DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS D O ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ANTÓNIO DA SILVA REGO INDIA 6.» VOL. (1555-1558) AGENCIA GERAL DO ULTRAMAR LISBOA / MC M L I -iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiiiii?
DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE
DEP. LEG. REPÚBLICA PORTUGUESA MINISTÉRIO DO ULTRAMAR DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS D O ÍNDIA 6.° VOL. (1555-1558) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR DIVISÃO DE PUBLICAÇÕES E BIBLIOTECA LISBOA / M C M L I
Esta publicação foi autorizada por despacho de S. Ex." o Ministro do Ultramar de 5 de Fevereiro de 1951
À documentação, de que o presente volume se constitui, abrange apenas as anos de 1555-1558. A chegada à índia em 1542 da primeira leva de jesuítas provocou nestes ardentes misssionários uma interessantíssima série de cartas que temos vindo publicando. Não esmorece neste período a sua curiosidade, não abranda o vigor descritivo e surgem, assim, quase sem querer, vários métodos missio- nários. Às primeiras hesitações sucedem-se tentativas basea- das já na experiência conquistada. A aprendizagem das lín- guas indígenas aparece, aqui e além, como condição sine qua non de verdadeiro e fecundo sucesso. Escrevemos estas linhas em Pangim, em plena capital do Estado da índia. Mais: escrevemo-las no meio dos vários milhares de códices que formam o nosso riquíssimo «Arquivo Geral e Histórico da índia Portuguesas. Hoje, porém, mercê de circunstâncias que não pretendemos aprofundar, o Ar- quiro perdeu o nome e chama-se «Cartório Geral da índia Portuguesas. Na introdução do próximo vol. da «Documen- tação para a História das Missões do Padroado Português do Orientes referir-nos-emos com mais vagar a este riquís- simo arquivo. Esta nossa vinda a Goa, porém, ensinou-nos uma pri- meira lição que se relaciona directamente com esta série documental. Por isso, a expomos já. Propusemo-nos publicar IX
todos os documentos relacionados com as missões do Pa- droado, adoptando, tanto quanto possível, a ordem crono- lógica. Hoje, continuamos este mesmo sistema, mas temos já de confessar que muitas hão-de ser as faltas cometidas contra este nosso propósito. Se viemos encontrar aqui documentos relacionados com as missões do Padroado e referentes a épocas já percorridas pela «Documentação», que diremos das visitas que, volente Deo, teremos de fazer aos arquivos de Roma, Paris, Londres, etc.? A ordem cronológica, porém, apesar de todas as defi- ciências que se verificarem, impõe-se por si mesma. A Biblioteca da Ajuda é que fornece a maior parte dos documentos publicados neste volume. O códice 49-IV-49, da colecção «Jesuítas na Ásia», termina neste vol. e cede o lugar ao seguinte 49-IV-50. Este ê ainda mais rico e pro- fundo que aquele e, por isso, teremos de o ir manuseando durante bastante tempo ainda. São estes códices os mais importantes, de toda a famosa colecção, para a história religiosa e social da índia. As cartas chamadas ânuas, ou relatórios anuais das acti- vidades dum certo sector, que substituem as antigas cartas particulares, podem apresentar, sem dúvida, admiráveis sín- teses, mas, preocupadas com o resumo e com os resultados práticos, esquecem o pormenor e a minudência. Além disto, x
são quase sempre escritas em colégios centrais, longe dos locais, cujos acontecimentos e factos se descrevem. Os seus autores são pessoas adestradas na escrita, sem dúvida, mas os seus testemunhos são sempre, salvo raríssimas excepções, de segunda mão. É verdade que têm diante de si várias cartas, enviadas das diferentes missões, mas não viveram os problemas narrados naquelas e, por isso, não se encon- tram em condições de os poderem relatar convenientemente. É por isso que embora as cartas gerais ou ânuas apresentem valor inédito, quanto à síntese, devem subordinar-se àquelas escritas directamente pelos próprios protagonistas. As cartas contidas nestes códices pertencem ao género de near tas de edificação d, destinadas, como dissemos já, à leitura pública nos refeitórios. É curioso observar que, às vezes, descobrem-se notas à margem a indicar que esta ou aquela passagem se deve omitir na leitura pública. São pas- sagens referentes ou a costumes, algo livres, ou a persona- gens, cujos nomes não convinha recordar. O P.' António Gomes, por exemplo, que nas primeiras cartas, após a sua passagem à índia, era citado pelo seu próprio nome, deixa de o ser, após a divergência que teve com S. Francisco Xavier. Rareiam as citações e quase sempre os nomes de «P.' Gomes» «P.' António» são substituídos por «P.e Rei- tor». XI
Xavier ordenou, em algumas cartas suas, que os seus padres escrevessem frequentes vezes, mas impôs-lhes a limi- tação de evitarem coisas desagradáveis, tanto referentes às autoridades como aos outros missionários. Xavier, porém, não se sentia preso por esta sua ordem, e é assim que ele se refere com severidade a alguns jesuítas que, noutras refe- rências de confrades, merecem louvor incondicionado. Por isso, esta correspondência toda, destinada ao «grande pú- blico» (passe a expressão moderna!) deve ser cotejada com a correspondência particular que se guarda no Arquivo da Companhia em Roma. Esta, porém, não se refere, de pro- pósito, às autoridades e aos padres quer seculares, quer doutras ordens, mas concentra-se principalmente, sobre os próprios jesuítas. Pena é que não abundem estas cartas missionárias ao longo de toda a nossa história oriental. No período, que actualmente nos ocupa a atenção, são elas tantas e tais que nos permitem formar uma opinião segura sobre múltiplos problemas. Depois, todavia, rareiam e temo-nos de servir doutras achegas para complemento das informações directas, já pouco abundantes. O presente volume da «Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente» foi revisto, XII
nas provas tipográficas, pelo nosso colaborador, Rev. P.' Ba- sílio de Sá. É a ele ainda que se devem os índices. Cá de longe, da índia, significamos-lbe os nossos mais sinceros agradecimentos. Reiteramos a nossa gratidão a todas as personalidades mencionadas na introdução do quinto volume desta «Docu- mentação», ao qual o presente volume está intimamente ligado. Pan gim, Estado da índia, 1 de Agosto de 1951. A. da Silva Rego XIII
SIGLAS
SIGLAS ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo. ASI Arquivo Societatis Iesu. BACIL Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. BAL Biblioteca da Ajuda de Lisboa. BIMINEL .... Biblioteca do Ministério dos Negócios Estran- geiros de Lisboa. CSV Colecção São Vicente. Fonde documental do ANTT. CC Corpo Cronológico. Outra colecção do mesmo Arquivo. Gav Gavetas. Outra colecção ainda do ANTT. XVII
ÍNDICE
N.« Pig. 1 — BAL, 49-IV-49, fl. 233 r.: Carta do Irmão Aleixo Dias ao Padre Francisco Adorno, de Coimbra. Cochim, 2 de Janeiro de 1555 3 2 — BAL, 49-1 v-49, fl. 212r.-212v.: Cana do Padre Bal- tasar Dias para o Padre Mestre Mirão. Goa, 4 de Janeiro de 1555 6 3 — BAL, 49-IV-49, fl. 213 r.: Carta do Vice-Rei Dom Pe- dro Mascarenhas ao Padre Mestre Mirão. Goa, 7 de Janeiro de 1555 9 4 — ANTT: - CC, I, 94-104: El-Rei das Maldivas a El-Rei de Portugal. Cochim, 27 de Janeiro de 1555 11 5 — ANTT:-CC, I, 95-26: O Licenciado Sebastião Pi- nheiro nomeado Governador do Bispado de Goa. Lisboa, 25 de Março de 1555 13 6 — BAL, 49-IV-49, fls. 224 V.-226 r.: Carta do Padre Ma- nuel Fernandes ao Padre Mirão. Moçambique, 6 de Agosto de 1555 14 7 — BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 281 r. bis: Carta do Infante D. Luís ao Vice-Rei da índia, D. Pedro Mascarenhas. Lisboa, 23 de Março de 1555 20 8 — BAL, 49-IV-49, fls. 231v.-232v.: Carta do Padre Ma- nuel Fernandes ao Padre António Correia, de Coim- bra. Goa, 4 de Dezembro de 1555 24 XXI
N* Pâg. 9— BAL, 49-IV-49, fls. 226r.-231 v.: Carta do Padre An- tónio de Quadros para o Padre Mestre Mirão. Goa, 6 de Dezembro de 1555 30 10 —BAL, 49-IV-49, fls. 217v.-222v.: Carta do Padre An- tónio de Quadros para os Irmãos de Portugal, da Companhia de Jesus. Goa, 18 de Dezembro de 1555 53 11 — BAL, 49-IV-49, fls. 213 V.-217 v.: Carta Geral do Colé- gio de Goa. Goa, 20 de Dezembro de 1555 71 12 —BAL, 49-IV-49, fls. 222 v.-223 r.: Trecho de uma carta do Irmão Gaspar Soeiro para o Colégio de Goa. Cochim, 1555 85 1? — BAL, 49-IV-49, fls. 288r.-288 v.: Carta do Padre Hen- rique Henriques sobre a Costa da Pescaria. Dezem- bro de 1555 88 14 — BAL, 49-IV-49, fls. 289v.-290r.: Carta do Padre Diogo do Soveral para os Padres e Irmãos da Com- panhia, em Portugal. Cochim, 2 de Janeiro de 1556 92 15 — ANTT: - CC, I, 97-62: El-Rei das Maldivas à Mesa da Consciência. 23 de Janeiro de 1556 97 16 — BAL, 49-IV-49, fl. 290v.: Carta do Rei de Ormuz ao Padre António. Ormuz, 14 de Março de 1556 99 17 — BAL, 49-IV-49, fls. 291r.-292r.: Rol dos alunos do Colégio de Goa. Novembro de 1556 101 18 — BAL, 49-IV-49, fls. 263 V.-266 r.: Carta do Padre Fran- cisco Roiz aos Irmãos de Portugal, da Companhia de Jesus. Goa, 2 de Novembro de 1556 107 19 — BAL, 49-IV-49, fls. 266v.-268r.: Carta do Padre An- dré Gualdanos aos Padres e Irmãos da Provação de Coimbra. Goa, 4 de Novembro de 1556 119 20 — BAL, 49-IV-49, fls. 299r.-300r.: Carta do Patriarca D. João Nunes. Goa, 6 de Novembro de 1556. ... 127 21 — BAL, 49-JV-49, fls. 59 v.-60 v.: Carta do Bispo André de Oviedo para os Padres e Irmãos da Companhia, em S. Roque. Goa, 7 de Novembro de 1556 131 XXII
N.* Pig. 22 — BAL, 49-IV-49, fls. 54r.-59v.: Carta do Irmão Aires Brandão para os Padres e Irmãos de Portugal. Goa, 29 de Novembro de 1556 134 23 — BAL, 49-IV-49, fls. 60v.-62r.: Carta do Irmão Jeró- nimo Fernandes para o Padre André de Carvalho, da Companhia de Jesus, em Portugal. Goa, 6 de Dezembro de 1556 150 24 — BAL, Códice 49-IV-49- Lista das pessoas da Compa- nhia que se mandarão a índia, dos annos de 1541 ate o anno de 1556 inclusive, e das cartas que ate este tempo se receberão 154 25 — ANTT: - CC, I, 100-45: A Sua Alteza, a Rainha. Carta de Frei António do Rosário. Cochim, 26 de Dezembro de 1556 165 26 — ANTT:-Gav. 15, 9-28: Carta do Governador Fran- cisco Barreto a El-Rei. Baçaim, 6 de Janeiro de 1557 167 27 — BAL, 49-IV-50, fls. 49v.-54r.: Carta do Padre Dom Gonçalo para o Padre Gonçalo Vaz. Cochim, Ja- neiro de 1557 188 28 — ASI. Goa, 8, I, fls. 99r.-102v.: Carta de Dom Gon- çalo da Silveira escrita ao Padre Inácio. Cochim, Janeiro de 1557 202 29 — ASI. Goa, 8, I, fls. 130-131, 163-163 v.: Carta do Pa- dre Dom Gonçalo da Silveira para o Padre Dou- tor Miguel Torres. 1557 211 30 — ASI. Goa, III, fls. 421 r.-424v.: Carta do Padre Dom Gonçalo da Silveira ao Padre Miguel Torres. 1557 216 31 —ASI. Goa, 10, II, fls. 433-439v.: Carta do Padre Dom Gonçalo escrita ao Padre Miguel Torres. Goa, 1557 232 32 — ANTT: - CC, I, 100-65 : Carta de Henrique de Sousa Chicharro a El-Rei. Cochim, 8 de Janeiro de 1557 239 33 — ANTT:-CC, I, 100-71: Carta de Fernando da Paz a El-Rei. Granganor, 10 de Janeiro de 1557 247 XXIII
N" Pág. 34 — ANTT:-CC, I, 100-85: Carta de Frei Diogo Ber- mudes a El-Rei. Cochim, 22 de Janeiro de 1557... 251 35 — ANTT: —CC, I, 100-88: Carta de Frei Joanino, da Ordem de S. Domingos, a El-Rei. Cochim, 28 de Janeiro de 1557 253 36 — ANTT:—CC, I, 100-91. Carta de Frei Estêvão de Santa Maria, religioso da Ordem de S. Domingos, a El-Rei. Goa, 1 de Fevereiro de 1557 257 37 — ANTT:-CC, I, 100-100: Carta de Frei Estêvão de Santa Maria a El-Rei. Goa, 10 de Fevereiro de 1557 280 38 — ANTT: —CC, I, 100-122: Carta de Frei Estêvão de Santa Maria a seu Provincial. Goa, 25 de Fevereiro de 1557 290 39 —ANTT:-CSV, IX, fl. 273: Dinheiro dos Órfãos. Lisboa, 3 de Março de 1557 314 40 — BAL, 49-IV-49, fls. 287 r.-288 r.: Carta dos moradores de Diu ao Padre D. Gonçalo da Silveira. Dio, 7 de Agosto de 1557 315 41—ANTT:-CC, I, 102-25: Carta de Frei António do Porto a El-Rei. Baçaim, 20 de Novembro de 1557 322 42 — BAL, 49-IV-50, fls. 98r.-108r.: Carta do Irmão Luís Fróis Pereira para as casas e colégios da Companhia na Europa. Goa, 30 de Novembro de 1557 327 43 — BACIL-.—Cartas do Japão, II, fls. 13r.-17v.: Carta do Irmão Luís Fróis. Goa, 12 de Dezembro de 1557 358 44 — BAL, 49-IV-50, fls. 108 v.-l 12 v.: Carta do Padre Mes- tre Belchior aos Padres e Irmãos da Companhia. Cochim, 10 de Janeiro de 1558 376 45 — BAL, 49-IV-50, fls. 278 r.-280 v.: Carta do Padre Fran- cisco Perez ao Padre Miguel Torres. Cochim, 13 de Janeiro de 1558 379 46 — BAL, 49-IV-50, fls. 518v.-520r.: Carta de Bernardo Roiz para os Irmãos de Portugal. Cochim, 20 de Janeiro de 1558 388 XXIV
N.« Pig. 47 — BAL, 49-IV-50, fb. 242v.-243r.: Carta do Padre João de Mesquita para o Padre António de Quadros. Punicale, 13 de Março de 1558 !. 393 48 — BAL, 49-IV-50, fb. 260 r.-263 r.: Carta do Padre Bel- chior para os Irmãos do Colégio de Goa. Cochim, 16 de Agosto de 1558 395 49 —BAL, 49-IV-50, fb. 174r.-178r.: Carta do Padre Gon- çalo Roiz. Baçaim, 5 de Setembro de 1558 407 50 — BAL, 49-IV-50, fls. 204r.-205r.: Carta do Padre Mes- tre Gonçalo para os Padres e Irmãos do Colégio de Goa. Tana, 1 de Dezembro de 1558 416 51 — BAL, 49-IV-50, fb. 256 V.-260 v.: Carta do Padre Hen- riques e seus Confrades de Portugal. Comorim, aos 19 de Dezembro de 1558 420 52 — BAL, 49-IV-50, fb. 187 r.-191 r.: Carta do Irmão Ma- nuel Teixeira para os Irmãos de Portugal. Goa, 25 de Dezembro de 1558 432 53—BAL, 49-IV-50, fb. 131v.-143r.: Carta Geral, escrita pelo Padre António da Costa. Goa, 26 de Dezem- bro de 1558 442 54 — BAL, 49-IV-50, fb. 143 r.-148 v.: Carta Geral ao Padre Pero de Almeida. Goa, 26 de Dezembro de 1558 467 XXV
DOCUMENTAÇÃO PAHA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE (1555-1558)
Emm .
1 CARTA DO IRMÃO ALEIXO DIAS AO PADRE FRANCISCO ADORNO, DE COIMBRA Cochim, 2 de Janeiro de 1555 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fl. 233 r. (1) Amantissime pater. C233J Hactenus expectabam literas tuas ut ex illis exemplum sumerem et ad te quasdem literulas remiterem, nam scribere maximum rescribere vero minimum est; todavia bem parece quia iam non sum dignus vocari filius tuus minimus, pois deixa de nos consolar com suas regras. O anno passado recebi todas as cartas que vinhão para o Padre Urbano (2), entre as quais achey huma sua com que muito me consoley, e porque sabera de sua morte, não curo de lho escrever; o anno passado o escrevemos largo. Certifico-lhe, padre meu, que o muito trabalho que em a nao padeceo, esses dias que nella esteve, se o virão lhe causarão (3) muitas lagrimas, porque creo que nunca lhe vi passar hum dia que não fosse de choro pello fumo grande que padecia em huma camara, que tinha junto do fogão, (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 322 V.-323; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 303 V.-304 r. (2) Este missionário morreu na viagem. (3) Correcção de: trouxerão. 3
e se me diz porque não ia para outra parte, respondo-lhe que huma vez e duas se sofrera na nao mas mais logo parece que recebem nisso trabalho quem temos lugares, e porque o Padre Urbano deseiava mais de padecer tudo isto que molestar a ninguém, se estava assi; seu dormir era fora da camara, perto do convés, em cima de huma arca, que não seria de tres palmos e meo, porque na camara ardia por não ter resfolgadouro. Sempre tive pera mim se tivera bom agasalho que viera ter a índia. Se me disser porque lho não pedíamos, digo-lhe, padre meo, que não fartou isso, mas quem os tem não da por isso, e o Padre Urbano tudo referia a paciência. Finalmente me chamava e se estava alegrando, com me preguntar por vos todos, charissimos irmãos, e assi adoeceo de febres mui grandes, dizendo-me que lhe lembrasse certas devações que elle me disse. E porque a febre era continua, e não lhe dava nenhum refrigério, foi asi trabalhando, ate o onzeno dia, em o qual deu hum brado grande, mui suave, por Nossa Senhora, e se alevantou asentado, pedindo-me hum crucifixo, cha- mando-me que o abraçasse que se queria ir desta vida; abraçou-me e, beijando o crucifixo, se apartou de nos, dei- xando-nos com aquella saudade que comvem ter de tal companheiro. Muitas vezes, padre meu, de o ver tão sofrido nos trabalhos, tão paciente nas adversidades, sentia em mim grandíssima confuzão e animo pera o imitar, o que ainda oje em dia me he grande ajuda, posto que tudo faça com pouco cuidado e com menos charidade; folgara de ho ter presente, por que lhe dissera alguma cousa mais delle, o que nesta se não pode fazer, porque não sei se o enfado ja, o que me parece que não sera. Resta, padre meu, dar-lhe estas regras pera que alguma hora se lembre que sou seu irmão, ainda que minimo, e me escreva onde quer que istiver; encomende-me ao irmão Mauricio, ao Padre Antonio Delgado, ao Padre Rijo e
todolos mais irmãos. Nosso Senhor nos ajunte no verda- deiro goso, pois na tera não ha senão desgosto, mas se he verdade que oportuit Christus pati et sic intrare in regnum suum, porque queremos nos outra couza? De Cochim, a 2 de Janeiro de 1555. Alexo Dias. 5
2 CARTA DO PADRE BALTASAR DIAS PARA O PADRE MESTRE MIRAO Goa, 4 de Janeiro de 1555 Documento existente na BAL, 49-IV-49- Fls. 212r.-212v. (1) [212 r.] graça c amor eterno de Christo Nosso Senhor seia sempre com Vossa Reverencia, amen. Dispois de ter iscrito a Vossa Reverencia (porque não escrevemos ca quando queremos, senão quando podemos, pelos grandes trabalhos e occupações que temos) não soce- deu mais nenhuma outra cousa; somentes que ho viso-Rey, dia de Janeiro, veo ter a esta casa em amanhecendo, por- que se faz então aqui a festa de Jesus, no qual dia dão o púlpito aos dominicos e o altar aos franciscos pêra missas cantadas. E nese mesmo dia o viso-rei aqui se confessou comigo, e tomou o Santíssimo Sacramento, dentro de huma capela que temos secreta, do que alguns algum tanto ficarão confusos. E confesso a Vossa Reverencia que não pretende outra cousa senão honrra de Deos e serviço del-rei, o que alguns outros não pretenderão, e o mesmo dia de Jesus mandou ficar aqui hum minimo de / ate 8 annos, que he o mesmo rei de Ceilam, pêra aqui aprender com os outros, onde esta outro que he súbdito deste; chama-se o proprio minino Dom João, e ao outro Dom Afonso. Também dispois que escrivi, recebi hum mancedo, filho de Aires Pirez Cabral, desembargador; chama-se Francisco Cabral, muito conhecido em Coimbra dos padres e irmãos. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 294-195; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 276 r.-276 v. 6
He arrazoado latino; esta agora nos Exercícios, tem-se bem aproveitado; mande-o Vossa Reverencia encomendar a Deos, e assi aos outros. Vossa Reverencia, por amor de Nosso Senhor, se alembre muito desta terra, porque ca a ninguém falta o temporal, principalmente a nos, porque, se quiséssemos tomar quanto nos dão, andaríamos sobre ouro. Necessidade de gente, temos muita, que aos mininos da terra e assi aos chatecuminos que temos commumente aprendendo para serem christãos, de ventura lhe podemos ir praticar cousas da fe, pelas muitas occupações que ca ha, e a sermos (2) nos outros poucos. Também depois de termos escrito, ouvemos as mãos dous jogues, da maneira que era Paulo antes que se con- vertesse, e porem estes o mesmo Paulo con // fessa que C212 V-1 sabem mais que elle. Sabem estes desouto lingoas; estão separados em a casa dos mininos, porque nem estes nem outros desta sorte consinto estar com os irmãos, por Vossa Reverencia assi o mandar. E la lhe tenho feito humas casas, onde estes chatecuminos e outros estão, porque assi he con- veniente, e elles se edificão la muito com os mininos. Estes jogues aprendem agora o chathesismos, e determino de os não fazer christãos daqui a três ou quatro meses. Paulo de Santa Fe aqui esta nesta cidade; pousa em casa de hum sobrinho de Gaspar Gonçalvez, que veo com elle na nao, o qual trouxe o officio de escrivão da matricola, homem mui virtuoso e mais conveniente pera religioso que pera official do mundo. He filho antigo da Companhia, eu o confesso muitas vezes, he aqui nosso visinho e aqui se agasalha; Paulo se confessa aqui muitas vezes e comunga. Hum padre dominico vai de ca este anno, que se chama Frei Antonio Pestana; foi sempre muito amigo da Com- (2) Correcção de: e a pouquidade de nos outros. 7
panhia; he homem que nestas partes tem feito muito fruito; a-de ir ter ay a essas casas; Vossa Reverencia lhe faça la o divido agasalhado, elle dara la a Vossa Reverencia conta das cousas exteriores de ca; e assi vão outros padres fran- ciscos, e (3) certo nos pesa de se irem estes padres (4) por- que são homens antigos e experimentados na virtude, por- que fazem muito fruito na terra. Vossa Reverencia mande delia (5) muitos, porque bem tenho para mi que nunca ca ouve padre nem irmão que tivesse tentação de ir para Portugal, e praza a Deos que nesta vocação permaneçamos sempre. Nosso Senhor tenha a Vossa Reverencia de sua mão, e lhe de spiritu para que nos reja e governe, para que todos nos veiamos na sua gloria. A feitura desta, estou fazendo prestes o Padre Gonçalo Roiz, com dous irmãos, e partir-se-ão de aqui pera o Preste, ate 20 de Janeiro. E assi me vou aparelhando de peças e cousas de casa, pera quando esses santos varões aqui chegarem, os quais Nosso Senhor ca traga. De Goa, a 4 de Janeiro de 1555. Inutilis servus Balthasar Dias. (3) Correcçlo de: do que. (4) Correcção de: frades. (5) Isto é: de lá. 8
3 CARTA DO VICE-REI D. PEDRO MASCARENHAS AO PADRE MESTRE MIRÀO Goa, 7 de Janeiro de 1555 Documento existente na BAL, 49-IV-49. PI. 213 r. (1) Senhor Padre, l212 N Nosso Senhor seia sempre louvado que nos trouxe a salvamento a esta terra da índia, aonde fyco com mais trabalhos e menos saúde do que minha idade avia mister; contudo seia Nosso Senhor muito louvado, que quem de nada fas tudo o que quer me pode dar forças com que o sirva; a Vossa Reverencia e a seus súbditos pesso, por amor de Nosso Senhor, que tenhão muita conta comigo porque o ei muito mister, e ca he muito necessário. Do Padre Vieira e de seu companheiro, sabera como passamos nossa jornada do mar que a elles sempre foy com saúde; escreverão as mais novas de ca, que terão mais tempo pêra isso que eu. O seu collegio de São Paulo achei desbaratado de padres, poios muitos que Nosso Senhor foy sirvido de levar pêra si; não fui tão ditozo que alcançasse ver o Padre Mestre Fran- cisco nesta terra, pelo muito que me aproveitara falar com elle; consolo-me em saber que estara em parte donde milhor nos poderá a todos ajudar. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 295-195 v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 277 r. 9
Este anno, com a ajuda de Nosso Senhor vai hum padre da Companhia com outro companheiro ao Preste, e vão por nos parecer ca asi bem, e alem de ser necessário acudir aos portugueses, que la andão em serviço do Preste, que não são poucos, e entre elles não aver sacerdote que lhes diga missa, nem que os confesse e doutrine, como a ovelhas que ha tanto tempo que amdão fora do curral e sem pastor, pareceo também necessairo ir entretanto a discubrir aquelk terra e, com seu bom exemplo de vida, começar a ganhar a vontade do Preste para a vinda do Patriarca e seus com- panheiros, se Nosso Senhor for servido que caa chegue, e entretanto escrever-nos-ão do que achão, e o que lhes parecer que ao diante se deve fazer. A esmola da especiaria, a que me offerici para a obra de S. Roque, vai este anno endereçada a Francisco Correa, como me pidistes. Nosso Senhor a leve a salvamento, e ellè v ] seia servido de vir para os annos que vem. La a man //dai gastar, como vos parecer ser mais proveito da casa, e os moradores delia me paguem esta vontade, com me enco- mendar a Nosso Senhor, e Vossa Reverencia me avise do que de ca ouver mister, que tudo o que eu puder se fara de muito boa vontade. Nosso Senhor nos tenha em sua especial guarda, e a toda a Companhia, para muito serviço seu. Vossa Reve- rencia me encomende a todos os padres, ao doutor Torres, e a Francisco de Borja, por nossas cartas, onde quer que estiverem me encomenday muito. De Goa, a 7 de Janeiro de 1555. Seu devoto, Dom Pedro Mascarenhas
4 EL-REI DAS MALDIVAS A EL-REI DE PORTUGAL Cochim, 27 de Janeiro de 1555 Documento existente no ANTT:— CC, 1, 94-104- Mede 290 x 205 mm. ■ Senhor, Reçebi tamta tristeza e descomtemtamento com a morte do primcepe meu senhor, que Noso Sennhor tem em sua samta gloria, como era rezãao que por tamanha perda reçebesse e terey sempre em todas as cousas que a Vosa Alteza nãao derem prazer. Prazera a elle que lhe dara muitos e os vera, como eu desejo do primçepe meu sennhor. Dom Pero Mascarenhas, seu viso-rey nestas partes, me mandou a esta cidade de Cochim huuma carta de Vosa Alteza, em que reçebi muy gramde merçe, pello que me nela diz. He Vosa Alteza taão emselemte primcepe e sennhor que por muy çerto tenho que todos aqueles que tiver debaxo de sua proteiçâao e emparo serãao dele aju- dados e favoreçidos, primçipalmente a mim que dexey a ley de Mafamede e tomey aa da verdade, que he a de Noso Sennhor Jeshu Christo, em quem eu creo bem e verdadei- ramente, e que padeçeo por nos salvar. E, pêra comesar de o servir, casey com a rainha minha molher Dona Lianor de Ataide, de que me nos o Sennhor jaa deu huuma filha, a quem pus o nome dâ rainha minha senhora que, com a sua ajuda, espero que seja tal que o meresa, filha de Eitor de Sousa de Ataide, que o anno pasado morreo nas minhas ilhas de Maldiva, por me la hir servir, e aguora vay comiguo Pero de Ataide Inferno, que t i
o viso-rey Dom Pero laa manda com humaa armada a meter-me em pose de huma parte de meu reyno, que me huum meu vasallo come aa muitos anos. Tenho nele con- fiamça que fara o serviço de Deos e de Vosa Alteza e meu, e que, com a vimda de viso-rey, sera meu reyno tratado e aumentado, como ele e eu avemos mester, e que se com- prirão os contratos que saão feitos sobre eu poor as pareas que lhe paguo nesta çidade aa minha custa, com tal com- dição que os guovernadores naão dem liçemças a mouros nem malavares nem purtugueses que vãao a meu reyno, pelos roubos e males que me nele fazem. Guomez da Silva, que Vosa Alteza de Goa mandava hir, he homem que o tem bem servido e a mim naão fez nenhuum desserviço; pareceo-me rezaão escreve-lo asy a Vosa Alteza, e ser amtes em ayuda re lhe fazer merce que tirar-lha. Eu tomey por devisa a cruz com huma coroa de espi- nhos e as chagas, em que espero de me salvar. Faça-me P Vosa Alteza merçe que me mande as armas //que me- resaão ter taão samta devisa, pera que de sua maão as dexe a meus filhos, posto que as de sua maãy sejaão de muita nobreza e fidallguia. Beyjo as reaes mãaos de Vosa Alteza, a quem Noso Sennhor acresemte seu real estado com muitos anos de vida. De Cochim, a 27 dias de Janeiro de mil e quinhemtos e çimcoenta e çimquo anos. Rey das Ilhas. (1) (1) Assinatura oriental. I 2
5 O LICENCIADO SEBASTIÃO PINHEIRO NOMEADO GOVERNADOR DO BISPADO DE GOA Lisboa, 25 de Março de 1555 Documento existente no ANTT: — CC, I, 93-26. Mede 552 x 220 mm. Licemçiado Sebastião Pinheiro, eu, el-rey, vas emvio muito saudar. Como thereys sabido, pelo falescimento do bispo de Goa (1), ficou ese bispado a see vacamte, do qual nam foy posivel prover-se este anno, posto que o muito desejase, e espero de para o anno que vem, com ajuda de Noso Sennhor, poder hyr o bispo, e de ser tal qual compre, para ele ser tam servido como eu deseio. E porque sempre na absemçia do prelado acomteçe aver muitas mudanças das quaes Noso Sennhor muitas vezes não he servido, o Cardeal meu irmão, queremdo a iso prover e dar o remedio necesario, como legado que he do Samcto Padre, pola comfiamça que them de vos, que regereys e governareys o dito bispado no esperitual e temporal, como comvem ao serviço de Noso Sennhor e bem das almas dele, vos emvia comisam sua para em quamto nam for o bispo exerçitardes o dito carguo, como por ela vereys. E porque ele he da calidade que sabeys, vos emcomemdo muito que em tudo o que a ele toqua obreys e useys com- forme a comfiamça que de vos tenho, e de maneira que Noso Sennhor se aia por servido, e ey por excusado lem- brar-vos em particular cousa alguuma. Es cripta em Lixboa, a 25 de Março de 1555. Rey. Para o licemçiado Sebastião Pinheiro. (1) D. João de Albuquerque, bispo de Goa, falecera em 28-2-1553. '3
ò CARTA DO PADRE MANUEL FERNANDES AO PADRE MIRÀO Moçambique, 6 de Agosto de 1555 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 224 v. - 226 r. (1) *■] A pas e graça de Jesu Christo Nosso Senhor more sempre em nosos corações, Amen. O Padre Belchior Carneiro me mandou escrever a Vossa Reverencia pêra lhe dar conta do que nesta viagem ate este Moçambique passamos; he de maneira que Nosso Senhor se sérvio prosperar este caminho. Sei dizer a Vossa Reve- rencia que devia eu correr-me muito em ver que ate o presente não poderei dar conta de trabalhos que passásse- mos, e as vezes se me oferece que, por conhecer sua divina magestade, quão pequena e minha bolsa pêra agasalhar o fruito dos trabalhos, não somente quis a mi privar-me delles mas, ainda a outrem, por meu respeito; por tudo seia o seu santissimo nome bendito. Chegamos a este Moçambique sesta-feira, dous dias de Agosto, desta presente era de 1555, mui bem despostos, gloria a Nosso Senhor, o qual nos não pareceo no principio de nossa navegação, porque o dia, que saimos pola barra de Lisboa fora, emjoamos o Padre Carneiro e nosoutros ambos (convém saber Costa e eu); o padre logo se achou bem, e eu jouve ate dous meses, não bem desposto ainda que em pe; o irmão Costa se achou muito mal, porque veo (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 310-311; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 290 V.-292 r. ' 4
todos tres meses enjoado; do mais rematou-se sua ma des- posição com humas treçãs; sangrarão-no e achou-se logo bem, e ficou de todo são, de maneira que, louvores a Christo Jesu, creo que estávamos agora pera acometer outros quatro meses de mar, se comprisse servir a isto de quão pouca parte dura os arreceios de trabalhos de mar, (faliando ainda humanamente), pera que por elles deixe ninguém de are- mesar-se amorosa e alegremente ao que a obediência lhe mandar. Os exercícios, com que na nao ajudavamos a nossos irmãos, são ordinariamente pregar o padre todos os domin- gos e festas com muita satisfação dos ouvintes; confessa- rão-se muitos, e confessamos quase sempre, e mostrão edifi- carem-se com os sermões. Tenho muita confiança em Nosso Senhor que o Padre Carneiro a-de ser muito aceito na índia. Eu também fasso a doutrina a mininos e grumetes, por assi mo mandar o padre; tirão-se os jogos, ainda que não os necessários, por evitar ociosidade; também os juramentos não são desaforados, porque quasi toda a gente da nossa nao he domestica, e o capitão he mui virtuoso, tem muita conta com os custumes dos súbditos, por maneira que a ido sempre a cousa bem, gloria seia ao Senhor. Todos os dias temos ladainhas e, depois de estarmos na altura do Cabo de Boa Esperança, e corermos por elle, por nos acudirem alguns contrastes de ventos, que nos tornavão atras, detri- minamos pedir particular soccorro ao Senhor, polo qual fizemos procições, prometen//do de as fazer nove dias a [225 r.] fio. Quis o Senhor, por sua misercordia, que antes de as aca- barmos, dobramos a vista delle mui prosperamente. Rema- tamos nossas procissões com huma mui solene, com que ouve muitos diciprinantes e muita devação, bendito seia Nosso Senhor. Depois que dobramos o Cabo de Boa Esperança, que foi em seis de Julho, determinarão os officiaes da nao de se 1 5
fazerem bem ao mar, por que, acudindo algum travessão, não desse connosco a costa, e isto com alguma vontade, ainda que dúbia, de virmos por Maçambique, sobre o qual avia grandes areceos, porque, dipoes que partimos de Por- tugal, somente tivemos treze dias de bom tempo que nos puzerão no Cabo Verde; dali adiante, nunca jamais tive- mos dous dias de vento, que nos service, que não socedecem logo outros dous de calmarias, assi que, por este respeito, arreceávamos serem os ventos fracos, e que as correntes, pola via de Maçambique, nos tornassem atras, de modo que o não podessemos vencer a tempo de tomar a índia; andando nestas duvidas, com grande desconsolação de todos os las- carins que, por estremo e com muita rezão, temião a ida por fora, por ser quasi certa a morte de muitos, começarão de nos correr ventos contrários e tão importunos que nos trouxerão ate desaceis dias de Julho, fora de todo o cami- nho, no qual tempo se determinarão, não com poucas lagri- mas de muitos, que devião de ir por fora. O Padre Carneiro saio pellos pobres, rogando com muita instancia ao capitão que não cometece a ida por fora, e que antes viéssemos envernar a Maçambique; o capitão, por satisfazer ao padre e ao que devia, chamou toda a gente do mar e lhes deu jura- mento e todos jurarão que compria ir por fora; acentando isto com grande desconsolação de todos, logo aquella noute se levanta hum vento, segundo as merces com que o Senhor soe soccorer a pobres; era de maneira que totalmente nos estorvava a ida de fora, e para por dentro servia-nos a popa; de maneira que, vista a merce do Senhor, acometemos Moçambique, onde Nosso Senhor nos aportou a dous de Agosto com muita saúde de toda a nao, porque soos tres doentes trouxemos ao hospital, todos tres de enfermedade que da terra grangearão. Aqui achamos ser o capitão em Sofala; e o alcaide-mor quiserão muito agasalhar-nos em sua casa, mas o Padre / 6
Carneiro, pola obediência que trazemos, acentou que em nenhuma maneira se fizese tal afronta ao hospital, de modo que nos viemos a elle como os padres da nao Asumsão, que achamos surta o dia antes de nossa chegada, os quais acha- mos mui bem despostos, e nos alegramos com elles em Jesu Christo, Nosso Senhor; estamos em hum esprital mais honrrado que todos os passos do mundo; temos em nossa companhia onze enfermos, quatro da nao São Philippe e os outros da outra; curamo-los assi das almas, como dos cor- pos, porque todos os fizemos confessar e comungar e, assi elles como nos, fomos providos pello alcaide-mor com muita charidade e abastança. O padre pregou domingo e segunda- -feira, que foi dia de Nossa Senhora das Neves; são magoas grandes ver a perdição desta terra, e com quanto olvido de Deos Nosso Senhor se adora ca o ouro e prata, e ver quanto cerrão a porta a conversão dos infiéis e maos exemplos dos que se tem por filhos; hum gentio discreto, e bem inclinado naturalmente, me dizia que como avia de seguir lei de // l225 ^gente que tão disolutamente mata e rouba? etc. Ignorâncias ' são de gente que não alcansa que a ley de Çhristo não manda tal (2). Mas queira Nosso Senhor que o não pagem os por quem se pode dizer: avos estis per quos nomen Dei blasphe- matur inter gentes.» (3). Achamos grandes novas dos christãos do Cabo de Como- rim; o «Padre Anrriquez he huma grande cousa»; dice-me hum lascarim mui virtuozo e mui afeiçoado a Companhia que aqui confessei. A ordem que tinha o padre em os dou- trinar he certo que não parece menos de inspirada pelo Espirito Santo; so isto direi que me disse este irmão, que pêra os christãos novos do Cabo tivessem mais em pressa a (1) Correcção de: proíbe tal. (2) Cf. Rom., 2-24. DOC. PADROADO, VI 2
noticia de nossa fe, mandou o Padre Anriquez, a custa da mesma gente que pera isso derão ajuda, se fora necessário pintar os mistérios de nossa fe, desne (sic) a creação ate a missão do Espirito Santo, e que quando o padre detremina de lhes praticar hum mistério, faz-lhes armar a igreja dos panos que o mistério contem, e assi lhe vai amostrando, de maneira que a todos fica a cousa mais fácil e entendida, e sabem todos dar milhor conta da lei e sacramentos dos christãos, do que por ventura alguns que se tem por sábios; muitas cousas me dixe que deixo, por não ser mais largo; Christo seia por tudo bendito. Achamos novas da grande necessidade de padres na índia; Christo Jesu os mande, e tais que seião dignos de proseguir os fundamentos mui firmes que ca tem deitado no Christianismo nossos bemaventurados padres; certo digo a Vossa Reverencia que me corro ante Nosso Senhor muito em me ver nestas partes, antre companhia de gente, pera dignamente conversar antre elles e não desfazer o que elles fizerão a mister huma santidade fina e grandes quilates. Pesso a Vossa Reverencia, e a todos os padres e irmãos que esta ouvirem, roguem a Christo Nosso Senhor por mim para que se ache em mim o que cumpre a hum padre da Companhia de Jesus nestas partes da índia; os que falão ca nos Padres Mestre Francisco, Mestre Gaspar e outros, falam com lagrimas nos olhos e não se atrevem a contar suas vir- tudes, portanto os de ca e os de la que an-de vir veiamos os fundamentos que deitamos na virtude. He muita lastima ouvir o estrago que ca vai em naos que se perdem; na nao Sam Bento, que se perdeo a pouco, acabou o Padre Antonio Gomes e outro irmão nosso, que ia para o Reino; Christo seia em suas almas. Estes dias que aqui estivemos nos occupamos em confessar a gente das naos, curar estes enfermos, e outras cousas de nosso ins- tituto. / 8
As outras naos são: S. Pedro e a Conceição, em que ia o Padre Gonçalves, se nos adiantarão logo nas Canarias (4), e da capitania em que vinha o Padre Quadros nos despedi- mos, dobrada a linha, e nenhuma delias achamos ca; pra2a a Nosso Senhor que as guie e ponha em porto seguro; seria grande cousa chegarem todos os padres a índia, porque segundo a couza esta, creo que não faltara em que utilmente despendão o tempo que na índia ouvermos de estar ate a ida do Preste, a qual creo que he certa, com a ajuda do Senhor, porque todos os de huma nao, que aqui esta arribada, da índia, dizem que esta o mar mui seguro, pola victoria que Nosso Senhor agora deu contra os Rumes. Outra cousa não se me offerece que escrever a Vossa Reverencia senão pedir-lhe, por Christo Nosso Senhor, que pois ca me mandou, me ajude por sua misericórdia e por // l226 r3 todos meos padres e irmãos para que seia digno membro da Companhia de Jesus, que more sempre na alma de Vossa Reverencia em cuia benção me encomendo. Deste Maçambique, a 6 de Agosto de 1555. Por comissão do Padre Belchior Carneiro Manoel Fernandez. (3) Correcção de: lá as acharíeis. BACIL: logo la nas Canarias..
7 CARTA DO INFANTE D. LUÍS AO VICE-REI DA ÍNDIA D. PEDRO MASCARENHAS Lisboa, 23 de Março de 1555 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, I. Fls. 281 f. bis. Honrado Viso Rey. Parce-me que deve começar esta minha por boas novas pera que ordene Nosso Senhor que a reposta dela as tragua de vos e dessas partes tão boas como eu deseio. O reino de Inglaterra he tornado a fee de Nosso Senhor e a obediência da see apostólica e donde ha tão poucos dias que os católicos erão mortos e maltratados, agora se queimão publicamente os ereges; o particular disto sabereis por outras cartas. Fez Deos esta maravilha e aiuntou esta maravilha a do Emperador pois veio a ter parte nella o princepe seu filho que tem aiudado em todo este negoceo mui valerosa, catho- lica e prudentemente pera que se veia quanto mais vai a graça divina que o poder humano; o que o emperador e seus exércitos não pode fazer em tantos annos em alguma parte de Alemanha, fez aqua Deos em menos de hum anno por meyo de huma molher metida em hum canto por catholica e de hum cardeal desterrado do reino por a mesma causa porque este foi a quem se deo a obediência em nome do Papa e certo que he cousa divina de ser contemplada ver a soberba daquelle reino prostrada diante da Rainha e do cardeal que em outros tempos temião de ser nomeados em a mesma terra; não caibo em mim de prazer de considerar 2 o
esta obra de Nosso Senhor e de ver a contusão que daqui se segue, a saber: destes malaventurados eereges. As segundas novas são que todas as que ate agora vem por via de levante affirmão que as cousas de Baçora estão pacificas e que en Sues nem outra alguma parte dessas se fabrica armada contra as partes da India o que foi causa de sua Alteza não mandar gente a índia porque lhe pareceo que caminha mais o cabedal ser bom que a gente muita. Suas Altezas o Principe estão muito bem despostos, Deos seja muito louvado; e eu assi fico agora, posto que tive algumas enfermidades e fico com mui grandes deseios de saber de vossa cheguada a essas partes que espero em Nosso Senhor que sera pêra tanto seu serviço como merece o zelo com que tomastes essa empresa. E este deve ser mui grande remedio dos trabalhos // que nella não podem deixar de se t2lvl vos offerecer os quais eu espero de serem de muita honra vossa neste mundo e gloria no outro. Fazer-vos lembranças particulares parece-me escusado porque as de tão longe hão de passar tantos climas que pode muy bem ser que nelles mudem a sustancia, a saber: o que em toda a parte se ve e nessa muito mais e ter muito maior força os que nessa parte reinão e podem, esta força hade ser mais de exemplo que de leis porque este he o modo que Christo teve neste mundo onde deu lei mui branda e exem- plos mui rigorosos. Despois que partistes deste reino se começou a mur- murar por esta terra que usáveis de mor abastança em vossa mesa e mais atiladamente em vossos trajos do que convinha por este exemplo que acima diguo. E posto que eu dou a isto as falhas que se devem dar as cousas que se dizem dos ausentes, pareceo-me que se não perdia en vo-lo escrever porque vos veleis desta parte como cousa a que tendes natu- ral inclinação e a quem nessa terra também a tem e he total destroição dos que a elle vão. E quando isto vos escrevo 2 i
pêra andar a buscar tachas vossas pera vos escrever (porque este deve ser o officio dos amigos) louvo muito a Nosso Senhor de as passar tão depressa como as terras de Arelhão, no que amostrando as que erão suas, perguntando-lhe quaes erão, disse ja que datras. Sua Alteza vos manda este anno doze padres da Com- panhia de Jesus que são pera converter o mundo e certo que os deveis mais de estimar que muita gente de guerra e affirmo-vos que eu em muito o tenho e muito me alegro de ver em vosso tempo o que ainda não vi, a saber: não me acordo que visse ir pera a índia doze homens iuntos de quem se presumisse provavelmente que yam sem cobiça, o que destes presumo. As cousas da religião por escusado tenho encomendar- -vo-las nem menos as da obrigação de vosso cargo que mui sei ser o cuidado que aveis de ter de tudo. O que vos enco- mendo he vos esforceis, hanimeis muito pera os trabalhos em especial os que vos hão de dar os requerimentos de vossos amigos porque esse he hum dos grades que ha nessas partes, porem tudo vos parecera pouco se virdes quanto mais são por vos que contra vos. Quando o exercito da Syria cercou o lugar em que estava Eliseu, o seu moço, quando pola menhaa vio o lugar todo cercado de grande exercito, teve-se por perdido. Pedio Eliseu a Deos que lhe abrisse os olhos e logo vio os montes cheos de carros de fogo que estavão em sua aiuda; entonces ficou seguro. Os homens que puseram os olhos nos trabalhos da vida não podem deixar de se espantar muito de se verem cer- cados delles mas se põem os olhos nos montes altos da [282 r.] misericórdia //de Deos e dos merecimentos de seu unigé- nito Filho que estão em nosso favor não tem que temer e seguramente abraçam a sua Cruz pera o seguir. Eu espero 2 2
em sua infinda bondade em tudo vos de graça por que assi o façais conforme ao zelo que tendes de sua gloria e serviço. Pera que a carta acabe em boas novas como começou, Dona Helena, vossa molher, fica mui bem, prazera a Nosso Senhor que assi o achareis quando vierdes. Elie vos tenha em sua santa guarda. De Lisboa a 23 de Março de 1555. 2 3
8 CARTA DO PADRE MANUEL FERNANDES AO PADRE ANTONIO CORREIA, DE COIMBRA Goa, 4 de Dezembro de 1555 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 231 v.-232v.{l) [231 v.] Reverendo meu em Christo Padre. A graça do Espirito Santo more sempre em nossas almas e as desponha pera serem morada sua, Amen. Padre meu, quisera ter muitas lingoas pera poder decla- rar a Vossa Reverencia tudo o que por ca passa, que creo ao menos servira para que Vossa Reverencia com mais afeituozos deseios encomendasse a Nosso Senhor estes filhos e irmãos seus que a santa religião lhe deu. Eu escrevi a Vossa Reverencia de Moçambique em que lhe dava conta do que Nosso Senhor se dignou fazer com- nosco na viagem de Lisboa ate ali; bem sei que fui muito curto nella, como o sou em todas as outras couzas de vir- tude. Ao menos tome Vossa Reverencia de mim o amor e deseios de lhe dar tudo, porque confio em o Senhor que nisto não achara falta nenhuma em mim da fidelidade e agradecimento que em Jesu Christo Nosso Senhor lhe devo, torno agora a lhe escrever, porque se o Senhor me pusesse [232 r.] em parte onde o pudesse fazer cada // anno, nunca faltaria, e isto não digo pera que Vossa Reverencia faça o mesmo, porque ja sei quão perdido pode ser o tempo que nisso gastar. (1) BIMINEL: Cartas do lapão, fls. 321-322 v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 302 r.-303 v. 2 4
Nos chegamos, padre meu, a esta barra de Goa a sete dias de Setembro, vespera do nacimento da Virgem Nossa Senhora, que puntualmente comprio dous annos que che- guei de Coimbra em Companhia do Padre Rui Vicente, quando o Senhor se sérvio livrar-nos do Egipto; faria aquelle dia vinta nove que partíramos de Moçambique, na qual pas- samos alguns enfadamentos de por vezes nos correrem tem- poraes mais fortes que em toda a viagem outras vezes, calmarias junto da costa, e as agoas que pola posta (sic) nos deitavão a ella, por maneira que as ladainhas erão tão frequentes e não com poucos rostos amarelos. Quis Deos Nosso Senhor livrar-nos, de modo que o dia que disse sur- gimus nesta barra, e saimos em terra as duas naos que quasi sempre viemos juntas, São Philippe e outra, em que vinhão dous padres nossos: hum, o padre Jeronimo de Quenqua, castelhano, e outro Mestre João, framengo, e mais o irmão Marcos Nunes. Todos, louvores a Christo Jesu, chega (sic) bem despostos. Saimos en terra num catur que o Padre Balthasar Dias, nosso reitor, mandara com tres irmãos para nos trazerem, e a tempo que chegamos ao caes estava grande turba de gente esperando os padres de São Paulo, com tanto alvoroço e alegria como se em nos estivesse muita parte de todo o seu bem. E porque não fale nisto mais, seria cousa que pedisse muito papel, quero encarecer a Vossa Reve- rencia o amor e afeição e credito que toda a gente destas partes tem aos da Companhia. Certo , padre meu, que he cousa de pasmo ver que não parece a estes senão que todos os da Companhia são recuzidos em Deos, e que não soltão palavras, nem a nelles movimento que careça de mistério, e <3ue venha senão la de sima por sua edificação. Iraa Vossa Reverencia pola cidade, e sai hum de huma parte e outro doutra a lhe beijar a mão, que crem estar aly o remedio de sua alma. De maneira que, quem for hum pouco amigo de onra e favores, eu lhe prometo lhe não falte ca poo de que 2 5
se sacudir. Deos nos guarde, padre meo, pera que de tal modo cortemos por entre ambos os perigos, que nem aja ay embaraçar-nos com calas das gentes, nem tão pouco aja em nos dar-lhes exemplos taes que, em grão maneira, desdou- remos e escuraçamos as tintas que Deos Nosso Senhor se dignou dar a esta minima Companhia, por meo de seus cervos, nossos padres, dos quais todo foi enjeitado e quasi abortivo de laa. O bemaventurado Mestre Gaspar, Vossa Reverencia com todos seus filhos quos ded.it tibi Dominus, ajudem a ter mão no que Nosso Senhor tem edeficado. Assi, que partindo do caes para o colégio, viemos e não poucos acompanhados e em chegando a rua do collegio, saltou comnosco huma grande confraria de negrinhos da terra, mininos que hum nosso irmão insina a ler; estes vinhão-nos a receber cantando Padre nosso que estas em os ceos, santificado seja o teu nome. O padre meu, que gloria de Nosso Senhor era ver aquelles pobrezinhos todos, os mais dispidos, tão pobres e em partes tão remotas da frequência dos christãos, e que lhe veo Deos Nosso Senhor dar noticia que elle, morador dos ceos, he o padre seu; passando estes hum pedaço, antes que chegássemos a nossa casa, saio-nos o encontro huma pissisão de sesenta ou setenta mininos, vistidos numas vestes brancas ate baixo, com humas capelas de froles na cabeça e nas mãos humas cruzes de pao preto e seco, e vinhão por seu adayão, o Padre Micer Paulo, com suas onradas cans, e vinhão cantando (não com pouco con- certo) Benedictus denique Deus Israel quia visitavit et fecit redemptionem plebis suce. O meu senhor padre, se os vira Vossa Reverencia todos os mais nigrinhos, tão mo- destos, com tanto sentimento que, se não fora eu, derramara muitas lagrimas. Chegou logo a nos o Padre Balthazar Dias, com todos os mais padres e irmãos; ahi vira Vossa Reve- rencia cousa que lhe servira de pequena materia de poder dizer o de Santo Agustinho: Si tanta facis in cárcere, quanta 2 6
fácies in palacio, com não pouca edificação do povo que nos olhava; os meninos procedendo com seu cântico, entramos na nossa igreija; fomo-nos ao Santíssimo Sacramento, que so considerar que ho pusera aly antre tantos que desacatão e desistimão seu santo nome, era para muito sentir; o padre nos mandou agasalhar, e se me não fora por parecer istoria, escrevera tudo meudamente. // Demos graças a Nosso [212 >.] Senhor que a cabo de sinco mezes de tantas impurtunações nos aportara Sua Magestade antre nossos irmãos que nos querião meter na alma. Dali a poucos dias, chegarão o Padre Antonio de Qua- dros, o Padre Micael e o irmão Joseph, que quando os vimos se nos tornou a dobrar a alegria, porque avia grande areceo de, ou se perderem, ou invernarem em Moçambique, por- que vinhão numa nao algum tanto vagarosa. Elles vinhão bem despostos, gloria ao Senhor, mas porque não fosse tudo prazer quis o Senhor agoar-nos o contentamento, porque una voce dizião todos que os padres da Companhia trou- xerão estas naos a índia, por aver muitos annos que não vem, e que se perdem todas, de modo que dali a poucos dias chega recado que a outra nao, em que vinha o padre Gon- çalvez castelhano, e o Padre Pascoal, e o Irmão Lopes, dera a costa, e se fizera pedaços e a gente estava num ilheo mui raso que, como soubemos este domingo passado de hum que da segunda ves se salvarão de la, he de trezentos passos em comprido, e sento em largo; delles ficarão duzentas e duas pessoas, assi que ali ficarão e estão; salvar-se-ião ia ate outenta pessoas, com as que primeiro vierão; os que agora la estão, e que acompanhão os padres, podem ser sento e sesenta que desde quasi de dez de Setembro para ca estão com sinco sacos de biscouto, e outra pouca de provisão; são ja em busca delles. Temos esperança em o Senhor que todos ou alguns se salvarão e virão pera ca. Frances são estes, 27
padre, que não serão ca por novos, e quem de la partir a-de trazer feita provisão para tudo o que soceder. Qua, a gente christã da terra, crea Vossa Reverencia que me edificou muito por estas molherinhas, e estes negros, e isto certifico a Vossa Reverencia que passa com verdade, que se confessão com tanto concerto e com tantas lagrimas e sintimento de seus pecados, e com tanta examinação de suas consciências que prouvesse a Jesu Christo (olhe Vossa Reverencia o que digo), que muitos mui discretos de Por- tugal soubessem dar tão boa conta de si, e por o dedo nas cousas de sustancia, como muitos destes. O Padre Balthazar Dias me mandou ter cuidado de olhar poios cathecuminos; dia de Santo Andre, bautizei com toda a sollenidade 14 almas, não ja que eu trouxesse ao Christianismo; agora temos ca dous, hum abexim e outro mouro discreto, e que lem e escrevem muy bem sua lingoa e tão observantissimo de sua triste ley, que se Vossa Reve- rencia lhe vira huma nomina que trazia, quando veo ficara frio assi que por aqui gastara homem estes sinco dias e se o Senhor não quiser que passemos daqui, sit nomen eius beneâictum; não me posso mais deter. Deseio que Vossa Reverencia mandasse a todos meus irmãos da provação que se lembrem de mi, aos quais todos muito em Jesu Christo Nosso Senhor me encomendo; ao meu Padre Gonçalvez me encomende Vossa Reverencia muito em Jesu Christo, e que enganado me acho ca com ser do Alentejo, porque as calmas não tem conta com isso. Pesso a Sua Reverencia aja esta por sua, e me encomende muito ao Senhor; não espero que algum dos padres que ay deixei hoc est na provação, estem ia em Portugal, e por isso não falo nelles. A Luis Carva- lhino, e mais a todos os irmãozinhos que ficarão, me mande Vossa Reverencia encomendar. Não me atrevo nomear outros, ainda que a todos em Christo Jesu amo como minha alma. Peço a benção a Vossa Reverencia, em cuias orações e 2 8
sacrifícios muito me encomendo. De Goa, a 4 de Dezem- bro de 1555. O Padre Francisco Anrriquez se encomenda muito a Vossa Reverencia; somos companheiros no cobi- culo; Christo me fizesse se-lo em todo o demais. Servus et filius indignus Manuel Fernandez. 29
9 CARTA DO PADRE ANTÓNIO DE QUADROS PARA O PADRE MESTRE MIRÃO Goa, 6 de Dezembro de 1555 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 226 r.-231 v. (1) [226 r.] A graça e pas de Christo Nosso Senhor seia sempre em nosso continuo favor e ajuda, amen. Pola carta que escreveo aos irmãos de Coimbra poderá Vossa Reverencia saber as novas de nossa viagem; nesta lhe queria dar conta de cousas que me parece não deseiara menos de saber e creo se consolara com elles e pera que comece do principio que me moveo a lhe escrever esta. Os que vínhamos na nao capitania chegamos a esta cidade de Goa a nove de Setembro, avendo dous dias que tinhão chegado o Padre Belchior Carneiro e o Padre Jeronimo de Quenca e seus companheiros, e crea Vossa Reverencia que em a nossa entrada vi em a gente tanta alegria de nos ver que fiquei muito espantado, porque he tanta a devação que esta gente da India tem a Companhia que, quando vem ca padres, se alegrão tanto como se em nos estivesse sua salva- ção. Crea-me Vossa Reverencia que o credito que la tem a Companhia não he nada pera o que ca esta gente desta terra tem delia e, a falar verdade, esta terra esta tão edefi- cada com o trabalho dos padres que ca vierão, que não me espanto exceder tanto o credito da Companhia nestas partes ao de la; tanto quanto excedem os trabalhos grandes dos padres que ca vierão ao muito que la se tem, porque nesta (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 312-319v.; BACIL: Cartas do lapão, I, fls. 292 V.-301 v. 3 °
terra andou o bemaventurado Padre Mestre Francisco, cuia virtude obras e trabalhos forão tão grandes que não sey quem poderá derrubar o que elle edificou. A devação que tinha com Deos entre tão continuo trabalho me espanta muito; andava por Japão, rezando poios caminhos, e ia tão embibido em Deos que, sem saber, se apartava do caminho e rompia as ciroulas e escalavrava as pernas e não sentia nada. Aqui, em nosso quintal, aconteceo hum irmão espreita- -lo e, vindo elle passeando, vinha tão emlevado que, tor- nando em si, e parecendo-lhe que poderia ser sentido disse alevantando os olhos ao ceo e pondo as mãos nos peitos: «Senhor, no mais, no mais.» Contarão-me os homens que viviam com elle na mesma casa que não dormindo mais que 3 ou 4 oras cada noute, dizia commumente em sonhos: «O bom Jesu, o meo Senhor e criador», e outras palavras desta maneira. Aqui em casa hia-se a vigiar toda a noute em oração em hum corinho, donde se ve o Santíssimo Sacra- mento e, se algum sono tomava ahy, era no chão; muitas vezes estava com os irmãos e vinhão-lhe tão grandes conso- lações de Deos que, para as receber, mandava muitas vezes aos irmãos que se saisem e, huma vez, saindo da oração alegre disse a huns irmãos: «o anno que vem avemos de ter ruins novas de Portugal», e foi assi. E continuava este reco- lhimento da alma tanto que, com conversar muito familiar- mente com os homens, e muitas vezes em couzas, huma // [226 v.] nas, sintião nelle tanto espirito que não avia homem que lhe olhasse direito pera o rosto, com grande reverencia e acatamento que tinhão a sua virtude. A mim me contou hum meu irmão, que andou muitas vezes em embarcações com elle, que continuamente o via estar em oração da huma hora dispois da mea noute ate de dia, em casa de São Thome, de quem elle era muito devoto; sabemos aver tido grandes sintimentos de Deos e aver ali 3 7
estado muitas vezes as noutes inteiras em oração, e de huma vez lhe apareceo o demonio e lhe deo muitas pancadas e acabando por virtude do santo varão se foy confuso e elle ficou mui consolado; era finalmente tanto o que recebia de Deos na oração, que dizia muitas vezes a Nosso Senhor que lhe não desse tantas consolações neste mundo, e assi tinha tão grandes alegrias nos trabalhos que dizia que nunca tan- tas consolações tivera como em Maluco, aonde careceo de toda a ajuda humana, e nos trabalhos dizia a Nosso Senhor que ho não livrasse delles, se não fosse pêra sofrer outros maiores, fez-lhe merce de tantos, que seria nunca acabar se se ouvesse de contar, porque o tempo que andou no cabo de Comorim era hum continuo trabalho. Contou-me hum homem, que andava com elle, que con- tinuamente dormia mui pouco, e quando lhe sobeiava de seu trabalho continuo duas ou tres oras pera dormir era muito. As vezes se passavão dous dias sem comer quanti- dade de hum real de pão; andava em continuo perigo da morte, polas persicuções que os gentios lhe fazião, que dos christãos da terra estavão continuamente muitos, especial- mente de noute, em sua guarda, e ia lhe aconteceo que, indo para o matar huns gentios, sobir-se em huma arvore, estando ali toda huma noute, escapou; também forão muitos os tra- balhos que passou em Malaca quatro vezes que ai foi, em Amboino, Maluco, e ilha do Moro, a pregar e insinar aos grandes da terra a doutrina declarando-lha, e aos mininos insinuar a doutrina cada dia, ajuntando-os com huma cam- painha, e em confessar, e tirar os homens de peccados, servir aos doentes do esprital em Malaca, que dispois de trabalhar todo o dia, de noute, depois de recolhido, não tomava tempo para dormir senão o que, forçado da natureza, lhe era neces- sário tomar, de maneira que se punha fazer outras couzas, e de maneira que caia com o sono, e desta maneira dormia, que não andava nenhum doente ay e no hospital que log» 3 2
o não fosse vizitar. Preguntei aquelle homem que fazia quando se recolhia; disse-me que o espreitava muitas vezes, e sempre o vira em oração ate que, forçado do sono, caia. Teve nestas viagens muitos trabalhos, assi em muitas tromentas das quais em huma fora huma legoa toda com o leme pela area, como nas ilhas do Moro, entre muitos desamparos de todos os remédios humanos e muitos peri- gos de morte assi de pessonha como doutros extrinsecus; da muito espanto aos que sabem seus trabalhos e vida nestas partes. Ora os do Japão: forão mui grandes assi do pouco comer e dormir como do muito trabalho que toma // va na con- l227 r0 versão, como na aspereza da terra, que dis que a caminhou quasi toda a pe, com muito trabalho, ainda que podia andar em besta, e com o grande frio delia trazia as pernas mui inchadas. Contão também que, indo nesta terra em algumas embarcações, lhe tirarão os da terra muitas frechadas para o matar, das quais todas o livrou Nosso Senhor, e em algu- mas não sem milagre, como eu ouvi. O fim de seus traba- lhos foi a morte que Nosso Senhor lhe deu em Cantão; antes daquillo, o consolou tanto Nosso Senhor e lhe deu tantos deseios de o ir ver, que escreveo antes hum pouco que morresse, que ainda que ate ali deseiara de ter vida para servir a Deos, e acrecentar seu nome, ja então tinha apaga- dos aquelles deseios, com os que tinha de acabar e ir ver a Deos. Foi homem que em sua maneira de viver foi mui prove; aqui em casa sempre pedia de comer, por amor de Deos, e nunca se embarcava com mais de huma sobrepelis e hum breviário, e outro livro, e as camisas lhe emprestavão os lascarins por amor de Deos, e as chinelas e çapatos, e todo o mais necessário bem que com isto era tanta a reve- rencia que lhe tinhão que o milhor do navio era seu. A obe- diência nelle que tinha a todos foi mui grande, assi como nos la temos aos prelados da Companhia; foi o Padre Mestre 33 DOC. PADROADO, VI 3
Francisco na obediência mui inteiro que em sumo grao a compria; não somente com o bispo, vigairos, mas ainda aos religiosos, e assi mandava a todos os padres que dessem obediência a todos os vigairos das fortalezas e que, quando la fossem, lhe fossem logo beijar as mãos, e assim o fizessem quantas vezes polas ruas os topacem, e assi sempre e com isto ate gora. Quando aqui vinha, primeiro ya visitar o bispo, vigairo, frades de São Francisco e São Dominguos, que a nos, e isto com lhes beijar as mãos ou se deitar aos pes de todos; de dia era todo do proximo, de noite era todo de Deos, e assi foi verdadeiramente seguidor de Christo que, pregando de dia per noctem stabat in orationibus; sobre tudo isto, tinha tão grande maneira de conversar com os homens e tirar de peca- dos que parece que a muitos annos que Deos não comu- nicou este dom em tanto grao a nenhum homem, e assi na conversação fes mais fruito que na pregação; ia-se por esta cidade com huma campainha e trazia a todos os mininos e negros e negras que pudia a nossa igreija, e dispois de lhe fazer a doutrina falando-lhe, meo negro e meo português, sabia delles quem tinha amigas, e os que tinhão tres ou mais mandava-lhes e rogava-lhes que deixassem huma delias, que as outras lhe abastavão, e ansi cada des ou vinte dias lhe ia tirando huma, até que ficavão sem nenhuma; a homem português tirou pouco a pouco desta maneira outo ou nove mancebas. Como sabia que hum homem estava em pecado, fazia-se grahde seu amigo, sem mais pratica de Deos, e depois de muita amizade o trazia a Deos. Particularidades se contão delle, de sua maneira de trazer os homens a Deos, que certo me tem espantado; teve verdadeiramente aquilo de S. Paulo, omnia omnibus factus sum; com os lascarins, lascarins e com todos todo; isto com tanto tento que nunca perdeo de si nada nem ninguém, por quantas graças e zom- barias dixe o teve em peor conta, antes em mais reverencia. 3 4
Acerca de milagres que ele fazia, me contarão homens que andarão com ele no Cabo de Comorim, que fazia mui- tos e mui contínuos, em dar saúde a enfermos e deitar demó- nios dos corpos, e dixe-me que poucas vezes dizia as orações sobre hum doente, que não sarace, e disse o Padre Mestre Francisco que fazião os mininos o mesmo, também rezando as orações sobre os enfermos em huma carta sua, das pri- meiras que la forão; em Malaca se prophetizou huma vito- ria dos portugueses contra outra gente, sem inda se saber nada em a cidade, nem ter vindo a armada de Maluco; disse hum dia na igreija que emcomendacem a Deos// a alma [227 v. de hum seu amigo que morrera na ilha de Amboino nomeando-o, e foy o mesmo dia que o outro morreo la nessas partes que ressuscitou hum morto. Em Japão me dixe hum homem japão que o vira fazer tres milagres: hum em dar a hum mudo e tulhido juntamente fala e andar; e a outro surdo ouvir, e a outro tolhido ou mudo, não sei qual, lhe deu saúde. Mais me dixe que la em Japão o tinhão por maior homem que avia em Europa, porque dis que não era como os outros padres da Companhia e seus companheiros, os quais não respondiam senão a hum gentio e, acabado aquelle de vencer, argumentavão com outro, mas dis que o Padre Mestre Francisco mandava preguntar a quantos gin- tios vinhão falar com elle o que querião e, preguntando des ou doze, de huma resposta que satisfazia a todas aquellas preguntas. Dizendo-lhe eu que serião todas conformes, disse- -me que não, mas que erão diverssissimas, e isto que o fazia mui correntemente, e que parece grande dom de Deos. Hum homem me contou de si, que andando omiziado e mal aviado de sua conciencia, fora ter a huma fortaleza com Mestre Francisco e, contando-lhe suas misérias, agasalhou-o o padre em hum esprital, aonde vivia, e dipois de o confes- sar e ter mitido em bom caminho, como faze-lo encomendar a Deos mui de proposito, e confessar e comungar cada onto 35
dias, ouve-lhe perdão das partes, e lhe encomendou que se fosse pera Portugal e, finalmente, o persuadio a isso, e apartando-sse este homem delle pera vir para a índia, alem doutras cousas, lhe dixe que huma cousa sobre todas lhe encomendava, e era que se confessasse muitas vezes, e que nisto mostraria ser seu amigo, se o fizesse asi, e que nisto lhe pagaria as boas obras que delle recebera; prome- teo-lhe que assi o faria e apartando-se delle não no fes; assi antes, andou na Inda dous annos, sem se confessar e depois, vindo o Padre Mestre Francisco a ftidia, o topou em Baçaim e, vindo elle mui alvoroçado pera o ver, lhe disse Mestre Francisco: «foão, muito mal fizestes o que vos encomendey, pois nunca mais vos confessastes despois que vos partistes de mim»; Isto, alem de ser impossível saber-sse quaa na índia humanamente, sabe-sse por outra via, não no saberia o Padre Mestre Francis Francisco senão por Deos. Então lhe disse também que não avia de falar com elle, sem se confessar primeiro, e assi o fez confessar ao outro dia e receber o Santíssimo Sacramento. Isto me contou a mesma pessoa que se não confessara, tendo por cousa maravilhosa que o meteo muito em si, e fes ter muita contrição de seus pecados. Denique, o Padre Mestre Francisco foi hum dos homens insignes em santidade de vida que ha muitos annos que ouve, quasi como elle; sempre em sua vida buscou, com grande afeito e trabalho, a gloria de Deos, de quem especialmente era zelozo, assi também em sua morte o glorificou Nosso Senhor porque, estando enterrado tanto tempo em cal, nunca permitio que tivesse poder não somente pera lhe comer o corpo, mas nem pera fazer nelle alguma alteração, querendo-lhe Nosso Senhor acidentalmente a integridade e pureza de seu corpo em a sua couza de castidade, porque averiguado se tem isto de seus confessores, ser virgem. A esta cidade veo como se aquella hora morrera; esteve dous dias na igreija, a requi- 3 6
rimento do povo, aonde o veo ver e chorar toda a cidade, assi clérigos como frades, como leigos, beijando-lhe os pes e tocando-lhe suas contas. Aconteceo que a nao em que elle vinha de Malaca foi dar em humas lamaceiras, as quais erão tão baixas que não erão mais de huma braça, e deman- dava a nao quatro, porque era grande e vinha muito carre- gada. Tirarão o barco pera ver se avia algum remedio, acharão aquelles baixos todos ao redor e vendo a nao queda sem // poder andar e elles que não tinhão remedio nenhum [22Sr pera se poderem tirar dali, se encomendarão ao corpo de santo varão que trazião; nisto sai a nao daly, não sabendo elles como, e vierão seu caminho ate Goa, não com pequeno espanto de todos que dezião que ainda que não fizera outra cousa Mestre Francisco, so por aquillo o avião de canonizar. De sua vida a tanto que dizer que seria nunca acabar, se tudo lhe ouvesse de contar, porque o que fica de contar de sua vida não he menos que o que lhe tenho çpntado delia, da qual ficarão os homens tão edifycados e fica delia tão grande dor nesta terra, que não me espanto terão a Com- panhia, de que elle foi, em grande conta e credito. Dos outros padres e irmãos que ca ouve, lhe sei dizer, padre meu, que o siguirão muito, porque Mestre Gaspar foi hum homem que atrahio muita gente a Deos com huma santa e fácil conversasão que tinha com os homens, com o qual imitava muito a Mestre Francisco; o trabalho que teve este pouco de tempo que ca viveo foi tam grande que parece comprir-se aquillo de Salomão: consumatus in brevi explevit têmpora multa; porque trabalhou mais em pouco tempo do que outros soem trabalhar em muito; viveo nesta terra seis ou sete annos, dos quais tres esteve em Ormus, terra em a qual hos homens, com as grandes calmas, não vivem senão mitidos na agoa, e elle pregava duas, tres vezes na somana, fazia cada dia a doutrina aos moços e negros, indo pola cidade ajunta-los com campai- 37
nhãs; lia huma lição de casos de consciência aos homens seculares, pera se saberem aver em seus contratos e rendas e compras, do que aly avia muito. Disputava cada somana com os judeos, mouros e gentios da terra. Alem disto, confessava os portugueses continuamente, porque dis que enquanto elle estava naquella terra foi huma continua Coresma de confissões. Fazia amizades tirava homens e molheres de pecado mortal, visetava e servia os homens do esprital e, alem disto, tinha muita conta consigo, assi em ter muita oração como em fazer outras penitencias exte- riores, assi em jejuns, como em disciplinas e outras aspe- rezas exteriores. E o tempo que de tantas occupações lhe ficava para dormir era tão pouco que nunca passou de tres oras, se não fosse em algumas graves enfirmidades com que Nosso Senhor naquela terra o visitou. Ali lhe aconteceo quasi de dous meses, nos quais se aparelhava huma armada pera fora, cjue por se occupar em confições, não dormia cada dia mas de huma ora e algumas vez (sic) estar dous dias sem comer, parecendo-lhe, por a necessidade que a gente tinha, ser mal empregado todo o tempo que não occupasse em confessar. Outras vezes lhe aconteceo ter tão grande pressa em confessar e ocupar-se em gente que estava para morrer que se assentava a par do emfermo e dali confessava hum e animava o doente, quando era necessário; e assi com isto fes tão grande fruito naquella terra, que com rezão era tido de todos por pay e assi, em officio certo, o foi porque tirou aquella terra de muitas onzenas e outros contratos illicitos, e fes restituir muita soma de dinheiro, o qual chegou a vinte mil pardaos, com os quais se casarão muitas molheres comvertidas e se remediou muita gente necessitada e se fizerão muitas outras obras de misericórdia. Teve huma virtude entre outras em muita perfeição, e foi hum continuo e grande zelo do proveito esperitual dos proximos, de os trazer a Deos, e dava-lhe Nosso Senhor 3*
tanta graça nisto, que a muito poucos homens ou nenhum converçou, para os tirar de pecados, e trazer a Deos, que o não acabasse com elle. E ja lhe aconteceo huma vez que, não querendo hum homem tirar-se de hum pecado em que estava, fes preço com elle pêra que se tirasse e, por con- certo, lhe deu 15 ou 20 pardaos que ouve de esmola para esse efeito. Também lhe aconteceo em Ormus andar apos hum homem que se confessase e não no querendo elle fazer, o trouxe por engano a casa, e lhe fichou a porta e lhe prometeo que o não avia de deixar ir ate se confessar. Fynalmente fe-lo confesar mui de preposito, e acabando-ce de confessar se embarcou logo em hum na //vio que dantes [228 v.i tinha determinado, e dahi a poucos dias o matarão imigos em peleja no mesmo navio. Aqui em Goa, aonde esteve o mais tempo, edificou sumamente esta terra com seu con- tinuo trabalho, porque tinha cargo do temporal e do espi- ritual desta casa e irmãos, e pregava cada somana assi aqui como fora de casa, por outras igreijas sinco, seis, sete vezes, e isto com tanto concurso e devação da gente, que era cousa de espanto, e sobre isto confessava e andava por esta cidade em negocios espirituaes dos proximos todo o dia, e o seu comum era vir a casa as onze da noute, porque o que lhe faltava de dia para trabalhar o tomava de noute, e isto com tanto tento e modo, que a todo o mundo edifi- cava. Com estes trabalhos assi aquy, como em Ormus, lhe dava Nosso Senhor tantas consolações que, nem sendo tempo nem opportunidade pera isso, lhe era forçado muitas vezes toma-las. Finalmente morreo e a sua doença não foi senão esfalfamento dos muitos trabalhos que tomou por Deos, e assi com isto edifycou e fes muito fruito nesta terra, o qual se mostrou muito em sua morte, porque assi foi chorado de todos como se cada hum perdera seu pay ou sua may. Quando dobrarão os sinos por elle, veo logo muita gente a casa saber o que era, e quando o souberão, 3 9
yão por essas ruas bradando que Mestre Gaspar era morto; foi logo tanta a gente na igreija, e tantos os choros, que era cousa piadoza ver a lastima de tanta gente que com tanto effeito sintirão sua morte, e crea, Vossa Reverencia, que não foi Mestre Gaspar a menor parte desta terra de Goa ser devoto da Companhia, mas creo que foi a maior. E ainda agora fica em espanto sua vida, assi a gente de fora como a nos outros, e a de fora, com seu exemplo, pedem de nos muito, e as vezes mais do que se pode, e nos também nos animamos a trabalhar. Em Japão, temos hum irmão chamado João Fernan- dez (2), cuia perfeição he tão grande e tem recebido e recebe quada dia tantos trabalhos por Deos, que dezia delle Mestre Francisco a Mestre Gaspar: «que dizeis de João Fernandez, he tão virtuozo e trabalha tanto que pera virdes a iguala-lo vos he necessário trabalhar muito». Mas os que estão la em Japão, tem seu continuo tra- balho na conversão da gente, e conversar os novamente convertidos, como em sofrer a aspereza da terra, assi na falta do comer, de que ella carece muito como em frios mui grandes. O Padre Cosme de Torres, que la deixou o Padre Mestre Francisco, sendo homem muito grosso, quando determinou de seguir ao santo padre em o Japão, esta ja tão negro e desfeito dos trabalhos, que ia o não conhecem os que antes o virão; alem disto, tiverão ja muitos perigos de morte, especialmente hum em o qual parece que Nosso Senhor milagrosamente os livrou desta impresa e maneira de trabalhos. Estão mais o Padre Belchior Nunez e o Padre Balthasar Gago, e outro padre, e quatro irmãos mas, (sic) com muito fruito e edificação daquella gente da qual muita ja he convertida a nossa santa fe, e se abrem grandes cami- (2) Correcção de: Jeronimo. BACIL: João Vernande,. 4 °
nhos para o nome de Deos ser mui glorificado; na qual terra, a gente he mais capas e sogeita a rezão que todos que estão ategora discubertas. Quando logo la foi o Padre Mestre Francisco, dizião alguns maos que aquelle homem não se avia de ouvir, porque era feiticeiro e falava couzas do demonio; respondião comummente aos outros que se calassem, que não tinhão rezão porque aquillo, ainda que fosse assi, elles ouvirião e que se o padre lhes dissesse couzas conforme a rezão, que as tomarião, ainda que fossem do demonio e, se não fossem conformes a rezão, as deixarião. E assi a nenhum se dis que seia christãos, senão declarão-lhe seus erros e a verdade da nossa fe e como elles caem // [229 N nisso, logo vem bradando que os fação christãos. E assi de verdade que quando a gente desta terra ve a Companhia ca espargida em tão remotas e trabalhosas terras, crea que edifica muito principalmente, vendo que nos soos nos me- temos em a onda, e a força do trabalho, e disto especial- mente achei muita gente edificada em verem que em terras trabalhosas não se achão outros religiosos senão nos, como em as ilhas de Maluco, em Japão, e em Ormus, e na ilha de Amboino que he huma das de Maluco. Andou ali anti- gamente nosso Padre Mestre Francisco o qual mandou aly o Padre Nuno Christovão Ribeiro, o qual, dispois de fazer muitos christãos, alem dos que fes o Padre Mestre Fran- cisco, andando elle so com elles, sem aver aly portugueses mais que hum que por devação quis ficar com elle, não levando outro tratamento corporal que o da gente da terra que, como gente misera, não tem outro, senão dormir e manter-se com pouco mais de nada, os quais doutrynou algum tempo com muito trabalho, despois, adoecendo mortalmente, se mandava levar em hum pano, como cuber- tor, e ya visitar e doutrinar os christãos em suas casas, em sua infirmidade, assi como o fazia na saúde, e andou nesta santa ocupação ate que deu a alma a Deos. Agora esta nesta 4 1
terra o Padre Antonio Vaz doutrinando e ajudando esta christandade, do qual ainda não temos novas nenhumas. Em Maluco esta hum padre nosso, chamado Afonso de Castro, cuja vida e doutrina tem muito edificado aquella terra, porque he homem mui dado a oração e de muita virtude. Nas ilhas do Moro, aonde ha muita christandade anda João da Beira, com tres irmãos, aonde padecem muito por a estrelidade da terra ser mui grande, pelo que dizia Mestre Francisco que mais se avião de chamar aquellas ilhas, Ilhas de esperarem Deos, que do Moro. Nei las se perdeo ja o padre, indo por mar tres vezes, e de todas o Senhor o livrou, e de huma andou dous ou tres dias pelo mar sobre huma taboa, e andou muitos dias embrenhado fugindo aos mouros que andavão pera o matar. Outro irmão também no mar, indo para a fortaleza onde chegou nu de todo. O trabalho que se tem em converter aquelles gentios, e conservar os que são convertidos, e sofrer as persicuções dos mouros, he muito, alem da falta temporal do necessário assi acerca de comer como dormir, como do outro socorro e ajuda humana, pelo qual o Padre Mestre Francisco deixava sempre mui encomendados os padres de Maluco e Japão, poios muitos trabalhos e necessidades que, como esperimentado sabia que padicião mais que os outros padres, que por ca estavão. Em Malaca nunca esteve de acento senão o Padre Fran- cisco Peres, homem que edificou muito aquella terra e que com trabalho esta todo gastado porque ha tantas necessi- dades nestas terras e os obreiros são tão poucos que necessa- riamente toma hum trabalho que bastava para muitos. E como a terra de ca he menos capas de trabalhos que a de la, gasta mui azinha hum homem. E não creo que isto soo foi rezão de trabalhar tanto, mas porque Francisco Peres foi sempre tão virtuoso e servo de Deos, que o Padre Mestre Francisco sempre dixe delle ser hum varão mui 4 2
perfeito. Mandou-o de Malaca e Cochim, porque era o Padre Mestre Francisco tão amigo do proveito das almas que não queria que algum padre nestas partes estivesse infrutuozo, porque lhe parecia que, enquanto hum certo homem (3) fosse capitão em Malaca, não se avia de fazer ay nenhum fruito, quis que viesse rezedir aquelles tres annos em Cochim, onde pregava duas ou tres vezes na somana, e trabalhava em outros exercitios da Companhia, com muita edificação e mansidão, da qual especialmente he dotado de nosso Senhor; em o Cabo de Comorim tem tanto feito e trabalhado que he muito pera louvar ao Senhor. Nesta parte a maior christandade que a na índia; dizem aver ali cento e trinta mil christãos, mas não forão feitos com pouco trabalho, asi do Padre Mestre Francisco, como dos que socederão, e forão seis ou sete, os quais, tendo repar- tido toda a costa pelo Padre Mestre Francisco, cada hum corria certos lugares e o Padre Antonio // Criminal corria t229 *0 toda a costa cada mes, olhando assi por que cada hum traba- lhava, como aiundando a christandade; a morte deste padre quão voluntária, e de quanta charidade foi, he claro aos que o sabem, porque, estando ja embarcado, não sofrendo ficar a gente e mininos da terra na praia, avendo medo que cati- vados se tornassem mouros, se saio da embarcação e em- barcou quantos poude, e quis elle antes morrer as lançadas, como o matarão, que ficarem aquelles mininos e gente em tanto perigo de suas almas, querendo comprar com sua morte a saúde espiritual de tantos; mas sua vida não foi de menos virtude que sua morte, porque este foi hum dos perfeitos homens que ca ouve da Companhia e, alem de muitas virtudes que teve, esta foi em especial que cada dia se punha em oração trinta vezes em guelha (sic), segundo (3) Correcção de: D. Alvaro. 4 3
a maneira de orar do Apostol São Bartolameu, que o fa2Ía sem vezes; os outros seus companheiros e súbditos tiverão isto, alem de muito trabalho ordinário que tinhão; alguns delles forão prezos dos gentios e tratados mui mal; outros vendidos, outros espancados dos mesmos gintios; hum dos seus companheiros foi o Padre Anrrique Anrriquez, homem de muita virtude, ao qual, por sua morte derão cuidado de todos aquelles christãos o qual quanto fes com sua pru- dência, mansidão, charidade, trabalho, naquella christan- dade, mostrão muito o grande numero dos christãos que avendo sempre tido grandes contradições e trabalhos dos gentios por serem christãos. Teve hum padre companheiro chamado Paulo do Vale que trabalhou muito naquella christandade, sabendo em breve tempo a lingoa, do qual dizia Mestre Francisco que era hum padre aquelle de muita perfeição; foi prezo huma vez dos jintios, os quais o tiverão hum mes em hum tronco com lhe não darem mais de comer, que hum pouco de aros seco, huma pouca de agoa; depois de o soltarem, sérvio a Deos muito tempo, dispois de adoecer de camaras, morreo naquellas mesmas partes. Trazendo hum rei hum padre diante de si o quis matar, porque fazia guardar aos christãos da terra o domingo, e andava convertendo os gentios que ficarão a nossa santa fe; a outro irmão que também andava nestas terras, insi- nando estes christãos, vindo os gintios contra elles, o mata- rão, cuidando ser outro irmão que aly fazia muito fruito. Finalmente, não estando naquella terra mais que o Padre Anrrique Anrriquez e outro irmão, forão cativos e o padre posto a ferros e postas juntamente as mãos com os pes, e assi esteve alguns dias, inchado muito com aquelle mao tratamento, ainda que com a reverencia que sempre os gintios tiverão de suas virtudes, o não tiverão daquella maneira muito, e sabemos que polo terem la por homem santo, lhe tiverão la sempre muito acatamento; elle foi 44
resgatado e o outro irmão fogio, nadando huma legoa ate os navios dos mouros, e se salvou nelles, com o sangue e vida e trabalhos de tantos padres e irmãos se tem feito muito fruito nesta terra da India que (quod non potest diet sine lachrimis) se desfes agora cada dia polas perver- sões, com que os christãos portugueses fazem a esta gente et quod magis dolendum est quod impune faciunt tot mala. O Padre Nicolao, a quem o Padre Mestre Francisco, por sua virtude e prudência, sempre cometeo a superinten- dência do Cabo de Comorim, e dos padres e irmãos, que nelle andão, ainda que por suas continuas infermidades, se levanta poucas vezes de hum catele, todavia prove de todo o necessário hum collegio, aonde se crião corenta ou cincoenta moços, filhos dos principais christãos do Cabo de Comorim, aos quais insina as cousas de nossa fe e bons custumes. O Padre Micer Paolo não fes menos que todos, porque dispois de estar dous annos em Maçambique, por mandado do Padre Mestre Francisco, pera consolação e proveito espiriaial de muita gente que ali aquelles annos invernou, e pera curar os doentes que erão muitos, fes isto com tanta edificação de todos // que antes que elle chegasse [230 r. a índia ia avia grande odor de sua virtude; a des ou doze annos que esta aqui em Goa, e tem sempre particular cuidado dos christãos da terra, assi quando são cathacuminos e os insinar, como em os bautizar, como em os favorecer dispois disto, castigar quando he razão, e para os doentes fes hum esprital, aonde os cura com muita charidade e, alem disto, sempre tem cuidado de perto de cem moços da conversão que sempre ouve nesta casa e, alem de tudo isto, foi sempre mui continuo nas confições; denique, he dos que muito obrarão e mais tempo que todos. Parece-me que vou sendo comprido. Saiba Vossa Reverencia que o Padre Manoel de Moraes em Ceilão e aqui em Goa, e o Padre Antonio de Heredia 4 5
em Cochim e Ormus, e o Padre Mestre Gonçalo em Ormus ^ e Baçaim, e o Padre Baltazar Dias aqui em Goa, aonde sempre esteve, trabalharão muito também e com muita fidelidade; crea Vossa Reverencia que não florece pouco, por sua parte, o serviço de Deos nestas partes, porque tra- balharão também sempre como quantos ca vierão da nossa Companhia, edificando muito, e fizerão muito fruito, prin- cipalmente o Padre Moraes em Ceilão, aonde fes extraor- dinário fruto nos portugueses que ai estavão, pois os que forão a Ormus edificão sumamente naquella terra, porque sabem os homens desta e de toda a India que he terra que, vivendo os padres nella sinco ou seis annos, como la tem naturalmente, não tem mais vida e, quando os vem a ir la com tanta alegria, não podem deixar de conceber deles muita virtude, pois tam pouco estimão os trabalhos e vida por salvação das almas. Crea Vossa Reverencia que se fas tanto fruito nestas partes da India com a conversação doutrina e com os trabalhos dos padres da Companhia, que afirmão commumente todos esses homens da India que nunca nenhum freo em o viver, nem em virtude nenhuma em hos homens desta terra senão despois que os da Com- panhia vierão a estas partes. No outro dia, veo aqui a casa hum Padre de São Francisco, que nestas partes são íntimos amigos nossos, e nos dixe que de vontade queria bem a nossa Companhia, e a rezão era porque em nenhuma destas partes se nomeava o nome de Jesu, como se avia nomear senão aonde ella estava. Veo agora Paulo de Ormus e começou logo a gente da nao em que veo a preguntar que padres vierão, e quando lhe dixerão que vierão muitos da Companhia, foi tanta a aligria nelles que não cabia com prazer, e dizião que não devia de vir outra gente, e crea Vossa Reverenca que assi se alegra esta gente da índia, quando vem vir padres da nossa Companhia de Portugal, como se nos os ouvessemos 46
de salvar, e ter-lhes a India em pas e segura, e isto a verdade não sem causa, porque, como dixe, ca tem grandíssimo tra- balho todos os que da Companhia ca andão, e buscão mui de veras a salvação dos proximos. Saiba Vossa Reverencia que estamos ca postos em tão bom foro que nos he neces- sário fazer mais do que podemos para comprirmos com o que a gente de ca espera de nos. Todos os que viemos do reino estamos aqui neste collegio de São Paulo, tirando o Padre Cuenca, que esta em Baçaim, de quem temos agora , novas, o qual he mui aceito ao povo em suas pregações e conversações, e começa a fazer muito fruito, que não podemos comprir com as obrigações e trabalhos que a nesta casa, do que não se segue pouco serviço e onra de Deos, porque aqui a hum collegio de moços da converção, aonde se crião moços da terra e doutrinão em as couzas da fe, aonde a outenta ou noventa moços. E nesta obra se faz grande serviço a Deos, porque se acontece fugirem daqui moços e cativarem-nos e querendo-os fazer mouros e por isso darem-lhe muitos açoutes, e fazerem que os querião matar, nunca quizerão tornar atras da fe, que tinhão recebido e, andando antre os mouros, animavão também os outros que não se tornacem mouros, e a verdade nos moços se emprime ca mais a christandade que nos grandes. Agora ha hum anno que tomarão os rumes hum navio, aonde cativarão muitos portugueses, entre os quais foi hum que me contou isto, e perto de trinta e seis moços da terra, de nove ate desaceis annos; procurarão muito os rumes de tornarem estes moços mouros assi, com mi // mos como com ameaças [230 v.] e com lhe darem muitos açoutes e pinguos, e fazerem outras perrarias, e nunca poderão; chegou a cousa a tanto com hum que por força o fanarão, dizendo-lhe dispois os outros mou- rinhos que era mouro; respondia-lhes que o fanarão contra sua vontade, e que não era senão christão; somente se tornarão mouros hum português e hum mistiço, do que 4 7
parece que se pranta muito nestes moços a christandade. Junto a este collego, esta huma casa de chatecuminos, aonde estão dous ou tres meses os que querem fazer-se christãos, antes que os bautizem ,aonde os doutrinão e insinão as cousas da fe, dando-lhe o necesario, enquanto ali estão, para sua sustentação e comummente estão nesta casa des, doze, quinze; alem desta casa, a qual vão por dentro do collegio, esta junto a elle, de fora do esprital, onde se curão os christãos pobres da terra que adoecem, aonde também se chatecizão as molheres que se querem fazer christans, estando alli com uma molher velha, que tem cuidado de curar os doentes deste esprital, o Padre Micer Paulo, e tam- bém das outras duas casas aiudando-o nellas dous irmãos; em huma ilha chamada Chorão, que he desta cidade mea legoa, se fes muita christandade pelos padres de casa, pelo que de esmolas fizemos ahi huma igreija aonde esta conti- nuamente hum irmão de muita virtude, que insina aquelles christãos, e vai la cada dia santo e domingo hum padre dizer-lhes missa, e pregar-lhe, conforme a sua capacidade, e assi para vir a igreija a doutrina de cada dia, ha hum meirinho, a quem não falta quem, por sua charidade, lhe de hum pardao cada mes, polo trabalho que nisto leva. Mora também naquella ilha hum homem português muito virtuozo e nosso amigo o qual, por amor de Deos, e por lho rogarem de casa, tomou o officio de pai daquelles chrstãos, que he pera a defender e fazer justiça de todos os agravos que lhe fizerem. Esta também esta ilha de Goa repartida entre partes, pera que os Padres de São Domingos tenhão cuidado dos christãos, e os de São Francisco da outra, e os da Companhia, que quase chamão padres de São Paulo, doutra. Isto se fes, por ordem de Dom Pedro viso-rey, e tem cada religião destas hum pay dos christãos portugueses, que tem cuidado de os defender, e julgar suas demandas, em cousas poucas, e castiga-los quando he necessário, e assi 48
doutrinar os christãos que nos cabem pola repartição da ordem que disse; he parte das occupações deste collegio e não pequena; ha também huma escola grande, aonde insina hum irmão a ler e a escrever, o qual terá obra de trezentos moços e, alem do grande fruito que se fas nelles, com lhe insinar a doutrina e outros bons custumes, com os confes- sarem cada mes, se segue outro muito grande, e he que lhes mandão que insinem a doutrina de noute, em suas casas, aos criados e servidores e a todos os que a não sabem, e assi o fazem todos, e guardão isto tão bem que quando o não fazem algum dia se acusão disso nas confições. Digo-lhe, padre meu, que me consola em estremo ouvir de noute em casas de fora estar-se insinando a doutrina em vos alta, de maneira que se ouve no collegio. O fiso-rey, Dom Pedro, quando ouvia estas doutrinas, como era zeloso da honra de Deos, dis que tirava o barrete e, alevantando as mãos, dava graças a Deos, por ver louvar-se tanto seu nome em terras de infiéis. Agora começarão também, como de la vinha ordenado, os estudos de gramatica e casos de consciência; a ja duas classes de latim, e não se espera senão que sare hum irmão pera se fazer outra, pera que vai crecendo o numero dos estudantes. Le-sse também Lógica a outo ou nove irmãos, que aqui avia para isso, // he alguns de fora. Quanto fruito se fas em insinar estes moços, assi letras como bons custu- mes, e em os tirar dos maos asi como amoestações e castigos como com confissões, ja la sabem por experiência, tirando que isto he ca tanto mais, quanto os moços ca são piores, mais livres, soberbos e carnais. E nos casos da consciência se fas muito, porque alem de virem muitos clérigos e se ir nelles estirpando a ignorância, em os quais avia ca tanta nesta terra, que não se pode ja facilmente declarar; tem continuamente de trinta ate cincoenta homens leigos, os quais falão com os outros em os mesmos casos que agora 49 DOC. PADROADO, VI — 4
são da restituição; começarão as confissões gerais, preguntas e escrúpulos muitos, que he pêra dar muitas graças a Deos, prega-sse aqui cada dominguo e dia santo pola menha, e as tardes fas-ce doutrina na igreija, e isto sempre com muito concurso de gente porque, sendo esta igreija de São Paulo midida por mim maior mea vez que São Roque, sempre esta chea e por fora das portas muita gente, e ainda na crasta donde também se ouve a pregação esta muita gente. Fas-se também aqui quada dia doutrina aos moços e escravos que serão duzentos; principalmente ao dominguo não cabem. A também doutrinas aos dominguos e dias santos, que fazem os irmãos da casa em o tronco, e em outras diversas partes da cidade. A continuamente neste collegio continuas con- fissões que não podem satisfazer a tantos; a outros negocios esperituaes e muitas perguntas em grande numero, e mui continuas de casos de consciência, especialmente quando vem as naos de Bengala e Malaca. Certo, padre meu, que pera satisfazer a tudo isto he necessário ler o Padre Carneiro casos cada dia, e pregar, e confessar, e responder a preguntas e meter-se em outros negocios. O Padre Mestre Jerónimo parece que natural- mente lhe infundio a lingua portuguesa, porque confessa des que amanhece ate a noute, e sempre sem errar dia nenhum, tirando quando vem jantar. O Padre Manoel Fer- nandez, com ser tão doente, confessa pola cidade os doentes, e vay aos que estão pera morrer, e ajuda também em casa a confessar e prega cada quinze dias, e crea Vossa Reve- rencia que o fas muito bem e com muita devação e satis- fação da gente, mais que de nenhum de nos, e he com muita rezão, porque crea Vossa Reverencia que supre Deos muito nestas partes em aquelles que de verdade o buscão. Com quão perigoso (sic) sou eu, não posso fugir de ler cada dia quatro oras e pregar cada dominguo e dia santo, e aju- dar ainda as confições e outros negocios muitas vezes, porque 5 o
ia quando acabo as lições me esperão preguntas de homens, que vem pidir concelhos pera sua consciência; finalmente todos ca estão desta maneira ocupados; crea-me Vossa Reve- rencia que a mister pera se levar isto adiante virem de la mais padres, do que este anno viemos, porque alem disto ocorrem outras cousas de muito serviço de Deos, as quais, por falta de padres, as deixão perder, como foi o anno pas- sado, em que mandava o viso-rey Dom Pedro a el-rei da China embaixador; não ouve hum padre pera lhe dar pera ir com elle, e poder começar a pregar a fe de Christo Nosso Senhor, em parte onde lhe fizera tanto serviço como na China, em a qual o Padre Mestre Francisco desejou mais de entrar que em nenhuma outra parte; // perdeo-se esta [231 r ocasião; não sei quando teremos outra tão boa pera obra de tanta gloria de Deos. A também polo Estreito de Ormus dentro, no Sino Persico, junto dos persas huns christãos que se chamão Jerónimo (4) os quais deseião muito de verem la nossos padres, conforme ao que huns de la nos dixerão; são muitos e far-se-a nelles muito fruito e também se ouvesse padres que acudissem a isto. Denique, ja Vossa Reverencia ve o serviço de Deos que nestas partes se abre, como também agora aqui nestas terras firmes, que se dão a el-rey, e prazera a Deos lhas confir- mara com pas. Veja também o fruito que ca fazem, os grandes trabalhos que tem. Procure Vossa Reverencia de acrecentar o fruito e aliviar o trabalho com mandar de la muita gente. Nesta não quero enfadar mais a Vossa Reve- rencia; fico rogando a Nosso Senhor que lhe de a sintir muito isto, para que proveia mui de proposito a índia de gente como parte em que a Companhia mais fruito fas em as almas, e mais serviço de Deos que em nenhuma outra parte. (4) BACIL: de S. Jeronimo. 5 1
Esquecia-me de dar conta dos companheiros que vinhão na nao Conceição que se perdeo perto de quinhentas legoas de Goa, mas parece-me que por outra o sabera; huma cousa que delles muito edificou foi que partindo-ce este derradeiro barco da ilha nenhum dos padres quis vir em elle, trazendo- -os os que vinhão nelle, hum delles se quisessem; rogarão- -lhe que trouxessem o irmão Afonso Lopes, dizendo-lhe que não fazia la nada, e que ca podia aproveitar para ler; não quiserão e assi se ficarão todos. Nos temos esperança em Deos que an-de vir. Não mais, se não que Nosso Senhor nos de a sintir sempre sua santíssima vontade, pera que inteiramente a cumpramos, amen. De Goa, oje 6 dias do mes de Dezembro de 1555. Antonio de Quadros. 5 2
10 CARTA DO PADRE ANTÓNIO DE QUADROS PARA OS IRMÃOS DE PORTUGAL, DA COMPANHIA DF, JESUS Goa, 18 de Dezembro de 1555 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 217 v. - 222 v. (1) //A graça e pas de Christo Nosso Senhor seia sempre [218r.j em nosso continuo favor e aiuda, amen. Os grandes deseios que sei que tendes, charissimos irmãos em Christo, de ouvir novas de nossos irmãos, espicialmente destas partes da India, iuntamente com a obrigação que pêra isso a, me fazem escrever esta, pera nella vos dar conta de nossa viagem e das muitas merces que Deos Nosso Senhor nella nos fes. Partimos, como creio que ia sabeis, de Belem 5 naos a huma segunda-feira, o primeiro de Abril, e caminhando com vento fresco tiverão os da gavia a '5* noute vista da ilha da Madeira; ao outro dia, nos ficou por popa, passando nos por ella e terra de Africa, e com o mesmo vento viemos todos ter as Canarias, o domingo seguinte, onde se apartarão de nos todas as naos, a saber: a nao São Philippe, e a Assumpsão e a Conseição e São Pedro por outro, porque nos, por não poder mais, fomos por antre as ilhas das Cana- ras, e elles forão mais ao mar, por fora de todas, e assi fica- mos nos sem companhia, ainda que não de Nosso Senhor que, como pai piedoso, acompanhou sempre e fes muitas merces. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 300-306v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 281 V.-287 v. 53
Começava-se neste tempo a somana santa e, para que tão santos dias e tão dinos de serem passados de todos com grande sintimento e devação não passassem distraidamente, e com pouca memoria da santíssima paixão e morte de Nosso Senhor Jesu Christo, que a Ygreija nos reprezenta, preguei dia de Ramos, meo enjoado, e fizemos confessar todos os que com a pressa da embarcação não se tinhão confessado aquella Coresma, e outros muitos que por uni- versalmente encomendáramos que se confessacem, por sua devação o fizerão, e por as Endoenças se aiuntarão, por via do capitão-mor, que sempre favoreceo todas as couzas do serviço de Deos com muito zelo e devação, todos os canto- res que avia na nao, que forão seis ou sete, 6 ou 7, afora o capitão da nao e nos, que supríamos ao cantar dos Psalmos, e fizemos todo o officio das trevas com todas as cerimonias, com que se fazem em terra com muita devação; preguei-lhes também a paixão a quinta-feira, de noite; ficou toda a gente mui consolada em ver passar este tempo tão devotamente, e com tanto recolhemento, em lugar tão distraído, como he huma nao, assi com a devação e tristeza destes dias merece- rão a alegria que tivemos dia de Pascoa, porque alem da devação, festa e officios divinos que tivemos em tão santo dia, avendo ia passado as ilhas do Cabo Verde, também por entre ellas e a terra firme de Africa, e começando de entrar a costa de Guine, tivemos vista de huma nao de nossa com- panhia, e a outro dia de outra, a falamos com ela, a segunda outava, com grande alegria e consolação de toda a gente; erão as naos São Philippe, em que vinha o Padre Belchior Carneiro, e o Padre Manoel Fernandez, e o irmão Antonio da Costa em sua companhia, e a nao Assensão, em que vinha o Padre Jeronimo de Quenca, e o Padre Mestre João, e o irmão Marcos Nunes. Ya vedes, charissimos, quanta conso- lação receberíamos em Christo em nos vermos ali juntos, estando ja desesperados de os podermos topar; veo o esquife 5 4
da nao Asunsão a nos, e veo-nos a ver o charissimo Marcos Nunes, e com sua vista foi tanto o prazer e alegria que tive- mos em Christo que não vo-lo poderia escrever por pala- vras; sabe-o so quem poios irmãos he visitado no meo do mar; estaria aly duas horas; em aquelle tempo estavão todos de saúde, senão o irmão Costa e o Padre Manoel Fernandez e em nossa não, ho irmão Joseph mais que todos, porque em hum mes e meo não teve ser de homem;//o Padre [2isv.] Michael não enjoou e eu pouco; neste comenos tinha apa- recido huma molher de mao viver, que ya escondidamente, e se meteo na nossa nao e, porque avia alguns inconve- nientes ir nela, ficou o capitão-mor que a mandassem a nao Assenssão, aonde lhe fizerão hum camarote e a fecharão com muito resguardo, e ca na índia se pos em casa de huma molher casada, que creo que esta posta em caminho de ser boa molher. Enquanto andamos na costa de Guine, que forão vinte e sinco dias, scilicet, de dia de Pascoa ate onze de Maio, que passamos a linha de madrugada, nunca tivemos grandes calmas, como acustuma fazer outros annos; adoeceo muito pouca gente, e de leves enfermidades, o que he grande prin- cipio para não morrer muita gente na viagem; foi a causa disto as poucas calmas como mandar-se aqui dar mais agoa. Nesta paragem tínhamos sempre muitas trovoadas, ainda que a maior parte delias nos não servião pera nosso cami- nho, todavia não erão perigosas, tirando huma que tivemos dia de São Marcos, em a qual, de madrugada, começou o vento a refrescar e, vendo o piloto que era muito, mandou amainar as velas da gavea, e dahi a hum pouco, veo tão grande pee de vento com chuva que parecia que nos queria sossobrar, porque mitia a nao o bordo por baixo da agoa. Começarão amainar a vela grande, e não quis a verga (2) (2) Correcção de: touga. 55
vir abaixo com a força do vento; finalmente tarde e com muito trabalho amainarão e caindo quasi toda a vella na agoa; e esta dificuldade e perigo ouve, porque como este foi o primeiro vento rijo que veo, não nos tínhamos ainda apercebidos com os aparelhos que, em semelhantes necessi- dades, são necessários. Durou-nos aquelle vento e aquella força outo ou nove oras, e iuntamente grandes mares, e depois forão abrandando pouco a pouco, e esse mesmo dia ja tarde, e toda a noite, estivemos em calmaria, sem bafo nenhum de vento. Este mesmo dia de São Marcos, apare- cerão duas velas e, cuidando que erão as outras duas da companhia, se foi pidir alviçeras ao capitão-mor; conhe- cemos que não erão as nosas, senão que erão naos que ião de Sam Tome para o reino; vierão muito apos nos aquelle dia e, vendo que lhe não esperávamos, e nos não podião alcançar, forão-se seu caminho; não esperamos, porque nesta costa de Guine a sempre tão ruins ventos que, quando a algum para andar, estimasse mais fazer algum pouco de caminho que escrever para o reino; muitas poucas vezes nesta costa deixamos de ter vento e muito poucas também nos erão bem e quando erão não duravão nada; tudo era vento sul que nos vinha pola proa e ja que não podíamos ir para diante mitiamos pola bolina a terra, quanto podía- mos, e tanto que não estivemos 25 legoas da costa de Guine. E dia de Santa Crus, de Maio, depois de ver outra vela, nos apareceo huma nuvem, feita de maneira, que parecia terra e, como a terra, por festa lhe tangerão as trombetas, e a ninguém lhe parecia outra cousa por aver muito tempo que com ventos contrairos iamos a ella; neste dia se embuscou muito o ceo, dando mostra de grande tro- voada; aparelhamo-nos para a receber, mas tudo se desfes; o que parecia terra soubemos ser nuvem; andando nos neste tempo desgostosos de termos tão ruim tempo, fizemos mui- tas procissões pola nao, rogando a Nosso Senhor, de quem 56
so nos pode vir aiudas, que nos desse vento, se fosse seu serviço, e como o Senhor ouve os que de coração cha// [2i9r.] mão por Elie, a 6 de Maio, estando 4 graus antes da linha, nos derão huns ventos que se chamão os gerais, com que passamos a linha a onze de Maio, com grande alegria, e acrescentou-nos esta alegria vir o esquife de São Philippe a nossa nao e vir-nos a visitar o Padre Belchior Carneiro. Day a huns poucos de dias, caminhando nos com os mesmos ventos, nos deixarão outra vez as duas naos companheira, de maneira que não nas vimos ate a índia; fizerão isto por- que perdião muito caminho por esperar por nos, porque a nossa andava muito pouco e e-lles muito; assi ficamos outra ves com a companhia acustumada, que he Deos Nosso Senhor, do qual continuamente recebíamos particulares merces. Ho que em todo este tempo nos exercitamos foi em servir toda a gente da nao, não somente em o que he pró- prio a nosso officio, que he aiudar a salvar suas almas, mas ainda em servir e curar os doentes, e em lhe dar do que trazíamos, porque como nos não adoecemos tudo o que trazíamos de doentes gastamos com os da nao, tendo escrú- pulo de usar delle, pois Deos nos fazia merce da saúde. Cada dia dizíamos as ladainhas cantadas com muita devação com se aiuntar a ellas a gente da nao; alem destas ladainhas, fazíamos muitas pessisões pola nao, fazendo hum altar na proa, outro na popa, onde pedíamos a Nosso Senhor em vos alta misericórdia e perdão de nossos pecados; fazíamos estas procições a tempos cada somana, e outras vezes mais raramente, e as vezes na somana duas vezes, e isto conforme as necessidades em que nos achavamos; tínhamos na nao cada domingo e dia santo missa cantada e as mais das vezes com se officiar mui bem; pregava-lhe também os mesmos domingos e dias santos a missa e, ainda que o primeiro mes dispois de Pascoa não gostavão muito, dispois pola bondade 57
de Nosso Senhor, se aproveitarão muito e com terem a nao por sua, quando chamavão a ella, corrião a tomar lugar; todas as vésperas dos santos cantavamos vesperas, e as vezes com muita solenidade; a saber: o irmão Joseph fazia cada dia doutrina aos moços da nao, asi aos pagens como moços da nao que serião 20 ou 30, como aos grumetes, e isto em querendo anoutecer, e algum tempo a fes a toda a nao por modo de pregação, como ella se fas aos domingos a tarde a saber: declarou o Pater Nostey e a Ave Maria muito bem e com muita devação, com sé aiuntar toda a nao a ouvi-lo; esta doutrina fiz eu huma vôs, cuidando que a pudesse levar adiante cada dia, e depois nem elle nem eu a podemos fazer, com ocupações de servir e curar aos doentes, mas a doutrina dos moços sempre fes o irmão Joseph. Ate que entramos em Goa ocupavamo-nos cada dia hum pedaço de tempo com sair pola não a conversar com a gente, e traze-los a confição, e assi se vinhão a confessar muita gente princi- palmente pola festa do Spirito Santo que foi huma mea Coresma; mas, porque nas confissões não avia ordem e as vezes vinhão todos e as vezes nenhum, tomou o irmão Joseph, dispois desta festa, cuidado de cada mes tirar os santos delle por o martirologio, de maneira que saião cada dia tres ou quatro santos; escrevia também os nomes da gente que queria entrar naquella devação, que sempre exce- dião (3) o numero dos santos e aquelle santo que lhe cabia avia cada hum de rezar 3 vezes o Pater Noster e Ave Maria cada dia e confessar-se em o dia que caia, e ficava-lhe a elle hum rol na mão para os avizar que viessem por ordem e assi, alem doutras ocupações de provir aos doentes, confes- sava cada dia tres ou quatro e 5 e 6 pessoas. E o Padre Mi- chael, por outra parte, também confessava, e isto foi con- (3) Correcção de: sobeiava. 5 8
«nuamente ate que adoeceo tanta gente que com a ocupação não podíamos comprir com a devação da gente. Em verdade que tanto era o fervor que nisto tinhão que não tínhamos ia repostas a suas santas importunações, porque não qui- rião// aceitar por reposta o continuo trabalho que tinha- [i»»o mos; era pera louvar a Nosso Senhor a grande devação que esta gente tinha, que não parecia vir em nao, onde parece que se não pode ter recolhimento, mas quando Deos toca huma alma aonde quer o acha; finalmente confessara-se toda a gente da nao, se a falta do tempo e as ocupações o não impidirão, afora muita gente devota que se confessava cada mes; vierão a confição homens de mui estragadas cons- ciências, e fes-lhes Nosso Senhor muitas merces e, se eu pudesse falar nisso mais, louvaríeis a Nosso Senhor pelos tisouros da sua infinita misericórdia, que tão copiozamente se comonica com suas criaturas; exercitavamos-nos também em fazer amizades e algumas se fizerão de importância, o Padre Michael não sofria joguo nenhum nem juramento, e parece que tinha particular cuidado de ir a mão a gente nestes dous vicios; quando algum iurava, olhava por elle se ouvia; também se exercitava o Irmão Joseph algumas vezes em huma cousa muito boa pera ocupar bem o tempo, que he na gente que vem na nao muito otiosa, e he que ia com hum livro do Padre Frei Luis de Granada que trazíamos a ler ao convés da nao a muita gente que, como o via ler, se aiuntavão a ouvir; nestes exercícios e em outros que me não ocorrem, se fes notável fruito espiritual em a gente; era tanto o amor que nos tinhão todos que certo me parece que nunca lho acabaremos de pagar. Tornando pois a nosso caminho, dispois de termos pas- sada a linha, continuarão aquelles ventos geraes; era o vento leste (ou soão) como sempre costuma mas era vento fresco; todavia enxia as velas, ainda que fracamente, e em seis dias, indo direitos ao sul, andamos tres grãos somente que 59
serião menos de nove legoas entre dia e noyte; espantavão- -se os marinheiros muito de tão pouco andar, porque aquelle vento era de 10 ou 20 legoas, e punhão-no as correntes do mar, afirmando-se que corrião ali as agoas, contra nos, e eu vi quasi claramente isto porque, ficando huma cousa per popa rezando eu hum Credo, ouvi hum grande tiro de espin- garda ficar atras, o que claramente mostrava serem corren- tes porque se aquelle andar levara a nao, andara mais de 35 legoas cada sangradura. Passamos o cabo de Santo Agus- tinho a 23 de Maio de madrugada, o qual esta outo grãos em meo da linha, para a parte do sul; em aquella noute, tivemos hum grandíssimo pe de vento, que deu algum tra- balho, mas com a aiuda de Nosso Senhor não foi nada; aos 26 do dito mes vigiando quasi toda a gente de noyte, por- que passavamos então por entre humas ilhas, que estão a 29 grãos, veo o maior pe de vento que nunca tivemos para se sossobrar, mas quis Deos que quebrou a escota da vela da gavea, e que não durou mais que tres ou quatro credos; eu ouvi a quem o entendia, e creo que ao mestre, que se estas duas cousas não forão nos passavamos muito risco, mas Nosso Senhor, como piadoso, parece que assi como nos deu o trabalho logo deu o remedio que elle podia dar, que era fazer cessar tão grande fúria de vento que, durando tão pouco, meteo em confusão toda a nao, e nunca cessarão aquelles mesmos ventos a saber: leste, ate que nos pos em 1220r.] altura //do Cabo de Boa Esperança que esta em 34 grãos e meo. Ay viemos ter dia da Trindade, que caio a 12 de Junho, e estávamos na mesma altura apartados do Cabo setecen- tas— 700 — e sincoenta, ou outocentas legoas, e isto por- que nos forão os ventos mui escaços; corremos pola altura ate 7 dias de Julho que passamos o Cabo; caminhamos todo este golfão com muito fracos ventos e estes todos norte noroeste, mas norte quasi sempre, sendo então aonde está- vamos inverno. Mas parece que assi como ala este mesmo 6 o
anno fora mui ventozo e invernoso, assi polo contrario era da outra parte ventoso e calmoso. E com tão pouco vento que ja toda a gente se enfadava de tão pouco andar deseiavão antes tormentas com andarem, que tanta bonança, e assi se não nos vierão alguns dias de vento a popa, em que andá- vamos sessenta 60 legoas cada sangradura, parece-me que nunca ouveramos de passar o Cabo. Os desenfadamentos que neste tão enfadonho tempo, e no que andamos na costa de Guine, (que não foi menos), tinha muitas vezes, era lembrar-me de vos, charissimos irmãos, mui de continuo, lembrando-me mui particular- mente das virtudes de cada hum, com que confundia minha pouca virtude, trazendo também a memoria os grandes deseios que tendes de padecer e trabalhar, por amor de Deos; me emvergonhava por me parecerem sem proveito espiritual tantas ocasiões que tive cada dia de trabalhar e merecer; cuidava muitas vezes as consolações que Nosso Senhor, nesa santa casa, me tinha dado, e a suave conver- çasão que in Domino tive tantos annos convosco, irmãos charissimos, e confesso-vos que não podia deixar de ter muita saudade, mas quando cuidava que disso, (que na terra he o que me da mais consolação) carecia, por amor de Deos, e que então me começava a ver nos trabalhos que eu em minhas consolações deseiava, digo-vos que em extremo me consolava; erão tantas as vezes que, vindo em esta nao, corria todo esse collegio, que, se he verdade o que dis Santo Agustinho que anima magis est ubi amat, quam ubi animat, bem creo que o corpo, ainda que sempre o acharão na nao, a alma mais se achava por esses cubículos, e esprei- tando a oração, recolhimento, devação, obediência, humil- dade de cada hum de meus irmãos, que na nao aonde o corpo estava. Tornando ao caminho, passamos hum dominguo a tarde, que era sete de Julho, o Cabo de Boa Esperança e não sem 6 /
perigo porque, cuidando que era outro cabo que chamão das Agulhas, yamos com fresco vento com a proa ao leste; quasi iamos dar ao mesmo Cabo das Agulhas, que esta 30 legoas alem do Cabo de Boa Esperança, e mete-sse des legoas mais ao mar; quis Nosso Senhor que ia tarde o virão por popa, e assi nos metemos mais ao mar; se passaramos o cabo mais tarde, que não viramos o das Agulhas, era o vento tão fresco, grande e bom que, sendo a noute grande, por ser inverno, não ouveramos de amanhecer menos que ou encalhados em terra, ou tão perto delia que tivemos mui pouco remedio, por o vento ser grande, e ainda que amai- navamos nos levara a terra. Neste Cabo das Agulhas a huma propriedade grande da natureza, porque as agulhas de marear que, depois da linha, nunca diferem dereitas a [220 r.] norte, e dipois que o passão ate//a índia, quando estão nelle, diferem direitas ao norte, e quantos mais se chega a elle tanto menos diferem e discrepão. Este he hum dos maiores sinais pêra saber se estão perto do cabo ou não: ver nordestear ou norestear pouco (4) as agulhas de marear. A alegria que toda a gente teve de ver terra foi e he sempre mui grande, e temperou-nos Nosso Senhor com ela huma tristeza grande que tínhamos do dia dantes, que nos caio hum homem ao mar, e o vimos morrer diante de nossos olhos, sem lhe poder valer; finalmente ficou por popa, com muitas lagrimas e choros de muitos, que com so piedade de o ver assi morrer, choravão aquelle dia, e lhe rezamos logo humas ladainhas cantadas na nao, aonde veo toda a gente de nao. Ao outro dia lhe fizemos com o capitão da nao e outros o officio dos mortos, com sua missa cantada, tudo. Logo em passando o Cabo, se começou a dizer que aviamos de ir por fora da Ilha de São Lourenço, não porque não (4) BACIL: ver nordestear ou nordestear pouco... 6 2
fosse tempo de ir por dentro, mas dizem que era o anno bonançoso, e que timião dentro algumas calmarias, com que invernassem em Maçambique; derão-nos a este tempo huns ventos mui rijos, que era a popa para Maçambique, que nos durarão 4 dias; todavia tomamos o caminho por fora, e coremos aquelles dias grande tormenta, quasi sem velas, porque não levavão mais que ametade da vela grande quasi amainada ao meo do mastro; andava o conves da nao todo alagado com agoa, não andavão pola nao senão pegados a humas cordas que puzerão de parte a parte; andavamos com aquelle vento muito caminho, e finalmente andamos ao mar, pera tomar o caminho por fora, ate o primeiro de Agosto; ainda que tivemos algumas calmarias e ventos con- trários, ainda que erão bons pera ir para Moçambique, com que estivemos amainados; o primeiro dia de Agosto, cuidava o piloto que estava por fora da Ilha de São Lourenço 150 legoas, e outros fazião-se alem 100, mas não era assi, porque os dias que nos estivemos quedos as correntes das agoas que vinhão a terra nos trouxerão a ella, de maneira que não estávamos senão norte-sul com a Ilha de São Lou- renço; vierão huns ventos escasos e, como elles cuidarão estar tanto avante, começarão a caminhar o norte, cuidando que fazião caminho pera a índia e, caminhando assi, vés- pera de Nossa Senhora das Neves, viemos dar em huns bai- xos, que se chamão de S. Romão, que estão na ponta da Ilha de São Lourenço, arebentava mais de 3 ou 4 lanças em alto; quis Deos Nosso Senhor que foi hum homem pescar, en que hos vio, estando nos pouco menos de huma legoa delles, o qual com vento tão fresco, como nos trazía- mos, se anda em pouco mais de mea ora, e dizem que está- vamos la em seis ou sete braças de agoa somente, deman- dando a nao sinco; se viéramos por ali mais tarde, ou aquelle homem não acertara de ir a pescar, todos ouveramos de morrer, porque não tínhamos remedio de sair em terra, 6 3
como os da outra nao que se perdeo; quando se começou a nomear «baixos» foi tão grande o pasmo da gente, e ainda do piloto, que foi a nao a elles hum pedaço, sem aver quem a desviace, eu estava então confessando, e não sinti nada a couza, mas dipois da confição que sai fora, verdade que não vi homem na nao que estivesse em si, com estarmos ia fora dos baixos. Se soubésseis quão diverso he isto de o ouvirdes ao esperimentardes, não vos espantareis de vos dizer que houve homens que não andarão em si; dispois de Deos nos ter livrado de tão grande perigo, dous dias, ainda que era m r :i tarde cantamos mui solenemente humas // vésperas a Nossa Senhora e a outro dia missa; aquella noute logo hiamos dar em outros baixos, que estão daquelles treze legoas, os quais não estavão na carta do piloto; quis Deos Nosso Senhor, com a industria de hum marinheiro, que os tinha na sua carta, e assi se soube que nos iamos a perder outra ves. Aiuntou o capitão a gente do mar, pera ver se era aquillo verdade, concluirão que, por si ou por não, se desviassem e, porque o piloto não fazia muito caso dos baixos, poios não ter na sua carta, mandou disviar a nao muito pouco; quando isto vi, não me pude ter que não me fizesse mari- nheiro, fui-me ao capitão a lhe dar rezão de quão mao caminho levávamos, e caio nisso, porque ele também estava descontente delle; fes desviar mais a nao, e muito mais, e contudo isso passamos huma so legoa delles, como o outro dia vimos, que estivemos duas legoas delles a maior parte do dia; o outro dia a noute, nos iamos arvorar em terra da ilha de São Lourenço porque, dispois que vimos os baixos, fomos por dentro ao longo da ilha, mas virão-na huns homens que vigiavão e ainda com isso não querião os que a governavão desviar a nao, dizendo que os marinheiros vião mal e que não era terra; foi necessário ao capitão mandar de seu poder absoluto desviar a nao muito ao mar, e assi fizerão, e ainda ao outro dia pola manhã nos achamos tres 64
ou quatro legoas delia, na qual distancia ao longo da ilha ai muitos baixos. Digo-vos, irmãos meus, que, se quando eu embarquei em Belem, me não persuadira a me contentar de morrer no mar, e a não fazer nenhuma conta da vida, que ouvera de levar muito trabalho nestes dias; mas como me persuadi a não fazer nenhuma conta de chegar a índia, fazia-me Nosso Senhor muitas merces, e crede-me que não he outra couza caminhar tal viagem, como nos trouxemos desque demos nos primeiros baixos ate a India, que huma continua resignação da vida na vontade de Nosso Senhor, porque sempre andamos em muitos pirigos de a perder; mas esta diferença ha dos que tomão este caminho por amor de Deos e salvação das almas, aos que polo mundo: que os do mundo passão semelhantes trabalhos, com muita tristeza e ansia, como vimos por experiência, e os que por seu Deos vem a estas terras, não se acabão de fartar de consolações em semelhantes trabalhos, vendo-ce começar a padecer al- guma cousa por amor de Deos, a quem vem servir a estas terras, por cuio amor não vem ca a outra couza se não pade- cer trabalhos e, se for necessário, morrer por Elie. Ja creo estareis enfadados da viagem; agora vos darei conta do que mais nos exercitamos tantos meses que anda- mos no mar. Depois que partimos, como o Padre Michael vinha milhor desposto, começou a ter cuidado dos doentes, para o que ele sobeiava, por serem poucos; dava-lhe disso que tínhamos, curava-os com charidade, deitava-lhe chris- teis, o qual com sangrar he a meizinha mais comum na nao; isto foi pelo principio hum pouco de tempo, mas ceçarão logo os doentes, e não começarão de adoecer na nao, se não dipois de passado o Cabo, des ou doze dias; começamos logo a ter mui especial cuidado deles, asi com os curarmos, como com lhe fazermos de comer, e tudo o demais que podíamos. Começamos logo a recolher hum, que caio mais doente de gota coral e de febres, na nossa camara, o qual, com a aiuda 6 5 DOC. PADROADO, VI 5
do Senhor, sarou en quinze dias e day por diante ate a índia sempre tivemos dous tres doentes na mea camara do leme que trazíamos. Agazalhavamos-nos nos na varanda e na camara com dormirmos nas taboas, e as vezes tão can- sados e mal despostos, que aconteceo a hum de nos sonhar que morria, e acordar com tão grandes dores e quebranta- mentos que pouco menos; ali nos morreo hum homem de priodis mas, antes que morrese, com hum frenezis, quis-me levar consigo pêra o outro mundo, porque saltou aos couces comigo dizendo: «.ladrões, ladrões»; deitou-me com os cou- ces a porta da camara, quasi que me ouvera de acabar se com a força dos couces que me deu não // despergara as taboas donde se tinha a porta. Começarão depois que vimos os baixos (de que vos dixe) a adoecer tantos, que foi cousa espantosa. O Padre Michael estava então também doente, de hum pee, que não fazia nada; ficou o trabalho todo sobre Jozeph que trabalhava mais; elle e eu começávamos de servi-los mui de preposito; gastamos com eles tudo o que trazíamos e dispois pidiamos pola nao a esta gente honrada, que tinha galinhas, e todas as mais cousas de doentes; o capitão-mor provia também, porque nos mandava muitos quartos de carneiro e galinhas, conservas, ameixas, passas, porque o que da el-rei não vale nada; curavamo-los com quanto podíamos; tínhamos hum bombardeiro muito nosso amigo que sabia alguma cousa, e os curava, e nos lhe fazía- mos mezinhas, e os fazíamos sangrar, e lhes deitávamos os christeis, e lhe levávamos os vazos, e lhe fazíamos de comer e lho davamos; foi tanto o trabalho que tínhamos nisto, com corenta e sincoenta doentes que tínhamos, que não avia homem que não tivesse compaixão de nos; quasi nunca neste tempo pude rezar matinas do dia senão a tarde, e muitas vezes a noite; denique, com puro trabalho adoeceo o irmão Joseph, e foi sangrado tres vezes e ja não tinha que lhe dar a comer, senão o que pidia por amor de Deos, o qual
era tanto que sobeiava a elle e aos outros. Os marinheiros 'nos mandavão as caixas de marmelada a casa para os doentes; veo doente o irmão quase ate Goa, ao menos não trabalhou mais nada; fiquei então soo com todo o trabalho, e as vezes era tanto que muitas vezes deseiava de descansar hum pouco, e não podia. Nosso Senhor me teve pera que os outros não morrecem, porque sem duvida naturalmente morrerão; em todo este tempo que curamos os doentes não confessava ninguém nem podia. Mas nunca deixei de pregar domingos nem dias santos, bem que nunca estudava, mas nunca preguey milhor que naquelle mes e meo; mas as vezes era necessário estar a gente aguardando que acabasse eu de deitar os christeis, que ia deitar pera lhes pregar. Quando ia ao fogão ou a outras partes, onde estavão emfermos a levar algumas couzas, mor trabalho tinha de me defender da gente que mo querião levar; dispois todavia que adoeceo o irmão Joseph, tomei hum moço da nao, que me aiudava a levar o necessário ao fugão, aos doentes, e ainda assi era tão grande o trabalho, que se espantava a gente como não adoecia, e dizião-me que avia de adoecer, alegando-me com o irmão que por dema- siadamente trabalhar e muito mais que eu dantes adoecera; todavia teve-me Nosso Senhor que não adoecesse, depois de tanto tempo que aviamos andado no mar, com tanto tra- balho e com tantas calmas como avia em aquelle tempo, porque passamos então a linha. Com isto ficou a gente tão edificada e tão nossa amiga que em verdade que não parecia senão que nos queria meter na alma; muitos nos vinhão pidir perdão de escândalo, que tiverão de nos, com lhes pare- cer que trouxerão muita matolotagem, porque vião que a dos doentes toda a gastaramos com elles, e da outra desde o cabo de S. Agustinho ate que a gastamos quasi toda sempre demos de boa vontade a gente necessitada. Dispois que quasi não tivemos nada, come//cei de encarecer muito a neces- [222r 67
sidade da gente em huma pregação, que quasi parecia extrema porque, dipois de tanto tempo de mar, e com tanto trabalho, não comião senão um pouco de biscouto negro que ia não tinha sustancia; ho capitão mor, como era muito bom homem, mandou logo ao outro dia dar vinho bom a gente e, alem da mesa que dava aos criados del-rei, fes outra meza de pobres, aonde ião comer quantos comião e cabião, e elle comia também entre elles; dipois as aiuntou ambas e comião os pobres com os honrados, e fidalgos juntos. Era a mesa muito grande e dava de comer a muita gente, com isto que nos vião fazer, e sobre isto com o amor que lhe mostrávamos, pareciamos-lhes mais que homens; bem que não sabião elles minhas imperfeições, e claramente confes- savão que se nos não viéramos ali, que perecera muita gente, porque nos, alem de os servir, tudo lhes demos. Creio que nos sobeiarão 4 almudes de agoa e hum ou pouco de vinho, e parte de hum sacco de biscouto, ou pouco mais. Estes erão, charissimos irmãos, nossos exercícios corporaes; espirituaes então não erão mais que os que Nosso Senhor, a volta de tantos trabalho, nos dava, que erão mais do que nos lhe miriciamos; neste tempo, não tinha tempo de me lembrar de vos, charissimos irmãos, quando alem dos trabalhos e solicitude que tinha com os doentes, me ficava um pouco de tempo para me lembrar de Deos e de mim, que não fosse pola agoa abaixo, não era tão pouco. Tornado a nosso caminho, depois que demos com os baixos, fomos por dentro da Ilha de São Lourenço, ou sem- pre ao longo delia, segundo nosso parecer, mas as correntes, que vinhão a nos e juntamente a terra firme, nos chegarão tanto a ella de maneira que fomos mui perto de Moção- bique, cuidando que vínhamos muito afastados, porque o não queríamos tomar, por ser tarde. Denique, tornamos a errar o caminho, por amor das correntes e, cuidando que 6 8
iamos bem, fomos por entre huns baixos e Nosso Senhor nos livrou. Quando estávamos na altura de Goa, cuidando que está- vamos delia 80 legoas, achamo-nos mais de duzentas e trinta — 200 e 30 — iunto da boca do estreito de Meca e costa de Arabia Felix; não vimos a terra, mas vimos passa- rinhos da terra que vierâo a nao. Este erro fizerão também as outras naos, porque parece que este anno forão as cor- rentes grandes. Estando na altura de Goa, nos veo hum temporal mui grande, que era vento ponente grandíssimo; quasi que pudéramos vir a popa a Goa mas, cuidando que estávamos perto, estivemos dous dias ao pairo, com grande trabalho dos doentes, porque fazião grandes ondas e emba- lançava muito a nao. O primeiro de Setembro, abrandou aquelle vento e começamos nosso caminho e os nove dias, que era a outro dias dispois do nascimento de Nossa Senhora, chegamos a barra de Goa, ia tarde. Nestes dias nos aceonteceo huma cousa a mais temerosa que nunca porque, dipois daquelle vento grande, vindo nos huma noyte com luar, viamos na agoa cousas pretas que pareceião homens mortos, e taboas, e pedaços de navio (5). Ficamos todos mui temerozos cuidando que se podiria per- der alguma nao; acertamos de passar por huma daquellas couzas negras, fisgou-a hum marinheiro; erão muitos pei- xes, como sapos, com outro siscalho, e outros peixes bons; tirou-nos então aquillo de temor, em que estávamos; ao outro dia, antes que chegássemos, que era dia de Nossa Senhora, veo huma rola da India a nossa nao, acabada a missa, e mui cansada; alegramo-nos todos muito, porque vínhamos mui enfa // dados de caminhar tanto pola altura, [222 v sem ver terra, bem que ja tínhamos visto sinais de terra, (5) O copista, por engano, escreveu: naviamos.
que são cobras do mar amarelas. A tarde, tomamos fundo, e ao outro dia, pola menha, vimos terra juntamente com huma nao da nossa companhia, e era São Pedro; veo-nos a salvar com muito tiros, e a mais alegria, e nos com o mesmo; surgimos a tarde na barra, aonde avia dous dias que tinha chegado a nao São Philippe e Asunsão, aonde vinha o Padre Carneiro, e o Padre Coenca com seus companheiros. A outra, nao em que vinhão os outros irmãos, ia saberão que se perdeo, mas esperamos, com a aiuda de Deos, que os acharão e virão de saúde com a mais gente. Ao outro dia mandarão deste collegio e nos receberão com a custumada charidade os irmãos, aonde agora estamos quasi todos os que viemos, trabalhando nesta terra tão farta de sementeira, e tão necessitada de obreiros. Não tenho mais tempo, charis- simos irmãos, e estou mui cansado. Acabo com não poder acabar de escrever aos que tanto em Christo amo. Nosso Senhor nos de sempre conhecer sua santa vontade para que inteiramente a cumpramos. De Goa, 18 de Dezembro de 1555. Todo vosso em o Senhor Antonio de Quadros. 70
11 CARTA GERAL DO COLÉGIO DE GOA Goa, 20 de Dezembro de 1555 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Pis. 213 v.-217 v. (1) A graça e amor de Nosso Senhor Jesu Christo seia sem- pre em continuo favor e aiuda nossa, amen. Este anno passado de 1554 escrevemos muito larga- mente o que Nosso Senhor, por sua bondade, obrou por meo dos padres e irmãos em estas partes por onde andão, e isto por tres vias; quereria Nosso Senhor que lhe serião dadas e nellas se lhe dava conta do transito de nossos padres, e da partida do Padre Mestre Belchior para o reino de Japão e porque, o anno passado, escreveo o Padre Polanco, por comissão do Padre Inácio, que as novas de todas estas terras se aiuntassem em huma carta, pola confusão que vira nellas, e se escrevessem de maneira que não ouvesse duvida nem embaraço, me mandou o padre que escrevesse a causa por donde inteiramente não se podia fazer ho enco- mendado; e he que, como as terras são humas de outras mui remotas, e algumas delias não ter monções se não de anno em anno, e isto polo mes de Janeiro, que he o tempo que as naos partem de ca para Portugal, e ja quando vem estão as naos a pique, e muitas vezes vem dipois de par- tidas, por isso não se pode fazer se não se for de algumas províncias mais chegadas. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 295v.-300; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 277 V.-281 v.
Agora nesta lhe darei conta do que Nosso Senhor, por sua misericórdia, obrou em esta cidade de Goa, e assi das novas de fora que nos ocorrerem, e as mais novas irão nas cartas dos padres, que com esta vão, e ainda que seia trabalho, todavia por satisfazer a vontade de nosso Padre Inácio e se aiuntem la, porque ca como (2) ja dixe, temos este impedimento. Depois da partida do Padre Mestre Belchior para Japão 1214 r.] fjcou neste //collegio o Padre Balthasar Dias com todas as outras províncias debaixo de seu poder; porque ja neste tempo era mui aceito a todo o povo, por sua santa dou- trina, ficou elle soo continuando as pregações dos domingos, dias santos, quartas feiras no hospital, e as sestas a peni- tencia, ha qual pregou antes do fim da Quaresma, que logo se seguia, e esta por duas causas deixou. A primeira, polo muito tempo que avia que a gente continuava esta peni- tencia, por lhe dar alguma maneira de allivio, e a outra pola grandeza dos trabalhos e ser elle soo, porque, alem do grande trabalho que teve aquela Quaresma em confessar e a ministrar o Santíssimo Sacramento, com a auida de tres padres que ho aiudão, a saber: o Padre Micer Paulo, e Diogo do Souveral, e Francisco Lopez, e elle áoo acudia as pregações, porque o concurso da gente era muito, e elle não podia deixar de o fazer, e ja em o fim da Coresma, que foi sesta-feira, a noute, pregou num pateo grande, que temos dentro do collegio, para que a gente tivesse lugar porque, ainda que a igreija era grande em comparação cia gente que concorreo a primeira pregação (3), era pe- quena, porque assi o pateo como as castras e varandas, (2) Correcção de: deixou residendo. iereí^ * ,margem' de: Porquesegundo a gente era muita, a rnnl r ' '' "" comP<"rafao da gente, era pequena, a qual co corrta a ouvir a pregação... 7 2
tudo era cheo de gente; não vos poderei dizer com palavras o muito amor e compaixão que ali mostrou das dores e paixão de Christo, daquella gente, porque desde o prin- cipio do sermão ate o fim, que foi desde mea noute ate começar a querer esclarecer a alva, sempre ouve muito sentimento e lagrimas, em tanta abundancia e de tal ma- neira, que era muito pera dar graças a Nosso Senhor. Dispois tirou hum crucifico (sic) grande, e não vos posso mais dizer, senão que o mesmo padre veo dali em braços de homens, como morto, e como tal o virão e forão ver muitos homens assima a ho cubículo, porque não avia defender-se nada e, como ia dixe, esta foi a derradeira pre- gação das sestas-feiras; ficou entonces com as outras, que ariba disse, e não com menos frequência de gente, de que o Senhor seia bendito. Neste collegio vão em muito crecimento as confissões; ha muita honrra e gloria de Deos Nosso Senhor, e este he o principal fruito desta terra porque, como a gente de antes andasse desacustumada, era isto ao principio tão estra- nho nelles, que huns polo descustume e outros, por seguir a natureza da mesma terra, ho fazião mui raramente e por isto, logo a primeira ouve nelles esta maneira de repug- nância; mas vierão-se tanto a satisfazer que agora não a dia que nesta igreija nao aia muitas confissões. Muitas pessoas soem cada sabado confessar-se, e cada domingo tomar o Santíssimo Sacramento, e em a doutrina christã se fas muito fruito, ho que ca se collige polo que de la vem. Temos para nos que em nenhuma outra terra se fas mais fruito que nella, porque ainda nos mesmos moços se ve claramente que pola bondade de Deos tem o custume mui deferente do que a terra requere. De maravilha se achara moço de 15 annos pera baixo que a não saiba de cor, e por milhor comprir por si mesmos e como fazer comprir a outros tem tal maneira que, assi 73
polas ruas como em casa, como na igreija, defendem v0 todas // as cousas em que conhecem que se pode offender a Deos Nosso Senhor, como são juramentos, murmurações e outras cousas semelhantes, e assi pareceo sempre a Nosso padre bendito Mestre Francisco que destes moços dependia a salvação de seus pais e mãis, porque com tanta eficacia encomendou esta instrução deles; prazera a Nosso Senhor Deos que isto permanecera sempre para seu santo serviço. Este anno entre muitos chathecuminos que tivemos neste collegio tivemos dous jogues da mesma secta de Paulo de Santa Fe ,de Ormus; isto é segundo a enformação que deles tive; forão homens que correrão mea parte do mundo, ambos sempre em companhia, onde virão muita diversi- dade de gentes, e erão elles homens de muito respeito entre elles; dispois disto vierão estar numa feitoria de portugueses, que esta dentro desta cidade vinte e quatro legoas, que se chama Tecale, e ali os alumiou Nosso Senhor. E conhecendo em elles esta vontade huma molher portugeza, que alli se achou desta cidade, mui devota desta casa, não se quis ir sem os trazer consigo, e os meteo aqui dentro nesta casa, donde muito tempo estiverão instruindo-se nas cousas da fe. Paulo tratou com elleá, confessando elle que erão homens aquelles entre os gintios de mais credito do que elle fora, e elles que o mostravão em sua preguntas. Dispois de bem instruídos na fe, se fizerão christãos e, dipois de christãos, estiverão ainda muitos dias em companhia do Padre Micer Paulo e dos mínimos, donde aprendião e os doutrinavão e vinhão as pregações a igreija. O padre, ainda que enfermo e mal desposto, alem de estar muitas vezes aparelhado para muitas confissões, e ser ia de muita idade, fez este anno de sua parte passante de 80 christãos por sua mão, alem de fazer muitos casamentos, entre os que tinha feitos, e fazia, de maneira que para trabalhos, assim como elle he, se acha tam desembaraçado
que não podemos crer senão que Deos Nosso Senhor (tanto pera sua saúde corporal, como para proveito espiritual), lhe tem concedido ser tão inteiro nelles. Porque, por rezão da natureza, se ve claramente ter muita necessidade de meizinhas corporaes. Em hum esprital ,que temos junto a este collegio, se exercitão muitas obras de misericórdia, porque continua- mente estão muitos enfermos da terra, e de enfermidades contagiosas, e chagas, que se não estivéramos aqui todos estes morrião com desamparo. Asi também ay muitas mo- Iheres cathecuminas, das quais alguns homens em ho hos- pital, por que melhor seião doutrinadas, christãos antigos e experimentados, tem cuidado de as insinar, porque Micer Paulo tem cargo dos enfermos e mininos. Assi que este he grão fruito e maior sera pola bondade de Deos Nosso Senhor. Os moços que neste collegio se insinão e se crião são da terra e de //muitas nações (convém saber): malavares, t215r canarins, bramanes, chinas, pérsios e de outras naciones diversas; esperamos, com a aiuda e favor divino, depender destes moços muito fruito, como se faz em algumas pro- víncias, por onde ja andão alguns entre os seus. Ho anno passado, mandou o Padre Antonio de Ormus alguns moços ,entre os quais veo hum que esteve em Ormus, com outros seus irmãos naturais de huma província, que esta polo certão de Baçora, donde todos observão o chris- tianismo. Mas como inteiramente não se saiba, somente que entre elles ay bautismo, e tem entre si prelados de igreijas, e outras muitas cerimonias, e dizem que em esta terra conversou o bem avinturado Apostolo São João Evangelista, e converteo esta gente, ainda que os que a rodeão são todos mouros, a saber: de huma parte, o rey de Baçora e da outra o Xiras e o Xaa; ate agora desta gente não temos ainda perfeita emformação mais de somente isto que digo; o moço 7 5
esta com dous outros, que aqui temos, e por se saber isto não lhe tem ategora feito alguma cerimonia, porque, como esta gente recebe o bautismo, não no sabemos, nem o moço por si o pode bem saber esplicar; quer Nosso Senhor abrir alguma porta por donde se saiba desta gente, e do modo e maneira que levão em seu proceder, e tudo para mais onra e gloria de seu Criador e Senhor. Entre estes moços, que digo da terra, que aqui se sustentão, estão alguns por- tugeses y mistiços, e a causa pareceo ca espediente, para que, por via destes, os outros abrissem mais seus intendi- mentos, conversando amiúdo huns com os outros, e assi todos alcançassem mais facilmente a doutrina que nisso se pretende; ai entre elles, asi de huns como de outros, mui boas abelidades; esperamos em Deos que tudo sera pêra seu santo serviço. Quanto aos de fora, cada dia tem doutrina nesta igreija, para o qual esta deputado hum irmão, que vai pola cidade com huma campainha a chamar os mininos; o que mais isto continua he o irmão Pedro de Almeida que veo de 11a, e certifico-lhe que parece que lhe tem Deos Nosso Senhor dado particular graça porque, alem de trazer todos os moços da cidade, muitas vezes tras consigo muita gente, a saber: cafres, e escravos da terra, que he para dar continuas graças a Deos Nosso Senhor. Afora isto, ai outro irmão que tem huma escola de ler e escrever, donde muitas vezes tras consigo passante de trezentos e cincoenta, 350; outras vezes, 300, segundo os tempos. Insina-lhes também a doutrina, de maneira que neste fruito dos moços não vos posso, irmãos charissimos, dizer tanto que mais não seia. Deos Nosso Senhor, por sua misericórdia e piedade, o leve adiante e aumente, a maior gloria sua. Agora vos quero dar conta como Nosso Senhor se alem- brou de nos, que, como ja dixe,//dispois da partida do Padre Mestre Belchior pêra Japão, ficando aqui somente 76
o Padre Balthasar Dias, com todos os trabalhos e pregações e couzas que pertensem a semelhante cargo, do que nesta terra não se tinha por tam pouco, que bem se pode com rezão certificar, polo que delia sabemos, que o trabalho desta terra em muita parte excede a essas de la. Assi que estando nos outros esperando a misericórdia divina, que viessem (4) alguns padres que nos aiudassem a suprir as necessidades que forçosamente não se podem escusar, che- garão a esta barra, a dous dias de Setembro, duas naos, a saber: São Philippe, em que vinha o Padre Belchior Car- neiro, e o Padre Manoel Fernandez, e o Irmão Antonio da Costa, e a nao Algaravia-a-Velha, em que vinha o Padre Jeronimo de Quenca, e o Padre Mestre João, e o Irmão Marcos Nunes e, como nos outros estávamos algum tanto apartados do reboliço da cidade, não esperávamos outros primeiros mensageiros que nos dessem a nova de as naos serem chegadas que os sinos da see, o que nos meteo em alvoroso; não foi necessrio ir ver se vinhão padres para São Paulo, porque a gente da cidade tinha este cuidado, e logo o souberão, e não com pouco fervor vinhão os homens correndo pera este collegio a dar a nova; foi tanto o contentamento em todos geralmente, assi de fora como de casa, que não vos posso mais dizer, senão que foi dada huma carta ao Padre Reitor Balthasar Dias do Padre Jero- nimo de Quenca, que lhe escrevia e dava conta da chegada dos padres, e quem erão, porque não sabíamos delles mais que confusamente que vinhão padres; com discuido trouxe a carta na mão, sem na abrir, senão despois de muito espaço que, lendo-a, ouvimos as pessoas que vinhão em todas as naos, que foi outro novo contentamento e alegria, ainda que soubemos que vinhão emprestados; mandou o (4) Correcção de: esperando- 7 7
padre dous irmãos com huma embarcação a barra para os trazer, e chegarão ao outro dia, onde os saimos a receber todos com muito contentamento em Deos Nosso Senhor. Vinhão acompanhados de muitos homens deste caix que não menos alegria, segundo sua devoção, recebião com sua vinda. Dispois de sua chegada, de ay a tres dias, chegou a nao capitania em que vinha o Padre Antonio de Quadros, o Padre Michael, e o irmão Joseph. Finalmente eu com palavras não vos posso relatar o grande contentamento e alegria espiritual que todos recebemos, a huma por virem em salvo e em tempo de tanta necessidade, e a outra, ainda que para nos não vinhão deputados, al de menos neste anno, esperamos em Deos Nosso Senhor fazer-se nesta cidade muito fruito, como vos direi adiante; chegou também a nau São Pedro, em que não vinhão padres, porque a nao Algaravia Nova, em que vinhão dous padres, e hum irmão, não era chegada; encomendamo-la a Nosso Senhor, cada hum segundo o que podia. [216r.] //Mas o que Nosso Senhor tem ordenado ninguém o pode fugir porque, dispois de aver alguns dias que estoutas naos erão chegadas, estando nos outros esperando por esta, chegou a esta cidade o capitão delia e alguns vinte homens com elle no batel da mesma nao, o qual dixe que ficava perdida desta costa da índia 500 legoas, donde elles vinhão no proprio batel, e dixerão que se perdera numa restinga de huma ilha, tão pequena, que de huma banda a outra poderia ser pouco mais de hum tiro de pedra, adonde toda a gente fica viva, que serião 220 pessoas, entre os quais ficavão os padres pera sua consolação espiritual; ficava-lhes algum mantimento e agoa, ainda que pouca, que tirarão da nao, antes de se quebrar de todo; o capitão, com muita instancia, pidio logo o governador que armasse alguns navios pera ir pola aquella gente, antes que perecesse de fome e sede ou, por ventura, de pasmo, por se ver no meo 7 8
do mar; alguns dias se detiverão estes navios que pidia o capitão, por causa do tempo, e a verdade que visto bem se lhe acrescentaria ao capitão nova lastima de novo. De maneira que a entrada de Novembro, partirão desta cidade o capitão mesmo e pilotos; esperamos em Deos Nosso Senhor que os trarão porque, pois Deos permitio que hum batel com vinte homens viesse 500 legoas a dar esta nova, pedir este socorro, quererá (5) Elie também que seião vivos e sãos e os traga. Mas contudo, ou de huma maneira ou de outra, encomendemos a Nosso Senhor muito em seus sacrifícios e orações porque, pola disposição da ilha e via humana, terão esperança de vida, se achassem agoa, ou pescacem, e deste modo vivirião, e doutra maneira não (6), se Deos não nos provesse milagrosamente. Dispois de alguns dias que o Padre Belchior Carneiro e Antonio de Quadros e os outros padres e irmãos forão chegados, porque se nos não passasse este anno de sua conversão em vão, determinou o Padre reitor Balthasar Dias de dar a cada hum em que se ocupar. Ao Irmão Mar- cos Nunes não teve que lhe dar, porque ia o trazia con- sigo; finalmente ordenou aver estudos de gramatica, lógica e casos de consciência, para o qual estudo, antes de serem assentados, teve o Irmão Marcos Nunes huma oração pu- blica em nossa igreija, de púlpito, dia de São Lucas, a qual acudio muita gente, o governador com muitos cavaleiros e frades de São Francisco e São Dominguos, em a qual oração lhes induzia e insitava intensamente a que entregassem seus filhos a tão proveitozo e santo exercitio; foi a gente mui satisfeita e não faltarão pessoas que dixessem por que não pregava aquelle padre. (5) Correcção de: permitira. (6) Correcção de: minime. 7 9
Hos estudos que se assentarão forão estes, dispois que os moços estudantes que por entonces forão examinados, 1J a saber o Irmão Marcos // Nunez ficou com a primeira classe, o Padre Michael com a segunda, ate que fação agora alguns que possão ouvir livros graves, entonces avera três; ate o presente avera passante de 100, e começarão de vir das fortalezas de fora. O Padre Belchior Carneiro ficou com as pregações dos domingos pelas manhas, e alem disto todos os dias le huma lição de casos de consciência a muitos clérigos e leigos, que vem a ella, e le-a segundo as regras das Constituições. O Padre Antonio de Quadros ficou com as pregações dos domingos e dias santos, as tardes, e mais lee a outros irmãos Lógica que aqui a para isso, a saber: o Padre Francisco Lopes, o irmão Christovão da Costa, Estevão Brabo, Aleixo Dias, Francisco Cabral, estudante de Coimbra, filho de Aires Cabral, o qual ca recebeo o Padre Balthasar Diaz, e o irmão Manoel Teixeira, e o irmão Pedro vaz, e Aires (7) Brandão e le mais a outros quatro de fora. O padre reitor Balthasar Dias e o Padre Manoel Fernandez suprem algumas vezes com sermões, por dar algum alivio aos padres que lem. Esperamos em Deos Nosso Senhor que destes estudos a-de redundar em esta terra muito fruito, para onra e gloria de Nosso Senhor. Dispois de ter escrito ate aqui, dozoyto dias do mesmo mes de Novem- bro sendo, a armada ia partida para se ir buscar a gente que ficava na ilha, indo ia atravessando de Cochim, topa- rão no mar huma jangada com passante de trinta homens que vinhão da mesma ilha, mui desbaratados de necessário, como quem avia ja muitos dias que andavão pelo mar; emaginai vos outros, charissimos irmãos, quais elles anda- rião e virião caminho de quinhentas legoas, sem tomarem (7) Correcção de Arias. 8 o
terra nem porto podessem aperceber-se e o porto donde vinhão ser tão mal provido, como atras vos dixe; estes homens fizerão huma jangada de madeira, que seria da mesma nao, porque doutra empossivel seria ave-la, de que a podessem fazer. O capitão, que ia com os navios, com muita alegria e dando muitas graças a Nosso Senhor, e não pouco maravilhados da maneira de sua navegação, os mandou meter em hum dos navios que levava, e os mandou levar a Cochim; derão conta de todas as cousas que, dis- pois da partida da nao, lhe acontecera, estando na ilha, e como Nosso Senhor, uzando com elles de seus acustu- mados e contínuos benefícios, vendo a falta que elles tinhão de agoa, lhe deu toda a mor parte daquelle tempo chuvas grandes, por donde nunca se virão em estrema necessidade de agoa e que, ainda a partida sua, da ilha não era falicido mais que hum ou dous homens, pola bondade divina, e que toda a mais gente ficava sã e com muito biscoito e agoa // que lhes dea Nosso Senhor abundantemente. Entre [217 r.] elles ficavão nossos padres e irmãos, dos quais elles recebem muita consolação, o qual tudo esta bem manifesto y eu com palavras não me atrevo a dizer-vos, em quanto se estima nesta terra tão universal merce, como o Senhor nos fes a todos, assi a huns como a outros. A nova chegou a esta cidade hum dia, a oras do sino de correr, e logo ouvimos os sinos da igreija-mor repicar, e não tardou muito que o governador mandasse pidir alvisseras ao padre reitor Balthasar Dias; ouve entre todos muito contentamento; esperamos em Deos Nosso Senhor que os teremos mui cedo neste collegio, porque novos deseios com tamanha merce de Deos avia de receber o capitão dos navios para os ir a buscar e trazer, e todavia não nos descuidamos de os encomendar ca muito a Nosso Senhor Deos, nem elles o deixem la de fazer. 8 1 DOC. PADROADO, VI 6
Dipois dos estudos, como atras dixe, estar acentados em sua ordem de proceder, detriminou o padre de prover de padres, por agora, algumas províncias chegadas, a saber: o Padre Diogo do Soveral para o Cabo do Comorim para ajudar ao padre (8) espera o Padre Anrique Anriquez que, vivendo, se pode com razão chamar mártir com razão, e com dous irmãos trabalhão de incaminhar aquella christandade. Mandou mais o padre Jeronimo de Quenca para Baçaim, onde estava o Padre Francisco Vieira, que mandou dali ir para Tanaa, porque Francisco Anriquez, que ali estava, adoeceo, o qual agora esta neste collegio; esperamos em Deos que assi o padre Jeronimo de Quenca em Baçaim, como o Padre Francisco Vieira (9), em Tanaa farão muito fruito. O Padre Jeronimo de Quenca, antes que se foce, fes aqui em nossa igreija huma pregação, a qual esteve o governador, e temos para nos que, com a aiuda divina, e com os sermões e sua santa doutrina, fara muito fruito em toda aquella terra. Os padres que neste collegio estão são os siguintes: O Padre Balthasar Dias, Belchior Car- neiro, Antonio de Quadros, Micer Paulo, Mestre João, Michael, Manoel de Nóbrega, Manoel Fernandez, Fran- cisco Lopes, Francisco Anrriquez, e irmãos os que la verão pola lista (10) que são 29, afora os padres; e contudo torno a dizer que a maior parte temos de emprestado; Deos Nosso Senhor ordenara tudo como for sua maior gloria e honrra. Ficou-me por deradeiro de dizer-vos com quanto con- tentamento e alegria espiritual todos os padres e irmãos receberão as santas Constituições e Regras; em todos comummente se via os deseios novos antes de se exerci- (8) O documento encontra-se roto aqui. (9) Correcção de: Anrique Anriquez. (10) Correcção de: memoria. 8 2
tarem nellas, de chegar a ora em que avião de começar; porque os trabalhos do caminho foi a primeira cousa, por onde o padre quis que os padres repousassem alguns dias, e eu lhes digo em verdade que estes deseios, que digo, dos irmãos de as ouvir que//a mim, o mais fraco de todos, 1217».] acrescentou e aumentou em muita parte de lhes ser com- panheiro. Começou o Padre Antonio de Quadros a ler e declarar as Constituições, estando todos congregados, e em isto gastava huma ora todos os dias; chegou com ellas ate onde pareceo ser necessário; repartio entonçes o padre os officios, dando a cada hum as suas regras, as quais recebião em Deos Nosso Senhor, e he muito para dar graças a Deos Nosso Senhor ver a prontidão que cada um tras em as guardar. Dispois disto, determinou o padre de começar a entrar em o que convinha as Constituições e, pera isto, mandou preparar a todos os irmãos e padres, de dous anos casa, para se confessar geralmente, segundo a forma delias e, depois de confessados todos, huma cesta-feira, outo de Novembro, dixe o Padre Belchior Carneiro missa em hum capitulo que esta nas claustras, onde todos estivemos e, dispois de dita a missa, fizerão todos seus votos, cada hum por sim (sic); a devação, lagrimas e amor com que todos o fazião não me atrevo a escreve-lo (11). Tomarão todos o Santíssimo Sacramento e de ali sairão todos mui prontos e prestse para padecerem por amor de Christo muitos tra- balhos. Agora ficão huns ouvindo Lógica, outros Gramá- tica, e outros em seus officios, observando iuntamente a obediência. E logo o outro dia, de Santo Andre, bautizou o Padre Manoel Fernandez 14 christãos iuntos em nossa igreija, (11) O documento encontra-se roto aqui. «3 *
a saber: des homens e quatro molheres; o Padre Balhtasar Dias, por ser pedido de huma freguesia das principais da cidade, que se chama Nossa Senhora do Rosairo, vai agora preguar la os dominguos. Agora, para o dia de Jesu, orde- namos que aia ca concruzões geraes de todas as classes, como (sic) o Padre Quadros e o Irmão Marcos Nunes. Estas são as couzas que milhor podemos tirar em tempo, para irem todas em huma carta, tirando as de Malaca, Maluco, Japão, que vem sempre quando as naos estão para partir. De Goa, a 20 de Dezembro de 1555. Por comissão do Padre Balthasar Dias. 84
12 TRECHO DUMA CARTA DO IR. GASPAR SOEIRO PARA O COLÉGIO DE GOA Coe him, 1555 Documento existente na BAL, 49-1V-49- Fls. 222v.-22òr.(\). Sesta feira, que forão 27 de Novembro, chegarão aqui [222 v a este Cochim doze homens daquelles que ficarão na ilha, com os nossos em Christo padres, os quais vierão muito bem despostos, ainda que de 27 que partirão não chegarão aqui mais que estes doze; dão por novas que ficarão ainda na ilha 20 e tantos, e que estes serão ia mortos, por não terem que comer; estes que vierão contão grandes maravi- lhas que Nosso Senhor por elles fez, e por que saibão de seus trabalhos em sua viagem, lhes contarei aqui breve- mente, porque o soube de um homem dos que aqui veerão, e aqui em casa dormio huma noute, o qual contou que aos des dias de Abril, vendo que não ião por elles, porque ate ali estiverão em esperança que iria la alguma cousa a busca- dos, e vindo (sic), como digo, que não ião, ordenarão de fazer huma jangada em que todos se embarcassem per não morrerem a fome; e, feita a jangada, não couberão nella mais que 27, ficando la os outros com grande choro, como a natural rezão pidia; estes se entregarão ao bravo mar, confiando naquelle a quem o mar, ventos e todas as cousas criadas obedecem; com estes se embarcarão os nossos padres, ou milhor dizer, do nosso bom Jesu; o mantimento que consigo trouxerão diz que era taçalhos de tubarões curados, (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 288 r.-288 v. «5
ainda que poucos, e assi hum quarto e dous barris de agoa; quanto a agoa, se ouvera embarcação pera a poder trazer, não lhe faltava na ilha, mas a embarcação pequena não lhes deu lugar; desque partirão da ilha ate tomar a pri- meira terra, puserão dous meses, ao menos hum e meo; ia quando chegarão a esta terra, vinhão mui fracos, por causa da viagem, e não comer e dormir, por causa das [223r.] vigias, de maneira que por lhes não se acabar a agoa// bibião por muitas vezes as orinas, o que dis que lhes causou muito mal, porque lhes secava os bofes e costava. Che- gados a esta terra, que era huma ilha pequena, e onde não avia nenhum mantimento, por ser casa alagadiça e despovoada, estiverão aqui alguns dias, serião dous ou tres, todos os que escaparão do mar que serão 27, porque mor- rerão 4 ate ali, e por esta ilha ser assi, como digo, e elles virão estar outra dahi huma legoa; determinarão de ir a ella e, cometendo-a duas vezes, não na poderão tomar, por causa do tempo contrario, mas antes quando arribavão vinhão quasi perdidos, pelo qual escolherão alguns ficar antes ali, que meterem-se em tamanho perigo, e também por estar incertos de naquella outra ilha acharem que comer, e naquella em que estavão, ainda que também não o tinhão, todavia avia nallas algumas 60 palmeiras, das quais comião somente os palmitos, e assi também algumas ortigas cozi- das, porque dis que não avia outras ervas, de maneira que ali, contra suas vontades, recebião purgas, porque saltava com elles camaras (2), com comer estas duas viandas que digo que os enfraquecia muito. Destes que isto escolherão forão nossos benditos padres e irmãos e outros que quiserão; todavia tornarão-se a aven- turar; quis Nosso Senhor que aferrarão na ilha, que dantes (2) Correcção de: o sair. 86
tinhão cometida, na qual acharão muitas palmeiras com muitos cocos, assi frescos como ia curados, que avião caido muitos das palmeiras, e assi também terem ervas, e algum modo de pescar a boa agoa. Acharão-se ali reis como quer que vinhão pobres; com aquillo se alegrarão muito, de maneira que se meterão tanto nos cocos, e no mais que acharão, que vierão todos adoecer, sem ficar quem pudesse navegar a jangada pêra irem poios outros, que ficarão, somente com os sessenta palmeiras bravas por mantimento, andando-se nisto perto de hum mes, porque todo hum mes os outros pobreszinhos, entretanto que tiverão aquelles pal- mitos, viverão, ainda que o cortar das palmeiras lhes desse muito trabalho, por a muita fraqueza, de maneira que se acabarão as palmeiras e não ficou senão somente huma, que não poderão cortar de grossa. De maneira que seus dias se acabarão com pura fome e de des ou onze, que erão, não escaparão senão dous; nos que morrerão entrarão os padres e irmãos, porque, dipois que se acabarão as pal- meiras, andavão correndo trás alguns carangeios que saião a praia, adonde dis o Padre Gonçalves, indo huma vez cor- rendo apos (3) hum carangejo, deu huma grande queda por andar ja muito fraco, e o mesmo farião os outros, de ma- neira que dis que dixe o padre (4) quando cahio que jaa não podia buscar de comer, e assi parece que poderia pouco viver; isto lhe mando por novas muito certas, e para que em suas orações os encomende muito a Nosso Senhor. Gaspar Sueiro. (3) Correcção de: espos. (4) BACIL: dixe o padre que antes se deixaria morrer que buscar que comer. 8 7
13 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES SOBRE A COSTA DA PESCARIA Dezembro de 1555 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Folha 288 r.-288 v. (1) O ano passado escrevi a Vossa Reverencia e, ao pre- sente, pouquo a hi mais que escrever. De novas do fructo que se na costa faz, himos continoando o começado em a christandade do Cabo do Comorim, em os lugares, donde as igrejas forão queimadas, na destruição que os Rumes fizerão, de que o anno passado escrevi largo; demos ordem pera se tornar a fazer; as orações aprendem-se em todos os lugares; juntamente lhe faço aprender a causa ou causas por que Christo Nosso Senhor veio tomar carne umana, porque, quanto milhor souberem isto, tanto milhor terão conhecimento do que são obrigados. He de serto que não he pequeno contentamento pera nos ver que os novos na fee sabem dar rezão tão boa delia, que se achão não poucos dos antigos que não o saibão; também temos nossos irmi- tãos pelos lugares, que são homens de boa vida, dos milho- res christãos, que achamos na costa, os quais nos ajudão muyto e suprem a falta de padres. Nem admitimos pera este officio de estar insinando a doctrina nos lugares senão homens que tenhão mui boas partes e suficiente testimonio e credito do povo. Se estes não fossem, pouquo puderiamos fazer na costa, por ser muito comprida, e em todo este anno não avemos (1) As páginas deste documento encontram-se muito delidas e rotas. 8 8
estado mais que hum irmão e não bem desposto e eu. //Tem-se tão grande exercido em a doctrina dos mininos i288" e mininas, gasta-se tanto tempo nisso pola menhã e a tarde, e tem-se tanto cuidado de os grandes homens e molheres aprenderem as orações, e de lhe ser pidida conta delias, e das rezões por que crem e por que Christo veio a padecer, que não podem deixar de as aprender e saber, ainda que tivessem mui bruto engenho. Poios lugares que temos damos ordem que aos domin- gos e sabados que vem os homens e as molheres, digo aos domingos os homens e aos sabados as molheres, tinhão sua lição das cousas da fee e de como an-de viver e as vezes de vidas de sanctos. Frequentão as igrejas, oferecem suas ofertas em suas necessidades, e sentem algumas vezes ajuda de Christo nas suas doenças, com a devação que fizerão. Vão não pouquos cada vez e mais conhecendo as men- tiras dos gentios e a verdade da fee; filhos dos homens principaes tenho mandado a Coulão e a Goa, pera apren- derem nos nossos collegios; esperamos dahi aver-se de tirar muito fructo; vai muito ao caso os que ão-de reger o povo serem criados e fundados na fee e em bons custumes. O esprital, que tínhamos em Punicale, e que foi quei- mado na destruição do mesmo Ponicale, tornamo-lo a edificar, e recolher pobres doentes, busquar esmola pera se sustentar, e alguma vez himos servir aos pobres do mesmo esprital; de tudo a gente sumamente se edifiqua. Ho mais do tempo, resido em Ponicale, por minha ma desposição, mas donde estou me vem recado de todos os lugares dos christãos, do que se faz, e asi provejo dali segundo os negocios requerem; dia se faz que me man- dão 4, 6, 8 cartas, que qua chamão olas, escritas em mala- var, e a todas he necessário responder logo, pera o que S9
tenho em casa hum homem da terra, de grande memoria, e de muito bom engenho, que me ajuda grandemente pêra os tais despachos. Oferecem-sse tantos negocios cotidianamente, que mal desposto como sou, desde pela menhã ate alta noite, todo o tempo gasto em despachos e negocios de christãos, e de outros que se oferecem, de maneyra que muitas vezes, ainda comendo, he necessário estar despachando. Pesa-me as vezes de ter pouquo tempo pêra recolher, sendo-me tão necessário, pera me não perder, porque tenho isto por experiência de outros, e de mym mesmo, que de homem gastar quasi todo o tempo em comunicar-se com os próximos, se vai o Espirito enfraquecendo, e caindo quada vez mais, especialmente os fraquos como eu são, sed qui prodest homini si universum mundum lucretur anima; vero detrimentum patiatur. E serto que nesta parte tenho necessidade de avisado e reprehendido; prazera a Deos que daqui por diante terei algum modo mais conveniente. Nalgumas cousas tenho escrito em malavar a doctrina dos christãos; o tempo não me da lugar pera ir adiante; virão com ajuda de Senhor Deos padres e poderei prosse- guir o começado. A gente da terra nos tem muito amor, o qual ajuda muito pera nelles podermos aproveitar espiritualmente; trabalhamos, por bom concelho do nosso grande Padre Mestre Francisco, condecender com elles segundo sua capa- cidade, est (sic) omnibus omnia fieri ut omnes lucri facia- mus; ele como tinha o verdadeiro espirito da Companhia isto do Apostolo comprio inteiramente, e isto nos amoes- tava e mandava et omnes qui in istis partibus aliam viam secuti sunt moti zelo Dei, sed non secundum scientiam erraverunt, et perierunt, non sine scandalo cum suis sequa- cibus. 90 1
E outras particularidades ai que se podião escrever dos aproveitamentos espirituaes daquella terra, em a qual tam- bém não faltão muitas contradições, que sempre são anexas as cousas do serviço de Deos, mas por agora se presedeu, porque juntamente estou de caminho pêra a Pesquaria, e vim de la a sertas cousas dos christãos, por mandado do Padre Nicolao. De Dezembro de 1555. Inutilis Anrrique Anrriquez.
14 CARTA DO PADRE DIOGO DO SOVERAL PARA OS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA, EM PORTUGAL Cochim, 2 de Janeiro de 1556 Documento existente na BAL, 49-IV-49- Fls. 289 v.- 290 r. (1) A summa graça e o amor de Christo, Nosso Senhor, seia sempre em nossa ajuda e favor. Amen. Padres meus e yrmãos muito amados em o Senhor. Nom penso que vos esquecereis de quem tanta lem- brança e memoria tem de vos como a minha alma. E por isso detriminei escrever-vos esta em sinal de que escritos estais em o mais enterior de minha alma ainda que segundo cuido que no ahi necessidade de sinal mais claro que a continoa memoria que de vos tenho diante do Senhor cuyo amor nos ayuntou en este corpo místico da Companhia de Jhesu a qual nos trouxe a sua inestimable caridade; isto he o que me parece não ser fora de rezão e preposito escre- ver-vos agora posto que de vos não aja recebido carta nenhuma nem em geral nem em particular de quem tanta esperança tinha de ser consolado com vossas cartas. A culpa desto eu a mereço pelos meus pecados e tornando ao pre- posito a rezão porque vos escrevo he pensar que vivo em vos e causa disto he viverdes vos em mim o qual sempre (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 267 r.-367 v. 9 2
sera vivendo nos no Senhor e pois se o contrario fosse me aqueixaria de vos, pois vos esqueceis de mim e me aquei- xaria de mim, pois tanto me alembro de vos o qual não deixarei de fazer, pensando de vos espertar por esta via se dormis ou de vos aviventar ainda que bem sei que o farão // vosas charidades e por isso no mais, porque doutra -m' maneira procura Deos Nosso Senhor ensitar-nos com sua pena pois que a lingoa nom pode, a qual pela muita dis- tancia de lugares tem posto silencio dando licença a huma pena que supra o que ella não pode. Achareis mui extensamente todas as novas de qua e por isto nom vos escrevo novas nenhumas, porque se vos ouvesse de escrever tudo o que qua se passa nom bastaria tempo pera vos declarar o que Nosso Senhor obra por meio desta sancta Companhia de Yhesu. Ala tereis por cousa grande converter-se huma alma a Deos tirando-se do pecado, perdoando a seu inimigo, resti- tuir o alheio e fazer outros actos de cristão; isso cousa grande he mas nom chega ao que Nosso Senhor nestas partes obra pois vemos quarn sunt multi qui petunt et non est qui fragat eis. Muitos se converterão a nossa sancta fee e deixarião os seus pagodes e sectas abominables que o demonio tem denunciadas e leis postas a todas estas nações de gentilidade se ahi ouvesse quem acodisse pola honrra de Nosso Senhor mas todos os que vem dessas partes querunt quce sua sunt et non quas Cbristi e por isso se faz tão poucos christãos onde ha tanta soposição pera isso; a culpa disto não tem os da Companhia nem outros muytos religiosos que vierão de Portugal puramente pera servirem a Deos e entregarem suas vidas a todos os trabalhos por pera servirem a Deos e a salvação destas almas. Ho ano passado vos escrevi mais largo de toda a nossa viage de Portugal ate a India e como ficava em Goa no
collegio e no qual estive ate a vinda dos padres que vierão do Reyno: ahy nunca estava ocioso sempre me ocupavão em confessar assy os de casa como os de fora, doctrinando a gente da terra e os trabalhos que nisto passava seja em desconto de meus pecados e algumas vezes preguey asi do púlpito como de cadeira donde voces que se entendião e despois da vinda dos padres me mandarão a esta cidade de Cochim onde estou ao presente e o Padre Francisco Peres que aqui residia foi a Goa a ver-se com os padres que vierão do Reino e por assi o mandar a obediência e eu fiquey aqui em seu lugar ate a sua vinda por asy o mandarem; como vier, far-me-ey prestes pêra ho Cabo de Comorim pera onde estão o Padre Anrrique Anrriquez pera o ayudar; os traba- lhos que padecem os que aquella terra vão ya la saberão por cartas quão trabalhosa he e quantos ja la são mortos, huns a ferro e outros dos muitos trabalhos que sofrerão; ha ali cem legoas de costa onde ha cem mil almas christãs ao longo do mar e eu vou pera correr a costa e baptizar os mininos filhos dos christãos e visita-los, onde necessaria- mente me ei-de ver em muitos perigos assi por terra como por mar de ladrões e de enimigos de Christo e de guerras e de muitos espinhos que são como cravos e são de tal maneira que se não pode andar a pee e sempre por areaes sem arvores e se vão por mar ha mister saber bem nadar e yr nu e aparelhado pera isso porque muitas vezes acon- tece a embarquação virar as costas e ficarem debaixo. Isto vos proponho, charissimos padres e yrmãos, pera que sintais a necessidade que posso ter de vossa ajuda. O Padre Nicolao passou por aqui muito doente feito ético e vai morrer a Goa o qual a-de viver pouco e onde elle estava ficou hum irmão om os mininos da terra que ahi estão e agora se prouvera de Goa. Aqui pousamos em huma casa nossa dentro de huma cerqua e a igreja não he nossa que a fez a cidade e não a quer dar. Esta casa não vale nada 9 4
sem ella que milhor seria pousar no esprital mas prque he muito necessairo aver aqui casa pera prouverem os padres que estão por estas fortalezas. Este povo esta bem com a Companhia e não querem pregadores senão da Companhia; ategora ensinarão aqui mininos a ler onde vinhão 300 mo- ços filhos de portugueses e da terra donde resulta muito fructo por ficarem abituados a bons costumes e confessão-se muitas vezes e deseião alguns de ser da Companhia, se os recebessem. Estes dias passados fui ver o Rei daqui e faley a Sua Alteza, agradecendo-me muito a visitação e juntamente fui ver seus pagodes // e misquitas dos mouros e sinagogas dos yudeos os quaes fazião então sua festas por ser sabado e entrei dentro ainda que elles não querião e que, se ouvesse dentrar, avia de hir descalço mas eu não quis ter de ver com isso; entrei dentro, a casa toda estava chea de lampadas e no meo hum tabernáculo onde se assentavão os rabis a pregar. E tem huma maneira de altar onde estão os lyvros de Moises em Abraico postos em grande veneração e ali os abrem e começão a declarar na lingoa ebrea onde vem grandes e pequenos todos mui bem vistidos os quaes tem pera isso de gram e de seda; lavão-se primeiro que entrem dentro e a casa toda estava esteirada; huns chamão rabis Abram Esmael e finalmente que eu fiquei triste de ver tanto demonio e quantos servidores tem; isto vos escrevo para que desejeis de vir empregar vossos fervores nestas partes, converterdes estes a nossa fee. O que agora resta, charissimos em Christo, he encomen- dar-vos esta alma pera que a tenhais particular carego e cuidado de a offerecerdes em vossos sacrifícios e orações ao Senhor o qual nos de a gostar de Sy mesmo pera que corra- mos atras delle, pois asi como correeo apos nossa ingratidão com tantos benefícios e merces ate agora e como desgarrado cordeiro correo a deshonrra da morte da Cruz, a qual eu 95
querendo lleyvar, corro. Pidi ao Senhor que asy corra ut com- prehendam Aquelle que he todo meu bem, minha gloria, minha vida. Valete. Desta cidade de Cochim a 2 de dous de Janeiro de 1556, Minimus omnium et virtutum pauper Diogo Soveral 96
15 EL-REI DAS MALDIVAS À MESA DA CONSCIÊNCIA 23 de Janeiro de 1556 Documento existente no ANTT: — CC, I, 97-62. Mede 295 x 205 mm. Os Sennhores da Comscençia, Eu estprevo huuma carta a Sua Alteza por duas vias. Pareseo-me cousa iusta, divida, pois que eu são cristão e chamar por nome de Christo Noso Rredemtor trazer-me a sua samta fe católica, tirar-me da arronia em que eu amdava, também que me aiudem hos da Comçiemsia, sostemtar-me este estado em que Noso Senhor me trouxe, acudirem-me aos agravos que nesta terra me fazem. Por morte do vizo-rey Dom Pedro soçedeo Francisco Barreto de ser governador; por me pareser que elle que me faria o que Sua Alteza me mamda fui eu pera Guoa e ele por ter paremtesco com Amtonio de Taide, não me quis despachar, nem me quis deixar hir pera ho meu reino, pera dar ese proveito ao dito Amtonio de Taide, não ymdo eu la, que posa ele fazer a sua vomtade, a roubar as minhas ylhas, que estou eu morremdo a fome. Assy eles saberão por cartas que eu esprevo a Sua Alteza. Estivi eu em Goa trimta e tamtos dias morremdo a fome, comendo bagres frito do bazar, mamdamdo eu dizer muitas vezes ao governador que estou morrendo a fome, que não tenho poder pera comprar huns sapatos pera me calsar, que me mamde// dinheiro [iv.] pera guastar. Depois de pasados estes dias, mamdou-me chamar e dese-me que não era eu pera guovernar as ylhas nem pera 97 DOC. PADROADO, VI 7
guovernar huma aldea que era ynabel, que ele que me queria dar humas casas por de sy, que me queria fazer sezudo como hum cavalo deshemfreado, que lhe querem emfrear de novo, semdo eu pera guovernar estes reinos, não ya hum so. Yso que eles querem fazer não he por heu ser o que eles dyzem, senão por quererem roubar as minhas ylhas, que este heu morremdo a fome. S. A. me proveo por dous capitolos de huma carta de seu vizo-rey Dom Afonso, e muito amado sobrinho, que me desem trimta homens de suas fustas pera hir as minhas ylhas, e que não fose capitão senão quem eu quizese e quue dese fiamça a trazer qui- nhentos bares de cairo de suas parias. Tenho dado muito boa fiamça, não me deixão yr as minhas ylhas e mamdam la capitães quem eles querem a rouba-las e, se faltão dez bares de cairo, fazem-me paguar a mim e aos meus fiadores no pezo e nos seus allmazens me levão de estiba sem (1) bares, mas eu resebo a merce em me prover da maneira que me proveo, mas que me aproveita; se me não querem guardar nem cumprir, peso a Sua Alteza que me proveia por sua patemte a merçe com pena, porque doutra maneira não se cumprira, e que posa hir prover as minhas ylhas, e tornar-me pera minha molher huma ves no anno, e com ysto eu serei satisfeito de Sua Alteza me provera, como rei e primçipe, porque asym espero que me fara. //Feito oye, vimte e três de ianeiro de 1556 anos. (Assinatura oriental). (1) Isto é: cem. 9S
16 CARTA IX) REI DE ORMUZ AO PADRE ANTÓNIO Ormuz, 18 de Março de 1556 Documento existente na BAL, 49-IV-49- PI. 290 v. (1) Avera quatro ou cinquo dias que Garcia de Sa Penha me deu huma carta de Vossa Reverencia com a qual fui tão ledo quanto vos dizer não posso e crea que nenhuma outra cousa me poderá vir com que mais folgara por ser vosa e assy polas palavras que nela escrevestes as quais Garcia de Sa Penha, cada hum por si, me declarou tudo o que deu a entender. Eu as tomo como cousa de vossa mão porque ja sei que todas vossas cousas são certas e a bom fim como quem não quer yntiligencia nenhuma pera os deste mundo. Ja sabereis, padre, quão entre estou as vossas cousas e pala- vras e as tomo de vossa mão como de quem não tem conta com o mundo e seu abito he falar a verdade portanto peço a Vossa Reverencia e bem assi aos mais padres de vossa ordem que minhas cousas tomem a cargo como ja de qua levastes, porque minha tenção he siguir vosso conselho e obedecer a vossas palavras e a mesma obediência que tenho dado a vossa pessoa e ao collegio dessa cidade de Goa asi a mesmo dou aos padres de Portugal. E porque quando se foi levou bem entendida minha tenção, nesta fiquo agora e muito milhor e porque comesça a mostrar isto lhe confesso que folguei muito do bom tratamento que se faz a essas molheres que forão de minha casa que se fizerão christãs e (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 377 r.-377 v.
poderá ser que, correndo os dias depois de estas terem sabido e provado qual he milhor se entrarem em minha casa ou andarem por outras, então se o fizer sera por amor de vossa pessoa. Quanto a provisão que pasou o Governador a Conte- mogor para que torne a servir o meu officio certamente, padre, que minha tenção he os officios de minha casa e Reyno não os servirem senão pesoas que forem do meu gosto e os bem servirem e, porque Contemogor nenhuma destas duas cousas tem, estou grandemente agravado e em que me peza comer o meu quem o não merece, mas antes me tem feitos muitos desgostos e desserviços por onde, se não forão vosas palavras muito mais o sentira, pois nellas me esforçais de esperança pera se me não fazer este tamanho agravo e sem rezão e também folgarei não yr isto avante; por outros meus vassalos não sentirem minha pouca força, eu o consenti servir asi, porque vossa carta, como também porem o capitão falar nisso fiquando-me resguardadas as vossas palavras no coração. Ho Deos que fez o ceo e a terra seja sempre com vosquo e vos acate em seu serviço. De Ormuz a 18 de Março de 1556. Vosso amigo e Rey Truxa.
17 ROL DOS ALUNOS DO COLÉGIO DE GOA Novembro de 1556 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fl. 291 r. - 292 r. (1) Os portugueses Andre de Nazareth Antonio dAlenquer Antonio do Monte Calvário... Manoel Francisco do Pináculo Domingos de Santa Maria Tome da Fee Francisco Diaz Antonio Belo Miguel dos Cravos Luis dos Santos Francisco das Lagrimas Gaspar da Veronica Francisco Joane Ynocencio Andre Lourenço Joane de Salvador 19 (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 377r.-338v. vai em 6 anos. vai em 6 anos. vai em 6 anos. ha cinquo anos. ha quatro anos. ha seis anos e meo. ha quatro anos. ha trez anos. ha dous anos. ha dous anos. ha dous anos. ha anos ha anos vai em hum mes. ha três anos e meo. tot
Os castiços Pedro da Redenção dous anos e 8 meses Miguel do Orto ha dous anos e meio Christovão de Yerusalem .... ha dous anos Antonio Maldonado ha dous anos e tres meses Domingos ha hum ano e meo Agostinho ha hum ano e meo Simão ha hum ano Manoel Toscano ha hum ano e meo Joane vai em dous meses Guomez vai em cinquo meses 10 Os mistiços Domingos do Bautismo ha dous anos Bastião do Pranto ha dous anos e meo Estevão da Palma ha cinquo anos Rodrigo da Conversação ha sete anos e meo Francisco da Transfiguração... ha quatro anos e meo Fernando da Paixão ha quatro anos Fernando da Anunciação ha sete anos. Antonio ha tres anos. Francisco ha dous anos Paulo criado ha hum ano Francisco Coutinho ha tres meses Tristão ha dous meses [»iv0 // Luis ha tres meses Francisco ha hum mes e meo Luis ha hum mes. 15 / O 2
I Os malavares Pedro ha nove anos Dom Afonso ha quatro anos Dom João ha dous anos Joane da Resurreição ha seis anos Yeronimo do Nacimento .... ha cinquo anos paulo ha hum ano •pome ha quatro anos Antonio ha cinquo anos Miguel ha quatro anos Armindo? ha seis anos Joaquim? ha seis anos ha seis anos ha tres anos 13 Os canarins vai em seis meses vai em oito anos vai em seis anos ha sete anos ha seis anos ha dous anos e meo ha dous meses ha quatro anos ha dous meses ha quatro meses ha ano e meo ha dous mezes ha tres mezes i 03 Christovão Mateus de Josafa — Diogo Cirineo Paulo dos Mártires . Domingos de Belem Antonio dos Ceos .. Ferreira? Nuno do Rosario .. Andre Joane Andre Bastião Bernardo
Antonio ha tres mezes e meo Francisco ha hum anno Francisco vai em hum ano Antonio ha hum anno Mateus ha dous meses Bastião ha dous meses e meo Antonio ha tres mezes Yoane ha dous mezes. 21 Os chinas Paulo ... Baltasar Francisco Pedro .. Baltasar 5 ha oito annos ha dous annos vai em hum anno vai em hum anno ha tres annos Os bengalas Antonio do Deserto Gaspar de Deos Pedro Felipe Geronimo 5 ha seis annos ha tres annos ha quatro annos ha hum anno ha quatro mezes 104
Os pegus Simão Cado ha nove anos Fernando ha tres annos Os cafres Fernando ha quatro anos Luis ha quatro anos Pedro ha tres? mezes Guzarates Jerónimo ha dous anos 1 Arménios Joane ha dous anos ' 0 5
Os mouros Dom Antão ha hum anno Felipe ha dous annos Diogo ha cinquo meses Amador ha cinquo meses Joane ha dous mezes Os abexins Mateus ha hum anno Pedro ha hum anno Yoane ha sete meses Pedro ha sete meses Manoel ha tres meses Hario ha perto dum ano 6 Os dacanins Lourenço ha hum anno Andre ha dous annos Manoel ha dous meses Joane ha hum mes Somão 110 i o 6
18 CARTA DO PADRE FRANCISCO ROIZ AOS IRMÃOS DE PORTUGAL, DA COMPANHIA DE JESUS Goa, 2 de Novembro de 1556 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Pis. 263 v.-266 r. (1) Charissimos em Christo padres e irmãos da Companhia de Jesu. A charidade e afeição particular e o santo custume que entre nos ha de nos comunicarmos por cartas, quando por presença o não podemos fazer, me convidão e forção a dar conta de nossa perigrinação e queria ser algum tanto largo, se minha ma natureza me não estorvar porque, como tendes sabido os que me conheceis, ei pouco usado deste santo exercício tão encomendado pelo nosso Padre Mestre Inácio e constituições e modo de viver e queira Nosso Senhor, por sua bondade, que não naça de aver comunicado pouco, padres e irmãos tão dignos de muita conservação, e os comu- nicar pouco em espirito e ja agora, charissimos, faço a saber que começo a sintyr o não comunicardes de 11a, o qual não sera sem trabalho meu, ainda que doutra parte confio na sua bondade que não premitira cairdes em semelhantes dis- cuidos. Tornando ao preposito de nossa viagem, brevemente podereis saber que trouxemos milhor viagem, geralmente falando, que segundo nos dizem, se fez de 20 anos a esta parte, porque partimos dous, por andar de Março, da cidade (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 339r.-344v. i o 7
de Lisboa e chegamos a esta de Goa a 16 de Setembro, que são sinco meses e outo dias e destes estivemos folgando em Moçambique 28 ou 18 dias, de modo que fizemos a viagem em pouco mais de quatro meses e meo; andamos pola rota que fizemos 4.000 quatro mil legoas pouco mais ou menos e chegamos 4 (quatro) naos juntas, nas tres das quais vinha toda a nossa gente da Companhia, sendo esta viagem que, quando se fas em 6 meses se tem por arezoada, e quanto mais se detem, tanto se dis ma e quanto menos, tão boa. Esta he, charissimos padres e irmãos, a forma de nosso caminho, mas porque sei quanto folgais de saber particular- mente que passão vossos irmãos por onde andão, que este he o intento da Companhia, quando nos manda que escra- vamos huns aos outros, particularmente vos direi nesta conta do que me lembrar do que passamos em todo este tempo. Partimos de Lisboa, saindo pela barra; antes de come- çarmos a enjoar, dixemos huma ladainha, pidindo a Nosso Senhor que por intercessão de seus santos endereçasse nossa viagem e nos ajudassem em ella mas, como entramos hum pouco no mar largo, começamos a cair cada hum pêra sua parte de enjoados e durou o enjoamento por alguns dias; a uns todavia mais que a outros, ainda que toda aquella semana, a saber: desde segunda feira, que partimos, ate o domingo, que foi o dia de Pascoa, viemos quasi de todo desacordados, ainda que ao sabado, pela menha, eu comecei hum pouco a levantar-me com alegria, parecendo-me que ao domingo estaria em terra, na ilha da Madeira, porque está- vamos então menos de huma legoa e começava-sse a tratar da nao de tomarmos terra, por esperarmos ali o galião em que vinha o padre bispo e seus companheiros, o qual ficava atras e avia feito synal com tyros e presuamiasse que lhe acontecera algum desastre, como de feito aconteceo, que lhe rendera os mastros. E, a este tempo, era a nao em que vinha i o 8
o Padre Domingos Gonçalo juntamente connosco e visita- mos por recados de nao a nao em que vinha o Padre Do- mingos Gonçalo por pessoas que se hião visitar, mas a espe- rança que tínhamos de sairmos a terra e dizer o dia de pascoa missa e pregar, como determinara, // e visitar a sepultura [254 r do nosso em Christo Padre Valeriano que ali esta com que esperava de receber muita consolação, me ficou frustrada porque se concluio que não convinha tomar terra; e assi fizemos nosso caminho, procedendo avante enjoados como vínhamos, ainda que pela bondade de Nosso Senhor nos começamos a achar milhor, ainda que eu não de todo por- que, ate o Spiritu Santo, não acabey de ser bem desenjoado, mas não era em tanta maneira o mal que não pudesse fazer algumas cousas das que nossa profição requere. E assi assen- tamos de dizer, todos os dias, a noyte, humas ladainhas publicas e asi se fes todos os dias que andamos no mar, em o qual dia de Pascoa comecei a pregar e deu-me Nosso Senhor forças, per sua bondade, para perseverar este exer- cício todos os domingos e santos a qual fazia acabada a missa. E todos os outros dias que não era de festa lhe fazia doutrina, a noute, em que lhe tratei dos quatro novíssimos e dos 10 mandamentos, excepto alguns dias que o tempo, por chuvas ou ventos, nos não dava lugar e juntamente começamos a nos achar bem. Ordenamos o modo que milhor se poderia ter para os doentes da nao serem curados; pareceo ao padre patriarcha bem que, como elle não podia a tanto socorrer e por eu andar com dificuldade pela nao, porque algumas vezes andava arimado a dous bordões e pelo menos a hum e nos não termos pessoa da Companhia a que se podesse dar este cargo, porque o irmão João enjoava muito e tinha que fazer comnosco, que eu tomasse o assumpto de ir visitar os enfer- mos e os prover de suas necessidades, parte com lhe dar do que trazíamos e parte com o pedir pola nao a pessoas que / 09
podião fazer esmola aos necessitados e que hum mancebo, que vinha do Reino com esperança que o padre patriarcha o levaria ao Preste, lhe lançaria os christeis e faria de comer. E assi foi e quis Nosso Senhor que saísse este mancebo tão boa cousa para tantas que me parece que diante de Deos elle ouve a milhor parte da viagem porque, se vireis, irmãos, hum homem secular com tanta charidade sofrer os trabalhos que elle sofreo, verdadeiramente lhe ouvereis invejar, por- que muitos dias tinha em que fazia e lançava muitos chris- teis, curava enfermos de chagas cheas de pessonha, lava-lhe os panos, fazia-lhe o comer com muito trabalho no fogão, por causa da muita gente que sempre ay ha e fumo que he quasi imsoportavel. Eu, por huma parte, folgava de o ver e, por outra, doia-me o coração por ver aquella obra era propria nossa e não tínhamos quem ha fizesse. Crede-me, charissimos irmãos, que me parece que he das maiores obras que ha no mundo curar enfermos na nao, aonde por muito que se nego- cea por sua parte e que os negociadores tenhão de sua mão o capitão e pessoas nobres e todos os que podem fazer bem (como nos tínhamos) os aveis de ver padecer muita neces- sidade, porque na verdade muitas vezes se não pode mais fazer pola necessidade das cousas que na nao ha; eu teria por mui bem empregado qualquer pessoa da Companhia em estas viagens e creo que faria Deos muita merce aquelle a quem as concedesse porque, alem deste socorro corporal, se serve a Nosso Senhor muito em outros exercícios espiri- tuais, como confessar enfermos, os quais muitas vezes mor- rem sem confissão por falta de quem lhe proponha o que lhe convém a suas consciências, mas ainda em evitar jura- mentos de que muitos se evitão se ha quem nos reprehenda, em evitar flasfemias e arrenegos e muitos jogos maos, como pela bondade de Nosso Senhor nesta nao em que vínhamos se evitarão, e em ouvir muitas confissões de sãos que na verdade se fazem se ha quem nas procure.
O padre patriarcha e eu as ouvíamos muitas vezes e tanto que quasi a gente de toda a nao se confessou na viagem e alguns tres, quatro vezes // e outros (ainda que [264 v poucos) cada outo dias. Asi mais na nao fazer amisades, porque sempre o diabo acustuma semear discórdias; fynalmente que os exercícios que na terra se fazem por amor de Deos se achão no mar, senão que fazem a ventagem aos da terra em serem mais necessairos. Tornado a viagem, passando a bespera de Pascoa pela ilha da Madeira, chegamos mui prestes a vista das Canarias onde me mostrarão hum pico, o qual querem dizer que he a mais alta terra ou das mais altas que ha no mundo; eu ao menos nunca vi outro semelhante a este, porque por sima das nuvens descubria a ponta do monte onde bran- queiava huma casa, a qual diserão ser huma irmida de Nossa Senhora. Procedendo o nosso caminho a vante, com mar bonança e vento a popa ou quasi, chegamos alguns dias antes do fim de Abril a altura de sete grãos, antes da linha equinoceal, aonde Nosso Senhor nos começou a visitar com as calmarias de tal maneira que duvidamos se em des ou doze dias andamos cousa alguma por diante, antes nos parecia que tornávamos atras e quais seião as calmas de Gine sabe-lo-eis, charissimos padres e irmãos, quando Nosso Senhor vos fizer merce de as virdes expe- rimentar; dali em pouco, com algumas travoadas e bafu- gens de vento, nos levou Nosso Senhor e dobramos a linha aos outo de Maio e favorecendo-nos mais o tempo dobra- mos a 13 do mes o cabo de S. Agustinho que he uma terra do Brasil a qual muitas vezes causa arribarem as naos ao reino por não poderem dobrar este cabo; e asi acorremos ao longo da costa do Brasil alguns dias, não a vista delle, mas faziamo-nos da terra a lugares cem legoas, a lugares cincoenta (50) ou menos legoas. Iamo-nos lembrando dos i i í
nossos charissimos padres e irmãos, Manoel de Nóbrega, Luis da Graça etc e de todos os nossos irmãos que por alli nos ficavão tão perto sem o saberem e nos sem remedio de os poder visitar; e procedendo avante, huma 6 feira antes do Espirito Santo, nos deu hum pouco de vento que nos quebrou o mastro da gavea e parece que Nosso Senhor milagrosamente se quis mostrar porque concertandosse, quando se quizera tirar do lugar em que estava encaixado na gavea com engenhos que pera isso ha, o alevantarão em peso no ar pera o decer e, estando assi alevantado, que- brou huma corda mui grossa em que se sostinha e quis Nosso Senhor que tornou a cair direito, não pendendo para parte alguma, no buraco donde o avião tirado e, não sendo asi, segundo a muita gente que avia na gavea, parece que necessariamente alguns ouvera de trazer consigo abaixo e os debaixo corrião também perigo e o mesmo aconteceo quando querião meter o novo que lhe puserão, que estando no ar pera o deixarem cair em seu lugar, arebentou a corda e caio direito onde o querião meter. Contei-vos isto, charissi- mos irmãos, para que alem de terdes ocasião de dar graças a Deos por esta merce que a vossos proximos fez, tenhais particular memoria em vossas orações dos homens que navegão os quais andão em tantos perigos que parece se não poder crer se não de quem os ve. Indo noso caminho aveante ,algumas vezes com calma, a sesta feira, depois de Corpus Christi, nos deu huma tor- menta desfeita a qual nos durou ate segunda feira em os quais dias avia muitos na nao ou por ventura todos que fazião pouca conta de sua vida, porque todo este tempo corremos somente com o papafigo de proa por que o tempo e os grandes mares não consentião mais vela em a qual o padre patriarcha benzeo a agoa e a botou no mar e nas enxarceas e tornou a bonança//; como de novo começamos a fazer nosso caminho e vindo nos sem aver vista de alguma
nao, dispois que nos apartamos, ouvemos a dezoyto de Junho vista de huma nao a qual esperamos pera saber que nao era e virmos em companhia. E quis Deos Nosso Senhor que fosse o galião do qual trazíamos grande medo ser arri- bado ao Reino ou aver-lhe acontecido outro desastre maior que poios sinais que atras dixe e delle tivemos e vínhamos nesta parte areceosos de aver trabalho no negocio do Preste. Ja vedes, charissimos irmãos, que contentamento recebe- ríamos com a vista do padre bispo e mais padres e irmãos que com elle vinhão e com sabermos que vinhão todos bem despostos, despeis de aver perto de tres meses que não viamos gente nem terra alguma. E este dia estivemos a vista e a fala com os nossos irmãos e outros dias muitos, caminhando por esse mar e com bonança hia a gente de nossa nao ao galião e do galião a nossa e vindo desta maneira com grandes deseios de ver terra e dobrar o cabo de Boa Esperança ate o qual senti me aver de tornar ao Reyno. Quis Nosso Senhor dar bespora da bespera de São João tão bom vento que ao dia de São João em ama- nhecendo vimos a terra do Cabo das Agulhas. Segundo a estimativa dos mareantes, andamos naquelles tres dias cento e vinte (100 e 20) legoas pouco mais ou menos; a mim se me representava porque o vento vinha dessa parte do Reyno que novas orações o fazião cursas em nosso favor pera que em tão grande festa recebessemos aquelle conten- tamento dado que ia a este tempo não era mui pleno por- que os pilotos não quiserão convir no caminho e a nossa nao se tornou adiantar do galião e perdemo-lo de vista e quasi a esperança de o tornar a ver outra vez no caminho. E sobre este desgosto tivemos outro maior porque, dous dias depois de São João, estivemos perto de nos perdermos em terra di noute e ao terceiro nos deu hum temporal rijo e durou toda aquella noute de maneira que os que entendião fizerão conta que nenhum remedio tinhão da i i 3 DOC. PADROADO, VI 8
vida, por ser a noute muito escura, e de muita chuva e trovões, a mais pestífera, que não somente eu mas os mais antigos que na nao vinhão afirmavão nunca aver visto outra tal e o vento e as agoas nos levavão a terra; nos andavamos sem vela de mar em traves; por se não sentir outro remedio milhor, chorarão muita gente na nao; eu gastei muita parte da noute com hum crucifixo na mão pesando-me de não sentir tanto o que em tal tempo devia sintir como deseiava; passamos aquella noyte e ali se quebra, aqui se funde a nao, mas como Noso Senhor tinha orde- nado outra cousa, antes de darmos em seco, veo a manha e tempo com que nos tiramos deste perigo em o qual está- vamos. E parece que quis Nosso Senhor consolar-nos do trabalho passado com tornar-nos ao galião que andava no mesmo perigo que nos ou maior porque correo toda aquella noute e assi caminhávamos day por diante juntos, ate que chegamos a Moçambique aonde chegamos vespera de San Tiago, saudosos porque não vinhão e principalmente da em que vinha o Padre Domingos Gonçalo da qual não sabíamos parte, dispois que delia nos apartamos na ilha da Madeira. E quis Nosso Senhor que no dia em que che- gamos, a tarde, chegou a nao capitania, a qual não vimos em todo o caminho e ao dia de São Tiago, pela menhã, chegou a nao em que vinha o Padre Domingos Gonçalo e assi em menos de espaço de hum dia natural chegamos aquelle porto 4 naos em o qual estivemos os dias que atras disse e ouve bem que fazer nelles pola bondade de Nosso Senhor. Eu preguei no dia de San Tiago pelo Padre Do- mingo Gonçalo não estar ainda desembarcado; elle também [265 v.] fes al // guns sermões e porque era grande trabalho ir e vir cada dia a nao, avendo tanto que fazer en terra, nos pareceo estar no lugar; assi o fizemos que por amor de Deos nos derão ali huma casa em que pousávamos os padres Domingos e Misquita e eu; confessou-se muita gente assi ' ' 4
•da terra como das naos de modo que todos os dias ou quasi todos avia muitas missas e cada dia se tomava o Santo Sacramento. Representavasse-me, charissimos irmãos, ver la nossa casa pela frequentação do Santíssimo Sacramento de modo que tínhamos pera confessar tanta gente, sendo nos tão poucos e a terra tão trabalhosa e infamada de doença que comummente quando sae o sol são todas as misas ditas por causa das grandes calmas; confessávamos as tardes e alevantavamo-nos ante menhã para o mesmo efeito. Fize- rão-se algumas amizades e entendemos em alguns abusos de que usavão pessoas notáveis de que Nosso Senhor foi servido e especialmente de suas dissenções que avia entre o vigário e os irmãos da misericórdia pelo qual se empedia muito o sreviço que a Nosso Senhor podião fazer; asi o vigário como os irmãos da misericórdia aiuntamo-los todos em a mesma casa da misericórdia onde lhe declaramos os erros que avia entre elles de maneira que ficarão satisfeitos assi de huma parte como de outra e amigos com preposito que daqui por diante servirião a Nosso Senhor e os cargos que tinhão e os irmãos se regerião pelo parecer do Vigário, se alguma cousa de novo lhes socedesse ate saberem do bispo como se avião de aver no tal negocio. Em este lugar fui algumas vezes a tratar com os mouros em sua misquita e conheci nelles que nem de sua ley sabem porque, tra- tando hum dia com huns poucos que se me offerecerão, hum o qual me dizião que era futuro sucessor do seu cais o maior disse que queria estudar aquella noute e ao outro dia disputar comigo o qual eu fui buscar dia siguinte e preguntei-lhe se tinha bem estudado; disse-me que sim e eu lhe disse que se achasse na disputa o seu cais maior e outros mouros que estavão presentes e vindo o cais nos assentamos e preguntei-lhe que cousa era que tinha estu- dado na sua ley. Respondeo-me que studara que tinha duas •casas no ceo huma para bons e outra para maos e como ' ' 5
entendi quão pouco sabião, detriminei de publicamente os tomar em alguma contrariedade para que assi ficassem con- fusos e a esse fim lhe preguntei se sua ley mandava que não mintissem so pena de pecado; respondeo-me que era grande pecado mentir na sua ley e eu lhe disse que também na nossa se mandava que não mintissem so pena de pecado e portanto que quanto lhe dizia que cresse que era a ver- dade que elle da mesma maneira falasse a verdade; disse-me que sim e lhe preguntei que gente era a que hia a casa dos maos, que elle desia; respondeo-me que de os gentios, e perguntei-lhe quais a casa dos bons. Disse-me que nesta vida não sabia se ião os mouros ou christãos; e provando- -lhe eu que sua ley era ma pois os não certificava do fim que avião de aver, por rezões a que se convencerão, me disse que elle bem sabia que os mouros yão a casa dos bons e os christãos não; se isso sabeis, porque mentis contra vossa ley que defende mentir e vos agora me prometestes que avieis de falar verdade em tudo e agora me mentis mani- festamente; e ficarão confusos e querendo-lhe mostrar seu erro lhe disse que era impossível aver aquellas duas casas no ceo e para isso lhe preguntei donde o sabia; respon- deo-me que o dezia Mafamede que era profeta; eu lhe preguntei quem foi este Mafamede. Respondeo-me que foi o primeiro homem que Deos fes no mundo antes de Adão, que estava escondido ate o tempo que se manifestou e mais que Mafamede era feito de corpo sustancia de Deos; mos- trei-lhe que estas duas cousas ambas erão falsas e vendo-sse convencidos me disse o cais maior que não podião estar ali em desputar porque ia outra vez o seu cais disputara com hum sacerdote nosso e vierão a palavras pelo qual o capitão da fortaleza mandara prender o seu cais e que não queria agora esperar outro tanto, desta maneira se alevan- tarão e se forão. i i 6
//Resta, charissimos irmãos, encomendar estes misera- [26«r.] veis a Deos pois vemos, quia nolunt intelligere ne bene agant. E daqui nos tornamos a embarquar e partimos, dia de São Lourenço, e sempre com vento prospero chegamos a esta cidade de Goa aonde ficamos todos de saúde, bendito seia Nosso Senhor que nos quis portar a terra onde tanto serviço lhe podemos fazer se quisermos. Crede, charissimos irmãos, que estou tão contente de minha estada em esta ilha que ainda que a sancta obediência me mandou pêra residir nela ,se sair pêra outros lugares, não me parece que me movera a deseiar outras partes porque aqui temos muitos christãos da nossa nação como la tendes; temos mais muitos mouros e gentios e muitos christãos convertidos novamente a nossa sancta fe e de portas a dentro temos hum collegio com muitos mínimos e huma casa de catecuminos em que sempre estão alguns e aqui apegado com o collegio hum hospital que esta a cargo deste collegio; assi no governo, como na sostentação em o qual se curão os christãos da terra e termos; assi que não falta neste collegio materia pera se poder muito servir a Nosso Senhor, pois pera servir aos irmãos, he aqui huma escada pera todas as partes da índia onde quer que os ha, porque daqui partem pera os outros lugares e daqui se provem; portanto, charissimos irmãos, pois vedes as obriguações em que a Nosso Senhor estou, orate pro me. He verdade que muitas vezes alem- brando-me de vos quasi me doo, parecendo-me menor sorte a que tendes nessas partes com muita quantidade do que quão podereis ter. Seia Deos por tudo louvado que de huns qua e outros la se serve e todos nos contenta segundo a disposição da sancta obedientia. Todavia trabalhai por cha- ridade, com Deos Nosso Senhor que inspira a vossos supe- riores que vos mandem a estas partes pera que, conforme São Paulo, gereis mutos filhos em o Senhor, trazendo a esta gentilidade a conhecimento de seu verdadeiro Deos. r r 7
Para acabardes isto com Nosso Senhor dar-vos-ei o remedio que me parece que foi causa de meu superior me mandar, sendo eu tão indigno de tão grande eleição e he que tenhais grande esperança em Deos que vos hade mandar conforme aquilo: Jacta cogitatum tuum et spera in Deo et ipse faciet, porque he Deos tão bom que fas tanto polas virtudes que ainda aos mui frios nelas, contanto que queirão tirar-se, em alguma maneira favorece, como me aconteceo a mym que muitas vezes dizia que esperava em Deos de Vir, dado que friamente e contudo parece que por premio da mesma esperança e não de mym que esperava, Nosso Senhor me quis fazer esta merce para que vissem outros muitos quanto vale o bom esperar pois que neste caso se conseguio este efeito. Não mais, charissimos irmãos, senão que deseio de ver muitos de vos por estas partes para que Deos Nosso Senhor seia nelas muito glorificado. De Goa, deste collegio de São Paulo da Companhia de Jesus, aos 2 de Novembro de 1556. Inutilis Francisco Roiz. i i 8
19 CARTA DO PADRE ANDRÉ GUALDANOS AOS PADRES E IRMÃOS DA PROVAÇÃO DE COIMBRA Goa, 4 de Novembro de 1556 Documento existente na BAL, 49-IV-49- Fls. 266v.-268r.(l) Gratia Domini nostri Jesu Christi et charitas Dei et comunicatio sovoli Spiritus sit in omnibus nobis, Amen. Para que mis letras, sin morticicacion alguma, avieran de parecer delante vuestras charidades fuera necessário que en alguna de vuestras virtudes io os oviera imitado, empero confiado de vuestra charidad y humildad que posseis, tomei audacia pera escrivir esta en la qual hos dare cuenta de todo el viage y lo que nuestro Senor ha obrado por los padres y hermanos y lo que ha sucedido despues hasta el dia de la hechura desta. Luego como começamos a navegar, dierão nuestros cuerpos sinal de miséria, dolor de cabeça, mucho vomito, fiebres, aunque isto succedio mas a unos que a otros; los fuertes en spiritu, estos mostravan mas flaquesa en la carne. A imitacion de nuestro general salvador e Dios Nuestro, Jesu Christo, el qual en el huerto ensenho ser verdadero hombre como es Dios por aquelles tenblores y gran tris- tura y sudor de sangre. Este fue el padre obispo y el padre Misquita y los quales padecieron mucho deste trabalho y los hermanos; pareceme que yo fuy lo que menos esto padeci; en todos estes trabalhos el padre obispo, el viernes (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 344v.-347v. / / 9
santo, predico a passion con mucha edificacion de los oientes, como lo mostravan sus lagrimas. El padre obispo mando que se hisiesse el orden de nuestro proceder, segun las regias, meditationes de dia, mas de huna hora de lection; a la mesa mandava hazer los tonos, hi hazimos las penitencias, como se acostumbra en la Compania, antes de llegar alas Canarias. El arbol hizo sentimento amenazandonos por cierta iuntura que se queria quebrar; causo a todos mui grande passion; viendosse en este trabajo, tiraron un tiro para que la capitania esperasse, o no oio o no quiso sperar, finalmente que nos dexaron todos y se fueron poner en la isla de la Gomera por la proa, donde les parecio que tenian remedio pera sus tra- baios; llegamos ali tercero dia de Pascoa de Resurrection; en aquel dia se complieron nove dias que aviamos partido de Lisbona e estos sete dias pareciole al padre obispo que devíamos començar de trabaiar en la vinha dei Senor; muchos venian que no se avian confessado en la Coresma los quales se confessaron e comulgaron en la Gomera con otros muchos que por su devocion quiseron recibir esta inspiracion santa de Nuestro Senor. De esta isla pidieron al padre obispo que quisiesse con- firmar mucha gente que lo avia menester; procuro quanto en si fue mas como era el obispado a gens novuel segnor, todavia os padres de San Francisco confirmo uno sacerdote y otro no, y consagro un calis ainda que mui pobremente, porque no llevava pontifical. Como esto intendieron, hizie- ron-le una mitra de lienço y io hizo una estola de un pano de lienço y hun aimito al qual le pusimos unas merdas de hilo de barbante, porque no avia otras ni a un libro tenia pera dizer las orationes; por unos papeies las dixo, que las tenia por memoria. Alli variades, hermanos charissimos, al padre obispo delante de aquellos padres y otras personas onradas de aquilla tierra que venieron al galion y de todos
los hidalgos que ally delante y otros soldados se hallaron hazer alarde de su pobreza, cierto que era cosa de grande edificacion; una es verlo y otra dizeirle y el, con tanta alegria, exercitando su officio.//Tandem el padre les hizo [267 r.] charidad y mas les dio lismonas y los padres de San Fran- cisco le embiaron dos quesos; pareseme que no los queria recibir; hizieron tanto que la charidad lo vencio y los tomo por los alegrar. Un dia antes o dos aviamos comido, el padre Mesquita y yo, em su refitorio; istuvimos em este puerto sinco dias. Rogaron mucho al padre obispo que pre- dicasse ali al domingo, ello acepto, si ally estuviesse; el sabado a noche nos partimos, no se si dixeron que avian de tener sermone. De ally partimos con muy buen tiempo, procediendo con nuestras confessiones el padre obispo predicava todos los dominguos y confessava; el padre Mesquita las fiestas y confessava; el dizia cada dia la doctrina y assy confessava; avia mucho fervor en las confessiones, avia muchos que se confessava cada ocho dias, y destos, tres vezes, algumas somanas; el Capitan Don Joan de Tayde y otro Don Joan, Don Basilio, Don Francisco Bastian de Sosa, Antonio Cabral, Nuno Fernandes de Taide, todos estos fidalgos se confes- saron muchas vezes y no entran en las de ocho en ocho dias; otros muchos piloto, maestro, contramestre, condes- table guardian, marineros, muchos grumetes y mui muchos soldados de estos muchas vezes se confessaron; quando lhegamos a Maçambique llevava yo quasi dozientos en um rol que se avian confessado; hiso Nuestro Senor muchas pazes, por medio de los padres, de bofetadas, de fridas, desafios por palavras iniuriosas, ansi con fidalgos, como con lascarinos, como con marinheiros y grumetes. Passamos la linea, a quatorze de Maio, bispera de la Assunsion, en la qual, segun dizen, nos fue mui bien, porque siempre andovimos y no hizo commumente mucho calor, caieron 121
tres al mar lo que murieron, el otro nos dio Nuestro Senor. Azia el Cabo de Buena Sperança duzientas legoas, poco mas o menos, hallamos a la nave Flor de la Mar, en la qual iva el padre Patriarcha con la qual Nuestro Senor nos alegro mucho porque, despues que nos dexaron, ninguna aviamos visto y no menos fue el alegria en los padres de Flor de la Mar; las naves se saludaron con mucho goso y nos fuimos todos a Maçambique; yriamos en conserva ocho cientas legoas poco mas o menos que avian de alli a Maçambique; tuvimos passado el Cabo de Buena Esperança, el qual passa- mos bispera de San Joan en la noche, con algunas calmas, lo qual dizian no acontecer en equel paragen, mas antes grandes tormentas. De Frol de la Mar vino un batel al galeon con mucha gente y hun hermano que el padre Pa- triarcha embio con una carta al padre obispo, el qual me embio a Frol de la Mar con un presente a los padres el qual era un queso de los que los frailes de la Gomera dieron al padre obispo y un fiasco de confites. El padre Patriarcha le embio dos galinas y aletria, porque se nos avia acabado; yo fue mui consolado con la presencia de los padres y hermanos, como di cuenta en suma a nuestros padres de lo que avia sucedido al galeon; tuvimos algunas tormentas no mui resias; muchos dias se dizian missas cantadas, salve, letanias, procissiones; en nuestra camara, cada domingo y dia de fiesta, dizíamos missa uno y los otros ojan; llegaron las naves, todas quatro a Maçambique, porque de San Pablo nunca mas se supo desde as Canarias. En vinte y quatro oras poco mas o menos, desta manera primeramente, entro v-] el galeon y Flor de la Mar, // como a bisparas, poco mas o menos, y antes de entrar por poco fico que el galeon no quedasse en seco, en tanto que el suelo dei mar viamos mui claro y las piedras dei suelo; quiso nuestro Senor librar- nos como a puesto el sol; poco antes entro la capitania que hasta entonces no la aviamos visto y esto era bispera
de San Tiago; otro dia, pola manhãna, entro la nave dei padre Domingos Gonçalo, digo la vimos y ala tarde entro en el puerto, este dia de San Tiago, por la manhana, que el padre Domingos Gonçalo no era lhegado; la mas de la gente de Frol de Mar y del galion salio a tierra e fuemos a Nuestra Senora dei Baluarte que esta apartada del pueblo un pedaço bueno, donde se aiunto el padre Patriarcha y el obispo y otros padres e mucha gente ansi fydalgos como los de mas y vino ally el Vicario del pueblo con sus clérigos y cruz alevantada y fuimos en procession cantando las latanias hasta la iglesia maior, donde el Vicario dixo missa cantanda con sacabuches y cherismas y predico el Padre Francisco Roiz y el Padre Patriarcha dio la benedictio, dispões de la missa; se alio ali un obispo caldeo. Este dia uvo muchas confessiones y comulgaron muchos y fuimos todos a comer a Frol de la Mar con el padre Patriarcha y el padre Francisco Roiz. Como a bisperas, poco mas o menos, entro el padre Domingos Gonçalo y el senor don Diego capitan de Sofala y Maçambique que vénia en otra nave de Sofala el qual hizo en el viage al padre Do- mingos Gonçalo mucha fiesta y a todos los demas con cha- ramias y caçabuxes y no se si trompetas. Luego como llego, quiso el Padre Francisco Roiz visitado y fui yo con el donde nos alegramos mucho y el con nosotros. Estuvimos alli aquella noche; fui enformado que el Padre Domingos Gon- çalo llevava alia al fuego y que no se desnudava de noche y que se cobria con un bernio y se iva a dormir con los grumetes. Otro dia, por la mariana, el Padre Domingos Gonçalo y padres que con elle estavan salimos a tierra y de el dia antes estava ja avisado fuimonos aquella ermida que arriba dixe y vino alli el Vicario con muchos salmos y cantos espirituales y el padre Domingos Gonçalo llevava las relíquias con una sobrepelis vestida y iva cantando las letanias y respondianle creo, dos padres; como llego la ' 2 3
procession ala puerta estavan las trompetas, atabales pera recibirla; entrados en la iglesia começose la missa con mucha solenidad; estuvimos alii quinze dias, poco mas o menos, en los quales se confesso y comulgo mucha gente y predicaron los padres y el padre Francisco Roiz, de mas de confessar y comulgar, hizo doctrina y fue a disputar con los moros, y el Padre Domingos Gonçalo, los quales conocian no saber responder, hizieronse otras obras fuera de estas. El padre Vigário nos conbido a todos el dia de la pro- cession del padre Domingos Gonçalo con mucha charidad a comer y cenar y dormir en su casa, y al embarcar embio a los padres galinas y carneros y un puerco y el senor dom Diego embio carneros creo que y vacas y muchas galinas; partimos de alii dia de San Lourentio; en esta costa de Maçambique ai muchas balenas las quales viamos pescar con un pexe que se dize espadarte. Em Maçambique io me passe a Froi de la Mar onde el padre patriarcha yva y el padre Francisco Roiz; predicava los domingos e fiestas e hazia quasi cada dia doctrina en la noche y confessava; yo na hazia otra cosa: a la noche dizir las letanias cantadas y ensenhar las regras, de noche, como a puesto el sol; en este viage llevamos en esta nave dos ermanos enfermos Joan el impressor y Bastian Roiz que yva para el Preste; este hermano murio una noche, cerca de la media noche; hizimos alii en nuestra camara el officio con aquellas horas como se acostumbra en la Compania, amotaiado y mitido en un seron lo lançamos en el mar, antes mucho que fuesse dia; el hermano Joan acabo de sanar en Goa; al presente entiende en su empresa. Llegamos a la barra de Goa Do- mingo, a tres o quatro de Setiembre. La noche antes sur- [268 r.] gimos // poças legoas de la barra y aquella noche el padre Domingos Gonçalo vase a Goa y otro dia, domingo, predico en la iglesia maior y nadie sabia desto, porque a un no 124
estávamos en el puerto y fue solo otro dia, que fue domingo, entramos en la barra y vino un catur a nuestra nave con el Padre Quadros y el Padre Antonio con cantar Benedictus Dominus. Entraron los padres, con cuia vista fuimos mui conso- lados; estuvieron alii un rato y fueronse y el padre patriar- cha; fueron el y io y dos hermanos Almeda y Amador Correa y llegamos a Goa noche, porque va por el rio ariba dos legoas y como lhegamos a tierra hizieron esperar el padre patriarcha alii y venieron por el muchos padres y hermanos; fuimos a San Pablo, donde con mucha charidad fuimos recebidos y eran los padres mui deseados. Luego dahy a dos o três dias, nos vistieron al modo de la tierra a los mas; luego començaronse a tratar los negocios dei Preste en los quales a ávido muchas dificuldades y tentaciones, lo qual diran mejor los padres que los trataran; finalmente quedo, determinando que vaia el padre obispo con los padres, los quales son el Padre Maestro Gonçalo y yo; parece que nuestro Senor, aun que yo soy tan pecador y aun que todos sus benefícios ingrato, quiere que mi deseo se cumpla por obra. Publicose el jubileo que se concedio por la conversion de la India; an lo ganado muchos, vino a tiempo de mucha necessidade, gloria sea a Nuestro Senor, anse remediado grandes misérias con el. El Padre Domingos Gonçalo que se embarco un dia antes de la hechura desta para Baçain, porque va con el Padre Francisco Vieira y hun ermano, despues de que, hun dia o dos, se embarcara el Padre obispo y yo y el Padre Maestro Gonçalo para Baçaim, para nos hazermos prestes para el viage dei Preste, que se hara en el fim dei mes de Henero que viene de quinientos y 57. A todo o mas que a sucedido mas por extenso lo diran nuestros padres y herma- nos que tienen mas charidad que io. Padres y hermanos charissimos, por amor de nuestro Senor, os pido os acordeis / 25
de mi, suplicando a su divina magestad me haga humilde y que me de gracia para que me conosca y pera que sea perfecto obediente. En las orationes de nuestros charissimos padres y hermanos dei collegio de nuestro padre don Leon y nuestro padre Correa y nuestro padre Gonçalo Alvares me encomiendo; esta carta es tambien para los dei collegio de Ariba en las orationes de los quales me encomiendo. Si nuestro Senor quisiere, vos traiga a todos por estas partes y nos veamos en el cielo juntos. De Goa, a 4 de Noviembro de 1556. Vuestro indigno servo Andres (2). (2) BACIL: Neste Códice vem a seguinte nota: Vi una arbol en este collegio; florece cada noche y a la mariana luego se le cae la flor y no da fruito en tiempo alguno; llamase arbol triste. Errou quemquer que apagou o Padre Andre Gualdanos, porque morreo mártir, sendo da Companhia. Esta segunda parte da nota foi escrita, porque o nome do Padre Gual- danos se encontra riscado no título da carta. 126
20 CARTA DO PATRIARCA D. JOÃO NUNES Goa, 6 de Novembro de 1556 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Pis. 299 r.-300 r. (1) A summa graça do Espiritu Sancto more sempre em nossas almas. O Padre Francisco Roiz tomou o assumpto de escrever largamente o processo de nossa prospera viagem e também o fara do que ca socedeo, portanto serey nesta breve e porque, na carta que escrevo a El-Rei mui larga do que ca passou acerqua da nossa yda que yria por diversas vias e huma aberta ou duas, poderá Vossa Reverencia ser infor- mado de tudo. Chegamos a esta cydade todas as quatro naos juntas dei Rey na entrada Setembro, onde fomos recebidos não com menos prazer do que la podem ser quando chegarem ou pouco menos. Antes que aqui chegássemos, lançamos ao mau hum mancebo que com nosco vinha, tão rijo e valente e são que pareceia que podia pelejar com a morte muytos dias e em sete ou oito faleceo de sangue, muyto bom christão e muy contrito que me fez enveja. Chamava-se Bastião Roiz. Achamos aquy ao Padre Mestre Guonçalo que veio da Ethiopia e nos enformou quão mal desposto estava o Preste e hereje, tanto que nos tinhão a nos nessa conta e elles por bons christãos; contudo isto estava deter- minate yr loguo pera Fevereiro e assy o pedi por vezes ao (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 363v.-364v. / 2/
Governador pera ja acabar nesta empresa aynda que via o perigo que me punha de não fazermos nada e a mor dor que tinha era ver que punha em risco tantos padres da Companhia que nestas partes podião tanto serviço fazer a Deos, como fazem, por serem mui necessários e estarem divididos em diversas partes, pregando e fructificando que farião ca grande falta. Por outra parte se me representava a obrigação que tenho a estas ovelhas de Ethiopia; tomey por remedio por tudo nas mãos de Deos que ordenasse o que mais seu serviço fosse e disse muitas missas e pedi ao padre Domingos Gonçalo que mandasse dizer muitas aos padres o que elle fez e muitos dias ladainhas e pus em consulta com os padres qual seria mais serviço de Deos. Disserão todos, senão o padre obispo ainda que despois se remetio ao parecer dos padres, que não devia de yr este anno e que seria milhor yr o bispo diante com outros dous padres e yrmãos pera ver se podião mover o Preste da dureza em que esta a que receba a ygreija romana por cabeça; elle se offereceo a isto, o mesmo pareceo a outros religiosos e letrados de fora; yra, querendo-o Nosso Senhor, pera Fevereyro que vem, todo o mais vera Vossa Reveren- cia na carta do Rey. Por amor de Nosso Senhor, que Vossa Reverencia pois foy tão grande parte pera eu ter esta pesada carrega sobre meos fracos ombros, que me ajude a leva-la e faça com Sua Alteza que escreva ao Governador que, como ouver alguma esperança de fruito, que espero em Deos que cedo avera, nos mande de maneira a que mais serviço for de Deos, conforme a necessidade da terra, porque he muyto possível que o Preste escreva que vamos e que mande o [299 v.] governador alguma // gente para defender seus Reynos dos turcos que dizem muytos que os querem conquistar e os mouros que lhos vão tomando e se El Rey isto não escrever ao Governador não a mandara e desta maneira não se 128
effeytuara nada; ou se el Rey determinar de nos não mandar chamar, trabalhe Vossa Reverencia com elle que escreva a Roma, a seu embaxador, que nos desobrigue, para que mandarey huma renunciação, e se me tirarem desta carrega o que se fara com conselho do Padre Mestre Inácio, peço a Vossa Reverencia e a todos os padres da Companhia da parte de Christo crucificado e por as suas cinquo chagas que não consintão, ainda que el Rey queira dar-me outro bispado, porque me porão em perigo de perder a alma e também não se tera em bem a Companhia, não seja eu mais mofino que os outros padres da Companhia, que tanto defenderão que não os fizessem bispos, e a mim contra a minha vontade e talento, assy carregarão, fugindo eu tanto de ter cura de almas, quando me meti na Companhia; eu mereço bem a Deos isto por meus peccados e por isso he bem que o pague como mereço, com ter tantas almas a minha conta sem lhes poder socorrer nem me quererem. Em a nao Algarvia se perderão o Padre Gonçalvez, que era grande servo de Deos, o Padre Pascoal e o yrmão Lopez, theologo de muito bom talento, que ficarão em huma ilha, de que estou sentido, por a grande falta que me ande fazer. Nosso Senhor seja louvado em tudo. $ O Padre Carneiro esta pera yr para Cochim, pera pregar la por aver falta e pidirem pregador da Companhia na see. Outros estão divididos por diversas partes; outros servem aqui em casa de ler como he o Padre Miguel e outros de confessar. Antonyo de Quadros prega e le philosophia, e Mesquita acabarão cedo o curso a sete ou oito yrmãos que foy grande bem; cedo lhe lerão theologia, ouve conclu- sões publicas que parecia que erão sustentadas em Coymbra onde ouve grande concurso de gente e padres. João imprimio ja estas conclusões e outras cousas o que se faz ja bem e muito milhor se fara cada vez no diante. O indio he muito bem inclinado e amiguo de se / 29 DOC. PADROADO, VI — 9
confessar muitas vezes no mar, nos serviços, muyto bem na cozinha e ca mostrou saber da ympressão de que o Padre Francisco Roiz esta contente e deseja outra neste collegio; agora querem imprimir a doctrina christã que fez Mestre Francisco; espero que em Ethiopia se faça muito fructo com esta empresão. Outra vez torno a encomendar a Vossa Reverencia que faça com a Rainha que El Rey destintamente escreva ao governador que nos mande como o padre bispo ou o Preste escrever que vamos porque doutra maneira nunca nos man- dara; elle dixe ao principio que nos queria mandar com muita gente, e dali a pouco mudou o parecer, seria por a muita falta que ha nestas partes de dinheiro e os turcos yrem ca muito entrando. Em os sanctos sacrifícios dos [3oo r.] meus//charissimos padres me encomendo. Não escreverei a todos por o muyto que tenho que fazer porque também ca ha confissões e ordeney a 42 padres de São Domingos e de São Francisco e outros do collegio e outros ei de ordenar depois. Não tinhão ca oleos cathecumenos et infir- morum o que consagrey porque diz Silva Angelica porque não morressem tantas pessoas sem o sacramento da extrema unção e sem oleo no baptismo. Em os sacrifícios de Vossa Reverencia me encomendo. De Goa aos 6 de Novembro de 1556. Conservus indignus Patriarcha Ethiope. / 3 o
21 CARTA DO BISPO ANDRÉ DE OVIEDO PARA OS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA, EM S. ROQUE Goa, 7 de Novembro de 1556 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 59 v.-60 v. (1) La gratia e paz de Christo, Nuestro Senor, sea siempre em nuestro continuo favor y ayuda. Amen. Despues que alia partimos, con el favor de sus arationes y gratia de nuestro Senor, tuvimos muy buen tiempo en nuestra navigaçion, de manera que con el favor divino el viage fue muy prospero, y dia de San Tiago de 1556 se hallaron todas las naos en que yvan los padres iuntos con la capitana en Moçambique, aunque antes (no obstante alguna detenencia que hezimos en la Gumera, por causa de con- certar el mastil de galeon) dozientas léguas o mais, segun se dezia, nos encontramos con Flor de la Mar, donde vénia el padre patriarcha en una paragem que basta // a hazer L60 r 3 desviar-se las naos que fuessem iuntas, por ser alli los mares grandes que es antes dei Cabo de Buena Esperança, el qual passamos dia de S. Johão por la manana, y la lynea equi- nocial aviamos passado el galeon dia de la Ascenssion, por la manana, que fue a 14 de Mayo y Flor de la Mar a 7, segun dizian. Fué mucha la alegria que tuvimos quando nos juntamos y consolacion en el Senor Nuestro y acontecido una calmaria nos visitamos con cartas, aviendo el padre patriarcha hecho que su capitan embiasse el galeon donde vino un hermano, y despues fue otro padre a Flor de la Mar y toda la gente de entrambas naos estava muy conso- lada. Fue este un gran beneficio de Nuestro Senor y llega- mos iuntos a Moçambique, bispera de San Tiago, en la tarde, (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 336 r.-337 r. ' 3 '
y luego llego la capitania y a la manana, dia de San Tiago, aparece la nao S. Gião donde vénia el padre Dom Gonçalo. Piensen la alegria que en el Senor Nuestro tendriamos todos de vermos los que amamos en un mismo tiempo se llegados aaquella isla donde la primera salida fuimos a dar gratias a Nuestra Senora dei Baluarte los del galeon e Flor de la Mar, que primero llegamos y de alli fuimos en procession a la iglesia mayor de la misericórdia y comulgaron los capitanes, fidalgos y mucha gente, esse sabado de San Tiago y predico ally el padre Francisco Roiz; el Domingo por la manana haze lo mesmo el padre Dom Gonçalo que non pudo el sabado, porque llegaron al puerto a oras de comida con gente de su nao, y desde Nuestra Senora a la misericórdia, veniendo en procession solemnemente con una sobrepeliz, traya en las manos el padre Don Gonçalo una caxa de relí- quias y predicando a la tarde nos consolo mucho en el Snor y hizieron alli los padres mucho fructo en predicar y hazer doctrinas, y confessar y comulgar. Alli nos detuvimos por esperar la capitana hartos dias serian por todos hasta 18 y, dia de San Lourenço, partimos todos en compania; los que venimos en el galeon venimos sanos, gloria a Nuestro Senor, excepto que fuimos algunos muchos dias enjoados o mareados con harto trabayo; pero plugo al Senor que estu- vimos buenos y no ovimos menester las medicinas que traiamos para nos otros. Alli se hizo, por gratia del Senor, buen fructo; predicavase, ordinariamente los domingos y fiestas y fueron muchas las confessiones y muchos se con- fessavan a meudo; pazes se hizieron en gra numero y algu- nas de importanca; en los iuramentos uvo por gratia del Senor gran reformacion y emienda; hizieronse algunas resti- tuitiones voluntárias de juegos, los quales se moderaron; un hermano ensenava la doctrina Cristiana muy ordinário con fructo y edification, el qual tambien servia con algunos cristelos a algunos dolientes y la provision que trayamos / 3 2
(no obstante que no podimos aver regia porque diz que no veniamos en escrito y el capitan no devia de saber ser asi la costumbre con los padres) fue muy abundante, gratias a Nuestro Senor, del qual aya el pago Su Alteza, por tan cumplida lismolna y lo mismo el hermano Bernardino, por su charidad y deligencia//y nesta parte yo confiesso que [360r.] le soi debedor. Salidos pues, dia de Sant Lourenço, de Moçambique (con- tinuandose algunos buenos exercícios que trayamos a gloria del Senor) 1 legamos a Goa, a 6 de Setiembre 1556, donde fuimos recebidos de los padres y hermanos con tanta cha- ridad y alegria que es confusion. Alli tuvimos nuevas de lo que passo el padre Maestro Gonçalo con el Preste y, vista la disposicion, y aviendose tomado mucho conseio parescio que el padre Patriarcha no fuesse alia este ano, determi- nando los padres y el senor governador con los mas de su consejo que fuesse yo con otros dos padres y commumente ha parecido a la gente este buen medio por el qual se puede tentar y disponer el Senor las cosas de alia y entretanto remediarse muchos portugueses con sus hijos que estan en tierras dei Preste. Vuestras Reverencias nos encomienden mucho a Nuestro Senor, asi los que quedan pera ir, como los que iran, queriendo el Senor, a esta obra de su servicio con el Preste. E si es cosa que se puede y en ello no ay atre- vimento, con humildad en el Senor Nuestro beso las manos de sus Altezas y lo mismo dei senor cardeal infante. En las oraciones de Vuestras Reverencias mucho en el Senor me encomiendo. Nuestro Senor sea con todos, dando-nos sua sancta gracia y amor. Amen. De Goa, 7 de Noviembre 1556(2). (2) BACIL: A carta termina desta maneira: De Vueslra Reverencia, Hermano y servo en el Senor Andre de Oviedo. '33
22 CARTA DO IRMÃO AIRES BRANDÃO PARA OS PADRES E IRMÃOS DE PORTUGAL Goa, 29 de Novembro de 1556 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 54 r.-59 o.(l) A graça e amor de Christo Nosso Senhor seia sempre em continuo favor e aiuda nossa. Amem. Mandarão-me, charissimos irmãos, que escrevesse esta e que nella lhe desse conta das cousas deste collegio soo- mente e o mais que de fora podesse collegir, que la não fosse por cartas dos padres e irmãos. Portanto, desta ilha de Goa e ilha de Coulão (2) e estado do collegio lhe falarei, desde o tempo que o Padre Antonio de Quadros foi eleito pro- vincial da India, que foi dia de Jeshu, começo do anno de 1556, ate a chegada do Padre Domingos Gonçalo e Fran- cisco Roiz, que foi na entrada de Setembro e o mais que ate a partida desta soceder. Depois de o Padre Antonio de Quadros (3) começar a entender em seu officio, determinou logo, o milhor que podesse, de procurar a observância das constituições e regras que elle mesmo trouxe, pondo-nos diante o peso grande em [5'".] que se devia de ter a minima delias e grande vigilância // de cada hum, em particular, trazendo para isso os grandes merecimentos que daqui procedião, e pello contrario, as perdas e damnos que se seguião do descuido que nisso admi- tíssemos. Quanto se disto aproveitarão todos os padres e irmãos, dahi em diante, não o escrevo; baste que o que de (1) BA CI I.; Cartas do Japão, I, fls. 329v.-334v (2) BACIL: Chorão. (3) O apelido de Quadros, foi acrescentado. 1 34
fora estivesse, como eu sempre me senti, teria asas de que se confundir e occasiões de se aproveitar. Tomou por seu aiudador o Padre Belchior Carneiro, porque o que dantes fazia, que era ler a Lógica aos irmãos, não a quis deixar, movido de sua grande charidade, porque, sem duvida, a metade dos trabalhos do cargo bastão para ter bem em que entender; procedendo o tempo, elle algumas vezes com suas pregações, as quais, por causa do ler encarregava ao Padre Carneiro, que os domingos e dias sanctos pregava em este collegio, e o Padre Balthezar Diaz, os domingos, em huma frequesia desta cidade. E isto com muyta frequentia de gente (4), em special as pregações do padre Carneiro e An- tonio de Quadros, as vezes que o fazia. As confissões acudião tembem, nos tempos da necessidade, porque continua- mente (5) avia confissões; outros que confessavão, que erão o Padre Mestre João, e o Padre Miser Paulo e o Padre Bal- tehzar Diaz e Diogo de Soveral, que então neste collegio estava, o qual depois o padre Balthezar Dias mandou para aiudar ao Padre Anrique Anriquez em seus trabalhos, com hum irmão, ao cabo de Comorim. Ja neste tempo começava a crecer o numero de studantes, que he hum dos grandes fructos desta terra, com tres classes, a saber: Marcos, na Pri- meira e o Padre Michael, na Segunda e o irmão Josph Ribeiro, na Terceira, os quais dous irmãos, ao presente, ficão ja ordenados sacerdotes. Sera para muito serviço de Deos nosso Senhor. Logo em a Quaresma seguinte ouve sempre neste colle- gio muitas confissões e muito fructo que nellas fez nosso Senhor per alguns padres como lhe direi adiante. De ma- (4) BACIL: a frase em special às pregações do padre Carneiro e Antonio de Quadros, encontra-se riscada. E o período seguinte começa deste modo: os quoais acodião também as confessõis, etc. (5) BACIL: avia outros confessores que confessavão. 1 3 5
neira que como vissem que por então neste collegio avia taes homens acodião aqui as confissões e pregações muy continuamente. As sestas feiras (como era custume) tinhão suas pregações da Paixão, do Padre Antonio (6) com muyta devoção e lagrimas dos ouvintes e he este hum tempo e são estas humas pregações em que bem posso dizer, segundo o que sempre vi, que nem quatro igrejas do tamanho desta, que não he muito pequena, bastarião para recolher a gente, porque asi igrejas, como alpendres ao redor, e choro ariba se enchem, afora outra muita que se torna, por não aver onde podessem estar. E acabada saião logo os mininos ate [" r'] a m'sericordia // que he dentro da cidade e a gente com elles e os penitentes, e era a devoção tanta em a gente que, ao tempo do abrir da porta da igreja, era ja tanto o numero de homens e molheres que esperavão que, com deseio de lugares, ao entrar, caião huns por riba dos outros a quem primeiro tomaria lugar. E ver-se isto na India he muyto para glorificar a Deos Nosso Senhor. Ao tempo das Endoenças se fez o officio com tanta sole- nidade e devação quanto lhe não posso dizer; baste dizer que ate gora na índia se não fez officio com tanta venera- ção e devação, principalmente, o ençarrar do Senhor e desensarrar. Os meninos fizerão suas procissões muyto devotas a maneira que me lembro ver na see de Lisboa; a gente era muyta e nella se avia muyta devoção e muitas lagrimas. Ao officio das trevas foi sempre o mesmo, por- que os meninos o fizerão muy solemnemente e com a mesma devoção do povo, seia Deos, Nosso Senhor, louvado para todo sempre. Acabada a Coresma, quiz o padre Antonio de Quadros despedir algum padre, que resedisse na cidade de Malaca, (6) BACIL: pregações Ja paixão que hum padre faz. 1 3 6
por ser muy necessário ali, para proveito do povo, como para que com mais facilidade se prover Japão e Maluquo do necessário, por Malaca estar entre nos e elles em meio do caminho, ou quasi, e onde as naos que vão para Maluco da índia vão ter e para Japão partem dahi mesmo. Escolheo para este negocio ao Padre Balthazar Diaz, ao qual mandou, asas contra vontade da gente desta cidade, porque antre elles era muito acepto, asi em suas pregações, como consolação. Dahi a poucos dias (vindo o tempo que vem os navios que cada anno vão ao estreito de Meca) che- gou o padre Mestre Gonçallo com hum irmão que vinha do Preste com novas do que achara naquella gente e a desposição delia, cuias novas largamente se escreve laa. Começou logo a tomar parte dos trabalhos do collegio e confessar e pregar, em lugar do Padre Balthazar Dias, na sua fraqueza a muita gloria do Senhor e devação do povo. Agora lhe começarei a dar conta, o mais breve que poder, deste collegio e do muito que particularmente Deos, Nosso Senhor, fez polios padres e irmãos que nelle estão. In primis sabrerdo (sic) como na entrada de Setembro deste anno de 1556, chegaram a esta barra de Goa quatro naos, em as quais vinha o patriarcha bispo e seus companheiros do Preste e o Padre Domingos Gonçalo, Francisco Roiz e os mais todos de saúde, seia o Senhor louvado, tirando dous irmãos, a saber: o irmão impressor e o irmão Gonçalo// [55*.] que, chegarão mal despostos do mar. Mas logo, polia bon- dade do Senhor, convalecerão; com esta chegada ouve grande alvoroço na cidade, em special, nos eclesiásticos, por falta do bispo, que então esperavão e vissem que não vinha, ficarão com a vinda do patriarcha algum tanto consolados, porque esperavão lhe suprisse algumas necessidades em que (7) BACIL: saberão. 1 3 7
estavão de cousas necessárias como oleos que não avia e os religiosos, asi de São Francisco, como de S. Domingos, que tinhão muytos para ordenar sacerdotes, o que tudo, depois de assentado fez, ordenando trinta ou quarenta padres com tres soomente da casa, a saber: o Padre Marcos e o Padre Jeronimo Bravo e o Padre Joseph Ribeiro que ao presente he ministro de casa. Depois de tudo feito, querendo a patriarcha determinar sua partida para o Preste, para o Janeiro que vinha, sendo isto ainda em o mes de Setembro, consultou-se para isso o Governador, para que as necessidades da partida se proves- sem com tempo, que erão armada e gente e o mais neces- sário. Algumas vezes veo o Governador a este collegio para a determinação deste negocio e com o patriarcha e o Padre Domingos Gonçalo e o Padre Francisco Roiz e os mais padres se asentou, em fim de tudo, que por este ano o patriarcha ficasse na índia, por alguns justos respeitos, como pella indisposição do mesmo rei de Ethiopia o que larga- mente se escreve por cartas que la vam do padre mestre Gonçalo que screveo, estando em Ethiopia, asi para esta terra como para o mesmo rei, estando ja dele absente, para se vir para a India, e por este negotio estar neste estremo e vendo que seria serviço de Deos, Nosso Senhor, tornar-se este rei a cometer outra vez por alguma pessoa em este anno para que mitigando-o mais de sua pertinácia, ficasse mais livre a entrada do patriarcha em suas terras. Para esta impresa se escolheo o padre bispo e outros dous irmãos. Prazera a Deos, Nosso Senhor, que de tal maneira serão la favorecidos de graça divina que lhe dara vencimento contra tão aspera e dura fortaleza do demonio. O bispo se partira com o Padre Domingos Gonçado desta cidade para Baçaim, aonde o governador vai acodir algumas necessidades de guerra que la soccedem e dahi se ade embarcar na monção que he de Janeiro para diante; o governador prometeo de ij8
dar para companhia do bispo vinte homens portugueses o que neste caso deixo de screver; la o verão pellas cartas dos padres. Soomente digo que he muy necessário se encomende a Deos, Nosso Senhor, particularmente, todos dias, este negotio até se poor de todo em // firme effecto. Em este collegio de Goa, depois da chegada do Padre Domingos Gonçalo e padre Francisco Roiz, contei os padres e irmãos delle e com o patriarca e bispo e os tres sacerdotes novos achei vinte sacerdotes e trinta e seis irmãos, com aluguns novicios, que de novo recebeo o Padre Francisco Roiz que são, até agora, que são sete de Novembro, sete irmãos. E porque ate agora não ouve possibilidade para que se effectuasse o que acerca dos novicios e seu aposentamento permite as constituições, e isto por falta de casas, ordenou o Padre Domingos Gonçalo que o melhor que podesse ser se observasse a tal regra, ordenando seu mestre e aposenta- mento, ainda que pequeno por agora, que he em huma classe nova grande, que estava feita, afora as outras tres em que lem. Servem seus officios ate seus exercitios ordenados o que fazem com muyta edificação dos irmãos e confusão minha. Destes recebidos alguns andavão em studos e outros muitos que ha hi andão pertendendo seu fim: acabarem em a Companhia em serviço de Nosso Senhor e, afora estes, outros sem serem studantes, que o mesmo requerem, fara nisso a sancta obediência o que lhe Deos Nosso Senhor der a sentir. Destes padres e irmãos, que acima digo estarem no collegio, se irão pera fora, por agora, tres padres ao Preste e os dous irmãos. Vai mais para Cochim o padre Mestre Melchior Carneiro, para ahi estar com o padre Francisco Perez. Juntamente o Padre Domingos Gonçalo he partido com hum irmão para Baçaim visitar a christandade de Thana que he muyto grande e prover do necessário aos padres que la residem que são o padre Manoel Fernandez 1 39
e o Padre Francisco Anriquez, com hum irmão e em Baçaim ^ ° padre Jerónimo de Quenqua e dahi se ade tornar para Cochim, que he tornar cento e setenta legoas pella costa abaixo e visitar também os padres que em aquella costa andão que são, em São Thome, o Padre Cipriano com hum irmão, e em Comurim o padre Antique Anriquez e o Padre Diogo do Soveral e dous irmãos, ainda que todavia agora esperamos pelo padre Diogo de Soveral e em Coulão, o Padre Diogo Nicolao, asas enfermo, com outro irmão e em Cochim Francisco Perez e tres irmãos. Dahi se tornara para Goa ou para o que for mais serviço do Senhor. Vai daqui mais para fora o Padre Francisco Vieira, que vai para andar alarmado (8), por ser cousa muy necessária. Daqui ate o inverno se ordenara o que for mais gloria e honra de Deos Nosso Senhor. Em este collegio (como lhe ja disse) ha tres classes de gramatica; na Primeira, que he do Padre Marcos Nunez, andão passante de quarenta, aos quais agora deixou de ler Virgilio e Cicero De amiticia e meteo Ouvidio, De triptibus, [56 v.] por a facilidade dos versos // porque lhe lee De quantitate sillabarum. Estes todos, daqui a hum anno, diz estarão para ouvir lógica, porque da Pascoa para diante lhe lee Rheto- rica. Na classe do Padre Michael andão outros tantos ou mais. Na Terceira andão perto de setenta. Daqui por diante se esperão muytos com a ida do Padre Domingos Gonçalo; as fortalezas se procede segundo a ordem que se deve con- forme as constituições. E hum dos grandes fructos que se fazem nesta terra, porque alem do seu studo de letras muitos, pellos boons custumes que aquirem, em suas mes- mas casas, com seus pais e mais e familiares trabalhão por os trazer ao serviço de Deos. O Padre Carneiro, o anno pas- (8) BACIL: com os da armada. I q O
sado, leo casos de conscientia e porque, depois da vinda dos padres, foi para fora, agora ordenarão o que for mais serviço e gloria do Senhor. Lee mais neste collegio Philosophia de Arostoteles, o qual, ate agora, leo o Padre Antonio de Qua- dros. E por o trabalho ser grande que elle nisso tinha para duas lições no dia, entrou a huma delias o Padre Misquita. Parece-me que ate o Natal se acabarão os oito livros dos phisicos. Agora em Outubro teve o Padre Joseph Ribeiro oração publica em a igreja, de cima do pulpeto do studo das letras, a qual esteve o governador com muita gente e foi hum dia depois do dia de São Lucas, que foi a segunda feira pella menha. E porque logo a tarde se avião de ter conclusões de lógica e philosophia, as quais la se mandão impressas, o governador se não quis ir ate as não ver, as quais conclusões se mandarão antes imprimir aqui em casa e as mandarão poor as portas da igreja, dando-as aos frades de São Domin- gos, e de S. Francisco e as pessoas que erão para isso. As de philosophia sostentou hum irmão que se qua recebeo que se chama Francisco Cabral. As de phisica sostentou o irmão Manoel. Vierão muitos frades de ambos os mosteiros e phi- sicos e homens doctos desta cidade e muita outra gente e fidalgos. Durarão ate perto da noite sem argumentar nenhum de casa por não ter tempo, ficando muytos de fora. Este foi o dia que o Padre Antonio de Quadros deu a comer a todos o muyto que Deos Nosso Senhor com elle tinha repartido e isto por cima de os irmãos muyto bem defen- derem o preposto. Tiverão suas orações e muytos de fora o mesmo, entre os quaes, hum soldado, homem português, teve uma oração em grego, em louvor da Companhia de maneira que asi o governador como fidalgos e os mais cir- cunstantes se forão muy satisfeitos.//O que tudo seia para 57r' honra e gloria de Deos, Nosso Senhor. / 4 i
A aqui mais outra schola em que ensina outro irmão a ler e a escrever em que avera passante de quatro centos e cincoenta moços, da qual schola sairão muitos dos que agora andão no estudo principalmente da segunda e terceira classe e muytos dos que nesta schola andão boons escrivães e daqui se espera saírem muytos para o studo. Este irmão que os ensina ha ja quatro ou cinco annos que o faz e nos moços desta ilha de Goa tem feito muyto fructo, asi no ensino da escola, em que os ensina a ler e escrever e aritmética, como tão bem em fazer muytas doctrinas, que tem feito por igreias e casas desta cidade e homens grandes e de muytos escravos. Ha também alguns irmãos que as vezes fazem doctrinas por toda a somana; afora estes hum vai ao tronco e, ao domingo e sanctos, a huma igreja desta cidade e em huma hermida de Nossa Senhora todos os dias. Asi que em todas as scholas do collegio avera por agora seiscentos mo- ços, pouco mais ou menos, e aqui mais dentro em casa perto de cem mininos. A mor parte da terra que se crião em boons custumes e doctrina e mais, entre estes, outros filhos de portugueses, mistiços e alguns outros orfãos que não se sostentando desta maneira, segundo são desemparados, facil- mente se perderão, segundo os custumes maos da terras. E temos mais junto deste collegio hum hospital de christãos enfermos o qual ategora o Padre Micer Paulo andou sostentando com muito trabalho, em o qual ha con- tinuamente vinte, vinte e cinco, trinta e as vezes passante de quarenta pessoas. Hahi são providas de todo o necessário. Ahi mesmo se ensinão alguns cathecumenos, em special molheres e mininas, por ate agora não terem certa estansia e este anno de 1556 se fizerão muytos christãos neste colle- gio e se fazem sempre. E ao presente estão trinta entanto cathecuminos doctrinados para se fazerem christãos, entre os quais esta hum que os dias passados veo da terra firme para se fazer christão, tendo primeiro corrido muitas terras / 4 2
a ver em que lei poderia milhor viver e salvar-se. E achou que em nenhuma podia ser milhor que em a lei dos christãos e sendo elle homem dos honrrados e de muita posse antre os outros, se partio de la com esta determinação, trazendo con- sigo outo criados para o mesmo fim. Estes, convencidos, do demonio, o deixarão e se tornarão, e elle chegou a este colle- gio soomente com dous que lhe ficarão. Destes christãos que se fazem, segundo a calidade da pessoa, asi se determina delle depois de ser baptizado, porque huns se vão logo para suas // casas, por serem pessoas de mais respeito e de que se t57 V-1 tem maior confiança; outros, ate se corroborarem mais na fee de Nosso Senhor, ficam em casa por algum tempo, outros se dão a pessoas, para servirem e são a pessoas que sentem que lhes não farão damno; outros se poem a officos, os que para isso são; outros se casão. De maneira que no que se podem os favorecem muyto, por ser muyto necessário, por causa de sua fraqueza. E por ategora huma das causas porque se não tem feito nesta terra e asi em as outras partes mais christãos, foi sempre o mau trato que elles recebião e recebem ainda agora dos mesmos portugueses, e por isso, despois que a estas partes passarão o Padre Antonio de Qua- dros e Belchior Carneiro, sempre em suas pregações estra- nharão isto muyto, encarescendo-lho em grande maneira e ja agora se acha emenda. Quererá Deos Nosso Senhor que ira em crescimento para que estas suas ovelhas perdidas se recolhão ao verdadeiro pasto e sirvão e adorem a seu Crea- dor e Senhor. Em a ilha de Chorão, (de que lhe ja la escreverão outras vezes) ainda que em si he pequena, se faz muy fructo. Deste collegio se serve o que he neessario para sostentação e augmento da christante e acabou-se agora la huma igreia muyto devota de Nossa Senhora da Graça. Avera nesta ilha obra de trezentos christãos; este anno de cincoenta e seis se farião. Todos os domingos e dias sanctos de obrigação vai 7 43
daqui hum padre a dizer-lhe missa e acabada lhes faz sua doctrina e praticha. Destes se casão muytos ahi mesmo. Muitos se confessão e, segundo a capacidade da pessoa, asi se lhe concedem receber o não o Sancto Sacremento e aos que o recebem lho ministra hum sacerdote, homem em quem muyto confia e natural da mesma terra e estes os ouve de confissão na mesma sua lingoa e lhes praticha o neces- sário. Esperamos em Deos, Nosso Senhor, que em pouco tempo se faça toda christãa esta ilha, com o muyto favor de huma parte, que determinão fazer os christãos e da outra, a misericórdia do Senhor que quererá que se não percão tanto numero de almas as quais Elie comprou por tão caro preço. O viso rei, Dom Afonso de Noronha, indo huma vez la ter, enformando-se do muito que se sperava fazer naquella gente para os trazer ao caminho verdadeiro concedeo para a igreja e christãos hum grande campo, perto da mesma igreja em o qual se começão aposentar christãos que esta- [58 r.] vão // espalhados longe e fazem suas casas e povoações para com mais facilidade gozarem de sacrificios e missas que, muytas vezes, acontecem por algum tempo serem continuas cada dia, como quando la esta algum padre mal desposto ou por outra causa, como agora ha pouco que o Padre Anto- nio de Quadros esteve ahi hum mes com os irmãos a que lee, lendo-lhes ahi mesmo. E todos os dias avia missa a qual vierão os christãos se estiverão em lugar perto e contudo alguns acodião sempre. E para mesma sustentação delles, ahi perto, o padre Francisco Roiz ouve de comprar alguma fazendo ahi mesmo, para repartir com os que for mais ser- viço de Nosso Senhor e isto de esmolas que dão pessoas devotas para seu favor; espera ao diante, com o favor e aiuda divina, fazer muyto nesta parte que toca a christandade, dado que em alguma maneira a conversão delia depende também do mau ou bom trato do secular para que, como ja muytas ' 44
vezes lhe escreverão, os muytos favores que se nesta terra custumarão do principio fazer aos gentios e Deos, Nosso Senhor, sabe a causa, foi muyta parte com que esta terra, quasi toda, falando da gentilidade, se não convertesse ao caminho da verdadeira salvação e esperamos em Deos, Nosso Senhor, que daqui por diante procedera melhor com tam bons e excelentes ministros de Christo por parte da chris- tandade. Quanto ao que toca a christandade que he feita e se faz nestas partes a saber: Japão, Maluco e cabo de Comorim e em as mais partes he muyto o que se poderá dizer, special de Japão, donde ao presente estamos sperando novas de Mes- tre Belchior e sua entrada e que foi asas chea de contrastes, ate se affectuar, como foi andar quasi dous annos no cami- nho com muytos trabalhos do mar. Enfim foi ter ao reino da China, com toda a companhia que levava. Ja la escrevi o anno que se partio daqui do collegio. Dahi tivemos novas delle e dos mais e como ficava para dahi atravessar em huma nao para Japão aquelle anno. E soubemos, por suas cartas, como estando elle em hum porto da China, que se chama Cantão, lhe foi dada huma carta do rei do Japão, em que lhe dizia como elle sabia que sua Reverencia hia para suas terras, de que elle hera muy alegre e que elle não sperava mais que sua chegada, com a qual sperava satisfazer a falta que tivera de sua palavra em ter pormetido huma vez, fa- zer-se christão e que por isso, com Sua Reverencia chegasse, sperava de o comprir. Novo animo e esforço cobrarão todos com tais novas, pois esta claro que dos superiores e grandes depende o bem dos inferiores. Quero dizer que facilmente se fara em Japão, em breves tempos, outra nova Espanha, tra- zendo Deos, Nosso Senhor, os grandes e reis a sua sancta fee, cuias pisadas e exemplos custumão seguir os pequenos e vaçalos. Pode muito bem ser que cheguem as naos de Malaca a Cochim, antes da partida para Portugal e si asi ' 4 5 DOC. PADROADO, VI IO
[58 v.] for tudo o que // acerqua disto passou, se escrevera. E se não chegarem a tempo ficara para o anno. Os portos da China são abertos, cousa que tanto tempo ha que se deseia na índia. Agora convém que muy particularmente se enco- mendem a Nosso Senhor que elle faça o que vir ser mais sua gloria e honra. O mesmo esperamos polias novas de Maluco, que vem no mesmo tempo das de Japão. De tudo se screvera, vindo a tempo. O padre Anrrique Anriquez, este ano de 556, passou e passa muytos trabalhos elle e o Padre Soveral e irmãos que la andão, por aver grande guerra com a christandade da parte dos mouros. Ja por muitas vezes se tratou qua acerca desta christandade que, pellos apartarem destas persegui- ções e tiranias, seria conveniente transpassarem-nos para Ceilão, porque na verdade são muytos os trabalhos que pade- cem elles com os pobres padres que os governão, como por vezes se screveo. Pode ser que ao diante se determine alguma « cousa, o que ate agora não se determinou, cuido que por aver outros muytos negocios a que o governador de neces- sidade a-de acudir. Depois da chegada do Padre Domingos Gonçalo e Fran- cisco Roiz, se ordenou logo fazer-se o saimento pollo infante Dom Luis e na see desta cidade ao qual pregou o Padre Dom Gonçalo e foi a terceira pregação (9); e logo depois da pregação que foi com muita devoção e lagrimas da gente, dahi a poucos dias, se fez no nosso collegio o mesmo; pas- sado este saimento, determinarão os padres abrirem hum jubileu que trazião e pregou-se polias igrejas da cidade e foi (9) BACIL: Nesta cópia encontra-se mais o seguinte: «porque a primeira que fez foy o proprio dia que desembarcou, quero dizer que chegou a este collegio, hum sabado, as nove horas da noite; e estava o padre Carneiro para hir polia menhãa preguar o sermão fez com o padre Dom Gonçalo que asi como vinha, preguasse; depois daquela preguacão que foi com muita devoção»... etc. 146
causa de muyta devoção, onde me parece que poucos ficarão que se não confessassem e trabalhassem pollo alcançar. Aqui no collegio, em hum dominguo comungarão qui- nhentas e oito pessoas e no outro quatrocentas e tantas; de maneira que forão quasi mil pessoas, e isto somente neste collegio (10) afora os que nos outros mosteiros farião o mesmo e polias mais igrejas. Aqui, em casa, erão tantas as confisões que os padres escassamente tinhão refrigério para repousar e comprir com o que lhe a natureza pedia. Todos os padres andavão a confessar polia igreja e crastas e altar e o patriarcha e seus companheiros o mesmo. Finalmente creão, irmãos meus, que se o fructo que se faz neste collegio he muy grande, a gloria e honrra de Nosso Senhor o mesmo; quotidianamente ha confissões, comungão muytas pessoas assi polios dias de somana, como dominguos e as festas prin- cipaes acodem sempre comumente muytas e alguns que se encerrarão a fazer suas confissões qui // etas e com repouso [59 r-1 da alma, sete, oito dias. Antes da vinda dos padres (11), o vigário geral veo pedir ao Padre Antonio de Quadros que fosse pregar a see, e isto com muita instancia e porque os padres dominicos, depois do falecimento de mestre Gaspar, ficarão soos, pre- gando la sempre, areceou o padre de fazer o que lhe pedião e resistio a isso algumas vezes, as quais rezões o cabido não recebia, mas mais instava no que pedião, porque dizião que por rezão aquelle pulpeto da see era nosso, querendo quasi poor os padres em escrupolo para que, ou polia força, ou por geito, o fizessem. E donde isto procedia parecia ser por algumas rezões que ouve entre elles com hum padre que la (10) BACIL: afora outras muytas que comunguavão polios dias da somana e isto somente aqui no collegio afora os que nos outros mostei- ros... etc. (11) BACIL: o cabido e o vigário geral veo pedir... etc. 1 47
pregava, de São Domingos e, por derradeiro, derão disso conta ao governador e o governador o pedio ao Padre Anto nio de Quadros. Por cima de tudo o padre trabalhou com o cabido que ao menos consentisse que os padres de S. Do- mingos andassem com os nossos alternatim nas pregações, elles e o Padre Antonio de Quadros. Asi aos domingos como aos dos sanctos, polia menha e a tarde; o Padre Francisco Roiz, quando lhe cae, trata das oito bemaventuranças, Anto- nio de Quadros da morte, inferno e juizo e gloria. O Padre Mestre Gonçalo prega agora aos domingos em a freguesia que o Padre Domingos Gonçalo tem tomado para pregar e supre algumas vezes o Padre Antonio Eredia. Prega mais em outra freguesia que se chama São João o Padre Mis- quita. De maneira que Deos Nosso Senhor vai qua abrindo e descobrindo muyto campo para elle se poder servir de seus servos a muyta gloria e honra sua. Quero dar conta de algumas cousas que Deos Nosso Senhor fez qua este anno por alguns padres desta casa. A primeira foi que ouve hum homem que avia dias que trazia a intenção mui danada e com grandes propositos de matar sua molher e, como ella andasse com este temor da morte e o marido buscando todos os modos e maneiras para a matar, veo ella ter a esta igreia a falar com hum padre que metesse mão nisso com seu marido. E confiando na misericórdia e piedade de Nosso Senhor, que podia mais que a fúria do demonio, e sendo ja juntos todos, o marido, como quem andava todo turbado e embebido em sua tenção, vendo o padre em sua casa fallou-lhe, dando-lhe conta de tudo. E por cima diso o padre o soube melhor dos familiares e sabido tudo, se assentou de giolhos diante do marido, pedindo-lhe que, polias chagas de Nosso Senhor, quisesse perdoar a sua molher com outras muytas palavras de pie- dade, as quaes elle sempre repugnou, dizendo ao padre que se alevantasse e que antes queria que o enchesse de bofe- 148
tadas que pedir-lhe aquilo, que em nenhuma maneira o avia de fazer. Finalmente o padre esteve asi em giolhos por t59 ví espaço de mea hora com muyta piedade, // amoestando-o e trazendo-lhe a memoria o premio que por isso merecia diante de Deos; ao cabo das quais rezões ficarão as chagas de Christo victoriosas de perversa tenção diabólica. Disse logo que lhe perdoava e estão agora com muyta paz e tra- quilidade. Seia o Senhor louvado para todo o sempre. Outro padre, sabendo que nesta terra andavão muytos homens casados nesse reino, avia muytos annos, as molhe- res dos quais passavão la muyto detrimento por seus descui- dos qua delles, determinou por em isso suas forças para persuadir a quantos podesse destes que se fossem este anno; acabou isto com sete ou oito, os quais o tomarão como da mão de Nosso Senhor e determinarão logo sua partida este anno. Outro padre persuadio este anno a muytos soldados a se casarem polios tirar de peccados mortaes e muytos o fizerão. E a outros muytos persuadio tirarem de suas casas occasiões que tinhão e tudo para muyta gloria e honra de Deos Nosso Senhor. Não lhe screvo mais novas porque no que fallei me remeto as cartas dos padres e irmãos. Do collegio de Goa, a 29 de Novembro de 1556 annos. Por comissão do padre Gonçalo Roiz. Aires Brandão ' 4 9
23 CARTA DO IRMÃO JERÓNIMO FERNANDES PARA O PADRE ANDRÉ DE CARVALHO DA COMPANHIA DE JESUS, EM PORTUGAL Goa, 6 de Dezembro de 1556 Documento existente na BAL, 49-IV-49■ Fls. 60v.-62r.{ 1) A graça e amor de Christo Jesus seja empre em nossos corações Amen. Charissimo padre. De Coulão escrevi huma carta a Vossa Reverencia em que lhe dava alguma conta das merces que Nosso Senhor me fez, des que destas partes pardo, da qual esperava agora a resposta pelo padre Dom Gonçalo, mas parece que, ou não forâo laa, ou a muyta occupação lhe não daria lugar a responder, pelo qual determiney de escrever esta e nela lhe dar alguma conta de mim, pera ver se com ella poderey alcançar huma de Vossa Reverencia em que nos desse meudamente, asi da sua viagem, como do mays, novas de si, o que não pude alcansar com nenhuma das que laa mandei e, crea Vossa Reverencia que, se com esta me acontecer o mesmo, que nem por isso ey de deixar de lhe escrever, cada anno. E não he possível que o que não alcansar polias cartas o não alcanse polia perseverança, porque o muyto que em Christo a Vossa Reverencia amo, me no deixa fazer o contrario, principalmente quando me [6i r.] alembra as muitas charidades//que delle recebi. Por os (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 334v.-336r. / 50
irmãos escreverei meudamente das cousas do collegio e hir la huma carta geral que largamente se relata tudo e, por Vossa Reverencia haver estado em Coulão com o padre Nicolau e eu, quasi todo este tempo passado, dar-lhe ey algumas novas de laa e do padre, deixando as daqui a quem tenha semelhante eloquência pera escrever e contar as gran- des maravilhas que Deos, Nosso Senhor, obra por seus ser- vos, nestas partes, como Vossa Reverencia o poderia ver quando nestas partes estava. Bem creo que lhe a alembrara a maa desposição do padre Nicolao e a maneira de seu viver e o obrar na vinha do Senhor, que certo he muito pera louvar a Deus, porque, segundo sua maa desposição, era mais pera se estar curando, que não trabalhando em prantar arvores novas em que se leva tanto trabalho, pelos grandes desgostos que em as con- servar se leva, principalmente naquellas partes, mas o padre leva nisso tamanho gosto que me parece que agora nisso se sostenta. Elie estando muito doente e desconfiado de poder viver, determinou de se vir pera este collegio e aqui acabar seus dias, nas mãos do padre Quadros e Carneiro. Partio de Coulão, trazendo-me consigo, vindo ainda muito doente e pollo rio que vai ter a Cochim em huma empalega, entre- gues aos ladrões, como he costume. E desta maneira he a viagem mais segura, como Vossa Reverencia sabe. Certo o que neste caminho padeceu sabe-o Deos, Nosso Senhor, pera lhe dar o premio destes trabalhos, por cujo mandado elle hia, porque o Reytor de Goa o mandou cha- mar com os mais padres que estavão pias fortalezas, pera se ayuntarem aqui neste collegio, aonde chegando, foi rece- bido dos padres e dos irmãos com muito amor e charidade. Começarão logo a entender nelle os phisicos, dando-lhe lava- tórios e a comer cagados (2) e outras semelhantes mesinhas, (2) BACIL: Tortugas.
pertencentes a sua saúde, mas contudo se achava mal e os ferrenhos também maltratava-no e lhe erão causa de se achar muyto mal, polia qual determinarão os phisicos que se avia de tornar pera Coulão, porque laa se acharia milhor. Tornou-se a embarcar o padre pera Coulão em huma fusta, asi daquela maneyra que estava. Bem creo que neste caminho avia muito de perfeiçoar sua coroa pollo muyto que nella avia de padecer, todavia chegou a Coulão milhor do que de quaa partio, cousa que não nos deu não pequena admiração, por vermos a maneyra como ya e nos parecer não poder Ia chegar, mas parece que Deos, Nosso Senhor, o guarda ainda pera muytas cousas de seu serviço, porque temos aqui muytas cartas suas e do irmão que la esta que diz achar-se muito bem e diz missa cada dia [6i v.] e prega domingos e dias sanctos e // os mais trabalhos que o collegio e doutrina daquelles seus meninos trás consigo, de que não pouco, eu principalmente, me spantey, por me alembrar avello visto de tal maneira em Coulão que se passava o mez sem dizer missa nem nos poder confessar, e nos era forçado hirmos ouvi-la e confessar-nos aos mos- teyros dos padres, levando comnosco setenta, todos os meni- nos do collegio. Parece que Nosso Senhor pollo muyto ser- viço que lhe aly faz o conserva para amparo de muytos por ser elle ali pay e juiz de todos aquelles christãos, como Vossa Reverencia sabe, dos quais he chamado sempre o seu padre sancto tanta he a devação e openião que tem delle. Alembre que estando aqui em Goa, me vinha a falar em Vossa Reverencia, principalmente huma vez que foi por causa de haver aqui hum retavolo da Transffiguração que vinha pera elle que mandava a rainha e dixe que Vossa Revercia fora a causa com que lhe viesse e que elle lho enco- mendara quando se pera laa partio, louvando-lhe muyto o bom cuydado, ainda que se espantava de ver a Vossa Reve- rencia tão esquecido destas partes não lhe escrevendo alguma 1 5 2
carta. Com o retavolo foi muy consolado porque era con- forme a igreja que tinha feyto de pedra, conforme a Coulão muyto boa e asi todo o collegio tem ja começado de pedra e feyto muyto nelle. Elie, bendito Deos, tem grandes spiritos; Nosso Senhor o hade ajudar; quando se partio levou outro irmão consigo e fiquei aqui no collegio exercitando-me em alguns officios como de porteiro, emfermeiro e criado; depois mandaram-se por espacio de hum mes ao studo; des- pois, per o irmão que ensinava na terceira classe de gramá- tica ser doente e não poder com o trabalho delia, me man- daram laa a ensinar esses meninos que serão setenta. E por- que sobre as classes e mais deste collegio, como acima disse, escrevem os irmãos, não curarey de falar nisso. Estas novas assi meudamente do padre Nicolau quis dar a Vossa Reve- rencia por parecer que folgaria muyto com ellas e enferio de ver o muito desejo que o Padre Nicolao tinha de ouvir e ver suas cartas, parecendo-me que este amor lhe pagasse na mesma moeda, deseiando o mesmo. Por agora não digo mais, senão Deos, Nosso Senhor, nos dee a sentir sua sancta vontade e essa comprir. Nas orações de Vossa Reverencia e sanctos sacrifícios me encomendo e asi nas do irmão Andre Fernandes do qual deseio muito qua aver huma cartinha, e asi de todos os charissimos padres e irmãos que a ouvirem ou lerem. De Goa, aos 6 de Dezembro de 1556. Hieronymo Fróis. ' 53
24 |2r.l LISTA DAS PESSOAS DA COMPANHIA QUE SE MANDARÃO A INDIA, DOS ANNOS DE 1541 ATE O ANO DE 1556 INCLUSIVE, E DAS CARTAS QUE ATE ESTE TEMPO SE RECEBERÃO. BAL, Códice 49-1V-49. 1541. forão este ano a índia O P. Mestre Francisco Zaviel. Navarro. O P. Micer Paulo. Italiano. O I. Francisco de Mançilhas. Português. O I. Diogo Roiz. Português. 1543. Este ano se mandarão a India e arribarão. P. Antonyo Criminal. P. Pero Lopez. 15 44. Forão este anno a India com Dom João de Castro governador da índia. P. Antonyo Criminal, Italiano. P. Nicolao Lanciloto, Italiano. P. Ioão de Beyra. Galeguo. '54
Cartas deste anno. Huma do P.e Mestre Francisco de 15 de Janeyro. f. l.° 1545. Neste anno não foi nenhum a índia, antes parece que nelle forão os padres que ficão no ano atras de 44 com Dom João. Cartas deste ano. Huma do P.e Mestre Francisco de 27 de Henero. f. 5. Carta de hum secular do ano de 1548. f. 7. Outra do mesmo P.° de 8 de Mayo. f. 8. Do P.e João de Beyra de 20 de Novembro, f. 9. Do P.' Mestre Francisco de 16 de Dezembro, f. 11. Do mesmo P." de 27 de Janeyro. f. 12. Do P.e Mestre Francisco de 10 de Novembro, f. 13- Do P.e Nicolao de 22 de Novembro, f. 14. Do P.° Mestre Dioguo de 18 de Novembro, f. 15. Do P." Mestre Francisco de Cochim 27 de Janeiro, f. 308. 1546. Neste ano forão a índia O P.# Cipriano - Castelhano. P.* Anrrique Anrriquez- Português. P.* Francisco Anrriquez. Português. P.' Francisco Perez. Castelhano. P.° Nuno Ribeiro. Português. Manoel de Moraes. Português. Nicolao Nunez, Português. Baltesar Nunez - Português. Adão Francisco. Português. <55
Cartas deste ano. Do P.* Francisco de 10 de Mayo. f. 16. Do mesmo de 10 de Mayo. f. 20. Do P.° Anrrique Anrriquez de 12 de Novembro, f. 21. [2t'] 1547. Não foy ninguém este anno. Cartas. Huma do P.° Francisquo Anrriquez de 8 de Dezem- bro. f. 32. Huma do P.° Mestre Francisco, f. 31. 1548. Forão este Anno O P." Antonyo Gomez Português. P.° Mestre Gaspar Francisco, Framengo. P." Melchior Gonçalves Português. P.' Baltesar Gago. Português. João Fernandes. Cordoves. Francisco Casco. Português. Paulo dei Valle, Português. Francisco Gonçalves. Português. Manoel Vaaz Português. Luis Froes. Português.
Cartas deste ano. P." Mestre Francisco de 20 de Janeyro. f. 23- Enformação de Japão. f. 28. Aqui se lea outra enformação do ano de 1549. f. 58. Do P.* Francisco Perez de 4 de Dezembro, f. 34. P.* Francisco de 20 de Janeyro. f. 37. Do P.* Anrrique Anrriquez do 1.° de Novembro, f. 38. Do P.° Mestre Gaspar de 31 de Dezembro, f. 43. Melchior Gonçalves de 28 de Novembro, f. 49. Paulo dei Vale de 24 de Dezembro, f. 51. Paulo de Santa Fee de 29 de Novembro, f. 62. Luis Gonçalves, f. 49. Algumas cousas que acontecerão a El Rey de Tanor. f. 70. Do Irmão Luis Gonçalves, f. 49. 1549. Forão este ano 3. e arribarão. P.* Dogo Vieyra. Português. P.° João Vasquez. Castellano. Antonyo Cabral. Português. Cartas deste Anno. Do Irmão Manoel de Moraes de 3 de Janeiro, f... P." Mestre Francisco de 20 de Janeiro, f. 53. Do mesmo P.e Francisco de 25 de Janeiro, f. 55. Cosmo de Torres de 21 de Janeiro, f... Baltesar Gaguo de 20 de Novembro, f. 66. 1 57
P.' Cipriano de 3 de Dezembro, f. 74. P.° Anrrique Anrriquez de 25 de Novembro, f. 75. Do P." Mestre Francisco do primeiro de Fevereyro f. 78. Do mesmo P.* Francisco de 5 de Novembro, f. 78. Do P." Mestre Gaspar de 10 de Dezembro, f. 79. Do P.° Mestre Francisco de 22 de Junho. f. 89- Do P.° Manoel de Moraes de 6 de Agosto, f. 92. P.° João da Beyra de 5 de Fevereyro. f. 93. P.e Mestre Francisco de 5 de Fevereiro, f. 108. De Paulo Japão de 5 de Fevereiro, f. 118. Do P.° Mestre Francisco de 5 de Novembro, f. 118. Do Reytor do Collegio de Goa de 25 de Outubro, f. 64. Do P.e Antonyo Criminal de 19 de Junho. f. 71. Summario dos erros que tem os Japões. f. 301. 1550. Não foy ninguém este afio. Cartas. Do P.* Mestre Gaspar de 24 de Novembro, f. 94. Do Bispo de Goa, de 25 de Março. f. 100. Do governador da índia, de 25 de Marco. f. 100. Do feytor de Mascate de 14 de Setembro, f. 101. De hum homem de Mascate de 18 de Setembro, f. 101. Do P." Mestre Gaspar do 1 de Outubro, f. 102. João de Beyra, de 13 de Fevereiro, f. 103. Do P.e Francisco Perez de 24 de Janeiro, f. 105. Adão Francisco, f. 107. Bispo de Goa de 28 de Novembro, f. 107. Anrrique de Macedo de 13 de Agosto, f. 98. Do governador para o P." Mestre Gaspar, f. 309.
1551. [3r] Forão este ano. O P.° Mestre Melchior Nunez. Português. P.° Manoel de Moraes. Português. P.® Antonyo Pero. Português. P.® Gonçalo Roiz. Português. Christovão da Costa. Português. Melchior Diaz. Português. Alexo Madeira. Português. Antonyo Diaz. Português. Manoel Texeyra. Português. Jorge Nunez. Português. Pero Dalmeida. Português. Francisco Durão. Português. Forão este ano também alguns mininos orfãos dos quais se receberão la alguns delles. E hum delles foy Guilhelme. Cartas deste ano. De Manoel de Morais de 25 de Novembro, f. 119. Manoel Teixeira de 15 de Novembro, f. 121. Do Visorrey Dom Afonso de 5 de Janeiro, f, 125. Do P.° Melchior Gonçalves de 20 de Janeiro, f. 125. P.® Mestre Melchior de 9 de Dezembro, f. 125. P.® Anrrique Anrriquez de 12 de Janeiro, f. 128. P.® Francisco Perez de 24 de Novembro, f. 131. De João Fernandes de 20 de Outubro, f. 135. Do Preste João de sete dias despois do Natal. f. 138. Enformação da terra do Preste, f. 139. De Nicolao Nunez de 3 de Abril. f. 142. Do P.® Cosmo de Torres dia de São Miguel 29 de Se- tembro. f. 143. Do P." Mestre Gaspar de 20 de Desembro. f. 145. 1 59
De Baltesar Nunez de Janeyro. f. 131- Baltesar Nunez de Goa. f. 309- 1552. Não foi ninguém este Ano. Cartas que vierão. Carta geral do Collegio de Goa do 1.° de Desembro. f. 147. Do P.° Mestre Melchior de 7 de Desembro. f. 153. Do Irmão Manoel de 16 de Desembro. f. 155. P.° Manoel de Moraes de 28 de Novembro, f. 157. Do Visorrey Dom A.° de 27 de Novembro, f. 159. P.° Baltesar Guaguo. f. 159. P.6 Nicolao de 8 de Abril. f. 161. De Reymão de 8 de Desembro. f. 162. Do P.° Mestre Francisco de 8 de Abril. f. 162. P.e Mestre Gaspar de 9 de Outubro, f. 162. Do mesmo P.* de 5 de Novembro, f. 165. P.* Gonçalo Roiz do derradeyro de Agosto, f. 165. De Alvoro Mendez. Copias de diversas parte das pessoas da Companhia, f. 167. Do P.* Anrrique Anrriques. de 27 de Novembro, f. 168. Outra sua de 5 de Novembro, f. 170. Gil Barreto de 10 de Desembro. f. 172. Baltesar Gaguo de 20 de Janeyro. f. 175. Do P.° Mestre Gaspar de 30 de Novembro, f. 177. Do P.° Antonyo de Heredia, de 25 de Novembro, f. 123- Del P.° M.1" Francisco de 7 de Abril de 52 que esta otra vez tresladada follio 163. y agora se treslado. f. 306. Huma do P.6 Mestre Francisco para o P.° Mestre Simão em 7 de Abril. f. 306. i 6 o
1553. Forão este anno 3. P.* Urbano. Português. P.* Baltesar Dia2. Português. P.* Alexo Diaz. Português. Cartas deste ano. Do P." João da Beyra de 7 de Fevereyro. f. 179. Affonsso de Crasto de 7 de Fevereyro. f. 180. Do P.* João da Beira a 7 de Fevereiro, f. 314. De Alexo de Madureira 24 de Setembro, f. 315. O P." Nicolas de Coulão 9 de Desembro. f. 318 1554. Forão este ano a índia. P." Francisco Vieira. Português. Diogo do Soveral. Português. Cartas deste ano atras. Do Irmão Aires Brandão de 23 de Desembro. f. 182. Do Irmão Manoel Mendez de 5 de Abril. f. 186. Do P.e Mestre Melchior de 3 de Desembro. f. 190. Enformação da China. f. 193. Do P." Diogo do Soveral de 24 de Abril. f. 197. Hum capitolo de huma do P.* Gaspar Villella de 24 de Abril. f. 199. i 6 i DOC. PADROADO, VI II
Do Irmão Antonyo Diaz, de 22 de Novembro, f. 200. De Pero Dalcaçova. f. 200. Nicolas Nunez de 8 de Janeyro. f. 200. Afonsso de Crasto para o Reytor do Collegio de Goa de 29 de Janeyro. f. 207. Do Irmão Antonyo Fernandes de 28 de Fevereyro. f. 208. De Vicente Pereyra de 26 de Fevereyro. f. 209. Outra do mesmo de 29 de Março. f. 209. Do P.* Antonio de 20 de Outubro, f. 209. Capitolo de huma de Baltesar Diaz. f. 211. Outra sua de 15 de Dezembro, f. 289. Testemunho de Gaspar Coelho Vigário da vida do P.' Mestre Francisco em Desembro 1554. f. 301. 1555. Forão este anno a índia. O P.° Bispo Melchior Carneyro. Português. P. Manoel Fernandes. Português. P. Jerónimo de Cuenca. Castelhano. P. Antonyo de Quadros. Português. P. Mestre João Framenguo. P. Marco Português. P. Micael. Catelão. P. Pascoal. Catelão. P. Goncalez. Castelhano. I. Alonso Lopez. Castellano. Estes três arriba, morrerão no areal. Antonio da Costa. Português. I. Joseph Português. 162
Cartas deste anno. Do P.* Baltesar Diaz de 4 de Janeiro, f. 212. Do Visorrey Dom Pedro de 7 de Janeiro, f. 213. Baltesar Diaz de 10 de Desembro. f. 213 v. Antonyo de Quadros de 18 de Desembro. f. 218. Capitulo de huma carta de Gaspar Soeyro sobre os Irmãos que ficarão perdidos no areal. f. 222 v. Do P." Gonçalo Roiz de 12 de Março. f. 223. Do P." Manoel Fernandes de 6 de Agosto, f. 224 v. Antonyo de Quadros de 6 de Desembro. f. 226. Do P." Manoel Fernandes de 4 de Dezembro, f. 231 v. Aleixo Diaz de 2 de Janeiro, f. 233. De Luis Froes de 15 de Dezembro, f. 234 v. De Nicolau Nunez, f. 236. P.° Mestre Melchior de 20 de Dezembro, f. 236. Outra sua de 21 de Novembro, f. 237. De Luis Dalmeida de 16 de Setembro, f. 242. Duarte da Silva de 18 de Junho. f. 242. Algumas que o P." Cosmo de Torres escreveo. f. 244. Baltesar Guaguo de 23 de Setembro, f. 248. Del Rey de Tirando de 26 de Outubro, f. 252. Do Irmão Mendez de 20 de Novembro, f. 253. De hum homem secular chamado Afonço Ramiro que estava na China. f. 233. De como se perderão os P." que hião para a índia, f. 295. 1556. Forão este anno. O P.* Patriarcha Dom João nunez. Português. P." Bispo Dom Andre Doviedo. Castelhano. P." Dom Gonçalo da Silveyra. Português. i 6 3
P. Francisco Roiz. Português. P." Gualdames. Castelhano. P.* João de Mesquita. Português. P." Lourenço. Castelhano. Francisco Lopez. Português. Bertolameu dos Sanctos. Português. João de Bustamante. Castelhano. Carrilho. Português. João Gonçalves, Português. João Roiz. Português. [4 r.] Cartas deste ano de 1556. Aires Brandão de 29 de Novembro, f. 255. De Jeronimo Fernandes de 6 de Dezembro, f. 260. Do P.e Mestre Andres de 7 de Novembro, f. 262. Do P.° Francisco Roiz de 2 de Novembro, f. 262. Do P." Andres de 4 de Novembro, f. 266. Do P.° Mestre Gonçalo de 13 de Setembro, f. 268. De Luis Froes de 7 de Janeyro. f. 276. De Baltesar Diaz de 19 de Novembro, f. 279. Dos moradores de Dio de 10 de Agosto, f. 287. Do P." Anrrique Anrriquez de Dezembro, f. 288. De Diogo do Soveral de 2 de Janeyro. f. 289- Del Rey Dormuz para o P.r Antonio de 18 de Março, f. 290. Rol dos meninos do Collegio. f. 291. Do P.° Patriarcha de Ethiopia do primeyro de Dezem- bro. f. 292. / 6 ^
25 A SUA ALTEZA, A RAINHA CARTA DE FREI ANTÓNIO DO ROSÁRIO Cochim, 26 de Dezembro de 1556 Documento existente no ANTI': — CC, I, 100-45. Duas folhas em bom estado. Mede 305 x 110 mm. Senhora: O padre viguairo, Frey Dioguo Bermudez, me mandou este anno de 1556 pera esta cidade de Couchim, pera come- çar este convento a ser como os outros. Pera isto me deu alguns religiosos he, com os noviços que me mandou que recebesse, somos ja dezasseis; fazemos os ofícios divinos ja, he esta a cidade muy consollada de ver que o padre viguairo os consolou com fazer esta casa convento. La escrevo a el-rey, meu Senhor, porque mo mandou o padre viguairo gerall nosso. Eu lhe peço que, pois a cidade com suas esmolas fez a casa he a obra, que Sua Alteza nos mande dar cada anno triguo, azeite, vinho he arroz, pela mantença desta casa. A vosa Alteza o pedimos, como a senhora he mãi dos religiosos; porem nesta conta a temos todos he a el-rey, nosso senhor, por pay nosso he, como filhos, a pay pedimos o pam de cada dia que Vossa Alteza nos ajude. Também esta nesta casa huma confraria dos homens mallavares, christãos de Nossa Senhora do Rosairo; he muy proveitosa, da maneira que a elles tem ordenada pera se converterem muytos dos mallavares a nossa fee. La escrevem a sua alteza. Vossa Alteza, por amor de Nosso Senhor, os / 65
favoreça muyto, porque todo o favor que lhes for feito redunda em bem da christandade he proveito pera este reino he de Portugall. Fiquamos rogando a Nosso Senhor por ho Estado del- [í».] -rey//nosso senhor, a quem Nosso Senhor prospere com muyta vida he Vossa Alteza viva he veja isto por muytos annos, amen. De Sam Dominguos de Cochim, oje oitava do Natal de 1556. Seu obediente servo e orador Frei Antonio do Rosairo. i 6 6
26 CARTA DO GOVERNADOR FRANCISCO BARRETO A EL-REI Baçaim, 6 de Janeiro de 1557 Documento existente no ANTT: — Gav. 15, 9-28. Doze folhas em bom estado. Senhor: Húa carta que Vossa Alteza escrevia este anno ao Viso Rey, Dom Pedro, me foi dada, per que parece, segundo o que delias sinto, lhe vay Vossa Alteza respon- dendo a muitas cousas, de que lhe elle Viso Rey tinha dado enformações, e afirmado ter posto em ordem; e effeito mui- tas delias que o tempo, segundo elle agora mostra, desfez; por o mesmo Viso Rey ter tomado estas emformações de pessoas, que pello verem novo na terra, lhas davam no aar em muitas cousas, e por lhe fallarem á vontade, como se collige desta resposta de Vossa Alteza, per que lhe daa os agradecimentos de ter posto em obra as mais daquellas cousas. Eu certo folgara muito, que minha obrigaçam me poderá escusar de responder a alguns capítulos desta carta, porque não posso deixar de em muitos delles contrariar o parecer do Viso Rey, que Deos aja, ou aas enformações, que lhe tinham dado [e esta he a verdade] homens que pella ven- tura nam tratariam mais que dos enteresses, que de o com- prazerem pretendiam; por que eu affirmo// a Vossa [iv.j Alteza que em tudo o que o Viso Rey quaa ordenou, e em que acabou seu tempo, e vida, foy em vosso serviço, e em trabalhar de o acertar; mas como esta terra quer mais a experiência delia muito inteira e por muitos annos prati- cada, e entendida, que as enformações tomadas de homens / 6 7
enteressados de seus proveitos: em muitas couzas lhe feze- ram estes mesmos homens seguir caminhos muy desviados, do que compria a vosso serviço, e conciencia; e por que vou respondendo a esta de Vossa Alteza pella ordem dos capí- tulos delia, diguo que: Quanto ao gosto que Vossa Alteza mostra, e confessa ter do desbarato das galees dos Turcos per Dom Fernando de Menezes, com muita rezam o deve Vossa Alteza de ter, e daar por elle muitas graças a Nosso Senhor, como he craro, que hum príncipe tam christianissimo, como Vossa Alteza, lhe daa sempre pelas merces, que de el recebe, e mais tama- nha como esta foy pera esse Reyno, e esta terra, e asi se cre que teraa Vossa Alteza especial lembrança nas merces, que Dom Fernando per tal serviço lhe merece, pera exempro dos que o nesse Reyno, e nesta terra servem com tanto amor, como Dom Fernando, e seu pay nella fizeram. E quanto aos agardecimentos, que Vossa Alteza daa ao Viso Rey Dom Pe- dro pella presteza, com que mandou sobre as galees que a Surrate se acolheram, e por quam bem servido se ouve de Fernam Martins Freire naquella viagem, tem Vossa Alteza muita rezam, devendo também nesta parte ter lembrança de Francisco de Saa, e Joham de Mendonça, capitaens naquelle f- tempo de Baçaim, e Chaul pera lhes também agradecer serem elles os primeiros, que com muita presteza, e poder, e gasto de suas fazendas taparam a mesma barra de Surrate, por que com este respeito, e consideraçam daa Vossa Alteza emxempro a seus capitaens pera com especial vontade o C2r-] servirem nos semelhantes tempos.// Pelo seguinte capitulo aprovava Vossa Alteza por bem feito ao Viso Rey Dom Pedro o tornar meter de posse de capitam, e Vedor da Fazenda de Cochim a Joham da Fon- cequa, prouvera a Deos que nisto não acertara o Viso Rey como Vossa Alteza haa que elle acertou; porque bem craro estaa que se de cinquo anos a esta parte nam vam cargas a / 68
esse Reyno he-o Joham da Foncequa causa disso, e bem que alguma culpa lhe tivesse a guerra de Cochim, e o Mallavar, com tudo a mayor he sua delle; e disto asy ser, nenhúa outra prova dou a Vossa Alteza, se não que o anno, que o Viso Rey chegou, e o tornou a meter de posse lhe entregou ele Viso Rey o cabedal, que a Vossa Aleza escrepvio, segundo per outro capitulo da mesma carta comprendo, em tanta conthia, que feita a conta, e abastando pera a carga daquel anno, lhe ficavam líquidos pera a do outro, que foy este passado, sessenta e tantos mil crusados; dos quaes eu não achey na Casa do Deposito da pimenta de Cochim, mais que mil e duzentos, ou mil e trezentos quintaes, que se fizeram com o dinheiro, que Tristam Barbudo, morador e cazado em Cochim, pera isso emprestou, que eu aquy mandei pagar per hua Letra de Joham da Foncequa, per que certificava tellos pedido emprestados aquelle inverno pera a compra desta pimenta, porque dos mais deu despezas como Vedor da Fazenda, que tinha poderes, e a que se nam pode tomar conta como a hum Feitor de Vossa Alteza, haa he nesse Reyno, e bem creo que lhe nam hande faltar rezões, a serem boas, ou maas; o como serviço as devem daprovar por quaes ellas sam. Quanto aos concertos de El Rey de Cochim com El Rey, da pimenta, que Vossa Alteza per outro capitulo trata, e faz lembrança do que se sobre isso deve fazer, elles estam no aar sem nelles se ter tomada alguma concruzam, e traba- lhey este anno passado per minhas cartas, e per via de Diogo Alvares Telles Capitam de Cochim, e per Antonio Pessoa, // l2 "■] Vedor da Fazenda, e per Christovam d'Azevedo, Alcayde Mor da Cidade, que sempre nisto foy terceyro e fez nisso muito serviço a Vossa Alteza pera ver se os podia acabar de liar, e por de todo em paz, e concórdia, deixou de se fazer por parte de el rey de Cochim, que he moço, e muy desasose- gado, e a mor parte delle este ser, he hum seu regedor per 769
nome Romão, que eu dezejo de dar algum caminho, per que Vossa Alteza seja servido, porque vou adevinhando que delle, e de seus conselhos, e da muyta liviandade de el rey de Cochim nos haade nacer nelle ainda algum trabalho; eu me fiquo fazendo prestes pera nas oitavas do Natal me partir a acabar de dar remate a estes concertos, e a ver se posso acabar hum negocio, que Joham Pereira capitam de Cran- ganor tem movido sobre as perfillações de El Rey de Cochim, e Cranganor, e o Diampsor, as quaes podendo ser, e acaban- do-as pela via, que se tem comessado a tratar, ey que he hum dos grandes serviços, que se a Vossa Alteza pode nestas partes fazer, e porque isto tudo estaa no aar, e o remate destes negó- cios gardo pera Cochim, nam fallo mais aquy nelles; porque de haa os escrepverey a Vossa Alteza com tudo o que nisso fizer. Noutro capitulo trata Vossa Alteza da garda da Costa do Mallavar, a isto nam tenho que responder; porque o anno passado o fiz largamente, mas torno a lembrar a Vossa Alteza, que nella o serviço Dom Alvaro da Silveira; de ma- neira que he dino de muita merce, e esta agora toda essa Costa tam pacifica, que nem d'uma Almadia tenho neces- sidade pera agardar. Quanto a lembrança, que Vossa Alteza faz dos contratos das naos e o agardecimento, que daa ao Viso Rey Dom Pe- dro, pello que fez da nao do Surdo, em que o Viso Rey Dom Affonso foy, tem Vossa Alteza rezam de ter disso [3 r.] gosto, porque foy muy // arrezoado: eu comprei quaa huma nao pera Vossa Alteza, e posto que pequena, fiz isso, por me dizerem que avia nesse Reyno falta de vassilhas, asy pera estas partes, como pera o Brazil, e Guinee, a compra foy muy barata, e que eu tenho que recebera Vossa Alteza nella pro- veito em sua fazenda; a maneira do contrato remety ao Vedor da Fazenda, pera que dee delia conta a Vossa Alteza na carta que lhe escrever por ser seu cargo. i j o
Per outro capitulo trata Vossa Alteza de agradecer ao Viso Rey, Dom Pedro, o mandar cessar todas as obras, que se faziam a custa de Vossa Fazenda. Eu nam sey quaa ne- nhumas, que mandasse cessar, se nam a Fortaleza de Bardez, que Dom Affonso tinha começada, e a de Mombaça; quando elle isto escreveo a Vossa Alteza, ja na de Bardezes, se nam trabalhava, como agora se nam trabalha; a de Mombaça mandou desfazer per conselho de todos; e eu fuy hum d'elles: Quanto a obra do mosteiro de Sam Domingos, que elle per ventura escrepver a Vossa Alteza, que era a acusta de vossa fazenda, nam me parece que estava bem emfor- mado; porque he tam solicito Frey Diogo de Belmudez Vigário de Sam Domingos, e tam manhoso no aquerir das esmollas, que daa muy pouca oppressão, e se faz muy pouco gasto a acusta de Vossa Alteza na Casa de Guoa; e por me parecer que era muito serviço de Nosso Senhor, e vosso acabar-se hum templo tam sumtuoso, e em que se lhe tanto serviço faz ouve por bem que elles fossem com sua obra a vante dando-lhes o favor necessário pera se acabar, sem por da fazenda de Vossa Alteza mais que algumas acheguas de madeira, e alguns alvitres que elles sollicitam, e reque- rem como so poderey daar a qualquer sol // dado dos que '3 T-1 servem a Vossa Alteza, pedimdo-mos: Vossa Alteza deve de ter muyto gosto em se acabar tal obra; nam tanto pela fabrica, e magestade delia com que também emnobrece muyto a cidade de Goa, como pello muyto fruyto, que fazem muytos religiozos, e pregadores, que nella haa, e se cada dia vam creando. Neste mesmo capitulo trata Vossa Alteza da gardecer ao Viso Rey as amoestações, que de vossa parte fez a todos os fedalgos acerca de nam quererem gastar nada a custa de vossa fazenda; affirmo a Vossa Alteza, que esta foy a cousa que me mais espantou, que outra alguma, porque nem eu, que antão era hum pobre soldado, nem nenhum dos capi- / 7 /
tães, que quaa agora estam, poderaam dizer com verdade, que elle tal amoestaçam nos fizesse da parte de Vossa Alteza, nem da sua; e dizerem a Vossa Alteza que os fidal- gos, e os homens, que vos quaa servem, o podem fazer, sem ser a acusta de vossa fazenda, e sem muitas ajudas delia; quem tal enformaçam daa, bem parece que nunqua andou nesta terra em vosso serviço, e que se nella andou, foy a acusta d'outrem, e nam aa sua. antes haa Vossa Alteza de saber que os fidalgos sam nesta terra tam pobres, e que haja nella tam poucas amizades, empréstimos, e alvitres, que lhe os governadores deem, que de nenhuma maneira vos podem servir sem muitas merçes, que lhes os governadores façam em vosso nome, nem menos esta terra se pode suster sem muytas larguezas, porque com ellas se ganhou, e com ellas se hade sustentar: esta he a verdade, e nam crea Vossa Alteza outra cousa, que lhe diguam. Per outro capitulo agradece Vossa Alteza ao Viso Rey Dom Pedro a maneira, que teve em dar meza as Fidalguos; ella//foy muy boa ordem; mas em todalas cousas haa openiões, e a minha nesta he que em Goa o governador nam hade dar mesa pera elle ser presente ao residir delia, asy porque tem muytos negocios, como por que tendo os fidalguos mesa certa, e mais do governador, não se querem embarcar nas Armadas, o que me parece pello contrairo, sendo o governador fora de Goa, que deve de dar huma aos fidalgos, e outra aos soldados, o que eu agora faço nesta Fortaleza de Baçaim; e asy sou de parecer, que se deve de mandar dar meza aos soldados huma, e outra aos fidalgos em todallas fortalezas fronteiras, em que elles estiverem ser- vindo a Vossa Alteza, e isto nos invernos, o que também diguo por Goa. Quanto ao que Vossa Alteza trata noutro capitulo desta mesma carta da ordem, que se deve ter nos alardos dos sol- dados, e matricola, verdadeiramente afirmo a Vossa Alteza, i y 2
que este he hum dos negocios, a que eu não sey daar vento, nem m'atrevo ainda este anno dizer a Vossa Alteza o que delle entendo, nem o Regimento, que Vossa Alteza manda, que nisso se tenha, como lhe o Viso Rey Dom Pedro escre- veo, me parece possível poder-se gardar, sobre a qual materia tenho encomendado a Manoel Leitão, que quaa serve a Vossa Alteza nisso, e he homem esperto, e de muyto cuy- dado, segundo ate quy parece, que lhes creva seu parecer, e eu também de Cochim o escreverey miudamente a Vossa Alteza, como o entendo. Na matricola andam alguns homens, principalmente Gaspar Lopes, que se elle nam fosse, Vossa Alteza nam poderia ser bem servido, nem ter nella alguma Ordem; he casado, muyto pobre, e tem muitos filhos, e he homem de muyta conciencia; lembre-se Vossa Alteza delle, e faça-lhe alguma merce; também ahy andam outros a saber, Gaspar Vaz, Manoel Rodrigues, e Vicente Fernandes, que todos fazem em seus cargos o que devem com muyto gosto de servir a Vossa Alteza.// Quanto ao arreo que se fez em Bisnaguaa, que Vossa Alteza me manda que se acabe, o anno passado escrevi a Vossa Alteza como era acabado, e como o eu mandara aca- bar, e que por me parecer necessário pera mor perfeiçam de tam riqua obra, hir de qua também a sella da mesma laya, e jaez mandara a Álvara Mendes da parte de Vossa Alteza, que tornasse a Bisnaguaa a fazer huma sella, que ao presente esta quasy acabada, segundo me dizem, a mais estranha cousa do Mundo, espera isso lhe tenha dados quinze mil pardaos, que me o que me elle disse a que esta peça poderia cheguar, pouco mais ou menos, se Vossa Alteza tiver ávido por seu serviço que o eu fique servindo nesta terra, mandarey a Alvaro Mendes na primeira nao com o arreo de todo aca- bado, pera que o entregue a quem Vossa Alteza mandar, e se também Vossa Alteza ouve por seu serviço, que me eu vaa, levarey o mesmo arreo a meu carguo. '73
Quanto ao que Vossa Alteza escreve sobre o estado ecclesiastico, per huma carta per sy respondo a isto; e por isso o nam faço nesta. Quanto ao Esprital, e Misericórdia de Guoa, sam em tudo muy bem providos, como me Vossa Alteza manda, e he rezam, e por minha parte nam havera falta em se sempre asy fazer, nem menos creo que a avera nos homens, que servem estas duas cazas, por que o fazem com muyta deva- çam, e gosto, e Vossa Alteza lhes deve sempre d'escrever, e favorece-llos, com cartas e merces, por que folguem elles de hir sempre acrescentando no serviço e vontade a obra que nisso fazem. Num capitulo desta mesma Carta trata Vossa Alteza dos Dezembargadores desta Relaçam; ja que o anno passado escrevy a Vossa Alteza o que entendia delles, parece que também este devo de dar alguma conta do que mais fui entendendo delles. Nesta caza da Relaçam haa tres homens, de quem se Vossa Alteza pode servir, e irey per sy dizendo a confiança, que de cada hum Vossa Alteza deve fazer; de t'r] Anrique laques //Ouvidor Geral, dever Vossa Alteza fazer muyta conta, porque de dez annos, que haa, que sirvo a Vossa Alteza nesta terra, nam nella homem mais inteiro em seu cargo, nem tanto como elle, e nam sou eu so nesta opi- niam, mas he de todo o povo geralmente: Francisco Alvares sempre o achei tam inteyro como o anno passado escrevy a Vossa Alteza; de Gonçalo Lourenço não tenho outra cousa que escrever senão o que o anno passado também escrevy a Vossa Alteza nam ter outra, que lhe nesta terra faça nojo senam ser muyto aparentado, nam que por parentes lhe eu sinta trocer justiça; destes tres homens deve Vossa Alteza fazer muyta conta, e ter delles lembrança pera lhes fazer merce, dos quaes somente quis dizer em particular, pello que delles sey, e o povo apreguoa; dos mais seraam elles pera servir a Vossa Alteza la a sua sombra, e pello serviço *74
de qua tem merecido merce, e Vossa Alteza lha deve fazer. De Quintino Martins não poderey deichar de dizer a Vossa Alteza, que o que ate agora mostra, he inteiro na justiça, mas tam escandaloso no requerer delia com este cargo, que lhe Vossa Alteza mandou, que ey que nelle nam he pera servir a Vossa Alteza; elle me fez huma lembrança tam dezentoada, e desacustumada aos governadores, que nam pude deixar de lhe responder algum tanto agastado; e por- que elle nam escreva a Vossa Alteza, e faça alguma poeyra, onde nam haa, sayba Vossa Alteza, que se mereço castigo, he pello nam castiguar muy asperamente pello atrevimento que tomou, e o modo que teve de mo fazer. Ao Secretario, e ao Veedor da Fazenda, e a Gonçalo Lourenço, Chanceller Mor, mandey que escrevessem a Vossa Alteza o que nisso passou, porque eram a tudo presentes, e Vossa Alteza haa por bem que o eu fique servindo nesta terra, muy gram merce receberey entenderem os vossos officiaes que nam haa Vossa Alteza por bem que elles sejam tam soltos diante dos seus governadores, e mais que fazem tanto o que devem, como eu, e quer eu fique quaa, quer nam, entendo que con- vém saberem elles esto de Vossa Alteza pera o acatamento deste Eestado. // Pois trato da Justiça, parece que devo também tratar dalgumas sentenças, que se quaa deram em meu tempo, e de quam bem se corre com o despacho delia, e quam inteira se faz geralmente a todos nesta Relaçam, e disto crea Vossa Alteza que tenho especial cuidado. Dom Antonio de Noronha foy sentenciado nesta Rela- çam que fosse degradado quatro annos pera Dio, e que paguasse tantos mil cruzados a molher e herdeiros de Gas- par Jorge, Ouvidor Geral que quaa foy, pella culpa que teve em prender ao dito Gaspar Jorge fora de tempo, e per modo de omem, que nam entendia a justiça; a qual sentença confesso a Vossa Alteza, que se deu contra minha vontade, '75
e do meu parecer foram os licenceados Anrique laques e Ieronimo Rodrigues por que D. Antonio de Noronha pella sua rezidencia, e pello que tenho sabido, sérvio a Vossa 'Alteza muyto bem naquella Fortaleza, e em seu tempo acrecentou suas rendas da alfandegua, cousa que todos dimi- nuíram, nam tomou a ninguém o seu; fez justiça inteira aas partes; teve a terra pacifica, e quieta, nam sey mais bens que se possam dizer de um capitam, que tam afastado, estaa do seu Governador, quando muytos dos que estam a sua som- bra, fazem isto pello contrario, e deram esta sentença os Dezembargadores, confessando todos merecer Gaspar Iorge muy graves castiguos, pello que fez naquella terra e que se o prendera Dom Antonio na ramada, donde elle tratou fazer alevantamentos, e tomar a menagem ao capitam da terra fora muyto bem preso, e acertara Dom Antonio nisso muyto: Não quero dar a Vossa Alteza mais desculpas por Dom Antonio; porque temo que me castigue, e dee muyta culpa em deixar dar contra elle tal sentença; a restauraçam de tamanha perda como recebeo em lhe tirarem sua forta- leza, estaa nas mãos de Vossa Alteza como tudo o mais, seus serviços, e o que merece nesta terra estam muy sabidos, e muy craros; muy gram merce receberey de Vossa Alteza, se elle ouver de ter remiçam pera poder tornar entrar na [Sr.] sua fortaleza, ser eu parte em o merecer//pois o também fuy na sua condenaçam, eu lhe perdoey os quatro annos, que tinha pera Dio, avendo que fazia mais serviço a Vossa Alteza em andar gastando o seu com os soldados, e embar- cações, e acompanhando este Estado. Francisco de Saa, capitam que foy de Bacaim, foy tam- bém condenado, e degradado por tantos annos pera Africa, como Vossa Alteza veraa pelo treslado da sentença, que lhe la vay; a qual sentença foy dada contra elle per culpas, que nos capitães de Baçaim atee o seu tempo foram tam geraes, e certas em todos, que eu, que cuido ter servido bem a Vossa 176
Alteza, em quanto nelle fuy capitam, também em parte delias pudera ser comprendido: E por ser elle o primeiro, em que se estas culpas castigaram pareceu-me rezam, avendo respeito a seus serviços nesta terra de vinte tres annos, e a sua velhice, e cegueira, e a saber de certeza hir muito pobre, perdoar-lhe, em nome de Vossa Alteza, o degredo, e quytar- -Ihe a pena em que foy condenado, offerecendo-me, a não no avendo Vossa Alteza por bem, pagua-lo de meus orde- nados, e fazenda, mas eu confio, que sabendo Vossa Alteza dos serviços de Francisco de Saa, e vendo sua velhice, e pobreza, havera que lhe fiz nisso serviço. Qua se deu outra sentença contra os fiadores e herdeiros de hum Lucas de Saa, da casta dos principaes Bramenes de Guoa, que se qua tornou christão, sobre quem Vossa Alteza tem escrito aos Governadores, emcomendando-lhes muitas vezes que lhe fizessem merce e honrra em seu nome, na qual sentença eu tenho algum tanto a conciencia pejada pelo que disso sey, e pello que vy que trabalharam os Dezembar- gadores sobre acharem a justiça a Vossa Alteza, e quam tra- balhozamente a descobriram, porque em tempo do Viso Rey Dom Affonso e lecenciado Gonçalo Lourenço, e o lecen- ciado Francisco Alvares, e o lecenciado Agustinho Fernan- des, e o lecenciado Andre de Mendanha, e o lecenciado Christovam Fernandes todos perante o dito Viso Rey, e Simão Ferreira, que era presente com Pedro Soares, Pro- curador dos Feitos de Vossa Alteza, que confessava terem nisso rezam; os quaes foram todos contra Vossa Alteza; somente //o lecenciado Manoel Mergulham foy o seu voto [6v.j por parte de Vossa Alteza, e bradou tanto, e cramou tanto que não ousou o Viso Rey Dom Affonso mandar-lhe poor a sentença: E aguora em meu tempo; porque dezejo que corram os feitos, e não estejão em mortorio, se deo, como atras diguo, a sentença, em que ouve muytos votos contrai- ros huns dos outros, todavia foram os mais por Vossa Alteza, / 77 DOC. PADROADO, VI 12
da qual sentença mandey que fosse o treslado a esse Reyno pêra que Vossa Alteza a veja, e mande nisso o que mais for ser serviço; importa vinte e tantos mil pardaos, os fiadores sam todos homens de serviço, e honrados, e muyto pobres; a mim per descarreguo de minha conciencia, e por serviço de Deus, e de Vossa Alteza, me parece que deve Vossa Alteza mandar que se tome a estes fiadores em soldos seus, e de amiguos, que livremente lhos derem sem algum interece, a terça parte desta sentença, e as duas partes lhes devem de quitar, e pode-se Vossa Alteza mandar emformar neste nego- cio, de Dom Affonso de Noronha Viso Rey, que quaa foy, e de Symão Ferreira, e do lecenciado Andre de Mendanha, e elles diraam a Vossa Alteza, se disso tiverem lembrança, que o que lhe eu escrevo passa na verdade. Quanto ao aver Vossa Alteza por bem, que se dee aos mercador da pimenta, o cobre, como estava em costume, parece que de força convinha pera bem da compra delia, ser asy; e o parecer, e determinaçam, que Vossa Alteza nisso tomou, e o que manda que se nisso faça, he o que cumpre a vosso serviço, e bem da carregua, e outra cousa não: Mas quanto ao que mais neste capitulo Vossa Alteza responde ao Viso Rey, que Deus aja, que fora em feito tolher os portos, per onde este cobre podia hir pera Combaya, cuidar o Viso Rey que os tinha tolhidos, era maa emformaçam, e pouca experiência desta terra, porque como quer que os seus Pagueis, que sam tantos em numero, nam podem ser todos buscados, nem se buscam, podem-no levar todo per lastro [7 r.] sem aver // quem a isso vaa a mão, nem pode ser, quando quer que se este cobre tolher pera Cambaya, leva-lo-am pella terra dentro, caminho de Bisnaguaa, e do Idelcam, e Nisa- malluquo, que sam partes onde se elle também gasta, e nisto nam tenha Vossa Alteza nenhum escrúpulo; e mais he tanto o cobre, que vem pelo Eestreito a Cambaya, que ne- nhuma falta tem delle, nem necessidade do nosso, e a prova 778
•disto he, que trazendo agora comiguo em minha companhia algum pouco pera me ajudar delle pera a carregua da pimenta, de nenhuma maneira achey delle venda, senam mandando-o deitar quaze por força aos Baneanes de Dio pera se bater em moeda no mesmo Dio. No mesmo capitulo trata Vossa Alteza de se lhe nam levantar o presso aa pimenta na Costa do Mallavar; parece que Vossa Alteza tem nisso o verdadeiro parecer, e eu asy o farey em quanto governar esta terra; o mesmo também no gingibre, posto que andou ate gora muy dezordenado pelas licenças que se davam pera se fazerem baares a homens, que os avião dos Governadores; e asy também as quintal- ladas dos bombardeiros, que tudo se fazia per provizam de fora, em que lhes davam licença que os podessem fazer em qualquer parte, que os achasse, nam sendo per mão do feitor de Vossa Alteza, cousa muy prejudicial a vosso ser- viço, e fazenda; isto he tornado aa sua ordem, e com ajuda de Nosso Senhor correraa sempre asy, e no gingibre, que este anno vay, emxergaraa Vossa Alteza o proveito, que nisso recebe. Também trata neste mesmo capitulo de serem favore- cidos os mercadores da pimenta; o anno passado escrevy a Vossa Alteza quam necessário me parecia todo o favor e honra, que se lhes nisso fizesse, e asy lho mando fazer; e com minha ida aa Cochim, que de força haade ser este anno, posto que não tam // de pressa, como pello sumario da pri- U *1 meira via, escrevi a Vossa Alteza: deixarei dado ordem com que elles fiquem favorecidos, a satisfeitos das honras e mer- ces, que se lhes fizerem em nome de Vossa Alteza; e asy deixarey também dado ordem pera a carregua do anno que vem, pera a qual de força me Vossa Alteza deve mandar acudir com cabedal pera trinta mil quintaes de pimenta, fazendo também conta que o gingibre, que a casa pede, haa mister também cabedal pera se comprar, e asy pera as dro- '79
gas, que me Vossa Alteza escreve, que sam necessárias pêra o contrato, que la tem feito delias, e conforme a todas estas cousas que se lhe haa de mandar, me pode Vossa Alteza acudir com cabedal. E asy mais me deve dacudir com o cobre que o Viso Rey, que Deus aja, mandava pedir, que sam seis mil quin- taes, porque vou poondo em ordem de correr a Casa da Fundição, como de feito corre des que governo, com se fazer sempre muita artelharia como pelo sumario que laa he escrevy a Vossa Alteza, e porque eu, com ajuda de Nosso Senhor, comesso também hum galiam pêra força da Armada da India, que vay imitando o que Vossa Alteza, segundo dizem, tem mandado fazer, e o determino de artelhar com artelharia feita também per meu mandado, sem nisso entrai nenhuma peça das desse Reyno, nem destas partes, me pareceo necessário pedir a Vossa Alteza a quantidade de cobre, que o Viso Rey tinha pedido. E pois falley na artelharia, lembro a Vossa Alteza quam necessária he mandar desse Reyno artilharia grossa, a saber, esperas, pedreiros, leões, aguias, e isto pêra as fortalezas, e as esperas pera os galeões, do que quaa haa muyta falta; deve Vossa Alteza de mandar niso prover com brevidade. E pois tratey da necessidade que a armada tem de arte- [s r ] lharia, hirey proseguindo o que pera ella he // mais neces- sário, que sam marinheiros portuguezes, e bombardeiros, destas duas cousas haa qua tamanha falta, que certefiquo a Vossa Alteza que por nenhuma outra arreceo de se deixar de fazer a Armada, senam per esta, e convém que Vossa Alteza mande prover disto loguo. Haa também muita falta de ancoras de galiões da grandura, que na carta dos alma- zens se pede e asy de todalas mais cousas miúdas, que por irem na mesma carta, as não torno aqui a nomear. Per outro capitulo trata Vossa Alteza de lhe parecer bem que o Viso Rey Dom Pedro determinava fazer e assentar i 8 o
sobre a contrafaçam das pazes de Baçoraa com nosquo, eu sou do mesmo parecer, que mandando o Turco Formão ao Baxaa de Baçoraa, e sendo as condições das pazes taes, que se lhes devem conceder, e nenhum inconveniente acho isso, posto que ha ca muytos pareceres em contrario, e tenho res- pondido o anno passado, e cuido que escrito a Vossa Alteza isto, e a huns judeus d'Ormus, a quem veeram humas cartas do mesmo Baxaa, em que tratava as pazes; ou apalpar per elles se consenteria nellas, que trouxessem Formão do Turco largo, e muy autentico, e que entam falassem, elles respon- deriam; tenho pera my, que nesta monção grande me viraa algum recado e do que sobre isso se assentar escreverey a Vossa Alteza. Quanto a armada que o Viso Rey escreveo a Vossa Al- teza, segundo parece per hum capitulo desta carta, que tinha mandado fazer prestes pellas novas das gales dos Turcos, seria essa a sua tenção, porque como ja escrevy a Vossa Alteza, quando socedy nesta governança nam achey nella outra nenhuma armada, se nam formas, em nome de naos, que em bolindo com ellas, se desfaziam de podres; o que pelo contrario, louvado Nosso Senhor, posso este anno escre- ver a Vossa Alteza, que tem a mais formosa armada, que nunqua este Estado em nenhum tempo teve, como vera pellas // certidões, que mando de seus officiaes. [8 *.] Neste mesmo capitulo tratava Vossa Alteza do Padre Mestre Gonçalo, e catures, que o levaram ao Preste; porque noutra carta tratarey larguo da armada, que mando ao Preste e das cousas daquella terra, nam direy sobre isso mais. Per outro capitulo, em Vossa Alteza trata de lhe parecer bem o numero das galees, que o Viso Rey Dom Pedro orde- nava fazer, como de feito tinha mandado lavrar madeira pera huma, ou duas, tem Vossa Alteza rezam d aprovar o pa- recer do Viso Rey por bem, no qual eu também sou, porque sam muy necessárias, não porque me pareça que nam basta / 8 /
a armada grossa da India pera pelejar, ou no Estreito, ou em qualquer outra parte com toda a armada do Turco e a desbaratar somente, porque nam poderemos pelejar com ella, se se nos acolher em qualquer rio destes nossos, e se nos fizer sorte nelle, ou em outro algum; e pera isto sam necessários de vinte gallees pera cima pera força dianteira das galiotas, e fustalha, e navios de partes, que podem entrar nos taes rios, pela qual rezam renovey todalas galees dos Turcos que de todo achey podres, pelo Viso Rey, que Deus aja, as ter no Mar todo o seu tempo, e o rio de Guoa ser tam danado do busano, que afirmo a Vossa Alteza que em nenhuma maneira lhe podemos achar remedio; e asy man- dey também renovar de novo todalas outras galees, e se fizeram mais de novo tres galees sotis pela forma das do Turco, e corto madeira nesta fortaleza de Baçaim, e Chaul pera se fazerem tres, ou quatro: as feitas, e renovadas sam desasete, e com as que se fazem, perfazem numero de vinte galees; pera estas se haa mister, remolarios e muytos remos, mande Vossa Alteza que me provejam disso; e de comitres estrangeiros, // que estes de quaa, crea Vossa Alteza, que nenhum presta pera nada, se nam hum loam Maria, que o Viso Rey Dom Pedro trouxe. Quanto ao que o Viso Rey escreveo a Vossa Alteza, que entendia ser vosso serviço arrendarem-se as viagens, e a fortaleza de Sofalla por no mesmo arrendamento se satisfa- zerem as pessoas, que delias fossem providas de huma certa quantidade de dinheiro cada anno nos mesmos contratadores, esta he huma pratica quaa muy uzada, e praticada de todos geralmente; digo dos officiaes de Vossa Alteza e a que não vay tanto em ter Vossa Alteza homens nesta terra, que o sirvam e cousas com que os haja de satisfazer, porque lem- brando elles isto nam tratariam de proveitos, que crara- mente pelo tempo em diante trazem muy grandes perdas, pera a segurança desta terra; pela qual meu parecer neste i 8 2
negocio he que nenhuma destas viagens se arrende, somente se possa fazer contrato com os mesmos capitães delias pro- vidos, de darem huma certa quantidade de baares, asy como eu hora estou em conserto com Dom Iorge de Eça, que pêra Maluco vay este anno, em que se me obrigue a poor a tal quantidade, per que com el me concertar dentro em Guoa aa sua custa. E porque nam estou ainda de todo concertado, nem o contrato, que com elle faço, he de todo serrado, o nam escrevo a Vossa Alteza, somente me resolvo que quanto aas viagens de Banda e Maluco, quer com contrato, quer sem elle, Vossa Alteza as nam deve mandar arrendar, pella rezam que lhe escrevo na carta, em que trato do contrato das droguas. Quanto aa viagem de Choramandel, Ceilão, Peguu, nam deve Vossa Alteza de querer que se arrendem, porque de força haa de ter que dar aos homens nesta terra, que inda que de vossos almazens e fazenda se gaste alguma cousa de necessidade, haa Vossa Alteza de satisfazer aos homens, e nam sey que melhor satisfaçam lhes pode dar que aquella que Vossa fazenda nam sente nesse Reyno. Quanto a Soffalla, confesso a Vossa Alteza que me parece muyta rezam // dar-se algum talho pera que ella de 9v alguma cousa de sy, tendo tanto que dar; mas vendo que tem Vossa Alteza provido delia homens de merecimentos, que a aceptaram com as condições que todollos outros, parece que ate estes homens nam serem per hy satisfeitos, Vossa Alteza nam deve bolir com ella, salvo com lhes mandar loguo desse Reyno outras equivalentes, e nisto também deixo de me determinar, pois laa he Gaspar Luiz de Veigua, de que lhe escrevy, que daria a Vossa Alteza larga informa- çam de todos estes negocios, e por me parecer também que teraa Vossa Alteza provido nisso. Quanto ao que o Viso Rey Dom Pedro escreveo a Vossa Alteza, que tinha arrendado Malaqua, elle começou de ten- ,83
tar isso, e da maneira que elle concedia as condições aos rendeiros, baixo era o lanço, que escreveo a Vossa Alteza, que nella lançavam, e eu me afirmo, que com as condições, que o Viso Rey concedia, faça com pouco trabalho dar a Vossa Alteza por ella cem mil pardaos; Mas segundo o que parece, e assento que sobre isso tenho tomado com theo- logos, Vossa Alteza o nam deve mandar, nem seus governa- dores consentir sem seu especial mandado, porque com con- ciencia o nam pode fazer; e quanto ao que toca a bem da fazenda de Vossa Alteza, direy eu, porque o entendo. Se se Malaqua arrendara com as condições que o Viso Rey dava, as quaes eram estas: que ninguém podesse naveguar pera aquellas partes, a saber: Timor, Patane, Peguu. Çunda, China, Sião, Iapam, e todas as mais parte do Sul, sem licença asynada pelos rendeiros, e se se lhes concedera mais que toda a pimenta, calaym, ouro de Monancabo, e outras certas fazendas se tomassem as partes per hum certo preço, e que ninguém tratasse nellas senam os mesmos Rendeiros com todas as mais liberdades, que lhes o Viso Rey dava, per que elles ficavam como governadores daquellas partes se isto asy passara, e o Viso Rey com isso fora avante, lançava de todo a perder estas partes quaa, e a mesma terra laa, porque a [,0r-] ella// nam ouvera de ir nenhum mercador, nem naos, nem fazendas, senam de tudo pela mão dos rendeiros, e como isto asy he, veja Vossa Alteza que rendimento teriam as suas Alfandeguas, e os homens como poderiam viver. Resultavam também daqui outros gastos, e obrigações muyto mores a vossa fazenda, e Estado, que era que tanto que Mal- laqua se assy arrendasse pela falta dos Mercadores, que nella residem, e per quem se ella segura, e defende, era necessário residirem sempre quinhentos soldados nella, que paguos seus quartéis sam vinte mil pardaos cada anno, e pera suster as mesas em terra tam cara, e mal provida de mantimentos principalmente emtam, que laa nam fossem naaos, avia 184
mister outra gram copia de dinheiro, e ficavam asy os pro- veitos do arrendamento em perdas do povo, e risco da for- taleza, e o peor encarregando seus governadores, athe o Vossa Alteza saber suas conciencias em o consentir; e por- que também na verdade o Viso Rey nem foy com isto ao cabo, por seus confessores lhe irem aa mão, e por ir enten- dendo que deserviços de Vossa Alteza este negocio trazia; nam arrendou, mas mandou Affonso Gentil por Vedor da Fazenda, e que usasse estes tratos em nome de Vossa nam tam largos como os dava aos rendeiros; o qual Affonso Gentil faleceo dahy a poucos dias, que foy a Malaqua, e a ora da sua morte o nam bsolveram sem tornar o que nisso tinha ganhado; e eu por entender quam grossa cousa he Mallaqua, e poder dar algum tallo, per que a fazenda de Vossa Alteza recebesse algum proveito, segurando porem a conciencia, mandey laa o anno passado Fernam Gomes, criado de muyto tempo de Vossa Alteza, e de muytos ser- viços nesta terra, homem hábil, e de muyta conciencia, e experiência das fazendas, e cousas daquellas partes, por Veedor da Fazenda de Mallaqua, com apontamentos meus daquellas cousas, que entendy, que me convinha saber, pêra a poder arrendar per outra via, e nam pel la que o Viso Rey levara, porque nunqua por aquella me pareceo vosso serviço, e assy lho tinha dito muytas vezes; e sem//as condições [i°"l do Viso Rey me davam este anno por ella quarenta mil pardaos; e eu por esperar pellas emformações do Veedor da Fazenda, que agora com ajuda de Deus viraam, a nam arrendey, porque com ellas espero que me cheguem a sessenta mil pardaos, sem as condições do Viso Rey, como digo; e do que sobre isto assentar escreverey a Vossa Alteza, porque segundo as que tive este anno passado, Mallaqua chegou a cincoenta mil pardaos em tempo de Dom Antonio, e nisso tenho sabido que foy elle muyta parte, e como as naaos de Mallaqua embora chegarem, escreverey a Vossa Alteza mais / 85
larguo o que disso tenho entendido. Com esta mando tam- bém hum regimento, per que Vossa Alteza pode ver, quanto tempo haa que se avia por vosso deserviço tomare-se todo o trato aos mercadores, e como nam pode ser. Martim Affonso de Sousa, Governador que foy destas partes, quando poos os direitos da Alfandegua de Mallaqua, defendeo que se nam usassem destes costumes, que estavam em lugar de direitos, e os levava ao senhor da terra, porque dois dereitos numa alfandegua, hum per costume de mouros, e outro por nosso direito acostumado, mal se podem compadecer; e se se con- sentirem hum, e dous annos, pelos outros em diante se per- deraa a terra, e trato delia; e do mesmo Martim Affonso de Sousa pode Vossa Alteza saber se pode levar o Bully Bullião que he o nome destes dereitos, que se em Mallaqua pagavam juntamente com os direitos, que elle poos na Alfandegua. Per hum capitulo desta mesma Carta trata Vossa Alteza do gingibre, e dos pregões, e defezas, que niso poos; nam haa quaa cousa das que convém a vosso serviço defende- rem-se, que nam seja defeza, ou per provizões de Vossa Alteza, ou per mandados de seus governadores, mas nam estaa nisso somente, senam em serem bem gardadas as leys, e defesas sobre isso feitas; e crea Vossa Alteza, que nisso trago agora grande resgardo, e no que mais posso, e me t" ro pareceo que cumpre a vosso//serviço defender-se. Neste mesmo capitulo trata Vossa Alteza de Francisco Nunes, que quaa estaa por Feitor do gingibre, e per que rezam o exemio de todollos capitães e officiaes de Vossa Alteza pera mais livremente poder fazer vosso serviço no dito cargo; as emformações que nisso deram a Vossa Alteza, forão boas, mas o negocio nam correo Francisco Nunes com elle, conforme ao a que vinha, e compria, a bem de vosso serviço no mesmo negocio do gingibre, porque quis ser fei- tor de todollos mais negocios, que naquellas partes se faziam, que era a pimenta, e outras cousas, que nam convinham a / 8 6
seu carguo; de que naceo fazer tam mal o negocio do gingi- bre, que tudo foram briguas, e deferenças com o capitão de Cananor, e com o ouvidor, e feitor, e sam passados mais instrumentos de parte a parte do que elle tem feito de quin- taes de gingibre. E a verdade deste negocio he, que Francisco Nunes nam he pera isso, nem Vossa Alteza deve de enco- mendar este negocio mais per esta via, e a prova disso he, que Francisco Nunes em dous annos, que feitorizou o gin- gibre em Cananor fez a quantidade que Vossa Alteza laa saberaa pelas certidões do Vedor da Fazenda. Todo o mais fez Dom Iorge de Castro, a quem Vossa Alteza deve a cargua delle, e a sy d alguma pimenta, que se em Challe, e em Callecut fez; ao qual Dom Iorge he Vossa Alteza em muytas obrigações, e por descarguo de minha conciencia diguo a Vossa Alteza que lhe deve fazer merçe, e que lha merece, que quanto a ter challe, nam tem disso nenhum proveito, se nam o de servir a Vossa Alteza nas pazes do Malavar, e na cargua de pimenta contanto cuidado, e amor, que nam sey eu quaa quem lhe nisso faça ventagem. E quanto a Fran- cisco Nunes, nesta minha viagem do Malavar, em que ora vou pera Cochim, tornarey sobre isso assento, e per my mesmo me conformarey de como serve a Vossa Alteza, e a rezão por que não faz sua fazenda posto que a emformaçam diso eu a tenho tomado haa muytos dias. // E quanto he ao mais desta carta, em que Vossa Alteza [>' V-J trata de algumas cousas de Ceilão, e lembranças de alguns fidalgos, que o quaa servem, por que noutra carta escrevo de todo isto a Vossa Alteza largamente, o deixo de fazer nesta. Nosso Senhor a vida, e Real Estado de Vossa Alteza acrecente, e prospere muytos annos. De Baçaim, a seis de ' Janeiro, de mil e quinhentos cincoenta e sete annos. Francisco Barreto. / 8 7
27 CARTA DO PADRE DOM GONÇALO PARA O PADRE GONÇALO VAZ Cochim, Janeiro de 1557 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fls. 49 v. -34r. (1) A saude com que todos ficamos neste mundo de Por- tugal tão estranho e as forças que trouxemos pello oceano que remanos e a consolação com que todos aportamos a Moçambique e chegamos a índia todos junctos, vivos e sãos, estas todas dee Nosso Senhor a Vossa Reverencia, sem as imperfeições que nestas graças da parte dos sojeitos e condi- ções corporaes avia e em Vossa Reverencia seião sempre dobradas e melhores. Amen. Estou tão enfadado e quebradas as mãos de fa2er cartas de negocios que para fazer esta, que soo fiz de coração, me foi necessário aiudar-me de mão alhea, porque se com a minha poderá escrever a Vossa Reverencia, sem atar as entranhas que para Vossa Reverencia sempre tive inatas e agora as ei mester mais soltas para pagar o tributo de amor santo que a Vossa Reverencia devo tão tarde e de tão longe. Por isso, Vossa Reverencia, posto que a mão não escreva, crea sem duvida nenhuma que a alma e o corpo nelle se occupa; a alma imaginando como se lhe poderá declarar e o corpo soffrendo, não podendo escusar esta carta. E o que tem muyta efficacia para me consolar e saber de Vossa Reve- rencia que nada disto he necessário jurar-lho. Deixando a recordação da navegação que fizemos desse (1) BACIL: Cartas do Japão, Vol. II, fl. 25 r. -29r. 188
para este outro mundo, porque assi como a morte não a pinta senão quem morre, nem se pode ser pintada senão vendo quem esta morrendo, assi o trago que passão os que navegam de Portugal a índia, não o pode contar senão quem o passa nem o pode entender senão quem o ve passar. E assi, como os homens que primeira vez se viram na hora da morte, lhes parece que nunqua ouviram fallar nella, assi quem se vio em aquelles golfãos não lhe alembrava cousa que lhe tivessem dito da verdade e terror presente, e sua, que passada, nem bem imaginar se pode. Assi, e sem mais nem menos, a angustia e agonia em que se vem os pas- sa jeiros desde (2) occidente ao oriente, em que estamos os que nos vemos fora dela (ainda que o trabalhemos) nunqua a podemos vivamente representar comnosco mesmos, quanto mais pintar sem errar o mais a quem esta em Portugal e em Lisboa e tão seguro de navegar senão for em baregatim de Lisboa para Almada. Nunqua se virão suores de morte como os que se suão na costa da Guine. Nunqua se virão membros frios como os que cortão os ventos de Boa Esperança. Nunqua se virão l49"* desmaios mortaes, como os que se passão nos balanços que as naos fazem neste cabo. Nunqua se virão dar golpes na vida, como as machadadas que dão os mares neste cabo. Nunqua se viram termos de morte e tão pranteados, como trazem consigo os pes de ventos que fuzilam neste cabo. Nunca se vio morrer homem cercado de termores e saudades do que neste mundo deixa e no outro se spera, como os que se vem nesta carreira, vendo muytos mortos e lançados ao mar e todos os outros, antre os quaes ficam velhos ainda para morrer de fome, de sede, de doenças gravíssimas e de perigos do mar innumeraveis, de baxos, de penedos, de cos- (2) BACIL: desse I 8 C}
tas, de encontros de naos e de sorvo de mares. Vossa Reve- rencia imagine como se pode escapar a morte que spera a tantos portos quantos palmos ha de Portugal a índia. De modo que se pode dizer que tantas vezes morrem os que fazem esta viajem, quantos pontos de morte vem claramente que ande passar, tendo tão provado ficar em algum delles. Não he nada senão que os phisicos, que são para consolar, digo os pilotos que governão as naos, dizem-vos que vedes a Ascenção, vedes as ilhas delia, senão quando, a cento e cincoenta legoas, vos tornam a dizer que não eram as ilhas da Ascenção, senão as de Martym Vaaz. Olhai que compa- ração de Asensão, que meteo a Dios no paraíso, para as ilhas de Martin Vaaz, desertas, que não sei se o metterão no fundo; ao menos, dizem que lhe pesou de as ter vistas. Diziam os medicos da nossa nao que o erro destas sangrias ou sangraduras não lhes enleariam mais de cento e cincoenta legoas. O fisico mor da capitania, digo o seu piloto, por consolar ao nosso e a nos, dizia, se me mal não alembra, que a sua nao lhe furtara duzentas legoas ou mais. Não he nada, senão que yam dereitas por linha ao porto que governavam e, dahi a pouco spaço, huns nos achavamos caminho de Congo, aonde foi ter a naao Framenga, outros, amanhecia- -lhes a terra do Natal, aonde diz que he o adro das naaos que se perdem. Outros, avendo-se de achegar para Moçam- bique, que esta bem vezinha dos calores da linha, yão dar consigo pouco menos do pollo. Finalmente, padre meu, que os temores que sobrevem nesta viajem, do que a morte des- cobre do outro mundo, parece-me que são tão próprios deste ti50 r.] mar que nelle ou em outro // tal comtemplava quem disse: dolor es inferni circundederunt me, et torrentes iniquitatis conturbaverunt me. E por tão averiguado tem os pilotos ser sem remedio o perigo desta viagem que todos tem por afo- rismo que as naaos de Portugal para a India e da índia para Portugal, Deos as leva e Deos as traz. E assi he verdadeira- ; 90
mente que posto que a diligentia humana sempre lhe Deos deixa seu lugar, porem, neste governo desta viagem, special- mente, parece que os olhos e mãos de Deos soomente bastão. Emfiarei o melhor que puder o processo e discurso que tive, depois que na naao sai em Goa, ate este ponto, que estou em Cochim, screvendo a derradeira carta para Vossa Reverencia; antes de entrarmos na barra de Goa, me desem- barquei da naao em hum catur do senhor governador o qual ia a esperar as naaos do reino; neste catur me desembarquei e meti-me soo nelle, deixando os companheiros na naao e asi furtei a benção ao padre Patriarcha e bispo e assi ao padre Francisco Roiz e aos mais padres e irmãos, indo-me diante, sem o elles saberem, a meter-me no nosso collegio de São Paulo de Goa, ao qual cheguei bem de noite. E bati tão descançado, como se chegara de Sancto Antão a porta de São Roche. Fiz-me peregrino, pedindo se averia ay pou- sada para um caminhante, emfim não me abriram senão por mensageiro de Sancto Antão. Eu em casa e o Padre Antonio de Quadros que, nos hia a receber a todos, andava pelo rio; assi que lhe furtei a volta. Isto hera hum sabbado, em que o Padre Melchior Carneiro se negoceava para pregar ao domingo. Como me teve em casa descarregou o sermão sobre mim e eu, como vinha ainda mal acustumado de Lisboa, e porque tãobem elle estava antão por superior, nem soube nem me pude negar. Preguei posto que enjoado e dahi para diante continuei o officio. Por la somana o meu confessar ordinário, que la tinha, se me tornou em negocear muytos negotios que se offereciam. Devotas de confissão, não ha qua tempo para as criar, porque ellas em toda a terra se dão; devotos, também ate agora, não os pude ter na pre- gação, mas de soldados ainda as devoções, parecem motins. A continuação que la se tem com as cadeiras para a confissão essa, e muyto mais frequente, tiverão os soldados destas partes, para despachar petições e fallar em negocios de que 1 9 1
la sempre fugíamos, pelas circunstancias da terra pedirem outra cousa e os padres estarem qua, ha muyto tempo, nesse [so v.] foro e por ser reinol (como eles qua chamão) // que quer dizer vindo do reino novo, e não lhes parecer tão verde e duro lhes dei a trella algum tanto e a seu parecer com não pouco serviço de Deos, consolação e edificação da gente e he verdade que, pella graça de Nosso Senhor e pella bonís- sima condição do senhor governador, muitas esmolas se fize- rão, alguns perdões que paredão arezoados e importantes e salvação das almas, se ouverão e, por esta via, muytas pes- soas de serviço e merecimento se aiudarão; assi para os padres como para a cristandade concedeo Sua Senhoria não pequenas merces e favores. De quando em quando posso ouvir algumas confissões e as ouço; concelhos se offerecem muytos para responder e, indo-se o senhor governador para Baçaim, que sam de Goa "" setenta e tantas legoas, eu me parti em a armada e quis Deos que acertei logo a fusta de Dom Francisco Mascarenhas, filho do boom capitão dos ginetes que Deos tem na gloria. Elie me levava mais a minha vontade que o senhor gover- nador, (a modo de fallar) porque a armada ia de vagar e esperando por sua senhoria e Dom Francisco punha-me em terra, cada vez que eu queria. Deixo o refrigério, que hera tomar homem agoa fria desenjoar na praia e escapar das calmas da fusta a sombras muy frescas. Mas hia homem triunphando do diabo e seu cetro, porque a terra que toma- mos era de mouros e gentios e o que ei medo que mate a Vossa Reverencia de enveia que nos achavamos seis, dez fustas e todos os soldados apontados de suas cores e vestidos muy appostos, honrrados, nobres, aiuntavamo-nos todos na praia; eu a lhes pregar e elles a ouvir e acertou logo de ser o evangelho das bem aventuranças do domingo da oitava dos Santos. Os bancos erão as pedras e o pulpeto hum penedo no meio delias, senão quando, no meio do sermão, vem hum 192
catur muy apressado em que passava o senhor governador; alguns dos que vierão se lhes foram as embarcações e elle ficarão; enfim, todos seguraram o sermão ate o cabo. Parecia neste golfo como os que acontecião polia ribeira de Thibe- rias e na praia do Jordão. Antes que o governador chegasse a Chaul, que he no caminho de // Baçaim, se adiantou C51 Dom Francisco comigo e me pos antemenha laa com hum irmão. Fui-me a entregar a posse ao hospital, porque os padres dominicos que naquella cidade tem casa e estavão em posse de agasalhar os padres e irmãos da Companhia que por hi passavam, e porque me achassem ja no hospital, e asi me podesse escusar, me antecipei, tendo despedido hum irmão para Thanaa. Estava soo, rezando em o hospital, quando vem o provedor, que he hum homem muy honrrado, perguntar-me a mim por mim mesmo, dizendo se vinha ali Mestre Gonçallo ou Dom Gonçalo ou frei Gonçalo. Não soube nada de mim, senão depois de ido que o avisarão. Deu-me logo huma cazinha no hospital, onde fiquei bem consolado e agasalhado. Quando veo a hora de comer, posto que fui muy convidado, tomei posse da sancta pobreza e fui-me a pedir, o que para nos outros nesta terra he muy novo e não acustumado e naquella cidade hera muy novo. Pedimos o irmão e eu por cada hum sua rua. A primeira esmola que me derão foi de hum português, o qual me deu alguns bazarucos. A segunda de hum gentio brame, que me deu tres ou quatro bazarucos. A terceira, estando pedindo, da comigo de rosto hum homem honrrado, dando-me os agradecimentos por hum officio que lhe o senhor gover- nador tornara, por eu intervir nisso; hindo mais abaixo, eu acho hum cidadão principal dali, muyto rico que se estava lavando os pes. O pobre, era meo dia, pedio esmola a porta, fazendo que o não via, por não se correr, mas elle era muito bom homem e asi como estava se alevantou, pedindo-me que jantaria, que entrasse; eu disse que ali avia de estar; '93 DOC. PADROADO, VI 13
então me meteu na mão não sei que, senão quando eu acho na mão dous pedaços de prata que qua chamam tangas; então lhe disse: isto para que he? Elie me disse que levasse; então me fui. Vendo-me tão rico apressei-me para ho hos- pital; correm apos mim grande soma de bazarucos, dos quaes cada hum vai hum real de laa. Estes são os seitis de qua, porque saiba Vossa Reverencia a lazeira dessa terra e a gros- sura desta; eu não os engeitei. Eu hido, preguntou aquelle homem honrrado a quem achou na rua se me conhecião e o primeiro lhe disse que era hum doudo que andava em Goa e trabalhava de lho persuadir; elle dizia que não parecia doudo; que os doudos [5i v.] trazião // os vestidos mais despedaçados; outro o enganou, cuidando que o desenganava, dando-me a conhecer; foi apos mim pella rua; não me alcançou nem soube onde entrara. Assi fiz o principio em Chaul e digo o Vossa Reverencia que parecia a devação de Lisboa tão frequente e de tanta gente de toda a parte; parecerão-me na devoção com os do Porto que eu tenho por mais e melhores devotos que os de Lisboa. He a gente daquella cidade muy honrada e riqua e certo que me espantei de ver a multidão de homens e mulheres portugueses naquella terra, gente que não se contentava com ouvir, mas com vos buscar e perguntar muy particular- mente e notar os avisos da devoção e salvação. Fiquei-me aqui sete ou oito dias sem o governador; erão as confissões tantas de homens e de molheres que não me podia valer; alguns excessos fiz ali no pregar. Peça Vossa Reverencia perdão por mim ao pobre doctor e que me releve polia fome que trazia polio mar e tãobem não me acordei de trazer comigo as instituções que sua Reverencia me la deu, as quaes me vierão depois e daqui por diante sera outra cousa, porque asi cumpre na índia. Todos os de Chaul apertão comigo que fizéssemos huma igreja em Chaul, dando hum muy bom sitio e grande para ' 9 4
isso e huma igreja de São Sebastião pera principio, offere- cendo-nos todos junctos, e cada hum por si, de suas fazendas para nos fazerem o edeficio, e por certo tenho que, a qual- quer tempo que ali entraremos ou assentaremos de ir, come- çarão a por as pedras. Mas não tive eu ainda tempo para com os padres ver a determinação que aviamos de tomar sobre isso. De Chaul me fui a Thana, onde os padres que la estavão (que temos ali huma casinha onde se faz muita confissão) fizerão alguns dias antes que fosse a receber o irmão que lhes vinha de tão longe e de noite e de dia me vinhão sperar; de noite por terra com tochas e de dia por mar. Fui ter la dia de Sancta Catherina, quando elles não cuidarão e logo festeiamos o dia e preguei. Os christãos me fizerão grande festa com seus tamburis, a musica não era tão boa mas o saber era muy grande. A tarde se aiuntarão grande numero de // christãos e christãs da terra e deles chatecuminos, os l52 r-l quaes, assentados por sua ordem, hum irmão lhes pregava e fazia doctrina na propria lingoa, tão embebido e com tanto fervor e com tão ordenados meneos como Vossa Reverencia a esses cortezãos, e certo que me fez special devoção e a fizera maior a quem não fora tão roim como eu. Dahi me parti, logo essa noite, para Baçaim adonde estive ate o dia de Jeshu, que seria hum mes, pouco mais ou menos. Ahi ouve ordinário concurso e pregações e doctrina que fazíamos o Padre Manoel Fernandez e eu, specialmente o dia de Nossa Senhora de Concepção, e no dia da Circun- sisão forão mui solenes em nossa casa. O dia da Concepção, ensarramos o Sacramento no sacrário, que não o tinhão ate então; ouve procisão pello terreiro e missa com muyta musica, etc., e muita devação. O dia de Jesus foi soleníssimo, por ser a propria vocação; ouve missa episcopal. Veo Sua Senhoria com toda a nobreza e este dia, confesso a Vossa Reverencia, que preguei a minha vontade de Jesus e não '95
quiz o Salvador que partisse sem algum despojo de seu san- gue porque, avendo-me de partir de noche, se rendeo hum nobre soldado por nome Payo Correia, filho de Pantalião Ferreira, dos principais do Porto, virtuosíssimo e devotíssimo da Companhia. Ho padre Dom Ygnatio o conhecera. Este mancebo, tão apontado de atavios de soldado, como Vossa Reverencia pode imaginar, de espada e adaga dourada, de coura de seda tão golpeado, determinou-se totalmente de seguir a Jesus e logo, em aquella noite, se despeiou e teve hum contraste com hum seu irmão que qua anda, mas ficam ambos muy bem. Estando assi para nos furtar em huma galveta, ja alta noite, salta comigo em casa o capitão de Dio, Dom Diogo de Noronha, do qual eu hia muy magoado, por não me darem as occupações, nem o tempo lugar de o conhecer, a minha vontade, porque tem nesta terra grande nome de cavaleiro sábio e inteiro nas cousas em que todolos outros se corrompem. He homem de que Sua Alteza la faz muyta conta e qua fazia Dom Pedro, que Deos tem, e os governa- dores lhe tem grande resguardo. Sabia eu que andava muyto nosso devoto; finalmente, depois da praticha larga me penhorou para me embarcar ate Chochim em hum catur que elle mandava; não lhe pude resistir, ainda que o deseiava, pello companheiro que avia de levar, e fogi de noite em huma galveta para Thana, aonde me foi tomar o catur de Dom Diogo. Ao jantar não me pude então escapulir assi que o novicio e eu nos ouvemos de aventurar. Hum seu [52*0 homem//honrrado, que mandava no catur, nos fazia tan- tos mimos e bocados, como as devotas de São Roque aos que la adoescemos, e o serviço e a reverencia era huma vergonha. Isto digo eu a Vossa Reverencia porque saiba quantos mimos Deos tem nesta terra para os que se dester- ram laa da sua. Erão as graças de tantas maneiras e as igua- / 9 6
rias e os ouvos muidos (3) e fruica e duçuras que parecia que estava homem iuncto das praças e buticas de Lisboa. Ho novicio e eu o pagamos bem, porque eu vim enioado ate Cochim. Assi que nem dos mimos nem do viço da costa de Goa, por todo este Malavar ate Cochim, que he sicut ter- restis paradisus, eu pouco me logrei. Ho companheiro de mortificado, vendo-se continuamente diante de quem o hontem vira soldado e tão diferente no habito e postura. A graça foi que achamos huma roupeta, que he como sar- gea (4) de laa, e sombreiro e barrete e manteo, como nos qua trazemos, soomente humas botas amarelas muyto justas, que he o traio de soldado de qua, estas lhe não podemos trocar com a pressa. E assi vinha apostolo de calça ver- melha ou amarela. E então elle he também desposto, Deos o benza, e apessoado, acrescentava muito mais a mortifica- ção. E certo que eu vinha mortificado de ver como ele vinha gracioso do doo de Jesus e do amarello do mundo. Todavia, deu-nos Deos paz no caminho e chegamos a Cochim e logo entrou em os exercícios e dahi a poucos dias saio. Anda muy quieto e consolado e he de boníssima indole e la fora anda muy bem aforado, porque, alem de elle ser honrado tem muy bom saber e conversação e o governador lhe queria bem, e tinha ao presente o partido de capitão de galiam do governador, o qual os governadores acustumão dar a seus parentes muy chegados e anda em homens muy nobres. O proveito do partido não he pouco, porque são quatro centos pardaos líquidos, cada anno, mas a honra he muito grande, porque neste galeam vam os governadores quando he alguma grande guerra onde se acolhera toda a nobreza. E neste tempo manda o capitão delle o galeam e todos lhe obedecem e todo o tempo andão folgando. Assi que deixou muito, quanto ao mundo, e deu muita edificação e tras mais (3) BACIL: Ovos mexidos. (4) BACIL: Sarga. ' 97
para Deos em sua pessoa, por ser muy manso e humilde e r0 capaz de toda a virtude // e o sera de letras, posto que elle, antes que entrasse, e quando entrou, elle mesmo se deputava para as cargas, sem nenhum pensamento de studar. Agora fica servindo de porteiro, aqui em Cochim, aonde os que entrão honrados e fidalgos todos o conhecem. Também foi ja pedir esmola com hum saco destes de almocreve polia cidade. Encomende-o Vossa Reverencia a Nosso Senhor. Por emfiar a fugida do Egipto, deixei de apontar huma grande festa que fizemos em Thana, em huma casa que temos pel lo rio acima, quatro legoas de Baçaim. A festa foi ^ dia de Nossa Senhora do O, que he invocação daquella casa. Convidamos ao senhor governador, elle levou os que esco- lheu da sua corte. Aiuntaram-se muitos e muy nobres; a festa ouve vesporas com musica de Sua Senhoria, que tem instrumentos maravilhosos. Outro dia, depois da missa epis- copal e sermão, em que me Nosso Senhor deu alguma devo- ção, ensaramos o Sacramento em o sacrário, com huma pro- cissão soleníssima por hum terreiro que parecia hum horto de arvores frescas e fermosas e aqui, diguo de caminho, quer ver a delicadeza com que se qua festeiam as festas, ficam as de Lisboa (ainda que seiam as de S. Roche) pare- cendo de aldea, porque ver os ternos de charamelas, doçainas e violas de arco he para aver doo das trombetas de laa. Ver os bosques transladados nas ruas e terreiros, fica huma fan- caria o embandeirar de laa. E digo a Vossa Reverencia que aqua termos copia de ministros como la ha que sem compa- ração lhe levássemos a vantagem em todo o genero de deva- ção. E ainda que seia fora de proposito, digo que confessei ja na índia, moça índia de cantaro, que parecia huma estreita religiosa na conversação, e tão perfeita que pasmei. Tornando a festa de Thana, era para dar graças a Deos os gentios que se aiuntarão e a admiração que fazião, vendo as nossas festas e seguindo-as quanto podião. Aqui era muito 198
para contar o recebimento humano que fizerão os nossos a Sua Senhoria com libreas e com muytas embarcações, indo a tomar ao meio do rio. Foi Sua Senhoria muy satisfeito, o que importou muyto para favorecer a christandade, vendo que não tão soomente se ganhava nella para Deos, mas também para a fortaleza do temporal estado e honra, e assi he que da christandade nova se pode tirar muyta gente de peleja que qua dizem que em companhia dos portugueses pelleião tao bem como elles; esta foi a festa de polia menhãa. A da tarde, não foi muito menor porque se guardou para ella hum solemne baptismo em que eu baptizei quarenta e cinco christãos; delles homens, delles molheres, meninos e mininas. E tais avia que estavam dormindo, mamando// !53"'1 nas mães e os estávamos perfilhando com Deos e quando vinha para fazer as cerimonias, que lhes era necessário tomar-lhe a mama hum poucochinho, elles a chorar e Deos a santificar. Feito o baptismo, fizemos huma procissão com todos los christãos da terra daquelle lugar, e era para dar graças a Deos Nosso Senhor ver o caracol que fazião, a sim- plicidade e serenidade da fee e religião que se mostrava em elles. Em minha vida não me acordo ver-me tão consolado e de tão sustancial consolação. E porque acima chamei corte do Governador, saiba Vossa Reverencia que he huma grossa cousa e pulidissima a gente que o acompanhava e que se laa ha os morgados que qua andão os galantes, porque doo e fome parece que nunqua se sente na índia. Acompanhão o Governador mais a ponto que laa a el-rey, desde o mais nobre ate o que não he. He muito para reconhecer as vezes de Deos na terra que polio que representa delias. Sua Alteza he tão venerado que qua hum seu governador que (5) o mundo de fidalgos e (5) BAC1L: que quem o mundo de fidalgos... i 0 9
soldados valerosos ho acompanhão sem faltar, quando sae, e estara quatro ou cinquo horas em hum mosteiro, falando com os religiosos la dentro e não falta dos fidalgos nem da gente pessoa; assi podem estar ate noite, dando-lhe vista todos os fidalgos como a el-rey e asi se lambe ou torcem (6) seus olhos e sobrinhos la do Conde da Castanheira e outros nobilíssimos guardam esta lei muy a ponto e dizem qua que o fazem de muy boa vontade, porque lhes faz e pode fazer tamanhas e maiores merces como el-rei. Finalmente em infi- nitas cousas lhe fazem as mesmas cerimonias que a el-rei por ordem de Sua Alteza. Não tenho mais por agora senão que sam vindo a quinze ou vinte dias a Chochim e que me fez Deos tanta merce que posso screver tão bem esta a Vossa Reverencia; estando- -lhe escrevendo entra hum catur embandeirado muy alegre polia barra, dando novas que a nao São Paulo dos merca- dores em que vinha o nosso devoto Dom Antonio de Noro- nha e que estava em Coulão, vinte sete legoas daqui. Agora he chegada sem morrer pessoa e muy abastada, antes diz que nascerão três pessoas no mar; tinhamo-la por arribada (a muito bom andar) pêra esses reinos, pois foi ter as Ilhas muy desaparelhada; dizem-nos que dali das Ilhas appare- lhando-se continuara o caminho e com os ventos arribarão ao Brasil e na Baia Fermosa estiverão dous meses. E dahi, aparelhando-se, partirão outra vez para a índia, aonde che- L54r.] garão, como digo,//tão sãos e tão inteiros e vierão tomar a índia, vinte legoas do porto de Goa, onde ordinariamente vem as naos de Portugal. Louvado seia Nosso Senhor, por se querer mostrar comnosco tão mesericordioso e maravi- lhoso que diz que nunqua se vio, a 26 ou 27 de Janeiro, chegar naao de Portugal. E disseram-me que ja Dom Anto- (6) espaço em branco. 2 O O
nio de Noronha estava aqui, em São Francisco desta cidade, com duas ou três pessoas da naao. E assi foi. As de mais consolações me quite Vossa Reverencia para outro anno, que estarei mais assentado nas índias, e aparelharei as cartas de mais longe. Nosso Senhor esforce Vossa Reverencia com forças e graças para que vivifique esse Occidente e ao summo Deos glorifique muy perfeitamente e a nos e a todo o mundo edifique e console, como sempre faz e, por derradeiro, todos nos veiamos naquella gloria que todos andamos buscando, cada hum por seu mundo. Amen. A todos os nossos padres e irmãos Vossa Reverencia me faça encomendar e eu aqui os ei por encomendados, não ja nas devações que não tenho, mas nos trabalhos que, como ruim, me são forçados. De Cochim no mes de Janeiro de 1557. 2 o 1
28 CARTA DE DOM GONÇALO DA SILVEIRA ESCRITA AO PADRE INÁCIO Cochim, Janeiro de 1557 * Documento existente na AS1. Goa, 8, 1.(1) Fls. 99r.-102v. Gratia et pax a Deo Padre et Domino Nostro Iesu Christo et communicatio Sancti Spiritus sit nobiscum sicut et tecum. Reverendíssimo Padre nosso em Christo. Ainda que deixe toda a propria consolação de praticuar com Vossa Paternidade, o coração e a vida de desterro tam estranho, começo logo a apomtar com toda a brevidade os avisos que Vossa Paternidade spera, assi do processo da Companhia nesta terra, como do que toqua ao perffeito serviço e louvor de Deos, assi na conversação de qua universal como da pere- grinação que se faz dessas partes navegando para estas. Parece (resguardando sempre o juizo de Vossa Pater- nidade e vontade) não se deve emviar a estas partes irmãos nem padres que la se sintem immortificados e imperfeitos, porque temos qua espriencia de vista que assi se aproveitam muito menos, e tem quasi invemciveis e imfinitas ocasiões de lançar a perder a Companhia e edificação dos próximos. O que pemsei avisar pelo que de laa tenho emtendido, e he que com zelo de aproveitar a estes taes, não nos achando la seguros, ou achando-os apegados demasiadamente a comver- (1) Os documentos deste Arquivo que apresentamos neste volume cncontram-se já publicados por Bertha Leite: D. Gonçalo da Silveira, Documentos.
sação de fructo de laa, os transplantem para qua; asi que, lhes fiqua la o humor e o calor com que se moviam (ainda que imperfeitamente) e trazem qua raizes por onde hai ocasiam de se sequar de todo. Pemsso que duas condições principalmente se devem de olhar em hos que qua sam emviados. A primeira que, ou se offreção ou constasse que o desejam com fervor de se morte- ficar e padecer pelo amor e gloria de Deos. A segunda que se tivesse comfiança ao menos por largo conhecimento das pessoas que, recebendo a obedientia desta missam, posto que nam com has mostras de fervor e suavidade que ela merece, porem com ha graça de Nosso Senhor e sua disposição para a virtude, forte e flexível se detreminarem como cumpre na exequção. Em special os sogeitos que muito ajudariam a Com- panhia // nestas partes e fructo o de la, presopostas as [»*■] comdições que dissemos, seriam irmãos saãos, de bom juizo, zelosos de acquirirem seus próximos ao conhecimento do Criador. Estes, instruídos na doutrina christãa, com alguma inteligemcia da limgoa, que facilmente se ganharia, fazem qua tamto como hum bom pregador, resedindo nos lugares que temos para fazer christandade, conservando os christãos feitos e fazendo muitos, como temos qua speriencia. Item, bons comfessores e pessoas e leteras e outros emsinados nas humanas, e bons scrivães e lectores. Todos estes serão qua mui utiles, e de todos os que la soubejam e sam necessários, ha qua falta, pelas muitas e distantíssimas terras que qua os pedem. Sobretudo, Padre de minhas emtrenhas, (a quem nisto specialmente desejo que Deos mas abra e as ponha em suas mãos) he necessário os sogeitos que qua vem sejam morteffi- quadissimos na carne e affeições e temrreza da semsualidade, porque nestas partes hai todas as ocasiões, e em todo o graao que se pode ymmaginar, para a limpeza e castidade se cor- 2 o 1
romper. E em suma represemto a V. P. aquilo de Nosso Redentor: «Nemo mittit vinum novum in utres veteres». E crea V. P. que não ha no mundo, nem pode aver, missam sem negocio que comvenha a varões de toda a perfeição, e em nenhuma maneira ha menos perfeitos, como a que se faz e emcomenda para estas partes. Por onde V. P. deve ordenar special memoria destas partes e da Companhia que nelas amda, nas devações e sacrefficios polas casas e colégios da Companhia, ao modo que se faz por Alemanha e por outros respectos. Item todolos anos desde o mes de Janeiro, ou o fim de Dezembro, ate Septembro e Outubro meado, se encomendasse a Deos quo- tidianamente as naaos e gente que nesta navegação nestes meses se achão, porque he incrível a quem não ho passa os perigos de mares, ventos tempestuosos, choveiros, fogo, bai- xos, costas, fome, cede, pestilemciaes, imfermidades, fastios e desempato de consolações spirituaes e corporaes, que na carreira da navegação de Portugal a estas partes estam apa- relhados; e o que destas misérias cada ano acontece he huma lastima. Item, devia V. P. suplicar a Sua Santidade para os confessores da Companhia, e aimda para todo sacerdote, que comffessasse durante a viagem, podessem conceder indul- gentia plenaria a todos os que se conffessassem em tres tempos: 1.° stando para morrer, 2.° ao entrar o Cabo da [íoo r.] Boa Esperança, porque he passo//que dura muitos dias, e ordinariamente correm nele terribilissimas tormentas, e acontecem horremdos nauffragios, e os mais que se perdem, nele se perdem, e a gente he tarn tibia que nem ainda quando estam perecendo se comffessam; 3.° aos que se con- fessassem e comungassem, tomamdo Maçambique e Santa Ilena. Esta indulgentia specialmente aproveitaria muito, afora restaurar a distração e fraqueza spiritual, com que che- gão os que tomam estes dous portos, que sam termino do mais e mais trabalhoso desta navegação, para se evitarem 2 O 4
muitos desafios, homicídios e outras gramdes e defferentes dessuluções que passam oito ou quinze dias que as naaos estão nestes portos. Seraa grande esmola e consolação para muitas peçoas particulares destas partes mandar-me V. P. das contas bem- tas, de perdões e indulgentias para vivos e deffuntos, e de tirar almas, porque qua se tomam com grande devação, e sam desejadas de todos com muita sede; e com razão, por esta parte da Igreja qua estar tam apartada das boas ditas spirituaes de graças, que a pessoas particulares se concede por la, que ainda aas geraes chegam qua tam tarde; e também como a gente qua vive para a guerra e por maar, vem-lhe muito a preposito os adjutorios de almas manuaes. Nam sei as graças que V. P. tem concedido aos provin- des e superiores destas partes para usarem com hos da Com- panhia e com hos de fora, segundo as concessões de nossas bulas e feitas a V. P. E porque eu ao presente nam me acho onde possa ter visto resolução, e pode ser que não na temos qua como cumpre a esta parte da Companhia tão remota de V. P., e a tantas ocasiões como nestas partes occurrem de duvidas e perplexidades, assi para as almas dos da Compa- nhia como dos mais próximos; olhe V. P. o que parece a ajudar-nos, concedendo-nos o uso de suas graças. E parece concede-las V. P. com estas clausulas, que as que os supe- riores podem usar para com os súditos, usem delas para consigo por meo do confessor ou Padre que escolherem com authoridade de Vossa Paternidade. Specialmente peço a V. P. me tome a soltar a graça que por huma sua patente me mandou ha anos de Roma de asolver em qualquer parte e quaesquer penitentes de caso de heresia e se mais se com- them na dita patemte, porque o Padre Mestre Hieronimo Nadal no-la sospendeo, vindo aa Portugal aos que a tínha- mos, e por isso ainda que seja nestas partes não me atreverei usar dela sem V. P. ma tornar. Jumtamente convém termos 20 5
qua licença de lermos os livros que fazem para confutar as [íoo v.] ceitas e ritos dos imfieis, que qua se acham judeus, mouros // e gentios; e esta licença se avia de estender a lermo-los em sua limgoa, o que creo que he prohibydo. Achamos ser grande carga para a cristandade nova destas partes o rigor e obrigação do direito positivo em muitas cousas, como nos jejuns e penas que se encorrem por esse direito em defferemtes casos: assi porque esta terra he fraqua e he gemte que mais se converte pobre, e toda de pouqua capacidade que faz ser-lhe muito deficultosa ou quasi impos- sível a noticia de tantas leis positivas. Parece que nam cabe neles viveza para se cautelarem delas, por omde se deve supplicar a Sua Santidade geral liberdade nos ministros principaes da conversam de qua, como sam os ordinairos e vigairos, provinciaes das hordens e seus rectores, para eles por si ou polos que a eles lhe parecer se dispemsar nestas obrigações e leis com nos que novamente sam convertidos ou se convertem aa fe, tirando-lhes em parte ou em todo, ou mudando-lhes as penas e obrigações positivas, segundo em Deos lhe parecesse ser mais commodo para a conser- vação e aumemto suave da fee dos novos fiees e para sua salvação, porque, de os obrigarmos como commummente aos christãos, parece que pela fraqueza desta gente e novidade da proffição cairam em muitos pecados e porvemtura he ocasiam de padecerem algum escândalo pelo spamto e peso que offerece a humanidade dalgumas destas obrigações e penaes leis. Olhamdo mais, que estas partes sam callidissimas, de péssima digestão, de fraquíssimos mantimentos, de grande fastio, e a gente dela comummente he de guerra e vive por mar, parece conveniente repartir a Quaresma pelo anno e meter-se este jejum nos meses que qua sam mais tempera- dos: porque os em que la se jejua são qua de calores intole- ráveis, e quaremta dias contínuos parece mui duro em todo o 206
tempo destas partes, nem sei se he possível comummente jejuar-se. Assi que, o devidir-se a Quaresma e mudar-se ho tempo dela, e deminuir-se o numero dos jejuns a arbitreo dos perlados e confessores, assi ordinários como religiosos, parecia conveniente. E porque cuido que ja o Padre Mestre Francisco que vive em gloria apontou la parte disto. V. P. veja o que nisso deve tratar com Sua Santidade. Em todas as casas, tiramdo Goa aomde residem padres e irmãos da Companhia, por diversas partes desta índia acho huma gramde incommodidade, scilicet, não aver em cada casa mais que hum, dous padres, dous ou três irmãos a muito, temdo o edifício da nossa habitação e o exercitio de nossa ocupação necessidade de clausula e resguardo, // não : 101' menos mas antes mais que nessas partes, porque não somente atendem os padres e irmãos a conversam e emsino dos que novamente se convertem aa fee, que sam em gramde numero, e não como laa dez ou doze cathecumenos, mas também se empregam totalmente em servir a christandade velha, em comfissões, em pregações, em ajudar a morrer, em acudir a dissenções; e finalmente lanção mão de toda a obra pia e serviço de Deos que la pode occorrer, porque o mesmo se acha necessariamente em cidades e povoações muito grandes de homens e molheres nobres e de comum estado que juntamente qua vivem com aqueles que ha fee se acrecemta. Donde se segue que, com tanta mimgoa de sogeitos em cada casa, não se pode ter o recolhimento e ordem no menisterio de casa, nem se pode guardar a decentia e onestidade da comunicação com ha gemte de fora; e hai gram perigo de acontecerem muitos e grandes e muito maaos recados, assi aas peçoas da nossa Companhia como casas dela, maxime que comummente que nestas casas que digo as ortas e circuito que para elas temos nos devação as mes- mas casas; porque comummente não sam cercadas de muro nem de parede, senão de cebe mui fraqua que se pode subir,
quebrar e romper e entrar em todalas horas do dia e da noite, sem nenhum trabalho, de moços e moças e homens e molheres, do que temos sperientias polo olho e de mui maa specia. Por onde assi os nossos como os meninos da terra, christãos e catecuminos que a par de nos temos, se podem facilmente emfamar e cair em muitos inconvenientes. E ultra disto nam he possível dar-se boa comta da portaria, nem da grade da igreja que esta sempre aberta a homens e molhe- res, não avendo em casa senão dous, tres irmãos, dos quaes hum he necessário para estar com os meninos que emsina- mos cuontinuamente, separado da comum habitação, e o outro que fiqua numqua faltam negocios na cidade ou em casa; e assi he de força que a portaria e grades da igreja fiquem em mãos de mininos dos que emsinamos, filhos dos christãos da terra e o padre que amdar por fora andara sem companheiro por não no aver. Polo que daqui se segue, parece necessário reduzir todas estas casas a certo numero de irmãos, e ate seis ou sete com hos padres por todos parece bastaria. E porque ategora não se procurou de Sua Alteza manti- mento para tantos sogeitos, mas somente temdo o olho a acupação com os novos christãos, nos detreminavão o que abastaria para dous ou tres, que neste menisterio pareceria abastar. Agora pedimos aa Sua Alteza que nos proveja con- forme a esta necessidade e a ajuda que requere o serviço que [íoi *.] a Companhia faz aa Deos em servir // toda a gente que ha nestas partes do regno, do que Sua Alteza christianissima leva tanto gosto, que tenho por certo que, emformado de tan- tos e tamanhos incovenintes, que daraa liberalissimamente a esmola que he necessária para a Companhia em cada casa fazer lo serviço de Deos a seu salvo e do credito da gemte. E com isto se remedea a indisposição que acho nestas casas para observância regular da nossa profissão e exercitio da verdadeira obedientia, na qual a la una acho grande rudeza 208
e deficuldade nos sogeitos que por estas partes estam, por- que, na verdade, residindo sempre os superiores em Goa, dous a dous, e três a três, postos por tam diversas partes, nem avia forma de obedientia, e mal se pode a materia abe- litar na propriedade e liberdade que em casas tam desertas de necessidade avia de regnar. Disto escrevo particular- mente ao Padre Francisco e ao Padre Doutor a Portugal para que com Sua Alteza se trate. Colégio formado como os de laa não no ha qua o pre- sente, senam em Goa, mas casa em nenhuma parte a ha, estando agora nestas partes tantos professos, como V. P. pode contar. E posto que Cochim fosse também capaz de colégio como Goa, por ser cidade mui riqua, de mui grossa gente, porem parece mais commodo aver aqui huma casa, e para isto he a gente mui devota e tem grande credito aa Companhia, e creo que so ela ategora estaa em posse de manter la Companhia de suas esmolas sem ordinária de Sua Alteza, não ja porque el-rey não a tenha mandado dar, mas não se poz em execução ategora. V. P. nos avise se seraa seu gosto nesta parte, detreminando-se qua assi. Do socesso do passado Patriarcha, Bispos e Padres, e a mais companhia ao Preste, ao Padre Francisco Rodrigues fiquou vagar e cuidado para screver a V. P. por extemsso como convém, assi para satisfação de toda a gente como para consolação da Companhia dessas partes. Do padre Bispo Andre de Oviedo, o qual o patriarcha assentou de emviar adiante, emformarei a V. P. em que pomto deixei seu des- pacho. Quando me parti do governador, sua senhoria o tinha ja despachado para ele, e o capitão que o a de levar aos portos do Preste, se partirem logo para Goa, donde no prin- cipio deste ano de 1557 aviam de fazer o caminho para o Preste. Levam-no quatro ou cimquo fustas ate ho porto donde podem seguros caminhar por terra ate a corte do Preste. Vai com o bispo e outros dous padres e dous irmãos DOC. PADROADO, VI 14 209
hum memsajeiro da parte do Governador com outros quatro ou cimquo que ho acompanham. Faz-lhe sua senhoria a pro- [162 r.] visão mui//liberal, não soomente para o caminho, mas ainda para despois de estar laa, de modo que por dous anos se escuse de pedir nada ao Preste. E mais proveo sua senhoria por mouros que tem inteligência no porto por onde entram ao Preste, para se emcaminharem as cartas se algo o bispo e os nossos de laa quiserem avisar; e poios mesmos faz que aja no porto credito para prover ao bispo e padres, e aos demais do que fosse necessário, dinheiro etc. se não abas- tasse o que leva. O bispo ainda que cançado de nam se com- prir mais presto tamanho desejo, todavia fiquava mui con- tente e animado para tenta-lo. Vãao todos, confiamos que dara principio a que hos que fiquão emtrem com mais cla- ridade e prosperidade ao serviço do Senhor. En la charidad, piedad de Vuestra Reverendíssima Pa- ternidad nos encomendamos los hijos, y las casa, y las gen- tes, y las tierras, las islãs y los navios destas navigationes. Yo echo mas en las oblationes, y sacrifícios de V. P. el con- trapeso de mis culpas viejas e nuevas. La suma gracia y amor de Dios, nuestro Senor, nos de a todos siempre et ubique su favor y vigor, con que sintamos perfectamente lo que quiere y gusta Su Majestad y cumplamos eso mismo. Amen. En el mes de Enero de 1557, de Cochim. Hijo de V. P. en Christo Don Gonzalo. 2 / o
2D CARTA DO PADRE DOM GONÇALO DA SILVEIRA PARA O PADRE DOUTOR MIGUEL TORRES 1557 Documento existente na ASl. Goa, 8-1. Fls. 130-131, 163-163 v. A graça e paz de Jesu Christo N. Senhor seja sempre em nossas almas, Amen. O anno passado de 1556, e creo que hia entrando no de 57 em que agora estamos, escrevy por minha parte o que até à partida das naos me occorreo. Agora terecey a informação das cousas que boamente não se podem escusar des o ponto em que as outras cartas concluyão. E porque a occasião prin- cipal de minha vinda a Cochim e ficada foy hum certo bispo arménio, (o qual era fama que revolvia o Malavar com heresias) para ver se com ajuda do Governador o podíamos aver às mãos ou lança-lo daquella christandade, começo a contar o que acerca disto soccedeo. Aquelle bispo arménio não se ouve às mãos, porque não podia ser senão de parte dos que tinhão poder e favor tem- poral, os quaes não acudirão com ho que era necessário, assi de despesas como de industrias, ainda que disto se pode escrever outra cousa. Todavia este homem, ou por medo ô por fastio, mudou a estancia e se foy da christandade onde andava para outros cristãos da terra e para huma gente que se chama os taquanentes, porque algumas diligencias se fize- rão a instancia do vigairo de Cochim e de outros religiosos que ali nos achamos. Nunqua aquelle arménio se quis ver com os Padres, scilicet; com ho vigairo de Cochim e alguns religiosos que ho fomos buscar por vezes, nem a gente que o 2 11
tinha recibido consentia verem-no os nossos, parece que com medo de o colhermos e lho tirarmos. Finalmente eu não merecia mais dita. Juntamente com sperar em Cochim algum remedio para aquelle arménio sérvio também minha estada aqui aquelle inverno para fazermo algum assento de verdade nesta casa. Asi que, estando aqui, se nos aplicou a igreja o melhor que pode ser pelo modo que o anno passado escrevy. Usamos ja delia a nossa vontade e como nossa, que dantes nem como alhea nos servia sem muyto trabalho e fastio, por occasião dos mordomos e seus servidores causarem muytas incommo- didades para os exercícios de nossa profissão. Esta muy me- lhorada de concerto e limpeza muy aventajada, principal- mente no Santíssimo Sacramento que nela posemos, como o fezemos em outras duas casa de Tana e Baçaim, onde se acquirio grande devação e emulação santa de outras igrejas e povos onde não estava o Santíssimo Sacramento, e agora o tem com grade gloria //de Deos e consolação e esforço das almas e custodia dos mesmos lugares. E asi veo a casa a ser frequentada de confissões e communhões com grande proveito da gente, assi portuguesa como da terra. E foy muy servida esta nossa casa este inverno de sermões e doutrinas, e sentio-se bem na gente, segundo a devação com que fre- quentavão a casa, e por grandes effectos do fruito spiritual que na cidade se via. Também nos recolhemos, de modo que podemos agora nesta casa ordenar nossa religião em obser- vancias, o que dantes estava muy desviado. O recolhimento sera para quatro sacerdotes e mea dúzia de Irmãos; e temos huma horta boa que se vay fazendo, e espaço para se con- tinuar o edifício para ser conveniente. Ao presente estão nesta casa três Padres, scilicet: O P.* Mestre Belchior, que tem o cargo, o qual veo este anno de Japão per vários casos; fezemos-lhe fazer profissão depois de minha vinda de Cochim, estando presente o Go-
vernador e muita gente nobre: eu lhe recebi e preguey. Outro Padre esta ali confessor, que hé o Padre Francisco Lopez; o terceiro he o P.e Anrriquez, que por certa occasião veo da Pescaria, indo para la em seu lugar o P.° Francisco Perez, que ategora esteve sempre em Cochim, onde ha de ser sua residência propria, avendo desposição para se tornar o P.° Anrriquez para a costa da Pescaria. As particularidades daquela casa e das outras escreverão elles mesmos, estas quis screver porque a nao que daqui parte não toma Cochim: e somando a edificação que N. Senhor obrou este inverno em Cochim, digo que aquelle povo se unio com a Companhia muyto, bendito seja o nome de Jesu. O Padre Francisco Perez, des que me eu vim de Cochim, que foy no principio de Setembro, se partio para a Pescaria, ficando ja em Cochim o P.° Anrriquez: porque pareceo necessário acudir a certos bandos que naquella christandade se levantarão avera iiil ou v annos e lavrarão todo este tempo. E buscando-lhe nós diversos remedios, com o derra- deiro que criamos que bastase, cuimados perder-se de todo; e mandando eu la o P.e Francisco Perez de Cochim para por elle aver perfecta informação do que passava, quis Deus que a gente o acceptou muy bem. Mas por então não soccedeo mais que ficar o P.° Francisco Perez muy acreditado, com ganhar muyta benevolência naquella christandade. Depois que tornou e me informou e que também ha revolta preva- lecia, e que temíamos danar-se o negocio de todo, despedi-o a 2.* vez para a Costa. Quis Deus que, por seu meo, o odio se espalhou e a principal semente delle se gastou, e veo aquella gente a huma tranquilidade não sperada, de grandes desconcertos // e discórdias muy envelhecidas e de dia em dia renovadas. E posto que a huma contenda que também entre os bandos sobre certas mortes muy feas não se deu conclusão da pax, todavia o ponto mais iremediavel se aca- bou e se sperava acabar de todo. E para ajudar isto chegando 2 r 3
eu a Goa se negociou com ho Governador que mandasse la huma principal pessoa do desembargo de muita consciência e grande autoridade. E neste tempo não sabíamos ca nada do que Deus tinha obrado por meo do P.* Francisco Perez, e a pessoa que madava o Governador achou a nova no cami- nho e passou adiante. E asi creo que se acabara tudo de apaziguar sem ficar nenhuma raiz de inimistade de tantos annos e de tantos ramos. E saiba V. R. que acabar-se este negocio de vencer foy huma das grandes graças que Deus fez à Companhia nestas partes e de grande misericórdia para a mesma gente, e a S. A. não pouco serviço, porque aquella gente da Pescaria he muy grossa e de muy boas pareas e S. A. leva muyto gosto daquella christandade. Asi que, louve V. R. a Deus por elles e por nós, e especalmente por minha parte, porque aquelle lugar era onde eu traçava meu paraíso na índia, asi polia christandade ser a mais substancial que temos nestas partes, como por ella ser muy frequentada das passa- das do nosso muy sancto Padre Mestre Francisco: e creo que aquelles desertos tem grande parte nas coroas daquelle barão sancto e do bom odor de sua apostólica vida. Mas a mym não me pareceo nem me atrevy entrar nella a primeira vez com tam ma disposição como causava aquella discórdia. Agora me queria ir a passeiar la, se me dexasse o poo de certo contraste que V. R. la ouvira. // Aqui lembro a V. R. que deve lembrar a Sua Alteza // este bom licenciado que o Governador mandou esta ultima vez a entender na Pescaria a nossa instancia, no que nos foy feito estremado favor; e da parte do licenciado rece- bemos grande beneficio, porque he pessoa que se não mo- vera, senão cuidara que servia nisto muito a Nosso Senhor e a Sua Alteza. Chama-se Francisco Alvarez, provedor-mor dos defuntos. Aceitou o trabalho mui liberalmente e creio que com muto gosto siendo o caminho mui trabalhoso na- 2 / 4
quelle tempo e de nenhum proveito temporal para tal pessoa. Portanto deveria V. R. procurar que S. A. lho aguar- desesse por carta porque fara muita conta disso e se viesse a carta de S. A. por nossa via aproveitaria muito para o termos a elle e ainda a outras pessoas para semelhantes necessidades. Elle não me fallou nisso nem tem essa con- dição, e se ha homem nesta terra de Deus e d'El-Rei he este. 2 r 5
;io CARTA DO PADRE DOM GONÇALO DA SILVEIRA AO PADRE MIGUEL TORRES 1557 Documento existente na ASI. Goa, III. Pis. 421 T.. 424 v. B. Estando pregamdo e exercitamdo nosa profisão em Couchim pola ffesta de Corpos Christi, a quail se selebra naquella cidade como noutras da Yndia huma quinta-ffeira, cieyo que a segunda logo depois de Pascoa da Ressurreyção, e isto por especiall despemsasão, porque as agoas que chovem nestas partes no tempo em que comummente se selebra esta ffesta não dão qua lugar pera isto; asy que, estando por este dia em Couchim este ano de 1557, cuydo que a tarde do mesmo dia de Corpus Christi, quando os mordomos do Santisimo acustumão de abrir a arquinha das esmolas que estaa na ygreya se achou hum escrito abrin- do-se a arquinha da se, cujo treslado proprio hira por tres vias. Quem no achou o levou ao vigairo, o quall despois de lido mo mandou. O P.° Belchior Carneiro e eu o lemos e nos calamos. Eu, todavia, me ffuy logo a casa do vigairo e despois de praticar com elle, nos apartamos, avisando-o eu que no negocio não ffalase nada, porque o padre Bel- chior Carneiro e eu nos resulviamos no silensio. Senão quando vem hum ffidalgo, o primcipall de Couchim, com outro esprito (1) o quall fora achado na arquynha da ygreya do mosteiro de São Domingos que ha naquela cidade; e (1) i. e. escrito. 2 I 6
estava então ay o vigairo de São Domingos que então hera; chama-se Ffrei Diogo Bermuldes, pesoa mui religiosa e prudente e de muito credito nestas partes, e tão bem outro pregador da mesma ordem, bom letrado. O fidalgo que me trouxe o esprito que se achara no moesteiro, entemdendo que nos detreminavamos de calar com o que tínhamos, dise-me que não se devia desimular, segundo o parecer dos Padres Dominicos, ya que se achavão tamtos espritos; e mais no escrito segundo se nomeavão sertas pesoas, como se pode ver polo treslado que vay yumto e por vias com o outro. Estamdo elle, diguo aquelle ffidalguo, com o pare- cer dos ditos Padres, acordamos o Padre Belchior Carneiro e eu que, se alguma (coisa) se ouvesse de ffazer, avia de parecer quail tall caso merecia levar se adiante, doutra maneira não se comesar nada. Ffoy-se o dito ffidalguo reffe- rindo aos Padres o que symtiamos. Pareceo bem a huns e outros que o vigairo da cidade, e tãobem os religiosos de São Francisco e o vigairo de São Domingos e outro pre- gador letrado da Ordem — chama-se Ffrey Nicolao — e o Padre Belchior Carneiro e eu, nos aymtassemos em casa do capitão de Couchim, Diogo Alvares Teles. He verdade que os Padres dominicos herão de parecer que logo se premdesem sertas pesoas nomeadas no seu esprito sem mais devaça. O P." Belchior Carneiro e eu pareceo-nos que não se devia de lamçar mão somente poios escriptos, por ser o caso novo e a materia da ffee tão grave, e asy creio que nos ffomos então a causa de se não detreminar aquele parecer; e ffiquamos que considerasemos o caso e visemos os poderes do vigairo da cidade, porque não hera vigairo gerall, senão como dizem officiall e constituydo polo gerall desta cidade, assy por proprio de Couchim como sobre a christandade doutras partes daquela terra; e tãobem hera para ver o modo de proceder naquelle caso, com que provas ecetera. 2 / 7
Quando viemos o outro dia aos Padres Dominicos e a todos pareceo bem este meyo, sscilicet, que se ffizese alguo da verdade; e o primeiro que o capitão ffizesse lamçar hum pregão em nome de Sua Alteza que toda a pesoa que sou- bese, descobrise quem fizera aqueles espritos, que lhe darião mill cruzados ou pardaos, creyo que esta era a suma, e que se fosse culpado descobrindo o companheiro se lhe per- doarya, se ffose escravo se fforraria, e sendo culpado em quallquer caso na yustiça seria perdoado. O segundo que pareceo apos este pregão ffosem subitamente levados os escravos de todos os christãos-novos pêra serem pergum- tados do que sabião dos escritos, // e despois se devasasem em toda a cidade por aqueles espritos, pera o que tãobem ayudava ser aquella cidade muy ymffamada de aver yudeos nela, e porque o primeiro escrito achado na sse se derigia aos christãos todos como mentirosos, e se asinavão «os tribos d'Isrraell», como autorizando todas as abominaçõis que nos escritos se comtinhão. E asy olhados primeiro os poderes do vigairo dali que tinha do provisor, sseeda vagamte, os quais herão mui compridos e parescerão abastar para ffazer a diligencia sobredita, mayormente sobre tall acomteci- mento, deu-se o pregão, e subitamente no mesmo dia depois de comer; e se levarão os escravos a sse a certo lugar, omde se ajumtou o vigairo da cidade e o Padre Belchior Carneiro, e de São Domingos o Padre Frei Nicolao e outro Padre Pregador de São Ffrancisco e o notayro comfforme tãobem aos cânones ordenão no modo de proceder no caso da ffe ordinariamente. Estando (o) vigairo de Couchim com os nomeados tirando as testemunhas da consiguo o capitão da cidade la, e com o que pasou amtre elles naseo huma grande comtra- disão, de modo que por então se ouverão de despedir os escravos. E porque a alteração que socedeo no encomtro do capitão toqua especiallmente ao Padre Belchior Carneiro, 218
vay por vias e enfformação do que pasou; e a enfformação vay polo vigairo da cidade, e por hu(m) sprivão e pelo Padre de São Francisco que se acharão na questão. E esta enfformação he a verdadeira e as outras he adevinhar, porque aquelas pesoas sos se acharão prezemtes. Depois deste primeiro encomtro, tornando o vigairo da cidade, e os mais Padres que tenho nomeados, e o vigairo de São Domingos e eu, que nos achegamos de novo pera esfforçar o negocio, e levamos avamte mediamte a graça de Noso Senhor, revezando-nos dali por diamte asistir com o vigairo da cidade sempre alguuns de todas as ordens que ali estávamos. Mas ate a comcrusão daquela diligemcia, asy no prender como no proceder, como pôr requado nas ffazendas dos perzos e nas gardar, e outras diversas diligen- cias que o negocio requeria, sempre aquele capitão se semtio comtrairo. Mas, ffinalmente, vemdo elle que de Goa, aomde o negocio se remeteo por ser ali a cabeça aomde estava (a) autoridade episcopall da seedaa vagamte, e seu vigairo gerall e o Governador, vinha todo louvado o que ffizera- mos, mui aprovado e retiffiquado, como abaixo diremos, o capitão se veyo a nosa casa umilhando-se, pedimdo perdão. Digo, pois, que com todos os comtrastes se prenderão em Couchim 15 ou 16 pesoas entre omens e molheres. E porque ffaz ó caso, olhe V. R. o que noto neste negocio sobre os Padres de São Domingos, que eles fforão os mais zelosos e enteiros nas mostras que podia ser, porque, semdo(o) capitão devotíssimo seu, por verem os Padres que elle se opunha e empedia o negocio, se dezonirão delle e na comuniquação e sermões o tratavão mui riyamente. E depois de prezos, ouve diversas pesoas que estavão sobre ffiamças, elles tiverão sempre mui riyo em não se dar; elles forão em se prender todos os que se prenderão com muito ffavor e detreminação. Verdade he que a yemte toda desdo prim- cipio deste negocio ao Padre Belchior Carneiro e a mim nos
tinhão por mais cruéis, por não dizer imteiros no negocio, e os parentes e negoceamtes dos prezos a nós achavão mais rigorosos, e então não se entemdia, parese que adivinhavão o seguinte: Comcluíndo primeiro de todo(o) proceso do que pasou em Couchim, acresemto que os christãos-novos sempre con- ffiarão que em Goa se avya de desffazer o negocio, porem resulasão da parte do vigairo gerall e de todos os letrados religiosos das ordeens, e todos os letrados do Governador, [422r.] //em que entrava o lesemseado Francisco Alvarez, aquele bom homem que asima disse, ffoy que os prezos se esti- vesem prezos e se arrecadasem muito bem, e aynda mais se procedese na devasa polas mesmas pesoas que la estávamos se algo ouvesse que paresese pasar adiamte; e yuntamente o Governador mandava ao capitão desse todo o favor. E o vigairo gerall escreveo huma carta de grandes louvores aos que no negocio entemdemos, aprovando quanto era ffeito e mandando que a devasa viesse por pesoa sagrada pera se ver qua em Goa. E eu a trouxe e me party na momção deste Setembro pasado de Couchim pera Goa, e achegado ffuy recebido do Governador como soem ser os visitadores e comsoladores dos chegados à morte, ou dos que temem alguma afromta, fforça ou despoyo. Assy estão os Gover- nadores nesta terra, em termos de morrer pelas chegadas nas naos, quamdo temem a chegada de quem lhe á de soseder, e assy nos vay a todos então bem com elles despois que achegarão as naos e Noso Senhor tornou a vida ao Governador sabemdo que não vinha outro. Chegou tãobem desse Reyno o adayão que vinha tam- bém pera esta sse, a quall trazia carta de Sua Alteza em que encomemdava muito ao Perlado, com grandes abas- tamças do credito de sua pesoa e de muita comffiamça que Sua Alteza mostrava de o adayão servyr de provisor sufi- cientemente, e loguo declarava na carta que outro que qua 220
servia que hera o Doutor Ambrozio Ribeiro, secular, que o devião de ocupar em outra cousa. E por isto o Governador com todo o favor e o cabido com todo o gosto e presteza despedirão ao outro e ellegerão ao adayão com gramdes comtemtamentos. Elie elegido, ynstavam muito os christãos- -novos ao Governador por parte dos de Couchim que se entemdese em seu despacho, e o Governador começou a piquar ao adyão que assy o fyzese, e elle disse que o faria. E logo como saya do trabalho e ffastio da viagem e de sertã doença que todos naquele tempo qua caymos, ffez logo huma de vissitação gerall, na quail hum dos capitolos ffoy, como se acustuma, que quem soubesse do caso da eregia e contra a ffee alguma cousa de pesoas que o dixese. Estas cartas ffez o adyão pregar e declarar mui solenemente por todos os púlpitos. E porque eu sabia de solapa, que hia nesta terra de gravíssimos casos, especiallmente da ffee, e que nas visitaçõis que se ffazião acudião nada a eles, como me enfformarão pesoas dinas de ffe, tãobem porque anda suluta a terra e he barbara na autoridade que deve à ygreya, tratey com o adayão que se lhe pare(ce)-se bem que declararia a autoridade que avia na sse vagamte e elle tinha, não so- mente pera vissitar sobre aqueles casos de eregias como visytador, mas tãobem como enquisidor ordinário, segundo os cânones dispõem aos Perlados em suas diosezes. E pare- cendo-lhe bem, assym o fiz. Como o negocio estava ja ysquando da parte dos chris- tãos-novos, alevantou-se hum grande espamto nesta yemte e elles atisavão aos outros a dizer que querião ffazer ymqui- sição ecetera, e que não podião. Em isto acudio o Gover- nador ayumtando os letrados e religiosos, e segundo amos- trou, estava mui alterado no negocio, yspiciallmente elle e seus letrados piquados contra mim porque ffalara en enquisição, ffalando eu no poder que os cânones dão ordi- nariamente aos Perlados no caso da ffee. E comesando o
Governador a propor, dizendo que eu dizia o que não podia ser e comtra o que Sua Alteza mandava, sscilicet, da ymqui- zisão, eu lhe respomdi moderadamente e elle se escanda- lizou muito, como ornem que estava piquado, e asemdeo-se tamto, que ffoy huma cousa notavell as vozes e palavras que soltou; e, em calar a todas, por derradeiro lhe decrarey que ffalara do poder que sempre (o) Ordinário tinha pera [422 t.] proceder//no caso da fee, e que assy o declarara como hera verdade; e asy se veyo a cousa a temperar, e o Gover- nador a baixar se da paixão, e rir, e com palavras de todo o amor. E assy saymos dali que o adayão ffizese a sua vissi- tação e que ffizese comfforme aos cânones e autoridade que lhe dão e da sseeda vagamte tinha. E tãobem se detreminou que pera os casos da fee com- vinha que o adayão se ayudasse dalguns companheiros religiosos e letrados; e asy o adayão ouve de pedir algum de todas as casas religiosas, sscilicet, dos nosos e dos domi- nicos e ffrancisquos, como foy no primcipio nos ayumtamos na sse e o prior de São Domingos, porque o vigairo não hera prezemte que a elle pedirão. Também veyo o custodio de São Francisco e com o provisor logo começamos a tratar dalguns ymcomvinientes que compria primeiro olharem-se amtes que entrasemos na visitação; sscilicet ,o primeiro que a todos os religiosos não nos quadrava asistirmos em toda a visitação gerall, sscilicet, de amamcebados e outros pecados que não fossem deregias, porque temíamos que ysso nos ffizese alguma cousa odiosos, e não hera necessário; que asystir e tratar do negocio da fee parecia necessário, porque o adayão desjava muito de ser ayudado quanto à ymtili- gencia sobre este caso, e tãobem comvinha muito nosa ayuda pera autoridade da vissitação em tal caso, porque a yemte barbara de qua soubese ffazer caso disto e tivesse conffiança de declarar livremente e com esperança da emenda dos dilitos e proveitos; porque (em) tempos pasados tinhão 222
diversas pesoas anumciados aos que tinhão cargo de cousas gravisimas e não se ffez nada disso, e assy a yemte estava descomffiada de sse remedear nada; e assy avia muito escân- dalo, e ffazia esta expiriencia o negocio prezemte enleiu, e causava grande ynpidimento pera as pesoas decrararem o caso como comvinha pera o serviço de Deus e descargo de suas consiencias. Assy que, por estes respeitos nosa ayuda hera mui proveytosa e aynda necessária. Creyo, segundo o que da yente se sentia e dizia, que se o negocio não cayra em mãos de religiosos, não se acudira a elle. E tãobem dizíamos que entemdemdo somente no caso da ffee como negocio tão espirituall e que ajudaria muyto a yemte boa christãa, não timiamos o odio com a yemte, mas era muito certa a ydifficasão, como na verdade em Couchim e aquy se semtio, deixando à parte os sospeitos. Outra difficuldade avia mayor que ha pasada, sscilicet, que o notário que o adayão tinha pera a vissitação hera muito moço e que qua chamão mestiço, que he huma especya que desacredita qua muito, e não he de boa con- preysão, e asy comummente prova mail nos costumes e saber, e he de muito pouqua autoridade; e assy pera o secreto que requere o negocio da ffee, como polo temor que punha à yemte de denunciar diante notário de tão ffraquas calidades. E deste ymconviniente e de não ser tall o notário ffoy avisado o mesmo provisor e nós outros por pesoas de respeyto. E por estes respeytos e por outros não pouco ymportantes, pera milhor espidiçam no negocio, pareceo a todos que ouvese hum escrivão dedicado às denunciasõis da ffee, e se recebesem estas denunciasõis numa mesa por sy com os deputados do provisor pera isto; e aos religiosos, que ai nos achamos contribuyrmos alguns religiosos dos nosos que escrevese estas denunciasõis e não mais, porque o dito ordena Deus e permite que, não se achando tam bom secular ydonyo pera ysto, sera mais convyniente estou- 223
tro meyo pera a yemte e mui ffavoravell pera denunciar com liberdade. E no primcipio não se semtio nenhuma comtradisão neste modo de proceder, sscilicet, ym diversas mesas estamdo o provisor com hum notário recebendo as denunciasõis dos outros casos, e nós outros com outro escrivão recebendo as denunciasõis do caso da fee, tudo com autoridade e ordem do Provisor, o quall por não poder ser tudo yunto polios ymconvinientes asima ditos, não podia asistir a todas as denunciasõis, aynda que estávamos todos na mesma ygreya e aposemto. E declaro também que o custodio de São Fran- cisco, que de primcipio entrou comnosquo a receber as denunciasõis, andava de caminho pera Cochim e se ffoy, polo qual não pode continuar comnosquo, e desde emtão eu e o prior de São Domingos e outro em seu lugar asistimos nas denunsiasõis, e escrivão que pusemos ffoy hum reli- goso de São Domingos emquanto pode; e por este não poder continuou ate o cabo hum dos nosos de dous ou mais anos em casa, bom escrivão. Assy procedemos comf- forme ao paragrafo adiicimus c. excomuniquamus de aere- ticis, abilitados todos do vigairo, o qual tinha os poderes da sse vagamte plenisimus e vínhamos cada dia durante a visitação menhãa e tarde ao lugar aomde o provisor orde- nava. E a preposito pera o que direy, avisara Vosa Reverencia que o adayão Amtonio Ramgell de Castelo Bramquo, que este anno veyo do Reyno e nesta ygreja das Imdias é pro- viçor, alem da dinidade de adayão nesta ssee he omem quanto ao mundo de boa parte, e tem paremtes mui nobres nesse Reyno e qua bem omrados, porque entemdo que Fernão Rodriguez de Castelo Bramquo, provedor-mor dos almazens, lhe he algo, não sey se direitamente, e bem criado e pesoas que conhesemos os Padres que qua estamos sem- pre estudar em Coymbra. Não tem muito engenho, nem 224
yuizo, nem letras muitas; mas tem-se qua mostrado ate agora de boa vida e zeloso de ffazer em seu cargo o que deve, e mui sogeyto a pesoas virtuosas e religiosas que o reyão com o seu saber e conselho; e ate os primeiros tér- minos do negocio que arriba apontamos o adayão hera mui bem recebido do Governador e com todos ganhava muito credito; e no primcipio da visitação se mostrou mui ymteiro, assy com os clérigos como leygos, e aynda com o Gover- nador no que toquava a exequotar seu cargo. Verdade he que logo se semtio ser aselerado em detreminar-se por si mesmo, e tãobem a ffalta da experiência desta terra lhe causava algumas ynadvertencias e em tratar com as pesoas, maiormente com o Governador; mas não que ate agora o adayão ffose notalvell em nada disto, nem tão culpado que não merecese muito louvor. Ysto notey aquy do adayão, porque, como Vossa Reverencia vera, por ser bom desacustu- madamente pera esta terra, precurou o demonio de o desa- creditar, mas verdadeiramente sem rezão pera os bons. Item avyso a Vosa Reverencia que no Governador sem- pre se semtio enclinasão pera ffavoreser os christãos-novos neste caso quanto nele ffose, aynda que não decrarava querer-lo ffazer sem yustiça; e nós pola experiência que temos de sua comdisão, numqua tivemos comffiança de ffavorecer o Governador o negocio como compria; entre as pessoas da corte e a jemte que mais entemde, tinha-sse por casi serto que o Governador avia de entornar o negocio. E daquele dia que disemos que o Governador ayumtou pera examinar como procedia o adayão no primcipio da visitação e que poderes tinha, comesou a trombeyar, como dizem, ao provisor, vemdo que o adayão se onia com os religiosos e que tinha fforte o negocio. Desde então o Governador, quando se oferesia a ffalar no provisor, ffalava com pouquo gosto, e pouquo a pouquo tomou a mão a desffazer nele, moteyando do modo simplez aymda que zeloso e de boa 225 DOC. PADROADO, VI 15
entemção, e semdo as cousas leves as ffazia mais estranho. Assy que, quamto mais se procedeo na visitação, como os christãos-novos acudyão, asy o Governador parese que tam- bém se emcemdia. Pouquos dias depois de começado a visitação se premdeo hum homem dos principais ou principall dos christãos-novos desta cidade e quatro cunhadas suas, e outro casado com huma delas ffuyo, e bem depresa outro alguuns dias depois ffoy preso. E por esta ocasião os novos atisavão todos os que podião, ora com mentiras, ora com piedades, e com o Gover- nador, eram mui continos, e dous deles são como demonios ffamiliares do Governador digo de continoos de particula- res, e outro he tão privado que ffede de ffavoresido, e este ffavor he mui colorado, porque he hum dos que acodem com dinheiro pera a carrega. O fogo lavrava quanto podia duramte a visitação contra o adayão especiallmente contra mim, e tiverão os novos tall manhaa, que desde o primciipio (Acostaram-se) muito aos ffrades de São Domingos e, se não me engano, também se meterão com o bispo Ambrozio, ytaliano: não ya que eu sayba nem cuide que tais pesoas trocesem naquelle tempo nada de serviço de Deus nem zelo de virtude, mas pera dizer o que simto não tinha por segura a conversasão daquela yemte com os Padres e bispo, e tinha mais arreceo, porem sem ffirmeza nem yuizo do Bispo estramgeyro e que tem necessidades de pregrinos. Quero apomtar duas ocasiõis particulares pera o Gover- nador desatar-se contra o adayão e declararse no negocio dos novos, e os Padres de São Domingos e em certo modo se [423 r.] danarem // pera o não favorecer tamto como se esperava. O Adayão no processo da visitação ffez premder certo homem, o quail a yustiça secular sem nenhum ffundamento bastamte pedia ao adayão que lhe entregasse, estando o adayão com o Governador e com muitos outros dizemdo (o) officiall da justiça que lhe entregassem o dito prezo porque 22 6
lhe pertencia. E o caso, porque este officiall cuidava que aquele omem estava prezo, hera crimem e de morte, mas não avia rezão pera ffazer tal requerimento ao adayão por- que o officiall secular não tinha nenhumas culpas daquele homem, e somente polo que ovira ffazia este requerimento. Ao qual o adaião respomdeo temperadamente desviando sua rezão, e despois vemdo seu comselho, entemdendo que a yustiça secular se detreminava de entender naquele homem, temendo-o provavellmente que devasamdo compremdese aquele prezo no crime que elles represemtavam, e asy se sosederia deitar o secular mão dele e poni-lo com pena de morte, o adayão comprio com o preso o que lhe pareceo que abastava à sua yurdisão, e disimuladamente o despedio da cadea. Este prezo o adayão o predeo não ya por comselho dos que assistíamos às denunciasõis da ffee, porem, como quer que seya o da prisão, o solta-lo ffoy muito bom acordo, que he ja yustiça, posto que pera ser prezo paresia aver não pequenas causas. Daquy tomou o Governador ocasião de dizer que o adayão hera leve, e prendia e soltava sem comsi- deração; e asy o dizia não somente o Governador, mas outros que não tinhão dele gosto, nam (nem) huns nem outros tinhão yustos ffumdamentos para desacreditar o adayão. E serto ouso affirmar, e assy o parese a todos nosos Padres, que o adayão hera dino de se lhe gratefficar com ffavor, louvor e respeyto mui especiall a sulisitude e zelo christão e pastorall com boníssimas entranhas que ategora tem mos- trado aymda que, como disse em proseguir os meyos tivese alguns descuidos, que tudo não hera nada, primcipallmente que, como o Governador ou pesoas de letras e religião o avisavão, mui ffacillmente se comfformava com a rezão. Asy que, concluyo, que verdadeiramente sem rezão o Gover- nador desgostou dele e ao menos ffalava em seu descrédito, e com nenhuma amtes contra toda a rezão, yustiça e vir- tude, lhe ffez o Governador os desffavores e affromtas que
direy e ymtemttou, outros outras maiores e piores, e por mui suya causa; e tall que pera se detreminar e ffazer o que ffez, tomou por manha acostar-se aos Padres dominiquos pera soltar os prezos, assy daquy como de Couchim pelo causo da ffee; e assy he verdade que entemtou mui riya- mente de soltar, e os Padres dominicos se acharão pera ffavorecer nese parecer, pio que logo direy. Assy que, pelo adayão estar enteiro nissto, veyo a tamto desffavor do Governador. E porque o Governador na sultura destes prezos que pretendia, não tinha direito ssem ter o adayão, que hera o perlado a quem pertencia o negocio por ymteiro, e quanto à aprovação da yemte não tinha nenhunha rezão por si, amtes todo o mundo estava serto, como se depois symtio, que lhe avião de tomar a mall, ymaginou de aquirir o pare- cer dos Padres dominiquos pera alegar algum direito e rezão, sequer colorar. Digo, pois, decrarando, como so Padres dominicos se vierão a desazimir do negocio dos pre- zos, não mostrando o rigor no caso como de primcipio, que hum dos Padres asistia as vezes comigo às denunciasõis em escrúpulos desnecesarios no receber das denunciasõis e ymterrogar os denunciantes; e por esta ocasião teve comigo ou tivemos ambos alguma alterquasão e payxão, segundo parecer de cada hum de nós, mas verdadeiramente que tomadas as palavras que pasarão duma parte e outra, sym- presmente não hera mais que de dous yrmãos e compa- nheiros religiosos, e dous amigos letrados que se altercão com differemça de yuizos aprovando cada hum o seu, e tudo passou entre os que estávamos à messa. Senão quando huma das vezes o bom do Padre se alevantou da mesa arruffado e com meneos de payxão e se ffoy pola ygreya ffora com amostras de cólera, do que me pezou maiis, mais; nem ysto foy nada, nem se ffez caso da sua parte nem da nosa, e continuamos elle e outros seus comigo com a visita- 22 8
ção, mas temo-me que destes pontos ffiquarão despostos pera não tratar o negocio tamto como seu, aymda que pera dizer o que symtimos os de casa como os que nos mostrão // t123*-] não tirando boa entensão aos Padres. Suas reveremsias parece que deste Couchim se inclina- vam a não se ffazer tamto rigor no negoceo, e querer con- solar aos novos quanto pudesem primcipallmente o vigairo delles, que asistio na prisão dos de Couchim se mostrou sem- pre mais temro, o quall entendemos, que asy em Conchim como qua o Governador aliviava o negocio dos de Couchim; e não somente o vigairo, mas, segundo colhemos das pala- vras do Governador, outros religiosos seus ou de São Fran- cisquo, ou huuns e outros, ffazião o caso todo levve. Mas eu não crey o certo, nem para yso o represento, que religiosos e tais prevariquem em tall negocio; senão pera decrarar a raiz delle, porque emporta muito pera o serviço de Deus, e a nós em particular toqua muito, como Vosa Reverencia verá. E por esta maneira achou o Governador o que desejava, e por omde asy a visitação estava ya casi comcluida, asy comesava-a com levar mão dela; mas muitos que por ella estavão comprendydos se ouverão de rrender por direito, e como a consiensia não se podia ympidir, e esta foy a pri- meira abominação que o Governador causou com a revolta, ymtemto de soltar os prezos. A segunda, que as denunciasõis de cousas e herrestigião (?) nesta visitação fiquarão como mortas, requerendo muito ffavor e diliyencia exquisitas pera dar com a casa, mas ffazendo o Governador o movimento que fez tudo se desbaratou, nem ffiquou liberdade pera se ffazer o que comvinha. O terceiro, que ha muitas pesoas de prezos domestiquas suas em quem ay imdicios ou provas que sabem muito, os prezos com este desbarate fiquão mais esfforçados e tenazes em negar quem facillmente comffe- sarão, se o Governador ffavoresera o negocio, e o sostemtara 229
e não no encontrara tão desenvergonhadamente. O quarto, que grandes testemunhas que são tiradas dos prezos, eu creyo que com este golpe ffiquarião tão abalados que ay perigo não se desdigão, porque, Padre meu, saiba Vosa Reverencia que, se nestas terras o Governador quizer ffazer hum ydolo, eu não yuraria que não sayse com elle; que farão algumas testemunhas escravas e domestiquas dos presos que teverem dado testemuhno comtra seus amos, se ay ouvera alguuns, que semtirão vemdo que o Governador se poem no campo pelos novos? Veya se temerão entrega-los amenhãa a seus senhores! O quynto, que o Governador em ayudar este ne- gocio com ffavores particulares de meyos que se requerião não mostrou o calor comviniente. O sexto, que agora se oferese de comsiderar que he posivell que, por se conhecer do Governador desdo o primcipio tamta ynclinação pera os novos na visitação, não se reverlarião muitas cousas, temendo os homes ter o Governador contra si, ffiquarem despois em muitos perigos, como verdadeiramente os veyo aparelhados pera muitas pesoas que testemunharão, e temo que cada dia os matem, que veyamos nesta cidade, especiallmente pela desordem do Governador, alguns danos gramdes aos bons christãos que com temor de Deus e zelo da fee tratarão verdade. O sétimo, o escamdalo gerall da yemte christã, assy pur- tugueza como da terra, e tãobem os yemtios que tão mail se tratão as cousas da nosa ffee, sabemdo, como todos, as abo- minaçõis que se acharão nos espritos de Couchim contra Yesu Christo Noso Senhor; está craro que os yudeos e mou- ros que estão ao redor de nós e tratão comnosquo escarne- serão da nosa religião. E aymda pera mais afear o Gover- nador a pouqua com ta que teve com omra de Yesu Christo nesta parte, vemdo que se pretendião tãotos dos novos pela ffee, despidio pera ell-rey de Bisnaga hum dos mayores prin- cipais desta, hum christão-novo por embaxador e a hum 230
mancebo. Serto homem que fugio daquy, yndo pera o pren- der, sabe-se que vay para o Bisnaga; la achara o embaxador! A-preposito, ysto deste embaixador, ffoy qua muito mail tomado. O remate da abominação ffoy que o Governador se determinou de soltar os prezos, assy daquy como de Cou- chim; e chamo soltar, asy agora como nos de tras, querer que se dem sobre ffyamça e se ffosem pera suas casas, e soltos ou esperamcem pelo Perlado ou se livrasem. E isto chamo ou solta-los e deita-los a avoar, porque craro estaa que os prezos que tiverem duas ou tres testemunhas ou mais comtra si de serem yudeus, como // Vosa Rverencia la pode 424 r-l ver, se o Cardeal quizer ve-lo, e que o veya poios treslados das culpas que vão; digo que os taes prezos não he de crer que esperarão polo Perlado nem que os semtencem à ffo- geyra, que graça tamanha amtes de saber nenhum prezo que tenha testemunha quando fforão a o prender; os que estão prezos ffugirão alguns e não pararão na terra, os quais herão paremtes dos que prenderão, e pode ser que era toda a prova, e á-sse de sperar que estem em suas casas e paseem polas ruas ate que venha o Perlado e lhe dê a semtemça? E ya que o Governador queria ymtentar ysto, o caminho he chamar o adayão, que hera provisor nesta se vagamte, o quall estava aymda com hum negocio aberto, e soltar nem premder naquele caso não pertemcia senão a ele, e tãobem sera isto decemte pelo respeyto do adayão? E assy ffora rezão que o Governador tivera comta comigo, que hera hasystemte mais continuo no negocio, e que a yemte tinha despois do adayão por primcipall, e tãobem algo se devia à minha dinidade em tall Companhia, e nestas partes omde está tão acreditado, e algo tãobem a meu grao e officio de letras e púlpito. 23 /
31 CARTA DO PADRE DOM GONÇALO ESCRITA AO PADRE MIGUEL TORRES Goa, 1557 Documento existente na ASl. Goa, 10, II Fls. 433-439 v. Jesus A graça, luz, amor e paz de Jesu Christo, Nosso Deus, Senhor e Redentor, sejam sempre a cresçam perfeitissima- mente em nossas almas, resplandeçam em nosas vidas e governem nossa conversaçõens em todo o lugar. Amen, amen, amen. Sam as contas tam velhas e longas tam miúdas e tantas e sobretudo tam enleadas que somos obrigados a dar destas partes, nelas os feitores da Companhia que ca tratamos a fazenda da divina Majestade, asi da propria Companhia [433 v.] como //do mais cabedal de Jesu Christo, que confeso a V. Reverencia, Padre mio en el nuestro boníssimo Jesus muy amado, que antes de chegar o tempo de escrever muyto de antemão me carrega; e quando se acerca parece que tolhe as mãos e sentidos com impossibilidade que se representa de poder cumprir com tam prolixos ratiotionios; y quando a sazam e moçam das naos partirem he presente e a abrigaçam aperta, malanconiza em estremo o entrar e estar aos itens. So o conforte da divina obediência fica para aco(me)ter tam forte trago, e a imaginaçam de falar sequer de anno em anno oxala de dos en dos — com nosos muy doces padres e irmãos para proceder a alma e nam com algum engano de consolaçam, porque na verdade para quem ama, e amor de tanta rezam, a memoria de tam estranho apartamento solen- [434 r.] niza sem medida a saudade. // 2 3 2
Y dezir yo a V. R. que no siento in Domino ninguna inclination de hazer desorden en paenitentia ni trabajo, aunque confieso que en esto y en todo soy desordenado. Ansi que, si V. R. y nuestro Padre Francisco quisiesse, yo lo pido para mi quietation ser desobligado de la obedientia particular en esta parte. Y bien sabe V. R. que nunqua me mando alha tales cosas in virtude de obedientiae, y yo se verdaderamente que alha i aca, sin obedientia y con ella yo me determinava siempre de cumplir la regia; es verdad que poças vezes la cumplia, mas sabe Dos que quasi, (con)tra mi voluntad digo quasi, porque omne paccatum volun(ta)rium, mas com todo esto yo no tengo por pedido sino lo que la obedientia me mandare. El 2.° capitulo es: «Porque cremos que para satisfazer mais a Dom Pedro sera necessário dar-se ordem como vos fique o tempo livre do cargo da Província e governo parti- cular da Companhia, e também polo talento que Deus vos deu para semear sua palavra se servira muyto a divina Majestade de irdes a diversas partes fora da cidade de Goa, descarregareis este cuydado no Padre Francisco Rodriguez que sempre ade estar no collegio de//S. Paulo, nam '3'v-' somente quando fordes fora da dita cidade totalmente, mas ainda quando nela estiverdes quanto poder ser, de maneira que assi os da Companhia como os de fora dela entendão e saibam que descansais com ele nas couzas do governo para mais livremente vos dardes ao proximo.» En este capitulo diz V. R. que decarregue no Padre Fran- cisco Rodriguez quanto poder ser de modo que os de fora e os de casa entendam que descanso nele para mais livre- mente me dar ao proximo. Estas palavras presopõe que V. R. me haze provincial, y que como de mi mano tenga el Padre Francisco Rodriguez el cargo y goviemo de las cosas y que la gente que entienda que y o descanso sobre el, m(as) no que es el provincial, y que lo tenga por pricipal de la 2 3 3
Compania de aca. Noto este punto para conferirlo con otros dudosos que se siguen de otros capitolos mandados y orde- nados de V. R. en la instrution comum que nos dio para mi y para el Padre Francisco Rodriguez, de la qual el titolo es este, scilicet: «Instruction para el padre Don Gonzalo, provincial de la India, y para el Padre Francisco Rodriguez, su colla- teral, etc.» Esta hoja se acaba en la letra A; siguese la materia en [435 r.] otra hoja que en el sobrescrito tine B. // B. En el titulo que queda transladado en la hoja A de la instruction comum para mi y para el Padre Francisco Rodri- guez da entender V. R. el nombre que yo devo de tener en estas partes, scilicet, de provincial de la Compania en ellas, y ansi el que deve tener el Padre Francisco Rodriguez, scili- cet, de mi collateral con la addition, etc. Lo mesmo se declara al sentido dei capitulo seguente resolutivamente y bien lhanamente, porque el capitulo pri- mero de la instruction comum dize asi: «El Padre Don Gon- zalo llleva el nombre absoluto de provincial de la India y el Padre Francisco Rodriguez de su collateral y consejero, alhen de attender a los casos de consciência.» Y quanto al quid nominis mio y dei Padre para ser nombrados y para las firmas de patentes, cartas, sobrescritos, etc, parece que no ay escrúpulo segun este capitulo. El 2.° capitulo de la comun instruction dize asi: «El Pa- dre Francisco Rodriguez, allende el cargo de collateral y consultor dei Provincial, tenga sumisa authoridad, porque, descurriendo el Provincial para hecho de visitar a los padres y hermanos de la Compania que andan por ella y de otras [435 v.] cosas // como es attender a praedicar y ensenhar la doctrina y otros exercitions, asi en Goa como fuera, pueda el mismo Francisco Rodriguez de Goa, estando firme nela, attender ao governo da Compania.» En este capitulo declara V. R. todo 2 3 4
el quid rei del Padre Francisco Rodriguez derechamente; del mio quanto al quid rei nada sino indirecto, porque dizendo que el Padre Francisco Rodriguez tenga mi misa authoridad presuppone ser la mia la que da nuestro Padre sobre la provinda destas partes y se da al provincial, y para que declarada la authoridad misma dei Padre con la mia no se se caegase o negase la mia. Parece hazer V. R. el capitulo 3.° de la mesma instruction comun, el qual dize: Entiendese con esto (sin lo dicho en el capitulo 2.° proximo y atras recitado por mi) que siempre que el Padre Don Gonzalo estuviere en Goa, exercite su cargo, teniendo el Padre Francisco Rodriguez para con ele no solamente el cargo de su collateral y consultor, pêro tanbien de superintendiente, assi en lo que toca al govierno como en lo que toca a su salud y conservation». Lo que se sigue desde la conjunction «pêro» hasta al fim dei dicho capitulo, y lo que se condene conforme a este pedaço de capitulo en el capitulo 7.° // ha puesto a los professos todos 136 r de aca, scilicet, el Padre Patriarcha, el Padre Belchior Car- neiro, el Padre Antonio de Quadros, y al Padre Mestre Bel- chior, que hizimos por el dia de S. Matheo pasado professo, y a mi y al Padre Francisco Rodriguez, harta confusion y alguna contradiction, aunque no fuera de la fraternal cha- ridad, porque a ninguno de los padres dichos saco a mi y al Padre Francisco Rodriguez por partes en el negocio. No parece que V. R. me ha quitado nada de mi authoridad, ni suppuesto ni subordinado, quanto a la authoridad con el cuerpo de la Compania en estas partes y meneo de mi pro- fession, al Padre Francisco Rodriguez, dexando a parte la particular obediência que viene declarada quanto a mi per- sona corporal. Y a los Padres les parece que yo vengo por provincial nombrado y real, y que el Padre Francisco Rodri- guez me deve de ceder como a tal en lo que enterviniere mi authoridad o la suia se encontrare, y el me deve de reco- 2 3 5
noscer y los hermanos en este grado de superdoridad, que- dando el padre con la liberdad de mi collateral y consultor, para me aiudar y amonestar por la orden solita de la Com- [436v-] pania, mas no para impedir lo que yo mando o mandar // contrario, ni dexar de cumplir lo que yo ordeno fen la casa y Compania, ni desviar a los de la Compania que lo hagan. Es verdad que el Padre Francisco Rodriguez em cosas nota- bles no se a mostrado ni muestra claramente mudar lo que yo mando o imperdirlo, mas en muchos puntos, ainsi e en los negocios de fuera como en la observância de casa, los quales puntos estando yo en el lugar em que la Compania me pone, yo tengo por muy esenciales. El padre no parece averse conmigo como provincial, ni resguardame mi autho- ridad y respecto ni con los de casa ni con los de fuera, ni con los distantes de la Compania. Y aun el padre tiene concepto, como lo a soltado en palabra en mi presencia y de otro o otros profesos, que tiene authoridad sobre mi, de modo que lo que yo mandare el lo puede desmandar etct. Y toda la confusion de los Padres y del P. Francisco Rodriguez, digo su concepto, se funda al parecer en el resto de aquel capi- tulo que dixe, aonde V. R. dize que es no solo mi colla- teral etetc. mas mi superintendente, ainsi en lo que toca al govierno como en lo que toca a la conservacion de mi cuerpo. 437r ] Siguese la materia en la hoja C. // C. Saudade, desconsolaçam e todo sentimento! Mas milhor sera quebrar e secar aqui o pranto por cum- prir com a rezam superior e mais varonil e solida charidade, e começo em nome de Jesus obediência suma, patientia infi- nita e amor e doçura entranhavel e imensa, co, tpdp desabor e sobre toda dor, tormento e afronta começo logo daqui a tratar lo necessário, y quedense los amores para las damas, las blanduras para los cortesanos, qui enim vestiuntur molli- bus in domibus regum sunt. 236
Padre mio, num regimen e obedientia particular para mi persona, que asi o entitulou V. R. vem dous capítulos prin- cipais, cujo tenor he o seguinte do primeiro: Primeyramente em todas as cousas ao tratamento de vosa pessoa, asi de comer, vestir e trabalhos que se ofrecem, guardareis inteiramente a obedientia e regra que vos der o P. Francisco Rodriguez, ainda que seja prohibir-vos jejuns e quaisquer outras cousas para que fose necessária a authori- dade de nosso P. Micer Ignatio etct. // Quanto a este pri- t437 meiro capitulo represento a V. R. que esta obedientia ni para mi anima ni par el cuerpo la tengo experimentada util, ni siento in Domino que conviene, sacando siempre el mérito de obedecer y la authoridad de la obedientia, que yo no negare no niego con la gratia divina. Digo, no est util para la anima, porque, como V. R. a dispuesto que yo tenga el cargo de provincial y tambien me destina para la conver- sation de la gente en diversas partes y negocio de predicar, de necessidad, digo moral, las obedientias que me aca fuerem puestas acerca dei tratam iento, digo de dormir tantas oras y a tales tiempos, de comer desta manera o tanto, de pre- dicar tantos y tales dias y no mas, y otras semejantes, vienen a encontrase con la occurencia delas otras occupationes ordi- nárias y necessárias dei cargo, y dei predicar y conversar; de mo que o se dexara muchas vezes la conveniente y razo- nable destes exercitions, ou por lo menos yo me vere en muchos escrúpulos, ut expertus sum. Y aun si lo que se me mandase aca fuse como lo que se manda simplemente, mas este // inviemo me acaescio mandarseme três o quatro cosas C438 in virtute obedientiae, estando io 200 léguas o 100 de Goa, las quales Dios sabe quanto trabajo me dieron por se encon- traren muchas vezes con el cursos de cosas que las otras la que me fue puesta de no predicar sino una hora poco mas o menos, y esto in virtute obedinetiae. Yo no praedicava mas vez que nos lhevasse muy determinado de praedicar como
se me mandava, mas creo que no predique vez que lo guar- dase, y de la culpa que yo en eso tenia yo me confesava y sabe Dios con quantos escrúpulos para la missa. Mas affirmo a V. R. in Domino que mirada mi manera en el predicar yo quasi me parece que no podia cumplir aquilho y tampoco no me dexa la obedientia en eso ser libre. Por ventura hize mas peccados mortales este ano por esta via de lo que hazia en el mundo. Esto, Padre, dei praedicar digo que no praedique vez que lo guardase por declarar la confusion y muchedumbre de escrúpulos que pase en esto caso; y en lo demas que he tocado de otras obedientias tambien me vi en hartos escrú- pulos y Dios sabe en lo que caia, ia digo por se encontrar [438 r.] muchas vezes la oppor // tunidad y quasi necessidad de otros exercitios ordinários de la profession, tanto que fue necessário donde estava avisar al P. Francisco Rodriguez, y como no estávamos como de Coimbra a Lisboa uve de pasar la confusion buenos dias. En lo de los aiunos no me quexo dela obedientia porque yo me tenia mejor cargo de dispensar segun las necessidades occurrentes que el Padre de me aflo- xar en elhos, digo de los ordinários que los demas nos los tuve ni tengo. Asi que, Padre mio, si a V. R. parecer in Domino, yo en el le represento que esta obedientia me es muy poco comoda, antes me es occasion ainsi por mi condition algo scrupulosa como por una necessidad de cierta malitia y flaqueza en cosas que son de mi condition para caer en ellas, aunque por gracia de Dios no querra, y maxime por tan differentes exercitios como se me offrescem; digo que me es la obedien- tia que V. R. me puso occasion de caer mas una vez y perder mas de lo que gano toda la vida. Parece bastar las regias y constitutiones para me obligar, pues me echan a bolar tan [439 r.] lexos y aca doy tantos buelos. // 2 j 8
32 CARTA DE HENRIQUE DE SOUSA CHICHARRO A EL-REI Cochim, 8 de Janeiro de 1557 Documento existente no ANTT: — CC, I, 100-65. Mede 300 x 210 mm. Quatro folhas em bom estado; só três escritas. Senhor: Ho anno pasado escrevi a Vossa Alteza que estava este Estado em grande perigo por caso de nossas fortalezas e povoações estarem tão espalhadas, como estão, e não termos nenhuma menos de sessenta legoas de Goa e pola mais de nossa jente serem mercadores e andarem por diversas partes fora da índia, fazendo seus proveytos com muytas naaos e navios, artelharia e bombardeyros, e não termos em Goa jente nem armas pêra peleyar com a dos turcos, quando viese; e que nos era muyto necesaryo termos propio onde nos recolhesemos e se podesen soster sete ou oyto mil omens com as rendas da terra e huma armada de oitenta ou cem velas de toda a sorte com que se posa resestir a estes imigos, metida em tarecenas cubertas de telha, porque se não queyme tão brevemente, como se nos ja queymarão muitos navios por estarem cubertos de palha; e que pêra ysto, que nos tanto cumpria, erão muito a preposito aquelas terás de Comrão de que Mealecão, verdadeyro rey e senhor Balagate fez doação a Vossa Alteza, asy por estarem pega- das com Goa como pelo muito que rendem, e por termos nelles todalas cousas que avemos mister e não estarmos avamturar de no-las não quererem dar nossos vezinhos, vindos os turquos a India e por estarem cercados da banda 2 39
do sertão de huma muy aspera e fragosa serra que não tem mais que quatro ou cinquo pasos por onde posão deser do Balagate a elas, que com muito pouquos omens se podem defender; e que pêra isto aver efeito, alem da jemte que escrevi a Vossa Alteza que me parecia que devia de mandar de la, era necesaryo defemder-se todo ho trato e navegação fora da costa da India e despovoarem-se alguns lugares que qua temos desnecesaryos e recolher-se tudo naquelas terás tam abastadas de mantimentos com tamtos e bons rios e portos de mar junto de Goa. Prazera a Deos que tera Vossa Alteza tomado este conselho por lho tão bem escreve- [»*■] rem // outras pessoas e lho dizerem algumas que de qua forão, ho ano pasado, e serya muy grande dita ter Vossa Alteza ja provido nisso, porque nos fez Deos tamta merce que tornamos a cobrar Mealem que estaa em Goa com sua moller e filhos. Tenho por certo que o tirano Idalcão, que ora reina no Balagate, porque e muito mal visto e se teme de Meale, que no reino e muito desejado de todos, alarguara a Vossa Alteza as mesmas terras ou grão parte delas, porque lhe tirem Meale de Goa e o pasem a outra parte omde este seguro dele. Se Vossa Alteza ainda nisto não tiver tomado concrusão, por amor de Deos, que não perqua tempo e mais polas novas que temos da armada dos turquos que o gover- nador Francisco Barreto escrevera a Vossa Alteza e necessá- rio acudir com gente se a ja não tiver mandado. Eu, senhor, são velho e mal disposto, e não poso ja servir a Vossa Alteza em suas guerras e armadas, como ho fazia no tempo pasado, e são tam pobre e nam por minha culpa que não tenho com que posa servir Vossa Alteza senão com avisos e lembranças de seu serviço em que sem- pre cuido, e por yso detremeney de lhe escrever este anno as cousas seguintes, as quays primeyro pratiquey com pesoas discretas e zelosas do serviço de Deus e de Vossa Alteza, 2 O
a que parecerão muyto bem, porque he muy grande perigo fiar-se de huum soo juizo tamanha cousa, como a gover- nança deste estado, pois que nos omens a defeitos, parece muito necesaryo, por nom estar a ventura de huum ornem dar com tudo atravez, ordenar Vossa Alteza em Goa huma mesa e conselho de certas pessoas velhas e esprementadas e que nenhuma cousa de emportancia faça ho governador sem eles, aos quays deve Vossa Alteza dar bons ordenados e apartar-lhe renda de que seyão muito bem pagos, sem pêra yso terem nececidade do governador e, por muito que niso gaste de sua fazenda, nam a-de ser a centena parte do que lhe ão-de forrar nas grandes e desnecesaryas despesas que os governadores fazem, por sua cabeça. E com aver na índia conselho perpeto de pesoas escolhidas bem podem os governadores ser de tres em três anos, ainda que milhor seria enquanto ho bem fezesem, porque os governadores, com suas muitas ocupações, não podem entender nas cousas da justiça como e necesaryo e mays, por nam serem letra- dos, levão-nos os desembargadores por onde querem, dos quays ha muito que dezer. Abasta que são mamcebos e proves e nam se podem qua mandar outros, parece muito necesaryo ser o arcebispo de Goa rejedor da justiça da índia e presidente da Relação que Vossa Alteza tem naquela cidade. Serya isto muy grande descanso pêra quem governar este estado e nenhuma cousa demenuyra seu poder, mas amtes acrescentara sua autoridade, porque ahi lhe fiqua ir a Relação, quando quiser, e mandar que se nam despache sem ele os feitos que puser, e fazer merce da vida a quem for julgado a morte, se quizer, como quem esta em lugar de Vossa Alteza, // porque os omens não são qua omrrados [2 r.) nem tem laa grande nome, por muytas vertudes que neles aja e se nam, por gastarem muyto e fazerem cousas com que aprazem ao povo, e por terem muyta valya com os 24 1 DOC. PADROADO, VI l6
governadores ou por algum bom soceso de guerra. E pode acontecer por Vossa Alteza nas socesões da governança alguma pesoa que, se vier a ser governador, se sigão diso grandes males. Parece que pêra Vossa Alteza saber verda- deiramente os que são pera ho tal cargo avia de mandar ao arcebispo e ao custodio da ordem de Sam Francisco e aos provinciaes da Ordem de Sam Domingos e da Com- panhia de Jesus que todos quatro juntamente, em huma carta asinados, tenhão cuidado de apontar a Vossa Alteza, cada ano, tres ou quatro pesoas que em Deus e em suas conciencias lhe parecerem mays pera governar esta terra, porque os governadores escrevem a Vossa Alteza os serviços dos omens e prouvese a Deos que niso nam encarregasem suas comciencias, mas nam tratão de quem sera pera os soceder. Quando morrem parecera cousa em qual menos cuydão e, ainda que se escreva e diga a Vossa Alteza de huum ornem e que merece merce por quão bem o serve com sua pesoa e fazenda, pode ser que nam seya pera governar. Ho negocio da cargua das naos da carreyra se faz muito mal, de alguns anos a esta parte, nam e necesaryo escrever a Vossa Alteza, porque partem de qua tam tarde que os mays se perdem ou vão envernar a Moçambique e porque levam tão pouqua e roim pimenta, se nam como se reme- deara tamanho mal polo muito que niso vay. Parece que devia Vossa Alteza ter nesta cidade de Cochim huum ornem que fose capitão e Vedor da Fazenda tam omrrado que lhe tivese o governador muito respeito, e não nos tres anos, senam em sua vida, e que no negocio da cargua fose tão severano que fizese tudo o que lhe bem parecese, porque de Goa a Cochim são cem léguas e os governadores tem muyto em que emtemder e que pera com- prar pimenta pudese tomar ao provedor-mor dos defuntos todo ho dinheiro que ouvese mister; e serya muito bom 242
resedir ho provedor-mor nesta cidade de Cochim e aquy lhe trazerem todo o dinheiro dos defuntos, como lhe levão a Goa omde ho tomam os governadores pera outras cousas. Também parece necesaryo mamdar Vossa Alteza so graves penas que se não gaste ho cabedal que trouxeram as naos pera cargua em outra cousa e que todo se entregue no tesouro de Cochim, porque tão levemente se gasta em chegando a índia, como se gasta o dinheiro que também naquele tempo vem de Ormuz e de Baçaym e de Dio e o 4 marfim de Çofala. E asy parece necesaryo mandar Vossa Alteza que as naos em que não vier governador nem trouxerem jente a India nam vão a Goa e venhão dereitas a Cochim, porque gastão muyto tempo em Goa e no caminho de Goa a Cochim //, por ser de cem legoas e virem tomando portos, [2*.] e porque no tempo que se querem vir pera Cochim cursão ventos contraryos nesta costa que os nam deixa vir e chegão alguuns anos tam tarde que, como Vossa Alteza tiver Veador da Fazenda e de Cochim que tenha pimenta recolhida de huum ano pera ho outro e ouver dinheiro pera se comprar a pimenta nova, como começar a colher, nam fiqua tempo as naos pera o correjimento que ão mister e pera se poderem carreguar e partir, quando e razão que partão e mais, por caso da armada dos turquos que nam sabemos quando a-de vir nem onde a-de vir, e muito bom nam irem as naaos a Goa e virem demandar esta costa do Malavare onde parece que vem seguras de emcontrar com elas podem tomar Cananor e dahy em muitas fustas que ha na terra mandarem-se as mais que trouxerem das cartas de Vossa Alteza ao governador, por nam estar tanto tempo esperando por elas e ir a Goa quem tiver laa que fazer. Por quão mal acustumados estão, de alguns anos pera qua, os mercadores da pimenta e os reis senhores de cuja terra a trazem ao peso desta cidade parece que serya bom 243
mandar busquar pimenta a Çunda e a que da huum ano, pera que saibão que podemos escusar a sua, se forem desar- rezoados, a qual pimenta e tão boa como esta do Malavare e alguns lhe querem dar ventaje e nam a-de custar mais e pode ser que custe menos pela muita valya que tem em Çunda e Queda as roupas de Cambaya e Bemgala com que se a pimenta compra. Isto, senhor, aconselhava eu ao viso-rey, Dom Pedro, que Deus aja, e pareceo-lhe também que tenho por certo que ho ouvera de fazer se não morrera. Duarte Teyxeira, que ora estaa por capitão e feitor em Coulão, serve Vossa Alteza também neste negocio da pi- menta, que ho devia ter aly toda sua vida e acrecemtar-lhe ho ordenado, porque e muyto pequeno pera omem tão escaimado que nam quer os percalços de que se lograrão todos os seus antecesores. Entrou ho ano pasado em Coulão e tem-no ja reformado de maneira que forão la carreguar este ano duas naos; parece que compre muito o serviço de Vossa Alteza fazer-lhe merce ha exempro dos outros que ho servirem nesta negoceação. Ho ano pasado escrevi a Vossa Alteza como neste seu peso de Cochim se ofrece cada ano ao diabo ho primeiro bar de pimenta que se nele pesa com muitas e diaboliquas cerimonias, que os bramenes del-rey de Cochim vem aly fazer, a huma certa ora que pera yso estão esperamdo com huns candieyros e matulas acesas, e que nisto somente cum- primos com os reys de Cochim em lhe guardar seus custu- mes, porque comtratamdo-se com nosquo ho rey com que asemtamos nosa amizade, que não aviamos de matar ne- nhuma vaqua, pola grande veneração em que tem as vaquas, que nam aviamos de fazer casa cuberta de telhas, porque as casas de seus pagodes somente são cubertas [3 r ] de // telha e todalas outras de folhas de palmeiras, a mayor parte desta cidade de Cochim esta cuberta de telha e temos nela carniçaryas pubriquas em que gastão cada dia muytas 24 4
vacas. Se Vossa Alteza ja nam tiver provido nisto, mande que nam entrem mais aqueles bramenes feiteceyros em seu peso e prazera a Nosso Senhor que por yso vira muyta pimenta ao peso e as naos que a levarem irão todas a salvamento. El-rey das ilhas de Maldivas, que se fez christão e paga quinhentos bares de Cayro de pareas a Vossa Alteza, cada ano, vive nesta cidade em humas pobres casas dos somenos da terra; anda a pee, porque nam tem besta e desacompa- nhado, porque nem tem mays que huum ornem purtuges que foy çapateiro e huum mulato e nam sey quantos escra- vos; mal vestido e calçado, padece grandes nececidades, porque lhe comemos as suas ilhas e nam tem delas denhuum proveito. Despois que se fez christão e casou com molher cristãa, nenhuma conta se tem com ele e damtes era muito venerado; nam pode ser pior exempro pera a conversão dos infiéis destas partes que Vossa Alteza pretenda; e ao maldito rey de Tanor, que deixou nosa santa fee catoliqua que tinha tomado, fazem-lhe os governadores quanto re- quere e, quando vem as nosas fortalezas ou vão portugeses a sua terra, todos estão diamte dele em pee com os barretes na mão. Os governadores fazem muito bem aos capitães-mores das armadas que de la vem e aos fedalgos que se de qua vam e a seus parentes e amigos; muito pouquo ou nada as outras pesoas pobres e de muito merecimento; e disto se segem grandes incomveniemtes ao serviço de Deus e de Vossa Alteza. Nam quero escrever a Vossa Alteza mays cousas de seu serviço por nam comfumdir com outros de menor calidade estas que tamto importão. Algumas escrevo a Vossa Alteza nesta carta que ja lhe tenho escritas, porque me parece que nam emtemde bem as cousas quem as diz huma so vez, senam quem as porfia e, se nisto nam acerto, perdoe-me 24 5
Vossa Alteza, porque amor e zelo de seu serviço mo faz fazer. Beijo as reaes mãaos de Vossa Alteza pola merce que me fez em me escrever huma carta, que me qua derão, em que me diz que, por me nam despachar aquele ano por alguns respeitos de seu serviço, escrevia ao viso-rey Dom Pedro, que Deus aja, que, ou por via de merce, ou por me encarregar em alguma cousa de que podesse tirar proveito, me fizesse em nome de Vossa Alteza toda a merce que podese; se ele fora vivo por muy certo tenho que me ouvera de fundir muito ho que Vossa Alteza escrevia e comtudo eu fiquo tão comtente com saber que não estaa Vossa [3 »■] Alteza esquecido de mym que // ja me dou por riquo e me parece que tenho pagas minhas dividas e muito bem casadas as minhas quatro filhas. Muyto folgamos todos com as novas que veiam nestas naos: do arcebispo que a-de vir pera Goa, e dos bispos que ão-de vir pera Cochim e pera Malaqua e eu, particular- mente, tenho discontentamento, porque desejava muito de ver em meus dias esta repartição de bispados e a nove anos que escrevi a Vossa Alteza larguamente quamta nece- cidade avia diso. Parece que a não quis Vossa Alteza fazer em vida do bispo Dom Jeronimo de Albuquerque, que Deus aja, bispo de Goa e de toda a Imdia, polo agravo que lhe niso fazia. Deus acrecente a vida e real estado de Vossa Alteza, por largos anos, com muita saúde, por tamtas e tão venturosas obras como sempre faz. Escrita a oyto de Janeyro de 1557 anos Amrique de Sousa Chicharro 246
33 CARTA DE FERNANDO DA PAZ A EL-REI Cranganor, 10 de Janeiro de 1557 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 100-71. Mede 300 x 220 mm. Três folhas, mas só duas escritas, em bom estado. En 11a bendicion de Dios y paternall ayuda de Vuestra Alteza nos emcomendamos yo hy estes padres y ermanos de este collegio de Cranganor, lios qualles siempre rogua- mos ha Nuestro Senor gratifique ha Vuestra Alteza tam grandes obras de amor como siempre mostro y muestra en esta obra delia christianidad y como sea 11a meior obra y servido de Dios que se puede hazer traher lios errados ali camino delia verdad ansym de Dios sera Vuestra Alteza gratificado pues es ell autor y substentador delha. Saber yo ell pllazer y contentamiento que Vuestra Al- teza lleva en saber lias cosas de 11a chritiandad me da atre- vimiento mientes tuviere cargo deste colégio de Cranganor y anduviere nesta christianidad de Santo Tome scribir a Vuestra Alteza y o ell me socorrer en todo 11o que fuere necesario pêra ello como padre y anparo de todos. El anho pasado scrivi a Vuestra Alteza que avian en este Mallabar sinquenta ygllezias lias quales son muy faltas de ornamientos y de todas lias otras cosas necessárias pera ell culto dvino y ansi otras cosas que aquy lie torno a llembrar. Primeramente que mande Vuestra Alteza huna provi- zion pera que todos aquelhos que se hizieran christianos lies sean entregues sus aziendas y asy scrivir a lios reis jentios que esto hagan y tiengan por bien de se lias dar y asy scri- 2 47
bir otra a lios christianos de Santo Tome por que vean que son de Vuestra Alteza favorecidos y llenbrados, pidien- dollhe que quieran olvidar lias costumbres que tienen de Armenea hi ayuntarce de todo coraçon a 11a ygllezia romana, porque digo a Vuestra Alteza que va en três anhos que ando entre elhos con otros frailles que pera eso ordeno ell padre custodio y con otros hermanos dell collegio tra- bayando de tirarlles llos costumbres antiguos hi tenialos quasy todos movidos e a seguir ell costumbre romano y 11a causa da questo fue estaren dezesperados de lies venirem obispos armenes dellos qualles avia quatro anhos que care- cian; mas como ell demonio no cesa de trabaiar como puede a storbar ell bien delias animas, vino a este Cochin hun armeno en trayes de pobre y mitioce enter llos christianos de Santo Tome y mostrolles huna carta que lies trahia dell patriarcha de Babillonia en que dizia como lies man- dava aquell por obispo y asy lies mando otras que llos mismos christianos lie avian mandado en lias qualles lie pidian que lies mandace hum obispo. Finallmente que fue P "O delhos recebido, como persona que tanto // deseavan y lluego hizieron que diese ordines a los cristianos della tierra segun ell costumbre que siempre tuvieron. Este obispo es da misma casta de Anastor, mas las eregias que estos dizen que tienen en sus tierras o nunca lias vy entre llos chris- tianos aun que antre elhos avian y ay allgunas cosas mallas, lias qualles por descurso de tiempo se ande tirar, que son llos clleriguos serem casados y tratarce antre ellos 11a onzena y no tienen comfecion vocall ni llos mandamientos della ygllezia delias qualles cosas se yvan ollvidando y mitiendoce en lias cosas della ygllezia romana y con 11a venyda deste obispo se esfriaran mucho. Pues, senor, pera yvitar tan gran mall y ofiença que a Dios se haze, es necesario prover estes obispos no venguan a esta tierra y mandar Vuestra Alteza a llos que goveraren 2 48
11a India que no lios consientan venir y mas que sy estu- vieren en elha que sean lluego echados fuera, porque en faltar estes obispos se faran gran multitude de animas que se traeron alia obidiencia delia ygllezia romana. Pues pera remediar esto avia Vuestra Alteza de mandar hun obispo dirigido sollamente ha elhos pera que dien ordines a sus hijos hi ande entre elhos fovoreciendo lios, porque con su conversacion podra ser que olviden lios armenos y asy andando nos juntamente con ell ocuparemos sus ygllezias y no daremos llugar para que se ezerciten sus custumbres y asy poco a poco por decurso de tiempo lios yremos metiendo con 11a ayuda devina en lias cosas delia ygllezia romana. Eli padre custodio, como persona principall en esta obra hi padronero delha, viendo que no podia ocupar tantas ygllezias por seren poços lios relligiozos, pedio a lios padres de Santo Domingos y delia Companhia de Jesus de su parte tomacen algunas ygllezias y asy lias tomaron y para meyor se azer esto mando ell padre custodio ordenar siete o ocho hermanos mallavares de missa dell mismo collegio para que juntamente com lios religiozos anden en esta obra confe- sando y pregando a sus naturalles por saberen 11a llemgua por lios qualles pido a Vuestra Alteza que todos aquelhos sacerdotes mallavares que se ocuparen en aquesta chris- tianidad quiera Vuestra Alteza receber por capellanes com ordenado de veinte hi quatro pardaos cada anho para subs- tentacion de sus personas, porque lias ygllezias son pobres y no tienen dizemas ny ell collegio lies puede dar, porque lias llimosnas que Vuestra Alteza da se guastan com prato de sen personas que estan siempre en ell mismo collegio y porque se esfuercen ellos viendo que de Vuestra Alteza son favorecidos , amparados. Vuestra Alteza acha sabra que de Juan Preira, capitan de esta fortaleza de Cranganor, receibimos mucha ajuda 2*9
I hi favor y que es persona virtuosa y zelloza de esta santa obra de christiandad hy esto no es de agora mas desde ell tiempo que ell padre Frei Vicente, que Dios tiene, fundo este collegio en este Cranganor. Vuestra Alteza, por amor de Nuestro Senor, lie scriba lios agardecimientos delho porque se asta aqui 11o hizo bien, demde adellante 11o haga meior. Ia Vuestra Alteza sera ynformado en como esta fortalleza de Cranganor es de poco provecho y ell tyene muchas hijas que lie quedaron de su mujer; hi no tiene con que lias pueda amparar. Vuestra Alteza, respeitando a lios servicios que elle tiene echos en 11a índia hy ansy lios de su padre, lie avia de hazer merce de lie mandar aquella fortalleza pera despues de su muerte dar en casamiento ha huna hija suia, porque de aquesta manera satisfara Vuestra Alteza lios servicios dell que con ella casare; hy tambien por otra parte hara en esto mucho servido a Dios //. Muchas otras cosas avian que escrevir a Vuestra Alteza dell bien y provecho de questa christiandad lias qualles decho de screbir por me parecer que otros padres zellozos de esta santa obra tomaron ell cargo deso. Por amor de Nuestro Senor, por cuio amor Vuestra Alteza haze todas lias cosas, que siempre tengua lembrança de encarreguar mucho a lios governadores y capitanes que siempre nos ajuden y favorescan en esta santa obra en que andamos yo hi todos lios padres y mininos deste collegio continuamiente rogando por salvacion, sallud y estado de Vuestra y todos juntos pidimos a Nuestro Senor que quera acrecentarlle lios dias de vida pera que siempre nos favoresca, amen. Deste collegio de Cranganor, ha diez dias de Janero de 1557 anhos. Servo yndino orador de Vuestra Alteza Frey Fernando da Paz 230
34 CARTA DE FREI DIOGO BERMUDES A EL-REI Cochim, 22 de Janeiro de 1557 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 100-85. Mede 305 x 210 mm. Duas folhas em bom estado; só uma escrita. Senhor: A graça do Santo Epirito este sempre com Vossa Alteza, amen. Não me consente minha condição e consciência calar as cousas que tocam ao serviço de Deus e bem dos próxi- mos. Muitas cousas pudera escrever a Vossa Alteza, acerca das negoceações de Ceylão, as quaes por ser tão notórias sam de todos sabidas, e crea Vossa Alteza que huma das cousas que me tem muyto desconsolado nesta terra he ver como ho demonio com ho dinheyro de Ceylão e com nostra codicia tem destruída tanta christandade, depois dos males que sucederão no tempo do viso-rey Dom Afonso, sendo vingada de injuria grande de Deos e de suas igrejas pelo muy boom capitão e muy christianissimo fidalgo, Afonso Pereyra, a que Deos ajudou milagrosamente por sua vir- tude, restauradas as igrejas, vencidos os inimigos, acrecen- tada a cristandade, feytas outras muytas cousas de esforçado e vertuoso capitão; em pago disto, merecendo elle muy grandes honrras e merces dos governadores, ho mandarão vir, não como elle merecia e, estando eu aqui em Cochim, quando elle chegou, sei pello Veador da Fazenda fazer- -se-lhe o que o portador da presente vio por seus olhos e dira a Vossa Alteza. Se Dom Pedro fora vivo, doutra 2 5 /
maneira honrrara a quem assim honrra a Deos e a suas cousas. Ho que peço a Vossa Alteza, polias chagas de Christo, he que Vossa Alteza de ao Padre Frey Pedro Bethlem todo ho credito que he rezão que se dee a hum religioso tam zeloso e vertuoso ha que tudo foy em Ceylão testemunha de vista, he que Vossa Alteza ho ousa huma vez e muytas e sayba que o que dis he envangelho, he não crea outra cousa, e Vossa Alteza remedee estas cousas milhor que ate aqui se am qua remedeado. He pera que daqui adiante se animem os fidalgos ha por ha vida pola homrra de Deos e de sua ygreja, fasa Vossa Alteza grandes merces a Afonso Pereyra, porque as merece muy bem e tem gastado ho seu e de seus parentes nisto de Ceylão e em outras cousas de serviço de Vossa Alteza, a quem Nosso Senhor nos guarde sempre em seu amor e temor. Oje, dia de Sam Vicente, mártir, de 1557 anos. Menor súbdito de Vossa Alteza Frei Diego Bermudez 252
35 CARTA DE FREI JOANINO DA ORDEM DE S. DOMINGOS A EL-REI Documento existente no ANTT: — CC, I, 100-88. Mede 285 x 200 mm. Duas folhas em bom estado. Senhor: Jesu Christo, Noso Salvador de a Vossa Alteza graça e lume no emtendemento pera fazer as cousas de seu serviço como atequy tem feyto. Vossa Alteza me escreve que lhe escreva largamente das cousas destas partes onde ahy tantas pesoas que lhe escrevem muy largamente; bem pudera eu ser escusado a lhas escrever, mas pois Vossa Alteza mo manda, brevemente o farey, especial das cousas dos christãos donde Vossa Alteza leva tanto gosto como catolico pryncype e asy de algumas pesoas que nestas partes servem Vossa Alteza. Eu fuy a Bacaym, como creo que tenho ja escrito a Vossa Alteza, e pareceu-me ser necesaryo fazer aly huma casa para os frades estarem e dahy yrem a ilha de Salcete asy pola terra a fazer os christãos; a ygreja com a capela se acabara ate a Pascoa, ysto de esmolas e soldos que nos deram; eu se puder vou la este anno a envernar ha huma por comfessar os ofycyaes e a principal por amor dos crystãos e de ajudar a levar os trabalhos ao padre Frey Anto- nio, que ele comesou esta obra, o qual faz muyto fruyto e servyço a Noso Senhor, com muyto trabalho, porque tem ele grande cuydado e vigylancia neles, asy en os ensynar e doutrynar e lhes dar vida. E o mor trabalho que padese e Cochim, 28 de Janeiro de 1557 2 5 3
desgosto he com os ofycyaes de Vossa Altesa, acerca dessa esmola que se da pera os cristãos porque lha nam dão senão mal e tarde. Por amor de Deos que Vossa Alteza lhe escreva que o faça milhor. Acerca da esmola que Vossa Alteza man- dou dar, que são tres mil pardaos, nunca derão senão dous mil, os quais são repartydos pelos padres de Companhya a metade, que fazem a mesma obra; e este anno mandou Vossa Alteza nhuma carta que escreveo ao viso-rey que dese os outros mill pera se partyrem, ategora nam são dados. São eles muito necesaryos pela multyplycação dos crystãos e [' *0 dos colegyos dos moços que gastão muyto. // Eu fuy com o viso-rey a Ceylão; ho principal entento foy para visytar os padres que la moram; foram padres dominicos e da Companhya também, porque pedi eu ao viso-rey que os levase para nos ajudarem a obra, cuydando que el-rey se fizesse crystão. Parece que não mereceo a ele Noso Senhor por sua maldade se-lo. Os padres tornaram-se para a índia; os nosos fycaram na obra que comesaram, aonde levam grandes trabalhos, especialmente por o rey ser gentyo de que recebe grandes desgostos e comtudo fazem muytos crystãos, aynda que nam sejam tam bons, por tempo ho seram. Os lugares donde os padres rezydem esta hum mosteyro donde esta ho gardiam. En Nigebo he huma ygreja e em Berberym outra e en Gale, que he o prycypal porto, esta outra; em Lyção e nestas esta hum frade, em cada huma, para bautizar e ensynar aos que vem ha fe. Quanto as cousas que o viso-rey fez em Ceylão pode ser que escrevevão a Vossa Alteza muytas cou- sas por desvairadas maneiras. Nom de Vossa Alteza orelhas a ouvy-las, mas crea ao que lhe escrever ho viso-rey, porque lhe escrevera a verdade de tudo, como pesoa vertuosa que he e temente a Deus. Todas as cousas que fez em Ceylão foram com concelho, e por sy não fez nada e do dinheiro ou peças que lhe derão o bispo e eu e Antonio Gomez, padre da 2 54
Companhia, fomos prezentes a tudo com os ofyciaes de Vossa Alteza, veador da Fazenda e secretaryo e procurador que tomaram entregue de tudo, perante nos e quis o viso-rey que fosemos nos prezentes por testemunho de sua consyencia. Todolos homens que nestas partes andam servem muito bem a Vosa Alteza e com muitos gastos que fazem em seu servyço, asy que todos merecem merce e onrra, especial- mente Manoel de Sousa e Dom Francisco de Lyma que este anno vão para Portugal, porque tem muito servyço feyto e com muito gasto e divydas que levam. Dom Juam Anrri- quez, Joam de Mandonça Casão e seus irmãos, João Fer- nandez de Vascogoncelos que sempre gastou muito espe- cialmente nesta yda de Catyfa, onde ho mandaram e se empenhou muito com dar de comer e em tempo de muita necesydades ao arraial todo. Gil Fernandez de Carvalho que he hum muito bom coavaleiro, Dom Antonio de Noronha também sempre servyo qua e andou nesas arma- das; Lionel de Sousa, a quem Vossa Alteza deu a viagem da Chyna, nunca lha quisseram qua conceder nem ela nem outra e esta muito pobre e he de muito servyço; Francisco Barreto aynda que he o derradeyro, crea Vossa Alteza que he o prymeiro nas cousas de seu servyço e nom tem conta com pesoa nem com fazenda naquylo em que ha-de servyr. E asy acerca dos cry // stãos ele os favorece muito e asy [2 r.] a gente da terra trabalha de lhe fazer justiça, e com bre- vydade, por sua propria pesoa, por serem milhor dispacha- dos. Digo ysto porque fuy testemunha de vista. Peço a Vossa Alteza, por amor de Noso Senhor, que nas cartas que escrever ao seu viso-rey ou governador nestas partes que lhe encomende sempre esta custodia, pois que foy a primeira que levou os trabalhos desta terra e Nosso Senhor sabe muito bem o trabalho e fruyto que nela fyze- ram e fazem. Digo isto a Vossa Alteza, porque me dise o viso-rey que nas cartas que lhe escrevera lhe encomen- 2 5 5
dara muyto partycularmente as outras hordens e que de nos nam fezera mensão. Nom tenho mais que lhe escrever ao prezente senão que Noso Senhor lhe de tanta vida para seu servyço quanto todos desejamos e dipois lhe de ho seu reyno que todos desejamos. Deste Santo Antonyo de Cochym, oje vinte de Janeiro de 1557. Nam poso deyxar de dizer a Vossa Alteza aquylo que synto e tenho esperementado, dipois que estou nesta terra, acerca do prelado e relygiosos. Crea Vossa Alteza que o bispo he hum dos bons prelados que se podem achar em vertude e mancedam e em ter carreguo de suas ovelhas que lhe são encomendadas e em ser tão pobre como quando era frade. Os padres da Companhia fazem qua muyto fruyto asy na conversão dos crystãos como em tudo o mais e asy os padres domynycos por sua parte com suas pregaçõis trabalhão por trazer ho povo a servyço do Senhor. Jaam Alvarez, adayão da se de Guoa, vay este anno para o reyno; crea Vossa Alteza que he hum padre dos mais vertuosos que qua resydem e o bispo lhe nom querya dar lycença pela myngoa que qua fazya. Se nom ouver de tornar para a índia Vossa Alteza lhe faça la merce porque ele a merece, por sua vertude e trabalho que qua tem levado. Orador de Vossa Alteza Frey Joanino Custodio.
36 CARTA DE FREI ESTÊVÃO DE SANTA MARIA, RELIGIOSO DA ORDEM DE S. DOMINGOS, A EL-REI Goa, 1 de Fevereiro de 1557 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 100-91. Mede 305 x 225 mm. Quatro folhas escritas com letra muito miúda e de leitura difícil. Senhor: A graça do muy alto Deus he Senhor Noso seja sempre com a bem aventurada alma de Vossa Alteza, Amen. Ofereceo-me ao prezente escrever esta a Vossa Alteza, posto que indino pecador e indino religioso e pouco mere- cedor de o fazer. Nam olhe Vossa Alteza a minhas indinas he pecadoras palavras, mas olhe as emtranhas de amor e carydade com que ho faço, porque ho mesmo amor me obriguou e me deu atrevimento para o fazer, e asy para dar conta a Vossa Alteza dalgumas cousas da índia, porque foy serto que Vosa Alteza asi não sabe, porque, por nosos pecados, aguora neste negro e miserável tempo ha tam pouquos que queiram dezer as verdades e muy pouquos ha que as escrevem, porque, se escrevessem a Vosa Alteza as verdades e as cousas da índia, por sua ordem, e as ladroises que fazem a Vosa Alteza, eu prometo a Vosa Alteza que a índia fora outra deferente de que esta agora, porque nela não se acha ja senão ladrõis, roubadores, destruidores da fazenda de Vosa Alteza. E o pior que hos seus proprios o fazem; aqueles que Vosa Alteza parece que tem bem entre- gado a índia ou hoficio ou carreguo ou a fazenda eses são os majores ladrõis he os majores roubadores que Deos formou em a terra e aimda mail, porque sou desta terra e nela naci e porque sei tamto dela como sey. 2 57 DOC. PADROADO, VI — 17
Sabera Vosa Alteza como sou hum religioso dos naturais desta terra, nacido e criado nela e nela tomey o abito do noso glorioso padre São Domingos, sem a Deos merecer fazer-me ele esa merce tamanha, como foi pera mim tirar- -me do mundo, posto que tive muitos contrairos e muytos estrovos, ansy dos capitais e guovernadores da índia, como de meu proprio pai e mãi que me gerarão e criarão. Que- rião eles que fose soldado lascarim, cavaleiro como hos meus antepasados, que a poder e forças de armas sostentarão as fortalezas he as armadas de Vosa Alteza. Pareceo-me milhor servir a Deos que não hos homens, tive pouqua conta com ho mundo e com as vaidades dele e com hos casamentos que me saião com filhas de fydalgos he cava- leiros de casa de Vosa Alteza, mas como quer que tinha ja escolhido outra esposa deferente das do mundo, que foi a Virgem Sagrada, Nossa Senhora, a qual tomey por esposa he Senhora minha, porque me pareceo ser esta esposa milhor que quantas ha no mundo e asy, ao cabo do ano do meu noviciado, fiz profisão neste convento a Deos e a Virgem Nossa Senhora e a São Domingos como de costume fazem hos religiosos. O qual depois de profeso, o meu perlado com os prin- cipais do conselho do capitulo e dos letrados que aqui se acharão determinarão e comsultaram todos numa voz que me mandase a mim e ontro padre a Cochim a fumdar hum mosteiro da nosa Ordem; como quer que era eu natural da India e andei e corri por muitas vezes toda a índia, pareceo os do conselho bem que me mandasem la, conhecendo eu de mim não ser para nada nem para guovernar a mim. quanto mais guovernar allmas he fundar mosteiros, porque determinaram eles de me fazer perlado do dito convento e dos ditos frades, mas eu não quis aseitar. Aseitei dir com o padre, e que fose ho padre perlado e eu súdito e que ho ajudaria em seus trabalhos e em fundar ese mosteiro, o 258
quail com muyto trabalho e com guotas de sangue de meu rosto o fundei e edifiquei e fui o primeiro religioso desta Ordem de São Domingos que fundei ese mosteiro he fui o primeiro que lancey a primeira pedra no primeiro edifício, o qual, bemto seja Noso Senhor, que acabei em pouquo tempo muyta parte dele, hou caise todo, e fica ao presente muy pouco para se acabar. O quall tudo se fez com esmolas do povo e espero em Noso Senhor que ese pouquo que fiqua por acabar que com esmolas do povo se acabara; pola ventura, se la estivera mais hum ano, eu acabara de todo; mas foi-me necesario vir a Guoa a dar ordem a este//mosteiro de Guoa, o qual o Reverendo Padre Viga- [i*■] rio nam quis bulir com muita parte da obra que estava por fazer sem meu parecer e conselho, o qual segundo ho que eu alcansey, lhe dixe que não esperase que Vosa Alteza acabase o mosteiro todo; que se contentase com ho que Vosa Alteza deu he o de mais, que fizese de esmolas e asi de dinheiro das partilhas dos pães dos religiosos defuntos que ha Ordem dava. E asi, tomando este meu parecer e conselho, sempre foi as obras adiamte com todas as oficinas acabadas. Não faltão agora mais para acabar que he a igreja, que este ano se acaba, e asy a Livraria e a Enfermaria; todo ho de mais esta acabado, louvores a Deos, o quall o padre vigário nunqua faz nada sem meu parecer e concelho, o quall se rege por meu parecer e querer, posto que conheça •eu de mim não ser para nada nem para me encarregar tam grandes cousas; verdadeiramente que eles vivem enguana- dos nesta parte, porque conheço de mim não ser para nada; todavia não querem senão encarreguar-me cousas de tanto peso, mas o padre Frei Symão Botelho, que tirou muita caregua de meus trabalhos, porque ele he aguora o que faz o mosteiro e ele he o que tem o careguo diso he ficou de acabar a igreja; a igreja acabada, a Livraria nem a Enfermaria não he nada; tudo se fara bem em pouquo 2 59
tempo, por isso parece-me que abaste polo presente, porque ainda tenho de escrever a Vosa Alteza em algumas cousas que importa mais a Vosa Alteza saber que são isto que agora dixe: o mosteiro se acabara muy cedo. Ysto porque o mais sustanciall me fallta para o escrever he dizer e asy peço a Vosa Alteza que com atenção queira ouvir estes capítulos abaixo e outro precedente, porque vi muito e toqua muito a Vosa Alteza saber sertas cousas para as remedear. Ja acima dixe a Vosa Alteza como sou hum religioso dos naturais desta terra he como nela me criey he tomei o abito desta sagrada Religiam. Sabera Vosa Alteza mais, que, antes que fose padre, servy a Vosa Alteza quinze annos; amdei por muytas partes da India e por todas as cidades he fortalezas de Vosa Alteza, o quall não fiquou nenhuma cousa que tudo não correse he vise e aimda mail, porque andei por tantas partes quamtas andey porque, pola ven- tura, se nom fora, nom vira o que vi, nem ouvira ho que ouvy, nem tarn pouquo alcansara as cousas da índia como alcanso. Queria eu, senhor, ao presente mais calar que falar; mais sentir he chorar que nom escrever he que podese ao presente abrir este coração ferido e chaguado e com ho sangue delle escrever hos males da índia, porque asy vendo Vosa Alteza carta escrita com o sangue do meu coração, podese eu hum pouquo dar a sentir a Vosa Alteza os males da India e hos roubos tam contínuos que hos atrevidos pecadores ousão fazer a Vosa Alteza, o qual Vosa Alteza como pai esta dando ofícios e careguos aos homens para que se aproveitem, e eles no mesmo oficio e careguo estão roubando e destruindo a Vosa Alteza. O quem podese dizer isto a Vosa Alteza com mais lagrimas he com mais senti- mento da minha allma do que diguo. Falta-me lagrimas para chorar a destruição e os furtos que fazem a Vossa 260
Alteza, o quail como pai nos esta sostentando não somente aos religiosos senão ainda a toda a India, e vejo que nenhuma malldade grande nem pequena tem nos homens com Vosa Alteza he eses, de que parece Vosa Alteza que he para confiar quallquer negocio da índia, eses são os maiores ladrõis que na India ha, he ainda mail porque ha tantos. Não se espante Vosa Alteza de ser ho mais pobre rei que de quantos reis ha no mundo, sendo os reis de Portu- gall em outro tempo mais riquo que quantos reis ha no mundo. Se Vosa Alteza quer saber a causa de sua pobreza, eu lha direi ou diga-o Noso Senhor por mim. Dis Noso Senhor no Evangelho que era hum homem riquo e pode- roso he que tinha hum despenseiro ou hum feitor, nom mais dum so, e este so foi abastante para ho roubar e para o destruir e para o fazer pobre de tam riquo que era. Pois se este senhor não teve mais de hum so feitor he oficiall de seu careguo, e este so foi o bastante para o roubar e para o destruir e para o fazer pobre, como quer Vosa Alteza ser riquo, se tem mais de mill ladrõis na India, que cada hum deles he o bastante para ho roubar he destruir e para o fazer pobre, quanto mais tendo tam tos como tem? Asim que diguo esta he a verdade, os muitos oficiais ou por milhor dizer, os muitos ladrões que Vosa Alteza tem na índia, posto de sua mão por seus oficiais, eses são os que o fazem pobre, eses são os que fazem os governadores empenharem suas barbas ou as barbas de Vosa Alteza, pidindo empréstimo he dinheiro a cidade, para socorro da índia, o quall esta Vosa Alteza em tanta necesidade que não queira saber mais senão que cada ano esta empenhado. Se Vosa Alteza não tivera tamtos ladrões, como tem na índia, ele fora mais riquo do que he; Vosa Alteza o sera, prazendo a Noso Senhor. Eu, senhor, ate aqui servi a Religiam he a Ordem, mas daqui avante, quero servir a Vosa Alteza e quero-lhe fazer 261
hum serviço muy grande, o quail não he menos de quatro- centos ou quinhentos mill cruzados que pode Vosa Alteza cada ano tirar a limpo por omde estes ladrões não furtem tamto como furtam. Olhe Vosa Alteza que lhe digo que quatrocentos ou quinhentos mill cruzados lhe quero tirar a limpo por omde Vosa Alteza não perqua o seu. E isto não se pode remedear sem primeiro Vosa Alteza não saber as raizes he as ladroises donde nacem he domde procedem. Ficara Vosa Alteza muito espantado dizer eu que as ladroi- ses da India tem raizes he princípios. Crea-me Vosa Alteza que tem raizes he princípios e mui bem fundaldas (sic), mas tudo se fara bem, daqui avante. Eu, senhor, determinando de escrever a Vosa Alteza as cousas da índia, por sua ordem, começando des no major ate ho menor e des no menor ate ho major, achei tanto que escrever he tanto que // dizer que por via de cartas se não podia fazer em nenhuma maneira, porque he comum ho escrever das cartas nam se pode escrever mais que em duas ate tres folhas de papel; pois para eu escrever a Vosa Alteza as ladroises de cada ladrão dos que ha na índia, para cada um destes avia mister dez mãos de papel, e prouvese a Deos que em todas podese saber as ladroises da índia, pois na verdade, são tantas e tam grandes que mais he para sentir e chorar que não para escrever. Todavia, querendo escrever por modos de cadernos ou em livros, achei hum enconveniente muy grande, o qual não poder fazer com boa comciencia, porque podião os ditos livros e cadernos serem lidos no mar he desta maneira informar os ladrõis da índia. Se isto não areceara, eu escrevera as ditas cousas da India e das ladroises que fazem a Vosa Alteza. Tudo o escrevera por livros e itens, mas para eu fazer huma cousa como esta não quis reger por minha cabeça propria senão por parecer e concelho de meu confesor he de alguns letra- dos he doutos, dando primeiro conta de mim e das cousas 2 62
que sabia da India e desta tera e asy dos roubos contínuos que os ladrõis da India fazem a Vosa Alteza. Rezão era que Vosa Alteza soubese he que não perdese ho seu, pois que se podia remedear os ditos furtos, porque nom hera bem que encareguasemos a comciencia destes ladrõis nem tam pouquo Vosa Alteza perdese ho seu, pois que a contia che- gava a tamto como dixe e a Vosa Alteza, que nom he menos de quatrocentos ou quinhentos mill cruzados que podia cada ano perder-se ou furtarem-no sem Vosa Alteza saber nada. Perguntei a meu confesor e a estes letrados; responderão-me que per via de cartas nam fezese nem tam pouquo nomease os ditos ladrõis, senão em comum dizer a Vosa Alteza: «Senhor, na índia os vosos oficiais furtão-vos o voso desta maneira e desta e destoutra.» Olhai por vosa fazenda isto que diguo em comum a Vosa Alteza, sem nomear ninguém, senão fazer a saber a Vosa Alteza que hai ladrõis na índia. Quanto he este caso ja ho eu sabia muitos dias, porem queria saber se podia escrever. Dixe-me que não, em nenhuma maneira nem por cartas nem por livros, pois, padre, que remedio; roubam he destroem a el-rei. Dixe-me que bem podia escrever eu todas estas cousas e outras muytas que na índia fazem sem Vosa Alteza ser sabedor. Dixe-me que escrevese embora todas estas cousas em livro he que, depois de estritas, que escre- vese duas regras a Vosa Alteza e fizese saber isto que eu mesmo fose o portador que ouver de levar as ditas cousas he os ditos furtos da índia; tudo per escrito, porque amtre mim he Vosa Alteza, nom mais, soubesemos e ambos nos comunicasemos; dixe-me que fizese desta maneira, porque por outra via nenhuma podia fazer com boa comciencia nem escrever, nem per livros, nem per cartas, porque punha em perigo de enformar os ladrõis da índia. Dixe eu a meu confesor: «padre, vejo que sou frade e não esta nas minhas mãos ir a Portugall, nem tão pouquo ser eu mesmo o por- 263
tador destes livros que escrevo». Dixe-me que escrevese a Vosa Alteza e que lhe dese conta disto, pois que importa isto tanto a Vosa Alteza he as cousas de sua fazenda que Vosa Alteza me avera crer nisto, para me poder ver com ele e para eu poder comuniquar estas cousas muito por meudo com Vosa Alteza, porque Vosa Alteza não perqua cada ano quatrocentos ou quinhentos mill cruzados, como perde e furtam os ladrõis da índia, sem Vosa Alteza saber como nem como não. He necesario que me veja com Vosa Alteza, para que asi vendo-me com Vosa Alteza, lhe de comta da verdade e do que pasa na India, para que asi saiba o que a-de fazer e asi para que não perqua tanta copia de dinheiro, como perde, ou para milhor dizer, que os furtão os seus oficiais, sem Vosa Alteza ser disto sabedor. Vosa Alteza tenha por bem e por seu serviço ir-me este ano para ho reino, para me ver com Vosa Alteza, para lhe descubrir e manifestar as ladroises he roubos que na índia fazem a Vosa Alteza, sem Vosa Alteza ser sabedor disto. Bem sei que sabe que hai ladrõis e roubadores e, porem, não sabe os modos e maneiras que hos homens usão e tomão para o roubarem he destruírem tanto em tanta maneira que de verdade digo a Vosa Alteza que me doyo e compadeço dele he o que mais me compadeço he não saber Vosa Alteza nada destas cousas; vive tam seguro he tão confiado nos homens da India e nos seus oficiais que parece a Vosa Alteza que não tem outros na índia semelhantes. Eses são os majores ladrõis que hai he eses, de que parece a Vosa Alteza confiarem qualquer cousa, eses são os maiores ladrõis que Deos formou em a terra e ainda mail porque são tantos; furtam eles quanto quiserem a Vosa Alteza, ou com quan- tos meyos quiserem, o quail poios mesmes meyos achei remédios mui grandes, o quall, se me Deos la levar, eu mostrarei tudo por escrito a Vosa Alteza, por onde Vosa Alteza não perqua ho seu; o quall não se pode remedear 264
tam grandes furtos sem eu primeiro me ver com Vosa Alteza e primeiro ir dar conta donde procedem e nacem os furtos. E o segundo sera dar-lhe remedio e maneira por onde, ainda que estes ladrõis queirão furtar, o não posão fazer, porque muito vai, senhor, descrever a dezer e muito vai de estar homem presente hou ausente. Eu, ao presente, estou ausente de Vosa Alteza, o quall sabe Noso Senhor quanto me pesa, mas Vosa Alteza trabalhe por eu estar presente com Sua Alteza, porque bem creio que lhe não pesara nada; eu descubrirey entonces a Vosa Alteza a parte da verdade he do que aguora esta encuberto, tudo se a-de saber e tudo se a-de remedear, se me Deos, Nosso Senhor, la levar; o quall eu confio na sua misericórdia que ele me levara la, por omde eu seia nesta parte hum meio por omde Vosa Alteza não seia destruído de todo, como he dos ladrõis da índia, porque não he pequeno o furto que fazem a Vosa Alteza, o quall não he menos, como tenho dito, de quatro- centos ou quinhentos mill cruzados, cada ano, que podem furtar a Vosa Alteza, como ou como não, não he licito ao presente//dizer, he provese a Deos que podese ja. Não [2 v.] poso senão se me Deos la levar, para que entre mim he Vosa Alteza, não mais, podese isto comunicar, porque he cousa de consiencia não se pode fazer menos disto. E por iso Vosa Alteza tome seu parecer e concelho e veja se quer cada ano perder quatrocentos ou quinhentos mill cruzados a limpo ou se quer aver-me esta licensa no mais que, por este ano, para me poder ver com Vosa Alteza, e para lhe poder descobrir-lhe o que ao presente não sabe parte do negocio, nem sabe tam poquo como pode aver o seu, nem como daqui avante se pode precatar dos tais ladrõis, para que de todo o não destruem, como os ladrõis da índia tem destruído a Vosa Alteza. Eu darei modo e maneira, por onde Vosa Alteza aja ho seu e por onde não aja, daqui avante, mais ladrõis do que ha na índia. Vosa 265
Alteza não tenha por trabalho de mandar chamar o nosso padre provincial desa província de Lisboa, que tenha por bem de me dar licensa este ano para me ver com Vosa Alteza e asi para lhe levar este livro, que ao presente escrevo das cousas da India e das ladroeiras e roubos e furtos que fazem a Vosa Alteza, o quall bem creo que lhe não a-de pesar nada diso saber tudo; he hum ano ou meo ano de caminho, porque loguo me ei-de de tornar, porque sou muy necesario na India, asi as cousas da Ordem, como para as cousas de Vosa Alteza. Quero aogora, ao presente, fazer este serviço, o quall não he pequeno, pois que he dar ganho cada ano mais de quinhentos mill pardaos de furto, ou maneira por onde daqui os não furtem, o quall em nenhuma maneira se pode remedear isto, sem eu primeiro ver-me com Vosa Alteza e antre mim e Vosa Alteza se praticar as ladroises da índia e asi outras muitas cousas de sustancia e peso, como abaixo darei a entender a Vosa Alteza. Eu, por me compadecer e por me doer de Vosa Alteza e por me compadecer de tão grandes furtos e roubos, quis pedir esa licença a Vosa Alteza, ou Vosa Alteza pedir de sua parte ao noso padre provincial desa província de ma dar, pois que não he mais que por hum ano, porque no mesmo ano ei-me de tornar loguo. Olhe Vosa Alteza quam brevemente se pasão seis meses que poso naveguar da índia para Portugal he, ainda que fose hum ano, não he nada, pois que com esta minha ida tanto proveito ei-de tirar a Vosa Alteza, o quall não he pequeno senão mui grande, segurar eu a Vosa Alteza quinhentos mil pardaos de furto, cada ano, que podem fazer a Vossa Alteza ou fazem, sem Vossa Alteza saber como, nem como não. Não queira Vosa Alteza que por seis meses nem por hum ano, que poso ir e vir, perder Vosa Alteza todolos anos quinhentos mill cruzados de furto, o quall não diguo mais senão que praza a Deos que não seja mais; isto 266
abasta pera me Vosa Alteza entender quam necesario he esta minha ida, como abaixo vera Vosa Alteza por outras muitas cousas que ainda ao presente não escrevo. Não sei se poderei escrever, mas todavia se não poder darei a enten- der a Vosa Alteza a sustancia delas todas, quanto importa a Vosa Alteza e quam necesario ver-me com Vosa Alteza, no mais que por dous meses, porque neses dous sabera Vosa Alteza por remedio na India, o quall se ate aqui dei- xou de por e de olhar pelas cousas de sua fazenda, he por não saber a verdade das cousas da India e asi por não aver quem as escreva a Vosa Alteza. Muito me deve Vosa Alteza em eu querer, ao presente, tomar este trabalho que, ao pre- sente, tomo de escrever a Vosa Alteza neste livro que faço. e escrever todas as cousas da India he todas as ladroises da índia. Ao presente, não tenho chegado mais que aos ate hos almoxarifes da India e asi nos tratos que fazem a Vosa Alteza he os modos he maneiras que para iso usão, mas eu trabalharei quanto poder que da ida destas naos que agora levão estas vias da tornada a torna viagem, que he daqui a dous anos, Vosa Alteza sera servido; e eu também me vira entonces ja esa licensa que mando pedir a Vosa Alteza, que me aja de meu padre provincial, o qual sem ela não poso ir a ese reino. Por iso Vosa Alteza trabalhe por me aver, o mais sedo que poder, e eu também, o mais cedo que puder, trabalharei por acabar este livro o quall, quando me vier a dita licensa para me ir, trabalharei ja de o ter acabado, por não ter tra- balho de escrever no mar. Todavia, se alguma cousa me faltar, no mar o farei, pois que tanto importa a Vosa Alteza, o quall não sinto nada os trabalhos, posto que seia por mar e por tera. Abasta serem cousas de Vosa Alteza em que eu tomo muito gosto de o fazer e asi de o servir, como pai he senhor ho amo e quero he o tenho no meu coraçam e 267
na minha allma, o quall sempre me lembrarei de Vosa Alteza, sem nunca me esquecer de mais cousas pois que, como meu pai e senhor meu, ate aqui me sostentou não somente a mim senão todolos frades desta Ordem na índia. Rezão he que a tall pai e a tall senhor sirvamos e nunca faltemos em nenhuma cousa de serviço de Vosa Alteza. Quis ao presente fazer esta, porque confio eu em Vosa Alteza que não me a-de ser ingrato nem desconhecido disto, e por isto quis ao presente tomar este trabalho em escrever este livro, para que, depois que me vir com Vosa Alteza, saiba dar conta he rezam a Vosa Alteza de tudo. Senhor, na índia furtam a Vosa Alteza os seus oficiais isto he isto, e desta maneira e destoutra, deste modo e deste e destoutro. Vosa Alteza para isto, a-de fazer isto he isto e desta maneira e desta e destoutra; e a-de uzar para isto desta maneira e [3r.] desta e destoutra;// e a-de fazer isto e isto para que de todo não seja destruído nem roubado de tantos ladrõis como ha na India. He necesario ser que eu mesmo seia o porta- dor deste livro que começo e escreverey as cousas da índia e as ladroises dela, por onde Vosa Alteza aja ho seu e não aja ahi tantos ladrõis na índia como ha, por nosos pecados e abasta isto para Vosa Alteza acabar de emtender quam necesario he ver-me com Vosa Alteza. Veja o capitulo abaixo seguinte, que o que ate aqui dixe não foi senão das ladroises da India e dos furtos que fazem a Vosa Alteza e do proveito que poso tirar a Vosa Alteza em lhe descobrir os furtos da India, para que asi aja Vosa Alteza o seu e para que o não acabem de destruir de todo; mas o que aguora quero dizer a Vosa Alteza he cousa que importa mais a Vosa Alteza e a sua omra que quantos furtos podem fazer a Vosa Alteza. Por amor de Noso Senhor, que Vosa Alteza tenha atenção o capitulo abaixo seguinte, pois lhe importa muito. Sabera Vosa Alteza que, se Deos pela sua piedade e 2 6 8
misericórdia não der huma volta aos coraçõis deste povo ou hos mais do povo, porque vai a índia de tall maneira e de tall calidade e polo descuido do mesmo povo e dos cabeças dos que regem e guovernão esta índia em risquo de se perder e a-se-de perder e isto por não quererem guar- dar o regimento e as ordenaçõis de Vossa Alteza, o quall manda que os lascarins e soldados lhes paguem seus soldos e mantimentos que, por se não fazer isto he por se não guardar isto, não diguo mais a Vosa Alteza senão que os lascarins e soldados da índia desamparão as fortalezas e as cidades de Vosa Alteza e se vão todos ou caise todos para hos mouros a buscarem sua vida e serem asentados nos soldos dos mouros por seus soldados. Vai isto tanto em crecimento que, se Vosa Alteza não puser remedio, isto he, não der huma sertã renda depositada, por amor da dita renda se pagarem aos lascarins seus soldos e mantimentos, diguo que Vosa Alteza não tem a índia por sua nem tão pouquo he senhor dela, porque esta em grande risquo de se perder, pois que os mesmos cristãos a desemparão he se vão para os mouros a se asentarem por seus lascarins he soldados. O quem pudese escrever isto a Vosa Alteza com mais lagrimas de meus olhos e com o meu coração ferido e chaguado e com o sangue dele escrever isto, para que podese dar a sentir a Vosa Alteza que cousa he perder-se huma alma, quanto mais não he uma, senão mais de mill allmas. Não sei que faça se escreva ou se chore. Milhor faria se chorase; crea-me Vosa Alteza que hum he outro faço; estou escrevendo com as mãos mas os olhos não deixão de fazer o seu oficio, que he chorar a perdisan de tantas almas quan- tas se perdem na índia, cada ano, por não terem os lasca- rins que comer, nem por lhes quererem paguar seus soldos he mantimentos. Vosa Alteza não ouse escrever nem de guastar papell em escrever aos seus governadores nem 2 69
viso-reis que paguem soldos nem mantimentos aos seus las- carins. Digo a Vosa Alteza que ho não am-de fazer he dão por escusa que nom hai dinheiro e que são mister dinheiro para as armadas. Tal seia minha vida, se fose para iso, mas Deos so he que o sabe o quail com esta negra fiúza (1) de fazer armadas esta Vosa Alteza empenhado, muitas vezes, com empréstimos he endividado e alem disto usão deste meyo o quall meyo tomam para de todo o roubarem e destruírem. Crea-me Vosa Alteza que, com esta fiúza de fazer arma- das, bem desarmado esta Vosa Alteza, pois que de todo o despem ate mais não poderem, pois para eu escrever isto, por sua ordem, e os meyos que disto usão, parece-me que se eu agora me pusese a escrever isto no mais que com esta fiúza de fazer armadas, pedem dinheiro emprestado, tomão todas as rendas da Allfandegua he doutras partes muitas. Para eu escrever isto como devo e como sou obrigado avia mester verdadeiramente, pelo menos, três mãos de papel, por onde ficase alimpo todo o furto que niso fazem a Vosa Alteza. Mas ao presente estou mudo sem poder falar e as mãos atadas, sem poder escrever, porque areceyo como mui- tas vezes areceyo, lerem-me as cartas no mar, por iso deixa ornem muitas vezes de escrever muitas cousas de sustancia. Mas tudo se fara bem presente a Noso Senhor, depois que me ver com Vosa Alteza, porque breve se pasarão seis meses, para poder pasar ese Cabo da Boa Esperança. Sei que, se me Noso Senhor la levar, que não a-de pesar nada a Vosa Alteza com minha ida, antes lhe a-de pesar muito porque não foi mais sedo e asi peço perdão a Vosa Alteza que me perdoe, por amor de Noso Senhor, por não fazer isto mais sedo, porque ha oito anos que se ouvera de (1) Isto é: teimosia. 2 J O
fazer e ter feito he mandar pedir esta licensa a Vosa Alteza. Conheço minha culpa e asi estou prestes a diciplina que Vosa Alteza me quiser dar, se la for, porque fui tão des- cuidado nisto: saber eu tantas cousas da India e tantos furtos e roubos como fazem a Vosa Alteza, não lhe escrever nem fazer saber nada, ja sequer duas regras. Eu me dou por culpado e errado nesta parte. Asi digo a Vosa Alteza que ouve confesor que me dixe: irmão, vos estais em grande risquo de vosa perdisan he, se fôreis sicular, hereis obrigado a restituir quantos furtos fezerão a el-rei, noso senhor, nestes oito anos ou dez, por- que não quisestes com tempo escrever a el-rei a lhe fazer a saber, porque hereis obrigado a faze-lo a saber com tempo, para se por remedio nisto e em toda a índia. A pinitencia de vosos pecados, vos mando que vos peçais huma licença a voso padre provinciall e que escrevais a el-rei, noso senhor, que vo-la aja para que vos posais ver com ele e ir-vos para o reino, para que com el-rei, noso senhor, antre ambos, vos e ele, lhe diguais a verdade do que se pasa na índia, segundo a emformação que me destes qua na confisam e do que sabeis da índia. // t3 *1 Com esta condisan vos asolvo de vosos pecados de outra maneira não me atrevo a asolver-vos. Foi-me esforçado a fazer isto e a escrevr esta a Vosa Alteza e asi ao noso padre provinciall, o quail peso a Vosa Alteza que tenha por bem de me aver dele a licemsa que mando pedir para me ver com Vosa Alteza e asi também lhe peso que tenha por bem de ma dar pois que tanto importa a Vosa Alteza. Portanto lhe relevo esta minha ida para eu poder comunicar com Vosa Alteza os grandes males da India e os furtos contínuos e tão grandes que fazem a Vosa Alteza, sem Vosa Alteza saber parte do negocio. Ele sabera mui sedo se me Deos la levar e Vosa Alteza tera o seu e usara de muitos meyos com os tais ladrõis, por onde não posão roubar tanto quanto 27/
roubão a Vosa Alteza. Parece a Vosa Alteza que he pequeno o furto da India que chegava a quatrocentos ou quinhentos mill cruzados, segundo a conta que qua coria, he segundo que sei. Eu não vou a Portugal mais que para descobrir a Vosa Alteza os furtos e males da India e por onde Vosa Alteza não perqua cada ano tanto numero de dinheiro e asi tãobem para ter a índia por sua, por ser senhor dela, porque, segundo o negocio vai, da maneira que vai, parece-me que Vosa Alteza não tem a índia mais por sua e, para que Vosa Alteza saiba isto milhor, lhe peço que esteje atento ao capitulo abaixo, porque lhe importa muito estar atento, porque aqui estaria a chave he o negocio de toda a índia: ou ser Vosa Alteza Senhor dela, ou não; ou perder-se de todo, ou ganhar de todo. Nisto não peço mais a Vosa Alteza que atensão ao capitulo abaixo. Sabera Vosa Alteza que huma das cousas que me moveo a escrever esta a Vosa Alteza não foi tanto pelos furtos da índia como por outra cousa demais sustancia, o quall eu debaixo de silencio calo e não diguo. Todavia, não escreverei nem direi claramente, senão escuramente, porque os reis cataliquos he sábios, como Vosa Alteza he, abasta poucas palavras para me entender, porque ho sabido em poucas palavras he entendido, he o néscio em muitas, ainda não acaba de entender. Bem creyo, posto que eu fale escuro a Vosa Alteza, sua prudência e sabedoria abasta para me entender em poucas palavras. Asi não direi mais que duas e, por amor de Noso Senhor, que me queira Vosa Alteza emtender. Diguo a Vosa Alteza que hos seus proprios de quem ele confia a India he de quem parece a Vosa Alteza ter bem confiada, que eles proprios o am-de entreguar ou por suas culpas ou descuydos, ou hos outros se am-de entre- guar de nos. Praza a Deos que niso ponha remedio; temo eu e arreceyo que, antes que eu va a Purtugall, ey medo que Vosa Alteza 272
não tenha mais a índia por sua e sermos todos cativos dos mouros. Não digo mais a Vosa Alteza senão que todos dormimos e o inimiguo noso vigiando-nos he serquando-nos. Diguo a Vosa Alteza que não ha ja cristandade na índia, diguo que mais são os mouros em Guoa que não os purtu- gueses; diguo mais que eses portugueses, os mais principais, se vão para os mouros he são seus capitães he seus soldados; diguo que eles mesmos se alevantão contra a coroa real de Vosa Alteza, como muitos se alevantarão, de que aqui não faço mensão; diguo mais a Vosa Alteza que todolos anos e meses, não sei digua somanas, se despovoa esta cristandade de cristãos para hos mouros, como asyma tenho dito. Diguo mais a Vosa Alteza que outros muitos se despovoam em irem ganhar sua vida, e asi grandes licensas e despachos para os tais homens, o quall vão cada ano mais de dous mill ou três mill para Malaqua, Maluquo, China, Pegu, Benguala, Ormuz e esta cidade não esta povoada mais que de molherer e mininos. Asi para eu dar conta a Vosa Alteza destas cousas avia mister que fazer e asim que responder. E por iso deixo tudo para depois que me ver com Vosa Alteza, que sera daqui hum ano, porque tais cousas, como estas, não se podem escrever por vias de cartas, nem de livros, nem em cadernos, mas tudo escrevo agora neste livro que faço para que, depois que me vir com Vosa Alteza, saber dar conta do que nele escrevo. Eu trabalharei o mais sedo que puder (por) (2) acabar que ja pola vinda destas naos, que levão estas vias, da tor- nada que tornarem ele se acabe; juntamente me vira também licensa para me ir e desta maneira sera Vosa Alteza servido he sabera entonces do furto que lhe fazem, e asi pora remé- dio em toda a índia, porque tem muita necesidade de ser (2) O documento encontra-se roto neste ponto. 27 3 DOC. PADROADO. VI l8
remedeada, pois vai o negocio da índia em tal maneira quall temo que, antes que me venha licensa para me ir, e antes que me veja com Vosa Alteza, que Vosa Alteza não sera mais senhor da índia nem tenha a índia por sua. Temo muito isto e por iso digo a Vosa Alteza que me nom pesaria nada, se eu pudese agora ser o portador desta, para que eu pudese dizer com tempo a Vosa Alteza o que a-de fazer na índia, mas Vosa Alteza encomende isto a Noso Senhor, que eu confio na sua misericórdia que não sera nada mas tudo se fara bem, depois que me Deos la levar. Se antes disto soceder alguma coisa entomces a culpa não sera minha, mas eu confio em Noso Senhor que tudo nam seja nada. Mas temo eu, senhor, segundo o que entendo e alcanso, que se me Deos me não levar a Purtugal e eu me não ver com Vosa Alteza nem Vosa Alteza saber o que lhe tenho de dizer, antre mim e Vosa Alteza, e do que pode fazer, digo que esta em grande risquo de não ter a índia por sua he não digo mais. Olhe Vosa Alteza em que ponto esta a índia ou em que esta Vosa Alteza ser senhor da índia, ou então, não esta mais senão em me Deos levar a Purtugal e eu me não ver com Vosa Alteza, que Vosa Alteza tem a índia perdida ou alevantada ou destruída he não diguo mais. Se eu poderá em boa consiencia descobrir estas cousas eu as descobriria, eu as escreveria a Vosa Alteza, mas saiba Vosa Alteza porque o não poso fazer, por iso deixo de fazer e por iso espero este ano por esta negra licença, que me a-de aver Vosa Alteza do provincial, porque na verdade para estas cousas e outras semelhantes não avia mester de licença de perlados senão que os mesmos religiosos devião de ter ja de seu rei he senhor ou os mesmos reis ave-lo do Papa. Sabe Noso Senhor quanto me pesa não poder ir este ano, mas tudo he hum ano. Trabalhe Vosa Aleza de me mandar esa licença do provincial, porque o tempo pouco he, seis meses de mar e outros tantos que poso estar em Lisboa, por- 2 74
que loguo me ei-de tornar no mesmo ano, por iso veja Vosa Alteza o que faz e veja quanto importa esta minha ida. Dise que se Vosa Alteza quer ter a índia // por sua e asi i4 r0 não perder cada ano estes quatrocentos ou quinhentos mill cruzados que podem furtar ou furtão, sem Vosa Alteza saber como, nem como não; não se pode saber sem eu primeiro ver-me com Vosa Alteza e sem eu primeiro não descobrir e manifestar a Vosa Alteza donde procedem e nacem tam grandes males na India e tam grandes furtos, como fazem a Vosa Alteza. He se Vosa Alteza não quer ter esta perda tão grande com hem perder ou furtarem cada ano seus oficiais tanta copia de dinheiro, diguo isto em comum, que sei que hai grandes ladrõis na India e por iso abasta saber Vosa Alteza que os ha. Também he necesario que saiba Vosa Alteza outros muitos males donde procede perder Vosa Alteza ou estão em risquo de ser a índia perdida. Isto he o que importa mais que tudo. Vosa Alteza, depois que me ver com ele, caira na conta e na verdade e me dira: «ho irmão meu he verdade tudo o que me escrevestes ao pe da letra»; e me a-de dizer: «prouvese a Deos que mais sedo o fizeras, irmão, que eu tivera a índia recuperada e não em tão grande reisquo de ser perdida e destruída». E sabe Noso Senhor quanto me doyo de Vosa Alteza e de suas cousas e como quem muito doe e sente não pode deixar de mostrar o senti- mento que nisto mostra a Vosa Alteza. Não digo mais, senão que prouvese a Deos que nunca fora nacido para ver o que vejo na India e para ver o que fazem a Vosa Alteza. Aguora tudo he mais hum ano que ei-de ver estas cousas, mas pra- zerá a Noso Senhor que Ele me levase a ese reino com que eu com Vosa Alteza recupere a India e Vosa Alteza seja senhor dela, como ate aqui foi e seia. E mais ele terá o seu e não avera na índia tantos ladrõis como ha, nem quem o •destrua tanto como o destruem. 2 75
Vosa Alteza, pois que lhe importa tanto esta minha ida, mande loguo chamar o noso padre provinciall e lhe peça huma licensa conforme esta que abaixo vai, para que asi intramentes se guarde, porque se vier doutra maneira, não se poderá comprir nem guardar, porque temos pouqua conta irem com os perlados, nem tão pouquo com os reis, nem príncipes porque estes nenhuns comedimentos tem com tais pesoas e por iso he necesario que Vosa Alteza mande chamar o noso padre pronviciall e lhes peça a dita licença, feita muito a vontade de Vosa Alteza, com mais rigor que puder ser, e seia desta maneira que abaixo vai porque, sobre mim, se vier desta maneira, que se cumprira e se guardara e, se isto não abastar, aja Vosa Alteza huma do mesmo, ou do Mestra da Ordem, ou do Papa. Faça Vosa Alteza de tall maneira que qua se cumpra e guarde quallquer licensa que vier, o quall poderá Vosa Alteza mandar por três ou quatro vias, para que asi venham seguras. E asi encomende Vosa Alteza muito a qualquer governador que governar a índia que na ora que me vier as ditas licensa para me ir para o reino que o mesmo governador mande chamar o vigário ou prior da casa e a mim mesmo mostre a dita licensa e como Vosa Alteza, e o padre provincaill tem por bem de me dar licensa para me ir este ano para o reino, porque asi he a vontade de Vosa Alteza. E para iso folgaria que huma das vias ou huma das licensas venha nas vias do governador para que o mesmo governador me mande chamar ao mos- teiro e mostre a meu perlado como Vosa Alteza ha por seu serviço e como também noso provinciall ha por bem que me va este ano para o reino, para me ver com Vosa Alteza, pois sabe Vosa Alteza quanto importa esta minha ida; o quall eu deixo tudo em Vosa Alteza e asi o aguasalhado he camara he todo o necsario para o caminho. Vosa Alteza escreva duas regras ao senhor governador que me de agua- salhado e mantimento, como asi dos frades que vem, e dos 2 76
que vem de Purtugal para a índia, ou dos que vão da índia para Purtugal. (De mais) (3) não quero mais de Vosa Alteza; isto encomende ao senhor governador minha ida e a se fazer guardar a licensa de meu padre provinciall para que com ela posa ir para o reino, pois que tanto importa a Vosa Alteza esta minha ida ao presente, não mais que por ano. E a licensa que Vosa Alteza me a-de ver de meu padre provinciall seja desta maneira abaixo, para que qua asi se cumpra he se guarde: «Frei..., provincial desta província de Purtugal, ei por bem e me apraz por esta de dar licensa a frei Estevão de Santa Maria, frade profeso desta nosa sagrada Religiam, que ora esta na India, o quall mando, su preceito e so pena de escomunhão, a vos Frei Diogo de Bermudez, vigário geral dos fardes pregadores nas partes da índia, ou a qual- quer perlado que no voso careguo e oficio soceder e asi a qualquer prior ou superior ou vigário de qualquer convento que seia que esta vir, mando su preceito, e em virtude de santa obediência, que em quallquer convento que estiver o dito Frei Estevão de Santa Maria e esta vos for mostrada que, dentro em 24 oras, ponhais toda a diligencia em o mandar vir em qualquer convento que estiver; em vindo, mando su preceyto e so pena de escomunhão que esta minha licensa a metais nas suas próprias mãos para que o dito frade, com esta minha licensa, posa vir a este reino de Purtugall sem perlado nenhum des no maior ate ho menor e des no menor ate o major, pouquo nem muito, queira mais enten- der no dito frade. E asi mando, su preceito e so pena de escomunhão, que qualquer perlado inferior a mim ousar (3) O documento encontra-se rasgado neste ponto, não se podendo ler claramente as palavras De mais. 2 77
aquebrantar esta e não quiser guardar e cumprir esta, hou tolhendo o dito frade sua ida he viagem, caira no dito pre- ceito e escomunhão asima e na pena de graviori culpa, por dez anos e seia privado do dito oficio. E asi mando, su pre- ceito e so pena de escomunhão, a todos os do convento, se vir que algum perlado ousar aquebrantar esta he tolher o dito Frei Estevão de Santa Maria que não venha, mando a todos os do convento, su preceito e com a mesma escomunhão, que ao dito perlado tirem do oficio he careguo e nenhum t4 r0 ousara // asolve-lo da escomunhão, sem minha particular licensa que para iso for dada para tal caso o qual quando se espresamente não dixer mando que asolvam a tal perlado de tal escomunhão por quebrantar esta, diguo se tal decla- ração não der, nenhum confesor poderá asolver por mais poderes meus que tenha. E asi eu, pola autoridade de meu oficio, escomungo a qualquer perlado que esta quebrantar e esta não quiser guardar e asi o asolvo do oficio, que não sera mais perlado. E asi ei por bem e me apraz que, de quantas licensas alem desta ou depois desta for feita que contradigua esta, digo e declaro e mando, su preceito, que nenhuma das outras tenha vigor contra esta e esta tenha sobre todas as outras feitas e por fazer; he asi declaro que he minha ultima e derradeira vontade que esta se cumpra e guarde e outra nenhuma não, ainda que digua e contradigua esta declaro sobre tudo que esta tenha mais vigor que todas as outras feitas e por fazer.» Vosa Alteza tenha por bem de pedir ao noso provinciall que conforme a esta licensa asima faça outra e asine antes que se va ao mosteiro; mande Vosa Alteza chamar ao mos- teiro e peça desta maneira que aqui vai e isto antes que se va para o mosteiro que faça no paço de Vosa Alteza e mande fazer tres ou quatro da mesma maneira, para poder vir por tres ou quatro vias, para que venha mais segura, porque vindo a licensa conforme a esta de sima, sobre mim, que qua 2 7 8
se guarda. E para que nos não enguanemos no nome, sabera Vosa Alteza que somos qua neste mosteiro dous freis Este- vãos, ambos do mesmo nome; o meu proprio nome chama- -me Frei Estevão de Santa Maria e o outro Frei Estevão Fer- reira. E, por iso, mande Vosa Alteza pidir esta licensa ao provinciall, ponha-me na licensa Frei Estevão de Santa Maria para que nos não enguanemos no nome. Nesta ao presente não tenho mais que escrever a Vosa Alteza, senão que acrescente o estado real por muitos anos e bons e a rainha, nosa senhora, lhe de dias de vida para que ambos juntamente vivão em paz e em amor e concórdia, Amen. Feito neste convento de Sam Domingos de Guoa, oje o primeiro dia de Fevereiro, da era de 1557 anos. Umilde e indino filho de Vosa Alteza. Frei Estevão de Santa Maria. 2 7 9
37 CARTA DE FREI ESTÊVÃO DE SANTA MARIA A EL-REI Goa, 10 de Fevereiro de 1557 Documento existente no ANTT: — CC, l, 100-100. Mede 325 x 220 mm. Duas folhas em bom estado. Senhor: Depois que eu tive escrito a Vosa Alteza per quatro vias mui larguamente, dando conta a Vosa Alteza quanto mal fazem na India a Vosa Alteza os seus oficiais, em o rouba- rem e destruírem de todo, sem Vosa Alteza ser diso sabedor nem tam pouquo saber os modos e meyos de que usão os homens para roubarem he destruírem, donde Vosa Alteza, por esta causa, esta o mais pobre rei que de quantos reis ha no mundo, por aver na índia tantos ladrõis como ha; consi- derando eu bem isto, verdadeiramente pos-me espanto mui grande não aver Vosa Alteza, de quantos oficiais tem na índia, acudir hum por sua fazenda, mas antes a furtarem quem primeiro pode. Ja me não espanto destes nam atentarem nem olharem pola fazenda de Vosa Alteza, mas aver ahi religiosos na India que mais destruem a Vosa Aleza no que fazem, que não os próprios ladrõis que a roubam he destruem. Digo a Vosa Alteza que se os religiosos da índia, diguo os indis- cretos he ruins pregadores, que não sabem muitas vezes o que preguão nem o que dizem, diguo a Vosa Alteza que estes indiscretos pregadores tem destruido a Vosa Alteza, com suas necedades e indescrisões que fazem, onde devião eles, para bem de sostentar he ter mão nas rendas de Vosa Alteza, eles são os que preguão contra iso mais onde devem 2 8 o
de ter mão e sostentar os direitos que paguão a Vosa Alteza; eles são os que estorvão a iso tanto he de tanta maneira que, em verdade diguo a Vosa Alteza, que lhe fazem de perda, cada ano, mais de trezentos mil cruzados, como, ou como não, não me he licito ao presente murmurar nem escrever nada, porque na verdade que as verdades não he murmurar, senão vertude. Eu, por aver do de Vosa Alteza, he como pai he senhor meu que he Vosa Alteza, não pude conter isto nem te-lo no corasão que não escrevese, pois isto he nada em comparasão com que tenho para dizer antre mim e Vosa Alteza, depois que me Deos la levar, o que sera sedo, prazendo a Noso Senhor; que Vosa Alteza tera cuydado de me aviar a licença de meu padre provinciall, que lhe mando pedir, para poder isto comunicar com Vosa Alteza e Vosa Alteza comiguo; ainda isto que dixe asima he nada. Diguo mais a Vosa Alteza que os confesores nesios he ydiotas e simplices, eses são os que destruem a Vosa Alteza. Não sei quem lhes fez despensador e destribuidor da fazenda de Vosa Alteza; visto que não tenho paciência; huma coisa so, no mais, quero dizer a Vosa Alteza e por amor de Noso Senhor que lhe queira entender. Ja nas outras vias dixe a Vosa Alteza hem como os capi- tães gerais, vedores de fazenda, e feitores, almoxarifes dos viso-reis, he rendeiros, he todos os demais, como o roubão e destruem de todos. Eses oficiais, que aqui nomeo a Vosa Alteza, tem por oficio, todo o tempo que servem o oficio, roubarem he destruírem a Vossa Alteza ate mais não poder ser, he depois de bem roubado e destruído a Vosa Alteza e depois que acabão seus ofícios, para descareguo de suas con- ciencias, pensara Vosa Alteza que buscão homens letrados he doutos? Não aja Vosa Alteza diso medo. Sabe Vosa Alteza quem buscão? Clérigos nesios, ydiotas, simplex, que com lhe dizerem: «senhor iso que tendes furtado a el-rei 2 8 i
podei-lo restituir em hobras pias; tendes furtado simquo mill pardaos a el-rei? Dai mill a misericórdia abasta». Vem qua clérigo quem te fez a ti despenseiro da fazenda de el-rei? Se estes, cada ano, furtão simquo mill pardaos a el-rei, como mandão restituir a misericórdia? Ese dinheiro he del-rei, a el-rei o furtarão, como mandão dar a miseri- córdia? Por iso digo a Vosa Alteza que os clérigos, ou para me- lhor dizer os confesores nesios he parvos he emdis(cre)tos, eses ho destruem a Vosa Alteza, ese o fazem pobre, não mandando restituir cada hum a seu dono, porque, se eles mandasem restituir a Vosa Alteza, quanto lhes furtão, eu P v0 prometo a Vosa Alteza // que Vosa Alteza fora mais riquo do que he, mas estes ladrõis não buscão senão estes confe- sores asi ediotas e simpleces que lhes digua: «senhor, se tendes furtado a el-rei simquo mil pardaos, dai mil a mise- ricórdia, iso abasta para vosa consiencia». Por iso digo a Vosa Alteza que os clérigos e frades, esse são os que des- truem a Vosa Alteza; os frades em preguar contra as rendas e dereitos de Vosa Alteza e os cleriguos com suas necydades e simplicidades em se(u) pouquo saber, em não mandarem restituir a Vosa Alteza o que lhes furtão, mas para tudo ha remedio. Quanto he do primeiro, verdadeiramente digo a Vosa Alteza que todo o poder do Papa não abasta para estes frades, que preguão contra os direitos e arendamentos de Vosa Alteza; mas eu espero em Noso Senhor que Vosa Alteza porá niso remedio; mas por ser isto cousas de frades, não escrevo a Vosa Alteza nada, porem saberei dizer a Vosa Alteza que tudo tenho escrito num livro, como nas outras vias tenho escrito a Vosa Alteza, donde escrevo todolos furtos que fazem na India a Vosa Alteza e asy também do perigo em que esta a índia. Neste volume mesmo ey-de escrever quanto dano fazem estes religiosos 282
e quaão pouquo asertão em preguar contra as rendas e dereitos de Vosa Alteza. Diguo a Vosa Alteza: achei por minha conta que estes frades são abastados para fazer pobre, não diguo a Vosa Alteza, senão o tisouro do grão turquo, ainda que fose Vosa Alteza tão riquo, o fariam pobre com o que preguão e dizem, pois crea Vosa Alteza que se a-de remedear isto. Também estoutro principalmente destes clé- rigos nesios hediotas que tam indiscretos sam nas restitui- ções que mandão fazer. Esta he uma materia tão largua de se escrever he dizer a Vosa Alteza que em duas mãos de papel não poderei acabar, para dizer a Vosa Alteza a lei que a-de por nos tais oficiais e capitãis he oficiais de seu careguo; he a outra he não permitir nem consentir na índia que nenhum oficial seu confese com clérigo ydiota simplex nem tão pouquo que eses mesmos sejam confesores de tais oficiais de Vosa Alteza, pois não he bem que va hum capi- tão ou governador, ou hum vedor da fazenda, que todo o tempo que estam servindo oficio, não fazem senão roubar e destruir a Vosa Alteza ate mais não poder e que ao cabo de hum ano, va a hum clérigo hedyota e que lhe pergunte: «irmão, quanto tens furtado a el-rei? Padre, dez mil par- daos. Ora dai dous mil a misericórdia em satesfasão deses furtos». Nem o clérigo podem com boa conciencia mandar fazer tall restituisão, porque o furto fazem a Vosa Alteza he não a misericórdia; por iso a Vosa Alteza se a-de resti- tuir, e digo que seia asi que se restitui a misericórdia; e os outros oito mil pardaos, em fim que os oito mil ficarão ao mesmo ladrão e dous a misericórdia, donde todos os dez tinhão de ser restituídos a Vosa Alteza, pois a este o fur- tarão. Digo a Vosa Alteza que estes clérigos fazem pobre a Vosa Alteza. Nisto Vosa Alteza, ate o presente, não bula consyguo nem determine fazer outros confesores para os seus oficiais. Eu me verei com Vosa Alteza e Vosa Alteza comiguo, e eu direi a Vosa Alteza o que Vosa Alteza niso 2 S3
pode fazer e o que pode nesa parte pedir ao Papa ou não, porque saiba Vosa Alteza que estes dous generos de pesoas, scilicet: frades e clérigos, oje em dia, tem destruído a Vosa Alteza mais que quantos ladrões ha na índia; os frades, como tenho dito, pregam contra as rendas he direitos de Vosa Alteza e os cleriguos com seu pouquo saber he seencia que tem, em saber mandar restituir cada hum a seu dono. Digo a Vosa Alteza que se me Noso Senhor levar a Portugall e eu me vir com Vosa Alteza e Vosa Alteza comiguo, que Vosa Alteza todas estas cousas a-de remediar para que não aja ahi tantos destruidores da fazenda de Vosa Alteza. Abastão a rama... (1) o diabo os ladrõis que Vosa Alteza tem na India, que o roubão de dia he de noite, ainda a-de aver quem peque contra as rendas e direitos de Vosa Alteza, para acabarem de destruir de todo e de fazerem pobre de todo; juro e trejuro a Vosa Alteza que os clérigos he frades, eses am-de lançar a perder a índia, porque tanto am-de fazer he tanto am-de preguar com Vosa Alteza não tenha ainda rendas na índia nem direitos, o quall não avendo rendas nem direitos, não ha dinheiro, não avendo dinheiro, não ha armada, não avendo armada, he perdida a índia. Olhe Vosa Alteza que lhe diguo como christão he religioso que sou que, se me Deos desta feita me não levar a Portugal e não der a Vosa Alteza conta de todas as cousas da India, per sua ordem, como ao presente estou escrevendo no dito livro, que Vosa Alteza não tem a índia por sua, menos de dous anos. A muita causa disto he os clérigos he os frades; que se a índia perder, saiba Vosa Alteza que he por mor dos clérigos he frades ou, para milhor dizer, dos nesios cleriguos e dos indiscretos prega- dores. Não se pode sofrer ja tanto nem disimular tanto. (1) O documento foi golpeado neste ponto. 284
Saiba Vosa Alteza huma verdade; que estes clérigos e estes frades me obriguão ao presente rogar a Vosa Alteza que me ouvese esa licensa do padre provinciall, para me ver com Vosa Alteza e Vosa Alteza comigo, porque vejo que esta a índia perdida. Todos os oficiais roubam e destruem, os pregadores preguão contra suas rendas he direitos; não ha ja rendamentos, nem ha ja dereitos, nem ha gente que sostente a índia; os inimigos são muitos; que ei-de dizer a Vosa Alteza senão que olhe pola índia? Porque os cléri- gos e os frades am-de ser causa de se perder a índia, porque ainda isto não he nada. Diguo a Vosa Alteza que não escrevo ainda a Vosa Alteza a terça parte do que devo de escrever, porque temo e areceyo de me castigarem // polas [2 r.] verdades que escrevo a Vosa Alteza. Hai que dei rei, que nem licença tenho para dizer as verdades, nem para escre- ver as verdades; não seso de sofrer tal cousa. Eu prometo a Vosa Alteza que Vosa Alteza, menos dum ano, nem de dous, que saiba a parte da verdade de tudo, posto que eu agora seja mudo. Eu prometo a Vosa Alteza que eu de um brado tam grande que se a-de saber não somente Vosa Alteza, senão todo o reino, pois que esta minha ida tanto importa a Vosa Alteza. Vosa Alteza tenha por bem e por seu serviço e polo que toca ao bem comum de toda a índia, a qual chave dela não esta senão em me Deos levar a Por- tugal, ou não. Eu prometo a Vosa Alteza que, se me Deos la levar he Vosa Alteza me aver do padre provinciall a licensa que mando pidir, para me ver com Vosa Alteza, que Vosa Alteza ponha remedio na índia em muitas cousas de que aqui, de presente, não escrevo porque as cousas quer cada huma seu tempo. As cousas são muitas e não se pode remedea-las, sem primeiro não dar conta a Vosa Alteza e sem Vosa Alteza não saber os males donde procedem. Vosa Alteza os sabera, prazendo a Noso Senhor, muy sedo, por- que brevemente se pasa hum ano ou seis meses de mar. 2 8 5
Arenego de todos los diabos, porque não sou eu mesmo o portador desta carta, para que o que aqui não escrevo poder di2er a Vosa Alteza, per palavra antre mym he ele. Mas asinha se pasa hum ano e os seis meses que poso navegar, porque se me Deos la levar, Vosa Alteza tera a índia por sua. Quanto ao presente, não na tem segura, como cuyda. Por amor de Noso Senhor, que as licensas, que Vosa Alteza me a-de aver, venhão por todalas vias, pois sabe Vosa Alteza quanto importa esta minha ida a Vosa Alteza e as cousas da India e de sua fazenda, como Vosa Alteza muito bem sabe e entende. Ao presente, não tenho nada que escrever a Vosa Alteza, senão encomenda-lo a Noso Senhor sempre em minhas orações, o qual Vosa Alteza tem em mim hum filho ver- dadeiramente filho, pois que todo me doyo das cousas de Vosa Alteza em andar, oje em dia, tão perseguido per reprender aos pregadores que não preguem contra as rendas nem direitos de Vosa Alteza, porque o fazem mais pobre do que he. Se Vosa Alteza soubese os trabalhos que tenho pasado sobre isto, de verdade digo a Vosa Alteza que mais merces me faria Vosa Alteza do que me faz. Duas merces, ao presente, nesta quero pedir a Vosa Alteza: a huma he que me aja esta licensa do padre pro- vinciall, para me ver com Vosa Alteza he Vosa Alteza comigo, e isto não por meu proveito, como Vosa Alteza sabe, senão porque me compadeço e me doyo de Vosa Alteza. Esta merce a mim me a Vosa Alteza de agradecer pedi-la eu, pois que he para as cousas de seu serviço. A segunda he esta: saiba Vosa Alteza huma cousa que, ainda que me venha a licensa, não me ei-de ir desta terra, sem Vosa Alteza nam mandar ir comigo hum filho de Manuel de Sa, que foi escrivão da matricula he vedor da fazenda de Ormus, o qual Vosa Alteza escreva duas regras 286
a seu pai ou ao governador da India que embarque comigo, porque da verdade em verdade digo a Vosa Alteza que tenho tamanho amor a ese mancebo, filho deste Manoel de Sa que digo, porque de verdade digo a Vosa Alteza que tenho tam unido o coração com ele e ele comigo que nos não podemos apartar dese amor; crece-me tanto, cada vez mais, tanto em tanta maneira que digo a Vosa Alteza, se Vosa Alteza quer que eu va a Portugal, pois que importa tanto esta minha ida a Vosa Alteza, digo a Vosa Alteza que nem escomunhões do Papa, nem preceitos dos meus perlados, nem mortes nem tormentos me am-de ser o bas- tante para ir da índia para Portugall; se me eu não embar- quo com este mancebo, filho deste Manoel de Sa, e empo- sivel ir a Portugal. Por iso trabalhe Vosa Alteza com seu pai e com o governador que o embarque por que seu pai, a dous anos a esta parte, que escreveo a Vosa Alteza como o tinha para clérigo, se Vosa Alteza quisese tomar por seu capelão. Mandou dizer que não, senão que tomaria por seu moço fidalgo, o qual estava em mandar este ano, ou polo outro, mas todavia se for polo outro, la o acharei em Lis- boa, quando me embarcase. Se não for o dito moço, emton- ces Vosa Alteza poderá escrever duas regras a seu pai que o mande loguo a Purtugall e isto na nao em que eu for, porque Vosa Alteza dara gasalho, asi a mim, como a ele. Esta merce peço a Vosa Alteza e seia a primeira que lhe peço, que trabalhe em todalas maneiras por vir este man- cebo em minha companhia e eu na sua, porque somos tam uniformes em tudo que não ha cousa nenhuma que nos aparte hum do outro; sempre me vem ver ao mosteiro e eu também, quando saio fora alguns negocios, o mesmo faço. Tomei amor e afeição a este moço por ser vertuoso he bem inclinado e amigo de Noso Senhor e asi por ser o mais belo moço que, desque naci ate o dia de oje vi ver- dadeiramente; o qual he um moço, não digo para ser capi- 2 8 7
tão de Vosa Alteza, senão cardeal perlado; verdade digo a Vosa Alteza que he este moço para muito e para qualquer rei e príncipe te-lo, não por seu moço fidalgo, senão por seu filho legitimo. Sua vertude he bondade me obriga a escrever a Vosa Alteza tanto bem dele, o qual desengano a Vosa Alteza que, se Vosa Alteza não acabar com seu pai e com o governador que o mande na minha companhia, quando me eu for para o reino, não cure Vosa Alteza de tomar trabalho e pedir licensa ao provinciall, para eu poder ir para o reino, para me poder ver com Vosa Alteza he Vosa Alteza comigo. Ja lhe descubri as cousas da India e asi outras muitas que nas outras vias tenho dado conta e emformasão a Vosa Alteza de quam necesario he ver-me com Vosa Alteza he [2*] Vosa Alteza comigo. Asi para des // cubrir os furtos que fazem a Vosa Alteza, como também para nam perder a índia, como tenho dito que esta em risquo de se perder, se em tempo Vosa Alteza não acudir ao que lhe tenho escrito nas outras vias. E por iso, se Vosa Alteza quer que me va para o reino, trabalhe dir este mancebo comigo, o quall indo irei he, se não for, crea-me Vosa Alteza, me não ei-de embarquar. Ja que Vosa Alteza tem necesidade de mim, faça-me esta boa obra, que mande que o dito moço venha em minha companhia para que niso recebese conso- lação, porque, se me for sem ele, saiba Vosa Alteza que ei-de morer no mar de paixão. Por iso Vosa Alteza con- sole-me niso, pois que tem pouquo he ele fazer (sic), he tão pouquo custa a Vosa Alteza faze-lo, para minha conso- lasão, porque eu perquo a minha propria, deixando minha propria patria, donde me criei e naci e donde tomei o abito e donde tinha meu pai e minha mãi e irmãs he todos meus parentes, o quall tudo deixo por amor de Vosa Alteza e por me ver com Vosa Alteza e por descubrir as cousas da India a Vosa Alteza e por onde não roubem nem destruem, 288
como tem a Vosa Alteza tanto como o destruem, e asi tãobem para que Vosa Alteza não perqua a índia. Pois que eu tenho minha propria consolasão e meu proprio repouso e venturo a minha propria vida, seis meses de caminho, sofrendo as tempestades he tormentas do Cabo da Boa Esperança, pois que tantos trabalhos tomo por Vosa Alteza e por me ver com Vosa Alteza, para seu proveito he bem, parece-me que he rezão esta dar-me Vosa Alteza esta consolasão, que he escrever duas regras ao pai deste mancebo, que se chama Manoel de Sa, que provera man- dar seu filho nesta nao em que eu me for, para que ambos nos vamos juntos; porque, se Vosa Alteza me der esta con- solasão, eu me embarcarei para o reino, como tenho pro- metido a Vosa Alteza, he se não, se não for o dito mancebo comigo, se Vosa Alteza poder acabar iso com seu pai, aja-me a licensa, com a bensão de Noso Senhor, de meu padre provinciall, para me ver com Vosa Alteza he Vosa Alteza comigo. Eu confio em Noso Senhor que Vosa Alteza fara desta maneira com que eu me embarque muy consolado, porque, se isto asi for, Vosa Alteza sera servido em tudo. Noso Senhor acresente a Vosa Alteza o estado real, por muitos anos e bons, para seu serviço; e a rainha, minha senhora, tãobem lhe de dias de vida, para que ambos juntamente vivão em paz e amor e concórdia, Amen. Feita neste convento de S. Domingos de Guoa, a 10 de Fevereiro, da era de 1557. Umilde he indino filho de Vosa Alteza Frei Estevão de Santa Maria 289 DOC. PADROADO, VI — 19
38 CARTA DE FREI ESTÊVÃO DE SANTA MARIA A SEU PROVINCIAL Goa, 25 de Fevereiro de 1557 Documento existente no ANTT: — CC, l, 100-122. Mede 305 x 220 mm. Cinco folhas em bom estado; só quatro escritas. Letra muito miúda e de leitura difícil. Muito Reverendo Padre A graça do Espirito Santo seja sempre com Vossa Pater- nidade e com toda essa Província, Amen. Ofereceo-me ao presente escrever esta a Vossa Paterni- dade, posto que conheça de mim ser indino e pouco mere- cedor de o fazer. Não olhe Vossa Paternidade minhas indi- nas palavras, mas olhe as entranhas de amor e caridade com que o faço o qual mesmo amor me obrigou a faze-lo, posto que eu nunca vira nem conhecera Vossa Paternidade, por estar Vossa Paternidade nesse reino de Portugal e eu na índia. Não deixo por isso de ho conhecer e ho ter por meu pai he pastor para fazer tudo o que Vossa Paternidade me mandar, porque achara em mim hum filho, posto que indino he mao, porem pronto para obedecer a Vossa Pater- nidade em tudo naquilo que me mandar. Por isso tomei este abito para em tudo e por tudo neguar minha propria vontade e conformar-me sempre com a vontade de meus perlados e pastores. E asi Vossa Paternidade, como pastor e eu como filho obediente, não poderei de dar conta a Vossa Paternidade de mim que são desta sagrada Religiam. Quanto ha mim, sabera Vossa Paternidade como sou 290
eu hum religioso dos naturais da India e nela nasci e nela me criei e nela tomei o abito do noso glorioso Padre S. Domingos, o qual nunca eu a Deos mereci fazer-me Elie esta merce, a quall foi tam grande para mim não sey ver- dadeiramente como que o pregue, posto que a carne repu- nhava muitas vezes e o espirito por ser nobre e de sangue, e asi criado em muitos mimos e deleites e muitos contenta- mentos e prazeres do mundo e asy amado de todolos viso- -reis e senhores da India e de toda a fidalguia e meu proprio pai e mai que me gerarão e criarão; todavia nunca me fal- tarão tentações em homem rico, de noviciado, o qual me punha o demonio diante dos olhos ser huma cousa mui forte apartar-me eu daquelle que me criou e gerou e das tetas de minha mai e de minha nobreza he fidalguia. Toda- via, emitando as palavras de Christo, qui vult venire poste me, aquelle que quer vir he necessário que negue a si mesmo he tome a sua cruz e seguir-me, pareceo-me bem seguir a Christo e deixar o mundo; e asi o deixei em boas oras e entrei nesta sagrada Religiam, com deixar toda a fidalguia da índia saudosos de minha despida do mundo para a reli- giam, em a qual tomei o abito de São Domingos, o qual nunca meu pai nem minha mai nem todos meus parentes a Deos mereceram fazer-me esta merce. E muito maior foi para mim dar-me perseverança neste abito, o qual bendito seja o Senhor, que, depois de meo ano acabado, fiz neste mesmo convento de Guoa profisam, onde avia tomado o abito. E depois de profeso, o nosso Reverendo Padre Vigário com todos os padres do conselho determinarão e decretaram que era serviço de Deos e de nosso Padre S. Domingos e de toda a Ordem mandar-me com outro padre a cidade de Cochim para edificar nella hum mosteiro de nossa Ordem; o quall eu e o outro padre, nom mais, fomos os primeiros edificadores do dito convento de Cochim, nestas partes da 29/
India fundado, que fomos os primeiros e os primeiros que lançamos a primeira pedra nelle; o qual, bendito seja Nosso Senhor, esta ja quase todo o convento acabado, como ho vigário escrevera a Vossa Paternidade, a quall obra fizemos toda com esmolas, sem el-rei, ate este dia, dar-nos hum so seitil e com o suor do meu rosto e com pasarmos noites e maos dias pelo sol e pola calmia fizemos o dito convento, o quall Nosso Senhor de o gualardão disto que dEle espero o premio que he Elie mesmo, o qual não quero outro nenhum. Depois que deixei todo o convento acabado me veyo hum preceyto e obediência do Padre Vigário que viese loguo, sem mais dilaçam nenhuma, a esta cidade de Guoa, para dar ordem a este mosteiro de Guoa, o quall quisera eu primeiro ter todo acabado o mosteiro de Cochim e depois vir dar ordem a este outro de Guoa, porque em verdade diguo a Vossa Paternidade, se mais hum anno estivera em Cochim, eu acabaria as obras que comecey do dito mosteiro, mas que ja foi asi a vontade de meu perlado vir-me, aseitei a obediência como filho obediente, posto que indino he pecador he mao e outras cousas; mas na obediência me acharam pronto para tudo o que quizerem fazer de mim, o qual foi asi a vontade de meu perlado, que viese loguo a dar ordem a este mosteiro de Guoa, o qual dous ou tres annos estava sem se fazer obras, por amor de mim; porque todos os conventos que fazia o Padre Vigário, não fazia sem meu parecer e conselho, posto que fose novo em a l1*! Ordem//porem muy velho e antiguo na terra, pois que nella me criei e nella nasy. Não sou ora tam novo na Ordem que faz agora ja nove anos que tenho este abito as costas, nos quais nove anos toda empreguei e guastei em serviço de Deos e desta sagrada Religiam, pois que para iso tomei o abito, não por estar ocioso senam trabalhar de dia e de noite no serviço de 2 5 2
Deos e nas cousas que pertencem a nossa sagrada Religiam, o quall eu com muito trabalho de minha vida trabalhei sempre por sostentar esta Ordem que não caise de todo, porque, se eu não fora, ela se caira, no mais que por cabe- ças de mancebos hediotas serem regidas e guovernadas, porque o nosso padre vigário he so, he quando vai visitar não tem a quem por em seu lugar senão mancebos e mini- nos na Ordem, o qual Vossa Paternidade, se quer, avia de aver de nos outros todos, se quer mandar mea dúzia de padres velhos e antigos, por omra deste convento e desta casa, e asi para ajudar o vigário em seus trabalhos he se quer que tenha hum ou dous velhos para por em seu lugar, quando asentar dir alguma vez visitar, não por mancebos mui novos na Ordem que he desomra nosa e da Religiam, porque os mancebos são os que lanção a perder a religião, como Vossa Paternidade sabe he tera experimentado, pois que he tão antigo e velho na Ordem, sabera diso melhor que eu. Mas eu, segundo o que alcansei desta terra e das cousas dela, principalmente as que pertencem a nosa sagrada Reli- giam he comum he bem de toda a Ordem, não poderei deixar de dizer a Vossa Paternidade o que tenho alcansado e sei dos conventos desta Ordem, nestas partes da índia, porque em todas elas me achei e sei muitas cousas delas, e ainda mal, porque sei tanto e sei tão bem dizer a Vossa Paternidade que os provinciais novamente enviados ou pos- tos na sua província não podem alcançar tanto dela, senão per curso de tempo. Se isto he ala, como pode Vossa Pater- nidade alcansar a saber as cousas da índia nem do que qua se faz, estando tão longe da Indya. Por isso leve-me em conta Vossa Paternidade tudo o que diser, porque eu ey-de fazer meu oficio, que he dizer verdades aos perlados e por- que, por nosos pecados, não ha oje neste dia,, quem queira escrever as verdades nem tam pouquo quem as digua, por 2 93
iso mall pecado se deixarão de remedear he se prover mui- tos males o quall pola ventura se hos perlados soubessem eles hos remediarião mas como he que não sabem, deixarão por isso de por remedio em muitas cousas; o quall, pola ventura, se soubesem, poriam remedio com tempo. Huma verdade quero dizer a V. Paternidade, o qual crea-me que he asi, o qual sempre tive muito pouca conta com os per- lados. Isto aserqua das verdades, porque as verdades a-se dizer não somente aos perlados, senão ainda ao Papa, quanto mais aos perlados inferiores. Pouca conta tive sempre com os homens; o que he mal feito a-se de dizer que he mall feito, e o que he bem feito a se de dizer que he bem feito. Niso perqua Vosa Paterni- dade o cuidado que asi a-de ser: o mal feito repreende-lo e o bem feito louva-lo, porque as verdades e bondades am-de ser louvadas e as maldades avorecidas e perseguidas e deslouvadas. Queria, eu ao presente, mais calar que falar, mais chorar que escrever. O quem pudera aguora abrir este coração ferido e chagado para que com o sangue dele poderá eu escrever a Vosa Paternidade cousas que pertençam a omrra desta nosa sagrada Religiam destas partes da índia, para que asi escrevendo, com o sangue do meu coração ferido e chaguado, dese a sentir a Vosa Paternidade a perdisan das ovelhas de Christo e a destruiçam desta sagrada Ordem e Religiam e das ovelhas deste curai, apartadas de seu pas- tor he de seu Deos e Senhor, pois que o demonio começa ja a abrir o caminho para nos levar a todos ao inferno, como começa ja a fazer seu oficio que he tirar os religiosos de seus mosteiros e conventos e leva-los para os mouros como começou ja na India a fazer. A hum, por nosos peca- dos, tirou deste curai e levou ao curai do demonio para as terás dos mouros, o qual dizem deste que pregua terible- mente a lei e a seita dos mouros contra a nosa. 2 9 4
Quanto he se renegou a fe ou não, eu não no sei; saberei dizer a Vosa Paternidade que usou Noso Senhor com ele da sua misericórdia he clemência e o tornou outra vez a trazer a Ordem e, ao escrever esta carta, soube eu de alguns religiosos que o queriam mandar este ano para o reino. Se la for, Vosa Paternidade o degrade para alguma provyncia longe de nos, para que não aja mais memoria dele, pois que foi o primeiro que na índia apostatou na Ordem de São Domingos. E praza a Deos que este seja o primeiro he o deradeiro, mas o que vejo e alcanso he que sei que o demó- nio a muitos a-de levar por este caminho segundo as des- consolasõis dos frades. Não digo mais a Vosa Paternidade, senão ja que não. sabe desta tera, saiba que estamos huns juntos com terás dos mouros, o qual temos hum padre de missa na nosa e outro dentro nas terás dos mouros. Não esta mais niso senão quere-lo fazer, e porque não vínhamos a fazer, quero dizer a Vosa Paternidade o que neste parti- cular sinto e alcanso e aqui esta conforme he o negocio de toda a Religiam de São Domingos. Diguo-o a Vosa Paternidade; olhe que lhe digo que, se este convento de Guoa ou outros que ha na índia, digo particularmente este de Guoa, porque aqui he a cabeça de todos os outros, digo que Deos, pola sua piedade e miseri- córdia, não no mover a Vosa Paternidade com todos hos padres desa província, cada tres anos ou quatro, concorda- rem hem mandarem hum vigário gerall de nosa Ordem para as partes da índia, como he agora o noso vigário, diguo a Vosa Paternidade que esta a Ordem de São Domingos em risquo e em perigo de se cair de todo, como vai caindo em algumas cousas que, pola omra desta sagrada Religiam não escrevo nesta, porque arreceo que as cartas que homem escreve serem lidas no mar, como alguns, por seus desen- fadamentos não tendo que fazer, o fazem e por iso quis eu agora isto calar, para que de baixo de silencio o deixe 2 95
encuberto, porque eu mesmo ei-de ser o portador destas cousas, que asi convém pola homra desta sagrada Reli- [2 f-J giam. // Digo mais a Vosa Paternidade. Querendo eu agora escre- ver a Vosa Paternidade as cousas da índia por sua ordem, quanto toca ao noso estado e Religiam e o que pertence a Vosa Paternidade como pai e perlado remedear, para que asi sabendo as cousas dela e do que qua se faz, por remedio niso, o qual em nenhuma maneira pode remedear sem pri- meiro saber os princípios e os malles donde nacem e pro- cedem, verdadeiramente, mui reverendo padre meu, não sei qual faça; se escrever ou chorar, se calar ou falar. Toda- via algumas cousas escreverei, outras calaçei, e muitas fala- rei, e outras disimularei, para ante mim e Vosa Paternidade as comunicar, para que, asi comunicando, saiba Vosa Pater- nidade o que a-de fazer na índia, pois he pastor de nos outros todos. He necesario muitas vezes os pastores saber as condições das ovelhas ou os malles delas para que asi sabendo posam com tempo remedea-las e tomar o pulso a cada hum e dar o remedio a cada enfermedade per si, como fazem os bons medicos. São tantas as enfermedades da India, he tantos os males dela, não sei verdadeiramente como pode hum remedio remedea-los todos. Assaz de trabalhos tem Vosa Paternidade de remedear e prover suas ovelhas nesta província, o quall não faria pouquo se podese com eles. Não sei verdadeira- mente como pode Vosa Paternidade curar tantos emfermos, não estando na índia; disto estou triste e desconsolado, vejo que ele mesmo não pode curar estes males, ele mesmo por si, em sua pesoa, senão outrem por elle, como são visita- dores ou aqueles a quem Vosa Paternidade encomendar. Esta he huma das cousas que tem esta terra necesidade. Digo os conventos não tem visitadores que os visitem, porque os perlados as visitações que fazem são as casas dos princi- 2 g 6
pes, dos viso-reis e governadores e dahi para ho seu mos- teiro e do mosteiro para a casa dos príncipes e dos viso-reis e dos governadores. Estas são as visitações dos perlados da índia. Vosa Paternidade leve-me em conta dizer isto, porque esta he a verdade e, por iso, mail pecado, por não aver quem visite as ovelhas, nem os conventos, nem os mosteiros e deixão de remedear muitas cousas e de prover muitas cousas; o quall, pola ventura, se visitassem, os males se remedeariam e os conventos se proveiam com tempo; mas por nosos pecados, neste mesmo tempo e desditoso tempo, dormem os perlados, dormem as ovelhas; descuidam-se os perlados, descuidam-se as ovelhas, por iso não se remedeam os males. Esta he a verdade e, peso, crea-me Vosa Paterni- dade em eu dizer isto, porque a verdade a-se de dizer ainda que seia ao Papa; que se Vosa Paternidade quer ter os con- ventos da índia reformados e os males serem remedeados proveja, cada tres anos, dum vigário gerall para este con- vento e para os conventos da India he asi dous visitadores ou dous difinidores que não sirvam doutra cousa senão de visitar os conventos porque, sobre mim, se isto si fizese, ja nestes nove anos averia tres perlados na India, o que, pola ventura, se ouvese, a Religiam de Sam Domingos fora reformada e se remediariam os males e não teria o demonio tantas partes nos servos de Deos, como tem naqueles que sam desconsolados e atribulados na Ordem. Se os perlados este tempo atentasem o olhasem o bem comum da Ordem e da Religiam, eles teriam cuidado em prover, cada tres anos, dum vigário gerall, ou polo menos de alguns visita- dores que visitasem estes conventos e soubesem como vivião os frades, ou como vivem os perlados, ou se fazem seus ofícios como devem, ou se ymendam aqueles que sam obri- guados, porque na verdade, se isto ouvesy na índia, viviria- mos doutra maneira e os perlados se precatarião e farião 297
aquilo que são obrigados a fazer no seu oficio e no seu careguo. Muita falta faz a nosa Religiam nestas partes não aver quem os visite, porque se ouvese foramos outros e vivería- mos doutra maneira diferente da que agora vivemos, por não ter quem nos visite e quem castigue os quebrantadores da Regra e Constituições. Daqui vem os perlados não faze- rem seus oficios, como devem, nem guardarem tam perfei- tamente as Constituições, como devem, e sam obriguados; vem que não tem quem os castigue e por iso fazem muito bem de fazerem o que lhes vem muito a vontade. Eu me verei com Vosa Paternidade e eu lhe darei a emformasam da verdade e do que qua se faz porque não he bem nem omra da nosa Religiam escrever aqui nosas misérias e faltas, mas tudo se fara bem, depois que me Noso Senhor levar a Portugal, o quall convém muito a Vosa Pater- nidade polo que toqua a omra desta sagrada Religiam e de toda a Ordem e o bem comum dela ver-me eu este ano, no mais, com Vosa Paternidade, pêra lhe dizer a verdade do que qua pasa e dos perlados que ha na India e do que fazem e como vivem ou quem sam, ja que Vosa Paternidade não pode qua vir em sua pesoa visitar estes conventos perdidos. Não tenho por trabalho ver-me eu este ano com Vosa Paternidade, porque neste espero eu reformar a Ordem de Sam Domingos, porque loguo ei-de tornar no mesmo ano para a índia, porque, ao presente, não quero mais que poder-me ver com Vosa Paternidade he Vosa Paternidade comiguo, pera que asi ambos juntamente, Vosa Paternidade e eu e Deos, no mais, entendamos em reformar esta Reli- giam tam caida, ainda oje em dia, por nosos pecados e por não aver quem os visite; ja que Vosa Paternidade não pode qua vir visitar-nos, polo menos me de este ano leycensa para me poder ver com Vosa Paternidade he Vosa Paternidade 298
comigo, porque importa isto muito, asi polo presente, polo que toca a onra de Deos he desta sagrada Religiam. E eu queria ao presente escrever todolos nosos males, mas não sei, mui reverendo padre meu, com que alma e conciencia podia eu fazer, mas vi que não era bem por eu em risquo de infamar toda a Ordem, escrevendo nosas fra- quezas e misérias, e não quis escrever nesta, porque vejo a brevidade do tempo, que tudo são seis meses do mar e seis que poso estar em Portugal; vi isto e lancei esta conta; por iso pareceo-me bem calar, ao presente, para que depois que me vir com Vosa Paternidade, saber-lhe dizer tudo ao pe da letra do que aguora tenho em silencio he secreto, porque asi foi necesario faze-lo, por nosa omra he desta Religiam. Todavia inda tomei meu parecer se pola ventura poderia escrever todas estas cousas per via de cartas, achei que não, em nenhuma maneira; assim he polo perigo que se podem abrir no mar e outro he que são tantas //as cousas que avia í2 V-1 de escrever que não podia fazer. Por via he maneira de cartas não pode homem escrever mais que em duas ate tres folhas de papel e eu, com não ter ainda dito nada a Vosa Pater- nidade, tendo ja acabado huma folha, que seria se me pusese a escrever as cousas por sua ordem. Digo a Vosa Paternidade que achei tanto que escrever que me foi necesario fazer um livro mui grande para que, quando me vier a dita licença que mando pedir a Vosa Paternidade, me ver este ano com ele, leva-lo tudo escrito no dito livro por memorial, pois que as cousas erão de tanta sustancia e de tanto peso e que tanto importava saber a Vosa Paternidade para que com tempo acuda a esta Religiam tam caida em noso tempo, neste meseravel e desditoso tempo, o quall loguo eu começo ao presente a escrever pouquo a pouquo das cousas que qua fazem os perlados e os súditos e asy também do que Vosa Paternidade a-de fazer para reformar a Religiam de São Domingos nestas partes 299
da India; o qual tudo se pode fazer num ano. Por yso quis eu este ano mandar pedir esta licença a Vosa Paternidade para que da hyda destas naos, que agora levam estas vias, me vira a licença, com aiuda de Noso Senhor, que agora mando pedir e entrementes terei ja o livro acabado e levarey comomigo, para por ele dar conta e emformasão a Vosa Paternidade. E tudo que qua fazemos e detudo ho que os perlados fazem e asi tudo aquilo que a Religiam de São Domingos tem nesta terra necesidade de se fazer nela, para ser bem reformada e bem reparada e asi tão bem dos remé- dios que a-de por Vosa Paternidade nos perlados da India e nos súditos e as leis que a-de dar e que a-de mandar he o que manda fazer e o que não, he o que a-de fazer he ordenar he que remedio a-de dar, tudo isto não se poderá escrever por via de cartas, por serem as cousas muitas e de sustancia, mas porque não he bem que se infame a Ordem nem a Religiam, o que tudo ao presente, pouco a pouco, começo a escrever, para que depois que me ver com Vosa Paterni- dade, dar rezão de tudo; o qual sei eu, se me Deos la levar e eu me ver com Vosa Paternidade, que Vosa Paternidade lhe não pese nada de isto nem de tãobem o que convem-lhe saber para reformasão destes conventos da índia. O puro zelo de Noso Senhor e o zelo desta sagrada Religiam de São Domingos me mandou escrever esta a Vosa Paternidade e lhe dar esta conta, como pai e pastor meu, pois que via que a Religiam de São Domingos hia pola aguoa abaixo; quis com tempo dar presa a isto, antes que o demonio acabase de derubar e destruir de todo, como tem destruído em muitas cousas que, por omra desta Ordem, o não escrevo, deixando tudo para depois que me ver com Vosa Paternidade; porque vejo que per via de cartas o não poso faze-lo, como tenho dito, por serem as cousas muitas e de muita sustancia he asi por não poderem ir escritas todas em três folhas de papel, para ir em maneira de carta. Pelo 300
que quis fazer este livro para que, quando me for, dar por ele conta a Vosa Paternidade de todalas cousas que qua na índia se fazem nos ditos conventos e mosteiros nosos, pois que vejo que o pastor, que he Vosa Paternidade, não pode vir qua visitar, o quall eu serei o portador desta mesma e eu serei o que ei-de dizer a Vosa Paternidade o que qua se faz e o que pode Vosa Paternidade remedear se qua estivera. De Portugal a-de vir a reformasão de todas estas cousas, depois que me vir com Vosa Paternidade, pois que nosos pecados quiserâo que Vosa Paternidade não pode ser o mesmo visitador. Vosa Paternidade não cure de dar esta conta ao noso vigário, particularmente deste livro que escrevo, porque, se ele colher tal livro nas mãos, tarde ou nunca vera Vosa Paternidade, nem tão pouquo tenha Vosa Paternidade tão pouquo juizo nem descrisão que me mande entreguar o dito livro a sicular nenhum, pois que põe em risquo de emfamar toda a Ordem. O Remedio que acho para isto e que direi a Vosa Paternidade he Vosa Paternidade. Convem-lhe faze-lo polo bem da Ordem e da Religiam e, para que a Ordem não caia de todo, he necesario que Vosa Paternidade de presa a isto, antes que o mail venha a mais. Ja que este livro não poso mandar a Vosa Paternidade por via de seculares, nem tão pouquo Vosa Paternidade pode niso escrever nem falar que o mesmo vigário não venha a saber. Crea-me Vosa Pater- nidade huma cousa que, se ele vem a saber, que nunca o livro a-de-ir a Portugal em mentes Vosa Paternidade for provincial, porque as cousas que en ele estão escritas, as mais delas, são escritas contra o vigário he o que qua faz no seu oficio e careguo he de que tem necesidade Vosa Paternidade de prover e remedear. Por iso, melhor seria disimular he Vosa Paternidade mandar-me a licença, que lhe mando pedir, para que, depois que me ver com Vosa Paternidade, mostrar-lhe em livro e dizer-lhe: «padre meu, isto, isto e 3 o I
isto e isto fazem os seus perlados; e isto e isto fazem-nos súditos; ysto e ysto se não emenda; ysto e isto tem necesidade esta Religiam de se fazer para ser reformada; o quel em nenhuma maneira pode ser reformada senão depois de me ver com Vosa Paternidade e Vosa Paternidade comiguo, o qual tudo he seis meses de mar he seis que poso estar em Lisboa, porque loguo me ei-de tornar, e por iso olhe Vosa Paternidade se quer isto fazer, pois que tanto importa a Ordem he a Religiam de São Domingos. Com esta minha yda, não mais que por seis meses, brevemente se acabarão he Vosa Paternidade remedeara cousas que durem para sempre. Também, se antes de minha ida pudese Vosa Paternidade mandar hum padre visitador que visitase os conventos da índia, não erraria antes asertaria; o quall se parecer a Vosa Paternidade bem mandar, faça-o polo que toca a omra de toda a nosa sagrada Religiam he se não mande-me a obe- diência e licensa que lhe mando pedir, no mais que por este ano. He se vier a dita licença, seia ao presente a esta monsão, porque juntamente se cumpra e guarde, porque desta ma- neira escusarei a Vosa Paternidade os visitadores deste ano, porque na verdade pouco mais de nada am-de saber para saber tudo o que qua na índia se faz nos ditos conventos, pois para enquirir e saber de cada convento, asi em ir e vir, a-de pasar tempo ho que eu num ano poso fazer se me Deos la levar ou em seis meses, porque os seis navego e outros seis estou em Lisboa; porque estes visitadores, se caso hum que visite, polo menos não pode partir daqui menos de dous anos para andar a Chaul e Cochim e Guoa, pois para visitar cada convento destes ha mester tempo. Por iso Vosa Paternidade veja isto la he determine e [3r.] veja se lhe parecer bem ir este ano//, porque a detença no he mais de seis meses de mar e seis que poso estar em Lisboa, porque loguo me ei-de tornar no mesmo ano para 302
qua, porque asi convém e por iso veja Vosa Paternidade isto e olhe em quanto importa esta minha ida para bem e reformação de toda a Ordem de São Domingos nestas par- tes, o quall eu confio na bondade de Vosa Paternidade que sabendo Vosa Paternidade a verdade do que lhe ei-de dizer que a-de reformar os conventos da índia, pois tanta necesi- dade tem de ser reformados. Olhe Vosa Paternidade quam longe esta destas ovelhas e quão longe esta de saber ho que qua se faz, o quall Vosa Paternidade vive ao presente he, quando cuida que tem quem a religiam de São Domin- gos... (1), que não no tem e nom digo mais. Eses que devem de a sostentar, eses são os que a derru- bão e a destruem de todo e eses são os primeiros e ainda mal, porque isto he verdade, folgaria que fose mentira, mas ai! ai! ai! que não he senão Avangelho he asi a-de crer Vosa Paternidade que isto he asy, porque se isto não fose asy tivera escruplos de consiencia de escrever o que não he; mas porque he verdade, por iso escrevo e por iso leve-me Vosa Patrenidade em conta que eu ei-de fazer meu oficio e o que sou obriguado scilicet: dizer as verdades ainda que seja ao Papa. E porque sei que ei-de dizer as verdades a Vosa Patrenidade, porque o preceito que me Vosa Paternidade a-de por, depois que me ver com ele, que lhe digua a verdade do que qua se pasa, ese preceito a-de dar brados he vozes e a-de clamar aos ceos e a tera que descubra eu a Vosa Paternidade tudo que de qua sei e do que qua fazem os perlados e os súditos; o mesmo preceito a-de clamar e dar brados que digua a verdade a Vosa Pater- nidade, porque sei que este preceito avera de obriguar a iso, por iso quis pedir esta licença a Vosa Paternidade para me ir com ele, no mais que seis meses; com esta condesão, (1) Palavra que não conseguimos ler por estar muito apagada. 3° 3
aseito a licença e a obediência de Vosa Paternidade e mais a-de ser em tal condesão que depois que for a Purtugal e vir dele para a India, que Vosa Paternidade me a-de pro- meter de nunca mais ir a Portugal, porque me areceio ja querer-me Vosa Paternidade cada tres em tres anos man- dar-me ir a Purtugal a dar enformasão de todolos conventos da índia. Areceio iso, ^>or iso diguo a Vosa Paternidade que se me ouver de mandar la, para me ver este ano com Vosa Paternidade, seja para nunca mais tornar a Lisboa, senão qua na índia farei tudo o que me Vosa Paternidade mandar. Eu confio em Noso Senhor que se me Noso Senhor la levar desta vez e eu me vir com Vosa Paternidade, que desta vez so abastara Vosa Paternidade para reformar toda a Religiam de São Domingos nestas partes da índia, para nunca cair da maneira que ao presente esta caida. Nisto no presente não quero falar mais senão encomenda-lo a Noso Senhor porque de syma a-de vir o remedio de tudo. Provese a Deos, mui reverendo padre, que pudese eu escrever todas estas cousas nom com tinta nem papel, senão que o meu coração fose o papel e o sangue dele as tintas para que asi dese a sentir a Vosa Paternidade a dor e o sentimento com que lhe escrevo estas cousas, porque mais queria agora calar que não falar, chorar e não escrever, mas não poso mais nele fazer; hum he outro faço; sabe Noso Senhor com quantas lagrimas de meus olhos escrevo esta a Vosa Patrenidade, porque sei que como pai he pastor que he, não pode deixar tãobem de sentir e chorar; rezão he pois que somos todos filhos de tal pai que ajudemos a chorar a destruisam desta Ordem que tanto trabalhou noso Padre pola sostentar e aumentar he ver agora que esta caida. Não sei quail he o filho fervoroso he dino que não sinta he chore isto. Huma verdade digo a Vosa Paternidade, que se agora pudese ir por debaixo de aguoa a Lisboa, eu 3° 4
iria, ainda que soubese que deixava qua meu pai e minha propria mãi que me gerou em suas próprias entranhas e, ainda que deixava qua minha propria parteira, donde me criei e donde nasci, donde tomei o abito e donde fiz pro- fisam, tudo deixara e hiria por debaixo de agoa a Purtugal, se agora pudese, porque me esta o corasão saltando e dando saltos de ver o que vejo e de ver que se não pode remedear tantos males, sem primeiro me ver com Vosa Paternidade e Vosa Paternidade comiguo; mas quando me lembra a necesidade de tempo, seis meses de mar e outros tantos que poso estar em Lisboa, estou hum pouquo contente, porque vejo que brevemente se pasa hum ano, para se remedear todos os males. Vosa Paternidade me de este contentamento, por amor de Deos, o quall nesta confiança vivo, esperando por esta licença; no mais que por hum ano. Olhe Vosa Paternidade que nom quero mais que chegar a Lisboa he dahi loguo me embarcar pera a índia. Não queria mais que ver-me com Vosa Paternidade huma vez e depois mandar- -me para onde quiser, porque tenho eu tanta confiança na bondade de Vosa Paternidade, que sei he sei serto, que ainda que Vosa Paternidade fose hum ornem pouco temente a Deos, dizendo-lhe eu o que se qua pasa, não pode ser que por mais mao que fose, não folguase de sustentar esta Religiam caida, e que nao folguase muito de a reformar, quanto mais em Vosa Paternidade não se acha senão muito zelo de Noso Senhor, cuio zelo da Religiam e da Ordem he. Sei, mui reverendo padre meu, segundo ho espirito que parece-me, segundo me diz o coração, que ha Vosa Pater- nidade de deixar esa provinca para vir reformar os con- ventos da índia, segundo seu zelo e vertude que tem da Ordem e da Religiam, mas não tome Vosa Paternidade ese trabalho. Eu ho quero descansar e me verei com Vosa Paternidade e Vosa Paternidade comigo e, depois que nos 3 ° 5 DOC. PADROADO, VI 20
virmos donde quer que Vosa Paternidade estiver, ali refor- mara os conventos da índia, se Vosa Paternidade quiser. Eu confio em Noso Senhor, sei que quererá e folgara muito de saber o que qua se faz para que, asi sabendo, tudo se remede e tudo se faça ao serviço de Noso Senhor e Ele tera cuidado e por os olhos e sua clemensia sobre esta Religiam de São Domingos e o não quererá que de todo se caia, posto que esteja muita parte caida. Eu confio em Noso Senhor que, com me la levar este ano para o reino e eu me ver com Vosa Paternidade, que Vosa Paternidade faça de tal maneira e determine suas cousas com a Religiam de São Domingos nestas partes da índia seia Religiam he Ordem he seia reformada deferentemente do que agora esta e, se ate aqui deixou de ser reformada, bem sei que não foi por culpa dos provinciais pasados senão por não saberem [3 v.] a verdade, // ou por não aver quem escrevese as verdades. Não fora nenhum tão mao que não reformase esta Reli- giam, sabendo que de todo estaria caida. Ja que Noso Senhor teve por bem escolher Vosa Pater- nidade por pai e pastor desta província de Purtugal e asi tãobem desta da índia, pois que estamos soieitos a esa pro- víncia, eu confio na misericórdia de Noso Senhor, pois que Ele escolheo a Vosa Paternidade por pai e partor de toda esta província e dos religiosos dela, como tãobem dos reli- giosos da India que Vosa Paternidade, como pai e pastor que he, com sua nova eleisão e nova confirmasão, que ja ao escrever desta sera Vosa Paternidade confirmado no oficio e careguo que tem de Purtugal, o qual ja como provincial pode Vosa Paternidade mandar-me este ano esta licença, que mando pedir a Vosa Paternidade, no mais que por hum ano poso ir a Purtugal e vir. E ponha os olhos Vosa Pater- nidade quão necesaria he esta minha ida para reformasão dos conventos da India e para Vosa Paternidade saber o 306
que a-de fazer e determinar, para que a Ordem e Religiam de São Domingos, que ate aqui esteve caida, daqui avante seja reformada. E para ser reformada, em nenhuma maneira pode ser sem Vosa Paternidade saber primeiro os males dela e de como vivem os perlados ou que fazem ou não, ou quem são as ovelhas, ou como vivem ou não, pois para que isto se saiba a asi outros muitas cousas necesarias, de que Vosa Paternidade tem necesidade saber para reformasão dos conventos da India, he necesario ver-me com Vosa Paternidade e Vosa Paternidade comigo, para que asi, vendo-me com Vosa Paternidade, posa eu desabrir e mani- festar muitas cousas que qua fazem, o quall pola ventura, se Vosa Paternidade e hos provinciais pasados soubesem, a Hordem de São Domingos fora mais sedo reformada he não caida de todo, como esta por nosos pecados, como esta ao presente em nosos tempos nas partes da India. Mas eu confio em Noso Senhor que se me Ele la levar este ano e eu me ver com Vosa Paternidade, que Vosa Paternidade a reforme mui cedo he ponha remedio, para que de todo se não caia nem de todo o demonio acabe de ha derubar. Eu, quanto nesta tenho escrito a Vosa Paternidade, ainda nenhuma cousa dise do que fazem os perlados, nem tão pouquo como vivemos, porque não comvem, por nosa omra, por aqui nosas misérias e fraquezas; todalas cousas querem seu tempo he lugar. Abasta dar eu a entender a Vosa Paternidade que esta a Religiam de São Domingos nestas partes da índia caida de todo e de todo derrubada. Se Deos pola sua piedade e misericórdia, não acodir em tempo, o quall eu confio que Ele pora os olhos nestas ovelhas e nesta Ordem e Religiam e não quererá que de todo se caia, pois que temos noso glorioso Padre nos ceos que rogua por nos outros, o quall nos dixe a ora de sua morte que mais proveito nos faria, sendo ele morto, que não vivo, posto que morto, todavia vivo esta nos ceos, 307
roguando a Noso Senhor por esta Ordem he Religiam o quail, por termos tall pai nos ceos, ainda Noso Senhor nos a-de ajudar muito he favorecer esta Ordem e esta Religiam que noso Padre tanto trabalhou na vida de a sostentar e não quererá Noso Senhor dar-lhe nenhum descontenta- mento se não muito, tendo sempre mão nesta Ordem e nesta Religiam que não caia, ja que nosos pecados quiserão que caise agora em nosos tempos. Noso padre tera cuidado de outra vez a levantar e a sostentar e roguar a Deos por ela. O mesmo faremos nos, pois que somos seus filhos, o quail peso a Vosa Paternidade que queira em seus capítulos ter particular cuidado e lembrança e encomendar na oração de todolos padres e irmãos que particularmente encomen- . dem a Religiam de São Domingos nestas partes da índia, agora mais que em outro tempo, pois que esta em tão estreme necesidade, o qual, como membros dela, nos avemos todos de sentir e chorar os males dela; como filhos de São Domingos, encomendar a Noso Senhor por ela que ponha os olhos de sua misericórdia sobre nos outros todos e que nos faça a todos verdadeiros filhos de São Domingos, por- que na verdade, com regão, poso dizer a Vosa Paternidade que os religiosos deste tempo filhos somos de São Domin- gos no nome e nos abitos e na coroa, mas nas obras, não sei como podemos chamar seus filhos, pois não fazemos o que o pai nos manda. Se isto fezesemos, seriamos filhos verdadeiros e não imagens pintadas. Noso Senhor, por quem Ele he, me queira dar a sentir estas cousas não como proximo, senão como filho verdadeiro de São Domingos, que Vosa Paternidade, como pai e pastor em seu lugar, por estas ovelhas e trabalhar por mais sedo que puder reformar, porque de verdade e em verdade diguo a Vosa Paternidade que muita necesidade tem de ser reformada e remedeada. Para que não me ponha algum estorvo ou alguma 308
inconveniençia o demonio, como muitas vezes poem, quando vem que algum quer fazer algum serviço grande a Deos ou a Ordem sempre busca modos e meyos por onde estorve o serviço que homem quer fazer a Deos e a Ordem e porque sei que ai demonios debaixo do abito de São Domingos, olhe Vosa Paternidade que lhe digo demonios, e demonios ha oje em dia debaixo do abito e da Ordem de frates de São Domingos, he não digo mais a Vosa Pater- nidade senão que saiba que hos ha. E para que nenhum demonio endemoniado destes tais ouse a estorvar esta minha ida, pois que sabe Vosa Paternidade quanto importa ao bem da Ordem da Religiam, he neceasario que esta licença que eu mando pedir a Vosa Paternidade venha segura, para que nom aja demonios que me estorvem esta ida tam nece- saria para o bem da Ordem e de toda a Religiam de São Domingos nestas partes, farei eu aqui o modo he maneira da licença que Vosa Paternidade//me a-de mandar, para t4r-l que qua juntamente se cumpra e guarde, porque os perlados da índia tem pouca conta com os preceitos e licensas dos provinciais de Purtugal. São tam soberbos e maos que, posto que os conventos da India estejem soieitos a esa província, riem-se muito dos provinciais dela; fazem conta que os provinciais, asi como se não visitão os conventos da índia, tão pouquo lhes a-de tomar das rebeliões e desobediências que cometerem. Mas eu confio em Noso Senhor que eles terão conta com licença he obediência de Vosa Paternidade, porque não são tão maos que não aja nenhum que não tenha alma he consiencia nesta parte. Todavia, porque não estou ainda tão seguro nisto, Vosa Paternidade não confie nestes tais, porque temo que am-de fazer pouqua conta com a obediência e precito de Vosa Paternidade. Porem, todavia desaventura; faça Vosa Paternidade a licença que me ouver de mandar conforme a esta he o modo desta abaixo, eu fiquo que qua se cumpra he guarde he que 3 ° 9
tenhão allma e consiencia nesta parte e a licença que Vosa Paternidade a-de mandar seia desta maneira seguinte: «Eu, Frei Luis de Granada, provincial desta província de Purtugal, ey por bem e me apraz por esta de dar licença a Frei Estevão de Santa Maria, frade profeso desta nosa sagrada Religiam, que ora esta nas partes da índia, em o convento de São Domingos de Guoa, ou em outro qual- quer convento que estiver; mando su preceito e so pena de escomunhão a vos Frei Domingos de Bermudez, vigário gerall dos frades pregadores nas partes da índia, ou a outro qualquer perlado que no voso careguo e oficio soceder, ou qualquer prior ou superior de qualquer convento noso que seia, que esta vir, mando su precito e so pena de esco- munhão que loguo dentro em vinte e quatro oras ponhais toda a diligencia e cuidado em mandar vir o dito Frei Estevão de Santa Maria em qualquer convento noso da India que estiver, o qual vindo mando a todos su preceito e so pena de excomunhão em qualquer mãos de qualquer perlado que seia da nosa Ordem lhe vier ter as mãos esta licensa, ou nas mãos de qualquer frade que seia, que loguo meta nas mãos do dito Frei Estêvão, ou a mande onde quer que ho dito Frei Estevão estiver para que ele, com a dita minha licença, posa seguramente, sem embarguo de ne- nhum perlado, nem de todo o convento ouse estorvar o dito frade sua ida e viagem o reino, o quall, avendo algum tão atrevido e ousado que ouse aquebrantar este, ou tolhendo ao dito Frei Estevão sua ida, ou não metendo esta licença nas suas próprias mãos, para que ele com a dita minha licença posa vir a este reino de Purtugal, cairão todos no dito preceito e escomunhão asima dito, e decla- rando-se nenhum confesor nem frade pode absolver do dito preceito e escomunhão, por mais poderoso e licenças minhas que tiver. O qual, se não declarar e dixer que os quebrantadores do tido posão absolver he os absolvão, se 3 ' °
não dixer desta maneira, declaro e mando que nenhum confesor posa asolver. E mais mando, su preceyto e so pena de escomunhão, que o perlado que este quebrar e tolher a dita viagem ao dito frade Frei Estevão eu o asolvo do oficio e careguo que tem, e mando a todo o convento que faça o perlado novo e que não aseite mais este por perlado, que esta quebrantar he não quiser guardar. E asi declaro e mando mais que nenhuma lisensa antes destas feita, ou depois desta ser feita mando su preseito e em vertude de santa obediência que nenhuma tenha vigor contra esta, mas esta tenha viguor sobre todas elas, espreço e aseito; se declarar e mandar que se não guarde esta, (entonces sim) (2), mas, se não vier esta declaração, declaro e digo que esta he minha ultima e deradeira vontade, que esta tenha vigor sobre todas as outras feitas antes desta ou depois desta, e asi mando su preceito que esta se cumpra he, quando ainda que tivese outra contraria desta, o qual mando que nenhuma se guarde senão esta, e não guardando esta ao pe da letra do que nela vai, eu o escomungo a todos que esta quebrantar he todos cairão no dito preseito e esco- munhão, sem ninguém o poder asolver, senão se for eu em minha pesoa e outro confesor nenhum não, como asima esta declarado.» Isto parece-me que abasta, mui reverendo padre meu, para hum mao, de ma allma he consiencia, que não quiser obedecer a Vosa Paternidade; mas eu confio em Noso Senhor que com menos disto obedecerão a Vosa Paterni- dade tudo o que Vosa Paternidade mandar. Ao presente, não tenho mais que escrever a Vosa Pater- nidade senão que se lembre Vosa Paternidade que he pai (1) A leitura destas duas palavras é duvidosa, experimentando certa dificuldade em decifrá-las no texto. 3 ' 1
he pastor, e lembre-se destas ovelhas que tam apartadas estam do curral e do pastor. Eu confio em Noso Senhor que Vosa Paternidade, depois que me Noso Senhor la levar, Vosa Paternidade pora remedio nas ouvelhas da India e nos perlados e conventos da India e Vosa Paternidade reformara esta sagrada Religiam. Asinha se pasa hum ano, nom mais, ou seis meses que poso por no meu, porque acabando este tempo, eu me verei com Vosa Paternidade e Vosa Paterni- dade comigo e desta maneira pora Vosa Paternidade reme- dio em tudo e sâbera as cousas de que os perlados tem necesidade de serem remedeados; juntamente sabera como vivem ou como fazem seus ofícios e asy também dos das [4r.] ovelhas he da reformasão deste convento,//de que em muitas cousas tem necesidade de se reformar e asi tãobem encomendo muito a Vosa Paternidade e seus capítulos aos frades que faça particularmente lembrança em seus sacri- fícios e oraçõis por toda a Religiam de São Domingos nesta parte; asy tãobem por mim antrementes levar a Purtugal, porque se eu la vou, não perde a Ordem nada senão ga- nhando, porque crea-me Vosa Paternidade que os conventos da índia a-de ser reformado ainda que pese a todolos diabos, posto que ao presente esteje caida, mas Noso Senhor traba- lhara pola levantar e olhar por ela. Isto recomendo muito a Vosa Paternidade, que parti- cularmente queira isto encomendar a Noso Senhor, pois que todo o bem da Religiam de São Domingos nestas partes da índia não esta senão em ir eu este ano pera Purtugal. Peço a Vosa Paternidade que na oração de todos os frades desa província me encomende a Noso Senhor e, se for ser- vido que me leve a Purtugal, que me queira levar e senão, faça aquilo que for mais seu santo serviço, porque não quero outra cousa senão conformar-me sempre com a vontade de Deos e de meu perlado. Se Noso Senhor for servido de me levar este ano para o reino, seja pare seu serviço, e senão, 3 1 2
faça aquilo que vir que sera mais o seu serviço, que eu todas as minhas cousas ponho nas suas mãos. Noso Senhor de a Vosa Paternidade muitos dias de vida, para que como pai e pastor que he, reger e guardar suas ovelhas e lhe de graça nesta vida para cada vez perseverar em os trabalhos e da Ordem he do careguo que tem, o quall eu me alembrarei sempre de Vosa Paternidade nas minhas fraquas oraçõis de hos encomendar sempre a Noso Senhor, que ho ajude em seus trabalhos, e nesta vida lhe de graça para poder com eles, e noutra, o gualardão e pagua destes, Amen. Feita neste convento de São Domingos de Guoa, a 25 de Fevereiro de 1557. Umilde e obediente súdito de Vosa Paternidade Frei Estevão de Santa Maria. l 3 '3
39 DINHEIRO DOS ÓRFÃOS Lisboa, 3 de Março de 1557 Documento existente no ANll:— CS.V., IX, fl. 273. Mede 290 x 200 mm. Uma folha em bom estado. Acerca da duvida que os Padres da Ordem de São Domingos apontão sobre o dinheiro dos orfãos das partes da India, pera que com boa conçiençia se possa tratar com elle em proveito dos orfãos. Parece ao Presidente e deputados do despacho da Mesa da Conçiençia que S. A. deve de ordenar e mandar que o dinheiro dos orfãos e menores das ditas partes da índia se possa dar a pessoas abonadas pera que tratem com elle per contratos liçitos em proveito dos ditos orfãos; comtanto que os tutores ou curadores dos taes orfãos fação segurar o dinheiro que andar no tal negoçio de contratos liçitos e que dem por rezão do dito seguro o preço que se concer- tarem com os seguradores, o qual se lhes levara em conta. Em Lisboa a tres de Março de 1557. Bispo do Funchal. Antonio Pinheiro. Diogo de Gouvea. Christovão Teixeira.1 (1) Xpvão Teix.ra 3 1 4
40 CARTA DOS MORADORES DE DIO AO PADRE D. GONÇALO DA SILVEIRA Dio, 7 de Agosto de 1557 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Folha 287 r.- 288 r. (1) Os casados e moradores desta fortaleza e cidade de Dio enviamos dizer a Vossa Reverencia e juntamente a este santo collegio do Apostolo São Paulo que a paz de Nosso Senhor Deos, todo poderoso, seja sempre com elles e com todas e em todas as suas causas e, com muito amor e von- tade, ficamos pidindo e rogando a Christo Jhesus crucifi- cado que sempre lhes dee sua sancta fee verdadeira pera mais seu louvor e gloria, amen. E asi também o pidimos e rogamos a Virgem sagrada, Santa Maria, seia bendita madre que rogue a seu bendito Filho, nosso Redentor, Christo Jhesus, que dexe permanecer e durar pera sempre esta sancta casa de sua santa fee e irmandade apostoliqua, pera que delia saia consolação pera os bons e ensinados e pera os maos, que vivem em escuridade não sabem, que sejão ensinados e alumiados com a verdade evangeliqua, amen, amen, ao ceo vaa. A prezente que, com bons e sanctos deseios e amor, anviamos a Vossa Reverencia, he para lhe mostrar, asi em palavras grosseiras e sem reitoriqua, como lhe somos todos, sem fiquar nenhum, em mui grande divida e obrigação, pelo grande beneficio e maior charidade que recebemos em nos enviar a esta terra o padre pregador João de Mes- quita, por ser fisiquo de nassas almas, e, pera nos consolar, que estávamos como a terra sem agoa; pola qual charidade (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 18r.-20r. 3 '5
e obra, tanto acepta a vontade divina, damos muitas sanctas graças e louvores a Deos Nosso Senhor, todo poderoso, por nos dar tanta consolação e usar comnosquo de tanta mise- ricórdia que, onde ja estávamos esquecidos de nos mesmos espiritualmente, tendo lembrança de nos socorrer a nossas necessidades, que nos enviou quem, com muito grande zelo boom de nossa salvação, nos pregou sua sancta palavra e, com muito amor e charidade e sem nenhum temor, nos dixe todas as verdades mui claramente que erão necessárias e saudáveis para a salvação e emenda de cada hum de nos e de todos os que ouvissem e entendessem; e pola boa dili- gencia e sancta vontade que vossa Reverencia teve, movido pelo Espirito Sancto, de nos enviar este irmão dessa sancta casa a nos pregar e consolar, lhe damos todos em geral e cada hum em particular muitos grandes agradecimentos, por tão sancta obra, como fez a nosso Senhor e a nos, grandíssima charidade, e pedimos e rogamos ao mesmo Christo Jhesus, Nosso Senhor, que por este tão grande bem que recebemos e nos fez lhe de o verdadeiro galardão na sua gloria e vida eterna, fazendo-o sancto bemaventurado, depois de passados muitos annos, que elle lhe dee de vida, saúde e graça com que sempre faça seu sancto serviço, amen. Também quisemos enviar a prezente a Vossa Reveren- cia para lhe dizermos quão desemparados e desconsolados todos estávamos o tempo antes que qua fosse o padre João de Mesquita, que verdadeiramente lhe sertificamos que pouco faltava, se asi se pode dizer, pêra não sermos conhe- cidos por christãos, porque somente nos ficava ja no mais que os nomes e trajos de christãos que mais, tudo era ja esquecido e por comprimento bem fria e preguisosamente usavamos dalguns costumes, no mais que porque foi e era costume de nossos antepassados e, de tal maneira davamos exemplo de nossas vidas e tínhamos tão pouquo cuidado de nossas almas e do serviço de Deos, que os pagãos que 3 1 6
nos visem e sentisem, antes se endurecerião mais em suas segueiras e claros enganos que convertersse a sancta fee nossa e a verdade; e não era muito acontecer-nos isto e muito mais, porque, alem de sermos frios e muito pecado- res, dis-se la em hum adajo que, andando o frade como o ladrão, que ou ho ladrão sera frade ou o frade sera ladrão, mas he a nossa fraqueza e maldade tanta que mais azinha nos fazemos de bons maos e de maos bons, e para sermos maos não he necessário que no lo digão muitas vezes que nos combem poucas ou nenhumas ocasiões logo nos con- vertemos em pesonha e maldade e, para sermos bons ao menos parecemo-lo que os bons sabe Deos quem são; he-nos necessários seremos matinados mais que papagaios e, se se pudera soferer, era mais necessário seremos aseitados como mininos nas escolas para aprendermos e saberemos ho que nos he necessário pêra nosso bem e salvação, mas ya que somos taludos, pera tomar a cavalo temos muita necessidade de ter quem nos matine muitas vezes, pregando-nos as ver- dades de Deos e de quem nos amoeste e diga nossos erros e peccados e de quem nos bem tosquie todalas guedelhas e nos mande asoitar em secreto por nossas mesmas mãos, pois nos mesmos somos os diliquientes, e desta maneira frequentando-nos muitas vezes e todo o ano com a palavra de Deos e com amoestações e reprehensces e confisões e com outros muitos bens spirituais com ajuda de Nosso Senhor todo // poderoso serão nossas vidas e maos cous- [287r.] tumes renovadas e nossas almas consoladas e asi iremos rastejando e cheirando os caminhos de Deos, Nosso Senhor, porque, como se diz, a agoa doce ou mole em pedra dura tanto da ate que fura. Em verdade dizemos a Vossa Reverencia que quazi parese não ser a culpa nossa de nossas friezas e esquecimento de Deos e de nossas almas, que bem se pode dizer que se isto nos acontece, que alem de ser por nossas maldades, 3 ' 7
que também he a mingoa de não teremos quem nos pregue e insine que, como se la diz noutro adajo, se en mi alma lo deixais mio es el asno, que nos somos tão inclinados ao mal que, ouvindo e vendo sempre cousas boas e santas, inda não nos bastão nem podem carretar pêra o bem; que fare- mos e que tais seremos, não teremos quem nos ponha o bastão diante de nosso pouco saber e menos tento, que se nos não puxarem mui rijo polas redeas de nossa soltura nunqua pararemos no amor e serviço de Deos, mas como maos e desenfreados em nosso vicios e pecados, iremos dar no barranco infernal do qual não ha redenção. Ora pois que nos mesmos somos os maos e desasossegados no serviço de Deos pidimos o aziar que nos fara estar quedos e asosse- gados e medrosos de pecaremos tão pubricamente, muita rezão he que nos não seja negado mas, com muita presteza e diligencia, outorgado e que nos seja lançado nos beiços e nas orelhas pera que não mordamos e estejamos atento, quando nos quiserem ferrar com as sanctas palavras e dou- trina de Nosso Senhor, posto que as bestas ferradas com o amor de Deos andão milhor o caminho porque se não doem tanto dos casquos, como as que andão desferradas, porque assi nos podemos comparar e afigurar como bestas, pois que tão mal sabemos os caminhos por os quaes avemos de ir buscar o nosso eterno morgado que nos Deos, Nosso Senhor, tem prometido, que he sua gloria e vida eterna e pois que nos, por nossa fraqueza, os não sabemos ou não queremos saber sem que no-los ensinem, pegamo-nos ao que diz Nosso Senhor: pidi e dar-vos-hão, batei e abrir- -vos-ão. Asi nos como firidos, pidimos nos mandem curar e, como acoçados de nosso inimigos, pidimos nos mandem abrir e que nos não matem fora do paraíso e, a honra e louvor da sacratíssima morte e paixão de Nosso senhor Deos, todo poderoso, Jhesu Christo crucificado, pedimos a Vossa Reverencia e com requerimento da parte de Deos 3 / 5
que nos torne logo enviar hum irmão pregador desse sancto collegio apostolico e orago da sanctissima fee, pera que a este povo nos pregue e ensine a verdade porque, sendo nos insinados e tendo de quem aprender, daremos de nos boons exemplos ao povo pagão e, com a graça do Senhor, se acre- centara sua sancta fee e de nos e delles nacera muito fructo, o galardão do qual dara Deos nosso Senhor a quem o manda samear e ao sameador, que o bem samear. Este, que pera fazer esta sementeira pedimos a Vossa Reverencia, seja o mesmo padre João de Mesquita que nos qua enviou este inverno, porque elle tem ja agora milhor esperiencia de nos e da terra e costumes delia que outro que inda qua não veio; e mais também lhe dizemos, em boa verdade, que nenhum pode qua vir dessa irmandade nem das outras todas que lhe faça a vantagem em sancta e onesta vida e boons custumes e nem em omildade nem em recolhimento nem em todas as mais virtudes de religioso porque, graças a Deos, nenhuma falta exterior vimos nem conhecemos nelle, mas todas as boas partes, que podem ver e conhecer em pessoas religiosas, vimos e conhecemos nelle e em seu com- panheiro, pois quanto a cerqua do dizer e pregar do púlpito e fora delle as verdades aos que o querem ouvir, e verdades esbrugadas sem nenhuma casqua nem per antre os dentes, como alguns fazem neste mundo. Outros queremos que avera que terão mais siencia e saberão outras letras, pode ser, mais que elle, mas que milhor as digão e declarem que elle, nos parece que não avera; tão bem si, mas milhor, não nem mais continuo nas pregações e confições e na doctrina de cada dia aos mininos e christãos novos da terra; que por nos o veremos tão zeloso da onra de Deos e tão desejoso de se salvarem as almas e tão chegado a virtude e charidade e amor com Deos e com todos, o pidimos pera nossa consolação e que nos seja logo outra vez enviado e torne, polo amor de Nosso Senhor, com sua ajuda, antes 3*9
que tornemos a refecer desta quentura de Deos que nos deixou, que ja começávamos a desfazer e derreter alguma parte do nosso caramelo e rege-lo de nossos maos costumes e peccados, ouvindo sua boa doutrina que de parte de Deos nos pregava e antes que tornemos a endurecer e a esque- cer-nos de nos mesmos e asentarmos no lado de nossas fraquezas; e olhe Vossa Reverencia, polas chagas sacratíssi- mas de Christo Jhesu, nosso bom Mestre, que outra vez lhe tornamos a pidir fiziquo que cure nossas feridas e cure a dor, que semee bom grão e semente em nos per que demos bom fruito a Deos e olhe Vossa Reverencia, se no lo não enviar, que lho pedimos, que por ventura asentara as suas costas nossos peccados, porque também somos seu povo christão e vivemos em província perto donde estão e vivem pregadores, que são obrigados a curar aos feridos que os [288r.] chamarem,// e inda não os chamando, são obrigados a buscarem os feridos; por isso, antes que se nos vaze todo o sangue, acudão, por amor de Deos, e se não poder, nos emos perder a mingoa por não nos não acodirem, podendo- -nos acodir e ser muito perto que estamos, tanto monta como na freguesia, e somos com os que em Portugal vivem nas aldeas e, todavia, são da freguesia da vila, que não de tão longe que o seu cura, ou a pe, ou em mula, pode visitar seus freguezes; assi podem fazer a nos, posto que não a pe nem em mula, mas pode ser em catur ou em fusta e, inda que a jornada seja mais que de hum dia, mais mereicimento pera o que a fizer em quinze. E como dizem quem mais mete na barqua mais saqua, com esperança que temos em nosso Senhor de seremos providos com mezinha espiritual, que pidimos com bons dezejos que temos de nos aproveitar e receberemos saúde e consolação em nossas almas, damos fim a esta nossa carta; a qual, posto que não va asinada, de todos, vai por vontade de todos enviada e todos pedem a Vossa Reverencia o que nella se pede, polo amor de Deos 320
e por charidade. E todos ficamos como passaros que esta- mos nos ninhos, esperando pelo sigualho que lhe a-de trazer a mãe e o pai delles; e desta maneira juntamente o ficamos encomendando a Nosso Senhor e a Virgem sagrada, Sancta Maria, sua madre, e a todos os santos e santas da corte dos seos e rogamos a Deos que o faça sancto bemaventurado, com todos os irmãos desa sancta casa e a todo o mundo pera mais sua gloria e louvor, quando elle for servido de nos levar desta presente vida, pera que na outra, que he eterna, nos dee a sua gloria, na qual nos de a sua sancta graça, pera sempre, amen Jhesu. Deste Dio, oje 7 de Agosto de 1557 annos. E o que também nos moveo a lhe pidirimos esta chari- dade e por esta ser huma terra mui fronteira onde sempre habitão soldados antre os quaes sempre ha divisões e desa- fios e enjurias, cotiladas, pontos domrras, muitas desaven- ças, os quaes se evitão ao menos a mor parte destes males avendo pregador e com ajuda de Deos ouvindo sempre sua sancta palavra e metendo entre elles sua paz andão todos temperados e se fara muito fructo bom (2). Despois de teremos esta acabada que foi ontem, a 20 de Agosto, oje 21, sabado, chegou a este porto a primeira nao do estreito de Mequa; grasas a Nosso Senhor, da muito boas novas que não são rumes saidos, mas que ha muita guerra o turquo com o Preste da qual he morta muita gente de huma parte e de outra mas que o Preste com ajuda de Deos que era aventejado nas vitorias da guerra; isto diz esta primeira nao e que vem outras muitas atras (3). (2) Segundo a cópia BACIL assinam esta cana: Francisco Fialho, Fer- não da Silveira, Baltesar Vieira e o Filho, Francisco Teixeira, Copo Paez. São por todos os que asynarão quatorze. (3) Nota acrescentada depois: do ano de 1557. Esta carta assinta veto asinada pelos homens principais e moradores da cidade de Dio. 3 2 ' DOC. PADROADO, VI 21
41 CARTA DE FREI ANTÓNIO DO PORTO A EL-REI Baçaira, 20 de Novembro de 1557 Documento existente no ANTTT: — CC, 1, 102-23. Mede 300 x 210 mm. Duas folhas em bom estado. Senhor: Nosso piadoso bom Jesu, polia sua grandíssima miseri- córdia e piedade, queira dar a Vossa Alteza o que todos, segundo Ele, para vossas almas deseiamos, Amen. Ho governador Francisco Barreto, quando aqui veo, o anno passado, de mill quinhentos e sincoenta e seis, em Novembro, me disse que era necessário, para serviço de Deos e de Vossa Alteza, ter eu em minha companhia huuns bis- pos caldeos com hum companheiro, os quais eu tive assi e da maneira que mo elle mandou e lhes fiz toda a caridade que eu pude, posto que não foi tanta quanta elles merecião por eu mais não poder. Oje, vinte de Novembro de mill e quinhentos e cin- coenta e sete, me foi dada huma carta do governador em que me dizia que lhos mandasse, para lhes fazer a caridade e honrra que elles merecem. Eu lhe periguntei sua entenção e elles me dixerão que era irem ver a Vossa Alteza e dahi a Roma, polo que me pareceo rezão dar conta a Vossa Alteza delles e do que sinte de sua pessoa e vida. Quanto a fe, posto que eu não saiba muito, parece-me que entendo ho que convém a hum bom christão. Eu prati- quei com elles por muitas vezes, assi no Testamento Velho, como no Novo, e achei que o seu sentido era conforme aos
nossos doctores e, quanto ao sentido literall, achei-os mui enfiados, como aquelles que se criarão e andarão onde aquellas cousas acontecerão. Nas moralidades e sentido moral sabem o necessário, mas não são competentes, como nos comummente, mas de tudo que lhes perguntão dão rezão, porque tem livros do nosso São Gregorio e do Nazanzeno e de São Bazilio e de outros muitos doutores conformes a nossa doctrina latina. Nos artigos da fee e nos sacramentos da Sancta Madre Igreja pratiquei muitas vezes com elles, como em funda- mento e cousa necessária; em nenhuma cousa ou palavra achei diferirem de nos. Quanto a sua vida e bons custumes, he tal que não tão somente derão bom exemplo em mim, mas os christãos novos desta terra e os mouros se espantavão de sua boa vida e de sua boa doctrina e pratiquas; os por- tugueses, como mais entendidos, se edificavão tanto de sua boa vida e pratiqua que poucos fallavão com elles huma vez que não tornassem outra e muitas. Tomarão com elles estreita devoção e os vizitavão muitas vezes, posto que estevesse neste mato. Som homens que nom comem carne porque são da ordem de S. Bazilio, conforme a dos cartuxos; peixe não comem na Coresma nem no Avento, nem os dias de Jesu, de preceito, nem tão pouco bebem vinho nestes dias. São muito recolhidos e encerrados, de maneira que nom sahião fora senão com muyta necessidade; todo o tempo gastavão em oração e contemplação e em estudar na Sagrada Scritura e em sanctos doctores que sobre ella tem. Quando aqui vierão a esta casa de Nossa Senhora da Piedade, dizião muy devotamente missa em calldeu a quall dizião entoada, e quasi tanto diz ho que ajuda a missa como ho que a diz, e diziam-na com tanta devoção que todos os que a ouvião ficavão muy edificados. Todavia, polio que eu senti nelles em tudo serem conformes a nos, pareceo-me 3 2 3
bem que o fossem também neste tão alto sacramento da missa, polio que os ensinei a ler latim. Depois que o sou- berão lhes ensinei as serimonias da missa, ho quall elles tomarão com tanta devoção e puserão tanta dilligencia que, quando veo a festa da Resurreição de Nosso Senhor Jesu Christo, dixerão missa em latim, com tanta devoção e tão declaradamente que eu fiquei espantado e assi os que os ouvirão e dahi por diante sempre a dixerão em latim, sem mais dizerem missa em caldeu. Não tem mais que estranhar que parecerem na pronunciação italianos ou franceses. Antes que dixessem missa em latim, lhes fiz dizer muitas missas secas a que eu estava presente e, depois de a dizerem no altar, os acompanhei por muitos dias, e depois elles aju- davão huum ao outro e ja aguora dizem missa com lhes ajudar qualquer pessoa como os nossos sacerdotes. São homens de mui espiritual conversação e muy apar- tados de toda a ociosidade, assi em obras como em pallavras. Isto he o que senti delles e por me parecer que Vossa Alteza levaria contentamento lho escrevi. As outras novas da christandade desta terra não as escrevo aqui porque determino de o fazer por outra via, que esta carta não escrevo senão para o atras escrito. Ho bispo que esta leva chama-se Maar Ellias que quer dizer Dom Ellias porque na sua lingoagem Ater quer dizer Senhor e Maria quer dizer Senhora. Ho outro se chama Maar Joseph e hum companheiro que trazem, que nom he ainda de missa, se chama Maar Manoel; todos são homens honrrados e dos mais honrrados de sua terra, segundo me enformarão. Trouxe-os a esta terra hum bispo italiano, por nome Dom Ambrosio, que foi frade de S. Do- mingos, ho qual foi de Roma por mandamento do Papa Jullio as terras destes homens, como nuncio com ho patriarcha que foi dar obediência ao Papa, em nome dos christãos daquellas terras. 3 24
Este trouxe estes bispos consiguo, parecendo-lhe que aproveitarião no Malavar e que não os consentirião e depôs elles, veio outro bispo tãobem de sua terra, que entrou no Malavar, e fez muito dano naquella jente, sem nunqua ho poder o governador aver as mãos. Estes me dixerão que, se fosem ao Malavar, que esperavão de fazer com elle que saise do Malavar e que se tornasse para sua terra. Eu os aconselhei ho melhor que pude e lhes amostrei por rezões que nom era bem que fosem ao Malavar e, huma das rezões, foi dizer-lhes que bem sabião elles que nenhum bispo podia entrar no bispado de outro para entender com suas ovelhas e que o bispo de Goa era bispo do Malavar e de toda a India e de todas estas partes orientaes da con- quista de Vossa Alteza e que ninguém, sem sua licensa, se podia entremeter em os christãos das ditas partes e que os que hião a menistrar aos christãos do Malavar os sacra- mentos, sem licensa do bispo de Guoa, erão ladrões que nom entravão polia porta em ho corral das ovelhas. Pollo que elles me prometerão de não entenderem no Malavar, pouco nem muito, mas que trabalharião por falar com o bispo caldeu, que 11a andava, pêra o fazerem tornar para sua terra, por lhes parecer que era ofensa de Deos andarem elles no Malavar, pois os christãos do Malavar nom tinhão necessidade delles, como em outro tempo, porque tinhão padres portugueses e bispo proprio, mandado pelo Papa de Roma a quem elles tem dada obediência. Este Maar Ellias me parece que se tornara para sua terra, porque o senti ja muito enfadado; ho Maar Joseph me parece que ira com seu companheiro ver Sua Alteza e dahi a Roma e de Roma a sua terra. Elles, como digo, sabem ja dizer missa em latim; se aprederão as serimonias dos nossos bispos, bem me parce que fezerão algum proveito no Malavar, andando sempre com padres nosos e fazendo tudo como os nosos bispos, 3 2 5
porque os christãos do Malavar som muito incrinados a estes bispos caldeos e elles os mandarão chamar, com man- darem dinheiro ao seu patriarcha, que lhos mandasse; mas agora me parece que não farão senão ho que quizer o governador e ho vigairo jerall e que trabalharão para fazerem tornar o outro que la anda para sua terra. Para estas cousas e para acabar de asoceitar es es chris- tãos do Malavar, era mui necessário mandar Vossa Alteza hum bispo para Cochim que tragua do Papa especiall poder sobre os christãos do Malavar, posto que esteião em reinos de reis gentios e assi era necessário fazer Vossa Alteza huma lembrança ao Papa que mande ao patriarcha dos caldeos, que lhe tem dado obediência, que em nenhuma maneira mandem bispos aos mallavares, mas que se os malavares os mandarem pedir, que os desengane, dizendo-lhes que obedeção ao bispo de Guoa que he seu bispo delles, por mandado do Papa a quem elle obedece. Estas cousas escrevo a Vossa Alteza por me parecer que falguara com ellas. Nosso Senhor acrecente a Vosa Alteza os dias de vida, como eu desejo, Amen. De Sallcete de Baçaim, oje vinte de Novembro de 1557. Indino horador de Vossa Alteza Frei Antonio do Porto 326
42 CARTA DO IRMÃO LUlS FRÓIS PEREIRA PARA AS CASAS E COLÉGIOS DA COMPANHIA NA EUROPA Goa, 30 de Novembro de 1557 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Pis. 98r.-108r. (1) Jhus Gratia et pax a Deo patre nostro et Domino Jesu Christo sit semper in cordibus nostris. Amen. Ho anno passado de 1556 lhes escreverão, charissimos irmãos, mui em particular deste collegio de Goa as obras que o Senhor obra pellos padres e irmãos desta sua Com- panhia nas terras onde estão; nas quais acharião assaz de materia pera louvar e glorificar a Deos, Nosso Senhor, mas como esta navegação da índia pera Europa, que he o meyo entre nossas visitações, // he ja tão incerta e duvidosa í98 V-1 e chea de tantos trabalhos o temor que sempre terão de nossas cartas não hirem a mão e se he o que nos fiqua na esperança das suas, como este anno nos aconteceo que, vindo duas naos a barra e mandando-nos o padre Dom Gonçalo ao padre Antonio da Costa e a mim com hum catur em busqua das cartas as não achamos nem certeza das que de qua forão serem la, por arribarem todas as naos somente a capitania que se presumia ser passada em que hia huma das nossas vias. Agora, não repetindo o que então se screveo, mas contando o que depois tem sucedido, mediante o favor divino e a sagrada virtude da obediência que me encomen- dou a screver-lhe esta, direi o que me ocorrer. (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 1 r.-13 r. 3 2 7
r E posto que este ano polia misericórdia de Deos soce- derão cousas tão grandes para se screverem que muitas delias para se bem explicarem não basta qualquer suffi- cientia de palavras, tomarão, charissimos irmãos, deste pobre e inútil irmão não a ordem nem o decoro das cousas, á mas a censera vontade e prompto amor com que lha screvo. Neste collegio de Goa fiquão ao presente sacerdotes de missa 16 (2), e irmãos (3) que ja tem feitos seus votos e, acabado o tempo de sua provação, vinte e trinta e tres irmãos noviços, a maior parte delles recebidos aqui pio padre Francisco Roiz; alguns outros que de Gxhim o padre Dom Gonçalo mandou; os mais delles são ainda moços de boas partes e abelidades para poderem ser idoneos ins- trumentos do fim que a Companhia pretende. Seu comum e mais frequentado exercício he fazerem-se domésticos na obediência e apurarem-se na perfecta custodia e observância das regras gerais e particulares de casa e pera com maior facilidade aquirirem habito nellas os que não estudam tem todos os dias duas horas de oração mental, alem de seus exames e devações extraordinárias; em a hora de repouso „ tem sempre hum padre consigo que lhes pratiqua alguma cousa de spirito. Aos domingos e sanctos, a noite, ay confe- rentias de cousas esperituaes e todas as sextas feiras pratiquas sobre alguma virtude particular. O padre Antonio de Qua- v dros lhes pratiqua todos os dias as meditações e, de quando em quando, os exhorta nellas e lhe da muitos atalhos para, em breve tempo, se consumarem no effecto da religião. Frequenta-se muito dizerem as culpas no refeitório, darem-se capellos, tomarem a seus tempos disciplinas publicas e usa- rem todas as mais penitencias que comumente na Compa- nhia se dão. Tudo isto com suavidade e brandura. Os que (2) Correcção de: vinte. (3) BACIL: e vinte irmãos... 4
se exercitão em officios de casa mostrão alegria e conso- lação na administração delles, com desejo de se aproveita- rem e o tempo que delles lhes fiqua, depois da sua oração, gastão em ler por alguns livros spirituaes e certo parece cousa de Nosso Senhor ver tantos irmãos que tam pouquo ha deixarão os vicios e largueza da India e liberdade delia tam de verdade entrarem em si e se mortifiquarem e outros moços e criados delicadamente asi gostarem do doce e suave leite do spiritu e doctrina sancta da Companhia. E bem creo que muita parte de se imprimir nelles esta verdade e obrarem conforme a ella lhes nace // dos vivos exemplos t" M que cada hum acha diante de si em tão excelentes varões desse bemdito collegio e como de fonte boa lançados vierão pera regarem abundantissimamente esta terra seca e sterile e que tanto parecia delles escrever em particular as virtudes de cada hum e a mais materia que se acharia em seu pro- ceder na humildade, mortificação e despojo proprio, em conformidade com a divina bondade, não parece ser con- veniente, porque do acima dito e da autoridade e virtude dos mestres que os ensinão e superiores que os governão e mais pera quem ca tem a cruz tam propinqua e a Jesu, Nosso Senhor, tam propicio, debaxo de cuja proteição todos militam poderam colleguir [sic] (4) que tal seja seu pro- cesso e augmento em as virtudes. Quanto aos estudos, das cartas do anno passado, se Nosso Senhor levou a nao que passou, entenderião como ficavão principiados a manera com que se com elles pro- cede. Agora, posto que o Padre Marcos, que he o prefeito delles, escreva algumas particularidades, direy delles o que sey. O padre Antonio de Quadros ha ja perto de dous annos que lee theologia a seis de casa, a saber: três padres e tres (4) BACIL: collegir. 3 2 9
irmãos e algõuns outros de fora, mas por falta de gente da Companhia ser muyta não compadecem as necessidades da christandade destas partes muyta dilação nos estudos, como agora pelo padre Antonio (5) estar muy cansado dos tra- balhos de Ormuz, foi necessário mandar, em seu lugar, o padre Alexo Diaz pera estar laa com o Padre Laurentio e vir-se o Padre Antonio (6) recrear algum pouquo spaço com hos irmãos a este collegio e por então fallecer o Padre Francisco Anrique, onde ha muita christandade e muy bem principiada, foi pera o padre Christovão da Costa, e pera Cochim esta o padre Francisco Lopez de caminho e asi fiquão somente os três irmãos houvindo theologia, a qual lhes le ate agora o Padre Antonio de Quadros e o Padre Mestre Belchior, a tarde, e tem sua ora de repetição, da huma as duas, depois do meo dia. Dia de S. Lucas sostentou aqui o irmão Francisco Cabral, discípulo do Padre Antonio de Quadros, humas conclusões publicas; delias vai la o treslado empresso, por três vias, nas quais presedio o Padre Antonio de Quadros; acharam-se a ellas o governador com muytos fidalgos nobres e muytos religiosos, desembargadores e outros letra- dos de fora; pia manhã, a missa do dia, teve o padre Arias Brandão huma oração em louvor das cientias com grande audacia e artoridade e muyta satisfação dos ouvintes na qual também se achou o governador, que aquelle dia ca jentou com outros religiosos de fora. Duraria perto de huma [» T0 hora. // Antes de se começarem, a tarde, as conclusões, teve outra oração hum menino, discípulo do Padre Marco (7) com muyta graça e bom artificio no patio das crastas que (5) BACIL: que por bum padre estar... (6) BACIL: o nome Antonio está suprimido. (7) palavra rasurada e ilegível. BACIL: idem e por cima escrito: um minino discípulo da primeira. 33°
estavão muy bem consertadas pêra o acto com muyas alca- tifas riquas e panos de Frandes e da China e muytas ban- deiras e estandartes e instrumentos; de huma e outra vão la os treslados. Outras conclusões, antes destas, tiverão os religiosos de S. Mominguos e no dia do mesmo Sancto onde se os nossos acharão. Nos estudos de humanidade ahi tres classes e ja forão mais se ouvera casas e mestres; na primeira classe le o Padre Marcos (8). Tem studantes seis irmãos e seis moços do colégio e tres studantes de fora. Começou agora por S. Lucas a ler na sua classe Rhetorica; polia menha le ad Terenyum com huma oração de Cicero e, a tarde, hum dia Salustio, De bello lugurtino, e outros dias a Vergilio. Na segunda classe o Padre Ayres Brandão, que este anno foi ordenado de misa e tem trinta e nove studantes, a saber: tres irmãos, oyto moços de casa e 28 de fora, deu-lhe ate agora as Epystolas ad Atticum e algumas eglogas de Ver- gilio decentes com o mais exercido de syntasis e compo- sição. Agora lhe quer começar a ler Sedulio por ser poeta christão pio e mais acomodado ao bem dos studantes com as epistolas familiares; na ultima classe le o Padre Josepho Ribeiro; tem studantes nempe (9): cinquo irmãos e qua- torze mininos de casa e cinqoenta e tres de fora. Aqui se le Dispauterio e também as epystolas ad Atticum com o mais exercício que a classe requere. As sete horas tem todos os studantes houvido missa; lem-lhes ate as nove e a tarde, das tres as cinquo. Os irmãos da terceira classe em casa, do meo dia a huma ora, tem exercício de Sintaxis, genero e pretéritos, conjugando e declinando a noite, depois do (8) palavra rasurada. BACIL: palavras resuradas também e por cima: o mestre da primeira tem vinte sete estudantes, a saber: oyto yrmãos e seis moços do collegio e treze estudantes de fora. (9) BACIL: em vez da palavra neupe, lê-se: setenta e dous. 33 1
repouso acabado; tem todos os da Rethorica e os mais sepa- rados as classes repetyções das lyções daquelle dia e seus argumentos, isto das sete as oito e nas sestas e aos sabados, a tarde, argumentos e no primeiro sabado de cada mes con- clusões gerais e hum de cada dia das classes sostenta, onde alguns fazem orações mui arezoaveis em prosa e verso maxime os da classe do padre Marcos que todos os dias tem diso composição em todo o genero de verso e muytos delles tenho ouvido ao padre Marcos que erão tam espertos e de tam boas abilidades que os de Portugal que elle la conhecia de bons engenhos lhes não excedião, porque traz estudantes de dous annos e anno e meo que começarão, cuias composições em verso la verão, avendo ca muito menos ocasião para se tanto facilitarem no aprender, por não terem mais que quatro oras de lição: duas polia manhã e duas, a tarde; e sendo ca a terra, em alguns tempos do [íoo r.] anno, // como he a quase todo o verão e parte do inverno muyto menos apta para o estudo que a de Europa, sendo muyto desleixada e as compleições não muyto coroboradas em forças. A sesta feira se tem sempre doctrina e juntamente nas lições sempre os mestres lhe apricão a doctrina necessária, confessando-se todos os meses, os que são capazes, comun- gão; outros ha que, por sua devoção, o fazem cada dia; alguns, de seu proprio moto, pollo sabor que acharão nas cousas de Deos, trocarão a scientia polia religião e se mete- rão em S. Francisco e Sam Domingos e bem creo que, se a Companhia quisesse lançar mão delles, que não faltarião, porque os mais delles parece que se afeiçoão a vida religiosa e sem duvida, charissimos irmãos, que o amor da virtude e avorecimento de vicios nos moços da India e tanto pera se estimar que certo tenho ser este hum dos grandes e par- ticulares serviços que a Companhia faz a Deos, Nosso Senhor, nesta terra e no ensino dos moços; porque a cria- 33 2
ção delles e abundantia de seus mimos e maos custumes e a largueza da vaidade em seu tratamento e muito alongada em tudo dos de Portugal e asi, feitos domésticos e criados em bons custumes, acontece que, por doctrinados filhos vem os paes e mais entrarem muytas vezes em si e confessa- rem-se, mudando a vida e costumes. Agora com ajuda do Senhor em Janeiro, polia conversão de S. Paulo, avera conclusões publicas da Rethorica e, com o favor divino, pera o principio do outro anno, se começara outro curso de artes; os sacerdotes de misa, que pouco tempo ha que se ordenarão, tem todas as noytes sua hora de casos que lhes le o Padre Melchior Carneiro por a Suma de Caletano. Na scolla de ler e screver andam quatro centos os quais ensina ainda o irmão Amador Correa e a seis annos que he seu mestre; tem estes seu exercício de cantarem a doc- trina polias ruas e ensinarem-na em suas casas reprehen- derem os juramentos e quando vão por essas embarcações sempre se acha hum que milhor va louvando o nome de Deos. A doctrina ensina-se todos os dias a huma hora, despois do meo dia, // na ermida espiritai que aqui esta [ioo ».] junto do collegio e vay pera iso hum irmão tanger a cam- painha e, aos domingos, ensina-se pellos irmãos de casa também em outras partes diversas da cydade, a saber: em Santo Antonio, na sala onde estão os escravos cativos del rey e no tronquo das gentes da terra e no dos portugue- ses se faz também alguma doctrina. Esta Coresma passada pregaram aqui sempre o Padre Antonio de Quadros e o Padre Francisco Rois nesta cidade com grande concurso de gente; o Padre Francisco Roiz pregava as quartas, polia menhã, na see e aos domingos em casa; e o Padre Quadros alternatim aos domingos na see com os frades de S. Domingos e as sestas feiras, a tarde, da paixão, aqui em casa tratando em cada huma delias hum dos mistérios da morte e paixão de Christo, Nosso Senhor, 333
cora grande concurso de gente, muitos clamores e lagrimas do povo. Neste comenos chegou do Japão el Padre Mestre Mil- chior, do qual ao diante falarey, e pregou aqui o Mandato e o Padre Francisco Rois a Paixão e o Padre Quadros tam- bém a Paixão em Nossa Senhora do Rozario. O modo que se teve no emcarrar [sic] (10) do Senhor bem afirma que foi huma das cousas devotas que neste mundo vy e para mais dar materia de sentimento e asi na festa de Ressurrei- ção correspondeo bem a alegria e contentamento a dor e tristeza dos dias precedentes. Quinta feira de Endoenças com grande solenidade con- sagrou o padre Patriarqua os oleos para toda a India. E foi huma cousa que muito folgou este povo de Christo polia novidade delia; sua paternidade ensarrou o Santíssimo Sa- cramento e o levou dia de Pascoa na persição da Resurey- ção que se aqui fez ao redor do collegio. Querendo daqui o governador, no principio da Coresma, hir a terra firme pelejar com os capitães mouros do Idalcão, por esta cidade star de guerra com elles, pedio daqui ao Padre Francisco Roiz que não avia de ir sem alguns padres da Companhia pera esforço dos soldados e o dia que se partio veyo aqui ao collegio, armado com todo o seu exer- cito e estado da India, que serião então perto de tres mil portugueses; depois de feita a oração na capela, tomou de giolhos a benção do Padre Patriarqua que do altar mor lha deu e levou consigo ao Padre João de Mesquita e o Padre Pedro de Almeyda, a cavalo. Aos primeiros encontros que la tiverão com os mouros foy o Padre João de Mesquita na dianteira coom seu cavalo com hum crucificio arvorado em huma astea duma mea lança nas mãos e os soldados (10) BACIL: encerrar. 334
apos elle; afirmo-lhes, charissimos, que foi tamanho o esforço dos soldados e contentamento // dos fidalgos da C'01 r-J India que, quando despois tornarão, não falarão em outra cousa senão no esforço que o padre com suas palavras lhes dava. Forão ter a Ponda, que he huma fortaleza de Idalcão e, a poder de misas que o Padre Pedro de Almeyda pro- metia, foram mytos soldados com elle, quando queimaram o lugar, a por fogo em as mesquitas e aos pagodes dos mouros neste tempo que o governador la esteve. Imaginai, charissimos, quão so e a quão perigo ficaria esta cidade que he a cabeça may e amparo de toda a índia, aonde não avia mais que os velhos que fiquarão em guarda da cidade e as molheres e os religiosos em seus moesteyros, quasi ja em termos de tomarem as armas e se hirem por nos paços desta ilha em defemção delles. Esta cidade pare- cia toda huma religião, porque todos os dias os religiosos de todas as Ordens fazião procissões e os nossos mininos de casas, mesmo as ermidas de Nossa Senhora; era de maneira que se encontrava, as vezes, a da misericórdia com a de São Domingos e São Francisco em huma rua. O cabido da se veyo ca ao nosso collegio huma menhã cedo dizer huma missa cantada e aquelle dia a tarde veyo aqui tam- bém huma procissão da misericórdia, cousa muyto pera louvar a Deos e provocar a devação e lagrimas, porque não vinhão nella sinão mininos e todas as molheres nobres e honradas da cydade, as mais delias descalças. E os velhos do povo muyto calvos com suas canas de bengala na mão, huns regendo a prosição e outros rezando por suas contas. Aprove a divina bondade ouvir os clamores destes inocentes que com tanta instancia lhe pediam mise- ricórdia, dando prospero sucesso a nosso exercito. Quando o governador tornou, com ter la queimado Ponda e com as mays victorias que Deos lhe deo, a primeira Igreja a que veyo foi a este collegio, com suas trombetas diante; sai- 335
ram-no a receber de casa ao meo da rua com huma pesisão muito bem ordenada e todos os mininos com suas capillas na cebaça e ramos na mão, com benedictus de canto de orgão e atraz o Padre Patriarqua e os mais padres e irmãos aos quais abraçou com muyta alegria e contentamento. Foi necessário passar outra vez o governador e levou consigo [íoi v.] Q pacjre Antonio da Costa e Pero de Almeyda que la // no arraial lhe diziam missa e esforçavão as gentes e, depois da victoria, dizião os mouros da terra firme que impossível era não vencerem os portugueses pois que ca em Goa pelejavão os religiosos e mininos e molheres com orações contra elles; e la na guerra os cavaleiros. Nestes dias, quando era necessário levar o Santíssimo Sacramento a algum enfermo pela cidade, hia entre sirio e sirio acompanhado de muitas espingardas e armas e com muita gente; parece que na índia se ve grandíssimo res- peyto e concurso da gente em o acompanhar mais que nas outras partes, porque alem dos homens serem muytos, sayem os meninos de suas casas com ramos nas mãos, diante do Santíssimo Sacramento. Quando vão por este rio de Goa abaixo, da banda da terra firme, mea legoa daqui, pouco mais ou menos, esta huma ilha que se chama Chorão em a qual esta edificada huma ermida da envocação de Nossa Senhora da Graça que a Companhia edifiquou aly, onde sempre esta hum irmão de asento para ensinar a doctrina aos christãos da ilha e todos os sabados vai daqui do collegio hum padre em huma embarcação dormir la, pera lhe dizer missa aos domingos; e quando os irmãos estão mal despostos vão muytas vezes la convalecer e recrear-se em o Senhor. Desta igreja tem a Companhia mui particular cuidado quanto ao toqua a christandade, porque se tem nella feyto muyto fruyto e os christãos muytos no numero augmentados e sempre se vão mais acrescentando aonde os padres perto 33 6
da igreja os apousentão e casão buscando-lhe remedio a cada hum de viver. Havia na ilha temor de hum renegado, que andava da outra banda da terra firme com os mouros, querer entrar nella, pêra por fogo a igreja, destruir os christãos; porem a Rainha dos ceos teve tal cuydado de guardar os seus christãos que, passando a nado cincoenta ou sessenta mouros dos mais fortes e escolhidos, os christãos da ilha com alguns portugueses lhes cortarão a todos as cabeças, aonde foy necessário acodir também o irmão pêra defender a igreja, aonde estava com sua espingarda e murrão aceso. Fiz, charissimos, esta digressão pera saberdes como qua nestas partes ate dos religiosos andarem com as armas as costas se quer Nosso Senhor servir e a prefeyção que pera tão varias cousas ha myster quem no meyo de todas estas perturbações não a de perder a paz e repouso de sua alma. Antes de o Governador partir pera terra firme, tres dias au quatro, lembrou-se o padre Francisco Roiz que estava o jubileu da Companhia por publicar; denunciou-o no pul- peto//por amor da gente que passava a terra firme; erão t102 r-l tantas as confissões por todos os mosteiros, igrejas, por o tempo ser breve que, desde huma quarta, que foi dia de São Mathias, ate o domingo, comungarão somente neste collegio novecentas almas, afora cento ou mais de casa e outros muytos mininos e scravos e era de maneira que não tinhão os padres tempo para poderem rezar suas orações nem dar ao corpo o necessário, vendo a vontade com que vinhão os soldados com o murrão no braço deixarem a espingarda no pe do altar e tomando o viatico da eterna vida caminharem muy alegres apos o seu capitão de modo que nas igrejas e nas crastas e cubículos e ermidas da orta tudo naquelles dias erão confissões. O concurso e ferquentação das confissões destes colle- gios e muy continuo e tanto que, sem duvida, sempre nelle 3 37 DOC. PADROADO, VI 22
parece não deferir a Coresraa do Carnaval, porque alem das confissõis da igreja todos os doentes, feridos, prezos, necessitados se socorrem aos da companhia asi de dia como de noyte e são tantas estas necessidades de fora que muytas vezes não lhe podem acudir por falta de padres; muytas pessoas da cidade se comungão e confessão cada oito dias; outros cada quinze, outros polios meses e pellas festas de modo que nisto ha sempre continuo exercício. Hordenarão aqui o padre Patriarcha e o padre Francisco Roiz e Antonio Quadros, nesta Quaresma, huns confessio- nários que se mandarão imprimir e offereceu-se hum ho- mem honrado, devoto da Companhia, a dar o papel de graça pollo amor de Deos e que pusesse o collegio o tra- balho da impressão de casa e se davão a todos os que os pedião pello amor de Deos e também se mandarão por todas as fortalezas aos padres da Companhia que nellas rezidem pera la os repartirem juntamente com a doutrina que o padre Mestre Francisco, que Deos tem, ca ordenou empremida. Foi isto cousa de que o povo muyto se apro- veytou polios pouquos livros e menos conhecimento que os homens comummente tem pera o modo de se bem confes- sarem. Do padre Patriarcha, verdadeiramente, charissimos irmãos, avia tanto que dizer (11) que de totalmente pera o fazer me sinto inábil, não direy cousa que pareça ser digna e corresponda ao que nelle ha e assi parece que se Deos, Nosso Senhor, dilata sua ida pera o Preste he porque sabe quanta necessidade temos todos e eu em particular do exemplo de sua pura e candidissima vida. O seu viver nesta casa he ver-se nelle tanta promptidão e inteyreza na obser- vação das regras e acudir as campayinhas como se agora v-] começara a entrar na provação. // Deu-se tanto a frequen- (11) BACIL: escrever. 3 3 8
tação das confissões em todo o genero de pessoas, escravos e escravas que serto me ocorreo duas ou tres vezes, quando adoeceo ser a causa puramente os trabalhos que tem leva- dos; confessa os irmãos todos os sabados e cada vez que elles querem; diz suas missas pia regra do prefeito da igreja; parece que não ocupa lugar com a profundeza de sua humildade; se traz huma roupeta rota não o podem persuadir a que vista outra milhor; elle he dos mays contí- nuos em visitar os irmãos doentes e estar com elles a con- doer-se de suas necessidades, de maneira que em todas as virtudes nos he continuo e vivo espelho; tem ordenado muytos religiosos na India e da Companhia ordenou este anno tres; dia de São Dominguos disse la missa em ponti- fical; o dia de Todos os Santos na see desta cidade com grande solenidade e aparato, e aqui em casa a disse ja duas ou tres vezes. A quinze de Setembro passado de 1557, partio deste collegio o padre bispo para o Preste; levou por seus com- panheiros o padre Mestre Rois e o padre Gualdanes e dous irmãos, a saber: Cardoso e Francisco Lopes; forão daqui quatro fustas da armada, que os levarão e partirão muy bem apercebidos asi de ornamentos para o culto divino como de provimentos pera suas pessoas; foi em sua com- panhia hum homem que se chama Gaspar Nunez, casado aqui de Goa que ja de la veyo do Preste com o padre Mestre Gonçalo o qual sabe da terra e gentes delia e se offereceo para os acompanhar. Deu-lhes Nosso Senhor prospera viagem, sem impidimento de turquos; tornaram as fustas que os levarão com recado de como os la deixavão na terra com alguns portugueses que das embarquações se forão, acompanhando o padre bispo e asi fiquarão la postos em suas jornadas polia terra dentro; do que la he passado não sey novas ate o presente, mais que dizerem alguns mouros, mercadores das naos de Mequa que aqui vem, 3 39
que avia grande guerra entre os abexins e turquos e segundo que dizem parece estarem as guerras antre elles muy tra- vadas. Deos Nosso Senhor ordene tudo de maneira com que seu nome bendito seja manifesto, conhecido e venerado naquella terra como todos confiamos que sera estando ja la tal esteo em que se sostente. Na semana sancta partio daqui o padre João de Misquita com o irmão Gil Barreto para envernarem em Dio, que he huma fortaleza muyto fronteyra e onde vinhão muitos sol- dados; foi tanto de Deos a sua ida la e o serviço que a sua divina bondade fez naquella terra, quanto verão pollo tres- lado de huma carta que o mesmo irmão Gil Barreto escre- veo de Dio a Ormuz, ao padre Antonio Eredea. Antes que se de Dio partisse para Goa, esteve o povo em o reter com violência pollo muyto que em suas almas fazia; escreveo depois a misericórdia da mesma cidade por si e povo outra carta em que o tornavão a mandar pedir com muyta ins- [103 r.] tancia.//Vindo pella cidade de Chaul, onde também pre- gou seis ou sete vezes, lhe ficou o povo tão afeiçoado que oferecião ahi casa para a Companhia e cousa com que sustentar os que ahi estivessem. Também de Cananor escreveo o povo e irmãos da mise- ricórdia ao padre Domingos Gonçalves em que lhe pedião muyto padre que lhes pregasse e irmão que lhes ensinasse seus filhos e que doutrinassem a christandade que ha na terra; a estas e outras muyto maiores necessidades se não socorre polia falta que qua ha de gente e sem duvida que bem advertido parece que não dilata Deos Nosso Senhor a yda do Preste, senão pera que neste interim, enquanto de la de Portugal partirem, não fique este collegio de todo horfão e desemparado, porque o padre Francisco Rois anda ja tão cansado e debilitado na força dos seus pees que por quasi se não poder ter no bordão, quando vay fora, tem ja hum carrinho em que ha de andar polia cidade e accodir aos 34°
muytos negocios que se offerecem e entanto he tão fraco dos pees que, comummente vindo de fora, lhe he necessário estar toda aquella manhã ou tarde na cama. Ho padre Mestre Belchior quis Nosso Senhor que com muyta dificuldade chegasse a Japão com seus companheiros e como a gente daquellas partes naturalmente he muyto bellicosa achou o padre os maeios mays devisos e grandes incêndios e conjurações nas mais populosas cidades dos rei- nos e polia terra também ser muy fregidissima começou o padre Mestre Belchior a achar-se tão mal desposto que o mais do tempo que la esteve foi sempre enfermo e muyto mal desposto. Deixou então la o padre Gaspar Vilela que consigo levava e o irmão Rui Pereira e outros dous mininos que tomão muy bem a lingoa e asi se tornou pera a China pêra dahi se vir para a índia. Dentro na China, na cidade de Cantão, antes que partisse pera Japão, deixou a hum irmão que fiquasse ay so pera aprender a lingoa e quando se veyo trouxe-o consigo; esteve neste collegio de Goa lendo theologia e pregando todo este tempo, depois que veyo. Agora parte pera Cochim pera rezidir ahi; elle tera cuidado de screver as mais particularidades do que la passou em Japão e do fructo que la he feyto. Trouxe hum sumario dos herros e ceitas gentílicas daquellas partes de que la vão três copias por tres vias. Os padres irmãos que agora estão polias fortalezas e partes remotas da índia são estes: no Preste João, o padre bispo, mestre Andre e o padre Mestre Roiz e o padre Gual- danes, ho irmão Gonçalo Cardoso, Francisco Lopes e outro; em Ormuz, o padre Aleixo Dias e o padre Laurentio e o padre Antonio de Eredea // e o irmão Andre Cardoso polios £103 ».] quais se espera cedo; em Baçaim, o padre Mestre Gonçalo — e o padre Johão da Beyra e os irmãos Manuel Gomes e Francisco Anrique e outro irmão; em Tanaa o padre Chris- tovão da Costa e os irmãos Geronymo Fernandes e Francisco .1 4 '
Anes; em Cochim o padre Mestre Belchior e os padres Anri- que e Francisco Perez e Francisco Lopes e os irmãos Gaspar Soeyro e Bernardo Roiz; em Coulão o padre Nicolau Lan- ciloto e o irmão Luis de Gouveia; no cabo de Comorim o padre Dioguo do Soveral e os irmãos Manuel de Barros, Francisco Durão e Manuel de Valadares e outros que agora hão de hir daqui do collegio; em Choromandel, na povoação do apostolo São Thome, o padre Cipriano e o irmão João Lopes. Em Malaqua o padre Balthezar Diaz e o irmão Ono- fre do Caso; em Japão os padres Cosmo de Torres, Balthe- zar Guaguo e Gaspar Vilela e o irmão Johão Fernandes Duarte da Silva e Ruy Pereira e Luis de Almeida e dous mininos portugueses que levou o padre Mestre Belchior, a saber Guilhelmo e Rigueira. De Maluquo veyo este anno o padre João da Beira e o irmão Nicolau Nunez pedir gente polia muyta falta que la avia de obreyros e grande numero de gentes que quere rece- ber a fee, como largamente verão por huma carta que vay por tres vias que se escreveo em Malaqua na qual particular- mente conta todas as cousas de Maluco, conforme as infor- mações do irmão Nicolau Nunez, que la andou dez annos, ao qual aqui ordenarão logo em Goa por saber bem as lin- goas daquellas partes e outro padre que se chama Antonio Fernandez e o padre Francisco Vieira por superior daquella província com tres irmãos com elles a saber: Fernão do Souro, Balthezar de Araujo, Simão da Vera com o padre Afonso de Castro, que la estava ja, e Manoel de Tavora e Melchior de Figueyredo que são todos os de Maluquo nove. O padre Afonso de Crastro e Antonyo Fernandez com hum irmão ou dous pêra fiquarem com a christandade de Am- boino, aonde ha perto de quinze ou vinte mil almas cristãs sem nenhuma pessoa que os doutrine e ate agora perecerão, morão estes os mais delles por serras muy altas e por pene- dos muy íngremes, entanto que apenas se pode subir em 3 4 2
gatinhas por ellas apeguados com os pees e mãos e vivem em lapas como animais, pollo temor que tem dos mouros salteadores, que andão pollo pee das serras tirenizando aos pobres chistãoszinhos desemparados de todo o socorro e todo o favor humano e muitas vezes acontece soomente por serem christãos os matão os mouros e fazem em postas. Agora com aquella ajuda de dous padres e dous irmãos se ão muito de animar e corroborar na fee. O padre Nicolao Nunez ade andar no Moro com outros dous irmãos porque sabe (como digo) as lingoas daquellas ilhas onde ha passante de vinte mil almas christãs em corenta e sete lugares. Vede, charissimos, pollo amor de Deos, ho como se poderá acudir a tanto numero de christãos com tam pouqua gente; em a fortaleza de Maluquo ade residir o padre Francisco Vieira para dali prover aos outros com sagu para comerem e com algua cousa de suas necessidades quando vay a India que he de anno em anno. //O padre Dom Gonçalo e o padre Belchior Carneiro [iwr.] emvernarão ambos este inverno em Cochim e parece sem duvida que muy particularmente foi ordenado por Deos Nosso Senhor para bem daquella cidade envernarem ali segundo ho socesso das cousas que depois sobreveo; ambos em suas pregações forão naquella cidade muy aceitos e fazem muito fructo pêra onde vão. Veio ter a Cochim polia via do Cairo hum hereje com nome de bispo da ceita nestoriana; os dias que se deteve em Cochim andou oculto em pelle de ovelha; dali deu consigo nas serras alem de Chochim, onde ha grande numero de christãos de São Thome os quais quasi nunqua são visitados de quem os doctrine e como la chegou este loguo começou a perverter muitos delles. Acudiu logo o padre Belchior Carneiro as serás em muito risco e periguo de ho matarem pera que os christãos não perecessem e com dadivas e cartas do governador pera aquelles reys malavares e muitos traba- 3 43
lhos que também muito levou o padre Dom Gonçalo, nun- qua o poderão haver as mãos por se esconder. Nao sei se por ocasião desde mesmo nestoriano se porque, passando hum dia o padre Carneiro por huma rua de Chochim com hum irmão, lhe tirarão por detraz com huma seta; quis Nosso Senhor que levava o barrete alto na cabeça, passou-lho de ambas as partes e cayo-lhe a frecha aos pees sem ver donde lhe tirarão. Ho principio do inverno, cursando o padre Dom Gon- çalo a frequentação de seus muy aceytos sermões, achou-se em hum cepo da Esmola do Sacramento na see de Cochim hum scripto de grandíssimas blasphemias e vitupérios igno- miniosíssimos contra Christo Nosso Retemptor e contra a pregação de seu sagrado evangelho, dizendo não ter ainda vindo o Mesias e outras cousas nefandas; o padre Dom Gon- çalo e os mais religiosos que então se ai achavão, como zelozos da honra de Deos e sintindo-se de tamanha ofensa, juntamente com o vigário de Chochim fizerão lançar gran- des preguõis com promessas para que descubrisse ho autor daquella maldade e posto que cuido que se não achou foi isto ocasião de outros não menores serviços de Deos, Nosso Senhor, porque se acharão muitos christãos novos culpados em casos graves da Imquicição, polios quais ja ficão presos, perto de vinte, entre homens e molheres. No fim do inverno quando se vierão pera Goa os padres Dom Gonçalo e Bel- chior Carneiro polio odor que de sua doutrina e exemplo deixarão em Chochim fiquou o povo em muita maneira sentido de sua auzencia. Em Goa se da também pello provisor e vigairo geral principio a visitação que he obrigado cada ano; quererá Nosso Senhor alimpar e porificar esta terra que deste genero de gente anda contaminada. Não screvo mais largo das cou- sas que polia christandade os nossos padres nas terras aonde estão, porque elles tem cuidado de escrever todos os annos. 3 44
Agora contarei soomente da christandade desta ilha de Goa na qual se oferecia mais materia pera escrever do que em minha insuficiência para ho contar. //Nesta ilha de Goa com aver muitos christãos forão t'04 V-1 ate agora tão opremiados (12) e anichilados, asi dos próprios portugueses, como dos gentios, e principalmente dos bra- menes, que nem erão vistos nem conhecidos antes, sem duvida, o nome e memoria delles muy apagada, porque os bramanes, como poderosos e ricos, trabalhão sempre pel los excluir e avexar e desacreditar quanto podião. Quis Nosso Senhor que, condoendo-se o padre Francisco Roiz de tanto desemparo, determina-se, com toda a instancia, por todas suas forças, pera que o nome de christão tão apagado se res- taurasse nesta ilha, vendo como os padres da Companhia hião tão longe a terras tam remotas reduzir as almas ao conhecimento de seu Deos e Redemptor. Em boa equidade e rezão estava estes que estavão a porta (ou por milhor dizer em casa) acudir-lhes antes que de todo perecessem e se não pusessem os christãos em tão pouquo favor e risco de retroceder. Falou algumas vezes nisto ao governador, alem- brando-lhe quanto dependia delle a conversão desta genti- lidade e o emparo dos christãos e o serviço tão insigne que nisto a Deos Nosso Senhor e a Sua Alteza poderia fazer. O governador, alem como naturalmente he bem inclinado e zelloso da honra de Deos, offereceo-se pera de sua parte fazer o que for possível. Começou logo o padre a lhe pedir provisõis e favor dos christãos e que se hordenassem algumas leys pera o bem comum delles; erão muy necessários em que mandasse que todos os officios públicos e carreguos del-rey que servião os bramenes e outros gentios se lhes tirassem loguo e os puzessem nos christãos e pera que os christãos pudessem herdar aos parentes gentios e pera se (12) BACIL: opprimidos. 345
recolherem os mininos orfãos gentios que ainda não tem o dom da rezão neste collegio ate terem annos de desquirição pera escolherem a lei senão tivessem parentes ascendentes muito chegados a quem a cura dos tais parentes pertence e pera que o dinheiro dos orfãos portugeses se não desse ao ganho a bramenes e para os christão herdarem as fazendas dos gentios que morrerem sem herdeiros e pera terem os privilégios dos cidadãos portugueses desta cidade os que tivessem calidade para isso e pera não fazerem publicamente os gentios seus ritos gentílicos e serimonias, como dantes fazião e outras mais cousas; das quais provisões todas vão la os treslados que poderão ver; despois que forão feitas e asi- nadas e passadas polia chancelaria mandou-as o governador apreguar por toda esta cidade pera que se guardassem, sob graves penas, muy exactamente; não faltarão, asi por parte dos brames, como de outras pessoas grandes, contrariarem esta obra e porem-lhe grandes obstáculos, mas como era de Deos, forão isto tintas que a mais ilustrarão, porque o governador, aiudado de sua virtude e da mui continua perse- verança do padre Francisco Roiz sobre o mesmo negocio, não deixou de contrariar e reprovar a opinião de muitos homens que dizião não poderem servir seus carreguos sem serviço de adiutorio dos bramenes e gentios. Prcguarão contra isto con- tinuamente os padres da Companhia e por sua rezão do padre fazião o mesmo os outros religiozos ate que a força da perseverança modificou a dureza dos pertinazes que sentião o contrario. Começou-se logo a por em execução o viguor [losr.] das provisões//e o padre a continuar quasi o inverno todo, os mais dos dias ao governador, com grade soma de pitições dos christãos que pidião os officios que os gentios servião e o governador nisto muy favorável concedendo-lhos, man- dando-lhes passar suas provisões dos careguos em que hos metia; cousa que pos em muito terror e espanto os brâma- nes, não lhe parecendo possível, tão de repente, poderem 346
os christãos ter nome e serem honrados e conhecidos e elles dezacreditados e sua authoridade e honra abatida ainda que bem sentião e. sentem, como muitas vezes dizem, que he impossivel vir-lhe o mal doutra parte, senão deste collegio e dos da Companhia. Pos o padre Francisco Roiz, como por pai e adminis- trador destes christãoszinhos, ao padre Pero de Almeyda; sem duvida, charissimos, que tem nisto exercido zelo que parece neste collegio a ele em particular sera muito propria- mente comonicado o talento de entender na conversão. Certo que nisto se recrea e nisto pratica e a isto se entrega tanto que he cousa muito para louvar a Deos, os christãos andão sempre polias ruas apos elle e elle lhe busqua os vis- tidos e a huns casa e a outros poem em officios, de modo que por elle são muy aiudados. Concedeo mais o governador ao padre Francisco Roiz que todas estas provisões em favor dos christãos autenticadas e passadas polia chancelaria tivessem o mesmo vigor e força por todas as outras fortalezas del-rey, como se aqui fazia, screvendo cartas suas particulares aos capitães em que lhe encomendava que as mandassem comprir muy primeira- mente, o que asi se faz. Como os christãos começarão a sentir o favor de Deos, Nosso Senhor e de seu princepe, começarão-se a animar muito e donde dantes não aparecião por andarem como desterrados, aguora, polia bondade de Deos, procedem em muy diferente modo e começarão loguo a emduzir os paren- tes gentios que se quizessem fazer christãos, pois vião o bem que lhes dahi resultaria; acodirão loguo muitos gentios e alguns mouros a este collegio a catequizar-se para receberem o sancto baptismo e os mais delles com molheres e filhos e família, os homens e mininos estão sempre neste collegio em huma casa separada onde tem continuo exercitio de aprender a doctrina e de os exortarem e instruírem nas cou- 347
sas da fe; as molheres e crianças estão postas no esprital da gente da terra de que ho collegio tem carreguo e aly tem outras molheres que as ensinão e são molheres de mais qua- lidade; apredem a doctrina em casa dos homens honrados casados desta cidade ate que as achem a doctrina em casa dos homens honrrados casados desta cidade ate que a sabem; comumente estão sempre dous meses e tres destas portas adentro catecizando-se e pollo continuo exercício que tem os mais delles a tomão com facilidade; certo que muitas vezes ve-los a todos juntos e muito de louvar a Nosso Senhor pollo contentamneto que mostrão e sinais de alevantarem os olhos e as mãos aos ceos pollo officio de sua redenção e baptismo; as vezes vem mininos que fogem de seus pais e mais gentios para se fazerem christãos, outras vezes a molher ao marido e escravo a seus senhores e que bem se ve larga- mente meter-se o cutelo da separação entre o pai e o filho, marido e molher, pollo seu divino amor e lei; concorrem commumente tantos que muy pouquos dias se passão que não venhão buscar o baptismo e porque a materia e de tanta gloria a Deos e consolação a seus servos contar-lhe-ei ho modo particular que se tem nos baptismos e algumas outras [los v.] cousas que socederão a alguns christãos em sua conversão. // Neste inverno, dia dos bemaventurados apostolos São Pedro e São Paulo, havendo ja cento e dez almas apare- lhadas pera o baptismo asentou o governador com o padre Francisco Roiz que pera mais consolaçam e fervor dos chris- tãos e confusão dos bramenes e gentios convinha fazerem-se estes baptismos muy solemnizados com grande aparato. Veio dispois do jantar o goveanador hacompanhado de todos os mais fidalguos da índia houvir aqui as besporas ao collegio e do dia dantes herão ja dados os christãos a padrinhos polia cidade pera os vestirem e acompanharem; a igreja estava muy bem concertada de homamentos e a rua do collegio muy fresqua de arvores e junco e acabadas as besporas can- 348
cadas muy solemnes partirão do collegio os minimos com sua pesição e ramos e capillas na cabeça e o padre patriarca e o governador com os padres e irmãos do collegio e grande parte do povo na mesma porcisão a esperar os christãos que avião de sair todos de huma casa de hum Diogo Pereira, muito devoto da Companhia, e muy familiar e amigo do padre Mestre Francisco, que era o que o avia de levar a China e que hia com elle por embaixador; de cuia casa sairão os christãos em ordem todos com suas candeas nas mãos, a saber: os mininos pequenos diante ajuntados com os mininos da casa e os pais apos elles e as molheres atraz e, metidos na porcisão, vinhão os mininos cantando psal- mos hymnos, com muitos instrumentos de frautas, chara- melas, trombetas e atabales que o governador mandou vir; a igreja muito embandeirada com todos os mais sinais de alegria; o governador tinha seus afilhados e os fidalgos cada hum os seus e pollo gosto que tinha de os ver esteve quasi todo o officio em pee a porta da igreja e a pia, que durou perto de tres horas. Fez o padre Joam Bravo, pre- feito da igreja, as serimonias primeiras, despois baptizavão dous padres pera aver tempo de se baptizarem as molheres que fiquavão sobre si pera dipois dos homens. Acabado o baptismo ho padre Patriarca e o governador com os mesmos christãos e mais gente, feita oração ao Sacramento, fizerão polias crastas huma procisão todos com seus sirios acezos nas mãos, tão alegres e contentes, como homens que se achavão em sua pristina inocência. As molheres então aca- bado o officio polia mesma maneira algumas delias se forão para suas casas e outras se agasalharão ainda aquella noite no esprital; todos os christãos e mininos aqui no collegio aonde, na orta depois de huma irmida de São Flieronimo que temos, lhe estavão ja pellos irmãos preparadas as mesas pera todos comerem juntamente. Certo, charissimos, que com muita rezão vos podia aqui vir desejo de trocardes 3 49
todos os guostos e contentamentos da Europa que hum religioso la pode ter em suas consolaçõis por vos achardes presentes a hum triunfo e jubilo como este, porque real- mente parecião serem as mesas em conformidade e união da primitiva igreja, quando o fresco e precioso sangue de Jesu Christo, nosso Senhor, e a eficacia de sua graça san- tíssima esmaltava e decorava os coraçõis dos sanctos chris- tãos para viverem tão unanimes e tão conformes. Ao ourto dia, despois de todos juntos ouvirem sua missa na capela e terem a mesma (13) congregação outro jantar beijando a mão aos padres se forão para suas casas muito alegres, encarregando-se o padre Pero de Almeida de por os mininos pequenos com alguns homens honrados e outros maiores orfãos, ou cuios parentes ainda não erão christãos, a officios [106r.] para guanharem sua vida.// Não tardou muito tempo que se não fizesse outro baptismo com todas estas particularidades, que acima diguo, senão quanto este segundo foi mais celebre por duas rezões e huma por o numero dos christãos ser mais e a segunda, por ja entrar o vreão, avia mais oportunidade para serem festejados, de modo que de o dia de São Pedro e São Paulo ate o dia de Assunpção de Nossa Senhora que são corenta e oito dias, avia ja duzentas e trinta e cinquo almas para se bapetizarem, honde entrarão alguns bramenes e guam- cares de aldeas e mocadõis de officios e molheres honradas. Dahi a quorenta e quatro dias se fez outro em que se baptizarão cento e sesenta e quatro cristãos antre homens, mininos e molheres. E esta aguora para o dia do bemaven- turado São Martinho outro de duzentos e nove; sempre como diguo se acha o governador como protector dos christãos, e o padre patriarca com todas as festas e ordem (13) E terem a mesma é correcção de: muito alegres. 3 5°
que ja tenho dito. Pera aiudas destes christãos se vestirem mandou o governador dar ao padre Francisco Roiz duzentos e vinte pardaos e na feitoria de Baticala cincoenta camdis de arros para gastarem com os catecumenos que aqui apredem. Mandou mais dar para os christãos da ilha de Chorão trinta espingardas aparelhadas para defensão da igreja e outras trinta aos christãos de Tanaa, aonde esta o padre Christovão da Costa e pera mais os favorecer fez algumas forces (?) pollo campo e por esta cidade com elles aonde se acharão, segundo dizião, mais de tres mil christãos de peleja, dando-lhe suas bandeiras muito boas e capitães entre elles os regessem passando com elles aqui pollo collegio e mandando chamar aos padres que viessem ver os seus christãos alegrando-se muito de os ver tão preparados pera os poderem ajudar em qualquer encontro de guerra. Dizia o Padre Francisco Roiz, quando chegou de Por- tugal, que se contentaria com bapetizarem neste collegio huns dias polios outros, cada dia hum, de modo que no fim do anno fossem trezentos e sessenta e seis e Deos Nosso Senhor, segundo são immensas suas misericórdias, supera- bundou tanto os limites de nossa esperança que neste pri- meiro anno são ate aguora baptizados oito centos e oytenta e quatro e com outro muito solemne baptismo que hontem, dia de S. Martinho, se fez em que baptizarão neste collegio, com grandes festas e alegria em o Senhor, duzentas almas, menos tres ou quatro, são ate guora mil e oytenta christãos e, polia bondade de Deos, daqui ate se partirem as naos sera ja o numero muito mais amplificado, que são verda- deiramente cousas para muito todos com Deos nos alegra- mos, vendo sua benignidade e misericórdia tão liberalmente comuniquada a estes gentios. E porque acima disse que avia de contar algumas par- ticularidades que socederão a alguns destes christãos e sua
conversão direi soomente algumas mais notáveis, deixando [106 ».] outros por não ser tão difuso.// Na ilha de Chorão estava hum bramane e gentio casado; parece que hera devedor de algum dinheiro e temendo por isso ser oprimido e prezo ou vendo ja avexado polios cre- dores veio tanto a imaginar niso que o trouxe o demonio a desesperação e persuadindo-o a se matar, tomando por remedio de sua vexação a morte, lançando mão de huma faqua se degolou. Porem o piedoso Jesu que o tinha guar- dado pêra outros bens differentes do que elle escolhia, pro- meteo que se não acabou de matar, mas vendo-se ja muy propinquo a morte, com muita pressa mandou chamar o irmão Dominguos Fernandez que hahi estava na igreja de Chorão e entrando-lhe pedio que ho baptizasse, que queria morrer christão. Ho irmão ho baptizou loguo e acabado de baptizar pedio, com muita instancia, que sua molher e filhos fossem feytos christãos (como se fizerão) e assi elle se partiu para Deos e cuidando o demonio de ganhar a hum, fiquou perdendo a sete almas que se converterão em aquela casa e família. Outro bramene que mora em a ilha de Divar, que esta defronte desta cidade de Goa, da outra banda do rio, tinha hum filho que amava e tam enfermo que nenhuma espe- rança achava nelle de vida, despois que gastou parte da sua fazenda consiguo e vio claramente que nenhuma ope- ração fazião as mezinhas nelle; levou-o a huma irmida de Nossa Senhora que esta na mesma ilha, oferecendo-lhe e pedindo-lhe com efficacia que quisesse aver misericórdia daquelle minino e asi a benigna e piedosa Virgem de seu Unigénito Filho Jesu Christo Senhor Nosso lhe alcançou logo a saúde. O gentio, em reconhecimento deste beneficio, trouxe o menino a este collegio, dizendo que aquelle menino era de Nossa Senhora, porque elle lho tinha offerecido que o fizesse christão e o tivesse aqui como servo da sacratis- 35 2
sima Virgem, polios merecimentos do qual, dahi a pouquos dias, acabando o pay de conhecer a verdade e afastando-se dos erros de sua ignorância, se fez chriscão com sua família. Outro gentio nesta ilha muito honrado e o principal da aldea de Morobim, hindo hum dia (paraece que movido pollo Spiritu Sancto) ter a huma igreja de S. João, que estava hum pedaço longe da cidade e achando ahi hum padre canarim, que se aqui criou no collegio, preguntou- -lhe na lingua por humas pinturas de Adão e Eva que ali estavão e contando-lhe o padre algumas cousas da criação do mundo, preguntou também pollo baptismo de Christo que ali vio pintado e como lhe o padre disesse que era impossível salvar-se ninguém sem baptismo, ouvio-ho enquanto ali esteve com muita promptidão e, indo-se para sua casa, tornou dali a alguns dias e dise-lhe que como cuidasse naquilo que lhe disera, asentara consiguo que não avia outro meo para se salvar e alcansar a gloria que lhe tinha dito senão baptizar-se e portanto lhe pedia pollo amor de Deos o fizesse christão e por estes meos o trouxe Nosso Senhor ao conhecimento da summa verdade e se fez christão. //Hum mouro veio a este collegio trazer hum filho C'07r.j consiguo; dise ao porteiro que por aquelle seu filho se não fazer velhaquo e pollo temor que tinha de se danar com outros moços lhe parecia bem que se fisesse christão, porque aqui seria milhor doctrinado e estas forão as palavras for- mais. E assi foi-se embora, deixando o filho o qual fizerão christão. Este fiquou-se moro. A mãi daquelle moço se fez depois christãa. Vierão aqui ter a este collegio dous velhos gentios que paredão Enocho e Elias; hum delles de cento e trinta e dous annos que se acordava, quando esta cidade antigua- mente foi dos canaras, despois dos mouros e despois senho- reada polios portugueses, e outro de cento e vinte annos. Guardou Nosso Senhor este tanto tempo pera lhe comu- 353 DOC. PADROADO, VI — 2J
niquar beneficio tam grande como he o sagrada baptismo e esperança tam grande da gloria. Ouvi depois dizer ao padre Francisco Roiz que de todos os christãos que se aqui fizerão nenhum tão cheo de Deos e em que tanto se enxer- guasse os effeitos da graça baptismal como neste mais velho e alevantava as mãos para os ceos, vendo-se christão de maneira que nestes dous se baptizarão duzentos e cincoenta e dous annos. Outro gentio parindo-lhe sua molher hum filho, man- dou chamar hum feiticeiro ou agoureiro que lhe deixesse que ventura avia de ser a daquelle minino. Responderão- -lhe que o matasse ou o deitasse fora de casa, porque, como crescesse, que os avia de comer a ambos. O pai crente no que lhe dizão pos o menino a porta de hum português o qual benignamente o recebeo para o criar e o fez christão. Custumão os gentios nestas partes, quando morrem os maridos, persuadirem as molheres com enganos e beberra- gens que para fazerem fineza antre sua geração lhe convém queimar-se vivas e asi passarem loguo ao paraiso, onde seus maridos estão; e como todos estes ritos gentílicos lhe aqui são proebidos maxime polios da Companhia, que tem niso muita vigilância, se o podem fazer secretamente trabalham muito por iso. Este anno polia bondade de Deos livrarão a tres que estavão para se queimarem e as fizerão christãs. Outro serviço muy grande se tem feito a Nosso Senhor nesta, em os padres com provisões do Governador em pedi- rem não fazerem os gentios suas sectas publicas como fazião nesta cidade e nos seus cazamentos com grandes estrondos, sendo tão manifestas ofensas de Deos, passando polias igrejas com suas trombetinhas, segundo seus custumes; esta he huma das cousas que elles muito sintem, vendo-se tam opremydos e esta pouqua liberdade para huzarem de suas superstições. £«07 *.] // Estando o governador em Baçaim, pregarão nesta 3 54
cidade contra os bramenes o padre Antonio de Quadros na see e o padre Francisco Roiz neste collegio, no dia do bemaventurado São Thimoteo que pollo zelo que teve da christandade recebeo glorizo martírio, estranhando muito os padres ao povo desta cidade consentirem que os bramenes usassem de suas cerimonias pois nisso fazião tão graves ofensas a Deos e ao nome christão nesta terra. Fez tanta impresão aquilo no povo que como homens acordados de hum grande descuido inquirirão com grande fervor e bus- carão todos os meios possíveis para as festas e ritos gentí- licos serem destruídos e os bramenes, autores disto, vitu- perados, de modo que se pos nisto tanto silencio a todos estes seus contentamentos e cerimonias que muito sandalo e grãos de arros amarillo (que commumente trazem nas festas) ousavão opor em lhes parecer que ate naquilo lhe empederião mininos da cidade; movidos também pollo zello dos pais saltavão na rua com os bramenes e quebravão-lhe as linhas que trazem em tiracolo, ao pescoço, e trazião as mãos cheas delias aqui ao collegio e sem duvida parece que se aquelle fervor durasse mais tempo que fora occasião de muitos se converterem. Muitas vezes acontece adoecerem os mininos, filhos dos gentios e os proprios pais hos trazerem aqui a igreja e se poem no meo delia com as mãos alevantadas para o ceo, dizendo que os trazem a oferecer a São Paulo que lhes dee saúde e pêra isto trazem algumas vezes azeite para as alam- padas e candeas que oferecem diante dos altares e polia muita comunicação que tem com os portugueses e frequen- tação de ouvirem os mininos (que aqui vem aprender) can- tarem polias ruas a doutrina alguns dos principais gentios sabem a oração e a dizem se lhe perguntão por ella e nam tam soomente tomão a doutrina mas ainda os proprios nomes de christãos sem o serem, como pouquos tempos ha, aqui aconteceo que mandando-me o padre Francisco Roiz 355
saber o que faria de hum gentio que se queria fazer christão como se chamava, me respondeo que frey Rodrigo. Parece que alguns portugueses a quem elle servira pollo verem modesto lhe puzerão este nome do qual elle se lograva como proprio. Hum christão da terra, estando pêra morrer, depois de confessado em sua casa parece que por sua pobreza não se achou digno de lhe trazerem o Santíssimo Sacramento a sua casa; veio aqui o collegio em hum palanquim recebe-lo e em remuneração desta humildade e conhecimento proprio antes que saisse da capella o levou logo Nosso Senhor para si. Converteo-se aqui nesta cidade huma moura de muita calidade, filha de Meale mouro a quem o reyno de Bala- guate por direito lhe pertence e porque ha muitas cousas particulares e notáveis que dizer em sua conversão que muito folgarão de saber, em outra carta sobre si com ajuda do Senhor lhe screverei por esta com ser tam difusa lhes não causar algum fastio. Como este anno estivessem todos//com grande alvo- roço de houvir novas e ver cartas da Companhia dessas partes, que he huma das cousas que qua cummumente se deseja e por que mais se espera, quis Nosso Senhor que carecêssemos todos deste gosto e consolação premitindo não chegarem qua as naos em que se dizia virem as vias e sabei, charissimos, que em tanto são ca desejadas vossas cartas que não somente os deste collegio mas nos todos os outros padres e irmãos que estão da índia muy alon- gados em provincias muy remotas estão tanto dependendo delias como de huma das maiores consolaçõis que no meio de seus trabalhos podem ter e para se mais verificar o tes- timunho desta verdade o padre Dom Gonçalo com o padre Antonio Carneiro, estando em Cochim entendendo as cousas que muito importavão ao serviço de Deos, como chegou o 3 56
tempo de as naos poderem vir, se vierão logo a este collegio, cem legoas por mar, com muitas trevoadas e chuveiros do inverno a esperar as cartas de que como digo todos care- cemos; somente a nova do transito de nosso padre Mestre Ignatio, fundador desta sancta Compnahia de Jesus tivemos qua; e posto que polia falta que tão insigne varão de si poderia deixar na terra com o apartamento e absencia sua causase em todos alguma maneira de sentimento e descon- solação, todavia ao ir elle de face a face diante do cons- pecto divino interceder por nossas necessidades como de lugar mais eminente as poder ver para impetrar o remedio delias, não pode deixar de excluir toda a dor e pena que a seus filhos em Christo por seu falecimento poderia fiquar principalmente como alembrar-se que, antes de consumar o termo de sua vida, deixou a todos regras e constituições como caminho feyto e ho ter na mão para sem dificul- dade poder cada hum seguir e emitar a Jesu Christo, nosso Mestre e Redemptor; Elle por sua infinita bondade e mise- ricórdia queira, charissimos irmãos, nesta vida aiuntar-nos todos, ainda que tão distantes nas terras, em perfeita união de amor e obediência e paz, semeando qua com lagrimas e trabalhos posam na futura gloria e com suma tranqui- lidade e alegria, ajuntados todos, colher o fruyto de sua gloriosa vista. Amen. Deste collegio de São Paulo de Goa, ao derradeiro de Novembro de 1557 annos. Por comissão do padre Francisco Roiz Servo inútil de todos Luis Fróis 357
43 CARTA DO IRMÃO LUÍS FRÓIS Goa, 12 de Dezembro de 1557 BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 13r.-17v. Gratia Domini nostri Jesu Christi et communicatio Sancti Spiritus dirigat corda nostra in viam pacis, Amen. Tendo-vos, charissimos, na primeira carta particulari- zadas algumas cousas assi da Companhia como da conversão desta gentilidade vos dizia no fim delia que em outra carta particular trataria da conversão da filha de Meale o farey aguora nesta, com a graça e favor divino pola grande con- solação e alegria que creo cada hum de vos, dileitissimos irmãos, em sua alma poderá receber, sabendo a nova con- versão desta molher e a misericórdia que Deos, Nosso Senhor, com ella usou. E no fim direy o que depois me lembrou que não vay escrito na primeira carta, de algumas outras cousas da Companhia com o mais que socedeo ate o tempo de cerrarem as vias. Meale, como la terão sabido das pessoas que de qua vão, he hum mouro ja de boa idade, prudente e esperi- mentado e, segundo a openião dos mouros, grande obser- vador de Mafoma. E muyto versado nos casos em Alcorão e porque a este, segundo dizem, pertence por direito este reyno do Idalcão que he muito grande passou por sua mesma ocasião o viso rey Dom Pedro que Deos tem as terras firmes com todo o poder da índia pera o meter de posse do reino e depois de seu falecimento ouve sempre 35*
guerra nesta cidade com os mouros do Idalção, a qual ainda dura. Este Meale de sua molher legitima tem dous filhos e huma filha, a qual dezia que o pai queria casar com hum filho mais velho da Izamaluco herdeiro do reyno, ou com o filho //dei rey de Bisnaga que he dos mais ricos e opu- C,3v í lentos reinos destas partes da India. Sua morada he aqui nesta rua, perto de São Paulo, e como he costume antre os mouros, principalmente, qua nestas terras terem as mo- lheres e filhas em sumo grao encerradas, parece que tomava esta filha sua por alivio e recreação de seu tão estreito recolhimento lançar as orelhas a doutrina que os meninos aqui cantão pola rua, assi quando vão a aprender ao colégio que he todos os dias, como quando vão e saen das escolas. Ajuntou-se com isto pousar junto dela huma muy nobre e vertuosa molher que he a molher de Diogo Pireira da qual ja na outra carta fiz menção, ambos unicamente amiguos da Companhia e que aqui frequentão muyto as confissões e comunhão e de quem o collegio recebe muitas charidades. Parece que polas janelas escondida do pay e da may se falavão. A Maria Toscana, molher de Diogo Pireira zelava tanto o bem de sua alma e com tanta vehemencia a per- suadia a se fazer christãa continuando isto quasi hum anno todo que lhe veo ela a dar disto algumas esperanças. Sobre- veo, depois, a moça ver, por dia de Pascoa, a procisão a Resurreição em que o padre Patriarcha levava o Santíssimo Sacramento em muy ricos ornamentos e aparato, e muytas festas e gente que o acompanhava, o que tudo lhe passava pola porta. E aliem disto vio também depois sair de casa de Dioguo Pereira os catecumenos (1) bautismo em pro- cição em que vinhão muitas molheres e meninos e o guover- (1) Espaço em branco. 359
nador com o patriarcha e outra muita gente acompanhan- do-os. Causou isto en sua alma hum tão novo desejo e ardor de se converter que era cousa estranha mas o que mais a afligia era ver que não tinha com quen se pudesse comunicar e que se viese ter a noticia do pai querer-se fazer christão que não escaparia da morte; poren o misericordioso Jesu, abundantíssima fonte de todos os bens, não deixou de lhe manifestar os modos convenyentes com que pudese conseguir seu desejado fim. Foi a molher de Dioguo Pireira visita-la a sua casa, que não foi pequena misericórdia de Deos consentir o pay a vesitação, posto que sabia que erão muyto amiguas, isto puramente pera a enduzir ao que dela pretendia e como a moça se lhe manifestase, dizendo-lhe quanto desejava fazer-se christãa, começarão secretamente tratar do modo com que podia ser e como nisso achassem muytas dificul- dades pela estreitesa de seu enserramento e a vegilancia que sempre en casa se tinha sobre ela, antre muytas cousas que lhe dise que entanto desejava ver-se unida ao grémio da igreja que como hum dia viesse o padre Pero de Almeida a porta de seu pai, pederia licença pera que o padre subise acima com determinação de se apeguar a elle e bradar com altas vozes que queria ser christãa; porem, como lhe o pai não deu licença pera que o padre subise, dizia que fora de Nosso Senhor ordenado não vir então aquilo en efeito, pelo periguo grande a que se punha de a matarem. Final- mente que não poderão então concluir o modo que se teria pera a tiraren de casa de seu pai. E se foi Maria Toscana pera casa, encomendando isto muyto a Nosso Senhor e praticando com seu marido sobre o mesmo en casa. Ambos a desejavão tão yntensamente que dezia Maria Toscana que se fosse polcivel pera vir a efeito a conversão desta tão nobre molher ir ela dormir a sua casa huma noite e deitaren-se ambas por huma janela fora com estar Diogo 360
Pereira e outros tres ou quatro irmãos da mesma Maria Toscana com alguma mais gente de resguarda pera as toma- rem quando se lançasen, que o faria de muito boa vontade sendo disto Nosso Senhor servido// e ao mesmo dia Diogo [|4r l Pereira parecia muito bem aventurar sua molher a isto e a todo o mais que pera este negocio fose necessário. Derão, depois disto, conta ao Padre Francisco Roiz pera que o praticase em o Padre Patriarcha e com o Padre Anto- nio de Quadros, porque então não estava aqui o Padre Dom Gonçalo nem o Padre Carneiro pera que buscasen o mais expediente modo que lhes parecese que convinha. Asentarão que mandasen a Maria Toscana a Meale pera sua filha a ir visitar e como la fose hir de qua do collegio o Padre Francisco Roiz, porem o pai escu- sou-se da licença, dizendo que quando da outra vez lha concedera Diogo Pereira estava na China e que não avia mais que molheres de casa, mas que aguora teria peio sua filha de poder ser vista de alguns homens, sendo isto fora de seu costume. Sentia a moça em tanta maneira a dilação de sua dese- jada hora que tudo afligia sua alma. Como avia estes impe- dimentos e por huma moura de quem ja se fiava frequentava muyto a visitação dos recados com Maria Toscana, dizendo- -lhe sempre quão prompta e aparelhada estava pera deixar pai e mai e o amor de seus irmãos e parentes pelo amor de seu Deos porem que deseiava muito, pois que convinha muito aos que querião salvar-se entrar pola porta da santa igreja, sair ela também livremente pola de seu pai pelo milhor modo que fosse pocivel. E que os padres da Com- panhia o buscassen. E no ultimo modo que se concluiu foi o sucesso tam bem que clara e manifestamente se vio ser de Deos Nosso Senhor. Dise o padre Francisco Roiz a Diogo Pereira e a sua molher que lhe mandasen dizer que mandase ella alguma joia sua de ouro ou prata ao 3 6 1
guovernador em sinal de como se queria fazer christãa com o qual o guovernador mostrando tal sinal a seu pai a pudese tirar de casa honradamente e sen escândalo, e confessando ella também que queria ser christãa, contentou- -lhe muito este aviso e mandou loguo a Dioguo Pereira huma joia sua que levase ao guovernador, declarando que o não mandava chamar pêra de novo receber homrra, pois que a tinha de seu pai e era rey natural ainda que privado do reino e de todos seos parentes e geração que descendia de sangue real mas que sua senhoria fose protector de sua vida temporal, dos periguos tão urgentes que se lhes offe- recião. Foi Dioguo Pireira com o sinal ao guovernador, dando-lhe particular conta do que nisto passava, o qual segundo depois dezia, não pode reter as lagrimas, levan- tando as mãos ao ceo e dando graças a Deos por ver na sua guovernação fazer christãa a mais nobre molher, depois desta terra ser conquistada poios portugueses. E polo mesmo Dioguo Pereira lhe tornou a mandar o guovernador hum diamante seu, posto em hum anel em que se offerecia a não somente a tirar de casa de seu pai, mas ainda em nome dei rey fazer-lhe todas aventagens e honrras que a calidade de tal pessoa merecia. Asentando isto desta maneira, sentião os nossos irmãos em casa grandes contentamentos e iubilos de alegria e o padre patriarcha e o padre Francisco Rois e Antonio de Quadros, mas ainda tão inteniseros (sic) e nos tão remotos do conhecimneto da causa que o não podíamos atribuir senão a esperança de algum notável serviço de Nosso Senhor que o tempo depois iria descobrindo. Dia do glorioso São Lourenço, medianeiro desta obra, determinou o guovernador de ir ouvir missa e preguação a este collegio e de caminho, antes que chegasse a igreja, a tirar de casa do pai e por ella ter dito que folgaria de a acompanharem algumas molheres por se não ver assi so 7,6 2
antre homens, por aviso que ja pera o negocio avia, em chegando o guovernador a porta do pai acompanhado de muitos fidalguos nobres e da guarda//que consiguo traz, ['•* v-D forão loguo duas outras molheres casadas e as prencipaes desta cidade en seus palanquios e deseran-se onde o guover- nador descavalgava, entre as quais ia Maria Toscana, sua mui cara e única amigua da alma. E o Meale, como vio descavalguar o guovernador a sua porta e mais em dia santo, indo pera a igreja, ficou mui confuso pola novidade da cousa, não entendendo ao que vinha veo recebe-lo em baixo a porta e o guovernador lhe dise a causa porque lhe vinha falar e como sua filha que vinha; veo recebe-lo em baixo a porta e o guovernador se conhecia aquele sinal que ali trazia e reconhecendo se começou a presuadir que seria aquilo assi. Enquanto elles estiverão nestas palavras, sobirão as molheres que hião buscar a moça pela escada asima e ella estava tão apare- lhada que as veo tomar ao meo da escada e apegou-se loguo a Maria Toscana e porque pareceo as molheres que enquanto o guovernador se detinha poderião ellas estar en cima esperando, tornarão-se a sobir com ella. A may da moça como vio as portuguesas em sua casa começou-se a perturbar e temeo o que poderia ser. Tomou a filha e asento-a junto de si, pondo-lhe a cabeça no colo pera mais seguridade. Neste comenos, depois de todos asentados, parece que entendeo hum mouro o que o guovernador em baixo estava praticando com o Meale, foi-se muito acelerado correndo pola escada acima e pola lingoa dise que se queria fazer christãa e que pera iso vinha toda aquela gente pera a levar. Alevantou-se loguo de cima assi a may como as outras parentas da moça que ahi estavão en casa e iunta- mente todas as mais criadas com grandíssimos clamores e vozes e tirando rijamente por ella, trabalhavão todas as mouras pola deitar por huma porta de alsapão abaixo; 363
as portuguesas peguavão por outra parte pola moça, de modo que se travou a brigua por taes termos que quasi todas andavão em cabelos, sendo como diguo as molheres que ay ião das mais nobres e graves desta cidade e que somente terião por afronta suiarem-lhe as mouras seus ves- tidos de veludo com as mãos, quanto mais tratarem-se suas pessoas tão mal. A moça agitada de tão vários encontros e do que mais era ferida com as lagrimas e dolorosas pala- vras de sua may e parentas; Ja charissimos, podereis ver en que engustias estaria. Todavia sempre teve tal acordo que com os olhos fechados não desapegava de Maria Toscana e das outras portuguesas e vendo que huma moura tinha lançadas as mãos a garganta de huma destas molheres a reprendeo tão asperamente que de confusa desistio de a oprimir. O guovernador, ouvindo em baixo os brados e revolta que avia, sobio pola escada muyto a preça a ver o que era e foi grande misericórdia de Deus, porque andavão as molheres portuguesas tão fracas e cançadas que quasi hião as mouras encaminhando a moça pêra a precipitarem da porta dalsapão abaixo. E ainda a may e parentas a tinhão tão fortemente apertada, chorando e voseferando, que com trabalho as pode o guovernador por na escada pêra se deserem. Estava ia a porta do mesmo Meale hum palanquim do guovernador muy rico pera a levarem, cuberta a cama de setim carmesim marchetado de ouro, em sua alcatifa de muito preço e almofada de borcado e seu pano de veludo carmesim por sima cuberto, se não quando vem duas velhas amas suas muyto a pressa e com humas alparcas muy pouco limpas ou quasi cheas de lama e se meterão no palanquim [is r.] que pera a Senhora // estava preparado, antes de se desce- rem e de todo se desferirem (sic) da resestencia que as mouras lhe fazião algumas parentas da moça, movidas pelo amor que lhe tinhão e polo sentimento de sua ausência 364
que lhes ficavão, segundo ella depois, querião, pedião ao guovernador que as levase consiguo e tirando-lhe pola capa com grande instancia, mas pola falta de não entenderen a lingoa, assi ele como as portuguesas que ali estavão, não lhes parecia senão que lhe empedião, defendendo que a não levasem; e assi ficarão todas descabelando-se e fazendo grandíssimos prantos e os mouros e toda a mais família de sua casa de admirados de si, não sabião aonde se metesem nen o que disesem. Posta ela no palanquim, foi o guovernador acompa- nhando-a, apegado a cana com os outros mais fidalguos e muyta gente que ay estava iunta; e com grande alegria e contentamentos a levarão pêra casa de Dioguo Pereira, acompanhando-a Maria Toscana e as outras molheres que a forão buscar onde ia estavão as charamelas do guover- nador esperando-a a janela e a casa tão preparada como convinha. Era isto, como diguo, dia de São Lourenço, pela menhã e porque o povo não sabião do caso hião alguns homens correndo a cavalo dando a nova pelas ruas. A qual che- gando a see onde o Padre Mestre Belchior estava pregando, foi tão grande o reboliço e alegria do povo que com difi- culdade podião ouvir o que estavão pregando e esperar a missa do dia. Posta de maneira com muita honra em casa de Diogo Pereira, porque ainda ia emburulhada em huns panos, con- forme a seu costume, ficou o guovernador com o ouvidor geral e o padre Francisco Roiz com outras pessoas nobres esperando na casa de fora pera lhe fazerem preguntas, se queria ser christãa. E saio então de dentro com hum vestido rico a portuguesa e muy livremente dise que se queria fazer christã; fes-se daquilo hum asento em que asinarão os cir- cunstantes e ela mandou que também en seu nome asi- nassem.
Quando a tirarão de casa do pai, saio apos ela hum eunucozinho seu, mui vivo e esperto, apeguado das roupas ao guovernador e que lhe iurava pola cruz que se queria fazer christão e ele se meteo dentro no estrado com sua senhora, o qual depois que se fez christão a senhora mandou que o posesen neste collegio pera aprender a doutrina, onde aguora fica. E dali se tornou o guovernador pera o colégio ouvir missa e preguação. Na portaria do colégio estava o patriarcha com todos os padres e irmãos e muyto alegre veo polas crastas, dando nova do que tinha feito aos padres, de que todos se conso- larão muyto em Christo. Preguou aquele dia o Padre Anto- nio de Quadros e ao martírio de São Lourenço aplicou a conversão dos christãos e a merce que de Deos, Nosso Senhor, todos tínhamos recebida naquele dia que foi hum dos altos e vehementes sermõis que qua tem feitos na índia. Mostrou-se o guovernador todo favorável nesta obra e tão deseioso de por sua parte ser muy ilustrada e engrandecida a conversão desta senhora que sem duvida se enxerguou ben nele quanto en isto era conforme a vontade e intenção de nosso christianissimo rey de Portugal. Loguo de sua mesa lhe mandou iguarias aquele dia e suas violas darco, doçainas, que a fosen alegrar de algumas relíquias das saudades que ainda do amor materno lhe poderião ficar, mandando a Diogo Pireira e a Maria Toscana que a tratasen en todo seu serviço e estado, como princeza e filha de rey que era, ainda que eles por sua muyta vertude tinhão diso [•5 *•] tal cuidado que sen duvida punhão e poen oje // en dia en confussão esta cidade, porque assi a tratão e servem e amão, como se fora muyto mais que filha propia natural, e en tanto que não ha aynda quatro meses que a ten em casa, segundo tenho ouvido e en jóias e vestidos pera sua pessoa lhe ten dado passante de mil pardaos e não somente a ela, mas a duas molheres suas que consiguo trouxe, man- 366
dando asperamente a senhora fazer-se christãas, as vestio Maria Toscana de vestidos muy ricos de sua propria pessoa e en dous palanquins muy honrrados as trouxerão em hun dia de somana a bautisar a este collegio. Quando tornarão pêra casa, não lhes pareceo que poderião ser capazes de taes vestidos, perguntavão a Maria Toscana o que farião delles se os tornarião a por na sua guarda roupa, a qual rindo-se e alegrando-se muyto de as ver ja christãas, lhes dise que não tão somente lhes dava aquelles mas também lhes daria outros que pela somana podesen trazer. Pedio o guovernador ao padre Francisco Roiz que a fose visitar os mais dos dias ate se bautizar, instruindo-a nas cousas da fee e dando-lhe a entender a misericórdia grande que Deos, Nosso Senhor, lhe fazia com que ela muyto folgava, porque como dantes entendesse muyto bem a lingoa do Alchorão e os mais livros da seita en que vevia, assi lendo como escrevendo, mandou-se-lhe (sic) a curiosi- dade na ley evangélica e en muyta maneira folgava de preguntar e saber as meudezas, particularidades e serimo- nias da igreja, quando ala vão e sinte os padres da Com- panhia, e en tanto deseiava isto que ainda quando estava em casa de seu pai, lhe pedio huma vez muyto que a levase consigo algum dia a ver a see desta cidade, porque deseiava muyto ver as imagens dela e como estavão ornados os tem- plos dos christãos pera o qual lhe tinha dado licença e prometido que a levaria. Mandou-lhe loguo o governador a casa pessoas ricas pera se vestir assi de gorgeiras de ouro como de alfaiates com licença pera os mercadores darem todas as escarlatas e veludo e setins que lhe fossem necessários pera o dia do bautismo; trouxe ela também muy ricas pesas de casa de seu pai, mas por não serem feitas ao uso dos christãos as mandou desfazer todas e tornar a fazer de novo, dizendo que ainda aquilo não queria que lhe ficase de seu antigo viver. 367
Desde o dia de São Lourenço, que foi a 10 de Agosto ate 15 do mesmo mes que era dia da Apsunsão de Nossa Senhora, se aparelharão nestes quinze dias as cousas neces- sárias para o seu bautismo, asi qua no collegio, como na cidade os fidalgos e pessoas nobres. O pai e a mai, como moravão muyto perto dela sabião que poderia a filha ouvir as voses dos parentes e tristeza que por sua ocasião avia, vendo ainda o demonio se con isto poderia ter alguma entrada. Todas as manhãs se ajuntava a família en hum corpo e dava tão grandes gritos que qua no collegio se ouvião e sem duvida paredão por espanto e temor a seus vizinhos e a gente que passava pela rua. A mai dise que rapou a cabeça en sinal de sua tristeza (1); a vehe- mentia do sentimento adoeceo e estava muito mal e a algu- mas pessoas ouvi que se punha nas janelas mais // propin- quas, donde parecia que a filha poderia estar, e com grande abundancia de lagrimas estava fazendo coloquios e pro- pondo-lhe todas as magoas que huma tão sentida poderia dizer e, posto que a filha ouvia tudo isto que era asaz materia pera se muyto perturbar, não deixou nunca de ter a mesma igualdade e permanente na fe, dizendo que não lhe pesava senão da ignorância da may e do periguo em que sua alma ficava. Ella naturalmente he tão grave e responde com tanta madureza e peso ao que lhe dizem e com tanta honestidade que sem duvida parece enxergar-se nella a nobreza do san- gue e criação real. En estes cinco dias, antes de se bautizar, nos mouros e gentios e bramenes e nos christãos da terra e nos proprios portugueses avia tanta admiração que totalmente não se podião persuadir que a filha do Meale se fizesse christã; e porque naqueles dias chovia muyto, tinha-se determinado (1) Espaço cm branco parecendo subentender-se a preposição com. 3 6 8
de se fazer o bautismo em casa do mesmo Dioguo Pireira, mas pela desconsolação que o povo recebia e também pera maior confussão dos mouros e gentilidade asentarão que, ainda que chovese, não deixasem de a bautisar qua na igreja com todas as festas procisões. E asin quis Nosso Senhor temperar nossa alegria que todos en Ele mesmo tinhamos, permetindo que ouvese então aquele dia de Nosa Senhora grandíssima copia de agoa, mas, ao tempo do bautismo, deu luguar pera se tudo fazer como a honrra e serviço de sua divina magestade convinha. Mandou o guovernador aos fi- dalguos que visen de colares douro e vestidos gualantes e o ouvidor da cidade que mandase embandeirar e limpar esta rua toda de bandeiras e estandartes do almazen e que ouve- sen canas e touros pera aquele mesmo dia e com muitas arvores e iuncos pela rua e todas as mais particularidades que tão selebre festa requeria. A nossa igreia estava de pontifical, com os mais ricos ornamentos do padre Patriarcha e na taboa, com que se cobre a pia dagua benta, estava da banda de dentro pintado de dentro de novo o bautismo de Nosso Senhor no rio Jordão muyto devotamente e por cima humas cortinas de seda e a mão direita da mesma pia hum altar portátil com seus castiçaes de prata pera os oleos e mais vasos do bautismo. Acabadas as besporas, que se aqui então diserão muy solenemente com grande multidão de gente que ia estava esperando na igreja por este acto, veo o guovernador muy ricamente com todos os fidalguos nobres a cavalo muyto galantes e trouxeram-na en hum palanquim riquissima- mente ornado e suas madrinhas e outras ao derrador dela, com suas trombetas reaes diante, charamelas, frautas e ata- bales que parecia, sem duvida, não se poder ninguém ouvir asi polo rumor do grande concurso de gente que vinha a ver, como das vozes dos instrumentos e danças e pelas que ião diante e sinos que repicavão e o estrondo das Camaras de 369 DOC. PADROADO, VI 24
artelharia que se desparavão, que era cousa de grande admi- ração. Deceran-se todos a huma cruz que esta no cabo do terreiro do collegio e da igreja, sairão todos os meninos em procição a recebe-los com sua cruz al levantada e elles com suas capellas de ramos que com muita dificuldade podião romper pola gente, porque não somente dos fidalgos e do povo e de muitos cavalos estava a rua e traveças cheas, mas ainda de gentios e bramenes e mouros dos quaes gran- díssimo numero vinha a ver. Sahio o Padre Patriarcha da capella mor pêra a porta da igreia com quatro padres de capas e outros de sobrepelizes e [16 r.] SUa paternidade com seu bago na mão e mitra // na cabeça e huma riqua capa pêra bautizar e diante dele quatro irmãos de sobrepelizes; hum que trazia a capa dos oleos em hum bacio de prata dourado cuberto com veo; e outro, o saleiro e outro, o gomil e outro, o bautisterio e os mais padres e irmãos con seos manteos acompanhando; foi tanta a gente no fazer das sirimonias a porta que não abastavão os ouvi- dores e meirinhos da cidade com suas varas poderen fazer lugar ate que o proprio guovernador, tomando nas mãos huma, andava fazendo lugar com grande contentamento e alegria. Poserão-lhe nome Dona Maria, por se bautizar no pro- prio dia de Nossa Senhora da Assumpsão; forão seus padri- nhos o patriarcha que a bautizou e o guovernador e Maria Toscana com outras molheres nobres. E feita oração na capela do sacramento a tornarão a levar com grandes festas pera casa de Dioguo Pereira, onde deixo de tocar as mais particularidades que aqui socorrem pera escrever por não ser tão difuso. Mandou-lhe o guovernador, por huma patente dei rey dar mil pardaos de renda, cada anno, ate Sua Alteza dela determinar o que for mais gloria de Deos. Day alguns dias parece que desejava o pai e a may muito de a verem; levou-lha la o guovernador en sua pesoa com 37°
Maria Toscana e a tarde a tornou a buscar e por en sua casa e também a levou a São Dominguos por os padres lhe terem pedido que fosen ver seu mosteiro e com procissão e cruz allevantada a sairão todos a receber. Ocupa-se en aprender a doctrina christãa e entender as cousas da fee que os padres da Companhia lhe vão ensinar. Deos, Nosso Senhor, con- firme nela o que tem começado e pois se lhe deu assi mesmo a conhecer por fee nesta vida de sua gloria e visão e bem aventurança eterna e faça dina na outra. Posto, charissimos, que o que toca ao nosso em Christo e bem aventurado padre mestre Ignatio como cousa a nos muito tocante e das cartas mais esential se ouverão de escre- ver no principio delias, a rezão porque o deixei de fazer foi porque guardando a ordem de tudo o que qua tem socedido não podia escrever suas exequias senão depois de feitas e isto fez ja depois de ter escrito as vias ate qui. E porque fol- guarão de saber quão solenissimamente forão celebradas direi o que me ocorre, ainda que nisso tema não poder bem a carta explicar o que a realidade da cousa mostrou. Aos vinte quatro de Novemro, em hum dominguo, pre- guando o padre Dom Gonçalo na see e o padre Francisco Roiz aqui no collegio; diserão nos púlpitos como, a terça feira, a tarde, se avia de fazer aqui o officio polo Padre Mes- tre Ignacio e, a quarta, pela menhãa, missa e preguação. Desda segunda feira, pela menhãa, se peraoamentou (sic) a igreja toda deste modo: a igreja toda da capela mor ate a porta principal se cobrio de panos pretos e os altares com seos frontaes de veludo preto que pera iso se buscarão; o pano do púlpito do mesmo e no corpo da igreja, da primeira grade pera dentro, com muytos carpinteiros que pera isso se mandarão pedir as obras dei rey emprestados, e se fez huma escada de sete degraos muito sumptuosa por sima da qual, ao longo dos tirantes, estava o sobreveo grande preto que a cobria toda e en cima da essa huma tumbazinha 37 1
pequena, cuberta com huma capa de veludo preto, e huma cruz rica posta a cabeceira; ao redor destes degraos estavão quarenta e quatro castiçaes de prata, a saber: vinta quatro grandes de altar com velas grosas e vinte pequenos com outros mais delgados e oyto pelos altares e por fora da escada com bancos, cincoenta tochas acesas, e no campo que ficava da essa ate as grades da capella mor, escabelos com alcatifas pêra os padres que avião de dizer os salmos. [17r.] A terça feira,//a tarde, estando ai tudo preparado, veo o guovernador ao officio com muyta gente e muitos religio- sos de São Dominguos e São Francisco pêra neles aiudarem aos padres Francisco Roiz e Belchior Carneiro e Antonio de Quadros com os mais de casa. E alguns irmãos e religiosos de fora que cabião nos bancos diserão os salmos da besporas e o primeiro e o segundo nocturno muy devotamente, as antífonas e invitatorios e orações com muitos cantores de fora e dezião os meninos de casa outro choro que tinhão sobre si e os mais religiosos que ali não cabião estavão em sima do choro, ouvindo o officio. O Padre Patriarcha estava na capela mor, em cima, a mão direita do altar, en sua cadeira rica de pontifical, com capa preta; e forão a besporas seus assistentes o padre Dom Guonçalo e o prior de São Dominguos, com mais quatro religiosos de fora, tamben de capas. As lições dise- rão-nas os padres das mesmas ordens e orações e responsos o Padre patriarcha. Nos quatro cantos da escada andavão quatro meninos de sobrepelizes que todo o officio assi de besporas como da missa do dia seguinte a encensavão com quatro turibulos de prata e outros com navetas em que tra- zião encenso. Acabado o officio, ate o outro dia, a missa, dobrarão-se muytas vezes os sinos de noite e de dia e en amenhecendo se juntarão loguo os religiosos de casa e de fora e diserão o treceiro nocturno que lhes ficara de dia de antes pela mesma ordem com seus assistentes e padres de 37 2
cooas e diácono e sodiacono. Disse o Padre Patriarcha missa, onde tamben esteve o guovemador. Preguou o Padre Dom Guonçalo duas oras e passante delas das obras eroicas e ver- tudes insignes de nosso Padre Mestre Ignatio, tratando tam- ben das obriguações en que lhe estas partes erão, pois que dele, como de raiz e tronco, forão produzidos estes ramos da Companhia, dispersos pera o bem das almas por tão varias e remotas regiones e províncias; veo depois o padre Patriarcha no fim da missa e preguação com sua cruz ale- vantada diante a encensar a mesma esa em redor, deitar-lhe agua benta e dizer o ultimo responso com muytos cantores de grandes falas que se também aiuntarão pera o mesmo officio, jantando aquele dia qua todos aqueles religiosos, louvando asi muyto a ordem daqueles devinos officios com a celebridade e devação com que se fizerão. Todos os padres do collegio diserão suas missas, aquele dia, pelo mesmo efeito e os irmãos, os salmos penitenciaes e ladainhas ate tres e quatro e o mais que cada hum, por sua devação, que- ria; a mesma lembrança se mandou fazer por todas as outras partes por onde os padres da Companhia estão pera que la disesem suas missas e os irmãos os salmos. Escrevi isto, cha- rissimos, assi sucintamente, porque sem duvida mais me pareceo o officio pera muito provocar a devação e mover os ânimos que pera se poder escrever as particularidades delle. Aos quatorze dias do mes de Setembro, naquella coniun- ção que as naos do reino vierão, deu nesta cidade huma doença de dor de peitos, tosse, febre, cadarro que foi causa de grande espanto e admiração nesta terra, porque quasi não ficando ninguém nella que não adoesese; sendo isto no tempo de guerra, quis Nosso Senhor, por sua bondade, que não morrese nynguem da mesma doença. Neste collegio os padres e irmãos e meninos juntamente adoecerão todos e avia dias de vinta cinco sangrias; aqui, por não aver ia offi- ciaes en casa, o padre Belchior Carneiro e o padre Mestre 37 3
Belchior e Antonio de Quadros, que ainda estavão em pee, [,7 T0 servião de em // fermeiros e do mais que era necessário; porem não tardou muyto que elles não caisem também, de modo que foi necessária vir Andre Frances e outros dous ou tres soldados de fora seculares ministrar-nos o comer e terem cuidado dos irmãos; cada hum a donde lhe dava a febre ali se ficava, ate que depois ião dar com elle, porque tudo então servia de enfermaria, assi que com seremos perto de duzentas pessoas nesta casa ou passante delas, com os meni- nos e mais moços da terra, soomente o padre Dom Guon- çalo, a força de dissimular com a doença, posto que tão enfermo e mais que os outros, ficou em pee e com o favor divino dahi a quinze dias fomos todos sãos. En São Dominguos me diserão que fora a doença tão súbita que, por caírem todos iuntamente e ia não terem de quen se servir, se aiudarão dos porteiros seculares. Forão estes ares corruptos descorrendo pola costa ate Cochim e, segundo muitos homens dezião, entre os mouros e gentios morrião muytos. Foi este hum maravilhoso estimolo de Deos, Nosso Senhor, pera os descuidados e pouco vigilantes da ora da morte. Pera o cabo de Comorim he ido o padre João de Mez- quita e o Padre Michael. O baustismo que se fez neste colle- gio por dia de São Martinho foi de duzentas almas menos tres ou quatro que ainda não estavão chatequizados e pasa ia o numero dos que se este anno bautizarão neste collegio de mil e tantas almas. O segundo dominguo do advento ordenou o padre patriarcha quinze religiosos da ordem de S. Dominguos. Deos, Nosso Senhor, acresente o numero de seus servos nesta terra pera socorreren as muytas necessi- dades que qua se offerecen de seu serviço e por sua infinita misericórdia ordene também com que grande numero destes benditos padres e irmãos de Europa venhão aiudar en seu ministério sagrado nesta tão santa e difusa vinha sua, dando- 37 4
-nos a todos inteiramente a sentir sua santíssima vontade e esta perfeitamente comprir. Deste collegio de São Paulo de Goa, aos 12 de Dezembro de 1557. Por comissão do padre Francisco Roiz Servo inútil de todos Luis Fróis. 375
44 CARTA DO PADRE MESTRE BELCHIOR AOS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA Cochim, 10 de Janeiro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Pis. 108 v.-112 v. (1) A graça e pax de Christo, Nosso Senhor Jesu Christo, faça continua morada em nossas almas. Amen. Não consinte, charissimos irmãos, o amor mui verda- deiro, que a todos mesta minima Companhia do nome de Jesu tenho, deixar de me conversar convosquo por cartas, ja que o amor do mesmo Jesu Senhor Nosso, nos tem tam apartados que vos não posso ver, ouvir, nem consolar-me com vosa presença; louvado seja Elie para sempre de toda a criatura, porque ordenou que as noticias dos absentes que nElle muito se amão causem tão suave lembrança das vir- tudes e obras sanctas dos que estão longe, como se sempre com olhos corporais se vissem. Antes parece que o conheci- mento do entendimento causa hum amor mais spiritual e mais semelhante ao dos Anjos que o conhecimento sensi- tivo, ou imaginação pollo qual nenhuma ventagem damos os que qua andamos aos que la estais presentes no amor verdadeiro e na alegria e contentamento do vosso proveito spiritual e em darmos de continuo graças ao Senhor Deos polios doens que cada vez mais sua divina bondade nos conversa, e em pedirmos cada dia a sua divina magestade vos conceda outros maiores, pera maior gloria sua. Bem creo que os mesmos affectos de charidade sempre nos respondeis II) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 58 r.-63 r. 376
a qual quanto mais viva em nossos coraçõis tanto ade causar mais perpetua de nos in conspectu Altissimi. Elie polia sua divina clemência a todos os de ca e os la queira dar perse- verança e crecimento em seu sancto serviço ate a morte. E pois esta he a entenção da sancta obediência e chari- dade nos obriga a escrever particularmente cada hum de nos as cousas que Nosso Senhor obra por estes seus fraquos ins- trumentos da Companhia e os pobres trabalhos que a Sua Magestade offerecemos cada hum segundo sua pouqui- dade (2) para que huns nos animemos com exemplos de outros. E como o mais pobre e inútil de todos dareis conta a meus dilectissimos irmãos de como gastei meu tempo para que polias faltas peçais por mim perdam e polios bens deis graças a cujos são e de quem vem. Eu lhes escrevi o anno de 1555, no mez de Dezembro de Lampachao, porto da China que esta dezoito legoas da cidade de Cantão, onde invernei aquelle anno por arribar- mos e não podermos yr a Jappão; as misericórdias que Deus Nosso Senhor nos fez naquella viagem, quantas vezes nos demos perdidos, ora dando em baixos, ora huns navios por outros, ora correndo tempestades e tais perigos que clara- mente experimentamos que cousa he qui vult animam suam salvam facere perdet earn. Ali com meus companheiros naquelle porto estive ate o Junho seguinte que era a monção para ir // a Japão. Estando d® r-1 em Lampacao me forão cartas dos padres da India em que escrevião que era necessário tornar-me o mais cedo que podesse ser para a índia, porque viera o viso-rey Dom Pedro Mascarenhas tão zeloso da honra de Deos e tão verdadeiro amigo da Companhia com que todo o serviço de Deos se poderia acabar e que não vierão com elle padres do reyno (2) Pouquidade é palavra corrigida. 377
mais que o padre Francisco Vieira e Diogo do Soveral e que não estava asi bem o colleguio de Goa com os mais da índia. Mandarão-me também huma carta do padre Mestre Ignacio para o padre Mestre Francisco em que lhe escrevia que, quanto la podia julgar, não pareceia conveniente pollo carrego que tinha sair-se da India e ir-se a China ou ao Japão, em que cria que a divina sapientia o ouvesse dirigido. Daquella carta colligimos ser entenção da santa obedientia nenhum proposito da índia sair-se delia. Mas como não fosse la monção para a India e também viessem novas de Japão de muito fructo que la se esperava com a nossa ida assentei, por gloria de Nosso Senhor, envernar na China e, como viesse a monção de Junho, hir ao Japão com proposito que se la não levasse muito a honra de Deos e conversão daquella gente fiquar eu aquella terra que eu me poderia tornar, con- forme a entenção da santa obedientia e a necessidade da India, que me avião escrito. Como assentamos de envernar em Lampacao, esperando monção para o Japão, entendemos em fazer algum fructo nos portugueses das naos que ali envernavão que cuido serião perto de trezentas... (a). Oje, 10 de Janeiro de 1558. Escrita em Cochim. De Vosso irmão e servo Mestre Belchior (a) Seguem-se só notícias relativas ao Japão 37 8
45 CARTA DO PADRE FRANCISCO PEREZ AO PADRE MIGUEL TORRES Cochim, 13 de Janeiro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fit. 278 r.-280 v. (1) Jeshus Reverendíssimo Padre. A graça e paz de Nosso Senhor Jesu Christo seia sempre em ajuda e favor de Vossa Reverencia e de todos, Amen. Obediência me obriga e constrange a escrever a seguinte, porque doutra maneira nada escrevera. Escreverei o que vi e ouvi e passei, para gloria de Jesu Christo a Quem se deve todo o louvor e edificação de seus membros. Primeiramente, depois que os padres vierão o anno passado de 557, veo aqui a Cochim o Padre Belchior Carneiro e, depois delle, o Padre Dom Gonçalo, o qual começou a por em ordem, segundo as constituiçõis da Companhia e forma de viver delia, esta casa de Cochim, que se diz da Madre de Deus, como de feito pos, ordenando como estivesse na igreja o Santissimmo Sacramento // e se pregasse todolos domingos [278 v.] e festas; do qual se he seguido muytos fruitos. nas almas dos fieis christãos, porque se confessa a meudo muyta gente e toda esta cidade assi da terra como dos portugueses. Aconteceo na Coresma deste anno que estando hum homem em huma rua principal desta cidade, o qual foi pri- meiro judeu e tornou-se christão em Malaca, homem perto (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 82v.-84v. 379
de cincoenta annos, muy visto na Escritura; chegou-se a elle hum homem português e, segundo dizem, christão novo e disse-lhe: «bem ruim he o homem que deixa sua lei por tomar outra», e assi, outras palavras desta maneira que vierão a peleijar por palavras; veo então a fazer queixume a casa ao padre Belchior Carneiro; disse-o ao vigário desta cidade e o vigário mandou prender aquelle português chris- tão novo. Como ca o negocio acerca disso anda muyto grande não lhe deu pena, senão que pagasse cincoenta pardaos e o mandou soltar. Ei contado isto polo que adiante socedeo. Indo hum dia o Padre Belchior Carneiro, depois disto, por esta rua, tirarão huma frecha não se sabe donde, que passou duas dobreses do barrete dobrado, que se assi lhe acertara pola cabeça, como foi para huma banda actuum esset. Sospeitou o padre que por ventura lhe tirarão alguns christãos da terra dos que qua chamamos de São Thome, porque avia entrado em estas partes hum bispo arménio, mandado por hum patriarca de Armenia, que não obedecia a Igreja Romana. E o padre Belchior Carneiro avia andado la alguns meses pola terra dentro, dissuadindo aos christãos que não quisessem seguir aquelle bispo. Alguns obedescerão outros não e derão-lhe seus filhos para que os ordenasse, demaneira que aquelles que se abraçarão com o bispo armé- nio estão mal comnosco e, por esta causa, cuidava que seria algum destes christãos o que tirou aquella frecha, porem, a mim nunca se me persuadio tal, mas cuidei que por causa da prisão do christão novo veo a frecha, porem nenhuma cousa destas se sabe certo, nem eu em nada me certifico. Outra cousa mayor aconteceo que no sepo do Santíssimo Sacramento na se desta cidade, se achou hum escrito ale- trado, qual não digo aqui, porque sei que la o ande ver polas cartas que vão de ca. E em São Domingos se lançou outro de avisos, dizendo que avia nesta cidade muitos chris- tãos novos que fazião muitas injurias a Nosso Senhor e por 380
estes escritos se acenderão os religiosos e requererão ao vigairo que fizesse inquisisão e finalmente se fez e por ella se mandarão prender perto de vinte pessoas, que ainda estão presas. Destas cousas não escrevo meudamente porque sei lhas escreverão. Avera quatro ou cinco annos que na Pescaria do Aljôfar, entre aquella christandade, se levantarão, entre huns e outros, grandes arroidos e bandos de maneira que erão mor- tas, de huma parte e da outra, seis pessoas // e feridos e t279 r espancados muitos e por esta causa não se fazia fruito e ainda o feito se perdia. Avian-se buscado muitos remedios e este anno de 57, para se por fim a este mal, mandou-se la hum ouvidor com a ida do qual se encenderão mais os ban- dos; quem tem culpa Deus lhe perdoe. Estando o negocio assi encendido, o Padre Anrrique Anrriquez escreveo ao Provincial que estava em Cochim que era necessário ir elle la porque estava aquella gente para se perder, porem, por elle estar ocupado no negocio da inquisição, não foi e determinou de me mandar la. E parti daqui, o dia da Ascenssão de Nosso Senhor Jesu Christo, no inverno, por terra, que são daqui setenta legoas, porque neste tempo não se navega polo mar e ate Coulão fui por rios em companhia de mouros e gentios e, dahi por diante, por terra, visitando os lugares dos christãos que estão junto do mar, os quais estão desemparados por não aver tanta gente quanta he necessária para andar entre elles e baptizar- -lhe os filhos que he grande fruito, porque dizem que desta costa irão cada anno ao paraíso mais de seiscentas ou oito centas almas destes meninos, que morrem depois de serem baptizados e, quando cheguei a Ponicalle, achei ao Padre Anrrique Anrriquez doente, desgostoso de ve-los assi em bandos; e estavão em hum bando toda a mais da costa ajun- tados a fazerem hum regedor-mor, que elles ca chamão patangatim, por autoridade do governador e temiam-se os 38/
contrários que dessem sobre elles, por serem poucos os cou- trarios e, vendo nos o negocio estar destas maneira, pareceo bem ao Padre Anrrique Anrriquez que eu fosse a falar com elles, para lhe fazer, se podesse, desfazer o ajuntamento e que se fossem cada hum para suas casas. E para isso lhe escrevi humas regras e elles mandarão dizer que folgavão muyto e para isso me mandarão hum cavalo, mas não lho quisemos aceitar, porque não dessemos a entender aos outros que éramos do seu bando. Todavia fui la ao outro dia, pola menhã, com o Padre Diogo de Soveral e outro irmão e elles nos sairão a receber com muita alegria e nos assentamos debaixo de huma arvore e praticamos e, por fim das rezões, me prometerão que se irião para suas casas e que não bole- rião em nada, porem todavia pedião que lhe fizesse justiça e assi o fizerão e desfizerão o ajuntamento e se forão para seus lugares e forão obedientes. Depois disto, fui visitar hum lugar que estava quatro legoas de Punicale, onde avia quatro annos que não lhe dizião missa por falta de padres e he hum lugar grande dos mayores que ha nesta costa e lhes disse missa alguns dias e baptizei muitos meninos e alguns adultos e casei muitos, de que elles ficarão contentes e escreverão cartas ao Padre Dom Gonçalo que lhes mandasse padres letrados para terem em cada lugar hum padre; e para averem em cada lugar hum padre, são necessários doze padres, com ter todavia alguns carrego de quatro e de cinco lugares. E depois de estar la obra de dois meses, me tornei por terra com o Padre Anrrique Anrriquez por assi ser mandado pola obe- diencia e chegamos a Cochim no fim // de Julho que acaba com o inverno, que he cousa maravilhosa, que desta banda do Cabo para Cochim, desde maio ate Agosto, he inverno e da outra banda para onde nasce o Sol, he verão. E de Setem- bro ate Maio, he inverno da banda do Nascente e da banda do Ponete, he verão. Ca não chamamos inverno ou verão 3 5 2
senão porque chove ou não. E o Padre Anrrique Anrriquez consolou-se com o padre Provincial e depois dahi a dez ou doze dias me tornou outra vez a mandar por mar, donde por ser ainda inverno passamos tempestade de maneira que dizia ja o mestre: «praza a Deus que vamos ter a alguma terra», porem Nosso Senhor por sua misericórdia e piedade nos levou a salvamento a Punicalle. E pondo em ordem, com ajuda de Nosso Senhor Jesu Christo e intercessão da Virgem Nossa Senhora, sua Madre e de todolos santos anjos e santos benaventurados a quem eu tomei por intercessores desta viagem e particularmente aos gloriosos benaventurados apostolos São Lourenço e Santo Antonio e São Domingos, ao que era mandado, que era para estorvar que não ouvesse entre elles alguma batalha, porque estavão para ir a Pescaria, a huma parte, querião levar por regedor-mor, que elles chamão patangatim-mor, a hum de que toda a mais da gente não era contente e mais não lhe pertencia por justiça, segundo seus custumes e segundo depois se determinou; assi que metendo a mão nisso, depois de muitos transes e trabalhos, vierão toda a mais da gente a obediência do capitão Manoel Roiz Coutinho, porque não lhe obedecião nem querião vir a seu mandado e isto foi com sua ajuda e favor, com elle mandar apregoar por patan- gatim-mor ao que elles avião elegido e assi se ajuntarão na igreja (2) de Ponicale todos os regedores de Bembar, Chi- topar, Vaipar, Tutocorim, Punicale, Dirabandi, Patanão Tri- candur, Alendali, Manapar, e fizerão este contrato de ami- zade que se segue: «O anno do nascimento de Nosso Senhor Jesu Christo de 1557, aos 27 dias de Setembro do dito anno em esta povoa- ção de Ponicale, dentro na igreja do dito lugar, estando ahi (2) BACIL: em vez da palavra igreja, lê-se a palavra guerra, sendo erro evidente do copista. 383
o senhor capitão Manoel Roiz Coutinho, e o padre Fran- cisco Perez, provisor da dita Costa da Companhia de Jesu e bem assim os principais patangatins e mais da dita Costa que o capitão mandou chamar em seu nome e do povo, per antre elles aver algumas diferentias e ymisades e elle, dito capitão, e padre meterão mão nisso para os concordar e fazer amigos e como de feito fizerão as ditas amizades antre elles e se abraçarão e ficarão amigos. E para mais firmeza todos em seu nome e do povo fizerão ola de considiaçam (3) e amizade seguintes que todos os patangatins desta costa polo povo de todos os lugares, em nome de todos, em geral, e cada hum, em especial, por si, nos apras de nossas próprias vontades, sem constrangimento nenhum, todos juntamente sermos amigos e conformes, pois todos somos de huma gera- ção e isto fazemos, porque somos christãos e parecera mal aver entre nos deferenças e ynimizades com o serviço de Deus, e avemos por bem, de oje por diante, não aver entre nos diferenças, mas antes sermos amigos e todos acudirmos [280 r.] huns poios outros // a todas as necessidades; e aasi nos apras de sermos obedientes a santa Madre Igreja de Roma e gardarmos e comprirmos tudo o que nos for mandado pelos padres e irmãos da Companhia de Jesus como filhos muy obedientes que daqui por diante seremos, e assi prometemos e ficamos de comprir. E bem assi todos juntamente e cada hum por si, em nome do povo, de oje por diante, nos obrigamos, so pena de perdimento de nossas fazendas, de todos sermos leais e obedientes aos mandados dei Rey de Portugal e ao seu governador e seu capitão que nesta costa estiver, por man- dado de Sua Alteza, e prometemos de comprir e gardar seus mandados como vassalos obedientes e leais, e não no com- prindo, todos em geral e cada hum por si e em especial assi (3) BACIL: consideração, em vez de considiaçom. J
nos apraz e somos contentes de serem perdidas e tomadas nossas fazendas para a coroa real de qualquer que for rebelde e não comprir os ditos mandados; e por este, atras e asima escrito, ficamos e prometemos, sem nenhum duvida e, se em algum tempo fizemos algumas olas de comsidiação, todas as avemos por quebradas e, daqui por diante, não valhão nem tenhão nenhum vigor. Se, em algum tempo, alguma for achada em poder de algum patangatim ou christão desta costa, a nos nos apraz que elle seja prezo e perca toda a sua fazenda, pois não entregou as tais olas, e todavia avemos por bem em quem se ache que não valha nada nem tenhão nenhum vigor e assi nos obrigamos, de qualquer pessoa ou pessoas que entre nos ouver brigas ou diferenças, que nos os meteremos para os fazer amigos e concordes, e não nos podendo concordar os prenderemos e manda-los-emos entre- gar ao dito capitão, para os elle castigar conforme justiça. E porque de tudo isto, acima dito, somos contentes e asina- mos os patangatins e cada hum em nome do povo de seu lugar de que he patangatim no dito dia mes e era etc.». Nomeo aqui estes lugares porque são os mais principais, que a mais de outros tantos lugares nesta costa e o dia que se fizerão estas amizades foi dia de São Cosme e Damião e, o dia diante, do glorioso e benaventurado São Miguel, fizemos huma percissão com o patangatim-mor de que elles todos, por ser gente nova na fee forão, muito consolados e edifi- cados e, ainda que alguns ficarão descontes, erão poucos para poderem fazer bando e não tinhão rezão para estarem des- contentes. Faltão ainda para se concertarem os parentes dos mortos e comesamos a meter nisso a mão, o capitão Manoel Roiz Coutinho e eu e algumas outras pessoas; gastamos muito perto de hum mes. Não se pode, por então, concluir nada; depois partio-se o capitão para onde estava o governador e veo de Goa Francisco Alvarez, provedor-mor dos defuntos, 3S5 DOC. PADROADO, VI 25
com poderes de sua senhoria, para entender no negocio dos mortos e assi veo com elle Pedro Gonçalvez, vigairo de Cochim, para tratarem o negocio por paz e acharão no camynho, seis legoas de Ponicale, e por cartas que recebi do Padre Dom Gonçalo me tornei com elles e quis Nosso Se- nhor, por sua misericórdia e piedade, e que pondo-se as partes em mãos do Padre Vigairo, Pedro Gonçalvez, e mynhas e doutro homem honrrado por nome Gaspar de São Paio, em hum mes se concluio o negocio de maneira que ficou tudo averiguado. Prazera a Nosso Senhor que daqui por diante vivyrão em paz e muyto obedientes aos mandados dos padres, como o prometerão e se fara muito fruito nesta terra, desde que ouverem mais obreyros que [280 v.] agora se crião na índia.// Quero-lhe contar agora huma cousa, a honrra da San- tíssima Trindade, Padre, Filho, Espirito Santo, tres pessoas, hum soo Deus verdadeiro. He que o anno passado, no inverno passado, choveo mui pouco nesta terra, polo qual ouve falta de arroz, entanto que huma medida valia hum fanão que soia valer quinze ou vinte por hum fanão (4), porque algum que avia guardavam-no por medo da fome. Agora o inverno era entrado e não chovia, senão muyto pouco, e os feiticeiros dizião agora chovera mais e não chovia nem nunqua quando elles dizião, de maneira que de desesperados dizião que não avia de chover. Estes feiticeiros são bramenes ja sacerdotes dos idolos; dizião que estavão os pagodes anojados, porque não lhe davão os christãos aljo- fres, como no tempo que erão gentios; porem, nos com os christãos de Ponicale fizemos huma procissão a um dias de Dezembro, a tarde, e logo Nosso Senhor, por misericórdia e piedade choveo muitos dias muyta agoa e se encherão as (4) À margem: Hum fanão vai vinte oito reis que são vinte oito bazarucos. BACIL: esta nota está incluída no texto. 386 I
lagoas e tanques com que regão seus campos e os rios sairão da madre e dizião depois os gentios que o Deus dos christãos fez chover e os jogues e bramenes mentirão. Praza ao Senhor, por sua misericórdia e piedade, Elie que faz milagres, os queira alumiar para que recebão e conheção a verdade, amen. E assi nos vimos todos de Ponicale, ficando la o Padre Domingos do Soveral e Manoel Valadares e Manoel de Bairos, Francisco Durão, espalhados por aquella Costa que he de perto de cincoenta legoas, entre mouros e gentios, ensinando e bautizando e enterrando e, as vezes, prendendo os christãos que não obedecem. Vossa Reverencia os mande encomendar a Nosso Senhor, porque tem muyta necessidade e eu mais que todos. Viemos a Coulão onde achamos o Padre Nicolau Lanci- loto ja ungido, porem depois convaleceo e he aimda vivo; esta com elle hum irmão, Aires de Gouvea; ensina a muytos meninos em que se faz muyto serviço a Nosso Senhor. Dahy tornamos a Cochim, donde achey o Padre Mestre Belchior que era mandado de Goa a ter carrego desta casa e partirão para o Cabo de Comorim o Padre João de Mesquita, o Padre Michael, o Padre Anrrique Anrriquez; eu fico espe- rando para fazer o que for mandado. Feita em esta casa da Madre de Deus de Sancta Cruz de Cochim, a 13 de Janeyro de 1558 annos. Muyto me enco- mendo em os sanctos sacrifícios de Vossa Reverencia y de todos os charissimos padres e irmãos. E perdoe Vossa Reve- rencia, porque fue depressa. Siervo de vuestra Reverncia y de todos los de la Compa- nia de Nuestro Senor Jesu Christo Francisco Perez. 387
46 CARTA DE BERNARDO ROIZ PARA OS IRMÃOS DE PORTUGAL Cochim, 20 de Janeiro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fls. 518 v.-520 r. Pax Christi. Pois sou mandado pela obediência escrever-lhes esta para nella dar conta do que faço, portanto pello amor de Deus que a acceitem com todalas tachas que levar, pois o meu saber não chega a mais. Eu sou hum irmão que estive com outro irmão, que he agora sacerdote, chamado João Bravo, em companhia do Padre Francisco Perez em Malaqua e chegamos aqui todos tres na era de 553, por mandado do Padre Mestre Francisco, para Padre Francisco Perez residir aqui, em lugar do Padre Antonio de Quadros, que então era Provincial; e no que me exercito e me exercitei ate agora he ensinar a ler e escrever e contar a obra de duzentos meninos, pouco mais ou menos, filhos dos moradores desta cidade; e aos domingos e festas vou pela cidade com huma campainha e ajunto esta gente que quer acudir na see onde lhes ensino a doutrina. E o exercitio que tem estes meninos he aprender a não jurar, ser obedientes a seus paes ensinarem a dou- [519r.] trina a seus escravos, reprehenderem alguns juramentos// que ouvem e alguns delles, que são mais pera isso, apren- dem humas prosasinhas cantadas e com seus habitosinhos branquos cantão a Salva aqui em casa, todos sabbados, e quando na cidade se faz procissão alguma, vem os cidadãos pedir por charidade que vão la os meninos, porque folgão muito com elles; aonde vão com suas capellas de ramos e rosas e sua cruz e eu com elles para os ordenar. E ajudam suas missas cada dous, sua somana, e vão tanger pola cidade 388
pelas almas do Purgatório de noite com seus hábitos brancos (como digo acima) e confessãosse deles, de mes em mes, deles, de quinze em quinze dias e os que são para tomar o Senhor, tomam-no. E no que me exercito depois que saio destes meninos, lhes não conto, porque são desedificações; por meus peca- dos, que sou tão mal disposto da cabeça que nem a estudar nem a ler me posso aplicar; louvado e muito glorificado seia Deus, pois que assi he servido e chega a tanto que não ha huma nova nem chea quasi que não esteja com febre e muitas vezes sangrado; pois ainda melhor me acho aqui que em Goa e, porque sempre la quasi estava com febre e dor de cabeça e não podia estudar, me tornarão a mandar qua, depois da vinda do Padre Patriarcha e do Padre Dom Gonçalo e dos mais companheiros do Reyno, porque me he esta terra milhor para minha disposição. E depois que aqui fui logo dahi a hum mes, pouco mais ou menos, chegou aqui o Padre Belchior Carneiro, para aqui invernar, e chegando, lhe vierão os Padres de São Domingos que lhe fosse la pregar a festa que fazião da Prasentação de Nossa Senhora, que he a confraria dos chris- tãos desta terra, o qual pregou com tanta satisffação de todos que lhe forão desde então muito affeiçoados os desta cidade. Pregou dahi por diante sempre na se, alternatim com hum padre de S. Francisco, onde sempre certo fez muyto fructo, não pode ser menos, porque he tal o padre Carneiro que nam sei onde era que não faça muyto fructo. E depois da sua chegada, a quorenta e cinco dias pouco mais ou menos, chegou o padre Dom Gonçalo, ho qual bem podem imaginar a alegria que receberião, não somente os padres e irmãos, mas todo este povo, porque he mui affei- çoado a Companhia; porque avia mais de dous meses e meo que o estavão esperando e cuido que a primeira pregação 3 8 9
que fez foi aqui em casa a huma tarde de São Sebastião e certo que lhe acudio emfinda gente, não leigos mas clé- rigos e frades de São Domingos e S. Francisco e foi de modo que nom cabião na igreja, e continuando suas pre- gações elle e o Padre Belchior Carneiro, ora pregava aqui e o Padre Carneiro na se, ora pregava na se e o Padre Car- neiro aqui, todolos domingos e festas. E porque acertou de vir aqui hum bispo arménio, o qual por descuido entrou nos lugares dos christãos de S. Thome, foi necessário que o Padre Carneiro acudisse e deixasse qua estroutas ocupaçõis, aonde também foi depois o Padre Dom Gonçalo e o vigário da se e outros padres; e porque não saberey o presso disto, deixo-o aos que o milhor saberão fazer; mas porque não estava nesta nossa casa ho Santíssimo Sacramento, ordenou o padre como poderia estar, como de feito o pos por obra e o emçarrou com muita devação e solenidade, a huma quinta feira, com huma procissão ao redor da nossa casa, [519 v.] por dentro, com missa cantada de canto // dorgão, que ouverão cantar os padres e cantores da se e pregação que a fez o padre com quasi todo o povo. E porque a casa carescia de ornamentos, fizerão os moradores esmolas de frontaes, pano de pulpeto, muyto rico, vestimentas, e doutras cousas. E chegando Quaresma, vendo o padre a muyta vontade que este povo tinha pêra receber doutrina, determinou que cada dia a tivessem e, porque os frades de S. Domingos diserão que avião de pregar todolos dias pelas menhãs, asemtou ho padre de lhes fazer humas praticas, as tardes para que assi se aproveitassem de qua e também de la. E a pratiqua fazia asentado numa cadeira, com huma mesa ante si e hum livro que de quando em quando lia, a qual durava tres quartos de ora, pouco mais ou menos. E foi tanta a devação da gente que alguns, por viverem afastados, tomarão casas pera aquela Quaresma poderem gozar da- 39°
quella doutrina junto com nosco; e no que tratava era de quantas maneiras pode hum homem pequar e merecer nos pensamentos, e como se avião de confessar das cousas dos pensamentos. As Emdoenças forão celebradas e os ofícios das trevas e encerramento do Senhor muito devotamente. E pola Pas- coa, pregando o Padre Dom Gonçalo e provando como Christo era o verdadeiro Messias prometido na ley e que erravão todos os que o contrario tivessem, se achou hum scrito no cepo do Sancto Sacramento, dizendo que mentia o padre no que dizia, porque Christo estava nos infernos e outras blasfémias muyto feas que não ouso traze-las a memoria sem muita magoa. Asentou-se de imquirirem o autor do scripto, para ho qual levarão o Padre Dom Gon- çalo e Belchior Carneiro grandíssimos trabalhos, que não vinhão a jantar para casa, senão muito trade, e a cea, o mesmo; e assi prenderão muitos chistãos desta cidade e se o acharão ou não, não o sei. E depois disto, pregou o padre o Jubileu e creão que o receberão com tanto fervor e devação que parecia outras Endoenças e apos isto logo em Agosto, que he aqui na entrada do verão, se foi o Padre Carneiro para esperar pelos bispos em Goa e, apos O elle, o Padre Dom Gonçalo noutro catur e la, com a vinda do adayão que vinha taobem por provisor, imquirirão para ver se avia alguns também que tivessem memoria da ley mosaica e dizem que se acha- vão huns poucos aos quaes prenderão e ainda assi, os de Goa, como estes de qua estão presos. Cometem que os soltem sobre fiança de muito dinheiro; não sei se os sol- tarão; soasse que ja forão soltos, se o Padre Dom Gonçalo não tivesse mão. Deus, que he justo juiz, dara a cada hum o que merece. (1) Correcção de espos. 39 1
E de la mandou o Padre Dom Gonçalo ao Padre Mestre Belchior, depois que fez sua profissão, o dia de São Mateus, como la o saberão, diante do povo, com muita devação, por ser cousanova na índia, assi pêra nos, como para o povo(2), e trouxe em sua companhia o Padre Francisco Lopes, de modo que estamos aqui o Padre Francisco Perez, o qual prega na se, as somanas com hum frade de S. Francisco; e o Padre Francisco Lopez, o qual, as festas polas menhãs, prega aos christãos da terra numa hermida que esta aqui junto com nosco e, as tardes, vay ao tronco consolar aos presos; e tãobem confessão aqui [52° r.] todos tres Sempre muyta// gente e dão o Senhor, que he muito para louvar ao mesmo Senhor; e mais o irmão Gaspar Soeiro, o qual negocea as cousas de fora, certo com tanto amor e charidade que acaba o que quer nesta cidade e tudo sem o sentirem, tanto he o credito que tem com a gente; e o irmão Frey Mendes, ho qual he sãochristão e faz seu officio com tanto cuidado, por ser irmão de pouquo rece- bido, que me confunde muytas vezes; e eu com todas as imperfeições e misérias acima ditas. Praza a Nosso Senhor que por meyo das orações suas e dos mais padres e irmãos da Companhia me de o verdadeiro conhecimento de mim mesmo e o mesmo Senhor, por cujo amor ainda que este- jamos tão espalhados corporalmente todavia quanto ao espi- rito unidos, nos ajunte no seu Sancto reyno, Amen. De Cochim, a vinte de Janeiro de 1558 annos. Por comissão do Padre Mestre Belchior. Servo inútil Bernardo Roiz. (2) Entre as palavras para o povo e e trouxe em sua companhia encon- tra-se o seguinte, riscado: para o povo, porque nenhum padre nosso pro- fessou qua), para que residisse aqui neste collegia de Cochim por nosso proposito trouxe em sua companhia, etc... 3 9 2
47 CARTA DO PADRE JOÃO DE MESQUITA PARA O PADRE ANTÓNIO DE QUADROS Punicale, 13 de Março de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fls. 242v.-243r. (1) Jesus Pax Christi. Charissimo Padre. Dias ha que desejo de saber novas de Vossa Reverencia e de seus discípulos, porque qua soube como Vossa Reverencia estava doente e também gostaria de saber novas do nosso Preste. Qua receby huma do Patriarcha com a qual folguey por saber novas dos rumes que erão desbaratados. Quaa nestas partes tudo he trabalho e miseryas; ha mister grande virtude e forças corporais. Novas mais par // ticulares laa as sabera por huma t243 r carta que vay ao Padre Dom Gonçalo, bem que ao pre- sente veo aqui ter hum gentio da terra firme, dizendo que queria ser christão e trazia huma cruz no peito, na parte esquerda, feyta com fogo e muyto bem. Inquiry quid illud res es set. Achey que o quizerâo matar os gentios, la por hum certo caso de gentilidade; quis Nosso Senhor que escapou e vindo antre os christãos perguntou que cousa era christão e qual era o seu sinal; com aquele fervor fez a cruz nos peitos. Ainda o não bautizey; ja sabe a doutryna e he tanto que a ensyna aos mynymos em publico que se (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 249v.-250r. 3 93
ajuntão na igreja, e he tão curioso em perguntar as cousas da nossa religião christãa que me parece outro Bernardo do Japão, que foi a Portugal. Quando o bautizar hade ser com festa; hade ser o capitão seu padrinho e dar-lhe-ha de vestir. Isto lhe contey, porque não hia na carta geral por me esquecer. Eu resido nesta ilha de Punicale; os mais padres e irmãos andão espalhados, correndo a costa que he mui grande e muito trabalho. Nosso Senhor nos dee perseverarmos ate o fim, Amen. Oje, 13 de Março de 1558. Servus inutilis Joam de Misquita 3 9 4
48 CARTA DO PADRE BELCHIOR PARA OS IRMÃOS DO COLÉGIO DE GOA Cochim, 16 de Agosto de 1558 Documento existente na BAL, 49-1V-50. Fls. 260 r.-263 r. (1) O amor do Espirito Sancto e graça divina more sempre em nossas almas, Amen. Não deixo de hir caindo em culpa, charissimos irmãos, em deixar passar tanto tempo sem vos escrever, ja que a todos amo em o Senhor; e a cada hum, em particular, não seria possível escrever, rezão he comunicar-me com todos juntamente, pois todos em alguma maneira sois huma cousa, hum desejo, hum spirito, huma vontade de padescer, huma obediência. Não aparte a minha carta aquele que o spirito de Jesu Christo ajuntou e, alem de me mover a esta escrever a regra da Companhia, que nos manda comu- nicar por cartas, por se milhor conservar a charidade e união de huns com os outros, tãobem ca temos por grande virtude do Senhor, poder-me consolar convosco por carta, porque as noticias do entendimento não renovão nem imprimem menos amor que as de vista pelo qual as cartas suprem a falta da conversasão in Domino. Parece-me, charissimos irmãos, que de mym e da Com- panhia de Cochim não quereis concelhos, pois laa tendes de quem vos e nos os recebemos, antes quereis que vos demos conta do que Nosso Senhor este inverno obrou no (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 44v.-46v. 39 5
proveyto das almas e o que por nossa negligentia se perdeo, para que pois com vossas oratõis se faz, deis a Nosso Senhor graças de vos ouvir e a nos reprensão e amoestação que não que esperdissemos as graças do Senhor e ja que de todos são servo farey o que pedis e mandais. // Depois que passou a Coresma e veo a Pascoa, por ordem da santa obediência deixei a continuação das pregaçõis que tínhamos e fiquey com somente pregar os dominguos e dias sanctos; com isto ficou mais lugar para outras occupaçõis, proveyto das almas, assi as nossas como as dos próximos; as nossas diguo, porque nos ficou tempo para as meditaçõis, para mais particularmente entendermos no gardar das regras e na mortificação propria e exercidos espirituais de praticas, conferentias, tõens, penitentias, obedientias, que são cousa que a continuação delias em almas que muyto desejão aproveitar em o caminho do Senhor vem a gerar, pela graça divina, maravilhosos hábitos de virtude naqueles que de veras se querem delias aproveitar. Prouvesse a divina bondade que tanto trabalhacemos e nos disposessemos para crecer em todo o bem spiritual quantos são os meos santos que a Companhia usa com seus filhos, que muy sedo todos seriamos perfeitos; mas o meu descuido e ignorantia que nisso tive, ao tempo que a Companhia como may santa me deu para com estes e outros exercitios me aproveytar bem delles; he cousa que agora em todas as obras assi as que tocão a minha propria mortificação e bem da alma, como as cousas que pertencem a honrra de Deos e ao bem dos proximos, parece que não sirvo de mais que azar e danar os dõens de Deus e por nodoas e imperfeições nas obras que Nosso Senhor faria por mim muy perfeitas, se me achasse idoneo instrumento. Prazera a Sua Divina Mages- tade que não me tome muy estreita e riguroza conta dos danos e faltas que por mym vem a sua honrra e as almas dos proximos, por não aver buscado, nos tempos 396
que nos collegios da Companhia estive as verdadeiras vir- tudes com que agora poderá glorificar muyto a Deus, Nosso Senhor, e ajudar a salvar muytas almas. Com os proximos tãobem nos daa Deus Nosso Senhor muyta occazião de o podermos servir se em nos ouvesse tanta charidade que soubéssemos gostar perfeitamente o manjar da salvação das almas, porque alem das pregaçõis todos os dominguos, dias santos, em os quais ha sempre muyto concurso de gente e com muyta devação e atenção tanto que o seu fervor me tira muyta parte da minha acustu- mada frieza e vindo ao mais particular fruito, por bondade de Deus, se fizerão muytas pazes este inverno. Tinha o demonyo armada huma silada para fazer per- derem-se muytas almas; hum casado daqui sendo injuriado elle e sua sogra, molher portuguesa, por uns homens, que- rendosse vingar elle e outros seus parentes, derão huma noite com dous mancebos honrrados, parecendo-lhes que erão seus contrairos, tratarão hum delles mal e, como fosse este aqui aparentado, recreceo o odio a muytas pessoas e estava armada huma grande tempestade, mas a lux divina que polo ministro da Companhia veo a consertar todos de maneira que huns e outros ficarão todos amiguos, e mais de doze ou quinze pessoas que fizemos se perdoarão huns aos outros e os injuriados e os outros tornarão em concórdia e charydade com aqueles que o tinhão ofendido. Outros dous casados portugeses honrrados andando para se matarem os chucados, sendo vizinhos, tornarão a verdadeira amizade por meo do Padre Francisco Perez; dous vereadores vierão a estar muyto mal e com nos meter- mos nisso vierão a amizade e foi muy necessário para o bem da republica. Huma pessoa aqui principal estava para com gente armada dar em outro que tãobem era honrrado e tinha poder; por causas de honrra era a cousa de maneira que 397
passava muyto periguo de se fazer muyto mal, porque erão dous capitais e hum queria prender ao outro e o outro estava com gente armada para resistir. Acodimos a isso o Padre Gardião de São Francisco e eu e, por bondade divina, tudo se pacificou e o diabo, que andava tecendo estas mea- das, ficou esquarnecido; outras muytas pazes se fizerão e por dementia daquelle que he a verdadeira pax nossa; mas [261 r-.] muyto mais se farião, não somente dos pro//ximos entre sy senão tãobem das almas dos proximos e consiguo, se em nos ouvera jaa verdadeira paz. Como sera idoneo instru- mento para fazer pazes quem ainda agora consiguo tem tanta guerra? Para nos, charissimos irmãos, alcançarmos aquela santa bemaventurança, scilicet: «bemaventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus», parece que devemos procurar de alcançar a paz interior; esta não se acha senão com muyta regra e com termos muyto zelo contra nossas imperfeiçõis e ja que em causa propria somos juizes sospeitos, devemos de desejar e pedir a Nosso Senhor que os ministros e soto ministros nos sejão em lugar do appetito irrascivel, acundindo com zelo pela honrra de Deus e as nossas imperfeiçõis e appetitos, morqificando-os e sogeitando-os debaixo do jugo da rezão e Regra ja que os outros superiores mais altos, imitando a manssidão de Jesu Christo, Nosso Senhor, nos levão com tanto amor e suavidade; isto diguo, porque quem não for pacifico em si, mal poderá aos proximos pacificar. Para achar esta paz seria muy expediente que cada hum de nos entregasse bem seu intendimento a principal obediência para lho alumiar; ao reitor, a vontade para lha regular e ao ministro, o ape- titto irascivel para lho refrear e ao soto ministro o com- cupiscivel para lho mortificar. Isto diguo com ter dor de mym e depois de velho na Companhia ainda não estou bem mortificado, nem tenho alcançado paz. 398
Tãobem por bondade do Senhor nos ocupamos em algumas obras de acudir aos afligidos e atribulados: muytos estavão prezos por leves cousas, aos quais por nossos rogos soltarão a fazendo-lhes justiça e foi muy aceito a este povo. Huma órfã que foi preza pela visitação e depois achando-a sem culpa a soltou o provisor, ver que procurey de a emparar fazendo com hum portuguez, meu conhecido da China, que casasse com ella e porque ainda que seja pouco de rogar para casamentos o menos para que quando pelejão me não rogarem roins Paschoas, neste entendi para que conhecessem todos que, não por serem christãos novos e de geração de judeos, ajudamos a visitação contra seus erros nem perseguimos a nação, mas os herros e heregias. Tãobem o padre Francisco Lopez que tem isso a carrego com visitar os prezos e os doutrynar e confessar, tãobem os hospitais não causa pequena edificação e porem, se em mym ouvesse alguma charidade muyta messe ha para maiores fructos de misericórdia, que poderia eu pedir esmolas para acudir a muytos enfermos e pobres que padescem necessi- dades; poderia servir a muytos entrevados e falar aos me- dicos que os visitassem e com mais fee ver que o que fizer a qualquer destes pobrezinhos faço a Jesu Christo, mas muytas vezes deixamos estas obras como pequenas e estando nellas os tisouros da vida eterna escondidos. E para que saibais, irmãos charissimos, que todas as virtudes nos são necessárias para ser bons operários na Companhia, porque a todas as obras de todas as virtudes se estendem os santos exercitios delia, não tendo ainda cabedal para exercitar a misericórdia, muytas vezes são constrangido a juntar jus- tiça a muytos que estavão em peccado mortal publico, ja que por amor se não querião apartar; foy necessário com algum constrangimento serem comppelidos a entrar na cea do Senhor, em que alguns pareceia dura esta midicina, não me pezara hir mais avante, se com os emfermos não sofre- 399
rem bem os botõns de fogo, os medicos não acudirão logo com o oleo da piedade, mas chagas ay que o azeite faz apodrescer e o fogo fa-las sarar. De maneira que ate beligim me foi necessário ser. Avia aquy hum homem pestilential e fazendo muyto [26i v.] mal nesta terra avia // mais de seis meses que estava nesta cidade sem ninguém se doer da honrra de Deus; confesso- -vos, irmãos, não me pude ter, não avendo outro remedio para se esta peste tirar da terra, fuy-me, a requirimento de hum homem honrrado que sabia onde elle estava, a forta- leza e fiz com o capitão em pessoa por se não fiar doutrem, o fosse prender, protestando e requerendo-lhe que eu não queria morte nem pena de sangue, senão que fosse prezo, depois condenado de maneira que não pudesse offender mais a Deus; disto recebeo muyto contentamento e edifi- cação este povo, quando soube a causa e porque folgão de ver acudir pola honrra de Deus. Mas estas justiças minhas são como panus menstruata porque, se fossem puras, começaria a justiça em mym e faria de mim justiça a Deus, meu criador e Senhor e castigaria mynha deshordens, por- que verdadeiramente crede, irmãos meus, que se em nos ouvesse muyto cuidado de buscar estas virtudes da mise- ricórdia e da justiça e sua perfeição muyta materia, tería- mos de as exercitar com os proximos, mas as arvores não dão milhores fruytos dos que tem, e para as folhas e as fruitas serem boas, devem de proceder de muyto boa raiz. E o que mais espanta he que avendo em mim tantas imperfeiçõis que teria este povo muyta occasião de se desi- dificar e ter-me na conta que eu mereço se tevesse os olhos para as ver, lhes da Nosso Senhor huma santa cegueira para seu proveyto e minha confuzão; ten-nos grande cre- dito, parece-lhes que ay en nos alguma virtude e algumas letras ou prudentias; en as suas vidas e tractos e contractos (porque os mais delles são chatins) socorremsse a nos e 4 o o
tem muy gande sogeição aos conselhos e determinaçõis de seus casos, em que lhes custa muyto do seu; e os padres confessores, que sabem duvidar em casos de restituissõis e matrimónios e irregularidades e outras matérias e difficul- dades, achão muyta consolação nesta casa, tendo em ella recursso para suas duvidas em muytos negocios do regi- mento da terra; asi o capitão, como senhores da camara, folgão de pedir conselho, tendo eu continuamente necessi- dade conselho doutros, errando tantas vezes nos proprios; senão escrevo-vos isto irmãos charissimos, para vos alem- brar o que o povo cuyda e spera de todo o padre da Com- panhia e com quanta diligentia deveis, conforme a santa obedientia, trabalhar por acquirir letras e aqueles que sois mandados estudar com que possais satisfazer a todos em toda a parte. E se tão necessairo he acquirir as letras que tomais nos releva a todos, assi os que aprendem, como os que não aprendem, na mesma hora que somos membros da Companhia com obras de humildade e de obediência e oração continua dispomos nossas almas para serem vazos capazes dos dõens de sapientia e de conselho e dos mais dons do Spirito Sancto, para que os próximos, com a humil- dade com que se sogeitão aos nossos conselhos, sejão ver- dadeiramente instruídos para conhecerem por nos em tudo a ley e vontade de Deus, Nosso Senhor e Criador. Nas confissõis tãobem, por bandade divina, se faz muyto fruito e porque o fruito delias he necessário estar secreto abaste-vos saber que são feitas muytas restituiçõis, as quais comummente mandamos entregar a casa da Santa Miseri- córdia de que se edificão muyto. Muytas pessoas se tirão de pecado mortal e se poem em estado de graça e donde dantes andavão muy apartados do caminho vem a continuar confessarem-sse // cada oito dias e conservarem-sse em vida agradavel a Deus; muytas pazes secretas feitas por confissão, muyta satisfação das famas, e outras cousas que se não [262 r.] 4° DOC. PADROADO, VI 26
podem mais especificar que isto sabe-as Nosso Senhor que as faz. Hum caso estranho vos contarey: porque aconteceo fora da confissão, terey mais lugar ao especificar para dardes graças a Nosso Senhor Jesu Christo, que não quis que aquela alma perdesse o preço de sua Redenção. Huma alma vivia quarenta annos que andava em mau estado e tinha o diabo tanto poder nella que não deixava declarar bem seu mal aos medicos da alma e, andando muy desejoso de se declarar commiguo, tinha muy grandes des- vios, de maneira que sendo eu chamado em hum terrível dor de estomago, que Nosso Senhor lhe deu para seu bem e meu, estando com esta pessoa soo, teve os mais altos esgares e sinais que eu cuydei de maneira que me foy necessário bradar que lhe acodissem e totalmente perdeo a fala e cuydey que morresse; depois tornando com o evan- gelho de São João que lhe disse, dixe que vira o diabo que a não deixava falar, que afogava etc. Finalmente Nosso Senhor Jesu Christo com os merecymentos de seu pretioso sangue obrou tanto que o demonio ficou esguanecido e a alma em verdadeiro conhecimento e amor do seu criador e de tal maneira curado o seu mal que espera na devina dementia que ja aquele demonyo aly não torne a pescar e, em pena de quarenta annos, seja daqui lançado no inferno para as penas infernais, porque para maior certeza e segu- rança sua esta para se hir para Portugal. Deyxo de especificar outras muytas cousas de muyto fruito de Deus, Nosso Senhor, scilicet, que se obrão por meo da Companhia, porque não he para cartas, mas como diz a Escritura secretum meum mihi, secretum meu mihi; que nisto tudo me consolo muyto in Domino he ver a per- severança que mais de cincoenta pessoas tem de se confessar cada oito dias de continuo e outras cada quinze, as quais Nosso Senhor conserva com tanta limpeza em suas almas 40 2
que me espanta muyto; gente metida nos negocios do mundo ter tão especial graça de Deus Nosso Senhor, scilicet, que se conserva sem peccar mortalmente. O que tudo isto he para nos muyto nos confundir, irmãos charissimos, ver que homens e molheres que tem cuydado de suas casas e de seus filhos e de sua fazenda e de outros muytos emba- raços que o mundo consiguo traz se aparelha com tanta devoção a receber o divino manjar do corpo de Nosso Senhor Jesu Christo e cresce na graça e a conserva. E nos, que somos desocupados de podermos ter que intender com outra cousa senão com Deus e com nossas concientias, nos deixamos jazer muytas vezes em o lodo da negligentia, de maneira que parece que resistimos a divina luz obrar em nos seus effeitos de nos alumiar e amar e deificar, porque se por nos não ficasse quem duvida que ja seriamos mudados em outros homens, ou para milhor dizer, em spirituais e divinos, pois não ha nenhuma rezão para pormos meo entre nos e Deos, nem ha cousa que nos impida de sedo sermos perfeitos senão a propria von- tade, confusão de mim mesmo quando cotejo a minha frieza com o fervor desta freguesia (') sendo gente secular e não religiosa. // (262 v.] Como vem qualquer festa correm a limpar as almas e a lavar as conscientias com o sangue de Nosso Senhor Jesu Christo, aparei handosse com tanto fervor para receber o mana celestial que com nos não sermos mais que dous padres, passão algumas vezes de 80 as pessoas que tomão o Santíssimo Sacramento e agora estes dous dominguos de jubileo, que publicamos, o primeiro, tomarão cento e cin- coenta pessoas e o segundo cento e oitenta e, se ouvera padres em abastança, creo que toda esta cidade se confes- sara nesta casa, e confessarãosse neste jubileo aqui, por não podermos satisfazer com todos nem ainda com os proprios (2) fg-r 4° 3
devotos que continuão a casa, confessarãosse diguo da prin- cipal gente de Cochim e o milhor disto he que comumente as pessoas que se vem confessar comnosco vem em grande abnegação das suas vontades acerqua de suas pessoas e fazendas, porque ate que a Companhia que não condecende nem torce do caminho e vem dispostas para toda a satis- fação, bendito seja o Senhor Deus de Quem todo o bem descende. E assi nas porcissõis e ajuntamentos santos he para louvar a Deus o fervor da gente desta cidade, porque na percissão que fazem os daqui de casa pela paz e concórdia da igreja chatolica, ajuntousse toda esta cidade, e tendo eu determinado de pregar aqui em casa, não foi possível, mas foi a porcissão a see e preguey na see com tanto con- curso de gente que não cabendo a gente muytos se tor- narão. Foi huma solene percissão com hum crucifixo muy devoto que nos derão os irmãos da santa Misericórdia e com todo o canto de orgão nas ladainhas e com todo o mais que para ser solene podemos fazer, por ser por man- dado do Santíssimo Padre e pola igreja chatolica. Praza a divina bondade que lhe dee a verdadeyra paz que o mundo não pode dar, mas soo Aquele que he verdadeira pax nossa. E estas cousas vos escrevo, dilectissimos irmãos em Christo, assi para comprir com a obrigação que temos de escrever paritcularmente do que Nosso Senhor obra, como tãobem para vos excitar e mover, a mym particularmente, fazerdes oração a Nosso Senhor pela Companhia de Cochim, pedindo a Sua Divina Magestade queira dar-nos virtude e o Spirito conveniente para a salvação das almas e para que, vendo vos o fruyto que vossas oraçõis quaa fazem, as multipliqueis para fazerem maior fruito e tãobem para que vejais, irmãos, quanto he a merce de Deus e quanta sede as almas tem de se aproveitarem, se ouvesse muytos que não buscassem outras cousas senão puramente a honrra
de Deus e a salvação das almas; mas porque em mym não avera virtudes que para as obras da Companhya se reque- rem, se deixão de semear e recolher as novidades divinas, porque na Companhia, quanto pola falta que em mym acho sendo entendido (e não por querer falar bem), requere-sse tão fervente oração que alcance muy efficas socorro dyvino para //as emprezas delle, huma tão conhecida de si e tão í263 r-3 profunda humildade que a não alevante nada os favores e honrras e opiniõis dos homens, huma tão prompta obe- dientia que nenhuma parte do mundo nem dificuldade nenhuma de quanto ha debaixo da lua a impida, huma tão constante patientia que nem sem rezõis de homens, nem infortúnios do mar nem da terra a perturbem, tão aceza charidade, tão firme fee, tão certa esperança que nem os perigos, nem a morte, nem a vida, nem os demonios nem o mundo todo, nos possa apartar de puramente buscar a honrra de Deus, Nosso Criador e Senhor, e a salvação das almas que he o mais alto e mais aceito serviço que lhe pode fazer. Isto vos diguo, irmãos, não ja porque em mym aja nada disto, senão porque sospiro por isto, vendo-o de longe e desejo que todos os que nos chamamos da Com- panhia de Jesus busquemos isto e que, quanto nos falta disto tanto temos ainda por caminhar e não secemos nem sintamos em nos huma falsa cegueyra de cuidarmos que ja estamos bem, mas andemos sempre avante euntes de virtute in virtute donee videamus Deum deorum in fine. Mas vai-me ja segando o amor que vos tenho e a con- solação que recebo, parecendo-me que estou falando com- vosco, irmãos charissimos, de maneira que a carta vay ja passando seus limites, não somente em ser comprida, mas tãobem em me sair de contar novas e querer dar conselhos aqueles de quem os eu ei de receber, mas escrevo-vos assi como eu quero que me escrevais, para que animando-nos invicem em o Senhor, sejamos servos fieis. Elie pola sua 4 ° 5
infinita misericórdia nos conceda a todos os da Companhia, e não somente aos da Companhia, senão a todos os chris- tãos e ainda a todas as criaturas capazes de o entender, sua perfeita graça, para que em todas seja bendito o seu santo nome e sua sancta honrra enxalssada, Amen. Nos santos sacrifícios dos padres e nas devotas oraçõis nos encomen- damos os de Cochim, humildemente. Oje, 16 de Agosto de 1558. Servo sem proveito da Companhia Mestre Belchior. 40 6
4!) CARTA DO PADRE GONÇALO ROIZ Baçaim, 5 de Setembro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Pis. 114 r.-118 r. (1) Muito reverendos padres e charissimos irmãos. Amor Christi Yesu qui exuperat omne sensum, sit semper in cordibus nostris. Amen. Muytos dias ha, meus amados irmãos, que a charidad vossa pulsava por huma parte e a sancta obediência por outra a que esta vos escrevesse, mas a insensibilidade minha me tinha empedido de huma parte e o descuido//da outra t'74 *0 proscrastinando de o fazer e nunqua chegava a faze-lo. Verdade he que muyta parte disto causou o ter eu pouquo que escrever, porque comparadas as cousas, que quaa faze- mos, com as de outras partes da India he sombra para o real e também noite para o dia e escuridade para a luz e frieza para o fervor, mas nem isto me escusa porque muito aproveita saberdes laa nossas faltas para de vos sermos aju- dados em o Senhor e para vos lembrar que vos gozeis e aproveiteis das excelentias que com vossos olhos vedes, quia beati oculi qui vident quce vos videtis et audiunt quce auditis, e vos corroboreis em o fervor e solideis entre o foguo do amor e exercitio de virtudes, para que quando sairdes vos não resfriem as muitas friezas do mundo e vos não desbarate a conversação dos peccadores, nem vos ale- vantem as vaidades, nem vos abatão os desprezos nem vos (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 68v.-71 r. 4 ° 7
distraião os negocios diversos desta vida presente. Mui difícil he ter o meyo nas cousas e grandíssima he a perfeição que se requere com os de esta Companhia, cuja perfeição mora em cousas arduas e dificultosas. E quanto mais difi- cultosas tanto mais perfeitas; suas conversaçõens ham de ser angelicas, para que não tornem a ser humanos e seus aposentos ham de ser recolhimentos para que postos antre o tumulo do mundo, dos parentes e amiguos, sintão aquilo do propheta: extraneus factus sum fratribus méis et pere- grinus filius patris meae; árduo e dificultoso he o que se nos oferece muy fácil aos escolhidos; muy breves são os trabalhos, e os prémios não tem fim; os prazeres que engei- tates, momentâneos e o bem que todos esperais, eternos. Basta, charissimos, que corramos todos de maneira que comprendamos. Todas estas cousas cousas creo que sentis milhor do que eu posso escrever; portanto cesso e quanto vos dar esta das cousas que qua socederão. Des que vim do collegio de Goa para Tanaa e Baçaim, nestes tres annos e meyo se bautizarão grandes e pequenos, homens e molheres passante de novecentas almas; certo que as vezes me confunde ver que almas tão apartadas do conhecimento de Deos e de quem lhes ensine o caminho de saúde, compellidos ou por fomes ou por outras desaven- turas, vem a entrar em a cea do Senhor de terras muy remotas, de modo que em nossos tempos vemos que se cumpre a parabola do evangelho: ite ad exitus viarum et [l75r ] compeliste eos intrare; // os coxos, os manquos, os ceguos, os paupérrimos e quem o mundo desiarem e com estes são os cidadãos da gloria e os riquos, e os sábios, e ainda os que presumirem serem celestes com suas honrras e faustos demerguntur in infernum; O motatio dexterce excelsi. quam inconprensiveis são vossos juizos e quam investivaveis vossos caminhos. Querei-lo ver? Poucos dias ha, charissimos, que veyo da terra firme e muy remota Tanaa, hum velho hon- 408
rado e paupérrimo e a meu juizo passaria dos setenta e muy perto dos oitenta, segundo que demonstrava; e sem duvida que parecia hum São João vestido de pelles de camello porque seus couros de velhice erão tais quais eu outros ainda não vi. Entrou este pola porta dizendo que queria ser christão e praticando-lhe em breve os artigos da fe, segundo sua capacidade, perguntei-lhe se de coração queria ser christão; respondeu-me que não viera elle a outra cousa se não a isso; disse-lhe que cresse em Jesu Christo; perguntou-me quem era Jesu Christo, que lho mostrasse. Levey-o diante de retabolo e mostrei-lhe a may com o filho nos braços com grandíssima alegria começou a abraçar o retabolo e beijar o menino Jesu e fazer-lhe reverencia (1); com isto, sem mais esperar, o fui logo fazer christão, por- que sua velhice não consentia esperar hum soo dia e final- mente que no bautismo se portou como hum minino. Acabado de o bautizar hum dia, a tarde, que foy o segundo dia que elle veyo, ao outro, pola manha, deu seu espirito ao Senhor e foi-se São João Bautista caminho dos ceos e nos ficamos mui duvidosos em a terra. Tais são, charissi- mos, os justos juizos do Senhor. Muytos meninos e meninas compramos aos seus pró- prios pais que os querião vender a mouros e os libertamos do poderio do demonyo dos quais alguns se forão a gloria com o nome de Jesu na boca e o menino Jesu; entre os quais foy hum de duas tangas, que são seis vinteis, e outro que custou tanga e meia e sem duvida que estão estes antre os anjos, rogando por nos a Deus; muitos homens e meninos nos morrerão aquelle anno no collegio de Tanaa, depois de feitos christãos, porque vinhão tão desbaratados das fomes//que nesta terra ouve; entre os mesquinhos que [175 v.] não podião comvalecer e a nos não pesava de os ver cami- nhar tão certos para a gloria. Neste tempo se fundou huma (I) R.« 409
nova povoação de christãos em huma aldea despovoada me eu comprey para isso e da esmola que el rey. nosso senhor, daa para esta christandade aonde estava hum sump- tuoso pagode, o mais elaborado de obra romana que nestas partes hey visto; em o qual se adorava a falsa trindade dos gentios, a saber: Visnu, Maesu, Dramma, o qual tinhão pintado em huma effigia que tinha três rostos em hum corpo; foy o demonio antigamente neste pagode muy vene- rado e por estar em bom sitio, huma boa legoa de Tanaa, na mesma ilha de Salcete, e ter ao redor muitas terras e boas e tres fontes e três tanque de aguoa muito boa e hum poço empedrado muy fermoso e o mais que se requiere para o intento. Ordenamos a nova povoação de novos christãos convertidos e a dedicamos a Santíssima Trindade para que aonde o demonio foi tam venerado, seja a Santíssima Trin- dade celebrada e venerada dos christãos e nomeada dos gentios pello que se chama aldea da Santíssima Trindade; derribamos-lhe as entradas do pagode e fizemos hum arco romano muy fresco, com seus degraos e ficou em huma capella de abobada muy fresca e muy devota; acrescentamos o corpo da igreja, aonde se diz missa aos dominguos, e muy- tos santos, aos novos moradores os quais serão em numero algumas quinhentas almas; estes todos são lavradores e tra- balhadores, porque outra gente ocisosa não queremos con- sentir viver entre elles, sabendo que a ociosidade he causa de muytos males e por quanto os que vem a conversão comumente são dos mais pobres e necessitados (2), não por pregação a qual não entendem nem hai enterpetre (sic) que segundo suas rudezas, lhe bem declare os bens divinos, po- rem armamos-lhe os laços dos humanos, e caidos nelles lhes (2) Duas linhas indecifráveis por estarem riscadas e escritas nova- mente. aflO
ensinamos as cousas divinas e postos in exitu vi ar um convi- damos os rústicos lavradores e os que andâo em os matos e em as cebes, a que venhão e entrem em a cea // do Senhor, t'76 r3 pois os sábios riquos e sensuais ha desmerecem por seus males. Duas cousas lhe offerecemos para o corpo: casa feitas, terras mui baratas e a muitos propriedades, que lhes com- pramos e finalmente todas as alfayas de que tem necessi- dade; vestidos para elles, molheres e filhos, aros para come- rem, enquanto não lavrão outro; sementes para semearem e bois quantos querem para lavrarem com seus arados conser- tados e para isso temos feita huma casa de alguns cincoenta covados de comprido e doze de larguo de pedra e telha muy forte e duas rengas de bois com seus pastores e muytas vaquas para suprirem aos que morrerem por velhice e aqui vay qualquer christão a tomar os bois que ha mister para sua lavoura e, acabado torna-os ao comum, entrega-os aos pastores que do tal guado tem cuydado; asoi que a vara na aldea de Sancta Traindade, a meu ver, passante de cem cabessas de bois e vacas; tem também huma fermosa pataya, que levara duzentos murãs de bate, feita de madeira muyto boa, com huma fermosa varanda e aqui se recolhe o bate que pagão de foro os christãos das terras que lavrão de duas aldeas que comprey junto de huma da outra e de muytas propriedades que encabecey para o bem desta povoação que valera, o que rende, alguns trezentos pardaos assi de terras como de palmeiras e desta em comum se provem as viuvas e orfãos, a saber: aquilo que seu trabalho lhes não abasta e assi os enfermos que não tem que comer e os chaticumenos enquanto aprendem. E daqui se empresta aos que o podem pagar e aos que não podem se lhes daa de graça e, final- mente, quando temporal, nada lhes falta e são todos muy bons trabalhadores e dão muyta edificação aos gentios; 4 • '
da-se-lhes também do celeiro espiritual, assi em praticas aos dominguos, como em doutrina christãa que se lhes faz da Paschoa ate o Penthecostes. Todos //os dias se ajuntão as Ave Marias, ao tenger de sua campainha, em certas ruas e as molheres a porta e assi dizem todos, assi homens como molheres, a doutrina que faz muyta devoção; e daqui vem andarem os mininos cantando polios matos os mandamentos do Senhor e os homens em cima das palmeiras; Tem a povoação hum meirinho e hum escrivão christão honrado que tem cuydado de todo o nego- cio temporal e fa-lo com tanta fidelidade quanta se não pode crer, polo que me escusa de residência de hum irmão; vay esta povoação em muyto crecimento e vai-se o fogo ateando aos lugares de redor, donde muytos vem a se fazerem chris- tãos; espero na Santíssima Trindade que sera a milhor cousa que avera nas terras de Baçaim, poios bons fondamentos que leva e com isto se vay acrescentando a esmola que daa el-rey, nosso senhor, para a conversão, que erão mil e quinhentos pardaos e agora passão de mil e setecentos com os christãos terem todos cabedal e estarem arreigados, que he muy espe- cial para a christandade destas terras. Ordenou-se também por ser lugar para isso aver criação de cabras, as quais serão ao presente passante de cento e tem huma casa muito grande de pedra e seus pastores. E todos os dias, os christãos que tem mininos pequenos vão buscar o leite que lhes he necessário para os mininos e isto he todo o anno, porque fazem duas vezes dous e tres cabritos cada huma comumente; tem também grandes mangaes de que colhem os christãos muytas mangas, para salgarem que he o milhor mantimento desta terra; tem no meyo da povoação huma horta muyto grande que se hora vai fazendo para o bem de todos e tem huma fonte que arrega todo o anno onde ha muitas parreiras, figueiras, arvores de espinho e 4 1 2
outras cousas. Os portugueses começão a ter muita devação a esta casa da Trindade por não aver outra na India e alguns offerecem vaquas e bois por devação. Este anno que eu acabei de fazer a igreja foi grandíssima a devação dia da Sancta Trindade. E a vespora, ordenarão entre si hum império e foi o emperador acompanhado de muytos de sindeiros (?) e huma soice (?) de soldados dos nossos // christãos muy luzidos com huma bandeyra de t'77 r campo; e ouve muytas camaras que despararão e deu o em- perador banquete a quantos quizerão e finalmente fizerão grande regosijo e mostrarão muyta devação e confessarão-se e tomarão o Senhor alguns e ordenarão huma confraria de Sancta Trindade, sem obrigação de nossa parte e tirarão de esmola trinta pardaos para cera e eligirão outro emperador para o outro anno. Isto he o que passa da Trindade. Em Tanaa se fez nestes tres annos huma cerqua muyto grande e muy fermosa de nossa orta e se fez hum collegio para os mininos da terra, a saber: hum dormitorio muito grande e hum refeitório e huma escola para os de dentro e de fora e cusinha e despenssa; e isto em duas quadras; em a terceira quadra esta huma casa muy fermosa que serve de hospital e assi para os de dentro como para os de fora e huma botica com seu concerto. Neste collegio tivemos antes deste inverno cento e cinquoenta mininos e morrerãó-nos de bexigas alguns vinte e ficarão ainda alguns cento e trinta; o exercitio deste he insinar-lhes muyto bem a doutrina e bons custumes e aprenderem a ler por saber falar, e por evitar ociosidade e também se exercitão nos officios que ande ter; huns aprendem sapateiros, outros a ferreiros, outros alfayates e teceloens e vem comer e dormir ao collegio, aonde as noites cantão suas doutrinas em choros muy devo- tamente e dizem suas ladainhas; os que ande ser lavradores mandamos-los vestidos com seus trajos, no tempo do inverno, que he o tempo de despor o bate, e vão os que tem
corpo para isso a aldea da Trindade a despor o bate o qual se despoe todo a mão como sebolinha que he imenso tra- balho. E hum dia vão repartidos a ajudar a huns; outro dia, [177 v.] a outros e assi ajudão os pobres e os edificão, can // tando suas doutrinas e aprendem seus officios, para que, quando forem de quatorze, quinze annos, os vão casando com as filhas dos lavradores da Trindade e assi tera a povoação dous augmentos: hum do collegio outro dos que novamente se convertem. Outra povoação temos no mesmo Tanaa e vay também em crecimento; hay doutrina todos os dias e aos dominguos e festas, duas vezes; huma acabando a missa; outra a tarde, onde se ajuntão muytos e tantos que de huma vez os mandei contar e erão duzentos e quorenta; estes christãos de Tanaa, os mais delles vivem do mar e avera algumas vinte e tantas embarcaçõis quasi todas de nossos christãos, muito fermosas que valem cada huma setenta, oitenta e cem pardaos; outros são officiais outros trabalhadores; temos nesta povoação huma casa de molheres assi caticuminas como ja christãs, aonde se ensinão e fazem suas doutrinas e vivem muy reco- lhidas e com muita edificação e huma molher casada que as tem a carrego; ali lhes mandamos dar todo o necessário e dali as casamos com os que se convertem e lhes damos modo de vida e ajuda, segundo suas habilidades; fazemos mui devo- tas percissões com os mininos vestidos todos de branco, e cantando seus salmos e de Baçaim no-los mandão pedir, quando querem fazer alguma porcissão solene. Quando algum christão morre, vão os mininos com a cruz e tumba cantado o miserere met Deus em choros, e vão quatro chris- tãos vestidos em vestimentas da misericórdia que levão a tumba e assi trazem o defundo com muita edificação dos christãos e gentios. O irmão Manoel Guomes tem a carreguo o collegio dos mininos e tem escola dos de dentro e de fora, de filhos de 4 1 4
portugueses; tem a carreguo curar os enfermos de chagas e camaras, porque de febres temos hum mestre gentio que cura os mininos e christãos, por não aver outro. Tem o irmão todos os instrumentos de cirurgião, e mezinhas e faz curas muito grandes e chagas muy nogentas e peçonhentas e isto com muyta charidade; dam-se todas as sestas feiras muytas esmolas e viuvas e orfãos e aos doentes e estes primeiro se escrevem a rol e, segundo suas necessidades, assi os provem. Para tudo isto, daa el rey, nosso senhor, suficientemente todo o necessário e elle he o por quem//Deos nestas partes da t278 '•] índia tudo obra. Prego algumas vezes, o que parece que basta para este Tanaa e conforme a disposição que tenho e dificuldade em o fazer. Confesso os portugueses e dei-lhe dous jubileos em que comungarão cento e corenta pessoas; confesso os christãos que sabem falar e os negros e negras de portugueses que são muytos e alguns soldados que passão; e os mininos do collegio se confessão cada mes huma vez; aos irmãos não lhes faz falta materya para muito mere- cerem. Isto he, charissimos, o que de quaa vos posso escre- ver. Esperamos ser ajudados de vos, para que, daqui em diante, com mayor fervor, sirvamos todos ao Senhor e dispa- mos este velho homem, para sermos vestidos de Christo Nosso bom Redemptor, que reyna e vive cum Patre in uni- tate Spiritus Sancti Deus in secula seculorum. De Baçaim e do que laa se faz o padre Cuenca e Costa que hora la reside o escreverão. Portanto cesso. Aos cinquo de Setembro de 1558. Menor em virtudes que todos, vosso irmão Gonçallo Roiz. 4 ' 5
50 CARTA DO PADRE MESTRE GONÇALO PARA OS PADRES E IRMÃOS DO COLÉGIO DE GOA Tana, 1 de Dezembro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fls. 204 r. - 205 r. Muyto Reverendos Padres e Irmãos Ho amor de Jesu inflame sempre nossas almas, Amen. Muyto folgara, amados em Christo, de ter muyto que vos escrever, por nisso consolar vossas almas, que muyto se alegrão em ouvir o fruyto que o Senhor obra pelos menores de esta santa Companhya, mas ja que minhas emperfeiçõis e culpas são estorvo e empedimento de a suprema bondade obras poios outros, servira ao menos escrever estas para que vossas charidades tenhão lembrança de minha pobreza em seus santos sacrifícios; aiudado delles me encite ao diante a seguir e emitar aos que correm tão deveras pola via do Senhor. ^ Nestas terras de Baçaim e Tana estamos ao presente o Padre Heronymo de Quenqua e eu, e o Padre João da Beira e quatro ou sinquo irmãos em nossa companhia. O asumpto de Heronymo de Quenqua he confessar quotidianamente e pregar e outras obras que a charidade obriga, he aceyto pola bondade do Senhor e daa de sy muy bom cheyro, do que se segue não mediocre fruyto; os irmãos cada hum em seu officia procurão edificar a suas almas e exercitarsse em toda a virtude. O Padre João da Veira,.ja cansado dos trabalhos 416
de Marta, goza com a Madanela (sic) de Christo; eu resido pola maior parte do tempo neste Tanaa, quatro legoas de Baçaim, cidade de muytos mouros e gentios e alguns portu- gueses, e foy antiguamente muy populosa e ainda agora o he mediocremente. O asunto que me he dado pola obediência he entender em a christandade de esta ilha de Baçaim e suas r terras, maxime desta onde residimos. E temos casa e collegio de mininos que se convertem e povoação dos christãos, os quais ensinamos com quotidianas doutrinas e não somente no espiritual, mas tãobem no temporal lhes socorremos com muytas esmolas principalmente os enfermos, viuvas, orfãos e chaticumynos, curando-os e dando-lhes o necessaryo para suas enfermidades da esmola que el rey, nosso senhor, para isso daa. Em estes dous annos que avera // que estou neste Tanaa I20' se bautizarão a rol passante de quatro centas almas antre pequenas e grandes, e alguns destes estão ja em gloria, louvando ao seu Criador e rogando por todos a Deos. Pouco tempo ha que comessamos huma nova povoação, huma legoa de este Tanaa e havera ja nela passante de 150 almas, todas novamente convertidas e todos trabalhadores e mer- cadores. Ali temos muitas terras e palmeyras que he o vinho desta terra e muytos bois e arados e grangearia para os pobres, com seu trabalho, terem que comer. A principal cousa porque isto se faz he te-los todos juntos e apartados da converçassão dos gentios entre os quais vivendo se tornão alguns delles a lembrar de seus primeyros custumes se de todo nos descuidamos delles. A igreja que ali temos tem a vocassão da Santíssima Trindade, para que se entroduza entre a gentilidade o nome santissmo delia e se emprima nos coraçõis dos fieis, ja que por suas barbaras palavras não lhes podemos declarar tão profundo misteryrio. Este servia primeiro de pagode e sérvio muitos annos; e era este hum dos 4 1 7 DOC. PADROADO, VI 27
pagodes principais desta ilha e nelle adoravão a tres e a hum e asi pintavão taes pagodes juntos em hum e a hum com tres cabeças. Assi, charissimos, que no lugar em que o demonyo se fez tyranicamente adorar muytos tempos, se adora e venera o Senhor da Magestade. Todos os dias se fazem doutrinas e se ajuntão muytos em ellas. Nestas cousas e em confessar a seus tempos e fazer praticas aos christãos e a gentios e mouros, quando ha oportunidade para isso nos ocupamos. Não he pequeno trabalho ter cuydado desta chris- tandade porque he muy trabalhosa a destas partes e com rezão o bemaventurado São Thome refusava vir a ellas he quanto entendida assas na malícia e sabedoria mundanas e muy abiles pêra cousas de seus interesses, para as cousas divi- nas são huns brutos e muy endurecidos e obstinados que não ha rezão que os entre. Isto causa em nos não pequena magoa ver o pouco aparelho de suas almas (1). [205 r.] //He esta gente muyto pobre e he forçado que para os conservar maxime os que vem de diversas partes lhes demos maneyra e remedio de vida e os sustentemos e ajudemos com o temporal; os mais delles vem nuus e muytos enfermos e he forçado vesti-los dar-lhes casa e todo o movei delia e casar as molheres e buscar maridos para ellas. Finalmente que são tantos os cuydados em que nos poem as cousas tem- porais delles que nos fazem de todo activos e prouvesse a Deus que fossemos boas Martas, mas crede, charissimos que onde não se acha Madalena com Marta que detenha a Christo enquanto Marta negocea, grande risco corre Marta de perder a Christo de hospede e por isso com rezão pedia Marta ao Senhor Domine die ei ut me adjuvei. As ajudas de vossas charidades as spero, pois estais assen- tados aos pees de Christo, gozando de seu doce coloquio, (1) Neste ponto da carta encontram-se muitas linhas riscadas e ile- gíveis. 418
rezão he que ho que estais mimozos aos peitos e sois diii- cados esposos rogeis por este pobre mercenaryo, para que não desfaleça com a cruz nem fique outro Cyreneo, mas com Christo e por Christo e em Christo acabe esta jornada, coope- rando em a salvação de tantas almas redimydas e resgatadas com seu sangue e a vossas charidades mereça ver em o reyno celeste em O qual vive e reina etc, in secula seculorum. Ao prymeyro de Dezembro de 1558. Ho mais imperfeito de todos Gonçalo Roiz. 4 1 9
51 CARTA DO PADRE HENRRIQUES A SEUS CONFRADES DE PORTUGAL Comorim, aos 19 de Dezembro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fls. 256v.-260v. (1) Pax Christi. Este Setembro de 58, tivemos huma carta geral enviada desse Santo Collegio de Coimbra, charissimos em Christo padres e irmãos, do muito que Nosso Senhor obrava por seus servos da Companhia que ahi residem; com as quais novas summamente nos alegramos; quererá o Senhor Deus que assi se proceda sempre de virtude em virtude que vaa in dies perfeiçoando quod ipse incoepit. Muytos dias ha, charissimos que vos não escrevo, minha negligentia sera muyta parte disso; o muyto que ha que fa2(er) nesta Costa de Comorim o causa também e não passar eu quasi nenhum anno que não escreva ao provincial das cousas que Deus Nosso Senhor obra nestas partes por seus fracos instrumentos, esperando que laa vos serão comu- nicadas, ao menos as cartas gerais que de ca envio ao padre Geral; mandava-as abertas ao padre Provincial. Devem-se dar muytas graças ao Senhor Deus por aver arranquado da Costa da Pescaria huns bandos péssimos que durarão mais de tres annos e nos tem impedido impe- dido (sic) alguma ou muyta parte do fruiyo que se pudera fazer. O Padre Dom Gonçalo com sua industria, traba- lhando com o governador enviasse qua pessoas para con- sertar esta gente e assi, fazendo que desse honrras a alguns (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 88 r.-91 v.
dos ditos bandos que se davão por agravados, foi a maior parte de se reduzir tudo a bem. O anno passado escrevy eu ja laa que não avia os bandos como dantes, e que a causa era julgada, mas que avia muytas relíquias do mal. Agora estão passificos e amigos, bendito e louvado seja Nosso Se- nhor, Jesu Christo. O Padre Francisco Perez aiudou tam- bém muyto ao mesmo effeito. Foi elle mandado do Padre Dom Gonçalo, duas vezes a Pescaria e com a sua prudência, humildades e mansidão aproveitou muyto, de cuya virtude tinha muyto que dizer, mas ja laa o deveis de saber, non enim accendit Deus talem lucernam ut ponnet eam sub modio. Acerca do fruito da Costa da Pescaria e de Travanquor, se pode comparar ao crecer dos mininos que por tempo se vem crecidos, mas não se ve quando crecem, e asi as novi- dades e, porem, asi como para semear alguma cousa, se ay falta de pessoas que lhe apliquem os meios como convém, ao que semea não vem a tal sementeyra ao fim desejado; os mininos pequenos, também se não hay quem suficiente- mente lhe de o necessário, o crecer destes he fraquo e enfer- mão facilmente; da mesma maneira que temos al // gumas [257 r.] novidades, algum fruito, mas por falta de obreyros que lhe apliquem os meos oportunos e lhes dem o comer espiritual, ficão não da maneira que desejamos, porque quanto esta gente carecia olim mais do conhicymento do Salvador e da via que he necessária para O buscar tanto tem mais neces- sidade de pesoas que os ensinem e elles carecem em tanta maneira de Padres que para 60 legoas de costa, onde ha quarenta lugares christãos delles pequenos, delles meãos, delles grandes, o mais do tempo que entre elles estou que ha quasi dez annos, estivemos entre padres e irmãos, ora cinco, ora quatro, ora tres, ora dous. Bem creio que os vossos desejos são muyto grandes de nos vir ajudar e por ouvirdes a necessidade que ca ha de 4 2 1
obreiros, parece porem que seria maior se ouvisseis como nos vemos as necessidades presentes. Elias vos instigarião grandemente com tanta diligentia a proceder no estudo das letras e espirito que com pouco tempo alcanssasseis ho que convém, para sedo serdes enviados em estas e semelhantes partes. Perdoai-me, charissimos, por amor de Deus de asi falar; novas temos que procedeis sempre com grande cui- dado do que asima diguo, e que sois grandemente ajudados do Senhor Deus, como pessoas que se tem de todo offerecido ynteyro holocausto para todos vos entregardes em louvor de Jesus. Diguo, porem, assi isto como pessoa que estaa cada dia vendo quanto se perde por falta de quem corra esta Costa e tãobem para que se alguns, desejando de ter muyta mais conta consiguo, parecendo-lhe ser mais seguro para elles estar no collegio antre anjos que andar antre pecca- dores, se animem para antre estes e simyles andar, quia Jesus, cuius societatis sumus, venit vocare peccatores, et non enim solum nobis nati sumus, etc.; e parece que daremos não a conta que se de nos espera, se virmos tantos perderem-sse e nos descuidarmos nos disso, como pessoas que se dão a vida contemplativa, como quer que bem sabeis que deve ser mixta, conforme a de Christo Nosso Senhor. O Padre João de Mesquita e Michael Barul nos forão emprestados do Patriarcha para esta Costa, desde Dezembro passado de 1557. Estávamos dantes o Padre Dioguo do Soveral o irmão Francisco Durão Manoel de Valadares, Manoel de Bairros e eu, todos tem tanto que fazer que vos espantareis e quissais dos trabalhos muytos; destes meses a esta parte, adoecemos os quatro padres e o irmão Bairros. Eu estive para a morte; depois que qua sou nunqua me achey tão enfermo como agora, mas ja estou bem, Deus seja lou- vado. O Padre Misquita não foi tão doente; esta ja agora milhor; o irmão Bairros esta ainda mal desposto, mas em melhoria; o Padre Michael deu-sse tanto a pressa a correr q. 2 2
apos o bom Jesus que não quiz ter este natal na terra con- nosco, senão nos ceos; sabado vesporas do Advento, morreo em Punicale, havendo estado somente sete dias doente de febres. Alguns o muytos de vos, charissimos, conhecereis suas muitas virtudes que por tanto não he necessário escreve-las nem he necessária fazer-lhes lembrança; encomendem a Deus Nosso Senhor, pois disso terão cuydado. Bem creio eu que estas doenças que aqui diguo causadas causadas (sic) ao que parece pelos trabalhos muytos não esfriarão aos meus charissimos os grandes fervores que tem de vir quaa empre- gar-sse antes os ascenderão, // como pesoas que in nullo alio [257 ».] sciunt gloriari nisi in cruce Domini Nostri Iesu Christi, e que lhes fica huma enveja santa que o nosso bom Michael os precedeo, suspirando com David: Hei himi quia incolatus meus, etc. Isto porem das doenças parece que foi huma monção, porque alias não somos tocados assi delias. De mim vos sei dizer que se espantão os que em Portugal me conhecerão e agora me vem, porque, vindo eu de laa tão mal desposto e avendo nesta costa muyto trabalhos não paresce que fui enfraquecendo, antes quisais que ay alguma melhoria cor- poral; quando logo vim de Portugal tive muytos apetitos no comer; ao presente não tenho tantos; comia as mais das sestas feiras e sabados carnes e ha certos annos que a poço escuzar em todos os tempos passados; não podia dizer missa senão aos dominguos e festas; de hum anno e meo a esta parte digo tres vezes cada somana, assi outras particulari- dades que deixo de escrever. O numero dos lugares que temos a cargo são estes: scilicet: o Padre Domingos do Soviral com o irmão Fran- cisco Durão tem cuidado de sete lugares, distantes huns dos outros perto de 20 legoas; o Padre Misquita reside agora em Punicale, onde dantes eu residia, onde ha muytos christãos 4 2 3
onde ha muytos christãos (sic), e esta o capitão da Costa, com seus lascarins e, posto que so Punicale avia mister dous ou tres padres, tem a carrego, alem do dito Punicale, de sinquo ou seis lugares; tem o irmão Manoel de Valadares por seu companheiro. O Padre Michael tinha soo cuydado de sete lugares; distão huns dos outros sete ou oito legoas; eu com o irmão Manoel de Bairros tínhamos cuydado de vinte; lugares deles pequenos, deles meãos; distão huns luga- res dos outros doze legoas ou mais; os mais delles estão na costa do reyno de Travanquor. As ocupaçõis qua dos padres e irmãos he sermos vigairos e curas; andamos quasi sempre perigrinando visitando os lugares que a cargo temos; bautizamos, casamos, ouvimos as cousas que pertencem ao foro eclesiástico; as que pertencem ao secular, nos lugares onde não esta capitão, nem tem pos- tos juizes de sua mão, procuramos portos principais da cidade nos lugares onde alguns outros juizes louvados de os conser- tar presertim aqueles de que se siguirão discórdias, arroidos, ferymentos; trabalhamos muyto de os reduzir em paz do que se faz muyto serviço ao Senhor Deus e se empedem com a diligencia dos padres muytos bandos, ferymentos e mortes que delles se seguirião, se não fossemos nisso a mão como himos; e acontece em alguns lugares que, por estaremos ausentes, se seguem as tais misérias de arroidos, ferimentos e algumas vezes mortes. Occupamo-nos em fazer praticas espirituais e porque os lugares são muytos e não podemos aos dominguos estar nelles, as vezes ou muytas, como che- gamos a qualquer lugar, mandamos chamar as molheres a igreja para lhes fazermos praticas as quais podem milhor vir e ser chamadas que os homens, porque qasi todos andão occupados em seus trabalhos; trabalhasse qua todos, asi homens como molheres; aprendem as oraçõis e as aprendem e sabem muytas, damos tãobem ardil que alguns que as não sabem as aprendão e he huma grande consolação ve-los como 424
saberem tão bem dar rezão da causa porque Christo, Nosso Senhor, se veo fazer // homem. A doutrina dos minynos ja laa sabereys como se ensina em todos os lugares; as meninas pola menhãa e os moços, a tarde. Para isso ay mestres como hermitãos que tem cuy- dado de os ensinar e da igreja. Alguns dos ditos hermitãos são homens para muyto. Huns buscamo-los nos dos milhores christãos da Costa. Damos ordem que as igrejas estejão bem concertadas e se frequentem dos homens e molheres e se acabe o que em ellas ha para fazer, se concerte o desman- chado e porque o Padre Dom Gonçalo soube que algumas igrejas ou muytas estavão pobres, mandou quarenta imagens e dous panos para cada igreja. Ocupamo-nos também em ter alguma disputa com gen- tios e mouros, especialmente com os que são como padres dos gentios e mouros em os quais fazemos que haja alguns ou muytos christãos e muy glorificado seja Christo, Nosso Senhor, que ordena por estes seus fracos instrumentos que as mentiras dos tais sejão manisfestadas e a verdade da fe seja chonhecyda, e posto que os tais e seus sequaces não se queirão deser de suas opiniõis, quis excoecavit eos malitia illorum; e todavia bem se lhes oferece materya para irem conhecendo seus erros e, ao menos, he bem para os nossos milhor crerem tendo que aquelles em que olim criam ficão sem terem que responder a preposito, de que mostrão muyta alegria e contentamento. Sobre algumas praticas e disputas que o Padre João de Mesquita teve com alguns gentios me contarão alguns chris- tãos que ouvirão, que era espanto ver quão altamente razoava o padre e quão efecazes rezõis lhes dava. Alguns gentios e gentias nos vem pedir o batismo aos quais catiqui- zamos mediocriter e depois ou bautizamos. Entre outras pessoas, que de pouquo pera quaa bautizamos, o Padre Mis- quita depois que foi a Punicale começou a concertar com sua 4 2 5
industria certas pessoas de huma casta que lavão roupa a que chamão Mainatos; esperamos em Deus que os outros venhâo também da mesma casta. Tãobem huns sapateyros gentios, que vierão a certo tempo ao dito Punicale lhe pedem ha dias o bautismo e por proceder o Padre mais ceguro lho não tem dado. Esperamos tãobem que perseverem e asi sejão metidos no curai de Christo. O mesmo Padre depois que chegou a Punicale com suas pregaçõis, praticas e santa conversação fez que os lascarins vivessem mylhor do que antes e alguns ou muytos delles frequentassem os sacramentosa meudo, e depois que elle veio bem se enxergou que o Padre Anrriquez ja não residia ahy mas o Padre Mesquita. A edificação que os padres e irmãos dão aos portugueses e aos christãos gentios e a mouros he muyto grande e he muyto para louvar a Deus, porque se edificão com doutrina santa, mais se edificão com sua boa vida e com hum menos- prezo grande do mundo, com huma limpeza tão inteira da carne, com os contínuos trabalhos asim que levão todos bem, com ho cuidado grande que tem dos pobres e de fazer curar os doentes e asi outras cousas que vem resplandescer em a vida delles; gloria seja a Deus. Alguns gentios vendo a vida boa dos padres, deferente da dos seus padres, os vem a ver e praticar das cousas da fee, e posto lhes são dadas rezõis suficientes para conhecerem a verdade, não acabão de se tirar de suas ceitas. Deus Nosso Senhor os converta, Amen. [258 t.] //Os trabalhos de quaa são muytos e continuos peri- grinar; não daa lugar para se comerem bons manjares, ainda que os ouvesse; algumas vezes tãobem nos vemos em periguos de morte, a qual permitira Nosso Senhor Deos ser dada aos muyto seus íntimos; bem sabeis como matarão ao Padre Antonio; em outra parte matarão hum nosso irmão por nome Luiz Mendez, almas santas que tem dei- 426
xado grande odor de si; deste irmão tãobem sabereis ja e não deveis de ignorar como eu fui cativo, onde passei muy- tos trabalhos e huma vez me levarão para me matarem mas não mereci hum tão grande bem ao Senhor Deus, as ditas mortes e cativeyros forão, porem, per accidens, porque em duas guerras que ouve, em huma matarão ao Padre Anto- nio e em outra me cativarão. O irmão Mendes foi tãobem morto em huma peleja que os gentios tiverão com huns christão, os quais gentios saltarão di noite no lugar. Poucos meses ha que o Padre Souveral, em hum dos lugares que tem a cargo, foi tomado de hum senhor aly gentio, o qual arranquou arranquou (sic) a espada e o queria matar, por- que soube que o mesmo padre fizera com o capitão man- dasse queimar certas casas de christãos que de outros lugares erão vindos a povoar huma terra, perto do qual donde isto passou; o que fez o padre por ser inconveniente para bem serem insinados os ditos christãos, andarem assi expalhados. O padre estava ja aparelhado ao sacrifício, porem não veio a efeito; pedio-lhe depois o gentio perdão do agravo que lhe fizera e ficarão amiguos. Poucos meses ha que hum capitão gentio, que com gente vinha, vendo o Padre Michael lhe pedia muyta copia de dinheiro e o padre parecendo-lhe que o contentaria, lhe pro- meteo alguma cousa da pobreza que trazia; o interprete que então tinha, como pessoa que conhecia que não era aquele bom meo para o deixarem, respondeo que dezia o padre nada ter e que era pobre; sabendo isto hum dos cristãos principal do lugar, que com os outros estava fogido com medo do dito capitão gentio, temendo serem tiranizados veo a pressa para tirar o padre das mãos dos lobos e assi fez que com elle não entendesse o dito capitão, que se não viera quiçais que o tratarão bem mal. Bem creo que estas cousas mais alvoroçarão os charis- simos, como fieis soldados de Christo, a deixarem de serem 4 2 7
ja nellas que a refusarem batalhas. Tãobem nos occupamos inquirir das culpas dos christãos, castigando os culpados; basta que fazemos officios de vigairos, como asim dixe; aos doentes vão os padres e irmãos estar a sua morte para os ensinar bem morrer; ha oito meses que hum christão prin- cipal de toda a costa da Pescaria morreo, onde se achou o irmão Durão e ficou grandemente satisfeito da morte do dito patagantim; confessou-sse com o padre malavar, sem- pre chamava pio nome de Jesu e mais creo que me disse o irmão que veo morrer tão bem e com tanta devação, lhe fizera deitar algumas ou muytas lagrimas. Tendo eu huma pena muy grande de não aver padres nossos que soubessem a lingoa para podermos confessar esta gente; em meo minhas ocupaçõis muytas, confesso bem poucos; o Padre Mesquita, como veo emprestado e se espera, com aiuda do Senhor Deus, hir a outra parte, não trouxe licença para aprender a lingoa; o Padre Souveral com suas occupaçõis e por a memo- ria o não ajudar tanto, não na aprende; o irmão Francisco Durão e Manuel de Bairros estão delia muyto aventejados, entendem-na aresoadamente e falam-na tãobem, e se as [259 r.] vezes os não entendem de todo as pessoas com //quem falão, ao menos falando em a propria lingoa com pessoas com quem comumente falão os entendem, per os tais podem uzar como por interpretes para que o tornem a dizer aos outros, falando todavya muytas vezes sem terem necessidade dos tais, posto que a lingoa he muyto difficultosa; por via da arte feita fica mais fácil; ja ha annos que mandamos hum trelado da mesma arte; agora esta milhro consertada, posto que, por as occupaçõis, não de todo acabada e algumas cousas de doutryna temos tão bem tiradas em malavar, que as vezes se lem aos dominguos na igreja em lugar das pra- ticas que se lhes podião fazer se ouvesse padres que com elles estivessem. Muytas cousas tenho em vontade de fazer, se estivesse 4 2 8
de todo desocopado para isso, mas não poço com muytas ocupaçõis; ao menos hum vocabulário desejo acabar a que esta dado principio hum conficioneyro para se saberem con- fessar; huma maneira da verdade da fee, mostrando os enga- nos dos gentios e a verdade evangélica; hum Sanctus Sanctorum e algumas cousas; asi queira o Senhor Deus que vireis delia ajudar-nos e ficar o tempo então para podermos de todo ocupar-nos em semelhantes cousas e aprendereis tãobem a lingoa que façais cada hum de vos ao diante semelhantes obras. Alguns moços filhos de homens horrados, assi desta costa de Travanquor, como da costa de Pescarya que forão ensinados nos nossos collegios dè Coulão e de Goa, tornarão ja dos mesmos collegios e estão na costa; himos gostando dos trabalhos que os nossos padres levarão em os ensinar e muito mais gostaremos depois que em lugar de seus pais forem os principais nos lugares e serem ensinados os filhos dos tais e depois hande vir a soceder a seus pais, ho grande bem e meyo para o demonyo ser mais asinha deytado fora desta gente. Paresse-me dar-vos conta do modo que Nosso Senhor tem para salvar huma alma que Elie tinha perdestinada para o muyto louvardes. Na costa da Pescaria fazem os christãos a pescaria do aljofre; as mais das vezes forão os seus lugares, em os quais tempos, quasi todos os christãos que la sabem pescar vão laa e outros muytos que não sabem pescar tãobem vão; ficão alguns lugares quasi sem homens, salvo alguns velhos ou doentes. O irmitão de hum lugar por nome Periapatão, yndo tãobem a huma das ditas pes- carias, ficou hum seu minino pequeno para ensinar as oraçõis e não avia quem bautizasse as crianças em tempo de neces- sidades; ofececeosse nascer huma criança e estar para mor- rer; quis Deus Nosso Senhor que acertasse aquele moço christão filho do irmitão saber as palavras do batismo, o qual 4 2 9
vendo a necessidade extrema bautizou a dita criança e depois de bautizada a levou Deus, Nosso Senhor, a gloria; indo depois visitar o dito lugar o Padre Dioguo do Soveral, soube do que passara, perguntou ao minino pias palavras, achou que as sabia e deu gloria a Deus de ver como se salvara aquela alma. Não era elle sabedor das palavras que aquele minino sabia e se o minino as não soubera ou não fora dili- gente em fazer o que fez, deixava aquela alma de alcançar de ver a Deus. [259 t.] para findar//, algumas cousas que tem passado nesta costa do Malavar de Deus deixo de as escrever polas ter ja escrito, alias como no principio dixe; outras particulares deixo de escrever porque certo que occupaçõis muytas não me deixão e mais não queria ser tão prolixo posto que os meus charissimos sua charidade nada destas mínimas cousas lhes parecera prolyxidade, porque em qualquer delia terão muyta occasião de louvar a Deus, Nosso Senhor que as obra. Entre os muytos trabalhos e cuydados que ha, trabalha- mos de nos recolher para nos podermos conservar, como quer que sem oração facilmente seremos como candea que aos outros alumia e asi consume. O Padre Dom Gonçalo para termos milhor cuydado, como vigilante pastor (como quem sabe o muyto que ha que fazer na Costa, para não deixarmos de fazer o que mais importa) tem mandado que assi padres como irmãos tenhão ao menos o exame huma vez a noite, e pola manhã huma hora de miditação, salvo os mal despostos da cabeça, a quem tem dado outra ordem do que han-de fazer para se encomendarem a Deus e para o mesmo efeito de milhor nos podermos conservar. Neste mez de Dezembro, depois que esta comecey de escrever, nos mandou o padre três irmãos, scilicet: Estevão de Gois, Ber- tolomeu Carrilho, Bertolomeu dos Santos; manda hir os que quaa estavão para tomarem alguma refucilação, assim man- dou; diz que por agora não tinha padres para enviar quaa, 4 3°
para tãobem se dar alguma refucilação aos padres que qua andavão, mas que, como pudesse, ao diante o proveria. Acabo com vos fazer a saber que, alem dos lugares que visitamos de que acima diguo, hay outros lugares que não podemos visitar, senão muy raro; alguns estão algum tanto longe; outros posto que não estem longe são pequenos e para fortificarmos em huns e outros avia mister estar mais desocupados do que estamos; e alguns ha que por estar mais longe, nem podemos hir la nem hay quem nos visite. Rogate ergo, multis lachrimis, dominum messis ut mittat operários in vineam suam. As consolaçõis que Deus Nosso Senhor quaa da aos que fielmente trabalhão e que não buscão suas consolaçõis nem descoração, quando em alguns lugares não fortificão tanto quanto desejão, são tantas quantas os meus charissimos sen- tirão, bem como pessoas que tem gostado quam suavis est Dominus porque, secundum multitudinem dolorum, conso- lationes Domini letificant anima servorum suorum, immo reverá consolationes Domini excedunt multitudinem do- lorum. Depois de ter começado esta, me veo recado de Puni- cale, donde o irmão Manoel de Bairros se estava curando, que se achava muyto mal tratado e que estavão para o embarcar para Cochim. Ja creo sera embarcado; Christo, Nosso Senhor, por sua Infinita misericórdia, nos //dee a [2®)r] sentir sua santíssima vontade e graça para a perfeitamente a comprir, vestindo-nos da mesma librea de que elle foy vestido. Oje, 19 de Dezembro de 1558. Servus intilis Anrrique Anrriquez. 4 3 1
52 CARTA DO IRMÂO MANUEL TEIXEIRA PARA OS IRMÃOS DE PORTUGAL Goa, 25 de Dezembro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-Í0. Fls. 187 r.-191 r. (1) Jesus In Deo Patre dilectis et in Christo lesu conservatis et vocatis, misericórdia vobis et pax et charitas adimpleatur, amen. Os annos passados, irmãos charissimos, lhes ouvera ja de ter escrito o que Nosso Senhor obra nos novos convertidos chaticuminos que aquy se catiquizão de que o padre me deu cuydado, se estimara mais as obras do Senhor e a charidade e desejo que elles, charissimos, tem de saber as particula- ridades de que o Senhor quaa obra, mas este anno, man- [187 *.] dãodo o Padre Provincial que lhes // escrevesse, não pude deixar de o fazer; elles, charissimos, por amor de Deos me perdoem o descuydo que nisto tive e rogem a Nosso Senhor que me desse graça para ter em mais estima suas cousas do que tive de diligencia para as escrever aquelles por cujas oraçõis sua divina misericórdia mais as obra que polo tra- balho que nellas se poe. Hos chaticuminos, irmãos charissimos, tem huma casa junto deste collegio aonde se recolhem quando de novo vem e se chatequisão ate o tempo de se batizarem; delles tem cuydado hum homem china, bom homem que foy algum (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 178r.-181v. 4 3 2
tempo companh'eyro do nosso bendito Padre Mestre Fran- cisco e hia com elle para a China para laa ser seu interpe- tre; e este esta de continuo com elles e tem cuydado de lhes ensinar as oraçõis e doutryna christãa, ensinando-os primeyro a todos juntos em ordem e depois lhe reparte suas lições dela, a cada hum que sertos tempos do dia lhe vem dar. A mim me deu o padre cuydado de cada dia, a certa hora, lhes hir tomar do sabido e declarar-lhes os mistérios de nossa santa fee, que para se fazerem christãos lhes são necesarios saber. A ordem que nisto se tem he que loguo, quando de novo vem, lhes persuadimos que de coração dei- xem e excluão de si os ritos gentílicos e infiéis que se desa- feissoem de seus antiguos custumes, mostrando-lhes por algumas rezões, que elles entendão, como são falsos e sujos e como nelles se não podia salvar. E como são mais enganos e invençõis do demonio que ley de Nosso Senhor Deos, nem de boa rezão, e para isto lhes trazemos algumas cousas de suas leis e custumes que pola falsydade, cigueira, e torpeza que delias se mostra, vem a cair na que todas as mais tem; e para se ver isto delles, loguo quando de novo vem, os tomamos cada hum por si e depois de ensinados e elles cairem na verdade, elles mesmos por sua boca confessão que ate ali andarão arrados e que a ley do Senhor Deos he ver- dadeyra e excluem e destestão os enganos e falsidades do demonyo e de seus sequaces, em que ate aly andarão enga- nados e pedem perdão ao Senhor Deos das ofensas que ate ali lhe fizerão e que aceytão sua ley por santa e boa como he para nela morrerem em a qual esperão de // salvar suas D88 r.) almas. E depois se lhe declara adoutrina christãa, pouco e pouco, segundo a ordem que o Padre Mestre Francisco lhes deixou, comessando no Smal da Cruz, declarando-lhe a virtude dele e a causa porque os christãos os fazemos, e a reverencia em que o ande ter. Como he sinal de todos os christãos, como 43 3 DOC. PADROADO. VI 28
elles o ande tomar por seu e ajudar-sse delle no principio de suas obras, e em suas necessidades contra o demonio de que elles vem muy medrosos, parecendo-lhe que por deixa- rem seus enganos lhes ade fazer mal e por isto com mais afeição se ajudão do Sinal da Cruz, sabendo que para contra elle tem especial virtude. Despois lhe declaraão os artiguos da fee, fazendo mais detença no que elles tem mais dificuldade de entender e de crer, como no primeiro em que por rezõis que elles entendão se lhes mostra como não pode aver mais que hum soo Deos e como não pode ser nenhum dos pagodes que elles ate aly adorarão, nomeandos por seus nomes e contando-lhes suas ruins vidas e feitos, segundo que alguns delles, que nellas erão vistos, nos contarão, para que por ellas vejão que tão arrados andavão em os terem por mais do que erão e como sua obras não mostrão serem cousas divinas nem santas. Conta-se-lhes da criação do mundo, como Deos verda- deyro em que an-de crer, he o que obrou e governa. Do mistério da Santíssima Trindade não se lhes ensina senão em breve a sustancia do que ande crer por não serem mais capazes e por não se confundirem, mas trabalhassem de se afeiçoar muyto a Nosso Senhor Jesus Christo e que creão delle ser Deos e Unigénito Filho de Deos e da Virgem Nossa Senhora, enquanto homem, aa qual ensinão-nos que tenhão especial devação e nisto se faz mais força especial- mente aos que forão mouros. E assi se lhes declara os mais artiguos, contando-lhes as historias delles, dando-lhes algu- mas comparaçõis por serem dados muyto a estas duas cousas. Depois se lhes declarão os mandamentos, fazendo sem- pre mais força no que suas leys mais contradizem, como [188 v.] no primeyro, terceiro e sexto, // amoestando-lhes o como os devem guardar, como se an-de aver em seus casamentos com suas molheres, como não podem ter mais que huma e ensina-se-lhes também como se an-de aver em suas enfer- 4 3 4
midades para que se não encomendem aos pagodes e feiti- ceyros, como dantes fazião, induzindo-os a ter muyta reve- rencia as cousas santas, como aos santos, images, igrejas e cruzes, encarecendo-lhes o misteryo da missa e os mais que, por elles não entenderem, se lhes não podem declarar para que ao menos os tenhão em reverenda, e credito ao declarado, e para que os que forão mais capazes se movão a os perguntar e assi muytos os perguntão e se lhes declara o que podem entender, como são bramenes e doutras naçõis mais entendidas. Isto tudo se lhes dis polo mais fácil modo que se pode para que elles possão entender, falando-lhes por enterpetres de que ha sempre muyta falta, polas muytas e diversas naçõis que aqui concorrem, porque de quasi toda a nação destas partes vem caticuminos. Algumas vezes, se acontesse que em huma mesma pratica se fala por três quatro enterpretes de diversas linguoas a diversos; e outras, que hum soo se fala por três quatro, que huns aos outros se vão interpretando ate chegar ao que se dirige a pratica. Vem também de todas as seitas, judeos, mouros gentios, de diversos ritos e custumes, e para suprir as faltas das linguoas, he as vezes necessário falar-lhes a nossa, como elles a soem falar para que assi, ao menos tomem alguma cousa. Hum moçozinho mudo, que fora mouro, se veyo fazer christão e por não aver outro modo de lhe sinificar o que avya de crer com huma imagem de Nosso Senhor crucifi- cado, por acenos, lhe ensinávamos como avya de crer nelle e quando veyo ao tempo de se bautizar por acenos sinifi- cava que no que fizera o ceo e a terra e todo este mundo crya e tomava por seu Senhor a Deos; acenando nos pees e nas mãos e no lado, sinificava que Aquele que por nos fora crucificado e morto se avya de crer e adorar e que elle adorava. Este depois de ser christão se deixou ficar aqui em casa e serve aguora aos irmãos.// 43 5 L
Quando os praticão ou os ensinão, se tem ordem no assentar dos lugares, segundo cada hum sabe, porque, como a gente destas partes, ainda que baixa, he geralmente muy apetitosa de honrra, damos-lhe a entender que, na casa donde estão, a honra consiste em saber a doutrina e as cousas de Deos, e os que milhor e mais delia sabem esses são mais honrrados, onde muitas vezes ha alguns tão ape- titosos nisto que se desvelão por alcansarem os que mais sabem, para assi poderem alcançar o milhor e mais honr- rado lugar. Entre elles, algumas vezes, se lhes poem contas de rezar por preço para os que mais souberem e examinar, as quais não podem levar se não o que souber a doutrina christãa toda ou quasi. A muytos moveo o Senhor a tomarem sua ley com a feição e mostrar grandes mostras disso, contando-me suas cigueiras passadas com desprezo e zombarias delias. Hum se veio fazer christão com sertas condiçõis que lhe não podia tirar, mas os que ja estavão o tomarão a parte, e dando-lhe suas rezõis e desfazendo-lhe em suas condiçõis, acabarão com elle que sem nenhuma se fizesse. Este, depois me contou como era gentio desdo o sertão de Cambaya e como fora ate ly grande alchymista e feiticeiro e que por muytas vezes tirou o demonio visivelmente, contan- do-me o modo que elle e os semelhantes daquelas partes tinhão para o verem semelhantes revelaçõis. Dezia que se lavavão de toda sugidade exterior e com certas beberagens se purgavão de todas as immundicias interiores e depois, comendo certas cousas com que alguns se podião sostentar, sem comer, se reculhião em huma casa muyto fechada, onde não entrava nenhuma claridade e, para mais recolhimento, dentro nella fazião huma tenda de panos de ceda, aonde se metião com suas contas nas mãos por onde continua- mente rezavão certas jaculatórias e as contavão ate chegar 43 6
a hum conto (sic) ou mais, as quais acabadas, com // a tis» »•] mais devação falssa que elles podião, fazião certos sacrifí- cios no foguo, queymando nelle com suas envocaçõis muyta soma de asucre, manteygua e panos novos de ceda espe- daçados; o que mais disto queymava dezião que seu sacri- fício era milhor e mais aceyto; onde hum me disse que nhum sacrifício queymarão mais de 500 almudes de man- teiga e grande cantidade de asugre e mais de 500 crusados de panos novos de ceda de huma esmola que hum senhor lhe dera. Acabados estes sacrifícios, dezia que ordinaria- mente lhe aparecia o demonyo e a todos que o fazião na forma que elles imaginavão ser seu Deos, vestido de ouro, pedrarya ceda com muyta soma de criados, donzellas, alifantes, oferecendo-lhe muyto de tudo isto, mas não lhes davão, nada encomendando-lhes debaixo de especie de anjo de luz que fizessem grandes esmolas e outras cousas pró- prias suas, onde dezia que todos os que avião de acometer semelhantes exercitios, avião primeiro de dar de comer a maior multidão de quantos pobres que pudessem e que todo o semelhante exercitande dava de comer a mais de mil, duas mil, cinco mil pessoas, segundo cada hum podia. De semelhantes irmitãos dezia que estavão habitados os hermos daquele certão, os quais avistavão em choupanas que tinhão, sobre as harvores assi por causa das feras, como para mais recolhimento para com os que o vinhão a ver, vindo muy poucas vezes a tal poboado. Estes dezia que tinhão muytos discipulos que o servião e o segião aos quais encarecião muyto sua doutryna e, de tempos em tempos, lhe dezião huma preposição delles que elles muyto esti- mavão. Com estes, segundo destes se colegia, conversavão os demonios visivelmente mais vezes e mais familiarmente do que se lee que os santos anjos conversavão com os santos padres antiguos do ermo. Dezião mais que em huma certa parte do ermo, que elles chamavão santa, por sinais que 4 37
o demonio nella mostrava e por estar habitada destes con- templativos, os quais perseveravão sempre em seus exerci- tios ate serem muyto velhos e vendosse propinquos a [190 r.] morte // dezia que se mandavão meter em humas gaiolas grandes de pao e, nellas assentados, se mandavão deytar no rio, porque tinhão que daquele rio hirião direytos ao paraiso. Os discípulos hião por terra seguindo a gaiola ate sen- tirem nelle estar morto, o hião tirar e a todos dezia que achavão hum buraco que o demonio lhes fazia no mais alto da cabeça por onde cryão que a alma do defunto saya para os ceos e então o tiravão e enterravão ao longuo do rio com solenidade de santo com solenidade de santo (sic) e tinhão todos por semiterio de relíquias ver este adro. Vejão, irmãos charissimos, com quanta mais dilygencia e persuasão, perseveração servem ao demonio que não pode mais que engana-los que nos a nosso Deos e Senhor de quem tudo recebemos. Queira elle, por sua infinita bondade, dar- mos graça para que o sirvamos milhor e forças para tirar os próximos de semelhantes cegeiras. Outras muytas cousas me contão que, por serem com- pridas, lhas não escrevo, em zombar e escarnecer delias e do comer e beber de seus pagodes e falsidades de suas leis gastamos as vezes o tempo para que mais se desafei- çoem delias. Esta ordem se leva irmãos, irmãos charissimos, ate o tempo de se bautizarem; e hum mes antes ou mais lhe declaramos o dia que ade ser e então se lhes declara que cousa he o bautismo e como se an-de aparelhar para elle, e então, de novo, todos por sua boca dizem que excluem e detestão as leis e ceytas falsas e seus ritos e custumes e deuses e lhes propomos os artigos da fee, cada hum por si e perguntando-lhe em cada hum se o ere e confessão por verdadeyro, como he, e despois os mandamentos da ley 438
de Deos se a tomão de coração e prometem de a guardar e nunqua a deixar e, respondendo a tudo que si, se lhes ancharesse quão gram pecado he tornarem-sse aos antiquos custumes ou bautizarem-sse duas vezes; o castiguo que Nosso Senhor lhes a-de dar e para isto se algum se acha que nisso caisse se castiga algumas vezes em suas presenssas para que temão de fazer outro tanto. E assi aparelhados, decla // rando-lhe como Nosso [i9o *.] Senhor, polo santo bautismo, lhe a-de perdoar todos seus peccados os levão a bautizar. Nestes dous annos que ha, que o padre me deu cuydado delles, se bautizarão tres mil, os mais deles ou quasi todos chatiquizados; os homens aqui nesta sua casa, as molheres no hospital de casa onde humas molheres devotas delias tem cuydado o de como se bautizão. E a solenydade que nisso se tem o irmão que disso tem cuydado me parece que lhe escrevera, porque a mym não cabe mais que po-los a porta da igreja. Depois de bautizados, que tornão a sua casa onde os irmãos lhe dão de cear e os servem a mesa, os abraço todos com alegria, declarando-lhes que se ate ahy o não conce- derão, hera porque então ainda começão a ser nossos irmãos em Nosso Senhor Jesu Christo e porque agora estão ja limpos das cegeiras e peccados passados cm que ate aly o demonyo os trouxe enganados e, antes que se vão, os amoes- tamos da obrigação que tem a se guardarem na limpeza e pureza que do santo bautismo trouverão e a trazerem a bautizar seus filhos e molheres, se ainda os não bautizarão, e a presuadir a seus parentes, amigos e vezinhos. E asi se vão, prometendo de o fazerem. Muytos, pola bondade do Senhor, são bons christãos e afeiçoados as cousas de Deus, e tem amor aos padres e irmãos, e como me vem fora, me vem abraçar e beijar a mão. De caminho lhes lembro que seião bons christãos e amiguos da igreja. Alguns cum- prem com o que prometem, trazendo seus parentes,, vezi- 439
nhos e amiguos a se chatiquizarem e por não ficarem em falta nos amostrão, dizendo que aquelles são seus parentes e que elles os persuadirão e trazem, dando-lhes os agrade- cimentos, se tornão; muytos trazem os pagodes que achão, quebrando-os e espedaçando-os. Alguns da nossa ilha de Chorão passarão a terra firme a hum pagode grande e de grande romagem que estava perto do mar, embarcando-ssse por não serem sentidos se meterão polo mato, sayrão de noyte e o tomarão com periguo de suas vidas e a rasto o trouverão ate a embarcação e assi o trouverão a este collegio, aomde o fizerão em peda- ços, depois de o mostrarem aos irmãos. Outros, vindo hum jubileo que o Santo Padre mandou, [i9i r.] detriminarão de o ganhar avendo hum mes ou // menos que erão bautizados e se vierão a mym que os ensinasse a confessar, porque querião fazer o que o Padre Santo man- dava para poderem conseguir o jubileo e assi se confessarão e fizerão tudo e emportunarão por licença para tomar o Santíssimo Sacramento, ainda que lha não derão por serem muyto recentes na fee. Confesso-lhes, irmãos charissimos, que huma me con- fundio huma vez, porque reprendendo dous e desculpan- do-sse hum, acodio outro de fora e lhe disse que atentasse como se desculpava que lhe lembrasse que ouvyra dizer ao irmão que mandava a ley do Senhor Deus que não levantássemos falso testimunho a nosso proximos, por isso, que visse não se desculpasse de maneira que deixasse a culpa a quem a não tinha. Esta he a ordem que se tem, irmãos charissimos, no ensino dos caticumynos; estas e outras cousas obra o Senhor por suas oraçõis nelles. Roguem sempre ao Senhor que a mym e a elles dee sermos tão bons christãos como sua ley requere e peço-lhes, por amor de Nosso Senhor, que em suas devoçõis e oraçõis tenhão sempre lembrança dos chati- 44°
cuminos e dos que os ensinão para que o que por elles se começou com elles se perfeiçoe e acabe a gloria do Pay dos Lumes de Quem todo o bem procede. Elie seia sempre em suas almas e lhe dee a sentir sua santa vontade e essa comprir. Deste collegio de São Paulo de Goa, a 25 de Dezem- bro de 1558(2). Por comissão do Padre Provincial. Manoel Teixeira. (2) Após a data, encontra-«e a seguinte nota rubricada: «veo esta carta no anno de 60». 4 4 '
CARTA GERAL, ESCRITA PELO P.e ANTÓNIO DA COSTA Goa, 26 de Dezembro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fls. 131 v.-143 r. (1) A suma graça e amor do Espirito Sancto seja sempre em nosso favor e ajuda. Amen. Este anno de 58 recebemos, charissimos irmãos, suas cartas e com ellas muyta consolação e gloria em o Senhor, e muyto desejosos de este exercício de charidade ser muy frequentado entre nos, pois o communicarmos em Deos os ausentes he hum muy certo sinal do amor andar vivo, que não he pequeno desgosto para nossos inimiguos e grande alegria para quem ja esta em glorya, rogando pello augmento e veridade (sic) de espirito de seus filhos. O Padre Dom Gonçalo me mandou escrever esta, e que nella lhe desse conta dos padres e irmãos que nestas [132 r.] partes andão, e de seus exercidos // e deste collegio de Guoa, resguardando algumas cousas que particularmente se escreverão com as da christandade e outras, que laa verão por cartas, de que para isto tem comissão. A três de Setembro, chegou a esta barra de Guoa o viso-rey Dom Constantino, com tres naos, e as outras que vierão depois de sua chegada em sua companhya. (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 50r.-57v. Ã margem: Algumas cartas vão adiante da era de 558, etc., mesturaâas com outras mais frescas, por arribarem, e não se receberem senão no anno de 61. 4 4 2
Trouxe o Padre Marcos Praancudo e o irmão Andre Fernandez; tanto que chegarão a barra se partio, de noite, o Padre Dom Gonçalo e o Padre Antonyo de Quadros e outros padres e yrmãos, onde forão recebidos com divydo amor e gasalhado. E porque o tempo era de tristeza, polia nova que trazião do falecimento del-rey, não foy mayor; veyo-se o viso-rey a Pangim, que he huma fortaleza que esta no meyo do ryo, e ahy disse o Padre Marcos Prancudo missa, e o viso-rey recebeo o Santyssimo Sacramento de suas mãos, e o lavatoryo lhe deo o Padre Dom Gonçalo, por estar ahi ajudando a missa. Ahy estiverão todo aquelle dia; mostrou nesta primeira entrada o viso-rey muyto favor aos christãos, agasalhando-os e abraçando-os, vestindo a dous delles de damasco preto, conforme ao tempo, por serem seus aflhados; muyto conten- tamento se vya em todos, principalmente nos padres, vendo tais princípios em cousa tão estimada de Deos, Nosso Senhor, nesta terra, como são as almas, e elle com seu sacratíssimo sangue remyo. A entrada na cidade foy temperada na alegrya, porque todos excessivamente sentirão a perda de tão bom príncipe e tão zeloso e amigo do serviço e gloria e honra de Deos; logo a primeira noite que chegou a nova da barra, que era a do sabado, se armou a nossa igreya de panos negros ate a porta, de maneira que o domynguo polia manhã vinha a gente para a missa e achava-se como Quinta-Feira de Endoenças; todos os padres disserão no mesmo // domin- [132 v i guo missa de requiem, porque assy mandou o Padre Dom Gonçalo. Dahi alguns dias lhe fizemos hum saymento muy solemne com os padres e irmãos; fez o officio o padre patriarcha com pontifical; disserão-se as besporas com as nove lições e laudes huma (sic) dya a tarde, e os mininos do collegio cantavão as antiphonas e alguns delles as liçõens; 44 3 L
os padres e irmãos dezião os salmos entoados; ao outro dya polia manhãa disse o patriarcha missa com seus asis- tentes acustumados no tal officio; despois da missa acabada, veyo-se o padre patriarcha do altar com cinquo padres vestidos de capas para aonde estava a essa. Asentarão-se os quatro nos quatro cantos da essa em acentos cubertos de panos pretos, e o padre patriarcha em sua chadeyra, com hum padre e hum diácono que asistia com elle; cantarão-se cinquo responsos de canto de orgão e a cada hum delles se alevantava hum dos padres dos cantos e dezia hum Pater Noster entoado, e enssenssou a essa ao redor, e o mesmo fazia com a agoa benta e, acabado isto, dezia sua oração. Esta ordem tiverão todos os quatro padres e as mesmas cerymonias fez o padre patriarcha por derradeiro de todos; durou muyto o officyo, e fez-se com muyta devação; a essa era grande e alta e muyto ornada do necessaryo, e somente a prata foi avaliada a dez mil cruzados, afora muyta que sobejou. Pregou o padre Dom Gonçalo; foy muyta a gente que esteve ao officyo, e disserão os padres muytas missas, e os irmãos muytas orações, e assi se mandou dizer e enco- mendar aos mais padres e irmãos, que por fora andão, dos quais aquy lhe darey conta quanto abranger delles sabemos por suas cartas, porque o demais elles o escreverão. Em Japão, ao presente, esta o Padre Cosme Torres, e com elle o Padre Reytor Torres, e com elle o Padre Bal- thezar Gaguo e Gaspar Viler (sic) (2) e cinquo irmãos, a ['««••] saber: o ir //mão Duarte, João Fernandez, Luis de Almeyda, Guilhelmo e Ruy Pireira. Delles sabemos padecerem muytos trabalhos, por servirem a Deos, e tais quais jaa la, charissi- mos irmãos, muytas vezes ouvistes por suas cartas, não sera necessário dize-lo. E contudo fazem muyto fruyto nas almas, (2) Engano evidente. Deve ser ViltU. BACIL: VilleU. 444
em conserva-las, enquanto seus trabalhos para isso lhe dão luguar, porque tem muytos contrastes do demonyos que, por estrovar obra tao sancta, trabalha quanto pode de os perseguir; porem, Deos, cujas forças são sumamente mayo- res, lhe daa animo e virtude de resistir, ficando sempre vencedores, que este bem tem quem, estribado no auxilio divyno, resiste a seu immiguo. Pode ser que, antes da par- tida das naos, chegue alguma embarcassão daquellas partes e vindo nellas suas cartas mandarão as mais certas novas. Em Maluquo esta o Padre Francisco Vieyra; tem con- sigo ou por outras terras, como se vera por suas cartas, o Padre Afonso de Chastro e o Padre Nicolao Nunez, e o Padre Antonio Fernandez, e o Irmão Simão da Vera, Fernão do Couto (3) e Balthezar de Araujo e vay tudo, polia bon- dade de Deos, em muyto crescymento, segundo o que sabe- mos por cartas, e pessoas que de la vem, da gentilidade daquellas partes, pella facilidade que tem em ouvirem a palavra de Deos e a instancia com que muytos pedem ser christãos. Em Malacha reside o Padre Balthezar Dias; tem con- siguo dous irmãos; temos por novas que faz muyto fruyto naquella terra com suas pregações e doutrinas; tem-lhe a gente muyto respeito ou medo; he grande caminho de emmenda; estaa muyto aceyto de todo o povo. No Cabo de Comorym esta o Padre Anrrique Anrri- quez, o qual quanto aly tenha trabalhado muytas vezes o ouvirão laa por cartas, assi delle como deste collegio, por cima de ser muyto mal desposto ,elle com seus compa- nheyros tem acrecentado muyto a christandade daquella terra, que he grande // e tendo antre si muytas dissen- ['33 çõens e debates, que o demonyo ordena, para que se não (3) BACIL: Fernão do Souto.
efeitue a salvação de suas almas. Andão agora laa ao pre- sente, afora o Padre Anrriquez, o Padre João de Mesquita e o Padre Diogo de Soveral e o Padre Michael. O Padre Mesquita esta em hum lugar que se chama Punicale; prega ahy, por aver portugueses, e os outros tem seus lugares, por onde andão baptizando e doutrinando; estaa mais com elle o irmão Manoel de Valadares, Francisco Durão e Manoel de Bairros em lugar dos quais, por aver jaa muyto tempo que laa andão, vão agora outros três que o Padre Dom Gon- çalo manda, a saber: Estevão de Gois, Bertolomeo Carrilho, Bertolomeo dos Santos, para os outros virem repousar ou a Cochim ou a Guoa, donde lhe for mandado. Em Choromandel estaa ainda o Padre Cypriano com hum irmão que laa sempre esteve e ainda agora, com ser muyto velho, se exercita em confessar e fazer suas doutrinas com muyta edificação do povo. O Padre Francisco Perez e o irmão Luiz de Gouveia estão em Coulão, porque o padre Nicolao esta ja descanssado de seus trabalhos; faleceo Quinta-Feira de Endoenças deste anno de cincoenta e oito, a cuio transito se achou presente o Padre Francisco Perez e, por sua carta, soubemos como a hora de seu passamento deu claro testymunho de quão certo servo de Deos foz, vivendo, porque a mesma patientia que tinha na vida com todos seus trabalhos e emfermi- dades, essa mesma teve naquella derradeira hora, emcomen- dando sua alma nas mãos de seu Criador. Em Cochim estaa o Padre mestre Belchior e o Padre Francisco Lopez, e o Padre Marcos Nunez (4) que aguora o Padre Dom Gonçalo para laa mandou, para ajudar o (4) A palavra Nunez escrevcu-se por cima da Prancudo, que foi ris- cada. BACIL: O nome Marcos Nunez está riscado e na entrelinha escre- veram: com outro podre. 446
Padre Mestre Belchior, o qual todo este anno atras ai fez muyto fruyto, elle pregando e Padre Francisco Lopez com- fessando e fazendo suas doutrinas aos christãos da terra. Estão ahy mais o Irmão Soeiro e Estevão de Taide e Ber- naldo, os quais todos tem limitado a que devem acudir, muy promptos na obedientia todos; hum insina a ler, outro tem cuydado de casa e o outro negocea as cousas necessárias para a casa, de maneira que em tudo, Deos Nosso Senhor he servydo. Em Hurmuz estaa // o Padre Aleixo Dias e também [»34 r.i por sua parte serve a Deos no que suas forças abrangem; prega, e confessa e administra o Santíssimo Sacramento e faz muito fruyto, com a terra ser muy aspera, e alem disso de muyto trafego de gente a quem de necessidade a-de suprir, porque tudo ahy carrega sobre qualquer padre da Companhya que ahy estaa, e aguora nesta monssão parte para laa o Padre Ayres Brandão e o Irmão Estevão de Araujo. O Padre Yheronimo de Quenca com hum irmão estaa em Bassaim; prega e he muyto aceito aquella gente, e faz muyto nella com muytas confissões e ministrar o Santíssimo Sacramento, e muytas obras, como amizades e dahy quatro legoas, em Tanaa, estaa o Padre Mestre Gonçalo e Padre João da Beira e o Irmão Manoel Gomez, que tem escola de ler e escrever, e dahy prove o Padre mestre Gonçalo todas as cousas que pertencem a christandade, a qual vay sendo muyta polia bondade do Senhor; muyto esperamos nelle, de toda aquella ilha ser de christãos, porque para isso tem muytos bons meios e ajudas. Neste collegio de Sam Paulo de Guoa, setão ao presente quinze sacerdotes, e em Nossa Senhora de Chorão esta o padre patriarcha, e tem consigo o padre Antonyo e dous irmãos, e esta de assento, pode ser que ate que Deos deter- mine alguma cousa de sua partida para o Preste. Estão 447
mais neste collegio 19 irmãos antiguos, afora Pero de Alcassova, que anda em Bassaim negoceando algumas cousas necessárias para o collegio; e na noviciaria estão trinta e dous noviços; estão em hum aposento novo que se fez depois da vinda do Padre Dom Gonçalo; he huma casa muyto grande que tem treze cubículos e grandes; tem o corredor de onze palmos e meio de largo; polios baixos tem huma capella de Santo Thome, grande e muyto devota, onde os irmãos ouvem missa e tem sua oração, e ha hum refeytorio com hum repartimento junto delle, onde se negocea o necessário, e tem mais outra casa que se fez para despensa. Custou esta casa pouquo menos de tres mil cru- zados; tem as paredes muyto largas e ainda se lhe espera fazer muyto neste seu aposento, Assim tem também huma v0 //horta que se faz de novo com muytas arbores, em a qual os irmãos tem exercitios cada dia. Juntamente com elles esta o Padre Antonio de Quadros, seu confessor, e por seu mestre o Padre Francisco Cabral; tem sua oração segundo as Constituiçõens, ordenão aos noviços conforme ao exercitio e ocupação de cada hum. Neste collegio os sacerdotes se ocupão em pregar e con- fessar, segundo o que cada hum Deos Nosso Senhor comu- nica; em casa prega aos Dominguos e dias santos o Padre Dom Gonçalo e o Padre Francisco Roiz, e na see alternatim com os dominicanos; o Padre Antonio de Quadros na fre- guesia de Nossa Senhora do Rosario; pregão todos os dominguos em outra freguesia de São João, que he huma aldea que esta dentro desta ilha, e he de christãos da terra, com alguns portugueses casados; a ordem dos que pregão ao presente he esta: o Padre Dom Gonçalo prega neste collegio aos Domingos, a tarde, e todas as festas dos sanctos polas menhãas, e o Padre Francisco Roiz aos Domingos polias menhas, e o Padre Antonio de Quadros alternatim com os dominicos na see, o padre ministro que ao pre- 4 48
sente he o Padre Marcos Prancudo; na freguesia de Nossa Senhora do Rosairo algumas vezes, porque, por negocia- çõens de seu carguo, não pode sempre, ao qual sempre outros padres e a obedientia tem por bem em tudo isso com muyta frequentação da gente, e polia bandade de Nosso Senhor, muyto fruyto que se faz nisso. Na igreja continuamente ha muitas confissões e padres que para isso são distinados. Agora, antes da vinda do viso- -rey, se abrio hum jubileo que qua avya do anno passado, para o qual a gente desta cidade se confessou e preparou para o ganhar, e a nossa ygreja estiverão a elle para con- fessar 18 confessores, e a gente era tanta que os padres se não podião valer com muyta pressa, e escassamente lhes restava o tempo para as cousas necssarias, e era tam gran- díssimo este concurso e vontade, deseio com que todos vinhão, que acontesseo vir hum homem antes da menhã, as quatro horas, para se confessar, e se foy a noite as outo sem poder chegar a isso. Lembra-me que hum dia deste jubileo acharão dous soldados honrrados ao parecer dentro no capitulo ja muyto despois de meio dia, os quais estavão determinados de todo de se não yrem para casa ate os não confessarem, por acha- rem em todo o tempo occupados os padres, e estavão espe- rando desde polia menhã; determinamos outro padre e eu a confessa-los, por nos parecer misteryo. Desta maneira vinhão muytos as confissões; dizião alguns que desejavão ganhar este // jubileo poios defuntos parentes e amigos, t135 r-I tanto era o fervor de seu animo; laguo o primeyro domin- guo comulgarão quinhentas pessoas, afora outras muytas, que não erão capazes; ao segundo dominguo comulgarão mil e tantas com os de casa que serião cem, pouco mais ou menos, entre irmãos e mininos do collegio, servidores de casa, e detiverão-se este dominguo em dar o Santíssimo Sacramento quatro ou cinquo horas de relogio continuas. 449 DOC. PADROADO, VI 2Ç
Era para louvar a Nosso Senhor ver especialmente homens mancebos, assi honrrados como fidalgos ajoelhados pollo meyo da igreja, aos pees dos padres, e rodeados da gente da terra e portugueses que estavão esperando tempo pera se chegarem e confessar-se, sem se mortificarem de os verem estar com seus papeis escritos, e confessar seus peccados, porque os mais de nos estavão em cadeiras, e alguns em bancos por meyo da igreja. He tão frequentado este sacra- mento da confissão, especialmente nesta casa, e muytas vezes falecem padres para penitentes. Confessão-se todo o genero de pessoas assi da terra como portugueses; a gente da terra comummente he muyto devota, especialmente depois que lhe dão licença para tomarem o Santíssimo Sacramento, com o qual fazem tal profissão na virtude que muytas vezes lhes perguntão por peccados, a que respondem com grande temor que, depois que tomarão o Senhor, nunqua cairão nelles, espantando-se de lhes perguntarem por isso, confessando-se aqui soldados mancebos e homens muyto fidalguos todas as somanas, os quais perseverão na virtude ha muytos dias, e eu sou boa testimunha disso. Andão muy exercitados na humildade, que he muyto de louvar nesta terra, onde comummente os homens perdem as vidas por huns pequenos pontos de honra. Não se pejão de esperarem que se acabem de confessar os da terra, para se irem aos pes dos padres. He para dar muyta gloria a Deos ver a mesa do Senhor poios dias da somana, e prin- cipalmente aos Dominguos, chea de canarins, bramines e outras nações christãas, misturadas com os portugueses da maneira que diguo, todos, como irmãos, comerem de hum mesmo manjar, que he Christo Nosso Senhor, e beberem todos por hum vaso, sem aver nojo nem fastio huns dos [135 v.] outros. Comulgão // nesta casa cada somana cento e trinta ate cento e cinquenta pessoas humas semanas polas outras, não falando nas festas, nem em muyta pessoa que vão 4 5°
comulgar a suas freguesias, por viverem longe desta casa; ha muytas confisões de escravos e pessoas indespostas para tomarem o Santíssimo Sacramento; nos escravos se faz muyto fruito, porque ha muytos de muyto tempo christãos que não se confessão, por culpa dos senhores ou delles. Dão estes muyto merecimento aos confessores pollo tra- balho que tem de os entenderem e ensinarem. Alem das confissões de casa em que se occupão os padres, como tenho dito, ay muytas a que acudir fora, e a todo o tempo que são chamados vão, que he hum particular serviço de Nosso Senhor, porque segundo são muytos os doentes e poucos os confessores de fora que lhes açudem, morrerião muytos sem confissão, se lhes não socorressem desta casa, como as vezes acontece, porque a gente he muyta e a terra trabalhosa, e da mesma maneira socorrem aos ospitais, quando são chamados, assim aos del-rey, como os dos Incuráveis. Os que padecem por justiça não vão nunqua sem padre desta casa e os acompanha e esforça, e muytas vezes se não querem confessar com outros confessores, pola devação que tem aos padres. Fazem-se muytas amizades, com as quais se corta o fio muytas vezes a muytos desafios e briguas, onde se perdem comummente as vidas, por ser a honra nesta terra mais estimada que todas as outras cousas, e muytas vezes mais que Deos. Elie seja louvado e glori- ficado em suas obras que se fazem por meyo de seus servos. Os irmãos antiguos, alem dos exercitios ordinários de casa e estudo, em que os occupão aos Domingos e festas, vão fazer a doutrina aos presos desta cidade, a saber: dous ao tronco onde estão portugueses e homens da terra e outro a Cala, que he huma cadea onde estão degredados e presos e estes todos são da terra. Aos portugueses se faz huma pratiqua espiritual; aos da terra se ensina a doutrina, se- gundo a capacidade de cada hum; os irmãos que se occupão
nisto persuadem muytas vezes aos prezos que se confessem, que não he pequeno merecimento para os confessores. Hay [136 r.] outra doutrina ordinária de cada // dia, que se faz em huma irmida, que estaa junto da nossa igreja, e he do mesmo collegio; nesta se gasta ordinariamente duas horas cada dia, assim em buscar os mininos polia cidade, como em os ensinar; he fruito grande que se tira desta doutrina, principalmente nos meninos que comummente não sabem outras cantiguas; tem cuydado muytos delles de ensinarem em suas casas de noyte e as portas com candeas, e junta- mente dos meninos da visinhança onde cada hum mora; louva-se muyto Deos Nosso Senhor em a boca destes ino- centes. Depois da Paschoa parece bem ao padre dar-se alguns dias de vacassõens nos estudos por esta terra ser neste tempo muyto trabalhosa e ensufrida a calma. Ordenou o Padre Dom Gonçalo que neste meyo tempo tivessem os irmãos collegiais algum bom exercido espiritual para recrear as almas, e alevantar os espíritos, que sempre andão aca- nhados e distraídos com o exercitio das letras humanas e, para isto, limitou huma certa hora cada dia, em que se ajuntassem, e elle com os irmão antiguos e noviços como diguo escolares; forão estes exercitios ou colassõens de muyto fruito e proveito; tratarão-se nelles de tres virtudes: pobreza e castidade e obedientia; a oordem que o padre tinha nisto era tratar da virtude em si, e depois dos louvores delia, e dos remédios como se poderia aquerir. Dava aos irmãos hum ponto destes, meditavão sobre elle e dezia cada hum o que sentia, e segundo o ponto que lhe dava mandou o padre escrever os ditos dos irmãos. Ouve muytos muy espirituaes e proveitosas. Foy este hum grande alivyo para o fastio do estudo e renovação espiritual para poderem outra vez levar a carrega das seculares letras. Os padres e 4 5 2
os irmãos renovamos os votos polias festas acustumadas, como se usa na Companhia, e dia de Nossa Senhora da Assunção, por ter nisso devação o Padre Dom Gonçalo. Polo Espirito Sancto fez o padre patriarcha huma pra- tica aos irmãos e padres, ao tempo que querião fazer os votos, por lho pedirem o Padre Dom Gonçalo e os demais padres, os quais se acharão todos a ella; foy mui sancto e proveitoso, moveo muytos a lagrimas, porque a materia e eficacia que a tratava não dava lugar aos olhos // para [136 *.] reterem as lagrimas; tratou do desemparo da Igreja e per- dição das almas, que não conhessem a Deos e como nos Nosso Senhor criara pera remedio delias, e o que aviamos mester para sermos verdadeiros operários e companheiros de Christo Nosso Senhor; cahio-lhe bem chorar isto como pay eleito e constituído de tantas, as quais sabe que se per- dem, sem lhe poder valer nem socorrer. Como diguo, a materia foi suave e tratada por tal pessoa, a qual na vir- tude responde bem [com] a dinidade que tem, conforme aquelles padres antiguos, puros e rectos em o serviço do Senhor. Emquanto esteve no collegio, confessava aos irmãos antiguos e acodia a outros muytos confissõens na igreja; foy amparo de muytos pobres e orfãos com algumas esmolas que ouve, que elle destribuia por sua mão; ordenou este anno alguns sacerdotes, assi de São Francisco, como de São Dominguos, e de casa o padre Francisco Cabral e o padre Yheronimo Fernandez; Tornando aos votos, ao tempo que os irmãos os fazem ay muyta alegria espiritual e parece que se sinte em todos humas novas forças para o serviço de Nosso Senhor. Cresce o fervor e desejo de exercitar a obediência por partes diver- sas e esteriles do fervor humano, como Nosso Senhor nos que tem aparelhado para todos; huns suspirão por Japão, outros por Maluco, outros pola China, outros por Comorim, outros polo Preste, outros por Sam Lourenço, cada hum 4 53
deseja o lugar em que lhe parece mais puramente poder servir e agradar a Deos, resignados todos na vontade da obedientia como filhos da Companhia, porque perdendo isto, que Nosso Senhor não permite, perdemos o direyto que temos de verdadeiros filhos delia. O repouso dos irmãos passão-se muytos delles nas lembranças dos trabalhos em nossos irmãos ausentes e enfermos e fervores da christan- dade.Ouve aqui muitos dias em que o Padre Dom Gonçalo deo hum exercitio aos irmãos das juculatorias e pos para isso proemio (sic) de missas e rosairos; foy o fervor tamanho entre os padres e irmãos que, por não perderem suas obri- gaçõens da obedientia, ouve irmão que disse hum dia: O adoranda Trinitas com sua oração mais de duas mil vezes, [137 r.] outros mil, tantas cada hum, conforme a suas//occupa- çõens. Não avia irmão que falasse hum com outro senão quando era muyto necessário; os que não sabião a jacula- tória de memoria andavão com os papeis na mão, em que trazião escrita, com os olhos occupados sempre nelles, outros com contas numerando as que dezião, de maneira que os que tinhão seus officios sem perderem ponto do que eram obrigados, quasi nunca se achavão sem contas ou papeis, emquanto lhes permitião os trabalhos ou exercitios em que andavão. Não se tratava nos responsos outra cousa senão querer saber cada hum a ventage que levava aos outros, ficando daqui os irmãos com espiritus devotos e virtuosos hábitos pera mais facilmente levantar a mente a Deos. Os estudos ate este dia das Virgens, que agora passou, forão procedendo como dantes, a saber: três classes; em a primeira lya o Padre Marcos Rethorica e huma oração pro Millone e Virgilio e Salustio alternatim; a segunda o irmão que se chama Pero Vaz; a terceira o Padre Josepho Ribeiro no capitulo que esta na crasta; lerão-se ordinariamente duas lições de theologia cada dia; polia manhã, o Padre Antonio de Quadros lya a primeira parte de Sancto Thomas; a tarde, 4 54
o padre Melchior Carneiro a Secunda Secunda;. Vierão a ouvi-lo quatro ou cinquo padres de S. Francisco, inda que com assaz trabalho, por tempo de calma e de inverno, por ser sua casa longe do collegio; a lição de pola manhã ouvião de casa tres padres e dous irmãos, ainda que não forão con- tínuos; os de fora não se achavão a ambas as liçõens mais que hum mancebo, o qual hya ao curso com os irmãos de casa, e este sempre foy continuo a lição da tarde; fomos sempre os mais dos padres. Desta maneira se procedeo ate este dia das Virgens, em o qual pareceo bem ao Padre Dom Gonçalo assi por ser muy solenizado desta casa como da cidade venerado fazer-se o principio das escolas, sostentando-se concluõens gerais da reitorica; esteve a ellas o viso-rey com muyta gente da cidade, e religiosos de São Francisco e São Dominguos. O dia dantes disse o Padre Marcos Nunez huma oração, e ainda que se não achou nella o viso-rey encheo-se a igreja toda de gente, assi de religiosos como de // gente honrrada, í137 V-1 moveo muyto por ser a materia muyto para isso; logo na mesma noite os irmãos escolares armarão as crastas em verso e em prosa, as quais occupavão todas as quatro crastas da casa, sem terem outras tapeçarias, somente alguns pequenos panos de figuras de Frandes; da outra parte estavão os esteos todos alcatifados com muytos ynigmas em verso, em latim e em grego, em louvor da Virgem Nossa Senhora e dalgu- mas sanctas; fizerão-se muytos sobre o sentimento da morte del-rey, que sancta gloria aja, e alguns delles taes que como- vião a lagrimas a quem os lya. Veyo o viso-rey ao dia das Virgens polia manhã a missa; avia muytos generos de instrumentos, assi charamelas, ata- bales, trombetas, frautas, violas de arco e cravo, e pregou o Padre Dom Gonçalo com seus fervores acustumados; aca- bada a missa, que foi de diácono o subdiacono, o padre que a disse levou a cabeça das Virgens com procissão solene que 4 5 5
se fez polias crastas, acompanhada do viso-rey e de toda a mais gente, que se achou em a igreja, com os instrumentos acima ditos, e a mais musiqua dos meninos do collegio. Não he pequena gloria de Nosso Senhor solenizarem-se estes dias seus e de seus sanctos com o aparato e festas exte- riores nesta terra, porque esta gente toda não tem senão olhos e orelhas de carne, que quebra isto muyto os coraçõens e ânimos nesta gentilidade, e animão-se por outra parte grandemente os novos christãos, porque, como diguo, regem- -se polo que vem, porque são ainda tenros na fee; alguns se convertem nestas festas. Aquy veyo os dias passados hum honrrado e riquo e, por entrar na igreja, o moveo Nosso Senhor e esta feito christão. Acabada a missa e procissão, recolheo-se o viso-rey a hum cubículo dos nossos, e dahy se foy com os padres a comer ao refeitoryo e, depois de comer, veyo a casa e apo- sento dos noviços. // Estava ordenado em huma parte, no vão da crasta, onde se avião de ter as conclusões, e sostentaria hum irmão, e asistia o Padre Marcos e doutra parte do mesmo vão estava hum teatro grande alcatifado, onde se avia de representar huma tragedia que o Padre Marcos tinha feito. Como forão três horas, comessarão-se as conclusõens; durarião pouquo mais de huma ora, polo tempo nam dar lugar para mais. Comessou-se loguo a tragedia; as figuras que entravão erão estas: no primeiro acto entrou o Papa e a Igreja e, acabando, entrou o choro dos mininos cantando; no segundo, Asia, Africa e Europa, vestidos cada hum, segundo o custume da terra que representavão, com seu choro, e os outros mininos; no terceiro, os quatro patriarchas de Jherusalem, Anthiochia, Alexandria e Constantinopla, com seu choro; o quarto, o Tempo e Vicissiíudo rerum; o quinto, a Providentia, Mise- ricórdia e Justiça, todos com seus choros, tratavão do desem- paro da Igreja. 456
Era materia piedosa, e foy bem representada; estavão todos promptos, assi os que entendião como os mais que não entendião, porque estes occupavão os olhos nos meneos de que usavão as figuras, e os outros no som lastimoso das palavras que dezião, e huns e outros se aproveitavão dos choros dos meninos, que erão todos do collegio, e fazião-no tão bem que na terra não se achou quem no fizesse milhor. Ajudou muyto para estar a gente mais prompta estar o Padre Marcos no meyo do teatro e declarar ao viso-rey o nome das figuras e o que tratavão. Em suma, era a gente muyta, a qual occupava toda a crasta de baixo e as varandas de cima; esteve o viso-rey ate se dar fim a tudo, que se aca- bou ate por-se o sol. Foy polia bondade de Nosso Senhor toda a obra muy solemne e aprasivel, e a todos parece que necessária e proveitosa, porque com isto se esforção e animão os estudantes para prosseguir seus estudos, movem-se seus pais para mandarem seus filhos que se vem as letras, aynda que nesta terra he muy trabalhoso exercitio delias, assi por ser muyto quente // deleixada, como poios homens e pes- t'38 *•! soas que nella vivem comummente aplicar-sse pouquo a qualquer trabalho que se offerece. Passadas as conclusõens, ordenou-se o curso, o qual lee o Padre Antonio de Quadros, e deixou de ler sua lição de theologia, assi por ter ja lido o mais dificultoso e necessário, e poios padres de S. Francisco que vinhão a ouvir manda-los a sua obedientia por diversas partes, e assi fizerão alguns de nossos irmãos. O padre Melchior Carneiro deixou de ler a sua, huma maa despossissão que lhe sobreveyo no peyto, a maneira de catarro, juntamente com dor de cólica, que o trata as vezes mal. Fiquou o Padre Francisco Roiz, o qual nos le a mesma lição da tarde, e dantes aos confessores lião casos de consciência. Comessou-se o curso a 24 de Outubro; entrarão nelle 21 estudantes, a saber: irmãos de casa, cinco; e do collegio 4 57
dos mininos, cinco; e de fora oito bem principiados os mais delles. Estes todos erão discípulos do Padre Marcos, donde por agora foi em huma classe vaga, e são aguora duas, a do irmão Pero Vaz e a do Padre Josepho Ribeiro. O Irmão Pero Vaz tem quarenta e tantos estudantes e o padre pouquo mais ou menos, por neste principio do anno entrarem nelle vinte moços junto da escolla de ler, de que o irmão tem cuydado; lee o padre na sua classe Ceduleo epistolas familiares, com os princípios necessários; o irmão lee Túlio, De amicitia, e algumas epistolas suas e Virgilio. Ay outra casa separada onde tem cuydado hum irmão de exercitar alguns estudantes do padre em declinar e conjugar. Antre os irmãos estudantes de casa ha muytos de grande engenho. Deos Nosso Senhor lhes dee virtude com que temperem o destraimento que tra- zem consiguo as letras, e os conserve em simplicidade sancta para poderem servir dignamente. Na escola que acima disse de ler e escrever e contar ha nella pouquo menos de cem moços, e são muytos delles de bom engenho para as letras. [139 r.] // Alem da casa e aposentos em que agora estão os novi- ços, se abrem aguora alissersses para outro lanço que a-de servir de agasalho aos mininos orfãos e da terra que se crião neste collegio, separados dos irmãos, e isto porque a casa, onde estavão aposentados, estar toda para cahir, e esta casa de quatorze braças em comprido, e treze de largura, e assi he necessário grande, porque os mininos ordinariamente são cem, pouquo mais ou menos; são muy diversos nas naçõens, a saber: portugueses, castiços, e mestiços, malavares, bra- menes, canarins, arabios, dacanis, bengalas malucos, jaós, chinas, abexins, cafres. Estes se exercitão em aprender a ler e escrever e contar e estudar em aprender a doutrina; ordi- nary amnte fazem seus choros antes da menhã e a noite, os quais cantão separados a doutrina que o Padre Mestre Fran- cisco, que nosso Senhor tem em glorya, lhes ensinava. Estes meninos acodem as percissõens desta cidade 4 58
comummente e ornam-nos muyto com sua capella de canto de orgão, e assi acompanhão os homens que morrem por justiça, fazem os officios na casa nos dias solemnes de Dominguos, assi cantando as vesperas, como officiando as missas. Ajudão as missas aos padres, e no mais em que os occupão; eu estou aqui com elles ao presente com hum irmão, por assi parecer bem a obedientia. Nosso Senhor me ensine como me ey-de aver comiguo e com elles, para que não erre no que me mandão. Alem destas obras, que aguora se começão, se detrimina com a ajuda de Nosso Senhor, de se por mão na ygreja antes do ynverno, por esta que temos estar aponteada e ser em si muy pequena, ainda que os gastos desta casa são gran- des em prover muytas partes, porque, alem do collegio onde estão os padres e irmãos e aposentos dos noviços, e estes dos mininos orphãos, ay outros separados dos caticuminos, onde ordyinariamente sempre estão dez, vinte, quarenta, cin- coenta; os quais todos a casa prove, e fora do collegio tem hum hospital, onde se recolhem homens e molheres da terra doentes, os quais se curão e provem //da mesma casa. Nelle l'39 V-1 se agasalhão os caticuminos por remedio, por ao presente não poder fazer aposento para elles que (5) com todas as necessidades de casa a tudo se prove polia bondade de Deos, especialmente para esta obra da christandade e que Nosso Senhor particularmente ajuda; faz-se muyto nella, e mais se faria se as vezes não falecessem alguns meios humanos necessários para proceder nella como lho merece, mas este negocio he mal chonhecido dos homens. Provesse daqui também huma casa que temos em Cho- rão, onde estaa o padre patriarcha; sostenta a casa alguns (5) Seguem-se duas palavras ilegíveis, corroídas pela tinta. BACIL: Faltam simplesmente as palavras ilegíveis, lendo-se: por ao presente não poder fazer aposento para elles com todas as necessidades... 4 59
christão pobres assi do comer como do vestir. Depois da vinda do viso-rei parece que, polia muyta necessidade e fome que padecião os soldados, socorrião-se aos mosteiros e a este collegio; vem muytos despois de cerrada a porta a noite; manda-se fa2er de comer para elles, porque os sobejos dos irmãos não bastão algumas vezes; passão de 50; são quasi todos portugueses, e alguns honrados, segundo dizem; passão muyto trabalho assi no comer como no gasalhado. Seja Nosso Senhor louvado que dos sobejos de seus pobres prove a tantos. Antre os padres que o patriarcha ordenou este anno de missa foy hum da terra, da nação canarim, assi por ter as partes necessárias para administrar as ordens, como por aver muytos annos que dava bom exemplo de si, exercitando sem- pre em ensinar a doutrina aos mininos christãos, em huma igreja de São João, que estaa fora desta cidade, e por ser filho desta casa, e criado nella, dos primeyros mininos que no collegio se recolherão. Foy primeyro sacerdote desta nação que nesta terra se ordenou. Quis o Padre Dom Gonçalo que cantasse missa neste collegio com a mais solemnidade que pudesse ser a qual disse dia de Ascenção, com diácono e subdiacono, e seus padrinhos; officiarão-na os mininos do collegio, e com muyto genero de instrumentos; esteve a ella o governador; despois de acabada a pregação, foy a oferta; estava a igreja [140 r.] toda chea de gente nobre portuguesa // e alguma da terra e sua mãi e parentes, os quais vinhão com suas ofertas a beijar-lhe a mão com as lagrimas nos olhos de prazer; o governador, por lhe fazer honrra e gasalhado, comeo no collegio, e teve consigo a mesa os vizinhos e amiguos de casa; festejarão-no com jugar as canas e correr as manilhas a porta do collegio, que estava bem enramada. Achou-se a tudo isto o governador; foy grande alegria em todos, espe- cialmente nos christãos da terra os quais lhe tem grande 460
reverentia; ensinão-os (sic) e confessão-os (sic) pola lingoa, esperamos que fara muyto serviço a Nosso Senhor, pois elle foy servido de o escolher e apartar dantre os outros todos para confiar delle sua gloria e honrra. Esta Coresma passada soube o governador como estava cercado Chaul e muytos capitaes do Zamalucho; foy neces- sário socorrer com brevidade, o qual socorro levou muyta gente, assi soldados como quasi todos os casados desta cidade e, por ser a necessidade grande e o negocio de muyto serviço de Nosso Senhor, detriminou o Padre Dom Gonçalo, por lhe também pedir o governador, hir nesta companhia offere- cido ao que Nosso Senhor detriminasse. Pareceo-lhe bem levar-me por companheiro; partimos de esta cidade depois de entrada a Coresma. O Padre Dom Gonçalo foy na embarcassão de Dom Diogo de Noronha, e a mim mandou que fosse na de Dom Antão. Embarcou-se o governador com a mais gente em hum mosteiro de S. Fran- cisco na envocação dos Reis Maguos, que estaa junto da barra, todos desejosos de poder socorrer a nossos irmãos, que tremíamos estarem em grande necessidade, por Chaul ser descercado e aver nelle muytos casados honrados com molhe- res e filhos; as embarcassõens, em que fomos, erão pequenas e ligeiras, porque não são naos nem caravelas; os gasalhados delias são trabalhosos // e estreitos, polia gente ser muyta; [ho t.j despois que comessamos a fazer nossa viagem, começarão também os estômagos do Padre Dom Gonçalo e meu a sentir o trabalho do mar, e não foy pequena disiplina para elles os dias que pusemos nesta viagem, mas quis Nosso Senhor que não fosse trabalho continuo, porque poios noroestes serem grandes, acolhia-se a armada sobre a tarde a algumas ensaedas, que se achão ao longo da costa, e tomá- vamos por partido ou nos era forçado não comermos em todo o dia senão quando desembarchavamos em terra, e isto porque o fastio do mar e trabalho grande de enjoar não 461
sofrião os estômagos o comer; contudo não perdemos hum dia de jejum, por serem todos dias da Coresma; nestas saidas em terra se ajuntavão alguns soldados e fidalgos ao Padre Dom Gonçalo, e tratava-lhe de cousas esperituaes aprazíveis e proveitosas. Em huma destas enseadas onde nos recolhemos, veyo ter huma embarcassão de Chaul e deo por novas ao governador como hera comessada a guerra de huma parte e da outra; a gente toda da frota, com esta certeza, comessou-se apare- lhar-se assi com armas como as conssientias; o Padre Dom Gonçalo e eu logo nos confessamos, e ja dantes o tínhamos feyto; no mesmo caminho confessamos algumas pessoas antre os penedos que estão ao longuo do mar e era o lugar mais conveniente que então avya. Depois que dahy partimos deo-nos Nosso Senhor ventos prósperos, que era vento Sul, não acustumado nos tais dias, o qual nos fez passar o pedaço do caminho que nos ficava com brevidade. Antes de chegarmos a Chaul, huma ante- manhã do dia que la chegamos, sempre fomos com as ore- lhas cheas de tiros que hum galião e duas caravelas e huma gale nossa atiravão aos inimigos; ja podem cuidar que tais [Mi r.] eriamos, pois // yamos offerecidos a perder as vidas, se Nosso Senhor disso fosse servydo; toda a armada se pos a pique, querendo o governador dar loguo nos ynimigos; não se acharão desapercebidos os soldados com suas almas e nos com as nossas, que era cada hum com hum crucifixo detre- minados de sair com nossos capitaes e chegar onde elles chegassem, por assim parecer a gloria de Nosso Senhor. Fomos surgir ao pee do morro, aonde estavão os inimi- guos, a menos de hum tiro de bombarda delles, e tanto menos que algumas das nossas embarcações poderão estar a fala com elles. Acudirão muytos das estancias, donde esta- vão, por lhe parecer que os cometeríamos. Tinhão occupado hum lugar onde estava huma cruz, a qual em todo o tempo 462
que ahy estiverão não fizerão nenhum desacato que se saiba, antes se teve por mistério o deixarem-na estar alevantada. Depois de surgir a armada, porque toda vinha junta, a qual era formosa de amostra de espingardaria e artelharia, que punha grande espanto nos immiguos e assim o fez a cidade com muyta gente que nos andava esperando na praia; dizia- -se que se não vira tão fermosa gente na Yndia como então se ajuntou. Os emmiguos cessarão loguo de sua parte e vierão cometer pazes ao governador, e foy Nosso Senhor servido de se tazarem (sic) (6). O padre Dom Gonçalo e eu nos fomos ao hospital onde confessamos a muytos e minis- tramos o Santissimo Sacramento da Eucaristia os dias que ay estivemos, especialmente naquelles, em que se tinha alguma esperança de dar o guovernador nos ymmiguos, e não efeituarem-se as pazes tão cedo foy causa de muytos se reconciliarem com Nosso Senhor e com os homens, tirando- -se de odios e de outros maos prepositos. O Padre Dom Gonçalo pregava aos Dominguos e outros dias que se offerecião para isso. // Despois das pazes feytas C'4' *-J foy o padre Dom Gonçalo a Tanaa e a Bassaim, em com- panhia do governador; chegamos a Tanaa a vespora de Nossa Senhora da Anunciação; soube o padre como em Baçaim não avia quem pregasse ao dia de Nossa Senhora, polo o Padre Mestre Gonçalo ser em nossa busca, e não nos encontrarmos no caminho, detriminou o padre de se em- barcar aquella noite com alguns soldados que o quiserão acompanhar, para poder chegar a tempo ao outro dia, em que se pudesse pregar e, indo navegando pollo rio, deu o catur em seco, antes da manhã, e polia devação que levava e o caminho ser curto, que não podia ser três legoas, detri- minou-se de hir por terra. Acompanharão-no alguns solda- (6) BACIL: fazerem.
dos, sem nenhum delles saber o caminho, no qual gastarão a parte da noite e todo o dia, sem poderem chegar a cidade senão ja a noite, caminhando sempre por matos e montes habitados de alguns poucos gentios, a quem não entendião; alguns dos companheiros ficarão cansados sem poderem aturar o padre pollo caminho ser da maneira que diguo e não levarem mantimento; não foi parte do trabalho grande o caminho para apagar a devoção e fervor que o padre levava para solenizar a festa de Nossa Senhora, antes parece que lhe creceo o desejo, por nisso também lhe parecer que dava pesar ao diabo, e outro dia polia manhã pregou na nossa igreja dos louvores da Virgem Nossa Senhora. Tornamo-nos a partir para Goa com o governador, em- barcando-nos em Thanaa a sexta-feira da semana de Ramos, e chegamos ao Dominguo seguinte. Gastamos em toda esta viagem hum mes, fomos recebidos dos padres e irmãos com a charidade acustumada. Fizerão-se na Somana Sanaa os officios nesta casa muyto devotamente como sempre se acustuma, assim nas paixõens cantadas como no officio sesta-feira, que se faz com huma persissão, em que levão o Senhor em huma tumba preta nos ombros de quatro padres vestidos com alvas e os amitos [142 r.] polia ca//beça com suas estolas atravessadas, e o padre patriarcha no cousse da tumba, com huma capa preta, e a cabeça cuberta, e os mininos vestidos com alvas e estollas com os martyryos nas mãos, cantando populli facti sumus, com outras mais cerimonias que movem muyto a lagrimas; o officio de sabado fas-se da mesma maneira cantado com a venção do cyrio, como he custume fazer em Portugal. A per- cissão da Ressureição foy este anno mais solemne que nunca se fez; levou o padre patriarcha o Santíssimo Sacramento, e levavão o palio seis padres de capas brancas, e dous que assestião; foy a percissão mais longe do que acustumava hir os annos passados, por assi pedirem os vizinhos; as ruas 4 6 4
estavão cheas de ramos verdes de huma e de outra parte, as janelas das casas com muytas vellas acesas, e os mesmos ramos cheos das candeas que davão claridade por toda a rua; em algumas partes delias camaras cevadas e estrumemos de fogo... (7) o tempo que passava a percissão; ouve muytas invençõens, danças e outros jogos, e glorificando-se ja Deos Nosso Senhor assi nestas obras que todas se fazem para sua gloria e honrra, como em todas as mais em que se exercitão estes seus indignos servos. O Padre Dom Gonçalo, depois da Paschoa passada, reco- lheo-se em Chorão com hum padre e dous irmãos; esteve alguns dias recreando-se com sanctos exercícios, a saber: oração, lição e exercitio espiritual que tinha cada dia elle com os irmãos, mas o tempo não lhe deu lugar para lograr muyto estes dias. Este anno foy Nosso Senhor servido de levar para Si e tirar os trabalhos desta vida ao padre Miguel de Nóbrega, o qual avya dias que estava neste collegio sem juizo, e depois delle, o Padre Lourenço, de febres. Nosso Senhor, por sua bondade misericórdia, os ajunte a companhia dos seus esco- lhidos. As mais novas de nosso irmãos ausentes e o que Nosso Senhor obra por elles saberão // por suas cartas, como disse, t>42 porque, na verdade, laa mais ao longe comunica Deos Nosso Senhor seus dons e graças aquelles que menos participão do socorro humano, porque nos aqui, aynda que ha muytos infiéis, são tantos os portugueses que parece este outro Por- tugal, e não he esta pequena cousa para pedir a Nosso Senhor que queira effeituar esta hida do Preste, tão desejada do padre patriarcha e dos seus, onde não ha cidades nem casas senão matos e despovoado. Pareceo que podessemos yr (7) O documento encontra-se roto nesta parte. BACIL: e instrumentos de fogo que desperarara (sic) to tempo que passava a procissam... 465 DOC. PADROADO, VI — 30
este anno; escusou-se o viso-rey, por estar tão necessidado e não termos recado do bispo nem dos padres. As fustas, que forão o anno passado ao Estreito, acharão o porto occupado com turcos. O capitão detremina ver se pode senhorear-se a terra, o que Deos não permita, porque sera principio de grandes males, parece-me se não se offerecer algum impe- dimento grande que nos mandarão este anno que vem, segundo o tem prometido o viso-rey, e para então queira Deos Nosso Senhor que teremos recado do padre bispo, e juntamente a obediência del-re, a Ygreja Romana, porque onde estão tais servos de Deos, como padre bispo e mais padres e irmãos, não se pode deixar de effectuar huma obra tão sanaa como esta, e de tanto serviço e gloria de Deos Nosso Senhor. Isto he, charissimos irmãos, o que brevemente pude resumir do que se passa neste collegio; não me parece que he necessário lembrar-lhes que encomendem a Nosso Senhor estes seus irmãos em Christo, tam separados de nossa sancta conversação, ainda que a todos he unidos no amor sancto e puro, com que todos nos amamos, porque o mesmo amor traz a obrigação consiguo, e mais eu, como mais terno nesta sanaa Companhia e menos exercitado na virtude, e por isso [143r.] mais necessitado lhes//peço, por amor de Nosso Senhor, me ajudem em particular com seus sacrifficios e orações, para que milhor possa comprir o que tenho professado, e perseverar ate o fim nesta sancta congregação, para que Deos Nosso Senhor me chamou. Deste collegio de S. Paulo, a 26 de Dezembro de 1558. Por comissão do padre provincial Servus inutilis Antonio da Costa. 466
54 CARTA GERAL AO PADRE PERO DE ALMEIDA Goa, 26 de Dezembro de 1558 Documento existente na BAL, 49-IV-50. Fls. 143 r.-148 v. (1) A graça e pas de Nosso Senhor Jesu Christo seia sempre em nossas almas. Amen. Os annos passados, charissimos irmãos, creo lhe tem ja escrito o muyto que Nosso Senhor obra nas christandades destas partes, e do muyto que sua divina misericórdia in dies a vay augmentando. A mim este anno me deu o padre pro- vincial cuidado de lhe escrever o que nelle Nosso Senhor obrou nesta ilha de Guoa, mas porque disso mais saberia polia ter a cargo que por eu ser para isso; mas tomarão, charissimos, o que acharem com a vontade de satisfazer a seus desejos, pedindo-lhes que sempre em suas oraçõens encomendem a Nosso Senhor esta christandade, e aos que sobre ella andão para que, ajudados com ella, posão conse- guir o que nella se pretende. A christandade destas partes, polia bondade de Nosso Senhor, foy sempre em muyto augmento, especialmente estes dous annos. Esta ilha de Goa, depois que o Padre Dom Gon- çalo e o Padre Francisco Roiz a ella vierão e tomarão a carguo o que mais lhe era necessário, e o que mais impedia duas cousas erão, (hirmãos charissimos), por cuio effeito se empedia muyto o agmento da christandade, a primeira// [M3 »•] (1) BACIL: Cartas do Japão, II, fls. 63 r.-68 v. 467
a favorece-la e aiuda-la (2) a desfavorecer os gentios e o empedir-lhes seus ritos e custumes para a qual trabalharão os padres com os que governão a terra que nisso também se mostravão favoráveis, que se pusesse execussão as provisõens e privilégios que sua catholica alteza, que gloria aja, para isso tinha mandados, fazendo com que nenhum gentio ser- visse officio nenhum de republica, e que todos os servissem os christãos, e que as rendas de Sua Alteza lhe fossem arren- dadas a elles, e tiradas aos gentios, que dantes as trazião, e outras merces e favores, que cada dia os que governão lhe fazem, assi em seus bautismos, como abaixo verão, como aventejando-os em tudo o que se offerece ser-lhes neces- sário; ajudou também muyto a isto o universal favor dos portugueses e gente do povo que, vendo as cabeças occupadas no favor da christandade, se moverão também a ajudar e augmentar, trabalhando por sua parte no que podião, favo- revendo-os ja feitos e induzindo os por fazer que por sua fazendas e sua sojeição tinhão, não se querendo servir nem occupar em suas cousas senão dos christãos, excluindo de si os gentios de que dantes se servião onde, polia bondade de Nosso Senhor, de dous annos a esta parte, o mais de que nesta cidade se pratica he do favor e agmento da christan- dade e do desfavor da gentilidade e seus ritos, cousa que dantes era mui esquecida, posto que donde reina o interesse não pode deixar de reinar o favorecer os que delle usão e se dar trabalho e em que mereçer aos que pretendem mais a honra de Deos e salvação das almas que os bens e riquezas desta vida. Para o serviço de empedir os ritos gentilitos ajudarão também muyto os que governão fazendo comprir as penas e castiguos que a sua christianissima Alteza manda dar aos (2) Segue-se uma palavra que não conseguimos decifrar. 468
que o fizerem, e os padres tomarão muyto isso a carguo, e me derão especial cuidado de lhes empedir suas festas e cerimonias. Forão, irmãos charissimos, os gentios fazer suas festas e casamentos publicamente por esta cidade e aldeas delia, passando de noite pello meio delia com suas percis- sõens de muitas tochas e candeas em que levavão seus novos casados com muytos tangeres e festas ao seu custume, fazendo seus banquetes e ajuntamentos de muyta gente, com muyta solemnidade e gasto, fazendo nelle suas cerimonias gentí- licas e invocaçõens diabólicas e lavatórios; mas agora, polia bondade de Deos, e polia diligentia que em os impidir se pos, não somente estes públicos se não fazem, mas ainda os occultos se lhes empedem, e para isto tem o padre dado ordem que, tanto que se sentirem, vamos loguo a os empedir e, posto que disto que ja em o anno passado lhes escrivirião direy o que este anno se fez. Vendo os gentios que seus custumes se lhes hião proi- bindo, trabalharaão de os fazer mais occultamente, e mais de noite que puderão; mas não os podem fazer tão oculto, que os christãos, que os vegião, os não sintão // e nos não [m venhão dar recado, assi por saberem os dias e tempos em que se soem fazer, como por conjecturas que vem nos que a fazem. Os dias passados, nos derão os christãos rebate como vinha huma festa dos gentios que se chama Ganessa e Vinca- choti e Vinaico, dos nomes dos paguodes a que celebrão, em a qual dezião que os gentios soião fazer suas cerymonias; que os fossemos buscar aonde elles presumião se fazião e, indo com elles, de noite, porque então se tem elles polia maior parte fazer suas festas, achamos em casa de hum bra- mine hum pagode que então se acabava de fazer, e o bra- mine com hum seu filho fogido polo medo que de nos teve, mas não se pode esconder, de maneira que depois o não prendessem e o apresentassem ao vigairo geral, por cuio juizo foy degradado para sempre para as gales, e que per- 469
desse toda a fazenda, conforme ao que Sua Alteza manda fazer aos que semelhantes cousas fazem. A mesma noite demos em casa de outros bramines, em a qual achamos muytas cerimonias que lhe destruímos, e lhes tomamos tres pagodes, a que elles chamão Salgrama; os bramines fugirão e não se puderão mais achar, mas he passado hum mandado para serem presos, tanto que forem achados; os pagodes, que esta noite soem fazer, eram pin- tados em folhas de arvores e coquo, e com os olhos de dever- sas cores atados com linhas polios meios, e destes erão os que lhe tomamos. Fazem também outra festa em outro tempo do anno, a que elles chamão Vali, nome do pagode a que a fazem, e nesta, por cerymonia, quebrão com os pees muytos pepinos bravos, fazendo pilouros e candieiros de masssa de arroz cuzido, com suas unções e lavatórios, com outras muytas cerimonias. Então os fomos também buscar e, achando alguns nas ditas festas, forão presos e condenados no que pareceo justo. Outros se acharão em outra festa que na mesma noite cai, e fazem outro pagode a que chamão Ceti; estes forão também presos, posto que fossem dos mais honrados merca- dores que antre elles ha. Na mesma noite se acharão em casa de outro gentio honrados entre elles dous livros de mais de cem folhas, a que elles chamão Anadipurana, em que tem escrito as mais das cousas de suas falsidades e fabulas de seos deoses; estes fizemos que se tresladassem para ter noti- cia de suas cegueiras, e em hum pouquo que ja he tresla- dado conta do principio e criação de seus deoses, e de como vierão a este mundo em diversas figuras de cagado, porco, peixe, jacintho e outras parvoíces; Conta também a diver- sidade dos deoses, e seus nomes, e os principais são Ramaa, Guindaa, Hai, Vitila, Ganaesso, Mangisso, Santeu e Malssa- deve; este dizem que foy uma segunda Venus, e tem a renda 4 7°
das molheres desonestas que commummente habitão no meio de seus templos, segundo vy nas terras de Salcete aonde, os dias passados fuy // visitar aos christãos. Também lH' v0 outros que chamão Ravolnaico, Capatonato, Betalo, Bairon, Cameleisor, Negulatu, Betulatu, Chamaquia, Visnu, Maesso, Irgão, Punesso; estes tres pitão com hum corpo e três rostos, e adoram-no por tres; muitos outros tem que se não podem nomear polia grande multidão delles. No mais que esta por tresladar esperamos de descubrir muytas falsidades que nos ajudem para confundir os que no-las confião; o que tinha esta biblia foy preso, assi por ela, como por feitissos que trazia consiguo, e para castiguo de semelhantes e favor da christandade foy com baraço e pregão nos lugares públicos da cidade; foy degradado para a casa dos captivos de Sua Alteza por quatro meses. Prazera a Nosso Senhor que polo castiguo e pena de semelhantes obras, se virão a apartar das grandes offensas que a Deos Nosso Senhor nellas fazem. No mes de Agosto deste anno nos derão os christãos noticia de hum gentio que havya nesta cidade que era grande feiticeyro e, segundo dezião, punha em campo còm suas invocaçõens e cerymonias mais de quinhentos aliphantes phantasticos, e que tinha pagodes escondidos. Fomos a sua casa e buscando-lha lhe achamos onze ou doze, de diversos metais a saber: pedra, e cobre e latão; este foy loguo preso por mandado do vigairo geral e, em seu juizo, foy senten- ciado que perdesse a fazenda e degradado para as gales pera sempre, de Sua Alteza, e açoutado com sua carocha para exemplo dos que fizerem o semelhante; a molher e filhos deste aprove a Nosso Senhor alumia-los, com que se fizessem christãos e o não imitassem em suas falssidades. Na prisão deste gentio se descubrio que nesta cidade avia outro que antre elles era tido em muito credito, assi por ser muyto dado aos cultos dos idolos, e polas muytas e gran- 47 1
des romarias, que a seus templos tinha feitos, como por ser velho e honrado e rico e muy aparentado nesta cidade; este, polo credito que antre todos tinha, dezião que empedia muyto a christandade, fazendo com os gentios que em nenhuma maneira deixassem suas falsidaes e que tinha aca- bado com todos os de sua vizinhanssa, que nenhum tomasse nossa ley sem seu consentimento e licença e, sendo por isso acusado e levado diante do vigairo-geral, ouve seu conselho e disse que se queria fazer christão. O vigário, para aprovar seu proposito, o mandou a este collegio, para que aqui o examinassem e vindo para elle o topey no caminho, e sabendo que o trazião para o collegio para mais aprovar seu yntento o torney a casa do vigairo, para que fosse castigado de seu dilicto; mas prove a Nosso Senhor de o mover do . coração e de pedir com effeito que o fizessem christão, por- [145 r.] que queria salvar sua // alma. Este, charissimos irmãos, foy grande ocasião com sua conversão de muytas almas se converterem a nossa sancta fee, porque tornado a este collegio, a casa dos caticumenos, e junto dele esta para ahi ser chatiquizado; concorrerão loguo a elle sua molher, filhos e filhas, genros, netos e vezi- nhos, e em pouquo tempo se ajuntarão toda a familia e vizi- nhanssa, mais de cincoenta ou sessenta pessoas, das quais so se fez hum bautismo com solenidade, com que se soem a fazer aqui. Também assistio sua senhoria como a todos fazia. Estes aprove a Nosso Senhor de serem todos bons christãos e huma familia e vizinhança christã e boa; prazera a Nosso Senhor que perseverem todos em sua sancta fee, como ate agora perseverão, e que nella se salvarão suas almas. Na ponta da terra firme que chega ao rio desta cidade, defronte da ilha de Divar, se fazia cada anno, polo dia da Transfiguração do Senhor, hum grande lavatoryo e festa na agoa do rio, que a ponte chega a hum pagode, a que elles chamão Capatunato. A esta festa, irmãos charissimos, con- 47 2
corre grande multidão de gente de muitas e muy remotas partes, concorrem muytos e diversos sacerdotes dos idolos, muitos joges e irmitãos seus, de diversas seitas e custumes, todo o genero de pregadores gentílicos, que lavão os homens com suas invocações e cerymonias nestas agoas, que elles tem por sanctas, por sinais que antiguamente o demonio nellas mostrou, e todo o que ahy he levado por mãos de tais sacerdotes tem que lhe são perdoados todos seus peccados. A estes lavatoiros soião passar desta cidade cada anno mais de trinta mil gentios, e com tanta pressa e devação de chegar a este jubileu que algumas vezes se aconteceo serem tão sobeios, assi em embarcar-se que se afogavão no rio, ou a embarcassão se fundia com elles. Este anno aprouve a Nosso Senhor que forão empedidos que muitos pouquos ou nenhuns passavão, porque fomos alguns irmãos, com ajuda que o senhor governador para isso nos deo e embarcassõens, lhe tomamos os passos, de modo que muito poucos passarão, e ainda fomos bons a huma embarcação delles que, se nos não foremos, se perdera polia diligentia e devação que leva- vão alguns honrados nos quiserão passar as escondidas, mas a boa vigia que nisso se teve não nos deixou acrecentar esta ofenssa de Deos a seus muytos peccados, e querendo nos chgear aonde se fazia a festa, os da terra firme que não podíamos empedir, nos servirão de pedradas que foy neces- sário afastarmo-nos daly, pois que com elles não se podia fazer mais que satisfazer aos desejos que tinhão de nos empecer. Prazera a Nosso Senhor que o empedimento que este anno se lhe pos sera principio para mais não passarem, ou ao menos para daqui adiante se lhe empedir. //Aconteceo os dias passados que, querendo-se hum tus bramene honrado fazer christão, hum seu irmão mais velho, fingindo que endoudecia, lhe deitou por isso huns ferros, mas elle, vendo tempo para poder fugir, fogio e se veyo meter em casa de hum christão, e dando conta de sua prisão 47 3
se deo ordem, com a ajuda do senhor viso-rey, que o irmão que o prendia fosse preso, e prouve a Nosso Senhor que estas suas prisõens fosse ocasião de ambos se soltarem das espirituais de suas almas, em que ate aquy estiverão pre- sos (3), porque ambos quisreão ser christãos e hum delles fica na casa dos caticumenos, aprendendo as oraçõens e as cousas da nossa fee, porque como soube o bautizar (sic). Com se impedirem assi os ritos gentílicos, com se cas- tigarem os que o fazem e com o favor que o senhor gover- nador Francisco Barreto e o senhor Dom Constantino para isto derão e dão se va augmentando cada dia o numero dos escolhidos do Senhor. Prazera a Nosso Senhor que sempre ira em augmento. Ate agora, irmãos, lhe tenho contado como se impedem os ritos gentílicos e algumas particularidades que nisto se fizerão; agora lhes direi como se acquirem os escolhidos e o modo que se tem em os bautizarem e agasalharem, depois de bautizados e favorecer os christãos, e desfavorecer os gentios. He grande meio, como disse, para se converterem a nossa santa fee, porque como as gentes destas partes he geralmente pobre e apetitosa de honra, e nos favores se socorre a ambas estas cousas, correm muito aonde sintem favor, e temem muyto o serem desfavorecidos, e porque estes dous annos foy a christandade mais favorecida que os passados, por isao, louvado o Senhor, nelles creceo mais que nos passados, assi que o favor, como diguo, depois da graça do Senhor, que he principal motor e milhor modo para se acquirirem os escolhidos nestas partes. Ajuda também a isto a diligentia e zelo dos christãos e saberem dos movidos e em mover, porque podem com suas amoestações e promessas, e em nos virem avisar dos (3) As palavras ate aqui acham-se escritas à margem. 47 4 J
parentes e amiguos e vizinhos seus, em que Nosso Senhor por elles obra a quererem-se apartar de suas cegueiras e peccados. Confesso-lhes, charissimos irmãos, que he grande consolação ver a alegria e favor com que vem a avisar de seus parentes e amiguos que querem ser christãos, e que elles o accabarão com elles, e isto tem feito muyto huma boa molher abexim, grande serva de Deos e grande con- vertedora de infiéis, que nesta cidade mora entre os gentios, de cuja virtude e zelo, se muias ouverão, bem creio não ouvera ja nesta ilha gentio nenhum e esta, irmãos charissi- mos, mora em hum bairro, aonde os gentios morão e sabem sua lingoa e esque //cida das occupaçõens de casa se occupa [M6r.] toda na conversão dos infiéis, andando por suas casa per- suadindo-os a tomar nossa sancta fee por todos os modos que podem, e obra Nosso Senhor tanto por ella, que nos mais dos bautismos tem sempre a milhor parte, que por sua industria, fee e diligentia que Nosso Senhor converte. Foy ja muytas vezes perseguida por esta santa obra; mas Nosso Senhor e sua boa perseverança a guardão sempre de todas as persiguições; tem ja quasi todo o bairro convertido em que mora, com esperança de converter toda a ilha. O amor com que os tratão todos, assi os por converter, para os persuadir, como os convertidos, para os sostentar, não se lhes pode escrever. Estando huma gentia doente lhe pedio que se fizesse christã e que ella confiava em Deos que se acharia bem e acabado com ella que se bautizou, prove a Nosso Senhor que sarou. Os dias passados o capitão das terras de Salcete mandou deitar pregão por ellas que todos, os que quisessem vir-se fazer christãos, serião favorecidos e ajudados e prove a Nosso Senhor que muitos vierão e tomarão o santo bau- tismo. 47 5
Aconteceo huma vez que, trazendo-se huns mininos a fazer christãos, e não podendo andar huns delles, tomarão outro gentio que o trouxesse as costas ao collegio, e que lhe pagarião e, chegando ao collegio, prove a Nosso Senhor mover tãobem a este, de modo que todos ficarão e se bauti- zarão. Outros muitos trazem aqui cada dia muitos homens e huma vez vindo hum físico polia rua, se lhe offerecerão dous moços mouros, que querião ser christãos e, acudindo a isto a mãy e irmãos para os mudar de seus propositos, prouve a Nosso Senhor não poderão, mas a mãy e irmãos depois se vierão também a bautizar. Hum bramine honrado, mancebo e discreto, tinha dada palavra de se fazer christão mas, faltando ao tempo que ficara, e desaparecendo, por isso foy preso seu pay, por man- dado do senhor viso-rey, por se presumir que elle o mudara de seu proposito para que, preso, descubrisse o filho e prouve a Nosso Senhor que o que se fazia para ganhar a hum, ganhou a muitos, polo pay e mãy e quatro ou cinco irmãos se bautizarão; este tem dous filhos aqui no collegio, entre os mininos, para que hai possão de raiz aprender as cousas de Deos e elle, ao segundo dia de seu baptismo, foy ajudar a prender o bramine que prendeo o irmão, por se querer fazer christão, de que acima se diz. For estas e outras vias e principalmente polas inspira- çõens que Nosso Senhor lhes daa, se vay augmentando e [146 v.] acquirindo o numero dos escolhidos // destas partes e pri- meiro que se baptizem se recolhem na casa dos caticuminos, para ay serem instruídos das oraçõens e cousas de nossa santa fee. De modo que se tem em os insinarem, e do que Nosso Senhor nesta casa nelles obra, e o irmão que disso tem cuidado me parece lho escrevera; como se bautizão e a solenidade que nisso se tem, ja creo o anno passado lhe escreverião, mas direi o que este anno se fez, para que por 47 6
tudo seja Nosso Senhor glorificado, pois de todo he a causa principal e se aprouve de em nossos tempos e a nosso olhos mostrar huma mostra de primitiva igreja. O primeiro dia deste anno, dia da Circuncisão do Senhor, se fez hum bautismo mui solemne porque alem da sole- nidade acustumada que em todos se tem, se acrecentou ser aquelle nosso dia, em que a Companhia faz sua festa; a vespora deste dia, nos quiserão festejar nossos vizinhos por- que, acabadas as vesporas, vierão todos a cavalo mui luzidos com hum aliphante, que lhe trazia as canas, e adiante da porta da igreja as jogarão com grande alegria, e o senhor guovernador tanto que isto soube, veyo logo assistir a ellas, nas quais hum christão da terra cavaleiro levou a mayor honra que delias se tirou; assi nos festejarão a vespora. Ao dia disse o padre patriarcha a missa de pontifical, como nestes dias custumão, depois que nestas partes estaa, e aca- bada saio em porcissão polia crasta, com o minino Jesu nas mãos, como tãobem acustumão, com tanto concurso do povo que não cabia nas crastas. Depois de jantar começarão aparelhar os christãos para o bautismo dos caticumenos, aiuntando-sse delles os mais idosus (?); fizerão huma cousse (?) de espinguardaria com sua bandeira e tão boa de redor de nossa igreja e da casa, donde os caticumenos estavão, e vindo o senhor guover- nador ao bautismo, vendo os christãos tão guerreiros, lhes quis fazer hum fero fingido, o qual elles sairão a receber, com muyta presteza, com sua espingardaria e artelharia, que tinhão na rua, e com roquas de foguo, que lhes lançavão por alto. Este favor lhe fez sua senhoria que para elles não foy pequenos (sic) e para os gentios grande abatimento; vindo o governador, foi em procissão e com sua patrinidade, que nella hia, a buscar os christãos a casa donde estavão; assi os trouxerão em porcissão com muytos instrumentos de 47 7
musica pola rua, que toda ate a igreja estava de festa e enramada e augada, com as ginelas armadas e ornadas de panos e alcatifas, como se soe fazer em percissão solene. Diante da porcissão vinha a cousse dos christãos, tirando v0 e dando resgardo//aos caticumenos. Nesta porcissão se ajuntou grande multidão de gente, de bramenes, que vinhão a olhar e para mais sua confusão, vinha nela huma dança de bramenes fingidos, que os mininos das nossas escolas fizerão, em que lhes davão a entender que, pois se não querião fazer christãos, que servirião de dansadores, para os que se fazião. Confesso-lhes, irmãos charissimos, que era grande con- solação e alegria ver huma procissão quasi trezentos cati- cumenos, porque tantos se bautizarão aquelle dia; todos vestidos de novo, com suas capellas de festa na cabeça, e sua candea nas mãos, entrar na igreja de Deos; a porta da igreja estava o padre provincial que, por ser aquelle o nosso dia, tomou por devoção ser o Bautista. Elie fez as cery- monias aos homens a porta principal ,e com ser grande o numero de todos, e não bastar o tempo, outro padre as fez as molheres a porta travessa e, acabados, entrarão na igreja onde estavão quatro altares armados com quatro pias manais, (sic) onde quatro padres estavão todos a bautizar por ser como diguo o numero grande e o tempo pouquo. Bem creo, caríssimos irmãos, que desejarão de ver seme- lhantes pressas e de ajudar os que nellas andão, pois são de tanta gloria de Deos e de tanta consolação e alegria para os que vem e gostão; mas pois Nosso Senhor he servido que primeiro la se aparelhem, ajudem-nos entretanto com suas orações, pois tantas necessidades delias temos. Acabado o bautismo, sairão os novos christãos com suas candeas acesas, em percissão polias crastas do collegio, como sempre acusmmão, e, acabada, se vierão a capella do San- tíssimo Sacramento a offerecer-se a seu Deos e Senhor, e 4 7 8
dar-lhe graça polo estado a que os chegou. Neste bautismo se bautizarão, como disse, perto de trezentas almas; este dia nos quis visitar também o senhor guovernador, que com todos os fidalguos e capitão da cidade e casados delia, aca- bado o bautismo correrão e jugarão as canas nas ruas da nossa igreja, com grande alegria e contentamento de todos, e com grande sortes dos christãos da terra que andavão na cousse. No mesmo mes de Janeiro, dia da conversão de São Paulo, cuja festa se então celebra nesta nossa igreja, se fez outro bautismo, no qual com a solemnidade acustumada e com assistir a ella o senhor guovernador, com toda a fidal- guia, como em todos o fez, se bautizarão duzentas e vinte nove almas //. No mes de Fevereiro seguinte, dia do bem- [M7 ».] aventurado apostolo Mathias, se fez outro bautismo em o qual, com a mesma solenidade, se bautizarão cento e cin- toenta e sete almas. No mes de Abril seguinte se bautizarão cincoenta e nove, dia de Ramos com a mesmo solenidade. No mes de Maio, dia de S. Philipe e S. Thiago se fizerão christãs 85 almas. No mes de Junho, dia de Corpus Christi, se bautizarão, com a custumada sollenidade 159 almas. No mes de Julho, dia da Visitação de Nossa Senhora, se bautizarão 94 almas. No mes de Julho, dia do apostolo São Thiagus, se bauitzarão 116 pessoas. No mes de Agosto, dia da Assumpção de Nossa Senhora, se bautizarão 68 almas. Todos estes bautismos se fizerão com a alegria e sole- nidade acustumada e com a todos presidir o senhor guover- nador que neste tempo guovernava. No mes de Setembro se fez hum bautismo em que se bautizarão duzentos e tantas almas, a este presidio o senor viso-rey Dom Constantino, que ja a este tempo era vindo, e favoreceo muyto aos nova- mente convertidos, tomando-os seus afilhados, e vestindo-os, e agasalhando-os com muyto amor, de que os christãos 47 9
fiquarão muyto favorecidos, e os gentios, que a isso vierão ver o bautismo, confundidos; tomarão também seus exem- plo (sic) os fidalguos, cada huns seus afilhados que também os favorecerão. No mes de Outubro seguinte, se bautizarão com a mesma solemnidade, e com presidir o senhor viso-rey cento e trinta e sete almas, entre as quais veyo huma molher velha de cento e cinco annos, que por não poder ja andar a trouxerão em hum palanquim, muito honrrada e vestida por humas molheres devotas que, vendo que no cabo de tantos annos, em que ate ali estivera endurecida, se queria salvar, tomarão por devação o vesti-la e converte-la; esta era hum dos convertidos pola christãa abexim, de que arriba se fala; a esta velha mandou o viso-rey tirar polo natural, por ser cousa para ver e de devação. No mes seguinte de Novembro, se fez outro bautismo, em que com a mesma solenidade, se bautizarão 150 pessoas. No mes de Dezembro, em que aguora estamos, se fez outro bautismo, em que se bautziarão 125 almas. A todos estes bautismos, que se fizerão depois que o viso-rey veio, presidio sempre sua senhoria e, tirando hum, por estar mal desposto, e os favoreceo, tomando seus afilhados, e prazera a Nosso Senhor que, com sua graça e com os favores que os que regetarão, yrão (sic) sempre em augmento esta nova conversão. Neste anno, charissimos, segundo poios bautis- mos podem ver, se bautizarão perto de 1.900 pessoas, de diversas calidades: muitos bramines e naiques, que são como [1481-.] f/ soldados dos gentios; muitos ourives que entre elles he casta honrrada, mercadores, lavradores, pastores e officiais, homens e molheres e mininos, de todos vay Nosso Senhor ajuntando no numero dos seus, e a muitos destes fez Nosso Senhor merces de os levar para Si, depois de serem bauti- zados. Depois de bautizados se daa ordem com que se agasa- 4 8 o
lhem; os que dantes erão casados, se suas molheres se fazem christãs, cazamo-los loguo a porta da nossa igreja, prece- dendo seus pregõens entre os christãos que poios honrar vem com elles e assi se vão para suas casas fazer nova vida diferente do que dantes fazião; os que não erão casados e são para isso, busquão-lhe com quem os casar para que assi sejão mais arreigados na terra e na conversão dos fieis; os que são para servir, como memcebos, e moços dão-se a homens de bem que delles tenhão cuidado e lhes paguem seus serviços; alguns se poem com mestre officiais para que assi possão ganhar sua vida. A muytos levão seus padri- nhos para suas casas para se cazarem e darem vida; especial- mente aos moços por casar levão seus padrinhos e os honrão e casão dando-lhes do seu o necessário. Hum bautismo se fez em que elles derão todos de vestir a seus afilhados e, deitando depois conta, se achou que soo em vestidos se gastara mais de quatrocentos cruzados; desta maneira, charissimos irmãos, se trabalha por agasalhar os novos christãos, porque, como elles fiquão desfavorecidos dos seus, tanto que se bautizão, se não ouver quem os aga- salhe e favoressa, correrão riscos os fraquos de se tornarem a conversasão e custumes dos infiéis. Ya agora, pola bondade de Nosso Senhor e com os favores que fazem a christandade vay luzindo e cobrando animo e floressendo. No principio da Coresma passada, veio nova a esta cidade como a fortaleza de Chalé e cidade estava de cerquo e, determinando o guovernador de lhe ir socorrer, determinarão também os christãos de o hir ajudar e, andando com seu atambor e bandeira pola cidade, fizerão gente e aparelhando o navio a sua custa se embarcarão com seu capitão tãobem christão da terra e forão a Chalé de socorro, mas não socedendo pelejar se tornarão com o guovernador com muytos privilégios que por isso sua senho- ria lhes deo. 4. 8 i DOC. PADROADO, VI 31
Avia nesta cidade hum christão da terra que neste colle- gio aprendera com os moços que nelle estiverão por ser virtuoso e ajudar muyto aos novos convertidos assi na lin- guoa que sabia como com bom exemplo o ordenou o padre [148 v.] patriarcha. // Por ser o primeiro que esta nesta terra que nestas partes (sic) cantava missa, quiz o padre provincial que se lhe fizesse a festa nesta nossa igreja; detriminarão também os christãos, por ser o seu primeiro sacerdote, fazer- -lhe toda a festa e, cantando missa dia da Acenssão do Senhor, vierão todos mui luzidos a missa nova a oferecer suas ofertas e, a trade, o festejarão com sua cousse, alem da festa que o guovernador, que a missa se achou, lhe fez; pregou-lhe o padre Dom Gonçalo. Esta ilha de Guoa alem das aldeas que nos arrabaldes da cidade tem, tem outras muitas por diversas partes da ilha e hum pedaço da terra firme que chamão Salcete; por todas estas partes ha christãos; parceo bem ao padre provincial que os fosse visitar este mayo passado, por andarem espa- lhados e serem poucas vezes visitados; andey laa oito ou nove dias, dizendo-lhes missas nos lugares onde avia mais, confessando alguns e, quando vim, trouxe também alguns para se fazerem christãos e estes christãos, irmãos charissi- mos, estão tão desemparados a mingoa de quem os ensine que escassamente se conhessem serem christãos, senão poios nomes por que se nomeão. Assi por morarem entre os infiéis e templos de pagodes, onde necessariamente ande ouvir e conversar com as falsidaes que deixarão, como por falta de quem os visite, muitas vezes. Prazera a Nosso Senhor que este anno trara seu pastor que todos esperamos que tenha mais cuidado delias do que ate agora se teve. Estas são as cousas, irmãos charissimos, que Nosso Senhor obrou este anno nesta sua nova christandade; estas e outras semelhantes necessidades padecem por falta de quem os ajude. 48 2
Bem creo, charissimos, que desejarão de lhes vir socorrer, mas pois Nosso Senhor e a obedientia por agora o não per- mite, roguem a Nosso Senhor que a nos e a eles faça tais servos seus que, quando sua divina misericórdia permitir, o possamos agradar em tudo; Elie seja sempre em suas almas e lhes dee a sentir sua sancta vontade e esta comprir. Deste collegio de Guoa a 26 de Dezembro de 1558. Por comissão do padre provincial. Servo e irmão de todos Pedro de Almeida. 48 3
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO Observação — Os números entre parêntese indicam as notas ao fundo das páginas, expressas estas pelos outros algarismos. A Adão —116. Adorno (P.e Francisco) — 3. Afonso (D.) — aluno do colé- gio de Goa — 6, 103. Africa — 53, 54, 176, 456. Agostinho — aluno castiço do colégio de Goa. Agostinho (Cabo de Santo) — 60, 67. Agulhas (Cabo das)—62, 113. Albuquerque (D. Jerónimo de) — bspo — 246. Alcáçova (Pero de) —162, 448. Alcorão — 358, 367. Alemanha — 20. Alendali — 383. Alenquer (António de) —aluno português do colégio de Goa — 101. Alexandria — 456. Alfândegas —184, 270. Algarvia — nau —129. Algarvia-a-Velha — nau — 77. Algarvia-nova — nau — 78. Aljôfar (Pescaria do)—cristan- dade— 381. Almada —188. Almeida (Irmão Pedro de) — 76, 125, 159, 334, 335, 336, 360, 467, 483. Almeida (Luís de) —163, 342, 444. Alonso (Lopes) —162. Alvares (Francisco)—provedor- -mor dos defuntos — 174, 177, 214, 220, 385. Alvarez (João) — dião de Goa — 256. Alvaro (D.) — 3, 43. Amboino — 32, 35, 342. Anadiporana — livro religioso — 470. Anas tor (ou Nes tório) — 248. André — aluno canarim do co- légio de Goa—103. André — aluno português do colégio de Goa —101. André (P.' Mestre) —164, 341. 4 8 7