•iiiiiHinmiii in mi HI; DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS D O ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ANTÓNIO DA SILVA REGO INDIA 4.° VOL. (1548-1550) AGÊNCIA GERAL DAS COLÓNIAS LISBOA / MCML 1 I « ãiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiinm mui nu iiiih
DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE
DEP. LEG. REPÚBLICA PORTUGUESA MINISTÉRIO DAS COLÓNIAS DOCUMENTAÇÃO PA R A A HISTÓRIA DAS MISSÕES D O PADROADO PORTUGUÊS D O ORIENTE COLIGIDA E ANOTADA POR ANTÓNIO DA SILVA REGO (ND, A 4.° VOL. (1548-1550) AGÊNCIA GERAL DAS COLÓNIAS DIVISÃO DE PUBLICAÇÕES E BIBLIOTECA LISBOA / M C M L
Esta publicação foi autorizada por despacho de S. Ex.a o Ministro das Colónias de 5 de Janeiro de 1950
INTRODUÇÃO
M.lste quarto volume da Documentação para a História Jjj das Missões do Padroado Português do Oriente segue a mesma orientação dos volumes precedentes. Mantém-se desta forma o plano formulado no primeiro volume e mantém-se também o ritmo acelerado, que anun- ciámos na Introdução do terceiro volume, pois encontra-se já no prelo o manuscrito do que há-de ser o 5." vol. documen- tal. Esperamos vê-lo publicado ainda este ano. No presente volume incluímos os derradeiros documen- tos de interesse directo para o nosso fim publicados nos Documenta Indica, I vol., do muito Rev. P." José Wicki, S. /., e nas Epistolae S. Francisci Xaverii do muito Rev. P.e Jorge Schurhammer, também da Companhia de Jesus. A Torre do Tombo foi, muito naturalmente, a nossa grande fonte documental. Por motivos alheios à nossa vontade não podemos publicar bastantes documentos referentes ao pe- ríodo 1542-1530, ainda não copiados, se bem que devida- mente catalogados. Publicá-los-emos, porém, logo que as circunstâncias assim o permitam. Iniciamos neste volume a publicação da incomensurável riqueza arquivística existente na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, na colecção vulgarmente conhecida pelo nome genê- IX
rico de Jesuítas na Ásia. São muitos volumes repletos de preciosas informações relativas à acção da Companhia de Jesus em todo o Oriente, sobretudo na China e no Japão. Como, presentemente, apenas a índia nos ocupa a atenção, publicaremos neste e subsequentes volumes os documentos que à índia dizem respeito. Mais tarde, volente Deo, es- miuçaremos os restantes códices. Estes respeitáveis volumes têm levado aos confins do mundo o nome da Biblioteca da Ajuda de Lisboa e, quando lá fora se fala neste estabelecimento, por natural associação de ideias, relembra-se imediatamente a famosa colecção. Sabemos que as suas milhares de páginas foram microfil- madas ria íntegra pelo menos duas vezes. Este facto, evi- dentemente, não invalida o nosso esforço de os tornar conhecidos do grande público estudioso. Os dois primeiros volumes da colecção, cujas cotas são respectivamente 49-IV-49 e 49-IV-50, contêm copiosa corres- pondência oriunda de todo o Oriente. Ora, convém recordar que existem mais duas cópias desta mesma correspondência, embora nem toda ela concorde exactamente. Na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa (que siglaremos BAC1L), existem dois volumes, e na Biblioteca do Ministério dos X
Negócios Estrangeiros (sigla BIMINEL), há um. Numa e noutra biblioteca os códices são conhecidos por Cartas do Japão. Na Introdução do 3." vol. daremos mais ampla infor- mação destas cópias e criticaremos o valor real e objectivo desta correspondência que, pelo facto de ser de edificação, não deixa de apresentar óptima contribuição para a ciência histórica, etnológica, religiosa e social. Pertence à Com- panhia de Jesus o incontestável mérito de haver considerado, logo de início, o magno problema da documentação missio- nária. S. Francisco Xavier, como se verá pelas páginas do presente volume, insistiu várias vezes sobre o assunto, re- comendando e ordenando a escrita de cartas completas, com a notícia de tudo quanto pudesse concorrer para a edifica- ção dos confrades, tanto da Asia como da Europa. Uma limitação impôs todavia: não se deviam escrever coisas que pudessem desedificar. O triste barro humano foi, portanto, excluído da correspondência missionária. Esta exclusão, porém, não invalida, como veremos depois, o valor deste magnífico contributo. Tomámos como cópia principal a da Biblioteca da Ajuda de Lãs boa. E a mais conhecida e é, quase sempre, a mais XI
completa. Acontece, porém, que às vezes as cópias da BACIL e da BIMINEL alteram ou complementam o sentido da pri- meira. Neste caso, apontamos em nota as variantes, omi- tindo aquelas que nada acrescentam e nada modificam o sentido geral. Como esta «Documentação» se destina a base para a nossa «História», cremos poder adoptar este método mais simples. Outras vezes acontece haver documen- tos tanto na BACIL como na BIMINEL que se não encon- tram na BAL. Neste caso, evidentemente, publicamo-los com a devida indicação. Resta-nos cumprir o grato dever de agradecermos a todas as personalidades que por esta obra monumental se inte- ressam. Depois de rendermos as mais sinceras homenagens a S. Ex." o Presidente do Conselho, a quem a iniciativa se deve, saudamos S. Ex." o Ministro das Colónias, Coman- dante Sarmento Rodrigues, esperando que ele continue a conceder a esta obra o alto patrocínio que mereceu aos seus ilustres antecessores. Agradecemos também ao Ex.mo Sr. Dr. Pedro Leonel Banha da Silva, digno Agente- -Geral das Colónias, o interesse sempre activo e sempre XII
solicito pelos nossos trabalhos. Os nossos mais cordiais agradecimentos aos Ex."10' Srs. Drs. Alfredo Pimenta, di- rector do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e Frederico Gavazzo Perry Vidal, director da Biblioteca da Ajuda pelas facilidades concedidas. Suas Ex." o Ministro dos Negócios Estrangeiros e Dr. Júlio Dantas, Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, são igualmente credores dos nossos respeitosos cumprimentos e agradecimentos. Não podemos, esquecer, finalmente, o nosso colaborador P.' Artur Basílio de Sá que tem dedicado a obra todo o seu entusiasmo e saber. Coimbra, 10 de Setembro de 1930. A. da Silva Rego xiii
SIGLAS ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A PO Archivo Portuguez Oriental. BACIL Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. BAL Biblioteca da Ajuda de Lisboa. BIMINEL Biblioteca do Ministério dos Negócios Estran- geiros de Lisboa. Corpo Cronológico. Colecção documental do ANTT. A-M Cartas Missivas. Outra colecção do mesmo Arquivo. OVR Cartas dos Vice-Reis da índia Ainda outra colecção do ANTT. OAV Gavetas. Outra e importante colecção do ANTT. XV
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ÍNDICE
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NPág. 1 — ANTT: - CC, I, 80-7: Carta de João Pereira a El-rei. Cranganor, 4 de Janeiro de 1548 3 2 — Vida de D. João de Castro, pág. 475, n.° 41: Antó- nio Gil a D. Alvaro de Castro. Dio, 10 de Janeiro de 1548 9 3 — Documenta Indica, I, 264-266: Carta do Padre Fran- cisco Henriques ao Padre Simão Rodrigues, em Portugal. Cochim, 13 de Janeiro de 1548 11 4 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 397-400: Carta de S. Francisco Xavier a S. Inácio. Cochim, 20 de Janeiro de 1548 13 5 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 404-410: Carta de Xavier a D. João III. Cochim, 20 de Janeiro de 1548 16 6 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 411-417: Carta de Xavier a D. João III. Cochim, 20 de Janeiro de 1548 23 7 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 418-422: Carta de Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Cochim, 20 de Janeiro de 1548 28 XIX
N.* Páe. 8 — Documenta Indica, I, 258-260: Carta do Ir. Adão Francisco para os Companheiros e António Bran- dão, em Coimbra. Cochim, fins de 1547 ou prin- cípios de 1548 33 9 — Documenta Indica, I, 253-255: Notícias da índia. Goa, princípios de 1548 (?) 35 10 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 426-435: Instruções de Xavier aos missionários da Pescaria e Travan- cor. Manapar, Fevereiro de 1548 38 11—APO, V, 206-210: Relação de Goa. Lisboa, 22 de Março de 1548 44 12 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 436-438: Carta de Xavier a Diogo Pereira. Goa, 2 de Abril de 1548 50 13 — ANTT: - Cartas de Dio a D. João de Castro, fls. 25- -26: Misericórdia de Dio. 9 de Abril de 1548... 53 14 — ANTT:-CC, I, 81-69: Padre António do Ponce a el-rei. Goa, Outubro de 1548 54 15 — ANTT:-CC, I, 81-58: Convento Dominicano em Goa. Goa, 20 de Setembro e 5 de Outubro de 1548 57 16 — ANTT. -CC, I, 81-59: Carta de Frei António do Porto a el-rei. Baçaim, 7 de Outubro de 1548... 59 17 — ANTT:-CC, I, 81-62: Cristandade de Goa. Goa, 13 de Outubro de 1548 66 18 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 465-468: Carta de Xavier ao Padre Francisco Henriques. Punicale- -Cochim, 22 de Outubro de 1548 73 19 — Documenta Indica, I, 275-276: Dotação do colégio de S. Paulo. Lisboa, 22 de Outubro de 1548 76 20 — Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 470-473: Morte do vice-rei D. João de Castro. Cochim, 22 de Outu- bro de 1548 78 XX
N.- PA« 21 — ANTT: - CC, I, 81-68: Carta de D. João Henri- ques a el-rei. Goa, 27 de Outubro de 1548 81 22 — Documenta Indica, I, 279-300: Carta do Padre Hen- rique Henriques aos Padres Inácio de Loyola e Simão Rodrigues com notícias da Índia. Vembar, 31 de Outubro de 1548 86 23 — ANTT: - CC, I, 81-72: Misericórdia de Baçaim. Baçaim, 31 de Outubro de 1548 103 24 —ANTT:-CC, I, 81-78: D. João de Albuquerque a el-rei. Goa, 5 de Novembro de 1548 108 25 — Documenta Indica, I, 306-315: Carta do Padre Mel- chior Gonçalves aos Irmãos de Coimbra. Goa, 9 de Novembro de 1548 115 26 —Documenta Indica, I, 317-322: Carta de Baltasar Nunes aos Irmãos de Coimbra. Travancor, 18 de Novembro de 1548 I22 27 — ANTT: - CC, I, 81-89: Confraria de Nossa Se- nhora do Rosário de Goa. Goa, 22 de Novembro de 1548 I28 28 -i- ANTT: - CC, II, 241-90: Carta de D. João de Albuquerque, bispo de Goa, a D. João III, rei de Portugal. Goa, 28 de Novembro de 1548... 131 29 — Documenta Indica, I, 342-344: Carta do Padre Ni- colau Lanciloto para S. Inácio de Loyola. Goa, Novembro de 1548 141 30 — Documenta Indica, I, 345-349: Carta do Padre Paulo Camerino ao Padre Simão Rodrigues. Goa, princípios de Dezembro de 1548 144 31 — ANTT: - CVR, n.° 27: Carta de Francisco Barreto a el-rei. Goa, 3 de Dezembro de 1548 148 32 — ANTT:-CC, I, 81-99: Frei João de Albuquerque a el-rei. Goa, 6 de Dezembro de 1548 150 XXI
N.- PiK. 33 — Documenta Indica, I, 382-406: Carta do Padre Gas par Barzeo aos seus confrades de Coimbra. Goa. 13 de Dezembro de 1548 .*. 152 34 — ANTT:-CC, I, 81-118: Francisco Barreto a el-rei de Portugal. Goa, 18 de Dezembro de 1548 172 35 — ANTT:-CC, I, 81-116: Rui Barbudo a el-rei. Goa, 18 de Dezembro de 1548 174 36 — Documenta Indica, I, 410-426: Carta do Padre An- tónio Gomes ao Padre Simão Rodrigues. Goa, 20 de Dezembro de 1548 179 37 Documenta Indica, I, 436-444: Carta do Padre Lan- ciloto ao Padre Inácio de Loyola. Cochim, 26 de Dezembro de 1548 192 38 ANTT: - CC, I, 82-1: Cristandade de Cranganor. Frei Vicente de Lagos a el-rei. Cranganor, 1 de Janeiro de 1549 200 39 — Documenta Indica, I, 456-462: Carta do Ir. Ma- nuel de Morais, S. J. aos confrades de Coimbra. Goa, 3 de Janeiro de 1549 212 40 ANTT: - CC, I, 82-2: Informação do Governador Garcia de Sá a respeito do Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha. Goa, 3 de Janeiro de 1549 218 41 ANTT: - CC, I, 82-5: Os Mesteres de Goa a el-rei. Goa, 4 de Janeiro de 1549 219 42 ANTT: - CC, I, 82-44: Francisco de Sequeira a el-rei. Cochim, 6 de Fevereiro de 1549... 226 43 ANTT:-CC, I, 82-15: Frei António do Casal a el-rei. Cochim, 12 de Janeiro de 1549 229 44 — Episto/ae S. Francisci Xaverii, II, 29-31: Carta de Xavier a S. Inácio de Loyola. Cochim, 14 de Ja- neiro de 1549 231 XXII
N.* Pie. 45—Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 35-44: Carta de S. Francisco Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Cochim, 20 de Janeiro de 1549 234 46 — ANTT: - CC, I, 82-24: Padre João Soares a el-rei. Chale, 20 de Janeiro de 1549 240 47 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 44-46: Carta de Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Cochim, 20 de Janeiro de 1549 248 48 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 49-50: Cristandade da India. Janeiro de 1549 251 49—ANTT:-CC, I, 82-25: Frei António do Casal a el-rei. Cochim, 21 de Janeiro de 1549 253 50 — Documenta Indica, I, 470-481: Carta do Padre Cosme de Torres para S. Inácio de Loyola. Goa, 25 de Janeiro de 1549 260 51—Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 56-57: Carta de Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Cochim, 25 de Janeiro de 1549 268 52 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 60-63: Carta de Xavier a D. João III. Cochim, 26 de Janeiro de 1549 270 53 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 65-66: Carta de Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Cochim, 1 de Fevereiro de 1549 273 54 — Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 69-80: Carta de Xavier ao Padre Simão Rodrigues. Cochim, 2 de Fevereiro de 1549 275 55 —Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 86-101: Instruções de Xavier sobre a Cristandade de Ormuz. Princí- cípios de Abril de 1549 286 XXIII
N.« Páe 56— Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 104-108: Instru- ções de Xavier ao Padre Paulo do Vale. Abril de 1549 301 57 — Documenta Indica, I, 482-484: Carta dos Missioná- rios da Costa da Pescaria para o Bispo de Goa. Punicale, 19 de Junho (ou pouco antes) de 1549 306 58 — Documenta Indica, I, 486-489: Carta dos Missioná- rios da Pescaria para o superior dos Jesuítas, em Goa. Punicale, 19 de Junho de 1549 309 59 — Documenta Indica, I, 491-493: Carta do Ir. Ambró- sio Nunes (?) para os religiosos de Goa. Punicale, 19 de Junho de 1549(?) 312 60 — APO, V, 217-218: Cristandade de Baçaim. Baçaim, 2 de Agosto de 1549 314 61—APO, V, 218-219: Pagodes em Goa. Goa, 16 de Setembro de 1549 316 62 — Documenta Indica, I, 502-507: Notícias de Ormuz. Setembro de 1549 317 63 — ANTT: - CC, I, 83-28: Dominicanos em Chaul. Chaul, 10 de Outubro de 1549 321 64 — Documenta Indica, I, 551-570: Carta do Padre Bal- tasar Gago aos Irmãos de Coimbra. Goa, entre 14 e 20 de Outubro de 1549 323 65 — Documenta Indica, I, 518-523: Carta do Padre Antó- nio Gomes, reitor do colégio de Goa, a S. Inácio de Loyola. Goa, 25 de Outubro de 1549 336 66 — Documenta Indica, I, 524-532: Carta do Padre An- tónio Gomes a D. João III. Goa, 25 de Outubro, ou um pouco depois, de 1549 340 67 — Documenta Indica, I, 533-548: Carta de D. João de Albuquerque, bispo de Goa, a D. Catarina, rainha de Portugal. Goa, cerca de 20 e 25 de Outubro de 1549 347 XXIV
N.' Pig- 68 — ANTT: - CC, I, 25-55: Confraria de Nossa Senhora do Rosário de Goa. Goa, 25 de Outubro de 1549 359 69 — Documenta Indica, I, 572-575: Carta do Padre Bal- tasar Gago aos Irmãos de Coimbra. Goa, últimos dias de Outubro de 1549 362 70 — Documenta Indica, I, 576-588: Carta do Padre Hen- riques, superior da Pescaria, a S. Inácio de Loyola e mais confrades. Goa, 21 de Novembro de 1549 364 71 —Documenta Indica, I, 596-638: Carta do Padre Gas- par Barzeo aos seus confrades na India e na Europa. Ormuz, 1 de Dezembro de 1549 373 72 — Documenta Indica, I, 590-594: Carta do Padre Ci- priano Afonso a S. Inácio de Loyola. S. Tomé, 3 de Dezembro de 1549 418 73—-Documenta Indica, I, 700-725: Disputa do Padre Gaspar Barzeo com os judeus de Ormuz. Ormuz, 10 de Dezembro de 1549 422 74 — Documenta Indica, I, 726-727: Carta do Padre Bel- chior Gonçalves ao Padre Simão Rodrigues. Ba- çaim, 15 de Dezembro de 1549 444 75 — Documenta Indica, I, 728-729: Carta de S. Inácio de Loyola a D. João de Albuquerque, Bispo de Goa. Roma, 15 de Dezembro de 1549 446 76 — Documenta Indica, I, 730-731: Carta de S. Inácio de Loyola ao Padre Mestre Diogo de Borba, em Goa. Roma, 15 de Dezembro de 1549 448 77 — ANTT:-CC, I, 83-55: Azu Naique a el-rei. Ba- çaim, 18 de Dezembro de 1549 450 78 — Documenta Indica, I, 737-738: Carta de S. Inácio de Loyola a S. Francisco Xavier. Roma, 23 de De- zembro de 1549 462 XXV
N- Píg. 79— ANTT:-CC, 1, 83-59: Rui Gonçalves de Caminha a el-rei. Goa, 30 de Dezembro de 1549 464 80 — ANTT:-CC, I, 83-60: Cosme Anes a el-rei. Co- chim, 30 de Dezembro de 1549 469 81 — ANTT: - CC, I, 83-71: Cristãos de S. Tomé - Padre Mateus Dias a el-rei. Cochim, 22 de Janeiro de 1550 477 82 — ANTT:-CC, I, 83-74: Jorge Cabral a el-rei. Co- chim, 24 de Janeiro de 1550 482 83 — ANTT:-CC, I, 83-76: A Misericórdia de Cochim a el-rei. Cochim, 29 de Janeiro de 1550 485 84 — ANTT:-CC, I, 83-90: Jorge Cabral a el-rei. Co- chim, 21 de Fevereiro de 1550 488 85 — BAL, 49-IV-49, fls. 100-100 v.: Carta do governa- dor Jorge Cabral ao Padre Gaspar Barzeo. Goa, 24 de Março de 1550 500 86 —BAL, 49-IV-49, fls. 99-100: Carta do Bispo de Goa ao Padre Mestre Gaspar. Goa, 25 de Março de 1550 502 87 — BAL, 49-IV-49, fls. 100v.: Carta de Jorge Cabral, governador da India, a el-rei de Ormuz. Goa, 25 de Março de 1550 505 88 — APO, V, 223-226: A Idolatria proibida em terras de el-rei. Goa, 29 de Março de 1550 507 89 — APO, V, 231-234: Colégio de S. Paulo. 8 de Julho de 1550 510 90 — BAL, 49-1V-49, fls. 98 v.-99: Carta de Henrique de Macedo ao Padre Mestre Gaspar. Tabriz, 23 de Agosto de 1550 515 91—BAL, 49-1V-49, fls. 101-102: Carta dum homem de Mascate ao Padre Mestre Gaspar. Mascate, 8 de Setembro de 1550 518 XXVI
*•* Pig. 92 — BAL, 49-IV-49, fls. 101: Carta de Pedro Lobato, feitor de Mascate, ao Padre Mestre Gaspar. Mas- cate, 14 de Setembro de 1550 521 93 —BAL, 49-IV-49, fls. 94-98: Carta do Padre Gaspar Barzeo aos religiosos de Coimbra. Ormuz, 24 de Novembro de 1550 523 94 — MIMINEL: - Códice Conimbricense, I, 135-135 v.: Carta de D. João III ao Papa Júlio III. Coimbra, Novembro de 1550 540 95 — ANTT:-CC, I, 85-105: D. Alvaro de Noronha, capitão de Ormuz, a el-rei. Ormuz, 25 de Novem- bro de 1550 542 96 —BAL, 49-IV-49, fls. 107-107 v.: Carta do Bispo de Goa ao Padre Mestre Simão Rodrigues. Cochim, 28 de Novembro de 1550 546 97 ANTT: - CC, I, 85-110: Carta do Padre Henrique Botelho a el-rei. Baçaim, 15 de Dezembro de 1550 549 98 ANTT: - CC, I, 85-121: Estabelecimento dos Jesuí- tas em Cochim. Cochim, 29 de Dezembro de 1550 551 99 — BAL, 49-IV-49, fls. 107: Carta do Irmão Adão Fran- cisco aos religiosos de Coimbra. Cochim, 1550... 554 ANTT:-CVR, n.° 166: Os Mesteres de Goa à rainha de Portugal. Goa, s/d 556 101 —ANTT:-Gav. 20, 7-51: Cristandade da Índia. Ex- posição a el-rei do Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha. S/d 558 102 ANTT:-CVR, n.° 152: Os moradores de Goa a el-rei. Goa, s/d 565 103 ANTT:-CC, III, 17-11: El-rei de Tanor a el-rei de Portugal. S/d 567 104 — ANTT: - CM, I, 181: Frei Pedro Coelho, O. P. S/l., s/d 57Q XXVII
DOCUMENTAÇÃO PARA A HISTÓRIA DAS MISSÕES DO PADROADO PORTUGUÊS DO ORIENTE (1548-1550)
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1 CARTA DE JOÃO PEREIRA A EL-REI Cranganor, 4 de Janeiro de 1548 Documento existente no ANTT: -CC, 1, 80-7. Mede 216x304 mm. Duas folhas em regular estado, apesar dum rasgão. Vé-se ainda parte do selo em lacre vermelho. Senhor [i r-] Ho Padre Frey Vicente1 (l) me deu huma carta de Vosa Alteza, em a qual me encomendou este colégio de Cromgolor; verdadeiramente diguo-o a Vosa Alteza que Frey Vicente tem tamto merecymento amte Noso Senhor pelas obras que tem fecto2 neste colégio, e doutryna que tem ensynado per toda esta tera do Malavar, gemte a mais perversa que nunqua foy vysta, que o gualardão destes tra- balhos no outro mumdo lhe sera bem gualardoado, e Vosa Alteza neste lho deve gualardoar, pois he padroeyro e tão zeloso dó acrecentamento da samtisyma fee de Christo, como per espyryencia temos vysto nestas partes, no gasto tamanho que se faz no colégio de São Paulo de Guoa, e em todas as outras partes, per omde estão espalhados padres de tão samta vida, pera que doutrynem e traguão a fe ver- dadeira toda esta gemtilidade que tamta e tamanha he ha destas partes; os quaes tem tal fruyto fecto e fazem, qual eles conhecem que he o desejo de Vosa Alteza, porque vay em tamto crecymemto que não abastão os padres e rely- (1) Frei Vicente de Lagos, fundador do seminário indígena de Cran- ganor. i - V." ; a - fcó. 3
giosos que qua amdam, nem podem acudir, a tamto e tudo a custo de Vosa Alteza. Ja ho ano pasadoJ me amostrou Frey Vicente pro- visão de Vosa Alteza per que lhe faz merce de cem mil reis, cada ano, pera este colégio, os quaes te guora lhe nom forão paguos. Ele he tam pobre de espryto que nam presta pera pedir nem emportunar, e vay cada ano a Guoa, na sayda do ynverno, buscar provisão pera seu paguamento e desaquyeta seu colégio, e esteve este ano easy perdido, ymdo [i v.] pera Guoa, porque todo este colégio que tem fecto //he fecto de esmolas que lhe heu amdey ajumtamdo, e tem huma casynha muy bonita, homde tem setemta colegiaes, de tão boa vida e doutryna, qual se nam esperou nunqua de ver nestes partes. Antre os quaes estão jaa tres de misa, e dez de epistola e hevamgelho, e o primeiro dia deste Janeiro camtou hum misa nova, e homens de tão boa vida, que pera este colégio nenhuma necesydade tem Frey Vi- cente de outra companhia, porque os proprios moços, com ajuda de Deus, hão-de fazer muyto fruyto, espalhados por esta tera com a boa doutryna e emxempro que de sy dão. E verdadeiramente Vosa Alteza nam devya doar este colégio a nenhuns outros padres, nem mayoral sobre Frey Vi- cente, porque jaa lhe deve de deyxar acabar seus dias em tão samta obra, pois as obras que tem fectas e faz o bem merecem, e nam symto heu quem com tanto amor e tra- balho sofrese os trabalhos e fomes que ele tem sofrydo. E asy está esmola, de que lhe Vosa Alteza faz merce, mande que lha paguem em Cochym, sem necesydade de mais provisões e trabalhos, e com decraração que lho paguem do proprio dinheiro da pimenta4, nam avemdo outro, porque pera lhe ser paguo he asy necesario, e hyra em tanto crecymento esta crystamdade que, com ajuda de Deus e de Vosa Alteza, toda esta tera se ha-de fazer 3 —p.d,i a — p " 4
christãa, e de Deus avera Vosa Alteza o gualardão que taes obras merecem. O Padre Frey Vicente manda pedir a Vosa Alteza hum retavolo pera o seu colégio de Sam Tiago, de que tem muita necesydade, por nam ter nenhum. Também lhe faço lembramça desta casa do Apostolo Sam Tome, nosso pa- droeyro, que tem necesidade também de hum retavolo em o qual esteja toda a vida do Apostolo, porque fara muita devoção a estes christãos de Sam Tome, porque jaa aguora, pelas hemdoenças e dias de festas, nam cabem na igreja, e cada vez vay em crecymento, e se vem comfesar e comun- gar, que he huma cousa muito pera folgar de ver. E de tudo ysto he causa o colégio de Frey Vicente, porque vemdo a doutryna que seus filhos apremdem, acodem com mais vontade a todalas cousas da igreja. E asy mais estpreveo Vosa Alteza a Frey Vicente que qua lhe daryam hum pomti- fical pera esta ygreja do Apostolo Samto Tome; nam he dado te ho presemte, pois certifiquo a Vosa Alteza que he tão pobre que te guora lhe nam he dado nem huma vestementa, que da comfrarya do Apostolo suprymos tudo e recebera esta comfrarya (2) ... heu sou official merce de hum pomteffical de sua capela, e de la mesmo venha deregido a mim hou ao Padre Frey Vicente, porque qua nunca no-lo hão-de dar. E lembro a Vosa Alteza que pera estes christãos que novamente se convertem a fee, he mui necesario que estpreva a todos estes reys e senhores, e lhes encomende muito que os favoreção, e lhes nam seja fecto nenhum agravo, porque heu sey que com estas cartas de Vosa Alteza se fara muito fruyto, primcipalmente a el-rey de Cromgolor e muito enca- reguado, e a // el-rey do Param, porque são aquy meus C» r-l (2) O documento encontra-se roto nesta parte. 5
vysynhos, e heu me afyrmo que, com ajuda de Deus, toda esta gemte per aquy de redor se fara christãa. Eu, Senhor, quando fuy a ese reino requerer meus ser- viços e de meu pay, que Deus tem, nam pedy a Vosa Alteza outra cousa, somente Cramgalor em minha vida, nam por- que os serviços de meu pay e meus nam mereçesem a milhor fortaleza da Imdia, mas porque determyney de me casar, como casey, e de la vym casado; e porque tenho uma ilha junto de Cochym que o mesmo rey deu a meu pay, fyz fumdamento pera aqui perto5 fazer minha vida, e crea Vosa Alteza que nesta fortaleza lhe faço mais serviço do que lhe poderá fazer nenhum homem que na Imdia amde, pelo conhecymento que tenho com todos os reys e senhores desta tera, da qual fortaleza Vosa Alteza me faz merce em quanto for; sera merce, a qual heu hey que he, em minha vida pois, como diguo, nymguem o nela pode servir milhor que heu, e que o milhor mereça. E tenho heu com ela mui pouco hordenado, que nam tenho mais que cento vynte mil reis, que o guovernador6 Nuno 7 da Cunha me deu com ela, fycamdo resguardado ho acrecemtamento pera quando ele vise a dita fortaleza, e nunca ha vyo, se não quando se foy pera o reino, e Vosa Alteza asy me faz merce dela como a tynha; e este hordenado gasto todo em favo- recer os christãos, que se novamente comvertem, porque os reis e senhores desta tera são tão tyranos que, em se fazendo christãos, lhes tomão as fazendas8; e pera ysto he muy necesario meu favor, o qual lhes faço como Vosa Alteza sabera pelos que de qua vão, e nesta fortaleza nam ha nenhum dinheiro de Vosa Alteza pera que se dele posão fazer estes guastos; que se Frey Vicente vay por estes lugua- res a ensynar e fazer christãos, heu estou oferecydo com minha embarcação pera iso, a minha custa, e o byspo pode esprever a Vosa Alteza o que pasou com el-rey de Cochym 5 — p.14; 6 — g " ; 7 — n.4; 8 — faz.4* 6
sobre as fazendas dos que se fazem christãos, que nunca pode com ele acabar que lha nam tomase, e heu ate guora a todos os que se fazem christãos nesta tera, e per aqui de redor, a todos faço tornar sua fazenda, per manha, e com peytar os reis e senhores do meu dinheiro, e nunqua pude aver hum trelado do alvara, que Vosa Alteza a estas partes tem mandado, o qual heu ouvy apregoar em Cochym, o qual alvara diz que todos os que se fyzerem christãos nam percam sua fazenda, e tomando-lha os reys e senhores, que manda aos guovernadores da India e a todos os capitães que da mesma fazenda dos ditos reys satisfaçam a que lhe asy for tomada, e Martym Afonso de Souza, semdo guovernador, me mandou aquy que asy o fizese e he muy necesario pera ho fazymento dos christãos (3). // Vosa Alteza tinha fecto merce a meu pay, que Deus [a v.] tem, do abito o qual ele nunqua trouve, por ser ja muito velho e muito doente; beyjarey as mãos de Vosa Alteza fazer-me dele merce, da maneira que ho dava a meu pay, pois meus serviços tudo merecem e tenho quatro filhas9, sem nenhum filho macho, e ja nam he o tempo que soya nesta tera, que amtes querya hum ornem duas filhas que hum filho, mas aguora compram-se hos maridos per as filhas, a peso de ouro. Estes companheyros de Mestre Francesco10 e de Mes- tre Symãò, que qua handam, fazem muito fruyto e destes folgarya de ver muitos nesta tera, porque são homens de mui bom emxempro e samta vyda. (3) Era costume já velho: os convertidos perdiam os seus bens, ficando assim reduzidos à penúria. Era um meio de que os príncipes se serviam para impedir a conversão, sem se malquistarem com os Portugueses. 9 - f " ; to - ffr." 7
Noso Senhor acrecemte a vida e real estado a Vosa Alteza a seu samto serviço, amen. Fecta em Gramgalor, aos quatro dias de Janeiro de 548. Joham Pereira11 (4). (4) Este capitão sempre favoreceu os missionários. Estava em Cran- ganor desde 1545. n — p.r* 8
2 ANTÓNIO GIL A D. ALVARO DE CASTRO Dio, 10 de Janeiro de 1548 Vida de D. João de Castro, pág. 475, n.° 41. Senhor. Eu, porque o senhor governador, e Vosa Merce tem feitas tamtas merces, como ao mumdo he notorio, quis amostrar per obras os desejos que tenho de servir o senhor governador e Vosa Merce. Eu tirey aquy huma esmola, aquy nesta fortaleza, pera fazer huma igreja de Sam Mar- tinho; e posto que ha esmola não fosse tamta que habom- dase pera a casa, eu ha minha custa ha acabey, porque me parece muita mais rezam, que pois os casados desta terra fizeram Samtiago em memoria da guerra, que aquy teve Amtonio da Silveira (l); de muito mayor calidade foy a que ho senhor governador fez, e Vosa Merce (2), e dina que nesta terra, honde o Senhor Deos fez tamta merce, fique memoria pera sempre: pola quoal rezam eu fiz esta casa, que ora fiqua feita, e he huma das fresquas casas, que se fizeram nesta terra, e sobelaporta lhe mandey por huma campam, e no meyo dela posta as armas do senhor governador, cercado com hum letreyro que diz «esta casa se fez em louvor de Noso Senhor e do bemavemturado Sam Martinho, porque em seu dia desbaratou o governador Dom foam de Castro todo o poder delrrey de Cambaya, que tinha cercada esta fortaleza, e no mesmo dia per força darmas, lhe tomou a sua muy nobre cidade e ilha de Dyo (1) Refere-se ao primeiro cerco de Dio, em 15J8. (2) António Gil escreve a D. Álvaro de Castro que, juntamente com seu pai, participou também na vitória final que terminou o segundo cerco da já célebre fortaleza. 9
na era de 1546» E sobre esta pedra mandey por huma cruz muito fermosa de pao, com dous padrões, cada hum em sua bamda, em riba de cada hum mandey por hum pelouro de bazalisquo dos mouros, o grande, que peza cento e oito arrates cada hum, pera que saibam os que vierem a esta terra, que ha gente com que o senhor governador pelejou, que eram omens, que pelejavam com esta artelharia e de hum dos pelouros do quartao mandey fazer huma pia de agoa benta, e ho mandey por dentro na irmida em hum piar muito louçam, onde está: e porque nesta irmida eu cayo em escumunham, se alevantar altar, beijarei as mãos de Vosa Merce mandar hum recado ao padre, que ficou em lugar do bispo em Guoa, pera que de licença pera se ay dizer misa, porque doutra maneira nam se fara senam com se niso gastar dinheiro, que sera melhor pera alguns horna- mentos da casa, quoando omem poder aver. E posto que Vosa Merce nesta terra tenha muitos servidores, eu nam deixarey nunqua de fazer lembrança a Vosa Merce de como sou seu, pera que se desta terra mandar halgum serviço, de me fazer tam asynalada merce de se querer pera yso lembrar de mym. O Senhor Deos acrecemte os dias de vyda ao senhor governador e a Vosa Merce per longos annos. De Dio, oje, des dias do mez de Janeiro de 1548. «Amtonio Gil» No sobrescrito: Ao senhor o senhor dom Alvaro de Crasto, capitam-mor do mar da Imdia, meu senhor. De Amtonio Gill.
3 CARTA DO PADRE FRANCISCO HENRIQUES AO PADRE SIMÀO RODRIGUES, EM PORTUGAL Cochim, 13 de Janeiro de 1548 Documenta Indica, l, págs. 264-266. Eu andey no Cabo de Comorim por eses logares da Costa onde há muitos christãos, e aonde todos os Padres, salvo os que forão pera Maluqo andão por lho asi mamdar mestre Francisquo. Estando não avia mais de tres meses em un reino de Travancor encinamdo os christãos, que são mais de vimte e simco mil almas, que casi todos fes o P. mestre Francisqo christãos, me mamdou el rey chamar peramte mais de CCC (l) peçoas que pera iso ajumtara, e perante hum mouro principal, que parece estava ali como reque- redor, me dise com todos que não fizese mais christãos em seu regno, com muita outra pratica diabólica e, que por fazer quebrar hos domimgos aos christãos os avia de fazer pescar. A isto lhe dise que oulhace como o mar hera d'el-rey de Portugal, e que não lhe fazia [ne} nhum damno, e vimdo disto dar comta ao capitão de Coulam (2), que tem cargo daquela costa de Coulam, escreveo ele ao Gover- nador damdo-lhe disto larga emformação e quam necyçaryo hera ser provido, e por comcelho dele e de todos os Padres vim a Goa sobre isto e outros negocios. E não aviamdo nada, por não aver naquele regno remé- dio algum, me fuy pera Cale com Baltezar Nunez e alem (1) Isto é: 300 pessoas. (2) Bernardo ou Bernardino da Fonseca, filho do Dr. João de Osório. Em 1538 desempenhara já em Coulão o cargo de feitor. I 1
de ter emformação que estava muito aparelhada pera se nela fazer fruyto, me diserão que ho mamdava o mesmo rey que fosem christãos; e não avemdo quinze dias que ahi estava, ao dia de Natal se ajumtarão ho capitão dom Ber- nardino que agora ay está, e outros dous capitãis, e detre- minarão de fazer huma ygreija com sua casa pera emcinar moços da terra, e isto com tanta devação, que mais não podia, senão soomente delles, mas dos outros que pera iso derão ajuda, emtre os quais deo hum cercado muyto bom; e muito mayor devesão foi quamdo souberão que a casa avia de ser de Samta Anna, por não aver outra em toda a Yndia, mas ategora se não há feyto nada por comtradizer a isto hum vigaryo da fortaleza por lhe parecer que lhe tiraryão algumas esmolas, e alem disto, por estar o Bispo a este tempo em Cochim, que hé muito perto, lhe vim a pedir a licemça, a qual me não quis dar; presumo que foi pelo estrovar disto hum frade seu conpanheyro (3), e isto por desejar deste fazer este colegyo. A licemça eu a avrey muito cedo. Vosa Reveremcia me mande de Ia hum reta- volo da conceyção, de Santa Anna e da Annuciação de Nosa Senhora. Estando escrevemdo esta, chegou recado que vinha o P. mestre Framcisquo de Malaqua e por se partirem amanhã duas naos não levão seu recado. Ho Governador este mes de Novenbro indo sobre huma cidade muyto forte d'el-rey de Canbaya, na qual estava com todo seu poder, que hé muyto gramde, milagrosamemte ouve dele vitorya em bata- lha campall, e o desbaratou e constramgeo a fogir e ficou a cidade pelos nosos. (3) Trata-se, sem dúvida, de Frei Vicente de Lagos, fundador do colé- gio ou seminário de Cranganor.
4 CARTA DE S. FRANCISCO XAVIER A S. INACIO Cochim, 20 de Janeiro de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 397-400. Gratia et caritas Christi D.N. etc. Devs mihi conscius est, quantopere in hac quoque vita te videre expetam, Pater carissime, vt tecum multis de rebus communicem, quae tuam opem ac remedium desiderant: nulla enim locorum spatia obstant obedientiae. Video in his locis e Societate esse permultos (l), rursusque nos animo- rum nostrorum medico multum egere video. Per ego te Iesvm Dominum oro et obtestor, Pater optime, vt his quo- que filijs tuis, qui in India versamur, prospicias, virumque mittas aliquem virtute ac sanctitate praestantem, cuius vigor et alacritas torporem excitet meum. Magna me spes tenet, quoniam diuinitus animorum nostrorum affectiones tute prespicis, abs'te operam datum iri diligenter, vt omnium nostrum iam languescens virtus ad perfectionis studium vehementius incitetur. Nihil magis haec terra ab Societate nostra, quam concio- natores desiderat (2). In his, quos hue Magister Simon submisit, nemo est (quod sciam) concionator. Lusitani (1) Com efeito, havia já na India 17 membros da Companhia de Jesus. O P.e Schurhammer nomeia-os: Xavier, Micer Paulo, Mansilhas, Beira, Cri- minal, Lanciloto, Francisco Henriques, Henrique Henriques, Perez, Ribeiro, Cipriano, Morais Júnior, Adão Francisco, Baltasar Nunes, Alcáçova e Antó- nio Vaz, estes dois últimos admitidos já na índia. (2) A falta de pregadores na India era notada por todos quantos escre- viam a el-rei sobre assuntos eclesiásticos. Os leitores da nossa Documentação já terão com certeza notado esta insistência. '3
autem Indiam incolentes pro suo egregio erga nos studio ac beneuolentia idoneos nostrae Societatis concionatores exoptant mirum in modum. Proinde te per Deum eiusque cultum obtestor, vt tam pij iustique illorum postulati memor, aliquot hue mittas Patres ad id munus appositos, qui rectum errantibus salutis iter ostendant. Quos praeterea e Societate missurus es, vt Euangelij causa Ethnicorum vicos peragrent, hos tam spectata probitate oportet esse, vt tuto et comitati ire possint et soli, quocunque eos Christiana res vocet, velut in Molucum, in Sinas, in Iaponiam. Vel ex Sinarum et Iaponiae, earumque gentium descriptione, quam his inclu- sam literis ad te mitto, facile intelliges, cuiusmodi tandem ipsa res expectat viros. Pontifícias Indulgentias priuilegiumque arae maximae nostri Collegij, item potestatem sacerdotibus, vt remotos populos chrismate inungant pro Episcopo, de quibus ad te superioribus annis scripsi, incredibiliter expectamus. De Quadragesima vsus me docuit, nihil admodum necesse esse quicquam immutari (3). Nam Lusitani adeò locis disiuncti sunt in India, vt si commodum spectes publicum, nulla immutatione opus sit. Neque enim hyems eodem tempore per omnes Lusitanorum ciuitates atque oppida vagatur. Quare, habita communis boni ratione, satius duco, nihil decerni super ea re noui, etsi video non deesse qui contra sentiant. Nondum plane constitui vtrum ego ipse cum vno aut altero e societate Iaponiam post sesquiannum petam, an eo duos e societate praemittam. Nam certum est mihi aut ire, aut alios mittere. Atque, vt nunc est, inclinat animus in con- (3) A mudança da Quaresma para tempo mais propício, em que os Por- tugueses pudessem cumprir os seus deveres religiosos, era assunto debatido desde longa data. Xavier inclinara-se, a princípio, para a mudança. Depois, porém, verificou que não valia a pena, pelos motivos indicados na carta. *4
silium eundi. Deum oro, vt quod magis ei cordi est, id liquido praescribat mihi. E tribus sociis, qui Molucum petie- runt, visum est vnum eligere, qui praesset caeteris. Itaque Ioannem Beiram delegi, cui reliqui obtemperarent non secus, ac tibi. Id illis pergratum accidit. Idem in Promontorio Comorino caeterisque locis, vbi plures e societate versantur, instituere cogito. Tu velim tua tuique studiosorum depre- catione nobis in hac barbarie versantibus caelestem implores opem. Quod vt facias impensius, Devm immortalem oro, tibi vt ostendat diuinitus, quantum ego tuae vel opis vel operae indigeam. XIII. Kal. Febr. Anni a Christo nato M.D.XLVIII. Cocini. Franciscus. Inscriptio: P. Ignatio Loiolae Praep. Gener. Romam. 15
5 CARTA DE XAVIER A D. JOÃO III Cochim, 20 de Janeiro de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, 1, 404-410. Senhor. Das couzas sprituaes e do serviço de Deus Nosso Senhor das partes de Malaca e Maluco pellas cartas que escrevo aos da Companhia será informado Vossa Alteza muito miudamente, as quaes também são de respostas pera Vossa Alteza, [porque] hé Vossa Alteza o principal e verdadeiro protector de toda a Companhia de Jesus, assym em amor como em obras. Das couzas spirituaes da christandade da índia os sanctos Padres da Piedade que lá vão, movidos da piedade lhas darão a Vossa Alteza (1). E o P.e Frei João de Villa de Conde, como pessoa serva de Deus, e que tem esperiencia do que passa em Ceilão, comforme a Deus e a sua consciência e a descargo da de Vossa Alteza, lhe escreve toda a verdade, assym por cartas como por apontamentos que me amostrou. Portanto fasa-se Vossa Alteza prestes pera descarregar sua consciência. E os Irmãos da Companhia me parese que escrevem a Vosa Al- teza, dando-lhe tãobem conta muito miudamente dos chris- (1) Trata-se especialmente de dois frades da Piedade Frei Peregrino e Frei Diogo que, desanimados com a perspectiva missionária em Baçaim, abandonaram aquela missão e regressaram a Portugal. Frei António do Porto, seu superior, mandou com eles Frei Domingos a fim de contraba- lançar as más informações que eles pudessem dar na sua Província a res- peito do Oriente. Consulte-se, sobre isto, o documento n.° 16, adiante publicado. i 6
tãos do Cabo de Comorim e de Goa, e assym das outras partes da índia. Muitas vezes cuidei comigo mesmo se seria bem escrever a Vossa Alteza o que sinto dentro na minha alma ser bem pera acrescentamento de nossa sancta fee. Por huma parte me parecia ser serviço de Deus, e por outra julgava que não avia de vir a lume, ainda que o escrevese. Deixando de o escrever, parece-me encarregar minha consciência, pois Deus Nosso Senhor mo dava a entender pera algum fim, não achava que podia ser pera outro, senão pera escrever a Vossa Alteza; escrevendo o que sinto de penna dentro em minha alma, que não se á de fazer o que escrevo, e ser Vossa Al- teza acuzado pella vintura por minhas cartas à hora de sua morte diante de Deus, sem serem recebidas disculpas que não o sabia. Isto crea Vossa Alteza que me dava penna, pois os meus dezeyos não são outros, senão de trabalhar e morrer nestas partes para ajudar a descarregar a consciência de Vossa Al- teza, pello amor grande que tem a nossa Companhia. De maneira, Senhor, que em cuidar que avia de escrever a ,Vossa Alteza me achava em muita confuzão; por derradeiro determinei de desencarregar minha consciência, escrevendo o que sinto dentro nella, pella experiência que destas partes tenho alcançado, assym na índia como em Malaca e Maluco. Há de saber Vossa Alteza que nestas partes, assym como em outras muitas, muitas vezes se deixão de fazer muitos serviços a Deus Nosso Senhor por sanctos ciúmes que huns tem dos outros, dizendo: «eu farei»; e outros: «não senão eu»; e outros: «pois eu não faço, não folgo que vós o façaes»; outros: «eu sou o que levo os trabalhos e outr'os agardecimentos e proveitos». E sobre estas profias e o escre- ver e trabalhar cada hum por levar a sua adiante, e desta '7 Doe. Padroado, iv - 2
maneira se passa o tempo, de geito que não fica lugar pera levar adiante o serviço de Deus Nosso Senhor. E também por esta causa muitas vezes cousas, assym de muita honrra como do serviço de Vossa Alteza, se deixão de fazer na índia (2). Hum remedio só acho pera se fazerem muitos christãos nestas partes, e serem muito favorecidos os que o são, sem ningem ousar de os agravar, nem lhe tomarem o seu, assym portuguezes como infiéis: mandar Vossa Alteza ao Governador que cá estiver ou de lá Vossa Alteza mandar, que em nenhuma pessoa religiosa de quantas cá estão confie tanto como nelle o acrescentamento de nossa sancta fee na India, nomeando-nos a todos os que cá estamos, e que nelle somente confia, depois de Deus, que á de desencarregar do cargo da consciência em que vive por se não fazerem mui- tos christãos na índia à mingoa dos Governadores; e que o Governador só escreva a Vossa Alteza os christãos que se fazem e a disposissão que há pera se fazerem muitos maes, porque às suas cartas dará credito e às outras não; e se o contrario fizer o seu Governador de não acrescentar muito a nossa sancta fee, pois em seu querer está, e prometer-lhe no regimento que elle manda ao seu Governador de o casti- gar, com juramento solenne, quando for a Portugal, toman- do-lhe toda a sua fazenda por perdida, pera as obras da sancta Mizericordia; e por sima disto de o ter em ferros por muitos annos, dando-lhe o dezengano que nenhumas disculpas lhe serão recebidas, porque as que elles dão por que se não fazem muitos christãos não s ao (3) de receber. (2) A este respeito, pode ler-se o documento n.° 51, adiante publicado. Frei António Casai, escrevendo a el-rei, manifesta-se exactamente nesta ordem de ideias. (3) Isto é: «se hão». / 8
Não posso fallar nesta parte o que sey por não magoar a Vossa Alteza, nem cuidar nas minhas magoas passadas e prezentes sem ver remedio. Se o Governador tiver pera sy por muito certo que Vossa Alteza falia de verdade, e que á de cumprir o juramento, a ilha de Ceilão toda será christão num anno, e muitos reis no Malavar e pello Cabo de Comorim e outras muitas par- tes. Em todo o tempo que se os governadores não virem com este medo de serem deshonrrados e castigados, não faça Vosa Alteza nenhuma conta do acrescentamento de nossa sancta fee, nem dos christãos que estão feitos, por muitas provizões que Vossa Alteza mande. Não está em maes de se fazerem todos christãos na índia senão em castigar Vossa Alteza muito bem hum Governador. E porque não tenho esperança que isto se á de fazer, me peza quazi pello ter escrito. E também, Senhor, porque não sey se quando estiver dando conta a Deus, sendo acuzado porque isto não fez, pois foi avizado, não sei se lhe será recebida esta disculpa: que não era obrigado a dar credito a minhas cartas. Certifico a Vossa Alteza que se com boa consciência me parecera que podia comprir com minha alma em me calar, que não lhe escrevera isto dos governadores. Eu, Senhor, não estou de todo determinado a ir a Jappão, mas vay-me paresendo que sym, porque desconfio muito que não ei de ter verdadeiro favor na índia pera acrescentar a nossa sancta fee, nem pera conservação da christandade que está feita. Por amor e serviço de Deus Nosso Senhor peço a Vossa Alteza que a seus leaes vasallos da India, e a mym com elles, faça esta mercê de mandar pera o anno muitos pregadores de nossa Companhia; porque lhe faço saber que tem muita necessidade as fortalezas da índia delles, assym os portu- 1 9
guezes como os christãos novamente convertidos. Isto me cauza escrever a experiência que tenho vista. Pregava em Malaca e Maluco ao tempo que lá estive duas vezes todos os domingos e dias sanctos, pella muita necessidade que via: aos portuguezes pella manhã na missa, e depois do jantar, aos filhos e filhas dos portuguezes, e escravos seus, e aos christãos forros da terra, declarando-lhes os artigos da fee; e hum dia na somana pregava numa igreja às molheres dos portuguezes, assym da terra como mistiças, sobre os artigos da fee e sacramentos da confissão e com- munhão. Em poucos annos se faria muito serviço a Deus Nosso Senhor se se continuase esta doutrina. Nas forta- lezas emsinava em todo este tempo a doutrina christãa, todos os dias depois do jantar, aos filhos e filhas dos por- tuguezes, escravos e escravas seos, e christãos da terra, e com esta doutrina e ensino cessavão muito as idolatrias e feitiçarias. Esta conta dou a Vossa Alteza pera que se lembre de mandar pregadores, pois à mingoa delles nem os portugue- ses nem os convertidos a nosa fee são christãos. Também, Senhor, eu desconfio de vir tanto bem a estas partes, por- que a índia tem esta qualidade, que não sofre fazer-se nella tanto bem spiritual. A treze de Janeiro deste anno cheguei aqui a Cochim vindo de Malaca, onde achei o Bispo, e com elle fui muito consolado em ver que com tanta charidade toma tantos tra- balhos corporaes, vezitando as fortalezas de seu bispado e os christãos de São Thomé, fazendo seu officio como ver- dadeiro pastor. Em pago de tam boas obras alguas pessoas destas partes lhe dão o gallardão que costuma dar o mundo. Fiquei muito edefficado em ver sua pasciencia tão sancta. Cousas falarão na índia delle alguns devotos e servos do
mundo, e parece-me que também as escreverão a Vossa Al- teza acerca da morte de Miguel Vaz, que eu por descargo da minha consciência, sem poder escrever nem poder dizer como, sey em tal couza não hé culpado maes do que são eu, que estava em Maluco quando isto aconteceo (4). Por amor e serviço de Nosso Senhor e por descargo de sua consciência peço a Vossa Alteza muito por mercê que o não desconsole, porque Vossa Alteza, dando credito a tão grande falcidade, hé pôr em grande credito aos pragentos da índia. A mercê que Vossa Alteza fez a Pedro Gonçalvez, vi- gairo de Cochim, de toma-llo por seu capellão, e a hum sobrinho seu por moço da camara, me fez a mym muita mercê. Eu são nesse conhecimento, porque lhe faço a saber que a caza do vigairo de Cochim hé estalagem da Companhia de Jesus, e hé muito nosso amigo, tanto que por nossa cauza pella vintura gasta o que não tem, tomando emprestado. Peço a Vossa Alteza em nome da Companhia, que lhe faça a elle e a seu sobrinho mercê de lhes mandar passar seus alvarás pera que vensão cá seus ordenados, pois o vigaira olhando pellas almas dos leaes vasalos de Vossa Alteza, e seu sobrinho servindo nas armadas, lho merecem. Fico rogando a Deus Nosso Senhor que dê a sentir a Vossa Alteza dentro em su'alma, e fazer juntamente tudo aquillo que à hora de sua morte folgaria ter feito. (4) O P.e Miguel Vaz, vigário-geral, grande amigo de Xavier, tinha falecido em Chaúl a 11 de Janeiro de 1547. Dirigia-se para Dio a fim de pedir a D. João de Castro o exacto cumprimento das ordens reais que ele trouxera da Europa. Um exame médico revelou que morrera de cólera, mas não faltaram boatos a insinuar envenenamento. E houve até quem sugerisse o norne do bispo D. João de Albuquerque, como possível mandante. Contra esta aleivosia se insurge Xavier. Cosme Anes, escrevendo a el-rei em Novem- bro de 1547, admite a possibilidade de Miguel Vaz ter sido envenenado pelos brâmanes. Este documento foi publicado no terceiro volume desta Documen- tação. (Consultem-se Lendas da India, IV, 142.)
De Cochim a vinte de Janeiro de mil e quinhentos e quarenta e oito annos. Servo inútil de Vossa Alteza, Francisco. Inscriptio: Pera El-Rey. Do Padre Mestre Francisco. ► k .
6 CARTA DE XAVIER A D. JOÃO III Cochim, 20 de Janeiro de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 411-417. Senhor. Na armada que em Malaqua se fez ho ano passado pera irem destruir hos dachens lhe faço saber a V. A. como Dioguo Soares deu muito gramde ajuda e pelejou como quem ele hé e dele se esperava. Levou duas fustas muito fermosas e esquipadas à sua custa, assy de marinheiros como de lascarins sem lhe darem da feitoria cousa nenhuma. Isto diguo porque o vy, que aimda arrôs pera os marinheiros lhe não derão, e gastou o que não tinha, pedimdo emprestado pera o gastar em serviço de V. A., e pelo serviço que lhe tem feito em esta armada Dioguo Soares, lhe deve V. A. fazer mercê gramde. Esta conta dou a Vossa Alteza, por- que nestp tempo me achei em Malaqua e sey hos que o servirão, e não diguo mais senão que se não ffora por ele, não morrerão tamtos dachens. Item. Dioguo Pireira, ffilho de Tristão Pireira, que sér- vio a V. A. na Imdia vimte anos, sempre por capitão de galés e galiões, gastando ho seu e o de seus ffilhos sem nenhuma satisfação de seus serviços, e o matarão os mou- ros no cerquo de Qualequ. O dito Dioguo Pi [r] eira pelejou na batalha muito bem e foy por capitão do maior navio que Há hia, e destruio muitos navios dos dachens com a artelharia groça que levava metemdo-os no fumdo, e os lascarins que hião com ele matarão muitos dachens à espim- guarda, e gastou muito bem. Deve-lhe V. A. ffazer mercê 2 3
asy pelos seus serviços como de seu pay. Hum castelhano que veo da Nova Espanha pela via de Maluquo, o quall hia num navio de Dioguo Pireira, me disse que follgou muito de ver tam bem pelejar os portuguezes da Imdia e serem pera tanto. Item. Afomso Gemtill, irmão do doutor Amtonio Gem- till, ffisiquo-mor que foi de Vosa Allteza, foy por capitão dum navio nesta armada. Levou muita gemte gastamdo muito do seu, como sempre ho fez nas armadas servimdo V. A. Amda agora tam mail tratado por sima de tamtos serviços sobre huma nao que se queimou no porto de Mala- qua de V. A., e dizem todos em Malaqua que hé comtra rezão e justiça, prinmcipallmemte aqueles que com fazer mall a outros não alegão serviços a V. A. pera que lhes ffaça mercê. V. A. por descarguo de sua comsiemcia lhe deve fazer mercê e livra-lo de tamtas apresões comtra rezão e justiça. Item. A Joam Rodriguez Carvalho achei em Malaqua tam prove que ouve piadade dele. Perdeo-se na China e vejo que leva caminho pera se acabar de perder na Imdia se o V. A. não favorecer fazemdo-lhe gramde mercê. Viemos eu e ele numa nao de Malaqua a Quouchim. Vi tam meuda- mente suas provezas que ouve piadade dele, recebemdo paixão em mim vemdo que era afromta de V. A. amdar tam lazerado, pois ho tem tam bem servido. Peço a V. A. lhe faça mercê. Item. Amrique de Sousa deve V. A. fazer gramde mercê asy pelos serviços que lhe tem feitos como por ser tam obediemte a seu Governador por obedeser a V. A. Casou com huma horfãa, ff ilha de Framcisco Maris. Amda tam atribulado e arrastado que hé piadade de o ver. Maria Pinheira sua sogra está nesta cidade de Couchim tam desem-
parada e prove que hé pera aver gramde piadade dela. Vi também ha horfimdade de seus filhos e filhas. Pede a V. A. a triste veuva que por amor e serviço de Deus Nosso Senhor aja piadade do seu gramde desemparo e de seus filhos e filhas e lhe faça mercê das viagens de Maluquo pera casa- memto de suas ffilhas e seu sostemtamemto e a seus ffilhos hos tome por moços ffidallguos no foro de seus paremtes. Item. Amtonio Cardoso, secretairo que ffoy, vai este ano pera o Reino. Ffaça-lhe V. A. gasalhado e mercê, pois que nestas partes ho tem tam bem servido. Não lho em- comemdo a V. A. por via de muita amizade que amtre ele e mim há, senão pelos muitos serviços que lhe tem feitos. Item. Amtonio Rodriguez de Gamboa vai pera o Reino este ano a pedir a V. A. satisfação de seus serviços, dos quaes Martim Afomso de Sousa como boa testemunha dará a verdadeira emfformação a V. A. Nas cousas spirituaes também tem feito ho que pode, porquamto participa muito do samto zelo e doutrina de nosso bom pai Migel Vas, cuja allma com gramde triumfo está no ceo. Deve-lhe V. A. fazer mercê com brevidade damdo-lhe favor, pera que a todos nos ajaude. Item. Manoel Lobo vai ao Reino este ano a pedir satis- fação a V. A. dos muitos serviços, que na Imdia lhe tem ffeito de dez anos a esta parte, ao quall na batalha de Dio em serviço de V. A. o aleijarão de huma perna, que não hé homem. O que mais simte de sua aleijão como leall vassalo hé, Senhor, que nam pode mais servir nas armadas a V. A. Por comsiemcia a vasalo tam leall e de tamtos serviços lhe deve fazer gramde mercê. Item. De Cosme Anes, protector verdadeiro da casa de Sam Paulo, ouso muito boas novas, que serve muito bem V. A. no seu carguo. Espreva-lhe V. A. e [me] omemdam- 2 5
do-lhe muito que não camse de servir e olhar por Sam Paulo, pois de Deus averá no outro mumdo galardão e neste de V. A. Item. Ho provedor e irmãos de Samta Misericórdia de Couchim escrevem a V. A. sobre certos apomtamemtos do serviço de Deus, os quaes são estes: Primeiramente, os tres retavolos pera casa, scilicet: hum pera o altar-mor da em- vocasam da Misericórdia, e os dous, hum de Samto Amaro e outro de Sam Jorge mais pequenos, e para isto tem mamdado esta casa 500 cruzados de solido pera Sua Alteza pagar pera os ditos retavolos. Item. Huma provisão em que mamde pagar os nove mill reis, de que V. A. tem feito esmola à casa pera orfãas, pagos no seu tisouro desta cidade, mês emtrado mês saido, e asy mamde na dita provisão que do solido que derem d esmolla à casa lhe pagem cada hum ano mill pardaos pera remedio e amparo das horfãas e pobres, porque a prov [i] são que Sua Alteza mamdou ho ano passado que lhe pagasem todo ho solido que a casa tivese, não se comprio. Item. Huma provisão que os defumtos, que em Bemgala e Pegu e Choromamdel, e outras partes da Imdia ffalecerem e deixarem a esta samta casa por sua herdeira, que pro- vedor-mor nem os pequenos não emtemdão na tall ffazemda e que a deixem arrequadar aos procuradores das Miseri- córdias, e os testamemtos que os taes defumtos nos ditos lugares homde não há tabaliães ffizerem, que sejam valiosos, porquamto as testemunhas que neles asinão se espalhão pera muitas partes, por omde se não podem aprovar os tais testamemtos, e a Misericórdia perde a tall heramça, e os pobres e horfãas, pera quem se deixão, padecem muita necesidade e as vomtades dos defumtos não se cumprem. 2 6
Item. Ho espritall de Couchim está muito danifiquado e prove de edifícios. Mamde V. A. a seus governadores e veadores da fazemda que olhem por o dito espritall pelos muitos doemtes que açudem dos que amdão nas armadas e comtino serviço de V. A. Item. Mamdão pedir a V. A. ho provedor e irmãos da Misericórdia que o tempo que servirem a casa sejam escusos dos ofícios do comcelho sem embarguo de sua hordenação. Item. A deradeira mercê que peço a V. A. hé, que me faça mercê em paguò do amor verdadeiro que lhe tenho, que me faça mercê pelo amor e serviço de Deus Nosso Se- nhor que dê gramde pressa a pôr por obra com muita deli- gencia tudo aquilo que desejaria ter feito à hora de sua morte pera emtrar com muita comfiamça em juizo com Deus Nosso Senhor, do quail aimda que queira não pode ffugir, e não deixe pera hora da morte, porque os trabalhos da morte são tam gramdes que não dão lugar pera cudar o que agora pera aquelle tempo guardamos. Receba isto Vossa Alteza dum servo seu com aquele amor desemga- nado que lhe tenho. Nosso-Senhor ho tenha sempre em sua guarda nesta vida, e na outra o leve a reinar à gloria, como todos hos seus servos da Companhia de Jesus desejamos. De Couchim a vimte de Janeiro de 1548. [Manu Xaver//:] Servo inútil de V. A. Francisco,. Inscriptio manu scribae: Pera El-Rey. Do Padre Mes- tre Fframcisco. 2 7
7 CARTA DE XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 20 de Janeiro de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, 1, 418-422. La gratia y amor de Christo Nuestro Senor sea siempre en nuestro favor y ayuda. Amen. Charissimo en Christo Hermano. Por amor y servido de Dios N. S., Hermano Maestro Simón, os encomiendo que trabajéis de mandar alguns pre- dicadores de nuestra compania, por quanto ay mucha neces- sidad dellos en la índia. De todos los que mandastes no tengo visto sino a Juan de Beira, e el Pe. Ribero, y Ni- colao, leigo, los quales están en Maluco, y Adam Francisco que hallé en Cochim. Pregunté por los demás; dixeronme que no ay ninguno que predique entre ellos. Mas os encomiendo mucho, por amor y servido de Dios nuestro Seríor, que quando ordenáredes de mandar algunos de la Compania, que no son predicadores, para estas partes de la índia para convertir los infieles, que sean personas de mucha probación en la Compania y de muchas experiências, de manera que ayan alcançado muchas victorias por spacio de algunos anos; y que no sean dolientes, porque los tra- bajos de la índia requieren también fuerças corporales, aunque sean más necessárias las spirituales. Muy grande servicio a Dios N. S. faria el Rey, si mandasse muchos pre- dicadores de nuestra Compania a la índia, porque avéis de saber, que la gente de la índia caresce mucho de doctrina. Esto os hago saber por la experientia que tengo. 2 8
Y si las cosas del acrecentamiento de nuestra santa fe entre los infieles tienen muchos impedimentos en estas par- tes, no os espantéis, porque en nosotros hallan la primera y más fuerte contrariedad. Por tanto, me parece que es necessário acudir a nosotros primero, y después a los gen- tiles. Para el ano que viene, por servicio de Dios N. S. que hagáis todo lo possible por mandar predicadores. No os escrivo las cosas de la índia por causa que no a sino ocho dias que llegué de Malaca, y no sé nada delias y de algunas que sé, me pesa de las saber. Paréceme que nuestros com- paneros os escríven largamente todo lo de acá. Las personas que de nuestra Compania mandáredes para convertir infieles es necessário que de cada uno dellos se pueda confiar de lo embiar o solo o acompanado a qual- quiera parte que se offresciere de más servicio de Dios N. S., como a Maluco, China, Japón o Pegú etc. A qualquiera destas partes pueden ir personas, que, aunque no tengan muchas letras, si tuvieren mucha virtud que los acompane, pueden hazer servicio a Dios N. S. Por descargo de la conscientia dei Rey, a quien toda la Compania deve mucho, por ser tan amigo delia, le cum- ple mucho favorecer primero en las cosas spirituales a los suyos, y después a los infieles. Desseo mucho para honrra y servicio de Dios N. S. y descargo de la conscientia dei Rey, que provea todas las fortalezas de Ia índia de predi- cadores de nuestra Compania, o de la religion de S. Fran- cisco, y que no tuviesen otra occupación special y principal estos predicadores, sino predicar los domingos y fiestas a los portugueses, y después de comer, a los esclavos y escla- vas, y christianos forros de la tierra, sobre los artículos de la fee, y un dia en la semana a las mugeres y hijas de los portugueses sobre los mesmos artículos de la fe, y sobre los sacramentos de la confession y communion, porque se por experiência la mucha necessidad que desto tienen. 29
Trabajaréis con el Rey por descargo de su conscientia, porque me parece, y plega a Dios que me engane, que el buen hombre a la hora de su muerte se a de hallar muy alcançado acerca de la índia; porque en el cielo me temo que Dios N. S. con todos sus sanctos dize dél: «El Rey muestra buenos desseos por cartas para que se acrecente mi honrra en la India, pues con solo este título en mi nombre la possee, y nunqua castiga a los que sus cartas y mandados no cumplen, y prende y castiga a los que en- comienda su provecho temporal, si por qualquiera via que sea no acrecientan sus rentas y haziendas.» Si tuviesse para my que el Rey está al cabo de un amor desenganado que le tengo, pedirle ya una merced para le hazer servido con ella, y es ésta: que todos los dias se occupasse un quarto de hora en pedir a Dios N. S. que le dé a bien entender y mejor sentir dentro en su ánima aquello que dize Christo: «Quid prodest homini si universum mundum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur ?» y tomasse por devoción que al fin de todas sus orationes anadiesse: «Quid prodest» (1), etc. Tiempo es charissimo Hermano Maestro Simón, de dar un desengano al Rey, pues la hora está más cerca de lo que piensa, en la qual Dios nuestro Senor lo a de llamar a dar cuenta, diziéndole: «Redde rationem villicationis tuae». Por tanto hazed que provea la-índia de fundamentos spirituales. Hermano mio dilectíssimo Maestro Simón: sola una via y camino hallo para que las cosas dei servicio de Dios N. S. en estas partes de la índia vayan en mucho cresci- miento, por la experientia que tengo, y otra ninguna no, y es ésta: que mande el Rey un regimento a qualquiera Governador de la India que fuere, en el qual diga a su (1) S. Mateus, 16-26. Foram estas palavras, pronunciadas por Santo Início, que converteram a Xavier.
Governador, que de ningún religioso de la índia tanto confia como dél (nombrando primero nuestra Compania), que en estas partes de la índia acrescente la fee de Jesú Christo; y por tanto que le manda que la isla de Ceilón la haga Christiana, y que acreciente los christianos dei Cabo de Comorim, y para esto que busque en estas partes reli- giosos, dándole todo poder sobre nuestra Compania para disponer y mandar en ella, y fazer de nosotros y de los demás todo lo que quisiere el Governador y bien le pare- ciere para acrecentamiento de nuestra sancta fee; y si así no lo hiziere, de fazer Christiana toda la isla de Ceilón y acrecentar mucho nuestra fe, que le promete, y para más temor y creren los Governadores que habla el Rey de veras, hazer un juramento y cumplirlo, por-que merecerá mucho en hazerlo, y más en cumplirlo; qúe si no descar- garen su conscientia faziendo en estas partes muchos chris- tianos, que llegando a Lixbona los a de mandar prender en ferros, dándoles cárcel de muchos anos, confiscando toda su hazienda: y si el Rey mandare, y los Governadores no cumplieren el tal mandamiento, y por esto los castigare gran- demente. Desta manera se harán todos christianos en estas partes, y de otra manera no. Esta es la verdad, Hermano Maestro Simón; caetera taceo. Y desta manera cessarán los agravios y robos que hazen a los pobres christianos, y a los que están para lo ser darán grande ânimo para que se hagan; porque quando estas cosas de hazer christianos encomienda el Rey a otra persona que a su Governador, no espereis ningún fruto. Crede mihi vera dicenti et experto; y el porquê yo lo sé, no es necessário dezirlo. Dos cosas desseo ver en la índia: la Ia, los governadores con esta ley; la 2a, ver en todas las fortalezas de la índia predicadores de nuestra Compania; 3 1
porque creed que seria mucho servido de Dios, assí en Goa como en todas las otras partes de la índia. Dios nuestro Senor sea en nuestra continua guarda. Amén. De Cochin a 20 de Henero afio de 1548. Vuestro caríssimo hermano en Christo, Francisco. 3 2 t • J
8 CARTA DO IRMÀO ADAO FRANCISCO PARA OS COMPANHEIROS E ANTONIO BRANDAO, EM COIMBRA Cochim, fins de 1547 ou princípios de 1548 Documenta Indica, 1, 258-260. A graça do Spiritu Sancto seja sempre em nossas almas. Amen. As novas dos Irmãos são, scilicet: o Padre micer Paulo está em o collegio de Sancta Fee e o Pe. Nicolao, Francisco Perez e outro Irmão qut caa receberom, e outros dous leigos que este ano vierom do Reino, hum delles hé porteiro e faz a doctrina, o outro emsina a cartilha e salteiro, Francisco Perez ouve confisões e tem bem que fazer, o Padre Nicolao, e o Padre João da Beira, e outro leigo são ydos a Malucu, ainda nom temos novas delles. Cipriano, Anrrique Amrri- quez, Morais, Masilhas e eu estamos pera o Cabo de Como- rim, que são 100 legoas de Costa. Francisco Anrriquez, Balthesar Nunez se partirom desta cidade de Cochim pera huma fortaleza de Chalé — hé entre Goa e Cochim — e tanto que chegarom forão muito bem recebidos de todos os christãos da terra e jentios; e em dia de Natal por festa se ajuntarom huns capitães, e com muita gente da terra lhes derom hum cerrado cercado todo de parede, que foi de hum capitão que ay estivera; e naquelle mesmo dia lhes derom sesenta ou setenta cruzados e 2.500 pedras pera fazeren hum collegio, e este chão lhes deu hum christão da terra. Passando as oitavas avião de começar a fazer a capela, a qual hão de chamar de Sancta Ana, porque nesta terra ynda nom há outra. Quis-lhes Nosso Senhor dar esta alegria por parte do Irmão Balthesar Nunez, que veyo Doe. Padroado, tv - 3 33
de hum reino que se chama Travancor, donde o lançou o rei da terra, mas Nosso Senhor tudo converte em milhor porque estaa esta terra muy aparelhada pera se fazer fructo nella, mais do que nunca esteve. Assi que, charissimos Irmãos, não temais de vos virdes onde o Senhor se servirá de vós, porque pera isso vos escolheo Deos primcipalmente pera a Imdia, e pois pera isso vos ajuntou, nom temais de vir. A mais novas saberão pelas cartas dos Irmãos. Caa sentimos asaz a morte do nosso Pe. Fabro e Hermes. De Cochim de (l) do ano de 1548 (?) Escrevendo de hum omem que na Yndia topou, diz elle, foi já duas vezes a Pegum, que he huma terra, a milhor que há no mundo. Dis que se hum Padre da Companhia lá fose que se farya toda christãa esta jemte. Dis elle que não lhe falta somente serem bautizados. Tem muytos moes- teiros. Tem pregação duas vezes na semana; este [s] que pregão chamã [o] -se saulins (2); são mais venerados que o proprio rey. Tem muyto gramdes privilejios, e he de maneyra, que se algum omem, que merece a morte, se acolhece a casa de algum destes, nimguem o podia tirar. Estes amdão descalços, numca comem carne, nunca vem molheres. Desta terra temos quatro Irmãos, scilicet: Mar- tinho de Samta Fee, Simão de S. Fee, Baltesar de S. Fee, Christovão de Samta Fee, todos muito avizados. No colé- gio à [60 moços de] treze limgoas diversas (3). (1) O documento não apresenta data alguma. (2) Deve ser raulim ou rolim, nome dos monges budistas no Pegu. O termo foi registado por Delgado. (3) Por quatro irmãos devem entender-se quatro alunos. 34
9 NOTICIAS DA INDIA Goa, princípios de 1548 (?) Documenta Indica, I, 253-255. IHS Esta ilha de Guoa, na qual está o colégio, hé de tres legoas em redondo, e segundo comum parecer averá nela coremta mil almas gentias, e isto antes de mais que de menos (l). He noso Padre Francisquo Anriques vindo hum dia da see da pregação e vendo as ruas cheas e coalhadas destes jentios, começou com muy grandes lagrimas e dor a chorar tam grande perdição por falta de obreyros; não leyxão todavia aqui em casa todos os mais dos dominguos de se fazerem pasante de seis christãos. Fora desta ilha quando more algum ornem destes jentios, é de custume preguntarem os parentes do morto e da mo- lher, que se se quer casar, ou ser erada de mundo, ou morrer com seu marido, que hirá com ele a descançar na gloria; e se ela quer ser erada ou casada todos os parentes pelejão com ela, e não a vem mais dos olhos, e a deytão fora de sua converçação, e a tem em conta de muito má molher; e se escolhe que quer morrer com o marydo, fazem grande festa de comer e bever hum vinho que se chama orraca, que enbebeda como o vinho; de maneira que depois do ban- quete e festa de tanjer e cantar, a vestem em panos de ceda (1) Apesar desta informação, Goa podia considerar-se já «cristã», tantas eram as conversões. Este fenómeno foi observado logo por Xavier. 35
com muitas joias d'ouro pelo pescoço e pelas mãos, e se vão ao campo com muita festa e fazem huma cova muito funda e gramde, em que fazem muito gramde foguo; e em andando bailando ao redor do foguo com os parentes, vem hum e tira huma peça e outro outra, de maneira que lhe tirão tudo; e estando ella presa do vinho vem hum dos parentes mais achegados, e bailhando com ella lhe dá de mão e a deita demtro da cova de maneira, que a quei- mão alli viva pera ter tormento nesta vida e no outro mayor pena (2). Temos hum medico que cura aqui em casa, brameny, grande ornem em a sua ley, e loguo estão os Padres em desputa com ele huma ora e mays, e hé tam emperado que não quer crer nada; desejo muitas vezes as praticas e brados do Padre Antonio Gomez e de o ver estar com ele às quistõis, porque hé tam teribel que, como os Padres o começão a vencer, loguo se malicioso e malicimo; não ha nele senão toda a maa peçonha. Nas parte de Maluqo omde o Padre Mestre Francisco anda, há humas ylhas, encima das quais, asi em enverno como em verão, sempre arde foguo e cada oyto dias treme a terra nelas, e hé tam grande o cheiro que delas say, das arvores do cravo, que dizem ser cousa muito pera ver. Estas (2) A cremação das viúvas tinha sido proibida em Goa logo desde o início da sua ocupação por Afonso de Albuquerque. Lê-se, com efeito, nos Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, Parte II, Cap. 20, pág. 340 (Ed. de 1922, da Universidade de Coimbra): «Tinham por costume que se algum gentio morria, a mulher se avia de queimar por sua vontade; e quando hia a este sacrifício era com grandes festas, e tangeres, dizendo que queria ir acompanhar seu marido ao outro mundo; e a que isto não fazia, era lançada dantre as outras, e ficava ganhando por seu corpo pera as obras do pagode, de que era freguez; e como Afonso de Albuquerque tomou o reyno de Goa, não consentio que dali por diante se queimasse mais nenhuma mulher; e posto que mudar costume seja parelha de morte, todavia ellas folgáram com a vida, e diziam grandes bens delle, por lhe mandar que se não queimassem.» 36
ylhas são muyto altas, he lá não comem senão pam de paoo (3); tem muytas carnes. Ho P. mestre Francisco quando se partio de Malaqua, que hé huma fortaleza d'el-rey de Purtugal muito riqua domde morão muytos purtugeses casados, dizem que nunqua ali pode fazer fruto neles; que alem de serem casados tem tres e quatro mancebas, e mui- tos mea dúzia; e outros dizem que se despio e emterou os vestidos e se vestio de peles; mas não me parece ser verdade mais que ho dos sapatos. A primeyra oytava da Pascoa florida de 1547 (4) par- tirão desta cidade de Goa de demtro deste colégio o P. João da Veira, chamado pello P. mestre Francisco em virtude da samta obediência pera Maluquo; o Pe. Ribeiro e o Irmão Nicolao forão pelo parecer dos Padres; o P. Antonio e o Pe. Cipriano, Francisquo Anriques e o P. Anrique Anriques e o Irmão Morais e outro Irmão da casa andão no Camorym. (3) Isto é: «sagu». (4) A Páscoa em 1547 foi a 10 de Abril. 37
10 INSTRUÇÕES DE XAVIER AOS MISSIONÁRIOS DA PESCARIA E TRAVANCOR Manapar, Fevereiro de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, 1, 426-435 (1) A ordem que haveis de ter para servirdes a Deos hé a seguinte, na qual vos occupareis com muita deligencia: 1. Primeiramente vos occupareis com muita deligencia, nos lugares que vizitardes ou tiverdes a cargo, de baptizar as crianças que- nascem, por ser este hum feito mayor que nestas partes ao prezente se pode, hindo de caza em caza pelos lugares que andardes vizitando, preguntando se ahi há alguma criança para baptizar, levando comvosco alguns meninos do lugar para vos ajudarem a preguntar. 2. E não confieis em meirinhos nem em outras pes- soas, que vos vierem dizer quando alguma criança nasce, pelo descuido que nestes cabe, e perigo que corre [m] as crianças de morrerem sem baptismo. 3. Occupar-vos heis muito em os lugares onde estiver- des, ou lugares que vizitardes ou tiverdes cargo, de fazer ensinar aos meninos a doutrina christã, fazendo com muita deligencia ajunta-llos, e emcommendando aos moradores que os ensinem com muita deligencia, e que fação seu officio; tomando-lhe conta de quantos sabem as oraçoens, para quando outra vez o [s] vizitardes, acheis mais fruito, (1) O P.e Schurhammer apresenta dois textos desta Instrução: um pri mitivo e outro mudado. Publicamos apenas o primeiro, o primitivo. 38
sabendo elles a conta que lhe haveis de pedir: e este fruito dos meninos hé o principal. 4. Aos domingos, no lugar ou lugares que tiverdes o cargo de vizitar, fareis que vão os homens à igreja dizer as oraçoens; e [n]os lugares em que òs domingos não fordes, pedireis conta ao meirinho se os patangatins do lugar vão à igreja, e assim as outras pessoas do lugar. No lugar em que vos achardes, depois de ditas as oraçoens, lhas declara- reis, e reprehendereis os vicios que entre elles há com exem- plos e comparaçoens claras, procurando sempre de lhe fallar tão claro a que vos entenda [m], dizendo-lhe que não se emmendando, que Deos os há de castigar nesta vida por doenças, e abreviando-lhes os dias da vida por tirannias de tigares (2) e rey, e depois de sua morte hindo ao inferno. 5. Emformar-vos heis dos que no lugar se querem mal, e ò domingo trabalhareis de os fazer amigos quando se ajuntarem na igreja, e outro tanto fareis aos sabbados com as molheres que se querem mal. 6. E as esmollas que derem, assim homens como mo- Iheres,, aos domingos e sabbados, ou esmollas que offere- cem nas igrejas, ou promessas de doentes, destribuhir-se hão todas aos pobres, de modo que não tomemos nenhuma couza para nós outros. 7. Os que estiverem doentes vizita-llo [s] heis, dando- -lhe lugar e ordem como vos venhão dizer quando alguém estiver doente; e nesta vizitação fallo[s] heis dizer a con- fissão geral e Credo, e preguntando se crem em cada artigo verdadeiramente; e para isto levareis hum menino que saiba as oraçoens porque as diga, e rezareis hum evangelho; e (2) listo é: «adigares». 39
amoestareis aos homens e molheres aos domingos e sabbados que vos fação saber quando alguma pessoa adoecer, avizando que, se vo-llo não fizerem saber, que os não haveis de enterrar na igreja, nem adonde enterrão os christãos. 8. Aos sabbados e domingos quando se ajuntarem na igreja os homens e molheres declarar-lhes heis os artigos da fé pela ordem que vos deixo escripto ao Pe. Francisco Coelho (3), para que do portuguez os mude em malavar; e acabados de mudar, fareis como por elles o tenho escripto, para que cada sabbado e domingo os façais ler na igreja em que estiverdes e tiverdes cargo de vizitar. 9. Quando morrer [alguém], enterra-llo heis, hindo a sua caza com huma cruz e meninos dizendo as oraçoens pelo caminho, e em chegando a sua caza direis hum res- ponso, e levando depois [a] enterra-llo, e todos os meninos dizendo as oraçoens; quando [o] houverdes de enterrar, outro responso. E acabado de enterrar, aos que estão pre- zentes em breves palavras lhes fareis huma exortação, fazendo-lhes lembrança que han de morrer, e que para isso se encommendem com bem viver se querem hir ao paraizo. 10. Exorta-llo heis ao sabbados e domingos aos homens e molheres que, quando algum menino estiver doente, que o tragão à igreja para lhe dizerem o Evangelho; e isto para que os grandes tenhão fé e amor à igreja, e as crianças se achem melhor. 11. Fareis pelo[s] concertar em suas causas e deman- das, e as que forem de importância, as remetereis ao cappi- tão ou ao Pe. Antonio (4), de maneira que o menos que (3) O P.c Francisco Coelho era um sacerdote indígena ordenado em Goa. (4) P.c António Criminal. 4o
poderdes vos occupareis em averiguar as demandas; e as obras de mizericordia spirituais não as deixareis de com- prir por vos occupardes em ouvir demandas; e as demandas que houver no povo, as que não forem de muita importân- cia, ao domingo depois de acabadas as oraçoens, dareis ordem como se despachem com os pantagatins do lugar. 12. Com o cappitão vos havereis muito benignamente, de modo que por nenhuma couza quebreis com elle. Com todos os portuguezes desta Costa procurareis de viver em paz e amor com elles, e com nenhum estareis mal, ainda que elles queirão. Os aggravos que elles fizerem aos chris- tãos com amor os reprehendereis; quando nelles não houver emmenda, fa-llo heis a saber ao cappitão. Outra vez vos torno a emcommendar que por nenhuma couza esteja [is] mal com o cappitão. 13. A convers [aç] ão que tereis com os portuguezes será em couza de Deos, fallando-lhes na morte, e no dia de juizo, e nas pennas do inferno e do purgatório; e para isto amoestando-os a que se confessem e comunguem e vivão em guarda dos dez mandamentos de Deos; fallando-lhes nestas 'couzas, não vos impedirão as couzas do vosso officio, e os que vos conversarem, serão em couzas spirituaes ou vos deixarão. 14. Aos Padres da terra os favorece [re] is nas couzas spirituaes, dizendo-lhes que se confessem e digão missa, e que vivão dando bom exemplo de sy; e delles não escrevais mal a ninguém, mas somente podereis dar conta disso ao Pe. Antonio, que hé superior desta Costa. Quando baptizardes crianças, rezai-lhes primeiro hum evangelho de S. Marcos ou o Credo, e depois o [s] bapti- zares com a intenção de o [s] fazerdes christãos, dizendo as palavras essenciaes do baptismo que são «Ego te baptizo 4'
in nomine Patris et Filii et Spiritus Sane [ti}>>, lançando agoa quando dizerdes as palavras; acabando-as de baptizar, lhe direis hum evangelho ou huma oração, segundo for vossa devoção. Quando baptizardes grandes, far-lhes [heis] primeiro dizer a confissão geral e o Credo; e dizendo o Credo, se cree em cada artigo delle; e dizendo que sim, então o baptizareis. 15. Guardai-vos de dizer mal dos christãos diante dos portuguezes, mas sempre sereis [de sua parte], e os deffen- dereis em fallar por elles; porque, se bem olharem os por- tuguezes a pouco doutrina que esta gente tem, e o pouco tempo que há que são christãos, hé para mais espantar de não serem peyores. 16. Procurareis com todas vossas forças de vos fazer amar [d] esta gente, porque, sendo [d] elles amados, fareis muito mais fruito que sendo delles aborrecidos. 17. Nenhum castigo fareis entre elles sem primeiro o consultar com o Pe. Antonio; e estando no lugar donde estiver o cappitão, não castigareis nem prendereis ninguém sem dar primeiro disso parte ao cappitão. 18. Quando algum fizer algum pagode, assim homens como molheres, o castigo que nisto lhe dareis será des- terra-llo de lugar donde estiver para outro, com parecer do Pe. Antonio. 19. Aos meninos que vem às oraçoens mostrareis muito amor, e guardai-vos de escandalizar, dessimulando com os castigos que merecem. 20. Quando escreverdes à índia aos Padres e Irmãos delia, será dando particularmente conta do fruito que fazeis; e também as escrevereis ao Senhor Bispo com muito acata- 42
mento e reverencia, como a superior nosso, de modo que nos conheça na obediência que temos. 21. A nenhuma terra hireis a chamado de nenhum rey nem outro senhor da terra, sem parecer do Pe. Antonio, dando por escuza que não podemos lá hir. 22. Muito vos torno a emcommendar que trabalheis de vos fazer amar nos lugares donde andardes e estiverdes, assim fazendo boas obras como com palavras de amor, para que todos sejamos amados antes que aborrecidos, porque desta maneira fareis mais fruito, como já disse. O Senhor no-llo conceda [e] fique com todos. Amen. Em Fevereiro de 1548 [Todo vosso Me. Francisco} 43
11 RELAÇAO DE GOA Lisboa, 22 de Março de 1548 APO, V, 206-210. Dom João per graça de Deos Rei de Portugal e dos Algarves daquem e dalém mar em Africa, senhor da Guiné, e da conquista, navegação, comercio de Ethiopia, Arabia, Persia, e da India etc. Faço saber a vós Dom João de Cas- tro (1), do meu conselho, e V. Rei nas partes da índia, que eu fui ora enformado que o Ouvidor geral, e o Pro- vedor moor dos defuntos, e Juiz dos meus feitos, que nessas partes tenho providos e ordenados para cada hum deles conhecer dos feitos e causas que a seus officios e cargos pertencem, não podião dar tão breve despacho ás partes como era necessário, assim por serem poucos, e as causas muitas, como pelo Regimento que lhe foi ordenado para despacho dos feitos não prover acerca disso tão comprida- mente como era necessário, pelo qual ordenei de mandar lá mais Desembargadores, e dar regimento para que melhor, e com mais brevidade as partes possão ser despachadas, no qual ei por bem que se tenha o modo e ordem seguinte. I. O Provedor moor e Juiz dos feitos da fazenda conhe- cerão dos feitos que lhe pertencerem por bem de seus offi- cios, e os processarão cada hum per si só, e os que forem até quantia de cinquenta cruzados detreminarão finalmente sem haver delles appelação nem agravo, e sendo de mór (1) Quando se passou este diploma, ainda vivia D. João de Ostro. Como se sabe, este morreu a 6 de Junho deste mesmo ano de 1548. 44
quantia, o dito Juiz da fazenda processará aqueles que a seu cargo pertencer até final, e sendo finalmente conclusos os levará á Relação, e nella os despachará com outros Desem- bargadores, que ao menos sejão dous comformes com o dito Juiz, em maneira que com elle sejão tres conformes em huma tenção. II. E o Ouvidor geral e o Provedor moor conhecerão assi mesmo das causas que a cada hum delles pertencerem até as detreminarem finalmente, e nas que não passarem da dita quantia de cinquenta cruzados ou sua valia darão suas sentenças á execução sem appelação nem agravo; e sendo as causas de mór quantia, não darão appelação, e porem poderão as partes que se sentirem agravadas de suas sentenças agravar delias para a Relação que nas ditas partes per meu mandado he ordenada; e sem embargo de agra- varem se fará execução pelas ditas suas sentenças dando as partes vencedoras fiança que revogandose a sentença o fiador que derem tornará tudo aquillo que pela sentença lhe for entregue em quanto for revogada, guardandose em tudo, assi acerca disso como do prosiguimento dos ditos agravos, a forma que per minhas ordenações he dada quando se agra'va das sentenças dadas pelo corregedor da corte dos feitos eiveis. III. E quando se assi as partes se agravarem das sen- tenças finaes, os scrivães dos ditos feitos que forão na pri- meira instancia ficarão scrivães no caso do agravo, e elles terão tal maneira que destribuirão os ditos feitos que forem por agravo entre os Desembargadores que delles não forem juizes na primeira instancia, tanto a huns como aos outros, e aquelle Desembargador que for juiz do dito feito, per lhe ser distribuído, tanto que for concluso o verá em sua casa, e o levará á Relação, e o despachará na mesa com outro Desembargador, e sendo ambos conformes em confirmar, 45
se porá sentença conforme ao parecer dos dous, e sendo conforme com aquelle que for em revogar, hirá a outro, e sendo este quarto conforme com os dous em revogar, se porá a sentença, e sendo conforme com o outro que he em confirmar, hirá o feito a outro quinto, e conforme ao que assentar com qualquer dos outros dous se porá a sentença. IV. E quanto aos feitos crimes de que o Ouvidor geral e o Juiz dos feitos da fazenda conhecerem, elles o processa- rão também per si sós até final, e porem as contrariedades, e defesas, e artigos de contraditas, subornação, e falsidade, com que as partes vierem nos taes feitos os ditos Juizes os levarão á Relação, e nella os despacharão em mesa com dous Desembargadores cada hum em maneira, que ao me- nos sejão tres no despacho, o segundo o que pela maior parte delles for acordado, se porá o despacho; e sendo o feito de morte, ao pronunciar da contrariedade ou defesa, e pronunciação de contraditas, ou lançamento de ordem, ou de imunidade de igreja, a que se alguma pessoa chamar, ou qualquer outra interluctoria que tenha força de defini- tiva, serão sempre tres conformes, e não o sendo, entrará no despacho do dito feito outro Desembargador, ou Desembar- gadores até serem tres conformes, e segundo o que tres acordarem se pora o despacho, e o dito Ouvidor geral, quando lhe for pedida carta de seguro de morte com defesa, a mandará ajuntar à devassa, e a levará à Relação, onde lhe será concedida ou denegada. V. Ei por bem que o Ouvidor geral, per si só sem appe- lação nem agravo possa mandar açoutar escravos captivos, e gente da terra, que não forem mercadores, nem ourives, nem bramanes, nem gancares, e isto quando por suas culpas o mereçam. VI. E porque sou informado que nessas partes a gente da terra querelão huns dos outros muito levemente, e os 46
fazem prender, e huns gastão suas fazendas, e outros pare- cem ao desamparo, Ei por bem que da gente da terra se não receba querela, salvo em casos de morte ou aleijão, e juramentos falsos, e falsidade, e nestes casos quando qui- zerem querelar, seja perante o Ouvidor geral, estando pre- sente, e sendo absente, perante o Ouvidor da fortaleza onde o caso acontecer: e quanto aos mais crimes se poderão queixar per petições aos juizes e ouvidor, que lhe farão justiça. E porem não serão presos senão per final sentença. VII. E porque algumas pessoas fazem prender muitas outras da gente da terra por dividas e contratos, e depois que os teem presos os deixão jazer na cadea sem os deman- darem, onde perecem por ser gente muito pobre e desampa- rada; Ei por bem que a pessoa que fizer prender qualquer pessoa da terra por divida que diga que lhe deve, o demande dentro de quatro dias, e prosigua a causa atee final sentença, e não o demandando dentro no dito tempo, ou posto que o demande, deixando de fallar ao feito por espaço de oito dias sem ter legitimo empedimento; Ei por bem que os taes presos sejão logo soltos, e soltos sigão seus feitos. VIII. E porque muitas vezes se acontece os juizes prenderem muita gente da terra por furtos, e outras culpas, e os juizes e scrivães são negligentes no despacho delles, mando que os ditos juizes os despachem com muita brevi- dade, e não os despachando dentro de vinte dias do dia que forem presos, os scrivães de seus feitos serão obrigados levar os ditos feitos ao Ouvidor geral, estando presente, ou ao Ouvidor da fortaleza, não estando o Ouvidor geral pre- sente, pera elle avocar a si os que lhe bem parecer, e os despachar finalmente, o que os scrivães cumprirão sob pena de perdimento de seus officios. 47
IX. Ei por bem que todas as devassas que se tirarem de mortes, aleijões e de quaesquer outros casos em que a justiça haja lugar, e querelas que se derem dos ditos casos asi nas fortalezas e lugares da índia, como em Ormuz, Malaca, e Soffala, o trasllado delas venha ao Ouvidor Geral, o qual as mandará distribuir pelos scrivães dante si, e elles as mostrarão ao dito Ouvidor, o qual as proverá, e mandará prender os culpados, e pera isso os dará em rol aos juizes, meirinhos, e alcaides, e assi ao Procurador dos seus feitos, pera se acerca disso fazer justiça conforme as ordenaçoens e regimentos, e os Ouvidores e juizes das ditas fortalezas serão obrigados a mandar as ditas devassas e querellas ao dito Ouvidor geral na primeira monção que houver depois das ditas devassas serem tiradas, e as querellas dadas, sob pena de pagarem cinquoenta cruzados pera o hospital da cidade de Goa per cada huma que não mandarem, e o Ouvidor geral terá o cuidado de executar a dita pena nos que nella encorrerem. X. E por quanto por as alçadas que são dadas aos capi- tães das fortalezas desas parte da índia, Ormuz, Soffala, e Malaca, os ditos capitães teem alçada nos crimes em piães até morte inclusive, a qual alçada lhe foi dada em tempo que nesas partes não havia Relação, como ora ha: Ei por bem que quando os ditos capitães conhecerem de casos de morte de piães portuguezes, e condenarem algum a morte natural, sejão obrigados appelar, e appelem por parte da justiça, ainda que a parte não appele, e neste caso ei por bem que não tenhão alçada, posto que a tivessem atéqui per seus regimentos e outras provisões. XI. Ei por bem que alem do conteúdo neste Regimento se cumpra e guarde o regimento que levarão os Desembar- 48
gadores (2) quando de quá forão, e o conteúdo em minhas ordenações naquillo em que este Regimento não for con- trario. Antonio Ferraz o fez em Lisboa a vinte e dous dias do mez de Março de Mil quinhentos quarenta e oito. O qual Regimento era assinado por EIRei nosso senhor, e ao pé tinha a sobscripçao seguinte: Regimento do modo que se hade teer no despacho dos feitos na índia. (Livro Vermelho da Relação, foi. 5) (2) A justiça em Goa era administrada por vários desembargadores, vindos havia já bastante tempo. Como não despachassem os casos com brevidade, o governador Garcia de Sá tomou o caso a peito e fez que eles se resolvessem depressa. Havia processos com dois e três anos. (Gaspar Correia, Lendas, IV, 662. rw 49 Doe. Padroado, iv - 4
12 CARTA DE XAVIER A DIOGO PEREIRA Goa, 2 de Abril de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 436-438. Senhor (l). Deos Nosso Senhor sabe quanto eu folgara de o ver antes que se partira caminho da China; mas o Senhor Gover- nador me mandou que envernasse cá em Goa, e não pude tal fazer, senão obedecer a Sua Senhoria, que os meus dezejos erão de hir a Cochim, e dali ao Cabo de Comorim, donde estão meus companheiros. E também levara muito gosto e contentamento de communicar com V. M. algumas couzas, como com amigo meu verdadeiro e da alma, acerca de dar-lhe conta de huma viagem a peregrinação, que daqui a hum anno espero de fazer para Japão, pela muita infor- mação que tinha do fruito que lá se pode fazer em acres- centar nossa santa fé. Lá mando a Mallaca dous companheiros meus (2), hum delles para pregar, assim aos portuguezes como às suas molheres e scravos, e ensinar e doutrinar cada dia, como eu fazia o tempo que lá estive; e o outro companheiro que não hé de missa, para ensinar a ler e escrever os filhos dos por- tuguezes, e ensina-los a rezar as oras de N. Senhora, os sete psalmos, e oras de finados polas almas de seus pais. (1) Diogo Pereira era um dos melhores amigos de Xavier na índia. Partia agora para a China em viagem de comércio. Foi ele que, em 1552, levou consigo o Santo a caminho do seu último campo de apostolado. (2) Eram o P.e Francisco Peres e o Ir. Roque de Oliveira. 5°
Por lá, como V. M. sabe, tudo é ler por feitos (3), e os filhos dos portuguezes, lendo por feitos e mais feitos de Mallaca, ficão feitos mallaquazes. E também emcommendo ao que há de ensinar a ler e escrever aos filhos dos portu- guezes, que ensine gramatica, andando o tempo, aos que forem para isso. Muito folgara de ver-me com V. M. antes que se partira pera a China, para lhe emcommendar huma veniaga muito rica, de que pouca conta fazem os que tratão em Mallaca e na China: esta veniaga se chama a conciencia da alma. Hé tão pouco conhecida por aquellas partes, que cuidão todos os mercadores que ficão perdidos se uzão bem delia! Espero em Deos Nosso Senhor que meu amigo Diogo Pe- reira se há de ganhar em levar muita conciencia, onde os outros se perdem à mingua delia. Eu continuadamente roga- rei em minhas pobres oraçoens e sacrifícios que Deos Nosso Senhor o leve e traga a salvamento, ma [i] s aproveitado em alma e conciencia, que em fazenda. Lá vai Ramires a se entregar todo a V. M., porquanto sabe [a] amizade verdadeira que entre nós há, parecen- do-lhe que, em servir a V. M. entregando-se todo a elle, que o há de favorecer e ajudar para poder alcançar alguma esmolla para se hir a sua terra, que tem pai e mãi, e dezejar muito de os hir ver, e falta-lhe o necessário para se poder embarcar e fazer sua matalotagem; e eu vou tão pobre que, ainda que queira, não tenho possibilidade para o ajudar a hir a sua terra. Portanto peço a V. M. polo amor de Christo Nosso Senhor e a Virgem Nossa Senhora sua Mãi, pondo- -lhe nossa amizade diante tanto quanto posso, que o leve (3) A expressão «ler por feitos» é muito comum nos nossos autores antigos. Como não houvesse muitos livros, os alunos entretinham-se a apren- der a ler com cópias de causas judiciais. Assim, aprendiam muitas vezes aquilo que não deviam saber. 5'
em sua companhia e se sirva delle fazendo-lhe algum empréstimo, como V. M. o tem em costume de o fazer a todos os que se a elle se emcommendão; e juntamente com sua fazenda lhe deve [dar] empregada a que com seus empréstimos fará para que com os ganhos delia se possa remediar para sua matalotagem; e [n]isto fará serviço a Deos Nosso Senhor e a mym muita mercê e esmolla e fica- rei obrigado a fazer o que me V. M. me mandar. Nosso Senhor lhe acrescente os dias da vida para seu santo serviço, e o leve e traga a salvamento como elle dezeja. Amen. De Goa a 2 de Abril de 1548 Servidor e amigo verdadeiro de V. M., Francisco 5 2
13 MISERICÓRDIA DE DIO 9 de Abril de 1548 Original existente no ANTT: — Cartas de Dio a D. João de Castro. Tal como nas Cartas de Goa a D. João de Castro, trata-se duma série de documentos soltos, encadernados posteriormente em volume. O documento que nos ocupa presentemente a atenção ê uma carta de Luís Falcão dirigida ao vice-rei em 9 de Abril de 1548. A numeração das folhas foi feita posteriormente à encadernação. A carta ocupa as fls. 25-26. Os Irmãos da Misericórdia1 alargaram no esprital. [a v.] Amtonio2 Mendes o serve, e provera a Deus3 que ho alar- gara (l) a muitos dias, pera os doentes serem curados e remedeados, como agora sam. Porque Hamtonio4 Mendes e o feitor esprevem meudamente a V. S. estes negocios, o deixo de fazer. Alembro a V. S. que halem de mandar pro- vimento pera hos soldados, he necessário mandar dinheiro5 para muitos gastos que esta fortaleza tem, para os quaes atee guora tenho dado dinheyro ao feitor®. (1) António Mendes era António Mendes de Castro. A palavra «alar- gara», refere-se evidentemente a «Irmãos» e, por isso, deveria estar no plural. i — mía ; a — Aint.0 ; 3 — ds ; 4 — Hamt.0; 5 — dir.* ; 6 — f."r Luis Falcam. 53
14 PADRE ANTÓNIO DO PONCE A EL-REI Goa, Outubro de 1548 Documento existente no ANTT:—CC, 1, 81-69. Mede 204 x 293 mm. Duas folhas, uma das quais escrita. A leitura é dificultada por três grandes rasgões. [i r.] Senhor Tomar eu ousadia e atrevimento pera enderesar minhas letras a tam alta magestade, como a de Vosa Alteza, semdo eu hum muito pobre e caze mendicamte sacerdote, não me visto sennão da comffiamça da gramde manifficencia e samta liberalidade e framqueza de que Vosa Alteza ... em sus súditos e vasalos fazemdo-lhes plennicimo ... mui pe- quenos serviços, e pois eu em melitado debaxo ... bamdey- ras por espacio de dez annos e mais, seguimdo a opennião ... vontade de João Pomse, mi padre, o qual semdo natural de Frexennal da Sera, leyxadas sus naturaes bamdeyras de Áquila, seguião as quinas de Vosa Alteza, servindo na Imdia, pelejamdo com deramamemto de seu samgue em muitas batalhas e escaramusas, e ao fim foy morto de muitas feridas, defemdemdo a tramqueyra de Malaqua al impyto e forsas dos Daxes (l), em cujas armas fennicio sua vida; eu por imitar suas pisadas e feito o mesmo, servindo a Vosa Alteza temporal e esperituallmente porque, como soldado, e acompanhado suas armadas com o viso-rey Dom Gracia de (1) Nos autores do século xvi encontra-se indistintamente «Dachens» e «Achens», habitantes de Acheh, ao norte da ilha de Samatra. Foram sempre inimigos dos Portugueses e cercaram Malaca algumas vezes. 54
Noronha a Dio (2), comtra os turcos, e com Dom Estevão da Guarna ao Mar Roxo, com Dom João de Castro a Dio comtra os guzarates (3), e no esperitoal, semdo capelão do esprital por espaço de tres annos e symquo mezes, sem me ser paguo alguma cousa do ordennado, de que Vosa Alteza faz merce aos capelames de em todo o tempo os feitores e tezoreyros de Vosa Alteza me despajarão do soldo que, como seu soldado, vemsya e asy me fiquey sem hum nem outro e depois fuy ademetido a viguaria de São João, por ho obispo Dom João de Allbuquerque, em la quall servi symquo annos, bautizamdo muitos amffieis e comvertem- do-os a fe católica com emxemplo, preguasão e doutrina, tiramdo [lhes] de suas casas muitos hydolos e de seus cora- çomes a ido ... o qual a redumdado em gramde serviço de Deus, porque dele ... muitas casas e famelias que vyvem, e nesta cidade fazemdo vida cristana, sem nenhum ramo de erezya, a qual ... fora de seus filhos e desemdentes he arramcado de todo pomto, por ho qual eu dou emffimdas graças e louvores a Noso Senhor, porque me deu graça pera lhe fazer semelhamte serviço em vida de Vosa Alteza, debayxo de sua samta e boa fortunna, do quall todo asy ser verdáde mamdava a Vosa Alteza hum estromemto pubryco, e por o bispo Dom João de Albuquerque me dezer que o anno pasado com // hum saquo de paguodes ou idolos [i *•] que emviara a V. ... os outros annos esprevera todos meus serviços e ... aquy ser verdade e que escuzado eram estro- memtos, provemdo ele, e por yso ho deyxey de mamdar, e de outros muitos serviços que esta cidade tenho feitos, e asy Miguel Vaz, vygario-gerall da Imdia, me dixera que (2) Refere-se à viagem que este governador fez a Dio, já no fim do primeiro cerco. (3) Fala do segundo cerco de Dio, quando D. João de Castro partiu de Goa a auxiliar a cidade. 55
era escuzado estromemto pera Vosa Alteza, porque ao tempo que ele esteve em Lisboa, deu a Vosa Alteza sertos idolos e huma coroa muito ... prida com huns laços e emtomces dixera a Vosa Alteza os serviços que fazya e tinha feitos, e portanto que não era necesario estromemto, e portamto peço a Vosa Alteza que, respeytamdo meus serviços e my pobre faculdad, me fasa merce de me comffirmar a vygua- rarya da dita igreja prepetoa, posto causo que a tennha outro allgum, porque eu quero que seja da mão de Vosa Alteza, porque qua como não he asy, fazem o que querem; e com ela me acrecemte o ordennado que seja iguallmemte como das outras freguezyas, e que me paguem das remdas que se paguão as outras viguarias, e asy mesmo peço a Vosa Alteza que me faça merce da tizoraria da dita igreja toda jumtamemte emcorporada, porque com ysto poderey sostemtar medeannamemte mi presonna, e asy receberey mayor merce e esmola e comselação em fazer-me merce da capelannia de Samto Amtonio ou da Madre de Deus, que he cousa que não se comfforma, se não saam de Vosa Al- teza, porque cada dia quitão nos capelames e pom outros, e por esta rezão me podem a mim meter em nome de Vosa Alteza em quallquer delas, omde me poderey sostem- tar mi pressonna ja acheguada a porto da casa da velhicia; Vosa Alteza me fara symgular caridade e esmola e merce. Noso Senhor acrecemte a vida e saúde e estado de Vosa Alteza por larguos tempos, amem. Feita na cidade de Goa ... Oytubro de 1548 annos ... Antonio Ponce clerecus 56 4 .
15 CONVENTO DOMINICANO EM GOA Goa, 20 de Setembro e 5 de Outubro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, I, 81-58. Mede 209 x 310 mm. Duas folhas, ambas escritas dum lado apenas. Na cidade de Goa, aos 20 dias do mes de Setembro, 0 r.] do ano de 1548, foi perguntado pelo senhor governador1, Garcia de Saa, Afonso Madeira, mestre2 das obras destas partes da Indea, ao qual foi dado juramento dos Santos Avanjelhos, e so cargo delle lhe mandou que decrrarase quanto custaria a fazer o moesteiro, que se queria ora nesta cidade fazer, per mandado del-rei noso senhor, conforme ao debuxo que lhe foi mostrado pera os padres da ordem de São Dominguos; e per elle foi dito e decrrarado que a obra de pedraria custaria a fazer quorenta mil pardaos de ouro, afora a Carpentaria, e que menos o não faria, avendo-o de tomar de enpreitada, e o senhor guovernador mandou de t<5do fazer este asento e que elle o asinase. Testemunhas3 que prezentes estavão: Dom Antonio de Noronha, Francisco de Saa e Antonio Pereira, e eu o licenciado'1 Francisco Alvarez" que o escrevi. (As.) Afonso Madeira6, Amtonio Noronha, Antonio Pesoa, Francisco de Saa, o secretario Francisco Alvarez. Aos cinquo dias de Outubro, ano de 1548, na cidade [2r.] de Goa foi dado juramento por mandado do senhor gover- i — g." ; 2 — m." ; 3 - t." ; 4 — E."* ; 5 - a!»* ; 6 — m.1" 57
nador a Francisco de Resende, mestre dos carpenteiros nesta cidade, e so carguo delle lhe mandou o senhor governador que decrrarase quanto custaria a fazer a obra de Carpentaria do moesteiro de São Domingos, que el-rei noso senhor man- dava que se fezese nesta cidade, conforme o debuxo que lhe foi mostrado, e pelo dito Francisco de Resende que elle, segundo enformação e exame que tomara e fezera, acharia que a dita obra de Carpentaria custaria a fazer vinte mil e oitocentos pardaos, entrando neste custo as grades e ferro- lhos e as mais cousas de ferro, e fazendo-se o corpo da igreja e capella de abobada, custaria vinte e dous mil par- daos, e que menos destas contias não custaria, e que asi o afirmava pelo dito juramento, e o senhor governador man- dou fazer este asento, e que elle o asinase, e Cosme Anes, vedor da fazenda, de sua Alteza, e Rui Gonçalvez7 de Caminha, provedor-mor dos defuntos, o Licenciado Fran- cisco Alvarez o fez em Goa aos 5 de Oitubro de 1548 (1). Francisco de Resende, Cosme Anes, Ruy Gonçallvez de Caminha, o secretario Francisco Alvarez. [av.] Auto que se fez per mandado do governador sobre o que podia custar o moesteiro dos frades domeniquos. (1) Gaspar Correia, falando da construção deste mosteiro, diz que se tez ao pé duma fonte junta a Santa Maria do Monte. (Lendas, IV, 670.) 7 - «la-
CARTA DE FREI ANTÓNIO DO PORTO A EL-REI Baçaim, 7 de Outubro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, I, 81-59■ Mede 205 x 297 mm. São três folhas, duas das quais escritas, algo esburacadas. Caligrafia muito clara. Senhor Noso piadoso Senhor, pola sua grande misericórdia \ queira dar a Vosa Alteza ho que todos pera nossas almas desejamos. Como esta santa obra, pera a qual por Vosa Al- teza fomos a estas terras enviados (1), seja despois de Deus, de Vosa Alteza, necessário he que nos, que nellas somos obreiros, posto que neglijentes, demos a Vosa Alteza conta do negocio, como de cousa sua, que he, pera que, se assi he, a pena da execução delle seja rellevada, com ho prazer do efeito, que ja com ajuda de Deus aparesce, ou ho que eu mais creo, ho gosto da execução seja accrescentado com ho efeito. E isto he ho que me deu atrevimento a esta tão larga escrever, que doutra maneira bem me paresce que fora escusado, asi por nos sermos obreiros, como porque sabemos que Deus deve ser como he o fim de toda boa obra, e muito mais desta; mas pelo sobredito, digo que Vosa Alteza, espirado polo Espiritu Santo, segundo se mos- tra, nos mandou a estas suas terras seis frades pera que, (1) Esta carta de Frei António do Porto parece não deixar dúvidas a respeito do início do seu apostolado nas terras do Norte. (Veja-se a nossa História das Missões do Padroado Português do Oriente. Índia, 1500-1542, págs. 471-472.) i — ms.1 59
mediante nossa fraqua doutrina, estes seus vassallos conhe- cesem a Deus seu creador, e se apartasem do diabo seu e noso imigo, ho qual em lugar de Deus adoravão com outras creaturas. Agora pasa ho negocio desta maneira, que alem de hum nosso companheiro, que juntamente com Miguel Vaz falleceo (2) a nosa chegada, este ano pasado se forão dous nosos companheiros pera Portugal, como Vosa Alteza ja sabera; hos quaes se forão, polios espantarem as cousas desta terra, e terem pera si que era impossível poder-se nella fazer a obra, a que viemos, porque nestas suas terras ha diversas nações de gentes, assi de judeus, que qua se cha- mam chuaariis (3), como de mouros e de gentios, hos quaes todos são tão affe ... nos ritos que ho que se faz christão he tido delles por peor, do que são de nos tidos hos hereges. E porque nos arreceamos que ho espanto de nossos compa- nheiros, por ser grande, que asi como hos fez deixar nossa companhia e esta obra, fizese também a muitos, que a ella folgarião vir, não quererem vir polio que elles dixessem, por esta causa foi Frei Domingos com elles pera que tirasse hos himpedimentos, que daqui podia nascèr, e negociasse ho mais necessário, pera que esta santa obra va avante, com ajuda de Deus. Asi que agora estamos em estas suas terras de Baçaim dous frades, scilicet2 frei Johão de Goa, que he natural (2) Conhecem-se os nomes de cinco religiosos da província de Santa Maria da Piedade enviados por el-rei D. João III a Baçaim em 1546: Frei António do Porto (superior), Frei João de Goa, natural da índia, Frei Peregrino, Frei Diogo e Frei Domingos. Após algum tempo de perma- nência em Baçaim, Frei Peregrino e Frei Diogo abandonaram a missão e regressaram a Portugal. Com receio que as suas impressões desanimassem os confrades em Portugal, Frei António do Porto enviou na mesma armada a Frei Domingos a fim de prestar verídicas informações a respeito daquela cristandade. Há várias referências a estes religiosos no decurso deste volume. (3) Este termo, cujo sentido se adivinha, não se encontra registado no Glossário Luso-Asiático, de Mons. Dalgado. i-u. 6 o
destas terras, e eu, e ao presente temos feito isto — scili- cet— que na povoação da fortaleza de Baçaim temos 50 mo- ços em hum recolhimento // hos quaes ensinamos pera com [■ *•] elles, como com cousa naturall, movermos a seus naturaes e hos tirarmos de sua dureza sobredicta. Estes moços apren- dem bem e sintimos delles serem bem inclinados, e mui dispostos pera o diante fazerem ho pera que se crião; destes se pode aqui fazer hum muito honrrado collegio, donde pode nascer muito proveito pera muitos. A gente da terra sobredita, posto que seja tão affeiçoada a seus custumes que, se quando logo a estas terras viemos, nos parescera que em hum anno podemmos converter 50 pessoas, nos tivéra- mos por ditosos, e tivéramos ho tempo, que parescia per- dido, por bem empregadado, todavia hão-se feito muitos atee gora, maiormente na ilha de Salcete, honde mais acerca deste negocio trabalhamos e temos ja nella huma fermosa e devota irmida, honde todolos domingos e festas vem os christãos a ouvir missa e a doutrina christãa. E nesta ilha ha ja tantos que, posto que folgamos de hos ver serem christãos, nos pesa de hos veer tão necessitados, porque des que se fazem christãos são desemparados de seus pais, parentes e amigos. Ja Miguel Vaz, que Deus tem, deu conta a Vosa Alteza desta necessidade e desemparo, que hos que se convertem, padescem nestas partes e, por esta causa, com rezão, mandou Vosa Alteza que tres mil pardaos, que se despendiam em as misquitas, que se despendessem em a conversão dos ditos christãos; se isto asi se fizera, nam passaramos tantos trabalhos com elles, nem elles tantas misérias, e se converterão mui muitos mais, porque muitos deixão de se fazerem christãos por arescearem ho desem- paro em que ficão. Vosa Alteza foi informado que nas misquitas se despendião tres mil pardaos, hos quais mandou que se despendessem como dicto he; hos que tinhão pouca vontade de fazer isto, dezião que nunqua se dera tal as ditas 6 i
misquitas; nos, por nos parecer que ho que Vosa Alteza mandava era conforme ao serviço de Deus, e muito necessá- rio a esta obra que Vosa Alteza manda fazer, trabalhamos por saber a verdade, mas nunqua se pode saber mais do que Frei Domingos diria a Vossa Alteza. Depois de sua partida me dise hum bramene, que sempre sérvio na feitoria, des que estas terras forão de Vosa Alteza, que era verdade que na feitoria se levavão sempre em conta dous mil e setenta e sete pardaos que se davão aos servidores das misquitas e mais azeite pera as ditas misquitas, donde parece que podião desta maneira chegar aos tres mil pardaos. E dixe-me este bramene, que se quisese saber a verdade, qus buscase em hos livros dos registos da feitoria, e que se acharia huma provisão de Nuno da Cunha, em que mandava que se dessem pera has misquitas e pera hos servidores delias ho gasto necessário, e ha busquey e ho theor delia he ho que vai com esta (4), que nom diz que eram mais que dous mil e setenta e sete pardaos e nom fala em azeite, nem mais outra cousa. Ate agora nem hos tres nem hos dous mil se dão, mas dasse alguma cousa, mas tão pouca que quasi se nom enxergua em hos ditos christãos se são socorridos; verdade he que com as muitas guerras que neste tempo forão, impidirom a isto se nom poder tãobem fazer, como Vosa Alteza man- dou. Se Vosa Alteza mandar que se cumpra ho que tem mandado avera muito fruito e proveito acerca da christan- dade nestas suas terras, e doutra maneira não, por causa do desemparo sobredito, e alem desta necessidade ho vitu- pério e vergonha e desprezo que hos ditos christãos de seus naturaes padescem. Com isto em alguma maneira se reme- diaraa e cesara. (4) Este documento nâo se encontra junto á carta de Frei António do Porto. 6 2
Alem disto, se Vosa Alteza mandar aos governadores e capitães que favoreção esta obra da conversão dos christãos, fazendo elles, aproveitara muito. Ao visorrei Dom Johão de Castro continuas guerras, que teve, não ho deixarão comprir acerca desta obra hos desejos que mostrava teer. E ainda asi me paresce que se nom fora impidido por alguns que isto pouco desejavão, fizera mais muito do que fez. Garcia de Saa (5) nom sabemos ainda agora // ho que [ar] fara, rogaremos a Deus, que lhe dee graça, que ho faça bem. O bispo Dom Joham fez tanto quanto lhe paresce que he necessário e nenhuma cousa lhe requirimos pera esta obra que logo não ha faça comprir; se mais podesse, mais faria. Dom Geronimo de Noronha (6) ao principio nos pareceo que nom fazia quanto podia pera favorecer esta obra mas despois, maiormente des que Frei Domingos se foi, favo- receo muito aos christãos e, a nossos requerimentos, lhes deu muitos favores e lhes fez muitas esmollas e repartio has terras dos pagodes e das misquitas por elles, com as quaes cousas ha miséria dos convertidos era relevada e hos infiéis erão movidos a se converterem, como ho fizerão muitos. Todas as cousas que lhe requirimos nos fez e mandou com- prir todallas provisões que o viso-rei, que Deus aja, aqui mandou, que os bramenes nem outros infiéis fossem lingoas, nem officiais dos capitães e officiaes de Vosa Alteza. Hos pagodes e misquitas, que derribamos com paz e socego e sem alvoroço da gente da terra, por ventura se nom fora sua prudência e boa dissimulação com a gente da terra, que as vezes não lhes sabia bem isto, nom se fizera tão asocega- (5) Governador que sucedeu a D. João de Castro. (6) Era o capitão de Baçaim.
damente, porque em Goa se derribarão com muito alvoroço, sendo nada em comparação dos desta terra. De maneira que ja agora, com sua partida, nos pesa tanto e fiquamos tão desconsolados, quanto todos ficáramos contentes, com elle ficar nestas terras como todos esperávamos, e isto pera ho que compria ao serviço de Deus e nossa consolação. Acerca do negocio de Dio, tenho eu rezão de saber pouco, mas comummente se diz que ho soccorro que foi de Baçaim, assi de gente, como de mantimentos e outras cousas necessárias, e se assi nom fora, que Dio passara muito mal. Simão Botelho, que he aqui veador da fazenda de Vosa Al- teza, tãobem favorece muito aos christãos em ho que pode e a nos, e isto com olhar muito bem em todalas cousas polia fazenda de Vosa Alteza, com nom escandalizar ninguém, que he cousa muito de louvar; e isto com descubrir muitas cousas que nunqua forão descubertas, has quaes andavão sonegadas e todas has meteo em as rendas de Vosa Alteza, has quaes elle folga muito de acrescentar. Quando nos começamos de derribar as mesquitas e pago- des (7), hos que com isto nom folgavão, dizião que, por esta causa, se avião de diminuir has rendas de Vosa Alteza. Quis Nosso Senhor que todas as rendas crecerão muito mais do que forão os annos passados e quererá Nosso Senhor que assi sera cada anno mais. Escrevo isto a Vosa Alteza porque sabemos que folga com hos que folgão com as cousas de serviço de Deus. De Baçaim aos 7 de Outubro de 1548. (7) Cumpriam-se assim à risca as instruções trazidas pelo P.c Miguel Vaz de Lisboa. 64
Com outra letra o período seguinte: Que Sua Alteza folgou com estas novas e que sempre as escreva e ao governador delas e anima-lo e se de y carta ao capitam. Indino orador de Vosa Alteza [» ▼•] Frei Antonio3 do Porto5. Pera elrrey Nosso Senhor. 2." Via 3 — Ant.# ; 4 — p.1® Doe. Padroado, rv - 5
17 CRISTANDADE DE GOA Goa, 13 de Outubro de 1548 Documento existente no ANTT:—CC, l, 81-62. Mede 197x297 mm. Soo quatro folhas, mas três apenas escritas. Em bom estado. C' N Senhor Não ey de alegar esta por serviço a Vosa Alteza, pois he comciencia deixar de o fazer, quamto mais he, Senhor, obrigação devida ha tão allto e eicelente, poderoso príncipe e rey noso senhor e eu, como soldado de Vosa Alteza, que nestas partes vos sirvo ha trimta annos (l), porque vim na era de dezoito, e de qua tenho muita yspiriencia, porque vi e vejo muitas cousas que deixar de escrever a Vosa Alteza, allgumas faria que não devo conforme ao que hacima digo, e o que nesta falecer suprirey em huma que escrevo ao comde de Vimyoso e se no ystillo erar, peço reall perdão a Vosa Alteza, porque vos sey mylhor servir do que sey falar. Levou Deus Dom Joam de Castro depois de receber a merce e homrra que lhe Vosa Allteza fez de viso rey; foi muyto bom christão e, segundo o que gerallmente qua todos sabemos de sua vida e vertudes, sua allma estara no paraíso, e asy o afirma o padre Mestre Francisco, homem samto [i v.] que em pullpito diz cousas que vemos // serem revelações; este padre o acompanhou sempre ate ora de seu faleci- (1) Chama-se Tomé Lobo o autor desta carta. Nas Lendas, de Gaspar Correia, II, 771, encontra-se menção dum Tomé Lobo que naufragou ao pé de Malaca em 1523. 66
mento, e quamdo os mouros souberão como ho viso-rey era falecido fizerão gramdes festas em todallas terras do Ydallcão, tanto sentião sua vida. E nos todos fizemos gramdes nojos e sentimentos, pelo desamparo que teremos do serviço que cada hum dos que servimos temos feito a Vosa Alteza, alem da perdaa que compadeceo agora e sem- pre voso serviço nestas partes, sempre amou castidade e prezava-se de ser pobre e asaz de pobre faleceo; duas cousas são estas bem pertemcentes pera a índia. Sebera Vosa Allteza que a Imdia he mor emperio que ha no mundo, e muyto desejado, primcipallmente do Grão- -Turco que tem jemte e gramde allmazem em Adem e fortaleza em Baçora. Esta he pera mais sentir pollo perjuizo de Aramuz, que he de Vosa Alteza, e por ser perto e todos mouros ja avera amtre elles moverem treição. Ha rezão, Senhor, que foi virem qua os Rumes e amdarem tão solltos pollo estreyto de Mequa foi deixarem de ir ao mesmo estreyto as armadas de Vosa Alteza, porque as fortalezas todas são muito segu- ras pera a gente de terra, o que não sam pera os Rumes, como se.ja vio na milhor que he Dio, omde o allto Deus claramente mostrou ho amor que vos tem. Asy que he que esta gente mais sente he o grão poder e força das armadas de Vosa Alteza que sempre avia no mar, as quaes halimpa- vão ho mar e fazião tremer a terra, e coria ha fama por toda a mourisma e, alem de tamanho bem e tam necesario, amdavão sempre os homens juntos, e com menos paga do que agora se lhes faz eram contentes, e Vosa Alteza milhor servido, e vosas allmazens, casas, e gales cheas de escravos; o que hagora disto não ha nada sabe-Io-ão os oficiais daquele tempo, e quamdo se da primeira vez lançaram os Rumes fora, mais se ajudou o viso-rei dom Gracia de Noronha da armada que do outro poder, porque nam ousarão de o agardar. 67
Os galeões da Vosa Allteza seria bom que, quamdo nam ouvese armada, ystivesem varados e cubertos, e não na careira de Choromamdell, omde todo ho proveito he dos capitais delles e nenhum de Vosa Alteza, como se pode saber, nem tão pouco hirem a Maluco como vão; e com [a r.] elles // também na Ribeira caravellas e galles pera, quamdo comprise, aver armada certa, boa e soo pera defemdermos a entrada dos Rumes e os destroisemos, porque tem Vosa Alteza nestas partes solidados tam cavaleiros e vomtade pera yso fazermos com tamta lealldade e amor vos servimos e gastarmos nosas fazemdas quamdo cumpre. Dizem qua os veadores da fazemda de Vosa Alteza que vos servem no gasto que encurtão de que se seja afazer, avião de oulhar o perjuizo, e quanto emporta o voso serviço, porque o gasto nestas partes ha-de ser allgum tanto dema- syado, com tall que seja convertido no mister da cousa, pera que se depois ha mister e se ache que delles oulhasem, ysto como querem estam os allmazes e mantimentos e ha Ribeira sem nenhum provimento, e, quamdo nestes lugares seja mister, compra-se tudo a peso de dinheiro. A rezão que pera yso dão os veadores da fazenda qua, que os oficiais de Vosa Alteza gastão sem nenhuma ordem, e como querem e quamdo querem; ysto bem poderá ser pelo que nelles vejo, mas pois sera, Senhor, milhor aventurarem amtes as vonta- des e desordem dos hoficiais, que não pode ser tamto que muito mais se nam perca na compra, que se faz na necesy- dade, que esta muito certa como vimos por vezes, e crea Vosa Alteza que estes mouros são tam descretos na malícia, que tem nesta cidade de Goa bramenes que meudamente lhe dão comta de tudo, e porque elles vem o descuydo do em que tanto vay, faz-lhes gramdes corações. Lembre-se Vosa Allteza quanto e vai a voso serviço não se governar a índia por tres annos, quanto mais que ha muito tempo que se governou bem de vezes por dous, 68
porque haimda que queira como todos desejão de servir Vosa Alteza, não ho podem fazer, e nam semdo asy todos ho compadicemos porque ho contentamento de vosos vasallos não esta em mais que ser Vosa Alteza bem servido, porque em tres annos mail pode o voso governador emtem- der em Maluco, nem bem em Malaca, como cumpre e he rezão, que são fortalezas lomgue, e vão a ellas com monções, afora outras partes muito mais longe, domde Vosa Alteza nam tem fortalezas, como he na China e Japão agora des- cuberto, e Sião, Patane, Çumda, todas estas são de trato pera China, em grão maneira meneadas e mandadas por nosos capitãis de Malaca, afora Pegu e Bengalla, e toda a costa de Caramandell // omde amda a quarta parte da [j v-J gente que do reino trouxe solido de Vosa Alteza, e pode ser que muitos o vencerão segundo amda arrecadada a matricolla em poder de moços, asy que pelo tempo ser pouco nam faz mais ho governador que ho primeiro ano ordena, como lhe bem parece, e no segumdo manda, e no terceyro tem asaz trabalho de temperar agravos e de se em- barcar, e por esta rezão nam pode fazer o que deseja. E crea Vosa Alteza que em Maluco e em Malaca convém muito saber o que fazem vosos capitães, porque no ganhar e escam- dalizar ha naturais e estramgeyros fazem cousas que o diabo não fara, e com tudo vão avante, nem dão resydencia como Vosa Alteza manda, que todos se negoceão por rezão que cada hum a-de vir ao mesmo, e os ouvidores neste caso fazem o que querem, e que menos sera pois também estão asaz compremdidos e tratão como querem, e vivem como querem. Gramde serviço a Deus se faz qua nestas partes em todas estas religiões, e primcipallmente na Ordem de Jesus por estes apostollos, porque nos fazem em estremo bons cristãos, pera o que éramos, de que Vosa Alteza deve ter gramde contentamento; todo o ano sempre em sua casa de 69
São Paullo ha comfesar e comungar muita gente, e quamdo ho padre Mestre Francisco1 aquy esta, pregação sempre de gramde doutrina, e sempre amda fazendo amyzades, e não consente odios, por omde se ja deixou de fazer gramdes malles e nysto gastão seu tempo. São todos muyto vertuosos e de gramde humildade; por mysa nem cousa que fação não levão dinheiro, nem no tomão na mão, porque dizem que são abastados das gramdes esmolas e merces que lhe Vosa Alteza mamda fazer; ho padre Mestre Francisco sem- pre amda buscamdo trabalhos, omde receba martírio por terras estranhas, e agora diz que quer ir a Japão e, segumdo dizem, fara gramde fruyto e serviço ao allto Deus; leva consigo hum homem que por mistério veo ter a Malaca (2), omde achou o padre Mestre Francisco, quamdo vinha de Maluco, e logo ho prendeo no amor de Deus, que se fez cristão elle e seus criados, os quaes deu a casa de Sam Paullo e sabe ler e escrever, de modo que em todo auto de bom [3 r.] // cristão esta alumiado pelo Esprito Santo. Ha maneira como este japão de sua terra veo, escrevo ao comde e aqui não por ser largo, e crea Vosa Alteza que foy ordenado de cima pêra o seu samto nome e fee ser exallçada, e em reinos tão estranhos Vosa Alteza obedecido e com muito amor servido. Com a vinda do padre Antonio Gomez da mesma ordem, nos temos com ausência do padre Mestre Francisco outra mor consollação pera nosas allmas, senão elle prega com tanto fervor que as pedras se lhe abrandarão, quanto mais corações de cristãos. Tem feito, depois que veo, grandes cousas, e ao presente se fez cristão Lucuy, homem da terra, dos primcipais, com sua molher e filho. Certiffico a Vosa (2) Refere-se ao japonês Anjiro, companheiro de Xavier. r—fr." 7°
Alteza que, alem do fruyto que estes padres todos fazem tãobem em suas pregações, avisão vosos capitães e oficiaes que façam o que devem em seus cargos, per maneyra que delles he Vosa Alteza bem servido. Estes homens vivem como fallão, e fazem o que dizem, e por elles se pode dizer que são sail da terra. Nesta cidade tem Vosa Alteza huma casa de contos, omde ha muytos contadores, com seus escrivães, e porem quamdo Manoell de Mirgulhão entrou nella achou pasante de mill e quinhentos comtos por tomar, e eu lho ouvi, e dos que não deram comta allguns estão no reino bem de asento e outros falecidos ja; culpa disto nam sey quem ha tem, mas afirmo que he perda da fazenda de Vosa Alteza, e que se nam confesam quem o tall faz aos padres de São Paullo, porque não tem de ver com nada, nem recebem desculpa senam quem dever que pague. Ao presente estão certas cousas tomadas a feitores, e ficão devemdo tanto dinheiro a Vosa Alteza que fora mylhor pagarem do que pedello emprestado ho governador, pera fazer armada ou pera a carga de pimenta, e neste caso me parece voso serviço yrem ao reino dar conta, damdo-lhe qua primeiro balanço, e pagarem o que deverem os feitores, ho de Malaca e o de Cochy, e o de Goa, e ho de Baçaym, e o de Dio e Aramuz, com os mesmos tesoureyros destas fortalezas e asy o entemdo ser bem. // De meus serviços não direy nada a Vosa Alteza, porque estou lomge; os governadores, que la são, e de qua escre- vem, fydallgos e cavaleiros e podrão dizer, Senhor, a Vosa Alteza e o viso-rey, que Deus tem, o terá esprito no tempo que com elle vos servi, o que fiz e omde me achey ao dar da batalha de Sallsete e na ida de Pomda, de modo que em serviço de Vosa Alteza tenho em meu corpo recebido muytas feridas de mouros, e huma de que sempre qua serey descontente ate me não apresentar em giolhos aos pees de 7 7
Vosa Alteza, e como me vir day por diante serei muito ale- gre e satisfeito, confiamdo na esencia reall de Vosa Alteza fazer-me homrra e merce, pois Deus me fez esmolla sem nenhum voso cargo nunqua servir, com a quall sempre ey-de servir Vosa Alteza e em voso serviço desejo de acabar, e halem de sempre por mynha pesoa2 nos trabalhos da guerra, e ser dos dianteiros pera a quall sempre sou man- dado, também, Senhor, com empréstimos servo Vosa Alteza, como dira Marty Afomso3 de Sousa, que lhe emprestey, sendo elle qua capitão do mar, vimte e oyto marcos de ouro, pera carga da pimenta de Vosa Alteza, e outras vezes em Malaca a Dom Estevão da Gama, sendo elle capitão, lhe emprestey muito dinheiro; elle o dira ou Francisco Bocarro, que era feitor naquele tempo e la esta no reino. Noso Senhor Deus acrecente os dias com larga vida e saúde e o estado de Vosa Allteza com aquelle contentamento que vos desejaes e todos desejamos, amen. Desta cidade de Goa de Vosa Alteza, oje treze dias do mes de Oitubro de mill e quynhentos e corenta e oito anos. Tome Lobo. 7 2 2 - p> ; 3 — a.'
18 CARTA DE XAVIER AO PADRE FRANCISCO HENRIQUES Punicale - Cochim, 22 Outubro de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 465-468. Yhus. A graça e amor de Christo Nosso Senhor seja sempre cm nossa ajuda e favor. Amen Deus Nosso Senhor sabe quanto eu mais ffolgara de vos ver que sprever, e de me consollar com vossos trabalhos, todos tomados por amor e serviço de Deus Nosso Senhor: que com as consolações dos que levão vida descamsada por se lograrem dos deleytes do mundo, destes hé pera haver gramde compaixão; e dos outros, de quem San Paullo dezia. quibus mundus non erat dignus, he pera aver grande inveja. Lá mando a Balltazar Nunez pera que estej [a] nese regno de Travancor pera vos ajudar em vossos trabalhos, e consolar-vos nelles, esperamdo ho premio verdadeiro de Deus Nosso Senhor. Eu me parto pera Guoa pera favorecer estes christãos sobre hum negocio, o quall spero em Deus que virá a lume e será causa que muitos se fação christãos; emcomendai-o a Deus, rogando-lhe que, ainda que nossos peccados sejão grandes, e não sejamos merecedores de ser- mos instrumentos de tamto serviço seu, que el [e] por sua [bonda] de emfimda e amor sem fim se queira servir de nós pera acresemtamento de sua sancta fee. Ho Padre Anto- nio (1) vos hirá ver em brebe; e se vos achardes doemte do (1) P.e António Criminal, superior das missões da Costa da Pescaria. 73
corpo, e que lá domde estais não podeys trabalhar, fareys ho que ho Padre vos dixer aserqua de vossa estada em estas partes ô ir à India a vos ffazer curar em Goa. De Duarte, se não tiverdes nesecidade delle, mandai-o ao Padre Antonio. Nem vos descomsoleis em ver que não fazeis tamto fructo com eses christãos como desejais, por serem elles dados a idollatryas, e ell-rei ser comtra os que se fazem christãos; e oulhai que mais fíructo fazeis do que cuidais em dar vida spiritual às crianças que nacem, baptizando-as com muita delligemtia e cuidado, como fazeis; porque se bem oulhais, hachareis que poucos vão da índia ao paraisso, asi brancos como pretos, senão os que mor [r] em em estado de inocentia, como são os que morrem de 14 anos pêra baixo. Oulhai, Irmão meu Ffrrancisco Amriquez, que fazeis nese regno de Travancor mays ffructo do que cuidais; e oulhai, depois que vós estays nese regno, quantas crianças baptisadas são mortas e estão aguora na gloria do paraisso, as quaes não gosarão de Deus se vós lá não estiverês! E o immigo da humana natureza vos tem muito avorecimento, e vos deseja ver fora dahi, porque dese regno de Travancor nam vá ninguém ao paraisso. Costume hé do diabo repre- sentar maiores serviços de Deus aos que servem a Jesu Christo, e isto com maa emtemção, pera desimquietar e desasosegar huma allma que está em parte domde faz ser- viço a Deus, pera o tirar e lamçar da terra, em a quall faz serviço a Deus: e temo-me que o inimigo en esta parte vos combate, damdo-vos muitos trabalhos e descomsolaçõis pera vos botar fora dahi. E oulhai que despois que estais nesta Costa, que podem ser oito mezes, que salvastes mays allmas baptizando criamças, que depois de baptisadas são mortas, mais das que salivastes em Portugal nem de Coullão pera llá; e se em tão pouco tempo mais allmas salivastes nesta Costa das que salivastes antes que a ella viesês, não vos 74
espanteis o inimigo dar-vos muitas turbações pera vos lam- çar fora desa terra donde não fasays tamto ffructo como hai. Ho Padre Cipriano e Morais os mandei à ilha de Saco- torá, domde ai muitos christãos, domde não ai Padre nem ningem que os baptÍ2e. Os Padres que este ano vierão do Regno, spero cada dia por elles que am de vir a estas partes, por [que] asi lhes mandei que viecem quando de Guoa me parti pera estas partes; e elles trarão novas de Antonio Gomez se hé che- gada a naao em que elle vinha com seus companheiros, por- que à minha partida de Goa ainda não era chegada. Nosso Senhor vos dei muita saúde e vida pera seu sancto serviço, e despois desta vida acabada, vos leve à gloria do paraisso. De Punicalle a XXII de Outubro de 1548 annos. Depois que viemos de llá. [Manu Xaverii:~\ Vosso Hyrmão en Christo, Francisco. 75
19 DOTAÇÃO DO COLÉGIO DE S. PAULO Lisboa, 22 de Outubro de 1548 Documenta Indica, I, 275-276. Eu El-Rey faço saber a quantos este meu alvará virem que eu passey huma minha carta a 8 de Março do anno de 546, por que ouve por bem de pera sempre mandar dar em cada hum anno ao collegio da Conversão de Sam Paulo, que he feito na cidade de Goa nas partes da índia, oito- centos mil reis pera as despesas do dito collegio; e porque ora são informado que lá ouve duvida se se entendião os ditos oitocentos mil reis alem das rendas que o dito collegio tem das casas que forão paguodes dos gentios, ou se avia de entrar nesta conthia as ditas rendas: declaro que minha tenção he que o dito collegio aja pera sempre os ditos oito- centos mil reis em cada hum anno à custa de minha fazenda, e isto alem das ditas rendas que assy tem das ditas casas que forão pagodes, os quaes oitocentos mil reis ey por bem que sejão pagos pela maneira contheuda na dita carta ao Reitor do dito collegio des o tempo que per virtude delia os ouvera d aver em diante. Notifico-o assy ao meu Viso- -Rey nas ditas partes (l), e a qualquer outro meu Gover- nador que ao diante for, e lhes mando que cumprão e fação inteiramente cumprir e guardar este alvará como se nelle conthem, o qual quero que valha, e tenha força e vigor como se fosse carta feita em meu nome, e passada pela minha chancellaria, sem embarço da ordenação do segundo livro, (I) Refere-se, evidentemente, a D. João de Castro que falecera em Junho. Ignorava-se, porém, esta notícia em Lisboa. 76
que diz que as cousas cujo effeito ouver de durar mais de hum anno passem per cartas, e passando per alvarás não valhão, e isto mesmo se cumprirá, posto que não passe pela chancellaria, sem embargo da ordenação do dito 2 livro que dispõe o contrario. Jeronimo Correa o fez em Lisboa a 22 de Outubro de 1548. E do theor deste se passou outro pera hir per outra via. Eu Manoel de Moura o fiz escrever (2). [Rey.] (2) Compare-se esta cópia com a que se encontra no APO, V, 212. 77
20 MORTE DO VICE-REI D. JOÃO DE CASTRO Cochim, 22 de Outubro de 1548 Epistolae S. Francisci Xaverii, I, 470-473 (1). Senhor Estamdo ho viso-rey Dom Joam de Castro pera falecer, nos dise a nós todos quatro, Mestre Pedro vigairo gerall (2)' frey Antonio (3) custodio, Mestre Francisco da Companhia de Jesu, frei Joam de Vila de Conde, de palavra, que fizésse- mos esta carta a V. A. em que lhe fizéssemos as lembranças seguintes em seu nome, por elle já estar em tempo pera ho nom poder fazer: Primeiramente lembrava hos grandes e muitos serviços que fez Manoell de Sousa de Sepulveda a V.A. na batalha de Dio e no fazer da fortaleza, honde deu mesa a muitos homens e teve cargo de fazer ho baluarte de São Tomé, honde levou muito trabalho; e asi em todas as outras arma- das ho ajudou muito e acompanhou; pello que pedia a V. A. que aja por seu serviço de lhe fazer muita mercê. E se V. A. tomou algum desprazer delle por nom aceitar a fortaleza de Dio que lhe pedia, pella hora em que estava lhe per- do [a] sse. E asi nos emcomendou Francisco da Cunha que ho lem- brássemos a V.A. o quall também sérvio muito bem em Dio, assi na batalha como no fazer das hobras da fortaleza, ?.°rJ?inaI d«*e demento encontra-se no ANTT: - CC, I, 81-66. (2) P. Mestre Pedro Fernandes Sardinha. (3) P.e Frei António do Casal. 78
e deu de comer a muitos homens, e proveo muitos doentes; e despois de Deus elle foy grande meo por honde muitos homens convalecerão de graves enfirmidades. E lhe pedia por aquella hora em que estava que lhe perdoasse, se delle tomara allgum desprazer por nom tomar a fortaleza de Dio. E assim nos dise que encomendássemos a V. A. Dom Francisco de Lima e Vasquo da Cunha, que também ho ajudarão muito e acompanharão en seus trabalhos, e Dom Francisco ho acompanhou sempre com muito amor e esteve sempre com elle até hora da morte. Tamben nos dise que emcomendassemos a V. A. Dom Dioguo d'Almeida, capitão de Goa, o quall ho ajudou sempre com muita diligencia nestas guerras das terras firmes e sempre nellas foy dos dianteiros. E também nos dise que lembrássemos a V. A. em como Antonio Pessoa ho ajudara muito nesta armada que se fez pera Dio, e em todas as outras, com muita diligencia; e que por esta rezam lhe tinha feito mercê, em nome de V. A. de humas aldeas nas terras de Baçaim, de que paga o foro hordfnario, pedindo-lhe que aja por seu serviço de lhas confirmar. Item nos dise e encomendou muyto com grande efiquacia ho mesmo dia que faleceo, que de sua parte pedíssemos a V. A. que, por amor de Deus e pella hora em que estava, pordoase [a] Amrique de Sousa Chichorro, avendo res- peito a elle estar prove, e casar com molher horfãa e muito prove. E por todas estas cousas nos dizer e passar na verdade e por descarrego de nossas conciencias e conso- lação d alma do defunto assinamos aquy todos quatro. Oje 22 dias d'Outubro de 1548. 79
[Subscriptiories autographae:~\ Petrus Fernandus Ffrrey Amtonio do Cassai custos Francisco Frei Joham de Villa de Conde [ar.) Inseriptio manu scribae: Pera Ell-Rey nosso senhor. De Mestre Pedro vigairo gerall, e de frey Antonio do Cas- sall custodio, e de Mestre Francisco e de frey Joam de Vila de Conde. 2 via. Manet cera sigilli. S o
21 CARTA DE D. JO AO HENRIQUES A EL-REI Goa, 27 de Outubro de 1548 Documento existente no ANTT: — CG, I, 81-68. Mede 216 x 315 mm. Duas folhas em bom estado. Senhor ['r-J O carreguo em que me Vosa Alteza emcarreguou tras comsiguo hobryguação de lhe dar comta de algumas cousas que se offerecerão na viagem e o mesmo farey de outras desta terra, as que me parecerem mais seu serviço fazer-lhe lembrança delas; posto que ao guovernador seja mais anexa faze-lo ha mesma hobriguação, cabe em todos hos que somos criados e vasalos de Vosa Alteza (l). Ha seis dias pasados de Abril, semdo abarcado com a costa de Berberia, por respeyto dos ventos escasos que achey no mar, me remdeo o masto do trequete e jumtamente com iso fazia muita aguoa; com estas duas causas começou de querer aver deshasoceguo na gente; na do mar mais, que me foy neceçario com ameaças e palavras torna-los ha soce- guar; mamdey ho piloto e mestre e asy aos mais officiaes da nao e outras pesoas com juramento que lhe dey, que se tornasem a certefíicar se era ho masto quebrado; todos me diserão que ho era, por ser a vista das duas naos que levava em minha companhia, mandey fazer hos sinais que Vosa Alteza mamdava em seu regimento. (1) D. João Henriques conta a sua viagem a el-rei. Foi um dos capi- tães que partiram para a índia em 1548. Comandava a nau «Esfera». Já tinha estado na índia. (Correia, Lendas, IV, 677.) 8 I Doe. Padroado, iv - 6
Amtonio de Azambuja, capitão de «Frol de la Mar», arribou a mim, e «Atouguia» ho não quis fazer, de que eu tinha mais nececidade, nem por hum recado que lhe mam- dey, por levar emtenas com que me poderá arremedear. Quando me asy vy desemparado de anbas has naos, como se fora a nao de Vosa Alteza de turquos, não se poderá mais fugir dela do que fez Fernão de Alvarez da Cunha, poderá ser outro periguo maior e perecerem quatrocemtas e tamtas almas, por falta de não arribar a mim; me fui com pouca vela ate costa de Guine, onde me remedeey duma emtena que levava, de que se fezerão duas someas com que o masto ficou seguro. Dahy por diante fuy com toda a vela e sempre com bom tempo, prove a Deus que a dous [i v.] // grãos da linha, da banda do Norte, me derão hos geraes ate ser em altura de vimtoito, omde tive alguns dias de pano com vemto sul e, nesta altura, deu huma imffermidade em toda a gente, de grandes dores de olhos, que não escaparão dez pesoas; milhor remedio que se lhe achou, erão samgrias, diso não morreo nimguem. Semdo ha seys amdados de Julho, estando recolhido na minha camara, no quarto da prima, foy ter comigo Dom Manoel Telo e me dixe que dous criados seus lhe descobrirão naquela ora que hum Dioguo Ramires, caste- lhano, hos cometera de pecado de sodomia, e por ser cousa tão abominável ante Deus, mety a mão niso buscando as raises, com detreminação de has tirar, e judicialmente pro- cesey tanto no caso por imquirições, preguntas e outras deligemcias neceçarias, que mandey fazer, comfforme as leys e ordenação de Vosa Alteza, e por me constar do caso total- mente, ho condeney ha morte natural, tomando primeiro ho parecer dos fidalguos e cavaleiros, padres (2) e officiaes (2) Nesta armada vieram alguns dominicanos. (Correia, Lendas, IV, 667.) 82
da nao, comfformados com has culpas, e comffição do pro- prio agresor, e alguns menores que achey comffiscados no caso, também lhe dey o castiguo moderadamente, como me Deus inspirou e como Vosa Alteza pode mandar ver no livro da Casa da Imdia omde tudo mandey escrever, e ho primcipal se fez nele emxucução e morreo bom cristão. Antes de cheguar ha Moçambique, se deytou ho esquiffe fora, e nele mandey Diogo 1 de Miranda, sobrinho de Anto- nio de Miranda, com alguns homens que lhe dey, ha saber da terra como estava, e nisto quis que começase a servir Vosa Alteza, parece-me segundo2 he bem acustumado em tudo arremedara seu tio. Ha oito amdados de Aguosto, cheguey a Moçambique; aos doze party pera ha Imdia; cheguey ha barra de Guoa a vimte quatro de Setembro2, omde achey nova da morte do viso-rey, que Deus aja, e pela comjunção da terra e tempo, semty que foy mui grão perda pera ho serviço de Vosa Alteza. Tanto que desembarquey fui ter com ho guovernador Guarcia de Saa, e lhe dey ha via de Vosa Alteza, que foy a primeira das naos por a «Gualega» ha este tempo não ser cheguada, e jumtamente lhe entreguey ho lyvro da nao. Toda harmada, Deus seja louvado, veio ha salvamento, e na viagem, por vir tarde, me não morrerão mais de tres pesoas; das novas, ha Vosa Alteza, desta terra e estado e desposição dela, ho guovernador, a quem mais pertence ho fara, asy das pazes que jaa tem feito com ho Idalquão, e el-rey de Cambaya, como das mais de toda a Imdia; soomente lhe trarey a memoria que hemquanto ha jurdição de Dio estiver pelos mouros, não avera aseceguo neles; dos turquos ha nova que estão em Baçora com dous cubelos feitos e que em Çues tem gramde armada. Adem esteve por Vosa Alteza alguns dias, e Dom Paio demtro nela, com a nova que teve do socorro dizem que se sahio, imdo jaa Dom Alvaro per i — di.' ; 2 — seg.*; 3 — sclr.* *3
caminhe com trimta velas. Amtes de cheguar, lhe derão novas como erão jaa outra vez hos turquos de pose dela, polo qual se tornou; bem ordenava Deus não estarem tão vizinhos, se ha cousa viera ha lume, parece que poios peca- dos da gemte que Vosa Alteza tras nesta terra, se tornou ha perder; e por me parecer seu serviço lhe faço lenbrança que huma das cousas que lhe he mais neceçario nestas partes aver mesas pera ha gente de guerra, desta maneira escusarão muito emcomvenientes que socedem polas não aver, que amdão polas portas de dia e de noite, pedimdo por amor de Deus, e, se por aquy acabarem, seria menos mal; vão-se pera hos mouros, por lhe darem soldos, e hos deixarem viver em sua liberdade, ho que não seria se tivesem que comer; se lhe paguão soldo e mantimemto, joguam-no e [2 r.] depois tomão por remedio // ho que jaa diguo. Huma obra de misericórdia se avia de prover sobre hos criados de Vosa Alteza, fidalguos pobres he outras pesoas que, por não terem dihneiros4, que dar ha fisiquos nem ha boticas, morrem ao desemparo, ho que não seria se hos obriguados as fortalezas hos visitasem em suas casas, sem nenhum interese, e pois esta conta se tem com a gemte de menos obrigação, também se avia de ter com ha de mais. Ho derradeiro de Setembro matarão Luis Falquão (3), estando por capitão na fortaleza de Dio de huma espim- guarda, em sua casa, no quarto da prima; se este emxempro pasa sem castigo, pode Vosa Alteza crer que os capitaes (3) A morte de Luís Falcão, capitão de Dio, foi muito comentada na índia, pois não se chegou a descobrir o assassino. Discreteando a respeito desta morte, diz Gaspar Correia (Lendas, IV, 668): «E assy pagou Luiz Falcão muytas enjurias que tinha feytas a muytos homens em Ormuz e em Dio, e foy elle mais mofino, que achou quem o matasse...» •I — dr.** 84
am-de ser menos seguros de sua gente de armas, que dos imffieis. Eu espero em Deus que Vosa Alteza veja cam bem enpreguou a merce que me fez na vagante de todos hos providos dela. Deus acrecemte a vida e real estado de Vosa Alteza. De Guoa, a vimte sete de Outubro de 548. Beijo as reaes mãos de Vosa Alteza Dom Joam5 Anrriquez. 5 — J.* «5
22 CARTA DO PADRE HENRIQUE HENRIQUES AOS PADRES INÁCIO DE LOYOLA E SIMÃO RODRIGUES COM NOTICIAS DA INDIA Vembar, 31 de Outubro de 1548 Documenta Indica, 1, 279-300. Gratia Domini Nostri Iesu Christi sit semper nobiscum. Amen. El Pe. M. Francisco me mandó que escreviesse a V. R. y al Pe. M. Simón, y a todos los da Companía de Jesús largamente las cosas desta Costa donde andamos: en la qual al presente estamos el Pe. Antonio Criminal, y el P. Cipriano, y el Pe. Francisco Enrríquez y yo, que somos clérigos de missa. Andan tanbién tres Padres de missa de la tierra (l), y tres Hermanos nuestros legos, scilicet, Ma- nuel de Morales, Baltazar Núnéz y Adán Francisco. Tiene cada uno de los Padres y Hermanos cuydado de muchos lugares, per sermos poços y los lugares muchos. Y primeramente le quiero dar cuenta del Pe. M. Fran- cisco para dar muchas gracias a Dios N. S., y así todos los de la Companía, porque aquel dicho de S. Pablo «omnibus omnia factus sum ut omnes lucrifacerem» (2) (que com- pete mucho a nuestra Companía) él, quanto puede y supra quam dici potest, trabaja de lo cumplir. No podré yo por pena escrevir a V. R. la fama que el P. M. Francisco tiene en la índia, de que se sige mucho fructo y loor a Dios N. S. (1) Um era o P.c Francisco Coelho; os outros deviam ser Gaspar e Manuel que trabalhavam na Pescaria havia bastantes anos. (2) Palavras de S. Paulo na primeira carta aos Coríntios, 9-22. 86
Toda la gente tiene al Padre por hombre sancto. No está en lugar a do no tenga siempre occupaciones demasiadas, y tanto que se tiene por ditose él que le puede hablar. Está en todas estas partes por una grande lumbre y exem- plo, de lo que cierto tienen todos los Padres de la Com- panía mucha obligación de continuadamente dar gracias a Dio [s] N. S. por el crédito que todos dél tienen, y por el mucho fructo que N. S. por él haze; y porque de los que de ca de la India van para 11a se pueden saber nuevas dei Padre, no me alargo más en esta. El Pe. Antonio Criminal en esta Costa dei Cabo de Comorín adonde estamos, es nuestro superior, elegido por todos nos y aprobado por el Pe. M. Francisco, por ser muy idonio para ello, cuya vida, cierto, es de muy gran exemplo y sanctidad a nosotros y a los portugeses y a toda la gente de la tierra. Tiene cuydado de correr continuamente toda la Costa, que es muy larga, y visitar todos los Padres y Hermanos y christianos. Tiene siempre muy grandes tra- bajos. Nunca Cansa, porque quien lo inspiro en esta sancta Companía, le da grandes fuerças corporales y spirituales para poder suplir y hazer quanto haze. Deprendió a escrevir yTeer esta lengua, que es muy trabajosa; entiende mucha delia y habla muchas cosas. El Pe. Francisco Anrríquez y Baltazar Núnez están mu- cho lexos donde yo estoy; por esso no escrivo dellos menu- damente, solamente que tienen cuydado de muchos lugares de christianos, dando cada uno dellos mucho exemplo de si, como se espera. El Pe. Cipiriano, aunque es viejo, trabaja como mancebo, porque lo mucho que ha para hazer y sermos poços, da ânimo a los flacos y viejos, y haze tirar de flaqueza fuerças para acudir a tantas necessidades spirituales. El Pe. M. Fran- cisco está en mandarlo a Socotora, muy lexos desta costa, adonde me parece que terná cuydado de tres Hermanos 87
nuestros que con él han de ir a fructificar en aquella tierra, por la mucha necessidad que en aquellas partes ay. Y Ma- nuel de Morales ha de ser uno de los companeros, el qual, Dios sea loado, tiene trabajado muy bien y dado de si buen exemplo. Quando Iuego vino a esta Costa, estuvo muchos meses en una cierta parte delia, adonde tenia cuydado de muchos lugares, adonde siempre trabajava mucho. Mudólo después el Pe. Antonio para otra parte de la Costa, donde dantes andava un hombre como hermitano serviendo a Dios, y en absencia dél fué el Hermano Manuel de Morales estar en aquel lugar; donde me escrevió una carta que se hallava algo mal dispuesto, y le parecia ser la causa que el tiempo atrás tenia cuydado de muchos lugares y tenia mucho que hazer, y por allí no tener tanto que hazer, estava doliente. Sepa V. R. que da nuestro Senor acá mucho gusto y Con- solación en los trabajos, tanto que vix potest dici, de manera que quantos más trabajos y ocupaciones, tanto más fuerças da el Senor así spiritua [1} es como corporales, quando hombre no se descuyda de sus misérias, y de tomar un poco de tiempo cada dia y cada noche para examinar sus flaquezas, y conocer su vileza para pedir misericórdia a Dios N. S., y contempla un poco en su infinita bondad para se mover a lo servir más. Las consolaciones son acá tantas a los que de veras buscan a Dios N. S., que quando se consydera la necessidad que ay en estas partes de siervos de Dios y el fructo que se haze, yo creo que si a los tales diese N. S. a escoger llevarlos al paraíso luego o estar en la Costa ser- víndolo y fructificando, dirán: «Senor, dadme licencia para vos servir aún más algunos anos, que mi paraíso es andar servíndovos en estas partes; y aunque ninguna Consolación me diésedes, aqui queria estar, quánto más que sois la summa bondad; y porque conocéis las misérias desta fia- queza humana, siempre me visitáis con mil favores, quia 88
secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laetificaverunt animam meam.» Deseo yo que los Hermanos que acá venieren, no los mova a venir, saber que da Dios grandes consolaciones a los que por su amor se ponem en muchos trabajos, como en verdad las da, mas deseo que su voluntad sea venir a pade- cer con Christo crucificado en la cruz, desamparados de toda la Consolación, con la charidad nuda de gustos, como la de Christo en la cruz. Y bien creo que los que fueren criados debaxo de la mano y obediência de V. R. en esa sancta casa de Roma, y en el sancto collegio de Coimbra, adonde yo vi tantos ángeles, y no le [s] quiero llamar hombres, pues en cuerpos humanos hazen vida angélica, y así todos los de las otras casas de la Companía de Jesú que ca venieren, traherán la misma intención que yo deseo que trahan, y más perfectamente de lo que yo deseo; mas con la mucha necesi- dad que ay acá de siervos de Dios, y con el grande zelo que a nuestra sancta Companía tengo, digo lo que mi ánima desea. El Hermano Adán Francisco trabaja muy bien y con mu- cha diligencia, y aconteciendo venir a un lugar que yo antes visitava, era él tan solícito dei servido de Dios, que hombres y mugeres, ninos y ninas y esclavas venían a la iglesia mucho más que quando yo lo visitava, y dava muy buen exemplo de sí. Holgó mucho el P. M. Francisco de ver cómo tra- bajava. Quando luego venimos a esta Costa, que avrá un ano y medio, venían los ninos cada dia dos vezes a la oración; después que venimos, ordenamos que las ninas, que antes no venían a la oración, veniesen por la manana y los ninos veniessen a la tarde. En cada lugar de christianos ay maes- tro que ensene, y otro que los va ayuntar todos los dias. Edifícanse mucho los portugeses quando ven estos ninos y ninas aprender las oraciones, y así es para dar loores a 89
Dios. El ensenar de los ninos ordeno el Pe. M. Francisco quando luego vino a esta Costa, y traslado las oraciones en malavar no sin mucho trabajo; y estas mismas oraciones me mandó que escreviese y mandase a V. R. Las mugeres desta Costa vienen a los sábados a la iglesia y los hombres a los domingos; y para que mejor puedan venir todas las mugeres, tenemos ordenado en algu- nos lugares que en un dia de la semana apartado, vengan las mugeres biudas e viejas, las quales dantes venían poças vezes a Ia iglesia; y a las viejas es necessário hazerse muchas pláticas con muchas razones, para que, se tienen algún cré- dito a las cosas antigas de los pagodes, lo pierdan. Tanbién tenemos ordenado en algunos destos lugares que las esclavas vengan a la iglesia ai domingo, después que sus senores van para casa, las quales dantes no venían a la iglesia. Como nace alguna criança, luego nos lo vienen a dezir, y si está mala antes de ser baptizada, nos llaman a prissa para la ir baptizar; y se acaese ir por la tierra dentro y estar allá meses y en aquel tiempo nace alguna criança, quando vienen a tierra donde está Padre, tienen muy buen cuydado de nos lo hazer saber para la baptizarmos. Quando los grandes están dolientes, nos llaman para los irmos a ver y para los encomendarmos a Dios; y hablámosles algunas cosas de N. S. Tanbiéen a los ninos pequenos trahen a las vezes a la iglesia con algunas ofrendas para los encomen- darmos a Dios, y de todo Io que trahen y de todas las limosnas que hazen nada recebimos, mas dase a pobres, de lo que ellos se edifican mucho; porque los que son Padres entre los gentiles, todo su intento es pedir dineros, y si alguno les va pedir consejo y para oyr dellos cosas de sus pagodes, si esperan dél dinero, háblanle, y de otra manera no. Entre otras occupaciones que los Padres tenemos es oír los pleytos, principalmente los que pertenecen a Ia iglesia, 9°
y tanbién a las vezes de otra qualidad para poner en paz los christianos. Ay tanto que hazer en los lugares que ay para visitar, en ver cómo ensenan los ninos y saber lo que saben; en estar con los hombres a los domingos y después con las esclavas, y a los sábados con las mugeres casadas, y a los viernes con las biudas e viejas; baptizar los ninos y instruir los grandes en la fe, y examinando la intención con que vienen a entrar en el coral de la sancta Iglesia; en visitar dolientes, oyr demandas, ver la gente cómo bive, perguntando a unos y a otros para saber la vida de cada uno, que cierto dificultosamente se cumple con todo. Y porque el Pe. M. Francisco me mandó que tanbién de mi les diese cuenta menudamente, sabiá V. R. que, quando luego vine a esta Costa, quise empeçar a deprender la lengua y a ler, y halléla tan trabajosa que no tuve con- fiança de la poder alcançar; y así desisti, y allende de ia dificultad de la lengua, tuve siempre buen topaz. Así que descuydava de aprendella, y en el tiempo que el P. M. Fran- cisco vino de Maluco, que fué en el mes de Febrero de 1548, no sabia hablar más que dos palabras de la lengua. En aquel tiempo me dexó el topaz por tener otras ocupaciones. Determiné de aprender la lengua, y así de dia y de noche no hazía otra cosa, no dexando con todo de visitar los lugares que tenia a cargo, y quísome Dios N. S. ayudar mucho. Tuve una manera de arte para aprenderia, por- que así como en el latin aprenden conjugaciones, así tra- bajé yo de aprender esta lengua, conjugava los verbos; y aliar yo los pretéritos, futuros, infinitivo, subjuntivo, etc, me custó muy grande trabajo; tanbién aprender el accusa- tive, genitivo, dativo, y así los otros casos; y así aprender quál se ha de poner primero, si el verbo, si el nombre o pronombre etc. Aprendíla en breve tiempo, de manera que, quando hablo a esta gente en su lengua, están spanta- dos en grande manera por saber la lengua en tan poco 9'
tiempo. Algunos portugeses ay que por espacio de 4, 5,6 anos hablan algunas cosas de la lengua, mas lo que han de dezir por el presente dizen por el futuro, y no saben quál es uno ni quál es otro; y quando la gente de la tierra me ve hablar su lengua por los proprios modos, tiempos y personas, causa en ellos grande espanto, y mucho más se maravillan quando ven que en cinquo meses deprendí tanta cosa, deziendo que no podia ser por via humana. Aprendi tanbién a leer y escrevir la lengua, y el Pe. M. Francisco me mandó que embiase allá una ola a V. R. escrita. Avrá ya tres o 4 meses que ando sin inter- prete. Hábloles en la misma lenga y predícoles; y porque la pronunciación delia es muy dificultosa y muy diferente de la nuestra, a las vezes no me entienden todos, y por tanto las más de las vezes, quando les hago pláticas en la iglesia, digo las palabras en la misma lengua malavar y hago que las torne a dezir otro, que es como topaz, para que todos las entiendan mejor; pero daqui algunos meses con la ayuda del Senor no avrá necessidad dello, mas hablarles he que todos entiendan. No ay acá topaz que sepa bien declarar las cosas de la fe; háblale el Padre una cosa y ellos muchas vezes dizen otra. El Pe. M. Francisco quando vino de Maluco dió a un Padre de la tierra, de los que saben más, los artículos de la fe declarados cada uno por si, muy extensamente, para él los bolver en malavar, los quales el Padre de la tierra tiene ya buelto ha ya dias, y manda el Padre que en todas las iglesias se lean. En un lugar donde yo aora estoy, ha heis o 7 domingos que voy declarando aquella ola con mucha Consolación, porque me parece que me van enten- diendo. Tengo propuesto, con la ayuda dei Senor, de tras- ladar aquella ola como está en malavar en nuestra letra, y poner encima de cada cosa la declaración, para que quando se ler en la iglesia, el Padre o Hermano que allí estuviere, 9 2
tenga aquel traslado, y entiendan lo que van liendo, para que ansi van declarando a la gente lo que en la ola se dize. Tanbién tengo en voluntad con la ayuda de Dios N. S., y asi me lo encomendo el Pe. M. Francisco, de hazer una manera de arte desta lengua para los Padres la poder fácilmente aprender, poniendo las conjugaciones y declina- ciones y el modo que tienen de hablar, porque va mucho en hablar por intérprete o en la misma lengua. Hay ya dos o tres meses que no tengo cuydado de más que de un lugar en que estoy y de otro muy pequeno que está cerca, y esto para tener más tiempo para aprender la lengua. El jueves voy al lugar pequeno hazer plática a las mugeres, y tanbién algun otro dia de la semana voy algunas vezes o a baptizarlos o a visitar los christianos. En este lugar donde estoy, como ariba dixe, las viejas y biudas vienen al viernes a la iglesia, las mugeres casadas al sábado, los hombres al domingo, y las esclavas, después que los hombres se van para casa; los ninos e ninas, cada dia por la mariana y a la tarde. Después que enpecé aprender la lengua, oyo muchas historias o fábulas de los gentiles, y si el Senor me da vida, algún dia tengo de escrevir en malavar contra sus fábulas, mostrándoles por razones las mentiras en que adoran. Quando platico con los christianos para que más se fortifiquem en la fe, y tanbién quando platico con los gentiles, después de dixas muchas raziones para conocer la verdad, pesándome mucho de su ceguedad, y que en lugar de adorar a Dios adoran al demonio y piedras, les digo: «Ayúntense 100 y 200 bragmanes de los vuestros Padres, muy viejos y de mucho saber, y yo solo, mancebo como soy, quiero disputar con ellos y hazerles conocer la verdad, y si al acabo de nuestras pláticas, en serial que la nuestra ley es verdadera y las otras falsas, si quisieren hechar comigo en una hogera de fuego, yo haré esta expe- 93
riencia, con tanto que me prometan que, si a ellos quemar el fuego y a mi no, que se han de hazer christianos». Reci- ben los christianos grande Consolación quando me ven así hablar con los gentiles. No me tenga V. R. por atrevido en hablarles así, porque quando veyo el engano tan mani- fiesto en que andan, y que el demonio tanto domínio tiene entre ellos, quando veyo que no quieren conocer a Christo N. S., no me puedo tener que no salga a tales palabras, confiando en la mucha misericórdia do Dios, sabiendo que para las cosas semejantes toma Dios por instrumento a quien quere. Quando declarava la ola a los christianos, de que ariba hago mención, vine un dia a dezir que si tuviesen buena fe en Christo N. S., verdadero Dios y hombre, y algún demonio subiese sobre algún cuerpo, y con verdadera fe le dixesen: «demonio, de la parte de Jesú Christo, Dios y hombre, te mando que te salgas luego dei cuerpo», que el demonio saldría. Uno de los christianos que me oyeron, con buena fe que tenia, day a poços dias se puso a hablar con un joge de authoridad (que es entre ellos como sacer- dote y más que bramane) y le empeço a perguntar por la fe de los gentiles. Vínole el joge a dezir que Dios tenia diez hijos. El christiano le dixo que no podia ser, y que era grande mentira, y que Dios tenia un solo hijo, mas no como los hombres tienen hijos. Y yendo la plática ade- lante, le requerió el christiano que si uviessee algún ende- moniado, fuessen ambos a hechar el demonio fuera dei cuerpo, y que el gentil no lo podría hechar, y él, porque era christiano, lo hecharía deziendo cierta [s] palabras sanctas de la nuestra fe, y que a esto le apostaria lo que quisiese. Y el joge no quiso mucho ensistir en la plática deziéndole que andava buscando de comer por aquel modo de vila que tenia; y esta es la plática que estos trahen mucho 94
en la boca quando se ven convencidos: «Andamos por esta manera de vida buscando de comer». Acerca destos demonios se tiene nuestro Senor mucho manifestado en esta gente, porque me afirman que quando eran gentiles, de noche no avia quien osase solo llegar junto del mar y de sus barcos de pescar, porque andavan allí muchos demonios en semejança de fuego, y que otras ciertas partes avia adonde no osavan llegar solos, pero después que son christianos no tienen miedo ni ven aquellas semejanças del demonio que dantes vían. Tiene acá el demonio entre los gentiles grande senorio, y haze que lo adoren con temor que les pone, porque entra en los cuerpos de los gentiles, y entonces habla por ellos, diziendo que si le no dan fanões, que es una moneda de cá, y si le no offrecen muchos carneros para bever todo el sangue dellos, y otras muchas oífrendas, que los ha de matar y hazerles mucho mal. Los míseros de los gentiles con esto adóranlo y danle todo lo que les pide. Quando a las vezes platico con los christianos que ningún medo tengan dei demonio, y que estén firmes en el conocimiento verdadero de la sancta fe, les digo que si sobre algún cuerpo veniere el demonio, se ayunten quantos bragmanes y joges y Padres de los gentiles uvier[e], y [si] estuviere yo ay presente, que yo con las palabras sanctas de nuestra sancta fe haré ir aquel demonio, lo que todos los otros gentiles no harán. Y estando una vez en esta plática, me dixo un christiano: «Si el demonio, quando está en algún cuerpo, con solamente oyr dezir que viene un portogés, se va dei cuerpo, quanto más vos, que sois Padre, lo hechareis? «Respondíle yo entonces que aunque va aquella vez, que tornará otro dia, mas que quando yo lo hechare en virtud de Christo N. S., nunca más verná aquel cuerpo. Sabrá V. R. que entre estas gentes ay algunos que saben algo y biven alguna cosa mejor que los otros gentiles, no 95
adoran al demonio ni pagodes, mas a un solo Dios ver- dadero, y todos los pagodes que los gentiles adoran estos renegan y conocen ser todo mentira. Y avrá dos meses que tuve conocimiento con un hombre destos, el qual está tenido entre los gentiles por hombre de mucho saber y de buena vida. Este tiene quebrado muchos pagodes y hecha mucha zombería dellos. Converso yo mucho con él y trágolo a comer a casa comigo y somos grandes amigos; este me cuenta muchas cosas de las mentiras de los pagodes, y me dixo que aprendera de un Padre de los gentiles, los quales Padres son mucho más entre los gentiles que cardinal entre nos, digo en la homrra que le hazen. Y este su Padre, que era hombre de buena vida, y que adorava un solo Dios verdadero, y aborrecia todos los pagodes y sabia cierto ser mentiras, y que deste su maestro veniera a tener conoci- miento de la caída del primer padre, la qual me contó cómo el demonio enganara a Eva etc., mas en la historia entre- mete cosas falsas, porque dize que estuvierón en la justicia original, antes de caer, muchos anos. Este hombre que digo, mi amigo, es joge, y está tenido en grande reverencia de todos; cóntame él lo que passa con los otros gentiles bragma- nes y joges. Quando los bragmanes lo ven delante, házenle grande reverencia, y él les dize: «Para qué andáis enganando la gente, diziéndoles dia maio, dia bueno, y aconsejándoles que adoren los pagodes y otras semejantes mentiras?» Respóndenle los bragmanes: «Qué haremos, que desta ma- nera tenemos que comer; si esto no hiziéremos, qué come- remos? Rogámoste mucho que no descubras nuestras cosas a la gente». Mas él no tiene cuenta con ellos y descubre todo a los gentiles. Y muchas vezes alego con él a los christianos, deziendo que miren las palabras de aquel joge, y si aquel que aún no es christiano, dexa de adorar los pagodes y perguntar por dia bueno y dia maio, y conoce todo ser mentira, quánto más razón tienen ellos de ser 96
fuera de tales cosas? Pido a V.R. por amor de Dios y asi al P. M. Simón, con todos los Padres y Hermanos, que quando esta les fuere dada, que encomienden este hombre a N. S., [con alguna misa que manden dezir], que si en- tonces aún no fuere convertido lo alumbre, porque si se convirte, será mucha gloria de N. S., y será otro S. Pablo contra estos gentiles. [A] él parécenle bien Ias cosas de nuestra fe, aunque yo no se las tengo aún bien declarado, porque quiero tomar primero muy estrecha amizad con él. Reprehende a las vezes los christianos, se siente que no hazen lo que yo les aconsejo, y aconséjalos que siempre siguan mis consejos, porque los de los bragmanes y joges y de los Padres de los gentiles son falsos. Si por ventura sinte en algún christiano alguna flaqueza de alguna idolatria, él mismo me lo viene a dezir, pesándole mucho de aquellas cosas. Es hombre de buena vida, a lo que parece, y siempre parece que en todas las cosas contenpla a Dios, que cierto me haze embidia y me edifica. Paréceme que tiene una falta, porque, como dize S. Pablo, scientia inflat, y él, como sabe mucho, muestra senales de mucha presunción de saber, y no sé si es tanbién con menosprecio de los que saben menos; y por eso lo encomienden a Dios, que si por esta falta o por otra no es alumbrado, nuestro Senor, por quien es, le tire qualesquira máculas y le abra los ojos, para que de todo acabe de conocer la verdad. Tengo oydo que en muchas partes no se hallará hombre de tanto saber entre los gentiles como éste; y asi, sin ser christiano, provará y hará cierto a los bragmanes y los gentiles andar errados y ser su secta falsa. Entre otras perguntas que le hize fué esta una, scilicet, entre los gentiles ay hombres que parecen de buena vida, éstos si morieren irán al infierno o al paraíso ? Respondióme que todo el hombre que adora pagodes y cosas semejantes no puede ir al paraíso. Quasi a todas las perguntas que le Doe. Padroado, iv - 7 97
hago, responde muy sabiamente y com mucha prudência; y quando le pergunto por alguna cosa si es pecado o no, a todo me responde muy prudentemente, que parece christiano. Estando escreviendo esta, supe que pasando un gentil por un pagode lo adoró, y después dél pasaron ciertos ninos christianos, los quales tiraron piedras al pagode y le quebraron el nariz, [y con suziedad también le tiraron}, y que el gentil agastado se vino hazer quexume al maestro. Esta tierra es senoreada de reis gentiles y en los mismos lugares de christianos están gentiles y tienen sus pago- des; y si los ninos christianos, siendo la tierra de reis gentiles, hazen tanta zumbería de los pagodes, qué harían si fuese la tierra nuestra? Después que aprendi la lengua tomo mucha familiaridad con los ninos, y en pláticas con perguntas y por arte sé dellos si ven hazer algunas idola- trias; y a las vezes se sienten alguna cosa mal hecha, de suyo me lo vienen a dezir, y no sólo los ninos, mas tanbién los grandes, que es para dar muchos loores a Dios N. S. Parécenles mal las cosas de los gentiles y idolatrias. Los dias pasados estava un christiano hablando con un gentil sobre Ia ley de los christianos y de los gentiles, y estando altercando vino el christiano a dezirle: «Considera los Padres de los christianos y de los gentiles, ve la vida de los unos y de los otros, las palabras de unos y de los otros». Estando presente un gentil que tenia conocimiento de los Padres, aprovo la vida de los Padres de los christia- nos, deziendo bien dellos. Insistió el christiano en la plática diziendo: «Si un gentil adolecer, verná un bragmane di- ziendo, 'promete tantos fanões [a] aquel pagode, tantos carneros, tanto sândalo, y otras cosas así, y luego te dará salud'»; y todas sus palabras son endereçadas para él des- pués tomar aquellas off rendas; pelo las palabras de los nuestros Padres no son así; enferma alguno, vaylo visitar el Padre y dizle: «Examina bien tu conciencia, ve los pecca- * , 98
dos que hiziste, porque muchas vezes por los peccados da Dios estas enfermedades; pediéndole tú perdón de todos con propósito de emienda, Dios te dará salud y bien, etc.» El gentil no tuvo qué hablar, más que dizirle: «Quién podrá disputar con vos?» Y después de las palabras que oyó el gentil, y la plática que con él tuvo, lo vino a combidar con betle y areca que tenia, que es senal de amistad. Tanbién los dias pasados en un lugar destos, estando una persona doliente, un buen christiano, con buena fe que tenia, le hechó al cuello unas cuentas por las quales rezava, plugo a Dios N. S. de le dar salud, y creció la fama desto en el lugar, de manera que, como alguno era enfermo, luego le venían pedir las cuentas y le prometían dinero por ello; él dávalas, mas hazía escárnio dei dinero que le davan. Entre estas cosas quiero tanbién contar a V. R. una de que ha de dar muchas gracias al Senor, y es de un moço que aora está comigo en casa, el qual fué criado en Goa en el colégio de Sancta Fe: y es que el ano passado deseó de ir en companía de nuestros Hermanos que ivan para Maluco, y sin lo hazer saber, se metió en la nao en que ivan los Padres, los quales, [llegando a Cochin] dexáronlo a un hombre para que lo tornase al collegio. Él, con todo, fuése con otro hombre portogés para otra parte, y acaeció dar el navio a la costa, y los moros prenderon el portugés y robáronlo, y finalmente lo mataron; y ao moço que digo tanbién prenderon, mas no lo mataron, mas levándolo a la mesquita le persuadían que adorase en Mafamede y se tornase moro. No queria el muchacho. Los moros entonces le amenazaron que, así como tenían morto el portugés, lo avian de matar si no se tornase moro. £1 les dixo que lo matassen en buena hora, que fuese por amor de Dios, mas que no lo avia de hazer. Y assí se puzo a peligro de muerte, porque ya levantavan la espada para lo matar; mas quizo nuestro Senor que no lo matassen, mas hecháronle unas 99
travas de cadenas de hierro a los pies. Y de ay a poços dias, quiso nuestro Senor que vino un capitán con gente, y les quemó el lugar y mató infinita gente de los moros, a así se libró este moço que después vino para esta Costa donde estamos. El qual me cuenta que en aquella misma terra de moros andam moços de portugeses huydos de sus amos, y aunque estavan en tierra de moros y conversavan con ellos, todavia bivían en la fe de N. S.; y platicavan con este mesmo moço que aqui tengo, y le dizían: «No te hagas moro ny pierdas tu ánima.» Es cosa para dar muchas gracias a nuestro Senor ver en estas partes moços de portugueses, de los quales muchas vezes toda su generación es gentil, y ellos después de ser christianos muchas vezes huyen a sus amos, por la mala vida que les dan o por otros respectos, y andando entre gentiles viven en la fe de Christo N. S., sin se tornar a la gentilidad. Uno me contó que, andando algunos destos por soldados de un capitán gentil, acaecyó de morir uno en la gerra de una herida, y los otros moços christianos lo amortallaron y hizieron una cruz y después, assentándose de rodillas, hizieron oración por su ánima, y acabando esto lo llevaron a enterrar en una cueva que ya tenían hecha y le pusieron en cima una cruz. Quedaron los gentiles muy espantados dei modo que tenían en lo enterrar y que en tiempo de guerra y de tanta prisa con tanta solemnidad hazían las exequias. Algunos moços destos tales venieron estos dias hablar con M. Francisco, deziendo que eran christianos, y que deseavan andar entre christianos, y no con los gentiles, que les alcançase seguro para poder andar libres por la tierra de los christianos. El Padre les prometió que trabajaría de lo hazer. Algunas vezes nos visitamos los Padres que andamos en la Costa, con que recebimos mucha Consolación; commu- nicamos lo que en nuestras almas sentimos, y yuntamente
el modo que tenemos en ensenar a los christianos, y cada uno trabaja como a mayor gloria de Dios N. S. curará estas ovejas. Quanto a mi disposición, V. R. sabrá que averá quatro o cinquo anos que soy mal dispuesto, y los Hermanos de Coimbra lo saben muy bien. Están espantados los Padres y Hermanos que me conocen de darme nuestro Seftor las fuerças que me da para trabajar, porque conocían mi en- ferma disposición. Pido a V. R. y al Pe. Simon y a todos los de la Compania de Jesú que se acuerden de mi, pediendo a N. S. que me dé siempre gracia para perfectamente hacer su sancta voluntad, padeciendo por su amor mucha pobreza, injurias y tribulaciones, pues esto escogió él en este mundo. Mucha virtud entiendo que ha menester que tengan los Padres que en estas partes uvieren de fructificar, y mucha prueva, porque a fuerça de buena vida que los outros vieren, se moverán y mueven a conocer la verdad que les predican. En la primitiva Iglesia, con los milagros tan manifiestos, eran los hombres quasi constrenidos a sentir en sus almas la verdad, y acá, con la vida muy sancta y provada de los operários, quiere Dios que muchos vengan en su conoci- miento. Por amor de Dios V. R. siempre nos embíe operá- rios, porque son acá muy necessários. Este cierto que, si como la índia luego se descubrió, vinieron acá siervos ver- daderos de Dios, que su gusto fuera servilo de dia y de noche, mucho más christianidad uviera. Entre otras cosas, para que el Senor Dios quiso ordenar en esto [s] tiempos esta sancta Companía, fué para haver misericórdia de las ánimas de la índia. Cierto que así lo siento, por la mucha falta que avia ca de siervos de Dios antes de la venida de M. Francisco, y por el fructo que se haze después de su venida, con su presencia y de sus companeros, lo que me parece devia dar más ânimo a los de la Companía por amor de Christo. i o i
No quiero dexar de le dar cuenta de un mancebo de la tierra que en casa tengo, el qual me fué grande ayuda para aprender la lengua. Este tiene algún ingenio y siento yo bien que conoce las mentiras de los gentiles y las ver- dades de nuestra fe. Tiene voluntad de andar siempre con los Padres serviendo a Dios, guardando castidad, sin esperar algún premio más que lo de Dios, que es muy grande. Encoméndelo V. R. a Dios, porque espero que nos ha de ayudar mucho. No me puedo más alargar por tener mucho que hazer, aunque se podían escrevir de acá más cosas de loor de Dios N. S. Cesso, pedíndole nos dé gracia a todos para que perfectamente hagamos su sanctíssima voluntad. De Bembay oy último de Octobre de 1548. Indignus servus Anrrique Anrriques. i o 2
23 MISERICÓRDIA DE BAÇAIM Baçaim, 31 de Outubro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, I, 81-72. Mede 211 x 300 mm. Soo duas folhas em estado regular. Senhor p r.] 0 provedor1 e irmãos da Santa Misericórdia2 de Bacçaym, ainda que ate agora nos estpreverão o regy- mento desta casa, ouve algum descuido em não espreverem a Vosa Alteza das cousas e necessydades dela, conforme a sua obrygação, pelo que nos pareceo pois as cousas vão em tanto crecimento, não cairmos no ero dos pasados, pelo que determinamos dar conta a Vosa Alteza de algumas cousas que ao serviço de Noso Senhor e a obrigação de Vosa Alteza cumpre, e porque esta he a primeira3, fare- mos breve relação de algumas delas. Anotado em cima: que escrevão. A oyto anos que esta santa confrarya da Misericórdia nesta tera foy edeficada, e seu começo foy com esmollas dos devotos e fieis christãos, e por a gente ser pouca e pobre ao tempo que se começou, como ainda aguora he, tem muitas necessydades a que as esmollas não podem soprir, por os necessytados serem muitos, a quem de necessi- dade avemos de prover, e a cantidades delias muito poucas, porque em verdade afirmamos a Vosa Alteza que se acon- tece muitos dias de cabido homde se não podem prover a 1 — p." ; i — raia ; 3 — pm.' io3
decyma parte das pitições, que a casa vem, e todos de tão pobres e necessitados, que se lhe não pode negar o que pedem, o que causa grande desconssolação em nossos cora- ções não poder soprir cousas tão justas, pelo que Vosa Al- teza, como princepe cristianíssimo e zelosso de nosa santa fee, deve prover esta santa casa com suas esmollas, como fez a todas, assy pera com ellas se proverem muitos portu- gueses muito necessitados, que nesta terra ha, que por sua necessidades cometem cousas fora de rezão, como também pera que os que novamente se convertem a nossa santa fee, que são muitos, nas suas necessidades achem conssolação nesta santa casa, conforme a seu nome, e porque de algu- mas cousas em espicial tem esta casa necessidade as decra- ramos a Vosa Alteza, pera que aliem do que acyma pydy- mos, nos queira fazer delas esmolla. [i »•] // A muitos defuntos que em seus testamentos leixão a esta santa casa alguns solldos, pera com eles se fazerem obras merytorias por suas almas, e por Vossa Alteza ter defesso aos seus governadores4 que dos taes soldos não fação pagamentos, por ser como trespasação, e por se não pagarem, a casa padece muita necessydade, e as vontades dos defuntos se não cumprem, como elles mandão em seus testamentos. Pedymos a Vossa alteza, por amor de Nosso Senhor, nos faça esmola de huma sua provisão, pela quall ma..de que todos os soldos que por defuntos nos forem leixados em testamentos ou outros fieis cristãos, posto que vyvos, sejão per suas devoções, queirão fazer esmolla a esta casa, que nos sejão paguos inteiramente aos quarteys, nas rendas destas terras pois, louvores a Noso Senhor, vão em tanto crecimento cada dia e muito mais sera com esta esmolla que Vossa Alteza faz a esta santa confrarya, por- que serteficamos a Vossa Alteza, que o ano que sercarão Dio, forão tantas as necessidades desta terra de feridos e 4 — g"" 104
doentes e pobres, que a ella delia (l) vyerão que nem ho espritall, nem a misericórdia, nem o capitão nem outras nenhumas pessoas5 erão poderossas pera os agazalhar, nem curar, nem repairar, como hera necesaryo, se não forão os moradores desta terra que, ainda que são pobres, vendo quanto compria ao serviço de Deus e de Vossa Alteza, fazião de suas casas espritaes, e gastavão o seu, e davão muita conssolação aos ferydos e doentes que de Dio vynhão, que herão muitos, pelo quall esperavão sempre que Vossa Alteza fose disto emformado, e se ouvese por servido do que elles fizerão, e farão quando cumprir a serviço de Deus e de Vosa Alteza, pelo que deve ser lembrado deste povo por ser pobre e ir em muito crecimento, e vyverem em terra tão fromteira, e domde Vossa Alteza tem tanta remda, porque aimda que são leaes vasalos de Vosa Alteza, contudo tem necessydade de seu favor e merce, pera que com milhor vontade estem sempre aparelhados, como estão, pera o que cumprir a seu serviço. Ã margem: provisão pera o dos mortos lhe passarem a seus títulos (2) e se lhe pague quando bem poder ser, e no dos vivos encomendar a Dom Afonso que no que nam ouver duvida lhe pasem. Esta santa confrarya, por sua muita pobreza, tem necessy- dade de hum retavolo de tres covados de larguo, e tres e meioc de alto, e assi de misaes e bandeiras, e todo ho mais pera ornamentes desta casa; por amor de Noso Senhor que Vossa Alteza nos queira fazer esmolla, como faz a todalas casas destas partes. (1) Isto é: «de lá». (2) A abreviatura t" parece indicar a leitura de títulos; mas também se pode ler testamentos. 5 — p." ; 6 - l.M ; 7 — m.° 105
à margem: que Sua Alteza lho mandara pera o anno o retavolo e bandeiras. Também fazemos lembrança a Vossa Alteza que enco- mende e mande a seus governadores que provejão este [j r.] espritall, assy de ordenados // como de casas, como de arroz, pera se darem aos pobres cristãos da terra que nova- mente se convertem a nosa santa fee, que vão em muito crecimento com a santa doutrina, que os padres de Sam Fran- cisco8 (3), que Vossa Alteza qua envyou, dão ao povo, os quaes tem feito muito fruto nesta tera, e pera mais acrecen- tamento de nosa santa fee, Vossa Alteza deve mandar e muito encaregar que se faça igreja matriz, de que carece esta tera, pois he tam nobre e ha tanta necesydade dela, como fez em todalas outras fortalezas destas partes, pera a qual Vosa Alteza deve mandar todolos ornamentos necesa- ryios pera o serviço delia, porque de tudo carece e ha grande descuydo disto, o que não devia asy de ser.  margem: encomendar a Dom Afonso todos os ospi- taes e misericórdias e asy a igreja matriz. Das mais cousas desta tera e da calidade dela, não damos conta a Vossa Alteza, por não ser nosa obrigação, mas dos governadores e capitães, per quem Vossa Alteza sera enfor- mado; ao menos sertefiçamos em verdade que he ella muito boa, e domde Vossa Alteza recebe muito serviço e proveyto e delia, como das primcipaes da Imdea, deve ter espiciall lembrança e cuydado, não somente por ella, mas pelo muito favor e socoro que delia tem a fortaleza de Dyo, cada ora, (3) Referem-se os franciscanos da Piedade ou capuchos. 8 - fr.e» 1 O 6
como he notoryo e Vossa Alteza he sabedor; e contudo se Vossa Alteza nos mandar e der licença9 que sempre lhe façamos lembrança de todalas cousas delia, e do que cum- pre a seu serviço, fa-lo-emos, e pode ser que nesta parte Vossa Alteza per nos sera milhor enformado que per outrem; e por esta ser a primeira vez que esprevemos a Vossa Alteza, o não fazemos mais largo ate sabermos se disto he servido. Noso Senhor com a sua santa misericórdia prospere e acrecente a vida e reall estado de Vossa Alteza, com muito contentamento a seu santo serviço, amem. Feyto em Baçaym no cabido de Santa Misericórdia, ao derradeiro de Oytubro de 548 anos. Gonçalo Andre10 — Bastiam Fernandez11 — Fran- cisco12 Varela — ? Nuno13 Sequeira14 — ? Tristam — Francisco Roque Telo de Menezes (4). (4) Estas abreviaturas de nomes próprios constituem leitura provável. 9 — L." ; IO — g.° ; II — ffdz; II — fr.® ; i3 — nn.® ; 14 — qr.®
r 24 D. JOÃO DE ALBUQUERQUE A EL-REI Goa, 5 de Novembro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, l, 81-78. Mede 210x307 mm. São quatro folhas, duas das quais escritas. Em bom estado. [i r.j Senhor A feitura desta chegou a naao «Goalegua» com a rali- quia de huma das omze mil virgens (l). O padre que a trazia me deu huma carta de Vosa Alteza, em que me emcomemda que favoreça e ajude em tudo que em mim for aos padres da Companhia de Jesus, e asy aos colegiaes do Colégio da Samta Fee. Eu asy sempre o fiz no espritual; pera comfesar e guanhar almas a Jesu Christo eu lhe dou toda minha autoridade e poder, asy aqui, como em todas as partes em que amdão, não reservamdo pera mim nenhuma (l) A nau «Galega» foi a última a chegar da armada de 1548. D. Jcão de Albuquerque, referindo a chegada da relíquia, diverge bastante de Gaspar Correia {Lendas, IV, 667-668). Diz este: «E esta santa relíquia foy levada do mosteiro de São Francisco ao de São Domingos com solene procissão, com os frades de ambos os mos- teiros e o collegio de São Paulo. E nom forão na procissão nenhuns clérigos da Sé, nem outras igreijas, por compitencias que ouve sobre esta santa relíquia, que quisera o Bispo que fôra da Sé, e porque os frades nom quiserão os crelgos a nom quiserão acompanhar. O que foy muy praguejado no povo, que todo quanto avia em Goa foy na procissão, com os vereadores, e_ muytos tangeres. E d'esta santa relíquia repartirão parte d'ella com São Paulo, que de São Domingos levarão com sua procissão, onde também nom forão crelgos, que tem elles grande compitencia e envejas com os frades, porque o povo todo tem nos mosteiros mais devação, e n'elles se deitão os mais dos defuntos, e fazem suas exequias e missas; com que aos crelgos tirão easy todos seus benesses, porque a gente tem pouca devação nos crelgos, porque vêm seu máo viver.» i o 8
cousa, não soomemte os casos episcopais, mas os que eu tenho do Papa por seus breves e os reservados na quinta feyra de Lave-Pes, porque sey eu quamto fruito fazem, que me ajudam a levar os carreguos, e comfio em suas comciemcias, que farão isto com muita descrição e prudem- cia, pois que Noso Senhor espirou a Vosa Alteza pera mamda-los qua pera ajudar acrecemtar a fee chatholiqua; são eles muito omildes e mui sogeitos a toda a rezão, e sua comversasão quasi que diguo que he amgeliqua; quamto ao corporal, eu os vou visitar muitas vezes, e elles a mim; fazem elles a festa de Corpus Christi1 o dia que se faz em Portugal e isto por a crasta (2) sua porque, ainda que chova e faça tempo forte, amdão debaixo da telha, e eu por omrra de Deus e do colégio, vou aquele dia la e traguo o santo sacramemto em pomtefiqual, e todo o demais que me requererem estou aparelhado. A cabeça de huma das omze mil virgeens foy trazida a esta see loguo como a trouxerão da nao, que era dia de domimguo, quatorze dias de Outubro, e da see ese domim- guo, a tarde, foy levada com huma solene procição omde ya todo o colégio da see, e toda a clerezia desta cidade, e os frades de São Francisco, e de São Dominguos, e todos os colegiais de Samta Fee e to // dos os padres da Companhia [i v.) de Jesus que aqui se acharão, e o governador2 e eu, e foy colocada em hum luguar que e no dito colégio, e o padre que vem aqui por prelado preguou e bem. Item. As pazes amtre o Idalquão e Graçia de Saa são feitas, o modo e partidas ele as escrevera a Vosa Alteza; amtes que se fizesem, carteou-se por espaço de dous meses (2) Termos antigo por claustro. i — xepl; 2 — g.°r i o g
o Idalquão e seu embaixador commiguo, e dele e do embai- xador e Guomçalo Vaz tenho treze cartas guardadas, e também o trelado das que eu lhe mamdava, ate que emtrou nesta cidade o embaixador. Depois de recebido, foy o embaixador a esta casa omde eu moro e pergumtou-me que faria. Dixe-lhe que dese ao governador tudo o que lhe pedise, aleguamdo-lhe rezomes pera iso, e asy o fez, nem mais nem menos, porque todo o que lhe pedio o gover- nador lho deu; isto sabe Mestre Pedro e outros fidalguos desta cidade. Item. Tenho por nova que a remda das misquitas de Baçaim que remdem casi dous mil pardaos, e a remda delas queria atrebuir Dom João de Castro, que Deus aja, a igreja e padres de Baçaim; parecia-me a mim que era muita remda pera eles e pera a igreja; se lhe parecese a Vosa Alteza ser- viço de Noso Senhor, por sua provisão, atrebuir cem mil reis ou o que Sua Alteza mamdase pera a fabriqua desta see, cada ano, porque e tam pobre, como nas outras cartas lhe ey escrito porque as necessidades de qua são tamtas que os governadores não podem acudir a tamto; ou pois que as terras firmes são dadas de todo trezemtos pardaos que Martim Afonso de Sousa deu por sua provisão pera esta fabriqua da see quando era governador, dos quoais não se paguarão senão hum ano; que Vosa Alteza pasase huma provisão que se dese pera a fabriqua desta see, diri- gida aos remdeiros ou recebedor, que se guastase por orde- namça do bispo3, estamdo presentes na terra e em sua ausemça o cabido, asy como a pasou Dom João de Castro pouquos dias amtes que morrese. Ã margem: 300 pardaos pagos nas terras de Salsete pera a fabrica da see, enquanto Sua Alteza lhos nam der em outra cousa. 3 — bpo.
Item. Do tempo que Dom Dioguo Pinheiro era bispo do Fumchal, esta cidade e a Imdia era viguairaria anexa a seu bispado, e des emtão pera qua que a muitos anos, de cada padre que morria o vigário 4-geraI, que estava posto de sua mão, tomava huma peça pera o dito bispo, que se chama lutoso, e nesta pose achey esta terra e asy no tempo do Francisco de Melo (3), que emtomces Miguel Vaz era vigario-geral as arrecadava e mamdava pera Portugal, e neste costume estão alguns bispados e arcebispados dos reinos de Vosa Alteza, e asy os bispados e arcebispados do seu mestradeguo. Eu pergumtey isto a Miguel Vaz no tempo pasado, e asy alguns letrados, e a Mestre Pedro Fernandez; todos me respondem que se pode levar por duas rezomes: a primeira, por estar de pose e costume antiguo; a segumda, mais primcipal, por ser o bispado pobre e não ter mais que o ordenado de Vosa Alteza, e os sacerdotes serem obrigados, semdo vivos, ajudar a mamter a seu prelado, // quamdo o [a r.] bispo é pobre e, pois que não no fazem na vida, faz-se em sua morte, tomamdo a dita peça; mamde-o Vosa Alteza ver por alguns letrados e se se pode fazer bem, e se não, mais vai padecer alguma mimguoa nas cousas necessárias que nam agravar-se a comciemcia. A margem: ver-se na Mesa da Conciemcia. Item. Diz-se qua que Vosa Alteza fez merce a Marçal Fernandez, seu moço de estribeira, filhado de seis anos, de (3) D. Francisco de Melo foi o primeiro bispo de Goa. Não chegou a partir para a diocese, porque morreu em Portugal. (Veja-se a nossa Histó- ria das Missões do Padroado Português do Oriente. índia. 1500-1542, págs. 306-307.) 4 — vig III
escrivão da alfamdegua desta cidade por a muito tempo que a servido a Vosa Alteza e a mim, que são vimte anos de serviço; sete a Vosa Alteza, e treze a mim; se he asy, seja por amor de Jesu Christo, ele o merece por seus ser- viços e vertudes; e se não, faça-lha Vosa Alteza, por amor de Noso Senhor, porque esta qua e eu com ele não a quem no requeira la. A provisão devia de dizer que lhe fazia novamemte merce daquele oficio; e elle e Felipe Gonçalvez5 que o e, partirem os percalços polo meio, porque a dita alfamdegua e de tamto neguocio e trafiguo que me parece, que ainda a mister mais escrivames; e que tevese efeito a tal provisão, sem pasar por sua chamcelaria. Ã margem: ver6 o registo. Item. O padre Mestre Pedro leva huns autos de hum estromdo que o ouvidor-geral com seus meirinhos fizerão demtro nesta see, e dixerão sobre querer premder demtro nela a Fernão de Alvares da Cunha, sem guardar vosas ordenaçomis. Mamde emmemdar Vosa Alteza estas cousas, porque é gramde a ofemsa de Deus e abatimemto da Igreja pasar ysto asy, e emcomemde-o ao governador que vier que o emmemde, porque ey medo da justiça divinal por nossos pecados que ca cometemos, e polo desacatamemto da igreja, não nos de hum castiguo Noso Senhor que soe (4). (4) Supomos que este estrondo foi um homicídio praticado por Fer- não Álvares da Cunha, capitão da nau «Vitória» na armada de 1548. Durante a viagem insultou ele e espancou certo português; este, após a chegada a Goa, vingou-se, assaltando-o em plena Rua Direita à paulada Fernão Álvares não demorou muito tempo a retaliação, porque o matou em sua própria casa. Preso, foi condenado a 10 anos de degredo para África, mas livrou-se bem depressa, regressando logo a Portugal, i natural que, depois do homicídio, se tivesse refugiado na igreja. (Lendas, IV, 668-669.) 5 — giz ; 6 — vr.
 margem: saber de mestre' Pedro. Item. O padre que veio por prelado (5) ao collegio de Samta Fee me deu os breves dos originais que Vosa Alteza mamdou aos vigairos das fortalezas, que podesem crismar, os quais eu mamdo aguora treladar em latim e em limgua- gem, porque pouquos os emtemdem em limguoa latina, e autorizados por notairo apostoliquo, e mamda-los-ey polas mamçomis (6), e asy tambeem recebi o original do breve pera os bispos desta cidade. Muito necessário era breve pera despemsaçomis, do qual faço lembramça noutra carta a Vosa Alteza, porque toqua as comciemcias da gemte destas partes, que o am bem mester, e asy, se lhe bem parecese, alcamçar dispemsação pera yrrigularidades e omens gerados em nom legitimo ma- trimonio, porque ay alguns virtuosos filhos de portugueses, omens de bem e de muito serviço, e e-lhe muito trabalhoso mamdar a Portugal aos nuncios por esta despemsação. Item. Os neguocios desta terra as vezes acomtecem tão árduos e deffecultosos, por estarmos metidos amtre imfieis, que tem ne // cessidade os guovernadores dechar a comse- [* >•] lho aquelas peçoas que são abiles pera iso, e tem esperiemcia da terra, e não somente ouvir muito devaguar o parecer de quada hum, mas toma-lo e fazer aquilo que for milhor, e cada oito dias ou ao maays quimze, fazer-se comselho maiormemte neste tempo de aguora que temos os Rumes em Baçora e em Adem, e são eles mais imdustriosos, e tem mais cuidado aparelhar-se pera fazer cousas de guerra; (5) P.c António Gomes. Bom pregador e homem de zelo. O seu governo do colégio de S. Paulo não agradou a S. Francisco Xavier que se viu obrigado a despedi-lo. Embarcou-se para a Europa a fim de se defender pessoalmente perante Santo Inácio de Loyola, mas morreu na viagem. (6) Isto é: monções. 7 — m." ' '3 Doe. Padroado, iv - 8
ordenadamemte tem seus conselhos milhor que nos quaa. Em tempo de Dom João de Castro, se fazia isto e ya de tal maneira que, estamdo ele emfermo, por que não pasase- mos o tempo ocioso, pasou huma provisão pola qual os desembarguadores, veador da fazenda, secretario, vinhão todos, tres dias na somana, a esta casa, omde eu moro, e eu presidia amtre eles, e ali se fazia muito serviço de Deus e a Vosa Alteza; isto durou ate que morreo, o qual, amtre outras cousas dinas de louvor dele, esta foy huma e muito louvada dos portugueses, em especial dos reis e senhores comarcanos, posto que são infiéis. A obriguação do bem desta terra e reparo dela, asy a obriguação que tenho de vos servir, constramgerão a minha alma fazer lembramça desto; neste apomtamemto vay muito, faça-o emmemdar aos governadores ou o que vier. E porque sey que outras pesoas tocam a Vosa Alteza esta materia mais larguo, não escrevo mais e do pouquo que eu escrevo tome muito, por- que pouquo escrevo e muito synto. Ate aqui não escrevia nesta materia todo o tempo pasado, e aguora que me doy muito, não poso deixar de fazer lembramça, e peço licemça pera lha fazer daqui avamte, quamdo for necessário, se Deus for servido de me dar vida. Este ano nesta see e nas duas freyguesias da cidade cristãos de gemtios, novecemtos e doze; filhos de portu- gueses, duzemtos; filhos dos cristãos da terra, quinhemtos; os que se bautisarão na freiguisia de Sam João, e de Pam- gim, e polas ermidas da ilha, são trezemtos, afora os do Colégio de Santa Fe que não sey quamtos serão. Noso Senhor o estado e vida por muitos anos a seu santo serviço prospere e despois lhe de a sua gloria, Amem. De Goa, a 5 de Novembro de 1548 anos. Creado de Vosa Alteza O Bispo de Goa. 1 1 4
25 CARTA DO PADRE MELCHIOR GONÇALVES AOS IRMÃOS DE COIMBRA Goa, 9 de Novembro de 1548 Documenta Indica, 1, 306-315. La gracia y amor eterno de Christo nuestro senor sea siempre en nuestro favor y aiuda. Amén. El deseo de hazeros a todos sabidores, (Hermanos mios en Christo), de lo que en estas partes de Ia India y nave- gación de la mar pasamos, me obligó a os scrivir esta de que a todos hago participantes, en special a mi amada obediência (l) y mui querida, el Pe. Luis da Gran, a quien nuestro Senor haga sancto como yo lo deseo para mi y para los más Padres y Hermanos dese bienaventurado colégio dei Nombre de Jesú; y por amor de Dios no me olvidando de mi Padre Manuel Godino, Padre y obediência antigua, de quien terné particular memoria en mis sacri- fícios y flaquas oraciones, aunque no merezca ser oído de nuestro Senor por mis continuas imperfectiones, de las quales es bien sabidor mi antiguo confessor y Padre spiritual desta pobre alma el Pe. Urbano, dei qual, si el tiempo me diera lugar, yo hablara largamente, y Dios nuestro Senor sabe la mortificación que senti en no me despedir dél, por- que aún fuera remedio para el camino sus palabras y doctrina que me dava de que io poco me aprovechava. Y antes que se me olvide, por amor de Dios, Hermanos (1) Expressão a denotar superior ou reitor. 1 1 5
mios chanssimos, que todos hagáis grandes alforjas de virtudes, y tened en mucho los consejos de vuestros Padres, porque salidos dai desa sancta congregación todo es necessá- rio y, credme que lo digo como hombre experimentado y poco aprovechado, de lo que me pesa asaz, y credme, Herma- nos mios, que aquá estaréis todos mui cerca de la cruz, por- que ai aquá causas de mucho merecer: en este negocio quiero tener conclusion. Saberéis que partimos de Lisbona a vinte y tantos de Março, ano de 1548, y truximos mui buen viage, dado que no me acuerdo averme aliado tan entrado en la hora de muerte ni nunqua tanto medité, y me conocí que avia de morir, como en el cabo de Buena Sperança. Venístesme todos a la memoria y llevávaos a todos atravesados por lo poco que me aproveché de vosotros, empero en extremo consolado debaxo de mi deseada y nunqua acabada obe- diência. Fué la edicación tanta en la nave San Pedro, adonde veníamos maestro Gaspar y yo, y Juan Hernández, con un bienaventurado Padre recebido nuevamente (2), mui antiguo en virtudes, subjecto a la obediência quanto se pode obede- cer, que es virtude que más reluze y es necessária para nuestra companía, aunque no sé con qué razón me puedo llamar delia, pues estoi tan lexos de las virtudes que para ella se requieren; consuélome con me acordar una predi- cación dei Padre Urbano, en la qual, a la postre, dixo que no nos angustiásemos, porque los que no fuesen para piedra angular, que sirvirían para matar los perros. De manera que la corriente de confessiones era muy grande y abalos para la Companía tan grandes que nuevos hervores tenia cada dia juntamente con mis Hermanos; y credme como a (2) P.e Baltasar Gago.
Hermano que, si en esta oviera de particularizar cosas de gran servido de nuestro Senor y edificación de todos, creo no acabaria tan presto; y porque no estamos ociosos, lo dexo de hazer, y no por falta de voluntad. Empero algunas cosas no callaré, que es el capitán maior de la nave en que veníamos, y de capitán de la mejor fortaleza que ai en las índias movido para nuestra Companía, y un doctor in utroque iure, que fué companero de nuestro Padre Urbano, en Sena, y otro que venía por secretario, el qual es de buenas letras y virtud, y un sobrino dei barón d'Alvito a que llaman don Diogo Lobo con votos deliberados, y un Cavallero de mucha manera, hijo dei capitán d'Alcácer de Afriqua, y otro Cavallero y otros dos, los quales de la nave en que veníammos, venían movidos y están todos en casa, y serán nuestros e vuestros Hermanos, los quales os encomiendo mucho que sean de todos encomendados, por- que son de mucha edificación, y otros muchos criados dei Rey y de mucha manera y de mui buenas partes. Enfermos avia asaz. Juan Hernández era enfermero, maestro Gaspar era predicador y proveedor de los enfermos dei convés, yo les aparejava el comer y hazía pláticas; y credme, Hermanos mios, que fué el fructo tan grande que era cosa strana, porque allende de las limosnas que sacamos en la nave para los pobres enfermos, llegados a Moçambi- que nos dieron di [e] z o doze mil maravedis de la misma nao para los pobres enfermos dei hospital adonde estuvimos todos xb [15] dias sin dormir de dia ni de noche, y si uno se recostava, los otros velavan por las muchas y grandes enfermedades que teníanmos a cargo de curar, y les minis- trávammos todos los sacramentos hasta la Extrema Unctión con mucha edificación, así nuestra como de toda la gente. Era cosa de espanto, porque no hablavan sino en nosotros, y acaesciéronnos en Moçambique muchas cosas de mucha edificación. 117
Partimos de Moçambique y truximos connosco xxx enfer- mos o más, sin los que metimos en las otras naves, y esto fué por ver el gran detrimiento que padecían los miserables honbres y Hermanos nuestros en Christo; de manera que metimos de Moçambique en la nuestra nave y en otras cerca de ciento y tantos enfermos por no morir desampa- rados. Y parece ser ordenado por nuestro Senor, porque los pobres hombres no tenían que comer sino un cierto pan que Uaman mocates, que es como pan de mijo, y fal- tavan de melezinas y agoa para bever, porque no lo com- padece la tierra, ni el capitán tenia culpa, porque en ello hazía lo que se podia hazer, y nosotros andávammos por las casas a pedir agua para los enfermos. Y frequentamos un cierto moro, que se dize ser xeque de allí, y en él no se hizo ninguna impression: es honbre discreto, hizonos mucha honrra, pero no se quiso convertir, y sentimos ser la causa por no perder la authoridad, y domino, y poder que tiene. Dava respuestas aplazibles, dándonos a entender que la verdad era ser christiano, lo qual es nuestra fee, no quedó alcorán ni philosophía natural que no viniese a campo: a menester [ser] encomendado a Dios. Estavammos mui descontentes por nos parecer que nues- tro Senor dipusiera dei Padre que vénia en otra nave, por non tener novas dél, ni de la nave en que vénia con los más Hermanos, mas teníammos conjecturas o casi certeza que arribara o le aconteciera otra cosa. Y ansí descontentes nos salimos de Moçambique y llegamos a 2 ó 3 de Setem- bre a la índia, al puerto de Goa, adonde tenemos nuestro colégio de Santa Fee, y por otro nombre San Paolo, descon- tentes por la tardança dei Padre, y mui contentos por hallar al Padre maestro Francisco, dei qual se no puede dizir por carta la generalidad de sus virtudes, porque son de tanto peso y valor que no si [e] nto cosa igual a él: anda de tal i i 8
\ manera lleno y enbevccido en el amor del Senor que ninguna otra cosa siente, y cierto, mis amados Hermanos que para particularizar seria nunqua acabar, y el tiempo, mo no da lugar, porque ai muchas confessiones y occupa- ciones que después contaré. En pocas palabras que no sé si podré hazer, si no se dexare lo mejor por dizir, y si fuera posible scrivir todo hiziéralo, porque sé el deseo y Consolación que alia ai de verdades y edificaciones de la Compania y dei bienaventu- rado maestro Francisquo. El es un hombre no viejo y de buena desposición, no bebe de ninguna calidad vino, mui sforçado soldado de Christo, como dize San Bernardo: «Fidélis miles vulnera sua non sentit, dum benigne sui regis vulnera intuetur». De manera que podemos todos dizir que tenemos hun mártir vivo entre nosotros, y tengo que lo será presto, porque ia no le veo buscar otra cosa; tiene llevado muchas flechadas por amor de Christo crucificado, y le an quemado muchas casas adonde dormia, y noclie de 3 y 4. Ved qué sueíio seria el suio tan descansado. Con verdad se puede dizir soldado de Christo y no es nada lo que diguo, porque milagros acaesceran muchos en sermones que hizo y de mucha edificación, y no lo scrivo, por quedar para otro o por más acertar no ser manisfesto, aora nada dél, sino que lo encomendéis mui particularmente todos a Dios nuestro Senor. Y al Padre Luis da Grã pido en su absencia una missa por él, y letanías a los Hermanos, con lembrança deste miserable y sin provecho Melchior Gon- çálvez. El dicho maestro Francisco es pasado al Cabo de Como- rín, donde están muchos Hermanos y mui llegados a la cruz, y oferescidos cada dia para padescer muchos martírios, como acaesce a las vezes padeceren, y io de camino para ir con él, por lo él así querer. Estando detriminado en la yda con asaz contentamiento, detriminó que.sperase hasta la venida i i9
y recaudo del Padre que venia en la otra nave. Quedé con los más que avíammos venido, y tal me volvi con su ida que me parecia ia no ser de la Compania de Jhiesus (!), por las misérias y poco fruto que en esta tierra se hazia; digo en esta tierra de Goa, siendo absente maestro Francisco. Quiso nuestro Senor traher daí a hun mes o más al Padre (3), con los demás Hermanos que con él venían, y començó a poner fuego con sus sermones y exemplos, que fué cosa admirable por nos parecer a todos que ningún recurso avia por la frialdad de la gente, y desposición de la tierra; y credme, mis Hermanos, que va la cosa en tanto crescimiento que no es nada lo que hasta aora a acaescido en Portogal, porque es el concurso tanto de la gente a San Pablo, no lo aviendo antes, que es cosa estranha, y no podemos cumplir con las confessiones, y los movimientos son tales que creo no dexaré de manifestar algunos. El Pa- dre, ultra de haver hecho gran fruto en San Pablo, reformo mucho la casa, de manera que nos llegamos a la cruz quanto podemos, y spero que con ruegos de todos no se errará el camino. Y se la deseáis, (como seré buen testigo que todos la deseáis), pidí con instancia al Superior, y en spe [c] ial a Dios que os haga dignos dello, y creo hará, pues yo sin lo merecer me hizo. Finalmente.predicó en una cierta iglesia que se dize Nuestra Senora de la Luz, adonde fué dada mucha [audiência y atención], y fué dia de Todos los Santos, porque sacavan de la horca un ahorcado de poco: fueron allí los coloquios muchos y con mucho fervor, de ma- nera que hizo gran abalo a todos los de la tierra y a los maiores espanto. De manera que nada se haze sin su consejo, digo de los cavalleros y moradores de la tierra, y así es de maravillar, a quien nuestro Senor da hun cargo (3) O P.e António Gomes chegou mais tarde na nau «Galega».
público y de tanta perfection darle luego médios suficientes para lo bien administrar. Aquá todos son predicadores, empero el Padre Superior es cosa estrana, porque me parece que podré dizir sin scrúpulo de consciência que no lo vi igual, porque es mui corriente en letras y lenguaje, y los coloquios que haze es una corriente de lágrimas, así él como el auditório. Maestro Gaspar es cosa estrana, acaesce hazer en el dia 3, 4o sermones, no queda cárcel, ni mesa dei Gover- nador, ni hospital que en todos no predique: es de mucha edificación y fervor, y haze mucho fruto. Él y yo andamos por fuera; anda la cosa tanto a tropel que no ai quien llevante cabeça. Paulo dei Valle es mandado al Cabo de Comorim al Pe. maestro Francisco. O charíssimos Hermanos, doleos de vuestras consciên- cias, mirá el pan de Christo que coméis y no os lo traigo a la memoria en pensar que no os acordáis dello, mas quiero en esto despertaros; no dexéis de pedir por os parecer que no os darán, porque bien sabeis todos el dicho de San Ma- theo e por mejor dizir Dios por su boca: «Petite et acci- pietis, pulsate et aperietur vobis». Ved si estáis aparejados a salir con Christo de Jherusalem y aiudallo a llevar aquella grave y cargada cruz hasta la poner em monte Calvario, quia non habemos hic civitatem permanentem, sed futuram inquirimus. Esta es hecha de priesa y mui de priesa en la sacristia en viernes, nueve de Novembre, ano de 1548. Esperamos por maestro Francisco si no fuere muerto por todo Enero para se pasar a una tierra por nombre Japón. Hermano de todos mis Padres y Hermanos Melchior Gonçález.
26 CARTA DE BALTASAR NUNES AOS IRMÃOS DE COIMBRA Travancor, 18 de Novembro de 1548 Documenta Indica, 1, 317-322. A suma graça de Christo Noso Senhor seja sempre connosco. Amen. Charisimos Irmãos em Jesu Christo, noso Redemtor, o qual ele sabe quanto mais mynha alma fora consolada em escrever a todos muy partycularmente que a todos jun- tos, mas como todos somos yuntos nhum amor, nhuma charidade, nhuma companhia baste pera todos esta minha pobre carta, aselada e escrita com ho selo do amor que em meu coração vos tenho. Vosas cartas, Irmãos, me derão a 10 de Outubro de 1548 annos, estando eu nesta costa do Cabo de Comorym muy desejoso de ouvir novas deles e prouve a Noso Senhor que o portador, que mas trouxe de Goa a esta Costa, que foy o noso tam amado e querydo P. mestre Francisco, o qual eu aynda por meus pecados não tynha visto até este tempo, asym que me quere Noso Senhor consolar com sua vista como com vosas cartas. Aos Irmãos meos deixo de falar do prazer que receby com as cartas que me mandastes e quero começar a dar novas do noso bom Padre e pay. Deveis de saber que hé homem não muyto baixo nem muito alto, da estatura do P. Manoel da Nóbrega, seu andar em booa maneira, de maneira que ho não sentys, seu rostro descuberto, os olhos sempre altos e cheos d'agoa, e a boca chea de riso, as palavras poucas e movidas a chorar, en
sua boca nunca, nunqua houvireis senam Christo Jesus, a Sanctysima Tryndade, e dizendo estas cousas acode dizendo: «(5 Irmãos meos e meus companheiros, quam milhor Deus temos do que cuidamos; olhay e day graças e muitos louvo- res a Deus, porque em tão breve tempo como há que a nosa sancta Companhia hé confyrmada, não avendo mais que sete anos, vemos nela quer o Senhor tanto obrar como vemos, meus muito amados companheiros, que huns estão em Roma, outros en Valença, outros en Gandia, outros en Coinbra, outros en Santa Fe de Goa, outros en Sacotorá, outros en o Cabo de Comorym, outros en Malaca, outros en Maluco, outros en Japão pera onde eu agora irei». Estas palavras dezia, Yrmãos meos, com tanta devação que nossos companheiros todos, que onde ele está nos movia a chorar, porque ouvindo palavras ditas com tanto amor e charidade, e pera noso exenplo, nos fazia cobrar mayor fervor de espiritu e acrecentar maiores desejos de padecer, contando-nos os trabalhos e fadigas que pasou. En as terras por onde foy e andava, tal fama deixava que hé enposivel poder-se crer, as quais eu não quero escrever, porque são cousas de tanta estima que se não ham de confyar en papel somente. Os justy meditabitur sapien- tiafm] e[t] lingua eius loquetur yuditium (l). Hé tanta a sua fama e exemplo que por toda esta Ynd [i] a hé soada, e aquele que por mais seu amigo se dá, ele se chama mais '-emaventurado. Estas breves novas vos escrevo, Irmãos, porque sei que aveis de folgar com as saber, mas a mim me peja muito mais que a eles de não escrever muito meudamente as mara- vilhas que delle falão. Sabey e tende para vós que o Senhor obra muitas cousas por ele, as quais, como yá digo, (1) Ps., 36-30. i23
não hé licito falar e portanto, quanto ao que ao noso bom pay mestre Francisco toqua, não falo mais, somente que ele se vay pera Yapão en Abril de 1549, que hé yornada de ano e meo, 2o me parece, de caminho, e isto por as deversidades dos tempos, porque não ventão o [s] ventos senão en certos meses, de maneira que ay muito trabalho, mas contudo por o muito fructo e salvação das alma [s] detremina o noso P. mestre Francisco de ir laa. Porque movido do muito zelo que nele ay por acrecentar nosa sancta fee nos reparte asy por estas partes, sendo ele o pry- meiro que say aos encontros mais perygossos pera a nós houtros mais animo de esforço nos acrecentar: de maneira que o P. Joan da Beira e o P. Nuno Ribeiro e o Irmão Nicolao estão em Maluco, bem longe de nós outros; o P. Francisco Perez com hum sa[n]cto Yrmão, que quá mestre Francisco tomou, por nome Roque d'Oliveira, estão en Malaca, quinhentas legoas de nós outros; o P. Antonio e o Irmão Adão Francisco e o P. Amrique Amryquez e eu e o Padre Francisco Anriquez com outros que do Reino vierão, o P. Belchior Gonçalvez, estamos nesta costa do Comorym, e outros en Santa Fee de Goa, que hé donde nós estamos dozentas legoas; e o P. Cipryano e o Irmão Morais com outros dous companheiros, como vos escreverão, vão [pera] Sacotorá mui longe de nós. De maneira que desta sorte estamos quá espalhados sem nos vermos huns aos outros somente por cartas, e aynda en diversos tempos e não acontynuadamente como desejamos, porque não nave- gão sempre, somente no verão. Hos comeres que nós houtros comemos nesta costa do Cabo de Comorym são: arroz asi como laa trygo, galinhas, peixe, leite, ovos, manteiga; e nos dão por hum fanão, que hé huma moeda que tem xxb reis, tres galinhas muito grandes e booas; e temos muitos fygos e os ay todo anno, mas não nos ay en todos os lugu [a] res desta costa, somente 1 2 4
onde eu ando e o P. Francisco Amriquez. Temos muitos cocos e muitas chanhas que são [os] mesmos cocos, mas não são aynda de todo feitos cocos. Estas chanhas darão cada huma hum cortilho e meo d'agoa que não faz nenhum mal, mas muito booa e sadia e logo bebo duas, tres juntas e não faz nenhum nojo. A gente desta Costa, asym christãos como gentios, todos andão despidos, somente hum pano de dez ou doze covados que syngem derredor de sym, e asy ãodam homens como molheres, e os meninos piquenos de dez annos e mininas todos andão sem nada. É muito sadia terra e todo o noso andar hé ao longo da costa, porque os christãos todos vivem pegados ao mar, porquanto pelo sertão dentro não ay chris- tãos senão tudo gentilidade. Item os pagodes destes gentios são casas muy grandes, todas de pedra, mármore, muyto pera ver, e as feguras dos pagodes são as seguintes: scilicet bois, vacas, allyfantes, ysto hé a mais como en feguras d'omeins e de bogios, e estas feguras são muito grandes delias, e outras mais peque- nas são de pedra e barro e pao. Os que tem carego destes pagodes se chamam bramanes, asy como entre nós os Padres: são omeins muito validos entre elles e de muito cre- dito estes bramenes; he ò tempo que o pagode quer comer, tamgem hum bazio pera que saybão que àquele tempo o pagode come. Tem grande cozinha en que lhe fazem o comer; depois que lhe pom o comer diante, que sai o bafo do comer, lho tornam a tyrar e dizem que ja se fartou, que no fumo da comida se sostenta, então comem os bra- menes o comer. Quando quer o pagode ourinar trazem leite e pon-lho diante, então dizem que já ourinou. Ao tempo que os pagodes vão a casa, vão mais de dozentos ou trezentos omeins com elle com grande tanger e outras cousas, e ho levão en cima de hum cavalo de pao todo untado com azeite: tem tanta veneração nele como nós 1 2 5
outros ao Santo Sacramento. Tem pera sym que fazem grandes milagres. Esta gentilidade tudo quanto os bra- menes lhe dizem tudo crem, porque lho dizem da parte do pagode, de maneira que ahy entre eles cousas muito feas e desonestas pera vos aver de escrever e por iso me callo. Os pobres que ay entre elles se chamão joges, omeins que elles tem por santos e lhe fazem a zombarya e dizem que são santos, pois de sua propria vontade andão a peri- grinar por o mundo. Estes joges tem rey sobre sym e lhe dá muita esmola de tudo o necesario, e quanto mais rotos andão por mais santus os tem, e andão muito remendados, e outros mais de todo [nus], salvo huum piqueno pano pera cubrirem suas partes vergonhosas. Não ai molheres senam tudo omeins, e alguuns delles são casados. Estes bramenes não comem carne nem cousa de sangue, salvo leite, manteigua, e todo ho demais são ervas; e bem tenh [o] pera mim que às escondidas a comem. Trazem por deviza de conhecimento huma linha atada ao tiracolo. São casados e tem quantas molheres querem, e dizem que são pera o pagode. Muytas molheres e as mais omradas filhas de gramdes senhores dão sua omra ao pagode, tendo huma certa maneira pera ysso. Ay outros pagodes pequenos que estão pelos caminhos e estes estã[o] por esta rezão; dizem que sua mãy lhe disse que não casase senão com huma molher mais fermosa que ella, e que por esta causa os pom nos caminhos pera que vejão quantos pasão até que ache huma molher mais fermosa que sua mãy. Nestes pagodes estão homeins que tem carego delles e dão de beber a quantos pasão, agoa, a toda a sorte de gente, de maneira que haté o dia d'oje estão estes tristes pagodes sem serem casados e asy estarão até a fim do mundo, e os gentios tem muito pera sy que an de cassar. 126
Já agora será rezão de césar por não enfadar aos letores que esta lerem, e asym porque vos escrevão outras de m [a] ys ymportancia e mais dignas de serem ouvidas que esta, portanto fyquo rogando por todos vós outros a Jesu Christo que vos faça dignos de que pelo seu santo nome padecerdes alguuns trabalhos, porque nese regno de Por- tugual tendes tanta mercê como nós. Que Deus Noso Se- nhor por sua misericórdia ynfenita seja sempre com nós outros. Amen. Vale. Deste reino de Travancor a 18 de Novembro de 1548 annos. Vosso Irmão em Christo noso Redemptor e mais pobre de vertudes de todos os do mundo. Baltasar. De Baltesar Nunes. 127
27 CONFRARIA DE NOSSA SENHORA DO ROSARIO DE GOA Goa, 22 de Novembro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, I, 81-89. Mede 210x300 mm. Duas jolhas em bom estado. [i r.] Senhor Do vigário e mordomos da Conffraria de Nosa Senhora do Rosario de sua cidade de Guoa. Amtre as ermidas e casas de oração, que estão nos arra- baldes desta sua cidade de Guoa, de que algumas ora são freygesyas, he huma que se chama Nosa Senhora do Ro- sairo, a mais amtiga casas destas de fora, a qual por ser freygesya, como dizemos, e a gemte, graças a Noso Senhor, ir em gramde crecimemto de casados e fylhos seus e chris- tãos da terra, ho vigário e mordomos e comfrades dos anos passados, per licença do bispo, detreminarão de acrecemtar o corpo da casa e capellas, e o poserão loguo em obra, de que ja esta feyta a capella gramde do altar mor, e ora esta ja jumto pera o corpo da igreija, e o mais que esta por fazer case todas as achegas necesarias e esperamos com ajuda de Deus, de este ano em que estamos de 48 e no que vem de 49 se acabar toda ha obra; e porque o retavolo do altar mor fyca muy pequeno, segunmdo a gramdura da capella nova, e mais por ser qua feyto per mão e pymtores da terra e os olios e tymtas não muy perfeytas, o vygario e mordomos do ano pasado escreverão a Vosa Alteza, pe- 128
dimdo-lhe fisese merce e esmolla a casa de hum retavollo e porque quando levou a carta não foy, e não sabemos o que se dela fez, tornamos agora os ofyciais deste ano, com o mesmo petitório, gramdemente senhor, nos fora comce- der-nollo pois he cousa de serviço de Deus, e a casa ser mui pobre, e não poder soprir a tamto e a obra se fazer toda //de esmollas, que lhe os devotos dão, e Vosa Alteza t' V-1 mamdou prover outras casas de retavollos de menos jemte e mais modernas que esta, o qual retavollo ha-de ser de vymte cymquo palmos de altura, com seu pe e guarda pe, he dezanove de largo com os paynes e figuras que a obra requer; chama-se a envocação da casa Nossa Senhora do Rosario, como atras fyca, e fa-se (l) sua festa a quymze dias de Agosto, dia de Asumção de Nosa Senhora; com- forme a isto se farão as imagens que mais devoçam repre- sentarem. Vyra empacado, de maneyra que ha humydade do mar o nam dane, nem faça nojo as imagens e tymtas, e depois da obra ser acabada toda lhe envyaremos, senhor, em debuxo o modo e feição e gramdura de que a casa fyca, e por ser casa de muyta devoçam comtynoadamemte, os padres de Sam Paulo e os de Sam Domymgos prymcypalmemte todos os domymgos e samtos temos pregaçam na casa, e crea Vosa Alteza que fazem muito fruyto asy nos portugueses, como na jemte da terra, e com nos Vosa Alteza mamdar este retavolo, fycara a casa muito mais devota. Dom Duarte de caa leva a cargo fazer lembramça deste retavolo a Vosa Alteza, por ser ele pesoa que tem muita devoçam na casa e ser da sua fregesya. (1) Isto é: faz-se. Doe. Padroado, lv - 9 I 2()
A vida e real estado de Vosa Alteza Noso Senhor muitos anos acrecemte, pera seu samto servyço. De Goa, a 22 de Novembro de 548. Manuel Pereira ou Sá (2) — Aleixos Afonso — Luis — Mellchior Luis do Guiam — Jorge Guomez. (2) A leitura tanto pode dar P', isto é, Pereira, conto Sa.
28 CARTA DE D. JOÃO DE ALBUQUERQUE, BISPO DE GOA A D. JOÃO III, REI DE PORTUGAL Goa, 28 de Novembro de 1548 Original existente no ANTT: — CC, II, 241-90 (1) Mede 310x210 mm. São quatro folhas em bom estado. Senhor. Bem sey que outros escreverão o caso novo que a acom- [i] tecido espritual em esta sua cidade; espiçialmente o escre- verão os padres do colégio de Santa Fee. Quis eu também escrever estas regras, pois que me coube quinhão do tra- balho, aimda que outros mais virtuosos que eu me levarão vemtagem e levão nesta parte; e isto a gloria e omrra de Deus, e comsolação e comtemtamento de V. A., pois o primçipal que desta terra pretemde foy e he comverter almas da jemtilidade a fee catholiqua e verdadeira de Noso Senhor Jesu Christo, o qual teve por bem de descobrir esta terra a el-rey Dom Manoel voso pay, que santa gloria aja, mais que a outro rey christão, e despois fiquou V. A. em suseção pera sostentar esta santa impresa. O caso he que omtem, domimguo, bautisamos no colégio de Santa Fee a hum jemtio que se soia chamar Loquu, que aguora se lhe pos nome Luquas de Saa. O qual era o segundo Saulo em sostemtar a todos os jemtios desta ilha e favorecer em sua seita. Foy mui riquo e abastado, e gramde arremdador de alfamdegua e das outras remdas (1) Publicado, em parte, pelo Rev. P.e Wichi nos Documenta Indica, 325-332. 13 1
de V. A. muito tempo, e mui amiguo e servidor dos guover- nadores, e comtino no paço e favoreçido; mui larguo e gastador com os jemtios, damdo-lhe esmolas e fazemdo-lhes merces por que não se tornasem christãos. E nisto levava muita vemtajem a Crisnaa tanadar-mor desta ilha, posto que Crisnaa aja sydo de mais credito que ele emtre jemtios; e este Crisnaa e mais symulado, e de socapa a favoreçido e favoreçe a jemtilidade quamto pode. Teve por bem Noso Senhor a este Loquu, sem pao e sem pedra, que quero dizer, sem preguaçomis e repremsomis, porque a muitos anos não fazíamos senão pilijar nele com preguaçomis parti- culares; deixavamo-lo ja; vem Deus derriba-o do cavalo, que he da omrra em que amdava, e da-lhe huns açoutes a [« *•] Deus manifestos e // a nos ocultos, de pobreza e mimguoa, e humas pamquadas imteriores em seu coração, que lhe cairão as escamas, que são as ydolatryas, paguodes, çerimo- nias, adoraçomis, comtumacias e toda imfilidade, etc., de seus olhos, que são as potemçias de sua alma, que hehe emtemdimemto e memoria e vomtade. O emtemdimemto ocupa-se em conhecer os artiguos de fee, a memoria ocupa-se em apremde-los, a vomtade em ama-los preçeitos dyvinos. Com ele se bautisarão symquo pesoas, sua molher, dous guamquares omrrados e hum seu sobrinho e outra molher. Fez-se gramde festa, acodio toda a cidade a ver aquele bautismo, e todos os fidalguos e o governador. Ouve cho- romelas e trombetas e atabales, ripicat de synos. Eu o bau- tisey, hum padre da Comgreguação (2) levava o baçio, outro o saleiro, outro os oleos, outro hum çirio na mão, , outro os pavios, em proçição pola crasta (3), omde ouve de muitos omens fartas lagrimas. Graçia de Saa, gover- nador, foy seu padrinho. Preguou o Padre Amtonio Guo- (2) Ou Companhia de Jesus. (3) Isto é: claustro. / 3 2
mez em favor dos christãos da terra e da fee, e quamto custarão as almas a Jesu Christo, mui bem e consolativa- mente. Quis alarguar-me, porque sey o guosto que tem V. A. em ouvir cousas da salvação das almas e mais nestas partes. Crisnaa esta derribado; o tanadar-mor dos jemtios esta re- teudo do Ydalquão; seu filho Dadaji amda nesta cidade muito metido no paço e ateguora a servido ho oficio de seu pay. Derribado este seu filho deste paço e deste mamdo, aimda que seja soberbo, com ajuda de Christo, se nos deixa- rem fazer e nos derem licença pera dar os ofiçios a chris- tãos, e com discrição, abater alguns jemtios omrrados, os padres da Comgreguação de Jesus e eu, como seu com- panheiro deles, em hum ano ou a mais tardar em dous, faríamos toda esta ilha christãa. E não peço a Noso Senhor, despois que ele me de graça pera me salvar, senão ver amtes que morra esta ilha toda christãa, porque morreria descamsado; porque a minha ydade e trabalhos que tenho pasados na religião (4) hee nesta terra, e jumtamente des- guostos, não dão luguar a muito viver. Eu faley ao Gover- nador que favoresese e dese ho oficio de Chrisnaa a este Luquas de Saa, porque em favorece-lo e ajuda-lo vay tudo; não sey como sera. Item. Avera dous meses que mamdey na ilha de Divar hum meirinho da igreja e o padre da irmida e duas teste- munhas a buscar paguodes (5) e livros da jemtilidade a casa dum jemtio omrado, porque quando vão, vão a cousa certa. Acharão huma canastra meam alta de cairo com huma capa em syma chea de livros a sua guisa; trouxe- (4) Refere-se ao tempo passado como religioso da província francis- cana da Piedade. (5) Pagodes aqui são imagens ou esculturas. 1 33
rão-mos aqui a casa. Tamto amdou favorecemdo este Dadaji a este jemtio, omde se acharão os livros, que alcam- M sou do governador que //me mamdase pedir os livros. Veio a esta casa omde eu moro hum criado da parte do governador, emtramdo omde eu estava com o mesmo Dadaji, que tornase a dar os livros aquele jemtio. Eu não pude sofrer demtro no coração o caso desta maneira; levam- tei-me da cadeira sem falar, tomey o bordão que tinha a par de mim, corri, aimda que velho, e fuy tras ele toda a camara e sala. Como era moço, correo mais que eu a porta da rua e, cheguamdo eu a porta, cuidey que lhe dava com o bordão nas costas. O portal era baixo e com o açoda- mento dei com o bordão no portal e fi-lo em dous pedaços. Torney-me a camara a falar ao criado do guovernador e dixe-lhe: «Dizey a Sua Senhoria que estas diligemcias que eu faço, a jaa muitos dias e em tempo dos guovernadores pasados, pera desfazer a jemtilidade e acrecentar a fee catholiqua de Jesu Christo; este Dadaji não avia de ser favorecido nem ouvido nem emtrar no paço, que, se Sua Senhoria não a por bem que isto faça, que eu não vim a esta terra pera outra cousa, por mamdado de el-rei noso senhor que ordenar e dar bofetadas a meninos na crisma, quem quer o fará». Foy-se o moço; numqua tive reposta nem me falarão niso ateguora. E omtem amostrey a canastra com os livros a Amtonio Guomez; ele cobiçou hum livro deles e levou-ho a ver se acharia quem lho lese. Escrevo isto a V. A. aimda que nas outras o não escrevi por pejar-me. Parece-me bem omrar muito a este Luquas de Saa e dar-lhe V. A. o oficio de Chrisnnaa, que he tanadar-mor desta ilha sobre todos os jemtios, porque não a hi cousa que mais os atragua ao bautismo, despois de Deus, que são favores e omras, porque não mui vanos. E sera Loquu, que '3*
se chama Luquas da Saa, com Chrisnnaa, como Jacob com Isau, que lhe furtou a bemção Jacob, porque Isau não na merecia. Item. Por espiriemcia acho não averem vimdo a esta terra omens de mais fervor, e de mais cuidado e diligemcia pera o caso da christãodade e comversão dos imfieis, e ajuda dos portugueses pera se salvarem, que os padres da Companhia de Jesu. Eles cada dia vão ao esprital a com- fesar e servir os emfermos, e asy são mui comtinos no tromquo, e a mesa dos lascarins que da o Governador, por- que ele nela não come nem cea, tres dias na somana pre- guação amtes de jamtar, estamdo ahi todos os lascarins asemtados por ordem a mesa, e hum padre da Companhia que se chama Mestre Guaspar em pee lhes pregua; acabamdo, vem o jamtar e jamtão. Comfissõis jerais de muita jemte omrada, que temos quasi todo ano coresma; visitão as irmi- das; preguão por elas aos canarins // moços gramdes da mesma terra na limguoa, criados no colégio, e eu vou as vezes laa com eles. Amda o exercício tarn bom que Noso Senhor o comserve; pera vir em perfeição temos necessidade de mais favor da cabeça. Todos os padres, asy framcisquos como domeniquos, que aguora V.A. mamdou, são mui virtuosos e fazem o que podem com suas preguaçomes, mas e nesta parte em a qual sobre todos tem respeito V. A. gramde deferemça a hi, porque não se pode cuidar nem crer, senão de quem o ve e amda amtre eles. O padre de Sam Domimguos, que se chama vigairo-jeral deles, me falou que queria mamdar dous padres seus a Chaul pois que herão muitos pera preguar e comfesar. Eu folguei muito com iso e lhes dey a milhor irmida, que a hi naquela fortaleza omde estivesem recolhidos; e a hi casa que baste jumto da dita irmida, omde os padres caibão e estem a
sua vomtade, que he da irmida. Dise-lhe que também man- dase outros dous a Couchim a fazer o mesmo, que eu lhe daria outra irmida, omde se recolhesem; e asy estamos comsertados. Creio que ham de escrever a V. A. que aja por bem mamdar fazer outra casa da sua ordem em Chaul, e outra em Couchim; ao presente parese-me a mim, segumdo Deus, que não se devia fazer, e que bastava esta desta cidade por aguora; e as rozomis pera iso, se V.A. quiser, eu lhas mandarey, emtre as quoais quero dizer huma e he: toda esta Imdia queria ver chea de Apostolos, polo que tenho dito; porque se ahi os ouvera, ja estivera povoado Chaul e Couchim e as fortalezas deles, e feito muito grão fruito e no desejo de V. A., porque eles amdão polo Cabo do Comorim e nesta cidade, e aguora vão quatro a Çacotorá; e em quada rua queria achar hum por toda esta Imdia e dous, porque a devação que lhe tem os povos, e a onesti- dade de seus trajos e o menospreço do mundo trespasa os coraçomis dos omens. São mui leves de armar pera as cousas esprituais; não são carreguosos a clerizia, nem lhe tomão os trimtairos nem misas, nem emterrão corpos de mortos, nem amdão com a cruz polas casas levamdo os defumtos com su Venite (7). Porque os cleriguos desta terra são mui pobres, que em Cananor, como se fez aly casa, não se pode mamter senão soo o vigairo omde soião estar quatro beneficiados e o vigairo, e se celebrava na igreja maior o oficio divino, e aguora diz-se huma // misa rezada como na Lamdeira (8), porque não se podem man- (6) Os dominicanos tinham chegado a Goa havia pouco. (7) A expressão pode ter dois sentidos; o primeiro referir-se-á ao salmo 94, Venite, pelo qual se principia o Oficio dos Defuntos-, o segundo será o responsório Subvenite, que se recita ou canta à entrada do cadáver na igreja. (8) Nome de duas pequenas paróquias, situada uma no concelho de Montemor-o-Novo, e a outra na Corunha, em Espanha.
ter, e os Padres da Companhia toda sua ocupação he nas almas, sem opresão da clerizia. Sou obriguado dizer as ver- dades a V. A., symgularmemte nesta parte, cuja obriguação he minha. Pode sobre isto fazer o que o Senhor Deus lhe espirar. Item. Sou informado que os vereadores da Camara escre- vem dous capitolos sobre mim a V. A.: ho hum que andam jurados pola ilha e pola cidade pera coimar os christãos da terra que não vão a missa, e que abrem as botiqueas os gentios os dominguos e dias santos amtes da misa, pera levar penas, se as abrirem. Item. O segundo, que querem conformar as penas dos matrimónios, que se fazem a furto em suas casas, com as penas desses reinos. Item. Quamto ao primeiro, eu mandei a dous christãos da terra a dez annos os domimguos e festas de guarda pola menham, como ouvem huma missa pequena, que amdem pola cidade, fazemdo fechar as botiquas e logeas de suas mercadorias atee que dem as badaladas na see; esta isto ja asentado, como a dez anos, que se comesou, e são christãos da terra e não portugueses, porque sabem a linguoa e emtemdem-se huns com outros, e se achão algumas botiquas abertas, fazem-nas fechar, mas não levão penas, e esta he a verdade. Pola ilha mandar jurados, não a hi tal; que se nestas cousas não ha hi hum pouquo de riguor com prudência, não se fara nada, e a jemte desta terra quer que ajam hum pouquo de temor, porque nas terras de V. A. não se a-de comsemtir cousa senão segumdo a ordenação da Santa Igreja. Item. Quanto ao segundo, cada bispado e arçebispado tem suas ordenaçomes, por omde se rege, e cada hum tem '37
taxadas as penas dos casamentos a furto. O bispado do Alguarve tem, pola desobediência dos que se casão, que caem em escomunhão, hum cruzado do noivo, e outro da noiva, e çento e çinquenta reis de cada testemunha; e o arçebispado do Fumchal tem quinhentos reis, e por cada testemunha çemto e çymquenta. E este bispado rege-se, em esta parte, por o arçebispado do Fumchal, e aos pobres não levão nada, e aos muito riquos a metade. [3 *•] He qua a jemte // tarn ysemta e largua em guastar, que sy se alarguase menos pena, ninguém conheceria a igreja a vir-se a casar a porta delia. Dous vereadores este ano estam hum pouquo de mim aguastados: a hum, por quere-lo apartar de sua molher, por ser casado com ella dentro no quarto grao, e não ha despemsaçam; outro casou huma filha e desmandou-se em fazer grandes estrondos e com- padradeguos, sem liçemça da Igreja, em sua casa, e leva- ram-lhe a pena por imteiro; e disto estam elles aguastados hum pouquo; esta he a rezão por omde se movem elles a tocar no que não emtemdem. Perdoe V. A. escrever estas baixezas, porque estou pelos mexeriquos pasados, que algu- mas pessoas la am escrito, como guato escaldado que da auguoa fria ha medo, e se vir la alguns ytemes desta cali- dade, ou doutra, peço a V. A. que não lhe de credito, por- que de longuas vias etc., e mais, que omem não faz a vomtade a todos, por ser obriguado a fazer o que deve. Item. Em esta cidade esta hum cleriguo françes, por nome Guabriel Fermoso, que foy capelaão de Martim Afomso de Sousa, e dei-lhe a viguairaria de Nossa Senhora da Luz, por amor do governador, e foy com ele a Portugual, e de la tornou capelão de V. A., e protonotairo, feito por o nunçio, que esta em Lisboa, de maneira que esta ysemto de mim, e immediato ao Papa. Come o beneffiçio que eu lhe dey, e que se fizer alguma cousa, que não tenha nele '3S
\ jurdição. A-me requerido que quer trazer roquete nas pro- cições jeraes, e este ha emcetado a pipa primeiro que nin- guém, que he esta terra em esta parte que he hum gramde dano pera emxempro dos outros, porque a terra de seu natural he vãam, e não quer sujeição, e estima pouquo o dinheiro por onrra deste mundo. Querem ja cleriguos e dinidades ser protonotairos, e libertados da obediemçia, e trazer roquetes. Socorro-me a V. A. que remedee este mal que começa, pois não tenho outro amparo: o remedio he que mamde loguo derevoguar este Breve deste protonotairo, e asy cesarão os outros de impetra-lo, quando virem isto, porque he ornem ydiota, e mamde a eses nunçios que taes breves não pasem, nem outros que perjudiquem a esta terra nova. Item. Pareceo-me bem emcarreguar V. A. ao Padre Am- tonio Guo // mez que viese algumas vezes a preguar a esta [0 see, porque aimda que ele o faz por sua virtude e eu roguar-lho, emcareguamdo-lho fa-lo-a com mais guosto. Receberey eu niso muita comsolação e semtir-sy-a qua que V. A. tinha lembramça daquilo que primeiro fumdou e fez, que he esta ygreja catedral. Este padre pregua mui consolativamente e faz fruito nas almas, e a see vem a mais da gemte por ouvir os oficios divinos e he a ygreja com- petemtemente gramde, cabe nela muita jemte. Faço saber huma nova a V. A., que foy tam aceita a comversão de Loquu e de tanta hedeficação, que dahi a tres ou quatro dias se meterão no colégio tres fidalguos a servir a Noso Senhor. O primeiro se chama Dom Dio- guo (9), sobrinho do barão de Alvito; o segumdo Andre (9) D. Diogo Lobo, filho de D. Rodrigo Lobo, terceiro barão de Alvito. '39
de Carvalho (10), filho do capitão de Alcaçava (11), primo de Manoel de Sousa; o terceiro Alvoro de Fereira (12). Nosso Senhor a vida e estado de V. A. por muito anos com muita saúde a seu santo serviço emxalçe, e despois lhe de descamso na sua gloria. De Guoa a 28 de Novembro de 1548. Orador de V. A. Frey Juan d'Albuquerque. (10) Filho de Pedro Álvares de Carvalho e de D. Maria de Sousa Já jesuíta, regressou a Portugal em 1553. (11) Quer dizer: Alcácer. (12) Depois foi despedido da Companhia por S. Francisco Xavier que se encontrava já na ilha de Sancian. IcfO
29 CARTA DO PADRE NICOLAU LANCILOTO PARA S. INÁCIO DE LOYOLA Goa, Novembro de 1548 Documenta Indica, 1, pàgs. 342-344. Jesus. È tanto il fructo che fa il Padre Antonio Gomes nella cità di Goa, che no lo sapiria dire et è lui multo idoneo per questa terra per essere lui tanto fervente quanto è tépida questa gente di qua, et cun tutto questo nel fervore dil suo predicate parechi auditori escano fuori di sè, dicendo mai no haver sentito nè visto in queste bande tal cose. II maestro Gasparo (1) anchora predica tal dí tre volte con grande fervore et edificatione, in modo ch'el negotio spirituale in Goa va molto inanzi per la divina gratia, cosi anchora tutti li altri, che de llà stanno in queste bande, fanno grande frutto. Tucti stamo desiderando la venuta dei Patriarcha nella Ethiopia cun multi vescovi et preti litterati (2), perchè creda Vostra Reverentia, che venendo si fará tanto de fructo che non si potria expremire: et non solamente si reconciliará la Ethiopia alia Chiesa romana, ma anchora altre grande provintie de christiani, come sono la Armenia, Soria (3) et Alessandria, perchè delia Ethiopia si potranno tucti infor- (1) Padre Mestre Gaspar Barzeo. (2) Refere-se à expedição missionária, chefiada pelo patriarca D. João Nunes Barreto e pelo bispo D. André de Oviedo, chegada a Goa em 1556. Já em 1548 se falava nela. (3) Síria.
mare delle cose delia Chiesa romana; et secondo che ho inteso da persona de quilla terra, tutti desiderano obedir al Papa, ma non fanno ricorso a lui per rispetto del Turcho che sta in mezo, et senza dubio si questo viene in effeto sarà maggior cosa che da multi anni in qua si sia fatto in servitio de Iddio. Ho scripto a Vostra Reverentia 1'anno passato quanto si consolarebbeno et aggiutarebbeno molte conscientie, se del Sancto Padre si inpetrassi licentia per poter liberamente li christiani della terra trattar cun li mori et infedeli in ogni mercanzia, perchè in ogni modo tutti il fanno senza rispettar precepto o scumunicatione della Chiesa per la gran con- versatione che tengano con li infidili. II favor regio creda Vostra Reverentia ch e molto inpor- tante per la conversione di molti al christianismo, perchè la genti de qua tiene tanto perso il lume della ragione naturale, che non si moveno niente dalle cose invisibili, ma molto si lassano tirar et persuader per le visibili; et se qualcuno mormorasse de li christiani che se fanno in queste bande per interesso homano, mi pare non debbano essere ascoltati nelle soe ragioni aceptate, perchè, se non siano fatto li adulti christiani tanto perfectamente, li piccoli si fanno, et anche loro, venendo a sentir la parola de Idio et doctrina Christiana, poco a poco si vanno retirando al vero culto di Idio, anchorchè per qualche tempo non 1 adorano tanto sinceramente. Sichè non si deve desister di dargli ogni favor et aggiuto spirituale et temporale. Queste case che se fanno di qua per insignar li gioveni è il miglior modo che si può tener per piantar la fede in queste bande et quanto piu numero fussi de quilli nella India tanto magior frutto se farebbe, anchorchè non haves- sino tanta intrata tutte quante quelli di Goa, purchè fussino aggiutate col favor de Sua Alteza, perchè importa summa- mente doctrinar bene in questo luogho 50, in quello altre 142
tante, et cosi in multi luoghi; perche loro poi insignaranno alli loro parenti et vicini, et in questo modo et cun 1'insegnar in ditti luoghi la doctrina delia fede publicamenti, si piantarà a poco a poco la fede in questa gente barbara per la gratia di Idio N. S. 1 43
30 CARTA DO PADRE PAULO CAMERINO AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Goa, princípios de Dezembro de 1548 Documenta Indica, 1, págs. 345-349- A graça e amor de Christo N. S. seja sempre em vosa alma e coração pera sempre o esforçar e animar em cousas grandes e magnanimas pera seu serviço e louvor. Amen. A grande alegria e contentamento que recebi em ver cartas vivas que V. R. nos tem mandado pera consolação de nossas almas e de todos os fieis, e não somente pera os fieis, mas ainda poios infiéis pera os trazer a conhecimento de Deus verdadeiro, não posso com cartas explicar-lho, mas Nosso Senhor lhe dê a sentir na sua alma. Os fructos que de tais cartas vivas saem, por muitas cartas lhe serão decla- rados, e por isso não me alargarei em particular escrever-lhe os fructos que delias saem; mas a grande confiança que tenho, mediante a graça de Deus N. S., hee pera o outro anno poder-lhe escrever muitos fructos mui gostozos e saborosos; dos quais parte estão yá criados e parte em flores, pera o Senhor Deus dar sua graça pera se criar, acrecentar e emmadurecer; dos quais espero, dando-me Deus saúde e vida, que em particular de todos lhe darei larga conta. O grande gozo e contentamento que tenho cada hora e cada momento em ver e sentir a grande graça que Deus N. S. tem dada ao Pe. rector Antonio Gomez em suas pregações e praticas a todos muito agradaveis e consolatorias, não lho posso declarar, mas espero na infinita bondade de Deus N. S. que cada dia o acrecentará pera seu santo serviço e para *44
consolação das almas. Hé de tal maneira que, em qualquer lugar que vay pregar, corre o povo detraz delle, no que craramente mostrão o grande gozo que sentem em suas pre- gações. Nosso Senhor o preserve e guarde de sua santa mão pera cada dia mais perfeitamente se servir delle. Do P.e Belchior Gonçalvez não lhe posso por cartas escrever o seu grande fervor e charidade, o qual Deus N. Senhor lhe tem dado por sua mera bondade em suas confissões e praticas, e alguma vez em suas pregações, não somente aquy no collegio, mas ainda polias praças e ruas, particularmente onde estão os infiéis e gentios. Acompa- nha-o hum mancebo de casa que prega na sua lingua; e assy anda o Pe. mestre Gaspar com outro mancebo de casa que prega em sua lingua canarym. E assy Nosso Senhor polia sua infinita bondade trouxe à conversão de sua santa fee muitos gentios e infiéis. Não menos gozo e contentamento tenho do Padre mes- tre Gaspar em ver e sentir os grandes does e mercês que Deus N. Senhor lhe tem dado por sua infinita bondade nas pregações e praticas e em confissões, e outras obras de chari- dade; em particular não lhe escrevo, porque outros larga- mente lhe escreverão. Deus N. Senhor o guarde sempre, e acrescente nelle a sua santa graça pera sempre perfeita- mente se servir delle. Do outro Padre mancebo (l) não escrevo, porque logo se foy pera o cabo de Comorim. De Balthezar Gago e de outros Padres e mancebos que estão em casa não vos escrevo o fervor e graça que Deus polia sua infinita bondade tem dada a todos pera delles perfeitamente se servir, e quam humildes e obedientes e prestes estão todos em todo (1) P.c Paulo do Vale. '45 Doe. Padroado, iv - 10
o serviço de Deus N. S., das muitas mortificações e praticas e pregações que muitas vezes alternatim fazem. Dos estudantes e moços não vos escrevo, porque outros delles largamente escreverão. Mas a muitos Deus N. Senhor tem dado particularmente sua graça e muito se aproveitão em sua gramatica e bons ensinos. Deus N. S. os queira guardar de sua santa mão, e acrecente nelles cada dia sua santa graça, pera se augmentarem e acrecentarem em suas gramaticas e ensinos, pera que delles se tirem os fruitos que delles se espera. Do Pe. mestre Francisco não tenho lingoa pera declarar as infinitas mercês que Deus Nosso Senhor lhe quis fazer, e o fervor e graça que lhe tem dado em suas pregações e praticas, e o grande fruito que das suas confissões sae, e de suas doctrinas e ensinos; que todos os moços e moças, escravos e escravas ficão por elle perdido [s], pola grande saudade que delle tem e das pregações que faz aos ditos moços e moças, escravos e escravas em falia negra, e por milhor dizer, como em sua lingua. Parece-me que nos á de deixar por nós outros não sermos dinos de tanto bem. Tem muita vontade de se ir pera Japão, do qual Japão está aquy hum que se fez christão, o qual se chama Paulo (2). Ao qual Deus N. S. tem feito muitas infinitas mercês e lhe tem dada particular graça, que em sete ou oyto meses soube ler e escrever muito bem. Não hé isto nada para o que lhe tem dado a sentir nas cousas de nossa santa fee, do que cada dia escreve da vida e morte de Nosso Senhor; não somente escreve, mas ainda medita e contempla nelle. Assy está em casa hum seu criado, o qual se chama Joanne; hé muito bom filho e muito se aproveita; e outro moço por nome Antonio, que derão ao Pe. mestre Francisco, os quais an de ir com elle a Japão, Deus querendo. Nosso Senhor (2) Paulo de Santa Fé. 146
lhe escolha o melhor e o que for para mais seu santo ser- viço de ir ou estar. De Cosme Annes, veador da fazenda d'El-Rey, não vos escrevo das infinitas mercees e bens que Deus N. S. nos tem feito por seu meyo, e o grande fervor e amor que tem para esta santa Conversão, e muito se lhe acrecentou pola vida dos Padres. Deus N.S. lhe queira dar gualardão de tantas mercees e bens que nos tem feitos por seu santo amor. Deus o queira guardar de sua santa mão, e lhe dê graça pera cada dia fazer e andar de bem em melhor. O que vos rogo muito hé que em vossas orações e sacrifícios vos alembreis sempre delle, e assy os outros Irmãos do collegio; e mais vos rogo que vos lembreis de sempre escrever de mestre Diogo e Miguel Vaz, que ainda elles forão funda- dores deste collegio, vos lembreis de rogar por suas almas em vossos sacrifícios e missas. Aos Padres e Irmãos do collegio de Coimbra, e parti- cularmente a mestre Gonçalo e o Pe. Manoel Godinho, que por huma carta sua se me deu a conhecer, me encomendo muito em suas devotas orações. Isto não peço soomente para mym, mas para todos os Padres e Irmãos que nesta índia estamos, do que todos temos muita necessidade, particular- mente eu. Isto peço polia grande confiança que tenho nelles, poios seus santos zelos e fervores que Deus N. S. lhe deu por sua infinita bondade e misericórdia. Mas o grande desejo que tenho de vê-llos nesta parte ajudar a trabalhar seus Irmãos nesta nova vinha de Deus N. S., e que nos meus dias fosse eu tão dino e merecedor de com meus olhos olhar e abraçar, parece-me que morreria com o grande contentamento e gozo. Deus N. Senhor estes desejos que tenho vo-los dê a sentir em vossas almas e corações. De vosso indigno servo, Paulo. '47
31 CARTA DE FRANCISCO BARRETO A EL-REI Goa, 3 de Dezembro de 1548 Documento existente no ANTT: — CVR, n." 27. Mede 210 311 mm. Seis jolhas. Em bom estado. [6 r.] O espritall de Moçambique e hum dos grandes remé- dios e o mor que pode ser pera a gente que ai chegua, e asy o foi pera toda a que este ano veo doente. Deve Vosa Allteza de mandar que o tenham mui apreçebido de todalas cousas neçesareas pera doentes, e asy aos capitães de Çoff ala que mandem ter mantimentos na terá, porque Vosa Allteza pode crer por verdade que a mais da jente que more nesta careira, e de Moçambique pera esta sidade, e isto naçe do pouco remedio que ai achão. Eni toda a minha armada me não morerão mais que vinte çinquo pessoas1, as quaes morerão antes que chegasem a Moçambique, porque depões que ai cheguei, com o bom remedio e cura que lhe fiz, me não moreo nenhum, vimdo todos pera iso, e os que morerão no mar partirão ja de Lixboa2 doentes, e de doenças que no mar tinham mao remedio, porque se o ai ouvera, pode Vosa Allteza crer que se lhe fezera. Na minha nao more- rão onze pessoas e hum grumete que me caio o mar, que não pude salivar, por mais que trabalhei sobre iso. A Pero1 de Mesquita (l) morerão treze pessoas, e são vimte e cinquo. (1) Nesta carta Francisco Barreto conta a sua viagem. Pedro de Mes- quita comandava uma das naus. í — P ; 2 — llx.» ; 3— p.» 148
A Dom Vítor (2) não moreo ninguém, so por chegar pri- meiro vinte dias que nos. Dom Vitor e Pero de Mesquita são omens muito pera o serviço de Vossa Allteza e çerto que nesta viajem traba- lharam bem por servir Vossa Allteza. Dom Vitor me acom- panhou sempre, e forçadamente se apartou de mim na para- jem // da Baia Formosa, com tromenta. Asy ele como Pero [6 »•) de Mesquita curarão muito bem da jente, que trazião a carguo, e com toda vierão em paz, e asy o chegarão a esta çidade. Pero de Mesquita se torna a requerer merce a Vosa Allteza, asy por ter mao remedio de vida nesta tera, como por lhe pareçer que, pela muita jente que nella avia, ele se podia escusar do serviço de Vossa Allteza, cuja vida e reall estado Noso Senhor acrecente. Oje, de Goa, tres de Dezembro de 1548 anos. Francisco4 Barreto®. (2) Gaspar Correia chama-lhe D. Heitor Aranha. Comandava outra nau. (Lendas, IV, 651.) 4 — fr.c® ; 5 — br." '49
32 FREI JOÃO DE ALBUQUERQUE A EL-REI Goa, 6 de Dezembro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, I, 81-99. Mede 210x303 mm. Uma folha em estado razoável. O documento ocupa apenas meia folha. Senhor Tres anos ha que detenho, com o milhor modo e pala- vras que poso, ao padre Frey João de Vila do Comde, que pêra iso viemos a estas partes, pera levar trabalhos e des- guostos por amor de Deus, e por omrra e favor de sua fee; este ano detreminou de se ir; diz que vay a dar-lhe comta das cousas de Ceilão, pera lhe por Vosa Alteza remé- dio; são cousas algumas delas que o tempo não daa jaziguo as comprir todas, como se requer, por ser terra de guerras e doutras calidades que la em Portugual não se alcamsa tanto, e pera esta musica da comversão dos infiéis a mister muita constamcia, e prudemcia da qual quarecemos alguns; ouça-o Vosa Alteza, por amor de Deus, e nas cousas que lhe requerer da cristandade faça aquilo que Noso Senhor lhe espirar, mas, como ornem que a dez anos que amdo nesta masa, tenho obriguação em ela mais que em outra cousa, de dizer-lhe que as cousas desta calidade se prati- quasem ou se emformasem primeiro das pesoas que com perseveramça em estas partes amdam nesta obra. Per- gumte-lhe as cousas de qua, e seja recebido com guasa- lhado; he bom ornem e virtuoso religioso e tem bons desejos. i5ú
Noso Senhor a vida e estado de Vosa Alteza por muitos anos com muita saúde a seu santo serviço prospere, e des- pois lhe de a sua gloria. De Guoa a 6 de Dezembro de 1548 anos. Orador de Vosa Alteza Frey João de Albuquerque. 1 5 1
33 CARTA DO PADRE GASPAR BARZEO AOS SEUS CONFRADES DE COIMBRA Goa, 13 de Dezembro de 1548 Documenta Indica, /, págs. 382-406. Gratia et pax Qiristi, quae exuperat omnem sensura et communicatio Spiritus Sancti, sit semper in cordibus ves- tris. Amen. La causa principal que me movió escrevir esta carta, fué la gloria dei bendito nombre de Jesú, Salvador nuestro, porque siendo por ella certificados de las misericórdias que él por su bondad con nosotros baxos instrumentos suyos usó, le darán muchas gracias y loores. Bien creo, charíssimos Hermanos, que no faltaron vuestras oraciones y que delias procedió mucha parte de lo que aqui vereis, pues tan claro está no aver en mí cosa por que el Senor, dador de todo bien, las quisiese obrar; illi soli sit gloria et honor per infenita seculorum secula. Amen. Apartándonos en Beleén de nuestros Hermanos fuimos repartidos en dos naos: el Padre Melchir Gonçalez, y el Padre Baltesar Gago, Juan Hernández (l), Barreto (2) y yo, en la nao San Pedro, capitana; y el doctor Antonio Gómez y el Padre Paulo dei Valle, Francisco Gonçález (3), Manuel Vaz y Froes, en la nao Galega. (1) Era espanhol, natural de Córdova. Acompanhou S. Francisco Xavier ao Japão. Esta e as notas seguintes são extraídas das do Rev. P.c Wicki, para as quais remetemos os leitores. (2) Egídio Barreto. Pertenceu, durante algum tempo, i Companhia de Jesus. (3) Francisco Gonçalves ou Casco. Pertenceu também, durante algum tempo, à Companhia. 152
De la nao San Pedro fué constituído por rector nuestro el Padre Melchior Gonçález, por cuyo govierno nos hizo el Senor grandes mercedes por sus vertudes (mihi autem minimo maximas). Yva por capitán desta nao Juan de Mendonça, al qual por descuido no aviamos ydo a hablar estando en tierra para que tuviese alguna noticia de nosotros. Es hombre mui virtuoso y que mucho nos ama. Al entrar de la nao vimos mucha gente y mui luzida: cavalleros e pajés de câmara del Rrei, que a mi parecer serían quatro- cientos hombres; y luego me vino una desconfiança, pare- céndome que entre ellos no podría hazer fructo, mas nuestro Seiíor sabe bien lo que haze. Andando ya nosotros por la mar nos oviéramos de perder en los cachopos, y el otro dia seguiente, haziendo el capitán alarde, le fuimos a hablar para que cada noche se ordenasen de dizer las tetanias y sermones y doctrina Christiana. El y toda la gente se holgaron mucho con esso. En este medio todos mis Hermanos se marearon, y así fueron algunos [dias] mareados y sin poder comer; ny teníamos quien nos lo hiziese de comer en el fogón, por lo qual me fué necesario tomar la cruz a cuestas; y des- púseme luego hazer de comer en el fogón, donde ninguna cortezía me tertian a las ordenes; y quando de allí escapé sin bofetadas, que los grumetes me querían dar, y dei grande humo que avia, no hize tan poco. En este officio continué algunos dias, y con tão poco provecho, que nunca los Hermanos podían gustar dei comer; porque unas vezes me furtavan la olla, otros me la quebravan, otros me la entornavan, de manera que no me podia valer con ellos. Y viendo esto Enrrique de Macedo, Cavallero mui honrrado, doliéndose de nosotros, mandó a un su esclavo que nos hiziese de comer, para que más fácilmente nos podiésemos exercitar en el spiritual. Y de aqui adelante comencé a pre- dicar todas las fiestas las obras de misericórdia, y en muchos 753
dias de la semana doctrina sobre el Pater Noster; y allende desto nos exercitávamos en confesiones y en hazer amones- taciones, aviendo desto grande necesidade, por las muchas mugeres que en la nao venían; y teníamos determinado de pedir al capitán que las hechase en tierra si en alguna parte fuésemos a ancorar. Repartimos con los pobres todo lo que llevávamos hasta la índia mui largamente, y suplia nuestro Senor de manera que parecia que todo crecía. De lo qual se espantava mucho un hombre que se metió a servir a los dolientes movido por la Companhia, el qual fué recebido por el Padre maestro Francisco; llámase Méndez (4). Así fuimos con mui próspero viento hasta la cuesta de Guiné, con mui poças calmarias; en el qual tiempo vino a tanta edificación la gente desta nao, que de yndomables que eran en juegos y vícios, se hizieron tan mansos, que todo lo que tenían ofrecían así para los pobres como para nosotros. Y tanto fué el crédito que nos tenían, grandes y pequenos, que nunca se hartavan de communicar con noso- tros casos de su consciência, y todas las otras dudas y casos dificultosos remetían a nos como a juezes. Los sermones hazía dei propao de la nave, porque la gente era mucha. Y acabada la predicación, luego me yva mui de prisa para los dolientes, por lo qual me mandó llamar el capitán en su câmara, requeriéndome de la parte de Dios que con- municase con él, que mucho lo deseava, porque el tiempo que en otras cosas gastava, lo gastase comigo en cosas de nuestro Senor; y así conmunicávamos declarándole algunos psalmos y cosas spirituales, confesándose muchas vezes, de lo que mucho gustava, y dava siempre largas limosnas a los pobres y a nosotros quanto queríamos. Y él me dezía que todo lo que traya de conservas y mantenymientos (de lo (4) Luís Mendes. '54
qual nos no venyamos proveydos) era para que los quisiese tomar, mas yo siempre me escusé, diziéndole que nos bas- tava la regia de la nao y lo que nosotros trayamos. Y con estas y otras cosas que veya en los Hermanos se confundia mucho, espantándose de los trabajos grandes y hedores de pobres y lavar de bacines etc, hasta que me vino a dezir que cómo se podia salvar con tantos criados, câmaras y comeres tan delicados, sin penitencia, quando nosotros con tantos trabajos ganhávamos la gloria? Final- mente offrecióme toda la nao, poniendo en mis manos todo el govierno delia, diziendo que soltasse y prendiese y le dixese siempre en todo my parecer para se regir por él. Paréceme que procedió esto de algunas vezes que desta par- ticular conmunicación venimos a amonestar yo blandamente de la mansedumbre con que avia de castigar los hierros de la nao y de la benignidad con que se avia de aver con los presos de la bonba. Tomó los Exercícios de la primera semana, y luego començó a mostrar quanto el Senor en ellos se le conmunicara: nunca cesando de hablar cosas de Dios, y manteniendo los pobres dolientes hasta la índia, allende de la messa que dava a todos los criados dei Rei. En el Cabo de Buena Esperança passamos dos muy grandes tromentas. En la primera, porque duró poco, no se movió mucha gente. Prediquéles entonces algunas vezes sobre aquello de Jonas: «Propter me exorta est hec tem- pestas, proiicite me in mare» (5); ensenandoles cómo se avian de aver en la tormenta con el Senor y consigo mes- mos, animándolos al trabajo dei meneo de la nao, que entonces era grande, porque por falta no nos perdiésemos, y que no gritassen por misericórdia; como muchos a altas vozes harían, por no desmayar a Jos otros, mas que mental- (5) Refere-se ao acontecido com o profeta Jonas. (Cf. Jon., 1-12.) '55
mente en sus almas pediesen al Senor socorro sin mostrar temor. La segunda tormenta fué mayor, porque andando nos por doblar el Cabo quasi veyente dias, fuimos a dar una tarde en el cabo de Spichel (6), donde milagrosamente hondó con el piorno. Duró la tromenta acerca de tres dias, y fué tan grande, que dezía el maestro y piloto que nunca otra tal jamás uviera visto. Çoçobró totalmente la nao y tomó tanta agoa que todos se tenían por perdidos, y pas- mados los hombres no sabião de qué lançar mano sino esperar por la muerte. En este tiempo se vino uno mui a prisa pedirme confesión, oyle encostado a nuestra varanda y brevemente le asolví por el peligro en que estávamos, que nunca tan propinco me hallé a la muerte. Fué mucho ser- vicio de nuestro Senor esta confesión. Este hombre me dixe que todos éramos muertos si Dios no nos valia. Quando esto oy, sin dar cuenta a los Hermanos por los no ynquietar, me fuy de prisa arriba donde hallé toda la gente pasmada, aparejados para morir; y començándolos a esforçar que no temiesen, se Ilegaron para mi, como si en my estuviera la salvación. De manera que esforçándolos, bendizimos la mar y el agoa [levando, «Te igitur» y el canon] delante, como se acostumbra (7), y cantamos las letanías y siete psal- mos (8). Quedó la gente tan esforçada que dezía ser esta otra tal como la dei custodio de Dio dei crucifixo (9). Entonces me rogó el capitán que estuviesse al aguja, para que, juntamente con él, esforçar a los que estavan en (6) Cabo Pichel na ilha de Bazaruto. (7) Refere-se a uma espécie de missa seca que se costumava celebrar em tais ocasiões. (8) Sete salmos penitenciais. (9) O P.e Gaspar lembra aqui o feito do P.e António do Casal, custó- dio do convento de S. Francisco, em Dio: quando num ataque, os Mouros pareciam já levar a melhor, o P.e Casal alçou um crucifixo e tais palavras proferiu que os Portugueses cobraram novo alento e repeliram os assaltantes. 1 56
el leme, dándole a comer etc. En este trabajo hirió el leme algunos. Todo esto fué de dia. La noche tuvimos tan espantosa tromenta, que creo que nunca los hombres tal vieron excepto los que están en el infierno. Toda ella los Hermanos estuvieron en oración, y a mí hizo el capitán conjurar la mar, y de arriba, donde estava governando el piloto y el maestro, bendezía las ondas así como venían de través; y a cada una lançava tres cruzes, deziendo: «Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat. Christus ab omni maio nos defendat». Consolávase mucho con esto la gente. Nesta noche vy muchos mistérios del Senor, y no querría nunqua más sentimiento de las meditaciones, así de la muerte como dei infierno y juizio, para mí y para mis Hermanos, los quales se aprovecharon bien desto, porque les cupo a su parte el exercício de la comtemplación y a mí de la activa. Así que, en hartos (?) trabajos amonestava al piloto que no mostrase flaqueza, porque casi le vi rendirse a una onda que vino de través, la qual metió tanta agoa dentro de la nao que cegó a los que estavan en el leme y nos tenían entonces por perdidos. Mas el Senor que no queria mas que provamos, tanquam aurum in fornace (10), nos salvó. En esta tromenta hize confesar las mugeres, entre las quales avia una a quien de primero pôr mucho tiempo no pude persuadir que se confesase y se apartase de sus malas costumbres passadas, mas un dia me puso las manos, de manera que faltó poco que no me apalease; a la qual con esta tormenta dise que, pues llevávamos camino para que nos perdésemos, se aparejase para se confesar antes que fuese al infierno. Ella de miedo se confesó, gracias a nuestro Senor. (10) Sap., 3, 6. '57
Estando defronte de las islãs de Sant Lorenço, nave- gando viento a popa, de noche vimos una hogera grande, la qual dezía el piloto que era estrella; mas el maestre, por quien espiro el Senor, mandó lançar el piorno y halló que estávamos sobre una restringa o roca; y si tardáramos la quarta parte de media hora, nos uviéramos de hazer en pedaços y nos perdiéramos todos. Navegando adelante entre otras yslas, donde estava una nao perdida, nos oviéramos de perder, porque yvamos derechos para ellas y no las víamos, porque nos lo ympedía una nuve; mas el Senor que nos giava, nos mostro el quebrar de las ondas en las penas, expandens nuvem suam in protectione nostri (11). Y desta manera, mui prósperos, llegamos a Masanbique sin que se nos moriese perssona alguna, gracias a Christo nuestro Senor. Uvo siempre mucha diligencia en la cura de los enfermos, y fueron visitados en todo el camino con mucha charidad, y en la costa de Guiné tuvieron los dias por la mariana açúcar rosado con agua de lengua de vaca. Quando llegamos a Maçanbique, amonesté en la última predicación de la nao que socorriesen a los pobres dei hospital, que eran casi ciento y veyente, con algunas limos- nas y que nos las pediríamos. Diéronnos conservas y mer- meladas y harína, legumbres y otras cosas que no avia en la tierra, que valdría acerca de diez mil maravedis. Con esto nos fuímos al hospital, adonde estando, nos llevaron más limosnas así de dinero como de conservas; y se esto socorro no tuvieran los enfermos, padescieron grande detri- miento, porque en la tierra no avia desto cosa ninguna ni dinero dei Rey, si no se vendiera un palmar que Hernando de Sosa (12), capitán, tenia para yso. El qual de la nao (11) Cf. Ps., 104, 39. (12) Fernando de Sousa de Távora, filho de Lourenço Pires de Távora. Era capitão de Moçambique. 158
nos quisiera llevar para su casa, y nosotros, agradeciéndoselo mucho, respondimos que nuestra casa era la casa de Dios, como el esprital, adonde luego nos llevó, haziéndonos muy buen tratamyento; y mandónos en mucha abundancia todo lo que nos era necessário, y hizonos entregar el hospital con todo lo que en él avia, como a mayordomos. También el vicário nos recebió con mucha charidade, amonestándonos que nos gardásemos dei hanélito de los dolientes, porque avia allí todas las enfermedades contagiosas, alegándonos con el Padre maestro Francisco que desto estuviera a la morte en el mesmo hopital, mas el Senor protector nos- ter fuit. El Padre Melchior Gonçáles tenia cargo de confesar y visitar los enfermos. El Padre Baltesar Gago con Joan Fer- nández tenían cargo de repartir el comer conforme a lo que el médico mandava. My officio fué más universal, entendiendo en todas las cosas que podia, así de confesiones como de estar de noche con los enfermos, y acompanarlos en el paso de la muerte, porque eran tantos los que morrían, que a mi tercio (13) cabían tres y quatro en el artículo de la muerte; yvales a buscar algunas limosnas fuera a las huertas y pedir agoa por amor de Dios, porque no la tenia el capi- tán por la gente ser mucha; era cozinero, boticário y praede- cador (los sermones studiava andando haziendo de comer, y de noche, estando con los dolientes hablando a los que morían, como aprendi [de vosotros], charíssimos Herma- nos, y amortallándolos). Los Hermanos davan la extremaun- ción (14). Repartíamos también las ropas que quedavan de los muertos por los pobres. Teníamos tantas confesiones continuas, que era para dar muchas graçias a Dios nuestro Senor, y nunqua podimos satisfazer a todas. Dormíamos (13) Isto é: à minha parte. (14) Os irmãos eram, evidentemente, os confrades sacerdotes. '59
entre los dolientes sobre algunas esteras, y así gastamos allí algunos quinze dias, donde, bendito el Senor para siempre, él, como quien es, con estas sus mercedes nos esforço mucho y nos favoreció; de lo qual se espantava mucho la gente, diziendo: «Estos hombres son contra todo natural; en lugar de descansar, ellos toman mayores trabajos, y en lugar de se cansar, gana[n] mayores fuerças». No sabían quia Dominus fortitudo nostra. Estando así todavia en el hospital, llegó la nao Sancto Spíritu. Fuimos luego a visitar a los Padres dominicos que en ella venían, los quales se esforçaron por nos ayudar, y en effecto con mucha charidad nos ayudaron dos dellos, el uno es Fray Ygnacio (15) que jué criado de nuestro Hertnano don Léon (16) en Paris y otro con êl, trabajando y dando de si exemplo como mui buenos religiosos. Queda- mos en estas obras, en que el Senor nos ayuntó amándonos mucho, y tanto que agora ven muchas vezes a nuestro colle- gio, y comieron ia dos vezes con nosotros. Y tornando a mi propósito, queriéndonos ya enbarcar, los enfermos nos enportunaron mucho que no los desempa- rásemos, haziéndonos muchos requerimientos de parte de Dios que los llevásemos con nosotros, aviendo piedad dellos. Pedi a los capitanes que me quisiesen ayudar para esto, y ellos, como mui grandes siervos de Dios, me dixeron que todo lo que yo ordenase harían, y que los que estuviesen más enfermos receberían y curarião muy bien. Así que aquella noche tomé una barca llena de enfermos repartidos por las naos, y al otro dia seguinte truxe los que más que- davão, no dexando sino solamente los que en ninguna manera parecia que no se podia bolir con ellos; y de los que más dolientes estavan quiso tomar Manuel de Macedo, prin- (15) Frei Inácio da Purificação. (16) D. Leão Henriques.
cipal capitán de la primeira armada, obra de veynte, en su nao. Fueron todos curados hasta la Yndia con mucha dilli- gencia y proveydos de todo lo necessário, puesto que muy poças cosas me dieron para ellos en tierra, porque no lo avia. De manera que plugo a nuestro Senor que murieron muy poços y ésos mucho bien. Llegamos a la India a 4 de Setiembre, partiendo de Lisbona a xbij [17] de Março, de manera que fué navigation de cinquo meses, quitando los dias que estuvimos en Mançambique. El Padre mestre Francisco, estando en Goa de camino para el Cabo de Comorim, oyendo nuevas de nosotros por unos navios de ílayanbique que quando allá estávamos partieron primero que nuestra armada (17), quísonos espe- rar por nos ver y saber nuevas de la Compania antes que se fuese. Tanto que las naos ancoraran mandónos visitar con mucho refresco y que luego nos fuésemos, que tenia mucho deseo de nos ver. Hizímoslo así y cierto, Hermanos mios charíssimos, que no se puede dezir el alegria que allí sen- timos en nuestros spíritus, ni comprehender la charidad que vi en el Padre maestro Francisco, y cómo glorificava a Dios oyendo y hablando en el fruto que el Senor por medio desta Compania hazía en esse Reino como en todas las otras partes; de los más Padres y Hermanos no vos lo sé dezir, sino que son escogidos dei Senor y que cada hora me con- fu [n] den. Mandóme el Pe. maestro Francisco aparejar para el dia de nuestra Senora de Setiembre (18) que predicase en San Pablo, y encargóme mucho que hablase alto; y siendo mucha la gente por las nuevas que de la mar les fueron dadas de nosotros, fué de manera que dixo un hombre a uno de los nuestros Padres: «Para qué es acá esta ponçona?» Tanbién (17) Veja-se atrás o documento n.° 31. (18) A 8 de Setembro celebra-se a festa da Natividade de Nossa Senhora. i 6 i Doe. Padroado, iv-11
% el Padre maestro Francisco quedó descontento, porque mu- chos no me estendieron por no oyrme bien. Partióse entonce para Comorín y dexó ordenado que de noche en la yglesia exercitase la boz por la hazer más alta; hízelo así, en tanto que los nuestros ya se davan por satisfechos. Comencé de ahí adelante a predicar y la gente a gustar de los sermones. Visitava también los presos, y entendia también en otras obras de servicio de Dios que me mandavan; en casa leya una lición de gramática y otra de los provérbios, y comencé a leer las artes. Eu este medio, a 9 de Octubre, llegó el doctor Antonio Gómez, que venía en la nao Galega, de la qual teníamos poca esperança, porque defruente de las Canarias se apar- tara de nosotros haziendo fuego, que tenimos por mala senal. Así vino milagrosamente a la índia, porque acerca de Maçanbique, veniendo vento a popa, dieron en unos baxos muchas vezes; saltóles el leme fuera. Quedó la gente muy desconfiada de se poder salvar. Salió el Padre Antonio Gómez con la cabeça, que traya de aquella santa vir- gen (19), consolándolos y provocándolos que se encomen- dasen a Dios, tomando por intercesora a la sancta virgen, y no dexassen de trabajar. Quiso el Senor por su bondad sacarlos de aquellos baxos, mas no podían meter el timón en ninguna manera, y ya desconfiados dixo el Padre: «Ora sus, esta sea la última vez en nombre desta virgen sagrada, y si desta no se pudiese meter, ella sin timón nos meterá en puerto seguro». Metiósse Iuego el timón, de que dieron muchas gracias a nuestro Senor; y asi llegaron a Maçam- bique. Fuéronse luego derechos al hospital, onde comen- çaron a tomar otra buena [cruz] con los dolientes que allí estavan. Quando se embarcaron también los truxeron con- (19) Uma relíquia das Onze Mil Viagens. 16 2
sigo en la nao, y de allí para Goa se ovieron de perder otra vez. Allende destos trabajos les sucedió otro mayor, que fué la falta de mantenimientos, con casi toda la gente le adolecer, y llegaron a tanto los Hermanos, porque siem- pre repartieron de lo que trayan con los pobres, que fué necessário comprar vino que casi bevían sin alguna agoa, y se se tardaran más x ó xb dias perdiéronse todos. Ale- grámonos mucho todos en el Senor, y luego dimos quantos aqui estávamos obediência al Pe. Antonio Gomez, como tenia mandado el Pe. maestro Francisco, entregándole el collegio. Y en el mismo dia enfermé yo y sangráronme dos vezes; también adoleció el Pe. Melchior Gonçalez y Juan Fernandes, [et venendomi a visitar il detto P. Antonio per consolarmi mi disse che sanassi presto, perchè voleva met- termi adosso una croce. Io me levai il giorno seguente benchè mi havessero cavato due volte sangue et l'andai a vedere dicendo che stava già bene et che potria fare ciò che mi commandasse], Fué a otro dia el Padre Antonio Gomez visitar el Gover- nador (2) y el Obispo (21) y los frailes de Sant Domingo y San Francisco, y nos aman todos mucho. Ordenóse que el domingo que vénia que fuesen por la cabeça de la virgen. Salió de la yglesia mayor una procesión mui solemne, en la qual fué el Governador y el Obispo, con toda la más gente noble. Predico el doctor Antonio Gomez con mucha edificación de todos. Y al otro domingo seguinte, que era dia de las onze mil Vírgines, hizimos otra vez la fiesta a esta virgen. Predico también el doctor con mucho fervor y movió mucho la gente. Fué tanta la devoción, que hasta aora le queda, que venieron muchos a ofrecerse a la cabeça. (20) Garcia de Sá. (21) D. Frei João de Albuquerque. I 6 3
El domingo seguinte tuvimos misa nueva dei Padre Bal- tesar Gago; predico antes de la misa, aviendo tanta gente que no cabia en los soportales, y también ocupavan las claustras. En la missa también uvo un breve sermón dei doctor Antonio Gomez de alguns puntos mui devotos, segundo me fué dicho, porque yo no le oy, que fui a pre- dicar a otra yglesia. [II Governatore dell'India dava a mangiare in casa sua a grande numero di persone, come si usa di quà quando ci è charestia et non si può pagare il soldo. Mi dimandò adunque il dottore Antonio Gómez, desideroso di mortifi- carmi, se saria bene che io andassi a predicare aquella tavola? Io gli ho risposto di si, se fusse o gli paresse esser servitio di Iddio. Et cosi, il giorno seguente, con alcuni fratelli che non erano usi a vedere simili mortificationi, andassimo a casa dei Governatore quando la gente voleva mettersi a tavola, che sarebbeno al mio giudicio 500 o 600 persone. Et mettendomi ad un capo delia tavola, cominciai a parlare con quelli che li stavano, dicendo: «Oh chi vi vedessi cosi a sedere alia tavola di Christo delia confessione et communione!». Et volendo alcuni disputar meco, io, non mi curando delia disputa, con voce alta cominciai a dire: «Venite ad me omnes, qui laboratis et onerati es- tis.» (22) etc. Et la novità delia cosa messe in loro tanto spavento, che come attoniti tutti tenevano sylentio, et la gente di fuora correndo si metteva in luoghi per sentire; et parmi questa fussi la migliore predicatione che io ho fatta nella índia. Et finita la predica gli dissi che voleva darli con la divina gratia megliori cibi che il Governatore, et ordinai di predicargli 3 volte la 7"", et loro restarono molto contenti et edificati et come attoniti; et da quello (22) Cf. Mat., 11, 28. i 6 q
in poi, ho fatto quello che gli ho promesso, ma non ci era piú luogho alia mortificatione, ma era piú necessário fuggire li honorij. Començando ya más la devoción en la gente, se nos aumentaron también a nos los trabajos, así en confesiones que eran mui continuas, como en resuluciones de casos de satisfazer a las preguntas, como también en predicaciones que nos pedían; que lo menos que yo agora cada semana predico, son tres o quatro vezes; en la mesa dei Governador, donde pareció que se haría mucho servicio a Dios como en efecto se haze, el lunes y miércoles y viernes; en otras yglesias en los mesmos dias, y en otros también continuo mis sermones; y algunos dias todo el dia se me pasa en predicar; allende de los sermones que el doctor Antonio Gomez haze, y no pueden ser tantos por las ocupaciones que tiene en casa y en otros negocios más inportantes que le occurren. En la cárcel se confesaron todos, y ordinariamente hay cada noche letanías, i está constituído entre ellos quien reprehenderá los juramentos y amonestará de los yerros públicos. Vemos, bendito sea el Senor para siempre, mucho fruto en poços dias, de grandes y muchas restituiciones, penitentias, devociones, mudança de vida y de muchas per- sonas. De casa de un enfermo que estava en pasamiento, con el qual fuy a estar, después que lo esforcé y estuve con él o tiempo que me pareció necessário, saliéndome, se salió un hombre honrrado y mui rico tan movido que se vino para mi que despusiese de toda su hazienda, como me pareciese servicio de Dios, porque no tenia hijo ni hija, y que queria buscar solamente la salvación de su alma. Confesóse él y su muger. Tomó luego cargo de prover los pobres y va mui bien con sus cosas, bendito sea el Senor para siempre. De una predicación se me vino otro con mui grande con- trición a pedir que por amor de Jesú Christo le diesse 165
remedio para se salvar, porque mucho tiempo estuviera lançado con los moros y queria hazer de sus peccados toda la penitencia que le diese. Un Cavallero me edifico un dia en gran manera, el qual perguntándome quánto comunicava el Senor de su amor a un hombre perfecto, díle algunos exemplos de la Sagrada Scriptura de los effectos que el amor de Dios hazía. Fué tanto el movimiento en él, que me maravillo, porque, siendo casado, no lo podia quitar de mortificaciones públicas que queria hazer, diziendo que, por amor de su Dios y Senor, no era mucho salir hombre fuera de su seso. Púsuse (!)con se querer confesar luego cada dia y hizo confesar su casa, y tiene tanto cuidado y dilligencia en disponer su alma para ynfundir en ella el amor de Dios, que espero que será un grande siervo suyo. Otro de otra predicación, que seria de edad de xxxb (35) anos, salió con tanta contrición, que era maravilla. Díxome luego que en toda su vida [no] creyera en Jesú Christo y que el Senor le diera conocimiento de sus yerros, y que se yría confesar, mas que primero destreminava de fazer allí alguna peni- tentia. Pedióme unas decíplinas, y díselas; y atormentóse tanto, tantas vezes, y en tanta manera, que me hazía temer si peligraría, y estuve para limitarle la penitentia. Otros movimientos uvo así notables de personas que avia muchos anos que estavan en pecado mortal, y uno que diez anos se hechara con los moros. No vos las particularizo porque es cosa mui larga. Sabei que el Senor obra estas cosas por nos para que nos confundamos, y así conosciendo quánto crecen nuestras obligaciones, obremos por él, con- tinuando así estos y otros exercícios conformes a nuestro Instituto. Supe que me oya en la cárcel el principal de los bra- menes desta tierra el qual se llama Locu, y según dizen y parece, es una de las principales cabeças de la gentilidad. i 6 6
Encontréle un dia acompanado de muchos bramenes y otra gente, y con él un hijo de Chrisna (23). Dióme nuestro Senor ânimo para los acometer. Disputamos largamente de su lei, y provéle algunas cosas de la nuestra que él deseava que le provase: díle algunas comparaciones y razones natu- rales a su modo. Y finalmente, después de los aver muchas vezes convencido, les dixe algunas cosas, rogándoles que pensasen en ellas y pediesen a nuestro Senor que les alum- brase el entendimiento, y les diese a entender y conoscer la verdad para la seguir. Alguna cosa se ria el hijo de Crisna de mi, mas al Locu hallé más prompto. El qual de allí a dos dias mandó dezir al doctor Antonio Gomez que q [u] eria ser christiano. Enconmendámosle al Senor, dán- dole gracias por este movimiento, pediéndole que se lo con- firmase; y fuimos luego allá. Y, hablando con el Padre Antonio Gomez, se puso en sus manos, pediéndole agoa de baptismo, diziéndole que le ayudase a salvar su alma, por- que solamente la salvación delia le movia a ser Cristiano, y que no pareciese que pensando que lo pedia soltar ni a otras cosas tenia respecto, porque en todo querría que se guardase justicia. Fué el Pe. Antonio Gomez dar desto cuenta al Governador y a pedirle que lo soltase, el qual lo concedío. Y llevámoslo luego para el collegio, donde en 8 dias aprendió lo que era necessário para le dar agua de baptismo. Y en tanto allí se estava aparejando, nos mandó el Pe. Antonio Gomez a tres Padres con cada uno el suyo destos nuestros Hermanos canarís, para entender en la con- version destas almas. Convertiéronse tres, un Sobrino de Locu y otro hombre principal entre ellos. Ordenóse su baptismo dentro de nuestro collegio un domingo con una misa mui solene y sermón. Fué el Gover- (23) Dadaji.
nador el padrino, y el Obispo el qual los baptisó. Pusieron nombre a Locu Lucas de Sa y a su muger dona Isabel y a su sobrino don Antonio. Lleváronlos a cavallo acompa- nados de toda la principal gente que aquy avia, y también muchos bramenes a casa de Rui Gonçálves (24), haziéndose grande fiesta por toda la cibdad, repicándose las campanas de las iglesias; las calles muy enrramadas y por ellas puestas muchas palmas, de la manera que se pone los pinos en el Roxío de Lisbona el dia de la Resurectión. Duró la fiesta toda una semana para gloria dei Senor. Dezían los gsntiles que, pues el padre se tornara christiano, los hijos, que son ellos todos, así lo avian de hazer. El dize que a de convertir más de lo que tiene cabellos en su cuerpo. Espero en Jesú Christo nuestro Senor que toda esta isla mui presto será convertida. Hizo el Governador a este nuestro nuevo hermano, que el Senor nos dió, muchas onrras; dióle muchos privilégios y libertades; hízolo tanadar mayor, que es una gran dignidad entre ellos. Este Locu era hombre mui próspero, tenia cada ano renta de 6060 pardaos; era mui accepto a los portugeses; haziales muchas buenas obras; tan liberal que estimava en mui poco quitar mil pardaos; gas- tava mucho de lo suyo en limosnas; y una de las cosas por que me parece que Dios se acordo dél, era sus buenas obras. Agora, después de su conversion, cada dia tenemos cathe- cúmenos para baptisar, y baptisamos ya muchos. [II Pe. Antonio Gomez, come persona molto experta nelle cose spirituali, si affatigha di aggiutarci in molte mor- tificatione, ordinate per sprezzare et mettere sotto li piedi li rispetti humani, et tutto con edificatione moita nel S. N.] Andando nos en estas consolaciones y gozando destas mercedes dei Senor, se sonó en esta cibdad que era muerto (24) Rui Gonçalves de Caminha. 168
el Pe. mestre Francisco, diziendo géneros de muertes crueles que le dieron. Hizo esta nueva mucho sentimiento en devo- tos desta tierra, que son casi todos, queriendo algunos buscar su cuerpo para lo canonizar, diziendo que aunque les costase 30 mil ducados lo avian de hazer. Dixeránnos algunos mila- gros que afirman que hizo, los quales él encubre; y como esto sea cosa desta qualidad, no os lo digo aqui, ni me parece que es cosa para nos hablar en ella, sino para dar muchas gracias al Senor, pues todo el bien es suyo y dél procede. Nosotros con todo trabajamos siempre por nos esforçar, no dexando nuestro modo de proceder, puesto que mucho sintamos la falta que podia hazer en estas partes. Mas el Senor luego nos mandó consolar y vesitar estos sus siervos por el Padre Cypriano y Manuel de Morales, que venieron dei Cabo de Comorim, adonde dexaron el Padre maestro Francisco, el qual fué allá rescebidode aquellos chris- tianos de la tierra con grandísima alegria y fiesta, hechando ropas por donde avia de pasar, y que lo llevaron en los braços a la iglesia. Y day a poco tiempo nos tornó a ver y luego se fué para Cochin. Esperamos que torne en fin de Feverero, porque tenemos por cierto que irá a Japón. Es la gente de manera, en que me parece que el fructo que se hizyere se conservará más fácilmente, porque tienen mejor juizio i son más capazes que los desta costa de la índia. Uno a quien el Padre mestre Francisco convertyó, dei qual ya allá tuvistes nuevas, aprendió aquy en el collegio las cosas de la fe y leer y escrevir en v meses tam bien, que es para dar gracias al Senor. — [Já lá tereis novas da Ilha de Moro que ho Pe. mestre Francisco converteu]. Mi mandó a cercare in casa sua un gentilhuomo giovane, fratello del capitano d'Alcazar (25), il qual trovai molto (25) André de Carvalho.
edificato di nostra povertà et fatighe che ci vedeva suppor- tare nel mare et nella terra dopo che giungessimo, et haveva desiderii d'intrare nella Compagnia. Et dissimulandolo insino a tanto che messe ordine alle sue cose et gente, con un servitore solo, di notte, venne al collegio, et ha fatto li Essercitii Spirituali con molto frutto. Et venendo a visitarlo il capitano [di S] ofalla (26) anchora con buoni dessiderii, gli disse fra molte cose che non darebbe una hora delia Compagnia per tutto il mondo in oro, et cosi a molti gen- tilhuomini, che per l'esemp [io so] no st [ati] mossi al modesmo. II di sequente mandò nostro detto Superior al Padre Melchior Gonzales che menassi seco don Diegho Lob [o], il qual nella nave veneva mosso per la Compania, et lo menò se[co] subito. Oltra di questi introrono nella casa 3 gentilhuom [ini], e sono mossi e lo dimandono piu de vinte altri in modo che la cosa va in grande aumento (27). Tendes, Hermanos mios, vuestros Hermanos repartidos por muchas partes y muy separados unos de los otros; tienen muchos trabajos, mas tarn bien empleados y con tantas con- solaciones en ellos, que sólo la suavidad que se siente, haze ninguna qualquiera dificultad; quánto más acordarse hombre del amor con que toda sua vida pasó en excesivos tormentos (26) D. Jorge Telo de Meneses. (27) Ao lado do texto italiano encontra-se o seguinte em espanhol: «Después que aquy estamos fueron recebidos para la Companya algunas personas de muy buenas partes, y que ya tienen mostrado quán de verdad se determinaron. Dellos me parece que no conosceréis allá más que dos, uno dellos es André de Carvallo, hermano dei capitán de Alcáçar, y el otro es don Diego, hijo de don Felipe Lobo. Andan al tiempo que és ta hago mas de veynte que piden que los resciban: si algunos probaren como es necesario recebirlos an. No tienen letras, porque acá no ay sino quien busque riqueza temporal. Plazerá al Senor que los hará tan ricos de su bien y gracia, que, entendiendo quán poco vale lo que pretenden, desprecien todo por su amor, y se dispongan a verdaderamente seguir y buscar aquello para lo qual fueron criados.» / 7 o
aquel que tan benignamente esta poquedad nuestra, en quanto nuestra la podemos llamar, rescibe para con bienes eternos nos la remunerar. La consideración destas cosas en estas partes y actos excede a la que allá en vuestros cubícolos y quietud tenéis, que no se puede hazer com- paración; toca el Senor acá de otra manera, y mas no se pasa todo en deseo. Venid, Hermanos mios, venid, que la sangre de nuestro buen Jesú que derramo por estas almas, da bozes por vosotros con grandisimos gritos, y no sé cómo no sienten esto todos los que participan de su ley y gracia; que verdaderamente, Hermanos mios dulcíssimos, no os lo puedo dezir sin grande dolor de my alma. Nosotros somos poços, parte estamos aquy en Goa, parte en el Cabo de Comorim, y algunos en Socotorá, otros en Colán, otros en Malaca, otros también en Maluco, y aun agora se deviden más. Tenemos siempre mucha necessi- dad de vuestras oraciones, y yo tanta como ellos bien saben, pues tan particularmente me comonicastes y conoscéis, no creo que os olvidaréis nunqua de nos, porque la charidad con que nos amamos no lo consentirá. Jesú Christo nuestro Redemptor sea siempre en vues- tras almas y con todos. Amén. Deste collegio de Sant Pablo en Goa a 13 de Deziem- bre de 1548. Algunas cosas creo que no escrivo aqui; por las cartas de los otros Hermanos las saberéis; a 13 de Dezembro de 1548. Servus indignus, Maestro Gaspar. 1 7 1
34 FRANCISCO BARRETO A EL-REI DE PORTUGAL Goa, 18 de Dezembro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, I, 81-118. Mede 315x219 mm. São quatro folhas, duas e meia escritas. Em bom estado. ['] Senhor, As coussas que a V. A. se am de contar ou escrever devem-se primeiro ter delias espriençia ou a enfformação, tamto na verdade que com ella se posão escrever a V. A., por quão pouco tempo ha que eu estou nesta tera que nenhuma destas coussas delia poso ter, determinei não escre- ver este ano a V. A. meu pareçer em allgumas coussas neçessarias nella ao serviço de V. A., he asy ho faço para o ano, terei delia a espriençia he enfformações que pera se escrever a V. A. se deve de ter. Este roll que mando a V. A. da armada que tem na Imdia me mandou o governador1 da parte de V. A. que lho mandase, he que primeiro me enfformase da armada que estava neste porto, como da que estava fora delle, he que 0 roll que a V. A. mandase fose na verdade, porque asi o avia elle de escrever a V. A. que da sua parte mo mandara. Eu fuy loguo ver ha Ribeira desta çidade, os navios que nella avia he os vi todos por mim, asy os que estavão entrancorados como os que estavão no mar, he dos que erão fora tomei a enfformação necesaria pera eu poder escrever a V. A. a verdade diso, asy os que a nesta çidade C« *•] // como os que são fora, são os que V. A. vera nese roll. Os frades dominicos que este ano vierão escreverão a V. A. larguo açerqua do que pasarão com o governador i - g ■*' 1 J 2
sobre o dar do asento pera o mosteiro; porque creo que elles o fazem, o não faço eu também; creo que elles escre- verão a V. A. quanto eu nisto trabalhei por V. A. ser ser- vido he elles comsollados; o asento que lhe derão e mui bom, he mui conveniente pera a obra que se nelle a-de fazer. Creo que de Chaull lhe pedem padres pera começarem outra cassa; açerqua disto, escrevem a V. A. o que pasa; eu peço a V. A. que quando aver por seu serviço que eu entre em Baçaim, com me fazer as merçes confforme ao que eu mereço, porque de outra maneira não deve V. A. de querer que eu nelle entre, queira que huma delias e a pri- meira seja mandar que em meu tempo se faça huma casa pera estes padres, porque eu creo que a terá e muita elles nella fazerem o fruito que de tão vertuosos omens se espera. V. A. pode crer que fez muito serviço a Deus em mandar qua tão vertuosos omens, he bem pareçe que são isto obras de hum tão excelente e vertuoso primçipe, como V. A. he, porque eu espero que çedo irei ter a Baçaim com o gover- nador, he ahi me enfformarei do que cumprir, pera se esta casa ahi fazerem, pera que o eu posa escrever a V. A. Não digo mais senão que estes frades dominicos e os apostollos, e as esmolas que V. A. faz no espritall desta çidade bastão pera nesta tera não receiarmos a vimda dos Rumes, nem outros priguos, por maiores que sejão. Em todallas partes que vou trabalho por ter credito com os omens pera milhor poder servir a V. A. he isto não pode ser, sem a V. A. pedir merçe por elles, e porque estes em que // aqui falar aguora a V. A. a mereçem, o faço (1). (1) Recomenda a seguir Francisco de Almeida Ribeiro, soldado portu- guês, que regressava ao reino a pedir mercê de seus serviços; João Fernan- des, criado de seu sogro; Jorge Manhão, seu próprio criado; Pero Barreto Rolim, seu primo co-irmão, e Pero Barreto de Meneses. '73
35 RUI BARBUDO A EL-REI Goa, 18 de Dezembro de 1548 Documento existente no ANTT: — CC, I, 81-116. Mede 214x308 mm. São quatro folhas em estado regular. [O Senhor, Ho ano pasado escrevi a Vosa Alteza as cousas que erão necesarias pera bem destes cristãos e jemte desta terra, de que sou emcarreguado (1), e porque eu não queria que, por falta minha, hos gualardões de meus serviços outrem os ouvese, nem menos que dixesem que por mim ficava cousa alguma de requerer a Vosa Alteza, me pareçeo ser seu ser- viço fazer esta pequena lembramça. Primeiramemte, ha mayor necesidade que ha esta jemte simto ter he terem favor de Vosa Alteza, que posto que muito tenhão, muito mais hão mister, por caso de seus tra- balhos em comthynuas demamdas, que he causa emfenita poderem-se acabar, sem muita perda delles nem de suas fazemdas, por omde me parece lhe ser muito necesario hum juiz pera os ouvir de suas demamdas verbalmemte, omde [i ».] quer que se com // eles achar, asi na cidade como polas aldeas, porque doutra maneira eu não simto cousa com que se posa remedear suas vidas, somente esta, porque so ho trabalho que eu tenho com os portugueses, per parte deles, he tamanho que ho que eu não quis aceitar ateguora, por (1) Há menção de um Rui Barbudo como sendo alferes de Nuno da Cunha. Nesta altura, porém, era pai dos cristãos. '74
ve-la necesidade (2) que diso tem, ja tomarei por partido conhecer de suas causas que amdar de juizo em juizo, sem numqua nada acabar, se Vosa Alteza ouver per seu serviço eu estou prestes pera o fazer. Ho guovernador Guarcia de Saa tinha este ano prati- cada com ho vedor1 da fazemda, que aguora he, que emtão servya de sacretario (3), de me dar toda a jordição dos cristãos, e os escrivães dos ouvidores e precuradores com suas petições acabarão com ho chamçarel-mor que falase ao governador que não ouvese a tal detreminação efeito, dizemdo que todos ficavão perdidos, e que não terião que comer, se a jemte da terra tivese quem hos detreminase, asi que por darem de comer has tais pesoas, ha custa de tamtos pobres, se deixou de fazer, e fiquou todo em calma. Veja Vosa Alteza ho que mais ha per seu serviço e ho que nesta parte mamda, porque de todolos remedios de suas cousas este he o melhor. E outra lembramça faço a Vosa Alteza e he esta, que nesta terra ha hum foral de todalas cousas que pertemcem a seu serviço, em que ha hum // capitulo que diz que todo ho guamcar hou outra qualquer pesoa da terra que falecer, sem ter filho macho, que toda a fazemda que, per seu faleci- memto lhe for achada, asi movei como de raiz, seja de Vosa Alteza e, posto que filhas tenhão, não posão erdar nenhuma cousa, nem menos suas molheres, per omde ficão perdidas as almas e os corpos deitados a lomge. Se Vosa Alteza ouver por seu serviço que sem embarguo do tal foral, que as tais fazemdas não sejão tiradas a suas molheres e filhas, serão muita parte de se cheguarem ha nosa amizade, e receberem aguoa do samto bautizmo, por- (2) Isto é: por ver a necessidade. (3) Refere-se a Comes Anes. (Lendas da India, IV, 680-682.) i — v.<" 1 75
que por derradeiro, das tais fazemdas, Vosa Alteza nom ha nenhumas, porque as que tem alguma valia são pouquas, e destas se fazem merces aos que tem muito, e as que são pequenas se estrebuim pelos oficiaes da ylha, ho que parece ser mais serviço de Deus e de Vosa Alteza ficarem com seus filhos e molheres, que guastarem-se per esta maneira, por- que, fazemdo-lhe Vosa Alteza as tais merces, he caminho, como diguo, pera mais cedo virem haa sancta comversão. Ho guovernador Guarcia de Saa me mamdou este ano, em o mes de Setembro2, que lhe soubese has almas cristãas que nesta ylha avia; achei cimquo mil almas cristãas, per esta maneira: mais das molheres e filhos, não emtramdo muitas molheres que não são casadas, e asim me fiquou a jemte de Salcete e Bardes, que são muitos, novamemte [j v.) feitos, e outros muitos que não achei, por amdarem // re- colhemdo suas novidades, e muitos que são em Dio e em Baçaim, em serviço de Vosa Alteza, e eu me afirmo pasa- rem de sete mil almas. Pera ho ano, prazemdo a Noso Se- nhor, serão muito mais, porque cada dia vão crecemdo, primcipalmemte depois que Loquu, que aguora se chama Lucas de Saa, se fez cristão, que foi hum gramde bem, porque era ele huma das colunas da ydulatria, e aguora trabalha quoamto pode por nos ajudar na nosa samta fee. Ho padre Amtonio Gomez3 respramdese muito suas vir- tudes; ele me dixe ha feitura desta, que cada dia se bauti- zavão em Sam Paulo muitas almas, e que tamto que ho guovernador se partir, ele e eu avemos de ir corre-la ylha toda, porque asi ho tem ele detreminado, por lhe parecer ser serviço de Deus e de Vosa Alteza. Houtra lembramça faço a Vosa Alteza, que he aver em Bardes muitas fazemdas de palmares, que forão de mouros, e Dom João *, que Deus aja, hos deu a portugueses, homens riquos e abastados, não has perdemdo seus donos, que 2 — sctr.*; 3 - Aint.p ; 4 — J.# / 7 6
parece mais ser vomtade que rezão. Destes são tornados muitos ha fe, e tem trabalho em averem ho seu, por serem eles pobres, e quem aguora as fazemdas pegue (4) serem homens poderosos, eles se vem ha mim, e eu não sei ate- guora ho que lhe ei-de fazerj ate primeiro não falar com ho guovernador. Ateguora lhe não falei niso, pola muita acupação que ateguora teve; veja Vosa Alteza ho que nisto mais for seu serviço, e mamde ho que eu niso faça. // Has provisões, que Vosa Alteza ouver de mamdar, mamde que venhão deregidas ha mim, porque doutraa maneira são trabalhos que me dão. Ho guovernador me mamdou pasar huma provisão, em que mamda que não comsimta nenhuma pesoa, que meu carguo servise, so perdimemto de meu ordenado, porque não queria que nenhuma cousa que aos cristãos tocase, viese por outra nenhuma pesoaJ, por quoamto era emformado que as cousas que pera eles lhes pedião, lhe não sabião dar a emformação. Na verdade, e porque eu diso lhe saberia dar milhor rezão, me cometeo todolos despachos, asi que cada dia me cresem mais trabalhos, per omde ja guora parecia ser rezão Vosa Alteza se lembrar de mim, e de me fazer merce, como em as suas me tem prometido, e posto que eu não fose em Dio com ho corpo, laa amdei com os semti- dos e trabalhos que nos tais tempos me dão. E quoamto em as outras cousas, em todas me acho e achei com hos outros homens, per omde por todalas rezões Vosa Alteza me devia fazer merce, e se me ela falece, bem sei que he por não ter quem por mim requeira. Christovãoe Ramgel, que esta dara ha Vosa Alteza, que vai requerer suas cousas ha Vosa Alteza, pola amizade e paremtesquo (4) Leitura hipotética. Talvez se possa também ler serve. 5 — p.*; 6 — X.' 1 77 Doe. Padroado, iv - 12
que comiguo tem, sei que com as suas lembrara as minhas, e beijarei as reaes mãos de Vosa Alteza, por ele me mamdar minhas provisões e regimemto do que ei-de fazer. Deus, em todo poderoso, acresemte seu real estado com muitos dias de vida a Vosa Alteza. De Guoa, a 18 de Dezembro7 de 548. Rui Barbudo. 7 — dez.® 1 y 8
36 CARTA DO PADRE ANTONIO GOMES AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Goa, 20 de Dezembro de 1548 Documenta Indica, 1, págs. 410-426. A graça e amor de Jesu Christo seya sempre em nossas almas. Esta escrevo com açaz de desconfiança, por me parecer que quando lá chegar, estará Vossa Reverencia mais perto da Yndia que de Portugal, o que mestre Francisco e eu muito desejamos, por ser certo fruito grande que de sua vynda a estas terras se há de seguir, e primcipalmente no Preste, onde Vossa Reverencia tinha detriminado de yr. Por falta de operários se deixa de fazer milhares, milhares de almas christãs, e bem creo que se Vossa Reverencia vyese, que com seu zelo e fervor veriam a entrar na Ygreja muitos reis e senhores, os quaes, por nam terem quem lhes mostre o caminho verdadeiro da salvaçam, o deixam de fazer. Os que quá estamos samos (sic) muy pouquos para tanto campo. Eu certefiquo a Vossa Reverencia que nenhum contentamento me seria ygual, a vê-lo cá, polio amor e afeiçam que sempre lhe laa tive e cá muito mais tenho, porque da sua conversaçam tinha eu muito que tomar e aprender, e também porque sey que Portugal não pode emcloir o zelo e vontade que Vossa Reverencia tem de apro- veitar aos proximos. Aguora quero dar conta do que cá vay, para que Vosa Reverencia, achando laa a carta, detrimine o que vyr ser mais proveito da Companhia e serviço de Deus. '79
Quanto hé à ordem e maneira do colégio hé esta: Os moços que aqui estam seram obra de 80 ou 90, delles gran- des, deles pequenos. Os dias santos ouvem missa entoada e tem besporas; estam por sua ordem conforme a idade, entoam a misa e besporas; micer Paulo a diz as mais das vezes. Os dias de fazer ouvem misa rezada, vam-se à liçam depois e estam duas horas ouvindo e outra repetindo ou compondo latins. Há dous mestres de latim, hum português por nome Domingos, Irmam da casa, outro André canarym. Os mais moços aprendem a ler e escrever; ynsina-os Gaspar, português e Irmam de cassa. Antre elles há engenhos bons e boas yncrinações, mas nam há nenhum spiritu, nem consi- deraçam. Vam como nos colégios de Paris. Há dous ou tres delles que tomaram os Exercícios, mas muy pouquo proveito se seguio diso polos nam continuarem depois de saydos. Desta maneira, [como] conto a Vossa Reverencia, achey a casa: tinha carrego delia o Pe. Nicolao, ao qual mestre Francisco tinha dito, yndo para o Cabo de Comorym, que m'entregase o carrego, como Vossa Reverencia mandava, tanto que chegase. Trabalhey o mais que pude de reduzir tudo a ser conforme co[m o] colégio de Coimbra; mas pola espiriencia que tenho e polos custumes en que estam postos estes moços, os quaes nenhuma cousa sabem nem de mortificações nem de spiritu, acho muita dificuldade en se fazer aquy a obra que eu sey que Vosa Reverencia quer e deseja que se faça, e asy mestre Francisco estes dias que aqui esteve mo dixe. Folgou muito de ouvir novas de Vosa Reve- rencia e lhe declarey a traça e maneira da Companhia que tinha nos colégios, e do modo e spiritu que avya no colégio de Coymbra. Ficou tam contente e pasmado, que lhe parecia quase que nam podia ser, por desejar que asy fosse. De maneira que lhe espliquey que os nervos e força da Com- panhia, segundo a entençam do P. Ignatio e de Vossa Reve- rencia, nam eram outros que os colégios criados en spiritu i 8 o
e en letras, e que o que mais se pretendia laa era fazer-se colégios, onde se ynsinasem en spiritu e letras os que avyam de aproveitar ao mundo, e o que mais avyamos de pretender nestas partes era dilatar a Companhia por toda a Yndia, o que nam se podia fazer sem colégios; fiquou muito con- tente de tudo ysto de que lhe dey larga enformaçam. Elie me dixe que quando vyera Migel Vaaz, vynha com detriminaçam, como lhe disera Ell-Rey, de entregar o colé- gio que se avya de ordenar em Baçaym, a que El-Rey dotou tres mil pardaos de renda; e que porque cá nam ouvera quem disto lançara mão nem o grangeara, polo Migel Vaaz ter por ynformaçam que os Padres que vyeram nam eram para yso, o que eu tenho bem ao revés, tomou o colégio e as rendas, que sam tres mil pardaos e entregou-o a huns frades descalsos que vyeram aquele anno do Regno (l), dos quaes se foram tres para o Regno este anno pasado e dous ficaram no colégio, os quaes se foram por nam pode- rem sofrer desgostos. Estes dous que ficaram, escreveram ao Padre Nicolao muy afincadamente que mandase laa hum Padre dos nosos, para ter carrego do colégio, do dinheiro e dos moços, e que elles nam queriam senam andar polas ylhas de Baçaim a converter. Nicolao fez pouca conta diso. Como cheguey, dahy a nam sey quantos dias, tive enfor- maçam de tudo ysto e detriminey de mandar laa Belchior Gonçalvez com hum Irmam. Esperey todavya que vyese mestre Francisco para ver se lhe parecia ysto bem; laa hé com cartas do Bispo e nosas. Nam temos ainda reposta de nada, todavya temos certeza de lhe entregarem o carrego, porque os frades, de huma vez que mestre Francisco foy ter a Baçaim, lho pidiram muito e asy o escreveram a Cosme (1) Refere-se aos franciscanos da Piedade. Os Padres Domingos, Pere- grino e Diogo regressaram pouco depois a Portugal, ficando apenas Frei Antó- nio do Porto, como guardião, e Frei João de Goa. I 8 I
Anes. Elles nam podem ter aministraçam desta renda, nem tomar dinheiro nas mãos, por serem dos capuchos descalsos; e parece-me a mym que pidiram elles ysto muy afincada- mente por arrecearem de vyrem do Regno do seu Provincial alguas reprehensões. Tenho eu que o Senhor será servido de este colégio ser da Companhia, pois El-Rey asy o mandava. Hé a melhor terra e mais barata que há na índia; há muito aroz e trigo nella, e muitos panos. Daly se podia remedear este e outros colégios que com ajuda de Nosso Senhor se ham de fazer. Vossa Reverencia avya de falar a El-Rey sobre o mandar entregar à Companhia: à huma, porque S. A. no-lo man- dava dar; à outra segunda rezam, porque os frades nam saam mais que dous, e parece-me que se yram para o Regno, e mais saam dos capuchos, que nam podem ter tal adminis- traçam; a terceira, porque elles tem no mesmo Baçaim, onde estaa o colégio dos moços, hum moesteiro seu que fizeram à custa da renda do colégio, onde se podem recolher e alar- garmos o colégio, no que eu creo que elles nam receberam agravo; a quarta rezam hé que o povo todo nos deseja, polo fruito que vê que se faz onde quer que estamos e poios grandes abalos e fama que sayo, de dous meses para cá que chegamos, desta cidade, que corre por toda a Ind [i] a, de sorte que de Baçaym e de Dio se vem aqui confesar. Estará este colégio de Baçaym, deste outro nosso, setenta e duas legoas. Eu também terey tal maneira cá, que vamos nós pouquo a pouquo ganhando pose e credito com ho povo com que nam no-lo tirem. Vosa Reverencia ponha muita diligencia, porque hé cousa de muito mais renda que este e terra muito mais barata. E pola dificuldade que há no regimento desta cassa, pola diversidade das idades dos moços, e de huns saberem e de outros nam saberem, e que nam se pode levar hum mesmo ystilo com todos por huns serem mininos, outros homes; i 8 2
e mais porque vya que era esta pouqua gente para daquy sayrem letrados, por huns aprenderem a ler e a escrever e outros latim e outros artes e outros theologia, e nam serem mais de cem pesoas, dixe a mestre Francisco o que eu colegi do que Vossa Reverencia tinha praticado comigo, que nesta casa se ynsinasem artes e theologia somente, e que trabalhasemos para en Cochim, que estaa cem legoas daqui, e en Chalé, que estaa 75, se fa[ze]rem colégios onde se ynsinase a ler e escrever e latim; e que depois que soubesem para entrar en artes, se vyria se tinham engenho para as mais letras, e inclinaçam para virtudes e vontade para entrar na Companhia. E se caso fose que tivesem estas partes que os mandariam aqui, onde logo entrariam en Exercícios e depois se exercitariam en abjeiçam e humildade, como no colégio de Coimbra; e que esta casa fose propria- mente da Companhia, onde ouvese cem pesoas que andasem en artes e en theologia, e das outras tivesemos administraçam para ynsinar os moços e converter à fee os gentios comar- quãos dos colégios; e os moços que nam tevesem estas calidades os poríamos com fidalgos ou en officios, ou em partes, sendo elles boons, que ynsinasem a doctrina. Mais disto pratiquey com mestre Francisco, por me elle dizer que a gente da terra era a mais delia de fraquos spiritus, e que sem termos portugeses se nam faria nada, porque os portugeses da cá nam se querem confesar a hum indio nem mistiço clérigo senam hé portuges: que seria bom ordenar-se em Coulam, onde Ell-Rey tem huma fortaleza, que está daqui cento e vynte synquo legoas e da cidade de Cochim 25, onde tevesemos obra de 30, 35 por- tugeses que se recebesem com examen com que se recebem no colégio de Coymbra, e se exercitasem e se mortificasem como laa, e que aly aprenderiam latim e depois vyriam cá aprender artes e theologia, porque o trafego desta casa hé mui grande, asy polos comselhos que concorem de toda a t83
India a ella, como polas vysitações cotidianas dos fidalgos que vem a praticar sobre suas conciencias. Tanto hé o cre- dito que de dous meses a esta parte tem à casa, que polas naos e por todalas fortalezas se nam fala senam das pre- gações e confisõcs daqui. Tudo isto pratiquey com mestre Francisco. Pareceo-lhe muito bem, porque aqui estam estes indios que, como sam mínimos e sem spiritu, desenquietam a casa, e, com aiuda do Senhor, o mais cedo que puder yram para outro colégio, para descanso dos Yrmãos e quie- taçam; porque estes, por serem pequenos, há mister deixá-los folgar, e há mister açoutá-los às vezes, o que desemquieta os novos. Esta terra hé tam barata que dam hum arratell de carne por 8 centis e 3, 4 galinhas por 40, 50 reis, e 4, 5 reis de peixe bastam para manter 30 homes. Com muy pouquo custo se teram aly, porque Goa hé tam cara que a galinha vale a tostam e às vezes a tres tostões, e a vaqua, quando ha há, a 8, 9 reis o arratell e o arroz e tudo muito caro. Todas estoutras partes saam mui baratas. Agora vay mestre Francisco a Cochim para dar começo a hum colégio, e dá-lo-á pola gente lhe ser muito afeiçoada a elle e a Companhia. Em Coulam também á de dar começo a outro. Spreve a Ell-Rey sobre S. A. dar dous mil cruzados de renda para se gastarem no colégio de Cochim e de Coulam e de Chalé, e no que se á de fazer em Malaqua e em Maluquo: e que esta renda se pague e entregue ao reytor do colégio de Goa, para daquy se gastar conforme as necessidades de cada colégio, porque muito han de soprir os paes dos myninos que aly entrarem; e creo que quase sem El-Rey se sostentará muita parte disto pola enfor- maçam que das terras me deu mestre Francisco. De maneira que este colégio será universidade de toda a India, e este e o de Coulam seram propriamente da Companhia, e dos outros teremos nós a administraçam, para que de lá venha 184
gente já feita a este, onde aprendam artes e theologia. Eu tudo isto escrevo a Ell-Rey, porque sey que nysto á de rece- ber muito contentamento, porque se aumentará por esta vya a fé em estremo, e mais, quase em todas as fortalezas d'El-Rey aberá pregadores da Companhia e confesores; e teremos gente para tamta conquista como esta da índia, que de laa bem sey que nam pode vyr tanta como yso. Estes 2.000 cruzados, se El-Rei os der, diz o P. mestre Francisco que faça Vosa Reverencia com que a paga delles se faça ao que tem carrego desta casa, porque duzentos cruzados empregados en roupa de Baçaym, que caberá numa caixazinha, fazem em Maluquo mil, nem naquelas partes nam core moeda senam panos, e mais para ficar tudo ysto a [o] colégio que detriminadamente seja da Companhia, como hé este. Este colégio de Sancta Fee tem 600 mill reis de renda, que se recolhem de humas terras que foram dos pagodes, e há confirmaçam e doaçam diso. Tem mais 200 mil reis que se lhe pagam no almoxarifado en dinheiro. Alem disto tem mil cruzados de soldo todolos annos, se os lascarins de sua propria vontade o dam à casa. Tem mais todalas dadivas que se mandam dos reis gentios e mouros à Rainha, donde agora fizemos mil e trezentos cruzados de presentes que lhe mandavam, e se o Governador dera tudo, conforme à provisam que há d'El-Rey para iso, fizeram-se mais de Ij (2.000) cruzados. Quando veo Migel Vaz trouxe d'El-Rey que se dexe a esta casa dous mil cruzados por provisam sua espicial para ysso, nam fazendo nenhuma mençam dos mil e quinhentos cruzados que tinha a casa das terras dos pagodes. Como dise a Vossa Reverencia, foy cá o negocio que entrepetra- ram esta provisam bem mal enterpretada, dizendo que El-Rey nam queria que esta casa tevese mais que dous mil cruzados, e que, pois que tinha já mil e quinhentos nas i85
terras dos pagodes, que lhe daria bc (500), como lhe deram, pagos no almoxarifado para comprimento dos dous mil. Eu nam entendo como ysto podia ser, pois Ell-Rey do seu proprio manda pagar ij (2.000) cruzados, pagos aos quar- téis, e elle me dise que elle tinha feito mercê de ij (2.000) cruzados a esta casa. Querem elles entender asy a mercê d Ell-Rey, como que El-Rey posa fazer mercê dos mill e quinhentos cruzados das rendas dos pagodes, que recolhe- mos, como o colégio de Coimbra recolhe as rendas de Sam Fins. Ysto bem sey eu que nam foi polo elles leexarem d entender, senam que foy por estarem de quebra aos Pa- dres. Cosme Anes me dise que tinha ysto muy partycular- mente sprito a Vosa Reverencia para que El-Rey mandase comprir ynteiramente sua provisam, pois nam hé pequena perda perdermos mill e quinhentos cruzados que nos man- dava dar, alem dos bc (500) que nos deram. Num capitulo de huma carta que El-Rey spreve a Migel Vaz, que veo ter às minhas mãos, diz asy: «E também per £a] qualquer outra obra do dito colégio de Sancta Fee eu faço mercê de dous mil cruzados em cada hum anno, pagos nas minhas rendas de Goa aos quartés do anno, segundo vereis polas provisões que levais». Cosme Anes spreverá particularmente sobre tudo ysto a Vosa Reverencia para que de Há avie Vosa Reverencia tudo. As yndulgencias, se nam sam vyndas, faça-as Vosa Reve- rencia vyr nas primeiras naos, porque faram cá muita devação. Este colégio de Sancta Fé aja-o Vosa Reverencia como detrimynado para a Companhia d'El-Rey, ainda que Cosme Anes tudo nos dê depois que eu vym, e largue [a] aminis- traçam do dinheiro e casa, para mais segurança. E tam- bém venha provisam em que Ell-Rei mande entregar o carrego do colégio de Baçaim a Padre da Companhia. i 86
Mestre Francisco me dixe que, pois El-Rey fazia mercê e esmola aos frades de Sam Francisco e ò Bispo, de lhe mandar dar o vinho que abastase para elles, que Vosa Reve- rencia devia d'aver d'El-Rey que nos mandase dar aqui o vinho que abastase para nós, porque hé hum grande gasto e cousa que Ell-Rei fará mui facillmente. O homem que teve carrego desta casa e que ha fez e que ha faz, só sem ajuda de nynguem, hé Cosme Anes, por- que fez huma obra tamanha e tam custosa en tam pouco tempo, que sam 7 annos, que não vejo o governador que a yso se posese que a pudese fazer tam boa. Todolos dias vem aquy ter connosquo. Tanta dilygemcia põe nas cousas de casa em nos administrar e governar, como Vosa Reverencia põe nas do colégio de Coimbra. Ysto digo porque nam poso exagerar o amor e afeiçam que tem a esta casa, porque do seu nos dá e empresta quando há necesidade, e sem elle se nam pode fazer nada. Bem se pode dizer que nem pedra sobre pedra estivera nesta casa, se elle nam fora. Vossa Re- verencia deve de dizer a Ell-Rey como mestre Francisco espreve e eu, que o deixe stmpre estar nesta terra, por ser sam negociador das cousas de S. A. e de Deus. Elle edificou o ospitall, cousa que teve muita contradiçam, e fez muito na Misericórdia, e esta casa tem muito mais a carrego, que a sua propria, e reve-se nos Irmãos delia, e asy agora á de ser começo e principio de se fazerem os colégios, por ter grande mando e credito em toda a índia. Anda cá muito avexado de seus contrairos, por lhe parecer mal a virtude que elle tem. Vosa Reverencia o favoreça tanto com Ell-Rey como requere a verdade favorecer-se hum homem tam vir- tuoso e bom na índia. Ben pode crer que sem elle nam hay nada na Companhia, e que elle m'entregava [a] aminis- tração da casa no espirituall e temporall, e polio que me diseram os Padres todos delle, e eu vy, o nam quisera tomar e por derradeiro o aceitey com suas ymportunações. Ysto / 8 7
peço muito afincadamente a Vosa Reverencia que aya huma carta d'Ell-Rei sprita de muitos favores, em que diga que follga muito do serviço que faz a Deus e a elle, com humas palavras que ho homrem muito, porque para esta terra ysto há mister: tam abatido trabalham seus ymigos de o trazerem polas virtudes que vem nelle. E mais, que lhe dem o officio de provedor-mor dos defuntos, porque mestre Francisco nam vê homem que com mais saam conciencia o posa ter que elle, acabado de ser veedor-mor da fazenda d'Ell-Rei. Com termos cá este homem, pode Vosa Reve- rencia descansar, que quantos colégios quisermos fazer, faremos; faça por suas cousas como polias da Companhia: porque verdadeiramente mestre Francisco estaa perdido por ■sua bondade e diligencia que tem aserca da Companhia, porque huma carta que vem de laa anda-a amostrando por todallas ruas, somente por terem a Companhia em muito, e agora sua consolaçam nam hé outra, que ver santas pre- gações e devações que há nellas. Mestre Francisco e eu esprevemos a Ell-Rei sobre a bondade e exemplo de vida do Bispo, que S. A. nam pode ter homem que mais edefique, asy com a vyda como com humilldade, como o Bispo; é muito amigo da Companhia. Vosa Reverencia falle nelle a Ell-Rei, pidindo-lhe muito que lhe spreva com muito amor e que diga aos seus gover- nadores que, respeitando as virtudes que elle tem, o nam vexem tanto. Hé muito zeloso de se acrecentar a fee e da Companhia. Mestre Francisco está muito contente delle e, pola yspiriencia que eu tenho laa de outros bispos, tenho a este por hum santo, bem que diram laa que hé froxo, e isto no mais, no al hé de muita perfeiçam e sem nenhuma pompa nem fausto. Eu acho que favorece muito a todalas nosas cousas, por yso Vosa Reverencia lhe spreva dando-lhe os agradecimentos de tudo isto, e faça com que na carta 188
d'Ell-Rey venha outro tanto, porque cá o bispo hé papa e o governador rey. Também haja Vosa Reverencia huma carta d'Ell-Rei para o Governador, em que mostre muita afeyçam que tem à Companhia, encomendando-lhe muito que nos favoreça, porque cá saam mais que reis, e, se nam querem, nam há colégio, e se querem, há-o; outra pera o capitam de Baçaym (2), encomendando-lhe muito que favoreça os Padres que laa estam, porque cada homem destes hé mais que Ell-Rey, porque fazem o que querem, e com as cartas d'Ell-Rey nam no fazem; e se não fose medo d'Ell-Rey, porventura se nam fariam muitas cousas do serviço de Deus que se fazem. Nunqua vy terra onde mais se reja tudo por favor d'Ell-Rey que esta, nem cuidey que ha podia aver. Vosa Reverencia aja huma carta d'Ell-Rei para mym, outra para mestre Francisco, outra para o Reitor que estiver em Baçaim, como deseja de se acrecentar a fee e como nos encomenda yso, e trabalhe com que me responda à minha carta, porque cá nam vyvem senam de cartas d'El-Rey, nem cuidey que tanto ysto fose cá necesario, porque, se o soubera, pedira a Vosa Reverencia tres ou quatro d'El-Rey para o o Bispo e outras tantas para o Governador, e com isto, com ajuda do Senhor, se fará cá muita obra. Para tanta obra como esta, se parecer a Vosa Reverencia, pode mandar cada anno tres ou quatro Padres que saibam alguma cousa, porque, com se saberem pôr num púlpito no mais e dizerem quatro palavras de spiritu, faram hum colé- gio. Mestre Francisco me dise que se contentaria de Vosa Reverencia mandar estes dous ou tres annos, que ham de vyr, cada anno dous ou tres Padres do spiritu e doutrina de Francisco Perez, porque, en todallas partes onde fosem fariam hum colégio. (2) Nesta ocasião ocupava o posto Francisco Barreto. 189
Manoell (3) foy-se de casa, nem abastou para desfazer suas tentações a sanctidade e conselhos de mestre Francisco. Fez-me Noso Senhor muita mercê, porque foy elle azo de se danar alguém que já tornou en sy, e pudera ser começo de se danarem outros que eu receby. Agora faço embarcar para Portugal para que se va emboora. Requere a Com- panhia cá muito spiritu e fervor, o que elle nam tinha, por sempre aprender em letras e nam em espiritu. Eu vy muitos abalos que a Companhia fizer em muitas partes e fizera também noutras, mas nunqua o vy mor que desta cidade, por ser grande e mais em gente nobre: as mais das pregações há muitas lagrimas e devaçam e muitas particularidades que outros spreveram a Vosa Reverencia; eu ao menos me acho de outro spiritu e fervor, de maneira que nam poso crer que eu sou este. Ay vay huma pitiçam de hum homem pobre casado que veo na nosa nao (4); avye-lha Vosa Reverencia o mais que puder, polo amor de Deus. Também vam huns negocios com este maço de cartas do doutor medico que cura aqui em casa; deste tenha Vosa Reverencia muito carrego, porque nos cura aquy. De Dom Alvaro e dom Bernardo, que levam esta, se pode emformar de todalas cousas, porque saam mui amigos e afeyçoados à Companhia, como verá vosa Reverencia. O bispo tem hum criado que se chama Marçal Fer- nandez que ho tem servido doze annos. Hé criado d'El-Rey e sérvio sete. Rogou-me muito que escrevese a Vosa Reve- rencia que lhe ouvese o officio de sprivam do paço de Pangim en vida, porque morreo agora Joam de Lemos que ho tinha en vida. Ponha nisto toda a diligencia, que veya o Bispo quanta rezam há cá de favorecer a Companhia. (3) O Irmão Manuel Vaz. (4) Nau «Galega». / p O
Há muita necesidade neste colégio de quem lea latim. Vosa Reverencia devia de mandar dous ou tres que yso fizesem. Dom Alvaro leva huma caixinha en que vam 4 panos de seda e dous de Bengala, e outros dous panos para cobrir o altar. Vosa Reverencia aja carta d'El-Rey para o Bispo, en que lhe diga que en todalas partes donde nos a nós parecer bem e serviço de Deus posamos fazer colégios, porque nam se bole cá nada sem licença d'El-Rey, por toda a terra ser sua e não ser cá como en Portugal. Nam se oferece mais, senam que, se esta nam achar Vosa Reverencia em Portugal como eu cuido, peço ao Padre que ficar en seu lugar que avye estas cousas como as do colégio de Coymbra. Noso Senhor lhe dê a sentir sua vontade e esa pôr por obra. Aos 20 dias de Dezembro de 1548. Ayres Moniz, capitam da nao en que vyemos, hé muito bom homem; favoreça-o Vosa Reverencia no que poder. Frey Vicente, hum frade da ordem da provyncia da Piedade, tem feito hum colégio muito bom en Granganor, seis legoas de Cochym. Avia Vosa Reverencia de dizer a El-Rey que no-lo dese depois de sua morte, e que sobre iso escrevese ao Bispo, que tem o carrego delle, porque nam tem a quem o deixar, e elle me dise que no-lo avya de dar por nam ter quem lhe lese. Amtonio Gomez. i9i
✓ 37 CARTA DO PADRE LANCILLOTO AO PADRE INÁCIO DE LOYOLA Cochira, 26 de Dezembro de 1548 Documenta Indica, l, págs. 436-444. Ihs Padre mio in Christo Jesu La gratia e favor de Christo nostro Redentore sia sem- pre in nostro adiutorio. Amen. Quanta consolatione recevesse el mio animo con le letre . de V. R. no posso scrivere, ancoraquè io no sia degno se non de molto castigo. V. R. se dignò scriverme molto copio- samente e non solamente me scrivere, ma simulare le mie tante imperfetione e coprirle tutte con el manto delia carita dei suo buono animo e me recevere nel numero delli suoi coadiutori. Veramente quanto io me conosco indegno et insuficiente de essere posto in tal numero, tanto prego a Idio che me faceia degno e suficiente perche io possa de aqui inanze fare quello che se apertene a quelli che sonno chiamati a questo grado miglior che non fiei fin qui. Molto me maravighliai che V. R. non mandò letre a maestro Francesco con queste mie, nè tampoco per altra via recevette mestre Francesco letre de V. R. questo anno. Lui stava in Goua quando me forno date le letre de V. R. Se informo de quanto V. R. scriviva e se maravighliò V. R. non gle scrivere. Pensasimo que V. R. non gle scrivesse pen- sando che lui fusse in Maluco; ancorachè el fosse nella Cina, scrivagle V. R., perchè se le letre vengono qua, gle seranno date. 1 () 2
Io quando volsi venire da Goa a Cochino mandai inanze una casetta donde stavano le vostre letre e forno portate al Capo de Camorino, de modo que non posso respondere a proposito a tutti li capitoli di quelle, pertanto V. R. me perdoni se non gle respondo in tutto, perquanto non tegno le sue letre qui presente. In quanto a le patente che V. R. mandò per mi e misser Paulo e Cipriano e al Patre Antonio (1) io le detti in mano de maestro Francesco; S. R. me dette la mia e penso che dette le sue a li altri. Lui mesmo scrivirà acirca di questo a V. R. Misser Paulo dice che non tene cognome, io gle disse che lui scrivesse a V. R. Cipriano non lo viddi nè gle possiti scrivere che lui mandasse al suo cognome; mandará 1'anno che vene. Quello che V. R. dice che gle mandi li nomi di quelli che sonno abili per esser coadiutori per gle V. R. mandar le patente dico che maestro Francesco e Antonio Gomez teranno questo cargo, perchè già gli disse quello che V. R. scriviva. Maestro Francesco va a Giapan, Antonio Gomez resta qui nostro superiore in tutta la índia, perchè cosi vene ordinato da maestro Simone. Quello che V. R. dice che se mandasse a Roma uno bene informato delle cose de qua per dare la vera informatione e de mandare li coligiali indii, pare bene a maestro Fran- cesco che se sopraseda questo ancora doi anni per bon respetto. Le letre che dice V. R. che se mandino a varie persone per favor do negotio de qua, dico che non è tempo ancora. Quando será tempo, se fará con tutta diligentia, perquè speramo che Idio apra alcun passo donde se possa fare cose degne dessere scritte. (1) Refere-se aos Padres Paulo do Vale, Afonso Cipriano e António Criminal. Doe. Padroado, iv - 13 '93
Quod Tua Reverentia dicit ut Patres eant bini, mestre Francisco tene cargo di questo, ma dico che è tanta la neccessità che tengono de doctrina in queste parte et in tanti diversi loci che ciascuno di noi desideraria farse in pezzi se possibile fosse, perchè un pezzo suvenisse in una parte e un altro pezzo in un'altra parte a tanta miséria. El mighlor modo che se po remediare e fugire gli incon- venienti che podesseno de questo nascere è non mandar qua se non homini de moita prudentia et experientia e tanto exercitati nella via delia mortificatione che possano natare senza scorze. Dico che non solamente quello che vole qua fare frutto e servitio ai Segnore deve mancare de tutte le imperfectione, ma è neccessario che sia tale che possa essere patre e maiestro e guidadore de molti, li quali sonno de molto diferenti ingegni e costumi dalli nostri. Quamo- brem non cuivis committenda est província ut fit (2), e non solamente deve quello che qua vene essere de expe- rientia de letre et virtu, ma deve etiam havere bona dis- positione corporale. Acirca li inpedimenti di quelli che non possono essere delia Compagnia dico che sonno qua trei, quali forno frati, ma non professi: doi forno capochini e uno dominicano, uno de loro è sacerdote, se chiama Anriquez Anriquez, de mediocra doctrina e bona vita, Cristiano novo, li altri doi sonno laici, ancor loro sonno Cristiani novi, ma sonno de mo[l]to bona vita, uno se chiama Gaspar (3); è con Cipriano a Socotorà, e 1'altro se chiama Afonso (4), irà questo Aprile a Malacca. Tutti trei tengono voto condezio- nale nella Compagnia come se acostuma. (2) Alusão ao P.e António Gomes, reitor do colégio de Goa. (3) Gaspar Rodrigues. (4) Afonso de Castro. i94
Tutti noi qua ce relegriamo molto e tanto como è ras- cione quando audimo che la Compagnia è favorita dalla divina Maiestà in tutte le parte delia cristianità; de tutto sia laudato el Creatore eterno infinitamente. Li anni passati io scrissi a maestro Simone acramente che mandasse qua uno che tenesse cargo dei colégio de Goa e de noi altri, perchè io non me trovava suficiente per tenere tale cargo perquanto maestro Francesco stava de qui absente nè pensava che lui tornasse qua per la informatione che de lui teneva. Mandò finalmente questo anno mestre Simone qua un Patre che se chiama Antonio Gomes dalla insula da Madera, el quale dice essere dotor in teologia, al quale per le letre de maestro Simone che me dette, súbito gle renuntiai el colégio e colegiali et me mesmo, como era rascione et lui è retore dei colégio e nostro superiore. Qua nella índia spero che Dio nostro Segnore gle dará gratia che regia con edificatione de tutti. Vero e che lui tene piu talento in pradicare [!] e confessare che no regere e man- dare. Predica con molto fervore e la gente gle tene moita devotione; nella predicatione fa molto frutto; e per essere lui de tale autorità, Cosme Ianne, fondador dei colégio, tutto se intrigo a lui, dandogle plenaria autorita del ditto coleggio, cosi nel temporale como nel spirituale, e súbito che el ditto Antonio Gomez entrò in nel cargo dei colégio comenzò a darghle nova forma in tutto, dicendo che voleva pore questi collegiali nel stilo parisiensi acerca a 1 ordene dei studiare, et cerca alia meditatione et oratione nella manera che acostumano li nostri in Coimbra, et al presente leva questo ordine. Con 1'aiuta de Dio fará tutto, ancorachè dificilmente, perchè questa gente che sta in questo colégio è una coletta fatta de dioce natione, una piu barbara che 1'altra, le piu barbare et inculte generatione che siano nella terra, de manera che tutto quello che qui io podria scrivere '95
restará per examinare alia prudentia de V.R., perquè a bone intendidoro poche parole bastano. Questo anno vinerno da Portugallo delia Compagnia cinqui sacerdoti et sette laid, tutti in verità de bona edifica- tione por quello che sonno. Antonio Gomes è doctor; mes- tre Gasparro, flamengo, è molto bon literato; ambo questi sonno ferventi nella predicatione et altre opere pie. Fanno molto frutto con le sue continue prediche e confessione in la cita de Goa, la quale tene moita necessita de doctrina. Li altri trei sacerdoti, cioè Ba [1] tesar Gago, Belchior Gon- salvez et Paulo dei Vallo sanno cosi un poco de latino male inteso, ma sonno bone persone. Li laici: uno se chiama Manuel (5), el quale è molto bon literato, lui insegna al presente in el collegio la gramatica; li altri non sanno letre nè io so li suoi nomi, perchè li conversai poco. Tutti sonno novi nella Compagnia. Questi dí passati me scrivirno che doi gentili hominí intrarno là nel colégio a fare li Exersitii. Sonno nobili. Pia- cerà a Dio che gle dará gratia de restare nella Compagnia per suo servitio (6). Neila costa dei Moro, cioè in Malucco, stanno quatro,, cioe el Padre Jan de Bera e el Padre Nuno Ribero, et doi laici, cioè Nicolao Nunez e Belchior Nunez. Forno là fara questo Aprile que vene doi anni. Aspettamo al pre- sente nove de loro. Queila è terra molto orida e gente molto bistiale; vivono de pane de legno e pexe. Non gle manca travagli a li Fratelli che là sonno: se exercitano sem- pre in ensignare le cose de nostra fè segondo possono; con- gregano li fanciulli e li insegnano le oratione; batezano grandi e picoli segundo che se gle oferiscono, ancorachè non credano ne intendano tanto perfeitamente como seria necces- (5) Manuel Vaz. (6) D. Diogo Lobo e D. André de Carvalho. 1()6
sario. Questo mesmo fanno tutti li altri che qua vanno in questo negotio. In Mallacca sonno doi, cioè el Padre Francisco Periz, molto bono home e de mediocre letre, et Rocco d'Olivero, laico, molto bon giovene. Questo è quello che fece li Exer- sitii in Goa che scrissi a Vostra Reverentia; será contento che o recivessomo; forno là questo Aprile che vene fará un anno. Adesso receveremo risposta. Mallacca è cità di por- tugesi. Nel Capo di Camorino stanno sei, cioè Antonio Crimi- nale, Anrique Anriquez e Francesco Anriquez e Paulo del Valle sacerdoti, et Adam Francisco et Baltesar Nunez laici. Fanno multo frutto. Sanno già parlare alcun tanto malavar. Possono piu liberamente parlare delle cose de Dio con quella gente: predicano, exortano, baptezano, insegnano, fanno pace, sepultano morti, visitano infirmi et alia hujusmodi, e tengono tanto che fare in questo che non posso [no] suplire a la mità delia opera. Ne la isola de Zocotorà, che sta qua apresso la Etiópia, irà adesso Cipriano con doi gioveni laici in Genaro proximo que vene. In questa insula stanno christiani de Santo To- masso. Non tengono de Cristiano altro che el nome. Man- cano molto de doctrina; è terra molto sterile. Sempre quando la sento nominare, me se rapresenta Patmos. Là non vivono se non de tamere e latto e carne e pesce. Non tengono altro pane nè altri frutti. De qui a doi anni recevera V. R. letre da Cipriano dei frutto che là face. A Bazaino forno questi dí passati doi, cioe Belchior Gonsalvez et un laico. Quella è bona terra. Faranno frutto. Nei colégio de Goa restaranno dopoi la partita de maes- tro Francisco para Giapaon Antonio Gomes retor e Baltesar Gago mestre de casa, misser Paulo et maestro Gasparro sacerdoti, et laici cinque o sei, fura li colegiali indii, che sonno cenquanta. 1 97
Con maestro Francesco irà Cosmo de Torres sacerdote valentiano, b [0} no homo e de mediocre letre, quale rece- vesmo qua, et do [i] laici boni giovani, cioè Dominico Car- vaglo e Rocco d'Olivero, et trei homini de Giapan que stanno nel colégio a imparare le cose de nostra lege. Sonno boni homini. Speramo che per mezzo di questi Dio à de fare là in Giapan grande cose, perchè in tal modo tengono inparata Ia nostra fede e lege in breve tempo che pare cosa maravigiosa. La gente de Cina e de Giapan tengono una mesma lege, la quale mando a V. R. cosi rudimente scritta segondo io possitti tirare da questo giapan, el quale non sapeva ancora parlare bene, ma è ello tanto discreto che me dava intendere tutto per circonloquii. A noi ce pare che nella Cina fossono a predicare alcuni Cristiani eretici per Ia consimiglanza delli costumi nostro et suoi. Aqui in Cocino sta un vescovo hirmenio molto vechio (7), el quale sonno già quaranta e cinquo anni che sta qua a insegnare le cose de nostra fede a li Cristiani de Santo Tomasso che stanno qua in questa terra de Malavar. Questo vescovo dice che li hermenii forno alia Cina a predicare nella primitiva chiesia e che fecerno là grande cristianità. Piacerà a Dio che con la endata (8) de maestro Francisco là se tornará reluminare quella gente nella via delia virità, perchè dicono che ten- gano profetie che anno de recevere un altra legge piu per- fetta. Questo negotio se ha de incomendare al Segnor sine intermissione, et lui fará quello che fore maior bene per la salute delle anime. V. R. ci tegna racomendati molto in spetiale nelle sue oratione, nelle quale tenemo moita sper [an] za; cosi ce (7) Jacob Abuna. (8) Isto é: and at a. 198
racomandi nelle oratione delli altri Patri e Fratelli che là sonno. De Cocino alii 26 de Decembre 1548. De V. R. indegno fighliuolo in Christo, Nicolò Lancilotto. '99
38 CRISTANDADE DE CRANGANOR FREI VICENTE DE LAGOS A EL-REI Cranganor, 1 de Janeiro de 1549 Documento existente no ANTT: — CC, I, 82-1. Mede 213 x 306 mm. São quatro folhas bastante rotas, sendo assim impossível a leitura de muitas palavras. [i r ] Senhor Como quer que do Padre dos lumes de domde descemde tudo o que se pode dar, o qual recebemos na emcarnação do Verbo eterno e todo o bem perfeito que hee ho Espirito Santo que, posto que seja hum com ele, se nos dão muitas e particulares a cada hum das criaturas racionaes, mais em Vosa Alteza parece que foram todos inprimidos e dados; e deixamdo a parte outros muitos naquele que por ecemcia estaa no dador das graças que he o zelo e desejo de salvação das almas, tem voso manifico coração mais parte que todos quantos reis foram na cristamdade ate nosos tempos. E disto pode testificar os meios que Vosa Alteza deu a todolos imfieis que debaixo da vosa conquista jazem, semdo eu mandado, aimda que ho menor de todos desta obra tão santa de Vosa Alteza, com a graça do Senhor fez este colégio, como Vosa Alteza jaa sabe por muitos, e ate quy senpre pedy companheiro, parecendo-me que tinha muita necesidade, pois que Moises pedio seu irmão Arão pera sua ajuda, sendo eu conselhado per muitos religiosos e guovernadores que não tivese companheiro, porque logo me avião de desviar da obra que tenho começado. E por esa causa pedy sempre companheiro, pemsando que acertava, 2 o o
e por amdar mais onesto e nam daar que falar a religiosos, que os seculares nam falavão nisto, porque bem sabem o emxempro que eu tenho dado ate quy, e darei enquanto viver e o Senhor Deus me ajudaraa e ... de andar curador. Item. Agora, graças ao Senhor Deus, não tenho nesesi- dade como estprevy jaa a Vosa Alteza, se não dos compa- nheiros que jaa tenho malavares, que me ajudão fielmente e com todo o bom emxempro. E se la diserem a Vosa Alteza que nam guardo minha regra, dirão o que quiserem, porque natural cousa hee dos homens nam dizerem bem do bem neste mundo em que estamos. Neste paso, Senhor, lhe dou comta de minha vida, porque toca a minha conciencia, porque pouquo me apro- veitaria a mym traze las almas pera o Senhor, e perder eu a minha. Peso a Vosa Alteza por amor de Noso Senhor Deus que mande ler // esta carta toda e a ouvir. [' r0 O capitão desta fortaleza, João Pereira quue o Senhor Deus dee muita vida, tem cuidado desta casa. E muitos homens de Malaca e das partes desta índia vem a ver esta casa, pola fama que tem, e vemdo a casa tão bem doutri- nada tomão devoçam nela, e oferecem suas esmolas, quem dez pardaos, quem vinte, e os dão a João Pereira, e ele os despemde nesta casa, com que se fez e faz atee quy com hum sacerdote meu decipolo malavar, que he o mestre das obras, que hee pera louvar ao Senhor Deus de como o fazem. E não sey o que se gasta, nem o que se nam gasta; veja Vosa Alteza se nisto quebro minha regra (l). Verdade hee que as vezes digo misas e meus decepolos esmola (1) Veja-se atrás o documento n.° 37. Frei Vicente de Lagos pertencia à Província da Piedade e, por isso, não podia administrar dinheiro. i -Dt. 2 O I
com muita emportunaçam pera ajuda e sos e oito m°Ç°s e mais de arroz os que Vosa Alteza manda dar não suprem a tamto; verdade hee que tenho alguma culpa hee pola obra ser hum pouquo gramde, e nam se pode menos fazer pelos muitos moços, e mais a terra o requere, e se alguma culpa tiver nisto, diamte de Noso Senhor eu averei por bem, porque o Senhor Deus avera mysericordia * de mim, segundo a minha temção, e se Vosa Alteza lhe parecer nisto mal, mande-me o que faça e fa-lo-ey. Item. Este colégio, Senhor, lhe mando todo matizado pera Vosa Alteza ver o que estaa feito e prover neste colégio com mais alguma remda, porque se faz nele muito serviço a Noso Senhor, o qual Vosa Alteza sabera poios que de quaa vão, e asy por mestre Pedro, vigário geral (3). Item. Pedy a Vosa Alteza huma bula do Santo Padre pera que nam bulysem comigo, enquamto eu for vivo, polo muito fruito e amor que estes cristãos me teem, e que esti- vese debaixo da obediência do bispo da India, e se Noso Senhor Deus levase o bispo, que estivese a obediência do Papa; disto faça Vosa Alteza aquilo que o Senhor Deus lhe espirar, e asy o que o bispo lhe estprever, porque a causa por que lho mamdava pedir hee porque muytos desejão este colégio, e ainda os da conversação de Jesus (4); nisto faça Vosa Alteza o que for mais serviço de Noso Senhor, porque a mym nam me a-de faltar omde o sirva, como atequi o servi, e perserverar no que comecei ate morte. (2) Isto é: desenhado. (3) Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha. (4) Segundo informação do P.« António Gomes (doe. n.° 37) Frei Vi- cente desejava legar o seu seminário à Companhia após o seu falecimento. 2 — mya.
A margem: Roma ? Item. Outra vez peço a Vosa Alteza, por amor de Noso Senhor Deus, e pera consolação de minha alma, que me deixe acabar meus dias nesta pobre terra do Malavar, e neste colégio do apostolo Sam Tiaguo; porque, Senhor, começar a obra especial de tamto serviço de Noso Senhor, e nam na acabar, seraa gramde descomsolação pera mym; muitas terras haa pola índia, onde podem fazer muito ser- viço a Noso Senhor mais que aqui domde estam. Esta cari- dade peço a Vosa Alteza soo pera mim (5). À margem: que estee. Mais quero dar conta a Vosa Alteza do exercício que aquy tem os colegiaes neste matinas e acab matinas tem huma semana de estudo e os que nam são da ma terra Em rompendo a alva gem a prima; os que nam são de gramatica vão a prima, e asy os das ordens sacras, e rezão prima, terça, sesta, noa. E os da gramatica tem a sua pratica. E se tamge logo a misa primeira e todos vão a ouvi-la. A misa acabada, dão cinquo badaladas; os da gramatica vão ao seu estudo, e os outros a escola, a sua doutrina, e a ler e estprever. E estam atee as dez oras, e os repitidores repitem os seus decipolos. Acabado as omze oras, tamge a comer, e se ajumtam todos assemtados no poyo (6) e dizem o salmo De Proffundis com sua oração polos bemfeitores, e se vão ao refeitó- rio //a dizer sua bemção com sua lição enquamto comem, t2 r-l Acabado de comer, dão graças e vão com ho salmo Mise- rere met Deus a igreja; logo rezam de finados a saber: ao (5) Este período indica que Frei Vicente receava lhe tomassem o seu colégio. (6) Ou poial. 2 ° 3
domingo vesporas de finados, e a segunda3 feira4, primeiro nocturno; terça feira, o segundo nocturno; quarta feira, o terceiro nocturno; quimta feira, as laudes; sesta feira, os salmos penitemciaes com sua ladaynha orações; o sabado, camticum grao (7) e isto por Vosa Alteza e por todolos bemfeitores; acabado isto, se vão lavar as mãos, e se tamge a recolher, e dormem huma ora os que querem; outros estudão, e as duas oras tamgem as vesporas; acabado de rezar vesporas, dão cinquo badaladas, e se vão as esmolas, e as quatro oras tamgem as completas e, depois de rezadas, vão a exercitar-se hum pouquo na orta. E se não tres irmidas que estam na orta que tem seus irmitães e com os que cada huma tem por rol, dizem a Salva (8) com comemorações de Santos, e rogarem por toda a cristan- dade. E depois tamgem a cear, e depois de cea se vam logo todos juntos a dizer as orações do Pater Noster, Ave Ma- ria, Credo, Salve Regina, e as bemçãos e Ave Santisima, com huma protestação (9) a Nosa Senhora, a huma irmida de Nosa Senhora, e isto acabado tamgem a recolher e estu- dar atee oito nove oras. Acabado, tamgem a dormir, e cada noite hay hum que diz a oração poios finados antes que se deitem a dormir; e quatro5 moços vigião cada noite, e também pera os cobrirem, se estãao desonestos, atee mati- nas, e outros quatro depois das matinas atee manhãa. E cada sesta-feira percição pola crasta (10), com sua ladaynha pola cristamdade. Item. Cada sabado por tavoa saem quatro, e as vezes seis e oito, com os que sam de misa a dizerem misas poios (7) Supomos referir-se a um dos quinze salmos graduais. (8) Isto é: Salve Regina. (9) Assim se lê, com efeito, mas não deverá ser antes procissão! (10) Ou claustro. 3 — tcg ' ; 4 — fra. ; 5 — qatro. 2 O 4 i
1 lugares e igrejas dos cristãos, e a pregar e doutrinar. E cada mes vom a visitar os cristãos e pregumtar polo que fize- ram os irmãos pelos lugares onde foram a bautizar; e esta hee minha vida e o quebramtamento de minha regra. Praza a Nosso Senhor que dee muitos anos de vida a Vosa Alteza e a Rainha e ao Bispo destas partes da índia muitos anos (11), por ser causa de Vosa Alteza me mandar quaa, e querer-se o Senhor Deus servir-se de mim pobre peca- dor, em tão pecima terra, como hee o Malavar, porque o martírio e pena que nela levo Deus mo levaraa em conta de meus pecados, amem. Item. Pera que Vosa Alteza saiba de quamto se serve e a-de servir Noso Senhor do fruito deste colégio, so ate agora que 50 legoas de Cramganor detraz te humas cerras altas, estão huma gemte que serãao 40 ou 50 mil vezinhos e trazem humas cruzes de pao pemduradas nos peitos, e dizem que tem rey sobre sy; e quando vai fora leva huma cruz alvorada por bamdeira. Jaa alguns destes cristãos de Sam Tomme viram alguns deles e falaram com eles, e lhes disseram que erão p que passara por hay ornem samto que se se chamão Tomes os malava- res de ordens sacras e foram ate 40 legoas e acha- ram que era verdade que estavam detraz das cerras, e adoeceram e tornaram-se polas febres serem grandes; como começar o inverno, ei-de tornar la mandar; prazera a Noso Senhor que seraa asy, e se acharem que hee asy, detre- mino de ir logo laa, com alguns irmãos deste colégio, e por aquy veraa Vosa Alteza de quamto Noso Senhor hee servido, e a-de ser muito mais deste pobre colégio. // (11) D. João de Albuquerque, bispo de Goa. 205
Item. Estprevy a Vosa Alteza sobre huns dous malavares que la estão em Coymbra; dizem-me muito bem deles, e que são letrados; faz-me escrúpulo, porque são vertuosos e podem quaa fazer serviço a Noso Senhor. Se Vosa Alteza os mandar venham sugeitos ao bispo para que omde os puzer o bispo estejam ou se parecer bem estarem neste colé- gio e ensynarem a estes colegiaes, e daquy sayram a pregar e bautizar. Item: Tem muita necesidade este colégio de hum reli- gioso vertuoso pera ensinar a gramatica, pois tem jaa primcipio, e saão muito abiles pera tudo o que lhes ensi- narem, e pera Vosa Alteza saber isto, pera o ano, se Deus for servido, lhe ey-de mandar tres meninos pera ver desta casa, pera la os mandar ensin cruz com os criados também em religião. Item. Por amor de Noso Senhor Jesus Cristo que faça caridade Vosa Alteza a este colégio do apostolo Sam Tomee desta fortaleza, scilicet, dia de Samtiago com seu oitavario, imdulgemcia plenaria; dia de Sam Thome, imdulgemcia plenaria; quimta feira das Emdoemças e a Pascoa, atee suas oytavas, imdulgemcia plenaria, porque nestes dias açudem aquy muitos cristãos de Samto Thome aos ofícios devinos e emdoemças. Item. Mamdey pedir a Vosa Alteza livros pera este colégio, scilicet, breviários pequenos, dyornais, oras de Nosa Senhora, salteiros pequenos, item um salteiro gramde, item hum misal gramde pera o coro, item mais meia6 dúzia de misaes pequenos, item os livros todos que forem necesa- rios pera a gramatica, item alguns livros devotos, scilicet, 6 — m.B 206
Vitas Patro (12), item Comtemtus Mumdy (13), item Facis- culo Mire (14), item exercitatorios esperitual, item sacra- mentaes pequenos, item livros de comfisões em lymguagem, item Frol Samtorum, item Evamgeliorum. Item. Hum retavolo de Samtiago com toda a sua vida, de seis painéis; item hum crucifixo gramde com Nosa Se- nhora e Sam João, pera o capitulo; e isto tudo mamde Vosa Alteza loguo deregido pera este colégio de Samtiaguo de Cramganor, porque como chegão tomão logo pera o colégio de Goa; item hum ferro de ostias, que nam nos haa neste colégio, que o que Vosa Alteza mandou tomaram logo pera o colégio de Goa; item hum syno gramde pera este colégio, que oussão huma legoa por amor dos christãos acudirem aos ofícios devinos, porque pousão lomge, porque os outros que Vosa Alteza mandou são pera as igrejas das cerras. A margem: que mandem as medidas do retavolo. Item. Não poso deyxar de dizer a Vosa Alteza da muita comsolação que deu a gemte da ...... índia, porque crea Vosa Alteza que faz muito serviço em virar esmolas, e com azela clerezia, e asy o secular o toto que ele quer e asy aos governadores, porque a Imdia hee muito forte e a gemte nam obedece, porque se lhe dão (12) Vitas Pair um, por S. Jerónimo. Há uma edição de Salamanca, feita em 1498. (Cf. Bibliografia Ibérica del siglo XV, pág. 157.) (13) Deve tratar-se da obra Contemptus Mundi, por Frei Luís de Gra- nada. A Bibliografia das obras impressas em Portugal no século XVI, de António Joaquim Anselmo, apresenta duas edições, uma de 1542 e outra de 1563. Refere-se, evidentemente, i edição de 1542. (14) O título deve ser Fasciculus Myrrhae. 2 O y
algum castigo hee a Imdia larga e vão-se por hy (15). E o bispo com sua mamcidão os traz a penitemcia e a todo o serviço de Deus e sugeição. A remda hee pouca, e a gemte pobre, e o bispo faaz muitas esmolas e cuida a gemte que tem muito dinheiro, e eu lhe digo, Senhor, em verdade, que muitas vezes em- penha a prata que tem. Acrecemte-lhe Vosa Alteza mais [3 r.] alguns bares de canela, // e asy pode Vosa Alteza também fazer a este colégio e não semtirão tamto gasto os gover- nadores, pois que se queima a canela acabada a carrega. Comssole-o Vosa Alteza ao bispo sempre, porque a Imdia tem em sy muitas descomsolações especial os prelados. Dos ofícios devinos e asy das doutrinas que o bispo mamda fazer e do zelo das almas e das vertudes e caridades com que o bispo faz, hee excusado estprever a Vosa Alteza, porque a camdea alumia omde quer que estaa, e agora mais per- feitamente que nunca. Item. Mestre Francisco faz muito serviço a Deus Noso Senhor quaa, e crea Vosa Alteza que hee huma t que alum temgido aje todo padres de fazem muito fruito de sy muito bom emxempro muita vertude vaisse a Japão; nam sey quanto acerto fazia muito proveito e serviço a Noso Senhor em Goa. De- via Vosa Alteza de falar a mestre Symão (16) que o man- dase vir de Japão, e que estivese em Goa atee todo o cabo de Comorim, pois hee tamto necesario na India, e asy o bispo he muito consolado com ele, com sua doutrina e conselhos. Item. Nam poso deixar de emcomemdar a Vosa Alteza a João Pereira, capitão desta fortaleza de Cramganor, pois (15) Frei Vicente refere-se, certamente, àqueles que se afastavam para o interior da India, a fim de se furtarem à devida obediência. (16) P.c Mestre Simão Rodrigues, provincial da Companhia em Portugal. 2 O 8
hee toda nosa comsolação, e o trouxe aqui Noso Senhor a ele e a sua molher pera amparo deste colégio. As virtudes de sua molher são tamtas que nam no poso estprever a Vosa Alteza; comparo-a a Samta Ilizabel, filha dei rey da Umgria. Faça-lhe Vosa Alteza merce desta fortaleza em sua vida e escreva-lhe Vosa Alteza por amor deste colégio, pelo mais esforçar ao serviço de Deus. Tem quatro filhas7, e falo a verdade a Vosa Alteza, que deve dous mil e quinhem- tos pardaos a el-rey de Cramganor, por muitas perdas que ouve, e a remda da fortaleza não ser mais que cemto e vinte mil reis e mal pagos. Peço a Vosa Alteza, por amor de Noso Senhor Deus, que lhe faça merce e asy esmola a este colégio, de huma viagem para huma filha sua da via- gem de Choromandel pera Malaca, ou pera Maluco (17), porque esta esmola faz Vosa Alteza a esta casa e a mym gramde caridade, porque lhe sou em muita obrigação, por- que cada dia me manda jantar e cea pera mim; e os domin- gos e festas pãao e carys pera estes oitenta e tantos irmãos, porque eu não tenho triguo, nem vinho, nem azeite, nem vinagre pera mym, por nam emportunar aos governadores e feitores. A margem: a capitania em huma verba, e provisam diso. Item. Alembro a Vosa Alteza Cristóvão de Azevedo (18) de muito serviço que tem feito a Vosa Alteza, e assy quamdo (17) Não se deve estranhar um pedido duma viagem comercial para uma rapariga. Estas «viagens» eram mercês que se podiam vender. A viagem impetrada render-lhe-ia bastante dinheiro. (18) Gaspar Correia menciona um Cristóvão de Azevedo, capitão duma embarcação, no tempo do vice-rei D. Francisco de Almeida. (Lendas da India, I, 883.) 7-f." 2 Op Doe. Padroado, iv - 14
foy a batalha de Dio com Dom João de Castro, levou huma fusta sua com gemte, em que gastou de sua fazenda qui- nhentos pardaos. Isto porque o sei eu, e vy com os meus olhos; alembre-se Vosa Alteza que Item. Senhor, hum lascarim, por nome Lucas Dias que tem feito muito serviço a Vosa Alteza, deseja de viver nesta fortaleza de Cranganor pera descamso de sua vida, e fazer algum bem a este colégio; hee ele meu amigo, tem muito zelo a esta casa; faça-lhe Vosa Alteza merce, em sua vida, da estprevaninha da feitoria desta fortaleza, que nam remde mais que so vimte e cimquo mil reis, e isto por amor de Noso Senhor. A margem: sy, em huma vida na vagante dos que forem providos per Sua Alteza. Item. Os frades da minha provimcia que estão em [3 v.]^ Baçaim, que são dous (19), tem sesemta // moços e bauti- zão muita gemte e fazem muito serviço a Noso Senhor, e crea Vosa Alteza que se não forão os seus companheiros que estava a terra desposta pera fazer muito serviço a Noso Senhor, como se faz, porque a mecee hee muita, e os obreiros pouquos, e perdoe-lhes Noso Senhor o perse- verar hee gramde cousa, e por amor de huma alma soo ouveram eles de perseverar, porque se eu fiz alguma cousa, hee por perseverar e estar fixo na obra. Item. Os padres de São Domimgos também farãao qua muito serviço a Noso Senhor, por serem pregadores, e a (19) Dos religiosos da Província da Piedade enviados de Portugal em 1546, restavam apenas dois: Frei António do Porto, guardião, e Frei João de Goa. 2 I o
India ter muita necesidade de lhe pregarem a palavra de Nosso Senhor aos da milhor que os genty Alembre-se Vosa Alteza de estprever sempre a el-rey de Camgranor, a el-rei de Diamper, e assy a el-rei da Pi- memta (20), alembramdo-lhes e emcomemdamdo-lhes sem- pre estes cristãos, e que me favoreção e ajudem, porque agora o começão fazer alguma cousa milhor. Em especial el-rey de Diamper, que se chama Rey dos cristãos. Noso Senhor Jesus Cristo dee muytos dias de vyda a Vosa Alteza pera amparo noso e desta terra. Feita neste colégio do bem avemturado Apostolo Samtiaguo, em Cram- ganor, oje, o primeiro de Janeiro de 1549 anos. Frrey Vicente. (20) Assim se chamava o senhor do território onde mais pimenta se colhia, não muito longe de Cranganor.
39 CARTA DO IRMAO MANUEL DE MORAIS, S. J. AOS CONFRADES DE COIMBRA Goa, 3 de Janeiro de 1549 Documenta Indica, 1, pãgs. 456-462. La gracia y paz de Christo nuestro Dios y Senor seya de continuo en nuestro favor y ayuda. El ano passado os escrevi dándoos cuenta de lo que acá passava, mas, como por la dificultad del viage no sepa si os son dadas mis cartas, os daré aora cuenta de todo breve- mente. Nos, con la gracia dei Senor, passados los trabajos, y peligros y enfermedades de la mar, llegamos a Goa a 17 de Setiembre de 1546. Y luego de ay a poços dias vinieron cartas de M. Francisco, que escrevió de Malaca, en que mandava que todos los Padres que veniessen aquel ano de Portugal fuessen al Cabo de Comorín, y Juan da Beyra y el Pe. Francisco de Mansillas, o el Pe. Antonio Cri- minal, se fuessen para Maluco. Y porque el Pe. Antonio estava muy lexos para venir (l), quando se dieron las cartas, y era el tiempo breve en que se avia de partir la nave, de manera que no podia venir a tiempo, y porque el Pe. Francisco de Mansillas se halló indispuesto, fué deter- minado que fuesse el Pe. Juan da Beyra, y el Pe. Nuno Ri- bero, y nuestro Hermano Nicolao Núnez, y otro Hermano que acá entró, llamado Baltezar (2), para Maluco; y después de llegar a Malaca bolvió el Pe. M. Francisco de Maluco y halló [lo] s ay. (1) O P.e António Criminal encontrava-se então no Cabo de Comorim. (2) Baltasar Nunes.
De los que venimos de Portugal, solo Francisco Peres quedó en Goa por ser muy necessário allí, todos los otros fuimos para el Cabo de Comorín, que son más de 70 ò 80 léguas de costa adonde ay mucho número de christianos. Después fueron el Pe. Francisco Enrríquez y Baltezar Nunes a Chalé, fortaleza dei Rey, adonde fueron muy bien rece- bidos de todos los christianos de la tierra y gentiles. En dia de Natal se juntó el capitán (3) con otros cavalleros, y les dieron un campo muy bueno cerquado de pared y 70 ducados, con mucha piedra para poder empeçar ay una casa y hazer iglesia, la qual se avia de empeçar a hazer después de las oitavas. El Pe. Francisco de Mansillas y Adán Francisco fueron después para Cochin, adonde por industria dei Hermano Adán se convertió un hombre gentil, malavar, muy homrrado, con su muger y hijos y casa, lo que no fué de poca edeficación. De los otros que quedaron en el Cabo de Comorín no escrivo, ni destos más, porque creo ellos escrivirán largo. Veniendo a lo que nuestro Senor por su bondad quiso obrar en la Costa dei Malavar, en los lugares adonde yo anduve, el tiempo que allá estuve (que es lo que aora os queiro tornar a dar cuenta) en Diziembre de 1546 partimos el Pe. Francisco Emrríquez y yo, para la Costa dei Malavar, adonde hallamos el bendito Pe. Antonio Creminal solo. Mandónos luego al reyno de los paravás, dando a cada uno cuydado de 20 léguas de costa, para que visitássemos todos los lugares delia, que están a la orilla de la mar; a mi parte cupieron 14 lugares. En el tiempo que andé aqui, que serían 13 meses, baptizaria 600 ánimas, poco más o menos. Andando así con muchos fervores y consolaciones de nuestro Senor, llegó el nuestro muy deseado de todos (3) Era D. Bernardino da Silva. 21 3
Pe. M. Francisco, con cuya vista fuymos muy consolados. Hízenos juntar todos los que andávamos en la Costa en un lugar que se llama Manapar, y ay, en quinze dias que con nosotros estuvo, se informo de cada uno en particular de su modo de proceder en las cosas, así particulares dei spíritu como en las que cunplen al augmento y conservación de la christianidad destas partes. Quando de nos se partió para Goa, donde iva visitar el collegio, nos dexó remedios y instrucción cómo dahí adelante nos devíamos aver, y dividiónos de otra manera. Entonces me embió a mí para el reyno de Travancor, en el qual estuve cerca de 4 meses, y baptizaria en este tiempo 200 ánimas, entre grandes y pequenos; quebré y hize con la gracia dei Senor quemar muchos pagodes no trahendo comigo otra defensión sino la cruz, bandera de Jesú Christo. En otro reyno estuve cin- quo meses, hize en este tiempo 300 christianos o más, porque no digo sino lo menos que me parece. Estos tres reynos están todos juntos unos de los otros, y tienem sus lugares por la costa de la mar junto con la playa. Es tierra muy fértil y abastada; ha en ella muchas carnes de vaca, puercos, carneros, cabras, galinas, miei, manteca, frutas y ortaliza, y todo muy barato. Las gentes son de diversas maneras, unos muy para poco, otros más ingeniosos. Los grandes entre ellos tiranízanlos mucho, senaladamente a los que se hazen christianos; y llegan a tanto con ellos, que los atan de pies y de manos, y los tratan muy mal para que les den dinero; y a este mismo fin los amenazan que les han de quemar las iglesias. Mas en esto les da el Senor tanto ânimo, que se arman y juntan de noche, y guárdanla, dormiendo derredor delia, con las rodelas a la cabecera. Consérvalos nuestro Senor por su bondad con muchas cosas que por sus siervos permitte hazerse, de las quales, quando el Senor fuere servido os hará sabidores con que las sepáis.
De algunas muy generates, que parece claramente ser de Dios, en que quiso acudir por su homrra, os diré. Mandó uno destos gentiles poderosos quemar una iglesia, y luego (estando sano) sentió en si senales de muerte, y embiava a dezir que queria tornaria a hazer mui riqua, y que pediessen a nuestro Senor que le diesse vida; mas poco le aprovechó su paenitencia, porque luego murió una muerte muy span- tosa, conosciendo y deziendo que era por aquel peccado. Cometió otro a querer matar un Hermano (4) con una espada, porque le impedia un pagode que él mandava hazer, y de ay a poços dias murió muerte supitania; a otro queriendo quebrar una cruz, derribándola y pisándola con los pies, aconteció tanbién un caso grave. Sanan muchos enfermos con las oraciones y evangelios que sobre ellos se rezan: senaladamente uno que estava quasi para morir, y ya le empeçavam a llorar notablemente, se halló bien antes que de ay se fuesse el Hermano, y luego después sanó. Ultra destas cosas vi yo muchas no menos para loar al Senor, las quales os no digo aora, porque si Dios dello fuere servido, él las manifestará. Y sé yo muy bien, que son ellas poco necessárias para incitar a darle las gracias, por las mercedes que el mundo dél recibe: acá donde ay esta necessidad, nuestro Senor las manifiesta según su providencia. El modo que tenemos en predicar a estos gentiles y de ensenarlos, así antes que se baptizen como después, no escrivo, porque creo que otros lo harán. A mi, la mayor afrenta, hablando humanamente, y, hablando según Dios, la mayor homrra que me hizieron estos gentiles, fué dárenme un dia de paios; y otra vez me vendieron unos que se hazian muy grandes amigos mios, mas parece que tenían más (4) Fala de si mesmo. 215
amor a 1200 pardaos que por mí les dieron, los quales, todavia, después bolvieron a los compradores. Al Pe. Fran- cisco Emrríquez amenazó y quasi quiso matar un rey; al Hermano Baltezar Núnez quisieron matar por algunas vezes: prendiéronlo dos [vezes}. De las más cosas suyas, y de las que el Senor por los otros Padres y Hermanos hizo y haze, ellos creo os escrevirán, que yo no lo puedo hazer de las suyas, ni ellos de las mias; porque, por ser poços y la tierra muy grande, y las necessidades destas ánimas muchas, andamos siempre devididos, de manera que de ma- ravilla nos vemos, sino quando en ciertos tiempos nos ayun- tamos para nos consolar en el Senor, por cuyo amor anda- mos divididos. Aora en el fin desta os quiero hazer participantes de una co [n] solación mia que tuve en ver el Pe. M. Fran- cisco, nuestro verdadero padre, al qual no creo podrá ninguno ver sin mucha Consolación suya, porque parece que su vista mueve a devoción. Es hombre de mediana esta- tura; trahe siempre el rosto alto y los ojos llorosos, y su cara muy alegre; sus palabras son poças y incitativas a devoción; en su boca nunca oyréis sino: «Jesú! O Sanctíssima Trinidad!» Y deziendo esto rompe con dezir: «O Herma- nos mios y mis companeros, quánto mejor Dios tenemos de lo que pensamos! Considerad y dad muchas gracias y loores a Dios N. S., que en tan breve tiempo, como ha que nuestra sancta Compania es confirmada, no aviendo más que siete anos, vemos querer nuestro Senor obrar tanto en ella, como vemos, mis muy amados companeros, que unos están en Roma, otros en Valencia, otros en Gandía, otros en Coimbra, otros en Sancta Fe de Goa, otros en Socotorá, otros en Cabo de Comorín, otros en Malaca, otros en Ma- luco, otros en Japán para donde aora iré! «Estas palabras dezía, Hermanos mios, con tanta devoción y lágrimas; y oyendo palabras dichas con tanto amor y charidad, y para 2/6
nuestro exemplo, nos hazía cobrar mayor fervor y spíritu, y acrecentar mayores deseos de padecer; y a este fin nos contava los trabajos y tribulaciones que passó por las tierras por donde anduvo, en las quales hizo tales cosas y quedó tanta fama de su virtud y sanctidad, que no es justo escre- virlas en su vida. Es tanta la opinion que por toda la índia se tiene dél, que de todos, así de grandes como pequenos, aquel que es más amigo suyo, se tiene por más bienaventu- rado. Estas breves nuevas os escrivo en el fin, porque sé que avéis de holgar con ellas. Nuestro Senor, charíssimos Hermanos, que tanto nos separo unos de otros, nos ayunte en su sancta gloria. De Goa a 3 de Henero de 1549. Vuestro en Christo indino Hermano Manuel de Morales. 2/7
40 INFORMAÇÃO DO GOVERNADOR GARCIA DE SA A RESPEITO DO PADRE MESTRE PEDRO FERNANDES SARDINHA Goa, 3 de Janeiro de 1549 Documento existente no ANTT: — CC, I, 82-2. Mede 300x210 mm. São três folhas, duas das quais escritas (I). f2 Senhor. Mestre Pedrovigayro-jeral, se vay pera o reyno. Parece-me que não vay muyto comtemte de mym, e a rezão he porque lhe fuy a mão em allgumas cousas que ele fazia, que não erão muyto de seu carguo nem de seu abyto, porque trazia meyrynhos por esta terra com vara, que davão muyta apresão a estes crystãos, novamemte com- vertidos, lamçamdo mão de quaesquer pequenas cullpas, e C1 V-1 as pemdemças não erão de padre mestre // nem de cera, senão de dinheyro, e asy mesmo aos jemtios davão muy gramdes apresões e muy mao trato e pyor emxempro pera se fazerem crystãos. Se de mym fizer queyxume a V. A., sayba que estas são as rezões que tem pera o fazer. Noso Senhor por muytos anos acresemte a vyda e real estado de V.A. Escryta em Goa a 3 de Janeiro de 1549. Garcia de Saa. (1) Esta carta dá conta das dificuldades havidas na carga das naus daquele ano. Garcia de Sá tivera de pedir dinheiro emprestado não só à cidade de Cochim mas também ao rei de Cranganor a fim de conseguir a quantia necessária para poder despachar as naus. Refere-se também a Calecut. i — P.» 2 I 8
41 OS MESTERES DE GOA A EL-REI Goa, 4 de Janeiro de 1549 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 82-5. Mede 215 x 313 mm. São quatro folhas em estado regular. Muito allto, muito poderoso l" r J muito emxelemte primcipe el Rei Noso Senhor. Hos Misteres com os vimta quoatro do povo desta sua mui nobre e sempre leall cidade de Guoa, jumtos hem hum acordo com necesydade comprio a bem do povo fazer de presemte saber a Vosa Reall Alteza algumas cousas que muito emportão a esta sua cidade he o povo dela, e lhe pidimos, a homrra da morte he paixão de Noso Senhor Jesus Cristo, tome nosas palavras a boa parte. E como noso Rei e Senhor que he, sinta nosas necesidades pera a elas mamdar prover, como em cousa sua propria, que todos somos, e como seus servos obriguados a toda a servidão, umilmemte lhe muito pidimos que de nosos requirimemtos aja lembramça e sera a nos gramde bem e estimada merce. Item. Primeiramente com ajutorio de Noso Senhor he de Vosa Reall Alteza, que muitos anos e bons viva, he feita a casa em que de presente estão os frades de São Domym- guos (l), de que esta cidade e povos geralmemte recebem gramdes e espiciaes comtemtamemtos, he por helo damos (1) Sobre a construção deste convento, podem consultar-se as Lendas da India, IV, 669-670. 2 / ^
graças a Noso Senhor he a Vosa Reall Alteza muitos louvo- res, porque com a vinda dos ditos padres, todos os dias temos muitas doutrinas e ispiritoaes imsinamças; em suas preguações e comfições he comtinoadamemte nos fazem per todos as Igrejas he a toda ha ora os achão pera as necesidades dos homens pobres he riquos, he esta foi a obra que muito comprio pera a comservação das allmas dos que qua nos servem, pola qual Vosa Real Alteza allcamsara amte Noso Senhor gramde mérito. E alem das suas pre- guações serem de gramdes benefícios ao geral1 do povo [i "•] //da Imdia, são os padres de louvadas vertudes, he a toda a hora nam falecem nem os estorva os seus silêncios nem as santas institoições2 de seus perlados pera todo o serviço necesario que deles compre. E tomarão jaa alguns filhos destes que qua nacerão, polo quail com muito bom amor devemos e temos obriguação. E porque estes venturosos padres nos derão paz e boas amizades he partem com nossas almas das graças ispiritoaes de sua religião, e tomão amtre si nosos filhos, damos delo gramdes louvores a Noso Senhor Jesus Cristo, he a Vosa Real Alteza ficamos em gramdes e mui maiores obriguações pera rogarmos a Noso Senhor por sua vida e saúde, e que seu reall estado seja para sempre prospero de altos estados sobre seus imi- guos, amem. Item. Sabera Vosa Real Alteza que hamdava em este cargos de mister hum homem por nome Martim Guomez, çapateiro que ha anos que, com artes e modos hemdevidos, semdo escrivão de nosas emleições, se fazia sempre mister pera estar em a mesa da Camara, homde fazia cousas de pouquo serviço de Deus he de Vosa Allteza, e em dano he perjuizo do povo, e dysto vivia. He o mais do tempo fazia desvairo he escamdallos amtre cidadãos e os do povo, , _ g_»ll. 2 _ 2 2 0
e de per sua maneira emborilhou esta cidade com o gover- nador Dom João de Crastro, he os frades de São Francisco3 com Martim Afonso de Sousa, semdo governador, he outras cousas semelhantes, e hem ispiciall, queremdo o guover- nador tornar ha alçada ao ouvidor Simão Martinz, temdo Vosa Alteza mamdado a estas partes ha hordenamça de sua relação pera gramdes benefícios de seus povos he por fazer merce a esta cidade ha mandou hem ela regedor. E este Martim Gomez semdo mister, hemduzido polo ouvidor he seus escrivães, fez huma pitição em nome do povo nam semdo asim na verdade. Somente ele so fez a dita pitição, dizemdo que não avia bom despacho, que se tornasse ha allçada ao ouvidor, pela quall pitição o governador Dom João fez allgumas diligemcias he quisera tornalla allçada ao ouvidor. He os outros misteres, per aviso que disto tiverão, o descobrirão hem camara de vereação aos vereadores he oficiaes que hemtão herão. E jumtos todos forão pidi-la petição ao guovernador, dizemdo-lhe que a cidade fora hemguanada polo dito Martim Gomez, porque se fizera sem parecer do povo e era comtraria ha homrra da cidade. E asi se pasarão outras pallavras, de que o governador fiquou em gramde desvairo com hos vereadores e oficiaes da cidade, he ouve alguns danos hem homens // r-3 que acomselharão o bem da cidade, he por estes danos que por este homem vem a este povo, polos quaes ele mere- cia gramde castigo; ao presemte pidimos a Vosa Real Alteza que pera ao diamte não socederem houtros homens seme- lhantes que vivem hem prejuízo do povo, Vosa Alteza deve de mamdar hem elo allguma repremção que seja sem rigor, pera que ao diamte a outros seja hemsempro que ijão seja mais mister, nem vinta quatro, sobre graves penas aos verea- dores e oficiaes que o comsimtirem. He nisto fara gramde 3 — Feo. 2 2 1
serviço de Deus he seu, he e beneficio a este seu povo, he a nos fara estimada merce. Item. E asi lhe fazemos a saber que este homem em nome do povo fez muitas cartas, he as faz quamdo quer pera Vosa Alteza, he pera outras pesoas do reino, hem que escreve cousas emdevidas per hemduzimemto de homens que nam são bons nem vertuosos que nam tem respeito4 ao serviço de Deus nem ao voso, he hem dano he perda do povo, sem dar comta a nenhum parceiro, nem aos vimta quatro, como de rezão se a-de fazer, e so por si com outros que ajumta a seus custumes escrevem. E somos emformados que pede ofícios a Vosa Real Alteza, alleguamdo serviços dos danos he perdas que ao povo faz com seus bons custumes, he que tem diligemcias pera tudo, os quaes oficios Vosa Real Alteza tem deles feito merce ao povo pera os misteres que servem na mesa hem cada hum ano, hos quaes são afiladores das mididas, e o outro da ballamça do aver do peso, hos quaes oficios com boa emformação de verdade não podem soster hum homem. E asi damos lembramça a Vosa Real Alteza que este ano este homem fez allgumas cartas, hem que escreve algumas cousas que nam são como devem; pidimos de merce que a esta somente de credito he autoridade, he has outras as avemos por sobernadas he como nam de- vem ser. Item. Houtrosi fazemos a saber a Vosa Alteza que aca- bada a casa de São Domimguos, de que deve ter gramdes contemtamentos, porque dia de Natali se dise a primeira misa, a qual se dise solenememte como se requeria a tall festa, e o domimgo seguimte que forão trimta do mes, o povo desta cidade fomos juntos na dita casa pera se fazer 4 — resp."
emlleição dos vimta quatro, e dos quatro misteres da mesa, o que se asi detriminou fazer a requirimemto do povo, por receio dos emganos que se fazia nas taes emlleições per // O * este Martim Gomez com outros semelhamtes, e guardamos o regimemto antiguo da sua cidade de Lisboa, que se faz no mosteiro de Sãm Domimgos de Lisboa, pera a emleição dos vimta quatro, a qual emleição foi presemte o padre frei Inácio e frei Diogo de Orneias e o escrivão da camara da cidade. He a emlleição se fez com boa hordenamça na verdade, como compria a serviço de Noso Senhor e de Vosa Alteza, he do bem comum do povo e sairão por misteres João de Sea, barbeiro, e João Martins, çapateiro, e Jacome Dias, serador, e Pedro Eanes, alfaite, os quaes nesta tera são havidos por homens de bem, e os vimta qua- tro forão emligidos como devião ser e por bons homens, de que todo o povo fiquou muito comtemte he satisfeito. E porque o modo da dita emleição hem boa ordem e toqua de ispiritoall, por ser feita por religiosos, que compre muito ao diamte asi se fazer pera bem deste seu povo, pidimos a Vosa Reall Alteza que nos mamde pasar huma provisão pera que ao diamte a emlleição dos misteres e dos vimte quatro se faça em São Domimguos o primeiro dominguo despois do Natali, e nisto fara gramde serviço a Noso Se- nhor e bem he merce a este seu povo. Item. Fazemos a saber a Vosa Real Alteza que mestre Pedro (2), o pregador que qua mandou, se vai desta cidade pera o reino, de que temos gramde simtimemto por suas muitas vertudes. Fez ele qua muito fruito he deu de si muito bom- emxempro de seu onesto viver, de que todos temos obrigação de lhe ver bem e homrra he dele a pre- (3) Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha. 22 3
curar por seus merecimentos he boas doutrinas he emxem- pros que nos tem dado, e asi temos obriguação de escrever a Vosa Alteza as taes cousas na verdade para que os bons he que bem servem Vosa Real Alteza ajão mérito e guallar- dão amte Vosa Reall Aleza. Item. Outrosi fazemos a saber a Vosa Real Alteza que esta cidade nam tem remda pera puder satisfazer aos que a servem, he os oficiaes vereadores que tem ofícios da jus- tiça, que amdão de tres em tres anos, he são elles muito bons cavaleiros e fidallguos, he homens homrrados, que nos mui bem servem, he são muitos, louvado Noso Senhor, e não são eles satisfeitos nem o podem ser, por seus serviços [3 r.] serem mui // gramdes e guastarem mui liberallmente suas fazemdas, e Vosa Real Alteza da laa hos carguos e ofícios da cidade a outras pesoas, como lhe parece bem, he polo prezemte em nome do povo lhe pedimos que nos faça merce do oficio de mocadão dos farazes (3), que ora serve Fernam Manoell, allfaiate, o qual oficio pareceo em tempo pasado que o nam devia de aver, e depois se acharãao tamtos emconveniemtes que era pior nam no aver, pola quall rezão se tornou a fazer e serve o dito Fernam Manoell. Polo que pidimos a Vosa Real Alteza que, avemdo respeito o dito oficio nam ter ordenado a custa da sua fazemda, e os trabalhos e perdas de nosos ofícios que temos o ano que servimos de misteres, faça merce do dito oficio do moquadão dos farazes ao povo pera os quatro que hem (3) Mocadão é o mesmo que chefe, capataz, mordomo, etc. Diz Mons. Dalgado no seu Glossário Luso-Asiálico a respeito da palavra jar az: «Actualmente, é o nome por que se designa uma das duas castas ínfimas de Goa (mahar em concani), que se ocupa em misteres baixos, como os de coveiros, serventes das igrejas, pregoeiros da aldeia, condutores de mackila, trabalhadores em obras de bambu. Mas antigamente denotava o tratador de cavalos e de tapetes e esteiras.» 2 2/j.
cada hum ano servirem na mesa, todos quatro repartirem igoallmemte amtre si os proes e percalsos que o dito oficio remder. Per esta maneira fara Vosa Alteza merce haa mui- tos he não a hum so, e todo o povo lhe fiquara em grande obriguação e o istimara em gramde he istimada merce, de o dar ao povo por previlegio pera sempre, poios ditos res- peitos, e pola satisfação que se deve aos que servem a Vosa Allteza he a cidade, pola perda que niso recebem suas molheres he filhos; hem nos fazer esta merce louvaremos a Deus he a Vosa Allteza damos muitos louvores, he que Noso Senhor tyre de nosos dias os bons, e os ponha hem elle, he que lhe de Noso Senhor muitos dias de vida he saúde, he a Rainha Nosa Senhora he ao primcipe Noso Se- nhor. Escrita em Guoa, aos quatro de Janeiro de 549 anos. João Martins; Manoell Estaço; Jacome Diaz; Diogo Fernandez; Manoel Martins; Fernam Vicemte; ... Anes ... Amdre Gomçallvez (4). (4) Os nomes, escritos em caligrafia muito pessoal, constituem apenas leitura provável. 2 2 J Doe. Padroado, iv -15
42 FRANCISCO DE SEQUEIRA A EL-REI Cochim, 6 de Fevereiro de 1549 Documento existente no ANTT: — CC, l, 82-44- Mede 202 x 294 mm. Duas folhas em bom estado. [i Senhor Foy o noso pecado tamanho que nos faleseu ho vyso- -rey (l), que samta grorya aja, porque dyspois que hele faleseu, faleseu a vomtade aos lascarys pera servyrem a Vosa Alteza, como ho servyam de prymeiro, e ysto he por lhe nam pagarem ho seu soldo nem ho mamtymemto, e por esta razam se vam muytos pera os mouros e recebem solido deles, e proveyja Vosa Alteza nysto, porque he servyso de Deus e de Vosa Alteza. Senhor, nestas partes da Imdya ha muytas cousas que podem ser de Vosa Alteza e por nam haver ca quem fasa por couza de Sua Alteza, nam sam ja suas, e pera estes negosyos tais e necesaryo nestas partes hum governador muito seu amygo ou couza sua, porque se asym nam for, nam fazem ca servyso a Vosa Alteza, porque nam trabalham senam por seu proveyto enquamto tem esta vymdyma, e também se se deyxa de fazer muyta gemte da terra crystam, he polos nam favorecerem, como he rezam que hos favo- [i v.] resam, e eses que sam crystãos // nam lhes fazem a omrra que heles meresem, porque hasym catam hao allto como ao allto. (1) D. João de Castro. 226
Senhor, nesta costa do Malavar a chave dela he Challe, a quall fortaleza he apegada com Calycu, homde se fazem todos hos furtos da pymemta e gymgyvrym (2) pêra ha outra costa, e pera esta fortaleza he necesaryo hum omem muyto chumbado e de muita comsyemsya que holhe muyto pola omrra e servyso de Vosa Alteza, porque nesta forta- leza se fazem muytos desaguyzados, porque nela esteve hum capytam, ho quall capytam ha trouxe em sua ida e em mentes e ele esteve nela, se fyzeram muytas couzas mail feytas, as quais sam muyto desnecesaryas e nam servyso de Vosa Alteza, e nesta mesma fortaleza esta hum lyngoa que ha por nome Dyogo Allvarez, o quall he muito nesesa- ryo fora desta fortaleza, e asym de toda a costa do Malavar, porque hele he o que mete estes capytais em revollta, e se eles nam fazem ho que devem, o mesmo Dyogo Allvarez o faz fazer e asym também mete os moros na arte e a tudo ysto compre a servyso de Vosa Alteza. Senhor, ho capytam de Cramganor, que ha por nome João1 Pereyra, faz ca muytas cousas que nam são servyso de Deus nem de Vosa Alteza, que he tolherem aos crystãos da tera que nam ganhem sua vyda, os quays crystãos des- povoam a tera quamto podem, por lhe tolherem que nam ganhem sua vyda em quatro couzas que ha na tera — a saber — galynhas e em betre e areca e em quatro agyeyros (3) e em canas e em traves, e ysto he o em que tratam, porque nam tem posyvylydade pera mais, porque heles nam sam ornes que amdem sobre ho mar. Senhor, eu se esprevo ysto a Vosa Alteza, he porque lhe como ho seu pam; por agora (2) Isto é: gengibre. (4) Ou aguieiros. i - J.° 2 2J
no mays, senam que ho senhor Deus acresemte ho estado de Vosa Alteza. [a r.] Feyta em Cochym // aos seis dias do mes de Fyvy- reyro de 1549 anos. Francisco de Cequeira (4). (4) Deve tratar-se de Francisco de Sequeira, valente malabar, cujas façanhas eram conhecidas em toda a índia portuguesa. (Lendas da Índia, III, 824-832.) 2 2 8
43 FREI ANTÓNIO DO CASAL A EL-REI Cochim, 12 de Janeiro de 1549 Documento existente no ANTT: — CC, I, 82-15. Mede 203 x 298 mm. Uma folha em bom estado. Senhor Eu estando nesta casa de Cochim, cheguou Miguel Fer- reira 1 (1) de Choromandel, e me deu conta como hia a Guoa falar com ho governador Guarcya de Saa, porque tinha hum alvara do vyso-rey Dom Joam2 que se ouvese de mamdar gemte a Jafanapatão, que ele yrya por capitão dela, ysto pera obra da crystamdade. Depois tornou de Guoa e me deu conta como ho governador se escusara de o mamdar, dyzemdo que não avya de mandar armada fora por amor dos Rumes, e Myguel Ferreira lhe dise que não querya gemte, nem que guastase nenhum dinheiro na armada, somente lhe dese alguma polvora, e que elle bus- quarya a jemte que amda pela costa do Choromamdel, fora do servyço de Vosa Alteza. Isto não veo em efeyto, e pudera-se fazer muyto servyço a Deus e a Vosa Alteza, porque Miguel Ferreira he omem que tem muito credito naquelas partes, e muyto bom cavaleiro, e que parece que não pretemde nenhum imterese, senão ao servyço de Deus e de Vosa Alteza, e se pera esta empresa de Jaffanapa- (1) Miguel Ferreira desempenhou importantes missões na índia, sendo sobretudo conhecido pela sua embaixada ao Xeque Ismael da Pérsia. Poste- riormente, foi capitão da Costa do Coromandel.
tão (2) Vosa Alteza ouver de escolher algum ornem, não symto qua nestas partes outro mais sofficyemte e mays quysto, especyalmemte que nesta obra dos cristãos os padres da Companhia de Jesus e os frades de Sam Francisco, que estão em Ceylão, achão nele carydade, quando a dele ão myster nesas partes. Noso Senhor acrecente seu real estado por muytos anos. Deste Samto Amtonyo de Cochim, oje doze de Janeiro de 1549. Fery Amtonio do Cassai, custos. (2) Trata-se da expedição punitiva contra o rei de Jafna que havia condenado à morte os cristãos recem-convertidos do seu reino. 230
44 CARTA DE XAVIER A S. INÁCIO DE LOYOLA Cochim, 14 de Janeiro de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, 11, 29-31. Gratia et caritas Christi Domini Nostri sit nobiscum semper. Amen. Pater mi in Christi visceribus vnice. Trinas ad te dedi literas eodem fere exemplo, fusissime autem scriptas M. Simoni commendaui. Antonius Crimi- nalis in Comorino Promontorio, cum sex alijs e Societate versatur. Enimuero is, mihi crede, vir sanctus est, et ad has terras excolendas natus: eius similes, quorum istic magna est copia, plurimos hue mittas uelim. Ei Comorinenses socij parent. Idem christianis indigenis, Ethnicis, ac Saracenis est mirifice carus. A soeijs quibus praeest, quantopere dili- gatur, dici vix potest. P. Cyprianus affecta iam aetate in Socotoram insulam proficiscitur. Discessurus est exeunte Ianuario, ducet secum tres e Societate, sacerdotem vnum, reliquos adjutores. Soco- tora insula est in circuitu millia passuum ferme centum. Tota ab eiusmodi incolitur Christianis, qui multis ab hinc annis, Catholicis orbati sacerdotibus, Christiani nihil habent praeter nomen. Ferunt se ortos ab ijs, quos S. Thomas apostolus Christianos fecit. In spem venio fore, ut Cypriani, et sociorum opera, se ad bonam recipiant frugem. Ea insula valde inops est a frugibus et alimentis, eadem- que satis aspera et aerumnosa. Eò Tamen Cyprianus iam sexagenarius libentissime transmittit, confidens egregiam se 23 I
ibi operam Deo nauare posse, et simul expiare delicta iuventutis suae. Et quanquam initio affectam iam aetatem minime patientem laborum excusabat, mox tamen professus est se, si opus esset, haud grauate iturum. Nicolaus Lancellotus, etsi valetudinarius, nunc tamen melius habet, versaturque Colani, quod oppidum est salubri coelo millia passuum a Cocino circiter lxxx ibi instituendo Societatis collegio praeest. Ac sane multa his locis Socie- tatis domicilia excitarentur si M. Simon (vt ad te antea scripsi) cum magna ab Rege autoritate missus non paruam hue adduceret sociorum manum, ex quorum numero sex septemue concionatores essent, complures confessionibus excipiendis, tradendis piis meditationibus, Ethnicis ad Christi fidem adiungendis idonei, viri omnes plane moderati ac rerum periti. Scripsi etiam ad Regem de M. Simone, vt eum aim potestate mittat, non modo inchoandi collegia, sed etiam fauendi indigenis Christianis atque Ethnicis, quos ad Christum quantuluscunque aggregaret fauor. Mitto ad te Iaponicarum literarum notas. Iapones quippe ab alijs in scribendi ratione differunt plurimum. Nam a summo orsi directo ad ima descendunt. Quaerenti mihi ex Paulo Iapone, cur nostro more non scriberent? Quin vos, inquit ille, potius more nostro? Etenim vt hominis caput summum est, pedes imi, sic par est, homines, cum scribunt, a summo deorsum directo ferri. Descriptionem item Iaponiae et morum illius gentis a Paulo summae religionis ac fidei viro acceptam tibi mitto. Post duos menses ego cum P. Cosmo Turriano, Paulo et alijs Iaponibus duobus solvam (si Deo cordi erit) in Iaponiam. Inde quid eorum literis contineatur, ad te perscribam. Nam ex Paulo homine idiota cogonoscere non potui, quòd nunquam attigerit iaponica literarum monumenta, quae (similiter, vt apud nos libri scripti Latine) aliena quasi quadam lingua loquuntur. 2 3 2
Iesvs Dominus Noster doceat nos facere voluntatem suam, et huius vitae laboribus perfunctos ad beatam illam aeternamque transferat sedem. Amen. xviiii kalend. Febr. Cocini Franciscus. 2 33
45 CARTA DE S. FRANCISCO XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 20 de Janeiro de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 35-44. Jhs. La gracia y amor de Christo Nuestro Senor sea siempre en nuestra aiuda y favor. Amén. No podría acabar de escriviros, Hermano mio Maes- tro Simón, la Consolación que recebi con la venida de Antonio Gómez y de todos los otros Padres. Avéys de saber que hazen mucho fructo en las almas y grande servido a Dios nuestro Senor, assí en la vida como en predicar, con- fessar, dar Exercícios Spirituales y platicar con las personas. Están todos los que los conocem muy edificados. Son las necessidades de personas de nuestra Compania muy grandes en estas partes, principalmente en la ciudad de Ormuz y de Dio más que en Goa, porque por falta de predicadores y personas spirituales andan muchos portugueses fuera de nuestra ley. Por ver esta necessidad tan grande embiaré Antonio Gómez a Dio y a Ormuz, pues Dios nuestro Senor le dió tanto talento y hervor en predicar, confessar, y dar Exercícios Spirituales, y conversar con los christianos: y Maestro Gaspar en el gollegio de Sancta Fe. Muy gran servido de Dios nuestro Senor haríades, Hermano mio carisimo, si con muchos de la Compania viniéssedes a estas partes de la India, y entre ellos 7 ó 8 pre- dicadores, y otros; ahunque no tuviessen talento de predicar, 234
siendo personas de muchas mortificaciones y experiência de muchos anos, ahunque no tiuviessen tantas letras, para la conversion de los infieles harían mucho, por quanto los infie- les destas partes es gente muy bárbara y ignorante; y con tener medíocres letras y muchas virtudes y fuerças corporales para llevar los trabajos destas partes, harían mucho servido a Dios nuestro Senor por las fortalezas destas partes. Adonde oviesse un predicador de nuestra Compania y otro com- panyero Padre, que le ayudasse a confessar y dar Exercícios, harían fácilmente un collegio, en el qual recogiessen los hijos de los portugueses primeramente, y después otros naturales de tierra. Por la mucha información que tengo de una isla de Japón, que está allende de China 200 lleguas o más, por ser gente de mucha arte y manera, y curiosa de saber, assí de las cosas de Dios como de otras cosas de sciencia, según me dan información los portugueses que daquellas partes vinie- ron, y también por unos hombres japoneses, que el ano passado vinieron de Malaca comigo, que se hizieron chris- tianos en el collegio de Sancta Fe de Goa, me dieron información daquella ysla, como veréys por un quaderno que allá hos embío, que fué sacado por la información que nos dió [Paulo de} Sancta Fe, y éste es el que se hizo christiano; de dantes se llamava Angero de Japón, hombre de mucha verdat y virtud: él os escrive largamente de sí, y de la manera que vino, y de las mercedes que Dios le ha hecho. Espero que le ha de hazer muchas más. Determino este Abril que viene dei anyo de 1549 de ir a Japón con hun Padre, por nombre Cosme de Torres, el qual os escrive muy largamente, por me parecer que en «aquellas partes se ha de acrescentar mucho nuestra santa fe; y porque en estas partes no hago tanta mengua con la venida de los Padres deste ano, puédome escusar en estas partes con me parecer que para el ano que viene vernéys, o quando no, 235
embiareys alguna persona en vuestro lugar con muchos otros de la Compania. Yo espero en nuestro Senor que ya entonces habré escrito a la India nuevas de Japón, y de la disposición daquellas partes para el acrecentamiento de nuestra santa fe; y plazerá a Dios que, después de haver dado orden en la India en muchas cosas en el servicio de Dios según la información que de Japón os escreviere, nos aiuntaremos en aquellas partes, si fueren más dispuestas para el acrecentamiento de nuestra santa fe, como me parece será. Y por tiempos plazerá a Dios que muchos de la Com- pania yrán a China, y de China a aquellos sus grandes estú- dios que están allende de China y Tartao que se llama Chingico, según la información de Paulo, que dize que en todo Tartao, China y Japón tienen la ley que ensenan en Chingico; y por quanto éll no entiende la lengua en que tienen escrita la ley que tienen los de su tierra escrita en libros, que es como latin entre nos, por esso no me sabe dar entera información de la ley que tienen escrita en sus libros de inpressión. Quando llegare a Japón, siendo Dios servido, os escreviré muy particularmente las cosas que tienen escritas en sus libros, que ellos dizen ser de Dios, porque yo determino con la aiuda de Dios, viniendo a Japón, de ir adonde está el rey. Después de tener experiência de lo que allá hay, os escreviré muy manudamente assí a la índia como al collegio de Coimbra y de Roma y de todas las universidades, principalmente a la de Paris, para les acordar que no bivan en tanto descuydo, haziendo tanto fundamiento de letras, descuydándose de las ignorâncias de los gentiles. A Çacotora va este ano Cipriano con un Padre de missa y dos legos. Está en aquella ysla un moro, el qual forçosa- mente senorea aquella ysla de Çacotora contra toda razón y justicia, sin tener ningún derecho más de forçosamente 2 36
tenella. Agravia mucho a los christianos tomándoles el suyo, y sus hijas tornándolas moras, y otros muchos males. Devvéys hazer con S. A. por servido de Dios y descargo de su conscientia, que mandasse hechar los moros daquella isla, lo que sin ningún gasto puede hazer, mandando a los que van al Estrecho dei armada, que a la venida, quando vienen dei Estrecho, lancen fuera aquellos moros, que están en Çacotora junto a la playa, que pueden ser por todos hasta 30 moros en una casica a manera de fortaleza, y no consienten a los de la tierra tener ningunas armas, y los tienen en muy gran cativerio. Por amor de nuestro Senor proveáys cómo estos chris- tianos tristes y cuytados salgan de cativerio, pues tiránica- mente son senoreados de los moros. En ocho dias los pueden echar de la tierra quando vienen dei Estrecho, que van tomar agua en aquella isla. Es piedat grande ohir las lástimas destos christianos de Çacotora. Agora haze 6 anos que pasé por Çacotora, y tuve piedat grandíssima de ver las persecutiones que de los moros de la cuesta de Arabia padecen; y esto todo está en la voluntad dei Rey, sin se hazer ningunos gastos. Martin Alonso de Sousa, senor que fué de la índia, puede dar verdadera información a S. A. de quán tiránicamente aquellos moros senorean aquella isla, y cómo sin hazer ningún gasto, por las armadas que van al Estrecho se pueden destruihir aquellos moros, derribando aquella casica que tienen a manera de fortaleza. Porque todos los de la Compania hos scriven del fructo que con la aiuda de nuestro Senor en estas partes hazen, por esso me remito en todo a ellos. Daréys orden cómo todos los anos vengan algunas per- sonas de la Compania, y sean los más dellos sacerdotes de missa, y assí escriviréys a Roma y a otras partes, donde hay personas da la Compania, que embíen a Coimbra algunos sacerdotes de mucha mortificación y muchas experiências, 237
los quales no tienen talento o letras para predicar o hazer allá collegios; de manera que en aquelas partes no hazen mengua, y acá en éstas, sy fueren y tuvieren virtudes de mucha humildat y mansedumbre y otras virtudes, pueden hazer mucho servicio a Dios nuestro Senor en la conversion de los infieles, assí como en Malaca, Maluco, Cabo de Comorín y Japón, o ir al Preste, hasta que en el collegio de Coimbra hoviesse muchos que tuviessen acabados sus estúdios. Entre tanto devéys embiar a estas partes personas sacer- dotes, que no hazen falta en Roma ni en otras partes, donde están collegios de la Compania, por no tener talento o letras para predicar o edificar collegios, porque estos tales harán mucho [más] servicio a Dios nuestro Senor en estas partes que no allá. Dad orden cómo todos los anos embiéys per- sonas a estas partes, porque los que acá entran en la Com- pania no son para andar fuera de los collegios, por no tener letras ni virtudes ni spíritu para que puedan luego andar fuera en la conversion de los gentiles, porque para esto se requiere muchos anos de mortificación y de experiência, como bien sabéys. A cinco léguas de Cochin, en una fortaleza dei Rey que se llama Cara [n] ganor, está un collegio muy hermoso que hizo fray Vicente, companero del Obispo, en el qual hay cerca de C. estudiantes, hijos de los que descienden de los christianos que hizo S. Thomé, que acá llaman christianos de S. Thomé, que ay 60 lugares destos christia- nos, y cerca destos lugares está este collegio, cosa muy hermosa y para ver, assí el sitio dei collegio, como adonde están los christianos. El Padre fray Vicente tiene hecho mucho servitio a Dios en estas partes: él es muy gran amigo mio y de todos los de la Compania; dessea mucho tener un Padre de nuestra Compania que supiesse grammática para ensenyar los estudiantes dei collegio y hazer algunas pre- 2 3 8
dicationes, assí a los del collegio como a los del lugar, a los domingos y fiestas. Por amor de nuestro Senor que lo consoléys quanto pudiéredes, embiándole este Padre para estar con él en el collegio a su obediência. En Cara [n] ganor hay dos yglesias, una de vocation de Santiago, otra de la vocation de S. Thomé. Los christianos de S. Thomé tienen mucha devoción a la yglesia de S. Thomé; y la otra, que es de invocation de Santiago, está dentro dei collegio dei Padre fray Vicente. Dessea él mucho tener en estas yglesias algunas indulgências para Consolación de los christianos y acrecentamiento de la devoción; para esto os ruega mucho por servicio de Dios, que por la via de Roma o por la via del Nuncio, que está en Portugal, le impetreys estas gracias, que la vigília de Santiago, con su dia y octavas, todos los que allá fueren confessados y comul- gados ganen indulgência plenaria; y assí también la vigília de S. Thomé, con su dia y todas las octavas, los que visitaren la casa de S. Thome de Cara [n] ganor ganen indulgência plenaria confessados y comulgados, o verdaderamente contri- tos de sus culpas y pecados. Por amor de nuestro Senor que consoléys a fray Vicente con las indulgências para aquellas yglesias, y acerca dei Padre de nuestra Compania que piede para el collegio. No digo más sino que nuestro Senor nos aiunte en su gloria. Amen. De Cochin a 20 de Enero ano de 1549. Vuestro en Christo charísimo Hermano Francisco. 2 39
46 PADRE JOÃO SOARES A EL-REI Chalé, 20 de Janeiro de 1549 Documento existente no ANTT:— CC, I, 82-24. Mede 205 x 295 mm. São quatro folhas, muito poídas e rotas, sendo impossível a leitura de bastantes palavras. [« r0 Senhor Porque não se desta sua fortalleza de Chalé que me Noso Senhor fez (l) vera quem estpreva a Vosa Alteza as cousas que nella cumpre e tãobem allgumas que toqão ao seu como mim desejoso de servir Vosa Alteza, lhas estprevo nesta na verdade como pasão, porque não espero que nymguem de caa estpreva de mim a Vosa Alteza, cousa que caa nestas partes muito se usa estpreverem huns dos outros. Esta fortalleza avera dezases ou dezasete anos, segumdo se diz, que he feita, e a igreja delia em todo este tempo foy a mais desemparada que quamtas ha nestas partes, por- que aliem delia ser de olla, que parece hum palheyro, ha muyta necesydade de todas as cousas que sam necesareas pera ho cullto devino, de que Vosa Alteza tamto se preza, porque os veadores da Fazenda, a que pertemce os provi- memtos das fortallezas, especiallmente das igrejas delias, como regymento de Vosa Alteza esta ordenado e mamdado, quando por esta rasão não estão nella duas oras, pel la muyta presa que tem vão pera Cochym, pera ho fazer (1) O P.e João Soares era vigário de Chalé. 2 q. O
da carrega, por homde não tem tempo de vesytarem e pro- verem esta igreja, e entam os capitães e vigairos se o reque- rem, são tão de vagar despachados que camsão de o requerer e nada se faz. Peço a Vosa Alteza, por amor de Noso Senhor e de Sua May Glloryosa e Conceyção, cuja emvocação esta Igreja tem (2), que se le pois he a mais pobre da Imdia, o que //he muyto pera doer, estamdo amtre muitas t< * mezquitas e pagodes, hobradas as maravilhas, a igreja e casa de Deus na fortalleza de Vosa Alteza feita hum palheyro, de que se muyto espamtão os reis e senhores gemtios, que muytas vezes a esta fortalleza vem. Em todas as fortallezas da Imdia Vosa Alteza tem orde- nado e manda que se de certa cousa pera esmolla dos pobres cristãos, que nellas ouver, e nesta, que he a mais pobre, não ha nada por homde os pobres que haqui ha que sam muy- tos, padecem necesydades, e os moradores e casados que haquy vivem são tão pobres que lhes não podem acudir, e desta maneira padecem a fome. Peço a Vosa Alteza, por amor da morte e paixão de Noso Senhor, que se lembre delles, pois vivem debaxo de sua guarda e emparo, e o que Vosa Alteza ordenar e mandar que se de, mande que seja do dinheiro que nesta fortalleza ouver ou fazenda, e que se de a tempo que posa ir a Charamandell, pera de la vir empregado em arroz, que sera asy mais barato com- pramdo-se laa, e os pobrès de Jesus Cristo serão fartos, e avendo aqui que dar aos pobres, muitos se fazem cada dia cristãos, muitos mais se farão, e com isto Noso Senhor mui servido e Vosa Alteza muyto merecimemto diamte delle. (2) A primitiva igreja tinha sido benzida sob a invocação de Nossa Se- nhora do Castelo. (Vid. a nossa História das Missões do Padroado Por- tuguês no Oriente, I, 357.) Doe. Padroado, iv - 16 2 ef. I
Eu fuy daqui muitas vezes fallar com ell-rey foy tãobem Dom Bernardym da Syllva (3) e co esca da cris- tandade, de que diz ter vomtade, e certo que achey nelle pallavras e mostra de ter vomtade de ser cristão, reque- rendo-me que o fizese cristão escondidamente, comtanto que avia de ydollatrar, e que seria fimgydo, e isto por allguns respeitos, e que desta maneira ho desera a Mestre Diogo (4), e que pera desta maneira estava prestes de o ser, por quanto o tevera em vomtade depois que conhecera os portugueses, e porque nisto a qua diversos pareceres, e por tãobem a mim me não agradar sello elle desta maneira, ho não fiz, e sem diso dar comta primeiro1 ao bispo, eu lhe pedy que quisese ouvir a doutrina cristãa, elle me dise que era com- temte, e que avia de ser escondidamente, e que lhe mandase hum clleriguo mallavar, que aqui tenho commiguo, pera que delle, por ser da sua limgoa, milhor podese aprender as cousas da nosa samta fee, ho quail tamto que estever quieto das guerras, em que amda, loguo ho la envio. Praza a Noso Senhor que ho traga a este tão verdadeiro conhecimento e por amor de Noso Senhor que não falleça neste particular favor de Vosa Alteza, pois nunqa falleceo em todos os deste e asy ho mande ao bispo e ao gover- ["■•] nador2 (5). // Dom Bernardym da Sillva, amo do Infamte Dom Amto- nio seu filho que samta gloria aja, capitão desta fortalleza, acabou a capella da igreja e soo ella he de pedra e telhado, que toda a mais he de olia e palha, como acima dito tenho, e tãobem fez Misericórdia3, cousa que nunca aqui ouve, e (3) Era o capitão da fortaleza. (4) P.e Mestre Diogo de Borba. (5) Compare-se, a este respeito, o processo relativo à conversão do rei de Tanor, publicado no III vol. da Documentação, págs. 284-314. i — prim.; i — gdor; 3-mia 242
outras obras pias, por homde merece agallardoado de Noso Senhor e de Vosa Alteza. Dona Geronima, sua molher, era este povo delia mui consollado, e não tão somente hos cristãos, mas mouros e gemtios, porque elle semdo capitão era no amor e obras pai de todos, e ella may das molheres desta terra, espe- ciallmente dos pobres, porque crea Vosa Alteza que, semdo eles muito pobres como sam, que os pobres desta terra não tinhão outro emparo senão elles, e parece-me que hos am-de achar menos, porque agora se vão pera Cochim e bem necesytados, por quanto emtrou Luis Xyra por capitão, o quail era primeiro provido de Vosa Alteza desta fortalleza, pois no serviço de Vosa Alteza, Dom Bernardym fez este ano, que elle sérvio, muitas finezas na negoceação da carre- gua, como a todos he bem visto e notorio, porque neste inverno sem dinheiro pello grande credito e acatamento que nelle tem has neg mto muita soma de gem- givre e pimenta, e nisto ajudam Diogo Allvarez, cris- tão da terra aqui casado, de maneira carregou aqui de gemgivre e pimenta a naao «Froll de la Mar»; mandou gemgivre pera todas as naaos ha Cochym e saber a todas as partes ho seu que tinhão por licença de Vosa Alteza. Eu ouvy dezer a Cosme Anes, vedor da fazenda e bem amiguo do serviço de Vosa Alteza, que nunca vira este negoceo de gemgivre de Challe fazer-se tão bem como agora fez Dom Bernardym, e mais barato do que nunca foy. Dom Bernardym me dise que tinha esprito a Vosa Al- teza ho ano pasado que mandase hum retavolo pera esta igreja, por amor de Noso Senhor que ho mande e a envo- cação do meo seja da Conceiçam de Nosa Senhora e o mais de que Vosa Alteza for mais devoto; de huma vestimenta e allmatycas e fromtall e capa a proveja Vosa Alteza de la, 2 4 3
e das mais cousas de que tem necesidade mande qua ao governador e vedor da fazenda que ha proveja. E quanto ao que toca a seu serviço sy como ho eu entemdo e sey esprituallmente e ouvy pratica amigos do serviço de Vosa Alteza que devia de mandar que esta fortalleza fose provida de dinheiro com tempo, pera no inverno comprarem milhor ho gemgivre e pimenta, porque avemdo aqui dinheiro os negros que levão o gem- gyvre e pimenta a Callecu ão amtes aqui e pera isto os capitães terião aqui pesoa em comprar a Serra, e [2 »*•] das mãos dos que os crião, // e pimenta seria muito milhor curada e sem nenhumas e vindo pera esta fortalleza ganha-se muito, scilicet4, no bom mto que he tella (6) em sua fortalleza jumta, e mais ho preço daqui he menos que ho de Callecu, e o preso daqui mayor, e ja neste ano se começou parte disto per Dom Bernardym a menos no preço que lhe forram mais de dous mill pardaos em do se for posy veil esta negoceação de gemgivre nesta fortalleza sera Vosa Alteza milhor servido, e avera mais pronto, e tão- bem evitar-se-ão os gastos que se fazem na feitoria em Callecu e, fazendo-se desta maneira, ho gemgivre que ouver em Callecu se dara as partes por bem do contrato das pazes. Ha armada que anda por esta costa do Mallavar, a segundo ho eu emtemdo e o ouço dezer a muitos, não he necesareo em tempo que ha terra esta tão pacifica, porque pois não he necesareo; faz muito gasto a Vosa Alteza asy nos marinheiros, como nos mantymentos, porque amdão doze ou quinze navios, e cada navio tem trimta marinheiros, e trimta e dous, e cada mes pagão a cada hum hum pardao; ora veja Vosa Altez homde chegara, e aliem do gasto que (6) Isto é: lê-la. 4-S. 244
se faz escandallizão a terra em grande maneira, que easy que em todos os lugares que emtrão, furtão dos e gados, asy dos cristãos, como dos gemtios he mouros, e o Çamorym esta bem escandallizado por yso, e eu lhe ouvy, e diz que pois elle tamto guarda a paz em seus reynos aos portugeses, e delles da gemgivre e pimenta® a Vosa Alteza, e não ser senhor de carregar huma allmadia, que ho não deviâo de escandallizar, porque não se estreve a sofrer sem rezões nem pode ter a sua gem te que por allguma vya se não desmande, pois recebem afrontas; ora pois, pera guar- dar que não saya pimenta de graça, porque esta costa tem muitos rios, e os que a quizerem tirar sabem bem honde esta armada, e quando esta em hum lugar podem sair, se o quiserem fazer, do outro, e deitarem-se de mar em fora aver quem lho estorve, e mais todos os navios taz ou não sempre os depenão e fazem outras afromtas que são pouco serviço de Noso Senhor e de Vosa Alteza eu vy dezer a muitas pessoas, e que bem desejão ho serviço de Vosa Alteza, que abastaria em tempo de pax dous ou tres catures nesta costa, scilicet, aqui hum e outro em Cananor, e assym asy Vosa Alteza deve // de prover nisto, C3 rJ pois tanto cumpre a seu serviço e bem da paz que nestas partes he tão necesarea ser conservada. Isto he o que lhe esprevo desta sua fortalleza, de que deve fazer muita conta, pois a ella são sogeytos tantos reis e senhores gemtios, os quaes praza a Noso Senhor que nos dias de Vosa Alteza tragua o verdadeiro conhecimento de salivação. E pois são ecllisyastico, tãobem lhe esprevo do que ao eclesyastico toca que, Noso Senhor seja mui louvado, vay muito avante, e porque pera Vosa Alteza saber abasta ho bispo (7) que he ca o espelho em que todos nos vemos, (7) D. João de Albuquerque. 5 — pimt.4 245
o quail e tall que delle pode Vosa Alteza ser certeficado e verdadeiramente emformado do que for servido, asy do esprituall como temporall destas partes, porque he mui catollico e vertuoso prellado, e muy fervente no que cum- pre ao cullto devyno, e quanto a obrigação de seu carreguo não lhe ganha ninguém porque delle podem todos aprender vertudes, e porque delle he notoreo a todos ser este que diguo não he necesareo louvallo eu, pois são o menor do {sic) súditos que elle nestas partes tem. Do Aday Joam (8) Alvares8 faça Vosa Alteza muita comta, porque he tem muita autoridade amtre os cllerigos da e não he tão favorecido como merece, sejão de Vosa Alteza nem a Deus e a Vosa Alteza, semdo de sesemta anos com muito cuidado na see de Goa. De vigairo gerall proveja Vosa Alteza, porque a necesy- dade delle, porque ao presemte não symto caa quem ho seja, nem vay de caa nynguem pera ho poder ser, e se for letrado e vertuoso bom sera, e se não, vertuoso abastara, porque nestas partes as vertudes sam as letras que deter- mynão e defendem as causas, asy amtre os ecllesyasticos como secullares, e as vezes por muytas rezões por pequenas cousas que vão os homeens aos mouros, por amor de Noso Senhor que proveja de homem manso pera vigairo gerall, porque pesoa que tall na ho chora oje em dia toda a Imdia dos padres da Com que ca amdão, lhe não posa sprever suas vertudes por rem muitas ao juizo de Christo, specyallmente três, scilicet, Mice Francisco, e Mice Paullo e Mice Nicollao. Dos frades de S. Francisco he tão notoreo serem boons [3t.] e vertuosos relle // gyosos, que haqui he escusado esprever, (8) O P.e João Álvares era o deão da sé de Goa. 6 — jm.# allvrz. 246
especiallmente ho padre frey Amtonio Padrão que não cesa de levar grandes trabalhos no fazer dos cristãos, e de outras obras de caridade, sendo ja bem velho e cansado, e porque de ca vão rellegiosos de que pode ser bem enformado, espe- ciallmente de frey Joam de Villa de Conde, que lhe pode dezer tudo o que pasa acerca desta fortalleza, nesta não diguo mais, senão que Noso senhor acrecemte os dias e reall estado de Vosa Alteza por muitos anos a seu samto serviço, amem. Desta sua fortalleza de Challe, oje 20 dias de Janeiro de 1549. João Soarez. 247
47 CARTA DE XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 20 de Janeiro de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 44-46. A graça e amor de Christo Noso Senhor seja sempre em nossas almas. Amen. Não poderia acabar de vos escrever, Irmão meu Mestre Simão, a consolação que recebi com a vinda d'Antonio Gomez e de todos os outros Padres. Deveis de saber que fazem muito fruito nas almas e grande serviço a Deus Noso Senhor, assi na vida como em pregar, co[n]fessar, dar Exercicios Spirituais, como em pratiquar com as pessoas. Stão os que ho conhecem tão ediffiquados delle, que não se pode mais dar. É a necessidade de pessoas desta nosa Companhia muito grande nesta terra, principalmente em Ormuz e em Dio, mais que em Goa, porque andão muitas pessoas fora da nosa sancta fé à mingoa de quem lhes pregue, e por isso mandei agora lá Antonio Gomez. Eu pela muita emformação que tenho duma ilha de Japão, que stá alem da China dozentas leugoas ou mais, por ser gente de muita arte he maneira e coriosa de saber, asi das cousas de Deus como doutras scientias, segundo me dão enformação hos portugueses que daquellas partes vierom, e tãobem por huns homens j apões, que ho anno pasado vierom comiguo de Malaqua e se fizerão christãos no colle- gio de Sancta Fé de Goa, me derão emformação daquella ilha, e como vereis por hum quaderno que lá vos mando, 2 4 8
que foi sacado pela emfo [r] mação que nos deu Paulo de Sancta Fé, homem de muita verdade, — elle tãobem vos screve largamente da maneira que veo e das grandes mercês que Deus lhe fez — detrimino este Abril que vem do anno de 1549 ir lá com hum Padre, por nome Cosmo de Torres, o qual tãobem vos screve largamente. Espero em Noso Se- nhor que se há lá de acrecentar muito ha nosa sancta fé, e nesta terra com a vinda destes Padres não faço mingoa tanto como isso, e mais porque spero que vós vireis, ou mandareis muitos em v [o] so nome; porem spero em Deus Noso Senhor que vireis, e pera antão terei já scrito à índia cousas de Japão e a disposisão delle. E prazerá a Deus, depois de terdes dado ordem a muitas cousas na India, que nos ajuntaremos no Japão, se for terra mais disposta pera a acrecentamento de nosa sancta fé, como me parece que ho á de ser. E por tempos, prazerá a Deus que muitos da nosa Companhia irão à China, e da China àquelles grandes seus studos, que stão alem da China e Tartão, que se chama Chimgimquo (l), segundo nos diz Paulo de Sancta Fé; e diz que em todo Tartão, Japão e China tem a lei que ensinam em Chinginquo, mes elle não entende a lingoa em que stá scrita, que dizem ser a modo de latim. Cipriano vai este anno a Çoquotora com outros, scilicet, hum Padre e dous leigos. Manoel Vaz tornei a mandar a Goa, porque fará lá mais serviço de Deus que em Portugal (2). Não me alargo mais, Irmão meu Mestre Simão, porque spero em Deus que aveis de vir. Pela primeira via vos (1) Refere-se à universidade budista de Tenjiku. (2) Manuel Vaz tinha sido admitido na Companhia em Coimbra no ano de 1545 e fora para a índia em 1548. 249
mando as cartas de todos os da Companhia. A paz de Christo seja sempre connosquo. Amen. De Quochim a vinte de Janeiro de 1549. Voso em Christo charissimo Irmão, Francisco. 250
48 CRISTANDADE DA INDIA Janeiro de 1549 Episíolae S. Francisci Xaverii, II, 49-50. Lembrança pera ho vigairo gerall das cousas que há de negocear com El-Rey pera bem dos christãos da índia. Faça Vosa Mercê lembrança a El-Rey que mande muitos pregadores da Companhia de Jesus a estas partes, pois as fortalezas da Imdia tem tamta nececidade de pregadores como V. M. muito bem sabe. Quamto serviço faria a Deus Sua Alteza se mandese a estas partes da Imdia ao Padre Mestre Simão com muitos da Companhia de Jesus, pois com sua vimda se faria muito fruyto nas almas dos purtugeses da Imdia e muitos christãos da terra japãa, que sam dos infiéis, comtamto que venha muito favorecido de S. A. com jurdição em ho civell sobre todos os christãos da terra, que nimgen tivese mando sobre eles senão as pesoas que fosem postas por ho Padre Mes- tre Simam por cima de serem providos homems por S. A. pera servirem os tais cargos, pois os capitães que tem esta jurdição sobre os christãos da terra não se aproveitão pera mais delia que pera fazer mall e tomarem o seu a seu dono contra sua vomtade escamdalizamdo os christãos da terra e fazendo que hos infiéis não se convertão pelo mao trata- memto que vem fazer aos que são já christãos. Sendo caso que não vier Mestre Simão faça Vosa Mercê com El-Rey que mande ao Bispo esta jurdição no eivei sobre os christãos da tera que nimgem tenha jurdição nem mando 251
sobre eles senão as pesoas que forem providas pelo Bispo, e as que forão providas por S. A. tamto tempo servirão qamto fizerem o que devem, de maneira que fiqará ò Bispo dispor deles, damdo cargo a outro quamdo elles nam fize- rem o que devem. Quaam escusada cousa sé capitão [e armada ir à Pesca- ria: Pera o] serviço [de S. A. e bem dos] christãos o feitor de Couchim pode mandar arecadar aquelas pareas (l). (1) Estes apontamentos de Xavier destinavam-se a lembrar ao vigário- -geral, Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha, que regressava a Portugal, a urgência em acudir à cristandade da Pescaria. Publicamos adiante o memo- rial que Fernandes Sardinha apresentou a el-rei sobre este e outros assuntos. 252
49 FREI ANTÓNIO DO CASAL A EL-REI Cochim, 21 de Janeiro de 1549 Documento existente no ANTT: — CC, I, 82-25. Mede 207 x 301 mm. Duas jolhas, em regular estado, apesar de algumas palavras se não poderem ler. El-rey Dom Manuel seu pay, que samta gloria aja, e Vosa Alteza em primcipio desta sua Imdia nos emcomem- dou esta vinha, scilicet1, o emxempro, doutrina, pregaçois, comfiçois e outros trabalhos que comvem a nossa samta fee, aos frades de Sam Francisco da Observamcia, os quais de primcipio arrobolarao as pedras, arranquaram as raizes, mumdaram do que puderam das mais arvores; deles morre- rão, deles se tornarão, de maneira que numqua a vinha ficou desemparada; aguora que puderam colher o fruito da terra algum tamto aparelhada, Vosa Alteza nos desem- para em não escrever a estes padres nem nos prove de frades a quatro anos (l), que quer parecer emcomemda-la a outros com muitas cartas e favores, que comam o grão e nos fiquemos com a palha. Parta (2), por amor de Noso Senhor, connosco de suas lembramças, pois Vosa Alteza o faz tam lyberalmemte com todos, e eu o certiffiquo a Vosa Alteza, que quamdo estes padres virão tamtas omrras (1) Esta passagem é importante, pois denota a forma como a India era provida de missionários. Não bastava a anuência dos superiores, mas reque- ria-se também a aprovação de el-rei. (2) Isto é: «reparta». í - S. 2 53
e merces como mamdou aos que em Dio se acharam, e deles nam aver nenhuma lembramça, temdo eles tamto trabalhado em ofícios divinos, precições, confisões e em curar dos emfermos, e esforçar os soldados na guerra, fiqua- ram mui descomsolados e se ouverão por de todo desempa- rados de Vosa Alteza. Nam falo em mym que tinha rezam de esperar hum pequeno favor seu, polo carrego que tenho (3), e por me achar em todas as cousas com o viso-rey que Deus aja, levamdo sempre diamte dos soldados Jesus Christo crucifiquado, e no fazer da fortaleza de Dio ajudar também como os que bem serviram Vosa Alteza. Os padres dominicos que vierão este Vosa Alteza pera fazer hum moesteiro, eu os aguasalhei em a casa de Goa todos nove, e os tivy pasamte de tres meses, e lhe dei sempre todo o necesario, e asy aos padres da Companhia de Jesus em nosas casas poussam, em Cochim e Cananor, por °mde parece que nos nam pesa com eles (4), que a messe e gramde, tudo he necesario, mas nam pera que de todo sejamos esquecidos de Vosa Alteza. E eu, Senhor, este Setembro pasado, fez tres anos que tomey carreguo de custodio destas partes e, por ter acabado meu hoficio, estava pera me ir com Dom Alvaro de Crasto, [' *•] // e o noso Padre Geral me tornou a comfirmar outros tres anos de custodio, e sabe Noso Senhor que muito mais comsolado fora yr-me pera a provimcia descamsar de quam- tos trabalhos tenho pasados nesta terra, a vimte cimquo anos em especial, em ir a Portugal neguocear as coussas desta custodia, e na nao, quamdo vim com Fernão Perez de (3) Frei António do Casal, herói do segundo cerco de Dio, era o superior ou custódio dos franciscanos da Observância. (4) Frei António queixa-se nesta carta do favor especial que el-rei concedia aos Jesuítas. Nesta passagem dá claramente a entender que reinava a melhor harmonia entre as duas ordens religiosas. 254
Amdrade, de que ele sera boa testemunha, e depois em quamto o viso-rey Dom João de Castro foy vivo, sempre o acompanhey em seus trabalhos, nam deixamdo por iso de acudir as cousas da obriguação do meu carrego, e vigiar sobre minhas ovelhas, e pois aguora torno a começar, de novo comfyo em Noso Senhor que me ajudara, e dara esforço pera o servir, e a Vosa Alteza, e se o seu gover- nador tiver de mim necesidade e queira que o acompanhe fa-lo-ei com mui boa vomtade a Deus e a Vosa Alteza. Eu, Senhor, trouxe de Vosa Alteza liccemça pera fazer- mos hum oratorio em Cananor, o qual esta ja quasy aca- bado; vou aly emvernar este ano pera o acabar, e primcipiar hum colégio como o de Frey Vicente (5), porque asy o ordenamos em capitolo, omde espero em Noso Senhor que se fara muito fruito. E acerqua dos frades que estão, eu ate guora nam tivy tempo pera ir la, porque o viso-rey não me queria apartar de sy; pera Setembro, que he a moussão, ei la de ir e Vosa Alteza nam tome trabalho em mamdar frades que venhão dirigidos pera Ceilam, porque esta custo- dia tem tomado a carrego, e eu em todo o meu tempo tenho la sempre tres, quatro frades desta custodia, e se a cristan- dade não vai muito avante he porque nam he favorecida do rey e dos portugueses, que la estam, e também os da terra nam se querem fazer cristãos, senam por emterece, e pedem-no primeiro que o bautismo, e com quamto os frades que la tenho me escrevem muitos queixumes do rey, eu lhe respomdo que nam se nam agastem, que asaz tem feito e faz pois lhes comsemte em seu reino tres igrejas, e terem escolas e preegarem a fee, sem lies yir a mão, e polo tempo (5) Frei Vicente de Lagos, franciscano da província de Nossa Senhora da Piedade, fundara em Cranganor um interessante seminário de clero. Temo-nos referido a ele em várias ocasiões. 2 55
se fara muito fruito que Noso Senhor o primityra por sua bomdade. Eu fuy presente a morte do viso-rey (6) e o comfesei, como o confesava, e em todas cousas em que se achava, e eu afirmo a Vosa Alteza em Deus e em minha comciemcia, que nunqua confesei homem que morrese tam conforme com a vomtade de Deus. La vai Mestre Pedro (7), vigairo geral 1 que também foy presemte, que dara comta diso a Vosa Alteza, porque as cousas que dixe a ora da sua morte sempre sam muito pera Vosa Alteza saber. Perdeo esta terra muito em perder governador tam casto, virtuoso e sem cobiça, e que tam fyelmemte servira a Vosa Alteza. Dom Alvaro, seu filho, merece muita merce a Vosa Alteza, porque o tem muito bem servido e he muito bem a seu pay morrer lhe dese que se nam agastase co morte que bom rey e bom senhor lhe fiquava que o servise toda sua vida, que ele lhe daria gramde galardam e que outra cousa nam tinha que lhe deixar senão as suas armas com que servir Vosa Alteza. Em este seu comvemto de São Francisco de Goa não a retabolo no altar mor, porque he ya todo podre, e gastado, e asy dous de cruzeiro e o capitolo também carece de reta- volo. Ja escrevy a Vosa Alteza algumas vezes que nos fizese esmola dele, porque ver hum tam homrrado e sumtuoso [2 r ] templo sem retabolos sam os frades descomsolados; pidi- mos todos a Vosa Alteza que nos faça esmola e merce de no-los mandar, e eu emcomemdey a Dom Jeronimo de r Noronha (8) que o lembrase a Vosa Alteza, e ele se encar- regou diso. (6) D. João de Castro. (7) Mestre Pedro Fernandes Sardinha. S. Francisco Xavier assistiu igualmente à morte do vice-rei. (8) Tinha sido capitão de Baçaím. (Lendas da India, IV, 534, 632.) 256
A margem: que mande as medidas. Como eu amdase sempre com o viso rey, e em todalas cousas que ele fizese ou as mais delas me achase, pare- ceu-me segumdo Deus, que era obriguado a dizer os ser- viços dos homens que com ele serviram a Vosa Alteza, e mais aguora que ele he falecido, e eles nam tem qua quem os alembre a Vosa Alteza, e também porque muitos nam tem aimda recebido merce. Manuel de Sousa de Sepulveda o tem muito bem servido todo este tempo do viso-rey, e guastou muito em dar de comer aos soldados, e he muito bem quisto, toda a gemte desta terra e he homem pera muito (9). Francisco da Cunha também gastou muito do seu todo este tempo, alem de o gastar com os soldados; he ornem que aos pobres da esmola e faz caridade (10). Dom Bernardo de Noronha, depois que veio de Bemgala, foy muito continuo nos trabalhos e gastou muito em dar de comer aos soldados, e eu lhe certifiquo que he ornem pera se Vosa Alteza muito servir dele (11). Dom Jeró- nimo de Noronha também o sérvio muito bem porque deixou a fortaleza e foy com o viso-rey a costa de Cambaya, e aguora quamdo matarão Luis Falcão em Dio (12), tamto que o soube, se foy la, gastamdo de sua fazemda em dar de comer aos soldados, e nisto fez muito serviço a Vosa Alteza, porque em Dio nam avia ornem de comfiamça e muito pouqua gemte. Cosme Anes, seu veador da fazenda, se achou também em todas as cousas, que o viso-rey fez (9) O seu nome tornou-se comovedoramente célebre na história trá- gico-marítima portuguesa. (10) Capitão de Chaul. (Lendas da India, IV, 560, 586.) (11) Era filho do vice-rei D. Garcia de Noronha. (Lendas da Índia, IV, 162, 451, 602, 632.) (12) Luís Falcão, capitão de Dio, foi morto em sua casa em circunstân- cias algo misteriosas. Este assassínio ocasionou forte sensação em todas as fortalezas. (Lendas da India, IV, 668-669.) 2 57 Doe. Padroado, iv - 17
em Cambaya e nas terras do Idalquam; certifiquo a Vosa Alteza que foy espirado por Deus em o fazer Vedor da Fazemda, porque ornem tão virtuoso e tarn tememte a Deus nam se deve dele esperar senam que syrva muito bem a Vosa Alteza. Francisco da Silva, capitam desta fortaleza de Cochim, também sérvio a Vosa Alteza nestas guerras de Cambaya e do Idalquam, e asy o serve em esta fortaleza em as cousas necesarias a carrega de pimenta. Antonio Monis, alem dos muitos e gramdes serviços que a Vosa Al- teza tem feitos, fez outro que nam he menos de louvar, porque a requerimemto do rey de Camde, o qual dizia que se queria fazer cristão, mamdou o viso-rey la alguma gemte e Amtonio Moniz por capitão; eu mamdei dous frades com ele, como la foy; não quis fazer o que tinha prometido, e Amtonio Moniz se veio sesemta legoas por terra, com muito trabalho, e trouxe a gemte que levou, posto que muitas vezes pelejaram com ele vimdo a Ceilão, porque o rey da Cota fizera fazer tudo isto ao rey de Camde; por se Amtonio Monis não se aqueixar ao viso-rey, lhe dava dez mil pardaos, aos quais ele não quis tomar, e quis amtes vir prove com omrra que rico emfanado, disto se pode Vosa Alteza emformar de Frey Joam de Vila de Comde que com ele foy a Camde. Miguel da Cunha também sérvio muito bem a Vosa Al- teza todo tempo que amda acustumado. Pedro de Ataide vido a Vosa Alteza e, segumdo Deus, merece merce. Jorge da Silva, irmão de Martim Correa, amdou sempre de armada com o viso-rey, e emvernou em Dio em o tempo do cerquo, e syrvio sempre muito bem. Dom Bras de Almeida syrvio muito bem, e abasta pera Vosa Alteza crer que he ysto asy, quebrarem-lhe hum olho de huma espimgardada. Vicemte Carneiro sempre acompanhou o viso-rey, e se achou em tudo com ele; he mamcebo sezudo e bem acustumado. E Francisco de Al- 2 58
meida de Sousa foy a Dio em hum catur seu e gastou quamto tinha, e syrvio a Vosa Alteza bem nesta jornada; he casado em Cananor e muito pobre, com muitos filhos. Lopo Vaz Coutinho também syrvio muito bem a Vosa Al- teza em todas estas guerras e no fazer da fortaleza de Dio, e he muito bom ornem e muito desemparado, e merece muito bem merce a Vosa Alteza. // C1 r-l Peço a Vosa Alteza que se emforme destas casas e dos frades de São Francisco qua moradores, pelas pesoas que vam nesta armada, especialmemte por Mestre Pedro, que qua foy vigairo geral, que he ornem muyto virtuoso, e nam dira senaão a verdade, e por amor de Noso Senhor que mamde qua frades, e hum par de bons pregadores, por- que disto carecemos muito, e se a Provimcia nam a-de ter cuydado destas casas, omde se faz tamto serviço a Noso Se- nhor, milhor seria mamdar ir os frades todos pera Portugal, e alarga-las a Vosa Alteza, pera que as pouvoase doutros religiosos, que todos qua vivemos descomçolados, em ver- mos que nem Vosa Alteza nem a Provimcia se alembra destas casas. Noso Senhor por sua bomdade acrecemte a seu real estado por muitos anos, amem. Deste seu comvemto de Samto Amtonio de Cochim, aos 21 do mes de Janeiro de 1549. Frey Amtonio do Cassall-Custos. 259
50 CARTA DO PADRE COSME DE TORRES PARA S. INÁCIO DE LOYOLA Goa, 25 de Janeiro de 1549 Documenta Indica, I, págs. 470-481. A graça e pax de Noso Senhor Jesu Christo faça continua morada em nosas almas. Amen. O eterno Deus principio e fim de suas criaturas, não contente da criação e redenção nossa, de tal maneira nos compôs, que, como feyturas da sua imagem, quis que o buscasemos, não cesando continuadamente desarreigar-nos da ansia corporal, dando-nos tantas inspirações a nos apar- tar, e trazendo-nos por huuns prepositos contrários a seu querer e vontade. E até a ella não chegarmos, inquietos andamos, porque não descansa a criatura senão em seu Criador; e, fluctuando ainda contra a sinderesim da rezão, não acordamos a tantas inspirações senão quando a sua misericórdia lhe apraz, e chegando dizemos: «Haec est requies mea» (l). E asi descansamos em Deus ainda nesta vida, e claramente julga hum, chegando a este repouso, que hé inferno e desemquietação pasada do mundo, vendo a tranquilidade do fim em que su'alma descansa, e manifesta- mente conhece a bomdade e benignidade do Criador, e amor com que traz suas criaturas. E querendo-me consolar com os meus em Christo Padres, micer Ignacio em Roma, e mestre Symão, e todos os mais Padres e Irmãos da Companhia de Jesu, de que tenho (1) Cf. Is., 28-12, e Ps., 131-14. 260
tanto sabido e conhecido do Pe. mestre Francisco, e dos mais Padres que deses reinos vem a estas partes, determinei fazer-lhes saber, Padres e Irmãos meus em Jesu, de hum pobre servo que aqui nesta Companhia achou o repouso, e dar-lhe huma breve conta de sua vocação, pera que frequen- temente fação ao Senhor em seus sacreficios e orações con- tinua memoria delle, porque, trazendo à memoria o pasado, vejo as mercês que me o Senhor fez, e serey causa delle ser louvado e bemdito. Brevemente diguo que no anno 1538 me parti de Cevi- Iha (2) buscando o que não sabia; e ainda que minha ten- ção era de servir a Deus, e foy sempre, todavia andei sem- pre mesturado com outros desejos. Chegando às ilhas das Canareas e de Sam Domingos, e outras muitas terras e ilhas, as calidades das quaes, por serem manifestas a todos, as não contarey, donde vim a terra firme, que se chama Nova Espanha, na qual terra estive perto de quatro annos [a] abundancia da qual, o numero dos christãos é quasi infinito, e o grande serviço que os Padres, asy dominicos como franciscanos e clérigos, tem feyto naquela terra, pera que hé dizer o que hé tam manifesto em França, Itallia e em todas as partes? Na qual terra estive tres annos e meo, tendo todas as abundancias temporaes quanto se podião imaginar, e não contente com isto sempre desejava não sei quê. Donde me parti ao primeiro dia de Novembro de 1542 pera estas partes e ilhas de ponente, com seis navios de companhia, e andamos perto de cimcoenta e cinco dias sem achar terra nem vella, donde viemos e chegamos a humas (2) Segundo o Catalogo de Pasajeros a índias durante los siglos XVI, XVII y XVIII, II vol., 278, n.° 4667, Cosme de Torres e Miguel de Torres, filhos de Juan de Torres e de Catalina de Torres, «vezinos de Barcelona» partiram para as índias Ocidentais a 12 de Março de 1538. 2 6 I
ilhas bayxas— o numero das quaes não se pode dizer — e pequenas (3). A jemte delia nua, sem cousa nenhuma de comer; somente comem peyxes e folhas de arvores; nas quaes estivemos oyto dias. Donde nos partimos e viemos dez dias e topamos huma ilha muito fermosa, de grandes palmares, e por ser o vento muito rijo a não podemos tomar. E andando perto de outros dez ou doze dias, chegamos a huma ilha muito grande, a qual se chamava Vendenao (4), na qual estivemos perto de corenta dias sem falar com jemte da terra, achando-a despejada. E todo o anno chove nela, e hé de dozentas legoas de bojo; e per huma que vierão em huuns barcos à baya demandar paz, como hé seu costume, tirando sangue dos peytos e braços e bebendo-o em sinal, atirando-se alguuns tiros dos nosos, espantados se forão sem nunqua mais serem vistos dos nosos. Hé jemte quasi numa e abita nos mais altos arvores, que os ahy grandes e grossos, e sobem grandes e pequenos por huma cana de muita altura. E acabado este tempo nos partimos pera demandar a banda do norte e não podemos, donde fomos forçados ir à banda do sul e ahy tomamos huma ilha pequena, na qual avia muito mantimento de arroz e carnes; na qual estivemos perto de anno e meo; Esta jemte hé como a destoutra ilha. Estes crião huns bichos como escorpiões, em hum cepo, pera venenar as frechas de que são grandes oficiaes. Aqui nos morrerão perto de trezentas ou quatrocentas pesoas com escravos. E forçados de nescesidade, contra vontade de todos, nos partimos e viemos ter a Maluco, honde estive- mos, com abundancia e necesidades, perto de dous annos. Honde, finalmente, por parecer dos Padres que ahi está- vamos e de alguns fidalgos, nos concertamos com o capitão (3) O Rev. P.c José Wicki julga tratar-se do arquipélago Marshall. (4) Mindanao. 26a
dos portugeses (5), perdendo a esperança de poder tornar a Nova Espanha, que nos trouxese pera estas partes da índia. Da qual terra partindo, viemos por huma ilha de Ambueno, na qual topei o Padre mestre Francisco. E na primeira vista empremio tanto em mim, que loguo desejei seguir suas pisadas, e o fizera loguo, senão pera me apre- semtar ao Bispo da India. E com esta temção me parti delle sem diso lhe dar comta, e nos viemos por humas ilhas que se chamão Java. Os moradores são mouros e gentios, jemte muito cruel. E dali partimos e viemos ter a Malaqua, outra fortaleza d'El-Rey, das mais riquas que há na índia, aguardando monção e tempo pera partir, por- que quá não se navegua sem ella. E partimdo por muitas ilhas, viemos a parar por caso do vento contrairo a huma de Maldiva, as quais me parecem ser no mesmo clima das que primeiro topamos partindo da Nova Espanha; a mesma jemte e o mesmo comer de peyxe, misera e nua; todas estas jemtes, sem fee; em partes achamos pagodes. Daqui chegamos a Chochim, honde estivemos seis meses. Partindo dahi chegamos a esta cidade de Goa; e, indo dar a obediência ao Bispo, se me ofereceo muito e me emquar- regou de huma vigairaria de sua diocizis, a qual servi perto de quatro meses ou cinquo sem achar descanso em meu spirito (6). E vendo-me tão atribulado de pensamentos e desejos grandes, me vim a este collegio de Santa Fee e pratiquei com o Padre Nicolao, que emtão era reitor, perguntando-lhe os modos e maneira que tinhão de religião nesta Com- (5) Era Fernando de Sousa de Távora. (6) O P.° Cosme de Torres era sacerdote secular, capelão naval. Ao chegar à índia, apresentou-se, como era natural, ao bispo D. Frei João de Albuquerque. 263
panhia; e como já vinha tocado da vista de mestre Francisco, algum tanto, empremio muito em meu coração a maneira nova de viver. Donde determinei dahi a poucos dias fazer os Exercícios nos quaes, ainda que entrando estivese mui acupado dos mesmos pensamentos e imaginações que sem- pre tive, a cabo de dous dias senti tam grande quietude e repouso em minha alma, que em nenhuma maneira se podia expremir. E asi espantado da grande novidade de mim, perguntava ao Pe. Nicolao, que me dava os Exercícios, dizendo-lhe que me parecia que tinha aquela leytura alguma cousa intrinsequa que me movia, porque toda aquela escri- tura eu avia pasado muitas vezes sem achar em mim nenhuma impressão. A isto me respondia que me emcomendase ao Senhor Deus e lhe dese graças por aver feyto em minha alma tanta impressão em tão breve tempo. O que pasei nelle, seria nunqua acabar: ainda que na fim, acabando os Exer- cícios, tive grandes tentações indecibiles, as quaes me reme- deou o Pe. mestre Francisco com sua boa vinda, que parece que o Senhor Deus pera mim o trouxe; e a sua chegada foy a esta cidade a 20 de Março de 1548. E poucos dias depois, estando já deliberado de perma- necer nesta santa Companhia, neste principio ouvindo de confisão hum mancebo, por nome Domingos (7), pare- cendo-me, e de feito hé, de muito emgenho e espirito, falando-lhe na Companhia, aceyt [ou] de boa vontade, o qual recebeo o Pe. mestre Francisco e lhe dey os Exercícios. O qual, pela graça de Noso Senhor, alcançou tanto, que está desposto pera tudo, e deseja o Pe. Antonio Gomez ordená-lo cedo de missa; o qual emsina nesta casa os moços da segunda regra de gramatica (8). E asi mandan- (7) Domingos Carvalho. (8) Regra, aqui, equivale a classe. 264
do-me o Pe. mestre Francisco dar os Exercícios a Diogo, André, Paulo e Manoel (9), gramáticos, naturaes da terra, pela graça de Noso Senhor se aproveitarão muito com grandíssimo dom de lagrimas e conhecimento de Noso Se- nhor; e hé muito pera louvar a Deus na jemte novamente convertida à fee imprimirem-se tanto os Exercícios e terem tantos sentimentos, que não somente os Padres e eu nos maravilhamos, mas ainda o Pe. mestre Francisco louvava ao Senhor muito, com me perguntar muitas vezes se era asi. Também dey os Exercícios a Baltesar Gago, de missa, que veo este anno do Reyno, o qual não menos se aproveitou como amostra por experiência; e loguo poucos dias depois, o Pe. Antonio Gomez, vendo sua maneira, lhe emquarregou que tivese quarreguo de casa. E asy também os dei a Bar- reto, mancebo que também veo este anno do Reyno, e em grande maneira achou a Noso Senhor neles. E indo-se daqui o Pe. mestre Francisco poucos dias depois da chegada dos primeiros Padres que este anno vierão, que foi a 20 d'Agosto, a visitar os christãos do Cabo de Comorim, me deyxou emcomendado que fizese doutrina aos moços de casa, declarando-lhe o evangelho de Sam Ma- theus que já dantes fazia, e que aos dominguos fizese o mesmo na igreja às tardes, especialmente à jemte nova- mente convertida à fee. E dando-me conta o Pe. mestre Francisco de huma terra, por nome Japam, que Vossas Reverencias verão lá por apontamentos, da jemte e calidade delia, dizendo-me que desejava levar-me consiguo lá, da volta que viese do Como- (9) Segundo o Rev. P.e José Wicki, Diogo seria natural de Moçambi- que, André da Índia ou, mais pròpriamente, do Canará, Paulo do Guzarate, e Manuel da China. Este último seria o companheiro de Xavier na sua via- gem para o Japáo. 265
rim, eu me ofereci a iso e aceitei a mercê tamanha de Noso Senhor, e estou oferecido acompanhar o Padre por onde quer que for, por tamanha charidade e lembrança que de mim teve, dando graças ao eterno Deus por quanta consolação dá a quem com algum desejo o busca. E pêra a tamanha mercê de Noso Senhor nom ser imgrato, lhe peço, Padres e Irmãos meus em Christo, me ajudem a gra- tificar tamanhas mercês, assi da vocação como de Japam, porque me não atrevo eu doutra maneira. Neste collegio está hum homem mancebo, por nome Paulo, desta mesma terra, de que verão letra sua, o qual tem tam claro juizo e entrou tanto no conhecimento de Deus, e hé de tanta memoria e engenho, que agora lhe ei de dar os Exercícios cedo, por mandado de mestre Francisco. Esperamos que Noso Senhor com favor de Vossas Reve- rencias obre muito nesta terra. Tenho-lhe declarado Sam Matheus duas vezes: da segunda lhe fiquou todo des o primeiro capitolo até o derradeiro, e averá seis meses que se fez christão. Partiremos no mes de Abril de 1549 pera esta terra de Japam. Ategora não está determinado quem mais há de ir. Temos muita esperança que se há de fazer muito serviço ao Senhor Deus, por duas cousas em especial: a primeira, porque tem elles quasi como por maneira de proficia que hão de ter outra ley milhor da que elles tem agora, e a outra hé que os padres e relegiosos daquela terra são mui honestos e desejosos de saber cousas novas e virtuosas. Isto dá a mestre Francisco grande esperança de se aver de fruiti- ficar muito. Rogo a Vossas Reverencias que nos encomen- dem asidue em seus sacreficios e orações. Noso Senhor conserve esta santa Companhia pera aumento de sua santa fee catholica. 266
- Deste collegio de Santa Fee da cydade de Goa, a 25 de Janeiro de 1549 annos. Servus inutilis, Cosmas. 267
51 CARTA DE XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 25 de Janeiro de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 56-57. La gracia y amor de Christo nuestro Senor sea siempre en nuestra ayuda y favor. Amen. El portador de la presente es hombre que conhocí en estas partes, y va aora a Portogal a requerer sus servidos. Suplicóme mucho que le diesse una carta para vos, para que allá dél tuvi [é] sedes cognoscimiento. Yo digo ansy, que Jurdán Garro acertaria más en andar en requerimientos con Dios para alcançar perdón de sus peccados, de lo que anda requeriendo sus servidos con el Rey. Y se allá le pudierdes favorecer, aconsejándole a ser frade más que a que torne a ser lasquarín à la índia, haréys una obra mucho pia, que será ganardes una ánima perdida. Todavia en satis- fación de sus servicios para poder bevir allá en Portogal, por amor de nuestro Senor que le aiudéys. Después de aver escrito todas las cartas para Portogal, las quales lleva Maestro Pedro Fernández, vicário general que fué de todas las partes de la índia, llegaron las naves de Malaca, en que dan nuevas mucho ciertas que los puertos de la Chyna están todos levantados contra los por- togeses (l); mas ny por esso no dexaré de ir a Japón, (1) Desde 1522 que os Portugueses não tinham licença para comerciar nos portos chineses. Apesar disto, frequentavam virias ilhas e até algumas cidades, como por ex. Chincheu, na província de Fukien, e Ningpo, na de Chekíang. Em 1547, porém, o vice-rei de Cantão Chu Huan recebeu ordem para fechar a China a todo o comércio estrangeiro. (Gaspar da Cruz, Tractado da China, cap. 23; TTen-Tsê Chang, Sino-Portuguese Trade from 1514 to 1644, pigs. 81-82.) — Nota do Rev. P.e José Wicki. 268
como os tengo escrito, pues no ha otro mayor descanso en esta vida de syn sosi [e] go, que bevir en grandes perigos de muerte, tomados todos emmediatamente por solo amor y servicio de Dios nuestro Senor y acrecientamiento de nuestra sancta fee; y con estes trabajos descansa hombre más que biviendo fuera dellos. Dios nuestro Senor nos aiunte en su sancta gloria. De Chochyn oye 25 de Enero de 1549. Vuestro en Christo charissimo Hermano, Francisco.
52 CARTA DE XAVIER A D. JOÃO III Cochim, 26 de Janeiro de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 60-63. Senhor Nam escrevo a V. A. os desfavores e mao tratamemto que se faz aos que sam cristãos comvertidos a nossa samta fe, pois o Padre Frey Joam de Vila de Comde laa vai que os dirá a [V. A. com toda] verdade. Deve-lhe V. A. dar muitos agradecimemtos [polios muitos tra] balhos que nestas partes da Imdia tem tomado [s por serviço de] Deus e descarego de comciemcia de V. A.; porque os [trabalhos corporaes], que o Padre Frey Joam tem levado nestas par- tes [da Imdia, aimda] que sejam muitos e gramdes e com- tinuos, em compa[raçam dos trabalhos] do espiritu, em ver o mao tratamemto que os ca[pitães e feitores] fazem aos que novamemte se comvertem, avemd [o-os elles d'aju- dar] são emcomportabilis e easy hum genero de marti [rio, ter paciemcia] em ver destruir o que com tamto trabalho tem gua[nhado] (l). Quá temos por nova certa que el-rey de Ceilão m [amda gramdes] abastamças a V. A. dos serviços que a V. A. lhe [faz. Saiba certo] que Deus tem gramde inimigo em Ceilam em el-rey. E e[ste rey hé favore]cido e faz todo mal que pode com só o favor de V. A. Esta é a verdade, e (1) As relações dos Portugueses com a ilha de Ceilão, nesta altura, eram dominadas sobretudo por dois reis: Bhuvaneka Bahu, rei de Cota, e Mayadune, rei de Sitavaka. Os Portugueses consideravam o primeiro «rei de Ceilão». 2 7 o
peza-me de o escrever, porque por derradeiro arreceamos quá, pola experiemcia do pasado, que á de ser mais favo- recido de V. A. que os frades que estam em Ceilam. E por derradeiro a experiemcia me tem emsynado que V. A. nam hé poderoso na Imdia pêra acrecemtar a fé de Christo, e hé poderoso pera levar e possuir todas as riquezas temporais da Imdia. Perdoi-me V. A., que tam craro lhe falo, porque ysto me obrigua o amor desemganado que lhe tenho, sem- timdo easy o juizo de Deus que à ora de sua morte lhe á de revelar, ò qual nimgem pode fujir por poderoso que seja. Eu, Senhor, porque sey o que quá pasa, nenhuma esperamça tenho que se á de comprir na Imdia mamdados nem provisões, que em favor da cristamdade á de mamdar; e por isso, easy vou fujimdo pera Yapam por nam perder mais tempo do pasado. O Padre Frey Joam leva certos apomtamemtos dos desemparados cristãos do Cabo de Como- rim: seja V. A. pay deles, pois morreo Migel Vaz, pay verdadeiro deles. Hum bispo d'Armenia, por nome Jacome Abuna, á quoremta e cimquo anos que serve a Deus e a V. A. nestas partes, homem muito velho, virtuoso e samto; e jumta- memte desfavorecido de V. A. e easy de todos os da Imdia. Faz-lhe Deus mercê, pois ele por sy o quer favorecer, sem uzar de nós como médios pera comsolar seus servos. Quá somemte é favorecido dos Padres de Sam Framcisco; e dos Padres é tam favorecido que nam pode ser mais e, se nam fora por eles, já o bom e samto velho estivera descam- samdo com Deus. Escreva-lhe V. A. huma carta de muito amor, mamdamdo por ela emcomemda-lo em hum capitulo aos governadores e veadores da fazemda e capitais de Cou- chim, pera que lhe façam a homra e gasalhado que merese, quamdo vier a requerer alguma cousa. Ysto não escrevo a V. A. por necesydade que o bispo tenha, porque a cari- 27/
dade dos Padres da ordem de Sam Francisco acuderá larga- memte a ssuas necesydades, com zelo de caridade que tem. Mas deve-lhe V. A. de screver, emcomemdamdo-lhe muito, que tenha carego que o emcomemda a Deus, pois mais necesydade tem V. A. de ser favorecido do bispo em oraçõis, do que o bispo tem necesydade do favor temporal de V. A. Tem levado muito trabalho com os cristãos de Sam Thomé, e aguora em sua vilhice hé muito obediemte aos custumes da samta madre Igreja de Roma. Nas cartas que V. A. escre- ver aos Padres da ordem de Sam Framcisco, jumtamemte com elas pode escrever huma carta de muitos favores a este bispo. Noso Senhor dê a symtir a V. A. demtro na sua alma sua samtisyma vomtade e lhe dê graça pera a comprir per- feitamemte, asy como folgaria te-la comprida à ora de sua morte, quamdo estiver damdo comta a Deus de toda sua vida pasada; a qual ora será mais cedo do que V. A. cuida, e por yso estê aparelhado, pois os reinos e senhorios se acabam e tem fim. Cousa nova será, e que numqua por V. A. pasou, ver-se dezaposado à ora da morte dos seus reinos e senhorios, e emtrar em outros domde lhe á de ser cousa nova ser mamdado, e o que Deus nam queira, fora do paraíso. De Couchim a 26 de Janeiro dê 1549. Servo inútil de Vossa Alteza Francisco. 272
53 CARTA DE XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 1 de Fevereiro de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 65-66. Jesus A graça e amor de Christo Noso Senhor seja sempre em nosa ajuda e favor. Amen. São tantas as pessoas que me pedem cartas pera vós, e eu tão desejoso de vos escrever, por me parecer que a con- solação que levo em vos escrever, que a mesma levais em as ler. Os portadores da presente são dous homens casados de Malaca, homeens muito de bem e boons christãaos. Elles vão comprir certas obrigaçõis a que são obrigados; elles vos darão muitas novas de Malaca, do fructo que lá fazem os da nosa Companhia, como testemunha de vista. Também levão cartas do Padre Francisco Perez, em que por ellas me parece, segundo escreve larguo, daa conta meudamente do fruito que lá fazem. Também vos enfor- maram dalgumas cousas da China e de Japão, porque esti- verão muito tempo em Malaca. Espamtom-se muito todos meus devotos e amiguos de fazer huma viagem tão comprida e tão perigosa. Eu pasmo mais delles em ver a pouqua fee que tem, pois Deos Nosso Senhor tem mando e poder sobre as tempestades do mar da China e Japão, que são as maiores que tégora são vistas; e poderoso sobre todos os ventos e baixos, que há muitos, ao que dizem, donde se perdem muitos navios; tem Deos Nosso Senhor poder e mando sobre todos os ladrões do maar, que há tantos que hé cousa de spanto: e são estes 273 Doe. Padroado, iv - 18
piratas muito cruéis em dar muitos generos de tormentos e martírios aos que tomão, primcipalmente aos portugueses. Como Deos Nosso Senhor tenha poder sobre todos estes, de ninguém tenho medo, senão de Deus que me dê algum castiguo por ser negligente em seu serviço, inábil e inútil pera acrecentar o nome de Jesu Christo entre gente que não o conhecem. Todos os outros medos, perigos e trabalhos, que me dizem meus amiguos, tenho em nada; somente me fica o temor de Deus, porque o temor das creaturas até tanto se estende, até quanto lhe daa lugar o Criador delas. Por amor e serviço de Deos Nosso Senhor vos roguo que a estes dous homens que lá vão, os poucos de dias que lá esteverem em Lisboa, os favoreçais e agasalheis, e ajudeis em tudo o que boamente poderdes fazer, e deles vos poderes enformar de muitas cousas da India; e com elles me escre- vereis muito larguo de todos os da Companhia que estão em Italia, França, Frandes, Alemanha, Spanha, Aragão, e do bendito colégio de Coimbra, porque de Malaca todos os anos partem pera a China e de China a Japão. E as cartas yrão emdereçadas aos Padres da Companhia que estão em Malaca; elles por muitas vias mandarom o trelado das car- tas, ficando o original em Malaca; e por tantas vias as mandarom, que por alguma as receberei. Nosso Senhor nos ajunte na sancta gloria do paraíso. Amen. [De Quochim] hoje primeiro de Fevereiro 1549. Vosso todo em Christo charissimo Irmão, Francisco. 2 74
54 CARTA DE XAVIER AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 2 de Fevereiro de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, II, 69-80. Gratia et charitas Christi D. N. sit nobiscum semper. Amen. Nvllis consequi verbis queam, Simon Frater carissime, Antonij Gomes et sociorum aduentus quantum mihi laetitiae attulerit. Scito igitur et ipsos magnos in pietate progressus facere, et vitae exemplo, concionibus habendis, audiendis confessionibus, commentationibus proponendis, priuatis con- gressibus rem christianam mirum in modum iuuare, magna omnium voluntate. Nimirum egrejijs Societatis viris opus est; maxime verò in vrbe Armuzia et oppido Dio, quae loca haud paulo magis quam Goa, concionatoribus egent pijs; ita muitos Lusitanos habent a Christiana disciplina rituque degenerantes. Ittaque vt necessitati seruiam, statui Anto- nium Gomen, virum concionandi aliorumque Societatis mu- nerum facultate praestantem, mittere Armuziam. M. Gaspar in Collegio S. Fidei manebit. Nae tu magnam a Deo inieris gratiam, si cum plurimis e Societate in Indiam traieceris, teceumque septem octoue concionatores, aliosque magni vsus ac moderationis viros adduxeris. Neque enim multis opus est literis ad Ethnico- rum conuersionem, quod horum locorum gens barbara admodum sit et imperita; vt homines etiam non multarum literarum, modo magnarum virtutum ac virium, egregiam hie Deo operam nauare queant. In singulis Indiae oppidis, vbi concionator esset e Societate cum alio sacerdote, qui eum in confessionibus audiendis, reliquisque Societatis officijs 2 75
obeundis adjuuaret, sedes locari posset Sociorum, ad Lusi- tanorum indigenarumque liberos excolendos. Scripsi ad P.N. Ignatium, vt tibi faciat veniendi potes- tatem, itemque ad regem, vt te multis comitatum Socijs, ma- gnaque cum autoritate in Indiam mittat. Quod si continget, mihi crede, longe maiori quàm tu putas, tuus aduentus Christianae rei erit emolumento. Alterum, de quo scripsi ad Regem, illud est, vt consulat Lusitanorum pupillis, quo- rum videlicet parentes, ammissa pro rege vita, liberos orbos inopesque reliquere, stipendium ac victum parentibus debi- tum persoluente nemine. Quare non esset alienum aliquot in India constituere collegia, vbi ejusmodi pupilli non ale- rentur solum, sed etiam erudirentur. Et quoniam Rex indi- genarum quoque saluti prospicere debet, e re Christiana esset mandare, vt christianorum indigenarum liberi certis in locis imbuerentur Catechismo. Itaque ei scribo, vt ex Bazaini vectigalibus (si videatur), circiter quinque nummorum aureo- rum millia assignet ad ejusmodi aliquam domum aperien- dam. Haec omnia Regem, Deo bene iuvante, per tuum aduentum facturum esse confido. Cognoui nuper de regione Iaponia, quae sita est vltra Sinas millia passuum amplius DC. Eius íncolas acri esse ingenio, cupidosque discendi non modo diuinas res, verum etiam naturales, quae discíplinis continentur. Id et Lusitani illinc reursi perhibent, et Iapones quidem satis declarant, qui superiore anno mecum Malaca in Indiam profecti, nuper Goae in Collegio S. Fidei Christianis mysteriis initiati sunt. Id adeo intelligere poteris ex Iaponicarum rerum narratione, quam tibi misimus acceptam a Paulo Iapone, cognomento S. Fidei, viro egregia sane virtute ac fide. Is ad te scribit de se suisque rebus, diuinisque beneficiis in se collatis. Itaque ego mense Aprili proximo in Iaponiam cum Cosmo Tur- riano nostrae Societatis sacerdote contendere statui. Sic enim mihi persuadeo, Christianam religionem iilis locis longe 276
lateque propagatum iri. Adde quòd hie ego iam cesso, quippe cum propter Socios, qui hoc anno venerunt, mea opera Indis minime sit necessária; praesertim verò cum breui aut ipse venturus sis, aut alium tuo loco missurus cum magna caterua Sociorum. Equidem te ipsum venturum esse spero. Simul opinor fore, vt sub aduentum tuum, attenta a me Iaponia, rebusque abs te ex his Uteris in India compositis, (si rei bene in Iaponia gerendae, vt spero, Deo fauente dabitur occasio) in Iaponia nos reuisamus. Procedente deinde tempore multi e Societate in Sinas, atque e Sinis in celeberrimam illam Academiam Cengice- nam (l), quae ultra Sinas et Cathaium sita est, Deo bene iuuante penetrabunt. Nam, vt Paulus tradit, Iapones, Sinae Tartarique vniuersi e Cengico oppido petunt sacra. Man- dantur Iaponum religiones Uteris quibusdam reconditis et vulgo ignotis, quales apud nos sunt Latinae. Quamobrem Paulus, homo idiota et in illiusmodi libris plane rudis, negat se habere, quid, de patrijs religionibus dicat. Vbi eo venero Deo approbante, quae sacris ipsorum monumentis conti- nents, ad te scribam pluribus. Mihi quidem in animo est, simul ac Iaponiam attigero, Regem ipsum et praecipua gymnasia, quae in regijs vrbibus sunt, adire; rebusque omnibus perspectis explorata non solum in Indiam, sed ad Academias Lusitaniae, Italiae, maxime verò Parisiensem scribere, et simul admonere, ne dum toto pectore in doctrinae studia incumbunt vsque eo soluto animo sint ac libero, vt de Ethnicorum inscitia atque interitu nihil omnino laborent. Petrus Consolauus (2), Cocini vicarius, idemque nostrae Societatis amicissimus, mandat tibi per literas suum quod- dam negotium. Oro te atque obsecro, quicquid eius causa facere poteris, ne praetermittas, turn quòd ad Regem per- il) Universidade budista de Tenjiku, já atrás mencionada. (2) Padre Pedro Gonçalves. 2 77
tinet, turn quòd spectat ad beneficium christianis suis popula- ribus expetitum. Ac pro certo habeto, eum verum germa- numque esse amicum Societatis, quippe qui Socios omnes Cocinum diuertentes perbenigne recipiat. Iam Goanis Patribus, ceterisque toto Oriente sparsis, ad vsum Missarum octo decemue, vini dolia istinc cures velim. Nam hie quidem vini, in maxima necessitate, summa est non modo caritas, verum etiam penúria. Itaque Socij Malacenses, Comorinenses, Socotorenses, Molucenses, ad sacrificia vinum nullum habent, praeter id quod subuehitur ex India. Nimirum vt Episcopo Goano et Franciscanis vinum a Lusitania subministratur ex publico, ita Goano Collegio S. Fidei, vnde ad caeteros Socios submittitur, ab Rege attribui oporteret. In Socotoram insulam profecturus hoc anno est P. Cypria- nus cum Sacerdote vno et adiutoribus duobus. In ea insula Saracenus quidem potens per vim, contra jus fasque omne dominatur. Is christianos incolas crudeliter opprimit ac diuexat: ereptosque eorum liberos Mahometicis initiat sacris: ipsos infinitis malis et aerumnis obruit. Peruelim vrgeas Regem, vt pro suo egregio religionis tuendae studio ali- quando prospiciat Christianis. Id adeo sine vllo sumptu nulloque negotio conficere poterit, si classi Indicae Mecanum fretum petiturae imperabit, vt Saracenorum impotemtiam comprimat. Nam incolae armis omnibus demptis, duroque oppressi seruitutis iugo, Saracenum nomen perhorrescunt. Te ego per Iesvm Dominum oro, vt Socotoraeorum libertati consulas, quandoquidem tarn iniusta premuntur servitute. Miserabilis plane species est eius insulae. Annis superioribus ex itinere cum eo diuertissem, plane illorum miseratus sum vicem: adeo crudelitereos maritimi Arabes vexabant. Totum hoc negotium nullo, vt dixi, sumptu, solo Regis nutu confiei potest. Alphonsus Sosa, qui Praetor Indiae fuit, testis est locupletissimus, qui haec omnia perspexit ipse oculis suis. 2 7 <5
Manuelem Vasium Goam remisi, quod aiienum iudica- rem sinere eurn redire in Lusitanim. Postquam Antonium Gomen Goae vidi, satius existimaui P. Gasparem Col legio praeficere, vt Antonius omni solutus cura, in concionibus, confessionibus ciuium exercitationibusque spiritualibus totus esset. Ad quae munia obeunda haud paulo plus habet quam ad regendum facultatis: cum praesertim domesticae adminis- trationis onus egregie sustineat Gaspar. Praecipies, quaeso te, vt quotannis hue aliquot e Societate submittantur atque horum plerique sacerdotes. Scribes etiam Romam, et vbicumque Societas est, vt Conimbricam mittant sacerdotes aliquot magno vsu ac spectata virtute, qui cum neque doctrina neque dicendi facultate instructi sint ad concionan- dum, aut ad collegiorum munera obeunda, istic cessant, hie in Ethnicorum conversione magno vsui futuri. Etsi enim istis locis aliquid opis alferant, his certe longe vberior eorum industriae fructus extabit. Si qui praeterea Conimbricae studiorum confecerint cursum, eos hue ad nos eandem ob causam mittas censeo. Quaeso te, caue committas, vt vllo anno sociorum supplementum desideremus. Nam qui ver- santur in Goano collegio, nondum satis vsus, doctrinae ac virtutis habent ad conuersionem Ethnicorum. Bazaini, Michaelis Vasaei, olim Generalis Indiae Vicarij, rogatu, terna nummorum aureorum millia Rex attribuit domicilio extruendo, vbi indigenarum Christianorum filij doceantur. Hie quidem opinio est, Regem illius domus administrationem penes Societatem nostram esse voluisse. Nam cum Michaele, octo aut nouem e Societate, Franciscani sex venerunt e Lusitania. Verum Michael, Franciscanis Ba- zainum deuectis, pecuniam, quam Rex autore Ioanne Castro Pro-rege ad conuersionem Ethnicorum assignauerat, eisdem dispertiendam ac dispensandam dedit. Ego igitur Bazainum profectus, vt negotia quaedam transigerem Molucensium Christianorum, cum Franciscanis collocutus sum, qui ad 279
paucissimos redacti me atque etiam rogarunt, vt aliquem eo destinarem e Societate, qui et Neophytis necessária ex assignata pecunia impertiret et seminarium illud adminis- traret. Itaque Melchiorem Consaluum (3) ib reliqui cum adiutore. Nuper Michaele Vasaeo et P. Iacobo Borbano (4) mor- tuis, Collegij Goani curatio ad Cosmum Ioannem peruenit, qui reditum procuratione tectorumque aedificatione suscepta, cum distineretur negotijs regijs, post aduentum Antonij Gomis earn curationem Societati penitus cessit, Nunc ex vsu est hanc cessionem regia autoritate comprobari. Velim diploma cures, ac deforas tecum in Indiam. Oppidum est Regis, nomine Cranganorum, xv millia passuum a Cocino. Hie Collegium est egregium a Vincentio Episcopi socio exaedificatum, vbi Christianorum indigena- rum, qui Thomaei appellantur, liberi instituuntur facile centum. Sexaginta quippe vici Thomaeorum Christianorum circa id oppidum sunt, ex quibus Colegij, quod dixi, alumni petuntur. Opus si quaeris, omnino praeclarum est ad aspectum, siue situm spectes, siue aedium descriptionem. Mirificam sane operam his locis Fr. Vincentius nauauit: is amicissimus mihi est, Societatique vniversae. Confirmat se id agere, vt moriens Collegij administrationem Societati relinquat. Mirum in modum expetit sacerdotem e Societate Grammaticae peritum, qui alumnos literis erudiat, et diebus festis ad populum verba faciat. Mos gerendus est homini: quaeso te, mitte ejusmodi sacerdotem, qui illi omnibus in rebus obtemperet. Cranganori duae sunt aedes sacrae, vna S. Thomae a Thomaeis Christianis pie admodum celebrata, altera S. Iacobi Collegio adiuncta. Duobus hisce templis F. Vincentius In- (3) Padre Belchior Gonçalves. (4) Padre Diogo de Borba. Como se sabe, o Padre Miguel Vaz morreu em 1547, a 11 de Janeiro, e o Padre Diogo de Borba a 26 do mesmo mês. 2 8 O
dulgentias Pontifícias impertiri peroptat, solatia horum Christianorum, et incitamenta pietatis. Quocirca maiorem in modum abs te peto, vt siue per eos, qui Romae sunt, siue per Pontificium Nuntium, qui est in Lusitania, anniuer- sariam omnium peccatorum Indulgentiam cures, ex vigilia S. Iacobi, itemque S. Thomae in octonos dies insequentes.^ quam ego indulgentiam his dumtaxat propositam volo, qui Confessionis et Eucharistiae Sacramentis rite procuratis, eas aedes Cranganori pie casteque adierint. Haec duo, de sacer- dote et de Indulgentijs, quae Vincentij nomine abs te postu- laui, si curaueris, et simul ad eum officiosam epistolam mise- ris; nae tu hominem et tibi et Societati in perpetuum deuinxeris. Eiusdem modi literas, vt ad Episcopum quoque ipsum des, nostrae Societatis cupidissimum, te etiam atque etiam rogo. . Oraui Regem per literas, vt clericum quendam (cui Ste- phano Ludovico Buralho nomen est) sibi a sacello (5) constituat. Id adeo non tarn ipsius causa feci, quàm quòd sorores habet et orbas et inopes: quarum frater si quasi ex cohorte Regia vir honoratus habeatur, facile sorores collocet in matrimonio. His enim locis in connubijs, honestorum hominum et apud Regem gratiosorum affinitas mire expe- titur. Id si perfeceris, tres orbas puellas in tuto locaueris. Huius clerici mater Gonsaluo Ferdinando Cocinati nupsit. Optat igitur clericus ad uitrici beneuolentiam sibi ac sororibus conciliandam ei gratificari. Itaque deprecatur, vt Rex ilium suum uictricum in suorum numerum, sine vlla mercede, administrum adscribat honorarium. Sic enim in animum induxit suum, si uictricus quasi e cohorte regia erit, eum paterno amore in ipsum ac sorores futurum. Cum Franciscani omnes nostri amici sunt, turn \erò eorum custos Antonius Casalius. Is custodia abiturus post (5) Isto é: moço de câmara. 2 8 I
biennium, optat mirum in modum in Lusitaniam redire, quaeso te, vt literas illi ab Rege et facultatem impetres, absoluto custodiae tempore, decedendi. Nam quintum iam annum hisce in locis Deo ac Regi operam nauat. P. Nicolaus Lancellotus Colanum a me valetudinis causa missus conualescit in dies, vir plane factus ad Colanensium voluntatem. Iam agitur de Collegio inibi instituendo, vbi pupilli in primis Lusitanorum, deinde Christianorum Como- rinensium et Thomaeorum erudiantur. Nam oppidani, qui et pauci sunt, et a re familiari male constituti, seminarium ne inchoare quidem suis facultatibus possunt. Scripsi super ea re ad Regem, ostendens id negotium quanto tandem vsui sit Christianae religioni futurum. Transiges cum Rege, vt Indiae Praetori itemque Procuratori suo mandet, vt id domi- cilium ex publico aedificet satis laxum, ad complures orbos turn Lusitanorum turn indigenarum liberos alendos. Colani enim summa copia est ac vilitas rerum omnium: et parua impensa maxima alumnorum sustineri potest multitudo. Si ipse hue venies, Simon Frater carissime, nimirum tuus aduentus magno et rei Christianae emolumento, et tibi gáu- dio erit; sed ita, si regia instructus autoritate venias, ad Dei cultum et Christianos indígenas subleuandos. Iterum te moneo, vt Regis Reginaeque fultus hue venias, quo Prae- fectos et Procuratores regios contineas in officio. Turn demum enim omnium opinione melius de India et Christi cultu mereberis. Laetos e Malaca nuntios accepti de re Christiana a Fran- cisco Pere et Rocho Oliueria praeclare gesta. Ex eorum literis omnia cognosces. Optimi autem ex Moluco nuntij perferuntur. Quippe in maximis aerumnis perpetuisque vitae discriminibus Ioannes Beira eiusque socij versantur, magno cum Christianae religionis incremento. Rumor de Beirae caede dissipatus mihi quidem inanis videtur. Ipse ad me paulo ante de suis rebus, aerumnis ac periculis diligen- 28 2
tissime scripsit. Eius socij post discessum nauium ex Maluco tres menses hyemarunt in Amboino. Interim Ioannes Beira eò ex Maurica (6) venit ad Praefectum, rogatum, vt Lusita- norum manum Mauricis Christianis auxilio mitteret. Reuer- tenti in Maurican ex Moluco nescio quid illi grauius acci- disse dicitur, quod ego neque vllius Uteris, neque idoneis autoribus comperi. Illud pro certo affirmare audeo, tanquam aurum in fornace probari eos, qui Deum ac proximos dili- gunt. Equidem haud scio, an nusquam in toto orbe Chris- tiano ij, qui Deo student et saluti animorum, tot laboribus tantisque mortis periculis exerceantur, quot quantisque in Maurica regione. Velim Deum depreceris pro ijs, qui illuc ierunt, et deinceps ituri sunt; propediem enim eò duos tresue socios eodem mittere statui. Nimirum opinor Mauricas insulas plurimos nostrae Societati martyres parituras, vt brevi non Mauri, sed Martyrij insulae sint appellandae. Itaque Socij, qui vitam profundere expetunt pro Christo, bono animo sint, praecipiantque gaudium licet; siquidem paratum habent seminarium martyriorum, vbi cupiditatem expleant suam. Nauigatio in Iaponiam ac Sinas (vt omnes mihi praenun- tiant) est aerumnarum ac periculorum plenissima. Ego nihil dum vsu compertum habeo: cum illuc transmisero, quod post duos et dimidiatum mensem futurum arbitror, inde te certiorem faciam de omnibus rebus. Ita vbi tu, Deo appro- bate, in Indiam veneris, anno opinor proximo, a me literas Japonicas accipes. Nunnius Ribero Amboini est, in oppido sane tuto et Christianis frequenti; ex eius Uteris intellexi sane vberem fructum eius laboris extare. Socij, qui in Comorino Promontorio versantur, magno sunt rei Christianae adiumento. Id adeo ex litteris, quas ad (6) Ilha de Moro. 2 S3
te mitto, intelligere poteris, vbi illi de omnibus rebus suis tibi perscribunt. Visum est Deo dulcissimum fratrem nos- trum Adamum Franciscum ex hac vita euocare, vt ei pluri- morum maximorumque laborum persolueret praemia. Mors anteactae vitae respondit, quae quidem, quantum ab alijs accepi, et ipse perspexi, sanctitate floruit. Vir fuit plane pius magnoque animi ardore in Ethnicis ad Christum aggre- gandis. Equidem magis illi me commendo, quàm ipsum commendo Deo; persuasum enim habeo eum iam beautitu- dine, ad quam natus erat, perfrui. Nunc ego Goam contendo, vt me ad Iaponicum iter in Aprilem proximum mature comparem. E Goa in Cambaiam ad Praetorem Indiae, qui nunc Bazaini est, proficiscar, vt is et Molucensium Christianorum rationibus consulat, et prospiciat Socijs, quos illuc sum propediem missurus. In his vnus erit concionatur, qui in régio oppido commoretur, praesitque Collegio inchoando, vbi Mauricorum Christia- norum Lusitanorumque pupilli instituantur. Inchoabitur etiam aliud domicilium, vbi praeter orbos Lusitanorum filios, Iapones, quos Deo fauente missurus sum, Christianis imbuentur mysteriis. Et quoniam nostri homines in India nom Episcopo solum et clericis, verum etiam caenobitis Christianisque omnibus pariter et Ethnicis cari acceptique sunt, magnam in spem ingredior fore, vt his locis longe lateque Societas propa- getur. Quare, Simon frater carissime, da operam vt quam- primum hue trajicias cum magnis sociorum copiis, partim concionatorum, partim etiam aliorum. Vnum caue, ne ado- lescentulos plerosque deducas, hic enim maiores triginta annis vsque ad quadraginta desideramus, eosdemque cum caeteris virtutibus, turn vero humilitate, mansuetudine, patientia, et scilicet castimonia ornatos. Meum hoc vitium est, vt ad te scribens nullum inueniam finem. Vel hinc intelligere potes, quantum ex ea re capiam voluptatis, prae- 2 84
sertim vero cum ad cribendum me contuli tuis Uteris prouo- catus. Itaque scribendi finem facio, etsi finem reperire nequeo: confido autem fore, vt aliquando nos aut in Sinis, aut in Iaponia, au certe in coelo reuisamus, vbi spero, singu- lari Dei beneficio ac munere, in coelestis regni societatem pariter vocati, Deo perennni bonnorum omnium fonte per- fruemur in omnem aeternitatem. Amen. Nonas Februarius. Cocino. [Franciscus] 2 85
55 INSTRUÇÕES DE XAVIER SOBRE A CRISTANDADE DE ORMUZ Princípios de Abril de 1549 Epistolae S. Francisci Xaverii, 11, 86-101. Lembrança do que aveis de fazer em Ormuz e a ordem que guardareis o tempo que laa estiverdes (l). Primeiramente lembrai-vos de vós mesmo, tendo conta com Deus principalmente, e depois com vossa consciência. Com estas duas cousas podereis muito aproveitar os pró- ximos. En as cousas baixas e humildes tereis grande promtidão às fazer pera aquirirdes humildade e pera crecerdes nella; de maneira que tereis cuidado de emsinar vós mesmo as oraçoens aos filhos dos purtugueses e escravos e escravas, e christãos da terra; e não comfieis doutro este cargo, por- quanto edificão-se muito as pessoas que vo-lo vem fazer, e mais a gente acode a ouvir e aprender a Doutrina Christãa. Os proves do esprital visita-los-eis e de quando em quando os exortareis; e pregareis o que cumpre a suas consciências, movendo-os a que se comfessem e com- mu[n]guem, pois por peccados estão da maneira que estão, os quaes confessareis quando poderdes; e depois nas cousas necessárias os favorecereis falando aos que tem poder e mando pera os favorecer em as couzas temporaes. (1) Esta interessantíssima instrução foi dada ao P.e Gaspar Barzeo que partia para Ormuz, onde se devia celebrizar pelo seu zelo. 2 86
Os prezos visitareis e lhes pregareis, exortando-os que se confessem geralmente de toda sua vida passada, porque entre essas pessoas ha muitas, ou mais delias, que nunca se confessarão. A estes tais emcommendareis à Misericórdia que tenha espicial cuidado em os favorecer com sua justiça e dando-lhes o necessário aos pobres que padecem. Servireis emquanto poderdes a Misericórdia e sereis muito amigo dos Irmãos delia, ajudamdo-os em tudo. Os que confessardes nessa cidade e virdes que são obrigados a restituições, e não se podem dar aos donos, ou por serem mortos ou não se saber delles, ou que não se pode restituir a seus donos verdadeiros, mandareis tudo entregar à Mise- ricórdia, ainda que se offerecerão proves em quem parece que a esmola será bem empregada, poios muitos emganos que há em os proves, por serem elles pessoas metidas em vicios e pecados. Estes taes são muito conhecidos dos Irmãos da Misericórdia. A esmola que a estes aveis de dar, dai-a à Misericórdia e ella a despenderá aos proves mais necessitados e conhecidos; e isto por muitas causas, por quanto se vos achegarão muitas pessoas, mais requerendo cousas temporaes que espirituaes, se sentirem em vós que com esmolas os podereis favorecer. Tenhão nisto os que vos conhecerem que não os podeis ajudar senão no espiri- tual; e também pera evitar sospeitas e escândalos dos homens que recebeis esmolas e dinheiro e que delle vos podíeis aproveitar, porquanto quando os homens estão ten- tados interpretão as cousas às vezes à má parte; e pera evitar [este in] conveniente hé bom remeter todas as esmo- las à Misericórdia. [E se parecer o contrario fareis segundo sentirdes ser mais serviço de Deos e do proximo.] Avisar-vos-eis que com todas as pessoas que converssar- des espiritualmente, assi muito amigos como pouco, ou com outros, assi vos avereis com elles em todas vossas praticas e converçaçoens e amizades, como se elles em algum tempo 287
ouvessem de ser vossos inimigos; porque isto vos apro- veitará pera os edificardes muito em todas vossas cousas, e a elles pera se confundirem quando deixarem de ser vossos amigos. Usai desta prudência com este mao mundo e vivireis sempre sobre vós e assi gozareis mais de Deus e vivireis em maior conhecimento vosso; porque, do descuido que de nós temos, nascem muitas ocasioens por donde os que forão nossos amigos o deixão de ser, e os que são nossos imigos e os que não nos conhecem se escandalizão. Os exames particulares duas vezes ao dia, ou ao menos huma vez, olhai que os não deixeis de fazer; e sobretudo vivei tendo mais conta com vossa consciência que com as alheas, porque quem pera si não hé bom, como o será aos alheos? Vossas pregações serão tão continuas quanto poderem ser, porque isto hé hum bem universal, donde se faz muito fruto, e serviço a Deus e proveito às almas. E nas pregações avisai-vos que nunca pregueis cousas duvidosas ou difficul- dades de doutores, senão cousas muito claras e doutrina moral, reprehend [end] o os vicios desta maneira: scilicet, doendo-vos da offença que a Deus se faz, da condenação dos peccadores perpetua, das penas do inferno, da morte muito arrebatada, a qual toma os homens muito desapre- cevidos; tocando algum ponto ou pontos da paixão à ma- neira de coloquios de hum pecador com Deus, ou da ira de Deus contra hum peccador; movendo os affeitos quanto poderdes à contrição, dor e lagrimas dos ouvintes; inci- tando-os a confissões, a receber o Santo Sacramento: e desta maneira fareis fruito em vossas pregaçoens. Avisai-vos que particularmente em pregações nunca reprehendais pessoas ou pessoa que tem mando na terra. Sejão as reprehenções particulares em suas casas ou em confissões, porque estes homens são muito perigosos, em 288
lugar de se emmendar se fazem peiores quando os reprehen- dem publicamente. E sejão estas reprehenções quando com elles tiverdes amizade: e se for muita a amizade, reprehen- de-los-eis muito, e se pouca for, pouco os reprehendereis. De maneira que as reprehenções serão com o rosto alegre e palavras manças e d'amor, e não de rigor; de quando em quando abraçando-os, humilhando-vos, diante delles, e isto porque recebão milhor a reprehenção, porque, se com rigor os reprehenderdes, temo-me que percão a paciência e [os] cobreis por imigos. Isto entendo principalmente em pessoas poderosas, ou que tem mando ou riquezas. Quando confessardes, principalmente nessas partes, pri- meiro que confesseis incitai o penitente a que cuide em sua vida passada por alguns dous ou tres dias, trazendo à memoria seus pecados, escrevendo-os pera mais cuidar nelles, e depois o ouvireis de confissão; e não [o] absolvais logo, mas antes differi a absolvição por alguns dous ou tres dias, dando a estas taes pessoas algumas meditações dos Exercícios da primeira somana, pera que meditem e chorem suas culpas com alguma penitencia e diciplina para chora- rem, fazendo com estes que restituão o que devem, ou fassão amizades, ou se apartem de pecados de carnalidade, ou de outros em que estão arreigados. Fazei que fação isto antes que os absolvais, porque elles prometem muito nas confissoens e cumprem pouco. Será bem que fação pri- meiro que os absolvaes o que prometem que farão depois que os tiverdes absoltos. Notai isto: quando confessardes nessas partes, que não entreis com algum rigor aos penitentes nem medos até que acabem de dizer seus pecados, mas antes lhe falareis na muita misericórdia de Deus, fazendo leve o que em si hé muito grave; e isto até que acabem de comfessar e disserem suas culpas. 2 §9 Doe. Padroado, iv-19
Atentai bem quando confessardes, porque achareis pes- soas que, com vergonha de alguns pecados feos e torpes, estão que os não ousão descobrir; e estes tais animai-os com grande maneira pera que digão suas culpas, dizendo-lhes que sabeis outras maiores das que elles tem, fazendo tudo leve; e ainda vos digo, que algumas vezes com estas taes pessoas ajuda a confessarem suas culpas, que por vergonha o demó- nio lhes empede que o não digão ou com medo, dizerdes vós em geral vossa triste vida passada. Isto vos emsinará a experiência. Achareis algumas pessoas, e oxalá não fossem muitas, que duvidão em os sacramentos, principalmente da comu- nhão; e a causa disto hé polo muito que se não commun- garão, e pola contractação que tem com infiéis, e por outras cousas que deixo de dizer, vendo em nós quão diffe- rentes somos em nossas vidas pera por nós pecadores con- ceberem elles qualquer erro acerca da consagração. Com estes procurareis que vos descubrão todas as imaginaçoens e imfidilidades e duvidas que tem, porque o maior remedio aos princípios hé descobrir as taes duvidas, e depois inci- tai-os pera crerem firmemente sem duvidar que está o corpo verdadeiro de Christo Nosso Redentor e Senhor em aquele sacramento; e com isto se ajudarão a sair-se de tal error commungando-se muitas vezes. Quando confessardes, tereis muito tento em perguntar aos homens o modo que tem em guanhar sua vida em seus tratos; e se nelles entenderdes alguma onzena, não con- fieis em palavras de muitos que dizem: «não me acusa a consciência de cousa de restituição», porque há muitos que não lhe remorde a consciência, porque não tem consciência, ou se a tem, hé muito pouca. Quando confessardes officiaes d'El-Rei, principalmente capitães, feitor, ou quaesquer outros que tiverem carregos d'El-Rei, ou feitores que feitorizarão fazendas alheas, per- 2 tf O
juntai com muita diligencia que vos digão como ganhavão sua vida em os taes carregos, e que particularmentee vos dem conta; porque pola conta que vos derem, e de como se aproveitão do dinheiro ou fazendas alheas, não leixando comprar a outros antes que os capitães comprem ou vendão, os feitores, ajudando-se do dinheiro d'El-Rei, pera que elle lhes pague. De maneira que lhes perguntareis particular- mente do modo e maneira que tem em tratar pera ganhar sua vida, porque desta maneira sabereis delles se são obri- gados a restituição ou não, muito milhor que se lhes per- guntaes: Tendes o alheo? Porque a esta pergunta facil- mente vos dirão que não, porque está em costume ganha- rem os homens por maos meios sua vida; e o que maior mal hé, estar tanto em costume o mal fazer e por maos modos viver, que jaa não se estranha. Por aqui vereis quando são obrigados a restituição ou não. Sereis muito obediente em grande maneira ao Padre vigairo, e quando chegardes lhe beijareis a mão, posto de giolhos no chão, e com sua licença pregareis e confessareis, e imsinareis as demais obras espirituaes, e por nenhuma cousa quebrareis com elle; e trabalhai muito de ser seu amigo, afim de lhe dardes os Exercícios ao menos os da primeira somana, quando mais não poderdes. Com todos os outros Padres sereis muito amigo, e por nenhuma cousa quebrareis com nenhum delles, mas antes lhe fareis muita honrra, fazendo-vos amar delles afim de lhes dar os Exer- cícios; e, quando não todos [os que quiserem fazer os Exercícios por alguns dias, encerrados em suas casas] serão os da primeira somana. Ao capitão obedecereis muito em grande maneira, humi- lhando-vos muito diante delle; por nenhuma cousa quebra- reis com elle, ainda que vejais que faz cousas mui mal feitas. E quando sentirdes que elle hé vosso amigo, com muito amor doendo-vos de sua alma e honrra, com muita humil- 2 9 r
dade e com rosto alegre lhe direis o que de fora se diz delle; e isto quando virdes que pode aproveitar, e quando virdes que hai geito nelle. Muitos vos virão com queixumes delle, pera que lhe vades a falar; escuzai-vos quanto poderdes, que estaes ocupado em cousas espirituaes, e também que não sabeis quanto aproveitará, dizendo-lhes [que] quem não tem conta com Deus e com suas consciências menos a terá convosco. Na converção dalguns infiéis quando tiverdes tempo vos ocupareis. Sobretudo o bem universal nunca o leixeis polo particular, como pregar por ouvir huma confissão, deixar d'emsinar as oraçoens cada dia em seu tempo por outra cousa particular. Huma hora antes de emsinar as oraçoens ireis vós ou vosso companheiro polias ruas chamando que venhão à Doutrina Christãa. Escrevereis ao collegio muito meudamente o serviço todo, quanto a Deus Nosso Senhor laa fazeis, e o fruito que Deus por vós faz, porque as cartas que escreverdes ao colégio ser- virão pera irem ao reino; e nellas escrevereis cousas de edificação e de moverem os que as virem a servir a Deus. Ao Senhor Bispo escrevereis também e a Cosmo Annes o fruito que laa fazeis. Ao principio logo trabalhai de saber de homens de muita verdade os tratos dos homens dessa cidade, e entendei-os muito bem pera reprehenderdes, assi em publico como em confissoens, os maos tratos de onzenas que tem. Todas as noites encomendareis as almas [do] purga- tório com algumas palavras breves que movão os ouvintes à piedade e devação, e também as almas que estão em pecado mortal, que Deus Nosso Senhor lhes dê graça pera virem a bom estado, cada hum destes com hum Pater noster e Ave Maria.
Converçareis com todos com hum rosto alegre, não pejado nem carrancudo, porque, se vos virem carregado e triste, muitos por medo se deixarão d'aproveitar convosco; portanto sede afabel e benigno, e as reprehençoens em par- ticular sejão com amor e graça, sem que sintão em vós que vos aborrecem os que convosco falão e praticão. Se virdes que alguma pessoa for apta pera nossa Com- panhia e fizer os Exercícios, ou Padre ou leigo, podereis mandar com huma carta ao colégio, ou, si virdes que vos ajuda, te-lo retido convosco pera que vos ajude. òs domingos e festas, depois de jantar, da huma às duas ou das duas às tres, como milhor parecer, pregareis ou na Misericórdia ou na igreja os artigos da fee aos escravos e escravas, e christãos forros, e òs filhos dos portugueses, mandando primeiro por toda a cidade, ou indo vós e vosso companheiro tangendo huma campainha pera que venhão todos a ouvir os artigos da fee. Levareis de casa a Doutrina Christã e a Declaração sobre os artigos da fee, e a Ordem e regimento que hum homem há de ter todolos dias pera se emcomendar a Deus e salvar sua alma. Esta Ordem e regimento dareis aos que con- fessardes em penitencia de seus pecados por certo tempo, e depois lhes ficará em costume; porque hé muito bem regimento e achao-se muito bem com elle [os penitentes.] E assi o praticareis a muitas pessoas, ainda que convosco não se confessem, e po-los-eis numa taboa na igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, por que dahi o tomem os que se quiserem aproveitar. Se alguns tomardes pera a Companhia, que virdes que são pera vir a Deus nella, as provações e mortificações, depois de acabados os Exercícios, sejão servir o esprital e visitar os que estão na cadea e servi-los ou em alguma cousa da casa da Misericórdia, de maneira que não se fação novi- dades de que seja escárnio e zombaria; e quando muito for 2 93
será pediir por Deus ou pera os proves do esprital ou prezos da cadea, de maneira que as mortificações serão edificações aos que as virem: e olhai que assi o façais. Quando estas mortificações ouverdes de dar olhai bem primeiro o sogeito daquele que as há de fazer, e segundo a virtude que virdes nelle, assi sejão as mortificaçõens; de maneira que a vir- tude e perfeição que nelle sentis exceda a tal mortificação, e não deis mortificações, nem piquenas nem grandes, que sejão maiores que a virtude e perfeição daquele que as há de fazer, porque, fazendo o contrario, em lugar de os apro- veitar, os lançareis a longe e se tentão, e perdem depois o animo pera qualquer outra mortificação. Trabalhai pera ajudar os exercitantes em espirito, que vos descubrão suas tentações, porque este hé hum grande remedio pera os imperfeitos virem à perfeição; e se vos sintem regurosos em dar as mortificações, não vos des- cubrirão as tentações, e irão crescendo nelas ata tanto, que os desinquietem de todo: e antão o imigo facilmente acaba com elles que se desmanchem e vos leixem. Aos que virdes tentados, ou de vangloria, ou de sensua- lidade, ou de qualquer cousa, dai-lhe espaço pera que cuide rezões contra a tal tentação, abrindo-lhe vós o caminho pera que depois elle vá buscando rezões, quantas poder pera ir contra a tal tentação; edeepois disto fazei que aquelas rezões em maneira de exhortações ou praticas, diga a algu- mas pessoas, como a prezos e doentes do esprital, ou outros que estão sãos, porque, em as communicar, se aproveitará muito e vencerá as taes tentações, communicando remedios que ele sente de si mesmo, e se animará a fazer o que elle sente em si e aconselha a outros. Esta regra também aproveitará pera os seculares que se confessão e tem empedimentos por onde os não podeis absolver; que cuiden elles que [se a] outros ouvessem de aconcelhar remedio pera o tal mal espiritual, que modos e 294
maneiras terião pera persuadir a fazer o contrario, e que aquelas tomem pera si. Porem esta hé huma doutrina e arte communicada às almas por virtude de aquele que as criou pera louvarem o Criador e salvarem-se nesta vida presente. Quando confessardes algumas pessoas que estão muito embaraçadas em restituições, ou sensualidades carnaes ou odios, e que não querem vir ao que he rezão que venhão, tomando meos pera sairem de pecados, por estarem já tão acostumados a elles, o remedio pera estes, se a rezão tivesse valia ou força, seria o amor e reverencia que devião de ter a Deus pera sair de taes pecados, ou quando disto carecem, o temor da morte, do inferno, mas os mais carecem deste temor, assi como carecem do amor. Com estes taes aver- -vos-eis desta maneira, representando-lhes os castigos de Deus nesta vida presente, como emcurtamdo-lhes os dias de vida, doenças grandes, deshonrras desta vida presente, perdidas de fazendas, presecuções de capitães, perigos do mar, e outras cousas desta vida presente que Deus permite, todas por seus pecados. Por temor [destes castigos há muitos que fazem peni- tencia, e por temor disto mais] que por temor de Deus e das penas do inferno: a estas misérias vem os pecadores polo muito esquecimento que de Deus e de suas consciên- cias tem e pouca fee, julgando o que vem e duvidando o que na noutra vida hão de ver. Quando ouverdes de negociar cousas espirituaes com alguma pessoa particular e praticar nas cousas de Deus e salvação da alma, tende esta prudência em o falar, que vejais se a tal pessoa está tentada, ou destraida, ou com propósitos contrários à salvação de sua alma, ou se a vir- des que está fora das taes tentações e em desposissão pera receber reprehenção ou doutrina. Se a virdes que está agas- tada, turbada, tentada, irada, falai-lhe docemente e não 295
asperamente, e de longe trazei-o a que seja capaz do que lhe cumpre pera salvação de sua alma; e se virdes que está fora de paixões, em desposissão de receber reprehen- ções, começareis ao principio por poucas, e se aquelas recebe bem, por outras maiores; e assi lhe falareis deveras quando virdes que há desposisão pera que a verdade e rezão se emprima nelle. Donde, como disse, trazei-o de longe ao que lhe cumpre pera sua consciência; quero dizer que, se está agastado, que naquele agastamento que tem desfareis nas cousas que tem e vos dá porque está agastado, atri- buindo aquilo à ignorância do que fez e não à malícia como a elle julga quando está irado; ou que aquilo hé por seus pecados, e que em algum tempo fez aquilo a seu pai ou mãi ou a outro, com que tinha muita rezão, e em castigo do que elle fez permite Deus que outrem lho pague na mesma moeda; e assi outras palavras brandas desta quali- dade pera o tirar daquela ira. E o que digo deste agasta- mento, digo de qualquer outra paixão, desfazendo sempre que não tem rezão nem causa pera tanto a peito tomar as cousas; e assi desta maneira falareis aos agastados e apaixo- nados e tentados: e isto com hum rosto alegre até o [s] trazerdes fora da paixão, em que estão, e depois doutra maneira converçareis com elles, com alguma dureza de reprehenções, segundo virdes que vão obedecendo à rezão. Donde estiverdes procurai muito de saberdes todos os tratos, modos e maneiras que os homens tem de viver e de se negociarem, assi na terra como mandando fora; e isto entenderde-lo muito bem por pessoas que sabem aque- les tratos, e estas pessoas vos hão de emsinar como aveis de fazer fruito na terra onde estaes, pois vos dão verda- deira emformação dos males que nela passão. E assim daqui até Ormuz vos podeis emformar muito meudamente dos tratos e onzenas que laa passão, e no caminho cuidar o modo como os aveis de perssuadir para que elles conheção 2 96
os erros em que vivem, e as restituições que hão de fazer, o modo que aveis de ter pera pregar, e o modo que tereis na confissão com elles, dos remedios que lhes aveis de dar: e lembre-vos que os não achareis milhores que faze-los confessar geralmente de seus pecados, fazendo algumas meditações da primeira somana pera que achem contrição, dor, lagrimas e pezar de ver sua perdição. Também vos emforma[i] das muitas demandas, bulrras que por via de justiça se fazem, e por falsas testemunhas, peitas, amizades, ou outras cousas, donde se sonega e emco- bre a verdade; de maneira que, em summa dizendo-vos, em nenhuma cousa aproveitareis tanto nas almas aos homens dessa cidade, como sabendo-lhes suas vidas muito meuda- mente, e este hé o principal estudo que ajuda aproveitar às almas. Isto hé ler por livros que emsinão cousas que em livros mortos escritos não achareis, nem vos ajudará tanto pera frutificar nas almas, quanto vos ajudão sabem bem estas cousas per homens vivos que andão no mesmo trato, pois sempre me achei bem com esta regra. Os domingos ou festas ou dias de somana tomareis pera vos ocupar em fazer amizades, atalhar demandas, con- certando-os, pois gastão em demandas mais do que vai o sobre que se faz a demanda, ainda que os procuradores e escrivães lhes peze com isto. Procurai de dar Exercícios a estes procuradores e escrivães, porque estes são os que ale- vantão todas as demandas. Estareis em Ormuz até que de mim tenhais reposta do que aveis de fazer. Escrever-m'eis pola via de Ormuz a Malaca a Francisco Perez muito meudamente todo o fruito que lá fazeis, porque Francisco Perez me mandará de Ma- laqua a Japão vossas cartas, se Deus tiver por bem e seu serviço ir eu a Japão. E se de mim não tiverdes reposta por espaço de tres annos, este tempo de tres annos estareis aí, porque assi hé minha vontade, ainda que da índia vos 2 97
escrevão; e se passados estes tres annos não tiverdes reposta minha, então ficareis em Ormuz até que por o reitor do colégio de Santa Fee vos seja mandado o contrario. E assi escrevereis ao que nesta casa estiver por reitor muito meuda- mente o fruito que lá fazeis, e também como vos disse que agardasseis por recado meu tres annos, ainda que o con- trario vos mandasse o reitor desta casa: e passados os tres annos, escrevendo-lhe vós o fruito que lá fazeis e a mingoa que fazeis se lá não estais, emtão o que vos mandar fareis; e por todas as naos que forem de Ormuz a Malaqua me escrevereis, e as cartas irão dirigidas a Francisco Perez. Na nao fareis emsinar as orações e tereis muito cuidado de vosso matalote pera o fazer confessar, e olhai muito por elle que se não distraia na nao, e vós pregareis aos domingos e outros dias que vos bem parecer, e nisto me remeto a vós, segundo a disposisão que virdes. O menos que poderdes em vossas pregações falareis por autoridades. Falai das cousas interiores que polios peca- dores passão vivendo mal, e do fim que ão de fazer e dos emganos dos imigos, e cousas que o povo entende, e não cousas que não emtendão. E se quereis fazer muito fruito, assi a vós como aos proximos, e viver consolado, converssai aos pecadores, fazendo que se descubrão a vós. Estes são os vivos livros por que aveis de estudar, assi pera pregar como pera vossa consolação. Não digo que alguma vez não leaes por livros escritos, mas seja buscando autori- dades pera autorizar pola Escritura os remedios contra os vicios e peccados que ledes por livros vivos, autorizando o que dizeis contra os vicios com autoridades da Sagrada Escritura e exemplos de santos. Pois que El-Rei vos manda dar todo o necessário, toma- reis delle antes que doutrem alguém, porque grande cousa hé não tomar de nenhuma pessoa o necessário; por [que} quem toma, tomado está: quero dizer que, quem toma de 2 9 8
outro, as palavras não tem tanta efíicacia acerca daquele, como tiverão se lhe não fora em obrigação; e assi nos pejamos depois quando os avemos de reprehender, e não temos lingoa pera falar contra elle. Achareis muitas pessoas que vivem em pecados, os quaes procurarão muito de ter vossa amizade afim que não digaes mal delles, e não por se aproveitarem e quererem sair de pecados por vosso meo. Isto vos digo pera que esteis avi- sado, e quando vos convidarem ou mandarem alguma cousa, seja com tal condição que lhe aveis de exortar o que cum- pre à salvação de sua alma; e se vos convidar a comer, ide laa e em pago convidai-o a confessar-se-vos, e se não se quiser ajudar nas cousas espirituaes, dai-o a entender. Quando digo [que] não tomeis nada, não entendo que não tomeis cousas poucas, como agoa, fruita, e cousas desta qualidade que, se as não recebeis, se escandalizão. Cousas grossas não tomeis, e se vos mandarem muitas cousas de comer, manda-las-eis ou ao esprital ou aos prezos, ou a outras pessoas necessitadas. Saiba o mundo que estas cousas pequenas que tomais as dais, porque desta maneira se edifi- carão mais que não nas tomando, porque tomão por affronta quando são cousas pequenas não tomar o que vos dão: porque os portugueses da índia escandalizão-se não lhes tomando nada. Quanto a vós pousardes, vede onde será mais conve- niente, ou no esprital, ou na Misericórdia, ou [em huma] casinha perto da igreja. Sendo caso que vos chame de Japão, em tal caso escre- vereis ao reitor desta casa que proveja de alguma pessoa suficiente pera consolar os moradores daquela cidade e fazer o que vós fazieis; e isto por duas ou tres vias pelos navios que de laa vierem. Em fim de tudo, vos emcomendo sobretudo vós mesmo a vós mesmo, que vos lembre que soes membro da Com- 299
panhia de Jesus. Pera fazer o que de outras cousas que laa se offerecerem muito de serviço de Deus, quando da terra tiver [des] esperiencia, ellas vos emsinará, pois hé mãi de todas as cousas. Em vossas santas oraçoens me emcommen- dai sempre e nas de vossos devotos. Em fim de tudo e por derradeiro vos emcommemdo que todas as somanas leaes esta lembrança pera que vos não esqueça o que tanto vos emcommendo. [Francisco] 300
56 INSTRUÇÕES DE XAVIER AO PADRE PAULO DO VALE Abril de 1549 (1) Epistolae S. Francisci Xaverii, 11, 104-108. Lembrança do que aveis de fazer em minha ausentia Primeiramente, sobre todas as cousas vos encomendo por amor de Deus Nosso Senhor, e polo amor que tendes ao Padre Ignatio e a todos os da Companhia de Yesus, que vós com muita humildade e prudentia e siso vivaes em amor e charidade com Antonio Gomez com todos os Padres que vi [e] rem de Portugal, e com todos os que estam na Yndia espalhados por todas as partes. De todos os da Companhia de Yesus tanta confiança tenho polo que delles tenho conhecido, que nam tem necessidade de superior; mas para mais merecer, e para viver com hordem, hé bem que aya alguém por superior, a quem tenham obedientia; e assi, confiando eu muito em vossa humildade, prudentia e saber, tenho por bem que fiqueis por maior de todos elles, a quem todos os de fora teram obedientia até que contrario disto vos seyi manifestado. Antonio Gomez tera cargo de todos os colegiaes da terra e dos portugueses, e de arrecadar as rendas de [c] asa, e de as despender e fazer os gastos de casa: e nisto nam tereis que entender com elle: assi em despedir portuguese [s] (1) O Muito Rev. P.c Schurhammer é de opinião que estas instruções foram escritas entre 7 e 15 de Abril de 1549.
como colegiaes da terra, em tudo leixo que faça o que lhe milhor parecer; de maneira que vós em nenhuma cousa destas entendereis com elle, nem mandar-lhe nenhuma coisa por obedientia, senam como por amor e conselho; e assy nas mortificações, que der aos portugueses e aos da terra, e ordenações, como das portas adentro vivam, dando cargos e ofícios como lhe bem parecer, sen lhe irdes à mão em nenhuma cousa. E outra vez vos torno a rogar, e pola obedientia que tendes dada ao Pe. Ignatio, por aquella vos obrigo quanto posso, que nam aya antre vós nem Antonio Gomez discór- dias nem desavenças, senam muito amor e charidade, sem dar occasiao de murmurar aos de dentro nem aos de fora. Quando escreverem os Yrmãos que andam pollo Cabo de Comory dalgumas cousas que tem necessidade de favor com o Senhor Governador ou com o Bispo para os christãos, e asy o Pe. Nicolao que estaa em Coulam, como o Pe. Ci- priano que estaa em San Tomé e o Pe. Belchior Gonçalves que estaa em Baçaim, e o Pe. Francisco Perez que estaa em Malaca, e o Pe. João da Beira com os outros Padres que estam em Maluco, com todos os outros companheiros, todas as cousas que os Yrmãos que estam de fora escreverem a esta casa, cousas que tem necessidade assi temporaes como spirituaes, as temporaes ordenadas para o spiritual, de todas estas cousas que mandarem requerer os Yrmãos da Com- panhia que estam de fora, tereis muito cuidado de as des- pachar, dando cargo disto a Antonio Gomez, pera que o despache com muita deligentia; e quando escreverdes aos Yrmãos que andam fora levando muitos trabalhos, escre- ver-lh'eis cousas de muito amor e charidade. E guardai-vos de screver cousas de desamor ou cousas de que se possam tentar. Prove-los-eis das cousas necessárias que mandarem pedir, pois tantos trabalhos levão em servir a Deus, principalmente os que estam em Maluco e no Cabo 3 0 2
de Comory; porque estes sam os que levam a cruz deveras: portanto ayudai-os no spiritual, e temporal ordenado para o spiritual; e assi vos encomendo muito, e da parte de Deus e do Pe. Ignatio vos mando, que tenhaes muito cuidado de ayudar os que estam fora. [Rogo-vos muito, Yrmão, que cresçais se]mpre em vir- tude dando bom exemplo, como sempre fizestes. Escre- ve [reis muito particularmente novas] vosas e de toda esta casa, e da charidade e amor d'antre vós e Antonio [Gomes, e de Nicolao e de Antonio] (2), e de todos os que estam no Cabo de Comory, de Cipriano, que estaa em San Tomé [e assim dos Yrmãos que vierem] este anno do Reino, se sam pregadores, ou Padres de missa, ou leigos. De todos me fareis saber particularmente novas: quantos pregadores, quantos Padres e quantos leigos; e na naao que for em Setembro pera Mallaca, a qual vay para Banda, me escreve- reis todas as novas muito cumpridamente. Ao Pe. Francisco Perez mandareis as cartas, porque ele mas mandará de Mallaca para Yapam; e todas as vezes que de Goa partirem naaos para Mallaca, me escrevereis novas muitas, e de todos os Yrmãos da Companhia e deste colégio. Partem duas vezes no anno navios de Goa para Mallaca; huma vez em Abril e outra em Setembro, que sam naaos d'El-Rey: a que parte em Abril parte para Malluco e toma Mallaca, e a que parte em Setembro vay para Banda e toma Mallaca: por estas duas vias me escrevereis todos os annos a Mallaca; e as cartas yram a Francisco Perez, e elle mas mandará a Yapam. Rogo-vos muito que esta lembrança minha leaes cada somana huma vez pera que tenhaes sempre lembrança de my e de me encomendar a Deus, assi vós como todos vossos (2) P.e António Criminal.
devotos e devotas, e aos de casa fareis que me encomendem a Deus. A Antonio Gomez tenho dito que, se vierem pregado- res, mande alguns delles fora como a Cochim, pois há tanta necessidade de pregadores; e assi nas partes de Cambaya como Dio. E se este anno vierem alguns pregadores, tereis cuidado de lhe fazer esta lenbrança para que mandeis ambos e dous as pessoas que forem para yso. Dareis cargo a Domingos (3), ou a algum outro portu- guês de casa, que tenha cargo de me escrever novas de toda a casa, e dos Yrmãos que estam espalhados por toda a Yndia, e do Padre Mestre Gaspar que estaa em Orumuz, e de todo o fructo que nestas partes se faz; e vós assinareis a carta; e se alguma cousa secreta me quereis escrever, escre- ver-ma-eis de vossa letra. Porquanto careceis d'esperientia do que fora desta cidade se faz, como no Cabo de Comory, Sam Tomé, Coulam, Malluco, Mallaca e Urmuz, nam escrevereis a nenhumas pessoas, das que laa andam, que venham, porque nam sabeis o fructo que laa fazem, e a mingoa que laa fariam se viesem: portanto lhes escrevo aos que tem cargo no Cabo de Como- rym, como hé o Padre Antonio, que a nenhuma pessoa de laa deixe vir, aynda que seya chamado, salvo se o dito Pe. Antonio nam lhe parecer que laa nam hé necessário nem faz mingoa; mas antes a elle e a todos os outros lhes escrevo, que nenhuma pessoa das que laa tem mandem, se delias laa tem necessidade para maior serviço de Deus e acresentamento de nossa sancta fee. Portanto nam mandeis chamar a ninguém por obedientia para que a este colégio venham; e se alguns delles manda- rem a este colégio para que seyam favorecidos e ayudados (3) Era o Ir. Domingos de Carvalho, admitido na Companhia pelo próprio Xavier.
em spiritu, ayuda-Ios-eis para que nam se percam se virdes que tem emmenda e correiçam alguma. Rogo-vos muyto, Micer Paulo, Hyrmão, que trabalheis de guardar esta lembrança (4). Todo vosso, [Francisco] (4) Este período foi escrito por mão de Xavier. Doe. Padroado, rv - 20 3°5
57 CARTA DOS MISSIONÁRIOS DA COSTA DA PESCARIA PARA O BISPO DE GOA Punicale, 19 de Junho de 1549 ou um pouco antes Documenta Indica, 1, págs. 482-484. Je [s] us A graça e amor de nosso Senhor seija sempre na alma de W. S.ra Amen. Caríssimo Padre, não podemos deixar de lhe contar como aprouve a Nosso Senhor de matarem ao Padre Anto- nio (l), o qual estando nos baixos de Remanancor com ho capitão João Fernandez Correa e muytos christãos, tendo já ávido o capitão hua victoria contra sete ou oyto mil homes badeguás, estando o capitão com trinta ou quarenta portu- gueses, e depois por saberem os ditos badeguás que elle nam tinha polvora, vierão de ymproviso e emtrarão-lhe e sendo os badeguás entrados, foy-se o Padre Antonio à ygreja a encomendar a Deus o neguocio, e depois se foy à praya, onde lhe dezião alguns christãos que se embarcase, y elle nam quis por ver as molheres christãas fiquar soos con seus filhos pequenos e desemparados; e assi estando elle alli, dezia às molheres que se embarcasem e as esforçava. Nisto vendo os badeguás que jaa o Padre não se podia acolher e, segundo parece, vendo o Padre que vinhão pera o matar, lhe foy ao encontro, e se pôs en giolhos e as mãos allevan- tadas, e vendo os badeguás ao Padre daquella maneyra, (1) Os missionários referem-se ao martírio do P.e António Criminal. 306
passarão por elle e nam no quiserão matar; mas hum delles lhe tomou o barrete, e dahi hum pouco vierão outros bade- guás, e o Padre veio correndo a elles e se pôs da mesma maneyra que fez aos primeiros, e estando pera o matarem nam no matarão, mas alevantarão-no do chão, e aquelles passarão, e à terceira vez passarão outros badeguás, e o Padre se pôs de giolhos com as mãos allevantadas como das outras duas vezes, e estando assi, hum delles lhe deu huma lançada pola parte ezquerda, e este dizem que era mouro, e sobre isto lhe deitarão mão da roupeta, e elle também deytou mão ao cabeção da dita roupeta; todavia lha despirão rompendo-a, e também lhe despirão a camissa, e lhe toma- rão huma bolsa com alguns fanomes (2) pequenos, e o deixarão con ciroulas, no mais; e ferido daquella lançada se forão, e o Padre se foy correndo pera a igreja. Nisto veo hum badeguá, e foy após elle, e o Padre, vendo vir assi aquelles badeguás, se virou para elle, e çn virando-se, o que o seguia lhe deu outra lançada pellos peytos, e loguo o Padre se pôs en giolhos, e tirando a lança, se foy seu caminho, e o Padre se foy pera a igreja; e nisto veo outro, e foi após o Padre, e por detrás lhe deu outra lançada polias costas; e en lha dando se pôs de giolhos com as mãos ale- vantadas, e dahi a pouco vierão outros badeguás, e lhe cortarão a cabeça. Até o presente nam sabemos se estava ainda vivo quando lhe cortarão a cabeça, e a forão pindurar com a mesma camissa feita en pedaços na fortaleza do capitão; dahi a dous dias o enterrou Antonio Correa, sobrinho do capitão; e no dia (3) que o mataram dise missa, aconselhava ao capitão que embarcassem as molheres e que (2) Isto é: fanões. (3) Ignora-se a data do seu martírio. 3 °7
fizese paz. Desta maneira morreo vendo se podia salvar os christaãos, pera que nom fossen captivos dos badeguás. Inútil Paulo (4), indigno servo Manoel (5), Ambró- sio (6), seu filho en Christo Baltesar (7), Francisco Amrri- quez. (4) P.* Paulo do Vale. (5) Manuel Rodrigues era ainda noviço. (6) Ambrósio Nunes, outro noviço. (7) Irmão Baltasar Nunes. O 8
58 CARTA DOS MISSIONÁRIOS DA PESCARIA PARA O SUPERIOR DOS JESUÍTAS, EM GOA Punicale, 19 de Junho de 1549 Documenta Indica, I, pãgs. 486-489- Ho Padre Antonio Criminal hé morto, e morreu desta maneyra: Douctrinava hos christãos do Cabo de Comorim, que são hos mais e milhores que quá há; com elles pasou muytos trabalhos, que no começo se não podem escusar sobre cada dia aver guerras que hos reys comarcãos fazião, mas a muyta constância e desejo que avia da salvação daquellas almas, todas as difficuldades fazião faciles; alem disto hé terra esteril e carecida do provimento necessário. Tinha elle cuidado de correr 70 e tantas legoas de costa pera ver que necesidades avia hahy e remediá-las ho milhor que podese. Estãodo nos baixos de Remanancor, onde emsinava os novamente convertidos, veio muyta gente d'el-rey de Bis- naguá de improviso; e podendo-se seguramente acolher a huns navios que lhe aconselhavão que fosse, quis mais, ficando, perder a vida que, salvando-se, ver morrer e cativar os que elle con tanto zelo baptizara e com tanto amor instrui [r] a e doctrinara na fee; esquecido de si, ainda que muy lembrado da charidade, apresava os meninos e molhe- res a se embarquarem. E vendo que hos imigos da fé entra- vão, se foy cheo de esperança de immortalidade com has mãos alçadas pôr de giolhos diante delles, e não lhe fizerão mais nojo que tomar-lhe o barrete; e dahy a pouco, vindo mays gente, se pôs da mesma maneira, e estando pera ho matarem, ho não fizerão; alevantarão-no e pasarão. E dahy a nada vierão outros badegás e o Padre encendido de pade- 3°9
cer antes que vise os seus morrer, se pôs em giolhos com as mãos alçadas, e hum de huma touca, que [se] sospeita ser mouro, lhe deu huma lançada polia parte esquerda; juntamente acudirão outros a lançar mão da roupeta e, querendo-lha despir, elle, como quem nem ainda aquillo do mundo queria levar, lançou a mão ao cabeção e ajudou-os a despi-lla, e lhe despedaçarão também a camisa. Ficou ho homem sancto asi em ceroulas ferido, mas mays do amor de Deus, e correo à igreja onde aquelle dia tivera ho Filho de Deus em suas mãos; e indo asi corrião nas suas costas após elle e, sentindo-os vir, se virou para elles e lhe derão huma lançada pellos peytos. A isto se pôs de giolhos como dantes e, tirando a lança, seguio seu caminho pera a igreja. Veo outro badegá e lhe deu outra lançada e o Padre, não se esquecendo do costume que tinha, se pôs de giolhos, porque asi ho fazia cada dia vinte e trinta vezes, tendo oração mental breve; caindo neste comenos de huma ilharga, lhe cortarão a cabeça, não se sabe se estava inda vivo, e a pendurarão em hum alto com a camisa chea de sangue feita em pedaços. Este foy ho fim que teve e mercê grande que Deus lhe fez e a nós, e sem duvida que, cuja vida tam perfeita em abnegação de si mesmo, não podia deixar de ter tal fim, porque era muy continuo na oração e vida activa e nenhuma cousa lhe empedia a outra, mas asi compria com tudo, como que se não occupase em mais. Ategora não sabemos mais novas que estas. E depois de sua morte nos ajuntamos todos em Punicale pera que entretanto fizéssemos a saber sua morte, nos pro- vêssemos com quem á de ter cargo de nós, e emmentes que não temos recado de V. Reverencia, elegimos por noso superior ho Padre Anrique Anriquez, por ser elle, mais sufficiente pera iso e saber a limgoa e estarem os christãos muyto bem com elle. Agora faça V. Reverencia como mays 3/0
lhe parecer serviço de Noso Senhor. Não hahi mais senão que Nosso Senhor ho tenha de sua mão e a todos pera que façamos sua sancta vontade. De Punicale, a 19 de Junho de 1549. 3 ' '
CARTA DO IRMÃO AMBROSIO NUNES (?) PARA OS RELIGIOSOS DE GOA Punicale, 19 de Junho de 1549 (?) Documenta Indica, I, pãgs. 491-493. As cousas desta Costa, Deus seja louvado, vão em muyto crecimento: Tem os christãos grande devação às igreyas, frequentão-as muyto; em suas necesidades e doenças pro- mettem fanões e outras muytas offertas; dizem que pellas igreyas os livra Deus das guerras que a estes lugares avião de vir muytas vezes. Em hum lugar desta Costa, ho mayor (l), tem tanta fee na igreya, que quando algum tem alguma differentia com algum gentio, lhe vão os gentios a jurar sobre a igreya, pera asentarem e crerem as duvidas que entre elles há; e tem Deus mostrado castigo em alguns gentios que parece que jurarão falso, e depois de doenças que logo socedião, pagavão aos christãos todo ho que lhe devião. Trazem os meninos às igreyas como são doentes, pera que roguem os Padres por elles. Este anno o Padre os traz à confisão, e os confesados tem tanta emmenda, que hé pera louvar ao Senhor, e os dos outros lugares chamão que os confesem, e dizem que também elles são filhos e não enteados, que, se erão christãos, porque os não confesavão; mas a ma disposição do Padre e as muytas occupações não dão lugar a comprir com todos. E hé pera dar graças a Deus quam solícitos são de baptizar seus filhos. Em suas doenças e trabalhos nos mandam chamar, aonde o Senhor obra muyto por sua misericórdia. Chamão muytas (1) Refere-se, sem dúvida, a Tuticorin.
vezes por sancta Maria, perdem totalmente a devoção com hos pagodes que soião adorar, e tem muyto amor aos Padres. Em Cabo de Camorim prendeu hum adigar ao Irmão Balthesar Nunez e querendo-ho tratar mal, acudirão com suas armas dahy e de outros lugares perto, dizendo que avião de morrer polo seu Padre, e asi fugio ho adigar com medo. Dos meninos esperamos, porque estes se vão criando nos bons costumes da fé, fora dos maos que seus pays por habito lhe tinhão dado. Ajudou muito ao P. Anrique Anriquez, há dias que fala sem topaz, faz huma arte ma- lavar (2), — cedo ha [a]cabará — da qual se tem muyto aproveitado ho P. Paulo do Vale, que hé muyto pera louvar a Deus, porque antes de 6 meses esperamos de exscusar topaz, principalmente se ouver tempo pera apren- der, porque há muytas occupações. Ho Padre Anrique Anriquez tirou as orações em mala- var, porque achou alguns erros nas que ho P. mestre Fran- cisco tresladou, e quer fazer hum vocabulário malavar e declarar ho Credo, mandamentos, Pater noster e Ave Maria e algumas cousas da fé, conforme à capacidade da gente. Hos Irmãos todos aprendem a lingoa, e esperamos en Deus que todos os que vierem daquy por diante, ão de aprender, por estar já ho caminho aberto, e vay grande differença em saber bem a lingoa e falar por topaz que trocão ho que dizemos, e não nos entendem. Edificão-se muyto os nova- mente christãos da vida dos Padres e Irmãos, os quays tem cá muytos trabalhos, por serem os lugares muytos que ão de visitar e, posto que fazem quanto podem, não deixão de morrer muytos meninos sem baptismo por falta dos operários. Rogamos a Deus ut mittat muitos. (2) Isto é: gramática da língua malabar. 3 '3
60 CRISTANDADE DE BAÇAIM Baçaim, 2 de Agosto de 1549 APO, V, 217-218. O Capitão geral e governador da índia. Faço saber ao capitão desta fortaleza de Baçaim, e ao Ouvidor delle, e aos Tanadares desta terra de Baçaim, e a todos os officiaes e pessoas a que pertencer, que eu pelo aver assy por serviço de Deus e d'ElRey nosso Senhor, hey por bem e mando que nenhuma pessoa de qualquer qualidade que seja torne a edificar pagode ou mesquita, nem alevantar, e o que o contrario fizer pela primeira vez pagará dez pardáos, ame- tade pera o Tanadar que o executar, e outra ametade pera o hospital, e pela segunda vez, que se execute na tal pessoa a pena que o direito em tal caso determina; e assy hey por bem e mando que nenhuma pessoa de qualquer estado ou condição que seja, seja ousado a impedir a outra pessoa que não seja christãa, e o que o contrario fizer pagará cinco pardáos, ametade pera o Tanadar que a dita pena executar, e a outra ametade pera o hospital: e assy ey por bem que qualquer mouro ou bramane que fizer algumas cerimonias a algum christão, com a qual cerimonia dee a entender que o torna á sua seita ou gentilidade por cada vez que esto fizer, pagará de pena dez pardáos, ametade pera o Tanadar que executar a tal pena, e a outra ametade pera o hospital. Notificoo assy e mando que a cumprão e guardem como se nella contem, e será apreguada em todas as terras e Tanadarias de Baçaim, e fazer assento de como foi apre- goada cada hum em sua Tanadaria. Pero de Salazar o fez em Baçaim a 2 de Agosto de 549 annos. João Camello o 3 14
fiz escrever em absencia do Secretario Francisco Alvrez. — Jorge Cabral. Tem certidão de ser apregoada pela Pragana de Salcete aos 11 de Setembro de 1549. E na Cassabé de Tanná a 30 de Jullho de 1550. (Livro do Pai dos christãos, foi. 74 v.) 3'5
61 PAGODES EM GOA Goa, 16 de Setembro de 1549 APO, V, 218-219. O Capitão Geral e Governador da India etc. Faço saber a quantos este meu Alvará verem que eu são enformado que muitas pessoas trazem sonegadas terras, palmares, ortas, e outras propriedades que forão dos Pagodes e dos servidores delles, as quaes propriedades todas pertencem ao collegio de Santa Fee, e as trazem assy sonegadas sem diso pagarem renda á dita casa, pelo qual ey por bem e mando que tanto que lhe este for notificado, o qual se apre- goará em todas as gancarias segundo costume pera que a todos seja notorio, e os escrivães das ditas gancarias passa- rão disso certidão, a pessoa ou pessoas que trouxerem quoaisquer das ditas propriedades as descubrão ao vedor da fazenda, ou a Alvaro Affonso que arrecada as rendas da dita casa, pera serem assentadas no livro da casa, e serem arrendadas, e não nas descobrindo, tanto que lhe for noti- ficado, mando que sejão presos, e da cadea paguem toda a renda que se montar em todo o tempo que trouxerem as ditas propriedades sonegadas. Lucas Gonçalves o fez em Goa a 16 de Setembro de 1549. — Jorge Cabral. (Tombo das terras dos Pagodes da Ilha de Goa, foi. 4) 3 1 6
62 NOTICIAS DE ORMUZ Setembro de 1549 Documenta Indica, 1, p<*gs. 502-507. Nesta viagem se deteve (l) muyto por falta dos manti- mentos e agoa e ladrões, os quays lhe cometerão a nao onde yão, e foy necessário, por fazer gente, tomar elle também armas. Nesta ilha de Ormuz está hua fortaleza de El-Rey. Hé terra tam quente que hos portugueses andam nus e quasi sempre metidos em [tanques de] agoa. He toda chea de sal e pedra de sal; hé muito viciosa em grande maneira, onde foy bem necessário mestre Gaspar e são necessários muytos mays. Prega tres vezes na somana, ao domingo, quarta e sabado, faz doctrina aos moços e negros quada dia, e os chama duas vezes antre noyte e dia, com huma compainha que tange andando polia cidade. Logo no prin- cipio foy apedrejado duas vezes dos mouros. Aos sabados nas isnogas (2) tem disputa com hos judeos, e se aballam muyto, e asi a tem com hos mouros e se fazem destes muytos christãos, e chamão a mestre Gaspar Zacharias (3); os mouros chegão [-se a] elle, porque ho vem andar pobre, e dão-lhe peças de chamalote pera que se vista, mas elle não quer tomar nada. Hé muyto amado do capitão (4) e portugueses e dos mouros, porque em seus tratos não tem outro refugio com ho capitão senão de mestre Gaspar. (1) Refere-se ao P.e Gaspar Barzeo. (2) Isto é: sinagogas. . , . (3) O Alcorão refere-se, com louvor, a Zacarias, pai de S. João Baptista. (4) Na altura era D. Manuel de Lima. 3*7
Este Ormuz está na Persia, que hé grandíssima provinda. Alem deste Ormuz dozentas legoas, há terra que sempre [tem] neve e dizem que estará hum mes de caminho de Jherusalem. Há todas as gerações, scilicet pérsios, turcos, rugios (5), os quais conquistão (6) com alt'Alamanha, charchios (7), estes são altos do corpo como alemães; bra- menes que parecem ser de casta de judeos, gusarates e outra muyta casta de gentios, abixins, que sam christãos do Preste; há muytos judeos de Castella, que vem por via de Veneza. Antre estes há hum sábio na Biblia que chamão Salamão; este disputa com mestre Gaspar. Há qui finalmente quasi todas as nações do mundo. Há nesta terra grandes onzenas; daqui vão todos os cavallos per'a India. Há qui huns armé- nios que andão em trajos de mouros [e com toucas] que são christãos; a qualquer terra que vam, mudam hos trajos e o costume, sabem muytas lingoas. Dous destes foram huma noyte a mestre Gaspar rogando-lhe que estava hum irmão seu pera morrer que ho fosse enfesar; foy lá à mea noyte e, acabado de ho confesar, se finou, e o enterrarão em sagrado. Há nesta terra huns jogues, os quais tem por sanctos [e são honrados destas gentes]; destes vivem muytos em covas debaixo do chão, cheos de cinza, e comem cinza, e, se lhe preguntão porque ho fazem, dizem que porque sam de cinza. Tem a Tirindade: Padre e Filho e Spiritu Sanctu (8); todos estes estão abalados e esperão por hum principal seu; dizem que, como vier, se farão todos chris- tãos. Quando am de comer, chegão junto da villa com hum corno e dizem que querem comer, e não ão de entrar (5) Russos. (6) Isto é: confinam. (7) Isto é: Georgios. (8) Refere-se, evidente à Trimurti, constituída por Brahma, Vihnu e Shiva. 3 18
dentro e tangem até que lhes trazem de comer, e do que lhe sobeja não gardão pera ho outro dia. En la llegada de maestro Gaspar tremió esta isla obra de 30 vezes y dia de 4 vezes, y com esta causa y pecados de la tierra, se afervoro en grande manera, com que hizo apartar a los amancebados, y se pidieron perdón de rodillas dos hombres en la yglesia llena de gente, que se espancaron. Un hombre onrrado antre otros muchos, dándole de peni- tencia que se deciplinase, lo hizo y entro por la yglesia que estava con mucha gente al domingo, y se quisiera des- cobrir sy le no fueran a la mano, en altas bozes pediendo mysericordia se deciplinó, de manera que le salió mucha sangre; acudióle el vicário (9)- Cada dia se confessan, y tomam muchos el Sanctíssimo Sacramento al domingo, y tiene toda esta terra renovada. Van todos los domingos a oílle predicar, y una vez acaeció a oílle un moro dei rey de la tierra, y todo pontualmente fué a contar a el rey, sin saber hablar ny entender el portugez: éste era su criado. Enbiava este rey llamar maestro Gaspar para lo ver, y empidióle el capitán que lo no hiziesse. Posa dentro dei hospital pobremente en una casa de paja. Los Padres que allá están por el Obispo, andan todos movidos y reforma- dos, y van todos los sábados em procesión a nuestra Senora que es una media legoa desta isla con ledainas, cantando. En el sertón por la tierra firme dentro, donde viene lo necessário de mantenimiento a esta isla, a todas las fructas, aves y caças como en Portogal, ultra otras muchas calidades de animales y aves. Ha muchos palmares en esta tierra que dan tâmaras, y entre ellos ay una palmera macho que no da fruto; mas tiene tal preminencia que todas las outras pal- meras lo dan desta maneira: (en Enero y Febrero que es el (9) Chamava-se António de Moura.
tiempo que esta fruta comiesa a nacer) toman un ramo desta árbole macho y tocan con él todas las otras palme- ras, y desta manera dan fruto y vienen a lumbre, y la pal- mera que no es tocada deste ramo, caye el fructo, y no viene a lumbre ny lo da aquel anno (10). Son infenitas las cosas que le an acaesido en esta tierra que se no pueden escrevir menudamente todas: esto es quanto a maestro Gaspar. (10) O Rev. P.e Wicki cita, a propósito desta palmeira Phoenix dacty- lifera o seguinte trecho de E. Blatter, S.J., da obra The Palms of British India and Ceylon (Humphrey Milford, 1926), 24-37: «The male inflorescence with its enclosing spathe is cut from the tree usually immediately before, but sometimes after the splitting of the spathe. One inflorescence consists of over 100 slender branches, of which one or two bear sufficient pollen to fertilize a whole female inflorescence.» 320
63 DOMINICANOS EM CHAOL Chaúl, 10 de Outubro de 1549 Documento existente no ANTT: — CC, 1, 83-28. Mede 217x310 mm. Duas folhas, em bom estado. Muy allta e muy excelemte princesa e sereníssima Rainha e Senhora Nosa 0 anno pasado esprevemos a Vosa Alteza a muita necesi- dade que nesta sua cidade de Chaul avia de padres que nos pregasem a palavra divina e doutrinasem os nosos filhos \ pidimdo-lhe muito por merce que nos dese licença2 pera nela se fazere hum mosteiro pera nele abitarem certos padres da ordem de São Domimgos que, a noso roguo, vierão a esta cidade, que nos pregão e nos dão a dita doutrina a nosas famílias, e porque deles recebemos todos muita com- solação, e pera os termos certos nos he necesario o dito mosteiro, lhe tornamos agora a pidir que nos queira comceder a dita licença e que, per sua entercesão, nos seja concedida, pera loguo nomeadamente se fazer o dito mosteiro na casa de huma irmida que aquy esta, chamada Nosa Senhora de Guadalupe3, e nom queremos mais de Sua Alteza que esta licença somente, que quanto ao mais nos remedearemos de maneira que nos cumpre e seja ser- viço de Deus, e pois isto he tão licito confiamos que Vosa Alteza no-lo nom negue, a que Noso Senhor acrecemte os dias de vida por muitos anos, amem. 1 — f.» ; 2 — L.s1; 3 — daugoa de Iupe. 32I Doo. Padroado, iv - 21
Estprita em Camara de sua cidade de Chaul, a dez de Outubro, Francisco4 da Veiga estprivam dela a fez, ano de 549. Tristam Pinto (l). Joam Roiz. Gaspar Gonçalvezs. Francisco (2) de Barros (3). (1) Ou Pinto? (2) Ou Nicolau? (3) Ou Bastos ? A — fr-c0 i 5 — giz. 322
64 CARTA DO PADRE BALTASAR GAGO AOS IRMÃOS DE COIMBRA Goa, entre 14 e 20 de Outubro de 1549 Documenta Indica, I, págs. 551-570. La gracia, pax y amor de Jesú haga conti- nuas morada en nuestras almas. Amén. A 5o de Setiembre de 1549 llegaron dos naves (l) a este puerto de Goa, y recebimos por via de los Padres de S. Fran- cisco um maço de cartas en absencia dei P.c Antonio Gómez, con que recebimos los deste collegio tanta Consolación y alegria, quanta el Senor sabe. Y lyendo en ellas toda la noche, y los más Hermanos juntos a oír, nos venían a todos nuevos fervores y deseos grandes, y soledades de tales obre- ros para estas partes, glorificando y loando a Jesú por tales obras y augmentos de su Companía. Fueron estas cartas para nos de tal calidad, que meditando en ellas y liendo, nos estávamos consolando y animando hasta la venida de otras, y no uvo ninguno de dos meses recebido, que le no parecesse venir en ellas un fuego bivo, y que se no animasse a servir a tal Senor, y holgasse de se aliar a la sonbra de tal Companía, donde me alio tan indigno por my frieza grande, teniendo en tan poco tiempo tantas causas de me aquentar, y viendo deseos tan intensos a buscar la f suave de Jesú y o martírio, ansy en el deseo como en la obra consumada. Ansy que, quanto más voy descubriendo, tanto más me alio lexos de me llamar Hermano de tales Herma- (1) «Boa Ventura» e «S. Filipe». 323
nos: y porque gastaria todo el tiempo en contar necessi- dades myas para que me favorescan con Jesú, como espero,, lo dexo de hazer. Y comesçando a contar algunas cosas de las que acá pasaron y se hazen, aunque las más me que- darán por no aver lembra [n] ça delias, digo que ya, cha- ríssimos Padres myos y Hermanos, escrivimos el anno pas- sado de 1548 de nuestra llegada a estas partes largamente, por via de una nave que partió en Octobre del dicho anno, primero que las naves; y ansy por via de las naves en que vinieron, los trabajos dei Pe. Antonio Gómez, y cómo acon- teciera que la nave en que vénia, se iva ya perdiendo notavelmente, y sacando fuera la cabeça de la Sancta per dos o tres vezes, se salvaron, y de su llegada y de los ffervo- res con obras, ansy en los christianos de la tierra como en la emienda en los portugueses, y de los abalos grandes por su maneira de predicar, gracia y fervor, que venían tomar los lugares de noche: y como desto tengan larga cuenta no lo torno a repitir. Del Pe. maestro Francisco nos logramos poco en este collegio, porque no es en él descansar, posto que tuviesee grandes deseos de nos consolar. Hizo con la aiuda de Jesú su viagen a Japón donde ya estará. El qual partió daquy en la semana de ramos deste anno de 1549 y avia de ser en Japón en Agosto dei dicho anno, mas dél no podemos aver recado menos de un anno. Primero que se partiesse visito los Padres y Hermanos todos por las tierras donde estavan. A su despedida todos nos queríamos ir en su com- pania; mas como no podia ser, dexónos en esperança que, si Dios allá abriesse camino, nos mandaria llamar a todos, llevándonos en su pecho, consolándonos y diziendo que la esparzida Companía de Jesú se veria en la celesteal Jerusa- lén junta, si nos no juntásemos. Y para tal obra y tan grande, conforme a sus deseos, grande eglesia se a de fazer a gloria de Jesú Christo. Aparégense, Hermanos, porque la 324 I
Isla es de 600 legoas, como verán por cartas y son necessá- rios muchos obreros, y a de ser necessário acodirle daquy con algunos fraquos. Fué con él un Padre por nombre Cosme de Torres, que allá escrevió de su vocación y venida a estas partes de la Imdia, y ansy lleva 3 japonês (2), prin- cipalmente de uno veréis su abelidad y saber, y deseo que lleva y confiança de se hazer mucha obra; y con todo lo necessário para celebraren, y libros si fueren necessários (aunque el Pe. maestro Francisco no lee ny estudia sino en su libro (3). En su companía tanbién llevó al Pe. Manuel de Morales y al Pe. Alfonso de Castro, que aquy se orde- naron de missa en febrero de 1549, para quedaren en Ma- luco, con los Hermanos Joan Fernández, que nos era espejo y creo será por donde fuere, y Francisco Gonçálvez: por este sospiró Antonio Gómez, porque aprovechó aquá en grande manera y dexó mucho edeficado este collegio de fervores que lleva, por seren naquella tierra necessários. Los recados desta tierra se reciben muy tarde. Tenemos por nuevas que el Pe. Joam da Beira que nesta tierra estava, le mataron, sy ansy fuere, y como ternéis recado por las naves que partirán para Enero de 1550, porque esta va en un galeón que parte a 30 deste Otobre de 1549, porque hasta antonces esperamos que vendrá recado de Maluco y Malaca, que están cerca uno de otro, y ansy de la partida de maestro Francisco de Malaca para Japón; porque se no haze viagen por estas partes a todo tiempo, porque esperan las monções, y por esta causa no puede venir a nos recado de lo que el Senor obra en Japón menos de un anno: para las naves que con aiuda de Jesú Christo aribaren (2) Eram eles: Paulo da Santa Fé, João e António. (3) Intitulava-se Aí. Maruli Opus de religiose vivendi institutione. Impresso em Colonia em 1531. 325 t.
a esse reyno nel de 1550 teréis, charísimos, recado certo do que nesta terra de Japón passa. El Pe. Antonio Gómez fué a Malavar suplicándole mucho el governador Gracia de Saa, que Dios aya, y el Obispo que quisiesse yr a el rey de Tanor, (ciudad deste Malavar), nuevamente echo christiano, por este rey enbiar a pedir un Padre de la Companía para se instruir en la fee; y aunque fuese falta en nos su absencia, fué necessário para una obra tam grande como esta, donde estuvo el anno pasado y partió en Abril, que acá es invierno, y llegó a 16 de Setienbre, que es entrada de verano. Hizo en estes reinos grandes abalos, principalmente en este rey instruién- dolo en la fee; de manera que fué medio que los deseos que de nino tenia de se magnifestar christiano veniessen a effecto, y le hizo venir de su reyno para que manifestassee en esta ciudad de Goa, presente el Governador y todos, su deseo ser verdadero. Son certas fustas a buscalo; ay ya recado que viene por caminho y será aqui un dia destos. Aselle de hazer mucha honrra y fiesta y gastos, tiene el Governador echos ricos vestidos para este rey y para los suyos. Llámasse don Joan, es tan bueno christiano y tiene el Padre passado con él cosas de admiración en sua grande constância, mancidu [m] bre y buen saber; es mucho para alabaren a Jesú Christo, llora con un crucifixo mil lágrimas, es hombre de mucha marca, muy capax y grande cavalero, por donde todo el Malavar le está subjecto. Y no sólo con este rey mas con el Çamorín, es como el emperador, y con el rey de la pimenta, y con otros reys y senores, y ansí el rey de Cochyn, y otro por nome Lambarín (4), con todos estos el Padre habló y todos le dieron su palavra. Y de tal manera están abalados que, en vendo este don Joan publi- (4) Ou Nambiadarim, isto é: nambyâdiri, que é título de príncipe no Malabar. 326
carse christiano, se hazeren todos christianos; principal- mente o Lanbarín escrevió al Pe. António Gómez una carta, en la qual se afirmava complir su palabra y tener voluntad verdadera: y esta es la mayor obra y cosa que se hizo en la índia. Tiene este don Joan thesoro, y viene hazendo por el camino grandes mercês y los suyos y a los otros, es nobre y hombre de grande respecto. Este Malavar está en el medio de la Imdia, y es tierra muy liana y de mucho aroz, llena de palmares. En el invierno es el agoa tanta que llega hasta las rodillas. Ay muchas castas de gente; antre estos ay unos que llaman naires, son de guerra, su officio es exercitarce de espada y rodela; ay también bramenes, no de camisas brancas como em Goa, mas traen solamente un pano que los cobre: éstos son los sacerdotes de los gentios, son onrrados; y estas dos generationes, scilicet los bramines y nayres, entran en casa del rey, y tiene [n] por mala criança sy alguno se asienta en casa dei rey. Los officiales, scilicet pedreros y carpinte- ros, son baxos antre estos; ay otra casta más baxa, que conciertan los palmares; asy otros a que chamam maquuas, que son pescadores; y otros a que llaman poleyas, éstos son labradores, y más baxos y misquinos de todos, y los cativan si quieren, y no tienen pena de los mataren, y se sirven todos dellos. Todos, unos y otros, se mantienen con muy poquito. El principal comer destas gentes de la « Imdia es unas hojas, que son como hedra y arequa, que es como nuez noscada y cal, que es de cascaquras de marisco y tanbién de piedra, y esto mesturado todo en la hoja mascan todo el dia; es cosa muy caliente. Esta gente más baxa no viste más que un panizuelo, que los cubra a manyera de negros. En la buelta deste rey a sus tierras, que será temprano, a de ir el governador Jorge Cabral que succedió en la governación — es hombre muy humano y deseoso del acre-
centamiento de la fee—, y ansy el Obispo y el Pe. Antonio Gómez con él a hazer todo el Malavar christiano, que es gran número de gente. Este rey tiene ya en su tierra hecha [una iglesia] y una crux grande puesta a la entrada de la ciudad de Tanor: esta christianidad se haze syn sperar por esso algún interece. Ay entre ellos las castas que digo; es tierra gruesa y sana. Ternán todos estes reys más de 300 legoas de cuesta. Esta obra está cerca, que el más lexos es nuestro collegio, que está de Cochyn 100 legoas, adonde a otro collegio de la Companía, y en el medio deste Malavar ay una fortaleza que llaman Chalé, adonde se a de dar presto principio a una casa. Andando el Padre en este Malavar, no satisfecho con mucho trabajo que llevó y peligros grandes de frechadas de batallas de gente, porque antre estes reis uvo neste tiempo que el Padre allá anduvo, guerras y contiendas; y para los poner en pax, anduvo más de 250 legoas a pie de una parte a outra y de un rey a otro; fué ter a la ciudad de Cochyn adonde predico algunas vezes, edifi- cándolos mucho; y de tal manera está esta ciudade deseosa de la Companía por veren la manera de maestro Francisco, que allí estuvo cerca dos meses, hasta que partiron las naves para el Reyno, en que de allá venimos, que fué en Enero de 1549, haziendo mucho fructo y predicando y confesando, y quando fué para Japón por ser por esta cuesta el camino predico, y ansy el Pe. Manuel de Morales y el Pe. Alonso de Castro. Pedió la ciudad y el capitán (5) a el Pe. maestro Francisco les dexasse Alonso de Castro, porque predico con mucho contentamiento de todos, y que le ordenarían una casa, todavia todos hizieron su camino. Y quando vieron al Pe. Antonio Gómez predicar con grande (5) Francisco da Silva de Meneses. (Lendas da India, IV, 685.) 32 8
■ fervor, le suplicaron mucho que ellos querían hazer un collegio a la Companía, y luego el capitán y la ciudad le hizieron donación de un llano grande lleno de palmares, y le dieron una yglesia de la Madre de Dios, que vale la obra más de 1100 cruzados, y luego ajuntaron 600 pardaos con que luego hizieron el dicho collegio y ya caberán 50 Hermanos en él: falecen Hermanos hechos y espera este collegio y los más por ellos y Padres predicadores, ansy para aquy, como para todas las fortalezas y ciudades y villas destas partes, que ay grande falta de dotrina. Los Padres y Hermanos, que andan divididos por estas partes, son en Maluquo los 4 que atrás digo y 4 que allá estavan: son 8. En Malaqua están los que estavan dantes, que es Francisco Pérez y otros dos Hermanos: déstos tene- mos nuevas hazeren mucho fruto. Para S. Thomé, que es una población grande, donde ya estuvo el Pe. maestro Fran- cisco, por teneren mucha necessidad, fué el Pe. Cypriano, que dantes anduvo en el Cabo de Comorín; llevó un Hermano por nombre Gaspar que vino quando el Pe. Alonso de Castro, aquy padeció morte el apóstol S. Thomé. A el Cabo de Comorín fué el P. Paulo dei Valle y dos Hermanos recebidos aquy. Desta parte tengan nuevas felices y ciertas, con que todos en uno devéis ter grandes júbelos de alegria, los quales son aver el Pe. Antonio Criminal padecido muerte por homrra de Jesú. Esta nueva nos truxo el Pe. Antonio Gomez, porque andando en el Malavar, mandó a Comorín por tierra un hombre a visitarlos, y traxo una carta apro- vada y asenalada por los Padres y Hermanos de como lo mataron y la causa. Acerca desto se escrive largamente a Su Alteza por el Obispo, y abaxo irá el trelado de la carta que vino. Tiene la obediência a los de aquy el Pe. Francisco Anrríquez. El Pe. maestro Francisco nos tenia dados tantas senales dei Pe. Antonio Criminal, que no podia alcansar otro fin tal vida. El Pe. maestro Gaspar f 3 29
partió para Ormuz, 500 legoas deste collegio, antes 8 dias que partiese el Pe. maestro Francisco. Venieron aora nuevas de lo mucho que allá haze y abaxo yrán: este bendito Padre dexa rastro por donde va y trae siempre fuego y es incan- sável. El Pe. Nicolao por sua mala desposición está en Coulán, por se aliar ay meyor de su doliença; echa mucha sangre por la boca, y tiene dos Hermanos de los nuevos recebidos; haze también fructo en la conversion. El Pe. Mel- chior Gonçálves está en Basaín, 70 legoas desta ciudade: es mucho bienquisto y le aman todos mucho, y haze mucha obra en confessiones, predica a las vezes, y ansy lo haze en la conversion; antes que llegasse a Basaín, vino ter a una ciudad de Chaul, 12 legoas atrás, donde predico. Con- tentáranse tanto dél que le ofrecían casa para la Companía, la qual luego ordinarían, mas empero despidióse dei capitán y de todos no acceptando cosa alguna, ellos todavia le emviaron meter en la galera muchas cosas para et camino sin él saberlo. En Basaín hizo siempre mucho fructo en hombres de muchos annos que se no confessavan, otros hizo apartar de peccados mortales y hizo muchas amistades; vaa a los mércules y viernes con una companella encomien- dando las almas dei purgatório y los que están en peccado mortal. Los collegios que quá son ordenados, es Io que ya tengo dicho: en Cochyn, que es ciudad principal, donde ya hizo mucho fruto el Pe. Antonio Gómez, es gente muy devota y de emienda; estaa 100 léguas deste. Otro collegio se ordeno aora en Basaín de la manera que diré: los annos passados invió Su Alteza que se hiziese en Basaín un colle- gio para los nuevamente convertidos a la fee, para Io qual embió dar cerca 2000 cruzados, y que la administración dél tuviesse la Companhia. Entonces el Pe. maestro Fran- cisco con los más que con él andavan por diversas partes occupados en Ia conversion a la fee, no les pareció tiempo 33°
para se occuparen en hazer casa. Y unos Padres de la orden de la Piedad, por ir adelante esta obra, se encargaron delia, hizieron la casa y tuvieron hasta aora la adminis- tración delia; y estos Padres se fueron deminuiendo, que no a aora más que uno, por nombre Fray Antonio, el qual es mucho devoto de la Companía, y a su requirimiento fue el Pe. Melchior Gonçálvez para tener la administración delia porque él estava ya de camino para su província y nos queria dexar de pose. Soccedió este anno veniren Padres de S. Francisco para este monasterio de Goa, y demando licencia al su custodio para tener obedientia a los de la Piadad, y luego proveio este collegio de los Padres. Supo el Pe. Antonio Gómez aquesto, y hablando con el custodio, parecióles a ambos que devrían dar cuenta desto al Gover- nador, y con él asentaron que la renta dei collegio se devidiese por medio, tanto a ellos como a la Companía, y que los Padres quedasen con el collegio y moços: a nos hizo el Governador merced y limosna de un llano y casa que costó 1550 cruzados, y ansí estamos devididos. El Pe. Melchior Gonçálvez estaa ya en el collegio nuevo y con la posse dél. Están allá con él dos Hermanos. 1 oda la tierra mostrava grandes deseos y favorecían al Padre en todo lo necessário, y principalmente el capitán, y feytor. Esta tierra es mucho despuesta para se hazer mucho fruto nella, ansy en la conversion a la fee, como en los portu- geses en que aora a mucha emienda. Allá vereis cartas sobre este collegio más largamente, porque el deseo de Fray Antonio es que quedasse todo a la Companía, y ansy lo escriven largo a el Reyno. En Chalé, que es una fortaleza dei Rey, se a de dar presto prencipio a una casa; es ya mercado un llano acerca do un rio, el meyor lugar desta tierra, donde empesarán los hijos de los que se convertiren en el Malavar. Esta cuesta es muy cerca para se hazer grande conversion, es mucho 33 1
barata y sana, y de muchas agoas y árvores. A S. Thomé tiene el Padre embiado recado a Cypriano que ordenase alguna casa, por ser muy acepto en la tierra, y lo tener en mucha cuenta; fué para predicar, y aquy en este collegio hizo dos sermones: es buen predicador, y perdíasse grande fruto que por el predicar haze, por tener muchos fervores con su cólera que es necessária para estas partes, adonde se no usan muchas branduras: y para tal caso es menester hombres exprimentados como los a allá, ultra las letras, lengoa y buen concerto. Dos destos collegios que digo tienen renda para 100 estu- dantes. Los collegios nuevamente ordenados no tienen obli- gación de muchachos, y púedese hazer la conversion de manera que pueda aver Hermanos de la Companía recogi- dos y sin destraimientos con la gente de la tierra hasta que puedan obrar. Estos moços de la conversion aprienden a leer y escrevir y otros gramática, y en quanto estes alcansan saber nuestra habla, pueden saber los Hermanos su lengoa, y ansy harán fruto seguro con la aiuda de Jesú. Tiene este collegio de Goa de renta 4.000 cruzados: scilicet 1.500 de las tierras de los pagodes y mesquitas que los gentios y moros veneravan y tenían la renta delias para sus mesquitas deputada, y más 300 cruzados de renta en la tierra firme, y 2.000 cruzados aora confirmados por el Rey, y todas las dádivas que los moros, gentiles embían a el Rey y a la Reyna de presente, que el anno passado ren- dieron 1.000 cruzados y otras muchas mercedes. El de Basaín tiene 1.000 pardaos: es este Basaín muy barato, sano, fresco y de muchos palmares. Tiene muchos edeficios en penas solapada [s] por debaxo, en que están hechas mesquitas grandes, abovedadas y pilares y capillas en la misma pena echas, y cisternas muchas y de mucha buena agoa; son estos unos edeficios mucho para ver. En una isla en fronte de Baçaín, legoa y media de rio que se atraviesa, 33 2
a una yglesia de nuestra Seiíora, donde avrá 400 christianos y vienen muchos dellos a ella al domingo e la missa y doctrina, toda en pena de la manera que digo dos otros edifícios. Es de gran capacidad y con 4 capellas, donde hize algunos christianos y otros casey, unos poços de dias que ally estuve, y ansy lo haze el Pe. Melchior Gonçálvez. Esta gente mantiénese con un bazaruquo, que terná 8 sen- tiles. Son los deseos aquá tantos, charíssimos Hermanos, de la Companía, que en toda parte que van los ofrecen el necessário. Los que se aquá reciben an de se hazer despacio, y no harían poco los que de allá veniessen en solamente ensenar los que reciben, quánto más aviendo tanto en que se exercitar la charidad; y se hazen aquá obras de tanto ser- vido de nuestro Senor con solo aver el P. Antonio Gómez, quánto mays se fará avendo outros desta calidad que salies- sen al campo, abrazarían la índia toda. Espérance ya qua cad'anno Padres y Hermanos de la Companía como cosa que les importa la vida; y para satisfazer a los que me pre- guntavan si venían alguns dei Reyno, dezíales que el Brasil y los captivos en Enfrica y otras partes, a las quales fué necessário socorrer, fué causa de se no poderen embiar este anno; y consolávalos diziendo que para el anno avian de venir muchos, y en estas esperança biven qua y bivimos. Por via destas cartas que traxeron los frayles, nos fueron dados unos pontificates en que nos mostraron cierto de venir patriarcha al Preste para el anno (6); los otros dei mismo teor, que vienen en la otra nave, no son ainda llegados. No fué este menos alvoroço de alegria interior por el mucho servicio que al Senor se hará y por los muchos de la Companía que vernán. (6) Esta notícia só se confirmaria em 1556, data da chegada do Patriarca à índia. 333
Los Hermanos recebidos en este collegio hasta el pre- sente, después que vino el Pe. Antonio Gómez (que dantes no se recebi an), son 20; destos fueron 2 al Cabo de Comorín y uno fué a Coulam al Pe. Nicolao, otros 2 a Basaín, los más están aquy en este collegio. Destos se ordenaron dos de missa a la fechura desta; este domingo passado a 12 de Octubre, disse uno dellos missa nova por nombre Domingos de Carvallo, el otro es Francisco López, y a de dizir missa dia de las 11.000 Vírgines: Fueron ordenados en este colle- gio en 3 domingos por el Obispo. Entre estos Hermanos a grandes abilidades y deseos de padecer por el Senor. Estudian al presente Andrés de Carvallo, Alvaro Ferrera, Melo, Francisco de la Silva, Reymão Perera, Barreto, Araújo, Francisco López; de manhã, meditan, antes de jantar exa- men, al medio dia repiten las lectiones: los otros andan en officios de casa y dos están en los Exercícios. Las peregri- naciones se empiesan aora aquá desta manera: van en catu- res en pelotinos rotos demandando lymosna a los marineros que pasam de una parte para la otra. Estas tales peregrina- ciones, quanto es a lo que yo tengo visto, son más traba- josas en pequenas jornadas que las de Pena de Francia. Quanto de la conversion a la fee detreminan aora y trabaja el Pe. Antonio que se hechen desta isla de Goa los bramines, que es muy prejudicial generación para los gentios se convertieren. Siempre aquy se hazen christianos quasi cada dia, y ansy con la aiuda dei Senor se va haziendo obra para que sea toda esta isla Christiana. El Pe. Micer Paulo se occupa en esta obra de baptisar, y trabaja bien en confessar, y se occupa en el hospital de la gente de la tierra que es deste collegio; este estaa cerca desta casa. También entiende en las obras el Pe. Antonio Gómez, es solo y todo este peso carga sobre él: es necessário, charissimos, aber cudado espe- cial dél. Na parte mays secreta do interior haze mucho fruto y corrió muchos perigros, donde lo uvieran de matar 334
por vezes. La coresma passada deste anno hizo mucho fruto en esta ciudad con su doctrina, predica 3 ó 4 vezes en la semana, andando con otras muchas ocupaciones, ansy dei collegio como de fuera. Aora, después que llegó a esta ciudad, prosiguió con mucho fervor sus predicationes, scilicet en la Misericórdia a los mércules, y a los domingos en la see. Estava esta ciudad tam deseosa de su doctrina que bien lo mostravan los oyentes que venían a los sermones suyos; va desta manera ansy seguindo hasta tornar al Malavar. Son acaa necessários hombres versados en letras, doctrina y espí- ritu, y que prediquen por yr esta obra adelante, los quales no avrían ser dilatados para de dos en dos annos, mas cada anno, aunque no viniese más que uno para predicar, y otros exercitados en virtudes son aquá necessários. Jesú Christo os acresente, Hermanos charíssimos, en amor y virtudes para que de la fonte mane tal fruto a gloria de Jesú y augmento de su sancta fee, y a nos, que somos nuevos en este collegio, haga tales que recibamos de vos, charíssi- mos, en la doctrina y spíritu que no degeneremos de ser todos tales, que en toda parte parescamos hijos de Dios y hermanos de Jesú Christo nuestro Senor. Amén. 335
65 CARTA DO PADRE ANTÓNIO GOMES, REITOR DO COLÉGIO DE GOA, A S. INÁCIO DE LOYOLA Goa, 25 de Outbro de 1549 Documenta Indica, 1, págs. 518-523. A graça e amor de Jesu Christo seja sempre en nosas almas. O Padre mestre Siman no anno de 1547 me mandou a estas partes da India a ter carrego deste colégio de Sancta Fee. Porque hé rezam que a V. Reverencia, a quem temos todos tanta obrigaçam, se dê conta do muito fructo que Christo noso Redentor pola Companhia nestas partes obra, lhe apontarey en algumas cousas sumariamente, porque tudo vay largamente escrito en outras cartas que mandaram de Portugal a V. Reverencia. O Padre mestre Francisco aynda o achamos aqui, no que recebemos todos grande contentamento pola vida e perfeiçam que nelle vymos, o que conhece toda a índia. Partio-se daqui este Abril pasado de 1549 para Gepom, terra que há pouquo que se descubrio, que está desta cidade de Goa, donde estamos, 1.500 legoas, e muy dificultosa- mente se pode aver novas dele, por causa que nam vem senam huma vez no anno de laa. Esperamos todos que faça muito fructo, polo fervor e desejo que nele vimos: hé esta gente branca e terra fria. Oito Yrmãos estaam nas ylhas de Ambueno em Maluquo e fn} o Moro. Estam daqui 1.200 legoas. Há muita gente feita christã e faz-se muito fructo, e daqui os ey de prover cada anno do necesario, por ser terra muy esteril e desem- 336
parada; porque, ainda que todos elles estem mui adiante no spiritu e abnegaçam, hé-lhe tudo necesario, por ser a pior terra que há cá. Em Malaqua estam tres Yrmãos, hum delles prega e faz muito fructo nos portugeses, porque hé cidade grande e de muito trato; hé muy devota da Companhia polo muito fructo que se tem aly feito. Hé terra boa e farta, nam entendem os Yrmãos senam com christãos, porque nam há gentilidade ay perto. En a cidade de San Thomé, onde recebeo martírio, estaa o Padre Cypriano com hum Yrmam; prega muitas vezes e faz muitas amizades c [om] os portugeses. Hé cidade abas- tada, estaa de nós 250 legoas. Estaa Cypriano muito bem desposto e hé natural para esta terra, porque hé gente mui forte e estaa muy desacustumada de doctrina. No Cabo de Comorym estaam tres Padres e tres Irmãos: tem aqui feito muitos gintios christãos. Há lugar de 30.000 almas todas christãas; pode aver dozentas mil almas chris- tãas neste Cabo de Comorym, onde o Senhor por sua bondade e misericórdia, aalem da mercê que fez à Companhia, quis respeitar aos desejos e trabalhos grandes do Padre Antonio Cryminal, e coroá-lo de coroa de mar tire: nam nos chegou nenhuma alegria a esta, pois vemos que o Senhor se nam esquece de sua Companhia. A maneira e o modo como foy, de Portugal o mandaram a V. Reverencia, porque o escrevo largamente. Hé esta terra muy esteril quente; de cá os pro- veyo do necesario. Na fortaleza de Coulam estaa o Padre Nicolao: tem hum recolhimento dos moços malavares da terra, prega muitas vezes aos portugeses, e sobre case sempre estar doente, faz muito fructo; estaa com elle hum Yrmam. Este inverno pasado foy hum homem daqui a visitar os Yrmãos do Cabo do Comorym e ao Padre Nicolao para os remedear do que lhes fose necesario. Estaa esta fortaleza de Coulam Doe. Padroado, iv - 22 337
daqui cento e vynte e sinquo legoas, e o Cabo de Comorym á parte dozentas e á parte dozemtas e sinquoenta. À cidade de Cochym que hé a mor cousa que há nestas partes, tirando esta cidade de Goa, cheguey este inverno pasado, e o capitam e povo ordenaram hum colégio para a Companhia: chama-se o colégio da Madre de Deus; tem huma fermosa e rica ygreya. Estaa esta cidade daqui cem legoas e no amego da índia; ay carregam as naos de pimenta que vaam para Portugal, e todos os que vam para estas partes que nomeey dantes, por aqui pasam, e hé escala de toda a índia. Aqui en Goa estaa este colégio de Santa Fee muy grande e nobre; tem quatro mil cruzados de renda que El-Rey noso senhor lhe manda dar. Estamos aqui vynte e tantos Irmãos da Companhia. Os moços da terra saam muitos e estam à parte. Os mais dos Yrmãos começam agora d'aprender gramatica. Tem já andado en ofícios, e, exercitados dan-se muito à oraçam. Espero en Deus que antes de muito tempo sejam para fructificar: ay boons engenhos e abelidades, e os mais saam de nobre casta. Nam samos mais, porque os que vem cá de Portugal saam ignorantes todos: temos muy grande trabalho com elles; e avya muita necesidade cada anno de mandar V. Reverencia os mais que pudese ser, ainda que novamente fosem entrados, contanto que fosem latinos, porque aqui no colégio se provariam. Tem muita renda, e os governadores fazem muita esmola a esta casa, tem grandes edificios e obras; nam nos falta mais que gente, porque daqui se an de prover todas as outras partes, mor- rendo os Yrmãos que estaam nellas; e numa cidade como esta, que hé a cabeça da India, tam populosa, nam se es- cusam doze, treze Padres, nem creo que poderam comprir com a devaçam do povo. Doutra parte estaa a fortaleza de Baçaym, que está daquy 72 legoas, mais abastada terra que há cá. Ay estaa 338
hum Padre noso e hum Irmão num colégio que agora nos deu o Governador, e mandou que se mercase por mill e trezentos ducados; tem de renda todolos anos 800 cruzados, e por nam termos gente, o nam povoamos, e se gasta esta renda com pobres. Cá há muitos que querem entrar na Companhia, mas nam sam para yso por serem muy ygno- rantes. Em Urmuz, que hé cidade, está hum Padre muy afervo- rado, e tem muita graça no pregar. Estaa esta terra daqui 500 legoas, confina com Arabia e Persia, terra de mouros. Não tem necesidade de nenhum provimento daqui, porque as cousas que há en Europa tem esta cidade, e tem o veram e inverno de lá, o que nam hé en todas estoutras terras. Esta conta quis dar a V. Reverencia para que vise minhas necesidades, e quam pouquo sou para poder satisfazer com tudo ysto, e para que en seus sacrifficios e orações se lem- brase de mym, e mandase os Padres e Irmãos que tevesem cuidado diso, porque saam tantos os trabalhos e ocupações que cá há, que nam acho para mym onde me posa mais seguramente arrimar que em em lembrar dos da Companhia de Jesus. Eu por todos peço a V. Reverencia que nos escreva cada anno, porque com suas cartas receberam todo- los Yrmãos muita consolaçam. Noso Senhor conserve a V. Reverencia en sua graça. Feita a 25 dias do mes de Outubro de jbcRix (1549). [Manu propria:] Servo, Antonio Gomez. 339
66 CARTA DO PADRE ANTONIO GOMES A D. JOAO III Goa, 25 de Outubro, ou um potico depois, de 1549 Documenta Indica, 1, págs. 524-532. Senhor Este anno pasado escrevi largamente a V. A. cerca de la cristianidad destas partes y dei crecimiento deste collegio, y ansí mismo del fructo que los Padres de la Companía de Jesus hazían; y de hun anno aquá muestra Dios por su mysericordia los cuidados grandes que tenia de la con- version desta tierra, y da bien a entender que en el de [s] cobrimiento que hizo a V. A. destas partes, pretendió traer a su conocimiento estas gentes tan apartadas de su fee y doctrina, lo que sabiendo V.A. todo el tiempo pasado, y aora mucho más, embía hombres que co [n] su vida y exemplo y letras traían la gentilidad a conocimiento de Christo nuestro Redemptor, sacándola de los hierros manifiestos en que estaa con asaz pertinácia acostumbrada; con este favor y aiuda va esta obra en tan crecimiento, que da mui cierta esperança de se hazer mucho en ella, y mues- tras evidentes de la multiplicación y augmento deste edeficio spiritual, y juntamente con este pone el Senor neste su negocio tanta aiuda y favor, que parece determina restaurar nestas partes la perdida que la Iglesia suia tiene recebida en otras (1), y renovar lo que el enemiguo por otras partes (1) Refere-se às nações europeias afastadas do seio da Igreja pelo Pro- testantismo. 34°
por nuestros descuidos y negligencias tiene destruído; por- que allende de inspirar y muchos averen venido a recebi r el baptismo, tiene hecho merced[en nuestros tiempos desa- costumbrada] a esta tierra en querer que viese quien por su homrra y gloria aceptase la muerte; porque sé quánto contentamiento V. A. recibe de saber tales cosas, que son de tanto servido de Dios y exemplo para bien bivir, seré largo en las contar. «Ay cerca de quatro annos que el P. Antonio Criminal doctrinava los cristianos dei Cabo de Comorín, que son los más y mejores que acaa ay; con ellos pasó muchos tra- bajos que en los princípios no se pueden escusar, con muy amenudo aver guerra que los reis comarcanos hazían; mas la mucha constância y deseo de la salvación daquellas almas, todas estas dificuldades hazían fáciles; allende desto la tierra es estéril y carece de los ma [n] tenimientos necessá- rios. Tenia él a su carguo visitar setenta y tantas legoas de costa, para ver la necesidades que avia y remediadas lo mejor que pudiese. Estando en los baxos de Remanancor, donde ensehava [los] nuevamente convertidos, vino mucha gente d'armas del rey de Bisnagá d'emproviso; y pudiendo seguramente acogerse a unos navios, a los quales le aconsejavan que fuese, quiso más, quedando, perder la vida, que, salvándose, ver morrir y cativar los que él con tanto zelo baptizara, y con tanto amor instruiera y doctrinara en la fee: olvidado de si, aunque muy lembrado de la charidad, dava prissa los ninos y las mugeres a se embarcaren; y viendo que los enemigos de la fee entravan, se fue lleno d esperança de immortalidad poner de rodillas con las manos llevantadas delante dellos. No lo hizieron otro mal que tomarle el bonete; y poco después veniendo más gente, se puso de la misma manera y estando para le mataren, no lo hizieron. Llevantáranle y pasaran adelante, y luego vinieron otros
badegás; y el Padre, encendido de padecer antes de ver los suios morir, se puso de rodillas con las manos llevan- tadas, y uno de una toca, que se sospecha ser moro, le dió una lançada por la parte esquierda. Juntamente acodi- ran otros a echar mano a la veste, queriéndosela despir; él, como quien ni aquello dei mundo queria llevar, echó mano al cabeçón y aiudóles a despilla, y también le despe- daçaron la camisa. Quedó el hombre santo en ceruellas asy herido, mas más dei amor de Dios, y corrió a la iglesia, donde aquel dia mismo tuviera el Hijo de Dios en sus manos; y iendo ansí, corrían a sus espaldas en pós dél, y si [n] tiéndoles venir y virándose, le dieron una lançada por los pechos; a esto se puso de rodillas como dantes y, sacando la lança, segió su camino para la iglesia. Vino otro badegá y dióle otra lançada, y el Padre, no se olvidando de la costumbre que tenia, se puso de rodillas, porque ansí lo hazía todolos dias viente y trienta vezes, teniendo oración mental breve. Caiendo en este comenos de hun lado, le cortaran la cabeça, no se sabe se estava bivo, y colgáronla en un alto, con la camisa espedaçada y llena de sangre. Este fué el fin que tuvo, y merced grande que hizo Dios a él y a nosotros; y sin duda que, cuia vida era tan perfecta en abnegación de si mismo, no podia dexar de tener tal fin, porque era muy continuo en la oración y vida activa; ninguna cosa le empedía una la otra, mas así cumplía con cada una como que no se ocupase en más. Asta ora no sabemos otras nuevas». Tomaré a carguo que las reliquas, que dél se allaren, se guarden, pues el Senor a la Com- panía de Jesus quiso dar tan gran tesoro. Nestas naves embió el P. M. Simón una provision de dos mil cruzados, de que V. A. hizo esmola y merced a esta casa; todo esto es ajuntar obligaciones, más de las que tenemos, para encomendar a V. A. en nuestros sacri- fícios y oraciones. La casa tenia necesidad de todo, por aún 342
no tener las obras acabadas, y más tener gastos con el hospital de la gente de la tierra que tiene, ultra de los muchachos, que son muchos, y los de la Companía que están aqui aprendiendo letras y virtudes para sopliren en los lugares de los Padres que sucederen morrer. De Por- tugal no puede acudir tanta gente que baste a tan gran empresa como tenemos tomada, porque con los Padres estaren en todas las fortalezas de V. A. contínoos en las predicaciones y confesiones, excepto la fortaleza de Dio y de Chaul, también están despazidos en Japón y en las islãs de Ambueno y en el cabo de Comorín, y por eso es necessário aver aqui Hermanos de la Companía, y rece- bérense los que fueren aptos para poderen acudir a estas prisas, y de todo dará larga enformación el P. M. Simón a V. A. Tiene necesidad este collegio de Santa Fee de hun reloges, y de otro la casa que se ordena en Baçaín. Cosme Anes nesta obra aiuda mucho, como en todas las otras de servicio de Dios. Este anno pasado llegando él a Chalé, y teniendo ia noticia de los deseos que el rei de Tanor tenia de ser christiano, se vió con él, y después de le dar razones quánto servicio a Dios y a Vuestra Alteza haría en se convertir a la fee, quiso Dios por su misericór- dia y bondad moverle a recebir luego el agoa dei baptismo. Estuve cinquo meses con él en el Malavar, doctrinándole y ensennandole el Pater noster y mandamientos: es hombre de buena prudência y saber; a lo que muestra, no pretiende más que salvación de su alma. Espero en Dios que sea ocasión a muchos reis dei Malavar se hazeren christianos, porque sin él ser descubierto, me dió el rei de Chalé y el rei de Chetua cartas para el Governador, y que no esperavan más que el descobrimiento deste rei para tomaren osadía de se hazer christianos. Es este Malavar muy aparejado a recebir doctrina por seren gentiles y teneren mucho comercio en las fortalezas 343
de V. A. Anduvo allá este invierno Garcia de Saa, sobrino dei governador Garcia de Saa, que Dios tiene en gloria, con cinquoenta y tantos hombres, donde Ilevó bien de trabajos por la tierra estar de guerra. Devia V.A. hazerle merced respeitando los servicios que le hizo, de que yo soi buen testiguo. Em Baçaín tenia V. A dado para la conversion de los gentiles tres mil pardaos, y porque la administración dellos no era propria de los frailes de la Piedad (2), a ruego dellos fué allá hun Padre nuestro para despender esta limosna con los nuevamente convertidos. Socedió que este anno embió el General que los frailes de la Piedad, que quá estavan, estuviesen debaxo la obediência dei custo- dio de la Observância; y porque él quiso entender en la administración, nos concertamos que la mitad despendesen los Padres de la Companía en las necesidades de los cristia- nos de la tierra, lo que pareció bien al vuestro governador Jorge Cabral, por la tierra ser grande y desta manera se poder hazer más fruto, y V. A. quando hizo donación destos tres mil pardaos, que fué quando vino Migel Vaz, mandava que estuviesen allí Padres nuestros; devíanos de mandar la confirmación deste concierto, que uvvo por bien el Gover- nador, y otra confirmación de las casas y llano que hizo comprar a las custas de V. A., donde está el collegio que se llama de Jesus. Tiene necesidad esta casa de hun retablo. Cosme Anes haze mucho servicio a V.A. en su cargo, y por las lembranças que hizo el governador Garcia de Saa de vuestro servicio fué mui vexado. Tiene gran cuidado deste collegio como quien le empeço y principio: y aunque no fuese para más que para sustentar esta obra, le devia V.A. dexar quedar nesta tierra. Aiudó mucho a se hecha- (2) Por motivo do rigorosíssimo voto de pobreza a que se haviam vinculado. 344
ren los bramenes fuera, aunque neso el governador Jorge Cabral muestra gran voluntad, como baze en las otras cosas de favorecer a religiosos y prover y acrecentar la cristia- nidad; es mui fácil a aparejar los negocios de servicio de Dios y de V. A.; parece que con la governación le credo el deseo de servir y prudência para regir. El Obispo aiuda mucho con el favor y limosnas a los que nuevamente se convierten. Trae la clerezia mui bien acostumbrada, y con su vida y exemplo nos ensena a vivir bien; y los que merecen castiguo, dáselo, mirando más la justicia que no el favor humano, por así ser necesario. Trae la see mui bien ordenada y servida. Es mui amiguo desta casa y la visita y favorece. Estos dias pasados vino aqui dar ordenes a algunos Hermanos que se ordenaron por vezes, crismo aqui al rey de Tanor, y porque los gastos de quá son grandes y la renta es poca, devia V. A. respectar sus trabajos y edad, por en él caber bien toda merced, porque la gasta bien. El daián desta see (3), por no tener orde- nado como tenían los otros canónigos, le dió el Governador quatro mil maravidís más para le ygualar con los otros; pido a V. A. que le haga merced de la confirmación dellos por lo él merecer y ser hombre que bive bien y honesta- mente. El tesorero, que se llama Ruy Lopez, será hombre de 70 anhos, tiene mucho servido nesta tierra; no quiere más de V. A. sino que lo tome por su capellán sin más ordenado para su contentamiento y honrra; pido a V. A. le aga esta merced. En Baçaín hizo V. A. merced para la conversion de los cristianos de três mil pardaos; no le dan aora más de dos mil, por así quereren interpretar la merced los feitores y capitanes. Ia que V. A. tiene en las tierras de Baçaín (3) Era o P.e João Alvares. 345
mucha renta, devia mandar que estos mil pardaos que dexan de dar, los diesen al collegio que ay está de la Com- panía para se socorreren las necesidades de la gente de la tierra, que es muy pobre, en lo que recebiremos merced y limosna, y nos obligará a tenermos más cuidado de le encomendar a Dios, y rogar por el estado y vida de V. A., a quien todos los de la Companía en especial somos obliga- dos, pues no contento de hazer y sostentar el collegio de Coimbra, nesta parte tiene ordenado este collegio donde con la aiuda dei Senor se haze mucho fruto y se espera mui maior. Nuestro Senor dé a sintir a V.A. su santa voluntad y aquella complir. 346
67 CARTA DE D. JOÃO DE ALBUQUERQUE, BISPO DE GOA, A D. CATARINA, RAINHA DE PORTUGAL Goa, cerca de 20 e 25 de Outubro de 1549 Documenta Indica, I, págs. 533-548. Senhora. Pois que V. A. me encomenda e manda que lhe escreva sempre, e que nunca os negocios e occupações que tem podem ser tan grandes que não lhe fique muyto tempo pera nelle folgar de ver minhas cartas, principalmente por serem ellas de taes materiais, isto me daa ousadia e tanbem o vivo amor, que Su'Alteza tem en suas entranhas en Christo, a escrever larguo, do qual V. A. guostará e receberá conso- lação spiritual, e todo na verdade como passa. Do collegio de Sanct Paulo, situado nesta cidade de Guoa, liguo dos Padres portugueses da Companhia de Jesus, há haydo e sae mayor fruito pera a conversão dos gentios à fee catholica de Jesu Christo, e pera salvação das almas dos portugueses con preguações, confisões e boons exem- pros que de outra parte da India, e vay de bem en milhor, porque dos Padres deste collegio estão tengidas todas estas partes, assi como en Egito forão tengidos todos os postes e lumiares das portas dos filhos de Isrrael com o sangue do cordeiro: Maluquo, Morro, Amboyno, Macaçar, Japão, onde foi o Padre mestre Francisco o ano passado com dous com- panheyros, Malaqua, a povoação de Sane Tome, Coulão, Couchim, Guoa, Baçayn, Horomuz, donde o Padre que laa estaa, per nome mestre Guaspar, me escreveo aguora com hum navio, o grande fruito que la faz en portugueses e enfies. Tanbem me screve que tremeo laa a terra grande- 347
mente he spaço de meo quarto dora, polo qual andão ame- drentados todos os portugueses, confesan-se e comungan-sse, a quem mays asinha pode, de maneira que todo o ano hé Coresma quanto aos sacramentos, e achamos estranho isto, scilicet nestas partes tremer a terra, porque de todos os mouros e gentios muito velhos nam se acha entre elles que[m] se lhe acorde aver tremido a terra, nem avê-llo ouvido de seus pays e avoos; e assi estão os Padres no Cabo de Comorin. Por estes Padres que diguo, que andão en todas estas partes, as ão tengido com o sangue do cor- deyro, que hé com a fee catholica convertendo aos infiês, bauptizando, trazendo-lhe à memoria a paixão de Jesu Christo, que hé o verdadeiro cordeiro, as quaes douctrinas en tempos passados eram muy apartadas dos corações dos gentios. Neste anno presente teve por bem Noso Senhor que hum Padre desta Congreguação de Jesus, por nome o Pa- dre Antonio, italiano, foy martirizado no Cabo do Comorin de huns gentios, que se chamam a sua casta os badeguás, vasallos d'el-rey de Bisnaguá. A maneyra como foy marti- rizado, seus companheyros que ficarão vivos, mo escreverão por sua carta, e abaixo asinarão seus nomes, e a carta hé a que se segue (l). Deve V. A. dar muitas graças ao Senhor Deus, pois que en seu tempo e vida, e en partes tam remotas sugeitas a V. A. no spiritual e temporal, acontecen batalhas tam espirituaes. E pois que jaa comecey, outro mistério a este casi igual, hé bem que lho rellate; ainda que outros cronis- tas o escreverão ao Reino, nam yrá tam meudamente nem tanto na verdade, e hé que hé el-rey de Tanor christão e (1) Refere-se à carta dos Padres da Pescaria a narrar o martírio do P.e António Criminal e atrás publicada. 348
bautizado, nosso vezinho, e passa desta maneira: Desde sua mocidade teve este rey huma afeição aos portugueses grande, e sempre os favoreceo enquanto pode, e há mais de dez anos que traz vontade de ser christaão, mas esta vontade remissa e coverde. Passava o Padre Fray Vicente de Guoa para Cochin e hia-lhe fallar, e assi lho encomendava cada vez que vinha a esta cidade. Folgava muito de vê-llo e ouvi-llo quando fallava o Padre de cousas da fee. Averá hum ano que mandey hum Padre a Chalé por vigairo, o qual Joam Soarez se chama. Sobretudo lhe encomendey que visitase muitas vezes ao rey de Tanor; teve elle ese cuidado. Averá oyto ou nove meses que vinha Cosme Anes, veador da fazenda, de fazer a carregua de Cochim, e entrou na fortaleza de Challe. Forão a ver este rey o dito veador da fazenda Cosme Anes e o capitão da dita fortaleza de Challe, que se chama Luys Xira Lobo, e o Padre João Soarez, vigá- rio, por estar perto Tanor de Chalé. Aprouve a Noso Se- nhor de dar graça a el-rey que se fez christaão, e o baptizou o Padre vigário João Soarez, e forão seus padrinhos o vea- dor da fazenda e o capitão Luys Xira Lobo. Preguntou el-rey como chamavão a El-Rey nosso senhor. Diserão-lhe que don João. Respondeo elle então que lhe pusessen aquelle nome na sua christandade, e chama-se aguora don João, rey de Tanor, e assi se asigna en suas cartas. Isto fez-se christão ocultamente, e traz sua linha como bramene e os sinaes esteriores como antes que fosse chris- taão; mas traz hum crucifixo ascondido no peyto, de metal, que lho deu Frey Vicente. Diz agora que faz aquillo atee que converta os principaes dos seus nnayres, e que então se pubricará por christaão, e que isto faz nam por cobiça do reino, mas por convertê-llo todo à fee de Jesu Christo; e com os principaes nayres trazidos à fee pouco a pouco, quando elle e elles se pubricarem christãos, toda a outra gente nam se ousará alevantar, porque ho reino nem hé 349
seu por erdança, hé dum seu irmão mayor que elle, e elle reyna por elle, por ser o mayor nam capaz de siso que convenha pera reger. Amostra-se en suas palavras este rey muy firme na fee e en as cartas que escreve. Como se bauti- zou, eu lhe escrivi huma carta notada o milhor que eu pode, esforçando-o en Nosso Senhor Jesu Christo e na sua fee. Elle me respondeo esta que se segue: Trelado da carta que el-rey de Tanor me respondeo a huma minha. Diz assi o sobreesprito: Ao muy R.d0 Bispo da índia, meu prellado. Muy to R.d0 Bispo da Yndia, meu perlado. Don João, rey de Tanor, ora novamente feito christão pola graça de Deus, faço saber a V. S. que vi huma sua, por- que me fez a saber o grande contentamento que tem de eu vir ao conhecimento verdadeiro, que hé a fee de Jesu Christo, en que eu creo. Pello contentamento que disso tem, fiquo eu ainda eu muito mais contente e inflamado na fee dos christãos, que eu sempre de muitos annos a esta parte desejey, atee que me Deus fez tam asignada mercê. E de me fazer christão ocultamente, recebi eu des- gosto por as cousas que o veador da fazenda lhe laa diraa, e o capitão da fortaleza de Chalé e o Padre vigário lhe podem escrever, os quaes forão presentes ao recibir do bauptismo, os qua [e] s muitas vezes me encitarão a o fazer, porque Deus foi disso servido. E o arreceo que daqui tinha era nam saber a vontade de V. S., a qual aguora vejo tan boa e tan virtuosa que spero en Deus que m'esforce en muita perfeição, como eu desejo, que hé magnifestar minha christandade; e para isto assi ser, encomende-me V.S. a Deus, e assi o mande a todos los seus cleriguos da índia que en suas igrejas fação memoria de mi, porque ja aguora estou prestes pera pelejar por a fee de Christo con todo meu reino e estado, o qual espero en Nosso Senhor que 35°
cedo o verey todo christão. E peço a V. S. que com o guover- nador me queira favorecer, e eu assi o spero, pois ahi há tanta ra2ão pera iso, pois que todos somos irmãos en Christo; e pera se isto mais asinha magnifestar, será necessário a vinda de V. S.a e do Guovernador. Folguaria muito que V. S. mandasse hum Padre dos apostolos pera ajudar ao Padre vigário João Soarez que tanbem são eu muito con- tente que se faça loguo huma igreja en Tannor pera se dahi ir começando a obra que eu tanto desejo; e eu o disse ao vigário que loguo a fizesse, que eu daria toda a ajuda e favor pera se fazer, e elle me disse que não podia fazer nada sen mandado de V. S., que já lho tinha sprito. Aguora faça V. S. o que lhe parecer mais sirviço de Deus. Eu disse ao capitão Luys Xira Lobo que escrevesse ao Guovernador que me mandasse alguma gente pera este inverno, a qual estará na fortaleza de Chalé pera quando me comprir, e assi outras cousas que me pertencem pera estado de rey christão, as quaes todas vão per apontamentos do capitão ao Governador. Peço a V. S. que nisto e en tudo me ajude, e eu e todo meu reino sempre fará o que V. S. mandar, a que [m] N. S. acrecente vida e estado a seu sancto sirviço. Sprita en este reino de Chalé a vinte e oito de Março de M.D.XLIX. anos. Como esta carta li d'el-rey de Tanor falley com o Pa- dre Antonio Guomez do collegio San Paulo, e lhe roguey muito que fosse ao rey de Tannor pera com o vigário João Soarez esforçar e ensinar a douctrina christaã, e assi lho pedio o Governador, que então era Garcia de Saa. Elle quis yr e foy, e llevou charamellas e trombetas e sesenta portu- gueses, dos quaes hia por capitão outro mancebo fidalguo, que se chama Garcia de Saa, sobrinho do mesmo Gover- nador; e fez o Padre Antonio Guomez e o vigário com o Padre Frey Vicente, que acudio a isso, huma igreja pequena J5 1
d'ola, que são folhas de palmeira, e o ensinavão a douctrina e a fee. O dito rey vem de caminho já pera esta cidade de Guoa, onde está todo o mundo alvor [oç] ado pera o receber, e daqui o Governador e toda a fidalguia e eu o avemos de tornar ao seu reino. Frey Vicente bauptizô a sua molher, e lhe pos nome dona Maria e os casou de novo, mas todo ocultamente. E antes de sua partida me escreveo o mesmo rey huma carta que diz assi o sobresprito: Ao muyto R.d0 Bispo da Yndia, meu perlado. R.d0 Bispo da Yndia, meu perlado. Eu don João, rey de Tannor por la divina grada, nam escrevo esta a V. S. pera mays que pera lhe dar conta de minha vida, e quanto desejo tenho de o vep Eu spero com ajuda do Senhor Deus tanto que o Guovernador me mandar reposta de huma carta, que lhe escrevo, me partir loguo en certos navios que ho capitão de Chalé me faz prestes, o qual fiqua comiguo neste reino. Faça-me tanta caridade que rogue a Deus por mim, que certo tenho muitos contrastes e des- guostos por ser christão, mais todo sofrirey por amor do Senhor Deus, aynda que seija fiquar hum pobre irmitão. E porque dizer mais disto aguora nom serve, pois Deus conhece os corações de todos, me calo, fiquando muito desejoso de o ver, a quem Nosso Senhor acabe en seu sancto serviço. Deste Tannor, oje quatorze d'Agosto de m.d. xlix. annos. Ho guovernador Jorge Cabral nesta conjunção fez con- selho, onde se ajuntarão trinta fidalguos e o Padre custodio, e assi os veadores da fazenda e letrados e eu estive presente. O conselho era se seria boom o Governador yr a Tannor. 552
Determinou-se de todos que si, pera honrrar este rey e pô-loo como merece. Ali também se tractou que trazia linha, que era oculto. Eu propus que se podia fazer por aguora, e que podia el-rey de Tannor trazer aquelles sinaes esteriores de bramene, tendo seu coração firme na fee e creendo en Jesu Christo, allegando-lhe a sagrada espritura pera iso, que Joseph ab Arimatia era dicipulo de Nosso Senhor, nam apostolo, isto escondido e oculto, do qual diz sant Matheus e san Lucas que hera varão justo e bom; e assi Nicodemos e Guamaliel que o tinhão dentro no seu coração, que hé crer en N. S., escondia £mj -no por de fora por medo dos judeus; e assi os apostolos depois d'acensão de Nosso Senhor Jesu Christo, aynda que crião nelle, por de fora nam no mos- trava [m] aquelles dez dias, mas antes atranquados dentro numha casa estavão bem fechados por medo dos judeus, atee que veo a plenitude da graça do Spirito Santo, segundo se diz nos Auctos dos Apostolos, e sant Sebastião, cavalleiro, que sirvia aos emperadores, era christão en seu coração, e por de fora andava vestido de vestiduras c [1] amide, que era huma roupa que trazião os cavalleiros à usança de aquelle tempo, mostrando huma cousa por de fora e tendo outra no coração, onde cuydão todos os gentios que era cavalleyro gentio, pois que trazia vestidura esterior como elles; mas fazia-o sanct Sebastião por este fin, porque simu- lando entrase nas casas e cárceres, onde estavão os mártires, pera sforçá-los na fee e pera guanhar muitas almas a Christo Nosso Senhor, até que veo o tempo que se amostrou chris- tão por de fora, rompendo a vestidura militar e fiquando de vestidura de christão. E dixe-lhes: assi hé en noso caso de don João, rey de Tannor, que por de fora anda vestido como os outros e en seu coração traz vestida a fé catholiqua, por este fin, por converter muytos grandes e nayres de seu reino; e quando vier tempo que tiver convertidos aquelles Doe. Padroado, iv ■ 23 353
que lhe parecer que abastão pera ter seu reino senhoreado, quebrará a linha de bramene, e romperá as vestiduras velhas, e ficará vestido de vestiduras de christão, que hé a portu- guesa, assi como fez o cavalleyro sanct Sebastião. Folguarão de ouvir esta pratica, e paresceo-lhes bem; e algum, que tinha oppenião ao contrayro, fiquou desta. A veynte e dous dias do mes de Octubre deste ano de 1549 chegou a esta cidade o rey de Tannor con fustalha. Vinha por capitão destas fustas, que erão sete ou oyto, don João Lobo que enviou o guovernador Jorge Cabral en busqua delle; e o capitão desta cidade, don Francisco de Lima, e muytos fidalguos con muitos catures e fustas enbandeyradas e trombetas e atabales e charamellas o forão a receber à barra e o trouxerão a huma casa que stá fora da cidade sobre o rio grande, que são de Antonio Pessoa. Ali repousou aquella noute, e polia menhãa vestiram-no à portuguesa de honrrados e riquos vestidos, e huma espada cingida muy riqua, e huma adaagua riqua, e huma cadea d'ouro, pantufos de velludo preto, guorra de velludo preto com huma estampa, e isto pera entrar na cidade. Entrou pello rio arriba com fidalguos e com o capitão da cidade, desparou a artilheria que estava pello rio arriba posta por ordem, veo assi atee o caes da fortaleza, desparou a forta- leza toda sua artilheria que parecia que se afondia esta cidade, chegou ao cayz o Guovernador e todo o mundo. Desembarcou el-rey; levarão-no debaixo de paleo, que era de veiludo carmesin, e as franjas delle erão de retrós ver- melho, as varas douradas, muitas danças, momos, ciganas e outros baylos à morisqua polia Rua Dereyta barrida e aguoada e junquada, toda a rriqueza que avia na Rua De- reita posta pellas janellas. Os sinos da see e de todas as freguesias se repiquarão, e assi os estromentos d'El-Rey nosso senhor, que quá há, e trombetas que el-rey trazia à sua guisa. Fora da see estava 354
por orden toda a clerezia desta cidade, e o cabido, e as Ordens Sam Francisco e Sanct Dominguos, os Padres do collegio de São Paulo, en procisão con suas cruzes allevan- tadas e eu en pontifical, que tomava a procissão desd'a capela da see e todo o terreiro do Sabaio, e eu com hum crucifixo às costas, muy devoto, grande de vulto, de pao, esperando aly a el-rey, que ver a procissão e modo como estávamos era pera quebrar os corações, aynda que forão pedras. Chegou el-rey e o Governador, e era tanta a gente de portugueses e christaãos por telhados e janellas e esqua- das que el-rey e o Guovernador hião casi no ar sem poder bollir-se. Chegou el-rey, beijou o crucifixo con muita devo- ção e o abraçou consiguo. Este abraçar virão poucos por ser muyta gente; e eu, que lho dey, o vi. Demos volta pera a see e con tam solemne procisão e muy suntuoso e honrrado recibimento entramos polias portas da see cantando Te Deum laudamus, a qual estava ornada como compria. Erão as dez e mea do dia, fazia muita calma, vinha el-rey muy cansado e todos. Disse-se-lhe missa rezada. Elie assentou-se numha cadeira d'espaldas num estrado, almofadas de velludo, e o Governador a par delle à mão esquerda. Beijou o avan- gelho el-rey e assi a paz. Acabada a missa, que era jaa tarde, com a mesma suntuosydade o levamos a casa do Governador. Esteve descansando obra de mea ora aly, e não quis comer aly, levarão-no à mesma casa d'Antonio Pessoa o Governador e fidalguia a cavallo e elle num palanquin. A tarde de aquelle dia, que era vinte e tres do dito mes, quarta-feira, mandou hum recado el-rey ao Gover- nador que se queria ver con elle e comiguo soos. Foy eu diante e o Governador depois, entramos na camara onde estava el-rey, e chamou à entrada o Governador a don João Lobo que entrasse. Cheguamos onde estava el-rey, tirou a guorra e pôs-se de giolhos e pôs as mãos, e polia linguoa 355
me pidiou que lhe dese a beijar a mão, e lhe deytase a benção; eu refusava. Nunqua se quis levantar atee que lhe dey a mão, e lhe deytey a benção, e assentamo-nos todos quatro, el-rey, o Governador e don João Lobo e eu. Estava ahi a linguoa, começou a fallar el-rey dando muitos agradecimentos por bom estilo da honrra e ma- neyra como avia sido recibido; depois de aver dado os agradecimentos do recibimento durou a pratiqua quatro horas e mea. Achey-o muy prudente, capaz e homen assen- tado, e todas as calidades que cumprem a hum rey, sobre- tudo muy firme na fee e catholiquo; e quando faliava nas cousas da fee e de Jesu Christo, eu lhe vi correr as lagri- mas polas barbas. Tinha esta discrição: que as cousas que lhe comprião pera seu estado, e pedir mercês pera os fidalguos e gente portuguesa que o acompanhou en Tannor e veo con elle a esta cidade, falava estas cousas com ho Governador, e as cousas de su'alma e douctrina de sua con- ciencia afalava comiguo, e de tudo era testemunha don João Lobo. Direy aqui algumas que passamos sustanciês por nam enfadar a V. A.: o primeiro que me disse que hua das cousas principaes que o moverão vir a esta cidade, era desabafar sua alma e conciencia conmiguo, porque sabia que era seu perlado e cura de su'alma. Eu lhe respondi que o Gover- nador e eu estávamos casi embarquados para yr visitar e servir a Sua Alteza a seu reino, mas que Deus premetio e ordenou que elle tomasse este trabalho de cheguar a esta cidade, pera que vise geralmente o contentamento e con- solação que recibia toda a India en Sua Alteza se tornar christaão, que por ali entenderia quanto guosto e contenta- mento El-Rey nosso senhor receberia, quando en Portugal soubese estas novas, pois que seus vasallos tanto guosto tinhão. Repricou que elle que desejava muyto converter todo seu reino à fee catholiqua, e que elle soo era hum soo 356
homen e huma soo alma, que pera isto que convinha tornar a seu reino con linha e com os trajos que trazia, pera pouco a pouco convertir os principaes assi; e isto porque tinha hum irmão mais piqueno que elle, homem jaa, que lhe prometeo este seu irmão de ser christão con elle, e despois disto se lhe ausento e fogio; e se aguora elle entrar en seu reino, pubricando-se que hé christão e vestido como christão, arrecea que aquelle irmão motinará parte de seu reino, e que lhe ajudará hum reyzinho, o qual favorece a este seu irmão, e qu'este negocio impidiraa seus desejos, que não no faz pollo reino senam polias almas de seus vasallos, que espera en Deus que há de sayr muyto fruito. Respondi-lhe aquilo que escrivo a V. A. arriba no aponta- mento do que dixe en o conselho, quando se fallou na mate- ria deste rey, pois que era por aquele fin e que se podia fazer com boa conciencia. Pedio-me que, elle que era peccador e que offendia a Deus cada ora e cada momento, que lhe dese hum Padre confesor pera se confesar muitas vezes, que fose de linguoa malavar como elle, para estar sempre con elle en sua Corte. Eu lhe respondi dando-lhe os agradecimentos que eu era o que lhe avia de fazer aquella lembrança, mas que Sua Al- teza me levou a ventagem, pois tanto cuidado tinha das cousas de sua alma, e que o Padre Frey Vicente tinha tres relligiosos no seu collegio que eu avia ordenado de missa há dous annos, que erão muy virtuosos. Aquelle dia à tarde correrão touros e juguarão canas. Pedio-me que o crismasse o outro dia, que era sesta-feira. A vinte e cinquo d'Ouctubre à tarde foymos a crismá-llo ao collegio de San Paulo con muita suntuosidade en huma capella de San Geronimo dentro na horta, e parte-se amenhãa ou o outro dia pera seu reyno, e o Governador e eu con toda a armada depois dahi a cinquo ou seys dias tras elle. 357
Porqu'este navio está de caminho, e ahi muitas cousas mays que escrever, não deu lugar sua partida pera escrever mais larguo; polas naos prazendo a [o] Senhor Deus se escreverá o que aqui falta. Jesu Christo Nosso Senhor a vida e estado de V. A. por muytos annos con muita saúde, e d'El-Rey meu senhor, e do príncipe sobre todos muyto amado e quirido filho, a seu sancto sirviço prospere, e despois le dee descanso na gloria. De Guoa, a xxv de Octubro de m. d.xlix annos. Orador de V. A., o Bispo de Guoa. 35S
68 CONFRARIA DE NOSSA SENHORA DO ROSARIO DE GOA Goa, 25 de Outubro de 1549 Documento xistente no ANTT: — CC, I, 25-55. Mede 210x304 mm. Duas folhas, com um grande rasgão em ambas a impedir a leitura de muitas palavras. Muy alto e muy excelemte, muyto poderoso [■ M prymcepe el-rey Noso Senhor. O Juiz nos da comffraria de Nosa Senhora do Rosayro desta sua e sempre leall cidade de Goa fazemos ha saber al Allteza que nesta casa amtygua- memte foy o irmyda, e loguo em premcypyo se imeste frarya de homens leyguos, e se fazião em a di ofícios devynos em perfeyção e semdo yrmyda esmollas dos comffrades e dos fyes de Deus hera muy abastada de todo o necesayro, e pode aver anos que quer graça de Noso Senhor e ordenamça de vo o byspo Dom João de Allbuquerque, ordenou ha dita em freguesya e por ser obraa que se fez per nam de Vosa Alteza os comffrades e mordomos o com irão e ouverão por bem, e de presemte hasy o emos por bem, porque o povo desta cidade todo oso fumdamemto he servyr Vosa Reall Allteza e de asy o ser nos muyto presamos e temos gramdes comtemtamemtos, porque em esta parte avemos de fazer a vamtagem aos outros povoos, e ora polia casa ser fregesya e de muyta gemte omrada compryo de necesydade fazer-se mayor casaa, e asy he necesario mays ornamemtos e outras cousas que pertemcem e são necesa- ryas a dita casa, e aos hoficios devynos delia, e se derubou 359
toda a dita casa, e temos feyto outra de novo que hao [■ v ] presemte // a capella he de todo acabada e o corpo da casa esta acabado ate o madeyramemto, com huma torre muy forte sobre a porta prymcypall, e por falecer dinheiro cobrymos a dita casa o melhor que se pode fazer, ate que Noso Senhor e Vosa Alteza de sua ajuda pera a acabar de todo. O ano pasado escrevemos a Vosa Reall Allteza e lhe pydimos que ouvese por bem fazer merce a comfrarya de hum retabollo pera a capella de Nosa Senhora do Rosaryo, com as imagens e debuxos segumdo esta em a capella de Nosa Senhora do Rosario do Mosteiro de Sam Domymgos de Lysboa, ou como a Vosa Alteza parecer melhor. A festa da casa fa-se a quymze de Agosto, que he a festa da Asumção de Nosa Senhora; a grandura do retabolo vay neste papell como Vosa Alteza vera, e porque este requery- memto he espyrytuall, pera omra e louvor de Noso Senhor Jesus Christo, e da Vyrgem Gloryosa sua Madre Nosa Se- nhora, e pera esta sua casa, que he feyta e o da por freguesya polia ordenamça de Vosa Alteza a qu fiqua de Sua Alteza e os vygayros e benefycyados da sua dada e a elle devem de pertemcer e ndição comsemty- mos em nos tomarem a igreyja e não pera os perllados e asy o protestamos os ha Vosa Alteza que nos deso- bryge da obrygaç res samtos de Roma nem de byspos, e que Vosa Alteza seja a memte senhor, e posoydor da dita casa pera dar as vy yas he benefycios delle e esta he nosa temção poys de Vosa Alteza e o noso he seu. Senhor, sabera Vosa Alteza que ho custo de casa foy muy g porque esta em hum outeyro e compryo que lhe fesese de rador, huns bastyães, fumdados com gramdes a ses os quais se feserão com gramdes custos e f arunhou a obra e os tornamos a fazer de novo 360
vali despesa foy muy gramde e fycou a comffrarya muyto pobre e ho he, e não podemos sopryr a se fazer pera a casa huma cruz de prata, e hum pomtefycall, e huma capa ryqua, e porque estas cousas semelhamtes se não podem fazer, sem ajuda de Vosa Alteza, lhe pedymos por merce, por omra de Nosa Senhora, nos faça merce de nos pasar huma provysão pera o governador da Imdia e seus veadores da fazemda nos pagarem cada hum ano // cem myll reis de ta r0 soldo de Nosa Senhora, que lhe os fregueses derão e darão, ou ao que Vosa Alteza pareser bem, e que se faça tytollo na matrycolla pera darem esmollas a Nosa Senhora, o qual dinheiro sera pago aos mordomos da casa pera as obras dela e ornamemtos, e asy lhe pedimos que este requerymento de Nosa Senhora o não tome por opurtunação, porque ella, Nosa Senhora vos dara do seu bem e vos acrecemtara voso estado he dara paz em voso reyno e de hum vos fara cemto, e de cemto dez myll, e asy lho pediremos todos, e os sacra- fycios desta sua casa sempre teremos temção que tudo he por elle, he por suas cousas, e por estado de seu reyno e despoys por todos. Noso Senhor lhe mamde sempre a com- prymento a seus desejos, amem. Escrito em Goa aos 25 de Outubro de 1549. Diogo Lopes / Mellchior Luis do Quintall / Antonio Pesoa. 361
69 CARTA DO PADRE BALTASAR GAGO AOS IRMÃOS DE COIMBRA Goa, últimos dias de Outubro de 1549 Documenta Indica, 1, pâgs. 572-575. El-rey de Tanor, do Malavar, que atraz digo, entrou nesta cidade a 24 deste Outubro. Fizerão-lhe grande recebi- mento: ho Governador com todos os fidalgos o acompanha- rão até onde foy apousentado, e o Bispo com hum crucifixo nas mãos em pontifical e a cleresia e Ordens de São Fran- cisco e São Domingos, em procisão, sairão a o receber fora da sé e, chegando, lhe diserão missa, e dahy o levarão a sua casa, e todos do collegio fomos com huma cruz em pro- cisão. Deu-lhe o Governador muytas peças e aos seus, e fizerão-lhe todo ho genero de festas que se podião fazer pera mayor gloria do Senhor. E asi se tornou com os seus muyto contente pera suas terras; e antes deste rey chegar a seus reynos, escreveo ho capitão [de] Chalé ao Gover- nador que hum regedor de el-rey de Chalé e hum chaimal, que hé senhor de muyta gente, se fizerão christãos. Cousas que acontecerão a este rey, pera lhe empedir a vinda a Goa como tinha promettido ao Padre Antonio Gomez. Sendo já partido de seu reyno, lhe derão huma carta do Governador em que lhe dizia que não partise sem seu recado. Não mandava ho Governador que lhe desem a carta se yá fose partido; e posto que muyto o sentise, aonde esta carta ho tomou se deixou estar, e mamdou ao Gover- nador que ou Sua Senhoria se avia de ir ver com elle, ou avia de fazer ho que elle tinha prometido. Tornou-lhe logo recado que viese. Sabendo os seus per sinaes que elle 362
determinava de se vir, ajuntarão muytos naires com hum senhor principal, que hé como duque, senhor de tantos mil homens; e se forão a elle dizendo que se avião de matar huns com os outros se daly se bolia, e outras cousas que lhe davão em rosto, e erão açaz mortificações, e que era doudice deixar seu reyno ,e outras cousas desta calidade. Disimulando ho negocio fecharão-ho em huma fortaleza que pera se sair não avia maneira; e vendo asi a gente amotinada contra si, detreminou de noyte se encommendar a Jesu Christo, porque traz sempre hum crucifixo consigo. Tomou huma touca grande e atou nos cabos huns cornos de veado que achou, e lançava ho gancho do corno acima na parede aferrado, e se alava pela touca acyma, e da mesma maneira decia pella outra parte e asi saltou duas paredes; e quando veo à terceyra, que era mais alta, não abastava a touca, cayo e se ascalavrou na testa e em huma perna, e asi de noyte se foy a pee soo a buscar as fustas que ho avião de trazer. Chegou ao rio onde estavão, que era grande, e indo cansado correo grande risco de se afogar, levando o crucifixo sempre consigo, atado no cabo da cabeça; chegou ha hum barco e dahy se passou à fusta. E o duque com hos que ho seguião, se deitarão no chão chorando e dizendo lastimas que elle não queria ver, mas a rogos do capitão da fusta sayo fora, e tanto que ho virão lhe fizerão salaa, e elle despedi-os fazendo-lhes mercê. Por outra vez no caminho, saindo en terra, tanto que ho conhecerão, ho cercarão muytas gentes dizendo que não avia de pasar dally, zombando delle e vituperando-o. Mandou então el-rey recado ao senhor daquella gente, recado ho qual mandou que ho não agravasem, mas lhe fizesem toda a honra. Isto e outras muytas cousas pasou dizendo que pola fee de Christo folgava de pasar todos estes trabalhos. Há aquy grande argumento pera louvar ao Senhor. 363
70 CARTA DO PADRE HENRIQUES, SUPERIOR DA PESCARIA, A S. INÁCIO DE LOYOLA E MAIS CONFRADES Goa, 21 de Novembro de 1549 Documenta Indica, I, págs. 576-588. Jesus. A graça do Spiritu Sancto seja sempre em nosas almas. Amen. O anno passado, por mandado do Pe. mestre Francisco, escr [e] vi a V. R. largamente algumas cousas que pasavão quá en esta Costa da pescaria do aljofer, donde andamos; e por me ser mandado o mesmo este anno, escreverei alguuma cousa, bem desejoso de saber novas de V. R. e de todos os da Companhia, porque, à feytura desta, aimda de Goa não mandarão as novas que vierão de Portugal. Primeiramente lhe quero dar conta de hum Irmão noso, per nome Adam Francisco, que o Senhor teve por bem de levar agora faz hum anno, e parece-me que não podiam ir novas ho anno passado lá ao Reygno dele. O qual Irmão deu de sy nesta Costa muyto exemplo. Estavão os christãos bem com elle: o lugar omde quer que estava, andava muito direyto; muy zelozo era das cosas de Noso Senhor; conti- nuamente trabalhava en doutrinar os christãos; e, segundo temos pera nós, dos muytos trabalhos que tinha morreo, e assim o dizem os christãos. Porque, entre outros traba- lhos muytos que tinha, fez huma ygreja en hum lugar de christãos, donde dantes não avia ygreja. Foy tanto o tra- balho que niso tomou, alem dos outros que tinha, que daly dizem aver procedido sua doença. Ay nestes lugares tanto 364
que fazer, ao que fielmente se quer occupar nos negocios do Senhor, que não me espanto adoecer elle de muito tra- balho, mas me espanto dos outros não adoecerem também. Após este Irmão, dahy a 5o ou 6o meses, quis Noso Se- nhor agalardoar ao noso bom Pe. Antonio Criminal, de quem posso eu dizer o que Sam Hieronimo dizia por Paula Romana, que, aimda que todos seus membros se tornassem en linguoas, não poderia falar dela parte de seus louvores. O modo de seu martírio foy este: Vierão huns homens que se chamão badegás pelejar contra o capitão desta Costa em hum lugar donde estavão, aonde se acertou o Pe. Antonio. No principio teve victoria o capitão. Os ditos badegás vendo isto entraron por manha, dizendo que querião pax; e estando o capitão desaprecebido, vierão de sobresalto, onde foy necessário ao capitão fugir pera o mar. Muytas molheres e mininos, como estavão desaprecebidas, não se embarcaron. O Padre, pera com mays diligentia se embar- carem, se não quis embarcar. Logo nisto vierão os badegás de improviso, aonde tomarão ao Padre: e estando de joelhos lhe derão huma lançada ou duas, e depois lhe cortarão a cabeça. Certifico a V. R. que foy muy grande vida a do Pe. Antonio, integerrimo e castíssimo, e raras vertudes: nunca vy menospreso do mundo, nem obedientia, como a que elle tinha; prove era de spiritu, e assy como em vida foy pobre, assi na morte quis Noso Senhor que o fosse, que nem hum lensol ouve pera o enterrarem. Cá temos pera nós que morreo mártir, e pelo serviço que ao Senhor Deus tinha feyto mereceo que o Senhor o agalardoasse de tal morte, porem ficamos os Padres e Irmãos muito soos e orfãos sen elle. Nelle tínhamos exemplo de todalas virtudes. Os christãos o sintirão muyto: tinhão elles nelle pay. As novas dos christãos desta Costa, Deus seja louvado, são boas: vão elles en crecimento. Cada vez vão conhe- cendo mays as mentiras dos gentios e a verdade da nosa fee. 365
Saberá V. R. que pela bondade do Senhor estão muy edifi- cados, asi christãos como gentios, e também alguns mouros, da vida dos Padres e Irmãos que andão nesta Costa. Quando quotejão os costumes de seus Padres gentios com os dos Padres e Irmãos acha [m]-nos tam diferentes! Achão na- quelles tantas mentiras e nestoutros tantas verdades, que são constrangidos os gentios às vezes a confundir-se, e às vezes a maravilhar-se. Os christãos com isto recebem con- tentamento. Alguns dias antes da morte do Pe. Antonio comesamos nesta Costa a buscar os milhores christãos que avia nella, pera emsinarem as orações nos lugares, pera em tempo de necessidade baptizarem as crianças, e finalmente pera nos ajudarem. Procedeo disto muy grande proveito, porque alguns deles omde estão o fazem tam bem, tem tam boom cuydado e dão de sy tam bom exemplo, que no lugar donde elles estão quassi se não sente mingoa de Padre. São alguns delles homens que às vezes podem fazem pratica aos chris- tãos; e, porque sabem bem as mentiras dos gentios e as fraquezas em que os christãos cayão o tempo passado, á-lhe de ser proveitosa, com ajuda do Senhor Deus, a pratica que às vezes lhe fazem. Sintimos nos ditos homens traba- lharem pelo amor de Deus, e estão aparelhados pera irem donde quer que os mandarem os Padres, ainda que seja com perigo de suas pessoas. A gente da terra homens e molheres e mininos nos tem muyto amor. Em todos os lugares fazem ygreijas, e cada povo procura de ter a sua milhor concertada. Em suas doenças prometem dinheiro e outras cousas; alguma vez dizem que gastarão muyto dinheiro em meizinhas e não lhe aproveitou, e como se encomendarão a Sancta Maria (que hé devação que elles comummente mays trazem na boca) se acharão bem; e em alguns lugares da Costa frequentão bem as ygreijas, como se ouvera muito tempo que forão christãos. 3 6 6
Os tempos passados tinha esta gente muyto medo do demonio, e cada vez o vão mays perdendo. Entra o demonio no corpo de alguns homens e molheres: ameaça aos míseros, se lhe não offerecem muyto dinheiro, que os á de matar. Poucos dias há que me contava hum christão que, vindo o demonio sobre sua molher os annos passados, rogavão ao demonio que se fosse, prometendo-1 [h} e algumas cousas e que não tornace ao dito corpo; mas, como quer que o demonio se não quer por bem, hya e tornava. Tomou hum dia hum pao e espancou a dita molher, estando o demonio no corpo. Quando o mísero vio que o desomrravão, nunca mays quis tornar; assi ho fazem alguns christãos desta Costa, que espancão os endemoninhados christãos ou gentios sem deles aver nenhum medo, como quer que dantes lhe tinhão muyto. São os christãos muyto alegres de ver que aprendemos a linguoa, a qual hé muyto necessária pêra seu aproveita- mento spiritual. Esperamos na bondade divina que quasi todos os Padres e Irmãos, specialmente os que tiverem algum engenho, am de aprender a dita lingoa. Como ouver Padres que confessem toda esta gente, esperamos copiosos fructus. Ho anno passado me pus a con- fessar em hum lugar desta Costa, em que recebi muyta con- solação de os ver vir à confissão. Tinha eu asinado cada dia que hum tone de pescar viesse; alguns se anticipavão a pedir confissão antes que lhe viesse o seu dia, outros dizião que no dia do seu tone se não confessarão, que se vinhão então a confessar. Não faltava quem depois se vinha a reconciliar, se depois da confissão lhe alembrava alguma cousa. Estando assy me mandarão dizer dous homens homrrados doutro lugar, se erão elles filhos bastardos e os outros ligitimos, pois que lhes estava dando manjares spirituaes aos outros e deles me esquecia. Pera esta Coresma que vem, com ajuda do Sennhor Deus o Pe. Paulo e eu con- 367
fessaremos, o qual está muyto aproveitado na lingoa e juntamente no espiritu; também sabe leer alguma cousa da lingua malavar, a qual hé muito deficultosa d'aprender. Está feita huma arte malavar pola qual muy facilmente se pode aprender a lingoa, e se aprenderá direito da maneira que elles falão na propia lingoa. Eu sentia vontade no Pe. Antonio pera a mandar emprimir. Vê-lla há V. R. e se lhe parecer virá de lá recado, e daquy a dous annos poderá ir a arte perfeita, porque aimda ay cousas que lhe acres- centar. Esta lingoa malavar estende-se muito; delia se podem enformar em Portugal quanto se extende. Man- de-nos de llá recado acerca da dita arte. De alguns meses pera cá vou muyto entendendo as men- tiras destes gentios, e se Noso Senhor me dá forças, com sua ajuda queria escrever suas falsas hystorias dos pagodes que adoram, dando-lhe razões de como tudo hé mentira; e isto não tam somente o queria fazer em malavar pera os chris- tãos e gentios, mas também em portuges, pera que os Padres e Irmãos que vem novamente saibão as cousas da genteli- dade. Também queria fazer hum livrozinho em malavar, que fosse à maneira de Verdade da fee, dando-lhe razões comforme à capacidade da gente. Hum confessionário com hum vocabulário tenho en vontade de fazer, com outras cousas muitas; mas não ay tempo pera em breves dias se fazer, assi pelas occupações serem muitas, como por ser eu mal desposto. E já a algumas cousas das asima ditas ouvera de dar principio, mas a morte do Pe. Antonio, com a qual recrescerão muytas mays occupações, e asy treladar em malavar a declaração dos artigos da fee, que mestre Francisco em linguoajem portuges [a] fez, muy comprida, ho empedio, assy mesmo a arte malavar. E não se gastou pouco tempo em concertar as orações, porque as que dantes eram tiradas tinhão mentiras, por falta que os topazes, digo, interpretes não souberão bem tirá-las. 3" ou 4o meses andey 368
em as tirar, e hé hum gram trabalho, porque lhe faltão pala- vras nesta lingoa que sejão como as nosas. Pareceo-me dar conta disto por amor dos Padres que forão a Manicongo; se lá não são tiradas as orações na lingoa da terra, pode ser que as quererão tirar: não no devião de fazer sem primeiro terem noticia da lingoa. Ao presente estamos nesta Costa dous Padres e tres Irmãos: o Pe. Paulo do Vale, o Irmão Baltesar, o Irmão Ambrosio Nunez, o Irmão Manuel Rodriguez e eu. O Pe. Paulo, como disse asima, está muy aproveitado na lingoa, e também o Irmão Ambrosio, o qual também sabe já medianamente leer o malavar; o Irmão Baltesar também aprende a lingoa e a leer malavar. Somos poucos, segundo a Costa hé comprida, temos muyta necessidade de com- panheiros, com os quaes, mediante a graça de Noso Senhor, se faria ubérrimo fructo, e se aproveitarião muyto en suas almas os que quá viessem; e trabalhando fielmente, não lhe faltarião consolações, nunca sentidas, que lhes parecece ter o paraíso na terra. [Acerca desa arte que allá va, aunque van en ella algu- nas cosas en malavar si en buen ora uviere de imprimir bien se puede hazer sin se poner estas cosas y quando fuere de acá irá en letra más legible y acrecentada y vista y emen- dada, porque ésta después de escrita no fué bien vista.] Ho anno passado escrevi lá sobre hum jogue, homem de muito saber e de boa vida, ao que parecia; delle dizia que elle mesmo escarnecia de todas as cousas dos gentios, e lhes quebrava seus pagodes e reprehendia os ditos gentios. Tomei muita conversação e amizade com este homem; pouco a pouco lhe hia declarando as cousas da nosa fee, e oje este dia me declarou sua vontade, que era de ser christão, porque as cousas de nosa fee lhe parecião muyto sanctas, comforme a toda boa rezão, e que muytos dias há que elle en sua vontade hé christão, que estava acabando hum Doe. Padroado, rv - 24 369
negocio e que como o acabasse logo se baptizaria. Alguma culpa averey eu tido de não ter já acabado com elle este negocio, mas as acupações forão tantas sempre e lugares que visitar, que iso me dá alguma desculpa, e á muytos dias que eu não estou no lugar donde elle estaa, nem agora com accupações pude ir; mas mandei-lhe pedir que viesse donde eu estou: à huma pera lhe falar neste negocio de ser christão, porque dantes não fazia mays que declarar-lhe algumas cousas de nosa fee; e à outra, pera que o mandey chamar, foy pera me ensinar e declarar as cousas dos gen- tios, pera que sabendo-as bem possa delas escrever, como asima digo. No lugar donde elle estaa hé pera dar graças a Deus de como hé zeloso dos christãos guardarem as cousas de nosa fee; algumas vezes lhe acontece, reprovando as cousas dos gentios perante os ditos gentios, aprovar as cousas de nosa sancta fee. Ven-sse os míseros tam confusos, que lhe dizem: «Este jogue não hé gentio, mas christão». Asi como escrevi o anno passado que o emcommendassem a Deus, asi lhe pesso polas Chagas de Noso Senhor Jesu Christo que o fação este, pera que acabe elle de se baptizar; donde á de resultar muito fructo e serviço a Deus. Quando os gentios virem hum homem de tant.o saber, que antre a gentilidade hé dos únicos, e homem tam pobre e desprezador do mundo, e que suas obras exteriores são boas, seus com- selhos muy sanctos, converter-sse a nosa fee, espero em Deus que alguns se converterão, e muytos sentirão milhor da nosa fee do que atequi tem sentido; os que já são chris- tãos não pouco se alegrarão; muitos fructos espero em Deus que se an de seguir de sua conversão. Acerca dos Padres que estão polas outras partes espa- lhados, lá escreverão. Faço saber a V. R. que pola bondade do Senhor os Padres da Companhia de Jesus são tidos em muito boa reputação na índia: os portugeses folgão muyto donde quer que elles estão. O Pe. Nicolao estaa perto de 37°
nós nua fortaleza que se chama Coulão; estão todos tam bem com elle asi portugeses como christãos da terra, que lhe chamão Padre Sancto. O Pe. Cypriano também estaa não longe de nós, scilicet, em Santo Thomé, os que de lá vem contão muytos beens dele; espantam-se de hum corpo daquela ydade poder sofrer tanto trabalho, porque dizem que jamays estaa ocioso; e asy faz cousas lá de muito ser- viço de Deus. Também em Santo Thomé lhe chamão o Padre Sancto. [Sed de his satis, porque] de suas cartas saberão o que fazem. Mestre Francisco hé ydo a Japão, como V. R. saberá, e aimda que da morte do Pe. Antonio se alegrará muito de o N. Senhor aver levado pera lhe tar premyo de seus trabalhos, não poderá deixar de ter pena pola falta que nos faz. Saiba V. R. que o Pe. mestre Francisco estava muito satisfeito do Pe. Antonio, como eu creo que elle escreverá dele a Portugual, mas do Pe. Antonio não se pode dizer tanto, que mays nele não ouvesse. Se o Senhor Deus pusese vontade a V. R. de nos mandar cá detreminadamente a esta Costa donde andamos outro como o Pe. Antonio, nos miti- garia parte de nosa tristeza. Não sabendo o Senhor Bispo e o Pe. Antonio Gomez parte da morte do Padre, me mandarão chamar pera ir estar com hum rey de Tanor, a quem Noso Senhor avia trazido de sua mão a nosa sancta fee, e isto por ter eu noticia da lingoa. Parece [o] -nos a todos bem de não ir eu, pois o Pe. Antonio era morto e fazermos-lho a saber; aimda à fei- tura desta sobre isto nos não tornou recado de lá. Também em Cochym se faz hum collegio pera nós, o qual ali era muyto necessário. O Pe. Antonio Gomez e o Pe. Nicolao lhe escreverão largamente. Ysto lhe escrevo para lhe lembrar que ay cá muita necessidade de Padres da Companhia de Jesus. Queira o Senhor Deus por sua bon- dade dar a sentir a alguns homens que no mundo andão, 37 1
OS quaes desejão de servir a Noso Senhor, quam necessário hé virem quá servos de Deus, que polo seu nome desejão ser pobres, emjuriados, atribulados e desejem trabalhar nesta vinha do Senhor e morrer polo seu nome. Se os que por lá andão sentissem a necessidade que ay quá pode ser que com muito mays fervor virião cá padecer por Christo, donde commumente os portugeses vem buscar dinheiro. Algumas particularidades se podiam escrever dos chris- tãos desta Costa, de seu aproveitamento e de como quebrão os pagodes dos gentios, de quem dantes tinhão grande medo; também se podia escrever alguma cousa dos gentios, quando homem com elles fala e lhes declara as mentiras dos bramines como ficão confusos e sintem ser verdade o que lhe dizemos, mas não quero ser tam prolixo. Ceso pedindo a V. R. e a todos os Padres e Irmãos da Companhia que se lembrem de mym em suas sanctas orações e sacri- fícios. Noso Senhor nos dê graça a todos para fazermos sua sancta vontade. Deste Punicale oje 21 de Novembro de 1549 annos. Minimus servus et indignus. Anrrique Anrriquez. 3 7 2
71 CARTA DO PADRE GASPAR BARZEO AOS SEUS CONFRADES NA INDIA E NA EUROPA (1) Ormuz, 1 de Dezembro de 1549 Documenta Indica, I, 596-638. Escrever particularmente as cousas que quá passão da nossa Companhia não me abastará o tempo, papel, nem tinta, nem vida, louvado seja Christo, que em tudo se mos- tra defensor das ovelhas de sua Companhia. Lá escrevem largo os meus Irmãos charissimos e Padres, cada hum em particular, asy como nos mandou a cada hum dos que esta- mos dispersos por esta gentilidade o Padre mestre Fran- cisco, nosso charissimo pastor, a quem seguimos asy na obediência, doctrina e exemplos; no qual, bendito seja Jesu, temos bem que aprender até à morte, eu principal- mente, que bem conhecido sam dos Irmãos desta santa Con- gregação nas minhas imperfeições. E se a obediência não me constrangera, o ano passado tevera vergonha de escrever o que escrevy, e muyto mais este ano, no qual me mandarão mais especial discorrer pellas particularidades das cousas que Nosso Senhor obra por nossa Companhia. Alem da obediência mo mandar, não deixo de tomar muyto gozo no que ey de escrever por me parecer que lhe causará grande fervor. Não me atrevo escrever as cousas tam em parti- cular como me hé mandado, porque não está em minha mão; quia iudicia Dei abyssus multa (2), nec me latet (1) Os Documenta Indica publicam duas vias deste interessantíssimo documento. Damos a conhecer aos nossos leitores apenas_ a primeira. As notas, como em todos os documentos extraídos desta colecção, são resumidas das do muito Rev. P.e José Wicki, S. J. (2) Cf. Pt., 35, 7. 373
abyssum abyssum invocare in voce catharactarum suarum; farey isto em universal segundo a minha possibilidade. Em Cochim, o ano passado, estando com o Pe. mestre Francisco, escrevi largamente para o Pe. Luis da Gram acerca do fervor do meu charissimo pastor, o Pe. Antonio Gomez. O qual me mandou para Chalé para fazer hum collegio para recolher alguns novicios que se meterão em Guoa, para se aproveytarem no espirito e frutificarem na gentilidade de Calecut e Tanor, e toda a costa do Ma- lavar; onde achey alguns 70 pardaos desmola para começo e casas de graça para pousarmos, e huma horta cercada de pedra e cal, muyto apta para tudo. O qual o Pe. mestre Francisco não quis, por sermos aynda poucos, e dahy me tornou a mandar para Goa. Aquella noite pousamos com os Padres de S. Francisco, tratando-nos com tanto amor como se foramos Irmãos da mesma ordem. Daly nos tornamos a Goa, onde me pos o Pe. mestre Francisco em asás de fadiga, pondo-me mais carrega do que podia levar, parecendo-lhe que era eu para tudo. Final- mente tanto reclamey ao Senhor Deus e ao Pe. mestre Francisco, até que conhecerão minha insufficiencia, e me tirarão o jugo debaixo do qual estava afogado, benedictus Dominus. E detreminou de me mandar para Ormus, que hé hum reyno na Persia, que jaz no Sino Persico antre Arabia Felix e Persia [onde elle nunca fora e desejava muito de hir, se não fora a yda de Japão, pela enformação que tinha de grandes pecados que neste Ormus se fazião]. Na qual terra hé tanta a calma pelo verão, que não há no mundo terra mays destemperada, dizem os que andarão na Mina, e em S. Thomé, e em Guiné, e nas partes de Melinde, que (3) Cf. Ps., 41, 8. 374
está debaixo da linha equinocial, que não há comparação às calmas de Ormus. Busquey muytas vezes a rezão desta calma e não acho outra que a muita secura desta terra, que será debaixo muito dominada de exhalações muito secas e quentes. A ylha hé toda de sal. Tem rios qualhados de sal que correm de continuo, que tem serras de sal como montes muyto grandes. O qual sal hé tam forte que não se pode salgar carne que a não corte, de maneira que se não pode quasi comer de salgada; aynda não se acaba de tirar hum monte de sal, quando yá hé outro no mesmo lugar do rio qualhado; os quais rios pelo verão estão qua- lhados como em Frandes no inverno. Chamão a este, sal- gemma. Nesta ylha há muitas minas de enxofre, e dizem que toda a ylha ardeo 7 anos, y ainda ay monte que ardeo poucos anos há. As serras desta ylha parecem pedras de cal queimadas enteyras. Nesta ilha não ay verdura nem arvoredo, senão huns poucos de pinheiros, e assy tres ou quatro arvores outras, onde não toqua o sal. Finalmente toda hé seca, triste, sem refrigério. Ay muitos terremotos nella, principalmente neste ano depois da minha chegada, do qual temem muyto assi os mouros como christãos, dizendo que são pecados; o qual eu creo assy ser, porque treme em tempos que são fora daquelle que dizem os naturais filosofos. Nesta ilha está huma cidade das populosas que há no mundo, a qual está agora muito danificada pelos portu- gueses; a qual hé a cabeça do reyno, onde reside o rey delia, e aquelle rey Xerafe que esteve em Montemor preso em Portugal (4). A qual terra hé das riquas que ay no (4) Este Reis Xarafo Nordim ou Râis Sharaf Nur al-Din não era o verdadeiro rei de Ormuz, mas sim o guazil ou regente. O rei chamava-se Turân Shah II. Reis Xarafo Nordim tinha, com efeito, estado preso em Portugal de 1529 até 1345. 375
mundo. Hé povoada de todalas nações do mundo: mouros, os quaes tem huma riqua mesquita; gentios e judeos que fiquarão da segunda captividade de Babylonia e se passarão para quá, os quaes são mouros e turcos, e todos vivem como querem. Temos 4 festas cada somana: os gentios segunda- -feira, os mouros sexta, os judeus sabado, e os christãos o domingo. Parece-me que cada dia hé festa; louvores ao Senor, que asás de tristeza me poem os brados de seu alcorão de noite. Nesta cidade estão embaixadores de muytas partes, a qual se povoou aqui por amor do porto. Daqui se provee todo o mundo de mezinhas, que são desta Arabia Felis e Deserta, que fiqua da banda do Mar Roxo. Esta terra está perto da de Babylonia, que se chama agora Bagda; a qual tem tomada o Gram Turco ao Gram Soldão da Babylonia, com o qual temos pazes, que se chama o Gram Chatamas (5) que sempre anda no campo como alarbes. Pelejão com fre- chas, muyto bellicosos, principalmente os turquimões. Se- nhor de toda a Ssyria, faz grande guerra ao Gram Turco, e mandou agora derrubar todallas suas fortalezas por terra por pelejar sempre. Estes são grandes filosofos, e assy neste Ormuz, e medicos. Aqui se acha manná, que hé um orvalho que cae em hum certo lugar de Persia, o qual parece como comfeitos; não conforma bem com a Escritura. O rio Eufrates e o rio Phison (6) entrão aqui neste Estreyto em que estamos. O Nilo passa por Egypto e nace em Preste Joam e vem rebentar em Egypto, o qual se conhece pelos crocodilos e pello verão de Egypto, porque estam vem muyto çujo porque então he inverno no Cabo (5) Shâh Tahmasp, rei da Pérsia de 1524 a 1576. (6) Era o rio Tigre. A Sagrada Escritura (Gen. 2, 11) chama-lhe Phison. 376
de Boa Esperança onde elle nace, nas terras do Preste, e pelo inverno de Egypto vem muito claro, porque então no Cabo hé verão. O Gange vay em Bengala na índia até onde dizem que chegou Alexandre Magno e pela muyta resistência da gente se tornou. Aquelles pagodes assy do Lifante como de Canari, demonstrão ser obra romãa. O Pe. Belchior Gonçalvez dará larga emformação disto por- que está nesta terra. Estamos aqui também perto do Mar Roxo e o monte Sanctae Chatherinae Sinai, que jaz no estreito de Mequa, junta com a Arabia Deserta. Eu estive determinado de escrever ao Gram Soldão de Babylonia, que se chama Xatamas, por me diserem ser homem muito discreto, desafiando-me com os seus doctores acerca da superstição da sua ley e da perfeição da nossa, ou que me desse licença para hir laa ou mandasse quá alguns seus para nos vermos; e assy também sobre os rusios e polonios e ungaros da outra banda, e arménios, que são tributários a este, os quaes trata mal. Deste Ormus mandarão hum embaixador português para laa com outros portugueses, aos quaes, andando na corte do Soldão, escreveo hum Bispo destas nações christão que nomeey, pedindo por amor de Christo que se viessem em hum lugar onde estava esperando, e que desejava muyto de os ver, pois erão christãos. A qual carta hia em latim mao, e não se achou antre todolos portuguezes quem enten- desse latim, de maneira que não forão laa. Muytos trazem quá cativos daquelles christãos, porque lhe pagão de dez filhos hum de tributo como ao Gram Turco, os quaes nesta terra, quantos posso acolher às mãos, sem mais nada os reconcilio à Ygreja. Lá mandey pera o collegio de S. Paulo alguns. E assy também os geniseros que aqui acho faço o mesmo, e muitos abexins da terra do Preste, os quaes faço christãos, porque o seu baptismo não me contenta, e os faço logo forrar por serem christãos, louvado seja o Senhor. 377
E assi muytos cativos que vem fugidos de Turquia; ytalianos, gregos, huns que renegarão e outros não, todos meto na Ygreya, louvores ao Senhor, e os mando para a índia. Agora mando para o collegio de S. Paulo hum homem que vinte e quatro anos ou mais foy renegado, genoes, e foy genicero e lascarim do Gram Turquo, o qual inspirado por Deus, por tornar à Ygreja deixou toda a riqueza que tinha para fogir para Ormus.. Laa o mando para reconciliar. Não me estendo mais nisto. El-Rey de Ormus está muy abalado para se converter. E tornando ao meu proposito, me embarquey antes que se partisse mestre Francisco para Japão e me vim para Ormus. Na nao pregava aos domingos, cada dia doctrina aos cativos e moços, e assy ladainhas de noite, a Salva aos sabados, e procissão de disciplinantes quinta-feira de Endoenças. Confessarão-se quasi todos. Os mouros e gen- tios e judeos se espantavão muito deste fervor, senão nós e os judeos fomos differentes na Pascoa. Converteo-se hum moço, e outros tres ou quatro que fiz christãos, que não erão baptizados. Dous meses estivemos no caminho. Pade- cemos muita sede e fome, e perigo defronte do estreyto de Meca, mas o Senhor teve por bem de nos trazer a porto salvo. E chegamos a Calaiate, que hé hum lugar na costa da Arabia Felis, onde achamos muitos datiles; e dahy duas legoas fomos ter a hum rio onde desembarcamos, povoado de arabios, onde se quisera fiquar meu companheiro, Reymão Pereira, para frutificar e fazer christãa a gente desta ribeira, o qual não quis consentir por me parecer fervores de novicios. Fratres charissimi, nolite perigrinari in fervore spiritus, probate spiritum si ex Deo est, iactate super Dominum curam vestram et ipse vos enutriet, non dabit in aeternum fluctuationem iusto, tollite iugum obedientiae super vos. 378
Não desejeis mais do que vosso superior deseja: este hé o bom. Nolite omni spiritui credere. Tempo virá que vos fartareys de peregrinar. Mas ay, charissimos, se eu conhe- cera que cousa hé peregrinar aqui na índia por terras desertas, conversando com nações tam barbaras, eu me apro- veytara no espirito e não gastara tanto tempo na enfer- meria onde visitava por minha sensualidade. Ó quam diffe- rentes são as perigrinações de lá que as de cá, e quam suaves são as de laa, que durão hum mes, e achaes hospitaes, aynda que tem piolhos, e camas pera repousar, e esperança de tor- nar ao collegio, e Irmãos que vos abração e vos alimpão e tirão toda a canseyra! Soo a vista delles descança. Mas ahy não conhecia o amor da Companhia se não depois que me achey fora, e me alembrava que nunqua os ey de ver mais, nem os da índia nem os de toda Europa. Aqui se cais, não tendes quem vos alevante, nem tendes refeitório, nem dormis nunqua em cama, nem em casa, mas sobre o telhado; e aqui achais as noites mais quentes que as grandes calmas da Guiné. Consola-sse aqui o casado com dormir em gamellas grandes de agoa, de maneira que lhe não aparece mais que o rosto sobre agoa; assy estão de dia e de noite, e tem muyto refrigério de abanadores e comer, o qual não tem o vosso prove Irmão nesta ylha de Ormus; porque pella calma de dia há de obrar na vinha do Senhor e de noyte confessar, nem tem huma hora propria. Em Coimbra comeis a vossas horas, mas aqui não tendes nada proprio; laa tendes a vista dos Irmãos proprios, aqui nem Irmão, nem livros, nem comer, nem dormir, nem vestir, nem tempo, nem missa, nem vida propria, tudo hé alheo do Senhor: Quod nolo, facio; e quod volo, non facio: Mihi tamen absit gloriari nisi in cruce Domini Nostri Iesu Christi, in quo mihi salus, honor et gloria inititur; si infirmus, illo sum fortior, dilectus meus fasciculus myrrhae inter ubera mea commorabitur. 379
E para que estes trabalhos desta carta não vos espantem, de como eu tam fraco soldado de Christo posso sofrer, tudo isto hé pouco para o que desejo, segundo as consolações que o Senhor daa para sofrer estes trabalhos, muyto diferentes que as de Coymbra: porque laa os trabalhos são distrahi- mento do espirito aos imperfeitos, e aqui nos mores traba- lhos há moor recolhymento, porque não tendes a quem vos apegar senão com Deus. Tam perseguido [s] andaes do mundo, assy com honras como com deshonras, aqui vos ado- rão, e aly vos orucificão. Não vos daa o demonio aqui lugar para buscar remedios nos cartapacios. No collegio, nas lagrymas sentis mais devação, e fora delias estais muito triste [s] onde perdestes a devação, mas aqui nas securas temos consolação: in terra deserta, invia et inaquosa apparui. Ó Irmãos, fazey alforges grandes de virtudes pera outro tal tempo, porque vos achareis muyto nus sem elles. A pri- meira e fundamento: humildade estrema, cognitio propria, obediência, pobreza e castidade, e amor grande. Estas são que reinão na índia. Humildade hé o conhecimento de Deus que procede do nosso mesmo; obediência hé cativeiro que encerra a summa liberdade: quem hé livre se não o obe- diente? A pobreza hé a verdadeira riqueza: quem hé riquo se não o verdadeiro pobre de espirito ? A castidade hé hum espelho em que se Deus revee na creatura: Quam pulchra es, arnica mea, quam puchra es, oculi tui columbarum, simplex affectu, intellectuque tandem miratur sponsus. Vulnerasti cor meum, soror mea, quia similes illi virtutes soror dicit. Ultima virtus charitas pallium Dei maiestatis, quod operit multitu- dinem peccatorum. Isto abasta da terra. Dahy viemos a Masquate, outro lugar na Arabia Felis, onde achey muitos portuguezes alevantados, que estão ahy entre os mouros dez, onze anos sem se confessarem, onde preguey em huma ramada duas vezes ao capitão-mor da costa e outra muita gente. E acabada a pregação fui reque- 3S0
rido para muytas confissões de gente desesperada em muitos homizios, e forão as confissões tantas, que foy necesario de- ter-se a nao em que vinha hum dia por rogo do capitão-mor e do povo. Hé esta terra huma acolhida onde as molheres [fogem] a seus maridos e elles a ellas. Valeo-me quando party de Goa, que me deu o Bispo todos os casos, assy os de Caena Domini como dos que tinha poder, e assy todo poder seu, que me fizessem a honrra como a elle em pessoa. E ouviria vinte confissões de casos graves, lan- çando muitas mancebas fora os amancebados, e apartando os abarregados, do qual dey muitas graças ao Senhor em me trazer àquelle deserto para remedio daquellas almas tam perdidas. Tirey grandes tratos de onzena que tinhão com estes mouros e lhe dey modo de vida. E dahy me rogou o capitão-mor que me fosse na sua fusta, e eu não quis deixar o meu hospede da nao. E dahy partindo chegamos a Urmus, e antes que desem- barquasse no porto achey duas barquas que vinhão remando a todo correr para nós; na huma me mandava hum grande jantar o guarda-mor d'el-rey de Ormus, que se chama Tristão d'Orta, e na outra barqua vinha o vigário desta cidade com toda a clerezia (7), ao qual lançando-me no chão de giolhos beijei a mão com meu companheiro; o qual foy muito notado em os da Companhia de Jesus, tendo tam grande credito e fazendo isto. Pelos quaes Padres fomos levados pelo hospital e a fortaleza, onde nos o capitão (8) fez grande honrra, querendo que pousássemos na fortaleza. E dahy nos fomos pousar com o Padre vigário, o qual nos fez muita honrra e festa, espantando-sse muito quando lhe dissemos que no hospital era nossa pou- sada, onde nos levarão com muito amor. Parece que o (7) O vigário de Ormuz chamava-se P.c António de Moura. (8) Era D. Manuel de Lima. 38I
Bispo de Goa mandara aos Padres que toda a honrra que devião a sua pessoa me fizessem a mym. Era tant'o ofe- recimento e presentes, que me corry muito disto, e o que mays era, determinavão de me acompanhar sempre, e assy o fazião. Aos quaes pedy muito por amor de Christo que o não quisessem fazer, porque nossa Ordem não vinha a ser servida, mas a servir todo o mundo, quanto mais eu que era hum pobre peccador, que não era digno disto, nem menos de os servir, pedindo-lhe me deixassem andar soo. Erão os vestidos de ceda tantos que me davão, que não sabia que responder, porem não faltou quem conhecesse a nossa Religião, e que lhes dissesse quam apartado éramos na vida, sem tomarmos nada a ninguém, se não para dar aos pobres, nem por missas, nem pregações, nem con- fissões, o qual os meteo em grande confusão e fervor de fazerem vidas novas. O concurso da gente para nos ver era tanto, que sempre o hospital em que pousava era cheo, huns com conselhos, e outros com queixumes, outros para aprender. E o capitão nos mandou fazer huma casa no alto, de palha, para pousarmos. E no domingo seguinte preguei, na qual pregação, pela fama que tem nossa Companhia, foy grande concurso de gente e muita devação de lagrymas. Seguio-sse depois nas pregações, louvores ao Senhor, grande conversão do povo, e forão tantas as confissões que me não podia dar a conselho, de maneyra que de noite compria com as confissões; noite em que ouvi seis confissões. E foy tam grande o abalo nas pregações, que me pareceo grande mis- tério. E aynda que me tenhais por soberbo, não posso deixar de contar algumas particularidades acontecidas aqui pellas confissões e pregações, porque sey que isto hé para meus Irmãos charissimos, que se encenderão no amor de Jesu, mas não hé para homens do mundo. Nas primeiras pregações foy grande aballo, mas muito mais nas seguintes: 382
tanto daa a agoa na pedra até que fura; assy são as palavra de Deus. Começando a tomar enformação desta terra e o modo de viver delia, fiquey atonito, parecendo increivel o que me dizião, finalmente achei esta a mais perdida terra que nunca no mundo ouve, nem menos averão, segundo meu parecer: chorava muitas vezes os males delia. Toda a ma- neira de bestialidade e luxuria que se pode inventar, aqui se achavão. Agora, louvores ao Senhor, pelo medo que pus, pregando esta materia, se emendarão muito os chris- tãos, os quaes os mais delles pecavão por ignorância, por- que aqui nunca entrou pregador que pregasse tres vezes. Andavão os christãos tam misturados com os mouros, tur- quos, judeos e gentios, que se não conhecião, e o que hé mais de chorar, quantos filhos de christãos se fizerão aqui mouros! Era tam devasso aqui os portugueses pecarem com as mouras, que me foy necessário requerer ao ouvidor que andasse vigiando e que os mandasse queimar, que eu os acusaria por heréticos; da qual pregação sahio tam grande temor no povo, que se estranha muito este pecado, que dantes não tinhão por pecado, assy como fornicação sim- ples. Yá os mouros tampouco o não ousão de fazer publico como dantes, nem os gentios; e se confessarão muitos com grandes lagrimas, fazendo grandes penitencias publicas, disciplinando-sse à porta da ygreja aos domingos e dias santos, o qual pos grande temor ao povo e medo, e fizerão grandes penitencias secretas. Antre os quaes ouve hum penitente que quisera publicamente entrar ao domingo diante de todo o mundo na ygreja, e pedir a altas vozes misericórdia nuu diciplinando-sse, e descuberto para que todo o mundo conhecesse quam mao elle era e rogasse por elle que se salvasse, o qual, por ser homem muito honrrado e principal, não quis o confessor consentir isto, mas que entrasse calado e cuberto diciplinando-sse. Este 383
penitente desesperou da confissão de se não poder salvar, o qual consolou muito Nosso Senhor, e fiquou desposto para grandes penitencias. O 2o pecado que aqui achey, era a fonte de toda a onzena do mundo, e tinhão por nome os onzeneiros de Ormus na índia, porque erão mestres que lião de cadeira pestilencial. Parece que aquelles que lançou Nosso Senhor no templo que para quá fugirão, e fizerão habitação nella. Tantas forão as sutilezas de caimbos e recaimbos, e tratos de enganos da onzena, que me tem custado grandíssimo trabalho de os poder conhecer, e aynda os não sei todos. Finalmente entre os mouros, christãos, gentios e judeos não avia outra maneira de vida. Homem avia aqui que por emprestar dez pardaos, comia todo o ano delles, fiquando sempre a sorte enteyra, de maneyra que os dez lhe rendião cento por ano. Pelo qual ordeney de fazer todos os sába- dos doctrina, assy como fazia na cidade de Goa, na see, sobre o pecado da avareza. Terey quasi tres meses, sobre isto, feyto doctrina, e ando ya nos caimbos no cabo da onzena; e nestas doctrinas e algumas pregações aos domin- gos neste tempo e santos se fez grandíssimo fruyto, mor do que vi: porque tinhão por custume, em se alevantando os homens tratantes, antes de ver a Deus, ir-se para o basar onde está toda a gentilidade, e todas as praticas suas erão de como avião de enganar o proximo, e agora toda a pra- tica delles hé sobre estes casos, para não enganar ao proximo, e sabem tanto da conciencia como os proprios confessores, louvores ao Senhor qui ora mutorum resolvit. Foy tam grande o aballo, que se fez hum mercador muito riquíssimo doente, para que tivesse eu rezão de ho ouvir de confissão, o qual fizerão também outros, e isto porque pela muita ocupação que tinha não podia acodir senão aos mais necessitados. E, entrando em casa, se me deitou aos pees pedindo confissão; e antes que entrasse- 384
mos na confissão, me fez este requirimento: «Padre, eu sou o mor pecador que há no mundo, desejo de me salvar; não me confessei nunca perfeitamente; tenho perto de tres mil pardaos, os quaes vede los ponho diante de vossos pees; tenho mais tal e tal fazenda e nao: sou hum homem desta calidade. Também vos entrego o meu corpo e vida temporal, cortai por onde quiserdes, tudo ponho nas vossas mãos, não quero senão salvar-me; e a minha alma ponho em outra parte para que me salveis, e vos requeiro da parte de Deus que não tenhais doo à minha fazenda e corpo, tudo o que vós sentirdes salvação de minha alma, porque encarrego a minha agora sobre a vossa». E este não foi soo hum, mas muitos mercadores muito riquos, dando-me conta de como ganharão. Forão aquelle tempo grossíssimas res- tituições, quem 800 pardaos, quem 600, quem menos. O qual fez grande aballo nos mouros, que dizião: «Isto faz o gran cassis»; porque me chamão gram cassis, filho de Zacharias, dos quaes dizem que não há mais que tres no mundo, dos quaes que sou eu hum; e estão muytos para se converter. Por isto os mais dos mouros que estão agra- vados pellos christãos por via de onzena se vem a mym para que lhe faça justiça. Os judeos me confessão yá que a sua ley defende onzenas e se tirão delias. Os christãos agora se aconcelhão comigo nos seus tratos, como an de viver sem encarregar suas consciências. Neste tempo se veo hum homem dos principaes desta cidade, e que me requeria da parte de Deus que quisesse tomar entregua de toda sua casa, molher, e filhos, e escravas, e toda sua fazenda, e a elle; e quando elle via que me ria disto, protestava que, se se elle perdesse, sobre mym seria; de maneira que me foi necessário fazer isto assy, e confessá-los todos, e tomar-lhe conta de sua fazenda, e dar-lhe o modo que avia de ter; a qual fazenda era muito grossa, porque tem este homem dous mil pardaos cada ano Doe. Padroado, iv - 25 385
de renda. Estou para lhe dar os Exercícios a elle e a sua molher, e a outros muitos nesta cidade. Neste comenos me fizerão os principaes daqui requeri- mento para que tomasse huma chave da feitoria d'El-Rey e o capitão outra, para milhor arecadação, o qual não quis, pois não era meu officio entender em cousas tam baixas, como hé dinheiro. E quando vim a esta terra, avia aqui muitos, alguns homens que, por serem grandes pecadores, se não ousavão a confessar com ninguém senão comigo; antre os quaes andava hum que era muito tentado do demonio de se não confessar comigo senão quando me fosse, e o Anjo bom lhe inspirava que se confessasse logo, o qual homem vim entender nelle ter necessidade de confissão. Final- mente confessou-sse, o qual me meteo em grande confusão porque faço conta de quantas milhões de confissões ouvi depois que sou da Companhia, esta encerrava todas e muito mais, louvores ao Senhor. O qual, fazendo huma penitencia que lhe mandei de noite, estando para ho absolver no outro dia, encheo-sse a casa de gallos (9) e fizerão tam grande rumor e revolta, que o pobre, repiado todo, se remeteo à ymagem; encommendando-se muito fortemente, foy livre e o absolvi. Dos quaes demonios fiquou muito asombrado, porque o Senhor o esforçou na penitencia, de maneira que me parece que a sua vida hé de santo. Tem grandes desejos de hir comigo à China onde podesse mor- rer por amor de Deus. Outro penitente se achou neste mundo que fiquou abalado de huma pregação de hum Padre da nossa Com- panhia, o qual, confessando-sse, fez grandes penitencias; e o Padre andou com elle muito tempo dissimulando sem ho (9) Noutra via encontra-se: «muitos gatos e ratos e cousas negras». 386
querer absolver, por sentir nelle alguns pecados. E, estando este Padre determinado de ho absolver, confessou que era hereje e que nunca fora christão, e que guardava o sabado e domingo, o qual depois perseverou em muita virtude, louvores ao Senhor. Aqui também foi grande diluvio de mancebados que se apartarão e barregados. E assy disse no púlpito que, depois que me deixassem os trabalhos hum pouco, que avia de correr de casa em casa a botá-los. E, entrando em huma casa, achei hum homem na cama com huma delias, e me assentey junto com elles sem me querer hir; do qual fiquarão tam confusos, que me prometerão de nunca lhe acontecer mais isto. E alguns homens que estavão muyto tempo amancebados se casarão com ellas, outros casarão as mancebas, louvores ao Senhor. Achey alguns onzeneiros que são muito duros de se apartar, os quaes, por me encobrirem a onzena, fazem a sorte e cabedal que emprestão e o ganho onzeneiro toda huma contia, dizendo nas escrituras que foão recebeo tanto de mym emprestado. Porem em huma doctrina condeney a todos notários, testemunhas que nisto consentião por onzeneiros, do qual ouve muita emenda. O 3o pecado que aqui achei era tratar em armas com os mouros e turquos, e imigos nossos, que todos são de Coena Domini excommunicati. E porque nesta terra o milhor trato era aço e enxofre, achei muitos perdidos e contaminados, de maneira que tratei largamente sobre isto nas doutrinas, pelo qual ouve grandes confissões e grandes restituições e penitencias; porque o capitolo «Ad liberandam Terram Sanctam extra de Iudeis et Sarracenis» (10) manda castigar no corpo quem não tem na fazenda, e a pena (10) Encontra-se nas Extravagantes Joannis XXII, titulo 8. 387
destes que tem para pagar hé pagar outro tanto de sua fazenda quanto ganharão pera cruzada, e por não aver esta, fiqua, segundo os doutores, à Camera Apostólica. E porque nestes tratos e da onzena vi grandes descuidos na Yndia e o Bispo dissimular, e todos absolver disto sem terem poder para isso, huns pellas bulias do Sacramento (11) e outros por outras bulias, não podendo in extremis pela extravagante Sexti (12), que começa «Ad futuram rei me- moriam», na qual deroga os privilégios de Coena Domini, e por isto não quis precipitar sentença sem primeiro escrever isto ao Bispo, para que determine, provando-lhe largamente isto de como são escomungados. E os outros tratos são de onzenas, sem embargo sempre absolve com cautela, do qual trato tenho muita soma de dinheiro destas penas depositado para se fazer o que ordenar o bispo de Goa. Estes tratos desta terra poserão a Yndia, quando foi o cerco de Diu, em grande risco de se perder toda a christandade quá, sed Dominus omnium provisor est. Achei mais aqui grandes cercos nas fazendas e travessadores, e muitos enganos para oprimir ao proximo. O 4o pecado que achei nesta terra erão odios reigados de muito tempo, muito difficultosos de arrancar, princi- palmente em huns dozentos soldados que mandou o Gover- nador quá, e outros que estavão na terra, porque invernão aqui sempre setecentos, oytocentos homens, os quaes me derão muito trabalho. Os mercadores estavão já em paz e estes alvoroçarão tudo: cada dia desafios, injurias, cutiladas, mortos, feridos; parecia gente de pouco temor de Deus. Fazia muytas amizades à porta da ygreja, aos domingos, depois da pregação e outras em casas, porem quanto eu mais fazia em hum dia, elles desfazião em mea hora. Não (11) Acha-se nas Decretales Gregorii IX, livro 5, título 6, cap. 17. (12) Refere-se ao Livro 6 das Decretais de Gregório X. 388
abastava pregar da morte, injuriá-los, ameaçá-los, reque- rendo ao capitão lançasse logo estes fora da ilha; e pedia-lhes algumas vezes por amor de Deus que perdoassem, e respondião-me que Christo era Deus e elles homens, que estimão mais sua honrra que a gloria de Deus. Estes fazião grande mal nos filhos meus espirituais, que se confessavão, porque os moradores e as molheres casadas se confessavão ameude todos, tam grande era o fervor no povo. Não me podia dar a conselho pelos infinitissimos tra- balhos que avia, assy de confissões como presos, doentes, amancebados, abarregados com mouras e mouros com chris- tãas: paredão os christãos os judeos no cativeiro de Babi- lónia que, depois de se fazerem aos custumes dos gentios, não quiserão tornar para Hierusalem, mas antes deixarão a Deus e seguirão os pagodes: «Dereliquerunt me fontem aquae vivae, et foderunt cisternas dissipatas». Todos anda- vão de mistura assy no comer como beber e pousar os chris- tãos com os mouros e outras necessidades de demandas, outras com conselhos. Finalmente não comia de dia nem dormia de noite, todo mundo tirava por mym. E o que mais me afadigava era não poder acodir a tudo, era-me necessário engeitar confissões: os mouros por outra parte e os judeus por outra, os gentios por outra, parecia a todos que eu era santo e que em mym estava sua salvação. Se entrava em alguma casa, todos assy molheres como outros se lançavão de giolhos para me beijar o vestido, e alguns não se atrevião a me beijar a mão, era-me necessário sempre com a mão andar estendido e com o barrete na mão. O Fratres, non secundum merita haec faciebam, sed quia membrum istius sanctissimae Societatis Iesus quamvis indi- gnus. As molheres dos portugueses corrião quando me vião andar com a campainha para doutrina; espantando-se muito da proveza. Eu andava muito roto e despido, porem muito hé nesta terra louvada a proveza da Companhia de Jesus. 389
Estive hum dia para pregar que não me tirassem o barrete mais, porque me era necessário sempre andar desbarretado. O Fratres charissimi, pasmareis de como me não perdi com a vaidade, sendo tam imperfeito, dir-vo-lo-ey: Nosso Senhor, que não olha qem nós somos, mas olha que somos da sua Congregação de Jesu, tem cuidado de augmentar e preservar aos seus, e para isto me deu grande remedio para que não perdesse com vaidade o que elle ganhou com humildade. Deu-me tantos trabalhos e tam contínuos, que não me davão lugar ainda que quisesse cuidar na vaidade, que requere em sy grande ociosidade; e o tempo que avia de repousar não me alembrava se dormia no chão, se em catre, se em cama, e até que acordava seguro estava, salv'antes se em sonhos isto tivera: quanto mais quem tam grande pecador hé como eu, em que me ey de alegrar nisi in infirmitatibus meis. Quid habeo quod non accepi? Gra- tia Dei sum id quod sum, quare ergo gloriabor quasi non acceperim ? O charissimi, quanto desejei esses grandes fervo- res desse collegio de Coimbra e de toda Europa, a todos dera que fazer. (5 quanta differença vai nos desejos e nas obras, sicut actus et potentia. Enformemos as potencias para que saibamos quantum distat ortus ab occidente. Ó Irmãos da Companhia de Jesus, como pode entrar a tentação onde está Jesus, et omnia rapit et possidet, mas como poderá durar a tentação ouvindo isto? O charissimi, bemaventurada hora em que o Senhor fecit misericordiam cum servo suo, suscitans a terra inopem, et de stercore origens pauperem ut collocet eum cum principibus populi sui, que sois vós outros. Porque bemaventurada hora diga- mos todos não submissa voce, sede sicut cananea: venite et videte quanta fecit animo meo, misericórdias Domini in aeternum cantabo in generatione et progenie, que o Senhor quis ordenar esta Companhia por nosso Santo Padre Ignatio e os outros. 3 9°
Õ Pe. mestre Simão, quanto vos devo em o Senhor; ó Padre micer João (13) com Morais (14), quid retribuam Domino pro omnibus quae retribuit mihi? Não me fiqua mais que o pasmo, chorando. Se eu isto digo de my, que dirão os anjos de Coimbra de sy? Bendita seja a hora que entrastes na Companhia Iesu Christi! Õ planta tam santa, fundada no conhecimento proprio sobre Christo, e regada com seu precioso sangue, cavada pelos Martyres, cercada pellos Confessores, guardada pellas Virgens, venerada pellos Anjos, amada pelo Padre, dirigida pello Espirito Santo, nomeada e possuída por Christo! Ainda que pareceis, Companhia santa, planta nova, sois fortíssima por estardes transplantada na pobreza de Christo: extendit radices usque ad mare, et usque ad flumen propagines eius, mare mundus est, amor proximi flumen, paradisus est usque ad contem- plationem Dei. Qui nostrae salutis Christum et hunc cruci- fixum mundus non sequitur, anathema sit. Quae conventio lucis ad tenebras? laudate pueri Dominum, laudate nomen Domini, sit nomen Domini benedictum ex hoc nunc et usque in saeculum. Tornando ao meu proposito (ignoscite, precor, mens hoc exoptat) foi-me necessário com esta gente, para que me não danassem os outros, buscar outro caminho de rigor. E estando pregando, fiz grandes colloquios e protestos de ameaças diante do Senhor de diligendo inimico, e no fim da pregação pedi a todo o povo tres Patres nostres e tres Ave Marias por aquelles que estavão da maneira sobre- dita, para que Nosso Senhor os toquasse naquellas partes onde mais sentião, ou na fazenda e bens temporais, ou fama, ou no corpo, quebrando-lhe mãos e pees, braços, etc.; antes perdessem a vida, para que a alma fosse salva: (13) Padre João de Aragão. (14) Padre Manuel de Morais, senior. 39'
Imple fácies eorum ignominia et cognoscent nomen tuum, Domine. O qual os meteo em grande confusão, temendo muito de lhe vir alguma destas cousas, e se agravarão muito. Porem depois que lhe dey a rezão por que fazia isto, e que as cousas que lhe pedia que cortasse Deus, estas lhes fazião muyto mal para sua salvação, porque, se eu não fosse riquo, não seria porventura soberbo, se não fosse sam, não pelei- jaria: melius est uno oculo et uno pede ingredi gloriam quam duobus descendere in infernum, e por isto pedia os membros cortados e a fazenda. Noso Senhor, cuius oculi super iustos et aures eius in preces eorum, si iusta precantur, ouvio as nossas orações; e asy como pedimos assy ho fez, sem embargo de averem muitos nesta preguação que não sabião o que pedião, pois contra sy pedião. Porque ordenou o Senhor Deus huma guerra em huma fortaleza que estava alevantada dos mou- ros, que se chama o Manajão (15), e para tomada desta foi necessário mandar estes duzentos que disse e outros duzentos que forão depois, que serião 400, quasi todos da massa dos primeiros, com hum capitão mouro que levava cinquo mil mouros para combate da fortaleza; e por capitão-mor desta gente hia hum sobrinho do Governador da índia (16). A qual gente amoestey depois muitas vezes que se con- fessassem e se não fossem por confessar, porem tudo era manda, remanda, expecta, reexpecta, modicum ibi, modicum ibi; outros dizião: recede a nobis, scientiam tuarum viarum nolumus. Quis est Omnipotens et serviemus ei? aut quid nobis proderit si servierimus ei? Manus nostra excelsa et Dominus faciet haec omnia; percussimus foedus cum morte, et cum inferno pactum fecimus, et flagellum inundans cum pertransierit non veniet super nos, quia in mendacio posui- (15) Manudjan, distante de Ormuz cerca de 150 quilómetros. (16) Pantaleão de Sá. 39 2
mus spem nostram et in illo protecti sumus. E outros temerão e se confessarão, os quaes serião vinte por todos, pouco mais ou menos. E partindo se veo o capitão-mor com muita gente a me pedir bençam, ao qual dei a entender quam maos christãos hião e quanta necessidade por isto avião de ter. E chegando à fortaleza combaterão sem a poder tomar, e subitamente entrou no arrayal huma modorra que levava muytos sem fallar; e morrerião corenta e cinco homens, e os outros todos feridos e doentes, sem fazer mal aos mouros que com elles hião. E veo tam grande pasmo nestes homens, lembrando-lhe o que lhe tinha dito, que de dia e de noite, assy aquelles que morrerão como os outros que estavão sãos, desd'o mays pequeno até o mayor, não bradavão senão por mym, e lhes parecia que lhe avia de valer chamando por mym, estando eu tam longe. E mandarão em socorro outros duzentos homens, os quaes, quando virão tam grande açoite do Senhor, também pasmarão, e deixarão a fortaleza com concerto e se vierão para Ormus a confessar e morrer. Tam nomeado, me dizem os que vierão sãos de lá, fui, que cada dia, hora e momento bradavão por mym, que foi muito para notar. Parece que nas suas conciencias quis Deus mostrar os trabalhos que tivera com elles sem aproveitar, outros estando fora de sy sem juizo com fernesi não falavão senão por mym e de mym. Porem, deixando isto agora assy, torno ao proposito. Depois que partio esta gente tam maa como nunca vy, ordenei com todolos meus dicipolos, os moços que vem à doutrina cada dia que faço, e escravos e christãos da terra, de fazer procissão cada dia a huma Nossa Senhora da Esperança, que está meya légua da cidade, com levarem todos syrios nas mãos e muitas lanternas. Na qual entravão trinta ou corenta diciplinantes, ou cincoenta dos maiores, cantando as ladainhas; procissão com suas sobrepelizes, que 393
se me oferecerão para isto com muito fervor. Quando o povo sentio isto, foi tam grande o fervor, que as molheres, filhos e filhas, e homens acodirão à procissão, a qual foi tam devota como nunca vy. Chegando todos descalços à hermida, foi tam grande o pranto dos meninos, homens e molheres, e todos bradando: Senhor Deus misericórdia, que foi hum pasmo. Não me parece que fiquou ninguém de todo o povo e gente meuda que não chorasse por espaço quasi de mea hora, bradando sempre altas vozes. E depois de lavar os diciplinantes, preguey a todos escontra a meya noite. E destas procissões fiz muitas neste tempo, louvado Christo, para que Deus alevantasse sua ira d'antre nós onde concorria muita gente, descalços todos. Os mouros pas- mavão quando vião, soo huma vez nos tirarão pedradas em que escalavrarão hum moço; não soubemos donde vinha, porque a procissão vinha muito comprida. Escreveo-me o capitão-mor, estando no cerco, huma carta tam piadosa, que tinha muito doo delles em não poder lá hir para os consolar, porque mestre Francisco quando me para quá mandou temia muito que me fosse para Persia ou Turquia, ainda que não são tam fervido como elle cuidava; e porque desejava de me levar para Japão e China, e não sabendo aynda que faria Nosso Senhor delle laa, quis antes que me viesse entretanto fructificar o Ormus, para que toda a Yndia se aproveytasse da nossa Companhia, esta soo terra que mais necessidade tinha, e se Nosso Senhor ho levasse vivo e fizesse fruito laa, para me mandar chamar e me achar certo, me mandou que por tres anos estivesse neste Ormus e não saisse fora dos limites desta ilha, que será de duas legoas, ainda que da India me mandassem o contrario; e sendo caso que Nosso Senhor ordenasse delle outra cousa e que morresse, que entam faria segundo a obediência de Goa. E esta sospeita tomou elle por lhe per- 394
guntar se poderia hir à Persia avendo algumas guerras, mandou que não, segundo acima disse. Pelo qual mandei ao Pe. Antonio £Gomes] pedir hum Irmão de missa, se este ano alguns vierão de Portugal, por- que Reimão Pereira, meu companheiro, que comigo mandou mestre Francisco da Yndia, não pode sofrer esta terra, pella grande quentura, que se afogava, de maneira que eu avia doo delle e o mandava a casa do vigairo que estivesse ahy por ser mais fria, e assy ho trazia de casa em casa pela calma ser grande e para elle insofrível, por ser muito quente de sy mesmo. Nosso Senhor me fez tam frio que quando elle morria e abafava de calma, e os livros em que estava estudando e a mesa estavão ardendo, que não se podião sofrer pôr quasi a mão sobre elles, entam estava eu muito frio, vestido com hum gibão debaixo da roupeta, que he de linho. Louvores ao Senhor, a terra me parece natural para mym, quentíssima no verão e seca, e frigidissima no inverno e muito seca; e desta maneira ho tive duas vezes à morte, até que me foy necessário torná-lo a mandar para Goa, e o mandey fiquando soo com hum moço arabio. Neste tempo chegou a Ormus esta gente do cerco e se forão para o hospital os mais delles, lançando-sse no chão, levantando as mãos a Deus quando me virão, lou- vando a Deus que os chegou a estado para me poderem ver; e me pedirão confissão todos, com muita preça, e que depois de confessados não desejavão mais que mor- rer ou, se vivessem, fazer penitencia muito aspera pera se salvarem e servirem a Deus, huns em S. Francisco e outros em S. Domingos, outros hermitãos, outros servirem no hospital. Aos quaes abracei, e chorarão muyto todos com muito amor, consolando-os muito no Senhor, que faria o que pudesse, porem não podia ouvir a todos, que erão 400 com os que estavão nas suas casas, que os Padres me ajudarião, que erão cinquo confessores e eu seis. Ao qual 395
me requererão que não se avião de confessar senão comigo, porque vinhão como perdidos e que antes morrerião sem confissão. Ó Irmãos charissimos e Padres, que piedade tam grande era esta para mym ver tantos sem remedio, huns estavão sospirando, outros com fernesi, outros feridos à morte, outros não se querião partir de mym no chão como gente a quem Deus toquara; e o que mais era, todos ou os mais se confessarão de toda a vida e não se fartavão de confessar; tanta contrição geral nunca a vy, louvores ao Senhor. Todos choravão quando me vião, como os filhos quando vem de longe e tiverão muitos trabalhos, fazem ao pay, e não se querião desapegar de my, dizendo quantos desejos tiverão de me ver. E vendo que se não querião confessar senão comigo, assy os do hospital como outros muitos fidalgos que esta- vão em casas de homens honrrados, determiney de tomar a cruz às costas, e comecei a confessar aos mais fracos que estavão espirando; nem por mais que me mandou chamar o capitão-mor, que também estava doente, para se confessar, não me quis apartar destes fracos, até os ouvir todos. E assy confessando por ordem, me cheguey ao capitão ao outro dia, ouvindo confissões de dia e de noyte, até que dentro de hum mes os acabey quasi todos, dos quaes muitos morre- rão, scilicet 100 mortos, louvores ao Senhor. <5 quanto desejey algum Irmão que estivesse com os que morrião, que não tinhão quem estivesse com elles, por amor das confissões: achegava-me a elles e dizia-lhe duas palavras e tornava-me a meu officio. Valeo-me o meu hospede hospitaleiro que sopria por mym. Erão tantos os recados de outros que estavão fora nas casas, que não podia valer. Porem o demonio, que nestes tempos tam contrários à sua doctrina não dorme, andava lavrando para ver se podia estorvar algum bem que se fazia, e semeou grande zizania antre os sacerdotes. Os quais, quando virão que ninguém 396
se queria confessar com elles e os proprios seus filhos espi- rituais se vinhão para mym, se escandalizarão muito e me terião algum odio, o qual não julgo, porque dantes estavão yà toquados disto, como acima disse, nos abalos dos casados e moradores e mercadores, porque muitos delles por não escandalizar aos confessores se confessavão secretamente comigo, para que ninguém soubesse isto geralmente, o qual vierão a inventar os Padres. E quando virão isto e de con- fino serem as confissões tantas que me não podia valer, fizerão conselho que farião, e acharão, segundo me disse o vigairo, que a rezão de todo o mundo se confessar comigo que era graça do Espirito Santo que tem a nossa Companhia, e com isto cessarão as querellas e me tiverão mais amor, offerecendo-sse para me ajudar. Parece-me que ouveria perto de seicentas confissões depois que estou neste Ormus, que serão seis meses, louvores ao Senhor; messis multa, operarii pauci. Se esta terra fosse segura para se poder fazer collegios, bem poderá encher hum par delles de religiosos da nossa Companhia, o dinheiro para se fazerem até seis mil pardaos aqui se acharião bem, porem não pode ser; lá os mando para a índia aos mosteiros, outros aos hermos para serem hermitães, Nosso Senhor os favoreça. Também estive quasi determinado para fazer hum collegio de moços nesta terra, assy de pérsios como arabios, genizeros, ruscios e abexins, porem a terra não hé segura e a fortaleza muyto pequena para isto. Notay, por amor de Christo, desta gente que disse aqui, pode-sse dizer que era mais maa que nunca naceo no mundo: metidos em trezentos pecados públicos, huns amancebados com christãas, outros abarregados com molheres casadas, outros trazião consigo mouras com que dormião, outros judias, outros gentias, outros públicos renegadores, outros ladrões roubadores, e tudo isto he publico: outros que 397
nunca se confessarão sendo de oytenta anos, outros escomun- gados de trezentas escomunhões, outros andarão dez annos de lugar em lugar para matar quem os ofendeo, e não ouso de dizer, alguns renegados comião carne todo o ano, o qual nesta índia hé muito vulgar, e de não jejuar; outros frades fugidos dos seus mosteiros, quem tres mortes, quem 4, quem 5 tem às costas. Parece gente barbara nas cousas de Deus e sem ley. Louvores ao Senhor, valeo-me todo o poder do Bispo que tenho, asy da Caena como os outros: as confissões de Portugal não são nada em respeito das desta parte. Porem nunca vi tam maa gente quando hião e tam boa e contrita quando tornarão: Euntes ibant et flebant mittentes semina peccatorum, venientes autem venie- bant portantes manipulos suos contritionis. Ainda que isto doutra maneyra se entenda, bem se pode aqui aplicar. Louvores ao Senhor, não me fartava das suas confissões, tantas lagrimas choravão que me fazião a mym chorar. Antre estes homens que morrerão no cerco da fortaleza, morreo hum abarregado que tinha por custume de trazer tres mouras consigo com que[m] pecava publicamente, e comia e bebia. E este tinha por oficio renegar de barcas carregadas de Anjos e carros de Deus e de todolos santos, o qual fazia por galantaria este grande doutor na mal- dade. O qual morreo subitamente sem falar, e acabante d'espirar se alevantou tam grande tempestade de poo que parecia diluvio; cuidavão todos que erão perdidos, e assy se foi, e o mais daquella gente julgou que era por este homem. Outras cousas muitas acontecerão, as quaes não posso dizer, de muita admiração, soo vos digo que aqui se acon- tecerão grandes milagres neste tempo. Ganharão aqui as confissões tam grande fama, que não fiquarão muitos por se confessar, porque muitos estando à morte, acabante de se confessar se levantarão sãos. Bem 398
mostrou o Senhor a este povo a virtude do sacramento da penitencia: aynda não adoecião, quando yá se confessa- vão, antes de chamar o medico, para os curar; e era muito necessário fazer Nosso Senhor esta amostra deste sacra- mento, porque delle fazião pouca conta. Tinhão por custume confessarem-se de dez em dez anos alguns, e nunca toma- rem o sacramento da Eucharistia, por dizerem que não erão dinos delles. Choray, Irmãos, a grande perdição desta terra; agora está boa. Outro milagre aconteceo vindo esta gente para Ormus do cerco, por terras de mouros e muitos ladrões: Veo hum homem à morte em huma besta, da qual caio e fiquou no caminho sem ninguém olhar por elle, o qual andou tres dias até chegar aos outros que hião diante. E diz que foi levado a huma tamareyra que tinha datiles, a qual sobio e encheu o seo delles e se fartou, e achou hum mouro no caminho ao qual perguntou onde estavão os frangues, que erão os christãos; e diz que este ho levou e lhos amostrou. O 3o dia chegou à fortaleza onde estavão os christãos, e quando chegou a elles acharão-lhe o seo cheo de datiles, e lhe perguntarão como viera estando à morte, e elle disse o acima dito, não avendo em toda a terra tamareira com tamaras; e a primeira palavra quando chegou, disse que não rezara avia 3 dias o officio de Nossa Senhora. Este homem confessava-sse muitas vezes e era muito devoto. Muitos se confessão cada domingo e tomão o Santís- simo Sacramento, o qual põe muita devação no povo. Porem os custumes desta terra forão tam maos, que se des- honrravão de tomar o Senhor por lhes não chamarem hypo- critas, e assi me confessarão muitos homens, principalmente o capitão, que estavão muitas vezes nas pregações para arre- bentar em lagrimas e as metião dentro soo por não os verem, os quaes reprendy bem disto. 399
Finalmente nunca gente mais perdida vi, e onde os pecados erão, e tam sem vergonha, nem onde o nome de Christo tam vituperado era, e a sua Ygreja tam perdida, e toda sua honrra roubada, e a gente tam simples no pecar, e entendendo suas cousas altas. Finalmente todas as bandeiras de Christo derrubadas por terra e pisadas com os pees, até terem vergonha de falar na morte de Christo aos mouros: Quod mihi absit, nisi gloriari in cruce Domini. Os domingos pelo verão tinhão por custume ouvirem soo huma missa rezada, e quando vinha o tempo da missa do dia não avia gente por amor da calma. As molheres nunca vinhão à ygreja, dizendo no verão aver muita calma e no inverno muita lama. Os capitães governavão a Ygreja, injuriavão cada vez que querião aos vigairos e sacerdotes, não lhe alembrando que erão ungidos por Deus; não tinhão conta com excomunhões nem mandados da Ygreja. Lou- vado seja o Senhor que provê em tudo. Ou verão medo, quando me virão tam merencório nas pregações sobre isto, pregando largamente, ameaçando-os com excomunhões, por- que me ajudo muito com o braço ecclesiastico, a aquelles que são rebeis, mandando que os prendão; e isto pelo vigá- rio que hé grande devoto da nossa Companhia. Está aba- lado para se meter na Companhia, ando para lhe dar os Exercícios. Requere-me que nos vamos para Preste Joam, que hé aqui perto, a morrer pela fee; muito amigo de Deus, encomenday-o a Nosso Senhor. As molheres, quando ouvirão a primeira pregação, corre- rão como a perdões para ouvir as pregações, e onde dantes não vinhão, agora sempre vem; e onde dantes tinhão calma, agora a não sentem, ainda que se traspassem em suor. E os homens não se contentão com huma missa rezada, mas todalas ouvem e a do dia. Eu tenho muitas vezes doo de ver os homens todos trespassados em suor e os vestidos, e tudo pela grande calma; a ygreja pequena, a gente muita, 400
tudo lhe parece pouco por amor de Deus, esperão pelo domingo como festas grandes, louvores ao Senhor. Os Padres, depois que vym, graças ao Senhor, andão muito fervidos. Os sabados himos de noite descalços can- tando as ladainhas pello povo, porque depois que cheguei treme muitas vezes a terra, mais do que soya, e muito tempo e fora do tempo. Serião 7 ou 8 ou 9 vezes, de que me aproveitei muito, e algumas vezes antes que entrasse na pregação, para que me alembrasse o que avia de dizer. Fazem os ofícios muito solenes com muita devação. Soo em huma cousa estamos discordes, o qual não posso emendar, que hé virem-se para mym seus filhos espirituaes; eu não os rogo, não sei que lhe faça. Acerca dos meninos, e escravos e escravas, e christãos da terra, o que passa, louvores ao Senhor, vê-lo será mais contentamento que ouvi-lo contar: cada dia do mundo, depois que party de Goa, faço doutrina na ygreyja matris, e depois de jantar, huma hora antes que faça a doutrina, os ando chamando com huma campainha pelas ruas, onde gastarei duas horas sempre. Sabem yá quasi todos, peque- nos e grandes, o Credo, Pater noster, Ave Maria, Salve Re- gina, os mandamentos em lingoagem, mandamentos da Ygreyja, a confissão geral, sacramentos da Ygreyja e obras de misericórdia, e outras orações muitas, do qual estaa o povo todo espantado saberem mais os filhos que os pais, escravos que o senhor. E fazem grande proveito, porque há aqui muitos que se não sabião benzer, porque não vivião como christãos, os quaes em casa ensinão os filhos aos paes e mãis. Andão em tanto fervor, que não deixão dormir os pais, com cantar a doutrina christãa. Hé muito para louvar a Deus, que nas mais das casas fazem doutrina à noite aos escravos que não podem hir à ygreyja e escravas, em tanta maneira que os homens não ouvem nas suas casas. Doo. Padroado, iy - 26 ^ O /
Louvado seja o Senhor que, em lugar de jurarem, fazerem mal, louvão a Deus, pelas ruas andão cantando; e tam vulgar hé, que me chamou hum homem honrrado hum dia, e me mostrou hum mourinho pequeno que andava pelas ruas cantando: Em nome do Padre, e do Filho, e do Espi- rito Santo. Muito para louvar a Christo, pois os mouros não sabião falar senão em Deus. Lembrou-me do profeta Balão que queria maldizer aos filhos de Israel e não pode senão bemdizer. Os meninos andão com os mouros dis- putando se são christãos, e que não se podem salvar sem baptismo. Andão os mouros muito atropelados guardando seus filhos para que os não fação christãos. Nos escravos e escravas se fez muito fruito, que estavão amancebados e por ignorância pecavão. Bem diz o Profeta: «Ex ore infan- tum et lactentium perfecisti laudem.». Não há agora quem jure, ou peleje, ou faça mal. Tenho nelles grandes acusa- dores; os filhos reprendem os pais de jurar, que os acusão. O domingo depois do jantar chamo também com a cam- painha para a doutrina, e se ajuntão na ygreja quinhentas ou seiscentas almas para a doutrina: molheres e homens, e meninos e escravos, aos quaes declaro os artigos da fee, mandamentos e pecados mortais, finalmente toda a Sagrada Escritura, e depois faço dizer a todos a doutrina juntos. Hé muito para louvar ao Senhor tanto fervor. E ao cabo faço amisades com aquelles que estão mal, e faço pedir perdão de giolhos e abraçar; e quando saem parece hum exercito. Os mouros estão muito espantados, dizem os homens e clérigos que se renova toda a fee, por nossa Companhia. Diserão-me que aos mouros pareceo bem isto, andar com a campainna à tarde, e ordenarão huns brados no alcorão pelo mesmo. A minha vida nesta terra hé viver no hospital, digo cada dia missa aos doentes e administro os sacramentos, confesso e consolo, assi no espiritual como no temporal, ayudando 402
com esmolas e conservas, que tenho muitas de esmola. Estou com elles à noite, lavo-os, e quando posso amortalho-os, e ensino-os. Estarão sesenta aqui. Domingo prego ao povo na missa pela menhãa. Vou jantar com quem tem necessi- dade disto. À tarde, se há baptismos, baptizo; faço doutrina aos meninos e christãos da terra, homens, molheres, escravos e escravas, e prego-lhes. Acabando de pregar, são tantos os que me querem levar para sua casa a jantar, que me não posso valer. Segunda-feira tenho ordenada disputa com os jogues e gentios, que naquelle dia tem sua festa; 2a, 4a, e 5a con- fesso, faço amizades, vou à cadea consolar os presos, con- solo doentes, concerto demandas, busco esmola aos pobres. 6a-feira tenho disputa com os mouros, ordenado com hum filosofo muito grande e medico, astrologo e nigroman- tico. Até agora não tive lugar para entender aos mouros, espero em diante ter mais lugar. Se me mandarem da Yndia hum Irmão de missa por companheiro, entenderei nas conversões dos infiéis, que são muitos abalados, e judeos; e se o irmão fosse pregador para poder pregar ao povo, descançarey mais, para não ter outro cuidado que nos gen- tios. Sabado tenho disputa com os judeus na sua esnoga (17), com os quaes tive muitas em minha casa, onde me vem muitas vezes buscar, e desejão muito conversar-me; e soo huma tive publica disputa com elles, onde foi muito con- curso de gente, assi portugueses como judeos, a qual os meteo em grande confusão e aos christãos deu muito con- tentamento, atribuindo o que se nella passou ao Espirito Santo. Acabada esta disputa fiquarão os judeus muito confusos, sem saberem como responderião e os christãos muito victo- (17) Isto é: sinagoga. 4°3
riosos, que não cabião de prazer, atribuindo tudo o que se ahy passou ao Espirito Santo. As repostas que disto tinhão para me dar na disputa seguinte, não se atreverão: porque contá-lo aqui será cousa muito ridícula de hum anel serrado querendo provar a unidade divina. E tomarão por conselho não me responder, senão desemperar as esnogas quando viese, e fazer-me sempre preguntas, e estar muito atentos ao que dizião, escusando-sse com sua ignorância. E o Rabbi Josepho se veo a mym, pedindo-me por amor de Deus que os não metesse mais em confusão, principalmente a elle, e que ainda que era doutor delles na Biblia, não entendia tanto para me poder responder. E me certifiquou que se tornaria christão e muitos judeos, porem que o agasalhado hé tam mao, que os christãos fazem aos judeos depois de christãos, que antes querião morrer na sua errónea, porque por amor do seu dinheiro, sendo judeo, lhe fazião muita honrra os christãos, e convertidos era necessário tor- ná-lo todo a seus donos, por ser por onzena ganhado, e se elle poderá ser quem eu era antre os christãos, elle yá fora christão, ainda que fosse sem dinheiro. E isto dizia a todolos christãos que lhe falavão, segundo me dizião, e o mesmo dizião os outros judeos, rogando-me muito que quisesse aceitar hum jantar na sua pousada. Ao qual disse que avião de ser os manjares communs a todos e não particulares de adifina, do qual era contente de comer tudo o que eu comese contanto que ho aceitasse (18). Tem-me muito amor, muito espantado da pobreza de nossa Companhia e fervor. Deseja muito de me conversar. De principio me trazia, vindo a minha casa, algumas cousas da ley velha diante para me provar; porem às duas pri- meiras repostas, não curou mais de argumentar, porque, (18) Ou adafina, espécie de guisado dos judeus em Espanha.
para lhe dar a entender a autoridade que me trazia, decla- rava-lhe todo o capitolo delia. O Rabbi Salomom, que hé o mais docto delles, lee em outra synagoga. Este teve yá com mestre Francisco algumas disputas em Malaca, do qual fui tam perseguido que me não deixavão elle e outros judeos, movendo-me muitas questões sem me responderem, mas antes escutando e con- sentindo em tudo o que eu dizia e confirmando-o. E ga- nhou-me tam grande amor, que não vinha a outra cousa que a aprender e folgar de ouvir das cousas divinas. E me veo hum dia tanto a apertar que quisesse hir a sua casa comer com sua molher e filhos, e me disse que se não forão vinte mil ou trinta mil pardaos que tem, que me não deixaria nunca. E socederão-me tantos trabalhos nos christãos, que não me deixavão dormir nem comer, e por acodir aos que estavão yá ganhados não pude mais conversar com elles, nem disputar, nem fazer nada, somente hum que achei doente na rua que trouxe para casa dizendo-me que se queria tornar christão. Porem hé grande o amor geralmente dos judeos que me tem, que me parece que lhe ei de ler a Biblia nas suas esno- gas, declando-lhe os erros que tem, segundo que os vejo despostos e tem grande credito a nossa Companhia, que hé muito para notar. Vão corrompendo muito as supersti- ções que soyão ter na ley, Deus seja louvado. Fazem grande çalema quando me vem; muito concorrem a mym aos agra- vos que lhes fazem os christãos. Estão como pasmados, quando me vem andar com a campainha, e assy geralmente os mouros e gentios, dizendo, como pode ser Companhia que tem o mor credito nesta terra que nunca teve ninguém, andar e tratar-se tam baixo? Veo hum dia hum judeo a casa e me disse o que passa- rão os rabbis na esnoga, e que os ouvintes perguntarão aos doutores que lião como se ouverão comigo na primeira 4°5
disputa que tiverão comigo na casa onde pousava; e direi como isto foi: Antes que tivesse conhecimento dos judeos, sendo ainda novo na terra, começava voar a fama do gram cassis que me chamavão pela gentilidade. Acertey de pregar no dia de Santíssima Trindade a todo o povo que era muito, na qual pregação provei a Trindade por muitas rezões e a Sagrada Escritura, assy nova como velha, reprendendo todos que não crião nem adoravão a Santíssima Trindade, como judeos, mouros, gentios e bár- baros. Parece que nesta estavão alguns judeos, ou lho disserão. Determinarão de me argumentarem sobre o que tinha dito: Heloim, faciamus, eritis sicut Dii, Sanctus, Sanctus, Sanctus (19). E outras cousas, as quaes quando vy respondi-lhe de maneira que não me souberão responder sem trazer os seus textos, sem embargo de saberem toda a Biblia quasi de cor, e desta forão perguntados. Ao qual respondeo Rabbi Salomom que nunca se achara com gente mais douta que da nossa Companhia, e que se vira com muitos sábios, porem não erão nada para nós, e que éramos tam sotis nas praticas que não podia ser senão graça de Deus, e que com isto vencíamos. E responderão os ouvintes: pois com que cuidaes que vos ão de vencer senão com letras e sotilezas? Não me quis dizer nada, rogando-me que o não dissesse a ninguém por não saberem que mo disse. Tornou-se huma filha de hum judeo christãa e o pay lhe não queria dar o seu, porem à propria hora que fui a sua casa, logo me pos diante dos pees todo ouro, prata e riquezas que tinhão delia. Acabar-se hão estes trabalhos ou me man- darão algum Padre e tornarey a elles. Os mouros me tem grande amor e reverencia, que parece que Nosso Senhor anda muito na nossa Companhia, (19) Trata-se das principais passagens do Velho Testamento que demons- tram a SS.m* Trindade, (a. Gen., 1, 26; 3, 5; Is., 6, 3.) 406
não sei que fará. Fazem-me grandes çalemas até o chão; estão pasmados das restituições que lhes mandei tornar. Muito me espanto de me não terem odio, porque tam seguro ando à meya noite por esta cidade, encontrando com toda a mourama, e tirão-se do caminho para me dar lugar. Andão também muito confusos, porque o tempo de Mafa- mede se acabou em que lhes avia de dar outra ley; os mais principaes desejão de falar comigo sobre a pobreza; obede- cem muito aos meus escritos, que lhes mando quando fazem algum agravo a alguém. Os gentios aqui adorão as vacas e forrão ano muitas vacas que andão por esta cidade com a carta d alforria às costas, e tem certas casas publicas que tem muitas grossas rendas, onde dão de beber a estas vacas por amor de Deus, porque na ylha não há agoa doce; e assy não comem cousa viva nem morta, mantem-se com ervas. Tem rastro de Trindade, o qual me parece que lhe fiquou dos filosofos; a potencia hé do Padre, a sapiência do Filho e a bondade do Spirito Santo. Poem a Deus certos nomes em que encerrão tudo. São muito humildes em estremo. Se vem que alguém quer matar alguma cousa ainda que seja piolho ou pulga, o qual não há nesta terra, por qualquer lagarto ou cousa viva, rogão muito que o não matem, porque tem para sy que não podem matar ninguém, e não querendo fazer o que pedem comprão a mesma cousa para lhe dar vida. E achei fora desta cidade em humas covas muitos hermi- tães, que vivem tendo obediência a hum superior que tem muita abstinência, os quaes também tem Trindade como os gentios, porem estes andão por todo o mundo como santos antre elles, que se chamão jogues. Amão muito a pobreza e castidade, porque tingem os vestidos que lhe dão com lama para andarem mais pobres; são grandes filo- sofos, os quais estão quasi convertidos. Espero pelo mayoral 4o 7
delles, no qual se louvão todos, que o que elle fizer elles são contentes. Desejão sempre estar comigo, tem-me muito amor e reverencia, e tem para sy que a minha vida hé como de jogue. Tangem às avemarias de noite com huma campainha. Esta hé a gente que desejo andar com elles pela gentilidade depois de convertida. São pregadores. Eu fora pousar com elles, se não fora a muita ocupação nos christãos, se poder do Pe. mestre Francisco ou do Pe. cha- rissimo meu Antonio Gomez, cujo favor desejo muito de conversar, porque não posso negar que, se nesta índia algum fervor tenho, elle mo deu e debaixo de suas abas o alcancey. Nosso Senhor me dee graça para que alguma hora nesta vida o veja para lhe dar graças disto, e sendo martirizado nosso Pe. mestre Francisco, delle averey isto, prazendo ao Senhor se for gloria sua. Tenho enformação de muitas religiões como frades, freiras, antre os gentios; poderá ser que a coroa que espe- ramos ahy no-la dará o Senhor. Orate pro nobis, Fratres charissimi, ut ita fiat. Os mouros são muito pacientíssimos, porque tudo atri- buem ao primo motor que move tudo; prouvesse a Deus que os christãos assi fizessem, não ouvera tantos desafios como aqui há. Os mouros andão ctantando a doutrina pelas ruas, como se fossem christãos. Yá hum se converteo que assy andava cantando; Christo lho pague. Aos sabados à noite faço doutrina sobre o pecado da avareza, donde naceo grande fruito nesta terra nos tratos da onzena. Muitos dos barbaros se convertem cada dia, louvores ao Senhor. Todolos dias do mundo, depois de jantar, chamo pelas ruas os meninos que venhão à doutrina, e assi todalas noites ando pelas ruas com a campainha, dizendo: Fieis christãos, alembrai-vos das almas que estão no fogo do purgatório, Pater noster; e depois outro Pater noster pelas almas que 408
estão em pecado mprtal. Chamão-me também os arménios para estar com elles à morte e confessar por interpretes, e vem às pregações. Vedes aqui, Irmãos, em universal o que passa nesta parte da Persia. Há tantos nesta terra que me querem dar seus filhos, homens muito riquíssimos, para me servirem, e há tantos que se querem meter na nossa Companhia, que hé muyto para louvar a Deus. Lá mandey hum homem fidalgo para o collegio, rogando que o tomassem; tem tres anos de gramatica. Aqui morreo hum fidalgo, grande homem, o qual tinha votos da nossa Companhia. Os outros não tem letras e por isto não os mando. Desejão muytos de hir comigo à China, quando me mandar chamar o Pe. mestre Francisco, ou por onde for. Grande hé o fervor, louvores ao Senhor. Se não virdes mais cartas minhas, nem por isto deixeis de me encomendar nas vossas orações, porque se não for isto, que será de mym? Tenho para mym que estas duas cousas sostentão os nossos Irmãos que andão por terras alheas, com tantos tra- balhos, seguindo a Christo com tanto amor e perfeição, conversando tanta nação diversa, soos, in medio nationis pravae; e porventura chegarão a tanto, que as molheres casadas acometem aos Padres da nossa Companhia em lhe parecer que o filho será virtuoso: armas são do demonio. Qui habet aures audiendi audiat et corde intelligat, para que ninguém se engane no seu espirito, mas sempre trabalhar de ter mais, nunca presumir de sy. O espirito da Companhia de Jesu não pode ser soberbo, aynda que o meu não hé assi como digo. Louvores ao Senhor, digo que tomeis deste pobre Irmão este conselho, para que quando vos mandarem esteis armado [s] com Christo, porem Dominus illuminatio nostra et protector noster, quid timebimus nisi iram ipsius. 4°9
As quaes duas cousas sempre defendi, e parece doutra maneira ser impossível que gente tam fria, tibia e mole, como eu principalmente sou, que fui quá mandado como cousa inútil para a Companhia, e pasarem por tam grandes fogos sem se derreterem no fogo da tribulação, no qual tanquam aurum in fornace probat vos Altissimus, et báculo nostro transivimus Iordanem, sed cum duabus turmis regre- dimur; e assy o escrevi ao collegio de S. Paulo à índia. Das quaes a primeira hé defender Jesus a Companhia, por ser sua e os Yrmãos delia, e assy não olha nossos méritos, mas faz isto por amor de sy; e o segundo são orações dos meus charissimos Padres e Irmãos de Europa e India que sempre fervem diante de Deus, porque, multa membra, unum corpus sumus, caput autem Iesus. E assi muitos e diversos servidores fazem hum serviço hum serve de mão que anda yá na obra, como os que andão dispersos por terras desertas, tam remotas do seu natural; outros servem de pees, que são os que estão tam fervidos nos desejos de padecer por Christo; outros servem de lingoa que rogão sempre pelos outros; outros de olhos que sempre andão vigiando super gregem suum, tanquam bonus pastor, outros de ouvidos que estão estudando sempre, outros dos narizes, que cheirão tanto nos unguentos das virtudes; outros de entendimento, como são os especulativos, outros de memoria como são os doutores; outros da vontade como são os activos que estão na cozinha, porta e refeitório, et omnes sunt administratorii spiritus in ministerium missi. Nem hum membro pode dizer que não há mister a outro, nem hum se pode levar sem outro, nem hum pode obrar sem outro; todo o que fazemos hé uma cousa, que hé servir a Deus. Que se me daa a mym mais ser hum membro que outro, se todos igualmente ajudamos, nem hum sem outro pode fazer nada? Que me monta mais servir de mão que de pee? Que me monta mais na Companhia servir perpe- 4 i o
r tuamente de cozinheiro, que servir de pregador dos gentios e converter todo o mundo, se todos fazemos huma cousa? O Fratres charissimi, para saberdes quanto fruito fazeis diante de Deus, vede o que se cá faz na Yndia e em outras prates, fazei conta que vós fazeis tudo isto. O Fratres, eu mais triste de todos, constrangido por todos pedir esta esmola, que hé humas ladainhas por todo- los os Irmãos que andão por terras alheas, que sostentão o pezo da Companhia para que não cayão em fraqueza alguma, porque a honrra desta planta tam tenra, como a Congregação de Jesú, hé muito delicada. Vae soli, quia si ceciderit, collidetur. O quam bonum et quam iucundum est habitare fratres in unum, porque se cayr tem logo trezentos Irmãos que ho alevantem, e por isto digo que os de fora sostentão o peso. Alembro estas ladainhas em todolos colle- gios e os Padres nas suas missas, para que na honrra dos santos seja nosso favor. Tres cousas sostentão a nossa Companhia; primeira, conhecimento proprio, humildade e pobreza, 2a conhecimento alheo, scilicet de Deus e do proximo, scilicet contemplação, que pertence ao amor de Deus, e vida activa, ao amor do proximo; 3a discrição e saber para conservar utrumque, que hé letras muitas, porque antre mouros, gentios, herejes e judeos são muito necessárias. Começai por estes tres degraos a sobir e vereis onde his ter, da humildade sobimos ao conhecimento de Deus e do proximo, e dahy às letras. Isto não digo como ensinando, mas como a charissimos alembrando, para que não cuideis que quá não ajão mister mais letras que laa, Nosso Senhor supre agora. Tenho por noticia que hum Padre da nossa Com- panhia, nestas partes da Yndia, andou muito atribulado por trazer à confissão hum homem muito poderoso e de muito mando, o qual era muito tyrano e dizião delle grandes males que fazia no povo, não se achava homem que dissesse bem 411
delle. O qual porque o Padre ho quis reprender dos seus vicios, lhe respondeo muito áspero, de maneira que fiquava de fogo e sangue com o dito Padre. O qual Padre, como vio tanta perdição neste homem, propos a rogar por elle a Nosso Senhor para que ho allumiasse na missa. E estando desta maneira, este homem huma noyte, antes da menhã, vio este Padre diante de sy estando as portas fechadas, o qual era tam resplandecente e lhe saya tam grande odor das mãos e do seu rosto, que toda a casa recendia; e vio no mesmo instante outro que di2ia a este homem: «Que fazes, pecador, porque te não confessas com o Padre foão, não ves quam resplandecente está?» E logo desapareceo o Padre, e este homem ficou tam alegre como fora de sy, e quando vio o Padre menos perguntou por elle, e lhe foi dito que estava no hospital dizendo missa. Do qual fiquando este homem muito espantado mandou com muita alegria chamar o Padre, dando-lhe conta disto, e pedindo-lhe con- fissão, e tomou os Exercícios da primeira somana; satisfez com muitas lagrimas a Deus. E o mays callo deste Padre por não querer ser descuberto, e com este homem aconte- cerão a este Padre muitos grandes mistérios que por tempo se dirão. Aconteceo mais a este Padre ser rogado que dissesse huma missa e rogasse por hum filho que estava à morte, cego de hum olho muito, e o mesmo dia que disse a missa foi são das febres e se levantou, e foi sam do olho cahindo delle escamas. E este mesmo ofereceo huma missa por hum homem que estava à morte, do qual desconfiavão, e lançou no mesmo dia um bicho muito grande e ficou são. O mesmo Padre hindo visitar hum homem para o poder confessar e tirar de muytos males em que andava, o qual renegando dixe que descrya de Deus, que se não avia de confessar até vingar-se do que lhe fizerão. Mais dizia que nunca se confessaria e que queria morrer homem. Ao qual 41 2
dixe o Padre: «Olhay por vós, antes d'amenha a meyo dia pedireis mais de 5 vezes confissão, rogando quem vos con- fesse sem achardes quem vos confesse». E assy foi porque, acabante de sair de casa, lhe veo tam grande febre que ouvera de morrer, e mais de 5 vezes pedio confissão sem achar este Padre para ho ouvir. Assy mesmo hum homem viera de fora muito mao, que tinha dado a este Padre muitos trabalhos pelos homezios em que andava, do qual disse este Padre: «Foão vem são, quanto me peza, somente por se confessar ei de pedir a Deus que lhe dee alguma febre para que se não perca». E no mesmo dia adoeceo este homem e veo muito depreça pedir perdão e confissão antes que morresse. E estando confessado este homem, o levou o Padre por toda a cidade de casa em casa a pedir perdão dos seus imigos, que erão mais de dez: huns estavão com espingardas cevadas para ho matar, outros armados, outros andavão com quadri- lha para ho matar, e todos lhe perdoarão. De maneira que dantes trazia muita gente para sua defensão, sendo hum homem fidalgo capitão, agora anda soo com este Padre sem espada, sem nada; e depois acabou a confissão com muita contrição e foi são. Nem cuideis que isto que aqui escrevo que hé de mym, que sou tam mao. Muitas cousas sabia da Yndia quando party delia e dos Padres, e assy ainda que estou em huma terra muito remota da Yndia, nem por isto deixão de com- municar comigo os Padres com cartas e muitos homens que destas partes vem. <5 Irmãos charissimos, quem vos podesse escrever tudo o que passa! E se vísseis o que vejo cada dia por estes olhos pecadores, quantos mais fervores tirieis, quanto louvaríeis ao Senhor pelo que vísseis! E quem vos podesse em confissão descobrir o que eu sey das grandezas do Senhor que obra pela Companhia aqui! Rogo-vos muito que vos ameis muito, tanto amor a hum como a outro, não 4'3
ajão particularidades, não desprezeis a ninguém por mais pequeno que seja, porque aquelles são de que [m] se Deus mais serve e por quem mais obra: «Elegit infima mundi ut confundat fortia»; conhecendo-se cada hum pello mais ignorante, pecador e vil de todos para ser dos mayores, e vereis quam bonus est Dominus his qui recto sunt corde. Não digo mais, charissimi, por não ser prolixo mais do que são e diminuir-vos o fervor que tendes, nem atenteis a minhas ignorâncias e maldades que contra vós sempre comety em vos dar mao exemplo por palavras e obras; o amor que vos tenho todo este me tenhais a mym, como creo que tereis muito mais. Christo seja juiz antre mym e vós, ninguém cure de pôr juizos de mym, vendendo-me mais do que são: a obediência e o amor para que disto non nobis sed nomini Jesu detur gloria. Gratia Dei sumus id quod sumus. Elie que nos trouxe per tot discrimina a esta santíssima Companhia, não sejamos ingratos de tanto bene- ficio, altius baptisma est, e nos separou por tam diversas partes, elle nos queira ajuntar e incorporar membro e membro na sua santa gloria. Amen. P. Antonio [Gomez], Pe. micer Paulo, P. Baltesar Gago e Francisco Lopez, Reimão Pereira, Bernaldo, André e todo- los Yrmãos de S. Paulo em Goa (20). P. mestre Simão, P. micer Joam, Pe. mestre Gonçalo, Pe. Francisco d'Estrada, P. Luis Gonçalvez, P. Luis da Grã, P. Carneiro, P. Manoel, P. Joam Nunes, P. Belchior Nunez, P. Urbano, Pe. Gonçalo Vaz de Mello, P. Vieira, P. Manoel Godinho, e todolos Padres. Yrmão Francisco Anrriques, Frutuoso, Soares, Mendes, com o enfermeiro quando entrey na Companhia e o çapateiro Vicente, Joane cozinheiro, com (20) O P.e Gaspar Barzeo relembra, a seguir, todos os Jesuítas seus conhecidos e amigos. Esta passagem é seguro indício da forte e pujante personalidade deste segundo Xavier. O Rev. P.e Wicki identifica todos os nomes. 414 À
todolos meus Irmãos charissimos do collegio de Coimbra e de Portugal. Padres e Irmãos de Castella, Salamanca, Alcalá, Saragoça e de Valença. Padres de Ytalia e Yrmãos, Pe. Inigo, P. Santa Cruz, Pe. Bobadilha, P. Mascarenhas, com todolos outros Padres de Roma e Ytalia, Irmão Bote- lho com todolos Yrmãos. Padres de Colonia e irmãos das partes de Frandes e Lovaina. Padres do Manicongo, Jorge Vaz e Yrmãos todos. Pe. Henrrique Anriques, P. Antonio, P. Paulo de Valhe, Pe. Nicolao, P. Cypriano em S. Tomé e todolos Yrmãos. Padres de Malaca, Francisco Perez e Yrmãos. Padres do Maluco, P. Joam da Beira, se não recebestes ainda coroa, P. Morais; Irmãos Joam Fernandez charissimi com todos os Padres de Japão, mestre Francisco, Pe. Cosme de Torres, Irmãos Paulo japão e os outros: omnes Patres, Fratresque dilectissimi Societatis Iesu, orate pro me, indigno et mísero peccatore. Inutilis Gaspar Aconteceo a hum Padre da nossa Companhia que foi hum dia muito importunado de hum homem para que fosse acodir a huma molher que era muito atribulada de pasmo, do que via sempre diante alguma visão, pelo qual estava muito mal, e esta visão e pasmo a perseguia muito. O qual Padre pellas grandes ocupações que tinha não pode acodir, e rogando o homem que lhe desse remedio, pois não podia lá hir, tomou este Padre e escreveo certas pala- vras de muito vigor da Sagrada Escritura com ho evangelho de S. Joam e disse que ho pusesse ao pescoço. E estando esta molher atormentada com este pasmo lho puserão e logo foi livre, louvores ao Senhor, e nunca tornou mais. Louvado seja o Senhor que supre com sua virtude. *'5
No principio, quando vim a esta terra exercitei muito a pobreza andando muito roto, do qual se escandalizarão muito os moradores deste Ormus, dizendo que os des- honrrava, offerecendo-me muitas peças de chamalote, antes que andasse assy, porque em mym que era seu cassis, estava toda sua honrra e que os mouros zombarião delles. E es- tando hum dia em casa mandou-me hum turco mercador huma peça de chamalote para casa por hum judeo, e que a avia de tomar para me vestir, aos quaes desenganey. E tanto andarão comigo que me fizerão por força vestir de novo, huns mandando o calçado, outros as camisas, outros o sayo, etc. E depois desta carta feita aconteceo pregar huma pre- gação, na qual reprendi os pastores e sacerdotes da ygreja d'alguns vicios manifestos que tinhão dos quaes os não podia bem apartar; os quaes se poserão comigo a fogo e sangue, dizendo-me que não fizera bem. Aos quais disse que reprendera geralmente e que se elles ho tomavão por sy fazião mal. Finalmente pus-me de giolhos diante delles que me perdoassem poios molestar, porem isto não apro- ventou, dizendo-me que erão de carne. Dos quaes sacerdotes o povo fiquou muito escandalizado, porque não querião ser reprendidos, sendo tam culpados. Finalmente determinei de [me] aver com Deus que sabia quam pouco era isto, e me torney no dia seguinte a pregar e depois disse missa. A qual acabada se veo para mym o principal, que estava mais contra mym, e se lançou publicamente de giolhos com os fucinhos no chão com muitas lagrimas pedindo-me perdão e dizendo-me que eu era virtuoso e santo, e que na pregação lhe dera Deus a entender o meu coração quam simples e puro era para Deus, que chorara trezentas lagri- mas na pregação e que me prometia que nunca faria mais isto, e que se emendaria e me pedia que ho conversasse que 416 i
queria fazer grande aballo de sy, ao qual alevantey de giolhos e hé muito meu devoto, louvores ao Senhor. Encomenday-me ao Senhor e dai-lhe graças, porque espero no Senhor, meu bom Jesu, que antes de hum ano vereis hum grande aballo neste povo, assi barbaro como christão, segundo os meyos que vejo do Senhor. Sit nomen Domini benedictum ex hoc nunc et usque in saeculum. Inutilis Gaspar. Doe. Padroado, i* - 27 4 '7
72 CARTA DO PADRE CIPRIANO AFONSO A S. INÁCIO DE LOYOLA S. Tomé, 3 de Dezembro de 1549 Documenta Indica, / 590-594. Ihs. Antonio Criminal, italiano, vino a estas partes ano dei Senor de 1545 ó 6. Llegó a Goa, primera y principal ciudad de la índia, estando en el collegio y casa dada para la Companía con una honrada yglesia que se dice Sant Pablo. Luego pidió licencia para ir a una costa de mar que se nombra Cabo de Camarín. En espacio de xl [40] y más léguas que ay de christianos, ay muchos lugares en que abrá 20.000 christianos, parte de los quales hizo mastre Francisco; y quando se fué para Malaca dexó mandado y desde allá tornó a mandar que los que viniesen de la Companía para la India, fuesen a la dicha costa. El dicho Padre Antonio con un companero (l) se fué para allá, dondo estubo tres anos y medio continos; y siem- pre fué prepósito, porque era él para eso. Corria toda la costa a lo menos cada mes una vez, nudis pedibus quasi semper, pluries humi cobitabat, parce et inexquisite edebat, multum laborabat, cum omnibus in omni bono aut indiffe- renti co [n] veniebat, in malo aut [em] quasi nunquam. Intiger erat vite et sceleris, in veritate purus, optime con- versationis, facilis omnibus, onerosus nemini nec verbo nec facto; obediens multum, vere castus, pauper, clarus, anima- (1) P.e João da Beira 418
rum zelotypus. Per decern menses quasi proximus fini suo fuy cum illo in dicta costa, et vidi oculis et predicta manibus contrectavi, et alia eius multa bona quae carta multa non sufficeret. Allende la doctrina que en todas partes daba, y juycios que hacia [no avia otra justicia], paces, concordias y otros bienes muchos, tenia grandes disgustos con los mesmos christianos, máxime con el capitãn português y soldados (2), que sabéys quienes son donde pueden tender la mano, máxime si están pobres. Yban los christianos a él con las quexas déstos como a padre hijos, et in omnibus et cum omnibus sancte ac prudenter agebat, que ninguno nunca con raçón dél se quexó. Nunca hablaba sino quando era menes- ter: era discreto, spiritual mucho; todo calaba bien. Pudían en él bien ver aquellas virtudes que se narran en aquel hymno. Iste confesor, pius, humilis, pudicus, sobrius, castus et quietus. Vere las vi en él éstas y conocí. Lo dicho con verdad he escrito para que más devota- mente reciban el fin del Sancto. En el cabo de la dicha costa, digo donde están los últi- mos christianos, estaba el dicho capitán con algunos solda- dos para guardar un paso de mar; éste por desordenados apetitos, que en los tales siempre viven, hizo algunas cosas en que injurio a ciertos bragmanes, que son los sacerdotes de los gentiles, dellos muy estimados, algo más que de nosotros los flayres o clérigos. Estos injuriados dexan su pagode (3), que era un grande templo y principal entre otros, que ay muchos en estas partes, al qual de todas partes vienen y concurren como a Santiago o Loreto, y quéxanse de las injurias a ellos hechas y a su pagode, y vienen sobre (2) De 1547 a 1550 foi capitão da Costa da Pescaria João Fernandes Correia. (3) Refere-se ao templo de Rameswaram. 4'9
aquella parte donde estaba el capitán con xv portugueses hasta v ó vi mil hombres (júntanse como moscas y a poco struendo o a oxeo se apartan como ellas, son para poco todos) y acomentaen al capitán descuidado; y como estaban desapercebidos, no tubieron otro remedio que, dexado todo, embarcar. Los gentiles tirábanlos con sus spingardas (con que no son muy diestros); y como tiraban muchos sin con- tradiction y a montón, firieron seys portugueses de los quales murieron a poças horas tres, dende a ciertos dias dos; y morir v portugueses es más que murir quinyentos de los gentios. El dicho Padre Antonio estaba en la población de los christianos a prissa embarcando fato y gente, máxime muge- res y ninos; sabia bien que avian de acudir allí; no pudo tanto que no le tomasen en medio del trabajo. Pudiérase embarcar y salvarse, y porque muchas mugeres y ninos quedaban en tierra, eligió ante morir o ser preso con ellos. Llegando la desventurada gente matan primero a un chris- tiano nuevo, que él avia convertido, el qual le aiudaba ya a ensenar tan bien como si fuera viejo. Dicen que quando él le vió matar, púsose de rodillas en oración; y llegando a él, danle una lançada por las tripas, a la parte dei bazo, y en el hombro una cuchillada, y dei todo despojado córtanle la cabeça, la qual levaron a do estaban los portugueses embarcados. Así quedó el cuerpo menos la cabeza en poder de la madre, nudo, como ella le avia dado; y cativadas muchas mugeres y ninos van camino al dicho grande pagode a hacer sacrifício por la victoria, y dar gracias al diablo su senor. Ecce premium quod Dominus pugili suo donare voluit. Vere creemos todos quantos le conocimos que el Senor, ya dél satisfecho, le quiso pagar los trabajos que con silencio y paciência en esta costa pasó. 420
Y es de notar como nuestro Senor quiso mostrar su ver- dadera pobreza en tornarle a la tierra como le sacó delia: fué vere actu pobre et voluntate, in victu, vestitu, cubitu et reliquis omnibus utensilibus. Luego que le dexaron como he dicho nudo y trunco, llegaron ciertos christianos llorando y mal sepultáronle: digo mal, por muy sumero in superfície. Otro dia sale un sobrino dei capitán (4) y descúbrenle y hacen más honda la sepultura, y así quedó el felice cuerpo usque ad tempus. Bien creo yo que sacarán los uesos de aquel lugar desierto y los pondrán en lugar más digno y más poblado. Yo voluntad tengo de hacer memoria desto, no sé si los companeros tienen lo mesmo. Tendrán porque parece cosa raçonable y honesta. V. P." podrá de allá mandar interim que pudre Io que le pareciere. De Sancto Thomás apud indos et ultra, 3 Decem- bre 1549. De V. P. indigno siervo Cypriano. No piense allá que acá andamos en mucho peligro: tan seguros estamos acá de semejantes muertes, como están allá. Hallo este como sant Laurencio tempore pacis, lo que tenia en poco tiempo bien merecido mediante la gracia de Jesú Christo. Consummates in brevi, explevit têmpora multa, placita enim Deo erat anima illius. Sap. 4. (4) Chamava-se António Correia. 42 l
73 DISPUTA DO PADRE GASPAR BARZEO COM OS JUDEUS DE ORMUZ Ormuz, 10 de Dezembro de 1549 Documenta Indica, I, 700-725. Ha desputa que tive com hos judeos que ficarão do cativeiro de Babilónia, sobre a Trimdade, hum sabado, na sinaguogua d'Oromuz. Ha causa que me moveo a este prezente auto, judeus muito homrados, Rabi Salamon e Rabi Joseph e outros Rrabis muito virtuosos (l), hé Deus, suma verdade, cuja verdade, scilicet a Sanctissima Trimdade em pesoas e uni- dade em essentia, desejo de vos manifestar mediamte o favor daquela lluz, que hé suma, que alumia todo o homem desposto pera o receber, scilicet por nosa propia vontade e da Virgem Maria, cuja virgimdade vos neguais, seiguados da inorancia deste llume. Nem menos os debates que aqui teremos, não são sobre homras ou riquezas ou beens de fortuna, o quall nem à vosa autoridade nem à minha pro- veza comvem. Estas tais com armas defemsivas defenda- mos, nem menos com vozes não co [n] venientes aos sábios, cujo oficio hé ouvir he calar, quamdo for perguntado, he com muita modéstia responder, quando lhe for dado; por- que não hé de sábio não querer escutar, mais amtes dar muitas vozes. He contra estes taes defendem nas escollas, onde aprendy a desputa, como ymprudentes e já vencido [s]. O qual custume, tenho por noticia, é antre vós muito vulgar. (1) Consulte-se atrás o doe. 71, em que o P.e Gaspar expõe as circuns- tâncias da disputa. 422
Ouvi-me e ouvir-vos, ey, falai-me e falar-vos-ey, he sofry-me he sofrer-vos-ey, escutai-me he escutar-vos-ey, respondei-me manso he fá-lo-ey; pois do que tratamos he tão alto, como são as cousas devinas, rezão hé que as tratemos como sábios, he não por vozes, como locos, porque a siencia do sábio se conhese no que diz, he a prudência no modo de dizer. Dizerdes de mim tudo o que quizerdes: sofrer-vo-lo-ey; ygnoramte pecador, mao e preverso, indigno de tratar esto; mais dezerdes mal de Jesu Christo, não vo-lo sufryrey, por- que mentireis e de my direys verdade tudo ho que dizerdes. Por outra via me parecem escuzados estes debates que comvosco ey de aver, pella grande ignhorancia em que vos vejo, doemdo-me muito disto como vos dise Ysayas profeta no capitolo seesto: «Excita cor populi huyus, et aures eius agrava, et oculos claude, ne forte videat oculis suis et aurybus audiat et corde ynteliguat het comvertatur, ut sanem eum» (2). He o mesmo diz David: «Scrutati sunt iniquitates et defecerunt scrutamtes scrutinio» (3). He Jeremias parece que diz o mesmo nos Trenos: «Parvuli eius petierunt panem et non erat qui frangeret eis» (4). De quem se pode isto dizer senão de vós outros? Scilicet dizeis que dizem pellos christãos, hee falço, porque desde o tempo que se escreverão estas autoridades, atee que os prymeiros cristãos em Antio- chia se comesarão chamar christãos, pasarão mais de mil e trezentos annos. Nem menos se pode ysto dizer dos gentios, mouros ou barbaros. Mais, antes que isto foe escryto, já era isto pelos vosos antepassados pasado, que bem mal entemderão aquela pro- fecia que dise Jeremias: «Post muitos dies, dixit Dominus, dabo legem meam ym visceribus eorum uti in corde ilorum (2) is., 6, 10. (}) Cf. Ps., 63, 7. (4) Trenos, 4, 4. 423
ascrybam earn» (5). Pois agora a vedes comprida nos chris- tãos que não adorão nos templos feitos às mãos, mas no esprytu dos seus coraçõis, porque o bem noso não está no que lemos mays no que cremos. Não vedes que Abraão foy levado por fee no Genesis, quando dise Noso Sennhor: «Egredere de terra tua?» (6). He Noe fez a arqua por fee. Moisés por fee pasou o povo de Israel polo deserto e recebeo no Monte Sinai a ley por fee. He todalas cousas escrytas por Moisés e reveladas polo Se- nhor a Moisem, perventura alguns de vós outros sabião ou tinhão vistas as cousas que pasarão amtes do diluvio ou depois? Nem Moisem era de tanta ydade que antre vós não ouvese mais velho. Se me perguntais que pretende Deus nisto, dir-vo-lo-ey, porque nisto o honramos mais, aymda que de nós não pode ser acresentado na homra aquele que per essencia ho hee; mais por ay hé mais conhecida ha sua verdade, bomdade pera ser mais amado de nós. Se nós queremos que nos creão o que dizemos ser asy, aymda que seja pello comtrairo, porque nisto aquerymos grande omra ter-nos por verda- deiros, hé tanto que não querem mais prova que dizer-vo-lo pera o crerem e, não querendo ere [r j -nos o que dizemos, desfazem muito em nós sem disto darmos prova natural; porque fazerem-me isto hé de pouquo conhecimento que de nós tem; que será Deus que não pretende senão manifes- tar-se ? He sy se não manifesta mais, hé por vos dar meryci- mentos pera a gllorya. Que merecer [ej y crer o que veyo e conheço por razõis naturais craras he evidentes? Serey peor que os animais do canpo, dos quais diz Job: «Ynter- rogua iumenta et docebunt te volucres celi, et dicent tibi (5) Jer., 31, 33. (6) Gen., 12, 1. 424
pisces maris» (7). E se bem quysermos especular nestes, acharemos hum rastro do conhecimento que aqui pretemdo de amostrar. Creremos lloguo que Deus como me dizeis, hé omnipotente, imfinito, immenso, como me provais pellas Escryturas. Não temdes disto nececidade pera mym, por- que por estes animais que asima dixe, vos amostrarão isto, quanto mais a razão natural isto demostra, alem de todolos barbaros isto crerem, mouros, gentios. Que merecymento lloguo será o voso de dizerdes por Moisem: Audi Israeli, Deus tuus unus est»? (8). Sabeis, porque vo-lo não exprica na Escrytura mais claro do que está, aymda que, se vísseis bem, conhecereis a ver- dade como depois vos provarey. Porque asy como vos dise por Moisés: «Non fácies tibi sculptile» (9), defemdendo-vos as imagens pela dureza grande que vos sentia, dizemdo: «Populus hie est [durae] cervycis» (10) quando fezistes no Monte Sinay a toura, dizemdo que Moisés era já perdido e morto; porque temia o que depois fizestes adorando pago- des e fazendo, quando as filhas de Baall vos emguanarão à entrada da terra da Promesão, he asy no cativeiro de Baby- lonia, he quando tornastes tendo em vosas casas huns pago- des e hieis ao templo adorar, o qual vos deu emtender Moisés, Deutero [nomio] 32: «Ubi sunt dey eorum, im quibus habebant fiduciam? Surgant, opitulentur vobis». E por esta mesma causa falou tão escuro na Tryndade Moisés por vos não dar ocasião de idolatrya e por isto tor- nou tão resplandecente que vos ceguou, da maneira que sem veo não podeis ve-lo, pera vos demonstrar a escurydade da Escrytura, quall não pode entender nynguem que [não] (7) Job., 12, 7-8. (8) Deut., 6, 4. (9) Deut., 5, 8. (10) Ex., 32, 9. 4 2 5
for alumiado pelo Espryto Sancto. Como quereis lloguo vós outros [e] presumis d'entender-lla ? Não sabeis que Moisés foy mamdado que não subise o monte de Deus, omde pasem- tava ho guado do seu sogro pela voos que saya do foguo, mandando que se descalçase dos pees pelo lugar ser sancto ? Asy diguo eu a vós outros pera quererdes emtender a Escry- tura, he o que vos eu diser, aveis mester descalsar estes pees, scilicet estes desejos maos de temor e afeytos que tendes na casca da letra, tão bestidos no propio amor e seguir as ceygueiras dos vosos pasados, pera entrades no foguo do amor de Deus, que está no ameguo da letra da Escrytura Sagrada, omde conhecereys a seygueira dos vosos pasados e a verdade de Jesu Christo, o qual nos deu a Ley nos corações como arriba dise por Jeremias voso profeta. Porque a nosa Ley é de amor e por isto temos o que cremos por fee. Se Moisés he os vosos antiguos padres queimarão os livros e plantarão a Ley escryta nos corações, como fez Christo, não vyereis adorar a Belo e Behellfigor, Astaro e Bahall, pelo qual fostes muitas vezes en terras estranhas cativos e en mãos de immiguos postos. Mais quisestes dexar en purguaminhos escrytos como fizerão Promotheo e Salom, e Ligurgio e Numma Pompilio pera andardes careguados com hos Penthatheucos: Porem a perda foe vosa, que ledes a casqua; he o proveyto foy noso, que por eles colegimos ho amiguo (11) da verdade, de maneira que a vosa ceigueira nos alumiou e a vosa queda foe noso alevantamento, e a vosa perdisão a nosa salvasão. Não que disto nos gloryemos, mais doendo-nos disto, damos llouvores ao Senhor, que o que vós engeitastes nos quis dar, pedindo-lhe do que nós temos convosquo queira participar, pera que não frustremos (11) Isto é: âmago, por oposição a casca. 426
o que nos é prometido: «Parum est illi suscitare feces Israhell, qui nobis gentibus dedit Iesum in lucem, ut sit salus usque ad extremum terre», como diz Esay[as] 49. Se disto vos agravardes de vos chamar ignhorantes e fezes, muito mais deveis de Esaias que era da vosa geração, quanto mais a verdade em sy hé manifesta serdes escoralhas de Jacob. Não me podeis neguar que não tendes sacerdócio, nem menos cept[r]o, nem tenplo, nem reyno, nem vosa lley nem lengua hebrea, nem Escrytura, senão as escoralhas de tudo isto; porque o milhor da vosa ley muito antes da encarnação de Christo se acabou. Se não sabeis que o sacerdócio senpre avya d'estar no trybu de Levi a quem tivese mais merytos, porem no tempo dos Macabeos se não dava senão a quem dava mais dinheyro por ele. De maneira o sacerdócio se comprava e vendia, como se fose alguma cousa vill e temporal. Destes dizya o propheta David: «Iam non est propheta de cept[r]o rreall». Hero- des Ascalonita usurpo ho reino e fez afoguar ha Antigono pryncipe, filho de Alexandra rey voso, no quall se acabou ho regno he coroa de Israhell. E do templlo amtigo voso, que foe tan curioso dos hedeficios, he tan sancto em sacry- ficios, não tendes dele nada; nem me neguareis que coremta annos depois de matardes a Christo, pelos emperadores Tito he Vespisiano foe queimado, roubado e asolado, de maneira que se não dezia mais que: «Vedes, aqui foe o templo». De tudo ysto chora Jeremias voso profeta nos Trenos dizendo: «Vye Sion lugent eo quod non sint, qui veniant ad solemnitatem. Omnes porte eius destructe, sacerdotes eius gementes et ipsa oppressa amaratudine» (12). Nem da monarchia do regno não tendes nada, porque des que o grão Pompeio pasou en Assia he vos tomou o (12) Jer., 1, 4. 4 2 7
regno da Palestina, nunqua mais se fiou de homem judeu, fortaleza, nem chaves de cidade, nem gouvernação de povo, nem titulo de senhor, mais sempre ficastes subietos aos romanos, não como súbditos, mais como escravos. Da vosa llengua amtigua hebrea e das antiguas letras não tendes nada, e asi o pregunto a todos vós outros, se alguém me responde a isto; nem ller sabeis, nem menos entender os antiguos livros ebreos, o qual vos provo, pois me não respondeys. O patryarqua Noé com seus filhos e netos escapando do diluvio se foe à terra de Caldea, que está sita no quarto clima (13). E aquela foe a primeira região que se povoô en todo o mundo, e lloguo os fenices, e lloguo os etíopes, e lloguo lios sarmatas, e lloguo os gre- guos, he lloguo os latinos que somos nós outros. He naquela terra da Caldea neco Abraão, da outra parte do rio Eufrates, junto da Mesopotamia, en tempo do prymeiro Rey Bello, rey dos assírios, o qual dizen alguuns ser Jupiter. En o segundo foe Nino (14) em cujo tenpo naceo Abrahão; he quando chamou-ho Deus, se veo per'a terra de Canaan, que depois se chamou Siria Menor, na qual deyxou sua geração. De maneira que aqui corrumpio Abrahão a llen- guoa caldea, misturando com a ciryaca, o qual chamarão depois hebrea, que quer dizer «home peregrino alem do rio Eufrates», he Abrahão «hebreo, scilicet alem do rio», aymda que allguns dotores querem dizer que a prymeira llinguoa amtes do dyluvio fose ebrea, ten pelo contrairo Rabi Hal hazer, Moisem Abudãch e Zimiby Sadoch, que são hos mais famosos dotores hebreos. Os quais dizem que a lengua na confusão da Torre de Babilonya, que antes do diluvio se falava, totalmente se perdeo que não ficou nada; he a (13) Os antigos dividiam a Terra em sete climas. (14) Diz-se que Nino foi o fundador do império assírio, assim como da cidade de Nínive. 428
lemgua de Noé se perdeo, he a caldea se tornou sira, e a sira se tornou em hebrea; he na transmigração de Jacob he seus filhos en Egipto se perdeo toda. Porem ho voso Moisem, allumiado pello Esprytu Sancto, quamdo escreveo os cimquo llivros, vos tornou à llengua em hebrea pura, como o propheta Samueli e Esdras escreverão, dando-vos a entender que avyês de seguyr Abrahão voso pay na fee. Ata acabarem os quatorze duque de Isrraell, Moisés, Aron, Josué, Ezechiell, Calleph, Gedeon e ata o rei voso Saul, que reinou até David, a vosa Escrytura foe muito bem ent [end] yda he arrezoadamente guardada. Mais des- pois que estes boons homens acabarão e os sucesores de David vierão, nem a sinaguogua andou bem regida, nem menos a Escrytura Sagrada foy bem entendida de todolos doze trybus em comum, porque allgumas pesoas particulares ouve que a entenderão, sendo a Deus muito aceitas. A que a vosa lley não foe bem entendida é claro, porque foy defendido que se não lesem as visões de Ezechiel propheta, he o cexto capitulo de Esayas, he os Cantares de Salomon, e o livro de Job, e as Lamentaçõis de Jeremias, nem as gllosase nenguem, não porque não erão sanctos, mais por não serem entendidos. Nem me neguareis que voso Rabi Sal- mon e Rabi Salamon e Rabi Fatuel e Raby Alduhar e Rabi Baruc dizem nos seus escrytos, que depois que saystes da segunda catividad de Babilónia, nunqua mais soubestes fazer as cerymonias dei templlo, nem falar lenguoa ebrea, nem emtender a Escrytura Sacra, nem os salmos de David, nem ler a lengoagem antigua. Nem me neguareis que não forão dos vosos do povo judaico en tenpo do grão-sacerdote Mathathias à corte do rrey Anthiocho a lhe vender o reyno e tornar-vos gentios; e o que peor de todo hee, consen- tiste [s] queimar publicamente todolos livros de Moisen e poer estudo em Jerusalem, onde se lesen as leys dos gentios e pôr hum ydolo no tenplo sancto, omde lhe ofere- 429
cesen encenço, como se fora Deus verdadeiro; as quaes cousas estão escrytas nos livros dos Macabeos. Porem Deus, que em tudo proveo pera que não per- desem de tudo as Escryturas Sagradas, ordenou de como se trasladasem em lenguoa grega, pois se avya de perder ha hebraica. E ysto foe em tempo de Tolomeo Philadelpho, rey de Egito, ho qual como grão filosopho, estrologuo e sábio e curioso de saber procurava de ter senpre homens consiguo muito dotores e livros de todo mundo milhores, e dizem que pasou a sua llebreria de cinco mil livros. O qual ovindo que antre os judeus avião homens muito sábios que tinhão livros antiguos, e mandou os seus embaxadores ao grão-sacerdote Eleazaro pedir alguns destes dotores na lley de Moisen e en todolos livros da Sagrada Escrytura. E lhe mandou 72 enterpretes, de cada tribu seis homens, os quais allumiados pello Esprito Sancto tuverão nomes de prophetas; os quaes treladarão toda a Sagrada Escrytura em greguo, o qual fizerão com tanta verdade que a Igreja Sancta os aprovoou. E estes forão tão avisados, que onde toquavão na transladação algum mistério da Trindade ou encarnação de Christo he do Mexias que avia de vir ao mundo, como quer que erão tam altos mistérios, que era necesaria a fee pera os entender, punhão ahi hum sinal e o deixavão por declarar este mistério, de maneira que, aynda que a sua Escritura não hé falça, fica senpre n [e] stas partes muito obscura e em outras corta. E pera que os vosos pecados vos ceguasem mais nos vosos eros, nos Números onze capítulos, qual vós outros chamais en ebraico Vaiedabber, omde mandou a Moisés o Senhor que aescolhese 72 homens velhos, que fosem sábios e o ajudasem a governar ho povo, asi nas justiças como no politico e boons custumes; os quaes erão tão perfeitos, que no primeiro dia que os escolherão, começarão a profetizar e estes descançarão a Moisen. E ficou en custume en Isrrael 43°
depois da morte de Moisés, que se ajuntavão com ho Summo Pontifyce na sinaguogua, e estes daclaravão as duvydas da Escritura e sentenseavão o povo, e tinhão tãobem carguo de fazer pregmaticaas pera o povo, e haynda se estenderão, he tanto, que ordenavão o que cada hum fisese em sua casa, e como se avião de asentar na meza, e como se avião de lavar as mãos, da qual transgresão acusarão aos Apostolos defendidos por Christo. E o que peor hé, estenderão-se a fazer glosas sobre a Brivia e meter a mão na Sagrada Escry- tura, dos quaes os principaes gllosadores forão Rabi Salmon e Rabi Salomon e Rabi Enoch e Rabi Liumdar, Rabi Adan, Rabi Elchana, Rabi Joaide, cujas glosas tivestes em tanta estima, como se o mesmo Deus asi ordenara, ou Moisés o escrevera. Donde procederão grandes erores nas sinaguo- guas vosas e falcidade nas Escryturas Divinas. Nem sou- bestes acusar aos Apostolos em tempo de Christo dos man- damentos, mais da transgresão da hordem dos velhos 70; donde se amostra que mais estimavades as glosas que o que Deus mandava. Nem me neguareis que destas glosas pro- cederão estas tres ceitas no vosa ley malditas, scilicet aseos (15), saduceos e faryseus, os quais meterão a vosa republica em grande escandolo e a ley em muyto escrúpulo. E corenta annos antes da encarnação de Christo ouve hum judeu em Babilónia que se chamava Jonatam abem Iziel, o qual foe tão estimado antre vós e os seus livros em tanta conta, que dizião os vosos dotores em ele que era renovada a fee de Abrahão, a patientia de Job e o zelo de Helias e o esprito de Es [a] ias. E este foe o primeiro que treladou a Brivia de lengua ebrea en lenguoa caldea, tam fielmente e en tanta verdade, e lhe derão tão grande credito na sua glosa, como se o Esprito Sancto falase por (15) Ou Es senos. 43 1
ele. He este bom homem dixe honde David dizia: «Dixit Dominus Domino meo», dixe: «Dixit Dominus verbo meo»; he onde diz David: «Ego mortifico», dize: «Eguo morti- ficor»; he onde diz: «Eguo percutiam et eguo sanabo», diz: «Eguo percutiar, eguo sanabor», e onde diz: «Adversus Dominum et adversus Christum eius», diz: «Adversus Me- xião eius». E onde diz Salomon: «Vya viry in adollesentia», dixit: «Viam viri in adolesentula». De maneira que mais profityzava que outra cousa. He esta glosa chammamos nós aguora a caldea e de que mais usão nas ygrejas orientales, scilicet arménios, caldeos, egeptios e muitos dos greguos. He o anno sexto de Trayano vendo os vosos maiores que muitos dos judeus se tornarão christãos, conforme a esta transla- dação deste abem Iziel, porque Christo era o verdadeiro Mexias que esperavão, ajuntarão-se todos na cidade de Babi- lónia e mandarão grandes penas, que esta glosa não fose mais lida, mais em toda parte queimada. E loguo se converteo a vosa ley de Moisem hum sacer- dote dos gentios, natural da ylha de Ponto, o qual cham- mava-se Áquila: e este não se converteo por salvar a sua alma, mais pera casar com huma judia fremosa. E isto sendo dotor e agudo, trasladou toda a Sagrada Escrytura de hebreo en greguo; e ysto foe a primeira que se fez depois que Christo encarnou, o qual foe no anno 104 do seu naci- mento; o qual tuvestes en pouquo e nós em muito menos. E cincoenta dous annos depois que moreo este Áquila, no otavo anno do emperador Commodo, feez outra tresla- dação hum judeu que depois se tornou christão, que se chamava Theodosio, o quall corregio todalas faltas de [Ajquila na sua glosa; he 37 annos depois morreo Theo- dosio. No mesmo anno do e [m] perador Severo fez outra transladação de hebraico em grego hum dotor muito sábio e virtuoso, por nome Simaco; a qual foe por todo o Oriente 432
muito bem regida, he dahi a pouquo tempo de todos repro- bada, porque na parte maior da Asia florecia huma erisia dos hebeonitas, da quall faz menção São João no Apocalipsi. E aimda que Theodosyo e Simaco forão fiees nas suas glosas, a nosa Ygreja as não quis receber, pois não tinha confiança das suas pesoas. E quatorze annos depois que Simaco moreo, no quinto anno do enperador Elioganbalo, hachou hum patriarcha de Jerusalem soterrado em Hierico todo ho Testamento Velho e Novo do greguo en lantim, que estava fielmente escrypto e catolicamente treladado, o quall se chamava Joannes Budeos (16). He esta hé que aguora commumente usa a Igreja latina. He esta se chama a Quinta Editio e outros a chamão transladação Hiericontina, o qual não se sabe nem se pode presumir de quem pode ser. Nos dez annos que ysto pasô, no anno otavo do enpe- rador Allexandre, filho de Manora, Origines, dotor noso, corregio a transladação dos 70 entrepretes, acrecenta [n] do no que forão certos e descrarando no que forão obscuros, pondo huma estrela donde alguma cousa declarava, e onde quitava ponha huma seta. He todas estas seys transladaçõis asima contadas: dos 70, Áquila, Simaco, Teodotio, Hiericontina e Origenes seyão hos amtiguos, porem hum livro, escrevendo em cada lauda 6 colunas, o qual chamavão Hexapla, scilicet de seys. He em quatrocentos annos depois que ysto pasou, hum dotor noso, Jeronymo, sancto, muito dotor na Sagrada Escry- tura e nas sciencias humanas he destro na lenguoa grega e hebraica, caldea e latina, ho quall corregio ha transladação (16) Foi Origenes que encontrou, perto de Jericó, uma cópia grega da Sagrada Escritura. A palavra «Budeos» deve ser «Judaeus» e referir-se ao bispo de Jerusalém chamado João que governou esta igreja em meados do século i. Doe. Padroado, iv - 28 433
do [s] Setenta Enterpretes, e depois fez outra muito solene transladação, por si, de greguo en latym, asy do Testamento Novo como do Velho, da quall usa a Igreja Rromana, he esta hee que mais teremos. Porem não quero que pasemos que no anno de 314 depois da encarnação de Christo se alevantou antre vós hum judeu, de nação ydumeo, que se chamava Mayr, muito grande nigromantiguo, o quall guanhô antre vós tanto credito, que vos deu entender que Deus deu duas lleys a Moisem no Monte Sinay, huma escryta he outra de pala- vras. O quall fez Deus, porque depois de muito tempo se avia de perder a lley escryta, he entonces publycaria a ley que avião dado de palavra. He esta, dizia o maldito judeu Mair, que a revelou Deus a Moisem, soo ha soo, e Moisem a Josué, ho qual Josué a seu sosesor, he desta maneira de mano en mano veo ao mesmo Mayr, e que lhe mandara Deus por escryto que a revelase ao povo judayco, porque já a lley de Moisem se acabava e o povo se perdia. E esta ley chamais Misona, que quer dizer «ley secreta». A quall muitos dotores glosarão depois vosos, em espicial Rabi Monoa e Rabi Audesi, Raby Buthaara e Raby Samuel; os quais juntamente com ele, e eles com ele, poserão grandes maldades e mentiras em prejuízo da ley de Christo e da que Moisem deu. E esta ley por outro nome chamais Talmud; no quall dizem vosos dotores que, quando Deus deu esta lley no Monte Sinay, se acharão as almas de David e todolos sucessores he prophetas e rabis da synaguoga, he depois creou os corpos pera estas almas. Esta parece outra tal daquela como do Pery Archon, onde diz as almas serem cryadas no pryncipio do mundo todas e, porque isto pertence aos philo [so] phos, não me quero aqui deter. Hó judeus, não cuideis que não sey, porque alevantastes a esta ley Misna! Porque vieis toda Escrytura compryda no 434
Mexias, Christo, que era vymdo, que vós matastes, he o judaismo acabado, com a quail enguanastes a gente comum do voso povo; que bem vedes aqui, judeus muito honrados, quão ygnorantes sois e seguos contra toda a verdade da vosa pertinácia, pela quail sostentais a ley e não por razão, e quam pouca rezão tenho de poer marguaridas tão excelentes como da Sagrada Escrytura diante dos porcos, que as não conhecem, nem entender querem e as pisão lluguo; e, se não fora ho meu bom Jesu, que me a este constranje, eu o não fizera. E tornando ao noso proposito, ao que aqui nos ajunta- mos e do que posestes diante, querendo-me provar o con- trayro do que preguei ao povo no dia em que celebramos a Trindade (17), reprendendo-vos do erro em que andaveis, provando-vos a Tryndade por muitas maneiras pola Sagrada Escrytura, asi no primeiro capitulo de Genesis como pelos prophetas, e me provastes a unidade por Moisem no Deute- ronomio, que vós chamais em ebraico Hele adebarmi; «audi Israel Deus tuus unus est» (18). He asi por Jeremias que diz: «Non est alius Deus preter me» (19)- E por muitas prophetas me provastes isto negando-me a Tryndade nas pesoas e me pedistes ha enterpretação daquelas palavras no primeiro capitolo do Genisi, que vós chamais Beresath: «Faciamus hominem», dizendo que dos anjos s'entendem, «qui faciunt verbum Dey», como diz David. E me disestes, que entendíamos da Trindade ou como, e asi que vos amos- trase, que sentia a vosa ley e a nosa a tudo isto? Muito honrados judeus, convém que estejais atentos pera vos eu rresponder e despostos na vontade pera me credes, se falar verdade; e onde me não entenderdes, perguntai-me; (17) Foi a 16 de Junho de 1549. (18) Deut., 6, 4. (19) Is., 45, 21. 435
e onde duvydardes, argumentai-me. E desta maneira vos falarei declarando particularmente e respondendo a tudo pela vosa propia Escrytura, que vos ensinarão Moisés e os prophetas. Hao que me dizeis da unidade na escencia, con- feso-vo-lo como todolos barbaros do mundo, que pelas rrazões naturais isto alcanção, que soo um Deus adorão. Nem somentes os homens maos, nos animais disto achareis rastro, en todalas creaturas sensíveis e en [sen] siveis, como Trimegisto, Platão, en Aristóteles he todolos naturais philo- sophos escreverão e concede [rã] o as autoridades da Sagrada Escrytura, as quaes falão da unidade da escincia. Se me dizeis que por aquelas negão a Trinidade das pesoas, isto vo-lo neguo. He por serem todas afirmativas da essencia e neguativas emquanto à distynnção das pesoas não falando nas pesoas; e a rezão de falar ha Escrytura tão escuro, já vo-lo tenho dada acima; e a rezãc de a não entenderdes, tãobem vo-la tenho dada. Resta aguora somentes amostra-vos as partes da Sagrada Escrytura, onde este mistério é mais manifesto, e antes que a esto acheguemos, vos ponho certas razões que são compitentes pera Deus, provando de como hé neceçaryo ser tryno e[m] pesoas e uno em essentia, e disto temos huma escura noticia, scilicet por fee. Se sois philosophos, entender-me-eis, nem me neguareis que Deus ab heterno foe benaventurado. Lloguo foe nece- çaryo fazer em si mesmo o gozo da suma bemaventurança, o quall nom pode ser sen gozo, e o gozo não pode ser sen sumo e nobelisimo consorcio, porque ho natural do amor hé aver quem ame e quem reame, he desejar muito ser amado. Erguo em Deus senpre foe quem ama e o amado e o reamado; loguo senpre foe tryno e uno, he ho hee. Ha segunda rezão: Ho natural da bondade é communi- car-se senpre, segundo os philo [so] phos, e quando o bem for melhor, tanto mais se conmunica. Deus hé ho summo 436
bem, loguo em sumo grão communicavel; do quail a creatura não hé capás, porque é finita e creada que repugna ao infi- nito, quia infiniti ad finitum nulla est proportio. Erguo, segue-se: na unidade da essencia são neceçaryas mais pesoas que communycão a bondade divina. A terceira rezão é: A summa Sabedorya não pode esqueser de sy mesmo, mays da memorya fecunda nasce he procede o Verbo, e sy senpre cuidasse, sempre procederyão o Verbo cordis. A summa Sabedorya senpre se alembra de sy mesmo, e entende e ama. Ergo na memorya do sumo do Esprytu se entende a pesoa Padre e no entendimento e Verbo se entende a pesoa do Filho, e no amor que procede da memorya, que hé o Padre e do entendimento ou Verbo, que é o Filho, se entende a pesoa do Espritu Sancto. Nestes pryncipios sabereys o modo do proceso da Tryn- dade, o que nós christãos fielmente cremos por nos asi ser revelado pelo Esprytu Sancto, que governa a sancta Igreja nosa, he ho não vemos; porque nynguem negua que o poder de Deus isto não pudo fazer, nem menos que a suma Sabedorya ysto não sabia, nem menos a sua bondade suma se não quis em summo grao communiquar. Porque se me dizeis que não podia Deus fazer isto, diguo que não he todo-poderoso, de nada será lloguo e sen poder; e se me confeçaes que podião, mais não sabião, diguo que Deus é ignoravell e não summo sapiente; se me diseis que pudo e sabia-o, e não quis fazer ysto, communicar-se summo modo, diguo que hé Deus muito envejoso: lloguo não tem amor nem hé o summo bem, segundo Platão, gentio philosopho. Erguo, segue-se que Deus que podia e lhe pertencia, e sabia e lhe era neceçario, pella summa bondade sua o fez. Mais isto não podia ser senão pelas tres potencias hasima ditas. Segue-se lloguo que hé tryno em pesoas. As quaes pesoas são humas existências não comunicáveis na naturaleza inteletual, dystimctas das outras e não des- 437
timctas de si. E desta maneira outra est a pesoa do Padre e outra do Filho e outra do Espritu Sancto, e communicão todos ygualmente em huma escencia. Pelo quail na Escri- tura Sancta se chama «hum soo Deus e Senhor e não ay outro». Asi ho confeçamos nós christãos como boons, aimda que vos asi não parese, porque careceis de fee, o milhor que nós temos. Preguntais-me: «E como pode ser muitos e hum?» Diguo que aynda que as pesoas são tres, esto é segundo o numero in existência; nem por yso deyxão de ser hum na essentia, scilicet na força, na virtude; porque nesta escencia ygualmente participão nem mayor nem menor, mais todas tres pesoas são yguais na escencia: hum poder, hum querer, hum obrar, hum saber, e asy em tudo. Senão algu- mas cousas se atrebuem à pesoa do Padre como paternidade, scilicet ser pay e ser não gerado, e que se não atrebue ò Filho que não pode ser pay, nem menos não ser não enge- rado. He asi pelo contrairo atrebui-se ao Filho o que se não atrybue ao pay, como ser engerado e filho. E asi ò Espritu Sancto ho atrybuem que não é gerado nem do Padre nem do Filho, scilicet ser espirado. Isto é o que nós senty- mos da Tryndade. Confirmando-vos pela Sagrada Escrytura, a nosa com a vosa, como vos prometi de provar, começando no primeiro capitulo do Genesi, que chamais em ebraico Beresith, e pera milhor noticia terdes das pesoas e suas propriedades, notay este exenplo: Ha alma tem tres potencias, memorya, entendimento e vontade, as quaes tres são realmente huma alma. E asi como estes não se destingem segundo a escencia, mais segundo as propriedades, o propio da memorya recor- dar e do entendimento conhecer hô entender, ho de von- tade amar. Nem a memoria não se pode dizer entendimento, nem o entendimento memorya, e asi hé o de vontade; da memorya nasce entendimento e de anbos, scilicet entendi- 438
mento he memoria, nasce vontade. O mesmo hé na Tryn- dade: tres pesoas he huma escencia. As pesoas se destingem pelas properedades que asima dise, e são hum Deus na escencia, como tres potencias sam huma alma. Asi no foguo vereis tres cousas: a chama, primeiro; ho esplandor, o segundo; o calor, que se distinguem segundo as properedades he são hum foguo na escencia. He tornando ao proposito que hé provar pela Escritura e responder-vos ao que me preguntastes, commeça o Genesi: «In principio creavit Deus («heloim id est dii», como tem ho texto hebraico dos 72 entrepretes «heloim», o quall hé pllurale de «el», que sinifiqua em hebraico Deus) celum et terrão». Não vos deve de quadrar bem esta oração «creavit dii». Entendey lloguo, honrados judeus, este mistério que aqui enserarão os 72 entrepretes, como asi dise: «Im prin- cipio» scilicet no verbo, Dominus que hé o Padre, produz da memoria fecunda. No qual Verbo expliqua a si mesmo, do qual diz o voso profeta David: «Tecum principiom yn die virtutis tue yn spllendorybus sanctorum ex útero ante lucyferum genui te» (20). He em outro cabo: «Principium verborum tuorum veritas» (21). Duas palavras ten o Padre scilicet huma e [n] creada que hé o Filho de Deus, ygual con o Padre e Esprito Sancto, e outra, creada que hé o mundo e creaturas. He em outra parte diz: «In capite libry escritum est de me» (22). He segundo avante diz: «Creavit»; falando de hum soo Deus, na escencia, porque a força hé virtude das tres pesoas está na unidade da escencia. He porque as obras de Deus da criação pertencen à virtude e poder, que consisten na (20) Ps., 109, 3. (21) Ps., 118, 160. (22) Ps., 39, 8. 43 9
escencia, como a força da [s] potencias d'alma está n'alma, segue-se lloguo, que todas tres pesoas concurerão na uni- dade da escencia à criação, segundo a quail hé hum soo Deus; e por isto fala en singular, «creavit». «Eloim», scilicet «dii», honde fala em plurale ha denotar as pesoas tres que concorrem na unidade iscencial na cryação. «Celum et terrão», continens et contentum, scilicet natu- ram angelicão et celum empireum cum angelis et ter[r]ão, materiam omnyum corporum inferiorum, mundum sensi- bilem ex elementis conflantem, segundo diz David: «Celum celi Domino, terão autem dedit filiis hominum» (23). «Tera autem erat inanis et vacua» (24) scilicet machina mundialis, que quer dizer aquela massa toda do mundo hera enutel he sem fruto he vazia do seu ornamento. Preguntais-me, como pode ser isto? Estay atentos e declarar-vos-ey por exenplo: Hum olleiro que primeiro recolhe a massa do barro do que quer fazer a obra, he des- pois a despõe pera o que quer e faz branda he molle, e dahi faz as panelas em sua perfeyção. He asi hé hum pedreyro, que primeiro busqua a pedra e quebra a pedra, o segundo a labrar que quer ocupar com ela e, lavrada, a põe no seu lugar. Hasy hé Deus. Primeiro fez toda a masa, no segundo e terceiro dia fez a masa dispo [s] ta, he os outros compus e ornou a obra sua. «Het tenebre erant super faciem abisi.», quer dizer: as escuridades erão sobre a faz do abismo .scilicet ha masa era aimda escura, porque não se conhecia ainda a obra, como na mas está toda a obra que á de fazer, mais não se conhece; he asi como ho hefeyto na sua causa, ho abismo hé aquela machina. Ben sabeis que aymda não era creada a lluz. Como podia fazer escuro? Hum contrairo não pode (23) Ps., 113, 16. •(24) Gen., 1, 2. 44°
ser sem outro. Como dizeis loguo que fazião escuro, entreeportando a letra segundo ha casqua, não lhe dando entendimento verdadeiro? Parese que estava bem Deus criar primeiro as teneblas que a lluz, «Espritus Domini ferebatur super aquas», scilicet o Espritu Sancto, ou a von- tade de Deus, andava sobre esta masa, que estava já dis- posta, mole como aguoa pera ornar. Vesdes aqui a terceira pesoa, do quall diz David voso propheta: Emitte spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terre». He vedes aqui se tendes ho entemdimento desposto, a Sancta Tryn- dade bem clara e manifesta. A quall pela grande sigeira não conheceis, quanto mais ao que me disestes do «faciamus», que se entende dos anjos, tendo-vos eu na preguação reprendidos. Por si, diguo, que os anjos não fazem as palavras de Deus na cria- ção sinpliciter como dizeis, porque enplica contradição: creatura crear hô finito ser infinito, ho enterno ser heterno. Nem Deus dará este poder aos anjos que cryem estando na propia naturaleza angelica, como dise; porque Deus não pode dar o ser hò que não pode ser, porque ser he não ser, são contraria, creado e imcreado, finito e infinito. Quanto mais diz depois: «Ad imaginem et similitudinem nostram». Não nos fez à imagem dos amjos, porque muita deferença vay na imagem he aquele cuja imagem hee seme- lhança, tanto como do pintado ao vero. Não hay antre os amjos e homens tamta deferença quanta no sima dito. Entende-se loguo da distinção das pesoas, que são 3 e huma na escencia; quanto mais em bayxo explica o demó- nio dizendo aos nosos padres: «Erytis sicut di scientes bonum et malum». Nem esto se entende dos anjos como dizeis, nem dos homens dizendo David: «Eguo dixi, di estis» por- que soo de Deus hé saber tudo o bem e o mal, o quall conhece por si. 44 1
Vede também Esay[as] no 6. capitulo: «Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabahot». He no Genesi Abrahão vio tres anjos e adorou hum dizendo: «Domine, ne transias servum tuum». Ao quail me respondestes segundo os dotores vosos aprendendo no Cairo, que falava Abraham com aq [u] ele anjo soo, que vinha com a nova de Isaac e outros dous hião pera Sodoma. Por- que responderão loguo todos: «Seya como dixestes»? E o que mais em bayxo provei, hé Gene [sis] 27: Isaac benzeo tres vezes Jacob: primeiro quando deu o comer ao pay; segundo quando se queixo Asau diso, «erit bene- dictus»; o terceiro quando tornou do Mesopotania. E Jacob que vyo a escala ata os ceos de tres degraos, conheceo a Trymdade e adorou. Gene [sis], Moisés, Exo[do] 23: «Vião trium dierum ybimus ad sacryficandum Deo», he instituyo tres festas primcipais no anno: Pascoa, Pentecoste he outra. Ho propheta, David: «Verbo Domini celi firmati sunt, het espiritu oris eius omnis virtus eorum». Idem: «Bene- dicat nos deus, deus (noster), benedicat nos deus». Idem: «Dixit Dominus Domino meo, sede a dextrys meis». Vedes aqui, honrados judeus, a Escritura manifesta que aprova a Sanctisima Trindade? Se vos quizer falar em Christo, Filho de Deus, Verbo divino, 2a pesoa he Mexias, do qual a Sagrada Escrytura é chea? Vede Isaias 53: «Quis crededit audituy nostro»? Este capitulo por todo é de como foe neceçaryo padecer pelo genero umano. E asi os outros prophetas como por seu tenpo vos porey diante. He ao que dizeis que lea o 54 capi- tulo de Esay [as] diguo, que ahi nele se entende da Ygreja militante nosa e vos condena o mesmo: «Quis est iste, qui venit de Edom?» Acho-vos tam fora de toda rezão, que tenho grande doo da vosa perdição, aserqua da vosa ley ser já deroguada pela vynda de Christo. Ho quall, quando
matastes, se rompeo o veo do tenpllo pela metade. Neguas- tes-me a verdade das palavras que tem a Sagrada Esciytura? He onde vos dise no Livitico, que chamais em hebraico Vayra, capitulo 26 dizendo: «Commedetis vetustisima vete- rum, et vetera novis supervenientibus proycietis» que quer dizer: «Comereis as cousas velhisimas dos velhos e as cousas velhas, sobrevemdo as novas, lançareis de vós». Scilicet que podemos chamar às velhisimas cousas dos velhos senão a ley natural, a quall guardavão os velhos ata o tempo da ley escrita, que toda hé huma? Não hé mays que renovada, que estava apaguada pelo pecado. He as cousas velhas, que hé a lley escrita, quando sobrevieram as novas, scilicet a lley de Christo escryta nos coraçõys, a qual fazião a liei escryta velha, he a lançareis, scilicet não guardareis, como por Jeremias no principio vos provei. (5 judeus, que guardais mais, se isto vedes e entendeis, porque vos não acheguais à verdade, he vos quereis escusar dizendo, que nom tendes asi no voso texto senão: Comereis as cousas velhas enve- lhecidas e as velhas, quando sobrevierão as novas, lança- reis?» Não vedes que condenais-vos, porque não ten isto sentido ? Como pode mandar Deus que os mantimentos dos annos pasados, quando os novos vierem, os lançarão na rua ? Deus não crya nada debalde nem ha natura. E com isto acabo, pera que vos fique luguar pera me responderdes no sabado que vem o que vos preguntei, he naquelas cousas que tiverdes duvida me poreis diante, não me saindo nonqua da Escrytura Sacra, nem me allegeis dotores vosos asy como eu não faço a vós. Noso Senhor vos abra os coraçõis a quererdes entender: ben sey que como me entendeis bem pera acabar a ponitencia em que ateguora andastes he andais sen ley, sen rey, sen sinaguogua, sen pontífice, opressos de todos. Amen. 443 t
74 CARTA DO PADRE BELCHIOR GONÇALVES AO PADRE SIMÃO RODRIGUES Baçaim, 15 de Dezembro de 1549 Documenta Indica, 1, 726-727. Por dom Joam de Taide (l) screvi a Vosa Reverencia como estava neste cabo de Baçaim hos Padres da Província da Piedade, por mandado do Pe. mestre Francisco, e asi tãobem lhe screvi o fructo que se quá fazia. Este anno de 49 veo huma licença do seu Geral que todos hos frades que se quá achassem da confraria da Piedade fossem sojeitos a esta custodia de Goa; e como neste Baçain não avia mais que hum só (2), mandarom outro loguo pera o ajudar, com cuja vinda me quisera eu vir pera outra parte onde fizese mais fructo e fosse mais necessário; todavia ho Governador não quis, pela muita devação que a gente da terra tinha em mim. E, pera que eu fiquasse, ordenou que a renda que El-Rey dá aos christãos da mesma terra, em que hos frades fiquassem com ametade delia e com hos moços que eu já tinha instruídos, e que a [o] utra ametade me fiquasse e fizesse de novo hum collegio onde tivese outros moços, e isto foi muito louvado ao Governador e mais por- que a gente da terra insistia que não me avia eu de ir dali. E pelos grandes desejos que tem à nossa Compagnia me deu ho mesmo governador Jorge Cabral hum sitio e casas muito b [o] as em nome de Sua Alteza, que custou mil e (1) Era filho de D. Afonso de Ataíde e viera para a índia em 1545, notabilizando-se no cerco de Dio. (2) Era o P.e António do Porto. 444
quinhentos cruzados. E temos agora aqui hum collegio muito bom pera se requolherem quantos de lá vierem: pus-lhe por nome collegio de Jesu, como a esse nosso de Coimbra e faz-se já muito fructo. Ho Pe. mestre Francisco hé já partido pera o Japão, speramos pera o anno requado delle. Nosso Senhor seja em nosas almas. Amen. De Baçaim a Xb de Dezembro de 1549 Voso Irmão indignho, Melchior Gonçalvez. 445
75 CARTA DE S. INÁCIO DE LOYOLA A D. JOÃO DE ALBUQUERQUE, BISPO DE GOA Roma, 15 de Dezembro de 1549 Documenta Indica, /, 728-729. Ihs Mi Senor en el Senor nuestro. La suma gracia y amor eterno de Christo N. Senor salude y visite a V. S. con sus santísimos dones y gracias spirituales. Por los nuestros que andam exercitándose en esa vina de Christo nuestro Senor, tan spaciosa y necessitada de obreros, con cuyo ministério se ayuda V. S. a quien ha sido specialmente cometida, soy informado de la charidad y buen tratamiento que hallan sienpre en V. S.; como quien desea favorezer y ayudar a todos los que buscan lo mesmo que V. S. en tierras tan remotas de su naturaleza, que es la gloria y honor de Jesú Christo, Dios y Senor nuestro, y la salvación de las ánimas en el conocimiento y obediência suya. Y a la causa, me paresció scrivir esta para dar dello muchas gracias a V. S. en el Senor nuestro, en el qual deseo me conozca; y en lo poco a que nuestras fuerzas se estien- den, se sirva de nosotros a mayor servido de su divina Magestad. Tanbién hago saber a V. S. que la Sede Apostólica nos ha concedido, a instantia dei serenísimo Rey de Por- tugal, diversas gracias Spirituales para en todas partes, y specialmente en esas de las índias, tan remotas de la dicha Sede, para que los que allá andan tengan armas de justitia 446
para su divino servido y bien de esas gentes. Spero que, como en las otras cosas, también en esta V. S. los favo- rescerá como hijos suyos, pues lo son en el Senor nuestro Jesú Christo, y con todo le han de servir en ayuda de las animas. Y así suplico yo a V. S. les dé su santa bendición, con la qual más efficazmente se enpleen en esto que todos deseamos, y a todos nos encomiende en sus oraciones y sacrifícios a Dios N. S., quien, por su infinita y suma bondad, a todos nos quiera dar su gracia cumplida para que su santísima voluntad sienpre sintamos y aquella ente- ramente la cumplamos. De Roma 15 de Deziembre 1549. [De la persona que scrivió Maestro (1) seria bien que se ynbiase allá, que, por ser tarde, este ano no se puede ynbiar de Roma: pero que de Portugal podrá ynbiarse; y que para el ano que viene podrá inbiarse otro.] (1) Padre Mestre Francisco Xavier. 447
76 CARTA DE S. INÁCIO DE LOYOLA AO PADRE MESTRE DIOGO DE BORBA, EM GOA Roma, 15 de Dezembro de 1549 Documenta Indica, 1, 730-731. Ihs. Muy Rdo. en Christo Padre La summa gratia y amor eterno de Christo N. S. sea sienpre en nuestro continuo favor y ayuda. Por unas letras que el ano pasado ube de V. R., me fueron encomendadas dos cosas: una, que entendiese en ciertos descargos suyos, ynbiándoseme para ello cierta suma de dineros; otra, que suplicase a Su Santidade que le diese absolution total, o facultad de ser allá absuelto de todo el resto que pudiese aver. Aora por la presente sabrá V. R. que lo uno y lo otro se ha hecho por gratia de Dios N. S. porque los dineros que vinieron en pólizas de Lucas Gi- raldi (l), dí todos a un gentilhonbre romano, amigo nues- tro, que attiende a muchas obras pias, que se dize Jácobo Crescentio, y él los repartió en las 4 partes que V. R. sena- laba, como verá por las quitanzas; bien que no se dió tanto a cada parte, como de allá dezía, porque no vinieron en las pólizas de 185 ducados, sino 149 solamente, y tantos se tomaron de Thomás Cavalcanti aqui en Roma, como verá por su firma. Puede ser que lo demás se aya ydo en el cambio. Pero spero en Dios que para descargo de su ánima (1) Era banqueiro. 448
bastará lo dado, y sepa que en S. Sebastián ordené que se aderezase su altar y lugares vezinos a su imagen santa, que estará para más mover a devotion a los que visitaren su yglesia. Quanto a la otra parte de hablar a nuestro santo Padre, yo le hablé este verano — Dios le dé gloria—y dí relation de V. R. y de las buenas obras en que allá se avia enpleado en servido de Dios N. S., y cómo para satisfaction mayor de su consciência ynbiava aqui estos dineros, que serían 4 por uno, según me screvia: que Su Santidad fuese con- tenta de quitarle de todo scrúpulo, y darle una absolution pleníssima a culpa y a pena etc.; y Su Santidad, quedando muy edificado de V.R., le concedió quando yo le pedi; y así podrá tomar un confessor al qual yo doy testimonio que puede por comissión de Su Santidad absolver a V. R. y con- cederle indulgentia plenária ultra de la absolution. Sea por todo bendito Dios N. S., em cuya divina magestad me he gozado mucho, que se pudiese dar este Consuelo spiri- tual a V. R., a quien yo en el mesmo Senor nuestro mucho le deseo, y todo el bien que a mi mesma ánima. No se ofreze otro sino encomendarme mucho, con todos los que acá estamos, en las oraciones de V. R., y rogar a Dios N. S., por su infinita y suma bondad, a todos nos dé su copiosa gratia para que su santísima voluntad sienpre sintamos, y aquella perfectamente cumplamos. De Roma 15 de Deziembre de 1549- Doe. Padroado, iv - 29 449
77 AZU NAIQUE A EL-REI Baçaim, 18 de Dezembro de 1549 Documento original existente no ANTT: — CC, I, 83-55. Mede 200 x 295 mm. Seis folhas em bom estado. A letra, bastante pessoal, ê de difícil leitura. Senhor. ['r-] Por Jorge Cabral, governador1 da Imdya, me foy dado huma de Vosa Alteza que vynha nas vyas do vyso-rey Dom João2 de Castro, que Deus aja, a qual beijey e a pus na cabeça e follguey mais do mundo que tamanha omrra e merce feyta a hum nada, como heu sam; praza ao Senhor Deus que acrecente os dyas da vyda e o real estado de Vosa Alteza, e a mym forças pera o seu serviço com toda lealdade, como athe qui tenho feito e servido. E quoanto ao que me Vosa Alteza espreve que esta bem enformado dos meus serviços, nam mos agardeça, porque faço nysto o que devo ao meu rey, como seu ver- dadeiro vasalo que sam, e poys se alembrou de mym, ao dyante espero de fazer mylhor athe por a vyda e allma e tudo que tever por seu serviço. E quoanto ao que me Vosa Alteza espreve e me en- comenda que torne a fee de Jesus Christo, o que sera pera salivação da mynha allma, e que follgara muyto com ysto, e se servyra de mym mylhor, e quoanto ao servir segundo a mynha cantydade tenho muy bem feyto athe quy, e deyxando-me Deus vyver como vyvo, espero de fazer mylhor, e quoanto a ese outro são cousas da allma; se i—i"; * — i' 45°
Deus quyser alembrar delia, ele dara graça pera que fyque a seu santo serviço, porque ele he hum soo, em que todos o crem, he ele tam mysyrycordyoso aos que ele quyser enca // mynhar ao camynho da verdade com sua graça, e a [i v.] ele soo pertense ysto; por yso nam esta em nenhuma pesoa a dizer que nam quero fazer nem deyxar de querer, porque cada dya se acontesem cousas emprecyves de fazer faze- rem-se muy libremente, por yso canto nesta parte, nam tem Vosa Alteza nececydade de rogar nem encomendar a nynguem ysto, porque cada hum tera cuydado de olhar por sua allma, e sem rogos nem costrangymentos são tor- nados cristãos os que são tornados athe gora que são muy- tos, e se for por força, ou costrangymento, ou por as vexações, nenhum se tornara cristão, porque huma cousa quero certtyfycar que todos que vyverem nestas partes nas terás de Vosa Alteza, mayormente em Goa, se os deyxarem vyver nelas pelo tempo em dyante venhão todos a fazer o que Vosa Alteza deseja, e se poserem dado na testa (l) que he cousa que tãobem Deus nam quer, aimda que ha vontade da tall pesoa seja boa pera iso, nam no sera por rezão dos seus parentes e amygos que fycam na tera, por- que lhe nam dygam que per força o fizeram ser. Enxetnpro: vyvendo hum cristão amtre os seus parentes em tera dos mouros, e se lhe dyserem «aveys de ser mouro ou aveys de yr fora da tera», dyra amtes que se quer yr fora da tera, aimda que tenha vomtade de o ser, porque avera vergonha dos seus parentes, e por yso em quererem caa ter esta maneira com gente que vyve nestas partes, nas terás de Vosa Alteza, nam sera proveytoso pera o serviço de Deus nem de Vosa Alteza, porque nenhum quererá tor- nar christão, aimda que saiba yr fora das terás, o que (1) Leitura hipotética. 45 1
parecy (2) mall feito perder logo ho que ao dyante se pode cobrar; por iso deve Vosa Alteza de prover com sedo (3) de mandar nestas partes que deyxem vyver a gente nas terás, e se allguns sam lançados fora da tera, que os fação vyr a elas, asy em Goa como em quallquer outra parte, e tornaram cristãos os que por suas vontades quise- rem ser, e lhe nam seja feita força, nenhum desaguysado, porque estarem as terras de Vosa Alteza povoadas e apro- veytadas dos naturaes delas, recebe dysto proveyto e rendas, com que se sostem a Indya e as igreyjas, porque vay grande [ar.] deferença da vyda e mynystração de hum frade pera // hum rey; outro tamto he o governo das terás pera as cousas de igreyjas, poys o primcypal he o rendymento das terás, que os naturays dela pagam, com que se sostem as igreyjas como dygo, e o estado do rey se deve oulhar bem por tal povo, e nam consentyr nem mandar que nenhuma força nem agravo lhes seja feito, mas amtes deve de fazer merce e mandar que vyvam nas terás, seguros em seus custumes, e que tornara cristão aquele que por sua vontade quyser ser, como foy todo este tempo pasado (4); he necysayro faze- rem muito favor a gente destas partes, porque com ysto desejara o povo e a gente das terás que nam sam de Vosa Alteza, e se darão por vasalos de Vosa Alteza poys quer ganhar caa mais terás, sendo elas de gentyos e mouros, e nam consymta que vão avante as cousas que fazem em Goa e nas outras de Vosa Alteza, que dizem que os que nam quyserem tornar cristãos que se vão fora delas, sendo a gente tarn omrrada e tarn liall, e de muito serviço como he de Goa; nam queyra Vosa Alteza que tudo seja feito (2) Isto é: parece. (3) Com tempo. (4) Esta carta foi escrita, bom é recordá-lo, depois da morte do P.e Mi- guel Vaz, em cujo tempo mais se empregou o rigor de misericórdia relativo às conversões. 452
em huma ora, poys a Roma omde esta Padre Santo con- sente em suas terás vyver todo genero da gente (5), e nam manda que os que nam quyserem ser cristãos que se vãa fora da tera; poys ysto asy he porque farão em Goa o que fazem? Porque em Goa he tornada muita gente crystam, sem estas avexações, asy se yra fazendo a mais que fora pelo tempo em dyante, poys o Senhor Deus nam amda a apanhar logo com seus braços, senão estar sempre com os braços abertos pera os que quyserem achegar pera ele. A Goa he cabeça da India, per iso nam deve de quyrer nynguem nem Vosa Alteza consentyra lançar perder a gente dela tam omrrada e tanto servidores de Vosa Alteza, que por seu serviço poyem eles a vyda e fazenda, como he notorio, nem despovoar a tera, porque hum rey nestas partes nunca lança a gente fora das suas terás, e fazem muito cabedall dos homens omrrados, e sostem nos seus reynos. Esta novydade que fazem em Goa nam sam todos em consentymento dysto, porque a todos parece o que fazem que nam he serviço de Deus nem de Vosa Alteza, somente o bispo (6), // a que lhe nam da nada das terás, porque [**•] ele nem outros padres nam am-de yr pelejar com as armas as costas, defender as terás nem pagam a renda a Vosa Alteza, senam come-la (7), e o governador consentyr o que eles fazem, porque nam esprevam mall dele a Vosa Alteza, e outros tres ou quatro, que dando nysto o seu parecer que fycavam santos, e que Vosa Alteza os louvaria muyto, e nam oulham o dano que dysto pode seguyr do perdymento3 de granjerya das suas terás e rendas e porque sey que os (5) Alusão verdadeira. (6) D. João de Albuquerque. (7) Isto é: comem-na. 3 — perdim.1* 453
que forão neste parecer am-de escrever a Vosa Alteza o contrario do que dygo, que he muy bem feyto o que eles fyzeram, porque nam podem dyzer menos dysto, poys o fazerão, aja nysto conselho e farey o que for seu serviço. A Goa a ja perto de corenta anos (8) que he de Vosa Alteza, e por a gente da tera receber dos portogueses boa companhya, follgou sempre de servir a Vosa Alteza, e asy no tempo da guerra pelejar contra os mouros que forão reis destas terás, como no tempo da paz, sem nunca neles achar treyção, e parte dela he tornada cristam, por sua von- tade, sem entrevyr nenhuma força, nem dyzerem que nam querendo tornar cristão que fosem fora das terás, como ora fazem, o que creo que tall nam mandaria Vosa Alteza, porque amtre os reis e senhores vysynhos destas terás hão ysto por muito, e porque sey que oulhando ysto Vosa Alteza, bem mandara que se nam desfaça hum povo tam omrrado, como he de Goa, e os que sam lançados fora os mandara recolher, e mandara que vyvam em seus custumes, como sempre viveram; por iso nam falo mais nysto e nam diga ninguém a Vosa Alteza que, lançando fora de Goa os primcypaes dele, os outros se tornarão cristãos, porque esta nysto muita gente de Goa ser tornada cristam, e allguns deles sam parentes destes princypaes, e nunqua lhes eles foram a mão, e cada dya se fazem, porque vyvem amtre os cristãos; como botarem fora, ficam fora da conversação e manejo dos cristãos e portogueses pera nunqua serem cristãos, e lançando aos primcypaes fora, pode ser que o [3r.] povo se yra com eles a dyzer a Vosa Alteza // que deve mais a crystandade que as rendas nem terás, como caa dizem, que dizem a Vosa Alteza, nam se debe de entender ysto pela Imdya tam sedo, omde esta Vosa Alteza ganhando (8) Tinha sido conquistada em 1510. 454
cada dya as teras, que sam todas povoadas de gentyos e mouros, que nam podem vyver senão em seus custumes ao presente; e todos temos que a ley a-de ser toda huma, e ao presente nãm vejo outra a que se posam tornar todos, senão aos dos cristãos, e pera vyr ser ysto asy, o tempo nam he chegado; daqui athe então se yram fazendo poucos e poucos, poys quis o Senhor Deus dar este espaço, nam queyra Vosa Alteza tyrar. A Goa vay em grande cresymento 1 da povoação, como das rendas, e asy as outras fortalezas, e ysto nam pelas vertudes dos padres, nem dos que manda a Imdya, senão pelas de Vosa Alteza, por tantos bens e obras pias e esmo- las, e a verdade que tem por iso o Senhor Deus que as suas cousas vão avante, porque esta em huma tera como aquela tam santa; por iso os homens, enquoanto estão nela, e por estarem mais perto de Vosa Alteza, trabalhão pera fazer o que devem, mas depoys que eles sam caa nam sam aqueles tamto; dygo pelos padres como por leygos, o que me parece que he a calydade de tera que lança de sy muito dinheiro, e outras cousas que nam sam pera engeitar, e fazem as vontades huns a outros, e como a justiça e as cousas em tera a fazem por fazer prazeres e vontades âos padres, por- que nam escrevam deles mal a Vosa Alteza, como he noto- ryo, nam pode yr bem a tera, onde se ysto faz e athe vyrem os frades a estas teras, forão os governadores e capytaes imteiros no mandar, e achavam as partes a jente da tera neles favor e justiça, e ysto dizem que causa por os padres terem muito credyto com Vosa Alteza, e nam quer nynguem estar mal com eles. Por ysto oulhando e conhecendo muito bem que algu- mas cousas que eles fazem nam he serviço de Vosa Alteza, e sofrem-lhe tudo, aimda que eles tomem parte do seu mando, nem ousam de escrever deles a Vosa Alteza, porque 4 — crescymto. 455
[3 v.] se reseam de lhes não crer, // per omde em Goa e nestas terás de Baçaym recebe a gente da tera sem rezão e justiça, como Vosa Alteza ao dyante vyra saber, se ja nam tever sabydo, porque omde entrevem cristão a nenhum gentyo he feita justiça (9), ainda que a tenha, per amor dos padres que vão falar e precurar em audytores, por eles fazerem pelos cristãos; he muy bem, mas o quererem soster por eles huma causa contra rezão, he mall feito pelos abetos (10) que eles trazem; por iso deve de mandar, ainda que os padres falem pelos cristãos, tanta justiça farão a hum mouro e gentyo, como a hum cristão, poys ela foy ordenada ygoall- mente pera todos. E depoys que Jorge Cabrall he governador (11), lhe requery satyfação dos meus serviços, que tynha feitos a Vosa Alteza, e ele me dyse que muito bem sabya que bem tynha eu servido, e que merecya mais merce do que heu requeria, e que me nam deixava de fazer, senão porque os padres lhe nam tevesem a mal; desta maneira andam caa as cousas. E cando começarão de tomar nestas partes terás pera Vosa Alteza, ordenou Afonso de Allbuquerque, que santa grorya aja (12), que todolos escravos da gente de tera que se tornasem cristãos fosem vendydos, e o dinheiro entregue ao seu dono, o que sempre se cumprio; somente de certos anos pera caa mandam que fyquem foros, por omde os donos perdem os seus escravos e a valia deles, sendo vasalos de Vosa Alteza, pela quall cousa deixaram (9) A protecção aos cristãos era sempre pedida pelos missionários. (10) Isto é: hábitos. (11) Jorge Cabral sucedeu a Garcia de Sá, falecido em 1549. (12) Estas e outras expressões, disseminadas pela carta, indicam a religião cristã do escriba de quem Azu Naique se serviu. O estilo, porém, e os erros abonam a pouca instrução do mesmo escriba que supomos ser algum cristão indiano. 456
de vyr os mercadores a tera, como he notoryo, o que parece contra rezão; porque se os escravos dos cristãos, tornando cristãos, nam fycam forros, e fycam escravos, cujos heram, por que rezão os gentyos nem mouros perderam a valia deles? Poys nam podem ter por escravos, por serem cris- tãos de Vosa Alteza; quer que fyquem foros, mande pagar a sua custa ou se vendam a cristãos e a valia entregue aos seus donos. // E devya Vosa Alteza de buscar (13) hum talho (14), r-l pera que na Imdya nam ouvesem tantos ofycyos da justiça nem da fazenda, como hão, nem outros porque pera justiça o secretaryo que seja letrado, e o ouvydor jeral, e nas forta- lezas cada hum seu ouvidor abastam pera fazerem justiça as partes, porque o mais he despesa da sua fazenda e opreção as partes, e alem de opreções custa-lhe do seu; e os da fazenda ordenara os que bem parecer, porque ha y muitos pelas fortalezas que se podem escusar, porque canto mais ofycyos ouverem, tanto he perdymento da fazenda de Vosa Alteza e das partes, e pera ordenança dos ofycyos que Vosa Alteza quyser ordenar as fortalezas, os mais nece- saryos e pera governo da Imdya se pode enformar de Mar- tym Afonsos de Sousa, que foy caa governador, que entende bem as cousas de caa, e asy Dom Geronymo de Noronha, que partyo da Imdya ha pouco (15), e asy dos outros que entenderem mylhor, porque alem dos que Vosa Alteza ordenar, se for allgum muito necesaryo, provera o governador. (13) Esta palavra encontra-se riscada. (14) Isto é: feição, maneira. (15) D. Jerónimo de Noronha tinha sido capitão de Baçaim. (Cf. Gas- par Cqrreia, Lendas, IV, 462.) 5-a.» 457
Vosa Alteza defendeo que os cristãos novos (16) nam vencesem soldo nem mantimento, mas o mylhor fycou pera prover, que he que nenhum deles nam tenha ofycyo da justiça, nem do provedor de Vosa Alteza, porque se lhe vem a eles cayr nas mãos allgum ofycyo destes ou da fazenda, se proveytam muy desvergonhadamente, sem nenhuma consyencya a custa de Vosa Alteza, ou das par- tes; por iso cando se derem hos semelhantes ofycyos, sejão as pesoas teudas por de muita concyencya. De Baçaym quero dar conta, como homem que sabe bem dele. Sobre ela ser tera de muyto grande jurdyção e renda, esta mal fortalezada; he a mais fraca fortaleza que ha na Imdya, avendo rezão de a fazerem mais forte que de todas porque, alem de render muito, tem Vosa Alteza nela [4 r.] o que quer pera as suas ar // madas, e dela se prove a fortaleza de Dyo, porque cando ela esteve de guerra, se nam fora o socoro de Baçaym, da gente como de dinheiro e mantymento e da munyção da guerra, nam se cobrara o Dyo como se cobrou; por iso deve Vosa Alteza de prover nysto com brevydade. E quoanto as terás do dyto Baçaym, vão-se perdendo por serem mandadas por muytos, porque cando heram dos mouros nam heram mandadas mais que por huma soo pesoa, que hera o capytão que nelas estava, he ele hera o governador e vedor da fazenda, e da sua mão heram postos todolos outros ofycyaes, e nam conhecya a gente da tera maes que a ele soo, e ele como homem que tynha tudo nas mãos, e de poder mandar em tudo, fazya bem com a gente da tera, e também proveytava muito a fazenda do seu rey, e a gente da tera estava então mais prospera; e depoys que elas sam de Vosa Alteza, por nelas aver muytos mandadores, (16) O autor da carta não se refere aqui aos novamente convertidos, mas sim aos outros cristãos-novos, objecto de legislação vária de excepção. 458
que cada hum cuyda com seu ofycyo que pode mais que nynguem, e como eles sam de tres em tres anos, e tem necesydade huns dos outros, por rezão de seus ofycyos fazem o que lhe bem vem, e o capytão, aimda que queyra acudyr a ysto, nam pode, porque nam tem poderes pera iso. Estas terás nam devem de ser governadas senão por huma soo pesoa, que he o capytão, asy da maneira como hera o capytão mouro, e que ele posa tirar e por todolos outros ofycyaes; e este capytão deve de ser escolhydo pera iso, e o ornem de concyencya, e por mais tempo que os tres anos, aimda que Baçaym teve sempre capytaes fydallgos e nobres e de concyencya, e ora he Francisco6 Basto, que trabalha pera fazer o que deve, e a tera esta dele contente, da sua justiça e governo, e desa maneira yrão as terás nobre- cendo e a gente fycara prospora como damtes. // E cando se deram as alldeas destas terás aos porto- l*'-) gueses, pareceo que eles fycasem ryquos, e a tera mylhor proveytada, o que tudo he pelo contrario, porque eles tem trabalho em se forrarem do que delas sam obrygados a pagar, por seus maos granjeamentos, e a gente escanda- lyzada deles, porque se nam entendem huns a outros. Por yso se deve de ordenar fazer a cada hum merce, em lugar das alldeas, segundo a cantydade de 'ciada hum, pago na feytoria, e as alldeas que fyquem a coroa de Vosa Alteza, como dantes, e mande aforar todalas terás aos naturaes, porque com ysto tera a sua renda certa e segura, e Vosa Alteza bem pago, porque doutra maneira nem dos ren- deiros nem senhores das alldeas pode ser bem pago, senão com eles ganharem muyto; por iso proveja nisto como for seu serviço. E depoys que vyerão os frades a estas terás de Baçaym, como chegarão logo mandarão dyrrybar os pagodes e as 6 - Fr.» 459 L.
mysquitas dos mouros (17), avendo tam pouquo tempo que estas terás sam de Vosa Alteza; nem por iso fycaram eles todos tornados cristãos, mas foy este hum grande escândalo pera eles, e forão contra as provysões e patentes que eles tynhão dos governadores, em nome de Vosa Alteza, por- que avyam por bem que vyvesem em seus custumes, e lhes nam deyxam fazer nenhum modo das suas festas, e a ma- deira7 dos taes pagodes e misquitas repartyram eles por quem quyseram, e asy da pedra amdam caa a fazer merces, e quebram os tanques que benesyo (18) fizeram pera ser- viço do povo e do gado, dyzendo que a gente que se vay ahy lavar, e outras cousas muytas, por omde estãm estas terás pobres de omens omrrados, de tanta jente canta aqui vyvya nobre e omrrada, como Vosa Alteza pode saber por muitos que la vão; por iso aja Vosa Alteza por bem que vyvam eles como sempre vyveram, segundo seus custumes, ysto nam tyra nada aquele que por sua vontade quyser ser cristão. [5 r.] // E também a gente de tera estava escamdalizada de tyrarem suas ortas e terás, per mas enformações, e fazerem delas merces aos homens, mas com prover nisto Garcya de Saa, o qual, sendo governador, como lhe pareceo ser serviço de Vosa Alteza, estão ja com menos escândalo, e porque do bem e do mal destas terás de Baçaym nynguem pode dyzer a Vosa Alteza mylhor que Dom Geronymo de Noronha que he la, ha muy pouquo que partyo daquy, se dele quyser enformar, e o que ele dyser per juramento sem feyção nenhuma deve Vosa Alteza de prover, conforme ao que ele dyser, e lhe pergunte por todas estas cousas que aquy (17) Refere-se aos religiosos franciscanos da Província da Piedade, che- fiados por Frei António do Porto. (18) Assim parece estar escrito, mas deve ser beneficjo. 7 — madra 460
dygo, e vera se falo verdade, e proveja da maneira que a gente da terá receba favor e merce. Nam quys estender a mais, por nam fazer muyta leytura, nem sey se follgara com ysto, mas se me der licença espreverey cada ano o que entendo, e o que pasa nestas terás e nas outras de Baçaym. Oje, 18 de Dyzembro de 549. Azunayque ^ 6 i
78 CARTA DE S. INÁCIO DE LOYOLA A S. FRANCISCO XAVIER Roma, 23 de Dezembro de 1549 Documenta Indica, I, 737-738. Ignatius de Loyola, Societatis Iesu prepositus gene- ralis: Dilecto in Christo fratri, magistro Francisco Xavier, pre- posito eiusdem Societatis in Indiae regionibus, sereníssimo regi Portugaliae subiectis, et ultra eas, salutem in Domino semptiternam. Cum felicis recordations Paulus papa tertius de apos- tolicae potestatis thesauro minimae nostrae Societati pluri- mum spiritualium gratiarum ad Dei et animarum edifica- tionem, quas praepositus generalis pro tempore existens per se et alios, quos ad id idoneos iudicaret, exercere posset et dispensare, benigne concesserit: Nos, qui te nu per prae- positum omnium fratrum nostrorum, qui in predictis Indiae regionibus versantur, constituimus, de tua pietate et pru- duentia (quae est in Christo Iesu) plurimum confidentes, prius collatam auctoritatem confirmando; insuper omnes eas gratias et auctoritatem, quam nobis sedes apostólica quomo- documque communicavit, et nos communicare possumus (duabus dumtaxat, scilicet indulgentia plenaria semel in anno concedenda, et admissione ad professionem exceptis) communicamus, ut non solum eis uti ad proximorum edifi- cationem, sed et alios ex iis, qui sub obedientia tua sunt, participes earundem facere, prout quemque idoneum existi- maveris (quibus nos ex nunc prout ex tunc, quae tibi vide- buntur, concedimus), possis et valeas. 462
Si autem te in remotissimis locis a collegio Gouae agere continget, illi, qui ex fratribus nostris prefati collegii rector pro tempore extiterit, eandem, quam tibi, facultatem et auctoritatem (quam tamen minuere vel penitus removere, prout in Domino iudicaveris expedire, tibi licebit) per hasce patentes litteras, nostra manu et Societatis sigillo munitas, concedimus et indulgemus. Vobis enim hujusmodi gratias ac concessiones arma iustitiae futuras esse ad animarum consolationem [et auxilium et Dei] Altissimi gloriam et honorem in eodem omnino speramus. [Datum Romae in domino socie] tatis Iesu die XXIII Xbris M. DXLI [X], 463
79 RUI GONÇALVES DE CAMINHA A EL-REI Goa, 30 de Dezembro de 1549 Documento original existente no ANTT: — CC, 1, 83-59- {Aede 209 x 300 mm. Seis folhas em bom estado. Três apenas escritas. [i r.] Senhor. Eu tenho escrito e dado comta a Vosa Alteza por outras que tenho espritas, e esta nam sera pera mais somente dar comta a Vosa Alteza das cousas em que ho padre Mestre Francisco me quys ocupar, has quaes eu aceytey por nyso fazer servyço a Deus e a Vosa Alteza, e por saber o gosto e comtemtamento que diso ha-de tomar, prymcipallmente nas cousas da Pescarya, de que mamdo huns apomtamentos das lyberdades e cousas que esta jemte ha mester, e asy fico em negoceo de despachar com ho governador certos padres pera irem a Çocotora (1). E também amdo com o gover- nador sobre as cousas de Jafanapataam, nas quaes ao pre- semte se lexa de emtemder, por ho tempo nam ser desposto pera ysto, e ho governador vay pera Baçaym, prazara a Deus que pera o ano que vem, provera nysto mais larga- mente do que ho agora faz. Os padres de Sam Domyngos, que este ano vyeram do [i *•] reyno, // me encomendou o governador que tomase cuydado deles, e lhe mandou dar hum muito bom chãao e asemto, no quail he feito huma igreja e durmitoreos, e casas pera (1) Xavier havia, efectivamente, planeado mandar uma missão a Soco- torá, mas não se chegou a efectivar. 464
noviços, e todo ho necesaryo, e diseram na igreja dia de Natali, mysa, e he muito gramde e muito boa, e estam providos de todo o neceçaryo, e por allguns dias estaram asy muy bem ate se comesar a obra premcipall. Elles espreve- ram a Vosa Alteza quam comtemtes e satisfeitos ficam. Noso Senhor acrecemte o reall estado com longos dias de vyda e saúde de Vosa Alteza. Feita em Goa aos 30 dias do mes de Dezembro, em que comesa ho anno do nacemento de Noso Senhor Jesus Christo, de mill e quynhentos e quorenta e nove. E os apomtamentos da Pescarya o governador os con- cedeo todos, por lhe parecer de servyço de Deus e de Vosa Alteza, e asesego da cristamdade da tera; he neceçaryo Vosa Alteza os mamde de la comfyrmados, e que ho asy ha por bem, como qua esta asentado pelo governador. Ruy Gonçalvez de Caminha. A segunda está em branco Apontamentos pera Sua Alteza ver e prover t3 r-] nas cousas da Pescarya, como compre a ser- viço de Deus e de Sua Alteza, e bem e asosego da cristamdade que nela vive (2). Item. Primeiramente, sam muyto agravados e denefica- dos em os quirerem costramger e obrigar que paguem tre- buto do que nam pescam. E querem-nos costranger que pesquem, ainda que nam queyram, e que lhe paguem, quer (2) Comparar estes Apontamentos com os que o Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha apresentou a el-rei, e adiante publicados sob o n.° 101. 465 Doe. Padroado, iv-30
r pesquem quer nam; pedem a Sua Alteza que os provejam com justiça, e que nam paguem mais tributo que daquillo que pescarem, e que os nam costramgam a irem pescar comtra sua vomtade, porque asy som provydos pelo gover- nador Garcia de Saa, e pedem que Sua Alteza o mamde asy compryr ymteyramemte, e muyto milhor, se melhor pode ser. Item. Sam agravados pelo capitão da Pescarya em lhe pedyr direitos do pescado que matam e pescaam pera sostem- tamento de suas vidas, o que nunqua foy nem se acustumou, senam de pouquo pera qua lhe moverem este tributo; pedem a Sua Alteza que de tall trebuto os mamde lybertos, e que per nenhuma via que seja lhes tomem nem os obriguem a pagar taes direitos, posto que digam que sam pera Sua Alteza. Item. Sam agravados pelo capitão da Pescarya e pelos seus em lhe tomar ao chamco que pescam, que sam huns [3 r.] buzyos que se tratam de mercadorya pera Bengala, // os quaes lhe o dito capitão toma forçosamente por menos as duas partes do que outros mercadores podyam dar por elles; pedem a Sua Alteza que os lyberte desta força e tyranya que lhe he feita, e que ho capitão nam posa tratar nos dytos buzyos per sy, nem por outrem, e que elles hos vem- dam lyvremente a quem quyserem, nem menos lhes tomeem direitos delles. Item. Sam agravados pelo dito capitão e os seus nos mamtymemtos de arroz que vem a terra, que como quer que sam seus nam querem que outro nenhum se vemda na terra, senam o seu pello preço que elles querem, e poem a jemte dos moradores em tamanha estrelydade e nececidade, que lho tomam e lho comem; pedem que ho dito capitão nam trate nos ditos mamtymentos, e que framcamente os 466 \ 1
tragam quem quiser e os vemda lyvres, sem serem costram- gydos a pagar nenhum direito nem trebuto delles, nem menos o capitão lhes lamçe o seu arroz pelos canos pelos preços que elle quer, fiado, e depois os apenhoram e os anexa pelos pagos, e de tudo ysto sejam lybertados e fram- queados. Item. Sam agravados pelo dito capitão em nam querer que vam buscar mantymemtos e as cousas // neceçaryas [4 r.] pera seus provymentos e sostemtamemtos, sem cartazes seus, e com darem fiamças, pelos quaes cartazes lhes levam muito dinheiro. E porque a sua navegaçam he em champanas e em canoas pequenas pera logares pertos e de seus vezynhos, e ho mais lomge he ate as Ilhas de Malldyva, pedem que sejam lybertados e framqueados que posam ir e vyr sem os ditos cartazes nem levarem por yso nenhum trebuto nem serem costrangydos aos hobregarem sobre este negocio. Item. Sam os cristãos da dita Pescaria e asy todolos outros que nela vyvem agravados pelo dito capitão em os nam quererem leixar vyver em logares certos, domde façam seus asemtos e morem e vyvam, mas amtes os transmudam e trespasam de huns lugares pera outros, e os nam lexam vyver quyetos nem asesegados por estas mudamças que nelles faz lhe remderem dinheiro; pedem que ha tall nam sejam costrangydos nem nos permudem, e os lexem vyver de asemto e morada homde elles quyserem e, quer se mudem quer nam, tudo sera a sua vontade deles, e por yso nam lhes levarem nenhum trebuto que seja, somente vyverem lyvre- mente. Item. Pedem a Sua Alteza mamde prover todo gemtyo // que doutras partes vyerem acorrydo de suas terás e natu- [4» ] rezas os senhores nelas os tyranyzarem e roubarem, posam estar na dita terra e vyver nela, sem receberem nenhum 467
escamdallo nem mao tratamento, mas antes sejam favore- cidos e homrrados com mais favor que hos naturaes, por- que sam muytos e homrrados, e com bom recolhimemto e trato e favor, e semtyrem serem tornados a santa fee de Noso Senhor Jesus Christo, e que estes tenham as lyber- dades e franquezas que tem todos os cristãos da tera, e que lhe nam levam nenhum trebuto nem direito, por vyrem novamemt a tera e com ysto Sua Alteza asy pruver sera a tera muito povoada e o nome de Noso Senhor Jesu Christo acrecemtado. Todas estas cousas sam pruvidas pelo governador Garcia de Sa, asy e da maneyra que se nelas contem, a requery- memto de Ruy Gonçalvez1 de Caminha, morador na cidade de Goa, que he procurador de todos heles; pedem a Sua Alteza por asynada a merce e por servyço de Deus e acre- cemtamemto da fee; que asy lho comceda e mamde por suas provisões que se cumpram e sempre rogaram em suas orações que Noso Senhor lhe acrecente seu estado e da rainha nossa senhora e prymcipe, com muitos dias de vida e saúde, amen. Rui Gonçalvez Caminha. I — giz. 468
80 COSME ANES A EL-REI Cochim, 30 de Dezembro de 1549 Documento original existente no ANTT: — CC, I, 83-60. Mede 219 x 320 mm. Cinco folhas em bom estado, quatro das quais escritas. Senhor C« Juro a Vosa Alteza polia fee e verdade que devo a Deos que faço o seu serviço, cremdo que nyso também syrvo muyto a Deos e de toda vomtade e forças, porque sabido esta que tudo o que Vosa Alteza mamda e ordena he a ese fim. E porque esta terra esta muy depemdurada e asy como esta desposta pera gramdes beins esta aparelhada pera gram- des males, os quaes nos vam emtramdo; determyney comigo de me alargar nesta carta em fazer a Vosa Alteza mais partycular lembramça de algumas cousas, do que ho faço nas outras que lhe escrevo, pera que, lida, a mamde romper por nam me fycar em dano o que faço com bom zelo, cremdo que he serviço de Deus e de Vosa Alteza lho escre- ver. E também, Senhor, nam temendo muyto de estar nesta terra, nam sey se he por ter mais penhores e obrygações e ir-me fazemdo mais velho, e que desejo alguum descamso, se pello que vejo de yr de cada vez pioramdo. Esta terra que ho turco vay tomamdo ha empresa delia muyto a peyto, pois vem conquystar a Asya, que he o caminho pera //a Imdia, e pera yso tem tomado Baçora [' e Adem e, por nossos pecados, toda a jemte desta terra esta muy escandalizada e ofemdida de nos, e os governadores pioram e parece que de cada vez mais sam despostos pera destroição huuns pera dar através com tudo e 469
outras pera se perder a mymgoa. E portamto, Senhor, tam gramde cousa nam deve de amdar a beneficio de homens que nam naçerom pera governar tamanho senho- rio, nem sam pera tam gramde empresa, e se Vosa Alteza, a que propriamente pertemce, nam deve por sy de acodir a yso, mamde ao senhor imfamte, seu irmão, pois isto nam he senão pera reys, que a jemte jaa desforçadamemte e sem obidiemcia nem acatamento espalha-se por diversas partes domde nam tornam, e fyquam tam poucos com ho governa- dor, que nam ousa de hoo apartar de sy, por mais necesy- dades que sobrevenham, nem tem com que comtemtar a jemte, nem dam imdustrya pera as buscar e asy ficam os poucos prestamdo menos. E pera ysto, Senhor, compre vir a esta terra pesoa que ha torne a reformar e esperte a jemte e avivemtar os espry- tos dos homens, e que estejam sabemdo que tem rey ou filho de rey, e que ha-de tratar de negoceos deferemtes do que faziam os governadores, com que ha gemte tornara sobre sy, e fara gramde mudamça do pasado, e o tom disto soara por toda a terra, e acudirão os portugueses que amdam espalhados por diversas partes, que vir por governador hum fidalgo ou outro não aballa, que sabem pera o que [a r.] vem, e que tratão // de seus imtereses, por diversas ma- neiras, e de estarem desfazemdo huns o que fyzerom os outros, e com a vimda de hum prymcepe abrir-se-ha a terra e as vontades dos homens, e a christandade, que he o de que trata Noso Senhor, yr-se-ha acrecemtando, e asegu- rar-se-ha o que estaa tam duvidoso, e adquirir-se-ham gram- des proveytos e ryquezas, que se emgramdecerão os tratos, e avera muytos reynos e provimcias trebutarias, tornar- -se-ha (i/c) Adem, asegurar-se-ha o estreyto de Ormuz e de Meca, far-se-ham comcertos e amyzades com o Xata- 47°
maz (1), reformar-se-ha o abexym, os reys da Imdia e das outras partes aver-se-ham por satisfeytos do que ordenar e fezer com elles hum prymcepe, e yram armadas por muitas partes que com jemte em abastamça e comtemte, tudo ysto e mais se poderá fazer. E juro a Vosa Alteza a Deos que asy estam cremdo ysto, comose ho vise, que as armadas e governadores que vem e da maneira que se caa hão com esta guovernança he pera nos tomarem aas naos. Nam aja Vosa Alteza que estas lembramças servem mais aos capi- tães das fortalezas que aos oficiais de Vosa Alteza que, por derradeiro, quando compre todos pelejamos, e pois Vosa Alteza se qua quer servir de mym, leve-me em comta sayr dos limytes dos negoceos da fazenda, que asy o faço quamdo compre yr aos de guerra, que estarmos sempre a beneficio de fazer Noso Senhor mylagres he forte cousa, e nam ajaa Vosa Alteza que são poucos os que podem semtyr ysto, mas toda pesoa e asy nam ha ornem que se nam deseje de ir // da Imdia. E o governador tudo se lhe Ia * vay em se recolher pera escrever pera Vosa Alteza, e tyrar estormentos e certidões, e ha quatro meses que estam repre- sados muitos navios de remo que fazem muyta despesa pera yr a Baçaym, que pera yr desbaratar huma armada do " Turco era muyto, e de quam mal pareceo esta yda a todos laa o sabera Vosa Alteza, e quanto mylhor fora esta despesa pera outra cousa, e porque esta carta he de falar craro o digo asy. Item. Apos ysto, Senhor, deve Vosa Alteza de prover acerca do governo da igreja, que ho bispo he muy especial prelado, e muyto mylhor pera laa que pera caa. He velho e mal desposto e por ese respeito nam pode per sy vesytar e acodir a muytas partes, nem resestyr a muytas cousas a (1) Shah Thamasp, da Pérsia. 47 1
r- I que he obrygado per bem de seu officio. Ysto ja ha-de correr asy em sua vida, que elle nam pode fazer mais, porem em seu lugar se cura muyto hum prelado muy sofi- ciemte pera vigairo geral que devia Vosa Alteza de mamdar de laa com cedo. Mestre Pedro1, que laa vay, que sérvio este cargo, he mall desposto e não he pera esta terra; ornem he que viveo vertuosamemte como digo a Vosa Alteza em outra, pera quaa nam serve (2). Item. Pregadores são qua muito necesarios pera o [3 r.] serviço de Deus e de Vosa Alteza, e que ajam em // cada fortaleza pregador. Destes padres apostolycos (3) devem de vir quamtos poderem, que nam ocupam lugar e apro- veytam muito. Frades servem em suas casas, e fora nam tanto, e sam maos de comtemtar, que a despesa muy bem se emprega nelles. Laa vam nestas naos ou 10 ou 11 fran- ciscanos, nam vimdo nenhum, e estes mancebos com licem- ças e nam fiquam fazemdo muita myngoa. Item. Secretario he hum officio que he mester hum ornem muy imteyro, e de muyta avilidade, e que tenha muyta pratica dos negocios de caa e da ordem e estilo da fazenda de Vosa Alteza, que asy como agora he caa hum governador desbaratado daram com tudo de traves. Esprivam da matricula2 também compre muito que Vosa Alteza proveja de hum omem muy soficiemte, tyrado dos contos ou de outro negocio de espiryemcia, e ha-de ser bom escryvam mais que pera outro nenhum officio, e (2) Padre Mestre Pedro Fernandes Sardinha. Regressava a Portugal e apresentaria a el-rei uns interessantes apontamentos sobre o espiritual e o temporal da índia. Seria depois nomeado primeiro bispo do Brasil. (3) Nome por que eram conhecidos os Jesuítas. t — p.'; 1 — matla. S72 m
aimda que de necesydade ha de ter obreyros que ho ajudem, nam no desobrygam ao que he que ha de fazer per sy. Item. Ruy Gomçalvez de Camynha (4) certefico a Vosa Alteza que he tarn prejudicial pera esta terra, que o muyto que ha que dezer delle faz que nam diga nada, pera não corromperem elle e Amtonio3 Pessoa ' (5), governadores, aimda que he por deferemte maneira que esta certo ho faze- rem, deviam-se de premudar ou ter algum modo com elles, que jaa Ruy Gomçalvez crea Vosa Alteza que ho diabo nam buscou mais modo pera temtar a Christo, que a huns o faz per fome e a outros per cobiça, e com ostras (6), que tem comercio e emtelegemcia em toda a parte, e juramdo Dom João5 //de Castro que lhe nam avia de emtrar em 13*.] casa, e trazia recado pera o mandar pera o reino, veo a fazer delle o que Vosa Alteza laa tera sabido, e Amtonio Pessoa outro tamto, e parece-me que sera bravo o que lhe escapar. Item. Este officio de thesoureiro6 de Cochim nam he pera mais que huma despesa escusada, e pera mais dano da fazemda de Vosa Alteza, e de hum dinheiro que vem tam contado e regystado pera estas cargas, amdar a tyra-lo de dous homens que se hão de querer aproveytar delle de muito maior trabalho ja de hum sera menos. Ã margem: Ver. Item. De Coje Cemacadym torno a fazer a Vosa Alteza lembramça de ser huma ruyna que se deve mais de temer (4) Rui Gonçalves da Caminha era vedor da fazenda. (5) António Pessoa, de quem Cosme Anes se queixa nesta carta, tinha sido grande amigo de D. João de Castro. (Cf. Lendas da India, IV, 618, 688.) (6) Ou outros ? 3 — Ara.'*; 4 — Pa.; 5 — J": 6 —Ths. 473
y> que ha de baluarte de Sam Tome de Dio; nam lhe quys requerer nada pera esta necesydade, nem elle ouvera de querer emprestar, que nam amda jaa senam em recolher, e também nam me pareceo rezam aver de estprever delle o que pasa e pedir-lhe por outra parte, sem Coje Cema- cadym prove Noso Senhor. Item. O proveyto de yrem as drogas a granel soo em hum anno importa mais do que custaria caa huma carga que huma naao destas gramdes pode levar de 1200 te 1500 quintaes de drogas, e a granel yram dous mil e mais que vallerão 100.000 cruzados e os fretes cinco ou seis; quamdo acontecer receberem daneficamento asy o recebe- ram em sacado como a granel, pois vay do masto pera re, em amtrambalas cubertas, e muy bem esteyrado, e aimda que se recebese daneficamento algum, o proveyto da mais soma que vay ho sofre, huma vez vaa quamta poder e [^r.] desta opinyam sou, e asy ho hey-de fazer // emquamto Vosa Alteza nam mamdar o comtrayro; e lembro a Vosa Alteza que pella mesma maneira devam de yr as drogas de partes em paiol per sy, e amtes alguma cousa mais per as quebras, como sempre vay, que também forrara ysto bem de despesa. Item. O dinheiro7, que Vosa Alteza mamda dar per letras aos fidalgos, nam deve de vir pera o cabedal, que he por de mais arrecadar-se delles senam muy raramente, e respomdem que Vosa Alteza os obriga a virem e com ese fumdamento de pagarem real lho mamda dar, soo Amtonio de Azambuja e Francisco Barreto pagaram. Item. Per cima das necesydades deste anno, desejey muyto de comprar pera Vosa Alteza hum diamamte, que me parece que laa vay a mais perfeyta cousa que veo a 7 — Dro. 474
esta terra, e fazia-ho ha condiçam de pagar-se laa a ame- tade e eu caa polo tempo a outra metade, e porque também fiqua muyto em proveyto pêra esta carga aver o dinheiro delle que me esprestam, vemdemdo-se a outrem, fica asy o gaynho maior e ouve-o por milhor fazenda. A margem: lembramça a Dom Afonso que mande cada vez hum diamante ou dous. Item. Todalas demamdas de importamcia de caa são com o procurador dos feytos de Vosa Alteza, e pera bem de sua fazenda, asy arremdamentos, tratos, defesas, pesos e as outras cousas, tudo o mais vay a elle, e como nam for hum ornem de muyta comciencia e verdade, he des- troyção. Jeronymo Ruyz, que serve este cargo, sera pera outro, e segundo me afyrmam e se vee, nam he pera este cargo; sera de bem acomdiçoado, ou nam sey que nome lhe ponha de menos sua ofemsa. // [<» ] Item. Esta terra, Senhor, esta tam apartada de Vosa Al- teza pera a prover e socorrer em tempo que he necesario, pois fiqua ate valler o mais do tempo per sy, que aja quem na sostemte, e ysto comsyste muyto em certos officiaes de Vosa Alteza, e o que delles vay mal aviado, nam tam somente se perde mas dana em outras muytas cousas. E portamto pera estes negoceos que apomto nesta carta e nos deste mester deve Vosa Alteza ter muy especial lem- bramça e prover nyso, que a jemte emtra em muy gramde descomfiamça, que dizem que vam boas cargas e o mais pase por omde poder, e asy cada hum tyra pera sy, e eu descarto-me asy de tudo, como homem que esta na hora da morte, porque asy a temos todalas oras amtre as mãos, e esta armada he destroyção desta terra ou nossa, por tam- tas maneiras que soo porque nam vinha neste imverno car- 475
vam da tera fyrme a Goa pola guerra pasada, nem as ferra- rias lavravam nem se fazia moeda de bazarucos, com que se sostem os gastos da ribeira, de maneyra por qual vera nos podem tyrar o samgue tee ispirarmos. E ysto, Senhor, porque somos poucos e esfaymados, e deixamo-nos estar perecedendo, sem ter terras de que viva- mos, e em que nos amparemos, as quaes vieram senhorear dous mouros espravos, e as poshuem tyranycamente, com muy pouca jemte forasteyra que nam lhe tem obrygaçam. Praza a Nosso Senhor que de muitos dias de vida a Vosa Alteza, pera em seu tempo se dar remedio, com ha graça de Deus, a tam gramdes cousas, com que ho seu santo nome seja muy emxalçado e o estado real de Vosa Alteza muy acrecemtado. De Cochym, 30 de Dezembro de 549 Cosme Anes. 476
81 CRISTÃOS DE S. TOMÉ — PADRE MATEUS DIAS A EL-REI Cochim, 22 de Janeiro de 1550 Documento existente no ANTT: — CC, l, 83-71. Mede 213 x 326 mm. Duas folhas em bom estado. Boa caligrafia. Senhor, C' r-l A graça do Spirito Santo consolador more na alma de Vosa Alteza e a conserve sempre pera seu santo ser- viço, amem. Depois que partimos de Portugal com muito favor de Vosa Alteza, com honesta viagem, aos sete dias de Setem- bro de 1549 anos, viemos ter a cidade de Goa onde nos recebeo o governador de Vosa Alteza Jorge Cabral com rosto muito alegre, e nos despachou com nos mandar dar algumas cousas necesarias pera nosas pesoas, e dahi viemos a Cochim porque nesta costa hai muitos cristãos de Santo Tome, que sam mais de quarenta mil almas, os quaes anti- guamente tinham o Patriarcha de Babilónia por prelado, que por mandado deste Patriarcha vinham de Babilónia homens como bispos pera insina-los das cousas da fee cató- lica, segundo ho custume babilónio, o qual nom sem alguns errores e estes, alem das outras cousas que faziam, davam as ordens sacerdotais aos desta terra, e nom lhes davam licença pera dizerem as misas, e agora estam aqui dous da sobredita Babilónia, os quais faziam primeiro tudo a ma- neira de Babilónia, ate o tempo que Vosa Alteza mandou o padre Alvaro Penteado, o qual com muita deligencia e fervor da fee católica os ditos dous bobilonios trouxe a obediência da Santa madre Igreja, e lhes fez dar ordenado 477
de Vosa Alteza. Eles nam fazem agora cousa nenhuma segundo custume babilónio, e estam muito honestos e obi- dientes a Santa Madre Igreja com os portugueises, e porem hum dos ordenados dum dos sobreditos babilónios, amando mais a vaidade deste mundo que a salvaçam da sua alma, anda insinando o custume babilónico estes cristãos de Santo Tome, sem temor de Deos nem da Santa Igreja, nem tem licença de seus prelados babilónios, e neles tem feito muita perturbaçam, polo qual veio o bispo de Goa a esta cidade de Cochim, pera usar com ele de muita misericórdia, o qual nom se quis chegar ao bispo nem ao gobernador de Vosa Alteza, e isto com medo mais que he por pertinácia, e eu fui huma vez ate dez legoas em busca dele por man- dado do bispo, e ele se pos num lugar onde nos outros "•] nom podemos ir por estar hum // rei daquela terra ale- vantado. Espero em Deos que cedo nos veremos pera muito ser- viço do Senhor Deos e de Vosa Alteza, e huma vez fui a dous lugares destas partes da índia, onde confesei seis pesoas e baptizei quarenta e huma, louvado seja Chris to, com sua ajuda, fazer algum serviço a Ele a Vosa Alteza. E pera iso he necesario que Vosa Alteza favoreça bem com alguns ornamentos a cada huma das igrejas destes cristãos de Santo Tome, scilicet, vestimenta, cálix, sino, imagens, retábulos, e outras cousas que as igrejas tem necesidade pera o culto divino, e crea Vosa Alteza que, se mandar a cada huma das ditas igrejas sobreditas cousas, se tornaram muitos a fee católica, porque dizem eles com alguma rezão que Vosa Alteza nem os gobernadores deram nem dam nada pera as suas igrejas, e portanto mande Vosa Alteza todo o que nesta pera as ditas igrejas peço, porque com isto e com alguma doutrina, molificarei os corações deles. 478
E asi deve Vosa Alteza dar privilégios a estes cristãos e aos que agora novamente se convertem ninguém posa demandar nem citar perante justiça secular ate cem cruzados de divida ou de pena, senão perante vigário desta cidade de Cochim, o qual posa dar sentença final, e nom aja mais apelaçam a ninguém, nem o dito vigário consinta que as partes tomem os precuradores pera gastarem com eles seu dinheiro, mas ouvidas as partes com algumas testimunhas dinas de fe, ou por scrituras de sentença final. E asi he necesario que Vosa Alteza dee todalas graças, privilégios aos cristãos de Santo Tome que servem a Vosa Alteza em trazer toda pimenta ou quasi tudo que vai destas partes, como gozam os fidalgos em Portugal, porque eles se aquei- xam a mi que por quanto serviço tem feito a Vosa Alteza, depois que a India he descuberta, nom tem recebido nenhum privilegio nem merce. Sabera Vosa Alteza que tenho mui bem sabido que Vosa Alteza recebe grandisima perda na pimenta por ser ela muito molhada, e tem mais outra falsidade que nom en- tendem todos senão aqueles que ha tratam, e portanto tem necesidade que tenha Vosa Alteza hum homem tratante da mesma pimenta, e lhe mande dar hum ordenado pera oulhar mui bem se tem a pimenta alguma falsidade ou não, e mais se dem suas merces como ate qui deram, scilicet, barretes, facas, cabaias, e outras cousas, e sobretudo e mais necesaria cousa he que a cada bar mande Vosa Alteza dar cento e trinta ou quarenta fanões velhos de Calicu, porque doutra maneira nom poderam eles trazer a dita pimenta, sem nela fazer alguma falsidade, porque tem grandes gastos. Portanto mande Vosa Alteza dar a cada bar da pimenta os ditos cento e trinta ou quarenta fanões velhos de Calicu, os quaes fanões se podem montar tres mil e trezentos reis, e hum bar tem pouco mais ou menos de tres quintaes, e 479
a dita pimenta se compre em todo o ano e desta maneira recebera Vosa Alteza cada ano grande proveito na pimenta. Acho nestes cristãos de Santo Tome alguns casos reser- vados, scilicet, casam em grao prihibido, tomam usura, [a r.] e // outros casos muito mais graves que cometem, os quaes qualquer confesor nom pode asolver, e portanto mande Vosa Alteza hum privilegio do Papa ou do Nuncio que posa eu os asolver dos casos cometidos, e dos que comete- rem, e despense com eles que posam tomar usura, porque doutra maneira neles nom hai emmenda, porque dizem que seus antepasados foram por este caminho, que eles nom tem outra maneira pera manter suas casas, e asi alguns portugueises vendem cavalos aos infiéis e outras cousas prohibidas de que Vosa Alteza tem direito, e sobretudo mais necesario he que mande Vosa Alteza logo este ano frei Martinho, reitor do colégio de Sam Domingos de Coimbra, por bispo de Cochim, porque o bispo de Goa crea Vosa Alteza que nom pode visitar huma terça parte da índia. E faça-me merce Vosa Alteza em cada ano na feituria de Goa huma pipa de vinho pera as misas, e pera despacho destas cousas e doutras que se oferecem cada ano, asi da nosa parte como do colégio de Coranguanor, onde frei Vicente tem feito muita cousa de serviço de Deos e de Vosa Alteza, he necesario que lembre alguém a Vosa Al- teza e pera iso a mister que dee a Vosa Alteza ordenado ate trinta e cinquo mil reis em cada ano a Jorge Carvalho, indio, que andando na corte despache com Vosa Alteza estas cousas. O frei Vicente tinha determinado de mandar este ano tres ou quatro moços a Portugal pera aprenderem a dou- trina católica, não sei qual foi a causa de se nom irem este ano; he necesario que mande Vosa Alteza a frei Vicente 480
que sem nenhuma duvida mande la ate vinte moços dos cristãos de Santo Tome a Portugal pera aprenderem. Mandando Vosa Alteza todo o que nesta peço, fara grandisimo serviço a Deus, e a mi merce e caridade. Spirito Santo seja com Vosa Alteza sempre, amen. De Cochim, aos vinte e dous de Janeiro de 1550 Mateus Dias. Pera el rey noso senhor. [a v.] Do padre Matheus Diaz, indio. Primeira via. Doe. Padroado, iv - 31
82 JORGE CABRAL A EL-REI (I) Cochim, 24 de Janeiro de 1550 Original existente no ANTT: — CC, I, 83-74. Mede 329 x 219 mm. São quatro jolhas em bom estado. Ho ofiçyo de provedor dos defumtos nestas partes he ho mayor e ho de mor carguo de comçyemçya que qua [tv-1 ha, // como ja diguo a Vosa Alteza na carta geral (2) e por ser emformado e ter visto per mym que todollos prove- dores-mores e pequenos se aproveytão deste dinheyro, e quoamdo vem a dar comta não tem por omde paguar, como aguora se ve na comta que se tomou ao Doutor Fram- çysquo Tosquano e a Ruy Gomçalvez de Camynha (3) que este carguo servyrão. Eu, por descarguo da comcyemcya de Vosa Alteza e da mynha, que ho aguora poso emmendar per comselho de (1) Jorge Cabral encontrava-se em Baçaim quando recebeu a notícia, após o falecimento de Garcia de Sá, de que o seu nome se encontrara na sucessão legítima para governador da índia. Tomou posse no dia 12 de ^ Agosto de 1549 e entregou o governo a seu sucessor D. Afonso de Noronha em meados de Novembro de 1550. (Cf. José F. Ferreira Martins, Crónica dos Vice-Reis e Governadores da Índia, 293-294.) Escreveu várias cartas a el-rei, todas elas repletas de preciosas informa- ções a respeito da índia. Adiante publicaremos na íntegra a que se nos afigura mais importante. Na presente, de que publicamos algumas passagens que mais directamente se relacionam com a vida social de Goa, Jorge Cabral queixa-se de Jerónimo Rodrigues, procurador de el-rei, Miguel Fróis, feitor já falecido, e de Diogo Soares. (2) Julgamos tratar-se da carta que adiante publicamos, fechada em 21 de Fevereiro de 1550, e que provavelmente já estaria principiada. (3) A respeito destas dívidas pode consultar-se um interessante do- cumento existente no ANTT:—CC, I, 83-78. Trata-se duma conta tirada por Francisco Aveiro, contador de el-rei, a respeito do activo e do passivo do falecido Dr. Francisco Toscano. 482
comtadores que bem emtemdem este negoceo, determyno de mamdar fazer huum regimemto per que defemda aos pro- vedores-mores que não recebão nenhuum dinheiro de defum- tos senão depois de metido na arqua dos deposytos dos defumtos e com esta decraração pasem o conhecimemto em forma aos provedores pequenos, e asy mamdar cada mes tomar a comta aos provedores pequenos de todallas forta- lezas omde estiverem e loguo lhes mamdar deposytar em arquas, que pera iso ordenarey, o dinheiro que se fizer naquelle mes na fazemda dos defumtos, pera daly se tira- rem os legados dos defumtos, e o lyquedo vyr a estoutra arqua do provedor-mor, de que ho governador ha-de ter huuma chave e elle outra, e far-se-ha neste regimemto as mylhores decrarações que se puderem fazer pera este dinheyro se arrecadar destes provedores pequenos, porque há hy provedor que serve oyto, dez anos, e não lhe podem tirar huum vimtem de defumtos da mão, e amda este negoceo tão desmamchado nesta Imdia que vivem todos os homens qua de pedirem dinheiro emprestado ao prove- dor-mor e gastam-no as suas vomtades, sem poderem delle dar outra comta. Deve Vosa Alteza la de mamdar pratiquar este caso de tamto sua comcyemcya com quem no bem emtemda e deve de ser huum delles o Doutor Pero Fernamdez, que ho bem deve de emtemder e mamdar sobre iso fazer huum boom regimemto, e emtertamto mamdarey husar do que aguora mamdo fazer, e desta maneira poder-se-ão qua tomar deste dinheyro quoremta ou cymquemta myl pardaos cada ano pera se delles comprar pimemta, e irem por letra pera la no reyno Vosa Alteza os mamdar pagar aos erdeyros dos defumtos cujos forem. Nesta cydade de Guoa e em todallas outras da Imdia amda muyto dinheyro de orfãos ao ganho, o quoal não se da senão a compadres e não a pesoas que se aproveytem 483
I *v0 com elle // e o tenhão seguro pera ho tornarem quoamdo lho pedirem, e quoamdo os orfãos se mamçypão ou casão trazem sobre ele mais demamdas que se fose alheo, e deste dinheiro vyvem os mais moradores desta cydade e das outras da Imdia. A mym me parece muyto servyço de Deus e seu mamdar aos juyzes dos orfãos que arrecadem suas fazemdas e as metão em huum cofre, como Vosa Alteza la mamdou nese reyno, porque desta maneyra estaryão nos orfãos mais seguros e não se perderyão tamto os homens como se perdem, quoamdo delles arrecadão o que devem, mas porque isto he cousa que se não pode aguora fazer do pasado, por muytos emcomvenyemtes que pera iso ha, ey-de mamdar qua daquy por diamte se cumpra huuma pro- vysão de Vosa Alteza que qua ha sobre este caso, per que mamda que ho dinheyro dos orfãos se meta em cofre como la tem ordenado. Dou disto comta a Vosa Alteza, porque me pareçe huma das cousas neçesaryas a esta terra e que compre muyto a seu servyço (4). (4) A seguir, refere-se Jorge Cabral aos seguintes assuntos: 1) enviava a el-rei 30 pipas de salitre, destinado às guerras de Africa; 2) comércio de Ormuz; 3) recomenda João Camelo para escrivão da feitoria de Baçaim; 4) recomenda António Pessoa; 5) recomendara a D. João de Ataíde, capitão duma nau que partira de Goa para o reino a 1 de Novembro, que não arribasse a Moçambique, salvo caso de força maior. 484
83 A MISERICÓRDIA DE COCHIM A EL-REI Cochim, 29 de Janeiro de 1550 Documento existente no ANTT: — CC, I, 83-76. Mede 206 x 303 mm. Duas folhas. Em bom estado. Senhor, [i] Os neguoceos sobejos, as necesydades muitas desta casa da Samta Mysericordia1 de Cochim, vão semdo de calydade que aimda que lhe qua queiramos daar o remedio que lhe he neceçaryo, não pode ser, porque a parte domde avemos de esperar ho efeyto do que eles requerem algumas vezes nos tarda tanto, que as pessoas2 que servem esta casa fiquão maos officyaes diso, e os que das obras dela he neceçaryo serem providos e remediados, são mal acodidos. E parece rezãao que, pois ho imtemto de V. A. he no serviço de Deos como mostra, pelas esmolas que esta casa e esprytal dele sempre recebeo, que lhe lembremos fazer-Ihe merçe e prover no descuido dos ofiçios a quem pretende fazerem-nos justiça nas cousas em que lhe pydimos emxe- qução delas, comforme as provysoes que tem de V. A. V. A. estpreveo a Samta Mysericordia da cydade de Guoa, em tempo3 do seu viso-rey Dom João1 de Crasto, em que vinha hum capitulos que dezia que V. A. lhe fazia merçe de huma provysão, em que avia por seu serviço, a estas casas da misericórdia, que a fazenda que fiquase por falecimento de algumas pesoas, que fazião as ditas casas erdeiras, semdo seus erdeiros em Portugal mortos, avia // por bem que estyvesem deposytadas em mão de pesoas, [' »•].? i — mya; s — p." ; 3 — ifo ; 4 — 3.' ; 5 — cap.* 485
de que os provedores da Mysericordia e defumtos fosem comtemtes, por tempo de tres anos, pera se saber neles se os taes erdeiros herão vivos, e semdo vivos lhe fose mamdado, confforme ao regimemto de V. A., e semdo mortos, fose entregue a Mysericordia pera se destrebuir pelas suas almas, do quoal o dito vyso-rey pasou provisão, comforme ao capitulo da carta de V. A., que estaa na Mysericordia de Goa, ate vir a provisão de V. A. E ateguora no-la goardarão, e com ela se fez muito ser- viço de Deos e de V. A. Aguora no-la quebrão, e nos tomarão dinheiro6 que pertence a esta casa, e o mamdão, e nos não querem fazer yustiça7. Pidimos a V. A. que faça merçe a esta casa de lhe pasar esta provisão, porque sem ela se não pode fazer o serviço de Deos nem compryr as obras da mysericordia, nem desemcarregar as almas dos defumtos. V. A. tem feito merçe a esta casa de huma provisão, em que haa por seu serviço e mamda aos seus governadores8 e oficiaes que paguem a esta casa todo ho soldo que lhe he devido e defumtos que haa muytos anos que são mortos, ho que teeguora nos não tem feyto nenhum pagamento, nem ho querem fazer, por omde se não pode compryr ho que os defumtos ordenão do seu. Proveja V. A. nisto, como lhe pareçer seu serviço, pois nesta parte não querem fazer ho que V. A. por sua provisão mamda. E porque ho acreçemtamemto no amor de Deos e molte- prygação das obras do seu serviço, por V. A. ordenadas, nestas partes vay em tamto creçymemto, como teraa sabydo, serya descuydo noso as cousas pera celebrar o culto devino a esta casa neceçarios, não lho fezecemos saber, quisemos fazer-lhe esta lembramça. E muy neceçaryo e estaa em nece- cydade de hum retavolo da emvoquação da casa, e asym huma bamdeira pera esta Mysericordia. Na Casa da Imdia 6 — dr.' ; 7 — Just.' ; 8 — g." 486
estão dozemtos mil reis do soldo. Ped/mos a V. A., por amor e serviço da Samta Mysericordia, que nos faça merçe destas duas peças, em satisfação dos ditos dozemtos mil reis, ou os mamde pagar a Mysericordia de Lixboa9 para no-las mamdar, porque doutra maneira, queremdo-nos pro- ver destas duas peças, por quão neceçaryas sãoo, com alguma esmola se ha na casa pera iso ouver, seraa neceçaryo deixar //de acudir a muytas, e de não fazer as acostumadas, de que Noso Senhor seraa mui desservido, e muitos mui desajudados. A provisão e merçe de V. A. em que ha por bem que se paguem os soldos e mamtymemtos aos treze emleytos não se cumpre, e he mui neceçaryo, pera fazer ho que V. A. mamda, mamdar-nos huma provisão emcomendadamemte que sem nenhum embargo se paguem, por serem pessoas pobres, porque alem dysto ser seu pelo merecymemto de seos serviços, haa muita rezão de serem pagos p ytos trabalhos que tem nesta casa e esprytal de V. A., a quem Nosso Senhor acreçemte e prospere seu estado com muytos anos de vida. Baltasar Diaz Nobre, estprivam da Santa Mysericordia a escrepevy na mesa do cabydo, aos 29 de Janeiro de 550 anos. O provedor10 Fabyão Alvez. Joane Mendez. Baltesar Diaz Nobre. Domyngos Gonçalvez11. Afonso Fernan- dez12. João13 Diaz. Bartolomeu Fernandez14. Miguell... Manuel Gonçalvez1S. Pero16. Lourenço Afonso17. João Fernandez18. Irmão Antonio 19 Rebelo. 9-Lx.»; io — p.40'; n - giz ; ia — a." + frz ; i3 — J.* ; M - frz; i5 —m.«' giz ; ló — p.*; 17 — l-.f a." ; 18 — J." fz ; ty — AM.' 487
I 84 JORGE CABRAL A EL-REI Cochim, 21 de Fevereiro de 1550 Documento original existente no ANTT: — CC, I, 83-90. Mede 299 x 210 mm. São oito folhas em bom estado. 'J Senhor, Despoys que escrevy a Vosa Alteza polas tres naos que são partidas, socederão allgumas cousas de que he razão que lhe de comta. El-rey de Calequu me escreveo huma carta e asy outra el-rey de Tanor, pedimdo-me que lhe dese lycemça pera mamdar pymenta ao Estreyto de Mequa, como fyzera o governador Garçya de Saa ho ano pasado. El-rey de Tanor, como mayor meu amyguo me escreveo que por iso me darya o Çamorym quynhemtos cruzados cada ano, como Vosa Alteza pode ver pola propia sua carta que lhe mamdo, e asy vera o que sobre iso lhe respomdi. Parece-me verdadeyramemte que por aquy se foy muyta parte da pimemta que este ano não pudemos ajumtar, porque ho ano pasado foy boom gollpe dela, per lycemça do gover- nador que Deus aja, e com esa esperamça a retyverão pera este. E asy mamdo a Vosa Alteza huuma carta que me escre- veo Bernaldo da Fomsequa, allcayde-mor e feytor de Cou- lão, como lhe não quyserão vemder pymemta pera ma mam- dar em humas fustas que la mamdey pera ajuda da carga desta nao, senão a quynze fanões mays por bar, que era o preço que lhe os mercadores purtugueses por ela davão pera quem na eles goardavão. Este negoceo estaa, Senhor, [»*•] muy danado, // porque não ha nynguem que não receba 488
agravo em lhe defemderem este trato, e ate os cydadãos daquy se agravão de mym, e me fazem sobre iso requery- mentos, porque defemdo que daquy não partão nenhuuns navyos pera Bemgala e lhes mamdo que vão a Goa e de la partão sem tomarem esta costa do Malavar, o quoal me parece que he, Senhor, muy necesaryo, porque quoamtos navyos daquy forão la este ano pasado, todos forão com muyta pimemta, como Vosa Alteza la pode mamdar ver pola devasa que Ia mamdey pera se entregar ao licenceado Bernalldim Estevez, precurador de seus feytos. Eu tenho presos allgumas pesoas que são neste caso cullpados e far-se-lhe-há seu ofycyo, mas crea Vosa Alteza que he tão pouqua verdade nesta terra que todos com mas provas se hão-de lyvrar. Ja tenho escryto a Vosa Alteza como tynha provydo Amrryque de Sousa Chychorro da armada da goarda desta costa, e como o não tynha despachado, por aimda não ser lyvre da devasa em que era cullpado, o quoal se lyvrou, e tamto que foy lyvre, por ter pasado allgumas palavras com huum Jorge de Sousa que qua amda, mamdou solltar com elle com sete ou oyto paremtes seus e feryrão-no, pola quoal razão o mamdey premder, e provy da armada a Framcysquo de Sousa Rybeyro, o quoal he tão cheo de openyão que ma tornou a emgeytar, porque se não achavão tamtos remeyros, como ele pedya, e, porque comprya mamdar loguo ter vegya na costa de Calequu, ordeney que fose com ela Fernão de Sousa, fylho de Jorge de Sousa de Castello Bramquo, que amda servymdo Vosa Alteza, que ho ano pasado emver- nou em Dyo, damdo mesa, e ora estava despachado de mym pera ir fazer outro tamto este imverno. E, pollo achar tão leve em ho // servyr, e elle ser muyto pera iso, lhe emcarre- [3 "••] guey esta armada; eu ho despacho loguo pera se ir lamçar com ela na costa de Calequu e Cananor, por que tyre a espe- ramça a el-rey de Calequu e a Coje Cemaçadim de mam- 489
darem pymemta e gemgyvre ao Estreyto, e nesa cosa da pymemta crea, Vosa Alteza, que ho ey-de servyr mylhor que em todallas outras cousas, porque sey eu quoamto prejuyzo dyso vem a seu servyço. E a Fernão de Sousa mamdo que venha envernar aquy a Cochym com esta armada, porque arreceo que a crystamdade de el-rey de Tanor resullte em allguum allvoroço e descordia amtre el-rey de Calequu e el-rey de Cochym, segumdo se vay ja mostramdo, e jaguora os padres que tamta confyamça tynhão nela comfesão que se achão enganados, mas com esta cautella ey-de desemullar com elle, porque asy me parece necesaryo, e Vosa Alteza ganha muyto em se esta malycya descobryr, porque erão mays os que queryão me- recer amte Vosa Alteza com sua crystamdade que amte Noso Senhor. Não poso leyxar de escrever a Vosa Alteza os maos modos que allguuns fydallguos qua tem em no servyr, que he a cousa por que muytas vezes Vosa Alteza he mal ser- vydo dos seus governadores no provymemto de suas arma- das e doutras cousas de seu servyço. Na emtrada deste verão, estamdo eu em Goa, me escreveo Amrryque de Sousa Chychorro que ele desejava muyto de servyr Vosa Alteza em goardar esta costa, dyzemdo-me que se obryguava a não levarem dela pymemta pera nenhuuma parte, e neste mesmo tempo Amrryque de Saa, capytão de Cananor, me foy requerer a Goa com gramdes cartas de el-rey de Tanor que ho quysese emcarregar da armada que avya de amdar de Cananor pera Batequala, e eu, vendo seus requerymemtos, [3v.] comfyado na vomtade que mostrava // pera ho servyr, lhos comcedy, e loguo mamdey fazer ao sacretayro suas provysões, e despoys que os despachey dey as provysões a Amrryque de Saa pera husar das suas e mamdar de Cana- nor as de Amrryque de Sousa que estava neste Cochym. E porque, amdamdo Amrryque de Saa na costa, comsemtyo 49°
a huum capitão de huum catur de sua companhya huuma ryballdarya, que elles hão que são percallços de seu ofycyo, ho sospemdy e ho trouxe comyguo a este Cochym e, a roguo de seu irmão e de muytos paremtes seus, e por ser Saa, lhe perdoey e ho torney a mamdar a costa, como damtes amdava, com que foy muyto satysfeyto. E porque no regimemto que lhe dey lhe encomemdava a goarda do Momte Dely pera Batecalla e lhe tyrava a vegya das naos de Coje Cemaçadim, em que ele tinha sua esperamça, por sayrem de Cananor, omde seu irmão estaa por capitão, por seu comselho me emgeytou a armada, com gramdes acha- ques, semdo de vymte e cymquo anos, e outrotamto fez Amrryque de Sousa Chychorro, porque lhe não dava camanha armada ele pedya, mas despoys com muytos afa- guos meus, a tornou aceytar. E estamdo fazemdo-se prestes, lhe acomtecerão as bry- guas com Jorge de Sousa, como dyguo, polias quoaes dey a armada a Francisco de Sousa que me ele tornou a emgey- tar polias razões que dyguo. Asy, Senhor, que com estes mymos e maos emsynos servem qua Vosa Alteza os mais dos fydallguos que qua amdão, e verdadeyramemte lhe dyguo que ho não pode qua com eles bem servyr o seu governador, porque se emcarregua a outros que ho rogão fazem loguo ajumtamemtos em suas casas, praguejamdo deste mao com- selho, avemdo-se cada huum por merecedor de governar esta terra e não se oferecemdo numqua pera ho servyr. // Ja tenho escryto a Vosa Alteza as novas que me [4 «d aquy vyerão que era tornada a tomar Adem aos Turquos polios Arabyos, e aguora me escreveo Martym Correa, por omde a nova vyera, a quoal carta lhe mamdo. Prazera a Noso Senhor que serão estas tão boas novas muyto certas, e poys os Mouros as dão comtra sy, devem de ser verda- deyras. 491
Gomçalo Vaz de Tavora partyo de Goa com quoatro fustas, com as ter ja sabydas, e vay muyto allvoraçado, segumdo me dyzem, pera se meter em Adem, se estas novas forem verdadeyras, e asy quoamdo em Março despachar Gyl Fernandez de Carvalho pera Ormuz ho hey-de mamdar com as fustas que levar comsyguo que sayba estas novas em Çaquotora e, achamdo que são certas, que se va tãobem a Adem, e tamto que eu tyver a certeza proverey como vyr que compre a seu servyço, de modo que se não perqua esta tão boa vemtura, a mymgoa, como se perdeo os anos pasados. Qua veo ter huum abexym de Jerusalem que amdou la neses reynos e veo com lycemça do Papa pedyr esmolas pera a a Casa Samta, omde ele he vygayro, e este se me ofereceo a levar cartas aos purtugueses que estão com ho Preste e guyal-los ate Melymde, se outro camynho mays certo não puderem achar. Por ele mamdey o trelado de huuma carta que Vosa Alteza escreveo ao Preste e asy outra aos purtugueses que la amdão, porque as propyas creo eu que mamdou o vyso-rey que Deus aja, e asy lhes escrevy conforme a ellas, e mamdey dar a este padre cymquoenta pardaos pera seu gasto, e elle me prometeo de levar as cartas e vay em huuma nao de Coje Cemaçadim. Prazera a Noso Senhor que emcamynhara com eles, de ma- neira que os traga a esta Imdia a sallvamento, e no regy- memto que dey a Gomçallo Vaz lhe lembrey que trabalhase [•«*.] de saber allgumas novas destes purtugueses // e que, podemdo ir omde eles estyverem, sem peryguo, ho fysese, e delles tyve huma carta que me mamdarão por hum mouro, a quoal mamdo a Vosa Alteza. Estamdo nesta cydade de Cochym, veo aquy ter comyguo a raynha das Ilhas de Malldyva, molher deste rey que aguora he, e asy huum moço seu paremte, a quoal me vynha fazer queyxume de el-rey seu marydo, como a deytara fora de 49 2
casa, e lhe tomara sua fazemda, e lha não querya dar, e estamdo eu pera ha despachar com gramdes cartas de roguo pera o rey, chegou ele, o quoal vem com outros queyxumes comtra ela, dizemdo que fora ja molher de huum seu tyo e doutro seu irmão, o quoal matara as punhaladas, pedim- do-me que ha não deyxase la tornar, porque ele não querya ser rey omde ela vyvese, e asy me vem fazer queyxumes dos capitães que la vão ter, e das muytas tiranyas que lhe fazem e desacatos a sua real pesoa, ao quoal eu mamdey receber homrradamemte e apousemtar e dar o necesaryo e ho despacharey, de maneyra que va de mym e desta terra comtemte. Vosa Alteza tem provydo a muytos fydalguos da armada pera estas Ilhas, não semdo emformado de cão pouqua necesydade ha dela pera estas partes. Este rey he obryguado a dar a Vosa Alteza seyscemtos bares de cayro postos aquy em Cochym a sua custa, em cada huum ano. Vosa Alteza nestas armadas de que fez merce aos fydallguos gasta muyto sua fazemda e perde muyto das pareas em que lhe he obryguado o rey delias. E alem destas perdas, fyqua Vosa Alteza obryguado a satysfazer-lhe todollos roubos e tyranyas que os capitães com sua gemte la fazem, e pois nyso tamto perde não deve // de comsemtyr que la va [5 nyguem a tyranyzal-los, pois ho rey e seu povo querem paguar suas pareas como são obryguados, e porque me parece isto muyto seu servyço, ho lembro a Vosa Alteza, mas nestas e noutras vyageys, de que Vosa Alteza la faz merce a fydallguos, tem Vosa Alteza muyto que emmemdar se não quer perder tamto com elas, como ja lhe tenho escryto. Ja dey comta a Vosa Alteza que huuma das causas por que Cosme Annes, veador da fazemda, estava mal comyguo era porque lhe não desembarguey o lacre que lhe Garcya de Saa, que Deus aja, mamdou tomar pera Vosa Alteza, 493
polo trazer de Peguu sem lycemça, e estamdo eu pera lho mamdar carregado nesta nao nova, por ser agora o preço barato, me dyse o feytor que ele lhe pasara huuma pro- vysão pera ho mamdar embarquar, dyzemdo que ho mam- dava em descomto de certa dyveda que ho Doutor Fran- cisco Tosquano, seu sogro, devya aos defumtos, e porque este lacre não hya pola vya que devya de yr, com a decra- ração dos defumtos, a que este dynheyro era devydo, e elle o querya vemder a Vosa Alteza a mor preço do que valya, mamdey ao feytor que ho carregase nesta nao nova, e que depois se pagarya qua a dez pardaos e meo, como valya, a quem pertemcese per dereyto. E parece-me a mym que ho mamdava Cosme Annes por descullpa da dyveda da pedra qua la mamdou a Vosa Alteza, porque ho emver- gonhey eu muyto de ele querer ganhar tamto com Vosa Alteza e, mais aimda, não querer entregar o dynheyro ao provedor-mor, poys comfesava ser de seu sogro que tamta soma deve. Dyoguo Botelho Pereira, que la vay por capitão desta nao, veo nela com myl omezyos com frades e crelyguos e com quoamtos com ele vyerão, e eu trabalhey com todos [5 r.] qUe fosem seus amyguos e lhe perdoasem seus erros // por me asy parecer servyço de Vosa Alteza, porque não achava mestre nem pylloto que quysese tornar com elle. Elle, em paguo desta amyzade, se lamçou a parte do veador da fazemda, acomselhamdo-me que ho satysfysese no requery- memto da capitanya deste Cochym comtra seu servyço, e trouxe comyguo tres requerymemtos, o quoal pyor: o pri- meyro foy que em nome de Vosa Alteza lhe quytase os myl cruzados que qua avia de dar, que tomou por letra; e o segumdo que lhe dese lycemça pera levar na nao cem quymtaes de gemgyvre, a comdição de ho Vosa Alteza aver por bem; e ho terceyro que lhe mamdase paguar quoatro myl pardaos emprestados pera os mamdar arre- 494
cadar qua devagar de fydallguos que lhe compravão parte de sua fazemda; e porque não me estrevy nem me pareceo razão fazer o que me pedya, vay de mym muyto agra- vado (l). A nao Sam Bemto, em que vay, mamdey carregar des- poys das outras partydas, e porque estávamos desesperados de acodir pimemta, encherão-se allguuns payois de gem- gyvre e doutras droguas e de courys, e depoys, com a dely- gemcya que mamdey fazer com os reys e mercadores desta pymemta, acodio a que avia na terra, mas foy tão molhada e tão çuja que não pareceo razão mamdal-la este ano, e queyra Deus que esta que la vay nesta nao nova não quebre tamto quoamto quebrou a cargua que fez Ruy Gonçallvez, e, se asy for, crea Vosa Alteza que se não pode mays fazer, porque vynha tão pouqua ao peso, que foy necesaryo tomar boa e ma, tomamdo-ha aos mercadores com cymquo por cemto de quebra. Não pode Vosa Alteza ser bem servydo nesta carga da pymemta senão temdo qua cabedal pera lhe terem huuma cargua de huum ano pera ho outro, porque asy irya a pymemta sequa e escolhyda, e recebe-la-hyão os mestres na sua feytorya sem quebras nenhuumas, e as naos poderyão partyr todas em Dezembro, e não a vymte de [6r3 Fevereiro, como esta parte, e desta maneyra se farya muyto proveyto na fazemda de Vosa Alteza, e as naos seguraryão sua viagem. Eu fuy qua avysado que Diogo Botelho comprava muyta roupa preta que se gasta em Moçambyque, com fumda- memto de ir la envernar, e porque sua temção me pareceo (1) No quinto volume desta Documentação publicaremos uma carta de Diogo Botelho Pereira, curiosa personagem oriental, que muito ajudará a compreender esta passagem de Jorge Cabral como também a penetrar na atmosfera que então se respirava na índia. Por ela se verá que Diogo Bote- lho Pereira foi obrigado a arribar a Angediva, partindo para Portugal ape- nas em 1551. 495
ma ho amoestey peramte o sacretayro e asy ao seu mestre e pylloto, os quoaes me diserão que lhe dese huuma pro- vysão pera que Diogo Botelho não mamdase arrybar a nao, e porque me pareceo que causarya esta provysão gramde escamdallo na nao, lha não dey; prazera a Noso Senhor que levara la a nao a sallvamemto, e que não avera de que dar comta a Vosa Alteza. Nesta nao Sam Bemto ordeney de mamdar Crystovão de Crasto e Francisco de Magalhães que la mamdo presos com suas cullpas; quysera-os mamdar nas prymeyras naos que partyrão, e com quoamto poder qua tenho, não ho pude acabar com os capitães delias, porque todos se me escusarão com mas razões, tudo a fym de se não compryr o que de Crystovão de Crasto ordenava. A Dioguo Botelho mamdey fazer os requerymemtos necesaryos da parte de Vosa Alteza e lhos mandey entregar com gramdes autos e protestos; se os elle não quyser levar e der azo pera fogyrem, mamde-lhe Vosa Alteza tomar esa comta. E crea que se não pode qua executar a justiça nos degradados que vão pera o Brasyl, com as openyões dos capytães das naos, os quoaes todos os solltão, como lhos emtregão, e não ha la quem lhe tome esta comta; deve Vosa Alteza de pasar huuma provysão muyto regurosa com- tra os capitães que os não querem receber, e dar delles [#*•] conhecimento, mamdamdo ao governador que lhe // tyre as naos e lhe de outro castiguo aimda mayor, porque cada ano solltão os presos que lhe entregão e, por seus omezios, amdão muyto tempo amtre os mouros ate que os governa- dores lhe perdoão ou lhe dão seguro pera amdarem nas armadas e fortalezas, que he a pena que se qua da por gramdes crymes, e os que este ano mamdey entregar aos capytães que la são, me afyrmão que amdão no Amchecay- mal, que he cousa bem vergonhosa, e eu mamdo a Vosa Alteza os autos de como lhos emtregarão, e do que eles 496
respomderão, e porque não fuja desta maneira Crystovão de Crasto, e também por que esta nao va bem navegada e não corra peryguo nas Ilhas de Malldyva, mamdo com ella huuma fusta ate a deyxar fora delias. Pera esta carga destas naos vyerão este ano trymta myl cruzados afora as letras da outra nao, que aimda não he chegada, dos quoaes se não puderão arrecadar em dinheyro pera a carga delias mays (2) myl cruzados, porque a demasya se gastou em Goa no provymemto de mynha armada, e asy em se tomarem amquoras e allguumas sedas aos mercadores que avyão de paguar o dinheyro delas e também por se não poder arrecadar allguum dinheiro dos fydallguos a que ho Vosa Alteza la mamdou dar, e por iso foy necesaryo tomar por letra cymquoenta e oyto myl cruza- dos de defumtos pera esta carga que lhe mamdo; e o mays que se me la momtou se sopryo qua das suas remdas e de empréstimos que pera iso busquey. Mamde Vosa Alteza la fazer conta e vera a provysão que qua se teve no gastar deste dinheyro, e crea Vosa Alteza que por huma parte ganhou muyto no furto que lhe fez o tesoureyro, porque se la o dynheyro estyvera, não abastarão // cemto e cym- [7 r.) quoemta myl pardaos como Cosme Annes gastou ho ano pasado. Estamdo pera cerrar esta, me escreveo el-rey de Pimemta huma carta, pedimdo-me que ho quysese ir ver a huma sua terra perto daquy, mostramdo-se muyto servydor de Vosa Alteza, e porque estamdo ele em Calequu em desservyço de Vosa Alteza e del-rey de Cochym, eu lhe escrevy muytas vezes mamdamdo-lhe la meus requados per allguuns purtu- gueses que se quysese vyr pera seu reyno e não quysese fazer tamanho desmamcho comtra seu servyço, e ho não (2) Encontra-se aqui um espaço em branco, destinado, sem dúvida, a ser depois preenchido. Doe. Padroado, iv - 32 497
quys fazer, me não pareceo razão il-lo ver, mas mamdey la Amtonyo Correa que aquy foy feytor, per quem lhe escrevy repremdendo-ho do que tinha feyto, e desemganamdo-ho que avia de favorecer el-rey de Cochym comtraa elle, se tyvesem guerra, e asy acomselhamdo-ho que não tynha mylhor remedio pera vyver em paz que desfazer o que tinha feyto e arrepender-se dyso, e porque aimda não veo a reposta, não a mamdo a Vosa Alteza. Dyzem-me que elle, com ho arreceo de sua cullpa, fez omde vyve huuma tranqueyra de pallmeyras e que se apercebe pera se defem- der de el-rey de Cochym, se la for, e arreceo que aja amtre elles guerra este imverno, e por iso mamdo a Fernão de Sousa, a que ora encomendey a goarda desta costa, que venha aquy envernar com os navyos e gemte de sua armada. Depois de ter escryto a Vosa Alteza ate quy, veo Amto- nyo Correa com ho requado de el-rey de Pymemta, o quoal me respomdeo que ele era gramde servydor de Vosa Alteza e que sempre ho avia de servyr, e que se perfylhara o seu prymcepe com ho Çamorym fora pollas ofemsas que lhe el-rey de Cochym tynha feytas, mas que não deyxarya de servyr Vosa Alteza. Eu mamdey chamar allguuns fydallguos e cavalleyros pera aver sobre este negoceo comselho e do que se asemtou mamdo certidão a Vosa Alteza. [7 *•] // Jam Roiz de Carvalho chegou aquy de Peguu mays desbaratado que quoamdo se perdeo na Chyna; fez-lhe el-rey de Peguu muytas ofemsas e se la nam estyvera Dyoguo Soarez, que com elle val muyto, muyto mays lhe fyzera. Estes reys de qua não ão de obedecer a Vosa Alteza nem aos seus capitães senão semdo por eles castigados, por- que todos qua se querem por mal, e não por bem, e meu parecer he que Vosa Alteza ser senhor de toda a Imdia compre fazer qua o que ho emperador faz nas Amtilhas, damdo poder ao seu governador que de lycemça a fydallguos pera tomarem terras as suas custas e sogygarem-nas a Vosa 498
Alteza, pagamdo-lhe por iso o que fose rezão. E porque podem dyzer a Vosa Alteza que sera isto causa de se ir a gemte da Imdia pera fora, esa que pera isto sera nece- sarya amda sempre fora de seu servyço, huns pera Bem- gala e outros pera Peguu e outras partes, e a Imdia he ja pequena e as remdas dela muyto pouquas pera se mamterem os purtugueses que nela amdão, e não ha cousa que lhe abaste senão ho ajudar a este gasto o remdimemto destes reynos, e a gemte delles he hão fraqua que pouqua da nosa abastara pera a fazerem paguar gramdes trebutos, e nestas terras se empregarão mylhor as colonyas que em ^Baçaym e nas terras fyrmes de Goa, omde Vosa Alteza escreve que se fação. Jam Roiz me amostrou huuma provysão de Vosa Alteza pera ir a Bemgala, e porque ora esta viagem vagou com ho omezyo de Crystovão de Crasto, determyno de lha dar em Goa, porque nyso me parece que syrvo Vosa Alteza, por ele ho ter bem servydo ha muyto tempo, e Vosa Alteza ho tamto encomemdar em suas cartas; faço-ho saber a Vosa Alteza, porque sey que avya ahy malldyzemtes que me asaquavão que mamdara premder Crystovão de Crasto por dar esta vyagem a meu cunhado. Beyjo as reaes mãos a Vosa Alteza, cuja vyda e real estado Noso Senhor acrecemte e prospere por muytos anos. Deste Cochym, a 21 de Fevereiro de 1550, e o secreta- rio Francisco Alvarez vio esta carta (3). Feitura de Vosa Alteza Jorge Cabrall. (3) Publicamos na íntegra esta interessante carta de Jorge Cabral por apresentar uma síntese do seu primeiro ano de governo. Gaspar Correia, sempre justiceiro nas suas apreciações, louvou Jorge Cabral, sem restrição alguma. (Lendas da India, IV, 728-729.) 499
85 CARTA DO GOVERNADOR JORGE CABRAL AO PADRE GASPAR BARZEO Goa, 24 de Março de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 100 r. a 100 v. (1) [too r.] Muito virtuoso padre, Qua me deram duas cartas vossas, as quaes eu li com tanta veneração como se forão de San Paulo, e folguey em extremo de saber por ellas em quanto crecimento hia o serviço de Noso Senor na conversão de muytos nesas partes, e asy como ordenareis de fazer nesa cydade hum collegio dos padres da vosa Companhia; são isto obras vosas, a que vos eu tenho inveja. As provisões que me mandaes pedir para que as pes- soas, que se meterem em Vosa Companhia vensão seos soldos, vos mando, e asy outras para vos o feytor la dar quinhentos pardaos de esmola, en nome del-rey noso senhor, para ajuda dessa obra. Pesso-vos por amor de Noso Senhor que sempre me requeiraes para estas obras de virtude, por- que com ellas espero de merecer ante Deus. Quanto a vinda de Reys Roque Nordim (2) eu tomarey niso voso conselho, porque sera o milhor. Não vos escrevo, padre, mais largo porque os negocios me não dão a yso lugar; somente lhe faço saber que eu escrevo a el-rey de Ormuz, pedindo-lhe que se queira fazer christão, segurando-lhe o (1) BIMINEL: fls. 144-144v.; BACIL: fls. 130r.-130v. (2) Simão Botelho era de opinião que este Reizreconodim era pre- judicial a Ormuz. Vid. Carta IV, pág. 32, in O Tombo do Estado da índia. 500
que se elle recea que por causa de se fazer christão perca seu reyno (3), a qual carta vos mando com esta para lha vos dardes. Espero em Noso Senhor que posão tanto vosas virtudes e ora // ções que lhe de graça para se fazer ['<*> v.] christão. Peso-vos, Padre, que sempre me escrevaes muytas novas de vos e assi de vosas obras e tudo o que vos parecer neces- sário prover eu de qua, mo escrevereis e asy me manday qua en que vos sirva, porque levarey niso muyto contenta- memto. Emcomendo-me em vosas devotas orações muytas mil vezes. De Goa, a 24 de Março de 1550. Devoto de Vosa Reverencia Jorge Cabral, gouvernador da índia (4). (3) BIMINEL: «... segurando-lhe o de que se elle recea, que, por causa de se fazer christão, perqua seu reyno...» (4) Jorge Cabral governou de 12 de Agosto de 1549 a meados de Novembro de 1550. (José F. Ferreira Martins, Crónica dos Vice-Reis da India, I, 294.) 50/
86 CARTA DO BISPO DE GOA AO PADRE MESTRE GASPAR Goa, 25 de Março de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 99 r. a 100 r. (1) [99 '■] Muyto virtuoso padre, Algumas cartas ey recebido de Vossa Charidade, com as quaes eu recebi asaz consolação espiritual, e con cada carta sua particular dou graças a Noso Senhor, que por seus servos obra tam maravilhosas cousas nas almas dos fieis e infiéis. Não canse sua pena de escrever, pois que o amor não cansa de recebe-las, e pois que tanta mudança de tanto mal viver a tanto bem viver y ay, em a carreira dos mandamentos do Senhor, podemos dizer que os da terra de Egipto tornarão a terra de promissão, pois que he mudança da dextra do Altissimo, o qual obra Noso Senhor e exercita por seus servos. [99*0 Se en tan pouco // tempo tanto fructo se a feito, que sera com a preserverança de vossa charidade nestas partes por alguns annos? Peço-lhe por amor de Jesus Christo que a mão sua não cesse de obrar, pois que Noso Senhor lhe da graça e esforço e saúde corporal para tal obrar, que alem de ser Deos homrrado e a Companhia de Jesus exal- çada e a vossa alma no ceo de gloria merecedora, a mim me ajudaes a levar esta carga tam grande e de taes tra- balhos e boas obras não são ingrato (2). (1) BIMINEL: fls. 143-144; BACIL: 129-130. (2) BIMINEL: «... e a taes boas obras não são ingrato.» 502
■ Em algumas cartas me toca Vossa Charidade que me alembre de favorecer e ajudar a Companhia. Se as obras minhas para ajuda-la pudessem igualar-se com o desejo que eu tenho de favorecer-la, grandes cousas faria por ela, mas tudo o que eu posso espiritual e temporal ho faço, como se fosse hum dos da congregação. Isto remito-me as obras que tenho feyto de pouco tempo aca; as novas dos quaes Vossa Charidade as ouvira en algum tempo. Vossa Charidade me escreve acerca dos casos reserva- dos, e das razões que da; o mesmo me parece, mas o que tenho, disso vos dou, assy como do Papa o tenho recebido, que não posso mays. Ja tenho escrito a Sua Alteza o que cumpre para salvação das almas desta terra, acerca de tudo aquillo que me escreveis; não tenho outro remedio como vos sabeis; faça Vossa Charidade o que puder e o que Noso Senhor lhe inspirar. A pax e a concórdia que me escreve que ha entre os padres e vigário, e como vivem virtuosamente, em extremo me da consolação; são obras de Vossa Charidade, e asi lhe encomendo muito que trabalhe entre elles que se conservem no que tem começado, por voso exemplo e doutrina, e quando entre elles ouver alguma differença, porque são homens, ou não viverem tam honestamente, como cumpre, ou outro qualquer delicto ou infamia, vos encomendo que me façaes tamanha charidade que entre vos e quem forem lhe deis huma reprensão em meu nome, e se não houver emenda die Eclesiae. Dos casamentos que fizestes a esses convertidos, e de toda a mays conversão que fazeis, e aveis obrado ate gora, alem do galardão de Deos, eu o estimo muyto em meu coração. Ao tempo que esta carta se acabava, chegarão outras tres, huma para mim, outra para o padre Rector, de Vossa Charidade, e outra do capitão para o dito padre, as quaes 503
todas tres eu vi, porque he tanto o amor e familiaridade e boas obras entre mym e os padres da Companhia, que as minhas cartas vem elles e eu as suas. Asy, quando se partio o Padre Mestre Francisco de Malaca para Japão, me escreveo duas cartas muyto largas, onde me da muy meuda conta de tudo o que lhe aconteceo de bem e mal ate o ponto que se embarcou para Japão, emcomendando-me muyto que o (ioo r.] mesmo // lhe faça eu das cousas da Companhia meuda- mente. As quaes cartas vio o padre Rector e as que o padre Mestre Francisco lhe enviou vi eu também. Ysto escrevo a Vossa Charidade, por que saiba a confeança da charidade e amor que tenho com a Companhia, e ella comigo, e porque Gomez Farinha, que esta leva, se parte amanhã, e o padre Rector esta sangrado e enfermo, por ser o tempo tam breve, não respondemos a estas cartas que agora recebemos. Com os navios que qua fiquão escrevere- mos resposta a Vossa Charidade, e a resposta sera segundo Deos, e homrra sua e exalçamento da congregação de Jesus, ao qual vos encomendo muyto que me encomendeis em vossos sanctos sacrifícios e orações, o qual alumie a Vossa Charidade, para en tudo fazer sua sancta vontade. De Goa, a 25 de Março de 1550 annos. Amigo sincero de coração. O bispo de Goa Dom Joam Albuquerque. 5°4 \
87 CARTA DE JORGE CABRAL, GOVERNADOR DA ÍNDIA, A EL-REI DE ORMUZ Goa, 25 de Março de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 100 v. (1) Senhor Eu são tamanho servidor de Vosa Magestade que desejo de ver seu estado acrecentado e asi sua alma posta no ver- dadeiro caminho de sua salvação, e porque este he o da fee de Noso Senhor Jesus Chisto, peço merce a Vosa Mages- tade e lho amoesto, como pay que lhe tem muyto amor, que queira tirar-se da sygueira em que o pecado o tras, e escolher sua verdadeira salvação, e far-me-a Vosa Mages- tade muy grão merce aconselhar-se neste caso com o padre Mestre Gaspar, que la estaa, que he pessoa muyto virtuosa e de sancta vida, e lhe a-de falar verdade, e se Vosa Mages- tade tiver duvida por lhe parecer que por ser christão não sera seu estado acrecentado, eu lhe prometo em nome del-rey noso senhor de sua magestade por yso o acrescentar em mayores senhorios e rendas; mas muyto mays ganhara Vosa Magestade em no fazer com Deus, que he rey dos reys e senhor dos senhores, o qual lhe dara neste mundo grandes estados e muyto maiores no paraíso. E porque confio no syso e descrição de Vosa Magestade, que fara (1) BIMINEL: fls. I44v.-145; BACIL: 130. 5°5
nisto o que deve e o que lhe peço, não digo mays, senão que Noso Senhor lhe de graça para fazer seu sancto serviço. Noso Senhor acrescente a vida e real estado de Vosa Magestade por muytos annos. De Goa, a 25 de Março de 1550. Jorge Cabral. 506
88 A IDOLATRIA PROIBIDA EM TERRAS DE EL-REI 29 de Março de 1550 APO, V, 223-226. Dom João de Albuquerque, por mercê de Deos, e da Igreja de Roma, Bispo de Goa e da India etc. Confirmo ser verdade que EIRey nosso senhor mandou carta a Dom João de Castro, que Deos aja, acerca da christandade e conversão dos gentios a fee destas partes, a qual carta eu vi, e tresladei fielmente, a qual carta tem vinte e cinco apontamentos, a qual tem o senhor Jorge Cabral, gover- nador da India, e o treslado fielmente tirado tenho em meu poder. O sobscripto (r/c) delia he o que se segue: Por EIRey. A Dom João de Castro, do seu conselho, capitão mor e Governador da índia. E o primeiro apontamento delia he o que se segue: Dom João de Castro, amigo. Eu EIRey vos envio muito saudar. Como sabeis a idolatria he tamanha offensa de Deos, que não devo eu consentir que a aja nas terras dessas partes, que são de meu senhorio, e porque são informado que na ilha de Goa ha alguns pagodes públicos e secre- tos (l) o que he tamanho deserviço de nosso senhor, como vedes, vos encomendo muito e mando que logo tanto que esta virdes defendais que não aja na dita ilha de Goa (1) Nota de Cunha Rivara: «Os pagodes templos estavam já a este tempo derrubados, como se vê por outros documentos. Aqui porem, falia dos pagodes idolos; porque a uma e outra cousa se aplica o vocábulo.» 5°7
alguns dos ditos pagodes públicos nem secretos, e que nehnum official possa fazer, nem faça de pedra, nem de páo, nem de cobre, nem de outro algum metal, e assy mesmo que em toda a ilha se não fação algumas festas gentílicas publicas, nem os moradores delia recolhão em suas casas pregadores brâmanes da terra, e ordeneis que se busquem as casas de todos os bramanes e gentios em que se tiver presumpão por sospeita que estão idolos, e todas estas coisas defendereis com penas graves, e que se guardem inteiramente, e aquelles que nellas encorrerem mandareis proceder contra elles, e dar execução às ditas penas; e porque o caso he da qualidade que vos vedes, e tão importante á honra de nosso senhor e seu serviço, vos encomendo que como de tal, e tão necessário ao acrecenta- mento da sua fee nesas partes tenhais cuidado e lembrança delle achando (s/c) que inteiramente se cumpra o que neste caso vos mando que façais, e comfio que fareis, como de vós espero. E pois Sua Alteza no principio deste apontamento diz que não quere que nestas terras, que são de seu senhorio, haja idolatria; e como Baçaim seja do seu senhorio, e asy todas as ilhas delle, com que nos fica obrigação para trabalhar que em Baçaim e outras ilhas não haja idolatria; e como eu seja prelado, tenho obrigação de meu officio alem do mandado delRey nosso senhor de trabalhar destruir esta idolatria péssima, assy por mim como por servos de Deos, a quem eu o encomendo, pelo qual rogo e peço ao Padre Belchior Gonçalves, e aos da Companhia de Jesus, e assy ao Padre Vigário Simão Travassos, e aos Padres de S. Francisco que onde quer que acharem pagodes feitos ou começados a fazer ou a reparar, os destruam e derribem, para o qual lhe dou poder e authoridade; e isto pela obriga- ção de meu officio, pelo qual sou obrigado todo o que em mim for e estiver a desarreigar em o meu bispado toda a 508
seita de Maphamede, e assy a gentílica, e todo aquilo que he contrario á fee de Nosso Senhor Jesu Christo; e peço ao senhor capitão Francisco Barreto, e aos capitães que ao diante forem, que favoreção e ajudem em este caso todo o que for nelles, como cavaleiros de Jesu Christo e EIRey nosso Senhor. Dada em Goa sob meu sinal, e sello que serve na minha camara, a 15 de Março de 1550 annos. — O Bispo de Goa. Cumpra-se este alvará delRey nosso senhor como se nelle contem. Oje 29 de Março de 1550. — Francisco Barreto (2). (2) Nota de Cunha Rivara: «Não diz o Bispo de Goa de que data he esta carta de Sua Alteza ao Governador Dom João de Castro; mas com pouco perigo de erro se pode referir a Março de 1546 que he a data das que trouxe o Vigário Geral Miguel Vaz sobre este negocio da conversação. «Deve ler-se o que o Bispo Conde (depois Cardeal Patriarcha de Lisboa) D. Fr. Francisco de S. Luiz, escreveo na Nota IX da sua edição da Vida de D. João de Castro por Jacinto Freire de Andrade, Lisboa, 1835. Ajusta- monos com a opinião do Bispo Conde em quanto acha a carta, que Jacinto Freire poe no 69 do Lvro i°. assaz suspeitosa; mas se deposta a incon- gruência do formulário, attentarmos na substancia delia, não causará pouco espanto a coincidência do pensamento do seu primeiro capitulo, com o deste que o Bispo de Goa insere na sua provisão, que também he o 1°. capitulo da carta que elle teve na mão. «Se o Bispo Conde tivera noticia dos documentos que neste nosso 5°. Fascículo publicamos, e de mais de outros Fascículos, nem acharia con- traditório e absurdo a Lucena nos logares que delle cita na referida Nota IX, nem teria ocasião de notar que ordens tão positivas, e ao mesmo tempo tão violentas, e de tão difficil, e até perigosa excusação acerca da extinção da idolatria, e dos ritos e festas gentílicas, nos logares do Oriente sugeitos aos portuguezes, e habitados, em grande parte, de gentios, e mahumetanos, lhe parecia não concordarem de maneira alguma com a grande prudência d'El Rey, e com a circunspecção que elle sempre recommendava, ainda em objectos muito menos importantes, e de muito menor interesse para a con- servação, e paz daqueles estados. E finalmente ficaria persuadido que a esse tempo não só se receava em Goa alguma ordem d'ElRey para a expulsão dos gentios, mas que essa ordem era já chegada, e havia quem a publicasse como conveniente aos interesses da christandade nestas terras. «Outra cousa notamos ainda, e he, que a carta donde o Bispo de Goa tresladou este capitulo continha 25 apontamentos, ou capítulos; e a carta que Jacinto Freire transcreve no lugar citado, posto que não tenha divisão de capítulos, pode contudo mui commodamente dividir-se na mesma conta dos 25. «Muito mais poderemos dizer sobre o assunpto, mas não he opportuno alargar aqui a escriptura.» 5°9
89 COLÉGIO DE S. PAULO 8 de Julho de 1550 APO, V, 231-234. Dom João per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guiné, e da conquista, navegação, comercio de Thiopia, Arabia Persia, e da India etc. a quantos esta minha carta virem faço saber que por parte do Reitor do collegio de S. Paulo de Goa nas partes da India me foi apresentado o trelado em publica forma de huma carta per que Jorge Cabral, sendo meu Governador nas ditas partes, lhe fizera mercê em meu nome das rendas que forão dos Paguodes dos gen- tios da dita ilha de Goa, e assy hum meu Alvará com humas postilhas de Dom Affonso de Noronha, meu Viso- Rey das ditas partes, das quaes o theor de verbo ad verbum he este que se ao diante segue. Dom João per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guiné, e da conquista, navegação, comercio de Thiopia, Arabia, Persia, e da India, etc. a quantos esta minha carta virem faço saber que o Reitor do collegio de Sam Paulo da companhia de Jesu desta cidade de Goa, me disse que Martim Affonso de Sousa, Governador que foi em estas partes sendo Governador em ellas, concedera e fizera doação em meu nome á dita casa de Sam Paulo (l) das propriedades e rendas que forão dos Pagodes, no tempo (1) Nota de Cunha Rivara: «No Tombo dos Pagodes diz: em nome de Sua Alteza á casa.» 5 1 ° J
que os havia nesta dita cidade, e que eu o ouvera assy por bem, como poderia ver por hum Alvará que apre- sentava por mym assinado (2), de que o treslado he o seguinte: (He a Provisão d'ElRey, que fica no n°, 100 deste Fascículo.) Pedindome o dito Reitor que por quanto a Provisão que o dito Martim Affonso de Souza, Governador que foi, passára sobre as ditas propriedades e rendas, se não achava (3), e o dito collegio estava em posse das ditas pro- priedades e rendas, posto que algumas delias andavão sonegadas em poder de pessoas particulares, e assi muita fazenda movei, que pela dita doação lhe pertencia, lhe mandasse passar minha carta, por isto assy passar na ver- dade, pera guarda e conservação do direito do collegio; visto por mym seu requerimento, e o dito meu Alvará, e avendo respeito á enformação que tomei sobre o caso, e como em o dito collegio de Sam Paulo ser conservado, e hir em crecimento se faz muito serviço a Deos, e a mym pelos Rellegiosos que nelle estão, e outros que delle forão pera outros lugares destas partes terem convertidos muitos infiéis a nossa santa fee (4) pela doutrina que pregão e ensinão nas ditas partes, assy nesta cidade de Goa, como em outros lugares delias, levando nisso muito trabalho, e fazerem muita despesa em substentarem o dito collegio, e hospital que tem, hey por bem e me praz que a dita (2) Nota de Cunha Rivara: «No dito Tombo dos Pagodes diz: per hum meu Alvará por mim asinado.» (3) Nota de Cunha Rivara: «Note-se como já no Tombo Geral o Provedor mor dos contos Francisco Paes manifestava o seu espanto por se haver perdido esta Provisáo, e nem haver copia delia. Veja-se atraz na pag. 173, na Nota.» (4) Nota de Cunha Rivara: «No Tombo dos Pagodes acrescenta: de nosso senhor Jesu Christo.» 5"
casa e colégio aja e tenha as ditas propriedades e rendas, e quaisquer outros bens moveis e de raiz, que nesta ilha de Goa, e nas ilhas adjacentes pertencião aos ditos pagodes, que nella e nas ditas ilhas avia antes do dito collegio ser ordenado, e assy as que agora possuem, como o que anda sonegado, pera que o dito collegio faça de tudo o que assy pertencia aos ditos pagodes como de cousa sua propia, que ey por bem que seja, e tudo possua, e os bens que ainda andarem sonegados os possa por seu procurador demandar em juizo e fora delle, e aver com effeito a posse de tudo. E porem será obrigado o dito collegio a mostrar Provisão por mim assinada desta doação des o mez de Setembro que vem deste prezente anno a dous annos, e passados não na mostrando, esta nao haverá effeito dahy em diante. Noteficoo assy aos veedores de minha fazenda nestas partes, e a todolos Ouvidores, Juizes, Justiças, offi- ciaes, e pessoas a que esta pertencer, e lhes mando que em todo cumprão e guardem esta minha carta, como nella conthem sem duvida nem embargo algum que a ello seja posto. Dada em a minha cidade de Goa a 8 de Julho. EIRey o mandou por Jorge Cabral, seu capitão geral e governador da índia. Francisco de Lisboa a fez anno do nascimento de nosso senhor Jesu Christo de 1550. O Se- cretario Francisco Alvres a fez escrever. Jorge Cabral. Postila do VisoRey D. Affonso de Noronha Ey por bem e me praz de confirmar esta carta atraz escrita por tempo de tres annos, nos quaes o dito collegio poderá mandar buscar confirmação delRey nosso senhor (5) e assy poderá demandar os possuidores destas propriedades (5) Nota de Cunha Rivara: «No Tombo dos Pagodes diz: meu senhor.» 512
conforme a dita carta, a qual mando que passe pela chan- celaria sem embargo de ter passado o tempo em que ouvera de passar. Rodrigo Monteiro a fez em Goa a 9 dias de Maio de 1552 annos. Simão Ferreira a fez escrever. Viso- Rey. Outra postilla Passe sem pagar dizima, e da confiirmação a pagará, se parecer justiça. Em Goa a 17 de Maio de 1552. VisoRey. E pedindome o dito Reitor por merçê que a confirmasse e ouvesse por confirmada a dita carta ao dito collegio, e visto por mym seu requerimento, e querendolhe fazer esmola e mercê, Ey por bem, e lha confirmo, e hey por confirmada a dita carta assy e da maneira que se nella conthem, e mando ao meu VisoRey que ora he, e ao diante for nas ditas partes, e aos veedores de minha fazenda em ellas que assy lha cumprão e guardem, e fação muy inteiramente comprir e guardar assy e na maneira que se nella conthem, porque assy he minha mercê. Dada na cidade de Lisboa a 10 dias do mez de Março. Pantalião Rebello a fez anno de nosso senhor Jesu Christo de 1554 (6)—EIRey — Cumpra-se esta carta delRey meu senhor da maneira que se nella conthem; e porquanto Sua Alteza manda que as suas Provisões que não ficarem registadas na casa da India e na fazenda, e nos Livros de Gavriel de Moura, se não cumprão, os Padres da Companhia de Jesus serão obrigados daqui a dous annos mostrar certidão de como fica registada, ou Provisão do dito senhor per que mande (6) Nota de Cunha Rivara: «Esta confirmação falta na copia do Tombo dos Pagodes.» Doe. Padroado, it - 33 5'3
que sem embargo disso se cumpra. Rodrigo Monteiro a fez em Goa a 30 de Outubro de 1554. Rodrigo Anes Lucas a fez escrever. VisoRey (7). (Tombo geral, foi. 39 v. e no Tombo das terras dos Pagodes da Ilha de Goa, a foi. 4.) (7) Nota de Cunha Rivara: «No Tombo Geral depois deste documento lê-se: E por bem da dita carta possuem oje em dia os Padres da Companhia esta renda dos Pagodes, de que ha enformação que rende cada anno dous mil e oitocentos pardáos.» 5'd J
90 CARTA DE HENRIQUE DE MACEDO AO PADRE MESTRE GASPAR Tabriz, 23 de Agosto de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49■ Fls. 98 v. - 99 r. (1) Muito virtuoso e Reverendo Padre. f^8 * Depois de minha partida desta cydade para esta terra de Xiraz escrevi a Vosa Reverencia do que ate então tinha passado, e asi me fez Abremcão rey de Xiraz, e capitão mor dos Persas, escrever huma carta a Vosa Reverencia, outra ao capitão sobre a molher do Zeide que se la fez christãa, que veo de Chaul. Ate o presente não sei o que la passou. Estando nesta corte esperando resposta do negocio a que vim, chegou aqui o Zeide, marido da molher, a queixar-se ao Xatamas que os Portugueses lhe tomarão 4.000 ou 5.000 pardaos, assi nesta cidade como em Chaul, e que lhe tomarão sua molher para lha fazer cristaa, como de feito fizerão, e que perante os seus olhos lhe dormirão con ela en huma casa, onde se vendia vinho, e que lhe dezião os Portugueses que lhe fazião aquilo, porque era parenta de Mafamede. De todos estes queixumes que aqui digo dixe qua. O Xatamas entrou logo em muita cólera e mandou-me dizer pelos principaes de seu conselho que escrevesse eu logo a Ormuz e a India, que mandassem a molher, que eu nem os que comigo vierão não nos aviamos de tornar ate (!) BIMINEL: fls. 142v.-143; BACIL: 128-129. 5'5
que a molher não venha e também manda Abrem-Cão a el-rey de Lara e ao Senhor de Carmão que, se não derem a molher, que vão sobre as' terras de Ormuz, e que as tomem e que ponhão cerco a Ormuz. Isto he o que o Xatamaz tem mandado. Como isto he cousa que toca a nosa sancta fee, não sey dizer a Vossa Reverencia nem pedir o remedio que hey de ter. Noso Senhor, por quem Ele he, o remedee. Não me pesa daquy senão da gente que comigo tenho (2), que lhe não posso dar nenhum remedio para os por em sua liberdade, que de my, como Vossa Reverencia sabe, costumado são a estas boas venturas. Confiado estou na misericórdia1 do Senhor. Ele fara o que vir que he mays seu serviço. A gente desta terra he muyto soberba. O Xa adoram-no como a Deos. Abrem-Cão, quando escreve ao Xa, escreve-lhe que por ele se sustenta o ceo e a terra, e asim lhe escrevem todos os seu grandes. Ora veja Vossa Reverencia como se pode pedir razão a gente que vive desta maneira. Ca ficam comigo dezanove christãos, entre portugeses e escravos. Não sey como os hey-de sustentar, que ja tenho gastado o que trouxe em presentes e peitas, porque se doutra maneira fizera não poderá viver, segundo a gente he cobiçoza e chea de interesse. Obrigou-me a dar, querer yr de ca be despachado; faleceo-me a ventura que a diligen- tia não faltou por mym; estes trabalhos em que me puserão meus pecados me tirarão o alvoroço que tinha para a Vosa Reverencia escrever todas as meudezas desta terra. La vay [99 <■•] Antonio Mendez de Oliveira. // Ele dira a Vossa Reve- rencia de todo o que passa como pessoa de vista, que vio (2) Henrique de Macedo chefiava uma embaixada portuguesa que tinha sido enviada à Pérsia. 1 — mia 5/6
tudo o que tenho passado e me tem acontecido. Dele se pode Vossa Reverencia enformar de tudo porque a elle me remeto. Não digo mays, senão que Nosso Senhor o traga na sua guarda e o acabe en seu serviço e a mym achege a estado de salvação; en suas orações me encomendo. Destas serras de Tabris, a 23 de Agosto de 1550 annos. Estas cousas, que aquy a Vossa Reverencia escrevo, deve-as de guardar para sy, porque nesta cidade ay muytos mouros que fallão português, e se souberem que eu isto escrevo, escreve-lo-ão ca como eu escrevi agravos e far-me-a mays danno que proveito, e porque o Xatamas não me man- dou dizer senão que escrevesse, a maneira de conselho, que mandassem a molher, e não quisesse fazer por onde se perdesse a amizade de tantos anos. Vossa Reverencia saiba o que passa en verdade. Eu escrevo ao senhor gouvernador e asim ao capitão dessa fortaleza e ao veador da fazenda, que pois me ca tem o senhor gouvernador, ordene de maneira com que me sustente e asi os portugueses que ca tenho comigo. Vossa Reverencia, por amor de Nosso Senhor, fale la niso, como de si, e asi o deve escrever ao senhor gouvernador. A mim ate gora não me fizerão mays mal que tolher-me a ida: não me tomarão nada, nem me prenderão, não se deve la de fazer mays escândalo do que me a mym fazem. Tolhe- rem-lhe a vinda para ca, isto me parece a mym bem, ate que eu não va, y isto senão ouverem de mandar a molher, que nisso não falo porque são mao theologo, porque o que de my se ordenar logo se a-de saber. A 23 de Agosto de 1550. 5'7
91 CARTA DUM HOMEM DE MASCATE AO PADRE MESTRE GASPAR Mascate, 8 de Setembro de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 101 r. -102 r. (1) Como a padre virtuoso e que a estas partes da índia foy enviado, por graça de Deos, para salvação de nosas almas e limpeza delas, lhe quero dar conta de minha deter- minação e assi neste caso pedir misericórdia1 a elle. Senhor padre, eu ha seis annos que tinha em devoção meter-me em San Paulo no moysteiro de Goa em sua religião. Pas- sando Vosa Reverencia por aquy, me confessou, e não absolveo e isto por eu ter huma moça a qual avera quatro annos que a tenho e não me confessão nem absolvem (2). Ja sabera como a minha alma pode estar, e assi alem- brando-me da penitencia que Vosa Reverencia me deu, [ioi v.] passando // por aqui, quando me confessou e não absolveo, por a causa que digo, amor da moça, e cudando em minha morte, como morrem os grandes e pequenos, como estara o Senhor Deos comigo, quando me deste mundo levar, e assi cudando huma menhã por que me isto dixe, fiz o que me mandou por espasso de duas horas, e faço cada dia e, acabado ysto, me ponho em giolhos e pesso a Deos mise- ricórdia que me mostre o que for mays seu sancto serviço, (1) BIMINEL: fls. 145-146; BACIL: 131-132. (2) A cópia da BIMINEL devia exprimir esta ideia pelas mesmas palavras, mas foram riscadas e escreveu-se ao lado: «por hum impedimento que para isso tinha». Percebe-se o escrúpulo, pois a cópia devia ser lida no refeitório e passar de mão em mão. l — mia. 5' 8
e que me aparte dos vicios deste mundo, e me de repouso em parte donde faça penitencia de meus pecados; e fazendo ysto cada dia como digo sempre, o Senhor Deos me da vontade que me meta no collegio de San Paulo e san tan grandes os meus desejos que não gosto deste mundo, nem me lembra dinheiro nem folgar, somente quando cudo que poderey alcançar a ser servo de Vosa Reverencia, lavar-lhe os pes e segui-lo ate a morte, com os seus alforges as costas, e morrer com elle, assado nas grelhas, pelo serviço de Deos; quando nisto cudo, he o meu prazer tamanho que me parece que tenho todo o mundo por meu, e estando eu receoso de me não receberem no collegio de San Paulo, pesso a Vosa Reverencia escreva huma carta ao Rector2 do Collegio que me receba e aja por servo da Sancta Fee, e assi hum escrito a mim do que nisto ey-de fazer, que se elle lho rogar elle o fara. Enforme-os do que passa. Eu estarey na cassa hum anno, e dahi por diante desejo seguir a Vosa Reverencia por onde quer que for. Eu são homem de 35 annos, e não são casado, nem tenho morte de homem, nen pormitimento algum. Tenho mil pardaos e estes e toda a minha fazenda e soldo que tenho na Matricuda; ey-de fazer de tudo o que Vosa Reverencia mandar. Minha von- tade he da-lo ao Collegio; Vosa Reverencia o determine que sabe o que he serviço de Deos. Eu, ha 18 annos, que vim de Portugal, e sey muytas Iingoas, a saber3, arabio, pérsio, decani, e guzarate, e muyta parte do Malavar, e ysto muito bem; en que mays não seja ao menos farey companhia aos apostolos e serey sua lingua; quando forem pelo mundo, servi-los-ey e con- tudo ysto a graça do Espirito Sancto me ajudara e as obras sanctas dos padres que também me ajudarão e ensinarão, e contudo ysto peço a Vosa Reverencia, da parte de Deos e de Sancta Maria, que elle me ajude nesta romaria, que 3 — R."" ; 3 — S. ; 4 — spu ; 5 - M.' 5'9
ora tanto desejo, e que alem dos grandes trabalhos que ele tem em levar nosas almas por serviço de Deus, que também tome este por remedio e salvação de mynha alma, em me tirar de pecado mortal, e que escreva, como digo, ao Rector do Collegio que me aja por servo da Sancta Fee, ainda que não preste para mays que para varrer a casa e servir aos padres e a mym escreva hum escrito para saber o que [102 r.] de mym ey-de fazer em ajuntar minha // fazenda e arran- car-me deste inferno. No mays, encomendo-me em suas orações. Feyta neste Mascate, a 8 de Setembro de 1550 (3). (3) A esta comovedora carta respondeu o P.e Barzeo em 1 de Outubro, dando conselhos de primorosa direcção espiritual. Não publicamos esta resposta porque toda ela gira à volta da conversão do seu destinatário, não oferecendo motivos de interesse gefal. 520
92 CARTA DE PEDRO LOBATO, FEITOR DE MASCATE, AO PADRE MESTRE GASPAR Mascate, 14 de Setembro de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49■ Fls. 101 r. (I) Eu cheguey a este Masquate e dixe a todos senhores que nella estão a vontade e desejos que Vosa Reverencia tinha de vir a este Masquate a prover nas suas almas e consciências, e fazer-lhe templo para que se encomendem a Noso Senhor, e padre para os doutrinar e concertar suas almas, e asy também lho requeiro a Vosa Reverencia da parte de Deus da Sancta Madre Ygreja cujo devoto e servo he, que elle não deixe huma empresa tam homrrada, como tem qua nesta terra, que eu não sinto outra agora em nenhuma parte em que lhe mays serviço possa fazer ao Senhor Deos que nesta que se chama Amão (2), que esta aqui muyto perto, e me escreverão duas ou tres pes- soas homrradas, que la estão na terra, e outras que vierão, que não estava mays converterem-se todos a nosa fee e fazerem-se christãos que a chegar Vosa Reverencia ou mandar alguém; pois que isto, Senhor, asy estaa em tão boons términos, porque o deixareis perder, pois nos tanto nisso vay? As hermidas, em que vos ocupaes em Ormuz, deixaes encarregadas ao senhor padre vigário, que he homem che- gado a Deos, e bom relligioso, folgara de se ocupar nysso. (1) BIMINEL: fl. 145; BACIL: 131. (2) O hodierno Oman. 52I
Disto não digo mais, porque o não quero enfadar com requerimentos. Aqui morreo hum homem e deixa em seu testamento hum escravo ao bem aventurado San Paulo que o sirva por tempo de tres annos, e que dahy por diante fique forro e livre e, com esta condição como fiquou no testa- mento do defunto, o mando a Vosa Reverencia, e disto não se pese dar ao portador desta hum conhecimento, como se ha por entregue dele, para meu resguardo, quando der minha conta. Por agora, não mays, senão que fiquo encomendando-me em as orações de Vosa Reverencia. Feita oje, aos 14 de Setembro de 1550. Devoto e servidor de Vosa Reverencia Pero Lobato. 522
93 CARTA DO PADRE GASPAR BARZEO AO RELIGIOSOS DE COIMBRA Ormuz, 24 de Novembro de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49- Fls. 94-98. (1) La gratia y paz de Christo Nuestro Senor sea siempre [9< r.) em nuestras almas, amen. Estoy aca en este Sino Persico detenido por el padre Maestro Francisco em vertude de obediência en el Reyno de Ormuz, que esta entre Arabia Felix y la Persia, segun escrevi el anno passado mas largamente. Bivo e converso con los Moros, Turcos, Arábios, Pér- sios, Abissínios, gentiles e muchos Iudios, los quales parece que quedaron dei cativero de Babilónia que agora lamamos aca Bagueda, que confina con nos otros y ansi con otras muchas nationes diversas. Aca halle muchos Iudios huidos de Portugal y castilhanos tornados Iudios. Algunos se con- vierten, y otros se endurecen mas en su yerro; tengo cada dia muchas disputas asi con ellos como con los moros. Ay aqui nueva que se juntaron mucha infinidade dellos en el monte Syon junto de Jerusalem, y avra tres annos que esperan por el Messias. Confiessan cada dia sus yerros, (1) O Códice Conimbricense, Tomo I, existente na Biblioteca do Minis- tério dos Negócios Estrangeiros, fls. 13-142, apresenta cópia algo diversa da por nós publicada. A data no incipil aparece como sendo 29 de Novem- bro de 1550, mas na conclusão concorda com a cópia da BAL, isto é, de 24 de Novembro. . , Principia por uma introdução escrita quase toda em latim. A cópia da BAL é mais resumida que a da BIMINEL. Por isso a adoptamos, embora a completemos aqui e acolá com informações desta última. No códice da Academia das Ciências de Lisboa enontra-se a fls. 122-127 v. 523
y todavia no se pueden arancar de su ceguedad. Ajuntan grandes rabis de diversas partes para provar me su falsedad por disputa, mas Cristo Nuestro Senor responde por mi quia caeci corrupt!, et abominabiles facti sunt in studiis suis (2). Sera muy largo escrevir tudo lo que passo con ellos; espero que algunos dellos, antes de mucho, ande recibir nuestra sancta fee. Ando tambiem com muchos Arménios que son aca cristianos, medio muchos moros, sin embargo de hazer grandes penitencias como hizieron los sanctos dei hiermo de Armenia. Trabajo quanto puedo de doctrinallos e recoger los a la yglesia, assy a ellos como Russios, Apolo- nios (3), Griegos (4), Baniceros y algunos que renegaron la fee de Christo. Prouviesse a Dios que los fervores de los hermanos caríssimos de Coymbra se pudiessen aca exe- cutar, porque mas fuesse exalçada la Sancta Yglesia de Christo. Bien lloro cada dia la falta de todos aca en estas partes. O charissimos, dados priessa (5) que hazeis alia, pues son todos christianos, y aca no ay mas que deseos de ser lo y por falta de obreros se pierde la messe. Despues que de aquy despedi las cartas que alia embie, hizo aca el Senor muchas mercedes alia Compania, porque los moros acometiendo me diputar sobre la ley mas perfeita ordenaron que fuesse con un su philosofo natural muy docto en medicina y astrologia, y que fuesse en una cierra de sal muy esteril, sin agoa y sin verdura, y que no fuesse- mos vistos de nadie, y que quien mas sufriesse la hambre y la sed este sustentaria mejor ley. Yo respondi que escusado era querer milagros, tentando a Dios sim necessidad, pues (2) Cf. Ps., 13, l. (3) BIMINEL: Polonios, isto é: Polacos. (4) BIMINEL: « Ungatos e alguns renegados geniçeros, scilicet, geno- veses, gregos e outras quaesquer naçoens...» (5) BIMINEL: «O charissimi properate...» 524
por letras se podia averigar esto, y siendo caso que no pudiessemos liquidar lo que entonces // hariamos lo que [&4 *•] dizian, mas ellos no osarão por la poca verdade que tiene la ley de Mahoma. Mas Christo Nuestro Senor, que siempre favorece a los suyos, ordeno que hyziessen por fuerça lo que no quisieron por bien; porque la muyer deste doctor y la hija, que son mugeres de mucho precio de la casta dei Zair, parientas de Mahoma (6), conociendo la flaqueza deste en no osar sustentar su secta, determinadas de tomar nuestra sancta fee, se fueron a my de noche pidiendo me agua dei baptismo, guiadas por el Spiritu4 Sancto; las quales hize aposentar y poner a buen recado, para que no fuesen tomadas de los moros, que andavan muy alborotados enquanto eran caticuminas, y pidiendome el marido vista delias, le acometi disputa sobre la ley que ellos antes me avian acometido; y que seria delante de su muger y hija, y que si le mostrasse la verdade, que se baptizaria con ellas; y assi ávido su consejo, acepto la disputa para delante dei vicário desta ciudad y notário para escrevir lo que passasse, para que no negare lo concedido, siendo interprete Garcia de la Pena, lenguoa dei rey de Ormuz, el qual estava muy diestro de muchas disputas en que fuera my interprete, y sabe bien latin, en la qual disputa me concedio ser falsa su ley, y ser pertinácia sustentaria (7). Era muy buen filo- sofo y discreto, porque estes tienen Aristóteles y defienden muchas openiones delos Peripateticos y otros philosofos, y concluiendo le dixe que pues me concedia esto, poco le faltava para ser christiano y oyendo esto, como estava embe- (6) A conversão destas mulheres não é a atrás referida por Henrique de Macedo. A esta também se refere o P.e Barzeo nesta carta. (7) BIMINEL: «... conçedeo sua ley ser falsa e ser pertinaçia sosten- ta-la, e assi confessou a Trindade, Padre e Filho e Espirito Santo, tres pes- soas e hum soo Deos verdadeiro.» i — spu. 525
vicido en Ia disputa, torno sobre sy y conciderando lo que avia concedido, me dixo confuso que queria studiar hasta el otro dia por otros libros, para proceder adelante. Em pero no parecio mas, desemparando muger e hija, y me dixeron que se avia aconsejado con un rey, que estava en el campo, dei qual fue reprehendido por aver disputado conmigo, y siendo yo muy grande hechizero, y recibieron le muy bien en el reyno de Lara y le tienen en mucho. Viendo esto los moros, quedarron muy espantados y guar- davan se mucho de mim, e los christianos muy alegres, con grandes fiestas y instrumentos de musica, y acompanhados de toda la ciudad las baptizamos, y allegue mas de 100, aunque ellas mas avião dexado com que casaron con dos portogeses muy hombres de bien. Gloria sea a Christo (8). Passado esto, pela gran confusion que tenian los moros de ver su doctor que ellos tanto preciavan huydo, se empe- savan muchos a convertir cada dia, y de lo qual antes tenian por deshonrra se preciavan agora, que era hazerse christianos, otros se guardavan mucho de encontrarse comigo y tapavan las orejas, quando passava com la cam- panula por las calles, llamando alia doctrina Christiana, por no convertirse, oyendo taner, diziendo que no solamente traya hechizeros en el vestido y habla, mas tambien en la campanilla. El fervor de la charidad comesava a arder mas cada dia; los moros andavan cantando ya la doctrina Chris- tiana por las calles, cosa mucho para ver; el fervor de los christianos era tamano que se andavan deseplinando por [95 r.] las // calles de los moros de diez en diez, y muchas pro- (8) BIMINEL: «... as bautizamos, pondo-Ihe Dom, por serem casta de reis, e logo aiuntei oito çentos pardaos de ouro e as casei com dous portugueses, louvores a Christo, muito honrados.» A cópia da BAL não se perceberia por si só. 5-glla. 526
cessiones y tetanias por la ciudad, cantando los ninos la doctrina por las calles, y viendo todo esto los moros, temiendo que convertiessem muchos, para exalçar mas su secta, ordenaron tambien muchas processiones y tetanias, en las quales cantavan: «Dios es un solo, un solo es Dios»; mucho era para holgar de ver tanto hervor, hasta que un dia nos aprendieron (9) una y continuando con este fervore no cessavan las disputas, asi con moros, como con gentiles, y iudios, por lo qual convertio Nuestro Senor a un jogue hermiano, gentil de grandes abstinências y discreto, que bevia en castidad y pobreza, y no predicava sino de la muerte, y tenia edeficado un monasterio en un monte cerca de la ciudad, donde morava con otros jogues; y un companero delos se fue para las cierras de Arabia, e se metio en una cueva a hazer penitentia donde no parecio mas, el qual era hombre de mucha vertud entre ellos; estos andan siempre untados de ceniza. Y concluiendo en la postrera disputa sobre la castidad, me dixo que le tenia captivo de my amor, porque su coraçon ya era myo, y me pedio 30 dias de spaçio para tomar su consejo; al qual dixe que se diesse cinco açotes con una vara, por amor de Christo, e que le rogasse que le alembrasse qual ley seguiria. El qual, haziendo esto, estando contemplando en las perfeiciones de Dios, como alguns destes jogues tienen por costumbre, y otras en la muerte, oyo una boz, que dizia: «que azes? toma el camino que te ensenan, que esta es la ley verdadera de los christianos»; y vio despues muchos ornamentos de iglesia como en dia solene, y en pontifical, y luego el dia seguiente, veniendo el rey de Ormuz en su busca, se escondio, no queriendo parecer, y ido el rey se (9) BIMINEL: «...ate que hum dia nos apedrejarão, ficando no campo, vencemos com Christo, assim como no tempo de São Crisostomo com os Arrianos.»
vino corriendo, pediendo baptismo, contandome lo que oyeron, el qual hecho christiano com mucha solenidad y fiesta, en confusion de Ios gentiles, los quales bebian el agoa en que se lavava por relíquias y se le besavan los pies. Bolvimos por medio de la ciudad, con una cruz grande levantada, para ponerla en su monasterio. Los moros que- davan muy espantados, porque le tenian en mucha reputa- cion, y derribando luego sus ydolos hizimos una yglesia y aposenteme en el mesmo monasterio, dei qual ordene a requirimento del pueblo hazer un collegio de nuestra com- pania, por parecer mas necessário que en toda la índia para socorrer a las necessidades destos moros, iudios y gentiles. Es el lugar capaz para tener hasta corenta personas y esta a cerca de la ciudad, en mejor sitio que ay en la isla. Loores al Senor, las limosnas eran muchas que para esto davan, quien novecentos pardaus quien 500 pardaus y uno dellos me offerecio y embio 3600 pardaus, otros me embia- van todo lo que teneiam para el collegio, como veran en una carta cuio traslado embio alia de un padre muy vir- v-l tuoso (10). Empero Dom Manuel de Lima, capitam desta fortaleza, no quiso consentir que tomássemos // que lo suyo, porque el deseava de hazer este collegio a su custa, y considerando el fructo que podia de alli nacer, por estar en parte donde, de Persia, Turquia, Arabia y Abexines concurrian y muchos christianos como arriba dixe, finalmente Asia Major y (10) BIMINEL: «... ordeney por requerimento do povo de fazer hum collegio de nossa companhia, por me parecer mais necessário que em toda a índia, para sempre residirem em elle 20 (XX) estudantes, afora os offiçiaes de casa e padres, finalmente pera quarenta irmãos residirem abastará; está situado em bom lugar, perto da (idade, no melhor sitio que ha na ilha; louvores ao Senhor, as esmolas erão muitas que para isto davão. Quem mil pardaos, outros quinhentos, e hum delles me offereçeo e mandou quatro mil pardaos, outros me mandavão tudo o que tinhão para o collegio...» 52 8
Menor y Arabia y parte de Europa, determine ponerlo por obra luego, y escrevilo a la índia. Respondiome el padre Antonio Rector y el obispo de Goa, a quien quedo encomen- dada nuestra companya por el Padre Mestro Francisco6, que sobre estiviesse la obra, hasta venir los padres de Por- togal, por quanto yo estava de camino para la China, y no avia otros padres antigos para poder suplir my lugar. Loado sea Christo, pues los que tiene Portogal de sobra tene- mos aca de mengoa, por lo qual ceso la obra medio acabada, hasta que Nuestro Senor ordene otra cosa (11). O hermanos, socorrede nos. El miei de la consolacion divina aca corre por los campos que alia por los cobiculos cerrados non podeis aliar. Sino teneis letras aca ajudara el grande doctor el Spiritu Sancto, que suple por la necessidad que aca ay, cuia doctrina se emprime mas y en menos tiempo (11) BIMINEL: «...determinei de o por logo por obra, porquanto o fervor do Espirito Santo não consente dilação, e mudão-se as vontades dos homens pollo tentador do genero humano; tomando esta liberdade polia obediência e regras que me deixou o P.e Mestre Francisco que podesse tomar alguns para a Companhia e outros mandar para la, fazendo conta que, não parecendo isto bem ao P.e Mestre Francisco e ao P.e Antonio, reitor de Goa, ou quem tem seus lugares, regerem a Companhia, que ser- viria este collegio para se poderem agasalhar os padres nossos que em meu lugar residissem, quando me for para a China, embora por tempo pousasse la, pollo qual dei grandes pressas pêra o acabar, mandando logo recado a índia para o P.e Antonio, reitor, dando-lhe conta do que fizera, assi da igreja como do collegio e o fruito que o Espirito Santo cada dia obrava nestas partes, e o mais que cada dia se esperava por toda a Mourama, e quanta necessidade tínhamos de alguns padres velhos para acudir a tanta Mourisma, quanta avia por estas partes, porque da índia não podem qua acudir por causa das monçoens, que são de oito em oito meses, pollo qual recebera a igreja muito detrimento, e o mesmo me encomendou o P.p Mestre Francisco que não saisse daqui sem primeiro proverem qua outros no meu lugar. Respondeo-me o P.e Antonio que o bispo de Goa, a quem ficou en- comendada nossa Companhia pollo P.e Mestre Francisco, que sobreestivesse a obra ate virem os padres de Portugal, porquanto eu estava de caminho para a China e não avia outros padres antigos para poderem soprir no meu lugar.» i — Fr." Doo. Padroado, iv - 34 529
que la de los maestros y lientes de Coymbra; considerad quanta falta aca hazeis. Tome aquy seis personas para que me ajudassen: uno dellos, que les acabando yo hum sermon que hize en la plaça, se desnudo dando todo a un pobre, y vino a my, diziendome que me rogava que le embiasse a Persia, que queria luego morir por la fee de Christo en mi obedientia, para seguir a Christo, el qual delante dei mundo fue reputado por néscio, y yo le recogi por sapientissimo hombre y de mucha perfectione (12). Otro, saliendo de otro sermon que hize de la Cruz, se echo a mis pies llorando. Otro alie en la plaça renegando mas que nunca vi hombre, y esto sobre juego, y reprehen- diendole me rogo que no le desemparasse, por quanto protestava de morir comigo. Los otros fueron recebidos de la misma manera. Otro me escrevio de Mascate en la costa de Arabia que queria morir comigo assado en parrillas, y que todo lo que tenia, a saber, 800 parados en dinero (13), fuera otra hazienda, renunciava en mis manos, como mas largo vereis en la carta que me embio (14), la qual va con esta con el treslado de la carta que le respondi. Destos son (12) BIMINEL: «... Nosso Senhor nos da aqui collegio acabado e renda para elle, porque o governador me deu que todos venção seus soldos, os irmãos como dantes sohião (?) no mundo, e mais me fez esmola de quinhentos pardaos para a casa, fora cento e vinte pardaos que manda dar para minha comedia. Tenho mil pardaos em dinheiro para deixar a Casa todo o fato de casa: arcas, vestidos e todo o necessareo para o collegio, todos os ornamentos para a igreja, scilicet, huma capa e frontal de brocado, e hum calis dourado muito rico e outras tres vestimentas, frontaes, sobreçeos. Os ornamentos da igreja valem perto de seiscentos parola (fora?) os que me derão. Deixo grande livraria, e o povo muito devoto a esta casa. São tantos os que se querem meter qua na nossa Companhia, que estou pasmado do credito grande que tem nesta terra, louvores a Christo Jesu; não tenho tomado mais que seis, dos quaes cinco são gramáticos e cursão a gramatica, e hum delles não, e hum mestre que he de fora vem também ouvir algum.» (13) BIMINEL: «...que queria morrer comigo assado nas grelhas, e que tudo o que tinha, scilicet, mil pardaos em dinheiro, afora outra fazenda, renunciaria nas minhas mãos...» (14) Publicámos atrás esta carta. Vid. Doe. n.° 91. 53°
mas de doze hombres de mucha manera y otros muchos, de los quales hallandome apertado, propuse de no tomar mas, hasta el collegio se determinar, por los muchos tra- bajos que tengo non puedo acudir a todo. Hago cuenta que iran todos comigo a la China, si el padre Rector lo oviese asy por bien, non parece que esta en razon desem- parar a quien tan sanctos prepositos tiene. Nuestra vida es esta; una hora antes que amanesça tanen uno dellos a meditar, despertandonos con candeia y, acabada la hora, nos parejamos para la missa, que digo cada dia, luego tanen a lection, donde estan hasta las onze, despues a comer y, en acabando, hazen los exames recogidos y des- pues se aparejan para la // escuela, donde estan hasta las 4. [96 r.] Tanen a la missa (15) e despues a las litanias que dizimos cada noche; luego tanen a recoger ala meditacion por espa- do de una hora, y luego hazen examen, despues prepa- ranse para reposar. Tenemos disciplina por la yglesia (16), porque las leta- nias son por la compania y sus bien hechores. Cada domingo y dias de fiesta, a la noche, tenemos una hora para platicar cosas spirituales, recreandonos todos juntos. Grande fervor sinto en todos ellos. Loores a Christo, son muy amigos de crux y mortificacion, ni siento cosa que mas nos sustente, que el deseo de padecer por Christo y la mucha consolacion que sentimos en tener cada dia la muerte delante los ojos. Esto es lo que passa acerca desto. Orate pro nobis. Pareceme que quando de aca en hora buena partiremos seremos mas companeros en la crux. Andando en este fervor dei collegio, los moros se mo- vieron mucho y, estando predicando en la yglesia, me (15) Este «tanger à missa» acha-se deslocado evidentemente, mas en- contra-se nas cópias da BAL e da BIMINEL. (16) BIMINEL: «Temos disciplina cada sesta-feira polia Igreja e estado delia...» 53 1
embio llamar el rey de Ormuz, el qual me conto su sancto deseo de ser christiano, y no lo hazia temiendo que los grandes del reyno podrian escandalizar, por lo qual orde- namos una desputa delante del, y le dixe que los mandasse llamar desimuladamente, porque esperava que Dios Nuestro Senor haria de manera que no tuviessen a mal el rey escoger su sancta fee. En esto se movieron cerca de dos mil moros para baptizarse el dia que el rey se baptizasse, y muchos dellos grandes senhores tenian ya nombres tomados, y padrinos para la pila, mas el inimigo que no duerme echo fama que el rey era ya christiano, por lo qual no vino a eflfecto lo que el rey determinava. E como no pudiessen mudar a el rey de su buen proposito por regalos ni halagos, ordenaron que ciertos cassises letrados le veniessem a pre- dicar de Mahoma, para que desta manera desistiesse los quales mando el rey apedrear luego, y desterrar para siem- pre de su reyno; no fueron cierto tan constantes en padecer por Mahoma, como nuestros sanctos por Christo. Final- mente cinquo (17) solamente de los grandes tuvieron poder, por mis peccados, con muchas amenazas que le hizieron, que perderia su reyno y que le desempararian para quitarle deste proposito y, caiendo por miedo, quedo en falta, e los mas dellos que estavan movidos quedaran en su error. Ved, hermanos charissimos, quanta lastima senteria de tamana perdida; chore muchas lagrimas por mis grandes peccados. Luego mandaron que se tuviesse aviso que no entrasse yo a hablar con el rey, diziendo quan grande hechi- zero era, que avia hechizado a el rey. E assi tambiem escre- vieron grandes quexas a los reys de Persia, diziendo que veniessen sobre nos otros, para vengar esto; y luego ordene muchas processiones por mitad de los moros y disciplinan- tes 50, 60 juntos, pediendo o Dios Nuestro Senor consejo (17) Seis, segundo a cópia da BIMINEL. 53 2
que haria para que nuestra fee no fuese menoscabada. Determiriavari los moros por su mucha soberania de no consentir a ningun moro hazer se christiano, haziannos grandes escárnios y davan bozes de una su mesquita, que estava en la tierra sobre el collegio que hize, que se llama el Buen Jesus, // por lo qual senti en Nuestro Senor que [96 *•] convenia quebrar su soberania como David la de Golias. Y assi, acabando de predicar la passion, de noche tomamos una cruz grande, quanto podian llevar dos hombres em procession, por medio de la ciudad, e nos fuimos a la sierra, desde la qual injuriavan la crux de Christo, y la levantamos con piedra y cal, en lo mas alto. Fue el miedo de la crux en los moros, quando vieron la mesquita tomada, que se juntaron por mariana millones dellos, y davan gran- des gritos por Mahoma, porque no vengava la injuria de los franges, que assi nos llaman a nos otros, y luego des- publaron todas las mesquitas que tenian en el campo, prin- cipalmente una grande, que se llamava Gilabatha, donde hazian grandes supersticiones cada anno, cortandose todos con navajas por amor de Mahoma. Loores al Senor que abaxo coraçones tan soberanios. Desta mesquita se hizo una hermita devotíssima para contemplacion de Nuestra Senora de la Penha, y tengo en ella un hombre de buena vida, que haze penitencia. Los moros, para manifestar que su ley era mejor, hazian grandes sermones en la ciudad y asi gritavan muy alto y muchas vezes en el Alcoran (18). Y requeriendome el pueblo que buscasse remedio para esto, acordandome illius verbi Chris ti, compelle eos intrare (19), embie luego a dizer a el rey pues no avya complido su sancto preposito que (18) Alcorão deve aqui entender-se por torre de orafão, existente em todas as cidades onde o Islamismo se pratica publicamente. (19) Cf. Luc., 14, 2J. 533
mandasse que no gritassen mas en el Alcoran hasta tanto que embiassemos recaudo a el rey nuestro senor, y que entonces se haria lo que el mandasse; no pertendia mas que animar los que cada dia se convertian y trayer en olvido la ley de Mahoma para que mas ainda se conver- tiessen los otros. Deste recaudo supieron ellos y no hizieron caso del, y les embie a dezir que se no dexassen de gritar, que los ninos de la doctrina y yo tomariamos la mesquita e pon- deriamos una crux en ella, y luego hize hazer cinquo cru- ces (20), y el dia seguiente ordenamos que veniessen todas cinquo alevantadas en procession, para que los moros tuviesen miedo, cantando las letanias y diziendo a altas bozes, «Senor Dios Mio», ala puerta dei rey. Fue tanto el mistero en ver estas cruzes que luego temieron huyendo todos, y luego venieron a llamarme muy depriesa de parte dei rey; el qual, yendo yo, vino a esperarme ala escalera, y llevandome para dentro con el interpre Gratia dela Pena, me hizo per fuerça assentar en su silla real, y el se echo de rodillas para bezarme la mano, pediendome perdon, y deziendo me como en algun tiempo cumpliria su palavra, [97 r.] y mando luego que no se gritasse mas en el Alcoran // ni en toda la isla por Mahoma, y tambiem que se tapasse el alcoran com piedra y cal, y dio me algunas cosas para el collegio. Quando los grandes esto vieron, movieron se a grande ira, diziendo que se despoblaria la tierra; la qual esta aora la mas noble que nunca estuvo, y assy tambiem el Alhon- diga (21), donde segun me dizen solia rentar quarenta (20) Seis, segundo a cópia da BIMINEL. (21) Isto é, a alfândega. 534
mil 40.000 pardaos agora renta 100.000 (22). Y las naos que yvan para Meca aportaron aquy a pagar derechos. El Xatamas, que es como quien dize el emperador Tamas de Persia, que queria mover guierra, holgo mucho de se defender esto, por ser estos moros sunis (23), que es una secta de moros, que siguen los turcos, ala qual los de Persia son muy contrários. Dizen tambien que este es adorado por Dios y el aguoa que queda de sus pies toman todos por relíquias para curar todas las enfermedades. Llamase Senor que sustenta el cielo y la tierra. Finalmente perierunt jumenta in stercore suo. Assi que estando todo pacifico, lo que los moros no podian vengar por via de reys moros, determinaron de hazer acometiendo algunos maios christianos en esta tierra, para que con su favor pudiessen salir de la grande injuria, que se hiziera a su Mahoma, como era quitarles el Alcoran y el gritar dei, porque mucho de su secta consiste en esto, y por ser este el mas hermoso y grande que ay en todo la Morisma; fue esta la major injuria que nunca se hizo a Mahoma, segun dizen, siendo el mas venerado aquy que en otra parte alguna. Y para hazer esto fue cometido un cierto christiano poderoso com 20.000 coronas de dadiva, para que hiziesse abrir el Alcoran (24); y juntosse con los mas christianos, que en esto andavan, pareciendoles ser virtud, procurando de hazerlo abrir. Aías Christo, por quien fue lo que estava hecho, socorrio a los suyos, puniendo miedo a esta persona que no entendesse en esto, sin primero me dar cuenta desso. Temia que el pueblo se pudiesse alborotar, por el mucho (22) Segundo a cópia da BIMINEL: 120.000 pardaus. (23) Isto é: sunilas. (24) Segundo a cópia da BIMINEL, este «cristão poderoso» seria o próprio capitão de Ormuz que teria recebido 20.000 pardaus de peita. 535
amor que me tienen, y conbidandome a comer, como me começasse a declarar su entencion, diose luego subitamente un acidiente mortal, y day por delante no quiso mas enten- der en el Alcoran, y los christianos malos que atizavan esto por parte delos moros morieron luego y otros quedon per- didos, sin aver memoria dellos. Dios los perdone, quia ser- vierunt creaturae potius quam creatore. Orate pre eis. Bevimos agora en gran sossiego, y va en mucho augmento acca la yglesia de Christo; el pueblo tiene grande fervor, y azen mucha penitencia. Todolos viernes hazen procession, cantando las letanias y al cabo predico en el campo la passion de Christo, cada vez un mistério; ey grande concurso de gente a ellas; hago doctrina cada dia *0 a los ninos y alas fiestas e domingos predico tres vezes // en la yglesia maior por la mariana al pueblo, y la tarde a los esclavos y esclavas, y el pueblo viene tambien a oyir, y nel hospital aios pobres dolientes. Los padres tienen grande fervor; pareceme aora aquel tiempo de la yglesia permitiva. Hizieronse aqui muchos christianos y hazen cada dia, entre los quales baptize una sobrina dei xarife de Meca, rey de Arabia, pariente de Mahoma, que era casado con un gran senor de Persia, embaxador dei Xatamas, el qual pedio justicia a su emperador de Persia, diziendo que le aviamos tomado su muger por fuerça para azer-la Chris- tiana, como vereis mas largo en el treslado de la carta que va con esta, que Anrriquez de Macedo me escrivio, que fue embiado por parte dei rey nuestro senor ala corte dei Xatamas; y vista la querella dei marido desta muger, tomo mucha passion, deteniendo Anrriquez de Macedo, y man- dole que escreviesse al capitan, Don Alvaro, que Ie embiasse esta muger, que ya era Christiana para tornarse mora, sino que luego moveria guerra por sus capitanes, por lo qual nos juntamos todos en consejo. Respondi nolite dare sanctuvi 536
camibus nec tradetis bestyis animas confitentium Deo (25), y assi se determino que no se devia de dar en ninguna manera; mas El, que todo guvierna, mitigo la sana de aquella fiera péssima, y bolviose Anrriquez de Macedo, dexando todo en pax. La muger case con un hombre muy homrado, y es la mejor Christiana que nunca vi. Los mas destos bauptismos fueron por milagros y revela- tiones; unos veyan a Nuestra Senora, otros a Christo, otros e otras visiones, otros oyan bozes de noche. Parecia que Dios Nuestro Senor andava escogiendo los suyos en la manada brava de Mahoma ad causam gregis sui. Y estando tambien pensando quanto fructo se poderia hazer en Aman en Arabia Felix, que son quatro cidades muy popolosas y muy antigas de las primeiras que engano Mahoma con su falsa doctrina, la qual es gente simple, bien enclinada y dominada por un senor virtuoso, y tienen a un grande templo de Jupiter del tiempo que eran gentiles, y estando en esto me embio una carta, cujo treslado va con esta el fator de Mascate (26); y assi, venieron tambien aquy dos por tierra de Aman, por dos meses de camino, pedien- dome bautismo, los quales tengo en este collegio cathecumi- nos. Danme mucha informacion del movimiento que ala va; esperan por my y bien me pesa de no poder acudir a tan sancta peticion, por quanto el padre Mestre Francisco // me mando que no saliesse en espacio de 3 annos (27), ts8 r-l sin recaudo suyo, desta ciudad de Ormuz, en vertud de la sancta obedientia, por lo qual no puedo hazer mudança, hasta ver recaudo suyo, si me veniere; agora yrme he a Aman, y siendo caso que no venga embiare ala destos mis (25) Cf. Mat., 7, 6, e Pt., 73, 19. (26) Veja-se a carta, atrás publicada, de Pedro de Lobato, feitor de Mascate. Vid. Doe. n.° 92. (27) Publicamos atrás este documento. 537
hermanos, que aquy tengo recogidos, los quales andan con deseos muy acendidos destas cruzes, no se acordando del trabajo que ande llevar alia; por ser la tierra muy calorosa y el comer solamente datiles y pescado sin pan. No me estiendo mas por el tiempo no dar lugar, por- que ordeno Nuestro Senor de visitar a este pueblo con muchas e muy grandes enfermedades este anno, las quales son como modorra, por los grandes calores de la tierra, y todos los clérigos desta yglesia estan dolientes, delos quales morio uno, y otros estan a la muerte con su vicário, por lo qual todas las confessiones cargan sobre my y los enterra- mientos de los muertos; por la yglesia quedar desamparada, sirvo de vicário los domingos y fiestas, y digo missa can- tada al pueblo, y predico. Loores a Christo, pues el cantar que aprendi en la yglesia, agora me aprovecha para servir a Christo, y no tan solamente el bien mas tambien el mal. Hallo que me aprovecha porque acordandome quantos tra- bajos passe por el mundo tengo verguença de cansar en los de Christo, y acordandome quantos pecados hize tengo ocasion de no hartarme de servir a Christo para metigare su ira que mereci, pareciendome siempre que no haga nada para lo qual devo, quia servus inutills sum (28). Por lo qual ruego a todos mis hermanos charissimos que tengan continua memoria de my en sus sanctos sacrificios y oraciones, ut dignus efficiar promissionibus Christi. Para el anno que viene escrevire, favente Deo, lo que aca passa deste collegio dei Buen Jesus de Ormuz. De Ormuz, a viente e quatro de Noviembre de 1550. Aila va Paulo que fue el jogue que tengo dixo que se convertio aca; deseava mucho ver Portogal, y por rogarmelo (28) Cf. Luc., 17, 10. 538
mucho don Manoel de Lima que le queria llevar, le dexe ir. Tenemos aca en este Sino Persico grandes guerras con los turcos. Ten go necessidad de algunos confessores de nuestra Compania para andar en Ias armadas que andan contra elloá. No dexen de enbiar cada ano aca hermanos y ruego- oslo mucho. Inutilis Frater Gaspar. 539
94 CARTA DE D. JOÃO III AO PAPA JULIO III Coimbra, Novembro de 1550 Cópia existente na BIMINEL: Códice Conimbricence, Tomo /, Fls. 135-135 v. C'35] Muito santo em Christo Padre e mui bemaventurado Senhor, 0 vosso devoto e obediente filho Dom João, per graça de Deus rei de Portugal, etc. com toda humildade envio beijar seus santos pees. Muito santo em Christo Padre e muito bemaventurado Senhor, sendo informado do fructo que os Padres da Companhia de Jesu fazião em Italia e outras partes, e como seu instituto era ordenado pera espe- ritualmente ajudarem ao proximo e converterem aos infiéis, parecendo-me que estes seus deseios podião bem exercitar nas terras de muitos gentios e infiéis que a este reino são subiectos, mandei pedir ao Papa Paulo me quisesse enviar alguns dos ditos padres, o que Sua Santidade folgou de fazer, e me mandou dous, dos quaes hum delles que se chama Mestre Symão, por me parecer serviço de Nosso Senhor, mandei ficar neste reino para dar principio a hum collegio, onde agora estão çento e çinquoenta estudadntes da dita Companhia de Jesu, a que eu mando dar todo o necessário para assi como se forem criando em letras e virtudes os mandarem a diversas partes1 exercitar sua vocação. E outro padre2, que se chama Mestre Francisco, mandei as partes da índia, onde anda com muitos padres3 outros que do dito collegio forão entendendo na conversão dos infiéis, e ajudando a bem viver aos christãos que nas ditas 1 e 3 — p." ; a — p.' 54°
partes4 tenho pera defensão delias; e por meio dos ditos padres se converterão a nossa santa fe em diversas partes muitos gentios e infiéis; e isto fazem não somente com doutrina, continuo trabalho e exemplo de vida, mas ainda, como per cartas do bispo de Goa e doutras pessoas5 de credito sou certificado. Hum delles se offereçeo a morte com grandes sinaes de charidade, por salvar alguns dos que convertera que estavão em perigo de por imigos serem tomados e tornados a seus erros passados. E assi foi morto pellos Mouros, como esforçado servo de N. S. e com muita edificação dos que o virão morrer. E por se esperar nas ditas partes da India e outras de infiéis subiectas a estes reinos, onde andão alguns dos ditos padres, muito serviço de N. S. e augmento da nossa santa fee, e ser ia el-rei de Tanor convertido, e andarem outros alguns abalados pera isso, por meio delles, do que Deus sera muito servido e nossa santa fee dilatada, determinei neste reino e nas ditas partes da índia plantar alguns colle- gios dos ditos padres da Companhia de Jesu. E porque este serviço de N. S. se não poderá bem effectuar, como cumpre, sem Vossa Santidade6 favorecer este negoçio espi- ritual e temporalmente, envio la o dito Pe. Mestre Symão, o qual peço a V. S. muito por merçe queira ouvir, e con- forme // as necessidades que esta obra tão santa tem, o [|35 aiudar nellas, concedendo-lhe as graças que lhe pedir e a V. S. pareçerem necessárias pera tanto serviço de N. S. Muito santo em Christo Padre e muito bemaventurado Senhor, N. S. por muitos tempos conserve a V. S. a seu santo serviço. Escrita em Coimbra no mes de Novem- bro de 1550. 4_p'«; 5 — p.»;6-S. 54 1
95 D. ALVARO DE NORONHA, CAPITAO DE ORMUZ, A EL-REI Ormuz, 25 de Novembro de 1550 Documento existente no ANTT: — CC, I, 85-105. Mede 216 x 322 mm. São dez folhas em bom estado. Trata-se duma carta do novo capi- tão D. Álvaro de Noronha. Í3 v ] Item. Eu achei, quamdo aqui cheguey a esta cidade, ho alcorão (l) dos Mouros tapado, que Mestre Guaspar (2) e Dom Manoel (3) taparão, he os Mouros mui queixosos desto, de lhe parecer que lhe queriamos tirar a ley, em que vevião, sem ser por sua vomtade, e segumdo fui emfor- mado, muita yemte yda desta cidade por esta causa, asy que todo ho povo amdava com gramde alvoroço e a tera1 toda hallevamtada. Depoys que fuy capitão, me fez el-rei huma pitição, cuyo terllado he ese que hay mamdo a Vosa Alteza, e asy lhe mamdo mays o terllado da reposta que lhe respondi com comselho dos fedalguos e cavaleiros, que se aqui acha- ram, que ha todos pareçeo bem, e a mym com elles, re- meter-se este caso a Vosa Alteza, como na minha reposta a Vosa Alteza vera. Nom me pareceo bem pasar este neguocio, sem ho Vosa Alteza saber, e mamdar nyso ho que for seu servyço, e posto que não me parecese bem (1) Refere-se certamente à mesquita. (2) Trata-se do P.e Gaspar Barzeo, da Companhia de Jesus, o zeloso missionário de Ormuz. (3) D. Manuel de Lima, a quem sucedia D. Alvaro de Noronha, i — tr.» 54 2
tamto comtra vomtade dos Mouros cerra-lo, não me pareceo rezão mamda-lo destapar nem fazer nysso nada, sem ho Vosa Alteza de la mamdar. Ysto são cousas de Noso Senhor e estar ele tapado nam parece mal nesta cidade, pois he de Vosa Alteza (4), asy que estas duas causas tem por sy parecer bem estar asy, como agora esta. Tem também fazer Vosa Alteza merces he homras e dar ofiçios aos Mouros, que aqui vyvem nesta cidade, e mamdar Vosa Alteza que asy lho fação os seus capitães he guover- nadores, por homde esto deste alcorão he pera elles gramde escamdallo e agravo, asy que isto desta maneira pasa, e desta maneira esta agoura. A minha temça na reposta foi hapraca-los // com as pallavras que lhe respomdi e com [4 '•] lhe dizer que escreverya ysto a Vosa Alteza, e que Vosa Alteza mamdaria nisto ho que fose yustiça, poios não desesperar de todo, e porque emquamto ho neguocio fose a Vosa Alteza e vyese, ho mesmo tempo ho curase. Elles estão em estprever a Vosa Alteza, e asi me diserão que o avyão de fazer. Vosa Alteza vera aguora ho que lhe parecer mays servyço de Noso Senhor e seu, e yso se fara com el-rei de Ormuz e com hos homrados deste reino; bem se poderá ysto pasar, mas temo que o Xatamaz (5), com estes senhores aqui comarcãos, tomem ysto em gramde ofemsa, e que ha amizade que Vosa Alteza tem com o Xatamaz e com elles que por vemtura se quebre por aqui. Allguns delles me tem ya estprito sobre ysto e não ya o Xatamaz. Eu lhe respomdi que de Vosa Alteza avya de vir ha reposta, e que niso Vosa Alteza faria tudo ho que fose justiça. Não me tornarão mays a estprever; vera (4) Era este o principal argumento a invocar-se: tratava-se duma cidade pertencente a el-rei de Portugal, sujeita por conseguinte ao sistema da religião oficial. (5) Refere-se ao Xá ou Xeque da Pérsia: Shah ou Xa Thamasp. 543
Vosa Alteza o capitolo que lhe nesta estprevo sobre o Xatamaz, e vera o que fez e me estpreveo sobre outra causa tal como esta, e emtão mamdara em tudo Vosa Alteza ho que lhe parecer bem, e comtudo se elles estpreverem a Vosa Alteza sobre este negocio, e lhe a Vosa Alteza parecer bem mamdar-lhe destapar o seu alcorão, nam lho deve de estprever a elles, senão ha mim ou ao capitão que aqui estiver, porque por vemtura de tal maneira pode ca estar o neguocio que, mãodãodo-o Vosa Alteza, seja mays seu servyço não no fazer, e elles milhor não no saberem que o Vosa Alteza manda. [7 »•] Item. Do Padre Mestre Guaspar tinha muito que dizer a Vosa Alteza e ser ho fallar nelle ho derradeiro capitolo [8] desta carta que a Vosa Alteza estprevo // parece que veyo por Deus, porque asym quer elle ser ho derradeiro de nos todos os que aqui estamos, e pior tratado e vestido, semdo ho primeiro e mays homrado e milhor homem de todos; verdadeiramente que parece que Noso Senhor ho trouve aqui, por ver quamta necesydade delle aqui avya. Certefico a Vosa Alteza que tem feito nesta cidade he tera tamto fruto, que nom pode mays ser. A sua vida he mui estre- mada dde todos os outros da sua profisam, a meu pareçer, e este neguocio de edificar virtude nesta tera meneo (6) com muito syso e com muita prudemcia, de maneira que, com nos a todos amdar repremdemdo mui asperamente do que em nos ve mal fecto, todos lhe queremos mui gramde bem, e de todos he muito amiguo, cousa que nom sei como pode ser, senão com lhe Deus pera yso dar muita graça. (6) Do verbo menear, isto é, manejar. Portanto: maneia-o. 544
Faz aqui hum recolhimemto ou ygreja, que se chama São Paulo e nesta obra e em outras muitas muito vertuosas, que cada dia faz, ocupa ho tempo. Vosa Alteza lho deve de la mamdar louvar muito, porque quando pera elle nom for necesario, se-lo-ha pera nos sabermos que de tam lomge tem Vosa Alteza tamanho cudado de louvar tal vertude, como esta. Ele me dise que estprevia a Vosa Alteza ho que pasava nesta tera; sera acerqua da sua profisão e, por yso, ho nom estprevo a Vosa Alteza. Ã margem: Guardecer (?) a Dom Alvaro desto, que escreve, e louvar-lho e na carta de Mestre Guaspar também. Doe. Padroado, iv - 35 545
96 CARTA DO BISPO DE GOA AO PADRE MESTRE SIMÃO RODRIGUES Cochim, 28 de Novembro de 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 107 r.-107 v. (1) Muy Reverendo padre tio? r.] As forças das boas obras que os súbditos de Vosa Reve- rencia fazem nestas partes orientais com o seu bom exem- plo e vida santa e doutrina, assi de pregações como de con- fissões, em almas dos portugueses e o peregrinar que elles fazem por todas estas partes da índia, convertendo aos infiéis, gentios e mouros e a seus filhos e molheres, bauti- zando e ensinando-lhes a doutrina christã, e por mais e milhor faze-lo aprendendo alguns padres as lingoas destas partes para milhor converte-los e pregar-lhe, especial- mente no cabo de Comorim, me obrigão escrever a Vossa Reverencia como pessoa que o vee todo por experiência e pelo olho. São os padres de sua santa Companhia tama- nhos obradores em ajudar as almas e descarregar aos bispos de suas carregas das almas dos súbditos, que tudo quanto temos podemos e havemos tudo he seu; elles o merecem e nos escusarão estar muytos anos no Purgatório, por elles tão fielmente nos ajudarem na salvação das almas, que ['°7 »•] temos os prelados as costas, e singularmente eu, mais // que todos os bispos, lhe tenho esta obrigação, por estar nestas partes entre tantas nações que soyão adorar Ídolos, e paos, e pedras e pelo fruyto destes padres muytos destas barbaras (1) BIMINEL: fls. 151 v.-152; BACIL: fls. 139r.-139v. Esta última cópia apresenta a data de 8 de Novembro. 546
nações conhecem hum soo Deos vivo por fee, e as tres pessoas da Santíssima Trindade, e a fee catholica, e os artigos delia, por elles lhe ensinarem a doutrina christã. Particularizar suas obras e fruitos que fazem nas almas não me atrevo escrever por pena, nem abastaria tempo pera relato, segundo minhas ocupações. Digo por final que forão tochas acendidas nestas partes para alumiar tão escura noite que nella fazia. A soo Deos seja honrra e gloria que obra estas cousas por meio de seus servos. Quanto me pedem tudo lhe concedo pera a salvação das almas, todos os poderes e autoridades que tenho eu do Papa por todas as partes, por onde andão peregrinando, e asi onde eu estou presente de tal maneira que pera mim não reservo nada. Hermidas e lugares onde se recolhão tam- bém de mim são favorecidos e amados em Jesu Christo, em huma charidade sincera e limpa sem quebradura. Devem de ser favorecidos e consolados de Vossa Reverencia de quando em quando, especialmente mandar-lhes alguns padres que lhe ayudem cada ano, porque a terra he larga, e os padres poucos, e o trabalho muyto. E pois esta vinha he prantada dos súbditos de Vossa Reverencia e elles a cavão, podão, e grangeão, he necessário que elles nos envie bacelos de boas castas, pera que fação bom vinho, que quero dizer, que envie padres dos mais doctos e mortificados, e virtuosos, e ardentes no fruyto das almas, porque esta terra asi os requere, porque o tenho pera mim e todo o mundo que na congregação dos súbditos de Vossa Reverencia todos tenhão estas qualidades, mas parece-me que não se perde nada fazer-lhe esta lembrança. O padre Antonio Rector (2) frutifica e prega angelica- mente, e he huma planta donde procede muyto fruyto nestas (2) P.* António Gomes. 547
partes, assi em vida como em fama, como em exemplo, como em doutrina christã. Tudo o que Vossa Reverencia me mandar que em mi for, por dificultoso e trabalhoso que seja, ate onde minhas forças abrangerem, o farey de muy boa vontade, como hum dos seus súbditos. Jesu Christo seja sempre na alma de Vossa Charidade por graça pera sem- pre fazer sua santa vontade. De Cochim a 28 de Novembro de 1550 annos O bispo de Goa Dom João d'Albuquerque. 548
97 CARTA DO PADRE HENRIQUE BOTELHO A EL-REI Baçaim, 15 de Dezembro de 1550 Documento existente no ANTT: — CC, l, 85-110. Mede 320 x 215 mm. Duas folhas, mas escrita só a primeira página. Por Dom Jeronimo de Noronha, capitão que foy desta fortaleza de Baçaym, estprevi a V. A., em a qual lhe dava comta da pequena carydade que ho bispo comiguo huzou da carta de que me V. A. fez merçe. He jumtamente ho pouquo que Dom Joam de Castro, que Deus aja, fez da lembrança que lhe V. A. de mim deu, he isto, Senhor, pelo tempo que governou todo em guerras, de maneyra que se nom pode fazer, e, porque, Senbor, eu estou nesta for- taleza servimdo a V. A. nas cousas de meu hofiçio ho me- lhor que eu poso, de que Dom Jeronimo de Noronha he boa testemunha, e nela não tenho mais que doze mil reis, em cada hum ano, cousa com que eu me nom poso manter nem aver alguma esmola, com que posa hyr servir a V. A. na sua muy devota capela e ajudar ba emparar huma mãy, irmã e irmãos muito pobres que tenho, peço a V. A., pelo amor de Noso Senhor, que, avemdo respeito aos meus ser- viços, hos que laa fiz, e aos que qua faço e que espero de fazer, me faça merce de me mandar pasar huma provysão, em que manda ao bispo que, sem embargo de huma que lhe V. A. tem pasada, em que lhe comete e daa poder que ele proveja todas as cousas da Imdia da Igreja, me apre- semte e comfirme da primeira viguayrarya, denydade ou conezya que nas destas partes vagar, pois, Senhor, sou de i - J.« 549
V. A. auto (1), ydonio e soficyemte para yso. E não queyra V. A. que seja eu ho paralytiquo da probatyqua pysina (2) que avya trimta e oito anos que estava em ho leyto, por não ter quem ho levase ao tempo que ho amjo muvya ha hagoa em que se os outros saravão. E ysto, Senhor, pois nom tenho outro senhor e pay senão a V. A. Noso Senhor hacresemte e prospere a vyda e real estado de V. A. por muitos anos, amen. De Baçaim, aos 15 de Dezembro de 1550. Amryque Botelho. (1) Isto é: apto. (2) Refere-se o P.e Henrique Botelho ao conhecido facto narrado por S. João no seu Evangelho, cap. v, vers. 2-9. 55°
98 ESTABELECIMENTO DOS JESUÍTAS EM COCHIM Cochim, 29 de Dezembro de 1550 Documento existente no ANTT: — CC, I, 85-121. Mede 215 x 350 mm. Duas jolhas em bom estado. Dom João de Albuquerque, por merce de Deus e da li r.) Santa Igreja de Roma, bispo de Guoa e da India etc. Oulhamdo eu como estas partes sejão cheas de gemtilidade e de adorar ídolos e pedras e outros animaes, e que nelas se adorão diversas criaturas, avemdo-se de adorar hum soo Deus, isto por bramenes, canarins, malavares, e asi diversos nomes de nações e gemtes que ha hi nestas terras, dese- jamdo com muita vontade que ho culto divino e a fee catholiqua nelas seja estendida e pramtada, e omrrado e enxalçado e sublimado o nome de Noso Senhor Jesus Christo, e sua samta cruz, o qual sobretudo me obrigua ho ofycio pastoral, e não somente isto, mas por a vida polas ovelhas, pelas quaes cousas sobreditas e outras muitas que se podem escrever e dizer devo, quanto em mim for, buscar com ajuda do Senhor Deus, todos os modos e maneiras pêra que a fee catholiqua seja nestas terras pramtada, e o nome de Jesu christo emxalçado, e pera que o sobredito viese e afeito dei rey noso senhor, mandou a estas terras, avera sete anos, pouquo mais, huns padres relegiosos, cuja emvocação se chama da Companhia de Jesus, os quaes peregrinão por toda ha Imda e pelas fortalezas dela, comfesamdo e pre- gando a doutrina christãa, ensinando as hobras de mysericor- dia, e per si tendo os espritaes e emfermos visitamdo, hos homens que estão em hodios e mal querenças huns com i — mya. 55 1
outros recomciliamdo, e outras hobras vertuosas e per si temdo eles mesmos com sua boa vida e bom exempro a ho mundo edeficamdo, de tal maneira que hão alomiado, edeficado com estes santos exercícios e boas obras a gemte desta terra, asi aos fieis christãos portugueses, tiramdos de muitos viços anteguos, com sua doutrina e vida, como aos enfieis, trazendos a verdadeira fee, movido heu por todas as cousas sobreditas, e querendo elles edificar nesta cidade Santa Cruz de Couchim hum colégio, asi como tem na cidade de Guoa, e isto pera nele ensinarem a doutrina christãa, e fazer a todos hos exercícios esprituaes, pera que os fies cristãos emendem suas vidas e hos enfies, por suas preguações, sejam reduzidos a nosa samta fee, lhe dei e comcedy huma ermida, que esta situada na dita cidade, cuja envocação e da Madre de Deus, a qual hermida he de minha jurdição, he esta nos lemites do bispo de Guoa, pera que jumto dela edyfiquem as oficinas e casas do dito colégio, pera nelas morar, e que da dita irmida usem pera hos ofícios divinos, e nela exercitem as obras esprituaes, como se custumão fazer nos templos de Deus, a qual doação faço a sobredita Companhia com duas condeções, a primeira que se nalgum tempo, por algum respeito ou causa, deixarem ho dito colégio, ou ho derem alguma rele- giam qualquer que seja, ou algumas freiras, ou pesoas que [' v0 virão nele a tal // doação de irmida, dou por nenhuma e seja tornada a hobediencia he jurdição dos bispos, que hadiamte sosederem neste bispado, e nele sera encorporada asi e da maneira como hera hamtes que fose dada a samta Companhia de Jesus; e segunda condição, que as ofertas da mão beijada, que se dão e se hoferecem quimta feira de Lava-Pes e asi an no na dita irmida, sejão dos padres de Sam Pedro, vigairo e beneficiados, porque ha dita irmida e sufraguanha a igreja perochial e matriz desta cidade quanto as ofertas, e não lhe poso eu tirar aquilo que eles tem por 55 2
direito canoniquo, e também que aja nela confrarias, como ate qui ouve, e capelão que lhe digua as misas, porque isto nam empede mas hacrecemtão a devoção, e isto pera sem- pre com as sobreditas condições, semtimdo heu o gramde fruito que se a-de seguir nas almas destes reinos do Ma- lavar, pela doutrina dos sobreditos padres, pelegrinamdo e amdamdo antre eles, e convertemdo-os a nosa samta fee, com ajuda de Noso Senhor Jesu Cristo. Dada em Couchim, a vinte e nove de Dizembro de 1550 anos, asinada de meu nome e selada com ho selo deste bispado. 553
99 CARTA DO IRMÀO ADÃO FRANCISCO AOS RELIGIOSOS DE COIMBRA Cochim, 1550 Documento existente na BAL, 49-IV-49. Fls. 107 r. (1) A graça do Espirito Sancto seja sempre em nossas almas. Amen. As novas dos Irmãos que são, a saber; o padre Micer Paulo (2) esta em o Collegio de Sancta Fee; e o padre Nicolao (3), Francisco Perez e outro irmão que caa rece- beron e outros dos leigos que este ano vierão do reino, hum delles he porteiro e faz a doctrina; o outro ensina a cartilha e salteiro. Francisco Perez ouve confissões e tem bem que fazer; o Padre Nicolao he muito doente. O padre Ribeiro e o Irmão Nicolao e o padre João da Beira e outro leigo são ydos a Maluco; ainda não temos novas delles. Cipriano, Anrrique Anrriquez, Morais, Massilhas e eu esta- mos para o Cabo de Comorim, que são 100 legoas de costa. Francisco Anrriquez, Balthesar Nunez se partirão desta cidade de Cochim para huma fortaleza de Chalé (4), he contra Goa e Cochim; e tanto que chegaron, forão muito bem recebidos de todos os christãos da terra e gentios, e em dia de Natal, por festa, se ajuntarão huns capitães e com muita gente da terra lhes derão hum cerrado cercado todo de parede que foi de hum capitão que ay estevera, (1) BIMINEL: fls. 149- 149 v.; BACIL: fls. 135 v.-136. (2) P.e Paulo do Vale. (3) Nicolau Lanciloto. (4) A leitura dá Chaul. 554
e naquelle mesmo dia lhes deron sessenta ou setenta cru- zados e duas mil e quinhentas pedras pera fazer hum collegio, e este chão lhes deu hum christão da terra. Pas- sando as oitavas, avião de começar a fazer a capela, a qual hão de chamar de Sancta Ana porque nesta terra ynda non ha outra. Quis-lhes Nosso Senhor dar esta alegria por parte do Irmão Balthesar Nunez que veio de hum reino, que se chama Travancor, donde o lançou o rei da terra. Mas Nosso Senhor tudo converte em milhor, porque estava esta terra muy aparelhada para se fazer fructo nella, mais do que nunca esteve. Assi que, charissimos irmãos, não temais de vos virdes onde o Senhor se servira de vos, porque pera isso vos escolheo, principalmente para a índia, e, pois para isso vos ajuntou,non temais de vir. As mais novas saberão pelas cartas dos irmãos. Ca sen- timos asaz a morte de nosso padre Fabro. De Cochim ano de 1550. Irmão Francisco. 555
100 OS MESTERES DE GOA À RAINHA DE PORTUGAL Goa, s/d Documento existente no ANTT: — CVR, n.° 166. Mede 305 x 209 mm. Duas folhas; o documento ocupa apenas página e meia. Existe ainda o selo em lacre vermelho. Muito allta encellemte Rainha Nosa Senhora, Pois Deus teve por bem de nos a elia teremos por nosa regedora, emparo noso e de todos hos reynos de Purtu- guall, lhe damos por yso muitas graças e lhe pidimos que, como may nosa, nos queyra favoreçer, avemdo respeyto a quam apartados de noso naturall estamos e tam serquados e amtre tamtos emmigos, fora de nosa ley e nação, ho que deve de bastar pera prova dos maeis sobresalltos e dezem- quietasois que cada hora pasamos. Item. La escrevemos a ell-rey noso senhor ho que com mais rezão podemos dizer que escrevemos a Vosa Allteza e que lhe damos conta mais particollarmemte de nosos tra- balhos, e asy de cousas que pertemsem e fazem a bem de nosa hobryguasão, pedimos a Vosa Allteza que quamdo vir nosos apomtamemtos e mamdado nosas fraquezas, com a sua acustumada crememcya, asym aserqua do noso regymemto, como de mais apomtamemtos, de que lhe faze- mos lembramsa, pello que nos seremos hobriguados, em nome deste povo a roguar a Deus por dias de vida de Vosa Allteza, pera quyetasão e emparo noso. Item. Ho que pedimos a Vosa Allteza, por serviso de Deus, he que pois que teve por bem de comseder a esta 556
cidade hos previllegyos, liberdades da sua cidade de Lis- boa, nos faça merce que a nos, como a povo delia, nos confirme hos ditos regymemtos e liberdades, que hos mis- teres desa cidade tem, e se uzão em seus regymemtos, hos quoais nos qua temos confirmados por hum allvara dell-rey, noso senhor, a quem Deus de gllorya, e por o dito regy- memto não estar asynado, somemte ho allvara, nos causa qua muitos trabalhos e dezaquietasões, e fazemdo-nos esta merçe, crea que sera gramde consollasão nosa, merce a todo este povo. // Item. Pedimos a Vosa Allteza que por serviço de [«v0 Deus nos queyra favorecer com nos escreber apartados dos vereadores, porque crea Vosa Allteza que tamta comta fazemos de huma carta sua, e tam goardadas as temos, como se fosem camdeas bemtas, peras as trovoadas do emverno; allgumas vezes nos servem de contra pesonha pera allgumas pesoas que nos querem tapar a boqua, a cousas que fazem a bem de nosa obriguasão. Jesus Christo1 lhe acrecemte a vida e estado por lom- guos anos, pera emparo e favor noso, amen. Os misteres da sua cidade de Goa. Symão Fernandez2. Cristóvam do Reguo. Balltezar Luis (l). Allvaro3 Annes (3). (1) Leitura hipotética. (2) Leitura hipotética. i — Jhus Xpo ; 2 — ftz ; 3 — Ali*.* 557
101 CRISTANDADE DA ÍNDIA. EXPOSIÇÃO A EL-REI DO PADRE MESTRE PEDRO FERNANDES SARDINHA S/d Documento existente no ANTT: — Gav. 20, 7-51. Estas são as couzas que parecem se devem prover na índia pera reformação dos custumes e bem da christandade e serviço de Vossa Alteza. Do Esprit uai Item. Que em todas as fortalezas aja pregadores, prin- palmente nas que estão muito afastadas da índia, como são Maluquo, Malaqua, Ceilão, Choromandel, Çofala, Mo- çambique e Ormuz, ou ao menos se provejão de vigários sufficientes que, quando não tiverem abilidade pera dar doutrinas, dein bom exemplo, e preguem com a vida, e folguem de ensinar a doutrina christãa. Item. Pera que esta santa obra da christandade seja mais fixa, devião os adultos por alguns dias ser instruídos na fé, e mistérios delia, conforme o Direito Divino e Cano- niquo, antes de receber o santo baptismo, e pera se isto milhor fazer, seria bom que ouvesse algumas cazas deputa- das pera instruição dos catacuminos, perto dos collegios, que la estão em Goa, Cramguanor e Baçaim. Item. Que depois que forem christãos não conversem mais nem rirão com os parentes gentios, por que os não tornem ao que herão, e mal poderá o filho prevalecer na fee de Christo, conversando com o pay gentio e idolatra, 558
pelo que devião os gentios de Goa viver apartados na ilha de Divar ou na de Chorão. Item. Os homens mais convenientes e de milhor zello pera entender nesta santa obra são os padres da Companhia de Jezus, porquanto elles são os milhores de aparelhar em toda a virtude, e os que mais aproveitão, e menos pejão, pello que parece escuzado mandar la outros senão estes. Item. Que em todo se cumpra a carta que Vossa Alteza escreveo por Miguel Vaz, cujo terlado tenho, e assi tenho o terlado das provizoens que os governadores passarão em favor da christandade, as quaes se devião de guardar ao pee da letra, por serem muito conformes a Direito Comum. Item. Que Vossa Alteza mande de qua huma pessoa virtuoza e de bom zello que especialmente entenda da christandade e favorecido de Vossa Alteza, e o seja la do governador, capitaens e vedor da fazenda. Item. Pera favorecer esta obra e pera reformação da clerizia, he necessário que o vigario-geral seja sacerdote bem acostumado e leterado, porque, sendo desta maneira, poderaa afoitamente vizitar as fortalezas e suprir o que o bispo, por sua idade, não pode fazer, e com sua vida e exemplo fazer recolher muitos que la vivem largos, e contra a onesti- dade ecleziastiqua. Item. Pera que esta santa obra da christandade seja favorecida e os que se comvertem sejão doutrinados na fee, devia Vossa Alteza encomendar muito ao bispo que pro- veja as fortalezas, principalmente Maluquo, Malaca, Ceilão, Ormuz, Dio, Baçaim, Chaul, Çofala, de vigários mais zelosos da virtude, e de fazer christãos, que folguem de emsinar cada dia a doutrina, como se faz em todo este reino. 559
Item. Que Vossa Alteza emcomende muito aos padres do colégio de São Paulo que trabalhem o possível por fazer toda a ilha de Goa christãa, porque sera grande meyo pêra todos os das outras fortalezas se converterem. Item. Paresse que nos trez colégios, que la ha, devia de aver certo numero de moços, ate cincoenta ou secenta em cada colégio, e pera emcher este numero, es escolhão os mais abiles, assim pera serem milhor doutrinados e pro- vidos, como pera atalhar despezas. Item. Porquanto os bramenes são aquelles que mais con- tradizem esta santa obra da christandade, seria muito ser- viço de Deos que fossem lansados fora, mayormente da ilha de Goa, ao menos aqueles que Vossa Alteza manda na carta que escreveo por Miguel Vaz. Item. O bramene mais prejudicial e contrairo ha chris- tandade de Goa he Dadagi, filho de Crisnaa, que veyo a este reino, e recebeo muitas merces e omrras de el-rey Dom Manoel, vosso padre, que santa gloria aja, e lhe prometeo de ser christão, tanto que tornasse ha índia, com toda sua família, por cujo respeito lhe foi feito merce do officio de tanador-moor e lingoa do governador, em sua vida, e elle nunca se fez christão, antes elle e o filho são os mores adversários da nossa santa fee, que ha em Goa, pello que se devia comprir imteiramente o que Vossa Alteza mandou na carta que escreveo per Miguel Vaz. Item. Pelo que vi nas vizitaçoens que fiz pellas forta- lezas, seria de parecer que nenhum clérigo fosse de qua, sem ser mui bem examinado na vida e custumes, e que se não passe dimissoria nem licença pera a índia senão aos padres que vão por capellães das naos, e estes não sejão dos izentos, nem dos que foram frades, porque a índia tem necessidade de reformação e bom exemplo, pera emduzir 560
os gemtios ha conversam, e não desoluçoens e despejos que escandalizão, e o pior de tudo he que alguns vão de qua irregulares, e com mortes de homens, e outros per grume- tes, e outros asentados em soldo de homens de armas, e andam la nas armadas em trajos de leigos, e ja se aconteceo dizerem alguns miça seis, sete annos, sem serem ordenados, e avera trez annos que hum destes se foy para o Balaguate, por o bispo o querer mandar pera este reino, pellos muitos desconcertos que cada dia fazia. Item. Porquanto os gemtios que se convertem a nossa santa fee ham mister mais tempo pera esquecer os muitos avessos em aos custumes que tem de suas idolatrias e jentiliquas cerimonias, do que tem pera aprender o que lhe he necessário, pera sua salvação, sera de parecer que elles não fossem ordenados a sacerdotes, sem primeiro não serem muito aprovados nas couzas da fee, e passarem de vinte e cinco annos, porquanto por alguns serem ordenados moços no Cabo de Comorim, e em Cranganor, se seguiram escamdalos e dezarranjos; o mesmo se deve de guardar com os mistiços e portuguezes que la nacem; deste parecer são os padres de São Paulo, por ho terem por esperiensia. Item. Nenhum capitão nem soldado, nem outro qualquer official de Vossa Alteza receba ordenado, nem soldo, sem primeiro mostrar escrito de como se confessa, e recebe o santo sacramento cada anno, porque hay homens na índia que estão dez, doze annos nos vicios, sem ter conta com suas conciencias. Item. Que todo homem que for cazado no reino, passa- dos quatro annos, se venha pera sua molher, não sendo capi- tão ou official de Vossa Alteza, porque hay muitos tam descuidados de sua conciencia e tam emgolfados nos vicios, que passam vinte, trinta annos, sem lhe lembrar que são 561 Doe. Padroado, rv - 36
cazados, nem proverem, nem escreverem a suas molheres, e quando apertão com elies, pellos mandados de Vossa Al- teza, ou pellas censuras ecleziasticas, acolhem-se a Choro- mandel; também seria bom prover sobre muitos que sam cazados quaa e laa. Item. O principal trato que ha India he o dos cavallos que vão da Arabia por via de Ormuz, os quaes se vendem aos infiéis, e assi se vende cobre, e porque este he hum dos cazos rezervados na bulia de Cena Domini, muitas vezes, no tempo das comfiçoens, os padres da Companhia e eu tivemos duvida sobre a absolvição, mas porquanto Vossa Alteza tem grandes direitos destes cavallos, paresse que deve de ter bulla e despensação geral; seria bom, por evitar escrupullos nas almas, que ouvesse na índia o terlado delia, porquanto ate agora não o ha la, nem o bispo sabe delia. Item. Quanto aos christãos do Cabo de Camorim, e ao mão tratamento que recebem, e o que sobre o cazo se ha-de prover, eu dei a Vossa Alteza certos apontamentos dos padres que laa andam, e tenho delles cartas pera emformação do caso. Do Temporal Item. Que se proveja de governador limpo na vida e destro cavalleiro nas armas, porque com ser este faram meter os vicios e inimigos comarcãos por dentro; seria muito serviço de Vossa Alteza que este fosse la servir emquanto o bem fizer, e não por tempo limitado, senão que va merecer neste carrego merce. Item. Que se pague soldo aos quartéis, como se fez em tempo de Dom João, e se dem mesas aos soldados, como se fazia antiguamente, porque desta maneira avera sempre 562
Sem te prestes na India pera as armadas, e serviço de Vossa Alteza, e não se espalharão os homens per Bengala, Malaca, China, Pegu, Banda e Choromandel, e alguns por posta a obrigação de sua fee, e antiga lialdade, fazem outros desarranjos piores. Item. Que o governador, de quinze em quinze dias, vizite o esprital e presos do tronquo, pera saber como são curados os doentes, e pera despachar as pessoas que por leves cazos estam prezos, a qual couza edifica muito naquellas partes, e se fez sempre des o tempo de Martim Affonso ate morte de Dom João de Castro. Item. Parecesse desnecessário aver na índia provedores de defuntos, porque não servem de mais que para se aproveitarem muito em pouco tempo e daneficarem as par- tes, e emcarregarem e fazerem emcarregar a comciencia a muitos. Item. Que a pessoa que Vossa Alteza prover de seu procurador, seja corregido nos custumes, e atentado na con- ciencia, porque neste carreguo ha muitos solapaz. Item. Ha grande prejuízo da repubriqua arrendarem-se os meirinhados e varaz da justiça, e também padesse detri- mento a fazenda de Vossa Alteza venderem-se os officios de feitores e escrivaens, porquanto a tal venda não pode ser sem que custe muito ha feitoria. Item. Paresse que abasta na India hum vedor da fazenda, hum procurador dos Contos, hum feitor em e hum ouvidor em cada huma delias como dezembargadores, porque com este crecer de officios descrece a fazenda de Vossa Alteza e mingoa o despacho; aja ali ouvidor-geral, porque este abasta na índia, o qual, se for o que deve, 563
despachará mais em hum mez do que faz agora a relação em quatro. Item. He cousa mui estranha em terra de guerra aver ahi azos de enventar demandas e prolongar a justiça. Item. Que os capitaens de Baçaim não emtendão que Vossa Alteza ponha nellas homens de serviço e de bom viver, e que tenhão conta com a conciencia, o mesmo avia de ser em todos os officios da índia, pera Vossa Alteza ser bem servido que fossem la os homens a merecer e não lhes fizesse delles merce. Item. Que o secretario tenha por regimento o que per- temce a seu cargo, e das lembranças que ha-de fazer no governo, em secreto, para evitar disgostos amtre elles, porque, nam temdo isto por regimento, não fiqua mais que escrivão do governador, e também tenha por regi- mento o que ha-de levar pellas provisoens, alvaraz, e con- firmaçoens, porque ate agora levam o que querem. Item. Porquanto os christãaos, pella mayor parte, são pobres, paresse rezão que lhes devem todolos officios, como Vossa Alteza, por muitas vezes, tem mandado, e não lhes levem dinheiro pellas provizoens delles. Quanto as mais couzas que se ham-de prover, o bispo de Goa as mandou por apontamentos a Vossa Alteza (l). (1) Este documento foi publicado, na sua primeira parte, nos Do- cumenta Indica, págs. 743-747. 564
102 OS MORADORES DE GOA A EL-REI Goa, s/d Documento existente no ANTT: — CVR, n.° 152. Mede 207 x 299 mm. São duas folhas, uma das quais escrita. Muito alto e muito poderoso e muito serenysymo rey [i] noso senhor, Bem vemos como a vomtade he samta tençam de Vosa A. he acreçentar nestas partes a relygiam crystã, e pera ysso emvyar a elas çacredotes (r/V) devotos e amigos de Deus, pera que eles com bons emxenpros he oraçam, e o gover- nador e cavaleyros com a lamça ho alcamçem e procurem, prymcipalmente Dom Joam 1 de Albuquerque, bispo he pre- lado noso, com que somos comsolados, asy por sua vida, como por ha boa doutryna que dele em jeral nosas molhe- res, filhos familya recebemos na mynystraçam dos sacra- mentos, nos sermois, comfisam, que empara2 todo pobre crystam da teraJ que sy faz, e por esta umanidade, bom enxempro que com todos usa, como por outras bomdades, que nele ha, ho nom query amos ver fora da terra4, e Vosa A. por ho cuidado que tem dos que novamente recebem bau- tismo e per ha deligencya que nos povos destas ylhas, e fora delas, per sy e bons çacerdotes usa em trazer estas jentes a fee de Christo5 Noso Senhor, tem dele qua tanta necesy- dade, como nos, pera o bem de nosas almas, concyencyas, e asy pera os oficyos devinos que com ele se celebram com tanta solenidade, hacatamento, perfeyçam, como que todas as casas de oraçam destas partes, principalmente ha see i — J.*; a - ép.« ; 3 — tr.» ; * - trr •; 5 - Xpo. 565
desta cydade, fosem capelas de gramdes prynçipes, e pois qua temos prelado de quem se recebe tanto fruito no acre- çentamento da fee, e nas ponpas desta vyda pobre frade, pedimos a V. A. que nos faça este bem e merçe tolher-lhe a lycença que lhe tem dada, a seu requerymento, pera estes reinos, e aver por bem que qua cumpra seus dias, pelejamdo com a oraçam e doutrina, e os mais com as armas e todos acabemos em serviço de Deus e de V. A. amen. Christo Nosso Senhor lhe acrecente a vida e estado por longos anos (l). Joam6 Lourenço7 da Costa (2). Joam8 Raposo. Vy- cemte Collasso. Jeronimo Pereira9 (3). Pero10 Fernandez, [i *.] Fernando Pereira11 (4). // Afonso12 Pyrez. Beral Lo- pez Joam13 Martinz14 Tavora (5). Tome Sardinha. Gaspar Cardoso. Roque Fernandes. Matias Fernandez13 (6). Fernandez. Manoell Fidalguo. Diogo16 da Gomes. Amtonio17 Botelho. Jorge Barros. Pero18 Afonso19. Amtonio20 Rodrigo21 Pirez22. (1) Esta informação, a respeito do desejo de D. João de Albuquerque se retirar para o reino, ajuda-nos mais ou menos a situar a data aproximada desta carta. (2) Leitura hipotética. (3) Leitura hipotética. (4) Leitura hipotética. (5) Leitura hipotética. (6) Leitura hipotética. Alguns nome lêem-se bem, mas outros só com muita dificuldade. Além disso, o documento está bastante ilegível nesta parte. 6, 8 e i3 — J.'; 7 — L • ; 9 e ti — ppA ; 10 e 18 — g.° ; ia e 19 — ».•; 14 — mêz; i5 — frz ; 16— D." ; 17 e ao — Amt.' ; ai — R.* ; aa — pz. 566
103 EL-REI DE TANOR A EL-REI DE PORTUGAL S/d Documento (cópia) existente no ANTT: — CC, 111, 17-11. Mede 307 x 208 mm. São duas folhas. Em bom estado. Mui alto e mui podeso (sic) príncipe e rei de Portugual, M El-rei de Tanor faço saber a V. A. que, sendo eu de pequena idade, sempre folguei e me pareçeo bem ha lei dos Portugueses, e por tam bem me pareçer ha quis receber, e pera isso mandei hum recado ao governador Dom Joham de Crasto que me viesse fazer christão; e, por elle estar ocupado como guerras e outros neguocios, não pode qua vir e mandou Mestre Dioguo a isso. E veio isto ha noticia de meu irmão mais velho, que he rei por direito, e de minha mãe, e mandarão-me chamar omde eu estava, e tanto que cheguei pedirão-me ambos com lagrimas que em suas vidas me não fezese christão. Eu lhes respondi que minha vontade estava toda posta na lei dos Portugueses. Elles me dixerão que fezesse ho que quisese, porem que os vesti- dos e cerimonias não mudasse e em tudo andasse como antes; eu lho prometi e, porem, que avia de receber e guar- dar a lei dos Portugueses, e que não tomassem desgosto disso, e nisto assentamos. Vossa Alteza sabera que meu irmão me entregou todo ho seu reino, que lhe vem por direito, com todos seos vassalos e dinheiro e fazenda, com todo ho demais que tinha contado ho demais, por se dar ha contemplação e, por isto ser assy, tenho detreminado de lhe não desobe- deçer e fazer-me christão secretamente, e destas cousas dei 567
parte a Mestre Diogo, e elle me dixe que me podia fazer secretamente e que não era necessário deitar corombim fora nem linha, nem era necessário trazer barbas nem camisa, porque nenhuma destas defendia a lei dos christãos, senão crer no coração firmemente, e que lhe parecia bem fazemos saber isto ao governador e ao bispo e, indo com este [i v.] reca // do faleçeo em Goa, e não me veio mais recado e esta foi ha causa por que me não fiz christão escondido. E, por cima de tudo, eu tenho minha vontede (sic) posta na lei dos Portugueses, e enquanto minha mãe e irmãos forem vivos V. A. ordene la como me possa fazer christão secretamente, e tragua este recado o padre frei Johão de Vila de Conde ho mais cedo que poder ser. Tanta he a afeição que tenho ha lei dos Portugueses que assi aguora como por muitos anos que vivesse em este estado, sempre folguaria de ha ter, e pera que eu viva nella peço a V. A. que avie de la ho padre frei Johão com todo despacho que poder ser, como tenho dito. Quando o çamorim estava de guerra, quando foi ao contrato das pazes, eu fui hum dos que as asentarão e forão com esta condição que não naveguasse nenhuma nao pera Meca, nem tevessem guerra com nenhuns reis amiguos dos Purtugueses, e aguora ouvy didez (sic) que se deu licença pera Meca. A meu (l) ver, he se poder ser, que se não dee tal liçença. Nos tempos passados era costume que, quando navegavam de Calecu pera Meca, ho mesmo faziam do meu reino; pimenta e gengibre e toda fazenda defesa mande V. A. que ninguém trate nela, e por muita diligencia, porque vai ha cousa nisto muito corruta. Senhor, meus reinos e vassalos e todo ho mais são de V. A. e eu são ho braço direito de V. A. pera todo ho (1) A palavra meu foi escrita depois sobre a palavra seu. $68
que de mim quiser fazer, e tenho esto por certo, e sempre trabalhei e trabalharei por ho servir e, antes de muito tempo, eu farei que toda la índia seia sometida debaixo dos Por- tugueses e, pera isso, mande V. A. aos governadores e capi- tães das fortalezas que seiam em meu favor. Ho capitão que V. A. mandou a Chalé perpetuo, ja o não he, porque veio outro que estava provido amtes delle, por tres anos. Faça V. A. com Dom Bernardino que este onde ho eu mandar. Eu tenho grandes gastos e, pera ajuda deles, peço a V. A. que me mande licença pera poder nave- guar pera qualquer porto, não levando fazenda defeza. // Outras cousas muitas que pratiquei qua com ho 01 padre frei Joham, emforme-se V. A. la bem delle, e mande-o bem aviado de tudo. Nosso Senhor seia em sua ajuda. Deste Pala, a seis de Janeiro. t 569
104 FREI PEDRO COELHO, O. P. S/l, s/d. Documento existente no ANTT:—CM, 1, 181. Mede 207 x 299 mm. Uma folha em bom estado. Manda el-rey, nuestro senhor, que se faça una carta pera el governador de la India, en que mande venir a Fray Pedro Coelho, frayle de la ordem de Samto Domingo pera estos reynos de Portugal, e nel primer viaje que oviera para eso aparejo. Christoforo de Balbuena Vicarius generalis. 57°
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO
ÍNDICE GEOGRÁFICO, ONOMÁSTICO E IDEOGRÁFICO Observação — Os números entre parêntese indicam as notas ao fundo das páginas, expressas estas pelos outros algarismos. Abraão — 424, 428, 434 442. Abrencão — rei de Xiraz — 515,516. Abuna (Jacob) — 198, 271. Acheh ou Achem — 54(1). Adão, rabi — 431. Adem — 83, 113, 469, 470, 491, 492. Afonso (Aleixo) — mordomo da confraria de N. S. do Ro- sário em Goa — 130. Afonso (Alvaro) — arrecada- dor das rendas do seminário de Goa — 316. Afonso (Pero) — morador em Goa— 566. Afonso (Pero Lourenço) — irmão da Misericórdia de Cochim — 487. Africa— 112, 333, 488, 510. Albuquerque (DAfonso de)— 36(2), 456. Albuquerque (D. João de) — Bispo de Goa — 21(4), 55, 63, 108, 114, 131, 140, 150, 151, 163, 181, 187, 188, 191, 202, 208, 245 (7), 253, 345, 347, 350, 352, 358, 359, 362, 381, 388, 398, 446, 453, 502, 504, 507, 509, 529, 541, 546, 548, 549, 551, 565, 568. Alcácer de Africa—117, 140, 169, 170(27). Alcáçova (Pedro) — missioná- rio jesuíta na índia — 13 (1). Alcala — 415. Alcorão — 317 (3). Alduhar, rabi — 429. Alemanha — 274, 318. Alexandre Magno — 377, 427. Alexandria—141. Alfaias eclesiásticas — 243, 478. Alfândega de Goa—131. Algarves — 44, 138, 510. 573
Almeida (D. Brás)—portu- guês na índia — 258. Almeida (D. Diogo)—capitão de Goa —79. Almeida (D. Francisco de) — 209(18). Almeida Ribeiro (Francisco de) — vid. Ribeiro, Francisco de Almeida. Alvares (Diogo)—língua ou intérprete — 227, 243. Alvares (Francisco) — licen- ciado, secretário da índia — 57, 58, 315, 499, 512. Alvares (P.e João)—deão da sé de Goa — 246, 345. Alvaro (D.) — português na índia—190, 191. Alves (Fabião)—provedor da Misericórdia de Cochim — 487. Alvito—139. Amão ou Oman — 521, 537. Amboino — 263, 283, 336, 343, 347. Anchecaimal — 496. Andrade (Fernão Peres de) — 254. Andrade (Jacinto Freire de)— 509(2). André — canarim no seminário de Goa — 180, 265. Anes (Alvaro) — mester em Goa —557. Anes (Cosme) — vedor da fa- zenda na índia — 25, 58, 147, 175(3), 181, 182, 186, 187, 195, 243, 257, 292, 344, 349, 469, 473(2), 476, 493, 497. Angediva — 495. Anjero ou Anjiro — japonês convertido por Xavier — vid. Santa Fé (Paulo de). Antígono — 427. Antilhas — 498. Antíoco — 429. António — japonês convertido — 146, 325 (2). Antônio (Dom)—Infante de Portugal — 242. Apostolado do P.e Barzeo entre os Mouros de Ormuz — 524- -528, 532-536. Áquila — sacerdote gentio — 54, 432, 433. Arábia — 44, 339, 374, 376, 377, 378, 380, 510, 528, 529, 530, 536, 562. Arábia Feliz — 523. Aragão — 274. Aragão (P.* João de) —jesuíta na Europa— 391. Aranha (D. Heitor ou Vítor) — capitão duma nau da ín- dia —149. Arão — 200, 429. Araujo — jesuíta na índia — 334. Aristóteles — 436. Armênia—141, 271, 524. Asia — 427, 433, 469, 528. Assistência aos enfermos — 117, 118. Astaro — deus — 426. Ataíde (D. João de)—fidalgo na índia — 444, 484(4). Ataíde (Pedro de) — português na índia — 258. Audesi — rabi — 434. 574
Colégio do Bom Jesus, da Com- panhia — em Ormuz — 528, 529, 530, 531, 533. Colégio franciscano em Baçaim — 61. Colónia— 325 (2), 415. Comércio — 243, 244, 245, 338, 474, 476, 479, 484(4), 488, 489, 493, 494, 497, 568. Comércio dos cavalos — o prin- cipal da Índia — 562. Cómodo — imperador romano — 432. Comorim — vid. Cabo de Como- rim. Companhia de Jesus—13, 14, 16, 17, 19, 21, 28, 29, 69, 70, 71, 86, 87, 89, 101, 109, 116, 120, 123, 132, 135, 136, 170, 173, 181, 182, 187, 234, 235, 236, 237, 238, 246, 248, 251, 253, 254, 260, 261, 266, 274, 278, 301, 331, 333, 338, 340, 347, 355, 370, 371, 373, 381, 389, 400, 418, 444, 462, 472, 500, 502, 503, 504, 508, 513, 514(7), 540, 541, 546, 547, 551, 552, 559, 561, 562. Conde de Vimioso — 66. Confirmação— 14, 113, 345. Confissões — 120, 135, 146, 165, 257, 281, 287, 289, 290, 294, 295, 299, 319, 347, 367, 368, 381, 384, 386, 389, 395, 396, 398, 399. Confraria de Nossa Senhora do Rosário em Goa—128, 129, 359, 360. Convento de Santo António em Cochim — 230, 259. Convento de S. Domingos em Goa— 395. Convento de S. Domingos em Lisboa— 223, 360. Convento de S. Francisco em Goa — 108 (1), 256, 331, 395. Convento dominicano em Goa — 57, 58, 108. Conversões — 61, 106, 133, 135, 167, 214, 235, 238, 242, 279, 284, 292, 345, 370, 403, 408, 502, 503, 507, 509(2), 511, 527, 528, 541. Conversões do Islamismo — 532. Conversões forçadas — 451, 452, 453, 454. Conversões interesseiras — 255, 292. Córdova— 152(1). Coromandel — Costa de — 26, 68, 69, 209, 229, 241, 558, 562, 563. Correia (António) — sobrinho de João Fernandes Correia, capitão da Pescaria — 307, 421(4), 498. Correia (Jerónimo) —secretário de el-rei D. João III — 77. Correia (João Fernandes) —ca- pitão da Costa da Pescaria — 306, 419. Correia (Martim) — português na índia — 491. Corunha —136 (8). Costa (João Lourenço) — mora- dor em Goa — 566. Costumes hindus — 35, 125, 126. 579
Cota — rei de—258, 270(1). Coulão — 11, 74, 171, 183, 184, 232, 282, 302, 304, 330, 334, 337, 347, 371. Coutinho (Lopo Vaz)—portu- guês na índia — 259. Cranganor — 3, 5, 6, 8 (4), 12(3), 191, 200, 205, 207, 208, 209, 210, 211, 218(1), 227, 238, 239, 280, 281, 480, 558, 561. Cremação das viúvas—35, 36. Crescêncio (Jacob)—gentilho- mem romano — 448. Criminal (P.e António) — 13 (1), 37, 40, 41, 42, 43, 73, 74, 86, 87, 88, 124, 193, 197, 212, 213, 231, 303, 304, 306, 307, 309, 329, 337, 341, 348, 365, 366, 368, 371, 418, 420. Crisma — Vid. Confirmação. Crisna — brâmane em Goa — 132, 133, 134, 135, 167, 560. Crinstandade da índia — suas necessidades — 558, 562. Cristandade oculta—242, 326, 349, 350, 352, 353, 357. Cristãos — favores concedidos aos recém-convertidos — 6, 7, 18, 176, 278, 564. Cristãos de S. Tomé—5, 20, 197, 198, 205, 206, 231, 238, 272, 280, 282, 477-481. Cunha (Fernão Álvares da) — capitão duma nau da índia — 82, 112. Cunha (Francisco da)—capi- tão português em Dio — 78, 257. 5 8 o Cunha (Miguel da) — portu- guês na índia — 258. Cunha (Nuno da)—governa- dor da índia — 6, 62, 174 (!)• Cunha (Vasco da) — fidalgo na índia — 79. D Dadaji — filho de Crisna (Q. v.) — 133, 134, 560. David — rei dos judeus — 423, 427, 429, 432, 439, 441, 533. Defuntos — testamentos e fa- zendas dos — 26, 44, 104, 105, 483, 486, 494, 563. Deserções de portugueses para o Balagate — 246. Despesas na India — 68. Devoções — 378, 391, 393, 394, 401. Diamper— 211. Dias (Jácome) — serrador em Goa —223, 225. Dias (João)—irmão da Mise- ricórdia de Cochim — 487. Dias (Lucas) — lascarim — 210. Dias (P.e Mateus) — clérigo in- dígena— 477, 481. Dio —9, 21 (4), 25, 53, 55, 64, 67, 71, 78, 79, 83, 84, 104, 105, 106, 156(9), 182, 210, 234, 248, 254, 257, 258, 259, 275, 304, 343, 388, 458, 474, 489, 559. Diogo (Frei) — missionário franciscano da Piedade na ín- dia— 16(1), 60(2), 181 (1).
Disputas com brâmanes — 93. Disputas do P.e Gaspar Barzeo com os judeus de Ormuz — 403, 404, 405, 406, 422, 442. Disputas do P.e Gaspar Barzeo com os mouros de Ormuz — 525. Divar — ilha de— 133, 559. Domingos (Frei) — missionário franciscano da Piedade na ín- dia — 16 (1), 60, 62, 63, 181(1). Dominicanos — 57, 109, 129, 135, 163, 172, 173, 210, 219, 220, 222, 254, 261, 321, 355, 363, 464, 570. Duarte — catequista na Costa da Pescaria — 74. Duarte (D.) — fidalgo na ín- dia— 129. E Eanes (Pedro) — alfaiate em Goa — 223. Egito — 347, 377, 429, 430, 502. Elcbana — rabi — 434. Elias — profeta — 431. Embaixada portuguesa à China — 50, 51. Enoch — rabi — 431. Enterros — 40. Ermida da Madre de Deus, em Cochim, cedida aos Jesuítas — 552. Esaú—135, 442. Escola em Malaca — 50, 51. Escolas em Goa — 183. Escravos — 456, 457. Esdras — profeta — 429. Esmolas — 39, 103, 104, 241, 287. Espanha—136(8), 404(18). Estácio (Manuel)—mester na cidade de Goa — 225. Estatística dos cristãos de Goa — 114, 176. Esteves (Bernardim) — pro- curador dos feitos de el-rei na índia — 489. Estrada (P.e Francisco) — je- suíta em Portugal — 414. Estreito de Meca —67, 237, •378, 488, 490. Estreito de Ormuz — 376. Estudos eclesiásticos — 238, 264, 280, 409. Etiópia — 44, 141, 197, 510. Eucaristia — 281, 319, 399. Eufrates — 376, 428. Europa — 21(4), 113(5), 239, 373, 379, 410, 529. Eva — 96. Excomunhões — 388, 398. Exercícios Espirituais — 234, 264, 265, 266, 291, 293, 334, 386, 400. Extrema-Unção —117. Ezequiel — profeta — 429. F Fabro (P') — jesuíta na Euro- pa—34, 555. Falcão (Luis) — capitão de Dio — 53, 257. Fatuel — rabi — 429. 581
Fernandes (Afonso) — irmão da Misericórdia de Cochim — 487. Fernandes (Bartolomeu) — ir- mão da Misericórdia de Co- chim— 487. Fernandes (Diogo) — mester na cidade de Goa — 225. Fernandes (Gonçalo) — portu- tuguês na índia — 281. Fernandes (Irmão João) —mis- sionário jesuíta na índia — 116, 117, 152, 159, 163, 325, 415. Fernandes (João)—criado do sogro de Francisco Barreto — 173. Fernandes (João)—irmão da Misericórdia de Cochim — 487. Fernandes (Marçal) —moço de estribeira de el-rei — 111, 190. Fernandes (Matias)—morador em Goa — 566. Fernandes (Pero) — morador em Goa — 566. Fernandes (Roque) — morador em Goa — 566. Fernandes (Sebastião) — mor- domo da Misericórdia de Ba- çaim —107. Fernandes (Simão) — mester em Goa — 557. Ferraz (António) — secretário de el-rei — 49. Ferreira (Álvaro) — noviço da Companhia da Índia—140, 334. Ferreira (Miguel) — embaixa- dor ao Xeque Ismael — 229. Ferreira (Simão) — secretário em Goa — 513. Fidalgo (Manuel) — morador em Goa — 566. Flandres — 274, 375, 415. Fonseca (Bernardino) — filho do Dr. João de Osório — 11(2), 12. Fonseca (Bernardo) — alcaide- -mor e feitor de Coulão — 488. Forais—175. Formoso (P.e Gabriel) — padre francês em Goa—138. França — 261, 274. Franciscanos — 29, 109, 129, 135, 163, 187, 221, 230, 246, 253, 255, 256, 258, 259, 261, 271, 272, 278, 279, 281, 355, 362, 374. Franciscanos da Piedade — i. e. da Província de Santa Maria da Piedade — 16, 59, 60, 106(3), 182, 191, 201(1), 210, 255, 330, 344, 357, 444, 460, 508. Francisco (Adão) — missioná- rio jesuíta na índia — 13 (1), 28, 33, 86, 89, 124, 197, 213, 284, 364, 554, 555. Freguesia de Nossa Senhora da Luz em Goa—138. Freguesia de S. João em Goa —114. Freguesias de Goa—114, 128, 129, 359. Freguesias de Nossa Senhora do Rosário em Goa— 128. 5 8 2
134, 139, 141, 144, 152, 162, 163, 164, 165, 167, 168, 176, 179, 191, 193, 194(2), 195, 196, 197, 202(4), 234, 248, 264, 265, 275, 279, 280, 301, 302, 303, 304, 323, 324, 325, 326, 327, 328, 329, 330, 331, 333, 334, 336, 340, 351, 362, 371, 374, 395, 408, 414, 415, 503, 504, 519, 520, 529, 531, 547. Gomes (Jorge)—mordomo da confraria de Nossa Senhora do Rosário em Goa—130. Gomes (Marfim) — sapateiro em Goa —220, 221, 223. Gonçalo (P.e Mestre) — jesuíta em Portugal — 414. Gonçalves (André) — mester na cidade de Goa — 225. Gonçalves (Domingos)—irmão da Misericórdia de Cochim — 487. Gonçalves (Filipe) — português em Goa—112. Gonçalves (Francisco) — mis- sionário na índia— 325. Gonçalves (Gaspar) — vereador da câmara de Chaul — 322. Gonçalves (Irmão Francisco) — jesuíta na índia—152. Gonçalves (Lucas) — escrivão em Goa— 316. Gonçalves (Manuel) — irmão da Misericórdia de Cochim — 487. Gonçalves (P.e Belchior) — missionário jesuíta na Índia — 115, 119, 121, 124, 145, 152, 153, 159, 163, 170, 181, 196, 197, 280, 302, 330, 331, 332, 333, 377, 444, 445, 508. Gonçalves (P.e Luís) — jesuíta em Portugal — 414. Gonçalves (P.e Pedro) — vigá- rio de Cochim — 21, 277. Governadores da Índia — seus abusos — 226. Governadores da Índia — seus requisitos — 562, 563. Governo da Índia — sua difi- culdade—470, 471. Grã (P.° Luís) — jesuíta em Portugal—119, 374, 414. Gramática da língua malabar — 313, 369- Gramáticas indígenas — 91, 92, 93. Grão-Sultão de Babilónia — 376, 377. Grão Turco — 67, 142, 376, 377. Grão-Xatamás — Vid. Xatamás. Gregório X — papa — 388. Guião (Belchior Luís do) — mordomo da confraria de Nossa Senhora do Rosário em Goa — 130. Guiné — 44, 82, 158, 374, 379, 510. Guzarate — 265 (9). H Hal-Hazer — rabi — 428. Heleogábalo — 433- Henriques (D. João) — capitão duma nau da índia — 81,85. Henriques (D. Leão) — 60. 584
Henriques (Francisco)—irmão jesuíta em Portugal — 414. Henriques (P.e Francisco) — missionário jesuíta na índia — 11, 13(1), 33, 35, 37, 73, 74, 87, 124, 125, 197, 213, 216, 308, 329, 554. Henriques (P.e Henrique) — missionário jesuíta na índia — 13(1), 33, 37, 86, 102, 124, 194, 197, 310, 313, 364, 372, 415, 554. Hermes — jesuíta na Europa — 34. Herodes Ascalonita — 427. Honrarias eclesiásticas — 138, 139. Hospitais — 286. Hospital de Baçaim— 314. Hospital de Cochim — 27. Hospital de Dio — 53, 55. Hospital de Goa — 48, 121, 187. Hospital de Moçambique — 148, 159. Hospital de Ormuz — 396, 402. Hungria — 209. I Idalcão — 67, 83, 109, 110, 133, 258. Idolatria —Al, 55, 56, 60, 61, 74, 93, 94, 95, 97, 98, 99, 100, 102, 125, 126, 132, 166, 167, 176, 327, 366, 369 377, 429, 459, 460, 507, 508, 509 (2), 528, 546, 551. Igreja da Madre de Deus em Goa — 56. Igreja da Madre de Deus na Costa da Pescaria — 329. Igreja de Baçaim — 106, 333. Igreja de Chalé — 240. Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Chalé — 241, 243. Igreja de Nossa Senhora do Castelo em Chalé — 231(2). Igrepa de Santa Ana na Costa da Pescaria—12, 33. Igreja de Santo António em Goa — 56. Igreja de S. João em Dio — 55. Igreja de S. Martinho em Dio — 9. Igreja de S. Tiago em Cranga- nor — 239, 280. Igreja de S. Tiago em Dio —9. Igreja de S. Tomé em Cranga- nor — 5, 239, 280. Igreja de Tanor — 351. Inácio (Frei) —dominicano em Lisboa — 223. Índia —6, 10, 12, 13(1), 14, 17, 18, 19, 21, 23, 24, 25, 26, 29, 30, 31, 32, 34, 35, 42, 44, 49, 55, 57, 60(2), 67, 74, 76, 83, 84(3), 86, 101, 111, 115, 117, 136, 154, 155, 161, 164, 179, 181, 182, 184, 193, 202, 208, 220, 226, 228(4), 229(1), 234, 236, 237, 241,246, 249, 251,253, 263, 268, 271, 274, 275, 276, 277, 278, 279, 282, 284, 297, 301, 304, 314, 316, 327, 333, 336, 338, 347, 350, 352, 356, 361, 370, 373, 377, 378, 379, 380, 384, 388, 392, 394, 395, 5S5
403, 410, 411, 413, 418, 444 (1), 446, 452, 453, 455, 457, 462, 469, 471, 480, 482(1), 483, 486, 495, 498, 499, 505, 507, 510, 512, 515, 518, 528, 529, 541, 551, 555, 558, 560, 563, 564, 570. Índias Ocidentais — 261 (2). Indulgências—206, 239, 281, 446, 462. lnigo — padre jesuíta na Euro- pa— 415. Inquisição em Ormuz— 383. Internato franciscano em Ba- çaim — Vid. Colégio francis- cano em Baçaim. Intolerância — 509 (2). Isaac — 442. Isabel (D.)—mulher do brâ- mane convertido Lucas de Sá — 168. Isaias — 427, 442. Islamismo — 278, 283. Israel — 347, 425, 426, 427, 429, 430. Itália — 261, 274, 277, 415, 540. J Jacob— 135, 429, 442. fafanapatão — 229, 230 (2), 464. Japão — 14, 19, 29, 50, 69, 70, 121, 123, 124, 146, 152(1), 169, 187, 193, 197, 198, 208, 216, 235, 236, 238, 248, 249, 265, 266, 268, 272, 273, 274, 276, 277, 283, 284, 285, 297, 303, 324, 325, 326, 328, 336, 343, 347, 371, 374, 378, 394, 415, 445, 504. Japoneses — seus costumes — 232, 277. Java — 263. Jeremias — profeta — 423, 427, 429, 435. Jericó — 433. Jerónima (D.) — esposa de D. Bernardino da Silva, capi- tão de Chalé — 243. Jerusalém — 324, 389, 429, 433, 492, 523. Joaide — rabi — 431. João — cozinheiro no colégio da Companhia em Coimbra — 414. João — japonês convertido — 146, 325(2). João Bodeos — 433. João (P.e Mestre) —jesuíta em Portugal — 414. João (R.)—rei de Tanor — 326, 327, 349, 350, 352, 353. João 111 (D.) — rei de Portugal — 16, 23, 44, 54, 59, 60(2), 76, 81, 131, 148, 150, 172, 188, 270, 281, 340, 510, 511, 512, 513, 514, 540. Job — 429, 431. Jogues de Ormuz — 407, 408. Jonas— 155 (5). Jonatam — 431. José — rabi em Ormuz — 422. José de Arimateia—353. Josué — 429, 434. Judeus de Ormuz — 422. Júlio 111 — papa — 540. 586
Júptter —428, 537. Justiça da Índia — 44, 49, 563, 564. L Lagos (Frei Vicente de) — 3, 4, 5, 6, 12(3), 191, 200, 201 (1), 202(4), 203(5), 208 (15), 211, 238, 239, 255, 280, 281, 349, 351, 352, 357, 480. Lanciloto (P." Nicolau) — 13 (1), 33, 141, 180, 181, 192, 199, 232, 246, 263, 264, 282, 302, 330, 334, 337, 370, 371, 415, 554. Landeiro — paróquia em Mon- temór-o-Novo e na Corunha — 136. Lara — reino de — 516, 526. Lemos (João de) — português em Goa—190. Levi — tribu judaica — 427. Licurgo — 426. Lima (Francisco de) — capitão de Goa — 79, 354. Lima (D. Manuel de)—capi- tão de Ormuz — 317 (4), 381, 528, 539, 542. Língua canarim — 145. Lingua da Costa da Pescaria — 91, 93, 98, 102, 313, 368, 369. Lingua japonesa — 232. Lisboa — 31, 49, 56, 64 (2), 76, 77, 116, 138, 161, 223, 487, 509(2), 513, 523(1). Lisboa (Francisco de) — secre- tário em Goa — 512. Liundar — rabi — 431. Livros gentílicos— 133, 134. Livros religiosos — 206, 207. Lobato (Pedro) — feitor em Mascate—521, 522, 537. Lobo (Diogo) — sobrinho do Barão de Alvito— 117, 139, 170, 196(6). Lobo (D. Filipe de) — pai de D. Diogo Lobo—170(27). Lobo (D. João) — fidalgo na índia— 354, 355, 356. Lobo (D. Rodrigo)—terceiro barão de Alvito — 139. Lobo (Luís Xira)—Vid. Xira Luis. Lobo (Manuel) — português na índia— 25. Lobo (Tomé) — português em Goa — 66, 72. Locu — Vid. Lucu. Loiola (S. Inácio de) — 13, 15, 30(1), 86, 113(5), 141, 180, 192, 231, 260, 276, 302, 303, 336, 364, 390, 418, 446, 448, 462. Lopes (Beral) — morador em Goa — 566. Lopes (Diogo)—mordomo da confraria de Nossa Senhora do Rosário em Goa — 361. Lopes (Francisco) — noviço da Companhia — 334, 414. Lopes (P.e Rui) — tesoureiro da sé de Goa— 345. Lo vai na — 415. Lucas (Rodrigo Anes) — secre- tário em Goa — 514. Lucu — brâmane de Goa, que depois se converteu — 70, 587
131, 132, 134, 139, 166, 167, 168, 176. Luís (Baltasar) — mester em Goa— 557. M Macabeus— 427, 430. Macaçar —■ 347. Macedo (Henrique de)—em- baixador à Pérsia — 153, 515, 516(2), 536, 537. Mecedo (Manuel de) — portu- guês na índia — 160. Madeira (Afonso) — mestre de obras em Goa — 57. Madeira — ilha da —196. Mafamede ou Mafoma — 99, 407, 525, 532, 533, 534, 535, 536, 537. Magalhães (Francisco de) — português na índia, enviado preso para Portugal — 495. Mair — judeu — 434. Malabar — 3, 19, 198, 203, 205, 213, 227, 244, 326, 327, 328, 329, 331, 335, 343, 362, 374, 489. Malaca—12, 16, 17, 20, 23, 24, 29, 37, 48, 50, 51, 54, 66(1), 69, 70, 71, 72, 123, 171, 184, 194, 197, 201, 209, 212, 216, 235, 238, 248, 263, 268, 273, 274, 276, 282, 297, 298, 302, 303, 304, 325, 329, 337, 347, 405, 415, 418, 504, 558, 559, 563. Maldivas — ilhas — 263, 467, 493, 497. Maldivas — rainha das ilhas — 492, 493. Maldivas — rei das ilhas — 492, 493. Maluco —11, 14, 15, 16, 17, 20, 21, 24, 25, 28, 33, 36, 37, 68, 69, 70, 91, 92, 99, 123, 124, 171, 184, 185, 192, 196, 209, 212, 216, 238, 262, 279, 282, 283, 284, 302, 303, 304, 325, 329, 336, 347,415, 554, 558, 559. Manajão — Vid. Manudjan. Manapar — 38, 214. Mancebias — 37. ManhÔo (Jorge) — criado de Francisco Barreto —173. Manic on go — 369, 415. Manora — 433. Mansilhas (P.e Francisco) — 13(1), 33, 212, 213, 554. Manudjan — cidade perto de Ormuz—392 (15). Manuel — jesuíta em Portugal — 414. Manuel — seminarista indígena — 86(1), 265. Manuel (D.) — rei de Portu- gal—253, 560. Manuel (Fernão) —alfaiate em Goa —224. Maria (D.) — esposa do rei de Tanor — 352. Mariz (Francisco)—sogro de Henrique de Sousa — 24. Mar Roxo — 376, 377. Marschall — ilhas — 262 (3). Martinho (Frei) — reitor do colégio de S. Domingos em Coimbra — 480. 5 55
Martírio do P.e António Crimi- nal— 306, 307, 308, 309, 311, 337, 341, 342, 348, 365, 371, 418, 419, 420, 541. Martins (João) — sapateiro em Goa —223, 225. Martins (Manuel) — mester na cidade de Goa — 225. Martins (Simão) — ouvidor na índia —221. Mar Vermelho — 55. Mascarenhas — padre jesuíta na Europa — 415. Mascate— 380, 518, 520, 521, 530, 537. Matatias — 429. Matrimónios —138. Mayadune — rei de Sitavaka, em Ceilão — 270(1). Meca — 67, 278, 377, 378, 470, 488, 536, 568. Melinde — 374, 492. Melo — jesuíta na índia — 334. Melo (D. Francisco de) — bispo de Goa— 111. Melo (P.e Gonçalo Vaz de) — jesuíta em Portugal — 414. Mendes — irmão jesuíta em Portugal —■ 414. Mendes (João) — irmão da Mi- sericórdia em Cochim — 487. Mendes (Luís) — irmão da Companhia na índia—154. Mendonça (João de)—capitão duma nau da índia—153. Meneses (D. Jorge Telo de) — 170(26). Meneses (Francisco Roque Telo de) — mordomo da Miseri- córdia de Baçaim —107. Meneses (Francisco da Silva de) — capitão português na ín- dia—328. Meneses (Pero Barreto de) — soldado na índia—173(1). Mergulhão (Manuel de) — fei- tor dos contos em Goa — 71. Mesa da Consciência—■ 111. Mesopotâmia — 428, 442. Mesquita (Pedro de) — capitão duma nau da índia—148, 149. Mesquitas — 61, 62, 63, 64, 110, 241,460,533,534, 542, 543, 544. Método missionário de Xavier — 20, 38, 43, 286, 300. Mina — 374. Mindanao — ilha de — 262 (4). Miranda (António de) — tio de Diogo de Miranda — 83. Miranda (Diogo de)—83. Misericórdia de Baçaim —■ 103, 104, 105, 107. Misericórdia de Chaul — 242. Misericórdia de Cochim — 27, 485, 486, 487. Misericórdia de Dio — 53. Misericórdia de Goa — 187, 335, 486. Misericórdia de Lisboa — 487. Misericórdia de Ormuz — 287, 293. Moçambique — 83, 117, 118, 148, 158, 161, 262, 265(9), 484(4), 495. Moisés— 200, 424, 425, 426, 429, 430, 431, 432, 434, 435, 436, 442. 589
Moisés (Abudach) — rabi — 428. Monoa — rabi — 434. Moniz (Aires) — capitão duma nau da índia— 191. Moniz (António) — português enviado a Ceilão — 258. MonsÕes — 69, 303, 325, 326. Monte Calvário—121. Monte Deli — 491. Monteiro (Rodrigo) — escrivão em Goa—513, 514. Montemór-o-Novo — 136 (8), 375. Monte Sião — 523. Monte Sinai — 425, 434. Morais — irmão da Companhia na índia — 124. Morais (P.e Manuel) — júnior, missionário na índia — 13 (1), 33, 37, 75, 86, 88, 169, 212, 217, 325, 328, 554. Morais (P.e Manuel)—senior — 391. Moro — ilha de, nas Molucas — 169, 196, 283, 336, 347. Moura (Gabriel de) — notário em Lisboa — 513. Moura (Manuel da) — secretá- rio de el-rei D. João III — 77. Moura (P.e António de)—vi- gário de Ormuz — 319(9), 381. Mulheres em Ormuz — 400, 409. N Naus: «Atouguia» — 82. «Boa-Ventura» — 223 (1). «Esfera» — 81 (l). «Frol de la Mar» — 82, 243. «Galega» —83, 108, 120(3), 152, 162, 190. «S. Bento» — 495, 496. «S. Espírito»—160. «S. Filipe» — 323(1). «S. Pedro»— 116, 152, 153. «Vitória» —• 112. Nicodemus — 353. Nicolau — irmão jesuíta nas Molucas — 554. Nilo — 376. Ningpó — 268 (1). Nínive — cidade da Assíria — 428. Nino — fundador do império assírio — 428. Nobre (Baltasar Dias) — escri- vão da Misericórdia de Co- chim — 487. Nóbrega (P.< Manuel) — jesuí- ta em Portugal—122. Noé — 424, 428, 429. Noronha (D. Afonso)—475 510, 514. Noronha (D. Álvaro) — capi- tão de Ormuz — 536, 542 545. Noronha (D. António) — 57. Noronha (D. Bernardo de) — capitão português na índia — 257. Noronha (D. Garcia de) — 55 67, 257(11). Noronha (D. Jerónimo de) — capitão de Baçaim — 256, 257, 457, 549. Nossa Senhora da Luz — paró- quia de Goa —138. 590
Nossa Senhora da Penha—er- mida em Ormuz — 533. Nossa Senhora de Guadalupe — 321. Nossa Senhora do Loreto — 419. Nova Espanha—24, 261, 263- Numa Pompílio — 426. Nunes (Ambrósio) — jesuíta na Costa da Pescaria — 308, 312, 369. Nunes (Baltasar)—jesuíta na índia —11, 13(1), 33, 73, 86, 87, 122, 127, 197, 212, 213, 216, 308, 313, 369, 554, 555. Nunes Barreto — Vid. Barreto (D. João Nunes) Nunes (Belchior)—irmão lei- go, jesuíta na índia — 196. Nunes (Belchior) — jesuíta em Portugal — 414. Nunes (P.e João)—jesuíta em Portugal — 414. Nunes (Nicolau)—irmão lei- go, jesuíta na índia — 28, 37, 124, 196, 212. Ordens eclesiásticas—345. órfãos — protecção aos — 26, 483, 484. Oriente — 16 (1), 432. Origenes — 433. Ormuz — 48, 71, 84(3), 234, 248, 275, 286, 296, 297, 298, 304, 317, 318, 330, 339, 347, 373, 374, 375, 376, 377, 378, 379, 381, 384, 393, 394, 395, 397, 399, 416, 422, 470, 484 (4), 492, 500, 515, 516, 521, 523, 525, 527, 532, 537, 538, 542, 559, 562. Ormuz ■—rei de, sua intentada conversão — 500, 505, 506, 532. Orneias (Frei Diogo de) —do- minicano em Lisboa — 223. Orta (Tristão da)-guarda-mor de el-rei de Ormuz — 381. Osório (Dr. João de) — 11 (2). Oviedo (D. André) — bispo je- suíta enviado ao Preste João — 141. P O Oliveira (António Mendes de) — português em Ormuz — 516. Oliveira (Roque) — jesuíta professor em Malaca — 50 (2), 124, 197, 198, 282. Oman ou Amão—'521. Onze Mil Virgens — 108, 162 (19), 163, 324, 334. Orações— 50, 203, 204. Padrão (Frei António do) — 247. Pagode de Canari — 377. Pagode do Elefante — 377. Pagodes — 63, 64, 76, 96, 97, 125, 126, 132, 133, 185, 241, 316, 368, 459, 460, 507, 508, 510, 511, 512, 513. Pai dos cristãos — 164 (1). Pala — cidade do reino de Ta- nor — 569. Palestina — 428. 591
Pan gim — 190. Param — reino — 5. Paravas — 213. Paris— 180, 236, 277. Patane — 69. Patmos — ilha de — 197. Paula — romana — 365. Paulo — jogue convertido em Ormuz pelo P.e Barzeo — 538. Paulo — seminarista indígena — 265. Paulo 111 — papa —462, 540. Pegu — 26, 29, 34, 69, 498, 499, 563. Penha (Garcia da) — intérprete de el-rei de Ormuz — 525, 534. Penha de França — 324. Penitências públicas-166, 294, 302, 319, 383, 386, 393, 394. Penteado (P.e Alvaro)—477. Peregrino (Frei)—franciscano da Piedade, na índia—16 (1), 60(2), 181 (1). Pereira (António) — português em Goa — 57. Pereira (Diogo) — capitão por- tuguês na índia — 23, 24, 50, 51. Pereira (Diogo Botelho) — ca- pitão duma nau — 494 495 496. Pereira (Fernando) — morador em Goa — 566. Pereira (Jerónimo) — morador em Goa — 566. Pereira (João) — capitão de Cranganor — 3, 8, 201, 208, 227. 59 2 Pereira (Manuel) — mordomo da confraria de Nossa Se- nhora do Rosário em Goa — 130. Pereira (Reimão) — jesuíta na índia—334, 378, 395, 414. Pereira (Tristão) — pai de Dio- go Pereira — 23. Peres de Andrade (Fernão) — Vid. Andrade (Fernão Peres de). Perez (P.e Francisco) — jesuíta na India e Malaca—13(1), 33, 50 (2), 124, 189, 197, 213, 273, 282, 297, 298, 302, 303, 329, 415, 554. Pérsia — 44, 229(1), 318, 339, 374, 376, 394, 395, 409, 471 (1), 510, 516(2), 523, 528, 530, 532, 535, 536. Pescaria — costa da — 38, 41, 73(1), 74, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 100, 122, 124, 125, 214, 252, 306, 309, 348, 364, 365, 366, 369, 371, 372, 464, 465, 466, 467. Pessoa (António) — português em Goa —57, 79, 354, 355, 361, 473, 484(4). Pimenta — comércio da — 488, 489, 490, 495, 497. Pimenta — rei da — 497, 498. Pinheira (Maria) — sogra de Henrique de Sousa — 24. Pinheiro (D. Diogo) — bispo do Funchal—111. Pinto (Tristão)—vereador da câmara de Chaul — 322. Pintores indígenas—128, 129.
Pires (Afonso) — morador em Goa — 566. Pires (António Rodrigues) — morador em Goa — 566. Platão — 436, 437. Pompeu — 427. Ponce (P.e António)—sacer- dote secular na Índia — 54, 56. Ponce (João) — pai do P.e An- tónio Ponce — 54. Pondã — 71. Ponto — 432. Porto (Frei António do) — 16 (1), 59, 60(2), 62(4), 65, 181 (1), 210(19), 331, 444 (2). Portugal—11, 18, 37, 44, 60 (2), 74, 109, 111, 112(4), 113, 120, 127, 138, 140(10), 179, 190, 191, 196, 208(16), 212, 213, 252(1), 254, 259, 268, 277, 278, 279, 281, 282, 319, 337, 338, 364 368, 375, 395, 398, 446, 447, 472(2), 477, 481, 485, 495(1), 510, 519, 523, 529, 538, 541, 543 (4), 556, 567, 570. Pregações — 298, 317, 335, 347, 376, 382, 383, 384, 385, 393, 402. Pregações por intérpretes — 313, 368. Pregadores — sua necessidade na índia —20, 29, 235, 251, 472. Preste João—141, 179, 238, 318, 333, 376, 377, 492. Privilégios para os mesteres de Goa —556, 557. Prometeu — 426. Provedores dos defuntos — não eram necessários na índia — 563. Ptolomeu — 430. Punicale— 73, 75, 306, 309, 310, 311, 312, 372. Purificação (Frei Inácio da) — 160. Q Quaresma na Índia—14, 135, 348, 367, 378. Quental (Belchior Luís do) — mordomo da confraria de Nossa Senhora do Rosário em Goa — 361. R Rais Sharaf nur al-din — Vid. Reis Xarafo. Rames Waram — templo hindu — 419(3). Ramires (Diogo) — castelhano castigado pelo pecado de so- domia — 82. Ramires — português na Índia — 51. Rangel (Cristóvão) — portu- guês em Goa—177. Raposo (João) — morador em Goa — 566. Rebelo (António) — irmão da Misericórdia de Cochim — 487. Rebelo (Pantaleão) — escrivão em Lisboa — 513. Doe. Padroado, iv - 38 593
Recolhimento ou igreja de S. Paulo em Ormuz — 545. Reforma do clero — 559, 560. Rego (Cristóvão do) — mestre em Goa — 557. Reis Roque Nordim — muçul- mano em Ormuz — 500. Reis Xarafo Nordim — gover- nador ou guazil de Ormuz — 375(4). Religião oficial—543(4). Remanancor — 306, 309, 341. Rendas do colégio de Baçaim — 330, 331, 332, 339, 444. Rendas do seminário de Goa — 185, 186, 332, 510, 514. Resende (Francisco de)—mes- tre carpinteiro em Goa — 58. Restituição — 291. Retábulo da Misericórdia para Cochim— 26, 486. Retábulo de Nossa Senhora da Anunciação —12. Retábulo de Nossa Senhora da Conceição — 12, 243- Retábulo de Santa Ana—12. Retábulo de Santo Amaro — para Cochim — 26. Retábulo de S. Jorge — para Cochim — 26. Ribeira das Naus em Goa — 68, 172, 476. Ribeiro (Francisco de Almeida) — soldado na índia—173. Ribeiro (Francisco de Sousa) — capitão português na ín- dia — 489- Ribeiro (P.c Nuno) — jesuíta na índia —13(1), 28, 37, 124, 196, 212, 283, 554. Rio Phison — o mesmo que Rio Tigre — 376. Rivalidades entre o clero — 108(1). Rodrigues (Gaspar) — jesuíta na índia — 194. Rodrigues (Jerónimo) — vid. Roiz (Jerónimo). Rodrigues (Manuel) — noviço da Companhia, missionário na Costa da Pescaria — 308, 369. Rodrigues (Padre Mestre Si- mão)—7, 11, 13, 28, 30, 31, 86, 97, 101, 144, 179, 192, 195, 208(16), 231, 232, 234, 248, 249, 251, 268, 273, 275, 282, 336, 342, 391, 414, 540, 541, 546. Roiz (Jerónimo) — procurador dos feitos de el-rei — 475, 482(1). Roiz (João) —vereador da Câ- mara de Chaul — 322. Rolim (Pero Barreto)—primo co-irmão de Francisco Bar- reto—173(1). Roma— 15, 89, 123, 193, 216, 236, 237, 239, 260, 272, 279, 360, 415, 446, 447, 448, 449, 453, 462, 463, 551. Rumes —67, 68, 113, 173, 229. Rua Direita — em Goa — 112 (4), 354. S Sá (Francisco de) — português em Goa — 57. Sá (Garcia de) — governador da índia —49(2), 57, 63, 594
83, 109, 132, 163, 175, 176, 218, 229, 326, 344, 351, 456 (11), 460, 466, 468, 482 (1), 488, 493. Sá (Garcia de) — sobrinho do precedente —■ 344, 351. Sá (Henrique de) —capitão de Cananor — 490, 491. Sá (Lucas de) — brâmane con- vertido em Goa—*131, 133, 134, 135, 168, 176. Sá (Pantaleão de)—fidalgo por- tuguês na índia — 392(16). Sacerdotes indígenas — 41. Sacramentos—348, 401. Salamanca — 415. Salazar (Pero de)—secretário em Baçaim — 314. Salce te — 71, 176. Salcete — ilha ao pé de Ba- çaim— 61, 315. Salomao — 318, 429, 432. Salomão — rabi — 429, 431. Salomão — rabi em Ormuz — 405, 406, 422. Samorim de Calecut—245, 376, 488, 498. Samuel — profeta — 429. Sancian — ilha onde morreu Xavier — 140. Sanfins — 186. Santa Ana — capela em Chalé — 555. Santa Catarina do Monte Sinai — 377. Santa Cruz — jesuíta na Europa — 415. Santa-Fé (Baltasar de) — semi- narista do Pegu em Goa — 34. Santa-Fé (Cristóvão de) — se- minarista do Pegu em Goa — 34. Santa-Fé (Martinho de)—se- minarista do Pegu em Goa — 34. Santa-Fé (Paulo de) — japonês convertido por Xavier — 70 (2), 146, 235, 249, 276, 277, 325 (2), 415. Santa-Fé (Simão de)—semina- rista do Pegu em Goa — 34. Santa Maria do Monte — loca- lidade em Goa — 58. Santo Sepulcro em Jerusalém — 492. São Bernardo — 119- São Domingos — ilhas de — 261. São Jerónimo — 365. São João Baptista — 217. São Lourenço — ilha de — 158. São Lucas— 353. São Luís (D. Frei Francisco de) — Cardial Saraiva — 509 (2). São Mateus— 353. São Sebastião — 353, 354. São Sebastião — cidade em Es- panha — 449- São Tiago de Compostela — 419. São Tomé — apóstolo — 231, 238, 329. São Tomé — baluarte na forta- leza de Dio — 78. S. Tomé de Meliapor — 302, 303, 304, 329, 332, 347, 371, 374, 415, 418, 421, 474, 477, 478, 479, 480, 481. Saragoça — 415. 595
Sardinha (P.c Mestre Pedro Fer- nandes)— 78, 80, 110, 111, 112, 113, 202(3), 218, 223, 252(1), 256, 259, 268, 465 (2), 472, 483, 558. Sardinha — morador em Goa — 566. Sé de Goa — 110, 139, 246, 354, 565, 566. Seia (João da) — barbeiro em Goa —223. Seminário das Molucas — 284. Seminário de Coulão — 282. Seminário de Cranganor — 3, 4, 5, 12(3), 201, 207, 211, 238, 239, 255(5), 280, 357. Seminário de Goa—3, 14, 25, 33, 34, 35, 70, 76, 99, 108, 109, 113, 114, 118, 123, 131, 139, 146, 147, 161, 167, 176, 180, 182, 183, 185, 194(2), 195, 197, 207, 214, 216, 234, 235, 248, 263, 267, 275, 276, 278, 279, 280, 284, 298, 301, 316, 332, 336, 338, 343, 347, 351, 357, 377, 378,414, 463, 510, 511, 512, 513, 514, 518, 519, 520, 554, 560. Seminário ou colégio de Cochim — 330, 338. Separação entre cristãos e gen- tios—158, 559. Sepúlveda (Manuel de Sousa) — capitão português na índia — 78, 257. Sequeira (Francisco de)—ma- labar—226, 228(4). Sequeira (Nuno) — mordomo da Misericórdia de Baçaim — 107. 596 Severo — imperador romano — 432. Sevilha — 261. Shâh Tahmasp — rei da Pérsia — vid. Xatamás. Sião — 69. Silva (D. Bernardino da) —ca- pitão de Chalé — 213, 242, 243, 244. Silva (Francisco da)—capitão de Cochim — 258. Silva (Francisco da)—noviço da Companhia — 334. Silva (Jorge da)—irmão de Martim Correia — 258. Silveira (António da) — capitão de Dio — 9. Silveira (P.e Mestre D. Gonçalo da) — jesuíta em Coimbra. Simaco — doutor grego — 432, 433. Sino Pérsico — 374, 523, 539. Síria—141, 376. Síria Menor — 428. Sitavaka — reino de Ceilão — 270(1). Siva — deus hindu — 318(8). Soares (Diogo) — capitão em Malaca —23, 482(1), 498. Soares — irmão da Companhia . em Portugal — 414. Soares (João) — vigário de Chate —240, 247, 349, 350, 351. Socotorá — 75, 87, 123, 124, 136, 171, 194, 197, 216, 231, 236, 237, 249, 278, 464, 492. Sodoma — 442. Sofala — 48, 148, 170, 538, 539.
Soldados — necessidade de se lhes pagar pontualmente — 562, 563. Solon — 426. Sousa (D. Maria de) — esposa de Pedro Álvares de Carva- lho—140(10). Sousa (Fernão) — filho de Jor- ge de Sousa Castelo Branco, capitão duma armada — 489, 490, 498. Sousa (Francisco de)—portu- guês na índia — 491. Sousa (Francisco de Almeida de) — português na Índia — 259. Sousa (Henrique de)—portu- guês na índia — 24. Sousa (Jorge de)—português na Índia — 489, 491. Sousa (Manuel de)—portu- guês na índia —140. Sousa (Martim Afonso de) — 7, 72, 110, 138, 221, 237, 278, 457, 510, 511, 563. Sousa Ribeiro (Francisco de) — Vid. Ribeiro (Francisco de Sousa). Suez — 83. Sunda — 69. T Tabriz — 515, 517. Tana — 316. Tanor — 352, 374, 488, 490, 567. Tanor — rei de — 242(5), 326, 328, 343, 345, 349, 350, 353, 354, 355, 356, 362, 363, 371, 488, 490, 567, 568, 569. Távora (Fernando de Sousa de) — capitão português na índia — 58, 263(5). Távora (Gonçalo Vaz de) — capitão duma armada — 492. Távora (João Martins de) — morador em Goa — 566. Távora (Lourenço Pires de) — pai de Fernando de Sousa Tá- vora—158(12). Tartan — 236, 249. Telo (D. Manuel) — fidalgo na índia — 82. Tenjiku — Vid. Chengico. Teodósio — judeu convertido — 432, 433. Terra Santa — 387. Tigre — rio — 376. Torre de Babel — 428. Torres (D. Catalina) — mãe do P.c Cosme de Torres — 261 (2). Torres (Juan)-pzi do P.c Cos- me de Torres — 261 (2). Torres (Miguel de) — irmão do P.e Cosme de Torres — 261 (2). Torres (P° Cosme de) — 178, 232, 235, 260, 261(2), 263 (6), 267, 276, 325, 415. Toscano (Dr. Francisco) — 494. T rajano — 432. Travaços (P.e Simão) — vigário de Baçaim — 508. Travancor—11, 34, 38, 73, 74, 127, 214, 555. Trimurti — 318(8). 597
Turân Shah II — rei de Ormuz — 375(4). Turquia — 378, 394, 528. Tutucorim — 312 (1). U Universidades — 277. Urbano — jesuíta na Europa — 115, 116, 117, 414. Usura em Ormuz — 384, 385, 387. V Vale (Pc Paulo do) — 121, 145(1), 193, 196, 197, 301, 308, 313, 329, 369,415, 554. Valença— 123- Valência—216, 415. Varela (Francisco)—mordomo da Misericórdia de Baçaim — 107. Vaz (António) —jesuíta na ín- dia— 13(1). Vaz (Gonçalo) — português na índia —110. Vaz (Jorge) — jesuíta na Eu- ropa— 415. Vaz (Manuel) — jesuíta na ín- dia—152, 190, 196, 249, 279. Vaz (Pe Mestre Miguel) — 21, 25, 55, 60, 61, 64(7), 111, 147, 181, 271, 279, 280, 344, 452(4), 509(2), 559, 560. Veiga (Francisco da) — escri- vão da câmara de Chaul — 322. Vembar — 86, 102. Vendenao — Vid. Mindanao. Veneza— 318. Viagens para a índia — 153, 154, 155, 158, 159, 161, 162, 168. Vicente—'Sapateiro no colégio de Coimbra — 414. Vicente (Fernão) — mester em Goa—225. Vieira — jesuíta em Portugal — 414. Vila do Conde (P.e Frei João de) — 16, 78, 80, 150, 247, 258, 270, 271, 568, 569- Vishnu — 318 (8). X Xatamás — rei da Pérsia — 376 (5), 377, 470, 471, 515, 516, 517, 535, 536, 543, 544. Xavier (S. Francisco) — 7, 11, 12, 13, 14(3), 15, 16, 21 (4), 22, 23, 27, 28, 30(1), 32, 35(1), 36, 37, 38, 43, 50, 52, 66, 70, 73, 75, 78, 80, 86, 87, 89, 90, 91, 92, 93, 100, 101, 113(5). 118> 119, 120, 121, 122, 124, 140 (12), 146, 152(1), 154, 161, 162, 163, 169, 179, 180, 181, 183, 184, 185, 187, 188, 190, 192, 193, 194, 195, 197, 198, 208, 212, 214, 216, 231, 233, 234, 239, 246, 248, 250, 252 (1), 256(7), 261, 263, 264, 265, 266, 268, 269, 270, 272, 273, 274, 275, 285, 286, 300, 598