• DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS D O ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ANTÓNIO DA SILVA REGO INDIA 7.o VOL. ( 1 5 59) AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR LISBOA / M C M L 11 "Riinm hi ih ihiii ii iiiiiii in iiiiii ih iiiiii win iiiiiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiMii hi in minium hi iiiniiiii ii ií?
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  • DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE
  • &EP. LEG. REPÚBLICA PORTUGUESA MINISTÉRIO DAS COLÓNIAS DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS ORIENT T; ® M COLIGIDA E ANOTADA POR ANTÓNIO DA SILVA REGO INDIA 5.® VOL. (1551-1554) .189457 AGÊNCIA GERAL DAS COLÓNIAS DIVISÃO DE PUBLICAÇÕES E BIBLIOTECA LISBOA / M C M L I
  • Esta publicação foi autorizada por despacho de S. Ex.a o Ministro das Colónias de 5 de Fevereiro de 1951
  • INTRODUÇÃO
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  • f\s documentos que formam o quinto volume da nossa Documentação para a História das Missões do Pa- droado Português do Oriente — que agora se apre- senta ao público — referem-se, em grande parte, à dinâmica acção dos Jesuítas, dirigidos ainda quase pelo grande Xavier. Como no volume anterior, copiámo-los quase todos da BAL, i. e. da Biblioteca da Ajuda de Lisboa. E esta colecção a mais conhecida não só em Portugal como no estrangeiro, mas — já o dissemos na introdução do quarto volume — outras colecções há de igual valor. Trata-se de cópias e não de originais. Estes, caso exis- tam, devem encontrar-se em Roma, no Arquivo da Com- panhia de Jesus. A correspondência dos missionários era copiada várias vezes e até traduzida para outras línguas, de forma a tornar-se conhecida em toda a parte. Acontecia, assim, que os principais colégios possuíam preciosos códices repletos desta interessantíssima correspondência. As prin- cipais cartas eram lidas no refeitório, e pode facilmente imaginar-se com quanto interesse e devoção. Que de voca- ções missionárias não surgiriam, entre os jovens noviços e escolásticos, do contacto com estas cartas vindas lá do remoto Oriente, da índia, da China, do Japão, das Molucas! Conhecem-se em Portugal três colecções de códices: uma pertencente ao colégio de Coimbra, outra ao de Évora IX í
  • e outra ainda ao de Lisboa. Dos códices conimbricenses/ o tomo I encontra-se actualmente na Biblioteca do Minis- tério dos Negócios Estrangeiros; os segundo e terceiro acham-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, e o IV, final- mente, pode corisultar-se na Torre do Tombo. A Biblio- teca da Academia das Ciências possui os três códices que foram do colégio de Évora. A Biblioteca da Ajuda, por sua vez, é depositária de dois códices que pertenceram ao Colégio de S. Roque, de Lisboa. Jerónimo P. A. da Câmara Manuel publicou em 1894, em edição da Sociedade de Geografia de Lisboa, alguns importantes documentos extraídos do códice da Biblioteca do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com o título de Missões Jesuítas no Oriente nos séculos XVI e XVII. Publicamos neste volume uma interessante resenha da actividade franciscana missionária, desde 1500 até 1772. Ê seu autor o P." Frei Clemente de Santa Iria. O extenso documento é de desigual valor, como facilmente se verifi- cará. Cremos que as informações mais antigas foram colhi- das em preciosos códices de arquivos franciscanos, mas nem todas elas correspondem com as que actualmente se conhecem, oriundas doutras fontes. Mandámos microfilmar em Roma, no Arquivo do Vaticano, a importante obra do P.c Frei Paulo da Trindade, intitulada Conquista Espiritual x
  • do Oriente. Esperamos em Deus publicá-la também e assim se poderá melhor confrontar o conteúdo dos dois documen- tos franciscanos. Temos também preparado, para publica- ção, em futuro volume desta série documental, outro extenso documento referente à acção missionária dos dominicanos. Publicamos também neste volume os últimos documen- tos referentes á acção de S. Francisco Xavier na índia, tirados da magnífica obra do Muito Rev. P.e Jorge Schurhammer Epistolae S. Francisci Xaverii. Sabemos que apareceu já o II vol. da Documenta Indica, óptima edição dos documentos jesuítas guardados, não só no Arquivo da Companhia em Roma, mas também em todo o mundo, dirigida pelo Muito Rev. P.' José Wicki. Apesar de o havermos encomendado ainda o ano passado, não nos che- gou todavia às mãos, motivo por que não publicamos neste volume aqueles documentos que, certamente la apareceram, referentes à época por nós abrangida neste volume. Espe- ramos, contudo, publicá-los no VI ou no VII volumes. Neste volume aparece a primeira carta geral. As cartas gerais tornaram-se em breve muito populares e apreciadas, justamente pelo motivo de compendiarem os principais acontecimentos referentes ou a um ano, ou a um esta- XI
  • belecimento, ou a umá estação missionária. Pouco a pouco, vão substituindo as cartas particulares, mas convém notar que nunca estas últimas desapareceram. O valor histórico, porém, das cartas gerais, é inferior ao das particulares. Estas representavam o testemunho directo dos próprios missionários. Aquelas, dando o testemunho indirecto do escriba, ficavam evidentemente sujeitas ao seu critério. Panto umas como outras, por ordem dos superiores, deviam evitar todas as referências desagradáveis não só aos próprios missionários jesuítas, como também aos vigários das fortalezas e aos capitães. E assim que lemos várias refe- rências laudator ias a missionários que Xavier repreendeu pessoalmente, no seu regresso do Japão. Apesar deste senão, todas estas cartas constituem magnifico repositório de informações missionárias e científicas, imprescindíveis ao estudo da geografia, etnografia, etc. Percebe-se bem o motivo da ordem superior a afastar da correspondência missionária todas as referências desa- gradáveis a pessoas. Não convinha, com efeito, agravar as possíveis dificuldades já existentes. Os destinatários euro- peus da correspondência nada lucrariam e nada poderiam remediar. Tais assuntos deveriam ser tratados em corres- pondência secreta quer com os superiores da Índia, quer até xri
  • com os da Europa. Parte dessa correspondência existe ainda mas é de supor que lide apenas com assuntos da Companhia e que nela se não encontrem referências — que seriam pre- ciosas — não só à acção dos vigários e mais reçoeiros, como também à dos capitães e outros portugueses. Neste parti- cular, a correspondência xaveriana, publicada pelo Muito Rev. P." Schurhammer, é interessantíssima. Xavier tinha apenas acima de si, como superior, o seu grande amigo S. Inácio de Loyola. Por isso; não sente entraves alguns à sua pena, sendo bem incisivo nas suas referências a vários missionários e a vários acontecimentos. Tal qual fizemos no IV vol. seguimos no presente a cópia da Biblioteca da Ajuda de Lisboa, completada sem- pre pelas outras duas. As notas continuam a ser muito poucas. Supomos que os leitores, que em verdade se inte- ressam por esta obra, continuam a consultar os volumes anteriores e, por isso, não multiplicamos as notas a identi- ficarem pessoas que já foram mencionadas nos volumes ante- riores. O nosso fim, como já dissemos, ê publicar apenas o maior número de documentos, referentes às missões do Padroado Português do Oriente, colocando-os destarte à dis- posição do público. XIII
  • E curioso notar que ao passo que vão abundando os documentos oriundos da correspondência dos jesuítas, vão rareando os outros, vindos não só dos capitães, feitores, misericórdias, câmaras, etc., mas também dos franciscanos. Estes, infelizmente, nunca se dedicaram a sério à corres- pondência missionária. O mesmo se diga dos dominicanos. Examinaremos, mais de perto, estes fenómenos em volumes posteriores. E por isso que as poucas referências à acção missionária dos outros religiosos, contidas nas cartas dos jesuítas, são preciosíssimas, porque, algumas vezes, consti- tuem o único testemunho existente. Cumprimos finalmente o gratíssimo dever de manifes- tarmos a nossa gratidão ás entidades que, de qualquer forma, concorreram para a publicação deste volume. Esta importantíssima colecção documental continua a aumentar os seus volumes e, ao mesmo tempo, a ser apreciada nos meios missionários nacionais e estrangeiros. Ainda há dias ouvimos amáveis referências aos conhecidos sinólogos os PS Henrique Bertiard-Maitre, S. f., e PS Jeorge Man- saert, OFM. O que interessa, com efeito, é publicar a nossa riquíssima documentação existente, sem preocupações apologéticas ou interesseiras. Ela se encarregará, por si mesma, de desanuviar a atmosfera que contra a acção XIV
  • missionária portuguesa se tem respirado nos meios cientí- ficos estrangeiros. Não podemos esquecer que na base deste empreendi- mento se encontram dois nomes: os de Sua Excelência o Pre- sidente do Conselho, Doutor Antônio de Oliveira Salazar, e de S. Ex.a Rev.ma o Patriarca das índias Orientais, D. José da Costa Nunes. O Ministério das Colónias apoiou-nos sempre com decidido e franco incentivo, e todos os seus titulares, desde o Ex.mo Sr. Dr. Francisco Vieira Machado até ao actual Ex.ma Comandante Sarmento Rodrigues, mere- cem a gratidão de todos os cultores da ciência missiona- ria. A Agência Geral das Colónias, quer chefiada pelo Ex.mo Sr. Júlio Cayolla, quer pelo actual Ex.m0 Sr. Dr. Leo- nel Pedro Banha da Silva, tem sido a principal responsável pelo êxito desta obra e desta edição. A todas estas entida- des oficiais, portanto, o testemunho do nosso muito sincero agradecimento. Manifestamos igualmente a nossa gratidão às seguintes individualidades: S. Ex." o Doutor Paulo Cunha, Ministro dos Negócios Estrangeiros; Dr. Frederico Gavazzo Perry Vidal, director da Biblioteca da Ajuda; Dr. Júlio Dantas, Presidente da Academia das Ciências de Lisboa; Dr. Silva Marques, director da Biblioteca Nacional e ha pouco nomeado director para o Arquivo Nacional da Torre do XV
  • Tombo. Em todos os arquivos e bibliotecas temos sido — nós pessoalmente, e o nosso colaborador P." Artur Basílio de Sá — recebidos com inexcedível boa-vontade e gentileza. A todos, pois, e a todo o dedicado pessoal destes estabeleci- mentos, é devida esta grata memória. Terminamos com a menção ainda de duas pessoas, a quem este volume fica devendo muito: o Muito Rev. P." Artur Basílio de Sá, nosso colaborador, e o Sr. Mário Milheiros, que se prontificou a elaborar o índice onomástico, geográ- fico e ideográfico. Lisboa, Domingo de Páscoa, 25 de Março de 1951. A. da Silva Rego N. B. — Há uma errata a emendar: os documentos das págs. 395 em diante pertencem à BNL (Biblioteca Nacio- nal de Lisboa) e não à BAL (Biblioteca da Ajuda de Lisboa). XVI
  • SIGLAS Doc. Padroado, v - II
  • SIGLAS ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo. APO Archivo Portuguez Oriental. BACIL Biblioteca da Academia das Ciências, de Lisboa. BAL Biblioteca da Ajuda de Lisboa. BIMINEL Biblioteca do Ministério dos Negócios Estran- geiros de Lisboa. BNL Biblioteca Nacional de Lisboa. CC Corpo Cronológico. Colecção documental do ANTT. Gav Gavetas. Outra e importante colecção do ANTT. XXX
  • Bui ob Uctaaau:»* ai.yJcJ O^òloocn:
  • ÍNDICE
  • i JUÚI ■
  • N. PAg. 1 — BAL, 49-IV-49, fl. 125 r.: Carta do vice-rei D. Afonso de Noronha ao Padre Mestre Simão Rodrigues. Cochim, 5 de Janeiro de 1551 3 2 —BAL, 49-IV-49, fl. 131 v.: Carta do Irmão Baltasar Nunes. Cabo de Comorim, Janeiro de 1551...... 6 3 — BAL, 49-IV-49, fls. 128-131 r.: Carta do Padre Henri- que Henriques aos confrades de Portugal. Cabo de Comorim, 12 de Janeiro de 1551 8 4 —BAL, 49-IV-49, fl. 125 v.: Carta do Padre Belchior Gonçalves. Baçaim, 20 de Janeiro de 1551 23 5 — ANTT: - CC, I, 86-68: Notícias da Índia. Ilha Ter- ceira, 15 de Julho de 1551 24 6—BAL, 49-IV-49, fls. 121 V.-123: Carta do Irmão Ma- nuel Teixeira aos irmãos do colégio de Coimbra. Goa, 15 de Novembro de 1551 30 7 —BAL, 49-IV-49, fls. 119-121: Carta do Padre Manuel de Morais aos confrades de Portugal. Cochim, 25 de Novembro de 1551..... •••• 36 • . ' * 8 — BIMINEL: - Cartai do Japão, fls. 183v.-189: Carta do Irmão Baltasar Nunes aos seus confrades de Portugal. 1551 45 9 — ANTT: - CC, I, 87-33: Dominicanos em Chaul. Chaul, 7 de Dezembro de 1551 60 XXIII
  • K-" Pic. 10 —BAL, 49-IV-49, fls. 125v.-126v.: Carta do Padre Mestre Belchior Nunes Barreto. Goa, 9 de De- zembro de 1551 61 11 —BAL, 49-IV-49, fls. 145 v.-146 v.: Carta do Padre Mestre Gaspar Barzeo. Goa, 20 de Dezembro de 1551 73 12 — ANTT. -CC, I, 87-45: Frei Diogo Bermudes, O. P. a D. Bernardo, bispo de S. Tomé. Goa, 31 de Dezembro de 1551 77 13 —BAL, 49-IV-49, fls. 159 V.-160: Carta do Padre Bal- tasar Gago. 8 de Janeiro de 1552 82 14 —BAL, 49-1V-49, fls. 174 V.-177: Carta do Padre Bal- tasar Gago. Cochim, 20 de Janeiro de 1552 86 15 — ANTT: - CC, I, 87-71: D. Afonso de Noronha a el-rei. Cochim, 27 de Janeiro de 1552 96 16 —ANTT:-CC, I, 100-88: Frei João Noé, OFM., a D. João III. Cochim, 28 de Janeiro de 1552 99 17 — ANTT: - CC, I, 87-74: João Anes a el-rei. Cochim, 29 de Janeiro de 1552 104 1® ANTT: — Gav. 15, 19-37: Simão Botelho a el-rei. Cochim, 30 de Janeiro de 1552 108 19 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 310-312: Carta de Xavier ao Padre Paulo do Vale. Cochim, 4 de Fe- vereiro de 1552 Hl 20 ANTT: - CC, I, 87-98: Indulgência para a Miseri- córdia de Goa. Roma, 13 de Fevereiro de 1552... 113 21—Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 317-321: Instru- ções de Xavier ao Padre Belchior Nunes Barreto nomeado missionário de Baçaim. Goa, 29 de Feve- reiro de 1552.. 115 22 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 323-326: Carta de Xavier ao Padre Gonçalo Rodrigues, missionário em Ormuz. Goa, 22 de Março de 1552 119 XXIV
  • N.* Pie- 23 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 332-334: Carta de Xavier ao Padre Belchior Nunes Barreto, missioná- rio em Baçaim. Goa, 3 de Abril de 1552 124 24 — Epistola? S. Francisci Xaverii, II, 336-339: Instruções de Xavier ao Padre Gaspar Barzeo. Goa, 6 de Abril de 1552 127 25 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 341-342: Xavier regula a sucessão dos superiores da Companhia na índia. Goa, 6 de Abril de 1552 132 26 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 346-352: Carta de Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Goa, 7 de Abril de 1552 . 134 27 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 376-381: Procura- dor do colégio da Santa Fé em Goa. Goa, 12 de Abril de 1552 141 28 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 382-383: Recomen- dações de Xavier ao Padre Mestre Gaspar Barzeo, reitor do colégio de S. Paulo. Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 145 29 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 388-391: Carta de Xavier ao Padre Afonso Cipriano, missionário em S. Tomé. Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552... 147 30 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 393-399: Primeira Instrução de Xavier ao Padre Mestre Gaspar Barzeo. Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 150 31—Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 401-403: Segunda Instrução de Xavier ao Padre Mestre Gaspar Barzeo. Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 156 32 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 407-409: Terceira Instrução de Xavier ao Padre Mestre Gaspar Barzeo. Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 159 33 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 414-428: Quarta Instrução de Xavier ao Padre Mestre Gaspar Barzeo. ' Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 162 XXV
  • N.' Pig. 34— Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 431-434: Quinta Instrução de Xavier ao Padre Mestre Gaspar Barzeo. Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 174 35 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 437-443: Carta de Xavier ao Padre Mestre Gaspar Barzeo. Cochim, 24 de Abril de 1552 179 36 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 449-452: Instrução de Xavier ao Padre António de Herédia. Cochim, cerca de 24 de Abril de 1552 - 184 37 — APO, V, 246-247: Rendas do Colégio de Santa Fé em Goa. Goa, 23 de Junho de 1552 188 38 — BAL, 49-IV-49, fls. 165 V.-166 v.: Carta do Padre Gonçalo Rodrigues para os padres e irmãos de Coimbra. Ormuz, 31 de Agosto de 1552 190 39 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 489-491: Carta de Xavier ao Padre Francisco Peres, missionário em Malaca. Sanchoão, 22 de Outubro de 1552 196 40 — BAL, 49-IV-49, fls. I6l-l6lv.: Parte de uma carta do Padre Nicolau Lanciloto ao Padre Mestre Simão Rodrigues. Coulão, 28 de Outubro de 1552 198 41 — BAL, 49-IV-49, fls. 170v.-171v.: Carta do Padre Henrique Henriques. Punicale, 5 de Novembro de 1552 202 42 — BAL, 49-IV-49, fls. 123-125: Carta do Padre António de Herédia ao Padre Luís Gonçalves. Cochim, 5 de Novembro de 1552 208 43 — APO, V, 247: Rendas do colégio de Santa Fé em Goa. Goa, 5 de Novembro de 1552 213 44 — APO, V, 248-249: Rendas do colégio da Santa Fé em Goa. Goa, 5 de Novembro de 1552 214 45 — BAL, 49-1V-49, fls. 159-159v.: Carta do vice-rei D. Afonso ao Padre Mestre Gaspar. Dio, 16 de Novembro de 1552 216 XXVI
  • N.. 46 — ANTT: - CC, I, 89-21: Os Mesteres de Goa a el-rei. Goa, 25 (?) de Novembro de 1552 218 47 — BAL, 49-IV-49, fls. l68v.-170v.: Carta do Padre Henrique Henriques aos seus confrades de Coimbra. Cochim, 17 de Novembro de 1552 223 48 — BAL, 49-IV-49, fls. 177 V.-178: Orta do Padre Mes- tre Gaspar Barzeo para o Padre Mirão. Goa, 30 de Novembro de 1552 232 49 _ BAL, 49-IV-49, fls. 147-153 v.: Carta Geral do colégio de Goa aos Padres e irmãos de Portugal. Goa, 1 de Dezembro de 1552 23<^ 50 —BAL, 49-IV-49, fls. 153v.-155v.: Carta do Padre Mestre Belchior Nunes Barreto. Baçaim, 7 de De- zembro de 1552 255 51 — BAL, 49-1V-49, fls. 162-163: Carta do Irmão Reimão Pereira ao Padre Luís Gonçalves. Goa, 8 de De- zembro de 1552 264 52 — BAL, 49-IV-49, fls. 171 V.-174 v.: Carta do Irmão Gil Barreto. Baçaim, 16 de Dezembro de 1552 268 53 —BAL, 49-IV-49, fls. 155v.-157: Carta do Irmão Ma- nuel Teixeira com notícias de Baçaim. Baçaim, 16 de Dezembro de 1552 2^^ 54 —ANTT:-CC, I, 89-34: Carta de Manuel Nunes à rainha de Portugal. Goa, 20 de Dezembro de 1552 287 5 5 ANTT: - CC, I, 89-38: A Câmara de Goa a el-rei. Goa, 24 de Dezembro de 1552 302 56 — BACIL:-Cartas do Japão, I, fls. 198-198 v.:_ Carta do Padre Mestre Gaspar ao Padre Dom Lião, em Coimbra. Goa, 27 de Dezembro de 1552 306 57 — BAL 49-1V-49, fl. 167 v.: Notícias do Padre G- priano. S/d 308 XXVII
  • N-' Pig. 58 —BAL, 49-IV-49, fl. 167: Trecho de uma carta de Alvaro Mendes, de Magastão, para os irmãos da Companhia de Jesus. 1552 309 59 —BAL, 49-IV-49, fl. 167v.: Trecho de uma carta do Padre António Vaz ao Padre Mestre Gaspar. S/d. 311 60 —BAL, 49-IV-49, fls. 167-167v.: Notícias do Padre Nicolau Lanciloto. S/d 312 61 —BAL, 49-IV-49, fl. 167 v.: Notícias do Padre Antó- nia Heredia. S/d 313 62 — APO, V, 249-254: Preambulo do Tombo das terras dos Pagodes da ilha de Goa, doadas ao colégio de S. Paulo. Goa, 3 de Janeiro de 1553 315 63 — BACIL, Cartas do Japão, I, fls. 228-230: Carta do Irmão Aleixo Madeira ao Padre Luís Gonçalves. Ormuz, 24 de Setembro de 1553 321 64 — BACIL, Cartas do Japão, I, fl. 338: Trecho de uma carta dos Irmãos Francisco Jorge e Miguel Teixeira. Goa, Dezembro de 1553 331 65 — BACIL, Cartas do Japão, I, fls. 230-230 v.: Trecho duma carta do Padre Nicolau Lanciloto. Coulão, 9 de Dezembro de 1553 332 66— ANTT:-CC, I, 91-88: Carta do rei das Ilhas Mal- divas a el-rei de Portugal. Cochim, 28 de Janeiro de 1554 ' 335 67 — BAL, 49-IV-49, fls. 209 V.-211: Carta do Padre Antó- nio Mendes a S. Inácio. Ormuz, 20 de Outubro de 1554 337 68 — APO, V, 231-234: Rendas do colégio de Santa Fé em Goa. Goa, 30 de Outubro de 1554 344 69 —BAL, 49-IV-49, fls. 197 V.-199 v.: Carta do Padre Diogo de Soveral para os irmãos da Companhia de Jesus em Coimbra. Goa, 5 de Novembro de 1554 349 XXVIII
  • N.' Pig. 70 — BAL, 49-IV-49, fls. 200-200 v.: Carta do Irmão Antó- nio Dias aos irmãos da Companhia de Jesus em Coimbra. Malaca, 22 de Novembro de 1554 357 71 — BAL, 49-rv-49, fls. 186v.-190: Carta do Irmão Fer- não Mendes Pinto para os Padres e Irmãos de Por- tugal. Malaca, 5 de Dezembro de 1554 361 72 — ANTT:-CC, I, 94-55: Misericórdia de Cananor. Cananor, 15 de Dezembro de 1554 375 73 — BAL, 49-IV-49, fls. 289-289 v.: Carta do Padre Bal- tasar Dias para os Padres e Irmãos da Companhia. Goa, 16 de Dezembro de 1554 378 74 — BAL, 49-IV-49, fls. 182 V.-186: Carta do Irmão Aires Brandão aos irmãos da Companhia de Jesus em Por- tugal. Goa, 23 de Dezembro de 1554 382 75 — BNL, Fundo Geral, n.° 177: «Noticia do que obrarão os Frades de S. Francisco, filhos da província do Apostolo S. Thome, no serviço de Deos e de S. Ma- gestade, que Deos guarde, depois que paçarão a esta índia Oriental» 395 1 - Primeiros Franciscanos que foram à índia 395 2-Apostolado dos primeiros franciscanos em Ca- lecut 396 3-Apostolado do Padre Frei Luís do Salvador... 398 4-Apostolado do Padre Francisco do Oriente... 400 5 - Padre Frei António do Loureiro 400 6-Padre Frei António do Porto 401 7-Apostolado em Baçaim, Bombaim e Salcete... 403 8 - Apostolado em Damão, Dio e Chaul 403 9-Apostolado em Goa 405 10-Os franciscanos cultivam as línguas indígenas 406 11 - Apostolado em Bardez 408 12-Missão Franciscana no Grão-Mogol 409 13-Na Costa do Malabar 409 14-Em Coulão 410 15 - Apostolado do Padre Frei Vicente de Lagos... 412 16-0 corsário Cunhale persegue os franciscanos... 413 XXIX
  • N.» Pás. 17 - Apostolado em várias partes 413 18-Em Ceilão 415 19-Continua a missão de Ceilão 416 20-Padre Frei Constantino no Grão Mogor 420 21 - Padre Frei Manuel de S. Matias 421 22-Em Ceilão - 422 23-Em Cananor 425 24-Os Franciscanos no Japão 425 25 - Missão Franciscana em Bengala 430 26 - Franciscanos no Pegu, em Malaca e em Macau 432 27 - Em Java 433 28 - Em Macaçar 434 29-No reino do Grão-Mogol.... 436 30-Em Goa e terras vizinhas 436 31-Martírio do Padre Frei José de Cristo 440 32-Outros trabalhos de franciscanos 440 33 - Os franciscanos durante a guerra com o Savagi 442 34-Mais sucessos durante esta guerra 445 35 - Continua o mesmo assunto 448 36-Os franciscanos em Chaul 454 37-Sucessos em Bardez 455 38-Em Bombaim e terras vizinhas 456 39-Baptismos gerais. Métodos missionários 460 76 — BNL, continuação do precedente documento: «Fun- daçoens dos conventos, collegios e reytorias que tem os relligiosos da província do Apostolo Sam Thome, da Regular Observância de nosso Padre Sam Fran- cisco no destricto de Goa, Norte e Sul» 463 ♦ 77 — BNL, continuação do precedente documento: «Dos relligiosos, filhos da Província, que florescerão em opinião de Santidade, cujas noticias ainda não estão nas Crónicas» 479 1 - Frei Pedro da Madre de Deus 479 2-Frei Gonçalo de S. José 482 3-Frei Francisco do Salvador 484 4-Frei Constantino dos Anjos 489 5 - Frei Onofre da Piedade 491 XXX
  • N.* 78 — BNL, continuação do precedente documento: «Das Imagens miraculozas» 494 79 — BNL, idem: «Noticias dos religiosos da Província que compuzerão livros» 495 80 — BNL, idem: «Noticia dos corpos e mais relíquias que estão no novo convento de Goa de algumas pessoas que falecerão com opinião de santidade, e já fica feito menção atráz» 497 81 — BNL, idem: «Rellação dos conventos, collegios e missoins que os relligiosos de São Francisco, da Província de S. Thome, da índia Oriental, aminis- trão, da sua fundação como tãobem do que sua Ma- gestade, que Deus guarde, despende com elles, e hé o que se não acha escripto nos livros ou Chronicas da Ordem 498 XXXI
  • DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE (1551-1554)
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  • 1 CARTA DO VICE-REI D. AFONSO DE NORONHA AO PADRE MESTRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 5 de Janeiro de 1551 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fl. 125 r. (1) Senhor, Neste caminho (2), em que Noso Senhor me trouxe t'l5í aa índia, pella necessidade que nella avia, tenho por muy certo que a moor parte he por causa das orações que por mim mandou fazer, por que de novo lhe beijo as mãos, e vinha eu tão confiado nellas, que lhe certifico em verdade que com esta fee não areceey nunca em verdade tormenta nem perigo no mar, e sempre tive que aviamos de passar aa índia. Achey a terra de guerra, e muy desbaratada de todo o mays. Em Nosso Senhor espero, por quem Elie he, que o remedeara, de maneira que vira a ser milhor do que nunca foy, e pera isto he necessário não quebrar o fio aa merce que me laa prometeo ate laa tornar. Achey a terra muy contente da Companhia, e que fazem nella tanto fruito que he pera muyto louvar a Nosso Senhor (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. I66v.-167; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 148 r.-148 v. (2) O vice-rei escrevia antes de chegar a Goa, logo após ter arribado a Cochim. Entrou solenemente em Goa em 20 de Janeiro de 1551 e gover- nou até 23 de Setembro de 1554. (José F. Ferreira Martins, Crónica dos Vice-Reis e Governadores da Índia, 294.) 3
  • e he quasi como o que os apostolos fizerão em seu tempo. E porque me eu ey por dos desta Companhia, estou debaixo de sua obediência, me parece que são obrigado a dizer tudo o que me parece que he necessário pera bem e conservação dela. Fuy a Granganor, onde esta hum collegio que fez Frey Vicente, da Ordem de San Francisco, de moços da terra; parecerão tam bem a fez tanta devoção a missa que disserão, que não ouve homem em toda a Companhia que não chorasse muytas lagrimas, e a mi dobrou a door de achar outro tal fruyto no collegio de Goa, e porque todos os padres hão-de escrever largo neste negocio me remeto a elles. De Mestre Francisco tenho grandes novas; espero de Malaca cada dia a certeza delias; se chegarem a tempo que possão ir este anno, manda-las-ey. De padres da Companhia ha quaa poucos; por amor de Nosso Senhor que nos acuda Vossa Merce com nos man- dar alguns e, se antre elles podesse ser o padre Diogo Vieyra, receberia grande consolação. O padre Luis Gon- çalvez me afirmou que faria quaa muyto fruyto e que he quaa muyto necessário, e no caminho se faz tanto serviço a Noso Senhor, que era muyto grande empresa pera hum padre que quisesse ir e vir em huma nao. Sey que lhe escrevem tantas cartas que por isso acabo esta, pedindo a Noso Senhor que a sua muyto reverenda e virtuosa pessoa guarde e defenda pera seu serviço. De Cochim, a cinco de Janeiro de 1551. Mande-me desculpar dos padres Diogo Vieyra e Luis Gonçalvez, de lhes não escrever, porque verdadeiramente 4
  • não tenho tempo pera isso. Belchior Gonçalvez estava pera ir; parece-me que não iraa, pela falta que caa ha de padres (3). O viso-rey Dom Afonso. (3) A cópia da BIMINEL tem, à margem, a seguinte nota: Todas as vezes (dias) que este Visorey deixava de ouvir missa por sua culpa, na Índia, não jentava em penitencia. E ho mesmo fez sempre em Portugal. 5
  • CARTA DO IRMÃO BALTASAR NUNES Cabo de Comorim, Janeiro de 1551 Documento existente na BAL, 49-1V-49. PI. 131 v. (1) Ay veiente y tantas iglesias en Ia costa, do pueden dezir missa, y son muy buenas. El hermano Ambrosio havia sete, y el padre Paulo dei Valle, que reside en la gloria, hize sex, y el padre Anrrique Enrriquez dos, las maiores que ay. Otro hizo otra muy buena, y otras que avia hechas antes que quedaran dei padre. En todas estas iglesias se ensenha doctrina por la manana e las ninas, y por la tarde a los ninos. Van los hombres frequentemente a oracion. Todo esta se ha hecho por saber nos otros la lenguoa, que despues que la supimos se han hecho muchas cosas de servido do Nuestro Senor, y aprendimos tambien a leer y scrivir. Quando yva a algun lugar, salyam a recebir los ninos y hazian sus mesuras com las manos levantadas, de que yo llevava grande corítentamiento, porque yo lhes en- senava mucho amor, y los conbidava muchas vezes, y por esto holgavan comigo. En estas partes me prenderon unos ladrones, lo qual desque supieron las mugeres Christianas y ninos, fue tanto el llorar y messarse que hazian que dieron rebato a sus maridos, los quales se ayuntaron y embiaron a llamar a la gente desto pueblo cerquano, los quales vinieron con ataba- les, a manera de guerra, determinados de morir o librarme, y ansi me libraron, de donde connosceres, hermanos, el amor (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 161 V.-162 r. 6
  • que nos tienen, porque dezian que pues para ensenarles a salvarse vine de Portugal, aventurando mi vida, ellos por mi aventuraran la suya; despues tive otros grandes peligros. Uno solo de nos otros tiene hechos mil y dozientos o trizientos christianos, de los quales muchos estan en la gloria, porque murieron ninos. Acustumbran aqui los gen- tiles, quando les nasce algun nino, ir a los hechizeros, y perguntarles que tal hade ser, o si nascio en buena hora, y quando los hechieros le dizen que ande ser maios, por- que nascieron en mala hora, danlos a criar a los christianos, y destos baptize muchos, y los christianos los crian con tanto amor, como se fuessen sus hijos legítimos. Quando los christianos se casan, primero, cinquo o sex dias antes, se manifestan en la iglesia, porque se siepa si son parentes o casadas (2); lo qual no hazian de antes, y agora lo hazen, porque nos temen mucho. En estas partes, vi hum pagode de gentiles, que era tan grande como hum pueblo de trezientos vezinos, em medio del qual estava el idolo principal, que tenia mas de dozientas figuras de demó- nios, al qual le llevavan de comer cien balladeras con sus tanadores, y ponenle delante la comida, donde esta mentras le salle el babo (3), porque dizen que con el se harta y mantiene; despues si la comen los Bramenes y las balladeras que son sus amigas. De Janeiro de 1551. (2) Refere-se às noivas. (3) Isto é: bafo ou fumo da comida.
  • 3 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES AOS CONFRADES DE PORTUGAL Cabo de Comorim, 12 de Janeiro de 1551 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 128 r. ■ 131 r. (1) La gratia y amor del Spiritu Sancto sea siempre en nuestras almas. Amen. El ano pasado escrevi a Vuestra Reverencia dos cartas de diferentes matérias, y la una, en que le dava cuenta dei fructo que, mediante la gratia de Dios, se hazia en el Cabo de Comorim, no fue ella, por bolver la nao en que yba, y tambiem enbiaba una gramatica malavar, que tam- bien bolvio; ansi la carta como el arte torno a enbiar. Por la bondad de Dios Nuestro Senor, cada dia sentimos hazerse mas fructo entre estos crystianos dei Cabo de Comorim. Ya Vuestra Reverencia sabra como unas delas mayores y mas principales cristianidades que ay en la índia es esta dei Cabo de Comorim. En la carta que escrevi el ano pasado, dava cuenta a Vuestra Reverencia como para los cristianos ser mejor doctrinados, buscávamos delos (2) mejores cristianos de toda la costa, para que enseíiasen la doctrina Cristiana en los lugares, y para que escudrinasen bien los males que los cristianos hazian, y nos avisasen dellos, para ser amonestados y castigados, quan fuese necessário, y para estos hombres poder baptizar en tiempo de necessidad, en absencia de los padres y hermanos, porque (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 178-182 y.; BACIL: Carias do Japao, I, fls. 154 v.-lól r. (2) BIMINEL: destos. 8
  • en esta tierra delia Pesquaria, de los grandes mueren poços, y de los pequenos muchos, y finalmente para que los tales hombres nos ajuden. Y es grande la misericórdia de Dios Nuestro Senor que usa con estos tales muy liberalmente de su graçia, porque muestran grandes deseos de servir a Dios y cada vez lo van haziendo meior. Estan ja apareiados a obedecer a los padres, como que tuviesen dado obedientia1; estan mui detriminados a morir por amor de Christo nuestro Senor. Crea Vuestra Reverencia que una de las grandes consolaciones, que aqua tenemos los padres y hermanos, es ver estos hombres o, para mejor dizir, estos hermanos nuestros, porque nesta cuenta los tenemos por su virtud y estrecha amistad que con nos otros tienen, y cierto que en algunos dellos sintimos virtudes tales que darianmos muchas gratias a Dios, si el Senor a nos otros nos las diese. Estos tales edifiquan mucho el pueblo con su buena vida fuera de interesse, y ansi despues que ellos estan pelos lugares, pela bondad dei Senor, se hizo mui diferente fructo de lo que antes se hazia. Mandelos Vuestra Reverencia mucho encomendar al Senor, porque son como nuestros hermanos; destos avra hasta diez. Algunos tambien quieren venir para estar en los lugares, y ensenar, mas aqua no admitimos sino los que sentimos venir com gran voluntad de padecer tra- baios por amor de Dios, sin tener respecto a interesse humano. Por algunas cartas que escrevimos, creo sabran alia el gran exercício que se tiene aqua en ensenar las orationes, porque ai en cada lugar quien enseríe y quien ajunte los ninos y ninas, y para esto ai cada ano cierto dinero deputado. Aprenden las oraciones en malabar, y tambien el Pater noster y Ave Maria en latin; llevase trabaio en los hazer bien pronunciar, mas, con ajuda dei Senor, pronuncian I —obl.' 9
  • razonablemente, de manera que, quando los portogeses los oien dizir Pater noster y Ave Maria, affirmam a las vezes que ellos mismos no lo saben tan bien. Las ninas vienen pela manana, y estaran dos horas, e a vezes mas; los ninos vienen a la tarde, y es para dar gratias a Dios en ver como aprenden las oraciones. Despues que estos hombres, nuestros hermanos, ensenan estos lugares, sentimos que estos ninos nos tienen mucho amor, y crianse, con la ajuda del Senor, fuera de los errores y setas de sus padres, en la fee de Christo Jesu nuestro [u8 v.] Senor. // Si ellos buenamente pueden quebrar algun idolo crea Vuestra Reverencia que lo hazen, y nos incitan para ello. Este ano pasado, uvo mucha sterilidad en estas partes dela Pesquaria, por no Hover, y, sin enbargo desto, se rehizieron muchas iglesias, y otras se hizieron de nuevo, en parte do no las avia. Es cosa para dar gratias a Dios porque, conforme a la tierra, esta la cosa mui bien hecha, tanto que los portogeses huelgan mucho de la ver. De algunas platicas que hazia a estos cristianos, dandoles a entender la Encarnacion de Nuestro Senor Jesu Christo, para meior les quedar impresso en sus coraçones, empece de screvir algunas cosas en malavar con consejo de los hermanos, y los que saben ler aprendolo por las olas y despues pidoles cuenta y danmela, que es para alabar mu- cho ai Senor. Tenia yo detriminado de me ir poios lugares todos y estar en cada uno un mes, o mas o menos, segun la dis- posicion dei lugar, para les declarar los mistérios de la fee, specialmente el de la Encarnacion, porque en los mas lugares hasta aora estan aun ajunos deste alto y necessário mistério para saber, y ansi lo empece a hazer, y despues que i o
  • les platicava, algunas vezes tomavales licion, y era gran- díssima consolacion para mi alma ver estos hombres enten- der alguna cosa de la fee y quererias declarar por las senales exteriores que veia. Tienennos ellos mucho amor, y dan credito a nuestras palabras a lo que parece; empero porque antes que la fee se arraige en los coraçones de los que tenian credito en otras sectas, es necessário trabaiar de quitarles el tal credito, para que no crean en los ydolos, alien de usar y traer muchas razones, mostrandoles mui claramente ser la secta de los gentiles falsíssima, y que los lleva al infierno, pares- cio-me tambien mui necessário para este effecto disputar, delante de los cristianos, con algunos gentiles y moros sábios, y para esto los iva yo a buscar, ado quiera que oya dizir que avia algunos hombres sábios, y que son como padres de los gentiles e moros; pola gracia del Senor, y por querer esalçar su sancta fee, y para que los cristianos desta cuesta fuesen perdiendo el credito a las cosas de la gentilidad, y creiesen in Dominum Jesum, siempre los gen- tilos y moros quedaran vencidos, y convencidos; los chris- tianos, alegres, diziendo que polas tales disputas se conocia la verdad de nuestra fee y que crescerian los gentiles en el conoscimiento delia; y ansi como quedavan los cristianos alegres, ansi los gentiles y moros confusos, y por yo andar con mucha diligencia buscando los tales hombres, para dis- putar con ellos, y por ellos sentir que quedan siempre debaxo, y confusos, ya en esta costa que es harto larga, tienen, segun me dizen, temor, y no quieren los sábios y padres de los gentiles disputar comigo. El Senor les alumbre y de su gracia para que biban bien, y no se ciegen con malas obras, porque daqui viene que aun que algunas vezes conosca la verdad, no quieren sino la mentira, erant enim ear um mala opera, asi que usando de armas, a dexteris
  • et a sinistris, para que los cristianos crezcan (3) in Dominum Jesum y, aviendo detriminado de ir por todos los lugares, como arriba disce, ofereciose una occasion necessária que lo impedio, y despues me embio llamar el padre Nicolas (4), a quien tenemos dado la obediência por mandado dei Pa- r.] dre Mestre Francisco // y al presente soi llegado a Cochin, empero daqui a siete o ocho dias, con la ayuda dei Senor, empero de bolver a la Pesqueria, y espero en Dios de llevar adelante lo començado, y trabaj aremos todos los padres para que en poços anos los cristianos de aquellas partes entiendan y crean los mistérios de la fee, porque hasta aqui, como la cosa yva por interpretes, no podian bien entender las cosas delia, por los interpretes no saber declarar las tales cosas, y porque, para se hazer fructo en esta gente, es necessário entender la lengua. Los que al presente aqua andamos que somos quatro, convien a saber, el Padre Paulo (5), el hermano Baltha- sar (6), el hermano Ambrosio, que aqua recebieron en Ia India, y yo trabaiamos de aprender a ler y scrivir en mala- var; lo que ttdo es mui trabaioso, mas el Senor Dios nos tiene aiudado mucho, specialmente en estar hecha una arte en malavar, por (7) qual aprenden los hermanos, de que se sigue aprender en poco tiempo y hablar derecho, poniendo las cosas en su lugar, como quier que sepam las conjuga- ciones y declinaciones y todos los tiempos. Tenemos entre nos hecha una constituiçion que nunqua hablemos sino malavar, y ai pena a quien habla portoges, salvo que no hablamos con los portogeses, y tambien que (8) no habla- (3) BIMINEL: crean. (4) P.e Nicolau Lanciloto. (5) P.c Paulo do Vale. (6) Baltasar Nunes. (7) BIMINEL: la qual. (8) BIMINEL: quando.
  • mos entre nos otros en las cosas de Dios incitando-nos a le servir. Los cristianos son grandemente consolados de ver que hablamos la lengua, asi por la doctrina spiritual que podemos dar a sus almas, que antes por interpetres se no podia hazer bien, como tanbien porque los interpretes, asi nuestros como de los capitanes, tomavan dadivas, y hazian otros maios recaudos, y ahora (9), porque son sentidos y conoscidos de nos otros, miran mas lo que hazen. Speramos en Dios Nuestro Senor que no solamente hablaremos la lengua, mas de aqui a algunos dias ordenaremos que no se scriva entre nos en portoges, sino en lengua malavar. Y para Vuestra Reverencia dar infinitas gratias al Senor, le hago saber que quando aprendia esta lengua me parecia que los padres y hermanos no podrian entrar con ella, por su diffi- culdad, y aun que entrassen no podrian aprender a ler y scrivir por la maior difficultad que ai en el scrivir. Por la misericórdia dei Senor Dios, ya todas las difficuldades son fuera, y veo todos aprender hablar y leer y scrivir, y confio en Dios Nuestro Senor que todos los que de aqui a delante vinieren a esta cuesta aprenderan, salvo los que fueren ja de mucha edade. Aora dos anos, le screvi de un jogue de mucho saber y de buena vida, con quien teniamos conversacion (10); este ano pasado tanbien escrevia sobre el en la carta que bolbio. Pola bondad dei Senor, dia dei Spiritu Sancto de 1550, se hizo Cristiano en Punicale, siendo el capitan su padrino. Los portogeses estan mui mucho edifficados de su vida y de las lagrimas que llora, quando esta en oracion; dize se que en toda la costa no ai otro Cristiano como el, tanta es la (9) Esta palavra, que supomos ser a verdadeira, não se decifra muito bem. (10) Correcção: communication.
  • virtud que le sienten. Los gentiles, segun que oy, fueron [129 r.] mui spantados // y confusos de ver hombre de tanto saber y tan buena vida hazer se Cristiano, y los nuevos cristianos fueron con esto mui consolados. Los dias pasados, estando yo en la yglesia de Punicale, el domingo con los cristianos haziendole platica, se llevanto un patagatim de los mas honrrados sábios y ancianos y dixe a los cristianos que se alegrasen de lo ser, pues aquele ioge, que al presente en la iglesia estava, se hiziera Cristiano, hombre de tanto saber, y que tanto tenia andado y todas las cosas alcançadas: que otra senal de la verdad de la fee quereis? Palavras desta qualidad les dixo, y no ai duda sino que los hombres que bien conoscieren de su vida, saber y experiência, que seran constranidos a conocer la verdad de nuestra fee, pues vem hombre mui docto en la gentilidad de muchos dias, mui experimentado de gran vida y exemplo, que es lo principal, venir a nuestra fee y alumbrarle Dios por ello. El, do quiera qque se alia, reprehende los gentiles, ensenalos, loales mucho nuestra fee. EIlos no tienen que le responder, ni acaban de tomar la verdad de la sancta fee, porqce no acaban de bivir mal. Dominus illuminet eos. Llamase este joge Manuel Coutinho, al qual murio la muger, y delia le quedo un hijo, al qual, quando aora viene para Cochim, baptize en Punicale, y ala buelta spero de baptizar su muger y hijos, que estan en Bembar, aun que es possible hallarlos baptizados. Tambien spero en Dios de baptizar su suegro y suegra, con algunos parientes, porque lo tienen prometido. Yo truxe comigo al dicho Manuel Coutinho, para que lo viesen los padres (11) y para el ver las cosas que pertenecen al culto divino en esta ciudad. Viendole el visorei, y diziendole yo alguna cosa de lo que era, rescebio contentamiento, y dixo que le queria hazer (11) Na cópia da BIMINEL falta este período. *4
  • alguna merce, que lo llevase alia otro dia, porque a la sazon estava ocupado; y le dixe que aquele hombre no se hiziera Cristiano por otro respecto mas de por amor de Dios, y que no parescia necessário aquello. Respondio el «con todo quierole yo ffazer merce». Oi o mariana espero de lo llevar alia. Quando fuy a ver el visorei, mostro mucho amor y benignidad y, en lo que pedi para bien de los christianos y para lo que nos era necessairo, proveio con mucha libera- lidad, de que tenemos mucha razon de encomendarlo a Dios. Y por la mucha misericórdia del Senor, tenemos al presente un capitan en la Pesqueria, por nombre Manuel Roiz de Coutinho (12), que avra ocho meses qce alii reside, el qual es mui buen hombre y por quien los padres dizimos inveni- mus hominem secundum cor nostrum. Es hombre de tanta virtud que podra ser no se alle en toda la India otro capitan semeiante a el; es ia de dias y siempre fue de la manera que aora es, y con el somos los padres mucho consolados porque, nos aiuda mucho para el bien de la christianidad, y quasi en todas las cosas que haze toma nuestro conseio, y sin el no osa a hazer nada que sea de importância. Los cristianos estan mui bien com el, y desean que toda su vida este en la costa por capitan, porque nunqua tal tuvieron, ni se quando lo ternan. Aora, en tiempo deste capitãn hezimos un hospital en Punicale, que es el lugar donde el reside, para la gente de la tierra, y es hospital general, para en el se curarem los dolientes pobres de todos los lugares de la costa. // Hasta l|3" r l aora a sido substentado asi de limosnas como de penas, que el capitan aplica al dicho hospital, y estas son de los cristia- nos que hazen culpas y a vezes nos otros tanbien aplicamos (12) Foi padrinho do jogue convertido, a quem deu o nome. 15
  • algunas (13). Espero, con la ajuda del Senor, hazer que en los lugares dien cierta cosa cada ano para este hospital. Grande fue la edificacion que ansi gentiles como cris- tianos desta obra tomaron, porque es cosa que entre ellos nunqua fue vista, y cosa que era tan necessária hazerse, por amor de los pobres que, a mingua pereceian. Alas vezes se exercita el Padre Paulo y los otros hermanos en ir alia, que es junto de nuestra casa, a alimpiar la casa y los servi- dores, de lo que los cristianos quedan mui maravilhados. Tenemos por hospitalero a un hombre mui devoto de la tierra, que de antes ensehava las oraciones, el qual junta- mente es medico y los cura, y el y su muger son unas almas benditas, y llenas de muchas virtudes, que cierto es cosa maravilhosa de los ver, y somos certificados que despues que el Senor les dio un hijo y una hija, goardan en si cas- tidad. El Senor Dios les de gracia para siempre perseverar; dan grande exemplo de si a todos y, porque por la maior parte, los que vienen acompanar el capitan a esta costa de la Pesqueria, son todos soldados pobres, y los tales, quando enferman, padecen mucho, por no tener las cosas necessairas, ni se hallar en la tierra por dinero, scilicet vino, biscochos, passas, azeite, vinagre y otras cosas semeiantes; conside- rando io la necessidad, avise al capitan que escreviese sobre ello al visorei, y le pidiese de merce ciento coronas cada ano, para se poder comprar algunas cosas para los soldados enfermos escriviendolo el, selo a el senor visorei concedido. Aora espero de llevar la provison para la costa, de que los soldados ande quedar mui consolados, y aunque ellos estan bien con nos otros, y son mucho amigos nuestros, viendo la diligencia que pusimos sobre este negocio, les hara tenernos mas amor, de que con ajuda dei Senor se seguira oirnos de (13) Refere-se âs pequenas multas com que paternalmente se castigavam os cristãos. 16
  • meior voluntad las cosas que les pertencen a sus almas, y tomarles y aprovecharse delas. Por la infinita misericórdia del Senor Dios, sabera Vues- tra Reverencia que los que andan en esta costa de nuestra Compania tienen mui buena fama entre portugueses, moros, gentiles y cristianos. Quiera el Senor que, mirando los mu- chos trabaios y contínuos que los hermanos tienen, se edifi- quen, porque aqua nunqua falta mucho que hazer ni trabajo con el visitar tantos lugares, por ser mui larga la costa, los mantinimientos flaquos y la pacientia en los trabaios, el exemplo grande de vida, el amor de la pobreza, el tratar siempre verdad con las mas virtudes, finalmente son tenidos de todos en gran admiracion y los cristianos nos tienen grandíssimo amor, tanto que no lo se dizir a Vuestra Reve- rencia. Poços dias a qui hezimos una casa en Punicale para nos recoger y consolar con el Senor de los trabaios corporales, lo que me parecio ser mui necessário, porque aun que los hermanos tengan cuidado de examinar sus conscientias, y tener alguna oracion mental, contudo es necessairo en estas partes, de cierto en cierto tiempo, venir a Punicale donde io la maior parte dei tiempo estoy, porque alli acuden todos los negocios de la costa, y alli se recogen un dia o dos o tres segun, //la necessidad que ai, y darse a la oracion, y tam- [i3o ».] bien para que confiramos algunas cosas espirituales entre nos, y con esto, mediante la ajuda de Nuestro Senor, nos hallamos algo mas esforçados para los trabaios que son muchos. Quando aora vine para Cochim, escriviome el Padre Hiculas (14) (sic) que si pudiesen le truxese algunos mucha- chos para aprender en Coulan. Como dixe a los cristianos (14) O P.e Nicolau Lanciloto dirigia um pequeno colégio em CoulSo. 17 Doe. Padroado, v - 2
  • que llevaria sus hijos de siete hasta doze anos, si los diesen, sin embargo que ellos de mui mala gana los quitan de su poder, fueron muchos los que vinieron a oferecermelos, y de otro lugar, que se llama Tutucorim, que esta de Punicale quasi tres leguas, me embio onze o doze; no solamente los muchachos pequenos se querian venir comigo, mas tam- bien mancebos grandes de dozocho anos me rogavan mucho los truxese, y metieron rogadores; empero yo no podia, por me aver escrito el padre Nicolas que fuesen de siete hasta doze anos, y aunque se ayuntaran mas de vieiente y tantos para venir comigo, escogi daquellos doze muchachos, los mas habiles, y que tuviesen noticia de leer y escrevir, que truxe al padre Nicolas. No ose traher mas, por no saber la voluntad del padre; si me detuviera alia mas algunos dias, otros muchos uvieron de venir a rogarme. Nueve destos que yo truxe son embiados al collegio de Goa; si Vuestra Reverencia supiesse quam dificultosamente estos hombres de la tierra, hasta el presiente consentian quitar sus hijos para los embiar a tierras estranhas, como ya dixe, daria muchas gracias al Senor, por daren sus hijos de tarn buena voluntad. Allen de los hombres, a que llamo nuestros hermanos, que dixe a Vuestra Reverencia, que tenemos por los luga- res para ensenar, se hallo algunos muchachos que passam de quatroze o quinze anos bien inclinados y desejosos de servir a Dios; recogilos en casa y doctrinamoslos en virtu- des, porque estos, con la ajuda dei Sehor Dios, esperamos que, despues que sean maiores, venguan ensenar a los luga- res. Tenemos al prezente tres muchachos, con que estamos edificados y consolados. Mantenemoslos a costa de lo que se da en los lugares a los que ensenan las oraciones; espe- ramos en el Senor que aliaremos daqui a delante mas, y recoger los emos. Encomende Vuestra Reverencia este negocio a Nuestro Senor. i 8
  • No puedo dexar de darle cuenta de un hermano, que aqua recebio el padre Antonio Guomez (15), llamado Ambrosio, de que acima hable, que andava en la Pesqueria, porque es un anima benditissima; es mancebo de pouqua edad; tienesse mucho aprovechado espiritualmente; tiene grande perfection en la obediência, con otras muchas virtu- des; tienenos a todos mucho edificados. Tambien se apro- vecha mucho en la lenguoa malavar, y en leer e escrevir, y, quanto a la pronunciacion de la lenguoa, alcanço mas que ninguno de nos otros. La qual pronunciacion es cosa muy dificultosa, y que mucho haze al caso para hablar bien. Pareceme que a su parte le caben doze leguoas o mas de visitar, donde ay muchos lugares de cristianos. Somos tam poquos, que no se puede hazer otra cosa. Deseio yo que aprehendiesse el latim, para se ordenar, porque, siendo ordenado (16), espero en la bondad del Senor que le ade tomar por instrumento para grandes cosas; mas no ay padres ni hermanos al presente que puedan çuprir las necessi- dades que ay, y portanto, por amor de Nuestro Senor, que se acuerde de embiar aca operários fervidos. En esto no quiero hablar mucho, porque yo creo que el Padre Mestre Francisco le escrivira, y escrivira en esta materia por lo que esta claro que se Vuestra Reverencia pudier los embiara a esta miesse mucha. Para el ano que viene, con la ayuda dei Senor, espero escrivirle quantos cristianos ay en toda la costa, y los luga- res en particular, como empeçava yo de hazer esta diligencia, y en esto fuy llamado dei Padre Nicolas. El esta en Coulão, ado tiene fundado un collegio, por mandado dei Padre Mes- tre Francisco; ensena algunos muchachos, y es para dar gra- (15) Correcção: redor de Goa. (16) Na cópia da BIMINEL falta este período. '9
  • [i3i r.] cias a Nuestro Senor quan bien quisto // es de todos, quanto edifica y quanto bien dei dizen. El padre Antonio Gomez, el ano passado que vinieron aqui a Cochim los christianos, hizo con el guovernador que los honrrasse y favorecesse, aviendoles provisiones en favor de todos los christianos mucho trabaio, por ellos tambien trabajo e trabaia para que nos vaya provision de vino, biscocho, azeite, vinagre y cosas de enfermos. No hablo de otros padres en particular porque por sus cartas conocera lo que el Senor por ellos obra; por la mise- ricórdia dei Senor, estan muy edificados en los lugares de nuestros padres; estan por el mucho trabajo, que tienen por la salvacion de las animas, y por el gran exemplo de vida, donde viene que aun en las partes, ado no estan, se estende su buen odor; deseando mucho que algunos de los nuestros estuviessen entre ellos. Ya alia sabra dei collegio de Guoa y de los hermanos que ay en el, porque tenemos nuevas que se aprovechan mucho, y se van llegando, y son semejantes a los hermanos de Coimbra. Las cartas que ellos nos escriven cierto nos edifican mucho, porque las occupaciones aqua son muchas y no podemos particularmente escrivir a los hermanos de Coimbra; tenan esta por sua, a los quales pido cada dia acrecienten mas sus deseos de venir a estas partes, porque en ellas hallaran todo lo que quisieren, y porque lo vean en la costa de la Pesqueria, adonde estoi, se quisieren recogimento, aqua tenemos aparejo para ello; se quisieren peregrinar, ay mucho lugar para ello, con correr mas de setenta leguoas en la visitacion de los christianos. Si quisieren aprender la lengoa y a leer y escrevir mala- var, facilmente lo pueden hazer con la arte que es hecha, y con el exercício que hallaran de no hablar sino malavar. Se quisieren padescer trabajos aosados que ay aqua materia dello; se quisieren ser mal tratados de los infieles y padecer 2 o
  • por Christo (17), ya vieron como el Senor, queriendo gualar- donar al buen padre Antonio, le mataron los Badegas; Ambrosio fue cativo de los gentiles y bien mal tratado, y en peligro de le hazer mucho mas mal y lo matar. Es grande el processo de lo que passo; el Senor le libro para se servir aun dei. El hermano Balthesar fue preso de los Badegas, y los christianos cum gladiis et fustibus (18) le quitaron de sus manos. A mim tambien remetio un badega con una arma de la tierra, que es como punal, y un su companero, que con el vénia, se puso en medio, que se esto no fuera, no se se pudiera escrevir esta aora; por la maior partes nos libra Dios a todos de tales encuentros, salvo quando quiere dar el premio a quien lo tiene bien merescido, como al padre Antonio (19). Tambien, se quisieren hospital en que sirvan en officios de humildad y charidad, aqui lo tienen; si quisieren muchos hermanos con que se consuelen, aunque no los hallaron aquy juntos, como ey en Coimbra, hallaran otros de la tierra, que ensenan por los lugares, que podra sérios de tanta edifica- cion y consolacion, que se olviden algun tanto la soledad de nuestros hermanos, porque es grande esponto ver hombres de la tierra tanto amigos del Senor, y que tanto nos ayudan. Se quisieren comer mal, aca ay harto desto. Si los flacos quisieren o tuvieren necessidad de otros mantenimentos, tambien per la bondad dei Senor estamos providos. Si qui- sieren campo en que exerciten la charidad y sus fervores, aqua lo ay mucho. Si quisieren disputar con los gentiles y moros, aun que ellos andan temerosos de disputar con nos otros, yo se los buscare. Ansi que, por la bondad dei Senor, (17) Estas três palavras faltam na cópia da BIMINEL. (18) O. Mat., 26, 47. (19) Fala do martírio do P.e António Criminal. 2 1
  • de todo aca hallaran, portanto ninguno se escuse; y tanbien se quisieren consolationes de verdad, que ay aqua muchas y tantas que no lo sei dizir; portanto, venid padres y herma- nos mios, y no solamente los que estais en la Compania, mas tambien a los que estan por fuera quos zelus Domini comedit (20), ya quien pensa quan olvidada es la muerte de Christo Nuestro Senor, y quan mal conocida de los infieles. Otra vez vos pido que vengais, pues tantos vienen buscar dineros. Cesso, rogando a Dios Nuestro Senor, nos de a todos gracia con que perfectamente hagamos su santa voluntad. Deste Cochim oy, 12 de Enero de 1552 (sic). Paires et fratres mei memores estote mei amore Domini Jesu. Minimus et indiguns servus Enrrique Enrriquez. (20) Cf. Ps., 68, 10. \
  • CARTA DO PADRE BELCHIOR GONÇALVES Baçaim, 20 de Janeiro de 1551 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fl. 125 v. (1) A graça do Espirito Sancto e amor de Nosso Senhor Jehsu Christo seja sempre em nossas almas, amen. São aqui muitas as confisões, e de quando em quando preguo ao povo, fazendo-se muitos casamentos de orfãas e viuvas; ha grande fervor no povo. Por graça do Senhor, nestes dous anos que ha que aquy estou, se fezerão bem quatro centas almas christãs; alem de muitos pagodes que derribei e fiz derribar, derribei hum que os gentios desta terra tinhão em grande veneração, porque vinhão de todo Cambaya adorar este pagode, e aprouve ao Senhor desfa- zer-se. E sobre elle fiz por huma grande cruz de pedra e este pagode era tão venerado que era cousa estranha, por- que tinha nelle pintado seus deoses que se chamão em sua linguagem Isper e outro Bramaa e outro Vismaa, e asi querem emganar alguns ignorantes dizemdo que também tem a trindade. Tenho ordenado hum collegio em Tana, quatro legoas de Baçaim, de meninos para lhes (2) ensina- rem a doctrina christã. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 166-166v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fl. 148 v. (2) Correcção de: os.
  • 5 NOTÍCIAS DA ÍNDIA Ilha Terceira, 15 de Julho de 1551 (1) Original existentes no ANTT: — CC, 1, 86-68. Mede 290x203 mm. Três folhas em bom estado. [«r0 Senhor, De alguns trabalhos passados tenho eu por certo ser ho pior negoceo delles comta-los, porque quando de muytas partes lhe tem vemtado maao vemto daa tribulação ho que se pratyqua e muy grão dor ho que se semte; ysto, Senhor, diguo por mym, porque jaa pareçe que e tempo que seçem as que vemdem fruyta, de «jaa vay, jaa vem Diogo Botelho Pereira» (2), e de cada vez com menos honrra e merce; mas, porque eu são tamto de Vosa Senhoria que atee de fazer penar a mym me comtentaria, se nisso a Vosa Senhoria servisse, algumas novas de minha viajem e da Imdia, que pode folgar de saber, lhe quero comtar. Eu party de Portugall a vimta tres dias de Março; passey ho Cabo de Boa Esperança a dez de Julho; tomey (1) Ignoramos quem seja o destinatário desta interessante carta de Diogo Botelho Pereira. O seu autor, Diogo Botelho Pereira, era nesta altura bem conhecido pela sua perícia na arte de navegar. Era filho bastardo de António Real, capitão de Cochim, no tempo do vice-rei D. Francisco e conhe- cido inimigo de Afonso de Albuquerque. Sua mãe era portuguesa e cha- mava-se Iria Pereira, tendo acompanhado, ao que parece, António Reral para a índia. Diogo Botelho Pereira tornara-se célebre em 1535, pela viagem aventurosa que fizera numa fusta construída por ele próprio, de Dio a Lisboa, a fim de dar a el-rei a boa nova da conquista de Dio. (Gaspar Correia, Lendas da India, III, 660-669.) Publicamos esta carta na íntegra, não obstante a dificuldade em compreender o sentido que o seu autor, velho lobo do mar, lhe deu. A sua crítica rude e desassombrada a alguns pontos da vida luso-oriental constitui todo o seu interesse. (2) Refere-se às más línguas comparáveis às das regateiras da fruta, sempre a anunciar a sua vinda ou partida. 24
  • Maçãobyque a dezoito de Agosto e party a vimta dous; e por me darem hos vem tos fracos e a naao ser muito maa de governo, cheguey ha Yndia a vymte dias de Oitubro, com muita falta de agoa, vinho e mantymemtos, e com coremta ou cyncoemta doemtes e sete ou oyto homens fale- cidos. Fuy tomar loguo Cochym, por não poder hir a Goa, homde souve que era governador Jorge Cabrall, e cavia (3) laa de ir ter, e asy foy, e porque hy não avia pimenta e, segundo se dizia, nem dinheiro, carregarão as naaos tarde, e eu muyto mais himda que ellas, per honde não pude par- tir senão a vimta tres dias de Fevireiro, com mais de dous mill quyntais de pimenta menos, e outras fazendas, que a naao poderá trazer se as ahy ouvera (4). Verdadeiramente que e muito pera maravylhar ver ho que aconteçe pello mundo, e não pode ysto dizer, neste caso, senão quem vee cos olhos //a Yndia e as cousas delia, e [• T0 caa esta terra, sasemta anos ha que e descuberta esta pimenta, nunqua ha dinheiro per ha comprar, nunqua se acaba ho comtrato delia de fazer, não ha pesso homde se pessar, não ha guarda pera que se não possa levar pera Mequa e outras partes, nem menos ha buscar-se hordem como huma destas cousas possa ser, fazendo el-rey noso senhor mais merce aos de quem se serve, ca todos os prin- cipes do mundo. Hos Turcos tem tomado Adem, no Estreito de Mequa, Baçora e Catyfa no de Ormuz, e mais Barém que estaa hy perto. A fortaleza, quando ho ouver mister, não tem socorro, não ha quy neste negoceo mais que fallar. (3) Isto é: que havia. /-li (4) Para melhor compreensão desta carta, leia-se a que Jorge Cabral, governador da índia, escreveu a el-rei em 21 de Fevereiro de 1350, e por nós publicada no quarto volume desta Documentação, sob o n. 84, pagi- nas 488-499. 2 5
  • Er-rey de Cambaya faaz muyta armada, ho de Calecut jaa nos faaz a guerra, per homde labor e dolor, me parece caa (4) de toda parte. A causa que estaa comtra ysto pra- ticada he muyto pera pasmar ver a valia que tem, que diz que como pode ser falar-se de siso com homens da Imdia, e afirmão cada dia que se vay perdemdo. Ho diabo, bem vejo eu que quem quer ter estreita comta com elle, ho alcamça loguo em mais neiçidades cas (5) que tynha Amrry- que Pexoto. Mas ysto deve aver lugar quando neste caso se faaz ho que deve, porque elle não se vay senão quando se lamça, per omde me parece cos cafirmão (6) que elle he sotyll, descobrem de todo que hos tem emganados, pois loguo, quando ho socceso das cousas, em que não daa de traves a furtuna, que nisto não falo, sae desviado do que se pemsava, sem por diligemcia. Que dires do demo? Que foy muy discreto, não dires por certo, porque elle mesmo diraa ho comtrairo. Torno ao meu proposito: asym que partyndo, cheguei ha lynha na entrada de Março, e amdey ao longuo delia, sempre com vemtos comtrairos, atee vimta sete deste mes, e porque nem pera passar a Ilha de São Lourenço, domde podia hir embernar a Moçãobyque, não nos deu nunqua ho tempo esperança de poder ser bom, voltey outra vez sobela (7) Yndia, com parecer e comselho do piloto e mestre e de toda a outra jemte da naao e com autos feytos do que acomtecia, e aymda easy (8) não fora, eu soo per mym ho acordara, vemdo quanto nisso servia a Deus e a ell-rey nosso senhor e, segundo cuido, nunqua des que a Imdia he descuberta, tall comselho asy se tomou, porque (4) Isto é: que há. (5) Isto é: que as. (6) Isto é: que afirmão. (7) Isto é: sobre a. (8) Isto é: que asy. 2 6
  • as naaos que partem tarde que não parece, seus descomtos jazem aquy, porque não emtenderiam, // pode ser, em [J *•] voltar como ho eu fiz, per muytas rezois de marinharia, que Nosso Senhor quis que eu soubesse; ysto não duvido que serão acertos de voltar ou não no fazer, mas ateegora eu soo sey que hos acertey. Fuy tomar ho porto de Amge- diva, homde emvernou a naao, por não poder hir a Goa a Velha, e daly a sete ou oyto dias me respondeo Jorge Cabrall a minhas cartas, damdo-me per nova certa que vinhão hos Rumes ha Imdia na emtrada do veram, pera os quais se estava fazemdo prestes com bem de falta, dizia elle, de muytas cousas que avia mister. He cada hum pomto destes da gouvernança da Imdia tão sustamciall e parece que hobrigua tamto, quando chega como a relogeo a dar as oras, a quem nos semte, cavemdo (9) loguo de tratar de cada hum delles, esprevendo ou prati- camdo, seria nunqua acabar, e aynda isto algum remedio teria se não parecesse homem vestir-se de fatos largos, que não são seus, mas ynda neste caso ha outro pior que escuso tocar, de maneira que me fuy loguo emtão para elle, pro- vendo elle outro capitão na naao, e com minhas myngoas e fracos conselhos fiz ho que alguma ora Vosa Senhoria sabera. Mas, estamdo esta cousa asy, amtes que ho ynverno se acabasse, teve ho governador certo recado que não vinhão hos Rumes. E porque emquanto elle durou, teve guerra el-rey de Calecut sobre el-rey de Cochym e ho da Pimenta com Amrrique de Sousa Chichorro, que era aly capitão, e com Manueli de Sousa de Sepulveda, que de Goa foy laa no ynverno, mandado com poderes a socorro. "Tamto que armada, que ho governador fazia, foy prestes, meteo-se nella, e yndo damdo em alguuns lugares da costa do Ma- (9) Isto é: que avendo. 2 ?
  • lavar, emtrou por Cochym, e foy hallem delle sorgir numa ilha a que chamão Bardella, que teve cercada, homde estava hordenando pazes com el-rey de Tanor, alferez-mor de el-rey de Calecut, ou de dar nos mouros se as não fizesse, e esprevo a Vosa Senhoria estas cousas brevemente, deyxamdo outras, semdo todas de muyta sustamcia, porque lhe não promety moor espritura, e tãobem porque elle as saberaa per cartas doutras pessoas, em cujo ajumtamento eu me escuso poder ser comtado, pella gramde maresia que vay e foy sempre amtre hum governador que vem e outro que fyqua. Aías, comtudo, huma cousa direy a Vosa Senhoria muy ymportamte que sempre asy me pareceraa, que soo nos comselhos da Imdia estaa hum dos gramdes periguos delia, e emtão ha lugar de ser muyto mais certo, quamdo alguma pessoa ou pessoas, que emtrão nelles, são em muyta honrra ou dinidade constituídas, por easy (10) se elles tem ho juizo emearapitado e presuntuoso, la vay a soga e ho cal- [»*•] deiram, e ysto pella muyta diferença que ha dos // gover- nadores a hum primcepe, em cuja presemça e magestade se não ousa dizer nem afirmar senão loguo ho que a todos parece que e asy. Diguo ysto a Vosa Senhoria pello que passey em Goa co bispo da Imdia num comselho sobre a paaz ou guerra de el-rey de Calecut e todo ho Malavar, no quall eu servy a el-rey nosso senhor, como alguma ora se saberaa, domde ynfiro que diputados na Ymdia, pera serem soos sempre em comselho, he outra praga pior ca desastres, porque nos lugares de guerra e em tão grão comquista como he a da Yndia se descobrem cada dia juyzos de omens que são pera governar mais que asy, pois loguo a escolha destes mais propia parece que estaa em quem nos vee. (10) Isto é: porque asy. 2 8
  • Muyto trataria eu desta materia, de cuja rede escapão poucas cousas desta profisão, se fose para ella. Mas, como homem amda por caa de albarda, desferrado dos peis, rezão parece que não rimche, como a ginete. Asy que neste tempo, tornando a meu comto, sendo jaa seis de Novembro, chegou a Cochym Dom Afonso por visso-rey e o galeam gramde depois, a vimta seis de Dezem- bro; Froll de la Maar emverna em Moçãobyque, como Vosa Senhoria jaa saberaa; as outras naaos, leva-las-ha Nosso Se- nhor a salvamento, como traraa a naao São Pedro, em que vem Jorge Cabrall, causa de partir muyto depois. Asy que, com a chegada do visso-rey, logo e depois ho tempo deu de sy, como soe; outras cousas dessas por hy cacomtecem! (11) Então eu me estyve fazemdo prestes, e acabado de carre- gar a naao, party de Cochym a dezoito dias de Janeiro este de cyncoemta e hum; passey ho Cabo de Boa Esperamça a sete de Abrill, e a vymta quatro deste mes ou vimta cynquo sorgy na Ilha de Sancta Ellena, e aqui nesta Ilha Terceira a catorze de Julho. A jemte desta naao vem toda de saúde e de paaz, Deus seja louvado, mas Nosso Senhor sabe ho que me ysto tem custado, por serem pessoas de tãotas naçois e condições. Eu venho muyto mal desposto de beber muyta agoa, mas emquanto tyver pouquo, seguro amdo. Nosso Senhor acrecemte a vida e estado a Vossa Se- nhoria. Esprita a quynze de Julho de 1551. Diogo Botelho Pereira. (11) Isto é: que acontecem. 29
  • 6 CARTA DO IRMAO MANUEL TEIXEIRA AOS IRMAOS DO COLÉGIO DE COIMBRA Goa, 15 de Noxembro de 1551 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 121 v. • 123 (1) [lai ».] Pax Christi. Chatíssimos Irmãos. Nesta lhes darey conta das merces que Noso Senhor fez nesta viagem. Como foy tempo de nos embarcarmos, repar- timo-nos em tres naos, a saber: o padre Manoel de Moraes e o Irmão Almeyda (2) e outros dous irmãos que em Lis- boa entrarão, e quatro mininos orfãos (3) com Thomas em huma nao, he o padre Gonçalo Roiz he ho Irmão Costa (4) he outros tres mininos orfãos em outra (5), e ho padre mestre Belchior e ho padre Antonio e dous irmãos, que entrarão em Lisboa, chama-se hum deles Belchior Diaz, e o outro Jorge Nunez, e eu he tres meninos orfãos (6) em a nao capitayna. Aquy verão a grande merce que Noso Senhor me fez, em me trazer a parte donde tantos e tãm sanctos irmãos desejão de vir. Bendito seja elle que nunqua deyxa de se lembrar de quem ho offende. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 159-160 v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 144 r.-l46 r. (2) Pero de Almeida. (3) BIMINEL: faltam estas 4 palavras. (4) Irmão Cristóvão da Costa. (5) BIMINEL: faltam estas palavras. (6) Nesta leva missionária embarcaram nove meninos órfãos. 3o
  • Depois que saimos da barra, comesamos logo de re- prehender os juramentos en os mininos, sobre o que tínha- mos as vezes empuxões e respostas maas, com que nos Noso Senhor fazia merce. A hum minino que se chamava Guilherme derão hum empuxão ao segundo dia que sayamos da barra, que o deita- rão de huma esquada em baxo, e depois que se lhe foy a furya ao homem, foy-lhe o minino pedir perdão, e ho homem confuso lhe rogou que dali a diante o reprendesse, o que nos sempre a todos dali adiante fazíamos. Os padres e irmãos forão alguns dias enjoados; porem eu, como quer que Noso Senhor sabe que são muyto fraco, em tudo me sustentou e servia aos que estavão enjoados. Acabado o enjoamento, começou o padre Mestre Bel- chior a repartir os officios a cada hum. Elie pregava quasi todos os domingos e dias sanctos, quando não avia tormenta. O padre Antonyo fazia as vezes praticas de noyte; fazia muytas amizades. O Irmão Belchior, que entrou em Lisboa, era enfirmeyro dos doentes da nao todos, he foy ate chegarmos a Moçambique. Tinha muyta charidade, os doentes tinhão muyto pouco que comer; ho Irmão o pedia pola nao, e lhe davão caxas de marmelada e galinhas, e todas as outras cousas, que lhe erão necessárias, he assim os foy sustentando, com a graça do Senhor, ate que viemos a Moçambique. Os mininos (7) he eu fazíamos a doutrina cada dia. Os mininos tinhão ja muytos discípulos que sabião a doutrina toda, he estes ha ensinavão aos outros (8). Os juramentos se reprehendião de tal maneyra, que não avia ja ninguém que jurasse em nossa presença, nem em absentia, porque huns se reprendião aos outros. O capi- (7) BIMINEL: faltam estas duas palavras. (8) BIMINEL: falta todo este período. 3'
  • tão-mor mandou apregoar que ninguém não jurasse, nem [m r.] jugasse, // senão huma certa cousa (9). Emfim que vinha a nao de maneyra que dezião os homens, que nella vinhão, que tinhão ja vindo a Imdia muytas vezes, e que nunqua tal virão, e que vinha a nao sancta, e que sempre devião de mandar padres da Companhia nas naos da índia. Os ma- rinheyros que tinhão costume de jurar feamente nas tro- mentas, ja não avia nenhum que jurasse, mas antes, quando se vião em pressa, se emcomendavão a Deus. Tivemos algumas tromentas, nas quaes louvávamos a Noso Senhor e nos socorremos a Elie. E como quer que Elie seja misericordioso sempre nos livrou. Em dia de Corpus Christi, tivemos huma grande tor- menta e, apos esta, outra muyto grande, que cudamos que nos perdêssemos, porque meteo a nao o bordo todo de baxo dagoa e o mastro se entortou muyto. A nao em que vinha o padre Gonçalo Roiz semper vinha (10) junto a nosa, ate o Cabo de Boa Esperança, e as vezes lhes falavamos da nossa nao. No Cabo de Boa Esperança nos perdemos de vista e tornamo-nos a juntar em Moçambique, onde hos estivemos esperando. E, che- gando os padres e irmãos, ja verão, charissimos, a grande alegria que em Christo teríamos, avendo cynquo meses que os trazíamos juntos de nos, sem nos comunicarmos. Recebemos nos em a praya com grande alegria e can- tigas de Noso Senhor, que meninos dezião (11), e nos fomos com procisão a Nosa Senhora do Baluarte he esti- vemos aly em Maçambique tres ou quatro semanas. (9) Não se proibiu totalmente o jogo, mas limitou-se-lhe o interesse, não podendo exceder certa soma. (10) Correcção: veo. (11) BIMINEL: falta este incisivo. 32
  • Os homens, como sayrão em terra, alguns delles como não tiverão a conversação dos padres, começarão logo a desmandar-se nos juramentos. Huma molher que vinha na nosa nao fizerão os padres com que se recolhesse em huma camara, e tinha cudado dela hum homem muyto vir- tuoso (12). Como saymos em Moçambique, junto a Nosa Senhora do Baluarte, deo a nao em seco sobre huma pedra, he estava ja asentada sobre ella, he vasava a mare, e era muyto perto da terra, de maneyra que, se estivera mays mea hora, se ouvera de ficar aly. Esteve huma hora sobre a pedra; a gente comesava ja a querer deytar o fato ao mar, e cortar com o mastro. O piloto pelava as barbas, e comesava ja a dizer desbarates e os padres e irmãos se começarão a em- comendar a Deus e, como a misericórdia de Noso Senhor seja immensa, foy aly hum milagre, que nunqua tal se vyo, segundo todos os que na nao vinhão o dezião. E foy que a nao se tornou a sayr, sendo muyto grande e muyto // carre- [«" *0 gada sem fazer nada, nem fazer nenhuma agoa, senão como dantes vinha, do que fiquarão todos muy espantados. Demos entãos as velas, e daly por diante fuy enfermeyro dos doentes da nao, sendo primeyro doente. Tivemos muy- tos doentes; falecerão-nos alguns; antes de chegarmos a esta cydade de Goa, nos faleceo hum irmão que veo de Lis- boa, o qual era hum sancto. Bendito seja Noso Senhor que ho quis levar, segundo elle em sua morte o mostrou. O padre Mestre Belchior nunqua foy doente; o padre Antonio, esteve huma vez doente na nao, e outra em Moçam- bique. Chegamos aquy seis naos juntas. Chegando a Goa com grande alegria, estivemos na barra huma tarde, e ao outro dia pela menhã vierão hum padre e (12) BIMINEL. Nota à margem: não se lea á mesa. Doe. Padroado, v-8 33
  • hum irmão dos nosos de San Paulo. O Padre Mestre Belchior se foy com hum irmão logo a cydade, e o Padre Antonio se foy em hum catur com os doentes; ao padre Gonçalo Roiz e aos outros (13) nos mortificarão, que estivemos aquy dous dias e duas noytes, sem poder chegar aonde desejáva- mos avia tanto tempo. E ao outro dia saymos, onde acha- mos os irmãos tarn sanctos e tarn boons, que não sey quem lho poderia contar, os quaes estavão esperando pelo padre Mestre Gaspar, que avia de vir de Ormuz para ir a Japão, com grandes fervores para irem la todos. E estamos agora esperando para ver se vem alguma vocação de irmãos, por- que o Padre Mestre Francisco tinha escrito, que se la se abrisse caminho, que todos nos avia de mandar chamar. O padre Antonio (14) esteve aquy sete ou oito dias, e logo o mandarão para Cochim a pregar; o Padre Mes- tre Gonçalo Roiz esteve aquy alguns dias, he mandaron-no para Ormuz, onde estava o Padre Mestre Gaspar, o qual veo e trouxe consigo tres irmãos muyto virtuosos. Bendito seja Noso Senhor que me deyxou a ver hum homem tam sancto. Verdadeiramente lhe digo, Irmãos, que o seu espi- rito he seu fervor he incansável, e de homem grande servo de Deus. Com sua chegada, ouve grande alegria; primeyro que viesse a casa pregou em hum lugar que estaa, sayndo da barra, e desque aqui estaa, diz missa cantada cada Domingo, e acabando o ofertorio despe a casula e vay a pregar he, acabando de pregar, se torna a dizer a missa, e despois do jantar, dahy a duas horas, vay pola cydade, tam- gendo a campaynha como elle em Ormuz acostumava; e vindo, faz huma pratica aos negros, e declara-lhes a dou- (13) Correcção: mais irmãos. (14) Não se consegue decifrar a palavra na cópia da BAL, tanto mais que foi riscada posteriormente. Na da BIMINEL, porém, lê-se António. 31 J
  • trina; confessa-se muyta gente, que he grande cousa em estas partes. // C**3 Isto lhe escrevo, Irmãos meus, porque sey que se alegrão muyto em Noso Senhor, e que terão com isto grandes fer- vores de vir tomar a cruz por Jesu, a qual tem ca bem aparelhada. Por amor de Jesu lhes pesso que me emcomen- dem em suas orações. Desta Goa, hoje, a 15 de Novembro de 1551 annos. Eu ouvera de la yr (15) ao mar, porque ja ya de cabeça se me não tiverão. Guardou-me Noso Senhor. Peso-lhe me emcomendem muyto a Elie. Deste indigno irmão voso Manuel Teyxeira. (15) BIMINEL: cair. 35
  • 7 CARTA DO PADRE MANUEL DE MORAIS AOS CONFRADES DE PORTUGAL Cochim, 25 de Novembro de 1551 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 119 r.-121 (1) [119 r.] a graça de noso dulcíssimo Jesu e o amor de sua sancta cruz, e a perfeyta imitação de sua sagrada vida seja sempre e se acrescente em nossas almas, amen. Bem creo, padres e irmãos meus, segundo vosa grande charidade, que estaes ja desejando de ouvir novas de mim, por eu ser o mays velho de dias, e o mays fraco em tudo, que todos os que nesta viagem viemos, e em que os perigos farião mayor impressão. Eu assi estou desejoso de vos alegrar, com vos dar conta das misericórdias que o Senhor comigo e e com estes irmãos uzou, e dos perigos que nos livrou. Primeyramente, o dia que partimos, não podemos sair poios chachopos fora, e deytamos anchoras a noyte, e estando sobre ellas quebrarão ambas, he yamos caymdo sobre hum dos chachopos, e de todo nos yamos perdendo, e foi necessário cortar ambas as amarras, para que a nao arri- basse, e milagrosamente nos tirou Noso Senhor, por meyo dos chachopos, sem vela e ajuda nenhuma humana, e livres deste perigo com grande espanto e confiança (2) que pois (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 157-159; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 141 r.-l44 r. Outra cópia existe no ANTT — Gav. 15, 6-3. Uma e outra cópias apresentam pequenas variantes que, todavia, em nada alteram o sentido principal. (2) ANTT e BIMINEL: «...que pois Noso Senhor nos livrara delle, assi nos livraria de todos os outros, e asi nos livrou em a costa de Guiné, etc.» 36
  • Noso Senhor nos livrou dele, assy nos livraria de todos os outros e assi nos livra na costa de Guine, de hum contraste grande de calmarias, com o qual não podíamos passar a linha, e estivemos em risquo de aribar a Portugal, ou a outra terra, e isto porque durou o mes de Mayo (3) que andamos na costa de Guine. Todos cuydavão ja que o milhor remedio que podíamos ter era aribar. Vede vos, Irmãos meus, quam differente eu estaria deste parecer, e quantos juízos deytaria sobre o meu aribar a Portugal, lembrando-me aquilo que o Senhor diz no Evan- gelio: qui invitati erant non fuerunt digni, et iterum mui ti sunt vocati pauci vero electi (4). Certo que me deu Noso Senhor, padres e irmãos meus, grande materia de entrar em mym, e de conhecer minha maa vida passada, e despoys que assi me deu tempo para chorar meus males, uzou comigo de suas acostumadas mise- ricórdias, dando-nos. tempo com que passássemos avante da linha. E tanto quanto ao principio me meteo em confusão, me acrescentou despois em obrigações de ama-lo, e por mil vidas por Elie, se tantas tivesse, por me fazer digno de vir a índia, onde milhor o pudesse servir e enriquiser-me com os trabalhos de sua cruz. // Agora vos quero dar conta de nossas ocupações na nao, posto que tudo não poderey dizer. Primeiramente com os meninos dezia a ladainha as quartas e sestas em publico, e cada dia particular. E também cada dia os meninos dezião Conceptio tua a Nossa Senhora, a noyte com as Ave Marias no cabo. E então, encomendando sempre as almas do purga- tório e o estado da Sancta Madre Igreyja e os que estavão em pecado mortal, dizendo por cada huma destas cousas (3) ANTT: «...hum mes e meio...». O sentido aqui é bastante diferente. (4) Cr. Mat., 20, 16 e 22, 14. 37
  • hum Pater noster e Ave Maria. E assy, emcomendavamos a todos os mareantes, espicialmente aos da nossa nao, e certas Ave Marias por particulares necessidades e intenções. E os meninos fazião cada dia a doutrina pubrica, e insinavão muytos moços e meninos que vinhão na nao, e as sestas dezião a Paixão. Aos sabados, nos ajuntávamos todos hos da nao, e deziamos nossa Salve cantada; estando os ma- reantes a ella, e acabada, dezião elles suas prosas acostu- madas. Eu, aos Domingos, pregava e dezia missa com benzer a agoa e dizer Asperges cantado pelos meninos. E depois que eu lançava a agoa aquelles que vinhão a missa, hia hum irmão com ella e lansava a toda a mays gente que não podia vir. E assy outros dias da somana, pregava e dezia missa, segundo as necessidades que se oferecião, mas os que não vinhão a missa tivessem pacientia, porque eu não lho desimulava, se não via causa licita, e assi os que não vinhão a pregação também lhes dezia o que perdião por não virem a ella. E porque não vinha capelão na nao, eu dava as festas de guarda e de jejum, he era-me forçado ter cuydado de suas almas, como seu proprio capelão, pare- cendo-me que, pois em todas as naos vinhão capelães, senão em aquela, que queria Deus que eu tivesse o cargo, porque na nao donde vierão Belchior Nunez e o padre Antonio (5) e em que veio Gonçalo Roiz e em todas as outras em que vinhão frades, vinha proprio capelão, senão na nossa nao, e parece que quis isto Noso Senhor, para que eu tivesse mays poder nelles he os podesse, ora por amor, ora por temer, constranger a ser bons, porque muytos erão esqueci- dos, e aimda como inimigos das cousas de Deus he da salva- ção de suas almas, e não ouverão de obedecer a outrem, se (5) Palavra ilegível na cópia da BAL. 3*
  • da mesma maneyra se não ouvera com elles, como me eu ouve, e parece cjue nisto me quis dar (6) Deus Noso Senhor hum particular dom (7), que ja todos se emmendavão e ja não querião senão o que eu queria, e assy se confessavão a mym muytos e me pedião perdão das tentações que con- tra mym tiverão. E assy saymos todos muy conformes, pesando-lhe de se apartarem de mym, e assy ainda em terra esses dias que preguey, não querião ouvir a outrem senão a mim, e assi, despoys de estarmos nesta terra ate minha partida para Goa (8), me vinhão sempre a ver huns e outros he destes todos seis deles vinhão movidos para entrar na Companhia, hum deles fidalgo. Hum destes mandey ja para Goa com os Irmãos que vão diante de mym por assy o mandar o Padre Rector. E os outros, por terem negocios que não puderão ate gora deixar, se não apresentarão ainda ao Rector. // Acerca dos doentes da nao, lhes quero dar conta como me ouve com elles. Primeiramente, o capitão, sabendo logo como ouve doentes, que eu tomava cuydado deles, me encar- regou daqueles e dos mays que adecessem (r/c). E porque del-rey não vinhão todas as cousas necessárias, nem botica como soe a vir em as outras naos, o capitão me disse que me mandaria dar da sua despensa ho que fosse necessário. E assy dava elle e davamos nos ate que foy necessário que se abrissem essas poucas cousas que yam del-rey, que erão lentilhas, grãos, ameyxas, mel de açuquare. E isto era pouco para toda a viagem e para tantos doentes, como trazíamos, que erão perto de oitenta e, por yso, foy necessário dar-lhe (6) Palavra cortada. (7) Correcção: fazer esta merce. (8) A seguir à palavra GOA, encontram-se as seguintes palavras que faram riscadas: «com os irmãos que vão deante de mym». 39
  • hum dia lentilhas e outro dia papas da farinha del-rey com mel. E assim, sostentamos os doentes que não perecessem de todo, porque alguns deles não erão doentes, senão de pura fome, e outros das gengivas, e das pernas que quasi a todos inchão no Cabo de Boa Esperança, onde ja todas as cousas de comer não tem sustancia, senão he galinha. E os que se aly achão com galinhas de maravilha as dão a nynguem, e não se achão menos de a cruzado cada huma, he, as vezes, seis tostões he dous cruzados. E assym, das outras cousas de comer, tudo vale a pezo de dinheiro, e os pobres padecem muyto e nenhum, por rico que seja, se a viagem he comprida como a nossa, ha que não padeça trabalho, ou por doença ou por fome. E assi os nossos Irmãos ajudarão por huma parte a levar a cruz do Senhor, porque todos adoecerão, mas pola mise- ricórdia de Deus, não de tal maneira que perdessem o fervor de servirem os outros doentes. E se algum deyxava de ser- vir, era o dia da sangria, e quando muyto dous ou tres dias, he não desejava de se levantar senão por servir aos doentes. E assi, de puro trabalho, me parece que adoeciam, espicial- mente Aleyxo Madeira, que foy quatro ou cinco vezes san- grado ate que lhe que defendia (9) que não fizesse nada sem lho eu mandar (10). Todos os outros servirão e fize- rão cada hum, segundo suas forças, fielmente o que podião e derão muyta edificação. Ho Irmão Pedro d'Almeyda se defende mays as infir- midades da nao que nenhum; somente foy huma vez doente, e esteve dous dias, e tornou logo como quem descansara para milhor trabalhar. Dos mininos, hum deles somente adoeceo das pernas e das gengivas, todos hos outros vierão de saúde, Deus seja louvado. (9) Correcção: disse. (10) Correcção: sem particular licença. 4°
  • Eu nunqua fuy doente, senão que hum mes antes de desembarcar os olhos se me encherão de agoa, que não podia estudar, e assy cheguei a terra, mal desposto deles; purgaram-me e achey-me milhor, Deus seja louvado. // [«*> v.] A nossa desembarcação não foi onde se costuma, que he em Goa, mas foy em Chochim, que he huma cydade atras de Goa cem legoas. He viemos aquy, por grande mise- ricórdia de Deus, porque, segundo os doentes erão muytos, e vinhão os homens ja debilitados de seis meses e meyo de viagem, se não viéramos aquy ter, ouverão muytos de passar mal, e outros morrer, porque se acabava o tempo das mon- ções para podermos ir a Goa, e o capitão não queria em nenhuma maneyra vir a Cochim, mas quis Noso Senhor que me ouvio, não ousando nynguem a falar-lhe, e disse-me que dissese aos doentes que si, poys assi querião, mas que era peyor pera elles, porque não tinhão em Cochym esprital, em que coubessem, nem quem lhes pagasse o soldo e que morrerião; mas Noso Senhor fez doutra maneyra, que lhes deu espital, em que se curarão muyto bem, e mais despois de sãos a todos remedio de vida. He com isso, porque todos sabião que eu fora causa deles virem a Cochym, e de serem assy remediados, não sabião agradecimentos que me dessem, e ao mesmo capitão que queria ir a Goa, lhe veyo muyto milhor vir a Cochym, porque estava aqui perto o viso-rey com que elle avia de negociar; assi que todos recebemos grandes merces do Senhor, dador de todos os beens. Entrando nesta cidade com hos mínimos, em modo de procisão, com sua crusinha alevantada, fez muyta devação ao povo e folgarão muyto de hos ver e ouvir cantar (11), e assi nos acompanharão ate a Madre de Deus, que era junto da nosa pousada, e nesta hermida dissemos missa; foy ho (11) BIMINEL: faltam as palavras «com os meninos, etc.». 41
  • dia de nossa desembarquação, huma quinta-feira, e logo a sesta, a noyte, vierão os padres de San Francisquo pedir-mc com muyta instancia que lhes pregasse ao Domingo, que era dia de San Francisco, porque não estavão os seus pregadores ao presente em casa, que erão com ho viso-rey, e não me pude defender deles, ainda que tinha causas pola indesposi- ção dos olhos, e pelo tempo ser curto, que não tinha mays que hum dia para estudar, e contudo isto eles, enformados de grande pregador, quiserão antes que lhes pregasse eu que não outrem. Finalmente, eu preguei com grande satis- fação do povo, ao que parece, e dos frades. E assim (12) todas as outras vezes que preguey que forão cynquo nesta cydade. Logo me rogarão que ficasse aquy, e que me não fosse para Goa, e os principaes fidalgos he cydadãos, sabendo que me querya ir, se ajuntarão em camara, he acordarão de fazer comigo que me não fosse, e elegerão para me virem falar seis ou sete; proposerão-me a causa com grande bene- volentia; respondi-lhe, depois de lhe dar os agradecimentos de boa vontade, como meu superior me tinha escripto, que partisse em achando embarquação, e disse-lhes quanto im- [iji r.] portava ha obedientia, e como não podia dar-lhe // inter- pretação nem fazer outra cousa senão ir-me, mas que aimda que eu fosse, bem poderia tornar, se a meu superior lhe pareçesse serviço de Noso Senhor como a mym me parecia e que eu mesmo o informaria do que passava. Disserão que não querião mays que ser eu contente, porque se o fosse, elles esperavão que lho não negaria o padre rector, e com isto escrevem ao padre rector de Goa. Estas cousas escrevi, irmãos charissimos, aimda que não são tão grandes como utras muytas, que vos ja de qua (12) Após a palavra «assim» encontram-se as seguintes que foram ris- cadas: «aprouve muyto ao parejer nosso». 42
  • ouvistis he lestes, pera me consolar comvosquo, e para que deis graças a Deus; que nao he menos rezão dar-lhas por estas pequenas, que sua magestade obrou por hum instru- mento tam baxo, como eu sou, do que he rezão de lhas dar, polas excelentes obras que faz por instrumentos excelentes. E para mays dardes gloria ao Senhor, vos direy aimda o que nos aconteceo, que imdo da segunda linha tres ou quatro grãos, dão-nos (13) humas calmarias semelhantes as de Guine, e não podíamos passar a linha, e vinha a gente quassy toda doente, he desacoroçoada, porque ja não avya que comer cousa que tivesse sustancia, e cada dia crescião os doentes. E disto foy também causa ho vir por fora por- que em toda a viagen, sendo tam comprida, nunqua tivemos nenhum refresco; de maneyra que, estando assym em calma- ria, ordeney huma sesta-feyra de fazer huma procisão de noyte, na qual ouve desciplinantes, e fizemos hum altar na tolda, donde saysse a procisão, e outro ao castello da proa, com hum retavolo da Piedade muy devoto. Mas primeiro que fizesse isto, mandey-o dizer ao capitão, como tinha ordenado de fazer esta procisão; mandou-me dizer que não ha fizesse, porque desacoroçoaria a gente. Não me pareceo boa a sua rezão; fuy falar com elle e, como elle era virtuoso, logo se subjeitou a virtude. Finalmente fizemos a procisão, com muita sera e muytos desiplinantes, que nunqua se desiplinarão senão então. E andamos tres voltas ho redor da nao por dentro; cada vez que vínhamos ao altar da Piadade, chamando a grandes vozes, e alguns com lagrimas, «misericórdia» tres vezes; e assy, acabada a procisão, logo quis o misericordioso Senhor mostrar-nos sua grande misericórdia, e deu-nos logo aquela (13) BIMINEL: derão-nos. 43
  • noyte vento, ate nos por nesta barra de Cochim. Isto nota- rão muyto todos, dando graças a Noso Senhor, he agarde- cendo-nos fazermo-los açoutar he movermo-los a nos ajudar. Anno de 1551 De voso Irmão Manuel de Moraes. 44
  • 8 CARTA DO IRMÃO BALTASAR NUNES AOS SEUS CONFRADES DE PORTUGAL 1551 Cópia existente na BIM1NEL: Cartas do Japão, fls. 183 v.-189 (1) A graça y amor de Christo nosso senhor faça continua- t'83 *1 mente morada em nossas almas, amen. Cuidando o modo e maneira que teria para escrever a todos, achei que pois todos éramos hum soo em amor e charidade, unidos pola graça do Senhor, que bastava uma carta pera todos, detriminei então, assy por o Pe. Mestre Gaspar me mandar, como pola charidade que a isso me obriga, de vos escrever, charissimos padres e irmãos de minha alma, a quem peço, por amor de Nosso Senhor, me queirão perdoar se nesta for comprido, porque os grandes deseios que tenho de lhes comunicar as grandes necessidades que qua ha, causa ser nesta largo, e assy também por o Pe. Luis Gonçalves me pedir em huma carta que me escre- veo que escrevesse muito largamente as meudesas do Cabo de Comorim, o qual eu não farei tão por instenso, como ellas são, mas contarey aquelas que em o Senhor vos poderão consolar e não pequeno animo acresçentar pera servir ao Senhor e causar em vossos coraçoens maiores fervores de deseiar de padeçer por seu amor, posto caso que os // tenais Cl8<] mui grandes para sofrer graves trabalhos por amor de Cristo, nossa verdadeira esperança. O Cabo de Comorim, charissimos irmãos, sera de çin- coenta legoas de costa, digo cincoenta legoas ao longo da (1) Esta carta não se encontra na BAL nem na BACIL. 45
  • costa, donde estão os christãos, e não se pode toda andar por terra, por causa dos ladrões, mas a milhor e mais principal se pode caminhar sem ninhum perigo; em todas estas cin- coentas legoas de costa ay cincoenta lugares de christãos, entre grandes e pequenos; em todos estes eu ya estive e por isso faço menção delles, salvo em soo hum, e outros que me não lembram, em os quais estive, mas não nos conto, porque me não lembram como digo. Esta terra em sy he muito esteril de fruitas e outras cousas; as arvores que nella ha comummente são espinheiros muito grandes, as quais dão muy groços espinhos; careçe de boas agoas, salvo certos lugares; o comer comum da gente da terra, e dos que nella estão, he aros, muitas galinhas, peixe, leite, manteiga, isto nunqua falta, e todo este manti- mento muito barato; he gente que de maravilha come carne, asi reis como grandes senhores. O comer he no chão em baçias, e sem toalhas, e não comem senão com a mão dereita, e esquerda não a-de tocar em cousa de comer ao tempo que comem, e isto por hum certo respeito, que não he licito escrever. O beber bebem por huns guindes, que são assi como albarradas, e sempre bebem de alto, muito poucas vezes toca a boca ao vaso. O vestir assy de omens como molheres não he mais que soo hum pano derredor de si, quanto cobre da sinta ate o joelho, e algumas molhe- res ate baixo da sinta; para riba todos andão descobertos. He gente que toda a sua galantaria assy homens como molheres esta em ter fermosos e compridos cabellos hunta- dos com azeite por luzirem, e então os enrrodilhão pola cabeça e os atão com hum cordão vermelho com huma borla que lhe fica atada na coroa, e isto somente trazem os homens. Presao-se muito os que tem possibilidade de trazer grandes orelheyras de ouro nas orelhas e se não sam de ouro ou de grãos de aliofar, não nas trazem. He gente 46
  • muito vangloriosa, folgam muito de serem louvados em suas obras. Os reis não tem estado, senão muito pequeno e baixo; não sabem que cousa he honrra, de ninhuma calidade se prezão delia, nem elles não na sabem dar aos seus. O seu asentar he no chão e dormir no chão, não se servem com aparatos, nem menos com estado de criados: os seus // lhe [184 tem pouco acatamento, e o acatamento que os seus lhe fazem e assy o povo he fazer-lhe azumbaia que he alevantar ambas as mãos iuntas, como nos fazemos quando louvamos ao Senhor; não se poem de giolhos, mas em pee ou asenta- dos faliam com el-rei. Todos os mais reis tem çinco e seis molheres, mas con- tudo sempre tem huma principal, que he a verdadeira rainha, e a quem tem mais amor. Os filhos das próprias molheres não são ordeiros do reyno, senão os filhos das irmans, e ysto por causa que estão duvidosos os filhos das molheres serem seus, e os das irmans dizem que os vem nacer de suas irmans, e por isto são herdeiros do reino. São todos estes reis mui tredos huns aos outros, todas as treiçoens que se podem fazer se fazem, algumas vezes se dão socorro huns aos outros, os seus são-lhe muito falsos e tredos, usam de muitos enganos com os reis e muitas vezes elles são causa de outros reis venserem os seus proprios polas treiçoens que usam, e tudo isto fazem por dinheiro, como ya algumas vezes aconteceo virem fogidos dos reis doutros reis (sic) aos lugares dos nossos christãos e pedir socorro ao nosso capitão. Quando estes reis morrem, não nos enterrão, mas os queimão; são obrigadas todas as molheres e mançebas a se queimarem vivas com o rey, e se alguma esta prenhe, aguar- dam ate que paira, e então a queimão, e assy mesmo fazem todas as molheres casadas. Aconteçeo que queimarão huma 47
  • vez huma moça de idade de desasete ate vinte anos, por morrer seu marido, e como isto era muito perto do nosso lugar, foy la huma molher casada que avia pouco tempo que viera de Portugal, e falando com ella em cousas de Deos pera ver se a podia converter, respondeo ella: «não curemos desas cousas, eu tenho aqui pouca lenha para a minha queima, rogo-te que me não fales nisso, da-me huma pouca de lenha pera que seia logo queimada, porque esta não basta». Ficou a molher portuguesa fora de sy em ouvir tal reposta, dei- xo-a se veo pera sua casa a nos contar isto. Estas molheres que se queimão vivas, por amor de seus maridos, são mui veneradas em o tempo da queima, e muitos as adorão por santas, dizendo que antes quis ir a viver no outro mundo com seu marido, que neste ser maa molher, porque aquellas que se não querem queimar são tidas por maas, e por desamoraveis a seus maridos, e nunqua mais os parentes as vem; fica então desprezada de todos e mais usa como molher publica. t'85] //As que se queimão he desta maneira: fazem huma grande fugueira de lenha que pera isso da muita gente, e assi mesmo azeite, e despois da fugueira feita, trazem a molher seus parentes com os homens do povo, e vem com grande festa de muitos tangeres e folias, e ella vem carregada de muitas jóias de ouro; então o parente mais velho, estando ya na fogueira, primeiro que a queime, anda bailhando derredor delia, tirando peça e peça, e despois lhe dão a beber huma beberaiem de que fica bêbada, e andando assy balhando e estando ella bêbada, a deitão no fogo; são logo tantas as panelas de azeite sobre ella que em menos de quatro credos nem os ossos não ficão sem se queimarem; muitas vezes hia eu pollo caminho e achava os lugares donde as queimavam, sem aver memoria de osso nenhum. Polo certão muito dentro, usão desta maneira: quando morre o marido, fazem huma cova muito funda, então asen-
  • tão a molher no fundo com o marido morto no regaço, e assy vão pouco a pouco taipando-a, ate que a terra lhe cobre o coração, então morre; não escrevo mais largo disto, porque pareçe proluxidade. Em todos os christãos que avera no Cabo de Comorim poderão ser cincoenta mil, e todos vivem ao longo do mar; por o çertão dentro não ha ninhuns, salvo os que ficarão do tempo de São Tome, mas estes não converção comnosco. As fazendas dos christãos não são outras senão bateis e redes, com que pescão o peixe e o aliofar; alguns homens honrrados, ainda que poucos, tem ortas de algodão, e algu- mas palmeiras, mas todo o seu tizoro, como digo, esta em pescar peixe, e disto vivem e são abastados, e fazem esmo- las, e se aiudam huns aos outros. He gente muito sabia e vivem muito, todos são muito nossos amigos, e obedecem muito aos padres. Agora, avera tres annos principalmente despois que aprendemos a lingoa que estes christãos ão vindo em grande conheçimento da nossa fee, porque falar homem por segunda pesoa he grande trabalho, e nunqua falão verdade, porque não sabem falar de cousas de Deus interpretes ninhuns; despois que nos aprendemos a lingoa, se ha feito mui grande fruito, porque viemos entender suas manqueiras e descobrindo seus males, pelo que facilmente caião na verdade, com lhe nos declararemos seus enganos. Agora, pola bondade do Senhor, tem tanto credito nos padres, que tudo o que lhe dizem crem ser verdade, e fol- gão // muito de preguntar por cousas da nossa sancta fee, t'g4 *•] são mui coriosos em preguntas, muitas enfindas vezes des- pois que entendi a lingoa, posto que não muito bem, mas contudo não avia mister segunda pessoa, emportunavão-me tanto os christãos com perguntas que me não deixavão, que certo eu as vezes fazia que dormia, por que se elles fossem, e soo quando vião que nos hiamos pera a igreija então nos davão lugar pera rezaremos. Doe. Padroado, v-4 49
  • Em toda a costa avera vinte e tantas igreijas, em as quais podem dizer missa, e são muito boas; o Irmão Ambró- sio faria sete, o Pe. Paulo esta em gloria fez 6, e o Pe. Anrique Anriquez duas, as maiores que ay, e outro fez huma muito boa e muito grande, e outras que ya esta- vão feitas do tempo do Pe. Antonio Criminal; em todas estas igreijas se ensina a doctrina pola manhã as mininas, e a tarde aos mininos; sempre estão muito bem concertadas com seus altares e frontaes e sobreçeos e alampadas sem- pre toda a noite asesas, e os homens vão sempre fazer suas orações pela manhã e a tarde despois de çea, porque estão as portas das igreijas abertas atee as oito da noite, e as vezes mais, e por ser as vezes tarde, lhe dizem que se vão, que he tempo de se fecharem as portas; tudo isto causa o sabermos a lingoa, porque dispois que a soubemos se ha feito muitas cousas de grande serviço de Nosso Senhor, e assy como hiamos aprendendo, aprendíamos também a ler e escrever, que foy grande aiuda pera se poder saber perfeitamente a lingoa, a qual he asas trabalhosa de apren- der, mas pois hum tam inútil e sem virtude como eu a aprendeo, que fareis vos, charissimos, se qua vierdes. Nosso Senhor sabe o contentamento e a consolação que se gosa em se saber a lingoa, porque as vezes e muitas vezes me punha a brincar com os mininos e falar com elles e era tamanho o meu contentamento quando hia de hum lugar pera outro, por caso que vinhão logo todos os mininos correndo ao caminho e fazião suas misuras com as mãos alevantadas e então me vinhão a beijar a mão, como padre, de que não poucas vezes me vinha vangloria; verdade he que eu lhes mostrava muito amor e os convidava muitas vezes, e muito mais folgavão com os padres e os outros irmãos, que lhe farião mais agasalhado do que lhe eu fazia. Serti- ftco-vos, charissimos irmãos de minha alma, que são tão grandes as consolaçoens que o Senhor da nestas obras que 5o
  • muitas // vezes me deixava estar mais do necessário, e outras vezes me alevantava huma hora ante manhã por me não virem ver. Não me pareçe, irmãos meus, que sera charidade deixar de vos contar algumas cousas que acontecerão no Cabo de Comorim, pois o fim que aqui pertendo não he outra cousa senão pera louvardes a Deus, e rogardes por os que tem necessidade. Quando eu começava aprender a ler, estando asentado com hum mestre no alpendre da igreija, lendo polo A. B. C., entraram pela porta travesa huns ladrões e me tomarão o fato que estava dentro; dizendo-me a mym isto, me alevantei e em saindo pola igreija me achey logo çercado de homens de frechas e lanças e espingardas, e me tomarão não com muito amor, e me levarão ao seu capitão, por cujo mandado me elles vieram prender. Fui eu então preso e as molheres christans, vendo isto, polio amor que me tinha, porque estava eu de asento neste lugar, donde me prenderão, começarão todas a chorar e a se carpir, dando rebate cada huma a seu marido, como me levavão preso; os christãos, vendo minha prisão e os grandes choros das molheres e mininas e mininos, detriminarão todos de morrer por amor de mym e, tomando suas armas, me forão buscar, e mandarão recado a outro lugar como me tinhão preso; o lugar, como era perto, vierão logo todos os christãos, taingendo atabaques e baçias, em sinal de guerra, e chegando iunto donde ou estava prezo, diçerão ao capitão do ladrois (sic) que eu que era padre português, e que deixara minha natureza por lhes yr insinar a salvação de suas almas, que soubeçe certo que todos não estimavão morrer e deixar suas molheres e filhos e filhas por amor de mym, que assy como eu aventurava por amor delles a morer, que todos elles estavão presto para outro tanto, e tendo todos os christãos çercada a casa do ladrão, donde eu estava, logo sem os christãos o sentirem, fugio e se foy meter em hum
  • pagode muito grande, e sabendo os christão isto, forão logo todos correndo ao pagode pera o matarem; acharão as por- tas fechadas; fiquei eu então solto e as molheres christans me trouxerão pera casa e os christãos não avia remedio pera se quererem vir, atee que os eu mandey chamar primeiro duas ou tres vezes. Por aqui, vereis irmãos, o grande amor que nos tem os christãos, são muy desenganados amigos nossos e tem elles muita rezão pera isso. Despois disto, logo dahy a 3 ou 4 dias, era necessário [186 r.] yr a visitar // os lugares dos christãos e sabendo eu de çerta certezaz que os imigos estavão no caminho, e que não podia passar sem perigo, detriminey de yr por a grande necessi- dade que nisso avia. Caminhando meu caminho, cheguei a hum lugar, donde estavão os imigos e estando eu assentado em casa de hum christão, pay do menino que ensinava a doctrina, veio hum criado do capitão a chamar-me; fui la fora do lugar, junto da casa de hum pagode, adonde me deteve, fazendo-me grandes feros que me queria levar ao araial do seu rey, que eu era vaçalo do rey inimigo do seu, e que me avia de matar. Eu algum tanto e não ya pouco medo tive, porque eu avia ya Ia ido outra ves; sertifico-vos, irmãos meus, que se os christãos então não forão, que pode ser que eu não seria solto e livre como sahy. Indo mais adiante, fui ter em hum lugar de christãos, que sera de seisçentos vizinhos, polo qual avião de passar os imigos, e pola necessidade que avia de yr por diante, detriminava de yr, e como neste lugar principalmente os christãos são ver- dadeiros nossos amigos, não me deixavão yr, y vendo elles que não no podião acabar comigo, se forão todos ao caminho, e se puserão diante de mym em giolhos, que não pasasse adiante. Detive-me então e neste comenos poderião vir alguns duzendos de cavalo pouco mais ou menos e alguns quatrocentos de pee, e depois que passarão me fui 52
  • meu caminho e bem cansado por ter ya andado perto de quatro legoas. Em outro lugar foy necessário desembarcar por caso de baptizar, e desembarcando, como toda a costa he muito bravia me ouvera de afogar, porque desembarquei em huns paos atados huns nos outros, a que chamamos catamarrão, e se o christão que vinha comigo não deitava mão de mym todavia passava risco; desembarcando, como digo, derão logo em outro lugar rebate que eu estava em outro, porque era perto hum do outro; mandava-me chamar o capitão que fosse la; eu estava despido e molhado; dey por reposta ao moço que estava daquela maneira, que não podia la yr, que depois iria, mas como Nosso Senhor he de misericórdia, permitio que naquele lugar não avia mininos para baptizar, salvo hum, o qual estava bem, e não era necessário aven- turar-me a perigo, posto que eu não tivesse para onde fugir; e estando eu bem fora de socorro, chegou hum batel pequeno, que chamamos qua tones, e então me tomarão os christãos e me puserão em outro lugar em salvo. O' irmãos, fervor polia honrra de Deus, queimemos este povo // gen- [>87] tio que tão fora anda do caminho verdadeiro, porque não basta elles estarem condenados, mas ainda estranho que os outros não venhão a conheçimento delle, mas ainda que lhes pes (s/c) e mais ao demonio, eu soo tirey feitos mil e duzentos ou trezentos christãos, os quais muitos deles estão na gloria do paraiso, porque assi como os acabava de bapti- zar, morrião logo, por serem mininos, que aquelas próprias horas nascião. Ya me aconteçeo estar de caminho pera outros lugares, e não hia por estar esperando molheres que estavão de parto, porque os mininos morrem muito qua nestas partes, nos era necessário aguardar que parissem as molheres pera logo baptizaremos as crianças. Muitas vezes, quando tornava poios lugares, achava mi- ninos para baptizar, perguntava por que mo não dizerão 53
  • quando passei por ali; respondião: estes não são nossos filhos. Mas porque entre a gentilidade a hy hum costume que quando as molheres parem vão perguntar seus maridos aos caneanes, que são feiticeiros, que sua molher avia parido, que lhe dicese se a criança avia de ser boa ou se nascera em boa hora, e pera que ho feiticeiro lhes diga isto, ão-de ser primeiro peitados; responde então o caneane o que quer, dizendo: «teu filho nasceo em boa hora, crio {sic), porque a-de ser bom homem». E se lhe dis: «tal filho qual te agora a-de nascer a-de ser muito mao, nasceu em roim hora, em nenhuma maneira o cries, porque a-de ser muito péssimo», vendo o pay e a may isto, não matão os filhos, mas os trazem aos christãos que os criem e fação christãos; e desta maneira achava muitos mininos em poder dos nossos christãos os quais criao com tanto amor como se fossem propriamente seus filhos legítimos. Quando se os nossos christãos casão, vem todos os casamentos a igreija e primeiro que venhão, çinco ou seis dias, são obrigados a virem dizer aos padres que seus filhos ou filhas querem casar, e isto para que saibamos se são parentes ou casados em outros lugares, porque soia a ser no tempo passado que nos enganavam algumas vezes, mas agora não no fazem porque ão grande medo de nos, e todos são recebidos na igreja com grande festa de homens e molhe- res e muitos tanieres e outras folias. Parece-me que me lem- bra que em hum dia fiz onze casamentos e me fizerão yr duas legoas a fazer outro, avendo então chegado do mesmo lugar, e fizerão-me tornar logo la os christãos, e como acabei o casamento torney logo ao outro lugar, de maneira que andey aquelle dia seis legoas por amor de casamentos. [187 t.) // Mandando-me o Pe. Anrrique Anrriquez huma vez aos baixos de Seilão, donde matarão o Pe. Antonio Criminal, fomos desembarcar em hum lugar de gentios, o qual estava de guerra com os portugueses, mas porque ay estavão alguns 54
  • christaos separados dos gentios, detriminei de sair em terra; desembarcando veirão logo os christãos a praia a me ver, dizendo que não ouvesse medo donde elles estavão; fui então a suas casas e baptizey os mininos; deseiava eu muito de ver hum grande alcorão de mouros que pareçia tres ou quatro legoas do mar. Perguntei antão aos christãos que maneira teria pera ver o alcorão; forão então falar com o senhor da terra, e man- dou-me chamar por homens de espingardas e frechas para yrem em minha companhia, e chegando eu donde elle estava, em lugar de me prender, me fez muita honrra; elle estava assentado debaixo duma mui fermosa arvore, mas não daa fruito, tinha muitas pedras ricas em anéis e hum colar rico ao pescoço e vestido hum pano ao derador de sy, que pode- ria valer seis ou sete vinteis; pedi-lhe licença para yr ver o alcorão, que estaria do mar huma legoa e meia. Chegando ao alcorão, com muito trabalho, por ser ya despovoado, folguei muito de ver tão grande edifiçio daquella maneira; a mesquita estava tão nova e fermosa que parecia que avia alguns dez anos que era feita, não avia nella telha de ninhuma maneira, senão tudo de abobada, muito forte, e pedras mármores muito grandes; o alcorão estava separado da misquita a huma ilharga; he em grande maneira alto e estava ya muy desnificado, por não ser mais que atee o meio de pedra, e dahy pera riba tijollo; querendo yr arriba não quiserão os christãos por averem medo dalgum lião ou tygre, de que muitos achamos rasto, e assy de mui- tas cobras; o circuito deste alcorão sera tamanho como hum grande castelo, e todo era cercado de mui forte muro de pedra e cal; avera nelle mais de quinze ou vinte possos, e os mais delles tinhão escrito os nomes de quem os mandara fazer, e a era e mes em que se fizerão; este alcorão não he de gentios, senão de mouros, mas agora não usão delle. 55
  • Depois de embarcado fui ter aos baixos aos lugares dos christãos, aonde esta o maior e mais fermoso pagode que ay por toda esta terra, o qual he de gentios; fui a ver este pagode, posto que ya outra vez avia ido la, mas não que [188] fosse a ver o pagode; quando // cheguey ao pagode, fiquey muito confuso com ver tão grande cousa, porque vos serti- fico, charissimos irmãos, que acerca do que he, não vos escrevo nada. O circuito delle sera tamanho como hum lugar de tre- zentos vizinhos; tem tres maneiras de muros, e entre muro e muro todo a roda tem capellas de outros pagodes mais pequenas; he desta maneira: (2) os riscos são os muros e os oos são as capellas, as quais por todas são oitenta ou çento, não me lembra bem se são çento; as portas principais por donde entrão são em grande maneira altas; as lumieiras de pedras inteiras muito altas, cousa que eu fiquei espantado de ver, como homens as puderão alevantar; todas estas capellas e o pagode principal são de abobada, ninhuma telha ay em todo este edifício; polas paredes da banda de fora tem muitas figuras de pagodes pintados, e em cima das portas o mesmo; iunto do pagode principal esta hum grande tanque de agoa, em que se lavão primeiro que entrem dentro, e também pera gasto da cozinha que esta iunto do tanque; fora estes edifícios estão outros pagodes muito grandes, e grandes casas para pousarem os que vem em romaria. Deste pagode a ponta dos baixos são tres legoas, e não vem ninhuns jogues que são como romeiros a este pagode que de fina força não vaa aos baixos a se lavar, porque dizem que he agoa benta e que lavados com ella são limpos de todos seus peccados, e ficão sanctos; cha- mam-lhe elles tirtani, que quer dizer agoa benta; as vezes (2) O desenho referido consta de três quadriláteros postos uns dentro doutros, em dimensões diferentes. 56
  • vão elles ao longo do mar, a ponta dos baixos, mil e dous mil e quinhentos, e menos e mais; he grande romaria a deste pagode, daa de comer a mais de mil pessoas obriga- tórias. Quando dão de comer ao pagode, he desta maneira: taniem hum búzio, então se aiuntão todas as balhadeiras, que serão algumas cento e os taniedores, e levão de comer em grandes baçias muito limpas, e vão taniendo e as balha- deiras balhando com o comer, e chegando ao pagode prin- cipal fazem a zumbaia, e lhe poem o comer diante atee que deixa de deitar fumo, porque entretanto o fumo saie do comer esta diante e como cesa dizem que ya esta farto, que no fumo se mantém, e o comer comem-no os bramenes e as balhadeiras que são suas amigas. Muitas moças, filhas de homens honrrados e reis prome- tem sua // virgindade ao pagode, e la tem huma certa cousa [>88 em que diante do pagode perdem a virgindade (3). Defronte da porta do pagode principal esta huma casa muito grande em a qual esta dentro hum grande boy que toma toda a casa; este boy esta pintado de muitas cam- painhas e cadeas da mesma pedra; ao collo tem huma grande cadea de campainhas; alli vão todos os jogues, que são os rumeiros, adora-lo, e tocar suas contas nelle, como em grande relíquia, mas primeiro que adorem o boy ão-de yr ao principal pagode, que he o que esta diante do boy. Estes jogues andão muito rotos e remendados; são homens de grande austinencia; muitos delles andão nus e mais ves- tidos em couros de animais, todos andão untados de cinza, a gente do povo lhes tem grande acatamento; de maravilha pedem a porta donde pouco ou muito não lhes dem esmola; (3) As referências às bailadeiras foram cortadas posteriormente. Não se esqueça que estas cópias se destinavam a leitura pública no refeitório, passando a seguir de mão em mão. 57
  • muitos delles usão de feiticeiros, nas cousas que não lhe dão muito credito, ay muitos que vivem em despovoado assy como yrmitais, e la tem sua irmida a honrra de qualquer pagode que elle quer; as figuras dos pagodes, são estas: alifantes, cavalos, bois, cais, bugios, cobras de sete cabeças, e outras muitas figuras que se não podem nomear; nos mais onrrados e principais pagodes folgão muito de trazerem pavois e outras aves. Estes jogues não tem lugares certos pera viverem, mas andão de pagode em pagode, visitando assy como homens que andão ganhar indulgências de igreija em igreija, e muitos ay que trazem outros jogues consigo e são seus dis- cípulos e os ensinão, de maneira que ão-de servir os pagodes e como an-de conhecer os bons e maos dias; destes jogues principais ay homens muy entendidos e não adorão pagodes e não se untão com sinsa nem menos crem aver mao dia nem roins horas, mas destes ay muito poucos. Quando vem a ona dos pagodes, que he duas vezes no ano, ona he a sua festa, tomão então o pagode principal e o poem em sima de hum carro triumphante, o qual certo he muito pera folgar de ver como he fermoso, e com muitos castellos; em sima deste carro vay hum grande lugar donde vay o pagode e tres ou quatro bramenes em sima com elle, avanando com ricos avanos; a gente do povo leva o carro per as ruas assy como procição; então vão com todo prazer [i89] e alegria com o pagode correndo o lugar; // depois que acaba a festa, tirão o pagode do carro e o poem em sima de hum cavalo de pao, e vão a caça com elle: levão ao campo huma lebre viva e soltão-na e então a tomão e se vem com ella, dizendo que ya o pagode caçou e o tornão a trazer pera casa. Deixo de falar nisto, porque me temo serya o que esta escrito emfadamento. O charissimos irmãos, rogo-vos que me encomendeis a Deus que me faça tal qual se requere 55
  • pera esta sancta Companhia e me de sempre fazer sua sanctissima vontade. Nosso Senhor Jesu Christo de fazermos sua sanctissima vontade e esta perfeitamente comprir, amen. Deste collegio de Santa Fee de Goa, ano de 1551. 59
  • 9 DOMINICANOS EM CHAUL Chaul, 7 de Dezembro de 1551 Documento original existente no ANTT: — CC, I, 87-33. Mede 210 x 228 mm. Duas folhas em bom estado. Senhor, Neste ano de cimquoenta e hum entrey nesta fortaleza de Chaul a oyto de Novembro de que Vosa Alteza me fez merce, por vimte e Rum ano de serviço, e achei de pose os frades de São Domimgos duma hermida da comfraria de Nosa Senhora de Goadelupe per huma carta de Vosa Alteza, e os padres desta cidade são muito velhos, e alem de ser- virem muito bem a igreja e a terem muito por hordem, são velhos no serviço das armadas de Vosa Alteza, e a ermida lhe remdia dozemtos cruzados, e elles tem muito pouquos beneses na igreja matris, e parece que, por serviço de Deus, os deve Sua Alteza de satisfazer, que eu creo que fara e eu, pella obrigação de capitão, e pello que eu tenho visto na tera, ho allembro a Vosa Alteza, e pello vigairo sei muito bom religiozo que la vai a requerer esta satesfação, a mim me fara merce alembrar-se delle, e porque symto que a necesydade que elles qua pasão. Noso Senhor a vida e estado de Vosa Alteza acrecente. Beijo as reais mãos de Vosa Alteza. Deste Chaul, aos 7 de Dezembro de 1551. Jam de Mendoça. 6 o
  • 10 CARTA DO PADRE MESTRE BELCHIOR NUNES BARRETO Goa, 9 de Dezembro de 1551 Documento existente na BAL, 49-IV-49- Fls. 125 v.-126 v. (1) Jhs. Pax Christi. Padres meos em Christo Nosso Senhor amantíssimos. Chegamos a esta cidade de Goa no principio de Setem- bro, todas seis naos juntas, louvado seja Aquelle de quem vem todo o bem. As merces que Nosso Senhor nos fez nesta viagem são muy grandes, livrando-nos muytas vezes de se dar em ceco, avendo disso muy evidentes perigos, outras vezes, indo para dar humas naos em outras, e dando a tudo remedio a bondade divina; outras vezes, passando tais tempestades que a nao passava risco. Deus erat adiutor in opportunitatibus (2). Parece-me que quererão saber mais em especial (3) algumas cousas e tocar-lhas-hey, deyxando cartas mais largas aos outros padres que darão mais compridamente de tudo conta. Partimo-nos de Lisboa (4) com ventos prósperos; pelas Endoenças nos achamos em humas ilhas que estavão no caminho do Brasil e hiamos a ellas direytos, se as não acha- tamos; nellas nos fez Nosso Senhor muytas merces asi por- (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 162-166; BACIL: Cartas do Japão, I, fl. 148 v. (2) Ps., 9, 10. (3) Por cima da palavra especial escreveu-se o sinónimo particular. (4) O P.e Nunes Barreto vinha na nau capitânia.
  • que, fazendo-nos muy longe delias o nosso piloto e não se vigiando se de noite passaramos por antre ellas, não pode- remos deixar de nos perder porque não avera, segundo cuydo, huma legoa de mar entre huma e outra e as agoas dambas as partes corrião pera a terra. Iazem inter Syllam et Charybdim; navigabamus quodam modo, que as viamos de dia. Dizião os que sabião de mar que se Nosso Senhor nos não dera vento a popa e andaramos em calmarias, [n6 r.] as // quais sempre quasi ha entre ilhas, que nos podera- mos perder. Outra vez, tomando em huma grande tempes- tade a nao por davante pendeo de tal maneira que meteo < a verga, onde vai a vela, por debayxo do mar e tornou a se endereytar, por merce do Senhor Deus. E nesta e noutras tempestades em que nos viamos, nos dava Nosso Senhor com nos a Elie encomendar-nos tal animo 1 que especial ale- gria então mostrávamos o que a muytos espantava, os quais, indo buscar dinheyro da honrra (5), se vião defraudados de suas esperanças e entenções. Outra vez, a nossa nao que era a capitayna, dando em seco, indo a vela, se asentou sobre huma lapa. Com ja o capitão e o piloto e todos desespera- rem de se poder salvar a nao nem mercadoria, quis o bom Jesu por sua infinita bondade que comquanto vazava a mare averia huma grande hora que a nao com todo o seu pezo estava assentada sobre a lapa, todavia de súbito se sayo sem nenhum perjuizo lhe fazer e sem tomar mais agoa do que soya de Moçambique onde isto aconteceo ate a índia. Em todas estas tribulações muyta esperança e alegria nos causavão duas cousas; a huma era a lembrança vosa, Irmãos meus charissimos, cujas orações e sacrifícios sabía- mos ser tarn aceytos a Nosso Senhor que por elles esperá- vamos que nos livraria se fosse para mayor gloria sua. (5) BIMINEL: ou. i — ais. 6 2
  • A outra era que viamos o poder e magestade de Deus, Nosso Senhor, qui emittit ventos de thesauris suis (6), e nesta tam clara amostra de seu poder avia muyto arrepen- dimento e confusão de pecados nos homens, e muyta occa- sião de lhes alembrar as cousas de sua salvação. Benedictus Deus qui dedit timentibus se significationem ut fugiant a jacie arcus (7). Ate Moçambique, trouxemos tam suave navegação com todos estes trabalhos que as vezes dizia eu que a não sentira mais que a vinda de Santarém pera Lisboa. Em Moçambi- que, começarão a recrecer os doentes não tam somente da nossa nao, senão também de todas as outras e, como todo o carrego delias vinha sobre nos, quis-nos Nosso Senhor ay mais começar a por a cruz e, não tanto pelo trabalho nosso, como pela pouca abastança de cousas necessárias que pera os doentes achavamos, e dahy pera Goa tevemos mayor cruz, porque com lhes dizerem que hião bem curados os doentes da nossa nao, quiserão ay metersse os mais que poderão, e com quanto metemos pouco na nao, louvado seja Nosso Senhor, não lhes faltou nada; com os irmãos tive também algum trabalho, porque adoecerão todos, ou quasi todos, de Moçambique pera Goa, e porem nas doenças e na saúde em tudo Nosso Senhor nos dava tanta consolação que eu me espantava de mi mesmo donde me vinha tanta ale- gria e fortaleza de animo tendo tam pouca; outras vezes, em cousas muy piquenas como sabeis. Mas emfim Nosso Senhor nos trabalhos comunica suas consolações, na cruz a sua graça, na morte a sua vivificação e sepultura sua ressurreição, e o meo para resurgir com Christo he primeiro padecer com Christo, e na verdade, se bem considerássemos quão altos são todos os trabalhos pade- (6) Cf. Ps„ 134, 7. (7) Cf. Ps., 59, 6. 63
  • eidos por Jesu Christo, despois que Elie por nos os padeceo, não com menos fervor os receberíamos, e com menos (r/V) reverencia os acataríamos que a cruz propria do Filho2 de Deus, pois na cruz esteve tres horas, e nos trabalhos pela justiça trinta e tres annos. O quam doce he a experiência dos gostos de Deus que comunica na cruz! Quão claros socorros daa aos seus nas tribulações, quam manifestas intelligencias daa de cousas que, antes que se experimentem, são muy escuras de entender, por muyto que homem estude; nunca também entendi que quer dizer, qui non odit animam suam perdet earn et abneget semetipsum (8) e outros ditos de Christo Nosso Redemtor, como despois que me vi em perigos da morte e de nos perdermos donde o caminho pera ganhar a vida era folgar de por amor de Deus a perder. Alembra-me que, quando a nao em que vínhamos deu em seco, depois de todos ja desesperarem de se salvar a nao, »•] e o piloto começar ja delirar e outros a depenarem as // bar- bas de payxão, que recolhendo-nos a encomendar a Deus este negocio, muy claramente me deu Nosso Senhor a enten- der quam fácil seja a quem tiver fee mudar os montes de huma parte a outra, se com extrema necessidade ao qual os meyos humanos não podem abastar se (9) mesturar fee e amor e compayxão dos proximos ou por zelo de honrra de Deus. Da saúde corporal viemos, louvado Nosso Senhor, todos bem senão que aos outros companheyros algumas vezes Nosso Senhor visitou; a mim, como a mais fraco, quis sem- pre ou quasi sempre dar saúde pera mais me obrigar a o servir; soomente huma cousa nos temperou muyto a ale- gria, que da prosperidade da viagem trazíamos, que foy falecer-nos, obra de cem legoas, antes de chegar a Goa, (8) Cf. Mal., 16, 24. (9) BACIL: sem. 2 — f.' 6q
  • o Irmão Jorge Nunez que era hum dos devotos que de Lisboa trouxemos, o qual tinha dada tanta edificação de si na nao, e hera tão verdadeiro servo de Deus Nosso Senhor, que mereceo alcançar hum fim bemavimturado; estando espirando, e sempre com coloquios dulcíssimos ao seu dilecto Jesu, dando grandes sinaes de graça do Spiritu Santo, que en seu peito (segundo eu creo) morava. Tive-lhe emveja, sabendo muy particularmente a pureza de sua vida, e quão bêbado (10) andava do amor de Jesu Christo e de hum santo desejo de morrer por Elie. V ere mártir in ajfectu (ut puto) pois nenhuma cousa o moveo a vir a índia, senão querer seguir a Christo até a cruz, e morrer por quem por elle morreo; dava-me elle a mim tão bom exemplo que muyta falta nos fez sua pura conversação. Bem sey que vos alembrareys, Irmãos meus, de o encomendar a Nosso Senhor. Este he brevemente o roteyro de nossa viagem. Mas, como saiba que mais gostais das cousas espirituaes que das temporaes, e mais quereys saber a maneira que tínhamos de proceder com a gente da nao para (11) induzir ao caminho da salvação, e como acodiamos as doenças espi- rituaes e tempestades das almas que as cousas que exterior- mente acontecião, também disso vos escreverey. Comecey pelo temporal exterior, asi porque em tudo são imperfeyto, como porque prius quod animale est, deinde quod spiri- tuale (12). A ordem que tínhamos de proceder com os da nao era procurar muyto com os exemplos de vida, e com a todos ajudar com o que podíamos, e a ninguém anojar, ser amados para milhor despois tomarem nossa doutrina. Todos os dias quasi tínhamos ladainhas cantadas, que erão (10) BIM1NEL: a palavra bêbado foi cortada e substituída por infla- mado, escrita à margem. (11) BACIL: a. (12) Cf. I Cor., 15, 46. Doe. Padroado, v-6 65
  • muy aceytas ao capitão e a todos; aos domingos e dias santos, missas e muitas erão cantadas, e pregações onde, louvores a Nosso Senhor, se fez muyto fruyto, e dezião que não tinhão emveja aos que ficavão em Lisboa, pois que com as palavras e cousas de Deus hião consolados. Nos jura- mentos e blasfemeas se emendarão tanto, que dezião muytos que nunca virão nao nesta carreyra ir tam santa, porque com a diligencia que os orfãos que trazíamos (13) tinhão em reprender os juramentos, e com a vergonha em que os metião com o beyar da terra ficarão tão bem acustumados que huns aos outros amoestavão humilde e charitativamente, e dava-lhes Nosso Senhor tão grande opinião de nos, por se mais aproveytarem, que diante de nos não ousavão dizer cousa nem fazer, que fosse dina de tachar, e isto não tanto com as reprensões (porque esta gente da índia quer-se levada mais por amor que por temor, por ter muyto o ponto posto na honrra), como com nos amarem e terem credito. Muytas picisões fizemos na nao com todas as cousas que podessem mover a gente a devação; em dias solenes fazía- mos também toda a solenidade que no mar se podia fazer, segundo a oportunidade em que tínhamos; quinta e sesta- *0 -feira de Endoenças, ouve ahy armar a tolda, // e cantar- mos as lamentações e os officios que naquelles dias pode- mos fazer. Emfim até ayudar a cantar as vesperas com ser tam bom cantor como são, me despejei, porque na verdade na Companhia tudo he necesario, et illud, factus sum judeus iudeis ut judeos lucrarer, et his qui sub leve erant etc. (14), na Companhia importa muyto. Avia ay doutrina cada dia, e fez-se por esta via tanto fruyto, que se me alembra todos os moços qu vinhão na nao, que erão muytos, a souberão toda, e a dezião tam bem como os meninos. Acabando-a, (13) Corrigiu-se esta expressão para: na não vinhão. (14) Cf. 1 Cor., 9, 20. 66
  • vinhão todos os moços pela nao cantando os mandamentos, que fazião muita devoção, todos postos em ordem de pisição. Quando algumas vezes avia na nao musica de cantigas pro- fanas, hião os meninos, e por si se convidavão a cantar outras mais honestas, e asi com o gosto do canto erão cons- trangidos a deyxar cantigas que perjudicavão a suas almas e ouvir as cousas de Deus embuçadas debayxo daquelle canto, porque na verdade a gente de mar e soldados tem isto, que com tudo se ha-de condescender com elles, com tal que oução e gostem das cousas de Deus, porque ainda que com todos estes escabeches he muy dificultoso aparta-los de cousas, a que gente que anda quasi sempre por mar, sem ouvir missa nem pregações, nem terem a quem se con- fessar, pode estar acustumada. Asi que pera se poder alguma cousa aproveytar, ha mister muita charidade e muyta ayuda de Nosso Senhor. Algumas vezes fazíamos algumas exortações spirituaes, a noite, quando os ventos pera isso davão lugar; e he cousa então muy proveytosa, asi porque estaa (15) tudo então mais lugar, e está a noite mais calada, como também porque he o tempo em que as praticas roins e viciosas comunmente reynão mais, et oportet opponere nos tamquam tnurum for- tissimum pro Deo Israel. Noutra cousa quis Nosso Senhor também muy to obrar; a elle seja dada a gloria que he a fonte donde tudo procede, comvem a saber, em se fazer muy tas pazes; ouve muy tos enjuriados, e todos perdoados, o que he mais nos homens na India, que tudo quanto pode acontecer, por terem humas leys nisto tão fortes e tão contrarias as de Christo, Nosso Senhor, que com muitas dificuldades perdoão qualquer cousa, quanto mais cousas muy graves que acontecerão. (15) Correcção: ha pera. 6?
  • Pcrdoarão-se bofetadas, deixarão-sse propósitos de desafios e outras cousas muitas que Nosso Senhor, por meyo destes seus inutiles instrumentos, quis obrar, de maneira que sobre quasi todos se pelejarem ora huns ora outros, nenhum de que soubesemos presente, que fosse mal com outro, chegou a India com odio, bendito seja Deus. E nisto ayudava muito o capitão-moor Diogo de Sousa, o qual era tão conforme nas cousas de Nosso Senhor, ao que nos nos parecia, que em tudo nos ayudava com zelo e charidade e prudência, como de pesoa tão nobre e virtuosa se esperava. E dava-lhe a elle, e a todos os da nao, Nosso Senhor tal credito para nossa confissão (15) e mayor proveyto seu, pois a sua fee os salvava, que lhes parecia que todas as prosperidades na viagem, o livramento dos perigos e todas mais merces de Nosso Senhor lhes erão concedidas por nossas orações e merecimentos, e não avia remedio para lhes persuadir o con- traryo. Tudo isto são cousas que, a quem bem as considera, mais lhe dão materia de se confundir e humilhar, que de se alterar; louvores a Nosso Senhor, nunca nos faltavão ocupações spirituaes na nao, confissões muytas e praticas necessárias de Nosso Senhor, correyções e exortações, con- solações de enfermos e outras muytas. No camarote tinhamos continua (16) lição de theologia scholastica, onde passay a 3-a parte de Sto. Thomas ao padre meu companheyro, nas horas em que de outras ocupações nos vacava. Também tivemos lição continua da Sagrada Scritura, onde vimos os Actos dos Apostolos e todo Job e parte de Sam Paulo. E o que muito pera isto nos ayudava era estar a nossa porta a candea do cabrestante, que toda a noite nos dava asaz de claridade. Continuamos também muito contar historias da Biblia e figuras, e aplica-las des- (15) BIMINEL: confusão. (16) Correcção: quotidiana. 68
  • pois ao proveyto de cada hum pêra tirar historias maas e sujas, que entre homens de mar muitas vezes se contão. Entre nos havia outros exercícios também spirituaes que aqui não são necessairos, soomente sabermos todos quão neces- sairo he entre tantos tumultos de huma nao e tantos perigos aver muita oração, e pedir ayuda a bondade divina que nas mayores tribulações socorre. Desta maneira // procedendo, [«7 e com cada dia recebermos mil merces de Nosso Senhor, chegamos a Moçambique, a 8 dias do mes de Julho, e forte cousa he esta terra, que as costas trazemos, que todavia não leixamos de nos alegrar de a ver; tão natural he a terra desejar terra. Provesse a Nosso Senhor que asi estivessem as almas vivas pera sintirem os seus desejos naturaes e a terra dos vivos, como he esta terra folgar com terra, mas emfim terra somos, enquanto na terra andamos. Deus nos faça coelos qui enarrant gloriam Dei (17). Ali publicamos o jubileu que trazíamos concedido pelo Santo Padre pera estas partes da India e outras de infiéis, onde os nossos andassem convertendo; por rezão delle se confessou quasi toda a gente da terra e das naos, porque nos éramos tres, scilicet o Pe. Heredia (18) e o Pe. Gonçalo Roiz, e eu, e tres Pes. de Sam Domingos que nos ayudaram muy bem nestas confissões, louvado seja Deus, se fez muito fruyto, muytas restituições e outras cousas que não são pera aqui. Despois que chegamos a Moçambique que vinhão na nao Santa Cruz, saymo-los a receber com toda a solenidade, levando os meninos a cruz e indo cantando Aqui, aqui com grande fee, e outras prosas de fervor e devação, e foy edifi- cação grande pera a gente, e pera nos muita alegria e con- solação. Sempre tivemos huns com os outros muyta chari- (17) a. Ps., 18, 2. (18) Correcção: Antonio. BIMINEL: Antonio. 69
  • dade e asi a temos quaa em Goa com todos os religiosos e asi os conversamos como nossos proprios Irmãos, porque o contrario desedifica muito. O mesmo recebimento fizemos ao Pe. Gonçalo Roiz, com os mais que na sua nao vinhamos recebendo-sse huns meninos a outros, também com cantiguas devotas; os nossos da praya e os seus do batel, em que vinhão pera terra, ayuntandosse muyta gente, e causando a gente muyta devação ver o amor com que nos recebíamos todos, e abraçavamos huns aos outros na praya, indo todos juntos logo dali com a mais gente da nao e da terra em procisão a Nossa Senhora do Baluarte, a dar-lhe graças da chegada, alegrando-sse todos com hymnos e cantos de louvor divino. Muyto desejávamos ahi in Domino a che- gada do Padre Morais, mas não quis Nosso Senhor, porque veo por fora, hum mes despois de nossa chegada, ter a Cochim com todos os companheyros que agora jaa aqui estão. Nos chegamos a Goa aos cinco de Setembro, onde fomos recebidos com amor e desejos grandes dos Irmãos. Achamos a casa posta em muyto spirito, louvado Nosso Senhor, onde aprouve a divina bondade aleviar-me da carga que as costas trazia, graças sejão dadas Aquelle que asi como reparte seus doens, asi daa a cada hum as ocupações, conforme ao spiritu e talento de cada hum. O Pe. Antonio Gomez (19), que estava de caminho para Ceilão, renunciou totalmente ò car- rego (20) no Pe. Miser Paulo, que he agora aquy pay de todos, e he hum homem muy puro e santo, companheyro do Pe. Mestre Francisco, quando veo de Portugal. Como viemos logo nos espalhamos, o Pe. Heredia (21) foy pera Cochim, o Pe. Gonçalo Roiz para Ormuz, em lugar (19) Correcção: rector. BIMINEL: o P.e Reitor Antonio Gomes. (20) Seguem-se algumas palavras pera nunca mays o poder tomar, que foram riscadas. (21) Correcção: Antonio. BIMINEL: P.e Antonio. 70
  • do Mestre Gaspar, que vay para o Japão; o Pe. Moraes tive- mos agora aqui, e também o Pe. Mestre Gaspar, ao qual Nosso Senhor tem tan especiais doens concedidos, despois que quaa anda na India, que me faz a mi pasmar. Tem hum continuo fervor de charidade; tras todo o povo apos si, he incansável nos trabalhos de dia e de noite, emfim he hum homem, por quem Nosso Senhor se quer glorificar. Pregua aqui em casa, e muito bem, com muyta eloquência e devação. O Pe. Morais ha sete ou oito dias que veo de Cochim. Pregou ontem, dia de Nossa Senhora da Conceição; pare- ce-me que ha-de ser muito aceito ao povo. As sestas-feiras, temos procição que ordenou o Pe. Mestre Gaspar, e despois pregação que se acaba ja a noite, e, acabando-sse, começa a disciplina com os meninos cantarem hum Miserere mei Deus, pelo modo de Lisboa. He acto de muyta devação, em que tem grandes prantos a gente; aqui não nos faltão ocupações spirituaes. As minhas por agora são pregar aos Domingos e dias santos, ora na see, ora em outras freguesias da cidade; ouvir confissões, que sempre ha em abastança; dar exercícios aos Irmãos que entrão, e também a alguns que folgão de toma-los, para sua renovação e spiritu, e ouvir as confissões geraes delles em casa. Cada dia leo huma lição aos Irmãos da Scritura; agora lhes leo os Psalmos de David, e isto por huma hora, e também lhes pratico as meditações, pela ordem das Pandectas, e tenho esta maneira: declaro-lhes a letra do mistério, despois dou-lhes os pontos para meditar e, aca- bando de lhes praticar, que he as oyto da noite, himos nos todos por em oração no choro, juntos, ate as noves, e tem outra ora também juntos dante menhã. Vão muyto avante nas virtudes e nos desejos de padescer por Christo e tal pode vir o recado do Pe. Mestre Francisco, agora em Janeiro, de Japão, que partamos pera laa alguns com Mestre Gaspar para Abril com sua obediência. Nosso Senhor dee em tudo acertar naquilo que mayor sua gloria for. 7 1
  • Esta vay ja comprida, mas mais comprido he o desejo que eu tenho, Irmãos meus amados em Jesu Christo, para, jaa que nesta vida não espero ver-vos (senão aaquelles a quem Nosso Senhor fizer merce de os mandar a estas par- tes onde tanta necessidade ha de vos) ao menos por escrito estar comvosco, consolando-me e recreando-me na memoria de vossas virtudes, e para este effeito, ouvera-vos de escrever particularmente a cada hum, senão fora fazer agravo aquelles quorum est cor unum, et anima una (22), apartar na epistola nem a nenhum specialmente nomear, onde he o amor entre todos, e para com todos he tão geral, fundado em Aquelle, que he hum soo Jesu Christo; elle a todos nos dee sua santa vontade cumprir. De Goa, oje a 9 de Dezembro, de 1551 annos. Capitulo de huma que escreve o Irmão Balthesar Gago (23). Agora se fez christão el-rey das Ilhas da Mal- diba que estão trezentas legoas desta cidade de Cochim. He senhor de onze mil ilhas pequenas; são muyto riquas; a gente delias erão gentios, e avera 30 annos que se torna- rão mouros. Esperamos em Nosso Senhor que se fara fruyto nestas ilhas. Voso Irmão e conservo Melchior. 7 2 (22) Cf. Act., 4, 32. (23) Este período falta na cópia da BIMINEL.
  • 11 CARTA DO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO Goa, 20 de Dezembro de 1551 Documento existente na DAL, 49-1V-49- Fls. 145 v. -146 v. (1) Não sera bem alargar-me mais nas cousas que o Senhor [mJ ».] obrou pela Companhia em Ormuz, pois, pela carta do Pe. Ignacio, podeis entender tudo largamente, a qual vay aberta, scilicet, huma em latim, por me parecer que laa não entenderão português. Soomente em breve tratarey as cousas que obrou o Senhor. Em a vinda de Ormuz, o Pe. Mestre Francisco me man- dou chamar, como vereis por huma obediência minha, pera o Japão com outros dous padres e dous irmãos que somos cinco; parece-me que sera pera atravessar a China, segundo a desposição que escreve que ha hi, pera nella se fazer fruito. O fratres charissimi, ayuday-me a louvar ao Senhor qui fecit misericordiam cum servo suo, et adimplevit deside- rium meum (2); de muyto tempo me guiou o Spiritu pera la. Estando pera me partir de Ormuz, andarão buscando meyos pera me prender e empedir o caminho, sed Dominus liberavit me a laqueis venantium (3), e embarquei-me no galeão onde hião cerca de seis centas almas, afora outras muytas naos e navios, que hião todos com nos outros de armada, e vinhão de tomar huma fortaleza aos Rumes, donde o Senhor obrou tanto quanto eu nunca hey visto em armada: continuas confissões, desistirão de juramentos (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 196v.-197v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 183 V.-184 r. (2) Cf. o canto Magnificat e Ps., 126, 5. (3) Cf. Ps., 90, 3. 73
  • «■•] e jogos e maos custumes // os quais soldados sempre tem. Estivemos perdidos, no qual perigo levey grande consolação, por ver a causa por que Deus o fazia, e a viagem que se faz em quinze dias fizemos nos outros em dous meses. Chegando a Mascate, armarão hum púlpito no campo, onde preguey duas vezes e no deradeyro dia, ultra de muytos amancebados casarem suas mancebas pera se tirarem do peccado, juntey todos os que andavão em odios e desafios e os fiz amigos, soltando todos os presos, entre os quais dous cavaleyros, estando muy enemigos, pera aver entre elles e os seus grandes mortes e males, os fiz amigos, jurando em hum missal publicamente, diante de todos, de nunca mais tornarem a ser enemigos. E dali, levando a vella, fomos a esperar os Rumes em o Cabo, os quaes nos dezião que vinhão com muytas galees, e preguey outra vez em huma casa grande de mouros aos soldados e capitães. Todos os domingos e santos pregava a todos; ajuntavãosse dos navios em o galeão para ouvir a pregação, e para isto se tocavão as trombetas e, despois de comer, doutrina; as noites, ladainhas e aos sabados a Salva, huma prosa ao bom Jesus. Chegamos a Diu, onde preguey duas vezes, fazendo muytas amizades, impidindo-sse muytos males, onde muytos portugueses fogem para os mouros. ^ E correndo a costa, chegamos a Baçaim, onde preguey duas vezes, onde achey os padres dominicos, onde também achey hum collegio nosso com o Pe. Belchior Gonçalvez, o qual fica a morte, como verão por esta carta que mando, que me escreveo a Goa. Alguns dizem que he peçonha; orate pro eo. Muyta minguoa nos fara, por ser bom obreyro in vinea Domini. Dali me parti com o Pe. Frei Antonio (4), que he da terceyra ordem de Sam Francisco, para vermos seus christãos, (4) Frei António do Porto. 74
  • que se converterão por seu meyo, e asy huma igreja que fez em hum pagode que esta cortada em hum penedo, e he muy devota, onde disse missa, onde nos vierão os christãos receber em procissão com trombetas e festas; louvado seja o Senhor, muito tem obrado em a vinha do Senhor; or ate pro eo; grande amigo he da Companhia. Dali nos partimos a ver hum pagode que se chama de Canarim, cousa muy monstruosa de ver. Finalmente he huma cidade cortada em hum penedo, com muitas ruas e becos e mais de cem cysternas. Dali nos partios para Tana, onde o Pe. Belchior Gon- çalvez fez ygreja muy grande, e tem seus christãos, os quais nos receberão também com procissão onde, ajuntada a chris- tandade, preguey e ali embarquey em huma fusta, que me esperava, para Chaul. Detive-me em o caminho a ver hum outro pagode cortado // em outro penedo, mayor que a [x5 igreja mayor de Lisboa, com grandes figuras, entre as quaes avia humas mayores que dous gigantes, que tinhão tres cabe- ças, tres pernas, e tres mãos, e hum corpo o qual se chama o pagode de alifante. E, desembarcando-me em Chaul, passey com os Pes. dominicos, o que escrevi largo em a carta do Pe. Mestre Ignacio, e dali me parti e vim a este collegio de Sam Paulo de Goa, onde estou ate agora, por não me darem lugar para me ir aparelhar a Cochim. Pedi ao Pe. Mestre Belchior que começasse a pregar; toda a casa se acendeo de maneira (louvores a Christo) que arde. Ordenamos de cantarem as missas os orfãos, aos quais eu ensino, quando me fica tempo para o fazer. Eu canto a missa e, assi revestido em a alva, vou ao púlpito. Começou tanta gente a concorrer as pregações, que não cabem em a igreja; sera necessário daqui a diante pregar fora da igreja (5). (5) BIMINEL: sera necessário daqui adiante pregar fora da igreja. 75
  • Ordenou-sse que não pregasse fora em a see, onde soya pregar, por ser igreja moor, nem em Sam Francisco, como antes, por mo rogarem assi os Padres (6). Ordenou-sse tam- bém que o Pe. Mestre Belchior soprisse por mim em a igreja moor, porque diz que muita gente o anima mais. Não pode- mos acudir a tantas partes a quantas nos pedem pregação. Ordenamos as quartas feiras a noite pregação da penitencia, e em o fim disciplina; he tanta a gente, que não cabe em a igreja; grandíssimo he o choro que fazem em a pregação. Prego também todos os domingos pella menhã, e os dias de festa, e assi as tardes; ando agora declarando o jubileu, o qual começa dia do nacimento de 1552; confessamos sem- pre ate o meo dia, que são muitas as confissões; as tardes, nos ocupamos em fazer amizades, visitar enfermos e os hospitaes, asi curáveis como incuráveis. Também prego as quartas feiras, despois de comer, aos presos, consolando-os asi com o temporal como com o spiritual. O Pe. Mestre Bel- chior faz praticas spirituales e da exercícios, ensina também ao Pe. Moraes e ao Pe. Antonio alguma cousa de theologia moral da Secunda Secundae de S. Thomas. Eu tenho a cargo o povo, de maneira que tudo vay em grande augmento, Dominus confirmei quod operatur in nobis (7). Trouxe comigo dous Irmãos, que os outros me morrerão em Ormuz. A cada hum peso huma missa pera ajuda deste caminho. A 20 de Janero (8) de 1551. M. Gaspar. (6) Este período falta na cópia da BIMINEL. (7) Reminiscência de conhecido versículo litúrgico. (8) BIMINEL: a palavra Janeiro foi riscada e substituída por Dezembro.
  • FREI DIOGO BERMUDES, O. P. A D. BERNARDO, BISPO DE S. TOME Goa, 31 de Dezembro de 1551 Original existente no ANTT: — CC, I, 87-45. Mede 304 x 215 mm. Duas folhas em bom estado. // Muy Reverendo Senor, La gracia y consolacion dei Santo Sprito este siempre con Vuestra Senoria, amen. Aunque Vuestra Senoria tenga muchas ocupaciones no devia de faltar un poco de tiempo para consolar a un religioso atribulado y desconsolado lleno de mill trabajos. Tres anos ha que estoi en esta tierra y en todos três tengo escritas tres cartas, sin aver recebido de ninguna delias respuesta; con esta acabare y entendere la volumtad de Vues- tra Senoria; ja que Vuestra Senoria me trajo de Portugal, no devia escecerse de mi en este destierro. Pues Vuestra Senoria es el principal esteo de la Ordem de Sam Domingos en estas partes de Portugal, parecio me que era razon dalle cuenta de los negocios delias en estas partes. Sepa Vuestra Senoria que esperamdo con la venida dei viso rey ser todos consolados y las cosas dela orden mas faborecidas, no fue assi, antes en su tiempo emos sido mas desconsolados y atribulados que nunca fuimos antes, sea Nuestro Senor loado por tudo; El nos de paciência, por- que los que aca predicam las verdades y son predicantes evangélicos tienen aca mas necesidad delia que los apostolos estam... en tierra donde la verdad principalmente de los que mandam es muy aborrida // y los predicantes lisongeros 77
  • son los que medran, que aca no faltan. Y plaziere ha Dios que esto caiese sobre nosotros solamente, pero cae sobre muchos, porque sepa Vuestra Senoria que nunca vi la gente desta tierra mas aborrida y descontente de su governador, y con esto suceden todas las cosas mal, porque gente mal- quista y descontente de su capitan, y mal paga, mal puede pellexar. Temo mucho a esta tierra, y assi crea Vuestra Senoria que si Dios no olla per nos, las cosas van de caida; perdone Dios a quien tan mal aconseja ha el rey que de alia nos viene toda la perdicion; envia a governar esta tierra un hombre que nunca la vio ni conocio, la qual no se puede bien governar sino de hombre que tenga delia mucho conoci- miento, porque las coas de alia y de aca son tan diferentes que todos los de alia se allaran aca muy novicios y ygnoran- tes. Para remedear esto manda con el viso rey un secretario que le ensine que fue de aca preso, por culpas que al pre- sente no le faltan, y da la governancion en pago de servicios a un hombre que trae consigo quinientos criados y parientes, con quien reparte las cosas de la índia, moriendo de fome los que aca han sudado y trabajado toda su vida, y esta es una cosa que pone lastima y no se puede sufrir. Digo esto a Vuestra Senoria, pues tiene cargo de la conciencia de el rey que olle por esta tierra y mande a ella personas que esten ya pagos, o las page por otra via, porque aviendo de ser pagos con este cargo no tienen cuenta mas de con esto de pagar se en tres anos dei arrendamiento por no perder. Mas digo a Vuestra Senoria que devia de decir al rey el qual vive muy enganado acerca de las cosas desta tierra, porque se aconseja con personas que delia pretenden interes o para si, o fillos, o parientes; que mande aca dos personas religiosas y otras dos seculares personas de toda confianza, las quales tomen informacion de todas las cosas desta tierra, y de los capitanes delia y de otras cosas que son 78
  • necesarias assi de lo pasado, presente, y para lo que esta por venir, y lleben esta informacion secreta a Portugal o rey, y vera Su Alteza quantas mentiras le escreven y dicen desta tierra, y quan enganado vive, y cierto que me parece que se isto se hiciese se remediansen las cosas desta tierra, y no le paresca a Vuestra Senoria que en esto hace pequeno servicio a Dios y a el rey, que de las cosas de mas servicio seria una esta, a lo que entiendo // assi acerca de la chris- [j r.] tiandad de aca enganan a Su Alteza, y con esta ocasion quieren medrar con Su Alteza, tomando por medio lo que avia de ser fin. Bien se lembra Vuestra Senoria de lo que escrevi dei rey de Tanor, de su christiandad; pesame por aver sido pro- pheta en todo, y por estas verdades, y otras como estas, que yo digo al viso rey y al obispo somos dellos malquistos. Este rey nos tiene echo y aze grandes males, y por su causa, como sabe todo el mundo, no tiene el rey pimienta y gerra en Cochin, donde han matado muchos fidalgos y otra gente, con lo qual parece que castiga Dios tales chris- tiandades. Hicieron christiano al rey de Candia, en Ceilan, que nos mato otros muchos portugeses; vino haora un rey de las illas de Maldibar, moro, al qual lanzaron fuera dei reyno; como se vio desaposado, vino al viso rey aqui a Cochin, que seria christiano, y que le ajudase a restituirse en su reyno. Hicieronle luego christiano, sin mas esperare y dila- cion, el qual, despues que estuviese en su reyno, si le resti- tuiren, ha de ser mas moro que antes, porque no le han de obedecer los otros sino siendo moro, y asi digo que ha de tornar ha ser moro, doi al tiempo por testigo. Y es una tierra, donde no ay sino cocos y palmeras, donde no puede aver portuges, que todos mueren, y no se pueden sacerdotes ni portugeses sustentar con esto. Con esto aran alaracas al rey que se hizo un rey christiano, y todo es viento y es nada; 79
  • dan este contentamiento al rey, y quierenle contentar con estas y otras semejantes cosas; esto digo a Vuestra Senoria, porque es todo grand verdad, y no se pretende en esta christiandad assi echa sino interes y gracia no de Dios sino del rey. Assi mesmo tomaron un menino de Ceilon a quien dicen que pertenece el reyno por derecho, y despues que hicieron mill abominaciones, sacrilégios, escândalos en la ilia de Ceilon, toman por remedio hacer christiano un menino de dos anos por fuerza, contra voluntad de su padre y madre, para decir al rey que el heredero dei reyno es christiano, y ni el hereda el reyno, ni se si es christiano, porque todo es vellaqueria y suciedad y cosa con que Dios no se sirve, y perdoneme Vuestra Senoria que no tengo paciência con ver las cosas sprituales y de Dios tomadas por médios y remedios para medrar con hos hombres. Desta suerte son las cosas de aca, las quales se quisiese todas contallas, nunca acabaria y enfadaria a Vuestra Seno- ria; doi esta cuenta a Vuestra Senoria, porque me parece que segun el zelo que Dios le dio dara cuenta desto al rey, para que olle por esta tierra y no sea enganado con cartas, no solo de seculares, pero de sacerdotes y de apostolos y [3 *•] obispo // y lo que me duele el alma y no dexare de decir, porque es verdad y es razon, que se remedie, que no tenemos obispo ni pastor en esta tierra. El obispo es buen fraile y buen hombre, pero ruin pastor, muy male no hace, mas sea bien echo o mal echo que aquello que quieren los que gover- nan la tierra, hombre que en Ceylon, despues de aber pre- guntado el viso rey a los fetizeros donde estaba el thesoro que iban a robar, diciendo el fetizero que estaba en tres partes, iba el obispo en persona a estar presente al cabar dei oro. Esto pasa assi; no digo otras cosas, que seria nunca acabar. Avia el rey mandar a esta tierra mas pastores que le ajudasen con letras y zelo que ajudasen a remediar tantos 8o
  • males. Vuestra Senoria perdone la prolixidad y si le enfa- dare, mandeme que no escriba, porque gastare el tiempo de escrevir en llorar los males desta tierra, que son muchos, y por la passion de Christo, Vuestra Senoria falle al rey, para que en todo ponga remedio, pues Nuestro Senor puso a Vuestra Senoria en dignidad para poder ajudar a remediar tantos males. Nuestro Senor los remedie y guarde siempre a Vuestra Senoria en sua merce y temor, amem. Oje, dia de Sam Silvestre 1551. Humilius filius de Vuestra Senoria Frai Diego Bermudez. Al muy Reverendo Senor el Senor Don Bernardo, obispo de Sancto Thome, en la corte dei rey nuestro senor. 81 Doe. Padroado, v - 6
  • 13 CARTA DO PADRE BALTASAR GAGO 8 de Janeiro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 159 v. -160 (1) Despois que parti de Ceilão pera a índia, quis Deos fazer-me merce que aportasse com tempo a huma costa, que chamão da Pescaria, que chamão do aljôfar, onde estão padres da nossa Companhia e sayndo em terra me recreey e consoley em o Senhor com elles. Avia nesta costa seis padres e irmãos; ao presente estão quatro, porque matarão aqui ao Padre Antonio Criminal, hum genero de gente que se chama Badegas, por amor dos christãos. Outro padre veo pera a índia por enfermo; ficão dous padres e dous irmãos, os quaes fazem grande serviço a Nosso Senhor e, entre elles, principalmente o Padre Fran- cisco Anrriquez he grande obreyro em esta christandade. A este padre em grande maneira amão estes christãos; sabe a lingoa, e todos a sabem, nem tem necessidade de inter- pretes; o que lhes prega este padre asi o creem, como se lho disesse hum amjo; tem farto trabalho, porque a costa onde estão os christãos bautizados tem cincoenta legoas, são mais de cincoenta mil almas; correm-na toda, repren- dendo-os e pondo paz entre elles, averiguando seus negocios; pregão-lhe em a lingoa; tem corenta povoações e tem feitas trinta igreyas muy grandes, e tem o Padre Anrriquez (2) (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 225 v.-226v. A data apresentada é de 10 de Janeiro de 1552. Apresenta chamadas à margem. BACIL: Car- tas do Japão, I, fls. 208 r.-209 r. (2) BIMINEL: P.e Francisco Anrriquez. 82
  • dado tal ordem que todos os dias em cada huma delias ensina a doutrina aos homens e molheres. Huns vem pella menhãa, outros pella tarde; disto sou eu testemunha de vista; estaa a milhor christandade que ha em a índia, pare- cem-sse estes christãos com os lavradores de laa, que sabem o Pater Noster e Ave Maria, o Credo e Mandamentos e creem em a fee asi como os ensinão seus curas, porque não são capa2es de mais, e estes christãos não tem outros curas senão os nossos padres. Caminhey parte desta costa por terra e, avendo dez dias que passava por onde eu hia, hum irmão visitando estes christãos, achey perto de trinta creaturas pera baptizar; faltão aqui obreyros, porque morrem muytos sem baptismo, por não poderem acudir a tanto, nem da índia podem ser em esta costa tão prestes providos, porque ha muyto em que entender, e tem a Companhia muytas empresas, e não pode comprir com tudo. Também agora, chegando a Cochim, cidade onde se carregão as naos pera o reyno, se fez hum rey christão; sera de idade de vinte annos; he rey de onze mil ilhas (3), as mais delias são pequenas, huma por outra, de meia legoa; ha-de estar entre nos outros, ate que ho instruyamos em a fee e em os sacramentos, etc. Ao que parece, tem sugeito pera se prantar em elle bem a fee; este esta jaa quasi casado com huma filha de huma molher honrrada e virtuosa desta cidade. Suas ilhas estão daqui sessenta legoas; sem esta terra não se pode sostentar a índia // porque delia vem o [l6° cayro que he o esparto e como o linho de Portugal, de que se fazem os calabres para as naos. Esperamos em o Senhor que, pois temos a cabeça, que se farão também christãos os membros. (3) Ilhas Maldivas. «3
  • Esta terra he malsãa em grande maneira. Eu desejo de ir laa, quando for este rey, porque desejo morrer por amor de Jesu. E, pois os mouros trabalhão por nos levar venta- gem pouco fazemos, porque elles, por o odiabo, avera trinta annos que fizerão estas ilhas de gentios de sua secta, tam- bém ao rey. Rogai a Nosso Senhor que abra esta porta, e que não impidão nossas imperfeições o bem de tantas almas. Também temos em casa hum príncipe senhor de 23 legoas de terra; não tem tanta gente como ha em as ilhas. He isto em a ilha de Ceilão; he de idade de oito annos, muy vivo e esperto, que ha-de ser pera muyto; a gente desta terra esperamos que com a ida deste rey se faça toda christãa; a causa como este se fez christão foy humas diferenças que ouve em sua terra entre os regedores, sobre quem teria em seu poder a este menino, senhor da terra e, por ter effecto a vontade de huma destas partes, se ayuntarão trinta ou quarenta homens com o menino, e vierão a Pescaria, onde andão os nossos padres pera que fisessem ao menino senhor da terra e a elles christãos. Deteve-os o padre alguns dias, doutrinando-os e, pella muyta importunação do bautismo, os bautizou; ajuntarão-se então ate mil christãos de guerra, en certos cathures, pera o irem meter de posse e, porque achou revoltas e temer-se de matarem este menino, trouxe- rão-no ao viso-rey e no-lo entregou pera o criarmos; como for mais homem, e o casarem, iraa com seu sogro e molher ser senhor de suas terras, e alguns padres pera edificarem igrejas e os bautizarem, porque he gente fácil e toda a gente e parentes deste senhor temos por certo que se farão logo christãos. Verdadeyramente, se esta terra melhorar hum pouco, como esperamos em o Senhor, não ha obreyros que bastem para tanta messe; ha quaa, huns longes e em toda a parte tanta consolação, que he sensualidade andar quaa; emfim o Senhor põe tudo de sua casa; he tão bom que nos sustenta 84
  • com o espiritual, quando faltão as ayudas corporaes para que não desmayemos. De nosso Padre Cypriano temos boas novas; faz muyto fruyto em as almas, assi dos portugueses, como dos christãos; esta em a terra onde matarão ao Apostolo Santo Thome. Estes dias passados esteve muy ao cabo; jaa esta bom e obra; jaa sabeis como estava com elle o Irmão Gaspar, e veo enfermo ao collegio de Goa, e dia da Ressureyção, de boa manhãa espirou; muy consolados nos deixou tão bom transito. Dos padres e irmãos e do que o Senhor por elles obra seria nunca acabar, por isso cesso. O Padre Mestre Fran- cisco manda dizer que vaa eu a Japão; de laa vos escrivirey o que Nosso Senhor faz. O padre, se faz fruyto laa, não bastara toda a clerezia de Portugual para esta terra. He gente de milhor maneira que eu tenho visto quaa. Balthesar Gago. «5
  • 14 CARTA DO PADRE BALTASAR GAGO Cochim, 20 de Janeiro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 174 v. -177 r. (1) t'7« »•] Ha graça e amor de Jesu faça continua morada em nossas almas, amen. [>75 r0 A 4 de Setembro de 1551 chegarão os nossos padres // e seis naos a Goa, cidade principal desta India, e por aver tres annos que não tínhamos vistos os de la pois (sic) (2) ver quanta aligria e contentamento nossas almas receberão. Não avia quem nos podesse ter as portas do collegio, final- mente saimos fora de nos com prazer, e mais com tays obreiros, como vierão, que estes e outros muytos desta cali- dade fazem muito fruito nesta terra; logrei outo dias sua conversação, porque logo parti pera a ilha de Ceilão, onde foi o viso-rey com armada, por ter recado que avia tesouro nesta terra de hum rey, que matarão, vasalo del-rey de Por- tugal, mas negro; foi este tisouro que nos estrovou outro maior, que he o das almas. Hiamos de casa tres padres com grande alvoroço, porque esperávamos de aqui grande fruito; esta terra he a milhor que ha no mundo, os matos são de canella muita parte, e pelo mato de seu se dão laranjas, sidrões, limões de rios e fontes, muito rica (3) e fértil; con- correm nella dous invernos. A gente, muito fraca; e he mais (1) BIM1NEL: Cartas do Japão, fls. 219 V.-221. Subtítulos à margem BAC1L: Cartas do Japão, I, fls. 202 r.-203 v. (2) BIMINEL: podeis. (3) BIMINEL: fresqua BACIL: muito frescas e riquas, he fértil... 86
  • fácil que a nestas partes pera se converterem (4) e, indo assi, com fundamento de ordenarmos huma casa pera a Companhia, pera instruirmos tão grande christandade, impi- dio o demonio este fruito; a causa foi a fama do thesouro e por este ficamos sem o tisouro das almas, e o que pre- tendião achar, e porque dos annos passados, irmãos meus, me dou por culpado, agora, que tenho tempo, me consolarei com todos; ainda ao presente me socedeo estar mal des- posto, por onde não posso satisfazer com a vontade, con- tento-me porque o amor com poucas palavras se mostra. Assi que este anno passado fui muito consolado, por- que também vi irmãos que sairão dessa massa, e conversação dos devotos da Companhia de Jesu, e assi do charissimo Padre Francisco Vieira, que he huma lima surda, que não fas senão limar de dia e de noute, sem cansar; o Senhor lhe de forças pera que va em augmento, ia que não vem a esta terra e vos, charissimos meus irmãos, que em algum tempo vos vi de vista, agora que não pode ser senão em spiritu, lembre-vos que me sustento muito com ver esse fervor, com que vos aiuntais para estripar os visios e pecados; não somente pera os de dentro de casa, mas ainda para esmoutar os dos proximos, trazendo-os a vossa maneira. Dizia o real profeta David: cum santo sanctus eris et cum perverso perverteris (5); esta bem claro que não temos outra vida senão a que offerecemos a Deos, em conversarmos e vivermos como filhos seus, porque da mesma maneira e calidade que nos avemos com Deos e com os proximos, dessa se a-de aver Deos connosco; quer ser bem tratado e recreado em nossa alma, pera dahi lhe darmos ocasião de nos fazer santos; pede-nos pera que, dando-lhe o que em (4) À margem encontra-se a seguinte anotação: he mor esta ilha que Portugal, esta 200 legoas de Goa. (5) Cf. Ps., 17, 27; Reg., 22, 27. «7
  • nos ha, nos enrriqueça (6) e, não tendo necessidade de nos, nos vem a promessa de sua misericórdia e em fazer-nos a sua imagem de sua bondade, e por isso trabalhamos de por por ['75 *•] obra pera alcansar esta amizade e verdade // do Senhor tam nova que nunca se envelhesse, mas quanto mais a busca- mos mais grandezas e perfeiçõis e consolaçõis achamos, e daqui vemos as cousas de ca serem sobras e cousas imper- feitas e envelhecidas que, por mais que os do mundo as queirão reformar, não deixão de estar com a candea na mão. O! quem deixasse o mundo e parentes por Jesu, o saber e fazenda por Jesu, e pusilanimidade para gostar com Jesu, não se pode achar senão nos aiuntamentos santos, e nos trabalhos, pondo pas entre gentes barbaras e maos christãos; caa e laa ay bem em que merecer, porque ver os males e não os poder remediar, e a dor que nisto ha, he hum con- tinuo martírio, de maneira que nos aiuntamentos santos sere- mos santos, porque se os medicos mandão que pera hum se conservar em saúde viva com hos sãos, gordos, alegres, e que fugão (s/c) daquelles que são fracos da infermidade corporal, amarelos, irados; quanto mais devemos procurar a conversação dos bons, pera que nos fação milhores, com nos apartar da conversasão dos maos por que nos não faça- mos piores, porque muito mais presto se apegão as infermi- dades da alma que do corpo. O! que contentamento andar nessa Companhia santa, comunicar dos sacramentos amiúdo, conversar com os pecadores, traze-los ao seu bom fim, nacer com Jesu, morrer e resuscitar e subir com Jesu, e que perdido (7) o tempo que se não emprega em Jesu! 01 que honrrozo officio o do louvor! (8). Louvemo-lo, pois se ocupa sempre em nos e mover-se foi pera nos, louvemo-lo (6) Correcção de: fica obrigado. (7) Correcção de: baldado. BIMINEL: he perdido o tempo (8) BIMINEL: de louvar a Deus. 88
  • que tem huma providencia tam grande, que tudo delle pro- cede, pois ja não nos chama servos mas filhos e herdeiros da gloria; louvemo-lo et reliquis cogitationis diem salutis agent tibi (9); fes-se servo pera nos fazer senhores e, por isso, nos iguala consigo, porque do amor seu nasce esta igualdade e facilidade comnosco, deixando o senhorio a parte; louvemo-lo, porque não nos chama para trabalhos, senão para descanso, e porque esta maneira de louvores não entende o mundo, nem gosta esta armonia, senão quem gosta do Senhor e a quem Elie, por sua misericórdia, o da a sintir, louvemo-lo pois os açoutes que recebeo, a paixão toda, e cruz, foi a causa o pecado que cometemos e polo contrario dos maos não recebe o Senhor louvor, portanto lhes parecera áspero et cum perverso perverteris; he Deos duro aos maos, e sintem-no por justiçozo, pois tomão por descanso o de ca; deixando a sustancia (10), tomam o acci- dente (11), e o que lhes manda o Senhor que deitem debaixo do pe, põim-no sobre a cabeça, por onde esta claro o castigo aos que querem da noite fazer dia, e do trabalho descanso, pois quem apagar a tocha e o lume da razão ficara muito mais as escuras no caminho, e caira em maiores barrancos; andemos de dia, charissimos, enquanto tivermos claridade nesta vida, acudamos as inspirações do Senhor, alevante- mo-nos das cousas que nos empedem a subida e buscar o Senhor, e assi cometeremos cousas que, ao parecer do mundo, parecem arduas e dificiles e dipois, passado este cálix de trabalho, tristeza, // desgosto, por deixar mundo, l»?6 r-1 nos darão por este quase (sic) (12) de trabalho gozo per- petuo, conforme ao Apostolo São Paulo; por doce tinhão (9) BIMINEL: et reliquae cogitationis diem festum agant Domino. (10) Correcção de: suba (sic); BACIL: substancia. (11) Correcção de: contrapeso. (12) BIMINEL: cálix; BACIL: cálix. s9
  • os do ermo o amargozo desta vida, pera que lhe fose doce a gloria. E certo sinal de estarmos com Jesu, quando o amargo bebermos, e sofrermos como doce; não aya biocos do mundo que estrovem ir adiante, porque na cousa em que damos maior a Jesu he em permanecermos no bem começado, quia spes autem non confundit, e asi somos provados e nos apuramos nesto vida e confundimos os maos, e aviventamos e trazemos muitos ao bem. Creo eu, por sinais do que vi e ouvi, que Francisco de Lemos gosa da gloria, e se lhe acrecenta mais pelos que, por sua conversação, se incitarão a servyr o Senhor, e se põem em ordem de boa vida, pois quem for (13) amigo de onra, gloria e riqueza, que maior que a de Deos que não pode parecer? Trabalhai, irmãos meos, no bem come- çado; olhay como nos levão a ventagem os do mundo, que presteza tem pera executarem seus apititos; não aguardão oras pera offenderem o Senhor, mas logo, no mesmo (14) momento, pois nos quanta mais obrigação temos, e a não sermos remissos no bem começado; trabalhai, charissimos de ir adiante e quem poder milhor segurar a mercadoria seguri-a, porque ai muitos ladrõis no caminho, cortando as ocasiõis, e acolhende-nos ao couto, e os que não poderem fação muro forte pera que não entrem as bestas dentro no jardim, donde o Senhor a-de repousar; tratemo-lo pera que nos trate bem; fazei-vos bons soldados destros; fazei hum grande vinculo de amor de todos, que nem os demonios, nem o mundo, nem a carne vos aparte, vendo como suspende o Senhor seu juizo e castigos por sua misericórdia, esperando nossa emenda. Charissimos irmãos meos, que vos ei-de escrever senão que pois me mandastes os vossos nomes, Jesu Christo, rey (13) Correcção de: foi. (14) Correcção de: naquelle. 9o
  • da gloria, vos nomee no seu reino adjiciat Dominus super vos, super vos et (sic) super filios vestros benedictiones a Domino qui fecit coelutn et terrain, e pidi ao Senhor que augmente, em nos ho começado, e que a vos e a mi nos queira fazer tanta merce que nos de muito trabalhos por seu amor, amen (15). Contar-vos-ey agora o que se fez e nos aconteceo neste caminho, dispois que vierão os nossos padres. Dipois que parti de Ceilão pera a índia, quis Deos fazer-me merce que portasse com tempo a huma costa que chamão da Pescaria do Aliofar, onde estão padres de nossa Companhia e, saindo em terra me recreey e consoley em o Senhor com elles; avia aqui nesta costa 6 padres e irmãos; ao presente estão 4 porque matarão aqui o Padre Antonio huma casta de gente que chamão badagas, por amor dos christãos; outro padre se veo para a índia,- por doente; ficão 2 padres e dous irmãos, os quais fazem grande serviço ao Senhor, antre elles principalmente o Padre Anrrique Anrri- quez; he grande obreiro nesta christandade; a este padre sobre maneira amão estes christãos, sabe a lingoa e todos a sabem, e não tem necessidade de topazos; o que lhe prega este padre assi o crem, como se lho dixesse hum anjo; tem asas de trabalho; a costa e de mais de 50 legoas, onde estão os christãos, baptizando-os, reprehendendo-os; são mais de sessenta mil, 60.000, almas estes christãos, pondo paz entre elles, abrigando seus negocios, pondo paz, pregando-lhes na lingoa; tem 40 povoaçõis, e terão feitas trinta, 30, igreias muito grandes, // onde cada dia em todas ellas (16) ha ['7® V-1 (15) BIMINEL e BACIL: :0 Padre Mestre Francisco manda que va a íappão. Se Deus me der vida, escrever-vos-ey o fruito que se laa fizer. Partiremos pera Abril. Vai o Padre Mestre Guaspar e dous mays». A cópia da BIMINEL e BACIL termina aqui. (16) À margem, acrescentado: em tal ordem posta, o P.' Anrrtques lhe ensina a doutrina aos homens, etc. I — M. 9 1
  • homens e molheres; huns vem pola menhã, outros a tarde. Isto vi eu de vista; esta he a milhor christandade que ha na índia; parecerão-me estes christãos como huns homens dos montes que sabem o Pater Noster e a Ave Maria, Credo e Mandamentos e crem na fe, assi como lhe diz o seu cura, porque não cabe mais em seus intendimentos; e estes chris- tãos não tem outros curas senão os nossos (17). Vim parte desta costa por terra e, avendo 20 dias que passara por onde eu ia hum irmão visitando estes christãos, achei perto de trinta, 30, crianças para bautizar; faltão aqui obreiros, porque morrem muitas crianças sem bautismo, por não poderem acudir a tantos, nem da índia podem ser nesta costa providos, porque a muito em que entender e tem a Companhia muitas empresas e não pode acudir a tanto. Também chegando a Cochim, cidade donde se carregão as naos para o reino, se fez hum rei christão (18), sera de idade de 20 annos, e rey de onze mil ilhas, as mais delas são pequenas; huma por outra, de mea legoa; a-de estar entre nos ate que o instruamos na fee e nos sacramentos; ao que parece, tem sogeito para nelle se prantar bem a fe; esta ja casi casado com huma filha de huma molher onrada, virtuosa nesta cidade; as suas ilhas estão daqui 60 legoas; sem esta terra não se pode soster a índia, porque delia vem o cayro que he o sparto e linho em Portugal, de que se fazem os calabres pera as naos; esperamos em o Senhor que, pois temos a cabeça, que farão os membros. Es ta terra em grande maneira e doentia; eu deseio de ir la quando for este rey (19), porque deseio morrer de Jesu, e pois os mouros nos levarão a ventagem, não fazemos nada porque (17) À margem do princípio deste período, lê-se: Daqui deste capitulo ate o fim desta carta esta ia escrito em outra parte deste livro as folhas 159 na volta. (18) À margem, encontra-se a chamada: dia da Circunsisão deste anno. (19) À margem: este rey he de cor de mulato. 9 2
  • elles, pelo diabo avera 30 annos que fizerão estas ilhas de gintios de sua nova ceita (20) e asi ao rey. Rogay ao Senhor que abra esta porta, e que não o impidão nossas imper- feiçõis. Também temos em casa hum príncipe, senhor de 23 legoas de terra, e de gente não tanta como ho das ilhas; e na ilha de Ceilão; he de idade de 8 anos muito vivo e esperto (21) e parece que a-de ser pera muito; a gente desta terra, quando for este senhor, esperamos em Deos, que a toda esta gente a-de fazer christã. A causa de como se fes christão he que ouve antre estes, em sua terra, antre os regedores, sobre quem tiria em poder este minino, senhor da terra, e por huma destas partes vir a effeito sua vontade, aiuntarão com o minino 30 ou 40 homens, e dão consigo na Pescaria, donde andão os nossos padres, pera que fizessem o minino senhor da terra e a elles christãos (22). Teve-os o padre huns dias, doutrinando-os e, pola muita impurtunação de pidirem o bautismo, os bautizou; aiuntarão-se então obra de 1.000 chris- tãos de guerra e huns catures com portugueses, pera o irem meter de posse de suas terras; e forão e porque la ouve revolta e se areceou de matarem este minino trouxerão-no ao viso-rey, he elle no-lo entregou pera o criarmos. Como for mais homem e o cazarem, ira com seu sogro e molher, ser senhor de suas terras, e padres pera edificarem igrejas e os bautizarem, porque he gente fácil; ja toda a costa deste senhor, que he de // muitos temos por certo fa- ['77 '■] zer-se logo. Verdadeiramente se esta terra milhorar hum pouco, como esperamos no Senhor, não ha obreiros que bastem (20) Correcção: que erão mouros. (21) À margem: este he preto. (22) À margem: Herão 60 legoas de huma costa a outra. 93
  • pera tanta messe; ha ca huns longes e em toda a parte tanta consolação do Senhor que he sensualidade andar ca; por derradeiro tudo o Senhor põe de sua casa, não a hi que desmaiar; he tãobem Deos que nos esta sustentando com ho spiritual, quando faltão as aiudas corporais. Do nosso Padre Mestre Francisco não vos mando novas, porque não temos recado ao presente de Japão. Eu me parto para Goa, por mal desposto; se la fas fruito, não basta toda a cleresia de Portugal pera esta terra; he gente de milhor maneira a desta terra que eu vi. Antes que par- tão as naos, vira recado e la o sabereis dos padres. Do Padre Cipriano, temos boas novas, e fas muito fruito nas almas, assi dos portuguezes, como dos christãos; esta na terra donde matarão ao Apostolo Sam Tome; esteve estes dias passados muito ao cabo, já tornou e obra; ja sabereis como estava com elle o Irmão Gaspar; e veo doente ter o collegio de Goa e dia da Resurreição, da madrugada, spirou. Muito consolado nos deixou tão bom transito. De mym vos sei dizer e de minha gratidão que me deveis, irmãos meos, muito de cuidar que ao menos se ei-de ser tão frio e negligente, como sou no caminho do Senhor, em que por sua misericórdia me pos, que ou me corte a vida, ou me faça a vida, e se lhe mereço o inferno que mo de, quando for sua vontade pera que não seia mao exemplo aos servos da sua Companhia, porque se menos vyda me der, menos conta; pedi isto muito ao Senhor que mo conceda, pois me dis utinam frigidus aut calidus esses, sed quia nec fri- gidus nec calidus, insipiam te evomere ex ore meo (23). Pedi, irmãos meos, ao Senhor, pois não me conheço nem umilho, porque deixa andar esta alma tão perdida, que me faça sair de mim mesmo para ser transformado nelle, e assi (23) Cf. Apoc., 3,16. 94
  • me aparte de meos vícios e negligentias, que por mi passão para que fiam unus spiritus cum Domino, ut non vivam ego, sed vivat in me Christus (24). Aqui vereis quam pro- fundas são minha maldades, ca ha occasião para dizer: Cupio anatema esse pro fratribus meis (25), deseiando estar apar- tado desse paraíso; portanto, pola necessidade que ai ca, onde so o Senhor pode remediar, porque são as necessidades desta calidade. Elie, por sua misericórdia, nos augmente em seu serviço, e milhore e traga em seu conhecimento estas gentes, amen. De Cochim, a 20 de Janeiro de 1552. O Padre Mestre Francisco manda que va la; se Deos me der vida screver-vos-ey o fruyto que se fas la; partire- mos para Abril; vay o Padre Mestre Gaspar e dous mais. Servo inútil ao Senhor e Irmão em Cristo Balthesar Gago. (24) Cf. Galai., 2, 20. (25) a. Rom., 9, 3. 95
  • 15 D. AFONSO DE NORONHA A EL-REI (1) Cochim, 27 de Janeiro de 1552 Documento existente no ANTT: — CC, I, 87-71. Mede 320x220 mm. São seis folhas em bom estado. Senhor, [3 »•] Item. E por que esta carta seja toda de boas novas, como desejo, com ajuda de Noso Senhor, lhe poder sem- pre mandar desta terra, quis lha dar também esta que, por ser de tamto serviço de Noso Senhor e de que Vosa Alteza, pelo zelo que dele tem, mostra e tem tamto contemtamento, a qual he que tenho aquy comigo tres reys christãos que, pela idade em que vieram ao bautismo, e que parece que recebem no leyte a doutrina cristãa, espero em Noso Senhor que dem ho fruito que Vosa Alteza deseja e tam desviado do de ell-rey de Tanor, como pera sua salvação e acrecemta- mento de nossa fee he necesario. Item. Hum deles he o verdadeiro rey de Ceylão, por ser filho do rey velho, de huma irmaam da rainha, como por (1) Esta carta do vice-rei D. Afonso de Noronha respira, toda ela, optismisrao talvez não bem fundamentado. Antes da passagem referente aos três reis cristãos, D. Afonso narra os seguintes factos: 1) D. Antão de Noronha atacara e derribara a fortaleza turca de Catifa; 2) restava ainda outra fortaleza, a de Baçora; quanto a esta, poderia também conquistar-se e derribar-se ou, então, aceitar as páreas que os seus senhores certamente ofereceriam, com a condição de não prejudicar o comércio de Ormuz; 3) as novas de Suez eram boas, pois os Turcos não mostravam sinais de quererem passar à Índia nesta ocasião, não tendo nem gente nem embarca- ções para tal empresa; 4) segundo informações de Ormuz, sabia que tanto o Xá da Pérsia como o Grão Turco lhe iriam enviar, a Goa, seus embaixado- res a fim de tratarem da paz. Havia, pois, motivo para optimismo. 96 1
  • a carta que sobre Ceylão lhe escrevy veraa, em que lhe dey rezão dele e da causa por que ho açeytey e mamdey vir a Imdia. Este se cria em minha casa, por ser menino de quatro annos, pouquo mais ou menos, e de callidade que se pode esperar dele todo bem, e tamto que chegar a Goa proverey em sua criação e segurança de sua vida, por ele ser senhor de toda ilha, de dereyto e per rezão. Item. Ho outro rey e senhor de Triquinamalee que nova- mente se converteo, que he na mesma ilha de Ceylão, da bamda de Charamamdell, terra muito fertill e muito povoa- da, este seraa de sete atee oyto annos; entreguey-o ao Pa- dre Amtonio Gomez, pera ho criar e doutrinar no colegyo de Sam Paulo, como obra dos Padres da Companhia de Jesus, porque foy bautiçado por eles na Pescaria e, como jaa escrevy per outra carta a Vosa Alteza. Item. Ho outro he el-rey das Ilhas de Maldiva que aquy se fez cristão persuadido e doutrinado dos Padres da Com- panhia; seraa de dezoyto ate vimte annos, moço de bom (?) e que parece, se for doutrinaado // e amoestado que daraa U r0 de sy bom fruito; pos-se em minhas mãos e que em nome de Vosa Alteza, e como a cousa sua olhe por ele, e ordene delle e de sua vida o que me bem parecese. Parecia ao bispo e Amtonio Gomez e aos Padres da Ordem de Sam Domim- gos que ho devia casar com molher portuguesa, por que se ordenase e vivese como cristão, e lhe esqueçesem os costu- mes e vida dos mouros, e meu pareçer hera esperar niso recado de Vosa Alteza. Apertaram tamto comigo e com tamtas rezões que ho quisera casar com huma filha de Fran- cisco de Mariz e de Maria Pinheira. Pedia-me seu jemrro Amrrique de Sousa que lhe entregase as ilhas pera ele as governar per quem quisese. Nam me pareceo rezão senam que se governasem per ordenança de Vosa Alteza e per quem eu em seu nome mamdase e me parecese que milhor vos serviria e faria o que fose rezam e justiça na terra e, por Doo. Padroado, V - 7 97
  • a moça ser imda de nove annos, e nam de idade pera casar, me nam comcertey com ela. Levo el-rey comiguo a Goa; se achar pesoa com que ho case, que seja comveniente, e de calidade, fa-lo-ey, porque, na verdade, casamdo com molher cristaam, se-lo-ha ele e, tornamdo a sy, as ilhas, tornar-se-a a embaraçar com huma moura e seraa mouro, como damtes, e também ho levo por que apremda nosos costumes e veja os ofícios divinos e tenha conhecymento das cousas necesarias a cristão (2). (2) Conta a seguir o socorro que mandara a Malaca e algumas notícias de Maluco. Refere-se, finalmente, à chegada de S. Francisco Xavier do Japão.
  • 16 FREI JOÃO NOÉ, O. F. M., A D. JOÃO III Cochim, 28 de Janeiro de 1552 Documento existente no ANTT: — CC, I, 100-88. Mede 290 x 190 mm. São duas folhas. O documento encontra-se bastante manchado e algo roto. Senhor, Jhesú Christo noso salvador de a V. A. graça e lume no emtemdimemto, pera fazer as cousas de seu serviço, como ate quy tem feyto. V. A. me espreve, que lhe espreva larga- mente das cousas destas partes. Onde a hy tantas pesoas \ que lhe esprevem muy largamemte, bem pudera eu ser escusado a lhas esprever. Mas pois V. A. mo mamda, breve- memte o farey, especial das cousas dos chrystãos, donde V. A. leva tamto gosto como catolico prymcype, e asy de algumas pesoas, que nestas partes servem V. A. Eu fuy a Baçaym, como creo que tenho ja esprito a V. A., e parece-me ser necesaryo fazer aly huma casa, pera os frades estarem e dahy yrem a ylha de Salçete ahy pola a tera, a fazer os chrystãos. A ygreja com a capela se acabara ate a Pascoa, ysto de esmolas e soldos, que nos deram. Eu, se puder, vou la este ano a invernar, ha huma pera compesar as ofycynas, e a prymcypal por amor dos crystãos e de ajudar a levar os trabalhos ao Padre Frey Antonio (l) que ele comesou esta obra. O qual faz muito fruyto e ser- vyço a Noso Senhor (2) com muyto trabalho, porque tem ele (1) Frei António do Porto. (2) Palavra omitida no original. i — p." 99
  • grande cuydado e vigylamcia neles, asy em os emsynar e doutrynar e lhes dar vida; e o mor trabalho, que padese e desgosto, he com os ofyciaes de V. A. acerca desa esmola, que se da pera os crystãos, porque lha não dão senam mal e tarde. Por amor de Deus, que V. A. lhe espreva, que o façam mylhor açcerca da esmola, que V. A mamdou dar, que são tres mil pardaos. Nunca deram senam dous mil, os quais são repartydos pelos Padres da Companhya a me- tade, que fazem a mesma obra. E este ano mamdou V. A. em huma carta, que escreveo ao viso-rey, que dese os outros mill, pera se partyrem. Ategora nam são dados. São eles muitos neçesaryos pela multyplycasão dos crystãos e dos colegyos dos moços que gastão muyto. [i r.] // Eu fuy com ho viso-rey a Ceylam. Ho prymcypal em- temto foy, pera visytar os Padres, qque lá moram. Foram Padres Dominycos e da Companhya também, porque pedi eu ao viso-rey, que os levase, pera nos ajudarem a obra, cuydamdo que el-rey se fyzese crystão. Pareçe que nam mereçeo a ele Noso Senhor per sua maldade se-lo. Os Padres tornaram-se pera a Yndia. Os nosos fycaram na obra, que comesaram, aomde levam gramde trabalho, especialmemte por o rey ser gemtyo, de que recebem gramdes desgostos. E comtudo fazem muytos crystãos; aymda que nam sejam tam bons, por tempo ho seram. Os lugares, donde os Padres rezydem: esta hum mosteyro, domde esta ho gardiam (3). Em Negumbo he huma ygreja, e em Berberym (4) outra; e em Gale, que he o prymcypal porto, esta outra, e em Lycão (5) e nestas esta hum frade em cada huma pera bautizar e emsynar aos que vem ha fe. (3) Em Colombo. (4) Beruvala. (5) Weligama. I O O
  • Quamto has cousas, que o viso-rey fez em Ceylão, pode ser, que espreveram a V. A. muytas cousas por desvairadas maneiras. Nom de V. A. orelhas a ouvy-las, mas crea ao que lhe escrever ho viso-rey, porque lhe escrevera a verdade de tudo, como pesoa virtuosa que he, e tememte a Deus. Todas as cousas que fez em Ceylão, foram com comselho, e per sy não fez nada. E do dinheiro ou peças, que lhe derão, o Bispo e eu e Antonio Gomez, Padre da Companhya, fomos prezemtes a tudo com os ofyçiais de V. A., veador da fazemda e secretaryo e procurador, que tomaram emtre- gue de tudo peramte nos, e quis o viso-rey que fosemos nos prezemtes por testemunho de sua comsyemçia. Todolos homens, que nestas partes andam, servem muito bem a V. A. e com muitos gastos, que fazem em seu servyço, asy que todos mereçem merçe e onrra. Especialmemte direy alguns, que eu mais partycularmemte conheço. Espeçial- memte Manoel de Sousa e Dom Framcisco2 de Lyma, que este ano vão pera Portugal, porque tem muito servyço feito, e com muito gasto e divydas que levam. Dom Joam Anrry- quez, João de Memdoça Casão e seus irmãos, Joam Fer- namdez3 de Vascogomcelos, que sempre gastou muito, espe- cialmemte nesta yda da Catyfa, omde ho mamdaram, e se empenhou muito com dar de comer hem tempo de muita necesydade ao arraial todo. Gil Fernamdes de Carvalho, que he hum muito bom cavaleiro. Dom Amtonio de No- ronha, também sempre servyo qua e amdou nesas armadas. Lionel de Sousa, a quem V. A. deu a viagem da Chyna, nunca lha quyseram qua comçeder, nem ela nem outra, e esta muito pobre e he de muyto servyço. Framcisco Barreto, aymda que he o derradeyro, crea V. A. que he o prymeiro nas cousas de seu servyço e nam tem comta com pesoa nem com fazemda naquylo, em que ho a de servyr. E asy açerca dos crys // tãos ele os favorese muito, e asy a gemte da tera 2 — tr."; 3 — trz. [a r.] I O I
  • trabalha de lhe fazer justiça e com brevydade per sua pro- pia pesoa, por serem milhor despachados. Digo ysto, por- que fuy testemunha de vista. Peço a V. A. por amor de Noso Senhor, que nas cartas que escrever ao viso-rey ou governador'1 nestas partes, que lhe emcomemde sempre esta Custodia (6) pois que foy a prymeira que levou os trabalhos desta terra, e Noso Senhor sabe muito bem o trabalho e fruyto que nela fyzeram e fazem. Digo ysto a V. A. porque me dise ho viso-rey, que nas cartas, que lhe escrevera, lhe emcomemdara muyto par- tycularmemte as outras hordens e que de nos nam fyzera memsão. Não tenho mais que lhe esprever ao prezemte, senão que Noso Senhor lhe de tamta vida pera seu servyço, quamto todos desejamos, e depois lhe de ho seu reyno, que todos desejamos. Deste Samto Amtonyo de Cochym, oje vintouto de Janeiro de 1552. Nãm posso deyxar de dizer a V. A. aquylo que synto e tenho espermemtado, depois que estou nesta tera, açerca do Prelado e religiosos. Crea V. A. que o Bispo he hum dos bons prelados, que se podem achar, em virtude e mamçedam e em ter careguo de suas ovelhas, que lhe são emcomem- dadas, e em ser tão pobre como quamdo era frade. Os Padres da Companhya fazem qua muyto fruyto, asy na comversão dos crystãos, como em tudo ho mais e asy os Padres Domynycos per sua parte com suas preguações tra- balhão, por trazer ho povo a servyço do Senor. Joam Alvarez, adayão da se de Guoa, vay este ano pera o reyno. Crea V. A. que he hum Padre dos mais virtuosos que qua rezydem; e ho bispo lhe nom querya dar lycemça (6) Custódia indiana de S. Tomé. 4 - 8"
  • pela mymgoa que qua fazya, se não ouver de tornar pera a India. V. A. lhe faça la merçe, porque ele a mereçe por sua virtude e trabalho, que qua tem levado. Orador de V. A. Frey Joam Noe, Custodio. 1 °3
  • 17 JOÃO ANES A EL-REI Cochim, 29 de Janeiro de 1552 Original existente no ANTT: — CC, 1, 87-74. Mede 219 x 308 mm. Duas folhas em regular estado. [i r.j Senhor, Vosa Alteza me tem mamdado (1) que todollos anos lhe estpreva has cousas que cumpre a seu serviso, e eu ho fiz sempre ate aqui, e a quatro hou simquo que não vi cartas de Vosa Alteza, e este ano asy estprevo ho que me parece que he mais neseçario que hos outros pasados. Senhor, a mim me parece que ha Vosa Alteza lhe parece que mamda qua viso-rey e guovernadores, e eles qua são roubadores da fazemda de Vosa Alteza. Parece ha Vosa Al- teza que mandou qua ho viso-rey Dom Afomso pera remir a Imdia; a mim parece-me que elle que veio mais pera destroir que não pera a remir. Senhor, arrenegue Vosa Al- teza do viso-rei hou guovernador que a-de ser tesoureiro. O guovernador a-de ser como foy Dom João de Castro, que não tinha dinheiro de Vosa Alteza, nem no via, man- dava-o despemder e guastar naquellas cousas que cumpria a serviso de Vosa Alteza. E Dom Afomso todo dinheiro requolhe em sy. E como he na sua mão diz que não ha dinheiro, asy pera dar de comer ao povo, como pera has obras que são neseçarias pera ho serviso de Vosa Alteza, e a jente amda descomtemte, asy lasquarins como todala outra jente. (1) O autor da carta era mestre da Ribeira de Goa. 104
  • Não // sei verdadeiramente homde tamto dinheiro se [l v'] comfumde, porque quantas rendas a na Imdia, toda vem ter a sua mão, e asy ho tisouro de Seillão, que dizem que la hapanhou, que he muito gramde, e pera a carega que se aguora fez foy neseçario tomar dinheiro aos deffumtos por letra pera ho reino. Senhor, Dom Afomso cuidava que ha jemte desta terra que não erão pera nada e não nos tinha em comta e tem meno ha elle que foy com ho poder de Vosa Alteza que havia na Imdia sobre ho rei da Pimenta, por hum rio arriba que sera de cidade de Cochim tres leguoas, por pallmares duma bamda e da houtra do rio, e hai deu em terra com todo ho arrayall, e queimarião quinze hou vimte quazinhas dos negros, e como lhe matarão sete hou hoito omens, que se desmandarão e ferirão, ho sobrinho Dom An- tão loguo se embarquou com todo arrayall e veio queimar houtra ilha que se chama Bardella, homde não avia nenhuma jemte, que estava despejada. Então se tornou pera a cidade e hos negros se rião muito delle, por não ter feito nada, e aguora ja ho não temem, e asy mesmo ja não ha nenhum ornem na Imdia que queira vistir armas, nem menos pellejar, senão levar boa vida e vistido de ceda picada, que custa mais ho feitio que ha propria ceda, e portamto digo, Senhor, que esta a Imdia posta em gramdes vaidades e pompas, que se não podem soster hos omens, porque ho hordenado que lhes paguão não lhe bastão pera ho vistido somente, e mais pera hum negro que lhe tras ho sombreiro. Por iso, Senhor, requeiro a Vosa Alteza, da parte de Deus e da sua morte, paixão, que ponha quobro soballa Imdia, porque nos não sostem senão a misericórdia do Senhor Deus, porque não esta mais ha Imdia que virem hos Rumes a ella, que, se elles vem, ho que Deus não mande, a Imdia he sua salivo se ho Senhor Deus lhe prover, que hos dias hos não tra- guão qua, porque somos tão maos cristãos na Imdia que ha 1 ° 5
  • qua muito pouquos omens que conheça a Deus, porque todos hamdão em vaidades e furtos, por homde Vosa Alteza não pode soster a Imdia, porque não ha hofficiall nenhum de Vosa Alteza que sirva careguo, que ho não roubem quamto podem, e não vejo enfforquar nenhum, nem ser castigado. Na Imdia avera bem duzemtos navios de chatins que não hamde artilhado com artelharia de Vosa Alteza. João da Fonsequa parece-me ser bom ornem; hamda mais morto que vivo polias cousas que vee que são con- trairás ao serviso de Vosa Altesa, e também Simão Botelho me parece que faz ho que deve, e todos hos outros tirão cada hum pera seu samto, somente estes dous me parece 0 '•] que se doem da fazemda //de Vosa Alteza e aproveitão quanto podem, e portamto proveja Vosa Alteza sobre hos officiaes que fazem ho que não devem, e lhes mande dar o castigo que cada hum merecer, porque qua se dão bramda- mente com elles. Parece-me, Senhor, que nenhuma cousa sostem na Imdia, senão estas igrejas e estas obras meritórias que Vosa Alteza manda fazer, porque todo ho mais he nada. Senhor, la vão cimquo naos pera ho reino, que Deus salive e guarde e has leve a sallvamento diante dos olhos de Vosa Alteza. Elias não vão caregadas diguo de espe- serias e de roupas e doutras fazemdas, vão nas naos sobre- careguadas, e ha pimenta que vai he muito roim, por ser colhida amte tempo; la se vera a quebra delia, e pera estas naos serem despachadas e irem a bom tempo daqui, e he neseçario aver hai sempre dinheiro pera que peze todo ano e levar nunqua mão do pezo, e desta maneira avera sempre has naos milhor despacho, por que se não detenhão polia pimenta. Parece-me, Senhor, que se cumprirem aos merca- dores ho comtrato que com elles fez ho allmiramte que sem- pre avera pimenta ao pezo, antes que vender a outrem, nem mandarem pera fora. Parece-me, Senhor, que ha i 06
  • pimenta que este ano vai feita ha conta do que ella custa, e hos guastos que fezerão por ella, custa, posta la, como la se pode vender. Senhor, eu andei em requirimento com Vosa Alteza a sinquo hou seis anos que me fezese a merce da feitoria de Cochim pera meu jenrro Gonçalo Calldeira; elle aguora he fallecido, que levou Deus pera si, e todavia lhe torno a pidir a mesma merce pera sua filha mais velha, minha neta, e isto faso porque lhe tinha prometido em cazamento, e aguora sera pera ha filha. Senhor, faça-me merce que mande pagar desa fazemda que tenha na Casa da Imdia, e se não for pera la no reino quebro-me pera qua, pera ha Imdia, pera me qua ser paguo, e isto peso a Vosa Alteza, porque tenho merecido polio bom serviso comtino, que aguora vai em sinquoenta anos que cheguei a Imdia, tenho feito e farei ate morte; não digo mais, Senhor, nesta, senão que fiquar roguando ao Senhor Deus que hacresemte hos dias de vida com muita saúde a Vosa Alteza e acresenta- mento de seu estado. Senhor, se a Imdia esta allevantada he polios capitães de Vosa Alteza serem grandes ladrões e grandes tiranos, que roubão nos reis e senhores da terra, e asi Mallaqua, por ser grande tiranos e grande roubadores de povos, afora houtras perlluxidades que não são pera contar nem pera estprever a Vosa Alteza. Beijo as mãos de Vosa Alteza. Feita oje neste Cochim aos 29 dias de Janeiro de 1552 anos. De Joane Anes, mestre da Ribeira de Cochim, servidor de Vosa Alteza (2). (2) À margem da fl. 1 r. lê-se: «O pagamento do que se lhe deve mandar-lho laa. E a escrevaninha da feytoria de Cochy pera a pesoa que casar com a neta, e a reposta de carta de boas palavras».
  • 18 SIMÃO BOTELHO A EL-REI Cochim, 30 de Janeiro de 1552 Documento existente no ANTT: — Gav. 15, 19-37. (l) Os religiosos desta terra querem gastar tão larguo e dar tantas esmolas a custa da fazenda de Vosa Alteza que se gasta niso huma boa parte do dinheiro; e, alem diso, alguns querem favorecer tanto a cristandade que se perdem muita parte das remdas, e se despovoam as terras, principalmente as de Baçaim. Eu bem creo que tudo fazem com bom zelo e verdadeiro, e que sera Noso Senhor e Vosa Alteza diso muito bem servido, mas parece que podiam tomar nisto hum meo, e pode ser que seria pera milhor, porque ha alguns querem muitas vezes fazer christãos por força, e avexar tantos os jentios que he cousa de se despovoar a terra, como diguo; proveja Vosa Alteza como for mais serviço de Noso Senhor. Vosa Alteza tem nestas partes muitas rendas, asy nas terras de Baçaim, como em Goa, que se arrecadão pelo custume que as arrecadavam os Mouros, quando herão suas; as quaes dizem os frades, principalmente os de São Do- mingos, que são tiranias e que se nom podem levar; e a calidade delas são como as saboarias dese reyno, de nen- guem poder vender huma cousa senão huma soo pesoa, ou as que se concertão com o rendeiro da tal renda; e na ver- dade muitas delas dão trabalho e opresão ao povo, mas querem que se tirem, e nom lhes parece bem porem-se outras (1) Publicado, na íntegra, em O Tombo do Estado da índia, págs 25-42 das Cartas de Simão Botelho. 1 O 8
  • por outra maneira pera as despesas desta terra: a renda da çarafagem de Goa, que rendia de mil e quinhentos ate dous mil pardaos, tirou agora o viso-rei a seu requerimento, por lhe parecer bem, e ser a pior das desta calidade, e também por a cidade ho requerer, e ter huma provisão del-rei Dom Manuel, seu pay, que Deos tem, confirmada por Vosa Alteza, per que avia por bem que, tanto que se acabase a obra da see da dita cidade, que nom ouvese mais a dita renda, e se tirase. Ela ha annos que he acabada, mas nom quiseram os governadores tira-la e, na verdade, ela he muito escandalosa ao povo, e he bem tirada. Sobre as outras proveja Vosa Alteza, como lhe parecer seu serviço, porque nesta parte desencarreguo minha con- ciencia, por mo mandarem asy os confessores que o fizese saber a Vosa Alteza, principalmente o vigairo de São Do- mingos, que me nom quis asolver, dezendo que asy por ysto, como hir asentar os direitos em Malaqua, por mandado do governador Martim Affonso de Sousa, e por os foraies que fiz em Baçaim, por mandado de Vosa Alteza, estava escumungado, porque estas cousas se nom podião fazer sem licença do Papa, nem eu obedecer, ainda que mo Vosa Al- teza mandase, e que me nom podia asolver, senão avendo bula do Papa, ou largar o careguo de veador da fazenda. Muitos partidos lhe cometi acerqua disto, que me ouvese a licença, com quanto eu me nom tinha, nem tenho, por escumungado, pois ao tempo que o fiz o nom sabia, mas que ele hera o escumungado, pois o nom tinha escripto a Vosa Alteza; e, por desastre, achey hum frade da Ordem de São Francisco que me asolveu, e folgou muito de o fazer; e, comtudo, se ysto asy he, necesareo me sera huma asolvição, e prover Vosa Alteza nisto, como for mais ser- viço de Deus e seu. O mesmo vigairo tem muito trabalho e cuidado por acabar a obra do moesteiro; e, posto que se alargou da traça 109
  • que lhe Vosa Alteza deu, parece que foy necesareo, porque esta terra nom consente igrejajs pequenas. Tem o vigairo grandes deferenças com hum Pero Godinho sobre humas casas que tem pegadas com o moesteiro, sem as quaes a obra da crasta nom pode hir por diante, e quer o Pero Godinho da-las, mas he com condição que ha-de começar outras premeiro, pegado com a parede do mesmo moesteiro, que parece grande enconviniente, e mais tendo outros luga- res onde as faça dentro no seu chão; mas também nom parece rezão que os frades lhe tomem a orta, porque nom tem dela necesidade, por terem outra muito grande. Dou esta conta a Vosa Alteza, porque andey pera os concertar, por mandado do viso-rei, e nom pude; o vigairo he pesoa vertuosa, e o moesteiro estaa em muito boa reputação com o cuidado que dele tem, mas nom queríamos qua relegiosos tão escrupulosos, e também Vosa Alteza devia de aver bulas sobre muitas cousas em que lhe de qua teram apontadas, como são o trato dos cavalos de Goa, e fero, aço, cairo, estanho e outras muitas cousas, em que os mais dos homens da índia tratam des que he descuberta ategora.
  • 19 CARTA DE XAVIER AO PADRE PAULO DO VALE Cochira, 4 de Fevereiro de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 310-312. Ihus A graça e amor de Christo Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen. Micer Paulo. Lá vão Manuel de Moraes e Francisco Gonçalves (l). Como chegarem, vista esta carta minha, ireys a casa do Senhor Bispo, e direys a Sua Senhoria que Manuel de Moraes, porquanto hé Padre, o entreguays em suas mãos; porque eu vos escrevi que a Companhia o entre- gua a Sua Senhoria, que delle se sirva, porque hé pessoa que se pode servir delle. E assi vós direys a Manuel de Moraes, que eu vos escrevi pêra que o dispidisseys. Também dispidireys a Francisco Gonçalvez: e isto vos mando que façais em virtude d'obediencia: e não os deyxa- reys entrar em o colégio; e assi mandareys a todos os que estão no colégio, que nom tenhão pratica com elles. A mi me pesa muito d'aver causas pera os dispidir; e o que mais sinto ainda hé que tenho medo que nom ham de ser soos (2). Deus Nosso Senhor sabe com quanta magoa escrevo esta carta. Cuydava de achar cá alguma consolação, depois dos muitos trabalhos que tenho levado; e em lugar de consola- (1) Vinham das Molucas, onde haviam desobedecido ao P.e João da Beira. Foi este o motivo por que Xavier os desligou da Companhia de Jesus. (2) Com efeito, Xavier procedeu ainda contra vários, entre os quais se salientam os padres António Gomes e Belchior Gonçalves. 111
  • ção, acho trabalhos que asaz me atribulão, como são demandas e desavenças com o povo, que causão pouca edificação. Na obediência me parece, (ao que tenho alcançado depois que cheguey), que haa pouca ou nenhuma; louvado seja Deus por tudo. A Belchior Gonçalvez mandareys e escrevereys a Baçaim, que em virtude d'obediencia venha a Goa, que assi o mando. Baltasar Nunez recebereys em casa até que eu lá vaa. Huum mancebo que lá vay, que se chama Tomé Fernandez, nom recebereys em casa até que eu lá vaa. Dizey-lhe que se quiser servir a Deus na Companhia, que sirva no sprital até que eu lá vaa. Espero em Deus Nosso Senhor de cedo ser laa. Ao Senhor Obispo de minha parte lhe beyjareys a mão, e lhe direys que em grandíssima maneira desejo ver Sua Senhoria pera consolar-me com elle; porquanto hé tão grande a obrigação que lhe tenho que me acho indino pera lhe pagar o muito que devo a Sua Senhoria. A todos os Irmãos desejo muito de ver, principalmente aos Padres pera me consolar com elles. De Cochim a 4 de Fevereiro de 1552. Por mão de Xavier: Tudo vosso in Chrysto Franci [sco].
  • 20 INDULGÊNCIA PARA A MISERICÓRDIA DE GOA Roma, 13 de Fevereiro de 1552 Original existente no ANTT: — CC, I, 87-98. Mede 285 x 209 mm. Duas folhas em bom estado. Senhor, [i r.] Ate esta hora no he vindo o correo que me Vosa Merce escreveo que viria apos Gonçalo Leite, o qual creo que ja avera dias que sera la, e por outra parte folgo de no ser vindo para me trazer novas da chegada de Guançalo Leite, com que eu creo Sua Alteza folgaria açaz pollo bom des- pacho que levava ser para isso, e elle levou as duas peças de chamalote de ceda para Senhora Dona Catarina; man- de-me dizer se forão bem tratadas, porque a posta gasta as vezes estas cousas, e se forão a seu contentamento. Pelo Coelho tenho ca esperando estes despachos da índia e tenho ja huma grande indulgentia e não vive voeis oráculo, como a de Lisboa, senão polio Papa, para a Misiricordia de Guoa, e mais perpetua, que me dizem que inda se aqui no deu outra. Outras espedições tenho feitas que por ca ter este correo de Sua Alteza pareceo-me milhor guarda-las todas para as elle levar que aventura-las por estafetas, e ja estivera tudo acabado se o Papa estes dias passados no estivera tam mal tratado da sua guotta, que ainda agora esta com as mãos entrapadas. Vossa Merce ma faça de me escrever se esta Sua Alteza contente das espedições que lhe de ca mandei, e da maneira que tive de no paguar composição de ninhuma delias e he Doc. Padroado, v-8
  • muito mais de agradecer, porque he em tempo que tudo o que o Papa e os seus comem he fiado, e se Sua Alteza tem negocios de composições ajudesse do tempo, como lhe ja tenho escrito, e Vosa Merce lho lembre, porque pode ser que no achara esta conjunção sempre, e porque me da muita pressa no direi nesta mais senão que as novas de ca Vossa Merce as entendera polias que escrevo a Sua Alteza, e Nosso Senhor sua muito magnifica pessoa guarde e vida acrecente, como desejo, a que baijo as mãos. De Roma, a 13 de Fevereiro de 1552. Servidor de Vossa Merce Comendador-mor Dom Afonso. "f
  • 21 INSTRUÇÕES DE XAVIER AO PADRE BELCHIOR NUNES BARRETO NOMEADO MISSIONÁRIO DE BAÇAIM Goa, 29 de Fevereiro de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 317-521. Jesus Digo eu, Francisco, que, confiando na virtude e pru- dência de vós, Belchior Nunez, hey por bem, e vos mando em vertude de obediência, que tenhais cargo desta caza de Baçaim, e das rendas da caza. E os que estiverem em Baçaim, que são Irmãos da Companhia, estarão todos á vossa obediência. Logo como tomardes entrega da caza, vos obedecerão todos os Irmãos e Padres da Companhia: e não tão somente os que estiverem de assento em Baçaim, mas os que passarem para Dio e outras partes, que chegarem a Baçaim, estarão todos à vossa obediência. Isto entendo quando não virdes o contrario, ou de minha mão ou do reytor que ficar nesta caza de Santa Fé, ao qual em minha auzencia obedecereis como ao Padre Ignacio. E por ser esta minha vontade me assinarei aqui. Feito neste collegio de S. Paulo aos 29 de Fevereiro de 1552. Francisco. Jesus Primeiramente, das rendas de Baçaim do tempo que ^ Belchior Gonçalvez tem cargo das rendas de caza, das quaes fes mercê El-rRey, ou os gouvernadores em seu nome à 1 1 5
  • Companhia, sabereis de Belchior Gonçalvez o que tem arre- cadado e o que fica por arrecadar. Imformando-vos bem de Belchior Gonçalvez acerca destas rendas, muito meudamente me escrevereis, e assim também me escrevereis do dinheiro que vos entregou Belchior Gonçalvez. Olhai bem as muitas necessidades que os Irmãos da Com- panhia tem e quam individade está esta caza, e as necessi- dades que tem os que estão em Cochim, Coulão, e os do Cabo de Comorim, que todos dependem desta caza e sem- pre pedem. E o que mais sinto hé saber as muitas necessi- dades que elles lá passão, porque El-Rey não os provê, polo pouco dinheiro que tem. Dessas rendas o que tiverdes necessidade, muito por sua ordem tomareis, assim para vós como para os que estiverem comvosco. E olhai que vos torno outra vez a emcommendar, por serviço e amor de Deos Nosso Senhor, que tudo em quanto puderdes favo- recer de lá esta caza, que a favoreçais, para que possa sequer manter os que estão no Cabo de Comorim, Coulão e Cochim. Escuzai lá quantas obras materiaes puderdes, e no gasto vosso como no dos meninos hirá por regra. Não entendo que lá passeis necessidades, assim vós como os outros que comem dessas rendas; mas digo que tuda quanto se puder escuzar, se escuze. Tende sempre diante de vossos olhos o muito que padecem os do Cabo de Comorim, e quantas crianças morrem sem baptismo à mingoa de não haver quem nas baptize, por se não poderem sostentar lá os Padres. Quando se arrecadarem as rendas, o arrecadamento não se faça por vossa pessoa nem algum da Companhia: isto digo fazendo-se com escândalo. Faça isto algum amigo ou amigos spirituaes leigos à maneira de síndicos, e que seria melhor para isto [que fosse] pessoas de spirito, que se con- fessassem e tomassem o Senhor ameude; e tereis modo como estes taes fação Exercícios da primeira semana. E se ser pudesse que estas pessoas que arrecadão as rendas fossem i i 6
  • ricas e abastadas, e boas sobretudo, seria melhor desta ma- neira, porque, sendo estas pessoas taes, ricas e boas, quando arrecadão as rendas dos me [s] quinhos e pobres, não nos avexão tanto como se fossem pobres; porque sendo pobres não aguardão tempo, e assim por força, prendendo-os e fazendo-lhes avexação arrecadão as rendaz. Sobretudo vos emcommendo por amor e serviço de Deos Nosso Senhor que vos guardeis de escândalos, o que evitareis se o povo enxergar em vós muita humildade. Em os prin- cípios haveis de trabalhar muito em todas obras baixas e humildez, porque desta maneira estará bem o povo com- vosco; e ganhada a vontade ao povo, as couzas que fizerdes, sempre as hirão interpreitando à boa parte, principalmente quando vos virem perseverar de bem e [m] melhor: e olhai que não descuideis, que quem não vai adiante, atrás torna. Muito folgaria que na christandade nova que se fizesse, que tomeis por valedores ao Padre vigário e aos Irmãos da Mizericordia, e que a elles se atribuísse o serviço que a Deos Nosso Senhor nisto faz [eis]. Isto digo para que em vossas perseguiçoens tivésseis muitos valedores, e o povo não praguejasse tanto de vós, vendo que o Padre vigário e os Irmãos da Mizericordia poem mão nisso. E se vos parecer bem que d [o] Vigário e Irmãos, em a carta que vós escreverdes a El-Rey, fazer especial lembrança delles a Sua Alteza de quanto favorecem a christandade, e mos- trar-lhes a carta, [faze-lo heis]. Em a carta que vós escreverdes a El-Rey dando conta das couzas de Baçaim, pedireis por mercê a Sua Alteza que escreva à Mizericordia e ao Padre vigário os agradecimentos, vendo que tanto ajudão a christandade. E olhai que façais sempre muita conta do Padre vigário, e também dos Irmãos da Mizericordia. E tomai muitos valedores para estas couzas da christandade, e também, se se poder, o cappitão, dando a entender a todos elles que, se algum fruito se fizer nas 117 /
  • conversoens dos infiéis, depois de Deos, que tudo se há de atribuhir a elles: e se puderdes arm [ar isto] ao cappitão grande bem será. Tudo isto remeto à vossa prudência e ò muito que Deos Nosso Senhor vos der a sentir. Quando escreverdes a El-Rey sejão couzas de muita edificação, e quando houverdes de escrever sobre algumas pessoas, seja ao Pe. Mestre Simão e não a El-Rey: e isto entendo das couzas temporaes, que das espirituaes a El-Rey. i i 8
  • 22 CARTA DE XAVIER AO PADRE GONÇALO RODRIGUES, MISSIONÁRIO EM ORMUZ Goa, 22 de Março de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 323-326. A graça e amor de Christo Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen. Deos Nosso Senhor sabe quanto ma [i] s folgara de vos conhecer que de escrever-vos, porque há muitas couzas que por palavras e prezença se fazem muito melhor que por cartas. Folguei de ouvir novas de vós dos que de lá vem, ainda que muito mais folgara ver carta vossa, em que me desseis conta do fruito que lá fazeis, ou por melhor dizer, o que Deos por vós faz, e o que deixa de fazer e confiar de vós poios impedimentos e culpas que vós por vossa parte pondes, por cuja cauza deixa Deos de se manifestar por vós; e destes impedimentos vos haveis de accuzar con- tinuamente por não serdes tal instrumento, qual deveis de ser, por onde Deos deixa de ser mais glorificado e as almas por vós mais aproveitadas, o que serião mais favorecidas, se vós fosseis o que deveis de ser, lembrando-vos da conta que haveis de dar a Deos do bem que se deixa de fazer polo impedimento que de vossa parte pondes. O que vos mando que façais em virtude da obediência, hé que ao Padre vigário sejais muito obediente, e com sua licença e vontade pregareis e confessareis e direis missa: e olhai que vos mando em virtude da obediência que por nenhuma couza quebreis com o Padre vigário. O que "9
  • boamente poderdes acabar com elle, aquilo fareis; porque eu confio tanto de sua virtude e caridade, que se vos vir humilde e obediente, que será elle mais liberal em dar-vos o que lhe requererdes, do que vós sereis em lhe pedir. Aos outros Padres tereis muito acatamento, e olhai que a ninguém desprezeis; sereis amigo de todos. Tomem elles exemplo em vós de quão obediente sois ao Padre vigário, e o povo polo conseguimento tome exemplo em vós, para que obedeçam inteiramente ao Padre vigário. E olhai que o fruito que haveis de fazer, mais há de ser em dardes exemplo da obediência e humildade, que não em pregar. Guardai-vos de ser singular e de lançar mão do mundo, aborrecemdo-vos muito toda opinião vãa. A muitos de nossa Companhia fez mal esta prezunção de quererem ser singu- lares. A muitos despedi depois que cheguei de Japão, poios achar comprehendidos neste vicio, e em outra [em] que o[s] despida da Companhia do nome de Jesu: e olhai muito por vós, que não façais por onde sejais despedido. Para viver em humildade em nossa Companhia, lembre-vos quanta mais necessidade tendes vós da Companhia, do que tem a Companhia de vós. Por isso vigiai sempre, e nunca vos esqueçais de vós mesmo; porque quem de si se esquece, que lembrança terá dos outros? Estas regras vos escrevo polo amor que vos tenho, e bem que vos dezejo, e também por algumas couzas que de lá a esta cidade chegarão, que não são de muita humildade e obediência e edificação. A Mestre Gaspar tenho mandado que vos escreva como quem tem experiência desta terra, para que vos dê os avizos em que mais podereis servir a Deos Nosso Senhor; e assim podereis fazer conta que as suas cartas sam minhas para que as cumprais. Avizai-vos que não entendais em cazamentos, nem em absolver os que se cazam a furto, sem expresso mandado ou / 2 o
  • licença do Padre vigário; e isto vos mando em virtude da obediência que assim o cumprais. Quando Mestre Gaspar foi a Ormuz, eu lhe dei certas regras pera se reger por ellas; o tresllado me parece que vos ficou; le-lo-eis cada semana huma vez, para que mais vos fique na memoria, e vos ajudeis nas couzas de serviço de Deos. Pelo muito que cumpre ao serviço de Deos terdes muita obediência e humildade ao Padre vigário, vos mando em virtude da obediência por esta prezente carta que lhe peçais perdão com muita humildade, postos os joelhos no chão, de todas as [des] obediências e culpas passadas, e lhe beija- reis a mão, dizendo-lhe que isto hé por obediência, então vos dará ordem para que cumprais a obediência. E para mayor conformidade e humildade todalas sema- nas huma vez lhe beijareis a mão, assim [em sinal e prova] da obediência como da humildade. E olhai que assim o cumprais, ainda que sintais repugnância, porque tudo hé necessário para confundir ao demonio, amigo de descordias e desobediências. Olhai que em vossas pregaçoens não escandilizeis a ninguém. Não procureis de pregar couzas sotis de letras, senão moraes todas. Com muita modéstia e piedade repre- hendereis os peccados do povo. Os públicos peccadores fra- ternalmente os reprehendereis em segredo. E olhai que folgarei mais de fazerdes tanto fruito quanto se contem em este espaço de linha sem escândalo nenhum, mais [do] que folgaria se fizésseis tanto fruito quanto se contem nesta linha comprida com alguns escândalos, ou escândalo. E porque sei quanto isto releva fazerem-se as couzas com caridade e amor, sem escândalo, para mayor gloria de Deos e fruito nas almas, por isso vos emcommendo que guardeis muito bem esta lembrança.
  • Escrever-me heis muito meudamente o que Deos por vós faz nesta cidade, e da amizade que há entre vós e o vigário, e os outros Padres e todo o povo, porque deste collegio mas mandarão à China, donde agora vou, e lá folgarei muito de ver vossas cartas. Eu me parto de Goa daqui a vinte diaz. As couzas de Japão vão em muita prosperidade. Lá fica o Pe. Cosme de Torres e João Fernandez com os muitos christãos que se tem já feitos e cada dia se fazem: elles sabem bem a lingoa, e por isso fazem muy grandíssimo frui to. Este anno vão lá Irmãos para os ajudar. Os traba- lhos que lá passão são muito mayores do que eu poderia escrever, e sem comparação mayores dos que vós lá passais, e os Irmãos que nestas partes estão, ainda que sejão muito grandes. Isto vos escrevo para que continuamente os em- commendeis em vossos sacrifícios e oraçoens a Deos Nosso Senhor. Quando escreverdes ao collegio, também com muita brevidade e obediência e acatamento escrevereis ao Senhor Bispo, dando-lhe conta do que lá fazeis, pois hé nosso prellado, pois tanto amor nos tem, e favorece em tudo o que pode. Esta carta vos escrevo como a homem que tem virtude e perfeição para entender e gostar, e não como a homem fraco, de quem eu pouco confiasse. Por isso haveis de dar graças a Deus, que vos fez tal, e deo virtude e prefeição para folgardez mais de ser admoestado com reprehensoens, que serdes enganado comdescendendo com fraqueza, com fraquezas humanas, como fraco. E de serdes forte no serviço de Deos, me deo elle a sentir que vos escrevesse como a perfeito, e não como a imperfeito. E porque pola mizeri- cordia de Deos, cedo na gloria do paraizo nos veremos, não digo mais senão que vos lembre com quanto amor vos
  • escrevo esta carta, e isto para que a recebais com aquella sãa intenção, amor e vontade, com que vos escrevo. Deste collegio de Santa Fe de Goa a 22 de Março de 1552. Esta carta mostrareis ao Padre vigário. Vosso em Christo Irmão, Francisco. 12 3
  • 23 CARTA DE XAVIER AO PADRE BELCHIOR NUNES BARRETO, MISSIONÁRIO EM BAÇAIM Goa, 3 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 332-334. A graça he amor de Jesu Christo Nosso Senhor seja sempre em nosa ajuda he favor. Amen. Vossa carta receby por Belchior Gonçalvez: muito folgey com ella. Praza a Deus que vos dê graça pera dar bom cheiro a nosa Companhia, pois está esse povo de nós tão escamdelizado. Por serviço de Deus vós emcomendo tamto quancto poso, que hedifiqueis essa gemte quanto em vós for; he se fordes humilde he prudemte, espero em Deus que fareis muito fruyto. Lá vos mando Francisco Amriquez para que estê em Tanaa com Manuel (l), he Jorio (2) poderá estar com- vosquo olhamdo polas cousas de casa, he Barreto (3) emsi- nando, e vós edificamdo, doutrinando, pregando e ensi- namdo. Muito folgey com aquilo que escrevestes acerqua da ordem que temdes consertado pera pregar: exercitay-vos quanto poderdes em voso pregar, porque espero em Deus Noso Senhor que, se fordes humilde, sereis gramde pre- gador. (1) Irmão Manuel Teixeira. (2) Irmão Fernando do Souro. (3) Irmão Egídio Barreto. 1 2 4
  • A Framcisquo Lopez mandareis a este colégio logo na primeira embarcasão, que de lá para quá vier, e em nenhuma maneira fique llá. Os ytens que vos emcomendey, lede-os muitas vezes. A ysperiemtia vos emsinará muitas cousas, se fordes humilde he prudemte: e neste comenos reger-vos-eis poios avisos que de quá levastes. Francisco Amriquez vay pera estar debaixo de vosa hubidiemtia; he olhay que lhe mandeis em vertude de obydiemtia que se guarde de escamdelizar nimgem, e que seja muito sufrido he pasiemte: e tereis muito aviso se os ornes se escamdelizarem, asi dele como dos outros, acudindo logo com remédios. E olhay que tenhais gramde vigia sobre vós, e despois sobre os outros; e olhay que os que achardes compremdidos em pecados pubricos e escam- dolos grandes no povo, os despedais logo da Companhia, porque os que vós despedirdes da Companhia, eu ho [s] ey por despedidos; porque comfio tamto da vosa prudemtia, que os aveis de despedir com justa razão he causa. Acerqua das rendas dese colégio, fareis como se gastem mais em templos esperituais, que não materiais. Os tem- pi [os] materiaes que se não podem escusar, senão que são necessários, aqueles somente o [s] fareis: todo o mais serão templos esperituais; por iso vos mamdey que tomases me- ninos da terra, e os emsinasês em pequenos, pera que quamdo fore[m] gramdes fasão fruyto. Os dias pasados mandey lá a Paulo Gozarate, o qual foy emsinado neste colégio muitos anos: ele hé muito boa lingoa pera emsinar os christãos da terra, e lhes pregar tudo aquilo que o Padre lhe dixer. Acerqua das remdas desa casa, parece-me que será bem que se gastem comforme a emtemsão d'El-Rey, asi como vós me escrevestes, e tãobem porque o povo não se escamdelize. Se algumas teadas boamente poderdes fazer com que venham a esta casa, pera se vistirem os que nela estão 125
  • [faze-lo-eis], e se isto não se poder fazer se [m] faltar com os de lá, em tal caso gastar-se-[á] lá tudo em ser- viço de Deus. Trabalhay muito de vos exercitardes nas pregações e comfições, visitamdo o esprital, e os presos, e a Mysericor- dia: fazemdo estas cousas com humildade e charidade, Deus vos acreditará com o povo: aymda que não tenhais graça em pregar, fareis muito fruito. E olhay que vos emcomendo que sejai [s] muito amigo do vigayro, e de todos os Padres, e do capitão, e dos oficiaes d'El-Rey, e de todo o povo, porque em saberdes ganhar a vomtade aos omens, fazemdo-vos amar deles, e nisto está em fazerdes o fruito nas pregações. Escrever-m'eis a Ma- laqua en Setembro muito meudamente o fruito que fazeis; e polo comsegimte a este colégio muitas vezes escrevereis. Deus Nosso Senhor nos ajumte na gloria do paraizo. Amem. Feita em Go [a} oje 3 de Abrill de 1552. Francisco. 126
  • 24 INSTRUÇÕES DE XAVIER AO PADRE GASPAR BARZEO Goa, 6 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, 11, 336-339. In nomini Domini Nostri Iesu Christi. Amen. Confiando eu, Francisco, indigno Preposito da Com- panhia do nome de Jesus em estas partes da índia, de vós, M. Gaspar, assy de vossa humildade, virtude e prudência, como de vossa sufficiencia, vos mando em virtude de sancta obediência que sejais reitor deste collegio de Sancta Fe; assy dos Padres e Irmãos portuguezes da Companhia do nome de Jesus que estiverem do Cabo de Boa Esperança pêra quá; assy dos que estam em Malaca, Maluco, Japão e em todas as outras partes; assy dos que vierem de Por- tugal, como de outra qualquer parte de Europa a estas partes pêra estar à minha obediência: aquelles todos esta- rão à vossa obediência, salvo se mandar N. P. Ignacio alguma pessoa particular a estas partes pera ser reitor deste collegio, a quem tenho escrito as necessidades que há nestas partes da índia, de mandar huma pessoa de grande expe- riência e muita confiança, pera ser reitor deste collegio e ter cargo dos que estão nestas partes. E assy vos mando por esta, em virtude de sancta obe- diência, que a pessoa que o N. P. Ignacio, ou outro qual- quer Preposito Geral da Companhia do nome de Jesus, mandar a estas partes pera ser reitor do collegio e ter cargo dos que nestas partes estão, a esta tal pessoa entregareis logo o cargo, mostrando-vos provisão assinada por o N. P. Ignacio, ou outro qualquer Preposito Geral da Com- panhia do nome de Jesus, e sem provisão assinada por I 2 7
  • nosso Pe. Ignacio ou por outro qualquer Preposito Geral não entregareis o cargo que vos leixo. Porem, se alguma pessoa for mandada de Portugal pera ter cargo deste collegio, se a pessoa que de lá vier for de confiança, vós por vossa mão, estando elle sempre à vossa obediência, lhe mandareis em virtude de sancta obediência que tome o cargo, que vós por vossa mão lhe derdes; o qual, como disse, sempre estará à vossa obediência, assy como estão todos os outros Padres e Irmãos. E se outra pessoa ouver nestas partes que mais vos possa descansar e ajudar, que o que vier de Portugal, a esta tal entregareis e manda- reis que tome o cargo que vós lhe derdes: e este sempre estará à vossa obediência pera o tirar e pôr outro. De ma- neira que, todas aquellas pessoas que nestas partes avião de estar à minha obediência, mando a todos elles em vir- tude de sancta obediência que obedeção a Mestre Gaspar, reitor deste collegio de Sancta Fee. Esta hé minha intenção para evitar os inco [n] venientes que se poderião seguir, como seguirão no tempo passado. E se algum não obedecer a esta provizão que vos leixo, quando lhe der outra intelligencia, ou pera querer ser reitor ou não vos querer obedecer, em tal cazo vos mando em virtude da obediência que o despidaes logo da Companhia, ainda que tiver muitas partes boas e calidade, pois lhe min- goão as melhores, que são humildade e obediência. Isto que disse de pordes outro em vosso lugar, he a este fim, pera que possaes visitar os collegios de Cochim, Baçaim, Coulão, o Cabo de Comorym. Porque, tomando experiência, indo vós visitar estes collegios e Padres e Irmãos da Com- panhia, se pode seguir muito fruito e serviço grande de Deos N. Senhor. Isto entendo não fazendo vós mingoa neste collegio que seja notável. E pera que não aja descuido nos Padres e Irmãos da Companhia de vos obedecerem, assy a vós com a mym, 128
  • vos mando em virtude de sancta obediência que aquelles que vos não obedecerem, nem quiserem estar à vosa obe- diência, que os despidais logo da Companhia; e não olhei à mingoa que podem fazer ou o que o povo de vós dirá, despidindo semelhantes pessoas que não estão à obediência, porque estas semelhantes pessoas desobedientes mais dano fazem na Companhia do que fazem proveito, ainda que tenhão muito boas partes e calidades, e por isto vos digo que os despidaes. Os que eu despedy antes que me partisse pera a China, vos mando em virtude da obediência que em nenhuma maneira os torneis a recolher. E assy o mandareis a todas as partes, onde ouver Padres e Irmãos da Companhia, que os não recolhão. > As rendas deste collegio, prezentes e mercês que El-Rey faz, e tudo o que toca ao bem deste collegio, que lhe per- tence por mercês que El-Rey noso senhor lhe tem feitas, e seus Governadores e V.-Reys em nome de S. A., de todas essas tereis especial cuidado, e por vós ou por aquelles que vós ordenardes serão arreca [da] das com muita diligencia: se gastarão em serviço de Deos N. Senhor com os Padres e Irmãos desta caza e os que andão fora delia, que à mingoa de serem ajudados no temporal deixão de comprir no espiritual. Das rendas e bens da caza pagar-se hão dividas e pro- ver-se hão as necessidades necessárias de caza; e fora destas necessidades, olhay que vos mando que não desmembreis, nem apliqueis e destribuaes as rendas desta casa, fora das necessidades dos Padres e Irmãos desta caza, e fora delia, em os meninos da terra e orfãos. Escrita neste collegio de Sancta Fee, 6 de Abril de 1552. Assinada por mym em testemunho de verdade. 129 Doe. Padroado, v-9
  • Em virtude de sancta obediência vos encomendo e mando não saiais desta ilha de Goa por espaço de tres annos. Isto entendo, sendo cazo que dentro destes tres annos N. Preposito Geral de toda a Companhia do nome de Jesus não prover de reitor a estas partes, porque, sendo cazo que vier reitor de lá, estareis à sua obediência, e o tempo de tres annos de vossa estada nesta ilha não vos obrigará. Outra vez torno a encomendar e mandar em virtude da santa obediência que, todos aquelles que nestas partes esta- rião à minha obediência, todos elles estarão à de Mes- tre Gaspar; e se alguém se quizer escuzar de não obedecer, a esta tal despidireis da Companhia, declarando-lhe pri- meiro esta minha determinação, que hé, que todos obedeção a Mestre Gaspar como a mim, se prezente estivesse. -Assy também encomendo e mando em virtude de obe- diência a todos em geral e particular que, ao reitor que N. Pe. Ignacio ou qualquer outro Preposito Geral da Com- panhia do nome de Jesus, que for mandado por reitor deste collegio, que todos lhe obedeção quantos estarião à minha obediência se presente estivesse; e fazendo o contrario disto, rogo e encomendo ao reitor que for mandado pelo nosso Preposito Geral da Companhia do nome de Jesus, que despida a todos aquelles que lhe forem desobedientes e não lhe quiserem obedecer. Por que ninguém ponha duvida a isto que aqui digo, me assinei aqui. Escrita a 6 de Abril de 1552. Francisco. Pera que possaes fazer mais fruito nas almas, uzando das graças concedidas pelos Summos Pontífices à Com- panhia, e a mym cometidas polio N. Pe. Ignacio, e a des- pensação pêra os Padres idoneos e sufficientes da Com- 13 °
  • panhia, aos quaes, cometendo estas graças, podem mais frutificar nas almas, em tudo isto cometo minhas vezes a vós, Mestre Gaspar, reitor deste collegio, e também pera que possaes aos outros Padres em meu lugar cometer os mesmos cazos, e privilégios, e poderes nas ditas bulas con- teúdos, assy como eu em propria pessoa, segundo virdes ser mais serviço de Deos. Em tudo isto me remeto à vossa prudência. Francisco. J3 1
  • 25 XAVIER REGULA A SUCESSÃO DOS SUPERIORES DA COMPANHIA NA INDIA Goa, 6 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, 11, 341-342. Jhus. In nomine Domini nostri Yesu Christi. Considerando a brevidade de nosa vida e a serteza de nosa morte, temen- do-me de alguma turbação que poderia vir em eleger reitor nesta casa por falecimento de Mestre Gaspar, antes que noso Praeposito Geral proveja de reitor pera este colégio, me pareceo leixar humas regras, antes que pera a China me partise, sobre a eleisão daquele que há de ser reitor por falecimento de Mestre Gaspar; e sendo caso que Deus Noso Senhor levar desta vida presente a Mestre Gaspar antes que o noso Praeposito Geral proveja de reitor a este colégio, e aos que nestas partes estão do cabo de Boa Esperança pera quá, de sopirior e maior pera que os reya e os da Companhia lhe obedeção, me pareceo ser cousa conveniente e serviço de Deus Noso Senhor deixar pessoa determinada, que tenha carguo e seya reitor desta casa a quem todos os Padres e Yrmãos obedeção. Portanto, sendo caso que Mestre Gaspar falecer, será reitor desta casa Manoel de Moraes; e se não estiver neste colégio, manda-lo-ão chamar pera ser reitor de casa; e todos os Padres e Yrmãos lhe obedecerão, asi os do colégio como os de fora do colégio, e ata que venha ao colégio, será reitor de casa o Padre Miser Paulo; e como chegar o Padre Manoel de Moraes lhe entregará loguo o carguo; e asi o Padre Miser Paulo como todos os outros lhe darão loguo a obedientia. 13 2
  • E se o Padre Manoel de Moraes for falecido, em tal caso será reitor Mestre Melchior Nunez (1). Tudo isto entendo, sendo caso que Deus ordenar os que ieixo vivos, scilicet Mes- tre Gaspar, Manoel de Moraes, leva-los desta vida presente à gloria do paraíso, antes que o noso Praeposito Geral proveja de reitor a este colégio. E pera evitar ajuntamentos de Padres, que estão tão espalhados pola India, e pera evitar alguuns outros inco [n]- venientes que se poderiam seguir, me pareceo ser serviço de Deus leixar estas regras scritas. Portanto, em virtude de santa obedientia encomendo e mando aos Padres e Yrmãos da Companhia do nome de Jesus, que cumpram e guardem o conteúdo nesta sedula. E por ser esta minha detreminação conforme à maior gloria e serviço de Deus Noso Senhor, pera maior fee dos que virem esta sedula, asinei aqui. Escrita a 6 de Abril, era de 1552. Francisco. (1) Foi o que aconteceu. O P.e Manuel de Morais morreu antes do P.c Barzeo, cuja morte ocorreu a 18 de Outubro de 1553. O Padre Mes- tre Belchior Nunes Barreto foi, por conseguinte, reitor do colégio de Goa e superior de toda a Companhia. '33
  • 26 CARTA DE XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Goa, 7 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 346-352. Jhus. A graça e amor de Christo Noso Senhor seya sempre en nosa ayuda e favor. Amen. Charisimo Yrmão meu Mestre Simão, Este ano de 52 chegei de Yapão à India e de Cochim vos escrevi muito largo do suceso de Yapão. Aguora vos faço saber como daqui aj oito dias me parto pera a China. Vamos 3 companheiros, dous Padres e hum leiguo (l): ymos com muita esperança que Deus Noso Senhor per soo sua misericórdia se quererá servir de nós. De Malaqua vos escreverey muito largo de nosa viagem pera a China. A Yapão vão este ano dous Irmãos a estarem na cidade de Amanguchi com o Padre Cosme de Torres pera apren- derem a lingua, pera quando de lá vierem Padres, pesoa de grande confiança e de muita esperientia pera irem a Japão, que achem Yrmãos da Companhia que saibam a lin- goa pera poderem fielmente declarar as cousas de Deus, que os Padres que de lá vierem lhe dixerem que falem. Esta será huma grande ayuda pera os Padres que de lá (1) O plano de Xavier era partir para a China com os Padres Baltasar Gago e Alvaro Ferreira e levando como intérprete um aluno chinês do colégio de Goa, chamdo António China. l34
  • vierem pera quando forem às Universidades de Yapão, pera manifestar a fee de Nosso Senhor Yesu Christo. Nestas partes da India despois que chegei de Yapão achei muitas cousas de pouca edeficasão em sertos Padres e Yrmãos da Companhia, os quaes me foi forçado des- pedi-los da Companhia pera os não receberem mais; e Deus sabe quanto me pesou achar causas sobeyas pera os despedir. Os nomes dos que despedi, o portador da presente (2) vos dirá. Também vos faço saber, pera que deis graças a Nosso Senhor, que achei Padres e Yrmãos da Companhia, que tinham feito e fazião grande fruito nas almas e fazem oye em dia asi em pregar, confesar, fazer amizades e outras muitas obras pias, de que eu fiquei muito consolado. A Mestre Gaspar deixei por reitor deste colégio de Santa Fee de Goa, pessoa de quem eu muito confio, pessoa humilde, obediente, a quem Deus tem comunicado grande graça de pregar; move tanto o povo a lagrimas quando prega, que hé cousa muito pera dar graças a Deus Nosso Senhor. O Yrmão portador da presente vai lá pera fazer lem- brança das muitas necesidades que hay nestas partes, asi em Yapão como na China, abrindo-se caminho, como confio em Deus que se abrirá, e asi também nestas partes da Yndia, de Padres da Companhia, que fosem pessoas de muita espe- rientia e grande confiança; e pera muitos e grandes traba- lhos, principalmente os que hão de hir a Japão e à China, e a Urmus, Maluquu. E as pesoas que a estas partes hão de vir, pera fazerem fruito nas almas, hé necesario que tenhão duas cousas: a primeira, que tenhão muita esperientia de trabalhos, nos (2) O portador da carta era André Fernandes. '35
  • quaes, asi como foram provados, asi também ficaram muito aproveitados; a segunda, que tenhão letras, asi pera pregar, como pera confesar e respo [n] derem em Yapão e na China às muitas preguntas, que os Padres gentios lhe farão, que nunca acabão de perguntar. E os Padres que laa não fazem mingoa, quá nos são muito necesarios. À mingoa de não serem laa muito exercitados os que pera quá mandastes agora faz 3 anos, os despedi; porque como saem dese santo colégio de Coimbra com muitos fervores sem ter esperientia, andando muito tempo fora, dando grande exemplo de si e edificação no povo, acham-se quá novos, e seguem-se cousas, que andando no povo fazem, que hé necesario despedi-los. Por este respeito das calidades, que hão de ter os Padres que quá hão de vir, me pareceo ser bem yr laa o portador da presente pera fazer as diligentias segintes com voso parecer: A primeira, que fose a Roma, donde está o noso Padre Ignatio, pera que elle de llá mandase alguma pessoa de muita esperientia, que esteve com elle e o conversou, que tem esperientia das cousas da Companhia, que fose pessoa de muita confiança, pera que fose reitor deste colé- gio, a quem obedecesem os que nestas partes andão; e que esta pessoa soubese as ordenações e Constituições da Companhia e o modo de proceder dela, pera enformar e instruir aos destas partes, asi Padres como Yrmãos da Com- panhia. A segunda, pera mandar Padres que tem muita esperientia, aynda que não tenhão tantas letras, nem doom de pregar como naquelas partes se requere, que soubesem responder às perguntas, que os Padres gentios em Japão e na China lhes poderiam fazer. Seria grande bem pera o ano mandar o noso Padre Igna- tio alguma pesoa pera ser reitor desta casa, a quem todos obedecesem, e com elle juntamente alguns quatro ou cimquo Padres, que tivesem muita esperientia, ainda que não tenhão talento pera pregar, que fosem pera muitos trabalhos; e 136 »
  • estas pessoas ou por Italia, ou por Espanha, que há yá muito que acabaram seus estudos, e se exercitarão em edeficar o povo. Estas semelhantes pessoas pera estas partes são necesa- rias, porque os que saem dos estudos sem serem exercitados e bem provados no mundo, vem a estas partes [e], em lugar de aproveitar aos outros, se perdem como não tem espe- rientia. Os trabalhos, em que se hão de ver os que forem a Yapão, hão de ser muito grandes, por respecto dos grandes frios e poucos remedios de se defender deles: não há camas honde dormir, grande esterelidade de mantimentos, grandes presicusões dos Padres dos gentios e de todo povo até que sejam conhecidos, muitas ocasiões pera pequar, muito en grande maneira desprezados de todos. E o que mais hão de sentir hé, que naquelas Universidades, por estarem muito longe donde se pode levar o necesario pera dizer missa, e por carecerem deste tam grandíssimo beneficio do sacra- mento da comunhão, hão de sentir isto muito; porque em Amanguchi, onde estaa o Padre, dizem missa, mas nas Uni- versidades donde hão d'ir os Padres que de laa vierem, nam me parece que se poderá levar o necesario pera dizer missa por causa dos muitos ladrões que há no caminho; e, se os que de lá vierem pera irem a Japão não tiverem muito grande numero de virtudes pera resistir a tantos males e trabalhos, temo-me que se perderão. Avendo respeito aos grandes frios que laa vão, parece-me que, se alguns Padres framengos e alemães da Companhia, que muitos anos há que estão por Italia e outras partes yá exercitados e experimentados, que estes taes seriam bons pera Yapão e per' a China. Eu estou muito confiado que Deus Noso Senhor vos dará a sentir, Yrmão meu Mestre Simão, o que será mais gloria sua e fructo das almas en mandar pessoas pera estas partes. Sobretudo vos roguo, charisimo Yrmão meu, que mandeis pessoas provadas no '37
  • mundo, que pasaram persecusões nelle e que pela misericór- dia de Deus sairam com victoria, porque de pesoas sem esperientia de persecusões nam se pode confiar cousa grande. Olhai, charissimo Yrmão Mestre Simão, se vos parece que seria bem que El-Rei escrevese ao Pe. Ignatio sobre mandar algumas pessoas muito esperimentadas pera Japão e China, e hum reitor pera esta casa de quem o Padre Igna- tio muito confia, pois hé necesario de huma pessoa que seya pera muito, porque quá tem muitas cousas que acudir, por estar muito espalhada quá nestas partes a nossa Companhia; porque se estende à Persia, Cambaia, Malavar, no Cabo de Comorrim, Malaqua, Maluqu, alem de Maluquu na terra que se chama Moro, em Japão. Estão estas terras longe do colégio de Goa, e [para] acudir às necesidades dos Padres e Yrmãos que estão en partes tam remotas, hé necesario que a pessoa que á de vir pera reitor desta casa, seja pessoa de grande esperientia e muita confiança. O Yrmão portador da presente, que fose a Roma com cartas vosas ao Pe. Ignatio e alguma d'El-Rey, em que lhe emcomende muito isto dos Padres e reitor pera este colégio, porque Yapão e China requerem pessoas de esperientia. Eu também escrevo ao nosso Padre Ignatio sobre isto. Pa- rece-me que comodamente se poderam achar estas pessoas, sem fazerem laa muita mingoa; porque os que não tem laa talento pera pregar e ssam esperimentados, não farão tanta mingoa como se fosem pregadores. Yrmão meu, Mestre Simão, também vos faço saber, que os que quá nestas partes recebem, não me parece que podem pera mais abranger, que pera ter ofícios en casas [em] que esteyam Padres que de lá venham, ou ter-lhes companhia andando de hum cabo pera o outro. Isto diguo porque não seram pera se poderem ordenar de misa, por não poderem ter as partes necesarias pera iso, salvo se fose alguum que tivese tantas letras antes de entrar na Com- / 3 8
  • panhia, que despois se podese hordenar; e porem há muito poucos destes na Yndia. Isto diguo pera que esteis ao cabo quam necesario hé mandarem de lá Padres cad'ano, porque alguns que quá fiserão em minha ausência, prouvera a Deus que nunca os fiserão. Yrmão meu, Mestre Simão, se Deus Nosso Senhor for servido de se manifestar entre gente tam discreta e enge- nhosa, parece-me que não devireis de deixar de vir à China a comprir vosos santos deseyos; e se Deus lá me levar, eu vos escreverei mui meudamente a desposisão da terra. Tanto desejo tenho de vos ver, Yrmão meu, Mestre Simão, antes d acabar esta vida, que sempre ando cuidando como poderia comprir meus deseyos; e se na China se abrir caminho, parece-me que se hão de comprir. Por amor de Nosso Senhor vos roguo tanto quanto poso, Mestre Simão, charisimo Yrmão meu, como pera o ano venham Padres com as calidades que tenho dito, por- que muita mais necesidade hay deles do que cuydaes. Isto digo pola esperientia que de quá tenho; porque veyo clara- mente quanta mingoa fazem, por iso encomendo tanto a vinda dos Padres. Ao Padre Mestre Gaspar deixo encomendado que vos escreva muito meudamente todas as novas do fruito que nestas partes se faz. E porque de Malaqua vos ey de es [crev] er largo, nesta não diguo mais por esta, senão que desejo ver huma carta vossa muito comprida, que estivese 3 dias em a ler, da viagem que fisestes a Roma, e do que laa pasastes naquele santo ajuntamento, e das cousas que se determina- ram nelle, porque hé cousa que nesta vida mais deseyo saber, yá que por meus peccados não mereci estar presente. E porque me temo qque vosas ocupasões vos não darão lugar pera me poder [des] escrever tam largo, mu[i]ta charidade receberia que encomendaseis a algum Yrmão que '39
  • foi convosco, que me escrevese todo o suceso que laa pasou, porque com esta carta seria muito consolado. Também seria consolado, se o reitor do colégio de Coimbra me quisese escrever huma carta en nome de todos os Padres e Yrmãos desse colégio santo de Coimbra, em que me dese conta do numero dos Padres e Yrmãos de casa e das virtudes e deseyos e letras que Deus neles pôs. E porque me temo que suas ocupasões serão grandes e que não terá lugar pera iso, lhe peso e roguo por amor de Deus Nosso Senhor que dee cargo a algum Yrmão pera que me escreva muito meudamente novas dos Padres e Yrmãos, e de seus exercícios e santos desejos pera padecer por Christo, porque em alguma maneira se devem lembrar de mi, pois lembrando-me a mi seus santos desejos fui os anos pasados a Japão, e agora à China pera abrir caminho pera eles comprirem seus santos deseyos e fazerem sacri- fício de suas pesoas. Deus Nosso Senhor por sua miseri- córdia, Yrmão meu charissimo, Mestre Simão, nos ajunte na gloria do paraíso, e tanbem nesta vida presente, se for seu serviço. Escrita no colégio de Santa Fee de Goa a 7 d'Abril de 1552. O Yrmão que a presente leva, vos encomendo muito que despacheis pera Roma, de maneira que venha pera o ano muito [s] Padres, porque se na China se abrir caminho pera se manifestar a fee de Noso Senhor Yesu Christo, e a mim Deus me der vida por alguuns anos, poderá ser que de aqui a 3 ou quatro torne à India a buscar Padres e Yrmãos, pera com elles tornar acabar os dias da vida ou na China ou Japão. Francisco. 140
  • 27 PROCURADOR DO COLÉGIO DA SANTA FÉ EM GOA Goa, 12 de Abril de 1532 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 376-381. Procuração que o Padre Mestre Francisquo e Collegio de São Paulo derão ao Licenciado Manoel Alva- res Barradas, procurador do dito collegio. Saibão quantos este estromento de procuração e comissão virem, que no anno do nacimento de noso Senhor Jesu Christo de mil e quinhentos e cinquoenta e dous annos, aos doze dias do mes de Abril, nesta cidade Guoa, na rua da Carreyra dos cavalos, no colégio de São Paulo, sendo eles presentes e residentes a som de campa tangida em cabido, os muytos devotos e reverendos Padres do dito colégio juntos, a saber, o Padre Mestre Francisquo, o principal nestas partes, e ao Padre Mestre Gaspar, Reitor do dito Colégio por mandado do dito Mestre Francisquo, e o Padre Myce Paulo, e o Padre Manoel de Moraes e o Padre Antonio Vaz, e os irmãos Reymão Pereira e Pedro d Almeida, e Crystovão da Costa, e o irmão Symão da Beira: e loguo polo dito Padre Mestre Francisquo foy dito a mym ho tabalião que a dita casa e colégio tinha necesidade de hum ornem letrado pera oulhar e aministrar as cousas que comprião a bem e pro- veito dela fora da dita casa, a saber, pera ter carreguo das rendas da dita casa, e as arrendr, e busquar rendeiros pera as ditas rendas, e pera as fazer arrematar e remover quando for necessário, e faze-las pagar ao Reitor e colégio, e pera ter cuidado de demandar as terras sonegadas que pertencem ao dito colégio, e da-las de renda, e afora-las em perpetuo, 141
  • ou a tempo certo, e emfatiosym, segundo for mais proveito da dita casa, e milhor parecer ao Reitor dela, e fazer, e negocear, e demandar, e aproveitar todallas cousas que forem devidas e se deverem daquy em diante á dita casa. Pera o qual ordenou o dito Padre Mestre Francisquo, e o dito Reitor e Padres que fosse o Licenciado Manoel Alvares Barradas, morador nesta cidade de Guoa, ao quoal diserão que davão, como de feito logo derão e outorgarão, todo seu livre e comprido poder e mandado especial com lybera, e geral e particular aministração, pera que o dito Licenciado em nome do dito colégio posa fazer todo que fica dito, a saber, demandar todallas terras que pertencem e perten- cerem ao dito colégio, e sobre elas preytar com todalas pesoas que as tiverem, e as não quiserem restetuir ao dito colégio, e aver sentenças contra eles e apelar e agravar, e consentir, e na mor alçada requerer todo o que for necessário ao dito colégio, asy no caso d'apelação e agravo como todo o mais que comprir aos ditos preytos e demandas, até aver sentenças finaes enclusive. E poderá pedir restituição em integro em favor do dito colégio quoando necessário for, e poderá decrinar o foro de quoalquer juiz quoando comprir, as nas que quizer consentir, e poderá sobestabelecer quoaisquer precuradores que quizer, e por bem tiver, e o revogar quoando quizer, ficando sempre nelle todo o poder comprido; e poderá arrendar e arrematar as rendas do dito colégio aos rendeiros que o Reitor da casa ordenar que sejão rendeiros, a hum, e a muytos, e a quoantos comprir, e fazer seus contratos das arrematações, e tomar-lhes as fianças, e ordenar-lhes as pagas em tempos devidos á dita casa, e que virão pagar ao Padre Reytor, ou á pessoa que ele ordenar que recebe as ditas rendas; e poderá prender os ditos rendeiros não pagando aos tempos devidos, e remover-lhe as ditas rendas com ho parecer do dito Reytor, e quoando o dito Reytor e o dito Licenciado o ordenarem. 1 4 2
  • E poderá elle dito seu precurador arrendar as ditas terras, da-llas de foro a tempo, ou in perpetuum e emfateosym, como milhor parecer ao dito Reytor que será mais proveito da dita caso, mandar-lhe fazer suas escrituras pubriquas com todalas clausulas necesarias das suas quytações os que paga- rem o que deverem, asy em juizo como fora delle, asy pubricas como rasos e todo o mais necesario ao officio de precurador: com poder de tomar conta aos rendeiros e deve- dores da dita casa, e estar com eles á conta, fazer-lhes pagar o devido, e que o vão entregar ao recebedor do dito colégio, que o dito Reytor pera iso ordenar, como já fiqua dito. E quoando pagarem lhes dará suas quitações com poder de jurar quoaisquer lícitos juramentos, que lhe forem pedidos e ordenados, de quoalquer sorte e calidade que sejão, e poder pôr quoaisquer exceyções de sospeyções e nullidade de incompetência, e todalas outras exceyções, que em direito são ordenadas que se podem pôr, asy ás pesoas como aos juizes e poder-se-á louvar em juizes alvidros alvidradores, e poderá fazer compromiso, e todo o mais que for necesario em direito pera proveito e justiça da dita casa e utilidade dela, e todo fazer, e dizer, allegar, e requerer em juizo e fora delle, e negocear as cousas ao dito colégio necessárias, assy e tão compridamente como o fizera ele, Padre Mestre Fran- cisquo, e Padres e Irmãos, em toda parte sendo presentes, com toda sua lybera e geral adeministração, e mero e puro poder de reger e governar todo o que dito he, e ho mais que necesario for, prometendo e obrigando-se pelas rendas do dito colégio aver per bem feito, firme e valioso, tudo quoanto pelo dito seu procurador asy estabelecido for feito, dito, outor- gado pola maneira que dito he deste dia pera todo sempre: e prometerão de os relevar de todo o encargo da satisfação de todos seus bens, rendas, e fazendas do dito colégio, que pera elo obrigarão, tanto quonto em direito os podem obri- gar. E em testimunho de verdade asy o outorgarão, e man- 143
  • darão delo ser feito este estormento de procuração he comi- são, e desta nota outorgarão que desse ao dito procurador hum, e dous, e muitos treslados, quoantos cumprirem pera por eles requerer o direito deles constituintes e colégio, e asynarão na nota com as testemunhas; e bem assy diserão mais eles constetuintes que yso mesmo dão seu poder ao dito seu procurador pera que posa vesitar as terras perten- centes ao dito colégio, e as fazer reparar e concertar, e pera poder fazer o tombo das ditas terras, que ao dito colégio pertencem, e em tudo fazer o que cumprir, e requerer os pagamentos, como dito he. Testemunhas que presentes estavão: Lyonardo Nunes, escrivão do Provedor-mor, e João Diaz, morador a São Paulo, e outros. E au André de Moura, dito tabelião que isto escrevi nas minhas notas, que em meu poder são, onde as partes e teste- munhas asynarão, e delas o mandey tresladar per licença que pera ello tenho, e o concertey, e sobescrevy, e asyney de meu prubriquo synal, que tal he. 144
  • 28 RECOMENDAÇÕES DE XAVIER AO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO, REITOR DO COLÉGIO DE S. PAULO Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 382-383. Jhus Mestre Gaspar, O que fareis em virtude de obedientia hé o seguinte. Primeiramente, se Antonio Gomez por todo este ano em que estamos sair de Dio pera yr a outra parte, por qual- quer caso que seya, abrireis esa sedula e o que nela se contem, mandando-lhe o treslado dela, e o original ficará em voso poder. Também lhe escrevereis conforme ao con- teúdo na sedula. Despois que as naos forem ydas ao Reino, aynda que Antonio Gomez nam aya feito nenhuma mudança de sair de Dio, abrireis a sedula e lhe mandareis o treslado. O ori- ginal mostrareis ao Senhor Bispo: e com a fee do Senhor Bispo irá o treslado: e pedireis muito ao Senhor Bispo que lhe escreva e lhe mande, como a seu súdito, em virtude de obedientia o que há de fazer. O milhor seria, segundo meu parecer, que o leixase estar em Dyo. Se André Carvalho não for este ano ao Reino, des- pedi-lo-eis da Companhia. Não consintaes em nenhuma maneyra, porque eu asi o defendo, que nam tome ordens, nem de evangelho nem de misa na Yndia, aynda que o Senhor Bispo for este ano a Cochim. E se André Carvalho vier a Goa, contra aquilo que lhe tenho mandado, não o *45 Doe. Padroado, v -10
  • recolhereis no colégio, mas antes eu o despido da Com- panhia, se elle cá vier este ano. E vós, pois esta hé minha entenção, o despedireis da Companhia: e ao Senhor Bispo direis de minha parte, que lhe peço muito por mercê, que lhe não dee ordens de evangelho nem de misa. Francisco. 146
  • 29 CARTA DE XAVIER AO PADRE AFONSO CIPRIANO, MISSIONÁRIO EM S. TOME Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 388-391. Bem mal compristes os apontamentos que vos dey do que avieis de fazer em Sancto Thomé. Claramente se mostra que pouquo vos ficou da conversação do nosso bemaventu- rado P. Ignatio. Muyto mal me paresce andardes com capi- tolos hem demandas com o vigário (1). Sempre usais de vosa condição forte: todo o que fazeis por huma parte, por outra o desmanchays. Sabei certo que estou descontente das desavenças que lá tendes: se o vigairo faz o que não deve, por vosas reprehensões nam se há de emmendar, principal- mente quoando se fazem com pouqua prudência, como vós as fazeis. Estais já tam acostumado a fazer vosa vontade, que, donde quer que estais, com vosas maneiras escandalizais a todos, e dais a entender aos outros que hé condição vosa serdes asi forte. Praza a Deus que destas imprudentias algum dia façais penitencia. Por amor de Nosso Senhor vos rogo que forceis vosa vontade, e que no porvir emmendeis o pasado, porque não hé condição ser agastado, senão descuido grande que tendes de Deus, e de vosa co [n] scientia, e do amor dos proximos. E sabei certo que à hora da morte achareis certo ser verdade isto que vos digo. Ro [go] -vos muito em nome do nosso bemaventurado Padre Ignatio, que estes pouquos dias que (1) Era o P.e Gaspar Coelho. 1 47
  • vos ficão os emmendeis muyto em ser sofrido, manço, paciente e humilde. E sabei certo que por humildade todo se acaba. Se não podeis fazer tanto quoanto desejais, fazei o que boamente podeis: por força nenhuma cousa se acaba nestas partes da India, e deixa-sse de fazer o bem que se faria por humildade, quoando por brados e impacientias quereis fazer as cousas. O bem que sem scandalo se pode fazer, ainda que não seja mais que tanto , fazê-o, ainda que cuideis que por outra via com desavenças e escândalos se pode fazer tanto (2). Bem sey que nenhuma destas cousas aproveitará, porem não deixo de saber que à hora da vosa morte vos á de pesar. Gonçalo Fernandez (3) paresce-me que também hé da vosa condição, mal sofrido e pouquo paciente, e com acha- que do serviço de Deus Nosso Senhpr encobrir vosas impa- cientias, dizendo que vos movem a fazer o que fazeis, o zelo de Deus e das almas. O que com humildade não aca- bardes com o vigairo, não aveis d'acabar com desavenças. Polo amor e obedientia que terieis ao P. Ignatio, vos rogo que, vista esta carta, vades ao vigairo, e ponhais ambos de giolhos em terra, e lhe peçais perdão de todo o pasado, e lhe beijeis a mão; e mais consolado seria se lhe beijaseis os pés, e lhe prometeseis que o tempo que lá aveis de estar, em nenhuma cousa lhe saireis da vontade. E crede-me que à hora da vosa morte aveis de folgar de ter feito isto: e confiay em Deus Nosso Senhor e não duvideis, se não quoando Deus vir vosa humildade e à gente for mani- (2) Xavier traçou duas linhas, uma menor e outra maior, para exem- plificar o que dizia. (}) Era um dos irmãos admitidos em Goa pelo P.e António Gomes. I 48
  • festa, que todo o que pedirdes pera o serviço de Deus e da salvação das almas vos será outorgado. Vós e outros nisto claramente errais; que sem terdes muita humildade e dar grandes sinais delia às gentes com que conversais, quereis que o povo faça o que pedis como a Irmãos da Companhia; e não vos lembrais nem fazeis funda- mento nas virtudes do nosso P. Ignatio, polas quoais Deus lhe deu tanta authoridade com o povo. Asi que, quereis usar da autoridade do povo, e esquecer-vos das virtudes que são necessárias pera que o povo vos obedeça o que dezeis. Bem sey certo que, se presentes estevesemos, que me diríeis que não tendes culpas no que tendes feito, senão que por amor de Deus e da salvação das almas o fazeis. Sabey certo, e não duvideis, que nenhuma desculpa vos receberia, e com nenhuma cousa tanto me desconsolaríeis como com justificar-vos; e asi também confesso que com nenhuma cousa tanto me consolaríeis que com acusar-vos. Sobretudo vos rogo que com o vigairo, Padres, capi- tães e pessoas que tem mando na terra, não tenhais desa- venças manifestas, ainda que vejais cousas mal feitas: aquelas que boamente poderdes remedear, remedeay; e não ponhais em p [e] rigo de perder tudo com desavenças, o que boamente podirieis com humildade e mansidão aca- ba [r], O Cypryano (4), sy supyéssedes el amor con que os escrebo estas cossas, de dia y de noche os lembraríeys de mí, e por ventura lloraryeis en lembra [r] vos do amor grande que hos tengo; y sy los coraçones de los hombres se pudiessen ver en esta vyda, cred, Hermano myo Cypryano, que os beryais claramente em mi ánima. Todo vuestro, syn nunca poderme olbydar de vos. Francisco. (4) Daqui até ao fim: autógrafo de Xavier. *49
  • 30 PRIMEIRA INSTRUÇÃO DE XAVIER AO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisco Xaverii, II, 393-399. Quanto às rendas do collegio e da caza fareis o seguinte. Primeiramente, os alvarás e mercês que El-Rey nosso senhor tem dado a esta caza, acerca das rendas dos pagodes, como de outras mercês que tem feito, como consta pelos alvarás de S. A., confirmados pelos gouvernadores passa- dos, todos estes papeis o [s] recolhereis e tereis em vosso poder. Com o procurador da caza e com Cosmes Annes, que está ò cabo destas couzas todas, praticareis o que cumpre ao bem e proveito da caza; que acerca das rendas dos pagodez, que há muitas sobnegadas, que o que se deve de fazer seria bem tirar carta de excommunhão, para que os que tem sobnegados os bens desta caza, e os possuem com má cons- ciência, que satisfação e cumprão com suas almas, dando a cada hum o que hé seu. Estas couzas, de que se podem escandalizar, serão feitas por parte do procurador desta caza, como hé, se for neces- sário, prender os rendeiros porque não pagão, ou outras couzas semelhantes de que o povo se pode escandalizar. Todo o dinheiro tereis em vosso poder e por vossas mãos será destribuhido nas necessidades de caza, assim dos Irmãos como dos mossos da terra, acodindo às necessidades dos Irmãos que estão fora do collegio, pois à mingoa de não '5°
  • serem ajudados padecem muitas necessidades; e as almas de muitos padecem detrimento, por respeito de não haver Padres, à mingoa de não terem o necessário. Portanto encommendo-vos muito que tenhais grandíssimo cuidado de acodir primeiro às necessidades do collegio, e depois às necessidades dos Padres e Irmãos que andão fora; os quaes, à mingoa de não terem o necessário, deixão de fazer fruito nas almas, como do Cabo de Comorim, e do Moro, alem de Maluco, e os de Japam. Os que vivem nas fortalezas donde há portuguezes, à mingoa de não terem o necessário para sustentar a vida, não deixarão de fazer fruito nas almas. Sobretudo vos emcommendo que as dividas de caza se paguem; porque hé cargo da consciência ter o alheyo quando homem o pode pagar, e grande escândalo no povo não pagar homem o que deve. Por isso vos torno outra vez a emcommendar que tenhais grande cuidado de pagar as dividas. Deixai de fazer edifícios, porque abastão os feitos, athé que se paguem as dividas, e depois de pagar podereis hir acabando os edificios. Tende muito mais cuidado dos edi- fícios spirituaes da caza que dos materiaes. Olhai muito polo spiritual dos Irmãos e dos meninos da terra. Os edificios materiais que não se podem escuzar, como fechar-se as paredes, assim como da horta, e de outras par- tes da caza, donde se podem seguir escândalos, a isto hé necessário acodir. Porquanto me temo que de muitos sereis importunado a que façais esmollas das rendas de caza, ou que alargueis alguma couza aos que tem as rendas de caza, allegando algumas cauzas, dizendo que são pobres, outras muitas pessoas que vos hirão em confissoens, como fora delias, a contar suas necessidades temporaes, mais que as espirituaes, para evitar todas estas couzas, vos mando em virtude da *5'
  • santa obediência, que a todos estes que vos vierem com estes petitorios, lhes digais quam individada está esta caza, e as necessidades que passam os Irmãos e os da terra, e as muitas obras que estão por fazer, e as muitas necessidades que padecem os Padres que estão fora de caza; que sois obri- gado acodir [a] estas necessidades e às outras que são fora de caza, contando as necessidades do hospital e as outras couzas; e mais, que por obediência vos hé mandado que as rendas da caza não se destribuão senão pera estas necessi- dades, porque para isto ainda não abrangem. E olhai que cumprais esta lembrança, e guardai-vos de pessoas que vem mais a manifestar suas necessidades corporaes que espiri- tuaes. Com estes tende muito pouca pratica, porque os que vem com estes petitorios não se aproveitão no spirito assim mesmos, e a vós he grande impedimento para o fruito das almas. Há muitos cazados portuguezes que pedem terras do collegio em fatiota. Porque em dar as terras desta maneira, a caza pode padecer detrimento, olhai como se dão estas terras. Aconselhai-vos primeiro com o procurador e com os que são amigos desta caza, como a caza não perca o que há seu. Olhai com muita deligencia e imformai-vos das dividas que se devem a esta caza, tomando conta polo procurador aos rendeiros passados e ao [s] prezente [s], e o que El-Rey deve à caza; e em hum livro àparte assentareis o que a esta caza se deve; e nisto tereis grande cuidado para saber o que à caza se deve. Com muito mayor deligencia sabereis o que esta caza deve aos outros, e tereis muito grande cuidado de pagar as dividas; e quando fordes importuno a cobrar as rendas da caza, direis a todos que fazeis para pagar o que a caza deve, e para sostentar os que estão nella, e os Irmãos que estão fora, edifícios de caza e hospital, e outras necessi- ta
  • dades. Olhai que vos torno a lembrar, que tenhais muito grande cuidado de pagar as dividas. As couzas que por expir [i] encia alcançardes ser pro- veito da caza com deligencia as fareis; e olhai como vos fiais em pessoas, porque não se acha fiel dispensador. De quem vos confiardes, trabalhai que seja vosso filho espi- ritual, ou de algum Padre de caza, e que se confesse a meudo, ao menos cada mez, tomando o Senhor. Quando em Septembro escreverdes a Mallaca, para Francisco Perez de lá me manda [r] a China as cartas, escrever-me-eis largo acerca das dividas que deve esta caza, e [°] clue Ia} esta casa x deve> e t°das as couzas S116 tocão a esta caza me escrevereis. Seja huma carta mui com- prida, donde me escrevais as novas do Reyno, e dos Irmãos, e do fruito que fazeis, e do fruito que se faz nesta cidade nas couzas do espirito, e do que socedeo acerca da paz e da guerra, e dos Padres e Irmãos que estão fora de caza. A carta que me escreverdes seja de boa letra e legivel. Na arrecadação da caza fazei como [a] arrende algum homem abastado, rico e honrado mercador desta cidade, e não homem pobre, para evitar demandas. Cumprai hum par de mainatos, que tenhão cargo de lavar a roupa. Isto logo, se vos parecer que será mais barato comprando mainatos, que não dando a roupa a lavar aos mainatos de fora. Também tomai algum Irmão hortellão; porque da maneira que agora vai, parece que se faz muito gasto, assim com os negros como com o hortellão, fazendo hum Irmão hortellão e comprando dous escravos. Olhai muito polo proveito desta caza, aconselhando-vos sempre com as pessoas devotas e amigas do proveito da caza. A Alvaro Afonso alargarão quinhentos pardaos. Fazei como pague os outros quinhentos que fica devendo. Não façais larguezas do que não hé vosso. Lembre-vos mais as necessidades dos Padres e Irmãos que estão fora desta caza: '53
  • lembre-vos que em Japam e Maluco e no Cabo de Comorim padecem muitas necessidades. Lembre-vos de mandar sempre o Pe. Augostinho (l) a Chorão òs domingos e festas, e por isso lhe pagareis algum premio. Não esteja em Chorão nenhum Irmão da caza; e o que está, mandai vir. Mandareis ao Pe. Manoel de Morais que pregue alguns domingos e festas na Sé, dizendo-lhe alguns dias primeiro como há de pregar na Sé. E se vos parecer bem pregardes vós huma semana e Manoel de Morais outra, vede como será melhor. Lembre-vos o que vos emcommendei acerca de Balthezar Nunez, que o cumprais assim como vos disse. E porque não vos descuideis, vos mando em virtude da obediência que assim o façais, dando-lhe os Exercícios, exercitando-o em os officios humildes dentro em caza, e não fora. Os japoens (2) vos emcommendo muito, assim com olhar por elles, como em avia-llos para Portugal. Se vos a vós parecer que fizessem por alguns dias os Exercícios alguns destes Irmãos, [fazei-o] para que os conhe- çais interiormente, e os que forem para a Companhia, aga- zalha-los, e os que não forem para isso, despedi-llos. E olhai que nunca tomeis pessoas, sem que não tenhão talento para a Companhia, ainda que sejais importunado de muitos. Lembrai-vos da caza de Chorão, e como o Pe. Augos- tinho vá sempre lá òs domingos e festas. O que por vós não puderdes fazer, emcommenda-llo heis a pessoas que vos pareça que o farão, porque vós a todalas couzas não podeis acodir. A Francisco Lopez, quando aqui vier, fará os Exercicios, confessa-llo heis geralmente. Fazei servi-llo na cozinha ou (1) Era um sacerdote indígena. (2) Dois moços japoneses chamados Bernardo e Francisco. 1 54
  • em officios baixos. A Matheus [dareis] os 36 pardaos que emprestou em Japão, quando elle os pedir. A Alvaro Afonso [direis] que despois de Pascoa pague o que deve. Francisco. Os Padres e Irmãos não mandarão cartas para El-Rey, nem menos para o Reyno, sem primeiro as mandarem cá abertas a este collegio, para de cá as mandarem no maço das cartas para o Reyno nas cartas que vão para o Padre Mestre Simão [ou] pera o reytor [de Sant'Antão em Lisboa]. Francisco. '55
  • 31 SEGUNDA INSTRUÇÃO DE XAVIER AO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 401-403. Apontamentos pêra o Pe. M. Gaspar, reytor do collegio de Goa. Primeiramente lembrai-vos de vós mesmo, pois, como sabeis, diz a Escriptura: Quem para sy não for bom, como o será para os outros (l). Segundariamente com os Padres e Irmãos vos havey com muito amor, caridade e modéstia, e não com aspereza e rigor, senão se elles uzassem mal de vossa benignidade; porque então pera seu proveito é bom mostrardes-lhes alguma seve- ridade, em especial se sentirdes nelles alguma maneira de opinião e soberba: porque, assim como hé bem aos que errão por ignorância e descuido perdoar-lhes mais facil- mente, assim he necessário aos que procedem por via de opinião e soberba, reprimi-llos e humilha-llos com mais cui- dado e deligencia, e de nenhuma maneira devem sentir que a essa conta se lhes passa por seus erros, e deffeitos; porque sabei certo, e não duvideis, que huma das couzas que muito perjudica e deita a perder os súbditos imperfeitos e soberbos, é sentirem seus superiores floxos, remixos ou temerozos em reprimir e castigar suas couzas, porque dahi tomão occazião para crescerem mais em sua opinião e soberba. (1) Cf. Eccli., 14-5. *$*
  • Não vos fundeis em receber muita gente na Companhia, mas pouca e boa porque de tal tem [a] Companhia neces- sidade; pois vemos que mais valem e fazem poucos e bons, que muitos que o não são. Não recebais nunca na Companhia pessoas de poucas partes, fracos e pera pouco, pois a Companhia não tem destes necessidade, mas de pessoas de animo para muito e de muitas partes. Os que receberdes, exercitai-os sempre mais na verda- deira abnegação e mortificação interior de suas paixoens, que no exterior de novidades; e, se para ajuda da mortifi- cação interior derdes algumas mortificaçoens exteriores, serão couzas que edifiquem, como servir no hospital, pedir para os pobres, e semelhantes, e não couza [s] que cauzem rijo e zombaria nos outros e vangloria e vaidade nelles mesmos. Ajuda às vezes muito dizerem em publico diante dos Irmãos seus deffeitos, quaes forão no mundo, e os officios e occupaçoens que nelle tiverão, que os humilhem e con- servem na humildade; mas isto de mortificaçoens serão segundo os subjectos, dispozição e virtude que nelles sen- tirdes, porque quando esta não há, em vez de aproveitar dana. Nunca ordeneis na Companhia pessoas sem sciencias e virtudes aprovadas de muitos annos, pois tanta necessidade tem disso os sacerdotes da Companhia por rezão de seus institutos e ministérios, e tantos inconvenientes se tem visto do contrario. Anteponde sempre a obrigação do vosso cargo e dos que por elle tendes ao proveito do [s] de fora, pois aos nossos somos primeiramente obrigados e delles nos há Nosso Se- nhor de pedir conta. E sabei certo, assim como aquelle anda errado, que por aprazer aos homens olha ao exterior que lhe agrada e se esquece do interior, de Deos e de sua '57
  • consciência, assim anda também errado e fora do caminho o que, tendo cuidado de outros, olha mais o que convém aos de fora, qque aos de caza e às obrigaçoens do seu officio. Por onde continuais com estes primeiro, e depois com os de fora quanto em o Senhor os puderdes ajudar. O modo de os ajudar, quanto for mais universal, será melhor, como o pregar, doutrinar, confessar, etc. No qual deveis sempre atentar muito às pessoas que vos conversão, porque alguas vem às vezes pelo temporal mais que pelo spiritual, e se chegao aos sacramentos e confissão mais por confessar e descobrir suas necessidades corporaes que as espirituaes, sentindo mais falta corporal que spiritual; e assim estes comummente se não aproveitão, os quaes deveis de emcaminhar e dirigir logo. Não sintais muito que os que não vem com boas inten- çoens não sintão nem digam bem de vós, nem emxergue [m] nunca os do mundo que os arreceais quando vós fazeis o que deveis e elles não; porque sabei que o temor do mundo nesta parte hé participar nalguma couza delle, e ter-lhe mais respeito que o de Deos. 158
  • 32 TERCEIRA INSTRUÇÃO DE XAVIER AO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, 11, 401-409. Em os pontos seguintes me ocuparei cada dia huma ora ou mea, e no tempo mais apto e conveniente (1) Primeiramente buscar muita humildade acerca do pre- gar, atribuindo primeiramente tudo a Deus muito perfeita- mente. Segundariamente terei diante dos meus olhos o povo, olhando como Deus deu devação ao povo pera ouvir sua palavra, e por este respeito da devação do povo me deu graça pera pregar, e ao povo devação para me ouvir. Trabalhar de muito amar ao povo, olhando a obrigação que lhe devo, pois Deus por sua intercessão me deu graça pera pregar. Também considerarai como me veio este bem polas oraçoens e méritos dos da Companhia, os quaes com muita charidade e amor e humildade pedem a Deus graças e doens pera os da Companhia, e isto pera maior gloria de Deus e salvação das almas. Cuidar continuadamente como me tenho muito de humi- lhar, pois o que prego não hé nada meu, senão liberalmente dado por Deus, e com amor e temor usar desta graça como (1) Estas palavras pertencem ao P.e Barzeo; parte da instrução de S. Francisco Xavier foi transposta por ele mesmo para a primeira pessoa, como sendo assunto de meditação. '59
  • quem há de dar estreita conta a Deus Nosso Senhor, guar- dando-me de atribuir nada a mim, senão forem muitas cul- pas e pecados e soberbas e negligencias e emgratidoens, assi contra Deus como contra o povo e os da Companhia, por cujo respeito me deu Deus esta graça. Pedir a Deus com muita efficacia que me dê a sentir dentro em minha alma os empedimentos que de minha parte ponho, por respeito dos quaes leixa de me fazer maiores mercês e servir-sse de mim em cousas grandes. Humilhando-me muito interiormente a Deus, que vê os corações dos homens, guardando-me muito em grande ma- neira de dar escândalo ao povo, nem em pregar, nem em praticar, nem em obrar, humilhando-me muito ao povo; pois, como acima disse, tanto lhe deveis. O que sobretodo aveis de fazer, meditando nestes pontos assima ditos, hé notar muito grandemente as cousas que Deus Nosso Senhor vos dá a sintir dentro na vossa alma, escre- vendo-as nalgum livrinho, emprimindo-as em vossa alma, porque nisto está o fruito; e, do que Deus Nosso Senhor vos communicar, en elles meditareis, e delles nascerão outros de muito fruto. E meditando sobre o que Deus vos communica, irão cre [s] cendo por soo a misericórdia de Deus, e vós vos ireis muito aproveitando se perseverardes neste santo exercício de humildade e conhecimento interior de vossas culpas, porque aqui está todo o fruito. Por amor de Deus Nosso Senhor e pollo muito que deveis a nosso Padre Inácio e a toda a Companhia do nome de Jesu, vos rogo huma e outra e mais vezes, tanto quanto posso, que vos exerciteis continuadamente nestes exercícios de humil- dade, porque, se o contrairo fizerdes, temo-me que vos per- dereis, como tereis experiência que muitos se perderão à mingoa de humildade: guardai-vos que não sejais vós delles. Não vos esqueça nenhum tempo de cuidar como há muitos pregadores no inferno que tiverão mais graça de i 6o
  • pregar que não vós, e que em suas pregaçoens fizerão mais fruito do que vós fazeis; e mais, que forão instromento pera que muitos deixassem de pecar, e o que mais he pera espantar, que forão causa instromental pera que muitos fossem à gloria, e elles, os tristes, forão ao inferno, atri- buindo a si o que era de Deus, lançando mão do mundo, folgando de ser louvado delle, crescendo em huma vã opinião e grande soberba, por donde se perderão. Portanto cada hum olhe por isso, porque, se bem olharmos, não temos de que nos gloriar, se não for de nossas maldades, que estas soo são nossas obras: porque as boas obras Deus as faz pera mostrar sua bondade pera nossa comfusão, vendo que por instromentos tão vis se quer manifestar aos outros. Avisai-vos de não desprezar aos Irmãos da Companhia, parecendo-vos que vós fazeis mais que elles, que elles não fazem nada; tende pera vós por mui certo que, por respeito dos Irmãos que servem em officios baixos e humildes, por seus méritos, Deus vos faz mais mercês e dá-vos graça pera bem obrar; de maneira que soes mais obrigado a elles do que elles são a vós. Este conhecimento interior vos apro- veitará para nunca os desprezar, mas antes os amar e pera vos sempre humilhar. [Francisco] i 6 i Doe. Padroado, v -11
  • 33 QUARTA INSTRUÇÃO DE XAVIER AO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 414-428. Estas são as lembranças que aveis de fazer em minha auzencia. Primeiramente, sobretudo olhay por vós, humilhando-vos inteiramente tudo interiormente tudo quanto em vós for, regendo-vos polias regras de humildade que vos dey, tirando fruito delias; e vossas meditações boa parte delias seja em meditar e imprimir em vossa alma os pontos que vos deu Deus a sentir, e dará por sua mysericordia, meditando em os pontos que vos dey. Com os Padres, assy com os que estão no collegio como fora delle, vos avereis com muita modéstia e não com rigor, salvo se elles uzarem mal de vossa modéstia e humildade; então pera bem delles somente, e não por outra via de domínio, uzareis de vosso cargo com algum castigo pera emenda delles e exemplos nos Irmãos. Todas as desobediências, assy por parte dos Padres como dos Irmãos será com algum castigo e penitencia, e tereis esta maneira assy com os Padres como com os Irmãos. Com as pessoas que sentis que são convosco por via de openião vãa ou soberba, ou desprezos de obediência, com estes taes aver-vos-eis mais por via de severidade, que por via de afabilidade, com alguma penitencia. E olhay que estes taes não sintão em vós que levemente passais por suas desobediências, porque nenhuma cousa deita tanto a i 6 2
  • longe aos inferiores rebeldes, como verem seus superiores [frouxos ou] temorozos em dar castigo aos que desacatão ou desobedecem, porque dahy tomão mayor occazião de crecer e perseverar em mayores openiões. E olhay que cum- prais isto assy como digo; não tenhais conta com o que dirão de vós, senão como comprir o que deveis. Com aquellas pessoas, assy Padres como Irmãos, que não cumprem a obediência, ou por descuido ou por esqueci- mento, de maneira que não hé por desprezo, com estes vos avereis mais benignamente com as reprehenções, reprehen- dendo-os com hum rosto alegre, com alguma penitencia leve. Com os Irmãos leigos que tocão de openião, fazendo-se em sy mais do que são, po-llos-eis em officios baixos e humildes, mostrando-lhes o rosto muito severo e grave; e em tempo que se humilhão, mostrai-vos conforme aos seus geitos e conhecimentos exteriores, dando-lhes a todos a sentir pera sua humilhação, que vejão elles se tem necessi- dade da Companhia, porque a Companhia, dos que se tem em openião, não tem necessidade. Guardai-vos de nunca receber pessoas de pouca abili- dade, juizo e rezão, pessoas fracas e pera pouco, ou que por necessidade temporal se metem mais que por devação. Aos que receberdes, vós ou o Pe. Moraes, vós dareis ao Exercícios e não outro Irmão, e tereis muita vigia sobre elles; e, acabados os Exercícios, mettereis em officios baixos e humildes, como servindo em os hospitaes ou officios de caza. E o tempo que tomarem os Exercícios, tomar-lhe-eis a conta muy estreita da diligencia que poem em fazer as medi- tações; se em as fazer forem negligentes, os podereis des- pedir ou deixar-lhos de dar por algum par de dias os Exercícios pera dar-lhes a sentir mais seus descuidos, è o tempo que lhes fica pera acabar os outros Exercícios o empreguem milhor. i63
  • Em o fazer dos votos tereis esta maneira: que nunca lhes permitaes que fação voto nenhum sem dar-vos parte primeiro; assy, antes que entrem nos Exercícios lhes direis isto, que se guardem de fazer nenhum voto sem vos dar parte primeiro. Os votos serão desta maneira: que os da pobreza, obediência e castidade não os [o] brigão senão o tempo que estiverem na Companhia; e se por seus pecca- dos os despedirem o reitor ou pessoa debaixo de cuja obe- diência estão, os votos não obrigarão. E quando fizerem estes votos, seja em vossa prezença, dando-lhes vós por escrito a ordem e maneira como os hão de fazer: tomarão o Sancto Sacramento e, antes que o tome [m], farão os votos da maneira que assima disse. Porque nestas partes da índia não há tantos mosteiros pêra que possão ser recebi- dos os que a Companhia despede, por isso será bem nestas partes não ficarem obrigados os que a Companhia despede pera entrarem na religião; por isso disse que os que o reitor despede não fiquem obrigados aos votos que fizerem. Escrevereis a todas as partes donde os Irmãos da Com- panhia estão, que nenhum possa receber a outro pera a Companhia sem primeiro dar-vos parte disso, escrevendo-vos as qualidades que tem pera serem da Companhia; e com vossa reposta e parecer lhe poderão dar esperança a serem da Companhia, ou escrevendo que venhão ao collegio, ou que lhe lá dem os Exercícios, ainda que milhor seria, se commodamente se podesse, vi-los tomar ao collegio; e nisto fareis o que vos bem parecer e que será mais serviço de Deos. A todalas partes adonde há Irmãos da Companhia, que tem cargo doutros ô que estão fazendo fruito, escrevereis que todos os annos tenhão especial cuidado de escrever a N. B. Pe. Ignacio o fruito que Deos por elles faz nas partes donde estão, muito meudamente; e que olhem bem que nunca escrevão cousas de que se possão desedificar os que 164
  • virem as cartas, e que não escrevao senão do fruito que se faz ou se espera de fazer. E também que cada hum de todos os que estão espalhados, que tem cargo de outros, que escreva outra carta geral pera todos os Padres que estão em Europa, fazendo-lhes saber o fruito que fazem nas partes donde estão; e sejão as cartas bem notadas, e que não vão nellas cousas de escândalo, nem dizer mal de ninguém. Os sobreescritos das cartas que escreverem dirão: Pera os Padres e Irmãos de Coimbra, e a todos os outros Padres da Companhia de Jesus que estam em Roma e Europa. Escrevereis vós ao reitor de Coimbra o fruito que cá Deos faz polios que estão nesta caza muito meudamente, e que seja de muita edificação; e olhay como escreveis, por- que de muitos há de ser vista e julgada. E assy mesmo, o que escreveis ao Pe. Ignacio seja escrita com muita edifica- ção. Ao N. bemaventurado Pe. Ignacio escrever-lheis quanto serviço a Deos Nosso Senhor se faria, e fruito nas almas, se mandasse à Companhia que está nas partes da índia alguas graças espirituaes, como indulgências plenárias, pera que as pudessem ganhar todos aquelles que se confessassem e commungassem. E isto por alguns tempos do anno, porque num tempo, à mingoa de confessores, não sey se todos se poderão confessar; e que estas indulgências viessem por alguma bulia autentica com seus celos pendentes, por- que cá não mingoa já quem ponha duvidas a estas indul- gências, quando não vem a bulla com seus cellos pendentes; e mais, que estas graças venhão pera todos os fieis christãos que estão do Cabo de Boa Esperança pera quá. Encarecereis muito na carta o fruito que se fez com o jubileo que man- dou o N. Pe. Ignacio, e quanto mayor se fará se mandarem estas indulgências que durão por muitos annos. Muito enca- recidamente escrevereis ao Pe. Ignacio sobre estas indul- l65
  • gencias: por minha parte também assy o fareis, pois tão evidente fruito se segue destas indulgências. Isto mesmo escrevereis ao Pe. Mestre Simão ou ao reitor do collegio de Coimbra sobre estas indulgências, pera que fallem a El-Rey do muito fruito que se fará nas almas nestas partes, se escrever El-Rey ao Nosso Padre Ignacio sobre o despacho destas indulgências, pera que a bulia viesse orde- nada a este collegio de Goa: porque também estas indul- gências ajudarão muito aos Padres de nossa Companhia nestas partes pera que o povo lhes tenha mais devação, vendo as graças espirituaes que por seus meios lhe vem. Guardai-vos de nunca receber pessoas pera a Companhia que sejão de pouca idade, nem outros que o Pe. Ignacio defende que se não recebão, como são os que vem da linhagem hebreorum; e olhay que não recebais pessoas que não tenhão muitas partes e habilidade pera nossa Com- panhia, principalmente quando carecem de letras, e isto assy vos mando que façais. Não recebais senão poucos, aquelles que forem necessá- rios pera os officios de caza, e alguns outros que tiverem muy boas partes pera suprir às necessidades dos que podem adoecer, e mandar pera as partes do Cabo de Comorim. Sobretudo vos encomendo que recebais poucos, e estes que tenhão boas partes e que sejão habiles. Avisar-vos-eis que nunca façais nenhum destes sacer- dote, pois que tanto o deffende N. Pe. Ignacio, sem ter letras sufficientes e vida de muitos annos approvada. Olhay quantos escandolos se seguirão dos imperfeitos e sem letras que se fizerão sacerdotes. Por isso avisai-vos que não façais sacerdotes sem que tenhão letras sufficientes e a vida muy approvada; não vos enganem devações aparentes de nin- guém, porque, por derradeiro, cada hum dá sinal de quem hé. Olhay mais o interior das pessoas que o exterior que mostrão. Não façais muito fundamento em gemidos e sospi- i 66
  • ros que são couzas exteriores; enformai-vos destes da inte- rior abnegação de sy mesmos. Regei-vos mais pola victoria que contra os desordenados afíeitos tem as pessoas, mais que polias lagrimas exteriores; olhay mais à mortificação interior que à exterior, e desta maneira andareis sobre o certo. Sobre os Irmãos e Padres da caza, e meninos, assy orfãos como da terra, sobre o espiritual e o que toca ao governo da caza e às necessidades delia, sobre isso tereis principal cuidado e vigia; e sobretudo olhareis por isto, antes que polias cousas de fora de caza, e, comprindo com os de caza, depois trabalhareis com os de fora. Isto e o que vos mando e muito encomendo, assy da parte de Deos como da parte do N. Pe. Ignacio e da minha quanto posso, porque, sey quanto releva isto. E sabei certo que, assy como hum homem anda de todo errado, que olha ao exte- rior por prazer aos homens, esquecendo-lhe o interior, de Deos e de sy mesmo, assy também os que tem cargos de caza, que olhão pollo de fora, não comprindo com os que tem a cargo, andão errados fora de todo caminho; por isso todos os dias vos lembrará este capitulo. E porque vós a todalas cousas vós por vós mesmo não podeis acudir, encomendareis as pessoas que são pera isso, que tenhão cargo de fazer e olhar as cousas que lhes encomendais; e vós tereis vigia muito grande sobre elles, tomando-lhes conta do que fazem, olhando se cumprem com o que lhes vós encomendais, emendando-os de suas faltas, de maneira que sereis superintendente. Nisto de superintendência não descuideis, porque aquy vay tudo, e se enserra todo o bem, e do descuido disto se segue todo o mal; por isto vos encomendo muito esta superintendência. Comprindo com o que homem hé obrigado, tereis cargo de olhar polo bem universal, como são pregações, pois delias se segue tanto fruito. Não faltando com o de caza, olhareis 167
  • muito polias pregações, e, comprindo com as pregações, depois com as confissões e amizades e outras obras pias. Tereis grande avizo em saber novas dos Irmãos, e do fruito que fazem e das necessidades que tem, dando ordem como lhes escrevais a-miudo; eles polo comseguinte farão o mesmo. E isto de escreverdes e de receberdes as cartas, fareis com muita diligencia como isto se cumpra. Enfor- mar-vos-eis dos que vierem das partes donde estão Irmãos nossos do fruito que fazem e do que o povo diz delles. Escrever-m'eis a Malaca muito particularmente novas desse collegio, e de todas as outras partes onde há Irmãos, o fruito que fazem. E seja a carta que vós me escreverdes muito comprida, em que me façais saber muitas cousas, assy das novas do estado da índia, como do fruito que os outros religiosos fazem à gloria de Deos e fruito das almas. [Escrever-me-eis] novas de Portugal, assy dos Irmãos de Coimbra como de Roma, e de todalas partes de Europa donde há Irmãos. As cartas que pera mym vierem, se vierem mais que por huma via, mandareis huma das vias a Malaca a Francisco Peres: entendo de todas as cartas, assy d'El-Rey como do Pe. Mestre Simão e de Roma; e se não vierem mais que por huma via, o treslado das cartas todas mandareis a Malaca ao Pe. Francisco Peres, porque mandará por muitas vias, donde eu estiver, as novas de Portugal e Roma, e deste collegio e de toda a India. E nisto de me escrever a Malaca todolos annos não faltareis. Fareis com os Padres que estão fora do collegio que me escrevão todolos annos muito largamente o fruito que Deos por elles faz; isto entendo de Baçaim, Cochym, Coulão, ' Cabo de Comorim, S. Thomé e Ormuz. Fazei como se cumpra isto da maneira que o encomendo. Olhay que vos encomendo e mando que ao Senhor Bispo sejais muito obediente, assy vós como todolos outros Padres, 168
  • e por nenhuma cousa lhe deis desgosto, mas antes todos os descansos e contentamentos que puderdes, pois tanto nos ama e quer, e tanta rezão há pera o servir e amar. Aos Padres que estão fora escrever-lhe-eis que escrevão ao Senhor Bispo o fruito que fazem em as partes donde estão, e isto em breve sem lhe escrever de outros negocios; e quando ouverem de escrever fora do que elles fazem, escrevão do fruito que faz o vigário da terra e os Padres que nella estão. E olhay que os avizeis de minha parte, que nunca escrevão males de vigários nem de Padres ao Senhor Bispo, senão os bens somente, porque os males não mingoará que [m] os escreva. Escrevereis a todos os Padres de minha parte que tenhão muita obediência aos PP. vigairos [e que por nenhuma cousa quebrem com elles, porque fazendo o contrario irão contra a obediência], e que pezará muito de saber que há differença [s] entre elles e os vigários e Padres da terra; e quando me escreverem, fação-me saber da amizade que há entre os vigários, Padres e elles. E também folgaria que fizessem com os vigários, donde estão os Padres, que me escrevessem do fruito que fazem os Padres de nossa Companhia, que estão em suas vigairarias. Olhay que vos torno outra vez a encomendar, que sobretudo encomendeis aos Padres que estão nas fortalezas, que sejão muito amigos dos vigários, e que por nenhuma via aja differenças entre elles; e pera que milhor cuidado tenhão de comprir este mandado, dizer-lhe-eis em vossas cartas que lexei ordenado neste collegio, antes que à China me partisse, que os Padres da Companhia que andão em differenças e desgostos com os vigairos, que os despidão da Companhia. Fareis com o Senhor Bispo, depois que eu for ido, que escreva às partes donde estão Padres da Companhia aserca do jubileo pera que o mande publicar, pera que as almas possão gozar do fruito spiritual do jubileo. O jubileo dura i 69
  • todo este anno de 1552, por causa que não podem todos em breve tempo ganha-lo por respeito das confissões, e também por estarem as fortalezas da índia tão espalhadas, que a todas num tempo não se pode comprir; por isso me pareceo mais serviço de Deos que durasse todo este anno de 52. Se vierem este anno alguns Padres de Portugal e forem pregadores, se em Dio não ouver pregador, mandareis lá hum pregador com hum Irmão, dando-lhes os regimentos que eu dey aos que forão a Ormuz, e os que ficarão a vós, Mestre Gaspar, quando eu party pêra a China. Se vier algum Padre de Portugal, que não for pregador, e tiver boas partes e algumas letras e dispozição pera tra- balhos, mando-lo-eis a Malaca na monção de Abril pera de Malaca ir a Jappão, onde está o Pe. Cosme de Torres; e alguma esmola buscareis pera que leve de comer aos que estão em Jappão; e irá com elle algum Irmão que vos a vós bem parecer, que tenha bom engenho pera aprender a lingoa de Jappão. E olhay que isto vos encomendo tanto quanto posso, que tenhais especial cuidado dos de Jappão, assy em manda-los encomendar a Deos, como em prove-los do necessário. Se os Padres que vierem de Portugal forem todos letra- dos e pregadores bons, mandareis algum Padre destes pre- gadores, se elles forem muito bons pregadores, a Cochim; e se tiverem mais tallento pera pregar que Antonio Eredea, então mandareis vir aquy Antonio Eredea pera ir pera Japão, e o Padre que vier de Portugal, pregador, ficará em seu lugar. E isto entendo quando fizerem mais fruito em pregar, por ter mayor dom de Deos que não o Pe. Antonio Eredea; porque, fazendo igual fruito, ficará o Pe. Antonio Eredea em Cochim e o Padre que vier de Portugal irá a Jappão. / 7 o
  • Se dos Padres que vierem de Portugal forem pregadores aceitos ao povo, e que tem tallento de pregar, mandareis a Baçaim hum pregador pêra que este em lugar de M. Bel- chior, olhando polias rendas daquella caza, pregando e fazendo o fruito que faz Belchior Nunes, e Belchior Nunes virá a este collegio pera daquy ir nesta monção de Abril a Malaca e de Malaca a Jappão. Eu folgaria mais que fosse M. Belchior por causa de suas letras, porque lá serião milhor empregadas do que são cá, e Antonio Eredea que ficasse em Cochim. Por huma via ou por outra trabalhay muito como pera o anno vá hum Padre a Jappão pera ter companhia ao Pe. Cosme de Torres. Com os reverendos Padres e frades da ordem de Sam Francisco e de Sam Domingos sereis sempre amigos os deste collegio; e guardai-vos de desavenças, prin[n]- cipalmente no púlpito nunca vos aconteça dizer cousa, donde o povo possa julgar cousa de escândalo ou desedificação. Digão elles o que suas charidades lhes der a sentir, vós outros em calar e evitar escândalos no povo, fareis o que deveis. Porem, se virdes que se seguem offenças contra Deos das desavenças que se poderião soceder de elles sen- tirem huma cousa e vós outros outra, em tal cazo fallareis com o Senhor Bispo pera que em sua caza mande chamar, assy a elles como a vós outros, pera que elle ponha mão e faça como cessem as desavenças; e isto sem que o povo sinta cousa de escândalo, pois elles e nós pertendemos huma mesma cousa, que hé glorificar a Deos e fazer fruito nas almas. Fazey de geito como Deos não seja offendido e as almas se desedefiquem; visitay-os de quando em quando, conservando e acrescenta [n] do a charidade. Com os vigários desta cidade sereis muito amigos, e as vezes que puderdes consolay-os indo a pregar em suas freguesias; fa-lo-eis de maneira que, o que em vós for, façais polios ter por amigos. 171
  • De todos os negocios seculares vos desocupareis, dando a entender às gentes que vos occupão em semelhantes cousas, que estais occupado em estudar as pregações e em confissões, e as cousas espirituaes, e que não podeis deixar o espiritual pollo temporal, que hé contra a obra da charidade; de maneira que todos os negocios temporais deitareis fora de vós, porque estes são os que turbão muito, e daquy vem os homens a desemquietar-se em religiões e meter-se no mundo. Olhay muito, em a conversação das gentes, como con- versaes com elles, porque muitos há que se chegão com diversos fins: huns com fim de se no espiritual, outros no temporal; muitos há que se chegão às confissões pera declarar sua [s] necessidades temporaes, mais que as espi- rituaes. Destes vos guardareis muito e lhes dareis logo desengano, dizendo-lhes que nem com esmolas temporaes nem com favores humanos os podeis ajudar. Não percais com estes o tempo, porque estes não sentem as necessidades do espirto. Estas regras guardareis assy com os homens como com as molheres, e geralmente com todos, porque estes nunca se aproveitão em o esprito e são instrumentos pera vos meterem no mundo, pera impidir o fruito spiritual. E olhay que cumprais muito bem isto, porque sey quanto vos he necessário; e não vos dê nada que os que não vem com boas intenções murmurem de vós; não enxerguem em vós os mundanos que lhes tendes medo, porque isto hé participar muito do mundo e ter mais conta com elle que com Deos nem com a perfeição. Em o ensino dos meninos da terra e dos orfãos, olhando às suas necessidades espirituaes e depois às temporaes, tereis muito cuidado de os fazer confessar, ensinar, vestir, comer e calçar, e curar os doentes, pois este collegio princi- palmente foi edificado pera os da terra. El-Rey assy o 172
  • teve bem — bastam o[s] escândalos passados — por isso olhay muito por elles. Vós escrevereis a El-Rey com muita brevidade o fruito que em toda a índia se faz, o que por cartas dos Padres que estão fora espalhados tiverdes por informação; e em outra carta à parte as necessidades do collegio, a que S. A. há de prover, assy como aserca dos prezentes que manda dar e não sey como se dão, aserca das rendas e da mercê que fez do dinheiro a esta caza pera que mande pagar. Particularmente escrevereis que os que vão deste collegio a outras partes a frutif [i] car, que mande S. A. hum alvará em que manda que nas fortalezas onde estiverem Padres da Companhia lhes dem na feitoria o necessário; e assy pera os que estão em Jappão mande S. A. huma provizão e [m] que mande que de Malaca lhes levem o necessário, por- quanto a terra de Jappão hé muito pobre e não há quem nos dee o necessário. Também escrevereis ao Pe. Mestre Simão ou ao reitor do collegio de Lisboa, que tenha cargo de despachar isto que pedis pera estas partes com El-Rey, aserca das rendas do collegio como do demais. Olhay que vos torno outra vez a lembrar, que em vosso escrever sejais muito precatado, por [que] de muitos han de ser vista [s] e julgadas as cartas. Francisco. '73
  • 34 QUINTA INSTRUÇÃO DE XAVIER AO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO Goa, entre 6 e 14 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 431-434. Jhs Maneira pera conversar com ho mundo pera evitar escamdolos Com todas as molheres, de qualquer estado he condição que seja, comversar com ellas em pubrico, como na igreja, nunqua yndo a suas casas, salvo se não for necesidade estrema, como quando estão doemtes pera se comfesar. Quando às suas casas em estrema necesidade fordes, será com seu marido, ou com aqueles que tem carego da casa, ou visinhos que tem carego da casa. Quando for pera alguma molher que não hé casada, hir com pessoa a sua casa que hé conhesido por bom homem, ou na visinhamsa ou na terra pera evitar todo escamdolo: isto emtemdo com necesidade gramde, que pera iso soseder; porque estamdo de saúde virá à igreja, como asima digo. Ho menos que se poder se farão estas visitas, porque se avemtura muito e ganha-se pouco em acresemtar ho ser- viço de Deus. Por ser as molheres geralmente emconstamtes e perse- verar pouco, e ocupar muito tempo, com estas vos averês desta maneira: Se forem casadas, procurar muito e traba- lhar com seus maridos que se chegem a Deus, e gastar mais tempo de frutificar nos maridos que nas molheres, *74
  • porque daqui se sege mais fruyto, por ser hos homens mais constamtes e depemder deles o governo da casa; e desta maneira se evitão muitos escamdolos e faz-se mais fruyto. Quando ouver descordias amtre a molher e o marido, que amdão em demandas pera se quitarem, sede sempre pera os comsertardes, comversamdo mais o marido que a molher, trabalhando com elles pera que se comfesem geral- memte, damdo-lhes algumas meditações da primeira somana amtes de os asolver: será absulvição devagar, pera se mais desporem [e] viverem em serviço de Deus. Nom comfieis em devaçÕes de molheres, dizemdo que servirão mais a Deus estamdo apartadas de seus maridos que com seus maridos, porque são humas devações que pouco durão, que poucas vezes se fazem sem escamdolo. Em pubriquo guarday-vos de dardes culpa ao marido, aymda que a tenha; em segredo acomselhar-lh'eis que se comfese geralmente, e em a comfição o arempremdereis com muita modéstia; e olhay que não simta em vós que favoreceis mais a sua molher que a elle, aynda que elle seja cullpado, mas amtes o provocareis a que elle se acuse a si mesmo, e por sua acusasão o comdenareys com muito amor he cari- dade e mamsidão; porque, com estes homens da Yndia, por rogos muito se acaba e por força nenhuma cousa. Holhay que vos torno outra ves a dizer que em pubrico numqua deis culpa ao marido, aymda que a tenha, porque as molheres são tão ymdomabeles, que busquão ocasyões pera desprezar a seus maridos, alegamdo com pessoas reli- giosas que os maridos são os culpados e não ellas. Aymda que as molheres não tenhão culpa, não nas escuseis como elas se escusão, mais amtes lhes mostra- reis [a] obrigação que tem de sofrer a seus maridos, que muitas vezes os desacatarão por domde merecem algum castigo: e que tomem em pasiemtia os presemtes trabalhos 175
  • que levão, provocamdo-as à humildade e pasiemtia a seus maridos. Não creays todo o que vos dizem, asi marido como a molher; ouvireis ambos de dous amtes de dardes culpa a ningem, nem mostrar-vos mais por hum que por outro, porque nestes casos sempre ambos são culpados, aynda que hum seja mais que outro; e com muito temto receberês as desculpas dos culpados. Isto digo per vir mais azinha ao comserto e evitar escamdolos. Quamdo não nos poderdes comsertar, remetee-os ò Senhor Bispo, ou ò vigayro geral, e vós não vos desavireis com elles por nenhuma cousa, como damdo a culpa ha hum e não a outro. E olhay que useys de muita prudemtia com este mao mumdo, olhamdo muito as cousas por vir, porque o diabo numqua dorm[e]: sabey serto que hé grande inprudentia não temer os ynconveniemtes que se podem segir nas obras que fazemos, aynda que vão horde- nadas com bom zello; e, y mengua de prudentia, nom olhamdo os emcomveniemtes por vir, se segem muitos males algumas vezes. E olhay que nunqua repremdais a ningem com hira, porque destas repremsÕes nunqua se sige fruito em pessoas do mundo, hatribuym [doj todos à ymperfeição, e não atri- buendo nada ao jelho com que se diz, por serem eles muito emperfeitos. Com frades e Padres sempre vos umilhareis e abaxareis, damdo lugar hà ira e paixão: isto emtendo não somemte quando sois vós o culpado mas antes quamdo estais sem culpa e elles são os culpados, nom queirais mayor vimgamsa que calar-vos com razão, quando a rrezão não hé huvida nem tem valia. Temde piadade deles camdo fazem o que não devem, porque tarde hô sedo de Deus lhes á de vir i j 6
  • o castiguo, muito mayor do que vós nem eles cuydão: por iso rogay sempre a Deus por elles, avendo de elles piadade. Não busqueis outras vimgansas nem de cuidos, nem de falas, nem de obras, porquanto são perigosos e danosos, que todo al é carne he sange. Sabey serto, he não duvideis, que muitas graças e mercês faz Deus às pessoas que são persigidas por seu amor, avemdo respeito aos que os persigem, se com pasiem- tia sofre [r] des as persacusões; e Deus terá especial cuidado de confumdir hos que os persigem empedindo as obras pias, o que deixará Deus de fazer se vós ou por cuidos, ou por obras, hou por falas vos quer [e] is vimgar. Se caso for, o que Deus não quererá, que algumas des- cordeas emtre vós e frades ouverem, guarday-vos que, nem em a presemsia do Governador, nem seculares, não tenhais com eles praticas de desamor, porque disto se desa[di]- ficão os seculares; mas a tal caso, se em pregações ou em praticas, algumas desavemsas ouver de sua parte dos reli- giosos comtra vós, em tal caso falareis com o Senhor Bispo, e em sua presemsa dele, asi eles como vós, vos ajumtareis pera que o Senhor Bispo dê fim a estas desavemsas; e asi lhe direis da minha parte ao Senhor Bispo que ponha mão nisto sem que nenhum secular emtemda. E avisay-vos que no pulpoto, aynda que eles falem cousas comtra nós, não falareis vós cousas comtra elles, senão como tenho dito, falar aoo Senhor Bispo pera que ele a vós e a elles vos mande chamar he fazer como não aja descordeas prubicas, pois delas se sigem tanta desade- dicasão he escamdolo no povo. E olhay bem que a omra da Companhia não está em ter valia nem comprimentos com ho mumdo, senão com Deus somente, que quer que demos lugar a todo escamdolo he à yra e descordias. Isto l77 Doe. Padroado, v -12
  • vos emcomendo muito que façais asi, como por obediemtia vo-lo mando; e [o] lhay que em todas as desavensas que recorais ao Senhor Bispo, a cujo parecer e juizo estareis, pedimdo-lhe muito por mercê que ponha pax domde ho ynimigo sema discordea. Francysco. 178
  • 35 CARTA DE XAVIER AO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO Cochim, 24 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 437-443. A graça e amor de Christo Noso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen. Depois que cheguei a Cochim (l) recebi muitas cartas de Coulão e do Cabo de Comorim, e em todas ellas me reprezentão necessidades que padecem, assim spirituaes como temporaes. Escrevem-me do Cabo de Comorim que hé morto o P. Paulo (2), pessoa de muita perfeição e virtude. Fica o Pe. Henriquez só, sem haver outro Padre de missa na Costa; manda pedir ajuda. Vede lá se podeis escuzar o Pe. Antonio Vaz e o Irmão Antonio Diaz pera pode-llos mandar, passado o inverno, ao Cabo de Comorim, pois há tanta necessidade delles naquellas partes; e, se Anto- nio Vaz não vos parecer que hé pera isso, a Francisco Lopez que veyo de Baçaim. Hum destes folgaria muito que mandásseis com Antonio Dias ao Cabo de Comorim, ou outro Irmão que seja perfeito, em companhia do Padre que mandardes. Por amor de Deos que nisto ponhais muita deligencia, porque hé couza que muito releva. O Pe. Nicolao padece muitas necessidades em Coulão, porquanto tem sincoenta mosos da terra e dous ou tres portuguezes, e os que adoecem no Cabo de Comorim man- (1) Xavier partiu de Goa a caminho de Malaca no dia 17 de Abril de 1552. (2) P.c Paulo do Vale. /79
  • dam-nos curar a Coulão, e o collegio tem pouca renda; de maneira que o Pe. Nicolao pede alguma ajuda das rendas que El-Rey deve à caza, que tarde ou nunca se [c]obrão todas. Fareis com o Vice-Rey como do que El-Rey deve à caza mande huma provizão ao cappitão de Coulão, que lhe mande dar alguns cem pardaos pera sosten- tar os gastos de caza. Por amor de Nosso Senhor que, passado o inverno, que esta provizão e hum Padre e hum Irmão, como assima disse, mandeis ao Cabo de Comorim; e quando passarem, tomarão Coulão, e darão a provizão ao Padre Nicolao. Do que El-Rey deve à caza vereis quanto se monta; e trabalhai como pera Ormuz e pera Baçaim se passem algu- mas provizoens pera que lá paguem o que se deve, cobrando pera qualquer destas partes, porque, se desta maneira se não cobrar o que El-Rey deve, não sei quando em Goa se pagará. Encommendo-vos muito as dividas dessa caza que pa- gueis, e folgaria que me escrevesseis o que a caza deve quando as naos partirem em Septembro a Mallaca; e sem- pre [que] me escreverdes, me fareis saber o que a caza deve e o que devem à caza. Olhai que na arrecadação do que se deve a essa caza não façais larguezas, como se fizerão os annos passados, porque à mingoa de não serem providos no Cabo de Comorim, Coulão e Cochim, se deixão de fazer muitas obras pias e fruito em muitas almas. Fazei que o procurador da caza ponha toda a deligencia em a rrecadação das dividas desta caza. Ao Pe. Antonio de Eredea hé necessário acodir acabado 0 inverno, na primeira couza que vier para Cochim, man- dando alguma provizão de duzentos e sincoenta pardaos ou trezentos para sercar a caza e acabar as obras delia, porque está bem necessitada esta caza. Não cuideis que não me alembro quantas necessidades padece este collegio; 1 8 o
  • e por isso vos escrevo que, [o que] boamente puderdes fazer, façais, comprindo primeiro com a caza, assim portu- guezes como da terra, e depois com Coulão, Cochim e o Cabo de Comorim. Alvaro Afonso vede o que deve a essa caza, e vede o que lhe alargarão os annos passados, que não sei com que conciencia o fizerão, pois tanto padece [m], à mingoa de serem favorecidos, assim no Cabo de Comorim, como Coulão, como Cochim. Fazei que o que deve que o pague, e acodi às necessidades dessa caza e das que dela depen- de [m]. Que fora de nossa viagem, se vós não fôreis arre- cadar aquella esmolla de Ormuz ? Parece-nos que estávamos bem aviados, se não fora por vós! (3). Se do Reyno vierem este anno alguns Padres, lembre-vos de trabalhar muito como pera o anno algum Padre vá a Japão a ter companhia ao Pe. Cosme de Torrez, assim como eu o deixei em lembrança, hindo com elle algum Irmão, guardando alguma esmolla pera lá comerem, porque a terra de Japão hé muito pobre. Eu dezejo muito que pera o anno vá pela lá algum Padre a ter companhia ao Pe. Cosme de Torrez, que está só. Por isso vos rogo e emcommendo muito que trabalheis, se algum Padre vier do Reyno, ou alguma outra pessoa de qualidade entrar na Companhia, que possa ser Padre, porque agora em Mallaca eu rogarei muito ao cappitão que, se lá for algum Padre na monção de Abril, que lhe dê embarcação pera hir a Japão. Olhai que não tomeis pessoa na Companhia que não tenha alguma qualidade pera ajudar assim no collegio como mandando-[a] fora; e os que estão dentro já rece- (3) Xavier refere-se a um completo jogo de paramentos que Barzeo trouxera de Ormuz, destinado à missão do Japão para onde esperava ir. I 8 I
  • bidos, [se] virdes que não tem partes e virtudes pera ajudar a Companhia, esses taes despedi-llo [s] heis. Os que andão de fora de caza, como comprador e os outros, tereis muita vigia sobre elles, e assim acerca do seu viver como acerca de serem fieis no que recebe [m] e gas- tão. E olhai, muito sobre isto, porque se requere muita perfeição nos que han de tratar estas couzas com aquella fieldade que se requere. De Balthesar Nunes, e o Irmão que veyo com Belchior Gonçalvez de Baçaim, fazei como se exercitem muito em officios de dentro de caza, assim como ha serem cozinheiros: não os deixeis sahir fora e, se virdes que não forem pera ser da Companhia, despedi-llos heis. Tãobem Francisco Lopez, quando vier de Baçaim, fareis que faça Exercícios e se exercite em officios baxos e humil- des. E olhai que tenhais especial cuidado nestes tres, e de os aproveitar em o esprito, porque me temo que tenhão necessidade, e assim também de todos os demais. Quando mandardes o Padre e o Irmão pera o Cabo de Comorim, dos dous cálices de prata que vos ficarão, lhes dareis hum, porque hum christão do Cabo de Comorim nos tempos passados mandou dinheiro pera hum cálix; receberão este dinheiro em caza e o gastaram sem mandar 0 cálix; e outro cálix que fica podereis mandar com o Padre que for a Japam o anno que vem, porque em Japão não há mais que hum cálix. Quando me escreverdes a Mallaca, escrevê-me muito largo, porque muito folgarei em ler vossas cartas; e nellas me escrevereis novas de todos os Irmãos que estão no colle- gio e fora, e a letra seja de alguém que escreva bem. As cartas hirão a Francisco Peres a Mallaca, e seja este Septem- bro que me escrevais, en a nao que for pera Banda, porque Francisco Peres terá bom cuidado de as mandar à China. 1 8 2
  • Escrevereis a S. Thomé a Cypriano que se dê bem com todos, principalmente com o vigário e com todos os Padres, dando-Ihe dezemgano em vossa carta, como vos deixei por regimento, que os que não fossem obedientes ao reitor deste collegio, que os despedisse da Companhia. Escre- vei-lhe isto assim, e que por isso que olhe por sy nisto. Lá hirá Estevão Luis Boralho, Padre de Evangelho, a quem eu muito amo, porque espero em Deos que será bom religiozo; o que de minha parte vos requerer, fa-llo heis, fallando ao Senhor Bispo por elle. Eu devo muito a Estevão Luiz, porque sempre me ajudou em tudo aquillo que lhe requeri que fizesse, que isso vos emcommendo muito. Nosso Senhor vos faça santo bemaventurado. De Cochim hoje 24 de Abril de 1552 annos. O Pe. Antonio de Eredea tinha cá hum livro que hé muito necessário leva-llo à China, o qual se chama Constan- tino (4). Francisco Lopez tem hum, e o Pe. Manoel de Morais tem outro: hum destes mandareis ao Pe. Antonio de Eredea, porque tem necessidade delle. Trabalhai com o Senhor Bispo que hum Padre malavar que se chama o Ferrão, que o mande chamar sob pena de escomunhão e em virtude da obediência, por ser perju- dicial aos Padres que estão no Cabo de Comorim. Vosso todo em Christo, Francisco. (4) Trata-se da obra de Constantino Ponce de la Fuente intitulada Suma de doctrina christiana en que se contiene todo lo principal y necessário que el hombre chrisliano deue saber y obrar, impresso em Sevilha em 1543. ,83
  • 36 INSTRUÇÃO DE XAVIER AO PADRE ANTÓNIO DE HEREDIA Cochim, cerca de 24 de Abril de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 449-452. Primeiramente, quanto em vós for, trabalhai com todo o povo de vos fazer amar, principalmente dos frades e mor- domos da Madre de Deos, dando-lhes a entender por todas as vias e maneiras que não dezejais senão fazer-lhes a von- tade, e acrescentar a devoção desta caza da Madre de Deos, aos quaes vizitareis, e vos socorrereis em vossas necessidades a ellez. As vezes que [os pobres] tiverem necessidades corpo- raes, recorrereis à Mizericordia e aos Irmãos da Confraria, por petiçoens das pessoas pobres que vos requererem alguma esmolla: não sintão em vós que vós dais do vosso. E com estes necessitados uzareis desta maneira: que se elles vos reprezentarem suas necessidades corporaes, lhes reprezenteis as necessidades spirituaes, para que se cheguem a Deos, e se confessem e comunguem, e depois os ajudareis, o que em vós for, em as necessidades corporaes, por petiçoens, como disse. No conversar com esta gente não vos mostreis grave, nem pessoa que dezeja ter authoridade com elles, nem que estão elles [dependentes] de vós; assim deixay que vos tenhão acatamento. Sereis affavel em vizitas e praticas, e no pregar religiozo e geral, dezenganando-os dos erros em que vivem, fallando da justiça de Deos contra os que não se querem emendar, e da mizericordia de Deos com os que deixão de perseverar [n]os peccados; de maneira que sereis rigurozo contra os que perseverão em peccar. 184
  • Mas porque não digão que os ponde [s] em dezesperação, fallareis da mizericordia como assima disse. No conversar com as gentes, em que vos haveis muito de exercitar, será em todo genero de humildade, fazendo conta de todos, assim ecclesiasticos como de seculares; e se algum bem se fizer, o attribuhireis a elles, dizendo que elles o fizerão, os quaes tomareis por valledores nas obras piaz. Trabalhai de por vós se acrescentar o nome da Com- panhia, fazendo fundamento grande na humildade, e que por vós seja conhecida a Companhia, lembrando-vos que os que levarão os trabalhos, por cujo respeito acrescentou Deos o nome da Companhia, foi fundando-se em grande virtude; assim vós com virtude trabalhareis de participar [d] o nome da Companhia, e sem isto destruhireis o que os outros fizerão. Lembro-vos sobretudo que a authoridade com o povo, que Deos hé o que [a] há de dar, e elle a dá [à] quellas pessoas que tem virtudes para que elle confie delias a authoridade e credito com o povo; e quando os homens querem este credito por sy com o povo, attribuhindo a sy o que hé nelles, Deos deixa de o dar, para que os doens de Deos não venhão a desprezo, para que sejão conhecidos os perfeitos dos imperfeitos. Pedi sempre a Deos que vos dê a sentir dentro em vossa alma os impedimentos, que da vossa parte pondes, por cuja cauza se deixa [de] mani- festar por vós no povo, [não vos] dando credito necessá- rio para que nelle façais fruto. Em vossos exames de conciencia não deixeis de exami- nar-vos particularmente das faltas que fazeis em pregar, confessar e conversar, emmendando-vos delias, porque na emmenda destas faltas está acrescentar-vos Deos suas graças e doens. ' 8 5
  • Não fareis o que muitos fazem, de buscar o arteficial e o que ao povo apraz pera ser delle aceito; porque estes taes tratão de estar o povo bem com elles, que não da honra de Deos e zelo das almas. Muy perigozo [é] este modo, pois acompanha huma certa vaydade de ter nome no povo, e de ser acreditado nelle. E sobretudo trabalhai de tudo tirar sentimento interior das couzas assima ditas, anotando e escrevendo as couzas que particularmente Deos Nosso Senhor vos dá a sentir, porque nisto se emserra o proveito spiritual; porque muita differença há de certas couzas que escreverão os santos com gosto e sentimento que tinhão quando as escrevião: e os homens, por carecerem deste interior sentimento, vem-se aproveitar pouco do que as santos escreverão. Por isso vos emcommendo que os sentimentos spirituaes os escrevereis e tereis em grandíssima estima, e humilhando-vos e abai- xando-vos mais e mais, porque o Senhor vos acrescente. Fazei muito para saber, de devotos amigos dezem- gan [ad] oz, as faltas e erros que cometeis em vossas pre- gaçoens e confissoens e outros exercícios, para delias vos emmendardes. As confissoens sejão devagar para fazer proveito nas almas, dando-lhe algumas meditaçoens, ou da morte, ou do juizo, ou do inferno, para acharem contrição, lagrimas e dor de seus peccados. E isto depois de ouvidos seus peccados, antes de os absolverdes, principalmente com os que tem impedimentos, como de odios e sensualidades, ou restituiçoens. E isto se entende com pessoas que estão deva- gar; e exortareis a estes penitentes que se confessem mui- tas vezes. As restituiçoens que achardes, applicareis à Mizericor- dia, ou, segundo a devoção das pessoas que han de fazer as restituiçoens ou esmollas a cazas ou pessoas particulares. Estas restituiçoens são dos que não tem donno. Avizai-vos i 86
  • que nem a vós nem a outra pessoa particular appliqueis estas restituiçoens, porque dahi vem depois a sospeitar cou- zas de pouco serviço de Deos. Com todos os que tratardes espiritualmente, uzai desta prudência, que em vossas praticas e conversaçoens vos hajais com elles, como se algum tempo elles houverem de ser vossos inimigos, para que quando elles se apartarem de vossa amizade, não tenhão de que vos accuzar. Esta regra uzareis com todos quantos conversardes, porque, assim para vós como para elles, vos aproveitará muito. Nas confissoens, se houver impedimento, antes que o[s] absolvais fazei que cumprão primeiro o que pro- metem que farão, como são amizades e restituiçoens e fra- quezas de sensualidade, e assim outras couzas, porque os homens destas partes são liberais em prometer, mas vaga- rozos em comprir; e por isso, o que havião de fazer depois da absolvição, farão primeiro que os absolvais. 187
  • 37 RENDAS DO COLÉGIO DE SANTA FÉ DE GOA Goa, 23 de Junho de 1552 APO, V, 246-247. O VisoRey da India, etc. Faço saber aos que este meu Alvará virem que eu ey por bem, e me praz que quando o Licenciado Manoel Alvares Barradas, Procurador do colle- gio de São Paulo desta cidade de Goa, for a qualquer Aldeã desta Ilha, e das outras a ela anexas, e mostrar esta minha Provisão, todos os guancares de cada huma das ditas Aldeãs se ajuntem com seus escrivães, e lhe dem em rol todallas terras e ortas, que andarem sonegadas por qualquer via que seja, que forão dos Pagodes, e mando a todos os escrivães das ditas Aldeãs que descubrão as ditas terras e ortas ao dito procurador, todas e cada huma por sy, sob pena de perdimento de seus ofícios, se asy o não fizerem, e se achar que o deixarão de fazer por malícia, e para isso vejão os tombos e todo o mais de que se poderem enformar pera descobrirem as ditas terras e ortas, e todas outras fazendas e varzeaS, que forão dos ditos Pagodes, e asy mando a todos os ditos gancares que todas as descubrão, sob pena de per- dimento de suas fazendas, e de cinquo annos de degredo pera Dio, fazendo o contrairo, e sob as ditas penas lhes mando também que sendo chamados e requeridos por parte do dito collegio, e de seu procurador, venhão a esta cidade fazer o tombo que se ade fazer, e outro pera EIRey meu senhor, e o fação logo com deligencia sem a isso porem duvida alguma. E por tanto o notefiquo asy a todos a que este meu Alvará for mostrado, e o conhecimento per- tencer, e lhes mando que o cumprão, e fação cumprir e 188
  • goardar como se nele contem, sem duvida nem embargo algum lhe ser posto. Rodrigo Monteiro o fez em Guoa a 23 de Junho de 1552. Simão Ferreira o fez escrever. D. Affonso. (Tombo das terras dos Pagodes da Ilha de Goa, foi. 2 v.)
  • 38 CARTA DO PADRE GONÇALO RODRIGUES PARA OS PADRES E IRMÃOS DE COIMBRA Ormuz, 31 de Agosto de 1552 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 16i v. -166 v. (1) t'65 T0 Pax Christi. Muy amados em Christo padres e irmãos. A graça e amor de Jesu Christo este sempre em nossas almas, amen. Ho anno passado vos escrevi de Goa; não sei se vos forão dadas minhas cartas; nellas vos dava conta de nossa viagem e chegada e do demais que nos avia aconticido, depois de nossa partida. Agora me parece resão dar-vos conta do que dispois a suscidido; sabereis, dilectissimos em Christo irmãos, que passados mui poucos dias, depois da minha chegada, me mandarão que me embarcasse logo pera Ormuz, onde estou ao presente, nem me deyxarão ver a meu em Christo Padre Manoel de Morais que tanto deseiava ver, o qual era ja chegado. Parti-me soo, sem outra companhia mais que a de Deos; ja podereis sintir a saudade que levaria minha alma de meos padres e caríssi- mos irmãos: partindo-me delles pera nunca ia mais por ventura os tornar a ver nesta vida. Embarquei-me com hum Nagoad em huma nao, o qual me deu de comer todo o tempo que navegamos, por amor do Senhor, por- (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 233-234 v. Subtítulos à margem; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 215v.-217r. I p O
  • que nenhuma cousa levava pêra meu mantimento nesta viagem; ensinava a doutrina aos escravos, porque a querião ouvir todos os dias na nao; as praticas do Senhor suis tem- poribus\ aos sabados dizia a Salva e desta maneira passei 50 e tantos dias no mar ate chegar a Ormuz, donde se avia partido o Padre Mestre Gaspar, poucos dias avia; e indo abrasando com seus sermões todas as fortalezas por onde passava, com Dom Antão, capitão-mor da armada. Aqui vejo, irmãos meus, quam estranho seria este pobre de virtude a gente, que estava acostumada de conversar com tão perfeito varão (como he o Padre Mestre Gaspar), porque em Nosso Senhor a obrado muito neste terra, esta- vão todos com grande saudade de sua ausência. Dizem que nunca vira outro padre a esta terra que obre o que Deos tem obrado e obra por elle. Finalmente, desembar- cando dia de Nossa Senhora pola manhã, fui-me logo a igreya com proposito de pregar, se achasse gente ou apa- relho pera isso. Achey ay o vigairo desta cidade com os padres; abracei-o, como irmão, e falei aos outros, e tam- bém falei ao capitão e a outras pessoas que me parecerão. Passados dous ou tres dias que pousey com o vigário, me fui a S. Paulo, que esta tão longe da cydade, como o mos- teiro de Celas esta de Coimbra, onde achey hum irmitão; não pousei no espiritai, por não aver casa pera poder estudar, e também porque o Padre Mestre Gaspar pousava la; comecei-lhes a pregar ao // domingo siguinte, que foi t'a M o 2o do Avento; quis-me Nosso Senhor dar graça com que ficarão satisfeitos, porque alguns me dizião, em saindo da igreja: tu es qui venturus es et non alium expectamus (2). Quis Nosso Senhor que ate agora sempre se tem satisfeito de minhas pregações; prego-lhes todos os domingos e fes- (1) Mal., 11-3, e Luc., 7, 19-20. Í9I
  • tas do anno, ainda que me custa muito trabalho, por ser inútil pera isso, mas supre Deos o que falta em mim. Agora vem muita gente a confessar-se polo jubileo, o qual purliquei em huma pregação e, com a graça do Senhor, se fez muito fruito. Em esta cidade, avia dous homens dos mais principais; hum delles avia mais de 15 ou 20 annos que tinha uma molher, outro estava em pecado com outra avia sete ou 8 anos. Agora se receberão, e se tirarão de pecado, por bondade do Senhor; causou isto não pouca admiração em esta terra; outros 4 ou 5 portugueses se casa- rão com pessoas, com quem estavão em peccado, afora dous que ao presente trago entre mãos. Também se fizerão outros casamentos dos homens da terra, dos quais estavão muitos em peccado; fizerão-se e fazem-se muitas confiçõis de muitos anos, e algumas restituiçõis; veda-se tratar em cousas defendidas poios cânones sacros; fiz algumas amiza- des sobre casos graves, desafios e bofetadas; ho que mais me ocupo he em pregar e confessar, porque em esta terra nunca faltão confissõis. Pouso agora junto do espiritai, por estar mais presto ao que for necessário. Comigo esta hum irmão que me depois mandarão, o qual trabalha de sua parte quanto pode; fas doutrina todos os dias e as noites vai com huma cam- painha a encomendar as almas do Purgatório e os que estão em pecado mortal; serve no spirital e faz outras obras de misericórdia que se offerecem. As quartas feiras faço eu doutrina, e sobre ella huma pratica aos mininos, e molheres de serviço, e aos escravos e christãos da terra, acabando com humas ladainhas; digo missa no spital as quartas-feiras, e sestas aos enfermos; confesso-os e dou-lhe o Santíssimo Sacramento. Não quero calar huma cousa que aconteceo aqui, quando cheguei; a qual, ainda que seia dita poios mouros, prazera a Nosso Senhor sera verdadeira; logo como cheguey a esta i p 2
  • cidade, veo huma carta de Meca pera el-rey de Ormuz ao qual escrivia hum ceyde principal da casa de Meca, mui parente de Mafoma, pidindo-lhe e mandando-lhe que fizese jejuar certos dias todos os seos, assi grandes como peque- nos, porque estava Deos mui irado contra elles, e que a elle lhe foy revelado que a ley de Mafoma se avia de aca- bar azinha, e se avia de distruir poios pecados de todos. Ouvi eu o pregão que se apreguou por toda a cidade, ainda que não no entendia; porem, depois me dixerão que dizia isto que vos tenho scrito. Rogai a Nosso Senhor, irmãos charissimos, que seia asi, e aparelhay-vos com spiritu e letras para as cousas grandes que Nosso Senhor quer obrar; tem pus enim prope est iam enim securis ad radie em arboris oposita est (3), nem he possível que dure muito o mundo tão envelhecido em maldades. Hos christãos nesta terra vivem mal comummente, ideo aut renovabitur ut aquilae inventus tua aut delebitur omnis caro (4). As guerras se comessão a ordir por todas as partes, e quanto screvi esta ficava quasi toda a cidade de Ormuz despeiada; ficão em ella os portugueses, esperando cada dia a vinda dos Rumes; tem recolhidas suas fazendas na fortaleza; eu também recolhi la meus livros, lemos vista de seis gales e // novas que vem 60 velas, outros dizem [>« * que trinta; não sabemos o que passara na verdade; des que cheguey a esta terra, ate agora, não me deixarão falar a el-rey seus privados; e sinal que o demonio teme, pois que tanto se guarda; comfio que quando venerit plenitudo temporis mittet Deus filium suum qui illuminabit abscon- dita tenebrarum, quoniam quidem cor regis in manu Domini est (5). Ditrimino, ia que eu não lhe posso falar, negociar (3) Cf. Mal., 26, 18, e 3, 10; Luc., 3, 9. (4) Cf. Ps., 102, 5. (5) Cf. Galai., 4, 4. '93 Doe. Padroado, v - 18
  • com elle, por cartas secretamente, para ver se outra vez se deixa mover de Nosso Senhor. Hutna carta tenho feita e dada a seu interprete; a qual ainda lhe não he dada, sperando passem estas guerras de Ormus. Tive ca muitas vezes disputas com os mouros, judeos, gentios, e a todos convenci facilmente, mas que aproveita pois que huns são obstinados com seos pecados, outros ata- dos com suas ignorâncias? Quando cuido que tenho feito alguma cousa, me dizem que pois seos pais morrerão gin- tios, que elles também ão-de morrer gentios. O hermanos, quanto charareis de compaixão, andando por esta cidade tão grande, pola qual se não pode andar bem polas ruas, que estão cheas de tantas gentes de tão varias nações, e todos inimigos do nome de Christo, e cegos, sem conheci- mento da verdade se vão ao inferno! Armai-vos, charissimos, de virtudes e charidade, e con- servay vossos fervores, porque tendes ca bem em que os empregar, não faltão ca trabalhos. Aqui ouve este verão trovões tão grandes, sem chuva, que verdadeiramente cui- dara, se fora noutra parte, ser algum diluvio; queimava as carnes e assava os fígados; certo que passada a força disto, estando ia temperada a tempestade, me não podia valer, indo por huma rua sem levar o rosto cuberto; dizião os homens que nunca avião visto outra tal; também se vio hum cometa mui grande, e mui encendido, e passou pola ilha, pola parte do Norte para o Sul, e fazia tanta claridade que paricia muitas tochas acesas. Não escrevo do tremor da terra, que he cousa tão acustumada nestas partes, que não causa espanto; com tal tempo como este não faltão trabalhos; a mim especialmente me he contrario, mas tudo he nada com a aiuda do Senhor, paratus sum omnia pati pro nomine eius ut sanctificetur, honoretur et cognoscatur ah omnibus. '94
  • Escrevendo esta, chegarão novas como 30 gales de Rumes entrarão polo Estreito; não sabemos se se deterão em Ormuz ou se passarão a Baçora; em grande aperto nos põem; os christãos da terra se mandarão ao Magastão que he terra firme; forão mais de 300, por não aver agoa na fortaleza pera tantos. Vai com elles o Irmão Alvaro Men- dez pera os doutrinar e sustentar em a fe de Christo, onde tera asas de trabalhos; leva 200 xeraphins pera distribuir com os pobres; vão pera huma fortaleza de mouros, que esta de Ormuz 6 ou 7 legoas, os quais estão subjectos ao reino de Ormus; he terra mui enferma; chama-se Mina ou por outro nome Magostão. Nosso Senhor os defenda, amen. Do que mais nestas partes se suceder vos screverei. Pesso-vos muito, charissimos irmãos, que em vossas orações e sacrifícios vos não esqueçais de mim. Ultimo de Agosto de 1552 Gonçalo Roiz. '95
  • 39 CARTA DE XAVIER AO PADRE FRANCISCO PERES, MISSIONÁRIO EM MALACA Sanchoão, 22 de Outubro de 1552 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 489-491. Jhus Framcisco Perez. Vista esta cedola minha, vos mamdo em virtude da samta obediemcia, que nom esteis mais em Malaqua, senão que vades caminho da Imdia nas naaos que nesta momção fforem. E se esta cedola minha vos ffor dada despois que forem partidas as naos pera a Imdia, ires na nao de Choromamdel vós e João Bravo e Bernaldo; e de Choro- mamdel ires a Cochim. E em Cochim estares d'asemto pre- guamdo e comfeçamdo, e emsynamdo aquylo que soiês a ffazer em Mallaqua pola ordem e maneira que vos leixey em Malla [ca] quamdo party caminho de Japão, e por hum regimemto que leixey ha Amtonio d'Eredea, que ao presemte está em Cochim; e Amtonio d'Eredea, vista esta, ou outro qualquer que estyver em seu lluguar, ará caminho de Guoa a ffazer-se prestes pera ir a Japão. E asy esta obediemcya, que vos mamdo, servirá asy pera Amtonio d'Eredea ou outro qual [quer] que estyver em Cochim, como pera vós, pera que em virtude d'obediemçya cumprais o que mamdo. E do dia que emtrardes em cassa em Cochym serês retor daquela cassa, e desestirá de o ser o que nele estyver, ou seja Amtonyo d'Eredea ou outro qualquer. i^6 1
  • Em tudo o que for mayor gloria e serviço de Deus, e perfeição da Companhia, vos eixercitarês, segumdo o talemto que Deus Nosso Sennhor vos deu. E porque de vós comffio que isto e mais ff ares, vos mamdo em virtude d'obediemcia que sejais retor daquela cassa; e estares à obediemcia do retor da cassa de Sam Paullo de Guoa. E os que a Cochim vierem, que fforem da Companhia, asy sacerdotes como leiguos, de qualquer calidade que sejão, estarão à vosa obediemcia, salvo se o retor de Guoa ho comtrairo mamdar por algum caso fortuito. E isto mamdo em virtude d'obediemcia a todos os que a esa cassa de Cochim vierem, vos obedeçam. E vós em virtude d obe- diemcia comprireis o que nesta cedola vos mamdo, asy na partida de Mallaqua, como em ser retor da casa de Cochim. Esprita nesta China, no porto de Samchoão, a xxii de Outubro de 552 anos (l). Francysco. (1) Xavier partira de Goa, com o coração alvoroçado. Ia para a China e tinha a certeza de ser admitido, não obstante a proibição de os Portugueses comerciarem oficial e abertamente com os portos chineses. Uma embaixada, dirigida pelo seu grande amigo Diogo Pereira, levando ricos presentes, seria certamente aceita, como era aliás da praxe. À sombra do seu amigo embaixa- dor, Xavier poderia iniciar a evangelização do grande reino do Meio. Em Malaca, porém, a hostilidade do capitão D. Alvaro de Ataíde desfez todas as esperanças. Xavier, perante esta perspectiva, não desanimou e partiu para Sanchoão, esperando ser colocado no continente chinês por qualquer contra- bandista. Foi desta ilha que escreveu o documento agora examinado, quase nas vésperas de sua morte. Transcrevêmo-lo, por conter algumas informações respeitantes à vida missionária indiana. 197
  • 40 PARTE DE UMA CARTA DO PADRE NICOLAU LANCILOTO AO PADRE MESTRE SIMÃO RODRIGUES Coulão, 28 de Outubro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 161 r. • 161 v. (1) O Padre Anrrique Anrriquez escreveraa a Vossa Reve- rencia como cada anno escreve das cousas do Cabo de Comorim e Pescaria. Elie he tão prudente, e discreto, e virtuoso que se pode crer tudo o que elle escrever ser a pura verdade e necessidade (2) desta terra; ainda esta somana passada, cheguey a este Coulão, vindo de Puni- cale, onde esta o Padre Anrriquez, e fuy-o visitar a elle e aos christãos, porque ainda nunca laa fora; vim em estremo consolado, em ver quão bem doutrinada he aquella christan- dade; tem o Padre Anrriquez maravilhosas artes e maneiras pera fazer que esta gente seja informada de nossa santíssima ley e fee e, por ter elle tal maneyra, he pera se não crer o grande amor que todos lhe tem, e como o acompanhão e recebem em todos os lugares a que elle vay. Alem de elle ter alcançado a linguagem desta gente e a escritura, como Vossa Reverencia jaa sabera, também tem achado entre elles alguns homens sábios, os quais erão virtuosos na gentilidade, e não adoravão idolos, mas os quebravão, e tinhão hum genero de vida contemplativa, os quais contemplavão grandezas de Deos, e aborrecião (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 226v.-228. Esta cópia apresenta algumas chamadas à margem. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 209 r.-209 v. (2) BIMINEL e BACIL: falta todo este período até aqui. t 98
  • prazeres humanos, digo riquezas, honrras e sensualidades; casavão com huma soo molher e erão muyto conformes a ley natural, os quais se fizerão christãos, não inconside- radamente, como muytos quaa acustumão, mas de infor- mação de hum anno e mais. Se fizerão christãos mostrando grandíssimos sinaes de entenderem nossa ley e fee, e nella querem viver e morrer. E estes ayudão muyto ao Padre Anrri- quez, porque são discretos e tem grande credito entre estas gentes. Alguns destes e outros, alguns que não são de tanta capacidade os tem distribuídos o Padre Anrriquez e postos em vários lugares a ensinarem a doutrina e repren- der as cousas gentílicas. Tem feito o Padre Anrriquez hum breve compendio em lingoa malavar da criação do mundo, dos anjos e dos homens, do inferno, parayso, do peccado e graça, dos demó- nios, e vem declarando como o Filho de Deos tomou carne humana, provando por muytas e varias figuras e profesias, e depois vem contando a vida de Christo ate a Ressurreyção, e deste livro tem feitos muytos tresllados, e cada hum destes homens, que he deputado para ensinar a doutrina, tem hum treslado destes, e em certos dias da somana faz ayuntar o povo, e lhes lee este livro, de que recebem elles muyta consolação, e com lhe parecer ser pura verdade, porque as cousas que lhes ensinão os gentios são tão fabulosas, que he pera confundir todo o mundo, sem dar alguma inte- ligência da virtude. E estes que insinão a doutrina nos lugares todas as cousas que acontecem nos lugares de que he necessário o padre ser // informado, lhe dão aviso muy meudamente ["6 »•] por cartas, e de mes em mes, ou de dous em dous meses o Padre Anrriquez os manda chamar, e lhes faz praticas e perguntas necessárias a sua conservação delles, e as vezes o mesmo padre vay discorrendo a costa, visitando-os meuda- mente; e desta maneira faz o Padre Anrriquez muyto '99
  • fruyto com esta gente, e Nosso Senhor lhe daa muyto esforço no corpo e no spiritu pêra o fa2er cada dia milhor. O Padre Anrriquez, despois que veo de Portugal, devendo eu de estar a sua obediência, sempre elle esteve a minha e o achey sempre tão fiel e tão obediente e per- feito em todas as virtudes. Não posso escrever delle tanto bem como he. Espero que Nosso Senhor lhe dara continua perseverança, pois lhe faz tamanho serviço em terra tão trabalhossa, na qual muy poucos podem perseverar (3). Ao presente anda naquella costa nestes trabalhos com elle hum irmão leygo, que se chama Ambrosio, o qual também tem alcançado a lingoagem, e leer, e escrever em malavar, e anda jaa nestes trabalhos ha quatro annos, perseverando muy virtuosamente e o Padre Anrriquez estaa muy bem com elle. A terra he muy comprida e tem necessidade de muytos obreyros; Vossa Reverencia, por amor de Nosso Senhor, procure de sua parte de mandar gente forte de corpo e espi- rita, pera esta terra do Cabo de Comorim, porque he a mayor e milhor doutrinada christandade que ha na índia pella qual deve ser conservada. As si por minhas cartas, como pellas do Padre Anrriquez, sera Vossa Reverencia informado do que he necessário. E de sua parte trabalhe quanto poder pera se prover. Eu não digo mais nesta senão que cesso, rogando a divina bondade nos conserve no seu divino amor, pera que nesta vida o possamos servir perfeitamente e na outra gozar. Nas orações e santos sacrificos de Vossa Reverencia e de todos os padres e irmãos desta santa Companhia (3) Correcção: sojrer seu trabalho.
  • peço ser encomendado, pois ha tanta necessidade, como a todos he manifesto. Deste collegio do Salvador de Coulão, oje 28 de Outu- bro de 1552. De Vossa Reverencia indigo servo Nicolao.
  • 41 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES Punicale, 5 de Novembro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. BIs. 170 v.-171 v. (1) [I7o r.] Pax Christi, En grande maneira me alegro com saber que, meu padre charissimo, o doutor Mirão, he vindo a essas partes, a quem eu conheci em Lisboa, e ja pode ser que não se acorde de mim. Betti proveo Deos Nosso Senhor pera tão grande empresa, como he a do santo collegio de Coimbra, de tão grande pastor, como he o Padre Mirão. Bem cuido eu que estais com grandes deseios de ouvir novas do que Nosso Senhor obra em esta christandade da Pescaria, por ser a maior que esta aiuntada por todas estas partes da índia aonde, ao que parece, se faz muito fruito a Nosso Senhor. Primeiramente lhe dou conta de nosso charissimo Padre Paulo do Vale o qual, estando mui ins- truído na lingoa malavar, asi em falar como em ler e scre- ver, com ho que fazia muito serviço a Deos, o qual sabe o que nos he necessário, e quer (2) premiar seus servo\ em breve tempo teve por bem de o levar desta vida a 4 dias de Março de 1552. En este Punicale era thisico; huma cousa podereis crer que foi de muitos trabalhos, que padeceo por amor de Deos, nesta casa, e não da Nosso Senhor grandes (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 238v.-240. Chamadas à margem. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 220 V.-222 v. (2) BIMINEL: querendo premiar. 2 0 2
  • consolaçÕis aos que em ella trabalhão fielmente, senão porque os tais passão per ignern et aquatn. Tres meses esteve enfermo, em os quais padeceo grandíssimas dores e tormentos; screvo isto pera que lhe digão suas missas e orações, como he custume na Companhia. Ho anno passado screvi o fruito que se fazia em esta costa, o qual se vai continuando pola bondade do Senhor. Huma das cousas, que muito aiuda pera esta gente ir con- tinuamente aproveitando, foi tomar de entre elles os milho- res christãos, pera que estes insinassem poios lugares a doutrina christã; confio em Nosso Senhor que acharemos destes tantos quantos são os lugares que ay nesta costa; não admittimos pera isto senão hos homens, de que temos muita confiança, que trabalhem desenganadamente por amor de Deos, he que juntamente serão (3) prudentes e habiles para ysto. Outros nos cometem algumas vezes pera insinar a doutrina, como estes fazem, e ainda que tem algumas boas partes, por não serem tantas quantas nos parece necessárias, os deixamos. Certifico-vos, padres e irmãos charissimos, que o fazem também em doutrinar as gentes grandes e pequenos, por bautizar em tempo de necessidade, e ter as igrejas bem concertadas e limpas, e em castigar as culpas leves, e avisar-nos das graves, lendo aos christãos, quando vem a igreja, alguma doutrina de nossa fe, que esta ja tirada em malavar, e são tão diligentes em fazer vir e frequentar as igrejas entre a somana, asi homens como molheres; todas estas e outras muitas cousas fazem // tão perfeitamente que se pode escusar estar ali C'71 r alguma pessoa de assento, aiuda-os Deos Nosso Senhor muito; destes espero que acharemos mais, porque ja tenho outros que tem para isto boas partes; determino de te-Ios (3) BIMINEL: seião. 203
  • em caso alguns dias, para lhes insinar o que devem fazer para servir a Deos, e despois manda-los poios lugares, pro- vando-os desta maneira de que seião tais como he mister. Também vos tenho scrito ho anno passado, como tínha- mos posto ordem para quantos, assi homens como molheres, aprendessem o Pater Noster e Ave Marta em latim, e depois o Credo em malavar; em muitos logares he cousa muito para louvar a Deos ver quão bem o aprendem. De hum anno a esta parte, temos tirado algumas cousas mais que antes em lingoa malavar, o que parece mui con- veniente, porque como não podemos estar em todos os lugares, e necessário que aia doutrina in script is, pera que se lea os domingos aos homens, e aos sabados as molheres, e podem desta maneira milhor entender, ainda que convém crer e obrar; disto que temos tirado em lingoa malavar, se lem ia algumas cousas nas igreyas, outras não estão de todo enmendadas, polas muitas ocupaçõis, que ay nesta costa, nem ainda pudera tirar as que ja se lem, se Nosso Senhor nos não discubrira hum topaz que he o milhor que agora se acha nesta lingoa. Sinto em mim huma dor grande, por não aver padres para confessar estas gentes; eu e o Padre Paulo do Vale, que esta em gloria, nos pusemos algumas veses pera o fazer, mas entre tanto me (4) de christãos dous que podem fazer, e agora fico eu so com muitas ocupaçois, a que he necessário acudir. Orate Dominum messis ut mittat operários (5), que possão exercitar este tão necessário sacra- mento, os quais, com aiuda de Nosso Senhor, não terão muito trabalho em aprender a lingoa, pois ay gramatica (4) BAL: mero. BIMINEL: me forsan numero, mas as duas pri- meiras palavras foram riscadas. BACIL: espaço em branco. (5) Cf. Mat., 9, 38; Luc., 10, 2. 20f
  • feita em malavar, e parte do vocabulário, e irmãos que sabem a lingoa que muito lhes podem aiudar. Confio em Nosso Senhor que huma gente da terra firme, parentes destes christãos paravas, os quais se chamão chavalaquares, am-de vir ao conhicimento de nossa santa fe; não a-de ser isto, sem grande trabalho, e em os doutri- nar, depois de christãos a-de ser mui maior porque estando desparsidos por diversos lugares, dizem-me que serão ate 20 mil almas, mas porem Domino nihil est impossibile. Contanto (6) vos encomendo, padres e irmãos caríssimos, nos encomendeis mui de verdade ao Senhor; hum destes chavalacares, que dixe, vinha algumas veses a este Puni- cale a ver seus parientes, tinha boas partes e he dos discre- tos homens que tenho visto nesta gentilidade, bem inclinado, e fora dos custumes gentílicos, adorava hum so Deos; tive- vos pratigas por muito tempo, respondendo-lhe a muitas preguntas que me fazia. Esperava eu no Senhor que se converteria, e asi foi porque, prometendo-me de se fazer christão, por lhe parecer verdadeira nossa fe, aconteceo que hum mino (sic), seu filho, caio mal a morte; mandou-me chamar para que o visse; preguntey-lhe se queria que o bautizassemos; respondeo-me que razão avia pera que o minino não gosasse de tanto bem; bautizei-o logo, e em aquela noite spirou; dispois se fez o pay e a may com hum filho seu, christãos, em este Punicale, sendo o capitão seu padrinho, e por ser tal qual deseiamos insina agora aqui a doutrina; também nos aiuda muito a conversão de seus parentes hos chavalacares. Manda-nos alguns filhos dos homens principais desta costa a Goa, ao collegio de Coulão, aonde esta o Padre Ni- colao, que a-de ser grande aiuda pera estes serem maiores (6) Correcção: Entretanto. 2 05
  • christãos porque, como estes mininos se crião em tal dou- [171 v.] trina, // e em elles aia depois de ficar o governo da terra, e grandíssimo bem e de entre elles se tomarão alguns que insinem em os lugares a doutrina christã. O Padre Nicolao tem grande maneira de os insinar e contentar; eu estou espantado, porque depois que lhe dei e mandei a Coulão alguns mininos, como são de pouca idade, tinhão saudades de suas mãis e choravão pera ir pera casa de seus pais, e tendo (7) o padre tão bom modo com elles que agora, se lhes perguntão se querem tornar a suas mãis e pais, res- pondem que não, estando mui contentes de perseverar no collegio e aprender as cousas de Deos. Ja vos screvi como tinhamos aqui em Punicale hum hospital, o qual he geral pera toda a costa, em que pode- reis, todos os que vierdes, vos exercitar em officios da homildade e charidade; ate agora a sido sustentado com esmolas e penas aplicadas a elle, e por aver pouco dinheiro de esmolas e penas, ordenamos que se pidisse por o povo hum dia na somana pera elle; o mesmo ordenamos (8) por todos os lugares desta costa, pera podermos socorrer as necessidades particulares; he cousa de muita edificação aos christãos, gintios e mouros, porque deste modo e ma- neira de misericórdia e hospital não sabião ca cousa alguma. Não posso deixar de vos avisar, padres e irmãos meus, que para estas partes se requerem muitas virtudes y mui provadas, porque ay as veses contradiçõis e tentaçõis, as quais assi como aiudão pera a perfeição a todos que, com deseios a buscão, assi também derubão algumas vezes aos fracos; portanto, vos pido (9) que aiunteis nestes sete anos de fertilidade em esse santo collegio trigo de perfei- (7) Correcção: a lido. (8) Correcção: esperamos ordenar. (9) Correcção: peco. 206
  • ção pera os sete annos de strelidade, que por estas e outras partes como ellas podeis achar. Tenho ousadia de vos dizer isto, confiando que nenhum espanto vos pora, antes vos encendera os deseios de vir a partes, donde podais (10) muito padecer, pois seus servos nenhuma outra consolação tem neste mundo mas ser somente crucificados com Christo, e quanto mais negão suas vonta- des, deseiando toda a pobreza, injuria, trabalho por Christo, tanto Deos os mais consola nestas partes e em as outras; e vivendo desta maneira, como dixe, confio em Deos que, andando, obrando e vendo a necessidade que ai de obreiros, se o Senhor pusesse em vossa mão dar-vos logo o ceo e despois alguns anos, direis com São Paulo: cupio anatema esse pro fratribus meis. Cesso rogando ao Senhor, nos de padecer por seu amor muitas iniurias e tribulações com muita pacientia e alegria, usque in finem. Deste Punicale, a 5 de Novembro de 1552. Anrrique Anrriquez. (10) Correcção: possais. 2 o 7
  • 42 CARTA DO PADRE ANTONIO DE HEREDIA AO PADRE LUIS GONÇALVES Cochim, 5 de Novembro de 1552 (1) Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 123 r. -123 r. (2) [u3 r.] Tanto que demos a vela, não passou muyto espasso que nos não pusesemos em oração e rezamos todas as ladainhas, (as quaes cada dia a noyte com prosas ate índia disemos), pera que o Senhor nos desse prospera viagem, e nos ensinasse aquilo em que nos poderíamos exercitar naquela nao que fosse de seu serviço, e proveito daquelas almas, e para que nos desse graça e forças para bem exer- citarmos cada hum seu officio, os quaes officios forão repartidos por cada hum de nos outros. A mym me coube naquela nao algumas vezes infirmeyro, o qual officio he anexo lançar cristeis, ir debaxo da cuberta, primeyra e segunda; na primeyra, onde estavão os doentes, donde se sofria tam grande fedor que traspassava as en- tranhas, por estar aly com elles o fazer suas necessidades, he os que podião fazião-nas em hum 4o de pipa, e os outros onde estavão, por ser necessário assym: a huma por carecerem de vasos, e a outra por não poderem subir as ima, e serem muytos (3); a 2a donde se lhes ya a buscar agoa, onde avia tam grande quentura que parecia estar homem (1) A data é tirada da cópia da BIMINEL. (2) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 160 V.-162. Esta carta não se encontra na cópia da BACIL. (3) A cópia da BIMINEL apresenta, à margem das palavras em itá- lico, a observação: não se le a mesa. 2 O 8
  • em hum forno de vidro, porque todo se tornava e con- vertia em agoa. Outras vezes, fuy despenseyro, e outras vezes criado e coadjutor de Manoel de Teyxeyra e Belchior em seus officios, em tudo por misericórdia do Senhor fuy muy consolado, e nunqua na nao me achey mal desposto, senão nos primeyros dias da partida enjoado, e em Moçam- bique cinco ou seis dias de humas pequenas febres. Deus Nosso Sensor se avya comigo, como se eu não lhe fora nunca ingrato. Bendito seja Elie para sempre // jamais, t"3 *0 Outras vezes servi de mestre de insinar, outras vezes de ser descipulo; paso-me o padre Mestre Belchior a terceira parte de S. Thomas toda, e assy toda a Epistola ad Hebreos. He cousa muy acertada que nas naos se mande ensinar aqueles que mays sabem aos que menos sabem, porque disso resulta muyto fructo e gloria de Deus. E chegando a Maçambique, onde estivemos todo o Agosto, se puserão em pax todos os que estavão em descordia e não forão poucos; fizerão-se muy tas restitui- ções, tyrarão-se muytos de pecado mortal, em que avia muytos annos que estavão com suas escravas, vestirão-se pobres, restaurarão-se os doentes. Finalmente todos se refe- zerão aly, por graça do Senhor, assy acerqua do corpo como acerqua de suas almas, os quaes forão asoltos de culpa e pena, porque publicamos aly o jubileu que trazíamos. Deste lugar de Maçambique que esta debaxo da linha, nos partimos com gram alegria e alvoroço, huns para con- quistar o dinheiro, outros as almas compradas pelo sangue de Jesu; huns com desejos de tornarem a morrer a Portugal he nele descansar, outros para por estas almas na índia morrer para no ceo descansar. Chegamos a barra de Goa aos seis dias de Setembro, onde demos fim a nosos exercitios na nao que erão de con- tinuo trabalhar nos doentes, (os quaes logo a Misericórdia mandou buscar em dous catures, he eu fuy com huns delles, 209 Doe. Padroado, v-14
  • porque disto tem elles muy gran cuydado, tanto que as naos chegão a barra), confissões muy ameude, amoestações, pregações, domingos e festas dizer missas cantadas, assy de festa como de Requie, Salve, ledaynhas, amisades, final- mente com emmenda nos juramentos; e porque nynguem avia que quisesse ja offender a Deus nem desconsolar sua alma, dependeo muyta parte disto de Diogo Lopes de Sousa que era capitão, do qual recebemos muytas chari- dades e favor. Tanto que chegamos ao collegio, fomos recebidos com aquela charidade que se la costuma, antre esses charissi- mos, e tam conforme a ella que nos parecia entrarmos nesse colégio. Aquy no Collegio estive oito dias e logo, a cabo deles, nos repartirão cada hum para sua parte. Ao padre Gon- çalo Roiz para Oumuz e a mym para este Cochym, para o qual me embarquey num galeão que ya de armada para r] Ceylão; neste galeão preguey algumas vezes; // vindo vinte legoas deste Cochym de fronte de Coulão, donde temos hum collegio, desembarquey e fuy ao collegio, donde achey o padre Nycolao que tem aly cargo daquele collegio, onde estão correnta meninos da terra, e dous irmãos por- tugueses; he hum lugarinho de trinta vizinhos; tem ahy el-rey huma fortaleza. Estes mininos são do Cabo de Comorim, os quaes se vem aly ensinar; dahy me torney a embarcar para esta cydade, omde achey o Padre Manoel de Moraes, por arribar a sua nao a este Cochim, e não poder tomar Goa, porque veo por fora, sem tomar Maçambique com o qual se alegrou minha alma e recebeo muyta consolação, por no-llo trazer o Senhor qua a salvo, e a mesma receby com o Irmão Alexo Madeyra e Thomas, o qual ate agora aquy tenho comigo. Perguntey ao padre o que passara, e eu lhe dey novas de Goa de minha breve mudança. Parti-se (sic) daquy para
  • Goa com os irmãos que trazia, ficando aquy comigo Tho- mas para ensinar aquy os meninos da terra neste collegio. E, depois de partido, chegou o padre Mestre Francisco aquy de Japão; esteve aquy ate que escrevo para o reyno, e depois se foy para Goa, e dahy se tornou para a Chyna. Deixou ao padre Mestre Gaspar por rector do collegio, e mandou ao Padre Belchior Nunez para Baçaym e ao Padre Antonio Gomez para Dyo, e levou consigo a Baltesar Gago para a Chyna e outros dous irmãos e Pedro d'Alca- çova para ir para Japão. Este collegio he huma das cousas de que tem mays necessidade a Companhia (tirando Goa) de quantas na índia tem, porque esta situado nesta cydade que he huma das mays principaes e nobres, depois de Goa, que na índia sua Alteza tem; he escala para todas as partes da índia, he aquy se faz a carga da pymenta. Estaa cercada de muytos reinos gentios; saem do mar grandes ryos que se metem pelo sertão da terra. Hum delles bate nas casas, outros vem de huma serra daqui dar neste, que se devidem por muytas partes, de maneyra que os desta cydade correm muyta parte destes reynos por estes ryos, por serem // elles [ muy grandes he poderosos. Por hum deles vão ha Coulão vinte legoas daquy, que he hum lugar, como disse, donde os daquele collegio se podem vir a este a insinar gramma- tica, e a leer e escrever, e a tudo ho mays que necessário lhes for, e assym os do Cabo de Comorim, porque assym Coulão, como Comoryn, se provem do necessário desta cydade. Daquy se embarquão para todas as partes: para Malaca, Chyna, Japão, Maluquo, Banda e Maldiva, com suas ilhas. Nesta serra, que disse, de que saem estes ryos, que vem ter a esta cydade, ha nella e ao redor delia muytos christãos que fez S. Thome, os quaes tem muytas erróneas, por serem instruídos por dous bispos que vierão do Preste, nos lugares dos quaes ha ygreyjas muyto boas. 2 i i
  • Estes se perdem a myngoa de obreyros, e de quem os traga ao verdadeiro caminho he a obedientia da Igreija Romana acerca de cousas; os filhos destes se crião muytos delles em hum collegio de Frey Vicente que Deus tem. (Creo que la se escrevera sobre este collegio, para que seja da Companhia) (4). Eu fuy visitar dous lugares destes; vim muy consolado de todos aqueles christãos; disse-lhes missa, fiz com elles duas procições pedindo minha alma ao Senhor que os visi- tasse e mandasse dessa terra qua obreyros para que lhes partissem o pão, pois de continuo o estão pedindo estes christãos. Aquy disse missa; obedecem em tudo a Igreyja Romana, e são ao presente instruídos por hum padre mala- var, dos dous que andavão la em Coymbra. Este collegio estaa na milhor parte da cydade em hum chão, que o governador Jorge Cabral comprou por seicentos pardaos, em nome de Sua Alteza, he junto a huma casa de oração de Nosa Senhora da Madre de Deus. A cydade deu ho uso desta casa, com consentimento e aprazimento do bispo, a Companhia. Os exercitios que ate gora tive nesta cydade são os que por cartas vivas que la vão este anno, he o passado poderá f-3 saber e também por cartas dos Irmãos poderá saber // alguma parte delles, e portanto não digo mays. De muytos irmãos he padres, não soube novas este anno, para mandar a Vossa Reverencia. De la nos conselem ho anno que vem com cartas suas, pois estas são nosas consolações. Noso senhor nos de sua sancta graça, Amen. 1551 (5). Filius tuus Antonio de Fleredia. (4) BIMINEL: falta este período. (5) A cópia da BIMINEL não dá assinatura alguma, mas tem a data de 5 de Novembro de 1552.
  • 43 RENDAS DO COLÉGIO DE SANTA FÉ DE GOA Goa, 5 de Novembro de 1552 APO, V, 247. O Viso Rey da India etc. mando a vós Antonio Ferrão, Tanadar-mór desta cidade e ilhas de Goa, que façais o tombo de todas as terras, que o colégio de São Paulo desta cidade tem, e lhe pertencem nesta ilha de Goa, e nas outras ilhas a ela anexas, muyto decraradamente com decraração onde estão as ditas terras, e os possuidores e rendeiros delas, e os foros e rendas que de cada huma se pagua, e ireis pelas ditas ilhas fazer o dito tombo asy como se faaz ho das terras de Sua Alteza. Comprio asy. Rodrigo Mon- teiro o fez em Guoa a 5 de Novembro de 1552. Simão Ferreira o fez escrever. Dom Alfonso. (Tombo das terras dos Pagodes da Ilha de Goa, foi. 1 v.) 2 1 3
  • 44 RENDAS DO COLÉGIO DA SANTA FÉ DE GOA Goa, 5 de Novembro de 1552 APO, V, 248-249. Dom Affonso de Noronha, Viso Rey da India, etc. Faço saber a vós Antonio Ferrão, Tanador moor desta cidade de Goa e suas ilhas, que eu ey por bem, e vos mando que quoando fordes e andardes polas Aldeãs desta ilha fazendo o tombo das terras do colégio de São Paulo desta cidade, ou fazendo outro quoalquer negocio, ainda que não seja do dito colégio, sendovos requerido pelo procurador dele que o ouçais com algumas pessoas que trouxerem algu- mas propiedades que pertencerem ao dito colégio sobne- gadas, ho ouçais, e façais vir perante vós todas as pessoas que vos o dito precurador requerer, e com eles verbalmente o ouvireis, e perguntareis as testemunhas que vos forem apresentadas pelas partes, e vereis os tombos das Aldeãs donde o caso acontecer sobre os casos que vos requererem, e despachareis tudo como vos parecer justiça, sem niso aver mais processo, que escrever a aução e contestação, e o que as testemunhas diserem, e o terlado do tombo que niso falar, e sua detreminação por escrito, porque não ey por bem que se fação mais processos, e dareis apelação ás partes que quiserem apelar, e não apelando ninguém, dareis vosas sentenças á execução, e asy conhecereis dos casos que vos o precurador do dito colégio requerer que mandeis aos que forem vizinhos das propiedades dele, e lhe tiverem tomado alguma cousa delias com seus valados e tapigos, que fação valadar direito, e deixem o que tive- rem tomado, e o fareis, e lhe mandareis que fação seus 214
  • valados por onde direitamente amde ir, dando a cada hum o seu, e disto conhecereis e tomareis conhecimento pela maneira sobredita, e de vosas determinações dareis apela- ção ás partes que apelar quizerem, como dito he, e em tudo fareis justiça. E quoanto he ás rendas do dito colé- gio, ouvireis o rendeiro delle, e lhe fareis logo pagar e executar asi e pela maneira que o fazeis na renda de Sua Alteza, e o escrivão que andar comvosco escreverá todo o sobredito. Compryo asi inteiramente. Rodrigo Mon- teiro o fez em Goa a 5 de Novembro de 1552. Symão Ferreira o fez escrever. Dom Alfonso. (Tombo das terras dos Pagodes da Ilha de Goa, foi. 2) 21 5
  • 45 CARTA DO VICE-REI D. AFONSO AO PADRE MESTRE GASPAR Dio, 16 de Novembro de 1552 Documento existente na BAL, 49-JV-49. Fls. 159-159 v. (1) Muyto Reverendo Padre, Huma carta vosa me derão, com que recebi muyta con- solação. Logo em Baçaim mandey ao feitor que pagasse ^ o dinheiro, que hi tinha despachado (não fuy ver o collegio, porque me parti com muyta preça que me começava a fugir muyta gente e os marinheiros). Vi as cartas do Cabo de Comorim do Padre Paulo, e não ha que res- ponder a ellas, porque são da mesma substancia das que me destes em Goa. Quanto ao collegio de Coulão, não pode ser menos que aquillo pera cincoenta moços, e asi o escrevey a el-rey, meu senhor, e lho mandarey quaa despachar, como ouver tempo pera lho pagarem. Eu escrevo também a Sua Alteza o grande fruyto que fazem os meninos em Goa, e como deve de levar muyto gosto dos que quaa mandou pello proveyto que fazem. Ja la sabera as novas de Ormuz, que meus peccados quiserão que me tomassem em parte aonde foy (sic) for- çado tomar conselho se iria laa ou não; pareceo que não devia laa ir. Mando laa Dom Antão, com quinze velas grosas, pera favorecer a cidade, porque se me avisar que (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fl. 225; BACIL: Cartas do Japão, I, fl. 202 r. 2/6
  • devo de laa ir cre-lo-ey, e ir-me-ey, sem mays conselho e, pera isso, me vou a Baçaim, onde estarey ate me vir seu recado e, como me vier, se não ouver de ir a Ormuz, me irey pera essa cidade, que sera muyta consolação pera mim a conversação de Vossa Reverencia e, se não me agasto com se me estorvar a ida he pella confiança que tenho em suas orações, e que por ellas me ordenaria Nosso Senhor //o que fosse mais seus santo serviço. Peço-lhe que não ['59 r0 canse e persevere ate me vir recado de Dom Antão, e me determinar no que ey-de fazer. A oração que lhe mandey hasse de rezar no cabo das ladaynhas com oremus. E aos sabados ha-de ser as laday- nhas de Nossa Senhora. Antonio Gonçalvez achey aqui que daa muyto bom exemplo de si, e tem feyto muyto fruyto, e he muy desejoso de perseverar na Companhia e de estar aqui todo o tempo que lhe mandarem. Encomendo-lhe o asossego dessa cidade e amizade antre os honrrados delia, e asi entre o bispo e o capitão. Nosso Senhor o faça santo, e nos ayunte no paraysso; ainda que lho eu não mereço, mere- cer-lho-ão as suas chagas em que eu confio. De Diu, a 16 de Novembro de 1552 annos. Dom Afonso. 2 1 7
  • 46 OS MESTRES DE GOA A EL-REI Goa, 25 (?) de Novembro de 1552 Documento existente no ANTT: — CC, I, 89-21. Mede 305 x 205 mm. São três folhas, duas das quais escritas. Em bom estado. Apresenta ainda o selo em lacre, com as letras M. G., isto ê, Mesteres de Goa. Muito allto e muito poderoso prymsipe e rey noso senhor, Hos quatro mesteres da vosa muy nobre e sempre leall cidade de Goa beyjamos as reais mãos de Vossa Al- teza, e sempre rogamos a Noso Senhor per dias de vyda e acresentamento de seu reall estado. Item. Senhor, nos, como seu leall povo, lhe dyremos aquy sertas verdades como a seu rey e senhor. Item. Prymeyramente, que na Imdya não ha justiça, asi no seu vyso-rey, como nos que ha han-de fazer. Item. Senhor, «que os Turquos se fazyam prestes no Estreyto pera irem sobre Hormus»; estas novas trouxeram as fustas que vyerom do Estreyto em Mayo, e o vyso-rey sempre dormyo, e quando vio na entrada de Setembro vyrem novas que os Turcos estavam em Adem he que yam sobre Hormus e o vyso-rey dormir, e despois veo hum quatur de Ormuz e dyse que os Turcos eram ja do Quabo de Rosallgate pera dentro, e que eram vynte e çynco galles, entonses se comesou de fazer prestes e tam de vagar que teveram os Turcos lugar de tomar Mascate com sesenta portugueses, e estava hum Antonio de Lysboa por capitão, 2 I 8
  • e deu-se sem pellejar que, se pellejara, todo o poder do Turco lhe poderá empeser (l), mas hera elle hum chatym que comprou a fortalleza com dinheiro, e de Mascate foram a Oramus e saquearom a sydade e bateram a fortalleza e foram-se, caminho de Basora, e tudo // pello muito [> *-3 vagar e pouquo cuydado, he aos 20 de Novembro, estando o vyso-rey muito de vagar em Chaull com armada chegou Fernão Farto (?) de Hormus, com novas que eram os Turcos ydos pera Basora. Tudo, Senhor, o tempo se foy em jugar canas e follgar. Item. Todo o quydado he ajuntar dinheiro por todos modos e maneyras, que se po (s/c) ajuntar, a huns por forsa e a outros por vontade, e toma a tyranya, que prasa a Noso Senhor que as pragas que as pessoas dizem não se compram, e porque Vosa Allteza sabera Ia parte deste negosyo, callaremos o mays. Item. Senhor, lhe juramos, polia fee que devemos a Deos e a Vosa Alteza, que os vereadores lhe não esprevem a verdade, como devem, porque Jorge Garses he vereador e cryado do Marques velho, e o vyso-rey lhe deu muitos bares (2) pera Banda e Malluco, e a Manoell de Sa, verea- dor o vyso-rey ho fez vereador em lugar de Manoell Vas- cogonsellos, e lhe quitou ho vyso-rey seissentos pardaos de sua conta, e a Payo Rois de Araujo, vereador, pagou quatro- sentos pardaos, e desta maneyra lhe não esprevem verdade, e não lha esprevem. Item. Senhor, hos Turcos am-de tornar a Oramus, e am-de vyr mylhor aparelhados de vellas e gente, porque agora vyeram vynte e cinco galles e oytosentos omens de pelleja, e se elles tornão e acham Dom Afonso na Yndia, (1) Leitura hipotética. (2) Leitura hipotética. 2 I p
  • Oramus se perdera, polio muito descuydo e grande mofyna do vyso-rey. Item. Senhor, lhe lembramos a morte dell-rey de Cella (3), dell-rey de Seyllon, e das cruezas que sobre seu tysouro se fezerom; fora de maneyra que o credyto dos portugueses e perdydo; não ha mouro que se confie [i r.] de português. Mataram ell-rey de Ceyllom e tomaram-lhe seu tysouro, certamente porque os mouros não faliam em outra cousa. Item. Senhor, lhe fazemos saber em como o vyso-rey mandou pydir ao Ydallcom pydir emprestado ao Ydallcom çem mill pardaos de ouro e o Ydall (sic) // emprestados e o Dyallcão (sic) respondeo ao embayxador que ho vyso-rey, polia amisade que tynham, lhe ouvera de acodyr com gente e bombardas, estando elle çercado de imigos, e que o viso-rei lhe mandava pydir dinheiro. Asy que ate o presente aynda la esta o embaixador, e também mandou pydyr a Yzamaluco dinheiro, e foy la Francisco1 Manhos, e também mandou pydyr dinheiro a Cananor a Quoja Semesadym, cousa de que se muitos mouros espantam, dyzendo que ell-rey de Purtugall pede dinheiro emprestado, sendo tamanho senhor. Item. Esta cidade emprestou ao vyso-rey 22.000 par- daos, aliem de muitas tyranyas que a sidade feserão, e ho yapretymo (sic) fes a cidade com hos olhos da alma, com que se pagaram os omens da armada, que foram com ho vyso-rey. Item. Senhor, mande Vosa Alteza a Yndia ornem de bom juizo e saber e cuydado, homem que sobre huma (3) Ests palavra parece ter sido cortada, e por isso se repetiu, i — fre0 2 2 O
  • cousa não pase muitos papes em contrayro huns dos outros sobre callquer cousa, e mande fydallgos omens de con- selho, porque qua não tem senão Francisco Bareto, capitão que foy de Basaym. Item. Senhor, qua tirarom estromentos sobre a Rybeira e sobre o allmazem, e porem se Vosa Alteza mandar tyrar outros por os padres dominicos ou frades2, elles sam muito ao reves dos que se agora tyram, que som tirados com medo, e os omens metem as allmas no imferno com medo. Item. Senhor, lhe lembramos que de as fortallezas a omens maduros e que sejam tymidos dos imigos, e que governem bem nas fortallezas. Item. Senhor, que duas fustas de Turcos andam a dous verões nesta costa e a tem saqueada, sem nunca lhe poder ser feito nada, tudo por descuydo e he tanta a nosa judaria (4) que lhe am medo, e ysto quausa darem fustas a rapases. Item. Senhor, pydymos-lhe misericórdia3, myserycordya, myzerycordya. Aquodi-nos, Senhor, aquody-nos, Senhor, que nos imos ha ho fundo, e se quayr o noso estado, nunca se irguera, por amor da morte e payxom de Noso Senhor que nos agora // não nos perquamos, que se nos perder- *1 mos perder-se-am muitos inosentes que a nesta tera, que som muitos. Item. Senhor, esta carta não vay assinada, porque não ousamos de o pydyr, por não saberem que esprevemos a Vosa Alteza. (4) Leitura hipotética. 2-tt." j 3-mia. 2 2 1
  • Item. Senhor, lhe pydymos que esta carta seja rota e não se veja senão Vosa Alteza, porque nos mataram, porque Pero Fernandez'1 que espreve ante a raynha nosa senhora, e muito amygo de Jorge Garses, vereador, e fas qua suas cousas. Por amor de Noso Senhor, que, por lhe esprevermos verdade, não nos venha mail. Deus todo poderoso acresente os dias da vida e reall estado a Vosa Alteza. Dos mysteres da sua cydade de Goa, aos 25 (5) de Novembro de 1552 anos. Martym Gomez. Diogo5. Joam Martinz. Alvaro Fer- nandez6 (6). (5) Ou 28 ? (6) Assinaturas muito pessoais e hipotéticas. 4 — p.* fel; 1 — d.* ; 6 — alv. frx.
  • 47 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES AOS SEUS CONFRADES DE COIMBRA Cochim, 17 de Novembro (1) de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 168 v.-170 v. (2) Ha graça do Spiritu Santo seia sempre em nosas almas, amen. Ho ano passado escrevi ha Vossa Reverencia ho que passava no Cabo de Comorim, e este asi ho escrevo por asi mo mandar a obedientia. Sou tão mao que se por esta via não fora, pode ser que não escrevera. Escrevi ho anno passado acerca do que fazíamos nesta costa da Pescaria; vamos continuando, não sem pequenos trabalhos, nem sem grandes consolaçõis, pola bondade de Nosso Senhor. Assi como os capitães buscão para as guer- ras hos milhores cavaleiros, andamos nos outros buscando os milhores christãos, como ja o ano passado escrevi a Vossa Reverencia, para esta guerra e combate, que tra- zemos entre as mãos. Estes tais estão ensinando por luga- res a doutrina christam; ao presente, disto não ha mais que escrever, senão que perseveramos, fazendo muito ser- viço a Deos Nosso Senhor, aiundando aos proximos, do (1) Há divergências na escrita da data: no princípio dá-se como 27, e no fim 17 de Novrembro. (2) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 236v.-238v. A cópia apresenta, à margem, vários subtítulos. Nesta, como noutras cartas, o copista esqueceu ou omitiu de em quando algumas palavras. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 218 V.-220 v. Logo no princípio, tem à margem a seguinte nota: esta carta he do anno de 13Í1. Segundo esta mesma cópia, dá-se no princípio a data de 17 e no fim, a de 5 de Novembro^
  • que os padres são mui consolados, e lhe temos huma inveia santa, achando-nos faltos de alguma virtude, que nelles vemos resplandecer. Temos pera nos que por este caminho a-de vir aproveitar-se muito os christãos, e a christandade se aproveitão. Tenho confiança em Deos Nosso Senhor que, com este meo e com outros que temos com esta gente, se Nosso Senhor, por nossos peccados, per- mittisse que nestas partes das índias não ouvesse portu- gueses, estes christãos por si levarião adiante o negocio da christandade, o que me parece que em poucas partes das índias se poderia assi levar. He verdade que tem estes huma ventaia pera mais facilmente prosiguir o começado, e he que esta costa toda, que se chama Paravess (sic), se converteo a fe, e he muita a gente e em as outras das índias, donde ay christandade, não he asi, porque ainda que ay muitos christãos, são de diversas naçõis, porque nas índias ai muitas diversidades de naçõis. Vontade tinha de criar alguns moços de idade de 14 anos ou mais em a doutrina e fe christã e bons costumes, moços digo em que sintisse mui boa inclinação e deseio de servir a Deos Nosso Senhor, e parece-me também este modo mui necessário (3) para aproveitamento da christan- dade, mas não ay dinheiro pera os poder manter, e por- tanto ao presente não levo adiante esta empresa que tinha na vontade. Verdade he que el-rey tem feito merce de 100 mil reis cada anno pera se fazer hum collegio em a Pescaria, do dinheiro que Sua Alteza da Pescaria tem de renda, mas agora rende pouco e, por isso, se não pode fazer ao presente. Tenho escrito a Vossa Reverencia que as orações que se insinavão em a propria lingoa da terra, em os tempos (3) Correcção feita à margem: e conveniente. 224
  • passados, antes que eu soubesse a lingoa da terra, estavão cheas de mil errores e, dispois que aprendi a lingoa, hos tirey com muito trabalho, de maneira que o que dantes estava feito não aproveitava; isto escrevi o anno passado. Sabera Vossa Reverencia que, tornando a ver as orações, achey que emmendar nellas em o que também levei gran- díssimo trabalho, e causou tudo isto a dificuldade da lin- goa, porque he trabalhosa. Paresceo-me, que escrever isto, porque, como nosa Companhia seia por Deos ordenada para que in omni terra exeat sonum eorum et in fine orbit terrae verba eorum (4), os padres e irmãos que a terras alheas e perigrinas forem, quando detriminarem aprender a lingoa e tirar as orações em seo proprio idio- mate, tenhão este aviso pera proceder // mui atento aliter se querentur magna inconvenientia. Grande he o cuidado e sulicitud que se tem em insinar aos mininos e mininas (ut olim scripsí), o que se leva adiante, e os tais são a nos mui afficionados, do qual saimos todos mui consolados no Senhor. Dias ha que pus diligentia em declarar o mistério da Santíssima Trindade, e a Encarnação de Nosso Senhor Jesu Christo, e a causa por que adoravamos a Crus, a qual lhes insinão que lhe an-de tomar conta. Certifico a Vossa Reverencia que mui grande consolação he a que recebo de ver quão bem aprendem e tomão o que lhes insinão, quão boa conta me dão, asi homens como mulheres; con- fio em Deos Nosso Senhor que, antes de muito tempo, asi grandes como pequenos, entenderão estes mistérios, pois são os mais centrais da nossa santíssima fe; he para louvar a Deos ver a grande diligentia que nisto poem de dia e de noite; Nosso Senhor os conserve e lhe de graça pera perseverar em o começado. (4) a. Ps., 18, 5, e Rom., 10, 18. 225 Doe. Padroado, v -15
  • Mestre Francisco nos tem encomendado e deixado in script is que trabalhemos pera que todos nos amen, por- que, desta maneira, faremos fruito, e asi, por no-lo ter encomendado, com em si ser cousa mui necessária, temos cuidado de nossa parte fazer por todos os meos que esta gente nos seia affeiçoada, e em isto temos grande con- solação, louvado seia Nosso Senhor, por ver que os chris- tãos da terra nos tem tanto amor, do qual se segue dar grão credito a nossas palavras, e fazer com grande dili- gencia o que lhes encomendamos. Este amor sintimos não só em os christãos, mas ainda em os gentios, segundo que do emterior se pode coligir, ainda em os mouros os quais tem razão, porque muitas vezes os livramos de algumas moléstias e agravos dos capitãis e portugueses. Quer Deos Nosso Senhor, por sua infinita bondade e misericórdia, que entre mi e os christãos aia tanto amor que não sofram ouvir dizer que me ey-de apartar deiles e, se acaso os reprehendo, lhes digo que os ei-de deixar, são grandemente lastimados, e sinto em elles que farião alguns extremos poios não deixar, seia Nosso Senhor por tudo louvado; ia pode ser que ser eu tam brando pera com elles, como de feito ho sou, cause isto, mas afora do que sou, por nos ser encomendado do Padre Mestre Fran- cisco, sinto eu que os primeiros annos tudo isto he necessá- rio e, se me não engano, tem tanto amor e afeição que, ainda que agora procedesse contra elles com castigos áspe- ros, me sofrerião e levarião em conta, sem perder o amor e a afeição que me tem; se em os primeiros annos quisera proceder doutra maneira, do que ey procedido ate agora, parece-me que não somente aproveitara (5) alguma cousa, mas ainda não me sofrerão. (5) BIMINEL: não aproveitara. 226
  • Alguns dias ha que temos ordenado que todos os homens e molheres aprendão a oração do Pater Noster e a Ave Maria em latim, ou em sua propria lingoa, porque como se fizerão christãos, ja de boa idade, e são homens pobres e de rudes ingenhos, os mais delles poucos as sabião em comparação dos muitos que as não sabião; depois de ordenar isto, poiem elles de sua parte não pouca deligentia pera aprenderem o que lhes dizemos. Eu confio em Deos Nosso Senhor que, antes de alguns dias, a maior parte delles, ou quasi todos, o saberão, e depois lhe a tenho de mandar (6) que aprendão o Credo en sua propria lin- gua, excepto que ay ia muitos que sabem o mistério da Sacratíssima Encarnação de Nosso Senhor Jesu Christo, e sabião ia dar a razão de si, como tenho scrito. Ao presente, não somos mais de tres em a costa, a saber: o Padre Paulo de Vale, e o Irmão Ambrosio, e eu e o Irmão Balthezar he ido pera Coulão // enfermo; tam- [169 v.] bem o Padre Paulo esta mui mal, não sey se vivira. O Irmão Ambrosio he o mais forte entre nos outros todos, ainda que também vay enfraquecendo; esta mui aprovei- tado, porque, não avendo estado no collegio de Goa mais que fazer os exersicios, logo foi mandado a Pescaria, ainda no tempo do Padre Antonio Criminal, e soube-se tam bem aproveitar que lhe temos não pouca inveja; edifica muito hos portugueses e christãos da terra e os infiéis; em a lingoa a todos leva a vantaia; repartio Deos Nosso Senhor muito com elle mas, como digo, o corpo vay enfra- quecendo, porque os trabalhos são muitos, os comeres fracos, e veio que poucos ão-de vir a esta costa que não enfraqueção nella em poucos annos, propter imensos labo- res que nella ay, e também me parece que ay não pouco fruito do que se sigue gloria a Deos. (6) Correcção: ei-de encarregar. 2 2J
  • Todos temos cuidado de falar a lingoa, e aprender escrever e ler; confio em Deos Nosso Senhor que todos os que vierem dessas partes aca, aprenderão a lingoa, por- que esta aberto o caminho, ainda que a lingoa em si seia muito trabalhosa e difícil; esta lingoa se chama malavar, e ay outra que se chama M.aleame\ quasi se entendem huma com outra, mas porem he mui differente, tanto como a castelhana da purtuguesa. Comecei aprender esta meleame e, ainda que delia aprendi poco, tenho ia feito humas decli- nações e conjugações, e he grande caminho andado; tam- bém que nesta mesma lingoa tirei as orações, ainda que não estão de todo enmendadas. Parece-me que não lhe faltara muito; mandei-as os dias passados a dous padres de terra letrados, que estudarão em Portugal, pera as enmendar, e estão agora em Cranganor; ainda não sey o que tem feito acerca disto; encomendem-me a Nosso Se- nhor, porque também a disposição, como Vossa Reveren- cia sabe, he mui fraca. Dias ha que não tive disputas com gentios nem mou- ros, como ho anno passado escrevi que as tinha, porque creo que não ousão por-se em disputa comigo, mas algu- mas tive e sempre se siguio gloria a Nosso Senhor, e confusão e abatimento aos gintios. Temos hum capitão em esta costa que muito nos aiuda ao serviço de Deos, do qual elle he zelozo; encomen- dem-no a Deos, porque he como hum padre. Por meo destes christãos, truxe Deos Nosso Senhor a sua santa fe hum senhor de Triquinamale, porque, vendo-se em necessidade em sua terra, e tendo antiga amizade com os christãos, se veo a elles pidir-lhes socorro; aconselha- rão-lhe que se fose bautizar com sua gente, o qual aceitou e pidio com instantia que o fizesem christão, ainda que não lhe dessem ajuda, e muito me emportunou em isto e, vendo eu sua constantia, o bautizey e a um minino seu, 228
  • que he proprio senhor das terras, com alguns homens que trazia consigo. Os nossos christão, depois de o ver bauti- zado, folgarão muito, e se dipuserão com toda a sua pobreza a o ir meter em pusisão (7) de suas terras, e o capitão também mandou seu sobrinho e hum catur com certos soldados; depois de ja ter ido a suas próprias terras, se bautizarão mais alguns; não forão muitos, por andar ainda a cousa alvoroçada com guerras, e porque avia dous meses, pouco mais ou menos, que estavão com elle, e os christãos erão pobres e o regedor das terras, tio do minino, porque ainda não avia recuperado de todo as terras, não tinha com que sustentar os christãos // que [170 r.] com elle avião ido a guerra pera sua ajuda e defensão se tornarão, mas alguma pouca de gente lhe ficou pera sua defensão, e o sobrinho do capitão trouxe o minino, por assi o ter mandado o capitão; foi presentado ao viso-rey com o qual muito folgou, e o viso-rey o entregou ao Padre Antonio Gomez pera o insinar e doutrinar em bons costumes e doutrina christã. Depois de vindos os christãos e o sobrinho do capitão, tivemos algumas novas, que este regedor he seu contrario, mas este minino, que ca temos, he o proprio senhor das terras que entre ambos agora possuem e, yndo o capitão e padres aquellas terras, esperamos em Deos Nosso Senhor que muitos delles se convertão, mas não ay tantos padres, et ideo mitat (8) operários, porque ay muito que fazer nesta vinha do senhor. Offerecemsse tantas ocupações que muitas vezes estou em duvida sobre o que tenho de fazer, se acudirey as necessidades espirituais ou corporais dos proximos, ou se me recolherey; cuido que o caminho mais seguro he para (7) Correcção: de posse. (8) BIMINEL: mittite. 2 2 p
  • milhor continuar e aliquando ter recolhimento, pera o qual em Punicale temos huma casa feita para fazer exer- citios, digo pera os padres e irmãos, e quando vejo as necessidades presentes, e estar sobre mim ho cargo, muitas vezes me esqueso de mim mesmo, por acudir aos proximos, polo qual a maior parte despois me acho mui ferido, e tenho por certo que he mui seguro recolher-me, exemplo Domini Nostri Jesu Christi. De todo isto o anno passado escrevi a nosso Padre Mes- tre Inatio; pera Setembro espero recado; pola bondade de Nosso Senhor, sentimos que os portugueses e christãos, mouros e gentios, se edificão muito da vida dos padres; prasa a Nosso Senhor que seião elles tais, quaes elles cuidao que nos outros somos. Rogue a Deos que converta muitos homens, tais como a Jogue, sobre que o anno passado escrevia a Vossa Reve- rencia, porque da conversão dos tais resultara grande louvor a Deos, e conversão de muitos gentios. Mandei contar aos christãos destes lugares, adonde andamos, mas não puderão contar-los todos; achamos mais de 4000 (9), mas são mais, porque alguns lugares ficarão sem ser contados, por esta- rem longe de aqui, e estar nos outros de pressa. Declarando aos christãos os mistérios da fe, desde o principio do mundo, concertarão entre si de fazer pintar todos em panos e, para isto, mandarão hum homem por- tuguês a Goa, o qual esteve alguns meses em Goa, fazendo pintar estas imagens, desde o principio do mundo ate ho dia do Juízo, os mistérios que entre meio passarão; dispois de trazidos a costa, recebemos grande consolação com as tais imagens, porque he hum livro pera os que pouco sa- (9) BIMINEL: achamos quasi corenta mil. As três últimas palavras foram escritas posteriormente sobre um espaço deixado em branco pelo copista. 2 J O
  • bem poder aprender mais facilmente as cousas de nossa santa fe; estão tão contentes e satisfeitos os christãos, que estão determinados de mandar pintar as mesmas imagens, pera as ter em cada lugar dos principais. Muito folgara de poder aqui escrever minhas malda- des (10) pera que todos as soubessem e me encomendas- sem a Deos, mas quando nos mandão escrever pera o reino he pera dar nos outros conta do que Nosso Senhor obra por estas partes em que andamos, e porque, segundo as muitas cartas que la se mandão, das muitas cousas que Christo obra poios seus, esta minha se faz ya larga, quero acabar; a feitura // da qual chegou o mui desejado e [i70 v.] necessário em estas ipartes das índias Mestre Francisco, o qual com sua deseiada vinda nos acrecentou muito os fervores e deseios com as novas que nos trouxe de Japão. Sabia Deos Nosso Senhor quão necessário era em estas partes, pera todos nos outros e pera todos os christãos, e pera a conversão dos infiéis; não se podia dizer quão bemquisto he de todos o Padre Mestre Francisco, e grãa reputação que delle tem todos, propter opera quae opera- tur; Dominus conservei eum et vivijicet eum. Muito fol- gara de escrever as grandes obras dos padres e irmãos da Companhia por estas partes, mas elles por obedientia terão disso cuidado. O Padre Mestre Gaspar fas e fes cousas incríveis, pera muito louvor de Nosso Senhor. Fico ro- gando que nos de graça e amor pera que perfeitamente façamos sua vontade. Deste cochim, a 27 de Novembro de 1552. Anrrique Anrriquez. (10) Correcção: imperfeições. 2 3 1
  • 48 CARTA DO PADRE MESTRE GASPAR BARZEO PARA O PADRE MIRÀO Goa, 30 de Novembro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 177 v.-178 r. (1) Pax sit semper in cordibus nostris. Ca nos derão novas nas cartas que nos o anno passado mandarão desse santo collegio da vinda de Vossa Reve- rencia. Nosso Senhor sabe quanto nessa parte fui conso- lado; ainda que de mim não tenha notitia, não deixo eu de ter muita delle; não me parece razão gastar tempo com screver iuditios inductivos ao (2) conhecimento onde a obrigação fraternal concorre. Abasta sermos membros, ainda que eu indigno, desta santa congregação do nome de Jesu pera todo o demais sesar. Não deixe de nos con- solar aos que nestas partes da índia tão remotas somos destinados pera propagar aquelle nome que por toda a redondeza da terra deve de ser conhecido. As demais novas, que nas cartas nos vierão, do aumento da Companhia esti- mulo nos forão de grande amor que, alem de nos consolar, nos fazem correr mais depreça; o Senhor confirme o que tem obrado em nos. Nesta muita rasão tinha de ser mui largo em propor as necessidades que padecem ca estas partes de obreiros (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 221-222. Subtítulos à margem. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 203 V.-204 v. (2) BIMINEL: aonde; BACIL: aonde o conhecimento e obrigaçam fraternal concorre.
  • na vinha do Senhor, porem porque sinto pouco remedio, pola muita materia que vejo cada dia crecer (3) nessas partes de Portugal, e a Companhia não abastar para suprir em tudo, ficara isso para a carta que escrevo ao nosso Reve- rendo Padre Ignatio e ao nosso Padre Mestre Simão para que elles proveião, segundo sintirem a maior gloria do Senhor. Somente, pesso a Vossa Reverencia, polo amor de Nosso Senhor, que se alembre quam madura he esta messe da India, e quanto se perde por mingua de obreiros, e quam deferentes são os merecimentos d'aquelles que pera caa forem mandados dos merecimentos daquelles que socor- rem as necessidades de Europa, onde ai tantos que poderão soprir; digo eu isto, pola muita magoa que tenho de ver cada dia perder-se tantos diante dos meos olhos que se podião remediar com qualquer que tivesse mediocre talento na Companhia. E isto entendo serem elles bem despostos da disposição corporal; do spiritual, não digo nada, abasta resedir Vossa Reverencia nesse santo collegio, para que aquelles que de la vierem tenhão fontes de agoa viva. O Padre meu, quantas vezes deseio mais corpos do que tenho para poder acudir em diversos lugares; ja que isto não pode ser, forças dobradas, as quais tenho bem demi- nuidas, louvores ao Senhor; para ver (4) se tinhão algum remedio o estimulo que dentro me magoava; porem abasta ser hum bicho tão vil, materia tão abiecta, que ainda que o Senhor em mim alguma virtude tivesse reposta, abastão os males meos serem empedimento a bondade de Deos não obrar em mim tanto quanto obrara; e nisto não me dilato mais, pois sou tão conhicido diante dos anjos e diante dos homens. Não cesse de rogar por mim, para que eu sesse (?) BIMINEL: correr. (4) Correcção: ser. 233
  • das minhas emperfeiçõis, e Nosso Senhor cessara de se [178] irar contra mim. // Alembro mais a Vossa Reverencia se de la, desse santo collegio, ouverem de vir alguns padres e irmãos tenhão boa disposição corporal, porque os doentes e enfermos dão ca grandes trabalhos aquelles que são sãos, e não tão somente não podem obrar, mas ainda ocupão os sãos em os curar, porque a terra he em si de tal qualidade que os doentes fas mais doentes, e os sãos doentes; he huma das cousas que muito magoa he termos ca muitos padres e irmãos espalhados pola índia mui enfermos, porque pera os conservar he necessário buscar os lugares e províncias mais sadias, os quais não podem durar muito, porque vivem mais do que esperamos delles e, levando-os Nosso Senhor pera sim (s/c), não temos com que suprir nos seus lugares, os quais não deixão de fazer o que podem, e eu tenho para mym que não esperão para mais que virem de la padres e irmãos para suprirem em seus lugares, pera fazerem dicessão desta vida para a outra, com que Deos obra por elles; muitas vezes me poem em admiração, conhecendo a falta de sua saúde, sed de hiis satis. As novas de ca encomendey a hum irmão que em parti- cular as escrevesse; quanto mais, la vay o irmão Andre Fernandez, que sera carta viva que, por comissão do Pa- dre Mestre Francisco, vay para la a declarar as necessidades de ca, assim ao Reverendo padre nosso Mestre Simão, e a Vossa Reverencia, e ao Reverendo padre nosso Mestre Inatio. Nosso Senhor ordene o que for mais gloria sua; pesso muito a Vossa Reverencia que o aproveite muito no spiritu, e asi hum japão que vay com elle, homem de muita marca he fidalgo, de quem se spera muito fruito nas províncias de Japão. Outro veo com elle, e nos morreo ca, por a terra ser muy esteril pera elles, pola naturaleza sua ser mui frigida; Vossa Reverencia, por amor de Deos, 234
  • com toda a brevidade que poder, os despachara ou fara despachar, pera que se presentem ao Nosso Padre Inatio. Elie leva cartas do Padre Mestre Francisco para o Padre Mestre Inatio; o negocio, a que elle vay, não he mais que apresentar as necessidades de ca, para proverem ca de alguma pessoa esprimentada muito em tudo para residyr neste collegio em lugar do Padre Mestre Francisco, e assi alguns padres que tenhão talento de letras para cursarem estes que estão ja principiados, para que dos que ca se criarem se possão prover com os que de la mandarem as necessidades da India. Hum artista (1) e bom gramático, e hum bom theologo, e algum para pregar para estar neste collegio de continuo, e algumas regras para em mais per- feição seguirem a Companhia. Nosso Senhor nos de sem- pre a sintir sua santa vontade, e essa comprir e nos con- firme em seo amor. Deste collegio de São Paulo de Goa, a 30 de Novem- bro de 1552. Gaspar. (1) Artista está por professor de Artes. 235
  • 49 CARTA GERAL DO COLÉGIO DE GOA AOS PADRES E IRMÃOS DE PORTUGAL Goa, 1 de Dezembro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 147 r. - 153 v. (1) ['•*7 <•■] A graça e amor eterno de Christo Nosso Senhor seja sempre em nosso continuo favor e ayuda, amen. Avendo de escrever o que Nosso Senhor ha • obrado nestas partes, não direy o que por meyo dos Padres da Companhia se fez em algumas, remetendo-me a suas car- tas que la vão. Soomente direy o que nesta cidade de Goa Nosso Senhor, por sua bondade, ha obrado, e cada dia obra, com spiritual augmento continuo das almas. Em o principio vos quero dizer da chegada de nosso muy amado Padre Mestre Francisco, o qual depois de ter deixado em Japão acerca de dous mil feytos christãos, e com seiscentos em huma cidade chamada Amanguchi ao Pe. Cosme de Torres, e hum irmão que sabe muy bem a lingoa, para os ensinarem e doutrinarem em a santa fee, se partio pera a India, e chegou a esta cidade de Goa em o principio de Fevereiro. A consolação e alegria que de sua vinda, tam pouco esperada e tam desejada tivemos em o Senhor, assi os da Companhia como todo o povo, não saberia eu sem duvida declara-la. Despois de sua chegada, se fizerão muitas cousas em esta cidade de muita gloria de Nosso Senhor. Começou (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 206-211 v.; BACIL: Cartas do Japão, t, fls. 185 r.-191 v. 236
  • logo pelas cousas da Companhia, e dividiu os Padres que quaa estavão, como lhe pareceo ser mayor gloria de Deos, e deixando ficar em Maluco ao Padre João da Beira com outro padre e tres irmãos, que antes estavão laa, para ensinar e sostentar a christandade daquelas partes, ordenou que o Padre Mestre Belchior fosse a Baçaim, com tres *" irmãos, e que o Padre Francisco Anrriquez, com hum irmão, fosse a Tanaa, para ajudarem aos portugueses, e aos christãos da terra em a salvação de suas almas. Ao Padre Gonçalo Roiz mandou a Ormuz e ao Padre Anto- nio (2) a Cochim com dous irmãos; a Diu foy (3) o Padre Antonio com hum irmão; ao Cabo de Comorim se mandarão dous irmãos para ayudar ao Padre Anrrique Anrriquez que estava la com hum irmão; pera S. Thome, aonde esta o Padre Cypriano, foy hum irmão para o ayudar, e outro a Coulão, aonde esta o Padre Nicolao com hum irmão; // a ilha de Ceylão foy o Padre Moraes com hum [147 *•! irmão; a Ormuz, se mandou despois hum irmão para ayudar o Padre Gonçalo Roiz, que jaa estava laa, do qual afirmarão homens que se achavão presentes, que indo elle para Ormuz em huma tareaca (sic) (4) pequena, a qual tomou em Mascate pera chegar mas asinha, tres ou quatro embarcações de Noutaques, que são pyratas, os seguirão, trabalhando por lhes chegar e lhes tirarão muytas frecha- das, mas porem o Padre se pos de giolhos em oração, pedindo a Nosso Senhor os livrasse. Disserão aquelles homens que as setas, por a bondade de Deos, tornavão atras, e nem a elle nem aos marinheyros arabios, que con- sigo levavão, fizerão mal nenhum, e não podendo os Nouta- (2) A seguir encontra-se a palavra Heredia, que foi riscada. BIMI- NEL: Manoel Gomez; BACIL: várias correcções ilegíveis. (3) A seguir, lê-se outro padre, sendo a palavra Antonio acrescentada. (4) Erro evidente. Deve ser terrada. 237
  • cjues chegar, ainda que levavão ligeiras embarcações, se tornarão. Em Goa, fiquarão cinco padres e 27 irmãos, dos quais o Padre Miser Paulo e dous irmãos tem cuidado dos meninos, que são cento e quorenta; alguns são dos orfãos e sesenta são indios. Dous padres e dous irmãos são idos em a armada que vay contra os Rumes. Em o tempo que esteve aqui o Padre Mestre Francisco, ouve sempre grandes desejos e fervor nos irmãos de o acompanhar para laa, aonde elle detreminava ir, por ser lugar em o qual, ao menos nestes princípios, se hão-de achar grandes trabalhos, por ser gente daquella terra que a nenhuma pessoa estrangeyra permite entrar em suas terras, pelo qual os que ha acometerem, como determina o Padre Mestre Francisco, hão-de ser delles maltratados. O Padre, alem de muitos exercícios espirituaes que tinha na cidade, se ocupava em fazer alguns avisos para os Padres que andão separados por estas partes; falava com os padres e irmãos animando-os ao serviço do Senhor, e exortando-os a desejos de mayor perfeição, quasi que se despedia delles, como quem nunca jaamais os avia de ver nem conversar. Fazia-nos muitas praticas espirituaes, nas quaes nos dava muitas doutrinas muy proveitosas ao espiritu. Os que escolheo o Padre pera irem em sua companhia a China, foy o Padre Balthesar Gago e hum irmão com hum moço china, que avia sete ou oyto annos que estava em casa, e tinha quatro ou cinco annos de latim, dos mais devotos moços que avia em casa; também levou consigo outros dous irmãos ate Malaca, pera dali os mandar a [h8 r.j ff a Japão com hum embayxador que veo de laa ao viso-rey, e outros dous Japões que vierão com o Padre. Agora sabemos que vay soo o Padre Mestre Francisco a China com o moço china, e os demais que hião com elle, vão a Japão. Chegando-sse o tempo de sua partida, fazia as noites praticas espirituaes aos irmãos, com que muyto 238
  • nos consolava, e as derradeiras cousas que nos encomendou na ultima pratica, despois de muytas lagrimas, forão cons- tância na primeira vocação, humildade muy profunda, que nace em todos do proprio conhecimento, e sobretudo a santa obediência e aptidão (5) e ceguidade nella. Isto derradeiro, replicou (s/c) muitas vezes como virtude muy amada de Deos e tam necessária aos da Companhia. Fez Provincial destas partes da Asia ao Padre Mestre Gaspar, ao qual deu todos seus poderes, e fe-lo reitor deste collegio de Goa, para que daqui provesse a todas as partes, e logo se assen- tou de jiolhos diante delle, e lhe deu a obediência por si, e por todos os que estavão absentes, dando-nos exemplo de obediência, da qual pouco antes nos tinha falado. Os padres e irmãos todos fizerão o mesmo, com grande con- solação e alegria, por lhes aver dado tal pastor. Feitas todas estas cousas, se partio o Padre Mestre Fran- cisco com seus companheyros a quinta feira de Endoenças, acabado o officio. Ja podeis considerar, charissimos Irmãos, o que poderia cada hum de nos outros em tal apartamento sentir, e ainda que sintão muito os irmãos apartar-sse delles tal varão, que com seu exemplo de vida e com sua dou- trina tanto os animava a servir a Deos, muito mais sentião não serem daquelles, a quem coube a sorte de o acom- panhar em tal empresa, aonde estão certos os trabalhos, com esperança de tanto fruyto. Passados oyto dias despois da partida do Padre Mestre Francisco, determinou o Padre Mestre Gaspar de entender no particular proveito dos irmãos, e recolhendo-sse a mayor parte delles para fazerem confissões geraes, deu ordem como este novo edificio espiritual fosse feito com funda- mento de espirito e perfeição da Companhia, pera mayor (5) BIMINEL e BACIL: promptidão. 2 39
  • gloria de Deos, e pera que em todos ouvesse cor unum et anima una in observatione mandatorum Dei (6). Dia da gloriosa Ascenssão de Nosso Senhor, ajun- tando-sse todos na capella, onde estava o Santíssimo Sacra- mento, fez o Padre huma pratica acerqua dos votos, cousa [148 *.] de grandíssima consolação, a qual duraria duas horas // e, acabada ella, todos os irmãos, assi os que se recolherão aos exercícios espirituaes, como os demais, se offerecerão a Nosso Senhor, confirmando os votos que jaa tinhão feytos, outros fazendo-os de novo, e estando pera isso despostos, como o Padre Mestre Francisco o deixava ordenado. Tiverão os irmãos seis ou sete meses de exercios con- tinuo no proprio conhecimento e mortificação da propria vontade, não entendendo em outras cousas, ao qual erão muy frequentemente exortados com muytas praticas espiri- tues do Padre Mestre Gaspar, continuando-sse também o exercício de meditar a vida de Jesu Christo, e dava o Padre duas meditações delia para cada dia. Ouve também algumas peregrinações ao derredor desta ilha de Goa no meo do emverno, que não foy pequena occasião de merecimento; todos geralmente são affeiçoados a pobreza de espiritu, e a promptidão em a obediência; vinte e tantos irmãos estudão latim ao presente, e cerca de quarenta moços do collegio com outros muytos de fora; daqui a hum anno, com a ajuda de Deos, começarão ouvir curso de artes. Também deu o padre ordem ao collegio dos meninos, os quais tem aqui a Companhia a cargo; esta a sua casa junto com a nossa, mas elles estam separa- dos, quanto a conversação; serão cento por todos, entre portugueses, mistiços e da terra; tem cuydado delles o Padre Miser Paulo e outros dous irmãos; muitos delles (6) Cf. Act., 4, 32. 2 40
  • sabem canto-chão e alguns canto de orgão; entre estes, ay muytos devotos e frequentes em se confessar e aproveytar; esta obra he cousa muy aceyta ao povo todo. 0 inverno passado fazião quatro procissões cada somana e na igreja aonde hião dezia hum delles a Paixão; huma vez, na igreja moor, a disse hum com muy ta devação tendo muy grande auditório, e começou a gente a mover-sse muy to, e a dar-sse bofetadas; ouve tanto choro e lagrimas, assi nos homens como nas mulheres, que foy cousa de muyta admiração. Muita gente os acompanhava nestas pro- sições; deste collegio sayão muy tas vezes com elles mais de oitenta ou noventa disciplinantes a Misericórdia, e as outras igrejas sayão de recebe-los e tornavão-sse com elles com toda a cera das confrarias. Causava tudo isto muyta devação no povo; reprendem em grande maneira os jura- mentos. Hum cavaleiro, estando jugando, dava a hum delles alguns pardaos que não no reprendesse, e respondeo o me- nino que por ouro nem prata avia de deixar de reprender as offensas que contra Deos avia cometer. Acompanhão também os defuntos e padescente que levão a justiça; vão com os padres a visitar os enfermos. // Agora ordena o Padre outro collegio de meninos [149 r ] no qual possão estar setenta e dois, a memoria e honrra dos setenta e dois discípulos; que-los por em humas casas pegadas ao nosso collegio, pêra se mudarem aqui os que forem aptos pera aprender letras; os demais que não forem pera isto se dara ordem como aprendão officios, e se apro- veitem per outra via. Alem disto, hum irmão nosso ensina a leer e escrever e a doutrina christãa asi aos meninos do collegio como aos de fora, pelo aver assi ordenado o Padre Mestre Francisco; isto se faz em humas casas junto do collegio, onde vem mais de trezentos meninos, aos quais ouvem todos os dias missa e, despois de acabada a lição, 241 Doe. Padroado, v -16
  • o irmão, que os ensina, os faz hir cantando a doutrina pelas ruas. Outro irmão vay todos os dias a huma hora despois de meyo dia, com huma campaynha, pella cidade, chamar os meninos a doutrina; he muyto pera louvar a Deos ver a grande multidão delles que o segue; ensina-lhes a dou- trina christãa e o modo que hão-de guardar para se criarem em os custumes e serem bons christãos; gasta com elles ate as quatro, fa-los tornar cantando a doutrina christã pellas ruas. Os meninos se ensinão apartados a huma parte e as meninas a outra; isto he muy aceyto ao povo; muyto se edificão de ver o cuidado que temos em lhes ensinar seus filhos. O irmão porteiro, antes meya hora de repartir a esmola aos pobres, assi ao gentar como a cea, entre tanto que aparelha o que lhes ha de dar, faz que hum dos pobres, que milhor sabe a doutrina, a ensine aos outros, estando juntos a portaria, e, despois de terem comido, faz o mesmo o irmão outra vez, e asi com a graça de Deos se vão ajudando todos cada hum por sua maneira, e em tudo se faz muito fruyto. Porque, despois da partida de Paulo, não averão tido cartas do que Nosso Senhor despois ha obrado por meyo do Padre Mestre Gaspar, avendo de escrever o que o Senhor faz por elle nesta terra, lhes darey conta de algumas outras cousas que cuido não terão sabido, ainda que são poucas, por eu não aver estado com elle em Ormuz. Despois da partida de Paulo, que agora esta laa, fez o Padre em sua casa hum recolhimento para os da Companhia, onde recebeo dez ou doze irmãos, os quais sostentou sempre em muyta virtude; teve Nosso Senhor, por seu meyo, movido algu- mas vezes a el-rey para se fazer christão, ainda que, por [M9 t.] conselhos maos dos seus, o deixou de fazer, dando // toda- via esperanças que o faria. Queria dar renda pera aquella casa da Companhia que fez o Padre em Ormuz; por seu 2^2
  • meyo fazia muytas esmolas aos portugueses pello grande amor e devação que lhe tinha. Pregava o Padre Mestre Gaspar aos soldados e fazia muytas esmolas a pobres; soubemos que em tres annos, que esteve em Ormuz, distri- buiria em esmolas e casamentos de molheres desemparadas, e outras obras pias, perto de vinte mil pardaos; ouve ali grandes restituições; dezião os clérigos que despois que o Padre Mestre Gaspar fora a Ormuz nunca deixara de ser quaresma. Era elle muy áspero em sua vida, mas muy benigno e affavel em sua conversação pelo qual trazia a si todos os que o conversavão. Quando Dom Antonio (7), sobrinho do viso-rey, foy com huma armada sobre Catifa, no tempo que ali se apercebeo, se confessou e asi quasi todo o exercito, que passava de dous mil homens. Eu mesmo ouvi ao padre que era tanta a presa, que passavão dous dias que não comia nem tinha mais de tres horas para dormir, por estar sempre ocupado em confissões; os mouros e gentios lhe tinhão gran reverencia e amor, por sua grande affabilidade e virtude; correo a fama de sua virtude por muytas partes, por estar em Ormuz muyta gente de diversas nações, de Goa ate a Constantinopla, donde foy enviado hum cativo que estava laa com outros christãos, com cartas suas, ao Padre Mestre Gaspar, o qual, chegando a fortaleza de Baçora, que he dos Rumes, foy preso, e dali escreveo ao padre que não vinha a outra cousa mais que a ve-lo e, porque os mouros sentirão que tivera reposta do padre, o matarão. O capitão mandou a cabeça daquelle bemdito homem pendurada de huma lança ao Padre Mes- tre Gaspar, pera que visse aquelle que tanto fizera pello ver. Em aquella casa de Ormuz teve o padre recolhidos sete ou oito (8) heréticos, nos quaes achou muytas opiniões (7) Correcção: Antão. (8) BACIL: sete ou oito dias heréticos... 243
  • luteranas e heréticas; negavão o Purgatório e a Igreja romana, e alguns a imortalidade da alma (9), etc. Dis- putando com elles e amoestando-os, finalmente os converteo e trouxe a união da Igreja. Nas sestas-feiras de todo o anno, fazia procisões, em que hião muytos disciplinantes, e quasi toda a gente da cidade e, acabada a procissão, pre- gava da Paixão do Senhor. Muytos homens, que vierão de Ormuz a esta cidade, nos diserão que homens casados, discípulos do padre, tinhão mais horação e fazião mais penitencia que podião fazer os religiosos. A virtude prin- cipal, pella qual Deos fazia tantas cousas por elle, parece que era huma muy viva fee com a quall todas as cousas, por arduas e dificiles que fossem, lhe paredão faciles; algumas vezes lhe ouvi dizer que, invocando o nome de Deos, nunca começara cousa, por difícil que fosse, que não se acabasse, por grandes que fossem os trabalhos que nisso ouvesse. Partido de Ormuz pera este collegio, e porque no caminho não deixasse de trabalhar, veo-sse na armada de Dom Antonio (10) que vinha para Goa. Confessava e falava de Deos aos soldados, também fazia doutrina aos escravos; era tanto o amor e credito que lhe tinhão todos os capitães e cavaleiros da armada que, aos Domingos e festas, amaynavão as velas, se o tempo o permitia, e a remos todas as fustas e cathures vinhão a cercar o galeão, onde elle vinha, pera poder ouvir seu sermão. Em todas as partes que a armada fazia auguada, a primeira cousa que fazia o padre era pregar-lhes e, sayndo em algumas partes, sayo também em Baçaim, onde eu estava, e dali me fuy com elle a Chaul, pera o emformar da christan- dade de Tanaa e Baçaim, onde eu avia estado hum anno ^ com o padre da Companhia. Dia de Todos os Santos pre- (9) BIMINEL e BACIL: faltam estas palavras. (10) Correcção: Antão. 244
  • gou em Qiaul com grande fervor; logo em desembarcando, os irmãos da Misericórdia lhe pedirão que também lhes pregasse a tarde, e para isso fizerão por hum púlpito em hum campo, e despois de tornar a procissão com os ossos dos enforcados, pregou e ayudou-o Nosso Senhor muyto em aquella pregação, porque se moveo a gente a grandes lagri- mas e choro; o povo lhe pidio logo que, antes de se partir, quisesse aceitar hum collegio em Chaul. O vigário lhe dizia que tomasse a sua igreja; offerecião-lhe logo quatro centos pardaos pera se fazer hum aposento em que pudesse estar hum padre e hum irmão, ate se fazer hum collegio, ao qual elles se obrigavão e querião dar renda para tudo; o padre se escusou, dizendo que era escravo da Com- panhia, que nenhuma cousa podia fazer. Hum clérigo, acabando o padre o segundo sermão, veo onde elle estava de noite, e deitando-sse de giolhos, abraçou ao padre e forão tantas as lagrimas que não pode dizer ao que vinha. Neste dia soo que esteve em Chaul, com pregar duas vezes e dizer missa e rezar suas horas, foy visitar os presos e osprital e outros emfermos pella cidade, e fez amizades; herão tantas as ocupações que // não se [«5® »•] podia valer; o dia seguinte, se embarcou para Goa, mos- trando o povo grande sentimento de sua ausência. Em chegando aqui, tomou logo o officio de tanger a campainha pella cidade, e ensinar os meninos, e pregar, e ocupar-sse em outros exercícios espirituaes e, como a gente tinha jaa noticias de sua vida, obras e virtudes, come- çou, ainda que estava muy frio, a seguir suas pregações e mover-sse a devação; o padre, como os vio despostos pera ganhar o jubileu da Companhia, que veo de laa, o publicou, e foy tanto o fervor do povo e concurso da gente as pre- gações dos padres, especialmente a do padre Mestre Gas- par, que era cousa pera dar muytas graças ao Senhor. Havia causado nas pregações huns grandes movimentos de 245
  • contrição e lagrimas muy continuas, especialmente as ses- tas-feiras quando pregava alguma cousa da Payxão e se faz disciplina. O fogo da devação que com o jubileu se acendeo nesta cidade era cousa de espanto; correo a fama do jubileu, e veo muy ta gente de outras partes a recebe-lo; as confissões erão tantas que todo o dia e muyta parte da noite se ocupavão todolos padres em confessar, e pellas menhãas se dava o Santíssimo Sacramento. A gente que vinha a ouvir o Padre hera tanta que, quando pregava em casa, hera necessário pregar nas crastas, ainda que a igreja hera asaz grande. Começou o padre a entender em as molheres publicas e outras que estavão em peccado mortal e, ainda que esta- vão muy endurecidas e obstinadas, pello endurecido custume que tinhão em seus peccados, de maneira que quasi parecia impossível converterem-sse, todavia, com a graça do Senhor, reduzio gran numero delias a bom caminho, de maneira que agora frequentão muyto as confissões com grande conhecimento de sua vida passada, fazendo algumas delias muyta penitencia; algumas que estavão amancebadas, ou as casou (11) com quem as tinha, ou as fez (12) apartar; outras pos em casa de homens casados, a outras casou com esmolas que pera isso pedia, outras faz que continuem as pregações e confissões, e creo que por todas serão cento. He tam importuno o padre em tirar as pessoas dos pecca- dos, que não me espanta acabar algumas cousas que acaba e, por dificultosas que sejão, porque indo eu com elle os dias passados, falou a hum homem que se tirasse de hum peccado e, quando com amoestações e palavras de Deos não pode acabar com elle, que quisesse salvar sua alma, (11) Correcção: casava. (12) Correcção: jazia. 246
  • fez concerto com elle que se apartasse do peccado e, em preço, lhe deo vinte pardaos que pidio de esmolas. // [»5i Huma cousa vos contarey de huma molher dina de notar, e he que reprendendo o padre em huma pregação, com grande fervor e zelo, a superfluidade e vaidade das molheres em se vestir e ataviar, ella se moveo tanto que, acabada a pregação, se foy a casa, e tomou suas manilhas e joyas e anéis, e os pisou em hum almofaris, e despre- zou (13) todos seus vestidos e vestiu-se de outros mais honestos que agora traz. Outra molher muy rica, pella devação que tinha ao padre, queria dar todo seu dinhero e fazenda para se fazer hum moesteiro na cidade; outra fez tanta penitencia que esteve em perigo de morte, ainda que polia graça de Deos viveo; outras muytas se confessão e comungão de oyto em oyto dias, cuja comversação he muy honesta, e sua vida muy austera e, se os padres lho não impidissem, farião grandes excessos em penitencia; muy tos vicios se tem emmendados nesta cidade, como são: jogos, enemizades, tratos illicitos com infiéis, juramentos e blasfémias; a huma pessoa que o padre fez apartar de hum peccado, tomou hum livro de feitiçarias que hera ocasião disso porque, lendo por elle, muytas vezes falava com o demonio, humas vezes em latim, outras em grego, outras em português; eu o queymey por minhas mãos. Outra pessoa, não ja nesta cidade, trouxe o padre a Nosso Senhor que avia oyto anos que se não confessava; de outra, contou aqui hum irmão nosso que, sintindo em si grande repugnância em se confessar com o padre, estando em Baçaim uma noyte deytado sem poder dormir, sentio como que lhe lançavão as mãos a garganta com tanta força, que o querião afogar e, chamando por Nossa Senhora, (13) Correcção, feita à margem: despejou. 2 47
  • ficara alguma cousa mais livre e, em adormecendo, disse que vira em sonhos ao padre junto de si, que lhe pergun- tava a causa de sua aflição; parecia-lhe que lhe fazia huma cruz em a garganta, e ficou livre da dor; despertando com grandes lagrimas, levantou-sse logo, e foy buscar ao padre pera se confessar, mas não no achou que era ja partido. O Padre Mestre Gaspar, pellos milagres que Nosso Senhor fez pella cabeça de huma das onze mil virgens, que temos quaa, desejou muyto, quando o tempo passado teve aqui o cargo, fazer alguma cousa com que estivesse aqui muy venerada, e, o que então não pode fazer pella brevidade do tempo, procurou agora de por em effeito, ordenando que se fizesse huma confraria com dous mor- domos e hum escrivão que sirvissem aly; // isto mais pera se ayudarem as almas que, por aparência exterior, como em todalas cousa (r/V) que faz, pretenda principalmente a gloria e honrra de Deos e o bem das almas; tanto que o padre declarou seu preposito em hum sermão, e deu ordem que se mostrasse a relíquia dous dias, foy tanto o concurso da gente que era para louvar a Deos; creo que passarião de doze mil pesoas as que nestes dias vierão a visitar a relíquia; erão nove horas da noite, e ainda vinha gente; foi isto bespora dos Apostolos Sam Pedro e Sam Paulo. O viso-rey se fez logo irmão da confraria, e deu prata em que se pusesse a cabeça santa; fizerão-sse em aquelle mesmo dia confrades perto de quinhentas pesoas; agora passão de duas mil. Hum certo homem, não muy rico, deu logo vinte e sete cruzados e pedio ao padre que toda a cera que se gastasse fosse a sua custa; outro oferecia azeyte pera a lampada em toda a sua vida e de seus filhos; huma molher rica, vendo o fervor da gente, offerecia grande parte da sua fazenda. Quando veo o dia das Santas Virgens se fez grande festa, porque ouve 2 48
  • besporas solemnes e huma procissão muy grande, em que veo o viso-rey e o bispo com a mayor parte do povo; não coube a gente na igreja nem creo que coubera, ainda que fora duas vezes mayor; nunqua em toda a índia se ordenou confraria como esta; foy de maneira que a Misericórdia desta cidade temia pello augmento em que a via crecer, não se aplicassem a ella todalas restituçÕes, mas o padre deo aviso a todolos confessores que as aplicassem a Misericórdia e nisto pos muyta advertência, porque elle he hum dos prin- cipaes irmãos que agora tem a Misericórdia. Quisera também ordenar que vinte e sete homens destes confrades visitassem os emfermos e pobres da cidade, e amoestassem aos que estivessem em peccado mortal, que se tirassem delle, e outras obras pias, mas não no fez, por- que os da Misericórdia por ventura se não queixassem, dizendo que lhes empedia a sua confraria, somente em- comendou a todos em geral que se exercitassem em seme- lhantes obras, e desta maneira forão muyto mais dos que elle tinha determinado; foy isto cousa de muyta edificação, porque hum inverno em que isto se começou foy tanto o fervor e diligencia nestes homens em saber os que esta- vão //em odios, amancebados, pobres, emfermos e emju- [i5i riados, e os que vivião mal, aonde moravão, que vinhão muytas vezes ao padre com mea folha, e huma folha de papel escrita destas cousas, pera que o padre pusesse nisso remedio, e desta maneira se descobrirão todos os males desta cidade. Trazião pesoas a confessar-sse, que avia vinte vinte e trinta annos que se não avião confessado; começavão pella menhã a entender em remedear estes males, e não cessavão ate a noite. O Padre Mestre Gaspar por huma parte, e o Padre Manuel de Moraes, Miser Paulo e Anto- nio Vaaz por outra, levando consigo alguns irmãos. Fazer-sse hião de seis meses pera quaa mais de mil e quinhentas amizades, e se se acrecentasse mais o numero, 249
  • sem scrupulo o podia fazer; muytos se pedião perdão pellas igrejas, avia muytas confissões, restituições e emenda de vidas. Eu, ipor muytas vezes hindo com os padres que se ocupavão nestas obras, lhes via obrar cousas que sem duvida não nas escrevo (14) se não as vira. Huma vez fuy com o Padre Mestre Gaspar a casa do ouvidor-geral da cidade de Goa, e ouvi-lhe dizer, falando com o padre, dando muytas graças a Deos, que ate então avia sempre tantas demandas e discensões em Goa, que quatro escrivães, que escrevião diante delle, não podião acudir a tanto, e agora não avia mais de dous, os quais querião vender os officios, por não se poder sustentar com elles, e hum delles, que estava presente, o confessou assi, dizendo que logo o venderia, pois não avia que fazer. Hera cousa muy nova as molheres honrradas quaa irem a missa e as pregações, e quando hião alguma vez, era com muyto fausto e vaidade; agora, pella bondade de Deos, continuão as igrejas com muyta honestidade e recolhi- mento; não passa dia nenhum que se não confessem muytos homens e molheres em nossa igreja, especialmente agora pello jubileu que veo este anno ao bispo. As cousas de Deos nesta cidade, pella sua infinita bondade e misericór- dia, vão em grande crecimento; a Elie se dee toda a gloria e louvor, amen. Huma cousa vos direy, charissimos irmãos, [i5a r.] em que se declara muyto // a grande devação que esta gente tem com o Padre Mestre Gaspar, e he que, vendo elle que em o tempo do inverno por as muytas chuvas e tempestades hera grande trabalho vir ao collegio tantas vezes, por estar algum tanto apartado da cidade, disse huma vez em o pulpeto que, assi pellos trabalhos das chu- vas e do tempo, como por poder entender em outras cousas (14) BIMINEL e BACIL: crera. 2 50
  • necessárias, queria regar menos vezes; levantou-sse logo o provedor da Misericórdia e hum cidadão desta cidade, com outros muytos, pedindo-lhe, por amor de Deos, que continuasse seus sermões e não tivesse conta com seu tra- balho delles, nem fosse ocasião chuvas nem quenturas, de que elles perdessem tanto bem e consolação de suas almas; e assi, por muyto que chouva, nunqua falta gente, antes parece que crece; prega em a somana seis vezes, duas ao domingo em nossa casa e as vezes tres a saber: quando prega em a igreja maior, que he hum Domingo, e outro não; a sesta-feira e ao sabado em casa; e as quartas-feiras em a Misericórdia, outra vez as sestas-feiras, hum pouco antes da diciplina, que se faz em casa, e com tudo isto não deixa de confessar, como se não pregasse. Huma cousa de que Nosso Senhor muyto se serve he a penitencia que em esta casa se faz todas as sextas-feiras desde que veo o Padre Mestre Gaspar de Ormuz e, ainda que a muytos parecesse ser cousa muy dificultosa poderem os homens perseverar em tão continua penitencia e fervor, sem que alguma cousa aflouxasse, todavia Nosso Senhor, com a experiência do continuo aumento nesta obra, tem claramente mostrado o contrario. O modo que se tem em fazer esta disciplina he que se tange primeiro a sesta-feira a tarde a pregação, a horas que acabado seja o sol posto; prega o padre alguma cousa proveitosa e de doutrina pri- meiro, e no cabo prega da Paixão por espaço de meya hora; os disciplinantes estão na capella dentro das grades, vesti- dos com vestes da Misericórdia; cerradas ellas, corrida huma cortina, que não deixa ver a ninguém dentro, e no fim da pregação, quando jaa esta a gente movida a lagrimas e a devação, descobre-sse hum cruxifixo, que esta em o altar- -mor, e disciplinão-sse os disciplinantes; o movimento e choro grande que com isto se causa na gente não he cousa que se possa escrever. Quando ao padre lhe parece que 251
  • acabem faz sinal do púlpito, e algumas vezes he tanto o fervor, que lhe he forçado esperar mais, ayudando-os a chorar. O concurso da gente que concorre a esta pratica he muyto, e continuamente se vay multiplicando; isto he cousa de muyta edificação nesta terra, e em que se faz muito fruyto, e com que os bons se conservão e os maos se confundem, alembrando-sse do que devem de fazer por seus peccados. Os que se disciplinão passão de quarenta e destes muytos se disciplinão tres e quatro vezes em casa. Agora esta o padre emfermo e, ainda que em tempo de sua saúde muyto nos edificasse com sua virtude e tra- balhos, mas porem com sua emfermidade muyto mais nos edifica, porque como com tantos trabalhos e ocupações r>53 r.] viesse // a não poder comer, e isto que comia pella fra- queza do estomago não no poder digerir, veo a grande fraqueza e a ter door de peitos e, alem disto, camaras e com- tudo se queixa que gastão muyto com elle, porque lhe dão huns ovos com hum pouco de açúcar, e desta maneira prega continuamente cinco vezes na semana, e as vezes seis, ainda que tem mais moderação no fervor e, alem disto, confessa e entende em negocios de casa e dos proveytos dos pró- ximos. Por aqui podereis entender o que fara, sendo são. Escrever-vos de sua oração e vigílias, mansidão e humil- dade para com os irmãos e proximo, e rigor pera si mesmo, não he necessário, ipois la o conhecestes, ainda que tem crecido muyto nas virtudes. He muy fora de conversar com grandes, ricos e poderosos; quando por necessidade he constrangido a falar com o governador, capitão e outros officiaes, por alguns pobres, não trata com elles outras cousas senão as que pertencem ao serviço de Deos, e asi tem mais liberdade pera amoestar e encomendar a todos sua salvação, de ninguém dependendo. Hindo hum irmão huma vez a Ribeyra, vio juntos em huma certa parte muytos mouros e gentios, e perguntou-lhes 252
  • se querião alguns delles ser christãos; começou daqui a pratica, e foy continuando de tal maneira e com tanto fer- vor, ajudando-o Nosso Senhor, e alumiando-os a elles, se converterão e, chegando a casa, disse ao padre que tinha quorenta homens juntos pera se fazerem christãos. Mandou o padre a elle e a outro irmão (15) que fossem todos os dias a ensinar-lhe a doutrina christãa, e asi, por bondade de Deos, se bauptizão poucos e poucos, segundo a desposi- ção de cada hum para tão alto sacramento. Algumas vezes são chamados os padres pera alguns que estão emdemu- ninhados; pella bondade do Senhor, pella virtude de sua santa fee, são os demonios algumas vezes vencidos, e deita- dos dos corpos por aquelles que tantas vezes os deitão das almas, bendito seja Deos de quem todo o bem procede. Do Padre Miser Paulo vos posso, charissimos irmãos, afirmar que he huma das columnas que nossa Companhia tem nestas partes da India; desque veo com o Padre Mes- tres Francisco, nunca sayo desta cidade de Goa, mas a fama de sua virtude e vivo exemplo de suas obras esta muy derramada por todas estas partes; tem a mesma maneira do Padre Mestre Gonçalo, porque confessa todo o dia, e isto continuamente, e alem disto tem cuydado dos meni- nos do collegio e do esprital da terra, que esta junto a nosso collegio, no qual avera ordinariamente trinta ou corenta emfermos; consola-os muyto e serve-os; algumas vezes vem portugueses pera morrer aly, mas são consolados com sua conversação. Neste hospital se recebem assi por- tugueses como da terra; aqui fez o Padre Miser Paulo huma igreja de esmolas, na qual se diz missa aos emfermos, e se prega todos os sabados e festas (16); he tanto o amor que (15) BIMINEL e BACIL: a elles outro irmão. (16) BIMINEL: sestas e sabados; BACIL: sabados e sestas. 253
  • tem a gente da terra ao Padre Miser Paulo que todos lhe [«53 »•] chamão pay. // Muytos hãodão aqui movidos para entrar na Companhia e, se quisesse receber, o padre acharia muytos aptos e suffi- cientes para isso; hum fidalgo fez aqui grandes extremos para ser da Companhia, mas por hum piqueno de impedi- mento, o não recebeo o padre, todavia tem recebido nove despois que tem o carrego; Deos nos augmente pera tão grande vinha como quaa tem. As cartas que vierão desses reynos este anno de 1552 causarão em nos outros a acustumada consolação em o Senhor e, ainda que muytas vezes as lemos, e não com pouco fervor, sempre nos parece breve o tempo em que as ouvimos, pello desejo que temos de saber as cousas que Nosso Senhor obra laa. Portanto, charissimos irmãos, escre- vey-nos largamente ja que tão poucas vezes nos comuni- camos por cartas. Agora mandou o Padre Mestre Gaspar a hum irmão ao Cabo de Comorim, que foy aportar a Batacalá, aonde foy com grande fervor falar aquella gente que se convertesse, e convence-os {sic) a todos com rezões; elles se rião dizendo que não curasse de rezões, mas que resuscitasse hum morto, que entonces estava ali, e elles se converterião e farião christãos. Respondeo o irmão que hera contente, contanto que elles e sua rainha se convertessem. Assentarão nisto, e forão as casas da rainha; o irmão levou o morto as costas hum bom pedaço, mostrando tanto animo e fee tam grande em Deos que os gentios, com medo, diserão que não que- rião estar pello concerto feyto e asi ficarão confusos, e Nosso Senhor glorificado. Elie por sua bondade nos dee sempre a sentir sua santa vontade e a ella enteyramente cumprir. Ao Io de Dezembro de 1552. 254 \
  • 50 CARTA DO PADRE MESTRE BELCHIOR NUNES BARRETO Baçaim, 7 de Dezembro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 153 v. -155 v. (1) Pax Christi sit semper nobiscum. [>53 * ] O anno passado vos escrevi (2), charissimos Irmãos em o Senhor, de nossa viagem e chegada a esta cidade de Goa, aonde fomos recebidos dos Irmãos com muyta charidade e alegria. Logo começamos aqui exercitar nosso officio, pre- gando e confessando e entendendo em outras cousas espi- rituaes, ate que o Padre Mestre Francisco nos dividio, cuja chegada de Japão foy no principio de Fevereiro, cinco meses depois de nossa chegada a India, e com sua presença todos nos alegramos muyto, por ver hum homem que, andando na terra, não conversa senão nos ceos. O que vos posso dizer delle (ainda que pouco tempo o conversey) he que sinaladamente entre outras muytas virtudes tem grande amor a Deos e aos próximos, e grande zelo de os ayudar, fazendo todo o possível pellos tirar de peccado; ves se nelle huma estremada constância e fortaleza, pêra não dei- xar de fazer // por isto todalas cousas; tem grande con- [«M <■■] fiança em Deos nos perigos, he muy affabel em sua con- versação porque, andando sempre recolhido, parece que (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 211v.-213v. Subtítulos à mar- gem. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 191 V.-195 r. (2) Documento publicado nestes volume, sob o n.° 10, pág. 61. O Pa- dre Mestre Belchior Nunes Barreto sucedeu, em Baçaim, ao Padre Belchior Gonçalves, envenenado, ao que parece. 2 55
  • nunca deixa de rir; o desejo que tem da honrra de Deos me tem espantado; sente muyto huma imperfeição em qualquer irmão, por pequena que seja e, por outra parte, he cousa de espanto ver a paciência e humildade que tem em sofrer as imperfeições de todos, condescendendo com elles, ainda que sejão homens seculares e grandes pecca- dores. Despois que chegou aqui, ordenou todas as cousas da Companhia; deixou ao Padre Mestre Gaspar todo o cuydado delia nestas partes, cuja virtude e continuo trabalho em ayudar aos proximos e aspereza de vida nos edifica muyto e anima no Senhor; na conversação, he muy semelhante ao Padre Mestre Francisco, e no animo grande que tem nos trabalhos. Na divisão que o Padre Mestre Francisco fez dos padres, me mandou a mim a cidade de Baçaim, com me mandar que vos escrevesse largamente do fruyto, que Deos laa obrasse; eu nesta o farey assi, ainda que contra minha condição, por me parecer que sou testimunha em minha causa, e aver de falar em meu louvor, mas porem a obediência me escusa, e também escrevo-vos a vos, charissimos irmãos, que sabeis como todo o bem sae de Deos, e conheceis minhas misérias e imperfeiçõens, de maneira que de tudo dareis a gloria a Deos e a mim ficara toda a confussão. Nesta cidade se tem feito tanto fruyto e com tanta alegria dos que estamos aqui, que nos põe em grande obri- gação de ser tais quais cuydão muytos que somos, dando-lhes Nosso Senhor esta opinião, para elles se aproveitarem de nossa doutrina; também pera que nos outros nos aprovei- temos e confundamos, vendo a diligencia, prontidão e von- tade que tem pera fazer o que lhes amoestamos. Despois que chegamos ate agora, não me alembra pas- sar hum soo dia em que não tivesse tantas ocupações spiri- tuaes, a quantas não podia satisfazer, por falta de tempo, 256
  • e he tanta a continuação das confissões e quasi as mais delias geraes; he tam quotidiano frequentar-sse o Santíssimo Sacramento que, poucos dias ou nenhum passa, em que não comunguem muytas pesoas (3). Huma das mayores consolações que sinto he ver que, sendo eu tão grande peccador, me aja Nosso Senhor acei- tado para ser ministro em cousas tão grandes como são ayudar as almas e ministrar os seus altos sacramentos, de mim e dos christãos tão mal conhecidos, e em ver também quantos se aiproveytão no conhecimento de seu Criador, e quanta mudança ha hi nas opiniões de desafios e vinganças e outras maas leys que o sangue, mundo e carne tinhão posto nestas partes, e ver quantos crecem em devação, assi dos christãos novamente convertidos a nossa santa fee, como também dos portugueses, os quais, por carecer de doutrina e conversar com infiéis, andavão muy apartados do caminho de Deos. Parece que tinhão todos assi huns como os outros as cousas de nossa santa fee, como cousa nunca ouvida, e agora novamente sentida, a qual cousa he espanto e mudança em suas almas. O fruyto das confissões he tão secreto que não me atrevo a particulariza-lo, nem dizer mais senão que me conforta e consola muyto em Jesu Christo ver que fazem tantas restituições cada dia, o qual he cousa nova, e que espanta muyto aos gentios, a laa entre si dizem que não ha hi outra ley tão boa, como a dos christãos, e dizem alguns que vim eu do ceo, não sabendo que, sendo eu de laa, por minhas imperfeições e peccados me faço de quaa. As amizades que aqui se fizerão são muytas e, por graça do Senhor, polio amor que nos tem esta gente, quasi não sabemos odio ou enemizade nesta cidade que, com ayuda de (3) A seguir a pessoas encontra-se, riscada, a palavra delias. 2 57 Doe. Padroado, v-17
  • Deos, não se tire e os discordes fiquem em paz, bendito seja o Senhor, cuja ley he de amor e paz; muytas injurias graves, como de bofetadas, se tem perdoado, o que he quaa muy dificultoso, porque trazem os homens muyto o ponto da (4) honrra. O modo que tenho de pregar he este: // chegado eu a esta cidade, vendo quam mal cultivada estava esta terra e lavrada, e o pouco fruyto que fazia ao Senhor, tive muyto desejo que Nosso Senhor me ensinasse a maneira que hera necessário ter pera a cultivar, e lavrar, e fazer que desse bom fruyto aaquelle a quem custou todo o seu sangue, Jesu Christo Nosso Senhor; oulhando nisto, vy que os da terra carecião muyto de doutrina, e tinhão muy pouco conhecimento das cousas de Deos e da sua ley, e manda- mentos, e que tinhão pouco gosto e affeição aos mistérios da fe, e muy pouco aborrecimento dos peccados. Oulhando como a falta destas quatro cousas hera causa de sua perdi- ção, determiney de fazer quatro sermões cada somana; o primeiro aos domingos, a missa, sobre o evangelho do dia, tirando doutrinas moraes pera as cousas quotidianas, assi exteriores como interiores do homem, excitando-os sempre a devação; a segunda pregação he no mesmo dia a tarde, onde trato da doutrina christãa, falando em especial da materia da confissão, em casos de consciência, em cada hum dos mandamentos; isto faço tanto de preposito que, avendo oyto meses que tenho começado, e continuando todolos domingos, ainda ao presente lhes vou declarando o 5o mandamento; neste sermão, ou doutrina, lhe declaro especialmente quando alguma cousa he peccado mortal ou venial. Esparitao-sse com acharem em suas consciências tanta satisfação com a doutrina que lhe daa conhecimento (4) Correcção: na. 258
  • de seus peccados, e de muitos que dantes lhe não paredão ser peccados, donde vem não se satisfazer a mayor parte das pessoas, que aqui vem, e também os da terra, se não se confessão geralmente de toda a sua vida passada, no qual se faz muito fruyto, ayudandosse com isto, e também com algumas considerações que lhes faço ter da morte, e do juizo, e da torpeza e mal dos ipeccados, e dos tormentos do inferno. A terceira he a sesta-feira, no qual dia se diz em a nossa capella huma missa da confraria do Nome de Jesu; prego-lhes os mistérios da vida do Senhor, levando-os por ordem, como tomou carne e por que fim, como naceo, etc, dizendo-lhe somente dos mistérios o que pode causar nas almas devação, amor e afeição a Jesu Christo, e conhecimentos das merces que a divina clemência tem feito aos homens. Neste sermão sinto fazer Nosso Senhor muyta merce as almas, pelo conhecimento que recebem por amor dos artigos de nossa santa fee, muy mal entendidos dos homens, e como os christãos de quaa, destas partes, assi convertidos novamente, como os portugueses, tenhão muita conversação com mouros e gentios, tem muita necessidade entenderem as cousas da fee, porque doutra maneira, sem que o sintão, se lhes pegão muitas opiniões de mouros e gentios, o que faz gram dano as almas. A quarta pregação he a sesta-feira, a tarde, acerca da penitencia, na qual trabalho de declarar a malícia e torpeza dos peccados, e mover os homens, com ayuda do Senhor, a lagrimas e contrição delles. Acabo com hum mistério da Payxão, comparando a bondade e misericórdia de Deos com nos outros, com a nossa ingratidão com Elie. Neste sermão ha tanta contrição e lagrimas pelos peccados, e toda a copia de disciplinantes, que causa em mim grande confussão, vendo os ouvintes mais movidos a penitencia, ouvindo-me, do que eu me sinto pregando-lhes. Não sabe- 2 59
  • ria emcarecer-vos o contentamento que minha alma recebe, vendo que onde se fazião contínuos sacrifícios ao demonio, os proprios infiéis, que os fazião, se fazem agora sacrifícios vivos a Deos, e contínuos exemplos de virtude dos proximos. Esta tão clara penitencia e conhecimento de peccados, que se faz nessa doutrina e disciplina, causa converter-sse os infiéis com muyta mais fee e contrição, do que antes acustu- mavão; também destes christãos novamente convertidos, vem alguns a disciplina e desta maneira se vão acustumando a penitencia. Os dias de festa, e quando se fazem procissões, tam- [i55 r.] bem prego e ainda que são muy contínuos // os sermões e pregações, concorre sempre muyta gente a elles, gloria ao Senhor. Aos domingos, as tardes, custumão ter nestes lugares fronteyros jogos, canas e festas, e nem por isto deixão de vir ao sermão; procuro de semear a palavra de Deos, e colher o fruyto delia em continuas confissões; muy muytos amancebados se casarão com as mancebas, e outros as casa- rão; avia muytos que avia dez ou doze annos que estavão publicamente amancebados e, com a graça de Deos, se mudarão, tanto que causa em mim grande admiração, e dão materia de muyto louvar a Deos. O inverno (5) passado, quis Nosso Senhor castiga-los ou, por milhor dizer, usar de misericórdia com esta cidade, mandando-lhe huma enfermidade que quaa se chama mordix, e he como peste, que morre huma pesoa delia em 24 horas com grandes dores; todolos dias morrião três e quatro homens; com gram medo de morrer, se apa- relhavão todos a morrer bem; hera tanto o concurso das confissões que, nem de noite nem de dia, me deixavão, (5) BIMINEL: Janeiro; BACIL: o ano passado, estando corrigido à margem para o inverno. 260
  • e herao muy continuas as procissões. Hum homem, Com temor da morte, estando eu confessando na igreja, me veo a pedir com grandes vozes que o confessasse antes que morresse, e desta maneira usou Deos de castigo com alguns, pêra aver misericórdia de todos, resultando nelles grande emenda. O jubileu, que trouxemos de laa, foy muyta causa destas cousas, que sumariamente vos tenho escrito, porque, sin- tindo eu no povo vontade e desposição ipera o poderem ganhar, o publiquey. Fiz 20 ou 30 sermões sobre a des- posição que, de nossa parte, se requere para o poder ganhar, e da muyta diligencia que posserão em se despor se seguio tanto fruyto. Muytos visitarão as igrejas todas de noite, disciplinando-sse, e isto muy frequentemente; cuydo que seria (6) mais de cem vezes, sendo pesoas sina- ladas, que era causa de espanto em os que os conhecião, vendo tanta mudança e mostras tão evidentes de suas peni- tencias; huma vez, sairão doze homens de noyte, vistidos em vestes de Misericórdia, diciplinando-sse, e outro diante, com huma cruz as costas, muy pesada, levando dianVe duas tochas asezas, e correrão todalas igrejas desta cidade; foy causa de muyta edificação pêra a gente porque, estando muytos descuydados, quando os vião vir, não sabião que dizer, senão confundir-sse, e como as cousas que se vem movão mais que as que se ouvem, socedeo com isto mo- ver-sse a penitencia muytas pesoas, que tinhão maos pro- pósitos, e a deixar os males que não querião deixar por amoestações. Achey quaa alguns lutheranos que, com pretexto de bombardeiros, tem vindo quaa, semear suas heregias, e isto he cousa muy perigosa nestas partes, pola muyta disso- (6) E correção duma palavra que não conseguimos ler. 2 6 I
  • luçao e larguesa que ay na terra, pello qual convinha fazer diligencia e avisar aquelles que disso tem cargo, que não deixem vir quaa framengos, ingreses, alemães, nem fran- ceses, porque de muytos sabemos que são lançados com os mouros, e outros que são inficionados dos da secta luthe- rana. Quis Nosso Senhor dar-me a conhecer, pellas praticas que eu tive com elles, quaes erão, e quaes suas opiniões; fi-los prender e se mandarão ao senhor bispo; não sey em que parara o negocio. Hum era tão delgado e sotil em semear suas heregias, que poderá fazer muyto mal e cuydo que jaa o tinha feito a muytos e fizera mais, se lho não impidirão. A doutrina christãa ensina-a aqui hum irmão aos meni- nos dos portugueses christãos da terra, e escravos, e escra- vas, as doze do dia; humas vezes elle, e outras eu, himos pela cidade com huma campainha a chama-los, e nisto se faz muyto fruyto, porque os meninos e os escravos cantão pellas ruas a doutrina christãa; he pêra ver de noyte em todalas casas ou nas demays, como se ensina a voz alta a doutrina aos escravos e a todos os demais, que em casa [i55 ▼.] a não sabem; he cousa pêra muyto // louvar a Deos quem considera as idolatrias que por aqui se fazião. Reprendem estes meninos os juramentos, pondo-sse de giolhos diante dos que jurão, ainda que sejão seus proprios pays e, com isto se emmendão muyto, com a graça do Senhor; ensina também hum irmão a leer e escrever, como deixou orde- nado o Padre Mestre Francisco, pera que com esta ocasião juntamente lhe ensina a virtude, e bons custumes, e doutrina christãa, e em tudo se faz muyto fruyto pela bondade de Deos, a quem de tudo seja dada gloria. Na christandade desta terra de Baçaim, tem o Senhor feito muyto ipor meyo do Padre Francisco Anrriquez, o qual esta aqui perto em hum lugar que se chama Tanaa quatro legoas deste em que estou; faz grande fruyto entre 262
  • elles, apartando-os dos mouros e gentios, entre os quaes vivião; faz-lhes ruas de casas perto da sua, aonde os tem, como filhos, pera os doutrinar, e amparar, e procura saber muy particularmente suas vidas pera em tudo lhes socorrer, e instruyr em nossa santa fee; agora não entendemos ainda em fazer muytos christãos, mas esses que fazemos, (primeyro os doutrinamos bem; trabalhamos de conservar os que jaa estão feytos, e instrui-los (7) bem na fee, e também enten- demos ao presente em fazer hum collegio pera os meni- nos da terra, porque, como parece ao Padre Mestre Fran- cisco, o verdadeyro fundamento pera a fee ser acresentada nestas terras, são collegios e doutrina de meninos, pro- curando também de doutrinar os grandes com muyta dili- gencia, porque, se doutra maneira se faz, assi como facil- mente recebem a fee, assi facilmente a deixão. Ho Padre Francisco Anriquez he tão deligente nisto que, ainda que he mal desposto, não deixa de trabalhar; tem bem funda- dos os christãos que faz; eu o mais em que me ocupo he em conservar os que estão jaa feytos; agora tratamos com os irmãos da Misericórdia e com o capitão desta fortaleza, de ayuntar todolos christãos, e aparta-los de medio nationis pravae atque perversae, porque estão por todas estas terras de Baçaim misturados, e nas mesmas casas com os mesmos mouros e gentios. Espero, com a graça do Senhor, que ha-de ir tudo bem, ainda que minha principal ocupação ate agora foy com os portugueses e christãos antiguos; ha quaa muyta necessidade de obreyros; por isso rogai ao Senhor ut mitat operários in mess em suam (8). De Baçaim, a 7 de Dezembro de 1552. Belchior Nunes. (7) BIMIL: instruídos. (8) Cf. Mat., 9, 38, e Luc., 10, 2. 263
  • 51 CARTA DO IRMÃO REIMÂO PEREIRA AO PADRE LUIS GONÇALVES Goa, 8 de Dezembro de 1552 f Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 162 r. -163. (1) Pax Christi Muyto amado em Christo Padre Despots de ter escrito a Vossa Reverencia novas de [i6j t.] quaa, posto que // breves, me tornou a lembrar que dei- xava o milhor, que era dar-lhe conta do muyto fruyto, que o Senhor obra por meo do Padre Miser Paulo, o qual certo tem dado e daa tanto odor nesta terra com suas obras e virtudes, quanto praza ao Senhor que os que de laa vierem dem e obrem o mesmo, e o que muyto me faz pasmar delle, he ver a constância que tem sempre em seus tra- balhos, porque nunca se muda, por mais contrastes que venhão, e asi também por ser jaa velho nos annos, que não no espiritu e desejos de cada dia augmentar a vinha do Senhor e zelo das almas. Primeiramente elle tem cuydado dos meninos orfãos, e tem grande vigia e cuydado delles, e de suas necessidades, asi corporaes como espirituaes, e dizem muytos que he outro Padre Domênico. Todos os meninos lhe tem grande amor e reverencia, e elle confessa os mais delles. E asi também tem cuydado do hospital, que esta pegado com (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 228-229. Subtítulos à margem. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 210 V.-211 r. 2 64
  • este collegio, no que exercita as obras de charidade, com muytos trabalhos de o sostentar e consertar, mas contudo Noso Senhor sempre ayuda, no qual hospital se recolhem todos os doentes da terra, de todas as enfermidades, asi molheres, como homens; mas tem tudo muy bem repartido, porque nas casas onde estão as molheres não entra nenhum dos homens, e asi, pelo conseguinte, na dos homens; e tem tudo muyto limpo com seus catres, esteiras, e xumaços, e colchões, para a serventia do qual tem sete ou oyto ipesoas, para terem cuydado dos doentes, asi do comer e beber, e de todas as mais necessidades, aos quaes da a todos o necessário. E asi, tem huma despensa que fez nova, muyto boa, com muytas conservas, e muytos grãos e lentilhas, passas, e amêndoas, finalmente toda a bitoalha que he necessária, e tudo o que se gasta he por sua mão, para que as cousas sejão mais aproveitadas. Asi tem sua cozinha muyto boa, onde se faz de comer com toda a diligencia, e com seus posos de agua muyto boa; e tem mais hum quintal, onde andão as galinhas ipera os doentes, no qual hospital estão sempre 30 ou 40 doentes, e algumas vezes alguns portu- gueses, por sua devação, se vem morrer neste hospital, pella muyta consolação que recebem do Padre Miser Paulo. Eu certifico a Vossa Reverencia que huma das cousas que edifica quaa nesta terra he este hospital, e os gouvernadores vão muytas vezes ve-lo, donde vem muyto consolados, por verem a boa ordem que nelle se tem. E por verem o gasto que se fazia no dito hospital, e pelo fruyto que dahi resultava, lhe concederão trezentos pardaos nas terras de Bardes e Salsete, para ayuda dos gastos, porque a casa não pode tam bem suprir com tudo, posto que de casa sempre o ayudão com o arroz e algum dinheiro. Todos os gouvernadores lhos confirmarão, senão agora Dom Afonso de Noronha, viso-rey destas partes, o 265
  • qual lhos confirmou por tres annos, ate vir confirmado por Sua Alteza. Parece-me que laa escreve a Vossa Reverencia sobre isso; por amor de Nosso Senhor, que faça de maneira que lhe venhão confirmados porque, em nenhuma parte, se pode confirmar milhor que para esta, donde sae tanto proveyto. E como quer que o Padre Miser Paulo nunca cansa nas cousas de serviço de Deos, determinou de fazer huma hermida muyto devota, a par do dito hospital, para que os doentes vissem Deos, e para consolação de todos os que passassem pella rua, (porquanto esta no mais frequentado passo que ha nesta cidade e, determinando, o pos por obra, o qual, com algumas esmolas e restituições, e com as mais ayudas que pode a fez, a qual se chama Nossa Senhora da Consolação e logo ordenarão huma confraria pera a dita ['63 r.] hermida da gente // da terra; a qual gente não lhe chama senão pay, e asi dos portugueses. E asi, ao sabado, e as festas, lhe fazem muyta festa; tem pregação e missa can- tada, com muyta cera, e com seus mordomos, homens muyto honrrados, da qual hermida se resulta muyto bem. Vossa Reverencia, por amor de Nosso Senhor, lhe mande de laa algumas indulgências, e algum retábulo riquo de Nosa Se- nhora, asi que nestas e outras obras de charidade gasta sua vida, sem nunca cansar; tem sempre muy grande zelo das almas; muytas vezes se acontesse quada domingo bauti- sar sete ou oito almas da gente da terra, e asi de muytas outras nações, e todos os dias confessa sete, oito pessoas de fora, afora os de casa, porque, ao presente, o Padre Mes- tre Gaspar esta muyto doente, em maneira que bem posso certificar a Vossa Reverencia que he ja como homem morto de tudo do mundo, e muy vivo para as cousas de Deos e, por sua parte, não falta nada, mas antes muytas vezes supre e suas virtudes as faltas dos outros, principalmente as minhas. 266
  • Pois do Padre Manoel de Moraes lhe sey dizer que não menos trabalha, posto que he algum tanto mal disposto e de calidade quente, mas contudo faz o que pode; a gente esta toda muy bem com elle, por suas muytas virtudes, e huma das cousas que muyto o ajuda he huma pura simplici- dade; todos recebemos quaa grande consolação de sua boa doutrina e zelo que tem das almas. De todos os outros, ja laa tenho escrito e também laa vay quem lhe sabera dar larga conta de tudo. Huma soo cousa lhe peço, que saiba Vossa Reverencia de minhas imperfeições e peccados, para que, pela infor- mação que o irmão laa lhe der, asi tenha cuydado de acudir com a receita das mezinhas para curar estas chagas tão velhas. Por agora no mais, senão que Nosso Senhor me cumpra meus desejos, que he ve-lo ainda nesta terra, pera daqui hir eu, por seu cozinheiro, pera o Preste, e laa morrer- mos, por honrra de Nosso Senhor Jesu Christo. Feita aos 8 de Dezembro de 1552, deste collegio de Goa. Deste que muyto o ama e deseja, posto que indino seu irmão, Reymão. 267
  • 52 CARTA DO IRMÃO GIL BARRETO Baçaim, 16 de Dezembro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 171 v.-174v. (1) Pax Christi. t'71 *0 A graça e amor de Christo Senhor Nosso seia sempre em favor e ayuda nossa, Amen. Pelo Padre Mestre Belchior (2) me foi mandado, meos charissimos irmãos, que de todas as cousas desta terra vos screvesse largamente e, iporque sei que em iso asas me t'71 '•] mortifico detriminei, assi pelo // mo mandarem o padre como também por não deixar de ir com minha mortifi- cação avante, de o fazer, ainda que não seia com o amor e charidade que se requere, todavia recebei de boa vontade este pouco, porque, sem duvida, eu tenho para mim que se vossas oraçõis, meos charissimos, e vossas virtudes não suprirem nesta o que em minha soltura e emperfeição sobeia, falta que eu de tudo ficarey conhecido por ho que sou, porquanto o amor de si não deixa de trabalhar quanto pode de se encobrir debaixo de boas razões e palavras. Ja deveis de saber como nosso Padre Mestre Francisco veo de Japão na era de 1552 a ver-nos, na qual vista ouve porque era elle hum dos espelhos em que elles mais se (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 216-219 v. A assinatura, nesta cópia, foi riscada. Subtítulos à margem. E algo diferente, na redacção da da BAL, mas o sentido geral é o mesmo. Esta carta não se encontra na cópia da BACIL. (2) Padre Mestre Belchior Nunes Barreto. 268
  • depois disto acabado, se tornou pera a China com hum embaixador português, que o viso-rey mandou ao rey da China; deste caminho esperamos todos fazer-se muito ser- viço a Nosso Senhor, por inda não ter ydo ninguém, dipois que estas terras são discubertas, a corte deste rey. Accrqua da mudança dos padres e irmãos foi esta scilicet: o Padre Mestre Francisco levou consigo tres irmãos e hum padre; o padre era Baltazar Gago e os irmãos foi Alvaro Teixeira e o outro Duarte da Cilva, outro Pedro de Alcaseva, dous delles me parece que irião para Japão, e os outros dous pera a China, e o embaixador daquelle senhor de Japão, que o Padre Mestre Francisco trouxe, se fez christão no collegio de Goa, com ser o viso-rey seu padrinho, e asi se fez hum ou dous moços com elle, o qual também se foy com o padre ate Malacha, pera day se ir a Japão com os irmãos. O Padre Mestre Belchior, com dous irmãos que aqui ficamos, veo pera Baçaim, e o Padre Fran- cisco Anrriquez pera Tana, o qual se ocupa na conversão e conservação dos christãos (3); sua habitação he junto de huma ermida que o Padre Belchior Gonçalves tinha feito. O Padre Antonio Gomez (4) com hum irmão estão em Dio; temos novas que faz muito fruito. Dous irmãos forão pera o Cabo de Comorim em lugar de nosso Padre Paulo do Vale, que la com muitos sobrios trabalhos faleceo, e também foi outro irmão com o Padre Cypriano, por causa do Irmão Gaspar, que ia era falicido, e também nos faleceo agora a pouco no collegio de Goa hum padre per nome Domingos Carvalho que o Padre Mestre Francisco ca rece- beo, de tisiqua; a morte do qual foi bem sintida dos irmãos, porque era elle hum dos espelhos em que elles mais se (3) Correcção de: o qual está fazendo e conservando christãos. (4) A palavra Gomez acha-se riscada. 26 ()
  • olhavão, pela sua muita mansidão e humildade, e asi tam- bém por ser elle o mestre que lhes insinava gramatica e, muito mais, virtudes. Quis nesta dar-vos esta conta pera que também, meos irmãos, veiais quam perigrinos somos ca nestas partes, posto que não tenhamos nas perigrinações, os trabalhos, e merecimentos que vos nas vossas tendes, por serem mais trabalhosas, quero dizer a pe, e pedindo por amor de Nosso Senhor, inda que os tormentos do mar e os perigos dos corpos são ca muy grandes, e tanto que muytas vezes tomaria homem ser roubado, açoutado e preso que verem-se tão perto da morte. Do Padre Mestre Belchior, e do fruito, que dispois que nesta terra esta, determino de vos dar conta (5) ainda que não seia tão particularmente como eu t'7' *•] tinha // em vontade faze-llo; ha perto de hum anno que aqui estamos, a saber: o Padre Mestre Belchior, o Irmão Fernão do Souro e eu. O em que o Padre se tem ocupado, despois que veo, he isto: prega todos os domingos duas vezes, convém saber na se polias manhãns, a missa do dia, e no nosso collegio, a tarde, a maneira de doutrina sobre os mandamentos, declarando-lhe os casos de conscientia; os dias santos todos, prega na see huma vez; as sestas- -feiras prega no collegio duas vezes, convém saber, a missa da Confraria de Jesus, que aqui diz o padre, e a tarde prega em acabando as Ave Marias, com muito fervor, sobre a penitentía. Nesta pregação se fas e tem feito muito fruito nesta terra, porque diciplinantes passão as veses de 50 que estão a pregação e estes todos vistidos em vestimentas de Misericórdia, dentro na capella comnosco, e o povo esta no corpo da igreya; destes diciplinantes delles são soldados, delles casados; he muito para dar graças ao Senhor, ao apagar das candeas, ver a devação com que chorão os ouvin- (5) Correcção: tem feito, direi nesta alguma cousa. 2 70
  • tes, e o fervor com que se diciplinão os penitentes. Con- fessa o Padre desde segunda-feira pela menhã, ate a quarta, huma, duas oras de noite, e isto continuadamente, dispois que he nesta terra, afora reconsiliaçõis que faz os outros dias de pessoas devotas, que cada outo 15 dias se confessão. Tem feitas mais de trezentas amizades porque, sem duvida, me parece que toda esta terra ou quasi toda estava mal huns com outros. Tem atalhado a muitas demandas, tem tirado a muitos e muitas de peccado mortal, tem casado muitos amansebados, tem apartados muitos aborregados, isto digo assi em suma, porque he o numero muito e inda mal, porque he tanto. As restituiçõis são tan- tas que os gintios, a saber, mercadores e rendeiros pasmão do denheiro que algumas pessoas lhes restituem; he gente que se edifica muito disto; dizem que foi este padre man- dado a esta terra por Deos, e que outra gente não ha como os portugueses; vay ao esprital confessar alguns enfermos, e os que adoecem na cidade quasi todos visita e confessa, e com muitos delles esta ate que acabem de mor- rer; o tempo que daqui lhe fica he tão pouco que muitas veses lhe falta pera sustentar a natureza. Fas também alguns christãos, com primeiro os termos aqui em casa muito tempo, insinando-os as oraçõis e instruindo-os na fe; destes fas poucos por os instruir com muito tempo, porque nisto he mais prudente que outras pessoas que todo seu intento não he senão fazer christãos, quer saibão as oraçõis quer não. E estes são os curas e padres desta terra e parece ser assi mui acertado, antes conservamos os feitos, que com fazermos outros de novo, e largar ha mão de huns e doutros. Também tem juntos muitos devotos, os quais se con- fessão delles cada 25 dias, delles cada outo e delles cada anno tres e quatro veses; destes ha muitos delles casados com suas molheres, delles solteiros; a estes devotos fas
  • todas as noites praticas esprituais, declarando-lhe muitas duvidas que alguns tem; fas muito fruito nisto por caso do bem que daquy nasse, que he amarem-se muyto huns aos outros, cousa mui nova nesta terra; estes devotos edificão muito aos outros, assi em suas pratigas, como em seu viver. Tem muitas maneiras de mortificação entre si e muitos auctos de humildade e charidade. Andão huns aos outros incitando ao sacramento da confissão, outros a penitencia, ('73 r-] outros sirvindo // aos doentes, visitando o espiritai e o tronco, e muitos destes fazendo muitas amizades, e he tanto que muitos destes dizem seus defeitos e nigligencias pêra se mortificarem, e a muytos da o Padre penitencias como de beyar os pes aos outros, de levar alguma cousa aos doentes na mão, e em pelote, a outros que vão fazer camas aos doentes, a outros de lhe varrerem a casa e a outros de lhe alimpar os vazos. A charidade, com que isto fazem, e a deligentia, que nisto tem, e pera louvar a Deos, porque sem duvida que he isto nesta terra tanto e mais como em Portugal fazerem os homens muito maiores cousas; estes são muy conhecidos da gente de fora, e levão muitos delles grandíssimas mortificações dos mesmos homens de fora, porque a huns chamão apostollos, outros hiprocritas, outros papa-santos e outros o que são, que he parecerem-lhe bem a virtude. Isto avera 3 ou 4 meses que he começado, e certo que em tão pouco tempo ser feito tanto he muito pera mais nos obrigar a dar graças ao Senhor. Também tem o padre licença do Padre Mestre Francisco pera fazer aqui hum collegio de mininos; anda agora para o fazer, e tem ya encarregado a dous homens casados desta cidade, pera fazerem as casas para se agasalharem; e ver a diligencia que nisto trazem e o fervor que tem pera o fazer, he muito pera louvar ao Senhor, e parece-me, com ajuda de Jesus, que este verão se de principio ou cabo a se fazer. 272
  • I Do yrmão Fernão do Souro, que aqui esta também, meus charissimos irmãos, vos ey-de dizer o que veio assi de sua muita virtude, como dos muitos trabalhos que tem levado, e leva, despois que aqui esta nesta terra; elle he comprador e cozinheyro, ortelão, boieiro, porteiro, final- mente todo o peso desta casa tem, e sempre tão contente que parece que não fas nada; crede, irmãos, que ainda que, estivesse muito tempo, não acabaria de contar cousas delle de que eu sei que levareis muita consolação, por ver a deli- gentia que tem no comprar, a charidade que tem na cozinha, e a humildade que tem com os bois, e a pacientia que tem a porta he cousa pera muito se homem confundir, ao menos os que tendo officio, parecendo-lhe que o fazem bem, ou que tem muito trabalho. Ja eu, quando algumas vezes me enfado com não fazer nada, olho pera elle que todo o dia esta fazendo, pois a perseverança em tudo isto e em se dar a Deos he mais que tudo, porque sempre anda mi (sic) ser sempre alegre, sempre contente, e sempre muito milhor, de maneira que, olhando pera elle, me animo e esforço a ser bom e diligente no que tenho a meu cargo, posto que tenho necessidade de maiores esporadas. Também recebeo aqui o Padre Mestre Belchior hum irmão para a Companhia, pera o qual tinha licença do Padre Mestre Francisco. Tem muito boas partes, inda que não he latino; he de 30 e tantos annos, avia 15 ou 16 annos que estava na India, era criado del-rey. O mesmo anno que se meteo lhe tinha vindo a feituria de Baçaim, da qual ao nada que se tirão dez ou outo mil pardaos. Avera 3 ou 4 me- ses que he recebido, tem ja tomados os exercitios e, acaban- do-os, o mandou o padre ao sprital dos pobres que la dormisse, e pousasse, e que fosse pela cidade pedir esmola para comer; fazia isto com muita devação e edificação de todos. Andaria nisto 25 ou 20 dias, e dipois o trouxemos pera casa, e o padre fe-llo cozinheiro, refeitoreiro, porteiro, Doe. Padroado, v -18 273
  • *•] // roupeiro, e deu-lhe cuidado de tanger a campainha pela cidade todos hos dias que vinhão a doutrina; tem nisto dado grandes mostras de servo de Deos Nosso Senhor, tras gran- des fervores, tem todos os dias quatro oras de oração e as oras de Nossa Senhora e os 7 salmos, e razer pelas con- tas, e ainda se queixa que gasta mal o seu tempo. Sem duvida que nos confunde a todos, mormente suas lagrimas, nunca vi pessoar chorar tanto e tão ameude. De mim, posto que sou sospeito, não quizera dizer nada, todavia pelo que me mandou o padre me he forçado faze-llo: eu tenho cuidado, despois que estou nesta terra, de insinar a ler, escrever, e a doutrina, na igreya aos filhos dos por- tugueses, escravos e escravas, os quais virão a escola perto de 150, e a doutrina passante de 300 pessoas. A ordem que tenho na escola com estes mininos he estar a tarde três oras, pola manhã outras tres; insino-lhe as oraçõis, convém a saber: a doutrina toda e as cousas de ajudar a missa, donde terey passante de 40, que sabem ja a dou- trina toda; faço precisõis, muitas vezes, com estes mininos, principalmente agora com a vinda dos Rumes, que são todas as segunda-feiras, e asi se ay alguns enforcados vou com elles. Andão cantando a doutrina pelas ruas, quando saem da escolla, ensinam em suas casas aos escravos e escravas a doutrina, e nisto tenho grande cuidado, e acusa- dores que mos acusão; digo com elles no nosso collegio todos os sabados a Salva e Ladainhas cantadas; he muito pera dar graças ao Senhor ver estes mininos tam devotos e solícitos nisto; tenho eu também dez ou doze dos em que eu mais confio que repremdem os juramentos a gente de fora, e tanto que se vão aonde jogão, e onde ha ajunta- mento de omens, e se acertão jurar, botão-se de giolhos em terra, pidindo-lhe que, por amor de Deos, não jurem. Edifi- cão muito estes mininos com istò; e certo, segundo me dizem muitas pessoas de fora, vai tanto adiante isto 274
  • que, se algum jura, olha pera tras, ver se ve algum minino. Faço também a estes mininos pratigas espirituais algumas vezes sobre os mandamentos e doutrina, e como ão de ser bem insinados em os bons custumes, que an-de ter, como se an-de gardar dos peccados, e outras cousas desta calidade. Tanio a campainha todas as noites polas almas do Purga- tório e ipolos que estão em peccado mortal. Vou ao tronco e esprital todos os domingos e dias santos, e as vezes vou falar por alguns muito pobres ao capitão, e ao feitor, e ao ouvidor; prasa a Nosso Senhor que com tudo isto que aqui digo, meus irmãos, merecesse serem-me perdoados meus peccados; também são samchristão. Não quis deixar de também nesta fazer lembrança da devação com que o povo desta cidade ganhou o santo jubileu que o Padre Mestre Belchior trouxe quando veo, que sem duvida que me parece que nem em Portugal nem na Inda vi mais devação; publicou ho Padre, dia do Spiritu Santo, trazendo da see com huma picisão muito solene a saber: os padres vestidos de capas de pontifical e seu palio, e na piscisão muita sera, de maneira que me parece que mui poucas pessoas ficarão que não fossem nesta pissi- são; todas as varas da cidade regendo-a e suas trombetas, ate que chegamos o collegio, e ali pregou o padre a tarde, com muito fervor e devação e, alem desta, pregou outras muitas, e muito ameudo, insitando o povo a mais devação, declarando-lhe o jubileo, e quem no ganhava, e a maneira que se avia de correr as igrejas, as confissõis, e restituiçõis, pedir perdão, perdoar; em todo este tempo ate gora sempre foi muito avante, louvores a Deos; foi tanta a pressa que davão ao padre, que lhe foi forçado ter aqui o Padre Fran- cisco Anrriquez por duas vezes consigo, aiudando-ho a confessar; parece-me que nunca vi maior fervor na gente, porque huns corrião todos // os dias descalsos, outros ['74 todos jejuados, outros corrião as igrejas dous três meses, 2 75
  • outros com suas molheres disiprinando-se; era de maneira que, como era huma 2 oras de noute, não via homem menos de tres, 4 sincuo penitentes, e de dia de doze, quinze. Traziao os homens tanto fervor que hum dia se vestirão nas vistimentas da Misericórdia 14 ou 15 homens, sem ninguém os insitar a o fazer, e dous com duas caveiras na mão, e suas diciplinas na outra, sos des {sic) diciplinando-se, e os dous com suas tochas na mão, e hum com huma crus as costas, e huma coroa de spinhos na cabeça, e huma corda ao pescoço, forão correr as igreijas; foi isto mui falado e causa de muita edificação a todos. Acompanhavão a estes homens toda a gente que os vião, e a verdade todos estes ou quasi todos erão destes devotos que assima digo. Agora tivemos também cartas do Padre Mestre Gonçalo de Ormus do muito fruito que la fazia, e dos muitos tra- balhos que este inverno tinha levado elle e seu companheiro, todavia quanto da saúde corporal, esta mui mal. Achasse muito mal naquella terra, por onde o Padre Mestre Gaspar o mandou agora vir, mandando pera la o Padre Antonio Vas o qual foi ca recebido; he homem muito devoto e foi mestre da gramatica dos irmãos, e de maneira que pregava em Goa, e pregou-nos aqui hum dia com muito aprasi- mento do povo, louvores a Deos, pois que tanto se comu- nica com seus servos. Este padre e outro, por nome Francisco Lopes, passarão agora por aqui, em companhia do viso-rey, os quais vão de armada, avera sinco ou seis dias. Levão sinco mininos orfãos, levão grandes fervores, fazem nesta armada muito fruyto em reprenderem os juramentos e curarem os enfer- mos, em cantarem os mininos suas ladainhas e suas prosas, he maneira que parece que de necessidade he ir nos tais tempos cousa da Companhia; praza a Deos Nosso Senhor dar o galardão de todo este bem ao Padre Mestre Gaspar, o qual temos agora ca em louvor do Padre Mestre Francisco. 276
  • O Padre Antonio Vas, com dous mininos e hum irmão, vão num galeão, com hum Dom Antão, sobrinho do viso rei. Novas do collegio de Goa, porque has temos cada dia, ainda que as pudera escusar, todavia em breve direy o que temos por novas do muito aumento da Companhia e do muito fruito que o Padre Mestre Gaspar tem feito assi entre os charissimos irmãos como entre o povo. lodos os trabalhos seus são infinitos, porque prega todas as soma- nas de quatro, sinco veses e somanas de dez, doze; fas pratigas espirituaes quasi todos os dias aos irmãos, insita aos exercitantes, confessa, dis sua missa, tem cuidado da casa, // quero dizer dos irmãos; tras agora passante de 60 [174 ».] no studo; entre irmãos e mininos tem passante de 100 pes- soas em o collegio por todos; he muito para dar graças ao Senhor a perseverança que em tudo isto tem, e a maneira que tem com os irmãos, e como se fas amar de todos, isto digo, porque tenho pera mim ser o Padre Mestre Gaspar como huma panella que esta ao fogo que, depois de ella estar muito quente, deita pera fora parte do que tem den- tro; sem duvida que he mais do que digo, e bem no verão la polas cartas dos charissimos irmãos do collegio. Do Padre Mestre Paulo, o qual he agora o companheyro nestes trabalhos com o Padre Mestre Gaspar, por não aver mais padres de missa em casa, tenho muito que escrever, posto que avera perto de hum anno que estou ausente delle; tem cuidado do seu esprital, como dantes; he reitor dos mininos, diz a missa aos irmãos, todolos dias, as sinco oras, confessa como ja la terão por novas; he cousa muito para nos confundir ve-lo tão deseioso e amigo da crus de Jesus, ve-lo tanto tempo sempre ir adiante, ve-llo a ver seus pobres, a humildade, e charidade, e patientia que nisto tem, pois se algumas obras se fazem, elle he a principal pessoa que 2 77
  • alii a-de andar (6) e trabalhar; Nosso Senhor lhe de o galardão de tantos trabalhos. Dou fim a esta, ainda que fico ainda faminto; não conto da graça que o Senhor tem dado ao padre em suas pregaçõis, porque he cousa que parece que não he o que era; o meus irmãos, que he isto que com obras tão ricas de Jesus não quero deixar meos pareceres; com ver milha- gres (sic) tão evidentes, não minha vontade; com virtudes tantas não deixar de ser mau; por amor de Jesus, me ajudeis todos a sair deste poço em que perpetuo faço a me avivar no serviço de Jesus, pera que, por vossas oraçõis, mereça o que todos com vossos trabalhos e virtudes buscais nos santos sacrifícios de meus padres. Aos irmãos nas santas contemplaçõis suas me encomendo. Deste collegio de Jesus de Baçaim, oje 16 de Dezem- bro de 1552. Prove e indigno Gill Barreto. (6) Correcção: he o primeiro que alli se a-de achar e trabalhar. 2 7 8
  • 53 CARTA DO IRMAO MANUEL TEIXEIRA COM NOTICIAS DE BAÇAIM Baçaim, 16 de Dezembro de 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 155 v. ■ 157. (1) Avendo-vos de dar conta, charissimos irmãos, do que [>» * Nosso Senhor obra pello Padre Mestre Belchior, que foy mandado pello Padre Mestre Francisco a Baçaim, pera ayudar os christãos desta terra, ter cuydado dos padres e irmãos que nella andão, vos direy primeyro brevemente do Padre Francisco Anrriquez, que foy mandado pello Padre Mestre Francisco a hum lugar que estaa junto daqui com hum irmão pera ensi // nar a doutrina christãa, e a leer e escrever aos filhos dos christãos. O lugar se chama Tanaa, o qual esta em huma ilha grande que tem muytas aldeas sogeitas a fortaleza de Baçaim; em esta cidade ouve huma cidade de mouros, onde elles tinhão grandes edifícios e muytas mesquitas muy grandes, com grandes tanques, em que se lavavão; hum tanque vi eu que, ao derredor, tinha oyto mesquitas; tudo isto esta derribado e destruydo pella bondade do Senhor, e aonde antes se honrrava o demonio e Mafoma se honrra agora Nosso Senhor, porque ali se fez huma igreya, e se pos huma cruz em huma pedra que tem ao derredor quatro pagodes a maneira de homens, com suas toucas, como quaa custumão os bramenes, aos quais fazião muyta honrra. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 213v.-215 v. Apresenta chamadas à margem. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 195 r.-198 r. 2 79
  • Agora estão debayxo da cruz como aquelles que por ella forão vencidos. Tinhão também os mouros junto do lugar hum monte em que fazião grande festa, deitando-sse dali abaixo, e o que da queda morria se tinha por santo; aqui se pos huma cruz que lhes impedio a festa; alguns mouros, por fazer a festa, cortarão a cruz e a queimarão, mas isto como se soube quaes erão forão queymados por mandado do capitão de Baçaim. Esta terra he muy barata de pescado e carne, e dos mais mantimentos; em ella se tece muy ta ceda; aqui fez hum padre da Companhia muytos christãos e huma igreja da Madre de Deos, em que esta agora o Padre Francisco Anrriquez, o qual, ainda que por sua indisposição, não custumava dizer missa, jaa a diz quasi todos os dias, por se achar milhor; prega muytas vezes aos portugueses que ali vivem, e confessa-os tirando a muytos de peccados; com os christãos da terra tem grande tra- balho, porque elle he como juiz e a elle vem todas as querelas, em todas as necessidades asi corporaes como spiri- tuaes lhe socorre; faz todos os dias doutrina aos meninos, chamando-os primeiro pella cidade com huma campainha; aos Domingos a faz aos homens e molheres, e nesta terra hera o demonio muy venerado, porque huma legoa daqui estava hum pagode chamado do Elefante, que he hum grande edifício, e tem muitas obras todas por debaixo da terra, e mea legoa dali avia outro muy grande e antigo. Duas ou tres legoas dali ha hi huma igreya de Nossa Se- nhora, donde hum frade de Sam Francisco tem feito huma povoação de christãos muy boa; a casa daquella igreja foy hum pagode, e huma viva rocha cortada toda ao picão; he grande e tem tres altares. Outras muytas cousas ha nesta terra, que vos pudera escrever, mas, porque meu intento he dizer-vos o que Nosso Senhor obrou aqui por meyo do Padre Mestre Melchior, não no faço. Avera perto de hum anno que estou aqui 280
  • com hum padre e outro irmão. O padre se ocupa em pre- gar todos os Domingos e festas em a igreja mayor, outra vez a tarde; a sesta-feira prega duas vezes em casa; a tarde da penitencia, e tem-se a mesma ordem em a disciplina e no pregar que se tem em Goa; nesta pregação se faz muyto, e os disciplinantes as vezes passão de cincoenta; huns destes são soldados, outros casados; he muyto pera louvar a Deos ver as lagrimas e sospiros de toda a gente; confessa a segunda-feira ate a terça da menhãa ate duas ou três horas da noite, e isto se continua despois que estaa nesta terra; nos demais dias não confessa tanto tempo, porque, estando para pregar, entende em outros negocios; vay ao hospital confessar os enfermos e a visitar os enfer- mos da cidade, e confessar, e esta com muytos quando querem morrer; entende também em outros exercícios espi- rituaes, e o tempo que lhe fica he tão breve que escasa muyto; basta pera sustentar a natureza, porque para cum- prir com as ocupações he necessário alevantar-sse muyto cedo, e em este tempo tem muyta oração, sem (2) a que tem em todas as obras, em as quais (segundo me tem dito) acha muyto descanso e recolhimento do espiritu; com as ocupações muytas não tem algumas vezes lugar pera comer e asi passa todo o dia sem dar nada ao corpo, senão tudo // a Deos, de quem recebe as forças para sofrer * tantos trabalhos. Alguns lhe tem especial amor, aos quais da meditações espirituaes, e a todos juntos comunica algu- mas vezes cousas de espiritu, respondendo as duvidas que elles movem, e destes huns se confessão de oito em oito dias, e outros de quinze em quinze, e outros tres e quatro vezes no anno. Entre estes, ha alguns que tem todos os dias tres ou quatro horas de oração mental; com estas pes- (2) Em cima da palavra sem escreveu-se: que sota. 2 8 I
  • soas se faz muyto, porque lhes ensina mortificar suas pai- xões, ayudando-lhe também a maneira de por isto em effecto; tem grande obediência ao padre, e a outros dão muyta edificação, com exemplo de sua vida e boons custu- mes; em suas praticas excitão aos outros a se confessar; muytas vezes visitão e servem aos enfermos, asi da cidade como do sprital, e encarcerados; barrem-lhe as vezes as casas dos enfermos, do que nace espanto e edificação a muytos, ainda que alguns murmurão delles, como de sobeja santidade. Todos os dias comungão muytos em nossa igreja; far-sse-yão nesta cidade, se não me engano, mais de 300 ami- zades, porque muyta parte desta gente estava em odio (3); também se tem encurtado muitas demandas; casarão-sse muytos amancebados, e outros se apartarão das mancebas; não digo o numero, porque são muy muytos; foy causa o padre também de se fazerem muytas restituições, das quais a gente desta terra, como são mercadores, rendeiros, bramenes, estão espantados e edificados, e disserão-nos que juntos huma vez estiverão pera nos vir dar disto graças, mas não se ayuntarão ainda para se fazerem christãos, ainda que tres ou quatro mercadores e bramenes se fizerão chris- tãos; os juramentos se tirão, e huns aos outros se repren- dem das onzenas, escândalos; apartarão-sse muyto de tira- nias que antes se fazião, que era causa de não se converterem os gentios; as murmurações, as quais erão muytas nesta terra, se vão tirando pella bondade de Deos. Dous irmãos vão fazer praticas, hum ao hospital e enfermos, outro aos que estão na cadea; ocupa-os também o padre em consolar os enfermos, e estar com elles, quando morrem, sinalada- (3) MIMINEL: Dio\ BACIL: odio. 282
  • mente em huma enfermidade que se chamava mordoxi (4), a qual matava os homens em vinte e quatro horas; morreo muyta gente da terra e dez ou doze portugueses; isto pos em grande temor a muytos, de maneira que de noite vinhão chorando pedir confisão; o padre se ocupava em confessar de noite e de dia, e pregava quando se fazião procissões; para este effecto publicou o padre o jubileu o dia do Espiritu Santo de 1552. A tarde se fez huma picisão, donde veo a nossa igreja toda a gente da terra, e pregou o padre em hum campo, que esta a porta, porque não cabia na igreja; todos o ganharão com muyta devação, confes- sando-sse com o padre, e não querendo outro, com o amor grande e credito que lhe tinhão, e quando vay a confessar, jaa o esperão muytos na igreja. Muytos a que querem entrar na Companhia, mas porem o padre não os quer receber; soo hum recebeo, de cuja devação vos não saberey dizer, porque em suas meditações tinha tantas lagrimas, que nos confundia; por nos não despertar de noite, lhe era necessário sair-sse fora, donde o não podessem ouvir; exercitou-o logo o padre em cousas baixas, e mandou-o com a campainha a chamar os meninos pera a doutrina, do que muytos se espantavão, por ser elle homem de qualidade em o mundo, e aver poucos dias que tinha entrado em casa. Mandou-o despois o padre a servir os enfermos no hospital; na terra vay pedir esmola pola cidade pera se sustentar; aqui fica agora exercitando-sse. (4) «Nome que os nossos indianistas davam à cólera-morbo, e que os franceses converteram em mort-de-chien. O étimo é o concanim mar modchC (literalmente «quebramento», de modonk ou modnem, «quebrar-se»), que actualmente é o nome de indigestão com cólicas, especialmente de crianças. Mas é muito provável que fôsse antigamente a dição empregada, por eufe- mismo, para designar a cólera, sendo nefasto na índia expressá-la por seu nome próprio. O termo é ainda hoje usado em alguns crioulos ásio-portu- gueses.» (Mons. Sebastião Rodolfo Delgado, Glossário Luso-Asiático, II, 69-70.) 2 8 3
  • Huma vez o mandou o padre com huma caveyra, a falar a hum homem, que estava amancebado, pera que saysse do peccado, e falou-lhe de maneira que deixou logo a man- ceba, e veo a casa o dia seguinte a pedir que lhe dessem ['5?] // hum cruxifixo e humas disciplinas pera fazer alguma penitencia, dizendo que lhe parecia aver sido mandado do ceo, pois Nosso Senhor lhe fizera tam grande bem por elle. Achou aqui o padre certos homens luteranos aos quais fez prender; acharão-lhe muytos papeis escritos em alemão, e entre elles o salteyro comentado por Martim Luthero; encarregou o padre a hum homem bom christão da terra, pera que fizesse vir os christãos que erão feitos, e estavão pouco instruídos nas cousas da fee a doutrina, e asi todos os homens e molheres que não estão ocupados em algum trabalho vem; e também aos domingos e festas os faz vir todos a missa, e a tarde a doutrina e tem cuidado de oulhar que não aja entre elles alguns custumes gentilicos e aparta os que ouver amancebados e fazer com que todos os casa- mentos se fação na igreya e se bautizem os meninos e casti- gando-os em cousas pequenas, e das graves avisa ao padre para que o remedie e, por isso, sinalou o padre a este homem hum certo salario; alem disto os quer ajuntar a todos, para que vivão em hum certo campo que lhe tem dado pera isto. O padre he muy affabel e benigno em sua conversação com todos, pello qual alguns portugueses, que se tem deytados com el-rey de Cambaya se tornarão com esperança de achar nelle socorro e ayuda, como acha- rão, porque lhe ouve salvo conduto; antes soyão fogir muy- tos escravos a seus senhores pera os mouros; agora, pella bondade de Deos (5), tornão ao padre que lhes alcance perdão; os portugueses, que se hião desta terra, se vinhão (5) BIMINEL: faltam muitas palavras; BACIL: Varia um pouco a redacção destes períodos. 3 8 q
  • despedir do padre com lagrimas, pedindo-lhe remedio pera se conservar em Christo tudo com tão grandes propositos de perseverar, que era muyto pera louvar a Deos. De mim, ainda que não queria dizer nada, todavia o farey, pois mo mandão. Eu, por mandado do Padre Mes- tre Francisco, me ocupo em ensinar a leer e escrever e a doutrina christãa duas vezes em a escola, e outra vez em a igreja, aos moços e escravos e escravas; vem a escola cento e cincoenta e a doutrina serão mais de trezentas almas com os meninos; faço muytas vezes procissões, specialmente agora com a nova dos Rumes, e vou com elles acompanhar os enforcados; quando saem da escola, os faço ir cantando a doutrina pellas ruas; faço também que ensi- nem em suas casas os escravos e escravas e os que em ellas não sabem. Todos os sabados dizemos em a escola a Salve e Ladainhas; he pera louvar a Deos ve-los tão devotos e dili- gentes nestas cousas; ha também dez ou doze dos quaes eu mais confio, que reprendem os juramentos; faço que vão por partes donde jogão, e a outras partes onde soem jurar e, ouvindo alguns, se deitão de jiolhos pedindo por amor de Deos que não jurem; edificão muyto estes moços com isto e quando algum jura logo oulha pera tras, pera ver se algum delles o ouve, e asi ao menos se alembrão que jurão, e fazem mal; ensino não soomente a doutrina, mas decla- ro-a, instruindo-os em boons custumes; ando com a cam- painha todas as noites, pera que emcomendem as almas do Purgatório e os que estão em peccado mortal. Aos Do- mingos e dias de festa vou a cadea e ao hospital a consolar os enfermos e encarcerados. Depois que vierão as novas dos Rumes temos feitas duas procissões de noite com disciplinas e misericórdia com toda a cera; eu hia com os meninos despidos diciplinan- do-sse, cantando as ladaynhas. Os padres de Sam Francisco fizerão outra com seos meninos; nos outros em casa com 285
  • os devotos. Todos os dias, despois das Ave-Marias, dize- mos humas ladaynhas na nossa capella; he certo que he cousa muyto pera louvar a Deos ver estes homens, porque huns suspirão, outros chorão e solução, com muytas lagri- mas, em que se mostra claramente sua devação. Novas de nos outros, pella bondade de Deos, he estar muy consolados com a doutrina que o Padre Mestre Mel- chior nos tem dado, não tão soomente em praticas, como em exemplo de vida, animando-nos em tudo a crecer na perfeição, e também em ver o muyto que Nosso Senhor obra por elle. Valete (6), oje 16 de Dezembro de 1552. Voso Irmão em Christo Manoel. (6) Isto é: adeus. Do latim. 286
  • 54 CARTA DE MANUEL NUNES À RAINHA DE PORTUGAL Goa, 20 de Dezembro de 1552 Documento existente no ANTT: — CC, I, 89-34. Mede 310 x 210 mm. São seis jolhas. O doe. ocupa cinco e meia. Em bom estado. Ainda se vê quase meio selo em lacre preto. Senhora, O ano passado escrevi a V. A. tratando de mira somente, porque, ainda que de mais quisera tratar, por eu ser tam moderno na terra e ter delia pouqua esperiemçia, não no podia fazer de maneira que aproveitasse; agora, posto que aynda não çesou a razão de falar em meu negoçeo, e me he forçado faze-lo, todavia a voltas diso também tratarei do servyço de el-rey noso senhor, conforme a meu juizo e ao que tenho entendido do que me pasou pelas mãaos e vy, despois que estou na Imdia. Mas, porque com vida mail (?) não pode chegar a ese reino o que destas partes se escreve, senão por lomgo dis- curso de dias, com ser tudo qua tam variavell que pri- meiro se muda pera pior sem conto de vezes que la chegue o que foi escryto, emeolhe-se o animo pera o escrever e perde-se a esperança de aproveitar com yso, e, sem embargo de tudo, eu comprirei com o que sou obrigado a boa ten- ção reçebo V. A. Nas cartas passadas escrevi que, por me Alexo de Sousa não emearregar em negoçeo algum de servyço de el-rey, requerendo-lhe por muytas vezes, nem me comprir palavra nenhuma das com que me V. A. qua fez vir, e Jeronimo Correa estar em posse do cargo, de que me ca foi feita 287
  • merçe, por meu serviço, com titulo de o ter em sua vida, requery ao vyso-rei que determinase este caso, pera eu saber o que avia de fazer, e se ver no reino que não ficou por mim nada, e porque com as mesmas cartas foi também em pubrica forma o trelado dos termos e determinação que nyso ouve, e agora com estas vai outro trelado, do que despois mais creçeo e doutra sentença que sobre yso foi dado, por onde V. A. pode ver como se comprem qua as provisões de el-rey e se adminystra justiça. Escusarei gastar nysto muitas palavras e sumariamente digo que em litígios e desaventuras me trouxeram dez meses contynos, com tanto trabalho, emfadamento e gasto, quanto Deus sabe, e cuydando eu que por aquy acabava, começa agora de novo, e cada dia me movem novidades e cousas [i t.] que me forção a deixar o cargo, e deixar-me morrer // amtes de fome que viver desta maneira, e quanto eu mais emtendo que se me faz ysto por fazer o que devo, tanto pior o tomo com o sobejo favor e valia com que Jeronymo Correa defendeo este cargo dez meses sobre quatro anos que o posuyo, sem lhe pertencer, lhe foi julgado por superabundançia nesta derradeira sentença que servyse tam- bém nas armadas que se fazem na India, o que não foi posyvell, nem se pode aproveitar desta largueza pela carga da pimenta, que pertençe a seu cargo, e estas armadas se fazerem sempre a hum mesmo tempo em diversos lugares, pelo quail elle desystio dellos e pedio ao vedor da fazenda que me rogase que os fezese, o que eu fiz por algum espaço de tempo, de voa vontade, porque era servyr a el-rey em negoçeo que lhe pode fazer muito proveito a sua fazenda, e evitar-Ihe muytos danos quem for amigo de seu servyço e tever conta com a conçiençia; e porque os escryvães da fazenda não podem suprir per sy a todos os negoçeos do seu cargo, e tem neçesydade de quem os ajude, como el-rey noso senhor diz em seu regimento e V. A. sabe as merçes 288
  • que se fazem nese reino aos que com elle servem, e nestas partes se costuma ha muitos dias dar-se-lhes ordenado de escrivães dos contos, e alguns o teveram ja de contadores, como também o tem os que servem com o escrivão da Matricolla e com o secretairo, requery eu pera hum homem que comigo serve o menos ordenado que ategora se deu, que são corenta mill reis cada ano, e aynda destes tirando doze mill reis que o mesmo homem tem de seu solido, que não avia de vencer como tivese ordenado; ficava mon- tando tudo o que eu pedia vente oito mill reis; estes, que nunqua se negaram a ninguém, nem se tirando o ordenado a nenhum dos outros oficiaes, se me negarão a mim e comigo so o quys o vyso-rei reformar a Imdia, dando-me por escusa que viera a tirar ordenados e pera o melhor mostrar por obra e a mim não ficar razão de queixar-me, fez logo hum cryado seu escryvão da fazenda das armadas, com quynhentos pardaos de ordenado cada ano a troquo de não dar venta oito mill reis ao homem que me ajuda, com que se escusava criar ofiçio novo nunqua vysto nestas partes, e a mym tyrar do meu tanto a custa da fazenda de el-rey. E ja que me queixo a V. A. dos agravos que se me fazem e dos trabalhos que se me seguirão de vir a Imdia, também seraa justo que diga as culpas por que os mereço. Tinha o governador Francisco Barreto arrendada a alfam- dega desta çidade por setenta e hum mil pardaos cada ano; desfezerão o viso-rey e Alexo de Sousa, tanto que aquy chegaram, este arrendamento; despois arrendou o vyso-rey a hum Trystão Fernandez, filho dum alfaite do duque, seu pay, por setenta myll pardaos e, sendo-lhe arrematada, queixou-se que tomara a renda muito cara, e que o vyso-rey lha fizera tomar com rogos, que se avya de perder nella. A esta reclamação // sayram huns bramenes gentyos, dyzendo que elles a tomaryão e que nos tres anos do arren- 2 89 Doe. Padroado, v -19
  • damento daryão mais çimquo mill pardaos por ella; foy emtão forçado dar-se aos bramenes, e a Trystão Fernandez, porque se agravou de lha tirarem, forão feytos quinhentos pardaos de merçe, e despois de ser feyto o arrendamento aos bramenes, e terem dado sua fiamça e aver hum mes que corryão com a renda, teve o Trystão Fernandez tall yndustrya com a valya do vyso-rey e votos de grandes letra- dos que, com pretexto de ser mais servyço de Deus, serem amtes rendeiros christãos que gentios, foi tirada a renda aos bramenes, e tornada a dar ao Trystão Fernandez por mill pardaos mais em tres anos. Este arrendamento se lhe fez, sem ser em pregão, nem eu chamado pera yso; amtre estes termos vierão a mim alguns homens e deserão-me que se o vyso-rey quisese abryr lanço a esta renda, que elles daryão mais por ella, mas que lho não ousavão dizer, por lhes não ter por yso algum odio, por hirem contra Trystão Fernandez; que se eu, como ofiçiall del-rey, o quysese fazer, que elles estavão prestes, e diso me derão hum escryto de dous mill pardaos mais do prymeiro lanço, pedimdo-me que lhe tevese em segredo, se o negoçeo não ouvese feyto. Apos ysto, veo a mym o Trystão Fernandes com huma portaria do vyso-rey, em que lhe tinha dado a renda, que lhe lançase o arrendamento no livro; não no quys eu fazer, e fui-me ao vyso-rey e dyse-lhe que mandase abrir o lamço, porque avia ahi pessoas que mo tynhão dado seus escritos em segredo, em que davão mais pela renda. Respondeo-me que a tinha ja dada a Trystão Fernandez e passado lhe diso seu escryto, por como lha avya de tornar a tirar? Eu lhe disse que lha não dera solenemente, como el-rey manda em seu regimento, e portanto a podia dar a quem por ella mais dese, sem quebrar sua palavra, e, finalmente, com lhe afirmar que sobiria mais hum bom pedaço, consentio que se tornase a abrir o lanço e se arrendase de novo, e asy 290
  • sobyo mais nove mill e novesentos pardaos em três anos, e ao todo veo a render mais quynze mill e novecentos par- daos, alem da contia em que primeiro foi arrendada a Trystão Fernandez, ese arrematou a hum Diogo de Gu- miell (?) com outro parçeiro em sesenta e çimquo mill e trezentos pardaos cada ano, e por tempo de tres anos. E, com toda esta crecença, tornou Trystão Fernandez a pedir ao vyso-rei que fizese com os rendeiros, a quem foi arrematada, que lhe desem a metade, o que elles fezerão bem contra suas vontades, porque aos governadores e capi- tães em suas fortalezas nesta terra não se pode negar nada, quer seja justo quer ynjusto, so pena de quem o contrairo fezer, vir a muyta desaventura. Pomdere aquy hum pouquo V. A. as manhas com que se demenuem e não creçem, quanto podião creçer, as rendas e fazenda de el-rey e valem como este Trystão Fernandez, por ter ocasyão de pedir despois alguma quyta, reclamou o arrendamento que lhe // era feyto em setenta mill par- [»»•] daos, e despois o quis com seis mill mais, e por derradeiro rogou que lho desem por dezaseis mill mais, como ora o tem, e com tudo yso ganhou este ano seis mill pardaos sabydos, afora o que não veo a livro. Comjeso a V. A. que no prinçipio deste arrendamento estive ynocente, pelo pouquo que sabya das yndustrias desta terra, mas despois que Deus me deu a entender alguma parte delias, fiz neste caso e em outros o que me foi possí- vel, sem me lembrar maes que fazer o que devo. Pareçeo bem ao vyso-rey fazer hum provedor da Ribeira e Almazens desta cidade, diz elle que a requerimento de Alexo de Sousa, o quall nega requerer-lhe tall, mas diz que não fez niso mais que consentyr que se fizese não cuydando que fose com tamanhos poderes na fazenda de el-rey, como era despender cada ano mais de cem mill pardaos, que nestas cousas se despendem, que não ha neste Estado 2 p i
  • negoçio de mais confiamça. E asy, despois que Lopo Vaz de Siqueira, que pera ysto foi eleito, começou de mandar tão ausalutamente na fazenda de el-rey, que não tinha que fazer Alexo de Sousa, nem ficava sendo qua neçesario pera nada, pareçeo-me a'mim serviço de ell-rey trazer-lhe a memoria que olhase bem o que fazia, porque lhe poderyão com muita razão pedir conta nese reino, de comer tamto ordenado, não servymdo, e de fiar tão levemente doutrem o que se delle comfiara, sendo cousa de tanta ymportançya, e alem dyso darem-se a Lopo Vaz outros dous mill pardaos de ordenado que por yso pedya. Fez então Alexo de Sousa algum pouquo pee atras do consentimento que dera, mas aynda não tanto, como era obrigado, e sobre ysto teve na Ribeira algumas palavras com Lopo Vaz, aas quaes, por eu ser presente, e Lopo Vaz também querer meter-me na briga, me foi forçado respom- der o que me pareçeo servyço de el-rey, e que a nynguem soou mail nesta terra, senão a Frei Simão Botelho que por ser, segundo dizem, o autor da criação deste cargo e tomar mail não hir avante, foy ymduzir o vyso-rey contra mim, de maneira que diamte delle me reprendeo asperamente, que chegou a me dizer que me embarcarya pera o reino, e prouvera a Deus que o fezera. E querendo todavya que Lopo Vaz fose provedor, veo-se emfim a desavyr com elle na soldada, porque a pedia tão copiosa e com poderes tam supremos e ymediatos a soo el-rey, que não somente emgolia todos os de Alexo de Sousa, mas emtrava aymda pelas da governação huma boa jornada. // Deixado pois Lopo Vaz por muito caro, foi so esta- belecido em seu lugar Jeronimo 1 Correa, dizem que tam- bém o apresentou Frei Symão, e aplicou-se-lhe o escrivão, que açima digo, com quynhentos pardaos de ordenado, e i — Jr.1» 2^2
  • nelle se derão mill. Tem agora de seu na Imdia a fazenda de el-rey (ou falando mais proprio), a tem a ella, afora Alexo de Sousa, outros tres veadores, scilicet, Afomso da Gama em Ormuz, Amtonio Roiz de Gamboa em Malaqua, Amtonio Ferrão em Dio, que cada hum leva por ano mill pardaos de ordenado, e mais hum provedor da Ribeira e Almazens, que leva outro tanto; ha outro provedor dos contos; ha seis escrivães da fazenda, os cimquo delles feitos pelo viso-rey; quatro servem com os veadores e provedor açima nomeados; hum dos contos, que come o ordenado sem servyr, por ser casado com huma parenta do secretario de Guoa; outro foi em lugar de Jeronymo Correa a fazer a carga da pimenta com Alexo de Sousa; eu soo syrvo pro- vido por el-rey, sem ter maes ordenado que cada hum delles, e muito menos proveito, se não quanto elles servem os car- gos, maes livre e pacificamente que eu, tamto melhores e mais firmes são nesta terra as merçes voluntárias que os governadores fazem a quem querem, que as que faz el-rey per vya ordinária, despachadas em comselho, mereçidas por serviços julgados pelo juyzo de tantos homens, pêra lhas qua tomarem, e não comprirem, o quall quam pouquo serviço de Deus e del-rey seja, e com quanto cargo de sua conçiençia e descrédito da magestade reall, mao exemplo do reino e governo delle se faça e se permita V. A. o veja. Despendem-se cada ano em madeira, que se compra pera a Ribeira de el-rey vinte e, as vezes, trynta mill pardaos, a quall, tanto que se emtrega ao almoxarife2, se lhe daa logo juntamente a despesa, sem ficar obrigado a dar conta delia. Fica então ofereçida a estes danos, scilicet, a não se entregar na Ribeira quanta el-rey paga, porque como se não daa conta delia, e se gasta sem conta, nunqua se pode saber o roubo disto; essa que vem aa Ribeira, fica posta a rapina dos ofiçiais dela, aa imjurias das agoas do imverno, 2 93
  • que nesta terra são tão ymenssas e contynuas que apodren- tão e desfazem as pedras, aos ardores do soli, que he tão ardentissymo e ymcomportavell, que gasta e comsume o ferro. Requery eu, por muitas vezes, ao vedor da fazemda, e também fez esta lembrança ao vyso-rey que na mesma Ribeira, pois ha lugar pera yso, mandasem fazer huma grande taraçana fechada e cuberta, em que esta madeira estivese guardada de todos estes ynconvenyentes e emtregue ao almoxarife pera delia dar conta, e não se lhe dar despesa [3 *-l senão da que constase ser despendida nas // obras de el-rey, como se faz em todas as provyncias e estados que se servem de armadas, e os amtygos que governaram esta terra teveram esta madeira guoardada em huma casa, que agora serve de cordoaria; na taraçena, que digo que avya de ser de grandura pera yso, se podia varar armada nos ymver- nos, porque, alem de se escusarem cada ymverno, mais de mill pardaos que se gastão no cobrymemto delia, estarya segura de se queimar, como aconteçeo ha pouquo tempo, e de a ramjer o bycho, que neste ryo he tão danoso aos navyos, que o não poderaa crer senão quem o vyr. Ysto a nynguem pareçeo mail, nem mo contradise, senão aos que com estes danos da fazenda de el-rey reçebem proveito, que esta he huma grande agoa emvolta, porque nesta Ribeira e almazens se gasta e consume todo o dinheiro da Imdia, com nome de ser este o fundamemto e fortaleza delia, como na verdade o he. E agora, que pareçe que averaa neçesydade de aproveitarem estes gastos, não ha na Rybeira nem nos almazens cousa que aproveite pera nada, como V. A. pode saber dos que vão de qua, porque a todos he notorio; e, achando ser asy, se deve prover com dili- gençia. Pareçe que este lugar pedia tratar algum pouquo da guerra destas partes, e o não ouverem de fazer outros mais 294
  • espermentados nella, que me desobrygão dyso, e OS que esta obrygação tem devem escrever sobre este caso larga- mente a V. A. porque estaa fumegando a guerra de tantos lugares, a que este Estado tem neçesydade de acodyr, e estaa elle tam debilitado e falto do neçesario pera yso, que não creo que se descuydaram os que o tem a cargo de fazer as lembranças que compria, porque de quynze meses pera qua não sei ja cuja cullpa. Tem o Malavar feito roubos tam samgrentos e presas tão custosas que nunqua françeses, roubando asy, ynquyeta- rão a costa de Espanha, e por se ter quaa o ymtento em outras empresas, por ventura de mais ambição que pro- veito, e aver descuydo dos contynos ynsulltos e ymcursões dos Malavares, lhes creçeo a ousadya e nos acrecentarão as ynjurias, de maneira que não se lhes podem ja perdoar, sem ymfamia, nem vyngar sem fogo e samgue. Ajuntarão-se sobre ysto outras brygas, espalhadas a hum mesmo tempo em Maluquo, em Ceilão, em Cambaia, e no Estreito, e nas mais delias ao presente estamos quasy de perda, e ha-de ser forçado remedear tudo ysto, e o remedio parece defiçill, pela falta que de tudo se mostra pera elle. Não deixarei aquy de dizer //o que entendo e he que se os governadores desta terra não tevesem os quyntos das presas, que se nella tomão, pode ser que mandarião mais vezes as armadas aos lugares, omde delias ouvese neçesy- dade, que aos desneçesarios, de que esperão ymteresse, e, porque dyse mays do que cuydei nesta parte, tornarei aos negoçeos da fazenda em que, por rezão de meu cargo, tenho obrigação de falar. Tem esta cydade de Goa hum privilegio de el-rey Dom Manueli, que estaa em gloria, em que framquea os moradores delia, christãos, mouros e gemtios, dos manty- mentos que trouxerem de fora, pera suas neçesydades que, sem no elles estender a tamto que prejudicão com yso em 2 95
  • muita parte os direitos reais e pryncipallmente em huma renda que qua chamão do beter (1) que, podendo render a el-rey sento e oito mill pardaos cada ano, vão elles aa mão aos rendeiros de S. A. de maneira que sempre a emcam- pão ou pedem quyta do dano que nyso reçebem; e, alem de se lhes quytar o que pareçe justiça, quasy não ha jaa quem na queira arrendar, por não ter brygas com a cydade, e este ano foi tres vezes emcapada e mudado o arrenda- mento cada vez em menos, porque não se contentão com vender suas fazendas por junto, sem pagarem direitos, mas querem-nas arrendar a regatões e vender pelo meudo pelas ruas, sem se avyrem com os rendeiros, que ysto he o que el-rey lhes arrenda, porque de todas estas cousas não tem outros direitos senão estes, e por se evytarem estas deferenças cada dia, que sempre são a custa da fazenda de el-rey, requery ao vyso-rey que vyse o privylegio e lhe mandase cumprir, como lho fora concedydo, e não consentyse que no rendimento das rendas de el-rey se fizese esta demi- nuição. Mandou ver o caso por letrados e se conformarão com o que eu dezia, e contudo pela cidade o não querem con- sentir. Se arrendou a renda, sem o ramo da ortaliça, por cymquo mill pardaos somente, e ainda estes não se achava quem os dese, senão homens a quem el-rey deve dinheiro, e se esperão pagar diso. Bem creio que escreveram sobre este caso a V. A. o vyso-rey e vedor da fazenda, visto que o ramo da ortaliça ficou sem se arrendar, e não se arrecada delia nada, e estaa em sylençio, sem se tomar detreminação sobre yso. Eu, como não pretendo que a cydade escreva gabos de mim disto, e escrevo o que me pareçe ao servyço de el-rcy noso senhor. (1) Isto é: bétele. 296
  • As outras rendas desta cydade também forão todas emca- padas pelo desasosego e fugida dos gentios desta ilha // que [4 »■] a deixaram quasy deserta, por se apertar com elles dema- syadamente sobre a crystandade, e porque pela violençia e poder largo com que os saçerdotes tratão este negoçeo, e o vyso-rey o favorece contra os pareçeres e petyções dos ofiçiaes da fazenda de el-rey, e de todo o outro estado secular, se cree que o não farão sem permisão e mandado de S. A. ou autorydade de seu conselho. Direi alguma cousa do proçeso deste caso e do que o ate agora rendeu da delle {sic): os padres da Companhia somente erão os minystros desta obra no prynçipio, e, por- que parece que se tynha maes conta com a fama que com o fruyto delia, alem doutras avexações e moléstias que se fazião aos gentios para os neçesytarem a consentyr que os bautizasem, tosquiavão muitos delles forçosamente, e lhes fazião comer carne de vaqua e pecar contra outras supersti- ções e rytos da sua ydolatrya, pelo quall fugirão os maes delles, e os crystãos portugueses se queixarão por não pode- rem vyver sem o servyço delles asy para a granjerya de seus palmares e fazendas, como para outros usos neçesayros, que qua se não escusão. Os frades dominycos e francisquos também nos sermões davão suas dentadas e reprendyão este modo de acrystianar gente, ate que o vyso-rey favoreçeo tamto o negoçeo que emfym se vyerão a lamçar todos a elle como a mor cadeia que tinha preço, e a ter compitençias sobre saltea- rem (r/V) os afilhados huns aos outros, e ser quasy neçesaryo dividir-Ihes as comarquas e synalar os limites que perten- cião aa comquysta de cada convento. Amtre estes debates se acabou de despovoar a ilha e, tornando-se a arrendar as rendas que foram emcampadas no arrendamento que delias se fez por dous anos, quebrarão doze mill pardaos do em que amtes estavão, afora mais de 297
  • oito ou nove mill outros que são gastados a custa de el-rey nos vestydos que dão a esta gente para os atraerem ao bautysmo, porque os mais ou todos os que destes fazem cristãos he gente pobre e baxa, que os honrrados e rycos mitialles (2), asy como bramenes mercadores, medycos, ofiçiaes e outros homens utiles ao nobrecimento e comerçio da terra e creçymento das rendas de el-rey noso senhor, aymda que tynhão herdades e casas, tudo deixaram e se foram viver amtre os mouros e gentios, a volta dos quaes forão muitos mestres de espymgardas e outras armas. E dos que se tornarão crystãos // os mais delles tam- bém são fugidos com o fato que herdarão, damdo os bar- retes vermelhos, que amtre nos valem a pardao de ouro, e se compram asy para darem, valem amtre os mouros na terra firme a três vynteens, que lhes vendem elles com as espadas e o mais vestido que levaram. E dos que se não vão ha pouquos que não sejão ladrões e bêbados, porque como na gentylydade são costumados a amdar despidos e comer pobrisymamente, para o quall lhes basta quallquer arte, por vill que seja, e despois de crystãos am mester vestido e mantença mais custosa, e este pequeno trabalho de que amtes se mantynhão o deixão de todo, não se podem sostentar e fazem mill desconçertos, e vierão a gostar da ouçiosydade e interesse com que os pro- vocão ao Crystianysmo, de maneira que muitos vieram da terra firme a colher esta novydade de vestidos e comer, e açha-se que alguns forão ja bautizados tres vezes a troquo desta peita, e os padres, com sua ynocençia e fervor de servir a Deus, não cayrão logo nesta conta; agora ja estão maes acautellados e ordenam de pedir fiadores aos que da terra firme se vierem converter. (2) Isto é: motiares, ou escrivães. 298
  • I De tudo ysto me pareçeo neçesario dar ynformação a V. A. porque como este estado seja posto tam lomge dese reino, quasy em outro mundo, e não tenha outro socorro maes çerto nem maes presente para se poder soster e supryr as neçesydades, que cada ora lhe sobrevem, que o seu proprio rendimento e fruyto da terra, não se devem façillmente permitir gastos extraordinários, e sem muita neçesydade, da fazenda de el-rey, nem admitir ocasiões de se demenuyr per tantas vias, que venha a faltar de todo, como pareçe que se vai emcaminhando, se Deus o não desvya, e V. A., com o conselho de seu reino, o não modera. E não cuyde V.A. que se causarão as esterilidades e faltas que ha, de alguns casos fortuytos ou mudanças de tempos, ou de defeito algum da terra, que sempre he a que foy, e nunqua deixa de dar seu fruito acostumado, com muito crecimento, se lho não estragarem; mas a variedade de governo e cultura delia, o mudar-se-lhe cada dia as artes e natureza, com que se adquirio e se quer sustentada, a disensão e desconformydade dos que a governão e tem a cargo, bastão a destruyr outros maiores estados, porque amtre diferenças e odyos secretos e pubrycos de governa- dores e veadores da fazenda, e ynvenções diversas que alguns delles buscão de acrecentar a sua descrença a de el-rey, sem ter de sua parte mais que huma toada vãa e nome fimgido com que se atribui e refere a seu serviço tudo o que se faz contra elle. Quer esta provynçia asy como // todas as outras que 15 *•] os reis pesem lomge de sy, e regem per seus governadores, o jugo leve e brando, a adminystração amtes liberall que avarenta, as artes com que se sostem favoreçidas, o trata- mento das naçõis estranhas e diversas, que a frequentão e nobrecem, com seus serviços, facill e aprazivell, conforme a seus costumes, a religião crystãa em lugares tão remotos da Crystyndade e amtre tantas e tam varias seitas de paga- 299
  • nysmo, symgella, chãa, e quieta, sem rigores nem estreitezas demasyadas que escandalizão mais do que edyficão, e nos fazem odyosos e ymtrataveis aas gentes vezinhas e desviadas que neste estado soem tratar, e o aumentão e emrryqueçem com tratos e empréstimos, quando delias ha neçesydade, porque de nossos saçerdotes em Sam Tomee çujarem os templos dos gentios naçeo violarem elles o noso que ahy temos e levarem cativos homens e molheres daquella povoa- ção, de que ouveram çinquoenta mill pardaos de resgate. Em Malaqua, e outras partes, como os escravos dos mouros e gentios, que tratam e vivem amtre nos querem ser livres, acolhem-se a igreja. As molheres dos gentyos canaryns desta ilha, como fazem adultério a seus marydos, fogem-lhes com o fato que podem e acolhem-se a São Paulo e, com se fazerem crystãas, ficão seguras. Todas estas cousas, aymda que os religiosos as fação com boa tenção e a seu pareçer piamente, não se sofrem amtre naçõis ynfieis e barbaras porque, alem de as averem por ofensa de suas seitas, am que lhes prejudicão as honrras e fazendas, domde naçe não ousarem vir mercadores de Mequa, nem da Persia, nem de muytas outras partes diverssas, de que soem vir a este estado com suas merca- deryas, com que acresentão os rendimentos das alfandegas de el-rey noso senhor, e creçe tudo o mais, como foy ate agora; que ha homem nesta cydade que se lembra remder a alfamdega delia oitocentos pardaos e agora rende perto de trinta mill. Isto, com os favores e boons tratamentos que os amtigos, que qua governaram, fazião aos estrangeiros e naturaes desta terra, e os reis que estão em gloria, nos privylegios que derão aos moradores delia igoalarão os mouros e gen- tyos aos crystãos portugueses nas lyberdades e franquezas, a fym de a povoarem e nobreçerem e ter maior fruyto desta comquysta. 300
  • Não ha ao presente nesta terra mouro nem gentyo, nem crystão contente, nem homem que // syrva seu cargo [6] ymteiro, como lho el-rey deu. O meu he partydo em quartos, e feyto herdade junto da estrada, que quantos pasam a roubão. O secretayro me toma grande parte da escrytura da fazenda, que aymda esta pouquydade não pode escapar a sua cobyça. O vyso-rey sobre duas sentenças que me custaram dez meses de trabalho e de gastar o que não trouxe, me tomou pera seu cryado todos os percalços da Rybeira, de que se mantynhão os ofyciaes da fazenda que ate agora servyrão, e eu estou servydo com me mantendo qua me emprestão meus amigos, e, cuydando que vinha para me desendivydar com a paga de meu servyço, vym fazer divydas de novo, que não sei quando poderei pagar. Remedee V. A. ysto, por descargo da allma de el-rey, que estaa em gloria, a quem eu servy sem aver outra merce senão esta, que tão caro me tem custado. E do mais que nesta carta digo, que não pode deixar de ser larga, se nella ouver alguma cousa boa, açeite-a como de quem em tudo deseja e procura o servyço de el-rey noso senhor e de V. A. a quem soo eescrevo todas estas cousas tão verdadeiramente como passão, por lhe tocar o prynçipall cuydado e remedio delias. De minha tenção faço a Deus testemunha; das obras e como vivo, aos homens, que alguns vão de quaa, de tanto credito, que bem se pode delles saber a verdade. E se o escryto não pareçe tall que mereça agradeçimento, V. A. rompa ou esconda, de maneira que, se me não render graça, não me renda odio e dano. Noso Senhor acresente a vyda e reall estado de el-rey noso senhor, e de V.A. por muito largos e ditosos tempos. De Goa, a 20 de Dezembro de 1552. Manuel Nunez. JOl
  • 55 A CAMARA DE GOA A EL-REI Goa, 24 de Dezembro de 1552 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 89-38. Mede 310 x 210 mm. Soo três folhas, mas escrita apenas uma e meia. Bom estado. Boa caligrafia. [' "■•] Muito alto, muito poderoso, muyto eicelemte primçipe El-Rei Noso Senhor, Os vereadores e ofiçiaes desta sua çidade de Guoa, em nome de todo povo dela, beijão as reais mãos de V. A. pelo bom despacho que deu acerqua dos ofiçios de alcaide he meirinho, que el-rei noso senhor, seu padre, da gloriosa memoria, lhe fez merçe pera sempre, que V. A. confirmou, e somos certos que sua vertuosa he samta temção he fazer bem he merçe ha esta sua cidade, he mui grande ha reçe- bemos neste caso, se nos guardar justiça, e asy em os outros ofiçios que V. A. dava em vida contra forma do privilegio he doação que ha çidade tem, o quall manda que todolos ofiçios dela, tirando capitão primcipal, alcaide-mor, feitores, escrivães da feitoria, capitães dos pasos, todolos outros se dem aos moradores, de tres em tres anos, e outras pesoas não sejam deles providos, segundo pelo trelado da dita doação se contem, que com esta enviamos, pera V. A. ver, he ha huma he outra cousa nos desagravar do novo agravo que o seu viso-rey nos fez, avendo respeito aos mui grandes serviços que esta cidade e os moradores dela tem feitos a V. A. he a el-rei, seu padre, porque eles a ajudarão a guanhar, e com seus averes edeficarão dos çimentos, e com suas pessoas ha sostem he defemdem contra todolos nosos j o 2
  • comarcãaos, que são mouros, nosos ymiguos, imiguos de nosa santa fee catoliqua, e ha nobreçemos de nobres edefiçios, como ora, louvado Noso Senhor, he huma das principais do mundo, e onde V. A. tem duzentos mil pardaos de remda em cada hum ano, e remderia o dobro he muito mais, se as leis he prematiquas de quem tem o poder o não estrovase. // E pera V. A. saber os gramdes trabalhos que este [i »•] seu povo padeçe de todos os que a ela vem mandar, que sendo o viso-rey requerido pola çidade que lhe mandase dar a pose dos carguos de alcaide he meirinhos, asy he da maneira que V. A. o mandava pelas provisões que pera yso mandou, as quoais lhe foram apresentadas, se não quis fazer, pomdo por enconviniente que aa çidade lhe não per- temçia mais que as tres varas, em que o privilegio amtiguo falava, e que as outras que depois creçerão, não hera de sua dada, estamdo ha çidade sempre de pose de todas. E polo privylegio V. A. lhe faz merçe das ditas varas, per faleçimento de Baltesar Roiz, nomeado loguo nele, a vara de alcaide da çidade, e outra vara dos arrabaldes he mon- tes, e outra de alcaide do mar, porque naquele tempo, por a povoação ser pequena, pareçia que estas abastavam; e depois do falecimemto do dito Baltesar Roiz, ha çidade ouve pose das varas e por, louvado Noso Senhor, ir em creçimemto, se fizeram outras, por serem neçesarias pera guarda da terra e justiça, as quais todas se proviam em Camara pelos vereadores e oficiaes, conforme ha doação; e nesta pose esteve te que Guaspar Gonçalvez1 de Ribafria, por provisão de V. A. desaposou ha cidade de todas as ditas varas, scilicet, ha de alcaide dela, e dous meirinhos, hum da cidade e outro de fora, que todas serviam ygual- mente, e outro meirinho dos montes, e outro da alfan- degua, e outra vara de alcaide do mar, como tudo V. A. mais larguamente vera pelo estromento que lhe mandamos. 1 — giz. 3°3 \
  • Este direito he pose que ha çidade tinha nos ditos car- guos, ese ouve Guaspar Gonçalves, sem te gora aver mais varas, e este he o que aguora ha çidade pede. Pedimos a V. A. que nos tire de trabalhos com seus governadores que, por darem os carguos a quem eles querem, fazem he põem duvydas as provisões tam craras de V. A., pois por tamtas vezes nos tem feito merçe destas varas. E mande por sua provisão que nos dem a pose de todas as que Guaspar Gonçalves ouve, e das mais que forem feitas, e, avendo neçesydade, pelos tempos adiante, doutras, que ha çidade as posa criar e fazer de novo, e aas pessoas que hora tem e servem as ditas varas, lhe sejam avaliadas, con- forme ha provisão de V. A., e dem loguo ha pose ha çidade, e eles requeiram seu paguamento ao governador2 e veador3 da fazenda, porque çertificamos a V. A. que se a provisão não vem desta maneira que esta conteuda, se não acabara [>M nunqua, e ficara sempre // em aberto pera o empurtunar- mos todolos anos. E bem deve de crer que ha çidade não quer estas varas senão pera prover delas ha pesoas de me- recimento, e homens de bem, que tem servido V. A. e que an-de fazer o que devem com elas. A cidade envia seus estromentos e agravos a Pero Fernandez4, seu escrivão da Camara, noso procurador®, pera que os apresente a V. A., pelo que lhe pedimos de speçial merçe que nos proveja, em maneira que não tenhamos mais trabalhos, no que a Deos Noso Senhor fara serviço e a nos e a todo o povo bem e merçe. E quamto aos mais ofiçios, de que V. A. tem feito merçe aos moradores desta çidade, asy de sua fazenda, como da justiça, pera que deles sejam providos, de três em tres anos pelos seus guovernadores, ha çidade nesta parte he mui agravada, he com rezão, porque certo esta os gover- nadores não nos proverem senão em seus criados e amiguos, » - g " ; 3 - T.» n — p.« fez ; 5 - p.<«' 3°4
  • e os moradores, ha quem V. A. faz as merçes, e o servem cada dia e cada ora, com suas pesoas e fazendas, e com ha muitos custar ha vida, e seus filhos ficar em desemparo, ficam sem eles, pelo que, ao menos, pareçia rezão que a apresentação dos taes ofiçios fose da çidade e, vaguando alguém, que os vereadores e ofiçiais em camara, as mais vozes, elejam ha pesoa pera o servir, porque eles tem mais rezão de conheçer todos, e sabem os merecimentos de cada hum; e os governadores lhe pasem sua carta, e desta ma- neira eles averão as merçes que lhe V. A. faz, e se terão muitos enconvenientes, pera se sua fazenda não perder e as cousas andar por ordem. Pedimos a V. A. de grande merçe que nos proveja a este requerimento conforme aos muitos serviços que esta çidade e os moradores dela lhe tem feitos, he cada dia fazem, no que reçeberemos asinada merçe. Beijamos as reais mãos de V. A., a quem Noso Senhor acrecente sua vida e real estado por muitos anos, amen. Em camara, desta sua çidade de Guoa, a 24 de Dezembro, Duarte Garçia, esprivão dela, a fez, de 1552. Payo (?) Royz. Manuel6 de Saa. Jorges Garces. Joara Martinz. Martym Gomes. ...Gonçalves7. Simão Gonçal- vez. Alvaro Fernandez8 (8). (1) Assinaturas muito pessoais. b — M.rt ; 7 — gti ; 8 — alv.s frr. Doo. Padroado, v - 20 3 ° 5
  • 56 CARTA DO PADRE MESTRE GASPAR AO PADRE DOM LIAO EM COIMBRA Goa, 27 del Dezembro de 1552 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, I. Fls. 198 r. -198 v. (1) Dias ha, charissime pater, que desejei de communicar o meu desejo e amor que vos tenho por carta se os muitos trabalhos me derão lugar pera isso e como quer que agora o tempo deu lugar a isso determinei de vos escrever estas poucas de regras alembrando-vos quão suave he a cruz no desejo e quão pesada he levada as costas pera que o amor vos mova a tardes cuidado daquelles que andão seguindo as bandeiras de Christo estendidas polios campos deste Egipto em continua batalha contra o rey Faraó e o seu exercito. O pater, si vidisses tu aquellas cousas que não posso escrever, como se dilataria nosso spiritu nesta materia; por não dar occasião de alguma tentação não me quero mais estender; abastava que vos amo muyto com todos os meus charissimos in Domino desse collegio. Nosso Senhor nos de graça para que todos nos vejamos aqui na índia, onde a messe esta tão madura, mas, ay de mym!, quão poucos ha que a querem recolher. Christo Nosso Senhor proveja como sentir mais gloria sua, etc. Tres cartas recebi este anno do Irmão Frutuoso Nogueira Nicolas e de Diogo Several; esta carta sera também pera todos, porque lhe certifico em verdade que não tive lugar (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fl. 216. Subtítulos à margem. j o 6
  • pera lhe escrever, polia minha enfermidade, de que ha pouco tempo que convaleci; pera o anno, com a ajuda do Senhor, e tiver dias de vida, escreverei a todos os irmãos mais em particular porque os amo em visceribus Cbristi, e esta fiz acabando de pregar nove pregações em cinco dias com muyto concurso de gente, os quaes tem mais fervor que eu, porque elles não canção de ouvir e eu canso de pregar. O charissimos patres e fratres, de todo esse santo colle- gio, agora he tempo de rogardes ao Senhor por mym pera que, se for seu serviço, de me tirar este iugo tão grave que trago aos ombros, e mandar-me ao Preste João como eu confio que sera. Nosso Senhor, que nos ajuntou aqui sobre a terra, nos ajunte na gloria e nos confirme em seu amor. Deste collegio a 27 dias de Dezembro de 1552 annos. Indignus frater Gaspar.
  • 57 NOTICIAS DO PADRE CIPRIANO Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fl. 167 v. (1) Do Padre Cypriano, que esta em S. Thome com hum irmão, sabemos que se exersita em pregar, confessar, sosten- tar, conservar os christãos com muitos trabalhos, de que muito se espantão os homens, do que homem tão digno (2) sofra tantos trabalhos. Em confisoens se faz muito fruito, e se fez sinaladamente com huma pessoa, que avera 27 anos que se não avia confessado; confessou a outros muitos que avia muitos annos que se não confessavão. Também reduzio a outros que de taful e jugador, com desesperação, não se encomendava a Deos, nem aos santos, nem reverentiava a suas imagens. Isto he, em suma, o que sabemos delle. Por outras cartas particulares, dos que andão divididos por estas par- tes, podereis entender mais particulares noticia (3) dos nossos. Nosso Senhor de a todos sua graça. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fl. 235 v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 217 V.-218 r. (2) BIMINEL: velho; BACIL: espaço em branco. (3) Correcção: novas. í — íicia.
  • 58 TRECHO DE UMA CARTA DE ALVARO MENDES, DE MAGASTAO, PARA OS IRMÃOS DA COMPANHIA DE JESUS 1552 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fl. 167 r. (I) Pax Christi. No tempo que vinhão os Rumes pêra nos fazer guerra, detriminou o capitão que os christãos da terra se pusessem fora da fortaleza, assi por não caberem nella, como por causa da agoa e, em vindo novas que os Rumes estavão em Antacão, 24 legoas de Ormus, se embarcarão para esta fortaleza de Minão, ainda que contra vontade de alguns porque temião que la os matacem. O padre me mandou ir com elles pera lhes doutrinar, consolar e regi-los; serião por todos perto de 400 christãos. Tive com esta gente muitos trabalhos porque, segundo o padre e capitão tinhão ordenado, eu levava cuidado de os reger temporal e spiritualmente, e como erão de tão diffe- rentes uns de outros, muitas vezes peleiarão, e depois me vinhão pedir justiça, com varias queixas huns de outros, e outros vinhão com outras cousas. Certo que a tanta diver- sidade de cousas, não sabia que fazer; humas vezes hos fazia amigos, outras vezes, não podendo acabar com elles, os ameaçava, e algumas vezes os fazia prender, asi homens como molheres, como Nosso Senhor me insinava; tremia o amor com tremor e guardava esta ordem com elles; logo (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 234v.-235; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 217 r.-217 v. 3°9
  • pola manhã os visitava, procurando saber suas necessidades, pera conforme a ellas os prover; dava de comer aos pobres que serião 150; as tardes, lhes insinava a doutrina, dando cuidado de os aiuntar a dous homens. Estando desta maneira, veo nova que hos Rumes avião chegado a Ormus, e tinhão cercado a fortaleza; hos desta fortaleza, que são mouros, compeçarão logo a fazer e dizer-nos muitos vitupérios, que não tínhamos mais que 4 dias de vida, os quais acabados nos avião de cortar as cabeças; dizião-me, pois que era ia perdido, por que fazia doutrina aos christãos? que não na avia de fazer, porque todos iuntos me avião de matar. Quando vi isto, asas fati- gado, me fui ao capitão que se chama Miramaxa, a pedir-lhe licença pera insinar a doutrina aos christãos, dizendo-lhe o que me dizião os seus, e com isto cessarão hum pouco. Huma quarta-feira, estando in casa, dispois de ter visi- tado os christãos, vierão a mim muitos com novas que Ormus era tomado, o que causou grande alvoroço nos christãos, tanto que muitos tinhão aiuntado suas cousas pera fugir com ellas, pola terra adentro, mas porem loguo vierão outras novas do contrario, com as quais algum tanto se aquietarão. Agora espero que mandem chamar de Ormus, ainda que me parece que estarei nesta terra alguns dias, cuia calidade he ser sam em Junho, Julho, Agosto e parte de Setembro, mas Outubro e Novembro he como peste, por- que dizem os da terra que, quando sai huma estrella do sul, a qual se sinte primeiro nos bois e bestas, he sinal deste ruim tempo e, para saber se he saida a estrella, olhão o gado, e o vem andar como atroado, e aconteceo agora, e toda a gente que trouxe adoeceo, mas quis Nosso Senhor que não morerão mais de 4 mininos e huma molhcr. Do Megastão. Alvaro Mendes. 3 1 °
  • 59 TRECHO DE UMA CARTA DO PADRE ANTÓNIO VAZ AO PADRE MESTRE GASPAR Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fl. 167 v. (1) Paz Christi. Ainda que ha poucos dias que partimos delia (2), todavia darey levemente conta a Vossa Reverencia do que fizemos, ultra do recolhimento que Vossa Reverencia nos tem encomendado, pera maior nosso aproveitamento em spiritu. O irmão que vem comigo insina a doutrina aos escravos e moços da nao huma vez no dia, outras vezes dos (3), muitos portugueses vão ouvir porque também lhe declara algumas cousas dos mandamentos. Os mininos que traze- mos reprehendem hos juramentos que erão muitos; ja pola bondade de Deos não ay quem jure e, se por discuido alguém o faz, logo olha a huma parte e a outra, por ver se o ha alguém visto. Servem aos enfermos e dam-lhes de comer; eu me ocupo em pregar e confessar e conversar esta gente, e todos me tem muito amor e credito, mas eu, ao fim, sou quem sou e tudo isto e para maior confusão minha. O Padre Francisco Lopes, com seus companheiros, com que la nos aiutamos em Chaul, se exercita em o mesmo que nos outros com muita devação da gente. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 235V.-236; BACIL: Cartas do Japão, I, fl. 218 r. (2) Isto é: de lá. (3) Correcção: duas. 3'1
  • 60 NOTICIAS DO PADRE NICOLAU LANCILOTO s/l., s/d. Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 167 r.-167 v. (1) [,67 O Padre Nicolao esta em Coulão, no collegio do Salva- [>67 *•] dor; tem ali 50 mininos dos quais // aprendem alguns a ler e escrever, otros gramatica, aos quais insina hum irmão. O padre prega algumas vezes, ainda que he mui enfermo de sua enfermidade continua de sangue; tem cuidado do esprital dos christãos, e procura-lhe o necessário, e tem consigo dous irmãos que o ajudão; muito a que screver delle, e do fruito que faz na christandade de Coulão; tem a cargo os irmãos e padres que andão no Cabo de Comorim. (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fl. 235 v.; BACIL: Cartas do Ja- pão, I, fl. 217 v. 3 ' 2
  • 61 NOTICIAS DO PADRE ANTONIO HEREDIA s/L, s/d. Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fl. 167 v. (1) Muito tem Deos obrado polo Padre Antonio Here- dia (2) o qual teve este inverno em Cochim mui grande trabalho por ser soo as confissõis e pregações, as quais avia grande concurso de gente, por estar alli Dom Fernando, que invernou alli em Cochim, com huma grande armada. Ouve asas em que exercitar seu fervor; em confissõis fez grande fruito, sinaladamente com huma pessoa, de quem resultou grandissimo serviço de Nosso Senhor, ansi em sua pessoa como em todos (3) os de sua casa. Esta com elle hum irmão que insina a doutrina christam e a ler, escrever; tem feito muitas amizades, entre as quais se fez huma de mui grande importância, de que ouverão de nacer muitos males, senão se acabara, porque avia de huma parte muitas pessoas da cidade, e da outra um certo homem que tinha por si pessoas nobres, do qual se alcansou per- dão de hum seu irmão que lhe matarão dentro de huma igreja as punhaladas, do qual não pode aver perdãm a Misericórdia de Chaul e Cochim, ainda que o provedor lho (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fl. 236. Este trecho, na BIMINEL, encontra-se logo a seguir ao da carta do Padre António Vaz ao Padre Mes- tre Gaspar Barzeo, sem subtítulo algum, dando até a impressão de pertencer à mesma carta. BACIL: Cartas do Japão, I, 218r.-219. Nesta cópia, o mesmo trecho vem a seguir à mesma carta mas com um subtítulo riscado e ilegível. (2) A palavra Heredia foi riscada com outra tinta. (3) Após todos encontra-se a palavra elles que foi riscada. 3 1 3
  • pidio com hum crucifixo na mão, nem outros religiosos seus amigos, que lho pidirão, o poderão acabar, bendito seia o Senhor de que todo o bem procede. Agora se começa a disciprina a sesta-feira, adonde vem muita gente e, acabada, dizem as ladainhas. Os dias passa- dos foi a visitar huns lugares de christãos de S. Thome; disse-lhes missa e fez com elles três pissisois de que todos ficarão mui consolados, pidindo com muita instantia que os fosse visitar muitas e muitas vezes pera consolação de suas almas. No collegio se faz a doutrina christã cada dia duas vezes, e aos sabados, a tarde, e domingos e dias de festa, vai hum com huma campainha por huma parte da cidade, e outro por outra, com outra, a chamar os christãos mala- vares que estão perto de Cochim. Vem muitos e todos escravos e escravas que não cabem na igreja. 3
  • 62 PREAMBULO DO TOMBO DAS TERRAS DOS PAGODES DA ILHA DE GOA DOADAS AO COLÉGIO DE SAO PAULO Goa, 3 de Janeiro de 1553 APO, V, 249-254. In nomine Domini Nostri Jesu Christi Amen. Saibão quoantos este pubriquo estromento de Tombo feito por mandado e autoridade do muyto ilustre senhor Dom Affonso de Noronha, muyto amado e muyto presado sobrinho delRey Dom Joam, Principe e senhor noso, e seu Viso Rey o quinto em todas estas partes da índia, o qual Tombo Sua Senhoria mandou fazer das terras e propieda- des, que os gentios destas ilhas de Guoa tinhão dadas ás casas de seus idolos e pagodes, e aos servidores dos ditos pagodes em que adoravão, de que EIRey noso senhor tem feito mercê e pura doação ao colégio de Sam Paulo desta cidade de Goa, como se per ela verá, o qual Tombo se fez a requerimento do egregio e muyto devoto Padre Mestre Gaspar, da Companhia de Jesu, Reitor do dito colégio, virem como no anno do nascimento de noso senhor Jesu Christo de mil e quinhentos cincoenta e tres annos aos tres dias do mes de Janeiro do dito anno nesta cidade de Guoa nas pousadas d'Antonio Ferrão, cavaleiro fidalgo da casa do dito senhor, e Tanadar mór desta cidade de Goa e de suas ilhas pelo dito senhor, em presença de mim André de Moura pubriquo taballião pelo dito senhor nesta dita cidade de Guoa, perante elle pareceo o Licenciado Manoel Alvares Barradas, Procurador geral abastante de todolos negocios tocantes ao dito colégio, e dise ao dito 3'5
  • Tanadar mór como o dito Mestre Gaspar, Reytor do dito colégio, o escolhera pera fazer este dito Tombo, assy pela nobreza e muyto credito de sua pesoa, como por rezam de seu officio, e pela muita esperiencia que tem das cousas desta terra, e pela obediência que toda a gente dela lhe tem como a seu Tanadar moor, e que o dito senhor Viso Rey o avia asy por bem, e lhe mandava que fizesse o dito Tombo com jurisdição limitada pera o que comprisse á boa negociação do dito Tombo, que lhe pera iso Sua Senhoria dava, como Sua Mercê podia ver pelas provisões do dito senhor Viso Rey que lhe loguo apresentava, a saber, lhe apresentou hum alvará do dito senhor Viso Rey, per que manda que o dito Antonio Ferrão Tanadar moor faça o dito Tombo, e outra provisão da jurisdição que lhe dá e áde ter nos negocios do dito Tombo, e outra provisão per que manda o dito senhor Viso Rey a todolos gancares das aldeas das ditas ilhas e escrivães delias que dem ao dito Tombo todalas ditas terras e propiedades que forão dos ditos pagades e de seus servidores, como se mais largamente pode ver pelas ditas provisões, cujos treslados aquy vão a requerimento do dito Licenciado precurador do dito colé- gio, e asy os treslados de outras provisões que os governa- dores pasados tem dado ao dito colégio pera arrecadação das ditas terras e rendas delas, que a seu requerimento aquy tresladey; e visto pelo dito Tanadar moor as ditas provisões do dito senhor Viso Rey, as beijou, e as poz sobre sua cabeça, dizendo que estava prestes e aparelhado pera servir a Deos nosso senhor, e a Sua Senhoria em tudo aquilo que cumprisse ao dito Tombo asy e pola maneira que Sua Senho- ria lho mandava nas ditas Provisões, e dise ao dito Licen- ciado Procurador do dito colégio que quando ele ordenasse o hiria começar de fazer; e eu dito André de Moura, pubriquo tabellyão que fuy ordenado pera escrivão deste Tombo polo dito Reytor e Procurador, e pelo senhor Viso 3 16
  • Rey confirmado, que isto escrevy, e tresladey as ditas Pro- visões, que são as seguintes (l): De 5 de Novembro de 1552. Dito. 24 de Junho de 1552. 13 de Fevereiro 1545. Confirmação 17 Junho 1547. Dita 19 Outubro 1549. 16 Setembro 1549. 8 Julho 1550. 22 Outubro 1548. 9 Maio 1552. 17 Maio 1552. Procuração 12 Abril 1552. E tanto que forão tresladados os ditos papeis, o dito Antonio Ferrão, Tanadar moor, se foy á aldea de Neurá o grande, que he a aldea principal e cabeça de todalas outras aldeas destas ilhas, que foy em quinta feita pela manham, que forão quoatro dias do dito mez de Janeiro do dito anno presente de mil e quinhentos e cinquoenta e tres, e levou comsigo o dito Licenciado Procurador do dito colégio, e Antonio Coelho, escrivão destas ilhas de Guoa por EIRey noso senhor, que perante o dito Tanadar moor serve no que cumpre ao officio de Tanadar moor, onde eu André de Moura pubriquo tabalyão também fuy; e tanto que fomos na dita aldea, os Gancares mores, e mora- dores dela se ajuntarão todos por mandado do dito Tana- dar moor, e com eles se ajuntarão Magu Synay, e Crysna (1) Nota de Rivara: «Já ficam todas atraz em seus logares neste Fas- cículo.y> Publicámo-las também na nossa Documentação. 3 '7
  • Synay, e Bamu Synay, bramenes e escrivães da gancaria da dita aldea, e sendo asy todos juntos, o dito Tanadar moor tomou as provisões do dito senhor VisoRey, que atraz ficam tresladadas, nas suas mãos, e as deu a Santu Synay, bramene morador nesta cidade de Goa, que foy escolhido pera lingoa e interprete de todo o necesario a este Tombo, por saber ler e escrever, e muyto bem falar e declarar o da nosa lingoa portuguesa, e saber nosos costumes, e andar sempre antre os Portuguezes, e homem de confiança, que as lese e decrarase a Gopu Synay bramene gancar moor da dita aldea, e a todolos outros que presentes estavão, pera que visem e entendesem o que o senhor VisoRey lhes man- dava, e depois de lidas e noteficadas pela linguoa canarim que lhe o dito linguoa decrarou e noteficou, o dito Tanadar moor lhes disse por meo do dito lingoa que ele vinha á dita Aldea por mandado do senhor VisoRey, como já tinhão visto polas ditas provisões, que lhes mandava da parte do dito senhor que todalas terras e propiedades de toda a sorte que fosem escrevesem e decrarasem a este tombo, sem ficar nenhuma, por não encorrerem nas penas em que fica- vão condenados fazendo o contrayro, como o tem visto pola terceira provisão de Sua Senhoria, que atrás fica tres- ladada, e lhe fez outras muytas amoestações e rogos per os aprazer á declaração da verdade, e o dito Gopu Synay com todolos outros Gancares móres, e os tres escrivães que ficam ditos, e todo o mais povo que era presente, diserão ao dito Tanadar moor que erão muyto contentes de escreverem neste tombo todalas terras que forão dos Pagodes e de seus servidores, assy e pola maneira que Sua Senhoria o mandava, e elle Tanadar moor lho encarregava, porque elles nunca as negarão, mas por vezes as tinhão todas dadas em rol aos rendeiros do colégio, que já está em posse delias ha muytos annos, a quoal noteficação eu André de 3 18
  • Moura pubrico tabalyão que escrevo neste tombo escrevy por mandado do dito Tanadar moor. E depois de feita a dita noteficação pola maneira que fiqua dito, o dito Tanadar mór perguntou ao dito Gopu Synay, gancar mór principal da dita Aldeã de Neurá o grande, e a todos os outros gancares móres que erão pre- sentes, que quoais erão os que avyam de hir a mostrar as ditas terras, e nomealas por seus nomes, he medidas, e con- frontallas asy e pola maneira que comprya fazerse, porque lhes fazia a saber que todalas ditas terras que forão dos seus Pagodes lhe avião de amostrar a elle dito Tanadar moor, e a todos os mais que com ele hião, pera se fazer o dito Tombo, e as aviam de nomear como se cada huma das ditas terras chamava, e ortas, e palmares lhe aviam de decrarar as confrontações com quem partião, e se avião de medir no comprimento e largura de cada huma, porque tudo asy muito decraradamente avia eu dito tabalyão de escrever muito decraradamente, pera ficar tudo sem nenhuma duvida, e em todo o tempo se poder saber o que o dito colégio de São Paulo tinha justamente na dita Aldeã; o que tudo lhe foy decrarado polo dito Santu Synay lingoa, e por elles responderão que asy o farião como o dito Tana- dar moor lho mandava sem falta nenhuma, e que todos elles ditos gancares móres juntamente como ally estavão queryão hyr mostrar, e medir, e decrarar, e confrontar as ditas terras, e que o não querião fiar de outra nenhuma pessoa senão delles mesmos pera mayor limpeza sua, e que com elles hyam os três escrivães da dita Aldeã, que atráz fiquão ditos, que muy bem sabião as ditas terras, e as conhecião, pera não ficar nenhuma que não decrarasem; o que visto pelo dito Tanadar mór, e quoanto de boa von- tade se oferecião a fazer o sobredito, tomou huma canna de quinze palmos por ele medidos, que são tres varas por- tuguezas de cinquo palmas cada vara, e ordenou e man-
  • dou que com a dita cana se medissem todalas terras da dita Aldeã, e de todalas outras Aldeãs, que aquela fosse a medida com que se todas medissem, a quoal cana os ditos Gancares móres logo entregarão ao porteiro da dita Aldeã, pera ir com elles a medir as ditas terras com a dita medida, e mandou a Vi tu Synay, escrivão da Camara geral de todas estas ilhas, que como o dito Tanadar moor foy á dita Aldeã, que fosse na dita medição com os ditos Gancares móres e escrivães, e mandou ao dito Licenciado procurador do dito colégio que desse papel de Portugal ao dito Vitu Synay escrivão geral, e asy a Magu Synay e Banu Synay escrivães da dita Aldeã, aos quais mandava que cada hum por sy fizesse Tombo das ditas terras, e as escrevesse todas cada huma por sy, asy e pola maneira que eu dito taballião as escrevesse pola maneira que se medissem e confron- tassem, pera milhor decraração das ditas terras, e mais verdade delias, e que o dito escrivão geral teria goardado sempre o Tombo que das ditas terras fizesse, e os tres escrivães da dita Aldeã teria cada hum delles goardado o que cada hum delles escrevesse, pera que em todo tempo pelos ditos Tombos se soubesse as terras que o dito colégio tinha na dita Aldeã, aos quoaes foy dado a cada hum sua mão de papel pera o que fica dito, e se forão todos com o dito Tanadar moor a escrever as ditas terras onde eu dito tabalião também fuy a fazer este Tombo. E eu dito André de Moura pubryquo taballyão que ho escrevy. Daquy em diante começão as terras que derão os Gan- cares a este Tombo nalldea de Neurá o grande. Etc. Etc. Etc. (2). (2) Rivara não julgou de importância a publicação na íntegra deste tombo, contentando-se apenas com o preâmbulo. 320
  • 63 CARTA DO IRMÀO ALEIXO MADEIRA AO PADRE LUIS GONÇALVES Ormuz, 24 de Setembro de 1553 Documento existente na BAC1L: Cartas do Japão, /. Fls. 228 r.- 230 r. (1) De Cochim escrevi a Vossa Reverencia como o Padre £"»] Mestre Gaspar mandava para Ormuz ao Padre Antonio e mandara vir de Ormuz ao Padre Mestre Gonçallo, por se achar mal desposto. Padre meu, como Nosso Senhor neste mundo me quer pagar algum serviço, se eu lho alguma hora fizer, me fez esta tamanha merce como foi mandar-me pera Ormuz, porque certo que he tanta a consolação que minha alma recebe com sua companhia que se ouvesse trabalhos elles me parecerão descanso. Padre meu dilectissimo, como a minha alma sente quanto a sua engorda com as cousas que o Senhor obra nestas partes e em outras polia Companhia, lhe contarei das que o Senhor obrou pollo Padre Antonio, desde que partimos de Goa ate chegarmos a esta ilha de Ormuz, e não sera dar-lhe conta da Arabia e Persia e de Estreito e Reinos, porque creo que ja o sabera por cartas de qua, mas somente do que aconteceo na viagem e despois aqui neste Ormuz. Partimos de Goa o anno de mil e quinhentos e cinquenta e tres, em dia de Pascoa, que foi a 2 de Abril, e viemos a buscar a altura de Ormuz para dar com os ponentes que vem em hum certo tempo; corremos pera Ormuz e, che- (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 252-254 v. Subtítulos à margem. 32/ Doe. Padroado, v-21
  • gando a altura, nos acalmarão os noroestes e esperamos polios ponentes e avia 7 ou 8 dias que andavamos em calmarias porque, acabados os noroestes, antes que venhão os ponentes, ha estas calmarias e dizem que ja se perderão duas naos de Portugal que ião pera Ormuz, a sede, em a monsão que veo o Padre Mestre Gaspar pera Ormuz, na mesma paragem, se ouverão de perder a sede, que quasi bebião agoa salgada. E vendo o Padre Antonio nesta viagem a gente da nao tão agastada, parecendo-lhe que durassem as calmarias, os animava e esfforçava, dizendo-lhe que Nosso Senhor pro- veria; ordenou logo huma procissão pella nao com tres meninos orfãos, que o Padre Mestre Gaspar lhe deu, certo muito virtuosos meninos, e a hum dominguo a noite leva- mos na procissão hum crucifixo muido devoto, e também huma imagem de Nossa Senhora da Piedade, cantando a ladainha, e depois alguns innos e a gente em muito boa ordem, com muitas candeas e cirios e, acabada a procissão, antes que se apagassem as candeas, ouvio Nosso Senhor aquelles virtuosos meninos com outros da nao; também ouve desciplina e veo de improviso hum vento e começou a crecer que, quando veo polia menham, parecia demasiado, e não os ponentes, por que os homens esperavão, mas outro vento que muito bem nos servia ate a vista da terra; ficou a gente muito espantada de tal milagre, dando muitas graças ao Senhor. O padre, como partimos de barra de Goa, ordenou a doutrina que cada dia se fazia e ele dizia missa aos domin- gos e santos e pregava e os homens lhe rogarão que no meo da somana também lhe pregasse porque lhe parecia a somana grande e também começou logo como // chegamos a esta ilha como partimos a confessar a gente que quasi toda vinha por confessar-se, e muitos erão duros a se chegar a confissão, mas com as pregações amolecerão, e havia
  • homem tão duro que avia quatorze ou quinze annos que não se confessava; trazia huma manceba que al mesmo tempo avia que se não confessava. Este homem em huma pregação lhe veo hum movimento que se veo ao padre a pedir confissão, e logo o padre lhe deo remedio pera elle e pera a manceba, e assi confessou todos os escravos dos portugueses e fez algumas amizades de muita importância: a primeira do mestre e piloto e outros homens honrrados que mui mal se determinavão tratar huns aos outros como chegassem a terra. Também se fizerão christãos na nao, vendo a prega- ção e doutrina, dos (2) dos mouros ya homens, e tres moços, e huma molher de hum indio; primeiro se fez hum seu escravo, e depois ella, e o padre a poz logo com huma molher portuguesa, que na nao vinha e, chegando a Ormuz, a mandou a casa de hum casado muito devoto de nossos padres, para dahi a casar. Estes christãos forão feitos na nao com tanta solenidade que a gente toda ficou mui satis- feita; ordenamos na nao dous altares; hum onde o padre disse missa e outro onde benzeo agoa e yamos em pro- cissão, e os bautizarão e os meninos ião cantando Laudate pueri Dominum com outros psalmos e os christãos yão muito bem vestidos, que os portugueses vestirão, e alguns delles ya sabião a doutrina toda que certo me espantava em tão poucos dias aprenderem tanto. Chegando ao Cabo de Mosadão, achamos quatro ou cinco catures que andavão guardando a costa por amor que huma gente que chamao Noutaques, tomão os navios que ali vem demandar, se não vem bem apercebidos; estes catures nos disserão que a nossa armada estava dahi doze legoas adiante e o capitão mor delia era Dom Antonio de (2) Isto é: dois. 323
  • Noronha, sobrinho do Viso Rei que veo ao socorro de Ormuz com mui grossa armada. Este capitão mor era ja filho espiritual do Padre Antonio, de Cochim. Chegando nos a donde elle estava, o foi ver o padre com os meninos; elle nos recebeo com muito gasalhado, e ordenou logo de embarcar todos os doentes da armada na nao em que vínhamos, por vir ahi o padre, e logo embarcarão os doen- tes que serião trinta e cinquo ou ate quarenta, dando-nos para elles desse pouco que tinha e dinheiro pera em Mas- cate, que era dahi a vinte legoas, se comprar o necessário. Então nos partimos pera Mascate e chegando foi-se logo buscar galinhas e frangos, e não se achou mais de duas dúzias, porque estavão ai trinta ou quarenta velas de cha- tins da India, que os mandava ai esperar o capitão-mor, e fez a nao em que vínhamos capitaina e mandou vir todos as outras velas com ella ate Ormuz. Vendo o padre tantos doentes não sabia que fizesse, e dahi a Ormuz era caminho de quinze dias; pedio o padre hum batel e fomo-nos elle e eu a bordo de todos os navios pedindo que quem, ou vendido ou de esmola, partisse com os doentes, pois que se não achava em terra mais de duas dúzias de galinhas; ao primeiro navio que chegamos nos derão todas as galinhas que tinhão, e assi os outros que as tinhão partirão comnosco, e alguns davão tudo, de ma- neira que ajuntaríamos quasi cinquoenta, e então nos parti- mos pera Ormuz, e o padre confessava os doentes e esfor- çava-os, dando-lhe de comer de noite e de dia. E assi, padre meu dilectissimo, chegando nos a este Masquate, que arriba digo, disserão ao padre que estava ahi huma molher portuguesa que avia quatorze ou quinze anos que estava amancebada com hum português, e certos padres que ahi desembarcarão pera lhe amoestar que se confessasse e nunca poderão acabar como ella, depois dezia; vendo o padre a dureza e miséria desta molher, foi-se a 324
  • ella e levou consiguo os meninos orfãos; foi a sua casa, apartando-a e, falando // o que o Senhor lhe ensinava, [«9 >•■] forao as lagrimas tantas nella que quasi não podia fallar; logo acabada a pratica que o Padre lhe fez, disse que se queria tirar do pecado, em que estava, e vir pera Ormuz, porque este Masquate he terra de mouros nossos amigos, e não ha ai ygreija nossa, e logo se começou a aviar e o padre se veo pera a nao e deixou com ella hum dos meni- nos pera que embarquasse com ella, e nisto teve ella tantos contrastes pera a não deixarem vir assi da parte do homem que a tinha como de outros a que ella servia, porque não avia ahi outra molher portuguesa, e sempre ha muitos por- tugeses, e porque he porto de trato, de maneira que avia homem que botava cadea grossa douro que ficasse, e o menino, como virtuoso e cândido, apertava com ella a que se embarcasse; também lhe esconderão huma esçrava, a milhor que tinha, pera ver se a moverião a fiquar (3) mas ella, como estava esforçada do Senhor, a tudo resistio, e se embarcou com quasi nada; nos lhe despejamos a camara em que vínhamos pera ella e pera suas negras; o padre lhe fazia cada dia praticas e os meninos lhe davão humas meditações da primeira somana e dahi a certos dias se con- fessou geralmente, e o padre lha mandou poor em casa de hum casado, pera dahi a casar, porque ca não ha outra religião pera molheres. Assi, padre meu, que chegando a Ormuz não sem mui grande trabalho do padre com os doentes porque posemos de Masquate a Ormuz dezoito dias, e acabarão-se as galinhas e frangos e as conservas, e não tínhamos ia cousa que lhe dar soomente, huns litões que trazíamos de Goa, e cebolas assadas, lentilhas e arroz; ao dia antes que chegássemos, (3) Na cópia da BIMINEL as palavras em itálico acham-se riscadas. 3 25
  • t lhe mandamos matar hum porco que na nao ya, pollo elles assi pedirem que ja, louvado Nosso Senhor, estavão sãos mais da metade, e chegamos a Ormuz huma quarta-feira pella menhã, e avia cincoenta dias que partíramos de Goa. Logo vierão embarcações a bordo da nao, pera levar doen- tes, e nos desembarcamos; a tarde fomos em procissão com quasi toda a gente da nao a huma ygreia nossa que o Padre Mestre Gaspar fez, mea legoa da cidade, que se chama S. Paulo, e despois a noute viemos a ver o capitão da fortaleza que estava doente e despois ao vigário. Então nos fomos a ver ao Padre Mestre Gonçalo, que não era ainda partido pera a India, e estava muito doente de febres avia quasi dous meses, e assi hum irmão, que com elle estava também doente de febres, e este irmão era Fran- cisco (4) que veo com o Padre Moraes. Quando nos o Padre Mestre Gonçallo vio se alegrou grandemente e o irmão. Assi, padre meu, que saimos de huns doentes e entramos logo com outros, não tão soomente os nossos, mas quasi toda a cidade, porque em obra de dous meses erão mortos nesta cidade mais de quatrocentas almas, e o Padre Antonio nem de dia nem de noute o deixavão com confissões, e nos chegamos a este Ormuz a 20 de Março, e as febres durarão ate Setembro, e foi dia que se não achavão portugueses que abastassem pera enter- rar os defuntos, e os mesmos da terra levavão os portu- gueses a enterrar. O Padre Antonio, ate a feitura desta, sempre se achou bem desposto salvo, algum tanto dos olhos, mas nunca deixou de pregar e confessar. A mim, padre meu, me mandou o Padre Mestre Gaspar a esta terra, não porque eu tivesse a virtude e desposição que pera ella ha mister, (4) Francisco da Certam, segundo informação da cópia da BIMINEL. 326
  • mas andando eu no Cabo de Comorim, cobrei huma frial- dade no estomago, tomando la purgas e diversas mezinhas pera ma tirarem, e não aproveitava nada. Sabendo o Pa- dre Mestre Gaspar, me mandou vir pera Goa e, vendo minha ma desposição e tendo a esperiencia de Ormuz, dizendo-me que me mandava a Ormuz, porque as grandes calmas que ha em Ormuz me gastaria esta frialdade e humor que trazia no estomago, e bendito seia Nosso Senhor ainda que de todo o humor não seia gastado, desde que cheguei ate a feitura desta, me achei sempre com a milhor desposição corporal, do que me achei em nenhuma parte das da índia. E assi também, padre meu dilectissimo, os meninos que trouxemos estão muito bem; hum delles foi alguns dias doentes de febres e este verão, por amor dos grandes calo- res, não se fazião procissões; agora que o tempo vai arre- fecendo começão ja de vir a este nosso S. Paulo da see com procissões, e os meninos cantando a ladainha com outras prosas. O vigairo folga grandemente com os meni- nos e com o Padre Antonio; amão-se muito e fazem ambos as cousas da christandade com muito fervor. // Também todas as sestas-feiras temos aqui huma missa [»9 »•] de huma confraria do Bom Jesus, onde vem quasi toda a gente da cidade, que não cabe na ygreia, e o padre lhe prega a missa e os meninos a officião de canto de orgão, que faz muita devação a gente; muita gente se vem con- fessar a esta nossa casa, tomar o Santíssimo Sacramento e disciplina muitas vezes, e outros tomão as meditações da primeira somana e se confessão geralmente. O padre prega na see aos domingos e santos e confessa no hospital e pela cidade e aqui como digo que são maes as confissões que em nenhuma destoutras partes, porque aqui se confessou e tomou o Santíssimo Sacramento quasi toda a armada, que ora anda no estreito de Baçora, e outra 327
  • que foi pera outras partes, pello que Vossa Revencia tenha muito cuidado e os mais dilectissimos padres e irmãos, e peção a Nosso Senhor lhe de forças a tudo, porque a terra gasta as compreissões, porque o padre Mestre Gonçalo muito bem desposto era, e hum anno e meo se gastou grandemente, e (5) o Padre Mestre Gaspar foi daqui mui bem desposto porque he elle de tal talento, que eu ainda não vi outro em Portugal, nem na India, que possa com seus trabalhos. Nesta terra, padre meu, muito faz hum padre da Com- panhia e muito mais faria ainda se não fosse os grandes aparelhos que nella ha pera abomináveis peccados, porque estão os portugueses misturados com os mouros, e pousão das portas a dentro com elles, e como se agravão em alguma cousa que elles tenhão merecido logo se botão na terra firme, porque nesta ilha de todas as partes ao redor vivem mouros, adentro delia ha grande numero delles e outras muitas nações; assi que convém aver-se brandamente com elles, comtudo se lhe diz a verdade. Nos, padre meu, estamos neste collegiozinho que fez o Padre Gaspar, soos, fora do trafego da cidade, posto que meudamente o padre e eu la vamos a fazer a doutrina e a tanier a campainha polias almas do Purgatório, com o mais que nos he necessário fazer, e quando vimos acha- mo-nos soos e quietos; temos nossas horas de oração, assi os mininos o mesmo. Eu não escrevo a Vossa Reverencia de muitas particula- ridades que lhe poderá escrever, mas certo que não ha tanto tempo; somente lhe digo que ha poucos dias que aqui esperávamos pellas galles dos Rumes que o anno passado aqui poserão cerco, porque dizem que vinhão de (5) BIMINEL: so. J 2 8
  • Baçora pera se irem pera Sues, porque o Gram Turco, segundo disse hum arrenegado, os mandara ir pera mandar huma armada grossa; ellas chegarão doze legoas desta ilha, e a gente da cidade mui atemorizada, parecendo-lhe que as arrecearia a nossa armada, que no Estreito as andavão esperando, pera lhes desfazer a passagem, e que se virião a saquear a cidade, posto que avia grande determinação em este capitão que ora he Dom Antão de Noronha de os esperar no campo, e de não desembarcarem, como da outra vez. Nos sempre nos estivemos na nossa casa, por- que o capitão disse ao padre que quando fosse necessário nos mandaria buscar pera a fortaleza. Nos, nesse tempo, fazíamos de noite procissão por derre- dor da ygreia, com os nossos mininos e com os que ensina- mos a doutrina, e tínhamos desciplina huns e outros. Nisto veo recado que a nossa armada se encontrou com as galles dos Rumes que, segundo dezião, erão quinze e huma nao e hum galleião. Preimeiramente pelejou com elles; entrou- -lhes hum galeão nosso que andava algum tanto apartado da nossa armada, sem lhe ella poder valer, porque os nossos navios erão de alto bordo, e acalmou-lhe o vento e não podião acodir, mas Nosso Senhor lhe acodio de tal ma- neira que nunqua o poderão render. O capitão delle he filho espiritual do nosso padre e antes que se fosse pera os Rumes se confessou, e certo que he hum virtuoso homem, e assi Nosso Senhor fez grande milagre por elle, que ya a nossa armada o dava por perdido, assi que por mingoa da nossa armada não ter vento e as suas serem galles de remos, se lhe acolherão pera Baçora, segundo dizem soomente lhe tomarão a nao que trazia a munição (6). (6) A cópia da BIMINEL termina aqui. 329
  • [ajo r.] /J Não lhe dou mais longas novas por o tempo não dar lugar; o Padre Antonio se encomenda em as orações de Vossa Reverencia e de todos os padres e irmãos e espera de escrever como aver tempo. Esta aja por sua o meu dilectissimo padre Francisco Vieira por outra lhe não poder escrever e todos os meus delectissimos padres. Feita oie, 24 de Setembro de 1553. Seu Aleixo. 33°
  • 64 TRECHO DUMA CARTA DOS IRMÃOS FRANCISCO JORGE E MIGUEL TEIXEIRA Goa, Dezembro de 1553 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, I. Fl. 338 v. Os moços que ensinamos são por todos seiscentos e C338 T-1 quorenta e cinco e destes são de casa vinte e seinco; são escrivais 350 e os mais são ledores; os que aprendem a contar serão 40 pouco mais ou menos e são de diversas castas: canaris, bramenes, pérsios, arabios, manancabos, ma- caçares, malucos, ciames, arménios, mestiços, castiços, por- tugueses e antre todos estes não ha mais que trinta e tres cativos; todos os mais são filhos de portugueses, ou moços christãos da terra que seus pais mandão aprender. O trabalhos que poderemos ter em a escola poderão, irmãos, imaginar pelos que tem a cargo. 33 1
  • 65 TRECHO DUMA CARTA DO PADRE NICOLAU LANCILOTO Coulão, 9 de Dezembro de 1553 Documento existente na BACIL: Cartas do Japão, 1. Fls. 230 r. - 320 v. ['3o] Avera cerca de um anno que un viejo gentil me rogo que fuesse a hazer algunos christianos a sua tierra la qual se llama Bernigan e esta de aqui quatorze legoas; lo qual yo no hize porque, segun la informacion que algunas perso- nas me dieron, estes hombres no se movian a recebir nuestra santa fe mas que por ser favorecidos de los portuguezes, y no per conoscer la verdad delia, lo qual nunca yamas me contento. Despues que esto en la Yndia my me pareceo bien baptizados sin primero ser enformados e entender lo que toca a nuestra fe, lo qual tambien contenta a todos los que saben mas que yo; respondi a el vejo, tratando larga- mente lo que arian de hazer el y los otros se se querian hazer christianos y lo que importava serio y que yo estava aparejado para los baptizar aunque me costasse la vida; dixeme que no lo podrian hazer y yo les respondi que tan poco yo los podria baptizar. Dos meses avra que vino a parar comigo un nobre viejo pidiendo-me muy ahincadamente que lo baptizasse, protes- tando que no se hazia christiano por otro interesse ni res- pecto, sino solamente por amor de Dios y porque entendia que nuestra ley era mejor que todas; ya le respondi sin embargo desso era necessário instruirse per espaço de un mes en los casos de nuestra sancta fee, y que me offerecia yo a tomar esse trabaio si el lo acceptasse y que, acabado el, lo baptizaria si el quisiesse ser christiano no por otro respecto sino por el arriba dicho; el insisto mucho, achan- 33 2
  • dome rogadores que lo quisiesse hazer luego assi christiano lo que, como yo no cedece, disse en ninguna manera aceto el partido determinandose de hoyrme por un mes. Es hombre mui discreto e muy platico em todolos ritos y ceremonias gentílicas. Dixome quando começo a platicar comigo que quinze anos avia que andava por el mundo para ver todalas cosas de idolos y todolos hombres letra- dos y tenidos por sanctos, que o ay por toda esta tierra, dando muchos // presentes y dadivas a los hechizeros [iJo ».] hermitanos y sacerdotes de los gentios pera que le dixessem lo que elles entendian e sabian de Dios que nunqua a visto dos que concordassen en sua misma cosa, mas que cada uno tenia su openion e parecer differente del otro, y que el sempre en su coraçon andava diziendo: «o Dios mio y cria- dor myo, donde te allare? quien soy yo y quien eres tu? adonde estas y donde estoy yo, muestrame, Senor, adonde stas para que te pueda servir». Diziame que avia gastado quinze anos nesta empreza e que avia entendido que en ningun lugar podia aliar meior a Dios que en su coraçon porque a visto y vevido todos ritos e costumbres de los gentios y no ha aliado cosa que le ensene el camino de la salvacion, antes muchas mentiras y enganos, e que se ha informado de la ley de los moros largamente y que le parece todo mentira, por sus abominables costumbres e manera de bivir bestial, que la ley de los christianos es muy con- forme a lo que el deseo todos anos y que nunca alio persona que le mostrasse el verdadeiro Dios, y el camino de la verdadera salvacion como yo. Estuvo aqui comigo mas de dos meses en los quales le platicava muy largamente las cosas de nuestra sancta fee, disputando tambien contra los ritos gentiles unas vezes con el solo, otras delante de muchos christianos y gentiles, con lo qual el mostro olgar mucho. Finalmente lo baptize estando ia 333
  • mui bien instruído y pareceme que no se hizo christiano hasta oy en el Malavar tan de voluntad y de tan puro deseio de su salvacion como este. De Coulam, a 9 de Dezembro de 1553. 334
  • 66 CARTA DO REI DAS ILHAS MALDIVAS A EL-REI DE PORTUGAL Cochim, 28 de Janeiro de 1554 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 91-88. Mede 290 x 200 mm. São duas folhas, uma das quais escrita. Em regular estado. Caligrafia clara. Senhor, [i r.] Eu, dipois que Nosso Senhor foi servido de me trazer ao conhecimento da verdade e me fez cristão nesta cidade pellos Padres da Companhia, como V. A. iaa laa tera sabido, o viso-rey Dom Afonso e Mestre Francisco me derão hum padre pera ir comiguo as Ilhas, e me ensinar na fee de Noso Senhor Iesu Christo, o qual padre se chama Francisco Lopez de Pina, homem que, asi numa cousa como na outra, me ensinou e sérvio com muito cuidado, mas as Ilhas são tão doentias que ho padre não veio pera poder laa mais tornar comiguo, e de força a-de ficar nesta terra, ainda que eu torne as Ilhas e porque eu, sem o favor e merces de V. A. nem aguoa poderei ter, ouso a lhe pidir pera este pobre padre a vigairia (r/V) de Neguapatão, e creia V. A. que pera mim sera grãode merce, pois que nas Ilhas, ainda que ellas e eu somos de V. A., lhe não poso fazer nada, e, por ir comiguo, o bispo lhe prometeo alguma couza onrrada, se vagase, e aguora, por sua doença, se contenta com isto, que não he nada, pollo qual beijarei as reais mãos de V. A. fazer-me esta merce, com as mais que sem- pre me fez. 335
  • Em outras que lhe escrevo lhe dou conta de mim e do que me mãodão que faça; nesta o não farei, porque a não faço senão pera lhe pidir merçee. Noso Senhor acresente [i r.j seu rial estado // por muitos annos pera nos hos seus vasa- los vivermos em iustiça por sua muita iustiça. De Cochim, a vinta oito de ianeiro de 1554 annos. (Assinatura orientai) Del Rey das Ilhas. 336
  • 67 CARTA DO PADRE ANTONIO MENDES A S. INÁCIO Ormuz, 20 de Outubro de 1554 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 209 f. - 211 r. (1) A suma graça de Christo Nosso Redentor seia sempre em nosso continuo favor e ajuda, Amen. No anno de 1552, escrevi a Vossa Reverencia da cidade C*>9 *•] de Cochim, onde residi anno e meo, dando-lhe conta de mi e da disposição daquella terra, e do fruito que nella se fazia, e poderia fazer. E no anno de 1553, fui mandado a esta cidade e reino de Ormus, onde achei o Padre Mestre Gonçalo mui enfermo, e toda a gente da cidade, por resão dos muitos trabalhos e detrimentos que tinhão recibido no cerco, que lhe avião posto os Turcos aquelle anno, das enfermidades (2) muita gente, polo que estava toda a terra mudada com a mudança do tempo, que cada dia muda as condições dos homens e das mais cousas. Neste anno não ouve occasião pera escrever //a Vossa [*'<> r0 Reverencia, assi por ser novo na terra, como também polas muitas occupações de confessar, visitar, e pregar, que em tal tempo avia, que nem avia lugar pera poder soccorrer a todas as necessidades que avia e occorrião. E porque destes trabalhos por ventura não quererá tão particular aviso, (por ser cousa ja mui velha socederem aos da Com- (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 291 v.-293v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 774 r.-775 v. Nesta cópia o título da carta está riscado, deixando ler: Copia de huma carta que escreveo hum padre de Ormus... (3) BIMINEL: «... das enfermidades morrera...» Doe. Padroado, V - 22 337
  • panhia por bondade de Nosso Senhor), como da disposição da terra e do que nella se pode perpetuar; portanto, não lhe escrevi, e também porque do mais de mi tenha Vossa Reverencia relação na carta geral, e do que nesta terra Nosso Senhor obrava. Esta cidade de Ormus, em que Sua Alteza (3) tem huma forte e nobre fortaleza, esta cituada numa ilha deste Estreito de Baçora, que vem por meo da Persia e Arabia Felix, toda de sal, e por isto esteril, como por cartas do Padre Mes- tre Gaspar, que Nosso Senhor tem em sua gloria, tera Vossa Reverencia sabido. Tem dez ou doze mil vizinhos, posto que este anno, por causa de se despovoar, por amor do cerco e remores passados, tenha pouco mais de tres mil visinhos; porem ia agora começão os moradores a tornar; ay nella sento e sincoenta casados, entre portugueses e christãos da mesma terra; seissentos soldados que tem de guarnição; todos os outros são mouros, judeus alguns, gintios, roxios, e abixins, e isto alem da outra gente estran- geira que nella esta e concorre de todas as partes, por ser esta huma das cidades de maior trato que ai no mundo, e aonde acode todo o genero de mercadorias, mantimentos e frutas. E esta de Arabia doze legoas, e de Persia huma, ficando no meo esta ilha de Ormus; he cercada de outras ilhas, algum tanto de mais fruito que ella, por aver nellas agoa doce. A variedade das leis, e dos tratos e contratos, as onzenas, tiranias e idolatrias, e outros pecados que nella ai, se podem infirir pola mistura da gente, e assi o fruito espritual que nella se fas, e poderia fazer, e a força e vigor que poderia ter, e o padre que fora necessário para nella frutificar. Nesta cidade não tem a Companhia collegio nem casa, (3) Correcção, à margem: el-rej de Portugal. 338
  • senão somente huma irmida, que não sera mea legoa da cidade, em lugar seco e alto, com tres scelasinhas que o Padre Mestre Gaspar fez, a contemplação de hum famoso jogue, que naquelle lugar (onde tinha huma cova e casinha em que vivia) se converteo a nossa santa fe. E não podia ser feita com outro intento, senão que pois ali se avia adorado o demonio muito tempo, se adorasse por mais o verdadeiro Deos, criador do universo. Porem (4) nenhuma maneira se pode dali exercitar o estatuto da Companhia, sem muito detrimento, e alguma deminuição do fruito espiritual, pois dali não se pode comodamente acudir as necessidades que se offerecem, e occorrem de noute e de dia aos padres, conforme a nossa posição (5), e também porque he esta terra tão trabalhosa, que não sei dizer a Vossa Reverencia se ay nella inverno ou verão, por ser de extremos. E, principalmente no verão, excede tanto a quintura e fogo delle, que não se acha na terra com que se compare senão com o purgatório, polo que o ir e vir daquella irmida a cidade, quando os padres nella abitavão, lhes foi causa de mui perigosas e mortais enfermidades, e de morrerem seis irmãos // cortados do fogo deste sol, C"° e da excessiva quentura, porque por esta causa o viver dos homens nesta terra he debaixo de cataventos e mitidos em agoa. Tendo pois os da cidade, pelo passado e também por mi experiência disto, me forão a mão rogando-me que viesse viver a cidade, pois via o que passava, e como estava a morte e da mesma maneira estivera o Padre Mestre Gaspar duas veses, e o Padre Mestre Gonçalo, e quantos irmãos erão mortos, que me viesse, porque serião nisto mui consolados. Eu lhe concedi isto, por me parecer ser serviço de Nosso (4) BIMINEL: porque. (5) BIMINEL: profissão. 339
  • Senhor, vendo alem disto que era necessário vir forçada- mente cada dia, duas ou três veses a cidade, e tornar-me outras tantas, o que dizem que causa as tais enfermidades e mortes, e eu ia estava a morte de hum fluxo de sangue. Por esta rezão, estou agora na cidade, numas casas iunto do hospital, por não aver opportunidade para pouzar nelle; pus hum hermitão na irmida de São Paulo, e institui nella huma confraria de Jesus, por que não se perdesse a deva- ção delia, e pode assi ser reparada do que for necessário. Fas-se agora muito fruito e parece que se aumentara, ianda que em São Paulo, quando la estavão, se fazia muito, ainda que era com muito trabalho e desassossego da gente e dos padres e irmãos. Nesta casa, tenho huma capelazinha, em que confesso e digo missa; nella se insinão a ler e escrever sincoenta moços da terra, pera que, debaixo desta cor, se lhes poção insinar as orações, virtudes e bons custumes e, pola graça de Nosso Senhor, fas-se muito fruito. Vou com elles todos os dias em anoutecendo a encomendar as almas do Purgatório, tangendo a campainha e hymos todos em pissisão dizendo as ladainhas, e encomen- dando-as aos santos, e em quatro lugares as encomendo com vos alta, e aos que estão em pecado mortal, e no fim dizemos: Senhor Deos misericórdia. As quartas-feiras, digo missa no hopital aos enfermos, e a estes mininos; confesso nesse dia os enfermos que estão pera confessar, e todos os outros dias, quando disso tem necessidade, e assi aos da cidade e de fora delia, e nisto sou mui ocupado. As sestas-feiras, vou com estes mininos em prosisão, e com outros muitos que nos acompanhão, dizer missa a São Paulo, da confraria, e pregar, aonde concorre toda a gente com muita devação; aos domingos, prego na igreija principal, que esta dentro na fortaleza, e nos dias de festa e quartas-feiras, a tarde, vou fazer doutrina nesta igreija 34°
  • as molheres solteiras e christãos da terra, aiuntando-se mui- tas vezes mais //de sesenta delias, tirando as casadas da tJ" r-l terra, novamente a fe convertidas, que serão outras tantas, porque esta terra anda a tempos. Na quaresma, todas a noutes, faço pecissões, com muitos deciprinantes, e prego algumas vezes aqui no pateo de casa, no qual tempo ai grande fervor, e concorrem muitos mouros e gintios a ver estes trabalhos e exercidos. O fruito que resulta he emendarem muitos suas vidas, e outros irem-se meter em religião, outros reconciliar-se com seus proximos de cousas mui notaves e injurias, que dificultosamente se querem perdoar nesta terra, e confessar-se e tomar o San- tíssimo Sacramento as principais festas do anno, e algumas pessoas a meudo. E isto permaneceria, se os desta terra não vivessem em continua mudança, porque tudo he embar- car e desembarcar, por onde o fruito nunca se colhe maduro mas verde, e com assas trabalho do espirito, porque o do corpo nunca se sente com a consideração de Christo. Da christandade desta terra não falo, porque nella não faço fundamento, por esta ilha não ter mais que esta cidade, e todo o necessário para viver se tras de fora, a saber, de Persia e Arabia, polos mouros dela, e os que nesta terra se fazem christãos, alem de terem tão mas saidas todas as vezes que querem, sem se poder nisto dar remedio, vivem huns misturados com outros, porque a casa nesta cidade em que repousão christãos, mouros, judeus, gentios, servindo-sse todos pera huma porta. E ai outras, em que a filha he christã, e a mãe e irmãs mouras; acerca disto, trabalho quanto posso por dar remedio. Estes dias passados, com ajuda de Deos e do capitão, pusemos todas as molheres christãs solteiras, que estavão esparzidas polas cidades (sic), em duas ruas, pera que esti- vessem apartadas dos mouros e de sua comunicação; fes-se 341
  • mais: que toda a gente christa se recolhesse pera toda aquella parte. E não ha outro remedio pera a salvação destes christãos e christãs senão casados (6), porque ca não ha beatas nem freiras, nem se poderão conservar, por ser terra de guerras, e também quanto são prejudiciais embar- ca-las pera a India. E isto se fas muitas vezes. Nos santos sacrifícios e orações de Vossa Reverencia me encomendo muito no Senhor. Oie, 20 de Outubro de 1554. Deste Ormus. Polo portador, que desta cidade partio por terra, escrevi a Vossa Reverencia em que o avisava de duas cousas; huma era que me dixe hum padre que aqui veo, que esteve cativo no Cairo, que em Barut, duas a tres jornadas de Jerusalem pera qua, pera Alepo, era huma casa de frades franciscanos, e que a querem deixar, e ir-se pera Jerusalem, ou para Veneza, porque sua profição não tem a liberdade e desocupação que se requeria para fazer o fruito que podia fazer quem na tivesse naquelles christãos arabios, que naquella província avia; que visse Vossa Reverencia se se poderia aíli entreduzir algum padre da Companhia porque nos poderíamos cartear cada mes desta India, e saber Vossa Reverencia novas em breve de ca, e também nos poderíamos dali facilmente aiuntar, porque tomando-ce Baçora este anno, como esperamos, ficamos mui perto e visinhos; dizem que aquella casa esta no lugar onde São Jorge matou a cerpente. A outra era que se fizessem os padres da Companhia que estão em Veneza mui amigos do consul dos venezeanos, que esta em Alepo, e do que esta no Grão-Cairo, porque (6) BIMINEL: casa-los. 34*
  • tendo com elles comunicação e amizade, por elles se pode- ria escrever a esta índia, porque do Grão-Cairo // e de mais abaixo vem aqui cada mes, e cada tres meses. Nosso Se- nhor nos ajunte na gloria, Amen. Inutilis servus et indignus filius de Vossa Reverencia Antonio Mendez. 343
  • 68 RENDAS DO COLÉGIO DE SANTA FÉ DE GOA Goa, 30 de Outubro de 1554 APO, V, 231-234. Dom João per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guiné, e da conquista, navegação, comercio de Thiopia, Arabia, Persia, e da India etc. a quanto esta minha carta virem faço saber que por parte do Reitor do collegio de S. Paulo de Goa nas partes da India me foi apresentado o treslado em publica forma de huma carta per que Jorge Cabral, sendo meu Governador nas ditas partes, lhe fizera mercê em meu nome das rendas que forão dos Paguodes dos gen- tios da dita ilha de Goa, e assy hum meu Alvará com humas postilhas de Dom Affonso de Noronha, meu VisoRey das ditas partes, das quaes o theor de verbo ad verbum he este que se ao diante segue. «Dom João per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guiné, e da conquista, navegação e comercio de Thiopia, Arabia, Persia e da India etc. a quantos esta minha carta virem faço saber que o Reitor do collegio de Sam Paulo da Companhia de Jesu desta cidade de Goa, me disse que Martim Affonso de Sousa, Governador que foi em estas partes sendo Governador em ellas, concedera e fizera doação em meu nome á dita casa de Sam Paulo (1) das propriedades e rendas que forão dos Pagodes, no tempo (1) Nota de Rivara: «No Tombo dos Pagodes diz: em nome de Sua Alteza á casa.» 344
  • que os havia nesta dita cidade, e que eu o ouvera assy por bem, como poderia ver per hum Alvará que apresentava por mym assinado (2), de que o treslado he o seguinte (3). Pedindome o dito Reitor que por quanto a Provisão que o dito Martim Affonso de Souza, Governador que foi, passará sobre as ditas propiedades e rendas, se não achava (4), e o dito collegio estava em posse das ditas (2) Nota de Rivara: «No dito Tombo dos Pagodes diz: per hum meu Alvará por mim asinado.» (3) Logo a seguir diz Rivara: «He a Provisão d'ElRey, que fica no N.° 100 deste Fascículo.» Publicamos também a provisão no IV vol. da nossa Documentafão, pág. 73, mas talvez seja bom recordá-la aqui. «Eu EIRey faço saber a quantos este meu Alvará virem que eu passey huma minha carta a 8 de Março do anno de 546, por que ouve por bem de pera sempre mandar dar em cada hum anno ao Collegio da Conversão de Sam Paulo, que he feito na cidade de Goa nas partes da índia, oitocentos mil reis pera as despesas do dito collegio; e porque ora são informado que lá ouve duvida se se entendião os ditos oito centos mil reis alem das rendas que o dito collegio tem das casas que forão Paguodes dos gentios, ou se avia de entrar nesta conthia as ditas rendas: declaro que minha tenção he que o dito collegio aja pera sempre os ditos oito centos mil reis em cada hum anno á custa de minha fazenda, e isto alem das ditas rendas que assy tem das ditas casas que forão Pagodes, os quaes oito centos mil reis ey por bem que sejão pagoos pela maneira contheuda na dita carta ao Reitor do dito collegio des o tempo que per virtude delia os ouvera daver em diante. Noteficoo assy ao meu VisoRey nas ditas partes, e a qualquer outro meu Governador que ao diante for, e lhes mando que cumprão e fação inteiramente cumprir e guardar este Alvará como se nelle conthem, o qual quero que valha, e tenha força e vigor como se fosse carta feita em meu nome, e passada pela minha chancellaria, sem embargo da Ordenação do segundo livro, que diz que as cousas cujo effeito ouver de durar mais de hum anno passem per cartas, e passando per Alvarás não valhão, e isto mesmo se cumprirá posto que não passe pela chancellaria, sem embargo de Ordenação do dito 2" Livro, que dispõe o contrario. Jeronimo Correa o fez em Lisboa a 22 de Outubro de 1548. E do theor deste se passou outro pera hir per outra via. Eu Manoel de Moura o fiz escrever.» (Tombo Geral, foi. 39 v., e Tombo das terras dos Pagodes da ilha de Goa, foi. 4 v.) (4) Nota de Rivara: «Note-se como já no Tombo Geral o Provedor mór dos contos Francisco Paes manifestava o seu espanto por se haver perdido esta Provisão, e nem haver copia delia.» Rivara remete o leitor para outra nota atrás publicada. 345
  • propiedades e rendas, posto que algumas delias andavao sonegadas em poder de pessoas particulares, e assi muita fazenda movei, que pela dita doação lhe pertencia, lhe mandasse passar minha carta, por isto assy passar na ver- dade, pera guarda e conservação do direito do collegio; visto por mym seu requerimento, e o dito meu Alvará, e avendo respeito á emformação que tomei sobre o caso, e como em o dito collegio de Sam Paulo ser conservado, e ir em crecimento se faz muito serviço a Deos, e a mym pelos Religiosos que nelle estão, e outros que delle forão pera outros lugares destas partes terem convertidos muitos infiéis a nossa santa fee (5) pela doutrina que pregão e ensinão nas ditas partes, assy nesta cidade de Goa, como em outros lugares delias, levando nisso muito trabalho, e fazerem muita despesa em substentarem o dito collegio, e hospital que tem, ey por bem e me praz que a dita casa e collegio aja e tenha as ditas propiedades e rendas, e quaesquer outros bens moveis e de raiz, que nesta ilha de Goa, e nas ilhas a ella adjacentes pertencião aos ditos pago- des, que nella e nas ditas ilhas avia antes do dito collegio ser ordenado, e assy as que agora pessuem, como o que anda sonegado, pera que o dito collegio faça de tudo o que assy pertencia aos ditos pagodes como de cousa sua propia, que ey por bem que seja, e tudo pessua, e os bens que ainda andarem sonegados os possa por seu procurador demandar em juizo e fora delle, e aver com effeito a posse de tudo. E porem será obrigado o dito collegio a mostrar Provisão por mym assinada desta doação des o mez de Setembro que vem deste presente anno a dous annos, e passados não na mostrando, esta não averá effeito dahy em diante. Noteficoo assy aos veedores de minha fazenda (5) Nota de Rivara: «No Tombo dos Pagodes acrecenta: de nosso senhor Jesu Christo.» 346
  • nestas partes, e a todolos Ouvidores, Juizes, Justiças, offi- ciaes, e pessoas a que esta pertencer, e lhes mando que em todo cumprão e guardem esta minha carta, como se nella conthem sem duvida nem embargo algum que a ello seja posto. Dada em minha cidade de Goa a 8 de Julho. EIRey o mandou por Jorge Cabral, seu capitão geral e governador da índia. Francisco de Lisboa a fez anno do nascimento de nosso senhor Jesu Christo de 1550. O Secretario Francisco Alvres a fez escrever. Jorge Cabral. Postilla do VisoRey D. Affonso de Noronha Ey por bem e me praz de confirmar esta carta atraz escrita por tempo de tres annos, nos quaes o dito collegio poderá mandar buscar confirmação delRey nosso senhor (6), e assy poderá demandar os possuidores destas propiedades conforme a dita carta, a qual mando que passe pela chan- cellaria sem embargo de ter passado o tempo em que ouvera de passar. Rodrigo Monteiro a fez em Goa a 9 dias de Maio de 1552 annos. Simão Ferreira a fez escrever. VisoRey. Outra Postilla Passe sem pagar dizima, e da confirmação a pagará, se perecer justiça. Em Goa a 17 de Maio de 1552. VisoRey. E pedindome o dito Reitor por mercê que confirmasse e ouvesse por confirmada a dita carta ao dito collegio, e visto por mym seu requerimento, e querendolhe fazer (6) Nota de Rivara: «No Tombo dos Pagodes diz: meu senhor.» 347
  • esmola e mercê, Ey por bem, e lha confirmo, e ey por confirmada a dita carta assy e da maneira que se nella conthem, e mando ao meu VisoRey que ora he, e ao diante for nas ditas partes, e aos veedores de minha fazenda em ellas que assy lha cumprão e guardem, e fação muy inteira- mente cumprir e guardar assy e na maneira que se nella conthem, porque assy he minha mercê. Dada na cidade de Lisboa a 10 dias do mez de Março. Pantalião Rabello a fez anno de nosso Senhor Jesu Christo de 1554 (7). El Rey. Cumpra-se esta carta delRey meu senhor da maneira que se nella conthem; e porquanto Sua Alteza manda que as suas Provisões que não ficarem registadas na casa da índia e na fazenda, e nos Livros de Graviel de Moura, se não cumprão, os Padres da Companhia de Jesus serão obrigados daqui a dous annos mostrar certidão de como fica regis- tada, ou Provisão do dito senhor per que manda que sem embargo disso se cumpra. Rodrigo Monteiro a fez em Goa a 30 de Outubro de 1554. Rodrigo Anes Lucas a fez escrever. VisoRey (8). (Tombo Geral, foi. 39 v., e no Tombo das terras dos pagodes da Ilha de Goa, a foi. 4v.) (7) Nota de Rivara: «Esta confirmação falta na copia do Tombo dos Pagodes.» (8) Nota de Rivara: «No Tombo Geral depois deste documento lê-se: E por bem da dita carta possuem oje em dia os Padres da Companhia esta renda dos Pagodes, de que ha enformação que rende cada anno douz mil c oitocentos pardaos.» 34s
  • 69 CARTA DO PADRE DIOGO DE SOVERAL PARA OS IRMÃOS DA COMPANHIA DE JESUS EM COIMBRA Goa, 5 de Novembro de 1554 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 197 v. - 199 v. (1) Ha graça e amor de Nosso Senhor Jesu Christo ['97 seia sempre em nossa aiuda e favor, Amen. Charissimos padres e irmãos, por satisfazer a vossos deseios, quis tomar este pequeno trabalho, ainda que grande pera mim, por ser muy curto nas palavras, e por esta terra ser mais quente do que convém a minha natureza, porque qualquer cousa que faço me cansa muito, quanto mais escrever, onde o espirito e o corpo iuntamente se occupao e, por esta causa, brevemente lhes escreverei da nossa perigrinação pera esta India e de nossa chegada e, se eu escrever tudo o que tinha concebido e das grandes ideas que por esse mar fazia, das cousas qua fazia e ouvia, não bastarião tres folhas de papel, quanto mais das que veio e ouço, dipois de estar neste collegio de São Paulo, assi dos padres nossos que estão na gloria como dos que nestas partes andão, levando sua cruz. Finalmente temendo que se alvoraçarião huns com fervores e outros com prazer e alegria, e assi não poderião ouvir esta ate o cabo (2), passa- (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 276-278v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 257 r.-260 v. (2) À margem: por não gastar o tempo em exclamações, por virem tão devagar a esta terra onde ha tanta falta de obreiros e a nossa tanta. BACIL: nesta cópia varia um pouco a relação, mas o sentido i o mesmo. 349
  • rei por isto porque determinava de fazer tais esclamaçõis que não fisessem mingoa os prantos de Geremias, provo- cando-os que viessem a estas partes, onde ha tanta falta de obreiros. Mes sis multa operarii autem pauci (3). E assi he tanto, charissimos, o amor que em Chris to vos tenho (principalmente aos que nesse collegio de Coim- bra estão) que estou em dizer o que dizia David por seu filho Absalão: Quis mihi hoc dabit ut ego moriar pro te fili mi, assi digo, charissimos padres e irmãos, que he o deseio que tenho de vos ver nestas partes marterizados de dous em dous, como erão os dicipolos de Nosso Senhor, vendo quanto aparelho ay ca pera isso, e quão bem empre- gados serião nossos talentos em acabar a vida, como acabou o Padre Mestre Francisco, Mestre Gaspar e o Padre Mo- rais; porque enquanto forem vivos os que agora são, sempre avera memoria delles e de suas obras, pois que sera diante de Deos, onde creio que estão agora gozando daquelle the- souro que nesta índia alcansarão. Tornando ao que em sima propus de escrever do que passamos na viagem, a qual foi mui comprida, brevemente lhe contarey algumas cousas que me lembrão, tirando outras muitas porque serião cousa comprida escrever todas as particularidades que nos acontecerão. Da paraiem (sic) da ilha da Madeira, vos escrevi o que ate aquelle tempo acontecera, e portanto não sera necessário tornar ao prin- cipio. Primeiramente todos os dias se dizião as ladainhas can- tadas e algumas comemorações de santos (4), também can- tadas, com suas orações no cabo, isto e, fazião-se a noute e, em se acabando de dizer, tangião as Ave Marias que (3) Cf. Mal., 9, 37, e Luc., 10, 2. (4) BIMINEL e BACIL: «... ladainhas cantadas con suas oraçõis no cabo, con algumas comemoraçõis de sanclos...» 35°
  • parecia que estávamos em alguma aldea; e assi todos os dias se dizia missa num altar, que fizerão debaixo da tolda, e todos os domingos e festas, que fossem duplex sive maior sive minor, sempre se dizia missa cantada e assi cantáva- mos as vesperas // de todos os santos e festas solenes, e [198 éramos des padres antre religiosos e clérigos. Finalmente quando vinha huma vespera de alguma festa ou santo, se dizião as vesperas cantadas por cantores, que forão do príncipe (que Deus tem) (5), de mui boas vozes, com seus tangeres e trombetas, que tudo fazia muita deva- ção a gente; ainda que nosso estatuto prohiba cantar (7), todavia por satisfazer ao viso-rey que levava grande con- tentamento em se celebrarem os officios divinos mui sole- nemente se fazia. O Padre Francisco Vieira ia as mais das noutes a rezar com elle, por assi o pedir ao padre, e algumas vezes iamos ambos, e assi razavamos quatro em sua camara com hum pagem que sempre reza com elle, e as mais das vezes razavamos as matinas de noute a candea. Os padres razavão alguns salmos, a modo de coro nas matinas, nas quais se punhão duas oras; e porque os cavallei- ros se enfadavão muito de estar ali tanto tempo, ouvindo as matinas, deixávamos por esta causa de razar. Fazião-se também muitas procisões nos dias de festa mui solenemente, onde se levava hum crucifixo e as vezes (8) relíquias de muitos santos encastoadas numa caixinha, indo todos os padres cantando e outros cantores mui solene- mente; ião todos por sua ordem e o viso-rey de tras, e no (5) Correcção: que santa gloria aia. (6) Correcção de: muitos trovões. (7) BIMINEL: «... ainda que na Companhia se não costuma cantar...-» BACIL: ainda que nosso estatuto prohibe cantar, riscado e substituído por ainda que na Companhia se não custuma cantar. (8) BIMINEL: cruzes. 35'
  • Castello da proa estava hum altar onde se punhão todos de giolhos e pedião a Deos misericórdia donde, depois de feita comomoração de Nossa Senhora, se tomavão pera a popa com sua ladainha, ou cantando algum psalmo com trombetas e frautas, que parecia alguma procissão de Corpus Christi, e algumas (9) fazíamos de noute polas necessidades que nos sobrevinhão, com muitas tochas e cirios acesos, pidindo muitas vezes a Deos misericórdia, e desta maneira se fes huma na qual ião alguns disciplinantes; finalmente todos dizião que nunca avia vindo nao a índia, onde viessem tantos padres e as cousas da Igreija se fizesse tam bem; e assi nos trouxe Nosso Senhor milagrozamente, porque tivemos sempre os ventos contrários. Depois de passarmos a ilha da Madeira, trouxemos bom tempo ate o Cabo Verde, e dali ate a linha tivemos muitas trovoadas (6) e agoa, pelo que se amainavão muitas vezes as velas, e andamos tres ou quatro grãos antes da linha vinta sinco dias com calmarias, sem ter vento que nos podesse levar. As calmas erão tão grandes que não se podia ninguém valer, e de noute e de dia estávamos suando e tudo era beber. Andando nestas calmarias, temendo todos que tornássemos aribar, nos acudiu hum vento, vesporas do Espirito Santo, (no qual dia fizemos huma procissão com muita devação), que nos pos seis ou sete grãos alem da linha. Dali ate o Cabo da Boa Esperança, nunca tivemos vento que nos durasse dous dias e, se o tínhamos, outros tantos avião de ser pola proa. Nesta paragem começamos a exercitar nosso officio, o Padre Francisco Vieira e outro padre de São Francisco pregavão aos domingos alternativamente (10). Eu come- cei a fazer a doutrina a gente do mar e a todos os pagens (9) BIMINEL: vezes, palavra acrescentada a algumas. (10) Correcção: súlernatim. 352 1
  • dos fidalgos, declarando-lhes algumas cousas sobre os artigos da fe, Pater Noster e Mandamentos, e como se avião de confessar, porque achei hum tratado antre os livros que traziamos que declarava estas cousas. Assi fomos ate nos por na altura do Cabo de Boa Espe- rança e nos pusemos mais de seissentas legoas leste-oeste com o cabo, onde // achamos tão grande frio que não [198 v-l avia quem se pudesse valer. Enquanto andavamos nesta altura, que foi hum mes e meo, primeiro que dobrássemos o Cabo de Boa Esperança, nos deo huma tormenta que durou vinte e quatro horas, que começou hum dia e noute e durou ate ho outro dia a noite, e foy de tal maneyra que os que por aly tinhão passado dizião que nunqua tinhão visto tão grandes mares e tão rijo vento. Ali corremos todo aquelle tempo a arvore seca com huma vela deytada sobre o Castello da proa, e com hum papafiguo ao pe do mastro, corríamos de popa a proa tomando-se os mares que vinhão e o vento era sul. Final- mente muytos, cuydando ya seu fim, se confessavão e outros choravão muitas lagrimas. Ho viso-rey nos mandou chamar de noyte e aos padres de São Francisco (hos quais erão nossos vezinhos e com elles comíamos muytas vezes e elles comnosco outras) e rogou-nos que dissesemos as ladainhas e oraçõis para que se abrandasse aquella tormenta, e benserão a agoa, dei- tando-a no mar com muitas relíquias do lenho, e outras atadas num cordel; estando nos assi, veo hum mar tão grande que fez emborcar a nao tanto que não nos podíamos ter e, depois deste, veo outro que entrou na nao e molhou os que achou, de maneira que de huma parte e outra se não via outra cousa senão ondas, que parecião cerras mui altas, tam brancas como a neve, e muitas vezes paricião mais altas que o mastro, de tal maneira que por cima da popa molhavão o piloto que estavão {sic) na cadeira; os Doe. Padroado, V - 23 353
  • balanços erão tantos que andavamos caindo de huma parte pera outra, pidindo a Deos misericórdia, e no leme estavão nove ou des homens pera o governar. Despois de ida a tormenta, fizemos huma procissão mui devota, dando graças a Nosso Senhor, por nos livrar de tamanho perigo, e nesta altura andamos muitas vezes ao pairo, por nos ser o vento contrario, e outras com calma- ria, o que ali nunca se acustuma acontecer, por entonces ser inverno, e assi nos trouxe Deos sem tempo, porque se tínhamos hum dia de bom vento vinhão dous pola proa, e outros tantos de calmaria, e com tudo isto avia grandes frios, porque os dias erão muito pequenos, no mais que de outo oras, e as noutes de desaseis, sendo no mes de Junho e Julho, quando os dias em Purtugal são grandes e as noutes pequenas, e assi as noutes de la erão nossos dias e os dias nossas noutes. A dezoyto de Julho, viemos a Boa Esperança, com o que se alegrarão todos, por lhes fazer parecer que podião ir a India, e assi se determinarão de ir por fora da Ilha de São Lourenço e, pera a dobrar, nos pusemos em quarenta grãos ao sul, onde avia muito frio. Despois de dobrada a ilha, e tornarmos a entrar na terra quente, tornei a fazer a doutrina, como dantes, a qual tinha deixada, por amor dos frios. Vespera de Nossa Senhora da Assunção, nos acudio hum vento que nos pos na índia, sem nunca faltar, ainda que fazião grandes calmas na linha que tornávamos a passar. A mais da gente que trazíamos adoeceo mas, por serem bem curados, não lhes durava a doença mais que f ] oyto dias. O viso-rey mandava a seu // viador que os curasse bem e lhe desse todo o necessário, e por esta vigilância não nos morrerão mais de tres, e hum delles de morte subitanea; outras particularidades não escrevo. O viso-rey mandou dar hum pregão que todo aquelle que jurasse pagasse meo vintém e, pola terceira vez, fosse mitido 354
  • num tronco que mandou fazer pera os malfeitores, e a mesma pena pos aos que iugassem, fora de huma certa cantidade, que lhes assinou e, por se achar hum jugando ao domingo pola manhã, o mandou deitar na bomba; outras cousas semelhantes fazia. Nos sempre nos achamos bem; a mim somente me doerão as gingivas na costa da índia. A vinte tres de Setembro, chegamos a Goa hum domingo, depois de comer, e todo aquelle dia e noite nunca faltou gente que vinhão a nao com tochas acesas, e assi soubemos logo da morte de nossos padres, com que ficamos mui desconsolados, e man- damos dizer como éramos ali chegados; toda aquella noite estivemos confessando aos fidalgos, porque mandou o viso-rey que todos se confessassem para tomarem o Senhor numa igreija de Nossa Senhora, que esta junto da barra, onde elle avia de ouvir missa ao o outro dia. Em amanhecendo, vierão tres irmãos e sete ou outo mininos numa almadia, que he como barca, e iunto da nao começarão a cantar, Benedictus Dominus etc, o que alegrou muito a gente da nao, e pola manhã nos fomos com os mininos e irmãos a ermida de Nossa Senhora, onde ia estava o viso-rei esperando; dixe missa o Padre Francisco Vieira, e deu o Santissimo Sacramento a elle e a todos os fidalgos; e, isto acabado, nos tornamos pera a nao a buscar as cartas que trasiamos, e dai nos fomos caminho de Goa, onde achamos o Padre Balthesar Dias com todos os irmãos, que nos receberão com a charidade acustumada, com os mininos cantando diante, que fazia grande devação; e da nossa chegada a quinze dias se publicou o jubileo que vinha do reino, polo que me coube minha parte de confissões. Considerai, irmãos meus, quão bem empregados serão vossos trabalhos nestas partes; la tem por muito confessar-se hum muitas vezes e traze-lo a isso, sendo elles tão bons christãos, e vivendo na lei de Deos; pois ca ai dia de 355
  • três e quatro que vos vem pedir a lei de Deos, e os façais christãos, e isto assi mouros como gintios com suas cadeas de ouro, as mãos cheas de anéis, e espadas douradas, que vem de huma parte e doutra a esta cidade a fazer-se chris- tãos, o que me põem em grande espanto, por ver que, por falta de obreiros, se perdem tantas almas. Neste collegio ai sempre alguns chathecuminos e noutros mosteiros; ai aqui muita gente devota que se confessa a meudo, e muitas convertidas, que enquanto estiverão nesta terra não fazião outra cousa senão offender a Deos. Prega o Padre Balthesar Dias aos domingos e sestas-feiras com muitos ouvintes, porque he dos milhores pregadores de ca, e contenta muito aos que o ouvem, porque os desengana muito em tudo; o Padre Francisco Vieira começa ia a pregar; veremos como procede adiante; a mi me coube ir a Nossa Senhor dizer missa e fazer huma pratica a gente da terra. Dos mais padres e irmãos, que ca estão, saberão novas pola carta geral. Cesso, não cessando de me alembrar de meos charissi- mos padres e irmãos, dos quais faço todos os dias comomo- ração em minhas fracas orações e sacrifícios, o que pesso ['99 »•] a // todos fação por mim; a todos escrevo porque a todos amo muito em o Senhor; este anno me parece que não sairei daqui, porque assi o disse o padre; mas o que vem, prazendo ao Senhor ir, espero que me caira em sorte o Preste ou o Japão, e nessa esperança vivo. Em suas orações me encomendo, porque essas são as que ca me sustentão. Deos vos de, charissimos, sua gloria e a mi não desampare. Deste collegio, a sinco de Novembro de 1554. Vester frater inutilis Jacobus Soveral. 356
  • 70 CARTA DO IRMÀO ANTONIO DIAS AOS IRMÃOS DA COMPANHIA DE JESUS EM COIMBRA Malaca, 22 de Novembro de 1554 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 200 r.-200 v. (1) A graça e o Espirito Santo faça continua [*» morada em nossas almas, Amen. Aquella suprema bondade, de que todo o bem procede, de tal maneira encenda vossos corações, com que sintais aquellas suaves consolações, que a divina magestade acustuma dar, pera que creção em vos novos fervores de novamente deseiar continuos trabalhos por amor dAquelle que nesta vida sempre por amor de nos os passou; porque, estando nos postos em elles, seremos mais certos e seguros, que não com as consolações, porque muitas vezes, cuidando ser esperitual o que em nossas almas sintimos, nos fica carnal e estamos vendendo (2) a Deos carne por espirito; e ficando nos com confiança de o termos bem vendido, causa-sse em nossas almas huma alegria sensual, assi que deferentemente temos a certeza em os trabalhos sofridos por Christo. E porque nestas partes da índia se acha isto bem ao perto, certo que parece gram covardia de soldados não virem peleiiar, onde ay tantos despoios, e tão grande premio, se vencem o exer- cito. O charissimos meus em Christos, vinde, vinde por- (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 279-280; BACIL: Cartas do Ja- pão, I, fls. 261 r.-262 v. (2) BIMINEL: vendo. 357
  • que vos direis com a rainha Saba: «assi como o ouvimos assi o vimos», e com o profeta: «««gostai e vereis quão suave he o Senhor em suas obras». Huma certeza darei aos que deseião com S. Paulo serem desatados e estar com Christo, que venhão, porque ca esta a vida mais abreviada. E tanto se abrevia que no campo morrem ca os soldados; no campo deu o espirito, indo pera os grandes reinos da China, o nosso grão exortador, digno de toda imitação, o Padre Mestre Francisco; parece que o premio deve de ser maior aonde se mais padece por Christo; mui claramente o a mostrado Deos Nosso Se- nhor por obra, pera que nisto estivéssemos mais certificados. Quem vio hum corpo morto enterrado huma vez nas terras da China, e dali o levarão e outra vez o enterrarão em Malaca, e hum irmão da Companhia, que ai foi ter, o tornou a desenterrar pera o trazer ao collegio de Goa, de maneira que poderia estar debaixo da terra nove meses, e sempre em cal, pera ser mais asinha gastado, mas pouco aproveitava, pois o Senhor queria usar o contrairo. Depois de ser desenterrado em Malaca ate chegar a Goa, estaria nove meses, e com tudo isto o vimos em Goa amortalhado todo inteiro, despois destes desoito meses, posto em huma tumba, onde viera mitido; aos mais dos que o vinhão ver amostravão somente as mãos e pes, e a alguns as pernas e braços, mas eu, que sou boa testi- munha, o vi todo desamortalhado e o tornei com outros padres e irmãos a por noutro lançol: digo-vos que mete em admiração o suave cheiro que delle sae; eu lhe miti huma mão dentro na barriga, e lhe achei tudo cheo, porque lhe não tirarão as tripas no tempo que faleceo, nem depois, e o que lhe achei era tudo como sangue coalhado, mui branco e macio, que parecia inguento vermelho, o qual cheirava suavemente; as mais particularidades não escrevo; 358
  • somente vos digo que ficava no collegio num moimento que lhe fizerão; os que a estas partes vierdes, o podereis ver. O Padre Mestre Gaspar, que ficou com o cargo por mandado do Padre Mestre Francisco, tanto quis trabalhar em seu cargo que também se pode dizer que no campo deixou a vida, por vencer ao tirano demonio, e dar bom pasto as ovelhas de Jesu. Estando hum dia pregando na see de Goa, ali lhe deu o primeiro vagado ou, por milhor dizr, o primeiro chamamento pera aver o premio de seus trabalhos e deste primeiro chamamento // ate espirar não [»*> »•] teve mais maneira de saúde corporal, posto que a força do grande amor que tinha ao proximo o fazia alguns dias obrar, que parecia não ter conta com buscar remedios pera sua saúde, tendo muita com os dar as almas remidas por Christo. O fim de sua vida foi mui sintido de todos, e não me alargo mais, porque queria que o deseio vos forçasse a virdes ganhar as coroas. Deviamos certo de chorar, quando nos não cae a sorte de sermos hum de aquelles que vem ganhar almas pera o ceo. O! se os anjos podessem chorar, porque os homens não querem ser meo pera mais azinha se encherem aquellas cadeiras que estão esperando poios que nellas ão-de morar! O! se podessem chorar os santos mártires e apostolos, pois os homens não querem ser instrumento pera muitos irem gozar dos prémios celestiaes! O! se podessem chorar os mininos que morrem sem bautismo, pois os homens não querem ser instrumento pera se salvarem, e a mingoa de quem os bautize, carecem da visão divina! O! quem soubesse chorar com os gintios, que estão pedindo padres que os insinem e bautizem, mas não querem hos homens ser meo de não irem as penas eternas! O! quem podesse chorar com a Igreija santa, pois os homens não querem ser meo pera que o lobo lhe não coma seus filhos que, por falta de quem os conserve, deixão a lei e se tornão a 359
  • desmembrar de seu corpo, cuia cabeça he Jesu. O! se podesse chorar aquella santíssima humanidade de Christo, que polas almas derramou todo seu sangue, pois não que- rem os homens, por sua pusilanimidade, que os mericimen- tos delle tenhão efficacia em os redimidos. O Senhor, Tu que tudo governais, não fazendo força, ao que fizestes libertando com livre alvedrio, forçay-os com vossas (3) chagas, alagay-os com vosso (4) sangue, embebeday-os com vosso (5) amor, como aos vossos (6) discipolos dia de Pentecostes para que asi saião ate denun- ciar (7), com São João, vosso (8) precursor, dizendo nos fins da terra: «fazei penitencia, porque ja he chegado o reino dos ceos»; e com São Paulo: «quem nos poderá apar- tar da charidade de Christo? Nem fomes, nem trabalhos, nem perda de vida vos impidira a denunciação da lei evan- gélica»; e com os apostolos se irão offerecer diante dos tiranos cruéis, com gozo e alegria, pera derramar seu san- gue polo nome de Jesu. Peço-vos, irmãos meos, que me perdoeis. A vocação vos chame e leve a todos aonde gozemos do Senhor, amen. Feita oie, vinte dous dias de Novembro de 1554. Indo de caminho pera o Japão, em companhia do Pa- dre Mestre Belchior. Deste mais pequeno que todos indigno irmão da Com- panhia Antonio Diaz. (3) Correcção de: tuas. (4) Correcção de: teu. (5) Correcção de: teu. (6) Correcção de: teus. (7) Correcção à margem: a vos denunciar. (8) Correcção de: teu. 360
  • 71 CARTA DO IRMÃO FERNÃO MENDES PINTO PARA OS PADRES E IRMÃOS DE PORTUGAL Malaca, 5 de Dezembro de 1554 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 186 v. -190 r. (1) A graça e amor de Jesu Christo e consolação do Spirito Santo seia sempre em nossas almas, Amen. Determinado tinha, charissimos irmãos, de vos não escre- ver, por me parecer que se pudera escusar carta minha; mas, por mo mandar a santa obedientia direy o que me ocorrer porque não esperarão mais, charissimos irmãos, de quem tantas escamas tem nos olhos, e tão pouco conhecimento de Deos e de si mesmo. Eu fuy hum dos que Nosso Senhor mandou muitas vezes chamar para a cea, mas ora com erdades, ora com bois (2) me sempre ouve por escusado, e, sendo esta ia a undécima hora da minha idade, achou-me o Senhor otioso, ainda que não de offende-llo, e teve por seu serviço mandar-me a vinha. Do descurso de minha vida e dos trabalhos, captiveiros, fomes, perigos e vaidades, em que tanto, sem rezão, gastei quorenta annos, dar-vos-ey, irmãos meus, alguma relação, o qual pode servir tudo pera con- (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 261v.-265 v. Nesta cópia não se indica o nome do autor da carta, referindo-se-lhe como um Irmão da Com- panhia. Apresenta alguns subtítulos à margem. A data apresentada por esta cópia é de 5 de Abril. BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 238v.-244v. O nome do autor da carta está indicado nesta cópia à margem, Fernão Mendes. (2) BIMINEL: bens. 361
  • fusão minha e buscar remedio de me salvar e emmendar a vida tam estragada. Na verdade, charissimos irmãos, para dobrar-se agora huma vontade chea dos calos de suas openiões, e para que de todo se someta ao jugo da santa obedientia, e seia novamente renovada, em Cristo, não me parece que pode ser sem que as mezinhas pera curar chagas tam velhas seião de muito valor e vigor; por isso, por amor do Senhor, a quem sirvimos, que me soccorrais com vossas oraçõis e, meus padres charissimos em Christo, me aiudem com seus santos sacrifícios. Ho Padre Mestre Belchior me mandou que asssi de minha vida como de algumas cousas que ca tenho vistas lhe escrevesse mui largo; eu o farei, não como devo senão como entender. Eu ha 17 (3) annos que vim desse reino a India e a 16 (4) que ando nas partes da China e Japão, e sempre me ocupey em aiuntar bens da terra que erão os que eu pretendia; somente em Japão, todalas vezes que la fui ou mandey, acertey sempre perder; estando sempre penando nisto, queixando-me quam pouco ditoso fora em aquella terra, detreminei de nunca tornar a ella, pois que de todo me suscedia tão mal, e estando nisto, comecei a cuidar que, se tornasse, que me podia restaurar; acordan- do-me para confirmação do que me podia Deos aiudar, pois com ho dinheiro que eu tinha em Japão emprestado ao Padre Mestre Francisco, se ouve feito a primeira igreja e casa da Companhia. E forão estes pensamentos tão con- tínuos, que detreminei de todo tornar la, e querendo partir [187 r.] de Sion, // donde entonces estava, me tornou a parecer ' bem não ir, senão tornar a India, e de ai aperceber-me para tornar a Portugal. (3) BIMINEL e BACIL: 18. (4) BIMINEL e BACIL: 17. 36 2
  • E com esta determinação, cheguey a Goa, esperando as naos do reino para partir-me logo, parecendo-me que minha gloria e felicidade estava em entrar em Monte- mor (5) com nove ou dez mil cruzados, e que como hum homem não roubasse o calis ou custodia da igreja, ou fose mouro, que por nenhuma outra via se podia temer o inferno, e que bastava ser christão e que a misericórdia de Deos era grande. Em Goa fui ao collegio duas ou tres vezes ao collegio de Sam Paulo não tanto pera buscar meos de minha salva- ção, como deseiando saber a resposta de algumas cartas que o Padre Mestre Francisco tinta escritas e, querendo-me uma vez tornar por não conhecer em o collegio ninguém, permitio Nosso Senhor, ia que eu tam pouco conhecimento levava assi de sua bondade como de minha malícia, tendo por escusado de tornar la outra vez, que não faltou quem me conhecesse, porque em saindo pola porta o Irmão Pedro Bravo que de Malaca mui bem me conhicia, se veo a mim, sabendo quam amigo eu era do Padre Mestre Fran- cisco, e me levou ariba as varandas, e chamando os irmãos lhe dizia a muita amizade que eu sempre tive com o Padre Mestre Francisco. Elles, ouvindo nomear amigo de tam bemaventurado padre, cercarão-me todos, assi os padres como irmãos, e sem duvida que me confundia a charidade com que me recebião, e amor com que me falavão, e estando confuso de estar em tal congregação, chegou nisto o Padre Mes- tre Belchior; o modo que teve em me receber, e a alegria que mostrava em me ver me mostrava o amor que tinha ao Padre Mestre Francisco, e levando-me a mostrar o colle- (5) BIMINEL: Lisboa, palavra logo substituída por minha terra; BACIL: com letra diferente: minha terra. (6) BACIL: Pero Bravo. 363
  • gio chegamos ao dos mininos, os quais todos estavão com suas lobas brancas em ordem, e me receberão (7) Bene- dictics Dotninus. Logo ali me deu Nosso Senhor a sintir quam diferentes erao aquellas verdades de minhas mintiras e vãns openiõis; ha confusão que dahi me ficou não se me pode tirar 7 ou 8 dias contínuos. O demonio, como foi entendendo o deseio santo que Deos me dava, pos-me diante o amor do dinheiro, e afeição da pedraria, e que me contentasse com estado de bom casado, de maneira que me esfreiou, e que a Portugal iria a acabar de me determinar de todo. Em este tempo o Padre Mestre Belchior determinou de ir numa fusta que o senhor viso-rey lhe deu, a buscar o corpo do Padre Mestre Francisco, que trazia hum irmão de Malaca, numa nao, e pola amizade passada que com elle tive, offerecy-me ao padre para ir com elle, como fui, e assi levou consigo tres irmãos e 4 mininos da doutrina e a mim so, sem outro de fora. Andamos polo mar 4 dias, v-] com suas noutes, em sua busca e achamos a nao junto // de Baticala, 20 legoas de Goa, na qual entramos os mininos com suas capellas e ramos nas mãos, cantando Gloria seia a Deos em as alturas etc. Ha gente pos na nao bandeiras e estandartes e toldos, e quando o embarcamos na fusta tirou muita artilharia; entrando o padre em a camara donde vinha me dixe: «vedes aqui vosso grande amigo Mestre Francisco que viemos a buscar». Estava metido em huma caixa forrada de masco (sic) por dentro, e de fora cuberta com hum pano de borcado, vistido com huma alva e huma sobrepelis mui rica; o qual ainda que esteve muito tempo debaixo de cal a levava (8) agora o Padre Mestre Belchior para com ella falar a el-rey de Japão, tam fresca e nova (9) BIMINEL e BACIL: receberão com. (8) BIMINEL e BACIL: leva.
  • como se agora fora feita; tinha o rosto cuberto, as mãos cruzadas, e atadas com o cordão tão novo, como se antão saira de casa do cordoeiro, humas sirvilhas calçadas em os pes. Como o vi assi inteiro, lhe beigey os pes com muitas lagrimas, alembrando-me quantas cousas com elle tinha passado. Asi se me tornou a renovar o deseio que primeiro tinha de servir ao Senhor, inclinando-me muito a esta Com- panhia do nome de Jesus, pois aqui tinha certo em a per- serverança o perdão de meos pecados. Viemos a dormir a huma irmida de Nossa Senhora, que esta obra de mea legoa de Goa, e com ser quaresma puserão os altares de pontifical e a egreja mui ornada para o receber. Avia muitos que erão de parecer que se repicassem os sinos da see e das outras igreijas, mas os padres da Com- panhia não quiserão senão que somente se dobrassem; veo ao outro dia pola menhã a o esperar o senhor viso-rey, cabido e Misericórdia, e tanta gente que não cabia polas ruas, e noventa mininos da doutrina com lobas e sirios acesos. A gente era tanta polas ruas, taresos (r/V) (9), e muros que em meus dias nunca vi cousa tão maravilhosa. Pola Rua Direita estavão postos muitos perfumes, e as ilhargas da caixa ião dous tribolos de prata ensensando. Grande foi o concurso da gente para o ver no collegio, que tres dias com suas noutes sempre corrião a ve-llo, beijan- do-lhe todos geralmente os pes e tocando contas e outras relíquias nelle, sem o poderem os irmãos defender e, com ficar ainda a gente deseiosa de o ver, o meterão em hum deposito cerrado em huma caixa iunto do altar-mor cuberto com hum pano de damasco, donde agora fica. Tornando, charissimos irmãos, a meu proposito, a 6 dias de Abril foi o Padre Mestre Belchior a huma casa de (9) BIMINEL e BACIL: janellas. 365
  • Nossa Senhora, que se chama de Chorão, que esta em huma ilha da outra parte de Goa, e fui com elle; estivemos la dous dias, e creceu-me com tanta eficacia o deseio de servir a Deos Nosso Senhor, que quasi andava como fora de mim, e vim-me (10) polo campo, sem ter outra consolação senão [188 r.] dar suspiros e brados mui // grandes, pidindo a Nosso Senhor que me desse a sintir o que mais fosse gloria e honra sua: e com isto me vim para a igreija, onde pedi a Nossa Senhora que, pois ela tinha a invocação da graça, ma alcansasse de seu unigénito filho para salvação de minha alma. . Ali se me representarão a muita parte dos benefícios que tenho recebido de Nosso Senhor, e quanto lhe devia poios muitos perigos de morte, de que sempre me tinha livrado no mar e na terra, lembrando-me do que tinha visto em Japão, e do grande aparelho que avia naquella terra, por a gente ser mui capas de rasão para a christandade se multiplicar nella. Sai-me da igreija e fui-me para o Padre Mestre Belchior, ao qual dey mui particular conta de tudo isto, mostrando-me elle tanta vontade de ir a Japão, pola fe que detriminou logo de o por por obra. Fomo-nos logo para a cidade, onde em 4 dias e meo, nos apercebemos asi de pontificais, ornamentos, vestidos, como de todo o mais que era necessário para nosso negocio. Deos Nosso Senhor deu forças para que em breve tempo se negociacem tantas cousas que doutra maneira fora im- possível, porque de dia e de noute todos os de casa andavão ocupados; muitas pessoas nobres mostrarão tanto zelo para esta obra que derão cousas mui ricas para se darem aos senhores que se convertessem no Japão. Esta foi, charissi- mos irmãos, a maneira de minha mudança, a qual Nosso (10) BIMINEL e BACIL: ya me. 366
  • Senhor confirme, dando-me a graça para que tanto por seu amor padeça como sofri polo mundo. Hos companheiros do Padre Mestre Belchior são (11) onze a saber: seis da Companhia, e sinco mininos da dou- trina. Partimos de Goa a 16 de Abril; vierão todos os mini- nos da doutrina em pissisão ate a praia, e os que vinhão para ir a Japão, entre elles, com suas cruzes nas mãos, significando por aquellas de pao, as verdadeiras que ay no Japão; despididos delles e da mais gente, fomos dormir aquella noite a mesma irmida de Nossa Senhora, onde nos aviamos determinado de fazer este caminho, para lhe dar graças pela grande merce que nos tinha feito. A 18 de Abril, nos partimos; indo nos iuntos, chega- mos a Malaca 18 de Junho; emos de esperar agora tempo para nossa navegação, que sera em Abril no ano que vem de 1555; de Japão vos escreveremos; por amor de Nosso Senhor tenhais, irmãos meus, muita memoria de particular- mente nos encomendar em vossas oraçõis a Nosso Senhor, e consolar-nos com vossas cartas. // Huma vez fui a huma terra, onde vi hos homens ['*8 v.] quando morrião dizer humas palavras que em nossa lingoa querem dizer: «o Deos da verdade são tres e hum». Espan- ta-me que gente mitida em tanta obscuridade dixesse tal cousa; seus ídolos são mui grandes e mui cheos de ouro; preguntarão-lhe alguns portugueses, por que os fazião tão grandes; responderão que como Deos era grande, asi deve ser as cousas (sic) que se parecem com elle; tem estes humas cadeiras, a modo de púlpitos, mui cozidas em ouro donde pregão, e no meo do sermão alevantão a voz e as mãos (11) Correcção: íamos. 367
  • para o ceo, he dando brados dizem: («assi he»), confir- mando sua falsidade; tem grande números de deoses. Neste mesmo reino que se chama de Pegu ai huma cidade, a que chamão Pegu, que he entre toda aquella gen- tilidade como Roma entre nos; ai nella hum idolo de maravilhosa altura, cuberto de ouro de martello e tinha hum sombreiro de ouro e pedraria de grandíssima riqueza, o qual lhe tomou el-rey de Brama, que he estrangeiro, que tem senhoreado este reino; aqui esta hum sino de metal, o qual eu medi, e tinha na boca sincoenta e quatro palmos e tres dedos em roda, mas, por ter muito metal, soa mal; estão a roda desta casa, donde esta este idolo, 7 ou oito casas de idolos mui grandes, donde ai continuas romarias. Na cidade de Martavão, onde estive duas ou tres vezes, vi hum idolo, que he o deos do dormir, que esta deitado com hum braço por sima do rosto, e tem por cabeceira, para se encostar, quarenta e oito almofadas de pedra que eu contey; sera em comprido, pouco mais ou menos, de quinze ou desaseis braços e em largo, poios peitos, de sinco ou seis; seu rosto sera como huma camara pequena; as feiçõis dos membros são mui proporcionadas com a gran- deza do corpo. Ai outro edifício neste reino cuio rey se chama de sento e des mil; esta casa tem infinidades de idolos, gran- des e pequenos, que dizem que são sento e dez mil estatuas; não nas contei, porque era necessário estar na terra de assento para o fazer. A gente deste reino arranca as barbas com tenazes, e andão descalsos, e sem barretes, singidos com huns panos finos, com os dentes pretos e cabelo cor- tado; tem humas festas que se chamão Talanos, que he quando alguma pessoa enferma manda logo chamar hum Bolin (12) que assi se chamão seus sacerdotes, e o primeiro (12) BIMINEL e BACIL: Rolim. 3 6 8
  • remedio que lhes da e balhar dous ou três dias, com suas noutes, e para isto se aiuntão todos seus parentes com campainhas, e outros instrumentos, e muitas pessoas morrem do trabalho de bailhar. No reino de Cosnao (13), que se chama Sion, onde estive por duas vezes, estive na cidade de Odia, que he a corte // del-rey; afirmo-vos que he a maior cousa que nestas [189 ' 1 partes vi; esta cidade he como Venesa, porque polas mais das ruas se anda por agoa; tera, segundo ouvi dizer a muitos homens, passante de duzentos mil bateis pequenos e grandes; se são duzentos mil ou não, eu não no sey, mas eu vi caminho de huma lagoa polo rio sempre sem poder romper com bateis, afora muitas feiras que se fazem nos rios, ao redor da cidade, que são como festas dos idolos; a cada huma destas feiras vão passante de quinhentos bateis e, as vezes, passão de mil. Este rey se chama Precaoçale que dizem que quer dizer a segunda pessoa de deos; seus passos não nos pode ver nenhum estrangeiro, senão hos em- baixadores somente ou quem se vay fazer seu escravo (14); por fora, são cubertos de estanho, e por dentro mui guarni- cidos de ouro. Sai fora duas vezes cada anno, para ser visto de todos, levando por estado duzentos alyfantes, nos quais vão asentados muitos senhores e capitãis; leva consigo sinco, seis mil homens de guarda; vão mais doze alifantes, onde vão postas humas cadeiras guarnecidas de ouro; diante dele vai toda maneira de jogos e danças; elle vai sobre hum alifante, assentado em (15) huma cadeira mui rica, e hum pagem seu vai na cabeça do elefante com hum traçado douro na mão; a parte direita leva huma aljaba (13) BIMINEL e BACIL: palavra omitida. (14) BIMINEL: vassalo. (15) Correcção de: sobre. Doe. Padroado, v - 21 369
  • chea de dinheiro, que vai deitando polas ruas, a maneira de esmola. Vi também ir el-rey a se recrear polo rio, num parao mais largo que huma galle, com suas azas, a maneira de Serena (16), os remos todos guarnecidos de ouro, e as varandas do parao são de mui grande riqueza; leva mais outros doze paraos, que são os bateis em que vão doze maneiras de cadeiras de seu estado, em que ninguém se asenta. Quando os outros passão por elle, fazem cortizia a cadeira, como se nella fosse a pessoa del-rey. Leva mais cento e vinte bateis ou paraos de capitães e senhores princi- pais de sua corte, mui luzidos, que se conhecem polas divizas dos rimeiros, de que senhor he cada hum. Também vai outra multidão de gente em bateis que ho vay acompanhar e ver; este rey se chama o senhor do alefante branco, que he a maior dignidade que entre elles pode aver, porque tem hum alifante branco, couza que não se acha nas outras partes. Huma vez vi levar ao rio este alifante a banhar-se; levava diante a destro cemto e sesenta quartaos, que são hos ginetes de aquella terra, e outenta e tres alifantes, com cadeiras mui ricas, em que ião capitãis e senhores, e detrás vinha o alifante branco, cercado de vinte quatro sombreiros brancos de pe, pêra lhe fazer sombra; levaria de guarda tres mil homens, todos com suas armas, com toda a maneira de festa; diante e detrás delle, virião obra de trinta senhores em alifantes. Elle vinha com huma cadeira chapeada de ouro de martello e humas cadeas de prata groças, que o singião, como cintas, e poios peitos e pescoço huma volta de cadeas de prata. Dicerão-me que esta ves saia de branco, porque se ia a lavar, mas que noutras festas leva todas has guarniçõis douro; na tromba (16) BIMINEL: assim estava escrito, mas corrigiram para serea; BACIL: serena. 37°
  • levava hum globo de ouro, de tamanho de duas cabeças de homem, e este globo era de cosmographia; tinhão-lhe feito hum cadafalço, a borda da agoa, para o recolher a borda delle; as sirimonias com que o levarão não vi, mas dis que forão muitas. As ruas por donde passa estão tão concerta- das e embandeiradas, como em Portugal a huns // torneos, [189 ».] ou festas reaes, e aonde esta nenhum senhor se a-de menear. El-rey de Brama, por ser grande senhor, detreminou entrar em Siam e intitular-se rey do elefante branco; e por- que de Pegu a Sião, que ai cento e sincoenta legoas, não avia caminho, foi com huma agulha de marear, e pos três meses em cortar os arvoredos, abrir caminhos e desfazer rochas. Partio com trezentos mil homens para tomar o ali- fante branco, e perdeo na conquista cento e vinte mil deles. E chegando a cidade de Sião, lhe deu muitos combates, de donde se tornou, não podendo entrar la (17); dizem que matou e cativou polo reino de Sião mais de duzentas mil pessoas. Agora faz tres anos, que este alifante moreo, de que el-rey mui triste, e lhe fez exequias onde nos dixerão merca- dores que avia gastado, por sua alma, quinhentos cates de prata, que são vinte e quatro mil cruzados. Ove (sic) pranto que durou hum mes; queimarão-no com pao de aquila e sandalo, que são cheiros mui estimados, e nisto acharão outro alifante branco, mais pequeno, nas cerras ou dizertos de Tana (18) Chacarim, que el-rey recebeo com grandes festas e alegrias, e o tem agora como ho passado. A gente desta terra tem por deuses os elementos e, quando morrem, a quem creo na agoa, deitão-no polo rio abaixo; a quem creo no fogo, queimão-no numa fogueira grande; e a quem adorava a terra, enterrão-no; e a quem (17) BIMINEL: não podendo entralla. (18) BIMINEL: Jana\ BACIL: uma palavra só: Tanacbarim. 371
  • cria no ar, poem-no dentro do rio onde são comidos (19), e de outras aves do ar, e todavia, charissimos irmãos, ja nesta cidade de Sião ai sete mesquitas, cuios cacizes são turcos e arabios, e trinta mil fogos de mouros na cidade, cousa muito para envergonhar os soldados de Christo, que tanto se estenda nestas partes a perversa secta de Maphoma, e tanto se estenda o zelo de sua maldade; estes mouros pregão continuamente o alcorão de Mafoma. Ho rey deixa fazer a cada hum o que quer, e ser mouro, hou gintio, dando huma bem razão que elle não he senhor mais que dos corpos. No fim do inverno, se vay el-rey lavar ao rio, pera que fique sagrado, e a gente possa beber sem lhe fazer mal; da agoa, em que el-rey lava os pes, levão os senhores para suas casas, por grande honra. Estando eu em Sião, foi a lua cris huma hora, depois de mea noite, (cuida aquella gente que huma cobra engolle a lua), tirarão com muitas espinguardas pera o ceo, fazião som, dando nas portas, gritavão no mar e na terra, dizendo a terra que deixasse a lua e não na engulise; foi de ma- neira que cuidamos os portugueses, que ai estávamos, que era alguma treição ou alevantamento da cidade. A este rey de Sião não podem dar embaixada doutro rey, sem lhe levarem huma arvore pequena de ouro, e outra de prata, em sinal de que o reconhecem sobre todos por rey, e elle da, em reposta disto, hum barrete de ouro e huma naoosinha de ouro, como as em que deita (20) encenso. He, com todas estas grandezas, he vasalo del-rey da China, e cada anno lhe manda embaixada, como súbdito, para que saibais a santa empresa que levava o nosso Padre Mes- tre Francisco. (19) Encontra-se aqui um espaço em branco. Nas cópias da BIMINEL e BACIL: idem. (20) BIMINEL e BACIL: esta. 37 2
  • Alem desta terra, ay outra que se chama Cambaia, e vierão agora portugueses de la, os quais falarão aqui com o Padre Mestre Belchior, dizendo que os sacerdotes de aquella terra dizião que se mandacem la homens que lhes manifestassem a lei de Deos que seu supe // rior delles [>9» r.] faria que el-rey se convertesse com todo o povo. Cuidai, irmãos meos, que dor (21) poderia sintir quem tem zelo da onra de Deos, vendo a manifesta perdição destes, por falta de quem os doutrine. Alem deste reino de Cambaia, ay outro que se chama Champa, que sera tamanho como Purtugal e, alem deste, outro que che chama Cauchimchina, terra mui grande de gentilidade, que confina ja com a China; e na entrada de Cauchimchina, esta huma ilha grande, que se chama Ainão, que dizem que tem noventa fortalezas e lugares cercados, sogeita ao governador de Cantão, que he huma província do rey da China. Daqui por diante corre a terra da China, que he hum processo quasi infinito falar nella. Se Deos nos der vida, de Japão vos escrevery muitas cousas da China, e da disposi- ção da terra, para nella se aumentar a santíssima fe de Jesu Christo, Nosso Senhor. De aqui a dozentas e sincoenta legoas estão os Liquios, cem legoas antes de chegar a Japão, donde se perderão huns portugueses, e el-rey dos Liquios lhe mandou dar encoração. Em nas terras de Japão, antes de chegar a Meaco, esta huma cidade populoza, que se chama Sacai, a qual se governa, como Veneza, per cônsules, sem obedecer a outrem; ouvi dizer a nosso Padre Mestre Francisco, que em ella esteve, que lhe parecia que avia em aquella cidade mil mercadores, e cada hum de trinta mil cruzados, afora outros (21) BIMINEL: podor. 373
  • mais ricos. Todos os senhores (22) desta cidade, e assi grandes como piquenos, ate os pescadores, se chamão reis em suas casas, e as molheres, rainhas e os filhos, príncipes, e as filhas princezas, e todos tem esta liberdade; he das nobres cousas que ca ay, e esta mui bem com nos outros; parece gente mui aparelhada para nella se fazer muito fruito. Alem de Meaco, que quer dizer em sua lingoa cousa pera ver, esta outra província mui longe, que se chama Bandu, em a qual se dis aver dous mil he outo centos mosteiros; todos os bonzos, que são os sacerdotes de Japão, vem desta terra, porque vão la para aprender a ser bonzos. Ai nesta província humas escolas gerais, das quais me dizia o Padre Mestre Francisco que se afirmava serem maiores que as de Paris em grande cantidade. Não escrevo destas couzas mais em particular, por o tempo não me dar lugar. Por amor de Nosso Senhor, que vos compadeçais de tanta perdição de almas redemidas com hum preço tão grande, e que trabalheis de vir a buscar com os obreiros que ca andão tam bemavinturados trabalhos; tende, irmãos meos, memoria de mi, assy para me encomendarem a Deos mui particularmente, como de consolar-me com huma carta vossa. Nosso Senhor nos faça dinos a todos que, por seu amor, soframos muitas tribulações e morte para que em a gloria seia perpetua nossa união e bemavinturança. Deste collegio de Malaca, a cinco de Dezembro de 1554. Fernão Mendez (23). (22) Correcção de: mercadores. (23) Fernão Mendes Pinto. 374
  • 72 MISERICÓRDIA DE CANANOR Cananor, 15 de Dezembro de 1554 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 94-55. Mede 300 x 210 mm. São duas jolhas, mas apenas escrita uma e meia. Documento bastante gasto e roto. Ho provedor e Irmãos desta Samta Misericórdia de CO Cananor, com aquela hobryguasão e acatamento que deve- mos, fyquamos roguamdo a Deos pelo enxalçamento e acresemtamemto do rial estado e vida de V. A. e da raynha nosa senhora, e do prymcipe nosso senhor, a quem Noso Senhor hacresemte muitos anos a vida pera ho acresemta- mento da paz he tramquilydade do reyno. Hora a trez anos estprevemos ha V. A. por esta Samta Casa da Misericórdia e os moradores desta cidade serem muito pobres, que nos fyzese V. A. esmola dum retavolo pera ha casa da Samtysyma Misericórdia, pelo não ter e, por não mamdarmos ha medyda dele, não no-lo mandou, como vimos pela carta de V. A. que nos foy dada. Este ano lhe mandamos ha medida, scilicet, quoatro covados e huma oytava de larguo e de alto symquo covados e huma terça. He também nos estpreveo V. A. que lhe escrevesemos larguamemte sobre ho ysprytal desta cidade. Sabera V. A. // que nesta terra não ha esprytal, e huma casa que havya [■ *•] era muito pequena, que não haproveyta pera nada, ha quoal se tomou pera monisões e polvora de V. A., de que, te ho dia de oje se não detryminou de fazer outra pera esprytal, nem no ha, nem casa pera se aguasalhar hum doente, nem huma cama, porque nesta terra ha muytos frydos e doentes da armada do Malavar, e ho ano de 375
  • corenta e nove veyo aquy ter ha naoo São Bento, de mar em fora, que trove oytemta e tantos doentes, e asy este ano de symquoenta e quatro veo ha naoo Samta Cruz, de mar em fora, e deytou nesta fortaleza de Cananor semto e tamtos doemtes, de que, Deus seja louvado, não morreo senão hum soo, hafora outros muitos que ja quy vyeram ter, e não temos homde os aguasalhar senão por casas de omens casados, e molheres solteyras, sem terem cama, nem com que se cobryr, senão huma ysteyra de bayxo, que he ho mor dezemparo que pode ser, e aimda muito mal pro- vidos dos ofyciaes de V. A., por não darem hao proveador e irmãos desta Misericórdia ho que he neçesaryo, e a Casa, yso que tem, ho guasta com eles, avemdo na terra homens muito pobres e molheres viuvas, que ha Misericórdia ha sostem, e a feytura desta hardeo ho arrabalde desta fortaleza de fora, e queymou toda ha povoasão, e asy morrerão algu- mas pesoas, que não fyquou casa que não se queymase, em que perderam quoanto tynhão, e lhe pedymos, pela morte e payxão de Jesus Christo, que dos seos solldos lhe mande paguar alguma cousa pera se cobryrem de telha, M porque he jemte muyto // pobre, como V.A. la sabera, e comtynuadamente amdam em servyso de V. A. de armada. E sobre ho fyziquo que cura ho ysprytal, sobre que V. A. nos estpreveo, lhe pedimos, pelo amor de Deos, que nos faça merce, de hum alvara seu pera hos guovernadores lhe paguarem seu ordenado, porque he muyto mal paguo dele. E porque sabemos que ho povo não estpreve ha V.A. sobre as cousas da igreja, lhe damos comta dyso, pelo que somos hobryguados lhe pedimos a V. A. que proveja esta see, hasy de ornamentos, como de padres, porque nela não hay mais que ho vigayro e hum benefyciado e, as vezes, não hay mais que ho viguayro, porque comtenuadamemte houve aqui simquo padres, e aguora não se faz hos ofyçios 376
  • devinos, como se devem de fazer, e isto por lhe nom paguarem hos hofyçiaes de V. A. Noso Senhor hacresemte a vida e estado de V. A e asy da raynha nosa senhora e do prymçipe noso senhor, como V. A. deseja. Feita neste cabido da Samta Misericórdia de Cananor, a quymze dias do mes de Dezembro de 1554. Gaspar Rebello Vaz. Ruy Guomez. Gaspar. Duarte Vaaz. Joham Joam Barbosa. Fernando Vas (?). Amtonio Pyres. (1) (1) Assinaturas muito pessoais. 377
  • 73 CARTA DO PADRE BALTASAR DIAS PARA OS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA Goa, 16 de Dezembro de 1554 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 289 r. - 289 v. (1) A graça e amor de Christo nosso Redemtor seia sempre em nosso favor e ajuda, Amen. [>8y] Charissimos em Christo padres e yrmãos. Ainda que nesta seja breve na leitura, levar-mo-eis em conta pelos trabalhos e negocios que vão nesta Goa, aonde ao presente resido com este cargo que sabereis que tenho. En esta vos pidirei e peço que me encomendeis muito a Nosso Senhor porque, vendo-me eu quem são e quem vos muito bem sabeis, tenho atrevimento do vos pidir isto, por- que me parece que na Companhia não ha pessoa que mais necessidade tenha disto que eu. Pela carta geral sabereis como, indo-se o Padre Mes- tre Melchior pera Yapão, me deixou nesta Goa com o cargo de toda a Yndia. Julgai em que poder se vem taes colunas como qua ha dela, e outros princípios de maiores, a saber de yrmãos tais quais os qua ha, sendo quem vos sabeis, me ajudou Deos tanto e ajuda que, depois que foi Mestre Melchior ate o presente, e sera ate a vinda desses anjos, por quem estamos esperando, pregando domingos (1) BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 231 r.-231 v. A redacção desta carta é diferente nesta cópia, mas o sentido é o mesmo. 378
  • e santos duas vezes, a saber: pela menhã o evangelho, e a tarde os mandamentos por Navarro. As sestas-feiras, a tarde, penitencia com muito concurso de gente; as quartas- -feiras, no hospital grande de el-rey onde continoamente ha corenta e sincoenta enfermos, aonde concorre muita gente. O charissimos, quem qua visse vossos talentos em campo tão largo como he esta índia, aonde ha tão poucos que pure busquem a misericórdia de Deos, porque muitos busquão qua quae sua sunt. Sò nesta Goa não bastão quinse padres de missa nossos aonde continoadamente quatro confissiona- rios que nos sempre estão pejados com confissões, pois os irmãos tem tanto em que se exercitar que, afora tres ospitais que ha nesta cidade, onde sempre estão gemendo por nos, sem podermos acodir, pelos muitos trabalhos que tem os padres e yrmãos, e nos sermos mui poucos, e mais medrosos da trilhar as passadas daquelle santo Mestre Francisco, e Mestre Gaspar, e Manoel de Moraes, he tão grande o campo que fica que Portugal em comparação a elle fiqua hum cantinho. Muitas vezes me lembra as cartas e recados que la ouvia de qua, que não sei como os superiores não tem mais gente qua mandada do que mandarão, porque em minha vida cuidara de ver tanto numero de gente como ha na índia. Falo de Goa porque ainda não fui a outra terra, e por esta yulgo a enfinidade que avera nas outras cidades e lugares, onde estão padres; não fazem mais que remediar e suprir a falta da muita gente que he necessária de nos; muito vos peço, charissimos, que peçais a Nosso Senhor que traga a este collegio de Goa o Padre Francisco Roiz, ou o Padre Dom Lião, ou o Padre Marcos Yorge, para responder a todalas questõis e perguntas que de todas as partes da índia vem perguntar a este collegio, porque tem nestas partes a Companhia tão grande credito que nem 379
  • hum homem se quieta com parecer doutro padre senão dela. Ora vede, charissimos, em que me vejo, e a necessidade que tenho de me encomendardes a Deos e por cima de tudo estar exercitando o officio episcopal, a saber: benzer vistimentas, sagrar cálix, e benzer pedras de ara, e tenho agora 20 ou 30 pera sagrar, e quasi que me não sei detri- minar com o officio, por ser muito intrínseco. Deu-me Deos grande condão nesta terra por vossas orações das molheres solteiras portuguezas, das quaes Deos por sua bondade quis tirar do peccado este ano oito; tres são casadas; huma morreo, as outras quatro perseverão avante na virtude; morão as mais delias separadadas numa rua, a qual rua hão tão grande medo os soldados de mim que nenhum quer ir por ella, e se pasa não olha a huma parte nem a outra; isto com o mais tudo atribuo a Com- panhia. *.] // Depois que estou nesta terra, antre outras pessoas que comigo se quiserão confessar e confessão, foy hum Symão Botelho, veador da Fazenda geral da India e de muito tempo, sendo elle de 45 anos pera cima, declarando-lhe muitas vezes como era obrigado a tomar estado; era elle filho antigo do Padre Mestre Francisco e do Padre Mes- tres Gaspar, homem de muito credito nestas partes. Par- tindo o ano passado pera o reino, tornou arribar; tornan- do-se-lhe o cargo que dantes tinha, o tocou Nosso Senhor de tal maneira que tudo deixou e se pos no que eu quizesse fazer delle (2). Eu o não quis nunqua cometer pera Companhia por duas rezões: a huma, por me parecer muito velho, e a outra por aver medo a sua ma disposição, e nunqua de mim entendeu quere-lo, nem deseja-lo, per sima de ter oito ou dez mil pardaos de seu, e detirminou-se a (2) BACIL: faltam estas referências ao facto de Simão Botelho querer ingressar na Companhia. J 8 O
  • São Domingos, aonde entrou, besporas de São João e Judas, o qual comigo repartio toda sua fazenda; despos delia conforme ao que nos pareceo e, o mesmo dia que entrou, veio aqui ao collegio; esteve comigo huma hora ou duas e daqui foi pera São Domingos, deixando-me huma carta pera o viso-rei Dom Pedro, a qual lha levei a noite, decla- rando-lhe como Nosso Senhor o tocara, o qual ficou muito triste por perder tal homem. E todavia logo se tornou sobre si dizendo que lhe fazia muito grande inveja (3)... As (4) mais novas vereis charissimos na carta geral porque o tempo não me da mais lugar. Aos charissimos padres e irmãos da Província peço a cada hum sua Ave Ma- ria. Os outros charissimos padres e irmãos sei que mo não negarão, etc. De Goa, a 15 de Dezembro de 1554. Baltasar Dias. (3) Até aqui ainda se lê na cópia da BAL. Seguem-se alguns períodos tão delidos que se não podem decifrar. (4) O final desta carta encontra-se muito apagado na cópia da BAL e por isso foi tirado segundo a cópia da BACIL. 381
  • 74 CARTA DO IRMAO AIRES BRANDÃO AOS IRMÃOS DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL Goa, 23 de Dezembro de 1554 Documento existente na BAL, 49-1V-49. Fls. 182 v. -186 (1) r ] A graça e amor de Christo Nosso Redentor more sempre em nossas almas, amen. Ho anno passado, charissimos irmãos, lhes escrevemos ainda que não mui largo, porque huma nao em que ya Gil (2) Fernandes de Carvalho por capitão arribou, em a qual ia huma das vias donde largamente vos davamos conta de todas as cousas que o Senhor nesta terra tem obrado, por meo dos padres e irmãos da Companhia; outra via passou mais breve, e pode também ser que não a rece- beis (3). Agora me mandou o Padre Mestre Belchior lhes escrevesse, e principalmente algumas cousas para louvor do Senhor, porque das mais serão informados poios padres e irmãos que andão apartados por diversas partes. Primeiramente vos faço saber, charissimos irmãos, como nosso mui amado em Christo Padre Manuel de Morais f] esteve em a ilha de Ceilão algum tempo; onde // que o Senhor lhe dera (4) lhe sérvio aproveitando as almas dos proximos; vindo aqui doente, e de ai a poucos dias, (1) BIMINEL: Cartas do Japão, fls. 258-251 v.; BACIL: Cartas do Japão, I, fls. 233 r.-238 v. (2) Correcção de: Garcia. (3) BIMINEL e BACIL: recebeceis. (4) BIMINEL: com o que o Senhor lhe dera... Estas palavras, porém, foram riscadas. 382
  • achando-sse cercado de seus irmãos, que elle tanto em o Senhor amava, entrou em o artigo da morte, com mui grande alegria, e assi saio desta vida com o nome de Jesus sempre na boca; seia com todo o Senhor bendito para sempre. Dai a dous meses, pouco mais ou menos, chegarão as naos de la do reino, e nellas o Padre Balthasar Dias, e o Irmão Aleixo Dias, com quem muito nos alegramos em o Senhor; também chegou o Padre Mestre Belchior de Baçaim; com sua vista, fomos muy consolados em o Senhor, e come- çou iuntamente a prosiguir as ocupaçõis do Padre Mes- tre Gaspar, que erão pregar domingos e dias de festa pela menhã, e a tarde as terças-feiras e segundas em as confrarias de Jesu, e Onze Mil Virgens; as quartas-feiras em a mise- ricórdia; as sestas, a tarde, doutrina de penitentia; dispois foi visitar alguns nossos padres a diversas partes, a saber: ao Padre Francisco Peres, que esta em Cochim, 100 legoas desta cidade; ao Padre Nicolao, em Coulão, que esta 124(5). Estando ali em Coulão soube do Padre Mestre Francisco, duma nao que vinha de Pegu, como Nosso Senhor o levara desta vida; com tudo o mais que depois sucedeo polo hum e polo outro lhe devemos de dar muitas graças, irmãos charissimos, conformando-nos com sua santa vontade; agora lhes escreverey o que disto sey. Nosso Padre Mestre Francisco, avendo vindo aqui a Goa de Japão, se tornou a partir pera o reino da China a desasete de Abril de 1552, em huma nao, em a qual também ia o embaixador que o senhor viso-rey mandava ao rey da China, encomendando-lhe muito nosso Padre; e, tanto que chegou a Malaca, que esta desta cidade perto (5) Ou 129 ? BACIL: espaço em branco. 383
  • de 700 (6) legoas, começou a achar empedimentos a seu caminho, porque ao embaixador, que era senhor e capitão da nao, em que despois do favor divino levava o padre muita confiança, que com o favor da embaixada poderia entrar na terra, porque não deseiava mais que achar-se den- tro nella, foi necessário ficar em Malaca. O padre se meteo na mesma nao, levando em sua companhia, fora os marinhei- ros, so o amor de Jesu Christo, com grande deseio que levava de padecer por elle muitos trabalhos, sem mais padre, ou irmão, ou pessoa de quem em as necessidades temporais se podesse aiudar; chegou a um porto da China, que se chama Cantão, onde se deteve alguns dias porque, ao entrar pelo reino, ai muitos empedimentos, porque ay graves penas, assi para os estrangeiros que entrarem em o reino, como para quem os meter, e são tantas que ninguém se atreve a meter nenhum estrangeiro dentro; determinou o padre esperar pera poder executar os deseios que levava, e em este mesmo porto se concertou com hum mercador gintio pera que o levasse consigo pola terra dentro e que, por isso, lhe daria huma grande cantidade de pimenta, que em aquella terra vai muito, e o mercador se foi fycando concertado de tornar por elle, day a poucos dias; mas Nosso Senhor, como quem tinha outra cousa ordenada, foi servido que caise numa enfermidade de febres, de que em poucos dias faleceo; estavão em aquelle mesmo lugar alguns portugueses, que erão ali vindos a tratar em suas fazendas, entre os quais avia alguns que o amavão muito, por seu santo exemplo e doutrina, os quais o tomarão e seem mais o dispirem ho enterrarão com detriminação que, quando fosse tempo de o ter a terra gastado, desenterrarião os ossos e os trarião a índia. (6) BIMINEL: seiscentas; BACIL: setenta, corrigido à margem para setecentas. 384
  • I E assi, chegado o tempo que a elles lhe pareceo que seria gastado, o forão desenterrar e o acha // rão da mesma [»m v.] maneira que estava, quando o avião enterrado, com todo o seu vistido, sem faltar-Ihe cousa alguma; isto lhes pos grande espanto, e começarão a cuidar que farião delle, porque era ja tempo de ir-se; parecia-Ihes que não era bem deixa-lo assi, em terra tão apartada e de infiéis, enclinan- do-sse a mete-lo na nao, se não achassem nelle em alguma maneira corrupsão de mao cheiro, e deixa-lo, se a tivesse. Avia entre elles hum que sobre os outros o amava, porque se avia aproveytado muito de sua conversação; este se deter- minou de todo a o levar consigo; forão todos a ver se achavão nelle alguma corrupsão e acharão que não somente não estava corrompido, mas que lansava de si hum cheiro mui suave, e assi o meterão em huma caixa de cal cheia, e o puserão em a nao, parecendo-lhes que em a cal se veria gastando pouco a pouco, e ficarião os ossos como antes cuidarão; e assi o trouxerão a Malaca, onde sairão a o receber com picissão e grande solemnidade, porque era muy amado da gente de Malaca, onde o meterão outra vez debaixo da terra, e esteve enterrado ate que chegou ai hum irmão nosso que o Padre Mestre Gaspar mandara em sua busca, e a visitar os irmãos de Japão, o qual o desen- terrou, achando-o como da primeira vez inteiro; tomou-o entonces assi, como estava, e meteo-o em huma caixa de pao, que Diogo Pireira, que ia por embaixador a China, em cuia companhia o Padre Vieira lhe mandou fazer forrada toda de damasco, com hum pano de borcado que o cobria todo, e assim o teve consigo nosso irmão dentro numa irmida, onde pousava, ate que chegou ai o Irmão Pero de Alcaseva, que vinha de Japão, com recado do Padre Cosmo de Torres. E chegado o tempo de partir para a índia, se meterão os irmãos em huma nao com elle; nosoutros ainda neste tempo não sabíamos em Goa mais Doe. Padroado, v - 25 385
  • que somente ser elle fallicido, por não serem inda chega- das as naos de Malaca; das primeiras que chegarão, soube- mos como o trazião de Malaca para a índia. E, tanto que chegou a nao em que vinha, a Cochim, o capitão que o trazia se meteo em huma fusta e se veo diante a esta cidade e a nosso collegio, onde dixe ao Padre Mestre Belchior como trazia o corpo do padre, e como Nosso Senhor no caminho lhe fes muitas merces, livrando a nao de muitos perigos que contou; o Padre Mes- tre Belchior se foi logo a casa do senhor viso-rey a pedir huma fusta para ir a buscar a nao e trazer consigo o corpo, porque a nao, por causa dos ventos serem contrários, vinha devagar. O capitão da nao pidia ao Padre Mestre Belchior que não fosse busca-lo, dizendo que não lhe tomassem a quem tão bom aiudador lhe fora em tantos perigos como na viagem passada, pois ia estava no fim delia, mas que asi como vinha na nao viesse ate Goa; mas era tamanho o deseio do padre de ve-llo iuntamente com elle, e de todos os irmãos, tamanho, que todavia se meteo na fusta com alguns delles e, com hum homem que en vida do Padre Mestre Francisco, esteve em Japão com elle, andando em aquellas partes tratando em mercadorias. O senhor viso-rey dixe ao Padre Mestre Belchior que, antes que che- gasse a terra, lho mandasse dizer, e assi forão a nao, que estava desta cidade 20 legoas, pouco mais, donde tomou rl o corpo, e o meteo dentro da fusta, e chegou a esta // cidade em a somana santa; como o soubemos no collegio, fomos todos os que aqui estávamos assi padres como irmãos, ao porto e os mininos em pississão, e da igreja maior saio o cabido e o senhor viso-rey, e era tanta a gente que coria a Ribeira que a tornada com muito trabalho rompíamos polas ruas, e asi o recebemos todos, e com toda aquella gente o levamos ao collegio que, por ser tanta, o metemos na capella, sem o mostrar nem ao senhor viso-rey, e, por 386
  • amor da gente não insistio a isso e também a gente, descon- fiando de o ver, se ia pouco a pouco ate que não ficarão senão alguns homens e molheres que, chorando, pidião que lho mostracem, não se querendo ir para suas casas; vendo o Padre Mestre Belchior que em a igreja avia sossego, serrando as grades da capella, lho amostrou e ficando elles da parte de fora, e a este tempo avia 16 meses que era falecido (7); a gente que o vio se consolou muito, e depois que se foi e se soube (8) na cidade que o virão, começou outra vez a gente a recrecer, pidindo com tanta instantia que lho amostrassem, que não pode o padre negar-lho, e foi de maneira que tres ou quatro dias se não pode a igreja defender, de noite nem de dia, pola muita gente e alguns vinhão duas e tres vezes, não se contendo de o ver huma so. Vendo o Padre Mestre Melchior que ja era tempo de po-lo onde avia de estar, o mudou a um lado do altar, onde agora esta cerrado com chave; estamos nos outros todos muito consolados em ter seu corpo presente, mas muito mais em crer que sua alma esta diante de Deos, rogando pelo agmento (r/V) da Companhia. Muito lhe devemos, charissimos irmãos, polo santo exemplo que nos deo com os trabalhos, e despresos, e iniurias que padeceo nesta vida, em terras e reinos dos infiéis, com os quais trouxe grande numero de almas ao caminho da verdade, tão inteiro e alegre ao principio como ao cabo; em esta terra não se pode bem crer que hum homem de carne podesse sofrer os trabalhos, que delle se dizem que sofria polias terras donde chegava, e vede-o pola sua morte temporal que, como vos dixe, foi no reino da China, donde estava, em huma serra deserta ao tempo que faleceo, em huma cabana de palha, ou de ramos de (7) Correcção de: finado. (8) Correcção de: dixese. 3 8 7
  • arvores, tão desamparado das consolaçois do mundo, como abastado das do Senhor, a quem tão fielmente sirvio em sua vida. Alguns portugueses estavão ali com suas naos, como dixe atras; os quais tinhão suas moradas e choças a borda do mar e, sabendo que estava o padre enfermo, subirão assima a serra, onde o acharão ia mui flaco, e estiverão com elle ate que passou desta vida. O Irmão Pedro de Alcaceva, quando vinha do Japão, vio este lugar e diz que he a serra mui alta, e chea de arvoredos; faleceo a 2 de Dezembro de 1552, seja o Senhor louvado por tudo para sempre. »•] // Agora vos escreverei de algumas cousas que depois sucederão, e o fim que o Senhor lhes deu; ja vos dixe como o Pe. Belchior, indo a buscar o corpo do Padre Mes- tre Francisco, avia levado consigo hum homem de fora, que o havia conhecido em Japão; este homem se chama Fernão Mendes, o qual avia muitos annos que andava tratando nesta terra de Japão, pera a China e pera Pegu, aquirindo com isto muitas riquezas em muitos anos, que nisto gastou, e depois desta ida que foi com o Padre Mestre Belchior, moveo-se tanto que veo a ter muito amor a esta casa, fol- gando muito de praticar com o padre; e aconteceo huma vez que foi necessário ir o Padre Mestre Belchior da outra parte do rio desta cidade a huma irmida de Nossa Senhora e o levou consigo; estando la, se pos o padre a praticar com elle, e preguntar-lhe muitas cousas de Japão, e polo modo da terra e gente; elle lhe contou, dizendo-lhe que em nenhuma outra parte do mundo se podiria fazer maior serviço a Deos que naquella terra, pola disposição que em ella avia visto, o tempo que la andou, e em isto começou a falar palavras que bem parecião palavras inspiradas polo Spiritu Santo, dizendo que o mais de seu tempo tinha gastado em buscar fazenda, e que estava aparelhado pera 388
  • ir-se a Portugal a gozar delia, e todavia, polo muito fruito que sintia poder-se fazer em Japão, que se o padre se despusesse a ir la, que elle, desde essa ora, despidia de si quanto possiia (sic), e se iria com elle a acabar sua vida em tão santa obra; estas cousas dizia com tanta efficatia que ficou algum tanto suspenso, e elle acrecentou que não somente o dizia assi, mas que logo o poria por obra orde- nando o Senhor que o padre fosse, e que de quanto tinha tomaria logo tres ou quatro mil cruzados, ou o que fosse necessário para edificar hum collegio em a principal cidade de Japão, donde o Padre Cosme de Torres, que la anda, esta em hum assento que el-rey tem dado para isso; vendo o padre como vinhão da mão do Senhor que hum homem tão mitido em beis temporais, aquiridos com tantos traba- lhos, os tivesse tanto zelo da obra de Deos, determinou por outrem em seu lugar e ir-se a Japão, mas timia não impidisse o senhor viso-rey o caminho, e assi, logo que chegou a cidade, foi a sua casa pedir licença, e entrando pola porta, para que se visse mais claramente a suave disposição do Senhor, achou ho senhor viso-rey lendo huma carta del- -rey (9) de Japão, em que lhe escrevia o grande contenta- mento que tinha, por andarem nossos padres pregando em seu reino nossa santa fe, e do muito fruito que tinhão feito e fazião; e estando assi lendo // olhou pera o padre que C'85 vinha e, antes que o ouvisse, lhe dixe que era o que fazia, por que não se ia pera Japão, terra onde tanto fruito se fazia; o padre lhe respondeo que elle não vinha senão a pedir-lhe lisensa pera isso, e que pois a Sua Senhoria lhe paricia tam bem, que elle se ia logo aperceber, e assi se veo ao collegio onde Fernão Mendes o estava esperando o homem que digo e ficou muito consolado (10), quando (9) BIMINEL: de hum rei. (10) Correcção: este homem. 389
  • soube que o padre vinha desembaraçado do senhor viso-rey; e porque não ouvesse algum embaraço, de que se acustumão atravessar a tão santos propositos, começou a distribuir o que tinha ganhado com tanto trabalho e perigo do corpo e alma, fazendo muitas esmolas a pobres e outas esmolas de misericórdia. Comprou também muitas pessas ricas pêra levar aos príncipes e reis de Japão, porque são mui polidos em seus traios; a muitos escravos que tinha forrou; mandou-lhes que conhecessem a Deos por Senhor day por diante; tres delles, vendo sua determinação, se lhe deitarão aos pes, chorando que querião ir com elle a Japão, outros tres deixou neste collegio para que, dipois de insinados, tomassem a vida que quisessem. Como o senhor viso-rey soube que este Fernão Mendes (11) ia a Japão (ainda que não se diga o como hia (12), porque o incubria elle sempre) man- dou-o por seu embaixador para o mesmo rey, respondendo as cartas que delle tinha recibido, encomendando-lhe muito os padres que la andão, e o Padre Mestre Belchior que agora ia, o qual se aparelhou (13) para o caminho mui presto, tomando por seus companheiros hum padre de missa, com sinco irmãos, e mais Fernão Mendes e sinco mininos da doutrina; e asi despedidos do senhor viso-rei e dos irmãos, aonde mostrou o Padre Mestre Belchior o grande amor que a todos nos tinha no Senhor. Fernão Mendes vai, como dixe, por embaixador do senhor viso-rey, mas, in sua alma leva imprimida outra mais alta embaixada e pera comprir com a primeira se conformou com o costume da (XI) A cópia da BIMINEL não indica o nome do Irmão Fernaão Men- des, isto é: do conhecidíssimo Fernão Mendes Pinto; BACIL: idem. (12) Correcção de: e não contudo de que maneira ia. (13) Correcção de: aparelhando-sse. 39°
  • terra a que ia, fazendo hum vistido muy rico, com propó- sitos de, acabada a embaixada, o apresentar a el-rey de Japão, e tomar o que convém a vida que a-de fazer; prezera ao Senhor que se sirva delle em aquella terra, porque he em ella muito conhecido del-rey e senhores principais do reino, pola frequentação que tinha la; e no tempo que nosso Padre Mestre Francisco la esteve se achou elle ai com os outros portugueses; e porque os gintios vissem quão estimado era o padre delles, diante do mesmo rey e senho- res, tiravão as capas e as punhão no cham, para o padre se asentar, quando falava com el-rey, o qual redundava em muita gloria do Senhor e proveito dos gentios que disso se edificavão. Despois de ido o Padre Mestre Belchior, pregando aqui no collegio hum padre nosso, se tem feito proveito, por graça do Senhor, e algumas molheres se ão apartado de viverem mal. Hum dia de festa, estando na doutrina, entrou hum gintio pola // porta da igreia e, rompendo por entre [i85 *.] a gente, se pos defronte do púlpito, dizendo com voz alta que queria ser christão. O padre lhe disse que se assen- tasse e, depois da pregação, o trouxe a casa, onde foi doutrinado e feito christão; este he o modo que ca se tem com a gentilidade que primeiro ão-de saber a doutrina que os bautizezm. O Padre Micer Paulo tem muito servido Nosso Senhor em doutrinar e bautizar muitos christãos; este gintio, como foi bautizado, se foi para huma ilha que esta da outra parte do rio, aonde converteo outros, e os trouxe ao colle- gio, mas a sua molher achou mui dura, com a qual tra- balhou tanto que ia agora aprende a doutrina, com pre- posito de bautizar-se. Esperamos no Autor de todo o bem que abrande cada dia mais os corações de toda a gintili- 391
  • dade, e mande desse collegio obreiros as partes onde os (14) ainda não ha. A 25 de Setembro, chegou o senhor Dom Pedro Masca- renhas que vinha por viso-rey e em sua companhia o Padre Francisco Vieira e Diogo do Souveral, com que nos alegramos muito no Senhor; no collegio e fora tem os padres as ocupaçõis acustumadas, e todos se ocupão em o que a santa obedientia lhe ordena. Tendo ia escrito atequi, me derão huma carta escrita por comissão do padre nosso Ignatio das cousas que prin- cipalmente quer nosso Padre ser informado la em Roma. E quanto ao que nella dix, que os padres que andão por diversas partes lhes fação escrever alguns meses antes que partão as naos para Portugal, para que se saiba inteira- mente de todos, não he possível, porque muitos delles estão em partes que, polia muita distantia, se passa hum anno e as vezes dous que nem elles sabem de nos, nem nos delles, como são os de Maluco, Japão, Malaca e Ormus, onde esta o Padre Antonio (15). Esta terra he huma ilha pequena e seca, onde todas as cousas vem de fora em abastança; esta no começo do estreito de Baçora; da parte do Norte tem a Persia, da qual dista duas legoas; do meo dia, Arabia, de que esta nove ou des. Ai em Ormus muitas naçõis, entre as quais, por graça do Senhor, esta o Padre Antonio (16) e com sua aiuda faz muito fruito. Em Baçaim esta o Padre Gonçalo Roiz no collegio; e ilha grande de gentios, com quem estão misturados muitos mouros, por estar perto de Cambaia; 4 legoas de Baçaim, esta huma ilha pequena chamada Tana (17), onde esta (14) Correcção: nas quais. 15) BACIL: o nome e várias palavras estão riscados. 16) Correcção de: Heredia. A cópia de BIMINEL omite o nome; BACIL: idem, encontrando-se várias palavras riscadas e substituídas por onde esta a Companhia e se faz muito fruto. (17) Correcção de: Tara. 392
  • o Padre Francisco Anrriquez, e ai obra o Senhor tanto em a gentilidade e o mesmo em Baçaim, que he cousa para louvarmos todos suas misericórdias; 200 (18) legoas desta cidade, pola costa abaixo, esta Cochim, donde esta o Padre Francisco Peres; he huma cidade grande, onde estão muitos portugueses casados e soldados; obra muito o Senhor em suas almas, especialmente em muitos christão da terra porque he // de muitos gintios e mouros, e o de redor O86 muitas ilhas e reis delias; chama-ce esta gente malavar, da qual ao presente ay maior numero de christãos que das outras naçõis da gintilidade. A 24 legoas de Cochim esta Coulão, onde esta o Padre Nicolao; ay nestas terras muitas christandades, louvado seia o Senhor; a gente he malavar ate o Cabo de Comorim. A vinte e seis legoas de aqui, esta o Comorim onde anda o Padre Anrriquez, a quem o Senhor fas muitas mer- cês, porque trabalha muito naquella terra, e contudo e mui persiguido dos mouros; o Padre Francisco Lopes, que agora esta aqui, diz que avera em Comorim sento e vinte sinco mil christãos. Ali (19) no Comorim torna a costa fazer huma volta pêra occidente, para onde corre a costa de Charamandel e Santo Thome, onde esta o Padre Cy- priano; ai nesta terra outras naçõis de gentilidade mais duras de domar. Em Malaca, que esta quasi setecentas, 700, legoas daqui de Goa, esta agora o Padre Antonio Vas; em Maluco, esta o Padre João da Beira e o Padre Antonio (20) de Castro, com dous irmãos, onde nos dizem que se a feito gran numero de christãos; esperamos por cartas suas, para saber- mos a verdade, porque he viagem tão longe de aqui de (18) BIMINEL e BACIL: Cem. (19) Correcção de: aqui. (20) BIMINEL: Afonso. 393
  • Goa a Malluco, que se poem nella tanto ou mais que de Portugal a índia. Em Japão, estão ao presente doze pessoas da Companhia e sinco mininos da doutrina; da carta do Padre Cosme de Torres saberão o muito que o Senhor obra em aquella terra, e o grande aparelho que ai em a prudentia e constantia daquella gente e boa vontade del-rei e principes dela, para prantar-ce em toda ella nossa santa fe, como se ve polo que o Senhor a obrado desde a entrada de nosso Padre Mes- tre Francisco ate agora. Para o anno que vem, prazendo a Nosso Senhor, se dara ordem pera que destas partes saiba mais perfeitamente nosso Padre Inatio, segundo manda. Agora no mais, se não que continuamente encomendem ao Senhor estes seus irmãos que, ainda que mui distantes e ausentes estem delles corporalmente, estão muy prezentes no amor. Deste collegio de Sam Paulo de Goa, a 23 de Dezem- bro de 1554. Arias Blandon (21). (21) BIMINEL e BACIL: falta a assinatura. 394
  • 75 NOTICIA DO QUE OBRAVAO (SIC) OS FRADES DE S. FRANCISCO, FILHOS DA PROVÍNCIA DO APOSTOLO S. THOME NO SERVIÇO DE DEOS E DE S. MAGESTADE, QUE DEOS GUARDE, DEPOIS QUE PAÇAVÀO A ESTA INDIA ORIENTAL Documento existente na BAL: — Fundo Geral, n.° 177; havendo duas cópias: uma da folha 1 a 32, e a segunda da folha 38 a 68 v. Segue-se a segunda. Mede 313x213 mm. Em bom estado. Há bastantes abreviaturas que se desenvolvem sem indicação, por se tratar de documento do século xvin, sem especial valor paleográfico. Os subtítulos são nossos. Cremos facilitar, assim, a leitura deste interessante manuscrito que resume o aposto- lado franciscano até 1772. 1 — Primeiros franciscanos que foram à Índia Pera sempre immortal nos anaes da fama, el-rey Dom Manoel, nosso senhor, de glorioza memoria, pello grandíssimo zello que tinha da fée que da exttenção do seu reino, mandou descubrir a índia oriental por Dom Vasco da Gama no anno de 1497. Voltou Dom Vasco da Gama com a nova do que vira e descubrira do estendido paga- nismo, cuja conversão era o fim de el-rey mandar logo preparar a segunda armada, em que emviou por capitam- -mor Pedro Alvares Cabral, e para que não faltassem ope- rários para que naquelle paganismo dyspertassem com o pregão do Santo Evangelho, foram nomeados oito relli- giosos menores, filhos da Província, da cidade de Lisboa, e por prellado de todos ao Reverendo Padre Frei Henrique de Coimbra, varão de aventejadas prendas e singulares virtu- des, como se vio no incansável trabalho que teve logo no 395
  • principio que se conquistou a índia; os outros companheiros se chamavão Frei Gaspar, Frei Francisco da Cruz, Frei Simão de Guimarães e Frei Luis do Salvador, todos quatro prega- dores e excelentes letrados, Frei Masseu, sacerdotee orga- nista e musico, Frei Pedro Neto, corista de ordeens sacras, e Frei João da Victoria, frade lego. Estes forão os oito vazos da eleição eterna que o Senhor escolheo para levarem seu nome santissimo aos reis e regioens mais distantes e remotas do mundo; estes forão os primeiros fundadores desta província do apostolo S. Thome, da regular observância de nosso pai S. Francisco; e nas mais armadas que, ao diante, se continuarão para este Oriente, sempre os sereníssimos reys e senhores nossos, com o mesmo zello da propagação da fee, forão mandando frades menores da referida província de Portugal, que se emcorporarão na custodia de S. Thome que hoje hé pro- víncia. Estes forão os primeiros operários que em 42 annos, sem mais companheiros de outra profição, cultivarão esta vinha do Senhor, achandosse nos annos antecedentes chea de abrolhos, e espinhos, que tal a tinha deixado o commum inimigo. 2 — Apostolado dos primeiros franciscanos em Calecut Chegou o venerável Pe. Frei Henrrique de Coimbra com os seus companheiros a Callecuti e pregarão nelle a fée com ardentíssimo zello, a que suscederão varias disputas entre os nossos relligiosos e os sacerdotes dos idolos, cha- mados bracmanes, e de todos sahio triumphante a palavra evangélica. Hum delles, muito douto nas suas fabulas, o qual também era jogue, se deo a conhecer claramente por convencido, e exclamando ser verdadeira somente a relli- gião catholica, confirmou o testemunho, recebendo a agoa 396
  • do Baptismo, e se chamou dahy em diante Miguel de Santa Maria. Converteram-se também muitos naires, que professão a millicia (l), como também grande parte da gente ple- bea. // Vendo pois os mouros que rezidião em terra, mer- [38* cadores que erão de muita fazenda, que se perdião no comercio com desdouros do seu propheta Mafoma, que ultrajado os via sempre na boca dos benditos padres, levan- tarão hum motym, com que os gentios da terra, cegos em os seus apetites como leoins ferozes, entrarão na caza da feitoria, aonde os nossos relligiosos estavão, e matarão tres, e o Venerável Padre Frei Henrrique de Coimbra sahio bem ferido, e não logrou então a palma do martírio, por Deos o ter decretado para conversoins de infinitas almas. Foram mortos os tres referidos mártires a 16 de Novembro do sobredito anno, em que tinhão partido de Lisboa. Passou o Pe. Frei Henrique, com os tres companheiros que lhe ficarão, a pregar o Evangelho em varias partes desta índia oriental, do modo que de Manamutapa thé o termo dos Ganjes andarão pregando sempre, e o fazem thé o dia de hoje os seus suscessores, derramando seu sangue e padecendo martírios, como hé patente a toda índia oriental. Voltou Frei Henrrique para Portugal, onde pello tomar Sua Magestade por seu confessor, e o fazer bispo de Ceuta, não tornou a índia; porem informando pessoalmente a el-rey nosso senhor da necessidade que tinha a índia de mais cultores, no anno de 1505 mandou mais frades meno- res que se emcorporarão nesta província de S. Thome que continuarão com a pregação do Santo Evangelho, confes- (1) Isto é: a vida militar. 397
  • sando em Qhiloa, no reyno de Manamutapa, padeceo hum delles o martírio pella confissão da fée, cujo nome o tempo nos escondeo. 3 — Apostolado do Padre Frei Luís do Salvador Em Narsinga os Bisnagaar, o Pe. Frei Luis do Salvador pregou de caminho ao rey de Diamper, convenssendo em varias disputas aos bracmanes seus relligiosos, os quaes, vendosse envergonhados, ultrajavão ao dito Pe. Frei Luis com pallavras mui affrontosas, ferindo-o com pancadas e bofetadas, e vendo o rey a pasçiençia com que Frei Luis soffria sem rezão tantos escarneos, ordenou a seus bracma- nes e outros jogues que houvessem entre elles e o padre Frei Luis outra disputa, com prova de mayor evidençia. E assim no dia do prazo fizerão os bracmanes huma grandíssima fogueira, convidando ao venerável Frei Luis que se elle lançasse naquella fogueira o seu cordão e que elles também lançarião na mesma fogueira huma toca, que hé hum pano que os gentios trazem ao redor da cabeça, fiavão-se elles que a toca sahiria do fogo sem lezão, por estar ja chea de muitos fetiços por elles adqueridos do demonio; porem o venerável Frei Luis, quando vio a fogueira nos seus mayores auges, tirou o cordão que o trazia singido, e com fée viva lançou no fogo. Não poude a voracidade deste ellemento não só queimar, mas nem ainda manchar hum fio do cordão, e tendo sido lançado no mesmo tempo a toca ou pano pellos bracmanes, no mesmo instante se fez em sinza, e quando cuidou o Pe. Frei Luis que com este prodígio divino se reduzirião todos ao conhecimento do verdadeiro Deos, foi novamente pellos jogues e bracma- nes // ferido e soutado, tratando-o de feticeiro, e areme- çando-o lhe tirarão o habito, pondo-o só em panos meno- res, deitando-o com arremessos na estrada publica. 398
  • Bauptizou o venerável Pe. Frei Luis do Salvador, sem embargo de suas pressiguiçoins, neste reyno muitas almas. A hum gentio que andava dezesperado, como outro Caym, foi bauptizado pella doutrina do servo de Deos Frei Luis. Encontrandosse huma vez com hum jogue, em quem o demonio fallava, perante Frei Luis emmudesseo de tal sorte que não poude articular palavra alguma; os bracmanes, de confusos e emvergonhados, tornarão atrebuir aquelle segundo prodígio a arte magica; novamente por isso foi o servo de Deos pellos bracmanes asoutado e lapedrejado, porem Deos o rezervava para outros mayores serviços. Vendo pois o rey tantos prodígios no padre Frei Luis, o admitio na sua corte, dando-lhe ampla licença para fazer igreias e pregar os Evangelhos aos que livremente quizessem ouvir. Foi tal a privança que tem com o rey que o dito aceitou por seu respeito amizade com o Estado da India, e no anno de 1505 se fizerão em Cananor os concertos com o vice-rey Dom Francisco de Almeida, hindo por embaxador em companhia de hum grande daquella corte, e forão os taes concertos de tanta importância ao Estado que o rey foi pessoalmente socorrer a cidade de Goa contra todas as forças do Idalsão (2), pois dahi a pouco este inimigo entrou nas terras de Bardes e Salcete, e com bem trabalho dos Portuguezes, e com ajuda divina alcançarão a victoria do dito Idalssão e como este fosse mouro de nação, vendo que o dito padre Frei Luis do Salvador não só adquiria tantas almas para o rebanho de Cristo, mas ainda era o que dava calor a que o exercido gintilico ajudasse ao Chris- tianismo, sobornou hum mouro de sua mesma nação para (2) Isto é: Idalcão. 399
  • que matasse ao dito padre Frei Luis, o que se executou pello mesmo mouro na mesma cidade de Narcinga ou Bisnagar. 4 — Apostolado do Padre Frei Francisco do Oriente Alguns relligiosos mais da mesma nossa província, emtão custodia, entrarão nesta missão, porem aproveita- rãosse delia segundo a inclinação que acharão no rey. Entre os mais foi o venerável Pe. Frei Francisco do Oriente no anno de 1600, varão apostolico e de relevantes prendas. Sabia as lingoas que corrião pela India, era afavel, muito versado nas superstiçoins gentílicas, causa por que deixava por instantes aos bracmanes e jogues confundidos; andava singido com huma corda de nós, que lhe penetravão a carne, sempre rezou de joelhos o officio divino. Hum dia, com huma grande crus as costas, descalsso, sendo o aspeecto hum símbolo de penitencia e com a vós de hum trovão, fes pasmar toda a gentilidade, pregando- [39 v.] -lhes na propria lingoa, com que muitos // dos gentios se converterão, e hindo onde estava o rey e posto de joelhos ao pée de sua cruz lhe intimou a embassada do rey da gloria; foi ouvido com muita benevolençia por espaço de muitos mezes, mas não lhe respondia a preposito, por- que os seus bragmanes, como também os seus cegos apetites, os divertirão, pois tinha não menos que 700 mulheres. 5 — Padre Frei Antonio do Loureiro O Malavar consta de 25 reynos. Em todos pregarão e plantarão a fée os frades menores, filhos da província do apostolo S. Thome, e o fazem thé o dia de hoje, aonde tem suas christandades. Mas, por guardarmos boa ordem, começemos por Sacatorá, onde Frei Antonio do Loureiro, 400
  • com coatro companheiros, filhos da província de S. Thome, pregarão sinco annos contínuos, reduzindo os christãos cha- mados de S. João que se achavão prevertidos nos costumes da Igreja Romana, e assim converterão muitos gentios, e alguns mouros, e deixando nella seus companheiros passou a Cambaya, aonde deu o pregão do Santo Evangelho aquelles barbaros, e pregando o mesmo rey Soltão Mamud que, ainda que por barbaro não admitio os celestiaes avizos, não desprezou comtudo a pessoa do padre Antonio do Loureto. Na marítima do mesmo reino de Cambaya, o reverendo Padre Frei Antonio do Cazal, custodio que então era desta provincia de S. Thome, com dous companheiros fizerão muito frutto com a palavra divina no gentilismo. 6 — Padre Frei Antonio do Porto ✓ " . . .. , f • Frei Antonio do Porto, varão insigne en toda virtude, muy conhecido nas letras, quem poderá declarar quantos gentios e mouros convençeo e bauptizou pellas suas mãos na cidade de Baçaym e suas terras confidentes? Instruirão elles e seus companheiros na ley de Christo a cidade e termo que terá duas para tres legoas, no qual fize- mos sinco igrejas de rezidençia para dos novos cristãos. Dous mill delles se achavão na reytoria de Agaçaym, e hoje pella graça do Altíssimo ha muito mayor numero. Aqui fundamos hum collegio para quarenta meninos orphãos, tomando por nossa conta a ensinallos a ler e escrever e contar, bons costumes e doutrina christã, e para sustento quotidiano lhes derão alguns devotos bastante fazenda por nossa industria. Estes meninos, depois de bem educados, ajudão grandemente aos nossos relligiosos na conversão dos infiéis. Quatro delles forão tão venturozos que morre- Doe. Padroado, v - 26 401
  • rão queimados vivos dentro de nossa igreja, por não que- rerem apostatar da fée. Deixando o Pe. Frei Antonio do Porto nesta parte alguns de seus companheiros, e fundando hum convento de nosso instituto, entrou para ilha de Salcete, que consta de 114 aldeas, povoadas de gentios. De repente se virão as maravilhas do ceo; os pagodes, aonde se davão culto aos falssos deuzes, forão transformados em habitaçoins de [40] Deos verdadeiro. // Os musteiros dos jogues, que são os relligiosos da gentilidade, conseguirão a mesma forma, e no principal pagode, a quem chamão do Canarym, bauptisousse hum jogue pripcipal de 150 annos de idade, que depois viveo mais 45. A seu exemplo se bauptizarão mais sincoenta jogues do pagode de Manapaçer, fazendo do dito pagode igreja, com orago da Senhora da Piedade. Discorreo o venerável Frei Antonio do Porto por toda ilha, na qual fundou mais onze igrejas, fazendo a de Mannapaçer collegio para criação de cem meninos con- vertidos novamente, para a qual fundação e sustentação el-rey D. João o 3.° nosso senhor lhe aplicou tres mil cru- zados e 24 aldeas para que o dito padre a destribuisse em seu nome aos novos converssos. Dez mil cento e sincoenta almas forão bauptizadas nesta ocazião e lançados por terra duzentos pagodes, em que era o demonio venerado. Pas- sousse ao destricto de Tana, na mesma ilha, e como esti- vessem ao redor de hum tanque doze pagodes em que vivião jogues a maneira de ermitões, fazendo penitencia, e pregando lhes Frei Antonio do Porto a verdade do Santo Evangelho com tal felis energia, que logo os con- verteo a nossa santa fée, e derrubou todos os doze pagodes. Passou-se a ilha de Caranja, aonde logrou igoal fortuna que, admitido dos idolatras, fundou huma igreja com hum |Q2
  • seminário para creação de meninos sustentados a custa dei rey nosso senhor. 7 — Apostolado em Baçaim, Bombaim e Salcete Espalhados andavão os nossos relligiosos por alguns braços que estende o mesmo rio de Baçaym, são os seus nomens a ilha do Elefante, Taná, Caranjá e Bombaim. Queimarão muitos pagodes com perigo evidente de suas vidas. Era tanto o fervor que só em sua aldea de Bombaym bauptizarão em hum dia mais de tres mil almas; daqui também acudião aos christãos da Serra de Assarim, com grandíssimo trabalho, em rezão de sua eminençia. O vene- rável padre Frei Antonio do Porto, que havia dado prin- cipio a esta obra ilustre, mediante a graça de Deos, depois de rezidir em Salçete, cheo de merecimentos e infermidades, voltou para Baçaym, donde a divina clemência emcaminhou sua alma ao logro da eterna retribuição. 8 — Apostolado em Damão, Dio e Chaul Em Damão, Dio e Chaul não trabalharão menos os frades desta província do apostolo S. Thome. Quando o governador da índia Nunno da Cunha foi sobre Damão com huma grande armada, o Pe. Frei Antonio de Padrão ajudando a confessar os soldados, animando-os a pelejar, tanto assim que dizião estes que os frandes de S. Francisco erão os que lhes infundião alentos e brio para a peleja. No cerco da fortaleza de Dio, asistião os frades de S. Francisco desta província de S. Thome, e hindo o vice-rey D. João de Castro de Goa com o socorro, não quis hir sem que em sua companhia levasse ao padre Frei Antonio do Cazal, custodio que então foi desta pro- víncia e commissario do papa, antes que buscasse ao ini- *°3
  • migo. No campo disse missa, deo a sagrada comunhão, conçedeo a todos os christãos as indulgências que se alcan- ção em semelhantes batalhas, sahio com o vice-rey com sobrepeliz e estola e huma lança nas mãos, em que levava a imagem de Christo crucificado, esclamava com alentadas vozes a todos, pedindo-lhes defendessem a honrra daquelle [*>v.] senhor. // A vista disto, conceberão os soldados tanto esforço que soltavão como leões contra o innimigo do nome de Christo. Ao romper de sua trincheira afroxava hum tanto os soldados pello grande perigo em que se vião; então levantou o Pe. Frei Antonio do Cazal a vos, subindo a hum alto com o crucifixo, e com isso foi a cauza de ganharem os portuguezes huma das maiores victorias do mundo, que recolhendosse o vice-rey a Goa, em acção de graças, foi em procissão ao nosso convento de Goa, levando debaixo do palio ao mesmo padre Frei Antonio do Cazal com a sua insignia de Christo crucifixado, ficando o vice-rey tão devoto a nosso padre S. Francisco que, depois do acto, elegeo no mesmo convento ou igreja, na capela mor, sepul- tura para o seu corpo, e hindo o venerável padre Frei Anto- nio do Cazal a Portugal por ordem dos prellados, cheo de merecimentos, acabou a vida temporal em o nosso con- vento de S. Francisco de Lisboa. Na cidade de Damão, no mesmo reyno de Cambaya não obrarão com menos zello os nossos relligiosos desta província de S. Thome no anno de 1559, sendo vice-rey D. Constantino de Bragança que, hindo pessoalmente, levou em companhia ao venerável Pe. Frei Belchior de Lisboa que tãobem no conflicto com o crucifixo na não alentava aos soldados a pelejar, e acazo cahindo a sua imagem na passagem de hum rio, o padre pedio alviçaras dizendo que Deos santificava aquellas agoas para nellas se bauptizarem muitas creaturas. Assim aconteçeo, porque não havendo
  • daquelle rio para dentro christao algum, por espaço de pouco tempo se contarão mais de trinta mil christãos. A dissenção da cidade de Chaul, do reino de Lisa- maluc (3), tiverão os portugueses mayor trabalho no anno de 1570, aonde o rei chamado Nizamuxá a vinha opprimir com hum grande cerco, e entre muita gente que trazia vinhão muitos elefantes que metia pavor. Entre os nossos se achava o Pe. Frei Fernando Peixoto que, vendo a grande multidão do innimigo, foi logo a Goa a buscar socorro que sérvio aos portuguezes de grandíssima utilidade para se deffender aquella praça, adonde se achou também hum frade leigo, por nome Frei Antonio, de agigantada esta- tura, o qual nessa occazião obrou maravilhas, asim em ani- mar os soldados, com o cruxifico na mão, como que tra- zendo clle na outra mão por arma huma chussa, com ella matou huma multidão de mouros, tanto asim que nenhuma couza parava diante delle, e foi morto de huma baila do innimigo. 9 — Apostolado em Goa Na ilha de Goa fizerão os Frades Menores, filhos da Província de S. Thome grandíssimos serviços a Deos Nosso Senhor; nos primeiros oito bauptismos geraes bauptizarão sete mil almas; no anno de 1645 pellos livros do bauptismo se acharão nesta ilha 3671 christãos, entre grandes e peque- nos, bautisados pelos Frades de S. Francisco da Província de S. Thome, e sendo vice-rey João Nunes da Cunha, conde de S. Vicente, pellos annos de 1667 se numerarão outra vez os bauptizados e acharãose sincoenta e tres mil quatro centos e cincoenta, e asim todos os annos em os bautismos geraes (3) Isto é: Nizaraaluco. 4 °5
  • se forão bauptizando mais de quinhentas almas, precedendo sempre sermão em lingoa dos mesmos naturaes, e ainda thé o dia de hoje continuam no mesmo exercício de adquirir almas para o çeo. Supposto ja não hé o numero dos cate- cumenos como era antigamente por estar // ja a ilha de Goa, Salcete e Bardes cheia de christãos, estas maravilhas que hoje na província de Bardes aonde os frades de S. Fran- cisco, da província de S. Thome tem 24 parrochias, se achará em certo modo por milagre haver em qualquer das freguezias huma ou duas cazas de gentios, porque todos com a favor divino são ja christãos, e outros ja filhos e netos também de christãos, e se são algumas casas de gentios são na fregasia de Mapussa, vindo de outra banda, que como são mercadores da roupa e de outros comércios, assis- tem com suas cazas na dita aldea em rezão da feira que em todas as sestas feiras da semana na mesma aldeia se fas, e não he tão pequeno favor do çeo que sendo Bardes a gema de toda gentilidade, hoje se ache quasi de todo desarregado do gentilismo. 10 — Os FRANCISCANOS CULTIVAM AS LÍNGUAS INDÍGENAS Muito devem estes christãos aos primeiros varoens que cultivarão esta vinha do Senhor, pois com muito trabalho seu aprenderão a lingoa da terra e forão ao depois exce- lentes mestres de lingoa, como forão os Padres Frei Amador de Santa Anna, e Frei João de São Mathias, que em dous mil versos escreverão em lingoa a doutrina christãa e mis- térios de nossa fee para que, cantando christãos, lançassem mayores raizes na fée catholica e que, ouvindo os gentios, abrissem os olhos para abraçarem a fée. Frei Gaspar de S. Miguel, frade tãobem da província de S. Thome compôs em estillo poético huma obra inteira na mesma lingoa de naturaes açerca dos coatro novíssimos para o mesmo fim, 406 ntt.
  • e asim compos outros livros confutatorios de idolatrias, outro livro também em lingoa sobre os sete sacramentos da Igreja, e preceitos do Decálogo, e outro símbolo da fée; fez mais huma arte para se aprender a lingoa, e hum voca- bulário. Frei Manoel Banha, filho também da mesma província compos outro vocabulário muy copiozo. Frei Ma- noel Bauptista, da mesma província, fes hum cathesismo em lingoa. Frei Manoel do Lado reduzio a cartilha para criação de novos converssos. Huma explicação do credo e artigos da fée em lingoa compos proximamente o Padre Frei Domingos de São Bernardino, nascido na índia, filho desta província, mestre em lingoa e actualmente Comissário do Santo Officio da Província de Bardes. A estes zelladores appostolicos da palavra divina tiverão os da província de Bardes por primeiros mestres do spirito, e porque não sahirião também educados elles continuarão sempre muitos varoens asinalados em vertudes. Chegou esta província de S. Thome a ter 32 mestres em lingoa e excellentes pregadores na mesma lingoa. Ainda nestes pró- ximos annos nos falecerão 13 dos melhores, e hoje pela calamidade do tempo, e falta de sogeitos, temos ainda 11, que continuamente asistem nos púlpitos, pregando em lin- goa na occazião de missões, e em outros dias de concursso; o mesmo fazem, a imitação de seus antecessores, nos con- fissionarios estes, e mais de 40, que supposto não pregão no idioma da terra, por se necessitar mais uso dos vocá- bulos, falão e entendem sufficientemente para uzo dos // [<»»•] conficionarios. He muito para notar que, tendo eido pella mayor parte os de Bardes mestres de idolatrias naquella antiga gentili- dade, hoje são mestres muy peritos, pella mayor parte, da ley de Christo, pois por afrontosa se tem a família ou caza que não tenha nella ao menos hum sacerdote, e os pays se esmerão que com dispêndio seu a que elles sejão 4°7
  • bons estudantes e pregadores; a que se deve essa exccellen- cia senão ao grande zello dos frades de S. Francisco, da província de S. Thome, pois do seu trabalho e boa educa- ção procederão estas tão boas conssequencias ? 11 — Apostolado em Bardez Mas, tornando o trabalho que os frades da província de S. Thome tiverão na missão de Bardez, hé difficultozo o narrarsse, mais que em summa. Derrubarão 300 pagodes aonde os falços deozes erão venerados; quando queríamos eregir algum templo ou dedicar algum pagode ao verda- deiro Deos, queixavãosse os demonios com pavorozas demostrações de os espulçarem de sua caza; em humas partes se andava despido de seus sequazes, em forma de cabra, e em outras, aonde lhe chamão a deoza negra, arti- culava o demonio sintidissimas razões, magoado da forçoza auzencia. Huma vez que pretendia tomar satisfação e vin- garsse, entrou no corpo de huma molher, e repetia com gritos que se partia, e entrando pela igreja de Mapussa e, posto no púlpito, se pôs a apedrejar a quantos entravão nella, asim relligiosos como dos novos convertidos, mas os padres, formando logo huma proscissão com o Santíssimo Sacramento, o fizerão largar Ovposto, e cessarão os insultos diabólicos. Logo ao diante trataremos do fructo que nas missoins próximas colhem em Bardez os frades de S. Francisco, de toda a província em commum e de muitos particulares, que as suas custas sustentarão cathecumenos e despende- rão na conducção delles para que se veja que ainda não degenerarão, segundo os tempos, do zello, fervor e deli- gencia dos primeiros seus progenitores. 408
  • 12— Missão franciscana no Grão-Mogol No Gram Mogor partirão nestes mesmos annos dous frades da província de S. Thome:: Frei Manoel Tobias e Frei João de Nazareth. Faltarão aquelle cego monarcha, esplicando lhe em breves palavras os mistérios principaes da nossa fée, com fervor, tendo varias disputas com seus cacizes, sahindo sempre triumphante a pregação evangélica, porem como os mouros seja gente tão obstinada na sua seita, pouco ou nenhum fructo fizerão. 13 — Na costa do Malabar Pella costa de Mallavar, Cananor e Cranganor evange- lizarão os frades da província de S. Thome a palavra divina, os padres Frei Luis de Salvador e Frei Simão de Guima- rães, e asim outros frades com muyto fructo, e asim em Cochim o padre Frei Vicente de Lagos, entre muitos que bauptizou, edificou hum collegio de oitenta estudantes, todos naturaes. Em dez annos que a vida lhe durou teve grandíssimo cuidado sobre os augumentos desta sua chris- tandade, e tres padres seus companheiros descorrião por outras partes em semelhante zello, especialmente pella Serra do Mallavar, aonde havia inumeráveis christãos, edu- cando-os nos mistérios da fée, que pellos annos de 1645, somente // no reyno de Cranganor, em espaço de 18 legoas [•«*] se numeravão 30 mil catholicos bem instruídos na fee, armados em 60 igrejas edificadas ao nosso modo. No reyno de Coulão entrarão os relligiosos da província de S. Thome na hera de 1503, governando o estado da índia o grande Affonso de Albuquerque. Pregou no dito reino de Coulão o Padre Frei Manoel de São Mathias com outros dous companheiros a ley de Christo e bauptizou só em hum anno mais de 700 almas; fes edificar sinco igrejas, 4°9
  • nas quaes se ajuntava este rebanho de Deos a alimentarsse com o santo pasto de sua doutrina. Outras fizemos nos coatro reynos vizinhos, Marta, Gundra, Batimene e Cali- coulão. 14 — Em Coulão Em Coulão, no anno de 1602, chegou a barra daquella cidade huma nao de Portugal. Chamavasse «S. Francisco de Assis», a qual encalhando em huma penha, não se podia mover; chegou a noite escura, que sem duvida seria teste- munho de seu naufrágio, se Deos lhe não dera o refugio. Tendo hido a lancha a terra, a hum dos marinheiros apa- reçeo o nosso Padre São Francisco, a qual entregou o seu cordão, dizendo-lhe que da mesma nao encalhada o pen- durasse no mar; veyo logo o marinheiro abordarsse com notável alegria e contando o cazo, e entregando o cordão e observandosse como nosso santo padre tinha recomen- dado, a nao apenas sentio a vertude superior, desandando cabrestantes, e trincando as amarras, deu hum salto para a parte contraria, com que se meteo no pego; o cordão se partio em relíquias; hum no inteiro do dito cordão coube ao nosso convento de Cochim que, por elle, obrou Deos infinitos milagres naquella cidade, e pella perda tão cho- rada que tivemos daquella cidade, por nos tomar o Olan- dez, trouxemos o dito milagroso nó do cordão para o nosso convento de Goa; está metido em huma redoma de vidro, de sorte que se vê por ambas as partes, e sendo a sua habitação na çella do guardião, quasi sempre anda por fora, porque os devottos, asim homens como molheres, se valem delle em suas doenças e partos, tem obrado e obra Deos pello nó do dito cordão em Goa grandíssimos milagres. Tendo os nossos relligiosos asim em Cochim como em Coullão convertido a Deos infinitas almas, edificados tan- ^ / o
  • tos conventos e igrejas, depois que os Olandezes crecas (s/c) aonde ensinão e pregão sua heretica doutrina. De nosso convento de Cochim fizerão os Olandezes almazens de armas, as cellas dos relligiosos servem de officinas de ferreiros, carpinteiros e outros semelhantes officiaes; porem os christãos que ainda lá vivem são tão fixos na fée romana que nunca os hereges os puderão fazer reduzir a sua here- tica seita. Em Coulão ainda temos 12 igrejas aonde com bem tra- balho, fome e cançeira asistem ainda hoje os nossos relli- giosos por parochos, e são tão atromentados dos reis da terra quee não podem ter hum fanao para a sua sustenta- ção, que he a moeda de ouro que tem duas tangas do vallor; não // só os reis, mas ainda os naires, que são como entre [43*.] nos soldados de milicia, tendo noticia que qualquer dos vigários tem qualquer couza para o seu sustento, tirão no da sua igreja, com impuxões e o poem no meyo da rua, quando o sol está mais no seu auge, e ahi obrigão o pobre relligioso que ponhão os olhos fintos no sol, e como seja impossível o obrigao no a punhadas e biliscõens a que perseverem naquelle impossível, e o deixão quasi cego. Em algumas destas igrejas não podem os parrochos sahir delias, como no reino de Pegu, por lhes não promitir os reys da terra, e asim la mesmo dão a vida naquellas mis- sões. Tanto asim que, querendo El-rey Dom Pedro o 2.°, nosso senhor, (por hum decreto seu que mandou a pro- víncia no anno de 1700) mandar hir para Portugal ao Padre Frei João da Assumpção, pella serventia que este relligioso tinha em saber podar canella, não teve a Província pouco trabalho de o conseguir, visto estar então o dito padre na missão do Sul, e havia mais de 25 annos que lá estava, e emfim por muita industria fez a Província vir o dito relligioso, e falleçeo na Bahia, depois de hir para Portugal. 47 1
  • 15 — Apostolado do Padre Frei Vicente de Lagos Em os reynos de Tanor, Porca e Ariol, tiverão melhor fortuna os frades da província de S. Thome, porque o rey de Tanor recebeo o sagrado bauptismo da mão do Padre Frei Vicente de Lagos, e tendo o rey alteraçoens entre seus vassalos, se soubessem acazo que era christão, e certamente havião de saber se o rey tirasse as tres linhas que, como bragmane, trazia pendentes no hombro, o Padre lhe pre- mido que pudesse uzar delias athe chegar o tempo, em que melhormente manifestasse a fée, com mayor proveito da christandade. Porem não foi este rey só o que chegou a fonte bauptis- mal, porque adiante veremos muitos; porem deo ao rey o Padre Frei Vicente de Lagos hum cruxifixo de ouro que trazia prezo nas mesmas linhas, em sinal de estar sogeito aquelle Senhor, que o remira na cruz. Em Goa lhe deo o Bispo Dom Frei João de Albuquerque o sacramento da santa confirmação, e foi recebido nesta cidade como prín- cipe sogeito a Igreja Romana, e a el-rey nosso senhor com solemnissima pompa; voltando ao reino, descobrio a fée e ley em que vivia, mandou passar hum decreto que todos seus vaçalos se fizessem christãos; fez levantar no seu reyno muitas cruzes e mandou fabricar huma igreja, aonde o bispo ja referido, também de nossa Ordem, lhe bauptisou publicamente hum filho, e disse missa pontifical. Sempre permaneceo firme na fée, trazendo em companhia hum relligioso de S. Francisco, e na hora da morte, recebendo os sacramentos todos pello relligioso que lhe asistia, e acabou desta vida com constância e actos de verdadero christão. 412
  • 16 — O CORSÁRIO CUNHALE PERSEGUE OS FRANCISCANOS No captiveiro de hum famoso pirata mouro, chamado Cunhale, no reino de Calicute, lograrão a palma do mar- tírio muitos de nossos relligiosos, filhos desta província de S. Thome; não se pode saber o numero certo dos que mandou // martirizar; Frei Francisco Gallego foi levado [<3J a sua misquita, e nella lhe cortarão a cabeça; a Frei Gaspar da Cruz lhe rasgarão o corpo com açoutes, porem nunca dezisttio de pregar a fée, e sabendo destas crueldades seu pay, que assistia em Goa, secretamente tratou de o resga- tar, e os mouros por não perderem o interesse as pancadas o lançarão do carçere; o Padre Frei Francisco Bauptista, varão de excelente vida, também foi por muito tempo e por muitos modos atormentado por este pirata, com asoutes e outras affrontas, e o tinhão prezo em grilhõens; porem huma noite, como outro S. Pedro, vio que os grilhões por sy se cahirão, e achando as portas do cárcere abertas, vendo ser asim a vontade do Altíssimo, dirigieo seus passos a praya, e em breve tempo se achou na cidade de Cochim, de que modo foi não soube dizer. 17 — Apostolado em várias partes No reino de Dialcão evangelizsão a mesma fée os Padres Frei Pedro e Frei Clemente, frades menores, filhos da província de S. Thome, os quaes não só com a prega- ção, mas ainda com prodigiozos sinais mostrarão os erros de sua idolatria. Nas províncias do Canara, hé mais de notar que de referir o que obrarão os frades menores da província de S. Thome. Em 1516 fundarão a igreja e convento, donde o guardião Frei Paulo de Coimbra, com seis relligiosos sahirão a pregar a fée catholica aos gentios e mouros, com *'3
  • grande lucro das almas. Ahi forão martirizados os Padres Frei Martinho da Guarda e Frei Estevão, sacerdotes, e hum irmão lego, por nome Frei Joam que gloriozamente sacrifi- carão suas vidas para confição da fée; também nesta mesma occazião lograrão a palma do martírio mais dous relligiosos, cujos nomes nos escondeo o tempo. O Padre Frei João de Elvas, Frei Xisto e Frei Francisco Galego forão martirizados no Malavar em o reino de Calicute pella confição da fée. Em Cranganor, o Padre Frei Vicente de Lagos reduzio a obediência da Igreja Romana aos christãos da Serra que andavão desunidos do grémio, infastados da heregia nisto- riana. Passou ao reino de Tanor, foi tão fervorozo o seu zello que converteo ao mesmo rey da terra e rainha, sua molher, e os bauptizou. Vierão depois a Goa tomar a con- firmação pello Bispo Dom Frei João de Albuquerque. Em Chandagary Mallandre e Cochim de Sima, o Pa- dre Frei Pedro de Amarante pregou a palavra divina, trazendo para o selleiro da Igreja innumeraveis almas. Outros seus companheiros no Campo de Jaus, Vaipim e Paliporto, fizerão grandíssimo fructo com a pregação evan- gélica. Passarão ao reino de Coilão, Trevilar e Calicoulão, onde plantarão a arvore de Santa Cruz, e semearão a semente evangélica, colherão muito fructo pellas muitas almas que converteo e bauptizou; o Padre Frei Manoel de S. Mathias, com onze companheiros, que lhe assistião, todos filhos da província de S. Thome, bauptizarão ao mesmo rey de Coilão e muitos principaes do dito reino. No mesmo reino de Coilão mereceo a palma do martiro hum frade da mesma província, por nome Frei Rodrigo, cujo cognome nos escon- deo o tempo. 4 14
  • 18 — Em Ceilão Na ilha de Ceilão se achão quatro reinos principais; são de Cota, Seitavaqua, Candéa e Jafanapatão; alem destes hão outros mais inferiores, porem o mais poderoso de todos era o rey de Cota que, como emperador, manda sobre os mais. Foi descuberto no anno de 1505 e no anno de 1518, fundarão os Portuguezes a fortaleza do Collumbo, e de então por diante os frades franciscanos da provincia de S. Thome se forão // introduzindo com a pregação do Santo Evan- [43» ] gelho. O Padre Frei João de Villa do Conde, com seus com- panheiros, pregarão com muito zello o santo Evangelho neste reino, e supposto que o rey, por nome Bonezebagu, que surdo aos brados da fée não admittio o meyo de sua salvação, succedeo-lhe porem depois de morto hum neto que com boa inclinação e melhor fortuna, ouvira a doutrina evangélica e foi bauptizado pello dito padre Frei João, e se chamou Dom João Pariapandar, e depois foi jurado novamente por rey ao estillo catholico; bauptizousse tam- bém a rainha sua molher, que era filha dei rey de Candéa e todas as suas damas e donzellas de seu pallaçio, e a mayor parte dos vaçallos do seu reino, e todos os idollos que eram maes de coatro centos se derribarão: a rainha se chamou Dona Catharina. Bauptizarãosse também dous infantes seus thios, e den- tro de poucos mezes se contarão dos bauptizados a milhares, e em termo de trinta legoas se levantarão douze igrejas, aonde o dito padre Frei João, com os seus companheiros, de dia e de noite, sem tomarem huma hora de descanso, cultivavão e regavão com os santos sacramentos estas novas plantas que depois encherão o âmbito da ilha. Isto passou na era de Nossa Redempção, de 1546, e a sereníssima rainha de Portugal Donna Catharina que governava o reino 4'5
  • por el rey Dom Sebastião, seu neto, por ser então muy pequeno, em gratificação de se converterem tantas almas a Deos, escreveo huma carta ao Custodio que então era desta provincia Frei Belchior de Lisboa, em 21 de Março na era de 1579- Frei Duarte Chanoca e Frei Francisco do Oriente con- verterão e bauptizarão a hum grande rey de Sete Corllas em a mesma ilha, que se chamou Dom Manoell, e a rainha sua molher que se chamou Donna Antónia. Converterão e bauptizarão em o mesmo reino a rainha de Biras que se chamou Donna Catharina e a hum filho que se chamou Dom Manoel e huma filha que se chamou Donna Catha- rina. Em o anno de 1548, Frei Vicente de Lagos bauptizou a el-rey de Tanor que se chamou Dom João e a rainha sua molher e a dous infantes seus filhos. 19 — Continua a missão de Ceilão No anno de 1556, os mesmos frades converterão em o mesmo reino de Saillão a el-rey de Carias (?) e, com ele, setenta mil vaçallos seus. Converterão também e bauptiza- rão ao mesmo rey de Candia que se chamou Dom Phelippe, e ao príncipe seu filho que se chamou Dom João, e a rainha sua molher que se chamou Donna Catharina, e muitas pessoas reaes, tomando os nomes das pressonagens portu- guezas; e no anno de 1594, o Padre Frei Manoel dos San- tos bauptizou a outro rey de Sete Corllas, alem do que bauptizou o outro que fica em sima referido, bauptizado pello Padre Frei Duarte Chanoca, e se chamou este rey Dom Antonio, e também bautizou a hum sobrinho seu [44] que se chamou Dom Francisco, e asim mais // converteo e bauptizou a mais de sincoenta mil almas, entrando muitas pessoas reaes. 416
  • Tãobem o dito Frei Manoel dos Santos e seus com- panheiros converterão a beuptizarão a dous príncipes do reino de Cota, que era o dito reino como império; hum se chamou Dom Phelippe, e outro Dom João; este foi a Por- tugal no anno de 1613, e lá faleçeo. Frei Luis de São Diogo converteo e bauptizou ao príncipe herdeiro do reino de Jafa- napatão que se chamou Dom Constantino, que foi frade filho desta província, que foi guardião dos «Reis Magos», e de nosso convento de Goa, com o nome de Frei Constan- tino de Christo. Também se bauptizou na mesma ocazião a sua may que se chamou Donna Clara, e duas infantas suas filhas, huma se chamou Donna Isabel, e outra Donna Maria; estas forão relligiosas no convento de Santa Monica. Donna Izabel faleçeo em poucos annos, porem Donna Maria chegou a ser prioreza do dito convento de Santa Monica. E também se bauptizaram dous primos do dito príncipe que se chama- rão Dom Phelippe e Dom Francisco, que se criarão no nosso collegio dos Santos Reis Magos, aonde falecerão e estão enterrados no nosso capitulo do convento de Goa. Converterão também os mesmos nossos relligiosos ao neto de Raju, rei de Saitavaqua que se chamou Dom Phelippe, e por sua conversão se rebellarão os vassallos. Retirousse a Goa, passou a Portugal, onde faleçeo. A rainha sua may recebeu o sagrado bauptismo pellos mesmos relligiosos, e faleçeo em Columbo. No mesmo reino converterão os nossos relligiosos ao rey, sucessor do neto do mesmo Raju, e ao príncipe herdeiro, que bauptizado se chamou Dom João, e a princeza, sua molher, chamarão Donna Joanna. Entrarão estes mesmos ministros evangélicos no reino de Vilassem e converterão a rainha do dito reino, já viuva, com o nome de Donna Catharina, e a princeza sua filha, a que chamarão Donna Antónia; outra rainhà sucessora converterão e bauptizarão os Frades Menores com o nome Doe. Padroado, v-27
  • de Donna Catharina, e a princeza sua filha se chamou Donna Francisca. Estes mesmos operários do Senhor trouxerão ao grémio da Igreja a el-rey de Sete Portas com todos os mais do seu reyno, que pella conta chegava a corenta mil almas; cha- mousse o rey Dom Manoel, e a rainha se chamou Donna Bri- tes, e a princeza sua filha se chamou Donna Antónia, e o Í44 *•] príncipe seu filho se chamou // Dom João. Este, por man- dando de el-rey, seu pay, veyo a Goa e se meteo no nosso collegio dos Reys Magos a aprender as artes liberaes e a sagrada theologia; faleçeo no nosso convento de Goa; jas sepultado na capella-mor. Tãobem se bauptizou nesta mesma occazião o mapular (4) do mesmo reino que he como entre nos o regedor; chamousse Pedro Homem Pe- reira, e a seu exemplo se bauptizarão infinitas almas do dito reino. Em sinco mezes se fizerão na Ilha de Seillão trinta e dous bauptismos geraes, huns de mil, outros de mil e quinhentos, e alguns de trez mil almas. Edificarão sincoenta e quatro igrejas com o favor real. Forão bauptizados gentios a milhares pella industria, zello e trabalho dos mesmos relligiosos. E falecendo este rey, sem erdeiros, por concelho dos nossos relligiosos deixou por successor e herdeiro do seu reyno a el-rey de Portugal, nosso senhor, que então era o senhor Dom João terceiro, de felice recordação; com que des da era de 1613, athe a hera de 1636 se fizerão no reino de Jafanapatão sincoenta e duas mil almas chris- tans; em Goa, trinta mil; em Baçaym, sinco mil; e na ilha de Seillão trinta e sinco mil, com que por todas que athe então se bauptizarão, chegou o numero de cento e douze mil, e na hera de 1638, o Padre Custodio Frei Miguel (4) Na outra cópia: modular. 418
  • da Purificação, nascido na India, filho desta província, como procurador-geral delia, apresentou a Sua Santidade o Senhor Urbano 8o, e a Sagrada Congregação de Propa- ganda Fide trezentas mil almas christans, todas bauptizadas pellas mãos dos relligiosos menores, filhos desta província de S. Thome, e mesmo apresentou o dito procurador-geral a Sua Magestade o senhor Philippe 4o e ao Reverendíssimo Padre Geral da nossa Ordem, Frei João Bauptista Cam- panha, e todos se alegrarão muito em ver tão copiosas con- versões, feitas a Deos pellos nossos relligiosos, filhos desta provincia de S. Thome, e ainda com o favorr divino con- verterão muitas mais almas, como adiante se verá. Em huma destas ilhas foi hum relligioso nosso prezo, por nome Frei Luis e Piedade, em huma crudelissima prisão, e estando bastantes mezes recluso na prizão, sem que os idolatras lhe desse com que matar a fome; caso prodigioso, todos os dias por huma frestasinha do cárcere entrava huma galinha e, pondo o ovuo ao pée do bendito relligioso, se hia pela fresta a piedoza ave; com isto se sustentavaa o insigne soldado de Christo, mas porque não continuaria a galinha nesta deligencia, se Deos lhe dirigia os passos? // Tãobem na era de 1680, se bautizou no nosso con- W) vento de Goa el-rey de Uva e príncipe de Mascate, rey do grande reyno de Jafanapatão, com mais de setenta mil almas, entrando no numero tres rainhas viuvas e muitas senhoras de sua real caza, e senhores titulares, e se lançarão por terra noventa e dous pagodes. O rey Sangate, que hé o que presseguio a todos estes príncipes, não foi menos ditozo, pois sendo prezo pelos Portuguezes, foi digulado, pagando a cabeça rebelde a fée prometida asim a Igreja Catholica, como a coroa portu- guesa, pois como christão que ja era, e vaçallo dei rey de Portugal, devia por ambos os títulos não rebellarsse; emfim morreo como catholico, educado pellos nossos relli-
  • giosos; chamousse Dom Philippe; jas sepultado no nosso capitulo do convento de Goa, com o nosso habito; a rainha sua molher tãobem se bauptizou e se chamou Donna Maria de Austria. 20 — Padre Frei Constantino no Grão Mogol Hum frade, filho desta província, que esquecido da ley de Deos e de seu sagrado instituto, se passou a terra de Mogor, adonde publicamente deixou o habito e a lei de Christo e professou a de Mafoma, cazousse ao estilo dos Mouros com huma moura, de quem teve filhos, a este pois, em huma sesta feira mayor, andando a cavallo com grande acompanhamento, lhe apareçeo huma molher e com voz activa lhe disse estas palavras: «Oh Padre Frei Cons- tantino,— que asim se chamava o frade —vos hoje a cavallo com tanta pompa e os nossos irmãos hoje em Goa descalços, jenjuando e venerando este dia tão santo». Palavras forão estas que o ja ditozo relligioso se lan- çou, como outro S. Paullo, fora do cavallo, e rasgando com impaciência santa os trajos maometanos, foi pregando por toda aquella rua a ley de Christo, detestando e abomi- nando a seita do perversso Mafoma, e entrando logo em huma misquita, aonde estavão infinitos mouros, se pôs a pregar, cheyo de divino spirito a verdade de nossa fée e o conhecimento do verdadeiro Deos; mais dezacete vezes foi levado ao tormento e em todas as occazioens se ostentou com invicto vallor; para mais o atormentarem lhe pozerão os Mouros a molher e filhos a vista para que em prezença destas suas prendas desmayasse nos tromentos; porem o valoroso soldado de Christo não se doeu das lastimas da molher, nem das lagrimas dos filhos, mas antes lhe servião elles e ella de despertadores para se lembrar dos falços deleites, com que offendera ao verdadeiro Deos que para 420
  • o remir morreo em huma cruz; e vendo os Mouros que era constantíssima a sua presserverança, lhe cortarão a cabeça da qual sahio huma // contidade de sangue que com ceie- r l ridade miraculoza buscou a região celeste. Sucedeo este glorioso martírio no anno de 1671; não se poude saber quem foi aquella mulher que com tão limi- tada pregação trouxe a Frei Constantino ao caminho de salvação; huns afirmão ter sido huma christam, outros querem dizer que fora hum anjo, porque logo a molher desaparecera; também podia ser a Rainha dos Anjos; de qualquer sorte podia ser; porem o martírio do Padre Frei Constantino passou na realidade, como fica dito. Na era de 1679, forão os prellados mandando a terra do Mogor a pregar novamente a fée de Christo aquelles barbaros mouros, porem com pouco frutto, pella liberdade em que elles vivem na seita maometana, e na Java Mayor foi o Padre Frei Constantino, filho desta mesma província, aonde acabou a vida pregando a fée catholica, também com pouco frutto. Tornarão os prellados a remetter ao reino de Macassá novos operários; o Padre Frei Francisco das Chagas e Frei João de S. Diogo, e como não fossem bem recebidos, pella obstinação dos Mouros, passarão pelo reyno de Pegu e se recolherão nesta cidade de Goa, aonde falecerão. 21 — Padre Frei Manuel de S. Matias Em Travancor, Betimeni, Alapar, Marta Gundra, o Padre Frei Manoel de S. Mathias, ja nomeado, edificou igrejas para nellas se offerecerem a Deos os divinos sacri- ficios, e de douze companheiros nossos relligiosos que em sua companhia hiyão, espalhou por todos esses reinos em sima referidos, aonde fizerão grandes christandades, que passarão de duas mil almas das que bauptizarão. Passarão a 421
  • Manar, aonde converterão 600 pessoas que todas lograrão a palma do martírio em Patino (?) daquela presseguição fugio para Goa hum infante catecumeno, foi bauptizado em Goa pello bispo Dom Frei João de Albuquerque, e se chamou Dom João. 22— Em Ceilão Estando ja a fée augmentada no reino de Cota e Ceita- vaca, reinando ja Virapandare que permitio edificaçem hum templo a honrra da Immaculda Conceição da May de Deos, ouve huma grande guerra civil entre esses reis, e o rei Trebulipandar, por certas queixas que teve contra hum nosso português, capitão de Columbo, negou a ley de Christo que havia protestado no bauptismo; preciguio aos catholicos, queimou as nossas igrejas e tirou a vida a quan- tos relligiosos encontrou, e posto que se não sabe o numero, mas hé certo que forão muitos. No anno de 1556 sucedeo esta fatalidade, porem pagou essa horrenda culpa, porque el rey de Jafanapatão lhe tirou a vida para aproveitar de seu grandes thezouros, e logo no anno de 1562 o Mandune e com elle o Raju, seu filho, fizerão grandes guerras aos portugueses. Sinco vezes nos çercaram a fortaleza de Columbo e a cidade de Cota, e tão famintos se vião os nossos soldados que, depois de terem comido eleifantes, cavallos, cãens e todo o genero de brutos, querião matar a fome com carne humana dos inimigos, se o Padre Frei Simão de Nazareth não impi- t<6] dira // tão grande brutilidade. Nestes apertos se virão os frades franciscanos em os mayores perigos; deixarão mortos no campo pella confissão da fee dois relligiosos graves: Frei Martinho da Guarda arastado aos pées de hum eleifante. Os mallavares que nesta occazião vinhão do socorro ao Madolli, tomarão hum frade lego, sanchristão, 422
  • que era do nosso convento do Columbo, e levado a Nigumbo, lhe derão morte crudelissima. O Padre Frei João Calvo, vendo o estrago que os eleifantes fazião na nossa gente, tomou hum cruxifixo nas mãos e de parte deste Senhor mandou com vos imperial aos eleifantes que seças- sem com os seus estragos. Cazo admirável! Logo os elei- fantes se tornarão em humildes cordeiros, porque ficarão immoveis como estatuas. Pasmarão os gentios, mas não çessarão de nos preceguir. O Padre Frei Simão de Nazareth, embarcando se com sincoenta soldados, se pôs no rio para que não pudesse o innimigo passarsse para donde estava nossa gente; ouve hum grande prodígio divino. Levantousse huma noite escura que escondeo a embarcação, deixando patente a praya, pello que elles erravão os tiros, e os nossos acerta vão, cauza por- que ouve grande mortandade no innimigo; o dito venerável Padre Frei Simão. Frei João Calvo nas occasiõins dos conflitos, com cruxe- fixos nas mãos, tão fortemente pelejavão com as exortacõins que Raju foi expulçado deixandonos o campo com a victo- ria. Custou-nos, porem, a vida dos Padres Frei Simão de Nazareth e Frei Simão da Lux que muitas mais vidas darião, se tivessem, por Deos e por seu rey. No reino de Candia fizerão os relligiosos de S. Fran- cisco da província de S. Thome muy copiosos serviços a Deos e a el rey nosso senhor, como forão os Padres Frei João Calvo, e Frei Pedro da Magdallena, como também os Padres Frei Pascoal e Frei Gonçallo. Aqui se bauptizarão infinitas almas. Em outra preciguição que hum alevantado se apoderou do reino de Candia, que se chamava Dom João, que usur- pando ao proprio rey o reino e a coroa, apostatou da fee, asolando a christandade toda, e não sabemos se serião mais horrendas na Igreja as preciguiçõins de Juliano, que as 423
  • deste apóstata em Candia, porque no anno de 1594 forão mortos por este tirano o Padre Frei Simão da Luz e Frei Manoel Pereira; morrerão alenceados. Frei Francisco das Chagas, despois de lhe cortarem o nariz, foi morto a cutiladas; o Padre Frei Francisco Contreiras, estando muito ferido, o prenderão a huma estaca aonde esteve pregando [46».] e confortando os seus companheiros no // tromento athe que foi morto as lançadas. O venerável Padre Frei Lucas, mestre e prellado que havia sido deste pernisioso apóstata, foi trazido perante elle em mizeravel estado, quasi nu, sem habito, retalhado com muitos golpes, sem beços, orelhas e naris, e emvolto em seu proprio sangue. Nenhuma destas aparências moveyo a compaixão ao tirano, pois o premio que deu a este seu santo mestre foi mandalo açetyar, de que morreo para o mundo e renasçeo para o ceo. Os Padres Frei Pedro de Christo e Frei Pedro de Lis- boa, supposto não alcançarão nesta ocazião a palma do martírio, porem forão atromentados com muitos tromentos, fome e pancadas, cortarão lhe os narizes e bessos. Tãobem foi morto na era de 1611 o Padre Frei Gaspar dos Reys de huma baila que lhe quebrou as pernas, estando ouvindo de confição a hum moribundo em huma guerra que hum chingalâ, por nome Andre Correa, tinha feito aos Portu- guezes. O Padre Frei Estevão de Jesus cahio com sete feri- das sobre as quais lhe cortarão os narizes. Os Padres Frei Pedro de Lisboa e Frei Sebastião da Lux e Frei Ma- noel da Trindade, onde padecerão grandíssimos tromentos os Padres Frei Francisco das Lapas em Malvana, Frei Fran- cisco de Cananorem, e Frei Bernardo de Conceipção em Nagumbo, forão atraveçados com lanças, cujas cabeças forão levadas a Candia para gloria da crueldade. Taobem cortarão a cabeça ao venerável Padre Frei Andre de Situval. Ao muito venerável Padre Frei Antonio Silves- 424
  • tre, a quem por sua brandura e caridade, chamavão pay e emparo dos soldados, foi espectáculo triste aos olhos huma- nos no ponto que o tomarão as mãos. Vistiosse hum chin- gala no seu habito e, furando as orelhas, o prenderão por ellas com duas cordas delgadas, os chingalas fazendo zom- barias de nossas santas seremoneas e puxando pellas orelhas levarão ao lugar de pativolo, aonde lhe cortarão a cabeça. Com este exemplo os Mouros que andavão na ilha tomarão atrevimento para matarem com veneno a muitos dos relli- giosos que, espalhados, andavam em a mesma ilha. 23 — Em Cananor No anno de 1591, em Cananor se fundou huma igreja com o titulo da Senhora de Victoria, que despois se nomeou com o titulo da Senhora dos Milagres, pellos muitos que obrou este santíssimo simulacro, pois na caza do mesmo escultor os comessou a fazer, intimidando o de sorte que, sendo gentio, não teve valor para meter mais o escopro na madeira e depois deixou imperfeita a santa imagem, mas a Senhora lhe pagou a reverencia, assistindo lhe na morte, que nella se converteo e recebeo o sacro bauptismo. Hoje esta collocada esta imagem em huma capella de nosso convento de Goa, obrando infinitos milagres e hum dos mayores he o não admitir emcarnação // nem ouro. t<7] 24 — Os FRANCISCANOS NO JAPÃO No anno de 1593, o santo Frei Pedro Bauptista en- trou por embaixador no Japam ao emperador Taicozama. Forao seus companheiros Frei Bertholameu Rodrigues, Frei Francisco de S. Miguel e Frei Gonçallo Gracias; alcançou do emperador faculdade ampla para que asim na corte como em as terras do seu império edificassem 4*5
  • igrejas e conventos e pudessem pregar a ley de Christo. Quem poderá referir os grandes frutos que fizerão a Deos estes seus operários com tal licença? Innumeraveis forão e sem conto os gentios que se reduzirão. Fez o santo Frei Pe- dro hum convento e igreja, pondo lhe o titulo de Nossa Se- nhora de Provincicula (5). Vier ao ao santo Frei Pedro mais sete companheiros com que reduzirão a fée a muita gentilidade, porem como o commum inimigo, envejozo de ver ganhar os nossos relligiosos tantas almas para o ceo, trassou meyo a que o emperador mandasse martirizar ao santo Frei Pedro e a seus companheiros, e entretanto hia o ceo também prevenindo com sinais proptentozos o dia de martírio destes seus santos. Porque no anno de 1596, no mes de Julho, em dia de Santa Maria Magdallena, na corte de Meaco e nas cidades vizinhas choveo sinza da cor de sangue, de manhãa athe a noite, em tanta copia que se cobrirão os telhados e ruas. Logo aos 4 de Septembro do mesmo anno succedeo hum tão grande terremoto que lançou por terra os templos mayores dos bomzos, fazendosse os idolos em pedaços; morrerão innumeraveis gentios, e aruy- nandosse em grande parte os paliados mais illustres que o emperador tinha em varias partes. Aos sinco do mesmo mes renouvousse o terremoto que lançou por terra as cazas dos principaes senhores, ficando muita gente sepultada nos entulhos da ruyna, e o mesmo sucedera ao emperador, se não fugira para hum monte. Os mortos passarão de sin- coenta mil, finalmente suverterãosse muitas cidades e villas; o mar em algumas partes entrou duas legoas pella terra, alagando lugares inteiros; chuverão settas que fazião em pedaços a quantos achavão diante da sua vehemencia, porem o mayor prodígio de todos foi não cahir nem aruynarsse (5) Isto é: Porciúncula. 426
  • igreja alguma dos christãos, nem ficar entre elles hum só ferido ou morto. Mostrou o ceo huma cruz de dous braços semelhante as de seu martírio; viosse por espasso de hum 4o de hora de cor branca com resplendores muito alegres e transfiguran- dosse logo em cor de sangue; durou algum tempo athe que huma nuvem negra a ocultou, porem foi tal a segueira que a vista de tantos prodígios não dizistirão do intento de martirizarem aos santos. Aos 8 de Dezembro, no dia de Conceição, dia muito illustre para a nossa ordem, forão prezos os santos apostolos no mesmo convento com goardas todo aquelle mes, e depois de vários martírios e afrontas que lhe fizerão, forão crucificados: entre relligiosos e ter- ceiros erão vinte hum filhos de S. Francisco, tres da Sagrada Companhia e dous seculares, a saber, Frei Pedro Bauptista, prellado, Frei Martinho de Ascensão, leitor da theologia, Frei Phelippe de Jesus, Frei Gonçallo Gracias, Frei Fran- cisco // Branco, Frei Francisco de S. Miguel, Paullo, hospi- [47 * ] talleiro, Gabriel, donato, João, familiar, Thome, interprete, Francisco, medico, Thome, donato, Joachim, cozinheiro, Boaventura, familiar, Leão, interprete, Mathias, familiar, Antonio, donato, Luis, donato, Paullo Ibargui, familiar, Paulo Michi, Diogo, familiar, Miguel, familiar, Pedro Cosmo, hospitaleiro, Francisco, carpinteiro. Padecerão em 5 de Fevereiro no anno de 1597. Não he possível narrarse os clamores de todos os chris- tãos dos mesmos Japões novamente convertidos que, acom- panhando aos santos athe ao lugar de martírio com lagri- mas e outras sentidas demostrações, rompião pelos mesmos algojes da maldade, abraçaremsse com as cruzes dos santos mártires, outros aplicavão os seus lenços para nelles se embeberem o sangue que a sua diligencia podia colher. Não se refere por extensso os maravilhosos prodígios que obrou Deos antes e despois do martírio destes santos para 427
  • não fazer grande volume. No nosso convento de Goa está huma cabeça, dizem ser do Padre Frei Pedro Bauptista, porem com certeza se sabe que he de hum dos ditos santos mártires do Japão, esta forrada de prata; em dia de sua festa e de seus companheiros se colloca no altar mor do dito nosso convento de Goa com toda a relligiosa pompa, e ahy fica desde as primeiras athe as segundas vesporas, e depois se recolhe em hum lugar muy dessente. Tãobetn no nosso convento de S. Barbora de Chaul está depositada outra cabeça do santo Frei Gonçalo Gracia, companheiro do santo Frei Pedro Bauptista. Na occazião em que poudemos alcançar a cabeça do santo mártir que está no convento de Goa, alcançamos também esta que está no convento de Chaul, porem sabesse com mais clareza que he do santo Frei Gonçalo Gracia. Varias molheres que, vendosse aflictas em os partos, vallendosse delia, parirão sem mollestia, ainda aquelles ja desenganados de todo humano recurso por causa das febres e outras doenças lograrão bom sucesso. Em conclusão hé a cabeça deste martire o total remedio daquella cidade, que emfim a Divina Providencia não sem mistério promite que em huma cidade tão destituída de medicos haja este santo recurso. Não foi isto bastante para deixar de se augmentar no Japão huma grandíssima christandade feita pellos relli- giosos de S. Francisco, porque na era de 1614 enchião o numero de seiscentas mil almas catholicas. Não podia o commum innimigo tolerar em ver que o seu império se diminuía, e asim acabou com o emperador Xonguzama que os nossos relligiosos e com elles os padres dominicos, augus- tinhos e da Companhia fossem mortos, introduzindo lhe por pretexto que estavão os ditos padres dispondo os anni- mos dos Japoens para que negando lhe a elle a obediençia e vassalagem a offereçessem a el rey de Espanha, e com 4.2 8
  • isto aquelle cego monarcha, sem fazer reflexão alguma, mandou publicar hum // decreto que fossem queimados [48] vivos todos os ministros e pregadores do Santo Evangelho. Cento e trinta e sinco forão os que padecerão martírio nesta occazião, depois de tolerarem nas prizoens grandes fomes, mizerias e injurias, por espasso de sete annos. Na cidade de Nangazaqui foi o theatro em que os pri- meiros vinte e seis mártires fizerão obstentação do seu invencível vallor; forão queimados vivos a 10 de Septem- bro na era de 1622 os gloriozos padres Frei Ricardo de Sant'Anna, flemengo, Frei Vicente de S. Joseph, português leigo de profissão, Frei Pedro de Avilla, castilhano; tam- bém forão martirizados nesta occazião os Irmãos Paullo, Clemente e Bertholameu, por hospedarem aos padres em suas cazas; também padecerão o martírio o Irmão Leão, professo da terceira Ordem, e Irmã Luzia de Freitas, molher insigne que a todos alentava no martírio com excelente constância e espirito. Tãobem morrerão muitos degolados, entre os quaes mereçem nossa memoria Maria Sarna, molher de hum santo mártir chamado Estevão, senhora tão nobre que seu sogro havia sido governador daquella cidade, e ao prezente o era hum seu thio. Muito admirável espectáculo foi este aos olhos de quarenta mil pessoas que estavão aprendendo a licenção do vallor catholico naquelles exemplares da fortaleza christã. Estava cada hum dos queimados prezo a huma estaqua e cercado do fogo em tal distancia que o lume os fosse assando lentamente; alguns morrerão logo, outros durarão mais tempo e finalizarão as vidas no tromento. Vários forão os prodígios que sucederão depois do mar- tírio destes benditos mártires; em especial se conta o prin- cipal e foi que nas tres noites do sabbado, Domingo e segunda feira, virão os soldados a todos os santos mártires, asim os que forão queimados como degolados postos de 42 9
  • joelhos com as cabeças restituídas aos corpos, e as mãos levantadas, repetindo alternados louvores ao çeo (6). 25 — Missão franciscana em Bengala Não menos obrarão os frades de S. Francisco da Pro- víncia de S. Thome no reino de Bengalla, sendo os princi- paes os tres veneráveis Padres Frei Eleutério de S. Thiago, Frei João da Corda e Frei Christovam da Conceipção, pois converterão e trouxerão ao grémio da Igreja infinitas almas. Havia ja trezentos e sessenta annos antes dos nossos relligiosos terem vindo a índia, quando o nosso Padre S. Francisco, vizivelmente apareçeo neste reino de Bengalla a hum gentio que guardando estava seu gado junto a hum rio, vestido do mesmo habito que uzava, a barba da cor de avellam, com corda de sinco nóos, coroa em a cabeça, chagas em as mãos, pées e costado, que corria por ellas sangue, e chegandosse ao dito gentio pedio-lhe com muita [48 y.] humildade o quizesse passar o rio pois não podia entrar em a agoa, por cauza das chagas; outro infiel que estava prezente se pôs a zombar do santo e a dizer lhe afrontas; comtudo o gentio que guardava o gado, com a sua may lhe havia encomendado que fosse muy amigo dos pobres, como depois o declarou, por que passara ao santo mal de palavras, e tomando ao santo sobre os seus hombros o passou a outra parte do rio. Qual outro S. Christovão a Christo, e alegando o gentio que pezava o santo muito, em tal lhe disse o nosso Santo Padre: «Tomai, irmão, este rozario, em paga de vosso trabalho e em sinal de como tivestes aos hombros a S. Francisco, alferes de Christo, (6) Esta missão franciscana não pertencia à Província de S. Tomé. Os franciscanos que evangelizaram o Japão pertenciam, quase todos, a conventos espanhóis ou das Filipinas. 43°
  • estareis em esse estado em que hoje estais athe que me tornes a ver». Esse gentio tinha então Corenta annos de idade e pre- maneceo no mesmo estado coatro centos annos; por tres vezes lhe cahirão os dentes e lhe tornarão a nascer outros de novo; sempre teve as forças e parecer de homem de corenta annos. Cem annos foi gentio e ao despois foi mouro, guardando a seita de Mhafoma; athe a hora de morte o seria se Deus, por intercessão de nosso Santo Padre lhe não dera a sua graça, e passou asim: chegarão os tres relligiosos Frei Eleutério e seus companheiros, como atras se fez menção, e vendo o gentio os ditos relligiosos, e reparando muito de espasso nelles, lhe preguntou Frei Eleu- tério pella cauza de seu reparo, ao que disse o gentio que elle havia trezentos e sessenta annos que tinha passado em seus hombros a hum homem que trazia o vestido na forma que elle agora descubria nos tres companheiros, porem que aquelle estava bem chagado, o que visto pellos Padres, lhe mostrarão logo hum retrato proprio de nosso Padre São Francisco; ao ponto que elle vio a imagem, meteo o dedo na boca, admirandosse disse aos padres: «este hé o homem pobre e chagado que sobre os meus hombros passey e me deu o rosário, e como me disse elle então que eu ouvera de viver athe que o tornasse a ver, hé certo que já não hei de viver mais», e pedio aos padres, lançando a seus pés, o quizessem educar porque queria morrer na ley verdadeira. Foi bauptizado e instruído nos mistérios da fée, logo dahy a poucos dias de sua infermi- dade na hora (?) que faleceo, comprindosse a profeçia de nosso Padre S. Francisco. Hum português lhe dava trinta reaes por huma conta das tres que lhe havia ficado do rozario que nosso Padre São Francisco lhe tinha dado, e não quis dar o gentio, porque estimava muito. 43'
  • 26 — Franciscanos no Pegu, em Malaca e em Macau No reino de Pegu, innumeraveis forão os trabalhos que padecerão os nossos relligiosos Frei Pedro Paschassio e Frei Pedro Bonof. No reino de Sião, o Padre Frei Gre- gorio, Frei Antonio de Magdalena e Frei Damião da Torre que pello rey chamado rey preto forão tratados com varias impiedades. No reino de // Mallaca entrarão tãobem os relligiosos da província do apostolo S. Thome. Foi hum delles o vene- rável Padre Frei João Bauptista que pellos annos do Senhor de 1579 fundou o convento de Mallaca. Tãobem na cidade de Maccau entrarão os nossos relli- giosos fazendo augmentar para o selleiro de Deos innume- raveis almas, e edificarão hum convento. Na ilha de Sama- tra entrarão tãobem os relligiosos de S. Francisco, da província de S. Thome, aonde huns lograrão a palma do martírio e outros plantarão a ley evangélica. Os Padres Frei Francisco de Lisboa, Frei João Cantanheide, Frei Ba- zilio de Condexa e Frei Antonio do Porto forão mortos em odio da fée, e pellos annos de 1638 lograrão a mesma dita no reyno de Achem os servos de Christo Frei Manoel do Desterro e Frei Francisco da Conceipção, frade leigo. Não se intimidarão com este exemplo os Padres Frey Gaspar Bauptista e Frei Sebastião de Annunciação, antes lhes inçitou mais os dezejos de verem com seus olhos o campo em que o sangue de seus irmãos clamava, convi- dando-os a elles para o logro da mesma ventura. E asim no anno de 1668 forão enviados pello vice-rey João Nunes da Cunha e achando differente a rainha, (visto não uzarem de rey neste reino), experimentarão tãobem muitas con- tradiçoins nos vassalos e e por muito trabalho dos vene- ráveis padres ja nomeados, forão depois bem aceitos asim em aceitar os concertos da pax com o Estado da índia, 43 2
  • como para poderem propagar a santa fée de Christo no dito seu reyno. Com efíeito foi muito o fruto que fizerão estes bemditos padres com a palavra dos santos Evangelhos, e pellos annos de 1680 occuparãosse neste santo ministério os Padres Frei Bento de Christo e Frei Manoel de Jesus, com muy proveitozas resultancias do seu trabalho. 27 — Em Java Na ilha de Java converterão a ley de Christo os frades da província de S. Thome tres principes e muita gente plebea, como o forão os Padres Frei Pedro de Aurouca, Frei Manoel de Elvas, Frei Jorge de Vizeu e Frey Jeró- nimo, frade leigo; estes ministros de Christo trabalharão tanto com zellos apostolico que reduzirão a innumeraveis gentios, trazendo os ao rebanho christão; erigirão igreia aonde o verdadeiro Deos fosse adorado; quando se acabou a igreja, que foi brevemente, ja o Padre Frei Manoel de Elvas tinha mais de seiscentos christãos, entrando no mesmo numero hum filho do rey, herdeiro dos seus estados, que se chamou Dom Francisco. Seguirãosse mais dous sobrinhos do mesmo rey, hum se chamou Dom Antonio, e outro Dom Pascoal, e toda a família destas principes imitarãono exemplo, como também a molher do príncipe Dom Anto- nio que chamousse Donna Maria. O principe Dom Pascoal teve mayores quilates na vertude, porque chegou a lograr a palma do martírio, e o cazo passou asim: huma prima do dito infante, filha do mesmo rey, que como gentia era administrada pelo mesmo demonio, tocada de lasçivos pen- samentos // inçitava por muitas vezes a este invicto infante [49 * a torpeza da sensualidade, o qual, vendosse por tantas vezes solicitado, amoestou, ainda repreendeo a gentílica infanta o seu lascivo proceder, dizendo lhe que era catholico, que não offenderia a divina magestade, cuja ley professava, e Doe. Padroado, v - 2? 433
  • vendosse ella ultrajada pello bendito infante, o acuzou a el-rey, seu pay, com sinistras querelas, e não menos que de traydor a leza magestade, e que lhe queria usurpar o reino, de tal sorte soube fingir com lagrimas e outras demostraçoins, que o rey o mandou matar. Quando chegou ao lugar do patíbulo, se pôs de joelhos, emcommendando sua alma a Jesu Christo e a Virgem Maria, sua May, e tirando do pescosso as contas, as rezou com rara devação e depois de protestar a fee catholica foi morto pellos algojes as lançadas. Seu corpo foi depositado na igreja da mesma corte, e por industria do Padre Frei Manoel de Elvas foi tresladado ao nosso convento de Malaca, aonde jas sepul- tado. 28 — Em Macáçar Na ilha de Macassa.-bauptizarão os frades de S. Fran- cisco, da província de S. Thome aos reys de Supa e Siao e muitos de seus vassalos. Erão nesta impreza impenhados os Padres Frei Antonio dos Reys, Frei Bernardo de Marvão, Frei Cosmo de Annunciação e hum irmão leigo, cujo nome nos escondeo o tempo. Forão ter com o rey, o tal virtude e graça pos Deos nas suas rezoins, que o monarcha se desçeo do trono e a seus pés pedio o sagrado bauptismo. Mudou as profanidades gentílicas em trajes catholicos, deo faculdade para que no seu reino pudesse pregar a douctrina evangélica, cauza por que se bauptizarão muitos dos prin- cipaes e innumeraveis da gente plebea. Bauptizousse tam- bém a rainha, que se chamou Donna Maria, e o rey cha- mousse Dom Luis, o receber o caracter em dia de S. Luis, nosso santo bispo de Toloza. E na cidade de Siao foi bauptizado o mesmo rey, que se chamou Dom João e logo lhe seguio no exemplo a rainha, so molher, e com ella os filhos e todas as mais 434
  • pessoas de sua família. Acharão que só nestes dous reinos de Siao e de Supâ tinhão bauptizado quase sessenta mil almas. Nas Malucas, evangelizarão a palavra divina os frades de S. Francisco, ja o rey Taberija abraçado a lei evangélica por industrias do Padre Frei Andre do Spirito Santo. Notáveis forão os serviços que fizerão a Deos neste reino, especialmente na reformação dos Portuguezes que, esqueci- dos da profição christãa, vivião como se fossem peyores que gentios. Este foi sem duvida o motivo por que chega- rão os Portuguezes a perder tantos reinos na índia, prome- tindo que os innimigos da fée e tão innumeraveis os lan- çassem fora, a imitação dos Hebreos no dezerto. Amon- tuavão vicios sobre vicios, no mesmo tempo que o Senhor lhe des // pençava com tantas mizericordias. Não se descuidarão estes veneráveis Padres comtudo de reduzirem a fee innumeraveis gentios, sendo os princi- paes delles Frei Sebastião de S. Joseph e Frei Antonio de Sant'Anna. Converterão e bauptizarão sinco reys com muito povo e no fim forão ambos martirizados pelos talo- gandas (7) mouros: o Padre Frei Sebastião foi atado a huma arvore e nella foi setteado, entregando a alma a seu Redemptor, e Frei Antonio de Santa Anna teve diffe- rente martírio, porque vendo os Mouros que era mosso, o meterão em huma caza, e nella recolherão muitas molhe- res fermozas; porem o servo de Deos sahio triumphante de huma tão terrível contenda, com a divina graça, e vendo que o não podião dobrar, forão matando ao santo mártir lentamente, fazendo o em pedaços, the que vendo o morri- bundo, lhe cortarão a cabeça. (7) Esta palavra não se acha registada nos dicionários que consul tamos. 435
  • Nestas mesmas Malucas, no ano de 1612, morrerão pella fée de Christo os Padres Frei Bras Palormino e Frei João da Palma, depois de colherem para o sellero do ceo huma grande seara de almas convertidas. Nas mesmas Malucas, da parte do Norte, no anno de 1530, os mesmos nossos relligiosos da província de S. Thome bauptizarão ao rey da terra, a tres príncipes, seus irmãos, a rainha, sua molher, muitos fidalgos e a mayor parte do pouvo. Por outras muitas ilhas pregarão a fée com mais ou menos utilidade e com particularidade se deve este principio ao muito amado Reverendo Padre Frei Francisco das Cha- gas, custodio que foi desta província, sendo ella custodia, e depois forão continuando nas mesmas operaçoens outros relligiosos, que o seguirão com mais ou menos lucro, como nas ilhas de Timor, Solor, Japara, Daru, Parum, Burneo, Amboino, Pera, Celebes, Moro, e outros muitas. 29 — No reino do Grão Mogol Na era de 1680, forão os prellados mandando a terra do Mogor a pregar novamente a fée de Christo aquelles barbaros mouros, porem com pouco fruto, pella liberdade em que elles vivem na seita maometana e na profissão. O mesmo experimentarão os nossos relligiosos sem mais lucro que o incanssavel trabalho, como nos tempos atras otiverão. 30 — Em Goa e terras vizinhas Temos dito que muito antes entrara o Idalcão em Bardes e Salcete, e que foi expulçado com ajuda divina pellas armas portuguezas. Novamente em os annos, muito depois de 1654, repetiu o Idalcão o dezignio de conquistar estas 436
  • terras. Os reytores de Bardes tiverao grandíssimo trabalho na deffenção de suas igreias, mandando avizos emportantes ao governo, tendo mão em os naturaes para que se não aliassem com os Mouros. //Os relligiosos que moravão [5o ».] no convento acudião a campanha. Sinco delles, com a cruz em huma mão e a espada na outra, forão sempre ao lado do capitão de Bardes, que então era Antonio de Sousa Couttinho. O commissario geral Frei Antonio da Conceipção com sincoenta relligiosos ficou em guarda da fortaleza dos Reys, outros estavão de rezerva no collegio, e ainda que o capitão Francisco Henriques Pinto foi render ao comissá- rio, todos ficarão na mesma fortaleza athe o tempo, em que se fizerão as pazes, que foi dahy a tres mezes, trabalhando sempre com grandíssimo zello na fortificação do sitio, sem gastarem couza alguma da fazenda real no sustento, porque este lhe vinha dos seus conventos. Governava o estado da índia Dom Bras de Castro. Nesta mesma ocazião matarão no rio de Chaporá ao Padre Frei Antonio de Santa Clara que em hum navio estava por capellão. Muito tempo antes, na hera de 1614, matarão tãobem ao Padre Frei Jorge de Santo Antonio em odio da fée; foi morto este relligioso na província de Decan, aonde esta fundada hoje a cidade de Goa. Como os naturaes da terra ahinda se achassem pouco radicados na fée, e terem odio aos Portuguezes, por lhes conquistar estas suas terras, estimavão muito que o Dealcão as conquistasse, como se vio depois desta guerra que o dito innimigo fez a coroa de Portugal, entrando em Bardes e Salcete, e logo despois das pazes feitas com o Estado não faltarão alguns dos naturaes, dos principaes de Bardes que, em segredo, escrevessem a Abdul Aquimo, general das armas do mesmo Dealcão para que em huma noite viesse com gente de guerra a tomar Bardes, por interpreza, 437
  • e que por Sua conta ficava passar a espada a todos os reytores que em Bardes rezidião na mesma, sem que em Goa perssentissem os mais portuguezes. Passou o cazo nesta forma: Pinhão os naturaes da terra, asim gentios, como alguns dos christãos principaes asentado para em huma noite, no mesmo tempo e hora, chamar a todos os parrochos a titullo de confissão a pressa, para os matarem em os colhendo fora das igrejas. Huma velha moradora em Vfasiaym, fre- guesia de Rainha Santa Izabel, foi quem descubrio a con- juração, paresse não sem mistério que em huma freguezia que tinha por patrona a huma santa portugueza, e ainda rainha de Portugal, se descubrisse huma conjuração feita contra os portuguezes. Esta velha christãa, por ser pobre, favorecia o reitor, o Pe. Frei Francisco do Sacramento com suas esmollas, a qual, grata aos recebidos benefícios do padre, huma tarde, a titulo de vir levar a esmolla quoti- diana, achandosse só com o reitor, lhe disse debaixo de todo o segredo que asim a sua vida como dos mais padres reytores // estavão em grande perigo, se não puzessem o remedio com cautella, porquanto certas pessoas graves esta- vão conjuradas para, em tal noite, chamallos, a titulo de confição de moribundos e, depois de estarem fora, mata los. O padre, que isto ouviu, quasi lhe pareçeo sonho, por- que não tinha para sy que entre christãos houvesse tão grande maldade e treição, e na mesma hora foi logo ao convento a dar parte disto ao prellado, o qual expedio no mesmo instante huma carta patente feichada para que nenhum dos parrochos sahissem não só naquella noite decretada, mas ahinda emquanto durasse nos naturaes aquella diabólica resolução, e asim passou, pois na mesma hora de noite que a velha tinha dito se tocarão em todas as portarias das igrejas de Bardes a campainha, pedindo com pressa confissão. 438
  • Parece ser promissão divina que, vivendo hoje muitos das duas famílias daquelles principaes que intentarão esta atrocidade, e sendo ja hoje muy bons christãos, e tendo sido estes seus primeiros avós tão ricos, opulentos e nobres, vivem hoje tão mizeraveis e pobres que mal tem por dia para matarem a fome, e se sustentão ainda hoje auctual- mente das migalhas dos nossos relligiosos. Em outros semelhantes perigos e persseguiçoens anda- vão os nossos relligiosos metidos em Bardes em odio da fée catholica. Na freguezia de Anjuna, erecta ao Anjo S. Miguel, querendo o reitor da dita igreja, o Padre Frei João de Olivença, tirar hum orphão que huns gentios gancares da dita aldea tinhão escondido dentro das suas cazas, de tal sorte maltratarão ao reitor com pancadas e feridas, que lhe foi necessário recolhersse em hombros a sua igreja e dahy em hum andor para a infermaria de nosso convento de Goa, e por castigo de tal culpa mandou a Rellação de S. Magestade derubar as cazas e salgar o lugar delias e degredar aos executores da maldade para as galles por toda a vida, e mandou pôr no lugar hum padrão, que ainda hoje existe como se fora posto hoje, em que rellata o cazo nesta forma: «Governando este Estado no anno do Nosso Senhor Jesu Christo de 1628 Dom Frei Luis de Brito, mandou a Rellação derubar, asolar e salgar as cazas que estavão neste lugar, degredando os gentios que as habitavão toda a vida para as galés e outras pennas, porque sahindo delias puzerão mãos violentas com excesso em hum relligioso, vigário da igreja de S. Miguel desta aldea de Anjuna, e para memoria do castigo e execração de tal cazo, mandou levantar este padrão que nenhuma pessoa tirará deste lugar, sob penna de ser mais rigorosa- mente castigado.» 439
  • 31 — Martírio do Padre Frei José de Cristo v-] // Em odio da mesma fée catholica, foi morto nestes mesmos tempos o Padre Frei Joseph de Christo, reitor que era então da freguezia de Reverá, extra muros, dedicada a Nossa Senhora da Victoria. Este relligioso, zellando tam- bém sobre certos orphãos que de direito devião ser baupti- zados, por serem orphãos sem pay nem may e outros ascen- dentes pela via recta, huns parentes gentios moradores na aldea de Puna, pertencente a mesma freguezia, com outros sequazes se ajuntarão em hum corpo, e vindo a igreja, derão hum rebate, de sorte que obrigarão ao dito Padre Frei Joseph de Christo a sahirsse da igreja, parecendo lhe ser o innimigo Sivagy, e asim sahya com pressa a recolhersse dentro dos muros no nosso forte de S. Thome; porem enganousse, porque asim como se sahio, chouverão nelle tantas pedradas que o deixarão em terra moribundo, e depois o acabarão de matar as catanadas. Dizem alguns dos velhos com quem nos tratamos que nessa função tam- bém se acharão alguns christãos, o que não duvidamos, asim pello passo da freguezia de Ocassym, dedicada a Nossa Rainha Santa Izabel, que em sima ja referimos, como porque sendo novos convertidos, ainda terião os coraçoens postos em os seos pagodes e falços deozes. 32 — Outros trabalhos de franciscanos Todos estes trabalhos padecerão os frades de S. Fran- cisco nestes tempos em odio da Ley e ainda do rey, por- que como os Portuguezes fossem os conquistadores elles os conquistados, não podião deixar de lhes ter odio, cabendo a mayor parte aos nossos frades, por terem sido os primeiros que derão principio a estas santas operaçoens evangélicas, e não sey se diga que ainda hoje, ainda que 44°
  • não em odio da fée, pois estão pela mizericordia divina feitos mais bons christãos, comtudo nos tem certa antipatia, como se tem visto muitas vezes, e querendosse averigoar não lhes achamos fundamento, mais que o originarsse do principio das nossas missoens. Desde hera de 1510 que os nossos relligiosos tiverão convento em Goa the o dia de hoje se conta de 1722, servirão a S. Magestade em todas as armadas do alto bordo e navios de remo, asim no Estreito do Mar Roxo, como Norte, Sul, Timor, China, Mossambique, Bombassa, achan- dosse sempre em notáveis perigos da vida, como se tra- tará adiante, porem como hora tratamos do que passou na era de 1650, he força tratarmos do que então passou, sendo capitão mor Domingos Barreto da Silva. Hia em sua companhia por capellão o Padre Frei // Sebastião de Santa Maria, filho da província de S. Thome, natural do reino de Portugal; pois na peleja que teve o dito capitão mor com o innimigo arabio, portousse o dito padre com animo varonil, annimando aos soldados, confessando os, e asistindo na cura dos feridos com paternal charidade; e em outra ocazião o Padre Frei Jozeph da Virgem Maria, filho de Portugal e desta mesma província, sendo capellão do mesmo capitão mor na armada do remo, houvesse com igoal valor no serviço de Deos e de S. Magestade. E outros muitos relligiosos andarão continuamente nas armadas, todos filhos desta Província, como forão os Padres Frei Ignacio de Purificação, nascido na índia, Frei Luis de S. Francisco, nascido em Portugal, Frei João de Deos, nascido em Portugal, que ao depois morreo vale- rosamente na guerra de Santo Estevão, ao lado do Conde de Alvor, Francisco de Tavora, Frei Manoel dos Mártires, nascido na índia, Frei Luis Bauptista, nascido na índia, Frei Domingos do Rosario, nascido em Portugal, Frei Gre- gorio da Conceipção, nascido em Portugal, Frei Bernardo 44'
  • de Santo André, nascido na índia, Frei João da Gloria, nascido na índia, Frei Antonio de Jesus, nascido em Por- tugal, Frei Luis Alvarenga, nascido em Portugal, Frei João de Assumpção, nascido em Portugal, Frei Luis de Con- ceipção nascido na índia. Frei João de Circoncisão, nascido em Portugal, Frey Manoel dos Prazeres, nascido em Por- tugal, Frei João das Chagas, nascido na índia. Todos estes ja são falecidos, que continuarão então no mesmo exercício, são os seguintes: o Padre ex-deffe- nidor1 Frei Francisco de Virgem Maria, nascido em Por- tugal, o Padre ex-deffenidor Frei Francisco de Jesus Maria, nascido na índia, o Padre Frei Bernardo de S. Miguel, nascido na índia, o Padre Frei Manoel de S. Francisco, nascido na índia, o Padre Frei Antonio de S. João, nascido na India, e outros muitos, cujos nomes se não poem aqui, porque não continuarão no real serviço nas capellanias das armadas, como o fizerão os que vão expressos, porque estes o exercerão por muitos annos. Na crónica do muito amado Padre Frei Francisco Negrão vão mencionados todos os mais frades, filhos desta província, que no serviço de S. Magestade forão capellains, desde o principio que viemos a índia, por isso se não fas menção aqui de todos geralmente pellos seus nomes. 33— OS FRANCISCANOS DURANTE A GUERRA COM O SAVAGI No anno de 1667, hum regulo chamado Sivagi, gentio de nação, por se ter acolhido em Bardes na aldea de Caloalle, hum dessay seu, por nome Quenssoa Naique, [5j v.] entrou em Bardes com bastante gente de armas e // deri- gidamente foi buscar ao dito dessay a Caloalle, e de caminho passou a espada a muita gente christaa que encon- trava, em vingança de terem os Portuguezes dado coyto ao i — dcffnor. 442
  • dito seu dessay; e para que não ficassem os nossos frades nessa occazião de fora, matou nos o innimigo as catanadas ao Padre Frei Manoel de S. Bernardino, reitor que actual- mente era da dita freguezia de Caloalle, nascido na índia. Sabio o padre acazo fora da porteria de sua igreja a emquirir o rumor que ouvia dos alaridos dos feridos, que se Iasti- mavão, quando de repente o matarão as cutiladas no mesmo adro da sua igreja. E estando então por hospede na mesma igreja o reve- rendo Padre Frei João das Neves, nascido em Portugal, que tinha acabado de ser comissário geral, este relligioso, ignorando também o sossçesso, supondo sempre ser a entrada de algum innimigo, se sahio da igreja; bem dis- tante se achava delia, porem alguns o alcançarão, e com lhe darem dezanove feridas, de joelhos com as mãos levan- tadas e olhos postos no ceo, recolheosse logo o innimigo, saindo a sua deligencia se frustrada, pois não levou consigo ao dito dessay, porem não frustrada para nos deixar de matar dous relligiosos de relevantes prendas, expecialmente o muy amado Padre ex-commisario geral, Frei João das Neves. Mais de coatro dias estiverão os corpos asim destes dous relligiosos como dos mais mortos, sem lhe darem sepultura, lançados nos mesmos lugares, aonde forão mor- tos, visto a gente de Bardes se ter retirado para a fortaleza dos Reis e Agoada, pelo medo do innimigo; porem quando quizerão no quinto dia enterrar os corpos destes padres, acharão o corpo do Padre Frei João das Neves incorrupto, lançando de sy suave fragrancia, e com as feridas frescas, correndo ainda sangue, e hum semblante alegre, sinaes de presdestinado. No mesmo tempo que todos os mais corpos dos que forão mortos, em esta occazião acharão fétidos, em parte comidos de corvos, que não tiverão piqueno trabalho e merecimento os que levarão aquelles 443
  • fétidos cadavares a enterrarem na mesma igreja de Caloalle, donde também forão sepultados os ja referidos relligiosos. Na hera de Nossa salvação de 1683, entrando o inni- migo Sambazi, filho do referido Sivagy, em Santo Estevão, ilha de Goa, governando o Estado o Conde de Alvor, Fran- cisco de Tavora, os primeiros que acudirão a campanha forão os frades de S. Francisco desta província, e querendo todos fazer companhia ao vice-rey, que pessoalmente hia castigar o atrevimento daquelle innimigo, foi necessário que o vice-rey mandasse a todos os nossos frades que fossem estar de guanição no forte de S. João da mesma ilha de Goa, como de facto para la forão a ter mão, a que o innimigo não poudesse invadir para aly as nossas // terras. Porem, em companhia do vice-rey forão dous relligiosos, nossos; chamava-se hum delles Frei Antonio de Bellem, nascido na índia rellegioso de muy conhecidas prendas, asim na virtude como nas letras, tinha ja sido deffinidor na província; chamavasse o outro Frei João de Deos, nas- cido em Portugal; estes relligiosos ambos se não afastarão no conflicto do lado do dito vice-rey. O Pe. Frei Antonio de Belem, como ja os seus annos não erão para pelleje, andava com hum cruxifixo na mão, dando calor aos solda- dos; era a sua voz hum trovão no exercício catholico. Porem o Pe. Frei João de Deos, também afurtunado com os tiros da sua espingarda que nenhuma baila se lhe frus- trou, sem que não matasse ou ferisse gravemente na gente innimiga; ja os soldados, pella experiência em que então esprimentarão nelle, lhe dizião a vozes: «Padre Frei João, dar naquelle que la vay», e o diser lhe isso, e empregar elle logo a baila no apontado, era tudo no mesmo tempo; porem entre muitas furtunas que então logrou, alcançou a desgraça de morrer de huma baila que lhe derão na cabeça, entre muitas que o innimigo lhe atirava a choveros; 444
  • ao pée do mesmo vice-rey, cahio morto, porem sempre o seu nome andará vivo na immortalidade dos annaes da fama. 34 — Mais sucessos durante esta guerra Já fica dito que o vice-rey emviou no mesmo instante que teve a nova a todos os nossos frades a se acoitarem no forte de S. João para que, por aquella parte, não poudesse o innimigo entrar; tendo o innimigo certeza que no rio, junto o forte de S. João, estava hum navio guar- dando daquelle rio, emviou huma pouca de gente armada para que na vazante entrasse pello rio, e fosse queimar o dito navio, passando a espada a todos de sua guarnição, como de facto em huma tarde intentarão dar a execução ao que lhe tinha ordenado o seu regulo, e asim se meterão no rio muitos dos negros, e com as catanas na boca se vinhão chegando. Os nossos frades que no forte estavão de guarnição, como ja hera a bouça da noite, lhes representavão ser hum grandíssimo bando de garças que acusthumão andar pello rio, asim lhes pareçia, porque como só se lhes via no rio as cabeças, e estas trazem os gentios cubertas e involtas em huma toca branca, com facilidade se enganarão os relli- giosos, tendo as cabeças por garças. Porem logo se desen- ganarão e como huns leoins bravos se forão armados para a gente innimiga, e fazendo nella hum estrago a fizerão retirar com as mãos na cabeça; muitos dos innimigos fica- rão mortos no rio; e alguns dos nossos frades, quando se recolherão ao forte, aonde tinhão o seu posto, virão em seus hábitos // vários buracos das bailas das caytocas que t53 lhes atirarão muitos dos negros da outra parte do rio, e o que he mais de notar foi que tendo sido os sinaes das bailas recebidos nos hábitos, em lugares muy perigosos, 445
  • hão ficou nenhum frade nesta occazião morto ou ferido. Bem mostrava Deos o quanto nos acudio nesta occazião com a sua mizericordia, por intercessão do nosso santíssimo Padre, e não seria novo estar elle pelejando nesta occazião contra os infiéis em defenssa de seus filhos, invizivelmente, quando ja no anno de 1575 foi visto nosso Padre S. Fran- cisco em o lugar chamado Tanná com huma cruz na mão vizivelmente pelejar contra os innimigos do nome de Cristo, como refere Frei Antonio de Assa. Assinalarão se nesta occazião o Padre Joseph de Jesus Maria, nascido em Portugal, que foi o primeiro que conhe- çeo a gente innimiga, Frei Antonio de S. João, nascido na India, que ainda vive, Frei João de S. Joseph, nascido em Portugal, Frei Domingos de S. Bernardino, nascido na India, que hoje vive com a ocupação da comissão do Santo Officio de Bardes, Frei Francisco de Santa Ignes, nascido na India, que brevemente faleçeo, despois de ser padre mais digno desta província, Frei Francisco de Vir- gem Maria, nascido em Portugal, deffenidor que foi desta província, e Frei Manoel do Nascimento, nascido na índia, que também foi deffinidor da província e ambos vivem. Para a parte que o forte olha para a cidade de Goa estava aruinado hum panno de muro; os sobreditos padres, com os mais relligiosos, erão oitenta, que todos acudirão a fazer huma fachina e huma tranqueira, acarretando em seus hombros terra e madeira, com que conssiguirão com a obra em deffença do dito forte. Foi tanta a alegria em Goa, quando se soube do bom suçesso dos nossos frades, que chegou o general do Estreito, Dom Rodrigo da Costa, a dizer ao vice-rey Conde de Alvor que os frades franciscanos tinhão dado novamente a índia a elrey nosso senhor, visto terem defendido o caminho, por donde o innimigo com facilidade podia invadir Goa e suas ilhas. 446
  • Para seis baluartes, sogeitos ao mesmo forte, forão man- dados por cabos da gente natural, que estava nelles de guarnição, seis frades nossos: Frei Domingos de S. Ber- nardino, Frei Manoel de S. Francisco, Frei Francisco de Santa Ignes, Frei Antonio de S. João, Frei João de S. Joseph, e Frei Diogo de Santo Antonio. Forão mandados estes relligiosos por cabos daquelles seis baluartes pello mesmo vice-rey Conde de Alvor, levando lhes esta ordem o general Dom Phelippe de Souza, quando foi vizitar as guaniçoens de todos os fortes. Em tres mezes que estiverão estes nossos frades na guarda daquelle forte não tornou mais o innimigo intentar segunda resolução, e contavão elles entre os seus, que não cuidavão que os Bottos dos Portuguezes fossem tão bons soldados, e tão animozos, motivo por que quando ao depois leva // rão prizioneiros tres frades nossos, dos quaes logo faremos adiante menção, desde o forte de Tivym, das terras de Bardes, aonde forão prizioneiros, athe os deixar presos em huma emminencia, forão os negros espancando a estes pobres frades com coixes, bofetadas, e punhadas, dizendo lhes mil anexins, e outras galantarias, em desprezo, pre- guntavão lhes se lhes alembravão a deffença do forte de S. João e do navio que estava no rio, e se herão irmãos daquelle Pe. Frei João que pelejara e fora morto em S. Es- tevão. Não nos esqueça o que também aconteceo na deffença do forte de S. João, aonde hum frade nosso, por nome Frei Marçal da Magdalena, nascido em Portugal, perdeo huma perna, se hé que asim se pode dizer perdendo a no serviço de seu rey; estava este relligioso de ronda huma noite no dito forte, e como lhe pareçesse que huma das sentinellas estava dormindo, foi despertada, e como era pouco versado em andar naquella muralha, e o rebusso da noite lhe fazia o caminho mais incognito, quando cuidou 447
  • que punha o pée em terra, se achou da muralha abaixo; acudirão lhe os frades, e quando cuidarão o acharião feito em pedaços, acharão no só com huma perna quebrada; foi levado a nossa imffermaria adonde se curou; ficou, porem, sempre alejado da perna, viveo muitos annos, e faleceo nestes próximos passados, governando o Estado da índia o Alferes mor do reino Vasco Fernandes Cezar de Menezes. Emquanto os nossos frades assistirão na guarnição do forte de S. João, se valerão para a sua sustentação das esmollas dos fieis, comendo sempre do calderão de sua commonidade, não sendo elles menos de sessenta entre sacerdotes, choristas e leigos. 35 — Continua o mesmo assunto Este mesmo innimigo Sambazy, na mesma era de 1683, se vio tão poderozo que cuidou acabar em hum dia com a nação portugueza, pois no mesmo dia que entrou com o seu poder na província de Bardes, entrou tãobem na província de Salçete, e nas ilhas de Goa e também nas terras do Norte, Baçaym, Damão, Tanná e Caranja, no mesmo dia de onze de Dezembro. Só em Bardes nos coube, como dizem muitos que hoje vivem, sessenta mil homens. Com a entrada deste poderoso innimigo, ficarão os nossos frades, por ordem do vice-rey, de guarnição do dito forte de S. João e seus balloartes, dando o vice-rey por muy satisfeito do vallor, constância e lealdade dos franciscanos. No forte de Santo Antonio de Bassorá, nas terras de Bardes, se achava por capellão nesta mesma ocazião o Pe. Frei Manoel de Santo Antonio, nascido na índia, na ilha de Ceillão; no bersso paresse // aprendeo este relli- gioso a exercitarsse nas armas e ser discípulo de Maria, 448
  • porque, sendo bem criança, quando os Olandczes nos tomarão aquella praça, athe as molheres trabalhavão na deffença delia, sendo a may deste relligioso huma das principaes matronas que andou então neste valeroso exer- ciçio emquanto pouderão as humanas forças. Este relligioso, pois, achandosse no dito forte de Bas- sorá, aonde o innimigo tinha posto sitio, obrou prouezas na deffença delle; durou o combate emquanto durou a vida ao Pe. Frei Manoel, porque o capitão, que era então do dito forte, Antonio de Souza, se recolheo desmayado em ver tanta matanssa na nossa gente, porque em hum oiteiro, cavaleiro ao forte, se puzerão os negros e com tão avente- jado posto, dava a nossa gente bem em que entender. Não era menor o estrago que o Pe. Frei Manoel de Santo Antonio fazia nos negros com as bailas de sua espingarda, fazendo com seu exemplo o mesmo os soldados da guarnição do forte, como também a gente branca e natu- ral, que no forte se tinha acoitada. Vendo, pois, o capitão que o innimigo se embravecia com a matanssa de tanta gente sua, e que quando quizesse entregar o forte a partidos, não daria o innimigo o cartel a nossa gente, asim o capitão como mais alguns intentarão entregar logo o forte; não foi essa resolução tanto as surdas que não chegasse aos ouvidos do Pe. Frei Manoel, o qual, bravo como hum leão, dezembainhando huma larga, embraçando huma redula, se pos no meyo da gente, e com dezentoadas vozes, falou desta sorte: «Qualquer pessoa, de qualquer condição que seja, que neste forte chegar a fallar em concertos de o entregar ao innimigo a tenho aqui por traidor e innimigo declarado da coroa dei rey de Portugal, meu senhor, e asim se há alguém que tal intente, com esta larga que trago na mão, lhe hei de deitar a cabeça fora dos hombros, pois não será piquena fraqueza nossa entre- garmos o forte, sem derramarmos todos a ultima gota de Doe. Padroado, v - 29 449
  • sangue, a hum negro innimigo, que por instantes espero no favor divino ver aquele campo cuberto de seus corpos mortos. E depois desta breve e animoza pratica obrigou ao capi- tão a que se recolhesse logo e não se achasse, porque a sua prezença só servia de fazer desannimar a gente. Mara- vilhas obrarão os soldados, vendo a valentia do Pe. Manoel. Viasse no conflicto este relligioso tanto senhor de sy, que o trabalho de peleja lhe não fazia por pauza a sua ardente charidade, porque cahindo algum soldado por cauza de alguma ferida, tirava o padre muito depressa de sua manga humas raizes e as entrega a algum soldado para que as fosse logo mover em agoa e aplicasse com charidade ao tal ferido. Emfim paresse que se canssava ja a furtuna // pois andando no mayor fervor da empresa, alegre sobre maneira, huma baila lhe fes a cabeça em pedaços; varão digno de se escrever seus louvores em mármores. Estatua lhe levan- tarião os Romanos, se o passo succedera em Roma, naquella antiguidade. No mesmo ponto que foi morto, se entregou logo o forte ao innimigo. Não faltou quem dissesse que os nossos de dentro mesmo o matarão, o mesmo filho do capitão Antonio de Souza, com huma espingarda, infame ingra- tidão, só para se entregar o forte ao innimigo, como se entregou, visto o Padre Manoel, em vivo, servir de obstá- culo a aquelle desígnio. Tudo podia ser, pois nos annaes achamos muito maiores ingratidoens contra os mayores herroes que teve o mundo. Tãobem nos fas precizo fazer prezente o que nesta mesma occazião aconteçeo a hum relligioso, da provincia, nascido em Portugal, por nome Frei Sebastião de S. Diogo que, supposto não foi a sua rezolução digna para a imita- ção, porem pella galante traça com que se soube portar nesta occazião, nos dá lugar a se não deixar em silencio. 45°
  • Teve este relligioso notiçia em como o innimigo se tinha apoderado de a província de Bardes, e estando elle por reitor da igreja de Nossa Senhora dos Remedios, de Nellur, e sabendo que todos os relligiosos levando consigo o mais precioso de suas igrejas, que ainda alguns o não puderão conseguir, pella pressa com que o innimigo entrou, resolveosse o Padre Frei Sebastião a não sahir de sua igreja, e para effeito de se concervar nella, sem perigo, uzou da seguinte ficssão: Mandou logo cortar huma palmeira, e delia fabricou coatro aparentes pessas que na realidade pare- çião, quando so as erão para o engano. Fez que as pessoas se puzessem no alto de hum terrado, que a igreja tem junto ao seu frontispissio, embocando as para a parte que por força o innimigo havia de entrar, e carregou humas reca- maras para que suprissem na occazião os eccos das fingidas pessas. Por tres vezes intentou o inimigo envestir e roubar aquella igreja, porem sahio lhe baldada a sua delligencia, porque asim como o seu exercito queria chegar, logo o Pe. Frei Sebastião fazia disparar as referidas recamaras, e os negros, cuidando serem os tiros effeitos de grandes pessas, pois as vião na eminençia para elles embocadas, depois de quererem por tres vezes acometer a igreja, a deixarão de medrozos, parecendo lhes que as coatro pessas que vião cavalgadas darião que fazer não só aos que vinhão no exercito, mas ainda ao poder do mundo todo. Desta sorte se livrou o Pe. Frei Sebastião, pois na sua igreja com sua boa industria, se deixou estar como se esti- vera metido dentro de hum sino; era este relligioso de coração cinçero, pois bem se deixa ver pella traça com que uzou nesta occazião, elejendo arbítrio, não pençado contra a comua opinião de todos. // [>5 Não menos prezumida anda esta canalha pellas terras do Norte, e supposto não aplicou tanta força com as mais praças daquelle districto, porem na fortaleza de Caranja 45 1
  • empregou todo o resto. Brava foi a peleja, vaguaroso o sitio, causa por que ouve grandissima mortandade de parte a parte. Nessa fortaleza se acharão tres relligiosos de S. Fran- cisco, filhos da província de S. Thome, nascidos em Por- tugal, a saber: Frei Francisco da Conceipção, Frei João de S. Diogo e Frei João Bauptista. Estes tres relligiosos acudião por todas as partes que o innimigo intentasse fazer entrada. Fes o capitão da fortaleza, Pedro da Silva Zuzarte, da gente quatro esquadras, tomando huma para sy, e das tres entrego as aos tres padres, que como cabos acudissem com a gente em os lugares da mayor perigo. Assim o exe- cutarão com evidentíssimo perigo de suas vidas, não cessa- rão de animar a gente para a peleja; forão estes tres relli- giosos a cauza de se arebentarem tres minas, que o innimigo tinha para se abrasar e mover a nossa gente, as mesmas que o innimigo tinha preparado contra nos, que o mesmo capitão confessou que se não fossem os relligiosos de S. Francisco a prassa se havia de entregar e render por duas resoins: a primeira porque, entrando o innimigo com aquella cautella, pretendendo a ganhalla por interpreza, a não podia fazer, porque os tres relligiosos, sentindo o ruido, fizerão tocar as armas e aparelhar a gente; a segunda razão, porque se assentarão em todo o tempo da peleja, como huns leoins no vallor, assim em pelejar, como em fazer pelejar. Ficou emfim a victoria pellos Portuguzes e os negros perderão muita gente neste sitio, porque alem das bailas da artelharia, e musqueteria, muita gente lhe levou o diabo nas contra-minas que contra elles arrebentarão. E se em Goa forão bem asoutados com o cordão de S. Francisco, também no Norte S. Francisco se não descuidou de os asoutar, como veremos em outras ocazioens adiante susçe- 452
  • didas, em Goa, no Nortte, e no mar, ainda em tempos tão calamitosos, como são estes presentes. Não nos passe da memoria o que aconteçeo nesta mesma ocazião deste innimigo a huma manchua de S. Magestade, em que hia por capitão Diogo de Almeida. Hião na dita manchua tres relligiosos, filhos desta província: Frei Fran- cisco de Santa Thereza, Frei Manoel de S. Francisco e Frei Francisco de Jesus Maria, todos nascidos neste Oriente, e supposto hera o capitão valente soldado, como depois o amostrou, comtudo os soldados da guarnição da manchua, por novatos, herão tão bisonhos que nas primeiras pannellas de polvora e de chumbo exmuresserãosse, de sorte que a manchua se havia de render, se o capitão e os ditos tres relligiosos se não empenhassem a defender a dita manchua não pello vallor delia, mas das armas reais de S. Mages- tade. Herão sinco argalveitas (8) contra a manchua, porem não foi a deffença tão pequena que não deífendessem coatro homens soos hum poder de dusentos gentios. Emfim, durou a contenta bastantes horas. O Pe. Frei Manoel de S. Fran- cisco se particularizou muito neste conflicto; tinha elle coatro baghamartoins a sua ordem que, a fogo lento, servirão sempre durante o choque. Disparava o primeiro baghamartão e logo o entregava ao Pe. Frei Francisco de Jesus Maria para o tornar a carregar e pegava no segundo e fasia o tiro, entregando da mesma sorte ao Pe. ja reffe- rido, e a sim fes no innimigo cruel guerra. Muitos morre- rão do innimigo e deixarão a manchua de confuzos. O Pe. Frei Manoel de S. Francisco sahio tão pisado por causa das muitas baghamartardas que atirou, que lan- çou muito sangue pella bocca. (8) Assim parece a leitura desta palavra. Não se tratará, porém, de as galeolas ? 453
  • O Pe. Frei Francisco de S. Thereza, ainda que não mor- reo, sahio cruelmente apedrejado, o capitão Diogo de Almeida ficou ferido de huma baila de hum pedreiro2 (9) • Todos forão reconduzidos a nao do vice-rey Francisco de Tavora, conde de Alvor, que se achava então no Norte; forão curados na dita nao com asistencia, cuidado e amor do dito vice-rey, que se dignou em dizer emtão que os franciscanos não só sabiam rezar e cantar, mais que sabiam pelejar. 36 — Os FRANCISCANOS EM CHAUL A cidade de Chaul se achava neste tempo destituída de petrechos militares, e com pequena guarnição de soldados. Forão os da cidade, por lhes faltar o humano recursso, recorrer ao divino, e asim entrarão no nosso convento de Santa Barbora, aonde se achava por morador o venerável Pe. Frei Francisco de Salvador — deste bendito relligioso faremos logo menção—; encomendarão-lhe a Deos aquella cidade. Respondeu-lhes o Pe. Frei Francisco do Salvador que também elles, de sua parte, se não desanimassem de emcommendarem a Deos, porem que estivessem certos que, supposto padecerião aflicçoens e calamidades na deffença daquella cidade, porem que estivessem certos que, com o favor divino, nunca o innimigo entraria nella. Asim aconteçeo, como se exprimentará no que escreve- mos. Seis mezes lhe pôs o innimigo o combate com mayor força; hera capitão daquella cidade Dom Francisco da Costa, português nascido na índia. Este fes ajuntar a gente e armas em a qual também se acharão armados (9) Pedreiro, era um canhão que disparava balas de pedra, a — pedr.° 454
  • três frades de S. Francisco, filhos desta província: Frey João de Assumpção, Frey Luis Alvarenga e Frey Manoel de Jesus Maria, os dous primeiros nascidos em Portugal e Frei Manoel nascido na índia. Estes tres, em companhia da gente referida, de tal sorte se ouverão na deffença da cidade que nunca poude o inni- migo arrimar seis escadas, por muitas vezes que intentou. Fortificarão os Portuguezes neste mesmo tempo o con- vento da Madre de Deos, hindo por capitão Dom Domingos Gomes, português, com sincoenta bandarins, homens da terra, sendo nesta // marcha só portugueses a saber: o [56*.] capitão Domingos Gomes e os tres frades ja nomeados. Com o brio que o capitam e os frades infundirão nos sol- dados naturaes, obrarão elles maravilhas, fazendo grande matassa na gente innimiga, e quando se vinha chegando a noite, que o innimigo por então suspendia a contenda, andavão os ditos padres pellas portas dos christãos, pedindo pelo amor de Deos panos e ouvos para a cura dos feridos, e chegarão a ficar só com o habito no corpo, por terem já aplicado as tunicas e bragas, de que uzão, na cura dos feridos soldados, e por descursso de seis mezes aturarão aquelle sitio, mais por milagre que por natural deffença. 37 — Sucessos em Bardez Temos ja dito que nesta mesma guerra deste innimigo forão prejioneiros tres frades, filhos desta província, que com pancadas os forão levando athe os prenderem, com a mais gente, em huma alta eminência, a que elles chamão Goddo. Erao, pois, estes tres relligiosos nascidos neste Oriente, a saber: Frey Thome de Madre de Deos, que foi provincial desta província, Frey Francisco de Santa Thereza, que foi custodio, e Frey Luis de S. Francisco, os quaes, por não 455
  • quererem desempatar suas igrejas em Bardes, aonde herao parrochos, forão prezos, e padecerão em dous mezes, em rigorosíssima prizão, muitas injurias e pancadas. Davao lhes os idolatras de comer só por dia huma mão chea de arros que ha na terra, semelhante a mostarda na cor e na grandeza; este leve sustento lhes davão por dia, só para que poudessem viver, para mais os atromentar. O mesmo observarão com a mais gente christam, que leva- ram prezioneira nessa mesma ocazião. Muitos christãos, que forão prezioneiros neste mesmo tempo, das terras de Salcete, aonde asistem por parrochos os padres da Sagrada Companhia de Jesus, chegarão muitas vezes a dizer que bemaventurados erão os christãos de Bardes porque hião em sua companhia os seus pastores, dando pasto as suas ovelhas, e que elles, ditos salçetianos, hião sem os seus vigários, e como de facto aconteçeo, que os ditos tres relli- giosos nossos não só asistirão, com os sacramentos, aos da província de Bardes, senão aos da província de Salcete. E com estarem os ditos padres tão miseravelmente trata- dos. não faltarão no zello spiritual de tantas almas. 38 — Em Bombaim e terras vizinhas Governando este Estado da índia o gouvernador Dom Rodrigo da Costa, no anno de 1685 se achavão por parrochos na ilha de Bombay tres frades nossos, filhos desta província, a saber: Frey Domingos de Jesus Maria, Frey Francisco da Cruz e Frey Pascoal de Conceipção, todos tres nascido neste Oriente. E como quer que os Inglezes se areçeassem do grande poder do Grão Mogor, poderoso monarcha neste Oriente // por embaixada que deste príncipe tiverão, intentarão os Inglezes que naquella praça se achavão, entregar a ilha, por ordem do referido Mogor, ao Sidy, que he hum dos regulados gentios que 456
  • na India existe, evitando asim muita mortandade que podia haver, se acazo o Mogor quizesse, por força d'armas, tomar a dita ilha. E tendo chamado os principaes a concelho, donde tam- bém se achavão outros referidos relligiosos que, cabendo lhes fallar na materia, protestarão ante o general ingles e os mais do concelho, que se não entregasse de nenhum modo huma prassa que tinha sido de coroa de elrey de Portugal. E que não acostumavão os Portuguezes entregar praça alguma, as mãos lavadas, sem derramarem, por Deos e pello seu rey, muito sangue. Taes rezoins souberão dar no concelho que se assentou em se não entregar a ilha, como de facto se não entregou, e voltando o embaixador para o dito seu rey Mogor, de tal sorte manifestou ao dito seu rey a actividade e rezolução dos padres portuguezes, que o Mogor, de admirado, o mais certo porque asim o premitio Deos, mudousse no arbí- trio pençado, e não tornou a intentar semelhante desígnio. No tempo do governo do mesmo gouvernador Dom Ro- drigo da Costa, na hera de 1685, achavasse na ilha Bom- baym por reitor da igreja da Senhora de Salvação o Pe. Frey João da Gloria, nascido na índia, filho desta província. Este relligioso, com ardente zello, trouxe ao conheci- mento da Igreja Romana a hum inglez que, deixando a eretica doutrina, se fes catholico romano, rebauptisandosse, o que, sabido pello general inglez, mandou logo prender ao Pe. Frey João da Gloria, pondo o em rigorosa prizão, e ultimamente foi pello dito general e pellos do seu con- celho condemnado, e que morresse asim o mestre como o discípulo em huma forca. teve o nosso general que então governava o Norte, Tristão de Mello de Sampayo, aviso das crueldades que os Inglezes usavão com o dito padre, como com o novo con- 457
  • versso, que sempre se obstentou constantíssimo na fée. Detriminou o dito nosso general çercar a ilha de Bombaym e fazer aos Inglezes huma bravissima guerra, o que, visto pelo general ingles, areçeandosse que do cerco lhe resultaria [57 t.] no // taveis inconveniências, mandou meter ao Pe. Frey João da Gloria em huma pequena embarcação e com elle o novo convertido e de noite os lançaram pel la barra fora, fazendo hum assento em concelho para que nunca o dito Pe. Frey João da Gloria poudesse mais entrar naquella ilha, sub penna de morte. Governando o Estado o conde de Vilaverde, D. Pedro Antonio de Noronha, o Pe. Frey Antonio da Conceição, nascido na Brasil, hindo por capellão ao Norte, na nao Nossa Senhora do Rozario, de que era capitam de mar e guerra Comes Rodrigues de Carvalho e Sousa, e gover- nador delia Luis de Melo e Sampayo, pelejando a dita nao com tres do innimigo arabio, depois de se renderem duas, estando para atracarem a terceira, e estando hum valente moiro com a mecha aseza querendo por fogo o payol da polvora, só a fim de se não render a nao, o dito Pe. Frey Antonio da Conceição, com huma larga na mão, saltou na nao innimiga e matando o moiro, apagou a mecha e, a sua immitação, muitos soldados entrarão na dita nao, com que foi rendida. Passou isto na era de 1692. No tempo do mesmo conde, em huma manchua em que hia por capitam João Homem de Magalhães, dous frades nossos, nascidos em Portugal, Frey Pedro de Alcan- tara, que hoje vive, e foi diffinidor da província e hum Frey Antonio, curista, sahirão feridos do inimigo Sivagim, que sendo a dita nossa manchua da guerra atracada de bastantes galvetas do dito innimigo, sahirão os ditos dous relligiosos da sorte que fica dito: o Pe. Frey Antonio, por cauza das feridas, morreo na nossa infermaria, e Frey Pedro de Alcantara logrou melhor fortuna, porque se sarou. 458
  • Achavasse nesta mesma era na ilha de Bombaim por reitor da igreja da Senhora de Salvação o Pe. Frey João da Gloria, como fica dito, antes que fosse lançado da dita ilha, sobre o mao trato que os nossos relligiosos ja experi- mentavão dos Ingleses. Sendo vice-rey deste Estado Caetano de Mello de Cas- tro, na era de 1704, dandosse no Poço de Surrate huma batalha ao innimigo arabio, sendo capitam mor D. Antonio de Meneses, nascido em Portugal, que delia sahio victo- rioso em oito naos nossas que se acharão na contenta forão oito capellães franciscanos, todos filhos desta província que, com fervorozo zello, assistirão naquelle ministério, como em assistir aos feridos. Forão estes: o Pe. Frey Estevão do Nascimento, capellão-mor da armada, nascido na índia, Frei João de Santa Clara, nascido na India, que obrou pro- dígios, confessando a gente e pelejando, Frey João Evan- gelista //, Frey Theodozio de S. Boaventura, Frey Francisco e Frey João da Graça, todos estes nascidos em Portugal. Deusse esta batalha naval em dous de Fevereiro em hum santo dia de Purificação. Os que actualmente servem continuamente por capellães em as armadas reaes passão de corenta os que ainda vivem, e alguns delles que são e forão mais frequentes na carreira são os seguintes: O Pe. Frey Pedro de Alcantara, ja nomeado, Frey Manoel de Santo Andre, Frey Francisco dos Anjos, Frey Manoel de Purificação, todos nascidos em Portugal, que em dez e doze armadas forão continuamente servindo de capellães no Golfo do Mar Roxo, e só Frey Ma- noel de Purificação, em vinte annos continnuos, occupou o dito ministério e ainda occupa, e assim os Padres Frey Antonio de Assumpção, hoje diffinidor, Frey Anto- nio de Santa Maria, Frey Hyeronimo das Chagas, todos nascidos na India, e asim mais muitos que ja falecerão 459
  • nestes proximos annos, sendo os frades desta província quasi únicos que sempre embarcão por capellães nas arma- das reaes. 39 — Baptismos gerais. Métodos missionários Os bauptismos geraes dos novos convertidos se conti- nuão com a mesma pompa, como nos passados annos, con- forme a cathecumenos que podem os ditos relligiosos des- cobrir com diligencia, trabalho, fazendo com os taes seu despendio. Frey Francisco de Santa Maria, nascido em Portugal, filho desta província, ja falecido, emparou muitos novos convertidos de ambos os sexos, pedindo por isso de porta em porta, sendo já de 70 annos de idade, e asim mais o Pe. Frey Damião de S. Joseph, ex-diffinidor, com evidente perigo de sua vida, reduzio a huma caza inteira de gentios, trazendo ao grémio da Igreja neste proximo anno de 1722, alem de outros gentios que tãobem reduzio nestes passados annos, despendendo com elles, conforme a relligiosa diligencia que buscou. O Pe. Frey Belchior dos Reis, lente jubilado, ex-diffini- dor, tem trazido ao grémio da Igreja nestes presentes annos bastantes gentios, valendosse de caritativos seculares para haver de os emparar e cazar. O Pe. Frey Domingos de S. Bernardino, mestre em lingoa ja atras nomeado reduzio a fé a muitos gentios, hindo pessoalmente, com perigo de sua vida, a terra firme para os reduzir, e depois de christãos os emparou valen- dosse do mesmo relligioso meyo, e todos os mais que andão na mesma missão de Bardes trabalhão na mesma deligencia, sustentando a custa de sua estolla aos ditos Novos con- versos, dous e tres annos e há alguns athe a morte, como o fizerão os Pes. Frey Francisco de Santa Ignes, que ja faleceo, sustentando duas novas christãs e hum nouvo 4 6 o
  • cristão emquanto viveo, o Pe. Frey Lucas dos Remedios tãobem trouxe para o seleiro da Igreja muitos // gentios *■] e emquanto viveo sustentou a custa de sua estolla huma caza inteira de novos conversos; estes relligiosos ambos falecerão depois de serem padres mais dignos da província: o primeiro era nascido neste Oriente e o segundo nascido em Portugal. O Pe. ex-provincial Frey Joseph de Assumpção, o Pe. ex-diffinidor Manoel de Nascimento, ambos nascidos na índia, sustentarão vários novos convertidos e actualmente sustentão com muita caridade, como tãobem todos os mais relligiosos que por parrochos assistem naquelle destricto. Nas terras do Sul, só o Pe. Frey Francisco de S. Boaven- tura reduzio a nossa santa fé mais de sincoenta gentios em seis annos que lá esteve por parrocho na hera de 1702, e outros relligiosos que lá assistem proximamente tãobem zelão para o fim da mesma conversão. Nas terras do Norte tãobem se occupão no mesmo ministério de reduzir almas a Deos, e ainda na era de 1720 fizerão os nossos relligiosos vigários parrochos do Norte hum lusido e pomposo bauptismo geral, que se bauptizarão bastantes gentios de ambos os sexos em o nosso convento de aSnto Antonio de Baçaim, sendo comissário do mosteiro dos nossos relligiosos o reverendo padre Frey Francisco de Santa Rosa, lente em theologia e ex-custodio, e neste prezente anno de 1722 se fes no nosso convento de Goa o bauptismo geral com magnifica pompa, como em todos os annos se observa, sendo actualmente provincial o Pe. Frey Clemente de Santa Eyria, lente em theologia. Nas capellanias frequentão com muito zello, achandosse em todas as ocasioens de mayor perigo. No tempo que governava o Estado Caetano de Mello e Castro, na guerra de Bicholim, se acharão ao seu lado tres relligiosos, filhos da província, Frey Manoel da Graça, 46 1
  • leitor e jubilado, Frey Belchior de Reis, tãobem lente jubi- lado, ambos nascidos em Portugal, e Frey Francisco de Santa Roza, nascido na índia. E no governo prezente do vice-rey Francisco Joseph de Sampayo, na guerra que emprehendo contra os levantado Angarra se acharão no cullabo dous relligiosos, filhos da província, o Pe. Frey Pedro de Alcantara, que foi ja deffi- nidor da província, hindo em companhia do capitam mór Antonio Cardim Froes, e ao depois quando o mesmo vice-rey intentou hir castigar o orgulho daquelle negro se achou no nosso exercito e o Pe. Frey Manoel da Purificação, filho da província, nascido em Portugal. Estas são as noticas summarias que podemos dar que obrarão os relligiosos desta província, desde a era de 1506, que tivemos convento em Goa, the o prezente da nossa Redempção de 1722. 462
  • 76 FUNDAÇOENS DOS CONVENTOS, COLLEGIOS E REYTORIAS QUE TEM OS RELLIGIOSOS DA PROVÍNCIA DO APPOSTOLO SAM THOME, DA REGULAR OBSERVÂNCIA DE NOSSO PADRE SAM FRANCISCO NO DESTRICTO DE GOA, NORTE E SUL Este documento è a sequência do precedente. Na hera de 1506 ficarão os relligiosos de S. Francisco na misquita dos Mouros, aonde esta hoje fundada a igreja que teve principio em mil quinhentos e dez a qual lhes adquirio Fr. Henrique de Coimbra no mesmo anno que Affonço de Albuquerque ganhou a ilha de Goa aos Mou- ros, e na era de 1518, voltando Frey Antonio Padrão do reino por prellado, acabou a dita igreja e convento em 1521, a despeza de el rey D. Manoel da gloriosa memoria. Passando das memorias antigas as modernas de nosso convento e igreja de Goa, achasse que na hera de 1661, no provincialado do Pe. Frey Manoel do Lado, ameaçava ruina a igreja antiga, sendo comissário geral o Pe. Frey João das Neves, o qual, mandando a derubar toda, lhe lançou a primeira pedra do alicerce. Para os gastos desta obra se suplicou a S. Magestade, que então era D. Affonso 6o, do nome entre os reys de Portugal, para que se dignasse de concorrer com sua esmolla para a dita redificação. Porvousse com liberalidade herdada dos reys seus pri- mogenitores, fazendo nos muita merce das capitanias de Sufalla, e Dio, para que as podessemos vender na primeira intrança, e do procedido dezpendessemos na dita obra. Não teve effeito esta merce real, porquanto os prellados, em cujo tempo chegarão estas referidas merces, renunciarão a S. Magestade, vendo que lhes não faltavão as esmollas para levarem a obra avante, c chegarem com ella athe sua 463
  • ultima perfeição, ilustre com que se obstenta dourado do alto a baixo. E pellos annos de 1707, 2.° do provincialato do Pe. Frey Thome, da Madre de Deos, vindo os claustros do convento abaixo, por se não poderem ter pella anti- guidade de seus annos, para que se veia que athe as pedras com o tempo se desfazem, podendo supplicar o referido prellado a S. Magestade, pedindo lhe ayuda para os gastos de sua redificação, não o fez, antes tomando o rumo ordi- nário dos filhos de S. Francisco, ao recorreo a seus devotos com cuias esmollas reparou a fundamentos a sua ruina, não ficando de fora os Reverendo parrochos de Bardes e Norte que todos ayudarão, dando dos quartéis que lhes dá Sua Magestade para sua sustentação; tem por anno de côngrua, que da S. Magestade, 996. Na mesma cidade de Goa, temos o sumptuozo collegio de S. Boaventura fundado na hera de 1602 para caza dos [5g v.] estudos, sendo custodio e commissario o Pe. // Frey Miguel de S. Boaventura a despeza das esmollas dos fieis, adquiri- das por intervenção dos nossos relligiosos. Hum portentoso milagre succede em todos os annos neste collegio no dia de festa deste santo doutor. Toma o guardião coatro mãos de seyra e ainda mais para se arder na vespora, matinas e mais officios do culto divino, e ardendosse muyta seyra, como também se diverte em muytas candeas que se repartem pellos hospedes no dia da festa, quando o sirieiro vem a pezar a seira, achasse so de demunuição dois arateis, e ja ouve acontecer não haver demunuição ninhuma. Vários goardioens observarão este prodígio, e o mesmo testifica Domingos de Nazareth, morador em Chorão, sirieiro, que dá a seira ao dito con- vento ha mais de trinta annos. Tem de côngrua por anno 996 xerafins. Em Bardes, província fronteira a ilha de Goa, temos o collegio dos Santos Reys Magos, aonde os vice-reys tomão
  • a posse do Estado da India, por decreto de S. Magestade, fundado pellos annos de 1555 por Frei João de Noé, custódio e commissario geral, a despeza de sua diligencia, buscando esmolas para a dita fundação. E pellos annos de 1594, fundou Frey Hyeronimo do Spirito Santo, custodio e commissario geral, ho seminário dos collegiaes do mesmo Reys Magos, sub invocação de S. Hyeronimo, pedindo esmolla para isso; e bem lamentão os referidos conventos pella morte do Pe. Frey Diogo da Madre de Deos, mestre jubilado, o qual, se foi notado em vivo pel lo que despendia tirando de esmola da província, nada menos he chorado na morte pello que a elles faltão, pois tudo quanto podia adquirir lhe parecia pouco para aplicar para o aceyo dos ditos collegiaes dos sobreditos collegios e meninos orphãos, e deste zello não ficarão degenerados os outros guardiaens que forão, e são do refe- rido collegio dos Reys, porem pella penúria dos tempos não se acha o dito seminário com sogeitos, como nos tempos passados houverão nelle, pois sahirão delle tantos com tão boa educação que forão relligiosos, e ainda na pro- víncia existem alguns que forão collegiaes do seminário dos Reys, e dos meninos naturaes muitos forão clérigos com sufficiencia cabal, assy no estudo da gramatica, como na musica, e finalmente nenhum houve que tivesse sido collegial ou menino orphão do dito seminário que não sahisse delle ao menos com a parte de bom muzico ou escrivão. Tem de côngrua por anno 1463-3 tangas1. Penetrando pello certão de Bardes, aonde rezidem os relligiosos de S. Francisco por parrochos, se discobrem as igrejas que se seguem pella ordem de sua antiguidade, fundadas pellos mesmos relligiosos e seus prellados missio- nários, a custa do seu trabalho e diligencia, suplicando esmollas de porta em porta, e as gancarias de cada huma i — tg." 465 Doe. Padroado, v-30
  • das aldeas donde esta cituada, e com outras circunstancias que acreditão ao zello dos mesmos relligiosos, como discre- vendo de algumas delias abaixo se verá. As quaes nume- radas são vinte e coatro, comprehendendo neste numero vya (?) nomeado collegio dos Reys, afora duas rezidencias que não são parochias, porem moradas dos relligiosos que tãobem acodem aos parrochos, huma he a capella de Nossa Senhora de Saúde de Vallverde, e outra do Bom Jesus no Monte de Gui // vy. E começando a fazer menção das sobreditas igrejas pella antiguidade da fundação de cada huma delias, achasse que o chão aonde antigamente estava fundada a igreja de Cau- doby, dedicada a Senhora da Esperança, e o da morada do parrocho, foi comprado a preço da esmolla pello Pe. Frey Pe- dro de Bellem, custodio e commissario geral, pelos annos de 1560, do trienal do Pe. Frey Antonio de Assumpção, a qual está em divida não só ao padre ex-diffinidor Frey Hyeronimo de Natividade pellos erros que lhe emmen- dou com a sua sciencia de architectura, poupando muitos dispêndios aos gancares da dita aldea, mas também ao Pe. Frey Antonio da Esperança, que trabalhou muito para que a dita igreja e casa do parrocho se concluísse de todo na perfeição, como hoje esta. A igreja de Nagoa, dedicada a Santíssima Trindade, foi fundada na hera de 1560, sendo custodio e commissario geral o ja nomeado Frey Pedro de Bellem com esmollas que para isso adquirio, ayudando com ellas aos gancares da mesma aldea. E pellos annos de 1679 se redificou de novo, as des- pezas dos mesmos gancares da mesma aldea, e tomou nova forma, com a qual se fas conhecida por huma das mayores que tem Bardes. A igreja de Sirulá, dedicada ao Salvador do Mundo, foi fundada na hera de 1565, no trienal do Pe. Frey Fran- 466
  • cisco do Salvador, custodio e commissario geral, a custa dos gancares da mesma aldea, e intervenção do dito prellado que com varias esmollas que adquirio os ayudou para que a igreja e a casa do parrocho se aprefeçoasse de todo. A igreja de Siuly, que dedicada ao nosso glorioso Santo Antonio foi fundada na hera de 1568, ultimo anno do governo do Pe. Francisco do Salvador, atras nomeado, por dois portuguezes homens de negocios, moradores em Goa, devotos de S. Antonio, os quaes despenderão seus cabedaes para a fundação delia. Correo com esta obra o Pe. Frey Bras dos Anjos que assistio a edifica la com toda a curiosidade, formando a em arcos sobre colunas que a parte a igreja em tres naves, fazendo a na ventagem e grandeza sem segunda em Bardes. Os gancares da dita aldea fizerão a casa para a morada do reitor. Hum cazo, entre galante e devoto, discobrio o dito Pe. Frey Bras dos Anjos, estando dando principio a obra desta igreja, porque lhe aparecia em varias partes, adonde a obra se fazia huma grande cobra de capello. Estava o padre rezoluto a deixar o fitio, quando senão hindo fazer oração, achou que o santo trazia na mão enroscada a pro- pria cobra, dando a entender que a matasse, e de facto não largou o santo a cobra da mão, senão despois de estar ja morta, com que cessando este medo, foi o dito padre levando a obra para diante, dando graças a Deos e ren- dendo as mesmas ao santo. A igreja de Aldoná, dedicada a S. Thome appostolo, t60 r foi fundada pello Pe. Frey Fernando de Paz, pellos annos de 1569, sendo custodio e commissario geral, pellos mes- mos gancares da dita aldea e rogos do dito prellado que tãobem concorreo com esmollas, que adquirio, para se con- cluir assy com a obra da igreia como com a casa do parrocho, sendo o reitor o padre ex diffinidor Frey Fran- 467
  • cisco da Virgem Maria se fez nessa igreja huma nova e fermoza capella mor, com bem trabalho do dito reitor na hera de 1690. A igreja de Velluy, dedicada a Senhora dos Remedios, huma das grandes de Bardes, foi fundada na hera de 1569, do 2." anno do triennio do mesmo Frey Fernando de Pax, com esmollas adquiridas da dita aldea e outras pessoas particulares que concorrerão para a obra da igreja e mo- rada do parrocho. A igreja de Callualle, dedicada a Chagas do S. Fran- cisco, foi fundada na hera de 1591, sendo custodio e commissario o Pe. Frey Manoel Pinto, e redificada nova- mente pellos annos de 1638, ultimo do provincialato do Pe. Frey Pedro da Purificação, e lhe lançou a primeira pedra no alicerçe o Pe. Frey Paschoal de Santa Maria, reitor da dita igreja e ex-diffinidor da dita província, e despois de queimada a parte da caza e os tres retabolos da igreja pello inimigo Sambagy na hera de 1682, do pro- vincialato do Pe. Frey Diogo de Madre de Deos, foi novamente reparada. Deve esta caza ao padre ex-diffinidor Frey Diogo da Cruz, pella muita madeira que a foi buscar a outra banda, na terra do mesmo inimigo, vizinha a nossa, depois de sua retirada, que a tinha levado de nossas terras, e muytas portas e taboas da mesma caza, e igreja de Callualle, com a qual madeira se reparou a igreja novamente, evitando muitos dispêndios a aldea a ella pertencente. O retabolo mor que hoie tem a igreja lhe deu o refe- rido prellado Diogo da Madre de Deos, por preço limi- tado, por ter sido o dito retabolo do collegio dos Reys, casa conventual, desde a sua fundação. Os dous retabolos colateraes do cruzeiro da mesma igreja, como tãobem a imagem da Senhora do Rosario, que está collocada em 468
  • hum dos retabolos, agenciou com pouco custo o Pe. ex-diffi- nidor Frey Miguel de S. Jozeph. Sendo reytor, com o que se popou muitos dispêndios a estas aldeas, pertencentes a mesma freguesia, o padre ex-diffinidor Frey Damião de S. Jozeph, na hera de 1713 edificou novamente esta igreja de abobada, e não teve pouco trabalho na assistência desta nova fundação, supposto foi o despendio por conta da dita aldea. Era provincial auctual o Pe. Frey Francisco de S. Ignes. Na hera de 1712. A igreja e caza de Mapussá, dedicada a S. Hyeronimo, foi fundada na hera de 1594 pello ja referido Pe. Frey Hyero- nimo do Espirito Santo, a despendeo dos gancares da dita aldea, em que esta a igreja, como das outras duas vizinhas aneixas a mesma freguesia, e com bastante ayuda das esmollas que o dito padre Frey Hyeronimo adquirio peíla sua diligencia e trabalho. E pellos annos de 1674 se redificou de novo, sendo provincial o Pe. Frey Manoel de Paixão, no principio de seo 2.° anno, a custa das mesmas aldeas, e muita diligencia e trabalho do padre ex-diffinidor Frey Carlos dos Remédios, e no anno de 1719, sendo pro- vincial o Pe. Frey Joseph de Assumpção, o Pe. Frey Fran- cisco da Madre de Deos, sendo reitor da dita igreja, vendo // crescer tanto a devoção dos fieis nas continuas roma- t6,l rias que fazem ao santíssimo simulacro da Senhora, de todos os bens que estão no altar colateral a mão direyta, ao entrar da igreja, com bastante trabalho fez o dito padre com que as aldeas germanadas com a confraria da dita Senhora ediffiçassem hum sobrado lanço, bem exten- dido, para o gasalho da principal gente que vem em roma- ria, e com huma casa abaixo muy espassoza para a comffra- ria recolher nella e assy o thezouro, como toda a prata e mais ornato pertencente a dita confraria. Adiante se dará a noticia dos milagres asinalados que tem obrado Deos em esta santa imagem. 469
  • A igreja de Callangute, dedicada a Santo Aleixo, e a morada do reitor, foi fundada na hera de 1595, 2.° do anno ja nomeado Frey Hyeronimo do Espirito Santo, por intervenção sua e respendeo dos gancares da dita aldea. Na hera desto, sendo reytor o Pe. Frey Ayres de S. Thiago, com seo zello se fez a igreja nova, visto a antiga ser muito pequena e não caber nella o concurso de coatro mil freguezes, e depois de ser novamente redificada he hoie huma das mayores igrejas que tem a província de Bardes. Os gancares da dita aldea concorrerão para os gastos, para esta segunda redificação. Era provincial actual o Pe. Mestre jubilado Frey Pedro de Santa Maria. A igreja de Anjuna, dedicada a S. Miguel, e a morada do parrocho foy fundada no anno de 1603 pello je refe- rido Frey Miguel de S. Boaventura, a despendeo dos ganca- res da mesma freguesia, e muita deligencia do mesmo padre, ayudando os no que podia. No trienal do Pe. Frey Fran- cisco de S. Ignes, o padre ex-provincial Frey Pedro de Santa Maria, sendo reitor desta igreja, na hera de 1613, vendo que a capella mor era muy pequena e ficava dis- forme pella igreja ser grande, edificou de novo huma capella grande, com a qual fes fermozear a igreja. Os gancares da dita freguesia contribuirão com o dispêndio para o vencimento da dita obra. A igreja de S. Diogo de Sangolda, cita na aldea de Guiry, foi fundada na hera de 1604 pello mesmo Padre Frey Miguel de S. Boaventura, ayudado das esmollas dos gancares da dita freguesia, e não obravão menos os reyto- res mais chegados a nossos annos para repararem as ruinas delia e da morada dos parrochos, merecendo particular lembrança aos Pes. Frey George Homem e Frey Carllos dos Remedios, pello incançavel zello com que se aplicarão para darem a ultima perfeição a que tem chegado. 47°
  • A igreja de Ocassay, dedicada a Santa Izabel, raynha de Purtugal, e morada do parrocho, foy fundada na hera de 1621, no provincialato do Pe. Frey Antonio Facundes, com intervenção e ayuda do mesmo prellado, a custa dos gancares da mesma freguesia, e porque cahisse esta igreja em huma tromenta do inverno, sendo reytor o Pe. Fran- cisco de S. Boaventura a fez edificar de novo e com tanto trabalho que chegou este relligioso a levar em seus hombros a madeira asima para que, a seu exemplo, os freguezes fizessem o mesmo, para asy se evitarem mayores despezas. Era provincial então o Pe. // Frey Thome de Madre de C6' Deos, na hera de 1708. A igreja de S. Lourenço de Linhares, chamada vulgar- mente asy com o nome do seu fundador, o conde de Linha- res, está cituada no pino de oiteiro da Agoada. Foi erigida no anno de 1633, o ultimo do trienal do Pe. Mestre Frey Antonio Facundes. Logra o titulo de parrochia desde o anno de 1688, do provincialado do Pe. Frey Antonio da Esperança, por se lhe agregar a povoação que tem de muros a dentro, no mesmo prezidio de Agoada, e o reytor da dita igreja he capellão da fortalleza de Agoada. Não tem quartel de parrocho, e só 6 xerafins por mez lhe dá elrey da capelania. A igreja de Tivy, dedicada a S. Christovão, com a inva- zão do inimigo Sambaygi se abrazou toda, porem não poude a voracidade do fogo consumir as memorias dos antigos de sua fundação, de tal sorte que entre as suas cinzas não revivem. Achasse pella tradição dos velhos ser ella, e a morada do reytor fundada no anno de 1634, a despeza dos mesmos gancares, sendo provincial o Pe. Frey Francisco de Barcellos e por intervenção sua. Foi redifiçada novamente pellos annos de 1625 (l) do (1) Há aqui erro evidente de datas, mas encontra-se em ambas as cópias. 47 1
  • provincialato do Pe. Frey Ignacio do Rosario, a custa dos gancares e com muyta moléstia dos reytores que forão naquelles tempos. A igreja de Moirá, dedicada a Senhora da Concepção, foi fundada no anno de 1636, como tãobem a caza do parrocho, pellos gancares da dita aldea, no ultimo anno de triennio do Pe. Mestre jubilado Frey Francisco de Bar- cellos, não deixando este prellado de os ayudar, dando lhes para o retabolo da capella mor hum retabolo, tirando do nosso convento de Goa, e com o mais necessário para a limpeza do culto divino, atendendo a pouca possibili- dade delles. A igreja de Parrá, dedicada a Santa Anna, fundou a o Pe. Frey João Monis pellos annos de 1649, sendo pro- vincial o Pe. Frey Hyeronimo Ferras, e todo o madeira- mento, assy da igreja como da casa do parrocho, deu lhe o referido prellado, trazendo o do Norte, na volta que fez de hir visitar, tirando o do convento de Chaul, como também o mais necessário para a limpeza do culto divino. E queymando o innimigo Sambagy esta igreja a redificarão os gancares, fazendo a de abobada na hera de 1688, do provincialado do ja nomeado provincial Frey Antonio da Esperança. A igreja de Bessorá, dedicada a Nossa Senhora da Victo- ria, e caza para morada do parrocho, fez a sua custa o Pe. Mestre jubilado Frey Manoel Bauptista, na hera de 1653, 2.° anno do provincialado do Pe. Frey Antonio de Trindade, sem concorrerem os parrochianos da dita fre- guesia com couza alguma, mas tão somente com muitas esmollas que o dito padre adquirio dos fieis, assy na cidade de Goa, como em todo Bardes e ilha de Goa. E pellos annos de 1675, 2." trienal do Pe. Frey Manoel de Paixão vindo a abobada da igreja abaixo, sendo reytor delia o Pe. Frey João Basptista, os gancares da dita igreja a 47 2
  • fizerão de novo a custa de sua gancaria. E pellos annos de 1705, queimando toda a caza do parrocho o innimigo Ghema Saunto, os gancares a sua custa a redificarão em tempo //de dois parrochos que rezidirão, os padres commis- sarios do Santo officio, Frey Domingos de S. Bernardo e Frey Francisco da Madre de Deos, pregador jubilado, ex-diffinidor e auctual custodio da província. A igreja de Pillerne, dedicada a S. João Bauptista, e caza do parrocho, teve o seu principio por huma ermida- zinha que fez o Pe. Frey Diogo da Santa Clara, a custa das esmollas, correndo a hera de 1658, do provincialado do Pe. Frey Antonio de S. Francisco. Os reytores que o seguirão a redificarão o melhor que puderão por duas vezes, e passando algum tempo o Pe. Frey Antonio dos Anjos fez a çella e a portaria ([portr.") que a caza tem com esmollas para abrigo do agazalho dos parrochos. A aldea ou os gancares delia fizerão a igreja, sendo reytor o padre ex-diffinidor Frey Carlos dos Remedios, se fes a sanchristia a custa de huma esmolla que a aldea lhe deu; fes o dito padre o mais que tem a casa, na forma que hoie existe, excepto a varanda, que a fes o Pe. ex-provincial Frey Ber- nardino de S. João. Hoje esta a dita igreja mais augmen- tada pello grande zello de seus parrochianos. A igreja de Virllucá, dedicada a eSnhora da Penha de França, e casa do parrocho, foy feita a custa de sua fun- dadora Donna Anna de Azevedo na hera de 1655, pri- meiro do provincialado do Pe. Frey Lourenço da Con- cepção, e toda ella em huma palavra não deve nada a seus fregueses, tudo porquanto se gastou e se gasta no seu reparo e aseyo se tira da parte do rendimento do palmar que pertence a confraria da dita Senhora de Penha da França, porque assy deixou ordenado a fundadora, em verba do seu testamento. 173
  • A igreja de Pomburpa, dedicada a May de Deos, e a morada do reytor, foi fundada a titulo do collegio, para se criarem nelle meninos, ensinando lhes ler, escrever e contar e outros bons customes, pella sua fundadora, que foy huma nossa irmã da 3." Ordem, deixando a fazenda aneixa a ella, para se reparar com seu rendimento. Igno- rasse o anno de sua fundação, por se não saber de certeza, porem pella conjectura e pratica dos antigos se discobre que teve principio em os annos poucos depois que foi feita a caza de Penha de França, correndo os annos pella hera de 1670. Sendo reytor da dita igreja o padre ex-provincial Frey Antonio de Assumpção, com esmollas que adquirio, e o mais que poude negociar de esmolla da missa e officios, por via dos seus amigos seculares, a varanda e as duas cellas fronteiras a rio fez a sua custa, pondo a igreja e caza com o aseyo que hoje se deixa ver, sem que os gan- cares da dita freguesia concorressem com couza alguma. A igreja de Oxel, dedicada a Senhora do Mar, e casa do parrocho, fes o Pe. Frey Antonio de S. Bernardino na hera de 1661, sendo provincial o Pe. Frey Manoel do Lado, ayudado da primeira esmolla que para isso deo o Pe. Pedro Franco, clérigo do habito de S. Pedro, ao padre reytor, seu irmão. Tudo quanto tem esta igreja, assy o retabolo e mais paramentos de altar lhe derão os nossos prellados, tirando do nosso convento de Goa. [6a v.] Correndo o tempo, vários // relligiosos a repararão com esmollas que pedirão, e no tempo em que foy pro- vincial o Pe. Frey Ignacio do Rosario, pellos annos de 1685, acudio o dito prellado a ruina que ameaçava a abobada da igreja com esmolla, tirada de nosso convento de Goa, merecida de missas e officios, e os reytores que vinhão sucedendo nella huns levantavão o frontespicio, a funda- mentos, quebrando o velho que se tinha vindo ao chão, 47 4
  • outros fiserao as cellas para o gasalho do parrocho, e final- mente outros buscando quem lhe desse o sino, por ter o innimigo Sambagy levado o outro, que também adquirirão com esmollas. A igreja de Nossa Senhora do Socorro, e a caza do parrocho, fizerão os freguezes pertencentes a parrochia em os annos de 1667 (sic), do primeiro do provincialado do Pe. Frey Antonio de Assumpção; hoje está muito augmen- tada, por se não descuidarem delia os seus mesmos parro- chianos. A igreja de Nachovalla, dedicada a Bom Jesus, e a caza do parrocho, fizerão os gancares da dita aldea, correndo a hera de 1676, aos 26 de Julho, no primeiro anno do pro- vincialado do Pe. Frey Pedro de Purificação, o qual prellado ayudou muito aos gancares, conhecendo a sua pobreza, dando lhe por preço muy limitado hum retabolo do nosso convento de Goa, para o collocarem na sua igreja, e o padre ex-diffinidor Frey Carlos dos Remedios foi o que correu com a fundação da dita igreja, poupando muytas despezas aos gancares. Em cada huma destas igrejas assiste hum relligioso por parrocho, e de côngrua tem trinta e oito xerafines que lhe paga Sua Magestade em cada tres mezes, entrando a paga dos merinhos, que são seis tangas por mez, excepto os reytores das igrejas de Socorro e Pillerne que são pagos dos quartéis dos outros reytores, suprindo cada hum dous xerafins do seu quarto, por assy terem disposto os prella- dos, depois que estas duas igrejas se fundarão. O relligioso que assiste na capella de Valle Verde e outro que assiste na de Monte de Guiry, se sostenta com a Divina Providencia, com esmolla de fieis e das missas que dizem. 2 - X." 475
  • Nenhuma das igrejas ja referidas em syma tem fazenda ou couza que valha, pertencente a fabrica. A fabrica que merecem he das couzas dos que se enterrão nellas, doze tangas dos que se sepultão no cruzeiro, e seis pellos que se enterrão no corpo da igreja, e a dita esmolla da fabrica se entrega ao fabriqueiro secular, eleito pellos mesmos fre- guezes, e despendesse desta fabrica no aceyo do culto divino, com licença que se impetra. As igrejas que tem a nossa província nas terras de Norte são vinte e sinco, que todas tiverão principio na hera de 1534. Forão ediffiçadas todas pello ardentíssimo zello do venerável Pe. Frey Antonio do Porto, nascido em Portugal, filho desta provinda, sendo então custodio, com [63] real ajuda de el-rey Dom João 3.° nosso senhor, //de felice recordação, e logo no seguinte anno forão edifficados mais dous conventos, como abaixo melhor se verá. Na cidade de Baçaym temos o convento, com a voca- ção de S. Antonio. Foy ediff içado na hera de 1535, pello Pe. Frey Antonio do Porto, com real ajuda. Tem de côn- grua por anno que Sua Magestade, que Deos guarde lhe aplica, em 4 quartéis, 400 xerafins (*•"). A igreja do Espirito Santo. A igreja do Monte Catur. A igreja da May de Deos de Palie. O collegio da Senhora da Luz, de Agaçaym. -» A capella de Santa Maria Magdalena. Na ilha de Salcetf. O collegio da Senhora de Concepção de Manapasser. O collegio de Caranja, de S. Francisco. A igreja de S. Boaventura de Avengal. A igreja de S. Thome appostolo, de Pave. A igreja da Senhora de Assumpção de Magtana. 476
  • A igreja de S. Hyeronimo, de Cassy. A igreja de N. Senhora de Nascimento, de Bainel. A igreja de S. Bras, de Ambuly. A igreja da Senhora do Socorro, de Manory. A igreja de Nossa Senhora do Mar, de Utana. A igreja da Senhora da Saúde, de Vercova. A igreja de Nossa Senhora de Egypto, Collecaliana. A igreja de S. Antonio, de Maluana. A igreja de S. Sebastiam, de Maroby. A igreja de S. Antonio, de Turumba. A igreja dos Santos Reys Magos, de Gocay. A igreja de Nossa Senhora da Salvação, de Carania. A milagrosissima capella de Nossa Senhora da Penha, de Carania. A côngrua de todas estas igrejas de Norte satisfazem os senhorios das aldeas, de donde as igrejas são erectas, excepto dous collegios, a saber, o collegio de Carranja e o collegio de Agaçaym, que Sua Magestade lhes dá a cada huma delles, por anno, duzentos e correnta xerafins de quartel, e mays tres parrochias, a saber: Salvação de Bombay, Maroby e Cassy, que Sua Magestade lhes aplica por anno a cada huma delias cento trinta e oito xerafins. Na ilha de Bombay temos tres igrejas, a saber: S. Ber- nardino, S. Miguel e Salvação. Destas nos lançarão fora os Ingleses nestes proximos annos. Na cidade de Chaul temos hum convento, com o titulo de S. Barbora, que foy feito na hera de 1540 pello ja refe- rido Pe. Frey Antonio do Porto. Tem de côngrua, por anno, que lhe da Sua Magestade, 61 xerafins, e só sinco igrejas de Norte paga Sua Magestade por anno 756 xerafins, as mais igrejas todas pagão os senhorios das aldeas, como ja atras fica dito. 477
  • E assy mais temos na mesma cidade huma igreja parro- chial, com a invocação da Senhora do Mar. Não tem de côngrua por anno cou2a alguma. [63 v.] // Nas terras do Sul, no reino de Mallavar, tem a província ainda 8 igrejas parrochiais, que forão fundadas no principio que se discobrio a índia pellos mesmos relli- giosos nossos, filhos da província, a saber: A igreja de Nossa Senhora do Parto, em Ceilão. A igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Trivilar. A igreja de Santo Antonio, no Mato de Rainha. A igreja de Santa Cruz, em Mangate. A igreja de Santo Andre, em Ceitaca. A igreja dos Santos Reys Magos, no Pegu. Outra igreja de Santo Antonio, em Ceilão de Sima. Tem de côngrua cada reitor destas igrejas cem xerafins por anno. Depois que o Padre Mestre jubilado Frey Diogo da Madre de Deos suplicou, sendo commissario geral, ao Sereníssimo Senhor D. Pedro 2.° do nome, entre os reys de Portugal, correndo a hera de 1688, athe este tempo, vivião os relligiosos parrochos daquelle destricto de esmollas. Em S. Thome tem os nossos relligiosos, filhos da pro- víncia, huma igreja parrochial, erecta a Nossa Senhora da Luz, fundada despeza da esmolla adquirrida dos fieis. Em Pegu tãobem tem os nossos relligiosos da província duas igrejas parrochiaes, huma dedicada a Senhora da Saúde, e outra a Nossa Senhora das Merces, fabricadas a custa das esmollas, adquiridas pellos nossos relligiosos. 478
  • 77 DOS RELLIGIOSOS, FILHOS DA PROVÍNCIA, QUE FLORESCERÃO EM OPINIÃO DE SANTIDADE, CUJAS NOTICIAS AINDA NÃO ESTÃO NAS CRÓNICAS Continuação do precedente documento. Acrescentamos-lhe sub- títulos. Frey Manoel da Concepção, português, nascido neste Oriente, de pais muito nobres, filho desta província do Appostolo S. Thome, varão insigne em vertude. Faleceo no anno de 1619. Obrou Deos por este santo relligioso infi- nitos milagres em sua vida e morte. Foi enterrado no nosso Capitulo de Goa, e dahy a dous annos, achando-se o seu corpo inteiro, lançando de si oloroza fragrancia, se depusi- tou em huma arca de madeira na casa do sacrario. Esta ainda hoje o corpo inteiro e incorrupto. Pera que os fieis crerão só em hum prodígio que foy o Pe. Frey Manoel se refere este milagre que obrou Deos entre os mais em sua vida: sendo elle guardiam do nosso convento de Ba- çaym, em huma sesta feira mayor, entrando elle no refei- tório com os mais relligiosos, súbditos do dito convento, não achou nem os mais pão em as suas reçoens, ou fosse por discuido do porteiro, ou porque assy Deos o tinha prometido. Disse o Pe. Frey Manoel: «Padres, o pão está nas reçoes, Vossas Reverencias fação o sinal da cruz nellas, que logo os achará. Assy foi, fazendo os padres 0 sinal da cruz nas reçoens, logo se lhes apareceo repenti- namente o pão nas reçoens. 1 — Frei Pedro da Madre de Deus Frey Pedro de Madre de Deos, nascido em Portugal, frade leigo, filho desta província, relligioso de santa vida. 479
  • Tinha este relligioso por custome andar todas as noites lançando a agoa benta em todas as covas dos defuntos, assy enterrados na igreja, como no capitulo dos relligiosos e claustros, e muitos frades ouvirão falar ao dito Irmão Frey Pedro muitas vezes com os mesmos defuntos // andando naquelle seu pio exercício nas covas. Em huma occazião, tendo falecido hum cuzinheiro do convento de Baçaym, por nome Martinho, natural do mesmo Norte, que por morrer alucinado por cauza do muito vinho que bebeo, morreo sem ninhuns sacramentos o venerável Irmão Frey Pedro de Madre de Deos, andando naquelle seu piadozo exercício de deytar a agoa benta pellas covas, passou em claro pella cova do cuzinheiro Martinho, sem lha deitar. A isto ouvio da cova humas sintidissimas pala- vras nesta forma: «Padre Frey Pedro, abasta que Vossa Pa- ternidade, sendo tão charitativo com os mais defuntos, passa pella minha cova, sem me lançar a agoa benta.» Respon- deu lhe o venerável Pe. Frey Pedro: «vos não morrestes sem nenhum sacramento ante hontem, porque morrestes sem juizo; logo, como hei de lançar a agoa benta na vossa sepultura, se duvido da vossa salvação.» «Padre Frey Pedro — lhe respondeo o defunto — he verdade que pellos meus grandes peccados e morrer sem sacramento se via eu condenado a eternas penas, porem estando eu para morrer, lutando com a morte, vy ao Venerável Pe. São Fran- cisco de juelhos, rogando a Deos por my, para que me desse a boa morte, fazendo lhe prezente os annos que eu servy a seus filhos na sua cuzinha, com que atendendo Deos os rogos de Nosso Santo Patriarcha, me mandou para o purgatório.» A isto lhe respondeo o venerável relligioso, lançando lhe a agoa benta em abundancia: «Sim, irmão, a vos mais agoa benta que aos outros.» O mesmo relligioso descubrio este cazo a todos os relligiosos do convento assy para lhes crescer mais deyoção if 8 o
  • em Nosso Padre S. Francisco, como por vos ajudar com missas e mais suffragios pella sua alma. No nosso convento de Santa Barbora de Chaul faleçeo, cheio de merecimentos para hir gozar do descanço eterno, no anno de 1631, no mes de Março, em hum sabbado, como dizem os antigos escriptores da província. Foy sepul- tado no capitulo do mesmo convento, e depois que por vezes, achandosse o corpo inteiro lhe lançarão cal e vina- gre, se collocou o corpo em huma arca de madeira, e fica depositado na caza do sacrário do mesmo convento. Querendo huma vez, depois de sua morte, o Pe. guar- diam que então era Frey Pascal da Concepção devotada- mente ver o corpo deste venerai relligioso, em companhia de hum padre prior de Santo Augustinho, lhe não foi possível, porque subindo ambos, o primeiro degrao, de repente huma das tres alampadas da Capella mor, quebrando a corda, veo ao chão. Passarão os dous padres ao segundo degrao, e logo veo ao chão a segunda alampada, e como o guardiam advirtisse que em hum dia antes se tinha amarrado as tres cordas nas tres alampadas, bem novas, disse ao padre prior: «Reverendo Padre Prior, parece que Deos não quer que vejamos o corpo deste seo servo». E com isto mudarão de intento. Ainda hoje vivem os relligiosos que ouvirão repitir este caso do mesmo guardiam Frey Pascal de Conceypção, porque este relligioso viveo mais de sem annos. O Pe. Frey Domingos de S. Bernardino, excellente pregador na lingua, e auctualmente commissario do Santo Officio, repete que, sendo elle irmão corista, e achandosse por sanchristão do dito nosso convento de Chaul, lhe acontecera muitas vezes não atiçar as alampadas do San- tíssimo, e se achar em outras occupaçoens do convento, e querendo atiça las depois de muito tempo, achar as troci- das muy bem aparadas e a alampada com globos de luzes 481 Doe. Padroado, v-81
  • que o deixava espantado, e muito mais, vendo que tra- zendo elle sempre a chave da igreja consigo, sem a fiar de ninguém, via as alampadas naquella forma. Tirouse de toda a duvida, quando o venerável Pe. Frey Francisco de Salvador, de quem logo faremos menção, lhe disse: «Irmão sanchristão, se for preguiçozo [«< t.] no atiçar // das alampadas do Senhor, não faltará lá outro sanchristão, que com milhor zello supra milhor a sua falta.» Dava nisto a entender este relligioso que o vene- rável Pe. Frey Pedro, ainda depois de morto, tinha cuidado daquella deligencia, como sendo vivo. Isto mesmo observa- rão sucessivamente outros sanchristaens que forão daquelle convento. 2 — Frei Gonçalo de S. José Frey Gonçalo de S. Joseph, nascido na índia, de pais illustre, filho desta província, antes de se meter relligioso, pellas suas vertudes e lettras, chegou a ser deam da santa sée de Goa, como também provizor e vigário geral do arcebispado, e governador do dito arcebispado de Goa em huma occazião de sede vacante, porem vendo que as vaidades do mundo so servião para mayor tropeço, lar- gando todas estas dignidades referidas, se meteo relligioso no nosso convento de Goa, trocando a murça pello gros- seyro sayal franciscano, e supposto que ja no século era conhecido por virtuozo, depois que se vio em clausura, verdadeiro paraizo dos anjos humanados, forão taes as suas penitencias, jenjuns, abstinências e disciplinas, que fazia maravilhar a muitos relligiosos de vertude, ja crescidos e provectos da provinda, que na relligião entrarão, sendo ainda meninos. Não deixava o demonio de tentar a este novo soldado de Christo, trazendo lhe a memoria, assy a riqueza, que 482
  • no século deixava, como também as honrrozas dignidades, especialmente no anno da sua aprovação, quando o Mestre dos noviços o mortificava, porem o servo do Senhor, Frey Gonçalo de S. Joseph, armavasse fortemente contra o demonio com a vertude da humildade. Succedeo em huma occazião ir atiçar as lampadas, como he custume, e recolhendosse ao noviciado em tempo que os mais noviços e coristas do noviciado se achavão em parla, que se concedem aos irmãos em dias festivaes, vendo pois o Irmão Frey Gonçalo de S. Joseph hum tanto discom- posto, por cauza do azeyte dos candieiros denegrir lhe por discuido parte do rosto, se puzerão os irmãos todos a rir, por naturalmente o pedir o passo, se poz Frey Gonçalo parado, e confuzo, ignorando o descuido do rosto, e só pençando a que fim se rião os irmãos delles, servindo elle de objecto a tanto riso. Aquy forão as tentaçoens do commum innimigo para com Frey Gonçalo mais cruelissimas, trazia lhe a memoria o differente respeito que delles tinha no século pessoas muy principais, e ver se de prezente ultrajado por huns poucos de meninos, emfim cahio logo em sy, depois que hum dos noviços lhe advirtio a cauza, porem por ter para si que se mostrara soberbo e desvanecido, dando lugar a que o demonio o tentasse com a lembrança do século, despois de recolhidos os noviços, se foy pellas dez horas da noyte, em certo lugar, a que não pudesse ser de nin- guém precentido, e em duas horas tomou huma cruelissima disciplina sanguinolenta. «Ea pois, senhor Dom azno, — falava consigo — tem Vossa Merce, grandes saudades das honrras que deixou la fora, pois todas as vezes que se recordar dessas dignidades lhe hei de dar estas boas ceas». E assy esteve athe se tocarem as matinas, e foy para o choro sem amostrar desfalecimento algum corporal. Dous noviços d83
  • que acaso ouvirão os asoites, vierão demais perto e lhe ouvi- rão o que fica referido. Despoes de professo, era em Goa hum oráculo entre os seculares e ainda entre relligiosos de outras relligoens, porque como era famoso letrado, virtuozo relligiozo, todos o buscava consul // tando em seus particulares. Entre as mais vertudes de que era dotado, ardiasse em chamas da verdadeira caridade para com o proximo, ora paguandosse dicençoens, outras vezes servindo nos hospitaes, na asisten- cia dos emfermos mais imundos. Jejuava todos os dias, e na sesta feira o pão e agoa. Sabia excelentemente a lingoa dos naturaes e nella pregava aos indios, rezultando das suas fervorosas pregaçoens mui- tas conversaçoens dos gentios. Foy mandado por visitador em Ceylão, e foy tal a sua obediência, que sendo ja de crecida idade, não recusou, antes, tomando atenção ao prellado, se foi logo a Ceylão a encarregarse daquella occupação, em que a relligião o mandava, e lá, em tres annos que a vida lhe durou, obrou maravilhas no serviço de Deos e da relligião. No anno 1632 faleçeo no mesmo convento de Ceylão, aonde foi sepultado e depois lhe treslladarão o corpo que o acharão inteyro, ao nosso con- vento de Goa, que entre muitos corpos inteiros, que adepois acharão se no dito capitulo do convento de Goa, está depozitado na parede do mesmo capitulo, atras da capella, entre os mais de relligiosos que morrerão com opinião de santidade, dos quaes logo faremos menção. 3 — Frei Francisco do Salvador Frey Francisco de Salvador, nascido em Purtugal, filho desta província de S. Thome. Foy este relligioso de exem- plar vida; sendo ainda frade moço, dava raríssimo exemplo de sua pessoa, que era buscado por todos os seculares, 484
  • communicando lhes o seu espirito, e vendo o padre que em Goa o tinham por virtuozo, pedio o prellado huma obediência para poder morar por súbdito no nosso con- vento de S. Barbara de Chaul, fugindo das falças vaidades da corte, para o perpetuo desterro daquelle convento. Era a sua vida tão conhecida ja pellos moradores de Chaul que quando algum adoecia de alguma grande emfer- midade, mandava pedir ao guardiam daquelle convento o subeyo da reção do Pe. Frey Francisco do Salvador, o qual não era mais que hum prato de arroz, amisturado com a cinza, e no mesmo instante que o tal emfermo comia daquellas migalhas, se achava sãa, e em remuneração reme- tião ao guardião algum provimento para o convento, para haver de se mandar o sabeyo do venerável padre. Era . necessário que se fizesse a furto, de modo que em sua vida nunca no a saber, que se o subera em tal a sua humildade que nunca em tal consentira. Não chegava dormir na noite duas horas inteiras, que o mais do tempo o tomava no choro, aonde depois de gastar a maior parte delia em divinos solilloquios, em fervorozas oraçoens, tirava pellas humas disciplinas e se assoitava em tal forma que deixava o pavimento do choro, na parte em que se assoitava, cheo de sangue, tanto assy que os guar- diaens, que forão daquelle convento, mandavão aos choris- tas que com agoa e pano lavassem e alimpassem o sangue que o Pe. Frey Francisco de Salvador deixava no choro. Memoria da sua muita vertude, ainda vive o Pe. Frey Do- mingos de S. Bernardino, foy hum dos que hia sempre alimpar o sangue no choro com agoa e panos. A sua cama trazia o santo relligioso sempre muy limpa, ao estillo relligioso, mas não para se deytar nellas, porque depois de se recolherem os relligiosos, dava aquella breve refeição ao corpo sobre o sua // lho da [65 r.] cella; isto por vezes virão vários frades, que em algumas 4*5
  • vezes entrarão na cella, quando por descuido do dito padre não se olhava a cella por dentro. O capitam de Chaul, Manoel de Saldanha, deu em huma occazião, hum chamaris ao Pe. Frey Francisco de Salvador em huma gayola de arame. Tratava o padre deste passarinho com singular cuidado. Vindo pois elle em huma occazião de choro, depois das vesporas, abrindo a cella, e hindo ver na gayola a sua avezinha, achou a degollada como que lhe partissem a cabeça com huma faca, estando a gayola muy bem fechada. Riosse o padre e logo disse por tres vezes estas palavras formaes: «Ja sey, ja sey, ja sey». E lançou a gayolla pella janella fora. Os frades que forão lhe ouvirão pronunciar as palavras referidas, entrando lhe na cella que de propozito perguntarão lhe pello passa- rinho. Respondeu lhes: «esta cella, como he bem pequena, não cabião nella dous juntos». E isto com alegre semblante. Vindo em huma occazião hum relligioso carmelita muy virtuoso, por nome Frey Matheus, de nação italiano, ao convento, não quis por nenhum modo recolherce em ninhuma cella por mais que o quizerão obrigar, e foy recolherce no choro. Não sabia o Pe. Francisco do Salvador daquella determinação, e hindo a choro, de noyte, no seu tempo acustumado, gastou toda no seu quotidiano ja refe- rido exerçiçio. O carmelita, Frey Matheus, sem saber quem era o relligioso, de manha perguntou ao saochristão, que era o era então o ja referido Frei Domingos de São Ber- nardino, que padre era aquelle que no choro se puzera a assoitar o seu burro, palavras próprias do padre carmelita, toda a noite passada, e que querendo elle contar por medo os asoites, que não fora possivel, por tres ou quatro vezes que intentava. Tinha o Pe. Francisco do Salvador por custome ouvir todas as missas, e ao depois dizia elle a sua. O sanchristão disse ao padre carmelita que logo lhe mostraria ao padre 486
  • dos assoites, e como entrasse na sanchristia dizer a sua missa, depois de ouvir as mais, o sanchristão, com o dedo, amostrou ao padre carmelita que era aquele. Isto, visto pello carmelita, se foy logo com toda pressa, e a vista de alguns relligiosos do convento, como também muitos secula- res, se lançou aos pés do Pe. Francisco do Salvador e, com vozes, se poz a dizer: «padre santo, rogay por mim a Deos, porque sey que vos ha de ouvir.» Mayores forão as vozes do venerável Pe. Frey Francisco do Salvador, porque, lançandosse por terra, queria beijar os pes: «Padre, rogay aquelle Senhor por mym, pois sou grandíssimo peccador». Ambos se achando prostrados em terra, foy para os que estavão presentes este spectaculo de tanta devoção e ternura, que se puzerão todos a desfazerem em lagrimas, e alguns dos seculares, que se achavão indifferentes pellas suas paxioens, fizerão as amizades, reconciliandosse, dando huns ao outros os abraços. Huma vizinha do nosso convento, por nome Luzia Coe- lho, muyto devota de nosso Padre S. Francisco, tendo em huma occaião huma neta sua bem doente de humas febres bem rizas, mandou pedir ao venerável Pe. Francisco do Salvador que rogasse a Deos quizesse dar saúde aquella menina. Foy o padre a portaria e, tomando a diadema e cruz de São Diogo as entregou ao porteiro, dizendo-lhe: «ide dizer a nossa irmã Luiza Coelho que ponha a caba- çeira daquella sua neta aquella cruz e diadema de São Diogo. De repente, assim co lhe aplicarão a diadema e a crus, a minina ficou livre das fevres. Tinha por custome o venerável Pe. Frey Francisco do Salvador em todos os sabbados fazer huma capella de florres a Nossa Senhora da Concepção, em hum ramalhete das mesmas flores, isto com muita curiosidade, pellas suas mãos, e havendo muytas vezes em Chaul, pellos tempos, total falta de flores, que por emcarecimento nem huma se 487
  • podia descubrir, o Pe. Frey Francisco do Salvador, dentro de sua cella, sempre fabricava o seu ramalhete e capella de varias flores e excellentes em todos os sabbados dos annos. Perguntando lhe os mais relligiosos donde hia discubrir tão preciozas flores, e em tempo que a cidade carecia delias, acustumava o padre a responder que no mesmo claustro as achava, no jardim, e era verdade, por- que em todos os sabados de manhã hia o padre a horta do convento, e se recolhia com flores, porem supomos eram celestiaes, pois so elle as sabia discobrir em tempos tão exhaustos. Não tendo em huma occazião o refeitório do cbnvento mais que quatro gorguleitas, e estas ja bem velhas, e em par- tes quebradas, visto não ter hido de Goa, de onde se prove este convento de louça, o Pe. Francisco do Salvador, vindo em huma occazião do choro, achou na cella meya dúzia de gorguleitas e púcaros bem novos, sem que pessoa humana lhe pudesse por nella, porque alem da falta commua que a cidade então esprimentava de loiça, tinha elle a cella fechada. Logo, chamando ao porteyro do refeitório, as entregou, dizendo lhe: «Irmão, levay estas gorguleitas e púcaros para o serviço da communidade». E perguntando lhe o chorista de donde lhe vierão aquellas gorguleitas tão novas, sirvindosse lhe respondeo o padre: «eu as tinha guardado na cella ha muitos annos, com muito segredo, sem uzar delias; leve o irmão esta loiça para a communi- dade, e day graças a Deos e ao nosso santíssimo Padre e não cuide de mais perguntar». Hum relligioso nosso, filho da província, por nome Frey Augustinho das Chagas, acabando de ser reitor da igreja de Nossa Senhora do Mar, da mesma cidade de Chaul, estando para sahir para Baçaym, para outra parro- chia, para onde os prellados o mandavão, dispidindosse do Pe. Frey Francisco do Salvador, lhe disse: «Adeos,. meu 488
  • amigo, que supponho nos não tornaremos a ver neste mundo, porque ja somos velhos». A isto respondeo o vene- rável padre: «Não ha de ser assy por certo, porque ainda V. Reverencia ha de ser guardiam deste convento e hei de morrer então no seu tempo, de sua guardania». Assy foi, porque dahi a alguns annos veo por guardiam do dito convento o dito Pe. Frey Augustinho das Chagas, e então se comprio a professia do Pe. Frey Luis do Salvador, por- que falleceo no tempo que era guardiam daquele convento o referido Pe. Frey Augustinho das Chagas. Na occazião que o inimigo Sambagy fez aquella cruel guerra ao Estado, entrando em Goa, em Bardes e Salceyte, e dando lhe no mesmo tempo nas terras do Norte, vendo os moradores da cidade de Chaul as poucas forças com que se achavão então para rezistir a hum tão poderoso innimigo, se forão valer do Pe. Frey Francisco do Salvador, para que, orando, alcançasse daquelle Senhor vitoria contra o innimigo do nome christão. Consolou os o venerável padre, dizendo lhes que tãobem de sua parte emcomen- dassem aquelle negocio //a Deos, e que ficassem certos [fi6 T ] que, supposto padecerião muitas calamidades durante a guerra daquelle innimigo, porem que confiassem em Deos que o dito innimigo não entraria naquella cidade e assy aconteceo. Faleceu no anno {sic) e jas sepultado no nosso capitulo do mesmo convento de Chaul. 4 — Frei Constantino dos Anjos Frey Constantino dos Anjos, filho desta província, nas- cido na India, que esquecido do relligioso estado que pro- feçava, se foi a terra dos Mouros, aonde publicamente se casou com huma moyra e delia teve filhos, porem em huma sexta feira mayor, andando a cavallo, com grande pompa, 489
  • e acompanhamento, lhe sahio ao encontro huma mulher, e lhe falou nesta forma: «Ah! Padre Frey Constantino, vos com tanta pompa e magestade e posto a cavallo, e vossos irmãos andando neste santo dia em Goa descalços, fazendo muy asperas penitencias!» Palavras forão estas que logo Frey Constantino, como outro S. Paullo, se lançou do cavallo abaixo, cheo do Espirito Santo, rasgou logo a vista de todos os trages mahumetanos e foy pella rua pre- gando a fe catholica, detestando os falsos erros do preverso Mafoma, e tendo sido este santo relligioso varão de muy limitadas letras, nesta occazião foy a sua pregação tão apostólica e chea de tantos lugares de Santa Escriptura, que se vião os Moiros atonitos e confusos. Entrou em huma misquita dos Mouros, pregando a quan- tos os achou nella, que emfim, com a nova era ja tanta a gente que concorreo aquella nova mudança de Frey Cons- tantino que se encheo a gente por todas as ruas. Os pri- meiros que acudião foy a mulher e filhos que, com lagri- mas e outros semelhantes excessos, querião abominar em Frey Constantino a nova rezolução que tomava. Porem nem as lagrimas da mulher, nem os clamores dos filhos o poude- rão retroceder, porque ja estava cheo de celestial Espirito, ja não fasia caso daquelles que elle antes de sua converção estimava como caríssimas prendas de sua alma, mas antes com palavras vigurosas lançou a mulher fora de sy, como quem tinha sido a cauza de elle ter tão excessivamente offendido a seu Criador. Muitas vezes lhe puzerão os Mouros em grandíssimos tormentos, mas sempre se atentou constantíssimo e valerozo ja soldado de Christo. Quando os Mouros o atormentavão, lhe punhão a mulher e filhos na vista, para que assy desmayasse, porem nada puderão com elle acabar e vencer, e por fim o degolarão, e logo miracolozamente o sangue do pescoço, contra o seu natural, 49°
  • subio mais de huma lança para a aerea região, com notável admiração de todos. Foi isto no anno Dizem que a mulher que lhe fizera aquella breve pre- gação muy importante era hum anjo que no mesmo instante desaparecera; tãobem podia ser a Raynha dos Anjos que, como avogada dos peccadores, sempre anda solicita em os amparar. Não podemos alançar relliquia alguma deste ditoso mártir, ou fosse porque os Mouros queimarião o corpo, ou porque os antigos escriptores não no referirão este passo, com toda a individoação; por ser // mais certo nos parece ser o primeiro motivo, que alegamos, a causa total de perdermos aquelle thesouro. 5 — Frei Onofre da Piedade Frey Onofre de Piedade, nascido em Portugal, filho desta província de S. Thome, floreceo nesta hera com reve- lantes prendas virtuosas. Entre as mais se traz, aqui hum cazo que aconteceo a hum carpinteiro, apoderado do demó- nio, que querendo vários relligiosos de outras relligioens como tãobem clérigos seculares, com exorcismos, lançallo fora daquelle corpo, com instancias, respondeo o demonio que se não havia de sahir daquelle corpo, sem que hum serto franciscano lhe não mandasse, e instando quem era o tal franciscano, respondeo o demonio, que serião polias des horas de noyte, que era hum certo padre que naquella hora estava em oração no convento de S. Francisco, junto aos orgãos pequenos do choro; forão logo a São Francisco, e dando os sinais, achou o guardião ser o padre Frei Onofre da Piedade, que indo yunto aos orgãos o achou, asoitan- dosse cruelmente, que mandado pello guardiam foy logo na mesma hora acudir ao demonilhado, o qual, fallando pello demonio, disse na hora que o venerável Frey Onofre 49 1
  • sahio: «ja sahio o meu inimigo agora do convento: elle assy como chegar, eu me vou». E assy passou, porque, assy como Frey Onofre chegou, disse o demonio pella boca do carpinteiro estas pallavras: «Onofre, eu me vou, porque me não atrevo a estar perante tanta humildade vossa; porem adivirty que eu sou Satan». Respondeo Frey Onofre: «Es muito velho, porem dai me sinaes em como te vás». Deo lhe por sinal huma arequa, lançando a polia boca. Morreo este relligioso no anno 1632 para viver sem- pre na eterna bemaventurança. Sepultousse o seu corpo no capitulo do nosso convento do Espirito Santo de Goa, e depois que acharão o seu corpo inteiro, se depositou, entre os mais, na parede do mesmo capitulo, aonde fica collocada huma capella de Bom Jesu. Dizem que falecera em Janeiro, porem os escriptores differencião no que que- rem dizer, no mes em que este relligioso falleceo. Outros relligiosos mais florescerão na província e morre- rão com opinião de virtuosos, mas não sabemos delles dar noticia, com individuação, mais que o viverem com opinião de relligiosos virtuozos e de raríssimo exemplo, como forão o Pe. Frey Francisco de Santa Maria, que no convento de Cochym viveo muitos annos, que de sua cella so sahia para o choro e para a samchirstia. Cumprirãosse algumas profecias suas, cauza porque a cidade de Chaul escreveo ao prellado, pedindo por consolação a estada daquelle bom relligioso naquella cidade. Faleceo no mesmo convento na hera... (r/V). O Pe. Frey Francisco da Purificação, por outro nome o Magrinho, de vida muy penitente, nascido em Portugal. O Pe. Frey Manoel Velho, nascido em Purtugal, obedientís- simo relligioso e muito pobre, que nunca usou mais que de hum habito pobre que lhe cubria a carne. O Pe. Frey Ma- theus de S. Francisco, nascido na índia, foy exemplar na modéstia relligiosa, excellente pregador, dos melhores do 492
  • seu tempo. O Pe. Frey Francisco de Santa Maria, por outro nome o Theatino, porque tinha sido // italiano de nação, [67* foy relligioso que floreceo com attentissima caridade ao proximo. Frey Leandro da Madre de Deos, relligioso de vida exemplar. Fley Theotonio das Chagas, ambos nascidos em Purtugal, tãobem relligioso notavelmente recolhido e amigo dos pobres. E Frey João Evangelista, nascido em Purtugal, foi muitos annos capellão nas armadas reaes, foy pay dos soldados; estes contão deste relligioso que havendo huma occazião huma çeca no Congo, pedindo os da terra quizesse pedir a Deos que lhes desse chuva, que no mesmo instante que se poz em oração, chuvera infinita agoa, que os possos e sistemas se encherão. Faleceo na hera de nosso convento de Baçaym e sepultousse no capitulo dos relligiosos daquelle convento. Os mais relligiosos de boa vida ja referidos falecerão no nosso convento de Goa em diversas occazioens, forão enterrados no capitulo do mesmo convento, e dahy ha bas- tantes annos, depois de se fazerem todas as diligencias para que a terra fizesse reduzir nella aquelles corpos, quando os forão achando, sempre se achavão inteiros, e vendo isto o padre provincial, que então era Frey Antonio da Espe- rança, os mandou depositar atras do retabolo da capella do mesmo convento. Dizem os velhos se vem os taes corpos daquelles bons relligiosos. Em Pegu, na igreja de Nossa Senhora da Saúde, faleceo o Pe. Frey João de Santa Elena, cheo de annos e de mereci- mentos. Os mesmos gentios da terra, achandosse muitas vezes bem doentes, se vão prostrar sobre a sepultura deste relligioso, e fazem em tanta fe, que logo se achão sãos. Faleceo no anno de 1719. 493
  • 78 DAS IMAGENS MIRACULOZAS No nosso convento do Espirito Santo de Goa, está colocada em huma capella huma imagem de Nossa Senhora que tendo antes tido o titulo de Senhora de Victoria, pellos muitos milagres que obrou Deos por aquelle santíssimo simulacro, se chama hoje Senhora dos Milagres. Tem se dito atras o principio, o quando e como foi exculpido. Entre muitos prodígios que obra, não permite emcarnação, nem doiração, por muitas vezes que intentou a devoção catholica. No mesmo convento, em a mesma capella, está tãobem colocada huma imagem do Menino Jesu, tãobem muito milagrozo. Tem nas costas huns sinaes de sangue, que pella tradição dos velhos se colhe que fora asoiteado por hum judeo, homem de nação. Na igreja de S. Jeronimo de Mapuça, em Bardes, está a imagem da Senhora de todos os Bens, que hoje florecem seus milagres, de sorte que não ha pessoa na índia, entrando os mesmos que a governão, que não vá de romaria a visi- tada, com suas promeças, e o que he mais para se espantar que os gentios são os que mais frequentão nas romarias desta santa imagem, levando lhe suas ofertas. Tem dado vista aos cegos, pés a aleijados, fala a mudos, enfim sem- pre no dia de sua festa, que vem na segunda feira da Dominga //'in Albis, não deixa de fazer ao menos hum milagre, e se tem por milagre quando em alguma festa o não faz, tal he a devoção que todos tem nella, quer chris- tãos, quer gentios. 494
  • 79 NOTICIA DOS RELIGIOSOS DA PROVÍNCIA QUE COMPUZERÃO LIVROS O Pe. Mestre jubilado e ex-comissario geral, Frey Paulo da Trindade, nacido na India, compoz hum livro de bem grande volume de theologia moral, que não se deu a estampa, mas esta na província. O Pe. Mestre jubilado e ex-comissario geral Frey Anto- nio da Graça compos outro livro grande tãobem moralista. Não se deu a estampa, e está tresladado em muitas partes na província, que ainda fora da religião muito se aprovei- tarão e se aproveitão delle. O Pe. Mestre Frey Francisco de Negrão, nascido na índia, compoz huma chronica dando noticia das antigui- dades da Província. Anda impreço. O Pe. Manuel Frei Miguel da Purificação, nascido na índia compoz hum livro que se intitula Vida Evangélica dos Frades Menores. Deu-o a estampa em Barcelona, quando la esteve e o dedicou ao Sereníssimo Senhor D. João 4.° debaixo de sua real protecção, anda na província. O Pe. Frey Gaspar de S. Miguel, nascido na índia, compoz na lingua da terra huma obra em estilo puetico sobre os 4 Novíssimos, os Sete Sacramentos da Igreja e os preceitos do Decálogo. Emprimiosse e anda entre os natu- raes, como thezouro. O Pe. Frey Amador de Santa Anna e Frey João de S. Mathias, ambos compuzerão em dois mil verços, em lingoa da terra, a doutrina christam e mysterios da fée. Frey Manoel Banha compoz hum vocabolario na mesma lingoa dos naturaes. Frey Christovão de Jesu fez hum arte Cramatical. 495
  • Frey Manoel Bauptista compoz hum cathecismo copiozo e auctualmente o Pe. Fre Domingos de S. Bernardino, comissário do Santo Officio, compoz na mesma lingoa huma explicação do Credo. Este relligioso he nascido na India, porem dos que não na mesma servem. Duvidamos de donde erão naturaes, porque nos manu-excriptos antigos não achamos esta circunstancia e algumas mais, que nos fazião precizar o escreversse, porem todos estes livros em lingoa huns andão ja empreços e outros não, mas andão pellos naturaes. O Pe. Mestre jubilado Frey Manoel da Graça, nascido em Portugal, auctualmente compoz hum tomo devidido em duas partes: na primeira se trata de Censuris Reservatis in Bulla Coenae, e na segunda de Censuris in communi et particulari. Tãobem tem composto outro livro in folio de t.] Relaçoens Moraes pro // utroque foro. O Pe. Mestre Frey Belchior dos Reis, nascido em Por- tugal, fica auctualmente acabando de compor hum tomo de Resoluçoens Moraes Misselanias, em que se contem vários cazos tocandos as missoens. O Pe. Mestre Frey Francisco da Santa Roza, nascido na índia, tem composto em dois tomos huma obra de Vários Sermoens. Não se tem dado ao prelo muitos destes livros, visto carecermos de cabedaes, pella pobreza evangélica que pro- feçamos e os que se derão a estampa se devem a diligencia dos autores que souberão dedicar os seus livros a pessoas reaes e illustre, as quaes mandarão emprimir com seu des- pendio. Tivemos na província hum arcebispo, filho da Ordem, D. Frey Francisco dos Mártires, primaz da India, e dois bispos ambos de Cochym, filhos da província, a saber: D. Frey Manoel de S. Luis e D. Frey Francisco dos Már- tires, todos nascidos em Portugal. 496
  • 80 NOTICIA DOS CORPOS E MAIS RELÍQUIAS QUE ESTÃO NO NOVO CONVENTO DE GOA DE ALGUMAS PESSOAS QUE FALECERÃO COM OPINIÃO DE SANTIDADE, E JA FICA FEITO MENÇÃO ATRAZ Declaramos que não he nossa tenção dar titulo de santo, mártir ou beato a algum dos servos de Deos, cujas vidas refferimos nestas noticias, para que sejão vene- rados por taes, senão a quem a Igreja Catholica Romana tem declarado; que se uzamos de semelhantes nomes, não tivemos mais fundamento que a authoridade dos coronistas e mais escriptores, e das informaçoins que nos derão pes- soas religiosas e seculares, que lhe atribuem semelhantes nomes, sem mais credito do que pode caber na esfera da fé humana, assim protestamos e nos sogeitamos a correição da Santa Madre Igreja de Roma. (A) Frey Clemente de Santa Eyria. Provincial da Observância da índia. Doe. Padroado, v-32 497
  • 81 RELLAÇÂO DOS CONVENTOS, COLLEGIOS E MISSOINS QUE OS RELLIGIOSOS DE SAO FRANCISCO, DA PROVÍNCIA DE S. THOME, DA INDIA ORIENTAL, ADMINISTRÃO, DA SUA FUNDAÇÃO COMO TAOBEM DO QUE SUA MAGESTADE, QUE DEUS GUARDE, DESPENDE COM ELLES, E HÉ O QUE SE NAO ACHA ESCRIPTO NOS LIVROS OU CHRONICAS DA ORDEM Não fallando dos muitos conventos, collegios, seminá- rios, freguesias e missoins que a relligião de São Francisco da Observância logrou nessa índia em outro tempo, aos quaes a perfídia olandeza destruio; pois, sendo os filhos deste santo patriarcha os relligiosos que de asento cultiva- rão esta dilatada vinha evangélica nos primeiros quarenta e dois annos de sua conquista,, sem ajuda de outra relli- gião, para acodirem a partes tão remotas em todos os lugares sua morada; e a todos elles a grandeza de nossos piadosissimos reis fundou, augmentou e sustentou em o tempo que a relligião seraphica teve a felicidade da sua posse. O que agora tem os relligiosos observantes de nosso Padre São Francisco neste oriente hé o seguinte: O convento de São Francisco, de Goa, teve principio em 1510, que foi o mesmo anno em que o grande Affonço de Albuquerque tomou aos mouros, segunda vez, a cidade de Goa. Este vice-rey deo aos relligiosos franciscanos para a igreja a mesquita que tinha çido dos mouros, e Frei Paulo de Coimbra a benzeo e dedicou a Deus verdadeiro, dando principio a fabrica do convento, a expensas reaes, porque o Senhor Rey D. Manoel o mandou fazer a sua custa, e no anno de 1521 o acabou o Pe. Frei Antonio Pradão. Depois de muito tempo ou muitos annos se fez a igreja 498
  • novamente com a magestade que hoje tem e ainda que concorreo para ella a devação de muitos e muy nobres portuguezes, ajudarão com tanta magnifiçencia nossos senho- res reis a obra, que das esmollas que tinhão dado aos relli- giosos para os gastos sobeiarão as merces de Sufalla e Mombaça, que a relligião, por não necessitar para a obra da igreja, pella incapacidade que tem, por sua pobreza, para mudar a vontade dos dantes, as renunçiou ao senhor rey que tinha feito as doaçoins. Tem secenta relligiosos, os quaes servem a Sua Mages- tade, que Deus guarde, no offiçio de capellains em todos os barcos da guerra que dessa barra de Goa sahem para fora. asim para o Estreito, como para a China, Norte e Sul. Ocupão se tãobem os moradores deste convento nos ministérios continuuos do choro, púlpitos e conficionarios, e delle vão para as freguezias, que em Bardez, do destreito de Goa, vagão, e para todas missoins, a que tem por obri- gação acudir em as terras do Sul, das quaes adiante se ha de fazer memoria. Há sempre nelle cadeira de theologia Moral, classe de Latim pera os principiantes e, quando hé necessário, ha estudos da lingoa da terra com relligioso mestre que a ensina. Não tem este nem os mais conventos, collegios etc. renda alguma capital de sua fundação, porque a estreita pobreza, a que os filhos de S. Francisco se obrigarão, por porfição, lha prohibe. Aías dão a este convento os senhores reis de Portugal esmolla para os gastos de sua sanchristia, enfermeria, e outras obrigaçoins em cada // em cada C7-1 quartel vencido, de tres em tres mezes, coatro centos" secenta e nove xerafins, que vem a fazer por anno mil oito centos e secenta e seis xerafins. Dá mais a mesma Magestade, de esmolla, para arros, trigo, vinho de missas e vestieiria e mais necessidades dos relligiosos, cada tres 499
  • mezes, trezentos setenta e nove xerafins e trinta e hum reis, que vem a fazer por anno mil quinhentos e oitenta e oito xerafins, duas tangas e coatro reis. Dá mais o mesmo senhor, pera ajuda de se pagarem as medeçinas os relli- giosos enfermos, de esmolla, trinta xerafins por quartel, que são em cada anno cento e vinte xerafins. Todo este dinheiro de esmolla por ordem real manda o Veador da Fazenda satisfazer pello thezoreiro do Estado algumas esmollas mais que o dito convento tem, são pençoins de missas e sufrágios para bem de suas almas deixarão alguns caretativos. O convento de Santo Antonio, de Baçaym, foi fun- dado logo que o vice-rey Nuno da Cunha tomou aquella çidade, por mandado do Senhor Dom João, o terceiro, a custa da fazenda real, e depois augmentado pellos devotos da relligião. Tem quinze relligiosos e, muitas vezes, mais. Nelle há em muitas occazioens estudos de philosophia, e delle sahem para o provimento das parrochias, que no destricto do Norte vagão, fora dos capitullos e congre- gaçoins, os relligiosos necessários, e ao mesmo convento pedem capellains os generaes do Norte, quando hé necessá- rio, ou para armadas que dahy vão pelejar com os inimigos por mar, ou para os exércitos que vão fazer o mesmo por terra. Sua Magestade, que Deus guarde, lhe manda pagar na feitoria de Baçaym, em tres quartéis de coatro mezes cada hum, para os gastos da sanchristia, enfermaria, e sustento dos relligiosos, no primeiro quartel coatro centos e vinte coatro xerafins; no segundo e terceiro, duzentos xerafins em cada hum; fazem por anno oitocentos e setenta e dous xerafins. Manda o mesmo senhor dar huma esmolla, que se chamão ordinárias do convento, que hé para a vestiairia e outras necessidades, que na mesma data se apontão, cem 500
  • xerafins em cada quartel de tres mezes, que paga o thezo- reiro do Estado em Goa e somão coatro centos xerafins. A capella da Senhora da Assunpção cita na Igreja do con- vento tem da fabrica que hum devotto da Senhora lhe deixou por anno cem xerafins. O convento de Santa Barbora, de Chaul, foy fundado em tempo do senhor rey D. Sebastião, o qual concorreo com a mayor parte do que na fabrica delle se gastou, suprindo o demais a liberalidade dos moradores daquela cidade. Habitão nelle seis relligiosos, os quaes só acodem as obrigaçoins do choro, confiçionarios e púlpitos, mas vão muitas vezes chamar os christãos que morão entre os mouros e gentios, aos tirar da ocazião da ofença de Deos, cazando os, e lhes bauptizão os filhos. Na feitoria de Baçaym, por ordem real, em tres quar- téis se lhe pagão seis centos xerafins. Em Goa lhe mandão dar os senhores reis, para se enviar aquelle convento, as couzas que de Goa necessita, como sera, vinho de mis- sas, etc, por anno, duzentos e quarenta e coatro xerafins. O collegio de São Boaventura, çito na cidade de Goa, que no anno de 1603 fundou Frey Miguel de São Boaven- tura, a custa de esmollas, assim reaes, como particulares, que sua industria adquirio, consta de vinte relligiosos, e nelle se ensina philosophia e theologia. Tem por esmolla, para o sustento dos relligiosos, vestiei- ria e mais necessário, mil xerafins por anno, pagos em coatro quartéis. O collegio real dos Santos Reis Magos e o seu seminá- rio de S. Hyeronimo forão fundados no tempo do vice-rey D. Afonço de Noronha, por Frey João de Noé, a custa do senhor rey D. Sebastião. Está fundado em Bardez, destricto de Goa. Tem sinco relligiosos, // hum que hé reitor do dito collegio e seminário, outro que hé prezidente do colle- gio, o terceiro he vigário dos collegiaes e orphãos do dito [7>J 50/
  • seminário, outro que hé prezidente, digo hé vigário da christandade, porque o collegio hé tãobem freguesia, o quinto hé mestre que ensina artes liberaes aos ditos colle- giaes, como tãobem a ler e escrever aos orphãos, que pella maior parte são bragmanes. Dá el rey nosso senhor para comercio e vestieiria dos orphãos e collegiaes e para sustento e paga de hum mestre que os ensina, duzentos e sincoenta xerafins, cada tres mezes, por quartel, que fazem por anno mil e sincoenta xerafins, digo mil xerafins. Manda S. Magestade dar mais para mantimento e roupara para os relligiosos deste colle- gio, setenta xerafins em cada quartel, que somão por anno duzentos e oitenta xerafins e duas tangas. Item, mais para o parrocho da christandade daquella freguesia corenta e sete xerafins por quartel, que faz por anno cento e oitenta e oito xerafins. Somão as adiçoins assim, que por ordem real mandão os veadores da fazenda pagar pelo thezoreiro do Estado mil coatro centos secenta e oito xerafins. Tem mais azeite para as alampadas do Santíssimo Sacramento por anno duzentos e trese xerafins, rendimento de humas vargeas que forão de pagode. E o sereníssimo rey D. Se- bastião deo as ditas vargeas por hum alvará seu, ao colle- gio, para o referido ministério. O collegio real de Manapaçer fundou Frei Antonio do Porto, mandado de Portugal pelo senhor rey D. João 3,° em companhia de outros relligiosos franciscanos para a missão do Norte, que então se acabavão de conquistar, o qual, chegando a India, e entrando pella ilha de Salçete do Norte, destrito de Baçaym, converteo tantos mil gen- tios, que dando parte por suas cartas ao dito senhor rey D. João 3.° dos muitos christãos que fazia, lhe pedio esmolla para aquelles naturais que ajudavão a cathequisar os gentios e instruillos na ley de Christo. E o dito senhor rey lhe mandou dar para elles e para os christãos, nova- 502
  • mente convertidos, vinte e coatro aldeas e tres mil xeraíins cada anno. Fundou o mesmo Pe. Frey Antonio do Porto o referido collegio, repartio as aldeas, segundo a ordem real, e se cobrarão alguns annos os ditos tres mil xerafins, dos quaes repartirão os relligiosos de S. Francisco, com beneplácito real, com os padres da Companhia que em Baçaym fun- darão o seu seminário, e ficou o seminário, que junto ao dito collegio fundou o referido padre, para os seus orphãos e collegiaes, intitulado de Nossa Senhora da Assumpção, com mil e quinhentos xerafins, que hé o que os senhores reys de Portugal pagão para sustento, vestieiria, e paga de hum mestre que ensina aos ditos orphãos e collegiaes a ler e escrever e cantar, os quaes mil e quinhentos xerafins se pagão na feitoria de Baçaym em tres quartéis. Tem o dito collegio de Manapaçar a administração de tres aldeas que se chamão Manapaçar, Pane e Arengai. A de Manapaçar, de que o senhor rey D. João o 3o tinha feito merce a hum jogue, que no gentilismo era padre dos idolatras, e por doutrina e pregaçoens do dito Frey Antonio do Porto se converteo a nossa santa fée catholica e viveo cento e sincoenta annos. Por sua morte o deixou ao dito collegio, e çito na mesma aldea, para se pagar sua renda, com os que de novo se convertessem. O dito senhor Rey por alvará seu confirmou a data e fez novamente delia ao ditto collegio real para ao mesmo ministério que o dito jogue apontou. As outras duas aldeas, Pare e Arenga comprou o Pe. Frey Francisco das Chaves com os reziduos dos subejos das esmollas que rendia a aldea de Manapacer e com algum dinheiro dos orphãos, novamente convertidos, que se educcavão no seminário, donde o reitor, que tãobem he pay dos christãos da ilha de Salcete do Norte, os man- dava, e hoje os succesores fazem o mesmo, ensinar com letras e bons costumes, vivendo assim athe tomarem algum 5°3
  • estado, etc. sahindo do seminário e collegio sugeitos de grandes prendas e que tem servido de muito emolumento para se converterem infinitos infiéis. A aldea de Pare terá cada anno cento e quarenta e tantas muras de batte, e vinte oito aldeas de Manapaçer. Tem mais o dito collegio rendas das palmeiras bravas das [75 *•] ditas tres aldeas, que hé mayor ou menor segundo // as palmeiras que nasçem ou morrem. Estes rendimentos se gastão com os ditos orphãos e collegiaes, em cazar orphãos, em sustentar viuvas, dando lhes pannos para vestirem, e sempre estas passão de cento e vinte. Dão lhe tãobem os reitores de Manapaçer algumas muras de bate para ajuda do sustento de outros relligiosos parrochos das feguesias pobres, e fazem outras obras pias aos novamente convertidos, do que tudo os vizitadores anuaes tomão contas pontualmente aos que são reitores. O collegio de Caranja fundou hum relligioso, por nome Frey Thomas Viegas, com ajuda da fazenda real, no mesmo tempo em que aquella ilha se agregou da coroa portugueza. Tem hum relligioso por reitor, que por alvará de nossos reis hé juntamente pay dos christãos de toda a ilha. Sustenta e veste vinte orphãos e paga lhes mestre que os ensina. Para isto el rey nosso senhor dá cada anno de esmolla duzentos e quarenta xerafins em tres quartéis. Tam mais o dito collegio algumas terras de batte e ma- rinhas do sal, das quaes alguma couza hé dos orphãos que se crião neste collegio, e outras são deixas antigas de careta- tivos, cujas rendas, segundo as novidades, são mais ou menos; huma parte hé para os orphãos e o restante para a fabrica da igreja. O collegio de Agaçaym se fundou do destrito de Baçaym, pouco depois que aquella cidade foy tomada, com ajuda da fazenda real. Tem hum relligioso e sustenta alguns orphãos. Sua Magestade, que Deus guarde, lhe manda pagar para 5°4
  • o seu sustento e mais gastos, na feitoria de Baçaym, duzen- dos e corenta xerafins por anno, pagos em tres quartéis. As freguezias que se seguem ficão em Bardez, destricto de Goa. Forao fundadas pellos fregueses, com trabalho grande dos parrochos. Tem de ordinário cada huma hum relligioso parrocho e, quando he necessário, tem mais; ou por cauza dos longes, ou para alivio dos mais antigos, e terem com quem se confeçar, relligioso da Ordem; porem ainda que haja dous, se sustenta com o que se menistra a hum, e ajuda de esmolla de suas missas. A igreja de Nossa Senhora da Penha de França tem de Sua Magestade, que Deus guarde, para sustento do par- rocho, trinta e oito xerafins cada quartel, que vem a ser por anno cento e sincoenta e dous xerafins. Fundou esta igreja huma molher devota da Senhora e de S. Francisco, ordenando que os filhos desta Patriarcha assisticem nella, e deixou hum palmar para a mesma igreja, com o que, conforme manda o testamento, correm os irmãos da con- fraria da Senhora, çita na dita igreja, e os reditos delle são para sustento e vestidos de viuvas e casamento de orphãs, para missas pella sua alma da testadora e para a fabrica da igreja. Será esta fabrica pouco mais ou menos a contia de coatro centros e sincoenta xerafins. A igreja da Madre de Deus, da aldea Pomburpa, tem para viver o parrocho; por anno, dá Sua Magestade cento e sincoenta xerafins, digo dous xerafins, que se pagão em coatro quartéis. A fabrica, deixada por hum terceiro devoto, hé, segundo o que rende hum palmar, em que a deixou por verba de seu testamento, de cujo rendimento se fazem tres quinhoins, primeiro para as missas por a sua alma, segundo para viuvas e orphãos e o terceiro para a fabrica da igreja, a qual fabrica pouco mais ou menos consta de cento e sincoenta e tantos xerafins cada anno. 5°5
  • As seguintes freguezias tem todas o mesmo quartel de Sua Magestade, que Deus guarde, que são cento e sin- coenta e dous xerafins por anno, pagos em coatro quartéis, e deste dinheiro se pagão os officiaes das igrejas, convém a saber, ao sanchristão, ao merinho da freguezia, que exer- cita o seu officio em as couzas tocantes do ministério da igreja, digo da christandade, e ao lingoa que aquelle que b«J em todos os dias // (os dias) das semanas enssina aos de menor idade a doutrina e cathecismo nas igrejas, e os Domingos e dias santos emsina o mesmo antes da missa a todos os christãos da freguezia com seu idioma natural, e no mesmo esplica as estaçoins ou praticas, se os relligiosos parrochos as fazem primeiro em lingoa portugueza. Não tem nenhumas igrejas destas mais fabrica que aquelle que se pagão dos defuntos, que nellas se enterrão, que vem a ser, dos adultos que se enterrão no corpo da igreja seis tangas, e dos que se enterrão em o cruzeiro doze tangas; e das crianças que nestes lugares se enterrão, a metade da fabrica. Tem mais parte das ditas cazas algum batte que os fre- guezes dão de esmolla para ajuda do sustento dos seus parrochos, e em nenhuma chega o batte para seis mezes do sustento, e em outras para muito menos tempo. Os nomes das ditas igrejas são os seguintes: O Senhor Salvador do Mundo, da aldea Sirulla. São Thome, da aldea Aldona. O Senhor Jesus, na aldea Nachonolla. Nossa Senhora da Conceição, na aldea Moirá. São Hyeronimo, na aldea Mapuçá. São Christovão, na aldea Tivim. Nossa Senhora da Vitoria, na aldea Peccorá. As Chagas de S. Francisco, na aldea Callovale. Nossa Senhora do Mar, na aldea Ossel. 506
  • Santo Antonio, na aldea Sinclim. São Miguel, na aldea Anjuna. Santa Anna, na aldea Parrá. Santa Izabel, rainha de Purtugal, na aldea Vacçaim. São Diogo, na Querjim. A Santíssima Trindade, na aldea Nagoa. Santo Aleixo, na aldea Calangute. Nossa Senhora da Esperança, na aldea Candolim. Nossa Senhora dos Remedios, na aldea Nellur. São João Bautista, na aldea Pillerne. Nossa Senhora do Socorro, segunda parrochia da aldea Sirulla. Estas duas ultimas freguezias não tem quartel real, por- que os relligiosos o não procurão de el-rey, nosso senhor, porem as mais freguezias asim a repartem com estas dos quartéis dos seus parrochos, dando a huma trinta e sinco xerafins por quartel, que vem a fazer, a cada huma por anno cento e quarenta xerafins. A freguezia de S. Lourenço, cujo reitor hé capellão da fortaleza da Agoada, não tem quartel do parrocho, e só na fortaleza, por provizão do Conde de Linhares, vice-rey da índia, hé o que fundou a dita igreja, se pagão por capellão nove xerafins por mez, que há paga de Sua Ma- gestade. O Monte Santo de Guirim hé huma ermida em o mesmo Bardez, em que assiste hum relligioso, que hé pay dos christãos de todo aquelle destricto. A este manda pagar S. Magestade, que Deus guarde, por anno cem xerafins. A ermida de Nossa Senhora de Valverde tem hum relli- gioso que sustenta da esmola das missas deixadas em hum palma, que há Capella. Renderá por anno duzentos xera- fins. Athe aqui as igrejas de Bardez no destricto de Goa, pertencente aos relligiosos de S. Francisco. 507
  • As freguezias que se seguem ficão no Norte, na juris- dição de Baçaim. Tem cada huma hum relligioso por parrocho; algumas por cauza dos longes, tem as vezes dous. Não tem cousa alguma de sua fundação, nem mais fabrica que a que rendem as couzas do que nellas se enterrão, que, se são homens, pagão para a fabrica, enterrandosse no corpo da igreja, coatro xerafins, se no cruzeiro, quinze xerafins, e pellas crianças se paga metade da fabrica. Tem algumas destas cazas algum batte que lhes dá de esmola, ou o collegio de Manapaçar, ou os senhorios das mesmas aldeas. //A humas destas freguezias paga el-rey nosso senhor e a outras os senhorios que as fundarão. As que paga el-rey nosso senhor são as seguintes, as quaes tem na feitoria de Baçaim cento e corenta e coatro xerafins por anno, pagos em tres quartéis, e vem a ser tres igrejas na ilha de Bom- baim, da iurisdição dos Inglezes, que são Nossa Senhora da Esperança, Nossa Senhora da Salvação e São Miguel. Deo esta ilha o nosso Sereníssimo Rey D. João o 4." a Inglaterra, quando nella cazou a Senhora Donna Cathe- rina, rainha de Grão Bretanha, sua digníssima filha, e foy dada aquella ilha a coroa anglicana, com condição de no espiritual ficar sugeita a jurisdição catholica dos Portu- guezes, e consservar sempre com toda a liberdade a relligião romana, e aos filhos de S. Francisco aquellas tres igrejas, em as quaes ministrão os sacramentos a onze mil almas, e fazem a Deus muitos serviços. Pois ainda no anno pro- ximo passado de 1722, o reitor que foi de Bombaim bautizou onze inglezes de menor idade, trinta e dois gentios adultos, e coatro mouros, que todos bem cathequizados em huma terra de hereges, tiverão a fortuna de se chegar ao grémio da Igreja Catholica, detestando os ritos de suas mal- ditas seitas, e abominando os seus idollos e Mafamedes, porque na dita ilha tem os gentios quinze pagodes e os 5 o 8
  • mouros sinco mesquitas, que tudo premitem com liberdade os hereges por cauza, como dizem, que he terra do con- trato. Na ilha de Caranja tem os relligiosos de S. Francisco a igreja de S. Bernardino, a que o vulgo chama Nossa Se- nhora da Salvação. Na ilha de Salcete, as seguintes parrochias: São Sebas- tião, de Marolim. São Brás, na aldea Ambolim. São Thome, na aldea Pare. Nossa Senhora da Assumpção, na aldea Magalana. São Boaventura, na aldea Arengai. Os Santos Reis Magos, na aldea Goray. São Hyeronimo na aldea Cassy. As freguezias seguintes na mesma ilha de Salçete, do destricto de Baçaym, fundadas com agençia dos parrochos, pellos senhorios das próprias aldeas, são pagas pellos mes- mos senhorios, com dez xerafins por mes, para ajuda do sustento do parrocho, que vem a ser cento e vinte xerafins por anno, as quaes são estas: Santo Antonio, de Turmunbá, que tem tãobem, por deixa de huma senhora que a fundou, nove murás de bate, para se sustentarem o parrocho e alguns orphãos nova- mente convertidos, dos quaes tem actualmente sete que sustenta. Nossa Senhora do Egipto, na aldea Collecaliana. Nossa Senhora da Saúde, na aldea Vercavá. Santo Antonio, na aldea Mahuana. Nossa Senhora do Socorro, na aldea Manovy. Nossa Senhora do Mar, na aldea Usana. Nossa Senhora de Nazareth, na aldeia Bainel. As cazas ou freguezias do Cassabe de Baçaim, fundadas com ajuda do braço real e agençia dos parrochos pellos freguezes não tem quartéis de S. Magestade, porque adver- 5°9
  • tir a pobreza que profeção os filhos de S. Francisco, que lhes bastava para o seu sustento e hábitos o batte que tem de algumas deixas, com pençoins de algumas missas, graças na esmola e o trabalho de sua estolla. Estas são as tres seguintes: Nossa Senhora da Madre de Deos, na aldea Palie, a qual Senhora tem huma ilha para a fabrica de sua igreja, que he deixa de quem teve particular devoção a Senhora. Rende por anno setecentos e sincoenta xerafins. A freguezia de Monte Calur. A freguezia do Espirito Santo. Ha tãobem neste cassabe de Baçaym, a ermida de Santa Maria Magdalena, donde (asiste) // assiste hum relligioso que he pay dos christãos do cassabe, por cuja conta corre ter cuidado dos que novamente se querem con- verter a nossa santa fhé, e buscar orphãos gentios que, sendo de menor idade, tãobem os procura trazer para o pasto evangélico. A este pay dos christãos manda S. Mages- tade pagar, pello feitor de Baçaym, cem xerafins por anno. No alto de huma serra, na ilha de Caranja, no mesmo Norte, se vê huma ermida da millagrosa Senhora da Penha, em a qual assiste hum relligioso franciscano, filho desta província, o qual unicamente com as esmollas dos romeiros se sustenta e adrona aquelle preciozo santuário, onde se venera a celestial imagem da Senhora, com tanto aceyo, que hé uma admiração a todos os seus devotos. Tem mais o morro de Chaul huma freguezia, em que assiste hum relligioso, que tãobem hé capellão da fortaleza do dito morro; e ainda que nenhum quartel tem de Sua Magestade, pertençente a parrochia, em cada Do- mingo e dia santo que vay dizer missa aos soldados na ermida da dita fortaleza, lhe manda S. Magestade pagar huma rupia por cada missa. Athé aquy hé o que tem os relligiosos de S. Francisco em o destricto do Norte.
  • No Sul, o odio que os Olandezes tem a Igreja Romana privou aos filhos de S. Francisco de seos conventos, coatro collegios com seus seminários e cento e doze freguezia. Comtudo nos deixou liberdade em huma freguezia na cidade de Negapatão, em a qual suas molheres, que muitas são catholicas, se esmerão em ornarem, com particular perfei- ção. Entrará esta igreja com as mais na lista abaixo, das missoins dos relligiosos de S. Francisco Observantes que tem em muitas terras da gentilidade. Vendo o Senhor Dom Pedro, el-rey nosso senhor, que Deus tenha em gloria, o zello com que os filhos do Patriarcha dos pobres, trabalhavão naquellas missoins, e que nenhum subçidio tinhão para seu sustento em terra dos infiéis, liberalmente mandou que se desse a cada relli- gioso, parrocho assistente nas freguezias e missoins no Sul, o mesmo quartel que se dão aos mais parrochos, que vem a ser, cento e sincoenta e dous xerafins por anno, mas o Veador da Fazenda, que então hera, pedio aos prellados da Província, que se contentassem com dar para os ditos missionários cem xerafins a cada hum, e que só recebessem mil xerafins para subçidio de onze, e os pobres que com pouco se contentão ficarão muitos satisfeitos, e agradecidos ao seu amantíssimo rey, que tão grande zello mostrava com os missionários que se desvellavão no serviço de Deus em terras tão remotas de infiéis. Os nomes das terras aonde temos as igrejas são os seguintes: Na cidade de S. Thome, que he de coroa de Portugal, assiste hum relligioso franciscano, na igreja de Nossa Se- nhora da Luz. Nas prayas de Serião, sogeitas ao rey gentio do Pegú, assistem tres relligiosos por parrochos de tres freguezias. Na corte do mesmo rey Pegú assiste outro relligioso que só acode a muitas igrejas, porque o rey gentio, sendo difficultozo conçeder licença aos relligiosos para entrarem 5"
  • na administração das christandades que existem na sua corte, que hé Ava, jamais a tem para sahirem para fora, por serem portuguezes, rezão por que muitas vezes se acha esta missão com poucos missionários. No reino de Negapatão, em huma cidade pertencente a Companhia Olandeza, tem no coração delia huma parro- chia hum relligioso que exercita o officio do parrocho, com a mesma liberdade que o fazia em terras dos catholicos. // Não longe da mesma cidade, em huma paraya, com sugeição a hum rey gentílico, assiste outro relligioso na freguezia de Nossa Senhora da Saúde. Nos reinos de Coilão, e Calecoillão tem os relligiosos de S. Francisco da Observância as seguintes igrejas em terras daquelles reis gentios, convém a saber: Nossa Senhora do Porto, no Matto da Rainha. As Chagas de S. Francisco, no Mangate. E freguezia da Cruz em Trivillar. A freguezia de S. João. Em Coetosa, a freguezia de Santo Andre. No Pezo da Pimenta, a freguezia dos Santos Reys Ma- gos. Em Vilicca, Nossa Senhora da Madre de Deos. Em Callecoillão, a freguezia de Santo Antonio. Há mais duas ermidas, huma em uma aldea chamada Coivalery e outra em outra aldea por nome Aronelly. Estas são as missoins em que actualmente assistem quinze relligiosos de S. Francisco da Observância, filhos da província de S. Thome desta índia Oriental, a qual consta de cento e secenta relligiosos. Resta finalmente dizer que dá tãobem Sua Magestade, que Deus guarde, para os gastos que os relligiosos de S. Francisco fazem cada anno em os bautismos geraes, 512
  • quinhentos xerafins. Estes se gastão em sustento e vestidos dos mesmos que se convertem com as deligencias dos relli- giosos da Província, que tanto se desvella com as couzas do serviço de Deus e de seus santíssimos reis. Em compendio, tem actualmente os relligiosos de S. Francisco, da Observância, nesta índia Oriental, tres conventos e sinco collegios, dous seminários, quarenta e oito freguezias em Goa e no Norte, coatro ermidas, quinze missoins no Sul, cento e secenta relligiosos. Com todas estas couzas despende Sua Magestade, que Deus guarde, dezaseis mil trezentos e tantos pardaos. E eu, Frey Clemente de Santa Eyria, provincial desta província do Apostolo S. Thomé da índia Oriental, certi- fico ser todo o referido verdade, em fé de que me asignei. Convento de S. Francisco de Goa 15 de Janeiro de 1724. (As) Frey Clemente de Santa Eyria. 5'3 Doe. Padroado, v - 33
  • ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO
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  • ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO Observação — Os números entre parêntese indicam as notas ao fundo das páginas, expressas estas pelos outros algarismos. Absolvições—186, 187. Achem — 432. Adem — 25, 218. Afonso (Alvaro) — português na índia — 153, 155, 181. Afonso (D.) — comendador- -mor—114. Afonso VI — rei de Portugal — 463. Agaçaim—'401, 476, 477. Agostinho (P.e) — sacerdote in- dígena— 154. Aguada — 443, 471. Aguada — fortaleza da — 507. Ainao — 373. Alapar — 421. Albuquerque (Afonso de) — 24(1), 409, 463, 498. Albuquerque (D. foão de) — bispo de Goa — 412, 414, 422. Alcáçova (Pedro de) — 211, 269, 385, 388. Alcântara (Frei Pedro de) — 458, 459, 462. Alcorão — 55. Aldoná —467, 506. Alepo — 342. Alimentação no Cabo de Como- rim — 46. Aljôfar — costa do — 82. Aljôfar — pescaria do — 91. Almeida (Diogo de)—capitão português — 453, 454. Almeida (D. Francisco de) — 24(1), 399. Almeida (Irmão Pedro de) — 30, 40, 141. Alvarenga (Frei Luís) — 442, 455. Alvares (Francisco) — 347. Alvares (João) —102. Alvor (Conde de) —441, 444, 446, 447, 454. Amanguchi— 134, 137, 236. Amarante (P.e Frei Pedro de) — 414. 5'7
  • Amboino — 436. Ambolim — 509. Ambrósio (Irmão) — 6, 12, 19, 21, 50, 200, 227. Anes (Cosme) —150. Anes (João) —104. An garra, revoltados — 462. Angediva — 27. Anjos (Frei Constantino dos) — 489. Anjos (Frei Francisco dos) — 459. Anjos (P.e Frei António dos) — 473. Anjos (P.e Frei Brás dos) — 467. Anjuna — 439, 507. Antacão — 309. Antónia (D.) — rainha de Sete Corlas — 416, 417, 418. António — mártir do Japão — 427. António (Frei) — frade leigo — 405. António (P° Frei) — 458. Anunciação (Frei Cosme da) — 434. Anunciação (Frei Sebastião da) — 432. Apostolado — 398, 400, 403, 405, 408, 412, 413. Aquimo (Abdul)—437. Arábia — 321, 338, 341, 392. Arengai — 503, 509- Ariol — povoação na índia — 412. Arouca (P.' Frei Pedro de) — 433. 518 Arrendamentos — 153, 290, 291, 296. Artes — curso de — 240. Ascensão (Frei Martinho da) — 427. Asia — 239. Assa (Frei António de) —446. Assarim — serra de — 403. Assunção (Frei António da) — 459, 466, 474, 475. Assunção (Frei José da) — 461, 469. Assunção — Nossa Senhora da — 509. Assunção (P.' Frei João da) — 411, 442, 455. Ataíde (D. Alvaro de) — 197 (1). Austria (D. Maria da)—420. Avila (Frei Pedro de) — 429. Azevedo (D. Ana de)—473- B Baçaim — 23, 74, 99, 108, 112, 115, 117, 124, 128, 168, 171, 179, 180, 182, 211, 216, 217, 221, 237, 244, 247, 255, 256, 262, 263, 268, 269, 273, 278, 279, 280, 383, 392, 393, 401, 403, 418, 448, 461, 476, 480, 488, 493, 500, 501, 502, 503, 504, 505, 508, 509, 510. Baçorá — 25, 195, 219, 243, 327, 329, 338, 342, 392, 448, 449, 472. Baçorá — fortaleza de—96 (1), 448. Badegás — 21, 82.
  • Baía— 411. Bailadeiras — 7, 57. Bainel — aldeia — 509- Baltasar (Irmão) — 21, 227. Baluarte — Nossa Senhora do — 32, 33, 70. Banda— 182, 211, 219. Bandu — 374. Banha (Frei Manuel) — 407, 495. Baptista (Frei Luís)—431. Baptista (Frei Manuel) —407, 472, 496. Baptista (Frei Pedro)—425, 427, 428. Baptista (P.e Frei Francisco) — 413. Baptista (P.e Frei Gaspar) — 432. Baptista (P.° Frei João) — 432, 452. Barbosa (João) — 377. Barcelona — 495. Barcelos (P.e Frei Francisco de) — 471, 472. Bardela — ilha de — 28, 105. Bardes — 265, 399, 406, 407, 408, 436, 437, 438, 439, 442, 443,446, 447,448, 451,455, 456, 460, 464, 465, 466, 467, 468, 472, 489, 494, 501, 505, 507. Barém — 25. Barradas (Licenciado Manuel Alvares) — 141, 142, 188, 315. Barreto (Francisco)—101, 221, 289. Barreto (Irmão Egídio) — 124. Barreto (Irmão Gil) —268. Barreto (P.e Mestre Belchior Nunes) — 30, 31, 33, 34, 61, 76, 115, 124, 133(1), 171, 209, 211, 237, 255, 268(2), 269, 270, 273, 275, 279, 280, 286, 360, 362, 363, 364, 365, 366, 367, 373, 378, 382, 383, 386, 387, 388, 390, 391. Barut — Vid. Beirute. Barzeo (P.e Mestre Gaspar) — 34, 45, 71, 73, 91(15), 95, 120, 121, 127, 128, 130, 131, 132, 133, 135,139,141, 145, 150, 156,159, 162, 170, 174, 179, 191,211, 216, 231,232, 239, 240, 242, 243, 245, 248, 249,250, 251, 254, 256, 266, 276, 277, 306, 311, 313(1), 315, 316, 321, 322, 326, 327, 328, 338, 339, 350, 359, 379, 380, 383, 385. Batecalá — 254, 364. Batimene — reino indiano — 410, 421. Baptismos — 23, 53, 83, 84, 228, 229, 253, 284, 323,418, 460. Beira (P.e João da) — \\\ (1), 237, 393. Beira (Simão da) — 141. Beirute — 342. Belchior (Irmão) — 31, 209. Belchior (P.e Frei) —404, 416. Belem (Frei António de) — 444. Belem (P-° Frei Pedro de) — 466. Bembar —14. Bengala — 430. Berberim —100. 519
  • Bermudes (Frei Diogo) — 77. Bernaldo —196. Bernardo —154 (2). Bernardo (D.) — bispo de S. Tomé — 77. Bernigam — 332. Beruvala —100 (4). Bicholim — 461. Bisnaga — 400. Boaventura — mártir no Japão — 427. Bolin — festa hindu — 368. Bombaim — 403,456, 457, 458, 459, 477, 508. Bonezebagu — i. e. Bhuvaneka Bahu, rei de Ceilão — 415. Bonof (Frei Pedro)—432. Bonzos — 426. Borneo — 436. Borralho (Estevão Luís) — 183. Botelho (Simão) — 106, 108, 292, 380. Bragança (D. Constantino de) — 404. Brâmanes — 279, 282, 289, 290, 318, 396, 398, 399, 400. Branco (Frei Francisco) —427. Brandão (Irmão Aires) — 382. Brasil — 61, 458. Bravo (Irmão Pedro) — 363. Bravo (João) —196. Brites (D.) — rainha pagã con- vertida —-418. Brito (D. Frei Luís de) — 439- C Cabral (Jorge) — 25, 27, 29, 212, 244, 347. Cabral (Pedro Álvares) — 395. 5 ao Cairo — 83, 342, 343. Cal angu te — 507. Caldeira (Gonçalo) — 107. Calecoulão — 410, 414, 512. Calecut —26, 27, 28, 396, 413, 414. Calmarias — 37, 43, 62, 322, 352, 354. Calovale — 506. Caluale — 442, 443, 444, 468. Calur — freguesia do Monte — 510. Calvo (P.e Frei João) —423. Câmara de Goa — 302. Cambaia — 23, 26, 138, 284, 295, 373, 392, 401, 404. Campanha (Frei João Baptista) — 419. Cananor— 220, 375, 376, 377, 399, 409, 425. Cananor (Frei Francisco de) — 424. Canará — 413. Cândia — 415, 416, 423, 424. Cândia — rei de — 79. Candobi — 466. Candolim — 507. Cantanhede (Frei João) —442. Cantão — 373, 384. Caranja — 402, 403, 448, 451, 509, 510. Carias — 416. Carreira — Rua da —141. Cartas dos Jesuítas— 165, 168, 173, 182. Carvalho (André) — 145. Carvalho (Domingos) — 269. Carvalho (Gil Fernandes de) — 101, 382.
  • Casal (P.e Frei António do) — 401, 403, 404. Casamentos — 7, 23, 55, 97, 98, 120, 192, 243, 284, 288. Casão (João de Mendonça) — 101. Cassi — aldeia — 509. Castas — 205, 298(2), 331. Castro (Caetano de Melo de) — 459, 461. Castro (D. Brás de)—437. Castro (D. João de) —104, 403. Castro (P.e António de) — 393. Catamarrão — 53. Catarina (Dona) — 113. Catarina (D.) — rainha conver- tida—415, 416, 417, 418, 508. Catequese — Vid. Doutrinação. Catequistas — 9. CatiJa— 25, 96(1), 101, 243. Catures — 84. Cavalos (Rua da Carreira dos) — Vid. Carreira (Rua da). Ceilão — 54, 70, 79, 80, 82, 84, 86, 91, 93, 97, 100, 101, 105,210, 237,295, 382,415, 416, 418, 422, 448, 484. Ceilão — rei de — 96, 220. Ceitavaca — 417, 422. Celebes — 436. Certã (Francisco da) — 326 (4). Ceuta — 397. Chacarim — Vid. Tanaçarim. Chagas (Frei Agostinho das) — 488, 489. Chagas (Frei Jerónimo das) — 459. Chagas (Frei João das) —442. Chagas (Frei Teotónio das) — 493. Chagas (P.e Frei Francisco das) — 421, 424, 436. Champa— 373- Chandagari — 414. Chanoca (Frei Duarte)—416. Chaporá — 437. Chaul — 75, 219, 244, 245, 311, 313, 403, 405,428,454, 472, 477, 481, 485, 486, 487, 488, 489, 492, 501, 510. Chaul — dominicanos em — 60. Chichorro (Henrique de Sousa) — 27. China — 73, 101, 122, 129, 132, 134, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 153, 169, 170, 182, 183, 197, 201, 238, 269, 358, 362, 372, 373, 383, 384, 385, 387, 388, 441, 499- Chorão—154, 366, 464. Cipriano (P.e Afonso) — 85, 94, 147, 183, 237, 269, 308, 393. Circuncisão (Frei João da) — 442. Clara (D.) — princesa ceilo- nense convertida — 417. Clemente (Frei) — 413. Clemente (Irmão) — mártir do Japão — 429- Cochim — 3 (2), 12, 14, 17, 20, 24(1), 25, 27, 28, 29, 34, 36, 41, 44, 70, 71, 72, 75, 79, 83, 86, 92, 95, 96, 99, 102, 104, 105, 107, 111, 116, 128, 134, 145, 168, 170, 171, 179, 180, 181, 183, 184, 196, 197, 208, 209, 210, 223, 237, 52 1
  • 313, 314, 321, 324, 335, 337, 383, 386, 393, 409,410,411, 413, 414, 492, 496. Cochinchina — 333. Coelho (António) — 317. Coelho (Irmã Luísa)—487. Coelho (P.° Gaspar) — 147. Coetosa — aldeia — 512. Coimbra — 21, 190, 191, 212, 223, 306, 349, 350, 357, 395, 396, 397. Coimbra (Frei Henrique de) — 463. Coimbra (Frei Paulo de) — 413, 498. Coimbra (Irmãos de) — 20, 165, 168. Colecaliana — aldeia — 509. Colégios —A, 150, 188, 245, 265, 272, 314, 344, 346, 347, 356, 463, 498, 513. Colégio de Agaçaim— 504. Colégio de Nossa Senhora da Assunção, em Baçaim — 503. Colégio de São Boaventura, de Goa — 464, 501. Colégio de Caranja — 476, 477, 504. Colégio de Coimbra— 30, 136, 144, 166, 202. Colégio de Cranganor — 4. Colégio de São Francisco, em Goa — 476. Colégio de Santa Fé, em Goa — 18, 20, 59, 75, 85, 97, 115, 129, 135, 140, 141, 145, 156, 166,188, 197, 213, 214, 218, 236, 315, 319, 346, 363. Colégio (seminário) de São Je- rónimo, em Goa — 501. 522 Colégio da Senhora da Luz, em Agaçaim — 476. Colégio dos Santos Reis Magos, em Goa — 417, 418, 464, 465, 468, 501. Colégio da Senhora da Concei- ção, em Manapasser — 476, 502, 503. Colégio de São Paulo, em Goa —»Vid. Colégio de Santa Fé. Colégio de S. Salvador, em Cou- lão — 312. Colombo — 100(3), 415, 417, 422, 423. Corlas (reino de Sete) —416. Comorim — cabo de — 8, 45, 49, 51, 116, 128, 138, 151, 154, 166, 168, 179, 180,181, 182, 183, 198, 200, 210, 211, 216, 223, 237, 254, 269, 312, 327, 393. Conceição (Frei António da) — 437, 458. Conceição (Frei Bernardo da) — 424. Conceição (Frei Francisco da) — 432, 452. Conceição (Frei Gregório da) — 441. Conceição (Frei Luis da) — 442. Conceição (Frei Manuel da) — 479. Conceição (Frei Pascoal da) — 456, 481. Conceição (P.° Frei Lourenço da)—Ali. Condeixa (Frei Basílio) —432. Confissões — 23, 39, 76, 119, 186, 187, 210, 243, 246, 257,
  • 259, 261, 271, 272, 275, 280, 281, 283, 308, 311, 313, 323, 326, 341, 355, 380. Congo — 493. Conselhos ao Padre Afonso Ci- priano — 148, 149- Conselhos ao Padre António de Heredia — 184, 185, 186, 187. Conselhos ao Padre Gonçalo Rodrigues—119- Conselhos ao Padre Mestre Gas- par Bárzeo — 156, 159, 160, 161, 162, 163, 164, 165,166, 167, 168, 169, 170, 171, 172, 173, 174, 175, 176. Constantino (Dom) — 417. Constantino (Frei) —420, 421, 490. Constantinopla — 243. Contreiras (P.e Frei Francisco) — 424. Conventos — 463, 498, 500, 513. Convento de Santo António — 476, 500. Convento de Santa Bárbara — 454, 477, 481, 501. Convento de São Francisco — 498, 513. Conversões — 205, 259. Coromandel — 97, 196, 393. Correia (André)—424. Correia (Jerónimo) — 287, 288, 292, 293, 345(3). Cosnão —• 369. Costa (D. Francisco da) — 454. Costa (Dom Rodrigo da) — 446, 456, 457. Costa (Irmão Cristóvão da) — 30, 141. Costumes — 7, 46, 47, 48, 49, 54, 371, 372. Cota — 415, 417, 422. Coulão — 17, 19, 116, 128, 168, 179, 180, 181, 198, 201, 205, 206, 210, 211, 216, 227, 237, 312, 332, 334, 383, 393, 409, 410, 411, 414, 512. Coutinho (António de Sousa) — 437. Coutinho (Manuel) —14. Coutinho (Manuel Rodrigues de)~ 15. Cranganor — 4, 228, 409, 414. Criminal (P.e António) — 21, 50, 54, 82, 91, 227. Cristo (Frei Constantino de) — 417. Cristo (P.e Frei Bento de) — 433. Cristo (P* Frei José de) — 440. Cristo (P.e Frei Pedro de) — 424. Cruz (Frei Diogo da) — 468. Cruz (Frei Francisco da) — 396, 456. Cruz (Frei Gaspar da)—413. Cunha (João Nunes da) — 405, 432. Cunha (Nuno da) — 403, 500. Cunhale — corsário — 413. D Damão — 403, 404, 448. Daru — 436. Decão — 437. 523
  • Desterro (Frei Manuel do) — 432. Deus (Frei Fedro da Madre de) — 479, 480. Deus (P.e Frei Diogo da Madre de)— 465, 468, 478. Deus (P.c Frei Francisco da Madre de)—469, 473. Deus (Frei João de) —444. Deus (Frei Leandro da Madre de) — 493. Deus (Frei Tomé da Madre de) — 455, 471. Diamper— 398. Dias (Irmão Aleixo) — 383. Dias (Irmão António) — 179, 357. Dias (Irmão Belchior) — 30. Dias (João) —144. Dias (P.e Baltasar) — 355, 356, 378, 383. Dio — 24(1), 115, 145, 188, 211,216,217, 237, 269, 293, 403, 463. Diogo (Frei João de S.) — 421, 452. Diogo (Frei Luís de S.) — 417. Diogo (Frei Sebastião de S.) — 450. Direita (Rua) — 365. Doenças — 40, 41, 260, 282, 283, 327, 337, 339, 340, 384. Doentes— 16, 31, 33, 34, 39, 40,41,43, 63, 234, 265, 281, 282, 311, 324, 325, 327, 340, 375, 376, 379. Dominicanos — 60, 97, 100, 171. Doutrinação — 6, 8, 23, 37, 38, 66, 67, 82, 172, 192, 198, 199, 206, 210, 225, 241, 242, 245, 253, 258, 262, 263, 270, 274, 275, 280, 284, 285, 310, 311, 312,314, 323, 340, 346, 352, 367, 383, 506. E Egito — 306. Elefante — ilha do — 403. Elefantes— 280, 369, 370, 371, 423. Eleutério (Frei)—431. Elvas (Frei Manuel de) —433, 434. Elvas (P.e Frei João de) — 414. Enfermidades — Vid. Doenças. Enfermos — Vid. Doentes. Escravos— 191, 274, 285, 311, 314, 323. Escrivães— 188, 289, 331. Esmolas—108, 243. Espanha— 137, 428. Esperança — cabo da Boa — 24, 29, 32, 40, 127, 132, 165, 352, 354, 354. Esperança (P.e Frei Antônio da)—466, 471, 472, 493. Espirito Santo (Frei Jerónimo do)—465, 469, 470. Espírito Santo — freguesia do — 510. Espirito Santo (P.e Frei André do) —4^. Estreito— 195, 218, 295, 321, 329, 338, 446, 499. Evangelista (Frei João)—459, 493. 524
  • F Fagundes (P.e Frei António) — 471. Faraó — 306. Farto (Fernão) — 219. Feiticeiros — 7, 54. Fernandes (Alvaro) — 222, 305. Fernandes (André) — 135 (2), 234. Fernandes (Gonçalo) — 148. Fernanddes (João) —122. Fernandes (Pedro) — 222, 304. Fernandes (Tomé) —112. Fernandes (Tristão) — 289, 290, 291. Ferrão (António) — padre ma- labar—183, 213, 214, 293, 315, 316, 317. Ferraz (P.e Frei Jerónimo) — 472. Ferreira (P." Alvaro) — 134 <*)• Ferreira (Simão) — 189, 213, 215, 347. Filipe (Dom) — príncipe con- vertido—416, 417, 419, 420. Filipinas — 430 (6). Flamengos — 262. Fonseca (João da) — 106. Fortaleza — 309, 310, 448, 449, 452. Franciscanos — 4, 42, 395, 396, 403, 405, 406, 408, 409, 413, 417, 425, 430, 432, 434, 435, 440, 442, 444, 452, 454, 455, 464, 465,498,512,513. Francisco — moço japonês — 154(2), 427. Francisco (Dom) — príncipe convertido — 417, 418, 433. Francisco (Frei) — 459- Francisco (Frei Luis de São) — 441, 455. Francisco (Irmão) — 326. Francisco (P° Frei António de S.) — 473. Francisco (P.e Frei Manuel de S.) — 442, 447, 453. Francisco (P.e Frei Mateus de S.)— 492. Franco (P" Pedro)—474. Freitas (Irmã Luzia) —429- Fróis (António Cardim) — 462. G Gabriel — mártir no Japão — 427. Gago (P.e Baltasar) — 72, 82, 85, 86, 95, 134(1), 211, 238, 269. Gale —100. Galego (Frei Francisco) —413, 414. Gama (Afonso da) — 293. Gama (Vasco da) — 395 Gamboa (António Rodrigues) — 293. Gancares— 188, 316, 317, 318, 319, 320, 466, 467, 470, 473. Gancaria—318, 465. Ganjes — 397. Garcez (Jorge) — 219, 222, 305. Garcia (Duarte) — 305. Gaspar — moço indiano — 377. Gaspar (Frei) — 396. 5 25
  • Gaspar (Irmão) — 85, 94, 269. Gentios — 21, 23, 263, 333, 341, 426, 453. Glória (Frei João da)—442, 457, 458, 459. Goa— 3(2), 25, 28, 30, 33, 39, 41, 42, 61, 63, 64, 70, 72,73, 74, 77, 86, 87(4), 94, 96(1), 97, 98,102, 108,109, 110, 112, 113, 115, 122, 123, 126, 127, 130, 132, 133(1), 134, 134(1), 138, 142, 145, 147, 156, 159, 162, 174, 179 (1), 180, 188, 189, 190, 196, 197, 197(1), 205, 209, 210, 211, 213, 214, 215, 216, 222, 227, 230, 232, 236, 238, 239, 240, 243, 244, 245, 250, 253, 255, 264, 269, 276, 277, 281, 287, 293, 295, 301, 302, 305, 306, 315, 317, 318, 321, 325, 326, 327, 331, 344, 345(3), 346, 347, 348, 349, 355, 358, 359, 363, 364, 365, 366, 367, 378, 379, 381, 382, 383, 385, 386, 393, 394, 399, 403, 404, 405, 406, 410, 412, 413, 414, 417, 418, 419, 420, 421, 422, 425, 428, 436, 437, 438, 439, 441, 444, 446, 448, 452, 453, 461, 462, 463, 464, 472, 474, 475, 479, 482, 484, 485, 488, 489, 490, 493, 494, 497, 498, 499, 501, 505, 507, 513. Goa — ribeira de — 104 (1). Goa — a Velha — 27. Godinho (Pedro) —110. Gomes (Capitão Dom Domin- gos) — 455. Gomes (Martim) — 222, 305. 52 6 Gomes (P.e António) —19, 20, 70, 97, 101, 111(1), 145, 211, 229, 269. Gomes (Rui) — 377. Gonçalo (P.e Frei) — 423. Gonçalves (António) — 217. Gonçalves (Francisco) — 111. Gonçalves (Gaspar) — 303, 304. Gonçalves (P.e Belchior)—4, 23,74, 75, 1U(1), 112, 115, 116, 124, 182, 255(2), 269- Gonçalves (P.e Luís)—4, 45, 208, 264, 321. Gonçalves (Simão) — 305. Gorai— 509. Graça (Frei António da) — 495. Graça (Frei João da)—459. Graça (Frei Manuel da) —461, 496. Gradas (Frei Gonçalo)—425, 427, 428. Gramática — malabar — 8, 204. Gregório (P.' Frei)—432. Guadalupe—confraria de Nossa Senhora — 60. Guarda (P.' Frei Martinho da) — 414, 422. Guerras — 28, 193, 309, 444, 445, 448, 449, 450, 451, 455. Guimarães (Frei Simão de) — 396, 409. Guiné — 37, 43. Guiri — 470. Gumiel (Diogo de) — 291. Gundra—410, 421. Guzarate (Paulo) —125.
  • H Helena — ilha de Santa — 29. Helena (P.° Frei João de Santa) — 493. Henriques (D. João) — 101. H enriques (Francisco) — 124, 125. Henriques (P.e) — 91 (16), 179, 395, 396, 397. Henriques (P.e Francisco) — 82, 237, 262, 263, 269, 275, 279, 280, 393. Henriques (P.e Henrique) — 6, 8, 50, 54, 198, 199, 200, 202, 223, 237. Heredia (P.e António de) —21, 30, 31, 33, 34, 38, 76, 69, 70, 170, 180, 183, 184, 196, 208, 237, 313, 321, 322, 324, 326, 327, 330, 392. Hidalcão — 220, 399, 413, 436, 437. Homem (P.e Frei Jorge) — 470. Hospitais — 15, 16, 21, 206, 245, 265, 266, 381, 340. I lbargui (Paulo)—427. Idolatria — 7, 10, 11, 23, 57, 198, 368, 369, 396. Igrejas — 50, 60, 99, 261, 275, 279, 433, 466, 475, 476, 477, 478. Igrejas na costa do Cabo de Co- morim — 6. Igreja de Santo Aleixo — 507. Igreja de Ambuli — 477. Igreja de Santa Ana — 472, 507. Igreja de Santo André — 478, 512. Igreja de Anjuná — 470. Igreja de Santo António — 477, 478, 507, 509, 512. Igreja de Aroneli — 512. Igreja de Nossa Senhora da Assunção — 501, 476. Igreja de Arengai — 476. Igreja de Baçorá — 472. Igreja de Bainel — 477. Igreja de S. João Baptista — 473, 507. Igreja de Santa Bárbara de Chaul — 428. Igreja de São Bernardino — 477, 509. Igreja de São Boaventura — 476. Igreja de São Brás — 477. Igreja de Calangute — 470. Igreja de Caluale — 468. Igreja de Caranja — 477. Igreja de Cassi — 477. Igreja do Monte Catur — 476. Igreja de Ceilão — 478. Igreja de Ceitaca — 478. Igreja (ermida) de Coivaleri — 512. Igreja de Colecaliana — 477. Igreja de Nossa Senhora da Conceição — 472, 506. Igreja de S. Cristóvão — 471, 506. Igreja de Santa Cruz — 478, 512. 5 27
  • Igreja da Mãe de Deus — 474, 505. Igreja de S. Diogo — 507. Igreja de Nossa Senhora do Egilo — 477, 509- Igreja da Senhora da Esperança — 466, 507, 508. Igreja da Senhora da Penha de França — 473, 505. Igreja das Chagas de S. Fran- cisco— 506, 512. Igreja de Gocai — 477. Igreja (ermida) do Monte Santo de Guirim — 507. Igreja do Bom Jesus do Monte de Guivi— 466. Igreja de Santa Isabel — 471, 507. Igreja de S. Jerónimo — 477, 506. Igreja do Senhor Jesus — 506. Igreja do Bom Jesus — 475. Igreja de S. João — 512. Igreja de S. Lourenço de Linha- res—•471. Igreja de Nossa Senhora da Luz — 511. Igreja (capela) de Santa Maria Madalena — 476, 510. Igreja dos Santos Reis Magos — 477, 478, 512. Igreja de Magtana — 476. Igreja de Malvana— 477. Igreja de Man gate — 478. Igreja de Manori — 477. Igreja de Nossa Senhora do Mar — 474, 477, 478, 488, 506, 509. Igreja de Marolei — 477. Igreja de Mapuçá — 494. 5 2 8 Igreja de S. Miguel — 439, 477, 507, 508. Igreja de Moira — 472. Igreja do Senhor Salvador do Mundo — 506. Igreja de Nachovele — 475. Igreja de Nagoa — 466. Igreja de Nossa Senhora do Nascimento — 477. Igreja de Nossa Senhora de Na- zaré— 509. Igreja de Oxel — 474. Igreja da Mãe de Deus de Pale — 476. Igreja de Parra — 472. Igreja de Nossa Senhora do Parto — 478. Igreja de Pave — 476. Igreja do Pegu — 478. Igreja (capela) de Nossa Se- nhora da Penha — 477, 510. Igreja de Pilerne — 473, 475. Igreja de Pomhurpa — 474. Igreja de Nossa Senhora do Porto — 512. Igreja do Mato da Rainha — 478. Igreja de Nossa Senhora dos Re- médios— 451, 507. Igreja da Senhora da Salvação — 457, 459, 477, 508, 509. Igreja de S. Diogo de Sangolda — 470. Igreja do Espirito Santo — 476. Igreja da Senhora da Saúde — 477, 478, 493, 509. Igreja de S. Sebastião — 477. Igreja de Nossa Senhora do So- corro— 475, 477, 507, 509. Igreja de Tivi — 471.
  • Igreja de S. Tomé— 476, 506. Igreja da Santíssima Trindade — 507. Igreja de Trivilar — 478. Igreja de Turutnba—'477. Igreja (capela) de Nossa Se- nhora da Sande de Valverde — 466, 475, 507. Igreja de Velui — 468. Igreja de Virlucá — 473. Igreja de Nossa Senhora da Vi- tória— 472, 506. índia — 91, 92, 105, 106, 113, 132, 134, 135, 139, 145, 165, 188, 196, 202, 208, 211, 218, 220, 233, 249, 253, 255, 288, 289, 293, 294, 306, 315, 324, 326, 327, 328, 332, 342, 343, 345(3), 348, 349, 354, 362, 378, 379, 385, 386, 394, 395, 396, 397, 399, 403, 407, 419, 430,432,435,437, 441,442, 443, 446, 448, 457, 459, 461, 462, 465, 478, 482, 492, 495, 496, 497, 502, 507, 513. Indulgências— 113, 165. Isabel (D.) — princesa conver- tida— 417. Itália — 137. J Jafanapatão— 415, 417, 419, 422. Japão — 34, 71, 73, 85, 91 (15), 94, 98(2), 122, 127, 134, 135, 136, 137, 138, 140, 151, 154, 155, 170, 171, 173, 181(3), 182, 196, 211, 234, 236, 238, 255, 268, 269, 356, Doo. Padroado, v-34 360, 362, 364, 366, 367, 373, 374, 378, 383, 385, 386, 388, 389, 390, 391, 392, 394, 425, 427, 428, 430(6). Japara — 436. Java — 433- Java Maior — 421. Jerónimo (Frei)—433- Jerusalém — 342. Jesus (Frei António de) — 442. Jesus (Frei Cristóvão de) — 495. Jesus (Frei Filipe de) — 427. Jesus (Frei Manuel de) — 433- Jesus (P.e Frei Estevão de) — 424. Joana (D.) —princesa conver- tida—417. João (D.) — rei — 99, 402, 416,417,418, 422, 423, 502, 503, 508. João — forte de S. — 444, 445, 447, 448. João (Frei) —414, 415, 417. João (Frei Bernardino de S.) — 473. João (P e Frei António de S.) — 442, 446, 447. Jogues— 13, 15, 58, 59, 230, 339, 398, 399, 400, 402. Jorge (Irmão Francisco) — 331. Jorge (P.e Marcos) — 379- Jubileu — 69, 76, 169, 170, 192, 209, 245, 261, 275, 283. Juliano — 423. L Lado (Frei Manuel do) —407, 463, 474. 5 2 9
  • Lagos (P.c Frei Vicente de) — 409, 412, 414, 416. Lanciloto (P.e Nicolau) — 12, 17, 179, 180, 198, 205, 206, 210, 237, 312, 332, 383, 394. Lapas (P.e Frei Francisco das) — 424. Leão — 427. Leão (Irmão) — 429. Leão (P.e Dom) — 306, 379. Leite (Gonçalo) — 113. Lemos (Francisco de) — 90. Lima (D. Francisco de) — 101. Línguas indígenas — 6, 49, 50, 134, 170, 225, 228, 318. Linhares (Conde) — 507. Lisboa —61, 63, 66, 71, 75, 113, 173, 202, 345(3), 348, 395, 404, 416. Lisboa (António de) — 218. Lisboa (Francisco de) — 347, 404, 432. Lisboa (Frei Pedro de) —424. Liturgia —9, 37, 38, 182, 204, 227. Loiola (S. Inácio) — 73, 75, 115, 127, 128, 130, 138, 147, 160, 164, 165, 166, 167, 233, 234, 235, 398, 394. Lopes (Francisco)— 125, 154, 179, 182, 183, 311, 376, 393. Loureiro (P.e Frei António do) — 400, 401. Lourenço (S.)— freguesia de — 507. Lourenço — ilha de — 26, 354. Lucas (P.e Frei)—424. Lucas (Rodrigo Anes) — 348. Luís — mártir no Japão — 427. Luís (D.) — rei convertido — —t-434. Luis (Estevão) — 183. Luis (Frei) — 398, 399, 400. Luteranos — 244, 261, 262, 284. Lutero (Martim) — 384. Luz (Frei Sebastião da) — 424. Luz (Frei Simão da)—423, 424. Luz (Nossa Senhora da) — 478. M Macaçar — 421, 434. Macau — 432. Madalena (Frei António) — 432. Madalena (Frei Marçal da) — 447. Madalena (Frei Pedro da) — 423. Madeira (Aleixo) — 40, 210, 321. Madeira — ilha da — 350, 352. Madoli — 422. Modular — 418. Mafoma — 193, 279, 372, 397, 420, 431, 490. Magalhães (João Homem de) — 458. Magastão—195, 309. Mahuaná — aldeia — 509. Mainatos—153. Malabar — 27, 28, 138, 295, 334, 375, 393, 400, 409, 414, 422, 478. Malabar — ensino da língua — 12, 13, 19, 20, 199, 200, 202, 204, 228. 53°
  • Malaca — 4, 98(2), 107, 109, 126, 127, 134,138, 139,153, 168, 170, 171, 173, 180, 181, 182, 196, 197, 211, 238, 269, 293, 300, 357, 358, 361, 363, 364, 367, 374, 383, 384, 385, 386, 392, 393, 432, 434. Maldivas — ilhas — 72, 79, 97, 83(3), 211, 335. Malvana — 424. Mamud — rei Sultão — 401. Manapacer — 402, 504, 508. Manar — 422. Mandune — 422. Mangalana — 509. Manhos (Francisco) — 220. Manuel (D.) — 295, 395, 416, 418, 463- Manuel (P.e Frei) —449, 450, 479. Mapuçá — 406, 408, 469, 494, 506. Maria (D.) — princesa conver- tida—417, 433, 434. Maria (Frei Domingos de Je- sus) — 456. Maria (Frei Francisco de Jesus) — 442, 453. Maria (Frei Manuel de Jesus) — 455. Maria (P.e José de Jesus) — 446. Mariz (Francisco de) — 97. Marolim — 509- Martavão — 368. Martinho — cozinheiro do con- vento de Baçaim — 480. Martins (João) — 222, 305. Mártires (D. Frei Francisco dos) — 496. Mártires (Frei Manuel dos) — 441. Marvão (Frei Bernardo) — 434. Mascarenhas (D. Pedro) — 392. Mascate — 74, 218, 219, 237, 324, 325, 419. Mas seu (Frei) — 396. Mateus (Frei)—486. Matias — mártir no Japão — 427. Meaco — 373, 374, 426. Meca — 25, 193, 300. Mendes (Álvaro) — 195, 309. Mendes (P.e António) — 337. Mendonça (João de) — 60. Meneses (D. António de) — 459. Meneses (Vasco Fernandes Cé- sar de) — 448. Mercês (Nossa Senhora das) — 478. Mesquitas — 279, 372, 413, 463. Nkhi (Paulo)— 427. Milagres — Senhora dos — 425. Mina—195. Minão — 309- Miramaxa—310. . Mirão (P.') — 232. Misericórdia—184, 186, 209, 245, 249, 251,261,263, 270, 276, 313, 365, 375, 376, 377. Missas— 38, 66, 75, 210, 245, 270, 272, 277, 280, 284, 314, 327, 340, 351, 355. Missões — 409, 430, 498, 513- Moçambique—25, 26, 29, 31, 33, 62, 69, 209, 210, 441. Mogor ou Mogol (Grão) — 409, 420, 421, 436, 456, 457. 53'
  • Moira — 506. Molucas — 98 (2), 111, 127, 135, 138, 151, 154,211,219, 237, 295, 392, 393, 394, 435, 436. Mombaça — 441, 499. Monções— 170, 171, 181, 196, 322. Mónica (Santa)—417. Moniz (P.e Frei João)—472. Monomotapa — 397, 398. Monteiro (Rodrigo) — 189, 213, 215, 347, 348. Montemor — 363. Morais (P.e Manuel) — 30, 36, 44, 70, 71, 76, 111, 132, 133(1), 141, 154, 163, 183, 190, 210, 237, 249, 267, 350, 379, 382. Moro — 138, 151, 436. Mosadão — cabo de — 323. Moura —144. Moura (André de) — 315, 316, 317, 318, 319, 320. Moura (Manuel de) — 345 (3). Mouros—11, 28, 243, 263, 279, 280, 303, 310, 328, 341, 356,413, 420, 421,425,435, 437, 463, 489, 490, 491,498. Mulheres — 47, 48, 174, 246, 247, 250, 300, 323, 341, 381, 449. Multas aos cristãos — 15, 16. N Nachonola — 506. Nagoa —190, 507. Nagumbo — 424. Naires — 397. Nangazaqui — 429. Narsinga — 400. Nascimento (Frei Manuel do) — 446, 461. Nascimento (P.e Frei Estevão do) — 459- Natividade (Frei Jerónimo de) — 466. Naus: «Nossa Senhora do Rosário» — 458. «Santa Cruz» — 69, 376. «São Bento» — 376. «São Francisco de Assis» — — 410. «São Paulo» — 29. Nazaré (Domingos de) — 464. Nazaré (Frei João da)—409. Nazaré (P.e Frei Simão da) — 422, 423. Negapatão — 335, 511, 512. Negrão (P.e Frei Francisco) — 442, 495. Negumbo—100, 423. Nelur — 451, 507. Neto (Frei Pedro) — 396. Neurá— 317, 319, 320. Neves (P.c Frei João das) — 443, 463. Nicolas (Irmão Furtuoso No- gueira) — 306. Nicolas (P.e) — 18, 19. Nizamaluco — 220, 405. Nizamuxá — 405. Noé (Frei João) — 99, 103, 465, 501. Noronha (D. Afonso de) — 3, 96, 214, 265, 315, 344, 347, 501.
  • Noronha (D. Antão de)—96 (1), 101, 105, 191, 216, 217, 243, 244 (10), 277, 323, 324, 329, 433. Noronha (D. Pedro António de) —418. Norte —441, 448, 451, 452, 453, 454, 457, 458, 461, 464, 472, 476, 477, 489, 499, 500, 502, 508, 510, 513. Noutaques — 237, 323. Nunes (Irmão Baltasar) — 12, 45, 112, 154, 182. Nunes (Irmão forge) — 30, 65. Nunes (Leonardo) —144. Nunes (Manuel) — 287. Nunes (Belchior)—Vid. Bar- reto (P.e Mestre Belchior Nu- nes). O Ocas sai — 471. Ocassim — 440. Odia — 369. Olivença (P.e Frei João de) — 439. Onofre (Frei)—492. Oriente (Frei Francisco do) — 416. Ormuz — 25, 34, 73, 76, 96 (1), 119, 121, 135, 168, 170, 180, 181, 190, 191, 193,194, 195, 210, 216, 217, 218, 219, 220, 237, 242, 243, 244, 251, 276, 293, 309, 310, 321, 322, 324, 325, 326, 327, 337, 338, 392. Ossel — 506. P Padrão (P.e Frei António) — 403. Pagodes — 23, 56, 57, 58, 75, 188, 189, 215, 279, 280, 315, 316, 319, 344, 345(3), 346, 347(6), 402, 403, 408. Pais (Francisco) — 345 (4). Paixão (P.e Frei Manuel da) — 469, 472. Pale — aldeia — 510. Pali porto — 414. Palma (Frei João da) — 436. Palormino (P.e Frei Brás) — 436. Pare — 503, 504, 509. Pariapandar (D. João)—415. Paris — 374. Parrá— 507. Parum — 436. Paschasio (Frei Pedro)—432. Pascoal (Dom) — príncipe con- vertido—'433. Pascoal (P* Frei)—423. Paz (P.° Frei Fernando da) — 467, 468. Pecorá — 506. Pedro 11 (D.) — rei de Portu- gal— 411. Pedro (Frei)—413, 426, 480, 482. Pegu—168, 371, 383, 388, 411,421,432, 478,493, 511. Peixoto (P.e Frei Fernando) — 405. Pereira (Diogo) — 385. Pereira (Diogo Botelho) — 24 (1), 29, 197(1). Pereira (Frei Manuel) — 424. 533
  • Pereira (Iria) — 24 (1). Pereira (Pedro Homem) — 418. Pereira (Irmão Reimão) — 141, 264. Peres (P.e Francisco) — 153, 168, 182, 196, 383, 393. Pérsia—138, 300, 321, 338, 341, 392. Pérsia — xá da — 96(1). Pescaria — costa da — 9, 10, 82, 84, 91, 93, 97, 198, 202, 223, 224, 227. Piedade (Frei Luís da) —419. Piedade (Frei Onofre da) — 491. Piedade — retábulo da — 43. Piedade — Senhora da — 402. Pilerne — 507. Pimenta — 25, 27, 105, 293, 512. Pina (Francisco Lopes de) — 335. Pinheira (Maria)—97. Pinto (Francisco Henriques) — 437. Pinto (Irmão Fernão Mendes) — 361, 374(23), 388, 389, 390. Pinto (P.e Frei Manuel) — 468. Pires (António) — 377. Pobres— 184, 195, 243, 249, 310. Porca — 412. Pomburpa— 505. Porciúncula (Nossa Senhora da) — 426. Portas (rei de Sete) — 418. Porto (P.e Frei António do) — 74, 99, 401, 402, 403, 432, 476, 477, 503. Portugal— 37, 94, 128, 168, 170, 209, 272, 328, 362, 364, 373, 379, 382, 389, 392, 394, 396, 397, 404,410,411,415, 417, 437, 438, 441, 443, 446, 450, 457, 459, 460, 461, 462, 476, 478, 491, 492, 493, 496, 499, 502. Prazeres (Frei Manuel dos) — 442. Pregações— 34, 38, 42, 71, 74, 75, 76, 82, 119, 126, 154, 159, 167, 168, 210, 245, 246, 258, 259, 260, 270, 275, 277, 280, 281, 283, 313, 323. Procissões — 41, 43, 66, 71, 74, 241, 244, 249, 260, 261, 283, 285, 322, 326, 327, 329, 341, 351, 352, 354, 367. Punicale— 13, 14, 17, 18, 198, 202, 205, 206, 207, 230. Purificação (Frei Manuel da) — 459, 462. Purificação (P.° Frei Francisco da)— 492. Purificação (P.e Frei Miguel da) — 418. Purificação (P.e Frei Inácio da) — 441. Purificação (P.e Frei Pedro da) — 468, 475. Q Quensoa — naique — 442. Quiloa — 398.
  • R S Raju — 417, 422, 423. Real ( A ntónio) — 24 (1). Rebelo (Gaspar) — 377. Rebelo (Pantaleão) — 348. Reis (P.e Frei António dos) — 434. Reis (P.c Frei Belchior dos) — 460, 462, 496. Reis (P.e Frei Gaspar dos) — 424. Remédios (Frei Carlos dos) — 469, 470, 473, 475. Remédios (P.e Frei Lucas dos) — 461. Reverá — 440. Rodrigo (Frei)—414. Rodrigues (Frei Bartolomeu) — 425. Rodrigues (P." Gonçalo) — 30, 32, 34, 38, 69, 70, 119, 190, 210, 237, 253, 276, 326, 328, 337, 339, 393. Rodrigues (P.e Mestre Simão) — 3, 134, 137, 138, 155, 166, 168, 173, 198, 233, 234. Roiz (P.e Baltasar) — 303. Roiz (P.e Francisco) — 379- Roiz (Paio) — 305. Roma— 113, 114, 136, 138, 140, 165, 168, 368, 392. Rosal gate — cabo do — 218. Rosário (Frei Domingos do) — 441. Rosário (P.° Frei Inácio do) — 472, 474. Roxo — mar — 441, 459. Rumes— 27, 73, 74, 105, 193, 195, 238, 243, 274, 285, 309, 310, 328, 329- Sá (Manuel de) — 219, 305. Sabagi — 468. Sacai — 373. Sacramento (P.e Frei Francisco do) —438. Salcete — 99, 265, 399, 402, 403, 406, 436, 437, 448, 456, 476, 489, 502, 503, 509. Saldanha (Manuel de)—486. Salvador (Frei Luís do) — 396, 398, 399, 409- Salvador (P.e Frei Francisco do)— 454, 467, 482, 484, 485, 486, 487, 488, 489. Samatra — 432. Sambagi — 444, 448. Samesadym — 220. Sampaio (Francisco José de) — 462. Sampaio (Luís de Meto e) — 458. Sampaio (Tristão de Melo de) — 457. Sanchoão —196, 197. Santarém — 63. Santa Ana (Frei António de) — 435. Santa Ana (Frei Ricardo de) — 429. Santa Ana (P.c Frei Amador de) — 406, 495. Santa Clara (P.e Frei António de) —437, 459. Santa Clara (P.e Frei Diogo de) — 473. Santa Inês (Frei Francisco de) — 446, 447, 460 469, 470. Santa Isabel — freguesia de — 438. 535
  • ■ Santa Maria (Frei Antônio de) — 459. Santa Maria (P.e Frei Francisco de) —492, 493. Santa Maria (Miguel de) — 397. Santa Maria (P.c Frei Pascoal de)— 468. Santa Maria (Frei Pedro de) — 470. Santa Maria (P.e Frei Sebastião de) — 441. Santa Rosa (Frei Francisco de) — 461, 462, 496. Santa Maria Madalena — 426. Santa Teresa (Frei Francisco de)— 453, 454, 455. Santiago (P.e Frei Aires de) — 470. Santiago (P.e Frei Eleutério de) — 430. Santo André (Frei Bernardo de) — 441, 442. Santo André (Frei Manuel de) — 459. Santo António (Frei Diogo de) — 447. Santo António (P." Frei Jorge de)— 437. Santo António (P.e Frei Manuel de)—448, 449. Santo Inácio — 337. Santos (Frei Manuel dos) — 416, 417. São Bernardino (Frei António de) —414. São Bernardino (P.e Frei Do- mingos de) — 407, 447, 460, 481, 485, 486, 496. 536 São Bernardino (P.e Frei Ma- nuel de)—443. São Bernardo (Frei Domingos de) —473. São Boaventura (Frei Teodósio de)— 459. São Boaventura (P.e Frei Fran- cisco de)—461, 471. São Boaventura (P.e Frei Mi- guel de)—464, 470, 501. São José (Frei Gonçalo de) — 482, 483. São José (Frei João de) —447. São José (Frei Miguel de) — 469. São José (Frei Sebastião de) — 435. São José (Frei Vicente de) — 429. São José (P.e Frei Damião de) — 460, 469. São Luis (D. Frei Manuel de) — 496. São Matias (Frei João de) — 406, 495. São Matias (P.Q Frei Manuel de) — 409, 414, 421. Soo Miguel (Frei Francisco de) 425, 427. São Miguel (Frei Gaspar de) — 406, 495. São Miguel (P.e Frei Bernardo de)—442. Saúde — freguesia de Nossa Se- nhora da—12. Sauntó (Ghema) — 473. Savagi ou Sabagi — 442, 444, 471, 472, 475, 489. Sebastião (D.) — 416, 501, 502. i â
  • Sebastião (P.' Frei) — 435, 451. Seminários — Vid. Colégios. Sepúlveda (Manuel de Sousa) — 27. Sequeira (Lopo Vaz de) — 292. Serião — costa de — 511. Setúbal (P.e Frei André de) — 424. Sevilha —183. Silva (Domingos Barreto da) — 441. Silva (Duarte da) — 269. Silvestre (P.e Frei António) — 424. Simão (Frei) — 292, 423- Sinai (Banu) — 318, 320. Sinai (Crisna) — 317, 318. Sinai (Gopu) — 318, 319. Sinai (Magu) — 317, 320. Sinai (Santu) — 318, 319- Sinclim — aldeia — 507. Sirulá — 466, 506, 507. Siuli — 467. Sivagi ou Sabagi — 440. Socotorá — 400. Sofala — 463, 499. Solor — 436. Souro (Irmão Fernando do) — 124, 270, 273. Sousa (Aleixo de) — 287, 289, 291, 292, 293. Sousa (António de) — 449, 450. Sousa (Diogo de) — 68. Sousa (Cosme Rodrigues de Carvalho e) — 458. Sousa (Diogo Lopes de) — 210. Sousa (D. Manuel de) —101. Sousa (D. Filipe de) —447. Sousa (Henrique de)—97. Sousa (Leonel de) — 101. Sousa (Martim Afonso de) — 109, 344, 345. Soveral (Diogo de) — 306, 349, 392. Suez — 96(1), 329. Supa — 434, 435. Surrate — 459. Tabarija — rei — 435. Taicosana— 425. Tana — 23, 75, 237, 244, 262, 269,371,379,392,402,403, /.. v< A 446, 448. > ?;*/ . Tanaçarim — 371. y'H. •* , ' Tanor — 412, 414, 416. . Tanor—rei de — 28, 79, 96. Távora (Francisco de) — 441, 444, 454. Teixeira (Álvaro) — 269. Teixeira (Irmão Manuel) — 30, 35, 124, 209, 379. Terceira — ilha — 29. Timor — 436, 441. Tivim — 447, 506. Tobias (Frei Manuel)—409- Tolosa — bispo de — 434. Tomé (S.) — cidade de — 511. Tomé (P." Frei)—464. Torre (Frei Damião da) —432. Torres (P.e Cosme de) — 122, 134, 170, 171, 181, 236, 385, 389, 394. Travancor — 421. T rebuliapandar — 422. Trevilar — 414. 537 t
  • Trindade (Frei Manuel da) — 424. Trindade (Frei Paulo da) — 495. Trindade (P.e Frei António da) — 472. Triquinamale — 97, 228. Trivilar— 512. Turco (Grão) —96(1), 329. Turcos— 25, 218, 219, 221, 337. Turmumbá —■ 509. Tutucurim —18. U Urbano — papa — 919. Utana — 477. Uva — 419. V Vaipim — 414. Vale (P.e Paulo)—6, 12, 16, 50, 111, 132, 179(2), 202, 204, 216, 227, 228, 269, 277, 265, 266, 391. Vasconcelos (João Fernandes de) —101. Vasconcelos (Manuel de) — 219- Vaz (Duarte) — 377. Vaz (Fernando) — 377. Vaz (Lopo) — 292. Vaz (P." António) — 141, 179, 249, 276, 277, 311, 313(1), 393. Velho (P.e Frei Manuel) — 492. Veneza — 342, 369, 373. Vercavá — aldeia — 509. Verde — cabo — 352. Viasiaim — 438. Vicente (Conde de) — 405. Viegas (Frei Tomás) — 504. Vieira (P.e Diogo) —4. Vieira (P.e Francisco) — 87, 330, 351, 352, 355, 356, 393. Vila do Conde (P.e Frei João de) — 415. Vilassem — 417. Vilaverde (Conde de) — 458. Vi li ca— 512. Virapandar — 422. Vitória (Frei João da) — 396. Vitória (Senhora da)—425. Viseu (Frei Jorge de) — 433. X Xavier (P.e Mestre S. Francisco) — 4, 19, 73, 85, 91, 94, 95, 111, 112, 113, 119, 123, 124, 126, 127, 129, 130, 131, 132, 133, 134, 140, 141, 145, 146, 147, 149, 150, 155, 156, 159, 161, 162, 173, 174, 178, 179, 183, 184, 196, 197, 234, 235, 236, 237, 238, 239, 255, 262, 268, 269, 272, 273, 276, 350, 358, 359, 362, 363, 364, 383, 388. Xisto (Frei)—414. Xonguzama — 428. W We/igana — 100 (5). Z Zuzarte (Pedro da Silva) — 452. 538
  • Este livro realizado pela casa Paulino Ferreira, Filhos, Lda., R. Nova da Trindade, 18-B—Lisboa, foi impresso em Março de 1951
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