, e me mandou cha- mar pera me fazer queixume delle, dizendo que nunqua topara nesta viagem homem daquella maneira. E dizendo- -lhe eu que o irmão fazia aquillo com zello de virtude, elle o não cria. Porem, depois o conheçeo; ao dia seguinte, lhe foy o irmão pedir perdão e o abraçou e fiquarão amigos. A quinta-feira da Somana Santa nos ocupamos todos tres em lavar os pes aos soldados e, a noyte, se fez huma procisão e eu fiz huma breve pratica da Paixão de Christo. Ouve ladainhas a maior parte dos dias que andamos no mar e, cada dia santo, dizia o capellão da nao missa seca. Eu pre- gava quasi cada somana uma vez no meio da missa, que o padre capellão dizia. Procurávamos também lançar no mar os livros de roins historias e sospeitosos, e dar dos que trazíamos em lingoa- 6 o
gem. E huma vez, vendo o Irmão Vicentio hum homem man- cebo leer por hum livro ruim, lho pediu emprestado, dando- -Ihe outro spiritual; e indo pera o botar no mar, o dono do livro // pegou com elle pera que lho soltase. O irmão, de que [375 r.] tinha outras armas, o mordeo no braço e asi o largou o outro, e depois de botar no mar o livro ruim, lhe deu tres bons por elle (2). E assi ficou o mancebo contente. Trabalhou-se também de se defender o jogo das cartas; ao menos a pri- meira, e se rasgarão as cartas dos que juravão no jogo. Casaram-se duas molheres na nao: huma delias, com consentimento de todos, por não aparecer algum empedi- mento que os estrovase; a outra se casou clandestinamente, por lhes mandar o capitão que não se casassem, por aver alguma sospeita de cunhadio, porquanto elles avião dito que erão cunhados e, depois, não podião provar o contrario, porem, depois de se receberem, dizendo-lhe eu como erão excomungados, assi elles como duas testemunhas principais, que se confessarão. Ouve também muitas outras confissõis asi devação (sic) como de emfermos, e de outros que não se avião confessado, por causa da grande presa e ocupação de suas embarquaçõis. Tivemos ate Moçambique muy poucos emfermos, e so- mente nos morreo hum homem que vinha ya muy doente da terra. Porem, eses poucos que ouve, não lhes faltava nem confissão nem as cousas necessárias ao corpo, muy notavel- mente. Depois de partirmos de Moçambique pera Goa, em que nos detivemos hum mes, nos adoeceo muyta gente, asi pellas ruins agoas que receberão em Moçambique, como por ya muy debilitados de tanto tempo de ma vida do mar. Em este tempo tivemos mediocre trabalho com eles, por falta de aver lugar em que estivesem emparados do vento e chuiva (2) BACIL: mas o irmão ho botou no mar e lhe deu tres bons por elle... 6 i
(sic), que dificultosamente se achava pêra todos. E porque a emfermidade quasi de todos era de gengivas, o Irmão Vi- centio os visitava duas vezes ao dia, com hum lavatório que fizemos pêra elles, o qual nos derão em Lisboa, huma receita. O Irmão Lobo tinha cuidado de lhe dar pellas menhãs, a almoçar, a huns, açuquer rosado e a outros, marmelada e, algumas vezes, passas e- do noso biscoito, que elles achavão muito bem. E pera a noite, lhe cozíamos hum cadeirão de lentilhas ou grãos ou papas que lhe davão a cear com do nosso biscoito, porque ao iantar os visitava o capitão, assi com lentilhas e papas, como com galinhas e aros e carne fresca, que trouxe de Moçambique. E se alguns ficavão a quem o capitão não mandasse, por serem muytos, províamos nos com nossas galinhas e carne fresca; e o piloto da nao, mestre, contra-mestre e guardião e outros alguns que nos aiudavão com de suas casas darem muyta cousa aos mesmos emfermos e a nos pera que dés- semos aos emfermos. E se a algum fazia mal a agoa de Moçambique, lhe davamos da nossa, que era portuguesa e muito boa. De maneira que ainda que muytos delles vinhão muy mal tratados, todavia, não nos morreo mais que hum homem, desde Moçambique a Goa. E asi, foram, em toda a viagem, dous homens mortos, que he cousa rara em tão tra- balhosa viagem. Outras duas pessoas nos morrerão, porque cairão ao mar e não os poderão tomar. Trouxerão-se ao hospital da igreja os emfermos das naos; eu nunqua cuidei ver tantos emfermos quantos vi naquelle hospital, porque, sendo elle muito grande, estava todo cheo de catres e as varandas e logeas e outra casa, alem dos que muitos homens levavão pera suas casas. E com tudo isto não lhes faltava o necesario, porque, alem dos padres e irmãos que la estavão, avia muytas pesoas que os curavão e procuravão com muyta diligencia. Também se fizerão na nossa nao algumas amisades e 6 2
concertos, em que entrou hum do capitão contra outros homens honrrados da nao, de que não resultou pequena edificação em os da nao. Huma das cousas de que mais se edificarão foy em verem, por experiência, quam aparelhados estavão os da Companhia pera deixar a boa vida e tomar a ma, quando se offerecia alguma ocasião de maior serviço de Deos, porque dizendo-nos o capitão que na nao Tigre avia muytos emfermos, e que morrião sem confissão, por falta de sacerdote que não ya nella, porque avia elle ja la ydo com o esquife de nossa nao, eu lhe disse que em todas as maneiras (3) avia la de hir. Como o Irmão Vicentio se offereceu a ir comigo, querendo-nos o capitão estorvar, por saber que aquella nao era muy ruim e muy emferma e que não aviamos ter que comer, nem onde dormir // lhe res- 1.375 *.] pondeo Vicencio, com as mãos levantadas, que aonde estava Christo, ahi estava elle. E eu lhe disse que estava aparelhado para padescer hum pouco de trabalho, antes que morrerem os homens sem confissão, e que desemcarregava minha con- ciencia e que emcarregava a sua, se nos não quisesse deixar embarquar no esquife. E elle logo nos deu licença, e assi nos despedimos delie e dos mais com abraços e lagrimas. E perguntando hum judeu de Sinae, que vinha na nossa nao, ao Irmão Vicentio, aonde avia de dormir, porque la não avia lugar, Vicentio lhe respondeu que ja que Jesu Christo tivera por bem estar na cruz, por amor de nos, que não era muito estarmos nos por amor de Christo em ruim lugar. E o judeu ficou con- fuso; porem, segundo mostrava, este judeu cedo sera chris- tão, porque mostrava grande amor aos christãos, e fazia mui- tas esmolas aos necessitados, e fez na nao vestidos pera sy e pera hum seu irmão, que era ja bautizado, ao modo por- tuguês, e dizia muitos bens dos padres e irmãos da Compa- (3) A abreviatura parece ser m."'. 6 3
nhia, e era naturalmente bem enclinado e prudente. Nosso Senhor lhe de aiudas sobrenaturais necessárias para sua con- versão, pois lhe tem dado as naturais. De maneira que indo nos com estes fervores pera a nao Tigre, deixando os da nossa nao, com muytas saudades e os emfermos sospirando, ainda que lhes ficava o Irmão Lobo e o padre capellão, achamos la o Padre Luis de Gois e o Irmão Antonio Fernandez, que avião vindo da nao capitania pera socorrer aos emfermos da nao Tigre. E assi nos tornamos no esquife da nossa nao. Chegando nos ao bordo da nao, a boca da noyte, e dizendosse que tornavão os padres, com alegria, o não crião, ate que me não ouvirão dizer em alta voz. Quem primeiro anda primeiro apanha. E assi viemos a ter ao desseiado collegio de São Paulo de Goa, onde fomos recebidos com a custumada char idade e alegria dos padres e irmãos deste collegio aonde estamos, assi todos os que Vossa Reverencia mandou de Portugal, como os Padres que vierão de Moçambique, mediocremente bem despostos, e deseiosos de ser emcomendados em os santos sacrifícios e oraçõis de Vossa Reverencia e dos mais padres e irmãos desas partes, aos quais Nosso Senhor, por sua bondade e miseri- córdia acrecente em numero, graça e virtude, ut in corpori- hus eorum manijestetur vita lesu cuijus lancea sub capite tuo, Reverendissime Pater, et dextera illique amplexet te. De Goa, oie 10 de Setembro de 1562 annos. Tuus in Christo lesu inutilis filius. Sebastiam Gonçalvez 6 4
14 CARTA DO IRMÃO ANTÓNIO FERNANDES AOS PADRES E IRMÃOS DE COIMBRA Goa, 15 de Setembro de 1562 Documento existente tia BNL: F. G. n." 4534- (1) Fls. 375 v,378 r. Jesu. Maria. Charissimos em Christo padres e irmãos. A graça e amor eterno de Jesu Christo, Nosso Senhor, seia sempre em nossas almas, amen. Sendo-me ordenado polia obediência, charissimos padres e irmãos meos, que lhe desse conta do processo da nossa viagem da índia, de 1562, folgara ter aquelle spiritu que pera tal efeito se requere. Mas o Espiritu Santo, o qual foy delias obrador, me queira dar sua graça, pera os fazer sabe- dores de tantas maravilhas quantas o Senhor obra em estes mares tão grandes e tão perlongados, como he esta viagem, pera que todos iuntamente O louvemos e demos aquellas graças que a sua divina Magestade são devidas. Despois de partirmos desa barra de Lisboa, sempre vie- mos com boa disposição, polia bondade de Nosso Senhor. Ja la saberão como os padres e irmãos vierão repartidos nas naos. Eu vim com Gonçalo Vaz e com o Padre Tonda na nao São Martinho, que era a capitania, e trouxemos muito// [376 r bom tempo ate a entrada da Costa da Guine. E não vimos mais ilhas que a do Porto Sancto; e ate as Canarias vierão (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 190v.-193r. 65 DOC. PADROADO, IX — 5
as naos todas iuntas. E dahi por diante se apartarão humas das outras; andamos na Costa da Guine vinte e um dias em calmarias, e quis Nosso Senhor que nos vierão alguns chu- veiros, os quais traziam sempre algum vento, ate que pas- samos a linha, e pusemos quarenta dias ate passar a linha, que são mil legoas; e assi nos viemos, ora com tempos escas- sos, ora com tempo a popa, ora com contrastes. Logo aos dous ou tres dias, despois de nossa partida, se começou a dizer as ladainhas, as quais se disserão todos os dias, ainda que chovesse e fizesse sol, senão aos sabados, por se dizer a Salve dos Marinheiros, a qual estes custumão dizer nesta viagem, e assim se pos hum dos sinos que vinhão pera São Paulo, com que se tangia a missa e a pregação e as ladai- nhas e a doutrina. E puserão-no ao pe do masto grande, e também as Ave Marias. O Padre Tonda pregou todos os Domingos, ate Moçam- bique, e despois de Moçambique, ate Goa não pregou mais de huma vez e teve bem de trabalho, porque não tinha capellão na nossa nao, obrigado a ella. Somente vinha hum clérigo com o filho de Francisco Barreto, o qual tinha cui- dado de sua fazenda, e não fazia tam pouco em comfesar o padre. E por esta causa teve muyto trabalho, porque disse missa todos os Domingos e, acabando a missa, se punha a pregar; e acabando de pregar, dava de comer aos emfermos, e a tarde, dizia as ladainhas com muyta devação, como se dizem em casa. Também se ensinava aos domingos e dias sanctos a dou- trina aos meninos e pretos que vinhão na nao, ainda que era trabalho aiunta-los polia nao, porque, ainda que se tangesse o sino e a campainha, era necessário i-los buscar em pesoa. E do que me mais maravilhava era que não sabião a dou- trina e se corrião de vir a ella. E assi os officios da Somana Santa o padre os disse soo, com muita devação, porque se ordenou hum altar debaixo da tolda, muito bem concertado, 66
e se puserão três crucifixos, todos pegados num pee, que erão os dous ladrõis e Christo crucificado, no meio, cuberto com huma toalha, desde quinta feira, ao jantar, ate sesta feira, ao jantar. E todo este tempo estiverão muytas candeas acesas com seus pivetes e assi derão algumas esmolas, com que se comprarão algumas passas para os emfermos. E tam- bém pregou o padre o Mandato com muyta satisfação de todos, como o fez sempre. E assi ouve algumas confissõis emquanto viemos. Também recebemos muita consolação, principalmente com a nao São Vicente, que topamos na costa de Guine, por sabermos novas dos padres que alli vinhão, a qual nao nos acompanhou huns dias. E hum dia, por aver calmarias e estar o mar muito brando, veio o esquife da nao São Vicente a nossa a peder (sic) marinheiros e fio, a qual nos trouxe huma carta do Padre Bastião Gonçalvez, em que nos dava conta de sua saúde e de como se avia na nao. E nos lhe escrevemos cada hum huma carta e assi, ou- tras vezes, nos vinhão salvar como he costume. E chegua- vasse a nao muito perto huma da outra, de modo que se entendia o que se falava de huma a outra. E alli perguntá- vamos como yam os padres da Companhia e logo dahi a poucos dias topamos outra nao, a qual se chamava Esperança. De ahi a poucos dias nos apartamos huns dos outros e não nos vimos ate Moçambique, senão a Esperança que topamos no Cabo da Boa Esperança. Do capitão lhe digo, charissimos irmãos, o que não po- derei acabar de dizer de sua bondade e virtude, e princi- palmente humildade, paciência e mansidão, com elle ser muito bom cavaleiro e muyto fidalgo. E verdadeiramente que me edificava muyto e me confundio, era da maneira que os mesmos soldados se aqueixavão delle, por os não casti- gar, bem // que, quando elle se achava presente em alguma [376 v.] peleia, castigava-os muyto bem. E elle veio muito tempo emjoado e lhe acodirão huns frios de febres que o tratarão 67
multo mal, e depois que se achou milhor, não deixava o padre, se não que avia de comer com elle, o que lhe o padre não aceitava, muytas vezes; e prometeo de dar hum convite dia do Spiritu Santo a todos os da nao, como o fez, dia do Spiritu Santo. E determinando de fazerem, com comselho dos fidalgos, emperador e emperatriz, e ser o filho do capitão emperador e huma filha de hum homem, que aqui vinha, a emperatriz, e dando conta disto o capitão ao padre, lhe disse o padre que se tal cousa ordenavão de fazer que não lhe diria missa, nem pregação, nem sairia aquelle dia fora do camarote. E então disse o capitão que ja que o padre era soo contra todos, que alguma cousa era, e mais que os pa- dres da Companhia não podião errar no que fazião. Então ficou de se não fazer emperador, e assi lhe disse missa e pregação, com que elles ficarão muito contentes. Na nao vinha hum fidalgo que se chamava Dom Pedro de Sousa, o qual aiudou a rezar o officio diurno ao padre, muyto tempo, não sendo obrigado a iso, o qual convidava o padre muitas vezes que fosse comer com elle, o qual lho não con- cedia. senão muy raras vezes. Com os emfermos se teve muyta conta e nunqua lhe faltou nada, assi de cousas doces, como de galinhas, quando era necessário. E assi também, quando era necessário deitar algum cristel, se deitava, ora o Padre Tonda, ora Gonçalo Vaz. Ordinariamente se fazia huma panela, e muitas vezes, duas, de lentilhas ou grãos, ou galinha, ou caldo de farinha. Nesta nao morrerão, por todos, dezaseis ou dezasete pessoas e nos cairão tres homens da gavia da popa ao mar, sem perigarem e fazerem nada e pegavãosse nalgumas cor- das que vão pollo bordo da nao e também cayrem algumas pessoas por vezes da gavia sem acertarem em ninguém. E huma vez cayo huma taboa do mastro grande em o con- vés, entre alguns homens que alli estavão, e quis Nosso Se- nhor que fizesse mal a nenhum; somente deu na carapuça 68
de hum homem que tinha na cabeça e deitou-lhe no chão, sem lhe fazer mal, e outros cairão polia escotilha abaixo, sem fazerem mais que ferirem-se muyto pouco, que ao pare- cer, parecia que caindo de alli hum homem não escaparia de morrer, porque caião as vezes por duas ou três escotilhas abaixo, e mais as desta nao, que erão muyto altas. Estas e outras muytas merces fez Nosso Senhor nesta nao. Outro mancebo nos caio ao mar, vindo correndo polia altura do Cabo de Boa Esperança, o qual se tomou, ainda que com trabalho, porque se não tirarão o esquife debaixo das cubertas e o lançarão ao mar, não o tomarão, e mais por andar o mar manso e virmos com vento a popa, o qual nos começou a ventar aquelle tempo, hum pouco antes que elle caysse. E isto foy aos 9 de Junho, e ficaria mea legoa boa da nao e andaria huma ora, primeiro que o tomassem. E vindo a nao, vinha esmorecido, sem poder fallar, o qual mandou o capitão levar pera o seu camarote, onde lhe derão todo o necessário e os fidalgos, huns lhe davão as camissas e outros, a roupa e outros a capa, de maneira que o fizerão muito bem com elle. Aos vinte dias de Maio nos contou o Padre Tonda hum desastre que nos acontecera, huma noyte, que por nos e todos estarem dormindo o não sentimos. E foy que, estando ya deitado e sendo ja bom pedaço da noite passada, vierão chamar ao padre para confessar a hum doente ou fidalgo. E levou huma alanterna acesa e a este tempo vínhamos com muyto vento a popa, e como a nao era ruim de governo, tomou por davante e esteve hum pedaço sem virar, e o padre alumiando com a lanterna. Não acertavão ya os marinhei- ros com as cordas tendo-as aos seus pees e o padre não disse que estivera a nao em risco de soçobrar e todos dizião, quando nos acontecia algum desastre semelhante a este que, por virtude do capitão, livrara Nosso Senhor esta nao de tantos 6 9
desastres, e que se ella vinha a India que era polia sua vir- tude. Aos quinze de Junho vimos terra do Cabo das Agulhas, que he depois de terem o Cabo de Boa Esperança passado, com a qual vista de terra nos alegramos muito. E lançarão o prumo e não tomarão fundo, e ao outro dia lançamos o prumo e tomamos fundo em cinquoenta e cinquo braças. Í377 r.] E i0g0 o soto-piloto // delle pedio ao padre que quisese dizer huma missa a honrra do Spiritu Sancto por esta merce que nos Deos fizera, a qual o padre disse. Também lhes faço saber, charissimos irmãos, que tanta necessidade tínhamos de hum porteiro a porta do nosso ca- marote, como podem ter em qualquer casa ou collegio da Companhia, para dar aviamento a quantos vinhão a elle pedir hum cousa e outra, desde polia menhã ate a noite. Mas, polia bondade de Nosso Senhor, sempre se deu avia- mento o milhor que se pode. Também hindo nos algumas mil e quinhentas legoas do Cabo de Boa Esperança, correndo polia altura do Natal, nos deu hum tempo rijo, que nos durou obra de quatro ou sinquo oras, com o qual vento se alvoraçou o mar arezoa- damente, como custumava, as vezes, fazer e tomamos as vellas todas, e somente deixamos o traquete, com que vínha- mos todo este tempo. E sendo ja oras de Ave Marias, depois de teremos ceado, e não ficarem no camarote mais que eu e hum indio, que veio conosco, que ao tal tempo estava ceando na varanda do leme, veio hum mar muy grande e daa debaixo da varanda tão fortemente que não pareceia senão que levava a varanda toda, e contudo, quebrou muyta louça e arranquou huma taboa muyto grande dos meus pes e entrou muyta agoa dentro que nos cubriu e quis Nosso Senhor que me peguei ao peitoral da varanda e assi fiquei seguro, porque não tive vagar para me recolher pera dentro. E esta noite tivemos muito trabalhosa, porque acalmou o 70
vento e ficarão os mares banzeiros que davão, as vezes, tão grandes panquadas na nao que parecia daremos em alguns baixos, mas tudo tive por nada, como não fui ao mar. Isto permitte Nosso Senhor, as vezes, aos pecadores como eu, pera se conhecerem e pêra saberem que não podem nada nem sabem nada nem tem nada senão o que Nosso Senhor lhe da e bem creio que não deixei, esta vez, de vir ao mar senão por sua orações e por Nosso Senhor aver misericórdia comigo e não pollo eu merecer. Bem folgara, charissimos, de lhes escrever muytas novas e ser a carta mayor do que he, porque sei que folgarão muito com huma carta destas partes, mas polia bondade de Nosso Senhor trouxemos tão boa viagem que não ha que escrever delia e esta soo nova vai tanto como muytas ruins e tudo isto atribuio a ser eu muyto negligente e ter pouca charidade como o elles sabem. Não chegamos a Moçambique aos treze de Julho, onde estavão ja duas naos, a saber: a Rainha e a Esperança; avia seis dias que tinha chegado a nao Rainha e quatro a Espe- rança. E logo dahi a três dias, chegou o Tigre e a nao São Vicente chegou aos trinta onde vinha o Padre Bastião Gon- çalvez e o Irmão Manoel Lobo e o Irmão Vicencio. E o primeiro dia que chegamos nos vierão buscar a nao dous padres que estavão em Moçambique, os quais nos leva- rão a huma casa que ja tinhão onde nos agasalharão com aquella charidade que se custuma na Companhia, onde acha- mos o Padre Miguel Beltrão, seu companheiro. Os padres que alli estavão, hum se chamava Pero de Tovar e outro Luis de Gois, com dois indios que os servião. Nos estivemos vinte e cinquo dias em Moçambique, e emquanto estivemos alli houve muytas confissõis e também muitos doentes no hospital, os quais se confessarão quasi todos e forão curados o milhor que se pode assi do corporal como do spiritual, e comungarão todos. E hum dos padres lhes ya dizer missa 7 *
cada dia. O Padre Tonda pregou huma vez e o padre Fernão da Cunha, duas e fez huma pratica, hum dia, ao hospital aos emfermos, os quais ficarão muyto consolados. Morrerão muitos entre os quais foi hum mancebo que, andando na- dando no rio, e segundo alguns dizião era pera ir ver humas molheres que estavão em a varanda do leme, e andando assi nadando veio hum tubarão que lhe levou huma coxa da perna que lhe não deixou mais que o osso e assi hum pedaço de hum braço. Acudirão-lhe loguo e o trouxerão pera a terra, onde o enterrarão e queira Nosso Senhor que estivesse confessado, ou ao menos com contrição de seus pecados e esperança de misericórdia a hora da sua morte. Aqui verão, 1377 v.] charissimos irmãos//quanto bem he estar em graça com Nosso Senhor e aparelhados pera todas as horas. Também chegou o Padre Andre Fernandez com o capi- tão de Moçambique de Inhambane, quatro dias antes que nos embarcássemos, de maneira que se aiuntarão seis padres e irmãos, os quais se determinarão de yr todos pera Goa, como vierão, por ser mais serviço de Deos. Então se embar- carão o Padre Andre Fernandez em a nao Rainha, com o Padre Fernão da Cunha, e os outros dous padres com os indios na nossa nao, por ser agasalhado maior. Partimos de Moçambique aos seis de Agosto e andamos esperando fora na costa de Moçambique, o outro dia, por duas naos que não poderão sair conosco e desta maneira viemos todas iuntos ate Goa. E depois de partiremos de Moçambique adoeceo muita gente e quasi todos dos que nos morrerão que forão dezaseis ou dezasete, forão de Moçam- bique ate Goa, porque antes que chegássemos a Moçambique, não morrerão mais de dous e alguns dos que morrerão dexa- vão o que tinhão ao padre pera elle fazer o que quisesse delia assaz era bem pouca. E por os emfermos serem muitos e não terem que comer ja agora polia derradeira se vendia 7 2
aquillo que alguns deixavão, pera se comprarem algumas marmeladas e outras cousas pera os emfermos, que me pa- rece que chegavão a trezentos, pollo menos. Mas o padre não se entregava da fazenda senão o escrivão. Não lhes escrevo da nossa embarquação de Lisboa por- que me parece que ja la saberão por alguma de São Roque. Os primeiros quinze ou vinte dias viemos enjoados, ainda que não muyto, porque não deixávamos de comer, pouco ou muito, senão o Padre Tonda, que nunqua enjoou nem deixamos de jejuar ate bespora de Pascoa. Aos treze de Agosto veio o escrivão da nao Tigre a nossa pedir hum padre pera confessar alguns emfermos que alli yão, que não morressem sem confissão, porque hum clérigo que alli vinha de Lisboa ficara em Moçambique. Então foi necessário yr o Padre Luis de Gois como foy e eu com elle e não levamos mais que as camas e algumas camissas, por- que o comer elles disserão que no-lo darião, como o derão, o milhor que puderão. E nos derão dous camarotes por não caber mais que huma pesoa em hum delles e no outro dor- mia eu com hum mancebo muyto honrrado. E não morreo mais que hum soo homem e se confessarão alguns delles e também se deu ordem como se cozesse huma caldeira muito grande de lentilhas ou de grãos, cada dia, com que se sos- tentarão ate Goa. E bem creo que morrerão mais se lhe não acudirão com isto e com alguma marmelada e açuquare, porque não morrião nem adoecião de outra cousa senão de pura fome e ruins gasalhados. Parece-me, irmãos meos, que lhe vejo estar perguntando o que senti desta viagem e por me parecer que se consolarão muito com isso lho escreveo. E o que me pareceo he que todo o irmão que a estas partes da índia vier ou quiser vir se ha-de aparelhar pera muitos trabalhos, e primeiro de tudo a ter muita virtude pera os sofrer, porque saibão que se 73
hão-de achar as mais das vezes fora da conversação dos padres e irmãos da Companhia, e que se hão-de achar entre gente mundana, a qual comummente não traz senão muito destraimento e sugidade na boca e que não hão-de dormir entre padres e irmãos da Companhia senão entre soldados mundanos com os quais eu dormi antes de chegar a Goa, alguns vinte dias. O irmãos, quantas vezes me lembráveis e me lembrais e o que creio que muytas vezes me ajudou a sofrer alguns trabalhos he ver que os estais deseiando e não podeis alcançar e eu que o tenho acançado sem o merecer. Nos chegamos a esta barra de Goa e ancoramos aos quatro de Setembro e desembarquamos aos cinquo, onde nos vierão a buscar hum padre e dous irmãos os quais trazião [378 r.] muyto refresco e bem // de comer e desembarcamos ao pe dum monte muito fresco aonde estavão duas fontes de agoa muito frescas (sic) e alli almoçamos e estivemos hum pedaço onde estava ja o Irmão Gonçalo Vaz e o Padre Tonda com outro irmão do collegio de Goa e dali nos embarquamos pera o collegio, aonde chegamos a oras do meio dia, pouco mais ou menos e fomos recebidos com muita charidade de todos. E agora ficamos neste collegio de Goa ate que o Senhor ordene de nos alguma cousa e o que o Senhor orde- nar de mim eu lho farei a saber. Por agora não se me ofereceo mais que lhe escrever se- não que nos encomendamos em seos santos sacrifícios e oraçõis. Deste collegio de Goa, aos 15 de Setembro de 1562 annos. Também me esquecia de lhe dar conta como dia de São Lourenço fizera o Padre Tonda hum bautismo de cafres, os quais serião alguns oitenta, pouco mais ou menos. E por charidade que queira cada hum deles receber esta particular porque bem sabem que se não pode escrever de tão longe 7 4
a tantos irmãos, senão geralmente, porque sendo de outra maneira era nunqua acabar, ainda que eu folgara grande- mente de lhe escrever a cada hum em particular como os tenho em meu coração. De seu irmão em Christo Antonio Fernandez. v 7 5
15 OBRAS DA SÉ DE GOA Goa, 4 de Novembro de 1562 Documento existente no AHEl: Livro III de Registos Antigos, //. 231. Publicado por Cunha Rivara no APO, V, págs. 521-323. Dom Sebastião, per graça de Deos, rey de Portugal e dos Algarves, daquem e dalém maar em Afriqua, senhor de Guinee, e da conquista, navegação, comercio de Etiópia, Arabia, Persia, e da índia. A quantos esta minha carta virem faço saber que, avendo eu respeyto a necesidade e ao serviço de Deos e meu, e ser em nobreza da minha cidade de Goa, e aumento dela fazer-se na dita cidade see nova, pela que ora haa ser velha e estar daneficada, e eu mandar que se faça, e ter a isso obriguação, ey por bem e mando que da feitura desta carta em diante todas as fazendas de defuntos, que nestas partes falecerem sem testamentos, nam tendo entradas, nem se lhe sabendo erdeiros certos a que pertençam, se entreguem á pesoa ou pesoas, que o arcebispo Dom Guaspar pera isso ordenar, pera se despenderem nas obras da dita see, as quaes fazendas se entreguarão, per man- dados do provedor-moor dos defuntos pela ordem que atéora se entregavão as ditas fazendas aos padres dos Mosteiro de Sam Domingos da dita cidade, com decraração que da fey- tura desta em diante outra pessoa alguma não averaa a fazenda dos ditos defuntos, antes todas se despenderão nas obras da dita See sem se cumprir outra nenhuma provisão, salvo esta; e da mesma maneyra se faraa entregua das fazen- das dos mouros e judeus, e mais pesoas, que eu mando que se entreguem nas minhas feytorias, o que asy ey por bem sem 76
embargo de quaesquer regimentos meus que aja em con- trayro, e me praz que as ditas fazendas, asy humas como outras, se nam dee fiança alguma, senão que asy como as ouver e se descobrirem, se entreguem á dita pessoa, por quanto a dita See he de minha obriguação, e eu mando fazer, e quando quer que vierem erdeiros a que pertençam, de minha fazenda se ham de pagar as ditas fazendas, pera o que todas as que asy arrecadarem se carreguarão em receyta sobre o meu feytor da dita cidade, ou da fortalesa honde estiver, de que pasara conhecimento em forma pera as contas dos provedores e oficiaes a que pertencer, e tanto que asy forem carreguadas se entreguarão logo a tal pesoa sem mais nyso o feitor entender, e pera sua conta lhe ficaraa o treslado desta carta com conhecimento da dita pessoa, declarando que ficam asentadas e carreguadas sobre ele no Livro que haa de ter pera se despender nas ditas obras, como dito he, pera que em todo tempo se saiba, vindo os ditos erdeyros, o que se lhes deve, e como se guastou nelas. E mando aos contadores dos defuntos, sob pena de per- dimento de seus cargos, que pasem todas as certidões de seus cartórios e das contas que tomarem, que lhe a dita pesoa ou pesoas requererem, pera bem de arrecadarem a dita fazenda, e toda a que ouver e se achar nas ditas contas, pera que todas se entregue da maneira sobredita. E asy ey por bem e mando que todas as fazendas dos gentios e infiéis, que falecerem nesta cidade e ilha de Goa, e nas outras ilhas a ella adjacentes, e em Salcete e Bardes, e em todas as mais fortalezas e lugares meus destas partes, que me pertencem, por fallecerem sem erdeyros conforme ao foral, asy movei como de raiz, e as mais fazendas que me pertencerem por qualquer vya que seja, e estiverem sone- gadas em todas estas partes, todas se entreguem pela mesma maneira pera as obras da dita See a dita pesoa, ou pesoas, pera que tudo aja e arrecade da feitura desta carta em diante 7 7
pera elas, e nenhuma provisão de merce de qualquer das ditas fazendas que se pasar, se cumpriraa nem averaa efeyto, salvo esta, posto que seja de fazenda certa, e pesoa especial- mente decrarada, porque todas ey por nenhumas e de nenhum efeyto. Portanto o notefico asy aos veadores de minha fazenda, e ao provedor-moor dos defuntos, e a todos os ouvidores, juizes, e justiças, e provedores, e quaesquer outros oficiaes e pesoas a que pertencer, e lhes mando que asy o cumprão, e fação inteiramente comprir e gardar, sem duvida nem embargo algum, por quanto asy he minha merce, e o ey por meu serviço. Dada em a minha cidade de Goa sob meu selo a 4 de Novembro. El Rey o mandou por Dom Francisco Coutinho, Conde do Redondo, e viso-rey da índia. Ruy Martins a fez anno do nacimento de Noso Senhor Jesu Christo de 1562. — Conde Viso Rey. 78
16 CARTA DO PADRE FERNÃO DA CUNHA AOS PADRES E IRMÃOS DO COLÉGIO DE ÉVORA Goa, 3 de Dezembro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. (1) Pis. 378 r.-380 v. Pax Christi. A obrigação grande que tneho a todos esses collegios, juntamente com me ser mandado pollo Padre Gonçalo Vaz, antes que parássemos, me obriga a não tão somente lhes escrever brevemente, mas ainda a lhe dar particular conta da nossa viagem, porque sei de certo que folgarão novas de hum seo irmão que em o Senhor muyto os ama e a todos tem metido no coração. E ja que não pode ser contar-lhe tudo por palavra, ao menos por carta o farei pera que ao menos possão ter hum pouco de pas-tempo com ouvirem minhas simplicidades. Começarei do primeiro dia que partimos de Lisboa que foi a 16 de Março de 1562, Dominica in Passione. Logo trabalhei se na nao ya alguma molher de que se tivesse al- guma sospeita. Logo soube do capitão e de outras pessoas algumas que não avia nenhuma, mas que nisso se tivera muita conta. Ho capitão, piloto e mestre da nao e assi toda a mais gente nos fez muito agasalhado e nos mostrarão muyto amor, dizendo-nos que erão muyto ditosos por nos (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 296 r.-299 v. Nesta cópia o nome do autor aparece riscado. 7 9
levarem em sua companhia e dizendo juntamente que por nossa causa os avia Nosso Senhor de levar a salvamento a India e outras muytas palavras de alegria e contentamento que, certo, muyto me alegrarão e animarão para ir adiante. Despois que saimos da barra de São Gião fallei com o capitão da nao, dando-lhe conta do nosso instituto e de como nestas viagens não pretendíamos senão ajudar o pro- ximo e o serviço de Deos Nosso Senhor com o que elle muyto se alegrou, dizendo que toda a sua vida conversara com padres da Companhia, principalmente com o Padre Mestre Francisquo, contando-me muytas cousas delle em particular, fazendo-nos muytos offerecimentos, dizendo que tudo o que levava era nosso e assi toda a nao, contando-me como não somente fizera matalotagem pera si mas ainda pera todos os doentes e pobres que vinhão em sua compa- nhia e que nisto gastara mais que no seu, porque sabia de certo que este era o melhor meio que podia ter pera Nosso Senhor o levar a India a salvamento e de que avia muita v.] necessidade // na nao. Falei-lhe logo nas ladainhas que nossos padres custumão fazer nestas viagens e semelhantes exercícios. Folgou muyto com isso, mas por ao presente não aver oportunidade na nao se não começarão. Logo ao dia seguinte me mandou chamar pera me preguntar hum caso de consciência, dizendo-me que não queria emcarregar sua consciência em nada, dizendo que se tivesse a Deos contra si não poderia ir por diante e ia que eu era padre e religioso e letrado se queria aconselhar em todas as cousas comigo e não fazer nada sem meu con- selho. Sabendo elle o inconveniente que avia trazerem ar- mas na nao, mandou lançar hum pregão que ninguém trou- xesse arma alguma, ainda que fosse fidalgo nem ainda faca, senão somente o que por seu oficio o não podesse escusar. Também mandou que ninguém iugasse no convés da nao, senão aquelles que quisessem iugar, iugassem na tolda, 8 o
pondo penas pera isso iustas e convenientes. Fallando-lhe eu que posesse alguma taixa no dinheiro que se ouvesse de iugar, me respondeo que não era necessário, porque todos levavão tão pouco que não podia ser cousa notável o que cada hum perdesse. Mas se algum iugasse fato ou matalo- tagem, ainda que fosse muy pouca cantidade o mandaria logo tornar, castigando assi ao que ganhara, como ao que perdera e assi desemganou a todos que não iugassem fato algum, porque tanto que o ganhassem o avia logo de tornar a seu dono. Depois fallarão comigo algumas pessoas riquas e abas- tadas me offerercerão todas suas cousas que pertencem pera os doentes, por isso que quando viesse a necessidade fizesse conta que toda a sua fazenda estava apparelhada e obrigada a lhe socorrer. Toda a gente que veio nesta nao foy sempre muyto de- vota; assi quasi todas resavão o rosairo de Nossa Senhora, sete psalmos, e folgão muyto de ouvir as cousas de Nosso Senhor e os principais que aqui vinhão e pedião que os ensinasse e reprehendesse de seus defeitos em tudo aquilo que via e desviava do caminho de Nosso Senhor. Nas pri- meiras praticas que lhe fis lhe encomendei muito a concórdia e paz entre todos e que fizessem todos os dias exame da consciência, o que todos aceitavão, vindo sempre muyto quie- tos, sem aver nenhuma peleja na nao entre pessoas de impor- tância. Mostrão todos yrem muyto contentes e consolados com eu yr em sua companhia. Tem-me muyto respeito e reverencia, assi o capitão como toda a mais gente da nao, esppicialmente o mestre da nao que he hum homem santo e eu me não lembro aver confessado homem casado de tam verdadeira e mocisa virtude, nem ainda conversado, porque suas praticas não erão senão de religioso e de como se avia de salvar, porque não queria outra cousa senão estar bem com Deos e que tudo o mais se perdesse. Eu lhe certifico 8 i DOC. PADROADO. IX — 6
meus irmãos que, cada vez que com elle fallava, me achava tão consolado como se fallasse com padre da Companhia. Fez-nos sempre muytas charidades, assi este como o pilloto, o qual Nosso Senhor lho pague, e não somente estes mas toda a mais gente da nao; parece-me sem nenhuma duvida que tudo isto fez as oraçõis dos meos charissimos padres e irmãos, os quais liberalissimamente repartiam comigo. Dia de Ramos fizemos todos os officios que se custuma fazer, benzendo os ramos que para isso trouxemos de Portu- gal com vos emtoada; depois dixe missa e a Paixão no mesmo tom, achando-se todos os da nao presentes. Despois fiz huma breve pratica da festa, do que todos ficarão satisfeitos e con- tentes. Falei-lhe das confissõis, lembrando-lhe o tempo em que estávamos da Somana Sancta e ja que carecíamos dos officios que se fazião em Portugal e da devação, ao menos não carecêssemos do que nos podíamos, que era confessarsse todos e pera isso estava aparelhado de dia e de noite, o que fizerão muitos com muita devação e contrição de seus pe- r-] cados.// A Quinta Feira da Somana Santa fizemos o officio que nestes tais dias se custumão fazer, e assi os mais dias, ficando todos muy consolados e contentes e com muyta devação, principalmente a sesta feira, porque quondo foi ao levantar da cruz forão as lagrimas tantas e sospiros e soluços e deva- ção que ainda que não avia nella molher nenhuma que cho- rasse, os homens soprirão pera exercitarem minha frieza com choro del e lagrimas. Tratando aqui da ingratidão dos ju- deus, aplicando a isto a queizar-se Christo delles: popule meus quid feci tibi e desta pregação ficarão muytos movidos pera se confessarem geralmente, não se contentando de ha fazer desde a passada, entre os quais foy hum mancebo honrrado. Veio ter comigo a sesta feira, a noite, chorando, dizendo-me que todo o dia e noite passada não pudera durar (sic) nem assocegar, nem comer nem dormir e finalmente 82
que adoecera, não de outra cousa, senão de lagrimas e dor grande e sentimento que tivera de seus pecados, dizendo que na pregação passada lhe revolvera toda a sua vida e rebatara e ia que assi era, por amor de Nosso Senhor o quisesse ouvir de confissão, não somente da confissão passada mas de toda sua vida, porque dahi por diante queria fazer vida nova, e que estava apparelhado pera toda a penitencia que lhe desse, porque tudo seus pecados merecião. Finalmente o confessei geralmente de toda a vida com tanta consolação quanta Nosso Senhor sabe e ficou com proposito de se confessar, daqui por diante, cada quinze dias. Anda agora tão quieto que he pera louvar a Nosso Senhor, rezando cada dia os sete salmos e o rosairo de Nossa Senhora, sendo huma das pessoas que o capitão mais temia na nao de vir a pelejas. Outras muytas confissõis ouve gerais que serião dez ou doze de que Nosso Senhor muyto se serviu, per toda a viagem e muytas mais ouvera se ouvera oportunidade pera isso, as quais delatei pera outro tempo, fora esta. Ouve outras muy- tas e dias aconteceo que durarão ate perto de meia noite e todas com tantas lagrimas e devação que ainda que eu sou muyto frio me movião a ella. Outro mancebo fidalgo veio ter comigo com grande deseio de se confessar, dizendo-me que se não forão tres irmãs que tinha pobres e moças, por cuja causa vinha a índia, porque para si tinha ia o necessário, que se ouvera de meter na Companhia. A ao que lhe respondi que casasse e que amparasse suas irmãos e que se isto estivesse ordenado por Nosso Senhor, despois disto lhe ordenaria como com- prisse com seus desejos, e a assi se confessou, ficando deter- minado, dando-lhe eu ordem de se confessar geralmente. Outro mancebo desta calidade se veio a mim muito ale- gre que elle e seus companheiros, que erão tres ou quatro, se querião confessar, e este que incitou os outros, não se con- tentando de se confessar como elles, se confessou geralmente 8 3
de toda a vida. Bem me parece, charissimos padres e irmãos, que poderão considerar a alegria minha, com ver mancebos fidalgos não somente confessar desda confissão passada, mas ainda de toda vida; destas ouve outras muytas, quais porei em seu lugar. Sempre ate a linha tivemos bom tempo, vento a popa e em pouco mais de quinze dias chegamos muy perto delia, onde nos começou a visitar com ho emfadamento que cus- tuma dar aos que por ella passão. Estando quatro ou cinquo grãos atras delia nos derão grandes calmarias e emfadamen- tos, mas fez-nos Nosso Senhor merce que nos durarão poucos dias e certifico-lhe, meus irmãos, que huma cousa he escrever isto, outra he passallo, porque se por alguma cousa se ou- vesse de temer esta viagem, seria por esta causa, porque a calmaria he insofrível sem aver hum pouco de refrigério, r-] porque todas as cousas enfadão, assi de comer e// como as demais. A agoa he tão quente e fedorenta que somente toma-la com a mão emfastia; o vinho pollo conseguinte. Huma cousa que mais vezes aqui me lembrou foy hum aviso que o Padre Antonio de Quadros escreveo a Portugal, a saber: que todos os que viessem pera a índia fizessem conta e se persuadissem muito de verdade que avião de morrer em o mar, e que isto vinhão a buscar, e isto me con- solava e dava muita alegria cuidar que morria polia obediên- cia e com deseios de morrer polias almas, passava-se logo três e quatro dias sem poder comer quasi nada e assi anda- mos ate que Nosso Senhor nos visitou com huns ventos que se chamão Gerais, estando tres grãos atras da linha e assi a passamos a quatorze de Abril, cousa que ha muytos annos que não aconteceo passarsse tão cedo a linha, porque as vezes a passão pollo São João, o que não tiverão as outras naos, porque andarão vinte e cinquo ou vinte dias nellas, o que foy causa, o que foy causa (sic) de não termos doentes quasi nenhum ate chegarmos a Moçambique. Este vento nos durou 84
até altura do Cabo. Aqui nos começou Nosso Seenhor a pro- var com nos dar vento contrario e assi o tivemos quasi todo este mes de Maio ou calmarias, o que não custuma aver aqui senão grandíssimos frios. E assi estivemos nesta paragem ate que Nosso Senhor foy servido dar-nos ventos que nos posesse alem do Cabo, mas com tudo com asas de trabalho nosso, porque tivemos huma tempestade, a sete dias de Junho, que nos durou dous dias e duas noites, tão espantosa e horrenda que dizia o pilloto que dezanove vezes passara esta carreira, mas que se não lembrava aver visto cousa semelhante, posto que avia visto outras mui grandes. O vento era tão grande que não avia quem se podesse ter dereito e que os mesmos demonios vinhão com elle e chuveiros tão escuros que pare- ceião o mesmo inferno, e assi as mais cousas. Estando nos em oração no nosso gasalhado, ouvindo o choro da gente e sintindo seus desmaios, saimos pera fora e nos pusemos debaixo da tolda toda a noite rezando as ladainhas e outras muytas oraçõis. Aqui lhe fiz huma pra- tica a todos, amoestando-os a todos a que tivessem contrição de seus pecados, pidindo-lhe perdão delles, porque não avia tempo pera mais e iuntamente proposessem de os confessar e de se emmendar porque a causa das tempestades erão os pecados, e pois não avia tempo pera a confissão actual a tivessem ao menos virtual, e a fizessem mui de verdade em seu coração e que isso bastava nestes tempos, pois não avia lugar pera mais. Depois disto me tornei pera debaixo da tolda, rezando algumas vezes as ladainhas e outras oraçõis, senão quanto começão a gritar todos pedindo misericórdia a Nosso Senhor e o mestre da nao, que he hum virtuoso homem, amoestando a todos que cada hum metesse a mão em sua consciência e pedisse perdão a Deos de seus pecados porque estávamos muy propinquos a morte e a dar conta de toda a vida passada. Começarão todos a chorar e pedir mi- sericórdia a Nosso Senhor. Eu de minha parte trabalhava *5
animar a todos, especialmente, especialmente (sic) aos que estavão ao leme, donde humanamente pendia a nossa sal- vação. A este tempo o pilloto, pasmado e sem dar acordo de sy, ya não governava e se lançou fora da cadeira, todos cho- rando e bem de verdade, posto que eu não me podia per- suadir que nos aviamos de perder, confiados nas oraçõis de meus charissimos padres e irmãos que la estavão rogando por mym. E Nossa Senhora, como he mãy de misericórdia e avogada dos pecadores, nos quis socorrer e a esta nao, que tem sua invocação, Rainha dos Anjos, porque ver huma cousa tão pequena como huma nao entre mar tão feroz espanta. As ondas erão tão grandes que parecião toquar no ceo, outras que decendião aos infernos. E assi passamos toda esta noyte com asas trabalho, lagrimas e soluços, sem dor- mir nem repousar alguma cousa, e da mesma maneira o dia seguinte ate tarde. Vendo nos que não abrandava esta tempestade, temendo 1380 r.] de novo a noite seguinte a qual mostrava trazer // consiguo muito maior tempestade que a passada, lembrando-me huma devação que a Igreya ordenou pera estes tempos, a qual tinha vista, acabei com o capitão que fizesse ajuntar a gente pera a fazermos, o que elle fez logo com muyta diligencia, e assi se ajuntarão todos, ficando somente os que erão ne- cessários pera o serviço da nao. E estando todos juntos, vesti huma sobrepeliz e estola e fui-me a huma parte da nao, donde vinha o vento, estando ja toda a gente esperando por mym e verdadeiramente que era pera folgar de ver a deva- ção de todos e lagrimas. Tivemos muyto trabalho todo este tempo por o vento ser muyto grande e os mares, e por esta causa dava a nao grandissimos balanços. Eu pera que estivesse direito em pee, huns me tinhão polios braços, outros pollo ourelo, o qual me quebrarão e assi, com muyto trabalho, acabamos nosso 86
officio e com elle quis Nosso Senhor, por sua infinita bon- dade, que acabasse a tempestade e ficássemos em bonança, do que muyto se espantarão todos e derão graças a Nosso Senhor, dizendo que fora milagre vendo a virtude da pala- vra de Nosso Senhor e da Igreja. Despois fuy por toda a nao com agoa benta e hum crucifixo muyto devoto rezando algumas cousas e desconiurando os demonios e assi andei ate a noite, a qual veio tão serena e quieta que todos repou- samos dos trabalhos passados, de que avia bem necessidade, porque todo o tempo passdao nem quem podesse comer avia e assi quis Nosso Senhor que com esta tempestade acabassem todos nossos trabalhos do mar, porque daqui ate a índia não tivemos mais nenhum senão tudo bonança e vento a popa. Passamos o Cabo de Boa Esperança a 8 de Junho sem termos vista delle, o que causou despois alguma perturba- ção a nao por haver algumas pessoas que pouco entendiam que dizião que tornávamos pera São Tome, o que foy causa de gastaremos mais de quinze dias em buscarmos a terra que se chamava de Natal, porque se isto não fora tivéramos o São João em Moçambique. Tivemos vista delia o Domingo dos cinquo pais e dous peixes; preguei este dia com satis- fação. Quis Nosso Senhor que se comprisse o dos peixes em nos, porque este dia, a tarde, tendo vista de terra, em espaço de huma ora tomamos perto de trezentos peixes, de que todos comerão e saturati sunt. Favoreceo-nos Nosso Senhor logo com nos dar tempo e nos levasse a Moçambique que foy a 8 de Julho, o mais cedo que ha muytos annos que chega nao que vinha do reino, cousa que não podião crer os de Moçambique ser ja vinda nao do reino, mas cuidavão ser nao arribada. Chega- mos primeiro que todas as naos; surgimos huma legoa de Moçambique por ser assi necessário e aqui dormimos esta noite. Ao dia seguinte, polia menhã, me pedirão todos os da nao que fosse a terra no esquife da nao e que pera isso «7
nos darião gente e marinheiros que nos levassem segura- mente, porque em começando a nao de dar a vella, come- çasse a dizer missa em Nossa Senhora do Baluarte por ella, a qual estava defronte da nao, no que não recebi piquena consolação, avendo tanto tempo que não avia celebrado. Chegando a terra achei novas como aqui em Moçambi- que estavão dous padres da Companhia mandados pera Monamotapa, onde o bemaventurado Padre Dom Gonçalo tinha recebido tão grande coroa como recebeo do que ja la saberam, polias cartas do anno passado. Bem me parece que considerarão a consolação que receberíamos com acharemos aqui padres, avendo tantos dias que andavamos entre sol- dados e marinheiros, e receberíamos com aquelle guasalhado e amor que se custuma na Companhia, dos quais soubemos "•] largas novas da índia. // Aqui nos ajuntamos todos que fazíamos hum bom colle- gio e éramos onze, a saber: seis sacerdotes e cinquo irmãos, entre os que vínhamos do reino e os padres que aqui esta- vão e o Padre Andre Fernandez que depois veio de Inham- bane pera informar na India da christandade daquella terra. Emquanto aqui estivemos nos ocupamos em comfessar, pre- gar, e a mim fizerão-me capellão do esprital, confessando os doentes e dizendo cada dia missa, dando-lhe o Santíssimo Sacramento, andando la a maior parte do dia, vindo a comer a nossa casa, no que avia algum trabalho, por serem os doentes muytos e a terra muy desleixada e trabalhosa. Aqui pregamos o Padre Vicente de Tonda e eu alter- natim tres ou quatro vezes, de que todos ficarão satisfeitos. Concorria toda a gente as pregaçõis assi capitães e gente que vinha na armada, como toda a mais gente da terra em que se aiuntava hum grandíssimo e lustroso auditório de gente nobre e fidalgos com todas as sedas e veludos como nestas partes se custuma. Avia muyta devação e lagrimas nos ouvintes. 88
Isto lhes escrevo, meus amados padres e irmãos, tudo tão particularmente, fora outras cousas muytas que deixo de escrever polios não enfadar pera que louvem a Nosso Se- nhor. Bem sabem quem eu são e quam pouco idoneo pera tais exercícios, mas Nosso Senhor, por sua infinita miseri- córdia, quis suprir o que de minha parte faltava. Nisto nos ocupamos ate a partida das naos pera a índia que foi a 7 de Agosto, avendo hum mes que estávamos aqui; sempre nos achamos bem despostos todos ate que nos em- barcamos, indo em minha companhia o padre Andre Fer- nandez, o qual se achou muyto doente dum ouvido, de maneira que esteve quasi sem ouvir nada. Despois se achou milhor e como dantes, despois que chegou a Goa. Sempre tivemos bom tempo. Dia da Asumpção de Nossa Senhora, a tarde, comecei a fazer o officio que fazem nossos padres por estas partes, bautizando quasi cem cafres e mouros, ten- do-os, primeiro, bem instruídos na nossa santa fe, tendo pera isso hum interpetre fiel que lhe declarava tudo o que lhe eu dizia e insinava em sua lingoa. Fizerao-se christãos com muita devoção e alegria, assi sua como de toda a nao. Ensinei-lhe, cada dia, a tarde a doutrina aiuntando-os, pri- meiro, por toda a nao com huma campainha. Ocupados em estes exercícios e em curar os emfermos, chegamos a Goa, a 4 de Setembro, onde agora ficamos. Eu me achei mal desposto, de humas febres, de que fui sangrado duas ou tres vezes, mas ja agora me acho milhor. Despois de ter feita esta me mandarão pera Baçaim, onde agora fico muyto bem desposto, polia bondade de Nosso Senhor. As minhas ocupaçõis aqui são confessar, vi- sitar os doentes e pregar alternatim com o Padre Francisco Cabral, aos dominguos e dias santos em cassa. Isto he, meus charissimos padres e irmãos, o que se me offerece a lhes escrever. Por amor de Nosso Senhor me levem em conta todos os erros e e faltas que cometi, porque foi tudo simples- «9
mente e se não compri com seus desejos. Não mais, senão que nas oraçõis de todos me emcomendo. De Baçaim, oje, quinta feira, 3 de Dezembro de 1562 annos. Indigno servo da Companhia de Jesus Fernão da Cunha. 90
17 CARTA GERAL DO PADRE BALTASAR DA COSTA A SEUS CONFRADES DA EUROPA Goa, 4 de Dezembro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534■ (1) Fls. 355 v,363 r. A graça e amor eterno de Christo Nosso Senhor seja sempre em continuo favor e ajuda nossa, amen. Os grandes desejos, charissimos em Christo padres e irmãos, que todos os annos temos de saber novas suas e de toda a Companhia, nessas partes da Europa, nos não acres- centão pouco a consolação e contentamento que en Domino de as ouvir recebemos, e ainda que nisto nos possa mover o comum dezejo que os que estão em partes tão remotas tem de saber novas dessa terra, fiqua-nos a nos particular rezão veremos que nesas partes temos nosso prinçipio exemplar, donde com seu influxo nos animão e dispõem para o serviço de Deos, Nosso Senhor, pera com muito maior alvorosso as dezeiaremos e receberemos. E para isto não nos faltou este anno de mil e quinhentos e sessenta e dous particular rezão com a vinda dos padres e irmãos que desse reino vierão e com as felices novas que de toda a Companhia recebemos, tomando delas occasião para muito louvar a Deos Nosso (1) BAL: 49-IV-50, fls. 463r.-474v. BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 286 r.-296 r.
Senhor, polio muito que de todos os da Companhia nessas partes se servem, seja Elie por tudo muito louvado e queira, por sua divina bondade, continuar os favores e merçes que aos desta minima Companhia tem comunicado e a elles, charissimos em Christo Padres e irmãos, pague o contenta- mento que com esta charidade nos dão, a qual tãobem nos obrigua a lhes escrevermos o que Nosso Senhor, por meio dos da Companhia, nesta terra, teve por bem obrar este anno de mil e quinhentos e sesenta e dous poios que neste colégio residem, dizendo primeiro do particular exercício deste e secundariamente do exerçiçio e fruito espiritual nesta ilha de Guoa, acabando ultimo com as cousas da christandade que nela se faz e algumas missões que daqui pera outras partes se fezerão. Aos (sic) padres e irmãos que ao prezente residem neste colégio serão por todos noventa e tres, dos quais os vinte e nove são sacerdotes, e os mais irmãos, contando neste nu- mero dezasete ou dezoito irmãos, que entrarão este anno na Companhia com el (sic) (2) raras mostras de os Nosso Se- nhor mui particularmente a isso mover, dos quais esperamos se servira muito Nosso Senhor, polios bons soieitos que em partes que para a Companhia nelles a, entre os quais foi huma pessoa nobre e muito conhecida, nesta terra, e de todos os nobres delia e com grandes esperanças que o mundo lhe dava, todavia movido por Nosso Senhor, quis mais servir em casa de seus servos que guozar, com liberdade, de todos os contentamentos que o mundo lhe prometia, o qual com sua humildade nos tem muito edificado. Prazera a Nosso Senhor que o conservara em seu serviço pera gloria sua. Nestes irmãos e em todos os demais de casa da pro- vação reluz tanto o desejo de seu aproveitamento espiritual que he muito pera louvar a Nosso Senhor ver os particulares (2) BAL: claras mostras, etc.; BACIL: idem. 9 2
dezejos e fervor que Nosso Senhor lhes communica de todas as virtudes, espicialmente a da obediençia, para a qual, como particular virtude da Companhia e que mais se nos nela encomenda, lhes da Nosso Senhor particular zelo, donde proçede esmerarem-se muito nela, com huma resinação muito conforme ao sentir e querer da obediência iuntamente com muita charidade e amor com que todos em o Senhor se amão. Com que certo he mui grande occasião pera O louvar ver quam comum he em o emfluxu de seus divinos dons e gra- ças em todos os da Companhia, donde procede ficar-lhes tudo fácil, porque parece cousa mui propria e natural que quem guosta das cousas da outra vida, pollo sentimento que Nosso Senhor nesta deles lhes da, não ser muito abrasar todos os trabalhos e penitençias com tanto dezeios delas. E he tão propria esta consideração nelas que nenhuma outra cousa mais dezejão que seu bem espiritual e os meios que os a ele levão, entre os quais // lhes he mui principal [356 r.] o da exacta observância das regras, em que tem particular promptidão. Com que he mais pera louvar a Nosso Senhor ver em todos os padres e irmãos, de muitos anos da Com- panhia, serem tão promptos em todas estas cousas, como se com novo fervor as aguora comesarão. Porque he isto tanto que ainda os que muito tem andado lhes pareçe aguora come- sarem, tanta he a alegria e contentamento com que abração as mortificações e penitençias e particulares outros exerçicios de humildade, avivando muito mais os dezejos que de pade- cer trabalhos por terras remotas e faltas de todo o emparo humano tem. O que não he pequena parte pera os que de novo comessão tomarem animo pera os imitarem, não o sendo pera poderem estranhar nenhuma destas cousas, por mais trabalhosas que seião, pois em pessoas de tanto tempo da Companhia as vem tão continuas. E não acrecentou pou- quo a todos estes dezeios de sua perfeição, pera os executa- rem, com maior fervor e promptidão, os avisos e ordem que 9 3
de la nosso reverendo em Christo Padre Liconimo (3) Nadal nos mandou, com os quais todos forão mui consolados, por verem o particular cuidado que de nos todos tem, ainda em partes tão remotas pera nos ajudar en tão pios meos de nossa perfeição, ainda que não podemos deixar de sentir a falta de sua prezença e tratamento de que elles la guozão, do qual tanto mais dezeio temos, quando por suas cartas no-lo mais encaressem e os Padres e irmãos que desse reino vierão no-la mais a meude propõem. Prazera a Nosso Senhor que ja que isto não pode ser, nos concedera sua divina Magestade todo o fruito que em nossas almas sua benigna visitação poderá causar. Neste collegio, em a casa da provação, se continua o tempo da oração, exames e praticas e conferençias de cada somana, iuntamente com ho exerciçio dos offiçios da humil- dade e mortificação. O qual, ainda que nelles sempre foi continuo, aguora com esta nova lembrança se acressentou tanto que folgara poder-lhe na narração desta materia guas- tar muito tempo, porque poderá dizer muito de sua mortifi- cação continua e desprezo e resignação da propria vontade, da sua alegria nos desprezos, de seu contentamento e re- pouso, em os trabalhos de sua paçiencia e humildade. Tomão também, com muita edificação, suas disciplinas, no refeitório e fora dele, quando a obediência lho permite, o que ella faz com muita moderação, por os trabalhos de que de continuo andão os irmãos destas partes não pedem neste genero de penitencias tãota frequençia como elles de- zeião. O que he muito para louvar a Nosso Senhor, que, sendo este colégio, onde vem a gareçer (4) os que por diver- sas partes andão trabalhando, na vinha do Senhor, com regu- roso tratamento de suas pessoas, por a disposissão das terras (3) Assim se lê na cópia da BNL o nome do P.° Jerónimo Nadal; BAL: Jeronimo Nadal; BACIL: idem. (4) Ou guarecer. Termo antigo significando curar-se, convalescer, etc. 94
em que andão no neguoçio da converssão lhes não primitir nenhuma remissão nos trabalhos contínuos, assi são aqui promptos em todos estes exerçiçios e observançias, que bem mostrão o quão diante dos olhos os sempre tiverão, em todo o tempo de sua peregrinação, por as terras por onde andarão. E certo que he muito pera louvar a Nosso Senhor ver huns, velhos, outros, debelitados e cansados, com muita consolação procederem iuntamente com os que de novo comesão, com tanta ygualdade em todos os offiçios baixos, como no lavar da louça, todos os dias servir a mesa e na portaria, levar de comer as costas aos companheiros que no hospital estavão e outros mais que por brevidade callo. Deos Nosso Senhor seja, por tudo, muito louvado, pois com sua divina graça tão particularmente nos insita. Exerçitão-se também os irmãos em alguns offiçios de humildade e charidade fora da casa, como em servir ao com- prador o que compra, as costas, com muita edificação e occasião de mortificação, porque quanto os offiçiais mais disto tem, tanto são mais deseiados de pessoas conhecidas e a que a natureza penitus repugna, com o estado que dantes tinhão. O que he causa de algumas pessoas nobres se lhes offereçerem a levar nos cavalos toda // ou parte da carre- [356 v.] gua, como os dias passados aconteçeo a hum dos nossos, que levãodo em hum cesto de comer aos nossos, que estavão no hospital servindo aos doentes, como em seu lugar se dira, se lhe offereçeo hum fidalguo dos prinçipais a lho levar e, segundo creo, com impurtunação. E estas e outras cousas deste metal (sic) causão em todos grande comçeito da Com- panhia. Uza-se também irem pedir por amor de Deos polia cidade, alguns dias antes, os que ão-de fazer seus votos, de que muito os que os vem se edifiquão. Praza a Nosso Senhor que tudo seia para melhor gloria sua, que he o que em todas as obras da Companhia se pertende. 9 5
Este anno de mil e quinhentos e sesenta e dous nos quis Nosso Senhor visitar com algumas infirmidades que também são das de sua divina mão, e alguns irmãos com doenças periguosas das quais, por sua divina bondade, quiz dar-lhe saúde. Alguns outros tiverão algumas infirmidades mais le- ves do que também convaleserão. Foi Nosso Senhor servido de nos levar pera si hum irmão, por nome Francisco Fereira, de humas febres que teve muito arrebatadas; tanto que em espaso de dez dias o guastarão. Faleçeo vespora do Anjo Custodio, cujo favor confiamos lhe seria naquele dia o tran- sito mui particular, o qual faleceo tão religiosamente como em sua vida viveo. Tomou todos os sacramentos e no dia da Eucharistia teve particular favor de Nosso Senhor, por- que avendo alguns dias que estãodo alienado de huns franesis que lhe acodio subitamento o tornou a seu juizo pera o poder tomar com reverençia e acatamento e depois de tomado acabou com colloquios com Deos não falando dantes dis- tintamente. Dia das Onze Mil Virgens, de noite, nos levou Nosso Senhor tãobem o Irmão João de Modones, italiano, que desse reino veo ho anno pasado, de huma indispoçissão do estamoguo. Faleceo com muita conformidade com Deos Nosso Senhor e com tanto repouso que bem mostrou o que sempre tivera vivendo no serviço do Senhor. Tomou antes do seu tranzito todos os sacramentos com muita devoção e dezeio de se ver com Deos Nosso Senhor. Ficamos todos com seu apartamento muito saudosos, pollo exemplo que com sua muita virtude, mancidão e charidade em sua vida nos dava. Em o tranzisto destes dous irmãos se achou o Padre Provincial com o Padre Francisco Roiz, com os Padres e irmãos deste collegio, emcomendando-os muito a Nosso Senhor e fazendo-lhe seus offiçios com muita charidade. Deos Nosso Senhor seja sempre louvado em a vida e morte de seus servos. 96
Em os exerçiçios escolásticos deste collegio se procede com a ordem que os annos passados se tem escrito. Creio se servir muito Nosso Senhor deste exerciçio nesta terra pollo muito fruito que nos mossos delia resulta. Quererá Nosso Senhor sempre augmenta-la para mais seu serviço. Temos tres classes de Humanidades e huma em que se le o cursso e huma em que se le a theologia que por todas são sinquo, na qual o Padre Provincial le de Prima huma lição da primeira parte alternatim com outra de São Paulo, na primeira epistola ad Corintheos; le também o Padre Francisco Roiz outra lição de vespora, materia de Sacramen- tis e alternatim com huma lição de Ensaios (?), ainda que as ocupações de seus carreguos, que são muitos nesta terra, pollo muito concurso de pessoas que vem a tratar com elle casos de consciençia, iuntamente com os negoçios dos padres que residem em diversas partes. Todavia se despoem, ainda que com dobrado trabalho a faze-lo, pollo muito fruito que vem que resulta nos padres e irmãos que os ouvem. O padre Bastião Gonçalvez, que de la veo, comesou a continuar o curso, alternatim, com o Padre Pero Vaz, que ia avia hum anno que o lia com mediocriter satisffação. Dos muitos dos mestres das outras classes e dos discípulos que nellas aodão da Companhia, saberão com a lista que com esta lhe vai o numero dos estudantes que de fora nos nossos estudos andão. Serão cento e setenta e com os irmãos de casa cheguarão a perto de dozentos, alguns deles boas abelidades; estudão mediocritamente com a diligençia que seus mestres niso põem. Ten-se também conta com os fazer confessar, conforme a regra,//as quais lhe fazem comprir em todo o 1357 r demais. Le também o Padre Francisco Perez huma lição de casos de cassa (sic) a alguns padres e aguora a le o Padre Mesquita em seu lugar. Depois da Pascoa de Resureição, que he o tempo em que qua se acabão as ferias, reprezentarão os estudantes hum dia- 97 DOC. PADROADO. IX — ^
logo, cuja materia era prepor as letras a milicia. Veo boa copia de gente em que entravão alguns fidalguos e pessoas e nobres e letrados, os quais muito satisfeitos de tão bom exerciçio e o despejo com que os estudantes a (sic) repre- sentarão. Repre2entou-se nos estudos que pera isso estavão armados com panos de China e muitos ramos, os banquos alcatifados juntamente com a cadeira que estava ornada com riquas alcatifas, em que hum dos estudantes teve antes do dialoguo huma oração que duraria espaço de mea ora com mediocre acção e prolação. Dia das Onze Mil Virgens, fizemos o prinçipio de nossos estudos, que qua se acustuma a fazer neste dia, pera o qual os estudantes muito avia se andavão aparelhando, com suas orações e epigramas, boas e bem ordenadas, de todos os debuxos custossos, com as quais ornavão as crastas. De ma- neira que muitos dos de fora e de cassa se afirmem dizerem excederem aos (sic) de qua no ornamento e multidão os (sic) (5) estudos de Évora e Coimbra, ainda que na elegan- çia e facúndia ficamos algum tanto atraz. Estavão as colunnas da crasta com riquas alcatifas em que estavão preguados alguns inimas e alguns epigramas bons, que os nossos fizerão. Os meninos de ler e escrever poserão tãobem seus treslados de muito boa letra, porque para escrever tem especial dom, ornados com muito ouro e riquos debuxos com algumas contas de arismetica dificul- tossas do padre, prometendo o treslado a quem lhas fizesse, para que tãobem a estes não faltase motivo que os movesse a folguarem de saber. Todo o mais estava ornado o milhor que se pode, e segundo o tempo se teve huma oração em louvor de Sancta Ursula e das Omze Mil Virgens, a qual fez o Irmão Estevão Dinis, mestre da primeira classe. (5) Houve aqui erro manifesto do copista. Na cópia da BAL lè-se: excederem os de qua no ornato e multidão, os estudos de Europa... 98
Representou-a com acção e satisfação dos ouvintes que todos dezeiavamos. Esteve a ella o Senhor Arçebispo e al- guns religiosos da Ordem de São Francisco e São Dominguos com os mais dos fidalguos e nobres que avia nesta corte. Vierão também os vereadores da cidade e alguns letrados e pessoas que entendião com muito outro povo, os quais todos ficarão muito satisfeitos. E, acabada a oração, se repre- zentou hum dialoguo em hum cadafalso que pera isso estava ja aparelhado, todo alcatifado. Entrou primeiro hum minino muito pequeno; recita (sic) (6) huns versos macharronicos, nos quais se dizia a ordem do dialoguo e fazia isto com tanto lepor (7) que ainda os muito graves o festejavão com se rirem de seu despejo e segurança em tal linguoagem. Saio logo o primeiro autor, e o segundo e terceiro por ordem com suas entrepelações de choros, cuja muziqua era mui suave polias boas falas e instrumentos de muzica que nelles avia. Destes choros avia dous que se altemavão de diversas partes, o que muito aformoseava a instancia, polia variedade que de diversas partes vião responder. A materia do primeiro auto foi huma altercação de dous estudantes, hum deles dos da India e outro dese reino, sobre o ornam dos estudos, cada hum preferindo nelle sua pratica, tomando por juiz hum estudante da India que o la fora outro tempo en Portugal, para que como quem sabia de la e do de qua, julgasse o que fosse. No segundo auto entrou hum çenturio aqueixando-se de hum filho seu, e reprehendendo-o por o sentir mais incli- nado as letras que a milícia, fazendo-lhe grandes ameaças com hum furor militar se não desistia do seu proposito. Aqui se achava acaso hum homem casado, cujo filho, pollo con- (6) BAL: recitando. (7) Lepor. Termo latino a significar graça, agrado, etc. 99
trairo, era mais inclinado a arte militar que as letras, e re- prendia o centurio por tirar o filho de tão bom proposito. Este auto foi pêra ver, porque o centurio descorreo por alguns estados que os homens letrados tinhão, e em nenhum achava algum proveito, querendo disto provar quão pouca utilidade avia nas letras. E pollo contrario, quanto avia na milícia, pola qual se aquirião os reinos e impérios, o que o outro reputava (sic) doutamente. No terceiro entrarão dous estudantes travessos a juguar os livros, os quais o fizerão com tanto lepor que paresçia £357 v.] ser-lhes natural aquele exercício, não // o sendo, porque erão mininos muito pequenos e que não o sabião doutra parte. Estes vierão tomar na empresa outros dous estudantes que lho estranharão, prometendo de os accusar a seus mae- tres. Aguastados huns dos outros, determinarão sua supirio- ridade pera com os outros com discotirem, fazendo alguns versos de repente em onra de Sanaa Ursula, a quem os faria melhor. Com isto acabarão com muito aplauso de todos. Isto he o pouquo, charissimos em Christo irmãos, o que de nossos estudantes nestas partes se lhes pode dizer, que bem creo parecera bem pouco aos que muito disto nessas partes vem. E nos meninos (8) de ler e escrever se faz tãobem muito fruito, fazendo-os confessar e doutrinando-os e nisto andão tão destros e afeiçoados que nos dizem que, de noite, por a maior parte desta cidade se não ouve outra cousa por casa dos cidadões (sic) senão a doutrina que os meninos de nossas escolas estão ensinão aos escravos e criados de sua casa. Tem delles cuidado dous irmãos, por passarem de quinhen- tos meninos os que andão nesta escola, os quais lhe ensinão tãobem arismetica, que he o que qua muito serve, por ser terra de muitos mercadores, o que causa virem muitos (8) BAL: Com os meninos da escola de ler e escrever se fas... etc. I O o
homens tãobem a aprender e, avendo outras escolas polia cidade, os mais delles concorrem a nossa, assi polia doutrina dos mestres que são bons escrivães, como tãobem polios bons custumes que nella aprendem. Prazera a Nosso Senhor que lhes dara graça para se aproveitarem no mais da vida da boa criação que nella tiverão. No edifiçio material deste collegio ouve tãobem este anno muito agmento, no qual se acabarão as tres capellas prinçipais da igreja nova, que se faz com tanta obra e arti- fiçio que afirmão algumas pessoas que, se esta obra se fizera em pedra, que fora mais trabalhosa de lavrar do que a desta terra, que he muito façil, se não poder fazer este templo senão de algum prinçipe que nelle quizera guastar algum bom golpe de dinheiro, porque leva todas as molduras e obra romana por dentro e por fora, que se aguora costumão. A abobada das capellas he hum artifiçio que elles chamão de berço, muito forte e não menos custoso, por ser toda feita em painéis quadrados que afromosentão muito a obra. Mas o ser a pedra desta terra muito façil de lavrar, e os offiçiais de menos custo, se faz o milhor que se pode. Depois de fei- tas, as capellas se encorporarão com a igreja velha, e que fica servindo per corpo da igreja. Dise-se missa nella dia de Corpus Christi. Aqui veo o viso-rei, com toda esta corte. E acabarão-se de fazer tãobem huns cubicullos em hum lanço da crasta que ja estava feito e acabou-se da mesma crasta que ja estava começada, na qual fica a sãochristia na grão- dura e proporção do edifício, na qual tãobem fiqua a ser- ventia das crastas de sima, juntamente com o capitulo. Aguora se comesa a fazer outro lanço da crasta. Prazera a Nosso Senhor que nos ajudara também nisto, para se poderem aguasalhar tantos irmãos quantos aqui estão, por- que aguora em todos os cubículos pousão de tres em tres. Faz-se tãobem hum claustro para os estudos, no qual se fize- rão sinquo classes pera se ler, e huma mais pêra os meninos
de ler e escrever. Isto he, charissimos padres e irmãos, o que se tem feito dos edifícios materiais deste collegio, ainda que com muito trabalho, porque chegou a cousa a se levar mão da igreja, que era o que mais pretendíamos, polia necessidade que delia tínhamos e, segundo he entendido, he por falta do necessário. Quanto ao fruito espiritual que deste collegio se faz nas almas dos proximos, que he a segunda cousa que se lhes escreve, he muito, polia bondade de Nosso Senhor, dizendo primeiro do que toca ao administrar dos sacramentos. Ordi- nariamente ha arezoado concurso de pessoas que se vem a confessar a este collegio, porque alem dos confessores ordi- nários estarem comummente occupados, aos dominguos e sabados he necessário acrescentar-se o numero deles, com nisto ajudarem tãobem os padres que lem e estudão, no que [J58r-1 tãobem // ajudão o Padre Patriarcha com o Padre Bispo, o qual ainda que sua ma disposissão a isso lhe não da lugar, poios muitos paroxismos que de sua asma tem, os quais o muito debilitão, todavia en seu cubículo, quando a infirmi- dade a isso lhe da luguar, confessa tãobem boa copia; espe- cialmente na Quaresma passada foi esta frequençia muito maior, porque todos não bastavão a satisfazer com o numero dos penitentes, por comumente concorrer a maior parte da gente aos nossos, pollo bom ajuntamento que nelles achão e devação que lhes tem, especialmente os christãos da terra e escravos, os quais, polia muita afabilidade que nos padres achão, concorrem a eles. Deos Nosso Senhor nos de graça para continuarmos obrar (sic) de tãoto seu serviço, porque desta comumente proçede mais que das outras. Muito fruito hai de amizades, como mudanças de vida; fizerão-se algumas confições geraes e de muito tempo, de que Nosso Senhor muito se sérvio, pollo fruito que delas commumente resultão. Alem do concurso que na Quaresma passada se teve, ho / o 2
ha sempre em todas as festas principais, nas quais sempre se comfessa e comungua e toma o Santíssimo Sacramento muita gente, como na Asumpção de Nossa Senhora, que communguarão na nossa igreja quinhentas pessoas, pouco mais ou menos, que he muito nesta terra, por a mais da gente serem soldados, nos quais não ha tanto repouzo para a devoção; e outros tantos comunguarão dia de Todos os Santos, afora muitos que, confessando-se com os nossos, vão tomar o sacramento a suas parrochias. E daqui poderão collegir o que sera nas festas prinçipais, e não he pequena parte para esta devação a lembranças (sic) que os nossos alguns dias antes, pregando-lhe, fazem, encarecendo-lhes o proveito e frequentação dos sacramentos. Alem das confiçõens de casa se acodem tãobem as que se podem pera a cidade, como a emfermos feridos e neces- sitados, os quais accorrem a este collegio, polia muita faci- lidade que tem em lhe socorrer. Nestas confiçõens de fora se serve muito a Nosso Senhor, assi polia necessidade que nelles ha, como tãobem polia con- junção en que se lhes acode, porque muitas vezes, acaban- do-se de confessar, se lhes acaba também a vida, como poucos dia ha aconteceo a hum bom velho que, acabando de se confessar a hum dos nossos, e pedindo-lhe que lhe rezase hum evangelho, estando-lho dizendo, deu a alma a seu Cria- dor. Elie seja sempre louvado por tão divinos meos, como os que pera nossa salvação nos deixou. As preguações se continuarão sempre dos nossos assi em nosa igreja aos dominguos e dias sanctos, como na see desta çidade aos dias sanctos alternatim com os padres de São Dominguos. Pregua-se tãobem aqui de cassa em ha fregue- zia de Nossa Senhora do Rosairo. Em nossa cassa pregua o Padre Provinçial e o Padre Francisco Roiz, e tãobem pre- guão na see alternatim as mais das vezes. Em nossa casa pregua tãobem algumas vezes o Padre Francisco Roiz e ho / 03
Padre Manoel Teixeira, o qual tãobem algumas vezes, alter- natim, com ho padre Balthezar Dias no Rozairo, que nesta freguezia pregua comumente. Na Coresma, como tempo mais proprio desta obra, se frequentarão mais as preguações, no qual cada somana se fazião seis, sete preguações, na çidade e fora delia, com bom concurso de ouvintes. En algumas freiguezias, especialmente em huma, da paixão, que o Padre Francisco Roiz aqui fazia, as sestas-feiras, a tarde, a qual acodia muita gente; que mui- tos, por não perderem lugar, se deixavão depois da missa fiquar na igreja, e outros intravão em cassa de algumas pessoas que pouzavão perto do collegio, por poderem acodir mais cedo, tãoto era o fervor e davação com que acodião a esta preguação. E sempre acontecia que, dando meo dia, es- tava ja a igreja chea, avendo-se de se comessar a preguação as quatro oras, o que não poderão sofrer, se disto não tiverão grande dezeio, por ser isto en tempo das maiores calmas que ha nesta terra. Finalmente era a gente tanta que não fiquava terreiro de crastas que tudo não occupassem e maior parte [358 ».] da gente // se tornava, por não acharem lugar dentro nem fora da igreja, donde podessem ouvir, nem bastava darem antão liçenca a algumas pesoas nobres para virem ao choro. E como disse, em todo este aperto se sofrião ate acabar a preguação, na qual avia muito sentimento e lagrimas de muitos, que era muito para dar graças a Nosso Senhor. Acabada a pregação se saia, como se aca custuma, com hum cruçifiçio (sic) em procissão, em que ião muitos penitentes ate a Misericórdia desta cidade e dahi tornava a nossa casa, donde se acabava. Acabado o trabalho da Coresma se fiquarão continuando as preguações que dantes avia com muita satisfação de todos; espeçialmente aqui, a nossa igreja, concorre a maior parte dos nobres desta corte, os quaes, depois de acompanharem o visso-rei ate a igreja, aonde ha-de ouvir, se vem a nossa 104
igreja a ouvir missa e preguação, especialmente as do Padre Provinçial, de que muito se satisfazem. Avendo-se de pre- guar no primeiro auto da Imquizissão, que nesta cidade se fez, a çlle lhe pedio o senhor arçebispo que o fizesse, a qual fez com muita satisfação de todos. Alem das preguações ordinárias que comumente se pre- guão deste collegio se alguma outra fosse de do (sic) oraguo ou festa particular de alguma igreja, a este collegio se socor- rem. E assi as mais das preguações que nesta cidade e ilha se preguão, como abaixo se dira, quãodo se escrever da chris- tandade, são polios da Companhia, de que se segue muito fruito. E pera que saibão de algum particular, aconteceo que preguando hum dos nossos a hum proposito, toquando em as obriguações e males do joguo, acabada a preguação, se saio hum homem homrrado apos elle chorando e saluçando lhe disse que tudo o que tinha fora aquirido por joguo, mas que estava aparelhado pera restituir tudo o que tinha mal ganhado, e assi prouve a Nosso Senhor que fez restituição de perto de dous mil pardaus. Em outra preguação lhe saio outro ao encontro, dizendo que a elle lhe tinha feito huma injuria, mas que, por temer a Deos, polio que a Sua Reve- rençia ouvira, se não queria vinguar por si, mas por justiça, se ao padre parecesse, o queria fazer. Dizendo-lhe o padre que ainda aquilo, por amor de Deos, era bom perdoar, diante do padre rompeo alguns papeis que pera este efecto trazia. Seja o Senhor louvado de quem tais monimentos procedem. A doutrina dos meninos se continua fazendo-se cada dia em nossa igreja, indo primeiro os irmãos chamar os meninos com huma campainha polia cidade. Temsse tãobem dado ordem com que cada dia se faça nos carçeres dos portuguezes e dos christãos da terra, e na cassa dos captivos de el-rei e forçados das galles, indo-os visitar todos os dominguos pera ver se tem alguma cousa ou necessidade espiritual. E, ten- / 05
do-a, se lhe socorre. Neste inverno pareçoe ao Padre Pro- vinçial ser conveniente que huma ora depois de jantar se guastasse com os sacerdotes conferirem casos de consçiençia, e na mesma ora em o outro dia alternatim em declarar entre todos as conseções e bulas da Companhia para que se delias tivesse milhor notiçia, vendo a de nosso instituto, em que particularmente se nos emcomenda o insino dos meninos rudes nas cousas da fe. Pedirão os sacerdotes ao Padre que, pois os irmãos fazião cada dia a doutrina, pollo menos lhe concedese a elles fazerem-na aos dominguos e, offereçendo-se cada hum para isso, o alcansou o Padre Francisco Roiz, ordenando o Padre que fossem mais companheiros polia çidade, e se tamjese o sino para que desta maneira acudissem muitos meninos e escravos, aos quais ho Padre Françisco Roiz declara a doutrina de huma cadeira em sua linguoagem de quando em quando, e ho que ão-de fazer pera fazer e viver christamente. E juntamente na companhia destes acode muita outra gente portugueza, que tãobem disso se apro- veita. Isto se encomenda nos púlpitos pera que todos mão- dem seus escravos, por ser cousa de que tãoto fruito lhe [359 r.] resulta em suas almas. // Na resulução dos cassos de consçiençia se serve Nosso Senhor tãobem muito neste collegio com muitos de muita importançia, polios muitos tratos que nesta terra ha. E causa isto muito credito que aos nosos tem assi em virtude como em letras, donde nasçem (sic) concorrerem a esta casa com as mais duvidas e mais importantes que em sua consçiençia sentem e, comforme a resultação (sic) que dos nosos levão, se ressolvem e o executão. Em algumas amizades se sérvio tãobem Nosso Senhor por meo dos da Companhia, e algumas delias de importan- çia, e para que se digua de algumas em particular se dira das que paresse mais Nosso Senhor se sérvio. Duas pessoas no- bres, ambos capitães de fortaleza de el-rei em estas partes, t ' i o 6
* por alguns desguostos que antre elles passarão, socedeo desa- fiarem-se, e quis Noso Senhor que com se meterem nisso alguns padres, não ouve effecto, antes fiquarão correntes e amiguos como dantes. A huns irmãos nossos aconteçeo tão- bem nos impidirem outro caso tãobem grave, os quais indo a hum dos passos desta ilha a doutrinar os christãos que neste avia, estando falando com ho capitão da fortaleza da- quelle passo, encomendando-lhe o bom tratamento dos chris- tãos, e passou hum soldado honrrado por diante delle, a que os dias passados o capitão tinha dito que não passasse mais por diante delle, por hum certo caso que antre elles passara, o qual, tãoto que ho vio, não no podendo sofrer polio que dantes lhe tinha preçedido, pedindo hum montante e cha- mando os seus com armas deixou os irmãos e se foi a elle, o qual o estava esperando pêra se defender delle. Correrão loguo os irmãos a elles, por ao prezente se não acharem ahi outras pessoas que os podessem apartar, e aprove a Nosso Senhor que por então os impidirão de se não matarem, como pareçia provável, e, porque o impeto com que então estavão pedia mais, os fizerão recolher, e os irmãos se forão doutrinar os christãos e, acabada a doutrina, se tornarão a elles, tra- tando com hum e com outro as amizades, e prove a Nosso Senhor que os fizerão amiguos, fiquando muito conformes. Como neste inverno invernnasse nesta cidade muita gente, os quais comumente são soldados, nos quais ha todo o desasoseguo e alvoroso, ouve nelles alguns dezafios mais que nos passados, muitos dos quais, louvores a Noso Senhor, por meo dos da Companhia se impidirão. Aconteceo tãobem a hum soldado homrrado dar huma bofetada a outro que tãobem era pessoa de calidade, ho qual elles hão que se não satisfaz senão com a morte, e asi andava avia muitos dias ho injuriado, com proposito de ho matar, com gente que pera isso trazia, sem o disto poderem tirar muitas pessoas e ami- guo (sic) seus que nisso lhe falarão. Todavia aprouve a Noso i o y t
Senhor que, metendo os padres a mão nisso, o acabarão fazendo com o injuriado e com o outro que o injuriara admitisse algumas das condições que o outro pedira pera satisfazer com sua honrra, e assi foi porque ambos vierão a este collegio em companhia de algumas pessoas nobres, onde o que o injuriara se pos de giolhos diante do outro, pedindo perdão, com outras satisfações de palavra, que lhe fez, e asi os fizerão amiguos, com muita satisfação de ambos, abra- sando-se e amostrando outros sinais de amizades. E quis Noso Senhor que, dahi a alguns dias, o que o injuriara, movido de huma preguação de hum padre nosso, entrasse na Com- panhia, e nesta persevera com muita humildade e satisfação de todos, com dezejos de padecer toda a injuria por Christo, que por nos tanto padeceo. Elie seia muito louvado, por tirar sempre de tais males tantos bens. Do ospital dos emfermos se tem sempre particular cuidado, porque, alem dos do hospital de el-rei e Misericór- dia, que he dos incuráveis, serem sempre vizitados dos padres e irmãos, se tem particular assumpto do hospital dos nova- mente convertidos, que he do que este collegio tem parti- cular administração, do qual tem cuidado o irmão Pedro Afonso, surgião, de cuja ordem e fruito que nele se faz abaixo se dira, o qual he muito porque não somente nelle se acode as neçessidades dos novamente convertidos, mas [359».] ainda são nelles // ajudados alguns portuguezes neçessita- dos, que a elle vem busquar remedio de infermidades in- curáveis, polias grandes curas que o Irmão Pedro Anfonso (sic) nele faz, e também polia muita charidade que nelle sempre achão. Este anno de mil e quinhentos e sesenta e dous, chegua- rão a esta barra de Guoa sinquo naos, em que vinhão os padres e irmãos que dese reino partirão. Ja podem, cha- rissimos in Christo padres e irmãos, ver a alegria e conso- lação que neste collegio se reçeberia, com a vinda de tantos i o 8
e tais companheiros, que de tão longe vinhão ajudar seus irmãos em seus trabalhos, sendo tão dezejados e neçessarios para tantos e tão grandes serviços de Deos, como nestas par- tes ha. Deos Nosso Senhor sabe que foi grande a consolação que com sua vinda e novas que nos trazião reçebemos, seja Noso Senhor com tudo muito louvado, por en terras tão remotas nos ajuntar pera o ministério da dilatação de seu nome. Tanto que se soube que estavão na barra, mãodou loguo o Padre por elles, com muito refresco, e os troxerão loguo a este collegio, onde forão recebidos de todos os padres e irmãos, com o alvorosso que merecia tão comprida perigri- nação. Acabado o recebimento que durou todo aquelle dia e parte da noite, na qual com muito dezejo se abrirão os massos, comesando-se de se ler as letras loguo ao outro dia, nas quais vimos o muito que Noso Senhor tem por bem de dilatar esta sua minima Companhia nesas partes, servindo-se muito dela, e o que principalmente nos acresentava esta alegria era vermos que, ainda que estávamos dessa terra alonguados, lhes éramos sempre prezentes, polia muita cha- ridade e lembrança que de nos tinhão, e conosco uzão, pois estando quinhentas mil legoas da Europa, sabemos do mais minimo, e de todos os serviços que por meo delia a Nosso Senhor nessas partes se fazem. Creão, charissimos em Christo padres e irmãos, que he isto grande consolação pera nos fação charidade (sic) que por nenhuma maneira caressamos delia, pois com isto nos tanto consolão. Os enfermos, que nesta nao vinhão, estavão ja esperando no hospital avia alguns dias sinquo ou seis irmãos para os curar e servir com alguns padres para os confessar, o que como cheguarão comessarão loguo a fazer com muita edifi- cação, consolando-os e animando-os nos trabalhos da doença. Mas como os emfermos este anno fossem mais que os pas- sados, porque cheguava o numero delles a cento e sinquoen- / o 9
ta, foi necessário acressentar mais irmãos, pera os doentes poderem ser milhor servidos, e os irmãos poderem levar o trabalho com mais façilidade, e serião com os sacerdotes e irmãos, por todos, doze ou treze os que no hospital aquele tempo rezidião, e assi repartirão suas occupações: os irmãos entendendo em o serviço e cura corporal, e os padres em o espiritual, com lhe administrar o Sanctissimo Sacramento, e assi em breve tempo forão todos confessados. Tãobem acudirão a esta obra, polia muita necessidade que avia, alguns religiosos da ordem de São Francisco e São Dominguos, os quais consolarão tãobem muito aos doen- tes, estando com elles quasi todo o dia. Tãobem acudirão alguns seculares, pessoas nobres, e que tomão por devação servir por algum espasso os doentes, os quais se edificavão muito dos nossos irmãos, dizendo algumas palavras em que mostravão sentirem bem do espirito da Companhia. Deos Nosso Senhor nos de sempre graça para que o sirvamos sem- pre fielmente. Asi como na vida se ajudão os proximos a bem viver, asi tãobem se ajuda in extremis a bem morrer, como en tempo mais neçessario, e en que mais pereclita a salvação de suas almas, e asi se acode a esta obra com muita prompti- dão en qualquer tempo que para ella nos chamão, de que nasce edificarsse muito este povo, por ver que não temos tempo em que não estejamos prestes pera acodir a suas necesidades, e porque nos tem a mais da gente amor, e alguns dizem que fora delles se os da Companhia a estas [360 r.] partes // não vierão, pera os doutrinar e ensinar a ser christãos. Tãobem se acompanhão os que por justiça ão-de pade- cer, de que tem particular cuidado o Padre Balthezar Dias, que com muita charidade exerçita esta obra, consolando-os e ajudando-os a morrer bem, persuadindo-os a tomar a morte com paciençia, o que não somente se faz aos christãos, mas i i o
ainda aos gentios; a huns para os consolar e esforçar, e a outros pera ver se os podem persuadir que se fação christãos, antes que morrão, e como os offiçiais da justiça isto saibão não levão nenhum gentio a padeser, sem primeiro manda- rem chamar padres aqui a casa, por terem de nos entendido que folguamos com isto. E assi aconteçe converterem-se muitos antes de mor- rerem, com saberem que nem por isso lhes ão-de dar a vida temporal. E huma vez aconteceo que indo a justiçar hum destes desta cidade, hum bom pedaço de caminho que era o luguar donde fizera o malefiçio, diserão os offiçiais da justiça ao padre que se tornasse, ja que elle se não convertia, porque fazia grandes calmas, e o caminho comprido daria trabalho a Sua Reverencia, sem nenhum proveito. Todavia não quis o padre senão ir, pedindo-lhes que lhe mãodassem levar huma vazilha de agua, para que, se ouvesse occasião, o podesse baptizar. Assi quis Noso que junto do luguar, onde avia de padecer, se converteo. Aconteçeo tãobem que indo justiçar outro gentio, ao qual o padre aconselhava que se fizesse christão, se chegou hum seu parente gentio a elle, dizendo-lhe que o não fizese de nenhuma maneira, e que morreçe na lei de seus antepa- sados, e na que elle ate antão vivera. Respondeo-lbe o gen- tio que queria morrer na lei dos christãos, porque cria ser lei verdadeira em que os homens se salvavão, por isso que avia antes de tomar o pareçer do padre antes que o seu, e que pedia que a sua molher e a seus filhos, depois da sua morte, lhos fizesem christãos, e assi acabou com o baptiza- rem antes que padecesse. Vindo a primeira parte das cousas da christandade, dir- -se-ha primeiro do que Deos Noso Senhor neste anno fez, por meo da Companhia, e secundariamente da conserva- ção e doutrina da ja feita os annos passados. E quanto ao primeiro, se baptizarão neste collegio, desde
o primeiro de Dezembro ate quinze de Novembro de mil e quinhentos e sesenta e dous, seissentas e oitenta e sinquo almas, preçedendo primeiro seus catesismos, como se acustu- ma en as igrejas desta ilha. Aqui os irmãos vão doutrinar. Os christãos se baptizarão alguns dozentos, pouco mais ou menos, pello senhor arçebispo, que tomou esta obra sobre si, ao aver assi ordenado. E, porque os meos por onde Noso Senhor trouxe alguns destes são notáveis, direi de alguns en particular. Nesta cidade avia dias hum mouro cassado com huma moura, de que tinha quatro filhos, antre os quais tinha huma menina de boa idade, a qual o Meale lhe pedio, que he hum mouro que pertende ou se diz ser rei das terras firmes, por direito, pera molher de hum seu filho, por o pai da minina ser homem onrado, e que ja en outro tempo fora capitão nas terras firmes, e por a menina ser pera isso e quanto o filho dezejava muito cassar, a mãi, não podendo sofrer a absençia da filha, ou por Noso Senhor assi o querer, detre- minou de se fazer christão, juntamente com os filhos que tinha, que erão muito piquenos, persuadindo a filha que tãobem o fosse. Todavia o pai levou-a de cassa e entregou-a ao Meale, a quem a tinha prometido. Vendo a mãi isto, veo-se a este collegio, dizendo que ella se queria fazer christã, com os filhos que tinha, e que lhe soccorressem, que lhe levarão huma filha para a cassa do Meale, que tãobem o queria ser. Enformando-se os padres do que passava, derão conta ao arcebispo, que loguo lhe mandou por ella pera lhe fazer perguntas. Cabalguou loguo o Meale e se foi apos da menina a cassa do senhor arçebispo, onde a mosa não ouzava a res- ponder, mas dizia que queria ser moura, por estar em pre- sença do Meale, que tinha junto consiguo e afagando-a e amimando-a, o qual, segundo ella depois dizia, tomava humas nominas na boca que a não deixavão falar o que
dezeiava, o que he muito provável, porque elle tem fama de grande feiticeiro, como o são comumente todos os reis desta terra. Enten // dido pello senhor arcebispo o sobrosso 1300 e pejo que com elle a menina dele tinha, lhe disse que se fosse Sua Alteza pera sua cassa, e que se a menina, a que chamava nora, não quisese ser christã, que elle lhe prometia de lha tornar a mandar, mui honradamente, porque asi o veo ella en hum palanquin, com alguns mouros e huma moura velha, que acompanhava e ensinava o que avia de fazer, dizendo-lhe que aquele neguocio podia fazer-se com mais liberdade da que podia aver, estando elle prezente. Depois que se a menina vio levar, avendo de responder ao que o arcebispo lhe perguntava, pedio que lhe disese que se estava ainda ali o Meale; e dizendo-lhe que não, não se comfiando, o foi por si ver, e depois de segura, dise que queria ser christã, estando em tudo a mãy prezente. Então mandou o arcebispo a mãy e os filhos a casa de huma mo- lher dos principais desta cidade, pera que a tevesem em cassa, ate se doutrinarem e baptizarem. Sabido isto pollo Meale, se foi loguo a cassa do visso-rei, queixando-se-lhe do agravo que lhe fazião, em lhe tomarem sua nora; mas como se soube a verdade, satis- fizerão com elle de palavra o milhor que se pode, dando a entender que em tais cassos se não podia outra cousa fazer do que se fizera, e asi a mãi, com os filhos e minina, baupti- zamos aqui, no collegio, mui honradamente. Depois de baptizados, os poserão em cassa dos cathecuminos pera se acabarem de doutrinar. Despois, dahi a poucos dias, acon- teceo que, estando hum dos meninos com a mãi, comesou a tremer, e fazer geitos como quem via o demonio que o que- ria levar. E comesando a temer a mãi e os outros irmãos, parecendo-lhe que por se fazerem christãos lhe socedera aquele trabalho, doendo-se disto alto, de maneira que o ouvi- rão humas molheres que ahi estavão, as quaes lhe disserão 7 7 3 DOC. PADROADO, IX — 8
que se abraçasse com a cruz, chamando polio nome de Jesus, e abraçando-se o menino com a cruz, fiquou loguo desali- vado, fazendo sinal pêra a porta da camara, como quem via ir por ella quem o queria levar, pedindo-lhe que lha ser- rassem. E asi aprouve a Noso Senhor que nunqua mais sen- tio trabalho algum, e ficarão, depois disto, asi a mãi como os filhos, com tanta reverencia a cruz que sempre, dahi por diante, a trouxerão consiguo e dizia a mãi, a qual he huma molher de muito respeito, que os mouros a enguanavão, dizendo-lhe que a cruz que os christãos adoravão não era mais que hum pao pequeno, preguado em hum grande, e que se ella mais cedo soubera esta verdade, que muitos dias ouvera que fugira pera ella. Vendo o marido desta molher, que Meale, com toda a sua valia de rei, não bastava pera lhe darem a molher de seu filho, se foi tres dias de caminho polia terra firme, onde estava sua sogra, dizendo-lhe que a vinha chamar para se achar nas festas de sua neta, que com hum filho de el-rei Meale tinha cassado. E asi a trouxe enguanada ate junto desta cidade, onde lhe contou o que passava e que a trazia pera a desuadir a filha de se fazer christã, e asi veo a moura a casa dos cathecuminos para falar com a filha que ja a este tempo era cristã. E falando com ella, quis Noso Senhor que a converteo e se fez tãobem cristã. Noso Senhor seja sempre louvado por tanta misericórdia como comnosco usa. Nos christãos abexins do Preste que em poder (sic) de alguns mouros de Meca, que vem ter a esta cidade (9), se sérvio muito Noso Senhor, por ocasião de huma molher abexim, muito virtuosa, que se chama Catherina de Faro, de que ja os annos passados se lhe la escreveo, quanto Noso Senhor delia se servia na converção dos christãos, nesta ilha. (9) BACIL: Os christãos abexins do Preste que em poder de alguns mouros de Meca vem ter a esta cidade... i i 4
E este anno parece que quis Noso Senhor servirsse delia pêra com os da sua propria nação. Esta, encontrandosse hum dia com humas molheres que hum mouro levava pera a terra firme, perguntou a huma minina abexim de que terra era, e se era christã. E sabendo que a menina era abexim e christã, e as molheres que com ella hião, e que as trouxera hum mouro dos // que do Estreito de Meca vem com merca- [36i r.] dorias a esta cidade, os quais as comprão a outros mouros que la as furtão, se veo a este collegio dar disto recado, e se foi apos do mouro. E alcançando-o ja fora da cidade lhe deitou mão da menina, chamando por algumas pessoas que a ajudassem, lha tomou e levou a cassa do arcebispo, jun- tamente com as outras, emformando-o de como toda a gente daquela terra era christã, e como os mouros os furtavão e vendião aos outros que para esta cidade vinhão. Os quais os tornavão a vender aos mouros da terra firme. E prouve a Noso Senhor que com esta emformação e diligencia, que do collegio se nisto pos, o senhor arcebispo e os inquisidores entenderão nisso e com tanta diligencia que tomarão disto que asi trazião perto de cem almas e os mandarão a este collegio para os instruir nas coussas da fe. E vendo o senhor visso-rei que erão christãos e que os mouros os trazião fur- tados, os mandou por em sua liberdade. Dous bramenes dos principais desta ilha se baptizarão este anno neste collegio; hum dos quais era escrivão-mor de toda ela, com os quais, os annos passados, se não pode acabar que se fizessem christãos. Quis Nosso Senhor, por sua bon- dade, movellos aguora; ao baptismo destes se achou o senhor visso-rei, com muitos fidalguos, sendo seu padrinho e fazen- do-lhe muitos favores. O principal destes se mostrou neste dia muito custossamente de seu dinheiro, mandando comprar hum cavalo, porque hum que tinha lhe não contentava tãoto, o qual lhe tinhão prestes e consertado pera depois do bap- tismo. E asi foi que, acabado de baptizar, cavalguou com o ' ' 5
senhor visso-rei, o qual o levou em sua companhia ao campo aonde hia esparecer, donde tornou, acompanhando o visso- -rei a sua cassa e dahi o despedio o visso-rei, pedindo alguns fidalguos que o acompanhassem ate a sua cassa. Ficou tão obriguado, com esta muita homrra que lhe fizerão, que dahi por diante se mostrou sempre muito zeloso contra os bra- menes, pedindo ao senhor arcebispo que os botasse fora, apontando-lhe alguns males que na terra fazião. Nesta cidade aconteceo hum desastre muito grande, por occassião do qual se alguns tãobem converterão. Avia hum baluarte en que a polvora de Sua Alteza se recolhia. Este tomãodo foguo, por descuido de hum moço, arrebentou com muita fúria, que muita parte desta cidade abalou, e como estava junto o terreiro do triguo, onde comumente ha muita neguoceassão, com as pedras que delle cairão matou muita gente e a outros quebrou as pernas e muitos com o foguo da polvora fiquarão queimados, de maneira que em muito poucas oras morião e os mais destes erão gentios. Acodirão loguo do collegio, como souberão o que passara, alguns pa- dres e irmãos, os quais, segundo depois nos disserão, era huma maguoa de ver, pollo triste aspecto que este casso de si dava, porque huns alhavão(lO) debaixo das pedras; ou- tros, debaixo das traves; huns, com pernas quebradas; outros, mortos; outros, asados do foguo e destes alharão alguns gen- tios, os quais, querendo ser christãos, baptizarão loguo por estarem in extremis. A outros, que não estavão tanto ao cabo, trouxerão aqui a cassa feridos que, depois, pollo bom tratamento e charidade que com elles no nos espritual (sic) uzarão, se converterão antes de morrer. Deos Nosso Senhor nos ajude sempre pera que com sua ajuda O possamos me- lhor servir. (10) Isto é: encontravam. Influência manifesta do castelhano. i i 6
A hum gentio, em huma aldea desta iha, ferirão muito mal, o qual não achando charidade entre outros seus conhe- cidos, como em quem a não avia, mandou a este collegio pedir lhe socoressem, porque queria ser christão. Forão loguo dous irmãos por elle e o trouxerão ao noso hospital, onde o curarão com muita charidade e o instruirão nas cousas da fe, e depois se fez christão. Neste hospital se não recolhem senão os homens //, e estes christãos pobres, que não tem t361 V1 quem os cure, ou alguns gentios doentes que se vem a fazer christãos. A estes juntamente com a cura corporal lhe dão tãobem a espiritual, baptizando-os no mesmo hospital. E se alguma molher gentia vem doente prea se fazer christã, recolhe-se na cassa das cathecumenas, a qua esta separada deste collegio de que tem cuidado huma molher velha abe- xim, muito virtuosa e de muita charidade. Nesta casa estarão comumente oitenta, setenta pessoas, ainda que os dias pas- sados, com os abexins que tomarão, cheguarião a pasante de cento. Temos tãobem outra casa dentro da cerqua do collegio, ainda que separada das officinas delle, no qual se recolhem os catechumenos, os quaes este anno cheguarião, commu- mente, quasi a vinte, e toda esta gente se prove deste collegio. Deos seja muito louvado que a todas estas necessi- dades nos acode, por sua misericórdia. Na conservação da christandade ja feita se tem particular cuidado, porque todos os dominguos saem deste collegio a doutrinar os christãos, polias igrejas e aldeas desta ilha, de- zasseis pessoas, antre padres e irmãos, os quaes tem nisto esta ordem: polia menhã muito cedo, ouvem sua missa, que pera isto tem ordinária, tomando o jantar na mangua se vão polias aldeas e os que não vão a lugares onde hai igrejas, fazem a doutrina aos christãos loguo polia menhã junta- mente com huma pratica das cousas da fe, e depois de jantar tornão a juntar os mininos e lhe fazem a doutrina a elles / / 7
sos, os quais, muitas vezes, vem receber o irmão, cantando a doutrina, primeiro que o irmão os va a juntar. Os padres vão a algumas igrejas onde lhes dizem missas e fazem suas praticas, baptizando tãobem alguns que para isso estão apa- relhados. A tarde se recolhem pera o collegio, quem de huma leguoa, quem de mais, segundo as distancias das aldeias. Mas com o guosto que nesta obra tem e o muito fruito que vem resultar, não sente o trabalho do caminho nem das calmas por que se fazem. Nestas aldeas acontese muitas parti- cularidades aos irmãos, tratando com estes christãos e por- que delles entenderão sua simplicidade e pureza e o credito que tem as coussas da fe, direi algumas delias. Na ilha de Chorão a qual esta junto nesta ilha de Guoa, na qual temos huma igreja da Companhia, havia hum chris- tão, o qual tinha em sua cassa doentes todos quantos filhos tinha e de bixiguas que nesta terra he huma doença muito periguosa. E morrendo-lhe hum ou dous, vendo que estavão os outros muito perto disso se veo muito afrontado a nossa igreja pedir ao padre que lhe socorrece naquela necessidade e lhe quisesse ir bemzer a cassa, porque lhe morrerião todos seus filhos. Vendo o padre asi perturbado e a fe que trazia, foi com elle, levando huma pouca de aguoa benta. E che- guando a cassa do christão, deitou-a polia cassa. Quis Noso Senhor, polia fe destes christãos, que não tão somente não adoessesse mais ninguém dali por diante, mas ainda os me- ninos que estavão pera morrer com notável mudança conva- lecessem, o que vendo o christão fiquou dali por diante com tanto credito a agua benta que, indo hum dia o padre bispo com alguns padres a visitar estes christãos por aquela ilha, cheguando a casa deste, saio a receber elle aos padres, pedin- do-lhe com muita importunação lhe quisesem lançar huma benção em sua cassa e assi os fez todos entrar, e deitando-lhe o padre bispo huma benção, pedio tãobem a todos os que hião em sua companhia que lhe lançassem as suas; e dizen- i i 8
do-lhe que a do padre bispo bastava, não quis, antes insis- tindo nisso foi necessário pera o contentarem lhas lançarem todos.// [362r° Indo hum irmão a fazer a doutrina nesta ilha de Guoa aconteceo-lhe com outro christão outra coussa asi semelhante. Este christão parece que sentia todas as noites o demonio em cassa que o desinquietava com revoltas que de noite a elle lhe fazia, polio que andava muito triste e desconsolado por não saber o remedio que teria. E não sabendo o irmão, que aquella aldea hia fazer a doutrina, se veo a elle e lhe contou o que passava, pedindo-lhe com muita instancia lhe quizese ir ver sua casa e deitar-lhe huma benção para que o dia não viesse mais a ella. Vendo o irmão tão triste e perturbado lhe disse que fose bom christão e chamasse por Jesus e que o diabo não viria mais a sua casa e, tomando huma pouca de aguoa benta, lha espargio por toda ella. E aprouve a Nosso Senhor, polia fe deste christão que não sentio mais nada na cassa dahi por diante. Elle, por sua divina bondade, lha acrescente a todos para mais seu ser- viço, porque certo he muito pera ver em gente tão tenrra nas coussas da fe o credito que tem as coussas da igreja e aos padres como a ministros delia, posto que nos tem tanto amor, como se fossemos seus próprios irmãos. E asi, quando os irmãos vão as aldeas, loguo se vem a elles como a pais e se chove, elles mesmos com sombreiros de palha, que qua se custumão pera as chuivas (sic) desta terra que são gran- des vem tomãodo a chuiva aos irmãos, e se os irmãos se escuzão os importunão por isso doendo-se do trabalho que por amor delles levão, vindo de tão longe polia chuiva aos consolar. E estas gratificações suas caussão muita consolação aos irmãos e lhe fazem sentir menos os trabalhos por nestas mostras conhecerem o proveito que disto lhe resulta. Em huma aldeia, junto de Nosa Senhora de Aguoa de Lupe, que esta desta cidade huma leguoa, tinha hum christão / r 9
que he o primcipal guancar-mor della, posto huma cruz no loguar onde o irmão que ali hia acustumava a fazer a doutrina, a qual hum bramene gentio escrivão da mesma aldea lhe quebrou de noite, por certos desguostos que com elle tivera, e fugio loguo pera a terra firme, do que o chris- tão fiquou muito afrontado e quasi que de corido não ousava falar aos irmãos que pera aquela parte hião. E vendo que não podia colher o gentio, porque determinava elle de não fazer outra cruz ate o não castiguar, a fez e a trouxe a igreja de Nosa Senhora para que o padre lha benzesse, a qual vinhão acompanhando muitos christãos e outros que a tra- zião as costas. Acabada a missa roguarão os irmãos ao vi- guairo que ja que a não podida benzer lhe deitasse huma pequena de aguoa benta com huma benção pera satisfação delles, dizendo por todos hum Pater Noster e huma Ave Maria. E acabado isto, a levarão com muita festa, tangendo muitos instrumentos a sua manera, indo com elles o irmão que avia de fazer a doutrina, a qual depois de feita no terreiro onde se avia de por a cruz, o qual estava todo jun- cado e com muitos ramos, arvorarão a cruz com muita festa e depois de tudo acabado os levou a todos a sua cassa que para isto tinha muito bem concertada, e lhes deu hum ban- quete em que comerão passante de cem pessoas, porque era elle rico e prezasse de nestas coussas fazer qualquer guasto e ao irmão convidou tãobem o qual polios honrar e aguasa- lhar se achou prezente. Isto he, charissimos padres e irmãos, o que este anno ha que lhe escrever das coussas da chris- tandade. Queira Noso Senhor, por sua divina bondade, ajudar esta obra pera que sempre possa crecer em maior agmento (sic). Este anno de mil e quinhentos e sesenta e dous se fize- rão algumas miçoens deste collegio pera outras partes de que esperamos Nosso Senhor se servira, a saber: pera Japão partio este Abril passado, o Padre Luis Fróis com o Padre
João Baptista, italiano, que desse reino veo o anno passado e aqui //se ordenou, antes que fosse; dos quais esperamos í362 *0 cedo por novas. Pera a ilha de Çaquotora, a qual esta junto do Estreito de Meca, se enviarão tãobem este Janeiro passado, de mil e quinhentos e sesenta e dous, dous padres, a saber: o Padre João Lopez e o Padre Gaspar Coelho pera grangea- rem a christandade daquela ilha, a qual se diz ter principio do Apostolo S. Thome, a que ate aguora não foi ninguém pera os aver de doutrinar, por a terra ser muito trabalhossa, e falta do necessário. Dahi a poucos dias, depois de sua che- guada, faleceo o Padre João Lopez de humas febres rijas que loguo em cheguando lhe acodirão e segundo o Padre Gaspar Coelho nos escreveo, faleceo com tanta comsolação quanto era o desejo que de tal morte tinha, tendo pera si que nenhuma coussa lhe podia soceder mais comforme a sua vontade que morrer por amor de Deos, em terra tão falta de todo o favor humano. De si nos escreveo tãobem o Padre Gaspar Coelho que estivera muito mal, chegando a se lhe tirar a fala. Todavia, quis Nosso Senhor que tornasse, algum tanto, mas não de maneira que andasse receosso de tornar a cair por sua muita fraqueza e asi acabar seus dias. O que la se fez en sua missão, virão (sic) por huma carta sua que escreveo ao Padre Provincial que com esta vai. Tãobem mandou o Padre Provincial hum padre que se chama Antonio Fernandez, o qual sabe a linguoa malaia, a Ternate com hum irmão para Amboino em companhia de hum capitão que o visso-rei la mandou com gente a instan- cia dos padres pera favorecer os christãos daquella terra, e pera ajudar a muitos outros que tãobem dezejão de se con- verter. Temos esperança que de maneira que aguora hião se servira muito Nosso Senhor nesta ida, a qual o demonio muito trabalhou de a impedir, fazendo que o visso-rei não mandasse la este capitão, por ver o muito que com sua ida naquella terra se podia fazer, por caussa dos mouros que 12 1
nella ha, que são grande impedimento pera se fazer chris- tandade. E teve tudo quasi entornado, mas quis Noso Senhor que com o trabalho e diligencia que os padres nisso poserão se effectuou. Prazera a Noso Senhor que sera pera muito serviço seu. Pera a Cafraria se fez tãobem outra missão, em que se mandarão dous padres pera Manapota (sic) onde matarão o Padre Dom Guonçalo que esta em gloria, que, cheguados a Masãobique, embrulhou o demonio esta coussa de ma- neira que não ouve effeito, donde os padres se tornarão com tanto desguosto quanto, charisimos, podeis entender, por ver impedir o fruito que se esperava. Nosso Senhor per- doe a quem foi caussa deste impedimento. Elie sabe bem quanta desconssolação todos recebemos do muito que dese- jávamos de ter o caminho aberto pera aquella terra, onde podessemos ir ver e guosar o lugar onde o Padre Dom Guonçalo, que Deos tem em gloria, por seu divino amor quis tão religiossamente acabar. Muito nos movia tãobem a isto o cuidarmos que avia tão poucos dias que comnosco con- verssara, enreiguando nelle os vivos dezejos que deste fim tinha e vermos aguora que em terra tão estranha acabou o termino de sua vida, tão desacompanhado de quem lhe po- desse dar sepultura a seu corpo. Seja Nosso Senhor muito louvado polias maravilhas e grandes merces que com seus servos desta mininma Companhia em nossos tempos usa. Em companhia destes padres veo o Padre Andre Fernan- dez que estava em Ynanbanhe (sic), desde o tempo que daqui partio com o Padre Dom Guonçalo, de gloriosa memoria, o qual cheguou a este collegio tão magro e desfeito das muitas fomes e trabalhos que passou, que quassi de todos os sentidos carecia; ouvia muito mal e via muito pouco; tinha grande fastio e vinha tão fraquo que ate a voz era como de minino, de muita pouca idade. E cheguando nos dixerão os padres que de la o trouxerão que ja isto era muita milhoria pera
o que vinha // quando a elles cheguou. Ja aguora, louvores [363 r.] a Nosso Senhor, vai algum tãoto convalecendo com a com- panhia e charidades que dos irmãos recebe. E porque elle das coussas daquela terra e dos trabalhos que nella padeceo lhes escreve larguo, lhe não direi nesta mais. Do Irmão Fulgêncio Freire, que esta captivo no Grão Cairo, tivemos novas por huma carta sua que com esta lhe vai e por hum captivo gentio que delia fugio, o qual se veo aqui ao collegio fazer christão por assi o prometer, quando estava captivo. Tivemos tãobem novas como fiquava de saúde, ainda que muito fraquo e debilitado dos muitos trabalhos que passa. Por amor de Noso Senhor que o enco- mendem a Deos, pera poder padecer os trabalhos que por amor seu padesse. Tãobem tivemos cartas dos padres da Companhia que, por via de Veneza vierão ao Grão Cairo, dos quais sabemos novas do irmão que estava captivo. Em estremo nos alegramos com tão boas novas por ver quanto Noso Senhor se quer comonicar (sic) a suas creatturas, pois delia (11) dessas partes vai tãobem abrindo o caminho pera muitos serviços seus naquella terra e, segundo os padres nos escrevem, tãobem por aquella via nos poderemos comi- nicar (sic). O trelado da carta que os padres nos mãodarão lhe vai tãobem em companhia desta. Pera Ormus esta de partida o Padre Vicente Tonda, valentiniano, que desse reino este anno veio; leva hum irmão por seu companheiro; he terra onde pode fazer muito serviço a Noso Senhor, porque ha nella muitas occassiões pera isto. Prazera a Nosso Senhor que o ajudara com sua graça pera o nella poder muito servir. Pera o collegio de Baçaim se emviarão daqui deste —• collegio alguns padres e outros para o collegio de Cochim. Tãobem se mãodou hum padre pera o collegio de Coulão (11) I. é: de la. / 2 3
e outros pera a ilha de Manar onde aguora estão os christãos da Pescaria. Isto he, charissimos em Christo padres e irmãos, o que do exercitio dos padres e irmãos que neste collegio ressidem, em suma, se lhe pode escrever. Prazera a Nosso Senhor que nos dara a todos graça pera in tudo O sempre sirvirmos com muito augmento de seu serviço. Das cousas que Nosso Senhor obra por meio dos da Companhia, que por diversas partes andão dispargidos, saberão de suas cartas que com esta lhe vão. Creo se alegrarão muito polia muita materia de edificação que nellas acharão. Por amor de Noso Senhor que a todos os destas partes nos emcomendem muito a Deos, porque temos muita necessidade disso, assi de nosa parte, como polio neguocio que qua trazemos entre as mãos, que he a da redução das almas ao conhecimento de seu Criador, pera a qual obra se requere espicial ajuda de Deos Nosso Senhor. No mais, se não que nos sanctos sacrifícios e orações de todos os padres e irmãos dessas partes nos em- comendamos. Deste collegio de Guoa, aos 4 de Dezembro de 1562. Inútil servo da Companhia de Jesus Balthezar (12) (12) As palavras da Costa foram riscadas. / 2 4
18 CARTA DO PADRE FRANCISCO CABRAL AOS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Baçaim, 5 de Dezembro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. N." 4534. (1) Fls. 380 V.-383 r. Pax Christi. // (38i r.j Não me consolei pouco em o Senhor em me offerecer ocasião de a todos, em geral, lhes poder escrever, ja que a cada hum, em particular, como eu desejo, não he possível. Nesta lhes darei conta do que Nosso Senhor, por estes seus mínimos, que aqui estamos, se dignou de obrar, deste Feve- reiro passado de 1562, em que pareceo bem ao Padre Pro- vincial mandar-me para este collegio com o Padre Mestre João, que de Roma veio pera yr ao Preste João e o Padre Antonio Vaz e alguns irmãos. Assi os que ia qua estavão como os que despois vierão, que por todos somos dezoito. E quanto aos exercícios da casa, alevantamo-nos as quatro oras e meia, e temos todos iuntos, na capella, huma ora de meditação, no cabo da qual se diz a primeira missa, e aca- bada, faz cada hum seu officio. Tem os nossos exames e repousos, e cada sesta feira a pratica. Algumas penitencias ha mais, por não perderemos tão santo exercício, que por necessidade, porque os companheiros que aqui tenho são tais que muito mais move o zello e amor da virtude que o temor das penitencias e sem duvida lhes afirmo que com (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 384v.-387v. 7 2 5
quam indevoto são e pouco afeiçoado as virtudes, as que nelles vejo me fazem desejar a imita-los, com especial, ver o grande amor e charidade com que em Deos Nosso Senhor se amam, que algumas vezes, quando trabalho, em minhas importunaçõis, tomo por meio, pêra me consolar, vellos iuntos estar fallando de Deos. Espero em Nosso Senhor que o seu exemplo me sejão esporas pera yr a diante, no caminho do Senhor. E o em que cada hum se ocupa, he o Padre Mestre João ser perfeito da igreja e confessar todo o dia gente de fora e os irmãos da casa. Aiundão ao padre Fernão da Cunha que aguora esta aqui em lugar do Padre Antonio Vaz que foy pera Damão. Eu tenho cuidado da casa e confesso e prego. O Irmão Francisco Anriquez he soto-ministro e tem cuidado de prover as cousas necessárias pera a casa. O Irmão Paulo Gomez esta com os meninos da terra por ser reitor; ensina a ler e escrever e arismetica; tem cento e trinta discí- pulos com que se faz muyto fruito, porque, alem de ler e escrever, os ensina a ser bons christãos. E os outros irmãos se ocupão assi em diversos officios como em ter cuidado das obras que aguora se fazem. Isto he quanto ao de dentro de casa; quanto aos de fora, loguo como chegamos que foy a primeira somana, da Qua- resma passada, ordenamos hue ouvesse tres preguaçõis, cada somana, a saber: eu preguava as sestas feiras, a tarde, em casa, a Paixão, onde concorra quasi toda a gente desta cidade e por a ygreya ser pouco capas, inchião as varandas que ao redor tem, e a que não cabia estava no terreiro. No cabo da pregação se tirava hum crucifixo que levava hum cidadão honrrado e velho, vestido em huma vestimenta da Miseri- córdia, com tochas acesas diante, que outros levavão com grande abundancia de lagrimas, assi na pregação como no tirar do crucifixo, começandosse loguo humas ladainhas de canto de orgão que os meninos de casa cantavão. E assi em 126
procissão, com muytos disciplinantes yão a huma igreya, acompanhando o crucifixo o capitão como os cidadãos e pessoas desta cidade. Aos domingos também pregava na see e a tarde pregava em casa o Padre Antonio Vaz os Mandamentos, a quem também concurria muyta gente. Esta ordem levamos ate a Somana Santa, na qual fizemos todos os officios da Somana Santa, a saber: o de Ramos, pregando e dizendo a Paixão, e a quarta feira, e os mais dias, o Officio das Trevas, encer- rar o Senhor, pregando, primeiro, o Mandato, e a noite, a Paixão. E ao outro dia. se tirou o Senhor de hum muyto riquo e se passou a outro de preto, com o levarmos em huma tumba preta, as costas, em huma precissão, com yrem alguns meninos com suas alvas cubertas nas cabeças, com amitos e cordas, levando nas mãos cada hum seu martírio, com ta- manho pranto da gente que, ainda despois acabada a pre- cisão e emcerrado o Senhor, não cesavão. Ao dia//de Peschoa tivemos nossa resorreissão com [38i ▼.] muita alegria e a rua toda por onde passava tinhão os vizi- nhos bem concertada, com muytas arvores de fogo e outros artifícios que fazião mais solene a festa; pregousse meia hora com grande alegria e consolação de todos. A devação desta gente, polio bom odor que os que aqui estiverão dantes derão, he grande e não acabam nunqua de louvar a Deos em lhe trazer aqui a Companhia; tem-se feito muyto fruito nelles, porque com este povo ser pequeno, que não serão mais de trezentos casados portugueses, bem que ay muita gente outra, assi christãos como gentios, se toma em nossa casa cada mes o Senhor cento e cinquoenta ou cento e vinte ou menos e com as pregações que são todos os domingos e os santos em casa se faz muito fruito, por- que se confessão muytos homens, muytas vezes, que antes com muito trabalho o fazião cada ano e muitas pessoas e das principais se tem confessado, geralmente, de toda a vida z 27
passada. E outras estão movidas a o fazer e por algumas ve- zes aconteceo em pregaçõis estarem homens que avia alguns annos que não se confessavão, por andarem para matar a outros, e ficarão tão compungidos do sermão que, acabando o padre de pregar, se sayrão a lhe pedir que lhes assinasse tempo pera os ouvir de comfissão, dando-lhe conta do mao proposito com que andavão. Fas-nos também esta gente muytas esmolas, porque com serem tão pobres desque vym, ainda não ha que meses, nos tem dado assi pera ornamentos como pera obras mais de trezentos e cincoenta pardaos. Alem da gente que se con- fessa em casa ymos também a confessa-los fora, assi ao tron- quo como ao ospital, como a suas casas, quando estão em- fermos e ajuda-los a bem morrer, no que muyto se edificão, quando vem que pera qualquer negocio seu, a quaisquer horas que venhão, nos não achão ocupados e que, ainda que seja a meia noite, lhes acudimos. Este he o mor trabalho que temos, porque como somos poucos e a gente não saiba yr buscar comfissão a outra parte, ocupão-nos muyto, e algumas vezes, acontece acharmos to- dos tres confessando em diversas casas. Praza a Nosso Senhor nos de forças e graça pera poder levar adiante o bom odor que nestas partes tem dado a Companhia. Faz também cada dia a doutrina hum irmão, indo polias ruas com huma cam- painha, chamando os meninos e aos domingos vay outro a consolar os presos christãos que estão no ospital, e fasse fruito neste especialmente no tronco, onde ha alguns gentios, que algumas vezes se convertem. A christandade, polia bondade de Deos, também vay em muyto crecimento, cousa que ate agora nesta cidade se fazia pouco, porque, como todos tinhão aldeas e os que se fazem christãos são os que morão nellas, tinhão estes homens pera sy que era despovoarsse as aldeas fazersse hum christão. E por esta rezão era pouco favorecida a christandade, mas 128
rtguora quis Nosso Senhor, por sua bondade, com praticas e pregaçõis que sobre a conversão fizemos, tirar-lhe esta ruim opinião de maneira que ya não empedem a christandade, ao menos publicamente. E com isto pouco e pouco, começamos a fazer christãos ate virmos a fazer bautismos grandes. E agora polias Virgens fizemos hum de noventa e seis iuntos, afora outros bautismos também de muito numero, e serão feitos christãos, desque vim ate agora, mais de trezentos, que pera esta cidade he muyto e andão ya tão mudados os mora- dores que, donde antes se fazia hum christão de suas aldeas, se amutinavão, e agora nos vem a rogar que lhes vamos con- verter as suas aldeas. A maneira que se tem com os christãos he esta: os homens e meninos temos em casa em huma parte que temos deputada pera isso e ai os catequizão, emsinando-lhes a dou- trina e todas as noites // hum irmão que sabe a lingoa lhes [382 r declara as cousas da fee, segundo sua capacidade, e despois de instruídos se bautizão, com do cabo da rua sairem de casa de hum vizinho nosso, onde o capitão com toda a cidade e os meninos de casa com sua cruz em precissão os vão buscar e elles saem com capellas e vestidos, os homens primeiro, e despois as molheres em ordem, cantando os meninos de casa salmos, avendo frautas e outros tangeres de festa, e com esta solenidade, estando toda a rua de huma e outra banda emramada e iuncada, chegão a nossa egreya, onde a porta estão postos todos em ordem, lhe say hum padre e hum irmão com hum bacio de prata rico, e os oleos nelle, e duas toalhas diante e poemsse os oleos em huma mesa que esta como altar. E posto o padre a porta, se fazem as cerimonias que he custume fazeremsse, se bautizão, cantando neste tempo os meninos muytos salmos e outras cousas de devação. E depois de bautizados, ficão os homens em nossa casa onde lhes tem aparelhada a cea, comendo todos iuntos com toda a alegria, que parece claramente estar Deos em elles. / 2 g DOC. PADROADO, IX 9
E as molheres da mesma casa donde sairão se lhes faz o seu convite. E ao outro dia os que são casados em gentio se tornão, a casar e os que hão-de ficar em casa, ficão, e os outros se vão pêra suas casas. E alguns filhos destes ficão com os outros meninos em casa, na qual agora ficão perto de oitenta, afora outros que mandei a Tana e dei a pessoas que os aproveitassem. Os que ficão em casa tem hum irmão com elles; apren- dem a ler e a escrever e alguns a cantar, porque ay muitos mui abiles e se os ensinarem, podem vir a ser sacerdotes e fazerem muyto serviço a Deos. A ordem que tem he alevan- taremsse cedo; em se alevantando, dizerem todos a doutrina alto, e despois vão a ouvir missa, e ella acabada, vão a eschola os que aprendem, e os outros a seus officios. Antes de se deitarem, a noite, dizem a doutrina e humas ladainhas polios herejes; vão cada dia dous destes, a noite, a emcomen- darem as almas do Purgatório e de dia outros dous ao tron- quo e hospital da gente da terra a ensinar a doutrina e algu- mas vezes trazem outros meninos gentios pera cassa, porque como elles sabem a lingoa e se conhecem, são grande meio pera os outros meninos e sem duvida que, claramente, se ve entrar Deos em estes meninos, porque alguns que antes de serem christãos pregão aos pais e mãis que os vem ver e deixando outros muitos que o fazem, aconteceo agora, avera quinze ou vinte dias, que indo alguns de casa fora, acharão hum que seria de ydade de seis ou sete annos, o qual trou- xerão a casa e de tal maneira o persuadirão que ficou tão firme em ser christão que, vindo dalli a dous dias, seu pay e may mouros, não sendo ainda o menino christão, sem o eu saber, parece que o irmão com cimplicidade deu licença que o menino falasse com o pay e com a mãy, os quais como o virão, com muytas lagrimas o começarão a abraçar e dizer que como se fazia christão e deixallos. E o menino, vendo-os chorar, ficou muy inteiro, dizendo-lhes que não chorassem 130
porque elle avia de ser christão e elles devião também fazer o mesmo, começando-lhe a pregar como se elle ouvera muy- tos annos que soubera as cousas da fee e fora christão, não avendo mais de dous ou tres dias que viera para casa nem sendo ainda bautizado. E isto foy muito maior pêra o pay e mãy e lhes fez chorar mais lagrimas, dizendo que não abastava fazersse christão senão persuadir-lhe que o fossem elles. O menino, vendo que elles não querião tomar seu con- selho, os deixou e se veio. Destes casos acontem (sic) muitos em que claramente se ve a vontade de Deos. Quanto ao sitio do collegio em que ate aqui vivíamos era humas casinhas de tejolo e barro e quatro camaras ia tão velhas, por a fraqua materia de que erão feitas e longo tempo que estavão cayndo // pedaço a pedaço, ate que o inverno [382 *.] passado, com ser piqueno, nos cayo hum bom pedaço da parede. A igreja polia mesma maneira era huma casa terrea, muito baixa, com outra mais piquena por capella e pouco capas, por onde ate agora se não prega senão ao santos (sic) e ymos a pregar a see desta cidade. E vindo o Padre Pro- vincial qua o anno passado, vendo a falta que tínhamos assi do aposento como da igreja, a começou a fazer. E antes que daqui se partisse deixou feitos os alicesses da capella com parte dos do corpo da igreja e, depois que viemos, ale- vantamos a capella altura de trinta e cinquo palmos e acaba- mos todos os alicesse da igreja com quatro ou cinquo palmos sobre a terra, e assi começamos o aposento, do qual temos ja feito quasi hum bom pedaço de hum dos lanços, em que nos fica hum refeitório com huma despensa e por cima seis cubicolos com seu corredor, ficando na parede dantes pera se poderem continuar os outros lanços os quais vem em qua- dra, ficando sua crasta no meio. As paredes vão fortes; ficasse vendo o mar dos cubicolos e segundo dizem, ficarão as mais sadias casas e de melhor vista que ouver nesta cidade. Espero em Deos vaa a cousa sempre em crecimento aiudan- '3 '
do-nos Nosso Senhor, como elle sempre acustuma. Isto he o que se me offerece do que Nosso Senhor obra nesta cidade de Baçaim por sua Companhia. Temos também outra casa em Tana que he hum lugar sufraganio aqui a Baçaim, quatro legoas, por hum rio acima, o qual lugar foy antigamente huma das populosas cidades destas partes e, com guerra e por tempo, se veio a destruir de maneira que ja aguora aynda que he grande dizem que não he senão huma pequena memoria delia. Aqui avera trinta ou quarenta homens portugueses casados e muitos christãos da terra que os padres que aqui residirão fizerão. Ha também muytos gentios e mouros. Estão neste lugar o Padre Mestre Gonçalo com o Padre Pero de Arboleda e dous irmãos. Fasse muito fruito assi em pregaçõis, que cada do- mingo tem, como com confissõis que são muytas, porque alem destes casados portugueses ha outra gente muyta da terra. O Padre Mestre Gonçalo, especialmente se ocupa na christandade assi em augumentar como em sustentar a feita e deu-lhe Deos, Nosso Senhor, especial talento e graça pera isso, porque ajunta os christãos que faz em huma aldea que fez a par de hum pagode, o qual dantes servia de morada do diabo e agora he de Deos e he edificado a Santíssima Trindade, e aqui se apousentão os gentios que faz christãos, ocupando-os e incitando-os a ganhar suas vidas em diversos officios, de maneira que faz aqui muito serviço a Deos e depois que eu vim se fizerão em Tana em esta aldea setenta ou oytenta christãos, que he para o tempo muito, mas daqui por diante esperamos em Deos que se faça mais. Em Tana temos também dentro em casa hum collegio de meninos; os doutrinão e emparão depois de grandes em huma casa fora, de catecumenos, aonde se catequizão, porque os homens estão com os meninos dentro e alli aprendem a doutrina. Em Damão, que he huma forçaleza que o viso-rei 1 32
Dora Constantino tomou no reino de Cambaia, dezoito le- goas daqui, esta também hum padre e hum irmão nosso, desde este tempo ate agora. Aqui também se faz muito fruito assi em pregaçõis como em confissõis que de continuo acodem, porque como esta terra he fronteira e não de todo asentada, alem dos casos que aqui ha, que são ia muitos, emvernão também muitos soldados os quais, onde ha padres da Companhia, não sabem buscar outros e nelles se faz muito fruito, porque alem de os tirarem de outros vicios, os fazem muitas vezes amigos e são os padres alli, alem do mais fruito, causa de // não virem a efeito muitos desafios [383 r.] que os soldados tem comummente. Alguns christãos também se fazem, ainda que poucos por ser a terra nova e andar toda alvoroçada. Aqui, despois de ir o Padre Prancudo pêra Maluco, esteve o Padre Aires Brandão e depois o Padre Pero de Arboleda ate agora, avera obra de hum mes e meio que veio edificando muyto a gente desta terra. Agora esta o Padre Antonio Vaz que aqui estava comigo, por assi parecer ao Padre Provincial, que também edifica muito a gente, nos exercícios acustumados da Com- panhia, que he pregar domingos e santos, confessar, ajudar a bem morrer e outras obras espirituaes. O irmão também se exercita em fazer a doutrina aos mininos portugueses que são muytos, indo-os a buscar com huma campainha cada dia. Se esta terra se asentar, poderá nella a Companhia fazer muito serviço de Deos Nosso Senhor. Isto he, chatíssimos meos, o que brevemente se offerece escrever-lhes do que Deos, Nosso Senhor, qua se digna de obrar por seus mínimos; outras muitas particularidades lhes poderá escrever, mas porque isto he o principal e mais esen- cial o deixo de fazer. Roguem a Nosso Senhor que aos que qua andamos nos de graça com que levemos adiante o bom odor que nestas partes a Companhia tem dado, dando-nos juntamente forças, assi corporais como espirituaes, pera po- 1 33
dermos com os trabalhos desta sua vinha tão necessitada de obreiros e a elles traga a nos ajudarem a deitar o demonio fora destas terras que tanto tempo tem tiranizado tantos milhares de almas nella. Em seus santos sacrifícios e oraçõis nos encomendamos todos os Padres e irmãos deste collegio de Baçaim, oje 5 de Dezembro de 1562 annos. ~- Indigno servo em o Senhor Francisco Cabral. '34
19 CARTA DO PADRE BALTASAR AO PADRE PROVINCIAL DA INDIA Goa, 23 de Dezembro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n." 4534. (1) Fls. 363r.-364r. Depois da partida de Vossa Reverencia, se foi sempre o Padre Patriarca achando cada vez pior da sua imfirmidade, de maneira que foi necessário, por quão ao cabo estava, dar- -lhe os sacramentos//da Estrema Unção o qual lhe deu o t363 x - Padre Bispo, achandosse prezentes todos os padres e irmãos, tendo ja dantes tomado o Sanctissimo Sacramento por modo viatico. E depois disto, nos deu algumas esperanças de sua saúde, por muitas mudanças que fez, asi na melhoria do pulso, como em estar leve e comer melhor do que suia, ainda que tinha alguns desvarios da cabeça, da febre que tinha. Durou-lhe esta melhoria dous dias; ao cabo dos quais, terça feira, depois do dia de Sancto Thome se tornou a achar muito mal, careguando-lhe a febre e hum sono como de modora e de cada vez se hia mais agravãodo mal. As oito horas da noite, por se ja achar mal e se ir tirando a fala, se chamarão todos os padres e irmãos ao choro pêra terem oração e o por elle (sic), e o Padre Bispo e o Padre Fran- ciscuo Roiz com os padres estavão com elle rezando, o padre Bispo algumas orações, ainda que com trabalho de sua alma, que a este tempo tinha, e o padre Francisco Roiz rezando (1) BAL: 49-IV-50, fls. 474v.-476r. '35
as ladainhas. E assi no meo destas orações, as nove oras da noite, deu o espirito ao Senhor, com tanta quietação e re- pousso que bem se via nelle ser a morte dos santos priciosa e no conspecto do Senhor. Antes do seu transito falava coussas muito sanctas e devotas, fazendo muitos colloquios com Deos, trazendo algumas autoridades da Sagrada Escrip- tura, mostrando muita alegria, por se ver tão ao cabo da vida deste mundo e tão propinquo aquella que com Deos espe- rava de ter em sua gloria. Juntamente com isto pedindo-lhe muitas vezes perdão de seus peccados, pedindo aos circuns- tantes que o ajudassem nisto, tendo os dias passados antes deste ultimo dia, dado muitas mostras de sua santidade e nos trabalhos da doença, nos quais, ainda que erão grandes, lhe davão muita dor, assi se avia com tanta paciência que quasi se lhe não emxerguava muito trabalho que padecia, mos- trando tãobem muita humildade e sobieição que sempre ti- vera, que abastava dizer-lhe, quando avia de tomar alguma mezinha ou fazer alguma cousa outra, ainda que trabalhossa, que asi parecia ao padre Francisco Roiz fazersse, porque loguo respondia que pois asi parecia ao Padre, que era muito contente. E isto tudo, com tanta quietação que soo vello, nos dava a todos materia e muita confusão sua muita humil- dade, porque não avia mais trabalho com elle que si, si, não, não; não se enxerguando nelle o muito trabalho que passava e não lhe impedindo nenhuma destas coussas o trabalho da cabeça, antes nos emcomendava muitas coussas de muita edificação, em que bem nos mostrava a muita que sempre teve. Deos Noso Senhor seja sempre muito louvado por nos dar presente hum tão vivo exemplo de perfeição. Depois de falecido, loguo de noite, se deu recado ao arcebispo, fazendo-lhe a saber como Noso Senhor fora ser- vido de levar o Padre Patriarca pêra Si e que lho mandava fazer a saber o Padre Francisco, pêra que Sua Senhoria o encomendasse a Nosso Senhor e o mandasse encomendar. ' 3 6
Deu disso graças a Noso Senhor, por asi ser servido, res- pondendo que elle, polia menhã, se viria loguo ao collegio, perguntando tãobem que como se avia de ter em seu en- terramento. E disserão-lhe que o que a Sua Senhoria parecesse bem e que lhe parecesse se daria recado aos religiosos pera se acharem em seu enterramento. Respondeu que lhe parecia muito bem e que elle mãodaria recado aos inquisidores e que com elles e com alguns do cabido se acharião tãobem prezentes. Polia menhã mãodou o Padre Francisco Roiz re- cado aos religiossos de São Francisco e São Dominguos de como o patriarca era falecido, pedindo-lhe que se quisessem achar prezentes em seu enterramento. Responderão os de São Francisco que de muito boa mente que elles tinhão la dous padres pera mandar saber ao collegio se erão elles qua necessários. O prior de São Dominguos disse que tãobem mandaria alguns // dos seus padres. [3« r-1 O arcebispo loguo de noite mãodou dobrar os sinos da see e ao outro dia tãobem de noite se armou loguo a capella de do e se fez loguo huma essa de tres degraos pera estar enquanto lhe fizessem o vestido da maneira que avia de ser enterrado em huma caixa que pera isso se fez, forada toda de ceda, com hum sobrefrontal de veludo com humas fran- jas de ouro, na qual avia ser enterrado. E asi o puserão no choro que pera isso estava alcatifado ate o levarem. Polia menhã vierão loguo alguns trinta religiosos da ordem de São Francisco, outros tantos da ordem de São Dominguos e enttrarão, e ali estiverão todos rezando, ate vir o arcebispo que tãobem loguo veo com os coneguos e beneficiados da see e sobio ao choro aonde estavão todos esperando. E loguo depois de sua cheguada, levarão ao padre com muita cera que pera isso estava prestes, indo os frades todos em pro- cissão e os irmãos e doze padres todos nosos levarão a arca em que hia com suas toalhas. Cheguando a igreja, foi o choro muito grande en toda a gente que era muita, e asi o puzerão 1 37
sobre a essa que estava do meio da capella, pera tras dali, pera o altar, huma cova muito alta e largua, de maneira que podessem caber dentro os padres que avião de tomar a arca. Aparelhou-se loguo o arcebispo com seus coneguos pera dizer missa de pontifical, a qual officiavão os religiosos e tudo com tanta solenidade quanto a coussa em si pedia. Depois da missa, lhe fez o mesmo arcebispo o officio do enterramento com tanta solenidade e devação, derramando algumas lagrimas, nomeando-o nas orações por partiarca. Acabado o officio o tornamos a tirar da essa e o metemos com a arca dentro na cova, cantando-lhe hum Benedictus, depois do qual disse o arcebispo huma oração com algumas lagrimas que derramava, e asi todos os mais circunstantes e não me spanto, porque ve-lo não parecia senão hum sancto como elle he, porque asi estava sereno e bem asombrado que não parecia estar morto senão que dormia, como de verdade dormia no Senhor. Depois de acabado, se despedio o arcebispo com os mais religiosos, os quais não quiserão aceitar fiquar qua en casa, convidando-os pera isso, por se o officio acabar muito tarde. Fiquamos aguora pera fazer officio, por antes do enterra- mento não aver tempo pera iso, por caussa da missa em pon- tifical que guastou muito tempo, todavia pareceo bem dei- xarsse o officio pera depois da festa, por não occupar o tempo das confições. Noso Senhor de en tudo a sentir, entender a Vossa Reverencia sua sancta vontade e essa comprir. Deste colégio de vinte e tres de Dezembro de 1562. Ultimo em Christo de Vossa Reverencia Balthezar. / 3 8
20 CARTA DE D. PÊRO DE MENESES Goa, 30 de Dezembro de 1562 (1) Documento existente no ANTT: CC, 1, 89-42. Mede 280 x 200 m. São quatro folhas, mas duas apenas escritas. Em bom estado. Selo de lacre vermelho. Senhora, L r,J Tomey por milhor remedyo de todos daar a culpaa de meus trabalhos a mym e a meus pecados, pois por elles pre- metyo Noso Senhor neste derradeyro caartel de minha vida ser ymfamado de caso, como o que me puzeram, e tão desa- costumado nos reynos de Portuguall nos homens de minha calydade, que ate guoraa se não achara nenhum, e de sam- gue tão craro e amtiguo de capitães e pesoas tão ylustres domde desendo, mas muitos que pollo acresentamento da santa fee de Jeshu Christo foram martirizados, a custa de suas vidas foy ella muy exallçada, e prouvera a elle que o aconteçimento disto fora estar eu em poder de ymfieis que quiseram, a poder de tormentos, fazer-me confessar outra cousa; então se vira mynha verdade e a diferença que avya de meus quyllates aos dos que me acusarão e jullguarão//, [i v.] e eu ao menos me ficara ydade pera poder mostrar minha pureza, mas jaa guora não me poderaa ficar mais que com- sumir em lagrymas eses pouquos dias que viver. (1) Temos dúvida a respeito da data: 1562 ou 1552. A dificuldade reside no traçado do 6, que parece um b, igual a 5. '39
E, por que a V. A. não fique allgum escrupollo de mi- nha conservação, lhe juro aos Santos Avangelhos, pondo a mão neles, que do que fuy acusado nenhuma cullpaa tyve, e pareçe que abasta pera se ysto crer de mym ser eu filho de meu pay, e neto de meus avoos, geração em que nunqua ouve nadaa, e vir a esta terra em ydade que o que aprendy foy servir a V. A. em suas armadas, semdo capitão de muytas delias, honde me naserão as barbas e se tornarão branquas, derramando muito sangue por aumentar a fee e este estado muytas vezes, porque eu não aprendy letras, nem estudey livros 1 pera fallar nem tratar do que não he de minha eçen- çia e, se por uzar da hobriguação do carguo de que me V. A. encarreguaa aly me nacem me avya de naser desomrra e tamanha ymfamya, nunqua ho eu servira, porque não sey se estara em sua mão restaurar-me a ela. Porque vy a terra perdida polia hordem que se levava na cristamdade, acon- selhado de leterados e pesoas que ho entemdião, acudy a yso, como capitão desta çidade, dando muy grandes ajudas de minha fazenda * a todos aqueles que, por suas vomtades, se faziam cristãos, estrovando fazer-se por outra maneyra, levando muitos trabalhos por aquyetar e fazer povoar esta ylhaa, que de todo estava ermaa. Se allguem disto teve descontentamento, não ficou sendo minha a cullpa mas sua; se me precurou dano na pesoa, [2 <•.] qUe meu zello e tenção fundado hera no serviço de Deos // e de V. A. e bem do Estado, como fiel e verdadeyro cristão, amiguo e desejoso de comprir ymteiramente suas leis e man- damentos. Jaa que eu tynhaa tanta hobriguação a minha omrraa, e a quis por em ventura de me danarem nella, pelo que compria a V. A., como por esperiençia esta visto, não se poderá desobriguar, sem me restaurar a ela, lembrando-lhe i-L.ros; 2-ft.« / 4 o
que, sendo desta ydade, tão cheo de serviços, casado e com muitos filhos, capitão de Guoa, fuy prezo em prizão aspera omde estyve sete mezes e semtençeado pubrycamente por culpas tão alheas de minha vida e vyver, que tamanho aballo e terror fez a este povo, e espanto aos vizinhos, ver tratado de tall maneira homem em que se tinha tanto credyto. A Noso Senhor tomo por testemunha de minha pasien- çia, pondo-lhe diante minha ydade, e o desemparo de minha molher e oyto filhos e filhas, e o que menos semtyrey sera minha pobreza e muito sua ymfamia, que meus dias não podem ser muitos. Não sey como me queyxe nem de quem por esta justiça; vejo-me desomrrado, não synto culpaa, por que ho devese ser quem terey dyamte de V. A. pera lhe apresentaar minhas querelas senão suas muy altas vertudes, nas quoais espero, por quem he, e por desencarreguar sua consyençia e, quanto poço, lho peço e requeyro da parte de Deus, pello que cumpre a ela e a seu serviço e bem deste Estado. Queyra ver com olhos de allma este caso nunqua acon- teçido em seu reino e com pesoas sem sospeyta, pera me reste- tuir ynteiramente minha omrra, que a não ey por desobri- guada delia athe o não ser, e dar áspero castigo a quem ho mereçer por que não fique ousadia // a nynguem doutro l2 V-1 tall aconte:imento pelo que pode acomteçer; pello estado em que fico não tratarey do que a este cumpre mais que lembrar-lhe que ho tempo de minha capitania, de que V. A. me fez merce pera remedyo de minha velhiçe e pobreza, em satisfação de trynta e oito anos de serviço, foy tall e com pesoa que acabey de consomir esta pouquydade que houve em casamento ho que mais me ficou por servir ja pareçe que não he rezão tornar a ele. Aja V. A. respeito a quoantas obriguações tenho, e o pouquo pera as suprir: duas filhas molheres por casar, que cada huma pasa de vymte anos, filhos homens, que a servem / 4 i L
em embarcações a minha custa, e outros pequenos que se an-de criar pera que conforme a tudo, asy numa cousa como noutra, uze de sua condição real, e ficara compryndo com sua concyençia, que, mais que tudo, lhe Noso Senhor pros- pere por muitos anos. De Guoa, a 30 de Dezembro de 62. Pero de Meneses3. 3-P. de M." / 4 a
21 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES AOS PADRES E IRMÃOS DE COIMBRA Manar, 30 de Dezembro de 1562 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fls. 383 r.-385 v. Charissimos em Christo padres e irmãos. Por as cartas que os annos passados escrevi saberão como os christãos da Pescaria do Aljôfar são mudados a ilha de Manar, e como ficara com elles hum capitão, por nome Jorge de Mello, guerreiro, e que tratava muito bem os christãos, o que lhes causava não terem grande sentimento de serem apartados de sua natureza tão amada commumente de todos. Estamos, ao presente, nesta ilha, o Padre Diogo de Sove- ral e eu, e ate o fim de Outubro, esteve o Padre Jeronimo Vaz, o qual foy mandado chamar, parecendo que podião, este anno, yr ao Preste. Estão mais o irmão Francisco Durão, Estevão de Gois, o Irmão Pero Luis, que he natural da índia, de casta de bramene, a quem o Geral mandou licença, o anno passado, pera poder ser recebido na Companhia; e esta mais hum irmão, por nome Gonçalo Fernandez, que qua se recebeo, por mandado do Padre Provincial. Escrevendosse- -Ihe de qua, como queria este irmão entrar em a Companhia, forão as palavras de maneira que parecia dar a entender ser qua necessário, polio que o Provincial escreveo que, se ti- vesse pera isso partes, fosse recebido, e ja o ouvera de ter mandado pera Goa, por depois ter pera isso recado do Pro- '43
vincial, se não fora ferido o Padre Geronimo Vaz e aver, ao presente, delle necessidade e ter ele dado tam boa conta [383 v.] de si que nos edifica a todos muito. // Esta hum pouco mal desposto. Os mais companheiros estão bem, Deos seja louvado. Cada hum trabalha dar boa conta de sy, comprindo com as cousas da obediência e vencendosse com o desejo do apro- veitamento espiritual. Alguns puserão entre si grandes peni- tencias ao que falasse palavra alguma ociosa. Muito se amão em Christo todos, e assi dão de sy bom odor todos. Acerqua da visitação dos christãos, tem-se o modo que o anno passado escrevi, a saber: tanto que o Padre Jeronimo Vaz esteve aqui, estava em a fortaleza, onde gastava quatro dias e, as terças feiras, visitava hum lugar de christãos, que esta mea legoa da fortaleza, onde dizia missa as molheres e fazia-lhes pratica e, as quartas feiras, dizia missa e fazia pratica as molheres de huma povoação pequena, onde morão os christãos careas. No mesmo dia dizia missa o Padre Soveral e fazia pra- tica as molheres de outra igreja; as quartas feiras, dizia missa o Padre Jeronimo Vaz as molheres de outra povoação grande de careas, e no mesmo dia, vinhão as molheres viuvas de outras duas igrejas, que são de christãos paravas, e as tais se fazia pratica sempre, e o Padre Soveral dizia missa, as somanas, hora a huma, ora a outras. Todas as somanas, ou quasi todas, tínhamos todos aqui algumas comferencias espirituaes, praticando o que nos con- vinha a nos e o que aos christãos. A quinta feira, a tarde, se tornava o Padre Jeronimo Vaz a fortaleza; as sestas e sabados, dizia missa o Padre Soveral em duas igreyas gran- des, onde se ajuntavão as molheres casadas e lhes fazia pratica. Aos domingos se repartião, o Padre Soveral e hum irmão ou dous, polias igrejas e eu, que nos tais dias custumo de 1 44
dizer missa na igreja, junto donde temos a cassa, que he a maior que ha, aonde vem os principais do povo. De tres em tres somanas ya o Padre Soveral e, algumas vezes, hum irmão visitar outro lugar, que esta daqui a tres legoas, e alguns domingos, vai hum irmão fazer pratica a huns chris- tãos careas que morão mea legoa da fortaleza. As ocupaçõis são as que alias scripsimos: termos officio de vigairos e curas, porque nesta grande christandade e tam- bém com os portugueses não ay outros. O provincial, sabendo quanto ha que fazer e quam poucos somos, me tinha escrito que, alem dos companheiros que qua estávamos, avia de mandar mais de dous padres, e isto com tempo que qua estava o Padre Jeronimo Vaz. Tinhamos-lhe nos escrito que dous bastavão, por então, mas porque cada vez se offerecem mais cousas em que nos devamos ocupar, apenas poderão bastar os tais. Ha tanto que fazer que nos não sabemos dar a conselho. Acerta, em tempo que os companheiros estão repartidos polias igreyas, huns vem chamar pera visitação de hum doente; outro pera confissão de outro doente; outro pera bautismo de crianças doentes; outro que ha mester en- terrado; e assi de outros negocios de queixumes, que não sabe homem a que acuda. Parece-me que ja o provincial nos mandara os padres que escreveo que mandaria, se ouvera monção pera vir em que ja não sera senão em Fevereiro ou Março. Cuido eu que se não poderá fazer entre esta gente o fruito, como desejamos, senão havendo ahi muita copia de operários, e repartiremsse de maneira que a todos os chris- tãos se possa dar abundante pasto, e desta maneira parece que poderá cada hum conhecer suas ovelhas, com que sera Nosso Senhor muito servido. Muito e muito mais se fara, se entenderem a lingoa os que aqui andarem. // t384 r O Irmão Francisco Durão esta muy avantajado na lin- goa; tem também alguma noticia de ler e escrever malavar. 'Í5 DOC. PADROADO, IX — IO
Se tivera alguma maneira de latim, poderá ser ordenado e ouvir de confissão a muitos; mas sendo posto, em Goa, na gramatica, não pode entrar com ela. O Irmão Estevão de Goes, parecendo-me que por fra- queza da cabeça não poderia aprender a lingoa, não lha tinha encomendado; mas vendo, os dias passados, que, por uso, tinha aprendido muitos vocábulos e se entendia algumas cousas, ou muitas, com os christãos, encomendei-lhe a apren- desse. Prazera a Deos yra adiante nella; elle tem cuidado de dous irmãos novicios. Quanto ao fruito com o proximo, sempre, polia bondade de Deos, se faz muito; desejei e desejo aver ahi padres pera confessar esta gente; que, se ouvesse, muito mais se poderia fazer. Algumas confissõis ouço, posto que poucas, por minha ma disposição e muitas ocupaçõis. Esta agora hum padre, aqui, malavar, que estava por vigairo de hum lugar de Cei- lão, o qual ayudou a fazer huma certa doutrina que no dito Ceilão se fez, que o anno passado escrevi a Vossa Reveren- cia. Ajuda agora a comfesar; espero de pedir ao bispo o mande estar aqui, porque creio que estando ambos podere- mos fazer muita cousa pera doutrina da gente. O mesmo pa- dre esta edificado desta christandade e diz ser milhor que a de Ceilão. Estes ha ja mais tempo que são christãos. Este Natal ouve confissõis de christãos e ouvera muitos mais, se ouvera ahi padres pera as ouvir. Estando nos em Punicale, acustumavão certos homens de frequentar a cassa, pedindo doutrina; huma vez ou duas, lha fazíamos, cada somana, qua; aguentarão tanto outras que se vierão multiplicando, pouco a pouco, e vem ja agora tantos que não cabem em casa, donde lhe fazemos a pratica, as sestas feiras, a noyte, porque são homens que vão ganhar sua vida e não podem vir de dia, comodamente. Recebemos os padres muyta consolação de ver estes homens em os quais esperamos de se fazer muito fruito. Em 146
tempo que esta escrevia, me deixarão (sic) que avia molhe- res devotas, que querião vir ouvir esta pratica da sesta feira. E porem, porque não he tão honesto virem de noite, bus- car-se-ha alguma ordem com que ellas também participem delia. Somos também consolados de ver a gente somenos e molheres frequentar a igreja, entre somana; em suas doenças e necessidades, prometerem huma cousa e outra e depois em trazerem o que tem prometido. Poucos dias ha que me con- tou o Padre Soveral que, vindo huma molher a igreja e pedindo a Deos lhe desse algum fructo de benção, pidio ao mesmo padre que, por sua mão, lhe desse huma pouca de agoa benta pera beber, esperando que por ser da mão do padre que Deos a ouviria. Avera dous ou tres annos que se sentio muita ajuda de Deos a molheres que não podião parir, com beber agoa benta, que ya alias scripsi. Acertou de vir a esta ilha hum embaixador del-rei de Jafanapatão, e achando-se doente, falando com elle hum cristão dos principais da terra, louvou-lhe muito a nossa fee e desdanhando a seita dos gentios, e que prometesse a nossa igreja alguma oferta, que seria são, dizendo-lhe mais: «e sendo são vos bautizareis». Ao que respondeo o gentio, que prometeria, mas que ainda que fosse são, não poderia deixar os seus e tomarsse christão. Prometendo elle, day a poucos dias, se achou bem, e mandou sua offerta a igreja. Este anno serão bautizados 700 pessoas, entre livres e cativos, os quais o Padre Soveral, ut //plurimum, tem cui- [384 dado de cathequizar e emsinar o tempo antes do bauptismo. Não conto aqui os meninos e meninas que nacem; e se não ouvera tanto que fazer, pode ser que, dentro deste anno, quasi chegara a copia de mil, porque estão agora muitos pera se bauptizarem. Muitas ocupaçõis tem o mesmo padre e mais agora com a ida do Padre Jerónimo Vaz; em ouvir demandas da igreja também tem gastado muito tempo; 1 47
temos ao presente dous homens bons da terra que nos ajudão a isso. Muito cuidado temos em fazermos pazes entre os des- cordes, em o que sentimos servirsse muito Deos Nosso Senhor. Não ha muitos dias que espanquando hum principal a outro homem honrrado, o qual espanquado tinha em seu favor hum de dous principais desta ilha, estava a cousa pera vir a muito mal. Puy emformado que se ausentava de casa o injuriado, pollo não mandar eu chamar, pera se vingar. Usei então de hum ardil. Mando hum dos juizes desta terra com hum escrivão que notificasse a sua casa e vesinhança e diante do Patão que tem principal, que dizião sustentado, que em nenhuma maneira se quisesse vingar, sob huma grandíssima pena, e que vindo elle dar conta do caso, se lhe faria justiça inteira com que ficasse satisffeito. Não se achou o tal homem em casa, nem sua molher, mas depois, ouvindo de seus amigos o requerimento que se fizera, o qual mandei escrever, teve por bem de vir, e ouvindosse a causa, castigousse de maneira o culpado que ficou o injuriado con- tente e satisfeito e também ficarão amigos; ca entre os chris- tãos não se contentão de pagar dinheiro, mas tem outros modos entre si de satisfação que são mais honrrosos. Outras pazes acostumamos a fazer, as quais não se po- dem escrever particularmente. O que ajuda a não aver muitas discórdias he aver os juizes dos milhores homens da terra, que ouvem as cousas, trabalham de dar a cada hum o seu e fazer amizade entre os discordes. Certo eu recebo consola- ção de ver quam bem procedem. Em suas duvidas nos vem pedir conselho, porque o capitão acustuma de estar na for- taleza, ao qual não podem recorrer facilmente, quando du- vidão. Temos esprital pera os christãos da terra, de quo alias scripsi, onde se curão os pobres doentes, pera a sustentação do qual derão os christãos, este anno, cem cruzados, pouco 148
mais ou menos. E isto em tempo da Pescaria do Aljôfar, como ja fizerão em outros annos. E em este aconteceo que vindo huma nao do reino, certas legoas junto desta ilha, a qual trazia muitos doentes, determinarão de os mandar qua, onde os christãos mostrarão muita charidade. Sertão oitenta ou noventa, e tomando trinta, ou mais, dos doentes em o dito esprital que temos da gente da terra, fazendo mais casas pêra caberem, todos os outros repartimos por casas de chris- tãos e forão recebidos com muita charidade, onde gostarão com elles, dando-lhes o necessário, nem faltarão alguns que vinhão sem serem requeridos pêra isso a pedir que lhe des- sem também a elles doentes. Tevesse assi no esprital como fora do esprital grande cuydado delles em o que os nossos padres e irmãos trabalharão com muita charidade e com toda edificação e assi se ministrarão os sacramentos e alguns dos que morrerão nos consolavão de quão bem partião desta vida. Alguns soldados pedimos que nos quisessem ajudar em esta obra pia, o que fizerão muy bem, velando e trabalhando e sofrendo os cheiros muito ruins, no que, certo, nos edifica- rão muito. Aqui os tivemos te nos embarcaremos pera Cochim e também nas embarcaçõis//a muitos delles se deo t385 r-3 o necessário pera o caminho e alguns homens que com elles fossem, pera delles terem cuidado. O capitão ajudou pera o gasto, que se nos esprital fez, com mil fanões, que podem ser quorenta cruzados, pouco mais ou menos. E tres vezes mais se gastou no mesmo esprital com os doentes de dinheiro aplicado a obras pias, alem do que os christãos gastarão com os seus doentes em suas casas. O Padre Jeronimo Vaz, entretanto que aqui esteve, es- tava na fortaleza como asima digo. Os seus exercitios alli era ser-lhe como vigairo; pregava-lhes e com amoestação da frequentação dos sacramentos, alguns avia que o frequenta- vão. Trabalhava muito de meter em paz os soldados e assi 1 49
era muy sollicito de fazer apartar alguns de amigas, quando avia alli terem-nas. Grande era também o cuidado que tinha dos doentes e assi deu ordem que se fizesse hum muy bom esprital, milhor do que dantes estava feito, e assi se ocupava em outros exercitios desta calidade, pello que muito edifi- cava a todos e o amavão muito. Polia Paschoa, vindo elle da fortaleza aonde eu estava, pêra ter alguns dias de refocilação dos trabalhos da Coresma, e ficando na fortaleza padres, não da Companhia, que era hum visitador do senhor bispo, e outros padres, vierão al- guns do povo pedir que lhe dessem o seu padre, que não podião estar sem elle, e assi sintirão muito vir-se elle daqui, e serão em grande maneira alegres, se lho tornarem a man- dar; nem faltarão alguns soldados que determinassem a se yr com elle pera o Preste, e assi se embarcarão pêra este efeito. Hum soldado, de idade de vinte annos, pouco mais, se determinou de entrar na Companhia, o qual he muito bom latino. Escrevi sobre elle ao provincial. Respondeo que fosse la a Goa. Antes que viesse recado elle proprio, todo o tempo que esteve nesta ilha, despois de se determinar de servir a Deos, ja he inviado e devera ja de ser recbido. Quanto a minha disposição e exercitios, no fim de Abril, achando-me fraquo, fuy a Negapatão, lugar onde esta o capi- tão del-rei e portugueses, pera ver se poderia ter alguma convalecencia, por ser terra mais sadia que esta, o que fiz com ter, primeiro, avida licença do provincial. Fizerão-me muitas charidades os da povoação e he para dar graças a Deos a devação que tem a Companhia. Desejão muito hum padre nosso laa, dizendo que não querião outro senão da mesma Companhia. Os principais dalli me pedirão cartas pera o Provincial, o qual lhe dei, e antes que a mandassem, ja me tinha respondido sobre isso o Padre Antonio de 7 5 0
Quadros, dizendo que por termos muitas empresas não po- dia ser. Hum homem da mesma povoação me tinha pedido muito que fizesse que fosse pera alli hum padre nosso e que pousaria com elle em suas casas que são das boas da terra. E posto que este homem não he dos mais riquos delia, dava a entender que lhe faria o gasto, e assi se offerecia que indo o nosso padre, daria huma boa esmola pera se fazer hum esprital de que aquella terra tem necessidade. O credito que commumente se tem qua da Companhia avia de aguilhar aos fraquos, como eu, a trabalhar de corresponder com o concepto que de nos se tem. No tempo que ahi estive, ouve sempre ocupações boas de louvores de Deos; confissões ouve poucas por minha fra- queza. Praticas também fiz poucas aos christãos da terra e portugueses, polia mesma rezão; em fazer amisades ouve ahi gastar mais tempo. He porto onde concorre muyta gente a comprar aros, polio que sempre ha misérias de discórdias e Deos seja // louvado, empedirãosse alguns odios e ruidos. t385 V-1 Algumas praticas tive também com alguns infiéis, pro- vando-lhe a verdade da nossa fe e falsidades das suas ceitas e polia bondade do Senhor, sempre se sinte fruito em tais praticas, ao menos pera os christãos que estão presentes e vem ou podem ver os infiéis, que os seus que são como padres, não tem que responder a verdade. No mesmo tempo que estive em Negapatão se deu ordem pera se acabar em alguma maneira o vocabulário malavar, porque avendo ja muitos dias que tinha trabalhado em buscar muita copia de vocabollos, os quais estavão pos- tos polia ordem alfabética, faltava por-se-lhe a declaração de cada vocabullo em português, o que se fez e assi em a declaração das conjugaçõis da Arte Malavar que estão feitas e acrecentey muitas cousas que fazião muito ao caso para a perfeição da Arte. '5 '
Pera estas cousas que fazia em Negapatão me ajudou o Irmão peto Luis, do qual arriba falley; também fazia elle aos domingos praticas na igreja aos moços e escravos e escravas. Antes que eu soubesse ser recebido na Companhia tinha eu escrito ao provincial mo devia de mandar, o qual o mandou ja recebido. Prazer a ao Senhor que o tomara por instrumento pera muito se servir delle com a lingoa que tem e com as letras que aprendeo, com a perseverança que sem- pre amostrou de muitos annos a esta parte, pera servir a Deos na Companhia. Quatro meses me detive em ir e vir a Negapatão; de la vim com milhor disposição. Despots que vim tive muitos trabalhos de negocios, que me fazem emfraquecer. etc. Quanto as igrejas desta ilha, posto que estavão feitas, tinhão ainda que fazer pera se acabarem, as quais acabamos. Fez-se mais outra igreja piquena alem das que erão feitas, pera insinar os moços a doutrina, por não virem tão longe como acustumavão de vir. O Padre Jeronimo Vaz também na fortaleza fez a igreja maior, porque a que dantes era feita era piquena e certo que esta muito devota. O capitão he muito nosso amigo; faz o que lhe pedimos e assi trata bem os christãos, polios quais roguem Vossas Reverencias a Nosso Senhor Deos, que Elle que os tirou do Egypto, ordene modo com que, de todo, se esqueção delle. O exemplo dos padres e irmãos he tal que muito edificão a todos, assi christãos, como portugueses e infiéis. Queira Deos que sempre assi seja, immo, que cada vez seja mais. Esquecia-me de lhe dar conta em como tenho feito huns avisos de como se poderá fazer Arte em qualquer lingoa; acabando de fazer estes avisos, como eu desejo, espero que aproveitarão. Sem eu saber a lingoa, tentei tirar humas decli- nações e comjugações da mesma lingoa, e esta a cousa quasi tirada; o que se tirou em bem poucos dias he o principal. ' 5 2
Pera se qua aprender qualquer lingoa são as conjugações e declinações. Estas são as cousas que me ocurrerão ao presente escrever a Vossas Reverencias, do que este anno Deos Nosso Senhor obrou por estes seus fraquos instrumentos. Elie por sua mi- sericórdia nos de conhecimento de sua vontade e graça pera perfeitamente a comprir. Desta ilha de Manar, oje, 30 de Dezembro de 1562. Inutilis Anrrique Anrriques. '53
22 CARTA DO PADRE DIOGO BERMUDES, O. P., À RAINHA Goa, 2 de Janeiro de 1563 Documento existente no ANTT: CC, I, 106-44- Mede 335 x 225 mm. Duas folhas, estando escrita apenas uma. Bom estado. La graçia dei Spiritu Santo 1 este siempre con V. A., amen. Este ano me falto la consolacion que de V. A. recebia todos los anos, e a qual no era pequena para quien por Dios y por V. A. dexo su natural y vino ha gastar la vida tan apartado de su tierra. Pues ni por V. A. no me responder tengo de dexar de siempre pedir charidades y esmolas, sin las quales aca no podemos vivir. Yo, Senora, estando ja viejo, cançado, aposentado, en una hermita mui devota de christiandad, perto de Goa, que llaman S. Barbora, quieto y consolado, fue ellecto por prior desta casa de Goa, madre y cabeza de la religion de aca, lo qual yo acete despues de tantos trabajos, por ver el amor, voluntad, uniformidad, con que todos me elligeron y, por la neçessidad que avia, perdi mi propria consolaçion por dar consolaçion ha tantos, assi frades como seculares, determi- nando de morir ja en esta tierra, y con esto pagar el gran amor que me tiene. Desta maneira2 fico para servir ha Dios y ha V. A. en todo lo que me mandare. Este ano acabamos la yglesia deste convento de Goa, que el-rey, que esta em gloria, mando edificar. Fico una de las fermosas casas, que yo nunqua vi mejor y mayor, que S. Domingos3 de Lisboa. Falta para esta yglesia una cosa I-S. St.»; 2 — m.'; 3 - D.M 1 54
mui neçessaria, que aca no ha, ny quien la aga, que son unos organos. V. A. nolos mande, por amor de Dios. Roberte Fernandez, edificador desta casa, por mandado de el-rey nuestro senor, pedio satisfaçion y merçed, la qual nunca le fue feita. Haora pide una cosa muy leve: que es- crivã V. A. una carta de encomienda para el viso-rei destas partes, encomendandole V. A. que aca le aga merçed, si allare que la mereçe. Don Duarte Deça, capitan que fue de Maluco, va desta tierra mui pobre, enfermo, dexando aca su muger y hijos de la misma manera. V. A. se alembre del y le aga merçed, pues por honrra de Dios, por la justiça y verdade perdio quanto tenia, como el mostrara por sus papeies. Va para ese reino un obispo caldeo, virtuoso y spiritual. Va con pareçer dei arçobispo de Cochin y de los mas pre- lados, pareçiendo a todos muy neçessario que este un tiempo en ese reino para despues tornar ha esta christandad // de u v.] S. Thome, donde puede hazer mucho fructo. Yo fue el pri- mero que le reçeby en esta tierra y siempre agasalle en nuestros conventos, y porque se del mas que ninguen le en- comendio mas a V. A., y assi encomiendo un padre ytaliano que va con el, que tiene aca mucho trabaiado en la chris- tiandad, enviado por el papa. V. A. le reçiba con el amor de madre que ha todos reçibe, ajudando y remunerando sus trabajos y necessidades. Nestro Senor el real estado de V. A. siempre prospere en su sancto serviço, amem. Oje, ha 2 de Janero de 1563. Menor siervo de A. V. Don(l) Diego Bermudez (1) Leitura hipotética. '55
23 CARTA DO PADRE PAIO CORREIA Cochim, 7 de Janeiro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fls. 453 v,455 e. Pax Christi. O anno passado se vos escreveo, charissimos irmãos, huma carta deste collegio em que largamente se vos dava conta assi do aproveitamento espiritual dos padres e irmãos, como do que Nosso Senhor se ouve dignado obrar por meo seu. Nesta cidade creo aver-se muito servido, porque huma das terras da India em que a Companhia, depois de Goa, em seus acustumados exercícios faz muito fruto he esta. Agora para comprir com a santíssima obediência vos direi, charissimos irmãos, o que boamente se me offerecer para que, como membros que somos de hum mesmo corpo, participemos nesta vida assi dos trabalhos como das conso- laçõis huns dos outros, com charidade acustumada com que nos comunicamos por cartas, não duvidando ser este ja na vida hum sinal da perfeita, que em os ceos avemos de ter os que fielmente nellas nos amarmos. Os padres e irmãos que ao presente estão neste collegio são em numero 20 padres e des irmãos: sinco ou seis destes padres com alguns irmãos se iuntarão agora aqui, por man- [454 r-3 dado do Padre Provincial,//pera irem pêra São Thome, Manar e outras missões, a que o padre os ha-de mandar. Em todos se vem sinaes mui verdadeiros da perfeita obediência de seus entendimentos, e tudo a vontade dos superiores. / 56
Folgão muyto com as mortificaçõis, assi com as que pedem ao superior, como com as que lhe dão. As regras trazem todos muy diante dos olhos, e com mui vivo deseio de as guardarem, e ajuda não pouco pêra isto o Padre Reitor com suas praticas, amoestações e exemplo, em que claro se ve o muyto que tem de Nosso Senhor he o Padre Mestre Belchior como polias passadas terão sabido. O concurso das confissões que a nossa igreja acodem he muito. Tem a gente desta terra muita devoção a se confessar na Companhia, porque muitas pessoas tem suas casas muy longe da nossa igreja, e vem-se confessar para comungar com os nossos padres. Comungarão, cada somana, em nossa igreja, sessenta pessoas, pouco mais ou menos, excepto nas festas principaes como nas tres: Paschoa, e Assumpção de Nossa Senhora, e a festa do Orago, que he a vocação deste collegio se confessarão e comungarão quassi tresentas pes- soas. Pera confissõis de pessoas de fora emfermos são nossos padres muitas vezes chamados, e a toda a hora que vem se lhes acode, o que não pouco edifica. A quaresma passada forão muytas as confissões na nossa igreja. Vio-se em pessoas muito arrependimento e proposito de mais não cairem em os peccados passados, e não so isto mas proporem de se che- garem muitas vezes a confissão e de receberem o Santíssimo Sacramento. Preguavasse em casa, alem das confissõis acustumadas, a saber: ao Domingo e dias santos, polia manhãa huma pre- guação; a tarde da penitencia; Domingos a tarde, e assi mais as sestas-feiras, a tarde, como he custume ca na India, e tem muita devação a gente desta terra a esta preguação, e era tanto o concurso da gente, que não cabia na igreja, e da rua e alpendre estavão ouvindo pregar-se as lamentações de Jeremias e no cabo se metia hum passo da Paixão, que movia muito a gente a lagrimas e devação. E, querendo o padre acabar a preguação, se mostrava da capella hum crucifixo, 1 57
que tãobem fazia muita devação ao povo e saindo o padre do púlpito ião todos em procissão, acompanhando o cruci- fixo com muitos meninos vestidos em hábitos brancos, com suas candeas nas mãos acesas, e alguns cantores cantando as ladainhas, ao pe do crucifixo, ao qual acompanhava assi o capitão, como muita parte da gente, e alguns desciplinantes ião assi ate a see, e day a Misericórdia, e ião-se para casa. Esteve a igreja na Somana Sancta muyto bem concertada; fizerão-se os officios todos muito bem, a quinta-feira polia manhãa, se preguou o Mandato com muita devoção assi do padre como da gente. A meia noite se pregou a Paixão, com as lagrimas que tal noyte requeria. Preguasse na nossa igreja aos Domingos e santos, e assi mais na see algumas vezes alternatim com os frades e outros se acode de casa somente. Preguasse tãobem em huma fre- guesia desta cidade, que se chama Nossa Senhora da Anun- ciada, aonde acode boa copia de gente. São tãobem nossos padres requeridos pera preguarem quasi em todas as fregue- sias desta cidade, que são muitos os dias de suas festas, e sempre se lhes acode, e tudo se faz com muita satisfação de todos. Fasse a doutrina na nossa igreja os Domingos, a tarde, pera gente simples, no qual se lhes declara o Pater Nos ter e Ave Maria, Credo e os Mandamentos. O modo que se tem pera se chamar a gente, alem de se encomendar no púlpito, he, huma hora depois do meo dia, ir hum irmão polia cidade, taniendo a campainha, tanjesse o sino da nossa igreja por hum pedaço. Parece se fara fruito com este exerecicio, polia necessidade que se ve claramente ter a gente desta terra da declaração das cousas de nossa fe. Alem disto, insinasse a doutrina christãa todos os dias em nossa igreja, indo hum irmão chamar os meninos polia cidade com huma campai- nha. Ao tronco se vay, assi a pregar, como a dizer missa, alguns Domingos, de que se seguio, alem da edificação que 158
disso se deo, confessarem-se quasi todos os presos e alguns que avia muitos annos que o // não fazião nem tinhão disso l454 V1 vontade o fizerão, com mostras de arrependimento e senti- mento de seus peccadoa e contrição que não he pouco pêra gente tão alhea do conhecimento e temor de Deos. Aos hospitais vão a consolar os doentes e confessar, os quais são muy consolados com nossos padres os visitarem. E, por averem muitos enfermos, pareceo ao padre mandar la hum padre e hum irmão que ha dias que la estão, sem virem ao collegio, durmindo e comendo la. Mostrão sinaes de muita charidade e edificação, não so aos officiais e pessoas que delles tem cuidado servem. Aconteceo que huma das noites passadas indo hum irmão lavar hum vaso, dos mesmos enfermos do mar, alguns homens e marinheiros de algumas fustas, que ay se achavão, emfadados do mao cheiro, saltarão com elle as pedradas e com paos, chamãodo-lhe muitos no- mes maos e feos, ate que hum delles conheceo que era da Companhia. Creo que, se o não conhecerão, o tratarão mal. Hum irmão tem cuidado dos meninos de ler e escrever; ensina-os com muita charidade; tem bom numero delles; são muy domésticos e amigos de aprenderem; confessão-se cada mes como he custume. O Irmão Miguel de Jesus, que este anno veo do reino, he aqui mestre da gramatica; tem perto de quarenta discí- pulos, os quaes não somente se aproveitão no saber, porque alguns delles vão avante, mas no principal em que a Com- panhia pretende, que he traze-los as confissõis e bons custu- mes. Crescem muito nisto. Confessão-se muitos delles cada oito dias, e tomão o Santíssimo Sacramento alguns delles, e alguns tem grandes deseios de serem admitidos na Com- panhia, e pedem-no com muita instancia. Os annos passados se recebeo hum dos milhores da classe, assi de engenho como de bons custumes, que não fez pouco deseio aos outros de o seguir. Polias Onze Mil Virgens, que he o principio dos 1 59
estudos, se fizerão muitos epigramas e enigmas e orações postas em alcatifas polia igreja, por não teremos crastas pera isso. Fez a vespora hum estudante, filho de hum homem honrrado, huma oração em publico que durou pouco mais de mea hora, com asaz satisfação; achou-se o senhor bispo a ella com o capitão da cidade e alguns religisos e outra muita gente. O bispo desta cidade mostra ser muito amigo da Compa- nhia, assi nas palavras como tãobem nas obras; vem muitas vezes ao collegio, assi a jantar, como a ver os padres; o capitão e mais pessoas que podem ajudar, quando se oferece, favorecem em quanto podem. Não calarei algumas amizades que Nosso Senhor fez por meo do Padre Reitor nesta cidade de muito seu serviço. Estava aqui hum homem muito honrado e tido em conta de cavaleyro, ao qual tinha injuriado outro gravemente. E sa- bendo disso o padre, fallou ao agravado, e quis Nosso Senhor que o trouxesse a querer perdoar ao outro, com dizer algu- mas palavras aqui em nossa casa, com que ficou satisfeito. Foi isto sesta-feira de Endoenças, e desta maneira ficarão grandes amigos e abraçandosse. Outro homem, ao qual tinha dado huma bofetada hum casado honrado desta cidade, e estando nisto muito duro, tanto que a nenhuma pessoa que- ria ouvir fallar nisso, assi os principais desta terra como ao capitão delia; e quis Nosso Senhor que, por meo do padre reitor, lhe perdoou, e ficou seu amigo. Outros homens hon- rados, e hum delles dos ricos desta terra, vierão a ter pala- vras, de tal maneira que andavão pera se matarem. Hum delles menos ricos (sic) tinha vinte homens e o outro alguns e muitos escravos. Meteo-se nisto o padre; quis Nosso Senhor apazigua-los. Outras brigas estavão pera se fazerem, das quaes ouvera de resultar não pouca desgraça e perda, os quais o padre apaziguou. Outros muitos deixo, por não ser comprido; somente digo ser o padre reitor muito aceito nesta 160
terra, e ter-lhe a gente muito credito, tanto que a nenhuma pessoa delia tem mais nem duvido que tanto. Queira Nosso Senhor augmentar-lhe sua... (2). // [*55 r-3 Quanto as obras materiais, he feito o lanço de huma qua- dra do collegio dos cubículos da banda do mar que são sete. Estão ja acabados e pousão os padres nelles; fasse outro lanço que ha-de ter outros sete, o qual se acabara este verão. Tem-se guastado muito no que esta feito. Hum defuncto deixou mil pardaos e outro duzentos pera as obras. O collegio esta no milhor sitio desta cidade; vesse dos cubículos o mar. Ha sempre viração que he e sera cousa de aver aqui sempre com a ajuda de Nosso Senhor poucos doentes. O nosso padre provincial Antonio de Quadros ha poucos dias que chegou a este collegio; fomos todos muy consolados com sua vinda, a qual avia muitos dias que esperávamos; ouvemos todos os padres e irmãos, assi os que aqui estamos como todos os da índia, fazer-nos Nosso Senhor grande merce em nollo deixar por este anno. Queira Nosso Senhor, por sua misericórdia, dar-lhe forças pera poder levar tão grande jugo, como he pera elle este, pera que assi com seu exemplo, prudência, saber e virtude grande a qual posto que emcubra, muito se ve nelle, possamos em alguma maneira imitar. Elle fica bem desposto, o Senhor seja louvado. Os que aqui neste collegio nos achamos, por respeito de estarmos mui alvoroçados e com deseios grandes de nosso padre provincial nos mandar a tantas missões, quantas Nosso Senhor tem aberto, a saber: a China, Japão, Maluco e outras a que parece se mandarão padres e irmãos. Pidimo-lo a Nosso Senhor queira Elle, por quem he, comprir-no-los, porque esta certo aquelle que padescer por seu amor, e como nestas partes se padece por muitas mais, parece que aquelles a (2) O copista esqueceu-se de concluir a frase. 1 6 I DOC. PADROADO, IX II
quem Nosso Senhor fezer merce de os levar, a cada huma destas partes tera certo sinal de guozar de seu Deos, ao qual, por seu amor em partes tão remotas e alheas e apartadas de todos os impidimentos, quantos temos aquelles que esta- mos tão cercados de cousas que, ainda que não queiramos, as avemos de ver e sintir, estão padecendo tanto trabalho por amor de Nosso Senhor, charissimos irmãos, que façais os alforjes pêra o tempo de tanta fome na qual, se sois filhos verdadeiros da Companhia, nos aveis muy firmemente de desejar achar pera que, quando vos ca virdes, mandados polia sancta obediência, vos sintais e estejais de maneira que não somente tenhais pera vos, mas pera aquellas almas tão famintas da doutrina e conhecimento de Jesus Christo, Nosso Senhor. E não sejais como eu, por não ter pera mim nem pera os outros, estou aqui neste collegio, ocupando o luguar de outro, o qual, se tevera os annos de occasiões de ser bom, como eu tive, pudera ja ser mandado a alguma destas par- tes, onde fizera grande serviço a Deos. Queirão, por amor de Nosso Senhor, em suas oraçõis rogar por mim pera que assi como eu trabalhar despindo-me pera a cruz, ouçais dizer pera o anno que eu alcançei huma destas partes. Não ha mais, charissimos, que vos escrever senão que pessamos a Nosso Senhor todos, nos de a sintir sua santa vontade e esta verdadeiramente cumprir. Amen. Hoje, 7 de Janeiro de 1563. Servo em o Senhor de todos Correa (3). (3) O nome Paio está riscado. 1 6 2
24 CARTA DO PADRE ANDRÉ FERNANDES AO PADRE PÊRO DA FONSECA Cochim, 16 de Janeiro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534■ (1) Fls. 471v.-474r. Mui Reverendo em Christo Padre. A graça e amor do Espirito Santo seja sempre em nossas almas. Amen. Porque o Padre Mestre Belchior he sempre ocupado, especialmente agora, que esta aquy a corte, e as naos da armada de Portugal para partirem, me mandou que respon- desse a carta de Vossa Reverencia, quiçá parecendo-lhe que, por ser velho e ter andado alguma parte da terra e mar, poderia ter visto e esprementado algumas cousas; seja lou- vado o Senhor. Elie sabe minha vontade pera fazer a obe- diência e satisfazer ao que Vossa Reverencia de qua quer, mas como eu não sei o que he sabido pela philosopia, nem esphera, tam pouco o que se deseja saber e por não perder mais tempo, baste isto para que me leve em conta todo o mais, crendo, porem, que se for alguma coisa, sera sem men- tir, mas do que vy ou ouvy a pessoas de credito, e porque ja tardo... Antre os cafres, por dentro da terra do Cabo das Correntes pera o de Boa Esperança, ha humas arvores gran- (1) BACIL: Cartas do Japão, III fls. 60r.-62v. 163
des quasi como castanheiros e assy nas folhas, e dão huns ouriços pequenos, e a fruyta que tem dentro são tres ate cinco, como feijões, senão que o que estes tem branco tem aquelles vermelho, que he huma pelle muito delgada e entre ella e o caroço, que não he muito duro, mas asy seco, como verde, se parte facilmente com os dentes, com muito pouca força; tem huma carne pouca e branca, que trazida na boca e da humidade, se desfaz em pouco tempo, asy a pelle como a carne e tem o sabor das avelans verdes. Porem sazoadas, como ya as alcancei das arvores em Inglaterra e nos Alpes, e depois de chupadas dos caroços, que ficão pizados e cozidos, se faz delles hum azeite que amargua, e he grosso como manteigoa no Inverno, com que se untão os cafres e se curão [172 r.] em quasi todas as enfermidades, e asy os portuguezes // que aly vão ter o tem experimentado por muito medicinal, assy para feridas, como corrimentos e outras enfermidades, assy a arvore como o fruyto chamãos os cafres Célica. Ha outra arvore grande com as folhas como de pereira, ainda que menos cooradas, que a casca moida e cozida, esfre- gando a sarna com ella, juntamente com agoa, em que se coze, a sara. Outra pequena, que moidos os paos delia e metido aquelle poo em hum pano, e alimpando os olhos com elle molhado em agoa, sara a enfermidade delles. Não sei o nome a nenhuma destas duas. Outra ha que, segundo os cafres, moido o pao delia e bebido, sara as febres. E ou- tras que também as casacas e folhas, pizadas ou cortadas e cozidas com a panela bem tapada, sarão também as febres, mas porque os cafres, quando uzão destas mezinhas (tirando as tres de riba) o fazem com suprestições, não me affirmo de sua virtude. Ha também na terra muitos mirabulanos, nas quais arvores ha macho e femea, e os machos somente são infruc- tuosos, os quais commumente crecem em alto, com pouca copa, e as femeas a fazem grande, e pendem os ramos para 164
baixo ate o chão. A fructa delles, depois que he em sua grandura, antes que madureça, he azeda, de bom gosto e os portuguezes os comem cozidos com a carne e eu também; e sabem muito bem e dizem serem muito proveitosos, espe- cialmente para abaixar e purgar a cólera. Depois de maduros fica-lhe huma cor rozada e o sabor muito bom agro-doce. Os cafres fazem vinho delles, a sua monção he de meado de Janeiro ate meado de Março e o mesmo tempo he o das arvores do azeite. Também entre as palmeiras das tamaras hay machos, que as tocão, como as figueiras de laa. Ha também muitas fructas de que fazem vinho, que assy o delias como o dos miramulanos embebeda muito. Ha muitas arvores que lan- ção cada noite flores perfeitas, como se se criassem em mais dias, de muito singular cheiro, e ora seja com a frescura da manhãa, ou por virtude do sol, ellas, antes que saya, e depois de saido, ainda que seja em partes donde elle não daa, se espedem do casullo em que estão pera riba pouco e pouco ate cairem, e não de murchas. Também ha destas arvores na índia. Outras ha, grandes, que se parecem com maceeiras da Nafega (sic) que, enquanto são pequenas de casca, fazem correas muito fortes, com que atão toda a maneira de obra que fazem de casas e o demais. E depois de maior, fica a mesma casca mais disposta, e fa- zem delia panos que vestem, e colchas com que se cobrem muito arrezoadas, que eu me ajudei de huma entre ellas, muitos dias. E a primeira tirão com a mão, depois que cortão os ramos, e a segunda cortão os paos de grossura de hum homem, pouco mais ou menos; depois os empinão no chão, e com huns instrumentos de pao, a maneira de sachos, dão de riba por todo o derrador, antre a casca e o pao, e assi se vem esfolando, pouco e pouco, e com os golpes quebra-se a cortiça de fora e fica o pano de dentro são, ainda que não 165
mui tecido, mas ajuntando dous ou mais, fazen-se, como di- guo, as colchas que com lias dos mais pequenos ramos cozem. E depois que são velhas estas arvores, he a casca tão dura que fazem delia vazos muito grandes, que levarão hum moyo de trigo e mais cozidos com certas vergas. E quando esta arvore começa a tomar folha nova, que cada hum anno a perde, crião-se nella huns bichos, assy como o dedo pole- gar, que se parecem com os de seda, que tomados polia me- nhãa, antes que estem cheos das folhinhas, e cozidos em seco, sabem tam bem aos cafres, que perguntando eu a hum por isso, me disse que, como galinha, e ay muitos naquelles poucos dias que as folhas são tenras e chama-se esta arvore Inze. Ha outras arvores que chamão cabaceiras, e que dão huma fructa como cabaças, ainda que mais rija, com que tirão agoa dos poços e tem hum miolo muito azedo, as quais tem muito pouca rama e grande grossura; que eu vy medir huma com huma espada de cinquo palmos, pouco mais ou menos, tinha quatorze ou quinze delias, e ainda ay outras [472 y.] muito mais grossas. // Dizem que o elephante tem odio a esta arvore, porque he branda de sy, e acontece meter-lhe os dentes e não os poder tirar; porque ainda pera meter da de sy, não para tirar, e assy os quebra, e custumão os cafres acolher-se a ellas, quando fogem delles, e os que ja tem experiência, não chegão, como fazem as outras arvores, que as quebrão atee que os matão, se são fracos. Isto ouvi na- quela terra a portuguezes que dizião ouvi-lo. Ha também outras, e estas também na India, que lanção as raizes de riba dos ramos, afora as primeiras com que estão nacidas, e assy como começão a nacer e depois sem cor e sabor e brandura, como se estivessem debaixo da terra; estas são mui grandes e de arrezeoada sombra . Em Maluquo dizem aver huma arvore de boa grandura, que se se lanção a sua sombra da banda do Oriente, adoecem i 6 6
e se achão mal, e da banda do Ponente se achâo bem. Isto quanto a arvores. O segredo e virtude das palmeiras da índia, por muito sabido, o deixo. Do coco de Maldiva direi abaixo, sabendo-o. O que sei de animais, que a mym he estranho, a Vossa Reverencia pode ser muito sabido, he do natural do elephan- te, que indo eu hum dia perdido por huns bosques, achava muito rasto delles, e assy sahy a hum vale grande, no qual vy muitas covas grandes de largas e fundas todas frescas. E porque me pareceo grande cousa pêra porcos, perguntei a huns cafres que me acompanhavão, e me disserão que os elephantes tinhão aquella maneira de buscar agoa, quando lhe falecia a que estava sobre a terra, fazendo aquellas covas com os dentes, e alimpando-as com as mãos, ate que acha- vão agoa. Os cavallos marinhos são animais grandes, depois dos elephantes, e eu ajudei a matar hum que corria muito pouco pola terra, que são muito pezados, pela sua grandeza, e sua feição em todo (2) he como a do elephante; soomente a cabeça e orelhas, que tem como cavallo, senão que na boca tem os dentes grandes, ainda que não tamanhos como os de elephante; mantem-se na terra e creo crião, especialmente se ay alagoas grandes, como ai naquellg costa, aonde ja vi a colher alguns pequenos, que no campo andavão pascendo. E vy hum ferido de huma espingardada fogir por hum grande espaço de mar, que lhe não cobria mais que meyo corpo, porque a agoa era pouca, com tanta ligeireza como o não pudera crer, se o não vira, sabendo quanto tardo e pezado era pola terra. O rinoceronte não he tão grosso como estes, ainda que seija mais alto que o cavalo, e não muito menos que o (2) Na cópia da BNL, esta folha encontra-se bastante deteriorada. Ajudamo-nos da outra cópia para a leitura de várias palavras. 167
elephante. Dizem os cafres que são mais bravos que os leões e tigres; as vezes os matão com suas armadilhas. A sua ca- beça, dos olhos pera riba, vay estreitando, atee que acaba na grossura de hum soo corno, que tem asaz acomodado pera ferir. De onagres, bufaros e outros animais infinitos, que naquella terra ha, não sei cousa que notar. Dos fígados dos lagartos ou crocodilos, que aly ha muitos, em hum rio, di- zem os cafres ser a maior peçonha e que mais asinha mata, ou das que mais asinha matão que todas as que elles usão, que são muitas. Decendo mais abaixo, na ilha de Goa se crião huns ratos piquenos que tem a pelle delles muito bom cheiro; em huma ilha que se chama Manar, que he junto da de Ceilão, se crião outros maiores que estes todos; tem os olhos branquíssimos. Isto quanto aos animais. Na China ha huns passaros de tão bom natural e abili- dade que parecem quasi estorninhos, os quais aprendem a bailar, e pondo ou vestindo a hum delles em trajo de homem, e ao outro, de molher, no bailo, o macho grangea a femea e faz-lhe geitos, como se fosse homem que muito quisesse namorar molher, e depois o homem vestem-no de hábitos de frade, e a femea querendo também namora-lo, elle mos- trasse envergonhado e que não quer consentir (digo habito [473 r.] de frade a seu modo.) // Também em Japão ha huns corvos marinhos com que pescão desta maneira. Leva o pescador o corvo em huma cesta ao rio, onde ha fruitas e põen-lhe hum laço ao pescosso bem em baixo, de maneira que não o afogue e deixa huma ponta do laço na mão, e lanção, e como mergulha e acha os peixes, enche o papo e sae pera os comer fora, e o pes- cador o toma e lhe aperta o papo ate que lhos faz lançar fora todos, ate que enche seu cesto, se pode. Não me lembro se vy ou me quis mostrar hum homem outro paçaro grande, que me disse manter-se com peixe e não comer mais que de oyto em oyto dias, huma vez, pouco mais, (ainda que a i 6 8
cousa sera em parte differente). Vive agora hum homem honrrado em São Tome ou Choramandel e abastado e dis- creto que bebe tanta agoa que se não pode crer, e pera isto faz as cazas junto de huma fonte, por ter agoa mais a mão, e não tem barriga, mas he enxuto. Por esta índia se crião morcegos tamanhos que dizem alguns terem, da ponta de huma aza a outra, oyto palmos, e que comem antes que galinhas. Estes tem nos cotos das azas humas unhas com que se apegão as arvores. Estão aly todo o dia pendurados ate noyte, que vão buscar de comer, e aquy os matão os que se querem ajudar delles. Não me occorre acerca desta cousa outra que diga. Estando eu em huma cidade daquella costa, que he maior e que mais senhorio ainda agora tem que todas as daquella costa, ouvi dizer como aly avia hum peixe que elles chama- vão molher, e que avia a lei que quem o matasse o mos- trasse a el-rei, pera ver se se ajuntara o pescador com elle carnalmente, porque dizião que o fazião. E ainda vy aly hum homem estranho; e perguntando quem era, me disserão ser pescador daquelle peixe, mas não sei mais, de então ate gora, senão que hum homem me disse que o vira e que era quasi da grossura de hum homem e assi de comprido e grosso e roliço, e pola parte de diante, tinha as feições de molher, a saber: os peitos e o demais. Não tinha pernas nem pescosso, mas cabeça redonda e boca e olhos da banda de diante; digo que, estando de barriga pera baixo, ficavão virados mais pera o chão que para diante, segundo entendi. Em Malucuo contão por muito certo aver hum peixe de bom sabor, mas tanto que o comem da fluxo de ventre, sem se sentir de nenhuma calidade da mesma pessoa ainda que dos circunseantes sy. Ouvy dizer que, vindo huma nao de Portugal pera qua, na paragem do Cabo da Boa Esperança, pouco mais ou menos, a cingira hum peixe de popa a proa, sobejando-lhe ainda grande parte do corpo, e foy de maneira / 6 9
que a pos em risco de se perder, ate que hum sacerdote com sobrepelÍ2 e estola, dizendo-lhe palavras santas, e lan- çando agoa benta no mar com devaçâo, o fez desaferrar a nao e foy seu caminho. Também ouvi dizer que se achara, em outra nao, metido o bico ou dente de hum peixe pollo costado, que passava a banda de dentro e em huma destas, não sei em qual, vinha hum Rui Vaz Pireira, irmão de Antonio Pereira Marrama- que, que ainda vive, por onde parece aver mais monstros no mar dos que sabemos. Não me occorre outra cousa. De virtudes de pedras, não ouvi falar nestas partes, soo- mente da que chamão do bazar, que assi se chamão os animais em cujos buchos dizem que se achão, que são car- neiros bravos, que se crião na Persia e eu os vy, se me não mentirão os que me disserão que erão elles. E são assy como os manços, senão que são mais aptos pera correr. E assy andavão elles em humas ribas ou barroquas asperas. Nem de ervas sei cousa que conte, porque da lombrigueira, que chamão, não sei mais que dizerem ser muito experimentada e ver da-la muitas vezes, com agoa ou leite, sobre alguma cousa doce, mas não sei onde nace. Outra erva nace na ilha de Goa com huns ramozinhos v.] lastrados //no chão, que dizem ser muito proveitosa pera as mordeduras das cobras de peçonhas que aly ha muitas. Cheira muito bem esta raiz. Eu cuidava que estava mais devagar, e disse-me agora o Padre Mestre Belchior que me fizesse prestes e asinasse a carta, que avia oye de ir pera fora, e asy não fica concluída, como eu cuidava. Não soube mais dos cocos que prometi, soomente nacerem naquellas ilhas de Maldiva, e o de dentro he o que se toma pera a peçonha, e vai muito, não sei o certo preço, mas segundo ouvi, de cento ate cincoenta cru- zados, e o de fora, digo o casco, pera beberem por elle, as i j o
vezes, vai quasi outro tanto. O mais certo que soube dos cocos de Maldiva he que nacem nos pees ou troncos de humas palmeiras, que nacem dentro na agoa, e por certas tormentas, que vem por tempos, se soltão os que são madu- ros e assy os achão sobre a agoa os homens daquellas ilhas. De mares não sei outra differença nos de qua pera notar; soomente em algumas partes, como Bengala, Cambaya, aonde vazão e enchem muito, ao tornar vem com tanta fúria que, se os navios estão em seco atravessados, vem como digo, o machareo de agoa que assy lhe chamão tão grosso, e de supito que da com elles atravez e se perdem. E por isso quando naquellas partes, por mais não poder, ficão em seco, fazem que fiquem as pas pera onde a-de vir a corrente, e assy muito bem amarradas, vem aquelles machareos, ou on- das, ou muros de agoa e passão de largo do navio, se não bastão pera o alevantar. De estrellas nenhuma cousa sei que possa contar a Vossa Reverencia, ainda que algum tempo fui vizinho ao outro polo, as estrellas do qual dão muito mais larga volta que as do norte. Alem de outras tem humas que fazem huma cruz e antre ellas e mais fora de algumas esta huma mancha preta fina, mas não que tire o alvor as estrellas; mas se disto Vossa Reverençia quiser saber, qualquer piloto lhe dirá. Em Cambaya esta huma grande emseada, que assy se chama emseada de Cambaya, e despraya nella muito o mar, parece-me seis ou sete legoas, e os navios que vão pera os portos delia levão pilotos da terra, porque, se não chegarem a tempo de maree chea, saibão surgir em alguns poços ou lagos que ficão com alguma agoa, por aquelle despraiado, direitos, porem a maree; que, se ficarem atravassados quando a agoa vem, he a maneira de muro, porque traz consiguo grande soma de area e traz tamanho impeto, que se acha os navios, como digo atravessados, ainda que estem nestes ' 7 1
poços, que diguo, que os sosobra e acarva (3) debaixo da area, que não parece mais nada; mas se estão dereitos à maree, corre de longo o machareo, que assy se chama, pa- rece-me polia mestura de agoa e area. E os que estão a nado correm muito menos risco que os que estão em seco, por- que destes, de qualquer maneira que estem, diguo, de bem amarrados e dereitos, estão a grande risco. E traz esta cousa quando vem tanto rumor que se ouve a huma legoa e mais, mas vem com tanta pressa que quasi em se ouvindo e sendo com os navios he tudo hum. No mar da China venta as vezes hum vento a que cha- mão tufão, e não tem tempo certo, mas sempre começa do Norte e acaba no Sul, ou Sudueste, ainda que, quando chega a estes dous rumos he mais brando, e quando vem do Norte he rigissimo, especialmente se he em tempo que o Sol anda da banda do Sul. Porque dizem ser então mais frio e pesado; dura três e quatro dias. São estes ventos muito perigosos e trabalhosos, e eu ouvi dizer ao Padre Mestre Francisco que não parecião ventos, mas que os demonios andavão aly, por- que como polia força do vento presente a-de yr ao som delle, e os mares ficão feitos do passado, são as naos combatidas de muitas partes do mar e ventos, e assi se perdem muitas e todas com muito risco. Porque fiquei mais hum dia que me não parti, acrescen- [474 r.] tei isto ou emmendei, mas todo foy muito // depressa. Nosso Senhor nos dee sua graça. No Sino Persico, junto de huma ilha, a qual se chama Barém (4), que esta mais perto da terra da Arabia que da Persia, bem dentro, se toma muita agoa doce no mar. Desta maneira: vão os marinheiros abaixo, quando lhe baixa o mar, por mergulharem menos, (3) Acarvar é termo antigo e significa: afligir, angustiar. Por metá- tese, acravar: traspassar, encravar, enterrar, etc. (4) Na cópia da BACIL falta o nome desta ilha. 172
com odres, com as bocas apertadas na mão, abren-nos em huns olhos grandes que deitão muita agoa e assi as enchem e he muito boa. De Cochim, 16 de Janeiro de 1563. Servo em o Senhor de Vossa Reverencia Andre Fernandez. '73
25 PROIBIDA QUALQUER OBSTRUÇÃO AO CRISTIANISMO Lisboa, 6 de Março de 1563 Documento existente no AHEl: Leis a favor da Cristandade, fls. 42-43 v. FILMUPO: Id., 19, 3 e 20, 1-3. // Dom Sebastião, por graça de Deos, rey de Portugal e dos Algarves, daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guine, e da conquista, navegação, comercio de Ethiopia, Arabia, Percia e da India, etc. A quantos esta minha carta virem faço saber que eu escrivi este anno huma carta ao Conde de Redondo, meu vice-rey da índia, feita em Lisboa a seis de Março deste presente anno de quinhentos sessenta e tres sobre a conversão e favor da christandade em estas par- tes da índia, na qual carta estão dous capítulos, de que o treslado he o seguinte: «El-rey, meu senhor e avô, que santa gloria haja, tinha ordenado e eu depois ordeney, como sabereys, que não hou- vesse bramanes nas minhas terras, por serem prejudiciaes a christandade, e o augmento delia, e posto que, como confio, tereis cuidado de o fazer comprir asy, todavia, pella grande obrigação que ha de ter (sic) muita conta com as cousas que fazem (sic) a bem da conversão, me pareçeo lembrar-vo-lo particularmente e agora, e porque se ante os ditos bramanes houve alguns lavradores, inda que sejão de sua mesma seita, que lavem (sic) por suas próprias mãos, pareçe que não pode- rão prejudicar, antes que serão utiles a terra, e sendo assim converia que estes não fossem lançados fora, nem lhe pro- hibisse viver nas minhas terras, emquanto elles não fizessem 1 74
o que particularmente esta prohibido aos gentios por minhas leis e // provisoens. Praticareis também este raro(l) e fareis sobre elles o que virdes que mais (2) quem são informado que os ditos medicos gentios que ha nestas partes são prejudiciaes e que com outros medicos portuguezes e christãos, naturaes da terra, estaria republica sufficientemente provida delles, pello qual vos encomendo que tomeis disto informação, e assim dos mais officios que ha mecânicos e outros de qualquer qualidade que sejão, e achando que não no (sic) servindo os infiéis, não havera falta, a que se deva temer respeito que ao (sic) favor que recebera a christandade, dando-se modos com todos os ditos officios, ou ao menos alguns delles que mais que venhão (sic) andem sempre nos christãos portu- guezes e naturaes da terra e não em gentios e infiéis, a orde- neis assi estas couzas e as mais que se offerecerem para bem da christandade; praticareis sempre com o arcebispo de Goa e com os padres da Companhia de Jesus e com as mais pessoas (3) parecer e experiência nos (sic) poderdes ajudar por que se ordene a (sic) faça sempre o que comprir para a dita christandade ter todo augmento e favor que for possível, como desejo.» Eu por mim (4) a dita carta e o que se nelle contem, assentei e ordeney que pareçendo arcebispo de Goa, provin- cial e reytor da Companhia de Jesus e com os padres de S. Domingos e S. Francisco e alguns outros letrados que para (1) Assim está escrito. O escriba devia ter reparado bem no manus- crito e ler o que lá estava: caso. (2) Faltam aqui algumas palavras, omitidas pelo copista, quer por ignorância quer por distracção. (3) Depois de pessoas há uma palavra que parece ser juro, mas que não faz sentido algum. Talvez fosse de cujo. (4) Como se vê, não há sentido algum em muitos destes períodos. O copista foi amontoando palavra sobre palavra, não se importando com o seu significado. '75
mim o escândalo e em proveito (5) e bem desta terra a dita carta, e o que nella mandava, se comprisse inteiramente pella maneira seguinte: que ouvidor-geral da índia faça notifi- cação aos ditos bramanes, a cada hum por sy, pellos rois que se forem dados pello dito arcebispo e provincial da dita Com- panhia de Jesus e pello vigario-geral de S. Domingos e Custódio (?) de S. Francisco, assignado por cada hum delles, nos quaes rois se porão bramenes moradores desta ilha de Goa, somente que não serão lavradores que haverem (sic) por suas mãos, nem medicos, carpinteiros, ferreiros, nem boti- queiros (sic) // nem rendeiros de minhas rendas que ao pre- sente a tem, salvo sendo prejudiciaes a christandade, e cons- tando ao dito ouvidor-geral que são alguns elles (sic), então lhe faça a mesma notificação, não merecendo outra mor pena porque a dita notificação os não executara doutra pena que mereçerem por direito aos senhores bramanes que assim forem dados em rol se notificará por o dito ouvidor-geral que a dita notificação ha hum mes se não fora desta ilha e de todas minhas terras, conforme a dita carta, e vendão suas fazendas por si dentro no dito mes e passados a poderão vender por seus porcadores (sic) dentro de hum anno, e não entrarão mais nenhum tempo nas ditas minhas terras, sob pena de serem captivos para as galles, ja sempre a perderão suas razendas para mim (6). A qual notificação assignarão os ditos bramanes e, não sabendo escrever escrever (sic), assinarão duas testemunhas, e a mesma notificação se fará a todo gentio da (sic) qualquer qualidade que seja, que constar ao dito ouvidor-geral ser (5) Continuamos a lamentar que o ofício de copista de documentos tão importantes tivesse sido confiado a pessoa tão falta dos necessários conhecimentos. (6) Os leitores, já habituados à confusão do copista, não deixarão contudo de seguir, per summa capita, o sentido geral deste importante documento. i 7 6
prejudicial a dita christandade, pello que hey por bem e mando que assim se cumpra e que, conforme ao sobre- dito i (sic) goardem inteiramente, o que asim ordeno e assentey da maneira sobredita declarada nesta carta. Notifi- cação assim ao dito ouvidor-geral e a todas as mais justiças e os officiaes, a que pertencer, que hora são e ao diante forem, e lhe mando que assim o cumprão e fação inteira- mente cumprir e goardar esta minha carta em todo e por todo, da maneira que se nella conthem, sem duvida nem embargo algum que a elle seja, posto que a qual não passara pela chancelaria, sem embargo da ordenação do 2" L° titulo 20 que dispõem o contrario. Dada em a minha cidade de Goa, sob o meu sello, aos vinte sete de Novembro, Vice- -rey o mandou por Dom Francisco Couttinho, conde do// í,:< Redondo, vice-rey da India, etc. Rui Mendes a fiz anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil qui- nhentos sessenta e tres. Conde vice-rey. Registado. Manoel Leitão. Carta sobre os bramanes e gentios a que se ha-de noti- ficar pello ouvidor-geral pellos rois que se forem dados pello arcebispo e provincial da Companhia de Jesus, e pello vigario-geral de S. Domingos, Custodio de S. Francisco, assignado por cada hum delles, que se sayão fora desta ilha e terras de S. A. Conforme a carta que escreveo e da maneira que tudo assima nesta carta se conthem, e vay declarada. Para ver. Registado. Rodrigo Monteiro. DOC. PADROADO, IX 12 '77
26 CARTA DO PADRE FRANCISCO DIONÍSIO AO PADRE MIGUEL DE TORRES Moçambique, 10 de Agosto de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. (1) Fls. 406 r.-406 v. Muy Reverendo Padre Gratia et pax Domini nostri nobiscum. Amen. Las ocupationes de confessiones y de otros exercícios de nuestra Compania y la brevedad del tiempo no dam lugar a que largamente, como Vuestra Reverencia deseia, de cuenta de nuestro viage, mas porque espero dar mas larga cuenta dello, en otra, en llegando a Goa, dire brevemente lo que me lembrare. Partimos, con prospero viento, de Lisboa, y duronos hasta llegar dos grados de la barra, que tuviemos 9 dias o 10 de calmarias. Passamos, con vientos, la barra, y de ay a delante, siempre nos sérvio viento, que parece que nos tiraria de nuestro camino derecho. Assi fue que nos lebo para el Brasil y amanecimos, una manana, dos léguas dei Brasil, la proa que yva a dar en unos bajos, que llaman de los Abrojos, cosa muy temerosa, porque nos hallamos en siete braças de hondo, y cosa muy repentina ni pensada, porque el piloto se hacia ciem léguas dei Brasil. Y proveyo Dios que amaneciesse, para que se pudiesse prevenir los peligros, bol- (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 7v.-8v. BAL: 49-IV-50, fls. 512 V.-513 v. i y 8
viendo la proa por donde entramos. Alii estuvimos ocho dias de Majo, porque, a los ocho del mismo mes, entramos en los bajos. Uvo consulta que se haria, sy iríamos a la Baya, o sur- giríamos, echando anchora, esperando alhi por viento, para salir dalhi y yr nuestro viaje. Parecio que devíamos esperar por viento, para salir de alhi y ir nuestro viaje. Y assi lo proveyo Nuestro Senor, mandando viento, despues de mu- chas oraciones y processiones y limosnas, que se hicieron y repartimos por la nao sanctos (2). Hicimos nuestros votos y prometimos, adhibito pruden- tice moderamine. Tandem, non despexit Dominas orationes et vota suplicantium, y proveyo de viento, con que salimos del peligro, y nos bolvymos a nuestro camino. Fue ocasion esta para hazerse muchas devociones y confessiones y tener buenos propositos. Del Brasil, para doblar el Cabo de Buena Esperança, teniamos largo camino, porque se avia de atravesar el Mar Oceano, mas de mil y quinientas léguas, el qual camino nos fue trabajoso, por aver, este anno, gran falta de vientos, que apenas tuvimos vientos mas de ocho dias juntos, que luego nos veniessen calmas. Plugo a Nuestro Senor que, a ocho de Julio, doblamos el Cabo, con una tormenta y, de ay vimos terra, el cabo de las Ajuias (sic) que llaman. Y de ay por delante entramos en la tierra de Natal, donde tuvimos una tempestad muy temerosa y peligrosa, en la qual el "viento nos era en popa, pero tan furioso que parece que la mar nos queria comer. Duro veinte y quatro horas, y segiose bueno viento y tiempo. Despues tuvimos otras dos o tres tempes- tades mas leves, aunque de vientos espertos y de trabajo. Faltonos viento, y quedavanos poco tiempo para llegar a Moçambique, ado (3) llegamos a dos de Agosto, pensando (2) BAL: E repartimos S.t0' (Santos) (?) pola nao... (3) I. é: aonde. '79
que nos éramos los prostremos, y fuimos los primeros, por- que no hallamos nao de nuestra compania, sino una de in- vernada, que llaman Esperança, la qual lleva esta carta. No se (4) decir el dolor que sentimos en no ver la nao Sam Philippe, en la qual venian nuestros padres y hermanos, mas las oraciones de Vuestra Reverencia y de los demas padres y hermanos de Portugal obraron que, otro dia, ter- cero de Agosto, llego S. Philippe, de cuya llegada nos con- solamos mucho, y con la presencia dei Padre Cabrera y de los hermanos, se nos olvidaron los trabajos passados, que no fueron poços. Venian buenos, aunque flacos de las enferme- dades que aviam passado; no digo de las enfermedades que nos todos tres padescimos juntos, donde nos sangraron tres y quatro vezes a cada uno, y los dos que estuvieron frenéticos, el Padre Cabral y Pero de la Cruz (5). Yo estuve enfermo, mas menos que los hermanos. Proveyonos Nuestro Senor de ».] munchas (sic) consolationes spirituales y têmpora//les, las quales no digo, porque se contaron en la carta que contara de nuestro viage. En nuestra nao uvo mancebos enfermos, y llegaron a ciento y ochenta, y a dozientos; morieron doze, y dos cayron en la mar; mas plugo a Nuestro Senor que, quando llegamos a Moçanbique, teniamos poços enfermos, mas mucho flacos, lo qual no fue en la otra nao, que descargaron dozientos en- fermos e mas de cien flacos; y muertos, cinquoenta y con muchas necessidades. Aqui supimos como el Padre Patriarca era muerto. Partir- -nos-emos de Moçanbique a once de Agosto. Dios Nuestro Senor prospere lo restante del camino y nos de fuerças para que cumplamos nuestros ministérios, digne vocatione qua (4) I. é: não sei. (5) Peto de la Cruz era um irmão da Companhia. Era seu com- panheiro de viagem. I 8 O
vocati sumus (6). En las orationes de Vuestra Reverencia y de los hermanos nos encomendamos, que en tantas difficul- tades no tenemos otro socorro sino Dios y sus oraciones. Escrevi esta, quasi sin orden y concierto, por no aver lugar para mas orden, ni contar nuestros ministérios y ocupa- ciones spirituales y del proximo, que assi de las que suele usar la Compania, como servir a los pobres enfermos, curan- dolos, confessandolos, ayudandolos a bien morir, hazer pazes, y otras cosas, las quales Vuestra Reverencia sabra mas largo por carta general. Christo Jesu sea siempre en nuestras animas. Amen. De Moçambique, 10 de Agosto de 1563. Siervo de Vuestra Reverencia Francisco Dionísio. (6) Cf. Epístola de S. Paulo aos Efésios, 4-1.
27 CARTA DO IRMÃO PÊRO DA CRUZ AOS CONFRADES DE ÉVORA Goa, 23 de Novembro de 1563 Documento existente na BNL: P. G. n.° 4534. Pis. 406 V.-409v.{\) Pax Christi. Ya que Dios Nuestro Senor fue servido de hazernos grande merced, en traernos a esta tierra sanos y salvos a todos, no llegando aqui de quatro naos, que de esse reyno partimos, mas que dos, y ser anbas en las que nosotros veniamos, de las quales dos, una, despues de poner la gente en tierra, se fue al hondo, con una tempestad que sobrevino, y la otra passo grandíssimo risco de lo mismo, mas quiso Dios que con la diligencia que pussieron en arronbar dozien- tas o trezientas pipas de vino, y otra hacienda, que alejaron al mar, se salvo, dando algunos golpes y echando el leme fuera, mas, segun dicem, quedo sana y no haze agua y torno para esse reyno. Parece justo de las muchas cosas que en um camino tam cumplido y prolixo se possan contar algunas, principalmente sabendo quanto se holgaran (por el amor que en Cristo todos nos tenemos) de oyr nuevas destes sus hermanos. (1) BAL: 49-IV-50, fis. 604 v.-608 r. Na cópia da BACIL falta esta carta. l 8 2
Començando, pues, del principio de nuestro viage, dimos a la vela, una tercia feria, por la manana, a las siete horas, o poco mas, 16 dias de Março, con tanta priessa, por causa dei breve viento que entonces teniamos, por cuya falta se avian detenido 6 dias que, sim esperar que el capitan mayor se enbarcasse, dieron, como digo, a la vella. Con este viento, en três dias y medio, sin tener grandes mares, llegamos a vista de las ilhas de la Madera, y de alhi a dos dias, Canarias, donde haciamos de mas de cinquenta léguas, cada samgradura. Despues de salidos de la barra de Lisboa, començo la gente y juntamente nosotros, a enjoar, donde tuvimos tanto enfadamiento, quanto experimentaran los que esta carrera navegaren. De nosotros tres fui yo el que mas tiempo estuve enjoado, porque me parece que passo de 14 o 15 dias, en los quales, la dolência hazia su officio, que he no poder comer, ni andar y echar quantas cóleras honbre //tiene en el cuerpo. El mejor remedio, puesto que [407 r era Quaresma, era beber caldos de gallina. Passado este enjoamiento, quedavan los honbres pur- gados vezios y con muy buena voluntad de comer. A los 27 dias dei mismo mes, llegamos a Cabo Verde, y començamos a entrar en la costa de Ginea. Començamos a dezir, todas las noches, las letanias a las quales, al principio, vénia mucha gente. Los domingos y dias sanctos, el Padre Dionísio pre- dicava, diziendo el capillan de la nao la missa, como es costumbre, seca. Deziamos tanbien los sabados la Salve can- tada, donde el piloto dezia sus trovas de Nuestra Senora y de otros sanctos, respondiendole los demas que sabian por el mismo tono. Los officios de la Semana Sancta hizimos como pudimos: diximos la Passion a boces, y era yo el Evangelista. Uvo en la procession de sesta feria muchos disciplinantes y otros con camaras de falcones a las cuestas, y otros pessos, en peni- tencia. Teniamos puestos, assi, en esta procession, como en ' 8 3
las demas, que despues se hicieron, siempre dos altares: uno en la tolda y otro arrumado al castello de proa. La missa del Sabado Sancto y las de los dias de Pasqua y fiestas senaladas se dezian con toda la solemnidad possible sirviendo las trom- petas de organos en algunas partes de la messa, etc. Andávamos estos dias debajo del sol y com poco viento, donde eran tarn grandes los calores quanto Dios Nuestro Senor sabia, y sintiamos esto nos mas que los demas, por no ser a nos licito andar en camissa y calçones, ni como andavan todos en general, ny dormir en el convés, al ayre de la noche, como ellos dormian, sino metidos como en suadores, y de dia desaciendonos con la grande calentura dei sol. Quiso Dios que, despues de 9 o 10 dias de calmarias, passássemos o doblassemos la linea a los diez y seis dias de Abril, aviendo un mes que aviamos partido de Lisboa, y esto a poder de choveros que nos yan, a poco y poco, echando fuera daquella tierra. Aqui se danno la mayor parte de las cosas de comer, porque el aceyte, la manteca, la mermelada, y la miei hervian; el agua se corrompia; las pasas, los higos y otras muchas cosas, con la grande calma, se denaran. Passada la lina començamos a tener vientos, puesto que escasos y a maynar um poco las grandes calmas. En este tiempo, o um poco antes, nos murio un honbre que en Lisboa entrara doliente, y de alli a ocho dias, otro, los quales hechamos al mar, haciendoles, primero, su officio y hacien- dolos encomendar a Dios. Doblamos el cabo de S. Augustin, que esta ocho grados, despues de la lina, y de ahi por delante, siempre nos fueron esquaceando, cada vez mas, los vientos. Y porque comen- çavan ya algunos a caer dolientes, tome yo el cuydado dellos, y el Padre Cabral ensenava a los moços de la nao, que eran muchos, la doctrina christã. Los enfermos crecian, cada vez mas, en tanto que, en poços dias, passavan de sesenta. El Pa- dre Dionísio los confessava, y hablava al capitan sobre algu- 184
nas necessidades que ellos padezian. El capitan nos mando dar de las cossas de dolientes que el-rei traya en la nao. Yo les concertava o hacia concertar el comer y se lo repartia, donde me approveche bien del tiempo que gaste en la cozina, y en otros officios de administrar cosas semejantes. Haciales y lançavales los cristeles, que era la maior y mas necessária medicina que aqui avia, con que la gente mucho se edifica, y el pobre dei doliente, segun el decia, quedava devedor de su vida. Yendonos pues, como decia, escaceando cada vez mas el viento, estando nos en quinze o 16 grados//y medio, ha- [407 ziendose nuestro piloto ciem léguas de tierra, y cerca de una isla, no sabiendo que las aguas nos yvan hechando hazia la costa deli Brasil, mando aquella noche, que era sesta-feira (por se hazer con aquela ilha), que tomassen la mesena; el dia seguiente, que era sabado, ocho dias dei mes de Maio, y dia de S. Migel el Angel, antes que amaneciesse, nos hallamos (como dizen) con los fucinos en tierra, donde se uviera la nao de hazer en pedaços y nos perderamonos. Mas Dios Nuestro Senor, que es verdadero piloto, y tenia determinado de lhevarnos a la índia, nos libro milagrosa- mente de este peligro, y fue de esta manera: que yendo nosotros, como yvamos, bien descuydados de la costa dei Brasil, quizo Dios que uno marinero se fuesse ao gurupés o esporon de la nao a pescar, antes que amaneciesse, y rom- piendo el dia, acerto a echar de ver en las aguas, las quales eran ya verdes, como de costa en que andavamos. Tornando a mirar mas, por no ser aun bien de dia, començo a affir- marse mas, y dezir consigo: «por estas barbas, que estamos cerca de tierra, y que estas aguas son de costa»; y llamando otro marinero, qu alli estava, para se mas affirmar, le dixo que mirasse para la color de aquellas aguas. E sendo en esto, esclarecia mas el dia, y levantando los ojos, myrando para todas partes, vio delante de si a rebentar el mar en unos ' 8 5
bajos à la nao, con su fúria, navegar para ellos, teniendolos direcho por proa. Dio entonces dos grandes boces al maestro o al piloto, los quales oyeron, los quales estonces no dormian, porque estando nos de alhi algun tanto apartados, los oy yo donde estava acostado, diciendo: «orsa, orsa, baxos por proa». Estas palabras dieron tam gran !e perturbacion y alboroto por la nao, que assi el capitan como soldados y gente de la mar y los demas saltaron como fuera de ssi, assi como estavan en la cama, y tomando esta palavra en la boca, algunos honbres metian muy mayor miedo. Poniendo, pues, toda la diligencia posible en marear las vellas, dieron com presteza buelta a la nao, y echando el plumbo, hallaronse em nueve braças, pidiendo la nao sete. Fue tanto este peligro que dezia el mestre que, quando bolvio la nao, no quedava mas de un tiro de piedra, donde uvieramos de varar en tierra y perdemos todos. Tam grande fue el span to que les dio de ver la muerte delante sus ojos que, dado buelta a la nao y salidos ya deste peligro, no acabava la gente de tornar a sus colores. Levantandose el sol, vimos correr aquella costa dei Bra- sil, blanqueando aquellos arenales; algunos dubdavan la tierra donde estávamos, mas reconociendola bien algunos, que por aquella costa tenian navegado, entendieron estar en las Abrollos que llaman tierra habitada, segun dicen, de brasiles gentiles muy barbaros, que comen gente y que alli avian comida mucha gente de otra nao que se perdiera, y alli trayamos un marinero que se hallara presente y que avia escapado, metiendose por el mato, y despues, yendo a dar con portugueses. Anduvimos alli, bordeando con el plunbo en la mano, diez dias, con asaz de trabajo y peligro, por este tiempo ser alli inverno y andar los mares brabos, y nos estar metidos en una como enseada (?), con dos puntos al mar, y de cada parte que corríamos teniamos baxos de i 86
aquellos puntos, y para salir fuera teniamos los vientos por proa, y assi estavamos en peligro de qualquier tempestad dar con nosostros a la costa. Por esta razon de estaremos en tanto peligro de daremos en tierra, y en tierra de tam ruim gente, consulto el capitan con los officiales de la nao que harian. El voto mas comun de todos (visto que no podian salir dei alhi para seguir su camino) fue // que, o tomássemos puerto, o arribássemos a [109 r.] Portugal. El piloto dezia que anduviessemos como andáva- mos, mar arriba y mar abaxo (como dizem), esperando que Dios nos mandaria algun buen viento. Com esto, andava la gente amotinada, y no avia sino círculos y ajuntamientos de soldados y marineros por la nao murmurando, por que no tomarian puerto, por andar aquellos dias el mar picado, com muchos choveros y viento rezio (2); y principalmente diziendo el contra-mestre que avia navegado por alli cinco anos: «proviera Dios que, quando queramos salir de aqui, podamos, y que no salgamos con las manos en la cabeça.» El Padre Dionísio hizo, luego que dalli salimos, una pre- gacion, exortando a la gente a agradecer a Dios aquella merced y sabei la conozer, y el capitan pedio que se heziesse otras devociones in gratiarum actione, y pidiendo a Dios com disciplinas y processiones y prometimientos de missas, y um romero, y cirios que tiraron aquellos dias que por alli anduviemos, que nos diesse vientos, para que de alli saliessemos. Estos dias andavamos todos buenos christianos y la mayor parte confessados. Finalmente, alargandonos, poco a poco, cada dia mas, el viento, salimos de alli con tanta alegria de todos, como se salieramos de las puertas de la muerte. Uvo, el tiempo que echando el plunbo no hallaron fundo, grandes dadivas dei (2) Leitura hipotética. i 8 7
capitan y de todos honbres, y de alii por delante, se començo a oyr gente en la nao y a cantar y taner de noche, como si de nuevo resucitara. Lo qual avia estado los dias atras triste y callado. Llegando, pues, por abreviar, a los 23 grados, puesto que con calmarias, que de aqui por delante quasi siempre tuvie- mos, no se se por ser, como dizem, aquel clima o tropico doentio, o por mudanza de salir súbito de las calmas y entrar en el frio, eran tantos los dolientes que ya no me sabia dar a consejo con ellos. Aqui tuve um pequeno de trabajo. Cayo luego el Padre Cabral, con unas fiebres razias, y yo otras, el otro dia, y el seguiente, el Padre Dionísio, de manera que no nos podíamos servir unos a otros. Salto con el Padre Cabral frenesis y estuvo con el, pareceme que siete o ocho dias, y yo estaria tres o quatro. Fue el sangrado cinquo vezes, sim otra que no salio sangre, y yo fuy quatro vezes, que mas parezia lanzadas que lanzetadas, porque me uvieron de mancar un braço. El Padre Dionísio fue sangrado- duas o tres vezes. Duro nuestra dolência cerca de dos meses, en el qual tiempo fuymos visitados, assi dei capitan, como de la mas gente honrrada de la nao, y proveydos de las cosas que a nosotros nos faltavan, mostrandonos siempre todos grande amor, offreciendonos las conservas y cosas de dolientes que en su casa tenian. Avia este tiempo que nos estávamos dolientes en la nao ciento y quarenta y seis dolientes, tomados por rol, y de alli por delante siempre cayeron de nuevo tanto que poços que- daron que no adolesciessen. For esta causa, en la nao, no se hallava quien quissiesse vender una gallina, y si alguna se hallava, su precio comun era quinientos maravedis. La dolência de todos eran febres, con frenesis, de manera que, en este tiempo, nunqua faltavan dodos en la nao; duravan estas fiebres comummente ocho dias, salvo que todos en general recayan duas y tres vezes. El Padre Dionísio recayo 188
una vez, y yo dos; el Padre Cabral, todo el tiempo que nos recayamos y sanavamos, estava doliente. Desta manera, fuymos hasta la altura del Cabo, teniendo por enfermero un soldado virtuoso, a quien yo antes avia curado, un honbre indio, y otro moso que nos ayudava, haziendonos el comer y en otras cosas a que nos no podía- mos acudir. Nos cayeron tanbien // dolientes, donde podran, C403 charissimos, ymaginar el trabajo, porque no bastava las fie- bres y lugar estrecho, los dolores de cabeza, y golpes, brados de marineros, y baybenes de la nao, que nos atormentavan, sino eso que teniamos de comer, no tener quien nos lo hiziesse o concertasse, porque no solo nuestros cozineros, mas quasi quantos avia en la nao adolocieron y muryeron munchos de ellos. Por todo, sea el nonbre del Senor bendito. Se les dezir que, como no escrevi aquel tiempo estas cosas, no las se agora, que estoy fuera delias, pintar como fueron. Llegados, finalmente, con asaz enfadada toda la gente, por las grandes calmarias que teniamos a la altura dei Cabo de Buena Esperança, o tres grados menos, por estaremos muy apartados al mar dei Cabo, parecia al pilopto (sic), junta- mente, pedir el Cabo y acabarse de poner en la altura, que son 35 grados, y assi haziamos los grados de ochenta léguas. Tuvimos, este tiempo, seis o siete dias de viento fresco es- perto que nos puso en la altura. Estando en la altura, començamos a correr por ella un dia o dos, despues de Corpus Christi, haziendose nuestro piloto seiscientas léguas dei Cabo; aqui nos dieron logo calmarias, cosa bien nueva en semejante paragen. Passamos por las ilhas de Tristan da Cunha, donde por las grandes tempestades de vientos que alii ay perpetua- mente, dizen que andan los demonios visiblemente. Estas, pues, passamos con tanta calmeria y llaneza del mar que parescia mas costa de Guinea que Cabo de Buena Esperança. Anduvimos, pues, desta manera, por la altura 27 dias, con / 8 9
assaz de enfadamiento, por las grandes calmerias que tuvi- mos. Mas quiso Nuestro Seiior que, despues de estar tres dias surtos, un sabado, a la tarde, tres dias de Julio, teniendo por regimiento del-rei que, si a los ocho dias de este mes no estuviere passado el Cabo, que se vaya por fuera, y que no tomen Moçanbique, cosa que tanto nos teniamos neces- sidad, assi por los munchos dolientes, como para tomar agua y mantimentos. Este dia, haziendonos ya 200 léguas dei Cabo, quiso, como digo, Nuestro Senor darnos un viento a popa tam esperto quanto nosotros deseavamos. Con este, nuestro pi- loto y los demas animadosy cobrando esperanças de yr por dentro, sin curar de ver el Cabo de Buena Esperança, que esta en 34 grados y medio, se pusieron en 35 y un tercio, y pedieron el Cabo de las Agullas que esta en 35. Llamase este el cabo de las Agullas, porque como a esta paragen llegan, no restam luego las agullas de marear. Esta 30 léguas adelante dei Cabo de Buena Esperança. Concordaron bien los officiales, porque haziendose quasi todos, quarta feria, por todo el dia, o quinta por la manana, en el Cabo, quinta feria, ocho de Julio, en el qual se cunplia, como tengo di- cho, el regimiento, en rompiendo el alva, vieron tierra y esclareciendonos el dia, conocieron ser el Cabo de las Agullas. El alegria que en la nao huvo fue muy grande, y tanta que con hazer muy gran viento y frio muy munchos dolientes yvan a vellas. Començamos luego a entrar por la tierra de Natal, que es como otro Cabo de Buena Esperança; aqui tuviemos algu- nas tempestades; una de ellas fue grande, que puso miedo a la gente, porque, no llevando mas que la vella dei tra- quete grande, por le no poder quitar la moneta, para que solamente fuesse el papa-figo, corrio grande risco de llevarla el mar, juntamiente con el mastro, el qual yva quasi como arco, y si el mar la llevara, con el grandíssimo viento que / 9 o
estonces hazia, y tanto que dezia el maestro de la nao que avia // en el mar mas rezio viento que aquel, corria grande [«<» *0 risco de comer la mar, con los grandes mares que hazia la nao. Esta tempestad duro veyente y quatro horas. El capitan mando llamarnos, y que echassemos algunas relíquias y encomendássemos a Nuestro Senor la nao. Yo estava debaxo de la tolda viendo aquellas cierras de mares, y como quien entendia poco el peligro en que estávamos. Em parte, gustava en ver aquel ferver del mar y levantarsse ondas que atravessavan por medio del convés, de una parte a otra de la nao, mas mirando para los rostros de los hon- bres que de esto entendian, vialos tam denudados, y esto me dava alguna sospecha. Despues de passado, me dixeron el peligro en que estávamos. Era tanto el sonido dei viento, que metia miedo y eran tam grandes los balanços que metia la nao, algunas vezes, el bordo por debaxo de el agua. Entonces harto hazia cada uno de se poder tener cosido y pegado en alguna parte. Corrian de una parte para otra los barriles, caxas y peloros de tyros, que era un laborinto. Este dia no avia hazer de comer ni avia fuego, ni davan regia los que no tenian sino la regia que eran munchos padesci- mientos, porque aun los que tenian que comer, no podian yr a tirarlo. Ayudonos esta tempestad, por ser a popa, para salir, mas presto, de esta mala tierra y tam temida de todos. El dia seguiente, que fue sesta feria, amanecio un dia sereno y muy claro; los mares, ya quebrados, y con tanto viento quanto nos queríamos, amaneciemos dos o tres léguas de tierra, con la qual todos holgaron por la ver mas clara que la dei Cabo. Este dia passamos la tierra de Natal, porque aquel parecia el Cabo de ella. A los 25 (3) dias de Julio nos cayo un honbre al mar, y por yr la nao a popa y muy rezia, lo dexamos, viendo nos (3) BAL: Atos 28 dias de Julio... 191
el pobre yr, y nos a el quedar sobre las aguas, cosa de ver- dade lastimosa, por ser un honbre casado y con munchos hijos. De alli a quatro dias, que fue primero de Agosto, llega- mos a Moçanbique; no hallamos ay ninguna nao de nuestra compania, sino una de invernada, lo que nos causo a nos tristeza y cuydado de nuestros companeros, que en S. Philipe venian, porque nos parecia que avya ya un mes que alia estavan. Mas quiso Dios que luego el dia seguiente vieron una vella y luego conocieron ser nao del-rei. No fue luego yo a Nuestra Senora dei Cabo, que esta alli en Moçanbique, con deseo que fuese en la que venian nuestros hermanos. Quiso Dios que fue ella, no aviendonos visto en todo el camino. Desembarcaronse y fueronse al hospital, donde no- sotros possavamos. Pueden, charissimos, cuydar quanto fol- garíamos de nos ver todos yuntos, vivos y sanos, puesto que todos algun tanto flacos, porque assi ellos como nos estuvi- mos dolientes. A ellos les murio un moço que con ellos yva para ser aca admitido en la Compania. Aqui estuvimos diez dias, ayudando a servir a estes dolientes, que eran munchos, diziendo missa, confessandolos y dandolos el Senor y ayu- dando a morir algunos. De ay nos partimos, tomando algun refresco, assi para nos, como para los dolientes, y en un mes llegamos a Goa, por ser esta moncion de vientos que nun- qua faltan. Las cosas particulares de este camino de Moçan- bique a Goa fueron estas. El tercero dia, despues de partirmos, vimos las ilhas de Comoro, que es una tierra mas alta que yo vi en my vida. Dizen que son habitadas de unos gentiles mulatos, y que tratan con los moros de Meca y de Persia y Arabia. Esta tierra via yo por en cima de las nuves, y estando un poco apartado, no podia creer que era tierra, sino alguna nuve preta, alta, porque debaxo de ellas avia nuves blancas, hasta / 9 2
que llegando mas cerca de ella, vi ser tierra. Dizen no aver- la mas alta en todo el mundo. Passados algunos dias, nos cayo otro honbre al mar, el qual nadava como un pexe. Hizimos dos o tres bordos, y por la nao ser dura dei leme, tan poco lo pudimos tomar, porque quiso su ventura que dexamos el batel en Moçambi- que, y la nao caminando, lo perdimos de vista. Sin este, nos cayeron otros tres; uno de ellos no lo vimos caer, y assi se quedo. Otro, estávamos en calmaria, y echandole unos barri- les, se pego en uno, y esporo los pies y la barriga para riba hasta que, echando el batel fuera, lo tomamos. El otro quando caio yva la (4) // nao que desaparezia, mas yendo [409 el pegado a un cabo, no lo solto, puesto que la nao lo arrasto por un buen pedaço, agora por debaxo, agora por en cima dei agua, hasta que otros marineros le alçaron (5) arriba, y hizole dar merced, porque quando cayo yva para dar una facada a otro marinero, yendo ya para matallo, que andava concertando la vella, cayo al mar y ni esto basta para lo amansar, sino aquella noche, estando como estava molido y aviendo bebido buen golpe de agua, le dio de pancadas. Antes de llegar a Goa, por correr las aguas hazia el Estrecho de Meca, tuvimos alguna detença, tuvimos assi mismo un dia de tribulacion, porque estando ya en la altura de Goa, que son 16 grados y medio, estávamos en calmeria, y no sabíamos quan apartados estávamos de Goa, y no tenia- mos ya quasi agua, tanto que no darian mas que um quar- tillo cada dia a cada honbre, mas el dia seguiente, viendo tierra, cesso y uvo abundancia de todo. Llegamos todos iun* tos, y fuymos recebidos de dos padres y dos hermanos que en unas manchuas vinieron. En S. Pablo de Goa fuymos recebidos con la acostunbrada charidad, donde agora esta- (4) BAL: yva la nao que desaparecia... (5) BAL: alaron a riba... '93 DOC. PADROADO, IX 13
mos el Padre Dionísio y el Padre Marcos, el Hermano Ja- come y yo, haziendo lo que la obidiencia nos ordena. El Padre Cabrera fue para Baçayn, y el Padre Cabral, ante 22 de Novienbro, para Ormuz, donde esta el Padre Tonda y Gonçalo Vaz. Estamos todos agora con grande fervor, assi por los bramenes, que viene que se echem fuera, como por los baptismos solemnes que se an de tornar a hazer como de antes. Por otras particulares sabreis, hermanos charissimos, otras cosas que, por no enfadarvos, no pondre aqui, y estas que aqui pusse, por la letra, conocereis la priessa que tenia. Estamos bien despuestos, y yo con las fuerças y buena dispu- sision que alia tenia o meyor. Sea para gloria y servicio de su divina magestad. Dizemme que ay aca bien en que em- plearlas, y donde me seran bien menester. Paratum cor meum. Em vuestras sanctas oracions muncho me enco- miendo. A 23 de Novembro de 1563, de Goa. Vuestro minimo en Christo hermano. Pero da Cruz (6). (6) BAL: Termina com a nota final: Murieron veinte quatro per- sonam, y a S. Philippe mas de sesenta. '94
28 EXPULSÃO DE TODOS QUANTOS IMPEDIREM A CRISTANDADE Goa, 27 de Novembro de 1563 Documento existente no AHEl: Livro do Pai dos Christãos, //. 91. Publicado por Cunha Rivara no APO, V, n." 472, págs. 543-545. É documento igual ao anterior, mas interessa para confrontação das duas cópias. Dom Sebastião, per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves, daquem e dalém mar em Africa, Senhor de Guine, e da conquista, navegação, e comercio de Ethiopia, Arabia, Persia, e da India. &c. A quantos esta minha carta virem faço saber que eu escrevi este anno huma carta ao Conde do Redondo, meu V. Rey da índia, feita em Lisboa a 6 de Março deste anno de 563, sobre a conversão e favor da christandade em estas partes da índia, na qual carta estão dous capítulos, de que o treslado he o seguinte: — EIRey meu senhor e avo, que santa gloria aja, tinha ordenado, e eu depois ordeney, como sabereis, que não houvesse bramenes nas minhas terras por serem perjudiciaes a christandade e ao aumento delia, e posto que como confio tereis cuidado de o fazer cumprir asy, todavia pela grande obrigação que ha-de ter muita conta com as cousas que fazem a bem da conversão, me pareceo lembrar vo lo particular- mente agora; e porque se entre os ditos bramenes ou ver alguns lavradores, inda que sejão da sua mesma seita, que lavrarem por suas próprias mãos, parece que não poderão prejudicar, antes que serão utiles a terra, e sendo assy con- \ 1 95
viria que estes não fossem lançados fora, nem lhe prohibisse viver nas minhas terras em quanto elles não fizessem o que particularmente esta prohibido aos gentios por minhas leis e provisões; praticareis tãobem este caso, e fareis sobre elle o que virdes que mais convém. São informado que os medicos gentios que ha nessas partes são prejudiciaes, e que com outros medicos portu- guezes e christãos naturaes da terra estaria a republica sufi- cientemente provida delles; pelo qual vos encomendo que tomeis disto informação, e assy dos mais officios que ha macanicos, e outros de qualquer qualidade que sejão; e achando que não nos servindo os infiéis, não avera falta que se deva temer a respeito do favor que recebera a christan- dade, dando-se modo como todos os ditos officios, ou ao menos alguns delles, que mais convenhão, andem sempre nos christãos portuguezes e naturaes da terra, e não em gen- tios e infiéis, o ordeneis assim; e estas cousas, e as mais que se offerecerem pera bem da christandade praticareis sempre com o arcebispo de Goa, e com os padres da Companhia de Jesus, e com as mais pessoas, de cujo parecer e experiência vos poderdes ajudar, por que se ordene e faça sempre o que comprir pera a dita christandade ter todo augmento e favor que for possível, como desejo.— E visto por mim a dita carta, e o que se nella contem, assentei e ordenei com parecer do arcebispo de Goa, provin- cial, e reitor da Companhia de Jesus, e com os padres de São Domingos e São Francisco, e alguns outros letrados, que para evitar o escândalo do povo, e bem desta terra, a dita carta, e o que eu nella mandava se comprisse inteiramente pela maneira seguinte. Que o ouvidor geral da índia faça noteficação aos ditos bramanes a cada hum per sy pelos roes que lhe forem dados pelo dito arcebispo, e provincial da dita Companhia de Jesus, e pelo vigário geral de São Domin- gos, e Custódio de São Francisco, assinado por cada hum 196
delles, nos quaes roes se porão bramanes moradores desta ilha de Goa somente, que não sejão lavradores que lavrem por suas mãos, nem medicos, carpinteiros, ferreiros, nem botiqueiros, nem rendeiros de minhas rendas, que ao presente as tem, salvo sendo prejudiciaes a christandade, e constando ao dito ouvidor geral que o são alguns delles, então lhe faça a mesma notificação, não merecendo outra mor pena, por- que a dita noteficação os não exceptuara da outra pena que merecerem por direito; aos quaes bramanes que assy forem dados em rol se noteficará por o dito ouvidor-geral que da dita noteficação a hum mez se irão fora desta ilha, e de todas minhas terras, conforme a dita carta, e vendão suas fazendas por sy dentro do dito mez, e passando, a poderão vender por seus procuradores dentro de hum anno, e não entrarão pas- sado o dito tempo nas ditas minhas terras sob pena de serem cativos para as gales para sempre, e perderem suas fazendas para mym. A qual noteficação assinarão os ditos bramanes, e não sabendo escrever, assinarão duas testemunhas; e a mesma noteficação se fará a todo gentio de qualquer qualidade que seja, que constar ao dito ouvidor geral ser prejudicial a dita christandade, pelo que hey por bem e mando que assy se cumpra, e que conforme ao sobredito se guarde inteiramente o que assy ordeno, e assentei da maneira declarada nesta carta. Noteficoo assy ao dito ouvidor geral, e a todas as mais justiças e officiaes a que pertencer, que ora são e ao diante forem, e lhe mando que assy o cumprão, e fação inteira- mente comprir e guardar esta minha carta em todo e por todo da maneira que se nella contem, sem duvida nem embargo algum que a elle seja posto: a qual não passara pela chancelaria sem embargo da ordenação do 2o Livro, titulo vinte, que dispõe o contrário. 197
Dada em a minha cidade de Goa sob meu sello a 27 de Novembro. EIRey o mandou por Dom Francisco Coutinho, Conde do Redondo, e viso-rey da índia &c. Ruy Martins a fez anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1563. — Conde Viso Rey. 198
29 CARTA DO IRMÃO JACOME DE BRAGA AOS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Goa, 2 de Dezembro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n." 4334. (1) Fls. 409 V.-413 v. Pax Christi. Por comprir com o que Vossa Reverencia nos mãodou, darei brevemente conta das cousas que nos socederão, em todo o caminho de nossa viagem, depois de nossa partida de Lisboa, que foi terça-feira, 16 de Março de 1563- Logo como derão a vela, para nos partirmos, nos recolhemos e tivemos oraçam; dissemos as ladainhas polo bom sucesso de nossa viagem, o qual nos foi mui prospero, com vento a popa, ate nos pormos em altura de trinta e quatro grãos, que são cem legoas, antes de chegar a linha, e todas estas novecentas legoas, que são de Portugal a esta paragem, an- damos em quinze ou dezaseis dias. Ao principio de Abril, nos começou a calmar o vento, e ao quarto, que foi ao Domingo de Ramos, acalmou de todo. O que ate aqui sucedeo he o seguinte: primeiramente o Padre Cabreira foi, depois de nos emcomendarmos a Deos, a falar com o capitão acerqua das cousas de nosso ministé- rio, como era dizer as ladainhas, cada dia, e incinar a dou- trina, ter cuidado dos pobres e emfermos. E em tudo se mos- (1) BAL: 49-IV-50, fls. 502v.-506v. Esta carta falta na cópia da BACIL. 1 99
trou mui liberal, oferecendo pera isso seu favor e ajuda, e pera os emfermos tudo quanto fosse necessário pera os curar, e dava logo ao padre muitas conservas e medecinas, pera que as tivesse e gastasse com elles, quanto fosse neces- sário. Mas o padre lhe respondeo que as deixasse Sua Merce estar, que quando se oferecessem necessidades, que antão lhas pidiriamos, e assi se faria, porque avia sempre emfer- mos pobres com quem se guastavão. E porquanto a mais da gente, assi pobre como rica, caregou na nossa nao, por ser milhor de todas, e era tanta que não cabia na nao, e a mais delia era toda pobre e desemparada, o que sentimos muito, pellas necessidades grandes que temíamos que aviam de pa- [4io r.] decer e padecerão, como // adiante direi. Quanto a que disesemos as ladainhas, cada dia, disse ao padre que elle tinha por custume, quãodo vinha por esta carreira, dizellas tres vezes cada somana, que era segunda e quarta e sexta-feira, e ao sabado, a salva (2); e que ele lhe pareceia que bastava. Por emtão foi o padre assi com elle, mas nos não deixamos de as dizer, particularmente, e dai a alguns dias, pedio-lhe o padre licença para as dizer todos os dias em proa, e que nos dias em que elle tinha ordenado, se diriam em popa, porque a gente era muita e não podião ouvi-las de popa. E disse que as dissemos, embora, e assi se diziam todos os dias. Pera a doutrina mandou chamar o meirinho da nao, e lhe disse que tivesse cuidado de hir, cada dia, por toda a nao e fizesse vir todos os moços e mininos e escravos a doutrina. E assi o fazia. Em saindo da barra, começamos logo de em- joar. O Padre Cabreira sintio mais o emjoamento, porque amdou alguns dias que não podia comer, e alguns dias da Coresma lhe foi necessário tomar carne, polia muita fra- queza em que caio, de não comer. Juntamente com isto (2) I. é.: a salve, rainha. 2 O O
lhe acodirão algumas febres, que o detiverão mais de hum mes, que não podia acudir a tanto quanto elle deseiava, mas com toda a emfirmidade que teve não deixou de confessar a todos os que o pidião e consolar aos fracos. Este movi- mento que ouve nos corpos, no emjoamento do mar, não deixou de ser meio pera Nosso Senhor com elle mover as almas a se comfessarem e conhecerem os emganos e vai- dades de vida, como muitos comfessavão, dizendo que se souberão que tal aviam de passar, que nem pola riqueza de toda a índia se meterão em mar, e que por derradeiro não avia milhor cousa que servir a Deos. Nestes dias tra- balhamos por evitar os juramentos, palavras desonestas, al- tercações que de noite tinhão huns com os outros, jogos ilícitos, pelejas e em tudo proveo o Senhor de remedio, por- que o capitão mãodou apregoar pola nao que nenhuma pessoa juguasse mais que o trumfo e as taboas. E isto ate certa camtidade, e todo o que juguasse outra cousa, o avia de mar (sic) meter (3) no tromco e tornar o guanho a seu dono. E mais, que não avião de jugar pola menhã, se não a tarde. E foi grande remedio, porque avia mui poucos que quisessem jugar, porque o capitão executava regurosamente a justiça, e a ninguém perdoava, e o que mais simtiam era o tronco. E alguns avia que os metião na bomba, que era assaz de bom tormento. Com estes meios e com amoestações e praticas que se lhe faziam se via claro fruito nelles, e guastavão o tempo em rezar e em ler por livros esprituaes, e em ouvir a dou- trina que cada dia se incinava, a tarde. O padre me deu cargo delia, e primeiro, hia por toda a nao com a campainha ajunta-los. Depois de se juntarem, lhes começava a doutrina, em voz alta, e de vagar, e todos a ouviam com muita de- vaçam. (3) BAL: mandar meter no tronco...
As calmarias nos começarão a quatro dias de Abril, como arriba disse, e durarão ate sete de Maio, que passamos a linha. Aos oito, nos derão os geraes, que he huma mon- çam que sempre achão as naos, hum grao ou dous, depois de passada a linha, com a qual se põem em altura de vinte e tres ou vinte e quatro grãos da linha para o Cabo, por- que dai por diante, ate o Cabo, lhe servem outros ventos, e nestes vinte e tantos dias que tivemos de calmarias, não deixou de aver asaz de trabalho, principalmente nos pobres, que tinhão mais mãotimento que o que lhe davão de regra, asaz de bem regrado hia tudo. Mas o maior mal era que não se podia achar pior cousa do que se dava por regra e assi ninguém o tomava, senão os que não tinhão outra cousa com que se sustentar. Quis Nosso Senhor que ouve poucos emfermos, assi polia pouca provisão que avia para os curarmos, como polias necessidades que depois aviamos de ter delia, porque, se Nosso Senhor nos começara açoutar logo asperamente, no principio, como fez no fim, corrêramos risco todos, segundo durou a viagem. As cousas particulares que acontecerão, nes- tes dias, são as seguintes. Hum homem chamado Joam Aires, que vinha em nossa companhia na nao São Felipe, nos adoeceo, sesta feira de Emdoemças, que forão dez de Abril, e faleceo a vinte e sete do dito mes, de humas febres continuas que lhe derão. Muitas particularidades avia que contar dele, das quais di- rei algumas brevemente, por serem de muita edificaçam. Primeiramente, elle numqua se apartou de nos, mas antes tudo quanto avia de fazer, perguntava se era o padre con- fio v.] tente disso. E nas cousas de humildade e virtude // não «via quem no apartasse delias. E ele pidio ao Padre que, por amor de Deos, lhe deixasse fazer o nosso comer no fo- gão, e o padre, por ver seu grande fervor e deseio que tinha de se aproveitar, lho deixou fazer e assi o fazia, com muita 202
edificaçam. Trazia huma cama, na qual ele numca dormio, mas como avia algum doente, logo lha dava e o lugar em que dormia. E quando o não avia tinha-a guardada para quando o ouvesse, e ele era o primeiro que o visitava e lhe buscava o remedio, assi pera a alma como pera o corpo. Toda a gente da nao estava pasmada da charidade e amor grandíssimo que lhe vião ter pera com todos. Elie se com- fessava, cada oito dias, com o Padre e jejuava a Coresma toda e tomava muitas diciplinas, espicialmente per dous gentios que vinhão na nao, que não se querião fazer chris- tão, os quaes depois se fizerão christãos e logo morrerão, como se bautizarão. A quinta-feira de Endoenças mãodou-nos o padre que fossemos polia nao a lavar o pes (sic) a alguns pobres e em- fermos, e assi o fizemos, e foi elle também nosco (sic) aju- darmos e era tamanho o prazer e alegria que tinha que não rabia em si de prazer. A sexta-feira loguo seguinte, se come- çou a achar mal, com febre mui grande que o fez sair fora de seu siso. Samgraram-no, loguo ao outro dia, mas contudo, não deixou de ir por diante a febre, e assi a teve oito ou nove dias comtinua em que o sangrarão outras tres vezes. Aos oito dias, lhe acodirão humas apostemas nas costas, das quais padecia muito grandes dores; ao decimo dia lhe acodi- rão outras duas apostemas em hum pe, que chamão maldi- tas, as quaes fazem esmorecer huma pessoa com dores, Destas nacem muitas, passando pola costa de Guine, das quaes eu tive huma delias em huma mão. Esteve com estes tromentos, assi das apostemas como das febres, dezoito dias, nos quaes se comfessou tres ou quatro vezes e deu tanta edificaçam a todos, com sua verdadeira virtude, que todos se espantavão, assi da grande paciemcia que tinha, como do guosto e alegria que tinha em padecer por amor de Deos, aquelles trabalhos. No cabo delles faleceo com tanta fee e humildade que comfumdio a todos. 203
Quanto aos juramentos, jogos e pelejas, de que arriba disse, quando sucedia alguma cousa destas, loguo se emmem- davão, principalmente dos jogos e joramentos, porque alguns que erão muito dados a isso, quando vinha a terceira vez que erão amoestados, nos pedião perdão, por o não fazerem loguo da primeira vez que os aviamos amoestado e os que juguavão rompiam loguo as cartas ou no-las davão para que as rompêssemos. Falando hum homem a outro mui aspera- mente com mui feas palavras, respondeo o injuriado que as tomava por amor de quem se pusera na cruz por elle. Outro, estando jurando o repremderão disso, e que rezasse hum Pater Nos ter. Elle se pos de giolhos diante de todos, e o rezou, e pidio que, por amor de Deos, o reprendessem e aconselhassem, todas as vezes que o vissem jurar. Outros muitos avia que tanto que os amoestavão, tiravão os chapeos, e com as mãos alevantadas, pidião perdão e ficavão com grandes propositos de se emmendar. Estando uma vez dous soldados pelejando, e querendo hum dar ao outro com hum cutello, acudio o Padre Marcos por detrás a tempo que alçava a mão pera lhe dar, e quis Nosso Senhor que tomasse o cutello, e assi escusou de não ferir ao outro e loguo os fez amiguos. Outra vez, indo o padre polia nao, achou hum soldado jurando, e o padre o amoestou do mal que fazia em jurar, e elle lhe pedio perdão e que por amor de Nosso Senhor que, quando ouvisse jurar, lhe desse huma bofetada. Avia hum mancebo o qual tinha o demonio tão inci- nado e tão destro em fallar praticas do mesmo demonio, e tinha-lhe dado tanta graça nisso que fazia ajuntar toda a nao, de noite, a alrotar (sic) (4) e ter pratica com elle. Não aproveitou amoestarem-no muitas vezes, e o mesmo capitão, pera se emmendar. Fomos ao capitão pidir-lhe que, por amor (4) BAL: alrrotar e ter pratica... 2 O cf.
de Deos, ouvesse algum remedio pêra isso, e respondeu-nos que era por demais. Que o que os governadores não podião tirar, como o tiraria elle? E contava que hum viso-rei saira per muitas vezes de noite, pera os conhecer e assi os castigar, e que aos seus proprios pes lhe vinhão apupar e alrrotar (5) e quando vira o desemverguonhamento tamanho, que desis- tira disso, que por isso lhe pareceia que era por de mais falar nisso, se não encomenda-los a Deos, e assi o fizemos. E o remedio que tivemos foi tomallos no tempo em que estavão alltercando, e começamos, com grande fervor, a reprendellos das offensas que cometião contra Deos e falou- -lhes da morte e do juizo e imferno. Quis Nosso Senhor que ouve tanto silemcio que nenhum fallou em todo no tempo que se fazia a pratica, e ficarão tão atemorizados que nunca mais tornarão//a altercar, mas muitos se comfessa- [411 r.] vão loguo ao outro dia. E o principal que fazia a festa, o quall avia dias que se não comfessava, se comfessou com o padre, e pidio perdão de tudo quanto ate aly avia feito, e propunha de numqua mais o fazer, e que pedia, por amor de Deos, a todos, que o não fizessem, que elle comfessava que aquillo era obra do demonio, e que nenhum proveito se tirava dally, senão cometer muitos peccados contra Deos, e assi se estarem deshonrrando huns aos outros, por onde vinhão a desafiar-se, de que todos se edificarão muito. E o capitão com os mais fidalguos louvarão muito a Companhia, dizendo palavras de grande louvor seu. Ao Senhor seja a gloria e honrra por tudo, porque Elle he o que obra. Avendo ja vinte nove, ou trinta dias, que andavamos em calmarias e que começavão a padecer muito os pobres, ordenamos de dizer humas ladainhas, no cabo da doutrina, os mininos e eu. E quis Nosso Senhor que, como elles erão inocentes, ouvio-os, porque ao primeiro dia que as dissemos, (5) Alrotar é termo antigo a significar: fazer algazarra, surriada, etc. 205
nos começou a ventar mui fortemente. Foy o prazer tama- nho na gente que não cabião, por aver tantos dias que não avia bafo delle, e este vento durou toda a tarde, e tornou a calmar ate o outro dia, a tarde, que dissemos as ladainhas. E ellas acabadas, tornou outra vez a villo (6) vento com maior fúria, e durou quasi toda a noite. Ao outro dia não acodio, mas ao outro dia, nos derão os geraes, com que todos se alegrarão. E depois a quallquer necessidade logo se so- corrião ao mininos (sic) pera rogarem a Deos por ella. Ate qui quis Nosso Senhor que nos não faleceo mais que João Aires, de quem arriba disse. Os officios da Semana Santa se fizerão, com muita devação; ouve lamentações, Miserere Mey, Benedictus, de canto de orgão. A noite de Emdoemças se fez huma prosição, por toda a nao, com disciplinantes, e o capitão levava a cruz descallço e chorando muitas la- grimas, hiam-se cantando as ladainhas. Não ouve preguação, por o padre estar mall desposto. Oo dia em que nos derão os geraes, que foi a seis de Maio, ouve grande alegria em todos, por aver tantos dias que os esperávamos. Seria as nove oras do dia, quando come- çou o vento a ventar; foi tão fortemente que nos rompeo o traquete da guavea, mas puserão-lhe loguo outra vella nova. E estandolla pondo, nos caio hum dos marinheiros que a andavão pondo, de riba da guavea, no mar, e da força que trouxe, rompeo onze degraos, por onde sobem a guavea, e deu nas mesas de guornição, que estão por fora da nao, em que quebrou hum pe e se pyzou todo. E das mesas caio no mar, onde amdou anadamdo quasi huma ora, ate que o tomarão. Este marinheiro salvou Nosso Senhor millagrosamente, por ser muito devoto de Nossa Senhora, porque com ter hum pe quebrado e os focinhos e os olhos, (6) BAL: tornou outra vtz a villo. Isto é: vir o... 206
e sem saber de nenhuma maneira anadar, e com o mar amdar picado, pello grande vento que fazia, nadou sempre com tanto animo e esforço, como pessoa que não tinha nada, e que toda sua vida aprendera a nadar. A nao, com levar todallas vellas dadas e com mui grande vento, virou sobre elle a o tomar (7). Aos treze de Março, tivemos mui rijos ventos e chuivas e andamos quasi todo o dia e toda a noite ao pairo, em que ouve muito trabalho, porque não fazião senão amainar as vellas e tornarllas a yçar. Neste mesmo tempo começa- rão a cair os emfermos; avia vinte e cinco ou trinta. O Padre Marcos era emfermeiro; eu tinha carguo de o ajudar. E o capitão mandou, huma vez, chamar o Padre Marcos e perguntou-lhe como estávamos nos e os emfermos. E elle lhe disse que nos estávamos bem, mas que avya muitos em- fermos //, e o que mais padecião era cede, e que Sua Merce t411 *0 devia de prover nisso com algum remedio, porque não lhes bastava a regra que lhes davão. O capitão mandou dar ao padre huma talha fechada, com sua chave, que levaria qua- torze ou quinze almudes de aguoa, e que lha emchessem todas as vezes que se acabasse, e lhe mãodou dar púcaros e barris pera aguoa e caixas de marmelada, pera que desse aos emfermos, e que como se lhe acabassem, fosse buscar mais e mãodou mais, que lhe dessem biscouto alvo, e passas e asucar rosado, pera os mesmos emfermos, e huma caixa em que tivesse tudo fechado e uma gualinha pera cada dya, e hum cozinheiro pera os proprios doentes, que não enten- desse em outra cousa senão em lhe fazer de comer. Vinha tãobem huma botica e despemssa del-rey pera os emfermos, em que vinhão muitos grãos e limtilhas e ameixas passadas e farinha e muito açuquar, mel, e amêndoas, do qual se guastava tudo o necessário. (7) BAL: a descrição deste incidente está sublinhada. 207
Na nao se fazião muitas esmolas pera os pobres, em que se davão muitas caixas de marmeladas, barris de conserva, muito açuquar rosado; outros, gualinhas, biscouto branco, pessas e dinheiro com o qual compravão açuquar rosado, quando faltava e outras cousas que se avião mister. Ho modo que se tinha com os emfermos era que, tanto que hum emfermava, o fazíamos aparelhar pera se confes- sar, primeiro que nenhuma cousa, e depois de confessado e exercitado, estar conforme em tudo com a vontade de Deos. E depois lhe procurávamos, com toda a diligencia, tudo o que lhe era necessário pera sua saúde. Polia menhã, depois que nos emcomendavamos a Deos, hia o Padre Marcos, com o barbeiro, por toda a nao, e visitava todos os emfermos, e os que avião mister samgrados, se samgravão. Outros a levantar-lhes as espinhelas, da qual avia muitos que não padecião doutro mal, porque tanto que lhe levantavão logo se achavão bem. Acabados de visitar, hiamos com hum barril de agoa e com huma panela de asucar rosado, e davamos a todos o que via o barbeiro que tinhão necessidade. Ao jantar, se repartia o comer, por rol, como ordenava o barbeiro: a huns gualinha e a outros dieta. A noite, depois que ceavão, dai a duas ou tres oras, hiamos com huma caixa de marmelada e hum barril de agua, e aos mais fracos davamos huma ta- lhada com hum puquaro de agoa, com a qual ficavão muito esforçados, dando disso muitos louvores a Deos. O que mais lhes fazíamos era lava-los e cortar-lhes as unhas, e a muitos que não tinhão vestidos, lhos buscávamos e lhos davamos. Pola bondade de Nosso Senhor, não lhes faltava o neces- sário enquanto o avia na nao. Quinta-feira, dia da Assenção de Christo, Nosso Senhor, que forão vinte de Maio, tivemos vento contrario mui rijozo, o qual nos fez andar ao pairo quatro dias e meio; nos quais dias preguou o padre duas vezes, com muita satisfação, a 2 o 8
saber: a quinta-feira, em que começou o vento a ser com- trairo, e ao domingo. Nestes dias, começou a adoecer muita gente por causa dos dias serem ja frios. A segunda-feira, quatro de Maio, derão a vella, com o vento ser hum pouco esquaço; a terça-feira loguo seguinte, fomos dar nos Abro- lhos, que são huns baixos que estão na costa do Brazil, adonde andamos doze dias, fazendo voltas, bordeando de huma parte para outra, esperando tempo pera sair delles. Quis Nosso Senhor que neste tempo se moveo a gente a se comfessarem com exortações do Padre Cabreira, e pelo perigo em que andavamos, faziam-se muitas restituiçõis e muitas esmolas pera os pobres. Ouve muitas devações: huns prometião missas e esmolas pera igrejas; outros frontais, vestimentas e romarias, pera que Nosso Senhor nos livrasse do perigo grande em que estávamos. O capitão mãodou ajuntar os officiaes da nao, duas ou tres vezes //pera tomar conselho com elles: se arribarião 1112r. ] ao Brasil, assi pera se proverem de mantimentos, por causa da gente ser muita e pobre e doente, e não aver parte adonde se pudesem prover, senão em Moçambique. E ainda, se fossem por dentro, como também por fogirem daquela costa, em que estávamos, por ser muy brava e aver nella grandes tempestades, todas as mudanças das luas, e assi se am per- dido muitos navios e naos nella. Quis Nosso Senhor que ao derradeiro de Maio, nos acudisse hum pouco de bom vento, com o qual saimos dos baixos. Ouve grande alegria em toda a gente, e o capitão mãodou pedir ao Padre que quisesse pregar ao outro dia, porque avião de dizer huma missa cantada a Nossa Senhora, com instrumentos de canto de orgão. E o Padre se aparelhou pera isso, e tudo se fez com muito contentamento de todos e gloria do Senhor. Hum dia destes, que estivemos neste baixos, ouverão dous mancebos honrrados humas palavras injuriosas e quasi que vierão a dar-se com paos. Apartaram-nos logo e quise- 209 DOC. PADROADO, IX 14
rão-nos fazer amigos, mas hum delles mostrousse ficar im- juriado, e não se quis fazer amigo com o outro, rogando-lhe o capitão e muitos fidalgos, mas que se avia de vingar. O capitão os mãdou prender a ambos, cada hum em huma camara, e o padre lhe foi falar nisso e mostrousse com elle como com os outros, mas não tardou muito o socorro divino pera isso, porque, ao outro dia, lhe derão humas febres mui rijas, e mãodou chamar logo o Padre e se comfessou e recom- siliou com seu proximo, bemdito seja o Senhor, por tudo. Ao fogão hiamos muitas vezes, assi a fazer de comer, como a evitar muitas pelejas e juramentos e a incinar-lhes a doutrina. Aos onze de Junho adoeci eu, de humas febres comtinuas que me durarão sete dias. Samgrarão-me tres ve- zes; estive tres dias sem febre, e tornarão-me a vir, e dura- rão-me outros seis dias, em que me samgrarão outra vez, afora o sangue que lamçava polo naris e pola boca, que foi hum dia e huma noite, polo qual cay em grande fraqueza. Quis Nosso Senhor emprestar-me a vida, polia necessidade que tinha de fazer penitencia de meus peccados. Seja Elle por tudo glorificado para sempre, amen. Aos dezanove do dito mes, estando dentro das ilhas de Tristão da Cunha, que estão jumto do Cabo, nos derão huns ventos contrários, em que nos detivemos cimquo dias, ao pairo. Dia de São Joam, pregou o padre, estando ja emfermo, com muita satisfação de todos; o mesmo dia lhe veo febre, a qual durou seis dias comtinuos, que se lhe não espidio. Samgrarão-nos duas vezes; nestes dias foi mui visita (sic) de toda a gente da nao, principalmente do capitão, o qual pidio ao padre que, por amor de Deos, mãodasse buscar tudo quanto ouvesse mister a sua casa, porque nisso lhe faria grande charidade, e assi o dava sem lhe pidirem. Nestes dias que andamos ao pairo, adoeceo muita gente, por os grande frios que fazião e a mais delia morria, por estar mui deslapidada (sic), das necessidades grandes que
avião padecido, e não aver ja mantimentos na nao, e alguns se avia erão todos danados, de maneira que se não podião comer, porque todo o sabor e sustancia tinhão perdido. E assi morrião, cada dia, tres, quatro, que era piedade gran- díssima ver homens mancebos, soldados, e destes muitos que não duravão mais que tres, ou quatro dias, que logo morrião. Depois que adoecião avia grande vigilamcia sobre elles, assi em os curar do corpo, como da alma, porque a todos fazião fazer seus testamentos e se comfessavão logo, como se simtião mal despostos. Nestes dias, avia na nao perto de trezentas pessoas emfermas, e tínhamos em nosso rol em- fermos pobres a que davamos de comer quatrocemtos, qua- trocemtos e vinte. Passamos o Cabo de Boa Esperança a dous de Julho; ouve grande alegria em toda a gente da nao, do deseio que tinhão de se //verem fora daquelle perigo, t412 E quis Nosso Senhor que passamos com pequenos mares. Aos treze do dito mes, estando na terra do Natal, que he huma das mais trabalhosas paragens que ay em toda a viagem, na qual ay sempre tão grandes tromentas e tem- pestades, que diz a gente do mar, que se am visto nellas, que milagrosamente escapavão dalli as naos, e que as mais das que se perdião era naquella paragem. E assi outra nenhuma sintião tanto em toda a viagem como esta terra do Natal. Esta terra esta cem legoas, depois de passado o cabo, e tera perto de duzentos pera Moçambique. No principio delia nos deu huma tormenta desfeita, que durou hum dia e huma noite. Quis Nosso Senhor favorecer-nos com nos dar vento a popa, que a ser contrario, maravilha fora escapar- mos. Os mares erão tão grandes e tão fortes que metião a todos em grande aperto e comfusão, com sua grande bra- veza. Fez-se muito fruito nas almas com esta tormenta e com outra que depois acomteceo. Seria as dez oras do dia, em que nos apertou muito, e comessavão ja todos aparelhar-se
perrar (sic) (8) e era o temor tamanho, e as lagrimas em todos, como quem se via a porta da outra vida, e o mesmo capitão, com ser hum homem mui animoso e esforçado, tre- mia e chorava, como cada hum dos outros. Não ha nenhuma duvida que huma cousa he meditar na morte e outra he ver-se na mesma morte. Ouve muitas confissões, e era tanta a pressa que tinhão que não davão lugar pera os padres aca- barem as ladainhas, que assi estavão puxando por elles, pera que os ouvisse de confissão. Aos deseseis, vimos terra dos cafres, alegrandosse muito a gente, por conhecerem a terra e paragem donde estáva- mos. Tornarão a virar a nao ao mar, por fugirem da terra, que temião não nos desse algum pe de vento comtrairo com que dessemos a costa. Começou-nos logo a calmar o vento, o qual nos faltou três dias que tivemos de calmarias. Aos dezanove do dito mes nos começou a dar outra tro- menta desfeita, que durou dous dias e duas noites, não menos trabalhosa que a outra passada, de grandes ventos e agoas e mares. Nestes dias avia muita necessidade na nao, por serem mui frios os dias, e adoecer muita da gente, da qual morria muita, por não aver ja com que os sustentar. Acabada a tromenta, nos deu hum vento contrairo que nos deteve seis dias ao pairo; nestes dias que tivemos de pairo, desmaiou tanto a gente, polos comtrastes que nos socedião tão a meudo, e estarem em tãoto risco de irem por fora, que descomfiavão todos de suas vidas, porque, pera irem por demtro, não tinhão mais que dez ou doze dias pera demtro nelles chegar a Moçambique, o qual caminho avia mister os mesmos dias de bom tempo pera se andar. De maneira que se vião em tanta necessidade que não podia ser mais. Temia tanto a gente a ida por fora, polia experiência que tinhão dos muitos perigos e trabalhos que padesse a (8) BAL: pera morrer.
gente que vay por fora, e verem a gente quasi toda emferma e gastada do mar, e não aver na nao com que os remedear, e que não podião ir por dentro senão a emvernar a Moçan- bique; emtristeciãosse todos muito, por verem as causas tão evidentes dos trabalhos grandes que de huma parte e outra temião lhe virem. Mas Nosso Senhor, como he infinitamente misericordiosyssimo e remedeador de todas as necessidades, vendo a fraqueza grande dos homens, acomodasse a ella e assi não lhe da mais carga que aquella que elles podem levar. E por isso, vendo Elie que desmaiávamos com a carga, tirou-no-la fora e acode com o refrigério da bonança. O Padre Marcos adoeceo, nestes dias, dos trabalhos de febres; durão-lhe (sic) seis dias; nelles o samgrarão duas vezes. Quis Nosso Senhor que comvaleceo logo. Oito dias antes de chegarmos a Moçambique pos o Padre Cabral// C413r-í grande diligencia, como soubemos dos que vinhão na nao desafiados e que se tinhão odio. E todos se fizerão amigos, antes de sairem em terra e avia asaz de contraminas que o demonio tinha ordenado com sua malícia, mas tudo Nosso Senhor desfez. Aos vinte quatro de Julho, nos favoreceo Nosso Senhor com muito bom vento a popa, que nos durou ate chegar a Moçambique, que foy a tres de Agosto, adonde achamos a nao Castello, em que vinhão os nossos padres. Avia chegado o dia dantes que nos chegássemos. O guozo e alegria que tivemos em o Senhor não sei dizer a Vossa Reverencia. Sei-lhe dizer que nos não podíamos fartar de nos ver e de dar graças a Deos pellas merces que nos avia feito, em nos ajuntar, todos vivos e sãos, depois que nos apartamos, humas naos das outras, que foi depois que chegamos as ilhas da Madeira, numqua nos mais vimos humas as outras, se não foi a nao Alguaravia que nos vio huma tarde, indo ja junto com o Cabo Verde. Day, numqua mais nos vimos nenhuma. A nao Castello dava novas da nao Graça e dizião que passara 2 1 3
a linha com elles, mas que lhes ficara por balrravento, an- tes de dobrarem o Cabo de S. Agustinho, e que temião que não poderião dobrar, por correrem ally as aguoas muito, e aver mister ventos esforçados pera se dobrar, os quaes elles não tinhão. A nao Castello não chegou tão desbaratada como nos, por trazer menos gente, a metade do que nos trazíamos. Trarião alguns cinquoenta ou sesenta doentes, com os quais estavão os nossos padres no esprital, curando-os, mas a nossa nao chegou tão piedosa que punha medo a gente que em- trava nella, e o mesmo dia que chegamos, morrerão dous ou tres na mesma nao. Outros, em chegando no esprital, espi- ravão. Quis Nosso Senhor que chegamos naquelles dias, porque, segundo as necessidades grandes que avia na gente, a tardarmos mais oito dias, de duzentos e tantos emfermos que trazíamos, não escaparão vinte, que não morrerão. Favoreceo-nos Nosso Senhor mais com nos ter muito provimento no esprital de Moçambique, e pessoas de muita caridade que tinhão cargo do esprital, as quaes, como soube- rão que nos vínhamos, buscarão logo embarcações em que trouxerão os emfermos, os quaes, tanto que chegarão, os lavavão todos com lavatórios de ervas, que pera isso tinhão aparelhados, e os vestião com suas camisas lavadas e cara- puças, e os lançavão em suas camas muito limpas, que pera isso tinhão aparelhadas. Tinhão aparelhado muita soma de manjares e medicinas pera os curarem. Isto em tanta abum- dancia que não avia mais que pedirem os emfermos tudo quanto quisessem, porque tudo avia aparelhado pera lhes dar. Avia no esprital trezentos e setenta e tantos emfermos; todos estes dias se lhes dizia missa e cumunguavão a ella, de maneira que, em oito dias que alli estivemos, se comfes- sarão e commungarão todos os que estavão pera isso, porque alguns avia que estavão fora de si, das grandes febres que tinhão. Nos passamos todos aqueles dias no esprital, adonde servíamos aos emfermos, de noite e de dia. 2 14
O capitão da nossa nao São Filipe, com toda a mais gente nobre que nella vinha, se comfessou e cumungou em Nossa Senhora do Baluarte com o Padre Cabreira. O Padre Dioní- sio pregou todos os domingos e dias santos, na igreja maior, com muita satisfação de todos os ouvintes. Em Moçambique nos provemos de refrescos pera nos e para os emfermos. O capitão da fortaleza nos mãodou dar dous fardos de aroz e muita carne. O vigairo nos deu hum pouquo e' nos compramos tres dúzias de gualinhas e tudo se gastou com os pobres, afora muitas esmolas de gualinhas e de carne, que fazião polia nao muitas pessoas pera os em- fermos. Todos os dias lhe davamos aos pobres uma, duas panelas de carne cozida, e outras tantas de aroz, ate chegar a Goa. Aos omze de Agosto, partimos de Moçambique com me- diocre vento e cada vez foi sendo milhor. // A vinte do im mesmo mes, passamos a linha; day a seis grãos nos derão calmarias que nos durarão quatro dias. Aos dez de Setembro, chegamos a Goa todos, a nao Castello e a nossa, adonde nos receberão os nossos charissimos padres e irmãos, com gran- díssimo amor e charidade, como se custuma na santa Com- panhia de Jesus, e as naos com grande guozo e allegria do povo. Day a cimquo dias, depois que desembarcamos e que a gente começava a desembarcar suas fazendas, se alevantou tão grande tromenta por toda a costa da India que duraria quatro ou cimquo dias. Foi tanto o estrago que fez, assi de naos como navios e outras muitas embarcações que numca se tal vio na India, em que emtrou a nossa nao São Filipe, a qual se perdeo com toda a fazenda, sem se poder salvar nada, e a nao Castello quasi que hia pello mesmo caminho. Valeo-lhe que estava muito metida ao mar, e quando quis dar a costa lhe acodirão logo com muitas embarcações, e o mesmo viso-rei, com toda a gente da cidade de Goa, e com 2 / 5
a muita diligencia que nisso puserão, a salvarão. O mesmo puderão fazer a outra, se ouvera tempo pera isso, porque como estava junto a terra e a força da tromenta ser no prin- cipio, e assi, quãodo lhe quiserão acodir, era então ja per- dida de todo. A lastima dos homens que ficarão perdidos e mulheres orfãns com muitos filhos não se pode crer quão grande he. A gente que morreo na nossa nao atee Moçambique íorão quorenta; pessoas no esprital de Moçambique, mor- rerão seis pessoas; de Moçambique ate Goa, morrerão des- saseis; e no esprital de Goa morrerão quatro ou cimquo. Quanto aos exercícios em que se occupão os padres, pella obediência, são os seguintes: O Padre Cabreira mãodarão-no ^ pera Baçaim, na entrada de Novembro; o Padre Framengo disse missa nova, dia de São Miguel; aguora se occupa em estudar casos e comfessar os mininos da escola, e em fazer as suas imagens. O Padre Cabral disse missa nova, dia de Todolos Santos; os dias que aqui esteve, se occupava em comfessar os estu- dantes e em estudar casos. Avera quinze dias que o mão- darão pera Ormuz, adonde esta o Padre Tonda. O Padre Dionísio le huma lição de casos, cada dia, e comfessa; o irmão Pedro da Cruz he occupado polia obediência em escre- ver e em outros exercícios da casa. Eu estou na samcrestia, adomde tenho necessidade de ser ajudado com os santos sa- crifícios e orações de Vossa Reverencia e de todos os mais padres e irmãos da Santa Companhia de Jesus. Do colégio de São Paulo de Goa, a dous de Dezembro de 1563. Servo indigno de Vossa Reverencia e de todos em o Senhor. P. Jacome. 216
30 TRECHO DE UMA CARTA DO IRMÃO MANUEL PEREIRA A UM IRMÃO DO COLÉGIO DE ÉVORA Goa, 3 de Dezembro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Pis. 338 r.-338 v. A cópia foi bastante corrigida. Não me oferecia, irmão charissimo, de que lhe escre- vesse, pois que tudo la, particularmente, a-de saber polias cartas que de qua irão, mas por comprir com a hobrigação que lhe tenho, parecia-me dizer-lhe alguma cousa do meu oficio e do que se qua ordenou, que seria bom pera os mininos que aprendem, aprendesem de todo juntamente estudos com letras. Ordenou-se aqui no collegio que pera hos mininos que aprendem a leer e escrever, os feitos e cartas que lerem fossem todos de vidas de sãotos exemplos dos padres do ermo e outras de vertudes, finalmente bons custumes. E para este efeito trouxerão elles mesmos papel, quem huma resma, quem meia, e os mais pobres, mãos(l); e aqui na escola tresladão, de contino, dezaseis moços escrivãis, estes livros que digo pera, depois de acabados, não lerem outras cousas em nossas escolas. E tem ja boa parte destes livros escritos, a saber: Coronicas de São Francisco e de São Bernardo e assi parte da outra de Frei Luis de Granada, e outras cousas boas que qua temos. E acabado isto, a-se de tresladar Istoria (1) Recorde-se que a resma tem 20 mãos de papel, ou 500 folhas.
eclesiástica e Vitas Patrum e outros livros espirituaes de vi- das de santos. Em suas cartas mandadeiras (2) são do mesmo e suas matérias dejunta (3) são dos psalmos de David e sen- tenças do Evangelho, e os traslados são dos Provérbios de Salomão e da vida de Christo. E assi com isto vão aprendendo a doutrina que se qua ensina, do Padre Mestre Francisco, que esta em gloria e muitos dos moços sabem asaz toda, com v.] ajudarem //a missa e prenuncião a confissão e as mais seri- monias da missa e respondem tam bem como que bem sabem latim e de noute ensinão todos em suas casas a doutrina. Todos e muitos delles, depois da doctrina acabada, assim juntos como estão, rezão as ladainhas dos sanctos e vão can- tando a doutrina pera suas casas, e da mesma maneira, quando vem para a escola. E para isto a certos moços que olhão se o fazem todos, e os que não fazem, são castigados. Por isso de tudo isto e das mais cousas recebem seus pais e mãis não pequena alegria e consolação, e os estrangeiros, edificação. E com todas estas cousas glorificão a Deos, Nosso Senhor, que esta nos ceos. Agora, para o dia das Virgens, mandou nosso Padre Pro- vincial que os da nossa escola fizessem treslados todos, e os escrivães com letras mui pintadas e douradas e os princípios dos treslados, e por todos serião cento setenta e tantos, e os contadores desta escola, que serão quorenta ou cincoenta, e puserão no fim dos treslados huma ou duas contas pera que, sabendo alguns fazer a conta, podese (sic) levar os treslados e antre estes treslados dourados, que yão por calen- dário yão huns trelados simples e meias folhas de papel que parecião epigramas. E destes epigramas, que digo, serião (2) Leitura hipotética. (3) Leitura hipotética. Por disjunta, vária, etc. 2 I
perto de dozentos e com estes simples e dourados enchemos huma crasta. E segundo juizo de todos, levavão a ventagem, aos outros que erão dos estudantes, os quaes não são pouco ornados, mas não sei se por ser cousa nova e a todos aprasi- vel, porque todos entendião dese mistério e os treslados erão de lingoagem português, que grandes e pequenos, nesta terra, sabem ler e também por termos pratica de Arismetica, que aqui, nesta terra, todos se prezão de saber. E assi estava sem- pre esta nossa crasta chea de gente. E muitos pedião que lhes dessem treslados daquelles para aprenderem a escrever em suas casas, ja que a natureza pecara nelles, em sua moci- dade não aproveitarem bem o tempo que o aprendião a escrever e sairem razoáveis (4) esprivãis. E temos por custume, todos os annos, depois da festa das Virgens, que he quando se fazem as concruzõis, mandarmos muitos moços ao estudo, as vezes duas dusias, pouco mais ou menos, assi também neste anno pasaron-se muitos, como temos ja de custume, e o numero dos moços que contino andão na escola, tirados alguns que faltão, por certas ocupa- çõis ou mas disposiçõis, quinhentos e cincoenta, pouco mais ou menos. Huma cousa restava, charissimo em Christo irmão; ja me esquecia dos nossos mininos da escola. Entre outras mui- tas cousas que me não lembro, a qual he com a vinda das naos do reino, chegarão a esta cidade mais de ceis centos enfermos que estavão os espritaes cheos, e polias ruas, e não ficavão cantos de espritaes ou buraquos em que não esti- vessem os enfermos, e contudo não abastavão, e foi neces- sário para este efeito despejarem huma igreja que esta junto do esprital, de tiro de huma pedra e encherão-no de enfer- mos que, contudo, não abastavão. (4) Leitura hipotética. 2/9
Quando isto vio o viso rei, pedio aos moradores da terra que quisessem cada hum recolher em suas casas alguns en- fermos dos que estavão mal agasalhados. E assi levarão grande parte dos enfermos quem quinze, quem vinte, quem oito, segundo que cada hum podia. A estes que estavão no esprital ião muitos dos nossos mininos, como acabavão da escola e os dias que não tinhão lição. Huns lhe levavão alguma cousa de comer; outros lhe levavão vestidos, como camisas e seroulas, carapuças, aos que mais necessitados es- tavão. Assi os servião em lhes darem de comer e trazião huma cousa e outra, em lavarem-lhe os vazos, e fazião outros serviços que nos espritaes soe aver. Que tudo isto não pouca edificação davão aos que o vião. Muitos delles se confessão cada oito dias, outros cada quinze, e outros pela regra do mes. Seu irmão em Christo Manoel Pereira.
31 CARTA DO PADRE FRANCISCO CABRAL AOS PADRES E IRMÃOS DA CASA DE S. ROQUE, EM LISBOA Baçaim, 10 de Dezembro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. {1) Fls. 456 r.-458 v. Jesus. Ho anno passado lhes escrevi largo, charissimos irmãos, de tudo o que me pareceo folgarião de saber deste collegio de Jesus de Baçaim, assi dos que nelle residimos, como do sitio e fructo que se nelle faz .Farei o mesmo do que, depois deste tempo ate agora, Deos Nosso Senhor se dignou obrar por estes mínimos de sua Companhia. Ao presente, residimos aqui dez, a saber: quatro padres e seis irmãos. Os exercícios espirituais de casa sam os gerais da Companhia, e nelles e na obediência são todos em geral tarn promptos e alegres que me dão mais motivo de deseiar imita-los que cuydado de os avisar em suas faltas, porque claramente se enxerga fazer cada hum o que lhe ey encomen- dado, mais com affeição de virtude e deseio de perfeição qu com temor de pena. E o que maior consolação me ha he ver o amor e união que todos tem huns aos outros, em o Senhor. Prazera a Elie, por sua clemência, me dara graças para que eu por minha parte não destrua o que elles em sua virtude edifiquão. (1) BACIL: Cartas do Japão, III, fls. 17v.-19r. BAL: 49-IV-50, fls. 500 V.-502 v.
As confissões da gente de fora são muy continuas, e em espicial por festas de dias de Nossa Senhora, que com ser- mos contínuos nellas, fiquão algumas vezes muitas pessoas sem se poder comprir com ellas, porque, ainda que aqui aja hum mosteiro de frades franciscos, he polio odor que os padres que aqui estiverão derão de si, he tanta a devação que toda esta gente tem na Companhia que não sabem em suas necessidades espirituaes ir a outra parte. Edificão-se muito quam prestes e aparelhados nos achão a todo ho tempo, assi de dia como de noite, pêra confessar doentes e ajuda-los a bem morrer, nos quais levamos muyto trabalho, alguns meses do anno, por esta terra ser muito doentia e morrerem este anno muytas pessoas, assi escravos como por- tugueses, pera os quais logo somos chamados. Nas pregações se faz também muito fruito, segundo se mostra nos ouvintes, porque com ser ha gente desta terra comumente cobiçosa e mais amiga de seu interesse que de sua consciência, algumas ouve que se vierão a mym, e me disserão que elles punhão sua fazenda e sua alma em minhas mãos, e que cortasse por onde me parecesse, porque elles estavão prestes, pera fazerem tudo o que nisso lhes aconse- lhasse, e assi o fizerão. E por algumas vezes aconteco, avendo algumas pesoas que avia annos que se não confessavão, por odios em que estavão e proposito de vingança, acabado o sermão ião ao padre a pedir confissão, esquecendo-se de tudo. Muitas pessoas, também principaes, fizerão algumas confissões geraes de toda ha vida passada em que se apro- veitarão muito. Pregasse aos domingos na see, e aos dias sanctos, aqui em casa. Ate gora não se pregou aos domingos, por não teremos igreja que fosse capaz de muita gente, mas [456 t.] creo o faremos, acabada huma que faremos //, da qual he ja a maior parte feita. Nesta Coresma passada se pregava, três vezes, na somana, a saber: aos domingos, polia menha, na see; e a tarde, aqui, 222
em casa, o Padre Fernão da Cunha, declarando os Manda- mentos a que vinha muita gente; e as sestas-feiras, a tarde, se pregava ha Paixão, onde acudia cassi toda a gente desta cidade, assi principaes como popular, onde avia muytas la- grimas. E depois da pregação, ião todos em procissão a huma igreja e tornavão aqui a casa acompanhando o crucifixo, diante do qual ião muitos disciplinantes que acrescentavão mais ha devação. No principio desta Coresma, veo ter a esta cidade o vigario-geral deste arcebispado a visitar e pedio aqui, em casa, que lhe dessem hum padre para ir confessar e publi- quar hum jubileo ha gente de duas fortalezas que estão dis- tantes desta cidade dez ou doze legoas, polia terra dentro, nas quaes nunqua os que estão nellas ouvio missa, nem ha quem lhes va administrar os sacramentos, assi por serem longe, como por ser a terra muito doentia, tanto que, em huns certos meses do anno, todos adoecem e os mais morrem, e por isso os soldados que estão em guarda delias estão quasi forçados, porque os não deixão vir, por não fiquarem despo- voadas. E por esta causa não ha clérigo que queira la ir. E por isto ser serviço de Nosso Senhor, foy la o Padre Fernão da Cunha, onde depois de em cada huma delias lhes publiquar o jubileo, os confessou a todos e deo o sancto sacramento, porque levou de casa todo o necessário pera isso. E não se seguio desta ida pouco serviço de Deos Nosso Senhor, porque, como esta gente vivia sem quem lhe amoes- tasse o caminho de Deos, vivião como gente de mato e alguns estavão amancebados, mas com a ida do padre, huns casarão com as molheres que tinhão em peccado, outros as tirarão logo, e fez aqui muitos christãos, deixando hum sol- dado que tivesse cuyado de lhes insinar a doctrina. Fiquou toda esta gente muito consolada com os visitarem em tal tempo, e muito edificada iuntamente com a desta cidade por tomarmos este trabalho. 223
Na conversão destes gentios se faz também muito fruito, porque neste anno, somente neste collegio, se farião pasante de trezentos christãos, por vezes, de muitos juntos. E ainda que na conversão destes se socedem muytas particularidades, em que Deos Nosso Senhor mostra bem sua misericórdia, como em alguns meninos de muyto pouca idade deixarem os pais e mãys, sem lhes ninguém falar, e fugirem pera este collegio a se fazerem christãos. E outros parecendo-lhe que avera defficuldade em os receberem, vão busquar portugue- ses que os tragão aqui, e vindo os pais e mãys a falar com elles, estão tão firmes como se muytos annos ouvessem sido christãos. E destes ha alguns neste collegio. Mas, deixadas estas particularidades, so huma direi; que estando hum gentio, homem principal desta terra, assi em fazenda como em família, porque tinha muyta, assi filhos e filhas e genrros, como escravos e escravas, determinando de deixar o diabo a quem avia tantos annos que adorava, e tornar-se a seu Criador, e tendo-me ja dado palavra com a molher e filhos, souberão-no alguns parentes seus, os quais trabalharão por lhe impedir tam sancto proposito, mas como ja Deos tinha mais parte nelle, não no poderão mover de sua determinação, estando-o chatechizando para o que ia, cada dia, hum irmão a sua casa a lhe insinar a doctrina e instruir na fee, adoeceo de huma doença grande, donde to- marão motivo os parentes para lhe dizerem que os seus pagodes o castigavão com aquella doença, porque elle os [457 r.j deixava // e lhe metião maiores medos. Eu neste tempo o visitava e esforçava, e aprouve a Deos que sempre esteve firme em o primeiro proposito, e achan- do-se algumas vezes mal, requeria que o baptizassem, por não saber ja quando avia de alcançar tamanho bem. E por saber que não estava ainda tam perigoso, lho dilatava pera depois de são, elle e toda a sua família, ser baptizado. E prouve a Deos que se foi achando milhor. Mas não contente o de- 2 2 4
monio com esta primeira tentação, ho tentou com outra não menor, que foy ou os parentes secretamente, ou o demonio ordenou com que huma noyte se lhe queimou toda ha casa e muyta da parte do fato, fiquando na rua. E foy de maneira que não lhe poderão acudir, e elle com muyta paciência, dando graças a Deos, posto que os parantes lhe metião em cabeça que seus pagodes lhe fazião aquelle mal, e lhe avião de fazer outros maiores, pois elle os deixava. Certifico-lhe, charissimos irmãos, que ao outro dia, indo eu confessar hum homem e passando ha vista donde dantes estavão as casas, e vendo-o com a molher e filhos no lugar onde se lhe quei- mou o fato, sem nada, que me quebrou o coração de piedade. Mandando-me a molher dizer que ouvesse piedade delles e lhes busquasse huma casa, pois ja não tinhão casa nem fato, eu lha busquey logo, e antes que acontecesse algum desastre, os fizemos christãos ha todos, que creio forão vinte e tantos e são agora muyto bons. Outro caso aconteceo aqui, que creo folgarão de ouvir, e por isso lho escrevo e foi este. Avera sete ou oito annos que aqui se fizerão christãos dous meninos parentes, e depois de feitos, desapareceu hum delles, e o outro fiquou aqui em huma aldea. Socedeo, avera sete meses, que indo hum moço gentio por huma rua, o qual se parecia com aquele que desapareceo, vendo-o huns meninos da escola, pegarão delle, cuyando que ho era e que se tornara gentio e trouxerão-no aqui, affirmando que era ho outro, que elles ho conhecião. O moço gentio perdia a paciência, jurando e affirmando que nunqua fora christão nem o que dizião, dizendo o lugar donde era, e seu pay, que era hum criado do capitão desta fortaleza, e alegando testemunhas que o conhecião e isto tudo em português. E vendo-o eu tão vivo, desejei mais que fiquasse em casa, e assi ficou, te saber mais em certo ha verdade, se não quando, ao outro dia, veo o capitão com o pay e mãy e ou 225 DOC. PADROADO, IX — 15
tros, por lhe irem fazer queixume que lho tomara por força, e dizendo o pay que não fora o filho nunqua christão, con- cluímos que se busquasse o outro menino christão, que fi- quara na aldea, e que se dissesse que não era aquelle o que desapareceo, lho entregássemos. Buscousse e affirmou não ser aquelle, mas que se parecia com o outro. Todavia, o capitão acabou com este moço gentio fosse christão, e feito fiquou aqui em casa. Ho pay, algumas vezes que ho vinha ver, eu lhe falava que se fizesse christão. Respondia-me: «deixa-me; basta-te que me tomaste meu filho; contenta-te com elle, porque eu ja sou velho». Todavia, estando ja de- sesperado de sua conversão, elle, movido por Deos, sem lhe falar ja nisso, se veo aqui ha casa com ha molher e outros tres ou quatro filhos pedir que os fizessem christãos e agora os são bons. E destes acontecimentos nos acontecerão alguns. Também se fezerão outras pessoas honrradas entre es- tas, tres bramenes dos principaes, que he ha gente que mais [457 v.] metida na idolatria esta nesta terra // e com maior diffi- culdade se faz christã, e por isso muy poucos se fazem. E destes era hum moço de dezassete ou dezoito annos, filho do mais principal bramene desta terra. He este tam abil que em hum mes soube ler e eschever nossa letra, e ja sabia duas ou tres maneira da sua. Era muito bom contador a sua guisa, aprende tãobem a nossa. Ha seis ou sete meses que ho temos aqui, em casa, aprendendo. He, como digo, muyto abil e boom christão em tanto que elle he ho que prega agora aos outros. Visita-se daqui da casa, cada dia, o hospital e insinasse a doctrina no tronco aos christãos da terra, onde também se convertem alguns gentios a nossa fee. Dous meninos, em cada noute, vão encomendar as almas. Destes meninos, filhos dos christãos que see vem fazer, averaa aqui em casa perto de oitenta, e ainda que os damos ha officios e a portugueses que os aproveitem, sem- pre crecem. E porque ja lhes tenho escrito da criação e exer- 226
cicio destes meninos e cathequismo que se faz aos christãos, o deixo também de fazer. Em Tana e Trindade esta o Padre Mestre Gonçalo que tem carrego daquella christandade, e o Padre Antonio Vaz, com dous irmãos pregão em Tana ha alguns portugueses que morão ai. Aos domingos e sanctos, confessão e fazem os mais exercícios da Companhia, com edificação muita do povo. Fezerão-se, este anno, na Trindade e Tanna, perto de dozentos christãos. Polia bondade de Deos, vai em muito crecimento. Daqui também faz hum irmão, cada dia, ha doctrina, ajuntando os meninos na nossa igreja. Nas obras materiais, louvores a Deos, se fez este anno bem, porque se fez ha capella da igreja e a maior parte do corpo, de maneira que ia, agora, cuberta de palha, nos podemos servir delia. Fiqua muito grande, forte, e ayrosa; também os cubículos fiquão muyto bons e sadios, com grande vista. Este inverno creo que acabaremos hum lanço que ja esta feito; avera gasalhado para vinte e duas pessoas, que he o mais que aqui pode estar, e tudo isto se fez de esmolas que nos faz esta gente, e he tanto ho amor e deva- ção que nos tem, que sendo ella a mais pobre destas partes, porque não são mercadores, que qua he mais riqua, neste anno, em peças de dinheiro, nos tem dado mais de mil par- daos de esmola. A camara desta cidade mandou pedir ao Padre Provin- cial hum mestre para ler Gramatica, obrigandosse elles a fazer a classe. Esta aqui o Padre Andre de Cabreira, que este anno veo de Portugal, que ali esperamos que fara muyto fruyto, ao menos nas vidas dos estudantes, porque pouquos levão atte o cabo as letras, por esta terra ser mais de armas e mercancia que de letras. O irmão- que também insina a ler e escrever e Aris- metica faz muito fruito nos meninos e edificasse esta gente muyto, porque, alem do que lhes insina, aprendem também 227
boons custumes e ha temer a Deos. Isto he o que se offerece escrever-lhes, charissimos irmãos, do que este anno Deos, Nosso Senhor, se dignou obrar por estes mínimos da sua Companhia. Praza ha Elie, por sua misericórdia, nos faça taes a todos que em tudo façamos sua sancta vontade etc. (2). Deste collegio de Baçaim, 10 de Dezembro de 1563. Francisco Cabral (2) Na cópia BACIL lê-se mais: Com os sanctos sacrifícios e orações de todos muito desejamos ser encomendados. Deste collegio... etc. BAL. idem. 2 2 8
32 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE BELCHIOR DIAS ESCRITA AO PADRE MANUEL DA COSTA Goa, 13 de Dezembro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n." 4534. Fl. 421 v. He pêra dar graças ao Senhor ver meninos que ainda mamão, ou podem mamar, que escasamente sabem falar, dizerem e emsinarem a doutrina. Nesta doutrina nos dete- mos, ate começar a missa, em a qual lhe faço sua pratica, declarando-lhe a doutrina christã. Aguora lhe vou declarando o Credo, e acabada a missa com Oferta e Asperges, lhe tornamos a renovar a memoria, com huma pouca de doutrina. E com ela se vão pra casa. A tarde, emsinamos a doutrina christãa aos meninos, os quais são cento e tantos os que commumente vem a ella, indo-os chamar o irmão com a campainha. E sem iso, ha em cada hum bairro seu meirinho também dos mesmos meni- nos, o qual tem cuidado de ajuntar e trazer, com sua vara na mão, todos os moços do seu bairro. E vem com elles cantando a doutrina ate a igreya, e preza-se de quem trara mais, e he pera louvar ao Senhor ver vir, huns por huma parte, outros por outra, louvando ao Senhor aquelles que tão poucos tempos ha fogião delle, e acatavão, servião, lou- vavão ao demonio e seus pagodes, dos quais aguora zombão e escarnecem como elles merecem. 229
Estes meninos tem por custume, polia menhã, em men- tes que não começão a missa, sobirem-se em sima de umas arvores, que estão ao redor da igreya, repartidos por ellas; dizem a doutrina em coros, respondendo huns aos outros, que he pera louvar ao Senhor. 2 3 0
33 .. i . » CARTA GERAL DO PADRE LOURENÇO PERES Goa, 17 de Dezembro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534- (1) Fls. 422 r.-427 v. Pax Christi. A graça he amor eterno de Christo, Nosso Senhor, faça continua morada em nossas almas. Amen. Aprouve ao Senhor consolar-nos este anno com a vinda de nossos padres e irmãos que dessas partes vierão pera nos serem companheiros em esta vinha do Senhor. Chegarão todos em duas naos, que somente este anno ainda vierão, com boa disposição, louvores ao Senhor, ainda que, polia viagem, forão algumas vezes vizitados com diversas emfer- midades, segundo o que por suas cartas la poderão milhor emtender. Por elles e polias cartas que trazião soubemos as novas dessas partes tão dezeiadas dos que nestas amda- mos e com ellas nos comsolamos muito em o Senhor, e porque creo não com menor dezeio esperarão la polias des- tas partes do que nos qua polias suas, nesta, com o favor divino, direi o que sua divina Magestade, nesta cidade e ilha de Goa, teve por bem de obrar por estes seus mínimos ins- trumentos. Os padres e irmãos, que ao prezente neste colégio estão, são oitenta e nove, creo que excedem o numero do anno passado, por serem tantos ou mais os que este anno forão mãodados a diversas partes, com os que forão admitidos na (1) BACIL: Cartas do Japão, III, fls. lr.-6v. BAL: 49-IV-50, fls. 582 r.-590 r. 2 3 1
Companhia, que forão catorze, todos bons subiectos e grande parte delles erão estudantes das nossas classes, e que milho- res abelidades tinhão. Dous delles hião ja no cabo do cursso quando emtrarão e avia alguns annos que ho dezeiavão e com muita instancia ho avião pedido. E quatro andavão na primeira classe; muitos outros ha que dezeião ho mesmo e pedem, ainda que, por aguora, são por algumas rezões dila- tados seus santos dezeios. Da saúde corporal estamos todos, ao prezente bem, lou- vores ao Senhor, posto que fomos vizitados, este anno, com algumas emfermidades, emtre as quaes huma foi commua em todos os deste colégio e quasi universal nestas partes, que foi hum catharro como o que, ora faz seis annos, deu por estas partes, e quasi todos os desta cidade adoecerão de febres, que juntamente com elle vinhão. E posto que não erão periguosas e duravão pouco, vinhão todavia algu- mas tão súbitas e vehementes que deixavão hum homem muito debelitado. Este colégio estava feito hum esprital e quasi não avia quem service e fizese de comer aos irmãos. Mas prove ao Senhor que não foi isto mais que visitação sua, porque nem destas febres nem doutra infirmidade morreo este anno neste colégio algum, ainda que alguns estiverão em periguo, e dous principalmente, que estando ja de todo descomfiados dos fizicos, quis o Senhor, por sua bondade, dar-lhes a vida. Prazera a Elle que sera pera seu santo serviço. Quanto a saúde espiritual em todos, pola bondade do Senhor, se vem muitos e mui contínuos dezeios de virtude e perfeição, segundo a graça que o mesmo Senhor commu- nica e exercitão-se mui promptamente com aquellas cousas em que pellos superiores são ocupados. Nellas o que mais procurão he abituar-se em huma inteira obediência do en- tendimento e vontade, em a qual cousa creo que lhes não da Deos, Nosso Senhor, pouca graça. Tãobem ha mui vivos 2 3 2
dezeios de mortificação e abnegação e penitencias, assi polias faltas das regras, como por outras cousas e na alegria e contentamento com que as põem por obra, assi as secretas como as publicas, como são jeiuns e disciplinas e que lhes diguão suas faltas em publico. Finalmente em tudo o que toca ao instituto da Companhia e modo de proceder delia, se tem muito cuidado, e assi se guardão as regras mui per- feitamente, e emtre outras //, muy especial, aquellas que [122 v.j Christo Nosso Senhor, por especial modo sobre tudo nos emcomenda, que he o amor e charidade de huns pera com os outros, e em todas estas cousas, o que maior motivo de louvar ao Senhor nos da, he ver quanto ellas de contino se augmentão. Por dia de São Thome e oitavas de Pascoa renovarão todos seus votos, como he costume da Companhia, proce- dendo primeiro as confiçõens geraes, a oração e pratica espi- ritual que se costuma. Fizerão com muita devação e conso- lação de todos, o Senhor seja louvado. Soem tãobem os que acabão os dous annos de provação terem alguns dias de recolhimento, pera se aparelharem pera fazerem os votos, e vão tãobem, alguns dias antes que os fação, pedir por amor de Deos, polia cidade, do que alguns, que sabem o modo de proce4er da Companhia, muito se edificão, mas os que ho não sabem cuidão que são vadios, lhes soem dar muitas reprehençõens e de tudo resulta gloria ao Senhor. Forão assi mais este anno ao esprital sete irmãos noviços, pera curarem os emfermos que das naos do reino vierão, iuntamente cumprirem com sua provação, comforme as constituições, e hum padre pera os confessar. E por serem os emfermos muitos, hião, as vezes, de cassa, outros padres ajuda-lo. Neste tempo que la estiverão os irmãos e padre, que seria perto de dous mezes, fezerão muito serviço a Deos, Nosso Senhor, assi na charidade e diligencia com que ser- vião, vigiãodo, a revezes toda a noite, sobre os emfermos, 2 33
especialmente sobre os que estavão em periguo de morte, que erão muitos, como com os animar e esfforçar, moven- do-os a dor de seus peccados, incitando-os no sacramento da comfição, donde aconteceo que muitos forão curados das infirmidades espirituaes e especialmente hum, que estando muito mal e todo podre, assi por fora como por dentro, em tãoto que não avia quem, de fedor, pudesse estar na cassa onde elle estava. E este, estando muitos dias sem fala, porque toda a linguoa tinha podre, indo-o o padre visitar, o dia que avia de falecer, falou e pedio comfição e se com- feçou muito bem, e acabada a comfição, não falou mais, e dahi a pouco, deu o espirito a Deos. Quanto ao edifício material deste collegio, de hum anno a esta parte, se não fez mais nada na igreja, e servindo-nos ainda da antigua, fez-se boa parte de hum lanço de dormi- tório, que estava ja começado em o qual estão quatorze cubículos. Em alguns delles se mora ja. Fez-se mais huma emfermaria no mesmo lanço, cousa muito necessária neste collegio, e por estar em bom sitio e conveniente e acomo- dada aos emfermos pera mais azinha convaleserem de suas emfirmidades. Com estas obras fiqua a cassa da provação fechada sobre si, com huma portinha pera o collegio, e assi fiquão os noviços mais separados e recolhidos, não tendo comunicação com o collegio. Quanto aos estudos, falando em geral, procedendo com a ordem e fruito acustumado, avera nas tres classes de latim, mais de dozentos estudantes e na de ler e escrever, perto de seiscentos e cinquoenta, afora os do curso de Artes, que aguora se acaba, e os de Theologia, em a qual lê polia me- nhã o Padre Francisco Roiz a terceira parte, a materia da penitencia, e a tarde, lê o Padre Provincial, a primeira parte. Faz-se o fruito solito, assi em as confiçõens de estudantes e discípulos, quada mes, as quaes muitos continuão mais vezes, confesando-se cada quimze e oito dias, como em se criarem 2 34
em bons costumes e doutrinas. E polia graça de Deos, Nosso Senhor, se ve muita differença em os que são nossos dici- pulos, aos que o não são, no resguardo do jurar e falar bem, no modo de saberem comfesar, de ouvirem as pre- guações e doutrinas e, finalmente, em todos os bons custu- mes. Pollo inverno, em a festa de Corpus C br is ti, a qual se soe aqui em cassa a celebrar, com muita solenidade, se derão os prémios, o dia a tarde, que foi o primeiro anno que se comessarão a dar. Alvorosarão-se muito os estudantes, e muitos dias antes se prepararão com suas composições pera este dia. Precederão, primeiro, a elle, duas orações, huma em prosa e outra em verso. Tinhão os estudantes medíocres composições, // assi de prosa, como de versso, que se não [423 r.] esperava tãoto delles. Assi que com estes e outros particula- res exercícios se vão cada vez mais afeiçoando as letras e juntamente a virtude. Pollo dia das Onze Mil Virgens, que entonses se soe qua fazer principio aos estudos, se armou a crasta com mui- tas orações e epigramas e enigmas, como he custume. Teve-se huma oração, o dia, a tarde, o qual representou hum mão- cebo, natural da terra, que aqui se criou, em o collegio dos mosos da terra, que ora ouve theologia. Reprezentava com muita viveza e audacia e satisfação dos ouvintes. Esteve a hella ho viso-rei, arcebispo, e os mais fidalgos e letrados desta terra, e quasi toda a cidade que acodio a festa e a huma tragedia que no fim da oração se representou, a qual, assi por ser bem representada, como por ser cousa nova, agra- dou muito. Em a escola de ler e escrever, alem de se emsinar aos nossos a doutrina e a saberem ajudar a missa, lhe fazem tãobem aprender de cor huma exposição que o Padre Mes- tre Francisco, que esta em a gloria, fez sobre a doutrina. E quando da escola saem, a vão cantando polias ruas ate suas cassas. E de noite, tem cuidado de a insinarem em suas 2 35
cassas aos escravos e escravas de cassa, que nesta terra são muitos, e como o numero dos mosos seja grande, he muito pera louvar ao Senhor ouvir a doutrina de noite por tantas partes, alguns, ajuntando outros do bairro, as fazem na rua, diante de alguma imagem ou oratorio que fazem. De modo que, gloria ao Senhor, nestas e outras semelhantes cousas se trabalha muito e se vão cada vez mais afeiçoando a verdade. Achou-se também outro modo pera que se vão afeiçoando a vertude e he que, alem dos treslados e matérias que dão aos mosos serca de cousas boas, os que antre elles escrevem milhor, fazem cada dia dous trabalhos: hum de vaguar e outro de corrimão. E em o treslado de corrimão vão continuando algumas historias boas e vidas dos santos, c assi se fazem livros polios quaes, como por feitos, apren- dem a ler os outros, pera que iuntamente aprendendo, sai- bão boas cousas e se vão affeiçoando a ellas. Em o collegio dos mosos da terra que esta hum pouco separado do nosso, avera aguora cem mossos. Tem delles cuidado dous irmãos, e a ordem que com elles se tem he que, a noite, antes de se deitarem, e pola menhã, antes que vão a missa, tem huma mea ora de louvar a Nosso Senhor, cantando a doutrina em voz alta; depois, vão a sua missa, e ja estão instruídos do modo e quietação com que devem estar a ella, e como ão-de rezar o rozairo, o qual rezão cada dia. Destes mosos, alguns que não sabem ainda a doutrina, por serem novos, a aprendem, a qual tãobem se emsina aos meninos gentios que entre elles se recolhem, ate terem noti- cia das cousas de fee, pera se poderem baptizar e quasi todo o tempo guastão nisso. Outros ha que são mais provectos, os quaes aprendem a ler e a escrever, e alguns estudão latim nas nossas escolas e tres delles ouvem aguora theologia. Dous delles são mala- vares, dos quaes se espera poderão fazer muito serviço a Deos, Nosso Senhor, em sua terra, depois que o mesmo 236
Senhor os tomar por instrumentos e vazos de sua palavra. O outro he natural desta terra, casta canarim, que ja aguora comesa de exercitar o talento em preguar em huma fregue- zia, ora noutra, a gente da terra, por sua linguoa. Occupa-se tãobem em emsinar a linguoa a alguns irmãos, por huma arte que elle fez, e estão ja alguns tão aproveitados que com pouco mais ficarão aptos pera poderem tratar com a gente da terra em sua linguoa, do que se seguira grãode serviço ao Senhor. Do fructo espiritual que polios da Companhia nesta ci- dade pera com os próximos se faz he grande, primeiramente quanto ao ministrar dos sacramentos; he muito frequente o uzo delles neste collegio, especialmente de comfiçõens e comunhões. E porque, alem dos comfesores, que quasi de continuo estão occupados na igreja, se acresentão sempre o numero delles polios dominguos e festas, especialmente em algumas ma // is solenes, como foi na festa da Assumpção, C423 T*1 no dia das Virgens, Todos os Santos, e outras semelhantes festas, se comfessarião e comungarião quatrocentas ate qui- nhentas pesoas. E as confições de fora de cassa, como de em- fermos, feridos e semelhantes, se acode sempre e algumas vezes acontece serem tantos que se não acha por cassa quem va a ellas. O mesmo se faz aos emcarcerados, asi da cadea secular, como eclesiástica. Pollo Jubileu que nesta cidade se publicou, veo aqui a nossa cassa a procição. Pregou o Padre Francisco Roiz; achou-se a elle o arcebispo, e a materia que tratou foi conve- niente pera o tempo, porque tratou das indulgências e o modo como se avião de ganhar. Foi o povo muito satisfeito, ainda que o dia foi de muita chuiva, não deixou de acodir toda a cidade, do que claramente mostravão a grande devo- ção que trazião. A gente que aqui se confessou foi muita, porque, alem de serem muitos os confessores e comfessarem quasi todo dia e muitos, parte da noite, não podião satis- 2 37
fazer aos penitentes que bem de mardugada sic) acodião e esperavão atte a noiçe. Confessar-se-ião duas mil pessoas. Com estas confisões se fez muito serviço a Nosso Senhor, saindo muitos da sojeição e serviço do demonio, e fizerão-se muitas restituições e outras esmolas e obras pias, e ficarão muitos comfesãodo-se a miúdo, os quaes trazião outros a comfisão e uso dos sacramentos, e fizerão-se muitas amiza- des, alem doutras muitas que continuamente se fazem, asi em empedir dezafios, como em recomsiliar os que ja hão saido a elles, como em fazer amigos os que por outras mui- tas cousas andão em odios. Se particularmente se ouvessem de contar, seria nunqua acabar, porque como nesta terra, grande parte da gente seião soldados, sempre sobejão cousas semelhantes a que acudir. Occupão-se tãobem os padres em responder a cassos de consciência e em resolver contratos, os quaes ai muitos nesta terra, e por elles terrem (sic) opinião dos nossos pa- dres, são nisso mui occupados e emportunados polio que se evitão muitas omzenas e contratos ilícitos e se faz muito serviço a Nosso Senhor. As pregações ordinárias que são preguar-se aqui em cassa, aos dominguos e dias santos, e aos dominguos em huma freigyezia, chamada Nossa Senhora ^o Rossairo, e alternatim, os dias santos, na see, se continua sempre e com satisfação, polia bomdade divina. Preguão em cassa, alter- natim, aos dominguos, o Padre Provincial e o Padre Fran- cisco Roiz. As outras satisfaz o Padre Martim da Silva e o Padre João de Mesquita. Polia Quaresma, tãobem soem pre- guar os nossos padres, as quartas-feiras, polias menhãs, na Misericórdia. Este anno preguou la o Padre Manoel Teixeira com muito concurso de gente, o que podia bem ser, por se terem mudados ja os irmãos da Misericórdia pêra huma igreja que aguora fizerão nova, grande, e capaz. Em a see, as sestas-feiras, polas menhãs, na Coresma, preguou o Padre 23S
João de Mesquita, omde tãobem avia grande concursso de gente, e de que todos vinhão satisfeitos, e as mesmas sestas- -feiras, a tarde, preguou aqui em cassa da Paixão o Padre Francisco Perez, com o acostumado concursso de gente que acode a estas preguações, que nem na igreja nem polias crastas cabem. Acabada a preguação saia a procissão dos mosos da terra com toda a gente, e hia a Misericórdia e com aver sempre em estas procissões muitos desiplinantes, este anno especialmente, foi o numero delles tão grande que era pera folguar de ver a procissão grande que elles so fazião. Faz-se com estas preguações muito fruito e cauza muita devação e lagrimas na gente, que cada sesta-feira des- tas he, na devação, outra sesta-feira de Endoenças, e muitos se movem a penitencia e dor verdadeira de seus peccados. E asi ha sempre por estes dias muita frequência de peni- tentes na nossa igreja. Foi assi mais pedido o Padre Francisco Roiz, pera preguar o derradeiro auto da santa inquisição, dos dous que este anno se fizerão, aos quais sairão muitos (2). Preguou o padre com muita satisfação de todos, comfutãodo com mui claras rezões seus erros e ignorâncias; afora as preguações ordinárias sempre ha outras // extraordinárias [<24 r.] que socedem de ermidas e oraguos, as quaes vem pedir a este colégio, que asi todos, e polia bondade de Deos Nosso Senhor a todos o Senhor ajuda e da procederem sempre com boa satisfação do povo. Os officios da Somana Santa forão qua mui celebrados, não faltando pera elles choro, e cantores dos mais escolhidos que na terra se acharão, de maneira que, gloria ao Senhor, sempre se fazem aqui estes e os mais officios com muita solenidade. E assim he necessário nesta terra, aomde ha tão- tos em que nossa fee de novo se planta, a qual se vai com- (2) Na cópia da BACIL lê-se mais: e os mais delles luteranos estran- geiros. 2 39
firmãodo com semelhantes solenidades e festas. E assi a festa da Pascoa, creo que foi não menos festeiada que os annos passados, senão quanto fez alguma vantagem, assi no con- certo da igreja e crastas, como nas muitas emvenções que os mosos da escola, para este dia ordenarão, assi de foguos como de folias e danças, e de tudo se tira louvor e gloria ao Senhor. A doutrina se faz aqui em nossa egreja, todos os dias, aos meninos, e aos dominguos, a tarde, não somente aos meninos, mas tãobem se faz aos escravos e escravas e a outra gente da terra, porem doutra maneira. O modo que se tem he que, depois de estarem todos juntos, lhe emssina primeiro hum irmão a doutrina material e depois vem hum padre que disso tem cuidado, que por espaço de huma ora lha vai praticamdo pouco a pouco, cada somana, declarando-lhe os mandamentos e os artigos da fee, os peccados mortais, e o mais que lhe he necessário. Vem a esta doutrina não somente a gente da terra, mas alguns outros portuguezes, coriossos de aprenderem as cousas que pertencem a sua salvação, polo que sempre, pola bondade do Senhor, se faz fruito com estas doutrinas. Vão assi mais os irmãos, como soião, aos dominguos, as freguezias a insinar a doutrina aos christãos e anima-los e favorece-los no que he posivel, e a ordem que se la tem he esta: que hum dos que he mais apto e provecto nas letras declara o evãogelho da domingua, e algumas cousas da dou- trina aos christãos da terra, assi homens como molheres, e aos portuguezes que na igreja se achão; e depois de acabada a missa, lhes ensinão a doutrina em vox alta a todos os chris- tãos, antes que se vão pera suas cassas. Depois que acabão de a fazer, se recolhem os irmãos a jantar e repouzar hum pouco, e tanto que são oras se repartem e cada hum vai a sua aldea subjeita a freguezia donde vão, das quaes algumas distão da igreja hum quarto de leguoa, outras mais, outras 240
menos, e la ajuntão os homens e meninos a doutrina, uzando de alguns meos pera os atrair, dando-lhes alguns prémios, e louvãodo os que a sabem, fazendo alguns destes que são mais diligentes meirinhos que tenhão cuidado de trazer os outros a doutrina, tirãodo a vara aos que são negligentes, e outras cousas desta maneira. Acodem os mosos bem a doutrina e fazem os irmãos muitos serviços a Deos nestas aldeas, porque alem da dou- trina que emsinão, tem conta que os emfermos se confes- sem, e falão aos gentios que se fação christãos, busquando meos pera os trazerem ao conhecimento da verdade e sem- pre, desta maneira, se trazem muitos ao Senhor. A uma das freiguezias, chamada da Guadelupe, que tera dois mil e quinhentos christãos, vão quatro irmãos e la se repartem, depois de comer, por diversas partes da mesma freguezia, a fazer a doutrina, a saber: a Guoa Velha, Moru- bim, Maravelia (sic) e Bati. Estes são os nomes dos lugares; virão a estas doutrinas trezentas e quarenta pessoas; trarião este anno a se fazerem christãos setenta pessoas. A outra aldea desta ilha, aonde esta outra igreja cha- mada Madre de Deos, a qual tera quatro centos christãos vão tãobem dous irmãos omde, polia mesma ordem que assima disse se lhes declara o evangelho e faz a doutrina. E acodirão a esta doutrina cem mosos. Este anno trouxerão daqui treze pessoas hum dia, por acerto ou dita, pera se faze- rem christãos, mas não erão da mesma aldea, porque todos, louvores ao Senhor, são christãos, polia boa diligencia e zello que o tanadar de hum paso que esta na mesma aldea teve em que // os fez, por sua boa industria, christãos a i«4 todos. Vão mais a outra aldea, aomde esta a igreja do bemaven- turado São Tiaguo, na qual avera mais de oitocentos chris- tãos, outros dous irmãos e fazem o mesmo; polia menhã, e a tarde, se passa hum delles a outra aldea que esta algum 241 DOC. PADROADO, IX l6
tanto afastada, aomde ajunta os homens e meninos pera a doutrina, e serão, por todos, perto de cento, e este anno, trouxerão os irmãos desta aldea tãobem seus manipolos de almas pera se fazerem christãos. A outra freguesia, chamada São Lazaro, que esta não muito longe deste collegio, o qual tera mais de seis mil almas christans, vão outros dous irmãos, e hum delles prega aos christãos e aos portugueses da mesma freguezia o evãoge- lho, e como acaba, vem jantar a cassa, por ser, como disse, perto deste collegio. Desta freguezia trouxerão alguns pera se fazerem christãos, ainda que não muitos, por aver pouco que a ella se vai, mas promete ella dar grande fruito. Afora estas freguezias, aomde vão os irmãos, ha outras tres de que os nossos padres tem cuidado de dizerem suas missas aos domingos, a fazer suas estações aos christãos e comfessa-los e administrar-lhes os sacramentos e cada huma detas freguezias vai hum padre com hum irmão. Huma delias he do bemaventurado São Bras, a qual esta numa aldea chamada o Paço Seco; tera quinhentos christãos. Huns dominguos por outros se baptizarão tres ou quatro pessoas. Os meninos desta freguezia todos sabem mui bem a doutrina e quasi todo o tempo guastão em a andarem cantando. Tem entre si suas competências a quem a sabe milhor. Vai o irmão, a tarde, ajunta-los pera a doutrina e sempre se ajuntão mais de cento e dez mosos. Em esta freguezia, pollo jubileu, se confessarão cem pes- soas, e setenta ou oitenta tomarão o Senhor e foi este nu- mero maior que em outras freguezias aomde vão nossos padres. Parece que por estarem mais juntos com a cidade e terem mais conhecimento com os portuguezes estavão mais instruídos nas cousas da comfição e comunhão. E asi nesta, como nas outras freguezias, por asi o ordenar o arcebispo, fizerão sua procição particular; hião os mosos de qua de cassa diante, cantãodo as ladainhas, o que não foi pequena 242
consolação pera os christãos e como quer que esta gente da terra he amigua de seremonias a semelhantes cousas acodem todos. A outra freguezia, chamada São João Evãogelista, que esta pouco menos de huma leguoa e mea da cidade, vai outro padre e irmão, e fazem o mesmo que os outros e o padre diz-lhe sua missa, faz-lhe sua estação; confessa-os polia Coresma e administrar-lhe (sic) os mais sacramentos. Em esta freguezia avera de duas mil almas para riba e outros muitos gentios, dos quaes sempre se fazem alguns christãos, ainda que menos, por aver nella muitos bramenes que, como cabeça da gentilidade destas terras, os empedem. Alem destas freguezias, esta outra que se chama São Lourenço, a qual vai outro padre e irmão e esta tem pasante de dous mil christãos, afora muitos outros gentios que entre elles estão espalhados, os quaes quasi todos são lavradores. Com este se faz o mesmo que aos de riba. E por aver em esta freiguezia poucos bramenes, se fazem muitos christãos e assi não ha mes que se não baptizem pouco menos de trinta. E ainda que seja gente pobre, trabalha de fazer sua oferta e cuidão que vai tãoto nisso que os que acertão de se bapti- zarem, antes da missa, não deixão de vir a oferta. E se as vezes, por inadvertência, se vai o padre ao altar primeiro que todos acabem, acostumão elles ir ate o altar pera poderem comprir com sua devação. He isto geral em todos os chris- tãos desta terra, e depois que o padre acaba a missa, toda esta offerta se da aos pobres, como se faz noutras egrejas, onde vão nossos padres. // [425 r.] Outra igreja esta em os arrebaldes desta cidade, a qual os dominguos, a tarde, vai hum irmão insinar a doutrina aos meninos e escravos daquelle bairro, onde concorrem mais de quatrocentas pessoas. Com elle vai outro irmão que se aparta pera outra parte, onde morão muitos christãos da terra e os ajunta em cassa de huma molher devota e virtuossa 243
que somente pera isto a fez, e commumente concorrem a esta doutrina trezentas, ate quatrocentas pessoas, e algumas vezes, mais. E he tão grande o fervor e zelo que tem esta molher da christandade que, andando emtre os gentios, ne- nhuma outra cousa trata nem tem mais cuidado que de os trazer a fee e verdade da nossa lei. Vão assi mesmo dous irmãos a cassa donde estão os degradados, pera servirem na ribeira de Sua Alteza, os quaes lhes emsinão a doutrina e os conssolão e emduzem aos sacra- mentos. Ordenarão tãobem como entre elles ouvese todas as noites doutrina e viesem todos a ela. E tãobem vai hum padre aos dominguos ao cárcere da Inquisição a fazer huma pratica sobre a declaração da doutrina da fee, dirigindo-a especialmente aos luteranos que ali estão, comfutando os erros de Lutero. Em a ilha de Chorão, da qual terão ja noticia, se occupão os padres e irmãos que la estão com ter cuidado de quasi três mil almas christãs que nella avera. Ha tãobem nella alguns gentios, os quaes, se não são ja convertidos, he por não haverem tãoto aparelho como nos tempos atras, mas esperamos, com o favor divino, que o serão muito cedo, polia mudança que ja nisto ha. Destes gentios que diguo, com alguns outros que da terra firme vierão, com molheres e filhos a se fazerem christãos, se baptizarão este anno ate cinquoenta, precedendo os cathesismos necessários. Hum moso desta ilha, de idade de quinze annos, que esteve neste collegio seis mezes, tinha seu pai na terra firme, bramene, o qual vinha ter com o filho secretamente, algu- mas vezes, e determinou o moço de o converter, e pera isso se ajudou de alguns parentes com os quaes comunicou o neguocio. E aprouve ao Senhor que persuadio ao pai, que era ja de sesenta annos, com suas razões, a se fazer christão o que o he ja aguora, e muito bom, ao parecer. Outro christão, induzido do demonio, fugio pera a terra. *44
firme, mas depois arependido, dezeiando satisfazer ao erro que tinha feito, trouxe duas pesoas pera fazer christãs. Hum destes que era filho de hum mouro, foi cauza por que o pai tãobem viesse a pedir baptismo. Entre os christãos desta ilha ha huns dos que são os principaes e mais omrrados emtre elles, a quem chamão gancares, e o que estes asentão, se faz pello povo. São bons christãos e dão de si mui boas mostras, pello que os dias pasados aconteceo que nunqua quizerão recolher na ilha hum parente seu que se ausentara, somente por ser gentio, prometendo-lhe que se se quisese fazer christão, lhe com- cederião o que pedião e muito mais. Algumas christãs ahi nesta ilha, cujos maridos estão na terra firme, as quaes estão tão bem instruídas na fee e tem tãoto conhecimento nas coussas de Deos, que por se não apartarem desta verdade, não somente não se vão pera elles, mas algumas derão alguns avissos do que seus maridos fazião pera as levarem, pello que se trabalhou loguo por por cobro nisso, e eles ficarão com o trabalho em vão. Commumente estes christãos são mui amiguos das coussas de Deos. As supertições e costumes de gentios parece que ja não ha nelles, porque a tãoto cuidado emtre si de acuzar huns aos outros que não ouza nenhum a bolir. Tem muito cuidado estes christãos como nenhum morra entre elles sem com- fição. E assi molheres que estão de parto, mãodão pedir logo a igreja que lhes mãode as relíquias, nas quaes tem tanta fee que logo parem, como lhas lanção. E tendo dan- tes, sendo gentios, por agouro vizitar algum doente, ainda que fosse parente, e amortalhar mortos e leva-los a cova, ja aguora, polia bondade do Senhor, estão bem mudados disso, o que se mostra na diligencia com que fazem as covas e levão a tumba e outras obras de misericórdia deste genero. Tence (sic) este anno colhido muito fruito nesta ilha de muitas crianças que morrerão baptizadas, e antes que mor- 2 4 5
[425 t.] rão, acustumão os pais ou // parentes a fazer saber ao padre c pedem se ha hai algum remedio, e quando lho não dão, levão ao menos aguoa benta e lanção-lha. Dia dos Finados se trouxe a ossada dos christãos que estava enterrada no lugar aomde primeiro esteve a igreja, a qual se trouxe em procição com muita cera. Ouve missa cantada e outras seremonias, e quasi todos os christãos desta ilha se acharão a ellas. As si mais na Quaresma se comfessão todos e na Somana Santa se fizerão os officios cantados, ajudando alguns devotos. E quinta feira ouve procissão com disciplinantes. Tiverão, a mea noite, preguação da Paixão na mesma linguoa, a que concorreo quasi toda a ilha, e ao dominguo da Resurreição foi mui festeiado: ardeo grande numero de candeas na procissão; ouve danças a portugueza com outros joguos, a seu modo. E com estas festas se ve claramente animarem-se mais os christãos e afeiçoaremce a religião christã. No meo desta ilha esta huma aldea de pescadores, os quaes pedirão que os padres fosem em consentimento de na sua povoação poderem ter huma cruz arvorada, a qual elles fizerão mui fermosa e da igreja a levarão em procissão ao lugar aomde avia de estar, com muitas festas, a sua ma- neira, e alegria de todos. Ordenou-se tãobem, por quãoto aos meninos desta ilha não podião acudir todos a igreja ao tempo da doutrina, por os mais delles pousarem longe, se fizese em sinquo partes, a saber: na igreja aomde acodem duzentos; e na outra parte, perto de oitenta; na terceira, cinquoenta; na quarta, sesenta; na quinta, perto de quarenta. E estas doutrinas se fazem todos os dias, polio que não ha meninos que a não saibão toda ou quasi toda. E tem-se muita conta com os que faltão, e pera os induzirem a doutrina se lhes da, a tempos, alguma coussa de comer. Todos os christãos desta ilha estão escriptos em humas taboas que pera isso se fizerão em sua letra e na 246
nossa. E estão no alpendre da igreja, polias quaes se sabe os que faltão e não vem a igreja. E com isto não se descui- dão, vendo que hai tãobem cuidado delles. Os dominguos e santos tem suas estações a missa e o mais que esta dito das outras freguezias. Publicou-se tãobem o jubileu com muita solenidade, fazendo-se procição a que acodio toda a gente; guanharão todos os que forão capazes o jubileu, comfessãodo-se e tomãodo o Santíssimo Sacramento, e forão muitos mais que os das outras freguezias, aonde vão os padres e irmãos, por estes christãos serem mais doutri- nados e afeiçoados as coussas da fee, polio especial cuidado que delles se tem e asi os que não erão capazes da comunhão, ao menos, jejuavão, comforme ao que mandava o jubileu. Em huma fortaleza, que esta nas terras de Salcete, esta hum padre com hum irmão, os quaes insinão sesenta e seis aldeas, e em todas ha christãos, e com todas tem conta no que toca ao bem de suas almas, trabalhãodo por apartar os christãos da frequente comunicação dos gentios, e favo- rece-los no que he posivel e nisto os ajuda não pouco. Ho mesmo faz o capitão desta fortaleza, o qual se mostra mui zelozo e favorece os christãos muito, e juntamente o contra- tador destas terras de Salcete, que he hum christão, o mais honrrado e rico que ha nesta cidade, chamado Simão Cabral, o qual poucos dias ha que despedio quasi cento e oitenta gentios, que em diverssos officios lhe servião, e em lugar destes, tomou outros tãotos christãos, de maneira que, polia bondade de Deos, se faz muito fruito, assi com os ja con- vertidos, como com os que ja de contino se vão convertendo, que este anno serião dozentos e sinquoenta. No hospital desta cassa se fez muito serviço a Nosso Senhor este anno, porque, alem de muitos christãos que nelle se curarão de doenças mui periguozas, se curarão tão- bem alguns gentios, os quaes todos se//converterão se [426 r.] converterão (sic) a fee. E não somente elles e suas molheres 247
e filhos e outros parentes, aprouve ao Senhor, este anno em especial, trazer muitos por este meo, cujo numero sera sesenta, aos quaes juntamente com os outros que ja são chris- tãos, que podem aprender, se faz a doutrina por tres ou qua- tro vezes em o dia, no mesmo hospital, segundo a boa dili- gencia do irmão Pedro Afonso, o qual não somente cura e administra todo o provimento necessário aos que estão no hospital, mas tãobem cura a muitos outros pobres que todos os dias, vivendo em suas cassas, ali vem buscar remedio. Visita mais a cassa dos mininos, onde quasi sempre ha alguma cousa que fazer, também a cassa doa cathecuminos. Ha huma pesoa honrrada, que era tanadar de hum passo desta ilha, a quem se tinha obriguação, pollo muito que trabalha na christandade; curou de tres apostemas mui peri- guosas, e depois de são, não achou outra cousa com que lhe retribuir senão com lhe trazer doze ou treze pessoas pera se fazerem christans, as quaes elle, por sua boa industria, convertera. Deu-lbes de vestir a todos, e depois de christãos, os tomou a seu cargo e os tem bem empatados, dando-lhes o necessário. Emtre outros que se vierão curar a este hos- pital, veo hum homem ferido muito mal por outro, em que emtrara em desafio, o qual elle deixou com huma perna cortada e acasso foi este tãobem trazido ao hospital, sem saber parte do outro, omde se procurou fazerem-se amiguos. E ainda que ao principio se mostravão algum tãoto dificci- les, finalmente o forão e o são aguora muito grandes. Na conversão dos infiéis se entende o mais que se pode, tendo especial cuidado disso hum padre de muita virtude, zleo e prudência in Domino, chamado Antonio da Costa, e asi, polia bondade de Nosso Senhor, sempre ha alguns que se preparão pera receber o baptismo em a cassa de cathecumenos que temos junto deste collegio com huma porta pera elle. Tem delles cuidado hum irmão e em a mesma cassa pousa, o qual olha por elle e os instrue na 2 48
doutrina, e nesta instrução se gasta a maior parte do dia e ha hi tãobem hum padre deputado em cassa pera cada dia ir la huma ora praticar com elles e declarar-lhes as cousas da fee. Concorre ali gente de diversas naçõis, como canarins, mouros, pegus, malavares, malaeos, abexins, chinas, e este anno veo qua ter hum junco da China, o qual querendo-se tornar na monção, na barra lhe deu huma tormenta grande e se foi ao fundo, e por este meo trouxe o Senhor os chins todos ou quasi todos a se fazerem christãos. Estes cathecume- nos, primeiro que os admitão, são examinados da intenção com que vem a receber o baptismo, e segundo o que nelles se acha, asi se procede com elles. Com os que são mouros e judeus se usa de mais rigor, dilatãodo-lhe o que pedem. A cassa das cathecumenas esta separada de esta, donde esta huma molher virtuosa abexim que tem assumpto delias, insinãodo-as e doutrinãodo-as em as cousas que se requerem pera tomar o baptismo. Polia mesma ordem se faz aos cathecumenos; ficão desta cassa, polia boa diligencia desta molher, tão bem doutrina- das as molheres que ali se vem doutrinar, que indo depois algumas a cassas de alguns portugueses, ellas são as que incitão e exortão as outras molheres a rezar o rozairo e em- comendarem-se a Nosso Senhor, e algumas ficão tão ins- truídas e devotas das cousas de sua salvação que he pera louvar a Nosso Senhor, porque algumas, como muito anti- gas christãs, fiquão capazes do uso frequente do Sacramento. Destes cathecuminos e cathecuminas se fazem, quasi todos os domingos e alguns dias de festas, baptismos em nossa egreja. E desta maneira em baptismos particulares se fize- rão, este anno, cetecentos christãos, aqui neste collegio, afora os que os nossos padres fizerão em as igrejas em que residem ou vão dizer missa, ainda que depois se foi mais abrindo a porta a christandade, como logo contarei. 249
Com a vinda das naos deste anno foi o Senhor servido de abrir a porta a christandade, a qual Elie permitio estar algum tãoto cerrada, pêra depois deste tempo satisfazer com [426 v.] dobrada alegria a seus servos a de //sconsolação que antes tiverão, por esta obra não ir tãoto adiante como antes. Isto foi com huma carta que Sua Alteza qua mãodou, este anno, ao viso-rei, a qual, parece que, procurãodo assi o demonio, se não deu senão dous meses, depois que as naos chegarão, em que lhe mãodava lançar os bramenes de suas terras, e outros gentios que fossem perjudiciais a christandade, e que se não ouvesse algum inconveniente, se fizessem os baptis- mos solemnes como dantes se fazião, tratãodo primeiro isto com o arcebispo e padres da Companhia e mais pesoas que lhe parecesse ser mais acertado o modo com que cousa de tãoto serviço de Deos se avia de por por obra. O viso-rei, depois de ter tratado o negocio com o arce- bispo e religiosos de todas as ordens, tomou a final deter- minação em hum conselho, aomde, alem do arcebispo e religiosos de todas as ordens, estiverão os dezembargadores e veador da fazenda e a camara desta cidade, e todas pesoas, e ainda que nelle ouve algumas contradições que o demonio por sua via, por meo dos mesmos bramenes, seus ministros, procurou, todavia se apresentou que se comprice a carta de Sua Alteza, no que o arcebispo mostrou bem o zelo que tinha desta obra ir avante, fazendo primeiro que todos huma pratica em comfirmação do que Sua Alteza tinha ordenado, mostrando, por muitas rezões e authoridades da Escriptura, não somente quam licita e sancta cousa era, mas quão necessária ao bem da christandade e a consciência de Sua Alteza botarem-se os bramenes fora, que tãoto empedião o serviço de Deos, nesta terra, e comverção das almas, por serem elles as cabeças da gentilidade e aquelles que tem a scientia da lei e que a ensinão aos outros gentios. Finalmente se comcluio que os bramenes e pesoas perjudiciais fossem 250
fora das terras de Sua Alteza, sob certas penas e o modo de os botarem fora, pêra não aver turbação na cidade, seria sem pergão, notificando o ouvidor geral, ora a huns ora a outros, comforme aos roes que o arcebispo e religiosos lhe dirião de pesoas que por pernitiozas a christandade se avião de ir fora. Agora se vai isto, polia bondade de Deos, pondo em execução; os bramenes, depois que souberão como o negocio estava concluído, ficarão com os ânimos mui derribados, e donde dantes andavão mui soberbos pêra com os cristãos, não ousão ja aguora alevantar a cabeça, e os christãos anda- vão tão ledos e contentes que alguns de prazer quasi o não podião crer. Estando a cousa desta maneira, se começou loguo a gente meuda dos gentios a abalar pera se fazerem christãos, e asi pareceo bem ao Padre Provincial se ordenasse loguo hum baptismo solemne, por ser o tempo comveniente, e asi em- comendou aos irmãos que hião as aldeas e freiguesias atiças- sem mais o neguocio da christandade, falãodo aos gentios e portuguezes. E aos portuguezes que os tinhão nas ortas, que os perssuadicem a fazer christãos e asi, em espaço de vinte dias, os padres e irmãos e outros christãos dahi da terra, e portuguezes trouxerão muitos, cujo numero chegou a trezentos e vinte nove pessoas, pera este primeiro baptismo, afora outros muitos que ficarão pera o segundo, que pera a nossa festa de Jesus, querendo Deos, se fara. Era muito pera ver, quando estes se vinhão a fazer christãos, quam contentes vinhão polias ruas, com suas trombetas diante e elles com suas cappelas e ramos nas mãos, que paredão ja entrar na gloria. Saião outros muitos gentios e christãos a ver que festa era aquella, quando ouvião o som das trom- betas. Os christãos se alegravão grandemente, quando vião vir tantas ovelhas ao curral de Christo, mas os gentios fiqua- vão turbados e quasi asombrados de ver abertas, outra vez, 251
as portas da christandade, e asi comfusos, não ousavão aparecer. Destas trezentas e nove almas se fez hum baptismo solemne o dia da Comceição da glorioza Virgem Nossa Senhora e nele se guardou a mesma ordem que nos outros Baptismos se tinha, a saber: saia daqui de cassa a procição dos mosos, que hião com seus ramos e capellas, o padre bispo, o padre provincial, e os mais padres e irmãos, e outra muita gente de fora a acompanha-lo ate chegar a huma cassa, perto deste colégio, onde estavão os christãos todos juntos, e antes de chegar a procição, estava ja la o viso-rei [427 r.] com os fidalgos // e nobres desta cidade, animãodo neste interim os christãos, polio que todos se alegravão muito, pollo favor que lhes fazião. Praza ao Senhor que lhe comu- nique o seu espirito e lhe acrecente cada vez mais o zelo de favorecer sempre esta obra tão sancta, como todos espe- ramos. Aconteceo que, saindo os christãos em procisão, huma moura, ouvindo tanger os atabales, trombetas e charamellas, perguntou que festa era aquela, e ouvindo dizer que se fazião muitos christãos, se saio de cassa do senhor e se meteo em cassa de hum português honrrado, dizendo que queria ser christã. Aconteceo mais que, estando ao tempo do baptismo hum dos padres a porta da igreja, fazendo siri- monias do baptismo aos christãos, chegou hum gentio ouri- vez, e vendo que se fazião tãotos christãos, se chegou ao padre, tirando a touca, lhe dise que se queria fazer christão, portãoto que o baptizase logo, e asi foi recolhido a cassa dos cathecuminos pera se fazer em o outro baptismo, por não estar ainda instruído nas cousas da fee. Os irmãos que estas e outras semelhantes cousas vião, não vos sei dizer, charissimos meus, quão grande era o pra- zer e contentamento que suas almas recibião, gloria seia ao Criador de todos, pois que em hum tão breve espaço de 2 j 2
tempo satisfaz com tão dobrada alegria a desconsolação que tãoto tempo atraz tinhão recebida os seus servos, por ver esta obra da christandade ir tão pouco adiante, mas aguora, louvores ao Senhor, ja se vai a coussa despondo de maneira que cedo, com o favor devino, virão essas ovelhas desem- caminhadas a entrar polia porta do curral, depois que se virem de todos livres da boca dos lobos, que são estes bra- menes, os quaes, queira o Senhor, por sua misericórdia, lança-los fora destas terras. Amen. Este foi o primeiro que tivemos. Por cartas novas do Preste e quaes ellas sejão la o poderão saber por duas cartas que de la vierão nem qua se sabe mais do que ellas dizem. Uma delias trouxe hum homem christão da terra, que muitos annos avia que andava no Preste e em a trazer se pos em muito risco; comfiado, todavia, em o Senhor, a meteo em hum bollo e asi a salvou. Outra veo do Cairo e creo que ja la a terá o Padre Geral. Do nosso Irmão Fulgêncio Freire, que a annos esta cativo entre os turcos, nada escrevo, porque com esta ira huma sua, pella qual entenderão os trabalhos que padece e quanta rezão tem de o emcomendarem a Nosso Senhor em suas orações, se por la se não resgatar primeiro; qua se tem dado ordem com que pera este Setembro que vem, com a ajuda do Nosso Senhor, esperamos de o ter aqui. Quis-nos mais o Senhor consolar este anno com estas cartas e boas novas que do Jappão, Maluco, e outras partes tivemos, e porque delias emtendemos se hia alarguando cada vez mais a vinha do Senhor, como la, polias cartas verão, foi necessário multiplicarem-se obreiros nella. E assi, este anno, foi servido o Senhor que deste colégio fossem alguns obreiros pera ajudarem os outros que la estavão. Primeiramente se lançou mão da empresa da China, a qual nosso bendito Padre Mestre Francisquo tãoto trazia diante dos olhos e em cuja porfia acabou a vida. Pera la 2 53
vai o padre Francisco Perez, de cuja muita virtude, saber e prudência em o Senhor ja la terão asas entendido. O qual, posto que era ja de idade e cansado dos trabalhos, todavia, vai muito comfiado em o Senhor lhe dara toda a ajuda ne- cessária pera poder comprir sua sancta vontade. Levou por companheiro o Padre Manoel Teixeira e o Irmão Andre Pinto, que o anno passado foi deste collegio pera Mallaqua, todas pesoas experimentadas na virtude, segundo que esta tão grande empresa requeria. Vão todos com o embaixador, que por Sua Alteza vai pera o rei da China, o qual alem de ser virtuoso, he muito afeiçoado a Companhia. Não vai pouco satisfeito e consolado de levar os padres que leva, polio que delles conhece. Prazera ao Senhor que este anno teremos de la as novas que todos dezejamos, e que se plan- tara a fee de Jesu Christo em gente que tão fora anda do [427 v.] conhecimento de seu Criador. // As novas que de Maluquo e Japão este anno tivemos não as refiro aqui, porque as saberão mais por extenso polias cartas que destas partes pera la vão. Ao Japão forão man- dados tres padres e os dous delles theologos, a saber: Bel- chior de Figueiredo e Balthezar da Costa e João Cabral, posto que, segundo a terra estava desposta, serião estes mui poucos pera os que avião mester, mas a falta em que este collegio ficava de padres foi causa de se não poder mandar mais gente a estas partes, ainda que estes, por sua muita virtude experimentada, ja por muitos annos, creo suprirão ho que muitos mais em numero podirião fazer. Pera Maluquo foi o Padre Luis de Gois, que da Cafraria veo com o irmão Vasco Roiz, que nesta monção de Setembro hia pera Malaqua, com o Padre Balthezar Dias. E como o galião em que hia não pudese pasar, por os tempos serem mudados, arribou a Cochim, quatro dias antes da morte do Padre Aires Brandão, aonde fiqua em seu lugar, pregando e confessando e satisfazendo em as mais obrigações de cassa. 2 54
Foi mais pera Cochim o Padre Manoel Alvares e o Irmão Manoel Lobo. Pera Baçaim foi o Padre Andre Cabreira, pera la dar começo aos estudos de latim que a camara da cidade, com muita instancia escrevendo ao padre provincial, pedio e por ser toda esta cidade devota da Companhia, não se lhe pode negar. Foi tãobem com ele o Irmão Dioguo Fernandes, pera ter cargo da escola de ler e escrever e aris- metica. Pera Ormuz se mãodou nesta monção o Padre Ma- noel Cabral, pera ser companheiro do Padre Vicente Tonda, que estava la sem hum sacerdote. Isto he, charissimos em Christo padres e irmãos, o que ao presente se oferece pera lhes escrever e que o Senhor ouve por bem obrar, por seus mínimos instrumentos nesta ilha de Guoa. Resta aguora emcomendarmo-nos todos em seus sanctos sacreficios e orações, e pedirão ao Senhor que a elles e a nos comunique seu espirito divino, pera que por nenhuns trabalhos quamsemos em seu sancto serviço. Elie seja em suas almas e de todos. Amen. Deste colégio de Goa, aos 17 de Dezembro de 1563. Por comissão do Padre António de Quadros, pro- vincial. Servo de todos em o Senhor Lourenço Perez. 2 55 K
34 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES AOS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Manar, 19 de Dezembro de 1563 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534■ (1) Fls. 415 V.-418 v. Pax Christi Por serem muytas e muy continuas as occupaçõis que tenho, não posso escrever como deseio, e por ser ja aguora tarde para mandar as cartas a Cochim, pera aver de comprir com a obrigação que tenho, não poderei fazer mais de tres- ladar a carta que tinha escrita pera o Padre Preposito Geral manda-lha, e se em algum tempo podesse dar as novas de mim, que este anno possa dar dos christãos da Pescaria com que andamos, avia muita rezão de minha alma se alegrar. Por cartas dos annos passados sabem como os christãos são mudados a esta ilha de Manar. Estamos, ao presente quatro padres e tres irmãos, scilicet: o Padre Hieronimo Vaz, Diogo de Soveral, Manoel de Bayrros e eu, e irmãos Fran- cisco Durão e Estevão de Gois e Manoel de Valadares. O Padre Bairros ja nesta costa esteve alguns annos, sendo irmão, onde aprendeo, medianamente, a linguoa. Daqui foi chamado a Goa, e ahi aprendeo algum tempo latim, alem do que elle ja dantes sabia. Hordenarão-no sacerdote e em- viaram-no qua, este Março passado, o qual esta muyto avante na mesma limguoa. (1) BACIL: Cartas do Japão, III, fls. 26r.-29r. BAL: 49-IV-50, fls. 594 r.-597 v. 256
Trabalha-se por viverem todos comforme a nossa pro- fissão, com muyto exemplo de todos e alguns dos compa- nheiros, de se conhecerem milhor pidirão com instantatia (sic) lhes fossem ditas suas faltas pubricamente. Outros, dia de San Francisco, vierão com fervor a pedir algumas morti- ficaçõis e satisfesse a seus deseios; temos cada somana, e as vezes, cada quinze dias, algumas praticas espirituais que ajudão pera não nos esfriarmos, e nas quais, as vezes, tra- tamos todos de que maneira nos poderemos, todos, milhor conservar. E de algum tempo pera que, (sic) himos lendo algum pouco das Regras, e declarando-as, segundo as enten- demos. Trabalhamos que não aja falta na oração, por enten- dermos que em as muytas ocupaçõis que temos e andamos facelmente se esfriara o spirito, se não for ajudado e refor- mado com a consideração de quem he Deos e de quem nos somos. Da saúde corporal estão bem; eu estou o que sempre estou, doente; este anno me achei mais fraquo que os outros, e assi, alguns domingos, deixei de dezer missa, e outros dei- xei de fazer pratica; dantes não era tanto. Começando a contar as novas dos christãos, posso afir- mar que, de todo o tempo que ha que com elles estou, que passa de dezasseis annos, nunqua tanto fruito sentimos como este anno de 1563. A gloria seja a Deos, e queira Elie, por sua misericórdia, perficere quod incipit. Muitas partes deste fruto sentimos aver começado de hum christão pescador de peixe, e que não achegava a seu cabedal a ter barco e redes como San Pedro, do lugar de Punichale, o qual não sabe ler nem escrever, pera que com rezão possamos dezer: confi- teor tibi Pater coelestis quia abscondisti haec (2), etc. E este avera cinquo annos, plus, minus, que em o dito lugar ajun- tou quatro ou cinquo mancebos consigo, da sua igualha, com (2) a. Mat., 11-25. 2 57 DOC. PADROADO, IX — 17
os quais vinha pedir lhe dessemos manjar espiritual em suas almas, e isto cada somana duas vezes. Soube eu, não ha muitos dias que, porque a pratica se fazia a noite e a pousada de hum dos mancebos, que trazia a pratica, estava longe, acompanhava-o acabada a doutrina, [416r.] arreceando-se que indo so, de noite,//perdesse a vontade de frequentar aquelle santo exercício. Este, depois que nesta ilha somos, trabalhou de adquirir não somente aquelles que a Ponicale vinhão, mas a outros, e foi-se a cousa aguentando, de maneira que forão multiplicando, e porque em casa ja não cabião, de Janeiro pera qua, ordenamos fazer-se na igreya a sesta-feira, a noite, e era para dar muytos louvores a Deos, e como hum chamava a outro, assi a doutrina como ha confissão. Como bem viamos o que diz S. João qui audit dicat verum. Viamos mudança de vidas, nem faltavão restituiçõis de onzenas e de outras cousas desta calidade, em que certo tínhamos e temos muita materia de alegria espiritual. As molheres de alguns devotos destes, depois que por conselho dos maridos comesarão a se confessar e sintir milhoria das cousas de Deos, pedirão que tanbem fossem participantes do manjar spritual, e por não ser decente virem de noite, orde- nou-se que viessem as quartas-feiras, onde lhes diz missa e se da doutrina. Esta outra igreja daqui hum pedaço, a qual era muito frequentada de muytas molheres que ião a ella, a boca da noite; foi-nos dito, por vezes, de alguns que se faria muito fruito, se lhes fosse dada doutrina como se dava nesta igreja principal, onde residimos; avera dous meses ou mais que se lhes começa de dar, as quartas-feiras, pella menhã. Ao bispo de Cochim escrevi, dando-lhe conta da necessi- dade que avia de padres que soubessem a lingoa pera con- fessar esta gente, e assi de hum certo padre que sabia muito da lingoa malavar e era necessário pera se tirarem cousas da 2 5 8
doutrina na mesma lingoa. Mandou loguo este padre mala- var, os demais pêra as confissõis e respondeo que pêra Feve- reiro esperava de vir qua e que proveria nisto. Com ajuda do padre nos consolamos muito, mas por serem muitas as confissõis não ha lugar de se fazer nada na doutrina malavar e ainda em comfessar, por serem muitos os que pedem com- » fissõis, assi sãos como doentes; me esforço a ajudar os com- panheiros nas confissõis e, posto que mal desposto e me he trabalho ouvir de comfissão, eu seria consolado, se pudese ser, não ter outras occupaçõis mais que de ouvir comfissõis e ter comunicação com muitos dos christãos devotos, por sentir o fruicto que nisto se faz. Não podemos, ainda que he muita a consolação que temos, de ver o proveito que se faz, não podemos deixar de ser desconsolados de ver outros muitos qui petunt panem da comfissão et non est qui por- rigat. E os devotos persuadirão a muitos mais a isso, assi a homens como a molheres, mas não se pode satisfazer com todos; mittat Dominus operários in vineam suam e saibam a lingoa e sentir-se-a muito e muito mais fruto. Estando escrevendo esta, me foi dito como hum mancebo que aqui confesamos, filho do mais rico homem que nesta ilha ha, disera a seu pay e mãy que em sua vida restituíssem o mal ávido, por aver tido seu pay certos contratos que se fazem na pescaria do aljôfar e outros, os quais sapiunt usuram; que elle não queria ser herdeiro em fazenda mal ganhada. Este mancebo foi criado em muito mimo; de algum tempo para qua se confossa (sic) com mudar a vida. Outras cousas particulares se podião escrever mas farião muito com- prida a carta. Demos ordem, de alguns meses a esta parte, que as quartas-feiras viessem a esta igreja // principal todos os mes- [416 v.] tres da escola com seus discipolos, onde ouvem missa e se lhes faz pratica, e esperamos em Deos que desta douctrina resulte fruito. E ja ho himos sentindo, e porque soubemos 2 59
que os físicos, que curão, nos farião muita guerra, porque muitos delles curão com palavras e outras cousas piores, alem de curarem também alguns gentios, ordenamos que cada somana, ao sabado, se ajuntassem em casa pera que lhe praticássemos como aviam de curar e outras cousas de que tinhão necessidade de saber pera suas almas. Depois de fre- quentado isto alguma somana, se tem aguora dado ordem que de quinze em quinze dias venhão. Confiados tãobem em Deos que deste exercitio resulte fruito, e se alguns não deixarem de usar de seus roins modos, por amor de Deos, em as mezinhas que derem, ao menos por temor, o deixarão de fazer. Tem-se tãobem cuidado em se fazer alguma maneira de pratica aos mininos e mininas que vem aprender a dou- trina, conforme a sua capacidade, para que de pequenos bebão as cousas da fee e dos bons costumes. Aos domingos se partem os padres polias igrejas, e pera satisfazer com todos, comvem alguns delles dezer duas missas. Hum lugar de christãos, daqui a seis leguoas, avera seis meses que o capitam o fez mudar pera aqui, onde fizerão sua igreja. Esta aguora onde podem ser milhor doutrinados e consolados em suas doenças. E neste mesmo lugar, e em outros dous, se tem tãobem este anno ordenado que as molheres venhão aos domingos iuntamente ouvir missa, como ate guora; por alguns res- peitos, não vinhão as molheres, nos tais dias, senão em outros da somana. Estamos aguora pera alarguar duas igre- jas, pera aver lugar onde possão caber homens e molheres e assi fazer que em toda a ilha venhão as molheres aos domingos e ousadas (sic) (3) que a mister serem bem grandes. (3) Na cópia BAL: a palavra ousadas é bem clara, embora se não veja bem o seu sentido. 260
Polio pirigo que avia de morrerem as crianças sem baptismo, bautizamollas polias casas; de algum tempo a esta parte, se ordenou que os trouxessem a igreja, onde os bau- tizão com as cerimonias da Igreja acustumadas. E porque falei no baptismo non erit ab re dar conta como (4) baptizei huma criança, e posto que a parteira tinha para si que a criança era morta, e in dúbio, batizei-a. Depois de me vir, vierão-me dizer que vivera; depois de dar dois arranquos, espirara. Louvado seja Deos que ordenou salvar-se aquella alma por aquella via. Outras cousas acontecem de crianças, assi pera muito louvarem a Deos. Em hum lugar que esta daqui mea legoa, esta hum man- cebo de casta de canaris, que induzia aos outros ouvirem aqui, aos domingos, a tarde, praticas espirituais. Não podem elles a sesta-feira acudir, e he pera dar graças a Deos ver o cuidado que tem de vir, e como os traz a confissão. Queira Deos, Nosso Senhor, que se vão por este multiplicando em numero como se multiplicou, como contei no principio da carta, o qual he de casta de par avais (sic). E porque estamos aqui tãobem em officios de vigários, se tem cuidado de castigar os culpados, e os que não querem apartar-se dos males, por bem, o fação por via de castigo. O tempo passado, avia algumas pessoas, maxime molheres, que, por pouca cousa, tomavão peçonha//e morrerão algu- [4i7r.> mas, o que nos deu muito trabalho. Quis Deos que lhes achássemos remedio, e foi pedirmos ao capitam mandasse esquartejar as mortas, o que feito, cessou a tempestade. Assi se tem cuidado de meter em paz os descordes, e maxime, os principais, antes que a cousa va mais avante. (4) Na cópia da BNL, que seguimos, há aqui duas linhas ris- cadas. BACIL: dar conta em como vierão hum dia dizer como estava huma molher sem poder parir, com estar parte do corpo já fora. Fui la; com toda a honestidade se cobrio a molher e posto que a parteira tinha pera sy que a criança era morta, in dúbio bautizei na cabeça que estava fora hum pouco. Depois de me vir, etc. BAL: idem. 261
Este anno baptizaria o Padre Soveral ja trinta; elle he o que disto tem cuidado e de os cathechizar, em que leva muito trabalho, alem de ter elle carrego de outras muitas cousas em que alias escreveremos. Hum homem dos principais da terra me mandou dizer, os dias pasados, que no tempo que se baptizarão nesta costa os christãos era fora, polio que antão, nem depois fora bapti- zado; pedia o baptizasem em segredo, porque todos o tinhão por christão e pezava-lhe de saberem não ser baptizado. Baptizamo-lo, e ja o mesmo aconteceo, certas vezes, a outros. Quanto a lingoas todos os que aqui estamos nos occupa- mos nella e em falar em ella. Somente o Padre Soveral, que o não ajuda a memoria pera isso; Padre Manoel Bairros, neste tempo veo, aproveitou muito nelle. E depois que veo, sempre se ocupou em comfessar. O Irmão Durão ja delle se escreveo em muitas cartas quam avante estava nella. O Irmão Gois, de que não tínhamos esperança de a aprender, sabe tanto delia que, se tivera ordens, poderá ja confessar mediana- mente, sobre o que temos escrito ao Provincial. Na arte que se tinha feita ainda este ano se deu outra vista, a qual, a juizo dos que a vem, esta muito milhor, mais breve e mais facel, não por me sobrepujar tempo pera a concertar, mas porque durmo mal de noite, e parte do tempo que não posso durmir occupei nisto. Este anno também se deu ordem pera que via (stc) do capitão os gentios que esta- vão iuntos com os christãos fossem separados, e assi tem suas casas e ruas a parte. Quanto ao esprital que ha na terra temos assumto delle, pollo muito serviço que a Deos se faz em curar os doentes desemperados, alem de iuntamente se ter cuidado de serem providos outros doentes necessitados, que em suas casas es- tão, em que se edificam muito. De alguns meses a esta parte, se ordenou que fossem pedir esmola pello lugar pera ajuda de se sostemtar obra tão pia e necessária, em que se occupão 262
alguns bons homens, fazendo por amor de Deos. Não deixa de ser obra muy aceita e edificativa verem que ha nesta terra dous hospitais; hum pera os christãos e outro, na fortaleza, pêra os portugueses e os mais moradores, como quer que em alguns lugares da índia, onde vivem portugueses, faltão semelhantes casas, bem se cuida que toma Deos os padres da Companhia por instrumentos pera as tais cousas. A (sic) louvor seja o mesmo Senhor. Ate qui demos conta do que fazemos os padres que aqui estamos com os christãos. Será bem de saber o que fazem os padres Hyeronimo Vaz e o Irmão Manoel de Valadares, que na fortaleza estão. O Padre foi chamado do patriarca, parecendo que se podia effeitoar a ida do Preste, a qual se inpidio, e vindo o provincial a Couchim e o nosso capitão ao mesmo Couchim, este Janeiro passado, pedio com muita instantia ao provincial tornasse a mandar o padre a este Manar, pera estar na fortaleza, o que elle concedeo e assi foi muito alegria a que tomavão todos com a tornada do padre. He certo pera dar graças ao Senhor, ver o cuidado que tem do concerto da igreja, assi o tem do concerto das almas dos moradores da fortaleza // e como quer que os [417 ».) mais que na fortaleza estão seião soldados, cuia vida comu- mente he largua, trabalha o padre que vivão honestos. E assi, ouvi dezer que vindo aqui certos soldados a outra fortaleza, adonde também ha soldados, chamarão aos de ca meos apostolos por verem não terem a roim maneira que os outros. Prega-lhes quasi todos os domingos e festas, com ser muito accepto, e alguns frequemtão os sacramentos, e muito mais nas festas trabalha que andem todos a direito. Dous mancebos mandou daqui este anno para serem religiosos: hum, pera se meter frade em San Francisco, por- que alias tivera ja habito, posto que elle desejava de ser da Companhia; e outro, com perposito de ser da Companhia, depois de convalescer, que hia algum tanto mal desposto. 2 63
E estes dous se ocuparão, estando aqui, em mui boons exer- cidos, depois que assentarão servir a Deos, servindo no hospital e officios baixos, tendo oração e dando bom exem- plo de si, como religiosos. A outros dois tem persuadido o Padre servir a Deos, e deseião elles ser da Companhia e aguora servem no hospital, com muita edificação de todos. Dalguns meses pera ca, ordenou o Padre que tamgessem de noite as almas e polios que estão em pecado mortal, e estes mancebos tem cuidado de o fazer, e mais outros dous man- cebos que querem servir a Deos, na Companhia. Assi tem grande cuidado de se prover o ospital, pera que não aja falta, em o que, certo, tem o padre muito traba- lhado, e trabalha e assi se faz muito serviço a Deos, e se o padre não fora, com muita dificuldade, ouvera hi poderá aver tão santa cousa, imo parece que a não ouvera. Tem também cuidado hum lugar de christãos que esta mea legoa da fortaleza. As sestas-feiras vem visitar o mesmo lugar e fazer pratica e dezer missa as molheres. Certos meses ha que se ordenou, no mesmo dia, a noite, ajuntarem-se os homens pera se lhes dar doutrina. Depois disto, assentamos que hum domingo viesse o padre dezer-lhes missa, em o qual também ha-de dezer missa aos da fortaleza; outro, viesse o irmão que tem comsigo; outro, fosse de de ca hum padre; e outro, tornasse o irmão e assi fosemos continuando ate que aja mais copia de padres. O irmão que consigo tem estava em Coulam; em Fevereiro passado o mandou o provincial vir, o qual ja esteve nesta costa. He huma boa alma, ajuda ao Padre no que pode fazer; faz também doutrina aos mininos, moços e moças dos portugueses, aos domingos e santos. Elie mesmo os vai chamar. Ha certos messes que comesa a apren- der a limguoa, leer e escrever. Queira o Senhor Deos que quando vier, pera o anno, este muito avante, posto que, onde esta, mais conversação tenha com os portugueses que com os da terra. 2 64
O capitão esta comumente na fortaleza, o qual favorece os christãos. Mostra-se nosso amigo; assi faz muitas cousas que lhe encomendamos e pedimos. E a estas partes da índia faz muito ao caso ter ajuda dos maiores para o que perten- dem os padres de fazer; pera o hospital que ha na fortaleza he ornamento da igreja, da-lhe elle grande ajuda ao Padre Hieronimo Vaz; que, se a tal ajuda não fosse, mal se pudera levar adinante, assi ho ospital como a igreja tam ornada como esta. Tem muyto cuidado de defender a estes nossos christãos dos enimigos, e assi he muito temido do lugar, donde sintimos que se deu comselho aos badagas pera virem contra nos em Ponicale. Aguora, a perto de quatro anos, deste mesmo lugar que he de mouros, o principal mouro fez armar certos navios contra os christãos e purtugueses; davão saltos e tornavão-se a recolher, onde fizerão algum mal, tomando alguns navios, em que matarão certos portugueses. O nosso capitão teve tãobem cuidado em buscar quem//guardasse a costa, que t418r-] de huma vez lhe tomarão dous navios de remos, com sal- tarem os inimigos em terra. Doutra lhe tomarão hum navio, com lhe matarem hum mouro muito honrrado e mais de cincoenta ou sesenta. E com isto cesou a tempestade, e se meterão por dentro, ficando mui acanhados e os christãos com muito contentamento. Sed de hiis hactenus. Estas sam as cousas principais que ao presente se offrece para escrever, que Nosso Senhor quis obrar por estes fracos instrumentos, no que pedimos a sua divina magestade com que esta gente de todo se quiete nesta ilha, pois que quanto ao que toqua ao espiritual temos visto que se pode comparar a Jerusalem, e a outra costa o Igipto. E porque alem do amor natural, que se tem comumente a natureza, não faltão con- trastes a esta estada aqui, como não faltavão ao Padre de Hierusalem, quando sairão do Egipto, que ainda a feitoria desta, ha hum trabalho não pequeno, e he que de hum mes 265 L
a esta parte adoecem muito, que podemos dezer que a quarta parte da gente he doente de febres, ao menos em muitas casas em que estão os demais doentes, o que da muito traba- lho a todos. Polio que e por outras cousas se offerecem, a mister sermos ajudados com oraçõis para que Deos Nosso Senhor tenha por bem dar ordem pêra que de tudo se esque- ção estes do Igipto donde vierão. As si peço ao Senhor Deos qui perficiat quod incepit, porque como assima disse, de todo o tempo que ha que com esta gente estou, este anno se sentio mais o fruito, e o que parece, esta a terra mais desposta pera se fazer muito mais, avendo ahi obreiros, praesertim, que entendão a limguoa, pera averem de confessar e estar em cada lugar hum padre e hum irmão e ousades (5) que terrão (sic) bem que fazer. E se, com a ajuda de hum so padre nosso que sabe a linguoa e os confessa se começou tanto a emxerguar o deseio que tinão (sic) de sua salvação, esperamos que, avendo ahi mui- tos obreiros que a limgoa saibam, se manifeste mais quam desposta estava a terra pera fructificar fruto espiritual, ao que podemos applicar o que dezia Jonatas: hilluminati sunt occuli multorum com tam poucos companheiros quanto maior plaga fieret de praeda spirituali, se avendo muitos. Vi queixar a alguns dos nossos padres, que a nossa cassa hera mui frequentada de pessoas que vinhão a negocios tem- porais; aguora se não poderá disso queixar, porque quassi tudo he frequentarem-na pera cousas espirituaes, e podemos afirmar que não ha, as vezes, tempo pera darmos manjar espiritual, quando alguns deseião e virião buscar se ouvesse lugar em nos outros pera isso, polias muitas occupaçõis que temos. Não deixarei muito de dezer nesta quanta alegria sem- timos por termos poder de despensar com os que estavão (5) BAL: Ousadas, palavra bem clara. 266
ja casados in gradibus prohibitis, neste tempo que com tão grande vontade vinhão pedir confissão, o que grande tra- balho fora não termos o tal poder, praesertim, que são mui- tos em esta terra casados in gradibus prohibitis. Não ha duvida senão que fora inpidimento pera alguns, que não forem tão constantes na vertude, averem a confissão. Queira Nosso Senhor que Sua Santidade alargue o tempo que tem concidido de poderemos despensar nos tais grãos, o que sinto ser muito necessário pera todos os que am-de comversar com gente novamente convertida a fe. Fiquo rogando a Nosso Senhor Deos nos de graça pera que perfeitamente façamos o que for sua sancta vontade. Desta ilha de Manar, oie, 19 (6) de Dezembro de 1563. Depois de ter esta acabada, antes de mandar a Cochim foi a doença muito crecendo e morrendo muytos de que he huma piedade ver os padres amdando ajudando os doentes, aju- dando-os e confessando-os. Ajudem-os la com suas oraçõis, que tem esta gente necessidade,//que pode ser que tendo 1*18 elles respeito, posto que venhão tarde, tenha Deos por bem de alevantar esta doença e castiguo. Inutilis Anrrique Anrriquez. (6) O copista escreveu 25, mas depois corrigiu-se a data para 19.
35 A CÂMARA DE COCHIM AO CARDEAL INFANTE Cochim, 29 de Dezembro de 1563 Documento existente no ANTT: CC, I, 106-103. Mede 290 x 203 mm. São quatro folhas. O documento encontra-se em folha e meia, e algumas assinaturas lêem-se na fl. 2 v. Em bom estado. Vestí- gios de selo de lacre vermelho. Senhor, Nestas naos de sesemta e dous nos foy dada huma de V. A. era que nos mamda que as cousas que cumprirem a bem deste Estado façamos delas lembrança a el-rey noso senhor, pera nelas prover, como por seu serviço, pela qual beijamos as reais mãos de V. A. Nas duas vias que nestas naos enviamos a el-rey noso senhor, fazemos lembramça das cousas que nos parece ne- cesarias, como ho V. A. por elas vera, pela qual rezão nesta lho não fazemos delas, somemte de algumas que nos pareceo seu serviço darmos delas rezão para no requerimento delas, V- A. nos fazer merce de nos ajudar e favorecer com El-rey noso senhor, por serem elas muy importantes ao serviço de Deus e de Sua Alteza. Na entrada do mes de Dezembro de quimhemtos e se- semta dous, hacomteceo nesta cidade de Cochim, vimdo Ramana, regedor do rey de Cochim, a esta cidade, a pomte de Agua de Lupe, e lhe atiraram de huma casa huma espim- guardada, que lhe derão por hum encomtro de hum braço, e matarão hum bramene que vinha com ele, e segundo temos por enformação que a pesoa que lhe atirou foy 2 68
por mamdado de el-rey de Cochim, porque este rege- dor e ca mal quisto, e atererizava todo ho povo, e não obedecia a seu rey, e neste istamte, tornamdo-se, com sua gemte pera Cochim de cima, mamdou por foguo a huma hygreja de Sam Tome, que estava cuberta de ola, e mam- dou aos seus que matasem quamtos portugueses e christãos achasem, aomde foy morto Amrrique de Macedo, fidalguo da casa de El-Rey noso senhor, que estava corregemdo huma nao sua, e asy seis ou sete omens portugueses e alguns cris- tãos que la amdavão. Isto foy a hum sabado, as oito oras do dia. //No qual tempo que isto socedeo, el-rey estava no C mangate e, tamto que lhe deram ha nova, se veyo meter nesta cidade, falamdo com o capitam Dom Jorge de Crasto, muy pezaroso do haquecido (sic) lamçamdo lagrimas poios olhos, dizemdo que ha amizade de sesemta e dous anos não se avia de perder por sua parte. E dahy a dias veyo a esta cidade com o seu primcype, e diamte da fortaleza mamdou cortar as cabeças a sete pesoas, scilicet, ao esprivam do dito Ramana, regedor, que lhe dava dous mil pardaos de ouro que ho não matase; e asy dous primcypais capitãis que forão neste neguocio; e os outros quatro da companhia que niso forão. E o dito Ramana lhe fugio, pela qual rezão se não fez justiça dele. Isto pera os houtros reinos comarquãos. E porque a guarda dele tinha dado ao esprivão, e não lhe fazer lembramça a tempo, antes de se ir, lhe mamdou cortar a cabeça. Este rey de Cochim deve V. A. lembrar a El-Rey noso senhor que os seus viso-reis e guovernadores e capitãis ho ajudem e favoreçam contra seus imiguos, porque temos muyta necesidade dele, e estamos em seu reino, e não temos outra deffemsão senão de Deus, e de Ell-Rey noso senhor e sua amizade, porque pera a carrega das naaos da pimenta, ele he o que a-de favorecer e ajudar, como sempre fez. 269
Pelo que aguora socedeo, acerqua deste alevamtamento do Ramana, regedor, fazemos lembramça ao comde viso-rey sobre a cerqua desta cidade, ha que mostrou boa vomtade pera o fazer, como os pasados, que numqua te guora se começou cousa tão necesaria, que tamto importa ao serviço de Deus e de El-Rey noso senhor e segurança desta cidade, pelo que pedimos a S. A. que espresamente mande que se faça a dita cerqua, pera se escusarem encomveniemtes de imiguos, que temos derredor de nos, pera que se não acom- tesa, o que Deus não mamde e defemda, o que aos casados he moradores da Casa de Sam Tome, de Choromamdel, como o El-Rey noso senhor tera por verdadeira enfformação. Pelo que fazemos esta lembramça a V. A. que esta cidade avia de ser hum Rodes, pois ela e de seus termos vão em cada hum ano pimemta e droguas pera Ell-Rey noso senhor, pasamte de hum comto de ouro, e ha cidade e moradores dela se offerecem ha ajudar com o que puderem pera ha dita cerqua se fazer. [2 r.] //El-Rey noso senhor nos fez merce, per sua carta, pera que em cada hum ano apresemtasemos os officials da Ca- mara seis pesoas de serviço, pera as prover no tempo que ouvese despacho pera estas partes, as quais este ano envia- mos a decraração delas, por duas vias, a El-Rey noso senhor nestas naos, justificadas pelo comde viso-rey, comforme ha carta de Sua Alteza, com decraração dos carguos que podem caber a cada huma delas, segumdo suas callidades e serviços. Foy ela muy gramde merce e omrra que nos fez a todos os casados e moradores dela; semdo providas estas pesoas, que este ano enviamos, as que fiquão pera os anos que vem terão mais vomtade e animo pera servir, como sempre fize- rão, com esperamça de lhe ser feito por El-Rey noso senhor mayores merces, pelo que pedimos a V. A. que neste reque- rimemto nos queira favorecer e ajudar, pera que as ditas 270
pesoas venhão bem despachadas, como temos por muy certo, por nos fazer merce. Ho bispo Dom Jorge Themudo, que nos encomemda pera que o servirmos (sic) beijaremos as reais mãos de V. A. em suas cartas nos encomemdar ha ele, .porque he tão ver- tuoso perlado, que nesta cidade nos da muita consolação e exempro pera ho imitarmos, porque todos somos seus filhos espirituais, e crea V. A. que por sua parte e virtuosa vida nos ha Noso Senhor de defemder de nossos imiguos, porque ele he os muros da defemção desta cidade, de muytos tra- balhos e opreções que nela socedem, parece que, por graça do Espirito Samto, foy enviado a ela, porque das cousas que nela ha e o que cumpre a bem deste Estado, ele fara delas especial lembramça pera Ell-Rey noso senhor nelas prover, como for seu serviço, a que se deve dar inteira fee e credito, como ha tão virtuoso perlado, pelo que V. A. deve de pedir a El-Rey noso senhor que o seu ordenado e dos coneguos, que esta see servem, lhe seja bem paguo, e isto nos direitos da allfamdegua de Guoa, que nesta cidade se arrecadão dos fromteiros, em que lhe asemte o paguamento nos ditos de- reitos, por sua carta patemte, pera que em outra cousa se não despemdão, porque crea V. A. que ha dous anos que lhe não paguão a ele e aos coniguos da dita see, e não se poderem sostemtar nem mamter, pela qual rezão não pode- rão servir, como são obriguados, a Deus e a S. A. Deus todo poderoso prospere e acrecemte seu real estado por muytos anos e lomgua vida. Em camara, oje 29 de Dezembro de 1563. Francisco da Maya. Francisco Ornellas de Sousa//Ber- [2*.] naldo Fonsequa. Estevão ...? (1). Jacome de Miranda. Mi- guell Antunes Leme. (1) Não pudemos ler o sobrenome. 27/
36 TRECHO DE UMA CARTA 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fl. 485 v. Quanto ao fruto grande que se colhe nesta vinha, certo que he grande e muito para gloryficar e louvar a Deos, de quem isto mana e procede, maxime na christandade, porque certo não passa Domingo e santo que se não fação muitos christãos na nossa igreja, destes novamente convertidos ao grémio da santa fee catholica. E pera isto se fazer milhor, e tanbem para se instruírem os novamente convertidos, os Domingos vão os irmãos e alguns padres, por diversas aldeas, que são huns lugares apartados e remotos da comversação dos portugueses, e longe da cidade, a lhes insinar, e converter os que não são ainda convertidos a fee, os quais lugares são muitos; tantos que os Domingos quasi se despovoa o collegio e não se achão a primeira mesa mais dez ou doze, e algumas vezes menos, com sermos noventa menos hum. E assi andão la todo o dia em busca de almas para seu Criador. E em huma destas aldeas, em a qual esta huma igreja de Nossa Senhora da Goadelupe, se fizerão dous baptismos em espaço de quinze dias, a saber: hum dos quais foi de cento e corenta e sete, e outro de quasi dozentos, indo la muitos portugueses da cidade, pera serem padrinhos dos baptizados, no que amostravão grande amor a christandade, sendo isto tão longe da cidade, principalmente hum homem 2 y 2
muito homrrado e cidadão desta cidade, pêra amostrar parece o grande amor que tem ha este rebanho, novamente con- vertido, se despio ali diante dos padres e irmãos, que hai estavão, e muitos outros homens, e deu ha hum delles o saio que trazia pêra que se vestisse. Vede, irmão charissimo, quanta alegria e consolação receberemos, vendo quantos bocados se tirão da boca do lobo, e do poderio do demonio por meios e instrumentos tão fraquos como nos somos. Vede se ha cousa que mais nos farte que trazer ao conheci- mento de seus Criador gente tão desemcaminhada, e tão remota do caminho verdadeiro de sua salvação. DOC. PADROADO, IX l8 2 73
37 TRECHO DE UMA CARTA DE UM IRMÃO 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. PI. 485 v. Tanbem acomteceo que em São Tome a mouros e gen- tios, parece que andando os oficiaes da Misericórdia dando esmolas, vio huma moura homrrada que davão esmola al- guns christãos pobres, perguntou que cousa era aquella, dizendo-lho, ficou espantada. Depois veio huma grande tem- pestade que desbaratou muitas casas, porque aconteceo ser grande. Porão os mesmos oficiais da Misericórdia dar esmo- las, pera que os christãos pobres consertassem as casas. Vendo a mesma moura esta obra, sabendo o que era, ficou toda movida. Disse logo entre si que aquele custume não no avia na sua falça ceita. Perguntou; disserão-lhe que aquele dinheiro era de Deos, e outras cousas de maneira que se fez christãa com toda sua casa e filhas. Muitas cousas lhe escre- vera que acontecem todos os dias mas reporto-me as geraes que largamente contarão e milhor do que eu poderei contar. 2 74
38 TRECHO DE OUTRA CARTA 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fl. 485 v. Dizem que a la muitas dores de peitos, que quem quer que tiver dor de peitos venha-se pera ca, logo he sam, por- que quem mais doente de peitos haa que o Padre Manoel Alvarez, qua he mais são que huma maçã. Não creo que ha entre noventa irmãos, que aqui estamos, quem se queixe dos peitos; esta terra cura hos homens. 27 5
39 CARTA DO IRMÃO LUÍS DE GOUVEIA AOS PADRES E IRMÃOS DE S. ROQUE, EM LISBOA Coulão, 12 de Janeiro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534- Fls. 418 v.-421 r. A paz e amor de Christo, Nosso Senhor, faça continua morada em nossas almas. Amen. Ho anno passado de 63, fui encarregado de vos, charis- simos, escrever o processo e fruito que se tirava dos trabalhos dos padres e irmãos nossos que neste collegio de Coulão residem, e porque nas outras passadas sei que terão enten- dido quam falto estou de charidade com que se podia pagar a vontade e deseios com que estão aguardando saber novas de seus irmãos, e do que Nosso Senhor por elles obra nestas partes, não cuidarei aguora de mais certificar nisso, mas deixando a sua muita charidade para que emcomemdem a Deos, Nosso Senhor, esta falta com as mais que em mim ha, comprirei com a vontade da santa obediência, que por bem teve este anno de 64 que o mesmo fizesse, pera que sabendo o que passa, se lhe acrecentem os deseios que tem de virem ajudar a levar a cruz a estes seus irmãos, que não com me- nos vontade o esperão, cada ano. Nosso Senhor ordene tudo, pera sua onra e gloria. Este anno passado de 63, se me lembra, escrevi em como estavão neste collegio dous padres e dous irmãos: o Padre Andre Fernandez, por superior, e o Padre Francisco Lopez, 276
pera pregar, e o Irmão Manoel de Valadares e eu. Em Abril foi mandado hir o Padre Andre Fernandez pera Cochim, pera dahi se partir pera a China, e depois de ir la, ordenou Deos outra cousa, que foi tornar-se pera este collegio, e ainda que fosse comprir a vontade devina, não ficou pouco mortificado, polio que esperava de padecer naquellas partes tão remotas, ainda que aqui lhe não faltão bom pedaço de trabalhos, como ao diante contarei. O Irmão Manoel de Valadares foi mandado, em Março, pera a ilha de Manar, pera estar em companhia do Padre Jerónimo Vaz de Quoemqua, onde aguora ainda esta e, em seu lugar, veo outro irmão, por nome Antonio Coutinho, que aguora acabou os seus dous annos de provação. O Padre Francisco Lopez, aguora na entrada de Janeiro de 64, foi mandado ir a Cochim pollo Padre Provincial, o qual em seu luguar mandou o Padre Pablo Correa, que ha dias que em Couchim reside, pera fazer o mesmo que fazia o Padre Lopez. De maneira que, a presente fiquão aqui o Padre Andre Fernandez, como ja dixe, por reitor, e o Padre Pablo Correa, pera pregar e visitar a costa do Comorim, e o Irmão Antonio Coutinho, que tem cuidado da doutrina e despensa e portaria e o mais que lhe mandão, e eu que tenho cuidado da cassa, e as vezes me cabe meu (sic) da Costa a minguoa de quem o faça então. Do exercício espiritual que em casa se tem, polia bon- dade do Senhor, se tira muito fruito; tem-se muita conta com a oração que, cada dia, de madrugada, se tange o sino grande, as quatro oras, pouco mais ou menos, porque não ha relogio pera despertar e se passa mea ora em preparar, pera outra 3* de oração e, acabada, se tange as Ave Marias e loguo a missa, quando estão os padres ambos, porque quando não he mais que hum, aguarda pera mais tarde, pera mais participarem delia, e pera os mininos da escola. E acabado de ouvir missa, cada hum acode a seu officio, 2 77
com muita presteza e alegria, por mais satisfazer com a obrigação da obediência ainda que aja algumas vezes resis- tência da vontade natural, a qual mortificada do emtendi- [4i9r.] mento,//se affeiçoa, pouco a pouco, a deseiar mais ceca a cruz. Nesta vertude trazem todos grande tento e promptidão, como cousa principal de nosso instituto e regra, mediante a qual caminham todos tam seguros e aguardáveis a Christo. Assi, charissimos irmãos, que em tudo trabalhão por sojei- tar suas paixões, ajudando-se da pinitencia voluntária que pera isso temos licença do superior, como cada hum a tem da sua disposição, não excedendo modo senão pera em tudo nos ajudarmos e alumiarmos a vista das mais regras, como candeas que alumião o caminho da vida eterna, e nos segu- rão das dificuldades e perigos que ha na neguação desta vida em que todos passamos. Ho Padre Andre Fernandez he de todos mui amado, e não sem causa, porque sua condição e modo de proceder obriga a todos, assi de fora, como de cassa. Quando aqui esta no collegio confessa e faz praticas aos christãos e algu- mas amizades, outras obras que sam próprias da Companhia. Este anno de 63, confessou e deu o Senhor a perto de 60 pessoas e a todas estas na somana derradeira do Avento, afora outras que o fizerão pollo Natal. E pera o lugar não he pequena copia, e isto comtinuão algumas vezes pello anno e sam muim afeiçoados aos da Companhia e lhes tem grande devação, e tem muita rezão que assi os obrigua. Deos seja com todo (sic) pera sempre muito louvado, que nos favorece de tal maneira que em tudo ho em que se de nos quer servir, he das gentes louvado e bendito, o que nos da por certo, charissimos, grande ocasião pera sermos tais que respondamos como se de nos espera e he necessário. Elie, por sua misericórdia, nos ajude com sua graça, para que assi seja. 2 j 8
O Padre Payo Correa foi aqui mandado do Padre Pro vincial como assima disse, pêra pregar e comfessar e visitar a costa e o mais que lhe mandassem. O Padre Andre Fer- nandez, e parece-me, segundo tenho ouvido e visto, que fara esquecer a saudade do Padre Francisco Lopez, que ficou neste povo, que por certo não foi pouqua, porque era muito aceito com as preguaçõis e affavel na comversação com a gente, e fez aqui muito fruto, mas Deos, Nosso Senhor, como sapientissimo, governa e ordena de modo esta sua Companhia que não avia falta nunqua do que toqua ao bem de seu serviço e proveito do proximo. O Padre Paio Correa preguou a primeira preguação neste Coulão dias dos Reis, na igreja matriz com a satisfação dos ouvintes. E parece que agradava muito seu modo e o Domingo seguinte o fez tãobem no mosteiro dos padres de San Francisco por lhes pedirem, porque selebrarão a festa do nome de Jesus, cuja comfraria la tem. Aqui, polia bondade de Nosso Senhor, se lhe faz muito serviço, assi na doutrina dos christãos da terra e portugueses e seus escravos, como na conversão dos infiéis que sempre acodem ao chonhicimento (sic) de seu Criador. Este anno de 63 se hão bautizado neste collegio com os da Costa do Comorim, pasante de quinhentos, dos quais forão alguns homens honrados e de calidade, antre elles, de que o demó- nio levava grande pessar e enveia, porque estes nunqua vem sos e são as forças que elles tinhão com que sugigavão outros muitos a sua observantia e obediência. Vem cada dia Domingo a igreja que não cabem algumas vezes nem no alpendre delia e, acabando a missa, lhe em- sinão o Credo, Pater Noster, e Ave Maria na linguoa. E, acabado, lhe faz o padre huma pratica das cousas da fee, e aguora lhe começa o Padre Paio Correa o Credo, pêra levar por ordem a doutrina christã toda. Vem dalguns luga- res daqui darredor mais e menos de leguoa, e outros mais 2?9 I L
vizinhos que cada dia são visitados com doutrina. Na escola de ler e escrever, se faz muito fruito porque tem saido delia alguns bons escrivães, contadores, afora os bons cosru- [419 v.] mes // que exercitão de que sempre lhes fica huma afeição e lembrança pêra a confissão, e outras vertudes. Andarão nella dos de fora outenta, e dos de cassa trinta e cinquo ou quorenta. Aos (sic) christãos que aqui tem sua comfraria de Nossa Senhora do Rosayro vão avante com seu acustumado fervor, ainda que achem muitas topadas, todavia vão o caminho, sabendo, sabendo (sic) que o sinal de se Nosso Senhor servir da obra he contrariedades nella e outros desgostos e traba- lhos, o qual tudo se torna em grandes alegrias e contenta- mentos, que durão pera sempre. Celebrão suas festas com grande alegria e emveçois, para que assi a tragão os im- fieis que com estes brincos se enganão mais que com pala- vras verdadeiras. Ouve o anno passado de 63 grande doença de bexigas nesta terra, de que morreo grande copia de gente, a mais delia mesquinha, com que levarão os irmãos asaz trabalhos, de que não edificavão pouco e foy cousa de maneira que morriam alguns ao desemparo, porque esta doença em gente da terra, assi christãos como gentios, não se tem nenhum respeito nem amor de pay, nem de filho nem de mãy. Abasta curar hum ao outro, por ser mui comtagiosa, e como hum doente na cassa loguo todos os mais delia a deixavão soo na cassa e se ião pera outra, longe, e aquella não se tornava mais a povoar. Acudirão os irmãos a este desemparo, com que levarão muitos e grandes trabalhos, sem lhe apegar nada, polia bondade do Senhor. Não falo no feder, nem no nojo dos bichos que isto como nos seja costumado dos sentidos por muitas vezes acontecer, não espantava tanto a sofriasse mi- lhor que o desemparo que avia, ha que os nossos não podião 280
acodir tanto. Visitava-os hum irmão loguo polia menhã com huma panella de camia, que he aros cozidos muito des- feito, que he sua adieta (sic) e dava-lhes de comer e limpa- vo-os o milhor que podia, e se era gentio falava-lhe de Deos pera que se fizesse christão, dos quais muitos se fize- rão. E acabado de os baptizar davão o espirito a seu Criador. Desta maneira erão visitados e consolados, de que se os gentios espantavão e dezia que o pay e a mãy os botavão fora e nos, que lhe não heramos nada, os curávamos sem temermos que se nos peguasse o mal e não menos satisfeitos ficavão da resposta que da obra. Hum irmão foi dar com hum moço fora da povoação, entre humas moitas, que, segundo ouvi dizer, era huma boa meditação e recordação de nossa miséria, porque estava com os focinhos todos comestos (sic) de bichos, ate as maças das faces, e dali ate os olhos e fontes estava todo cheo de bichos, que tinhão comesto toda a carne e alevantavão a pelle pera cima. E pondo-lhe a mão, sayão por todas as partes do rosto afora a cabeça e outras partes do corpo, e o mesmo estava e falava com hum espirito como se não tevera nada, di- zendo que o alimpassem. Vendo o irmão isto, chamou hum christão bom homem e o botarão em huma esteira e tirarão- -no dahi mais perto e a sombra. E veo o irmão chamar o Padre Andre Fernandez, que estava perto confessando outro christão, e louvou o padre a Deos com tal cousa e esteve ahi ate o alimparem e agasalharem numa cassa. E penetrou tanto o fedor que hera grande, que todos os que se ali acha- rão adoecerão os mais. O irmão amdou da cabeça muitos dias mal tratado. E faleceo este moço ao outro dia,. Dous ou tres meninos destes que aqui se criarão no collegio falecerão da mesma doença, de que adoecerão alguns dez ou doze, com os quais levarão os irmãos bom pedaço de trabalho. Na Costa de Comorim deu tãobem esta peste geral e alguns lugares se despovoarão, e deu primeiro nos mou- 281
[420 r.] ros//, de que morrerão muitos malaventurados, os quais tem odio intrinsiquo e trabalhão por impidirem a christan- dade e os meos delia, como fazem na Costa do Comorim, que muitas vezes induzem ao rei a nos fazer mal, e lhe me- tem mil mentiras na cabeça, que se elles não fossem, não duvido senão que a Costa se acrecentasse de mais lugares e gente da terra firme, que louvassem a seu Criador e cres- sem nelle, mas elles coutados, como emperrados e cegos, sam como quãis de palheiros e se ouvesse mais zelo no mundo pouco era, charissimos, não nos aver nesta casta (sic), porque não avia mister mais que querer. Deixo isto que me não pertence e emcomendando a Deos que o guoverne de maneira que mais seu serviço for. Na Costa, ha vinte e cinquo lugares todos de christãos, alguns de muito grandes povoaçõis, em que ha grandes igrejas. São da Costa vinte e cinquo legoas daqui de Coulão, ate o Cabo de Comorim, e pera dentro do Cabo, da banda da Pescaria, fica a conta do Padre Anriquez, na qual Costa ha desasete igrejas e outros lugares mais pequenos, e estaom tam juntos de alguns grandes que se recorre a elles pera a douctrina e enterramento. Tem todos homens de boa vida exemplo, que tem cuidado delias e de insinar cada dia a dou- trina na lingoa polia menhã as meninas, e a tarde, aos mi- ninos; aos sabados vem as molheres e aos Domingos os homens. Não vem todos num dia, por ficarem sempre as casas acompanhadas, por amor dos gentios não fazerem saltos, e emsinão-lhe a doutrina e se ha padre ou irmão tem pratica, e se não, o mesmo canacapole, que assi se chama o que tem cuidado, lhe lee humas olas que fez o Padre Anriique Anrriques da criação do mundo e da caida de Lucifer e do primeiro homem, ate a Paixão de Christo. Ho exercitio da Costa he as praticas, baptizar, cassar, visitar emfermos, fazer amizades, e ouvir suas demandas, 282
porque de neessidade se ha-de ter conta com o temporal, pera conservação do espritual. E desta maneira os obrigamos a fazer vida comforme a ley que tomarão. As vezes com força se obriguão, porque, como seja gente groseira e de natureza barbara, não nos obrigua tanto com rezão nem amor, como com rigor. Cada cousa he necessária com seu pesso e medida. Corremos a costa sempre a pee, que he trabalho cami- nhar por arrea, (sic) principalmente pollo Verão, porque esta gente todos tem seus lugares ao longo do mar, porque delle se mantém. O comer nosso he arroz e carril de peixe; alguns perigos passamos, principalmemte no Inverno, e passar ribeiras que levão grande força de aguoa, e as em- barcaçõis sam tais que as vezes se verão (sic). Em tal passo aproveita o nadar, e a quem não sabe o nome de Jeshus. O morar he nas igrejas e dormir no chão. A Companhia de Jesus e o Anjo da Guarda e o rapaz que fala a limguoa a qual aprendem os irmãos (1). Este anno de 63 se fez huma igreja nova num lugar daqui nove legoas, a qual deu bem de trabalho, porque se andou nisso dous annos, que não queria o rey, por ser inpe- dido dos bramenes que tem cuidado de hum pagode que esta naquelle lugar, o qual he muito venerado e he couto onde se não pode bulir com ninguém, nem ainda os pró- prios reys da terra tem de ver com elles. Estes bramenes são homens que fingem em seu exterior grande relligião, e Deos sabe como sam. Escomungão os reys e os maldizem com o seu proprio sangue que cortando tirão, mas nunqua he por parte que morrão, e o rey não pode sair de cassa, (1) Esta carta contém várias falhas cometidas pelo copista. Esta pas- sagem é uma delas. 2 8 3
nem comer nem beber, nem ainda betel, que he o continuo 1420 r.] com que se mais // sostentão, ate que não fazem o que que- rem, e não he tanta a rezão e justiça que mais não seja injustiça e estes com toda a santimonia e idolatria não comem mais que leite, figos lanhas (sic). Não tocão peixe nem carne; são homens que segurão os caminhos de la- drõis, e de toda a outra gente, e se chamão patamares e tem esta liberdade sobre toda a outra gente, que passão toda a laia de pasageiros, ainda que vão carregados de dinheiro, e estes algumas vezes, topando-nos polios caminhos na Costa, se querião também nossos patamares com grandes feros, ate que forão bem desenganados, que nos os aviamos de ser seus, que agora onde nos topão, fazem-nos a sumbaia, que he a sua custumada cortezia. E aguora, quando nos recolhemos pera Coulam, de muitos lugares se cheguão a nos pera virem seguros com nossa companhia, assi gentios como christãos. E assim não pergunta ninguém por onde vão e isto tudo he de Deos, pois que nossas forças são tão fracas, e vee Elie que tudo he necessário pera sua gloria. Com hum me aconteceo este Inverno passado hum passo muito pera alegrar e dar graças ao Senhor. Vinha-me refazer a este Coulão, e vinham em minha companhia algumas vinte pessoas ou mais pera virem seguros, e emcontrei com dous destes patamares que passavão huns poucos de mouros t, vendo-me, começou hum delles com grandes brados: «portuguz (sic) ladrão, como passas assi sem nossa guarda?» Respondi-lhe polios mesmos comsoantes (sic), porque humildade com estes, sam margaridas em boca de porcos e as palavras forão: «mas como passais vos assi, sem me cha- mardes, que eu sou patamar de Jesus Christo, que he sobre todos os patamares e reys dos reys, dos patamares? Não me conheceis» ? Ouve grande referta (sic), a qual de nos ficarião as vezes; quando seu companheiro vio o modo, disse pera o outro: 2 84
«da-o ao diabo, deixa-o, que ja nos não ha-de dar nada, que faz força». Quisera que passara que passara eu diãote, e elle detrás de toda a gente, assi a que elle trazia como a que comigo vinha, pera assi se mostrar que passava a todos, e assi nos obrigar que lhe paguassemos. Mas entendida a malícia, corri-lhe a ella, e não quis que ficasse detrás, e neste comprimento estivemos hum pedaço a quem passaria diante, que foi elle. Vendo que eu entendia, passou com dezer que adiante, a passagem de hum rio, pagaria tudo. Passamos o rio, sen ter conta comnosco e ainda o passamos todos pri- meiro que elle, porque guardado he o que Deos guarda. Neste lugar, chamado Retorna, se insina ja a doutrina na igreja nova, esperamos em o Seenhor avera muito fruto, que he lugar grande e de gente riqua, que tem muitos e grandes navios, em que fazem suas viagens, e que guanhão da merce de Deos. E aguora se partio passado o dia de Jesus, o Padre Andre Fernandez, e vai com detriminação de aver licença do rey pera noutros lugares, que estão mais perto de Coulão, fazer igrejas, onde também ha boa copia de christãos, e pedem-na elles com muita instancia. Deos Nosso Senhor ordene em todo o que for mais seu serviço e bem destas almas e por não me ficar nada do com que me parece que os alegrarei lhe quero contar o que vi este anno pas- sado de 63, na Costa, no mes de Novembro. Estava numa igreja, chegou huma molher com grande pressa com as mãos na cabeça, que he sinal de grande sen- timento, e defronte da porta da igreja se pom (sic) de gio- lhos com as mãos alevantadas, com grandes bozes. Perguntei o que era; dissera-me que vinha pedir a Nosso Senhor que socorresse a huma sua filha que estava muito mal de parto, que traria hum fanão de esmola a igreja, que sera, pouquo mais ou menos, // de trinta reis, que roguasse a Deos por [4i2 r.] ella. Disse-lhe que confiasse nelle e fosse com fe pera casa, 2 85
que Deos avia de livrar e alumiar, e dei a hum menino dos que se aqui crião, o qual estava comigo, huma cruz com suas relíquias, que fosse com ella, e lha botasse ao pescoço com hum Pater Noster e Ave Maria. E, cheguando a porta, achou nova como ja a filha parira. Digo-vos, charissimos irmãos, que levei tanta alegria com este acontecimento, que não he so que tomei dalli novas forças pera muito maiores trabalhos. Outras muitas tem grande fe na aguoa benta, quando estão doentes. Parece-me que vos estou vendo, irmãos, com vossos cora- çõis cheios de huns vivos deseios, fazendo do Senhor gran- des pitiçõis pera que vo-los cumpra e tragua a estas partes, que tanta necessidade de tais obreiros, porque, ainda que cada ano viessem huma dúzia de companheiros, não duvido que faltassem partes e muito necessitadas onde de contino nos estam pedindo, porque vejão vinte e cinco léguas da Costa, em que ha quinze lugares e desassete igrejas, como podem abastar hum pera nellas, porque ainda que aqui estão mais, pera isso nunqua anda mais que hum, pera que os outros fiquem com o meneo da cassa, e comprindo também com as outras obrigaçõis deste povo. Ora não falo noutras partes que estão despostas pera se abrirem se ouvesse quem batese. Praza a sua divina bondade, que tudo governa, com ordem maravilhossa e a tempo convinientissimo, que ordene nisto em tudo como for sua Magestade mais glorificada e bendita. Por amor de Nosso Senhor, charissimos irmãos, que vos lembreis deste pobre e muito pobre vosso irmão em vossas oraçõis, pera que não seja emgrato a tantos benefficios como comiguo tem ussado. E, depois de lerem esta, me di- guão, cada hum, huma Ave Maria a gloriossa bendita Madre de Deos, que seja sempre em nosso amparo e favor. Levd- -me, irmãos charissimos, em conta todas as faltas desta, 2 86
como de quem he falto de tudo, e vos ama a todos na sua alma, quanto pode ser. Deste collegio do Salvador de Coulão, aos 12 de Janeiro de 1564. Por comissão do Padre Andre Fernandez, reitor. Inútil servo de todos Luis de Gouvea. 2 3 7
40 CARTA GERAL DO IRMÃO AMADOR CORREIA ESCRITA AOS RELIGIOSOS DA EUROPA Cochim, 15 de Janeiro de 1564 (1) Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. (2) Fls. 468 v.-471 v. A graça de Jesus Christo Nosso Senhor faça continua morada em nossas almas, amen. Polias cartas que recebemos de Portugal e da Europa, e polia muita edificação que caussarão nas almas de todos os irmãos que qua estamos na índia, vemos claramente quanto Nosso Senhor se prouve desta comunicação de car- tas, que a obediência nos mãoda ter pera por ellas, como com vivos exemplos, nos incitarmos huns aos outros, pera milhor servir a Nosso Senhor nas mesmas obras e no mesmo espirito, pollo qual, caríssimos irmãos, tomei com alegria este cuidado, que a obediência me pos, deste anno vos escre- ver esta carta geral deste Collegio de Madre de Deos de Cochim, bem que sou eu pouco pera isso; mas as forças que a natureza me negua, suprira a obediência junta com o con- tentamento que tenho de falar convosco, ao menos por carta. Porque ainda que com os olhos corporais vos não tenha visto, tãoto he mais verdadeiro o amor que não foi caussado por conversação, mas por charidade e vocação divina. Os que estamos neste collegio somos dezoito; seis padres e doze irmãos. Os padres são o Padre Mestre Belchior, reitor (1) BACIL: 20 de Janeiro. (2) BACIL: Cartas do Japão, III, fls. 8 V.-13 r. 288
do collegio; Baltessar que hia pera Malaqua, este Setembro passado, e por arribar a nao em que hia, desembarcou aqui em Cochim, e veo a muito bom tempo, porque estava o Padre Aires Brandão, que ajudava ao Padre a preguar, em transito de morte, e levãodo-o Nosso Senhor pera si, ficou o Padre Balthessar Diaz em seu lugar; Pero Correa, con- fessor e prefeito da igreja; Manoel Alvarez, lente dos prin- cipiantes da gramatica e confessor, no tempo que pode; Francisco Lopez, que por ordem da obediência veo pera este collegio em lugar de Paio Correa, que foi pera Coulão e Diogo Fernandez oli parecia (si) (3) o qual ha-de ir pera Tanar, como ouver monção; e Miguel de Jesus, que la se chamava Beltrão, o qual he mestre de Prima da gramatica e reitorica, o qual he subdiacono e tomara as outras ordens como se lhe poderem dar. Os irmãos são: Gonçalo Fernandez, soto ministro; Ma- noel do Souro, porteiro; outro Gonçalo Fernandez, sãochris- tão; Paulo Diniz, cozinheiro e despenseiro; Francisco Roiz, mestre de ler escrever; Antonio Fernandez. Estudantes qua- tro, a saber: Antonio da Costa, João da Veigua, Christovão da Rocha, e eu, que sou o mais velho delles e sei menos que todos. Manoel Lobo que se exercita em ler ao Padre Mestre Belchior e em outros officios de humildade. Os estudantes, porque nos não esquesamos da humildade, com o estudo, cada hum de nos tem algum officio: João da Veigua, sin- dico; Antonio da Costa, espertador; Christovão da Rocha, procurador das cousas de fora. A ordem de cassa he erguermo-nos as quatro e meia e irem todos ao choro, ate as sinquo e meia; e dahi a hum quarto, ouvem todos missa comua dos irmãos, e então se (3) BACIL: alias Pereira. A cópia da BNL contém erro manifesto do copista. 2 S DOC. PADROADO, IX 19
vai cada hum a seu officio, e os estudantes a prover as li- çõens que ão-de ouvir nas escolas; das sete ate as nove, são as liçõens, e do quarto ate a mea, exame da consciência. Depois de jantar, repousso, e do meo-dia tornão todos as suas occupaçõens cotidianas; da huma ate meia, oração comua, no choro; da mea ate as tres, estudão e faz cada hum seu officio. Das tres as sinquo, escolas de gramatica, e das duas, a de ler; as sinquo e mea, cea; das sete, em que se acaba o repousso, ate hum quarto antes das dez, em que se faz exame e repetiçoens das liçoens, estudo e algum exer- cício de lição por livros espirituais, e alguns que não estudão tem neste tempo algum espaço de oração. As sestas-feiras, das oito ate as nove, a pratica espiri- [469 r.] tual // sobre as regras, em que se declara, em cada pratica, huma ou duas regras, que dão muito lume ao entendimento e guarda delias, preguntando cada hum, no cabo da pratica, a duvida ou conceito que sobre aquella regra tem, com a boa diligencia que os irmãos tem em guardar as regras e com a vigilância que o sindico e os superiores tem sobre ellas, e com a boa vontade que os irmãos tem, não tão somente pera as guardar, mas tãobem pera serem ajudados com peni- tencias, quãodo por algum descuido se passa alguma, vai, com ajuda da bondade de Deos, todo o proceder deste collegio, conforme e regulado a imitação daquelle que todas as coussas fez, em todo o pesso e medida. E posto que alguns dos que aqui estamos sejamos de vida de soldados, que tem em si muy poucas regras, a con- tinuação que de continuo temos de guardar as regras da Companhia, vem a fazer em os irmãos huns hábitos de humildade, paciência, e obediência e outras virtudes tão arreiguadas em às almas que lhe fiquão no processo do tempo como naturais pera suave e quietamente servirem a Nosso senhor, não somente na quietação dos collegios mas mãodados a Maluquo, Japão e outras partes remotas, pollo 290
9 qual, muitos, sentido o proveito que nisto lhe vai, pedem penitencias polias regras e as vezes disciplinas prubicas. E com isto e com a renovação dos votos que fazem nas fes- tas que a Companhia acustuma, e com outros exercícios quo- tidianos de humildade, ãodão os irmãos, polia bondade de Deos, promptos na obediência e nas mortificaçõens e abne- gação da propria vontade, tendo em tudo o parecer do supi- rior por seu, porque não tão somente se exercitão em obede- cer nas obras exteriores, mas muito mais em confirmar o entendimento e vontade com a vontade do superior. Quanto ao edifício e obras deste collegio, que ainda não esta acabado, quanto a entenção das obras que ao diante nelle se ão-de fazer, todavia estão feitos nelle dous lanços, os quais, indo entestar hum na igreja e outro nas cassas que aqui dantes estavão feitas, parece a muitos que estaria aca- bado, porque esta feito em quadra, com hum pateo no meio, e he tãota a devação da gente desta cidade com a Companhia que sendos (sic) guastados quatro ou sinquo mil cruzados nesta obra, nenhuma coussa pêra ella lhe deu el-rei, nem official seu, e toda esta feita de esmolas, que por sua deva- ção pessoas quiserão dar pera se fazer este aguasalhado ao irmãos (sic). Em esta cidade esta hum homem dos principais, por nome Tristão Carvalho, o qual parece que Deos Nosso Senhor escolheo pera muita parte de remedio e sustentação deste collegio, porque agora, a seis ou sete annos que tra- tando elle, ou de se ir a Portugal, ou se cassar, porque era elle de muitos requerido pera isso, por ter elle perto de qua- renta mil cruzados de seu, hum filhinho seu, brincãodo hum dia com huma besta pequena de pao, atirou com hum pauzi- nho, o qual lhe veo cair num olho, e não sendo a coussa nada no principio, veo a seguar de ambos os olhos, o que Nosso Senhor ordenou pera sua salvação, porque era elle, assim no aquirir da fazenda como nas armas, muito entregue í 9 ;
ao mundo, e como o trabalho do entendimento entrou tâoto em si que todo se entreguou a Companhia, confessãodo-se, des então ate guora, cada oito dias. E dizia muitas vezes que nenhuma consolação achava senão quãodo falava com algum de nos, e avia quatro ou sinquo annos que tinha feito seu testamento em que deixava este collegio por seu erdeiro, entreguando-lhe tãobem o filho que, por não ser legitimo, e elle ser de quallidade, não erdava nada de seus bens. E este Maio passado, dãodo conta ao Padre Reitor, a quem elle tinha especial devação, deste testamento e de suas coussas pêra que fossem feitas com maior edificação do pro- ximo, ordenou a Santa Casa da Misericórdia desta cidade por sua testamenteira, deixando-lhe mil pardaos de ouro, que serão oito centos cruzados, e destribuiu muitas esmolas por mosteiros e cassas pobres, e a este collegio da Madre de Deos de Cochim deixou os seus bens de raiz, que podem [«9 y.] valer trez mil cruzados e deixou mais a // este collegio qua- tro mil pardaos, em dinheiro, que são dous mil e oito centos e cinquoenta cruzados, os quaes se darão quando se vender huma nao do reino, que elle fazia, e he de edificação vir-nos esta esmolla, polia Misericórdia, e o mesmo provedor delia he nosso procurador e administrador de tudo isto. E para saberdes, irmãos, a muita charidade e amor que este bom cego tinha a Companhia, quis que esta esmola e ajuda, que deu a este collegio, fosse perpetua, pera que sempre os irmãos se ajudassem delia, pera sua sustentação, e deixei- -nos (sic) esta obriguação: que nenhum destes bens os pu- dessem vender em nenhum tempo senão pera se melhorar, e que do dinheiro que se comprasse renda perpetua pera que se pudesse ajudar os irmãos, sem se poder mudar pera outra parte. Faleceo muito ajudado de Nosso Senhor, em seu transito, em que nos não deixou nenhuma obriguação de missas; por ser tão benemerito da Companhia lhe dissemos as missas e psalmos que soe dizer polios irmãos e la o enco- 292
mendem, por amor de Nosso Senhor, em suas oraçens e sa- crifícios. Nas escollas se faz muito fruito, seia gloria Aquelle de quem todo o bem procede. Na escola de ler e escrever, avera cento e cinquoenta mosos, os quais assi na dourtina christã, como nos bons custumes, alem de aprenderem a ler e escre- ver, aproveitão muito. Os de gramatica serão cinquoenta, e alguns delles de mui bons engenhos e dezeios de ser rece- bidos na Companhia, mas esperasse que saibão mais e que sejão de mais idade pera poderem ser admitidos, dos quais Dom Manoel, filho de Dom Alvaro de Crasto, que tem la hum irmão na Companhia, hum dia destes a-de ser recebido. O Padre Manoel Alvarez le aos seus discipullos os prae- teritos (sic) epistolas de Cicero; Miguel de Jesus le aos seus discípulos os paradoxos de Cicero e Virgilio e rethorica ad erenium (sic) (4) e orações de Cicero. Tem conclusõens aos sabados, e filhos de molheres indias, que nunqua tal sonha- rão suas mãis, fazem epigramas e oraçõens e composiçõens de muito engenho, e alguns são entrados na Companhia, e outros na ordem de São Francisco e São Domingos. Por dia das Onze Mil Virgens, que foi principio dos estudos, fizerão huma tragedia em verso jambico, composta por seu mestre, Miguel de Jesus, sobre a mesma historia das Onze Mil Virgens, tão douta e graciosa que se poderá representar no theatro da Universidade de Coimbra. Ouve tãoto concurso de gente a ve-la, que não cabião na crasta, e se forão admitidas molheres a ve-la, nem três crastas lhe abastavão, porque, depois que foi criado Adão ate agora, nunqua se fez outra em Cochim. Tem-se sempre muita conta que se confessem, cada mes, e alguns, de mais idade e discrição, se confessão de oito em oito dias, e se lhe não fossem a mão, farião muitas mortifiquaçõens. (4) BACIL: ad Herennium.
Na nossa igreja faz o irmão São Christovão (sic), cada dia, a doutrina e por ser terra de infiéis e christãos nova- mente convertidos tem-se muita conta com o culto divino exterior. A igreja de si he fresca e devota, e alem disso, procurasse que aja sempre bons ornamentos nella, que pessoas dão de esmola por sua devoção, com os quais de tal maneira se orna a igreja que as cores e conserto seja pro- porcionado as festas que a Igreja celebra. Todos os Domingos e festas de guarda temos missa cantada e preguação, por- que, e posto que no principio dizião as missas rezadas, toda- via tem-se por experiência que a gente da índia acode milhor as missas, preguaçõens e confissõens, avendo missas canta- das, porque não he gente tão espiritual, que não tenha necessidade de por estas coussas visíveis e exteriores ser levada as invisíveis e interiores, polio qua esta asentado que nestes tres collegios da India, que podem ter sempre gente pera se sustentar, Goa, Baçaim e Cochim, aja aos Domingos e festas missas cantadas. Ate agora tivemos de emprestado, por pesoas aqui devotas sustentarão o canto da nossa igreja, mas agora tem ja o padre provincial provido com que ja de cassa se sustentem, sem depender dos de fora. Ordinariamente se confessão e tomão o Santo Sacra- mento, nesta nossa igreja, pouco mais ou menos, sesenta [470 r.j pessoas e alguns // dias de mais devação, cento, e mais; nas festas grandes, duzentas e dahi pera sima. Pollo jubileo que aqui se pregou, em Junho, se confessarão e tomarão o Sanctissimo Sacramento seiscentas pessoas, pouquo mais ou menos. Nestas confissões se faz sempre muito serviço a Nosso Senhor, porque muitos restituem o que devião, e ou- tros se afastão de conversasõens perjudiciais a suas almas, e outros pedem perdão e perdoão as offensas e se reconsilião com seus proximos; outros arranquão de si alguns vicios e inclinaçõis mas, a que estavão acustumados, e finalmente 2 9 4
faz-se sempre nelles muito fruito, mas he tão sacreto que ei por escuzado particularizar mais. Nesta nossa igreja tem a gente desta terra particular devoção e todos os dias esta mui acompanhada nas missas, principalmente aos sabados, assi na missa que se diz da Confraria de Nossa Senhora, como a Salva que se diz no sol posto, quasi sempre se enche, espicialmente aos Domingos e dias santos. As missas e preguaçõens vem muito concurso de gente, tãoto que muitas vezes não cabe na igreja. Nas sextas-feiras da Quaresma, que se pregua sobre os sete pecca- dos mortais, aplicando-os aos mistérios da Paixão de Nosso Senhor, na pinitencia dos disciplinantes e nas lagrimas comuns de toda a egreija e no muito ajuntamento do povo nas procissõens, mostrou Nosso Senhor o muito fruito que nas almas de todos comunicou. Tãobem nas festas que custu- mamos, todos os annos, cellebrar nesta cassa, forão solemni- zadas devotamente, a saber: a Resurreição de Nosso Senhor e o dia de Corpus Christi com procissõens solennes, nas particularidades das quaes me não quero deter por não ser proluxo (sic). Tãobem a festa de Santa Anna, que he orago desta cassa, e das Onze Mil Virgens, cujas relíquias aqui temos, e a festa da Madre de Deos, cuja invocação he esta cassa, e dia de Jesus, que he o proprio da Companhia, todas as fizerão de maneira que a Deos se deu honrra e ao proximo edifficação e tãobem nos officios da Somanna Santa, que todos forão feitos por inteiro. E todas estas cousas se fazem mais pera mover os christãos novamente convertidos a fee, e por estas coussas exteriores se movem muito ao cognicimento dos mistérios da fee, e por causa dos purtuguezes, os quaes as poderião milhor escuzar. Tãobem por meio dos padres da Companhia se fazem nesta terra muitas pazes, de que se segue muito serviço de Deos, porque como nesta terra aja pouco temor da justiça, 2 95
e ande muito o ponto na honrra, seguir-se-ião muitos omici- dios, se lhes não acodissem com diligencia a os fazerem amiguos. Hum soldado honrrado, de muito nome na índia, avia quatro ou sinquo anos que fora espancado por dous casados dos principais desta cidade, e andãodo, aqui, este homem com muitos outros soldados em sua companhia pera os matar, e elles com as armas as costas, e outra gente em sua defenção, temião-se que se siguisse muito mal, e me- tendo-se hum padre da Companhia nisso, o fez vir a nossa egreija, diante do Santíssimo Sacramento, e de muitos fidal- gos, e pidirão perdão os cassados e ficarão verdadeiramente amiguos. Outro soldado honrrado, tendo-lhe outro feito huma offensa, andava pera o matar; falãodo-lhe hum padre, aca- bou com elle que vindo-se-lhe o outro lançar aos peis, na igreija, a huma missa, e pedindo-lhe perdão, diante do San- tíssimo Sacramento, lhe perdoou. Outros dous cassados, com a afronta que hum fez ao outro, posserão-se em armas. Sabendo-se em cassa, e aodindo-lhes, os fizerão amiguos, antes que fosse mais mal. Outros dous chatins ãodavão em bãodos pera onde quer que se achassem se matarem, com gente armada de huma parte e da outra. E huma vez se derão de maneira que ficou hum estirado com huma chu- sada, e cuidarão fiquar morto. Entendeo hum padre nosso em os fazer amigos, e fiquarão concertados e abraçarão-se, em sinal de amizade. Dous homens fidalgos sairão aqui a hum desafio, e dando assi rebate disso hum homem que soube, acodio la hum padre, e estãodo la no lugar do desafio, pera se mata- rem, os tirou de seu mao proposito e conssertarão-se. Outro portuguez cassado, desta cidade, sendo muito gravemente ferido de outro de ferida, de que depois morreo, por rogo dos padres da Companhia que lhe falarão, lhe perdoou. [470 v.] Hum homem muito fidalgo e rico, por huma offensa//e 296
desccortezia que lhe fez hum homem, estava com proposito danado e juramento feito de lhe mãodar fazer muito mal. Sabendo isto o homem, e socorrendo-se deste collegio, le- vou-ho hum padre ao fidalgo e perdoou-lhe e fiquarão amigos. Em huma fortaleza desta cidade os naires de el-rei de Cochim tiverão grande briga com os portuguezes; ouve de huma parte e de outra muitos feridos, e acodindo o capitão daquella fortaleza, acressentousse muito mais a briga, por differenças a que veo o mesmo rei. Como foi dado avisso a esta cidade, temendo-se que a coussa viesse a maior mal, ou que se rompesse guerra, acodio la o padre reitor com o bispo, que he hum prelado de muito zelo de serviço de Deos, e elle com o padre reitor de Cochim, e o padre reitor com o capitão, acabarão que viesse a paz e amizade, e da huma parte e da outra se dessem por satisfeitos do que passara, e assi fiquarão amigos. No esprital desta cidade, que el-rei mãodou sustentar a sua custa, se faz muito serviço a Deos, porque muitos feri- dos e doentes, se não tivessem aquele emparo, morrerião a mingoa. Tem dele cuidado o procurador e irmãos da Misericórdia, e por tres vezes, este anno, estiverão pêra o largar, polios officials del-rei lhe não quererem acodir com c necessário. E huma vez esteve fechado, perto de dous dias, e os pobres doentes lançados, sem remedio, e de todas as tres vezes foi remediado este desemparo por meio dos padres da Companhia. Desta derradeira vez que os doentes forão lançados do esprital, não no podendo o capitão prover, por não aver nenhum dinheiro del-rei, a molher do capitão, sem o elle saber, deu hum colar de ouro e huma dúzia de manilhas pêra se tornar a abrir o esprital. Avia nesta cidade hum grãode abuso, que os portugue- zes e christãos desta terra comião (sic) polia mão dos cana- rins gentios que vinhão de Goa aqui a roubar esta cidade e, 2 97
como membros do demonio, fazião grandes males de omze- nas e furtos de escravos que lhes hião a vender os roubos que fazião a seus senhores. E erão causa de muitos adultérios e alcoveterias e feitiços, e vendião puçonha (sic), de que se matavão muitas pessoas; de seis annos a esta parte, muitas vezes, trabalharão os nossos padres fazer botar daqui estes canarins e nunqua poderão, pollo interesse que vinha a alguns do regimento do trato que tinhão com estes canarins. Elles mesmos sustentavão esta peste contra si. Agora, polia bondade de Deos, pondo tãobem o senhor bispo os ombros a este negocio, e indo dous padres deste collegio a Camara, e declarãodo ao povo os grandes inconvenientes que se se- guião de consentir na terra estes canarins, fizerão grãodes prematicas e penas pera os deitar fora; e os da cidade com penas de dinheiro, e os do eclesiástico com penas de exco- munhão, a quem lhes alugava casas pera elles morarem e fazerem suas moradas e males, ou comprãodo-lhes (5) ful- minarão, de maneira que o diabo com seus vassalos foi lan- çado da cadeira da pestilência. O capitão e vereadores e o comum de todo este povo e tãobem os religiosos e os sacerdotes estão bem com esta casa, e poucas vezes acontece que cousa que lhes seja requerida por padre da Companhia, que o não fação, porque tãobem trabalha-se que se não peça, assim ao capitão como aos mais officiais da justiça, senão cousas justas e que redundem em serviço de Deos; especialmente o senhor bispo nos tem espe- cial affeição e os mais dos negocios de peso communica com os da Companhia e folga muito de ser ajudado nelles por meio delia. Este Novembro pasado fizerão os christãos da terra, que são os christãos que fez sancto Thome apostolo, nestas par- tes da índia, huma grãode festa por dia da Apresentação (5) BACIL: comprava-lhes. 298
de Nossa Senhora, a qual festa dizem elles que fazem em comemoração do dia que chegou a huma praia, que esta duas legoas de Cranganor, o pao ou navio em que veio S. Thome de Sacotora, e fazem-na de tempo em tempo quãodo algum christão rico faz algum voto, por aver algum filho, ou por outra semelhante cousa de lhe fazer aquela festa a sua custa, porque vem de quinze, vinte legoas a esta festa, e a todos ão-de dar de comer, a maneira de vodo do Espirito Sancto em Portugal, quan// do fazem Emperador. I471 r-l E porque estes christãos estão tão afeiçoados aos bispos arménios e aos custumes do Caldeo (6) que em muitas cou- sas substanciais são mui differentes dos da Igreja Romana, vendo o bispo a boa oportunidade que esta festa lhe dava pera os trazer a sua obediência, se foi la e rogou ao padre reitor que fosse com elle. E forão muitas embarcaçõens em sua companhia, e porque os christãos todos se ajuntão em Parou e dahi polo rio se vão fazer sua romaria aquele lugar, que atras dise, que he perto de Paliporto, quis o bispo fazer esta honra aos christãos, de os ir buscar a Parou, pera que por esta via lhe ganhasse milhor a vontade. E indo manchuas e tones dos portugueses, que hião com Sua Senhoria, bem embandeiradas e com muitos instrumen- tos e músicos e cãotores, ficarão com isto tão satisfeitos os christãos que vierão com os seus cacenares, que são os seus sacerdotes, a receber o senhor bispo em procisão, com cruz alevantada, e levando a sua igreja com muitos tãogeres, que he o custume que usão com seus prelados. E depois, tornãodo-se todos a embarcar, se forão a sua romaria com o rio cuberto de embarcaçõens. Entre homens e molheres e mininos, dizem que passarião de oito mil almas, e estava- -lhe huma cruz posta de hum crucifixo em hum altar por- (6) Refere-se ao Nestorianismo, que lhes viera da Caldeia. O rito caldeu está aqui, em oposição ao rito romano. 2 9 9
tatil e todos, como fazião oração, vinhão beijar a mão ao bispo, com tãota alegria, que parecia que Nosso Senhor os ajudava com graça especial pera esta subieição e obediência. E depois desta romaria se tornarão todos pera Parou, com tãotos tangeres e cantares cãotãodo as molheres e me- ninos os louvores de Sancto Thome, e estoria daquele dia, em lingoa malavar, que causavão no bispo e padres portu- gueses, que os ouvirão, muito contentamento espiritual. Isto foi ao sabado, bespora da Apresentação, e a tarde, les deu de comer a todos aquele christão que tinha feito o voto, que ate ali estavão em jejum. E todos repartidos por huma cer- qua grande da sua igreja, pollo chão, e os bacios erão folhas de figueira e arequeiras, e ouve tantas messas que durou ho comer ate perto da mea noite, com tanta conformidade e simplicidade que parecia o convite de cinquo pães e dous peixes. Ao domingo, polia menhan, en huma ramada grande, que estava na cerqua da igreja, por ser a gente muita e a igreja pequena, se armou hum altar e riquos ornamentos; lhes disserão missa de pontifical officiada en canto de orgão, com frautas e charamelas, cousas que elles nunqua virão, de que estavão muito maravilhados, e da policia e limpeza e apparato da Igreja Romana, e o que mais os moveo sobre- tudo isto foi huma preguação que no meo da missa lhes fez hum sacerdote malavar, declarando-lhes a fe e excilencia da Igreja Romana, he o primado de São Pedro sobre todo o povo christão, e a intenção do senhor bispo, que era não querer delles nenhum interesse, como hos bispos arménios, senão a salvação de suas almas, a qual não podia ser sem obedecerem aos prelados mandados polo Sancto Padre. Finalmente, depois de toda esta solennidade da missa acabada, ajuntarão-se os principais dos christãos e dos caça- nares e o seu archediacono dells, que deixou por seu vigario- -geral de toda a serra o bispo caldeo, que este anno passado 3 ° °
foi pera Portugal, e todos unanimiter, em nome de todos os christãos, entregarão a obediência ao bispo, e logo ordenou com elles por-lhes vigairo por todas as igrejas da serra, e desseia Sua Senhoria que a Companhia tome esta empressa de doutrinar estes christãos, os quaes cuido que são mais de cem mil almas, e se o demonio não ordenara (acabando de vir de la o bispo com o padre reitor e os mais que la forão) acertarem os naires de el-rei de Cranganor ferir de huma espingardada a el-rei de Cochim, de que todavia ja vai sarando, com que se embrulhou de todo este Malavar com amoucos, guerra, ja me parece que tiverão o senhor bispo e o padre hido la e corrido toda esta serra pera acabar de asentar o começado e seguirem a victoria que Nosso Senhor lhes deu contra o imigo da geração humana. Outras coussas obrou Deos Nosso Senhor por meo desta sua minima Companhia nesta terra que, por evitar prolexi- dade, não conto, e outras tãobem por me não lembrarem, polia negligencia que tive em as não aproveitar, quando se começarão, e agora muitas delias esquecem, porque mais cuidado ha nos irmãos de se lembrarem do que não fizerão pera disso pedir perdão a Nosso Senhor, que do que fizerão pera o contar, e ainda estas coussas, se a santa obediência // [471 v] asi o não mandara, se não escreverão, mas seia (7) tudo he se tudo gloria (sic) dada Aquelle, de quem todo o bem procede. E entre todas estas occupaçõens não se esquecem as que sempre muito nos relevão da propria mortificação e desprezo, como foi andar hum padre e hum irmão muitos dias roto e servindo no hospital, e os christãos da terra, que se achão polia rua doentes, levando-os aos hospitais. Nem faltou a hum padre, que, mãodãodo-lhe pedir esmola polia cidade, toda a esmola e carga que lhe pusserão as costas, trouxe pera cassa, vindo carregado de pão, figos, (7) BACIL: mas seja a gloria de tudo dada Aquelle...
metidos no seu mãoto; e lingoiças, galinhas, carne de porco, e hum bácoro vivo, de maneira que veo tão bem carregado que pudera dizer como David: ut iumentum factus sum apud te (8). E depois, ao outro dia, sabendo a cidade como este padre andara a pedir, cuidãodo ser alguma necessidade, vierão os da Misericórdia, pola menhã, a este collegio com cem pardaos de esmola. He o padre reitor lhes não quis aceitar, dizendo que os tornassem a levar, aguardecendo-lhe a esmola, e que se lhe fossem necessários, que elle lhe mão- daria recado, no qual se via a afeição e o amor que nos tem em ho Senhor. Deos nosso Senhor nos de a todos sua graça pera com muita humildade e simplicidade de coração e perfeita charidade e obediência O servirmos. Nos sanctos sacrifícios e oraçõens de todos os padres e irmãos da Companhia, que andão na Europa, todos os pobres deste collegio de Cochim nos encomendamos. Deste collegio da Madre de Deos de Cochim, aos 15 de Janeiro de 1564(9). Por comissão do Padre Mestre Belchior Irmão e servo de todos Amador Correa. (8) Salmo 72-23. (9) BAC1L: ...aos 20 de Janeiro de 1564. 302
41 CARTA DO PADRE MESTRE BELCHIOR, IRMÃO DO PATRIARCA, COMUNICANDO A MORTE DESTE A UMAS IRMÃS SUAS, RELIGIOSAS NA CIDADE DO PORTO Cochim, 22 de Janeiro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n." 4534. Fls. 364r.-366r. A graça e pax de Jesu Christo, Noso Senhor, faça con- tinua morada em nosas almas, Amen. Recebi as cartas que escrevestes, irmãs em Jesu Christo, mui amadas, assi ao Padre Patriarcha, como a mim. Com todas me alegrei muito e pois elle ja esta guozando da glo- riosa visão de Deos com os anjos e santos do ceo e eu como quem não fiquo qua neste desterro, fiqua-me a obriguação de responder por elle e por mim, bem que sera em breve carta comua a todas quatro, não somente porque a occupação me não da lugar a escrever a cada huma per si, mas muito mais porque sendo a charidade e a virtude e a perfeição a todas huma, parece que não seria rezeão (sic) a cartas apar- tarem aquellas o amor de Jesu Christo ajuntou. // [36i »•] Da bemaventurada morte, se morte se pode chamar e não vida, do Padre Patriarcha, por cartas que este anno passado escrevi, cuido que terão ja sabido. E pois ja reina nos ceos com Christo, não fica fora de rezão escrever dele algumas coussas, as quais, se fora vivo, a sua humildade não consentiria que eu as escrevera. Qual foi a sua vida, sete annos antes que entrasse nesta minima Companhia de Jesus, 3 ° 3
parece-me que bem o sabeis todos. O recolhimento de sua vida, as sinquo ou seis oras de contemplação que cada dia tinha em a sua igreja, a devação e amor de Deos, a chari- dade com os proximos, a pinitencia continua e exemplo de virtudes resplandecia nelle tanto que a todos os que o con- versavão erão manifestas. Mas Christo, Noso Senhor, cha- mava-o com inspirações pera outra perfeição maior, parecia- •lhe que enquanto posuisse os bens de sua igreja e não fosse pobre e obediente com Christo, neguando sua vontade e pondo-a nas mãos do superior, por mais que vivesse em cas- tidade e humildade, paciência, não fazia perfeito sacrifício de si em o Senhor de si. Andando elle nestas inspirações divinas, quis Nosso Senhor que lhe escrevi huma carta, persuadindo-lhe que viesse ver o collegio de Coimbra, onde alem de ver o modo de proceder dos irmãos, poderia comunicar as cousas de seu espirito com o Padre Mestre Fabro, varão excelente que cada dia ahi esperávamos, se em (sic) que por sua humildade elle, quando me isto descobrio me mãodou que o não dixesse. Aguora, ja que elle esta no ceo, vos posso consolar com vo-lo contar; movido com as inspi- rações e tãobem com a minha carta, disse hum certo numero de missas, pedindo com grão efficacia a Noso Senhor e pondo-se todo em suas mãos e que lhe desse claramente a entender a vida en que milhor o serviria. Ouvio Noso Senhor suas orações que por huma certa revelação, que me elle a mim contou, cheguando a Coimbra e me mãodou que lha • tivesse em segredo, lhe amostrou Noso Senhor claramente ser sua vontade que se viesse ao colégio de Coimbra, que ahi lhe seria mostrada a vida em que o avia de servir. Naquela revelação lhe foi mostrado o Padre Fabro que o avia de encaminhar, sem elle nem eu o teremos visto, me dise quãodo cheguou ao colégio de Coimbra, vindo de sua igreja em abetos de pobre os sinais (sic). 3°4
E quando o Padre Fabro cheguou, que vinha de Alema- nha, se alegrou em estremo e me dise: «este he o padre que eu vi». Finalmente, esteve elle duvidoso em o colégio de Coimbra todos os quorenta dias que passarão, des que veo de sua igreja ate cheguar o Padre Fabro a Coimbra e a du- vida que tinha era polia grãode afeição que tinha ao des- cansso da comtemplação e arreceavasse o accuparsse com os proximos em os muitos trabalhos que a Companhia tem por lhes ajudar a salvar suas almas, que por ventura perderia o guosto e repouso da contemplação. E porque tinha ja expe- riência de si acharsse bem com a contemplação, arreceava de mesturar com ella a activa, por não deixar o certo pel lo duvidoso de que ainda não tinha experiência. Mas depois que chegou o Padre Fabro, lhe deo conta de sua vida e de seus exercícios contemplativos e da quietação que Deos Noso Senhor lhe dava nelles, procedendo devota- mente neles e quasi sempre ou visitando-o Noso Senhor com sua divina consolação. Lhe disse o Padre Fabro entre outras palavras huma com que loguo se entregou,dizendo-lhe: «que- remos dizer huma cousa para que não diguais no dia de juizo que vos não foi dita, ja aguora não aveis de achar consolação e devação, que ate aguora achastes, nessa vida que tendes, porque enquanto vos parecia que tínheis a vida em que mais agradaveis a Deos, achaveis consolação e devação nella, mas aguora que tendes ja conhecido que podereis ter outra vida em que O mais sirvais, quebrando vosa vontade debaixo da obediência, estendendo a charidade e zelo da salvação das almas por todas as partes do mundo, as quaes a obediência vos pode mandar, padecendo muitos periguos e trabalhos polia omra de Deos, ja não achareis a consolação na vosa igreja que dantes achaveis, porque sempre vos a-de parecer que fugistes da cruz e trabalhos e que deixastes de seguir a vida de Christo por seguirdes a vos e a vossa quietação». Com estas palavras se moveo / / tanto o humilde padre [365 r.] 3 ° 5 DOC. PADROADO, IX 20
que loguo se lãosou aos pes de Fabro, detriminando-se loguo a entrar na Companhia, mas Fabro lhe disse: «esperai, não vos determineis tão cedo; erguei-vos, depois da meia noite, e ponde-vos deante de Deos em oração, renunciando-vos todo em suas mãos; desafiai Lucifer que, se depois vos ouver de trazer algumas tentações em a Companhia, que aguora, antes de entrardes, venha com ellas e dizei polia menhã missa e ponde-vos todo em as mãos de Jesu Christo e no Sancto Sacramento, em aquillo que vos determinardes diante de sua divina prezença, asentai e fiquai fixo». Fe-lo asi, e depois de passar grandes tentações em o desafio e grandes sentimentos de Deos em a oração e na missa, de tal maneira se determinou que, pera mim tenho, que nunqua depois teve tentação grande en coussa especial da Companhia. Depois de recebido com o Padre Fabro, foi logo metido em seu cozinheiro com outros officios de humil- dade em os quaes andava com tanta alegria que me lembro que dizia Fabro que nunqua vira a homem que ja no mundo estivesse asentado em vida tão virtuosa em seu modo de viver, ser tão bom de manear e reger debaxo da obediência. Depois de aprovada sua virtude em todo o genero de humildade e mortificação, foi escolhido pera mandar a Africa pera ter cuidado em Tituão dos captivos christãos, que entre os mouros estavão. Ali passara muitas injurias e periguos de morte e não somente entendia no resguate dos captivos temporal, mas muito mais no espiritual, conser- vãodo-os na fe e na lei de Deos, preguãodo-lhes e adminis- trãodo-lhes os sacramentos; he tão grande a caridade que com elles tinha que a sua cazinha em que elle pouzava pa- recia botica de inguoentos e de cousa de doentes com que os curava muitas vezes; hia estar com elles na masmorra e la dormia e moia o triguo e fazia o que os captivos doentes avião de fazer, por lhes escusar os asoutes que lhes davão seus amos, se não trabalhavão. Muitas vezes a bouqua da 3 ° 6
noite, vinha ao alçapão da masmorra tirar os bacios da sugi- dade pera os ir lavar e sestos de sisco pera os alimpar. Finalmente enquanto esteve em Africa, era captivo, por amor de Jesu Christo, dos captivos a quem servia por seu amor. E naquela vida levava tanta comsolação espiritual qu me alembra que escrevia de Tituão ao Padre Provincial de Portugal que se outra cousa não fosse vontade de Nosso Senhor que lhe pedia, por amor de Deos, que lhe deixasse acabar a vida servindo aquelles captivos. Mas a divina sabe- doria tinha delle ordenado outra coussa, porque depois de sinquo ou seis annos de Africa, vindo a Lisboa a busquar esmola pera hum grande resguate de captivos, achou huma obediência de Nosso Padre Geral, em a qual ordenava que não tornasse a Africa, por quanto estava eleito por Patriar- cha do Preste. E porque a sua grãode humildade não o dei- xava cuidar de si, que era pera tão alta perlazia, creo que nunqua contrariou cousa de obediência como aseita-la. E se lhe não viera expresso mãodamento do sancto romano pontífice, não sei se aseitaria, porque ainda que via que o Patriarcha do Preste não era de omras e senhorios munda- nos, mas cheio de cruz de sangue, todavia era tão humilde que tinha medo so ao nome de Patriarca. Veo a India com outros dous bispos seus coadiutores e outros doze padres da mesma Companhia. Asi imaginareis que se deixaria servir com aparato, como parece que se devia a huma dignidade, a maior que ha na igreja de Deos, despois do Papa. Vim eu naquelle tempo de Japão, avera sete annos, e achei-o no collegio de São Paulo de Guoa e querendo-os os padres acatar e omrar, como se devia, não consentia em seu comer e em seu vestido ser tratado senão como qualquer irmão, guardando, todavia, o decoro no trajo a que o obri- guava a dinidade, mas no mais elle era o que mais se esme- rava no recolhimento de sua sela, na preseverança da oração, na guarda das regras, na penitencia de comer e dormir, no 3 ° 7
exemplo da profundíssima humildade, tanto que tinha por custume ir a cozinha lavar as tijelas e alimpar a cassa e mui- tas vezes se humilhava a lavar os pes aos irmãos, e com alguns lhe acontecia o que aconteceo a Christo com São Pedro, quando lhe lavou os pes; mas depois da contenda a ;365 v.] obediência vencia a humildade. // Se alguma diferença lhe fazião no refeitório no comer que tivesse avantagem aos outros irmãos asi o engeitava que nem hum púcaro mais novo que os outros pêra beber con- sentia. Palavra occiosa nem palavra que tivesse algum geito de descobrir falta alhea nem a falava nem a queria ouvir. Se algum era enfermo ou tinha alguma desconsolação estes busquava de boa vontade pêra os consolar. Nunqua o achava occioso porque alem de sinquo ou seis horas que tinha de recolhimento pera se dar a Deos, alem de dizer missa cada dia, mais tempo sempre se occupava em ouvir confissões ou em ler a Sagrada Escriptura e doutores sagrados e em alguns exercícios e obras de humildade como remendar o saio, varrer a casa e outras semelhantes e todavia, antre todas estas obras de virtude, sempre parecia o reverendo padre que fazia pouco, nem tinha soceguo em seu coração com entranhavel desejo que tinha de ir padecer a cruz e trabalho que sabia que no Preste avia de achar. Sempre solicitou os guovernadores que mãodassem por no Preste a elle e aos seus companheiros e se offerecia para ir em dous catures como quer que o quisessem mandar, mas ou fosse por a gente do Preste não merecer a Deos ter tão sancto prelado ou por a malícia dos turcos ter tomadas todas as entradas por onde podíamos ir ao Preste, ou pollo des- cuido doos que regem esta terra ou por não poderem mais, passante de seis annos estiverão na índia sem nunqua pode- rem acabar esta sua tão deseiada viagem, onde quantos maiores trabalhos via que avia de padecer tanto com maior cede os deseiava. 3 o 8
Com huma nova que veio do Preste, no anno de mil e quinhentos e sesenta e dous, lhe prometeo o viso-rei de o mandar com huma armada. E vendo depois que lhe faltava, foisse pera Chorão, que he alem do rio de Guoa, onde temos huma igreja nossa, e ali donde cuidavão os padres que elle se hia a recrear, em aquelle monte, dos trabalhos do collegio que tivera no negociar a ida com o viso-rei, elle foi-se como outro Moises a orar ao monte. Aquelles dias que ali esteve deu-se a tão aspera penitencia e a tão continua oração, sem tomar nenhuma ora de refrigério, que ou por Deus Nosso Senhor lhe querer ia dar o premio de seus trabalhos, ou porque lho elle pedia em aquella penitencia e oração que fazia, veo-lhe huma doença do figuado e de camaras com febre tão rija que loguo os medicos sospeitarão delia que era mortal. Trou- xerão-o pera o collegio de São Paulo de Guoa, onde cada vez se foi achando pior, e recebido o Sancto Sacramento do corpo de Nosso Senhor Jesu Christo, indo em cricimento muito a doença, lhe deu o Padre Carneiro, Bispo, o Sacra- mento da Unção, estando todos os padres e irmãos presentes. Com muitas lagrimas em este tempo, sentindo que se cheguava a ora em que Nosso Senhor o queria levar pera a sua gloria, falava muitas palavras de devação e que muito edificavão aos que estavão presentes, fazendo muitos coló- quios com Deos, e trazendo muitas palavras sanctas com que acrecentava em si a esperança e dezeijo dos bens eternos, mostrando sempre muitas alegria de ver que se acheguava o fim e gualardão de seus trabalhos. E com ser homem de tão sancta vida pedia com muita efiquacia a Deos Nosso Senhor e roguava aos padres e irmãos que roguassem por elle ao Senhor Deos. E a vinte e dous de mes de Dezembro, o dia seguinte depois de São Thome, as oito oras da noite, indo ja per- dendo a fala, os irmãos postos todos em oração por elle, e os padres dizendo-he orações e salpmos, (sic) se des- 3°9 L
pedio aquela bendita alma do corpo, fiquando o rosto tão sereno como se fora vivo, que mostrando a alegria com que partio da carne do corpo pêra a liberdade dos filhos de Deos, como quem partia de desterro pera a patria da gloria. Fizerão-lhe grandes execquias, como convinha a pessoa de tão alta dignidade na igreja de Deos; e em todos os que o conhecião, ainda que ouve muito sentimento do apartamento de tão sancto varão, todavia tomarão sua morte como humano triunpho da gloria, como se tiverão por certeza de sua bemaventurança asi o venerarão e se alegrarão. Ao me- nos de mim vos sei dizer, irmãs em Christo, que querendo-o muitas vezes encomendar a Nosso Senhor a meus sacrifícios, apenas o posso acabar comiguo, mas antes de melhor von- [366 r.] tade me encomendo a elle, como a sancto //. Vedes aqui a pressa que vos quis mãodar da India a vida e morte do Padre Patriarcha he muito vos hirdes neste espelho. Bem creo que com os raios (1) das suas virtudes vos movereis muito a servir Nosso Senhor na religião onde estais. Prazera a sua divina bondade a mim e a vos, pois que fiquamos neste desterro, guiar-nos com sua graça para, imi- tando a elle e aos sanctos, alcanssemos a gloria pera que nos criou pello caminho da verdadeira obediência, humildade e amor de Deos. Encomendo-me a suas devotas orações, que eu de qua o mesmo faço. Deste colégio da Madre de Deos de Cochim, de 20 e dous de Janeiro de 1564. Mestre Belchior. (1) Leitura hipotética. Quereria o copista escrever rasgos? 3 I O
42 ÓRFÃOS GENTIOS Goa, 4 de Novembro de 1564 Documento existente no AHEl: Livro das Monções, n.° 38, fl. 430. Copiado por Cunha Rivara no seu APO, V, n." 523, págs. 517- -578. Dom Sebastião, por graça de Deos, rey de Portugal e dos Algarves, daquem e dalém mar em Africa, senhor da Cuine, de conquista, navegação, comercio de Ethiopia, Arabia, Per- sia, e da India etc. A quantos esta minha carta virem faço saber que por assy haver por muito serviço de Deos e meu, e bem e acrecentamento da christandade destas partes: hey por bem e mando que a ley que elrey, meu senhor e avo, que santa gloria haja, fez per que mandou que os filhos dos gentios que nestas ilhas e cidade de Goa, e nas partes da índia ficarem sem pay e sem mãy, e sem avô ou avó, ou outros ascendentes, e não forem de idade que possão ter entendimento, ou juizo de razão, se tomem pera serem dou- trinados e bautizados pelos Padres da Companhia de Jesus (a), a dita ley haja lugar em todas as ditas partes da India, e nos moços ou moças, que não passarem de idade de quatorze annos, porque assy o hei por bem. Noteficoo assy a todas as justiças, officiaes, e pessoas, a que esta for apresentada, e lhes mando que em todo o cumprão e guardem, como se nella contem. (a) Nota de Cunha Rivara: Esta ley aqui referida he sem duvida a de 23 de Março de 1559 (atraz n.° 287) que he do mesmo rey Dom Sebas- tião, em cujo nome o Vice-Rey passa a presente: pelo que não sabemos explicar como elle a attribue a EIRey D. João 3.°. 3 ' '
Dada em a minha cidade de Goa, sob meu sello a 4 de Novembro. EIRey o mandou por Dom Antão de Noronha, do seu conselho, e seu V. Rey da India etc. Simão Fernandes o fez anno do nascimento de nosso senhor Jesu Christo de 1564. O Secretario o fez escrever. — Viso Rey. 3 1 2
43 TRECHO DE UMA CARTA DO IRMÃO BENTO FERNANDES Goa, 7 de Novembro de 1564 Documento existente na BAC1L: Cartas do Japão, III. Fl. 130 r. Aconteceo em San Tome que, andando os officiaes da Misericórdia dando esmolas, vio huma moura honrada que davão esmola a alguns christãos pobres. Perguntou que cousa era aquella, ficou espantada; depois vio (sic) numa grande tempestade, que desbaratou muitas casas, porque acontece ser grande. Forão os mesmos officiaes da Misericórdia dar esmollas, pera que os christãos pobres concertassem as casas. Vendo a mesma moura esta obra, sabendo o que era, ficou toda movida, disse loguo entre sy, que aquelle custume não avia na sua falsa secta. Perguntou; disserão-lhe que aquelle dinheyro era de Deos e outras cousas, de maneyra que se fez christãa, com toda sua casa e filhos. Muytas cousas acon- tecem, que lhe escrevera, que Nosso Senhor, cada dia, obra. Quanto de mym, digo, charissimo, que ando neste colle- gio fazendo o que mandão negligentemente, sem prestar pera em nenhuma cousa ajudar os irmãos; pello que de charidade, me encomendem a Nosso Senhor. De Goa, 7 de Novembro de 1564. 3 ' 3
44 CARTA DE D. GASPAR DE LEÃO, PRIMEIRO ARCEBISPO DE GOA, A EL-REI D. SEBASTIÃO Goa, 20 de Novembro de 1564 Documento pertencente ao arquivo particular do nosso muito amigo Jack Braga, de Hongkong. Cópia de Diogo Barbosa Machado do original existente no ANTT: Gav. 7, Maço 9. Não pude- mos, todavia, encontrar o original. Duas folhas, medindo 205 x 140 mm. [ij Senhor, Recebi as cartas de V. A. e a muitas couzas do que agora manda respondi o anno passado. A christandade, seja o Senhor louvado, vay muito avante; no modo delia houve algumas dezordens que, logo como cheguei, se remediaram, e se fazem christãos, como devem e a Igreja manda. Este anno, so nesta ilha se con- verteram duas mil almas. Havera nesta cidade ao menos 4.343 vizinhos, dos quaes sam portuguezes 1.478 e misti- ços 145; os mais sam da terra. No termo desta cidade e suas aldeas, ha 7.025 vizinhos, de maneira que haverá nesta ilha somente doze mil vizinhos christãos, nem entrando soldados; e ao menos haverá oitenta mil almas christãos. Esperamos no Senhor que, mediante o fervor e cuidado de V. A. que cedo não havera gentio nesta ilha. Quanto aa renda de S. Paullo e S. Domingos, que V. A. manda lhe escreva, pellos contadores vay liquido quanto tem de sua fazenda per suas provizões e dos viso-reys; e verdadeiramente parece mais praga o que a V. A. foi dito 3 1 4
que zello, porque se não fossem as esmollas que muitos lhe fazem, não he possível susterem os trabalhos. O que delles sey he que vivem como devem, e com grande exemplo de suas pessoas, e que elles fazem a guerra aos pagodes, com- prindo verdadeira e zellozamente a obrigaçam que V. A. tem a esta converçam; e oxallá visse eu as náos carregadas de relligiozos, para que se derramassem por este mundo oriental; pella qual rezam, os deve favoreçer, e animar seus prellados para que // enviem cá muitos, e nam dem licença H v0 para se hirem de cá relligiozos, sem legitima cauza e, pois crecem os relligiozos, necessário he crecer o gasto para a converçam deste gentio, aa qual está V. A. primeiramente obrigado; e o dia que tirar os olhos deste fim e total obri- gaçam, sem duvida que nam therá estado. Pela vista da renda de S. Paullo e numero dos padres, se verá o que falta ou sobeja. O gasto dos vestidos dos christãos destas ilhas corre agora por huma mão e certo. He verdade que os mais dos gentios se convertem por occaziões, que nós não somos obrigados a examinar; basta que quando pedem o baptismo e o recebem, ja instructos nas couzas da fé, dizem que o fazem por amor de Deus. O negocio dos pagodes de Dio que enformaram a V. A. está remediado, como também em outras partes, nem se derribarám se não quando a rezão o pedir, e espero no Se- nhor que cedo os não haja. Com estas vam huns apontamentos, para á Meza da Consciência, das couzas espirituaes e temporaes, a que V. A. he obrigado; merce me fara e a todo este seu povo haver-lhe de Roma poder para dezembaraçarem suas consciências e dar expediente para se fazerem igrejas para se agazalharem tantas almas, por suas freguezias. Cada anno envia V. A. a estas partes muitas orfãas e, polia obrigaçam que tenho, lhe lembro que ha cá muitas 3 ' 5
e honradas e muy dezemparadas, cujos pays morreram na guerra, ou gastaram boa parte da vida em seu serviço; pa- rece que primeiro devem ser estas emparadas, e mandar ao [2*0 viso-rey que caze cada anno certo numero//e com esta merce se animarão muito os pays vivos para o serviço de V. A., cuja vida e estado conserve N. Senhor por muitos annos prosperamente, amen. De Goa, aos 20 de Novembro de 1564 annos. Com esta envio a V. A. hum livrinho espiritual que se compoz cá e prégou este anno (1). O arcebispo de Goa. (1) Nota de Diogo Barbosa Machado: «Este livrinho he «Compendio espiritual da vida christam», tirada pello primeiro arcebispo de Goa e por elle pregada no primeiro anno aos seus freguezes etc. Goa, 1564, 12, e Coimbra 1600, 8. E mais: Carta do I arcebispo de Goa ao povo de Israel seguidor ainda de Moyses e do Talmud, por engano e malícia dos seus rabbis. Com hum tratado que fez Mestre Hieronimo da S. Fee, medico do papa Bened. XIII, em que prova o Messias da ley ser vindo. Goa, por João de Endem aos 29 dias do mez de Setembro de 1565 annos. 4. Dezenganos de perdidos em dialogo, entre hum christam e hum turquo, divididos em tres partes, etc. Goa, 1573. Dialogo espiritual, coloquio de hum relligiozo com hum perigrino, onde lhe ensina como e onde se ha-de achar a Deus. Lisboa, 1578, e Évora 1579, 8. Constituições do arcebispado de Goa, aprovadas pelo primeiro con- cilio provincial. Goa, 1568. Tratado espiritual para o sacerdote que diz missa e para os ouvin- tes etc. Lisboa, 1558. 12. Sem o seu nome. Foy nomeado arcebispo por el-rey D. Sebastiam, sendo arcediago do bago em Évora e esmoller do arcebispo o cardeal rey. O papa o obrigou a aceitar o arcebispado, no quail fez que se queimasse o celebre dente de [2 *.] macaco, e elle mesmo o pizou / / diante do conselho, e queimou os pedaços. Renuncio (sic) o arcebispado e acolheo-se ao convento de Dauguim, que fundara, huma legoa desviado de Goa, donde voltou para o governo do arcebispado, rogado por Gregorio XIII. Faleceo em 1576 e jaz no dito convento.» Até aqui, a nota de Diogo Barbosa Machado. Os números 4, 8 e 12, a seguir aos títulos, referem-se ao formato da obra. «Arcediago do bago» é o mesmo que «arcediago do báculo». 3 ' 6
45 CARTA DO PADRE PÊRO FERNANDES (1) Goa, 23 de Novembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534- Fls. 518r.-521 v. Mui Reverendo em Christo Padre Pax Christi. Porque de Moçambique escrivio el Padre Ramirez a Vuestra Reverencia bien largamente, por el Padre Frai Gaspar, fraile de S. Francisquo, qual iva em la nao Drago, el successo de nuestro viage desde Lisboa hasta alli, en esta a gloria de Dios Nuestro Senor e consolacion de todos dire algunas cosillas de las acontecidas dende (sic) que partimos de Lisboa, que fue a los dezanueve de Março, de mil e qui- nhentos sesenta e quatro, hasta aqui a Goa, aunque a la verdad me siento inhabil para narrarias / / todavia confiado [518 v.| en la santa obediência, y remitendome a las dei Padre Ra- mirez, Padre Parra (2) quales servieren dende Moçambique dire de mi parte lo posible en quanto toca da nuestra nao de S. Antonio, sigun Nuestro Senor me dara su gracia. Ya Vuestra Reverencia sabe, y se acordara como Domin- guo de Lazaro, que fueron los dezanoeve, ut supra, a la manana, partimos todos quatro naos con prospero viento, y caminando con alegroza, (sic) y quietamiente, tres o qua- il) «...que antes se chamava Pero Mercado», diz a cópia da BNL. (2) Eram companheiros de viagem. 3 ' 7
tro dias despues de partidos vemos venir detrás de nos otros algo lexos algunos navios a la vela y piensavamos fuesem de purmgeses, que havian salido de conserva com noso- tros, para maior seguridad dellos, como suele acontecer, quando parten las naos para la índia, suelen partir ellos tambien para S. Thome, Canarias, etc. Y aproximandosse mas nos otros nos salvaron com un tiro de artelleria, sin pelota, en senal de pazes; ipsi tamen erant lupi rapaces, porque bien le mostraron que delante de nuestros nos cogie- ron una urca de purtugeses e una caravela, como alia avran bien sabido. Esto fue a la tarde a quasi quatro oras; en este instante mãodo el viso-rei se pusiesem todos en armas, y assi le hizo, mas eran tan enbaraçadas nuestras naos de caxeria e hato, hasta quasi medio los mastros, que era cosa mirable. Fue Nuestro Senor servido y no acometeron, que si acometieran trabajo passaramos, porque ellos eran dezeocho navios grues- sos y quasi succinti omnes ad praeliandum. Al menos, si echaran fueguo, como suelen, gran dano nos hizieran tam- bien. Nosotros y otros dos padres capellanes que venian en la nao corríamos a nuestras armas, y juntamente con otras devotas personas en el cabrestante, con hum crucifixo en las manos dixiamos las litanias, encomendandonos a Dios lo mejor que podíamos. Y asi Nuestro Senor permittio se fuessem, sin hazernos otro dano, de lo qual sea Jesu Christo biendito pêra siempre sin fin. A la mariana temprano los tornamos a descubrir y pen- samos quirian tornar a nosotros, mas no tornaron; pareceme que si tornaron poco pudieran guanar con nosotros, porque ya ivamos mejor en orden, y aparejados por aqui (sic) mien- tras poco a poco naveguamos iva el viso-rei haziendo el alarde, y mando a los otros capitanes de las otras naos lo hiziessem, y hallandosse algunos no ser aptos para la guerra, y venir sin orden, ni siendo escritos, ordeno Su Senhoria 3 / 8
que algunos se tornassen para Purtugal, y que a cada una daria un cruzado para el camino, y si alguno de los soldados que havian ya recebido parte de sus stipendios fuesse arepen- tido, le hazia perdonar lo recebido, escriviendo a la casa del India sobre ello, y assi salieron algunos en aquella caravela que los inglezes tomaron, y porque muchos moços peque- nos venian tambien, sin orden y licencia, entendendo como el viso-rei los hazia retornar, fueron muchos que se escon- dieron, y assi andando el despensero, merino y otros officia- tes de la nao por abaxo do (3) estavan las pipas, para con- sertalas o dar alguna de regia, hallaron hum moço de hasta quatorze a quinze anos, dentro en huna pipa vazia ya quasi para espirar, porque havia seis dias no comia ni bevia, como el nos lo certifico, quando pudo hablar, y assi tirandolo fuerra, y dandole algunos bocadillos de algunas comservas, torno en si, y con la gracia del Senor vino bueno siempre hasta aqui, del que sea bendito y glorificado el Senor. Dalli a poços dias llegamos a la isla de la Madera, a la manana, delante de la ciudad llamada Funchal y estuvimos alli en pairo todo aquel dia todas quatro naos, concertando lo mal ocncertado y tomando refrescos. Aqui tanbiem se salieron de todas las naos algunos por las causas ariba di- chas. A las Ave Marias el viso-rei mando desparar un tiro de artelheria, en sehal de azemos a la vela, y assi con la gracia dei Senor, embarcado todo e todos los que havian de embarcar, arramcamos de alli, y por ser ya quasi de no- che no advertíamos bien faltamos nao. A la manana vimos la Reina no venir con nosotros de la qual cosa traiamos pena, pensando oviesse quedado sola, y que passaria tra- bajo y pe // ligro, mas ella fue mas solicita de lo que noso- [519 r.] ttos pensamos, porque la aliamos en Moçambique avia siete dias era llegada. (3) Por: donde. 3 ' 9
Prosiguiendo nuestro viagen todas tres naos de com- serva, con rasonable tienpo, el viso-rei mando llamar al fisico surugiano, (sic) y buticaro que les el trahia comsiguo, y barbero de la nao, todos bien peritos en sus officios, que cada manana ordinariamente con uno o dos de nosotros visi- tassen los enfermos que venian, y los que succedessen. Tanbien hizo llamar su veedor, despensseros y a mi con ellos y mandoles, yo presente, diziendoles todo los que los padres les pidiessen para los dolientes todo en aquel punto nos lo dien como gualinas, carnero, passas, almendras, con- fectiones, biscoto de lo bien alvo, y finalmente cada dia teniamos en la nao pan fresco, y lo que era necessário para los mas debiles se dava. El ordine que teniamos en el visitar era este: uno de nosotros iva cada manana con el fisico, visitando con nues- tro rol en las manos, y el boticário tanbiem con su aparejo, pera servir y barbero para que quando el licenceado (4) ordenasse alguna cosa, se hiziesse memoria delia y se appli- casse a su tienpo. Despues iva el surugiano con otro de los nuestros y barbero haziendo el mesmo. A las vezes curavan cerqua de la surugia, a la puerta de nuestro camarote, segun la necessidad lo pedia. Tenia el Padre Ramirez acerca de los de la surugia un particular cuidado, y ala le acontecio algunas vezes estar para ir a predicar, y por aver de dar cristeles a los que el fizico havia ordenado detenersse la gente, y esperar oviesse acabado; depues iva no aviendo podido quasi nada ver aquella manana, por aver estado occupado con los de la surugia, y hazia huna predicacion que a todos satisfazia, y dexava consolados, de modo que, por gracia dei Senor, se conplia en el uno y en el otro con satisfaçion y contento de todos, de la qual cosa sean dadas infinitas gracias a Nuestro Senor. (4) Refere-se ao médico de bordo. 320
Quanto a los otros exercidos spirituales en que nos exercitávamos en la nao, eran que cada Domingo y fiesta teniamos la missa cantada, qual acabada el Padre Ramirez sobre el evangelio de aquel dia hazia hun sermon, intervi- niendo a todos los officios divinos de continuo Su Senhoria; tanbien segun la fiesta se cantavam las vesporas alternis diebus. A las Ave Marias se recitavan las letanias cantadas; los otros três dias, que havia letanias, el Hermano Cordero ensenava la doutrina Christiana a toda quasi la nao, a la qual se hallava presente a las vezes el vyso-rei y muchos fidalgos, de la qual se partian consolados y, por gracia dei Senor, la aprennedian todos bien, especialmente los mininos quales eran muchos, y de buena gracia y ingenios. Los sabados en anocheciendo teniamos Salve mui so- lenne, y el piloto, como es costunbre, recitava mui lindas coplas de Nuestra Senora y Apostolo San Tiago. Algunas fiestas, despues de jantar, el Padre Ramirez hazia algunas praticas mui convenientes, segun el estado de cada uno delas, quales se cree resulto fructo. Tanbien declarava estos dias los mistérios dei rosário de Nuestra Senora, que no fue poco para muchos que lo ignoravan. Comfessava el dicho padre muchos, assi sanos como enfermos; tenia cotediana- mente recogimientos espirituales con fidalgos, personas par- ticulares, pues quanto toca a los exercícios espirituales dei viso-rei seria mui largo de contar; por agora los callare, remetiendome a quien mui mejor que io lo puede hazer saber. A las vezes leiamos algunas lectiones de la historia ecclesiastica, y de otros libros espirituales, a las quales esta- van con atencion. Prohibiamos juegos de cartas en los qua- les se podia offender Dios, y quanto a los juramientos se ovieron todos bien assi grandes como pequenos; se entendia en hazer muchas pazes y entre las otras hize el Padre Rami- rez unas mui de inportancia entre ciertos fidalgos que venian 3 2 ' DOC. PADROADO, IX 21
en la nao; qual cosa no fue de poca edificacion y contenta- miento de todos, porque, se no se diera este corte antes que desenbarcaramos, passara bien adelante la cosa, en saltando en terra, segun todos dezian. Caminando adelante, esto era a los cimquo de Abril, vimos una isla que llaman dei Sal a mano derecha, nueve a dez léguas, lexos de nosotros, la qual cosa, scilicet, averla visto fue una gran providencia de Dios Nuestro Senor, [519 v.] segun la // comun opinion, porque de otra manera no fuera mucho imos al Brasil, y hai invernar, segun yvamos mal navegados, y apartados del camino derecho. Y assi, viendonos errados, se dio orden como navegássemos bien y derechamente. El sabado seguiente, quasi a la media noche, haviendo- nos precedido algunas trovoadas y chuva, sentíamos de nues- tro camarote grandes bozes: «Salva, salva, cuerpo sancto!». E assi nos hizieron salir mui depressa, y nos mostraron el cuerpo sancto como suele aparecer ordinariamente a los marineros y navegantes. Isto era ya quasi en la costa de la Guinea, donde nos hazia gran calor y por esta causa andá- vamos devagar, bien que no dechavamos poco o mucho de navegar, andando el tienpo ya aviendo entrado en la costa de Guinea. Passamos la ligna a los vinte nueve de Abril, sabado en la noche. Por aqui, por esta paragine, a los seis de Maio, entro hun hombre debaxo la secunda escutilla para visitar certa fazenda que trahia, como azeite vinos etc. Y vio que por una parte de la nao havia entrado y aun entrava un gran golpe dagoa de la mar, por aversse abierto aquella parte, la qual cosa viendo, salio con diligencia, y dio aviso al merinho y capitan, y supolo tanbien el viso-rei, el qual mando en continente despues de averlo visto, y comsiderado algunos officiales de la nao, se diesse remedio y assi los calafates con presteza amarraronsse, como acostuman, fuera 322
de la nao, y virando las velas consertaron lo mejor que se pude. Dezian si no davan tan presto remedio, nos ivamos al fondo, sin sentirlo, de lo qual sean dados muchos loores ha Nuestro Senor. Aqui passamos el Cabo de S. Agustin, el qual dizen esta en ocho grados dei altura de los Abrolhos, de la qual altura hasta dichos Abrolhos haviemos de correr cento y setenta léguas. Luego al sabado siguinte, a las ocho o nueve horas de la noche, vieron las centinelas la isla de Martin Vaz, la qual viendo de tan cerca gritaron, por ser la noche y obscura. Finalmente que tornamos atras por no envestir con ella, hasta que fue de dia claro que la vimos bien y supimos escapar. Jueves, vinte y cimquo de Maio, caio un marinero en la mar; mandole el contramestre consertasse cierta cosa en el trinquete grande de proa y, descuidandosse, caio, y quiso Nuestro Senor no dio sobre las ancoras, que a dar en ellas trataralo mui mal. Dio en ela gavea, y fue en un improviso llevado de las ondas un pedaço, mas atras de la nao, porque iva rezissima, mas el como sabia bien nadar nadar (sic) vino nadando, y apegouse a ciertas cuerdas, donde estava ropa de molho, y assi se salvo, sin alguna lesion. Hizesse con el la debida diligencia; cominçaronsse amainar las velas, y echa- ronsse barriles, quartos, y tablas mas, por gracia dei Senor, no fue nada de aquello menester. Otro marinero, scilicet, el castelero, estando a la media noche y bien obscura concertando no se que en su castillo, de la banda de fuera, caio entre la cevadera, y como vaya alçandosse en alto y abaxandosse, el andava dentro con peli- gro de cair en la mar, y assi caiera no havia, como dezian, remedio porque la nao iva bien razia; dio bozes grandes, de tal manera que le acudieron con cabos, y subiendo animosa- mente arriba, la escapo. Otro paje de un fidalgo, siendo de dia, caio en la mar, y porque la nao no caminava mucho, y alhandosse alli cerca 323
un marinero lo saco, mas muerto que vivo. Otro minino de hasta siete anos, hijo de un marinero, andando asido (sic) por el castillo, por la parte de fuera, vino rodando hasta baxo, y dio sobre aquellas antenas, o mastros que estan alii, abordo de nao para suplimento. Caio de la parte de dentro que, se caiera de la de fuera, no avia mas remedio. Otras muchas personas caian de las escutilhas abaxo; algunos se herian, algunos milagrosamente salian sin lesion, de lo qual todo sea bendito y glorificado la Divina Magestad. Siendo ya el fin de Maio, nos sobrevino un tenporal fortissimo y contrario, por la qual cosa nos fue menester tomar todas las velas y assi tomadas, estando en pairo de noche dava la nao tan grandes balanços con la popa que una vez, dando con la popa, desconcerto las barandas de [520 r. ] las camaras dei leme // y entro tan gran golpe dagua que pensaron anegarse los de las camaras y los dei cabrestante. Aqui estuvimos otros tres o quatro dias en pairo; algunos siete o ocho dias despues deste tienpo travalhoso, caminamos mui bien y un dia ya tarde se llego a nosostros Flor de la Mar, y ablonos con grande alegreza de todos; dixo el piloto hazersse trinta y cinquo léguas dei Cabo de Boa Esperança, y el nuestro se hizo quarenta luegue. En aquela ora se viron muchas toninas, qual cosa fue un evidentíssimo senal estar cerca dei Cabo. Daquella noche nos começo una tormenta, la qual a la manana cresciendo en gran manera amainaron todas las velas, dexando el trinquete bien mesurado, y con el y una moneta arreboçada al castillo caminavamos mucho. Otro dia por la manana amaino el viento, y se aquietaron los mares, y allaron algunos por sus cartas estar mas adelante dei Cabo de las Agulhas vinte y quatro léguas, porque curri- mos sienpre em poppa sin jamais ver el Cabo, nin otra tierra firme. Mientras durava esta tormenta, entravan mares gros- síssimos por el convés, talmente que la gente a las vezes andava nadando, y acontecia algunas que dava con la gente 324
por aquel llano hiriendolos en diversas partes dei cuerpo, y neste medio la nao S. Vicente desaparecio, que nunqua mas la vimos hasta Moçambique, qual avia llegado a salva- miento quatro dias avia; la otra, Flor de la Mar sienpre nos hizo buena companhia hasta índia. Passadas estas tribulaciones y peligros, fue Nuestro Se- nor servido de embiarnos otros, y fue que estando nuestro piloto, esto era a los ocho de Julio, tomando el sol con otros fidalgos, officiales y marineros de la nao con sus astrolábios, como suelen, vio un marinero de los que tomavam el sol, cognociendo la color del aguoa, luego ciertos baxos, y en continente gritando dizia: «baxos! baxos!» Qual oido con diligencia, submitentes bolidem, invenerunt passus octo, y luego en aquel punto el viso-rei mando disparar un falcon pêra dar aviso a Flor de la Mar, la qual entendiendo el tiro creio ser por los baxos, y despues amayno las velas, dexando solo el traquete, echo el esquife, y gente fuera para mejor ver por donde ivan. Tanbien echaron ellos el piorno y se alharon en nueve braças; los unos y los otros ivamos mui amenudo echandolo, y nos allavamos en gran diversidad de baxos; una vez nos alhamos en cimquo braças, qual cosa no fue de poco espanto, porque la nao nadava en quatro y me- dia; muchos subieron a la gabia, para verlos mejor, y vieron, junto a la isla de S. Lourenço, un parcel o coroa. Jusguavan serian de los baxos al parcel vinte legoas; en este lugar se hazian sesenta léguas de Moçambique. Aqui vera Vuestra Reverencia la misericórdia dei Senor, quantas y quantas vezes nos libro de tantos y tantos peligros; El sea bendito y loado pera siempre, jamas plega a El por sua bondad infinita sea todo para su santo servicio y emmen- dacion nuestra. Despues de passado esto, vio el viso-rei que seria cosa justa que el marinero, que vido (sic) primero los baxos, no fuesse sin premio, prometiole un vestido, y que fuesse mestre 3 2 5
an viagen para donde el quisesse. El miercules, que fueron los do2e de Julio, se comendo a malas penas (sic) a des- cubrir tierra; el primero que dixo veria fue uno de los gaje- ros, al qual el viso-rei prometio dez cruzados se assi fuesse, y assi fue, porque el la mostrava clara, y dixo la veríamos todos el dia siguiente, y la vimos y a Moçambique a poco a poco yendo nos allegando vimos venir dos otros embarca- ciones, silicet, los capitanes y pilotos de las otras naos y piloto y gente de la tierra salieronnos al ensontro, para mostramos por donde havíamos de passar, porque al entrada ai una barra peligrosa, y assi con la gracia de Nuestro Senor la passamos sin peligro alguno, y entramos en el puerto, y encoramos a los treze de [Julio] (5) de 1564, con grandís- sima alegreza tanto de las naos como de la tierra. Dispara- vanse muchos tiros de la una parte y otra, y parescia se hundia la isla, y todo lo que por alli havia. Lluego en aquella ora vinieron el Padre Parra y Padre Martin a nuestra nao, para que todos juntos nos fuessemos a la posada que havian tomado, donde todos seis estuviessemos, y assi, bezadas las manos del viso-rey y havida licencia de Su Senhoria, nos partimos y en dezenbarcandonos passavamos a ver aquella [ 520 v.] gente negra // assi en aquel trage, cosa mui nueva para nosotros. Nostra posada era entre los moros, alia donde llaman Moxicate, porque en el hospital, haviendolo el Padre Parra procurado con diligencia, no ovo tanto largo para los seis. Otro dia por la manana, entrou el viso-rei en la tierra con mucha maior solenidad, alegreza y aparato. Saliole a recebir todo el pueblo, el clero con la cruz, cantando el Te Deurn laudamus. Y la primera cosa que hizo fue irsse a la igresia (5) A cópia da BNL, que seguimos, apresenta um espaço em branco no lugar de Julio. 326
maior, y ai con el Padre Ramirez se confesso, y con el vicário de la tierra se cumulgo, precediendo una missa cantada solemenemente. Acabado este officio, luego se torno para su nao de la qual, por buenos respectos, no salia sino a la missa y predicaciones los Domingos y dias sanctos. En los exercícios que nos occupavamos ay en Moçam- bique eran estos: el Padre Ramirez predicava los Domingos y fiestas en la iglesia principal, y en otra de Santo Spiritu accomodadas para este effecto; ajudavalo el ermano Cordero olim Leon y naquel tienpo que estuvimos ay la supieron bien espiritualmente los ninos; el ermano Gomez Vaz la ensenava cada dia a los dolientes dei hospital y todos quatro sacerdotes comfessavamos sanos y dolientes, y los comulgavamos con grande alegreza y edyficacion de todos. Servíamos a los enfermos en todo lo que era menester assi en lo spiritual como en lo corporal, bien que verdaderamente quedamos mui edificados y comtentos de aquellos buenos hombres por- tugueses, moradores alli, qualles tienen un especial cuydado dei hospital, porque le tienen limpio, y con todo lo necessário y servicio de muchos negros, y sus mujeres, donde su casa hazen y enbian todo lo que han menester. Visitavalos cada dia y curavalos con mui buen orden el fisico y surujano, y el buticario truxo alli su botica, y se davan los remedios possibles. Esta es verdaderamente una de las grandes obras de misericórdia que pueden ser; pague Dios Nuestro Senor en paraíso al que tanto bien tiene hecho ali y haze. En 22 dias que alli estuvimos, nos pudieron morir de todas quatro naos hasta quatro, y en todo el viage hasta Goa vinte e quatro, o vinte e cimquo, cosa de la qual todos a una se maravillan y dan gracias a Dios, que fueron tan poços los muortos. El Senor los tenga a todos en su sancta gloria, amen. A lo mas que llegaron los dolientes dei hospital fue- ron setenta o otenta, de los cuales siendo ya convalescentes solo un bien indispuesto quedo; todo el resto embarco, y 327
todos nos embarcamos a los cinquo de Agosto de 1564, y aquella manana que nos partimos el viso-rei se confesso y comolgo en Nuestra Sefíora de Bellearte, y nosotros dos despues dei, porque no hovo tienpo de dizir mas missa de la dei Padre Ramirez; el Padre Parra y companheros se fueron con el arcebispo de Ninive a otra iglesia a dizir missa. Acabado de hazer este bien nos tornamos todos pera las naos, y hizimosnos luego a la vela, todas quatro con grande alegreza y consolacion de todos. Y con prospero viento, dos dias despues de aver partido, començamos a descobrir la isla que llaman de Comoro, las propriedades de la qual y de todas las otras islãs, lugares notables que vimos en todo el camino, no sera ni ha sido menester dezir aqui, porque ya alia Vuestra Reverencia sera per otras vias mui mejor informado. Passando adelante, ocho o nueve dias despues que par- timos de Moçambique, porque ay avian muchos conprado algunos cafres, despues de averlos lo mejor que se pudo cathequizado, determinamos se baptizassen los que lo eran, y assi el padre capellan de la nao baptizo nueve utriusque sexus. Luego como partimos, tracto el padre Ramirez como cada noche temprano todas las negras se encerrassen debaxo cuberta con su Have, al qual cuidado de encerrarias y desen- cerrarlas interveniamos el padre capellan y yo, por orden de Su Senhoria, y padre Ramirez, de lo qual mucho se edifico la gente de la mar y se cree no resulto pequeno bien, dei qual sea bendita y glorificada la magestad divina. Domingo a los 20 de Aguosto, passamos otra vez la [52i v.] linha de qua supra, qual esta en quinze grados de // Moçam- bique, yendo desminuyendo y de la ligna a Goa desesseis, yendo multiplicando, y assi a poco a poco nos fuymos lle- gando a la barra de Goa, todas quatro naos juntas, por averlo el viso-rei ordenado viniessemos todos assi por buenos respectos. j 2 8
Uegamos a salvamiento, bendito y loado Jeshus Christo, a los tres de Setienbre 1564, Domingo en la tarde. En aquel instante vino alii una fusta de un português chatim, qual estava alii cerca esperando tienpo para partirsse para Bazaim, y el viso-rei lo hizo llamar y se informo de las cosas de índia. Dixo como el Conde Redondo, viso-rei del índia, avia cinquo meses era fallecido, y que succedio en el cargo por guovernador un fidalgo, por nome Joam de Mendonça. Dixo tanbien como era partido, dos o tres dias antes que llegassemos, una armada para el Malavar y que iva por capitan mor delia Don Francisquo de Mascarenhas. Estes malavares, padre, son una pestífera gente; havia mucho que contar dellos. Vuestra Reverencia, por amor dei Senor, rue- gue y hagua rogar a todolos padres y hermanos que Sua Ma- gestade tenga por bien y sea servido cessar deste flagello, y convertilos y traerlos a conoscimiento de sua santa fee catholica. Otro dia por la manana, el viso-rei con el Padre Ramirez y otros muchos de los suios desenbarcaron, y se fueron a un monasterio de frailes francisquos, que llaman los Tres Reis, y alli se confesso y comulgo con grande edificacion, como sienpre lo havia echo, y haze cada quinze dias, despues que partimos de Lisboa, y por gracia de Nuestro Senor ha hecho y haze gran fructo, digo que mui bien se ha sabido aprove- char en especial de los exercícios spirituales que hizo, y que le dio Padre Ramirez, viniendo por la mar. No dexe Vuestra Reverencia por charidad de hazerle sienpre encomendar a Nuestro Senor lo consierve en su sancto servicio. Acabado de comulgar, y de se encomendar a Nuestro Senor, partiron para Pangim que es un lugar fresco y ameno, una legoa y mea de la barra, y otra y mea dalli a Goa. Alli vinieron aquelle dia el padre obispo Melchior Carnero, y padre provincial Antonio de Quadros, padre rector, Fran- cisquo Roiz, los quales hablaron con el viso-rey, y estando 3 2 9
hablando, lleguamos el hermano Cordero y yo y hun her- mano que havia ido por nos otros, mas el padre Parra y con- paneros no vinieron aquella hora con nosotros, por aver hecho falta la enbarcacion; venieron a la noche dichos tres padres, y algunos otros y hermanos que havian ido a Pangim. Embarcados, con gran consolacion, nos venimos el rio abaxo y entramos en el colégio a horas del Ave Marias. No podia, padre mio, escrevir ni con la lengua explicar el grande jubilo, con el qual todos nos recibimos, y la charidad grande que con nosotros se uso aquella noche, y se usa oy dia; pagueles Jeshu Christo a todos en el cielo los trabajos que por nosotros se tomaron. Viniendo nos para casa, nos dixeron por el camino como los hechiceros de tierra firme dezian que havia de venir por viso-rei Don Constantino y cinquo naos, y que havíamos de entrar a los nueve de Setienbre; esto todo diz que confir- mava otro hechicero, y que lo ahorcassen, si no saliera verdad, qual todo fue una grandessima mentira; despues de haverlo tenido preso y a buen recado, usaron de misericór- dia con el, entiendo que lo açotaron mui lindamente. Otro dia, por la mariana, el viso-rei entro por la cidad con grande fiesta; vénia por el rio abaxo, en una galera mui bien adereçada, y otras algunas que lo aconpanaron, con muchos fidalgos, y otras enbarcaciones galanamente com- puestas y embanderadas, con gran multitud de gente, inven- ciones de juegos honestos y musicas, artillaria que jugava raziamente, assi de las naos, galeras, como de la tierra. Al presente estamos todos seis aqui en Goa buenos, por la gracia de Nuestro Senor, y occupados en lo que la sancta obediência a parecido. En lo que toca a las nuevas de aca, mas defusamente, por otra via, lo sabra Vuestra Reverencia. Esto es, padre mio, en Jesu Christo, lo que se me ha offere- cido escrevir a Vuestra Reverencia, por comissão do nuestro Padre Francisco Roiz. Resta aguora que Vuestra Reverencia, 3 3°
Padre Dom Torres, Padre Luis Gonçalves, a los quales ruego tengan esta per suia, encomenden a Nuestro Senor estos seis indianos noveles, que su Magestad pues fue servido, por su misericórdia, traerlos a índia // en bien, les de su santíssima [521 v.] gracia pera que por su amor vivan y mueran en estas par- tes para su sntissymo servido y salud de las animas, Amen. Le qual tanbien pide a Vuestra Reverencia para el resto dei colégio, pues todos le hemos menester, y con tanto ago fin y no de rogar a Nuestro Senor tienga a Vuestras Reveren- cias de su bendita mano para salud y remedio de las animas. Amen. De Goa y colégio de São Paulo, los 23 de Noviembre de 1564. Por comissão de nuestro Padre Reitor. De vuestra Revrencia siervo indigno en el Senor Pero Fernandez Olym Mercado. 33 7
46 CARTA DO PADRE PÊRO PARRA Goa, 24 de Novembro de 1564 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 133 r.-133 r. Pax Christi. De Moçambique escrevi a Vossa Reverencia todo o su- cesso da nossa viagem atee ly. Agora brevemente darey conta de tudo. Partimos de Lisboa aos 19 de Março do anno de 1564. Setenta legoas de Lisboa, pouco mais ou menos, sairão a nos homens ladrões ingrezes; trazião dezoito velas como cara- vellas e outras embarcações maiores. Derão-nos trabalho, porque nos quiserão acometer; e como as naos hião todas desapercebidas, se pelejarão, segundo dizem, poderão-nos impidir a viagem deste ano. Tomarão huma nossa caravella [i?3 v.] que hia junto da nao capitanya // e com aquella se forão, que nunca mais os vimos, e foy grande magoa para todos não poder remedear nem favorecer aquella caravella. Ouvy dizer que levava, fora das mercadorias, mais de quarenta mil cruzados em dinheiro, ainda que mais lastimas tínhamos da gente que hia, que não do dinheyro. A vinte e cinquo de Abril passamos a linha, porque na costa da Guine não tevemos calmarias nem trovoadas, senão muyto poucas, e não molestas como costumão por ally ser. Na altura do Cabo de Boa Esperança, tevemos huma tormenta, com a qual se afastou a nossa nao S. Vicente das outras duas, capitanya 33 2
e Flor de la Mar. Durou esta tormenta vinte e quatro horas; foy algum tanto trabalhosa, ainda que não perigosa. Passa- mos o Cabo de Boa Esperança, segundo disserâo os officiaes da nao, vespora de S. João, de Junho, ainda que não o vimos, nem tomarão fundo, por não deytar o prumo a tempo, e por isso foy forçado chegarmos a buscar terra, pera certeza da viagem; e achamos, a cabo de quatro ou cinquo dias, terra de Natal. Quis o capitão que chegássemos muyto perto delia, porque então levávamos bonança; estaríamos delia, a meu ver, como huma legoa. Revolveo-se o tempo de tal maneira que cuidamos ser ally perdidos. Choravão os marinheyros, piloto e mestre da nao, que era lastima e punha grande temor de ver e ouvir aquillo. O vento hia esquaceando e crecendo, de maneira que toda a gente estava pasmada e affligida. A nos não nos alembrava aquele dia de comer. Parece que se comprio a hum dos nossos hum deseio que tinha de saber a Deos pia- mente roguar; não deseiava elle que nos víssemos em tra- balho pera comprir seu deseio, mas foy tamanha lamista (sic) de seu coração do trabalho em que estavos (sic) que disse que em sua vida se avia visto (1) em cousa donde mais afincadamente rogasse a Deos. Parece que se comprio nelle hum provérbio que custumão a dizer: se queres saber a Deos rogar, entra em o mar. Quis Nosso Senhor, por sua misericórdia, que ficasse o vento em aquele ser ultimo, que não nos faltava senão hum quarto, se esquaceara pera nos perder aquela pequena mise- ricórdia que em os olhos dos homens aparecia (2). Foi tão copioso (3) que em o resto do dia e mais a noyte seguinte (1) Falta aqui a negativa, pois o sentido deve ser: em sua vida não se avia visto, etc. (2) O sentido é algo obscuro, e adivinha-se vagamente. (3) O sujeito da oração deve ser o vento. 333
nos afastamos quarenta ou cinquoenta legoas. Estes são os trabalhos que em nossa viagem passamos. Todo o mais foi muita vez em bem (sic), de Lisboa ate Moçambique. Ouve muitos poucos doentes e morrerão três. Chegamos a Moçambique a dez dias de Julho, quatro ou cinquo dias antes que as outras duas naos capitania e Frol dt la Mar. Estivemos alli vinte e seis dias; confesamos no hesprital asaz gente, doente e sãos; servíamos também aos doentes; pregou alli o Padre Ramirez os dias de festa que alli estivemos, com muito contentamento de todos. Eu dezia a doctrina christãa e achegava os meninos por o povo, e parece-me se consolarão muitos os da terra. Vinha muita gente, grande e pequena, e em pouco tempo, se aproveita- rão muito os meninos; ficou alli a doctrina escrita, e os mestres da escola ya instruídos como avião de ensinar; laudetur, por tudo, Christus. Partimos aos cinco dias de Agosto de Moçambique, e como tem a gente experiência, naquele caminho adoece e morre muita gente, pedi eu huma certa esmola pera aquela nao, que certo vinha nella, ao que parece, toda a pobresa de Portugal. Adoecerão, nestes poucos dias, sesenta pessoas, pouco mais ou menos. Tínhamos feito nosso rol de todos os doentes o medico e barbeiro da nao e mais hum de nos. Hiamos cada dia, pola menhã cedo, a visitar os doentes; [134 r.] levamos (sic) o que era necessário pera que se // vissem as agoas dos doentes, e mais ataduras, para sangrar ou curar chagas. Fazia-se com os doentes tudo o que boamente se podia fazer, do que o fisico mandava; fazião-se no nosso camarote cristeis, emxaropes, tisanas e amendoadas; e pera as purgas davam-nos hum pequeno de Alexandrino, o qual ayudou muyto para sostentar a gente que não morressem. Fazíamos mais, cada dia, para jantar, duas panelas, muyto grandes, huma de galinhas e outra de lentilhas, e pollo rol 3 3 4
viamos o que avião de comer; o qual se dava com ordem, de tal maneira que os doentes comião muyto bem e ficava, as vezes, pera os outros pobres sãos, que morrião de fome, porque neste pouco caminho, em nossa nao, faltou pão; com a matolotajem nossa soprio a tantos Nosso Senhor, que tínhamos pão pera os doentes e pera os sãos, e dia avia que davamos dous e tres sacos de pão a doentes e sãos, e sobe- jou-nos pipa e meya de biscouto. Também davamos aos doentes, polias manhãas cedo, e as noutes, pão com huma pequena de marmelada ou paças, que pera tudo isto não faltavão esmolas em nossa pobre nao, porque, como vião a boa obra que se fazia, huns offerecião suas capueiras, outros mandavão pão branco, outros paças, de maneira que chamavão a nosso camarote Casa ou Caxa da Misericórdia. Para os pobres doentes, que estavão mays mal tratados, ordenamos como se fizessem quatres de aduelas de pipas, e se puzesem em bom lugar, para que não acabas- sem a vida no convez. Com estas diligencias, e com a graça de Deos, que he sobre tudo, não morrerão senão tres homens soldados, que hum delles entrou doente em Lisboa, quando se embarcou. Seja por tudo glorificado Nosso Senhor. Todos os Domingos e festas se fazião praticas em nossa nao, com as quaes se consolavão em o Senhor. Estas fez o irmão Gomez Vaz, porque, a meu juizo, o fazia milhor que nos, e certamente contentava a todos muyto. Também, cada dia, se dizião as ladainhas; quando tínhamos tempo contrairo ou calmarias faziamos procissões, confessávamos, consoláva- mos e ajudavamos a bem morrer aos doentes e também se conffessavão muytos sãos. Por todo seja glorificado Nosso Senhor. Dizia-se também a doutrina christãa, cada dia, com a qual se fez muyto fruito, porque nella se fazião algumas digressões sobre//as preguntas, donde se tiravão alguns [131 v.] abusos da nao, como são jogos, ler livros de cavalerias, livros 335
deshonestos. Acerca destes livros, foy tal o proveyto que botamos em o mar muytos; huns vedados, outros sem titulo de quem os fez, outros de cavelarias. Parece certamente que todos vinhão a nosso camarote, a registrar seus livros e horas de rezar, e logo dezião: «padre, se não são bons, botem-se com as outras no mar». Louvado seja Nosso Senhor, por tudo. Trazia nossa nao, de Lisboa ate Moçambique, perto de seiscentas pessoas, e de Moçambique pera ca, oitocentas, se- gundo me disse o capitão da mesma nao. Digo isto porque entre tanta gente sobre huma tavoa avia ocasião de aver peleijas, como as ouve muytas delias de ma maneira. Pro- curamos viribus et posse de os pacificar. Hum homem, tendo agravado a outro honrrado, com palavras tão feas e injuriosas que, segundo o alcorão do mundo, se não fosse com pancadas ou morte, não se podia esta pessoas satisfazer, hum dos nossos de tal maneira fallou estas duas pessoas que as fez tão amigas como erão antes; e foy desta maneira, que o que offendeo com palavras pedio perdão de joelhos ao homem que avia deshonrrado, com taes palavras, que ficou contente o danificado. Hum homem honrrado recebeo huma grande cutilada pollo rosto, muy fea, o qual, depois de são, andava com seus matalotes para matar ao que fez aquelle malefício, e pera isto buscavão saios de malha; e a morte deste homem muitos a temião, senão em a nao, ao menos, en terra. Falou hum dos nossos com o ferido, muitas vezes, e acabou com elle que perdoasse, e pera confirmação de seu perdão, lhe prometeo, ao padre, que se confessaria en terra; e assi o fez, que se confessou ao mesmo padre e recebeo o Santo Sacra- mento, do que as peçoas que entenderão isto se maravilha- rão e consolarão en grande maneira. Outro homem, de pouca calidade, deu a outro soldado honrado huma ma facada, da qual, por ser em a ilharga, 33 6
cuidavão que morresse. Procuramos nos de visitar este ferido e offerecer-lhe nosso serviço, ainda que não nos avia mester porque tinha de comer e quem o service. Podia este homem matar ou fazer matar ao que lhe deu, facilmente; todavia, depois de são, estando ja em Moçambique, donde soem vin- gar-se as injurias, lhe falou hum dos nossos, que, por amor de Deos, perdoasse aquella injuria, o qual o fez com mui boa vontade, de tal maneira que prometeo ao padre de nunca mais daquela cousa se alembrar, como o fez. Gloria seja ao Senhor. // [135 r.] Hum homem honrrado, riquo, esta en grande maneira agravado de outro homem que ho avia espancado, sem re- zão, e como o agravado, com esta afronta, não se podia resignar, por ser o outro de muita calidade, estava tão pen- sativo e com tantas illusões do demonio que cuidavão perdiria o sizo, tanto que disse a hum homem, que lhe vinha o pen- samente de se botar ao mar. Estas e outras illusões tinha, por não querer comer, e como huma vez e muitas tratasse hum dos nossos com elle, de sua saúde esperitual, quis Nosso Senhor que esta peçoa tornou outra vez en sim (sic), e dahi adiante saya pollo convés, e se achou depois bem, graças ao Senhor. En nossa nao vinha hum homem casado, separado, anos avia, de sua molher. Par tio de Portugal com intento de fazer vida com ella e tirarsse de trabalhos espirituaes, que elle e mais ella podião ter; em ho caminho desfalecia com as ten- tações de nosso adversário, tanto que estava para tornar-se ao reyno, como pudera fazello, de duas partes. Acaso, falando hum dos nossos com elle, sentio que tinha em sua alma grande desconsolação, a qual procurou o padre inquirir, por cubertas palavras, com desejo de o tirar daquella afflição. B tal foi a pratica e outras, que depois tiverão, que ficou muito consolado e detreminado proseguir seu caminho, e assi en este negocio, como em o demais, tocante a sua alma, fazer 3 37 DOC. PADROADO, IX — 22
o que o padre lhe dissese, como o fez, porque, dali por diante, se confessou a meudo, e qua fez tudo o que convinha a serviço de Nosso Senhor e salvação de sua alma, gloria a suma bondade. Isto he o que de nossa viagem se me offereceo escrever a Vossa Reverencia; outras particularidades e meudesas não digo, por evitar prolixidade, e por me parecer pouco provei- tosas; não sei se isto he pergriça (sic) ou natureza minha que, como sou algum tanto colérico, presto desejo acabar as cousas que começo. En todo o caminho tivemos todos muita saúde; parece que Nosso Senhor no-la dava pera que nos empregacemos todos em ajudar a tantos doentes. O mesmo dia que surgimos na barra de Goa, adoeceo o Irmão charissimo Gomez Vas, e qua esteve muito mal tratado; aos demais ha palpado a terra alguma cousa, ainda que pouca; so eu fico, que ainda não estive debaixo do enfermeiro, gloria a Deos. Das cousas de qua, parece-me que não tenho que escre- ver, pois polios quadrimestres ou annuestes se vera todo o descurso de qua, que tudo vay tãobem, qual o Espirito con- serve e augmente, pera seu mor serviço e gloria. Amen. Finalmente transivimos per ignem et aquam, etc, e trouxe-nos Nosso Senhor, por sua bondade, ao refrigério do nosso collegio de Goa, aos quatros dias de Setembro, onde fomos recebidos com aquella caridade e amor que sabe Vossa Reverencia, que costumão os nossos chatíssimos de receber. Certamente foy tanto contentamento de minha alma, e assi creo seria o de os outros, que de la vínhamos, que não ho saberia aqui dizer. Parece-me que não tenho mais que desejar senão muito amor de Deos, pera me todo entregar en seu santo serviço. Pera este effeito peço a Vossa Reverencia, por amor de Nosso Senhor, me encomende a Deos em seus sanctos sacrifícios e orações, e mais em as dos 3 38
charissimos padres e irmãos, a quem, por amor de Deos, dara nossas encomendas intimas no Senhor. No mais nesta (sic), de rogar a Nosso Senhor augmente e conserve por largos dias a Vossa Reverencia pera seu mui santo serviço, como eu desejo. De Goa, a vinte quatro dias do mes de Novembro de 1564. De Vossa Reverencia Pero Parra. 3 39
47 SOBRE NINGUÉM IMPEDIR A CONVERSÃO Goa, 27 de Novembro de 1564 Documento existente no AHEI: Livro do Pai dos Christãos, fl. 84, e transcrito por Cunha Rivara no APO, V, n." 524, págs. 578- -579. Dom Sebastião, per graça de Deos rey de Portugal e dos Algarves, daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guine, e da conquista, navegação, comercio de Ethiopia, Arabia, Persia, e da India etc. A quantos esta minha carta virem faço saber que por certas causas e justos respeitos que me a isso movem, e pelo assy sentir por muito serviço de Deos e meu, hey por bem e me praz que em todas as minhas cidades, fortalezas, e terras destas partes da índia nenhum infiel de qualquer condição e estado que seja persuada nem trate com algum gentio a que se faça mouro ou judeu, sob pena de qualquer que o contrario fizer perder por elle todo sua fazenda, e ficar cativo pera todo sempre para as minhas gales; e a mesma pena avera o gentio que se tornar mouro ou judeu. E para que a todos seja notorio, não possão allegar igno- rância, mando que esta seja apregoada nas fortalezas das ditas partes. Portanto o notefico assy a todalas minhas jus- tiças, officiaes, e pessoas a que esta pertencer, e lhes mando que em todo o cumprão, e fação comprir sem duvida alguma. Dada em a minha cidade de Goa sob com meu sello a 27 de Novembro. EIrey o mandou por Dom Antão de 34°
Noronha, do seu conselho, e V. Rey da índia. Francisco de Lisboa a fez anno do nascimento de nosso senhor Jesu Christo de 1564. O Secretario a fiz escrever e sobscrevi.— Viso Rey. Secretario Manoel Leitão 34 1
48 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE BELCHIOR DIAS Goa, 2 de Dezembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n." 4534- Fls. 484r.-484v. Sendo procurador, por me não estrovar todo no tempo- ral, me derão huma freguesia a que hia com hum compa- nheiro todos hos Domingos a dezer missa e insinar a dou- trina, e tãobem a fazer huma pratica aos christãos, ainda que emperfeitamente, a qual tem a vocação do bemaventu- rado San Bras. A aldea chama-se o Passo-Seco; esta nella huma fortaleza, com hum capitão de Sua Alteza, porque an- tre ella e a terra dos mouros não se mete mais que hum ryo. Avera nesta aldea sexcentos christãos pouco mais ou menos. O modo que tínhamos de os insinar era que que (sic) indo laa ao Domingo, polia menhãa, se ajuntavão os christãos, e lhes fazíamos a doutrina huma vez, antes da missa, a qual acabada, entravamos na missa, vindo todos a oferta, e fazia- -lhe sua pratica sobre a mesma doutrina e, acabada a missa, lhe tornava a fazer a doutrina, dando a esmola a alguns do dinheiro que se dava a oferta, com a qual os pobres se vivificavão e os ricos se edificavão. Huma das consolaçõis que tinha nesta minha ida, cha- rissimo em Christo padre, a qual certo era pera minha con- fusão, era que vindo ainda longe da aldea, ouvia os meni- nos, estando ainda em suas cassas, a louvar a Deos, cantando a doutrina e, chegandonos la, saião todos a receber, can- tando a mesma doutrina ate nos meterem na igreja, a qual 34 2
fazião todos os dias, as oras das Ave-Marias, os de cada vizi- nhança tendo pera isso seus meirinhos que tem cuidado de os sindicar os que faltão. Tomão as vezes estes meninos por desenfadamento sobi- rem-se em as arvores e dai, repartindo-se dous coros, canta- rem a doutrina, respondendo huns aos outros, o qual certo he muyto pera gente tão novamente convertida, a qual tanto tempo andou metida em cegueira da gentilidade, principal- mente não sendo visitada mais que aos Domingos. Neste tempo que la fuy, que foy por todo de hum anno, obrou Deos Nosso Senhor muyto em respeito da minha nigligentia e pouco fervor, ainda que Elie, por outros instromentos mais sãos, soi obrar outras cousas de maior movimento, das quais lhe sabem seus verdadeiros servos dão louvores e graças, a saber: que indo nos la a ensinar a doutrina aos christãos, juntamente se acharão muytos gentios a receber a agoa do santo bauptismo, entre os quais forão os principais da aldea, os quais bauptizamos com muyta festa e solenidade, levan- do-lhe de ca da cidade instromentos e elles, por serem onra- dos e conhecidos, levarão de ca da cidade muytos padrinhos honrados e fidalgos, e como estes principais forão converti- dos, prouve a Nosso Senhor que toda a mais gente popular, seguindo seu caminho, se achegou ao bauptismo, e assi bauptizando ora vinte ora quarenta, segundo o numero dos convertidos, aprouve a Nosso Senhor que se acabou toda a aldea de fazer christãa, e todos os gentios que agora vem de fora // a ella, parece que vem ja com esta condição de I484 *•] se fazerem christãos. Este anno lhe fomos benzer os ramos, fazendo huma procição, em a qual hião todos com suas palmas nas mãos, que he fruyta de que aldea he bem abastada. A tarde se ajuntão os meninos a doutrina, os quais serão pouco mais ou menos cento e trinta, e he pera louvar a Deos ver-lhes dezer a doutrina, porque paresse que toda a sua vida forão 343
criados nisso, a qual elles ensinão em suas casas a seu pays e mãys. E algumas vezes me acontecia por alguns meninos, que escassamente sabião falar, porem prémios a quem sabia mais da doutrina, e assi deputando hum contra os outros, o que vencia levava o premio; o vencido ficava mortificado, rindo-se todos delle. Aguora avera dous meses que me derão o officio de perfeito da igreja, e entre muytas cousas que me acontecerão de serviço de Deos, direi somente huma, a saber: que indo huma vez a fazer hum bauptismo duns poucos christãos, que huma molher honrada e das principais desta terra tra- zia, não tendo lingoa pera lhes falar, e dezer algumas cousas de Deos, ella com o grande zelo que tem de Deos, e de ver sua santa fe exalçada, se offereceo a o fazer, por saber ousa- damente a lingoa, e assi foy interprete, declarando-lhe com muito fervor o que eu inteiramente lhe dezia, do qual muyto se edificarão os circunstantes, e eu me confundi de sua humil- dade e zelo. Folgara, charissimo em Christo Padre, de o ver agora ca, porque vira o grande fruyto que este santo jubileu fez, porque em verdade que algumas vezes me aconteceo hir fazer hum bauptismo e antes que me pudesse vir, pera a sancrestia a fazer 4 E. S. (1), porque emmentes que eu estava fazendo hum, se ajuntavão outros, e todos estes de pessoas que os trazião de suas casas vestidos, vindo elles com suas molheres a serem padrinhos. Não me quero deter mais, charissimo em christo padre, porque me parece que o vou ja enfadando, porquanto, so- mente lhe peço por amor de Deos Nosso Senhor que tenha lembrança deste seu servo, em seus santos sacrifícios e ora- çõis, pedindo que me de perseverança nesta sua santa Com- (1) Não sabemos como ler este passo: «4 E. S.». 344
panhia, pera que nella passe estes poucos de dias que me ficão em seu serviço. Amen. Deste collegio de Goa, de S. Paulo, oje, 2 de Dezembro de 1564 annos. Servo indigno de Vossa Reverencia Belchior Diaz 34 5
49 TRECHO DE UMA CARTA DO IRMÃO ESTÊVÃO DINIS Goa, 7 de Dezembro de 1564 Documento existente na BACIL: Canas do Japão, III. Fls. 129 v.-130r. Os dias passados veio aqui ter hum gentio, o qual, tendo hum filho muito doente, e não lhe achando remedio, o [130 r.] offereceo a Nossa Senhora se lhe desse saúde. O qual // como se achasse bem, foy trasido polio pay, e entregou-o neste collegio. Outra gentia, muyto velha, estando a ora da morte, mandou chamar hum padre, e se fez bautizar. Per- guntou-lhe ho padre que quem lhe dissera que se bautisasse; ella respondeo que sempre, estando sam e emferma, se en- comendara a Virgem Maria e a seu Filho, e que esses lhe dizião, agora, no coração, que se bautisasse pera salvar sua alma, e isto com tanto afeito que o não pudera dissimular nem dilatar. Destas vemos, cada dia, muytas, em as quaes manifestamente se mostra como Deos salva os predesti- nados. Não nos empede muyot, pera dar estas saydas, aos Do- mingos, que assima disse (que qua chamamos ir caçar) andar também no curso, como elle; o qual, este anno, começamos e andamos agora nas Perihermentas. E assi vamos fazendo dous cursos, e de ambos temos concrusões geraes, porque temos bautismos solenes, com muytos instrumentos músicos e muyta festa, os quaes causão mais alegria espiritual que as da Lógica. De Goa, 7 de Dezembro de 1564. Estevão Diniz. 3 4 6
50 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE DIONÍSIO Goa, 9 de Dezembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534- Fls. 485 r. Sabreis, charissimos, que los que aca estamos aveis de imaginar que estan en hun nuevo mundo tan diferente en condiciones, tractos, etc. dello de alia, que es de espantar aparejado para servir a Nuestro Senor, por aver asaz de tra- baios y muchas comsolaciones pera lo que dellos se quierem aprovechar. Ay gentes principalmente en esta cibdad ex omni genere, que aqui concurren todos con sus diversos cul- tos, con que sirven al demonio; con todos tienen los chris- tianos competência, y particularmente los padres de la Com- pania, a quien ellos no pueden ver, tanto que algunas vezes se hazen algunos christianos, diziendo: «si los padres de San Pablo se uvieran de acabar, esperamos que murera, mas sen- pre ade aver padres de S. Pablo que nos anden contradi- zendo; aguamonos christianos». Y assi se hizieron quasi los de hun aldea christianos. Mandaisme dizir que es grande la suavidad que por estas partes se lleva en entender en las obras de la conversion. Es verdad cierto que Nuestro Senor, como benigníssimo padre, no nos desempara de sus favores, maxime quando nos disponemos a recebillas, mas creame que si pera alguna cosa es menester particular paciência, es pera conversar y tractar con estos gentiles, y para averse de fazer fruito en ellos ade ser a puro trabayo, y con mucha paciência, porque 347
a vez ei (?) despues de mucho camino no hacia ninguno sino mucho cansansio, (sic) y a vezes mui murmurados y reprehendidos de los que vos avian de loar, y todo se vos torna en una sequedad, que mas quisierdes estar en el cubí- culo, que ir fora, y por el contrario otras vezes parece que Nuestro Senor nos da tantos favores, moviendo a esta gente a sua salvacion, que con esto quedamos animados para algu- nas sequedades de muchos dias. A Dios sean dadas las gra- das por todo, pues el asi lo ordena a tanto provecho nuestro y honrra suia. Diguo esto, charissimo, para que vos animeis a buscar médios se Nuestro Senor os da, deseo de venir a estas partes, de ser amigo de la cruz de Christo aqui ay bien que llevar, no digo aqui que estar aqui es estar en los colégios de Por- tugal, mas en estas otras remotas, y procurad de estudiar de una vez bien, por que no vos sea necessário cada dia despues estudiar de nuevo, mas vos quede tienpo para las obras y ministérios de la Compania. Dios Nuestro Senhor vos haga su operário y companero verdadero de Iesu em los ministé- rios que su benditissimo hijo Jesu Christo vino a exercitar, por nuestra salud en el mundo, que asaz de merced nos hara el en comunicaros esta gracia ut portes nomen ejus coram gentibus et regibus (1). El charissimo Guomez Vaz me dio particulares nuevas de vos y de los demas hermanos que en San Roque estavan; dixome que estudiavais lógica, con lo qual me alegre mu- cho, por desear vos que seais gran servo de Nuestro Senor, y pareceme que me dixo que fizesteis ja los votos. Vide ut quae processerunt de labiis tuis non facias irrita. Azed participante destas a los hermanos charissimos que en San Roque conosci, que ai estuvieron, maxime al cha- (1) Actos dos Apóstolos, 9-15. 348
rissimo Carvalho, y Duarte de Sande, a el Padre Paulo Lei- tão dareis muchas encomiendas; no se se le escrevire, mas dizedle que aca supe de sus indisposisiones y trabajos, y que se venga a la India y sanara, que en espacio de dos anos no se se nos morio aqui mas que hun padre viejo.
51 OBRAS DA SÉ NOVA Goa, 10 de Dezembro de 1564 Documento existente no AH El: Livro das Monções, n.° 93, fl. 350. Havia tombem outra cópia no hoje desaparecido Livro do Pai dos Cristãos, fl. 50. Copiado por Cunha Rivara no seu APO, V, n.° 526, págs. 580-581. [350] Dom Gaspar por merce De Deos e da Santa Igreja de Roma, arcebispo de Goa, primaz das índias, e partes orien- taes, do conselho de el-rey meu senhor etc. Aos que a presente virem saúde em Nosso Senhor Jesu Christo. Fazemos saber que por quanto nós achamos por expe- riência que no descobrimento das fazendas dos defuntos e alevantados, e outras que por virtude de huma provisão, que o Conde V. Rey, que Deos tem, em nome da Sua Alteza passou, pertencião a sé desta cidade, se fazião muitos conluios e avexação aos gentios pobres, e principalmente pelo favor da fée, fizemos ora disso lembrança ao senhor V. Rey, ao que elle avendo respeito, passou sobre isso a provisão que se segue: — O Viso Rey da índia &c. Faço saber a quantos este meu alvará virem que o conde viso-rey, que Deos tem, em nome de el-rey meu senhor passou huma patente que todas as fazendas dos gentios, que por fallecimento, allevanta- mento, ou por qualquer outra via pertencessem a Sua Alteza, fossem applicadas pera as obras da se nova desta cidade de Goa, e por quanto tenho sabido que se fazem muitos con- luios no descobrimento das ditas fazendas, e muitas avexa- Ções aos gentios pobres, e pelo favor da fé e christandade, 3 5°
hey por bem e me praz que sem embargo da dita provisão, que todo o gentio que tiver a tal fazenda que a dita sé pertença, fazendo-se christão, lhe fique livremente com seus encargos, valendo a dita fazenda ate contia de duzentos pardaos de tangas, e o que mais passar delles ficará pera a dita sé conforme a dita provisão. Por tanto o notefico assy ao vedor da fazenda, ouvidor geral, e a todalas justiças, e officiaes a que este pertencer, e lhes mando que em todo o cumprão e guardem como se nelle contem sem duvida alguma, o qual mando que valha, tenha força e vigor como se fosse carta em nome de Sua Alteza, por elle assignada, e passada pela chancelaria, e sel- lada do seu sello sem embargo da Ordenação do 2o livro, titullo vinte, que dispõe e // manda em ella que as cousas [35o v.] cujo effeito ouver de durar mais de hum anno passem por cartas, e passando por alvará não valhão, e sem embargo outrosy deste não passar pela chancelaria. Francisco de Lisboa o fez em Goa a 10 de Dezembro de 1564. O Secre- tario o fiz escrever. — Viso Rey {1). — Álvara para V. S. ver. Registado Manoel Leitão. — Pelo que, e por isto ser serviço de Deos e de Sua Alteza, e favor da christandade, mandamos a todas as pessoas eccle- siasticas, e ás justiças seculares, e officiaes, e pessoas a que pertencer da parte da Santa Madre Igreja, e da nossa reque- remos que a dita provisão guardem, e fação inteiramente guardar, e dem á devida execução com toda a diligencia e favor necessário. Dada em Goa sob nosso sinal e sello aos 14 dias do mez de Dezembro. Antonio Gomes a fez escrever, de 564. — O Arcebispo. (1) Termina aqui a cópia do Livro das Monções. 3 51
52 BENS APLICÁVEIS À FÁBRICA DA SÉ DE GOA Goa, 10 de Dezembro de 1564 Documento existente no AHEl: Provisões e Alvarás a favor da Christandade. F1LMUPO: Provisões e alvarás a favor da Christandade, 19, 2-4. [2] Dom Gaspar, por merce de Deos e da Santa Igreja de Roma, arcebispo de Goa, primas das índias e partes // orien- tais, do Concelho de El-Rey, meu senhor etc. Aos que a pre- zente virem, saúde em Nosso Senhor Jesu Christo. Fazemos saber que porquanto nos achamos por experiência que no descobrimento das fazendas de defunctos e alevantados, e [3] outros que, por vertude de // huma provizão que o Conde Vice-Rey que Deos tem por ordem (1) de Sua Alteza passou, pertencião aa see desta cidade, se fazião muitos comluios e avexação aos gentios pobres, e principalmente pello favor da fee, fizemos hora disso lembrança ao senhor vice-rey, ao que lhe (sic) avendo respeito, passou sobre isso a provizão que se segue: O Vice-rey da India, no (sic) faço saber a quantos este meu alvará virem que o Conde Vice-Rey, que Deos tem, em nome de el rey meu senhor, passou huma patente que todas as fazendas dos gentios, que por fallecimento, alevantamento ou por qualquer outra vira (sic) pertencesem a S. A., fossem applicados pera as obras da see nova desta cidade de Goa, e porquanto tenho sabido que se fazem muitos comluios no (1) Assim parece exigir o sentido, mas o escriba arrumou a dificul- dade com uma abreviatura dúbia. 3 52
descobrimento das ditas fazendas, e muitas avexações aos gentios pobres, e pello favor da fee, e christandade, hey por bem e me praz que, sem embargo da dita provizão, que todo o gentio que tiver a tal fazenda, que a dita see pertença, fazendo-se christão, lhe fique livremente que sen encargos (sic) valemdo a dita fazenda atee comtia dos dozemtos pardaos de tangas, e o que mais passar delles ficara pera a dita see, conforme a dita provizão. Portanto o notefico assy ao vedor da fazenda, ouvydor geral, e a todas las justiças, e offiçiaes, a quem este pertencer e lhes mando que em todo o cumprão, e guardem, como se nelle comtem, sem duvida alguma, o qual mando que valha, tenha força e vigor, como se fosse carta em nome de S. A., por elle assinada, e passada pella Chancelaria, e sellada de seu sello, sem embargo da ordenação do segundo livro, titulo vinte, que dis que em a ella (sic), que as cousas, cujo effeito ouver de durar mais //de hum anno, passem por cartas e, passando por alvarás, não valhão, e sem embargo outrossy deste não passar pella Chancelaria. Francisco de Lisboa o fiz em Goa, a dez de Dezembro, de mil quinhentos sesenta e quatro. O secretario o fiz escrever. Vice-Rey. Álvara para V. S. ver. Registado. Manuel Leitão. Pello que e, por isto, ser serviço de Deos e de S. A., e favor da christandade, man- damos a todas as pessoas eclesiásticas, e as justiças seculares, e oficiais e pessoas, a quem pertencer, da parte da Santa Ma- dre Igreja, e da nossa requeremos que a dita provizão guar- dem, e fação inteiramente guardar, e dem a devida execução, com toda a diligencia e favor necessário. Dada em Goa, sob nosso sinal e sello, aos quatorze dias do mes de Dezembro, Antonio Gomes a fiz escrever, de quinhentos sesenta e qua- tro. O Arcebispo. 353 DOC. PADROADO, IX — 23
53 CARTA GERAL, ESCRITA PELO IRMÃO JORGE CALDEIRA Goa, 11 de Dezembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4334. Fls. 478 r.-483 v. Pax Christi, etc. O cuidado e diligentia que dessas partes se tem, de nos consolar, dando particular conta do fruyto que o Senhor nas almas obra, (alem da charidade e sancta obedientia) nos obriga a fazer o mesmo, para que huns e outros glorifique- mos ao Senhor em todas suas obras, e demos louvores pellas merces tão continuas que faz a esta sua minima Companhia. Começando, pois, polias cousas de casa, os que ao pre- sente neste collegio residem são oytenta e oyto, a saber: vinte quatro sacerdotes, e os mais irmãos, entrando neste numero os que estão em Rachol, Chorão, e Divar, que são tres igrejas de Nossa Senhora, aonde residem nossos padres pera ajudarem aos (sic) christandade, convém a saber: Ra- chol, que esta na terra firme em humas terras de Sua Alteza, onde esta hum padre e hum irmão. E da mesma maneira em Divar, que he huma ilha pegada com esta. Chorão hee huma casa nossa, em que abitão dous padres e dous irmãos e todos estes padres e irmãos estão a obedientia deste collegio. Os padres e irmãos, que de la vierão este anno, chegarão todos sãos e bem despostos, louvores ao Senhor, a esta barra, aos tres de Setembro, excepto o irmão Gomes Vaz, que, o 3 54
dia que chegou a barra, adoeceo de febres, de que foy san- grado algumas vezes. Aguora ja esta bom, Deos seia louvado. Este anno tivemos poucos enfermos, e os que ouve cedo convalecerão, pola bondade de Nosso Senhor. Somente o Padre Bispo se achou muy atribulado de suas pontadas e febre, que com ellas lhe acudia, da qual o sangrarão algu- mas vezes. Quis o Senhor se achou em poucos dias bem, ainda que a sua asmas o tem jaa muy to posto (?). No Cabo, hum irmão esteve fere in extremis de humas febres grandes e diuturnas. Aprouve ao Senhor dar-lhe saúde, o qual também se sérvio de levar pera si o Padre João da Beyra, pera lhe dar o premio dos muytos trabalhos, que nestas partes por seu amor pasou, cujo transito nos deixou muyto edificados, polia grande humildade que nelle mostrou e deseios de ver a seu Criador. Faleceo de camaras, juntamente com febre, alguns dias depois de Pascoa. Os mais, louvores ao Senhor, tem mediocre desposição corporal. No espiritual se procede como pede o Ystituto da Com- panhia e com tanta edifficação que he muyto pera louvar ao Author de todo o bem. Tomão e fazem com muyta ale- gria as penitencias, disciplinas e jejuns, e mostrão grande facilidade nas cousas da obediência e observação em a qual, alem da custumada, alguns empregão algum tempo segundo polia obediência lhe he ordenado, do qual se tem muito cuidado no collegio, e sobretudo se enxerga em os irmãos aquele amor e benenidade que Christo Nosso Senhor pede aja emtre os seus//. [478 Neste Inverno, por ser tempo mais conveniente pera este effeyto, quasi todos tomarão alguns irmãos de cassa os exercidos, en os quais se enxerga bem a devoção e proveito que delles tirão. Nosso Senhor os conserve e aumente. Oito irmãos, que acabarão os annos da provação, fizerão seus votos, precedendo primeiro seus dias de recolhimento, si- lentio, pedirem polia cidade. Receberão-se este anno sete 355
irmãos, todos de boas partes; dois delles erão estudantes da primeira classe e dos milhores engenhos. Alguns outros pe- dem ser ametidos (sic), mas, por justos respeito, se diffirem seus pios deseios. Aguora lhes darei conta do que pollo dis- curso do anno aconteceo. Oyto dias antes do Nacimento de Nosso Senhor, se publicou em nossa igreja, e tãobem polias freguesias, onde os nossos vão pregar, huma indulgência plenaria consedida a Companhia, que avia ja annos que qua estava. Quis o padre provintial se publicasse neste tempo, para que se aparelhassem pera festa tam solene. Em todos estes dias ouve grande concursso de gente, de dia e de noite, tanto que nem pera a refeição corporal tinhão os padres tempo. A igreja se ornou muyto bem pera o dia da festa, e a noite toda foy festejada com muytos psalmos, motetes e outros cantos de alegria. Cheguarião os que este dia comungarão aqui a oytocentas e noventa pessoas. Em dia de Jesus se renovarão os votos com muyto fer- vor e devação, precedendo, primeiro, huma pratica, que o padre provintial fe2 acerca da guarda deles. E a vespora, a noite, huma disciplina geral, a qual tomarão, a saber: os collegiaes com o collegio e os irmãos noviços na sua capella de Santo Tome que tem na noviciaria. Por este dia, o Padre Antonio Bello, hum dos quatro que polias outavas do Natal se ordenarão, de (sic) missa nova; achousse a ella o conde visso-rey; os outros a disserão successive. Hindosse o senhor arsibispo a visitar suas ovelhas por essas fortalezas, pedio ao padre bispo que, por charidade, quisssese tomar o trabalho de crismar os que ainda não avião recebido este sacramento. Aceytou o padre bispo esta obra de serviço de Deos, e mandava avisar alguns dias antes ao cura da freguesia, onde avia de ir, que dissese aos fre- guesses se aparelhassem pera o domingo siguinte receber o sacramento da Crisma. E, vindo ao domingo, se ia polia 3 56
menhãa com alguns irmãos e sacerdotes, e com hum padre canarim, que se criou neste collegio, o qual pregava na lin- guoa aos christãos aserqua do sacramento que avião de rece- ber. Estava laa todo o dia, e hera tanta a gente que acudia, que algumas vezes se não podia satisfazer a todos. No tempo que se ouve de partir a armada para o Estreito de Mequa, que foy quasi no fim de Janeiro, ouve nesta nossa igreja grande numero de soldados que vinhão ao sacramento da penitencia. E he muyto pêra louvar a Nosso Senhor ver o cuidado que tem de se achegarem a Deos em seus tempos estes, que homem cuyda menos o poderão fazer. Os que na Coresma passada ordinariamente pregavão são, aos domingos na nossa igreja, o padre provincial e o padre Francisco Roiz, alternatim; na see tãobem aos domin- gos, alternatim, o padre Martim da Silva com hum padre dominico; na freguesia do Rosairo o padre Pero de Arbo- leda; na see as sestas-feiras, polia menhãa, o padre João de Mesquita; na Misericórdia, as quartas, o padre Francisco Roiz. E aqui, em a nossa igreja, pregou o padre provincial as sestas-feiras, a tarde, da Paixão, com tão grande concurso de gente // qual ainda se não vio. He grande a devoção que [479 r se tem a estas pregações, e os padres e irmãos se espantão aonde pode caber tanta gente. E he verdade que se vão mui- tos, por não terem aonde estar, porque muitos, maxime, molheres, ficão na igreja, depois de ouvir missa, por terem lugar seguro, porque quãodo vem, a huma hora depois do meo dia, a capela, crastas e igreja esta ja tudo tão cheo, que não ha quem possa romper. E certo que não padecem pequeno trabalho, porque en- tão são grandes as calmas, mas o deseio de ouvir lho faz leve e, por aliviar este trabalho a gente, antes de se começar a pregação, se custuma a dezer humas Completas, as quais se dizem com muita solenidade. Acabadas as Completas, e pregação mostrão hum crucifixo ao povo, o qual vay em
procissão atee a Misericórdia, com tãota devoção que he cousa pêra dar graças a Deos Nosso Senhor, e sintesse desta obra muy grande fruito das almas. Este anno, assi como creceo o numero da gente, assi tãobem o dos discipinantes que nesta procisão custumão hir., se multiplicou muyto mais. Não hera este fervor da disiplina somente nos de fora, mas tãobem nos de casa, onde os irmão juntos na capella de São Tome todas as sestas-feiras, afora as extraordinárias que polio anno se tomão, as quais são muitas. Hião mais neste tempo alguns padres a confessar os presos do tronco e outros três ou quatro. Os da sala, que hee huma casa aonde estão os escravos de el-rey e alguns degradados, aonde tãobem vão aos domingos ensinar-lhes a doutrina, e, como sempre, hai laa muitos gentios pressos, fasse com elles fruito, porque alguns se convertem. Aí sestas-feiras, a trarde (sic), hia hum padre ao ospital dos incuráveis a fazer-lhe huma pratica e outro a confessallos, os quaes recebem muita consolação, com serem visitados dos nossos, e pedem-no com muyta instantia. Na nossa igreja, pregou o Padre Fernão da Silva, da Paixão; na see, o Padre João de Mesquita; no Rosairo o Padre Pero de Arboleda. Os officios da somana sancta se fizerão com muyta devoção. Concorreo a elles muyta gente. Quinta-íeira. da Cea disse missa o Padre Provincial e pregou o Padre Roiz. Comungou na nossa igreja muita mais gente do que acustuma comungar nas outras festas. Quanto ao fruito espiritual das confissões e dos sacra- mentos nesta Corresma se tirou, foi grande, o que bem se entendia polia muyta frequentação que nestes sacramentos cuve. A festa da gloriossa Resurexão de Christo Nosso Se- nhor foy muy selebrada, porque custumão nossos vezinhos gastar muyta sera, consertar as ruas, ornar suas portas e janel- las rica e frescamente, por onde ha-de passar a prossição. Outros tirão suas invençõis com que muito representão a 3 58
alegria que se deve ter em tal dia. O numero da gente que se achou na prossição foi mui grande. Levou o Padre Pro- vincial nella o Santíssimo Sacramento e, recolhendo-se, pre- gou o Padre Francisco Roiz. Polia festa do Pentecoste foy na nossa igreja grande frequência das confissõis, comungarão aqui dozentas e se- tenta pessoas, e certo que da muita materia pera louvar a Nosso Senhor ver quão frequentados nesta casa os sacra- mentos da cumunhão e penitencia, porque continuamente estão occupados os conficionairos ,e polia bondade de Deos, nunqua falta gente que se achegue a estes tão necessários sacramentos. Comungarão na nossa capella, humas somanas polias outras, cento e setenta pessoas, pouco mais ou menos. Dia dos gloriosos apostolos Sam Pedro e Sam Paulo reno- vamos os votos, precedendo primeiro a oração acustumada e huma pratica que fez o Padre Francisco Roiz, fundada sobre o tema ecce nos reliquimus omnia etc. Neste dia pre- gou o Padre Provincial en nossa casa e forão muytos os que comungarão //. A festa de Corpus Christi se celebrou com muita devação e solenidade; a gente foi muyta; achuo-se a elle o governa- dor na procisão; levou o Santíssimo Sacramento o Padre Provincial e disse a missa; pregou o Padre Francisco Roiz, comungarão em este dia muytos. Em a gloriosa Asumsão da Virgem Nossa Senhora foy cousa pera ver o numero grande da gente que acodio a esta nossa igreja a confissão, tanto que foi neessario cessarem as liçõis e estarem os padres todos nos confissionarios ate noite, sem comtudo isso poder-se confessar-se todos. Aos outros mosteiros concorreo muyta gente, e parece- -me que a mor parte da cidade se confessou por este felisi- simo dia. Somente os que comungarão neste collegio passarão de quatrocentos e setenta. Pregou en este dia na igreja de Nossa Senhora do Rosairo, que he orago da festa, 3 59
o padre Provincial e aqui o padre Francisco Roiz. Este selebre dia se solenniza muyto nesta cassa emtre os oragos particulares que nela haa, a saber, hum na escola dos meni- nos de leer e escrever, onde tem hum retabolo deste misté- rio; o segundo he dos irmãos noviços; o ultimo hee dos meninos orfãos que neste collegio se crião. De todos se pudera muyto dezer, acerca de quão bem cada hum solenizou sua festa, mas por não ser muito comprido direi somente alguma cousa da dos irmãos, a qual foi toda espritual. Primeiramente tiverão perenne oração, das duas oras, da vespora, atee polia menhãa, chamando os que acabavão a sua ora os que se seguião, por hum rol que pera ysso tinhão. A noite, depois de confessados, tomarão todos huma larga disiprina. A tarde do dia, depois da oração que custu- mão ter, se gastou em ler o felice transito da Virgem e os deseios grandes que tinha neste desterro de ver a seu Filho. A noyte, depois das sete, o Padre João Bravo, mestre dos noviços, se veo pera os irmãos e, assemtados diante da Vir- gem, contarão todos, cada hum, seu exemplo da puríssima Senhora, e o mesmo fizerão alguns padres e irmãos do collegio que ahi se achavão, porque por este dia esteve a sua portaria aberta. Desta maneira festejarão tão bemaventurada solenidade. Nesta festa de todos os sanctos ouve muitas con- fissõis neste collegio; comungarão dozen tas e setenta pes- soas; pregou o padre Pero Vaz a hum grande auditório. Neste Inverno ouve nesta cidade grande caristia de man- timentos, polio que a fome foy grande, e os pobres christãos perecião, sem aver quem lhes valesse. A todas estas misérias o Senhor misericordioso qui non sinet nos tentare supra id quo d possimus (1), ouve por bem dar remedio, porque, porpondo (sic) dous padres nossos esta necessidade polios (1) Primeira Epístola dos Coríntios, 10-13. 3 6 o
púlpitos, e mostrando aos que podião asocorrer-lhe, hum mãodou a este collegio sincoenta pardaos e outros, segundo o que podião. Finalmente chegarião as esmolas a duzentos pardaos, pouco mais ou menos, e daqui se despenderão con- forme a necessidade de cada hum, não somente com os pobres da cidade, mas também com os christãos das aldeas, onde vão nossos padres e irmãos. Outros homens como me diserão fizerão grandes esmolas, dando de comer a muitos pobres. Aqui em nossa casa se deu tãobem dous meses de comer, jantar e cea a alguns sesenta pobres, no tempo que ouve esta carestia. O Senhor Arcebispo usou de muita charidade com suas ovelhas todo o tempo que durou esta necessidade, porque mandou dar certa cantidade de arros, pera cada mes, pera pobres de cada aldea e os nossos padres e irmãos o repartião, segundo as necessidades particulares em as aldeas, em que tem cuidado dos christãos e, acabado o arros daquelle mes, pedião o do outro. Bendito seja Deos que tantas mise- ricórdias faz a suas criaturas. Em este anno se fez duas vezes o auto da Santa Ynqui- sissão nesta cidade. Em ambos // pregou o Padre Francisco [480 r.] Roiz com grande satisfação dos ouvintes que erão muitos. Em cada hum destes authos sayo hum condenado a morte, e a hum e a outro nossos padres acompanharão e, dormindo no tronco des o dia que lhes denunciarão suas sentenças, confessando e animando-os pera bem passar desta vida. Da mesma maneira hee peculiar nestas partes a Companhia confessar e acompanhar os que padecem polia justiça e ajudallos a bem morrer, como ha poucos dias aconteceo, que sairão deste collegio por humas vez tres padres, e por outra quatro pera acompanhar outros tãotos condenados. Indo o padre Pero Colaço, en Rachol onde reside, a visitar polias aldeas seus christãos, acompanhado de alguns outros, e visitando hum gentio bramene honrado que estava 36 /
propinco a morte, parcecendo-lhe que se fazia christão, lan- çou fora hum seu pregador de sua ley que o bramene tinha consigo pera o ajudar a morrer, pêra que lhe não fosse impidimento. Os gentios da aldea, vendo sair este, começa- rão a bradar que o padre queria fazer christão por força aquelle bramene, e sairão muitos com arcos e frechas. Final- mente era tanta a frechada que chovia sobre o padre e com- panheiros, que foi necessário acolheren-se com muita pressa a fortaleza. Depois, passando o meirinho dos christãos bem inocente do que passava polia aldea destes bramenes, o ma- tarão. Yst o feito, pera se livrarem, puser ão aquella noyte fogo a hum pagode velho, e logo mandarão muytos capítu- los a Goa em que se queixavão do padre, a saber: que com os christãos quisera fazer aquelle bramene christão por força, e que fazia saltos de noite, e que era incendario e, principalmente, que lhe quebrara hum manjariquão que elles adorarão, como a deos, e outras cousas deste genero. Mas como hee proprio de Deos manifestar a verdade e acudir por seus servos, por este dilito de matarem o meiri- nho e outros que na mesma terra se fizerão, o viso-rey man- dou la o ouvidor-geral, o qual tirou devassa, e achou que injustamente matarão o meirinho e quiserão matar o padre, (como elles mesmos dezião que, se lhe não fugira, o ouverão de matar), e ser falso quanto alevantarão ao padre, pello que, alem da pena que lhe era divida polio omicidio que cometerão, polia injuria que ao padre fizerão, lhe queimou logo todos os pagodes grandes, afora outros pequenos, que são entre elles como nossas irmidas. O capitão da fortaleza andava tão solicito na destruição destes pagodes que com a maça da espada lhe quebrava os focinhos e assi, depois de sabida a verdade, o demonio, que deu ho ardil, ficou escarnecido, e nos muym alegres, quando soubemos serem .queimadas as casas onde se tirava a honra ao Criador, e se dava ao demonio. 362
Aos dez de Agosto, assi por se vir jaa achegando o tempo das naos, como tãobem polia falta que os do hospital tinhão de quem lhes aministrasse os sacramentos, (porque estavão sem capelão), pareceo ao Padre Provincial serviço de Nosso Senhor, a ynstancia do provedor e mordomos, hir pera laa o Padre Dionísio e o Irmão Jacome de Braga. Chegadas as naos, logo ao outro dia forão mais dous sacerdotes e sinquo irmãos, os tres collegiais e os dous da casa da provação. Alguns delles forão a barra em huma fusta busquar doentes, levando-lhes muyto refresco, trazendo-os ao ospital, os lava- rão como sempre fazem. O numero dos doentes chegou a dozentos. Desta obra se sérvio muyto Nosso Senhor. Antes das naos virem, o Padre tinha conffessados os officiais do espital e suas molheres, e tãobem os emfermos que nelle estavão. Vierão neste tempo // alguns homens muyto firidos e C480 v0 emjuriados de outros, a se curarem, com os quais parece usou Deos daquelle meyo que o propheta pede exercite com aquelles que o não busquão: imple fácies eorum ignominia, etc (2). Estes avia muyto tempo que andavão muy esqueci- dos da saúde de suas almas e, alem disto, trazião firmes pro- pósitos de se vingarem, porque tinhão partes pera isso, mas quis Nosso Senhor, cuja vontade hee a santificação destes, que falando-lhe nossos padres, mudarão de todo seus maos desejos, e finalmente ficarão com firme detriminação de mudar de vida. Todos os dias se dava o Santíssimo Sacra- mento a muytos. Alguns de fora, vendo ali andar os nossos, se vinhão comfessar com elles; fizerão tãobem que o provedor e mor- domos provessem de vestido e comer alguns pobres do reyno, o que se fez. Agradavão muyto aos enfermos, porque os (2) Salmo 82-17. 363
vião tão solícitos do que corporal e espiritualmente lhes era necessário, polio que ainda que avia outros servidores a elles se socorião. Quatro andavâo laa atee vinte e quatro de Outubro, a saber: hum padre e tres irmãos, os mais se vierão depois que se foy diminuindo o numero dos emfermos. As occupaçõis que os padres e irmãos agora tem neste collegio são as commuas e ordinárias, a saber: pregar, con- fessar e estudar e os mais em seus officios. Pregão aqui em casa o padre Francisco Roiz, o padre Martim da Sillva e alguns dias sanctos o padre Ramires, o qual prega aos do- mingos no Rosairo. Emsina-se a doutrina cada dia na nossa igreja a muytos mininos e os domingos, depois de vesporas, se faz huma pratica sobre a doutrina christãa aos escravos; da mesma maneira, os domingos em Santo Antonio, en outra parte da cidade. Ensinão dous irmãos a doutrina a muyto numero de mininos e escravos christãos novamente convertidos. Saem deste collegio ao domingo, (excepto os que residem nas igrejas de Nossa Senhora, que assima disse), pêra as aldeas desta ilha, como ja se escreveo nas passadas, tres padres e doze irmãos. E este exercitio se con- tinua com muyto fervor e proveito espiritual dos christãos, e aynda no Inverno não se ynteronpem, no qual tempo são grandes as chuvas e lama, e comumente vem molhados pera casa, o que causa muyta edificação na gente, e amor nos christãos pera com os nossos, vendo quanto trabalhão polia saúde de suas almas. Hee tãobem meo grande da conver- são de muytos gentios a nossa santa fee. Os que este anno deste collegio forão pera fora são doze, a saber: padre Josefo Ribeiro e Irmão Ruy Mendes pera Cochim; o padre Pero de Arboleda pera San Tome; o padre provincial partio daqui pera Baçaim en Setembro; levou por companheiro o padre Francisco Cabral, que do mesmo Ba- çaim viera convalecer de humas febres a este collegio. Esperamos vira aqui ter a festa do Nacimento, querendo o 364
Senhor. Day a poucos dias foy pera ser em Baçaim em lugar do padre Andre Cabreira, e o Irmão Christovão Luis, e com elle o Irmão Pero de Alcaseva, e pouco depois o Irmão Gonçalo Vaz, o qual chegou aqui de Ormus no fim de Abril. O padre João de Mesquita se embarcou pera Ormus a qua- tro de Outubro, pera residir laa em lugar do Padre Vicente Tonda, o qual mãodão vir, por se achar emfermo, donde a quinze de Novembro chegou a este collegio o Padre Manoel Cabral, a quem o padre Vicente Tonda mãodou tornar, porque se achava naquella terra mal dos olhos. O padre Pero Vaz partio para Damão com o Irmão João Gonçalvez, dia da comemoração dos defuntos, e logo ao sabado seguinte emcontrarão com huns paraos de mouros malavares, aos quais foy necessário fugir, porque elles erão muytos e os nossos erão tres fustas com pouca gente. Puserão-nos em tãoto aperto que com muito trabalho e com a agoa pello pescoso sairão em terra e se acolherão. Aquella noite passarão muito trabalho,//hindo por [481 r.] esses matos, hião atormentados de cede, porque o padre en- joara e avia dous dias que não bebera. Quis o Senhor que forão ter a casa de hum gentio bramene, o qual os agasa- lhou. Ao domingo, sabendo o padre que estavão alguns escravos quassi mortos na praia onde o dia dantes sayrão, foy-se la com o irmão e hum soldado que os acompanhara e confessou-os, de cuja constantia na fee ficou muy edifi- cado. Tãobem confessou outros que forão por terra. O padre se quisera ir com elles, mas por não ter aparelho pera isso se tornou pera este collegio, onde com sua vista e do irmão recebemos todos em o Senhor tanta alegria, quanta foy a tristeza que nos causou dizerem-nos serem mortos. Bendito seja Deos que não quis privar esta sua Companhia nestas partes de tão uteles dous ynstrumentos. Estiverão aqui sin- quo dias, e logo se tornarão a embarquar em hum navio grande. 365
Estando fazendo esta, aconteceo que huma galiota nossa com duas outras embarcaçõis mais pequenas pelejou com onze de malavares, aos quais fizerão muito dano e dos nossos tãobem ouve alguns mortos e muytos feridos, o que sabendo o senhor viso-rei, mandou logo a este collegio pedir hum padre pêra que os fosse confessar e animar a Bategala (sic), que he hum lugar nesta costa onde Sua Alteza tem huma feitoria, pera a qual os nossos se forão. Acabada a briga, ordenou-se que fossem laa o padre Pero Parra e o irmão Estevão Pero de Taide, os quais se forão a casa do senhor viso-rey, o qual os mandou ao espital, dizendo-lhes que dali os tomaria a embarcação em que avião de ir; dali hum pedaço, dovidando se os mandaria, mãodou-lhes dezer que se viessem dormir ao collegio, e que polia menhãa, se ouves- sem de ir, os mãodaria chamar. O padre lhe mãodou dezer que dormirião no espital e esperando recado de Sua Senho- ria, porque se fossem ao collegio por ventura lhes furtarião outros a benção, do que o senhor viso-rey ficou muyto edifi- cado, vendo quanto amor os nossos tinhão aos trabalhos. E hindo laa ao outro dia hum padre nosso lho contou. O padre e o irmão partirão ao outro dia, mas de caminho se tornarão, porque os doentes se vierão curar a esta cidade, aos quais forão confessar tres padres nossos. Neste collegio (como jaa se tem escrito) haa seis classes, a saber: huma dos mininos de ler e escrever, contar, com os quais se faz muito fruto, assi com os bons custumes e dou- trina christãa que aprendem (que he o que principalmente se pertende) como tãobem no que elles buscão, porque alguns são bons escrivãis e contadores. Tem dous mestres que os insinão, os quais se ajudão dos que sabem mais, pera milhor sc acomodarem ao numero grande delles, que hee quasi de setecentos. Tem muita conta com os fazerem insinar a dou- trina em suas casas aos escravos, e gente que nellas ha, e assi que oução missa e pregação, aos domingos e santos, 366
confessandosse cada mes os que pêra isso tem idade e outros o fazem mais frequentemente e comungão. Tres são de la- tim, e as duas de artes, e a outra de theologia. Em todas a mestres suficientes. O proveito que se faz com os estudan- tes se vee porque alguns frequentão os sacramentos mais vezes do que são obrigados, donde tãobem saem não poucos em sua proporção pera as religiõens que nestas partes haa. São os de fora pouco mais de cento e corenta. De cassa, andão na primeira classe seis irmãos. O padre Bastião Gonçalvez começou a ler cursso a quatro de Maio; aguora le o padre Manoel Leitão; os ouvintes são doze, e sete irmãos, e os mais de fora; as liçõis de theologia se con- tinuarão ate a vinda das naos desse reyno, a saber: o padre provincial lia a Prisma Secund.ee (3), quasi no cabo, chegou a questão oytenta e oito (4).//O Padre Francisco Roiz, a [48i v.] tarde, a Secunda Secundes (5) na materia De Restitutione, a qual por ser tão necessária e proveitosa, hião ouvi-la oyto padres de casa e sinquo irmãos theologos, e seis estudantes de fora. Aguora somente ha huma lição cada dia, que le o padre Dionísio n^ Prima Secundes De Legibus. Ha tãobem em cada huma lição de casos de conciencia que lee o padre Ramires. Vão a ella sete padres e quatro irmãos. O principio dos estudos se fez dia das Virgens, como he costume, e quoãto ao que toca a cerca dos mestres não ouve alguma mudança; alguns estudantes de terceira passarão para a segunda, e outros de segunda para a primeira. Este dia foy muy selebrado, e dizem exceder aos passados. Primeiramente, a igreja estava ricamente ornada com muy to gadamessis (6), (3) Uma das grandes divisões da Sumrna Theologica, de Santo Tomás de Aquino. (4) A Sumrna Theologica divide-se em partes, estas em questões e estas em artigos. (5) Outra parte da Summa Theologica. (6) I.é.: guadamacins, tapeçarias de coiro. 367
panos de Frandes e ornamentos ricos. A missa se disse com muyta solenidade: pregação foy muyto devota. As crastas estavão bem ornadas de muitas e ricas oraçõis, e assi muytos epigramas; avia tãobem alguns enimas. O quarto da castra, que custumão os mininos de ler e escrever hornar com seus treslados e contas, estava muy fresco, porque avia nele muy- tos treslados com letras ricas e frescas, e algumas ymagens muy devotas. Tinhão tãobem os treslados contas de muitas maneiras, pera se darem aos que as soubessem. O senhor viso-rey veo a nossa casa este dia, e polia me- nhã, antes da missa do dia, comungou com muyta devoção na capella dos irmãos noviços. Jantou aqui pera se achar presente ao recitar da oração e dialogo. A tarde veo o senhor arcebispo e todos os nobres desta cidade. Teve oração hum estudante da primeira classe; duraria tres quartos, a qual cabada se representou hum dialogo que tinha doze feguras repartidas en tres partes. E ao fim de cada huma, ouve mu- sica de boas vozes, que cantavão a hum cravo e viola, e asi o dialogo como a musica causava grande alegria nos cir- cunstantes. 9 Quãoto as obras materiais deste collegio, vão, polia bondade de Nosso Senhor, adiante, aynda que muito deva- gar, polia grande pobreza en que estamos. Trabalha-se agora no corpo da igreja, que ha jaa alguns annos se começou, como das cartas passadas terão entendido. Outras obras se começarão este anno, a saber: humas casas pera amasaria, atafona, lavandaria, gasalhado de servidores e pera outras semelhantes; despois cedo, com o favor de Deos, se acaba- rão. Vez tãobem o padre João Bravo huma capella do bema- venturado S. Hieronimo na orta dos irmãos noviços muyto devota; dia do mesmo santo se disse nella a primeira missa e muy solene. O que resta, charissimos, he dezer-lhes alguma cousa da christandade desta ilha, e de quamtos louvores ao Senhor 368 «
se aumentão obra tão santa, como hee esta da converção das almas, principalmente depois que nesta terra se publicou o jubileu, que Sua Santidade este anno mãodou, por que con- sede indulgentia plenaria e remissão de todos os pecados a todos os que converterem alguns infiéis a nossa santa fee, idque toties quoties, e porque sei quãoto contentamento rece- bem em o Senhor, quando ouvem tratar desta materia, detri- minei alargar-me mais algum tanto. O primeiro bautismo que neste collegio se fez, depois das cartas do anno passado, foy dia da Epyphania do Senhor, em o qual se bautizarão dozentas e trinta pessoas. Forão trazidos a casa de hum nosso vezinho em prosição, com suas capellas e ramos nas mãos, onde vinha o padre bispo, o padre provincial e os mais padres e irmãos com outra muyta gente, assi nobre como plebea, que os acompanhavão ate igreja, que estava muy fresca e ornada// de muytos panos [482 e ramos. Foy solenizado este bautismo com estrumemos mu- sitos e cantos de muyta alegria. Em São Bras, que he huma igreja perto desta cidade, cnde vay hum padre nosso dezer missa aos christãos, dos ties que como disse saem deste collegio aos domingos, por esta causa receberão o santo bauptismo, este anno ate o pri- meiro de Outubro dozentos e sesenta e cinquo pessoas em diversos bauptismos, alguns dos quais forão festejados com prosição de huma fortaleza, que esta nesta aldea, ate a igreja, com charamellas e camaras, que se despararão, e outros ins- trumentos de que os christãos usão en suas festas. O capitão da fortaleza e outra gente nobre da cidade se acharão pre- sentes, e nesta aldea são jaa todos quasi christãos. Bautiza- ra-se mais en nossa casa, por vezes, quinhentas e setenta e huma, e nas aldeas, onde vão os nossos insinar a doutrina e dezer missa aos christãos, e assi nas outras onde residem, duzentos e cinquoenta e sete. O padre Pero Colaço fez em Rachol, dia de Nossa 369 DOC. PADROADO, IX 24
Senhora das Neves, que he orago daquella igreja, hum bauptismo de sesenta e huma pessoas com prosição. Foy o primeiro solene que naquela fortaleza se fez; teve também no mesmo dia pregação e missa cantada deste collegio, o que ate li se não avia feito naquella igreja. O mesmo fazem os outros padres quamdo vem ho orago das igrejas, onde dizem missa aos christãos, e estes são, charissimos, os que Nosso Senhor lavou com o santo bautismo ate se publicar o jubileu; são por todos mil e dozentos e oitenta e quatro. O senhor arcebispo pregou na see o jubileu, o primeiro de Outubro, e ordenou que se pregasse em os mosteiros e em todas as igrejas desta cidade aonde ouvesse pregação. O padre Francisco Roiz pregou na nossa igreja, o padre Pero Vaz na freguesia do Rosairo, e nas aldeas os padres que a ellas custumão hir. Quamto fruto se aja seguido nas almas com a publicação desta santa induligentia (sic) e de- sejo nos homens da conversão delias facilmente colligirão polios effeictos, e principalmente se conferirem quantos mais são os que se converterão em menos de dous meses, em respeito dos que se fizerão christãos en tanto tempo, pello que referirei algumas cousas particulares, das quais huma cousa e a outra se entenda. O primeiro bauptismo que neste collegio se fez, depois que se publicou o jubileu, foy de cento e dezassete pessoas, entre as quais erão muytos mininos que vinhão vestidos de vermelho, com humas canas verdes nas mãos, e certo que davão grande occasião de louvar a seu Criador que tanta misericórdia lhes fez. Em o segundo bauptismo erão cento e quarenta e nove, e estes se fizerão com a solenidade acustu- mada. Bauptizarão-se mais em nossa igreja, em alguns bauptismos, ate vinte e hum de Novembro, trezentas e oitenta e sete pessoas. Dia de Todolos Santos foy hum padre nosso e dous irmãos a huma igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, que 37°
esta huma legoa desta cidade, pera que naqueles dias, ante o domingo que vinha, prepararem alguns pera o santo bau- tismo, que avia ja dia andavão caticuminos ao domingo. O padre bispo, ainda que muyto emfermo da sua asma, foy laa e o padre Francisco Roiz, e assi outros padres e irmãos; forão tãobem a este bautismo muytos cidadõis; ouve ahi trombetas, charamellas; o numero dos bauptizados forão cento e quarenta e sete. E porque a cousa estava ja appare- lhada pera cedo se bautizarem muytos, pareceo ao padre // [«2 vq que ficasse laa com hum irmão, e assi foy que ficarão laa quinze dias cathesisando os que avião de receber o bautismo e convertendo outros, no ultimo dos quais se fez outro bau- tismo, com a festa que a precedente, ao qual tãobem se achou o padre bispo e o padre Francisco Roiz e outros muy- tos nossos. Da cidade forão muytos a ser padrinhos, dos quais al- guns vestirão muito bem seus afilhados, emtre os quais huma certa pessoa tirou o saio e o barrette e deo a hum christão, e elle se cobrio com huma capa e chapeo que hum moço lhe trazia. Forão os que bauptizarão cento e setenta e oito. Neste mesmo dia, dezanove de Novembro, se bauptizarão em Ra- chol cincoenta e oito; chega o numero dos que se fizerão christãos, destes cincoenta e dois dias, mill e trinta e seis pessoas. Assi que são todos os que este anno o Senhor cha- mou ao chonecimento (sic) de sua ley dous mil e quatro- centos e vinte. Bauptizarão-se mais neste collegio de Goa e nas aldeas onde residem nossos padres ate o serar destas, trezentas e quorenta pessoas, que todos fazem numero de dous mil setecentas e sesenta. Deos Nosso Senhor perfeiçoe nelles o que com tanta misericórdia começou. A mayor partes destes christãos, que na nossa igreja se bauptizarão, forão catesisados e ynstruidos nas cousas da nossa santa fee, em huma casa que temos neste collegio de catecuminos, em que sempre haa alguns, e ha poucos dias 37 1
que chegarão a cento e cincoenta. Destes tem cuidado hum irmão que pousa com elles, e lhe insina a doutrina christãa. Alem disto hum padre lhe faz cada dia (como se acusmma) duas praticas sobre os artigos da fee e mandamentos. Temos tãobem outra casa perto do collegio, em que se catequisão as molheres, de que tem cuidado ha jaa muytos anos huma abexim, virtuosa, e que sabe bem catesizar. Haa comumente nesta casa trinta o corenta pesoas e outras muytas vezes pasante de cento, e todos este collegio sustenta todo o tempo que se aparelhão pera o santo bauptismo. Quanto ao fervor da gente acerca de ganhar o jubileu, mostra-se claramente polio muyto que trabalhou hum ho- mem; não podendo converter algum gentio, veyo perguntar ao padre Francisco Roiz se ganhava o jubileu dando vinte pardaos a hum gentio pera se fazer christão. Dezendo-lhe o padre que não se fizesse pressamente (sic) por dinheiro, respondeo que elle queria ganhar o jubileu de qualquer ma- neira que fosse. Outro comprou hum escravo gentio pera que, fazendo christão, ganhasse o jubileu; depois que o teve, veio per- guntar se o ganharia com aquelle, porque, sendo seu escravo, era obrigado ao baptismo. Huma moça cativa hia falando por huma rua com hum gentio se convertesse a ley de Christo Nosso Senhor, e vendo hum homem que deseiava de ga- nhar o jubileu os fez entrar em sua casa. Este, não sabendo falar a limgoa, mandou o gentio a hum seu visinho, que lhe falasse, o qual se converteo. Depois punha em questão qual dos tres ganhara o jubileu. Huma molher converteo dous gentios e, tendo huma filha doente, e veio perguntar se podia dar-lhe hum daquelles pera que tãobem a filha ga- nhasse o jubileu, e dezendo-lhe que não, se foy com detri- minação de buscar outro e leva-lo a filha, pera que ella o convertesse. Outras muytas coussas deste genero se puderão dizer a 37 2
este perposito, as quais deixo, por não me alargar mais do que pormeti. Direy todavia algumas das que acontecerão a estes novos christãos. Um velho christão tinha hum filho gentio casado e de grande família, ao qual falou hum irmão nosso pera que se fizesse christão. E não querendo o pay, se lhe deitou aos pees e lhos beijou, pedindo-lhe se convertesse e, recusando o filho, e fugindo dos pes do pay, o bom velho tornou a fazer o mesmo, trazendo-lhe juntamente //a memoria que C-83 r-] era seu pay, e outras cousas que fazião a este negocio, o que vendo o gentio se converteo com toda a família. Outro christão casou com huma molher também christãa que tinha parentes gentios, todavia com esta condição que, se acontecesse alguma cousa, os parentes da molher se avião de converter a nossa santa fee. Este depois veo a este colle- gio, pedindo que o prendessem, pera que os parentes da molher comprissem o que pormeterão. Despedirão-no, dan- do-lhe outro meyo pera se converterem. Alguns daquelles meninos que no primeiro baptismo, depois do jubileu, se fizerão christãos, pedirão do padre que tem cuydado das cousas da christãodade os deixasse hir bus- car seus pays. O padre os deixou hir, mandando com elles alguns dos meninos orfãos e, chegando as casas dos pays, lhes falavão se fizessem christãos, senão que os padres lhos não avião de dar (7); muytos destes trouxerão os pays comsigo. Huma molher casada fugio a seu marido de Bardes (que são de terra firmes de Sua Alteza), e veio-se a nossa igreja de Chorão a se fazer christãa, e depois pedio que fosse alguém com ella buscar os filhos pera o mesmo efeyto. O padre, que estava em Chorão, mandou com ella hum (7) Quer dizer: se os pais se não convertessem, os padres não os (filhos) deixariam regressar a suas casas. 373
irmão, a qual emtrando em casa perante os parentes os tomou, e huma filha sua de pouca idade se veo pera ella, dizendo-lhe que pois jaa era christãa lhe tirasse o motim que hee hum gancho de ouro que as moças e casadas trazem no naris em sinal da gentilidade. Sabendo huns bramenes gentios que hum portugez, de que erão amigos, desejava converter algum gentio pera ga- nhar o jubileu, lhe trouxerão hum honrado, e que entre elles hera padre, ao qual o mesmo bramene lhes ajuda- vão (sic), a dezer e proferir a doutrina. O portugez o trouxe a este collegio contando com alegria a causa como acon- tecera. Hum gentio, que tinha dado palavra a hum irmão nosso de se fazer christão, temdo o pay muyto emfermo, foy-se a huma aldea, aonde estava hum padre com hum irmão pera dezer missa aos christãos, e pedindo-lhe com grande fervor que fosse a bauptizar seu pay. O padre porque avia de ir a visitar a hum christão tãobem doente) mandou com elle o irmão pera que o bautizasse, se a necessidade fosse urgente. YncLo pollo caminho, a molher do gentio, que viera chamar o padre, vinha buscar ao marido com o padre, parecendo-lhe que tardavão; o filho foy entrepete do irmão e pedia ao pay com muyta istantia se fizesse christão e, não lhe respon- dendo, começou a entristicer-se, dizendo ao pay que não queria ser seu filho e outras cousas que mostravão fervor e deseijos que tinha de converter a seu pay. Finalmente o velho lhe disse que queria ser christão, ao qual o filho di- zendo-lho, o irmão fez arenegar dos pagodes e pedindo per- dão a Nosso Senhor de seus peccados, o irmão o bauptizou, o qual acabado disse ao irmão que queria vir ao collegio buscar huma cruz pera ter com seu pay, e huma candea pera lhe meter na mão, quando quissese morrer. O irmão mandou pedir estas cousas a casa de hum portuguez que morava 374
perto dalli; muytas cousas acontecem como estas que seria longo conta-las. Nam hee também, charissimos, pequeno meyo o com que o Senhor converte muytos. O Irmão Pero Afonso, que tem cuidado do nosso espital da gente da terra, onde (alem do muyto serviço que nelle se faz a Deos em seus pobres) se fazem muytos gentios christãos, que, vendo-se emfermos com desejo de saúde corporal, se vem a este collegio, onde reebendo com o santo bautismo a saúde espiritual // alcan- [483 r.] çâo tãobem muytas vezes a corporal. Hum destes, depois de são, veyo visitar o irmão, trazen- do-lhe seis ou sete gentios doentes que querião ser christãos. Alguns vem muytas vezes tão propincos a morte que, bau- tizados, durão muyto pouco, como estes dias passados acon- teceo que, bauptizando hum padre nosso hum gentio desta maneira, dali a mea ora, pouco menos, deu a alma a seu Criador. Isto mesmo aconteceo a hum padre nosso que, visi- tando hum dia a Sala de que assima disse, e bauptizando hum gentio que estava muy opresso de huma certa infirmi- dade, e avia jaa muytos dias que pedia pera ser christão, dali a poucas oras pasou desta vida miserável. Serião os que por este meio que digo do irmão se converterão este anno, oytenta ou noventa. Bendito seja Deos que por tantas vias trás suas criaturas a Si. Esquecia-me de lhes dezer o grande contentamento e animo que receberão os christãos desta ilha com huma carta que Sua Alteza o anno passado lhes mãodou, com a qual o capitão-mor da cidade e o padre Francisco Royz, os visi- tarão aos domingos e lha leerão. A primeira saida que com ella fizerão foy a huma aldea, que estara hum terço de legoa desta cidade. Os christãos tinhão o caminho quasi todo bem concertado com muytas bandeiras e ramos. Tãobem forão recebidos em as outras aldeas dos christãos com muyta festa e todos ficarão muy consolados e esforçados, vendo a lem- 375
brança que Sua Alteza tinha delles. Alguns pedirão o tres- lado da carta pêra o terem gardado. Isto hee, charissimos, o que da christandade se me offereceo pêra lhes escrever, a qual esperamos em o Senhor tera felice progresso pera o qual não hee pequena ajuda, depois de Deos, favorecer o Senhor visso-rey este negocio, o que se ve na facilidade que mostra nas coussas que pera bem dele lhe pede. Nosso Senhor nos conceda fazer sempre neste desterro sua santa e divina vontade. Deste collegio de Goa, oje 11 de Dezembro de 1564. Por comissão do Padre reytor Servo de todos em o Senhor Jorge Caldeira. 376
54 CARTA DO PADRE ANDRE FERNANDES Coulão, 11 de Dezembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fl. 522 r. A graça e amor do Espirito Sancto seia sempre em sas (sic) almas. Amen. Grandemente fui consolado, irmão charissimo, com a vossa carta que me foi dada na costa de Travancor, de que polia sancta obedientia com outros três conpanheiros tenho cargo, no qual ha vinte e cinco legoas e nellas deesassete igrejas, e as mais delias grandes e em lugares grandes. Temos, como digo, os que residimos neste Coulão, cuidado desta christandade, que he muito grande e polias incomo- didades ate gora foy pouco cultivada, e custa-nos muito tra- balho, mas polia bondade de Nosso Senhor, vesse grande fruito delle que o faz sentir menos, e asi temer pouco os perigos que dos mouros e gentios, muitas vezes, se offrecem, sem outras achegas de fome, sede, calma e frio, etc. que he companhia quasi cotediana. E tudo por amor do Senhor se passa com ânimos alegres. O exercício que ca temos he o que tem todos os officiais em huma grande republica, a saber: de capitão, juizes, pro- curadores, curas, pregadores, finalmente o eclesiástico e se- cular, tudo carrega sobre nos, e em tudo o Senhor nos favo- rece muito, alem de nossas forças e merecimentos. E em todos os emfadamentos que nesta cousa se achão que sam 37 7
muitas, nos consolamos com ver as igrejas cheas de inocen- tes, louvado ao Senhor, dezendo a douctrina christã. E com outros adultos, que o Senhor cada dia traz a seu conheci- mento. Elie nos de sua graça. Deste Coulão, oje, 11 de Dezembro de 1564. Irmão que muito em Christo vos ama André Fernandez 378
55 CARTA DO PADRE FERNÃO DA CUNHA AOS IRMÃOS DA COMPANHIA EM PORTUGAL Baçaim, 11 de Dezembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n." 4534. Fls. 5l6r.-518r. Charissimos padres e irmãos. Pax Christi. A graça e amor do Espirito Santo seja sempre em nossas almas, amen. Semdo-me mandado pola santa obediemcia lhes desse conta do que o Senhor nestas partes de Baçaim, Damão e Tana obrou por estes fracos instrumentos // direi com toda £5j6 V ] a brevidade o que se me oferecer, ainda que não sera como eu desejo e seu animo e vontade pedirão. E começando primeiramente polas cousas deste colégio, ao presente estamos aqui omze, comvem a saber: quatro pa- dres e sete irmãos; em Tana, esta hum padre e dous irmãos; na Trindade, hum padre e hum irmão; em Damão, dous padres e hum irmão. Todos amdão ocupado em seus acustu- mados exercícios, que polia sancta obediência lhe são man- dados, como são pregar, comfessar e o mais que em a Com- panhia se custuma, ajudando-se em tudo da obediência das regras, com promtidão na obediência, pidindo por isso pini- tencias, o que tudo tomão com tanto espiritu e desejo de 37 9
se aproveitar no caminho da perfeição, que dão claras mos- tras do que o Senhor lhe tem cumunicado em suas almas, e serem tão desejosos de adquirir as verdadeiras vertudes, buscando pêra isso todos os meios necessários que os podem ajudar no caminho do Senhor. Quanto ao que toqua a saúde corporal, este anno todo ouve muitos doentes e de graves emfirmidades, assi aqui em Baçaim como em Tana, e ainda alguns delles ate ao pre- sente não tem comvalecido, como he o Padre Francisquo Cabral, reitor deste colégio, que ha hum anno adoeceo de febres, das quais esteve muito ao cabo, e quasi descomfiado dos medicos, e ainda ao presente fiqua com a mesma febre, vindo-lhe todos os dias a maneira de traçãa dobre (sic). Esteve aqui cimquo ou seis meses sem numqua acabar de sarar; depois, com parecer do padre provincial e dos medi- cos, se foi pera Goa pera ver se com a mudamça da terra se achava milhor, aonde esteve todo o Inverno, mas nem isto bastou pera acabar de comvalecer. Despots de passado o Imverno, se tornou pera esta terra, aonde aguora fiqua com a mesma febre, ainda que algum tanto mais branda. Tanbem o Padre Mestre Gomçallo, reitor da casa de Tana, adoeceo no mesmo tempo, sem numqua poder com- valecer, mas ir de mal em pior, e ja de todo descomfiado de sua saúde, os medicos (sic). O mandou os dias passados o padre provincial pera Goa, pera ver se la se achava milhor, mas temos pera nos que o mais certo sera acabar cedo esta breve jornada, e ir a guozar dos trabalhos muitos que nesta vida per amor de seu Criador padeceo. Outras muitas doem- ças tivemos assi daqui como de Tana e ao presente, de omze que estamos aqui, ficão cimquo em cama, mas cresse, com a ajuda de Nosso Senhor sararão cedo, por não serem as infirmidades periguosas, e ir ja passando o tempo das doem- ças desta terra, que he Outubro, Novembro e Dezembro, nos quaes meses adoece muita gente nestas terras de Baçaim. 38°
Dia da Circumsisão de Nosso Senhor, se renovarão os votos como he custume, precedendo primeiro o que na Companhia se custuma, o que todos fizerão com muita devação e com- solação sua. As pregações se contenuão aos Domingos e santos na nossa igreja, e na see ate guora preguavão de casa todos os Domingos, mas aguora preguasse alternatim com os padres de São Domingos, que pouco tempo ha que vierão pêra aqui. A Coresma passada, por não aver aqui mais que hum soo padre que preguasse, ordenou o padre reitor que aos Dominguos se preguasse pella menhã na see, e as tardes na nossa igreja, fazendo doutrina sobre os peccados mortaes, a que sempre acudia gente. Também se preguava na nossa igreja as sestas-feiras, a tarde, sobre a Paixão, pregando cada dia hum paço delia, a que acudia sempre tanta gente que, por não caber na igreja, se tornava muita pêra casa, por nestas partes se ter espicial devação a estas preguações, o que mostravão polias muitas lagrimas que choravão e grande simtimento que mostravão. Antes da preguação se cantão humas completas muito solemnes, coro (sic) todas as vezes, e quanto de orgão que muito preparão os ânimos dos ouvin- tes, pera com mais devação e promptidam ouvirem a pre- gação. Despois de acabado, saem todos em persiçam com hum crucifixo e com muitos decyplinantes, e com duas ladainhas, huma de canto-chão e outra de camto de orgão, em diversos luguares da persição//, e vai ha huma igreja desta cidade, [517 r. 3 repartindo-a por toda a Coresma, indo cada sesta-feira ha huma delias, e da mesma maneira com a mesma persição tornão a nossa igreja onde acaba. A frequemcia das comfissõis, que continua a nossa igreja, he muita, primcipalmente aos dias de festas, as quais muitas vezes se não pode acudir por serem muitas e os padres poucos, mas trabalhasse sempre, com a ajuda e favor divino, 381
por se satisfazer a seus desejos e devação. Este este povo tão afeiçoado e devoto da Companhia, e tem tanta devoção a suas cousas, que he muito pera louvar ha Nosso Senhor, e se se não comfessão com padre da Companhia tem pera si que não são comfessados, o que as vezes nos da muito tra- balho, por não podermos satisfazer a todos, por falta dos padres de que ca carecemos, por aver muitas partes a que acudir. As particularidades que nellas cada dia acomtesse e passão, polias mãos dos padres, e ao fruito que nisso se faz, não ho escrevo por ser cumum e geral, primcipalmente nes- tas partes. Somos sempre chamados, assi pera se acomselharem em suas mortes, como em desporem de suas cousas, tratando mui particularmente com os padres das cousas de sua comsiemcia, esquesendosse do mais. Os dias passados, estando huma pes- soa ja muito a cabo, mãodou chamar hum padre deste colé- gio, pidindo-lhe que destribuisse a parte de sua fazenda, que lhe cabia, por obras pias, que seria pasante de dous mil pardaos, porque os filhos bastava-lhe o que lhe ficava, e que mais devia a sua alma que não a seus filhos, o que o padre fez, casandosse alguns orfãos, e fazendosse outras muitas esmolas, de que todo este povo ficou muito edificado. Outros muitos são ajudados em seus tramzitos, animando-os e ajudando-os pera, quando desta vida passarem, poderem guosar de seu Criador, buscando-lhe pera isso todos os meios necessários. Tanbem se fazem muitas amizades, de que muito Nosso Senhor he servido, e porque comtar particularidades disso sera nunqua acabar, somente duas direi, nas quais tem inter- vindo o capitão desta cidade, e outros religiosos, sem nunqua poderem acabar nada, das quais se ouvera de seguir muito mal e mortes, por serem as pessoas notáveis. Comtudo me- tendo hum padre a mão nisso, loguo acabou tudo fazendo-as amigas, juntando-os na nossa igreja, e assi ficarão comfor- 382
mes e amigos, esquecendosse do passado, secando todo o escamdalo. Vaisse também com os padecentes, peta serem ajudados e comsolados, preparando seus ânimos pera que com paciem- cia tomem a tal morte, esquecendosse do corpo, lembran- dosse somente da alma, e os dias passados levando ha hum gentio emforcar, hum padre que hia com elle, vendo que de nenhuma maneira se podia comverter, estando ja ao pe da forqua, acabou o padre com o capitão e mais justiças que lhe dilatassem a morte, pera que se aquella alma se não perdesse e, tornando-o ao tromquo, estando alguns dias nelle, se comverteo e recebeo a agoa do santo bautismo, e despois morreo como fiel e verdadeiro christão, mostrando muito sinal disso, tomando a morte em pinitencia de seus peccados, e o que dantes hia blasfimando pera forca, hia des- pois louvando a Deos, e nomeando muitas vezes o nome de Jesu, confessando ser Elle seu verdadeiro Salvador, o que foi claro sinal de Nosso Senhor o ter predestinado pera sua gloria. Vão com estes padecendes (sic) os mininos de casa em persição, cantando huma ladainha diante delles, o que muito os anima e comsola e edifica ao povo; também os vão com- fessar ao tromquo e ajudar em seus trabalhos, buscamdo- -lhe remedio pera elles. Imsinasse a doutrina cada dia na nossa igreja, hindo hum irmão pola cidade tamgendo huma campainha, ajun- tando os meninos, escravos e escravas, e ajuntando-os na nossa igreja e hai lha insinão. Este anno nos fizerão a este colégio muitas esmolas dandosse muitas peças riquas, // [517 v.] como foi hum colar que custou duzentos e cimquoenta par- daos, e hum ornamento de borcado, dalmaticas e o mais, e outros dous ornamentos, comvem a saber: hum de damasco bramco e viludo crimezim, e o outro damasco crimizim e viludo, com seus panos do púlpito, e vistimentas, e outras .3 8 3
muitas peças pêra igreja, que tudo importaria com outras cousas perto de mil e quinhentos pardaos de ouro (1). Afora estas peças, nos darião pasante de dous mil e quinhentos pardaos de ouro pêra a igreja, e obras deste collegio, o que he muito pêra espantar, com ser este povo tão pequeno, e não serem ainda quatrocentos casados portu- guezes darem em hum anno tantas esmolas. Comtudo Nosso Senhor seja louvado, pois move os corações dos homens pera ajudaram a seus servos, mostrando ter tanto cuidado delles. Huma molher viuva muito virtuosa, assi na vida de seu marido como despois de viuva, não tendo filho nem filha nem erdeiro, que por direito lhe pertencesse, estando ella doente, mãodou chamar hum padre deste colégio e lhe deu conta como ella detriminava deixar quanto tinha ao collegio desta cidade, que erão três aldeas que ao presente rendem seiscentos pardaos, e por tempo renderão mais de mil, por- que são as milhores que hai nestas terras de Baçaim, e as mais seguras, duvidando ainda se a Companhia aceitaria isto, o qual queria dar sem obriguação nenhuma. O padre lhe disse que daria conta ao padre reitor, e que se trataria nisso com ho padre provincial, e assi se faria o que fosse mais serviço de Deos e, sarando despois, ella mesma escre- veo ao padre provincial, pidindo-lhe muito que quizesse aseitar toda sua fazenda pera este colégio de Baçaim, o que o padre provincial aceitou, ficando ella por fundadora deste collegio por ate o presente não ter particular fundador. E loguo, por sua vontade, fez doação de quanto tinha a este colégio, a qual ja esta comfirmada pollo senhor viso- -rei, o que edificou muito a este povo aver molher nestas partes que se desemposasse de quanto tinha, pollo dar aos servos de Deos, mas por derradeiro ella escolheo o milhor, (1) O copista, por engano, escreveu: doutro. 384
deixando todos os inpidimentos, que a podião inpidir pera ir cora seus propositos adiante, que era entregarsse total- mente ao serviço de Nosso Senhor, vindosse pera junto deste collegio, dizendo que ja que Nosso Senhor fora servido de lhe não dar filhos, queria tomar todos os padres e irmãos deste colégio por seus filhos, e sertifiquo-lhes que tem nella este collegio huma verdadeira mãi. Deos lhe de graça com que persevere em seus santos propositos e va com elles ate o cabo, o que cremos fara, porque tem todas as partes ne- cessárias pera isso. A christandade vai por diante, com a ajuda e favor di- vino, e esperamos que hira aguora em grande acresenta- mento, com o fervor que se acresentou aos homens com a nova indulgemcia, que Sua Santidade concedeo aos que com- verterem almas a nossa santa fee, e quererá Nosso Senhor que sera este meio pera esta terra toda se comverter em breve tempo. Fizerãosse este anno muitos christãos, assi aqui como em Tana, e na Trindade, por diversas vezes, em alguns bautismos, cheguarão a perto de duzentas almas. Trabalhasse muito não somente polios fazer christãos, mas também polios comservar na nossa santa fee, dando-lhe maneira de vida pera se poderem sostentar e milhor instruir nas cousas de nossa fee, e pera que isto mais facilmente se possa fazer, hai hum collegio aqui em Baçaim onde comum- mente hai oitenta moços, e outros collegio em Tana que tem tantos ou mais. Alem destes dous colégios, ay huma povoação na ilha de Salsete, destas terras de Baçaim, por nome Santíssima Trindade, na quail e por seus termos avera duzentos casados, e por todo serão perto de mil almas. Avera ay também perto de cem moços, que estão a maneira de collegio; aqui se fazem cada dia muitos christãos cataqui- zando-os, porque não se fazem christãos senão depois de saberem a doutrina, e estarem muito bem instruídos nas cousas de nossa fee. Todos vivem por seu trabalho, porque 385 DOC. PADROADO, IX 25
[518r.] quasi todos são lavradores e aos Domingos//e dias santos se ajuntão todos na igreja, onde ouvem missa e, despois delia, lhe faz hum irmão huma pratica das cousas de nossa fee e sertefico-lhes, charissimos irmãos, que se faz nisto muito serviço a Deos, em que toda esta terra tem postos os olhos, vendo a boa ordem que nisto se tem. Tanbem se mãodou ha humas duas fortalezas, que estão daqui dez ou doze legoas, por assi os soldados como os capi- tães delas o pidirem com muita instancia, por ate aquelle tempo não estarem comfessados, pola obriguação da Cores- ma, nem terem quem os comfeçasse; da qual ida se siguio muito serviço de Deos, porque se evitarão muitos peccados, provendo o padre de maneira que não tornassem a elles, tirando-lhe as ocasiões, e comfessando-os a todos e dando- -lhes o Santíssimo Sacramento. Também fez la alguns chris- tãos, que serião trinta ou corenta, deixando hum minino que sabia a doutrina muito bem, por que todos os dias lha emsinasse, ficando isto emcarregado ao capitão. Este anno, e a pitição desta cidade, ordenou o padre provincial que se comesasse aqui ler latim, e pera isso veo o Padre Andre de Cabreira pera dar primcipio a isso, que foi ao segundo dia do mes de Janeiro de mil e quinhemtos e sesenta e quatro. Tem-se muito aproveitado os estudantes em pouco tempo, e ay bom numero deles que serão perto de corenta, os quais estudão com muito fervor, estudando juntamente no estudo das virtudes e boons custumes, que he o principal que se trabalha, por os moços terem muita ne- cessidade disto e a terra ser muito largua. As obras materiaes vão muito adiante; este anno se acabou hum lamço de cubículos, com que ficamos muito bem aguasalhados. Esperamos que irão por diante, porque pera isso Nosso Senhor nos ajuda, movendo ao povo que não faleça sem suas esmolas. A nossa igreja vai ja muito avante; a capella ja esta acabada, a qual dizem ser huma das 386
ínilhores que ay na India; e de aboboda dobra romana, mui sumtuosa e airosa. O corpo da igreja esta em boa altura, e aguora se anda trabalhando no coro, o qual cedo se acabara. Ja de dia de Ramos para ca dizemos missa e pre- guamos nella aos Domingos e aos dias santos, e nella se fizerão os ofícios da Somana Santa, com muita solenidade, a que veo sempre muita gente, porque se fazem qua com muita devação. Isto he o que brevemente colegi, charissimos padres e irmãos, das novas desta terra. Se não for quanto seus desejos e vontades o pedem, recebão a boa vontade. Por aguora no mais, senão que em seus santos sacreficios e devotas oraçõis muito nos emcomendamos. Deste colégio de Baçaim, a onze de Dezembro de 1564. Por comissão do Padre Francisco Cabal. Inútil Fernão da Cunha. 387
56 PROTECÇÃO AOS CONVERTIDOS Goa, 14 de Dezembro de 1564 Documento existente no AHEl: Leis a favor da Cristandade, fls. 20-21. FILMUPO: ld., 11, 1-3. Dom Gaspar, por merce de Deos e da Santa Igreia de Roma, arcebispo de Goa, primas da India, e partes orien- taes, do concelho (sic) de el-rey meu senhor, aos que a pre- zente virem, saúde em Nosso Senhor Jesus Christo. Fazemos saber que por quanto nos achamos por expe- riência que no // descobrimento das fazendas de defuntos e alevantados e outras que, por vertude de huma provisão que o conde vice-rey, que Deos tem (1), querendo de S. A. passou, pertençião (2) á se desta cidade, se fazião muitos com cuios (sic) e aveixação aos gentios pobres e principal- mente pello favor da fe, fizemos hora disso lembrança ao senhor vice-rey, ao que lhe (sic) havendo respeito, passou sobre isso a provisão que se segue: «O vice-rey de Indiano (sic) faço saber a quantos este meu alvara virem que o conde vice-rey, que Deos tem, em nome de el-rey meu senhor, passou huma patente que todas as fazendas dos gentios que, por falecimento, alevantamento, ou por qualquer outra via pertencessem a S. A. fossem apli- (1) D. Francisco Coutinho, conde de Redondo. Governou de 7-9-1561 a 19-2-1564. (2) O leitor que desejar seguir o sentido normal deste e doutros documentos extraídos do códice Leis a favor da Cristandade, vê-se a cada passo em situações difíceis: por fim, apreende apenas o sentido geral, dei- xando os pormenores, por ser impossível. 3 5 8
cadas para as obras da se nova desta cidade de Goa, e por- quanto tenho sabido que se fazem muitos concuios (sic) no descobrimento das ditas fazendas, e muitas aveixaçõens aos gentios pobres, e pello favor da fe e christandade, hey por bem e me praz que, sem embargo da dita provizão, que todo o gentio que tiver a tal fazenda, que a dita sé pertença, fazendo-se excepção (3), lhe fique livremente que seu encargos, valendo a dita fazenda athe a quantia de duzentos pardaos de tangas, e o que mais passar delles, ficara para a dita se, conforme a dita provizão. Portanto o notefico assim ao vedor da fazenda, ouvidor- -geral e a todas las (sic) justiças, e officiaes a que este per- tencer, e lhes mando que em todo o cumprão e goardem, como se nelle contem, sem duvida alguma, o qual mando que valha, tenha força e vigor, como se fosse carta em nome de S. A., por elle assignada e passada pella chancelaria, e sellada de seu sello sem embargo da ordenação do segundo Livro, titulo 20, que dispõem (sic) em ella que as couzas, cujo effeito houver de durar mais de hum anno, passem por cartas, e, passando por alvaras, não valhão, e sem embargo de outrosy deste não passar pela chancelaria. Francisco de Lixboa (sic) a fes em Goa, a dez de Dezembro, de mil qui- nhentos setenta (4) e quatro. O secretario o fis escrever. Vice-rey. Álvara para V. Magestade ver. Registado. Manoel Leitão.» (3) Exemplo frisante da incúria, incompetência e falta de escrúpulo do copista. Em vez de christão, como era óbvio, escreveu o que lhe veio à mente: excepção. (4) Deve ser erro. D. Gaspar de Leão Pereira regeu o arcebispado de Goa de 1560 a 1567, e de 1574 a 1576. Mas as obras da sé, a que o documento se refere, foram alvo de legislação em 1564. 389
Pello que, e por isto ser serviço de Deos e // de S. Al- teza e favor da christandade, mandamos a todas as pessoas eclesiásticas e as justiças seculares, officiaes e pessoas a quem pertencer, da parte da Santa Madre Igreia, e da nossa reque- remos que a dita provisão guardem e fação inteiramente goardar, com a devido execução, com toda a deligençia e favor neçessario. Dada em Goa, sob o mesmo sinal e sello, aos quatorze dias do mes de Dezembro, Antonio Gomes o fis escrever, anno de quinhentos sesenta e quatro. Arcebispo. 39°
57 CARTA DO PADRE ANDRE DE CABREIRA AO DR. PADRE INÁCIO DE TOLOSA Baçaim, 15 de Dezembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fls. 414 r.-415 f. (1) Pax Christo. Puesto que el tenpo es breve y las occupaciones muchas, las quales no nos dexam hazer lo que deseamos, todavia el amor que yo tengo a Vuestra Reverencia y a los irmanos deso collegio de Coimbra, hurto este pedaço de tempo, para escrevir esta, en la qual dare brevemente quenta de nuestro viage que hizimos de Portugal para laa índia. Partidos de la barra de Lisboa, a 16 de Março de 63, por espacio de 13 dias navegamos con bon tempo hasta cinco grados delia equino- cial, (que llamão lina) en los quales estaríamos trinta y tantos dias, con grandes calmarias y aguaceros, que venião de la costa de Guinea, cuia agua tiene vertud de conver- tirse en gusanos, en espacio de una hora, poco mas. En este tempo nos adolecido mucha gente de calenturas continuas, con fernezis, y morrio un mancebo, por nombre Juan Ariaz, el qual iva ya de Portugal para ser delia Companhia; cuia vertud era tanta que, ni de dia ni de noche, reposava, (1) BACIL: Cartas do Japão, III, fls. 130v.-132r. 3 9 7
acudindo a los enfermos, con limosnas y con lo que podia. En cuia muerte perdierão mucho los pobres y nos, porque aiudava como si fuera un irmano muy antiguo de la Com- panhia; mas Nuestro Senor le pago sus trabaios, porque el murio como un sancto, haziendo colloquios de mucha devo- cion, puesto que con fernesis. O padre mio! Que casa de probacion es una nao destas, para provarse los verdaderos hijos delia Companhia y per- fectionarse la caridad y conocerse cada uno quien es, porque no ai Limoero, ni hospital de tantas e tan urgentes necessi- dades quantas via, cada dia, sim poderios remediar. Quantas vezes desse algunas centillas dei fuego de caridad que en ese collegio ai, entre nuestros irmanos, para desfazer un poco dei ielo deste coraçon, y para compadecerme dellos sospiros y gemidos de aquellos pobres, los quales estavan moriendo. Y por refrigério, mudavalos la onda de la mar de un bordo para otro, e asi, acabando la vida sin poderios valer, porque no erão diez ni vente, mas cinquenta y cento, a las vezes, los que estavan en extrema necessidade, porque de seiscien- tas e sinquoenta personas que venião en esta nao, mas delas quinentas erão pobres, que no tenião mas dela regia del-rey, la qual era tal que aun a los sanos hazia adolecer, y dolientes pobres avian de prover de quanto les era necessário, o avião de morir de hambre, como muchos morieron. Quise dar esta quenta de los pobres, aunque breve, para los que deseam pasar esta iornada, en la qual hallaran de- masiada materia en que emplear sus buenos y flamados de- seos de amor de Dios y del proximo, y que sepan que uno de los maiores serviços que en estas partes pueden hazer a Nuestro Senor es ayudar con la sustentation corporal y espi- ritual a los pobres, enquanto durare esta navegacion, para que no lo pierdan, como yo lo perdi, por traer los oios pues- tos en la India, y en la conversion dellos gentiles, popando las fuerças y la vida, la qual pluguera a Nuestro Senor Dios 39 2
emplear en serviço de los pobres, como la empleo el man- cebo que dixe arriba. // [4H Quiso Nuestro Senor que passamos esta linea a 4 de Mayo, y aviendo caminado para el Sul, dezoito grados y medio, en unos baixos que llamãn los Abroios, los quales estarian dei Brasil sesenta o setenta léguas. Aqui uvo grande temor en todos los de la nao de dar en cequo la nao, y per- derse, con toda la gente, porque nevegavamos a las veses, en menos de quatro braças, y el viento era muy escaso para metemos en la mar y salir delos. Por lo qual, de noche, tor- navan para tras, y de dia, para delante, hazendo una buelta a la mar, y otra a la tierra, por no decendir de desaseis grados, en los quales esta la baia de San Vicente en el Brasil, a la qual detriminava el capitan irse, que no sucediesse ser necessário arribar. En el tempo que anduvimos en estas bueltas, que seria dez dias, se conffesso mucha gente y algunos geralmente (quare 1 periculum orgebat) (2). Hizieronse muchas amista- des y restituciones; la gente, en estos dias, se occupava en cosas de devoçon; scilicet: en processiones, y ladainas, con hazerles algunas doctrinas de penitencia, las quales, en aquella sazon, hazian mas inpression en los oyentes que otras vezes; sermones de mucho estúdio, puesto que no ivão muy estudiados por la falta dei tempo y de fuerças, mas cogebat necessitas. Finalmente una noche, despues de avermos ayudado delias dichas devociones, detriminaron de cortar por aquelles baxos, con poca vela, llevando siempre los plomos por am- bos bordos, para tomar el altura dei agua. Y asi pasamos por ellos, por espado de tres horas y media. Luego nos mando (2) BACIL: Idem.
un recado el capitan de la buena nueva, y nos pedio que, otro dia, uviese sermon in gratiarum actionem. Y asi lo uvo, con su missa cantada y instrumentos mui buenos. De aquan (sic) delante los tempos nos fueron escasos pera atravesar aquel pedacillo de mar, que esta del Brasil a el Cabo de Buena Esperança, que seran, segundo dixo el piloto, mas de quatro mil leguas. Mas fue Nuestro Senor servido que lo doblamos a 10 de Jullio. Con los frios de la altura del Cabo, enfermamos yo y mis companeros, puesto que en dife- rentes tempos, en lo qual nos hizo Nuestro Senor merced de dar salud a unos para que curasen de los otros. En este tempo morieron algunos sin confisson, porque el capittan delia nao y yo estávamos dolientes, que los con- fessávamos luego al principio delia imfirmidad, escrevendo en una matricula para que se no olvidasen. Mas fue Nuestro Senor servido de oir las orationes de muchos que rogavan por nuestra salud, que convalesceimos, en breve tempo, exer- citando nuestros exercícios acustumbrados, los quales eran, despues de encomendamos a Dios, por la manana, visitar los enfermos con hum barbero, corriendo toda la nao, por riba de convés y debaxo de la escotilla, y escrevendo las necessi- dades que cada uno tinia, para repartir con ellos las limos- nas de la botica del-Rey, y que el capitan y otros pasageros nos davan. Y ordinariamente davamos dos vezes racion, cada dia, a mas de oitenta personas, a los de dieta, e a los de carne carne, con venderse las galhinas a mil maravedis 1 (3), por muchos ruegos, aunque nos las hallavamos de limosna, entre estos que las tenian, los quales venian despues, em sus emfermidades, a pidirnos limosna y quen alcançava un (3) Leitura hipotética. 2 — mrs. 3 94
pouquo de caldo de galhina con un pedaço de alon (sic) teniase por bem despachado. Del Cabo de Buena Esparança para Moçambique, en la terra que dizen dei Natal, tuvimos dos tormentas deshechas, mas pasaranse con mucha alegria espritual, porque, estos dias, todos se occupavan en arrependirse de sus pecados y en obras pias. Llegamos a Moçambique a 3 de Agosto, donde hallamos al Padre Dionísio, Manoel Cabral, y Pero delia Cruz, los quales avian llegado un dia antes, deseosos de nos ver. Y las otras dos naos, que partiran con nosotros, no parecieron hasta el mes de Henero, que llego la una alia barra de Goa, y la otra no se sabe donde fue a parar, lo qual no carece de mistério, que las naos//en que venian [415 r.) los padres delia Companhia, con no tener vantaia a las otras, fuesen meior navegadas. Bien creo yo que las oraciones dellos irmanos fueron grande parte para eso, en las quales vénia yo tan confiado que senpre me davão esperança de lhegar a la índia, perdiendo casi todos la esperança desto. Nuestro Senor, por su imfinita misericórdia, les de el galar- dan y gracia para que hagan otro tanto a los que ande venir. Llegados a el puerto, tiramos los dolentes en terra, y fuimos con ellos a el ospital, donde se confessaran y toma- ran el Senor todos, que serian, con los delia otra nao, mas de quatrocentos ochenta (4), que estuvimos en este puerto tuvimos que hazer en confessar la gente de nuestros navios y de otro navio que estava ai de envernada, cuio capitan era muy devoto delia Compania, y avia pidido licencia al viso-rey les dilatase el tempo que tenia para confessarse, hasta que viniessen las naos de Portugal, porque esperava (4) BACIL: mas de 400, ocbo dias que estuvimos en este puerto, etc. Na cópia da BNL devem faltar palavras. 11 395 k. W
por padres delia Companhia. Nuestros Iermanos, por otra parte, entendian en conprar dei refresco que avia por la tierra y en aiuntar las limosnas que nos hazian y que nos pedíamos para los p>obres, las quales fueran tales y tantas que supliron las faltas pasadas. Partidos de Moçanbique para Goa, caminamos aquellas novecentas léguas en trinta dias; y un dia, antes de llegar a la barra, vinieron a nos dos catures, que esperavan por las naos, por ganar las albricias delias nuevas de Europa, las quales son muy deseadas en estas partes. Con el capitan del catur escrivimos a el Padre Provintial, Antonio de Coadros, las novas principalesy de nuestra legada, el qual mando, otro dia, un catur con dos hermanos que nos desenbarqua- sen, con mucho refresco. Quasi per todo el viage vini enyoado, inutel para qual- quera cosa, mas vendo el fervor y caridade con que trabaia- van nuestros hermanos, de dia y de noche, en serviço de los pobres, forçavame con huna manera de inbidia, a tirar fuer- ças de flaqueza para ajudarlhes en algunas cosas delias mu- chas que ellos hazian, en lo qual conoci la bondad immensa de Dios Nuestro Senor. El qual, viendo la baxeza de mi esprito para abraçar aquellos trabaios, me animava con tan- tos y tan continnos favores, quantos yo no puedo declarar, dellos qualles quede yo tan engolosinado que muchas vezes me venião deseos de otras ocasiones semeiantes, aunque estos desesos, claro esta, que nacen de amor proprio, el qual sen- pre busca su enteresse; de suerte, Padre mio, que se nuestra vinda a la India no uviere sido por otra cosa mas de por gozar estas mercedes de Dios Nuestro Senor, estava muy ben enpleadas por el proximo. Baptizamos dos naires que partiran con nosostros de Lisboa, los quales, puesto que nos davãon palavra de hazerse christianos, despues de cobrar sua renda en sus tierras, la qual no esperavan de alcançar, hazendose christianos, toda- 396
via los quiso Nuestro Senor tirar de esos peligros, obligan- dolos por enfermidad a bapti2arse luego, y el uno murio el mesmo dia que fue baptizado, y el otro, pasados quinze dias. Esta es la suma dello que fue servido el Senor obrar por estos flaquos instrumentos en este viage; lo que despues de salidos en tierra succedio escrevere en otra al Padre Gas- par Plans (5) a la qual me rimito. A 15 de Dezenbre de 1564 annos. De Baçaim. De Vuestra Reverencia Andre de Cabrera. (5) Leitura hipotética. 3 97
58 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES Cabo de Comorim, 22 de Dezembro de 1564 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Pis. 502 r.-504 v. Segundo as ocupaçõis muitas que ha, se não fosse ser mandado por obediência escrevermos alguns annos, pasarião sem de qua emviarmos cartas, mas comprindo com a obe- diência se dara conta do que este anno Deos Nosso Senhor fez por estes fraquos instrumentos que na Pescaria amdarão. Estamos ao presente nesta Costa quatro padres e tres irmãos; temsse cuidado de viverem todos comforme a nossa profissão com muito bom exemplo ad laudem Dei. Pola Pascoa do Espirito Santo, estando os mais de nos juntos, diserão publicamente suas culpas, com desejos de se morti- ficar, e pidirão com instancia a mim e aos demais que cada hum lhes disesse as culpas que semtia. Foi esta huma cola- ção de muita edificação, de muito proveito e grande conso- laçam pera minha alma, ut plurimum. Nestes lugares por fora mais amostra qualquer em pouco tempo que estando em os colégios em muito, e he grande bem desejar cada hum serem-lhe manifestas suas culpas por aquelles que as conhe- cem e sabem. Eu, por meus peccados, soo fiquei sem parti- cipar de tão suave fruyto, por parecer aos companheiros que não convinha ser amoestado como os outros. Trabalhei po- rem de recompemsar a parte em alguma maneira, o que ali não pude alcançar, mas foi fraquamente. Outro exercício tivemos também bom pera a alma. E foi que tudo aquilo em que algum de nos semtir ter 3 98
alguma afeição, ou que pareceia aos companheiros que algum de nos a tinha, de tudo nos desapropriamos, não faltarão livros, imagens, relogios, oculos, etc. Quanto a despocissão corporal, estão todos bem, dei- xando a parte minha ma disposição amtygua, e hum padre que em Fevereiro deste presente anno nos mãodarão, por nome Dioguo Pareja, alia Vaz, o qual ha annos que he mal desposto. Começando a falar dos christãos desta Costa na do anno passado, escrevi da doemça que avia na ilha de Manar, onde emtão estávamos, a qual foi muito avante. Dos christãos que ali morrerão, e que da mesma doemça nesta Costa, onde se vierão, falecerão, passarião de quatro mil almas, afora os gentios que também ouve bom quinhão delles, por estarem os ares carruptos, e clamarem todos que os deixassem ir fora da ilha. Pareceo bem dar-se-lhes licença pera isso; assi se vierão pera esta Costa; antes porem que se viessem, era pera aver muita piedade da mortãodade grande, que não pareceia senão hum ramo de peste. Avia casa aonde apenas se achava quem lhes fizesse hum bocado pera comer. Era também isto em tempo que a mais da gente estava pobrís- sima, pello que tudo lhe faltava e no espiritai o mesmo, pois que pera os ouvir de comfição cinquoenta padres apenas bastarão, e pera os ajudar a bem morrer avia mester mais. Não pode ser menos senão morrerem muitos sem comfissão, e não duvido senão que alguns ao desemparo. Quanto ao espiritual, acudíamos da maneira que podía- mos e ao temporal lhe forão os padres boa ajuda. Falamos aos patãoguatins que buscassem algum dinheiro pera acudi- rem as necessidades; buscou-se e, por aver tão grande neces- sidade, fomos constrangidos a ficar de o pagarmos se os patãogatins o não pagassem. Tomarão-se emprestado de duzentos cruzados pera sima, e com isto buscamos gente de que se pudese fiar pera se repartir pellos que mais necessi- 3 99
dade tivessem, em o que também não ouve pouco trabalho, porque segundo avia os doentes, poucos se achavão destes [502 v.] taes e, achados dai a outro dia, ou ado//ecião, ou por res- peito de seus doentes, não podião acudir a esta obra. Nos outros também nos ocupávamos no mesmo, tendosse cuidado não somente dos christãos, mas também dos infiéis, o que tudo foy de muito serviço de Deos e grande edificação pêra todos e, se isto não fora bem, parece que ouverão de morrer mais dos que morrião. Tanbem vierão os christãos a esta Costa, e alguns dos companheiros com elles vinhão tão combatidos da doemça e ares corruptos, que morrerão ca também muitos, onde tam- bém forão ajudados de nossos padres no espiritual e tempo- ral, bem que não tanto como na ilha de Manar, onde, alem desta grande mortandade, que ouve, em o tempo dos inver- nos, ouve também algumas vezes morrerem arezoadamente, que apenas ha quem pera la queira tornar, de que, sendo emformado, o bispo de Cochim escreveo que pudessem estar nestas terras suas amtiguas, a que se vierão. Espera elle de vir pera Março visitar estas suas ovelhas, e ver onde poderão milhor estar, e trabalhar o posivel de os por onde posam ser bem doutrinados. Depois de por alguns meses durar a morte e doemças, ouve Deos Nosso Senhor por bem de cessar, o qual seia muito louvado, porque os bons exercícios que em Manar tinhão foram nesta Costa delles esquecidos. O Padre Diogo Fernandez, de que acima falo, estava doente em Manar, que asentavamos de se ir pera Cochim a curar, vindo a esta Costa, a hum lugar que se chama Tutucorim, que he o maior lugar da Costa, começou a acharsse milhor e, vendo a necessidade que avia de dar de comer a quem o pedia, esforçousse a ouvir de confissão os penitentes. Esta hum nosso irmão, de quem escrevi, que sabia a limgoa, por nome Francisquo Durão, o qual lhe era inter- 400
prete; apenas poderia escrever a comsolação que ambos sem- tião em este menisterio, assi por virem muitos a pedir este sacramento, e muito mais a recebião de verem a emmenda de vida e abandonarem em algumas comfissõis copia de lagrimas que faziam também chorar a quem os ouvia, verem jumtamente como huns trazião os outros comprindo o que diz São Joam qui audit dicat vent. Muito podia escrever disto, mas desejo não ser comprido. Emtendi destes dous compa- nheiros que, de verem o muito fruito que se fazia, tiverão mais comsolação do que nunqua depois de religiosos ou que nunqua a tiverão maior. Alguns dias que o padre esteve no dito lugar, quasi todo o tempo guastava nisto das confissõis e algumas outras cousas semelhantes de bautismos, de ma- neira, que as vezes, não ficava tempo pera algum alivio do corpo. Ofereceosse huma necessidade de hir o padre a Manar, polo que esta obra não pode ir avante. Eu, polios lugares donde andava e ando, também tinha e tenho comfissõis, alem de minhas ocupaçõis comtinuas e ma desposição, e certo que por vezes tirava forças de fraqueza pera comprir com a deva- çam dos que a pedem, mas nem com isso satisfazia senão com muito poucos, e quem visse nestas partes muitos obrei- ros aprendendo e sabendo a limgoa, a qual aprende o dito Padre Dioguo Fernandez, com outro padre por nome Ma- noel de Bairros, de que na do anno passado escrevi que ouvia de comfiçam, por saber a limguoa. Em o lugar onde esta, sempre tem santas ocupaçõis, nem elle pode acudir a todos os que pedem comfiçam. Deos Nosso Senhor ordene que em cada lugar destes aja sequer hum padre. Estando o dito padre em hum certo lugar, fazendo huma igreja, vierão huns certos homens de huma casta que fazem marinhas, a fazer as paredes da igreja; falou-lhe o padre de Deos; asemderão-se de maneira que asentarão de se bautizar. Comunicaram-no com os parentes e com muita alegria vierão DOC. PADROADO, IX 26
hum Domingo pedir o bautismo. Ouve algum inpedimento, por parte do rendeiro da terra, que he gentio, mas elles cons- [503 r.] tantes de // triminarãosse a não tornar atraz. Forão bauti- zados, tomando os christãos do lugar cada hum seu afilhado e dando-lhe panos pêra se vestirem, e comer e pousada. Foi hum fervor mui grande no povo; moravão os sobreditos algum tanto polia terra dentro. Estão aguora aguazalhados emtre os christãos, pêra hai averem de viver. Seriam os bau- tizados por todos sesenta. Esperamos que outros da mesma casta doutro lugar perto deste façam o mesmo; tem dado palavra de si; perficiat Deus quod, incepit. Como andamos este anno muito espalhados, não pude ter tanta conta nos bautismos, mas emtre livres e forros bem passarão este anno de quinhentas ou seiscentas almas, dei- xando a parte os mininos nacidos dos christãos, bautizando com tento os que vem, que, se abríssemos a mão, muitos veriam, porem a mister faze-lo a tento, non credendo omni spiritui. Os dias passados tinha hum gentio hum minino de mama doente pera morrer; sabendo-o hum irmão, falou com seu pai, roguando-lhe o deixase bautizar. Foi disso contente, de- pois morreo. Foi Deos Nosso Senhor servido de salvar aquella alma por aquella via. Ocupamsse tanbem os companheiros em meter paz em- tre os discordes, em o que sempre se faz serviço ao Senhor Deos, que se isto não fora averia muita peleja e discórdia. Fazemos também em alguns luguares praticas a alguns devotos, per cujo meio temos sentido aver resultado muito fruito, segundo na do anno passado escrevi, e não ha duvida senão que esta converçaçam particular dos que nos querem muito frequentar pera cousas de suas almas, com as praticas espirituaes que se lhes fazem cada somana, he hum meio per onde Deos Nosso Senhor tem muito aiudado esta gente e a-de ajudar. 402 1
Hum homem de que na do anno passado dei conta, que fora primcipal movedor de se fazerem estas praticas, vai muito avante na virtude, e sertifico ser-nos bom ajudador, porque põe foguo omde esta e amda. Temos alguns outros companheiros que também nos ajudâo, de que somos muito comsolados, he he pera se dar muitas graças a Deos do modo de proceder dos taes, e como amdão atrahindo ao bem a huns e a outros, que he também grandíssimo e eficacíssimo meio desta gente se ir aproveitando. Inter alia, por estes nossos devotos sabemos alguns males que se fazem ou estão pera se fazer, os quais trabalhamos de castigar ou impidir. As si que tem Deos Nosso Senhor muito ajudado e comsolado por per estes taes cujo numero vai acrescentando Deos. Quanto a se ter cuidado dos pobres muito poderia dizer nesta. Grandemente forão ajudados dos nossos padres no comer, vestir e serem curados de suas infirmidades e, polas necessidades serem muitas este anno, conveio pedirmos di- nheiro emprestado per vozes (sic) e gastarsse, o qual os primcipaes depois paguarão. Não somente se teve cuidado dos christãos, mas também dos infiéis se tem, que muitos vierão e vem, assi em os curar, como a outros dar de comer € vestir, em que tudo he Deos mui servido e louvado e se da grande exemplo a todo genero de gente, Bem fora estão os padres dos gentios de se ocuparem em semelhantes obras, polo que, e por verem quão santa vida he a dos padres, vem todos a desigualdade que ha dos padres dos gentios ha dos christãos, laudetur Christus in omnibus. Também se tem muito cuidado dos portugueses doentes, assi em Manar onde ha espiritai, como em outras partes. Nesta Pescaria, que aguora se fez, aconteceo vir o capitão com boa copia de soldados e, sendo bom quinhão delles doentes, passavão trabalho. Falouce a hum interprete desta Costa, que aqui // tinha sua molher, pera junto de sua [»3 ».] 4 ° 3
casa se fazer outra, e ter cuidado dos ditos doentes, aguaza- lhando-os na casa que se avia de fazer. Foi disso comtente; demos ordem que se fizesse a casa; recolheo-os, curou-os em o que se fez não pequeno serviço a Deos. Em Manar, estão dous lugares de christãos de casta de careas; no maior não emtrou a doemça do anno passado; no pequeno estão os christãos, que erão moradores do dito Manar, antes que pera ele nos passássemos. No dito lugar grande se ordenou este anno aver huma maneira de Mise- ricórdia. Fez-se espiritai (sic) onde se curarão os doentes; pedem cada somana esmola por todo luguar; prometerão os christãos cada anno pera os guastos huma certa camtidade, e loguo começarão a dar alguma cousa em o que Deos tam- bém he mui servido. Outras particularidades podia contar, do grande cuidado que os padres tem dos doentes e necessitados, e mais neste anno que ouve muita pobreza; no dito luguar grande se ordenou virem os devotos a ouvir pratica a sesta-feira, como se tinha dado ordem aos christãos paravas no outro lugar pequeno, de que o padre que esta na fortaleza tem cuidado. Estava por irmitão hum christão, o qual tinha cuidado de incinar as oraçõis, e tinha o mais cuidado necessário dos christãos. Este foisse de Manar por doente a outra costa; ho padre me emcomendou muito o mandasse chamar, por ser muy necessário, dizendo que, estando elle presente, quasi escusava hum irmão. Tãobem fazia seu ofycio, alem do bom exemplo que dava de sua vida. Et inter alia, sem embargo de ser mamcebo, guardar castidade. Emviei-lhe recado a esta costa pera se ir ao dito luguar; loguo foi. Em cheguando a Manar adoeceo, mas nem por isso tornou atras, mas perce- verou, emcinando e fazendo seu oficio no dito luguar. E porque falei aqui de como o dito mamcebo guardava castidade, me pareceo dar-lhe conta de outro mancebo, filho de hum dos tres homens, que ha nesta costa mais homrrados,.
e o mais riquo da dita costa ha dias que da muito boa conta de si, depois que se detreminou a comfessar e ouvir as pra- ticas e nos comversar a este fim. Mas como o enimiguo não dorme, afim de semear sizania entre a boa semente, acom- teceo ser cego e prezo com David (1). Sabendo-o, castigua- mo-lo; emmendou-se, tanto que soube depois que a domzela, não o podendo atraer a sua casa como dantes, detreminou ir de noite onde estava este mamcebo dormindo, mas não alcançou mais que o que hia cometer São Bernardo, e assi estão espantados alguns de verem como esqueceo aquilo, de que tão lembrado estava, sei haec mutatio dexter a excel si (2). Algumas vezes escrevi das desputas que tínhamos com os mouros e gemtios, e também com os que são como seus padres. Este anno ouve também algo disto, em o que temos semtido ter-se feito muyto serviço a Deos. Ha por bem Sua Divina Magestade que fiquem sem ter que responder, e a sua santa lei por verdadeira e, posto que estas desputas não fação impreção em muitos dos imfieis ha quererem dei- xar o mao caminho e tomar o bom, todavia faz-se proveito em ficarem os christãos mais comfirmados na verdade da fee, e amdam alguns tão destrados em as taes praticas, que, onde vem lugar, se põem a desputar com os ditos imfieis e os comvemcem, bem que alguma vez lhe digo se não ponhão a desputar, por ser defeso aos seculares. Quanto a linguoa desta terra, estão os companheiros muito avante nella; alguns tempos se fala sempre a mesma limguoa, pondo-se pena a quem falar português. Também se tem pratica de gramatica feita, lemdo e declarando as regras delia. Posso afirmar-lhes que esta o caminho tão aberto pêra se apremder a limguoa, que parece apenas avera quem a não aprenda. Este anno se fez muito nella, fazendo-a mais (1) Alusão à forma como o mancebo prevaricou. (2) Salmo 76, 11. 405
breve em muitos paços e muito mais clara; irmos mais ao [hm r.] cabo // da limguoa faz que as regras que se vão domde (sic) sejam mais claras e mais breves; he também esta limguoa- gem mui dificultosa no ler e esecrever. Este anno se derão também humas regras, pera sem muita deficuldade se apreen- der. Hum irmão nosso por nome Estevão de Guois, de quem os annos passados tínhamos pouca esperança de poder apremder a limguoa, espero que cedo ho ordenem, segundo me escreveo o Padre Provincial, ha nos ser grande ajudador, porque tem partes pera isso. Acerqua da estada destes christãos (3), não sabemos de certo onde sera. O bispo de Cachim espera de vir ca pera Março a visitallos, como acima disse, e ver onde milhor poderão estar; a-de trazer consiguo ho Padre Mestre Belchior, segundo se diz. Ate agora os senhores da terra e seus oficiaes tratão bem os christãos, e nos deixão fazer o que queremos, e tanto, que mandando hum oficial de el-rey justiçar com pena de morte a hum ladrão, sabendo-ho hum padre nosso, se foi ao padecente falando-lhe de Deos e se queria ser christão; respondendo que sim, depois de o doutrinar, apres- sadamente ho bautizou, e disse que podião delle fazer o que quizessem, que seu officio ja o fizera. Disse amtão o que o mãodava justiçar que, ja que elle era padre dos christãos, também o tinhão por padre seu, e que lho emtreguavão sem o justiçar. Assi que per esta via escapou hum da morte, de modo que bom tratamento nos fazem, mas grande bem seria estarem estes todos em terra que somente fosse sobieita a el-rey de Portugal, e não a reis gentios, e por Manar ser doentio não parece que se poderão mudar pera la. Como esta gente se vai cada mais aproveitando, assi ha necessidade de mais padres, e porque creo que el-rey não nos (3) Refere-se aos novos aldeamentos, após o abandono da ilha de Manar. 4 O 6
poderá dar ca tanto gosto pêra todos os padres necessários, e o padre provincial te agora não quis que tomássemos nada dos christâos, escrevi ao padre se nos poderia mandar mais companheiros. Dos mais exercícios que commumente temos, e os chris- tâos também, como de ouvirmos suas demandas que ha Igreja pertemcem; de castigarmos os culpados; de frequentarem os christâos as igrejas; de trazerem suas ofertas em luguar das que antiguamente ofereciam aos pagodes; de aprenderem os meninos e meninas as oraçõis e outras cousas, assi que por cartas atras temos escrito em alguns annos, não he necessá- rio repetirsse mais que ir-se comtinuando o sobredito. Sera bem dar-lhe alguma conta da ilha de Manar. Estão as duas povoações de que acima dei conta; esta também huma fortaleza, aonde esta o capitão e alguns homens casa- dos, alem dos soldados que ha. O Padre Jeronimo Vaz, que na dita fortaleza esta, segue os exercícios acostumados que atras escrevemos de pregar, confessar e fazer que todos vivão bem, posto que a gente não he muita. Em os dias muito solemnes, sempre ha muitas comfissõis, e muitos tomarem o Santíssimo Sacramento, alem de aver também em alguns outros Domingos fazerem alguns o mesmo e, posto que onde ha soldados, cummumente aja muita largueza, em Manar, polia bondade de Deos, não a ha. Trabalha o padre que vivão como gente que tem regra, e o capitão que o ajuda ha isso, ho qual he muito amiguo do padre. Praticasse que em poucas fortalezas fronteiras ha tão bom conserto de vive- rem bem como aqui, a gloria seja a Deos. Alguma vez tam- bém se usa de castiguo, que tudo he necessário. Acertou hum soldado de por a boca em Deos; foi disso denunciado e, depois de preso, alguns se vierão acuzar e pedir com lagrimas penitemcia de averem caidos (sic), no mesmo erro. O prezo foi castiguado na igreja e ha emmenda deste vicio. Tem também o padre grande vigilamcia de 407
meter em paz os discordes, em o que se serve muito Deos Nosso Senhor, porque onde ha soldados, sempre ha estas [sot v.] misérias e des // afios. Em se ter cuidado dos doentes, no espiritai se faz também muito serviço a Deos, em o qual não somente curão os da terra mas a alguns que desejão vem (4). E outras necessidades também se provem. Estão, ao presente, tres mamebos no mesmo esprital, que tem cuidado de servir os doentes; hum delles o tem também da igreja; tem desejos de servirem a Deos na Companhia; dão boa conta de si, vivem como em religiãm e não faltão antre elles algumas mortificaçõis. O feitor disto, depois de Deos, he o padre. A igreja da fortaleza, posto que não he feita de obra prima, tem pera a terra mui boons ornamentos que ha muito ornão, e ella em si tem hum ar que faz certo (5) devoção aos que nella entrão. O padre tem muito cuidado de a ornar cada vez mais; ha também camtores de camto de orgão, que camtão vesporas e oficião as missas aos Domingos e festas; tudo ajuda acresentar a devaçam. Esta também hum irmão em Manar que aprende a lim- guoa. O dito Manar pollo menos tem necessidade de mais cutro pera as povoaçõis dos christãos. O Padre Dioguo Fer- nandez, de quem acima diguo ser ido a Manar ha hum certo neguocio, espero que de la venha cedo. Não deixarei de dar conta de hum gentio que, passando por junto de huma cruz, a haste da qual por estar guastada e o vento grande acertou a cair, e dando no mesmo gentio, o tratou mal. Emomendousse loguo ao nosso Deos, prome- tendo-lhe huma candea e, achandosse despois bem, ha trouxe ha igreja, pidindo o bautismo com grande vontade e assi o bautizarão. (4) O P." Henrique Henriques tem estilo muito seu, e às vezes consegue adivinhar-se apenas o sentido. (5) I.é.: certamente. 408
Por se ir fazendo tarde pera mandar as cartas a Cochim, e ser necessário mandar a tempo huma via, vai esta carta mail concertada; pode ser que a segunda via ira mais apurada e acrecentada. Não tive lugar pera falar com os meus charis- simos mais largo, porque não fiz mais que fazer treladar a carta, que emvio pera o Padre Geral. Por amor de Deos mo levem em conta. Estou roguando ao Senhor Deos nos dee sua graça com que perfeitamente o sirvamos. Deste Tutucorim, oje, vinte e dous de Dezembro de 1564. Inutilis Amrrique Amrriquez 4 ° 9
59 CARTA DE D. ANTÃO DE NORONHA A EL-REI Goa, 30 de Dezembro de 1564 Documento existente no ANTT: CC, 1, 107-38. Mede 300 x 210 mm. São 10 folhas, nove das quais escritas. Em bom estado. Dois selos em lacre vermelho. Refere a viagem de Moçambique à índia; o estado em que encontrou a índia; as dificuldades de dinheiro para acudir, sobretudo, à guerra de Cananor; os preparativos que o Idalcão e o Izamaluco faziam para lançarem todos os prín- cipes indianos contra as principais praças portuguesas. [7 <•■] // E posto que estes, como mouros e infiéis e imigos nosos mortais, desejem sempre nosa destruição, porque sua natureza e ley os comvida e obrigua a isso, não deyxão de ter rezão nas queixas que tem de nos, pola pouca verdade que lhe guardamos, e alguns agravos e sem rezõis que lhe faze- mos, e não diguo isto por aver aguora nesta neguoceação da crystandade nenhuma desordem descuberta, senão polo tempo passado em que ouve algumas, e inda agora no secreto de alguns zelosos e devotos, e não sey se digua também ipo- critas, que he fruita que se daa em toda a terra, que alvoroção e espantão a gente da terra, que de muyto pequenas cousas 17 v.] se escandalisão // e afugentão. E, louvores a Deus, nesta ilha hee jaa feyta tanta crys- tandade que de dez partes não he huma a gentia, mas esta pouca que ha duma indulgência plenaria, que este anno veio q to t ;
nas naos em que eu vym, que ho Santo Padre concedeo a toda pessoa que fizesse quaa e fose causa de se comverter qualquer imfiel a nosa santa fee, que se apreguou nos pul- petos, bastou pera se despejarem muytos desta ilha e se pasarem a outra banda, com começarem alguns zelozos e devotos de quererem guanhar a indulgência e buscarem e per- suadirem os gentios com mais instancia do que dantes fazião, arrecearão que os querião fazer crystãos por força, mas eu acody loguo a isso, e o arcebispo também, por sua parte, que não he de parecer que se fação senão por sua vontade, bus- cando pera isso meios que ho Evamgelho manda, e não outros nenhuns, e apsyguaramos e aquietarão-se loguo, e nem aos religiosos lhe deixa de parecer que se deve de fazer asy, nem aos padres da Companhia, que se mais derão e dão a esta obra que todolos outros e que, a meu ver, mais fruyto e proveyto quaa fazem. Mas, como diguo, allguns devotos seus que andão por fora, fazem as vezes allgumas desordens nesta cousa da crys- tandade, a quem tenho mandado que as não fação daquy por diante, sob pena de os mandar castiguar mui bem por isso, e foy-me neseçario mandar pasar allguuns seguros a gemte de allgumas aldeas e ilhassynhas, que aquy ha, que os não farião crystãos por força, se não por suas vontades, polas não despejarem, por V. A. não perder a renda delas, e a cidade ho serviço desta jemte, sem ha qual não podem viver, que no tempo de Dom Costantyno se despejou esta ilha de Dyvar, e como não ouve jente que reparase os valloos, que- brou-se a aguoa por muitas partes, e estaa aguora a mor parte dela alaguada e desaproveitada, porque foy crecendo ho danno nestes annos atraz, por se lhe não acodir, e he ja aguora obra deficultoza e de muyta despeza, e asy ha outras aldeas des naquele tempo alagadas e desaproveitadas, em que V. A. tem perdido alguma renda, que eu agora desejo de remedear e aproveytar. 4 1 1
Os padres da Companhia, ainda que diguão que seu sobejo zelo fose causa neste tempo destas ilhas e aldeas rece- berem este dano, todavia são homens muy proveitosos a esta terra, e que acodem a muytas obrigações, como na converção dos infiéis, mormente aonde V. A. não provee de cleriguos, como em Maluco e no Cabo de Comorym, e em outras muytas partes, onde se deyxarya de preguar o Evangelho, se [8 r.] eles nelas não residisem, donde // tem feito e fazem muito serviço a Deos. E na caza e colégio desta cidade lhe fazem muito, onde tem e sostentão, antre padres, irmãos e meninos e cathe- cumenos, tresentas pesoas contynuas, e as vezes quatrocentos e quynhentos, segundo ha mais ou menos de cathecumenos, que sempre comcorrem muytos, e he neles muy bem empre- guada a despeza e esmola que lhe V. A. faz, que não he tanta como se laa cuida, porque me lembra que disserão a V. A., estando eu laa, que lhe rendião os paguodes desta ilha, que tynha dados a caza, cynquo ou seis mil pardaos, e tenho sabido que lhe não rendem mais de mil cruzados, e com hos dous myl mais que lhe V. A. manda dar de sua fazenda cada anno, e com hos presentes que não he cousa certa, sostentão toda esta despeza, e como não tem beneses, misas, nem eranças, antes tenho sabido que lhe falta muytas vezes ho neseçario do que lhe sobeja, e tem inda a igreja desta casa por acabar, e allgumas officinas de demtro em que tam- bém despendem, asy que V. A. deve de aver tudo o que lhe daa por muy bem empreguado e por huma das esmolas mais proveitoza que faz. V. A. me dise laa que estes padres da Companhia lhe requerião que, vaguando quaa allgumas aldeas em Baçaym ou em Damão, mandase que se aforasem algumas pêra com elas sostemtarem os colégios de Cochim e Baçaym, e man- dou-me que, vaguando algumas, os provese delas, e porque V. A. me mandou isto por palavra, e não por escryto, e os 4 1 2
seus desembarguadores me dizem que o não devo nem poso fazer, por V. A. defender nas suas Ordenações que se não afore renda sua a cleriguo nem a religioso, lhe não comfir- mey humas alldeas de que huma molher vyuva fez doação, e renunciou no dito colégio, pera as averem depois de sua morte, polas elas ter em fatyota, a quail he inda viva, e não lhe comfirmey esta doação senão ate V. A. ho aver por bem, e lha comfirmar demtro em tres annos que lhe dey pera isso, e se V. A. ouver por seu serviço que se lhe aforem mais aldeas, que deve de ser com lymitação do que ouverem mys- ter pera a sustentação deles, mande-me por sua carta, ou lhe mande pasar a eles alvara seu em que ho aja asy por bem, sem embarguo de o defender nas suas Ordenações. Na ilha de Salsete e em Baçaym tem estes padres e os — de São Francisco a renda das mesquitas pera a despenderem e guastarem com a crystandade, que aly tem feyto e fazem, a qual renda rendia dous mil e tantos pardaos e Francisco Barreto, sendo guovernador, lhe perfez por todos, pera esta obra, tres myl pardaos, de que despendem a metade os da Companhya // e outra ametade os de São Francisco, com a i» v.] mesma crystandade, os quaes lhe eu aguora quisera tirar todos no regymento que fiz a Baçaym, e afyrmou-me ho arcebispo que jaa aly foy vesytar algumas vezes, e outras pesoas que sabem e tem experiência daquela terra, que se perderya muyta crystandade e se farya muyto deserviço de Deos e de V. A. se se não despendese este dinheyro poios novamente convertidos e por outros que ho jaa são, pobres e necesytados, que se não sostentão doutra cousa, e por me parecer que não averia V. A. por bem deyxar-se de fazer tão santa obra, lhe deyxey ho que rendião as mesquitas pera ela, e ho mais que acrecentou Francisco Barreto lhe tirey, como V. A. poderaa mandar ver no trelado do mesmo regi- mento que lhe mando. V. A. asemtou laa que se tirasem aos padres deste com- 4 ' 3
vemto de São Domingos de dous mil cruzados que lhe man- dava fazer de esmola cada anno de sua fazenda quynhentos, os quaes lhe eu tirey, em cheguando aquy, e por me depois requererem e provarem que nem inda com hos dous mil por emteyro se podião bem soster, e que pasavão nesecidade, por também acodirem a outras casas com parte desta esmola, lhos torney a deyxar, vysta sua necesydade, e me parecer que ho averia V. A. asy por bem, mas foy com condição que na torna viagem destas naos fosem obriguados a trazer supry- mento de V. A. porque, não no trazendo, lhe avião de ser tyrados. E, polo que tenho sabido de sua despeza e das poucas acheguas que tem doutra parte, parece que lhos deve V. A. de conceder todos ate terem outro remedio. O viguairo-geral desta ordem, que se chama Frey Manoel da Serra, quando —- aquy cheguey, estava em Baçaim, onde tynha comprado huum chão com preposyto de fazer aly huma casa sua e começava jaa de abrir alycerces, a que acudy com mandar que se não fizese a obra, por não aver por serviço de V. A. as muitas casas que estas relegiões quaa querem fazer, nem proveyto de sua fazenda, porque por derradeyro todos se sos- tentão dela, que pera Baçaim bem lhe abasta huum mosteiro de São Francisco, e outra casa dos da Companhia, que laa haa, e também achey feita outra casa de franciscos em Chaul, pera que ho conde lhe deu lycença, e pera que lhe eu não quis dar provymento de vynho e azeyte da fazenda de V. A., como estaa em costume dar-se-lhes pera as outras, porque tudo ho que se faz em Chaul, asy como ele agora estaa, tenho por obra perdida e desnecesaria, e em Talapor que he huma tanadarya das terras de Damão, começavão também estes frades franciscos a fazer huum mosteiro que também [9 r.] mandey que não fosse // por diante, e em Damão ha tres casas de cada huma destas ordens suas, sem aver muro nem baluarte, nem ser inda posta a prymeira pedra pera a forti- 4 ' 4
ficação daquela fortaleza, e porque me não parece bem isto, e lhe reprovo quererem fazer tantas casas, que he cousa de que eles tem muyto gosto, não creio que escreverão a V. A. que são quaa muyto favorecydos de mym, mas a verdade he como eu lhe dou todo o favor que me pedem pera as cousas do serviço de Deos e pera sua sostentação, e noutras muitas em que se eles querem meter, comfeço a V. A. que me não achão obidiente como eles quiserão que lhe eu fora em to- das, porque folguão e desejão muyto de os viso-reis lhe faze- rem a vontade e lhe serem aprasiveis, que he mui bem feyto no em que eles pedirem rezão, mas em tudo ho mais faço ho que entendo que hé mais serviço de V. A. e bem deste seu Estado, e isto deve de crer de mym, inda que eles e outras pesoas lhe escrevão ho contrairo, porque nynguem trata quaa se não de seu interese particular, e como lhe não respondem bem a ysto, ynda que hum homem que guoverne este Estado faça ho que deve no serviço de V. A. e trate do bem comum, desapraz a muytos que, como diguo, não tem respeyto senão ao seu.' Noso Senhor sua real pesoa e estado por muy longuos annos prospere e aumente. Desta sua cidade de Guoa, a 30 de Dezembro de 1564. Dom Antão de Noronha. 4 1 5
60 CARTA DO PADRE FRANCISCO LOPES Cochim, 6 de Janeiro de 1565 Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fls. 523 r.-524 v. A graça e amor de Christo nosso Redemptor seja sempre em nossas almas. Amen. Muita consolação recebemos com as boas novas que este anno de 64 communicarão por suas cartas, assi do bom successo do Sancto Concilio, como também das grandes mi- sericórdias que Deos Nosso Senhor cada vez mais comunica a esta sua mininma Companhia, por todas essas partes de Europa. O mesmo Senhor, donde todo o bem procede, seja sempre de todos louvado e glorificado. Sendo-me ordenado polia sancta obediência vos desse, charissimos, conta do que o Senhor obra nesta cidade de Cochim, por estes seus fracos instrumentos, direi, o mais breve que puder, do que toca a este collegio pera que, em alguma maneira, se satisfaça aos grandes desejos que todos tem de sabere novas de seus em Christo irmãos, e das cousas de edificação destas partes. E começando polias cousas de casa, estamos ao presente dezoito, a saber: seis padres e os demais irmãos, com saúde corporal, gloria ao Senhor. Andão todos occupados assi em mortificações, e mais cousas que ajudão o espirito, como em os ministérios que, polia obediência, lhe são obrigados, para o mesmo fim, ajudando-se da guarda das regras, promptidão 7 6
na obediência, disciplinas publicas, e todo o demais que he necessário para a perfeição que a Companhia de cada hum dos particulares pretende, ajudando-se também muito das praticas e conferencias espirituais, que todas as sestas-feiras se fazem em geral, e outras em particular. E de tudo tirão muito proveito, para o que ayuda muito o cuidado e dili- gencia dos superiores, que tem do aproveitamento de todos, e assi das boas praticas que tratão no repouso, como da vida e milagres dos sanctos, especialmente daquelle dia, o que incita e move a virtude e perfeição, e com o bom exemplo que os irmãos huns aos outros de si dão, occupando-se assi os antigos como os noviços em cousas humildes e baixas, quando convém, como he cada hum lavar a louça da cozinha a seu dia, depois de ientar. E acerca da oração, se pola manhã das quatro ate as cinquo, e a tarde da huma ate mea, e também os exames antes do ientar e a noite ante de dormir (1). Pollo Espirito Sancto, se renovarão os votos, precedendo as confissões geraes com a acostumada disciplina, com muita devação e consolação de todos, com novas determinações e propositos de padecer por Christo Nosso Senhor, com gran- des desejos e fervores, se alegrarão todos para caminhar adiante no divino serviço. Fasse a doutrina na nossa igreja todos os dias, a tarde, aos meninos, que hum irmão nosso vai chamar polia cidade, com huma campainha, do qual exercício se tira grande fruito e redunda muito em gloria de Deos Nosso Senhor. E assi estes como os de nossa eschola de ler vão e vem cantando a doutrina polias ruas, assi de noite como de dia, cousa que da muita consolação a todo o povo christão, e tristeza ao demonio e aos seus secaces, qui inter nos cohabitant. (1) Este período está incompleto, tendo o copista omitido algumas palavras. 4 1 7 DOC. PADROADO, IX 27
He este povo tão domestico, e tem tanto respeito e aca- tamento e obediência a Companhia que, determinando o padre reitor, alem da doutrina que se ensina aos meninos, se começasse no mes de Novembro a declaração delia aos domingos, a tarde, a todos os escravos e gente da terra, e pera se isto effeituar bastou dizer-lhe o padre em hum ser- mão que fez que mandassem todos os seus servos pera que v.] fossem instruídos // na doutrina e cousas da fee. Logo no mesmo dia, a tarde, cada hum teve tão bom cuidado de mandar os seus, que viamos vir de huma parte e da outra escoadrões delles, cousa muito para louvar a Deos Nosso Senhor. E ajuntados na nossa igreja, acabado de se lhes fazer a doutrina, juntamente com os meninos foi hum padre a igreja, e lhe começou a dar a declaração delia. E pera que melhor se acomodasse aos ouvintes, falava as vezes meio negro e meio português. Isto se vai continuando, do que espe- ramos resulte muita gloria de Deos, porque cada vez mais se vão augmentando em grande numero. As pregações se continuão na nossa igreja aos Domingos e dias de festa, das quaes sempre se tira fruito, segundo se ve polias confissões, e nas pregações das sestas-feiras da Coresma ha grande fervor e devação, principalmente no sermão da Semana Sancta. E acabadas as competras (sic) e pregações das sestas-feiras, vai todo o povo, que aqui se ajunta, em pro- cissão a Misericórdia, com os meninos da eschola com seus hábitos brancos, que pera isso trazem de suas casas, com sua cruz alevantada, e nos taes dias nunqua faltão diciplinantes, o que tudo move a muita devação. Pregasse também daqui da casa na see, e na Misericór- dia. A frequência das confissões neste collegio he grande, especialmente aos Domingos e festas do anno, e ordinaria- mente sempre a quem se confesse, porque como seia escala desta cidade pera todas as partes, acodem aqui todos ao 4 f 8
tempo de suas embarcações, a tratar todas as duvidas que competem a salvação de suas almas, e quietação de sua cons- ciência, no que se faz mui grande serviço a Nosso Senhor. Neste anno, se fizerão muitas amizades, e algumas delias de muita importância, por serem entre pessoas de muito respeito, como foi entre hum rei malavar, muito amigo dos portugueses, e hum capitão de huma fortaleza de el-rei, estando a cousa muito travada, porque avia jaa da parte de el-rei oito mortos; acudindo a isto o padre reitor, juntamente com o senhor bispo, prove a Deos que os puserão em muyta paz e concórdia. As outras forão entre dous fidalgos muito principais destas partes, que tendo entre si grandes bandos e odios, por avendo hum parente de hum delles o cunhado do outro (2) e estando a cousa em estado que de feito se ouverão de seguir grandes males, acodio o padre a isto e quis Deos Nosso Senhor, por sua bondade e misericórdia que se fizessem amigos. Outro fidalgo também andava pera matar hum homem, por lhe dizer algumas palavras injuriosas, e também o padre os fez amigos. E, alem destas amizades, outras muytas se fazem, no que muito se serve ao Senhor, porque como quer que os homens nesta terra commumente vivão da honra, muitas vezes por amor delia faltão ao amor e charidade, que se devem huns aos outros, segundo Deos. Estrovão também muitos desafios porque como moremos (sic) em parte por onde commumente saem para o campo os que tem as bri- gas, temo-los jaa em vigia, e também nos vem a visitar, de tnodo que acodem logo os nossos, e aos mais destes põem em paz e fazem amigos. Tem-se muita conta com os presos, dos quaes tem cui- dado hum padre nosso, para os ayudar no espiritual, e con- (2) Faltam palavras. 4 1 9
fessando-os e pregando-lhes, e dizendo-lhes algumas vezes missa. E também no corporal, quando a necessidade o de- manda, e também se tem dado cuidado a outro padre nosso de visitar e consolar os pobres e doentes dos espitaes, de que toda esta cidade esta muito edificada da Companhia, por verem o amor e charidade, com que acodem os nossos a seme- lhantes necessidades, e tanto mais quanto a necessidade he urgente, como aconteceo que vindo aqui ter a nao Graça, que do reino vinha, que por ir ter ao Brasil, e vir polias ilhas de Maldiva, veio fora de tempo ter a esta cidade, que foi causa de lhe adoecer muita gente, tanta que o espital com ser [52< r ] asaz grande não // cabião os doentes. Ordenou logo o padre reitor que os fosse laa servir. Foi hum padre e alguns irmãos. E nesses dias, andando hum nosso irmão servindo aos en- fermos, hum dos quais por estar muito ao cabo, foi neces- sário confessa-lo e dar-lhe o Sanctissimo Sacramento, o qual, como o recebesse, o tornou logo a vomitar e vendo o irmão isto assi o revocado (?) juntamente com o corpo do Senhor, tomou-o e levou-o para baixo, muito sem nenhum pejo, do que todos assi os enfermos como todos os outros ficarão grandemente edificados. Forão curados com muita charidade e, posto que vinhão mui doentes do mar, todavia morrerão poucos, e depois que Nosso Senhor se ouve por serviço de lhe dar saúde, não avia jaa tempo para Goa, onde estava o seu senhor governador, por ser Inverno. Quis o padre reitor prover a alguns males, de que a pobressa podia ser causa a tantos homens, porque erão cento ou mais. Determinou juntamente com os irmãos da Misericórdia pedir hostiatim e somou o que lhes derão em seiscentos ou setecentos pardaos, com que se mantiverão e se deu mesa a todos atee o fim do Inverno, que cada hum foi ganhar sua vida. Foi esta huma obra de muito louvor de Nosso Senhor, porque se atalhou a muitos peccados, que todos estes homens puderão fazer, se lhe faltara o necessário- 420
He tam aceito o serviço dos nossos neste espiritai aos portugueses, que, fazendo o provedor delle huma varanda para refrigério dos enfermos, no cabo delia mandou fazer hum cubicolo muito bem feito pêra se recolherem os nossos " todo o tempo que estivessem no esprital, pera estarem sobre si mais recolhidos, movendo-se a isso de seu proprio mom. Deseiando o senhor bispo a reformação dos christãos da Serra, e tirallos de alguns erros, que entre si tem, por serem sempre regidos e governados, segundo se diz, por bispos armé- nios, movida Sua Senhoria com este zelo se partio daqui este Inverno passado, levando consigo o guardião de São Francisco e o vigairo de Sam Domingos e o padre reitor deste collegio, dos quais christãos forão recebidos com amor e char idade. E vendo Sua Senhoria a materia disposta pera principio do que se desejava, proveo logo algumas igrejas de vigários, pera que os insinasse e ministrasse segundo o modo da Igreja Romana e, alem disto, quiserão os cacenares, que são os seus sacerdotes, que o senhor bispo tomasse a cargo insina-los nas cousas da fee, e administração dos san- tíssimos sacramentos ao nosso modo, para que assi se con- servassem comnosco, e pera se isto effeituar, o senhor bispo deu logo principio a hum collegio nesta cidade de Cochim, porque era este o milhor meio e mais conveniente pera se poder reduzir toda aquella christandade. E estando as cousas dos christãos da Serra em este estado, chegou qua o senhor bispo arménio nas naos que desse reino vierão, e ficou tudo isto em branco. , Com a chegada do jubileo para todos os que convertes- sem algum infiel a fee de Christo Nosso Senhor, ouve qua grande fervor e abalo, porque assi homens como molheres trabalhão o que podem, a huns convertendo e a outros com- prando por dinheiro, pera que assi os acorrentem e tragão a receber o sancto bauptismo e a verdadeira fee. Ay jaa mui- tos que estão por casa destes casados, aprendendo a doutrina; 4 2 '
esperamos com a ajuda de Deos Nosso Senhor, daqui a poucos dias fazer-se hum grande bautismo. Quererá o mesmo Senhor conservar em seu divino serviço assi estes novamente convertidos, como os que estão jaa feitos. O principio das escholas este anno parece que levou a vantagem a todos os passados, porque antes deste dia, que he o das Virgens, começarão os estudantes a mostrar suas habilidades, porque a crasta, que antes se ornava com mui poucas orações e epigramas, este anno ouve de huma e outra cousa em abundancia. Estavão entre as orações quatro epi- gramas muito sotis, as quaes de nenhum dos doutores da índia forão adevinhadas. Também os da eschola de ler e (escrever puserão muitos trabalhos de diversas letras, os 1524 v.] quais fizera o // irmão meste (sic). E tudo isto dava muito lustre as cousas dos estudantes que estavão em lugar sepa- rado. Alem disto, fez o mestre da primeira classe huma tra- gedia pera se representar o dia das Virgens, a qual tratava do peccado de Adam atee a morte de Abel, e a vesporas, o dia antes que se representasse a tragedia, choveo tanto que não esperávamos que se pudesse representar no teatro que estava fora ao terreiro, ao longo da nossa igreja. Finalmente que estando nos nestes termos, começou-se a repicar os sinos e tanger as charamelas; foi de maneira que atee o outro dia não choveo nem gota de agoa; seria por nos querer Deos Nosso Senhor consolar com nos dar bom tempo. Finalmente, recitou-se a tragedia com se achar nella o senhor bispo e adaião, provisor e outros clérigos e o mais povo. Tinha cin- quo actos, e a cada acto avia musica de frautas, charamelas, e violas de arco, e alguns cantavão a estes instrumentos. As figuras satisfizerão asaz aos circunstantes, especialmente ao senhor bispo. Foi tãm satisfeito que pedia depois ao padre reitor que se tresladasse em lingoagem, por ser cousa de tanta devação, e bem se mostrou isto nas lagrimas que os ^22
que a entendião derramavão. A despedida foi de maior de- vação, porque, depois de morto Abel, vierão cinquo anjos cantando huns versos a vozes, que levavão huma tumba pollo meio do teatro, e assi com satisfação de todos se deu louvor a Christo Nosso Senhor. Depois de ter escrito atee aqui, pera que fosse segundo a ordem das mesmas cousas, não me pareceo cousa de pouca edificação e alegria em o Senhor fazermos participantes da grande devação da gente desta cidade no ganhar do jubileo da vocação da propria casa, que he da Madre de Deos. Oito dias antes do nacimento do Senhor, e antes do dia da festa, denunciou o padre reitor deste collegio o modo que se avia de ter pera se ganhar, e ainda que o jubileo não tinha de obrigação confessarem-se os que o avião de ganhar, todavia foi tam grande o concurso da gente que veo, que Nosso Senhor deu asaz que fazer, e soubemos também como nos outros mosteiros e igrejas fora o mesmo fervor. E quanto ao numero da gente que veo a visitar esta nossa igreya, pera poder ganhar o jubileo, dezião todos que nunqua tanto se vio em Cochim, porque a vespora antes que abrirão as por- tas da igreja, atee as oito horas da noite, sempre esteve a igreja chea de gente, e o dia foi quasi da mesma maneira, e comungarão aqui nesta igreja quatrocentas e tantas pessoas, afora as mais que comungarão nas outras, gloria ao Senhor. Depois deste jubileo que também o Padre Joseph Ri- beiro ganhou, se começou a achar da sua enfermidade muito mal, tanto que passou dai a nove dias deste valle de lagri- mas para a patria celestial aonde creo que estaa, pollo muito odor de suas virtudes, que neste collegio depois de sua che- gada de Goa deixou. Finalmente, a doença foi nacer-lhe nas costas da mão esquerda huma cousa como empigem, mas tinha hum mal muito grande, que se lhe ia lavrando pollo braço ariba, e o lugar que ocupava quasi se lhe ia amorte- cendo, não sentindo nada. Procurou-se sua saúde com toda
a diligencia que se pode, por meios da obediência, e porque os físicos portugueses não entenderão a doença, chamarão hum phisico christão da terra, homem experimentado em muitas curas. Este, vendo-lhe a doença, disse-lhe que o curava, e pos-lhe humas ervas de tanta força que todo o lugar que a doença tinha ocupado se fez em carnagão. Final- mente, levou-o Deos Nosso Senhor pêra Si, com nos deixar a todos mui edificados com a muita paciência que mostrou em sua enfermidade. Ao presente não se offerece mais, senão que muito me encomendo nos sanctos sacrifícios e orações de todos. Oye, deste Cochim, de collegio da Madre de Deos, a seis de Janeiro de 1565. 4 2 4
61 CARTA DO IRMÃO GONÇALO FERNANDES TRANCOSO AO IRMÃO ANDRÉ GOMES, EM S. ROQUE Cochim, 10 de Janeiro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 221 v.-222 v. A graça e amor eterno de Jesus more continuamente em nossas almas, Amen. Sabendo, alem da obediência me mandar, a consolação e alegria que em o Senhor tem, com as cartas destas partes, me esforcei, charissimo, a lhe escrever estas regras, com tão roim letra como pouca humildade e mortificação que pera a bem fazer se requer. Avendo de escrever, huma das matérias sera a grande companhia de servos que o demonio tinha nestas partes da India, e tem ainda, e que tanto fazem pollo servir, porque hay alguns a que tras tão cegos que, de todo, andão nus, e por comer pouco, trazem a barriga apertada com hum cinto de couro, de huma mão travessa de largo, de tal maneira que facilmente se encerra entre duas mãos. O comer conti- nuo destes, segundo dizem, he tantos bredos. quantos se dão por hum real, pouco mais ou menos, e andão todos cobertos de cinza, e são tão soberbos que a todos mais gentios e mou- ros desprezão, e ai alguns tão abstinentes que dizem não comerem mais que huma vez no dia. Outros chegão a tanto, que elles mesmos se põem a morer, deitando-se debaixo de huns carros que levarão, por cordas, dous mil homens, e ally se fazem em pedaços, e a carne destes taes se tras por grande relíquia. 425 L
Estas e outras cousas que serão larguas de contar, fazem estes miseráveis, por agradar ao demonio, a quem com tanto trabalho servem, tendo por pago o inferno. O com quanto fervor, charissimo, aviamos de trabalhar, para agradar a Deos e não ter em nada todos quantos trabalhos pode dar o mundo, demonio e carne, pois o Senhor, a quem servimos, he também quem, assi como não deixa culpa sem castigo, não deixara também algum bem sem premio, e por derra- [222 r.] cieiro se a si por premio a quem O serve. // He se elles, gentios, tanto trabalhão por hos terem por santos, que dizem ser huma das cousas por que se põem en tanto extremo, que- rendo ser tidos polo que não são, que muito que nos outros, tendo conhecimento da sua soberba e seguindo a verdade, queiramos ser tidos polo que somos. E tenho pera mim que, por muito que cada hum de nos queira ser tido em pouco, não cheguara a quão pouco he de si. Leve-me em conta a pouca humildade que nesta mostro ter, e não se desedifique de minha soberba em falar tam larguo. Do mesmo fervor e animo se achão alguns christãos pera morrerem por amor de Christo, como foi hum do Comorim que, por não rapar a barba, por morte de hum rei gentio, sendo entre os gentios custume, por doo, raparem-se todos, se pos a lhe cortarem a cabeça, dizendo que se lhe cortasem a cabeça, que lha avião de levar pendurada pola barba, e desta maneira, levando os olhos pera o ceo, verião a seu Criador e Senhor que o criara, e outras semelhantes pala- vras; e a elles (poios gentios) se lhas cortassem, as avião de levar polos cabellos, e que irião olhando pera baixo, aonde estavão os diabos. E finalmente não o matarão, mas tomarão- -lhe dezaseis mil fanõis, que poderão ser mil e cem cruzados. O outro christão do mesmo Comorim, em Ceilão, quis antes paguar, creo, mais contia de dinheiro que esta, que fazer-se gentio, constrangendo-o assi isso, de maneira que, 426
chatíssimos, assi gentios como christãos destas partes nos parece sobrepojarem no serviço, ainda que sejão os senhores differentes, e mereção o contrario hum do outro. Tudo isto nos dara muito motivo de confusão, se com alegria a nosso Deos e Senhor não servirmos de todo coração e forças, pura- mente polo Elie merecer. Novas de mim he ser sãochristão e fazer a doutrina christãa, todos os dias, e o mais que me encommen- dado (sic), não com pouca negligencia. As do collegio, polas cartas geraes, as saberão mais meudamente. Fica agora de- sejar muito de o ver, se não for nesta terra miserável, sera na gloria e bemaventurança, pera// onde caminhamos. [222 v Encomende-me, charissimo, em suas santas orações, que eu o mesmo farei. Carecemos qua tanto de contas bentas; a muita necessidade me faz pedir-lhe huma conta de Boé- mia. Por charidade, se puder, ma mande. Deste collegio de Cochim, oje, dez de Janeiro de 1565. Foi qua tanto o fervor da christandade, com hum jubileo que o Santo Padre concedeo a quem convertesse hum infiel, que não tão somente os homens portugueses, mas ainda as molheres pobres da terra e filhos de portugueses o procura- rão, e em tanto numero que, perguntando a hum menino quantos tinha pera fazer christãos, me disse que não tinha mais de seis, e que buscava ainda mais, pera os quaes buscou camisas e calções, e cuido que gorras ou chapeos, com que os levou a baptizar e despois lhos deu. Do seu servo em Christo Gonçalo Fernandez Trancoso. 427
62 CARTA DO PADRE ANDRÉ FERNANDES Coulão, 11 de Janeiro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. I49r.-150r. A graça e amor do Espirito Santo seja sempre em nossas almas, amen. Segando as ocupações são muitas, não fora muito não v.] se vos escrever este anno //, fora por comprir a obediência e não se perder esta consolação de sabr la o que o Senhor, por meio de tam fracos instrumentos, obra. Somos aqui dous sacerdotes e dous irmãos, e parece que cada hum trabalha por passar diante do outro, em todos os exercícios de nosso instituto, e livremente dizemos os defeitos huns aos outros, que se recebem com alegria, acodindo com a emenda. E traz isto proveito, porque, alem de andar, por esta causa, cada hum sobre sy mais, como he necessário em toda a parte, todavia, aos que andão tanto no campo, como nos, parece particularmente ser necessário em tudo dar bom exemplo, e assy he, por bondade do Senhor. Aquy neste Coulão prega sempre o Padre Payo Correa na matriz, ainda que algumas festas na nossa igreja, porque aos Domingos se diz missa aos irmãos, e se lhe faz também pratica e doutrina christã; aqui também se faz, cada dia, aos meninos e também em hum hospital dos christãos, e assy em hum lugar que, por hum pouco desviado daquy, lha vão la fazer. Fazia-se também aos Domingos no mos- teiro de S. Francisco, por não terem quem a soubese na lin- q. 2 8
goa da terra, atee que daquy lhe ensinarão hum que agora a faz. Temos aquy também escola de ler e escrever, em que aprendem os meninos, que aquy se crião da costa, assy de hum Cabo de Comorim, como de outro, quasi os mais filhos de portugueses e também de christãos da terra. Fazem-se muitas confissões, porque polo bom odor que sempre a Companhia aquy deu, lhe são muito devotos e lhe tem muito credito, de sorte que a principal gente se confessa aquy, dos portugueses, e quasi toda a dos christãos que sabem a lingoa, que he muita, e muitos se confessão a meude, ainda que os christãos, em toda a parte, parece que tem particular amor e reverencia a Companhia. Assy se fazem muitas amizades, e se tirão alguns de peccados, e se ajuda a bem morrer, e se fazem outras obras pias conforme a nosso instituto, e em tudo, pola bondade do Senhor, se ve muito fruito, especialmente nos da muita consolação a frequentação dos sacramentos dos christãos, homens e molheres, casados e solteiros. E pera acudir a tudo o que se oferece não bastão os que aqui estamos. E demais disto, temos, como ja sabeis, a nosso cargo a costa, daqui ao Cabo de Comorim, em que ha vinte quatro povoações e desasete igrejas, nas quais se ensina, cada dia, duas vezes, a doutrina christã aos meninos que são mil e seiscentos, pouco mais ou menos, o Pater Noster e Ave Maria em latim; o mais na sua lingoa, e aos sabbados as molheres, e ao Domingos aos homens, e se lhe fazem frequentemente praticas, das quais parece irem-se aproveitando, porque antes mais parece fazia nelles o castigo que ellas; todavia, de hum e outro nos ajudamos, segundo parece convir-lhes, e como digo, se ve nelles muita melhoria nos custumes christãos, por serem castos, sendo antes muito desconcertados neste vicio, e pacíficos, sendo antes muito brigosos, e facilmente perdoão e pedem perdão, no que soião ser duríssimos. 42 9
Ve-se também muito proveito em serem muito tirados // dos abusos gentílicos, a que erão muito affeiçoados, e antre elles ouve hum ou mais que disserão que, se aos que caisem em algum, se fosse homem, que lhe fizesem ter na mão huma vasoura, e se fosse molher, huma espada de pao, que antre elles se custuma, na igreja, em quanto estivesem a misa, e que se emendarião, por tanta injuria o tem, que da- vão ou derão quasi tudo o que tem antes que sofrer isso. E certo he para louvar ao Senhor a emenda que ha, depois que alguns forão assy castigados. De sorte que quasi de todo, nesta parte, se vai alimpando a christandade. Tem esta christandade tanta reverencia aos da Compa- nhia, que qualquer de nos que a toda huma geração ou a todo hum povo mandar o que a sua natureza for mais repu- gnante e difficil, sem nenhuma resistência o fazem, polo que parece vir a ser, por tempo, boníssima christandade e bem empregados os trabalhos e perigos grandes e incommo- didades, que agora por elles se passão de todos os que andão em sua conversão. Muitas vezes se offerecem praticas com mouros e gen- tios, jogues e bramenes, e ainda que delles se aproveitem poucos, por sua ensensibilidade e cegueira, que amão mais que a luz e gosto danado, que sabem milhor o pão, ou as pedras, por milhor dizer, da mesa do demonio que o de Deos, todavia, os christãos, vendo-os ficar confusos, sem ter que responder por suas seitas mas, antes confessar a lei christã ser verdadeira, ficão mais confirmados. E não ha muitos dias que hum christão, que antes mui- tos apartara e vivia mouro, como dantes era, e se nos mos- trava contrario quanto podia, o mandei chamar com se- guro, o qual veo, e por ser o mais honrrado do seu lugar, bem acompanhado delles e gentios. E despois de lhe ter dito o mal que fizera em tornar a comer o arrevessado e deixar a Deos verdadeiro, se determinou, e reprendendosse 4 3°
disse que queria viver como christão, o que lhe disse que era necessário de todo o coração pesar-lhe do que tinha feito, e pedir a Deos perdão disso, e de novo arrenegar de Mapha- mede e sua lei. Disse que o faria, mas que em secreto, não consentindo eu, mas que avia de ser diante de seus mouros e mais gente que presente estava, com consentimento e aprovação dos mesmos mouros, confessou a Christo por verdadeiro Deos e sua lei por santa, e que nella so se salvavão os homens, e a Maphamede por péssimo mentiroso e sua lei por falsa, e que a condenava ou erão condenados os que a guardavão, ao inferno, e adorou e beijou a cruz, a quem antes tinha feito hum grande desacato e prometeo fazer huma igreja no seu lugar, que ya faz. Foi isto em conjunção, e por ser tal pessoa, e molher e quatro filhos, que nos deo muita con- solação, mais que outros, que também se reduzirão delles. Os que se baptizarão este anno santo, filhos de christãos, como outros antre adultos e ynocentes, forão mais de oito- centos e cimcoenta, que todos seja gloria ao Senhor, o qual nos de sua graça. Deste Coulão, oje 11 de Janeiro de 1565. Servo inútil Andre Fernandez L 4 3 1
I 63 CARTA DO IRMÃO AMADOR CORREA Cochim, 15 de Janeiro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, 111. Fls. 150v.-151 r. Charissimo em Christo irmão: Huma sua receby, com a qual tive não menos consolação que se o ouvera visto e conversado, se me não engano, por- que, como na sua diz, não nos tendo visto nem conversado, e vendo eu que sou a mais pobre, minima e misera cousa que se pode dar, e vendo juntamente com isto que se esta elle lembrando, de tam longe, de mym, e de me consolar, com tanto desejo de minha salvação. Em especial fuy con- solado, em me trazer a memoria huma cousa, de que me tenho pouco aproveitado, por meu descuido, a qual me en- comendou muito o nosso bemaventurado Padre Mestre Francisco, que he cuidarmos e cuidar cada hum de nos, em particular, que o peso e edificação da Companhia este em nossa propria pesoa, e assy trabalhar de correspondermos a tamanho peso e obrigação. Eu lhe fico que me emende de quam mal o fiz atee aquy, e lhe peço, por amor de Deos, que sempre tenha cuidado daquillo que vir que me convém, escrevendo-me e avisan- do-me, porque nisto sentirey o amor, e o mesmo que folga- ria que fizesem os mais charissimos irmãos desas partes. Nosso Senhor lhes conceda, em pago, virem ca cedo, para converterem grande numero de gentios, mouros e judeos que nestas partes ha. O charissimo, que acharia que fazer, 4 3 2
porque não somente acharia estas tres layas de gente, mas ainda outras, a qual não sei como lhe chame, que são huns homens que de gentios se fazem jogues, que são como reli- giosos, e estes vem a tanta perfeição que ficão, por derradeiro, de nenhuma destas, o que lhe fica he huma soberba summa de desprezarem toda a outra muita de gente, e a este grao os traz o demonio, de pasarem por muitos annos de ermo e abstinência, se a fazem, porque eu não no affirmarey. Destes mandou o viso-rey, Dom Constantino, ao colle- gio de Goa, o qual achou, indo com huma armada fazer guerra a certos povos gentios, em huma ilha que se chama Angediva, com lhe dizer que veria os nossos padres e o collegio, e que depois, se quisese tornar, que o fizese, fazen- do-lhe muita honrra, o qual, depois de estar, polo menos dous annos no collegio, fazendo-lhe os padres muito gasa- lhado, especialmente o Padre Francisco Roiz, a quem o viso- -rey o encomendou, que argumentava com elle algumas vezes e respondia as pergunta que le fazia o labatão, que assy creo se chamão aquelles, de que ficava o padre espan- tado e satisffeito, vendo que era homem de muito juizo. Por derradeiro, fez-se christão, com o pedir muito tempo antes, mas não lho concedião, pollo provarem. Ouvi dizer ha dias que he muito bom christão e prega agora a outros, e que ainda estava no collegio de Goa. Ora veja, charissimo, onde ha tanta mentira de gentili- dade e de diabos quanto avera que fazer, se Nosso Senhor os trouxer ca muita parte delles, ainda que fosse a todos os da Companhia, não somente de Portugal, mas de Castella, França, Italia e todas as outras partes. E para que saiba que não ha nisto nenhuma duvida, // [iso somente o Japão he, segundo dizem, de seiscentas legoas, e a China que se espera, pola bondade de Deos, se abrira muito cedo, he muito maior, afora esta costa da índia, na qual ha tanta gente que somente os christãos da Serra e 43 3 DOC. PADROADO, IX 28
Comorim e Goa passão de trezentos rail, e os que estão fei- tos christãos, fora os que são gentios, he como se em Lisboa somente fossem christãos os padres de S. Roque. E isto afora Japão, China, Sião, o Macassar, o Maluco, os Jaós, Dachem, Cafraria e a ilha de S. Lourenço, e outras partes, que para as contar avia mister grande tempo, como as ilhas de Maldiva, de que he rey hum christão que mora aquy, em Cochim, que dizem que são onze mil. Ora veja onze mil ilhas quantas pessoas serão. Assy, que, charissimo, se Nosso Senhor os ca trouxer, verão mais claramente isto, pollo olho. Nosso Senhor, por quem he, a elle e aos que o desejão traga a tal empresa; em especial, agora, neste tempo, folgara de os ver ca, porque ha o que nunca foy, com o jubileo que o Santo Padre, inspirado polo Espirito Santo, ca mandou, e onde os portugueses, em especial, a maior parte delles repu- gnava a christandade que se fazia, agora, não somente lhe falão para serem christãos, mas ainda lhe dão dinheiro e ajuda pera que o sejão; e quando por esta via não podem, comprão gentios e fazem-nos christãos, e outras semelhan- tes cousas. Encomendo-me em os santos sacrifícios e orações de todos os desse collegio. Deste collegio da Madre de Deos de Cochim, a 15 de Janeiro de 1565. Indigno irmão in Domino Amador Correa. 4 3 4
64 CARTA DE EL-REI D. SEBASTIÃO AO VICE-REI, D. ANTÃO DE NORONHA Almeirim, Fevereiro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 222 v,-223 r. Viso-rey amigo. Eu, el-rey, vos envio muito saudar. Muito contentamento recebi em entender, por cartas do anno passado, quanto hya em crescimento a obra da conversão, e quanta parte e ajuda para issso he fazerem-se os baptismos solenes, e executa- rem-se os meios que el-rey, meu senhor e avo, que santa gloria aja, e eu, pera isso temos ordenados, dos quaes, por experiência, se tem visto serem muy importantes ao bem da conversão de todas essas partes. E porque eu sou infor- mado aver ainda alguma remissão na execução, especial- mente em se deitarem fora de minhas terras os bramenes, ourives e gentios per judiciais, e isto por se não saber quaes estes sejão, vos encomendo muito que vos e o arcebispo de Goa, com os padres da Companhia de Jesu, e mais religiosos que vos parecer, determineis os que se ão-de botar fora de minhas terras, e os que por todos for assentado serem perju- diciais, pera bem da conversão, se deitarão fora. E porque eu folgarey de saber o numero de christãos que novamente na ilha de Goa, e nas outras cidades, e em todos mais lugares e fortalezas dessas partes, ate a China e Japão, em cada hum anno se fazem, mo escrevereis sempre, acres- centando os que de novo, em cada huma das diversas partes 435
se fizerem. E nisto, em se fazerem os baptismos com muita [223 r.] solennidade, e em se // favorecerem os que novamente se convertem a nossa sancta fee, vos encomendo muito tenhaes aquella conta e vigilância que pera semelhante obra se requere, porque, alem de nisso se fazer muito serviço a Nosso Senhor, receberey eu muito prazer e contentamento. Escrita em Almeirim, a (1) de Fevereiro de 1565. (1) Reservou-sc um espaço em branco para a data, mas não se escreveu. 4 3 6 J
65 PROTECÇÃO AOS MARINHEIROS CRISTÃOS Goa, 6 de Fevereiro de 1565 Documento existente no AHEl: Livro do Pai dos Christãos, fls. 81 v. Publicado por Cunha Rivara no seu APO, V, págs. 586. O Viso Rey da índia &c. Mando a todolos Tanadares dos passos desta ilha de Goa que quando aos ditos passos forem buscar marinheiros pera as armadas de ELRey meu senhor, que avendo em cada huma das ditas Tanadarias marinheiros christãos e gentios, dêm primeiro pera as ditas armadas dos marinheiros gentios, e não nos avendo hay, e faltando por qualquer via, então darão dos marinheiros christãos de maneira que não haja falta nas ditas armadas. Noteficoo assy e mando que cumprão e guardem este na maneira que nelle he declarado sem duvida nem embargo algum, posto que não passe pela chancelaria. Francisco de Lisboa o fez em Goa a 6 de Fevereiro de 565. O Secretario o fez escrever. — Viso Rey.— Secretario Manoel Leitão. 4 37
66 PROTECÇÃO AOS MARINHEIROS CRISTÃOS Goa, 6 de Fevereiro de 1565 Documento existente no AHEl: Provisões e Alvarás a favor da Christandade. FILMUPO, Id. 31-5. O vice-rei da India, etc. Mando a todos os tenadares dos passos desta ilha de Goa que quando aos ditos passos forem buscar marinheiros pêra as armadas de el-rey meu senhor, que avendo em cada huma das ditas tenadarias marinheiros christãos e gentios, dem primeiro pêra as ditas armadas dos marinheiros gentios, e, não nos avendo hay, e faltando por qualquer via, então darão dos marinheiros christãos, de maneira que não haja falta nas ditas armadas. Notifico-o assy, e mando que cumprão e guardem este, da maneira que nelle he declarado, sem duvida nem embargo algum, posto que não passe pela chancelaria. Francisco de Lisboa o fez em Goa, a seis de Fevereiro de quinhentos sesenta e sinco. O secretario o fiz escrever. Vizo-Rey. Regis- tado. Manuel Leitão. Por que Vossa Senhoria manda aos tenadares dos passos a (sic) esta ilha de Goa, que quando aos ditos passos forem buscar marinheiros, que hi ouver gentios, e não nos avendo haja então darão (sic) os christãos. Regis- tado, Simão Fernandez (1). (1) Publica-se este documento, idêntico ao anterior, para efeitos de comparação entre o hoje desaparecido Livro do Pai dos Christãos, de Rivara, e o códice Provisões e Alvarás a favor da Christandade. 4 2 8
67 CARTA DO PADRE JOÃO BAPTISTA DE RIBERA AO REITOR DO COLÉGIO DE CÓRDOVA, ALONSO DE CARATE Goa, 27 de Outubro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, 111. Fls. 143 r.-147 r. A cópia encontra-se bastante clara, mas com muitas correcções e aditamentos por cima das linhas. Pax Christi. Porque Vuestra Reverencia me lo ordeno, quando por esse collegio passe, y porque la antigua et nullo unquam tem- pore moritura obligacion que tengo, en nuestro benignís- simo Jesu, a Vuestra Reverencia, no assy como quiera, sino de agradecido hijo en el mismo, a tal padre, y no padre segun la came corruptible, sino segun el spiritu que nunqua tiene fin, he querido, por los dichos y otros muchos respechos, dar cuenta a Vuestra Reverencia de nuestra perigrinacion o nave- gacion, para que iuntamente todos alabemos al Padre de las misericórdias, porque vocati sumus in societate filii ejus, Jesu Christi, Domini nostri, y que haze mirabilia magna solus salvans sperantes in Se (1). Partimos pues, Padre mio, en el nombre de Nuestro Senor, Domingo de manana, 25 de Março de 1565, dia de la Santíssima Anunciation de Nuestra Senora, dei puerto de Lisboa o barra (como ellos la llaman) quatro naos, muy (1) Cf. Salmo 135, 4. 4 39
fuertes y hermosas; en las dos de las quales es a saber: en la capitania, y la Esperancia, por appelido, nos embarcamos seis sacerdotes da la Compania, los quatro destinados para el Japon, es a saber: el Padre Maestro 1 Alcaraz, que estava en Salamanca, hombre muy docto y de rara virtud, y el Padre PeroJ Buenaventura, y Alexando de Bhugio, ciudad de Lombardia, y Baptista; los otros dos, el Padre Olivera y Pero (2) de Argudo para la India absolute. El Padre Buenaventura y yo, con uno de los dos últimos, entramos en la Esperança; mandandome a my que agerem ecclesiastice los Domingos e fiestas, etc. Perseveraron las naos en conserva, veniendo la una poco legos de la otra, hasta el Domiengo seguiente, sino me acuerdo mal, que nos hallamos sobre las islãs de la Madera, que estan a duzientas legoas de Lisbona; donde puestos, cada una començo a tomar su derrota, por el espaciosissimo golfo, haziendo el viage que a su piloto parecia. E assy nos desaparecimos los unos de los otros, en brieve tiempo. Nuestra nao, navegando prosperamente, aunque poças vezes a popa, se hallo sobre la linea ^equinoctial, a los seis de Maio, Domingo, dia de S. Juan Ante Portam Latinam, a mil legoas de Lisboa, y aun que aquel paraje suele trabajar mucho las naos, porque llegados a el, a causa de los exces- sivos soles, no se halla sino raramiente viento y los mares sedent, pareciendo de azeite, por muchos dias, y assy no van atras ni adelante. A la nuestra, bendito el Senor, no falto, o poco, o mucho, nunca, de manera que o de noche o de dia se hazia siempre algun camino, y no uvo deternimte (sic) notable, sino de quatros dias, pola causa dicha, del ruin clima, y porque algunos grados, antes y despues de la linea, de los contínuos vapores y exhalationes que ally ay, es de (2) Padre ou Pêro? 1 — M.ro i 2 - P.* 44 °
la tierra, aun que esta lexos, ay quasy cada dia torvellinos con muchos invernos y agua, que donde caie se pudre luego sino se lava en la mar, ut contraria curentur confronts. Es aquel ayre muy contagioso y enfermo, y assy, fue Dios Nuestro Senor servido de començar a visitar la gente, que no era en menos numero que de 650 personas, con callenturas furiosas y agudas, de que, al principio, pareciendo no yrian adelante, no se hijo mucho caso, remediando luego presentemente con sangrias mui frequentes, el qual solo presidio se tenia y experimentava, por particular antídoto, para la salud de los patientes. Pero ordenandolo el Senor de // otra manera, el mal, que pareceia al primcipio de poco [M3 v.] momento y tiempo, començo a crecer y echar raizes, de manera que, en poços dias, avia poços que en toda la nao no le reconociesse senorio, y no solamente cayan pera llevan- tarsse, como acontecia a muchos, pêro desmandosse a matar muchos delos que le venian a las manos, sin poderse poner remedio en ello. Y assy, quando llegamos al Cabo de Buena Esperança, que fue el postrero de Junio, teniamos ya, en la mar, sobre ochenta personas, y el mal iva adelante, con tanta maior violência y fuerças, quanto se los ministrava maiores: el ayer ja mu corrupto, la suziedad y mal odor de la nao, la falta que se començava, y no poca, quando llegamos sobre el Cabo, a sentir de las medecinas y remedios necessários, y lo que mucho apretava y accorralava a los enfermos la encer- tissidad (sic) de la navigacion, que se iva haziendo mas luenga de lo que pensávamos. Metese el Cabo Buena Esperança en la mar, haziendo el golfo immenso mil y seiscentas o mil y ochocentas legoas, y de aquy os que no se puede venir derechos a el, por temor de no hallarle debaxo, a causa dellos vehementissimos vientos, que de la parte occidental soplan ally comumente, que echan los navios a su costa, sin remedio de poder passar 44 1 L
mas. De donde son forçados aquellos a quien esto acontece bolvier la proa a Portugal. Siendo pues esto assi, se apartan los pilotos dei dicho Cabo, dexando el derecho camino quinhentas y seiscientas legoas. Y como el Cabo esta en trinta y cinquo grados y medio, ellos se ponen en su derecho y altura, a trinta y seis grados, y vienen assy, con vientos de ponente, que soplan comumente por ally y son en popa, has que, poco mas o menos, por senales que tienen de tierra, assy de paxaros como de cosas de mar, que son ciertas de la vizinidad de la cuesta, conoscien que hes doblado el Cabo, en lo qual con- siste el hazerse o no hazerse esta peligrosissima y dificílima navigacion. Nos otros, como dixe, llegamos el postrero dia de Junio, sobreveniendonos, por la luna ser nueva, y no aver tenido el mes pasado, a lo menos, mediado el viento, sino algunas calmas fastidosas, un viento tan vehemente del poniente que puso los mares, que alli de ordinário son altíssimos, en el cielo, y començo a agitar la nao de manera que las calmas pesadas pasaron en abierta tormenta y temporal deshecho, poniendo a todos en gran peligro. Corrimos dessa manera dos dias y una noche, con tanto temor que no se puede dizir; hizimos recurso en este como en los otros trabajos a Aquel, que solo puede sacar dellos, y que conturbat profundum maris, mitigat quando lo parece, motum flutuum eius, poniendo por medianeros a su benditissima Madre y a las Onze Mil Virgines, y a los demas santos y santas, cuias sagra- das relíquias trahiamos con nosotros, colgando en la mar algunas, y Agnus Dei, y haziendo delante de las dichas relí- quias las letanias, suplicando al Senor nos sacasse de aquel peligro. Y assy plugo a su bondad statuere procellam ejus y que silerent jluctus eius, et Icetati sumus quia siluerunt, dando-Le todos muchas gracias por tantas misericórdias. El dia seguiente, que seria a los três de Julio, descubri- 44 2
mos, al ha2er dei dia, tierra, de la qual nos hallamos a diez o doze legoas, y tomose iuntamiente con reconocerla el fondo; corrimos con aquel temporla ciento y cincuenta y mas legoas, y hallamonos al descubrir de tierra a mas de ciento y trinta, doblado el Cabo, le qual recreo mucho la gente enferma cansada y atemorizada. Puesta la nao en este paraje, el mesmo dia, en la tarde, descubrimos una nao y, reconociendo que era de las com- paneras, nos fuimos llegando a ella, y ella a nosotros, hasta que nos podíamos saludar, lo qual se hizo disparando algunos tiros de artelleria, con mucha consolacion de los unos y de los otros, que despues que de las islãs, que dixe, nos aparta- mos, nunqua nos aviamos visto de ninguna manera. Apartose aquella nao de la nuestra, al dia seguiente, no queriendo ir de compania, por ventura por entender que en la nuestra avia enfermidad y temiendo que el ruin aire delia no la inficionase. Discorriendo, pues, por nuestra derrota, a no se quan- tos//dias, començo el viento a ser muy lento y poco, y [in r.] entrarse a priesa el mes, sin ir la nao mucho adelante, a cuia causa, y porque quando pasa cierto termino, traen los capi- tanes orden dei rey de consultar si se ha de ir por de fuera, sin tocar tierra hasta aqui, o si por dientro, para tocar a Moçambique, que es una isla pequena, donde quando la navigacion se aspera, suelen ir las naos reposar algunos dias y la gente, se iuntaron el capitan y los mas a quien tocava para tratar dello; y la resolucion fue que se tocase en Moçam- bique, viendose quasi ad oculum, que el ir por fuera era ponerse a risco claro de morir toda la gente, y no aver quien governase en una necessidad la nave, aviendose muertos algunos marineros y hallandose muchos' olos (sic) mas que quedavan enfermos y no convenir tentar a Dios. Con esta determinacion endereçamos nuestros viage a Moçambique, dexando el golfo y entrandonos por la canal 44 3
de la isla de S. Lourenço, que esta en medio de la mar, a lo menos, ciento y trinta y mas legoas de tierra, y es muy grande y rica y habitada de idolatras y moros, y segun dizen, buelve dozientas o trezientas legoas y lleva mucho zemzibre y pelse (sic) y oro y piedras pretiosas, ultra que es muy deleitosa. Seguiendo, como digo, nuestra navigacion, llegamos a Moçambique a los 7 de Agosto, donde se recreo la gente mucho, y se provenieron, los que trahian manera para ello, de muchas cosas necessárias y de refresco para lo que que- dava de la navigacion; y los enfermos fueron curados y socorridos en un hospital que alli esta, a costa dei rey de Portugal com mucha charidad. Tiene en aquella isla el rey un capitan o governador portuguez y muy noble, el qual se muda de tres en tres annos, y es la mas provechosa fortaleza, y entre las mas que ai en la índia para los governadores, porque en tres annos sacan cien mil ducados, y sus criados ricos. E esto es porque ally viene de la tierra firme, que es quasi contigua, como a tiro de ballesta, una quantidad quasi indicible de dientes de elephantes, de los quales estan los bosques llenos, y la gente, que es alias barbarissima y bestia- lissima, los toma passim con grande facilidad, y no comen de otra cosa que de aquella carne tostada al sol o, por mejor dizir, cruda. Y assy mismo viene de ally el mas fino hebano de todo el Oriente, y en mas abundancia, ultra de mucho oro en polvo o granos que aquellos negros, mas que la pez, en los cuerpos y animas no tenen moneda de menos precio que aquella, y truecanlo por contezuelas de vidro y otras cozilhas mas viles. En ninguna destas cosas puede tratar nadie sino el capitan, y daquy es que se haze en poco tiempo tan rico. Ay ally algunos casados portugueses y otros mestisos; es la isla de menos que legoa de circuito, mui mal sana; tiene galinas y palomas y trayenlas tambien de la tierra firme de las nuestras, aun no tan grandes comumente, ni tan sabo- 444
rosas como las da Europa. Tienen puercos assi mismo en sola aquella isla y tierra tan sanos que dan su carne a hom- bres muy enfermos de callenturas, y dizen los medicos que son mas sanos que las mesmas galinas. Estuvimos, pues, en esta tierra y isla, has los 18 de Agosto, en el qual dia salimos, no con poco temor de tener de bolver a envernar alli, por ser el tiempo ya muy tarde y los vientos, con que se sale y viene aqui a Goa, que son nueve centas legoas, faltar en medio del camino, por los calores que Setiembre, que aqua es primavera, lo mancan. Fue, empero, // Dios Nuestro Senor, servido que navegando [144 con buen tiempo y durable llegamos a esta ciudad metró- pole, en la mayor parte Christiana, desta índia oriental, a los 18 de Setembre, y uvieramos llegado antes algunos dias, si no uviera ávido temor y descudo en el piloto, sanos e buenos todos los companeiros y con poços enfermos, aviendo ya, desde Moçambique, passado la fuerça del mar, y aviendo echado a la mar ciento y trinta, o mas personas. Hasta aqui, he dado cuenta a Vuestra Reverencia de la navigacion y de algunos de los trabajos delia; aora la dare, para el mismo fin que esta se començo, de la gloria al Senor y comun edificacion y consolacion en El mesmo, de nuestros exercícios y occupaciones en la nao, y tambien de nuestras enfermedades y dei successo delias. No se solia, padre mio, en esta carrega o navigacion llevar para aiuda de los enfermos adminiculo o arrimo que ultra las corporales medecinas, y ayudarse mas que el santo Sacramento de la Penitencia; y pareciendonos que era bien procurar lo que mas se pudesse para el mismo fin de la ayuda espiritual del proximo, nos ocorrio el de la santa Extrema Uncion, y assy le metimos con nosotros y levamos el dia en que entramos, haziendonos a la vela, a cantar las latanias, lo qual seguimos el tiempo que duro la Quaresma, publi- camiente, respondiendo todos, los myercules y viernes, y 445
privatim, en nuestra camara que trayamos la del Jimon (sic) con una mui buena varanda a la mar, que nos dio la vida cada noche, aiuntando para ella todos los muchachos y ninhos de la nao a los mas que se podian, pediendo a Dios Nuestro Senor enderetasse la navigacion para su servicio y gloria y espiritual salud de todos. Saliendo del puerto, hiziemos inquisicion, y antes se avia hecho, se yva alguna muger desmandada en la nao, y aviendo antes de la salida del puerto una, que se iva huiendo de su marido, y la llevava un hombre, que tinha una excomunion en cima, y los que lo supiessem y no lo revelassem, aviendose nel hecho una buena reprehension fraterna, por un de noso- tros, la hecho de su aposento, y hizimosla luego desembarcar y despues entendimos, estando fuera, que ivan otras tres sin aver sus maridos ny de cosa que buen olor diesse, entre las quales la una yva con habito de hombre, y teniendo ya determinado con el capitan que, llegando alguna isla de la Madera o Canarias, las hechassemos, como pestilência, de la nao, tanto mas perniciosa que la corporal, quanto el animo es mas excedente que el corpo corruptibile en ellas. Pero no aviendo ordenado Nuestro Senor, se procuro que se ençar- rassem debaxo de llave, haziendoseles un cerrado de tablas para este fin. £ assy se puso por obra, dando la llave a una persona fiel y temerosa de Dios que, a ciertos tiempos, segun los del comer y cenar y de otras necessidades, les abrisse. Iuntamente me exercitava yo en predicar los Dominguos e algunas vezes al pueblo, y en confessar a los que movia Nuestro Senor, porque lo que se le dezia a hazerlo y maior- mente quando començo la enfermedad, porque entonces, no solamente a lo espiritual, pêro a lo que en su manera, y por la mucha necessidad, que muchos de aquelos padecian, no [145 r.] era menor necessidad que era a lo corporal // dando nosotros, assi de biscocho como de algunas gallinas, que traymos, buena parte, porque la liberalidad de aquelos reis 446
prouve abundantemente a los padres, que venimos a estas partes, de matalotaiem y aposento comodo, como en la ver- dad conviene, siendo tan longa y fastidissima la navigacion y, cabiendo a nosotros, de todas maneras, espiritual e corpo- ralmente, la maior parte dei padecer y procurando que los que tenian el modo ayudassen, quien con la gallina, quien con el biscocho, quien con el açúcar, quien con la carne de membrillos, y quien con el açúcar rosado, poniendolo todo en una arca que para este effecto se avia procurado, y dando el carrego a una persona de mucha charidad, aun que todo tandem carregava sobre nuestras espaldas, porque no avia quien quisiesse perseverar con el trabayo, atendiendo cada uno a su salud, de donde nacio porque apenas de noche se podia reposar, por el continuo llamar, ya para dar la Extrema Uncion y ajudar los que se morian, ya para confesar a los que lo pedian, alien de el continuo moto dei dia, que com- mençaron los companeros a cair, y de manera que me davan no poco temor sus vidas, porque el mal era con tanta fúria que apenas dava lugar a remedio. Recayron ambos dos vezes, e ambos llegaron ad portas mortis, pêro tandem lies dio Dios Nuestro Senor salud pêra su maior serviço, como espero. A my, novissime, passado de algunos dias, ya al Cabo de Buena Esperança me contagio la misma contagion, y aun que no con la fúria que a mis companeros, por la buena complexion, tamen fue de manera que no me acabava de dexar levantar delia cama, ni avia remedio de convalecer. Acodiome iuntamiente una tos (sic) tan roin, que me puso en mucho peligro de la vida, pola fraqueza em que me aliou, tomandome, porque no podia sino con mucha dificultad y quebrantamiento expeller las vascosidades del pecho, y era forçado, no podiendo, hazer fuerça, porque ninguna corporal tenia subiacere morbo, que me hahogava algunas vezes con la flaqueza dicha. Aun que ya libre de la tos, lleguei a 447
Moçambique, donde me recreey mucho y el capitan, Dom Francisco Mascarenas, Cavallero muy principal, me hizo y me embio mil charidades y regalos. Cumpli alii con la divina gracia un voto que havia hecho, quando la tempestad me sobrevino, a Nuestra Senora, el qual cumplido, me vino por la benditissima intercession, la cumplida salud y de mano en mano las fuerças perdidas. T0 Servioce // Dios, Nuestro Senor, en las confessiones e ser- mones y otras plativas y ocupaciones de su servido con el proximo. Hizieronse algunas amistades de no menos (sic) nas personas principales y de que podian nacer no pequenos inconvenientes y otras, assi mesmo la doctrina Christiana haziamos de los companeros entre semana publicamiente a los moços y gente que corria a elia. Y esto duro hasta que se dio con la carga en el suelo, consolandonos el Senor a todos con la tribulacion de la enfer- midad, como con la salud, entendiendo ser todo de su begni- nissima mano que castigat eos primum quos Tecipit, ut post- quam probatus fueri, como disse S. Thiago en su carta, recipiat coronam vitce (3). Seia el santíssimo nome dei Senor in omni eternitate glorificado por todo lo que ordena en sus creaturas en vero iudicio y misericórdia. Olvidavasseme de dizer que todos los Domingos y festas, alternatim, los companeros dezian missa seca al pueblo, y los sabados, al anochecer, se cantava la Salve Regina, lo qual duro hasta aqui, con mucha consolacion y edificacion de todos, cabiendome a mi, aun que ocupado en los sermones, algunas. Llegados, pues, padre mio, a esta isla y barra de Goa a los 20 de Septembre, cinquo dias menos de seis meses de nuestra embarcacion, en el puerto de Lisboa, entramos en (3) Cap. I, 12. 448
una barca y caminhando por el rio arriba, que cerca toda la ysla, descubrimos en la ribeira iunto a unas palmeras, que son arbores muy grandes como palma datil y de la mesma oja, y ramos aun que la fructa es cocos, tres o quatro, que nos parecieron de la Compartia, y dimos bozes para entender si lo eran, y reconocieronnos, y reconoscimos, y haziendonos saltar en tierra, nos recibieron con el amor que en estas partes les ha imprimido Nuestro Senor, particularmiente en los coraçones, consolandonos mucho los unos y los otros, y commimos alli dei refresco que nos trahian con mucha consolacion y charidad in Domino. Y de alli, aviendo estado dos o tres horas o mas, espe- rando uno de los companeros que avia quedado en la nao, en guarda de lo que alli quedava, nos vinimos a gran rato de la noche, viendo que tardava, al colégio, donde, saltando unos y otros de sus camas, nos recibieron con entrarias arden- tes del amor en el Senor, no sabiendo que regalos hazernos. Hecharonnos luego con lavatórios de todo el cuerpo y vesti- duras nuptiales el moho (4) y suzidad de la nao, no har- tandose unos e otros de abraçamos y perguntamos quien de nuestra salud, quien de los trabajos passados, quien de los peligros, y quien de una cosa y quien de otra in Domino. Hallamos rector deste colégio el Padre Ramirez contem- porâneo mio en Simancas y en el tiempo de la vocacion, que es dessa ciudad, y confessa el viso-rei, el qual es hombre de mucha virtud y prudência y docto, y con cuio cargo estan todos estes padres mui consolados y contentos. Tieneme, padre mio, espantado la machina deste collegio y los assumptos de lo gasto ordinário, y numero de gente que tiene de sus puertas a dientro, entendiendo // de quam [H6 r.j pequenos princípios ha crescido y quan en breve. Ha, pues, (4) Assim se lê com efeito. Será o equivalente a mofo? 449 DOC. PADROADO, IX 29
de saber Vuestra Reverencia que su sitio es en la maior, y mas sana, y mas aplazible parte desta ciubdad; es mui grande y esta en altura que dizen, porque esta separada de casas y calles y pueden descobrir lo que en el y sus yardines se haze, mui esento en todo. Tiene dos apartamientos, uno de los antigos y que hão salido dei noviciado, y otro, y este el meior e maior, y mas libre que hasta ahora tengo visto en ninguna parte de la Compania, porque, con puerta parti- cular, se separa dei todo el primero, sin tener para ningun ministério que dar ni tomar con el„ en que estan los novi- cios, cujo numero sera de cerca de quarenta, quien portu- gueses naturales, quien mestizos, de mui buenos ingenios y indoles, y mucha spectacion de virtud y prefecion, a la qual totis viribus aspirant. Assi que, entre antigos e novicios, ay aqui quasi novienta personas. Leesse a algunos de los mesmos nuestros y algunos que acuden de fuera de las ordinárias de Humanidad ab ipsis rudimentis. Ensenasse assi mesmo a ler y escrivir, y la doctrina a cien mochachos, hijos de portugueses, como de mestizos, y de los nuevos convertidos, y es mucho para alabar al Sefior ver que las canciones, que poços anos atras, era pêra alabança del demonio y de los ydolos, que en su nom- bre adoravan, se aian convertido en cantares de la doctrina Christiana. Stn los nuestros que digo, estan en este collegio mas de trezentas personas a costa del, y debaxo de su direction en lo espiritual e temporal, entre grandes y chicos; son los muchachos, que es el maior numero, hijos de padres genti- les, o moros o judios, los quales, muchos ya hechos christia- nos, se crian aqui hasta cierto tiempo que, segun sus abil ida- des y inclinaciones, los colloca la Compania en los officios y con las personas que parecen mas a proposito, pera que sean hombres y sirvan a Nuestro Senor; los de mas son 4 5°
hombres y estos, o ya christianos, que ayudan y sirven en ell collegio en diversos ministérios, o catecuminos, que se instituen para el santo baptismo. Tiene alien de destos el collegio assumpto de ciertas islas, que llaman de Choran y Divar y Sant Lorencio; de la primera en lo spiritual y temporal, es a saber, porque en lo temporal sustenta los christianos pobres, con cierta renta, que de una limosna que se hizo a la Compania se compro para el dicho effecto, y los christianos de aquella isla son como cosa de la Compania, de cuyo collegio es aquella iglezia o parrochia, y tiene ally una muy buena heredad, que dara con el tiempo a este collegio muy buena renta. Las otras son del Arçobispo, y en ellas solamiente tiene la Compania el assumpto de la conversion, y el cuidado de dizir missa a los nuevos christianos que son muchos. Sin estas, tiene cui- dado // para el mismo fin, de otras dos parrochias, que estan [M6 v.] dentro desta isla, porque alien de del servicio de Dios. Nues- tro Senor, no se a podido faltar ao arçobispo que,,por no tener quien, aviendo hecho mucha instancia por elo, se le ha concedido. Buelve esta isla de Goa 4 o 5 léguas, no mas; cerra de una parte y de otra diversos rios que salen de la tierra firme, a los quales se juntan las inchantes y vazantes de la mar, de seis en seis horas, y esto fortifica mucho el sitio de la mesma ciudad, y algunas fortalezas assi mismo que ay en los lugares mas flacos; tiene muchos y muy frescos jardines, pero de my differentes frutas de las de alia, en grandeza, que es mucha, en quasi todas, y en olor y sabor, aun que alcunas tienen símbolo con las nuestras. Algunas ay muy delgadas y en abundancia. Es la ciudad muy alegre y aplazible; tiene muy buenas calles, y los edifícios se van de cada dia haziendo a la uzança moderna; contiene en si promiscue con los christianos, assi portuguezes como naturales, muchos gentiles y moros, y 4 5 1
bramenes que se estan en sus ritus y ceguedad, aun que no se les permitte cosa ninguna en publico ni secreto quanto al uzo de sus supersticiones y idolatrias; y se sabe, o les va la vida, o el hazerse christianos. Toda la gente destas partes, (a lo menos en lo mas comum, van desnudos en cueros), sino son los bramenes y algunos otros honrados que tienen mas trato y conversacion con los portuguezes, y esto aqui, que fuera, des del mayor al menor, sino es los moros, todos van con una peça suela de lienço, o de alguna otra cosa, que cubra solamiente ve- renda y esto in utroque sexu, aunque lo mas principal desto es en toda Libia Interior, que llaman los antigos Aethyopes nigri, que es rigion immensa. No entro en los idolos que adoran, porque seria cosa sin fin. Por este vastíssimo orbe, padre mio, se emplearian juxta voluntaten, los ardentes deseos de Vuestra Reveren- cia, de la salud de las animas y zelo de la honrra divina. Vengase, pues, Vuestra Reverencia y no pare hasta alcan- çarlo. Que dire de lo que Dios Nuestro Senor, en Maluco, en Japon y en todos los demas lugares, en que la Compania [li? r.] tiene esparzidos sus obreros //, lo qual es tanto que no se puede encarecer, sino con el propheta Heremia dizir: Ah, ah Domine, néscio loqui (5). Bendigan a su divina bondad los cielos y la tierra et omnia quae in eis sunt, por sus mise- ricórdias sin fin. En el Maluco, ha llamado y traído el Senor a su sancto conoscimiento sobre quarenta mil personas, y por falta de operários que atendiessen a ir discorriendo y cathechizando, no son ya christianos mas de otros sesenta mil, que en diver- (5) Jerem., 1, 6. 4 5 2
sas partes de aquellas espaciosissimas províncias lo pieden. Hasse tambien convertido ally un rei, y estavan con sus exemplo otros ya en prociento (6) de segueirle. En el Jappon llamo Nuestro Senor dos de los mas prin- cipales sábios o ariolos de sus sectas a su sancto y catholico culto, con espanto de todos los que los conoscian y depen- dian dellos, como de hombres que mas de raiz entendian sus susperstitiosos y abominables ritos. Vestiolos el Senor en el sancto baptismo tan de veras de su espirito que, donde pri- mero eran instrumentos efficasissimos de Satanas, in eternum animarum interitu, agora lo son del Spiritu Sancto, pera de- sandar lo andado en lo qual se exercitan con tanto zelo y hervor, que no se puede (segundo lo escrive el Hermano Juan Fernandez) significar. Convertieronse en una tierra, hablandoles ellos un dia de la lei de Dios verdadero, Nuestro Senor, cinquo mil animas, y assi, de mano en mano, va abriendo el Senor en aquellas vastíssimas provincias y islãs, que tiene sesenta y cinquo reinos, los infinitos tesoros de su dulçura. Al buen rei Don Bartholome (7) escriven avia Nuestro Senor dado una grande victoria contra el rei de Hirando y otros conferedados suyos, impensada y milagrosa, en que hizo gran matança, y yva seguiendo su victoria, con esperança mui cierta de tomar al enemigo todo su estado etc., lo qual ha sido grande consolacion pera los nuestros, que instante- mente se encomendavan a Dios, y gran confirmacion para los nuevos convertidos, experimentando que el Senor nun- qua desempara aun que ad tempus se esconda, a los que esperan en El, ut sciant gentes quod non est alius Deus (6) Não percebemos que palavra seja esta. Não quereria antes o copista escrever projecto? (7) Príncipe de Omura, um dos pilares da cristandade japonesa. 453
prceter Deum verum, al qual no es nuevo salvar in paucis como in multis. Antes que saliesse bueno príncipe a la ba- talla, le prometio cierta victoria una cruz que vio en el cielo, como olim se mostro al magno Constantino, sit llli gloria in seculum seculi. Nuestra partida para aquellas partes sera, Deo volente, pera el Abril, porque antes no corre viento para este effecto. Enderencela el Senor pera su gloria, y salud de las animas, redemptas por su sangue y vida. Tocase de camino en la China, donde hasta esperar ciertos vientos que corren pera seguirle, es fuerça, segun nos dizen, esperar nueve o diez mieses, y esperamos, pera el Henero proximo, cartas de alia, con alguna buena nueva de la entrada en ella tan deseada; lo qual, por las ultimas, estava muy cerca y si lo estuviesse, mudaremos de consejo y entramos hemos alia, donde, se- gun nos affirman, manent nos cruces et martyria. Haganos el Senor dignos de tanta misericórdia porque, padre, non facio, como dize el Apostol, animam mean pretiosiorem quam me (8), con la divina gratia, antes da ferventes deseos de exponerla por su amor y dulcíssima confession. No se me ofresce agora mas que instantemiente pedir a Vuestra Reverencia, per charitatem Christi, me encomiende y me haga mucho encomiendar a Nuestro Senor. El mismo pido al Reverendo Padre Provincial, y al Padre Doutor Avellaneda, y al Padre Bustamante, y a todos los padres y hermanos dessa província, y a los mas siervos en el Senor con que esta se comunicaren, quorum omnia nomina scri- bantur in libro vitae. Denos a todos la sanctissima y super- beatissima Trindad su abundante graça y spiritu y virtud, pera ser en nuestra vocacion verdaderos instrumentos a su servi- (8) Act. 20, 24. 4 54
cio y gloria, con olor de alabança, a Jesu Christo Dios, Senor Nuestro, cui honor et imperium in secula. El Padre Buenaventura se encomienda mucho a Vuestra Reverencia, y iunto a todos nuestros hermanos y padres desse collegio. Deste de Goa, a 27 de Octobre de 1565. // Olvidavaseme de dizir que, a avendo llegado a esta í147 v0 isla, y no aviendo ny aliado aquy la nao capitania, en que venian nuestros padres, ny a sua companera, ny avizo, o nueva alguna delias, temiamos o que uviessen buelto, no po- diendo otra cosa, a Portugal, o que uviessen corrido algun grave peligro y estando assy, inter spem et metum, vino aviso que avian llegados a Cochin, que es un puerto muy bueno, y donde se cargan les naves de sus especiarias de clavo, gengivde, canela, pimenta y otras cosas, que el Padre Maestro Alcaraz e Padre Alexandro avian llegado a la muerte. Dio a toda esta ciudad esta nueva grande alegria y contentamiento y no menor a este collegio, por lo que con- viene para tener a estes reys gentiles y moros comarcanos enfrenados y en temor; esperamos nuevas dellos presto, o con la presencia, o con las cartas. Despues ay nueva que estan buenos y nuestro compa- nero Alexandro es venido aquy y tiene salud. Con esta, si uviere tiempo, trabajare que vaia una copia de una relacion que me dio un medico (9) deste nuestro collegio, de ciertas pescados de la amitad arriba hombres y mugeres ni mas ni (9) Refere-se ao Dr. Dimas Bosque, cuja cana também se publica neste volume. N.° 68. 455
menos que nosotros, cosa stupenda que el vio, juntamente con el padre Anrrique Anrriquez, en el Cabo de Comorim, y de la mitad abaxo pescado, y tanto suzia que en lo dicho lo eran que acabados de salir del algua (sic) que los tomaron nueve hombres y sete machos en unas redes ciertos pesca- dores, murieron luego. Cerrada a 29 de Noviembre. Hijo y siervo inútil en el Senor. Joãn Bautista de Ribera 456
68 CARTA DO DR. DIMAS BOSQUE MÉDICO DO VICE-REI D. CONSTANTINO Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 147 v.-149 r. Este documento é de algo difícil leitura, porque está inçado de abre- viaturas. Além disto, o copista não olhou certamente à cons- trução justa do original. Há passagens que se percebem muito vagamente. Cum superioribus annis, Reverende Pater, ilustrissimus Constantinus, Bracantiae ducis filius, atque Orientalis Indiae praetor christianissimus, regnum Jafanapatum, in Gangetico Sinu, opugnaret, captaque iam regia urbe, velocissimoque atque edacissimo igne vastata, rege et rignique principibus proflagatis, ipse forte turn temporis circa fortissime ac mu- nitissime areis obsedionem est occupatus, advenit nuncius qui duas Lusitaniae classis naves casu aliquo sive Dei Optimi Maximi1 miseratione, rápido aquarum cursu a recto itinere deviat (1), perque vários casus et gravíssima maris discrimina iactatas, sed militibus et nautis extrema iam diu oegretudine ac christianorum penúria, ex longa obliquaque navigacione laborantibus, et in ultimum vitae discrimen redactis, onustas ad capti regni littora pervenisse, atque inter ipsum et insu- lam quandam securum sumpsisse portum nunciat. Audito, bonus princeps, nuntio, pro navium prospero appulsu quas potuit omnium bonorum Auctori Deo gratias egit, verum (1) Leitura hipotética. Ou desirat? 1 = Op. - M. 157
optimi imperatoris usque adeo animum tot hostium adversa valetudo promovit ac protulit, ut vix concepta de navium recuperatione lastitia vestígio seu locus ullus relictus sit. Continuo, igitur, haud mora ut vigilantissimum princi- pem piissimumque parentem decebat per eorum calami- tate solicitus me cui et propriam totiusque exercitus salutem commiserat ad se vocat; brevique sed placidissima oratione, ut me ad naves conferam, morboque importuníssimo et in- festissimo totis medicas artis nervis atque prassidis occurram, humanissime iubet, et lecta ilico dicto citius ex tota classe ex perditissima triremi parvo temporis spatio naves conscen- r0 dam, (2) in quarumquidem ingressu comotus//est animus mensque non mediocri dolore percussa fereban n. (3) ingre- dientium aures aflictissimi aegrotantium gemitus et luctuosa suspiria, quae náutico intermista strepitu miserabilem eo usque armoniam et concentum componebant, ut audientium et ferrea pectora possint emollire, atque in sui miseratione convertere. Obstupui, fateor, perspecta misérrima iacentium multi- tudine; augebat ad hasc scilicet maxime molestiam perple- xioremque reddebat animum, deficientes in navibus ipsis omnis curandi oportunittas languentium n. (3) non exiguus numerus, ipsa loci angustia omnium necessariarumque rerum defecms omnem adhibendis medicamentis obstruebat viam, quibus equidem difficultatibus anxius ac dubius quid tandem facerem, scilicet quo me verterem, ut et communitos (4) mi- serosque graviter periclitantium saluti consulerem, et per principis desiderio facerem satis prorsus ignorabam. Verum post varia animi hue illucque impellentis consi- lia et cogitationes unicum occurrit remedium: ut videlicet (2) Leitura hipotética. (3) Não sabemos como desenvolver esta abreviatura — n. (4) Leitura hipotética. 458
aegrotos omnes et mea triremi et ipsarum navium scaphis in vicinam insulam transportarem. Incolebatur insula ab illius regionis christianis qui a P. M. Francisco Xaviero, summae memoriae viro, cujus me- morabilis et apostólica vita per extremum hunc orientalem, perque ab ipso septentrionem versus longíssimo maris in- terstitio dissitas insulas, quas omnes immensis infatigabili spiritus ardore exhaustis laboribus ac persecutionibus anima- rum salutem insasiabiliter (5) sities quam plurimisque ab immani idolorumque adoratione ad Christi fidem quoquo versus conversis peragravit. Apud ipsos et bracmenes (sic) et iapones, et sinas inu- meresque alias nationes magnis laudibus predicatur et coli- tur primum rudimenta fidei, et viam Domini edocti, sub materno Sanctae Romanae ac utilis (6) Eclesiae sinu vitam secure transigunt ac nunc domum à Patre Henrico Henri- quez, ejusdem Societatis sacerdote, et singulari exempli vita conspícuo, in bono susceptae veritatis odore conservati tran- quila pace in medio nationis pravae fruuntur. Igitur conceptam cogitationem tanque à Deo immissam cum navium ducibus, inito ante consilio, summa diligentia executus, aegrotos omnes in insula collocavi, praestantissimi- que ejusdem Henrici et aliorunque qui cum eo erant ippsius- met societatis, consilio et veribus adiutus, male afecta cor- pora et sale tabentes, ut ille inquit, arms a deploratissimo et irremediabili pene flnorbo curare coepi. Vemntamen tanta erat aegrotantium multitudo, tarn cru- dele morbi genus, qanque saevissima symptomata, ut vix mihi respirandi tempus à curatione remaneret. Quodsi aliquo in tantis vigilis et laboribus aliquid venatus fuissem otii, illud quanmlumcumque erit, mutis optimi iuri confabulatio- (5) Leitura hipotética. (6) Leitura hipotética. 4 59
nibus dicebam atque colloquis: reficiebat enim jam labante pras lassimdine animum candidissimi patris iucundissimus ac verus Deo plenus sermo. Aide et quod excellentissime et nunque finem habiturae per parvo ac momentâneo labore retributionis ab eo propo- sita ob oculos spes multo me ad labores qui non qualescum- que supererat preferendos, ac in infractos spirimm subeun- dos, et promptiorem redebat et alacriorem. Contigit ergo (ut jam ad mam petionem veniam) ut cum nactum à laboribus tempus solitis et aliis sermonibus, iuxta [148 r.] marjs ijttus u ipSjus immortaies fluxus et refluxus conside- rantes de more consumeremus, ad patrem piscatorum turba accederet, qui ipsum et clamorosa voce et barbaro ululam ut ad scaphas piscatórias sese conferat, captos ab eis pisces contemplaturos instanter deprecanmr. Narratur inter eundem smpendum naturam miraculum incidisse scilicet casu, sive ut Dei cuncta potentis mirabilia opera nove foeminas et septem mares, quos propter homi- num quos referebant similimdinem marmos horesque mulie- res ipsi appellabant. Ret itaque novitate, ut par erat, commoti ad scaphas ascendimus e quibus extractos jam pisces qui in eis reman- serant piscatores in littore turn forte ponebant, quos cum vidissem formam et cum nobis contemplams fuissem simi- limdinem, non habebam ultra spirimm unde proe smpore ab admirabili eorum contemplatione haudquaque avertere oculos poteram; nunquam enim mihi ex aliorum rela- tione (7) quod jam hisce aspiciebam oculis credibile fuisset. Contemplabar sane in pisce miram cum hore semilimdi- nem ut inaudimm pene n. (8) opus ipsis et obmtibus subiectum vix credibile redderetur. (7) Leitura hipotética. A abreviatura é reloe. (8) É a mesma abreviatura — n. — a que nos referimos na nota 3. Encontra-se novamente quase no fim do seguinte parágrafo. 460
Verumtamen Christiana philosophia 1 adiutus, admirabi- lem prasentium pisoem formam universorum (9) opificem Deum, cui nihil non est facile nedum impossibile referes unumquodque peculiare membrum inspicere et considerare opere pretium sum arbitratus; ut sic et justa anatomicam artem singulis exanimatus sim perspectis, totius corporis simi- litudinem quam maximam externis cum homine habebant clarius cognoscerem. A principua, igitur, compositionis parte considerationis initium auspicatus, caput et faciem sum intui- tus qua? quanto comtemplabar, attends tanto divinas potentias vis ex mirabili et stupendo natura n. perspectius in mente mea elucebat. Erat quippe caput et figura rotumdum et ipsi corpori nulla colli intermissione continuum, in eo aut extre- mas aurium fibras, quas et auriculas appelamus, sitae erant ex cartilagine et pina compositae, quas eleganti proportione caro vestiebat. Harum numero interim pars apissimis for- mata anfactibus hominis veram aurem referebant. Ad hasc oculi suis ornati palpebris ut tarn in situ quam in colore, non piseis sed hominis crederes effigiem humanam perbelle metientes in ipsa facie videbatur. Nasque prasterea a superiore confinio inter utranque malam descendens non usquequaque preminebat sed bipar- tite transmite distinems, piseis retinebat veritatem. Labra etiam sub ipso naso in extremo malorum ambitu apprime collocata hominis os côngrua magnimdine mire effigiebant, quod quidem perpulchre adornabat non dentium serrabilium quales in natalibus esse solent ordo, sed piano- rum et albissimorum continua series, ut plane et figura et dispositione non piseis, sed hominis dúbio procul asseve- rares. // Pectus similiter ejusdemmet erat formas atque in homine, cute nimirum alba contectum tenuibusque repletum venis, (9) Leitura hipotética. A abreviatura parece ser rersorum. 1 — phia.
in prima superfície disseminatis, cujus sane bipartitus in quo mammam ex utraque sui parte exuberans laxiorem efficiebat contextum, quam erat corporis nec deerant suas mammis parvas et elegantes papillas in foeminis, aut erant prominen- ciores quam in maribus mammas, non tamen sese ad inferna porrigebant, sed concinna rotunditate elevata virgineum com- ponebant pectus; et quibus cum propria eas compressissem manu, ingens candidissimi lactis copia non sine adstantium admiratione exiliit. Brachia habebant non rotunda sed in latitudinem pro- tensa, quas duorum cubitorum asquabant longitudinem, in quibus non cubiti aut ulnae vel mammis sicut in homine distinctis, sed omnium integrum et continuum corpus sine ullis articulis seu iuncturis compactum cernebatur. In axillis vero quas et, ut Ciceroni placet, alas vocamus, multitudo pilorum apparebat, sed molliores illi quam qui alis hominem et mulierum reperiuntur et oblongiores. Venter tenuissima cute eademque lenissima et albissima contectus; non minus omnium Creatoris stupenda opera prae- dicabat. Considerabam ego quasi in extasi pras admiratione factus, et athentissime contemplabar omnia generationis membra in maribus omni ex parte, atque in tota sui compo- sicione cum hominibus esse quam simillima. Fasminarum, vero, tanta in hearum membris erat cum mulieribus con- venientia et consensus ut mulierum prorsus eadem(lO) clamitares. Verum quod in monstrum admirationem vel maxime augebat erat interior similitudo membrorum. Vidi siquidem et attends aciebus in dissectione, quas ad meas preces facta est, diligenter inspexi qmnia interiora eademmet eadem (10) cum mulieribus; matrix namque tarn in cello quam in toto corpore atque illi adiacentibus partibus, mulierum absque (10) Leitura hipotética. A abreviatura é ee. 462
ullo discrimine referebat matricem in seminariis. Denique meatibus tanta erat in utroque sexu cum homine cognatio, ut nulla in re diversitas aliqua dignosci posset. Reliqua deinde totius corporis postrema pars nullam tarn in maribus quam in foeminis habebat cum homine similitu- dinem terminabatur n. (11) in piscem bis ulcata cauda ut de syneris maris Siculi fabulantur poetae. Foeminaj (ne hoc praetermitam) mares quod quidem omni natalium generi iuxta sterilem (12) proprium est cor- poris magnitudine longe antecellunt. Hasc erat, igitur, reverende pater, piscium forma, haec compositio atque omnium membrorum certa scripsio et deli- neado, quam tibi ea qua potui brivitate effigiavi, suisque licet rudibus coloribus depinxi et transmisi. Longiorem exactioremque facturus narrationem, si mihi ac aogrotorum curatione qui nunc in hac civitate sunt per- multi, quorumque visitationibus diu nocteque destineor tempus aliquod superesset. Ignosce, igitur, pro amico tibi addictissimo qui tempo- ris augustia atque laboribus physico(13) nimie oppressus tuae pro meo desiderio non possum morem gerere voluntari. Si aut in enerrando historia brevitatem, negligentiam in compositione (14) sermonis inellegantiam cum amore quo tibi ceterisque istius sanctae Societatis patribus maxime devin- cior, conferes, facile mihi veniam condonabis. Vale meque tuis precibus Deo comendo (15). (11) Abreviatura atrás referida. (12) Leitura hipotética. A abreviatura parece ser strlem. (13) Leitura hipotética. A abreviatura é pheo. (14) Leitura hipotética. (15) Cf. Conde de Ficalho — Coloquios dos Simples e Drogas da índia, por Garcia da Orta, II, págs. 384-386. O Conde de Ficalho recorda como foi o Dr. Dimas Bosque o primeiro europeu a estudar cientificamente os Dugong, Halicore indicus, de Cuvier. * 6 3
69 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE OLIVER ESCRITA A SEUS CONFRADES DO COLÉGIO DE SANTO ANTÃO Goa, 1 de Novembro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 141 V.-142 v. Llegados a Cochim nos holgamos alli com los padres y hermanos, que ay en aquel collegio, y acabado de 15 dias, me embrarque yo para Goa solo, porque los companeros que llegaron estavan mal dispuestos de inchazon de los pies y hezias. Yo llegue bueno, y assi me embarque en una fusta para Goa, y el capitan delia y todos soldados me hizieron tanta charidade y regalo, que no solamente me dava la comida y todo lo que avia menester, mas largamente de lo que competia a mi estado, pero a fuerça de braço me dio su mismo aposento y camara ado iva, y se salio el afuera a dormir al sereno. Estuvimos quinze dias, por venir fuera de moçon, sino con terrenos, pero vine a mi plazer, veniendo siempre alongo de la costa y vista de tierra, viendo a Calecut, Cananor, Beticala y a otros lugares. Y en Beticala paramos y desem- barcamos; y yo tambien para ver la tierra y se avia alguna cosa em que hazer preza para Dios. Y a la entrada de la ciudad, me tope con ciertos brame- nes y trove platica con uno que entendia alguna cosa en [142 r.] português, y me parecio de buen juizo y persuadiendole // que fuesse christiano me dizia que el creya en uno solo Dios, que esta en el cielo y en tres personas, Padre, Hiyo, Espiritu 4^4
Sancto y en Jesu Christo que se hizo hombre por nos, y que era meior ser que japano (sic), y que le guardasse Dios de vestirse de negro, como yo iva, lo qual avia de hazer se se hazia christiano; que ellos andavan vestidos de algodon bianco, como la nieve. Pero, al fin me dio la palabra y la mano de se hazer christiano en Cochim, o Goa ado avia de ir presto, porque en aquella ciudad y reyno, con estar dos legoas de Goa, no ay memoria de christiano, sino no se quantos portuguezes que estavão alli. Ya vereis, charissimos, lo que sentiria en- trando por aquella ciudad, tan grande y tan llena de gente de tan differente habito, traie, color, religion y lingua, y todos infideles, gentiles, moros, bramenes y sin conoscimiento de nuestra fee y que no los podia entender ni ellos a mi. Y via tantos pagodes tan bien edificados, teniendo los edifí- cios de las casas mui viles, y uno estava rezando en un libro, otro llorando, etc. Veniame a la memoria mis hermanos y quan lexos esta- van dellos y en tierras tan estranas, y con todo esto quanto holgaron de se hallar alli en que tuvieran bien que emplear el filo de sus fervores. Yendo para casa de la reina, me venian brios de denun- ciar la fee de Christo por algun interprete, se ouviera, pero no le hize por el poco tiempo que alli estive, que fue sola una tarde, y pera cosa tan grave era menester mas, y tam- bien ella estava para salir fuera, para ver una feria que avia de cavallos, porque en aquella tierra no ay rei, sino reina, y assi creo andar las mugeres a cavallo, de manera que alia los hombres, porque yo tope assi alguna y ivan trás la negra reina, aunque no mui negra, mas de mil o dos mil hombres, y iva una muger dandole hojas de arbol, como de hedra que iva comiendo, por que vejan la pollecia y costumbres de la tierra. Y no iva con el maior atavio dei mundo, porque assi es el uso que harto fuera si fuera toda vestida aunque yo 465 DOC. PADROADO, IX — 30
no la vi, que estava lexos un poco, sino que me lo dezian y iva corriendo. Finalmente, ya noche, me torne a embarcar em mi fusta. Lo que en esta viagen hize no fue mas de dotrinar algunos christianos captivos que yvan alii, porque todos los mais eran gentios y moros. Y como era novicio y llevava la leche en los lábios acerqua de la conversion, no me pare- cia que se podia sufrir ir entre infieles sin hazerlos christia- nos y comence a hablar a algunos y era surdo canere porque ni ellos me entendian ni yo a ellos y tambien cada hun piensa que su ley es la mejor. Alfin llegue a este collegio de Goa do oblevisci me fecit Deus omnium malorum meorum, con la charidad de los hermanos que me desnudaron y vestieron de pies a ca- beça, como a outro Joseph (aviendo echo comigo otro tanto en Cochin) ado aliei los padres que venieron en la otra nao buenos; ellos escrevieran. Y estamos aqui hasta que nos desprazan por diversas partes ado ay infinidad de gentelidad que por a cada christiano ay millones de infideles, porque aqui en Goa ado yo pensava ser ya todos christianos, creo los son los menos. Quede admirado de ver este nuestro collegio, porque aunque ya teniamos por alia noticia del, pero no de tanto como tiene, porque, alien de el edifício ser mui grande, y aver en el como ochenta y nueve padres y hermanos, sin los que estavan al deredor de Goa en yglesias, tiene su quarto apartado para los novicios, ado tiene su yglesia, dormitorio, rifitorio, huerta, etc. Tiene esta casa pera los de la primera [142 v.] probacion; tiene otra casa ado estan// cerca de cem moços huerfanos con su huerta; tiene otra casa com su huer- tezico ado estan los catecumenos, ado nunca faltan poços o muchos, y assi ay siempre baptismos en nuestra yglesia; tiene mas un hospital pera curar a los christianos pobres o que se quieren hazer christianos; tiene otra casa pera muge- 466
res que se quieren hazer Christianas, pera las catequisar, aunque estas estan apartadas del collegio y son ensennadas por mugeres Christianas, pero pertenecen (sic) a nuestro colle- gio y son mantenidas del y todos los sobredichos son guover- nados y doctrinados y mantenidos por los de la Companhia de manera que acaesse mantener este collegio quatrocientas personas con esclavos; tiene otra casa en una islota cerca da- qui como una legoa, do estan ocho o dez hermanos apren- diendo la lengua de la tierra. Por ver el papel se me acaba me sera necessário acabar, remitiendome en lo demas a las cartas que de aca van. Esta carta tuve intento de escrevirla al Padre Luiz Gon- çalvez y hermanos de Santo Anton de Lisboa y despues la pereza de escrevir me ha ensenado que con esta podre com- plir com la obligacion que tengo al collegio de Salamanca, paucis odditis v'el demptis, porque tengo otra que escrevir; por charidad que la encaminem para Salamanca con otras que escrevire para Plazencia, para que de Salamanca se enbien a Placentia. El Padre Pero Ramirez que queda aqui bueno, por rector, muchas encomiendas. Parece que quiso Nuestro Senor mostrar este ano este particular regalo de trabajos de enfermedades a los padres de Hespana y Italia que los anos passados. Fueran todos mas pacíficos por satisfazer a sus grandes deseos que llevavan de padecer mucho por su divino amor y servicio. De Goa, 1.° de Noviembro de 1565. Servus in Christo Gabriel Oliver. 467
70 CARTA DO PADRE SEBASTIÃO GONÇALVES AO IRMÃO LOURENÇO MEXIA Goa, 26 de Novembro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 216 r.-218 v. A cópia apresenta muitas correcções. Cuidando eu que materia tomaria pêra lhe escrever, me ocorreo que, pois elle me consolava com me mandar novas da egloga que nesse collegio se representou, rezão era con- sola-lo eu com lhe mandar novas da comedia, que nestas partes se representou com a qual, segundo me parece, se consolara. E não lhe mandarei mais que o espinhaço delia, porque do espinhaço colligira qual e quanta seia sua carne, e lhe fiquara sufficiente conhecimento pêra que a possa, cada vez que quizer, encarecer (1). En esta comedia entrão vinte e sete figuras. A primeira figura he hum negro, por nome Ygnambane, o qual entra todo vestido de doo, mais triste que a mesma tristeza, dando gemidos tão estranhos que onde esta, la mais de tres mil legoas, são ouvidos com grande sentimento. Vem chorando sua triste sorte que, avendo tantos mill anos que jazia em profundas escuridades, e começando-os a lumiar hum sirio, por nome Dom Gonçalo (2), de maneira que jaa começava a se atear o fogo, e começavão a conhecer a (1) Leitura hipotética. (2) D. Gonçalo da Silveira, morto no Monomotapa. 468
enfirmidade de que morrião, foi sua desaventura tal que, levantando-se hum pee de vento, apagou o sirio e o mais foguo, de maneira que tornou as suas antiguas trevas, e quasi sem esperança de tornarem a ver a luz que perderão, porque as candeas são poucas e o vento que as apagua he muyto grande. 2.° Entra huma feiticeira, sua conhecida, por nome Manamotapa, cujas feitiçarias e desatinos acrecentão a tris- teza do pobre dito negro, porque ainda que não apagou de todo o lume que Jesus Christo lhe mandou, por seu ministro Andre Fernandez, companheiro de Dom Gonçalo, quasi esteve apagado, e o fez fugir, e o tratou de tal maneira que se julga, non esse bonum sumere panem filiorum et dare eum canibus (3), e assi parece que se tera conta com os outros e ficara a triste Manamotapa desemparada. A 3.* figura he huma velha tresvaliada (4), chamada Çaquotoraa na qual, (segundo parece), foi semeada a pala- vra de Jesus Christo em algum tempo, e depois, por falta de obreiros se endureceo e envelheceo tanto que jaa tresva- lia, de maneira que nem he christãa nem gentia, nem moura: pode-se chamar velha negra emperrada, e castanha souti- nha (5), maa de debulhar, porque ay morreo o nosso Padre João Lopez, ay esteve quasi dous annos o nosso Padre Guas- par Coelho, e quasi nenhum fruito colherão, senão trabalhos, e o Padre Guaspar Coelho ouve por seu partido acolher-se e deixa-la desemparada. Etiam pulverem pedum suorum ejiciens in earn in testimonium illi (6). 4.° Entra o reino de Jafanapatão, não menos triste e mal encarado, chorando sua ma sina que, por sua ingratidão (3) Cf. Mat. 15, 27; Marc. 7, 28. (4) Por tresvariada. (5) Assim se lê. Talvez de souto. Portanto; castanha de souto, cas- tanha brava. (6) Cf. Mat. 10, 14; Marc. 6. 11. 469
ou nosso descuido, não estaa dotado de obreiros do Senhor, e as plantas que nelle começarão a nascer, perecerão, des- tructa est enim maceria eius. (7), de maneira que fiquou feito cousa inútil e atida, como dantes era. Estas sobreditas quatro figuras se despedem com hum canto miserabilissimo diz: Vae, vae, vae nobis quia non cognovimus diem visitatio- nis nostrce (8). 5.° Entra o reino de Tricanamalee, cujo erdeiro he [216 ».] christão, e esta nesta cidade com esperanças//de o meter o viso-rei de posse do reino, o que, se se executar, causara oportunidade pera se poder, com a ajuda de Deos, fazer algum fruito antre a sua gente: habet se sicut terra sine aqua domino. O Preste tãobem, (onde estão alguns padres nossos com o bispo que agora he patriarcha), esta como doente de quartas, porque algumas vezes ouvimos mas novas, algumas vezes melhores, descendat Dominus ad eum priusquam mo- riatur (9). A 6." figura he hum velho honrrado, todo calvo, por nome Japão, o qual entra vestido de branco, e vem com hum rosto de Pascoa, o qual, com grande alegria, vem dizendo que, no tempo de sua mocidade, se andava vestido de doo e triste, porque seu mantimento não era outra cousa senão huma pouca de sizania peçonhenta, semeada, semeada por seus mentirosos e maliciosos bonzos, com a qual todos seus filhos morrião. Porem, jaa agora gratulari oportebat quo- niam filii qui perierant multi sunt, et mortui juerant, revi- xerant (10), porque o mantimento que agora começavão a gostar não era sizania, senão trigo muito limpo e semente da palavra de Jesu, semeada por seu ministro o P.f Francisco, (7) Cf. Prov. 24, 31. (8) Cf. Luc., 19, 44. (9) Cf. João, 4, 49. (10) Cf. Lucas, 15, 24. 4 7°
que Deos tem, e polios Padres Cosme de Torres, Guaspar Villela, Luis Fróis, Baltasar da Costa, Belchior de Figueiredo, João Cabral, e polios Irmãos Aires Sanches, Luis de Almeida, João Fernandez, Guillerme, que agora falleceo, Lourenço, Damião, Miguel Vaz e outro, natural desta terra, filho de mãi e pai bramenes. Vem fazendo coloquios alegres e dizendo que sua ditosa velhice e suas grandes alegrias não dão ventagem as alegrias de Jacob, porque, se Jacob vio seu filho Joseph senhorear a terra de Aegypto, elle vira seu filho Dom Luis derramar seu sangue e morrer polia justiça, e finalmente senhoreou sua propria carne. E se Jacob vio seu filho Joseph ser a segunda pessoa, depois de Pharao, elle veo seus filhos Lou- renço, Damião e Bernardo companheiro de Jesu. Despedesse este ditoso velho, cantando com o propheta David hum gra- cioso canto que diz: expectans expectavi Dominum et intendi mihi et eduxit me de laqueo miseries et de luto fecis, et statui super petram pedes meos et immisit in os meum can- ticum novum, carmen Deo meo (11). Entra a 7." figura, a qual he huma regateira chamada China, toda occupada em comprar e vender, cuidando que nisto esta sua vida e salvação, esquecida da verdadeira mer- cadoria, e do seu verdadeiro e vivo pão que deceo do ceo, o qual daa vida perpetua; verdade he que alguns de seus filhos tem recebido o baptismo, e he gente que se aproveita, e agora temos esperanças que entre a palavra de Deos mais de verdade, e no mais intrínseco da terra, porque foi la hum embaxador de el-rei de Portugal, com os Padres Francisco Peres, e Manoel Teixeira, e o Irmão Andre Pinto, e agora vai também o Padre Andre Fernandez; o Padre Provincial também partio deste collegio pêra visitar todas aquellas partes. (11) Cf. Salmo 39, 2-4. 47 1
8.° Entra hum fidalgo, vasalo de el-rei de Portugal, por nome Maluco, com quatro pagens, a saber: Amboyno, Moro, Bacham, Tollo. Vem arenegando de Mafamede, e confe- [217 r.] çando a Jesus Christo, determinados todos // e apostados de morrerem, antes de se cesarem da confissão de Jesu, e vem todos unidos e concertados para se defenderem dos mouros, seus vizinhos e contrairos. Vem armados com o escudo da fee, e com a espada da palavra de Deos, ahi se- meada polios nossos charissimos Padres Marcos Prancudo, Fernão Alvarez, Pero Mascarenas, Nicolao Nunes, Diogo Magalhãis, Francisco Roiz, Antonio Fernandez, Luis de Gois, Araujo, João da Veiga, e Irmãos Manoel Gomez, Vasco Roiz, Antonio Gonçalves, Fernão do Souro, que agora ahi residem. 9.° Entra hum mestiço por nome Ormus, queixando-se ao sobre dito fidalgo e dizendo que vivia huma vida não sei como, nem totalmente alegre, nem totalmente triste, porque, se oulhava e considerava a nobreza de seu pay, se consolava, se lhe alembrava a vileza de sua mãy, se entresticia; quando ouvia os psalmos, evangelhos e pregoações e doutrina christã, que em sua casa se recitava, se enchia de consolação e gozo; quando tornava a ouvir a aravia dos mouros, e que bradavão por Mafamede ante manhã, e excitavão aos mouros a faze- rem casta contra os portugueses, se enchia de tristeza. Final- mente diz que he como o pavão que, oulhando pera a fre- mosura de sua roda, se alegra, e reflectindo sobre a fealdade de seus peis (sic), se entristesse. Teme, todavia, porque ve dentro de si muitos cacises e muitos que destruão e somente em sua ajuda vee os padres João de Mesquita e Diogo da Cunha, com alguns poucos seculares que edificem (sic), porem comfortão-se todos em Aquelle de cujus plenitudine omnes accipiunt (12). (12) Cf. João, 1, 16. 47 2
10.° Entrão cinquo fortalezas narrantes quanta eis fe- cerit Dominus (13). A primeira se chama Baçain, com sua -— criada Tanaa, e com a freguesia da Trindade, a qual vem dizendo que se Nosso Senhor lançou fora de Magdalena sete diabos, e a dotou dos sete dons do Espirito Santo, que a ella fez Nosso Senhor não menos merce, porque a livrou da incredulidade que se pode chamar legio demoniorum, e dotou seus filhos de muito lume e doutrina, semeada por seus obreiros, o Padre Mestre Gonçalo, que agora, pouco ha, levou Nosso Senhor pera si; P.° Francisco Cabral, Luis de Bendanha, Belchior Diaz, Mestre João, João Roiz, Martinho Quisquis(l4) Sa, Pero Vaz e os irmãos Pero Vaz e João Nogueira, Diogo Fernandez, Christovão Luis, Paulo Gomez, Manoel Gomez, Fernão Nunes e outro irmão natural destas partes. E vendo Baçain que sua vizinha, a fortaleza chamada Damão, estava livre da cegueira, em que pouco ha jazia, lhe pergunta: quis tibi aperuit oculos? Responde Damão: tile homo qui dicitur Jesus (15). // Constrangeo ao viso-rey [217 v.j Constantino que lançasse da minha casa os mouros e gentios que, com o poo de sua falsa doutrina, me cegavão e pos em seu lugar muitos portugueses, em a qual ocasião poderão também entrar padres, que me insinarão a verdade evangé- lica e o mesmo fazem, ao presente, os Padres Antonio Vaz e Manoel Cabral e o Irmão Bartolomeu dos Santos. A terceira fortaleza, chamada Comorim, com as mãos alevantadas ao ceo, glorifica ao Senhor, chea de gozo e admi- ração, e com assaz rezão, porque se no tempo passado as gentes se maravilhavão de ho Filho de Deos sostentar cora cinco pães e dous peixes tantas mil almas, por hum dia, (13) Act. 15, 12. (14) Assim patecc ler-se. (15) Cf. João, 9, 26. 47 3
muito mais de maravilhar he sostentar Elie agora em sua santa fee oitenta mil almas, pouco mais ou menos, que na Costa do Comorim estão feitas christãas, e isto por tanto tempo e no meo de tantos tiranos e infiéis, com somente estarem ahi ao presente os Padres Anrrique Anrriquez, e Manoel de Bairros, Souveral, Diogo Pereira, Paio Correa, e os Irmãos Francisco Durão, Estevão de Goes e Valedares. O mesmo se pode dizer da fortaleza de Coulão, aonde reside ao presente o Padre Lourenço Lopez e os irmãos Gon- çalo Alvarez, Antonio Coutinho e Gouvea; hum destes morreo, agora, pouco ha. E o mesmo se dira da fortaleza Malaca, aonde estão os Padres Baltazar Diaz, Christovão da Costa, Jeronimo Lomedo e o Padre Bispo Belchior Carneiro, e o Irmão Pero da Cruz. O mesmo se dira da povoação chamada São Thome, aonde morreo o Padre Pero de Arvoleda, e estão, ao presente, os Padres Francisco de Pinna e Jeronimo Vaz. Ultimo, entrarão dous casados, hum dos quais se chama Cochim (no qual residem os Padres Mestre Belchior, Andre de Cabreira, Pero, Manuel Leitão, Miguel de Jesus, Alçaras, e os Irmãos Manuel Lobo, Jeronimo Roiz, Gonçalo Fer- nandez, Andre da Costa, Manuel do Couro (sic), Antonio Fernandez, e outro irmão que não sei como se chama. E outra se chama Goa, aonde residem cem pessoas, pouco mais ou menos, com tudo os deste collegio, com os que estão destri- buidos pellas próximas freguesias. Estes dous casados são mui semelhantes aquelles do Testamento Velho, a saber: Nabal e Abigail, porque, se de Nabal se escreve que era vir durus et pessimus et mali- ciosas (16), de Cochim se pode dizer o mesmo, porque esta cerquado de malavares, huma das gentes que mais trabalho (16) A história de Nabal e Abigail vem narrada no 1." Livro dot Reis, ou de Samuel, cap. 23. 47 4
nos dão, nestas partes, inimicissimos dos portugueses e quantos podem aver as mãos matão logo, cortando-lhes as cabeças, e tem mortos muitos e tomadas nossas embarcações, e são algumas vezes causa de muita gente morrer, assi por não deixarem passar os mantimentos. Finalmente, he gente em que mui pouco fruito espiritual se faz, e a occupação principal que ahi residem comumente he com os portu- gueses. E assi como se escreve de Abigail, erat mulier pruden- tíssima et speciosa, e que saio ao encontro a David apla- cando sua ira, com palavras e obras ao mesmo David agra- dáveis, assi também se pode dizer de Goa, quod sit civitas sancta, aonde tantos e tão sumptuosos edifícios estão dedi- cados ao culto divino, a qual aplaca a ira do verdadeiro David, que he Jesu Christo, saindo-lhe ao encontro com suas donzelas e freguesias de Nossa Senhora da Luz; Nossa Se- nhora do Rosairo; Santa Caterina; a Madre de Deos, de Daugim; São Lazaro de Bandacorim; Santa Luzia de Piller- ne (17); São João Bautista de Carambolim; // S. João Evan- [218 r.] gelista, de Neruaa; Nossa Senhora da Graça, de Chorão; S. Lourenço, de Gassain; Santa Barbara, de Morumbi; Nossa Senhora da Assumpção, de Rachol; Santo Espirito, de Mar- gão; Nossa Senhora da Piedade, de Divar; Reis Magos, de Mandovi (18); S. Bras de Gandalim; e com os cristãos das mesmas freguesias, que são muitos mil, oferecendo-lhe não duzentos pães e odres de vinho, nem uvas e figos, como ofreceo Abigayl, nem tam pouco as teas algaraveas, a saber: zareu, uposono, sançarim, echavela de quaju, pandarim vitila, rabac hi, negari(\9). (17) Leitura hipotética. (18) O copista parece ter encontrado dificuldade em escrever esta palavra. Um leitor desprevenido indina-se à leitura de Manducoi. (19) Pedimos o auxílio do nosso amigo Rev.do P." Graciano Morais, distinto Leitor de Concanim no Instituto de Línguas Africanas e Orientais 47 5
Vitol he hum pagode grande, que esta em o Balagate, em hum lugar chamado Umbraterim, onde se lavão os gentios para irem em romaria ao mesmo Vitol, ao qual chamão filho de Deos, ubatimuse tarivat panto bacatans jonogami (20) que antigamente esta gente cantava ao pa- gode, que quer dizer: «em homem nacendo no mundo, he necessário ir ver a casa de Vitol», porque elle proprio esta em pee, vendo o caminho de seus romeiros, e outras seme- lhantes como esta gente offerecia, em algum tempo, senão oferece-lhe contínuos cantares novos, a saber Pader Noster, Ave Maria, Creo em Deos Padre, etc. que os meninos destes christãos sabem mediocremente. Finalmente despedem-se todas as sobreditas donzelas, pedindo ao mesmo Jesus que mittat operários in vineam suam quia messis multa, operarii autem pauci (21). Esta he a comedia, dilectissimo irmão, que se me offreceo escrever-lhe, no qual pretendi dar-lhe a entender todos os lugares em que ha ou ouve christandade, e parte do fruito que se nela faz, e juntamente os padres e irmãos nossos que nas mesmas partes residem se pretende de a ver representar. Saiba que he da condição de uma fruta que ha em Malaca que se chama durião, a qual no principio sabe muito mal, porem depois que hum homem he custumado a ella, he das v0 mais suaves // fruitas que ca ha. a fim de decifrar esta frase. Eis o que ele escreve: «A primeira frase deve ser romanizada da seguinte forma: Zori upôxóm sónsarí êkóchvêlla dêkhuni pouddhóri Vitt'tol raiachi nógóri. Isto é: «Se [queres] felicidade na terra, visita uma vez só Ponddhori (Ponddorpur), cidade do rei (deus) Vittol.» (20) Diz o Sr. P.6 Graciano de Morais a respeito desta frase: «Não posso decifrar a primeira palavra. As outras são: «taritó põtho bhóktãsi jónó- gani». Tradução: «o cantador das gentes (deus Vittol) dá a salvação aos devotos romeiros». Os nossos melhores agradecimentos ao Sr. P.® Gra- ciano Morais. (21) Cf. Mat., 9, 38; Luc., 10, 2. 476
Parece-me que me vou fazendo prodigo no escrever, e portanto não digo mais, senão que estou esperando pêra o anno por huma sua mais difusa do que he esta, e principal- mente me consolarei ser participante de suas assíduas orações e dos mais desse amantíssimo collegio, quos diligo in Christo lesu cuius lava sub capite tuo (o dilectissime Laurenti) et dextera illius amplexetur te. Por charidade, que de minhas encomendas ao charissimo Francisco Coelho, e o faça parti- cipante desta, porque também me consolou ca com sua carta. O mesmo faça aos charissimos Francisco Machado, Rodrigo Goes, Amaro Gonçalvez, António Mendes (22), Rodrigo Soarez, Antonio Car..., Joannes, cujas amantíssimas cartas receby. Não lhes posso responder, recebão a boa vontade; esta mando para elles todos. Nosso senhor lhes pague a charidade e amor que entendo que em Christo me tem. Dada em este collegio de Sam Paulo de Goa, aos 26 de Novembro de 1565. Salutant te charissimus Pater Stephanus Denis et Go- mesius Vaz. Tuus in Christo lesu Sebastianus Gonçalvez (22) Ou Martins? A abreviatura i Miz. 47 7
71 CARTA DO PADRE BELCHIOR DIAS AOS IRMÃOS DE PORTUGAL Baçaim, 1 de Dezembro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 241 r.-250 v. Pax Christi etc. A graça e amor de Christo, Nosso Redemptor, seja sem- pre em continuo favor e aiuda nossa, Amen. Obrigação he mui geral e muy encomendada comunica- rem-se por cartas os membros desta minima Companhia, que estão tam apartados, por regiões e províncias tão dis- tantes humas das outras, ainda que no amor e charidade sejão iuntos, por que a ausência e distancia dos lugares não faça perder aos membros a comunicação dos bens de todo [2ii v.] este corpo místico da Companhia de Jesus. // Alem disso, por me ser mandado polia sancta obediência, trabalharei, reverendos padres e charissimos irmãos, com o favor divino, dar-lhes conta do que o Senhor, por sua infinita bondade, se dignou obrar este anno, por estes seus mínimos servos, que ao presente residem neste collegio da Baçaim, e das cousas de Damão, Thana e Trindade, arreceando, com tudo, de com minhas imprefeições e pouco saber, tirar o lustre e deminuir as obras e maravilhas do Senhor, como esta certo ser, mas desculpar-me-ha a vontade e desejo que fica de as ver engrandecidas e acrecentadas. 47 8 *
Estão, ao presente, neste collegio, quatro sacerdotes, com o Padre Reitor, e sete irmãos, estes ordinariamente, os quais o Senhor, ao presente, visitou com suas febres, ainda que não perigosas, de que jaa agora, polia bondade do Senhor, ficão convalecendo; afora outros que comumente aqui vem e estão das casas, que acima disse, assi a curar-se em suas emfermi- dades, como a outros negocios que ocorrem. Os que ao presente estão neste collegio se occupão, pri- meiramente, o Padre Francisco Cabral (alem das continuas occupações de seu carrego de Reitor) em pregar continua- mente, se a ma desposição que sempre tem o não empede, e da mesma maneira o Padre Luis de Mendanha, e ambos com muita satisfação do povo, especialmente o Padre Reitor, a que todos estranhamente são afeiçoados, e folgão muito de o ouvir. Pregão aqui em nossa casa, alternatim, e na see desta cidade. O Padre Mestre João he prefeito da igreja, e sempre tem que fazer nas confissões delia, e confessa os meninos da classe de ler e escrever, e o Padre Luis de Mendanha os estudantes, e o Padre Belchior Diaz he ministro, e tem cui- dado da christandade. E todos juntamente se occupão com continuas confissõis, assi em a nossa igreja, como pera muitos enfermos de que são chamados, e nos hospitaes, porque todos comumente se recorrem a Companhia pera suas confissões e duvidas e testamentos, os quaes não querem fazer sem seus conselhos. O Irmão Francisco Anrriquez tem cuidado das cousas da casa, com o trabalho das quaes nos edifica muito em sua paciência, humildade e quietação. O Irmão Christovão Luis he mestre da gramatica, assi da gente de casa como de fora, o qual o faz com muita satisfação e proveito dos ouvintes, não somente ensinando- -lhes as letras, mas principalmente os bons custumes, pera o qual lhe faz suas praticas e conntinuas exhortações. O nu- 47 9
mero de estudantes, por aver pouco que se ordenou o estudo nesta cidade era cinquoenta, pouco mais ou menos. De casa he o Irmão Paulo Gomez, o qual alem do seu estado, tem cuidado do collegio dos meninos da terra, dos quaes também estudão cinquo ou seis; os mais são de fora. Entre elles ha alguns bons engenhos, de que se pode esperar algum fruito, por serem filhos de homens honrrados e dos principaes nesta terra, especialmente dous ou tres, os quaes ha muito tempo que pedem serem admitidos a Companhia. Outros estudão e trabalhão com ese intento; muitos delles se confessão mas a meudo, do que he obrigação e sua regra, e comumente, quando vem as festas, alguns o fazem cada oito dias, e tomão o Santíssimo Sacramento e com muita edificação daquelles que os vem, por verem conformarem suas vidas com o que fazem. O Irmão Diogo Fernandez estuda, e tem cuidado da escola de ler e escrever, e contar, onde andão cento e noventa e tantos meninos de casa e de fora, os quaes tem por custume, quando vem e vão da escola, cantar a doutrina polias ruas, e com isso se tem muita conta, polia edificação que disso recebem, não somente os christãos, mas ainda os infiéis. Con- fessão-se todos, cada mes, e os que são pera isso em as festas, de que todos são devotos e alguns, mais vezes, segundo sua capacidade. O Irmão Pero Vaz he porteiro e sãochristão, e ensina o 1242 r.] canto aos meninos de casa, onde // vem alguns de fora que ajudão a cantar e fazer os officios. Vai, cada dia, polia cidade, tange a campainha pera a doutrina dos meninos e escravos e lha ensina em nossa igreja. O Irmão João Nugueira e Guaspar de Araujo se ocupão nas obras deste collegio, e em acompanhar os que vão fora, em que não tem pouco trabalho. E todos juntamente se exercitão em as virtudes e trabalhão muito polia abnegação de si mesmos, mostrando-se em todos grande amor e chari- 480
dade de huns para com os outros, com grande observância das regras, com as quaes se tem muita conta, e polia falta delias frequentemente pedem penitencias, em as quaes se exercitão, pedindo licença pera disciplinas, jejuns, etc. Todos se exercitão em os officios mais baixos de servir: varrer, ter carrego das alampadas e dos mais officios em que se exercita e busca a humildade, começando do Padre Reitor, correndo todos, por suas semanas. Trabalhão muyto polia devação, e alem da oração ordinária, e da que mais cada hum particularmente tem, se ajuntão todos em o choro, a tarde, em oração, a tempo que ainda as occupações dão lugar, em a qual parece que se esmera cada hum em ser o primeiro em entrar, e o derradeiro em sair, não dando orelhas ao relogio, mas os corações a Deos, em cuja presença estão; e assi mais se aiuntão ao tempo do exame, e pera tudo ajudão muito as praticas que o Padre Reytor faz, as sestas feiras, conforme as constituições. Occupão-se também os nossos de contino em as obras de charidade com os proximos, porque, pollo credito que todos tem a Companhia, recorrem a elles, em todas suas necessi- dades, assy de confissões, como pera aiudarem os enfermos a bem morrer, acompanhar padescentes, fazer amisades, e commumente os enfermos chamão aos nossos para se acon- selharem em seus testamentos, e com muita instancia que tem que se achem presentes, entre os quaes, hum homem principal desta cidade, e muyto rico, com ser todo doutro mosteiro de religiosos, achando-se mal, mandou pedir ao Padre Francisco Cabral com muyta instancia, o quisesse ir confessar; e confessou-se geralmente de toda sua vida por espaço de alguns dias, e lhe pedio que quisesse estar ao fazer de seu testamento, pondo tudo em suas mãos; e outros muitos da mesma maneira. E não somente se satisfazem com os aconselhar, mas querem que estem presentes. Ocupão-se também em fazer muytas amizades, e algumas 481 DOC. PADROADO, IX 31
de muya importância, e entre as quaes foy huma de hum homem dos principaes desta cidade, o qual estava muy duro em recolher para casa sua molher e huma filha, que se lhe casou a furto, os quaes, com medo ,sairão de casa, e depois de o capitão e guardião de São Francisco e vigairo de São Do- t.] mingos e a mais gente nobre da // cidade o não poder abrandar pera as recolher, se vierão ao Padre Francisco Ca- bral, ainda que desconfiados, por aver sido a cousa muy ardua, e elle se dar por muito injuriado, a pedir-lhe que quisesse meter a mão nisso, e prouve ao Senhor que a segunda vez que o Padre lhe falou, ficou brando de maneira que logo as recolheo, e também ao genro, e agora vivem com muita paz. A huma molher viuva e principal desta cidade avião morto hum filho, e estando ja sentenciado o que o matou para ser degolado, e todos os parentes muy duros em lhe perdoar; pedirão ao padre que quisesse nisso meter a mão; e falando-lhes o padre a mãy, irmãos e parentes, lhe alcansou perdão, ainda que ao conceder delle, ouve muytas lagrimas por a humanidade tirar por huma parte, com a justiça e a rezão e a misericórdia que lhe o padre estava pregando, polia outra, e assi foi livre o delinquente da morte. Outra molher também que havia muyto tempo andava fugida de seu marido, o qual queria delia fazer justiça, e ainda que o marido em a recolher estava muy duro, falan- do-lhe o padre lhe perdoou, pedindo-lhe somente que a quisesse confessar, e depois de confessada e recebido o Se- nhor, a levou para casa. Outro padre nosso alcançou também perdão de huma molher fidalga e de dous filhos seus, ja homens, pera outro homem fidalgo, o qual era acusado por aver sido padrinho em hum desafio e causa de lhe matarem hum filho, o que parecia difficultoso acabar-se com elles, pore serem pessoas nobres e principaes. Outros muitos concertos e amizades faz 48 2
nosso Senhor por meio da Companhia, de que resulta grande gloria ao Senhor e evitão muitos males eminentes. Aos Domingos e aos santos se vai fazer a doutrina ao tronco e esprital, e se trabalha polia soltura dos presos pobres, e principalmente alguns infiéis que se convertem, indo hum padre nosso ao dia de sua audiência com o padre vigairo e provedor da Misericórdia estar presentes a ella, pera com mais brevidade se ordenar sua soltura, porque muitos, a mingoa de quem fale por elles, estão perecendo. O concurso da gente que commumente se acha nesta nessa (sic) igreja, assi aos officios como as pregações de que muito se satisfazem, as quais ahi em nossa igreja todos os domingos e santos, como também as confissões, porque commumente a mais da gente da cidade e principal se con- fessa com os nossos, aos quaes todos tem muita devação e muy grande, e comumente todos os dias ha confissões na nossa igreja, e muitas pessoas devotas e honrradas se con- fessão // e comungão, cada oito dias, e mais vezes o farião, f243 r se lho permitissem. Os officios divinos se celebrão solenemente e comumente que nas outras igrejas, do que o povo muito se satisfaz, assi polia ordem e concerto, como polias boas falas, que comu- mente nelle se achão, por causa do collegio que temos dos meninos da tera, adonde sempre aprendem e exercitão o canto de orgão, e chão, e também nisto concorrem e ajudão os estudantes de fora que sabem e aprendem o canto. O officio do Natal se celebrou, achandosse nelle a mais da gente da cidade as matinas e chançonetas com que o nas- cimento do Senhor, que estava representado em hum presé- pio, se soe festejar; a missa de galo que entoou o Padre Provincial, com diácono e subdiacono, que então aqui se achou, vindo a visitar suas ovelhas; ao dia de Jesu se fez a nossa festa, armando os mordomos a igreja muito bem, e os altares ricamente ornados, dizendo-se as vesporas, e a missa 48 3
solenemente dizendo-a os padres de S. Domingos, pregando hum dos de S. Francisco; ouve muitas confissões, comun- garão muitas pessoas, correndo destas primeiras vesporas ate o dia, muito de noite, muita gente a visitar as relíquias e ganhar o santo jubileu que se então publicou. As sestas-feiras da Coresma, as tardes, pregou o Padre Fernão da Cunha, e antes da pregação se cantarão Comple- tas, que muito ajudavão pera a devação, e os instrumentos, e boas falas que nellas se acharão; ouve sempre nellas grande concurso de gente, e muitas lagrimas, as quais sempre vinhão parar em grandes prantos, mostrandosse no cabo hum devoto crucifixo, que saia com huma percisão, a qual hia cada sesta- -feira a huma igreja, acompanhada de muitos disciplinantes, e outra muita gente com duas ladainhas; huma de canto- -chão e outra de orgão. Ja terão sabido, charissimos yrmãos, de quanto proveito e devação sejão estas pregações, as quais sem duvida, parece que Deos, Nosso Senhor, quis ordenar pera os homens sem vergonha poderem chorar seus pecados, publicamente. Os officios da Somana Santa se fizerão bem, e com muita satisfação do povo cantados, assi a paixão de Ramos, ainda que por falta de sacerdotes foi necessário dizer hum irmão o dito de Christo, que o disse muito bem assi por ser a fala acomodada, como por saber do canto, como também a de sesta-feira. A quinta-feira se encerrou o Senhor, pera o qual estava feito um sepulchro na capella-mor, mui sumptuoso e mui ricamente ornado de peças mui ricas e com muita cera que se deo de esmola. Pregou o Padre Fernão da Cunha o Mandato com muita satisfação do povo, e de noite, a Pai- [243 v.] xão, em a qual ouve muitas lagrimas // e sentimento, mos- trando no cabo hum crucifixo mui devoto, pera mais devação da gente. A sesta feira, depois de se desençarrar o Senhor, se fez o devoto officio da Cruz e procissão, levando os padres e irmãos a tumba, revestidos em alvas, indo diante huma 4 8 4
procisão de meninos e outra polo meyo, peguada com a tumba, com todos os martyrios da Paixão, cada hum com o seu, por ordem. Hião diante os apostolos, cantando os seus heus (sic) (1) a quatro vozes, que faziam muita devação, e os anyos respon- dião outros versos com as Marias que hião atras da tumba, lamentando, todos com suas coroas de cordas em as cabeças, que levavão cubertas com os mais que região e acompa- nhavão a procisão. Em o principio delia levava hum irmão hum crucifixo grande e muito devoto, com o qual se não podião encobrir as lagrimas, o sentimento que tudo junta- mente causaria e toda a gente que se achou presente, que foy muita, porque comumente acode toda a este officio, polia devação que elle tras consiguo, sem duvida, charissimos irmãos, que não sinto coração tam de aço que vendo-a não se desfaça e commova a compaixão, como claramente se vee. Tornando a procisão, que se fez pola crasta, estava em hum altar feito hum muymento em que se poz o Senhor, todo de veludo preto, estrelado de estrelas brancas, muy alto e sumptuoso, com degraos e com entretalos dos mistérios da Paixão, o que não ajudou pouco a devação e lagrimas que a gente trazia. Sabado seguinte, se fez o officio, dizendo os padres e irmãos profecias. E começando-se a missa, ao tempo da Gloria, alegrou o Senhor e consolou, (como sempre custuma a fazer) dar grandes alegrias por pequena tristeza padecida por Elle, e ainda isso se verifica no exterior, pera o qual ayuda muito o custume santo da Igreja, com que custuma festejar semelhantes festas, e tãobem o descubrir de hum retabolo grande e devoto que aynda o povo não tinha visto, por se então aver posto no altar-mor, o que (1) Refere-se aos trenos, que principiam por heu, e se cantam nesta procissão. 485
tudo yunto causou grande alegria misturada com a devação do mistério. A noyte de sabado santo se tirou todo o preto do muy- mento e se ornou ricamente de peças de borcado e outras sedas, e ao Domingo, da madrugada, sayo a procisão da santa resurreição pera a qual, alem da igreja, estavão as crastas muy bem preparadas, com altares e mysterios em todos os cantos, com muytos artifícios de foguo, e da mesma maneira estavão as ruas vezinhas por onde ella avia de hir, levando os padres e irmãos o paleo e o padre reitor o Santíssimo Sacramento, em huma custodia cuberta com hum veo muito rico e yndo diante huma muito comprida procissão de meni- nos, com huma crux aviada de boninas e flores artificiaes, e no couce dela, huma outra crux, toda de pedraria que parecia cousa muy rica, a qual he desta casa, acompanhada de folias e danças e invenções acommodadas e aplicadas a alegria da festa que então se custuma. A gente hia com muita cera, o que tudo redundava em grande alegria e louvor do Senhor e gloria de sua santa resurreição, com musicas e [244 r.j cantares em seu louvor. // No principio do Inverno, por ser tempo mais acomodado para se dar a Deos, tomarão alguns irmãos os exercícios, não todos os que os pedião e querião, mas aquelles que pode ser, dos quaes se aproveitarão muito e sairão como novos servos conseguindo bem o fruito delles; nesse tempo reno- varão todos os votos, precedendo confisões geraes. Ao dia de Corpus Christi, por ser a primeira festa que neste collegio se fez sua procisão, alem de seu mericimento, detreminou o Padre de se lhe fazer a festa que possível fosse, pera o qual se armou a igreja, capela e altar fresca e rica- mente, avendo vesporas solenes e missa com diácono e sob- diacono, e fez-se a procisão para a qual se ordenarão as cras- tas e ruas por onde se avia de hir também, que parece que em alguma maneira excedeo a da ressurreição, assi no con- 486
certo como nas invenções que se acrecentarão. O concurso da gente que nesta festa se achou foy muy grande e todos louvavão ao Senhor, dizendo que nunqua tal avião visto nesta terra; pregou o Padre Reitor, com grande satisfação de toda a gente. Pera que esta festa não fosse somente com muita sole- nidade na terra, mas também festeiada no ceo, e temida nos infernos, a tarde, se fez hum baptismo que avia dias se an- dava preparando, pêra o qual fizerão algumas invenções da festa da menhã, juntos todos os catecuminos em casa de hum visinho honrado, o qual tinha a casa e rua enramada e jun- cada com muitas capelas feitas, e entrando, a cada hum punha huma capela na cabeça e huma palma na mão, en sinal de victoria. Fomo-los buscar com huma picisão, com muita festa e contentamento do capitão e gente da cidade, os quaes festeiarão o baptismo, correndo a carreira a porta da igreja; foy o numero dos que se baptizarão duzentos desaseis. Dia de Nossa Senhora da Sumpção (sic), não se conten- tando ella de entrar soo en a igreja triunfante da gloria, quis juntamente com seus rogos e merecimentos deixar en cami- nho pera ella, metendo nesta igreja militante cento e tres almas, as quaes se baptizarão, este dia de sua gloria. Fomo- -los também buscar com picisão acompanhados do capitão e da mais gente da cidade que sempre se achão presentes em semelhantes festas. Estes que se baptizarão estavão pera o outro dia de Nossa Senhora de que se avia de fazer a festa, nesta casa, por estar nela hum altar seu; mas como tudo era pera huma Senhora quis ella mostrar que se sérvio do baptismo do dia de sua Assumpção com per seus rogos e merecimentos dobrar o numero dos que se baptizarão no dia, pera que estes esta- vão, o que não foi sem muyto favor e ajuda sua. Folgara muyto, charissimos irmãos, poder-lhes contar todas as par- 487
ticularidades que acontecerão, em a converção dos que se baptizarão, porque em todas acharão muita materia pêra louvar ao Senhor, mas não sera possível. Hum homem bramene, alem de outros, que são os pa- dres da gentilidade, era entre todos principal e muy vene- rado, não somente dos seus, mas também dos portugueses, por ser elle, em suas letras, muyto letrado e bom astrologo. Este não somente tinha nome e era conhecido nesta terra, mas de outras, muy estranhas e apartadas, vinhão comunicar com elle duvidas e buscar remedios e abluições; pera o que, elle tinha em sua casa, que he muy grande, por dentro delia, muitos cubículos, muy piquenos e escuros, aonde recolhia e dava seus exercícios aos que a elle vinhão ter. Aly diz que os tinha muytos dias em abstinenecias e penitencias, e de- pois disto, lhe dava suas respostas e os mandava. Era entre todos como digamos arcebispo e ordenado em maior di- gnidade. Este homem, dando palavra de ser christão, disse que avia de ser com condição que primeiro o avião de levar ao tronco, polas culpas que tinha de suas serimonias gentílicas, e que depois de assi visto e carregado de ferros, se faria christão e nem por mais que lhe aconselhavão, quis decer deste parecer, dizendo que era assi necessário pera os seus que, se visem que elle, sendo tão letrado, que lhes preguava e os insinava, se convertia facilmente, que seria pouco cre- dito e muyta desonra, e todavia quis ir ao tronco, aonde esteve alguns dias en ferros, despois dos quaes, pidio que o trouxessem pera o collegio e queria ouvir as cousas de Deos e ser baptizado. Esteve aqui muitos dias catechizando-se e aprendia a doutrina muito bem, escrevendo-a e não se contentava com a letra delia e pedia a declaração. Este homem com sua con- versão fez grande abalo em toda esta gentilidade e começa- rão logo muitos a se converter, e dos principaes de sua casta, 488
e no tempo que aqui estiverão catiquizando-se, todo o gentio que vinha falar com elle ficava convencido e convertido e era pêra louvar ao Senhor ver o modo que tinhão, porque dous delles, que erão os mais práticos, os persuadião e pre- garão, e este principal dava a sentença, dizendo que era bem ser christão e que elle o era, e por isso que o fossem elles. Cassi lhe davão loguo a obediência e se punhão em suas mãos, e enquanto aqui esteve, fora a gente de menos quali- dade, se converterão passante de sincoenta bramenes, homens todos onrados, principaes e abastados. E favorecia Nosso Senhor este negocio de maneira que confiados em seus favores, não queríamos mais dos gentios senão que viessem com estes homens pera ficarem conver- tidos, com a conversão dos quaes se atemorizarão muito os gentios, que tinham por cousa impossível estarem nesta terra e não serem christãos, e assi dizião: «a ora he chegada; os padres não fazem isto, porque elles não poderião, nem tem armas; Deos he o que o faz, porque ate agora não vimos isto». Outros dizião: «foão se fez christão, vamo-nos daqui, porque se estiveremos, tãobem o seremos»; e como de feito alguns, com este temor, se forão pera outras terras, fugindo a claridade que os vinha a alumiar, estando elles em trevoas. Hum homem, também dos principaes, ainda que não era bramene, muy duro e contumas em sua gentilidade, quis aver seguro dos padres para que o não fizessem christão, parecendo-lhe que o podião fazer sem elle o pedir e querer. E para isso trouxe hum homem fidalgo, por seu rogador, e porque elle era homem discreto e de bom entendimento, lhe disse o padre que, antes que tomasse o seguro, que quizesse estar aqui aquella noyte falando com Porquviossi e Cucunay- que e Vemanayque, que erão tres homens onrados e letrados na sua ley, que elle bem conhecia; que se lhe parecesse bem o que lhe elles dissessem, o tomasse e que, se polia manhã não quisesse ser christão, que se // yria com o seguro, sem ^45 r.j 489
nenhum modo de o fazerem, o que elle asseitou, confiado em sua dureza. Prouve ao Senhor que falando com elles, ao tempo que se avia de ir com o seguro, disse que queria ser christão, e segurou sua alma, e não se quis ir, a noyte, que aqui esteve. Fizerão particular oração os padres e irmãos por elle a Deos, por ser pessoa muy principal antre os gentios. Certo que por meo delias abrandou o Senhor sua dureza e lhe tirou as escamas de seus olhos que lhe impidião ver a verdade, e despois se foy pera sua casa, e trouxe sua molher e outros parentes para serem christãos, a qual dizia, depois de ser baptizada, que se soubera que a ley dos christãos era tão limpa e boa que muito tempo ouvera que seu marydo e ella o forão, e não tiverão gastado quanta fazenda tinhão pollo não ser. Outro homem também muy principal e zeloso da sua ley, o qual avia ydo a Goa a procurar por toda esta cris- tandade pera poderem fazer suas cerimonias e pagodes, prouve ao Senhor ficar também nesta rede e seguro do se- guro que vinha buscar. Tãobem, como o do que tenho dito assima, este depois de se converter, confessou que avia mui- tos annos que deseiava ser christão e que a vergonha dos parentes e dos outros o detinhão, e isto confesão muitos e bem se mosrtou, porque despois destes principaes serem con- vertidos, facilmente se converterão os outros, perdida ja a vergonha e o areceo que os detinha. Este homem tem agora cuidado, por sua devação, de procurar polios christãos, defen- dendo suas cousas, assi em os auditórios, como fora delles e gastando nisso alguma cousa do seu. Alguns destes homens hião per viços et plateas, e tra- zião para a cea do Senhor outros convertidos para serem christãos, sendo elles ainda catecumenos, e hum destes, tar- dando alguns dias que não vinha, parecendo-nos que se averia arrependido; estando ja desconfiados, veo, trazendo comsigo sinco bramenes de sua casta para serem christãos, 49°
e parece que a tardança deste era a vergonha de não querer vir, sem trazer alguns consigo, e não lhes paresse isto pouco, porque estes bramenes, por serem mais homrados dos gen- tios e os mesmos paguodes, se convertem raramente, antes seu officio he perverter e pregar contra os christãos e sos- tentar os gentios e suas mas festas, com a qual doutrina moreram todos e perderam quanto tem, por que se nam faça hum christão, e alem de muytas cousas em que bem se vere- fica este seu mao zelo, que lhes poderá contar; direy somente huma, e delia colherão as mais. Fez-se huma molher christãa, a qual tinha hum filho de tres ou quatro annos, irmão de hum gentio, sem lhe ser nada, e pedindo a mãy que lho fosse buscar e ho fizesem christão, o gentio que ho tinha, polo mandar, desemparou sua casa levando sua molher e filhos, deixando muyto fato e guado e huma botica chea de roupa e de dinheiro, por ser mercador e ter nella hum Xerafo p tudo engeitou e dey- xou por não dar o menino a sua mãy, pera ser christão. Vejam, charissimos irmãos, se he muyto pera chorar a nossa frieza e pouco zello, vendo isto e outras muytas cousas, // [245 T-1 que muyto magoam os corações dos servos de Deos. Alguns dos gentios, vendo a conversão destes homens honrados, mandavam aqui recados, e as vezes, por outros mesmos gentios que queriam ser christãos e que fossem em busqua delles, o que he muyto pera louvar a Deos. Também desta feita se converterão outros homens homrados, a que chamão Parvus, que são escrivãos e contadores, e gente muy cheguada aos bramenes em dureza e maldade e zelo de sua ma ley, e asi destes também poucos se convertem. Preparando-lhe o baptismo, para o dia do Nascimento de Nosso Senhor, fazendo-lhe hum padre cada dia huma pratica das cousas da fee a todos geral, fora outras particula- res, segundo as capacidades dos catecumenos, fazendo-se a festa solenemente; as vesporas, estiverão todos os catecume- 49 1
nos que estavam em sua casa em seus trajos de gentios; dise-se missa ao dia, de diácono e subdiacono, a qual também estiverão e a pregação, ate o prefatio, e o mesmo fazião os outros dias, poios mais deles entenderem e saberem fallar a nossa linguoa, e afeiçoando-se muyto as preguações, di- zendo que lhes parecia muyto bem, dizendo que aquela era a verdade. Deyxo falar na muyta gente que neste dia se confessou e comunguou, porque nem de noyte nos podiamos valler com confissõis, nem se queriam yr da igreja, sem se confessar. A tarde, se fez o baptismo, o qual, por ser de muyta gente honrada, pareceo, pêra mais confussam e vergonha do diabo, aver de vir de muy longe que os pasados; ayun- tarão-se todos em casa de hum homem principal, o qual tinha a casa e rua muy bem emparamentada. Fomo-los buscar com huma procissão, acompanhado do capitão e da mais gente da cidade com charamellas e danças, e pêra isso se ordenaram, em começando de sair de casa com capellas nas cabeças e ramos em as mãos dos que se aviam de bapti- zar e mandou o capitam tirar a fortaleza, vinham muyto bem vestidos que porque por serem honrados tiverão todos seus padrinhos que os vestirão. Alguns ouve que não quiseram aceytar os vestidos dos padrinhos, mas vestirão-se ricamente a sua custa, e asi se pos em procissão este exercito, ja da banda de Christo, se- guindo a bandeira da Cruz arvorado contra o diabo de quem [216 r.] tam pouco avia estavam cativos. Puseram-se// em tres or- dens e na do meyo os mais principaes, em que estavão bra- menes, parbus, gentios, mouros, baneanes e de outras castas que cada huma delias tem sua ley e costumes. Era tanto o concerto da gente, assi nas ruas, como na igreja, que não avia por onde romper. Todos davão gloria ao Senhor, vendo suas maravilhas e misericórdias que dizião que não cuydavão de ver converter-se gente tam honrrada, com tanto conten- 4 9 2
tamento e prazer, porque commumente a mais da gente que se converte he da mesquinha e popular e estoutros como são grandes, tem-no por desonrra como ja dice; forão os bautizados que se poderão escrever cento e noventa e cinquo e ouverão de ser muyto mais. Hum homem dyce que contara duzentos e cinquoenta, que parece ser assy, pola muyta gente que era. Festejou o capitão e os mais cavaleyros esta festa com escaramuças e carreyras. Chegaryão os vestidos dos baptizados, que os padrinhos derão, a passante de trezentos pardaos, o qual lhe derão com muyta devação e vontade, movidos de huma pregação que o Padre Reytor fez, em a qual lhes encomendou e enca- receo muyto o que ganhavão em os vestyr. E ouve homem que a seu quinhão vestio nove, e outros, segundo lhes davão os afilhados e aos que lhes não davão mandavão, pera isso, aqui a casa dynheiro e peças pera ayuda de se vestyrem, e alguns tomavão em caso de honrra não lhos darem, pera os vestyrem, e pryncipalmente hum homem honrrado sentio tanto que dice, que por essa causa, estando pera se yr pera fora, se avya de yr muyto mays cedo. Ao dya seguynte, depois do baptismo, dizendo-se-lhe huma missa em que todos vyrão e adorarão seu verdadeyro Deos e Cryador dando-lhe a devyda reverencia que tão poucos dias avya davão ao diabo e figuras de metal e pedras e paos, de que são seus pagodes, e despois de escrytos em hum Livro, que para isso ha, se forão pera suas casas, e por morarem entre as outras, muytos delles apartados da cidade, alem da festa geral que se fez ao baptismo, quiserão os padry- nhos de cada hum fazer outra particular a seus afilhados, levando-os a suas casas, acompanhados delles e de outra gente que pera isso continy andavão a cavalo, e as madry- nhas com as molheres e filhos em palanques e em carretas ligeyras que ha nesta terra, de huma certa maneyra enrrama- das com bandeyras, e charamelas e outros ynstrumentos, e 49 3
saltando a enveja santa com os padrinhos, cada hum traba- lhava de fazer ventagem nesta parte aos outros, tendo-lhes mandado diante preparar e emramar as casas e as ruas delias, por onde avião vir. Creo sem duvida que não menos se em- vergonharia o diabo, vendo os que dantes erão seus escravos e ministros ir com tanta honrra e victoria, feitos filhos de Deos, pregadores da verdade e desenganadores de suas men- tiras e falsidades. Logo começarão alguns destes homens, principalmente [246 v.] este principal de que tenho falado, // que se chamava Porcuiossi e agora se chama Anrriquez da Cunha, a desen- ganar os gentios os erros em que andavão e andão dizendo: «eu ate agora vos pregava de Bramaa, Visnu, he Mayzu e Abramaa, porque esta he sua quartenidade e outros pagodes, que os honrraseis e tivésseis por deoses, parecendo-me que avya nelles algum bem; sabei que andava e andais engana- dos e que os pagodes são mentira e diabo, e que somente os christãos tem o verdadeiro Deos e a lei da salvação e por isso fazei o que eu fiz e salvareis vossas almas», e outras cousas semelhantes lhe dizia e diz. Este homem, depois de christão, mostrou e mostra sinaes de sua perdistinação, deixando outros de que não fallo, por- que este com ser muito velho foi e he mais curioso em aprender as orações e Rosairo de Nossa Senhora, o qual sempre traz consiguo e o reza. Traz nelle huma veronica a que mostra ter muita affeição e devação, por ter a imagem de Christo e de Nossa Senhora. Anda sempre preguntando a declaração da doutrina e dizendo-lha, huma vez, o que queria dizer a letra dos Mandamentos, ficou tão satisfeito, mostrando exteriormente o desejo que tinha de os guardar, dizendo que esperava em Deos de trabalhar muyto polios guardar todos, pera não cair na pena e alcançar o premio delles. 494
Poucos dias depois deste homem ser christão, caio em huma doença, da qual sendo são veyo aquy ao collegio pidir licença pera levar pera sua casa huma pouca de agoa benta, dizendo que quando estava doente, de noite, estando dor- mindo, viera huma molher trazendo consigo agoa benta, a qual espargindo sobre elle, ficou são e assi com muita deva- ção levou para casa a agoa benta que vinha buscar. Este homem, mais que outros, engeitou muito do temporal, com se fazer christão, porque elle por sua dignidade tinha os dízimos e premicias dos fruitos de toda esta gentilidade e quanto queria; seu estado era viver de esmolas e delias era muy rico e abastado, porque nunqua lhe faltavão, e este genero de homens tem por honrra viver disso; tudo isto engeitou e perdeo e sobre tudo a veneração e honrra que se lhe fazia, porque os principaes dos gentios tinhão por grande cousa e se honrravão muito de lhe lavar os pes, be- bendo a agoa delles, parecendo-lhe que com isto ficavão sanctificados. Prazera a Nosso Senhor que tudo lhe pagara na gloria, porque elle isso diz que quer. São comumente estes christãos muito devotos da cruz, e como se baptizão, logo pedem licença pera as porem em suas casas e emtradas de suas hortas, e alguns as fazem muito bem feitas e de custo, e este christão acima dito, tem pedido que vão daquy de casa ao arvorar da sua cruz, porque quer convidar os christãos em aquelle dia e dar-lhe de comer a sua honrra e recompensasão das festas que tenha feito ao diabo, sendo bramene. Por causa destes christãos morarem polias hortas e ser trabalhoso vir ouvir missa a cidade, por estar algum tanto longe, e também por causa da particular doutrina que lhe he necessária, ordenou o Padre Provincial, estando aqui, que se fizesse huma hermida nossa, em meyo de huns e de outros, que sera daqui pouco mais de mea legoa, pera nella ouvirem missa e serem doutrinados assi elles como seus 49 5
filhos, o que alem de ser nossa obrigação, temo-la a estes particular polios fazermos christãos. Esta ermida ha pouco que se começou e ainda não he de todo acabada. Chama-se [2i7 r.] sua vocação Nossa Senhora da Ajuda, // por nesta terra não aver casa de Nossa Senhora fora dos muros delia, da qual se faz a festa no dia de sua sancta apresentação. Os dias passados se arvorou huma cruz junto delia, pera o qual se ajuntarão os christãos, assi os deste baptismo pas- sado, como os de outros; estava posta em casa de hum por- tuguês que morava aly perto, o qual tinha a cruz e rua e casa enrramada e concertada, e fazendo todos primeiro ora- ção a ella, postos em gioelhos, a tomarão os principaes chris- tãos e a trouxerão as costas e os que não podião caber, pera meterem os hombros de baixo, se contentavão virem de longe pegados com as mãos nella. Chegados ao lugar que estava preparado, em que se avia de por, com huma procissão dos meninos deste collegio, dos padres e irmãos que se poderão achar presentes, indo can- tando o Benedictus e outros salmos, com outros tangeres e festas, se arvorou a bendita arvore da cruz e despois de arvorada e feita oração, todos com muita devação, a forão beijar. Neste tempo se achou hum gentio, o qual também remeteo a cruz, e deitado em terra, a beijou, dizendo que queria ser christão e agora se anda catechizando com outros muytos pera se poderem bautizar. Acabado este officio, lhes fez hum padre huma pratica, a qual todos estavão mui attentos sobre os merecimentos da cruz, da adoração e honrra que se lhe devia, a qual acabada, mostrando todos ficarem mui satisfeitos, se fizerão humas amizades entre dous christãos dos principaes que andavão em odio, do qual se poderá seguir grande mal, por serem homens que cada hum tinha gente da sua banda, fazendo-os abraçar em sinal de paz, em que avião de permanecer. E de tudo juntamente davão graças a Deos, alevantando as mãos 496
aos ceos polios aver chegado ao conhecimento da verdade, em a qual o Senhor, por sua misericórdia, os queria conservar e aumentar. Em outros bautismos particulares, alem dos que acima tenho dito, se bautizarão este anno, neste collegio, passante de quatrocentos e cincoenta almas, que juntas com as dos bautismos atras, fazem mil e tantas, afora outros que as vezes se bautizão sem se escreverem. Pera esta yrmida que se fez, não somente os portugueses e christãos ajudarão, com suas esmolas, com as quais toda he feita, mas também os infiéis, dando huns hum pardao, outros meo e alguns se mandavão offerecer que querião também ajudar, se quisesse aceitar sua esmola. E hum destes christãos, que se agora fizerão, sendo ainda gentio, tinha prometido hum pardao para ella, e pedindo-lhe, despois de christão, disse que se em gentio prometera hum, que sendo christão, avia de dar cinco. O credito e devação que todo este povo tem a Compa- nhia he mui grande, porque alem do respeito que geralmente a todos os filhos dela tem, são mui sogeitos ao Padre Reitor, assi o capitão e os mais seculares, como o padre vigairo, que he todo da Companhia, e os mais eclesiásticos e não sinto cousa que o padre queira que com elles não acabe. Todos ajudão muito, assi em o temporal, como em o espiritual, dando todas as ajudas e favores que he necessário pera bem // das almas e conversão dos infiéis, e alem de cada [247 t.j hum per si ajudar, com suas particulares esmolas a este colé- gio, não somente pera o culto divino, mas também pera o material delle e sostentação mas dos que nelle estão. Este anno se daria pera a igreja, em peças que se fizerão, passante de mil pardaos, entre as quais foi hum caliz mui rico, o milhor que ha na cidade, e chegaria a trezentos par- daos de ouro e dous pontificais, hum de borcado mui rico e outro de damasco e veludo, de frontais, vestimentas, alma- 497 DOC. PADROADO, IX 32
ticas, pano de púlpito, tudo guarnecido de ouro e hum docel de veludo, com hum sobre-ceo, de outras sedas mui fresco, o qual deo huma molher viuva honrrada pera hum altar de Nossa Senhora, de que ella he mui devota e tem por de- vação fazer-lhe, cada anno, a festa em seu dia, dando todo o gasto da cera e todo o mais que he necessário pera a igreja, e a mesma deu a imagem que he vulto grande, e muito devota, com huma coroa de prata dourada, com pedraria mui fermosa e que vai passante de trezentos pardaos, mais hum frontal de veludo cremesim, com sebastros de veludo, tudo guarnecido de ouro, e outras muitas peças, fizerão-se mais duas peças de damasco e veludo. Terá este collegio, em peças de prata da igreja, passante de mil pardaos. Todas estas cousas e outras, que por não ser diffuso deixo, que derão pesoas devotas de esmola pera as obras que são feitas e se fazem, neste collegio, as quais ha pouco tempo que se começarão. Tem também este povo muito ajudado e ajuda e com suas esmolas he feita a igreja, ainda que falta da altura das paredes doze palmos, pouco mais ou menos, e hum lanço e meo das casas, em que estão ja dez cubículos, e agora se começa a torre dos sinos que com ajuda do Senhor esperamos acabarsse cedo; alem doutras esmolas particulares derão certos homens dous mil e tantos pardaos pera estas obras. Ajudão também muito a sostentação dos que estão neste collegio e com suas esmolas suprem a falta da renda por- quanto tendo mais ordinária que a que se detriminou pera três ou quatro pessoas, que aqui dantes estavão, se sostentão agora onze ou doze, e alem das esmolas quotidianas e par- ticulares, tratarão antre si, os dias passados, vereadores da cidade ordenar como nos dessem vinte juros (sic) de bate, em cada hum anno, que serão sesenta moios, pedindo ao Padre Reitor que quisesse nisso falar e aceita-lo pera elles milhor o poderem fazer, dando também esmola pera se fazer huma 498
casa pêra estudo, e ate agora pagão huma de aluguer, que serve disso, ate se acabar a que se faz. Huma molher viuva honrrada e muito devota da Com- panhia, a qual tem bem mostrado buscoar bem de verdade a Deos e dexar tudo pollo achar, porque tendo muito de seu, e saindo-lhe bons casamentos, não quis casar e tudo engeitou, não querendo mais que viver a obediência dos padres e fez doação a este collegio de humas aldeas que tem, que rendem, em cada hum anno, seiscentos pardaos. E este anno lhe davão // setecentos e esperasse o diante render 1M8 r-l muito mais. Esta cidade he muito fresca, por ser toda acompanhada de muitas hortas; este nosso collegio esta no milhor sitio delia, e junto e sobre o mar, cercado de huma cerca grande, com huma porta pêra o mar, ao longo do qual vai huma praia muy comprida e limpa, aonde os irmãos algumas vezes vão tomar algum refrigério pera mais poderem servir a Deos. Dentro desta cerca ha horta de muitas arvores e orta- liças; em huma parte delle esta o collegio dos meninos da terra sobre si, com sua porta pera a rua, em o qual, alem dos meninos que nelle estão de todas as castas e lingoas, que sempre são sesenta, oitenta, mais e menos e catechizan- dosse pera se bautizarem. E polia bondade do Senhor nunqua estes faltão, idos huns, feitos christãos, vem outros pera o ser. Estes meninos aprendem a ler, escrever e contar, e os que são pera isso estudão, por se esperar delles servirem de interpretes pera a gente da terra, o que he muito necessário. Daqui se põem a officios, despois de doutrinados, cada hum conforme a sua inclinação, e em que se criarão, costumando sempre acompanhar os padecentes com sua procissão e ladai- nhas, sendo sempre pedidos dos yrmãos da Misericórdia e provedor pera isso. Posto que das cousas que da Companhia tem em Tanaa e Damam e Trindade, que estam sogeitos a este collegio, se 499
poderá escrever muyto do que Deos Nosso Senhor se dina de nelles obrar; todavia, por aver sido muyto comprido, não tocarey delias maes que ho necessário, e que se não poder escuzar pêra comprir com a obrigação. Quanto aos exercícios comuns, exercitão-se os nossos nellas, como costumão, em todas as partes onde estam, senão quanto os que estão nestas casas, por serem poucos, tem muyto mays trabalho, acodindo a tudo o que noutras partès se reparte por todos. Em Damão, que he huma terra, que avera sete annos que he possuída dos portugueses, em a tomada da qual se achou o bendito Padre Dom Gonçalo, que Deos tem em sua gloria, e logo ahy deixou obreiros da Companhia, pera começarem de cultivar aquelle pedaço de vinha do Senhor, que estava feito mato, 'possuída somente de infiéis, sera vinte legoas daqui, pouco menos, aonde se vay por mar, e por terra. Ao presente, esta nelle o Padre Antonio Vaz, que se occupa em pregar, e o Padre Manoel Cabral costuma ajudar aos proximos, e o irmão Bartolomeu dos Santos que tem l«8 v.] cuydado da casa e ensinar a doutrina aos christãos //, mini- nos e escravos. O sitio da terra he muito sadio e de bons ares; com aver poucos doentes nella cayo o Padre Pero Vaz, estando ay, por reitor, em huma grande emfermidade, cau- sada de muytos trabalhos e padecimentos que passou, indo de Goa pera laa, do que, creo, serão sabedores polas cartas de Goa. Esteve in extremis, desconfiado dos medicos e sem humano remedio. Quis Nosso Senhor, por sua bondade, que propondo hum padre nosso ao fisico hum remedio, de que se lembrou, com o qual lhe aprouve dar-lhe saúde tam de súbito que, estando ao tempo da primeira missa do Natal, com o derradeiro acedente, quando veo a missa do dia, pode iaa ouvir bem. E dahy por diante foy sempre melhorando desta doença; deu o padre muyta edificação, não somente 500
aos de casa, com sua patiencia e mansidão com que sofria os trabalhos, mas também aos de fora que o vyam. E o fisico que o curava dizia nunqua tal aver visto. Este anno, os pos Nosso Senhor num aperto, cercando de inimigos a cidade com o qual cerco descercaram os mora- dores delia suas almas dos pecados, porque com o aperto em que se virão de mil e quinhentos homens que ahy se acharam, a maior parte delles se confessou e muytos delles, que avya muitos annos que o não faziam, ordenando suas almas e fazendo seus testamentos. Em o tempo que durou este cerco muitos se confessaram e comunguavam a meudo, por meo do qual, mais que por forças humanas, creo, os livrou o Senhor, desbaratando os enimigos, ficando muitos delles mortos. Antre as amizades que ahy se fizerão foy huma, que estando huns certos homens pera matar outro, por humas palavras que avia dito a hum delles, do que sendo sabedores os padres o estorvaram disso, e não veo a efeito o que estava certo ser, e por serem homens honrados, foi necessário falar o Padre ao capitam, pera se fazerem as amizades que se fizerão. Neste anno se bautizaram sesenta ou setenta pessoas, o que não he pouco, por ser esta terra nova e fronteira, entre os quais foram três que estavam pera padecer pola iustiça e falarão-lhe os nossos; aceitaram ser christãos e morrer por suas culpas, porque, depois de christãos, o capitão lhe mu- dou a morte em degredo //. [249 r.] Também se converteo huma molher honrada, judia, por meio da qual se converterão outros judeos, fazendo-lhe o senhor capitão e mais gente muyta festa ao seu bautismo. Outro se converteo, indo em companhia de hum português, ao qual, em o tempo do cerco, quebrarão huma perna, e fazendo-se christão, mandou logo buscar sua molher que estava muitas legoas polia terra dentro, pera também a dei- 50 x
xar christãa por meo dos nossos, que neste tempo do cerco andavão animando e esforçando a gente que peleiava, e recolhendo e confessando aos feridos, dos quaes nossa casa era hospital. Celebrou-se este ano la a festa das Onze Mil Virgens, e por ser a primeira que se naquela terra fez, foy la o Padre Francisco Cabral, levando consigo alguns ornamentos de que la carecião, e alguns irmãos e meninos deste collegio, pera cantar besporas e missa; o que se fez, tudo muito sole- nemente, com muita satisfação e devação do povo, dizendo o Padre Vaz a missa e outro sacerdote, com outro religioso de S. Francisco. Pregou o Padre Francisco Cabral, ficou a gente com muita devação a estas senhoras. Também em este collegio se lhes fez a festa, por estar nelle hum altar seu, e hum homem dos principaes desta cidade tem por devação fazer-lhe, cada anno, a festa, dando a cera e o mais que he necessário pera o armar da igreja. En Tana, que sera quatro legoas desta cidade, onde se vay por mar em tempo de suma maré, esta commumente hum padre e as vezes dous, e dous irmãos. O Padre Pero Vaz, ao presente, esta na casa que ay tem a Companhia, por reytor, o qual a poucos dias que veo de Damão; prega aos Domingos e santos em casa e na see, por não aver mais igrejas nem outro pregador e tem muito trabalho, por ser so e ser huma povoação de muytos portugueses e acudir a todas suas necessidades, assi de confissões, como de amizades e em o mais que a Companhia com os proximos costuma de exercitar. E alem dos portugueses, tem huma christandade que he o principal que se pertende. Nesta casa esta hum collegio de meninos da terra, que se vem fazer christãos, de que tem cuidado o Irmão Gonçalo Vaz, com que sempre também ay catecuminos que vem pera serem christãos. Fora da cerca, esta huma povoação toda iunta de chris- tãos da terra, aonde se agasalhão os christãos que se fazem 502
novamente, com huma casa em que se recolhem as molheres que se querem fazer christãas, e alli são catequizadas e ensi- nadas, ate se bautizar, por outras molheres que nellas estão, pera ese effeito. Também esta casa, pola bondade do Senhor, sempre esta acompanhada de catecuminas e este chão desta povoação que he muy grande, e o mesmo de nossa casa ávido mesmo pera isso, com a qual se fez notável fructo, porque alem de acharem ally os novos christãos agasalhados, ficão debaixo da doutrina dos padres, com que sempre são apas- centados. Nesta casa se farião este anno duzentos christãos, pouco mais ou menos. O Irmão Fernão Nunez tem cuidado das cousas de casa, juntamente com ensinar a ler e escrever e contar aos meninos de casa e de fora, em huma escola que pera iso ay. // [2» *.] Na Trindade, que esta desta casa de Tanaa, huma legoa, a que se vai por mar e por terra, esta huma igreja nossa da invocação da Santissima Trindade, e a de Tanaa, he a da Madre de Deos, a qual esta em hum bosque muito fresco, com huma baya de agoa que corre ao longo delia. A capella desta igreja foi antigamente, no tempo dos mouros, hum pagode de grande romagem, mui custoso de feytio e pedra- rya muy lavrada, que em nossos tempos dizem não se poder fazer com quinze mil cruzados. Neila era venerado o demo- nyo, fazendo crer a gentilidade que era tryno e uno, e por esta causa se lhe pos o nome que tem. Pegado com a igreja esta huma casa, onde se agazalha hum padre e hum irmão de contino, e ahi residem, que ao presente he o Padre Martim Equusquiça (1), o qual ao pre- sente anda mal desposto de huma opilação do baço, que se lhe gerou, polo sitio ser algum tanto doentio, principalmente em certos meses do anno e commumente os que ahi residem (1) Leitura hipotética. Assim parece ler-se a estranha palavra. 5 ° 3
saem com esta infirmidade. A-se por bem empregada a dimi- nuição da saúde polo grande fruyto que se faz nas almas, que ali residem, mas como Nosso Senhor sempre da remedio a todas as cousas, prouve-a de hum irmão que se chama Manoel Gomez, que ahy reside ha muytos annos. Parece que seja afeyto a natureza da terra, porque doutra maneyra parece que não se pudera sostentar o fruyto grande daquella casa, o qual principiou o Padre Mestre Gonçalo, que Deos tem em sua gloria, e ao tempo da sua morte, ficou em grande aumento como agora esta. Este irmão tem todo o asumpto e com muyto trabalho, não perdendo nada da sua quietação, porque elle so, não somente no espiritual he o que pryncipalmente tem cuydado de toda aquella povoação, quanto ao que toda a sua doctryna e bons costumes, mas também no temporal porque sua yn- dustrya e engenho faz a todos trabalhar em suas lavouras, dando-lhes terras e sementes de que colhem fruytos com que se sostentão não somente os que trabalhão, mas aynda os que o não podem fazer como viúvos, velhos e doentes, os quaes todos são providos em suas necessidades, por todo o anno, de huma pataia grande que se enche de bate pera elles. Junto com a igreja e casa esta huma povoação de chris- tãos da terra, porque por estar entre os matos, ate agora, não he habitada de portugueses em a qual avera dozentos [250r.] casaes e nelles pasante//de mil almas, todos convertidos, na- turaes da mesma terra per meo de nossos padres, fora muyos que despois de baptizados são mortos, asy myninos como outra gente, estes todos são homens trabalhadores e se man- tém por seus trabalhos; huns lavrando, outros pescando, outros sendo tecelõis, e alem desta povoação e outras aldeas vezinhas a ella, ha também muytos christãos que aos Domin- gos e santos vem a missa, e a doutryna e para estes homens terem sempre em que trabalhar, tem a mesma casa muytas 5o 4
terras, bois e vacas pera seu meneo e serviço, não sendo nenhum senhor particular, mas todos se aproveytão do que lhes he necessário, repartido polo arbítrio do yrmão que disso tem cuydado. Estes christãos, por morarem todos perto da igreja, e não ter o proprio yrmão outra ocupação senão com elles, são bem doctrynados e mostrão mostras de bons christãos, ou- vyndo as missas e pregações que lhes faz o yrmão Manoel Gomez em sua lyngoa, por saber muyto bem falar, e apren- dem a doutryna christã a qual sempre se lhes ensina, acabada a missa e pregação, e os filhos vem cada dia a ella, dos quaes, ao dyante, se espera muyto fruyto, por estes ja serem cryados com o leyte da doctryna christam e costume da santa Igreja, de que seus paes carecerão. De noyte ensinão huns aos outros, em suas casas e ruas, a doctryna e a seus proprios paes, que são mays tardos em a tomar, e vay-se a noyte tanger huma campa pola povoação, encomendando as almas do Purgatório, e assy se tem muyto bom cuydado de lhes administrar todos os sacramentos, se- gundo são capazes. Os christãos que este anno se baptizarão, nesta igreja, das aldeas vezinhas a ella, forão trezentos e setenta e cin- quo, pouco mais ou menos, tirando os filhos dos christãos que se bautizarão e não entrão neste numero. Sempre, pola bondade do Senhor, ha catecumenos que se andão cathici- zando pera se bautizarem. Tem nesta povoação, e conjunto com esta mesma casa, hum collegio de meninos orfãos da terra que se vem fazer christãos, aonde, depois de bautizados, se ficão criando em doutrina e trabalho; e ao presente estão nelle cento e quo- renta, os quaes, alem do seu tempo da doutrina christã, que se lhe tem dado e repartido, se exercitão com trabalhar, lavrar e semear em terras que tem pera esse effeito, como acima tenho dito. Desses meninos se espera muyto fruito, 5 ° 5
[250 Y.] assj em suas almas, // como principalmente a conversão dos outros de que elles são grande meyo. Ao dia da festa da Sanctissima Trindade forão daqui foi (sic) o Padre Reitor com alguns padres e irmãos e meni- nos do colégio a fazer-lhe a festa; e ainda que esta casa esta entre matos, e que não ha mais que a gente da terra, acudirão la muytos portugueses que não lhe empedindo a devoção as muytas aguoas que choverão e as ribeiras dos caminhos, por cayr esta festa na força do inverno de qua, destas partes; alem de o fazerem pola devação da festa hião guanhar o santo jubileu que o Santo Padre tem concedido a todas as casas da Companhia, os dias da sua vocação. As besporas se fez hum baptismo solenne, indo com pro- cisão acompanhada de toda a gente de meninos de três colé- gios, a saber: deste Baçaym e de Tanaa e os da mesma casa, com a festa que foy possível, fazendo-se em os matos, buscar os que se avião de bautizar, que estavão em casa do mor- domo, que era hum homem honrado de Tanna, que tem por devação fazer-lhe aquela festa e guasto pêra todos os que vão a ella, trazendo com elles juntamente a cera da confra- ria, vindo todos, como se costuma, com sua capellas na cabeça e ramos em as mãos, tendo a rua, por onde avia de vir a procisão, toda enrramada e embandeirada, com charamelas e cantos que, por ser nos matos, não se espantaria pouco o diabo que creo diria muytas vezes: «porque nos persegues, Jesus, não nos deixando nas cidades habitar os meus, mas ainda dos matos me vem butr fora?» Resumindo, todos os christãos que são feitos nestas terras de Baçaym, nestas quatro casas que a Companhia nellas tem, fazem mil e seiscentas e tantas almas, alem de muytas que se bautizão muitas vezes sem se escreverem, e alem de mui- tos que nos outros mosteiros e casas de religiosos e outras igrejas se bautizão, de que nos não sabemos o numero. E isto he, reverendos padres e charissimos irmãos, o que 506
pude coleguir destas casas e aynda que pareça aver sido nesta muito comprido, sem duvida poderão crer, se pudera muito mais dizer, mas por não ser possível, me fui encurtando, deyxando muitas cousas por poder acabar, e pedindo-lhe que seyão lembrados propícios a Deos em seus santos sacrifícios e orações por estes mínimos servos que a Companhia nestas partes tem, pera que, favorecidos delle, se perqua o temor dos trabalhos e periguos, com animo e esforço vão todos adiante in dies com mayor aumento de perfeição e virtude nesta obra da conversão da christandade, não cessando ate não ser de todo acabada, o que a Deos não // he impossível, [25i r.] pera que nestas terras e em toda a parte em que dantes o demonio era venerado, seia sua divina Magestade glorificada, servida e adorada, agora, e pera sempre dos sempres. Amen. Deste collegio de Jesus, desta cidade de Baçaim, ao pri- meiro de Dezembro de 1565. Servo de todos em o Senhor Belchior Dias. 507
72 CARTA DE JORGE CALDEIRA PARA O PADRE DOUTOR MIRÂO, PROVINCIAL DA COMPANHIA Goa, 6 de Dezembro de 1565 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, III. Fls. 223 v,-251 v. Avendo de referir nesta a Vossa Reverencia o que Deos Nosso Senhor se dignou obrar no anno de sesenta e cinquo, pelos mínimos de sua Companhia, que nesta cidade de Goa residem, assi pera satisfazer com a santa obediência que tem constituída esta mutua comunicação, por cartas, como tão- bem para serem entendidas as mesiricordias de Nosso Deos e Senhor pera com suas criaturas, tenhão os nossos mais copiosa materia de seus louvores, começarei polias de casa, conforme ao modo que nesta parte se costuma observar. Primeiro, todavia, direi alguma cousa da alegria com que os Padres e cartas dessas partes todos recebemos, preser- tim, este anno que vierão alguns de Castella, e outros luga- res que ate aqui aviamos carecido, dos quais não tenho que dizer, senão causarem em todos a solita alegria que com ellas sempre recebem e aumentarem-nos o desejo de comprir com a obrigação que nos põem de fazer o mesmo. A que rece- bemos com a vinda dos padres foi, certo, grande, assi por se desejar sempre muito sua chegada a esta cidade, como por tardarem, este anno, as naos mais que os passados. Pello que se temia querer-nos o Senhor privar deste beneficio, por- que de duas que chegarão a esta barra, a primeira tomou o porto a 16 de Setembro, vindo commumente dos tres ate os oito e a nao Esperança, em que vinhão tres nossos padres, dali a quatro ou cinquo dias. Deste colégio os forão alguns 5 o 8
de casa buscar a barra, em huma embarcação, com muito refresco como he custume, e trazidos a elle, os receberão com o amor e charidade com que os da Companhia se amão, a qual se // exercita mais com os que dessas partes vem, o t22,t r'-1 que com razão pedem os trabalhos da longa viagem, e o virem de terras tão remotas com tanto desejo a participar os trabalhos que seus irmãos nesta vinha do Senhor padecem. As outras duas naos forão ter a Cochim, a 25 de Setem- bro, com cuja nova Deos Nosso Senhor, prater spem, nos alegrou, porque como não tomarão Moçambique, vierão em tempo tão extraordinário, que parecia aver-lhes acontecido algum desastre. Os tres padres, que em huma delias vinhão, chegarão mui enfermos, mas convalescendo dois delles, a saber, o Padre Gabriel Oliver e o Padre Alexandre, forão mandados vir a este collegio, ficando no mesmo Cochim o Padre Mestre Alçaras (sic) pêra pregar ao povo delle. As mais cousas de sua chegada e o que na viagem lhe aconteceo o entendera Vossa Reverencia de suas cartas. Estamos neste collegio oitenta, dos quais vinte e quatro são sacerdotes; alem destes, habitão em diversas aldeas desta ylha e outros lugares a ella vizinhos, pera ajudarem a chris- tandade, vinte e seis padres e quatorze irmãos, a saber: em Chorão residem doze pessoas, dous sacerdotes e os mais irmãos, dos quais oito somente se ocupão em aprender a lingoa da terra, pera cujo effeito forão deste collegio, no principio de Outubro passado, tendo-o assi ordenado o Padre Provincial, antes de sua embarcação pera Malaca, do que abaixo direi, por aver ali maior comodidade pera o exercício desta obra, de que esperamos se servira muito o Senhor, polia grande necessidade que ha de terem estes novamente con- vertidos quem, em sua lingoa, os insine e lhe ouça suas con- fissões, a que com diligencia acodem, quando suas enfer- midades o pedem. Elie, per cujo amor se começou, lhe de bom sucesso. 5 ° 9
Em Rachol, terras de Sua Alteza, há em duas igerjas (sic) dous padres e dous irmãos, de que abaixo direi, quando falar da christandade e conversão. Em S. Lourenço, que he huma igreja desta ilha, huma legoa desta cidade, reside hum padre e hum irmão, a ja quasi hum anno, e outros tantos em Divar, que he huma casa de Nossa Senhora, vesinha a esta ilha. Nestes dous lugares, ultra dos outros exercícios que os nossos exercitão pera com os christãos, lhes ensinão a ler e escrever seus filhos, de que se colhe não pequeno fruito. Todos estes padres e irmãos, que disse, residem nas aldeas, estão a obe- diência deste collegio, como ja se tem escrito. Temos todos, louvores ao Senhor, mediocre disposissão corporal, ainda que muytos forão visitados com algumas febres de que em breve convalecerão, excepto o Padre Mestre Gonçalo, que ho Outu- bro passado de 64, chegou a este collegio de Tana, onde avia [221 v.] annos residia, // muy enfermo e quasi hidropigo, e segundo os medicos, muy propinquo a morte, porque alem de vir todo inchado, trazia febre, camaras e fastio. Depois da sua chegada, se achou algum tanto milhor; todavia como a enfermidade era de muito tempo e grave, delia passou desta miserável vida, depois de estar aqui alguns meses, em os quaes padeceo muytos trabalhos. De seu transito não se offerece outra cousa que escrever. Somente aver sido muy conforme a vida que na Companhia fez, em que viveo alguns vinte annos. A seu enterramento se ajuntarão muytos religiosos de São Domingos e São Francisco, que ajudarão a lhe fazer o solito officio da sepultura, por ser o padre muy conhecido nestas partes e pessoa de grande respeito. E excepto etiam hum irmão, que avera mais de anno e meyo que adoeceo de huma febre tisica, de que agora o Senhor o levou, pera o qual deu sempre mostras, com sua humildade e paciência em tão diuturna doença estar bem aparelhado. Alguns outros falecerão fora deste collegio, de que me 5 ' °
pareceo fazer nesta menção, ao menos de dous, porque ja pode ser que não se escreva delles. O primeiro foi o Irmão Duarte da Sylva, hum dos obreyros que o Senhor tinha no Japão, de cuja virtude e zelo grande que nelle se via para com a saúde das almas, e juntamente de seu fallecimento escreveo o Padre Cosme de Torres huma carta ao nosso Padre Provincial, da qual entendemos não perder pouco aquella christandade em ser privada de quem tanto procurava seu bem espiritual. E o outro foi o Padre Pero de Arboleda que em São Thome, com o Padre Pina, exercitava seu talento em ajudar os proximos, de cujas almas era muy solicito, pello que com seu exemplo e doutrina procurava apartar os homens de sua ma vida e cusmmes. Falleceo a noyte do Natal passado. Por charidade, que Vossa Reverencia mande por elle e polios mais fazer nessa Província os suffragios solitos. Quanto ao espiritual, não occorre escrever outra cousa diversa do que ja por vezes se tem escrito, que he proceder-se era tudo, como pede nosso modo de viver. Tem-se grande conta com a observância das regras, oração e os mais exer- cícios espirituaes, ajudando-se todos das penitencias, assy das que se empoem, como das voluntárias que aprovando-as o superior, muitos fazem. // E pera tudo isso não ajudão pouco i225t.] as praticas e conferencias das sextas-feiras, em que se trata daquellas cousas que fazem pera alcansar o fim que a Com- panhia pretende; e pera milhor o conseguir (ultra dos meyos que toquei), este inverno, que nesta terra como Vossa Reve- rencia ja ouveria, he tempo mais comodo pera a oração, assy por as ocupações darem mais lugar a isso, como também por cessarem as calmas que lhes são grande impedimento, se derão os exercícios a muytos de casa, do collegio e noviciaria, onde fizerão suas confissões geraes. Dos irmãos da provação, cujo numero he de trinta, pudera dizer muitas cousas, acerca de seu bom modo de 5 7 7
proceder, mas por quanto outras vezes se escreverião, direi somente que ha nelles ultra da obedientia, humildade e sojei- ção (que se pede dos que de novo se offerecerão ao divino serviço) amor, exercício grande de penitencia, porque são muitos os jejuns e disciplinas voluntárias, com licença de seu mestre, a que (alem do amor que disso tem) os incita huma casa que pera isso tem muito devota, onde excepto hum reta- bolo de Christo posto não cruz, não ha outras cousas senão instrumentos desta sancta virtude, pendentia ex utroque pariete. As impostas que também são mui frequentes e muitas vezes procuradas dos mesmos irmãos que mostrão fazer com muita alegria. Renovarão este anno os votos duas vezes, assi os que ja os tinhão feitos publice, acabado o tempo de sua provação, como muitos dos noviços que particularmente se avião com elles obrigado a seu Criador. A primeira foi dia do Bema- venturado São João Baptista; a segunda na solennidade de Todos os Santos; huma vez e outra depois das confissões; percedeo ladainha, pratica, disciplina e a solita oração. Outras duas vezes os renovarão os irmãos collegiaes, a saber: dia de Jesus, em a festa dos Apostolos S. Pedro e S. Paulo, como se costume, precedendo estas cousas ditas. Nosso Senhor nos conceda a todos guardar fielmente nossas promessas. Doze, que acabarão o tempo de sua provação, fizerão, este anno, os votos, de cujo numero foi o Padre Pero Martins, alias Argudo (sic) (1), que nestas naos veo desse reino, o qual esteve na noviciaria os dias que lhe faltavão para os doze annos de seu noviciado, guardando apollice que elle pedio e as mais obrigações delia, a qual não deixou pouco edifi- cada com sua humildade, quietação e recolhimento, onde (1) Deve ser, talvez, Araújo. 5 ' 2
estivera mais se lhe fora permitido, pollo grande aparelho que para estas cousas nella ha. Este mesmo anno se receberão quinze irmãos, de boas partes, e que esperamos serão aptos instrumentos na Com- panhia, do divino serviço. Tres delles erão estudantes de nossos estudos e de mediocre engenho. O outro veo este anno desse reino, onde estudou Humanidade, alguns annos, em Sancto Antão; dos outros, hum era soldado, que no mundo vivia virtuosamente, do qual disse o capitão-moor desta terra (com que andara de armada) ao nosso padre bispo algumas cousas, que bem mostravão o conceito que tinha de sua virtude, e que lhe aconselharão entrasse na Companhia, porque mais serviria a Nosso Senhor, fora por quanto fazia confessar os outros soldados, e com suas amoestações os retrahia dos juramentos. Todos, polia bondade de Deos, pro- cedem de tal maneira em seus exercícios que nos augmentão as esperanças que disse. Alguns nove ou dez pedem ser admitidos, mas differe-se o com // primento de seus bons desejos, polios respeitos que [225 a Companhia costuma entreter os que pedem seu ingresso. Depois da ultima se ordenarão onze irmãos, a saber: quatro diáconos e os sete sacerdotes, que jaa exercitão seu minis- tério, e com isto se satisfaz melhor as necessidades dos pró- ximos que, como sejão muitas, dão bem de trabalho aos que aqui residem. Algumas missões ouve deste collegio para outras partes, a saber: na armada que cada anno, em Janeiro, se manda ao Estreito de Meca, foi o Padre Pero Fernandez, olim Mer- cado, com hum irmão, pedidos do senhor viso-rei e capitão- -moor da mesma armada, para ayudarem em seus trabalhos e necessidades que são muitas, por ser a viagem quasi de hum anno. Foi este padre, que disse, nesta armada, assi por- que consultando o Padre superintendente quem seria, se determinou que elle fosse, como também porque Sua Senho- 5 1 3 DOC. PADROADO, IX — 33
ria, antes de lhe dizerem quem avia de ir, nomeadamente o pedio, pollo muito que delle estava edificado da nao, quando vinhão do reino, onde entendeo ser o padre pêra grandes trabalhos. Esta Sua Senhoria tão satisfeito de sua virtude que mostra ter-lhe affeição; e ya que falei nesta ida, pareceo-me contar algumas cousas do muito que com ella Nosso Senhor se sérvio, por aver poucos dias que o padre e irmão chegarão a este collegio, dos quaes as entendi. Primeiramente ensinavão, cada dia, a doutrina aos escra- vos do galião do capitão-mor, onde hião, de que se bem aproveitarão. Deste mesmo exercício usarão em hum lugar que se chama Masquate, que dista desta cidade trezentas legoas, para com os filhos dos portugueses e moradores chris- tãos delle. Isto, todavia, alternis diebus, porque as grandes calmas que ally ha não permittião fazer-se mais frequente- mente. Do galião ya o Padre visitar as outras embarcações para confessar os doentes e ayudar a bem morrer a muitos que nellas falecerão. Os jogos, juramentos e outras cousas deste genero, que se achão entre soldados, com o exemplo e amoestações do padre, se evitarão de tal maneira que os mesmos soldados se admiravão, tendo visto outras vezes o contrario; fez algumas amizades entre alguns que se tinhão inyuriado e ferido, pedindo-se utrinque perdão. Curavão os enfermos que alli tinhão maior necessidade dos nossos, polia falta que avia das cousas necessárias para os taes. A qual toleravão mais facilmente, vendo o amor e diligencia com que os provião. Dos marinheiros mouros, alguns se con- verterão a nossa sancta fee catholica, que o padre baptizou, para os quaes pedio esmola aos do galião. No lugar que acima disse esteve a armada cinquo meses invernando, atee que se partio para esta cidade, onde se confessou e comungou o capitão-moor e quasi todos os soldados, que serião trezentos, avendo outros muitos feito o mesmo em Sacotora, que he hum lugar que toma a armada 5 ' 4
quando vai. Ouvio também o padre algumas confissões dos moradores da terra, baptizou-lhes seus filhos e escravos, ins- truindo-os primeiro das cousas necessárias para o Sancto Baptismo; e finalmente lhes administrou os mais sacra- mentos de que elles estavão asas necessitados, por carecerem de sacerdote. Ouve-se o padre também, nesta viagem, com os sol- dados que lhe ficarão tendo grande amor e assi, desque chegou a este collegio, he mui visitado delles. O Abril passado, se mandou para a China o Padre Andre Fernandez, que residia em Coulão, para entrar com a embai- xada, se se effectuasse receber-se. E se não, para ficar alli, exercitando os ministérios da Companhia para com os mer- cadores portugueses que sempre são muitos. E deste collegio, no mesmo mes, se mandou hum padre para Maluco, com hum irmão que foi de Cochim, e em Malaca se avia de ordenar sacerdote, por quanto (como Vossa Reverencia vera das cartas que os nossos de Maluco escreverão) se multi- plicou muito nelle a messe, e assi a necessidade de mais obreiros. Foi com este padre, que disse, hum // irmão pera 1226 r.] ficarem em Malaca, que dizem ser boa terra pera asmáticos, de que elle tinha ja princípios. Mandarão-se mais deste collegio pera Baçaim, Cochim, Ormus e outras partes, oito — sacerdotes e hum irmão, em cujo lugar alguns outros vierão, ainda que não tantos. Ho nosso padre bispo, que (como ha ja annos se escre- veo) he mui enfermo de asma, se embarcou este Setembro passado para Malaca, a ver se naquella terra pode achar algum remedio pera enfermidade tão diuturna, continua e trabalhosa. Foi-lhe necessário ir-se desta terra, por fugir a hum vento que nella ha mui frio e nocivo a esta doença, onde, se estivera mais tempo, segundo he ja debilitado dos frequentes e grandes paroxismos que lhe acodem, parece nos deixara mui cedo. 5 ' 5
Levou consigo hum sacerdote por companheiro; sua ida se sentio tanto, quanto era util sua residência neste collegio, mas facilmente se tolerou este sentimento com o desejo que todos tem de o Senhor o livrar de tão grandes trabalhos, o que esperamos lhe concedera naquella terra. Embarcousse também pera o mesmo Malaca nosso Padre Provincial, pera dali visitar os nossos que residem em Malu- quo, China e Japão, de cuja ida aquellas partes confiamos em o Senhor resultara grande fruito, assim aos da Compa- nhia e novamente convertidos, como também a conversão de tanta gentilidade, quanta ha naquellas terras. Deos Nosso Senhor, por cujo amor empreendeo esta obra, em tudo a prospere. Despediosse dos irmãos, dia da Exaltação da Cruz, em huma pratica que lhes fez, em a qual, despois de dizer como deixava o Padre Mestre Melchior por vice-provincial, e o mais que tinha ordenado, tratou muitas cousas da oração, com as quais aumentou o sentimento de sua ausência, prin- cipalmente avendo de ser por alguns annos. Não fez esta visitação mais cedo, por ser de muita importância residir nesta terra; pello que irsse delia se sentio muito, assi do senhor viso-rei e arcebispo (aos quais parecia o contrario), como de muitas pessoas nobres, das quais algumas, vindo a este collegio, dizião ao Padre Francisco Roiz, por que o deixavão ir, mas valeo mais pera com elle a obrigação de seu officio e desejo de experimentar os trabalhos, que os nossos naquelles lugares padecem, que todos estes pareceres que disse. Em os estudos que neste collegio temos, que he a segunda . cousa que se custuma de escrever, se procura conseguir o que a Companhia com elles pretende, que he juntamente com as letras emsinar bons costumes, e affeiçoar aos estu- dantes ao amor e serviço de Nosso Deos, o que por sua bondade, vemos effeituarsse. Na escola de ler, que certo he huma das cousas em que a Companhia muito serve ao 5 1 6 i
Senhor, nesta terra, avera mais de setecentos moços, com os quais se faz grande fruito, assi pollo bom cuidado que os mestres tem delles, como também por lhes não permitirem aprender em outras escolas o que nas // nossas se ensina, [226 v.] pollo que alguns alem da Aritmética, que na escola de ler e escrever aprendem, tem suas lições de canto com os meni- nos orfãos, de que este collegio tem cuidado, cujo mestre he o Padre Antonio Bello, asas perito nesta arte; pera este mesmo fim se continua o que ha ja dias se começou, a saber: tresladaremsse as vidas dos santos, pera que aprendão a ler por ellas, e não leão outras cousas que são nocivas aos bons costumes dos tais. Alguns ha que se confessão cada oito dias e comungão aos quinze; ordinariamente quando vem e saem da escola, vão cantando a doutrina polias ruas, cousa certo pera louvar ao Senhor; em suas casas a ensinão aos escravos e mais gente, com a qual se tem muita conta, castigando os que nisto faltão. Na escola, com serem tantos, tem grande quietação; tanto que, vindo huma vez de fora o Padre Reitor, tendo elles a porta fechada, para que lhes não entrasse o sol dentro, se persuadio que não avia escola, ate que, abrindo a porta, os vio. Alternis diebus, a tarde, se lhes ensina mea hora de tempo a doutrina que o Padre Pero Parra trouxe o anno passado, em a qual aproveitão muito. Dos estudantes se pode dizer o mesmo, porque muitos frequentão os sacramentos da confissão e comunhão, cada oito dias, e na festa das Onze Mil Virgens, que he o principio dos estudos, se confessou e comungou grande parte delles, exhortados de seus mestres, que não são pouco solícitos de sua saúde espiritual. Entrarião este anno nas religiões, que ha nesta cidade, vinte, que nos não pareceo pouco pera o numero que he de 165, dos quai outros aprendem com este santo proposito. Alguns contão a seus pais o que nas praticas ouvem na 5 '7
escola, e em casa ensinão a doutrina aos escravos, e mais gente delia, o que tudo se entende dos agardecimentos que os pais dão aos mestres. Outros, ouvindo falar aos mestres na pennuria que tinhão os do Tronco, de certas cousas necessárias, fizerão com seus pais que provessem a esta neces- sidade. Os irmãos que estudão a Humanidade são onze, a saber: seis na primeira classe e cinco na segunda e terceira classe; com o curso se começou, em Julho, a Philosophia que le o Padre Sebastião Gonçalves; os ouvintes de casa são cinco; o Padre Dionísio le polia manhã a 2* 2", e a tarde, o Padre Miguel de Lacerda, em casa, aos irmãos passa algumas ques- tões da primeira parte que ouvio do Padre Provincial. Ha também neste collegio, alternis noctibus, conferencia de casos, desta maneira: hum padre, que disso tem cuidado, põem quatro ou cinco casos em escrito, hum dia antes, na porta do choro, e os padres os estudão em seus autores, por- [227 r.] que para este effeito se destribuirão por elles diversos. // E chegando o tempo da conferencia, cada hum diz o que acerca dos taes casos achou, e as rezões em que seu autor se funda; o que, feito, se resolvem. Instaurandosse os princípios dos estudos polia festa das Onze Mil Virgens, como ca se costuma, estavão as crastas bem ornadas com muitas orações e epigramas, e alguns enigmas, como em os outros annos. O senhor viso-rey se achou a missa e pregação, avendo-se primeiro confessado e comungado em a capella dos irmãos noviços, o que faz com hum padre nosso, na mesma capella, cada quinze dias. Tãobem se achou a tarde, (assi o senhor arcebispo com a mais fidalguia e cidadãos), ao recitar das orações que teve hum estudante de fora e representação do dialogo que neste dia ouve, e huma e outra cousa satisfez muito a Suas Senho- rias e mais circunstantes, o que se pode bem colligir da alegria e atenção com que ouvião, e do que em louvor destas 5 7 8
cousas disserão. Ouve mudanças dos estudantes de humas classes para outras, precedendo os solitos exames, a que foi presente o Padre Reitor, Mestre e alguns outros da casa. Quanto aos exercícios dos nossos para com os proximos, são os que nossa Companhia exercita, a saber: pregar, ouvir confissões, ajudar a bem morrer, estudar et ccetera id genus. Prega ordinariamente o Padre Francisco Roiz, o Padre Rei- tor, e outros tres. Os lugares onde pregão são aqui em nossa ygreja, aos Domingos e sanctos, e os Domingos em huma freguezia desta cidade, em que ha hum grande auditório. Pregasse tãobem na see, alternatim, a instancia do senhor arcebispo, e em os sanctos que caem na somana, que se seguem depois do Domingo, em a qual os nossos pregarão, ainda que Sua Reverendíssima tem dado a este collegio quasi todas as pregações deste Advento, e da tãobem aos nossos ordinariamente as pregações que se fazem em os autos da sancta Inquisição, na see desta cidade, onde pregou o Padre Reitor em hum que este anno ouve. Ha grande auditório e com muita satisfação dos ouvintes, assi por a pregação ser mui erudita, como por serem os nossos muy affeitos. Pregão mais os nossos padres em a Quaresma, as quartas-feyras, na Misericórdia e os Domingos em huma ygreja de S. João Baptista, que esta hum pedaço fora da cidade, e em nossa casa, as sestas-feyras, a tarde da Paixão, as quaes pregações concorre tanta gente que certo da materia de louvar ao Senhor. Faz-se, despois destas pregações, como outras vezes se escreveo, huma procissão de nossa ygreja atee a Miseri- córdia, em que vay muito numero de penitentes, os quaes, tornados ao collegio, são curados de nossos padres e irmãos. Neste tempo da Quaresma pregavão daqui aos prezos do tronco, assi da justiça secular, como aos da sancta Inqui- sição, e lhes ouvião suas confissões, e tãobem aos da salla, que he huma casa onde estão os cativos de el-rey, e muitos degradados, e como entre os taes assi aja mesmo infiéis, 5 7 9
alguns delles traz o Senhor a seu conhecimento, por meio dos nossos, os quaes, neste tempo que disse e em todo o outro do anno, a estes e aos do tronco confessão, quando suas necessidades o pedem, acompanhando juntamente aos que por seus delictos padessem, para que os ajudem a bem morrer, o que nesta terra he proprio da Companhia. Vão tãobem os mininos orfãos acompanhar os que padecem com sua cruz, ajudando-os com a ladainha que dizem ate o lugar, [227 r.] onde se exercita a justiça o que faz //muita devoção. Alem destes lugares que disse, onde pregão os nossos, e são chamados pera pregarem quasi em todas as ermidas desta ilha, em os dias de suas vocações, porque, como tenho dito, são muy asseitos e concorre muita gente a ouvi-los, e segundo se pode conjecturar da affeição que mostrão ter- -lhes, com grande fructo de suas almas. Proponho nossos padres no púlpito ao povo a necessi- dade que avia de vestido para mil catecumenos, que então averia nesta ilha, exortando aos que podião os ajudassem, porquanto a falta delles, não recebião o santo baptismo, forão alguns padres de casa com o capitão e vereadores da cidade a pedir polias portas. Chegaria a esmola que lhe derão a seiscentos pardaos, que foi grande ajuda pera em parte se remediar a falta dita. O fruito das confissões se pode bem colligir do numero delias; polia bondade de Nosso Senhor, não faltão, assim na nossa igreja, como as que pedem de fora, que são muitas, porque como tenhão os homens conhecido quam prompta- mente a Companhia acode, quando he chamada pera seme- lhantes obras, a todo o tempo recorrem a ella, tendo muitas vezes confessores vezinhos e outros mais perto. Comungarão, humas somanas por outras, neste collegio, mais de cem pes- soas, exceptos os dias de festa, de cuja solennidade não falarei nesta, porque o anno passado se fez difusamente. Direi toda (sic) alguma cousa das confissõens, pera que 520
Vossa Reverencia entenda quanto ellas ca se frequentão. A segunda dominga do Advento exhortarão os nossos ao aparelho do Santo Nascimento de Christo Nosso Redentor, do qual dia ate a vigília, comungarão, em a nossa capela, quasi quinhentas e setenta, e no dia da sagrada festa, que foi mui celebre, pouco menos de dozentos. As confissões deste dia ate o de Jesus forão muitas; receberão o Sanctissimo Sacramento, nestes dias, mais de quinhentos. Pera a ajuda da festa, que em tal dia se faz, nos mandou o senhor arce- bispo cincoenta pardaos de esmola, e se achou presente as vesperas, e dia em o qual também veo o senhor viso-rei, como outras vezes costuma vir a nossa igreja. Posse este dia na capela mor huma alampada de prata, que hum vezinho nosso nos deo de esmola; parece ser a mais rica peça que deste genero ha nesta terra; chegou a setecentos pardaos. A gente que concorreo a ganhar o jubileo, que Sua San- tidade concedeo aos que visitarem nossas igrejas, em a Cir- cuncisão do Senhor, (que lhe foi denunciado dia de Natal, acabada a pregação), foi tanta, quanta parece não aver vindo nunqua a este collegio. Isto que disse das confissões do Natal e Circuncisão poderia também dizer das festas solennes que no anno se celebrão, em as quaes se multiplicão muito, como foi na Assunsão gloriosa de Nossa Senhora, na qual comungarão quatrocentas pessoas, e na solennidade de Todos os Santos, em a qual receberão a Santa Eucharistia mais de quinhentos. Ocuparãosse este anno, como também os passados, alguns de nossos irmãos em servir os doentes do esprital, quasi dois meses depois que as naos desse reino chegarão a esta terra, porque sempre com sua vinda se multiplica o numero dos enfermos, e assi em que mais se exercite a cha- ridade. Os que forão erão nove://cinco da provação e [228 r.] quatro collegiais. Andou também la hum padre, alguns dias, ate que se chegou o tempo pera se embarcar pera Baçaim, 52 /
onde foi mandado polia obediência. Forão alguns dos irmãos, com os officiais do esprital, buscar os doentes a barra, em huma fusta e, trazidos, os levarão e em todo o tempo que lhes foi permitido terem este exercício os servirão de tal maneira, e com tanta edificação dos mordomos e dos mais que alli vão visitar os enfermos, que quando se vierão não os deixarão pouco saudosos. Hião alguns padres da casa confessar os doentes, que serião cento e oitenta, e ajuda-los a bem morrer o que tam- bém fazião os irmãos, vigiando de noite aos que tinhão necessidade disso. Nesta obra se serve muito o Senhor dos nossos, assi polia grande ajuda espiritual e corporal que por elles se da aos enfermos, como também por aproveitarmos grandemente na humildade e sogeição, e desejo de servir que a Companhia de seus filhos pede. O exercício de ensinar a doutrina christã todos os dias na nossa igreja aos meninos e escravos se continua, e os Domingos, em lugar de pratica, que se costuma fazer sobre o Credo e Mandamentos, se introduzio, ha ja alguns meses, a doutrina que, acima disse, trouxe o Padre Pero Parra, a qual o mesmo padre ensina, a qual concorre tanta gente que, com ser muita a que vem polia menhã a missa e pregação, algumas vezes, he mais a que a tarde se acha a esta doutrina, e alguma delia nobre e honrrada, como o capitão da cidade e alguns cidadãos, e assi mandão trazer suas cadeiras como se ouvessem de ouvir sermão. Esta mesma doutrina insinou também o padre, este inverno, aos padres e irmãos collegiais, os dias que não avia estudos ou festas de santos, para que todos a podessem insi- nar, quando se offerecssse ser necessário. Aos irmãos da provação a ensina seus mestres delles, fazendo-lhes sobre ella algumas praticas, em lugar das que lhes fazia, alternis diebus, despois do meo dia, que também erão da mesma materia. Insinão mais os nossos, aos Domingos, a doutrina 522
em três lugares desta cidade, a saber: em huma ermida de Sancto Antonio, e em hum bairro da mesma cidade, onde ha muitos christãos da terra; a terceira se faz na sala de que yaa acima disse. Vão também alguns deste collegio aos Domingos instruir, em a doutrina, em cousas da nossa fee, aos novamente convertidos, mas destes direi quando tratar da conversão. Isto se offereceo escrever a Vossa Reverencia, acerca dos exercícios que pera com os proximos os nossos exercitão. Quanto a christandade e conversão, em a qual nossa Companhia, nestas partes, com muito cuidado e solicitude se ocupa, e o que principalmente se pretende, sem retraher disso os obstáculos que algumas vezes se oppõem a esta obra, como também as outras de Deos Nosso Senhor, occorre pera escrever nesta a Vossa Reverencia o augmento que teve, e o modo de a conservar. E porque para o primeiro faz entender o numero dos que este anno se baptizarão, referirei os baptismos que nelle se fizerão, (dos quaes ficara claro), o qual feito, do segundo. O primeiro baptismo que, depois das ultimas, se fez solenne de muyta festa, como qua se costuma, // quando o [228 v.] numero dos baptizados he grande, foi em huma igreja de São João Evangelista, que esta huma legoa da cidade, e no dia do mesmo sancto, onde hum padre nosso de laa tem cuidado, vai aos Domingos dizer missa aos christãos com hum irmão, ensina a doutrina. Os baptizados forão cin- quoenta e nove. Achou-se presente o Padre Francisco Roiz e alguns outros de casa, como he costume, assi pera fazerem 0 baptismo, como também pera que se faça com maior solennidade. Forão também os nossos pera solenizarem a festa do sancto com missa de diácono e sudiacono, e com preguação, o que assi mesmo se faz, quando ocorrem os sanctos das outras igrejas, em que os nossos nesta ilha resi- 5 2 3
dem. Este baptismo, por ser o primeiro que naquella igreja se fez, foi como disse mui festeyado. O segundo baptismo foi em huma igreja de Nossa Senhora, que também dista desta cidade huma legoa. Nelle forão admitidos no curral de Christo setenta e oito; a este foi presente nosso Padre Provincial, que poucos dias avia chegara de Baçaim, e de visitar os mais lugares do Norte, onde os nossos habitão; e assi o Padre Francisco Roiz com outros de casa deste lugar se partirão nosos padres para Racol (sic) de que no principio toquei alguma cousa. A causa de sua ida foi para verem o lugar onde se faria outra igreja para os christãos que naquellas terras ha, que como sejão muitos e vivão alguns remotos da fortaleza, onde esta a igreja, não podião todos ocudir a ella nos tempos devidos, o que fizerão depois de dia de Sancto Antão, em o qual ouve hum baptismo de cento e desaseis almas, com muita festa e alegria. Tornados nossos padres ao collegio, e dada conta ao Senhor Arcebispo do lugar que parecia apto para se fazer a nova igreja, Sua Reverendíssima Senhoria, (cuja he a igreia, ainda que nella residão os nossos, como também em outras de que no principio fica dito, para que com suas residências o negocio da conversão tenha mais augmento), lhe pedio quisese tornar laa com elle, para que de todo se tomasse a ultima determinação. O que, passados alguns dias, fizerão todos, e asentando ser o lugar comodo, assi por estar no meo de muitas aldeas, das quaes poderião os christãos vir a ella, e também por serem moradores do mesmo lugar, os princi- paes gentios cuya conversão se procuraria melhor, avendo alli igreja, polios que nella residissem, como finalmente por ficar entre templos de idolos, hum dos quaes dista da igreja hum tiro de pedra, outro, pouco menos, os outros tres distão mais algum tanto, para que desta maneira se tirasse ao demó- nio o culto que tem usurpado a Deos, dos que naquelles 524
templos o venerão, o que em parte ya conseguio effeito, por- que o que ficava mui propinquo a igreya se derribou, e da pedra delle se fez a mesma igreja, e casas para os nossos morarem. Esperamos em o Senhor que o mesmo aconteça aos outros, para o qual parece ser este meio conveniente, a saber: edificar a igreja entre elles. Passado pouco tempo, em o qual se buscarão as cousas necessárias para o edifício, se começou com muita festa, achando-se ao deitar dos fundamentos o capitão da fortaleza e sua molher, mui devotos da nossa Companhia, cuyo zelo, acerca do que toca ao divino serviço he digno de grandes louvores; dos nossos tãobem se acharão alguns, os quaes com o capitão e christãos trazião as pedras aas costas, antes do qual, levantarão huma cruz//em hum [229 r.] lugar que para isso tinhão bem preparado. Acabou-se a igreja polia Paschoa, em cujas oitavas o Padre Provincial e o Padre Francisco Roiz, com quatro sacer- dotes e alguns irmãos, se forão laa. Dominica in Albis, disserão os nossos missa a primeira vez nella; e a cantada com diácono e subdiacono disse o Padre Provincial; a pre- gação fez o Padre Francisco Roiz, com muyta alegria, por a ver chea dos christãos da terra com ser bem capas; avia também muitos portugueses, que para esta festa avião hido da cidade e outros lugares da ilha. Acabada a solennidade da missa e preguação, a tarde, forão regenerados em Christo, polo Sancto Baptismo, sesenta. A esta festa do dia precederão vesporas solennes, antes das quaes se poz no altar hum retavolo do Espirito Santo, (cut templum est dicatum), com hum Benedictus, frautas, e charamelas. O capitão da fortaleza, pera que a festa deste dia fosse mais celebre e divulguada, mandou chamar muitos dos gentios que com seus instrumentos músicos a viessem fes- teyar, o que fizeram com juntamente trazerem algumas invenções de baile, ao seu modo. Dos sacerdotes, que disse 5 2 5
forão com o padre provincial, ficou alli hum pera ter cui- dado dos christãos naquela igreja. Na que esta em a fortaleza, ouve em dia de Nossa Senhora das Neves, oraguo da mesma igreja, hum bautismo de quarenta e quatro; forão presentes alguns dos nossos que se mandarão deste collegio a solenizar a festa da gloriosa Virgem, com missa e preguação. Fizerão-se mais nestas duas igrejas, em outros bauptismo, cento e noventa e sete. Da residência dos nossos, nellas, que são quatro, dous, em cada huma, se serve muito o Senhor, porque, alem de instruírem os christãos e lhes administrarem os sacramentos, tras por elles muitos ao conhecimento de sua lei evangélica, ultra do qual não falta occasião de padecer alli os nossos, nascidas algumas vezes das muitas necessidades dos chris- tãos e outras dos bramenes e outros gentios, que não se enfa- dão pouco com elles, e assi o mostrão com a obra, porque indo hum irmão, que na igreja da fortaleza residia, fazer a huma aldea hum rol dos christãos, os gentios delia se vierão a elle com armas e grande grita; o que vendo, se recolheo a casa de hum christão honrrado, que com outros lhe defendeo o ingresso, o qual tentarão. Espancarão-lhe todavia hum cathecumeno que consigo trazia. O capitão do lugar, entendida a cousa, se fez prestes [229 v.] pera hir buscar o irmão, o qual naquelle interim chegou, // avendo-se acolhido sem o verem os gentios. Entendendo o senhor viso-rei a verdade deste negocio por testemunhas, mandou ao mesmo capitão que posesse fogo aos pagodes daquella aldea, o que executou huma noite, indo com elle o padre e o irmão, a quem se fez afronta. E assi forão queimados sete pagodes, que ali avia, com hum pregão que declarava queimarem-se, por se alevantarem contra o irmão, e que nenhuma pessoa se atrevesse a edifica-los, so pena de morte e da fazenda perdida. Desta maneira vingou Deos Nosso Senhor a injuria feita, abatendo tanto ao demo- 526
nio por cuja sugestão se fizera. Este castigo he dos maiores que a esta gentilidade se pode dar, por serem grandemente zelosos da honrra de seus falsos deoses. Ultra desta occasião de padecer e a pennuria de recreações humanas, mas estas lhe recompensa Deos Nosso Senhor com a grande alegria que recebem de serem instrumentos de obra tão santa, como he a da conversão das almas. Na igreja de S. João Bautista, aonde disse que vão deste collegio pregoar na Coresma, outre tres bautismos que os nossos solita celebritate fizerão. Em o primira se bautizarão setenta e seis; no segundo, cento e quarenta e cinco; no ultimo, setenta e oito. Dia de São Bartolameo, receberão o sancto bautismo, na nossa igreja de Chorão, sesenta e sinco, o qual se fez com grande festa que os nossos procurão sempre nelles aja, porque em tal dia foi a maior conversão que naquella aldea ouve, polio que os christãos se ajuntão, a tarde, e em memoria do beneficio recebido, se alegrão e tem seus passa-tempos. Em S. Lourenço, ouve outro bautismo de oitenta e tres, a que foi o Padre Provincial e o Padre Francisco Roiz, com outro de casa. Fizerãosse mais nestas e outras aldeas de que os nossos tem cuidado, por vezes dozentos e oito, e neste collegio se bautizarão, em diversos bautismos, este anno, mil e dozentos e trinta e quatro. A dous delles se achou pre- sente o senhor viso-rei, e foi padrinho de alguns bramenes honrrados e principais desta terra, cuja conversão não ajudou pouco pera a de outros muitos. Os mais destes, de que ulti- mamente fiz menção, se catechizarão neste collegio em duas casas que pera isso temos, a saber: huma para homens, a qual esta no âmbito deste collegio, de que tem cuidado o Padre Pero de Almeida; a outra, que algum tanto dista do collegio, he para catechizar molheres, cujo cargo tem huma abexim virtuosa, que ha ja annos exercita este officio, pera o qual he 527
mui apta, como Vossa Reverencia tem sabido das cartas passadas. Estes são os que, depois das ultimas, Nosso Deos e Senhor trouxe a seu conhecimento, por meo dos fracos instrumentos que neste collegio e ilha residem, cujo numero he de dous mil quatro centos e quarenta e tres. Elie, por sua misericórdia infinita, os faça verdadeiros cristãos e a nos aumente o desejo e obras da saúde de suas almas, e dos que ainda carecem deste nobilíssimo conhecimento. Resta dizer a Vossa Reverencia alguma cousa do modo que se tem acerca da sua conversão e instrução, nas cousas da nossa sancta fee, o qual he este: ultra dos padres e irmãos, que no principio disse residirem em algumas aldeas pera [230 r.] bem da christandade // e conversão dos gentios, em as quais todo seu exercício he ocuparemsse nestas cousas, vão deste collegio, todos os Domingos, dez ou doze a cinco aldeas outras, pera instruyr os novamente convertidos das cousas que são obrigados a saber, e ensinar a doutrina a seus filhos. Dous delles são sacerdotes, que nos tais dias dizem missa aos christãos, e lhes administrão os outros sacramentos, em duas igrejas que tem a seu cargo: huma de São João Evangelista, de que acima falei, e outra que dista desta cidade, quasi mea legoa, he de S. Bras. Assi, nestas duas como nas outras tres, onde ha curas seculares, despois da missa e pratica, que em algumas delias os nossos fazem, emsinão a doutrina a todos os que se achão presentes, assi homens como mulheres. Despois de jantar, vão com seus meirinhos, que pera isso ha, buscar os meninos polias ruas, e conforme a grandeza das aldeas, insinão a doutrina em diversos lugares, porque nas grandes não podem todos acudir; o que feito se tornão pera o collegio, ja quasi noite, porque de todo o dia tem necessidade pera estas dou- trinas, e pera visitar os christãos. Procurão assi mesmo a conversão dos gentios, que sem 525
este exercício terião menos aumento, porque a maior parte do que disse se bautizarão nas aldeas, chamou o Senhor por meo dos que a elles vão, alem do qual argue esta obra o amor e zelo que os nossos tem pera com os christãos e gen- tios, porque sendo este exercício trabalhoso, assi no verão, em que ha grandes calmas, como no inverno, que nesta terra he grande, polio que commumente vem molhados, e as vezes, antes de chegarem ao lugar, aonde hão-de fazer doutrina, o estão ja, em nenhum tempo se interrompe, o que também causa grande edificação na gente desta cidade, move também aos christãos quão solícitos sejam os nossos do que espiritual e corporalmente lhe convém. Hum esprital que temos, em que se cura gente da terra somente, como em outras vezes ja se escreveo, ultra do qual he modo com que Nosso Senhor alumia a muitos pera que, deixadas suas seitas perversas, professem nossa santa lei, os quais, privando-os o mesmo Senhor da saúde corporal, com o desejo dela, pedem a espiritual; e assi a esta ylha, como da terra firme, onde ha noticia deste esprital, se vem alguns enfermos e de graves doenças curar a elle, trazendo suas molheres e filhos pera que também se fação christãos, e alguns delles vem tão propinquos a morte que, bautizados, passão no mesmo dia a seu Criador, outros durão alguns dias, poucos, dando todos boa mostra de sua conversão, outros finalmente recebem saúde in utroque homine (1). Antre os que morrerão foi um homem gentio, que sendo muito ferido na terra firme, se veo fugindo e passou a nado hum rio que esta antre ella e esta ilha. E como ca se vio, disse que bem sabia não aver de viver daquellas feridas, mas que vinha para ser christão, a morrer e ser enterrado como christão, e assi, recebido o bautismo, passou desta vida. Deste (1) Leitura hipotética. A abreviatura é hts. 5 2 9 DOC. PADROADO, IX — 34
esprital tem cuidado o Irmão Pero Afonso, o qual com muita charidade nelle serve a Christo em seus pobres, curando-os com muita diligencia e buscando-lhes as cousas necessárias, com grande cuidado e alegria, que em tão santo ministério o Senhor lhe comunica. Estas cousas me ocorrerão contar a Vossa Reverencia acerca da christandade, mas porque em sua conversão acon- [230 v.] tecem algumas em que muito // se mostra a bondade de Nosso Senhor, pera com esta gentilidade e nos ja conver- tidos, outras que declarão a affeição que tem a lei que rece- berão, me pareceo contar algumas delias, donde por certo que não se seguira algum tédio de ser comprido nesta materia. Hum gentio bramene, honrrado e muito velho, fazen- dosse christão, adoeceo de tal maneira que Nosso Senhor o levou pera Si dali a poucos dias. E achandosse hum padre nosso com elle, que o fora visitar e lhe levar algumas cousas de doente, antre ontras palavras que mostravão sua devação e penitencia de vida passada, disse que Nosso Senhor lhe dilatara a vida por tanto tempo, pera que fosse christão, e que pois assi era, o levasse quando fosse servido. Falando hum padre nosso, que tem cuidado da chris- tandade, a hum mancebo deixasse seus errores gentílicos, e se convertesse a nossa santa fee católica, despois de muitas palavras, o persuadio e lhe disse que, ja que queria ser christão, escrevesse a doutrina, porquanto o sabia fazer em português, e fazendo o bramene o que o padre lhe dezia, depois de fazer huma cruz no papel, escreveo, sem ser amoes- tado a isso, aquelle nome santíssimo de Jesus quod nemo nisi in Spiritu Sanctu potest nominare. Foi chamado este mesmo padre para batizar hum gentio velho, que estava doente, a que os nossos, por vezes, falarão, por ser pedreiro da nossa obra, mas o que não acabarão com elle fez o Senhor com a enfermidade que premetio pera esse 53°
effeito lhe viesse. Moveo-me a escrever deste a alegria que vi no padre, com sua conversão, de como dezia a molher que se fizesse christãa, ajudando ao padre que lhe pedia o mesmo. E assi se fez. Sendo chamado outro padre, pera bautizar huma moura enferma, quando chegou, estava ya tanto no ultimo que não pode entender delia se queria ser christãa, mas entendendo dos circunstantes, que pouco antes pedira o bautismo, lho deu, depois do qual, acabou o curso desta vida. Falou o padre a hum seu filho, que em casa tinha, o qual também se converteo. E vindo neste interim o pay do menino, lhe disse o padre que se fizesse christão, pois a molher e o filho o erão ya, e mostrando alguma repugnância, disse ao menino falasse a seu pay, o que fez com tanta instancia que foi causa para louvar ao autor de todos os bens, e assi o pay respondeo se faria christão. Indo hum irmão ensinar a doutrina a huma aldea desta ilha, falou a huma velha gentia se convertesse, a qual es- tando muy remota do que se lhe pedia, respondeo que bem a podião matar, mas não avia de ser christã. O irmão lhe propos algumas cousas do inferno, explicando as penas delle, por algumas conparações, (o que he mui familiar a estes gentios) //, mas perseverando ella em seu danado proposito, [231 r ] se foi. A gentia, parece cuidando no que ouvira, foy movida do Senhor, e assi manda chamar ho irmão que hia ya longe, e tornando lhe diz: que avia medo daqueles tormentos; que- ria ser christãa, e assi se converteo com o marido e dous filhos. Naceo hum menino de oyto meses a hum christão, o que vendo o pai, foi logo chamar hum padre nosso, que lhe fosse bautizar, dizendo que não avia de viver. O padre, visto o menino, não lhe quisera dar o bautismo, porque lhe parecia estar bem e poder-se-lhe differir; todavia instou tanto o christão que o bautizassem, que não podia viver, porque 53 '
nacera no tempo dito, que o padre o bautizou, e a outro dia faleceo. Nisto são mui diligentes em os levarem a igreja, pera o mesmo effeito, aos oyto dias; esta mesma diligencia se tem visto em alguns catechumenos, que estando pera se bautizar com sua família, se naquele intervalo lhe adoece algum filho, vem chamar quem o bautize. Acha-se outra cousa en- tre estes novos christãos, que he serem amiguos da confissão, ainda que sejão de pouco tempo convertidos, e assi, como no principio dizia, logo que estão enfermos, recolhem a este salutifero sacramento, como por vezes se tem experimentado. Ouvindo hum christão publicar hum edicto do senhor arcebispo, em que mandava que toda a pessoa que soubesse parte dum certo negocio, dentro em tanto tempo, lhe desse rezão do que soubesse, respondeo ao outro, que lhe dizia que ao outro dia iria comprir com o preceito a cidade, que o mandado não dava tanto tempo, que elle queria ir loguo antes de jantar. Sabendo huns gentios que hum seu parente se queria fazer christão, lhe furtarão hum de dous filhos que tinha, mais velho, o levarão a terra firme; o homem recebeo o baptismo com o outro filho, molher e mais família. Buscando remedio pera aver o que lhe furtarão, se fez doente. Visitado dos parentes gentios, lhes perguntou pollo filho os quaes, cuydando que nisto o agradarião, lho trouxerão pera que o visse, o qual o pay abraçou, e lhe deo de comer como chris- tão, e com muita festa fez que se baptizasse. Este mesmo homem tinha hum vizinho, cuja família era gentia, a qual pedia a fizesse christãa, tanto que huma vez pellejou com elle, dizendo: «se não fizerdes vossos cunhados christãos, não ão-de morar aqui, porque meos filhos são novos na fee, e se ouvirem que os gentios nomeão a Brama (que he dum dos seus deoses) tãobem o nomearão». Outras muitas cousas acontecem deste genero, mas por- 53 2
que seria longuo contallas, desta se pode colligir a bondade de Nosso Senhor pera com esta gentilidade, e afeição dos novamente convertidos a ley que professão, as quaes me mo- verão a tocar as de que fiz menção //. í231 v0 Acerca do edifício material da nossa ygreja, que he o ultimo de que se escreve, não ha que dizer: somente traba- lhar-se nelle, ainda que de vagar, por aver falta do que he necessário pera sua edificação. Faz-se agora huma orta dos irmãos collegiaes, com huma capella do glorioso S. Agosti- nho, assi para que aja maior commodidade para o recolhi- mento, como tãobem pera nelle poderem com maior como- didade para confessar e comungar alguma pessoa nobre, quando acorrer esta necessidade; faz-se mais hum lanço de parede pera este collegio ficar bem cercado. Estas são as novas que nesta se me offerecerão escrever a Vossa Reverencia, em cujos sacrifícios e dos mais padres e irmãos dessa Província, pedimos ser encomendados em o Senhor. De Goa, oje 6 de Dezembro de 1565. Por comissão do Padre Reitor Pero Ramires De Vossa Reverencia filho em o Senhor Jorge Caldeira. 533 k
73 CARTA DE MARTIM AFONSO DE MELO DE CASTRO A EL-REI Goa, 12 de Dezembro de 1565 Documento existente no ANTT: CC, 1, 107-86. Mede 310 x 213 mm. São quatro folhas, sendo três e meia escritas. Selo de lacre preto. Em bom estado. Senhor, Por descareguo de minha comciemcia, direy a V. A. os immenços e gramdes trabalhos que pasão hos pobres homens desta careira da Imdia, e crea V. A. que depois da vomtade de Deus todos morem de puro desemparo, porque não pa- rece que somos cristãos, porquanto pouca migiricordia e pia- dade se husa com os doemtes, e pela pouca comta que se tem com elles, porque tudo ho que V. A. manda dar vay entregue ao capitão e despemseiro, e, quamdo lho pedem para hos doemtes, dizem que tudo esta podre, e que o come- rão os ratos, e parece que esta sem rezão, pois V. A. manda em cada nao hun capellão, que deste se deve de comfiar da butyca e todollas cousas de doemtes, e para hiso dar-lhe huma camara para seu gasalhado e recolhimento, porque não parece rezão hagasalharem hum sacerdote numa tolda do batell, como ja he costume agasalharem-nos, e amdarem dormindo pelas amuradas da nao, por baixo dos pes de to- dollos marinheiros e grumetes, que não pode ser maior des- crédito para hum sacerdote. Faço esta lembramça a V. A. para que proveya niso, e asin allembro a V. A. que todollos homens que adoecem, 5 34
que he do roim vinho que bebem, porque não parese vinho, senão hum pouco de baro. V. A. muito bom ho mamda dar, mas hos hoficiais dam-no a seu proveito, e não dos pobres homens, que ho vão bebemdo seis meses, pelo mar. É outra mamqueira (1) muito gramde vy nesta careira, e dixerão-me que he ja cousa velha, dos hoficiais e marinheiros da nao virem todos resgatados por puro dinheiro que dão a // quem [i nos hasy mete. Desta maneira não pode V. A. ser servido, e as suas naos aturão sempre muita tromenta, sem na aver no mar, e quamdo a ouver, por pequena que seja, todos se dão por perdidos, sem nimguem querer lamçar mão de nada, pela gramde fraquesa que achão nos hoficiais, por não sabe- rem nada da navegação. Como a cousa vay por peitas, e se vendem hos lugares a quem mais dara, os bons marinheiros ficão em tera, e os chambois nenhuma cousa entemdem da navegação metem-nos por bons marinheiros. Veja V. A. se sera bem servido, e as suas naos em que periguo vão postas, pelo que vy nesta careira, e pela muita experiemcia que tenho do mar, de vimte e tamtos anos, que me parece que depois da vomtade de Deus, que as mais que se perdem, que são por não levarem boa marinhagem; a tamanha perdição, asim dos corpos, como das fazendas, devia V. A. de acudir com muita justiça. Senhor, ha nao Tigre, em que eu vim, foi por fora, e tomamos Cochim. E, por que V. A. saiba e conheça quem lhe escreve esta carta, por na Imdia aver muitos homens de meu apelido, me declaro: eu sou ho Martim Afonso de Mello, a quem fez merce, depois de Deus, da capitania da fortalleza de Baçaim, e porque entemdo ha Imdia, por nella nacer, e ser criado, e ter delia muita espiriemcia, direy a V. A. como diamte de Noso Senhor, toda ha verdade, sem ne- (1) I. é.: falia. 53 5
nhuma hafeição nem temor mais que ho de Deus a Deus e ho de Seçare ha Seçare (2) e quamdo V. A. em allgum tempo me achar deshemcomtrado desta verdade, me poderá mamdar castigar com gramdes penas, e so pena de tredo, que he a maior que me poderá dar. Toda ha Imdia esta ha mais perdida tera que se pode dizer, e tudo por governadores de tres anos, porque tamanho Estado, como este, não pode ser governado senão per muitos anos. Que credito quer V. A. que posa ter governadores de tres anos para ser bem servido, que, por muito bem que governe, sem aver fallta em nada, fallta-lhe ho milhor que he ho credito de saberem que são governadores de tres anos, que estão dizemdo publiquamente emperadores de Pimte- coste (3). Que empenhos pode tomar, hou que serviços pode hum governador fazer a V. A., se lhe a-de falltar ho milhor que he ho tempo de quamdo ho a-de começar a servir? E, para isto, trarey allgumas rezõis muy claras. V. A. perde de sua fazemda, por governadores de tres anos, mais de trezemtos mil cruzados, porque nenhum pode ter armada prestes, que he ha chave da salivação da Imdia, porque tamto que vier immiguo que sogigue ho mar, e seja senhor dele, V. A. não tem nada na tera, porque aos quatro dias não avera cristão nenhum, por bom que seja, que se não entre- gue, com lhe pedir migiricordia das vidas. Parece que deve V. A. de aver nisto hum maduro comse- [2t-1 lho,//pois que ve claramente quão pouco tem ganhado Portugueses ha Imdia, por ser governada por tres anos que, ainda que se desvelem em servir V. A. muito bem, com toda ha verdade do mundo, não podem, porque todos lhe falltão no milhor aa armada de V. A. que he ho todo; nunqua ha (2) I. é.: «o de Deus a Deus, e o de César a César». (3) Refere-se à festa do Espírito Santo, hoje praticamente confinada aos Açores, em que se coroavam imperadores. A comparação é manifesta. 536
tem nem na podem ter, porque he cousa sem dano (?). Hos que vão não na deyxão; hos que vem achão tudo esfo- lado e perdido; não na podem fazer e, se allguma cousa fazem, e tudo a preço de ouro, e tamto a custa da fazemda de V. A., por hasym ser forçado, por ter allguma maneira de armada. Vy-lo novo e i-lo velho (4) com a esperamça que tem que ha-de villo houtro que remediara ho que ele não pode fazer, por fallta de tempo, e ho que vem muitas vezes acomtese não ter comta com a armada, nem com houtra cousa nenhuma, e deixa perder todo ho feito, ho que podia remedear com muito pouca cousa. Hora veja V. A., quamdo se armada perde pelas vias que diguo, quamto pode custar huma feita da primeira pedra, e neste fadairo andão hos governadores de tres anos, sem se saberem dar ha comselho a houtra cousa nenhuma, por- que nisto estão gastamdo hos tres anos da sua governamça e consumimdo quamto dinheiro V. A. tem, sem nenhum proveito, pois ho gastão tão comtino, podemdo-ho escusar com hum dono e morador, e que não andase a cousa tamto de alluguer como anda. Quamto as caregas das naos de V. A., de não serem bem quaregadas, e lhe falhar muitas vezes pimenta e dinheiro para ha comprarem, e partirem tarde e fora de tempo, tudo isto nace do muito pouco credito do governador, que sabem que não he mais que por tres anos. Os mercadores da pi- menta não acodem; os reis mallavares domde ella vem estão zombando, porque sabem claramente e por espiriemcia ho tem conhecido, que governadores de tres anos lhe não po- dem fazer mail nem bem, pelo muito pouco poder e pose que tem de poderem acudir e registir ho que elles cada dia estão cometemdo comtra ho serviço de V. A. e, se allcam- (4) I. é.: ir o novo e vir o velho. 5 37
ção dum governador, porque são elles muy sotis e muy del- gados no engenho, que he froxo hou amigo de tomar, não querem mais para fazer ho que fazem, que he mandarem toda ha pimemta para Meca, porque não ha quem lha de- femda a costa, toda qualhada de paros (5) e tão senhores e poderosos andarão no mar hos mouros de Cananor, de tres anos a esta parte, sem nenhum temor de lhe parecerem que em nos não havia ja poder-lhes registir a nada, que os navios que tomarão de portugueses, e gramde mortimdade que nelles fizerão, e as muitas viuvas que ficarão com seus filhos, sem pais, desemparados, suas fazemdas todas tomadas e per- didas e estragadas, que claramente parecia que ja tudo estava [2 v.] perdido e soterado // e toda a tera posta em gramdes falhas de fome, por não aver ja navio noso nenhum que naveguase, e hos que naveguavão erão loguo todos tomados. Ja V. A. vera que tall pode ficalla tera (6). Mais tem governadores de tres anos. As manqueiras são muitas, mas não espreverey a V. A. senão ho que mais relleva (7) que para V. A. ser bem servido, e este Estado, que qua tem, multiplicar e não deminuir na fazemda de V. A., não tem elles poder nem podem fazer huma caregua de pimenta diamteira, porque temdo V. A. huma caregua diam- teira nesta tera, ha pimemta vay toda junta e não tem que- bras nenhumas, e as naos partem em tempo, em monção perfeita, que he a vimte de Dezembro, e as naos que partem neste tempo não hachão comtrastes nenhuns para andar ao pairo quimze, vimte dias no Cabo da Boa Esperamça, ma- zando ho mar, que, por muito estamquez que sejão, vão tão mocisas que não podem deyxar de abrir e allyxarem quamta fazemda levão, e, veja V. A., por elas partirem tarde e fora (5) I. é.: paraus. (6) I. é.: ficar a terra. (7) Leitura hipotética. A palavra escrita pode ler-se renava, revava ou rellava. Cremos que foi engano do autor. 5 38
de tempo, do tempo de Nuno da Cunha a esta parte quam- tas são perdidas, e a boa comta se achara que tem V. A. perdido, afora a gemte, que não tem preço, e fazemda de partes, somente ho de V. A., que pasão de dez comtos de ouro, e tudo isto tem V. A. perdido por não ter huma care- gua diamteira, a quall não tem, por ser esta tera governada da maneira que hee, porque aimda que fallte dinheiro e sou- ber toda ha Imdia que esta de vagaa, e com credito tamanho, que lhe sobejara dinheiro, não diguo eu para huma carega, senão para duas. Veja V. A. agora ho que nisto ganha por quem dixer a V. A. ho comtrairo disto por muitas rezõis e boas, que lhe dou, hou ho não emtemde, e, se ho emtemde, não lhe falia verdade. Sabera V. A. que na China e em Pegu e em Bemgalla e em Orixá e no Sião, que amdão fora de serviço de V. A. estes todos perdidos mais de dous mil homens, por não terem na Imdia nenhum remedio de vida, e houtros muitos que se botão com os mouros e se fazem mouros. Tudo isto por não terem vida nem remedio na Imdia, pella pouca comta que hos governadores fazem delles, porque lhe alembrão que não estão mais que por tres anos, não husão com elles, como he rezão, que he prove-los, com lhe mamdar pagar seus car- teis, e mandar-lhe dar mesas em fortallezas fromteiras, e quamdo hos Turcos e todo ho Mal lavar e Cambaia e hos mais de que nos tememos sabem que hum vizo-rey que aquire a gemte toda hasim, e que esta rodeado deles todos, e que lhes mamda pagar seus carteis, e dar // humas mesas, [3 r.] e que tem muita comta com eles, e muy temido deles todos e muy amado em que lhes pede, e não houzão de cometer cousa nenhuma comtra ho serviço de V. A. e sabem que, se ho cometerem, que loguo am-de ter ho paguo. A prosperidade de Dachem, como V. A. ja sabera, e a gramde perdição do Porto Pequeno de Bemgalla, sem ne- nhum delles a tamto tempo não ter emmenda, ho que causa 5 39
isto senão a governação de tres anos, porque não tem pose nenhuma para os desbaratar e destruir, e asim se vão fa- zemdo cada vez mais prósperos, cada hum per sua via, e ho noso credito tão perdido e desbarato (sic) que, se for causo (sic) que hos Dacheis tomem Mallaqua, porque houtra cousa não pretendem senão tomalla, cousa que Deus não mamde. Esta este Estado de V. A. tamto ja no cabo, que cosa (sic) emposivel sera poder-lhe acudir com aquela presteza que se deve, porquanto no cabo esta ja tudo, e, se lhe acudirem, fica a Imdia tão tão (sic) desemparada, e hos Turcos soube- rem que ho poder todo da Imdia e fora, que por força ho vizo-rey que la for, a lhe soceder tudo bem, a-de emvernar, e se neste comenos eles vierem a Imdia não ficaraa poder para lhe sair hao encomtro e lhe registirem, porque de nin- guém nos tememos mais que dos Turcos, porque ho que eles tomão, tarde hou numqua ho perdem. Ha cousa fica neste ballamço, pela grão perdição que qua vay, affirmo a V. A., pela verdade que devo a Noso Se- nhor, que se a cousa vay de governadores, como ate aquy foy, que esta tudo ja tão estragado e tão perdido, que so- mente Noso Senhor, em cuyo poder tudo esta, pode fazer hum grão milagre, e gramde se pode chamar, pois he reço- sytar ho morto, porque tão morta esta esta tera em tudo. E allembro a V. A. que não merecemos nada a Noso Senhor, porque ja se perdeo por nosos pecados cousa maior que toda ha Imdia. Esta lembrança faço a V. A., por descareguo de minha comciemcia, porque hasim ho entemdo, pela muita esperiemcia que tenho desta tera, porque quando a ela che- guey de Portugall, eu ha não conheci, por quão desforme achey em tudo. E se V. A. quiser saber de governador que ho serve bem he amigo de aproveitar sua fazemda, nisto conhecera se faz seu serviço direitamente, a-de ter estas symquo cousas. 54°
Muyta justiça, sem nenhuma hafeição. Da fazemda de V. A. não ha-de dar senão ha quem no serve nas armadas e em suas fortallezas. A-de ter muita comta dos soldados, em lhes mamdar dar mezas, pagar seus carteis em Goa, Baçaim, Damão, Dio, e comtinuamente a-de // ter aloyados nestas partes que diguo tres mil solda- C3 T-1 dos, porque quamdo todolos imigos souberem que a todo tempo estes estão prestes e poupados pera acudirem a tudo ho que soceder, nenhuns houzão ha bolir nem a cometer cousa nenhuma, e quando sabem que a gemte toda amda espalhada, fora da Imdia, que he do Cabo de Comurym pera as partes do Sull, estão cada dia cometemdo muitas cousas de afromtas que nos fazem, per homde V. A. perde muito de sua fazemda, que he muito mais sem comparação que ho gasto que pode fazer com eles em nos soster, e, com nos ter homde diguo, são muros que defemdem toda a Imdia, e hos imyguos sempre muy temidos de irem dar nelles, ho que eles fazem em nos, quamdo sabem que não ha quem lhe regista. Hos governadores, per nenhuma via, ão-de sair fora de Goa, senão se for per tres cousas: a primeira se vier armada de Turcos a Imdia, ir pellejar com eles; e a segumda, ir desserquar fortaleza; ha terceira illa (8) tomar para ho fazer. Por estas sos tres cousas pode hum governador sair fora de Goa, porque toda ha houtra que soceder de guera, abasta seus capitãis, com suas armadas de prover no que soceder. V. A. sabera que de cada vze que hum governador sahe fora de Goa, que faz de gastos mais de trezemtos mil cruzados, sem hoje este dia lhe fumdir mais, que se gastarem mail gastados, e fora ha daneficação de sua armada, asim casco como vellas, como cordoalha e polvora, e pillouros, que (8) I. é.: i-la. 54 '
para se tornar a reformar isto que se gasta mail gastado, sem nenhum proveito, gasta-se ho mumdo de dinheiro, e he tamto que se lhe não pode por preço de cousa sertã. Mais ha-de ter ho governador muita comta dos fidallgos que servem a V. A. que gastão ho seu em seu serviço, que tenha muita comta com eles em fazer a V. A. e fazer-lhe lembramça deles, e fazer-lhe merces, porque elles não tem qua quimtas nem erdades, nem moios, não mais que ho que lhes V. A. mamda dar, e se hum vizo-rey apertar muito a mão com eles, espalhão-se todos e vão fora do serviço de V. A. Elles são cabeças dos solidados porque sem eles não pode V. A. ser bem servido em nenhuma maneira. Também allembro a V. A. que amdão qua muitos fidallgos de dez, quimze, vimte anos de serviço, sem nenhuma satisffação del- les, e que muitos se acharão em pura necesidade mall casa- t4 r-l dos, por V. A. não lhe acudir com merce, e se quiser saber // deles encomende-os algum rellegioço vertuozo que cada anno lhe faça lembramça deles, como desemparados, para desca- reguo da comciemcia de V. A., porque he huma piadade vellos qua, e crea V. A. que muitos deles, se fazem ho que não devem, que he per pura necessidade que tem. Comtinuamente ho governador a-de trazer armada muito boa na guarda da pimenta, porque como a costa for bem gardada, nenhuma pasara a Meca, e toda vira ter hao preço pera a carega das naos, e nenhum para (9) housara ha sair fora para roubar hos nosos navios, como fazem, tamto que descritoão (sic) não traguem armada na costa. Asym a-de mandar todolos anos armada hao Estreito, para guarda dele, e toda ha pimenta que se axar da costa atmbem toda lhe vay cair nas mãos, sem nenhum remedio de salivação. E muito mais os malavares temem esta armada do Estreito que ha que anda na Costa do Mallavar. E a-de trazer outra (9) I. é.: parau. 54 2
armada em Cambaia, porque para la se vaza ha maior parte da pimenta do Mallabar, que hos propios purtugueses a ele vão, e esta toda vay pera Mecaa. Ho governador que fizer estas symquo cousas, que acima digo, V. A. e servido direitamente, sem fallta nnehuma. Ha Imdia ira em muita prosperidade, e pelo tempo pode V. A. fazer em Purtugall tizouros, e não estar emdividado, como agora esta, de tres comtos de ouro, e ha Imdia perdida, des- truída e metida no fundo de todo. E crea V. A. de que ne- nhuma cousa, depois de Dues, ha pode restaurar, para que ella prevalleça, e se va engramdecendo em tudo, de que tem muita fallta, não pode ser senão governada, como diguo. Dom Amtão (10) hao presemte ho faz bem, e, des que veo, esta esta tera menos trabalhosa do que estava. Noso Senhor acresemte a vida e estado de V. A. por muitos anos para seu samto serviço. Feita em Goa, aos doze do mes de Dezembro era de 1565 annos. Martym Afonso de Mello Castro. (10) D. Antão de Noronha, o governador actual. 54 3
74 OS JUDEUS SÃO PROIBIDOS DE VIVER NAS FORTALEZAS DE EL-REI Goa, 16 de Dezembro de 1565 Documento existente no AHEl: Provisões e Alvarás a favor da Christandade. FILMUPO: ld., 31,1-2. Dom Antão de Noronha, vice-rei da India, etc. Faço saber a quantos este meu alvará virem que por alguns justos respeitos que me a isto movem e por sentir ser assy serviço de Deus e de el-rey meu senhor, e bem destas partes, hey por bem e mando que em todas as fortalezas e terras de S. A. não possa entrar nem aver algum judeu, sob pena de qualquer judeu que for achado nas ditas terras ou fortalezas de S. A. ser cativo pêra as gales, e perder toda sua fazenda, [2] a metade pera quem o acuzar e a outra ametade pera // obras da Ribeira, e portanto o notefico assy a todolos capitães das fortalezas destas partes, e ouvydor geral, juizes, justiças, tena- dares, e a todalas pessoas a que este for apresentado e o que lhe pertencer e lhes mando que assy o cumprão e guardem, e fação cumprir e guardar juntamente, porquanto Sua Alteza assy o manda, que este se apregorá por todalas fortalezas e cidades destas partes, pelos lugares públicos e acostumados, pera que a todos seia notorio e valerá como carta feita em nome de S. A., passada por sua Chancelaria, e sellada de seu sello, sem embargo da ordenaçaõ do reino, livro vinte, que dispõe e manda que as couzas cuio effeito ouverem de durar mais de hum anno passem por cartas e, passando por alva- ras, que não valham, e sem embargo outroassy deste não 544
passar pela Chancelaria. Antonio da Cunha o fiz em Goa, a dezasseis de Dezembro, de mil quinhentos sesenta e sinco. O secretario o fiz escrever e selar escrevy. Vizorey. Alvora pera V. S. ver. Registado. Manuel Leitão. Registado. Simão Fernandes. Registesse na Chancelaria, e passe o treslados (sic) as fortalezas segundo costume. Gondiçalvo S. Registado na Chancelaria. Augustinho Salvador. Ao derradeiro dia do mez de Dezembro da era de mil quinhentos sesenta e sinco annos, em esta cidade de Goa, eu escrivão abaixo nomeado, com o porteiro Amador Gon- salves, apregoamos a provizão atras do senhor vice-rey pellos lugares acostumados, e por assy ser apregoado, e passar na verdade, fiz este termo, em que se asinou o dito porteiro comigo. Estevão Martinz 1 escrivão dos mesteres (1). Este- vão Martinz do porteiro (sic). (1) Leitura hipotética. A abreviatura parece ser mr.". 1 - Miz 54 5 DOC. PADROADO, IX 35
75 JUDEUS INDESEJÁVEIS EM TERRAS DE EL-REI DE PORTUGAL Goa, 16 de Dezembro de 1565 Documento existente no AHEl: Livro do Pai dos Christãos, hoje desaparecido. Publicado por Cunha Rivara no seu APO, fase. 5.°, págs. 589 e 599. Dom Antão de Noronha, V. Rey da índia &. Faço saber aos que este meu alvará virem que por alguns justos respei- tos que me a isso movem, e por sentir ser assy serviço de Deos e d'ElRey meu senhor, e bem destas partes, hey por bem e mando que em todas as fortalezas e terras de S. A. não possa entrar e aver algum judeu, sob pena de qualquer judeu que for achado nas ditas terras ou fortalezas de S. A. ser cativo para os galés, e perder toda sua fazenda, ametade pera quem o acusar, e a outra ametade pêra as obras da ribeira. E por tanto o notefico assy a todolos capitães das fortalezas destas partes, ouvidor geral, ouvidores, juizes, jus- tiças, tanadares, e a todalas pessoas a que este for apresen- tado, e o conhecimento pertencer, e lhes mando que assy o cumprão e guardem, e fação comprir e guardar inteiramente, por quanto S. A. assy o manda. E este se apregoará por todalas fortalezas e cidades destas partes pelos lugares pú- blicos e acustumados, pera que a todos seja notorio; e valerá como carta feita em nome de S. A. passada por sua chan- cellaria, e sellada de seu sello, sem endargo da Ordenação do 2.° Livro, título 20, que dispõe e manda que as cousas, cujo effeito ouver que durar mais que hum anno, passem por 546
cartas, e passando por alvarás não valhão, e sem embargo outrosy de este não passar pela chancelaria. Antonio da Cunha o fez em Goa a 16 de Dezembro de 1565. O Secre- tario o fiz escrever, e sobrescrevi. — Viso Rey (1). (Livro dos Pais dos Christãos, foi. 79 v.). (1) Publica-se este documento, igual ao anterior, para efeitos de comparação entre duas cópias diferentes. 5 4 7
76 TRECHO DE UMA CARTA ESCRITA EM GOA S/d. Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. PI. 522 r. Nam me parece que he necessário encarecer-lhe mais nem buscar aguora rezõis pera o exortar que venha pera ca, porque bem sei seus vivos desejos. Somente resta emcomen- dar esso particularmente a Deos e pollo em suas mãos, por que Elie desponha tudo em seu serviço. Nam nos empedirão pera dar estas saidas aos Domingos que asima disse (que ca chamamos ir caçar, andar também no curso como ele, o qual este anno começamos e andamos agora nas periherm (sic). E assi andamos fazendo dous cur- sos, e dambos temos comclusõis gerais, porque temos bautis- mos solenes, con muitos instromentos músicos, e muita festa, os quaes causam mais alegria corporal e espiritual que os da Lógica. 548
77 TRECHO DE UMA CARTA DE UM IRMÃO DA INDIA ESCRITA A PERO FREIRE S/d. Documento existente na BNL: F. G. n.° 4534. Fl. 483 v. Charissimo irmão: Verdadeiramente vos diguo que depois que me lembro nunqua em sy a minha alma sentio tanto a Deos como agora sente, depois que o Senhor a poz neste espaçoso campo de flores, porque tal nome merece a terra, onde ha muito que sofrer por Nosso Senhor e Criador. E isto em o comprir-se aquilo pêra o que a Companhia foy instituída, que he de ayudar as almas e leva-las pollo caminho do Senhor. Quando nesta terra vi o que nas cartas em Portugal ouvia, emchia-me tanto de fervor que desejava saber ya trabalhar da maneira dos obreiros velhos desta Companhia, pera os poder ayudar, mas quando via que me faltava ainda muito, e tinha tanto que andar em exercícios, mais necessários que o comer, con- solava-me em ser posto por panella ou por mesa daquelles que andavão obrando, que vos certifico que não he tão pouco ainda poder eu alcançar isto, porque, segundo eu ainda tam mao e mal mortificado, nem isto merecia, porque homens de muita virtude e saber o fazem e sentem por indinos de tanto bem. A virtude e santidade dos da Companhia nestes hermos gentílicos he muyta e clara e frutifica por sy soo com Deos Nosso Senhor se servir muito disto. 549
78 D. SEBASTIÃO E O ULTRAMAR S/d.(1) Documento existente na BUC, Códice 52, págs. 1-4. Trata-se de vários propósitos (37 ao todo) feitos por D. Sebastião, refe- rentes à administração e governo. Publicamos apenas aqueles que se relacionam com o nosso estudo: 4. Trabalharei muito por dillatar a fé. 5. Favorecerei muito as couzas da Igreja. 11. Tirar as onzenas. 12. Conquistar e povoar a India, Brazil, Angolla e Mina. 17. Em os negocios ter primeiro conta com o bem commum, e depois com os particulares. 19. As leis que fizer mostra-las primeiro aos homens de virtude, e letras, para que me apontem os in- convenientes que tiverem. 21. As comendas sirvão-se em Africa. 23. Devassar dos officios da Justiça e Fazenda cada anno. 35. Os meus Embaxadores andarão sempre à Portu- gueza. (1) Vid. História Sebástica de Fr. Manuel dos Santos, pájç. 105. 9
79 CRISTANDADE DE ORMUZ S/d. Documento existente no ANTT: Col. S. Vicente, X, 83. t \ El-rey de Ormuz ha muytos anos que tem conhecimento de nossa santa fee, e tem prometido aos padres da Compa- nhia de Jesu que se fará christão; somente teme ser mal tratado dos seus, e escandalizasse de lhe não cumprirem algu- mas provisões que el-rey, que santa gloria aja, lhe mandou passar. Pareçe que tomaria logo a agoa do baptismo, escreven- do-lhe V. A. o contentamento que reçebe da enformação que tem delle e de seus bons prepositos, pelos padres da Companhia de Jesu, e rogando-lhe que acabe de os effectuar, mandando juntamente que se lhe cumprão todallas provi- sões, graças, privilégios e liberdades que a seus antepassados e a elle forão passadas; e em todo o mais que for necessário pera conservação de seu reyno, mando, jurdição e governo delle o favoreção. Tres molheres deste rey se converterão: huma delias ficava em Goa, em casa de huma dona que a tinha, por amor de Deus; as outras duas casarão logo, por pareçer assi neces- sário: huma com Dom Joam, sobrinho de el-rey de Bellez, que dava de si bom exemplo. São todas molheres muyto nobres. Pedem 1 (?) a V. A. as mande prover de alguma cousa, com que se mantenhão, e dar alguns officios a seus maridos, e parece que a Dom Joam se podia dar o officio de Xabandar de Ormuz, que não estava provido por provi- são de V. A. i -p. 55'
80 JESUÍTAS NA ÍNDIA S/d. Documento existente no ANTT: Col. S. Vicente, X, 93. Lembrança dos padres da Companhia de Jesus que andão na índia. Em a cidade de Cochim esta huma igreja, da qual ora usão os padres da Companhia, e a tem de mão de huns confrades ministradores da dita igreja, e porque ela e muyto conveniente pera os padres nela exercitarem seu ministereo e fazerem muyto serviço a Deus e proveito as almas, os confrades lha querem deixar. Pedem a S. A. lha queira con- çeder, e eles farão comprir as duas missas que a dita confra- ria nela era obrigada mandar dizer cada semana. Em o colégio de Sam Paulo de Goa, omde ora os padres ensinão, ha muyta falta de casas, asi para nelas ler, como para agasalhar os novamente convertidos. Pedem a S. A. mande ao viso-rey que se enforme das casas que lhes são necessárias para nelas se ensinar e se poderem agasalhar, e aos que tem a cargo, e lhas mande fazer. 5 5 2
81 A ÍNDIA EM 1565 Publicam-se excerptos dos regimentos que, por ordem de el-rei D. Sebastião, o vice-rei da India, D. Antão de Noronha, pro- mulgou para todas as dependências do Estado da India. Estes regimentos, passados em 1565, dão uma ideia geral do estado da administração. O documento existe no AHE1: Regimentos e Instruções, n.° 1, fls. 1-110 v. Há muitas folhas em branco. O estado do documento pode considerar-se bom, apesar de bas- tante esburacado. Houve, porém, o cuidado de cobrir quase todas as páginas com papel transparente de forma que, hoje, a leitura continua fácil e acessível. É cópia. Regimentos que fes o vizo-rei Dom Antão de Noronha, [io] por mandado de Sua Magestade, pera as fortalezas deste Estado da índia, de que se ao prezente uza, polo aver assi por bem o dito Senhor Álvara del-rei Dom Sebastião pera D. Antão de Noronha, vice-rei da índia, sobre os regimentos que avia de fazer na índia. Eu, el-rei faço saber a vos, Dom Antão de Noronha, do meu Conçelho, que ora emvio as partes da índia por vizorrei delias que, avendo eu respeito as muy grandes despezas que de minha fazenda se fazem nas ditas partes, as quoaes vão em tanto creçimento que há mayor a despeza que a receitas das rendas de // lias, vinte e sinco contos por anno, [io r.] de que se segue tão grande perjuizo ao estado delia, e ao que cumpre a meu serviço, com está visto e hé notorio, o que precede dos sobeios ordenados que se pode bem escuzar e 553
dalgumas outras muitas despezas que se fazem, que nem são neçessárias nem convém ao serviço de Nosso Senhor nem a conçervação desse Estado, antes se segue de se ellas fazerem não se poder muitas vezes acodir ao que convém a defenção delle; querendo nisso prover, como convém, e hé muito nesseçario, vos mando que veiais hum caderno que vos aqui mandei dar, que o Conde de Redondo, viso-rey das ditas partes, me enviou, no qual se conthem particularmente a receita e despeza de toda a India, e com o arçebispo de Goa e as mais pessoas que vos bem pareçere (sic), corteis e tireis toda a despeza que no dito caderno os (sic) pareçer sobeio e desnecessária (sic) assy na parte do que toca aos ordenados de carregos e officios como na outra das outras despezas, guardando e uzando, e tendo nisso todo exame e bom modo que vos pareçer convém a meu serviço, e a bem de minha fazenda. O que asentardes, com parecer das ditas pessoas, fareis logo dar a execução em tal maneira que se possa logo efei- tuar, e o que nesta materia pertendo por meu serviço que não somente a querer haver por bem que a despeza não exceda a receita, mais (sic) que em tal modo se ordena e despenda a minha fazenda, que sempre a despeza fique muy atras da receita delia, e nesta maneira entendereis logo como embora chegardes e com toda brevidade possível, e do que fizerdes me enviareis hum caderno, no qual virá muy bem declarado tudo o que tirastes, e juntamente o que se des- pendia, pera eu assy mesmo juntamente poder melhor ver huma couza e outra, e nos primeiros delle (sic) se tresladará esta minha provizão, e porque eu tenho ordenado, por pro- vizão minha, que os viso-reys e governadores dessas partes não exçedão nas merçes, que em meu nome fazem cada anno as pessoas que nellas me servem, contia de doze mil cruza- dos, e são enformados (sic) que elles excedem muito mais e chegão as ditas merçes por anno quizi (sic) a trinta mil 5 54
pardaos, vos mando que, por nenhum cazo, nas ditas merçes despendais mais que os ditos doze mil cruzados, mandarey cobrar (1) e arrecadar por vossa fazenda. E este quero que valha e tenha força e vigor, como carta feita em meu nome, por mym asinada e sellada com meu sello, e passada por minha chancelaria, sem embargo da ordenação do 2o Liv. N.° 20, que diz que as couzas cujo efeito ouver de durar mais de hum anno passem per cartas, e passando polios alvaras não valhão, e valerá outrossy, posto que este não passe pella chance // laria, sem embargo [ti] da ordenação em contrario. Pantalião Rabello o fez em Lisboa a oito de Março de mil quinhentos seçenta e quatro. Regimento da çidade de Goa, Salcete e Bardes Dom Antão de Noronha, do concelho de el-rey, nosso senhor, e viso-rey da India, etc., faço saber a vos, capitão desta cidade de Goa, e ao veedor da fazenda de S. A. nas ditas partes, e ao escrivão da Matricula Geral e ao feitor da dita cidade e thezoureiro do dito Snhor nella, e todos os mais oficiaes e pessoas a que pertencer, que S. A. me mandou no reino dar huma provizão sua, de que o treslado hé o atraz escrito fl. 10, polia qual provizão de S. A., querendo nisso eu prover na dita cidade de Goa sobre os ofiçiaes ordenados e despezas delia, para atalhar e emcurtar as desneçessarias, como el-rey, meu senhor mo manda, e por em ordenança outras couzas que cumpre a seu serviço e bem de sua fazenda, por esta ser a prinçipal deste Estado e cabeça delia, tratey este negoçio com o arcebispo da dita cidade de Goa, e Lopo Vaaz de Siqueira, capitão delia, e Henriques Jaques, veedor (1) Assina se lê, com efeito. Mas vê-se que faltam algumas palavras. 555
da fazenda do dito senhor, e Manoel Leitão, secretario danty my; e por serem pessoas que tem muita expiriençia das couzas do dito Estado, e que me podião informar bem delias, alem da informação que eu tinha e ouve da terra, e perante todas forão vistas as despezas da dita cidade pollo caderno e orçamento das rendas e despezas das ditas partes, que me S. A. mandou dar, de que a dita provizão faz menção, e com a dita informação do que a dita cidade convinha, e o que podia escuzar, conformando-me com a tenção do dito senhor e o bem deste Estado, e as necessidades delle e sua sustentação, com pareçer do dito arcebispo e offiçiaes, orde- ney este regimento pera a dita cidade, e onde vay declarado e offiçiaes que nella ha-de haver, assy da fazenda de S. A. como da justiça e outros, e os offiçiaes ordenados a viso-rey e governador das ditas partes que hão-de andar com elle, e os que tirei, pellos haver por escuzados, e os ordenados que hão-de ter; e assy as igrejas, mosteiros e espitaes delia com seus ordenados e comedias, e tenças, que se hão-de pagar; e da mesma maneira os offiçiaes que hão-de servir na ribeira da dita cidade, e o que ão-de (sic) haver, e os mais que mandey declarar no dito regimento doutros ordenados de [li v.] capitães de naos e navios de S. A. que servem // nas ditas parte e offiçiaes delle para em todo o tempo se saber o que asentey pera se não alterarem nem se mudarem, por muitos destes andarem pello custume, sem terem nascimento donde proçederão: o qual ey por bem que daquy em diante se cum- pra e se uze delle inteiramente, pello assy haver por muito serviço de S. A. e bem de sua fazenda. 5 56
Regimento de Goa Ordenados da sé (2) de Goa e das igrejas da ilha O arcebispo da dita cidade de Goa averá sinco mil cru- zados em cada hum anno de seus ordenados e dote, scilicet, mil cruzados de seu dote com o dito arcebispado, e os quatro mil cruzados por provizão de el-rey nosso senhor emquanto o dito arcebispo estiver na índia: o qual ordenado trouxe Dom Gaspar, primeiro arcebispo de Goa, os quaes sinco mil cruzados valem dous contos de reis. — 2 contos. O padre que servir de cura da dita sé averá vinte mil reis de seu ordenado por anno e com certidão da Matricula do desconte de seu titullo e seu conheçimento lhos pagara o feitor de Goa aos quartéis do anno, assy como for vencendo e com certidão de como serve. — 20$000. Ao padre que servir de capellão da Caza de Nossa Senhora da Piedade, da ilha de Divar, averá doze mil reis de seu ordenado por anno. — 12 $000. Ao padre que servir de capellão da Caza do Apostolo São Tiago, que está em Benestarym, averá outros doze mil reis de seu ordenado por anno.— 12 $000. Ao padre que servir de capellão da Caza das Chagas, que esta na ribeira desta cidade, avera doze mil reis de seu orde- nado por anno. — 12 $000. Ao padre que servir de cura da Caza de São Miguel, que está em Talegão, que he freguesia da dita aldea, avera doze mil reis de seu ordenado por anno. —12 $000. (2) Esta palavra encontra-se escrita da seguinte forma: ssé. A seguir, porém, grafou-se já sé. 5 57
Ao padre que servir de cura da Caza de Samta Crus, que esta na aldea de//Calepor, que he freguesia delia, avera outros doze mil reis de ordenado por anno. — 12 $000. Ao padre que servir de cura na Caza de Santa Barbora, que está em Morobym, que serve da freguesia da dita aldea, avera doze mil reis de ordenado por anno. — 12 $000. Ao padre que servir de cura da Caza de Santa Maria Madanela (sic) que está na aldea de Sirdão, que he freguesia delia, averá outros doze mil reis de ordenado por anno. —12$000. Ao padre que servir de cura da igreja da Caza de São Pedro, que esta em Banganim, que também he freguesia, averá outros doze mil reis de ordenado por anno. — 12 $000. Ao padre que servir de cura da igreja e freguezia de Sancta Luzia, que está nos arrabaldes desta çidade, averá outros doze mil reis de ordenado por anno. —12$000. Ao padre que servir de cura da igreja e freguezia de São Lazaro da dita cidade, averá outros doze mil reis de ordenado por anno. — 12 $000. Ao padre cura que servir na igreja e freguezia de Nossa Senhora da Ajuda, que está em Rebandar, averá outros doze mil reis de ordenado por anno. — 12 $000. Os quoaes ordenados do dito arcebispo, cura da sé, e vigá- rios das ditas igrejas atráz declaradas, averão o pagamento de seus ordenados per desconto de seus títulos, que se lhe farão, dos ditos ordenados pellas provizões que apresentarem, com certidão do arcebispo de como servem, em o feitor de Goa, aos quartéis do anno, assym como os forem vencendo, com certidão do escrivão da Matricula, de como lhe ficão descontados, e seus conheçimentos feitos pellos escrivães da feitoria, como se tudo vio pello proprio regimento do viso- 5 58
-rey Dom Antão lançados (sic) no Livro Velho dos Registos dos Contos, fls. 98 em diante. E não se tirou o que mais hia lançado no dito regimento the fls. 104, por não ser da çiencia da Matricula, tirando os ordenados da Ca2a da Sancta Inquizição, que abaixo vão lançados, que estavão escritos e lençados as fls. 100 do dito regimento que são seguintes: Ordenados da Caza da Santa Inquizição Averá hum inquizidor da Meza da Sancta Inquizição dos dous que havia //que tera quatro centos mil reis de orde- [12 v.] nado por anno. — 4001000. Porquanto o outro mandou Sua Alteza que o não ouvesse, e o que suceder averá de seu ordenado o que trouxer por provizão de el-rey, como declara no dito regimento, fls. 100. Ao alcaide do cassere (sic) do Sancto Ofiçio da Sancta Inquizição, averá sem mil reis de ordenado por anno, e os guardas que lhe o dito regimento dá, por não serem da ecen- çia da Matricula, se não tirão. — Cento \ O escrivão do Sancto Offiçio da Inquizição averá trinta mil reis de ordenado por anno. — 30$000. O solicitador do dito Sancto Offiçio avera trinta mil reis de ordenado por anno. — 30$000. Os quaes ordenados o dito Inquizidor e offiçiaes averão no feitor desta cidade de Goa, per desconto de seus títulos que na Matricula Geral se fará pellos alvaras e provizões por onde forem providos, com certidão do escrivão da Ma- i-c.t0 559
tricula de como ficão descontados, e seus conhecimentos, de como reçeberão o dito ordenado como tudo declara o dito regimento de Dom Antão de Noronha escrito no Livro dos Contos as fls. 100, donde se este tresladou. E porque a dita Caza do Sancto Ofiçio pellos viso-reys e governadores que socederão foi dada outra ordem a dita caza, como se verá nos títulos e extravagantes fls. (3) por onde ora corre a dita sancta caza que, por não interromper a ordem deste dito regimento que fez o viso-rey Dom Antão de Noronha, me pareçeo melhor lançar em lugar proprio per sy esta ordem, onde se verá, e o mesmo se fará nesta dita tresladação e recupilação, quoando for contra forma deste regimento, e aqui fica o dito e declarado pera se não tornar a fazer em outra parte alguma. A Caza da Sancta Misericórdia2 de Goa A Caza da Santa Misericórdia de Goa se pagarão em cada hum anno quatro centos mil reis por mil cruzados. — 400$000. De soldos que a dita caza derão de esmolas que lhe dei- [13] xão, por el-rey // nosso senhor o mandar assy per huma sua patente, pera as necessidades e obra pias da dita caza, os quaes lhe pagará o feitor de S. Magestade aos quartéis do anno, e cobrara o treslado da dita provizão, e o dito dinheiro entregará ao thezoureiro e reçebedor das esmolas da dita caza; e com seus conhecimentos em forma do que reçeber, e certidões do escrivão da Matricula Geral do desconto do titulo da dita caza, se lhe levará em conta. E começará a (3) Encontra-se aqui um espaço em branco, destinado, sem dúvida, à indicação das folhas. 2 - M.la 560
correr de primeiro de Janeiro de secenta e sinco em diante, como tudo consta do proprio regimento do viso-rey Dom Antão de Noronha, lançado no Livro dos Registos da Fa- zenda dos Contos, fls. 104, donde se este tresladou. Hospital de Sua Magestade Se pagará mais a estes sinco offiçiaes que servem no dito espital de S. A. os seus soldos e mantimentos que vencerem de homens de armas aos quartéis do anno assy como forem vençendo, a cada hum o que vençer per seu titulo na Matri- cula Geral. O escrivão do dito espital. O veedor delle. O imfermeiro do dito espital. O comprador delle. O porteiro do dito espital. E isto pello trabalho que nelle levão e serem continos no serviço da dita caza, os quaes pagamentos lhe fará o fei- tor da dita çidade e cobrará delle seus conheçimentos, do que reçeberem, e certidões do provedor da dita caza de Mi- sericórdia de como servem e certidões da Matricula dos des- contos de seus títulos, per onde lhos levarão em conta.» Julgamos oportuno resumir o resto deste interessante «regimento», por dar uma ideia geral da situação da índia nesta época. 561 DOC. PADROADO, IX — 36
A fls. 13 v-l4v, trata-se dos ordenados do vice-rei e dos «oficiaes que com elle andão». São os seguintes: Vice-rei. Secretário da índia. Alferes da bandeira real. Capitão da guarda do vice-rei Físico-mor, que anda com o vice-rei Cirurgião-mór, que anda com o 7.3391550 (4) 2001000(5) 401000 84$000 (6) 44$800 vice-rei Boticário a que anda com o dito 29$800 viso-rey» Barbeiro Dois capelães, cada a 24$000 Meirinho da corte, «que anda com 24$800 (7) 19Í800 48$000 o dito viso-rey» 30$000 «Lingoa» da corte, i.e. intérprete. 30$000 (8) A guarda do vice-rei compunha-se de 60 portugueses que venciam mensalmente o soldo de homens de armas, além de 600 réis mensais de mantimento. Além disto, os vice-reis costumavam dar-lhes mais 28 réis diários. Havia ainda 10 trombetas, vencendo cada um 21 $600, e quatro atabaleiros, sendo o mestre português. (4) Além disso, podia mandar ainda para o reino 600 quintais de pimenta. Os ordenados eram anuais. (5) O secretário da índia ganhava mais 30$000 «de sua apozen- tadoria». (6) Devia receber, além disso, «a comedia de cada dia». (7) O boticário devia servir na armada. Em terra venceria o salário indicado. (8) O salário do «língua» tinha sido aumentado para 50$000, mas cortava-se agora o dito aumento.
2) Desembargadores, (fls. l4v.-15) Ouvidor-geral da índia. Orde- nado. 300$000 Ouvidor-geral da índia. «Aposen- tadoria». 18$000 Chanceler da índia. Ordenado. 300$000 » » » Aposentado- ria». 18$000 Juiz dos feitos da fazenda de el-. -rei. Ordenado. 300$000 Juiz dos feitos da fazenda de el- -rei. «Aposentadoria». 18$000 Provedor-mór dos defuntos da índia. Ordenado. 150$000 Provedor-mór dos defuntos da ín- dia. «Aposentadoria». 18$000 (9) Procurador dos feitos de el-rei. Ordenado. 300$000 Procurador dos feitos de el-rei. « Aposentadoria ». 18$000(10) 3) Oficiais da Justiça, (fls. 15-15 v.) Ouvidor da cidade de Goa. Orde- nado por ano. 100$000 Alcaide de Goa. Idem. 20$000 Meirinho de Goa. Idem. 20$000 Meirinho de fora da cidade. Idem. 20$000 (9) O provedor receberia ainda mais 1501000, mas vindos dos «de- reitos das fazendas dos defuntos». (10) A seguir, trata da Relação, afirmando que se indicarão adiante os seus ordenados. 563
Escrivão da chancelaria. Idem, sem aposentadoria. 30$000 Solicitador dos feitos de el-rei. Idem. 30$000 Carcereiro da prisão de Goa. Idem. 19 $000 Porteiro da Chancelaria. 18$000(11) 4) Oficiais da cidade de Goa e de suas fortalezas e passos, (fls. 15v-l6v). Capitão da cidade. 600$000 (12) Alcaide-mór da cidade. 100$000 (13) Tanadar-mór da ilha de Goa. 100 $000 Capitão do castelo de Pangim. 50$000 Capitão do castelo de Naroá. 40$000 Capitão do castelo do Passo Seco 40 $000 Capitão do castelo de Benestarim. 60$000 (14) Escrivão português da ilha, desta cidade. 18 $000 (11) Este era homem de armas, sujeito ao seu soldo. (12) Acrescenta ainda: «E assy averá mais oitenta e seis mil e quatro centos reis de sua apozentadoria por duzentos corenta pardaos de ouro, a rezão de vinte pardaos de ouro por mez, que lhe ordenei, por os capitães serem tirados da fortaleza da dita cidade, onde ora estão apouzen- tados os governadores e viso-reys da India; e isto emquanto não tornarem a dita fortaleza, ou se lhes derem cazas de S. A. o (sic) que elles se possão agazalhar bem.» (13) Observa o regimento: «O alcaide-mór desta cidade averá sem mil reis de seu orgenado por anno, por ser provido por el-rey meu senhor em vida a pessoa que ora tem, e, vagando, por seu falecimento o não averá, por ser desneçessario.» (14) Os passos eram as principais entradas da cidade de Goa. Havia em cada um deles um forte, cuja guarda era confiada a um capitão. As guarnições destes passos eram escrupulosamente escolhidas, pois dependia delas a segurança da cidade. O Passo Seco chamava-se assim, porque o esteiro de água, à beira do qual hava sido construído o forte, podia ser fàcilmente vadeado. 564
Porteiro da alfândega de Goa. Condestável da cidade e da Casa 30$000 da Pólvora. Couraceiro. 31$200 14$400 Escrivão da renda de catualia (15). 12$000 Condestáveis dos castelos de Pan- gim, Naroá, Passo Seco e Be- nestarim; cada um vencerá o seu soldo de bombardeiro mais 400 réis por mês. Os tanadares e escrivães dos Passos e tanadarias rece- berão seus soldos de homens de armas. São os seguintes: Tanadar de Pangim. Escrivão do Passo de Pangim. Tanadar de Ribandar. Tanadar de Benestarim. Escrivão do Passo de Benestarim. Tanadar de Carbolim. Tanadar de Daugim. Escrivão do Passo de Daugim. Tanadar de Agaçaim. Escrivão do Passo de Agaçaim. — ' 5) Oficiais da fazenda. (Fls. 16 v). (15) Catual é o mesmo que regedor, ou chefe da polícia. A renda de catuália era a oriunda das multas aplicadas durante o policiamento da cidade. (16) À margem diz-se que vence mais 400$000 de «liberdades e caxas». Vedor da fazenda. Escrivão da fazenda. Ordenado. » » » Aposenta- doria». 400$000 (16) 150$000 15$000 565
(6) Oficiais da Matrícula Geral. (fls. 16v-17v). Escrivão da Matrícula Geral. Or- denado. 250$000 Escrivão da Matrícula Geral. Apo- sentadoria. 30$000 Dois contadores, «pêra o despa- cho e negocio delia», cada um 100$000 (17) Dois escrivães, cada um: 80$000 (18) Feitor da cidade. Ordenado. 100$000 » » » «Aposentadoria». 36$000 Tesoureiro de S. A. Ordenado. 80|000 » » » » «Aposentado- ria». 36$000 Três escrivães da feitoria, cada um: 50$000 (19) Corretor-mór dos cavalos de Goa. 90|000 Almoxarife do armazém da arti- lharia e munições. 60$000 Escrivão deste armazém. 30$000 Almoxarife do armazém dos man- timentos de Goa. 30$000 (20) Meirinho da fazenda de S. A. 20$000 (21) Feitor da armada do vice-rei ou governador. 60Í000 (17) Estes contadores tinham ainda «sua caxa forra e dous escravos pêra poderem mandar ao reino cada anno, como tem os contadores dos contos de S. A.» (18) Antes, os escrivães recebiam mais. O novo regimento mantem- -lhes «a sua caixa e dous escravos forros pera mandarem ao reino cada hum delles». (19) Estes servirião também na tesouraria. (20) Este almoxarife vencia menos antes. (21) O meirinho da fazenda vencia antes 40Í000, vendo assim o seu soldo reduzido em 50 por cento. 566 I
Escrivão da dita armada. 40$000 Condestável-mor da índia. 40$000 Condestável da armada do gover- nador ou vice-rei. 31 $200 (7) Oficiais da Ribeira de Goa. (fls. 18-19) Guarda-mor da Ribeira. 100$000 Almoxarife da Ribeira e seu ar- mazém. 60$000 Escrivão do dito armazém. 30$000 (22) Apontador da Ribeira e escrivão das suas obras. 30$000 (23) Piloto-mor da índia. 80 $000 Patrão da Ribeira. 42$480 Mestre da Ribeira. 60$000 «Mestre das Ferrarias de S. A.». 60$000 (24) Mestre da fundição da Ribeira. 40$000 Mestre da tanoaria. 24 $000 Mestre da cordoaria. 39$600 Mestre dos calafates da Ribeira. 3 5 $800 «Mestre remolar dos remos». 42$480 Mestre dos tangedores 16$320 Mestre dos torneiros. 21 $600 (22) O escrivão do armazém da Ribeira ganhava antes 361000. (23) «O apontador da dita Ribeira e escrivão das obras delia avera rinta mil reis de ordenado em cada hum anno, e não tera apouzentadoria, mer viva em cazas de el-rey meu senhor, quer nao, e servira também de ipontar a gente do mar, e assy os naiques e piaes desta ilha e outros servi- lores e na dita Ribeira não haver outro apontador mais que elle.» (24) À margem diz-se: «Esta extinto como se pode ver a diante fl. ...» 567
Mestre dos repairos (25) Mocadão-mor dos marinheiros da terra canarins. 22$200 (26) Mocadão-mor dos marinheiros árabes 16$320 Mocadão-mor dos marinheiros naiteas 21 $600 Mocadão-mor dos elefantes. 10$800 «Meirinho da sala dos bragas e escravos de el-rei». 12$000 (27) Meirinho da Ribeira. 16$320 Porteiro da porta grande. 15$120(28) Porteiro da porta pequena. 16$320 (29) (25) «O Mestre dos Repairos servira hum homem portuguez com seu soldo e mantimento que tinha de seu vencimento, e porque digo, e assy mais huma tanga por dia de secenta reis os dias do trabalho. E por falecer serve ora hum homem da terra que he muito bom official deste mister; o qual avera cmquanto servir a dita tanga por dia os dias do trabalho, e quando for necessário o mestre portuguez, será por minha provizão ou de veedor da fazenda, e doutra maneira não averá.» (26) O seu ordenado desdobrava-se da seguinte maneira: «dous par- daos de ouro de mantimento de sua pessoa, e dezaçeis vinténs a rezão de vinte reis o vintém cada hum; de dous nafares com hum xerafim e meio pera o cavallo, e hum pardao de ouro de dous fardos de arros que tudo faz e soma a dita contia de mil oito centos e sincoenta reis por mez, e vinte dous mil e duzentos reis por anno.» Nafar é palavra árabe e quer dizer: criado ou servente encarregado de cavalos, elefantes, etc. (27) Este salário tinha sido antes aumentado para 20$000. (28) «A dita Ribeira tera hum porteiro da guarda da porta grande delia que está a par de ferraria, o qual averá seu soldo e mantimento de homem de armas, se o for, ou de marinheiro, e alem disso averá trezentos e secenta reis por mez de mantimento...» (29) «Averá outro porteiro e guarda na outra porta piquina (sic), que está a par das Chagas e este tera seu soldo e mantimento de homem de armas ou de marinheiro, se o for, e porque anda nos homens do mar, se lhe faz conta a soldo de marinheiro, que são mil trezentos e secenta reis por mez, que fazem por anno dezaçeis mil trezentos e vinte reis.» 5 6 5
(8) Oficiais da Casa dos Contos e Fazenda dos Contos. (fls. 19-20) Provedor-mor dos contos. 200$000 (30) Contador da Casa dos Contos. 100$000 (31) Escrivão dos Contos. 40$000 Escrivão das Extras. 50$000 (32) Guarda dos Contos. 60$000 Recebedor das Extras. 60$000 Porteiro da Fazenda. 60$000 (33) (9) Ordenados Gerais, (fls. 20-21). Capitães de galiões de 100 tonela- ladas para cima e naus. 120$000 Capitães de navios de alto bordo destas partes e de caravelas. 84$000 (30) À margem: «Averá trinta mil reis em cada hum anno de apou- zentadoria, quando não viver em cazas suas, como se vio do regimento que está nos Contos, fls.... que he o original de todas as fortalezas.» (31) «Na dita caza avera dez contadores pera tomarem contas aos feitores, thezoureiros e almoxarifes e mais ofiçiaes que tem recebimento da fazenda delrey meu senhor...» (32) «Avera na dita Caza dos Contos treze escrivães de contos, scilicet, dez pera servirem com os dez contadores da caza e lhe ajudarem a toma las (sic) contas, e hum pera servir na meza grande, com o provedor- -mor dos contos, e os dous pera tresladarem as arrecadações que se mandão ao reino, e sirvirem no que lhe mais mandar o provedor-mor dos ditos contos, e neste numero de treze entra o escrivão das extras, que ha-de servir com hum dos ditos contadores...» (33) «O carrego de guarda dos ditos contos e recebedor das extras e porteiro da fazenda avera secenta mil reis de ordenado em cada hum anno e posto que antigamente tivesse quorenta mil reis com o dito carrego, e depois fosse acrecentado em outro tanto ordenado, como tinha hum con- tador, que erão cento quorenta mil reis por anno, com sua pimenta e caixa e escravos, porque hey por bem que o dito carrego não tenha mais que os ditos seçenta mil reis de ordenado por anno, porque o mais foi dada a João Roiz «Panelas de Polvora», por respeito de seus serviços e merecimentos, pellos quaes o satisfarey de fora pello mereçer.» 569
Capitães de galés reais, de 24 a 25 bancos por banda. 120 $000 Capitães de galeotas de 22 bancos para cima. 84 $000 Capitães de galeotas malabares de remo, «de 20 remos para cima, por banda e de postiços que jugar hum camelete, ou mea espera pella proua. 60$000 Capitães de fustas e catures de el-rei. 24$000 Feitores das armadas que o vice-rei mandar fora. 50$000 Escrivães das ditas armadas. 30$000 Mestres dos galiões de 100 tone- ladas para cima. 40$320 Mestres de caravelas e navios. 34$380 «Comitres das gales reaes». 42 $4 80 «Comitres de galiotas de apella- ção e das outras galiotas mala- vares de postiças e de vinte re- mos pera cima por banda, que jugar camelete ou mea espera por proa» 34$380 Pilotos de galiões e naus. 40$320 Pilotos de caravelas e navios de alto bordo. 34$340 Escrivães das viagens de Banda, Maluco, etc. 50$000 Escrivães de galiões e navios. 18 $000 Escrivães de caravelas. 15 $000 Dispenseiros de galiões, naus, ga- lés e caravelas. 12 $000 57°
Contramestres de galiões, naus, e «sota-comitres de gales reais». 20$568 Condestáveis de galiões, galés, naus, caravelas e navios de alto-bordo e galiotas de ape- lação. $400(34) (10) «Homens ordenados ao capitão desta cidade e mais oficiais.» O capitão de Goa teria às suas ordens 30 portugueses; o vedor da fazenda da índia, 10 portugueses; o escrivão da fazenda de el-rei, dois portugueses; o feitor de Goa, 8 ho- mens; o tesoureiro de Goa, 6 portugueses; cada um dos três escrivães da feitoria, 3 homens; almoxarife do armazém dos mantimentos, 2 homens; almoxarife do armazém da artilharia e munições, 2 homens; almoxarife da Ribeira de Goa, 2 homens; cada um dos três escrivães destes armazéns, 3 homens; escrivão da Matrícula Geral da índia, 4 homens; ouvidor-geral da índia, 4 homens; o passo e castelo de Pan- gim, 6 portugueses; o passo e castelo de Ribandar, 6 homens; o passo e tanadaria de Daugim, 6 homens; o passo e castelo Naroá, 6 homens; o castelo do Passo Seco, 6 homens; o passo e castelo de Benastarim, 6 homens; o passo e tana- daria de Agaçaim, 6 homens. Todos estes homens venceriam os seus soldos de homens de armas. (11) «Ofícios ordenados que se tirarão por este regimento. [22 v0 O oficio de meirinho da Santa Inquizição que tinha sem mil reis de ordenado por anno, e os seus piães, por S. A. mandar que se escuzasse. (34) Estes 400 reis eram apenas um subsídio, pois os indivíduos mencionados, sendo bombardeiros, venciam, como tal, o seu soldo e man- timento. 57 1
Este ofício se tornou a prover, como se verá adiante fls— N.° 6 na maça (sic) do Santo Ofício. O oficio de patrão mor da India que tinha oitenta mil reis de ordenado por anno. O oficio de apouzentador da corte, que andava com o viso-rey da India, que tinha trinta mil reis de ordenado por anno. O oficio da anadel mor dos espingardeiros desta çidade, que tinha seçenta mil reis de ordenado por anno. O oficio de anadel piqueno dos espingardeiros da dita cidade, que tinha trinta mil reis por anno. Os sem espingardeiros da terra, que herão ordenados a esta cidade, com hum meirinho delles, que despendião por anno quatro centos e quarenta mil, seissentos e quarenta reis. Porque quando forem necessários pera servirem, se mandarão fazer. Os sincoenta mil de ordenado que vençia Duarte Ribeiro, escrivão da alfandiga desta cidade de Goa, os ques (sic) não averá nem vençerá mais. Os sento e sincoenta mil reis de ordenado que tinha o thezoureiro do dinheiro dos defuntos, com o dito cargo, por anno, os quaes não vençerá nem averá da fazenda de S. A. O ordenado que tinha o provedor dos defuntos dessa cidade que erão trinta mil reis por anno, e os não averá. O ordenado que tinha o escrivão dos defuntos da dita çidade, que são dezoito (sic) mil reis por anno, os não averá. O ordenados (sic) que tinhão os dous contadores dos defuntos, que herão sento vinte mil reis de ordenado por anno, a secenta mil res cada hum, os não averá. 57 2
O almoxarife e guarda das cazas de apouzentamento do P3] viso-rey, que tinha vinte mil reis de ordenado por anno, o não averá. Hum dos dous pays dos christãos da terra, que avia nesta çidade, porquanto fica hum somente.» (12) Regimento da fortaleza de Bar dez e suas terras. O meirinho das ditas terras vencerá como homem de armas. O capitão, que antes tinha 10 homens ao seu serviço, fica, por este regimento, apenas com quatro. (13) Regimento da fortaleza de Rachol e terras de Salcete. (fls. 23 v). Capitão. Escrivão da recebedoria das terras de Bardez. 100$00 30$000 (fls. 24-25). Capitão da fortaleza e terras. Escrivão das ditas terras. Meirinho das mesmas. 80$000 401000 181000 Condestável da fortaleza, como subsídio além do seu venci- mento de bombardeiro. 17$600 O capitão da fortaleza tinha mais 10 homens «pera guarda e vi- gia da dita fortaleza.» 573
(14) «Regimento de Chaul». (fls. 28-28 v). «A fortaleza de Chaul fez o viso-rey Dom Antão de Noronha regimento como as mais deste Estado, que em seu tempo avia. E, por descuido dos ofiçiaes que disso tinhão obrigação, não se achou o dito regimento tresladado no Livro onde os das mais fortalezas deste Estado, e fazendo nisso instançia ao Conde Almirante viso-rey que mandasse vir o treslado delle da dita fortaleza, pera se lançar aqui, não pode aver efeito, por o dito regimento estar tão roto e desbaratado que não se podia tresladar por ordem, e indo eu, Clemente da Cunha, ao Norte o anno de 99, por curio- zidade minha o fui buscar a feitoria de Chaul, e me mos- trarão de feição que o não pude tresladar nem trazer, por onde detrimmey lançar aqui os capítulos abaixo declarados que achei escritos do dito regimento no L.° primeiro dos Registos da matricula as fls. 250, tresladados e conçertados do proprio, per mym, dito Clemente da Cunha e Viçente Fernandez, contadores da matricula geral, donde o tresladey aqui, não deixando de fazer lembrança ao dito viso-rey e ao veedores (sic) da fazenda pera neste particular proverem, como hera neçessario, os quaes são os seguintes»: Capitão. 400$000 Feitor e alcaide-mor da fortaleza. 100$000 Escrivão da feitoria. 30$000 Ouvidor da fortaleza. 100$000 Alcaide da cidade. 15 $000 Meirinho da fortaleza. 15 $000 Sobre-rolda. 18$000 Carcereiro da fortaleza. 15 $600 Porteiro da fortaleza. 15 $600 Vigário da fortaleza. 30$000 Condestável. 30$000 57 4
Pai dos Cristãos. Quatro beneficiados, cada um. Vigário e cura de S. Sebastião. 20$000 12$000 12$000 A Misericórdia recebia da fazenda real 150$000 por ano. A fortaleza tinha ao seu serviço 6 bombardeiros que venciam o soldo de homens de armas. «O capitão da dita fortaleza terá corenta homens paren- tes e criados, aos quaes se lhes pagarão seus quartéis como por seus títulos vencerem. O feitor da dita fortaleza terá quatro homens a quem se lhes pagarão seus quartéis como por seus títulos ven- cerem.» O escrivão teria um homem ao seu serviço. (15) Regimento de Baçaim. (fls. 30-33)- Capitão da cidade e fortaleza. Feitor e alcaide, que acumulará também com o cargo de al- moxarife. Dois escrivães da feitoria, que ser- virão também de apontadores da fortaleza, cada um. Ouvidor. Alcaide da cidade. Meirinho. Sobre-rolda. Condestável. Mestre das obras da fortificação, enquanto elas durarem. 600$000 200$00 50$000 100$000 181000 18$000 25$000 38$000 180$000 575
Patrão da Ribeira que servirá tam- bém de mestre de calafates. 30$000 Carcereiro, subsídio anual, além do seu soldo como homem de armas. 151600 15$600 28$800 16$800 Porteiro da fortaleza, subsídio. Vigário da igreja matriz. Quatro beneficiados, cada um. «A Caza da Santa Misericórdia da dita cidade pagará cada anno sento e sincoenta mil reis de soldos que defunctos e outras pessoas derem de esmola a dita Caza pera também se gastarem na esmola delia que se fazem aos ditos necessi- tados, os quaes lhe pagará o feitor da dita cidade aos quar- téis do anno e entregará ao thezoureiro da dita Caza e delle cobrará seus conhecimentos em forma, assinado (sic) por elle e pello provedor da Caza e irmãos delia, e certidões do escrivão da matricula geral dos descontos do titulo da dita Caza, por onde lhes será levado em conta.» A fortaleza seria servida por 12 bombardeiros. O capitão teria 40 homens «parentes e criados», que o serviriam na dita fortaleza. O feitor, 6 homens; e os dois escrivães, um cada. A Misericórdia e o hospital teriam 4 homens: enfer- meiro, escrivão, «campanhia da dita Misericórdia» e o cha- mador. Tanadarias: Tanadar da ilha de Salcete. Escrivão desta tanadaria, sem orde- 30$000 nado. Tanadar de Agaçaim. Seu escrivão. Tanadar de Taná. 30$000 20$000 30$000
Seu escrivão. Meirinho desta tanadaria. Tanadar de Maim. Seu escrivão. Tanadar de Caranja. 20S000 12$000 30$000 20$000 30$000 (35) Cargos suprimidos em Baçaim: Almoxarife do armazém dos mantimentos, ficando o feitor encarregado dele. Escrivão deste armazém, passando o cargo para o escrivão da feitoria. Apontador da fortaleza, substituído pelo escrivão da feitoria. Alcaide-mor do mar, cargo, que em caso de necessidade, servirá o meirinho. «Meirinho da fazenda de S. A. e o do campo com seus piães.» O provedor e escrivão dos defuntos não receberão soldo de el-rei. «Lingoa da feitoria e dos frades que andava na çidade e tinha quinze mil reis de ordenado por ano.» «Capitão de baluarte de Tana e os marinheiros de sua almadia e o velho.» (35) O escrivão da dita tanadaria de Caranja não averá ordenado nenhum, porque o mandovym da dita tenedaria anda do prezente aforado, e cmquanto assy andar não pode aver ordenado, e depois que se arecadar por el-rey meu senhor, requeira que a pessoa que servir a dita escreva- ninha. (sic). A dita tenadaria de Caranja terá seis homens portuguezes por estar longe de Baçaym e ter huma maneira de Castello, pera o qual são necessários pera a guardarem e vigiarem.» 577. DOC. PADROADO, IX — 37
16) Regimento de Manorá. (fls. 35-36). «O governador Francisco Barreto ordenou a fortaleza de Manorá em tres de Outubro de quinhentos secenta e sete, regimento, o qual foi dado a Antonio Dessa Pereira, pri- meiro capitão e feitor da dita fortaleza e terras, o qual se uzou no tempo de André de Villas Loubos (sic), recebedor que foi das ditas terras, de cuia conta se tirou (sic) os capí- tulos abaixo escritos por hum treslado que fez o contador Antonio Fernandez em doze de Agosto de noventa e oito e conçertado com o contador Gabriel Galeano e assinado por elles e por Baltezar de Siqueira, provedor-mor dos con- tos, do qual treslado se tirarão os ditos capítulos. Por se não achar outra ordem pera a dita fortaleza, porque os ditos capí- tulos do regimento que estão tresladados a fls. 15 do L.° 2.° de Matricula não tem mais autoridade que dizer ser tirado do regimento de Manorá, dado pello governador Françisco Barreto a Antonio Dessa Pereira, escrito no dito Livro por Gaspar Vaaz, contador da dita Matricula, o qual difere deste que se tirou do proprio abaixo declarado em alguma ma- neira por onde se tirou o que sahio dos Contos, concertados pellos ditos officiaes e asinado pello provedor-mór Baltezar Siqueira que sahiu da conta de Andre de Villa Loubo.» Haveria aqui 27 homens portugueses para assistirem ao capitão. Venceriam o soldo de homens de armas. O meirinho seria portugguês e ganharia 20$000 por ano. O escrivão venceria 60$000. O capitão teria 300$000. Haveria também «huma pessoa que sirva de fizico e surgião e sangrador, o qual averá seu soldo e mantimento de homem de armas». «Averá hum capitão de campo das terras de Ma- norá, o qual capitam averá nove pardaos de ouro cada de seu mantimento e de seu cavallo...» 578
17) Regimento da fortaleza de Asserim. (fls. 37-37 v). Os apontamentos seguintes não pertencem ao regimento de D. Antão de Noronha, mas são os que se acharam «a fls. 24 do 3.° Livro da Matricula». Sobre-rolda. Vencimento de homem de armas, com o subsídio de dous pardaus de ouro por mês. Porteiro. Idem. Condestável Idem. Meirinho. 20$000 Nesta fortaleza residiriam 50 portugueses, como homens de armas. 18) Regimento de Damão e suas terras, (fls. 39-43). Capitão. Escrivão e apontador. 3001000 30$000 Capitão. 600S000 Feitor, alcaide-mór, almoxarife do armazém dos mantimentos, todos estes cargos servidos por uma só pessoa. 200$000 Escrivães da feitoria, dos arma- zéns da fortaleza e da alfân- dega, apontadores da gente da fortaleza. 50$000 100$000 18$000 18$000 Ouvidor. Meirinho. Alcaide da cidade. Mirabá, «que hé alcaide do mar e guarda das naos e alfandegas» 201000
Sobre-rolda. Condestável. Mestre da Ribeira, patrão da Ri- 18$000 38$920 beira. Ferrador e alveitar. 30$000 20$000 Porteiro, com o vencimento de homem de armas e subsídio de 15 $600 Haveria ainda: 12 bombardeiros, com o soldo de homens de ar- mas. 30 homens portugueses, homens de armas. 40 homens «do capitão criados, parentes e chega- dos», igualmente homens de armas. 6 homens, às ordens do feitor. 2 homens, às ordens dos dois escrivães. 400 homens, guarnição da fortaleza e suas terras. Tanadaria de Sangens. Haveria 6 homens portugueses, às ordens do capitão. Tanadaria de Tarapor. Carcereiro. Vigário da igreja matriz. Quatro beneficiados, cada um. 12$000 28$800 161800 Capitão e tanadar. Escrivão da tanadaria. Meirinho. Capelão e cura da igreja. 100$000 201000 181000 12$000 Capitão e tanadar. Escrivão. 100$000 20$000 580
Meirinho. Capelão e cura, quando houver igreja. Mais 6 portugueses, às( ordens do capitão. 18$000 12$000 Tanadaria de Queime e Maim. Capitão e tanadar. 100$000 20$000 181000 Escrivão. Meirinho. Capelão e cura, quando houver igreja. 12$000 Mais 6 portugueses, às ordens do capitão. Tanadaria de D anu. Acha-se apenas nomeado o capitão que terá quatro sol- dados. Aqui devem faltar páginas. Observa-se, porém, que falta o regimento de D. Antão de Noronha nesta parte. 19) Regimento da fortaleza e cidade de Dio. (fls. 45-48 v). Capitão. 600$000 Feitor, alcaide-mór, almoxarife do armazém dos mantimentos. 1001000 Dois escrivães da feitoria, que o serão também dos armazéns, cada um. 50$000 1001000 25IOOO 100$000 18$000 Ouvidor. Sobre-rolda. Capitão do baluarte do mar. Meirinho da fortaleza.
Meirinho da cidade. 18 $000 Condestável. 38$920 Mestre pedreiro, enquanto for ne- necessário. 37$200 Carcereiro da prisão da fortaleza, subsídio. 44 $000 Juiz da alfandega, vencerá ape- nas «as suas lagimas e per- calços, como tem o juiz da al- fandega de Goa.» Dois escrivão da alfândega, nas mesmas circunstâncias. Alcaide do mar e mirá da for- taleza. 30$000 Porteiro da alfandega. 20 $000 Tesoureiro da alfândega grande, sem ordenado, «porquanto tem seus piães e percalços na dita alfandega.» Escrivão do mandovi dos manti- mentos da cidade. 40$000 Tesoureiro da alfândega de Go- gala. 100$000 Escrivão da mesma alfândega. 50$000 Vigário da fortaleza e da igreja de Dio. 32$200 Beneficiados, eram 6, mas agora ficam reduzidos a quatro, cada. 22$200 Homens da fortaleza. 15 bombardeiros, como homens de armas. 6 porteiros. 5 # a
20 homens, às ordens do capitão para o acompa- nharem. 40 homens «parentes e criados e achegados» do capitão. 6 homens, às ordens do feitor. 2 homens, às ordens dos dois escrivães. Antes estes tinham 6. 4 homens, em vez dos antigos 6, às ordens do juiz da alfândega. 2 homens, às ordens dos escrivães da alfândega. Antes cada um tinha dois. 1 homem, às ordens do escrivão da alfândega de Gogola. Antes tinha dois. 6 homens no baluarte do mar. 350 homens, como guarnição da fortaleza. 20) Regimento da fortaleza de Ormuz. (fls. 50-53). Capitão. Alcaide-mór. Ouvidor. Feitor. Dois escrivães da feitoria, cada um. Almoxarife do armazém de man- timentos. Escrivão deste armazém. Meirinho da fortaleza. Sobre-rolda. 600$000 100$000(36) 100$000 100$000 100$000 30$000 20$000 24$000 25$000 (36) «E este cargo não avera nella senão quando na dita fortaleza não estiver veedor da fazenda de el-rey meu senhor, porque o tempo que lá estiver servirá o feitor o dito cargo juntamente com a feioria, porque o poderá fazer, por ter menos ocupação...» 583
Condestável. 46 $000 Mestre da Ribeira e patrão da mesma. 40$000 Mestre da ferraria. 27 $000 Meirinho da fazenda. 25 $000 Homens do capitão e mais oficiais. Ouvidor. 100$000 Feitor. 100$000 Dois escrivães da feitoria, cada um. 100$000 Almoxarife do armazém de man- timentos. 30$000 Escrivão deste armazém. 20$000 Meirinho da fortaleza. 24$000 Sobre-rolda. 2 5 $000 Condestável. 46$ 000 Mestre da Ribeira e patrão da mesma. 40$000 Mestre da ferraria. 27 $000 Meirinho da fazenda. 25 $000 Homens do capitão e mais oficiais. Capitão: 30 homens de sua guarda, além de «50 homens criados e achegados parentes.» Feitor: 8 homens. Escrivães da feitoria: um homem para cada um. Ouvidor: 4 homens. Xabandar: 4 homens. Guarnição: 15 bombardeiros e 300 soldados. 584
Vigário e beneficiados da igreja. Vigário. Quatro beneficiados, cada um. Tangedor dos orgãos, com o soldo de homens de armas e mais Juiz do peso da alfândega. Porteiro da alfândega. 21) Regimento de Mombaça, (fls. 54-55). Capitão. Feitor e alcaide-mor e juiz da alfândega e provedor dos de- funtos. Escrivão da feitoria e da alfan- dega. Cirurgião. Condestável. Três bombardeiros, cada um. Vigário. Meirinho, alcaide do mar e car- cereiro. Porteiro. Sobre-rolda e porteiro. Homens da fortaleza. Capitão: 20 homens. Feitor: 2 homens. Guarnição: 100 homens. 341000 21$000 9$000 50$000 281000 1201000 801000 (37) 50$000 50$000(38) 24$000 16$000 301000 24$000 18$000 18$000 (37) Trata-se de acumulações. _ _ (38) «O sirurgião que curará o capitão, feitor, escrivão e vigairo em sua caza e o espital.» — — - • 5S5
22) Regimento da fortaleza de Moçambique, (fls. 56-57 v e 65) (39). Alcaide-mór e feitor. 100$000 Escrivão da feitoria. 50$000 Físico. 42$000 Alcaide-mór do mar e merinho. 29$000 Barbeiro «que serve de sirurgião». 29$000 Condestável. 19$200 Vigário. 291000 Capelão coadjutor do vigário. 29$000 Cargos suprimidos. Mestre dos carpinteiros. 34$000 Ferreiro. 19$000 Tanoeiro. 27 $000 Calafate. 19$000 Capitão da caravela de Moçambi- que a Sofala. Mestre da dita caravela. 30$000 Piloto da mesma. 30$000 Mestres «das tres fustas que se ar- marão cada anno pêra hirem aos Rios fazer os resgates», cada um. 18$000 [57 v.] «Regimento novo que por ordem de S. Magestade se fez por asento do Concelho da Fazenda.» Na alfandega de Moçambique, avera hum juiz, hum feitor da fazenda real, dous escrivães, hum mayor, outro (39) A fl. 65 pertence ainda ao regimento de Moçambique e foi colocada em separado, por erro do encadernador. 586
menor, hum porteiro que sirvirá de juis de balança, hum meirinho da fazenda e alcaide do mar, dous avaliadores que servirão também de seladores ou chapadores, quatro guar- das da alfandega.» Juiz da alfandega, mar e direitos. 300$000 Feitor. 200$00 Escrivão da feitoria e alfandega. 66 $000 Porteiro da alfândega e juiz da balança. 30$000 Meirinho da fazenda e alcaide de mar e terra, patrão, piloto-mór. 56$500 Dois avaliadores, cada um. » 5 $000 (40) 23) Regimento da fortaleza de Sofala. (fls. 59-59 v). Capitão. 418 $000 Alcaide-mór e feitor. 138$000 Escrivão. 82 $000 Alcaide e meirinho. 39$000 Condestável. 3 8 $000 Vigário. 3 4 $000 Coadjutor ou capelão. 27$000 Homens ao serviço: Capitão: 10 homens. Alcaide-mór e feitor: oito homens. Escrivão: um homem. (40) Além disto, poderiam impor dois reis por cada selo ou chapa que pusessem em cada peça. 587
24) Regimento de Barcelor. (fls. 60-63) (41). Capitão. Feitor, alcaide-mór e almoxarife dos mantimentos. Escrivão da feitoria e do arma- zém, e apontador da fortaleza. Ouvidor. Meirinho. Escrivão do meirinho. Físico e cirurgião. Condestável. Porteiro, vencimento de homem de armas e subsídio mensal de Língua ou intérprete, vencimento mensal de Vigário da igreja matriz. Dois beneficiados, cada um. Tesoureiro da igreja. 400$000 100$000 50$000 601000 18$000 12$000 30$000 46$000 $600 1$200 30$000 20$000 6$000 Homens ao serviço: Capitão: Feitor: Escrivão: 20 portugueses. 2 portugueses. 1 português. Guarnição: não a tinha ainda limitada, por a for- taleza se ter conquistado havia pouco tempo. (41) Houve engano na encadernação nas páginas referentes a este regimento. Assim, a ordem deve ser a seguinte: 62, 60, 63 e 61. S88
25) Regimento de Onor. (fls. 64). Capitão. ÍOOIOOO Escrivão da feitoria e do armazém dos mantimentos e apontador. 50 $000 Meirinho da fortaleza. 18 $000 Escrivão da terra. 12 $000 Cirurgião e físico. 30$000 Condestável. 47 $000 Porteiro da fortaleza, vencimento de homem de armas, além do subsídio mensal de $600 26) Regimento da fortaleza de Cananor. fls. 66-67). Capitão, feitor e almoxarife dos armazéns. 400$000 Escrivão da feitoria e armazéns. 40$000 Sobre-ronda (sic). 18$000 Meirinho. 15 $000 Escrivão do meirinho. 12 $000 «Averá na dita fortaleza hum sirurgião a que se pagara sete mil e duzentos reis por anno e, sendo portuguez, averá mais soldo e mantimento de homem de armas estando nelle assentado.» Condestável. 24$000 Vigário. 24$000 Três beneficiados, cada um. 12 $000 Homens ao serviço: Capitão: 20 portugueses. Escrivão: 1 homem. 589
27) Regimento da cidade de Cochim. (fls. 68-70). Capitão «e veedor da fazenda del- -rey meu senhor, do negocio da carrega da pimenta.» 800$000 Feitor e tesoureiro da cidade. 200$000 Escrivão da fazenda e da carga do reino- 150$000 Dois escrivães da feitoria, e escri- vães da moeda, cada. 40$000 Guarda-mór da Ribeira e dos rios. 40$000 Almoxarife dos armazéns, Ribeira, munições e mantimentos. 20$000 Escrivão do almoxarife. 18$000 Ouvidor. 100$000 Pai dos Cristãos, «convertidos a nossa fe católica que serve na dita cidade avera trinta mil reis de ordenado por anno somente, porque nas outras fortalezas tem ainda menos.» 30$000 Provedor dos defuntos, sem ordenado de S. A. Alcaide da cidade. 15 $000 Meirinho da cidade. 15 $000 Carcereiro da prisão da cidade. 191000 Juiz do peso da cidade. 40$000 (42) Mestre da moeda. 18$000 (42) «...e porque Antão Roiz que delle hé provido por Sua Alteza em sua vida vence secenta mil reis com o dito carrego, ave-los-ha em- quanto assy o tiver, por respeito de seu serviço e velhice...» Os seus suces- sores, porem, so venceriam 40$000. 59°
Escrivão do guarda-mor e aponta- dor da cidade. 20$000 Patrão da Ribeira. 50$000 Mestre da Ribeira. 30$000 Mestre dos calafates da Ribeira. 30$000 Mestre de tanoaria da cidade. 20$000 Bispo. 800$000 Provisor do Bispado. 50$000 Deão. 40$000 Quatro dignidades (chantre, tesou- reiro, arcediago, mestre-escola) 30$000 Doze conegos, cada um. 20$000 Tesoureiro da sé. 10$000 Cura da sé. 14$000 Mestre da capela. 14$000 Mestre de gramática. 20$000 «Porteiro da maça», com venci- mento de homem de armas. «Tangedor dos orgãos». 7$200 Capelão da Casa de S. Lázaro. 12$000 Capelão da ermida dos Reis Ma- gos, «que esta no castelo de cima». 12$000 «Ao dito bispo, denidades, conegos e aos mais ofiçiaes [70] e ministros da dita sée se lhe pagará os ditos ordenados aos quartéis do anno, assym como forem vencendo, de que se fara caderno de cada quartel ou tempo que se lhes pagar, onde paçarão seus conheçimentos de que receberem cada hum per sy e, com a certidão do escrivão da Matricula Geral dos descontos de seus títulos, onde lhes sera feito venci- mento dos ditos ordenados, se lhe levara em conta ao feitor que os pagar, e quando fizer o dito pagamento será por ordenança de vos, dito veedor da fazenda, de que passareis 59 1
mandado no dito caderno, e quando na dita cidade não ouver veedor da fazenda, emtão fará o feitor por esta ordem.» Homens ao serviço: Capitão: 20 portugueses. Feitor: 10 portugueses. Escrivão da fazenda: 2 portugueses. Dois escrivães da feitoria, cada um: 1 homem. Almoxarife dos armazéns: 2 homens. 8 bombardeiros. 6 marinheiros portugueses, para servirem na barra. 28) Regimento da fortaleza de Cranganor (fls. 77). Capitão e feitor «que tudo servirá» 120$000 Escrivão da feitoria. 30$000 Meirinho da fortaleza. 15 $000 Vigário da fortaleza. 25 $000 Condestável da fortaleza. 24$000 Dois bombardeiros, com soldo de homens de armas. Vinte portugueses «pera guarda e vigia delia (for- taleza), na qual copia entrarão os criados do capitão e vencerão seu soldo que tiverem na Matricula...» 29) Regimento da fortaleza de Coulão. (fls. 72-72 v). Capitão e feitor. 150$000 Escrivão da feitoria. 30$000 Sobre-rolda da fortaleza. 18$000 592
Condestável. 24$000 Dois juizes do peso, «hum que serve na dita fortaleza e outro no peso daquelle Cou- lão» (sic) (43), cada um, além do seu soldo. 12$000 Porteiro da fortaleza, além do soldo. 12$000 251000 Vigário da fortaleza. Beneficiado da igreja «que tam- bém sirvira de tezoureiro delia.» 18$000 Homens ao serviço: Capitão: 6 portugueses. Escrivão da feitoria: 1 homem. «Hum capitão que ha-de andar e ter carrego de catur de Sua Alteza que ha-de haver na dita fortaleza pêra guarda dos portos de Coulão e serviço da carga do reino terá mil reis de ordenado por mez, alem de seu soldo e mantimento de homem de armas e ordenado vencerá ao tempo que andar no mar somente.» 2 bombardeiros. 30) Regimento da fortaleza de Manar. (fls. 74-75). Dado por D. Francisco de Mascarenhas. Capitão. Feitor da fortaleza e almoxarife. 400$000 70$000 (43) I. é.: Cale-Coulão. 59 3 DOC. PADROADO, IX 38
Ouvidor da fortaleza Escrivão da feitoria. Meirinho. Condestável. Três bombardeiros. Vigário. Homens ao serviço: Capitão: 20 portugueses. Feitor: 2 homens. Escrivão: 1 homem. Guarnição: 200 homens, «assym solteiros como moradores». * 31) Regimento da fortaleza de Malaca, (fls. 76-78). Capitão. 600$000 Feitor, alcaide e almoxarife dos armazéns. 200$000 Escrivão da feitoria. Antes havia dois. 50 $000 Capitão da Tranqueira. 80 $000 Ouvidor da fortaleza. 100$000 Escrivão da alfândega da cidade e escrivão dos armazéns. 50 $000 Juiz do peso. 30$000 Porteiro da alfândega. 16 $000 Alcaide-mór da cidade. 50$000 Meirinho da fortaleza. 15 $000 Sobre-rolda. 18 $000 «Mestre das ferrarias». 27$000 Um condestável. 30$000 10 bombardeiros, com soldo de homens de armas. 40$000 40$000 18$000 24$000 24$000 594
Homens ao serviço: Capitão: 40 homens. Feitor: 4 homens. Escrivão da fortaleza: 1 homem. Bispado e sé: Bispo. Provisor do bispado. Deão da sé. Quatro dignidades (chantre, te- 800$000 50$000 40$000 soureiro-mór, arcediago e mes- tre-escola), cada. Doze cónegos, cada. ■ « Sobre-tesoureiro.» Cura da sé. «Tangedor dos orgãos». «Porteiro da maça da dita sé». 20$000 20$000 10$000 15$000 7 $200 10$800 Cargos que se tiraram do orçamento: Capitão do mar. Juiz da alfândega. Tesoureiro da alfândega. Sacador da alfândega. Mestre da moeda. Escrivão da moeda. Escrivão da fazenda. Meirinho da fazenda, «com seus piães». A guarnição seria de 300 homens, incluindo os homens do capitão, feitor, escrivão da feitoria, e bombardeiros. 59 5 L»
32) Regimento da fortaleza de Maluco, (fls. 79-81). Capitão. 600$000 Feitor e alcaide-mór e almoxarife dos armazéns. 100$000 Dois escrivães da feitoria e dos armazéns, cada um. 50$000 Ouvidor. 100$000 Meirinho da fortaleza. 15 $000 Sobre-rolda. 18$000 Condestável. 30$000 Capitão-mór do mar, se for neces- sário. 100$000 Porteiro da fortaleza e carce- reiro. 20$000 Vigário da fortaleza. 30$000 Dois beneficiados, cada um. 15 $000 Seis bombardeiros, com soldos de homens de armas. Homens ao serviço: Capitão: 20 portugueses «parentes e criados seus». Feitor: 3 portugueses. Escrivães da feitoria, cada um: 1 homem. Guarnição: 200 portugueses, tanto casados como moradores, incluindo bombardeiros, homens do capitão e feitor. 33) Regimento da fortaleza de Ceilão, (fls. 104- 105 v). (44).Regimento passado por D. Francisco da Gama. em 30 de Setembro de 1597. (44) Nas folhas precedentes aparecem outros regimentos. 596
Capitão... «averá o que tiver por sua carta patente do dinheiro que lhe vem por lista, enquanto estas terras e portos se não cobrar o rendimento delias como adiante vay declarado.» Feitor, e juiz da alfândega. 120$000 Escrivão da feitoria e da alfândega. 30$000 Ouvidor: «averá de seu ordenado por anno o que lhe vier por lista da índia.» Condestável: 25 xerafins. Cirurgião e físico: 30 xerafins. Vigário da sé: 50 pardaus. «O tronqueiro e os tres meirinhos, scilicet, hum de ante o capitam e outro de ante o juiz e offiçiaes da cidade, e outro de ante o ouvidor, a cada hum se lhe pagará os doze pardaos de quartel que da índia lhe vem por lista, e não se lhe pagarão os piães.» Homens ao serviço: Capitão da fortaleza: 30 homens. Três capitães dos baluartes «S. Tiago», «S. Anto- nio» e «S. João», a estes «lhe pagarão somente os doze pardaos de quartel que vem da índia. Feitor: 4 homens. Escrivão da feitoria: 2 homens. 597
,34) Regimento de Mangalore. (fls. 106-107 v). Passado por D. Antão de Noronha. Meirinho. (45) 18$000 Escrivão da feitoria, do armazém e apontador da fortaleza. 40$000 Escrivão do meirinho «pera o ne- gocio da justiça». 12$000 Cirurgião «que terá sete centos e vinte reis por mez de seu mantimeno, e sendo portuguez havera mais seu soldo e mantimento de homem de armas, estando nelle assentado.» Seis bombardeiros, com vencimentos de homens de armas. Porteiro, guarda e vigia da porta da fortaleza, «que sera homem portuguez e de recado», soldo de homem de armas. Condestável. 24$000 Língua ou intérprete da fortaleza. 1$200 Homens ao serviço: Capitão: 20 portugueses. Escrivão da feitoria: 1 homem. A guarnição seria constituída por 100 homens de armas. A fortaleza era nova, e por isso era necessária toda essa gente. Mais tarde, porém, com os casamentos e mora- dores, poder-se-ia dispensar parte dela. «E avera mais na dita fortaleza pera guarda e vigia delia cem espingardeiros da terra, homens christãos e fieis...» (45) Este regimento está incompleto, como se verifica. 598
35) Regimento da fortaleza de Sirião no reino de Pegu. (fls. 108-110). Passado por Aires de Saldanha. (1600-1605 (46). Capitão «que ha-de ser o dito Phelipe de Brito de Nicote em sua vida, e capitão-geral das conquis- tas, que se mandarem fazer naquellas partes, ha-de aver de ordenado a terça parte do rendi- mento da dita alfandiga, como lhe tenho sina- lado no regimento delia, abatidos primeiro dos oito por çento que hão-de pagar das fazendas na dita alfandiga dous hum por cento pera as obras da fortificação, e outra para as lage- mas (47) dos offiçiaes delia, e dos seis por çento que ficão averá elle, dito capitão, a dita terça parte.» Feitor, alcaide-mór, provedor dos defuntos e juiz da alfândega, teria por todos estes cargos «a metade de hum por cento das fazendas que entrarem na dita alfandiga». Escrivão da feitoria, escrivão da alfândega e apon- tador das obras da fortaleza, sem ordenado, «por ter no dito hum por cento que pertençe as lagi- gimas da quarta-parte, como lhe vay declarado no regimento da dita alfandiga.» Corretor da alfândega, idem. (46) Filipe de Brito de Nicote fundara, havia pouco, a alfândega e fortaleza de Sirião, no Pegu. O regimento que Aires de Saldanha deu tinha em vista favorecer ao máximo o seu desenvolvimento. Assim se explicam as grandes facilidades concedidas ao capitão, feitor, etc. (47) Lagema é palavra indostânica que significa «imposto» ou «di- reito alfandegário». 599
Condestável da fortaleza, alem dos mantimentos. 24$000 Vigário da fortaleza: 100 xerafins. Para a fábrica da igreja: 100 xerafins. Meirinho, alcaide do mar, meirinho da alfândega e carcereiro: 100 xerafins. «Terá o dito meirinho seis piães que vençerão tres xerafins por mez cada hum de sua muxará (48) e mantimento...» Cirurgião: 130 xerafins. Ouvidor, sendo letrado, 200$000 e, sendo secular, 100$000. Guarnição: 150 soldados, entrando neste número um porteiro da fortaleza, um porteiro da alfân- dega e um sobre-rolda. (48) Muxará é palavra persa que quer dizer «vencimento» ou «or- denado». 6 O O
82 A MISERICÓRDIA DE CHAUL A D. JOÃO DE CASTRO Chaul, 22 de Novembro de 1545 Documento existente no ANTT: Colecção de S. Lourenço, III, fls. 187-188. Letra bastante pessoal. //O provedor e yrmãos desta Samta Cassa e Miserycor- [i87 dia desta cydade de Chaull o emcomemdamos ao Senhor Deus que o leixe fazer seu samto serviço com acrecemta- mento de vida e saúde, como e bem deseja. Ja Vossa Senhoria sabe o com trato que fez o Senhor Martym Afonso de Sousa com esta Samta Cassa e yrmãos dela para terem carguo do espritall, como Vossa Senhoria vera pelo comtrato que nos qua mandou o provedor da Samta Misericórdia1 de Guoa, confirmado e assynado por Vossa Senhoria, em o quall comtrato Ell-Rei nosso senhor e hobry- gado a fazer as cassas do espritall, assy quando este ouverem de fazer de novo, como repara-las, quando necessaryo for, e porque esta cassa do espritall estava no chão e podre e não haja cassa para se poderem agasalhar, nem repairar doutros, pedymos ao Senhor Martym Afonso que nos mandasse fazer cassa para se poderem curar e agasalhar os doemtes, o qual nos emcomendou e emcaregou e pedyo que quiséssemos ter cuidado de a mandar fazer a nossa vomtade, e como nos parecesse ser mais serviço de Deus e de Ell-Rei nosso senhor e proveito dos doemtes, e que ele nos mandaria dar todo o dinheiro que ouvessemos mister, e se gastasse na dyta cassa, o quall aceitamos por serviço do Senhor Deus, e loguo nos i — M.ia 6 o i
mandou dar dozemtos e cymquoemta pardaos de libras (1) para se mandar fazer chunambo e tyrar madeira. [187 v.] //O quall dinheiro loguo demos para madeira e chu- nambo e pedra, do quall se dara conta a quem Vossa Senho- ria mandar, e porque ora temos ysto jumto, e queremos compesar (sic) a obra, pedymos a Vossa Senhoria que ou mande ao feitor Rui Fernandez que mande pagar as ferias dos ofeçyaes que no dyto espritall trabalharem, ou nos mande dar dinheiro para os nos pagarmos, como a Vossa Senhoria lhe milhor parecer, para que se acabe com tempo, e a ysto prymcypallmente mandamos la este yrmão, porque fycamos habrindo os halycerces e começando a obra. E asy ate ora nos prove o feitor por huma provisam do senhor Martym Afonso do gasto para os doemtes, da quall la mandamos o trelado do regysto, por se não achar a pro- pria, a Vossa Senhoria, para que nos passe outra, e nos mande dar este dinheiro para ho gasto do dinheiro dos cavalos que o feitor arecada, porque das houtras remdas da-nos o feytor per remdeiros, e primeiro que o arecadem os yrmãos, para darem de comer oas doemtes, o poem de suas casas, ou nos assemte o que nos ha-de mandar dar, pois ja Symão Allvarez, butycairo-mor, levou ho gasto de dous fanões, o quall nos Vossa Senhoria a-de quebrar para o dyto dinheiro dos cavalos, porque dai nos parece que pode ser mylhor paguo, e pois que pelo contrato esta em nossa esco- lha, do primeiro ano se gastaram quatrocemtos pardaos e, este gastado, setecemtos e tamto, e este não sabemos haymda o a que chegara, porem não sabemos se por aly não aver cassa, não acodem doemtes a ela, e se depois que a ouver se acudiram mais ou menos, dado caso estar em rezam avemdo y cassa acudyrem muitos mais, com ho que Vossa Senhoria (1) A abreviatura é L.M. Leaes ou libras? 6 O 2
a-de comformar, asemtando-nos loguo o que a-de dar, e assy yr a tera em muito crecymento e vyr-se muita gemte pera ela. //Asy leva este yrmão outra provissam para Vossa t'88! Senhoria confirmar de aroz pera as esmolas pera os pobres, e assy outra pera que o feitor emtregue os hordenados do fysico e solorgiam e barbeiro e os houtros hofyciaes para da cassa serem pagos polo provedor e yrmãos, a quail sera escusada, assemtamdo Vossa Senhoria o que lhe manda dar ao dyto espritall cada hano, e, não ho assemtamdo, a mister todas confirmadas. E o que sobretudo pedymos a Vossa Senhoria he que nos despache este yrmão com brevidade, por que não ham-de (sic) la fazemdo gastos a Samta Cassa, que esta muito pobre, com ho que Vossa Senhoria vyr que e maior serviço de Deus e de El-rei nosso senhor. E polo esprivam da Samta Cassa se fara hum caderno em que meudamente se esprevera todos hos gastos da obra, pera Vossa Senhoria saber o que se gasta, dado casso que o gasto faça ho feitor. Nosso Senhor ho tenha em sua guarda e lhe de sempre vencymento comtra nossos emmyguos. Feita em cabido por mym Lourenço (2) que hora serve de espryvam na Samta Cassa, oje, vymte e dous de Novembro de 1545. Lourenço Copeiro? Rodrigo de Mysquita (3). Fram- cysquo Dyas. Francisco Borges. Luis Cortez (3). Joam Fer- nandez. Afonso Gonçalvez. Batysta (4). Dom Mateus. (2) Não conseguimos decifrar a abreviatura do apelido que parece ser cop.'". (3) Leitura hipotética. (4) Leitura hipotética do apelido, e não conseguimos ler o nome. 6 o 3
83 CARTA DO PADRE MESTRE PÊRO FERNANDES SARDINHA A D. JOÃO DE CASTRO Goa 1 de Fevereiro de 1547 Documento existente no ANTT: Colecção de S. Lourenço, III, fl. 504. 14581 Senhor, Ha trimta de Janeiro me derão huma carta de V. S. com que fuy muy comsolado he recebi muita homrra e merce, asy polas boas novas que me escreve de sua saúde, como pola gramde vitoria que Noso Senhor lhe deu em Chapelom he Amjurula que per boa rezão devem de ser lugares do Idalcão. Eu amostrey a carta ha ho chamtre e alguns padres da see e de São Francisco, he todos dão muitas graças a Noso Senhor, por tudo sosseder a V. S. tamto ha popa. He asemtão ir tudo isto de suas muy gramdes virtudes, animoso coração he natural imclinação ha fazer verdade. Ho samto propheta David diz que ha verdade he escudo de quem ha ama, he quem se abraça com ela não arrecea peri- guos de noite, nem aos adversairos de dia. He aimda que Jacobus me arguise de pecado, por eu comparar ha vitoria de Dio as que Deus deu ha Habiham, a David e outros samtos varões, nem por yso deixarei de affirmar quamtas vezes vier ao preposyto, no pulpeto, que quadra muito a V. S. ho que Deus dise ha Habiham: «amda comiguo e far-te-ey vemcedor e senhor de gramde jemte.» Isto digo e direy, porque sou mui certo que nenhum louvor humano pode empolar a V. S., pois toda a gloria e 604
louvor de tamanhas façanhas da Aquele que he dador de todo bem. As pazes de Cambaia parece cousa mui necesaria faze- rem-se, asy pelo que cumpre a republica, e serviço de El-Rei noso senhor, como tãobem para que de todo ha symgular fama de V. S. fique sagrada nestas partes e canonizada por todo unyverso. E, porem, como V. S. faz todalas cousas com tamto temto, resguardo e comselho, não tenho outra cousa que dyser neste caso senão que ho remeto a sua symgular prudência e claro juizo, pedimdo sempre a Deus que se cum- pra a petição do propheta: «fiai pax in virtute tua et abun- dantia in turribus tuis» (1). Quamto aos dezatinos do mestiço, devia-lhos V. S. de levar em comta, por ser moço e pouco discreto, e saber pouco da jente desta terra, e ja pode ser que algum da seyta de Jacobe quys// comer ho rabão com os seus demtes. [458 v E não me espamto estar V. S. mui apaixonado e agastado, pois o Apostolo São Paulo de nenhuns homens se queixa tamto como daqueles que, com titolo de zelosos, vemdem odios e mutynão ho povo, e escamdelizão mais de que hedef- ficão. Aos quaes chama o Apostolo fraudes, falsos, sorratei- ros, que não sonhão em outra cousa senão como anichala- rão (2) virtudes alheas pera encobrir vicios próprios, que não tem mais de frades que ho capelo e o cordão. E, porem, comsole-se V. S. com São Paullo e desymulle fraquezas com sua manhanimidade, comtamto que estes homens ememdem-ho a V. S. e cesem de acusar ho sol por dar claros raios, dado caso que cesara mais azinha o ceo de dar voltas. Ao bispo não dey comta disto, por aimda não ser vymdo; como vyer, eu o farei. Ele bem cheo esta deses homens e (1) Cf. Ps. 121, 7. (2) I. é.: aniquilarão. 6of
perde ha paciência, por ver que se esquecem de sua proffissão, e empremdem (3) cousas que não são de seu abito, e diz que ho muyto favor e mymos os faz sair das comchas. Dou novas a V. S. que fuy o outro dia ver ho mamdovi, e achey que não cabya com triguo, arroz e bate, e grãos. E com tudo ysto, não ha maneyra para em sequar limguoas da Imdia. Parece quadrar na gemte desta terra ho que diz Seneca, fallamdo dos malldyzentes, que ha hy muitos ho- mens que perderão ha comdição de homens e tomarão ha comdição dos cães, cujo custume he a ladrar, asy aos que pasão de larguo, como aos que os hameação com ho pao, e ysto não pello mall que lhe fazem, senão pelo mao custume que tem de ladrar. Ha hy jemte nesta terra de tão mao jaziguo e tão pesyma imclinação, que de graça folgão de dizer mall e espalhar mas novas e numqua estão senão es (sic) contradizendo ao bem. E porem ja alguns comfesão que Guoa não tem nece- sydade do Idalcão, nem das terras firmes. E, se ho pam e pequeno e hay falta de vaquas, que a culpa he dos que regem a cidade que, com nome de reger, fazem sua fazenda e en- carecem ha terra. Parese que sera necesaryo amenhã, na pre- guação, fazer huma amostação sobre ysto, he também to- carrey (sic) ha vitoria que V. S. ouve em dous lugares que tomou, depois que partio. Novas de mym: fiquo de saúde, Deus seya louvado, e mui prestes pera servir a V. S., e sempre ho encomdo em meus sacrifícios. A canela, de que me fez merce, esta jaa aquy, em poder do feitor. Folgaria que V. S. ha mandase aqui tomar pelo preço que El-Rey ha vemde, sem daquy mays hyr por minha a Ormuz, porque não querya dar materia aos cleriguos que (3) I. é.: empreendem. 606
me arguysem de chatym, e por tãobem estar em necesydade de dinheiro, que fiz algumas dyvidas nestas idas que fuy a vysytar e queria-as pagar. // [459 r.] Eu sou tão comfiado que V. S. e tamanho meu senhor e deseya tamto de me fazer merces que hey por escusado alembrar-lhe minhas necesidades. Somemte lhe alembro os gramdes desejos que tenho de me ir com V. S. pera o reino, e obriguação de paremtes pobres que la tenho, os quaes symto que esperão por minha ida, pera de mim serem ajudados. Do veador da fazemda Rui Gonçalvez tenho novas que fez maravilhas em Cochim, e, antre muitas obras vertuosas que fez, foy pagar mil pardaos de soldo pera a see de Cochym, e ahy lhe deu loguo o dinheiro, que se momtou em vimte e cinquo bares de canela, que V. S. deu pera ha dita see. Ysto e outras cousas desta calidade nimguem as pregoa, nem frade nem cleriguo mo escreveo; somemte ho soube acaso de hum larguo (4), se forão cousas doutra cali- dade e novas he chadisas (sic) e fimgidas em prejuízo das homras dos homens, ja elas amdarão pelos mosteiros, igrejas e bazares. Dona Isabel espera cada dia por ela, e diz que, como cheguar, que ho ha-de mamdar loguo a V. S., cuja vida e estado sempre Deus acresemte com muyta homrra e prazeres do senhor Dom Alvaro. De Guoa, ao primeiro dia de Fevereiro. Orador e servidor de V. S. Pero Fernandes Sardynha. (4) Ou carguo? 6 O 7
84 CARTA DO BISPO D. JOÃO DE ALBUQUERQUE Goa, 10 de Fevereiro de 1547 Documento existente no ANTT: Colecção de S. Lourenço, III, fls. 458-459. A chegada (1) do P." Mestre Pedro (2) a esta cidade foy aos sete do mes de Fevereiro, e receby duas cartas de sua mão, huma do senhor governador e outra sua. Ho sobrees- prito das quais me tornou de morto vivo, e de enfermo são, e de velho moço. Pois que fez o enterin delas não vos poso dizer, nem fallar a consollação que com ellas tive. Fico-vos obrigado a tanta obrigação que ha não quero esprever, por me não chamarem rebolão, como chamão aos castelhanos. Faça V. M. com ho senhor seu pay que vos venhais muito cedo pera qua. Levar tão ma vida tanto tempo não se pode Os padres de São Paullo andão muy desconsolados e hum pouquo acanhados. A rezão he por terem ja trazido capitolos de hum delles da Pescaria, o trelado dos quais eu tenho em meu poder. Ha-de ir ter as mãos do senhor gover- nador. Bem sabe V. M. quam bons homens são, he quam boa vida fazem e com grande onestidade he boom enxempro, e em quanta estyma os tem El-Rey noso senhor he credito, e as lyngoas dos homens desta terra que taes são e mas (3). Por amor de Noso Senhor que com sua tam benigna he magnifica condição tome (3) por elles diamte ho senhor seu (1) No ms. encontra-se chada, esquecimento manifesto. (2) Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha, vigário-geral. (3) Leitura hipotética. 6o8
pay, aos tempos que elle vir boom jaziguo, porque isto me parece serviço de Noso Senhor, ho qual de muita vida he saúde ao senhor seu pay e a V. M. para que va descansar em Portugal com muita honrra e vitorias. De Goa, aos dez dias de Fevereiro de 1547. Orador de V. M. O bispo de Goa. DOC. PADROADO, IX 39 609
85 PRIVILÉGIOS DA CIDADE DE GOA Lisboa, 25 de Fevereiro de 1561 Doe. existente no AHEl: Registo das Cartas Régias, 1529-1611, fls. 34-35. Publicado por Cunha Rivara no APO, 1, págs. 50- -51-52. F1LMUPO: Id., 14, 3-5 e 15, 1. [Mj //Vereadores, procurador, e procuradores dos mesteres da cidade de Goa, eu, el-rey, vos envio muyto saudar. Vi a carta que me escrevestes, em que me dais particularmente conta dos serviços dos moradores dessa cidade, que eu fol- guey muyto de ver, e semdo elles os que são, não posso dei- xar de ter delles muita lembrança para em tudo o que tocar ao bem dessa cidade e for razão folguar de lhe fazer mercê. Quanto ao que me dizeis que os reis meus antecessores, que sancta gloria ajão, franquearão essa cidade dos manti- mentos libertando-a de todo direito, e a provisão que me pedis pera que seja franca dos mantimentos, assy como o foi thegora, eu mamdey ao Comde do Redomdo, que ora envio por meu viso-rey dessas partes que vos ouvisse sobre isto, e que semdo como dizeis, e não avendo alguma razão de meu serviço em contrario, vos concerve em vossa posse, e avemdo-a, suspenda a remda das horracas que dizeis, e me escreva seu parecer para eu nisso prover, polio que ao dito viso-rey podereis requerer sobre isto. Quanto à provisão de que me pedis vos faça merce pera que meus Governadores vos não tome o dinheiro dos orphãos, eu provejo nisso na maneira que lá vereis pollo regimento que pera isso passey. 6 i o
No que toca a provisão para os casados dessa // cidade í34 v0 quamdo estiver de paz poderem ir a Cambaia buscar manti- mentos, podereis requerer ao viso-rey, porque eu lhe mamdey dar disso lembrança, e elle provera como lhe parecer mais meu serviço. Quanto ao que me pedis posto que os moradores dessa cidade arremdem as remdas que forão dos mouros, se não pague delias somente dizimo, por assy ser mamdado por el-rey Dom Manoel, meu bizavô, que sancta gloria aja, quamdo se essa cidade tomou aos mouros, e suas fazemdas se repartirão polios portuguezes; eu mamdey ao viso-rey, que vos ouvisse sobre isso, e vos provesse com justiça, por tanto a elle a podereis requerer, o qual vo-la fara tão inteiramente como sabe que eu queria que se administrasse a todos, e prin- cipalmente a essa cidade polia obrigação de seus serviços, e assy mesmo ao dito viso-rey podeis também requerer sobre o que toca a avaliação das casas, e sobre o dizimo dos fructos das eranças, que os moradores dessa cidade comprão ha gente da terra, e sobre a parede do muro que Aleixo de Sousa mamdou fazer athe o tapume da parede da Ribeira, tapamdo a serventia da porta da Sancta Catarina, porque tudo leva em lembrança pêra o prover como lhe parecer justiça e meu serviço. Quanto ao simdico de que dizeis que essa cidade tem muita necessidade polias causas que apontais, e a licença que me pedis pera o terdes, e lhe poderdes dar ordenado, eu mamdo ao viso // rey que se informe disso, e parecemdo-lhe [35] necessário aver o dito simdico, vos passe em meu nome pro- visão pera o terdes, e que seja lettrado como apontais, e lhe dardes em cada hum ano aquelle ordenado que convosco assentar. Quanto a provisão que pedis para tudo o que se der por acordo do povo e dos officiais da mesa com assento do por- que e para que se deu, com mamdado dos ditos officiais da 6 i i
mesma seja levado em conta ao thesoureiro dessa cidade, ao dito viso-rey podereis requerer sobre isso, porque eu lhe mamdey que o provesse como lhe parecer mais meu serviço. Quanto as terças das remdas da cidade que o meu pro- curador requere, e ao que me pedis vos faça delias mercê pêra concerto de muros, pontes e fontes que fazeis, eu ey por bem e mamdo ao viso-rey que as ditas terças se desempe- nhão nas ditas cousas por sua ordem cumunicamdo primeiro comvosco, nas mais cousas sobre que me escreveis therei lembrança de prover, e agradeço vos muyto as que me fa- zeis. Ao viso-rey encomemdey como sempre faço a todos meus governadores o particular cuidado dos moradores dessa cidade pera que em tudo o que for razão folgue de os favo- recer e honrrar como elles merecem, o que tenho por certo que elle fara, porque entemde o contentamento que disso receberey. — Escripta em Lisboa aos 25 de Fevereiro. 135 r.] George Ferreira a fez // de 1561. — Rainha (1). A qual carta eu, Afonso Monteiro, escrivão da camara desta cidade de Goa, tresladey da propria e concertey este treslado com o offeçial asinado aquy comigo, em Goa, oje 26 de Julho de 1595. Affonso Monteiro (2) (1) O que se segue não se encontra no APO. (2) À esquerda desta há outra assinatura que não pudemos decifrar. I 2
86 ISENÇÃO DO PAGAMENTO DE DÍZIMOS, POR DEZ ANOS, CONCEDIDA AOS NOVOS CONVERTIDOS Lisboa, 4 de Março de 1561 Documento existente no AHEl: Livro do Pai dos Christãos, fl. 30, e transcrito por Cunha Rivara no seu APO, V, N." 372, págs. 472-473. Eu, el-rey, faço saber aos que este alvara virem que eu sou informado que muitos gentios das partes da índia deixão de se converter a nossa santa fee por recearem pagar dízimos das novidades de suas fazendas e lavouras, e que os que são feitos christãos achão muito pezado este encargo, e o não podem bem comprir, pelo que, querendo nisso prover, e pera que não deixe por esse respeito de se efectuar obra de que Nosso Senhor tanto será servido, hey por bem e me praz que todos os christãos das ditas partes da India, que forão gentios ou mouros, ou os que daqui em diante se converte- rem a nossa santa fee, não paguem dízimos das novidades de suas fazendas e lavouras por tempo de dez annos, que se começarão da feitura deste meu alvará em diante. Notefico-o assy ao Conde do Redondo, do meu conselho, que ora envio por meu viso-rey ás ditas partes, e aos vedores de minha fazenda delias, e lhes mando que este meu alvará fação durante o dito tempo muy inteiramente cumprir e guardar, o qual quero que valha e tenha força e vigor como carta assinada por mim e passada por minha chancelaria, posto que este por ella não seja passado sem embargo da Ordenação do 2.° livro em contrario. Pantalião Rebello o fez em Lisboa a 4 de Março de 1561. E do teor deste se fez outro pera hir por duas vias: não haverá effeito mais que hum delles. — Rainha. 6 ' 3
Postilla Ey por bem que os dízimos conteúdos no alvará atraz escrito, por que mandei que os christãos das partes da índia não pagassem dízimos de suas fazendas e lavouras, comecem do tempo que em cada huma das cidades ou forta- lezas das ditas partes se publicar o dito alvará em diante, posto que nelle diga que os dez annos se começarão da feitura delle em diante, e que ao treslado do dito alvará em publica forma se dê tanta fé como ao proprio. E esta postilla hey por bem que valha, posto que não seja passada pela chancelaria sem embargo da ordenação em contrario. Pan- talião Rebello a fez em Lisboa a 5 de Julho de 1561.— Rainha. 614
87 RESTITUIÇÃO DAS TERRAS ANTES TOMADAS AOS GENTIOS Goa, 3 de Dezembro de 1561 Documento existente no AHEl e por Cunha Rivara transcrito, de códice não identificado, no seu APO, V, N.° 391, págs. 488-490. O Conde V. Rey da índia &c. Faço saber aos que este virem que avendo eu respeito a quando aqui cheguei achar esta ilha de Goa, e as outras ilhas a ella anexas muito despovoadas, e as aldeas perdidas, e as várzeas alagadas, e o rio entupir-se, e os gentios nella moradores serem ausentes, e as não quererem vir povoar, por suas propriedades e fazendas serem dadas a outras pessoas por virtude de huma provisão, que passou o viso-rey Dom Constantino, per que mendou que todos os gentios que erão hidos fora desta terra, por causa de dizerem que fazião christãos per força, e que se não viessem dentro em certo tempo, perdessem suas fa- zendas; e por eu ver o muito perjuizo que se disso seguia ao serviço de el-Rey meu senhor, e ao bem desta terra; com parecer do arcebispo e de letrados, assi juristas como theo- logos com que o pratiquei, e por assentarem ser a lei que nisto fizera o dito Dom Constantino muito rigorosa, e que se não devia guardar; ei por bem e mando a todo o infiel gentio que se tornar lhe entreguem sua fazenda, e a tenha, e pessua como dantes fazia, e as pessoas que a tiverem, e a que for dada lha deixarão logo livre e desembargada, e se a tiverem comprada por alguns soldos, lhe serão tornados a seus títulos, sendo pago os septimos na chancelaria, lhe serão também tornados so pelo traslado desta provisão, que 6 / 5
se registará na dita chancellaria, e isto com tanto que os ditos gentios se tornem dentro en seis mezes primeiros seguintes, e as pessoas que assi tiverem as ditas fezendas, e a que for feito doação delias as deixarão livremente, como dito hé, e se tiverem feito algumas benfeitorias que sejão mais que as novidades que receberão, se hirão ao ouvidor geral, o qual verbalmente, sabida a verdade, o determinará como lhe parecer justiça. Por tanto o notefico assi ao vedor da fazenda, e ao dito ouvidor geral, e a todas as mais justiças e officiaes a que pertencer, e lhes mando que assi o cumprão e guardem sem duvida nem embargo algum. Ruy Martins o fez em Goa a 3 de Dezembro de 1561. — Conde Viso Rey (a) (a) Nota de Cunha Rivara: Pareceo-nos que vinham aqui a pêllo outros dous documentos sobre a deserção dos gentios, e desamparo das terras de Salcete pelo mesmo motivo da conversão violenta: e são os seguintes: Assento que está no princípio do Tombo das terras dos Pagodes de Salcete fetio em 1567 Lembre que se não arrendarão as varzeas de vanganas das aldeas con- teudas neste tombo deste anno presente de 69 por respeito de a terra andar toda alevantada, e os gancarcs fogidos, e não aver quem as quizesse arrendar, indo lá por tres vezes pêra isso Ambrósio de Sousa tesoureiro do rendi- mento das fazendas dos paguodes comigo escrivão, onde estivemos até que se passou a monsão em que se avião darrendar as ditas varzeas de vanganas com mandar deytar pregões polas ditas aldeias, ele mesmo em pessoa comiguo escrivão e o iingoa Francisco Dias as corri todas sem nunqua apa- reser nenhum gancar nem escrivão pera se arrendarem, salvo a aldeya de Qúely, e a aldeya de Samquoale e Murmugão, e a aldeya de Ysorsy, e a aldeyaa Quellsosy, que estas todas se arrendarão como se verá no livro do arrendamento deste anno; e assy se não arrendou as várzeas da aldeya de Quattaly de huma novidade nem doutra poios respeitos acima, e estar despovoada e chea d'agua salgada; e bem assy da aldeya de Calata que também se nom arrendou por os gancares andarem fogidos por dívidas que 6 l 6
■ devem. E por asy passar na verdade eu escrivão escrevi aqui esta declaração em Nagoá aos 20 de Dezembro de 1569 annos — Pero Cornejo — E o Tombo Geral feito pelo Provedor mór dos contos Francisco Paes no anno de 1595 diz a foi. 54. Estas terras de Salcete são muito ferteles, e tidas pelas melhores de todo o Concão assy nos rendimentos que delias se colhe pera a fazenda de Sua Magestade dos direitos e foros, que os gancares e possuidores pagão cada anno, e das mais rendas que nellas há, como no rendimento das novi- dades das mesmas terras, que ficão em benefício e proveito dos ditos gan- cares e moradores; e sempre forão povoadas de muita gente e da milhor que há em todo o Concão pela abundância e bons ares delias, e ora estão povoadas de pouca gente, os mais delles christãos que se converterão por respeito dos mais gentios moradores se não quererem converter, e se pas- sarem a viver nas terras do Idalcão, e por este respeito não estão estas terras com aquella abundancia e prosperidade que dantes avia, mas antes estão quebradas por falta dos ditos moradores, e de não aver quem as prante e grangee do danificamento que ouve, assi por ficarem sem dono, como pelos grandes danos que receberão nas guerras que fez o Idalcão, e em outros alevantamentos que ouve nas ditas terras, por não sofrerem serem quebrados seus pagodes, e tratarse com elles per muitas vias de se converterem a nossa santa fé catholica, mas assy danificadas e quebradas como estão, os gancares e moradores delias que ora as possuem, as grangeão como podem, e pagão seus direitos e foros por em cheo á fazenda de Sua Magestade sem quebra alguma; e tem-se por certo que sendo povoadas tornarão a sua antiga prosperidade, que permitta Deos seja com os moradores gentios se conver- terem, para assy ficarem pacíficas e prosperas, como está a ilha de Goa, e o mais do povo dos moradores de Bardez. 6 i 7
'
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO Observação — Os números entre parêntese indicam as notas ao fundo das páginas, expressas estas pelos outros algarismos. A Abel— personagem bíblica — 422, 423. Abias — personagem bíblica — 604. Abigail — personagem bíblica — 474, 475. Abramaa — o mesmo que Bra- ma, deus hindu — 494. Abrolhos — baixos ao longo da costa brasileira—178, 179, 186, 209, 323, 393. Achem—434, 539, 540. Acidentes registados durante as viagens da índia—11, 68, 69, 72, 191, 192, 193, 206, 207, 323, 324, 325. Adão—primeiro homem—422. Advento — 278. Afonso (Ir. Pêro ou Pedro) — —jesuíta encarregado do hos- pital da gente da terra, em Goa —108, 248, 375, 530. África—Al, 76, 174, 195, 306, 307, 311, 340, 550. Agaçaim — em Baçaim — 565, 571, 576. Água benta — devoção à — 118, 147, 495. Água de Lupe — ponte em Co- chim — 268. Aires (João)—português fale- cido em viagem na nau S. Fi- lipe— 202, 206, 391. Albuquerque (D. João de) — bispo de Goa—605,608,609. Alcáçova (Ir. Pêro de)—je- suíta em Baçaim — 365. Alcaraz (P.' Mestre) — jesuíta em Salamanca — 440, 455, 474, 509. Aldeamento cristão em Baçaim, na Trindade —132, 504. Alemanha — 305. Alexandre (Padre)—jesuíta na Europa — 455, 509. Alfândega de Goa — 271, 565. 621
Algarves— 47, 76, 174, 195, 311, 340. Alimentação dos doentes, a bordo das naus da índia — 16, 62, 68, 73,185, 207, 208, 334, 335, 446, 447, 535. Aljôfar — pescaria do — 143, 149. Almeida (Ir. Luís de) —missio- nário jesuíta no Japão)—471. Almeida (P.' Pêro de)—mis- sionário jesuíta em Goa — 527. Almeirim — 435, 436. Alpes—164. Álvares (P.' Fernão)—missio- nário jesuíta nas Molucas — 472. Álvares (Ir. Gonçalo) — jesuíta em Coimbra — 37. Álvares (Ir. Gonçalo)—missio- nário jesuíta em Coulão — 474. Álvares (P.e Manuel)—missio- nário jesuíta em Cochim — 255, 275, 289, 293. Álvares (Simão) —boticário em Chaul —602. Amboino —121, 472. Amizades, feitas a bordo pelos missionários jesuítas—62, 63, 393, 448. Amizades, promovidas na índia pelos missionários jesuítas — 20, 102, 106, 107, 108, 148, 160, 238, 278, 282, 295-297, 337, 382, 383, 418, 429, 481, 482, 496, 501, 502. Amjurula — lugar do reino do Idalcão — 604. Angediva — 433. Animais africanos e orientais — descrição de alguns —167- -170. Angola — 550. Apostolado na Costa da Pesca- ria— 145-147,402,403,404, 429, 430. Arábia — 47, 76,172, 174,192, 195, 311, 340. Araújo (Ir. Gaspar de)—mis- sionário jesuíta em Baçaim — 480. Araújo—missionário jesuíta nas Molucas — 472. Arboleda (P.* Pêro de)—mis- sionário jesuíta em Goa — 132, 133, 357, 358; depois enviado a S. Tomé — 364, 474, 511. Argudo (P.c Pêro)—missioná- rio jesuíta em Goa — 440, 512. Vid. Martins (P.e Pêro). Ariaz (João) — Vid. Aires (João). Arte malabar — gramática da língua malabar —151, 262. Árvores africanas e orientais — descrição de algumas —163- -167, 171. Asserim — /ortaleza de — 579- Astrologia e Esfera — duas ciên- cias necessárias aos missioná- rios da índia — 40. Ataíde (Ir. Estêvão Pêro de) — missionário jesuíta enviado a Batecalá — 366. Autos de Fé — em Goa —105, 239, 361, 519. Avelaneda (P.' Dr.)—jesuíta na Europa — 454. 6 2 2
Ave-marias — devoção das — 66. B Baçaim — 89, 90, 123, 125, 132, 134, 194, 216, 221, 255, 329, 364, 365, 379, 380, 384, 385, 387, 391, 397, 412, 413, 414, 473, 478, 506, 507, 515, 521, 524, 535, 541, 575, 577. Bacham — ilha nas Molucas (Batjart) —472. Bata — no Brasil—179. Balagate — 476. Baltasar (P.')—missionário je- suíta em Goa —135,138; de- pois enviado a Malaca, arri- bando a Cochim — 289. Banda — ilha nos Mares do Sul — 576. Banganim — aldeia em Goa — 558. Baptismos, em Baçaim — 497. — em Coulão—29, 279, 281. — em Damão — 501. — de escravos —17, 89. — em Goa —111, 112, 249, 272, 343, 344, 346, 375, 523, 529. — na Pescaria — 402. — em Travancor — 30. — na Trindade (Baçaim) — 506. Baptismos solenes —129, 130, 250-253, 262, 369, 370, 371, 373, 487, 488, 491, 492, 493, 523, 524, 527. Baptista — Irmão da St.* Casa da Misericórdia de Chaul — 603. Baptista (P.e João) — jesuíta italiano enviado para o Ja- pão—121. Barcelor — fortaleza — 588. Bardez — 77, 373, 555, 573, 617. Barém — ilha —172. Barreto (Francisco) — governar dor da índia — 66, 413, 578. Barreto (D. João Nunes)—pa- triarca da Abissínia —102, 180; sua morte—135, 136; vida e morte — 303, 310. Barros (P.r Manuel de)—mis- sionário jesuíta na Costa da Pescaria — 256, 262, 401, 474. Bartolomeu (D.)—príncipe de Omura, no Japão — 453. Batecalá — 366, 464. Bati — lugar da freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe, em Goa — 241. Beira (P.e João da) —missioná- rio jesuíta nas Molucas — 355. Belchior (P.' Mestre)—missio- nário jesuíta reitor do colé- gio de Cochim — 22, 157, 163, 170, 288, 289, 302, 303, 310, 329, 406, 474; vice-pro- vincial da índia — 516. N. B. O P." Mestre Belchior era ir- mão do Patriarca D. João Nunes Barreto. Belez — reino ao pé de Ormuz — 551. Belo (P.' António) — jesuíta or- denado em Goa — 356, 517. Beltrão (P.e Miguel)—missio- nário jesuíta em Cochim — 623
57, 71, 289- O mesmo que P.' Miguel de Jesus. Bendanha (Ir. Luís de)—mis- sionário jesuíta em Baçaim — 473. Benestarim — 557, 564, 565, 571. Bengala—171, 539. Bermudes (P.e Diogo)—missio- nário dominicano em Goa — 154, 155, 289. Bernardo — cristão japonês — 471. Bbugio (P.' Alexandre de) — missionário jesuíta destinado ao Japão — 440. Bispado de Cochim — 591. Bispado de Malaca — 596. Bispo caldeu —155, 300. Bispo de Malaca — 595. Borges (Francisco) — irmão da St.1 Casa da Misericórdia de Chaul — 603. Bosque (Dr. Dimas) — médico do vice-rei D. Constantino de Bragança — 455, 457, 463 (15). Braga (Ir. Jácome de) —missio- nário jesuíta em Rachol — 199, 216, 363. Bragança (D. Constantino de) — vice-rei da índia —133, 330, 411,433, 457, 473, 615. Brama — deus hindu — 494, 532. Brâmanes —196,197, 226, 243, 244, 250, 251, 283, 284, 285, 361, 362, 365, 374,425,430, 435, 452, 459, 464, 465, 488, 489, 491, 492. 6 2 q Brâmanes — conversão de — 115, 116, 226, 527, 530. Brandão (P.e Aires)—missio- nário jesuíta em Damão — 133; morto em Cochim — 254. Brasil—178, 179, 185, 186, 209, 322, 393, 394, 420, 550. Bravo (P.e João)—missionário jesuíta, mestre de noviços em Goa —360, 368. Brigas, a bordo — 83, 204, 209, 210, 336, 337. Brigas, entre os Portugueses na índia—107, 108, 160, 238, 408, 419, 482. Brito (Manuel) — membro da confraria de Nossa Senhora do Rosário, de Coulão — 27. Buenaventura (P.' Pêro)—mis- sionário jesuíta destinado ao Japão — 440. Bustamonte (Padre) — jesuíta na Europa — 454. C Cabo da Boa Esperança — 9, 11, 39, 58, 59, 67, 69, 70, 85, 87, 163,169, 179,189,190,191, 202,210,211,324, 332, 333, 394, 395, 441, 442, 443, 446, 538. Cabo das Agulhas — 70, 179, 190, 324. Cabo das Correntes—163. Cabo de Comorim — 23, 282, 355, 398, 412, 426, 429, 434, 456, 473, 541. Cabo de Santo Agostinho — 58, 184, 214, 323.
Cabo-Verde —183, 213. Cabral (P.° Francisco) — mis- sionário jesuíta em Baçaim — 89, 125, 134, 221, 228, 364, 380, 387, 473, 479, 481, 482, 502. Cabral (P.' João) —missionário jesuíta no Japão — 254, 471. Cabral (P.' Manuel) — jesuíta em viagem para a índia — 180,184,188, 189, 213, 216; enviado para Ormuz—194, 255, 365, 395, 473, 500. Cabral (Simão) —comerciante de Salcete — 247. Cabreira (P.e André).— missio- nário jesuíta em viagem para a índia —80, 199, 206, 209, 215, 216; missionário em Ba- çaim— 194, 227, 255, 365, 386, 391, 397, 474. Cafraria—14, 37, 122, 212, 254, 434. Calata — aldeia em Goa — 616 (A). Caldeia — 299- Caldeira (Ir. Jorge)—missio- nário jesuíta em Goa — 354, 376, 508, 533. Cale-Coulão — 593. Calecut — 464. Calepor—aldeia em Goa—558. Calmarias, durante as viagens — 7, 12, 58, 59, 66, 67, 84, 85, 179, 184, 185,188, 189, 193, 202, 205, 212, 215, 324, 332, 391, 440. Câmara de Baçaim — 227. Câmara de Cochim — 268, 298. Câmara de Goa — 250. Cambaia—133, 171, 543, 605, 611. Cambaia—golfo de —171. Caminha (Rui Gonçalves de) — vedor da fazenda na índia — 607. Cananor — 410, 464, 538, 589. Canárias — 65, 183, 446. Canarins — 298, 318. Canto-Chão — 387, 483, 484. Canto de órgão — 8, 15, 126, 209, 300, 387, 483, 484. Car... (António)—jesuíta na Europa — 477. Caranja — 577. Car ate (P.c Alonso de)—reitor do colégio jesuíta de Córdova — 439. Carbolim — tanadaria de, em Goa —565. Cárcere da Inquisição—em Goa — 244. Cardoso (António)—membro da confraria de Nossa Se- nhora do Rosário, de Coudão — 27. Careás — cristãos na Pescaria — 144, 404. Carneiro (D. Belchior) — um dos coadjutores do patriarca da Abissínia, D. João Nunes Barreto—102,118,119,135, 252, 309, 356, 369, 371, 474, 515, 516. Carvalho — jesuíta em Portugal — 349. Carvalho (Tristão)—português em Cochim — 291. Casa das Catecúmenas — em Goa —117, 249, 372, 466, 467, 527. 6 25 DOC. PADROADO, IX 40
Casa das Catecúmenas — em Taná —502, 503. Casa dos Catecúmenos — em Goa—117, 248, 249, 371, 372, 527. Casa da índia — 319. Casa da Pólvora — em Goa — 565. Casa de S. Tomé — na costa do Coromandel — 270. Casos de Consciência — no colé- gio de S. Paulo, em Goa — 106, 216, 238. Castela —A33, 508. Castro (D. Álvaro de)—filho de D. João de Castro — 293, 607. Castro (D. João de)—governa- dor da índia — 601, 604. Castro (D. Jorge de)—capitão de Cochim — 269. Castro (D. Manuel)—filho de D. Álvaro de Castro — 293. Castro (Martim Afonso de Melo de) — capitão duma nau — 534, 535, 543. Catarina (D.)—rainha de Por- tugal— 42. Catecismo — a bordo—13, 17, 66, 184, 200, 201, 205, 321, 336. Catecismo—cantado—35, 118, 218, 229, 230, 235, 236, 242, 343, 517, 528. Catecismo — em Baçaim — 128, 227, 387, 488, 489, 491, 495, 499, 500. Catecismo — em Chorão — 35. Catecismo—em Cochim —158, 294, 417, 421. Catecismo — em Coulão — 20, 21, 22, 279, 428. Catecismo — em Damão—133. Catecismo — em Goa — 100, 105, 106, 117, 118, 218, 229, 235, 236, 240, 241, 242, 243, 244, 246, 247, 342, 343, 344, 346, 366, 372, 510, 522, 523, 528, 531. Catecismo — em Moçambique — 334. Catecismo — na Costa da Pesca- ria—152, 259, 260, 264, 277, 279. Catecismo — na Trindade (Ba- çaim)-^504, 505. Catecismo — por intérprete — 89. Catecismo — trazido de Portu- gal pelo P.e Pêro Parra — 522. Ceilão —146, 168, 426, 596. Cerimónias gentílicas — 490, 493. César — imperador romano — 536. Chapelom — lugar no reino do Idalcão — 604. Chaul — A 14, 574, 601. China — 37, 40, 98, 161, 168, 172, 249, 259, 277, 433, 434, 435,454, 471,515,516, 539. Chorão — ilha em Goa—118, 244, 245, 309, 354, 451, 509, 537. Cícero — 452. Cochim — 3, 18, 22, 33, 35, 38, 39, 40, 123, 149, 155, 156, 163, 173, 254, 255, 256, 258, 263, 267, 268, 269, 271, 277, 288, 289, 293, 297, 301, 303, 626
364, 400, 406, 409, 412, 416, 421, 423, 425, 427, 432, 434, 455, 464, 465, 466, 474, 509, 515, 535, 552, 590, 607. Coelho (Francisco) —jesuíta na Europa — 477. Coelho (P.c Gaspar) — missio- nário jesuíta em Socotorá — 53, 55, 121, 469. Coimbra — 33,65,97, 304, 391. Colaço (P.e Pêro) — jesuíta em Rachol, Goa — 28, 30, 361, 369. Colégio dominicano, em Goa — suas rendas — 314, 315. Colégio jesuíta, da Madre de Deus em Cochim —18, 38, 40, 123, 288, 289, 291, 292, 294, 298, 302, 309, 310, 412, 423, 424, 434; obras no mes- mo—KA, 291. Colégio jesuíta, de Jesus, em Baçaim—134, 221,224,228, 294, 380, 382, 384, 385, 387, 412, 479, 480, 483,486,495, 497, 498, 499, 507; obras no mesmo — 386, 387. Colégio jesuíta, em Coimbra — 33, 38, 304, 305. Colégio jesuíta, em Córdova — 439. Colégio jesuíta, de Évora—79, 182, 217. Colégio jesuíta, em Salamanca — 467. Colégio jesuíta, do Salvador, em Coulão—19, 20, 23, 26, 28, 31, 32, 123, 276, 278, 287. Colégio jesuíta, de St.° Antão, em Lisboa — 464, 467, 513. Colégio jesuíta, de S. Paulo, em Goa —17, 64, 74, 92, 94, 101, 102, 104, 105, 106, 108, 109, 111, 113, 115, 116, 117, 118, 122, 125, 138, 156, 157, 162, 193, 216, 217, 231, 232, 234, 237, 239, 242, 244, 248, 249, 254, 255, 294, 307, 309, 331, 338, 345, 347, 368, 369- -376,412,433,449,450,466, 471, 474, 477, 520, 528, 552, 608; obras no mesmo —101, 102, 234, 368, 371, 533; suas rendas — 314, 315, 412. Colégio jesuíta, em Taná — 132, 385, 502. Colégio jesuíta, na Trindade (Baçaim) — 505. Comorim — costa do Cabo de — 277, 279, 281, 282, 284, 285, 286, 474. O mesmo que Costa da Pescaria. Comoro — ilha—192, 328. Companhia de Jesus — 22, 26, 35, 36, 42, 90, 91-97, 102, 106, 107-111, 118, 122-125, 127,128, 132, 133, 143, 150- -153, 156, 157, 159, 160-162, 175-178, 180, 181, 192, 196, 205, 215, 216, 221, 222, 227, 228, 231, 232, 233, 237, 250, 254, 255, 262, 263, 264, 278, 279, 283, 288, 291, 292, 293, 295, 296, 297, 298, 301-303, 305-307, 311, 365, 382, 395, 396, 412, 417, 418, 420, 430, 449, 450, 451, 478-481, 483, 497, 499, 500, 502, 507, 508. Comunhões —157, 159, 222, 242, 249, 294, 358, 359, 363, 395, 484, 492, 520. 6 2 y
Comunhões, de presos, em Co- chim —18. Concão — 617. Concílio de Trento — 416. Conde de Ficalho — 453 (15). Conde de Redondo (D. Fran- cisco Coutinho)—vice-rei da índia —42, 45, 78, 174, 177, 195, 198, 329, 388 (1), 554, 610, 613. Conferências espirituais — entre os cristãos de Manar — 257, 258. Conferências espirituais — para o clero da Costa da Pescaria —144, 398. Confirmação — Sacramento da — 356, 357. Confissões — a bordo —12, 13, 61, 73, 82, 83, 85, 184, 201, 209. Confissões — em Baçaim—127, 128, 222, 381, 382, 483, 484, 492. Confissões — em Coulão — 20, 21, 28. Confissões — em Damão —133. Confissões — em Goa — 234, 237, 238. Confissões — na Pescaria—282. Confraria de Nossa Senhora do Rosário, em Coulão — 23,25- -27, 31, 280, 295. Confrarias — 49. Constantino Magno — 454. Contas — ou terços — 17. Convento dominicano de Goa — suas rendas — 114. Convento franciscano de Ba- çaim — 222; suas rendas — 413. Convento franciscano em Cou- lão— 428, 429. Conversão dos infiéis — princi- pal intento de el-rei — 26,41, 42, 435. Conversões em Baçaim —130, 132, 224, 225, 227, 383, 385, 386, 483, 488, 489, 490, 491, 504, 506. — em Cochim— 421, 422. — em Coulão — 279. — em Goa—111, 112, 114, 117, 241, 242, 244, 247, 248, 249, 251, 252, 314, 315, 364, 369, 370, 372, 373, 374, 375, 410, 451, 522, 524, 526, 528, 529, 530, 531, 532; de alguns chineses, em Goa — 249. — no Japão — 453. — nas Molucas — 452. — na Pescaria — 401, 402. Coromandel — costa do —169, 270. Cordeiro (Alexandre) — mem- bro da confraria de Nossa Senhora do Rosário, de Cou- lão — 27. Cordeiro (Irmão) — jesuíta em viagem para a índia — 321, 327, 330. Córdova — 439. Cornejo (Pêro) —português em Goa —617. Corpo Santo — fogo de Santel- mo, observado a bordo — 322. Correia (Ir. Amador)—missio- nário jesuíta em Cochim — 288, 302, 432, 434. 628
Correia (P.' Paio, ou Pablo, ou Pêro)—missionário em Co- chim —156, 162, 277, 279, 289, 428, 474. Cortez (Luís)—Irmão da St.* Casa da Misericórdia deChaul — 603. Costa (Ir. André da)—missio- nário jesuíta em Cochim — 474. Costa (lr. António da)—mis- sionário jesuíta em Cochim — 248, 289. Costa (P.' Baltasar da)—mis- sionário jesuíta em Goa — 91, 124; enviado ao Japão — 254, 471. Costa (P.e Cristóvão da) —mis- sionário jesuíta em Malaca — AIA. Costa (P.e Manuel da) — jesuíta em Portugal — 229. Coulão —19, 20, 24, 25, 27, 28, 29, 32, 123, 264, 276, 279, 282, 285, 289, 377, 378, 428, 431, 474, 515, 592, 593. Çouro (Ir. Manuel do)—mis- sionário jesuíta em Cochim — 474 — Vid. Souro. Coutinho (D. Francisco) — Conde Redondo, vice-rei da Índia —48, 78, 177, 198, 388. Coutinho (Ir. António) — mis- sionário jesuíta em Coulão — 277, 474. Cranganor — 299, 301, 591. Cristãos da Costa da Pescaria — 23, 24, 256, 259, 261, 282, 399, 400, 401, 429. Cristãos de S. Tomé — 53, 54, 155, 298, 421; prestam obe- diência à Igreja Romana nas mãos do Bispo de Cochim — 301; afastam-se novamente da mesma obediência — 301. Cruz — devoção à—119, 120, 246, 286, 374, 408, 431, 484, 485, 495, 496. Cruz (lr. Pêro da) —jesuíta em viagem de Lisboa para a Ín- dia—180, 182, 194, 395; ocupado em Goa — 216; en- viado para Malaca — 474. Cucunaique — letrado hindu em Baçaim — 489. Cunha (António da)—escrivão em Goa — 545, 547. Cunha (Clemente da) — conta- dor da Matrícula Geral, em Goa —574. Cunha (Henrique da) — hindu convertido — 489, 494. Cunha (Nuno da)—governa- dor da Índia — 539. Cunha (P.e Diogo da)—mis- sionário jesuíta em Ormuz — 472. Cunha (P.e Fernão da)—mis- sionário jesuíta em Baçaim— 57, 72, 79, 90, 126, 223, 379, 387, 484. Custódio dos franciscanos—176, 177, 196. D Dádivas para o colégio e igreja de Baçaim — 384, 412, 413, 497, 498, 499. Damão —126, 132, 365, 379, 412, 414, 473, 478, 499, 500, 629
502, 541, 579; cerco da ci- dade— 501. Damião (Irmão) — jesuíta no Japão — 471. Danu — tanadaria em Damão 581. Daugim— 565, 571. David — rei—405, 471, 475, 604. Deça (D. Duarte) — capitão português nas Molucas—155. Deuses hindus — 494. Dias (P.e Baltasar) — missioná- rio jesuíta em Goa—104, 110; enviado a Malaca—254, 289, 474. Dias (P.e Belchior) — missioná- rio jesuíta em Goa — 229, 342, 345; em Baçaim — 473, 478, 479, 507. Dias (Francisco) — intérprete em Goa — 616(A). Dias (Francisco) — Irmão da St.a Casa da Misericórdia de Chaul — 603. Diniz (lr. Estêvão)—missioná- rio jesuíta em Goa — 4, 13, 33, 35,98, 346; Padre — 474. Diniz (lr. Paulo)-—missionário jesuíta em Cochim — 289. Dio — 315, 541, 581, 604. Dionísio (P.' Francisco) — mis- sionário jesuíta em Goa — 178, 181, 183, 184, 187, 188, 194, 215, 216, 347, 363, 367, 395, 518. Disciplinantes — 6, 96, 127, 183, 187, 203, 239, 291, 295, 355, 356, 358, 381, 417, 484, 512. 6 3 o Disputas com os gentios— 151, 405. Distúrbios em Cochim — 268, 269, 270, 297. Divar — ilha em Goa — 354, 411, 451, 510, 557. Dízimos — seu pagamento—45. Doenças, durante as viagens para a índia—17, 62, 67; apostemas — 203; escorbuto — 62; febres — 89, 188, 201, 202, 203, 210. Doenças na índia — asma — 102, 371, 515; bexigas—118, 280, 281, 282; catarro—232; câmaras — 355; empigem — 423; febres — 55, 96, 232, 364, 380, 441; hidropisia — 510; opilação do baço—503; tísica — 20. Doentes a bordo —16, 17, 61, 63, 68, 69, 72, 73, 81, 180, 184, 185, 188, 192, 207, 208, 209,210,211,213,214, 320, 334, 394, 441, 446, 459, 460, 534. Dominicanos — 99, 103, 110, 137, 154, 155, 158, 175, 196, 250, 251, 370, 484, 510; em Cochim—421; em Goa — 510; impedidos de construí- rem um convento em Baçaim — 414. Durão (lr. Francisco) — missio- nário jesuíta na Costa da Pescaria — 143, 145, 256, 262, 400, 474.
E Egito —152, 265, 266, 471. Equador — sua passagem — 7, 57, 66, 84, 184, 202, 213, 214, 215, 322, 328, 332, 391, 393. Equusquiça (P.e Martim)—mis- sionário jesuíta em Damão — 503. Escola jesuíta — em Baçaim — 126, 130, 227, 255, 386, 479, 480, 483, 499; em Cochim — 159, 293, 418, 422; em Coulão — 280, 429; em Goa — 100, 101, 217, 219, 235, 236, 360, 366, 367, 450, 517, 518. Escravos —17, 31,74,106,152, 224, 236, 243, 279, 298, 328, 364, 365, 366, 372, 383, 500, 514, 522. Esmolas — 215, 274, 285, 291, 301, 302, 361, 382, 392, 394, 497, 498. Espanha — 467. Estêvão — membro da câmara de Cochim, cujo apelido não pudemos decifrar — 271. Estreito de Meca—115, 121, 193, 357, 513, 542. Estudos jesuítas — em Baçaim — 255, 386; em Cochim — 159,160, 293; em Goa — 97, 219, 234, 346, 360, 366, 367, 368, 513, 518. Etiópia — 47, 76, 174, 195, 311, 340. Europa — 91,98,109, 288, 396, 416, 445. Évora — 79, 98. Excomunhões — 45, 61. Exemplo heróico de alguns cris- tãos— 426, 427. Exéquias solenes pelo patriarca D. João Nunes Barreio—138. Expulsão das terras de el-rei de quantos impedissem a con- versão — 435. Extrema-Unção — Sacramento — 135, 445, 447. F Fabro (P.r Mestre) — jesuíta em Portugal — 304, 305, 306. Falecimentos a bordo—68, 72, 73, 211, 216, 335, 391, 394. Faraó — 471. Faro (Catarina de) — mulher abexim, encarregada da Casa das Catecúmenas, em Goa — 114,115,117, 243, 244, 249, 372, 527. Fernandes (P.e André)—com- panheiro do P.* D. Gonçalo da Silveira em Moçambique — 72, 88, 89, 122, 469; mis- sionário no Sul da índia, rei- tor do colégio de Coulão — 163, 173, 276, 277, 278, 279, 281, 285, 287, 377, 378, 428, 431; enviado à China — 471, 515. Fernandes (António)—contador em Manorá — 578. Fernandes (Ir. António) — mis- sionário jesuíta em Goa e Cochim — 289, 474. Fernandes (P.' António) —mis- sionário jesuíta nas Molucas — 65, 121, 472. 6 3 1
Fernandes (Ir. Bento) —missio- nário jesuíta em Goa — 313. Fernandes (Cristóvão) — mem- bro da confraria de Nossa Senhora do Rosário, em Cou- lão —27. Fernandes (Ir. Diogo)—missio- nário jesuíta em Baçaim — 255, 473, 480. Fernandes (P.c Diogo)— mis- sionário jesuíta na Costa da Pescaria e Cochim — 289, 400, 401, 408. Fernandes (Ir. Gonçalo) — mis- sionário jesuíta em Cochim —143, 289, 474. Fernandes (Ir. João)—missio- nário jesuíta no Japão — 453 471. Fernandes (João) — membro da confraria de Nossa Senhora do Rosário, em Coúlão — 27. Fernandes (João) — Irmão da St.a Casa da Misericórdia de Chaul — 603. Fernandes (Manuel) — membro da confraria de Nossa Se- nhora do Rosário, em Cou- lão — 27. Fernandes (P.' Pêro)—missio- nário jesuíta em Goa — 317, 331; enviado ao Estreito de Meca — 513. Antes tinha o nome de Mercado. Fernandes (Roberto) — edifica- dor ou arquitecto do con- vento de S. Domingos, em Goa —155. Fernandes (Rui) — feitor em Chaul — 602. Fernandes (Sebastião) — rr.em- 6 3 2 bro da confraria de Nossa Senhora do Rosário, em Cou- lão —27. Fernandes (Simão) — funcioná- rio português em Goa — 438, 545. Fernandes (Vicente)—contador da Matrícula Geral, em Goa — 574. Ferreira (Ir. Francisco)—mis- sionário jesuíta em Goa — 96. Ferreira (Jorge)—escrivão em Lisboa — 612. Figueiredo (P.e Belchior de) — missionário jesuíta no Japão — 254, 471. Firando—principado no Japão Flandres — 368. Fonseca (Bernardo da)—por- tuguês proposto para capitão de Coulão — 26, 271. Fonseca (P.e Pêro da) — jesuíta em Portugal —163. Framengo (Padre) — nome por que era conhecido um padre chegado de Portugal a Goa — 216. França — 433. Franciscanos — 99, 110, 137, 158, 175, 196, 250, 251, 263, 279, 370, 484, 502, 510; em Baçaim — 413, 414; em Cei- lão—428; em Cochim—421; em Goa — 510. Freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe — em Goa — 241. Freguesia de Nossa Senhora do Rosário — em Goa — 103, 104, 357, 364, 370.
Freguesia de S. Brás — no Passo Seco, em Goa — 242, 342. Freguesia de S. João Evange- lista, em Goa—243. Freguesia de S. Lázaro — em Goa —242. Freguesia de S. Lourenço — em Goa —243. Freire (Ir. Fulgêncio)—missio- nário jesuíta prisioneiro no Cairo —123, 253- Freire (Pê Pêro) — jesuíta em Portugal — 549. Fróis (Pê Luís) — missionário jesuíta no Japão—120, 471. Funerais, a bordo— 17. G Galeano (Gabriel) — contador da fazenda, em Manorá—578. Gama (António) — secretário em Goa —351, 353, 390. Gama (D. Francisco da)—go- vernador da índia — 596. Gancares — 245. Gancares cristãos — 245. Ganges — 457. Garcia da Orta — 463 (15). Gaspar (Pê Frei) — religioso franciscano na índia — 317. Gerais — ventos — 84. Geral da Companhia de Jesus— 253, 256, 307. Goa —17, 20, 25, 35, 41, 43, 44, 46, 47-53, 56, 58, 59, 61, 62, 64, 65, 66, 72, 73, 74, 76, 77, 78, 89, 92, 108, 118, 119, 135, 139,141, 142, 143,146, 150, 154, 156, 168, 170, 175, 176, 177, 178, 182, 192, 193, 194,196,197,198,199, 215, 216, 217, 229, 231, 255, 256, 271, 297, 309, 311, 313, 314, 316, 317, 327, 328, 329, 330, 331, 332, 338, 339, 340, 342, 345, 346, 347, 350, 351, 352, 353, 354, 362, 371, 380, 388, 389, 390, 396, 410, 415, 420, 423, 433, 434, 435, 437, 438, 439,445,448, 451,455,464, 465, 466, 467, 468, 474, 475, 490, 500, 508, 520, 533, 541, 543, 544, 545, 548, 551, 554, 555, 558 559, 560, 563, 564, 565, 566, 567, 571, 572, 582, 606, 607, 608, 609, 610, 612, 615, 616, 617. Goa — barra de — 395. Goa-a-Vêlha — lugar da fregue- sia de Guadalupe, em Goa — 241. Gogolá — alfândega em Dio — 582. Góis (Ir. Estêvão de)—missio- nário jesuíta na Costa da Pes- caria—143, 146, 256, 262, 406,474. Góis (Pê Luís de)—missioná- rio jesuíta enviado à Cafraria e depois mudado para as Mo- lucas—64, 71, 73, 254, 472. Góis (Rodrigo) — jesuíta em Portugal — 477. Gomes (Ir. André)—jesuíta em S. Roque, Lisboa — 425. Gomes (Ir. Manuel)—missio- nário jesuíta em Baçaim — 473, 504, 505. 6 33
Gomei (Ir. Manuel)—missio- nário jesuíta nas Molucas — 472. Gomes (Ir. Paulo)—missioná- rio jesuíta em Baçaim —126, 473, 480. Gonçalo (?.' Mestre) — reitor jesuíta da casa de Taná — 132, 227, 380, 473. Gonçalves — jesuíta enviado para Damão — 365. Gonçalves (Afonso)—Irmão da St." Casa da Misericórdia, de Chaul — 603. Gonçalves (Amador)—porteiro em Goa—545. Gonçalves (Amaro) — jesuíta em Portugal — 477. Gonçalves (Ir. António)—mis- sionário jesuíta nas Molucas — 472. Gonçalves (P.e Luís) — jesuíta em Portugal — 331, 467. Gonçalves (P.' Sebastião)—mis- sionário jesuíta em Goa — 56, 67, 97, 367, 468, 477, 518. Gouveia (Ir. Luís) — missioná- rio jesuíta em Coulão —19, 24, 32, 276, 287, 474. Gramática, em qualquer língua, da autoria do P.* Henrique Henriques—152, 153. Grão-Cairo —123. Guardião de S. Francisco — em Baçaim — 482; em Co chim — 421. Guilherme (Irmão)—missioná- rio jesuíta no Japão — 471. Guiné—47, 57, 59, 76, 174, 179, 195, 322, 340. Guiné — costa da—19, 24, 28, 32, 276, 287, 474. H Henriques (Padre) — missioná- rio jesuíta em Baçaim —126, 479. Henriques (P.c Henrique) — missionário jesuíta em Manar e na Costa da Pescaria—143, 153, 256, 267, 282, 398, 408 (4), 409, 456, 459, 474. Heranças dos convertidos — 47, 48. Horário dos jesuítas — em Ba- çaim—125; em Cochim — 289, 290; em Coulão — 277, 278. Hospitais de Baçaim—479,483. Hospitais de Cochim — 159, 420, 421. Hospitais de Goa—219, 220, 355. Hospital de Baçaim—128, 130, 226. Hospital de Chaul — 601. Hospital de Cochim—297, 301. Hospital de Coulão — 428. Hospital de Goa, destinado aos convertidos, a cargo dos Je- suítas—108, 117, 233, 247, 248, 375, 529, 530. — a cargo da Misericórdia, destinado aos incuráveis— 108, 358. — chamado «de El-Rei» — 108, 110, 363, 364, 366, 6 3q
375, 395, 521, 522, 529, 561. Hospital de Manar — 262, 263, 264, 265, 404, 408. Hospital de Moçambique —15, 58, 62, 71, 72, 88, 214, 326, 327, 334, 444. Hospital na Pescaria — 148, 149, 408. I Idalcão — 410, 604, 606, 617. Igreja de Coulão — 593. Igreja de Nossa Senhora do Ba- luarte, em Moçambique—88. Igreja de Ormuz — 585. Igreja do Espírito Santo, em Moçambique — 327. Igreja, em Chaul — de S. Sebas- tião— 575. Igreja, em Cochim— de S. Lá- zaro— 591. — do colégio jesuíta — 294, 295. — de S. Tomé — 269. Igrejas de Goa: Chagas — na Ribeira de Goa — 557. Chorão — 373, 527. Madre de Deus — 241. Matriz de Barcelor—588. Nossa Senhora da Ajuda, em Ribandar — 558. Nossa Senhora da Piedade, na ilha de Divar — 557. Nossa Senhora de Guadalupe — 272. Nossa Senhora das Neves, na fortaleza de Rachol — 370, 526. Rachol —324, 325. Santa Bárbara — na freguesia de Morobim — 558. Santa Cruz — na aldeia de Calepor — 558. Santa Luzia — 558. Santa Maria Madalena — na aldeia de Siridão — 558. Santo Agostinho — no colé- gio de S. Paulo — 533. Santo António — 364. São Brás — 369, 528. São João Baptista—519,527. São João Evangelista — 523, 528. São Lázaro — 558. São Lourenço — 510, 527. São Miguel — em Taleigão — 557. São Paulo — colégio jesuíta — 240, 357, 368, 371. São Pedro — na aldeia de Banganim — 558. São Tiago — em Benestarim — 241, 557. Igrejas em Baçaim e terras do Norte: Baçaim—igreja matriz, obras na —227, 498. — igreja matriz — 576. Tanu — igreja matriz — 502. — igreja da Madre de Deus — 503. Trindade — igreja da SSma. Trindade — 503. Igrejas na Costa da Pescaria — 144, 152, 282, 283, 285, 429. Igrejas na Costa de Travancore — 377. Impedimentos às conversões — por parte dos gentios — 29, 635
30, 47, 129, 174-176, 177, 195-197, 243, 250, 282, 340, 435; por parte dos muçulma- nos — 29; por parte dos por- tugueses— 22, 26. índia —14, 16, 17, 18, 34, 37, 39, 40, 41, 44, 47, 48, 49, 51, 53, 57, 59, 65, 70, 73, 76, 78, 80, 83, 84, 88, 89, 99, 135, 143,155,157,165,166,169, 174, 177, 185, 195, 196, 201, 215, 265, 288, 294, 296, 298, 307, 308,310,311,318,319, 329, 340, 341, 350, 352, 388, 391, 392, 395, 410, 415, 422, 433, 440, 444, 457, 535, 536, 539, 540, 541, 543, 544, 546, 549, 550, 552, 553, 554, 556, 557, 561, 562, 563, 567, 571, 572, 606, 613. índias — 40, 350, 362. Infante — Cardeal — 268. Inglaterra —164. Ingleses — corsários—318, 332. lnhambane — 72, 88, 122, 468. Inquisição de Goa—105, 361, 559, 560, 571, 572. Instituto de Línguas Africanas e Orientais — 475 (19). Isorsi — aldeia em Goa — 616 (A). Itália — 433. Izamaluco — 410. J Jacob—471, 604, 605. Jácome (Irmão)—missionário jesuíta em Goa —194. Jafanapatão —147, 457, 469. Jafanapatão — el-rei de —147. Japão — 37, 40, 79, 91, 120, 125, 161, 168, 178, 221, 231, 253, 254, 256, 288, 290, 307, 313,433, 435, 452, 453,516. Jaques (Henriques)—vedor da fazenda em Goa — 555. Java — 434. Jeremias — profeta — 452. Jerusalém — 265. Jesuítas em Portugal —19, 28, 33, 37, 56, 79, 91, 143, 217, 276, 288, 348, 379, 416, 467. Jesus (Ir. Miguel de)—missio- nário jesuíta em Cochim 159, 293, 474. Joannes — jesuíta em Portugal — 477. João (D.) — sobrinho de el-rei de Belez — 551. João (P.e Mestre)—missioná- rio em Baçaim —125, 126, 473, 479. Jogo das tábuas, permitido a bordo — 4, 201. Jogo do trunfo, permitido a bordo — 201. Jogos a bordo, desaconselhados pelos missionários — 4, 80, 81, 201, 204, 321, 335, 514. Jogues — seus costumes — 425, 426, 430, 433. Jónatas — 266. José — patriarca bíblico — 466, 471. Jubileu — em Baçaim — 223; em Cochim —18, 421, 423, 427; em Goa — 237, 247, 344, 370, 372, 374, 521. Judeus — 63, 501, 544, 546. 636
Juramentos a bordo — 4, 5,201, 204, 321, 514. Justiça para os cristãos conver- tidos—V), 50, 51, 52, 147. Justiça para os gentios — 51. L Lacerda (PS Miguel de)—mis- sionário jesuíta em Goa — 518. Ladainhas —12, 13, 60, 66, 80, 85, 126, 130, 183, 200, 205, 206, 218, 242, 318, 321, 335, 381, 383, 393, 484, 520. Leão (D. Gaspar de)—arce- bispo de Goa — 42, 44, 45, 49, 76, 99, 105, 112, 113, 115, 136, 137, 138, 175, 177, 196, 237, 242, 250, 251, 314, 315, 316, 350, 351, 352, 353, 356, 361, 370, 371, 388, 389 (4), 390, 411, 435, 451, 518, 521, 524, 542, 554, 555, 556, 557, 558, 615. O seu nome completo era D. Gaspar de Leão Pereira. Leon (Irmão)—o mesmo que Irmão Cordeiro — 327. Lião (Padre) — jesuíta em Por- tugal— 39- Leitão (Manuel) — secretário em Goa—Yll, 341, 351, 353, 367, 389, 437, 438, 545, 556. Leitão (PS Manuel)—missio- nário jesuíta em Cochim — 474. Leitão (PS Paulo) — jesuíta em Portugal — 349- Líbia — 452. limoeiro — cadeia em Lisboa — 392. Língua indígena — aprendida pelos missionários em Goa — 237, 509; no Malabar — 145, 146, 258, 259, 262, 400, 405, 406, 408; em Taná — 505. Lisboa—7, 41, 42, 62, 65, 72, 73, 79, 154, 174, 178, 183, 184, 195,199, 221, 307, 317, 329, 332, 334, 335, 336, 391, 396, 434, 439, 440, 448, 467, 555, 610, 612, 613, 614. Lisboa (Francisco de)—escri- vão em Goa — 341, 351, 353, 389, 437, 438. Livros de cavalerias, desacon- selhados a bordo pelos mis- sionários— 335, 336. Livros suspeitos, a bordo—60, 61. Lobo (Ir. Manuel)—missioná- rio jesuíta em Cochim — 56, 57, 62, 71, 255, 289, 474. Lombardia — 440. Leme (Miguel Antunes)—ve- reador da câmara de Cochim — 271. Lomedo (PS Jerónimo)—mis- sionário em Malaca — 474. Lopes (PS Francisco)—missio- nário em Cochim — 20, 23, 24, 28, 32, 276, 277, 279, 289, 416. Lopes (PS João)—missionário jesuíta falecido em Socotorá — 55, 121, 469. Lopes (PS Lourenço)—missio- nário jesuíta em Coulão — AIA. 6 37
Lourenço — escrivão da Miseri- córdia de Chaul — 603. Lourenço (Gonçalo) — escrivão em Goa — 46, 48, 50, 52. Lourenço (Irmão) — missioná- rio jesuíta no Japão — 471. Luís (D.)—príncipe japonês — 471. Luís (Ir. Cristóvão)—missioná- rio jesuíta em Baçaim — 365, 473, 479. Luís (Ir. Pêro)—missionário jesuíta na Pescaria — 143, 152. Lusitânia — 457. Lutero — 244. Luteranos — 244. M Macáçar — 434. Macedo (Henrique de)—por- tuguês morto em Cochim — 269. Machado (Francisco) — jesuíta em Portugal — 477. Madeira — ilha da —183, 213, 319, 440, 446. Madre de Deus, freguesia em Daugim, Goa — 241, 475. Mafamede ou Mafoma — 29, 431, 472. Magalhães (?.' Diogo) — mis- sionário jesuíta nas Molucas —472. Maia (Francisco da) —vereador da câmara de Cochim — 271. Maim — tanadaria em Damão 577, 581. Maizu — deus hindu — 494. 6 3 8 Malabar — 301, 539, 542, 543. Malaca — 254, 289, 474, 509, 515, 516, 540, 594. Maldivas — ilhas — 167, 170, 171, 420, 434. Maluco —133, 155, 161, 166, 169, 253, 254, 290, 412, 434, 452, 472, 515, 516, 570, 596. Manar — ilha — 23, 124, 143, 153, 156, 168, 256, 263, 267, 277, 289, 399, 400, 401, 404, 406, 407, 408, 593; grave epidemia obriga os cristãos da Pescaria a abandonar a ilha—m, 400. Mangalor — 598. Manorá— 578. Manuel (D.)—rei de Portugal — 611. Mar da China—172. Maravelia — lugar da freguesia de Nossa Senhora de Guada- lupe— 241. Marcos (Padre) — jesuíta em viagem de Lisboa para a ín- dia—194, 204, 207, 208, 209, 210, 213. Marinheiros cristãos — protec- ção aos — 437, 438. Marramaque (António Pereira) — português na índia —170. Martim Vaz — ilhas de — 8, 323. Martin (Padre) — jesuíta em viagem de Lisboa para a ín- dia — 326. Martins (Estêvão) — escrivão em Goa — 545. Martins (P.c Pêro)—o mesmo que Argudo (P.' Pêro)—512.
Martins (Rui) — escrivão em Goa — 46, 48, 50, 52, 78, 198, 616. Mascarenhas (D. Francisco de) — capitão duma armada en- viada ao Malabar — 329,448, 593. Mascarenhas (P.e Pêro)—mis- sionário jesuíta nas Molucas — 472. Mascate — 514. Mateus (Dom) — Irmão da St.* Casa da Misericórdia de Chaul — 603. Matrimónio clandestino — 61. Meale — senhor muçulmano de Goa—112, 113, 114. Meca—114, 192, 538, 542, 543. Meirinho eclesiástico—44, 362. Melchior (P.e Mestre) —o mes- mo que Belchior — irmão do patriarca D. João Nunes Bar- reto—18, 23, 36. Melinde — 54. Melo (Jorge de)—capitão de Manar—143. Mendanha (P.r Luís de) —mis- sionário jesuíta em Baçaim — 479. Mendes (António) —jesuíta em Portugal — 477. Mendes (Ir. Rui)—missionário jesuíta em Cochim — 364. Mendes (Rui) — escrivão em Goa—177. Mendonça (João de)—gover- nador interino da índia — 329. Meneses (D. Pêro de)—portu- guês na índia —139, 142. Mercado — antigo apelido do P.e Pêro Fernandes — 331, 513. Mesa da Consciência — 315. Mesquita (P.e João de)—mis- sionário jesuíta em Goa — 97, 238, 239, 357, 358, 472; enviado para Ormuz — 365. Mesquita (Rodrigo de)—Irmão da St.* Casa da Misericórdia de Chaul — 603. Mexia (Ir. Lourenço) — jesuíta em Portugal — 468. Mina — 550. Miranda (Jácome) — vereador da câmara de Cochim — 271. Mirão (P.e Doutor) — jesuíta em Coimbra — 508. Misericórdia de Baçaim—483, 499, 574. Misericórdia de Chaul — 575, 601, 603. Misericórdia de Cochim — 292, 297, 302, 418, 420. Misericórdia de Goa — 104, 108, 126, 128, 238, 239, 247, 248, 313, 357, 358, 560, 561, 601. Misericórdia de Manar — 404. Misericórdia de S. Tomé — 274. Missas secas a bordo —13, 17, 66, 68, 70, 183,184, 448; cantadas — 9, 209, 321. Missionários — falta de — 286. Moçambique — 6, 11, 13, 14, 15,16,17, 58, 59, 60,61,62, 64, 66, 67, 71, 72, 73, 84, 87, 88, 122, 178, 179, 180, 181, 190, 192, 193,209,211,212, 213,214,215,216,317,319, 325, 327, 328, 332, 334, 336, 6 39
337, 395, 396, 410, 443,444, 445, 448, 509, 586. Modones (Ir. João de)—mis- sionário jesuíta italiano morto em Goa — 96. Mombaça— 585. Monomotapa—88, 122, 468, 469. Montarroio (Alvaro Fernandes de)—capitão de Coulão — 29. Monteiro (Afonso) — escrivão em Goa — 43, 612. Monteiro (Rodrigo) — escrivão em Goa — 46, 48, 50, 52, 177. Morais (P.e Graciano)—leitor de Concanim no Instituto de Línguas Africanas e Orien- tais—475 (19), 476(20). Mormugão — 616 (A). Moro — nas Molucas — 472. Morobim — aldeia em Goa — 241, 558. Mosteiro de S. Domingos — em Goa —76, 154. Mosteiro de S. Francisco — em Goa — 263; em Coulão — 279. Mouros — conversão de — 274, 313. Moxicate — 326. Mulheres a bordo — 4, 60, 72, 328, 446. N Nabal — personagem bíblica — 474. Nadal (P.' Liconimo ou Jeró- nimo) — jesuíta na Europa— 94. 6 4 o Nagoá — aldeia em Goa — 617. Naires — conversão de — 396, 397. Naires, de el-rei de Cochim — 297, 301. Naires, de el-rei de Cranganor — 301. Naroá — fortaleza de — 564, 565, 571. Natal — costa e terra do — 87, 179, 190, 191, 211, 333. Naus: Algarvia — 8, 11, 213. Castelo — 213, 214, 215. Cedro — 58. Drago — 317. Esperança—67, 71, 180, 440, 508. Flor de la Mar—11, 324, 325, 333, 334. Graça ou Garça? — 420. Rainha— 57, 71, 72, 154, 319. Santo António —11, 15. São Filipe —180, 192, 194, 202, 215. São Martinho—65. São Vicente — 67, 71, 325, 332. Tigre — 71, 73, 535. Negapatão —150, 151, 152. Nestorianismo dos cristãos de S. Tomé—299, 300. Nicote (Filipe de Brito de) — capitão da fortaleza de Sirião, no Pegu — 599. Nínive — arcebispo de — 328. Nogueira (Ir. João) — missio- nário jesuíta em Baçaim — 473, 480.
Noronha (D. Antão de) —vice- -rei da índia—311, 340, 341, 410,415, 435, 543, 544, 546, 553, 555, 559, 560, 561, 574, 579, 581, 598. Nossa Senhora da Ajuda — er- mida jesuíta em Baçaim — 495, 496, 497. Nossa Senhora da Ajuda — fre- guesia em Ribandar, Goa — 558. Nossa Senhora da Anunciada — freguesia em Cochim —158. Nossa Senhora da Assunção — em Rachol, Goa — 475. Nossa Senhora da Graça—igreja em Chorão, Goa — 475. Nossa Senhora da Luz — fre- guesia em Goa—475. Nossa Senhora da Piedade — igreja em Goa, na ilha de Di- var — 475. Nossa Senhora de Guadalupe — igreja em Goa —119, 120, 370. Nossa Senhora do Baluarte — igreja em Moçambique — 88, 215, 328. Nossa Senhora do Cabo—igreja em Moçambique —192. Nossa Senhora do Rosário — freguesia em Goa—238, 475. Noviços indianos, admitidos na Companhia de Jesus —159- Nunes (Ir. Fernão)—missioná- rio jesuíta em Baçaim — 473, 503. Nunes (P.e Nicolau)—missio- nário jesuíta nas Molucas — 472. O Oliveira (Padre) — missionário jesuíta destinado ao Japão — 440. Oliver (P.e Gabriel)—missio- nário jesuíta em Goa — 464, 467, 509. Omura — principado no Japão — 453(7). Onor — 689- Onze Mil Virgens — devoção às — 442, 502. Onzenas — 298. Órfãos gentios — 311. Órfãs de el-rei — 315; sua vida a bordo — 4. Ofertório da Missa — 243. Oriente —166, 444. Orixá — 539. Ormuz—123, 194, 216, 255, 365, 472, 515, 551, 583, 606. P Pagodes — 283, 315, 361, 362, 374, 465, 476, 490, 493, 526. Pais (Francisco) — provedor- -mor dos contos em Goa — 617. Paliporto — 299- Pangim — 329, 330, 564, 565, 571. Paravas — cristãos da Costa da Pescaria—144, 145, 404. Parbús—ascetas indianos—491. Parra (P.e Pêro) — jesuíta vindo de Portugal e enviado a Bate- calá —317, 326, 328, 330, 332, 339, 366, 517, 522. 641 DOC. PADROADO, IX 41
Passagem clandestina para a índia — 319. Passo Seco — fortaleza em Goa — 564, 565, 571. Passo Seco — na aldeia de São Brás —242, 342. Patriarca {Padre)—refere-se a D. João Nunes Barreto — pa- triarca da Abissínia—135, 136, 303, 307, 310. Pegu — 539, 599. Peixe-mulher — Dugong, sua descrição — 459-463. Pereira (António de Eça)—ca- pitão de Manorá — 578. Pereira (Ir. Manuel)—missio- nário jesuíta em Goa — 217, 220. Pereira (Padre) — jesuíta de vindo Portugal e colocado em Goa—4, 6, 16, 17, 33, 34, 35. Pereira (P.' Diogo) —missioná- rio jesuíta na Costa da Pesca- ria — 399, 474. Pereira (Rui Vaz) — irmão de António Pereira Marramaque — 170. Peres (P.e Francisco) — missio- nário jesuíta em Goa — 23, 97, 239; enviado à China — 254, 471. Peres (P.' Lourenço) — missio- nário jesuíta em Goa — 231, 255. Pérsia — 47, 76, 170, 172, 174, 192, 195, 311, 340. Pescaria — Costa da — 20, 23, 31, 124, 143, 256, 282, 283, 398, 399, 400, 403. Pestana (Sebastião)—membro da confraria de Nossa Se- nhora do Rosário de Coulão — 27. Pimenta—537, 538, 542. Pina (P.* Francisco de) — je- suíta em viagem para a índia —15; colocado em S. Tomé — 474,511. Pinto (Ir. André)—missioná- rio jesuíta enviado à China — 254, 471. Placência — cidade em Espanha ■—467. Plans (P' Gaspar)—jesuíta na Europa — 397. Pompa, na solenização das fes- tas religiosas—483, 484, 485, 486, 492, 502, 506, 525. Porcuiossi — letrado hindu con- vertido com o nome de Hen- rique da Cunha — 489, 494. Porto Pequeno — em Bengala — 539. Porto Santo — ilha — 65. Portugal — 26, 47, 56, 58, 64, 76, 82, 84, 99, 139, 163, 169, 174, 180, 187, 195, 199, 227, 288, 291, 299, 301,307,311, 319, 334, 337, 340, 348, 379, 391, 395, 420, 433, 442, 444, 455, 508, 540, 543, 546, 549, 609. Prancudo (P.' Marcos)—mis- sionário jesuí' ias Molucas —133, 472. Pregação religiosa, durante as viagens — 4, 13, 14, 60, 66, 68, 82, 83, 183, 187, 208, 210, 335, 394, 446, 448. 64 2
Pregação religiosa, em Baçaim — 126, 127, 128, 129, 222, 223, 381, 481, 483, 484, 486, 493. Pregação religiosa, em Coulão — 20, 21, 22, 28, 29, 277, 278, 279, 428. Pregação religiosa, em Damão — 133. Pregação religiosa, em Goa — 103, 104, 105, 238, 239, 242, 356, 357, 359, 364, 519- Pregação religiosa, em Moçam- bique—15, 72, 88,215, 327, 334. Pregação religiosa, na Pescaria — 144, 151, 282. Pregação religiosa, por intérpre- tes—22, 55. Presos — apostolado entre eles — 18, 36,158, 159, 244,358, 419, 420, 483, 519, 520. Preste-João — 114, 125, 143, 150, 253, 263, 268, 308, 309, 311, 312, 470. Procissões — a bordo — 6, 12, 13, 60, 183, 187, 393. Procissões — em terra — 104, 126, 127, 158, 239, 343, 387, 418, 484, 485, 486, 519. Protecção aos cristãos — 388, 389, 390, 613, 614. Punicale —146, 257, 258, 265. Purgatório — devoção às almas do—130. Q Quadros (P.' António de) — provincial da Companhia na índia —53, 84, 96, 105, 106, 121, 125, 133, 135, 138, 143, 145, 150, 152, 156, 161, 177, 196, 218, 227, 234, 238, 251, 252, 255, 262, 263, 264, 277, 279, 307, 329, 357, 358, 359, 360, 363, 364, 367, 369, 396, 406, 471,483,495, 509, 511, 513,516, 520, 524, 525, 527. Quaresma—238, 243, 246, 295, 357, 381, 484, 519, 527. Quartali — aldeia em Goa — 616 (A). Queli — aldeia em Goa — 616 (A). Queime — tanadaria em Damão — 581. Quelsosi — aldeia em Goa — 616(A). R Rachol — 354, 361, 362, 369, 371, 373, 510, 524, 573. Romana — regedor do rei de Cochim —268, 269, 270. Ramires (P.e Pêro)—jesuíta em viagem para a índia — 317, 320, 321,327, 328, 329, 334, 364, 367; reitor do colégio de Goa—449, 467, 533. Rebelo (Pantaleão) — escrivão em Lisboa — 555, 613, 614. Registo de Baptismos — 493- Rei da China — 254. Rei de Cochim — 268, 269. Reis Magos — ermida em Co- chim— 591. Reis Magos do Mandovi — em Goa —475. Relíquias — devoção às — 245, 286, 295, 442. 64 3
Retábulos — 25, 485. Retorna — lugar na Costa da Pescaria — 285. Ribandar—em Goa—565, 571, 588. Ribeira — arsenal em Baçaim— 576. Ribeira — arsenal em Cochim — 590, 591- Ribeira — arsenal em Damão— 580. Ribeira—arsenal em Goa — 244, 544, 567, 568, 571,611. Ribeira — arsenal em Ormuz — 584. Ribeiro (Duarte)—escrivão da alfândega de Goa — 572. Ribeiro (P.e José) — missioná- rio jesuíta em Cochim—364, 423. Ribera (P.' João Baptista de) —missionário jesuíta em Goa — 439, 456. Rio (Padre)—jesuíta em Coim- bra — 38. Rivara (Cunha) — 76, 195, 311, 312, 616(A). Rocha (Ir. Cristóvão da)—es- colástico em Cochim — 289. Rodes — 270. Roiz (Antão) — juiz do peso em Cochim — 590. Roiz (P.e Francisco) — reitor do colégio de Goa—96, 97, 103, 104, 106,135, 136,137, 234, 237, 238, 239, 289, 329, 330, 331, 357, 358, 359, 360, 361, 364, 367, 370, 371, 372, 375, 376, 433,472,516,517,518, 519, 523, 524, 525, 527. • 6 44 Roiz (P.c Gonçalo)—missio- nário jesuíta em Cochim — 3, 18, 33, 35, 38, 39, 40. Roiz (Ir. Jerónimo)—missio- nário jesuíta em Cochim — AIA. Roiz (Ir. João)—missionário jesuíta em Baçaim — 473. Roiz (João) — porteiro da fa- zenda em Goa — 569. Roiz (Ir. Vasco)—missionário jesuíta nas Molucas — 254, All. Roma—125, 315, 350, 352, 388. Rosário — devoção ao — 81, 249, 494. Rosário — freguesia em Goa — 357, 358, 370. Rosário — igreja em Goa — 104, 359, 364. S Sá (P.e Martinho Quis quis) — missionário jesuíta em Ba- çaim — 473. Sal — ilha — 322. Sala — depósito de degredados em Goa, destinados às galés reais —244, 358, 523. Salamanca — 440, 467. Salcete — 77, 247, 555, 573, 616 (A), 617. Salcete do Norte — 385, 413, 576. Saldanha (Aires de) —governa- dor da Índia — 599. Salvador (Agostinho)—porteiro em Goa, também denomi-
nado Salvado — 46, 48, 50, 52, 545. Salve — devoção — 295. Salve dos marinheiros — devo- ção sabatina a bordo—66, 200, 321, 448. Sanches (lr. Aires)—missioná- rio jesuíta no Japão — 471. Sande (P.e Duarte de) — jesuíta em Portugal — 349. Sangens — tanadaria em Damão — 580. Sanquale — aldeia em Goa — 616 (A). Santa Ana — orago da igreja je- suíta de Cochim — 295. Santa Bárbara — em Morumbi, Goa —475. Santa Bárbara—ermida em Goa — 154. Santa Catarina — 475. Santa Catarina — porta em Goa — 611. Santa Helena — ilha de — 7. Santa Luzia — igreja de Pillerne — 475. Santa Úrsula — 98, 100. Santo António — 6; devoção a este santo — 5. Santo António — baluarte da fortaleza de Ceilão — 597. Santo Espírito—igreja em Mar- gão — 475. Santos (lr. Bartolomeu dos) — missionário jesuíta em Da- mão— 473, 500. São Bernardo — 405. São Brás — em Gandolim — 475. São Brás — freguesia em Goa — 242, 342. São Brás — igreja de, em Goa — 369. São Cristóvão (Irmão)—mis- sionário jesuíta em Cochim — 294. São Domingos — 314. São Domingos — convento de Lisboa—154. São Jerónimo — capela no co- légio de S. Paulo, em Goa — 368. São João — baluarte da forta- leza de Ceilão — 597. São João Baptista — igreja em Carambolim — 475. São João Evangelista — 401. São João Evangelista — fregue- sia em Naroá — 243, 475. São Julião — barra de Lisboa — 80, 178, 183, 439. São Lázaro — freguesia de, em Goa —242, 558. São Lázaro de Bandacorim — igreja em Goa — 475. São Lourenço — freguesia em Goa —243, 475. São Lourenço — ilha de — 325, 434, 444. São Lourenço — ilha em Goa — 451. São Paulo — 605. São Pedro — 300. São Roque — residência e igreja jesuíta em Lisboa — 73, 348, 434. São Tiago — 321, 448. São Tiago — baluarte da forta- leza de Ceilão — 597. São Tiago — freguesia em Goa — 241. São Tomás —18. 645
São Tomé — 299, 300, 309- São Tomé—capela no colégio de S. Paulo, em Goa — 356, 358. São Tomé — ilha—55,87,155, 156,169, 274, 298, 309, 313, 318, 364, 474, 511. São Tomé — povoação na costa de Coromandel—156, 313. São Vicente — baía de, no Bra- sil—393. Sardinha (P.e Mestre Pedro Fer- nandes)—vigário geral de Goa —604, 607, 608. Sé de Cochim — 418, 591. Sé de Goa — 76, 127, 350, 352, 557; obras na — 350, 351, 352, 353. Sé de Malaca — 595. Sebastião (D.)—rei de Portu- gal—47, 76, 174, 195, 311, 312, 314, 340, 373, 375, 376, 435, 550. Semana Santa — sua celebração a bordo — 6, 60, 66, 67, 82, 184, 202, 203, 206, 295. Séneca — 606. Sequeira (Baltasar de) —prove- dor-mor dos contos em Ma- norá — 578. Sequeira (Lopo Vaz de)—ca- pitão de Goa—555. Serra — cristãos da, na Costa do Malabar — 421, 433. Serra (P.e Frei Manuel da) — dominicano em Baçaim — 414, 497. Serrão — funcionário em Goa — 46, 48, 50, 52. Sião — 434, 539. Silva (Ir. Duarte da)—missio- nário jesuíta no Japão — 511. Silva (P.' Fernão da)—missio- nário jesuíta em Goa — 358. Silva (P.e Martim da)—mis- sionário jesuíta em Goa — 238, 357, 364. Silveira (P* Mestre Dom Gon- çalo da) — missionário je- suíta martirizado no Mono- motapa—16, 37, 58, 64, 88, 122, 468, 469, 500, 504. Simancas — 449. Sinai—63. Sirião — fortaleza no Pegu — 599- Siridão — aldeia em Goa — 558. Soares (Rodrigo) — jesuíta em Portugal — 477. Socotorà—37, 53, 55, 121, 299, 469, 514. Sofala—586, 587. Solenidades religiosas: Circuncisão — 521. Corpus Christi —189, 235, 359, 486. Espírito Santo — 299, 398, 417; sua festa celebrada a bordo — 8, 9,, 68. Imaculada Conceição — 252. Jesus — festa do Santíssimo Nome de —483, 512. Natal —364, 483, 491, 500, 521. Nossa Senhora — Anunciação — 439. Nossa Senhora — Apresenta- ção—298, 299, 300. Ce- lebrada pelos cristãos de S. Tomé. 6 q. 6
Nossa Senhora — Assunção — 103, 157, 359, 487, 521. Nossa Senhora das Neves — 370. Onze Mil Virgens — 96, 98, 129, 159, 218, 219, 235, 293, 295, 367, 422, 502, 517, 518. Páscoa —127, 157, 240, 246, 358, 359, 485, 486; a bordo — 6, 7, 184. Santíssima Trindade — 506. São João — 84, 87. Todos os Santos — 370. Soto — teólogo — 5. Souro (Ir. Fernão do)—mis- sionário jesuíta nas Molucas — 472. Souro (lr. Manuel do)—mis- sionário jesuíta em Cochim — 289. Sousa (Aleixo de)—português em Goa — 61. Sousa (Ambrósio de)—tesou- reiro das fazendas dos pago- des, em Goa — 616(A). Sousa (Francisco Orneias) — vereador da câmara de Co- chim— 271. Sousa (Martim Afonso de) — governador da índia — 601, 602. Sousa (P.' Miguel)—jesuíta em Portugal — 37. Sousa (D. Pedro de)—fidalgo português, em viagem para a índia — 68. Soveral (P.' Diogo de) — mis- sionário na Costa da Pesca- ria—143, 144, 145, 147, 256, 262, 474. T Talapor — 414. Taleigão — 557. Fana—130, 132, 227, 279, 380, 385, 473, 478, 499, 502, 503, 506, 510, 576, 577. Tarapor — tanadaria em Damão — 580. Teatro jesuíta — em Cochim 293,422,423; em Goa — 98, 99, 100, 235, 368, 518, 519. Teixeira (P.e Manuel)—mis- sionário jesuíta em Goa — 104, 238; mandado à China — 254, 471. Tempestades — no Cabo da Boa Esperança — 9, 10, 11, 12, 85, 86, 324, 333; na Costa da Guiné — 59; na Costa do Natal — 70, 179, 190, 191, 211,212, 395, 442, 443. Temudo (D. Jorge)—bispo de Cochim — 22, 23, 146, 150, 155, 160, 258, 271, 298, 299, 300, 301, 400, 406, 421, 422, 591. Ternate—121. Tetuão — 306, 307. Tolo — nas Molucas — 472. Tolosa (Dr. P.' Inácio de) — jesuíta na Europa — 391. Tonda (P.e Vicente)—missio- nário jesuíta em viagem para a índia — 57, 65, 66, 68, 69, 72, 73, 74, 88; enviado a Or- muz—Mb, 194, 216, 255, 365. Torres (P.e Cosme de) — mis- sionário jesuíta no Japão — 471, 511.
Torres (P.' Miguel de) — jesuíta em Portugal, 3, 178, 331. Tovar (P.e Pêro de)—missio- nário jesuíta em Moçambi- que— 71. Trancoso (Ir. Gonçalo Fernan- des)—missionário jesuíta em Cochim — 425, 427. Travancor — 20, 23, 24, 28, 29, 31, 377. Três Reis — convento francis- cano em Goa — 329. Tricanamale — reino de Ceilão — 470. Trindade — localidade perto de Damão — 227, 379, 385,473, 478, 499, 503. Tristão da Cunha — ilha—179, 189, 210. Tufão — nos mares da China — 172. Tuticorim — 400, 409. U Umbraterim — lugar no Bala- gate—476. Universidade de Coimbra—293. V Valadares (Ir. Manuel de) — missionário jesuíta na Costa da Pescaria — 20, 28, 256, 263, 277, 474. Vaz (P.e António)—missioná- rio jesuíta no Norte (Baçaim, Damão, etc.)—125,126,127, 133, 227, 473, 500. Vaz (PS Diogo) — Vid. Pereira (PS Diogo) — 399. Vaz (Gaspar) — contador da Matrícula em Manorá — 578. Vaz (Ir. Gomes) — jesuíta em viagem para a Índia — 327, 335, 338, 354; padre—Ml. Vaz (PS Gonçalo)—missioná- rio jesuíta em Ormuz — 65, 68, 74, 79, 194, 365. Vaz (Ir. Gonçalo)—missioná- rio jesuíta em Taná — 502. Vaz (PS Jerónimo) — missioná- rio jesuíta em Manar — 407. Vaz (PS Jerónimo)—O seu nome completo é PS Jeróni- mo Vaz de Cuenca, e traba- lhou em Manar e em S. Tomé — 143, 144, 145, 147, 149, 152, 256, 263, 265, 277, 474. Vaz (Ir. Miguel) — no Japão — 471. Vaz (Ir. Pêro) — missionário jesuíta em Baçaim — 473, 480. Veiga (Ir. João)—escolástico em Cochim — 289; padre — 472. Vemanaique — letrado hindu em Baçaim — 489. Veneza—123. Ventos gerais — 84, 202, 206. Vésperas cantadas a bordo — 321. Viagens de Portugal à índia — sua descrição — 3-18, 33-38, 39, 40, 56-64, 65-75, 79-90, 178-181, 182-194, 199-216, 317-331, 332-339, 391-397, 439-456. 6 q 8
Vicente (Ir.)—missionário je- suíta em Goa — 57, 60, 61, 62, 63, 71. Vigdrio-geral dos Dominicanos —176, 177, 196. Vigário de S. Domingos — em Baçaim — 482. Vigário de S. Domingos — em Cochim — 421. Vilalobos (André de) — recebe- dor da fazenda em Manorá — 578. Vilela (P.' Gaspar) — missioná- rio jesuíta no Japão — 471. Visitas aos cristãos — 29, 23, 28, 29, 124, 144, 145, 264, 277, 279. Visnu — deus hindu—494. Vitol — pagode no Balagate — 476. X Xarafo — em Ormuz — 491. Xavier (P.e Mestre Francisco) — 80, 172, 218, 235, 253, 432, 459, 470.
/ Este livro realizado pela casa Paulino Ferreira, Filhos, Lda., R. Nova da Trindade, 18-B — Lisboa,