• S C RIP T O R E S RERVM LVSITANARVM (série A) RELAÇÀO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS Padres da Companhia de Jesus NAS SUAS MISSÕES Do Japão, China, Cataio, Tidore, Ternate, Ambóino, Malaca, Pcgu, Bengala, Bisnaga, Madure, Costa da Pescaria, Manar, Ceilão, Travancor, Malabar, Sodomala, Goa, Salcete, Lahor, Dio, Etiópia a alta ou Preste-foão, Monomotapa, Angola, Guiné, Serra Leôa, Cabo Verde e Brasil NOS ANOS DE 1600 A 1609 E DO PROCESSO DA CONVERSÃO E CRISTANDADE DAQUELAS PARTES: TIRADA DAS CARTAS QUE OS MISSIONÁRIOS DE LÁ ESCREVERAM Pelo Padre FERNÃO GUERREIRO DA COMPANHIA DE JESUS, NATURAL DE ALMODÔVAR DE PORTUGAL NOVA EDIÇÃO DIRJGIDA E PREFACIADA POR ARTUR VIEGAS TOMO TERCEIRO 1607 A 1609 LISBOA Imprensa Nacional 1 9 4 t
  • RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM os PADRES DÀ COMPANHIA DE JESUS NAS SUAS MISSÕES
  • SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM (série a) RELAÇÀO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS Padres da Companhia de Jesus NAS SUAS MISSÕES Do Japão, China, Cataio, Tidore, Ternate, Ambóino, Malaca, Pegu, Bengala, Bisnaga, Madure, Costa da Pescaria, Manar, Ceilão, Travancor, Malabar, Sodomala, Goa, Salcete, Lahor, Dio, Etiópia a alta ou Preste-João, Monomotapa, Angola, Guine', Serra Leoa, Cabo Verde e Brasil NOS ANOS DE 1600 A 1609 E DO PROCESSO DA CONVERSÃO E CRISTANDADE DAQUELAS PARTES: TIRADA DAS CARTAS QUE OS MISSIONÁRIOS DE LÁ ESCREVERAM Pelo Padre FERNÃO GUERREIRO DA COMPANHIA DE JESUS, NATURAL DE ALMODÔVAR DE PORTUGAL NOVA EDIÇÃO DIRIGIDA E PREFACIADA POR ARTUR VIEGAS TÔMO TERCE IR O 1607 A IÓOÇ Imprensa Nacional
  • OFERTA 225385 Desta ediçío lèz-se uma tiragem especial de 100 exemplares de papel de linho, numerados e rubricados
  • RELACAM ANNAL DAS COV- SAS QV E FIZERAM OS PAI) R ES da Companhia dc Iesvs, nas partes da índia Orien- tal,& cm algúas outras da conquifta dcftc Rcvno nos annos dc 607. Sc 60 8. & do procedo da contierfaõ & Chriftanu-uc daqucllas partes,com mais búaaddiçam á rclaçam dc Ethiopia. TIXADO TVDO DAS CARTAS DOS MES- mos Paires que ie la vierao, orienalo pello Paire Fern Guerreiro ia Companhia ie J ES V, natural de lAlmoiouar ie Portugal. Day diuidida em finco liuros, O primeiro da prouincia dc Goa, cm que fc contem: miíToífs dc Manomotapa.Mogor, &: Etluopia. O fegundoda prouinciadcCochim, emque íc contcm as coulãs do Malabar, Pcgu, Maluco. O terceiro das prouincias dc Iupam, ôí China. O quarto cm que fiflfcícrcm as coufasde Guine,& (cr- ra Leoa. O quinto, cm que fc contcm húa addiçao a relação dc Ethiopia. Coinlicen^a iaf.uitfa Jnquifi^am, Orimario, & Paço. Em Lisboa: ImpreíTo por Pedro Crasbccck. Ann» M. d c x 1. Edi taixadocílcliurocin itfo.rcis cm papel. 5 Fac-simile do frontispício do quinto volume da Relacáo Anual do Padre Fernão Guerreiro [Tomo III, p. v] o
  • RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS PADRES DA COM- panhia de JESUS nas partes da índia Oriental, e em algumas outras da conquista deste reino nos anos de 607 e 608, e do processo da conversão e cristandade daquelas partes, com mais uma adição à relação de Etiópia Tirado tudo das cartas dos mesmos padres, que de lá vieram, e ordenado pelo Padre Fernão Guerreiro da Companhia de JESUS, natural de Almo- dôvar de Portugal H Vai dividida em cinco livros. O primeiro da Província de Goa, em que se conteem as missões de Monomotapa, Mogor e Etiópia. O segundo da Província de Cochim, em que se conteem as coisas do Malabar, Pegu, Maluco. O terceiro das Províncias de Japão e China. O quarto, em que se referem as coisas de Guiné e serra Leoa. O quinto, em que se contém uma adição à relação de Etiópia. (Corresponde ao 5.° volume da i.* edição) II Com licença da Santa Inquisição, Ordinário, e Paço. Em Lisboa, impresso por Pedro Crasbeeck. Ano MD CXI.
  • LICENÇAS Vi esta relação anual das coisas que fizeram os Padres da Companhia nas partes da índia Oriental; e também a adição sôbre as coisas de Etiópia, e não há nela coisa contra nossa santa fé e bons costumes, antes se contam particulares casos em que se enxerga a providência admirável do Senhor na salvação de seus predestinados, que são de muita edificação, e será bem imprimirem-se para honra de Deus, e consolação dos fiéis.. Em Lisboa s3 de Dezembro de 1610. Frei António de Saldanha. Vista a informação, pode-se imprimir este livro da relação anual das coisas que fizeram os Padres da Companhia de Jesus nas partes da índia Oriental; e depois de impresso torne a êste Conselho, para se conferir com o próprio, e dar licença para correr, e sem ela não correrá. Em Lisboa, aos 10 de Janeiro de 611. * Bertholameu Dafonsequa. Pode-se imprimir, vista a licença acima do Santo Oficio. A i3 de Janeiro de 6ij. Saraiva. Pode-se imprimir êste livro, vista a licença que oferece do Santo Ofício, e ser visto na Mesa, e antes de correr, tornará a ela, para se taxar. Em Lisboa a i5 de Janeiro de 611. F. Magalhães, Francisco Vaz Pinto, Machado, Barbosa. € Eu Jerónimo Dias da Companhia de Jesus, Provincial desta Província de Portugal, por particular comissão que para isso tenho do muito Reverendo Padre Cláudio Aquaviva, Prepósito Geral da mesma Companhia: dou licença para que se imprima a Relação Anual das coisas da índia, Japão, China, Etiópia, Guiné, que fizeram os Padres de nossa Companhia, na conversão dos infiéis daquelas partes, e a adição à relação de Etiópia, o qual tudo pós em ordem o Padre Fernão Guerreiro da mesma Companhia, e tirou das cartas que os Padres que por aquelas partes andam, nos enviaram; a qual relação e adição foi também examinada e aprovada por pessoas doutas e graves de nossa Com- panhia, conforme ao costume dela. E por verdade disto dei esta assinada de meu sinal. Em Lisboa a i5 de Abril de 611. Hieronymo Dias.
  • AO LEITOR SSIM como a conversão da gentilidade ao conhecimento de Cristo Nosso Senhor nas partes Orientais da índia e mais conquistas dêste Reino, se vai continuando e crescendo cada vez mais por meio dos trabalhos contínuos e pia indústria dos filhos desta mínima Companhia de Jesus: assim e' justo que se continuem também as relações anuais que destas coisas todas estes anos atrás imos fazendo, em que delas se dá notícia; pois para todos os fiéis não só dêste, mas de todos os mais da Cris- tandade, são de tanta edificação e consolação, e para os herejes de tanta confusão. E assim nesta que aqui oferecemos, tem o pio leitor muita matéria de louvar e glorificar a Nosso Senhor, e pela variedade das coisas, ainda também muita de gôsto e recreação pia e santa. Trata-se o que se fêz no Japão e China pelos anos de 607 e 608, e o que se fêz na índia, Etiópia e Guiné nos de 608 e 609, porque como as terras são distantes, e as navegações tão incertas, não podem sempre as cartas vir ao justo para que as coisas dos mesmos anos, que em diversas partes se fazem, se possam referir juntas. Mas, como não fiquem em silêncio, e se dê notícia delas, não vai muito que seja mais ou menos cêdo, pois tudo sempre fica resultando em honra e glória de Nosso Senhor, que é o fim principal por que as escrevemos. Taxa-se este livro em duzentos e sessenta réis em papel. Em Lisboa a 10 de Maio de 1611. Barbosa, Machado, F. V. Pinto, Veiga.
  • * L I V R O PRIMEIRO DO QUE PERTENCE À PROVÍNCIA DE GOA E SUAS MISSÕES CAPÍTULO PRIMEIRO Da Província de Goa e do que nela se fê\ EM a Companhia nas partes do oriente três Províncias; a de Goa cabeça do Estado, a que chamam do Norte; a de Cochim, ou do Malabar, que é a segunda, a que chamam do Sul; a terceira é a do Japão e China. Em tôdas elas se ocupa a Companhia, assim em ajudar e cultivar os cris- tãos já feitos, como em procurar a conversão de outros de novo. E tratando em particular da Província de Goa, ha- verá nela perto de duzentas e sessenta pessoas da Companhia, repartidas em nove casas e colégios e duas missões; convém a saber: na casa professa de Goa trinta e sete; no colégio de São Paulo da mesma cidade, noventa e duas; na casa dos noviços, que também está em Goa, trinta e três; no colégio do Espírito Santo de Salsete, vinte e duas; no do Jesus de Baçaim, vinte e quatro; no da Madre de Deus de Taná, com suas residências, quatorze; no das onze mil Virgens de Damão, oito; na Casa de S. Pedro e S. Paulo de Chaúl, oito; na do Espírito Santo de Diu, oito; na Missão de Etiópia, cinco; outras tantas na de * Mogor. Em cada um dêstes postos, como os padres, além do que per- fi.it. tence à sua perfeição própria, não tratam de outros negócios, nem se ocupam em outra coisa que em ajudar o próximo, é muito grande o fruto que sempre se colhe, assim no trato com os cristãos portugueses e naturais, como na conversão dos gentios. Em cada um dêstes colégios se ensinam as faculdades de que a terra é capaz. No de São Paulo de Goa se lê latim, artes, teologia e casos de consciência, e também há escola dos meninos de ler e escrever; em Baçaim, casos de consciência, latim e escola de meninos; em Damão e Diu latim; e* os que residem no colégio de Salsete, que são vinte padres, se ocupam todos em cultivar a cristandade daquelas terras, que são como que quarenta mil cristãos divididos em dezasseis frèguesias, onde fazem o ofício de vigário; e paga-lhes Deus mui bem o grande trabalho que teerri com êles, com o pro- veito que se vê naquelas almas, e devoção grande que mostram nas coisas da Fé os que havia tão pouco tempo que adoravam paus e pedras. Celebram-se em algumas destas igrejas os ofícios divinos e as solenidades e festas eclesiás- ticas, ofícios da Semana Santa e festas do Santíssimo Sacramento, com tanto concurso, devoção e aparato, que até aos portugueses, que de Goa as vão ver,
  • 2 Das coisas de Goa põem em muita admiração. Entre vários casos notáveis que sempre aconte- cem, e que por brevidade se deixam, foi um, que fugindo do lugar de Apolona para a terra dos mouros quatro casas inteiras com suas famílias, adoeceram quási todos, e, estando assim doentes, afirmam êles que lhes aparecia todas as noites um como padre da Companhia, o qual lhes dizia: «tornai para vossa aldeia e tereis saúde vivendo entre cristãos; e assim foi; porque, tanto que de- •fi.2. terminaram de se tornar, logo sararam; e com tanta pres*sa deixaram a terra firme, que lhes ficaram as novidades por recolher. Em Goa, estando um homem para morrer, se viu em tanto aperto com a representação e lembrança dos muitos e graves pecados que tinha cometido contra Deus, que chegou a ponto de desesperação. A mulher que o viu neste estado e era temente a Deus, mandou logo chamar um padre, o qual, entrando pela porta da casa onde o enfermo estava, a primeira coisa que o pobre homem disse foi preguntar-lhe: «padre, que buscais aqui? não tendes que fazer comigo, que eu já estou condenado, porque aqui está o demónio que me diz que já não tenho remédio e que cedo me verei no inferno». O padre, animando-o con- forme ao que a presente necessidade requeria, lhe pôs diante um crucifixo, o qual o enfermo lançava de si com a mão, virando os olhos e rosto para a parede, com grande lástima e mágoa do padre e de todos os que estavam presentes; e por mais que o padre lhe dizia e falava, ele lhe não dava ouvidos a coisa alguma, dizendo que já estava condenado e que para êle já não havia lugar nem esperança de misericórdia. O padre se pôs logo de joelhos em oração e a rezar umas ladainhas, e chegando àquele passo, ab insidiis diaboli, libera eum, Domine, deu o enfermo um grande brado, dizendo três vezes o Santíssimo Nome de Jesus. Acudiu logo o padre com o crucifixo, dizendo-lhe que ali estava Jesus por quem bradava, que com grande confiança lhe pedisse miseri- córdia e perdão de seus pecados, que nêle a tinha certa, pelos merecimentos da sua Sagrada Paixão: com o quê o pobre homem tornando sôbre si, com grande dor e arrependimento de suas culpas se confessou logo, e como nome de Jesus na bôca, abraçado com um crucifixo, passou desta vida. Quási o mesmo acon- teceu a ou*tro que havia muitos anos vivia mal, e, vindo a adoecer, lhe manda- ram chamar um padre ao qual êle, em o vendo diante de si, disse: «eu, padre, nenhuma esperança tenho de me salvar, porque não cuido que me perdoará Deus meus pecados, porque são tantos e tão grandes, que para mim não pode haver misericórdia; por isso não tenho para que me confessar». O padre, com muita brandura, o foi pouco e pouco abrandando e consolando e mostrando quam grande é a misericórdia de Deus para quem se arrependesse e lha pedisse; e assim o chegou a estado que se confessou com muitas lágrimas e arrependi- mento de suas culpas, e mudou a vida de modo que a todos os que o conhe- ciam edifica. O fruto que nesta província se colheu na conversão dos gentios nestes dois anos foi de dois mil e seiscentos e vinte e três, que em Goa, Salsete e nas outras partes se trouxeram à nossa santa Fé; convém a saber: em Goa, mil e trezentos; nas terras de Salsete, mil e cento; em Baçaím, trezentos; em Taná, duzentos e vinte; em Damão, cento e cincoenta, e entre êstes um ladrão sal- teador de caminhos que tinha morto alguns para os roubar, e, sendo preso
  • Das coisas de Goa 3 por seus delitos e levado ao lugar onde havia de ser justiçado, teve a sorte do bom ladrão, porque ali, por meio de um padre que o acompanhava, conheceu a Cristo crucificado por seu Deus e Salvador e pediu com grande eficácia o santo baptismo, o qual êle, catequizado conforme a brevidade do tempo, com grandes mostras e sinais de arrependimento de suas culpas recebeu no ponto em que lhe lançaram o baraço, e assim acabou a vida o ditoso ladrão. Além das portas que estão abertas por todo o Oriente para à prègação do santo P>vangelho, este ano se ofereceu uma de novo, que, vindo a efeito, será de muito pro*veito e glória do Senhor, a qual é a seguinte: naquela parte da *fi.3. Caldea que de Babilónia corre para o estreito de Baçurá, por onde o rio Eufra- tes juntamente com o Tigre entram no mar da Pérsia, há muito grande número de cristãos que se intitulam de S. João Baptista, sujeitos a um rei de Arábia, que se chama Ceidmorabeva. Desejam muito êstes cristãos a união com a Igreja Romana, e quem para isso os instrua e alumie em seus erros, que devem ser muitos conforme ao muito tempo que andam apartados dela. E não sòmente os há naquela parte, mas correm também por tôda a Mesopotâmia e outras províncias. Estão êstes cristãos e o rei deles também muito oprimidos de alguns turcos que no estreito de Baçurá teem fortaleza; pelo quê, por vezes, êles e o mesmo rei mandaram seus embaixadores ao estado da índia a pedir favor ao governador, de alguns navios de guerra, para com êles segurarem e passarem certa parte do estreito e assim lançarem dali os turcos, o que com esta ajuda lhes será fácil e para o Estado da índia de muita importância, assim pela reputação dêle, como pelo proveito temporal; porque o rei quere ser vas- salo desta coroa e dar fortaleza no mesmo estreito de Baçurá aos portugueses. Juntamente escreveram ao padre provincial da Companhia, pedindo-lhe favore- cesse e ajudasse ao seu embaixador para com o governador e padres, para os instruírem na inteireza e pureza da Fé que devem ter e professar. E o que mais isto certificou foi um português chamado André Pereira, que indo de Portugal à índia por terra e passando por aquelas partes, tratou com aqueles cristãos e entendeu dêles êstes seus tão bons desejos e intentos. Pelo quê, com muito zêlo se lhes ofereceu para os ajudar em tudo quanto pudesse. E assim, depois de vir à índia a certos negócios, se tornou logo à Cal*dea, para ser com- *fi.3v. panheiro de um Bispo que êstes cristãos pretendiam mandar a Sua Santidade a dar-lhe obediência e daí a sua majestade, para pedir o favor necessário para sua redução. A esta província de Goa pertencem as duas missões que a Companhia tem à sua conta, uma na corte e terras do Grao-Mogor, outra na corte e reinos de Etiópia e outra nova que êste ano se instituiu nos reinos de Manomotapa; e porque de tôdas se dirá largamente daqui por diante, não nos estenderemos aqui mais em muitas outras coisas particulares que se puderam dizer desta província, por entrarmos logo nas missões.
  • 4 Das coisas de Monomotapa CAPÍTULO II Da nova missão ao reino de Monomotapa e Moçambique MUITOS anos havia que os superiores desta província desejavam se ofe- recesse alguma boa ocasião para restaurar a missão de Monomotapa, à qual deu princípio o santo mártir padre Dom Gonçalo da Silveira; porém, a perfídia dos mouros urdiu tal teia, que, começando êste bemaventu- rado padre com tão felizes sucessos, como foram o baptismo do próprio rei com muitos outros de sua corte, em breve se tornou tudo a desfazer e se cor- taram as esperanças, que então se tinham, da conversão daquele império; porque Fi.4. o rei, engana*do por eles, mandou matar o santo padre e juntamente degolar cincoenta cristãos que no mesmo dia em que foi martirizado baptizara. Sabida sua morte em Goa e o arrependimento que o rei mostrava, o padre António de Quadros, que então era provincial, logo no Janeiro seguinte que foi o de i562, mandou àquele reino os padres Pero de Toar e Luís de Góis, com os quais se foi também ajuntar o padre André Fernandes, que estava na cristan- dade do reino de Inhambane; e continuaram a missão por algum tempo, até que o conde de Redondo, sendo vizo-rei da Índia, pelos recados que teve de Portugal, ordenou ao padre provincial os mandasse vir; e a causa foi, porque, como el-rei D. Sebastião, que então reinava, tratasse de fazer guerra àquele rei, pelo insulto que tinha feito em matar o padre e por outros respeitos, não era conveniente acharem-se os padres na sua corte, no tempo que o iam castigar e conquistar. Foi escolhido para general desta empresa e conquistador daquele reino Francisco Barreto, que fora governador da índia, o qual no ano de 1570 partiu dêste reino com sua armada, levando consigo, por ordem de el-rei D. Sebastião, quatro da nossa Companhia, convém a saber: o padre Francisco de Monclaro e o padre Estêvão Lopes e dois irmãos, os quais, em todo o tempo que viveu o capitão da conquista, continuaram também nela fazendo seus ministérios, pôsto-que não era mais que com o nosso exército. Depois disto, foram êstes padres chamados para a índia, por seus superiores, mas nomeando el-rei por capitão da conquista a D. Fernando de Monrói, mandou também que tornassem com êle os mesmos padres pela boa informação que deles tinha, o que não teve efeito, por morrer D. Fernando, até se nomear • fi. 4 v. outro em seu lugar. Tratou-se depois, por vezes, nas congregações * daquela província de se tornar a restaurar esta missão àqueles reinos, mas sempre houve impedimentos para se não efeituar. Ultimamente de quatro ou cinco anos a esta parte escreveram os cristãos que estão pela terra dentro ao padre provincial da Companhia que lhes quisesse mandar padres que os fossem doutrinar, porque o desejavam muito e estavam prestes para receberem sua doutrina; porém os cercos que os holandeses puse- ram à fortaleza de Moçambique, não deram lugar para se poder fazer isto. Mas, indo êste ano passado por vizo-rei da índia Rui Lourenço de Távora, fidalgo mui pio e zeloso do bem da cristandade, e movido com a informação que levou de Moçambique, onde invernara, das primeiras coisas que fez em
  • Das coisas de Monomotapa 5 chegando à índia, uma delas foi tratar de se renovar a conquista dêste reino, como sua majestade lhe mandava e juntamente que nossos padres tornassem a esta missão e que se fizesse uma casa da Companhia em Moçambique em que residissem alguns de ordinário e outros fossem no exército que sua majestade mandava àqueles reinos. E, para este negócio, assim da conquista, como da conversão, se tratar tão de propósito, a ocasião foi esta: aconteceu que os gran- des e senhores daquele reino de Monomotapa se levantaram contra seu rei e o queriam deitar fora do governo. Vendo-se ele neste apêrto e não lhes podendo resistir, se recolheu para aquela parte do reino que confina com Tete, cidade onde os portugueses residem e teem seu forte. Entre êstes havia um mui rico e amigo de el-rei, chamado Diogo Simões, o qual o ajudou e favoreceu muito na guerra contra os alevantados, pelo qual e em agradecimento de tamanho benefício, o rei ofereceu a sua majestade algumas minas, como são principal- mente as da prata que estão na terra chamada Chicoa, e se fizeram disso escri- turas de parte a parte que foram mandadas * a sua majestade. Pelo qual «fi.s. ordenou sua majestade e fez conquistador daqueles reinos a D. Estêvão de Ataíde, que fôra capitão de Sofala e tinha muita notícia e experiência, daquelas partes. O qual, significando também ao vizo-rei Rui Lourenço de Távora o desejo que tinha de levar consigo os padres da Companhia, estimou sua senhoria muito seu alvitre, por ser tão conforme com o seu desejo; tratou logo com os superiores da Companhia para que lhe dessem os padres necessários, como foram o padre Francisco Soares, que fôra reitor de Salsete, por superior de tôda a missão e o padre Diogo Rodrigues e Paulo Rodrigues, e que êstes todos três ficassem em Moçambique, fundando e povoando a casa que ali se ha-de fazer, para benefício dos casados e naturais da terra, das armadas do reino e da índia e doentes delas que ali veem ter e para dali governarem e proverem a missão de Monomotapa pela terra dentro, e outros dois para irem com o exército, que são os padres Francisco Gonçalves e Paulo Aleixo. Quanto fundamento haja para se poder esperar que esta empresa será de muito efeito para glória de Nosso Senhor e salvação e conversão de muitas almas e ainda bem temporal dêste reino, em razão das muitas minas de oiro e prata que naquelas partes há, se pode ver da boa disposição em que aquele reino está para tudo isto e tão diferente do que esteve antigamente. Porque da parte do rei de Monomotapa, êle mesmo é o que procura e pede que os portugueses vão à sua terra a tomar posse das minas que lhes oferece, e os estima tanto para sua segurança, que só nêles é que a tem contra seus vassa- los alevantados; e por isso lhes pede e roga que, como em terra própria sua, façam fortalezas onde quiserem, até nos lugares perto da sua corte. E com o socôrro que os portugueses lhe teem * dado, tem muitas vezes desbaratado seus rebeldes e os há já por tão naturais e fiéis que lhe não parece bem vê-los sem espingardas; e assim caminham e passeiam os portugueses por todo aquele reino, ainda pelas terras que não estão conquistadas, nem até agora seus mora- dores são vassalos de sua majestade, como caminham e andam pelas outras que já o são; porque, com levarem alguns escravos de arco e frechas e algumas espingardas para sua segurança, por causa de alguns ladrões que andam der- ramados pela terra, são tão temidos e respeitados, como se levaram muito
  • 6 Das coisas de Monomotapa maior poder; e assim andam e entram pacificamente pelo sertão daquele grande império, e assim são agasalhados de todos e providos de mantimento, como se foram naturais e senhores da mesma terra. Da parte dos naturais parece que muito pouca ou nenhuma resistência haverá para receber nossa santa Fé, pelos poucos ritos gentílicos que entre êles há. E a experiência tem mostrado, dos que veem a poder dos portugueses, que em nenhuns houve resistência ou difi- culdade para serem cristãos, nem falta mais àquela grande gentilidade que quem semeie nêles a palavra do Evangelho, porque pela mor parte são bem inclinados, nem tratam de mais que de suas lavoiras e pastos, porque sua riquesa é criar gado, de que há infinita quantidade, principalmente vacas. O clima da terra em quási todo o sertão é sàdio, a terra viçosa e de muitas ribeiras, muitas águas e arvoredos, e em algumas partes se dão canaviais de açúcar, porque, sem diligência e indústria, os produz a terra em abundância. E porque anti- gamente o maior impedimento que houve, assim para a conquista espiritual das almas, no tempo do padre Dom Gonçalo, como para a temporal das terras e minas no tempo de Francisco Barreto, foram os muitos mouros que então • fi. 6. havia * naquele reino, porque estes enganaram ao rei depois de baptizado e lhe persuadiram que mandasse matar o beato padre, e êstes depois deram peçonha a todo o nosso arraial em leite e outros mantimentos, de que morreram mais de duzentos homens, tudo por impedirem a entrada dos portugueses naquelas terras e êles sós ficarem senhores da riqueza delas, como então eram; este impedimento não há já agora, porque, ainda que os portugueses, depois da morte de Francisco Barreto e seus sucessores não continuaram por armas a conquista de todo aquele reino, nunca porém tornaram a perder o que até então tinham conquistado, que são mais de cento e cincoenta léguas pela terra dentro, mas só aos mouros foram conquistando e consumindo de sorte que, com dantes haver tantos e tão poderosos naquele reino, agora não há senão pouquíssimos e pobríssimos, e que não vivem mais que com o que os portu- gueses lhes permitem, de modo que nem com o rei teem entrada, nem na terra poder algum com que possam dar algum estorvo à conquista temporal nem à espiritual do Evangelho, como o deram antigamente e o dão em todas as partes do oriente, onde êles teem entrada e poder. CAPÍTULO III Da missão do Mogor NA missão do Mogor continuam os quatro padres da nossa Companhia que há anos por lá andam, passando os trabalhos que nela teem e o ,F1 6t. destêrro em que vivem com paciência * e esperança: paciência, porque, como a mata daquela moirama é tão espêssa, que não há podê-la romper nem entrar com ela não podem tirar de seus trabalhos tanto fruto como desejam; esperança, pela que lhes dá o favor e benevolência com que são tratados daquele tão poderoso rei, que, se tiverem efeito as boas demonstrações qne lhes dá, não poderá deixar de ser mui grande o fruto que adiante se colherá. Esteve
  • Das coisas de Mogor 7 este rei poi alguns meses no reino de Chabul, aonde fôra, e nesta jornada, como os padres o não acompanharam, se ficaram todos quatro em Lahor, onde, emquanto el-rei esteve ausente, gozaram de muita quiètação no espírito, exer- citando os ministérios da Companhia com aqueles cristãos, com tanta segurança como se fora numa cidade católica da Europa. Vindo el-rei, o saíram a rece- ber duas léguas antes de chegar à cidade, para lhe darem os parabéns de sua vinda; e chegando a ele, os recebeu com singular gasalhado, parando o cavalo por algum espaço, como também o fizeram seus filhos e todos os mais, e abra- çando-os a seu modo, que é pondo-lhes a mão nas costas e preguntando-lhes mui familiarmente por sua saúde. Apresentaram-lhe os padres um livro em párseo que tinham feito, das vidas dos Apóstolos, com muitos registros de seus passos entressachados nele, o qual mostrou esiimar muito. Chegando a Lahor determinou de mandar um em- baixador ao vizo-rei da índia, e para isso escolheu um homem de muita autori- dade; e chamando os padres lhes deu conta do que tinha assentado e que seria gosto seu um deles ir em companhia de seu embaixador, qual entre si escolhes- sem. Não puderam os padres deixar de lhe dar este gôsto, além disto também vir a propósito para bem desta missão. Foi eleito para vir com o embaixador o padre Manuel Pinheiro. O fim da embaixada não é mais que para tratar de amizade com o Estado, e à volta disto lhe levarem * coisas curiosas das que «fi. 7. na índia, e entre os portugueses se achassem. Partiram-se logo e já ficavam na índia, posto que não tinham chegado a Goa. Deu el-rei ao padre Manuel Pi- nheiro algumas peças, que, em seu nome, levasse aos padres da índia, e, aos demais padres outras, para que as mandassem a seus amigos. Partidos os embaixadores e seguindo-se logo a festa do Natal, celebraram-na os padres com toda a devoção que foi possível, concertando a igreja de maneira que aos mes- mos moiros dava muito que falar, por quam diferente estava do que estão suas mesquitas. Fêz-se um presépio mui devoto e concorreu a êle grande número de gente. E, ainda que el-rei o não veio visitar, mandou algumas velas de bela cera para arderem diante dêle e algumas imagens formosas para o ornarem: coisas que aos cristãos consolou e aos moiros enfadou muito. Os cristãos se confessaram todos para esta festa, e assistiram à Missa do Galo que se disse cantada com música de frautas, charamelas e vozes. Antes dela houve muitas maneiras de fogos no adro da igreja, que de muito longe se viam, com grande estrondo de atambores e atabales, que em terra de cristãos se não pudera fazer mais con- fiadamente; e, por ser numa cidade tôda de infiéis e no meio de tão grande moirama, se pode ter por coisa de mui grande glória de Nosso Senhor e obra da infinita virtude de sua santa Fé. Ao tempo dos fogos vieram alguns moiros honrados, dos quais um se não quis ir até não ver o ofício das matinas, que se disse cantando um verso em vozes, outro em frautas muito bem. A todo êle assistiu o moiro e à prègação que se fez. Porém ao tempo da missa, pedin- do-lhe com boas palavras que se fosse, êle o fêz com cortezia, mas logo tornou dissimuladamente, e sem os padres o saberem assistiu a tôda a missa, ficando tão edificado de tudo o que viu, que disse logo aos padres que êle, de * verdade, .F1.7T. no coração era já cristão e que por isso o deixassem assistir às orações e ofí-
  • 8 Das coisas de Mogor cios, divinos que faziam. E posto que ainda não é baptizado, trata com os cristãos com muito amor e respeito. Passado o Natal, publicou el-rei sua ida para a cidade de Agra, que é o segundo assento real de seu império. Avisou os nossos e quis que um deles ficasse com a igreja e cristãos de Lahor; os outros dois o acompanhassem na jornada. E, para levarem seu fato, lhes mandou dar quatro camelos e um cavalo. Partiu el-rei diante com seu exército, como costuma, mas por todo o caminho vai caçando com todo o género de caça de volataria e com onças e outros animais, além dos arcos e frechas, E, como el-rei ia tão de vagar, os padres, ainda que partiram depois, em poucos dias o alcançaram; e por el-rei lhes fazer festa, lhes mandou um dia à sua tenda, em cima de um elefante, dois porcos mui formosos que êle mesmo matara, que, por ser nos dias do entrudo, foi bom gasalhado para a gente de obrigação dos padres. Daí a oito ou dez dias o chamou uma noite e dentro de sua tenda, onde estava com seus capitães, tinha estirados alguns quinze porcos do mato e alguns veados que naquele dia matara. Disse aos padres que mandassem levar dali o que quisessem; agrade- ceram-lhe os padres, mas, como era já na quaresma, lhe responderam que os que mandara os dias atrás foram ainda a bom tempo, mas que daqueles se não podiam já lograr, por ser tempo da quaresma, em que os cristãos não comiam carne. Com esta ocasião tratou e preguntou mui de propósito da quaresma e jejum dos cristãos e de tudo o que nela se fazia, mostrando gosto de saber as miiidezas e particulares que os padres nesta matéria lhe declaravam. Depois * fi. 8. disto continuaram os padres sua jornada com el-rei, e como o tempo * era de penitência, tiveram ocasião de a fazer mui boa, porque, como não comiam carne, tôda a quaresma passaram com lentilhas e arrôs, e não comendo senão à noite, depois de se assentar o arraial, porque todo o mais tempo caminhavam; nem havia lugar para poderem aparelhar essa pobreza que haviam de comer; e o que mais sentiam era a falta de água, que por todo o caminho era tal que se não podia beber, senão por pura necessidade e apêrto de sede, porque qual- quer poço ou tanque ou rio que se achava, em chegando o exército, ficava tudo lama e era mercê de Deus achar-se ainda desta maneira; mas contudo isto foi Nosso Senhor servido que os padres chegassem a Agra com saúde, depois de haver perto de mês e meio que tinham partido de Lahor. Depois que el-rei prendeu ao príncipe seu filho, como na relação passada se disse, sempre em todas as jornadas e caminhos que faz, o leva consigo preso em ferros, e a muito bom recado em cima de um elefante e metido numa como gaiola: assim o fêz também neste caminho de Lahor para Agra, e quando che- gou ao lugar onde o dito príncipe pelejara com a gente de seu pai, em pena de tal desobediência lhe fêz ali mesmo cegar os olhos, molhando-lhos com sumo semelhante a leite de certas hervas, e o mesmo fêz a um grande capitão que primeiro foi seu muito privado, e depois o compreendeu na conjuração de alguns, que procuraram de o matar; ao qual, trazendo-o preso em ferros sôbre um burro ou mula mal concertada, neste lugar também o fêz cegar com o mesmo artifício. Chegando a Agra, se aposentaram os padres na casa e igreja que ali tinham, a qual igreja o mesmo rei, sendo príncipe, lhes mandara fazer e aqui foram continuando no exercício das coisas da Fé com os cristãos que ali teem
  • Das coisas de Mogor 9 ainda que poucos; mas o que principalmente é * digno de se referir são as várias -fi. 8». coisas que aqui passaram com el-rei, como nos capítulos seguintes iremos contando. CAPÍTULO IV Do sucesso de algumas disputas que os padres tiveram com os moiros diante de el-rei MUITO tempo havia que os padres desejavam de ter alguma ocasião, para em presença de el-rei poderem vir às mãos com os moiros, em disputa sobre a verdade da nossa santa Fé e falsidade da lei de Ma- famede. Esta acharam agora, depois que el-rei se aquietou em Agra, a qual durou mais de um mês, em que passaram muitas coisas dignas de se contarem, com que os nossos confundiram os moiros, que, pôsto-que nem por isso se converteram, por sua dureza e obstinação os não deixar render à verdade da Fé, pelo menos ela se ficou manifestando com muita glória de Cristo Senhor Nosso. Teve o negócio princípio, do gosto e curiosidade com que el-rei folga de ver as pinturas dos papéis e registros de coisas sagradas que os padres lhe apresentam, por saberem o muito que êle os estima. E assim, mandando vir uma noite um golpe de registros de nossos santos, estando-os vendo, como êle os não entendia, mandou chamar os padres, para que lhos declarassem. Acertou de ser o primeiro papel de santos que lhe mos- trou, um em que estava pintado David, pôsto de joelhos diante de Natham, profeta, quando lhe disse: Dominus transtulit peccatum tuum a te; e come- çando o padre a contar a história, um capitão moiro tomou a mão e quis ir adiante com ela da maneira que seu alcorão a conta; e vendo o padre quam longe ia da verda*de, pediu licença a el-rei para êle a contar conforme a pureza »h. 9. de nossas santas Escrituras; deu-lha el-rei, e como o padre chegou a referir o pecado do adultério, que David cometera com Bersabé, começam a gritar os moiros dizendo: mentira, mentira, porque os profetas nunca pecaram nem podiam pecar. Tornou-lhes o padre: como? < vós-outros não confessais que David chorou? — sim, responderam êles, mas não foi pelo pecado que come- tesse no adultério, senão pelo que cometeu no homicídio. Pois, respondeu o padre, se vós confessais que cometeu pecado no homicídio, logo pecou, contra o que agora acabastes de dizer, que os profetas não pecaram nem podiam pecar; e assim também não podeis negar que, quem cometeu um género de pecado, pode cometer outro. Além disso, vós-outros dizeis que David teve desejos de pecar; logo, diante de Deus já pecou, pois a seus divinos olhos tão manifesto é o desejo do coração como a nós o efeito da mão. Além disso, se os Anjos, com serem de tão perfeita natureza e estarem dotados de tantos dons naturais e sobrenaturais, contudo pecaram, ,jquanto mais podem pecar os profetas que são homens? Sobretudo, jcorao quereis vós-outros negar de David o que êle tantas vezes confessa de si em seu saltério, e não acaba de chorar o que é pecado contra Deus ? a
  • 10 Das coisas de Mogor Ficaram mui embaraçados e confusos, sem saber responder. Tem êste rei consigo um homem mui grave e grande letrado que o serve de lhe ler his- tórias, assim de noite, quando quere dormir, como de dia, quando quere des- cançar, que parece ofício semelhante ao que se toca no livro de Ester que fazia el-rei Assuero que lhe lessem seus anais. E já o rei velho, pai deste que agora reina, estimava muito a êste letrado, assim por suas letras, como por ser .fi.qt. da casta de Mafamede e lhe servia também dêste oficio, por quam visto * é em todo o género de histórias. Êste, pois, no tempo que o padre acabou de dar as razões acima ditas contra o disparate que os moiros tinham dito, disse a el-rei: senhor, os cristãos não teem o Evangelho nem o saltério nem os livros de Moisés senão todos corrutos; ao que o padre respondeu: não é tal, senhor, porque os cristãos darão cem mil vezes a vida, antes que consentirem mudança alguma numa só letra dos livros sagrados. Aqui acudiu um dos outros: vós padre, bem creio que não fizestes isso, nem vossos antepassados, nem o povo; mas os vossos reis são os que o fazem. Não é tal, respondeu o padre, por- que os nossos reis não se metem nas coisas da lei, nem dos livros dela, antes nisso são tão obedientes como todos os outros. Aqui, tomando el-rei a mão, começou a falar e preguntar ao padre várias coisas, que, como foram preguntas de um tão poderoso rei e feitas em favor da nossa santa lei, ainda que por outra parte não pareçam mostrar tanta gravi- dade real, contudo julgámos que, assim para se ver seu ânimo nas coisas da Fé, como o sucesso que teve a disputa com os moiros, as não devíamos de deixar de referir. Preguntou pois neste passo el-rei aos padres: jvós-outros os cristãos, que dizeis de Mafamede? — Respondeu o padre: senhor, o que dizemos é que Ma- famede foi um homem que se quis fazer profeta. — Logo não o foi? tornou cl-rei.— É verdade, senhor, respondeu o padre, que não foi profeta. — Logo foi profeta falso, repetiu el-rei. — Senhor, sim, repetiu o padre. El-rei, sorrin- do-se, tornou: foi profeta falso? — Senhor, sim, respondeu o padre; foi profeta falso. Tudo isto fazia el-rei por zombar de Mafamede e dos moiros, que neste tempo estavam estrugindo os dentes contra o padre. E aqui se não pôde ter aquele lente de el-rei que não acudisse; e chegando perto de el-rei, lhe disse que o que o padre dizia era mentira, e que no próprio Evangelho havia novas • fi io. de Mafamede, que havia ainda de vir ao mundo. Preguntou el-rei ao * padre se era aquilo assim. — Não há tal, senhor, respondeu o padre, mas o que há é que não há-de vir ao mundo outro profeta verdadeiro com nova lei até o dia do juízo. Espantou-se el-rei disto e fêz-lho repetir algumas vezes e tornou lhe a preguntar se tinha a Mafamede por profeta. Dizendo-lhe o padre outra vez e muitas que não, o lente de el-rei se alterou de modo que disse a el-rei que não ouvisse tais coisas, porque quem as ouvia ficava infiel; e saindo-se enfadado, não apareceu mais ali aquela noite; porém na noite seguinte, continuando el-rei a matéria, tornou a preguntar ao padre em voz alta, que era o que sentia de Mafamede, porque o seu lente estava mui agastado contra êle, padre, do que lhe tinha ouvido, posto que o que dissera fora muito bem dito; ao que respon- deu o padre, que dizia o mesmo que na noite passada tinha dito. Aqui el-rei que parece se recreava de ouvir dizer mal de Mafamede, chamou o seu letrado,
  • Das coisas de Mogor que estava afastado, dizendo: vinde cá, Nagibuscão, (que êste é seu nome); ,jnão vedes o que dizem os padres que Mafamede é profeta falso? O moiro ouvindo isto, tapou os ouvidos, e ia-se, dizendo: êstes tais dignos de morte não há mister ouvi-los. O que caiu em tanta graça a el-rei que com riso batia com as mãos nos joelhos, e tornou-o a chamar, que se não fôsse. Aqui disse o padre a el-rei: senhor, êste negócio não se averigua com os espantos e ruindades de Nagibuscão, senão com razões e disputa. — Tem muita razão o padre, disse el-rei, e por isso, provai vós agora, Nagibuscão, como Mafamede é profeta. Começa o moiro a contar suas histórias e disparates do alcorão; e depois de ter falado um pedaço, fê-lo el-rei parar e disse ao padre que res- pondesse àquilo; o padre lhe respondeu dizendo: senhor, todas aquelas histó- rias são falsas e mentirosas; e indo para o provar, acudiu um moiro dos capi- tães que ali estavam, dizendo: é verdade que estas coisas não se pro*vam por *fi.i0*. histórias, porque os cristãos não teem por verdadeiras as nossas. E para con- firmar sua fé, alega com o milagre que êles contam de Mafamede, o qual dizem que foi que, caindo a lua do céu na terra, se fêz em pedaços e que Mafamede a tornara a soldar e passara pela manga; e ficando muito contente de si o moiro com cuidar que tinha provado tudo o que_queria de seu Mafa- mede, preguntou el-rei ao padre, que dizia àquilo: senhor, respondeu o padre, que é muito grande mentira, porque bem vê vossa alteza que é a lua tão grande, que se caíra do céu, houvera de tomar debaixo de si, não sòmente êstes reinos do Industão e índia cá do Oriente, mas muitas partes e reinos de Europa, onde não pudera deixar de haver memória de uma coisa, que, se assim acontecera, fora a mais rara maravilha que houvera no mundo; e ainda os próprios inimigos de Mafamede houveram de escrever e contar êste caso, como prodígio admirá- vel; mas não saberem de todas as nações do mundo nem o contarem mais que os moiros, claro está que é mentira e fingimento seu. Além disso, dizerem que era pequena, quando chegou à terra, a isso respondemos, que, se alguma coisa houve em que se fundem, que essa não foi a lua verdadeira, pois esta não se podia arrancar nem cair do céu, mas que foi prestígio, embaímento e engano dos olhos, com que Mafamede quis embair as gentes. Quadrou esta razão muito a el-rei e tornou-a a repetir. Houve sobre isto muitas práticas, falando uns de uma parte, outros da outra, aos quais todos el-rei dava audiência e o padre acudia, mostrando-se sempre el-rei satisfeito do que lhe ouvia. Aqui disse um dos capitães: forte coisa é esta, que os padres não hão-de dar crédito a nossos livros e nós havemo-lo de dar aos seus; não se pode disputar com êles. Quis entrar outro capitão com sua razão, mas outro lhe foi à mão dizendo: não venhais cá com isso a êstes que são letrados e sabem muito. Estava ali * presente também um capitão gentio; mandou-o el-rei chegar mais «fi.ii. perto de si e preguntou-lhe se tinha a Mafamede por profeta. Senhor, res- pondeu o outro: eu que sei de Mafamede? Tornou el-rei: ^ora dizei-me: con- tudo é profeta falso? O gentio, entendendo quanto el-rei gostava de zombar de Mafamede lhe respondeu: senhor, sim, é profeta falso; o que el-rei fes- tejou com muito riso. Estava junto de um dos padres um mancebo nobre; e ainda que lhe falou em Cristo Nosso Senhor, contudo, também lhe estava dizendo mal de el-rei por quam mal tratava a Mafamede. Olhou el-rei para
  • 12 Das coisas de Mogor êle e chamando-o junto de si, lhe ^preguntou que falava com o padre? O coitado tremia, mas respondeu-lhe que falava do Senhor Jesus. El-rei, não se confiando dele, preguntou também ao padre: ^que falava aquele mancebo com êle? O padre, tomando a melhor parte, lhe disse que falava de Cristo Nosso Senhor. Ora, diz el-rei ao mancebo, disputai com o padre. Viu-se o pobre sem saber parte de si, e contudo disse: senhor, eu sou moço, êle é letrado; jcomo posso eu disputar com êle? Preguntou-lhe se Cristo era Filho de Deus; e aqui ficou sem ir mais por diante; porém depois se foi ao padre, dando-lhe mil graças por não ter dito a el-rei os males que lhe falava dele, rogando-lhe lhos não dissesse nunca, porque ficaria destruído; e lhe ficou com tanta obrigação, que sempre depois lha mostrou em tôdas as ocasiões que disso tinha. E porque muitas vezes falava com os padres, um parente seu, quási o mais principal dos grandes de el-rei, o repreendeu, dizendo: se vós não sabeis o abe, ^como quereis falar e disputar com êstes, que são um mar de letras? Êle, contudo, ainda que no público fala pouco, não deixa às escondidas de ir buscar os padres e falar com êles sôbre as coisas da lei de que faz conceito, porque tem bom entendimento. Divulgaram-se muito estas disputas àcêrca de Mafamede pela cidade, porque duraram alguns dias, e quam mal os moiros • fi.iit. fi*caram delas; pelo que, por onde quer que os padres iam, todos os olhavam com maus olhos; et stridebant dentibus itt eos. E os padres entraram em pen- samentos de, cada vez que iam de noite da casa do rei para a sua, poderem achar no caminho o que tanto desejavam, que era a morte pela confissão de Cristo; mas não largou até agora Deus êste poder aos filhos das trevas, porque parece se quere ainda servir deles para maior manifestação da luz do mundo e glória de seu Unigénito Filho. Admirável coisa é, escrevem êstes bons padres, de quam fechadas teem êstes moiros as orelhas, para tudo o que se lhes diz contra Mafamede; de modo que, ouvindo bem tôdas as coisas de nossa santa Fé, só esta não podem sofrer; e se não fora pelo temor que teem de el-rei, mil vezes os tiveram mortos. Foram numa sexta-feira a uma mesquita grave para terem ocasião de falar destas coisas. Começaram os moiros a ouvir, mas em lhes tocando em Mafa- mede que não fora profeta, levantam-se sem ouvir mais palavra, e dizendo: não há que ouvir tais homens. CAPÍTULO V Disputa que se teve sôbre a imagem de Cristo crucificado e Sua Divindade EM outra noite correndo el-rei os registros acima ditos, chegou a um em que estava pintada a imagem de Cristo crucificado. E, como êle os ia dando aos padres para lhe declararem cada um por si, os padres tomando êste nas mãos, o adoraram com muita devoção, tirando os barretes e pondo-o em cima da cabeça, depois de sua declaração. Acudiu um daqueles moiros dizendo que se os padres e cristãos amavam tanto a Cristo Nosso Senhor, £ por- que o pintavam com aquela deshonra? Respondeu um dos padres: antes a
  • Das coisas de Mogor i3 mor honra que lhe podemos fazer é trazê-lo sempre diante dos * olhos em tal *fi. figura, porque, como Êle não padeceu isto por culpa sua, senão pelas nossas, nem contra sua vontade, senão oferecendo-se Êle mesmo à morte pelo amor que nos tinha, para^ com ela pagar por nossos pecados e nos dar exemplo a darmos a vida por Êle; por isso, cada vez que nos lembra, lhe damos mil gra- ças e o desejamos meter no coràção e não nos fartamos de olhar e pasmar de o ver assim na cruz; porque, se cá, senhor, ao vosso vassalo que por vos con- servar a vida se pusesse por sua vontade a perigos e deshonras, os tais perigos e feridas com que vos livrou, a êle lhe seriam de mor honra, recontá-los e mostrá-los, e a vossa alteza muito grato vê-lo assim ferido e de muita obriga- ção e motivo para lhe fazerdes mercês a êle e a sua geração, ^quanto maior a devemos nós ter a nosso Deus e Senhor que nos criou, pois, sendo Deus se fez homem e se pôs a padecer tantos trabalhos para nos ensinar, e recebeu tantas deshonras e feridas por nos remir e salvar, e tudo sem nós lho merecei mos ? jNão nos obriga isto, a com todo o nosso coraçao o amarmos e dar a vida mil vezes por Êle? Por certo, senhor, ninguém o poderá negar, e assim, por esta razão, a figura mais grata que nesta vida temos de Cristo Nosso Senhor, é esta que aqui vêdes dÊle, pôsto na cruz, a qual estimamos tanto, que se vísse- mos juntamente Nossa Senhora a Virgem Maria e a figura de Cristo crucificado, primeiro faríamos cortesia a esta figura que à mesma Virgem. Aqui um capitão espantado preguntou: ^Como, primeiro que à figura da Virgem ou primeiro que a ela mesma ? — Primeiro que a ela mesma, respondeu o padre. Grande encarecimento é êsse, tornou o moiro. — Não vos espanteis, disse o padre, porque nós não veneramos estas imagens por causa do material delas, que vemos muito bem não ser mais que papel ou pano com umas poucas de tintas, mas pelo formal que representam, que é a pessoa de Cristo * nosso *n. Deus e Senhor. Assim como vós cá aos formões ou provisões de sua alteza não os pondes em cima da cabeça por serem papéis com tinta, senão por neles reconhecerdes o mandado de sua alteza, e o que é sua vontade que se faça. Ouviu el-rei tudo isto com muita quiètação e aprovou tudo, dizendo que tudo ia conforme à razão. Tornou, porem, a replicar um capitão, preguntando. se Cristo assim morreu numa cruz com tanta deshonra,
  • Das coisas de Mogor parte; c continuando em suas razões disse: quanto a se chamar Cristo Filho de Deus, é por não ter pai na terra e nascer da Virgem Maria por modo tão maravilhoso. A isto acudiu um dos seus dizendo: dessa maneira, senhor, também os bichinhos que se geram na carne se poderão chamar filhos de Deus, porque não teem pai. — Não tendes razão, disse el-rei, porque êsses são coisas • fi. 13. que * vivem quatro dias e não teem nenhuma operação pela qual se hajam de chamar filhos de Deus. E parecendo lhe que tinha dito uma coisa muito acer- tada, preguntou ao padre se era aquilo assim como êle dizia; e porque o padre lhe disse que não, mostrou sentir-se, especialmente falando êle por nossa parte; mas como a matéria era tão grave, não sofria dissimulação; e assim, por isto, tornou el-rei a preguntar ao padre se o entendera. Respondeu-lhe o padre que sim, repetindo o que dissera: — ,;Pois vós que dizeis a isto? tornou el-rei. Senhor, responderam os padres, o que dizemos é que Jesus Cristo é verda- deiramente Deus. — jE está isso assim no Evangelho ? —Senhor, está, res- pondeu o padre. Aqui acudiu outro argumentando: se Jesus Cristo tivera feito alguns milagres que outros não fizeram, pudera-se dizer dÊle que era Deus; mas, todos os milagres que Ê]e fêz, fizeram também outros; logo não tendes razão de lhe chamar Deus. Este argumento lhe desfez o padre com lhe referir muitos milagres que Cristo nosso Senhor fêz em confirmação da sua divindade, os quais outros não fizeram. Preguntou mais el-rei, se Cristo nosso Senhor no Evangelho dissera de si que era Deus. Respondeu o padre que muitas vezes, ao que el-rei replicou com sua declaração, que dizíamos isto pelo muito amor que lhe tínhamos. Falou aqui um dizendo: senhor, isso que vossa alteza, diz bem dito está, se êstes assim o confessaram; mas êles não dizem isso, senão que Cristo é verdadeiramente Deus: e pregunte-o vossa alteza ao padre, verá o que diz. Respondeu el-rei: ,;que há que pregumar isso ao padre? êles lhe querem tanto que, ainda que os façam em pedaços, hão-de falar desta maneira, porque estão já sacrificados a Èle. Tornou o moiro: senhor, não só êstes que estão já sacrificados a êle, mas todos os cristãos dizem isto. Sabeis porque é isso? disse el-rei. — Porque todos, desde meninos, se criam com êste amor ao Senhor Jesus e com esta opinião de lhe chamarem Deus. * fi. i3 v. Mas não é de es*tranhar, porque bem vêdes que há aqui nestas nossas serras certos Darveres (êstes são como religiosos que professam servir a Deus) os quais de beberem duas porcelanas de bange, que é uma certa beberagem que alegra e tira o juizo, tais gestos e movimentos começam a fazer, que levam após si infinita gente e os teem por santos. Pois se víssemos um homem que ressuscitasse mortos com tanta facilidade como fazia o Senhor Jesus, ^quem duvida que todos diríamos que era Deus? E se eu, que não tenho visto os milagres que Ele fêz, só pelo que ouvi, lhe quero muito e lhe encomendo todos os meus negócios,
  • Das coisas de Mogor i5 CAPÍTULO VI Prossegue nas demonstrações que êste Rei fa^ no amor e afeição que tem a Cristo Nosso Senhor EM todas estas práticas em que se tratou da matéria acima dita mostrou sempre el-rei muito amor a Cristo Nosso Senhor e falava mui afoito no uso das imagens que entre os moiros são mui mal recebidas; e assim, vindo de Lahor e achando os seus paços de Agra mui bem concertados e pin- tados com várias pinturas que já estavam feitas e outras para se fazer, assim dentro como fora, em uma varanda aonde se assenta cada dia para ser visto do povo; quási todas estas pinturas eram de coisas sagradas, porque no alto do forro e no meio dele estava pintada uma imagem de Cristo Nosso Senhor mui perfeitamente acabada e com seu resplandor, rodeada de Anjos; e pelas paredes alguns santos em figura pequena, como S. João Ba*ptista S. António, S. Ber- • fi. u- nardino de Sena e outros, com algumas santas; em outra parte alguns por- tugueses mui bem pintados em figura grande; e na ilharga da parede, da parte de fora, onde está a janela em que el-rei se assenta quando sai ao povo, esta- vam dantes pintados alguns privados de el-rei ao natural, mas estes mandou el-rei apagar e em seu lugar pintar mui bem uns soldados portugueses mui bem dispostos e de grande estatura, de modo que se veem por todo o terreiro; e de cada ilharga da janela estão três; e em cima deles, na banda direita está pintado Cristo Nosso Senhor com o globo do mundo na mão, e da esquerda a Virgem Nossa Senhora tirada ao natural da de S. Lucas; e às ilhargas de cada uma destas imagens estão outras de vários santos postos como em oração. E porque a janela onde el-rei se assenta está feita à moda de charola e tôda pintada, tem nas ilhargas da mesma parede, pintados seus dois filhos, muito ricamente ao natural, e em cima de um deles, Cristo Nosso Senhor em figura pequena, e um padre da Companhia com um livro na mão, e sobre o outro a Virgem Nossa Senhora; e no côncavo da charola as imagens de S. Paulo, S. Gregório e S Am- brósio. E é de grande consolação para os padres, quando ali estão assistindo a el-rei, estarem juntamente rezando o seu rosário diante da imagem da Virgem Nossa Senhora e encomendando-se a Cristo Nosso Senhor, cujas figuras os moi- ros, todas as vezes que isto veem, pasmam, e os padres dão muitas graças a Deus, vendo postas em público no paço de um rei infiel as imagens de Cristo Nosso Senhor e da Virgem Nossa Senhora e de seus santos, que realmente parece mais varanda de um rei muito devoto e católico que de um moiro. No interior dos paços, as pinturas que estão pelas paredes das salas e fôrro delas, tôdas são dos mistérios de Cristo Nosso Senhor e de * alguns passos dos Actos'"* fi. n*. dos Apóstolos, tirados da vida deles, que os padres lhe deram, de Santa Ana e Susana e de outras várias histórias, o qual tudo é traçado pelo mesmo rei, sem que alguém nisso lhe falasse. Dos registros, que êle tem, escolhe êle mesmo as figuras que hão-de pintar, e aos pintores manda que vão saber dos padres as côres que se hão-de pôr nos vestidos de cada um e que do que êles disserem não saiam ponto. Quebra isto grandemente os olhos aos moiros, que são tão
  • i6 Das coisas de Mogor inimigos de imagens, que nem ainda dos seus que teem por santos, sofrem havê-las, quanto mais dos da lei de Cristo a que teem tanto ódio. Mandou el-rei fazer um painel grande, tirado por um registro de Cristo à coluna, o que os moiros muito sentiram, porque negam toda a paixão de Cristo; e este painel grande quis el-rei que fôsse modêlo para um pano que mandou fazer, todo tecido de seda e a modo de raz com aquelas mesmas figuras de Cristo à coluna e com o letreiro em pársio, do mesmo feitio. Em um quadro de uma sala man- dou pintar ao natural o papa, o imperador, el-rei Filipe e o duque de Sabóia, cujos retratos tinha; os quais todos estão de joelhos, adorando a Santa Cruz que está no meio deles, conforme a um registro que disso tem. Mandou lhe de Roma o padre João Álvares, assistente de Portugal, um quadro de Nossa Senhora e da adoração dos Magos. Não se pode encarecer o muito que o estimou, e, porque primeiro lhe foi às suas mãos que às dos padres, logo que o teve os mandou chamar e publicamente diante de todo o povo o mostrou e quis que um dos padres lhe declarasse a significação daquele mistério; e êle depois o declarava a todos os seus e lhes contava a história do Nasci- mento do Senhor e adoração dos Magos que parecia um prègador no púlpito; •K1-,5- e tendo o mesmo quadro na mão o mostrava a todos. * Depois mandou aos padres que lho fizessem concertar e guarnecer muito bem e lho pusessem sôbre uma tábua, para que, ao enrolar e desenrolar, se não quebrasse ou danasse. E ao redor, pelas ilhargas, lhe fizeram os padres uns lavores nas molduras, pin- tados por debuxo e tirados dos nossos livros e pinturas, que muito lhe conten- taram; e entre os mesmos lavores mandou pintar o seu retrato em um lugar, que para isso escolheu. Com o uso e vista destas imagens e com as práticas e declarações que os padres lhe fazem delas, está el-rei mui bem instruído em quási todos os misté- rios de Cristo Nosso Senhor e da Virgem Nossa Senhora e se gloria disso com os seus grandes. Estando os padres uma noite com êle, entre outros registros que deu a ver, foi um da Circuncisão de Cristo Nosso Senhor; e fazendo sinal ao padre que se calasse, preguntou primeiro a alguns dos seus principais, se entendiam o que era aquilo. Respondendo-lhe que não, êle lho explicou e depois preguntou ao padre se dissera bem. Dizendo-lhe o padre que sim, folgou muito e disse: eu sei estas coisas muito bem. Finalmente a tanto chega a estima em que tem a Cristo Nosso Senhor e à Virgem Nossa Senhora que todas as pro- visões que passa e cartas que manda, quer a moiros, quer a gentios, quer a cristãos, por dentro delas as sela com seu sêlo rial a seu modo; mas por fora as sela com a figura de Cristo Nosso Senhor e de Nossa Senhora, porque tem umas como tenazesinhas de oiro, em cujas pontas estão engastadas umas esme- raldas, cada uma tamanha como a unha do dedo polegar em quadro, nas quais estão esculpidas as ditas figuras que imprime sôbre lacre, com que ajunta as pontas da carta. Por esta e por outras muitas coisas se não pode deixar de ver a cordial devoção que êste rei tem a Cristo Nosso Senhor e à Virgem Nossa •fi. i5t. * Senhora, como êle também confessa e afirma que lhes tem muito grande amor. E pôsto-que isto não é ainda o fruto que se deseja, contudo, pelas mostras que êle cada vez mais vai dando de si, dá também grandes esperanças que o Bom Jesus e sua Sacratíssima Mãi porão nêle seus olhos de misericórdia para lhe
  • Das coisas de Mogor !7 darem o que lhe falta. E porque é homem, que aquilo em que uma vez se resolve, nada repara em o dizer e fazer, diante de todo o mundo, não há dúvida senão que, se êle uma vez se acabar de resolver, em receber a Fé de Cristo, será uma coisa de grande admiração e meio para naquelas partes se fazer uma grande cristandade. Com ter esta afeição a Cristo Nosso Senhor e à Virgem Nossa Senhora, e lhe parecerem tão bem, como êle muitas vezes encarece, todas as coisas de nossa santa Fé, ainda as penitências ásperas, numa só coisa repara, que é o em que embaçam não só os moiros mas tôda a gentilidade do Oriente: por onde nossa santa Fé lhes parece tão dificultosa de aceitar, como êles dizem, não permitir muitas mulheres. E como êle muitas vezes trata disto com os padres, dizendo o mesmo uma destas noites da disputa diante dos moiros, lhe respondeu o padre: — senhor, para vencer essa dificuldade que vossa alteza acha, tudo está em um homem se determinar em receber a lei de Cristo, porque com ela comunica Deus logo tanta graça, que isto, que agora parece dificultoso, se faz fácil. A isto acudiu um moiro: — senhor, o padre diz aquilo, mas o contrário provou êle, pouco há, com o exemplo de David, que, com ser tão grande pro- feta e com ter tantas mulheres, contudo pecou. Respondeu o padre: — se- nhor, o exemplo de David mostra a fraqueza humana, e mais em tempo que a lei de Cristo ainda não era promulgada, nem se experimentava tanto a força de sua divina graça; mas quam eficaz esta seja depois que Cristo Nosso Senhor veio ao * mundo e nos deu sua santa lei, e quanta fôrça dá aos homens que a • fi. 16. recebem para viverem com uma só mulher, se mostra em tanto número de reis cristãos, que de então para cá houve e hoje vivem, e em tantos outros milhões de cristãos, que estão espalhados por todo o universo mundo, que se contentam com uma só mulher. A isto acudiu el-rei: — está bem isso que dizeis; e pôsto-que o negócio é tão dificultoso que, se isto não fôra, todos houveram de tomar vossa lei, contudo pregunto: ,;se um rei como eu, que tivesse muitas mulheres, quisesse ser cristão, que lhe farieis? Intrometeu-se a estas palavras um dos seus melhores capitães e, como emendando-as, disse: — padre, diz sua alteza que se um rei qualquer quiser ser cristão... Tornou logo a acudir el-rei, dizendo: — não digo eu tal, senão: ^se um rei como eu, quiser ser cristão, que lhe diríeis? — Senhor, respondeu o padre, a primeira coisa houvera de ser que, das muitas mulheres que tinha, escolhesse uma e as mais deixasse. — Dificultosa coisa é essa, disse el-rei; mas seja assim; que não lhe fique mais que uma só mulher; pregunto: ,;se essa fôr cega? — Não case com ela, mas escolha outra, respondeu o padre. — Está bem, tornou el-rei, mas ^se cegar depois de casada? — Não é isso, respondeu o padre, in- conveniente, porque o ser cega não impede o acto do matrimónio. — E verdade o que dizeis, disse el-rei, mas o coração não se inclina a isso. Acudiu aqui um moiro: — ^e se essa mulher depois de casadas e fizer leprosa? — Então, respondeu o padre, é necessário ter paciência. — Oh! disse el-rei, isso não pode ser. — Pode, senhor, respondeu o padre, com a graça de Deus que tudo faz fácil. — A vós, disse el-rei, bem sei eu que seria isso fácil, que de pequeno vos começastes a guardar de mulheres; mas 3
  • i8 Das coisas de Mogor os que não são como vós, ,jque não-de fazer?! — Senhor, disse o padre: é ver- dade que sempre nestas matérias há alguma dificuldade a quem se costuma a • fi.iôv. elas, e por * isso também entre os cristãos se cometem pecados; mas para isso deixou Cristo Nosso Senhor em sua lei os remédios da penitência. — ^E que penitência, disse el-rei, há-de fazer quem pecou contra a castidade? Daqui tomou então o padre ocasião para tratar um pouco da penitência da lei da graça e dos remédios que usam os cristãos para as tentações da carne, sôbre que os moiros, como carnais, replicaram muito; mas o padre lhes falou de tal maneira nesta matéria que, pôsto-que não ficaram rendidos, pelo menos ficaram con- fusos e convencidos. Algumas coisas se fizeram no serviço de Nosso Senhor com os cristãos que aqui há, e outras sucederam de muita glória sua; e entre elas o foi o que acon- teceu a um cafre cristão, o qual por ordem de el-rei estava em casa de um moiro abexim seu privado, porque era o moço do serviço do mesmo rei, ao qual o moiro uma vez chamou e o começou a persuadir que se fizesse moiro, e que fizesse o salemá a Mafamede. O moço respondeu que era cristão, que o não havia de fazer. Fêz lhe o moiro muitos afagos e mimos para o dobrar; e quando viu que não podia, o procurou render com açoites, os quais lhe deu tantos e tão cruéis, que até a cabaia que tinha vestida lhe fêz em pedaços; e vendo-lhe as contas que tinha ao pescoço, procurou de lhas tomar; não o consente o moço; ferra nelas. Manda o moiro trazer fogo, mostrando que lhas queria queimar no pescoço. Desen- ganai-vos, respondeu o moço, que primeiro me haveis de queimar a mim que a elas. Afirma-lhe o moiro que o há-de fazer deitar no fogo que já tinha aceso: fazei o que quiserdes, respondeu o moço, que eu não hei-de ser moiro. Mara- vilham-se todos os que estão presentes da constância do moço e hão compaixão do que lhe viam padecer; de modo que um acarretador de água, magoado do • Fi.17. que via, deitou a * que trazia no fogo e o apagou, e o moiro, vendo que não podia alcançar do moço o que pretendia, carregando-o de ferros, o meteu em uma casa, pondo-lhe guarda. Veio isto à notícia dos padres. Vai-se logo um deles à casa do moiro; e entrando no pátio acertou de se encontrar com um gentio que tinha visto o que passara, o qual, em vendo o padre, com vozes mui altas lhe começou a dizer: oh! padre, como fêz bem o vosso cafre! e quantos açoites tem levado por defender sua lei! Por Deus afirmo, que se outro tanto, ou ainda menos, fizeram a qualquer moiro ou gentio, que lhe tiveram feito comer sujidade... Oh! que fortaleza! Oh! que constância do vosso moço! Falou o padre com o moiro, o qual logo lhe entregou o preso, que vinha tão fraco e tão debilitado, que escassamente podia chegar a casa; mas os vergões do corpo, dos açoites que recebera pelo nome de Cristo, e os pedaços da cabáia, o faziam mui formoso diante dos olhos de Deus e dos padres, que lhe não tinham pequena inveja a tal sucesso. Foi logo um dos padres a el-rei para lhe dar conta do caso. Acha lá o moiro, o qual vendo o padre e entendendo ao que ia a el-rei, pega dele, dando- Ihe mil excusas e satisfações, pedindo-lhe que por aquela vez lhe perdoasse, que não faria outra. E tanta fôrça lhe fêz, assim êle como outros fidalgos que ali se acharam, e que lhe rogaram por êle, entendendo quam mal havia de passar
  • Das coisas de Mogor 19 se el-rei o sabia, que o padre não pôde deixar de desistir, e o moiro dali por diante se lhe deu por obrigadíssimo. Um arménio vivendo em uma certa aldeia, matou uma menina gentia. U pai acusou o matador diante da justiça; e tanto que o deixou no tronco se foi, deixando o caso à justiça. Sabendo um capitão moiro como este arménio estava preso, lhe falou e mandou falar por vezes, prometendo-lhe^ da parte de el-rei a vida com mercês * avantajadas, se deixando a lei dos cristãos se fizesse .11.17*. da sua. Persistiu o bom cristão na confissão de nossa santa Fé, sem querer dar orelhas a coisa que a pudesse encontrar. Finalmente, foi com outros quatro, sentenciado pelo mesmo rei, a que lhe cortassem a mão direita. O memnho- -raor o chamou, oferecendo-lhe perdão, contanto que se fizesse moiro. Porém neste passo se cumpriu a promessa do Salvador do mundo aos que por seu nome são examinados nos tribunais dos príncipes e reis da terra, dizendo: dabo vobis os et sapientiam, etc., porque nunca o puderam convencer. Tin a j o valoroso soldado de Cristo a mão posta no cepo, e o algoz estava para descar- regar o golpe para a decepar, e o caciz porfiando com êle que se fizesse moiro. Agastou-se o arménio contra êle e contra o algoz, dizendo que lhe acabassem ), de cortar a mão, porque sempre seria o mesmo; e que primeiro perderia a vida que a Fé que professava. Vendo pois os ministros da justiça que se perdia tempo com êle, lhe foi cortada a mão direita, o que também fizeram aos compa- nheiros; e logo foram levados outra vez ao tronco, onde logo o padre mandou visitar por um moço da casa o constante arménio, por lhe nao ser concedido faze-lo em pessoa. Tão bárbaros e deshumanos foram os moiros, que de nenhum género de piedade usaram com os justiçados, por quanto, correndo sangue das veias, nem chamaram cirurgião que o pudesse tomar e estancar; pelo que, ao dia seguinte faleceram dois, falecendo-lhes o sangue. Porem o nosso moço teve tanta caridade e saber, que meteu o braço do arménio em azeite fervendo, com que logo reprimiu o sangue, para que não corresse, e o curou da maneira que pode. O padre Xavier procurou logo de o tirar do tronco, como t.rou, posto-que com grande trabalho, e o levou para casa e o fêz curar muito bem, pagando ao cirurgião a cura, sustentando a mulher e filhos do enfermo e dando-lhe casa em que morasse, porque tanto que foi prêso lhe con»fiscaram os bens que tinha, .h. .8. nara a coroa. Porém no mesmo tempo lhe vieram novas como um seu irmao morrera em Chaúl e lhe deixara 5.ooo larins na casa da santa misericórdia, com que puderá remediar sua vida, ordenando o Senhor a morte do irmao para remédio do que por Êle deixou de aceitar a liberdade e perdão e favores huma- nos que lhe ofereciam. -iu • t : Um francês de bom entendimento e grande oficial de fundir artilharia, foi tomado dos turcos no mar Mediterrâneo, defronte de Marselha e levado a Argel onde o fizeram moiro por fôrça. Andando nas gales de Argel por soldado, tomado dos cristãos; e saiu-lhe a sorte do seu cativeiro no mosteiro de S. Fran- cisco de Valência de Aragão, donde fugiu com as saudades da vida larga Correu Espanha, Itália, Egito, Etiópia, e as partes da Índia; e finalmente foi a Lahor e Agra com a mulher e filhos. _ El-rei o fêz capitão de duzentos cavalos. Contava muitas coisas dos cris- tãos principalmente dos muitos milagres de Nossa Senhora de Monserrate.
  • 20 Das coisas de Mogor Adoeceu; e porque já tinha conhecimento com o padre Xavier, o mandou chamar; e pela grande autoridade que tinha com os moiros, falava diante deles com tanto afecto da cristandade, que ficavam pasmados do que ouviam. Declarou-se o francês com o padre, dizendo ser cristão, certificando que nunca lhe contentara a lei de Mafamede. O padre o exortou a se confessar geralmente, dando-lhe modo para isso, e juntamente um livro da doutrina cristã para que lesse por êle. E continuando por alguns dias o médico espiritual com o doente, o reduziu e restituiu aos sacramentos da Santa Madre Igreja, e rece- bidos êles com muita devoção e lágrimas, passou da presente vida, com manifestos sinais de salvação. » fi. 18 t. Foi de grande glória e triunfo de Cristo em uma ci*dade tôda de moiros, tão grandes inimigos de Cristo, e de um rei infiel, andar o mesmo Cristo Senhor Nosso arvorado na cruz pelo meio de tôda ela, à vista de seus inimigos, como andou quinta-feira de Endoenças à noite, na procissão que os padres fizeram por aquela cidade de Agra. Saiu a procissão da nossa igreja. Ia adiante abrindo e segurando o caminho das ruas por onde passava, o ministro da justiça, que é como meirinho daqueles bairros, por onde a procissão caminhava. Levava êste consigo gente de guarda, e fazia voltar os que davam de rosto com a procissão, o que fêz também a um capitão que vinha sobre seu elefante, o qual esperou até ela passar; e êle a viu com grande admiração, por ir com muito concerto e ordem e grandes luminárias. Os disciplinantes eram doze, que para a terra não eram poucos; os quais davam tão bem em si, que derramavam muito sangue, coisa de que os moiros pasmavam, por ser nova e nunca vista nestas terras. Um dos padres levava levantado o Santo Crucifixo, e outro ia revestido com uma capa-de-asperges, entoando as ladainhas a que respondiam os meninos da dou- trina. Acabada a procissão diziam os moiros entre si, espantados do que viram: pestes são a quem nós chamamos gente sem lei? Não há coisa semelhante entre nós. Aqui aconteceu também, que dando o padre Xavier a el-rei umas contas de cavalo marinho com sua cruz, el-rei por fazer favor a um grande capitão, que estava presente, lhas deu, o qual porque era moiro, lhe tirou a cruz. Mas vendo-o depois el-rei com as contas sem cruz lhe preguntou por ela: res- pondeu que lha tirara por ser grande, e também porque os cristãos diziam ser a cruz imagem daquela em que o Senhor Jesus padeceu, na qual os moiros não crêem. Enfadou-se el-rei e lançou-o logo do lugar onde estava, ficando o moiro • fi. 19. assaz * afrontado à vista de todos, e por derradeiro o degradou para Mecha. CAPÍTULO VII Da jornada que o Padre Manuel Pinheiro fê\ de Lahor a Goa, e de Goa a Cambaia, em beneficio do Estado da índia DETERMINOU o Grão-Mogor mandar um embaixador a Portugal e com êle um presente a sua majestade, que dizia poderia valer duzentos mil cruzados; e também outro ao Sumo Pontífice. Porém por certos res- peitos e razão de estado e vários conselhos dos seus, não tiveram efeito suas
  • Das coisas de Mogor 21 determinações. Resolveu-se contudo mandar por embaixador ao vice-rei da índia um grande capitão de Cambaia, e por quem em tudo se governava, cha- mado Mocarabecam, tão grande senhor, que de seu património tem cinqtlenta mil pardaus da renda, e de el-rei cento e cinqilenta mil. Pediu pois el-rei ao Padre Jerónimo Xavier, superior da missão, que mandasse com êle o Padre Ma- nuel Pinheiro, residente em Lahor, o qual lho concedeu, e se partiu em companhia do embaixador aos i3 de Setembro de 1607 e chegou a Cambaia em Abril de 160X. O embaixador não passou por então a Goa por não ser vindo o conde da Feira que se esperava por vice-rei, e por esta causa se deteve em Cambaia, até ter nova da sua vinda, e então ir, para que sua embaixada fôsse mais sole- nemente recebida. O padre neste tempo se ocupou com os portugueses e cristãos arménios, e gente de suas casas que ali havia, exercitando com êles os ministérios de seu ofício, em que gastou nove meses. E vindo ter naquela cidade às mãos do padre, um retábulo dos Reis-Magos, que de Roma se mandava a el-rei, obra mui perfeita e acabada, * e pondo-a na igreja em público, em um altar *fi. 19v. bem ornado, começou logo a correr a fama dela por tôda a cidade, de modo que o concurso da gente a vê-la, assim de moiros como de gentios foi tal, que em obra de i3 dias que esteve patente, se julgou que entrariam a vê-la como i3.ooo almas; nem havia quem os pudesse apartar dela; e era necessário fazer sair uns para dar lugar a outros; e por que não viessem todos de mistura, se deu ordem que as mulheres entrassem por uma vez e os homens por outra. O nababo, que é justiça-mor, a foi ver e ficou como pasmado de coisa tão perfeita. Também o embaixador desejou muito de a ver e a mandou pedir ao padre em respeito de suas mulheres, que muito a desejavam ver. Respondeu- -se-lhe que sair a imagem fora da casa, não era possível nem conveniente; mas que sua senhoria podia vir tôdas as vezes que quisesse. Veio com tôda a sua família e com grande acatamento reverenciou o Menino Jesus e a Virgem sua Mãe, e ficou tão satisfeito da majestade que as figuras representavam, que dizia ter por tão ruim sorte a dos que não viam aquele devoto painel, que melhor lhes fora não serem nascidos. Adoecendo um filho seu gravemente, e não lhe podendo os médicos dar saúde, buscaram-se também os feiticeiros, que aplicas- sem ao menino algumas cerimónias de suas superstições. Mas vendo o pai que tudo era debalde, e que o filho peorava cada vez mais, mandou chamar o padre que lhe desse algum remédio: rezou-lhe o Evangelho de S. Marcos e depois lhe pôs uma cruz de relíquias sôbre os olhos e cabeça; e foi Nosso Senhor servido de o livrar da febre, e que em breve tivesse perfeita saúde; o que vendo o pai, fêz voto de o fazer cristão. Depois disto, adoecendo êle também mui gravemente, o padre depois de Deus lhe deu saúde; o que sa- bendo el-rei, lho mandou muito agradecer e o pró*prio embaixador lhe ficou.fujo. mui obrigado. Alguns arménios estavam em mau estado com as moiras que tinham con- sigo. Afeava-lhes o caso como a razão pedia; as moiras feitas cristãs, se casa- ram logo com os mesmos conforme a Igreja. Muitas outras coisas fêz aqui o padre e de muito serviço de Deus, até que foi chamado a Goa, onde esteve grande parte do inverno; mas foi necessário tornar outra vez a Cambaia a tratar com o embaixador do Mogor os negócios que abaixo se dirão, que para se enten-
  • 22 Das coisas de Mogor derem melhor, é necessário declarar de mais atrás a ocasião deles, que foi a seguinte: Depois que o embaixador e o Padre Manuel Pinheiro partiram da côrte do Mogor para a índia, foi ter à mesma côrte, estando já el-rei em Agra, um inglês que fôra capitão de duas naus, que os anos atrás vieram à barra de Surrate; êste levou cartas comendatícias dos capitães de Surrate; entrou na côrte com grande aparato e ricamente vestido, e tomando o título de embaixador de seu rei, do qual levava carta em língua espanhola, falou com el-rei na tur- quesca, que também a entendia e falava. As primeiras práticas que com êle teve foram sôbre matérias de religião, que el-rei lhe preguntou, e principalmente sôbre a do Santíssimo Sacramento, na qual o inglês respondeu como grande hereje que era, encontrando bem a verdadeira e católica doutrina dêste mistério, que os padres tinham tratado em uma disputa, que sôbre êle tiveram com el-rei e com os moiros. Depois lhe preguntou el-rei a que vinha a sua terra, e que era o que queria. Respondeu que vinha por embaixador de seu rei, mostrando sua carta, e a pedir-lhe licença para que as naus inglêsas pudessem vir a seus portos a tratar e comerciar. Concedeu-lha logo el-rei pelo grande presente que o embaixador levava, que • fi.20v. poderia valer vin*te e cinco mil cruzados; e só uma pedra que nele entrava, foi avaliada nos vinte mil; e para mais o penhorar, o fêz mais el-rei, capitão de 400 cavalos, com ordenado de trinta mil rupias, que são quinze mil cruzados, com o qual ficou tão obrigado ao serviço de el-rei, que sem licença se não pôde já tornar para sua terra; e por lhe comprazer, tomou traje de moiro; porém piíblicamente dizia, que ainda que tomara o traje, não tomara a lei. Com isto andava o hereje tão insolente, que fazia sobrançaria aos padres por cuidar que se via mais favorecido de el-rei do que eles então estavam. Levava consigo dois criados também herejes, um dos quais era seu ministro; e porque morrendo o outro, o padre o não quis enterrar entre os cristãos, ficou o hereje mui sentido; porém muito mais se mostrou pelo não querer receber com a filha de um arménio, que também instava muito para que o padre o fizesse, o qual se excusou, dizendo que não podia comunicar com êle in ditnnis, pois era hereje. Apertava contudo muito o inglês, que o padre fôsse o pároco, pelo grande desejo que tinha de dar nisso gôsto ao sogro. E tomando já o negócio em caso de honra, respondeu-lhe finalmente o padre, por se ver livre dêle, que faria o que lhe pedia; mas que havia de ser com condição, que publicamente havia de confessar diante de todos, que o papa e a cabeça da Igreja Universal. Não quis o hereje aceitar o partido; e por derradeiro o ministro, que consigo trazia, o casou com a filha do arménio. Continuando pois o inglês nesta pri- vança, lhe preguntou el-rei numa prática que com êle teve, de que maneira poderia tomar a fortaleza de Diu aos portugueses. Respondeu que bastariam catorze naus inglêsas por mar e vinte mil homens por terra, para os portu- gueses se entregarem à pura fome. Depois disto aconteceu também virem a Cambaia outros ingleses de novo, • fi. ai. os quais partiram de Londres em Março de 1607 com * duas naus e um patacho abatido, que armaram na aguada de Saldanha, onde invernaram. Porém par- tidos dali, tiveram tão grande tempestade por espaço de vinte dias no Cabo da
  • Das coisas de Mogor 23 Boa Esperança, que a nau almirante, que era mui grande, se apartou e desapa- receu. A outra e o patacho, passando o Cabo, foram ter à ilha de Socotorá, e daí lançar âncora no porto de Aden onde os turcos lhes fizeram desembarcar as fazendas; e depois de tomarem as melhores pelo preço que quiseram, lhes fizeram embarcar outra vez as demais; mas primeiro lhes pagaram a quinze por cento da entrada e outro tanto da saída. Dali se fizeram à vela para Moca, onde o Xarife daquele porto não consentiu que desembarcassem, dizendo que eram ladrões e corsários; e fazendo-se na volta de Cambaia, e indo demandar Surrate, deram em uma restinga que chega a Danú, defronte de Medafaval, onde se perderam, salvando as vidas em dois batéis e algum dinheiro; deixando porém dezassete caixões de reales com outra muita fazenda no fundo do mar. Os dos batéis, que seriam obra de setenta homens, se foram a Surrate, onde o capi- tão, pelo que deles esperava, os recebeu com afabilidade. Teve nova de todo êste sucesso e de como os ingleses estavam recebidos em Surrate, o governador da índia, que havia pouco entrara, André Furtado de Mendonça; e ajuntando estas notícias com as primeiras, que acima dissemos do embaixador inglês, que fora à côrte do Mogor, e das grandes honras que o rei lhe fizera, e da licença que lhe concedera para os ingleses terem feitoria em Surrate, houve por que- bradas as pazes da parte de el-rei com os portugueses. E posto-que no prin- cípio de seu govêrno, antes de saber estas coisas, escrevera ao embaixador, que esperava com grande alvoroço por sua vinda, tanto que soube estoutras coisas, lhe escreveu outra em contrário, dizendo-lhe que não viesse, pois seu rei que- brara as pazes; e logo também mandou lançar pregão * em Goa, e por todas as *fi.2iv. fortalezas do Norte, que ninguém fôsse a Cambaia, o que todos geralmente sen- tiram, principalmente mercadores assim gentios e moiros, como também os por- tugueses; e logo nas terras de Damão se começou a travar guerra e a haver presas de parte a parte. Porém, porque depois disto houve da parte dos moiros muitas significações de quanto sentiam haver guerra, e quebrarem-se as pazes e comércio; considerando isto o conselho do Estado da índia, e juntamente as muitas razões que havia de nossa parte, para se não haver de fazer guerra, antes procurar-se por todos os meios possíveis a conservação da paz, assentou o governador com os do conselho, que primeiro que a coisa viesse a maior rom- pimento, se devia de mandar recado ao embaixador do Mogor e tratar com êle dos cumprimentos que o Estado primeiro queria fazer com seu rei, propondo-lhe as razões que havia, para êle não faltar com as pazes e amizade, que tinha feito com os portugueses, e desfazer tudo o que em contrário disto tivesse feito. E para tratar negócio de tanto momento, julgou também o governador com os de seu conselho, que ninguém o podia fazer melhor que o Padre Manuel Pinheiro que então estava em Goa; pelo que, logo pediu ao Padre Provincial o quisesse mandar, como mandou; e o governador lhe deu suas cartas para o embaixador, juntamente poderes para tratar com êle de paz e de guerra, havendo por bem tudo quanto fizesse; e que logo êle mesmo mandasse apregoar por todas as fortalezas do Norte, que todos os mercadores podiam francamente ir a Cambaia como dantes. Passou o padre grandes trabalhos nesta jornada, por ser fora de tempo e no inverno; porque arribando duas vezes, e tornando à índia, não pôde chegar
  • 24 Das coisas de Mogor mais que até Tarapor, vinte e três léguas de Goa, onde entrando no rio para •Fia». esperar por tem*po, se lhe fechou a barra, de modo que não podia sair ao mar. E porque o negócio a que era mandado, importava tanto, fez seu caminho por terra de moiros com muito trabalho, em razão dos grandes rios que havia de passar, montes e serranias que havia de atravessar, umas vezes a pé outras a catre. Os moiros sabendo que o padre era da Companhia, lhe faziam muita honra e gasalhado. Porém o capitão de Danda nas terras de Daquiní o deteve, dizendo que sua ida devia de ser em prejuízo de seu rei, que trazia guerra com Mogor, e em cuja côrte, ele, padre, tantos anos estivera. Finalmente o padre com sua boa indústria e lingua pársia, que sabia, se desembaraçou dêste perigo. E pas- sando pelas fortalezas do Norte, fêz lançar pregão da parte do governador para que todos os mercadores pudessem livremente ir a Cambaia como dantes; e não sòmente pelas terras dos portugueses, mas por todos os lugares de Cambaia; foi o padre recebido com muita festa, dando lhe os moiros e gentios os parabéns e graças pelas pazes que vinha fazendo. E chegando ao embaixador, foi recebido com grande festa, pela estreita amizade que entre eles havia; tratando com êle os negócios que levava, se fêz tudo a muito gosto de ambos e bem assim do Estado da índia, como do Mogor. E porque a guerra se tinha travado em Damão com prêsas que houve de parte a parte, estas se mandaram logo restituir. Ambos escreveram a el-rei o que passava, e quanto importava conservar as pazes com os portugueses, e tirar as ocasiões que a perturbavam. Deferiu logo el-rei a tudo, revogando a licença que dera aos ingleses, para terem feitoria em Surrate; pelo que o pobre do embaixador inglês, de que atrás falámos, que estava na côrte, ficou tristíssimo e descaído logo da graça e favor de el-rei, o qual o mandou para as partes de • h.22v. Bengala, afastando-o de Cambaia, porque de todo perdesse as * esperanças de poder tratar com seus naturais. E ao capitão de Surrate mandou logo o em- baixador, com o governador daquele reino, que não recolhesse mais aos ingleses dentro na cidade, os quais pedindo licença para fazer ou fretar uma nau, em que tornassem para sua terra, lhes foi respondido, que a mandassem pedir ao vice-rei da índia. Pelo que, vendo-se os pobres homens quási desesperados, determi- naram de se ir ver com el-rei. Porém no caminho lhes saiu uma manga de cavalos, pelos muitos ladrões que nêle há, que os roubou, e matou os mais deles, entre os quais morreu o capitão. Dos que ficaram em Surrate, alguns se foram a Goa com o mesmo padre, e assim dele como dos mais da Companhia, que há naquela cidade, experimenta- ram assás bem a caridade, que a Companhia procurara mostrar a todos os próximos. Pelo embaixador esperava o vice-rei Rui Lourenço de Távora, que também chegando, lhe escreveu que viesse seguramente, mandando juntamente à nossa armada que o trouxesse; porém não vieram, porque nesta conjunção foi chamado de el-rei. E assim o ofício, que êle houvera de fazer, emquanto embaixador, fêz o Padre Manuel Pinheiro, que também o trazia a cargo, o qual, dia de Santa Catarina, chegou a Goa, e ao domingo seguinte recebeu o vice-rei a carta de el-rei, com estrondo de artilharia e outras demonstrações de festas para se celebrarem as pazes, confirmadas com tantas significações de benevolência.
  • Das coisas de Cataio 25 Apresentou o padre ao vice-rei da parte do embaixador o presente que lhe trazia, e o vice-rei deu os agradecimentos ao padre pelo muito que fizera e trabalhara em negócios de tanto proveito e honra para aquele Estado. * CAPÍTULO VIII • fi.*3. Da missão e descobrimento do Cataio e do sucesso e fim que teve NAS relações passadas se disse da missão e descobrimento daquela cris- tandade que se dizia haver nos reinos que se chamavam do Cataio, à qual foi mandado o irmão Bento de Goes da nossa Companhia e do que lhe tinha acontecido no caminho que fizera, de que até então se tivera notícia. E porque foi Deus servido que chegasse com êle até ao cabo, posto- -que não foi o que cuidava, poremos aqui agora o sucesso e fim que teve, re- copilando primeiro brevemente, para melhor notícia e fio da história, algumas coisas do que já se tem escrito. Partiu, pois êste bom irmão, da cidade de Agra, corte do Grão-Mogor a 6 de Janeiro de i6o3 em traje de arménio, com seu arco e frechas, barba e cabelo crescido para que não fôsse conhecido por europeu, mas havido por mercador arménio, confessando porém no modo de vestir ser cristão. Acom- panharam-no um diácono grego, por nome Leão, e um mercador também grego, por nome Demétrio, e outro cristão arménio, casado naquela cidade, chamado Isac, que em tôda a jornada e até à morte lhe foi fidelíssimo companheiro. De Agra se foi a Lahor, corte também do Grão Mogor. Dali se partiu para o Oriente na cáfila dos mercadores e em perto de quatro meses chegaram a Papur onde se detiveram vinte dias. Daí foram a Cafristão em vinte jornadas onde estiveram vinte dias, e depois em outros vinte e cinco chegaram a Zedeli, e na comarca desta cidade padeceram muito trabalho * em razão dos ladrões, .Ki.a3v. donde partidos, chegaram em vinte dias a Cabul, cidade grande e de muito trato, onde se detiveram oito meses; porquanto alguns dos mercadores se deixaram ficar atrás, entre os quais foram os dois gregos que acompanhavam o irmão, o qual encontrou nesta cidade uma irmã de el-rei de Cascar, mãi do senhor do reino de Cotão, a qual se intitulava Ahchanam, que quere dizer entre os moiros: a beata vinda de Méca. A esta, por certas ocasiões de necessidades em que ela aqui se viu, fêz o irmão boas obras, as quais ela e seu filho lhe souberam depois mui bem agra- decer. De Cabul se partiu a cáfila para a cidade de Characar, onde o irmão adoeceu mui gravemente; e mal convalescido se pôs ao caminho; e no cabo de quarenta e cinco dias chegaram a Calca, terra de homens ruivos e loiros. Daí a vinte e cinco dias chegaram a um lugar chamado Talhan, do qual con- tinuando seu caminho tiveram muito trabalho com ladrões em que o irmão tam- bém participou da perda e de muitas afrontas e pancadas, que os moiros lhe deram, saindo-lhe uma vez, em que ia um pedaço afastado dos companheiros, quatro salteadores. Entendendo que o queriam roubar, tomou uma touca de 4
  • 26 Das coisas de Cataio preço e metendo-lhe uma pedra, a lançou o mais longe que pôde, imaginando o que foi, porque emquanto os ladrões se entretiveram em porfiar de quem seria, pondo êle as esporas ao cavalo se pôs em salvo. Continuando sua jornada com vários assaltos de ladrões e trabalhos que no caminho padeceu, de punhadas que lhe deram, e outras afrontas que lhe faziam, e pela grande aspereza do caminho, frios e neves que nele havia, de que muitos companheiros morreram e o irmão esteve quási para isso, chegaram finalmente à metrópole do reino de Cascar que é uma cidade populosa chamada Hircande, no mês de Novembro de i6o3. • Fi.at. E porque a Cáfila de Cabul * não chega mais que até esta cidade e aqui se ordena e vai adiante, esteve nela o irmão um ano, esperando conjun- ção para fazer jornada. Aqui tornou o irmão a encontrar a beata de Meca, que lhe foi boa terceira com el-rei seu irmão, para lhe fazer bom gasalhado e alguns favores pertencentes à jornada. Da cáfila que daqui parte vende el-rei a capitania a um dos mercadores principais, dando-lhe seu poder sôbre todos os outros. Nesta se partiu o irmão aos 14 de Novembro de 1604; e quási um ano caminhou até chegar a uma cidade por nome Chalis, cami- nhando por terras mui ásperas e de muitos areais e faltas de água e com muitos e vários sucessos, semelhantes aos passados, em que se viu em muitos perigos, de que Deus o livrou com maravilhosa protecção, por meio de tantos moiros e infiéis, tão grandes inimigos do nome cristão e que teem por perdões em sua maldita lei fazer mal ou matar a cristãos. É Chalis cidade pequena mas mui forte. Aqui encontrou certos moiros que com falso nome de embaixa- dores tinham ido à China a vender suas mercadorias. Estes lhe deram por novas que na côrte de Pequim, a que êles chamam Hambalac ou Cambaluc, havia certos estrangeiros cristãos e que tinham dado a el-rei um grande pre- sente de relógios, de cravos para tanger, de retábulos e outras coisas, e que estavam bemquistos de el-rei e dos grandes do reino. E a verdade era que êstes moiros no tempo que estiveram em Pequim, que foi no ano de 1601, estiveram, juntamente com o Padre Mateus Ricci e seus companheiros, dentro da mesma cêrca, onde recolhem os estrangeiros; e muitas vezes comunicavam entre si. E como os moiros fôssem curiosos, houveram um papel de nossa letra o qual mostraram ao irmão Bento de Goes, com o qual, o irmão ficou por ♦ fi. 24 r. extremo alegre, tendo por provável que * aquela gente cristã seriam os padres da Companhia, os quais êle sabia estarem na China e com pretensão de entra- rem em Pequim, côrte daquele reino. Em Chalis deu um presente ao senhor da terra e lhe pediu licença para se adiantar da cáfila, o qual lha concedeu, ainda que contra a vontade do capitão; e ao fazer do formão, lhe preguntou el-rei como queria que se fizesse? Respondeu que se declarasse como êle era da lei de Jesus, que na língua dos moiros se chama Abdula-Isac. Ouvindo isto um dos cacises mais velhos que ali estavam, levando a touca da cabeça, a pôs no chão dizendo: êste é o verdadeiro observador da sua lei, a qual confessa diante de Vossa-Alteza e de nós outros que somos tais, que se entre cristãos nos acháramos houvéramos de negar nossa lei; e por mêdo e respeitos humanos nos houvéramos de fingir cristãos, não o sendo. Partindo de Chalis chegou a Camul aos 17 de Outubro de i6o5, onde se deteve passante de um mês; e dali continuando seu caminho, foi dar consigo
  • Das coisas de Cataio 27 dentro em nove dias nos muros da China, onde acabou de ver por experiência de tantos trabalhos e de tão estranha e perigosa jornada, que tinha feito por amor de Deus e da santa obediência de seus prelados e zêlo de descobrir uma cristandade tão remota que ia buscando, que não há no mundo outro Cataio senão o reino da China, e que a informação que os moiros tinham dado na côrte do Grão-Mogor e as grandezas que contavam do rei do Cataio e da cristandade que nele havia, tudo era ignorância ou fingimentos e mentiras que nêles são tão contínuas. Isto mesmo certificou o Padre Mateus Ricci em uma carta de 12 de Novembro de 1607 para o padre provincial da Companhia da índia, dizendo que a cristandade e o mundo todo podiam ficar desenganados de não haver outro * Cataio sendo dentro da China. E que quanto aos cristãos *fi. i5. que se dizia haver naquele reino, principalmente nas duas províncias de Xensi e Honam, êle mandou a cada uma delas um irmão da Companhia, naturais da China para tirarem isto a limpo; e que o que acharam não fôra mais senão que na realidade houvera muitas famílias de cristãos naquelas províncias que viveram na sua lei até cinqiienta anos atrás, pouco mais ou menos; mas depois por uns mêdos que os chinas lhes puseram: que os haviam de matar por des- cendentes dos tártaros, que quinhentos anos há senhorearam a China, todos se espalharam e deixaram a lei; e agora não querem confessar serem descendentes daqueles. Mas tornando ao nosso bom irmão Bento de Goes, chegado, como dissemos que foi, aos muros da China, vinte e cinco dias esperou fora deles, até que foi e tornou recado do Tutam para poder entrar, êle e os de sua companhia; na qual entrada, que foi no fim do ano de i6o5, lhes escreveram os nomes de todos e as fazendas que levavam; e caminhando ao dia seguinte, dos muros para dentro, chegou à cidade de Subecheo, donde logo escreveu aos padres de Pequim, dos quais nesta cidade alguns moiros lhe deram novas. Dos companheiros com que o irmão partiu, os dois gregos, Leão e Demétrio o deixaram em Hircande; só Isac o acompanhou sempre e chegou aqui com êle à China e alguns moços que no caminho tomou. A cáfila dos moiros com que vinha chegou seis meses depois; e porque para entrar pela China dentro e ir à côrte de Pequim era necessário esperar pelo recado que tinha mandado aos padres, com licença para poder ir, por ser estrangeiro, esteve o irmão nesta cidade quinze ou desasseis meses esperando êste recado, quando no cabo deles chegou um irmão da nossa Companhia por * nome João Fernandes, natural da China o qual o Padre Mateus fi.25t~ Ricci, tanto que em Pequim teve aviso de sua chegada, mandou em busca dele. Porém quando chegou havia um mês que o bom irmão estava em cama a quem o irmão João Fernandes achou tão desfeito e consumido dos trabalhos passa- dos e tão cortado deles que não tinha já mais que a pele pegada nos ossos; e ainda que outros não padecera senão o do tormento que lhe dava por todo aquele caminho e vastíssimo sertão, que ia descobrindo, ver tantos reinos tão grandes e tantos centos de almas sujeitas à maldita seita de Mafamede e sem nenhum conhecimento da verdadeira Fé, isto só bastava para se poder ter por milagre chegar com vida aonde chegou; quanto mais ajuntando a isto os traba- lhos corporais que padeceu no caminho e a má companhia que os moiros sem- pre lhe fizeram com seus enganos e maldades que com muita razão dizia o
  • 28 Das coisas de Cataio bom irmão que tal jornada, e peregrinação como esta, nenhum homem cristão a podia fazer por terra, pela grande infedelidade dos moiros. Não se pode crer nem encarecer com palavras a grande alegria que o bom irmão recebeu em seu coração com a chegada do irmão João Fernandes e com a vista de um irmão da Companhia de Jesus; e assim o recebeu como se lhe viera um anjo mandado do céu; e da mesma maneira com as boas novas que lhe deu da saúde dos padres e do fruto que faziam na China. Tomou as cartas que lhe trouxe do padre e depois de as beijar com muita devoção com as mãos alevantadas entoou o cântico do santo velho Simeão, banhando-se todo em lágri- mas de pura devoção e alegria, e tôda a noite esteve abraçado com elas, dando muitas graças a Nosso Senhor por ter acabado sua jornada e uma peregrinação • H. 36. tão com*prida que por pura obediência e zelo da honra de Deus e da salvação das almas tinha feito; porque, pôsto-que não achara a cristandade do Cataio que se cuidava havia no mundo, cumprira de sua parte com tudo o que devia por amor dela. Quisera o irmão João Fernandes, ordenar logo de o levar para Pequim, como lhe tinha mandado o Padre Mateus Ricci; mas entendendo o bom irmão não estar já para isso e que sua hora se ia chegando, não se quis abalar; mas, consolando-se aqueles poucos dias que lhe ficavam com o irmão João Fernandes, mui de propósito se aparelhou nêles para fazer a jornada da eterni- dade, na qual entrou aos u de Abril de 1607, que foi o dia em que faleceu, deixando-nos tantas prendas da sua bemaventurança, como merecia sua santa vida cheia de tantas e tão boas obras. Foi este bemaventurado irmão natural de Vila Franca na ilha de S. Miguel. Viveu na religião 19 anos, na qual entrou sendo de 26. A ocasião de sua con- versão foi um caso mui notável que lhe aconteceu bem significador do santo fim que havia de ter. Era êle mancebo e soldado da índia; e indo de Armaca, pela costa do Malabar, foi ter a Travancôr, onde está uma igreja junto de Coleche, da invocação da Virgem Nossa Senhora; e como êle era mancebo e dado ao jôgo e à vida larga e outros pecados que aquele estado trás consigo, eram tão grandes os remorsos que sentia na consciência, que o traziam quási como deses- perado de sua salvação. Mas saindo em terra junto daquela igreja, se foi a ela, e vendo no altar a Virgem Nossa Senhora com o seu Menino no colo, pros- trado de joelhos diante dela, lhe pediu com muitas lágrimas lhe alcançasse de seu bento Filho perdão dos seus pecados; senão quando, vê de repente que o • fi.26». Menino Jesus que estava nos braços da Mãe começou juntamen*te a chorar. O soldado vê nos olhos do Menino como uma fonte de licor semelhante a leite, o qual correu em tanta quantidade que banhou o altar. Ficou Bento de Goes pasmado. Vai chamar os companheiros para que sejam testemunhas de tama- nho milagre. Chegam, vêem tudo com seus olhos mui distintamente, repartem entre si um lenço banhado naquele licor lácteo, festejam o santo milagre com salva de artelharia e espingardaria, trazem muitos ramos verdes com que enra- mam tôda a igreja, fazendo dela um bosque. O soldado mostrou logo em si o efeito da divina misericórdia, porque com muita devoção e dor de seus pecados foi fazer uma confissão geral de tôda a sua vida com um padre da nossa Companhia, fazendo juntamente voto de religião, o qual cumpriu entrando na Companhia e aperfeiçoou-o, perseverando e morrendo nela tão santamente.
  • Das coisas de Cataio 29 Morto ele, os moiros que vieram em sua companhia e que também estavam na mesma pousada, o quiseram enterrar conforme as cerimónias do seu alcorão; mas não o consentiu o irmão João Fernandes, o qual o meteu em um caixão, e juntamente com Isac seu companheiro o enterrou ao modo cristão em um lugar decente, donde no dia de juizo se levantará glorioso para receber a segunda estola e dotes, devidos a seus merecimentos. Trazia o irmão consigo um me- morial no qual escrevia tudo quanto passava de dia em dia em sua peregrinação; e como no caminho, muitas vezes da pobreza que tinha, emprestava aos moiros o que êles lhe pediam, costumava escrever no mesmo livro os conhecimentos do que os moiros lhe deviam; pelo que, êles em o vendo morto, deram na casa, lançaram mão do livro e o fizeram em pedaços para que nunca pudesse constar do que lhe eram devedores. Sentiram isto muito o irmão João Fernandes e o arménio Isac pela per*da daquele memorial e roteiro, que o irmão tinha feito; e já que mais não puderam, andaram apanhando os pedacinhos e juntos os leva- ram ao Padre Mateus Ricci, o qual ajuntando-os e compondo-os uns com os outros, parte deles, e parte da relação de Isac, tirou esta breve relação que atrás referimos de sua peregrinação e sucessos dela. As alfaias que deste bom irmão ficaram, foram um diurnal, uma cruz que trazia ao pescoço, um papel em que tinha escrito por sua mão os votos que prometera de sua religião e algumas firmas ou sinais das cartas que o nosso padre geral e os padres visitador e provincial da índia lhe tinham escrito, a patente do Padre Jerónimo Xavier e um capítulo do apóstolo S. Paulo que se lê na missa de seu dia, no qual o apóstolo se gloria dos trabalhos que por Cristo padecera. Todas estas coisas guardou o Padre Mateus Ricci com muita veneração, como relíquias dêste santo irmão, o qual em tantos apêrtos e tráfegos de caminhos tão compridos, viveu sempre tão religiosamente, que todas as páscoas se recolhia e encerrava muitos dias antes, a fazer os exercícios espi- rituais de nossa Companhia com grande espanto de todos. Mas a fidelidade de Isac, arménio, companheiro do irmão Bento de Goes, pede que concluamos esta tão grande missão do Cataio, com o fim que êle deu a sua jornada. Teve o pobre grandes trabalhos depois da morte do irmão, porque os moiros o acusaram diante da justiça, que sendo moiro, se fazia cristão, e o puseram em muito apêrto; porém o irmão João Fernandes o ajudou grandemente com sua indústria; e o ardil de que usou foi, que ao tempo que houve de aparecer em juízo para ser acusado dos moiros, levando consigo carne de porco para êste fim, lha fêz comer; coisa que os moiros * abominaram de tal maneira, que não o • FI.17T. podendo mais ver nem sofrer se deram por vencidos e assim o deixaram. Os dois com os moços seus companheiros se puseram ao caminho, e depois de três meses chegaram a Pequim, corte da China onde o Padre Mateus Ricci os recebeu com muito gosto por uma parte, e grande mágoa por outra, pela morte do irmão Bento de Goes. E logo bem acomodado mandou Isac para Macau, onde os padres lhe houveram uma boa esmola e lha empregaram em fazenda que na índia tem valia. Porém o navio em que ia para Malaca foi tomado dos Holandeses, o capitão do qual, examinando a Isac e sabendo dele da jornada que o irmão Bento de Goes fizera no descobrimento do Cataio, só por ir buscar aquela cristandade que nêle se dizia haver, ficou pasmado da grandeza de seu
  • 3o Das coisas de Cataio ânimo, das terras que correra, dos reinos que atravessara e descobrira por aquele grande sertão oriental que há de Goa até à China, caminhando por terra (que na verdade foi uma das maiores ou maior emprêsa de descobrimento de terras e reinos que se sabe ter feito homem) e mandou tresladar o roteiro de tudo o que na viagem lhe sucedera, dizendo que em sua terra havia padres jesuítas e que lhes havia de mostrar aquela carta para que soubessem do muito que os da sua Companhia faziam por todo o Oriente, para dilatarem e promul- garem a lei de Deus que professavam. Coligiu Isac do bom tratamento que êste capitão fêz aos portugueses, que ou devia ser católico ou homem de bom enten- dimento e natureza. Deu-lhe embarcação segura para Malaca onde os padres agasalharam a Isac e o embarcaram bem acomodado para a índia, o qual tomando Cochim, daí foi a Goa e na casa professa achou o Padre Manuel Pinheiro que viera do Mogor e com êle se embarcou para Cambáia mandan- do-lhe o padre provincial dar cem pardaos para o caminho.
  • * DAS COISAS DE ETIÓPIA < fr l. 28. CAPÍTULO IX Do estado temporal em que ao presente está o reino e império de Etiópia NTRE as empresas de maior importância que há em todo o Oriente, tocantes às coisas da nossa santa Fé, é a redução deste grande império da Etiópia, sôbre o Egito, à santa Igreja Ro- mana, cuja cristandade foi a primeira que da gentilidade con- fessou a Cristo e fundada pelos sagrados Apóstolos, e que desde então até agora sempre perseverou na confissão de Cristo Nosso Senhor; pôsto-que de muitas centenas de anos para cá, e dos tempos dos perversos heresiarcas, Nestório e Dióscoro, têm muitos êrros na Fé que deles receberam; mas persevera ainda agora nêles uma tão pia afeição a Cristo Nosso Senhor e a sua Sacratíssima Mãi e aos príncipes dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, que entre todos os herejes e cismáticos do mundo não parece que pode haver gente, de que melhores esperanças de sua redução se possam conceber, que desta nação, como no decurso desta relação se verá. Andam nestes reinos cinco padres da nossa Companhia, divididos em duas estâncias ou missões de que ao diante se falará. Mas porque para melhor se entenderem as coisas e estado desta missão, é necessário que declaremos também o estado temporal em que ao presente está este im- pério quanto ao seu go*vêrno, êste diremos brevemente, o qual é o seguinte: *fi. »8v. na relação passada que se imprimiu dos anos de mil seis centos e seis a mil seis centos e sete, falando das coisas de Etiópia se disse como, morto el-rei Tigindil numa batalha que lhe deram alguns capitães e vassalos seus, que contra êle se levantaram, e amotinaram muitos outros, à voz de que tinha mudado a religião e deixado a fé dos abexins e recebido a Fé Romana, como de feito era verdade, se levantaram logo dois competidores do império, entre os quais se dividiram os grandes e tôda a mais gente, seguindo cada um o que cuidava que lhe fazia mais a seu propósito. Estes foram el-rei Jacobo, que ano e meio antes, os grandes do império tinham privado da coroa e lançado fora e desterrado no reino de Nerea e aí preso em poder do rei dele, dando-lhe por causa que não era legítimo, e por isso lhe não competia o reino; pôsto-que a verdadeira causa foi a das pretenções que cada um tinha e facilidade natural que geralmente há nos abexins para semelhantes rebeliões; pelo que, nunca naquele reino há quieta- ção nem paz de muita dura. Outro foi um primo do mesmo Jacobo por nome Sacinos que pretendia ter direito àquele reino, por ser o parente legítimo mais
  • 32 Das coisas de Etiópia chegado do derradeiro possuidor. Jacobo ainda que estava desterrado e prêso, contudo, com o favor do mesmo rei de Nerea, em cujo poder estava, e doutros capitães e grandes do reino, com quem tinha suas inteligências, se veio ajuntar com êles e se fez com forças bastantes para prevalecer contra Sacinos, que também as tinha grandes; e daquela vez tornou a ficar senhor do império. Porém Sacinos, como era mui esforçado e valoroso capitão, não deixou de com os da sua parcialidade, continuar a guerra; de sorte que todo o reino ardia nela •Fi.ag. com grande estrago das províncias e ter*ras dele. Até que, depois de um ano ou mais de guerra entre os dois, a dez de março de mil seiscentos e sete, vieram a batalha campal, em que Sacinos com poucos mil homens que tinha consigo, venceu a todo poder de el-rei Jacobo, com morte de muitos mil e do mesmo rei que nunca mais apareceu; por onde se coligiu que ficara morto. Foi esta vitória de Sacinos, quando não milagrosa pelo menos venturosa pela desigual- dade que havia no poder que êle tinha em comparação do inimigo; e pelo que se tem visto nele até agora, se pode presumir que Deus particularmente o quis favorecer e dar-lhe a coroa dêste império, pela muita bondade natural e excelen- tes partes que tem de rei. É homem de trinta e cinco anos, mui prudente, sagás, esforçado e excelente capitão porque o mais de sua vida gastou na guerra e fêz ofício de menear exército. E liberal, afável; é homem que tem palavra de rei, porque no que diz ou promete, não torna atrás que é coisa rara em Etiópia; não descobre seus segredos senão quando os executa. Não é cubiçoso, natureza tão própria dos abexins; sobretudo, para a? coisas da verdadeira reli- gião, Fé da Igreja Romana e redução de seu império, a ela, tem o coração e ânimo que abaixo diremos. Logo que se viu senhor do império procurou com muita prudência estabelecer-se nêle, e dividiu o govêrno de suas terras por seus capitães e confidentes, de sorte que em três reinos principais, que são o de Amará, o de Abagamedri e o de Tigré, pôs três irmãos seus; e no de Goromá um genro seu, mui valoroso, ficando-se êle no meio deles. Logo que ficou senhor do império, se lhe levantaram em diversas partes vários capitães e alguns outros com título de rei, contra os quais, por mais de • fi.j9*. um * ano e meio, andou continuamente em guerra. E assim passado o inverno de mil seiscentos e sete, pondo-se em campo com seu exército, a primeira jor- nada que fêz, foi contra uns gentios alevantados que tinham consigo a um capi- tão rebelde e o não queriam entregar; e ainda que a gente é belicosa, e tanto mais quanto o sítio da terra em que habitam é mais forte, por ser mato bravo e a maior parte de ambuais mui espêssos, el-rei contudo os desbaratou, e o alevantado lhe veio pedir misericórdia. Após isto logo deu sobre um capitão judeu, que com muita gente da mesma nação, ainda que toda já abexim, habita numas terras mui ásperas e frias, mas mui fecundas, que dividem o reino de Tigré do de Dambiá, o qual judeu se lhe rendeu logo; e neste comenos lhe trouxeram presos dois reis alevantados sobre quem tinha mandado sua gente: um no reino de Tigré e outro no de Abagadamedri, dos quais a um mandou cortar a cabeça e ao outro perdoou. Estando no gosto destas vitórias, lhe che- garam novas como vinham os galas, que habitam no reino de Tigré, a dar no reino de Goromá, para levarem cativos os agaos, que são cristãos brancos, e os irem vender aos moiros e turcos que os estimam muito.
  • Das coisas de Etiópia 33 Saíu-lhes el-rei ao encontro; e por quatro vezes que lhes deu batalha ficou sempre com a vitória, com muita perda e morte dos inimigos. Vindo-se reco- lhendo desta, lhe trouxeram prêso outro que se tinha levantado [proclamando-se] rei, o qual teve o fim dos outros. Da mesma maneira o desembaraçou Deus de Zelazem, que era o mais poderoso e valente capitão que havia em Etiópia, vice-rei dos dois reinos principais do império. Êste foi o principal capitão que, como na relação passada se disse, se levantou contra o bom rei Tigindil, que morreu católico em batalha; depois trou#xe do desterro a el-rei Jacobo contra Sacinos; • e era de tão pouca lealdade, que depois de o ter levantado como rei lhe foi também causa de sua perdição; mas sucedendo Sacinos no império, e temen- do-se de suas traições e rebeliões, o desterrou para o reino de Goromá; e com o ter ali prêso em lugar fortíssimo, teve tal saber e manha, que por meio de uma mulher, e por se fingir doente de peste, escapou da prisão, e logo se lhe ajun- taram duzentos homens, e começou a revolver o reino. Porém sucedendo-lhe que dando sôbre uns lavradores para lhes tomar suas vacas para mantimento de sua gente, acertou de estar então por ali um senhor grande, parente do bom rei Tigindil, a quem o mesmo Zelazem matara, como dissemos acima. Este, como lhe tinha boa vontade, animou os lavradores e fêz que pelejassem. Tra- vando-se a briga, os mais dos seus o desampararam, ficando êle porém pelejando com poucos; mas nisto lhe deram uma grande pedrada na cabeça que o derruba- ram; e dando logo sôbre êle os contrários, pediu que o não matassem mas que o levassem a el-rei. Ao que os outros responderam: é muito longe para vos levarmos às costas; basta que levemos vossa cabeça. E assim lha levaram; com o que, el-rei com todo aquele império ficou desabafado e quieto de um inimigo, que se gloriava de que punha e tirava reis, e de quem mais se podia temer el-rei de que [de] muitos inimigos juntos. * CAPÍTULO X De como el-rei se houve com os padres e coisas da redução à Santa Igreja Romana EM duas estâncias estão divididos os padres da nossa Companhia, que andam em Etiópia. Uma é a de Fremoná, que está no reino de Tigré; outra é a da corte ou lugares juntos a ela. No tempo que ficou com o império a segunda vez el-rei Jacobo, prevalecendo contra Sacinos, a primeira coisa que fêz foi escrever ao Padre Pero Pais, que estava em Fremoná, que viesse logo a ter com êle; e foi o padre, levando consigo outros dois padres companheiros, António Fernandes e Lourenço Romano. Agasalhou-os o bom rei com grande amor e benevolência; e porque tinha tirado aos portugueses do lugar e serras do Naninâ, no reino de Goromá, em que havia alguns anos habi- tavam, por certas desordens que ali se fizeram os mudou para uma serra cha- mada Marabá, junto de umas terras que chamam do Judeu com intento de os ter perto de si pela grande confiança que tinha em sua fidelidade e esforço. E aqui por ordem sua fizeram os padres o seu principal assento, pôsto-que com 5
  • 34 Das coisas de Etiópia muito grande trabalho, parte pela inquietação da guerra, em que tôda aquela terra ardia entre Jacobo e Sacinos, que os fazia andar de um lugar para o outro, parte pela má vizinhança dos judeus daquela serra, que como são gran- des ladrões, andam em contínuos assaltos sobre os cristãos seus vizinhos. Porém desbaratado e morto el-rei Jacobo e ficando Sacinos com o império, como ki.3i. nunca até então tinha visto aos padres, pôsto-que * por fama sabia deles e que estavam tão vizinhos, os mandou logo chamar e lhes fêz muito grande gasa- lhado e honras, e confirmando também aos portugueses as terras que el-rei Jacobo lhes tinha dado com acrescentamento delas; aos padres ordenou que sua estância fôsse em um lugar chamado Gorgorra, para estarem mais à mão, e vizi- nhos da corte, para quando com eles quisesse comunicar. Não tardou muito tempo que lhes não abrisse seu peito acêrca do bom ânimo e coração que tinha para a Igreja Romana e redução a ela de seu império. E do que neste par- ticular tratou em secreto com os padres, resultou que êle se resolveu logo a escrever sôbre isto a sua Santidade e [a sua] Magestade. E por si só sem o comu- nicar com outrem o fêz, dando as cartas aos padres, levando êste negócio com tanto segrêdo, por não alterar os humores dos seus. Porém depois, vendo quanto importava entender os ânimos dos grandes e praticar com êles um negócio de tanto momento, fêz sôbre isto conselho, no qual houve diversos pareceres, que o puseram algum tanto em confusão, porque quisera êle que todos foram do seu. Entre os que seguiram a sua opinião, além dos seus três irmãos e uma infanta sua prima, foi o principal Erás Athenateus, que é o mesmo que dizer, cabeça Atanásio, porque depois de el-rei, êste é a primeira cabeça e o maior príncipe de todo o império, amicíssimo dos padres e por extremo desejoso da redução de Etiópia, o qual, vendo a el rei um pouco em- baraçado, por não lhe corresponderem todos a seu desejo e intento, o animou dizendo: Senhor, se vós esperais o parecer de todos, nunca fareis coisa boa em vosso império. O que releva é fazerdes o que julgais que convém, e não esperardes concórdia, de tão diversos juizos. Venha o que pedimos, que eu ■ 3i». farei que em um ano, todos sejam da Fé Romana. * Com isto e com o parecer de seus irmãos e da infanta, o bom rei se resolveu, ainda que outros não vieram nisso, a manifestamente escrever, a sua Santidade, e [a sua] Magestade, o que naquele conselho se assentou; e quis também, que o mesmo escrevessem, o próprio Erás Athenateus e Cafleale, que ainda então era vice-rei de Tigré. As cartas que escreveram são as seguintes: Carta do Imperador de Etiópia para Sua Santidade Carta enviada do imperador de Etiópia Malaceguet, [para que] chegue ao Santo Papa de Roma, com a paz de Cristo Nosso Senhor, «qui dilexit tios, et lavit nos a peccatis nostris, in sanguine suo, et fecit nos regnum, et sacerdotes Deo et Patria. Esta paz seja sempre com Vossa Santidade, e com tôda a Igreja Cristã. Amen. Muito tempo há que temos grande amor aos cristãos dessas partes, pelos benefícios que êste império tem recebido deles, quando antigamente os portu- gueses, o livraram da tirania dos moiros, e o restituíram a seu primeiro estado
  • Das coisas de Etiópia 35 c quietação, morrendo depois muita parte deles com meu pai, por êle querer cumprir o que nossos antepassados, com juramento tinham prometido. Pelo quê, logo que pela misericórdia de Deus Nosso Senhor, tomámos o govêrno dêste império, determinámos renovar a amizade com aquela fiel gente de Cristo, porque achamos o nosso império em tão trabalhoso estado, pelas contínuas guerras destes anos passados, que ainda que temos sujeitado alguns inimigos domésticos, contudo isso nos ficam ainda outros mais poderosos, que são uns gentios * que chamam Galas, os quais têm conquistado grande parte de nosso *fi. 3a. império, e queimado muitas igrejas; e o que pior é, que dão cada dia novos assaltos, executando grandes crueldades nas viuvas, meninos e velhos, ao que nós não podemos acudir, senão com ajuda de nosso irmão, o imperador de Portugal; pelo quê lhe pedimos nos ajude, como antigamente fizeram seus pre- decessores, os reis de Portugal, a nossos antepassados. Mas para que nisto não haja falta, determinamos pedir juntamente a Vossa Santidade, que é pai e pastor de todos os fiéis de Cristo, queira escrever a nosso irmão, defira logo a nossa petição antes que êstes Galas cobrem mais forças. Quanto à entrada de nossas terras não há dificuldade, porque os que guardam nosso mar, não têm força nenhuma e porque sabemos de certo que Vossa Santidade nos ajudará; como a necessidade pede, escusamos mais palavras. Ao padre Pero Pais temos encomendado [fazer] mais comprida relação a Vossa Santidade do nosso im- pério, do amor que temos aos filhos dos portugueses que cá estão, e do cuidado das igrejas dos padres, aos quais peço a Vossa Santidade queira dar crédito como a esta nossa carta. Acabamos rogando a Cristo Nosso Senhor guarde a Vossa Santidade por muitos anos, para o bom govêrno da Igreja Universal. Escrita em Etiópia a quatorze de Outubro de [mil] seiscentos e sete. Cópia da carta do Imperador de Etiópia para Sua Majestade Carta enviada pelo imperador Malaceguet [para que] chegue ao imperador de Espanha, terra santa de S. Pedro, príncipe e cabeça dos doutores e da Igreja católica * do Senhor, da qual disse o apóstolo S. Paulo: Despondi vos uni viro «i i.3» ▼. virginem castam exhibere Christo, ao qual seja glória; e à imitação do purís- simo mensageiro S. Gabriel, que, saudando a Virgem Maria Nossa Senhora, disse: Deus Vos salve; e de Cristo Nosso Senhor que, no domingo à tarde depois de sua Ressureição, disse a seus apóstolos juntos: Pa\ seja com vos- outros. E como escreveu em tôdas as suas epístolas o apóstolo S. Paulo, a paz do Senhor seja com Vossa Majestade nosso irmão na Fé que prégou S. Pedro, no tempo que Cristo Nosso Senhor mandou seus apóstolos dizendo: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a tôdas as gentes, bati\ando as em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo. ,;Como está Vossa Majestade e seu império? Nós estamos de saúde, pela intercessão de S. Pedro, mestre de Vossa Majestade, e nosso. A bondade, misericórdia e benevolência, que entre nós começou Cristo Nosso Senhor, Ele a leve por diante, pois é princípio e fim de tôdas as coisas. A causa principal de escrever esta, a Vossa Majestade, foi o desejo daquela familiaridade, e comu-
  • 36 Das coisas de Etiópia nicação, assim temporal como espiritual, que antigamente houve entre os ante- passados de Vossa Majestade, os reis de Portugal, e os nossos; a qual familiari- dade nos enobreceu, e juntamente a adopção do Espirito Santo; para o quê pedimos que Vossa Majestade, nos mande fortes e valorosos soldados, que pos- sam contra nossos inimigos, que estão neste porto, que nós estamos aparelhados com armas, bastimentos e as mais coisas necessárias para a guerra, não fal- tando em nada do que pudermos, porque mais razão é que Vossa Majestade tenha ali assento, do que os molestissimos inimigos de nossa santa Fé. Os antepassados de Vossa Majestade também nos mandaram exército de mui fortes • fi. 33. soldados, quando os moiros queriam destruir nossa Fé * e império. Bem pudéramos nós agora destruir a êstes com o nosso exército, confiados na virtude dos poderosos reis, que não receberam o santo Evangelho, e que levanta nossos corações, com a memória das coisas celestiais, porque somos filhos do céu, como testifica S. João em seu Evangelho dizendo, que o que de carne nasce, carne é, e o que nasce de espírito, espírito é. Mas temos guerra com outros nossos inimigos que se chamam Galas, que nos estorvam esta em- presa, pelo quê. com a maior presteza que Vossa Majestade poder, nos mande valorosos soldados, que tenham zelo da nossa santa Fé Apostólica. Quanto ao que a nós toca, já há dias que estamos aparelhados, e como vierem, não lhes será impossível, o que desejamos, porque nós nos uniremos com êles, com cadeia de amor, como uma alma e um corpo, porque Cristo Nosso Senhor é mestre, e cabeça de Vossa Majestade e nossa; e assim, somos seus membros, e o Pai celestial nos gerou, em um ventre do baptismo, e não de semente que se cor- rompe e acaba. O que nesta não escrevemos, o Padre Pero Pais, cheio do Espírito Santo, o escreverá a Vossa Majestade nas suas divinas cartas. Escrita em Etiópia aos dez de Dezembro do Nascimento de Cristo Nosso Senhor, de seis centos e sete. Carta de Aras Athenateus, o maior de Etiópia depois do Imperador, para Sua Majestade Carta de paz e amor mandada de Athenateus [para que] chegue ao alto e poderoso imperador de Portugal, com a paz de Cristo Nosso Senhor, que • fi.33 r. pela redenção do mundo, morreu crucificado, na santíssima Cruz. Esta * paz seja sempre com Vossa Majestade. A causa de escrever esta carta, foi o desejo grande, que o imperador e eu temos de que venham portugueses. E assim pedimos a Vossa Majestade mui encarecidamente, que nos mande soldados for- tes, e bem exercitados na milícia, para que tomem êste pôrto, em que estão os inimigos de nossa santa Fé. E como chegarem, os ajudaremos com bastimen- tos, armas e tudo o que fôr necessário. Os antecessores de Vossa Majestade nos ajudaram, no tempo que vieram os moiros, para nos destruir; e até hoje nos deixaram memória, os que vieram, do que Cristo Nosso Senhor fêz por êles. Vossa Majestade por amor de Jesus Cristo Nosso Senhor nos mande também agora soldados belicosos, que estou aparelhado para a sua vinda com muita vontade e tenho no coração grande esperança, que hão-de vir. Tudo o mais
  • Das coisas de Etiópia 37 que nesta falta sobre este negócio, escreverá a Vossa Majestade o Padre Pero Pais. Escrita em Etiópia a treze de Dezembro de seiscentos e sete. Outra do mesmo para o Vice-Rei da índia Carta de paz e amor, de Aras Athenateus [para que] chegue ao grande vice-rei da Índia, com a paz de Cristo Nosso Senhor, que morreu na Santa Cruz por nos remir. Esta paz seja sempre com Vossa Senhoria e com todo seu Estado. Amen. Ouvi, Senhor: Sempre meu pai foi muito amigo dos por- tugueses que cá vieram, e os favoreceu em todas suas coisas. E depois de sua morte eu também continuei esta amizade com * seus filhos, ajudando-os com»Fi.34- muito gosto em tudo, que se lhes ofereceu, livrando alguns da morte, assim com minha valia, como com minha fazenda, porque para isso dei por vezes o necessário, de muito boa vontade, pelo particular amor que lhes tenho, e desejo que Nosso Senhor me dá, de que não sòmente se não acabem as relíquias dos primeiros que ficaram, mas, que venham outros de novo, para remédio dêste império. Isto há muito tempo desejava escrever, mas, não o pude fazer, por as contínuas guerras, que até agora tivemos, de que já foi servido Deus Nosso Senhor, de nos desapressar, e dar-nos imperador firme de entendimento, que com muita prudência governa tudo; e representando-lhe meu desejo e o t>em que se seguiria a êste império, lhe pareceu bem e determinou escrever sobre isso ao imperador de Portugal, e me mandou que o fizesse também, para que saiba quanto o desejamos, e o serviço de Deus Nosso Senhor, que daí se seguirá. Pelo quê, peço muito a Vossa Senhoria queira pôr tôda sua força, para que isto tenha efeito, fazendo que ao menos venham mil, o mais depressa que puder ser, para que seja Vossa Senhoria o que tenha diante de Deus a honra e prémio de tão grande emprêsa; e nós, abrindo-se o caminho, serviremos a Vossa Senhoria com tudo o que de cá desejar. Não digo nesta mais, porque o Padre Pero Pais, com quem há muito tempo que trato minhas coisas par- ticulares, poderá descobrir meu coração. Deus Nosso Senhor acabe tudo em bem, e dê a Vossa Senhoria muitos anos de vida. Amen. Em Etiópia a treze de Dezembro de [mil] seiscentos e sete. Não se deu el-rei por satisfeito só com as cartas acima ditas, que escreveu a sua Santidade e Majestade; mas depois de as dar, tratou muitas vezes com os padres de mandar também um embaixador para tratar e * negociar o mesmo, e .F1.J4T. com êle um dos nossos padres que lá estão com as mesmas cabeças da cristan- dade. Mas a dificuldade que se achou no modo com que poderia passar de Etiópia para índia, o entreteve por ora, mas não lhe tirou a determinação. E singular o amor, devoção e respeito, que êste bom imperador tem aos padres e a afabilidade e gasalhado com que os trata. Vindo uma vez da guerra, onde teve várias vitórias,, o foram receber os padres ao caminho para lhe darem os parabéns da vinda e das mercês que Deus lhe fizera; êle em os vendo se apeou logo do cavalo e recebendo-os conforme ao amor que lhes tem, se foi a um
  • 38 Das coisas de Etiópia lugar apartado a falar com eles, preguntando-lhes muito familiarmente, ainda por cada um dos que estavam ausentes. As coisas dos padres defende como próprias e assim o mostra aos que lhe vêm a fazer alguma queixa deles, como foi uma vez um senhor, grande inimigo da redução, o qual, instigado pelos seus frades, se queixou a el-rei, que nossos padres em Gorgorra, tinham sua igreja perto daqueles religiosos e os prejudicavam muito com isso, porque a gente os deixava a êles e se iam à igreja dos padres a ouvir sua missa e prè- gação, no que sua majestade devia de prover, porque não no fazendo, todos ouvindo as coisas dos padres, se fariam da Fé Romana, deixando a de Etiópia; pois êles prègavam cada domingo e todos os dias santos. Ao que el-rei res- pondeu, que os padres por isso não haviam de deixar de prègar o Evangelho, nem tinham que mudar a igreja; que se a gente os seguia, mais que aos seus frades, prégassem êles também e fizessem quanto pudessem, pela atrair. Outra • fi.35. vez indo-lhe uns frades, fazer queixumes dos padres, sôbre a mesma * matéria, e dar-se por agravados dos muitos favores, que el-rei lhes fazia, lhes respondeu el-rei: dizei-me: ^que quereis que faça, a êstes servos de Deus? que os deite no mar?... Antes os hei-de favorecer, porque ninguém merece mais favores, que êles. Estando um dia em conversação, com alguns senhores, estava presente um frade, o mór letrado, e de maior autoridade, que há em Etiópia, por nome Abamaria; e falando nas coisas da Fé disse el-rei: Oh! mal haja el-rei Zera-Jacob, que êle nos fez estarmos hoje fora da Fé dos portugueses, que assim chamam êles à Fé Romana; êle o pagará mui bem lá no inferno onde está. E disse isto, porque êste rei foi o que deitou a perder esta igreja, e os fêz meios judeus. Acudiu o frade: Senhor! i como diz Vossa Majestade de um rei coroado, estar no inferno? Sim! sim! tornou el-rei; rei coroado está no inferno; porque, quem tanto mal fêz, e deitou a perder a Fé não pode estar no céu. E continuando na prática, ajuntou mais, com demonstração de muita mágoa: Oh! porque não somos todos de uma Fé, e comungamos com os portugueses! Respondeu o frade: Senhor, se vós quereis, eu serei o pri- meiro que comungarei com êles. E disse isto, porque sendo êste frade dantes, confessor da rainha velha, que o ano passado morreu, e mui adverso a nossas coisas, desde que tratou com os padres, e ouviu nossa doutrina da verdadeira Fé, totalmente se mudou; e hoje, é mui afeiçoado à Fé Romana, e fala mui claramente sôbre ela, o que nenhum outro se atreve a fazer; de modo que, estando uma vez disputando com um dos padres, diante da mesma rainha, no cabo da desputa, concluiu falando com ela: Ora, Senhora! o que o padre diz é a verdade. Em Cristo há duas naturezas, e uma só Pessoa Divina; a circum- cisão em o sábado já acabou, e eu não falo às escuras, mas claramente. Outra • fi. 35 r. vez estando disputando com o padre, diante de Arás Athenateus, disse * ó mesmo Arás ao nosso padre: padre, porque não seremos todos da mesma Fé? Res- pondeu o padre por modo de graça: Senhor, porque não quere Abamaria aqui acudiu o frade: ^como, padre, e porque não quero? Respondeu-lhe o nosso: porque dizeis que o papa não é cabeça de tôda a Igreja. Tornou o frade: padre, eu digo e confesso, que o papa é cabeça de tôda a Igreja. E como êste frade é de tanta autoridade e tido em tanta reputação de letrado, não se pode encarecer, de quanto momento é termo-lo já desta maneira por nós.
  • Das coisas de Etiópia 39 Teve el-rei notícia de dois portugueses, ambos irmãos, de quam boas par- tes tinham e de quam bons cristãos e católicos eram e de quanto por isso os padres se confiavam deles. Por todas estas razões os tomou por seus privados e conselheiros e intérpretes nas coisas da Fé e redução e para por meio deles tratar tôdas as coisas desta matéria. E porque êles ambos moram no reino de Tigré e em Fremoná, onde os padres residem, ordenou que sempre um deles pelo menos, estivesse na corte, principalmente depois que Selá-Cristós seu irmão, a quem êle fêz vice-rei do Tigré, como abaixo diremos, o desenganou, que não havia de tomar o governo se lhe não dava por conselheiro, um daqueles portugueses. Também tomou para seu págem, a um filho mais velho de um deles, que era colegial no seminário, que os padres têm em Fremoná, moço de boas prendas e virtuoso; e quando o pediu ao pai lhe disse: dizei aos padres que mo mandem logo, que eu vos dou minha palavra de o fazer grande de meu reino. E tudo isto faz o bom rei, assim para mostrar o amor que tem aos por- tugueses e padres, como para ir dispondo as coisas para o negócio da redução, que tanto traz no coração e vontade. * O mesmo amor e vontade, mostram todos seus irmãos. O mais velho, «fi.36. que êle tem feito rei do reino de Amará, onde há muitas igrejas, desejava muito levar consigo os padres para lá; mas vendo que por ora não era possível, pediu que lhe dessem algum livro, para mandar ler em suas igrejas, e se lhe deu um dos novíssimos. Êste dantes era adverso, mas, depois que tratou com os padres, se mudou. Dos outros dois diremos também em seu logar, principalmente do que é vice-rei do Tigré, quando falarmos de Fremoná. Na demais gente grande e poderosa do reino, é coisa de muito espanto, ver o conceito, respeito e reve- rência, que têm aos padres, porque na opinião os têm por anjos, pela pureza de vida que nêles vêem, que tanto mais estimam, e os admiram, quanto mais falta disto vêem, nos que êles lá têm por seus padres e mestres; e assim, até os senhores grandes quando pelos caminhos encontram nossos padres, em os vendo e conhecendo de longe, se apeiam logo, não sofrendo bem, que os padres se apeiem; e lhes fazem a mesma reverência, que costumam fazer a seu príncipe. Os frades, também pela maior parte, estão bem com os padres, principal- mente os que são de melhor vida, porque os que vivem à larga, que são os mais, não é muito não gostarem da pureza e luz que tanto aborrecem. Muitos conhecem a verdade e a confessam, mas, não ousam de a seguir, por medo, que têm uns dos outros. Ouvindo um bom letrado, uma prègação a um dos nossos padres, se levantou em pé, diante de todos, e disse em voz alta: esta é a verdade, e Etiópia se perde, porque quere. Outro bem grave, vindo à nossa igreja, de nela ver uma imagem da Virgem Nossa Senhora, e falar de vagar com os padres, lhes disse: por certo, padres, parece que todo o bem fêz Deus para vós; e para nós, só as cores pre*tas, e o desmazelamento; que nem somos »fi.36t. gente, nem somos homens. Eu muito bem sei que a vossa Fé, é a verdadeira, e por ela vou no que toca a minha pessoa; porém o medo me faz não falar destas coisas em público; mas Deus dará tempo em que se falem. Outro frade grave, superior de muitas igrejas, vindo a uma casa nossa, o agasalharam os padres com muita caridade. Depois de compridas práticas, e de ver um oratório devoto, deante do qual esteve de joelhos por grande espaço, disse: posso
  • 4° Das coisas de Etiópia afirmar com verdade, que hoje vi homens, semelhantes aos santos Apóstolos, pois achei religiosos que só buscam a honra de Deus, e ensinam a verdadeira Fé. Outro prelado nobre e de mui boa vida, veio visitar os padres, quási às escondidas, e deu como razão, que o não fazia claramente, como desejava, pelo medo que tinha de seus próprios frades. E entre outros muitos, que pelo decurso do tempo, vieram de diversas partes, veio um, de casta real; este trazia consigo dois companheiros, que todos mostraram muita devoção a nossas coisas; ouviram duas missas e uma prègação, e o principal, não sòmente nas missas e na prègação derramou muitas lagrimas, mas ainda em casa, na conversação com os padres; e quando se quizeram ir, pediram escrito o santo Evangelho, para o levarem consigo, como fizeram, porque todos estes cristãos tem muita fé e devoção às palavras do santo Evangelho, e o trazem muitos deles, em nóminas de coiro, nos buchos dos braços. Finalmente, dando-lhes os padres contas, verónicas e Agnus-Dei, se foram mui contentes para seu deserto, donde vieram, mostrando muito desejo, de cêdo tornarem; e como êste frade era pessoa tão grave e conhecida, e acreditou muito para com os da terra as nossas coisas, com o caso grande que mostrou fazer delas. Por mandado de um superior de muitos religiosos, veio também, um clérigo perito nas cerimónias eclesiásticas de Etió- • Fi.37. pia, para * que tratando com os nossos, e tomando notícia de nossas coisas, lha fôsse dar a êle que por temor não ousava de vir em pessoa. Chegado o clérigo ouviu logo missa e prègação, na nossa igreja, e querendo-o os padres, depois levar para dentro de casa para jantar com êles, não havia remédio para ir, dizendo entre outras palavras, com muita humildade: ó servos de Deus, como quereis pôr convosco à mesa, um miserável, que sendo sacerdote, tem tantos filhos, e com isto, começou a chorar. Edificaram-se os padres de sua humildade, principalmente, porque em Etiópia, não se respeita por pecado, serem os sacerdotes casados. Dêste entenderam os ritos da sua missa, que em muitas coisas, se conforma com a nossa, mas mais com a missa grega. Não sòmente muitos dos frades e religiosos mostram esta afeição à Igreja e Fé Romana, mas também os seculares de tôda a sorte. Algumas matronas nobres ouvindo prègar a um dos padres, como a outra mulher do Evangelho que entre as turbas, louvou a Cristo Nosso Senhor, assim estas, levantando suas vozes e chorando dizem: ai! que esta é a verdade, esta é a verdadeira Fé. Alguns abexins, ainda que pelo medo que têm, não ousam publicamente de se manifestar por católicos e abjurar seus erros, pelo menos levam aos padres seus filhos: uns para que lhos baptizem, outros, para que lhos instruam na dou- trina católica. Estando um dia falando com os padres, dois homens honrados, e cabeças de muita família, entre outras palavras que disseram significando a afeição, e devoção que lhe tinham, assim a êles, como às coisas da Fé Romana, foram estas: padres, não cuideis, que ainda que somos homens do mato, não entendemos vossos intentos. Bem se deixa ver, que vós não viestes de vossas terras com tantos perigos de vossas vidas, e liberdade para buscar oiro a Etiópia, e viverdes em nossa pobre e miserável terra, mas para nos ajudardes a salvar. *fi.37t. E sabe Deus, que em públi*co não ousamos falar; em nossas pobres orações, rogamos a Deus por vós, para que leve àvante vossos intentos, para bem de todos. Finalmente o geral do povo de Etiópia é mostrarem tôda a sorte de
  • Das coisas de Etiópia 4» pessoas grande devoção e afeição a nossas coisas, edificarem-se muito dos padres, falarem altamente deles, assim pelo que vêem nos presentes, como pelo que viram e experimentaram nos passados; parecer-lhe muito bem a doutrina cató- lica, fazerem muita diferença entre ela e a que lhes ensinam os seus frades. Estimam quanto se não pode encarecer, e se admiram do ensino que se dá aos meninos, assim nos bons costumes, como na doutrina da cartilha, quando lha vêem disputar entre si, e dizer de memória os capítulos dela, ficando os que os ouvem, sumamente maravilhados, e confessando, desde o rei e piíncipes até à gente inferior, e os próprios frades letrados, que sabem mais aqueles meninos, que todos êles. Às coisas santas e sagradas de nossas igrejas, como imagens de Cristo, e de Nossa Senhora, e dos Santos, «Agnus Dei», contas ben- tas, verónicas, relíquias, água benta, têm grandíssima devoção, a qual se lhes acrescenta, cada vez mais, com as muitas maravilhas, que Nosso Senhor obra, pela virtude dos »Agnus Dei», em várias enfermidades, e principalmente em mu- lheres que estão de parto, no qual muitas perigam em Etiópia; e pela da água benta contra a praga dos gafanhotos, que e mui frequente nesta terra, indo-a espalhar por suas searas. E sem dúvida parece que se os tempos e as coisas de cá estiveram em estado que se lhes pudera mandar o socorro de soldados que desejam para poderem resistir a tantos inimigos, turcos, mouros, gentios e outros rebeldes, que tão angustiado têm aquele império por todas as partes, e com que o próprio rei se pudera fortificar e segurar contra a perfídia de alguns dos seus, de que não se fia, e hou*vera juntamente possibilidade para se poder .fi. 38. mandar maior número de padres da nossa Companhia, que sem nenhuma dúvida, nem dificuldade, todo aquele grande império em breve tempo ficaria reduzido à Igreja Romana, com tanta glória de Deus e da Santa Sé Apostólica, como a mesma coisa nos está mostrando. E dali se pudera entrar com a ban- deira da cruz e prègação do Evangelho por infinitas nações de infiéis e gentios, que confinam com aquele reino e se pudera ali restaurar à sua antiga formo- sura aquela primitiva igreja de Etiópia, que tão gloriosa foi no mundo, em seus princípios, e para a qual tudo ainda agora está tão disposto se tiver quem a cultive. E para que isto melhor se entenda, se há-de saber e notar, que ainda que os abexins estão em muitos e grandes erros na Fé, todavia, não tratando dos seus erros e cisma, é certo que a sua excelente índole e boa inclinação natural para tôda a piedade e virtude a têm ainda agora como tinham antigamente e que há neles, conforme a experiência do que os padres vêem e palpam, ainda de presente, muito menos pecados que em outras muitas partes, onde cá pela Europa, nossa santa Fé está inteira. Há geralmente muita singeleza e inocência no trato da gente uma com outra, em matéria de honestidade; há muito amor ao jejum com ser tão rigoroso como é em tôda a Igreja Oriental, pois não comem senão ao sol-pôsto, e nisto excedem os limites da prudência, porque não exceptuam, nem os doentes, nem os caminhantes; e o seu comer no tempo do jejum, é papa preta como carvão, com umas poucas de lentilhas ou ervas cozidas, ou mestuços pisados com mos- tarda ou outra coisa semelhante, sem azeite, porque o não há na terra que se possa comer, nem manteiga que por ne*nhum caso comerão em dia de jejum. fi. 38t. 6
  • 42 Das coisas de Etiópia São mui afeiçoados à penitência e por maior que o confessor lha dê, sempre dizem que é pequena e que farão mais. São dados à oração e muitos se levan- tam cedo e a vão ter às igrejas. Dão com muita facilidade esmola aos pobres e agasalham os peregrinos, e para isto têm terras em cada lugar ou aldeia, que dão a certos lavradores, com obrigação de agasalharem aos hóspedes. Têm grandíssima afeição (e quanto de Fé tão arruinada se pode pedir), a Cristo Nosso Senhor e à Virgem Nossa Senhora, e nada lhes pedirão por estes dois Nomes Santíssimos que não concedam, e também pelo nome de Deus. Têm Ladainhas que no tempo das necessidades e apêrtos cantam nas igrejas onde as há; e onde não, em lugar público; e cantam-nas em dois coros, um dos homens, outro das mulheres. Aos dias de festa em suas igrejas, àlém do canto das coisas pertencentes à missa, se cantam algumas cantigas acomodadas à festa, e principalmente acabada a missa, a modo de folia, tangendo certos tam- bores e instrumentos. Têm muita devoção à Santa Cruz, e ainda que a não arvoram nos montes e caminhos, todavia^ muitos a trazem ao pescoço em cadeias de oiro, ou cordões de retrós e os grandes as põem nas testas e pescoços dos cavalos; e para a festa da Cruz, que fazem no mês de Setembro, a que chamam mês da Cruz, se aparelham um mês antes; e neste tempo os pastorinhos do gado, têm cuidado de cada noite andarem cantando pelo lugar certas prosas, em que trazem à memória a festa da Cruz. Quando algum abexim chega a algum lugar, aonde está a igreja, logo vai a ela; e se vai a cavalo descavalga de longe; e em chegando acêrca do adro beija as pedras e entrando pela igreja beija a porta. Nas igrejas não entram com sapatos, nem homens, nem mu- • fi.3g. lhe*res, nem cospem dentro, nem se assentam senão no chão; e nisto são observantíssimos. Usam em suas cortezias e saudações de palavras muito pias e cristãs, como: «Deus vos salve», «Deus vos ajude», «graças a Deus» e outras semelhantes. O mesmo fazem quando se vêem em trabalhos ou vão visitar doentes, ou consolar a tristes, no qual tudo, são extremadamente caridosos. Finalmente têm os abexins tõdas as prendas para ser uma das melhores cris- tandades do mundo, se lhes entrara a verdadeira luz da pura Fé, em que na primitiva Igreja tanto floresceram; porque se com longe estarem em tão mise- rável estado, nem terem quem os ensine nem cultive, porque seus padres e frades, que são os que têm as igrejas, não tratam mais que de si, e de recolher os proveitos delas, sem terem conta alguma com as almas dos seus frèguezes, . senão deixarem-nos viver conforme ao que cada um quere, há ainda neles tan- tas virtudes e boas prendas, que se poderá esperar se forem cultivados e dou- trinados conforme a Fé e uso da Igreja Romana? E por experiência o vêem os padres nos católicos que têm à sua conta, dos quais afirmam, que comummente, são almas puríssimas e que assim, muitos se confessam e comungam cada oito dias, e se exercitam em todas as mais obras de virtude, em que se costumam exercitar as pessoas da nossa Europa, que particularmente se dão à piedade cristã. E os próprios abexins vão caindo nisto, porque quando vêem à nossa igreja, e ouvem nossa missa e prègações e falam com os padres ou com os católicos, que lhes contam o cuidado que os padres têm deles, e de suas almas, tudo é suspirar e gemer, que são desamparados e gado sem pastor; e assim são muitos os que pelo decurso do ano, vêem a visitar as nossas igrejas, e
  • Das coisas de Etiópia 43 oferecer-se à Virgem de Roma, como * eles dizem, em razão de uma imagem da .a39». mesma Virgem gloriosa, que nela há, a que têm grandíssima devoção. E nunca veem à igreja de ordinário, que não tragam suas ofertasinhas, como incenso, cera, trigo para as hóstias, e algumas outras coisas, que a terra dá; e raramente se entra na igreja, que ao pé dos altares se não ache alguma coisa de oferta; e até um gatinho para matar os ratos, que não faltam na terra, deixou uma vez uma pobre mulher abexim, dizendo, que não tinha outra coisa que oferecer, se não aquele gatinho, que era de boa casta. Grande- mente se consolam com ouvir a nossa missa, assim pela santidade e devoção e ritos dela, porque se diz em público, e à vista de todos; nem e proibido às mulheres ouvirem-na em todo o tempo, o que tudo em Etiópia é ao contrário, porque as mulheres não podem ir à igreja dos homens, e cada um tem sua igreja deputada, a que vão; e nem os homens podem entrar nas das mulheres, nem as mulheres nas dos homens; e a missa não se diz em público, de modo que seja vista, senão de trás de cortinas, onde ninguém vê nada, se não os que têm ordens, nem se entende o sacerdote, que a diz, porque tudo fala e canta de garganta, sem exprimir as palavras; pelo quê, quando vêem o modo da nossa missa, e a devoção com que se diz e canta, não se pode encarecer a consolação que recebem; e se isto é hoje quando os padres lá estão em tanta pobreza, que não chegam com o aparato e ornato da igreja e altares, a qualquer aldeia das de cá, pode-se bem ver, o que seria e causaria em suas almas, se os padres tiveram lá possibilidade e comodidade de igreja e culto divino, semelhante aos destas partes de Europa. * CAPÍTULO XI De algumas coisas particulares do serviço de Deus, que se fi\eram em Gorgorrá DESCENDO agora a casos particulares das coisas que sucederam e se fizeram em cada uma das estâncias em que vivem os nossos, ainda que foram muitos e vários, tocaremos alguns somente, para que deles se infiram os outros. Um menino filho de um homem rico, inspirado por Deus a seguir a verdadeira Fé Romana, se saiu de sua terra, e de casa de seu pai e parentes; e sem saber aonde havia de ir, andou de umas partes para outras, buscando os nossos padres, até que os veio achar em Gorgorrá; e declarando-lhes seus desejos, os padres o agasalharam, com o amor que êle merecia, e o come- çaram a instruir na doutrina católica. A mãe, achando menos o filho, foi tão grande seu nojo, que adoeceu, o que vendo o pai, levado parte com o senti- mento da mulher, e parte com a mágoa do filho, se foi de terra em terra, em busca dele, com grande angústia, até que no cabo de alguns meses, veio a dar com êle em Gorgorrá, andando brincando junto da casa dos padres. O menino vendo o pai fugiu para os padres, dizendo que seu pai o vinha buscar, mas que por nenhum modo havia de ir com êle. Chegou o pai, e foi mui bem recebido dos padres, os quais chamando o menino, que logo beijou a mão ao pai, e o joelho como é costume da terra,
  • 44 Das coisas de Etiópia disse o pai com muita brandura e lágrimas: filho, ^como nos deixaste assim? jque te fizemos para fugires? Já tua mãe está por ti perto da morte, porque • FI.40T. cuida que tu és morto, e se te não vir, acabará; e pois ela te deu à luz e criou, vai-lhe beijar a mão e tomar sua benção, antes que morra (palavras para ren- der um coração mais robusto, que o de um menino). Porém estava tão forte o do bom menino, que sem lágrimas nos olhos, nem significação alguma de fraqueza, respondeu: senhor, quanto a minha mãe, eu rogarei a Deus que lhe dê saúde, e sempre dela terei lembrança; porém, por ora, vê-la não é possível. Aqui se renovam as lágrimas do pai, e dobrando-se sobre êle, lhe disse: filho,
  • Das coisas de Etiópia 45 tão grande senhor, não sabia o que ao diante poderia suceder. Não se aquie- tava porém, o menino com isto, mas importunava quanto podia. Se não quando, nesta conjunção, o frade seu mestre, se foi ao tio com grandes queixas, de lhe ser tirado seu discípulo, sem sua licença; e pôde tanto, que o tio tornou a Gorgorrá, e tendo cumprimento com os padres, lhes pediu que lho deixassem levar, por algum tempo, e que êle mesmo, depois lho tornaria. Levou-o, mas com muita mágoa, assim do menino como dos padres. Dali a poucos dias, não podendo já o meni*no sofrer mais a saíidade que tinha, de tornar para os padres, .F1.41T. teve modo com que fugiu; e como era avisado, e entendeu que se se fôsse caminho de Gorgorrá, o haviam logo de seguir e tomar, determinou ir-se para Fremoná, que era dali a cem léguas, onde estavam os outros padres; e como não sabia o caminho, se foi dali, ao reino de Dambiá, onde sabia que moravam os portugueses, a buscar algum que o levasse a Fremoná. Mas como isto era no coração do inverno, e as ribeiras e rios iam mui furiosos, que nem os bons nadadores se atrevem a passa-los, chegando a um rio teve medo; e cuidando no que faria, se resolveu de tornar a Gorgorrá secretamente, e ali negociar com os padres, lhe dessem alguém, que o levasse a Fremoná. Entra de noite, agasalha-se em casa de um lavrador, que fôra criado do seu tio, roga-lhe muito que o não descubra, e depois de três dias que esteve escondido, se vem ter com os padres, pede-lhes com grande instância, que o mandem a Fremoná; porém neste mesmo tempo, chegam os criados do tio, que o vinham buscar; tornam-no a levar com dobrada mágoa sua e dos padres; e chegando, o frade seu mestre o pôs logo em ferros; porém, da mesma prisão, manda muitas vezes visitar os padres, consolando-os êle mesmo, com dizer que sua prisão não ha-de durar sempre, mas que seus bons propósitos não hão de faltar; e quanto a seus parentes, que de seu corpo podem fazer o que quizerem, mas que se a vida se lhe não acabar, êle cumprirá à risca a palavra que tem dado. Uma senhora nobre, casada primeiro com um capitão, grande do imperador, morrendo-lhe o marido, casou com um português honrado; e porque ela era hereje, estiveram muito tempo sem se receber, conforme ao costume da Igreja Romana; apertando porém, os padres com êle, para que a fizesse resolver, ela se foi confessar, com um frade seu pa*rente, grande homem, o qual lhe res- - F1.4J. pondeu: senhora, já que fostes tão ditosa, que achastes ocasião de tomar a verdadeira Fé Romana, e sem receio de alguém vos pedir conta disso, tomai-a, que êste é o conselho que vos dou. E pôsto-que, ainda se deteve algum tempo, em fim se reduziu, e vive agora com seu marido, mui contente, pelo tesoiro da Fé verdadeira que achou. Adoecendo uma noite, um homem nobre, e que sempre no coração foi afeiçoado a nossas coisas, vendo-se mui apertado, e desejando de se confessar ao uso romano, não se atreveu a mandar logo chamar o padre, pelo não inquietar; mas tôda a noite gastou em pedir a Deus o deixasse chegar ao outro dia, para fazer o que desejava. Em amanhecendo, o mandou logo chamar, e depois de o receber com muito gasalhado, lhe pediu confissão e reconciliação com a Igreja Romana, porque lhe parecia que morria, e não queria morrer na fé de Etiópia, se não na de Roma, a qual entendia que só era a verdadeira. O padre o con- fessou, ainda que com bem de contradições e desgostos dos parentes. Con-
  • 46 Das coisas de Etiópia fessado e instruído para a jornada, daí a poucos dias acabou em paz e no grémio da igreja. Um português honrado, nascido em Etiópia, viveu alguns anos, mui estra- gadamente, e com bem pouca edificação dos que o conheciam. Trabalharam os padres muito pelo remediar, mas não puderam, até que Deus lhe acudiu com sua misericórdia, dando-lhe por espaço de um ano uma febre lenta, com que o filho pródigo, abrindo os olhos, se tornou para casa de seu pai; e assim pelo decurso de todo o tempo em que esteve doente, se confessou muitas vezes, e dizia, que quando no tempo em que andava em mau estado via os padres, lhe parecia que via os demónios do inferno; mas depois que Deus lhe abriu os • fi.42t. olhos e se começou a confessar e pôr no caminho de Deus, lhe parecia, * quando os via, que via Anjos do Paraíso; e assim finalmente acabou em paz. CAPÍTULO XII Do que se fê\ em Fremonâ r EFremoná um logar no reino de Tigré, onde residiu o santo padre Pa- triarca, com todos os seus companheiros, do qual deixou profetizado o santo padre, que sempre permaneceria; o que bem se tem visto em muitos e maravilhosos sucessos, em que Deus mostra a protecção que tem sobre este lugar, pelos merecimentos de seu santo, e dos mais companheiros; porque ardendo a terra muitas vezes em guerra, ora pelas dissensões civis, ora pelos assaltos dos galas, e desejando os inimigos, muitas vezes, dar sôbre este lugar, e estarem resolutos a isso, por cuidarem que tinham nele grande presa, sempre Deus o livrou deles; e quando menos cuidavam, os desviava para outra parte, assolando e destruindo tudo, quanto havia ao redor; que não é pequena conso- lação, para acrescentar a fé e esperança dos padres, que ali residem, e enten. dem ser sua estada, em Etiópia, de expressa vontade e serviço de Nosso Senhor, e de se haver pelo tempo em diante, de alcançar o fim dela, que é a redução dêste grande império à santa Igreja Romana. Neste lugar vivem a mór parte dos portugueses, que há em Etiópia, com suas famílias, e juntamente muitos outros abexins dos reduzidos e católicos, pôsto-que, também há outros, que ainda o não são. Nele têm os padres a principal casa e igreja, pôsto-que sumamente pobre, pois tudo é coberto de palha. Nela ordenaram também um seminariozinho de meninos, que vão criando, pela experiência que se tem em • Fi.43. tôdas as partes da cristandade, assim de * Europa, como da índia, do fruto que êstes depois veem a fazer em seus naturais; e ainda que pequeno, porque não têm os padres com que os possam sustentar, nem na terra há, quem dê esmolas, se não quem as peça, desde o maior até o menor; contudo da pobreza que vai da índia para os padres, o foram sempre provendo e conservando; e estão hoje aqueles meninos mui aproveitados, assim na língua natural, como na nossa portuguesa; e não menos o estão, no que toca à virtude, que é o principal intento; nem, nesta parte, há muito que fazer com êles, porque são os moços abexins de naturais áureos, e da mor inocência que se pode imaginar; e como
  • Das coisas de Etiópia 47 Etiópia, ainda que tão inculta, não perdeu de todo as relíquias daqueles pri- meiros bons princípios, que aprendeu dos santos apóstolos, ainda hoje se usa mandarem os pais aprender seus filhos aos mosteiros, e principalmente os senhores, os quais não se contentam com seus filhos aprenderem os livros sagra- dos, mas também procuram, que suas filhas os saibam; e assim não há senhora que não saiba bem o texto, das sagradas letras de cor, as Epistolas de S. Paulo, e os salmos de David; pelo quê, se Nosso Senhor fôr servido dar algum modo de esmola, com que se possam fazer estes seminários e criar neles os filhos dos abexins, não há dúvida, que serão de mui eficaz efeito, para a redução deste império. Entre tanto irão os padres como puderem, conforme a possibilidade que houver; porque não acodem sòmente a êles, mas a todos os pobres cató- licos, assim portugueses como abexins, e ainda a todos os outros a que a pos- sibilidade pode abranger, coisa para os abexins de tanta edificação, que uma daquelas com que mais os padres cativam e atraem a si os coraçoes dos abexins, é não sòmente não lhes pe*direm, nem quererem o seu, do que êles grandemente »fi. 43». se maravilham, mas com verem, que essa pobreza, que lhes vai da índia, a repartem e gastam mais com êles, que com suas próprias pessoas; e assim, quando êste provimento lhes falta, os mesmos abexins o choram, e dizem que é tanto pelos padres, como por si mesmos, pois êles são os que igualmente participam e gozam desta esmola. Exercitam aqui os padres todos os ministérios da Companhia, como pregar, confessar, ensinar a doutrina, acudir aos doentes, principalmente em procurar a redução à Igreja Romana, dos abexins herejes e cismáticos, assim eclesiás- ticos e religiosos, como seculares, que vivem por êste reino de Tigre, que é um dos grandes de Etiópia, e é grande o concurso da gente de tôda a sorte, que de diversas partes, aqui acode continuamente, a ver esta igreja e as ima- gens dela, e a tratar com os padres, sôbre as coisas da Fé. E na Semana Santa principalmente, e pelas Endoenças, a ouvir prègação da Paixão, a adorar a Cruz e a ver nossos ofícios; porque, como nas igrejas de Etiópia nada disto há, nem se faz nestes dias mais, que quando muito lerem seus frades por um livro, consolam-se muito e admiram-se grandemente os abexins de ver o que nós fazemos, conforme ao uso da Santa Igreja Romana; e vêem a diferença que há, da sua fe à nossa. Da gente eclesiástica, veem aqui de diversas partes muitos frades, e todos mostram irem consolados e edificados com o que vêem e ouvem das coisas de nossa santa Fe, c com o bom gasalhado, que recebem dos padres. Da gente secular também vem muita; e o que é de muita estima, e faz muito ao caso, para a autoridade de nossas coisas e para o povo de Etiópia lhes ter respeito, é a freqtiencia das pessoas grandes e ilustres, que aqui acodem, e da gran#de amizade e reverência, que *fi. 44. mostram aos padres, e às coisas da Igreja, como se poderá ver, dos particula- res, que brevemente tocaremos. Há nêste reino de Tigré, duas grandes cabeças, a quem pertence o govêrno dele: um é vice-rei, que sempre é uma pessoa principalíssima do reino, e da casa real; e o que até agora, pouco há, o foi por treze ou quatorze anos. Era um senhor, por nome Cafleal, casado com uma filha do imperador de Etiópia, que morreu haverá quinze ou dezasseis anos. Outra cabeça é o Barnagais, que
  • 48 Das coisas de Etiópia quere dizer rei do mar, porque antigamente, antes de os turcos se terem apo- derado da costa do Abexim, que bebe no mar vermelho, a êste pertencia o govêrno das terras e coisas marítimas; mas depois que os turcos se apoderaram das coisas e portas do mar, ficou o govêrno dêste mais encolhido ao sertão; porém, ainda que se chama rei, e quando o elegem para esta dignidade, lhe poem coroa na cabeça, na jurisdição não sòmente fica súbdito do imperador, mas subordinado em muitas coisas ao govêrno do vizo-rei. Ambas estas cabeças, que até agora, pouco há, governavam, correram sempre com os padres, no exterior, com muito grandes demonstrações de benevolência e cortezia; pôsto-que, ocultamente, e por debaixo de capa, como dizem, mostraram bem serem herejes e cismáticos, nas más obras que lhes fizeram, como ao diante se tocará. Tinha o vice-rei, uma filha casada com o Barnagais, senhora mui sizuda, e uma irmã, a qual tem também uma filha. Todas estas senhoras mostram mui grande devoção e afeição à Igreja e vinham a ela algumas vezes, ouviam missa e prègaçao, e a doutrina dos meninos de que muito gostavam. E a irmã do vice-rei, estando uma vez vendo com sua filha as nossas coisas, lhe disse a filha: Ah! senhora, quem nos impede que • F1.44V. não sejamos desta * Fé, que todas suas coisas são formosas e puras. E ambas elas têm pedido aos padres, com muita instância, que se porventura, alguma adoecer e os mandar chamar, lhe acudam logo, para se confessarem, e recon- ciliarem com a Igreja. E parece que no coração, são já ambas estas senhoras, católicas; e como tais correm com os padres, com toda a fidelidade avizando-os de todos os segredos, que sabiam por via do vice-rei, que podiam importar aos padres e à Igreja. A filha do vice-rei, mulher do Barnagais, todas as vezes que vinha, pedia sempre, que os meninos disputassem diante dela a doutrina, e lhe lessem alguma coisa dos nossos livros e lhe mostrassem as imagens de Cristo Nosso Senhor, e da Virgem Nossa Senhora, ao que tudo mostram sin- gular devoção e reverência; e aos meninos da doutrina chamam bemaventurados, por terem quem lhes ensine tais coisas. Depois que acabou seu govêrno êste vice-rei e o Barnagais seu genro acima ditos, lhes sucederam, em seu logar, outros mui diferentes no amor e devoção aos padres, assim exterior como interior. Porque por vice-rei neste reino de Tigré, veio Selá-Cristós, que é o mesmo que dizer, imagem de Cristo, irmão de Sacinos, o imperador que agora reina, o qual, em sua coroação, se chamou Malaceguet. E êste príncipe na idade, de vinte e cinco anos, mas de mui grandes prendas no saber, prudência, valor e esforço de capitão, de que já exercitou o ofício, sendo vice-rei de Abagamedri, pelejando contra os galas, de quem teve uma insigne vitória. É bom letrado, e dado aos livros de Etiópia, e sobretudo, mui afeiçoado a nossas coisas. Quando veio, o foram visitar os padres, aos quais fêz mui grande agasalhado, dizendo, que não se havia de haver com êles, como vice-rei, se não como filho com pais, e que em tudo os havia de ajudar e favorecer, não • pi. 45. só por el-rei, seu senhor e irmão, lho encomendar, senão * também por êles, padres, o merecerem; e que desejava fazer seu aposento, muito perto da igreja e da casa dos padres, por ter ocasião de tratar muitas vezes com êles, das coisas da Escritura e livros sagrados. Indo depois falar com êle um padre, lhe
  • Das coisas de Etiópia 49 disse, que desejava muito ir à nossa igreja, e ouvir missa; que o houvessem os padres por bem. Assinado o dia, veio muito cedo, ouviu missa e prègação, e jantou em casa, agasalhando-o os padres, conforme a sua pobreza, de que êle ficou mui satisfeito. E estando em prática, disse: oh padres! ^quem vos não estimará muito, a vós e a todas as vossas coisas, pois em tudo sois perfeitos? Eu cuidava que os mouros vos ganhavam pelo muito que procuram estender sua má fé; porém hoje vejo que há cristãos, que têm zelo do Santo Evangelho, e fico muito contente. Se não fôra, porque minha gente é má, e vos darei muito trabalho, cada dia aqui viera. Ficou muito espantado de ver nossas coisas, missas, sacramentos; as hóstias com que celebrávamos, os ferros com que se faziam, e as coisas pertencentes ao altar e missa, porque tudo quis ver mui miudamente. Estando com os padres, veio para lhe falar um frade, supe- rior de um grande mosteiro, que é homem muito nobre; recebeu-o bem, mas em breves palavras o deixou, e virando-se para os padres, continuou na prática, que com eles tinha; o que vendo um homem principal, e grande dos seus, o advertiu da qualidade do frade, e que era bem mostrar-lhe mais respeito; ao que êle respondeu, de modo que, o frade o ouviu: já que é tão pouco atentado, que quando eu estou com os padres, me vem com negócios, não será despa- chado; e assim lhe disse, que fôsse ao outro dia a sua casa. No mesmo tempo indo-se êste frade, chegou um homem nobilíssimo, e de sangue real, que aqui em Tigré, está feito lavrador. Em êle o vendo, disse aos padres: pêsa-me de êste ho*mem me vir aqui visitar, porque necessàriamente o hei-de prender; e se "Fi.^v. não fôra nesta casa, logo o fizera; mas peço a vossas reverências, que me não tenham a mal, se depois em outra parte o mandar prender, porque convém ao serviço de el-rei, meu senhor, que o mande prêso para a corte. Indo-se para sua casa, e contando a sua mulher, que será de doze para treze anos, (para quem êle guardou parte do jantar), o que passara com os padres, ela lhe pediu muito que a deixasse também vir a ouvir nossa missa e prègação. Concedeu-lhe êle; mas como ela tinha grande desejo, e o tempo de o cumprir se lhe foi dilatando por alguns dias, indo lá um dos nossos a negó- cios, ela o tomou por terceiro, e lhe pediu, que lembrasse sua vinda ao vice-rei. Fê-lo assim o padre, e o vice-rei lhe mandou, que logo fôsse, ainda que era sábado; o que foi muito, porque, neste dia e ao domingo, não caminham. E porque os criados repugnavam a caminhar, lhes disse o vice-rei: não temais de ir, nem cuideis que é pecado, caminhar neste dia, porque vêdes aqui o con- cílio Laudiceno em que se manda, que os sábados se não guardem. Partiu pois, a vice-rainha bem cêdo; e chegando, ouviu logo missa, e prègação, e jantou, e de tudo ficou muito contente; e quando se quis ir, disse: Eu soube, que a rainha, minha avó, foi mui devota vossa, e que também o é minha mãi, e por isso, desde que entendi, que estáveis em Tigré, me deu Deus particular afeição a vós, e a vossas coisas; e pôsto-que, de Dambeá vos não mandei nada para esta igreja, nem agora o trouxe, porque sou hóspeda, e não tenho ainda que dar, eu todavia, ao diante terei lembrança; e se Deus nos der paz, vós também a tereis; e se guerra, passareis como nós passarmos. Quando o vice-rei, veio a casa, não teve tempo para ouvir disputar aos meninos da dou- trina; pelo quê * pediu que lhos mandassem lá, para os ouvir. Levou-lhos um «fi.46. 7
  • 5o Das coisas de Etiópia padre; e estando o vice-rei em senado, com todos os seus capitães e conselhei- ros, mandou que entrassem os meninos, e fizessem sua disputa; e com sumo gosto e atenção lhes ouviu todos os doze capítulos da cartilha. Depois foram à vice-raínha, que da mesma maneira os ouviu e os teve consigo, até que o vice-rei entrou a cear; e depois de êles cearem, e darem também de cear aos meninos, os fizeram tornar à disputa da doutrina, até tão alta noite, que os meninos lhes pediram licença para se irem, dizendo que lhes estranharia seu mestre, irem mais tarde; e por isso lha deram, ficando ambos, sumamente satis- feitos, e dando mil louvores a tal doutrina e ensino de meninos. Emquanto o padre esteve com o vice-rei, tudo foi tratar em coisas da Escritura divina, e da Fé, e da redução de Etiópia à Igreja Romana, que êle de todo o coração deseja, conforme ao que el-rei seu irmão, lhe tinha comuni- cado. Folgou muito, saber que nossas Escrituras são em tudo as suas. Pre- guntou se tínhamos o livro das ordenações de Portugal, o qual êle muito dese- java. Deu-lhe el-rei seu irmão, por mestre aquele frade grave de que acima falámos, que foi confessor da rainha, e a quem, por estar muito por parte da Fé Romana, el rei Tigindil passado, tinha também tomado por mestre, por con- selho do padre Pero Pais, e para o negócio da redução que tanto desejava; este lhe vai declarando as Escrituras, assim como êle as vai lendo cada dia. Entrou uma vez o vice-rei, em uma igreja das suas, a ouvir missa. Ia em sua com- panhia um pagem seu, nosso católico, moço de dezoito anos. Dêste, lhe disse- ram alguns mancebos, também seus, que devia de mandar, que não ouvisse missa aquele mouro. Virou-se o vice-rei e preguntou:
  • Das coisas de Etiópia 5i * CAPÍTULO XIII *n-"7- De alguns apertos, em que os padres por ve\es se piram em Fremoná, e como Deus os livrou COMO quer que os padres em Etiópia, e da mesma maneira os portu- gueses que lá vivem nenhum outro remédio têm para poderem passar a vida, senão o da esmola e provimento, que lhes vai da índia, com que não sòmente suprem suas necessidades, mas também as dos mais católicos abexins, e ainda de muitos outros, que o não são, faltando-lhes esta, não podem deixar de se ver em muito grande aperto uns e outros; e neste se viram os padres, por espaço de dois anos, em que a esmola da índia lhes faltou; e a causa foi, por o portador que lha levava, ir cair em Moçá nas mãos de um arrenegado, Baxá do turco, que ali estava, por nome Athanesenambaxa o qual o cativou a êle, e lhe roubou quanto levava. Era este um bárbaro tão cruel e tirano, que assolou com seus roubos a toda a Arábia; e diante de seus olhos, mandava esfolar vivos aos senhores grandes; e depois de os esfolar ate à cinta, os mandava cercar de fogo lento, e assim os deixava assar, até lhe darem quanto tinham; e fazia outras coisas, mais de fera que de homem nascido de sangue cristão Êste, pouco depois de roubar a esmola dos padres, e cativar o por- tador dela, no mesmo porto de Moçá onde fêz o roubo, morreu uma noite de morte subitânea, e foi pagar ao Inferno suas tiranias. * Neste tempo em que os .fi.47t. padres estavam em tanta necessidade, foi singular a providência que Deus mos- trou sobre êles e sobre os mais católicos para o remédio de sua pobreza, porque foi tão grande a novidade, que Nosso Senhor deu naquele reino de Tigré, qual havia muitos anos, que os homens não viram nele. Houve, em um dêstes anos em que foi sol cris [eclipse] em Etiópia grandes guerras e assolações, destruições de províncias inteiras, mortes de reis e prínci- pes, mudanças de império, levantamentos de rebeldes, e de reis falsos; também grandes doenças, como peste, que levavam logo lugares inteiros, e principal- mente no reino de Tigré; e foi coisa maravilhosa que com aos redores de Fre- moná, arder tudo em peste e doenças, Nosso Senhor a guardou de maneira, que nem a um só católico tocou; e o que mais se notou, [foi] que, levando a doença a Fremoná um abexim que ali morava havia muitos anos, e vivia em seus erros, sem nunca os querer deixar, êle só morreu,jsem a doença passar de sua casa. Foi isto cousa que pôs em muita admiração aos abexins; e assim atribuíam êste caso e outros semelhantes, que iremos referindo da Divina Pro- vidência, às ladainhas que os católicos sempre dizem todos os dias na igreja, as quais têm por tão eficazes orações diante de Deus, que uns têm medo delas, cuidando que se os padres as disserem contra êles os castigará Deus, como se verá do que dissermos; outros se veem encomendar a elas, esperando de alcançar o remédio das necessidades, em que vivem. Fazendo o Barnagais passado, algumas sem razões e injustiças aos padres, nos tributos que contra mandado de el-rei usurpava da esmola que da Índia vmha para os padres e portugueses, sentia isto muito sua mulher, que como dissemos é muito afeiçoada
  • 52 Das coisas de Etiópia • ki. 48. às nossas coi*sas; e por êsse respeito tinha grande vergonha de aparecer diante dos padres; mas, não podendo deixar de o fazer, como outra Abigail, lhe fêz uma fala muito prudente, em que se desculpava a si; mas vendo que do marido não podia tirar a culpa, lhe pediu que não fizessem oração, nem ladainhas con- tra êle, nem o amaldiçoassem, nem se queixassem dele a el-rei. Responde- ram-lhe a isto os padres como convinha; mas Deus, como é pai dos pobres, e castiga a quem os magoa, não deixou de mostrar neste caso sua providência e justiça, porque não tardou muito, que por não querer ir ao chamado de el-rei, o houve por alevantado, tirando-lhe o governo e dignidade que tinha; e por dois capitães o mandava matar; o que êle sabendo-o, antes de chegar o recado, deixou o govêrno e se foi apresentar a el-rei, à ventura do que lhe sucedesse. Depois que êste imperador entrou no império, entre outros capitães rebeldes e falsos reis, que contra êle se levantaram, dois ou três o fizeram neste reino de Tigre, e um deles aqui perto nesta comarca de Fremoná. Era êste frade, e viveu no deserto, por espaço de vinte anos; e o fruto, que tirou no cabo deles, foi querer reinar; e, como nesta terra os homens são mais amigos de novidades e revoltas que de paz, principalmente os que vivem de roubos, porque então, como tudo anda revolto, fazem melhor a sua, não lhe faltaram muitos desta sorte de gente, que o quiseram seguir, dissimulando também com isto o que então governava êste reino de Tigré, por seus respeitos particulares. Cresciam cada dia, por esta comarca, os roubos e fôrças e motins, de sorte que era uma confusão o que passava. Entre os que o seguiam, houve algumas juntas e companhias de ladrões, como bandoleiros; dêstes se ajuntaram e confederaram entre si dois cabeças de muita gente, um deles grande inimigo dos padres e da • F1/48Y. Igreja. * Este quis persuadir ao outro seu confederado, que com trezentos ou quatrocentos adargueiros, dessem uma noite em Fremoná, em casa dos padres, cuidando que achariam nela serras de oiro. O outro, que era o principal, não o quis consentir, dizendo, que nunca Deus tal quisesse, que êle fizesse mal aos portugueses, nem aos padres, que eram servos de Deus; antes êle seria sempre contra quem lho quisesse fazer; e assim frustrou por então o intento do mau. Porém, dali a poucos dias, vindo-se já chegando o levantado rei, para Fremoná, o ladrão se resolveu, de em todo o caso, com sua gente, dar na casa dos padres; para isto, se emboscou, o dia de antes da noite [em] que esperava dar o assalto, em uma ribeira, duas milhas de Fremoná. Quis a Divina Providência, que nesta conjunção, passou por ali um português, o qual, vendo e conhecendo a gente, se foi ter com o ladrão emboscado, e da prática e modo com que lhe falou, entendeu sua determinação de dar nos padres, e juntamente, como el-rei alevantado, dali a dois dias, vinha com sua gente entrar em Fremoná, e apo- sentar-se na casa dos padres, para dali ordenar suas coisas. Veio-se logo o bom português a dar aviso do que passava, e no mesmo ponto, todos os portugueses, que havia em Fremoná, que não eram mais que vinte, e os mais católicos, que eram bem poucos, se resolveram a morrer na defensão da Igreja e padres; e logo com suas armas, se recolheram em nossa casa e cêrca, vigiando tôda a noite. Porém, tendo o ladrão por suas espias aviso do que passava, mudou o intento, e foi dar o assalto em outra parte; e o rei, no dia de antes que determinava vir dormir na casa dos padres, dormiu no
  • Das coisas de Etiópia 53 cárcere carregado de ferros; porque foi preso por um capitão, que lhe saiu ao encontro, e metido em uma alta pedra, mais forte que as torres de * menagem «Fun- das nossas fortalezas. Nesta mesma conjunção, [em] que se esperava pelo ladrão e rei, se vieram oferecer aos padres, para sua defensão, três homens principais, cabeças de três ou quatro mil adargas, descendentes dos que receberam no mar a Dom Cristóvão da Gama, e mais portugueses, quando foram livrar aquele reino do poder dos mouros, protestando, que todas as vezes que os padres quisessem, estavam a seu mandado, para logo darem sobre o ladrão e o des- truírem. Agradeceram os padres muito o oferecimento, mas desobrigaram-nos da obra; fêz isto grande temor ao ladrão, e entendendo o grande ódio, que todo êste reino tinha contra êle, e seis irmãos seus; viu-se em tal apêrto, que lhe foi necessário pôr-se em cobro; e dois deles se foram a el-rei a buscar remédio para não serem destruídos. E depois deles já idos, um dos irmãos com outro velho, seu parente, se foram aos padres a pedir-lhes que não fizessem queixume a el-rei, nem os amaldiçoassem, nem fizessem oração a Deus contra êles acrescentando o velho juntamente estas palavras: desde o tempo que o Pa- triarca André (que foi um padre da nossa Companhia) entrou em Etiópia, nunca vi que sucedesse bem, a quem contra esta igreja se tomou; e ninguém pode negar, que vossas orações têm força com Deus, pois sem armas só três frades vos defendeis de todas as armas de vossos inimigos. Entre os que se reduziram à Fé, foi um mancebo aqui vizinho; tinha êste um avô de muito má vida, e grande hereje, o qual, sabendo que o neto se reduzira, fêz todos os estremos que pôde, para o perverter; e vendo que não podia sair com seu intento, buscou outro diabólico, e procurou fazer aos padres todo o mal * que pudesse. Foi-se ter com o Admocon, que é um ministro abaixo 'Fi^r. do vice-rei, e como ouvidor geral e capitão mór, e êle em sua pessoa mau e grande hereje, mas mui sagaz e dissimulado; a êste persuadiu o velho, que quisesse por força fazer retroceder a seu neto; e para que o chegasse a êste ponto, o houvesse com os padres, apertando-os e perseguindo-os; porque, quando menos, sempre tiraria deles e dos católicos tanta cópia de oiro e fato, com que pudesse recompensar o que lhe tinha custado o ofício, que comprara. Houve o Admocon êste por um grande alvitre para seu proveito; deu conta dele ao vice-rei Cafleale, o qual lhe aconselhou, que tirasse por êle e o levasse ao cabo, e principalmente, em quanto lhe ficava em seu poder e mãos o govêrno e mando do reino do Tigré, por êle estar de caminho para a côrte. Começou logo o Admocon, ainda antes de o vice-rei se partir, a espalhar a fama do apêrto, em que havia-de pôr os padres, por causa do moço conver- tido, a fim de que os padres remissem seu trabalho a poder de peitas; e como viu que os padres dissimulavam, nem se davam por achados de suas ameaças, estando um dia com o vice-rei Maurício Soares, capitão dos portugueses, e achando-se presente o mesmo Admocon, de propósito êle mesmo falou na maté- ria, declarando tudo quanto nela havia-de fazer, para que por via do nosso capitão o viessem a saber os padres, e assim lhe deferissem com o que êle desejava. Acudiu porém, o capitão, com muito zêlo e valor; e, dirigindo a prática ao vice-rei, lhe disse: Senhor, vós não façais, nem consintais que se faça tal coisa, porque * vos há-de suceder mal. Lembrai-vos que, querendo uma vez »fi.5o.
  • 54 Das coisas de Etiópia o vice-rei fuão, que vós bem conheceis, quando governava êste reino de Tigre, fazer outra semelhante, o imperador Malaceguet, vosso sogro, o mandou chamar por essa causa, e o repreendeu, dizendo: «<íquem vos mete a vós em coisas da lei, não sendo letrado? ^Não sabeis que a Lei Romana e dos portugueses é a verdadeira e pura? Folgara eu, que tivéreis vós tanto zêlo da lei, que conver- têreis a ela os mouros do Tigré, onde vos fiz vice-rei, e não perseguireis aos que entram na Fé dos portugueses! Ide, e mandai logo restituir o dobro do que tomastes, e pedi perdão aos padres. E bem sabeis vós, senhor, que tudo isto se lêz; por onde, vede agora o que fazeis, porque o imperador, vosso irmão, não há de ser contente que se façam tais forças». A isto calou o vice-rei, sem responder palavra, mas, mudada a prática, falaram em outra coisa. Partido que foi o vice-rei, procurou o Admocon pôr logo em efeito o que entre ambos tinham assentado; e para isso, chamou a conselho os Umbrares, que são como desembargadores do paço do vice-rei, nos quais se acabam todas as causas, e comummente são quatro; e com estes tratou, se começaria logo a entender com os padres, ou não. Três foram de parecer que sim. Um, que era de casta nobre, respondeu desta maneira: «não nos merecem a nós os por- tugueses, que lhes dêmos trabalho, antes que lhes façamos favores; porque, se êles não foram, e não derramaram seu sangue, pelejando pela Fé e por nós, hoje fôramos ou todos mouros, ou cativos de mouros; por onde, nunca serei • fi.5ov. de parecer, que coisa tão injusta * e desarazoada se faça». A isto lhe respondeu Admocon: «vós parece que sois português, e por issso falais dessa maneira». Estava presente a esta consulta o nosso capitão Maurício; e vendo a maldade do Admocon, lhe disse: «já, senhor, que tendes tanto zêlo da vossa Fé, chamai dois frades vossos, os mais letrados que tendes, e mandai chamar também um dos nossos padres, e averiguem a coisa por via de letras, e não vades assim cego cometer uma coisa, que vos seja custosa. Bem está isso, respondeu o Admocon: se vós, que sois soldados, nos ganhais, quando tratamos em coisas de lei, ,;que farão os padres, que sabem tanto? Não me contenta êsse caminho. O vice-rei quere que faça isto; hei-de o pôr em execução, seja o que fôr. Ao outro dia, mandou logo um oficial, com muita gente, dizer aos padres, que dessem fiança, para estarem em juizo diante dele, por fazerem aos abexins da Fé Romana. Responderam-lhe os padres, que êste negócio era da Fé, no qual nem êle, nem o vice-rei podiam ser juizes, senão só o Sumo Pontífice Romano, cabeça de tôda a Igreja de Cristo; e assim que não tinham obrigação de dar fiança, nem aparecer em juizo, pois era tribunal secular, aos quais os eclesiás- ticos não estão sujeitos nas coisas da Fé. Instaram mui fortemente pela fiança, mas sempre se lhes respondeu na mesma forma. Declararam-se, que traziam ordem para que, não dando os padres fiança, tomassem o fato dos católicos abexins, e levassem presos aos principais. A isto lhes responderam os padres, que fizessem em boa hora o que lhes era mandado, que êles estavam prestes para fazer o que era sua obrigação, e mostrar sua Fé pelas divinas Escrituras, • fi.Si. e confessá-la, * até dar as cabeças por ela. Passaram sôbre êste negócio várias coisas; mas, vendo êles a inteireza dos padres, começaram a entrar pelas casas dos católicos, e tomar-lhes seu pobre móvel, que todo se resolve em um jumen- tinho, ainda que os mais deles nada disto têm; em duas correias de coiro, em
  • Das coisas de Etiópia 55 um machado para lenha, algumas pedras de sal, um coiro de boi cru, que serve de cama e catre; um zaguncho, uma espada, que não cortará nabos; finalmente, algumas mãos de iefo, que é o mantimento comum da terra, e se parece com mostarda. E não se contentando com roubarem os naturais, começaram tam- bém de entrar pelas casas dos portugueses, muitos dos quais tem ainda menos móvel que êste, que está dito. Neste tempo iam consolar os padres os vizinhos cristãos abexins, e ofere- cer-se, para com algum fato os concertarem com o Admocon; e alguns com lágrimas mostravam a compaixão, que deles tinham. Os padres agradeciam a todos o amor e lembrança, tanto para estimar naquele tempo, dizendo-lhes, porém, que neste negócio não cabia concerto de peita; porque nossa Pé era pura e verdadeira, e sua limpeza por si se deixava ver, nem tinha necessidade de se embuçar com tal capa, mas que só com o sangue e vida se defendia; portanto, que rogassem a Deus por eles, que êle acudiria cedo por sua causa, e o Admocon viria a cair no mau conselho, que tomara. Neste tempo, alguns dos nossos católicos se mostraram mui esforçados, em particular, os que foram criados dos nossos antigos portugueses, que com seu sangue resgataram êste império do poder dos mouros, os quais com muito gosto ofereciam ao ímpio fisco, isso que tinham, e com alegria, como diz o * Apóstolo, recebiam rapinam bonorum suorum; e em especial se mostrou mui *fi. 5i». valorosa uma portuguesa católica, nascida na terra, a qual, diante de alguns homens graves abexins, que estavam presentes, disse em voz alta: «faça Admo- con o que quiser, que ainda que me corte a cabeça, eu não hei-de deixar a Fé da santa Igreja Romana! Aí estão meus escravos, com a mais pobreza que tenho! Mande embora levar tudo, com o mais de nossos irmãos!... (que assim se chamam os católicos, em Etiópia, uns aos outros). Entraram os ministros em uma casa de uma freira, que havia pouco se reduzira; e falando com ela, lhe disseram por injúria: «ó má freira, que por comeres carne, deixaste a fé de teus pais! Agora pagarás o que fizeste. Ao que ela respondeu: «eu não tomei a Fé de Roma, por comer carne, porque depois que a tomei, nunca mais a comi; mas tomei-a, porque andando peregrinando por muitas partes, e visitando muitas igrejas, pedi a Deus me mostrasse o ver- dadeiro caminho para o céu. Êste me fêz mercê de me mostrar, que não havia outro, senão o da Fé Romana, a qual me parece tão bem, que ainda que me mateis, não ma fareis largar. E para que entendais que falo de coração, vedes? aqui me tendes, se me quereis matar! Eu folgarei muito de morrer pela santa Fé de Roma»; e logo se pôs de joelhos, para receber a morte; mas os ministros a deixaram, ficando espantados de sua constância, e se contentaram com lhe tomar sua pobreza. Passados três dias destas execuções, vendo o Admocon a firmeza dos cató- licos, e resolução dos padres, não quis passar àvante, mas fêz tudo o que foi possível, por si e por terceiras pessoas, para que os padres o fossem visitar ao seu arraial, e pedir-lhe que desistisse do começado; porém, não pareceu que convinha. Entre os que vieram procurar isto, foi um, amigo dos padres, o qual lhes deu como razão, para * o deverem de fazer, que pareceria soberba • fi. j». mostrarem-se tão inteiros com o governador da terra; ao que os padres respon-
  • 56 Das coisas de Etiópia deram: que em todos os negócios da jurisdição do governador, êles estavam mui prontos para lhe obedecer, e assim o ensinavam aos católicos; mas, em negócios da Fé, a nenhum homem humano se haviam-de sujeitar; porque, como tinham aprendido dos Santos Apóstolos, não era razão deixar de obedecer a Deus, por obedecer aos homens, como êles também fizeram e deixaram escrito. O que ouvindo o bom homem, começou a exclamar, dizendo, com as lágrimas nos olhos: «isto chamo eu Fé, isto chamo eu cristandade, que até pela vida corta. Agora serei eu da vossa Igreja». O mesmo disse outro, que estando fora de Fremoná, onde morava, veio, depois de terem passado estas coisas, quando lhas contaram. Era ainda vivo, neste tempo, e reinava el-rei Jacobo, e estava na côrte com êle o padre Superior, ao qual os padres escreveram tudo o que passava, para que desse conta a el-rei, e el-rei a pedisse ao vice-rei Cafleale, que também já lá estava, e fôra o autor principal desta perseguição. E fê-lo assim o padre, e el-rei o sentiu muito; e chamando ao Cafleale, o repreendeu pesadamente; o mesmo fêz a rainha velha, sua sogra, e Aras Athenateus; e fizeram-lhe logo pedir perdão ao padre, e mandaram ao Admocon, que tornasse a restituir todo o fato, que tinha tomado aos católicos. E foi êste feito de el-rei uma coisa de grande providência divina, e que se não pudera mais desejar, para a autoridade da nossa santa Fé; porque o mesmo foi castigar ao vice rei por êste caso, que dar uma pública sentença, em que, condenando a fé e crença dos abexins, aprovava a nossa. Porque além da repreensão e castigo, que lhe deu, disse • juntamente: «Eu quero * que os padres corram, como correram no tempo do meu pai, e que não proibais a ninguém, que quiser entrar em sua Fé; porque assim o fêz meu pai». Correu logo isto, no arraial de el-rei, e por tôda a côrte, e também no reino de Tigré, que para os padres foi coisa de grande consolação, o que sabendo o Admocon, ficou mui alcançado do que tinha feito, e restituiu tudo o que mandara tomar aos católicos, e pediu perdão aos padres; porém não deixou Nosso Senhor de mostrar a providência, que tinha sobre seus fiéis, em não deixar sem castigo aos que aos inocentes tinham feito tanta sem razão, o que passou desta maneira. No tempo, que os ministros de Admocon andavam entrando pelas casas dos católicos, escalando e saqueando tudo, vendo-se os pobrezinhos nesta angús- tia, se iam à igreja, e com os olhos no céu arrasados em lagrimas, diziam: «O Senhor do mundo, ^como sofreis que se faça tal força a tantos inocentes? Nós tomamos por valedora a Virgem de Roma para comvosco, e a ela fazemos queixume, para que por nós vo-lo faça!» O que também diziam muitos dos cristãos abexins, movidos da compaixão que tinham dos católicos. Parece que ouviu Deus seus rogos, porque o próprio vice-rei, parte (ao que se crê), enfa- dado da repreensão, que o imperador e a rainha sua sogra, e os grandes da côrte lhe deram, parte de outras forças e insultos, que o Admocon em sua ausência fêz, o mandou prender, e a três irmãos seus, mui grandes ladrões, o qual, vendo-se neste estado, e que todos o desamparavam, não teve a quem se acolher, senão aos próprios padres, a quem êle tanto perseguiu; e assim lhes mandou pedir, com muita instância, que fossem falar por êle ao vice-rei, o que os padres fizeram, por duas vezes, indo a seu arraial, por tempo do inverno.
  • Das coisas de Etiópia 57 com mui*tas lamas e chuvas, de que muito se edificou tôda a terra, e em par- #fi. sj. ticular o vice-rei, que espantado, disse diante de muitos: «ora, não há gente como esta! Ontem lhe fêz êste tanto mal, e hoje tomam tanto trabalho em pro- curar por êle. Se por seus inimigos fazem tanto,
  • 58 Das coisas de Etiópia outra, em que lhe apareceu um varão venerável, o qual lhe disse, que fôsse ter com aquele padre, e se confessasse com êle; fê-lo assim, e chegando, lhe deu razão porque lho pedia. Mas, como o padre lhe tratou [respondeu] que não podia ser, sem êle deixar de correr com suas igrejas e sacramentos, e juntamente se .Fi.54. publicar por católico, * não se atreveu logo a tanto, dando por causa, o ser uma pessoa de tanta autoridade, e que em seu cisma fôra mestre de tantos e assim se foi sem confissão. Dali a algum tempo lhe tornou a aparecer a mesma visão, apertando-o que fizesse o que lhe mandava, e se fôsse confessar; porém, a dificuldade, que teve na primeira, o reteve na segunda, para que o não fizesse; mas corria já melhor com os padres, do que correra nos tempos passados. Finalmente lhe apareceu a terceira vez o mesmo varão, e com um semblante severo, e como ameaçando-o, lhe disse, que visse o que lhe convi- nha; e se se queria salvar, se fôsse logo confessar com o padre, e fizesse tudo quanto êle lhe mandasse, porque êle tinha os poderes da cadeira de S. Pedro; o que êle, frade, nunca tivera, pois nunca o fôra, ainda que trazia aquele hábito. Aqui se acabou o velho de render, e tremendo, se foi ao padre, pedindo confissão, e protestando estar prestes para tudo, quanto lhe mandasse; fêz-lhe o padre dificuldade em o admitir, para mais provar sua firmeza. Insta êle, e prostrado por terra, lhe tornou: «padre, eu estou aparelhado para con- fessar todos os meus pecados, e fazer tudo o que em nome de Deus, me man- dardes. Confessai-me, senão minha alma fique sôbre vós». Confessou-o o padre, e logo caiu doente; e em oito ou dez dias que durou, quasi nenhum dia passou, que se não confessasse. E como era tão conhecido, foi visitado de muita gente, assim dos abexins, como dos católicos, aos quais todos dizia publicamente, que morria na Fé da Igreja Romana, porque só esta era a ver- dadeira, e em que só os homens se salvavam. Vinham a visitá-lo muitos frades, que foram seus discípulos; porém a todos despedia, dizendo que os não havia mister, e que só os padres de Roma eram seus confessores; finalmente, *Ft. 34 t. acabou na Fé Católica, com muitos sinais de sua predestinação. Foi êste. caso mui notável, e de muita confusão para os cismáticos, vendo que aquele, que no tempo passado, como outro Saulo, zeloso das suas tradi- ções paternas, tanto perseguia aos fiéis, agora, com tão extraordinário e mila- groso caso, publicava o engano e erros, em que vivera, e morria na Fé, que dantes reprovava. E como era uma pessoa tão conhecida e de tanta autori- dade, com sua volta e na hora da morte, mostrou a todos o verdadeiro cami- nho, e juntamente desacreditou muito a doutrina de Etiópia, deixando contra ela mui eficaz argumento; porque, quando aos que estão duros, se lhes traz à memória êste caso, não têm que responder. Outro frade bem velho, se reduziu também, o qual, sendo moço, foi cativo em Portugal, e tornou para a sua terra, por via da índia, no tempo do vice-rei, Dom Constantino; e não querendo ficar em companhia do Padre Patriarca, que já estava em Etiópia, se casou com uma sua natural, com quem viveu alguns anos, a qual morrendo-lhe, se foi fazer frade do ermo, onde viveu até agora, correndo no exterior como abexim. Estando êste dormindo de noite, lhe pareceu que via Nossa Senhora, a qual o repreendia, por se não reduzir e confessar; e juntamente lhe tocou com uma vara num pé, junto ao artelho, com
  • Das coisas de Etiópia 59 que êle sentiu grande dor; e acordando, achou o pé aleijado, e assim esteve alguns meses com dores; mas sarando, se veio logo confessar. Um moço de perto de vinte anos, filho de pais herejes, adoeceu grave- mente; e estando uma noite mui atribulado, com muita instância pediu aos pais, que lhe mandassem logo chamar um padre, para se confessar, porque logo também havia-de morrer. Os pais por ser de noite, dissimularam; mas instando êle rijamente em sua petição, foi o pai, a tôda à pressa chamar o padre, o qual, * acudindo logo, o moço com mui perfeito e inteiro juizo, se «n.55. confessou, e daí a menos de meia hora, passou desta vida. Foi notável também a conversão de uma velha, de alguns oitenta anos; esta, ficando viúva de seu marido, com sete filhos, padeceu grandes trabalhos, como é próprio das que ficam em semelhante estado, e mais com a pobreza da gente da Etiópia. Ultimamente andando os galas, gente cruelíssima, assolando a terra, e estando ela recolhida com seus filhos, em um lugar forte, os inimigos entraram, e juntamente com outros muitos lhe mataram todos os seus sete filhos, e a ela levaram cativa; porém numa noite, acertando de adormecer o gala, que a levava, teve ela modo com que fugiu e se embrenhou no mato; ali se enco- mendou grandemente à Virgem Nossa Senhora, que ainda que cismáticos, os abexins têm muita devoção. A Virgem Santíssima Nossa Senhora a ouviu, para lhe fazer ainda maiores bens, do que ela lhe pedia; porque não somente a livrou de tornar a cair em poder dos galas, mas das bocas dos leões, tigres, onças, lôbos e outros muitos animais feros, não conhecidos em nossa Europa, de que os matos de Etiópia estão cheios. E sobretudo, depois de tantos perigos, a trouxe a Fremoná, onde ouvindo as missas e prègaçÕes, e doutrinas dos padres, e as mais coisas de nossa santa Fé, que ali se exercitam, ficou tão entrada delas, que com muita consolação sua e fervor, se reduziu à nossa santa Fe. E para mais mostrar a fineza do espírito e vontade com que o fazia, acertando nesta conjunção de se repartir pelos católicos a esmola, que para isso da índia viera, não quis a boa velha declarar seu ânimo, emquanto esta repartição se fazia, senão depois dela acabada, dando como razão, que o fizera assim de indústria, para que não cui*dasse o mundo, que ela, com respeito a algum interêsse •fi.55». humano, deixava a fé de Etiópia e recebia a de Roma. Foi de muita edificação e glória de Deus, a redução daquele mancebo, por cujo respeito acima dissemos, que o Admocon e o vice-rei do Tigre levantaram aquela perseguição contra os padres, que já referimos; porque vendo-se o bom mancebo tão rijamente perseguido de seu próprio avô, não sòmente teve valor contra êle, mas sendo levado por justiça diante do Admocon, e ali examinado da razão porque deixara a fé de seus pais, e tomara a dos portugueses, que êles chamam de Roma, respondeu com muita constância, que o fizera, porque claramente lhe dera Deus a conhecer, pelas pregações e doutrina que ouvira aos padres, que a Fé de Roma, que os portugueses seguiam, era a verdadeira; nem havia outra, em que os homens se pudessem salvar. Tornou-o a apertar o Admocon, dizendo: «vós, filho, sois moço, e enganaram-vos; por isso não deixeis a fé de vossos antepassados, mas tornai-a a seguir, que eu vos favore- cerei,.— «Senhor, respondeu o moço, eu sei o que me convém para minha alma, e sei que a Fé de Roma, que tomei, é a verdadeira; estai certo, que esta
  • 6o Das coisas de Etiópia não hei-de deixar, ainda que me mandeis cortar a cabeça». Vendo o Admocon sua firmeza, o mandou levar diante do tribunal dos Umbares, que, como disse- mos, são o mesmo que desembargadores do paço, diante dos quais sendo examinado, fêz a mesma confissão da Fé; pelo quê, deram sentença que nin- guém entendesse mais com êle, nem o perturbasse; e o mesmo foi mandado a seu avô, o qual o cumpriu dali por diante tão bem, que, com dantes por ódio perseguir os padres, e dizer mil males deles, da maneira que se tem dito, depois, sem força, nem respeito que a isso o obrigasse, os andava apregoando por •fi.56. anjos e santos; e não ficou só a conversão do bom mancebo, mas * parece que em pago de quanto com ela glorificou a Deus, lhe quis ele fazer mercê de por sua ocasião, trazer a santa Fé Católica sua avó e uma irmã, que neste mesmo tempo se reduziram. Um português honrado tinha um escravo, ao qual muitas vezes persuadia, que se quisesse reduzir à verdadeira Fe Católica, e confessar-se conforme a ela. Zombava o escravo do que seu senhor lhe dizia; e a causa principal era por andar enredado com certa ocasião de uma amizade lasciva. Deu-lhe um dia uma rija doença; e entendendo que morria, chamou pelo senhor, e pediu-lhe que mandasse vir um padre, porque se queria reduzir e confessar. Respon- deu-lhe o senhor: «como?! viveste até agora como quiseste, e agora queres nossa Fé? Morre na tua, que não mereces morrer na nossa; porém isto lhe dizia o bom amo, para mais lhe despertar os desejos, que mostrava. Respon- deu o escravo: «senhor, não me desampareis nesta hora, pois sempre vos servi com amor; mandai-me logo chamar um padre, porque morro». Tornou o senhor: «^e tu não zombavas, quando eu te aconselhava que te confessasses? pois jpara que queres agora confissão? Respondeu o escravo: «senhor, então andava eu cego, e como tal falava; porém agora, é outro negócio. Eu morro, e claramente vejo, que para morrer bem e segurar a salvação de minha alma, o seguro é morrer na Fé dos portugueses, que é a da Igreja de Roma». O senhor, que nenhuma coisa mais desejava, mandou logo chamar um dos padres, e o ditoso escravo se reduziu e confessou com êle, e em breve tempo passou desta vida. E foi Nosso Senhor servido, que à volta dêste, que estava como légua e meia de Fremoná, acudisse também o padre a outro cristão abexim, que estando doente e sabendo que o padre ali estava, o mandou chamar, e lhe •fi. 56 v. pediu que o * confessasse, porque queria morrer na Fé da Igreja Romana. O padre o confessou, e também em breve morreu. E indo outra vez ao mesmo lugar, a confessar alguns doentes, lhe mandou pedir uma moça donzela, que em razão de ter um pé maltratado o não podia vir buscar, lhe quisesse ir a sua casa a dar uma palavra, sobre coisas de sua alma. E porque o padre, em razão das confissões se deteve, ela como pôde, o veio buscar; e o que lhe queria, era pedir que a confessasse, porque desejava muito ser da Fé da Igreja Romana. Preguntou-lhe o padre,
  • Das coisas de Etiópia 61 não pode deixar de ser a certa e verdadeira, em que as almas se salvem. Pelo quê, muitas vezes falei nisto com minha mãi, e com um irmão meu mais velho, para também os trazer a êste desejo e caminho, que eu quero tomar; mas êles não sòmente não querem ir comigo, antes me querem estorvar. Por onde estou resoluta a cortar por tudo, ainda que fique pedindo pelas portas; pelo quê vos peço, que me confesseis e me façais desta Fé, porque estes dese- jos meus são já antigos, como tereis entendido pelos recados, que sobre êles algumas vezes vos mandei». Fêz finalmente a confissão com muito siso, e vai continuando com edificação e constância. Em que se dá noticia de algumas igrejas, rios, lagoas mais notáveis de Etiópia, e dos muitos reinos, em que se divide aquele grande Império Á que até agora tratámos das coisas de Etiópia, que pertencem ao espiri- tual, não parece que será ingrato aos curiosos dar-lhes também alguma notícia das coisas mais notáveis, que há nela, ainda que sejam da terra e sitio dela, e principalmente por ser havida com tanta certeza por um nosso português, dos principais que lá andam, e que já foi capitão-mór de todos, homem de muita verdade e autoridade, que quási tudo viu com seus olhos, pelas aiuitas saídas, que fêz com os reis, e em muitas outras ocasioes, que para isso teve. Chama-se êste homem João Gabriel, o qual é de grandes prendas, mui esforçado capitão na guerra, de grande conselho, e tão bom letrado nas letras de Etiópia, que pode seguramente falar diante dos frades; na vida e costu- mes, como um religioso na piedade crista, pode dar exemplo a muitos. Este é o que traslada os livros proveitosos da língua portuguesa na de Etiópia, para bem daquelas almas, e é filho de uma mulher santa, e que já uma vez, por con- fissão da Fé da Santa Igreja Romana, foi lançada aos leões, mas não lhe fizeram mal. Êste, pois, foi o que deu aos padres a verdadeira notícia das coisas seguin- tes: há ainda em Etiópia algumas igrejas afamadas, que desde tempo antiquís- simo se conservam, pôsto-que os mouros e gentios, que por * vezes assolaram .FI.57T. êste império, depois que êle desamparou a verdadeira Fé, e se apartou da obe- diência da Igreja Romana, destruíram muitas. . A primeira e cabeça de todas as mais se chama Débia Líbanos, que quere dizer Monte Líbano. Está esta no reino de Xaoa; nela se enterravam antigamente os reis, e são os cristãos dêste reino os melhores que cá há. A segunda chama-se Marcoza Marian, quere dizer escolhido por Maria, no reino de Guoiamá; e no reino de Goromá está a ter- ceira, que se chama Dimâ, que é o mesmo que Nossa Senhora; e os frades dêste mosteiro são os que em Etiópia saem a enterrar os feridos de peste, que neste reino há muitas vezes. A quarta se chama Macaná Celacém, que quere dizer assento da Trindade, e está no reino de Amará. A quinta se chama Lâboca, que é o mesmo que monte de oiro, dedicada a S. Miguel, no reino de * CAPÍTULO XV • Fl. 57.
  • 62 Das coisas de Etiópia Goiamá. A sexta de Santo Agapito, no reino de Dambeá. A sétima do Sal- vador, no reino de Abagamedri. A oitava, no mesmo reino, que é de Nossa Senhora. Além disto, está no mesmo reino uma comarca, que terá um dia de caminho, na qual havia antigamente, neste só espaço, cento e cinqúenta igrejas, às quais os cristãos iam fazer suas ladainhas gerais. E tem-se por tradição, que antes de Etiópia negar obediência à Igreja Romana, quando os abexins iam fazer estas ladainhas, pediam a Nosso Senhor, por sinal de serem ouvidos dele, fizesse secar certa árvore, que estava junto a estas igrejas; e assim sucedia que a árvore se secava; porém logo, tornando a fazer oração, pedindo a Nosso Senhor a restituísse a seu natural, tornava a reverdecer. Mas, desde que se apartaram da cadeira de S. Pedro, e da obediencia de Roma, nunca mais ate hoje sucedera tal milagre. No reino de Tigre, as igrejas mais célebres são estas: a primeira se chama Acçumo; é de Nossa Senhora, grande e de três • fi. 58. naves e de várias castas * de pedraria, com claustras, lageadas de boas e gran- des pedras; a esta se vêm coroar os imperadores; em comparação do que foi, não há hoje dela mais que vestigios. A esta assolou o mouro Gradanha, rei de Zeila, com quem o nosso capitão D. Cristóvão da Gama teve duas grandes batalhas, e a quem, depois de sua morte, os portugueses que ficaram, acabaram de destruir e matar. Há ainda agora aqui algumas mui grandes e formosas agulhas, que por um letreiro que nela se acha quási apagado, se entende ser obra de romanos, ou gregos. Neste mosteiro e igreja estão os livros bons e maus, que há em Etiópia, e aqui se conservam as crónicas dos imperadores, porque aqui se vêm ungir e coroar, como temos dito; e quem aqui não é coroado, não tem o título de rei dos reis, mas só fica com título de rei. A segunda igreja depois desta, se chama Abagarimá, que também é de Nossa Senhora, e foi coisa rica e grande antigamente, mas também assolada pelos turcos e mouros; está, porém, ainda arrazoada com seu tecto pintado e de berço, pôsto- -que parece mais sinagoga, que igreja cristã. Nesta igreja está sepultado um varão santo, de que ela tomou o nome de Abagarimá, que se diz ser um de nove religiosos, que em Etiópia se tem por tradição, que há muitos anos foram mandados de Roma a ensinar e reduzir esta gente, e fizeram tresladar a Escri- tura de arábio em caldeu, que é língua dos livros de Etiópia; e porque êle resi- diu neste mosteiro, se chama Betra Abagarimá, que é o mesmo que dizer, casa ou igreja do abade Garimá. A terceira igreja se chama Bizá, que dizem ser coisa boa. Está perto de Baroá, para a banda do Mar Roxo, em lugar tão alto e forte, que sobem a êle por cordas, e dali se descobre o mar e as naus, quando vêm. A quarta se chama Valdebá arbatú, Anracá, que é o mesmo que dizer, dos quatro animais, pelos quais entendem os quatro Evangelistas. «fi.58v. Está junto a um rio, por * nome Tacace, e é deserto, onde vivem muitos fra- des, que se sustentam com ervas e legumes. No Xarte, está outra igreja, de S. Pantaleão, e outra, que se chama ajuntamento de Maria, as quais e todas as mais, que acima ficam ditas, são mosteiros, e eram célebres antigamente; mas hoje não são mais que um vestígio do passado. Não sabemos que haja cá igreja de algum dos Apóstolos, nem ainda do de Etiópia, o glorioso S. Mateus. As mais das igrejas são da Santíssima Trindade, de Jesus, do Salvador, da Cruz, da Virgem Nossa Senhora e de S. Miguel, e de outros poucos Santos.
  • Das coisas de Etiópia 63 Fontes, Rios, Lagoas Os rios principais e caudalosos, que regam este reino, são quatro. O pri- meiro, e que está mais perto de Fremoná, como trinta léguas, chama-se Tauceá; leva sua corrente do sul para o norte, não entra no mar por bôca que se veja, mas, muito longe dele, se some em areais. No verão, passa-se fàcilmente a vau; no inverno com dificuldade e em jangadas, em barca feita de palhas gros- sas. Os que do Tigré vão à corte, o hão-de passar; perto dele, estão umas serras altas e ásperas, e por natureza fortíssimas, em que habitam judeus abe- xins, que hoje guardam a lei de Moisés, e tão belicosos e temidos, que só o imperador pode com êles, e ainda com dificuldade, em razão do sítio. O segundo rio se chama Oare; é mui grande, e maior que o Nilo; faz seu curso contra Zeila, e todas aquelas terras, por onde vai, rega da mesma maneira que o Nilo ao Egito. Os abexins não querem beber dêste rio, porque, como êles dizem, dá de comer aos mouros, porque lhes rega suas terras. O terceiro rio se chama Gabeá; faz seu curso para a banda de Mombaça ou perto dela, e tem-se que é aquele rio, pelo qual, no tempo do vice-rei da índia, D. Duarte de Menezes, alguns nossos portugueses, dos que andavam pela costa de Me- linde, e * junto a um monte não mui alto, em uma lagoa apaulada, e passando • Fi.bg. por ali o nosso João Gabriel, com outros soldados portugueses, diz que viram acender no ar algumas exalações, que dela saíam. E porque isto acontece muitas vezes, segundo dizem os moradores da terra, que são gentios, por isto e por outras ilusões e enganos, que o diabo lhes faz, adoram êstes a fonte do Nilo, e lhe sacrificam muitos bois e vacas; e só de ossos, têm ali feito um arrazoado monte. Metendo João Gabriel sua lança no ôlho principal daquela fonte, não lhe achou fundo. As lagoas principais e mais afamadas também são quatro. A primeira se chama Aicha, que está no reino de Angote, perto do Tigré, e não é mui grande. A segunda se chama Dambeá Bahar, que quere dizer, mar de Dambeá, e está junto a Gubbai, que hoje é a corte do imperador; será de vinte léguas de comprido, e de seis até nove de largo. Por uma parte atravessa o Nilo, tem muitas ilhas dentro, muitas castas de peixes, muitos cava- los marinhos, e uma vez sucedeu a dois padres ser-lhes necessário ir um dia de caminho, por esta lagoa, do lugar onde estavam à corte, onde el-rei os chamava, em uma barca feita de palhas grossas, e foram tantos os cavalos marinhos, que sobre êles deram, que por grande providência de Deus escaparam com vida. Dentro neste lago, prende o imperador os alevantados, que quere ter a bom recado, e nêle também guarda seus tesoiros, ainda que algumas vezes os põe em pedras altíssimas e mui fortes, que parece as deu Deus feitas pela natureza, para fortalezas, que naquele reino não há, pela gente se não aplicar a fazê-las, nem ter arte para isso. A terceira lagoa se chama Zela, e cai no reino do Ocié, para a banda de Adel e Mombaça, e esta se tem que é onde nasce aquele rio, * por onde acima disse, que os portugueses, indo navegando, a iam buscar. •Ki.Sgv. Tem esta lagoa de comprido um dia de caminho. A quarta se chama Xacalá, não muito longe desta, junto ao reino de Ocié; terá também de comprido um dia de caminho.
  • 64 Das coisas de Etiópia Reinos e Províncias Não poderá deixar de se espantar e ter muita mágoa, quem ler e souber a grandeza deste império, e a multidão dos reinos e províncias, que nêle há, que são próprios da coroa dele, e que, sendo todo antigamente de cristãos, e tão finos e excelentes, como foram os de Etiópia, hoje esteja todo tão assolado e destruído nas coisas da Fé, que grande parte dele é povoado de gentios, outra de mouros, outra de turcos, outra de judeus, e a que é de cristãos, esteja toda rebelde, cismática, e apartada do grémio e obediência da Santa Igreja Romana, cabeça verdadeira e universal de tôda a cristandade. E para que se veja a grandeza deste império, iremos nomeando os reinos, que de direito lhe perten- cem, que são vinte seis, e a gente de que cada um é povoado; e depois as províncias, que são quatorze, conforme a descrição e notícia, que de tudo isto deu o nosso português João Gabriel, como acima dissemos; e para mais clareza, começaremos de dezoito graus da banda do norte, em que está a ilha de Suà- quém, que é porto do reino de Tigré, indo costeando por terra, junto ao Mar Roxo, até sair fora do estreito à costa do mar oceano, e caminhando por ela, • Fi.60. até perto de Melinde; e dali tornaremos a voltar por terra para a ban*da do norte, até chegar ao Cairo; o primeiro reino dêste império é o Tigré. Este, em boa, parte, se estende pela costa do Mar Roxo, no qual tem dois portos célebres: um se chama Suàquém, outro Daleca, ou Macud, os quais ambos são ilhas pequenas. E êste reino grande, e tem em si dezassete comarcas grandes, cada uma das quais tem seu capitão, povoado da pior gente de Etiópia; porque, nos portos marítimos, o povoam turcos; logo junto, e já no sertão, mouros; o mais, para dentro, cristãos e gentios. Nêle se acha ferro, cobre, chumbo, enxofre, prata fina e oiro; tem algodão e quási todos os mantimentos da Europa. Não tem frutas, mais que poucas uvas, e essas bem ruins, e alguns limões galegos e cidras, e alguns figos da índia: mas tudo o que nêle se semear, se dará bem, principalmente oliveiras, porque tem muitos zambujais; a terra é áspera, os moradores pobríssimos, mas sofredores do trabalho, todos pretos na côr; o trato é com sal, que se dá na terra, perto do mar, e parece que é de mina; porque, para se cortar, é necessário machado, e fazem-no em pedras quadradas, do tamanho de meio palmo, e serve de moeda corrente de Etiópia, porque não há outra, e a partes chega, que com dez ou quinze pedras compram um escravo. As árvores comummente são espinheiros grandes, e alguns angelins de pau preto; há muitas ribeiras frescas, cheias de jasmins, os quais também se dão pelos matos, com outras ervas odoríferas. As ribeiras têm algum peixe, que chamam cabosos; e quando no verão se secam, e cavando na areia se acha água nelas; se acham também peixes. Ao longo das ribeiras, é a terra tão fértil e grossa, que se semeia duas vezes no ano. O clima é sàdio, e em boa parte do ano refrescado com o norte, que lá não é frio, mas temperado; e assim há velhos • fi.6ov. de muitos anos, mui fortes e * frescos. A gente dêste reino todos são lavra- dores e pastores, e quem não lavra, não come; porque, ainda que a terra é fértil, o vestido porém, se o querem trazer, lhes leva quási tudo, e senão, hão-se de vestir de coiro cru. Outras vezes, vem a praga dos gafanhotos, que
  • Das coisas de Etiópia 65 neste reino de Tigré é mui frequente, e ficam sem nada, donde muitas vezes há nele fome, o que não há em outros muitos reinos de Etiópia. Junto de Tigré, está logo o reino, que é de Dancalí, que cai de fronte de Moçá, e vai beber no Mar Roxo para leste; é pequeno e estéril, povoado de mouros e tributário ao imperador. O terceiro se chama Angoté, que entra já mais pela terra dentro, para oeste, e confina com Tigré. O quarto é de Boa, mais adiante; o quinto Amará, o sexto Lecá, todos povoados de cristãos, juntos uns dos outros. O sétimo, mais adentro para oeste, Aba- gamedri; é grande, tem dezassete comarcas, povoado de cristãos e gentios. O oitavo é Dambeá; tem duas comarcas de cristãos e gentios. Todos estes oito vão correndo, desde leste para oeste, na confrontação do reino de Dan- calí, que é o que bebe no Mar Roxo. Confina com Dancalí por uma ilharga, e vai ao longo do Mar Roxo por outra, para a banda da bôca do estreito o nono reino, que se chama Aucáguerlé, que é de mouros, e não obedece ao imperador; a este rega o rio Oare, como a Egipto o Nilo. O décimo é Adel, aonde cai a cidade de Zeila, e fica doze graus para a banda do norte; este é de mouros, que sempre teve e tem guerra com o imperador, e daqui saiu o rei mouro Granha, que conquistou quási tôda a Etiópia, de cujas mãos o tiraram depois os nossos portugueses, vencendo-o em muitas batalhas, até que na última o acabaram de destruir, cortando-lhe a cabeça. O undéci*mo se *fi. 61. chama Dahalí, que vai correndo mais para a linha, e para Mombaça; é de cristãos e mouros, tributários ao imperador. O duodécimo confina com este, e fica mais para terra dentro; chama-se Ocié; povoam-no gentios e mouros sujeitos ao imperador. O décimo terceiro se chama Ario; o décimo quarto, logo junto dele, Fatagar, ambos de cristãos. O décimo quinto Zingeró; é de gentios. O décimo sexto se chama Rozanegús, e corre para a banda de Mom- baça; é de cristãos, mas não obedece. Daqui por diante, tornam a voltar os reinos deste império pela terra firme do sul para o norte, e fica logo junto ao reino Zingeró o décimo sétimo, que se chama Roxá, e é de gentios; logo junto, para a parte do levante, o décimo oitavo, que é Gomá, de cristãos e gentios, que obedecem. O décimo nono se chama Neréa; este é mui grande reino, e tamanho três vezes como o de Abagamedri, o qual se estende para a banda de Manomotapa; há nêle muito oiro, algália, marfim e outras coisas boas; é de cristãos e gentios, tributários ao imperador, e a melhor renda da coroa de Etiópia, porque lhe paga cada ano muita cópia de oiro de tributo; e o melhor comércio, que há em Etiópia, é para este reino, o qual distará de Fremoná e Tigré perto de dois meses de caminho. Nêle, até hoje, não entraram os galas, mas vão já de caminho para lá. O vigésimo reino fica de Neréa para o inte- rior do império; chama se Zet; é povoado de gentios e tributário. O vigésimo primeiro, e que está logo pegado com êste, se chama Conche. O vigésimo segundo, logo junto, é Mahaolá, de gentios. O vigésimo terceiro é Goromá; é reino mui grande e farto; tem vinte e nove comarcas, de cristãos e gentios, e a êste quási todo cerca o Nilo, e fica quási ilha; nêle comummente são as guerras, e sempre * tem que comer, sendo assim, que estes exércitos nunca levam vitualhas, mas aonde chegam, aí comem; e assim, por onde passam, deixam tudo destruído. Neste reino, uns estão segando, e outros, detrás, vão 9
  • 66 Das coisas de Etiópia lavrando, para logo semearem. Vigésimo quarto é Damoté. O vigésimo quinto Suá, que se diz ser o coração do império, e onde antigamente residia a corte. O vigésimo sexto Fascoló. Todos estes três estão da outra banda do Nilo, para Egipto, e êste último se vai estendendo para o Cairo, e por êle corre a estrada dos peregrinos, que vão a Jerusalém cada ano, no tempo da quaresma, os quais, partindo do reino de Dambeá, põem cinqiienta dias no caminho; é êste reino de Fascoló povoado de mouros, que têm comercio com o império. As províncias, que a êle pertencem, são quatorze: a primeira se chama Dubané, que está no reino de Tigré, e é povoada de cafres gentios, que não obedecem. A segunda Xunchó, no mesmo Tigré, e confina com o reino de Dancalí; é de mouros que não obedecem. A terceira de Daraitá, no reino de Angoté; é de cristãos. A quarta Borá, entre o Tigré e Abagamedrí, povoada de cristãos, mas ruins, como também a quinta, que está vizinha, chamada Calaoá, e a sexta Agá. A sétima é Arim, junto ao reino de Dahalí; é tribu- tária. A oitava Arbó, povoada de gentios e mouros, que obedecem. A nona Xancalá, junto ao reino Zingeró; é de cafres muito pretos e gentios. A décima, logo vizinha, Xancorá, também de cafres. A undécima Subgamó, logo mais adiante, e é de mouros e cristãos, como também Bergamó, a duodécima, que está junto dela. A décima terceira é Arís, que está além do Nilo, povoada de mouros, tem seu príncipe. A décima quarta se chama Evará, acima de Arís, de mouros e de gentios. • * De todos estes reinos e províncias confessam os abexins, que a terceira parte pertence à coroa de Portugal, pelo concêrto, que os dêste império fize- ram com os portugueses, quando Dom Cristóvão de Gama foi libertar Etiópia dos mouros; porém mal se pode adquirir a posse, se não fôr pela ponta da espada; pois nem o próprio imperador de Etiópia tem hoje mais de todos estes reinos e províncias, que o reconheçam pacificamente, que os reinos de Tigré, Abagamedrí, Dambeá, Goromá, Xarcá, Amará. Todo o mais dêste império, que não é de mouros, possuem os galas, os quais ainda no pouco, que tem o imperador, todos os anos lhe vão dar assaltos. Estes gentios tem entre si uma profecia, que gente branca os hão-de fazer lavradores, e botar fora de Etiópia; queira Nosso Senhor que alguma hora se cumpra. Fim do primeiro livro.
  • *L I V R O SEGUNDO DA PROVÍNCIA DE COCHIM CAPÍTULO PRIMEIRO Do Colégio de Cochim, e suas Residências Á. nesta província, que chamamos também a do sul, sete colé- gios, três casas, várias residências, em que os nossos da Companhia vivem espalhados por mui distantes reinos, e pro- víncias daquele Oriente. Os colégios são: o de Cochim, Cranganor, Coulão, S. Tomé, Pescaria, Malaca; casas: a de Columbo em Ceilão; a de Negapatão em Narsinga; a de Ternate em Maluco. E a cada um dêstes colégios e casas estão sujeitas suas residências, que são muitas e várias, e por tôdas estas estân- cias vivem perto de cento e cinqiienta religiosos da Companhia, uns ocupados em ler e ensinar as ciências, que a Companhia costuma, o que se faz nos colégios; outros, que são mais em número, atendendo à conversão dos infiéis. Começando pois pela cabeça da província, que é o colégio de Cochim, residem nêle, por ser Seminário e oficina das ciências, sessenta religiosos; e além do fruto, que fazem com os portugueses e cristãos já feitos, que deixo, por ser comum e ordinário, não foi pequeno * o que se fêz assim no distrito «.fi.63. da cidade, como nas residências sujeitas a êste colégio, que são a de S. André, a de Calecut e a de Tanor, na conversão dos infiéis, dos quais se baptizaram em tôdas elas trezentos e sessenta. Na residência de Santo André, tem um padre cuidado de três igrejas, bem distantes umas das outras. Na de Calecut, estão dois padres; não há nela tão copiosa conversão, pelo temor que os gen- tios têm, que quebrando-se as pazes entre o Çamorim, imperador do Malabar, e os portugueses, e forçados com isso os padres a se sairem da cidade, fiquem êles desamparados, expostos às injúrias dos mouros; alguns, contudo, se bapti- zavam. O fruto principal, que por ora se faz, é por meio dêstes padres, e pelo grande respeito e benevolência, que o Çamorim lhes tem para con- servar a paz com os portugueses; e assim pelos ofícios, que os padres com êle fizeram sobre esta matéria, quando por Calecut passou a armada dos Holandeses, lhes negou o Çamorim a feitoria e pôrto, que lhe pediam em suas terras, por mais que os ministros da sua côrte, pelas peitas, que tinham rece- bido, apertavam rijamente com êle, que lhos desse. E da mesma maneira sucedeu, na instância que os mouros lhe faziam, para que lhes desse licença de
  • 68 Das coisas de Malabar poderem tornar outra vez a levantar a fortaleza do Cunhal, e que, poucos anos há, os portugueses por força de armas lhes destruíram, por ser uma famosa colheita de ladrões, donde resultavam muitos danos ao estado da índia. E como os mouros desejavam tanto de a tornar a levantar, pela grande comodi- dade que têm, para tudo o que êles hão mister para seus navios, deram gran- des presentes ao Çamorim, para lhes conceder esta licença, a qual lhes tinha quási dado; porém, acudindo o padre Jácome Fenício, de quem êle faz tanta conta, lha fêz tornar a revogar; e não sòmente o persuadiu a que não desse a • fi. 63 t. tal * licença, senão também que mandasse, que nem soldado nem marinheiro dos seus se embarcasse com os ladrões. A residência de Tanor se principiou, no ano de [i]6o6, pedindo-a muito o próprio rei, que sumamente desejava ter padres da Companhia nas suas terras. Concedeu-lha o Padre Provincial; êle à sua custa, fêz que se edificasse a igreja e uma casa para o padre, encarregando isto a um principal de sua casa, e quando na igreja, já acabada, se houve de arvorar o sagrado estandarte da Cruz, que foi em Setembro, no mesmo dia em que se celebra sua festa, o mesmo rei se quis achar presente, e mandou vir algumas peças de artilharia, para que, disparando-as, com seus estrondos fizessem o dia mais célebre. Armou-se a igreja, o melhor que naquele lugar podia ser; concorreram de todas as partes muitos homens, com desejos de ver a festa; ela já acabada, lhes fêz o rei uma fala, em que lhes deu a entender, que todos os que quisessem seguir a lei, que o padre prègava, o podiam fazer livremente, sem temor de por isso haverem de ter alguma pena, nem receber algum dano; e disso deu um assinado seu, cheio de louvores de nossa santa Fé, acrescentando, que dali por diante os que se fizessem cristãos, teriam duas colunas em que se estribar, em suas coisas: uma seria êle, por ser rei, e por conseguinte protector seu; e outra seria o padre, que com muito cuidado procuraria seu bem, assim para os corpos como para as almas. Emquanto êste rei viveu, se mostrou mui humano para com o padre, dando sempre mostras de grande benevolência; mas, porque êle não muito depois morreu, antes de acabar, com mui graves palavras encomendou ao príncipe herdeiro, que procurasse de conservar os padres, que êle, não sem dificuldade, ali trouxera, e que os estimasse como um muito precioso tesoiro, • Fi.64. cujo preço ainda que por então não conhecesse, * quando ou a êle, ou aos seus acontecesse alguma adversidade, o conheceria. Logo no ano seguinte, houve uma cruel peste naquelas partes, de que morreram muitos, especialmente pescadores. Dava nos miseráveis uma tão cruel e furiosa febre, que os mais deles, em espaço de três e quatro horas, expiravam; poucos durariam um dia e raros chegavam a dois. Diziam que êste mal lhes viera, porque não tinham cumprido um voto, que fizeram a seu pagode, de lhe darem não sei que dom; fizeram os coitados quanto em si foi por apla- carem o demónio; não sòmente lhe deram o que tinham prometido, senão também lhe fizeram muitos outros sacrifícios; mas nem por isso o mal se abran- dava. Por derradeiro, forçados da necessidade, se vieram à santa Cruz, como a valha-couto e lugar de refúgio, trazendo azeite para arder diante dela; pediram mui afincadamente ao padre, que lhes desse algum remédio contra mal tão irremediável. Teve o padre ocasião, para lhes falar da vaidade dos ídolos, e
  • Das coisas de Malabar 69 não foi o trabalho debalde, porque pescou muitas almas de pescadores, que regenerados pelo sagrado baptismo se foram ao céu. Ia êle, ou mandava os meninos, que dissessem as orações da santa doutrina, e benzeu a água, para darem a beber aos que estavam morrendo; nem faltou o efeito salutífero da divina liberalidade, porque de quantos beberam da água benta, só um morreu; e foram muitos os que da garganta da morte tornaram á vida. Aconteceu não uma só vez, que. dizendo-se as orações da santa doutrina por alguns, saravam logo; mas, no mesmo momento de tempo, algum dos vizinhos caía na mesma doença; donde se via que o demónio, por divina permissão, era o autor do mal, e que saindo de um, entrava logo no outro. Adoeceu um menino já cristão, que era as delícias de seu pai; estava já expirando, nem * havia esperança de •fi.ô.jt. vida; vem o pai, fora de si, correndo à igreja, pede remédio; vai o padre com êle, faz o sinal da Cruz na testa do menino, que expirava; reza-lhe o Evangelho, dá-lhe um trago de água benta: coisa maravilhosa! torna o menino em si, fala, diz que está são; porque, entrando o padre, logo fora livre de um grande peso, que o esmagava e matava. A noite seguinte, se quis vingar o demónio do pai do menino, e assim claramente o dizia, porque fôra chamar o padre; que êle pagaria muito bem sua ousadia. Tão fortemente lhe apertou a garganta, que não podia o pobre tomar fôlego; mas, fazendo-lhe o sinal da Cruz na testa, e nomeando o Santíssimo Nome de Jesus, logo aquele feroz demónio fugiu, e o homem ficou livre do tormento que lhe dava. Uma mulher gentia, estando com a mesma doença, chamou o padre; disse que se faria cristã, contanto-que sarasse; porque, de outra maneira, queria morrer na lei em que vivera. Falou- -Ihe o padre, que quisesse ela mais a saúde e vida da alma, que é a principal, que a do corpo, e que Deus lhe podia dar uma e outra, e que o principal remé- dio era o santo baptismo. Veio a consentir nisto a mulher; e, como breve- mente a instruísse o padre nas coisas da Fé, quanto a doença sofria, baptizou-a, e com a saúde da alma recebeu também a do corpo; foi isto a muitos ocasião de se fazerem cristãos. Outra mulher e uma sua filha se baptizaram, ficando outra filha com um neto para se baptizarem, como aprendessem a doutrina. Estando todos em casa, e dizendo as orações, o demónio de fora chorando e carpindo-se batia muitas vezes à porta, nomeando já uma, já outra por seus nomes; preguntava que mal lhes tinha feito, para o deitarem fora da pousada, em que tantos anos tinha morado. Elas, segundo as tinha o padre ensinado, então com maior fervor e devoção cantavam a santa doutrina, o que * não o «fi.65. podendo sofrer o demónio, com grandes choros, e como quem com dor que- brava os dedos, se ia. Muitas coisas acontecem muitas vezes sôbre as forças da natureza, por virtude da santa Cruz, e por intercessão da Virgem Nossa Senhora; porque uns saram de doenças perigosas, outros de chagas incuráveis, outros são livres de vários perigos, em que se vêem; alguns, deitando suas redes em nome da Santíssima Cruz e da Beatíssima Virgem, tomam grande cópia de peixe, não tomando outros nada, no mesmo tempo. Semelhantes coisas acontecem muitas vezes também aos infiéis, nem êles se mostram de todo ingratos, porque não sòmente cristãos, senão também gentios trazem suas ofertas, principalmente de azeite aos sábados, para as alâmpadas da santa Cruz € da Sagrada Virgem. Os que se baptizaram, foram cinquenta.
  • ?o Das coisas de Malabar CAPITULO II Dos colégios da Cranganor e Coulão, Columbo e S. Tomé, e do que se fê\ em seus distritos HÁ no colégio de Cranganor, e seminário de Vaipicota a êle sujeito, dez da Companhia. Esta cidade, onde os portugueses têm fortaleza, fêz a santidade do Papa Paulo V, em um dêstes anos, cabeça do Arcebispado • fi.65t. da cristandade, que chamam de S. Tomé, e por outro nome, da * Serra; junta- mente deu ao Reverendíssimo daquele Bispado o título de Arcebispo, como sem- pre o tiveram seus antecessores, ainda que cismáticos; coisa que aqueles cris- tãos grandemente desejavam, por não parecer, que, por terem dado obediência à Igreja Romana, valiam menos, com seu pastor ser privado desta dignidade; os quais, tanto que souberam que Sua Santidade a tinha restituído a seu pastor, assim para lhe gratificarem tamanho favor e mercê, como também para ganha- rem o santo Jubileu, que com ela lhe mandara, concorreram de todas as partes, e quási de todos foi recebido com grande veneração e piedade: o que é muito de estimar nesta gente, pois, tão pouco antes, nenhum comércio queriam ter com a Igreja Romana, nem aceitar Jubileu, que dela viesse. Indo um padre em missão, por vários lugares desta cristandade, foi admi- rável o fruto que se fêz, e em muito número as confissões que se ouviram, e de muitos, que sendo de muita idade, em tôda a sua vida se não tinham con- fessado; e no tempo da quaresma, houve padre, que só à sua parte lhe coube ouvir como seiscentas confissões, e muitas delas gerais, o que é tanto mais para notar, quanto menos uso havia, entre esta gente, dêste tão salutífero sacra- mento; e não foi de menos estima, descobrirem os padres entre êles alguns livros surianos, cheios de muitas heresias de Nestório, os quais parte emenda- ram, parte queimaram. Como também se acudiu com grande indústria e dili- gência a um arménio, que a esta terra veio ter, o qual, fingindo-se Arcebispo, e vir por mandado do Patriarca de Alexandria a governar aquela igreja, começou a perturbar alguns cristãos, e a semear algumas heresias contra os sacramentos e obediência à Igreja Romana; mas logo este fogo foi apagado, por indústria e • fi. 66. diligência do Arcebispo da Serra, o qual, indo visitando * sua diocese, achou em um lugar uma igreja mui arruinada, e pequena para o número de gente; ten- tou-a refazer e acrescentar; mas foi tão grande a resistência, com que lho im- pediu o senhor da terra, que era gentio, que por nenhuns rogos, nem meios o pôde dobrar de sua pertinácia; senão quando, ao dia seguinte foi achado morto, e após êle, na mesma hora, morreu logo uma sua irmã e outro seu parente; o que sabendo-o o Çamorim, imperador do Malabar, ainda que gentio, entendeu e disse publicamente, que fôra manifesto castigo da sua perversa obstinação; e deu logo licença ao Arcebispo, para que pudesse reedificar a igreja, como lhe parecesse. Mais evidente foi ainda outro indício da divina justiça, no régulo de Repeli; porque, estando em seu distrito duas igrejas dos cristãos de S. Tomé: uma da invocação dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, outra de S. Jorge, mártir, nas quais é costume antigo celebrar-se uma solene festa de três dias de jejum,
  • Das coisas de Malabar 7* à qual não sòmente concorriam os cristãos naturais, mas muita multidão de povo da cidade de Cochim, o régulo, este ano, quis proibir esta solenidade; e ainda que o Arcebispo e padres buscaram todos os meios possíveis, para o tirar daquele propósito, e lhe persuadir não impedisse tal solenidade, nunca jàmais o puderam dobrar; mas o que de vontade não quis, veio a fazer, em que lhe pêze; e constrangido com açoites de Deus, porque por seu justo juízo, lhe tomarem os inimigos uma boa fortaleza que tinha, e lhe morreu, quando menos cuidava, o príncipe, herdeiro do reino, e outro seu governador principal; com os quais castigos assombrado, chamou a um famoso feiticeiro, para o consultar da causa deles, o qual lhe respondeu, que todos êles lhe foram dados pelos dois santos Apóstolos, cujas divisas exprimiu, e por um cavaleiro armado, significando o glorioso S. Jorge; e foi mais de notar esta resposta, por*que, como êste feiti- -fi.mv. ceiro foi chamado de muito longe, se teve por mui provável, que nunca entrou nos ditos templos, nem viu as imagens dos Santos, de quem falava. Ficou o régulo com esta resposta mui assombrado, mas nem por isso emendado. K assim, depois disto, adoecendo outro príncipe, sucessor do reino, e estando dormindo, sentiu que lhe deram uma tamanha pescoçada, que começou a bra- dar que morria; a cuja voz acudindo el-rei, o príncipe lhe pediu com muita eficácia, que permitisse celebrarem-se as festas dos cristãos, conforme ao cos- tume antigo; pois esta era a causa porque o matavam, como logo ao dia seguinte acabou; mas nem com isto acabou o obstinado régulo a se render: pelo quê, indo por diante a divina vingança, a mostrou no terceiro príncipe do reino, o qual em breve veio a endoidecer. Com isto, abrandando-se mais o duro coração do gentio, emfim se rendeu a tantos açoites, e deu licença que as festas dos Santos se tornassem a celebrar conforme ao costume, oferecendo-se ao Arcebispo para dar satisfaçao dos erros passados, mas que pedia, que quisesse aplacar a Nosso Senhor da ira que tinha contra êle; e finalmente, êle próprio, à sua custa, restaurou aquelas igrejas, e assinou certa quantidade de azeite, que mandou dar, para as alâmpadas estarem sempre ardendo; e em sinal de Deus lhe receber sua penitência, o príncipe sarou da doença e doidice. Antigo costume é, entre aqueles cristãos da Serra, em certos dias de jejum, levarem à igreja coisas de comer, para que o sacer- dote lhe lance a benção: as quais, emquanto o sacerdote as não benze, ninguém ousa de tocar. Sucedeu que um cristão pouco escrupuloso, antes da benção do sacerdote, tomou um côco e o levou. Fizeram-lhe os outros cristãos gran- des esconjuraçoes, que o não comesse, até ser bento pelo sacerdote; * não faz o miserável caso disto; mas indo-se para sua casa com êle, ouviu no caminho uma voz, que o chamava por seu nome; e olhando para todas as partes, não viu pessoa alguma; porém chegando a sua casa, de súbito expirou! coisa que todos tiveram por evidente juizo de Deus, que para terror dos outros cristãos, quis castigar o desacato, com que aquele desprezou o antigo, pio e louvável costume de sua igreja. No colégio de Coulão, há doze da Companhia, e dele se cultiva tôda a cristandade da costa de Travancore, até além do cabo de Comorim, no qual distrito haverá como trinta igrejas, assim na praia, como pela terra dentro, que os nossos visitam, e pelas quais andam em contínua missão, com grande apro-
  • 72 Das coisas de Malabar veitaraento daqueles cristãos. De novo se converteram poucos, porque não passariam de noventa, em razão das contínuas perturbações e guerras, e outros trabalhos, que estes dois anos houve, por tôda aquela costa, nascidas parte dos gentios contra os cristãos naturais parte dos reis, vizinhos à fortaleza de Cou- lão, os quais, levantando-se contra os portugueses, há perto de um ano, que a têm de cêrco, dando-lhe freqiientes assaltos. Porém no meio de tão contínuo estrondo de armas e de bombardas de parte a parte, nunca os nossos deixaram de continuar com todos os ministérios da Companhia, dentro da cidade, nem de celebrar as acostumadas festas dos jubileus, e procissões, com grande con- curso do povo, o qual tem tanta devoção aos padres, que sendo cativo o Padre Manuel da Fonseca, dos inimigos, e não o querendo eles largar sem resgate, vieram muitos oferecer aos padres não só dinheiro, mas até as cadeias, manilhas e jóias de suas mulheres, pôsto-que por derradeiro nada disto se houve mister. • FI.67V. E mui venerada, na fortaleza de Coulão e em * tôda a costa de Travancore, a gloriosa memória do beato Padre Francisco Xavier; porque cada dia, mais e mais, faz Deus Nosso Senhor maravilhoso êste seu servo, em efeitos sobrena- turais, que obra por sua intercessão. Todos por êle chamam nos trabalhos, todos a êle se socorrem nos perigos e necessidades; nem êle deixa de acudir e ajudar a quem se lhe encomenda. E dos muitos exemplos que nisto há, apon- taremos alguns, para glória de Nosso Senhor e de seu Santo: um cristão, por nome André, juiz de um lugar, que se chama Moral, havia oito meses que perdera a vista dos olhos, e estava tolhido de pés, e mãos, sem lhe aproveitar todo o género de medicinas, que tinha experimentado. Êste estando dormindo, lhe pareceu que via um padre, vestido a modo da Companhia, e sôbre o ves- tido uma capa de asperges, diante do qual ia uma grande procissão; e che- gando-se ao enfermo, o tomou pela mão, e lhe encomendou, que fosse à sua igreja de Cotaté. Acordando o enfermo e cobrando ânimo com a visão, fêz logo o que o padre lhe mandara, e se foi à igreja; e dormindo nela, lhe tornou a aparecer o padre em sonhos, na figura em que estava pintado na mesma igreja, como abaixo diremos, e lhe disse que tivesse bom ânimo, e confiasse muito em Nosso Senhor que lhe daria saúde; a qual, por mereeimento do santo padre alcançou perfeitamente; e em agradecimento de tamanho benefício, com- pôs um elegante poema, no qual referiu suas enfermidades, os aparecimentos do Beato Padre, a saúde que por seus merecimentos alcançara, e tudo testificou com juramento, além de poderem ser testemunhas dêste milagre todos, quantos o viram cego e entrèvado na cama, e depois o viram são. Uma mulher, por nome Ana, por ocasião de um ruim parto, que tivera, havia dois meses e meio •fi.68, que estava muda; faz a * mãi um voto pela saúde da filha ao santo padre, e de o ir cumprir em sua igreja de Cotaté. Eis que no mesmo dia à tarde, foi visto de muita gente um padre, que acompanhado de muita turba de meninos, como quando se vai fazendo a doutrina, ia pela rua, e dizia: vou fazer uma obra maravilhosa; o qual, entrando na casa da mulher enfêrma, no mesmo ponto falou, e a visão desapareceu. Outra mulher tinha experimentado quantas medecinas havia, sem com tôdas elas achar melhoria de uma comprida e molesta enfermidade, que padecia; nem tinha já esperança de poder sarar. Por derradeiro, pediu ao padre reitor do
  • Das coisas de Malabar 73 colégio, com muito afecto, que oferecesse por ela uma missa ao beato padre Francisco; ofereceu-se a missa, e logo, sem nenhum outro remédio, começou de se achar melhor e em poucos dias sarou de todo. Um menino de quatro a cinco anos, estava já arrancando a alma; seus pais, cheios de dor e senti- mento, prometeram ao Beato Padre uma candeia e um fio de oiro, do tamanho do menino, pedindo com muita fé o remédio para seu filho. Cumpriu-lhes o Santo seu desejo; sarou o menino, trouxeram-no à igreja com a candeia e o fio de oiro, e juntamente outra candeia meio gastada, que o menino tivera na mão, quando estava expirando. Uma mulher nobre havia três dias que estava de parto, sem poder dar à luz; chamou pelo Santo Padre, e mandou-lhe oferecer na nossa igreja um fio de oiro, que para outro uso tinha; e tornando-lho a levar, se cingiu com ele; no mesmo ponto nasceu uma menina, à qual no baptismo puseram o nome de Francisca, por honra do Santo, e memória do que tinha acontecido. Um mer- cador partiu do pôrto de Jergelim o derradeiro de quantos ali estavam; engol- fou-se no mar e navegava para Cochim; depois de quatorze ou quinze dias, dobrou sôbre terra, e reconhecendo-a, viu que tor*nara para trás, donde partira «fi. »▼. trinta e cinco léguas, levado das grandes correntes do mar. Encomendou-se ao Beato Padre, prometendo-lhe umas cortinas de seda para a sua igreja de Cotaté; concertando as velas, continuou com sua viagem; depois de nove ou dez dias, alcançou todos os navios, que primeiro tinham partido, e só êle dobrou uma ponta, que nenhum dos outros pode dobrar. Finalmente, chegou com bonança a Cochim, para onde vinha, sendo todos os outros forçados a invernar por diversas partes. Aparelhava um homem em Coulão uma charola, em que se havia de levar numa procissão a imagem da Virgem Nossa Senhora, cuja era a festa, que se celebrava; o ornato da charola todo era de cera; viu que lhe não podia bastar a que tinha; na terra, não havia outra que pudesse comprar; buscá-la por fora não era possível, em razão do cêrco; encomenda o negócio ao Beato Padre, vai por diante com sua obra, e não somente lhe bastou a cera que tinha, senão que ainda lhe sobejou boa quantidade. Uma mulher nobre padecia duas molestíssimas enfermidades, sem lhe apro- veitarem remédios alguns; prometeu ir à igreja do Beato Padre a Cotaté, e levar uma cruz de oiro, se tivesse saúde; logo sarou. Os que, por intercessão do glorioso Padre convalescem de doenças mais leves, cada dia trazem à nossa igreja suas ofertas, principalmente de cera e azeite, em reconhecimento das mercês recebidas. Os soldados, que defendem esta fortaleza, se podem haver uma medalha, com a imagem do Beato Padre, ou uma cruzinha de pau, de sua igreja de Cotaté, com isso vão ao campo a pelejar tão confiadamente, como se fossem armados com arnezes de prova, havendo que o Santo Padre há-de-ser sua invencível defensão. Nem é sem fundamento esta imaginaçao sua, porque não parece que, sem particularíssimo favor sobrenatural, possa ser que tão poucos pelejem tantas vezes contra muitos, e os muitos sejam sempre * vencidos dos poucos, e os poucos saiam sem dano, e não poucos dos muitos fiquem estirados no campo. Porquanto tenho feito menção da igreja e Cruz de Cotaté, parece neces- sário dar razão de uma coisa e outra, principalmente porque aí resplandece a IO
  • 74 Das coisas de Malabar virtude e santidade do Beato Padre Francisco Xavier. Cotaté é um lugar muito populoso ou cidade, na costa de Travancor, junto ao cabo de Comorim. Já os anos atrás se deu conta de como ali se fêz uma igreja, e se arvorou uma for- mosa Cruz, e se fizeram muitos cristãos; a invocação da igreja é da Santíssima Trindade, cuja sagrada imagem está pintada em um retábulo, e aos pés dela está também a do Beato Padre Francisco, de joelhos, com as mãos alevantadas e os olhos em Deus, em forma de quem faz oração, e pede mercês do Céu. A multidão de milagres, que a Divina Potência tem ali obrado por intercessão dêste Santo, fêz que o vulgo lhe não chame, senão igreja do Beato Padre Fran- cisco. Quando dali se houveram de vir os nossos, por certos respeitos, por não haver algum malévolo, que com desacato quisesse tirar a imagem do Santo Padre, o que não sem fundamento se temia, pondo em seu lugar outra, entregaram aquele santo retábulo a um mercador de Coulão, para o trazer e dar ao padre reitor do colégio. Chegou a Coulão, alta noite; esperava pelo dia, para entregar o retábulo ao padre reitor. Eis que a casa vizinha começa de se abrasar com um bravo fogo, que se lhe pegou. O bom portador de nenhuma coisa teve mais cuidado, que de pôr em salvo o santo retábulo; o mais fato deixou à discrição do fogo, que já vinha ateando; e, se chegara a casa, não tinha mais resistência que se achara estopa muito enxuta, porque estava cuberta de folhas de palmeira sêcas. Ao Santo encomendava o bom homem • Fi.íjv. suas coisas, com muitas lágrimas; aqui subi*tamente se mudou o vento, e com veemência soprou da parte da casa, e desviou as chamas para onde não havia que queimar. Todos logo, sem saberem nada, julgaram aquela tão repentina mudança do vento por milagrosa; e depois, sabendo o que do sagrado retábulo está dito, atribuíram aquele sucesso ao Beato Padre Francisco; e sendo-lhe já dantes muito afeiçoados, dali em diante ficaram afeiçoadíssimos. Todos dese- jaram ver a imagem do Santo; e, para satisfazer estes santos desejos, dia de Natal se pôs em público na igreja, aonde tôda a sorte de gente correu a vê-la e venerá-la, beijando-a com muita reverência, tocando nela suas contas, como em relíquias de grandes santos. Depois, foi colocada dentro do colégio, em uma capela, onde muitos a vêm visitar, e lhe trazem ofertas, por particulares favores que de Deus por meio dela recebem. A Cruz que estava junto da igreja de Cotaté, era mui formosa; antes que os nossos dali se viessem, um dos braços dela suou um suor como de sangue; todos tiveram aquilo por prognóstico de alguma coisa extraordinária e grande, • que havia-de acontecer. Não parece fora de propósito cuidar, que aquilo signi- ficou a perseguição, que contra os nossos naquelas partes se alevantou. Era esta Cruz de sessenta palmos em alto, e os braços tinham mais de quinze; por ser ali grande o ímpeto dos ventos, pareceu que se devia cortar alguma coisa dela; cortou-se a quarta parte da travessa; esta foi acaso a parte de que tinha manado aquele suor cruento, que disse. Fizeram-se dali algumas cruzes peque- nas para os altares, e outras pequeninas, para quem as pedisse com devoção. E, porquanto do pé da Cruz se tirava barro, que causava milagrosos efeitos, pareceu que não deviam ter menor virtude os pós daquele pau moído, e assim • n. 70. os quiseram experimentar. Foi * admirável a experiência, porque com estes pós, sem mais outro remédio sararam muitos doentes. Como isto se divulgou,
  • Das coisas de Malabar 75 começaram a guardar os cavacos daquele milagroso pau, como relíquias de muita estima. Os que puderam haver uma cruzinha dele, têm-se por muito ditosos; encastoam-na em prata e oiro, e trazem-na dependurada no pescoço; chamam a estas, relíquias — pau do Beato Padre Francisco Xavier. Isto quanto à igreja e cruz de Cotaté. No colégio de Columbo, cabeça da ilha de Ceilão, e por suas residências, vivem onze ou doze da Companhia: um está sempre na fortaleza de Muluana, assento ordinário do general e conquistador daquela ilha, por êle o pedir, e não se poder negar a um fidalgo tão benemerito da nossa Companhia, e irmão do santo mártir e padre, nosso, Dom Inácio de Azevedo. O padre, que esteve com êle estes anos atrás, que se chama Pedro Eutício, por ordem e parecer do mesmo general foi ao rei de uma parte da ilha, que chamam Sete Corlas, para o ensinar e instruir nas coisas divinas; e assim por isto, como por um filho seu, que lhe levou, mancebo de boas esperanças, que na casa do general se criara, foi recebido daquele rei, com singular gasalhado e amor. Edificou logo o padre ali uma igreja, baptizou vinte e quatro pessoas da família del-rei; e andando catequizando a muitos do povo, para também receberem o sagrado baptismo, atalhou o efeito de tão santa obra uma grave doença, em que o padre caiu, por respeito da qual foi levado a Columbo, onde poucos dias depois, Nosso Senhor o levou para si, com grande sentimento de todos, principalmente do capitão-geral, que de sua grande virtude deu singular testemunho; e o rei das Sete Corlas, em sinal do grande sentimento, que teve de sua morte, se vestiu de dó, e mandou por todo o seu reino, que todos fizessem o mes*mo. "Fi^ov. Houve estes anos naquela ilha uma peste quási geral, em que os nossos tiveram grande matéria de fazer muito serviço a Deus, e bem aos naturais dela, como fizeram com tôda a possível diligência, procurando-lhe a saúde do corpo e alma; e assim, houve muito número dos que, estando na hora da morte, receberam o santo baptismo, e se foram para o Ceu. E e tão grande o con- ceito, que os gentios daquelas partes, por onde os nossos andam, têm da nossa santa Fé, que já não ousam morrer, sem o sagrado baptismo. Na povoação de Chiláu, se fêz estes dois anos grande fruto; porque além dos Patangatins, que são os cabeças do povo, se baptizariam como quatrocentas pessoas. O mesmo se fêz também, da outra banda do rio, no território do pagode, que chamam Munocerão, mui célebre naquelas partes, onde se edificou uma igreja mui formosa ao Apóstolo S. Paulo. Mandaper é outro território, vizinho ao de Munocerão, o qual compreende doze lugares, bem distantes uns dos outros, e ambos estes territórios estão à conta de dois padres; outro está em Caimel, onde houve grande mortandade, e de quási setenta cristãos que morreram, nenhum, ou raro foi sem confissão. Cardiva é uma ilha pequena, pegada com Ceilão, que um esteiro divide da outra terra. De uma e outra parte, estão seis igrejas, bem distantes umas das outras, de que os nossos têm cuidado, discor- rendo por tôdas. Os caminhos são por entre matos espessíssimos, onde andam muitas bestas feras: tigres, búfalos bravos, ursos, elefantes e outros animais. A gente, que por aqui mora, são alguns que vieram da Costa da Pescaria; outros naturais. Nos lugares de Maripó e Nacalí, baptizaram-se mais de duzentos.
  • 76 Das coisas de Malabar No colégio de S. Tomé, residem oito, e na corte del-rei de Bisnagá os dois •fi.7i. ou três acostumados. Este rei con#tinua na benevolência e amor, que tem aos padres, fazendo-lhes todos os favores e gasalhados, como se fora um rei cristão. Parte disto se pode ver em uma carta sua, que êste ano escreveu a Sua Majestade, a qual diz assim: no ano Javaxará, na lua de Março. Carta do Raio dos raios, grande senhor, grande cavaleiro, rei Veneatapati, mui grande rei, para o poderosíssimo senhor do mar e da terra, Dom Filipe, rei de Portu- gal, etc. Recebi a carta de vossa Majestade, e me alegrei muito, ouvindo-a ler. Nela me tratava vossa Majestade de duas coisas. Uma era acêrca dos padres da Companhia de Jesus, que estão em minha corte; quanto vossa Majestade se alegrara de ouvir o gasalhado e honra, que lhes fazia. A outra era acerca do vice-rei de Goa, como vossa Majestade lhe escrevera, que no que fosse neces- sário para meu reino, me desse ajuda; tudo isto folguei muito de saber; porque, no que toca aos padres, sempre nestes onze anos, que há que estão em minha corte, procederam como bons religiosos, muito castos, letrados e prudentes, e prègadores de sua lei; e assim, como a tais sempre os tratarei, como vossa Majestade deseja e êles merecem. E, quanto ao vice-rei, sempre estou prestes para o ajudar, com todo o meu exército e poder, quando fôr necessário, contra os mouros, nossos antigos inimigos. Soube como os holandeses, vassalos rebel- des de vossa Majestade, vieram a Ginja falar com o Naique, e lhe pediram o pôrto de Tavanapatao, no qual já começavam a fazer fortaleza; logo lá mandei um meu criado, com cartas ao Naique, e depois, a meu rôgo, foi o padre Nico- lau Levanto, reitor do colégio de S. Tomé da Companhia de Jesus, com outras minhas cartas sôbre isto, e fiz que o Naique impedisse que não fizessem forta- leza, e que os mandasse ir de suas terras; porque, já que são rebeldes a vossa •F1.71V. Ma*jestade, também o são à minha pessoa. A amizade, que desde o tempo de Narsinga, tiveram os reis meus antecessores, com os reis de Portugal, com esta mesma desejo que corramos vossa Majestade e eu, escrevendo-me o que fôr necessário dêste meu reino o rei Ventacaxá». O que êste rei escreve acêrca da fortaleza, que mandou tirar aos holande- ses, escrevem também os padres mais miudamente por outra via; e como o padre reitor, com as cartas do rei, se foi ao Naique, que é um seu vassalo, pôsto-que mal obediente, nas quais lhe escrevia o que na sua diz; e, porque o Naique andou com demoras e dissimulações, o rei, suspeitando a causa da detença, de seu próprio motu escreveu outras cartas ao Naique, em que lhe mandava apertadamente, que logo executasse o que lhe mandava, em lançar fora aqueles inimigos dos portugueses; e que, se quisesse ver seu pôrto fre- quentado, o entregasse aos portugueses, que lhe haviam de ser melhores amigos que os novos hóspedes. Fê-lo assim o Naique, e mandou logo cartas ao Bispo, capitão e cidade de S. Tomé, e seus embaixadores com elas, para tratarem sôbre a entrega e frequentação do pôrto. Tudo se fêz, como convinha, e logo se mandou um capitão, que com alguns soldados ficasse na fortaleza começada; com êles foi também e ficou ali um padre, nosso, e depois se-lhe mandou outro companheiro, para ficarem naquela residência, de que se espera grande fruto, por o pôrto ser muito acomodado, a povoação grande, e nela e seu território muita gentilidade. Para outros portos e lugares daquela enseada, como são: Pa-
  • Das coisas de Malabar 77 liacate, Arimagão, Sete Pagodes, que são portos de importância, pede o Bispo padres, para neles residirem e frutificarem; e no Pôrto-Novo está )á também outro padre, onde faz muito fruto, convertendo muitos gentios, * e cultivam «ki. 7». alguns cristãos, que por ali havia, que estavam já feitos mato. Na residência de Velúr, côrte de el-rei de Bisnagá, baptizou o padre, que ali reside, dia da Assunção de Nossa Senhora, um nobre velho e criado del-rei, que tinha cem anos de idade, e havia quarenta que a nenhum ídolo adorava, mas a um só Deus verdadeiro, que não conhecia, o qual o padre lhe deu a conhecer, como antigamente S. Paulo aos Atenienses, com que o ditoso velho não cabia de prazer, e vai procedendo de tal maneira na Fe e boas obras, que, ainda que veio na undécima hora, procura recompensar nela o tempo que per- deu, para merecer e receber o denário divino. CAPÍTULO III Da Residência do reino de Pegú e Missão do reino de Sião NO reino de Pegú, e na nova cidade e fortaleza de Sirião, onde tem assento o general daquele reino, Felipe de Brito, residiam dois padres da nossa Companhia; porém, um deles, que era o padre Natal Salerno, foi Nosso Senhor servido levar numa forte batalha naval, que com os infiéis tiveram os portugueses; e, porque esta guerra foi uma das mais memoráveis coisas, que na índia houve entre os portugueses e aqueles gentios, e se têz por causa da Fé, e dela resultou tanta glória de Deus, como no processo da historia se verá, pareceu-nos conveniente para consolação dos fiéis, que esta historia lerem, e matéria de louvarem a Nosso Senhor, referirmos aqui a suma dela; pois também não é * alheia das histórias eclesiásticas, quando a ocasião o pede, -Fi.?»*. e vem a propósito do que nelas se trata, referir as guerras comJn^é!s'jlUe..OS cristãos fazem por causa da Fé, em defensa e aumento da Religião Crista. Nas relações passadas se tem escrito o princípio e fundação desta cidade e fortaleza, a ocasião que os portugueses tiveram, de ficarem senhores deste reino, a guerra que lhes fêz, para os deitar dele, o rei de Arracão que também se chama dos Mogos, e é o mais poderoso de toda a Bengala, as grossas e poderosas arma- das? que mandou contra Felipe de Brito, governador e cap.tão-geral daquela província, a fim de destruir os portugueses, e lhes tomar aquela fortaleza e cidade, e os deitar fora daquele reino, e de todo extinguir o nome Ç"stao em Pegú e em Bengala, e por todas aquelas partes, pelo grande e capital ódio que êste tirano lhe tem; as vitórias, que Nosso Senhor sempre deu aos nossos con- tra êle, destruindo-lhe todas suas armadas, com morte e cativeiro de todos os seus, até do príncipe seu filho, o qual, depois de Felipe de Brito lho ter por algum tempo preso e cativo, na fortaleza de Sirião, por derradeiro lho mandou para sua casa; mas foi o bárbaro rei tão pérfido e ingrato, que, depois de ter o filho príncipe em seu poder, mandando o general a seu filho, Marcos de Brito, com dois capitães e alguns soldados velhos, para efeito de cumprir o que sua majestade lhe mandara por sua carta, que reformasse a cristandade de Benga a,
  • 78 Das coisas de Pegú que êste mau rei e outros, seus vizinhos, tinham destruído, pelo grande serviço, que nisso se fazia a Deus, e proveito ao estado da índia; tendo já o dito Mar- cos de Brito as coisas da terra postas quási em ordem, e adquirida muita sol- dadesca portuguesa, da que por aquelas partes andava espalhada, e juntos • Fi.73. muitos casados em Dianga, que é um pôrto da*quele reino, vendo-se algumas vezes com el-rei de Arracão, o bárbaro se lhe mostrava muito fácil e afável, encobrindo sua maldade e traição, que andava ordenando, até que a executou, o que fêz em Basília, terras de Chocória, matando-o dentro em seus paços, com os capitais que com êle foram, e destruindo a povoação dos cristãos, e cativando mais de três mil pessoas, em que entravam três sacerdotes, e todos os casados e soldados, que ali havia, com tôda a mais gente comum. Soube esta triste notícia Felipe de Brito, por via do rei do Prú, e como o bárbaro preparava uma poderosa armada, com grandíssima diligência, em que metia todo o seu poder, para passado o inverno ir pôr cêrco à fortaleza de Sirião, como de feito foi, levando a mór armada, assim nos navios, como no número de soldados, e de artilharia e aparatos de guerra, que nunca o mar da índia viu sobre si. As velas eram em número 1200, e todas de remo, em razão dos esteiros, de que é retalhada tôda aquela enseada do rio Ganges, pela qual razão não podem nave- gar por êles navios grandes dalto bordo. Dêste número de velas setenta e cinco eram galeotas mui grandes, que ao menos trazia cada uma dôze peças de artilharia grossa, como esperas, cameletas e falcões, e muito bem petrechadas de paveses, xareta e gente. As demais [eram] jaleas, que são umas embarca- ções menores do que as galeotas, e de quinze remos por banda, mui ligeiras e acomodadas para a guerra. As peças de artilharia, entre grossa e miúda, eram três mil quinhentas; o número dos soldados eram trinta mil, pouco mais ou menos, em que entravam mouros, patanes, pársios e malabares, com oito mil espingardas; vinha o próprio rei em pessoa, o príncipe seu filho, herdeiro, tôda a flôr da nobreza de seu reino, e forças de sua gente da guerra, e o rei de Chocória com sua gente. • fí. 73 v. Antes que esta armada partisse de Arracão, teve dela aviso * o nosso capitão geral, o qual, com grande esforço e diligência, se aparelhou para a receber no mar alto, mas com bem desigual poder em número de velas e gente, pôsto-que avantajado na causa, por que pelejavam, pois era a da Fé, e no esforço e ânimo dos soldados. Porque o número dos nossos navios não era mais que de oito galeotas, 4 sanguices, que são embarcações mais pequenas, mas mui ligeiras; o número dos soldados duzentos e quarenta; e por capitão-mór desta pequena ar- mada mandou a Paulo do Rêgo, um dos mais animosos e esforçados soldados que havia na índia, e que já nas batalhas passadas tivera o mesmo ofício. Saiu êste esforçado capitão, com sua armada, a buscar a inimiga, com resolução de lhe dar batalha; e indo ao longo da costa, saltando em terra do inimigo, assolava tôdas quantas povoações marítimas achava, pondo tudo a ferro e fogo; e tendo, depois disto, aviso do caminho, que fazia a armada inimiga para a nossa forta- leza de Sirião, a foi esperar num passo, que chamam de Negais, onde lhe apre- sentou batalha, a qual o rei refusou, encostando-se a terra com sua armada, metendo-se entre recifes e pedras, lugar para êle seguro, e para os nossos de muito risco; o que vendo o nosso capitão mór, surgiu defronte deles, a tiro de
  • Das coisas de Pegú 79 falcão; e porque os inimigos lhe não saiam, e vinham muitas embarcações de mantimentos atrás, se foi a elas, para as destruir. Foram socorridos da armada ligeira, com que houve uma travada briga, na qual tomaram os nossos a jalea do capitão-mór, que ia na dianteira, chamado Maruja, e o mataram, pessoa grande, e que el-rei muito sentiu. Finalmente, depois de passadas algumas escaramuças, ao derradeiro de Março de 1607, se deliberou o nosso capitão-mór de dar a batalha às duas horas da tarde; mas, porque estando a ponto, se deixou vir uma trovoada de muita água, que duraria hora e meia, a não pôde dar senão perto das quatro. E com ver diante de si aquela tão grande multi- dão de navios, que parecia cubrir o mar, e que para ca*da um dos nossos havia «fi.74- cento e vinte, e para cada soldado português quási outros tantos dos inimigos: os nossos, contudo, não sòmente não perderam o ânimo, mas parece que à vista de tal espectáculo lho acrescentava mais; e assim, invocando o Nome do Senhor, e da Virgem Nossa Senhora, e confiados no braço poderoso de Deus, cujo favor seus antepassados tantas vezes tinham experimentado nas batalhas contra infiéis, assim na índia como em Europa, com tanto ímpeto arremeteram à armada inimiga, e tal estrago começaram a fazer nela, rompendo pelo meio de tôda aquela mata de navios, que começando pela vanguarda, chegaram até à retaguarda, não lhe parando diante coisa, que não destruíssem, fazendo des- pejar muitas galeotas, por onde passavam, queimando e enxorando, metendo no fundo tudo, com tão grande espanto dos inimigos, que o rei bárbaro, assom- brado, com medo, se saiu da sua embarcação real, e se meteu em uma muito ligeira, que para semelhante perigo trazia aparelhada, para se pôr em fugida. Depois que nossa armada se viu na retaguarda dos inimigos, com o mesmo ímpeto tornou a dar volta; e rompendo por meio deles, veio fazendo o mesmo estrago em tudo o que achava diante, até que, por ser noite, julgou o capitão- -mór, que não convinha ir mais por diante na briga, e foi forçado a recolher-se às dez horas da noite, com grande mágua de não terem mais algumas horas de dia, para acabar de alcançar a vitória, que tinham nas mãos; que, se chegaram com ela ao cabo, fôra das mais gloriosas, que no mundo se tiveram. Recolhidos os nossos, em tanta confusão ficou a armada inimiga, que mais de duas horas ficaram pelejando entre si, cuidando que o haviam com os nossos, enganando os a escuridade da noite. A perda dos inimigos foi morrerem na batalha o capitão-mór do mar, e muitos parentes do rei, o capitão-mór de todos os mouros, com outros muitos capitais assinalados, e gente * que, por todos, seriam mil e oito centos, e dois *0.74*. mil feridos; e afora o estrago que se fez nas jaleas e embarcações ligeiras, das galeotas grandes, ficaram cinco metidas no fundo, três queimadas, e quatorze despejadas. Seis dias depois, que foi aos quatro de Abril, se deu a segunda batalha; porque, refazendo-se o rei bárbaro da perda, que sua armada recebera 11a primeira, veio buscar a nossa, a qual com muito esforço e boa ordem o foi receber, repartida em duas esquadras, vindo a do inimigo repartida em quatro. Deu logo o nosso capitão-mór, Paulo do Rêgo, na primeira esquadra do inimigo com tanto ímpeto, que em breve a desbaratou, com morte de muita gente, ficando despejadas suas galeotas e embarcações; mas voltando, para dar sobre uns poucos de inimigos, que ainda daquela sua parte pelejavam, sucedeu que
  • 8o Das coisas de Pegú sua galeota encalhou em uma estacada de paus, que estava debaixo da água, de que nunca mais pôde sair; pelo quê os inimigos, vendo-o neste estado, como eram muitas, carregaram tantos contra êle, que se travou uma terrível briga, na qual os nossos se defendiam com mui grande esforço; mas, como o navio não podia sair do lugar onde estava, era-lhes necessário pelejar e morrer a pé quedo. Acudiu, neste tempo, um capitão nosso, e com muitos rogos pediu ao capitão-mór, quisesse pelo menos salvar sua vida e dos que com êle estavam, pois o podia fazer, passando-se para seu navio; nunca porém, o pôde acabar com êle, respondendo o que antigamente aquele esforçado Macabeu: «Nunca Deus queira que tal façamos, e cuidem os inimigos, que fugimos deles; pois Deus assim é servido, morramos como cristãos e fieis cavaleiros»; e assim con- tinuou sua peleja, com estranho esfôrço, cercado de grande número dos ini- migos, que foram desfazendo o nosso navio às bombardadas, e com muitas panelas de pólvora, de que tomou fogo a nossa, que o capitão-mór levava, •Fi.75. que era muita, * por ser armazém dos outros; e, com isto, se acabou de perder o navio, morrendo o capitão-mór, e quantos com êle estavam, sem escapar mais que um só homem; e também morreu o capitão do navio, que o foi socor- rer; pelo quê a demais armada nossa, que por outras partes andava pelejando com os inimigos, e os tinha quási desbaratados, vendo seu capitão naquele estado, se veio recolhendo, e pelejando com muita ordem até à fortaleza, vindo os navios das bombardadas todos abertos e cheios de água. Nesta batalha, morreram da parte dos contrários o capitão-mór do rei de Chocória, e muitos outros capitais, com muita gente, a que se não pôde saber o número; dos nossos, além do capitão-mór com os seus, morreu, como disse, o capitão do navio, que o socorreu, com mais quatro soldados e alguns feridos, e juntamente o Padre Natal Salerno, da nossa Companhia, o qual ia em com- panhia do capitão-mór. Era êste bom padre, siciliano de nação, e de tanta bondade, religião, afabilidade e suavidade de conversação, acompanhada de uma simplicidade columbina tão singular, que cativava os ânimos de todos os que tratava, e assim era tão amado de todos os soldados, e tanta fé tinham em sua virtude, que não podiam sofrer embarcarem-se, sem o levarem consigo, cuidando que com êle, e por seus merecimentos tinham certa a vitória, como tantas vezes experimentaram nas guerras passadas, nas quais o bom padre sempre os acom- panhou; e, acabando agora de chegar de Malaca, onde fôra por mandado do capitão-geral, sôbre negócios pertencentes ao bem daquela fortaleza e con- quista, nem descansar um pouco o deixaram os capitãis e soldados, que logo lhe não fizessem tôda a fôrça pelo levar comsigo, pôsto-que pouca havia mister •fi. 75 t. para êle, pelo grande zêlo que tinha, e desejo de * os ajudar em emprêsas tão gloriosas e de nossa santa Fé. Foi chorada sua morte de todos, com íntimo sentimento e principalmente do capitão-geral, Felipe de Brito, que por extremo o respeitava e amava. Morto o capitão-mor, Paulo do Rêgo, cuidou el-rei de Arracão, que, fal- tando êle, não ficaria mais ânimo aos portugueses, para se defenderem, e prin- cipalmente, chegando-lhe nesta conjunção, de refresco, um socorro do príncipe de Tangú, com dois irmãos seus, e um irmão del-rei, com dezasseis mil homens de guerra, seiscentos cavalos e dezoito elefantes armados, para cercarem a nossa
  • Das coisas de Pegú 81 fortaleza por terra, assim como êle, com sua armada, a tinha cercada por mar; pelo quê, o príncipe seu filho por uma parte, e êle por outra, mandaram dizer ao nosso geral Felipe de Brito: o filho, que pois Paulo de Rêgo era morto, que seria bom falar apartado com seu pai, e que êle seria o terceiro, e lhe pagaria as boas obras, que na fortaleza de Sirião recebera dele, sendo seu prisioneiro e cativo; o pai, que porquanto a gente de Tangú era chegada, e êle não podia já escapar, lhe aconselhava se viesse deitar a seus pés, que êle lhe perdoaria, e daria a fortaleza e faria pazes. Ao filho respondeu Felipe de Brito: que lhe agradecia a vontade, que tinha de lhe fazer mercês; mas que o guardava para maiores coisas; e que, se cuidava que por falta de um capitão, se perderia a fortaleza, o decurso da guerra lhe daria o desengano. E ao pai respondeu: que as pazes, el-rei as quebrara, tendo-as jurado; a fortaleza, que não tinha necessidade de a receber de sua mão, pois a tinha, pela majestade de el-rei de Portugal, a quem, como vassalo e capitão seu, tinha dado menagem; que da vinda dos príncipes de Tangú, com seu exercito, nenhum caso fazia, pois tinha já experimentado seu pouco valor e forças, e as dele * mesmo, íei; *fi. 76. antes o bom seria mandar também chamar outros reis, seus amigos, porque então ficaria aquela fortaleza com mais credito e honra; e que esperava em Deus, de o ver no estado em que já vira, e tivera seu filho nela. Houve-se o bárbaro rei por tão afrontado com esta resposta, que, cha- mando os seus, lhes fêz uma prática, em que os desenganou: que se^ o não desafrontavam, nenhum deles havia de tornar a Arracão; porque, se não mor- ressem à espada dos portugueses, ali estava a sua, que sempre teiiam sôbre seus pescoços. E andou bem para si, em dar êste desengano aos seus; porque, se lho não dera com tanta resolução, era tamanho o medo que tinham cobrado dos nossos, que mal os pudera, de outra maneira, obrigar a pelejar. E assim, em tôdas as brigas, que dali por diante tiveram, as ameaças e a presença do rei, e a espada nua, que sempre trazia na mão para êles, os fazia chegar ou voltar à peleja, quando vinham fugindo. Houve depois disto, mais três bata- lhas navais, em que os nossos sempre foram favorecidos de Deus, e ficaram com a vitória, com destroço da armada mágoa, e mortandade de gente, como nas primeiras duas. Mas, porque também da nossa gente ia morrendo alguma, principalmente capitães, e faltavam também já três navios, e o intento do inimigo era ir consumindo nossa gente pouco a pouco, ainda que fosse com tanto estrago da sua, prevenindo a isto o nosso general, e querendo segurar a forta- leza, fêz varar nossa armada em terra, recolhendo tôda a gente, ordenando as coisas, para dali por diante o haver em campo com o inimigo, o qual, deitando sua gente fora, com lhe ficar a armada provida, os seus por uma parte, os de Tangú por outra na terra, e êle com o restante de sua armada por mar, por espaço de trinta dias foi tão contínua e terrível a guerra, que fizeram à nossa fortaleza, que não houve dia, nem noite, em que os * nossos, por tôdas as partes, • h.?6t. não fossem acometidos, com contínuo jôgo de artilharia e com vários assaltos, vindo muitas vezes a pelejar em campo à espada e lança os poucos soldados nossos com todo aquele poder de inimigos; ma? foi Nosso Senhor servido, que nunca jàmais, em encontro algum, os inimigos saíssem com a melhor, mas sem- pre vencidos e com muitas mortes dos seus, perdendo suas tranqueiras e estân- 11
  • 82 Das coisas de Pegú cias, que os nossos lhes destruíram; nem se podem contar miudamente os vá- rios casos que neste cêrco sucederam, e feitos de armas, que os nossos ali fizeram, que parece se renovavam os tempos de sua Índia primitiva, e as anti- gas maravilhas, com que Deus os ajudava, e pelejava por êles contra os inimigos de sua Fé, que era coisa maravilhosa ver aqui muitas vezes tanto poder de gente, fugir de tal maneira de uns poucos de soldados, que, com o rei de Arra- cão por uma parte os estar assombrando e ameaçando, e o príncipe seu filho, chegar a matar muitos, lhes não podiam estorvar a fugida. Sucedeu uma vez, que tendo o inimigo feita uma tranqueira, meia légua afastada da fortaleza, pelo muito que lhe importava para seus intentos, e tendo-a mui bem provida de gente e arcabuzaria, e com um grande capitão, por nome Maviá, desejando o nosso geral de lha desfazer, mandou dois capitães, com sessenta soldados portugueses e duzentos pegús, os quais, passando por alguns lugares perigosos e de muito risco, chegaram a ela ao quarto dalva, e deram nos inimigos com tanto ímpeto e esforço, que mataram à espada mais de setenta dos melhores, em que entraram quatro capitães; e entrada a tranqueira, os inimigos se puseram em fugida, seguindo-os os nossos até darem com êles no • Fi.77. rio e os fazerem meter pela vasa, ferindo muitos, e entre êles muito mal a * seu capitão-mór; e, emquanto os soldados portugueses iam seguindo esta vitória, os pegús, muito a seu salvo, queimaram a tranqueira, matando alguns que esta- vam escondidos, e cativando outros; e trazendo muitas armas, se vieram todos recolhendo, à vista dos inimigos, que estavam noutra tranqueira e em sua armada, sem nos matarem, nem ferirem pessoa alguma. Além de outras bata- lhas, que muitas vezes apresentaram aos nossos, com muitos elefantes e cava- los, espingardaria e outra artilharia miúda, em que sempre foram vencidos, querendo um dia dar um tento à fortuna, metendo tôda a fôrça e poder, assim do mar, como da terra, ordenou o inimigo muitas embarcações cheias de palha e lenha, para queimarem nossa armada, que estava varada, mas mui bem em- pavesada e concertada, como se houvera de pelejar; vindo-lhe nas costas todo o outro restante de sua armada, el-rei em sua embarcação real, à vista de todos, para os obrigar e animar a pelejar; e por terra mandou pôr em ordem tôda a gente que estava nela, assim sua, como do rei de Tangú, para no mesmo tempo darem assalto em nossa fortaleza, cuidando que, por os nossos serem poucos, não poderiam acudir a defender a armada do mar e a fortaleza da terra, nem sustentar o pêso de tamanho combate. Chegando pois por parte do mar, todo o poder do inimigo que nêle estava, vieram suas embarcações pôr a proa quási em terra e no cais, onde nosso general estava, com trinta soldados, para defender o mesmo cais, e nossa armada, que junto dele tinha; mas foi tal a resposta, que os nossos lhe deram, de espingardaria e artilharia, que foi estranho o estrago, que nêles fizeram, desfazendo e espedaçando suas galeotas e embarcações, e matando-lhe a melhor gente e capitães que traziam, os quais pelejavam com tal pertinácia, • F1.77T. que mais parecia que * queriam ser vencidos e mortos, que ficarem vivos diante do seu rei, o qual aqui também não correu pequeno perigo; porque, como sua embarcação era conhecida, lhe atiraram do baluarte com uma peça de arti- lharia, a qual lhe chegou tão perto, que o obrigou a se retirar; e como parece
  • Das coisas de Pegú 83 que só em sua pessoa e presença se sustentava o peso da batalha, em êle se recolhendo, o fêz também sua armada tôda. Não foi menor o sucesso, que tiveram os nossos por parte da terra, onde no mesmo tempo, que foi desde o meio dia ate [à] noite, durou a batalha no campo, com todo o poder do príncipe de Tangú, e mogos, que com êle esta- vam, na qual os inimigos foram vencidos e desbaratados, com muitas mortes dos seus, até que, postos em fugida, se recolheram em seus arraiais. Com o sucesso deste dia, se acabou o rei bárbaro de desenganar do pouco, que podia prevalecer contra os portugueses, pelo quê se resolveu a levantar o cêrco. E assim, aos 9 de Maio às duas horas da tarde, mandou o príncipe de Tangú como trezentos homens dos melhores que tinha, junto a nossas tranqueiras, para entreterem os nossos com alguma escaramuça, e êle entretanto poder a seu salvo levantar o arraial e por-se a caminho; porem, saindo alguns dos nossos e dando neles, os levaram até seu arraial, matando-lhes muitos; e foi tão grande a pressa e mêdo dos que fugiam, e o puseram também tão grande aos outros, que nele estavam, que não se tendo por seguros, saltando por cima da tranqueira, se puseram em fugida; e por ser tarde, lhes não puderam os nossos ir no alcance. Neste mesmo dia à noite, recolheu o rei de Arracão tôda a sua armada, fêz embarcar a gente que estava em terra, e ao outro dia, que foram 10 de Maio, se partiu para sua terra, ficando os nossos tão cansados dos trabalhos passados, que não o pu#deram seguir, como desejavam. Ficou a »fi. 78. fortaleza e a cidade com muitas perdas dêste cêrco, pelos muitos pelouros, que os inimigos nela lançaram com que derrubaram muitas casas e igrejas, e feri- ram a muitos. Mas diferente foi a perda dos inimigos; porque de tão espan- tosa armada em número de velas, que o bárbaro rei trouxe, que como dissemos acima, foi de mil e duzentas, se tornou para sua terra só com duzentas e sessenta e duas: dôze galeotas e duzentas e cinquenta gales; as demais velas umas foram queimadas e metidas no fundo por nós, outras queimou êle mesmo, meteu no fundo e varou em terra, porque não teve gente para as levar; e da artilharia a mor parte deixou enterrada pela costa do mar; e pelas novas que depois o nosso geral teve de Arracão, soube que lhe faltavam melhoria de dez mil homens da gente que trouxera, em que entravam muitos capitães principais, que estes eram os que se arriscavam nas ocasiões, principalmente os mais dos mouros. A perda do rei de Tangú foram seis elefantes, quarenta cavalos, mil e quinhentos soldados, onde entraram capitães mui principais. Dos nossos mor- reram oitenta e seis soldados, entre eles dez capitães, com seu capitão-mór, Paulo do Rêgo. Idos os inimigos, reparou nosso general, o melhor que pôde, a fortaleza; e depois de os homens descansarem algum pouco dos trabalhos passados, orde- nou logo uma armada, que lançou no mar, assim para mostrar que não eram acabados os portugueses, como para irem buscar mantimentos e fazerem prêsas. Deparou-lhes o Senhor naus de mouros muito ricas; e ainda que uma delas lhes fêz muita resistência, contudo a entraram, com morte dos que a defen- diam; e com o esbulho dela os soldados ficaram bem satisfeitos. Mas aos dôze de Janeiro, suce*deu um caso naquela fortaleza, que não foi de menor .ri.:tr. trabalho que os passados, porque se ateou nela um fogo tão bravo, que ardeu
  • 84 Das coisas de Pegú toda, por a maior parte dela ser de madeira. E por grande mercê de Deus escapou de entre as labaredas o geral, com uma perna meio queimada, e não com menos risco se salvou sua mulher. Ardeu todo quanto fato e fazenda nela havia: casas, igrejas, ornamentos, o armazém dos mantimentos e muni- ções; nada escapou! Com esta perda, que foi maior, do que se pode encarecer, ficou aquela fortaleza quási impossibilitada, para se poder defender. Porém o general Felipe de Brito, como é de tanto valor e ânimo, com muita diligência a tornou a reedificar em outro lugar mais alto e defensável, com consideração que, sabendo do caso o rei de Arracão, quereria voltar logo sôbre ela, como na verdade determinou fazer, e aparelhava já para isso a sua armada; mas Deus por outra via lhe atalhou seus intentos, porque no mesmo tempo lhe deram novas, que um capitão português, por nome Belchior Godinho, que da índia viera com quatro navios, ajuntando-se com outro capitão mui esforçado, por nome Sebas- tião Gonçalves, que com algumas galés e gente portuguesa se tinha feito mui temido naquelas partes, fora dar em Dianga, pôrto do mesmo rei mogo, e o destruirá e assolara, tomando-lhe sessenta peças de artilharia, e que o mesmo pretendera fazer à fortaleza de Chatigão, que é uma cidade mui rica e de grande trato, tendo-lhe já destruído as povoações vizinhas e arrabaldes; mas deixou de o fazer, porque os soldados lhe requereram que, visto como o assalto daquela fortaleza era tão perigoso, eles se não atreviam a dá-lo, sem se confessarem primeiro, para o qual lhes faltava sacerdote; portanto lhe pediam dilatasse a • Fi.79. empresa até que tivessem sacerdote, que os con*fessasse; que se nêle morres- sem, queriam morrer como cristãos e verdadeiros católicos, que eram. Com esta nova, ficou o mogo assombrado; e por acudir a seu reino, desis- tiu do intento, que tinha, de ir a Sirião, e mandou recolher os navios, que já tinha pelos rios; e Belchior Godinho, com o melhor provimento que pôde, foi socorrer a fortaleza; e deixando-a em estado que se pudesse defender, tornou à índia, a buscar mais socorro, e à custa de sua própria fazenda o negociou. Depois disto, teve novas o nosso geral que, aparelhando-se o mogo com muito grande poder, para tornar com sua armada a Sirião, sucedeu por divina pro- vidência e justo juizo, que dentro em seu próprio paço se levantou um fogo, com que todo se abrasou, e nêle trezentas concubinas suas, e grandes prepara- ções de guerra; e dele se ateou em parte da armada, que contra os portugueses ia fazendo. Além disto, que uma nau, que de Masulapatão lhe levava seiscen- tos mouros estipendiários, com um raio que nela deu, se fôra ao fundo, não se salvando mais que só dez no batel. Alvoroçou-o esta nova mais para apressar a armada, que tinha aparelhada, para mandar contra êste tirano. E porque os capitães e soldados receavam embarcar-se, se não levassem consigo um padre da Companhia, para com êle se confessarem e animarem nos perigos, foi neces- sário satisfazer a seus desejos; e assim foi com êles o Padre Manuel Pires, Superior daquela Missão, a quem todos têm particular amor e respeito, ficando na fortaleza o Padre João Maria, que da índia lhe fôra por companheiro. A Missão do reino de Sião se começou, no ano de 1606, no mês de Setem- bro. A ocasião foi, que entrando novamente no reino o rei dele, por bom princípio de seu govêrno, mandou logo uma embaixada ao vice-rei da índia, • F1.79T. para renovar a paz e amizade antiga, que o estado * sempre teve com os reis,
  • Das coisas de Pegú 85 seus antecessores. Juntamente escreveu cartas a alguns portugueses seus ami- gos e conhecidos, que estavam em diversas partes da índia, convidando-os a que quisessem com suas naus ir a seus portos. Entre eles, escreveu a um Tristão Golaio, que neste tempo estava na cidade de S. Tomé, o qual parti- cularmente era mui conhecido dêste rei, de quem, sendo príncipe, tinha recebido muitas mercês, e agora, que já era rei, podia esperar dele outras maiores. Ao tempo que este houve de partir, acertou de estar em S. Tomé o padre provin- cial, ao qual êle pediu com muita instância, quisesse mandar àquele reino um padre da Companhia, para tentar os ânimos daquela gente, e descobrir como estavam afectos para as coisas de nossa santa Pe. Estimou o padre provincial muito tal ocasião, pelo muito zêlo que tem da propagação da nossa santa Fe; e nomeou logo para tão grave missão o Padre Baltazar de Sequeira, varao de muita virtude e prudência; ainda que já velho, ordenou-lhe que fosse descobrir os ânimos daquela gente, e conforme ao que nêles achasse, o avisasse, para que, havendo esperanças de fruto, lhe mandasse logo companheiros de idade e suficiência competente, para aprenderem a língua da terra, e entrarem nos tra- balhos da sementeira evangélica. Partiu-se o bom padre, com muita alegria e consolação sua; e depois de várias moléstias, que padeceu na jornada e navegação, chegou ao pôrto e cidade de Tanacarí, que é já daquele reino, e dali tomou o caminho para Odiá, cidade real e corte do rei, parte por água, navegando por fresquíssimos e ameníssimos rios, parte por terra, e caminhos ásperos de serras e matos, povoados de tigres e elefantes, badas e outras feras cruéis, não sem grande perigo dos cami- nhantes; porque diante de seus olhos, viu um tigre * arremeter a um homem, »fi.8o. assás robusto forte, e despedaçá-lo entre as unhas, sem ninguém lhe poder valer, por mais socorro que pediu aos companheiros; e sendo em tempo de quaresma, e indo o bom padre convalescente de um mês de doença, passava contudo, o jejum com um pouco de arroz e peixe salgado; e àlém disso, cami- nhando a pé, pôsto-que, como êle diz em uma carta sua maravilhosamente lhe acrescentava as forças e ânimo para aquele trabalho a suavíssima memória, com que se consolava, dos caminhos que fazia aquele grande Apóstolo da índia, o beato Padre Francisco Xavier pelos reinos de Japão, a pé, descalço, correndo atrás dos cavalos da companhia com que ia, e muito mais da Paixão do Senhor, que naqueles dias da Semana Santa celebrava a Igreja. Chegado pois à côrte, em tão acomodado tempo, se ajuntaram logo todos os cristãos, que ali havia, consoladíssimos com sua vinda, e o receberam com toda a cari- dade e agasalhado; e como era naqueles dias, não teve o bom padre lugar para descansar, porque logo foi necessário acudir às confissões, que não foram poucas, por estarem ali cristãos de várias nações, aos quais todos ouviu de confissão e sacramentou, e com suas pregações exortou à virtude e vida cristã. Teve notícia de sua ida àquele reino o bispo de Malaca; e como êle é tão zeloso do bem de suas ovelhas, e particular amigo de nossa Companhia, e aquele reino cai no distrito de seu bispado, escreveu logo uma carta ao padre, dando-lhe os agradecimentos daquela grande caridade, que fizera a suas ovelhas; e encarecendo a obrigação, em que por isso êle ficava à Companhia, come- tendo-lhe para o remédio delas todos seus poderes e vezes. Escreveu também
  • 86 Das coisas de Pegú outra a todos os fiéis, que ali havia, exortando-os a que estimassem aquela •fi. 8o ▼. graça e mercê, que Deus lhes * fizera, e que em tudo venerassem e respeitas- sem o padre. Procurou o padre corresponder à expectação e benevolência do bom prelado; e assim, todos os domingos e festas prègava àqueles cristãos, com grande consolação e proveito de suas almas, compondo-lhes suas deman- das, e reconciliando-os em seus ódios, fazendo-lhes restituir o que tinham mal levado; a muitos tirou de mau estado e vícios carnais em que viviam; baptizou muitos meninos, e outros que estavam em artigo de morte, que logo se foram gozar de Deus. E a um japao, mercador honrado, que ali veio ter, senhor e capitão de um navio, ministrou o sagrado baptismo, depois de bem catequi- zado, o qual com muita instância lho pediu; e logo mostrou a singular índole, que os mais daquela nação têm para a virtude, no exemplo que dá, e na pie- dade com que frequenta a igreja, não tirando nunca suas contas do pescoço, como insígnia e testemunho de sua Fé. Quanto à gente da terra, todas as vezes que pode ter ocasião, trava prá- tica com seus talapaios, que assim chamam aos sacerdotes, tratando-lhes das coisas divinas, as quais êles ouvem de boa vontade, pôsto-que as não penetram; e inquirindo deles o que alcançam da natureza de Deus, os acha com várias opiniões e desbarates, como de gente cega. Mas o que prègam ao povo, é que êste mundo, de presente, não tem Deus que o governe; porque três, que vieram a êle, já são mortos, e o quarto, que falta, se espera cada dia. E que} para esta grande máquina do mundo entretanto não carecer de quem a governe, que se rege por uma bula, que um dos deuses passados deixou; os quais des- barates êles com grande aplauso leem e contam ao povo rude, que com as mãos juntas, e alevantadas, e com admirável atenção e reverência os estão • ouvindo. Celebram suas festas, pelo * curso da lua, e então abrem seus tem- plos, para todos irem fazer suas deprecações, e fazer seus votos, os quais templos são mui formosos e de singular arquitectura, assim na fortaleza, como no lustre e aparência exterior; têm corredores compridos e crastas, pátios larguíssimos, e de uma parte e outra capelas mui grandes. Numa delas viu o padre uma estátua de um ídolo, de dezoito côvados de alto, que era do seu grande deus. E vendo-se uma vez o padre com um sacerdote, tio de el rei, e de grande autoridade e reputação entre êles, que é de noventa anos de idade, lhe preguntou onde estava Deus? Respondeu, que no coração do homem. Tornou o padre: se aquele deus em que êle cria, tinha corpo, e se era daquela grandeza, que mostrava sua estátua? Respondeu que sim. Pois, tornou o padre: jcomo pode ser logo, que sendo êle tão grande, caiba no coração do homem, que é tão pequeno? Aqui acabou o triste velho, e não soube ir por diante; e para não confessar sua ignorância, dilatou a resposta para outro dia. É estranha a abstinência que guardam; e o beber ou tocar vinho têm por grande pecado. Nos templos têm seu coro, com seus assentos, de uma parte e outra, onde, a modo dos nossos sacerdotes, rezam e cantam, principalmente ao princípio da noite, e à meia noite, tangendo seu sino primeiro. Pela manhã, muito cedo, tangem também a ir à esmola, a qual êles vão pedir pelas portas, em umas alcofas, que levam nas mãos. Fazem seus enterramentos e exéquias aos defuntos; mas a sepultura dos corpos é uma fogueira, em que os queimam,
  • Das coisas de Pegú 87 metidos em umas caixas de madeira muito bem feitas e pintadas; e quando os levam, que é com grande pompa e acompanhamento, ajuntam também danças mui festivais e instrumentos músicos; e levam tambe'm muita abundância de comer, para se repartir com os talapaios. * Duas vezes falou o padre com el-rei de Sião, o qual o tratou com mor «fi-Sit. gasalhado e honra, que a nenhum dos seus sacerdotes, mostrando-se-lhe na prática mui humano, e desejoso de os portugueses com suas naus frequentarem seus portos, principalmente aquele de sua cidade real; e por isso não quere consentir, que o padre se torne, até que vá outro em seu lugar. A terra para a sementeira de Deus ali é mui larga; a gentilidade muita; e pôsto-que as esperanças que êles de si dão, não são tantas, a mão de Deus contudo, é mui poderosa. CAPÍTULO IV Do que se nos Colégios de Malaca e Maluco EM Malaca, residem oito da Companhia, exercitando seus ministérios com os portugueses e cristãos já feitos. Dos gentios, pôsto-que na cidade não há tantos, sempre porém se convertem alguns, ou naturais ou estran- geiros, dos muitos que ali correm. Nas ilhas de Maluco, andam quatro padres e dois irmãos; os dois com os irmãos residem na casa de Ternate; os outros dois andam por diversas ilhas e reinos daquele arquipélago, como abaixo se dirá. E porque aqueles reinos estão mui distantes, e as cartas das coisas, que nêles se fazem, sempre chegam mui tarde, será necessário referir o que suce- deu, desde o tempo que se recuperou nossa fortaleza de Ternate pelo gover- nador das Felipinas, Dom Pedro da Cunha. Deixou este governador à sua partida em bom termo de redução à obediência de S. M. quási todos aqueles lugares do reino de Ternate; mas como êles são mouros, e a sujeição e obe- diência, que deram, foi tanto contra sua vontade, na primeira ocasião que tive- ram, se tornaram * a levantar e confederar com os holandeses; por onde foi necessário ao capitão, que ficou na fortaleza, fazer nova guerra a todos aqueles lugares alevantados. E assim fêz uma armada, em que mandou todos os sol- dados que pôde, e com êles um padre da Companhia, experimentado na terra e língua, para os reduzir e sujeitar, como fêz, a alguns lugares por fôrça de ar- mas, e a outros, por êles mesmos se virem sujeitar; para o que, foi de grande efeito o padre, nosso, que ia na armada; porque, como era conhecido deles, e os mais daqueles povos eram cristãos baptizados, pôsto-que, com as guerras passadas e tirania dos mouros, tinham retrocedido; como nêles porém ainda durava alguma faísca da Fé, vendo agora o padre e a boa ocasião, de boa von- tade se reduziam, principalmente os da ilha de Morotai, na qual há três lugares principais, que antigamente foram de cristãos, e os mais deles baptizados e cultivados pelo beato Padre Francisco Xavier; mas havia trinta anos que nunca consigo tiveram padre, e estava aquela vinha tôda feita mato, e sujeita à dou- trina do perverso Mafamede. Estes, e principalmente os moradores do lugar, que chamam Tolo, vendo agora em sua terra o Padre Gabriel da Cruz, lhe
  • 88 Das coisas de Pegú fizeram grande instância se ficasse com eles; mas, porque por então não pôde ser, por não deixar a armada em que ia, tanto que tornou para Ternate, os moradores dêste lugar mandaram logo nas suas costas embaixadores ao supe- rior, em que lho pediam com muita instância. Foi o padre, e não se pode encarecer com quanto aplauso e alegria foi recebido de todos. Edificou-lhes logo uma igreja, e com tôda a diligência e indústria, começou a intender na redução de uns e conversão de outros; e era coisa de maravilha, ver com quanta vontade todos se rendiam à doutrina da Fé. No lugar, chamado Tolo, se reduzi- ram cento e setenta dos antigamente baptizados-, e de novo; se baptizaram qua- • ki.83v. trocentos. Noutro lugar, chamado Sama*foro, se baptizaram duzentos, com o senhor do lugar. Noutro se reduziram duzentos, e se baptizaram mil e trezentos. Noutro, muito povoado, se baptizaram quinhentos, que não passavam de quinze anos; e de quinze para trinta, se andavam catequizando grande número. Vizinha a esta ilha, está outra muito maior, que contem vinte lugares, que com muita instância e frequência de recados, pedem padres, que os vão baptizar e reconciliar; mas a falta de obreiros é a que impede tamanho bem para estas almas. Em o reino e ilha de Sião em Maluco, anda o padre António Pereira, obreiro mui experimentado e vigilante naquelas terras; e pôsto-que o rei, ainda que baptizado, não corresponde, por seus maus costumes, ao trabalho do padre, e muitos outros, da mesma maneira, pelo mau exemplo de sua cabeça, não deixa todavia, pela muita indústria e diligência que põe, de fazer muito fruto. Das ilhas vizinhas lhe pedem muitos o sagrado baptismo, como são os da ilha de Sanguim; e a ocasião que tiveram para isto, foi que, cativando os da ilha de Sião, em um encontro da guerra, a um capitão dos da ilha de Sanguim, homem principalíssimo naquela ilha, e de singular índole e bom juizo; conside- rando este os costumes bons e inteireza da vida do padre, e o grande cuidado e zêlo, com que procurava o bem dos cristãos da ilha de Sião, se inclinou muito a êle, e desejou ouvir os mistérios de nossa santa Fé; os quais enten- didos, se resolveu a ser cristão, prometendo que o mesmo fariam todos os seus naturais, aos quais mandando recado, tais coisas lhes disse, que todos se ren- deram, e lhe mandaram dizer, que teriam por mui grande honra, se o padre quisesse ir à sua terra instruí-los na Fé e baptizá-los. Trazendo o régulo de • fi. 83. outra ilha, chamada Ragalarda, uma filha sua, para * casar, como casou, com el rei de Sião, não sòmente ela deseja e pede ser cristã, mas o régulo seu pai, falando muitas vezes com o padre, de tal maneira se afeiçoou às coisas de nossa santa Fé, que lhe pede, vá também à sua terra, para os seus se baptizarem. Nas ilhas de Manadá, Cauripá e Celébes, houve antigamente muita cris- tandade; mas a perseguição dos mouros a destruiu; e vindo agora a Sião três homens principais destas ilhas, e tratando familiarmente com o padre, os moveu Nosso Senhor tanto ao amor de sua Santa Lei, que lhe pediram o santo baptismo; e recebido, se tornaram para suas pátrias, onde moveram tanto a seus natu- rais, que lhes causaram grandes desejos de serem cristãos. Estes mesmos, deixando a amizade dos mouros, com quem dantes estavam confederados, a fizeram com o capitão de Ternate, o que foi de mui grande utilidade para a nossa fortaleza; porque é a terra dos celébes mui grande, e contém muitas e
  • Das coisas do Maduré 89 grandes ilhas; e como é tão fértil de todas as coisas, necessárias para a vida humana, pode-se daí prover a fortaleza do que houver mister; pelo quê, o capitão dela insta muito a se fazer esta missão. Em Ternate, houve uma grande peste, de que morreriam duzentos solda- dos; nela andaram sempre os nossos padres, acudindo assim aos soldados, como aos naturais da terra, com tudo aquilo, com que os podiam ajudar no corpo e alma; e, pôsto-que também a eles alcançou a doença, foi Nosso Senhor ser- vido, que não morressem, para poderem ajudar os outros. Na conversão dos infiéis trabalharam muito; deles se baptizaram em a nossa igreja como duzen- tos. A esta cidade veio ter, de mar em fora, uma nau, que partira da pro- víncia do Pegú; e, depois de mui comprida navegação, que fêz para a banda do sul, foi ter a uma terra até então nunca desco*berta, cujos moradores eram alvos e de cabelo louro, aptíssimos para receberem nossa Santa Fé; porque nenhuma coisa adoravam, nem havia entre êles superstição alguma de ídolos; quási todos os que vinham nesta nau, eram portugueses; e, partindo daquela nova terra, os ventos os trouxeram à terra dos Papuás, e dali a Ternate; e dizem que poderá ser dali àquelas novas regiões espaço de seis dias de navegação. CAPÍTULO V Do que se passou na Missão do Maduré NA relação passada de 1607, se disse do princípio que se tinha dado à missão e conversão da cidade de Maduré, cabeça do estado, do Naique dela, vassalo del-rei de Bisnagá; e como o Padre Roberto Nobili, que nesta missão está, para que mais fàcilmente pudesse entrar com os brâmanes e gentios desta terra, se tinha mudado da casa da residência, que há muitos anos a Companhia tem nesta cidade, para outra particular, em que morava com trajes diferentes, e não comendo carne, nem bebendo vinho, senão legumes, leite e outras coisas semelhantes; mas tudo guisado por mão de brâmane, para evitar a superstição que os gentios têm, em não quererem comunicar com por- tugueses, cuidando que com isso perdem a nobreza da casta. E, porque Nosso Senhor mostrou seguir-se tanto fruto desta santa invenção, para a conversão daquelas almas, foi-se o bom padre, por parecer e ordem de seus Superiores, aperfeiçoando mais nela, e assim também se foi mais acrescentando o número dos * convertidos. «Fi.&t. Estão pois, nesta cidade, que é mui grande, duas residências e casas da Companhia; numa mora o Padre Gonçalo Fernandes, há já muitos anos, pro- cedendo ao modo português, com quem correm os cristãos da Costa da Pescaria, que são sujeitos àquele Naique, quando ali vão, e principalmente agora, depois que os padres foram lançados da costa, e êles se espalharam por diversas par- tes, e muitos centos deles se foram para esta cidade. Na outra casa mora o Padre Roberto Nóbili, com outro companheiro, que êste ano lhe foi mandado; o procedimento seu é, (quanto no exterior se pode compadecer com nossa Santa Religião) ao modo dos sacerdotes daquela gente, que êles têm por santos, e a 12
  • 90 Das coisas do Maduré que chamam Gurus, que é o mesmo que mestres; e Saniassas, que é o mesmo que homens castos e recolhidos. O seu vestido e uma cabaia branca, comprida até aos pés, que tira um pouco para o amarelo; por cima um como roquete mais fino, da mesma côr, e um pano vermelho, ou da côr da cabaia, lançado pelos ombros; na cabeça, um pano, ao modo de barrete; a tiracolo, um cordão de cinco fios, três de oiro, e dois de linha branca, com uma cruz, que lhe vem a cair no peito. Isto fêz o padre, porque, como a linha nos brâmanes, que são mestres, é também sinal da lei que ensinam, quis também trazer sinal da lei espi- ritual, que como mestre fazia profissão de ensinar, conforme ao costume da terra; e assim os três fios de oiro, com um cordão, significam as Três Divinas Pessoas e um só Deus; os dois fios da linha branca, o corpo e alma de Cristo Nosso Senhor; a cruz é o claro sinal de sua iMorte e Paixão: de modo que, neste cor- dão, professa os mistérios da Santíssima Trindade, da Encarnação e Redenção. O seu comer é uma vez no dia, às quatro ou cinco horas da tarde: arroz, #fi.84v. legumes, ervas e lei*te; e por nenhum caso carne, nem ovos, nem peixe; por- que os Gurus Saniasses, que professam castidade, inviolàvelmente guardam estas leis no comer, e não há necessidade alguma, nem doença, por grave que seja, por amor da qual dispensem em comer carne; porque se riem estes gentios de haver quem, comendo carne, possa guardar castidade. Sua habitaçao e em bairro de gente nobre: e, para conciliar maior respeito, nunca sai de casa, nem se deixa ver, nem falar de tôda a pessoa, nem em qualquer tempo, senão depois de ir lá duas vezes ou três, rogando ao topaz, que o deixe falar com o Aier, que quere dizer senhor; até que emfim, depois de se vendar, conforme ao costume da terra, e para mais isto estimar, e admitido dentro, para o ver e lhe falar. Está o padre assentado em um lugar, um pouco mais alevantado, coberto com um pano vermelho, ou com um pano da cor do seu vestido. De fronte, está estendido um pano vermelho, e mais adiante uma esteira; os que entram, ainda que sejam os mais nobres e principais da corte, lhe fazem zum- baia, alevantando as mãos, postas sobre a cabeça, e abaixando-as com uma profunda inclinação; e os que se querem professar seus discípulos, fazem três vezes aquela cerimónia reverenciai, e depois se prostram por terra, e se tornam a alevantar. Para aprender a língua e as letras e ciências dos brâmanes, lhe deparou Deus um brâmane mancebo, de singulares prendas e doutíssimo em suas letras e seitas, que tomou por mestre, e do qual adiante se falará. Sabe já o padre a língua tamul mais polida, e também a pronúncia, que não dá avantagem aos brâmanes mais bem falados; sabe ler e escrever na mesma língua, e tem já passados muitos livros de suas histórias e decorados muitos passos da sua lei, e versos dos mais afamados poetas, de que êles fazem muito caso. Sabe tam- bém muitas cantigas, as quais canta com tão boa voz e graça, que de todos é • fu85. ouvido com igual admiração e gosto; e começou a*gora a aprender o Gueredão, que é o latim dos brâmanes; já o sabe mediocremente ler e falar, e commumente toma ocasião de suas histórias, para os confundir, e provar que não há multidão de deuses, senão um só, que não tem corpo. Também lhes pratica da brevi- dade da vida, certeza da morte, tormentos do inferno, como fêz em particular a um dos quatro governadores do Naique, o qual sucedeu no estado a um seu
  • Das coisas do Maduré 9i irmão mais velho, que havia poucos dias era morto, e era o que deu ao padre o lugar, para fazer sua casa, onde agora está. Foi este visitar o padre, pela amizade que já tinha com êle, e fôra terceiro com seu irmão, para lhe dar o lugar e chão. O padre começou a prática, preguntando-lhe que era feito de seu irmão, tão nobre, tão rico e estimado de todos, o qual agora, por não conhecer a lei da salvação, estava nos infernos? E com tanto fervor lhe falou desta matéria, que o mancebo, não podendo reprimir a mágoa, e querendo reter as lágrimas, desabafou em soluços; e com tanta cópia de lágrimas, que causou espanto a tôda a gente, e muito maior ao padre, vendo tanto abalo em peito gentílico, e o crédito que dava às coisas, que lhe dizia. Foi-se, muito desejoso de ouvir outras vezes as práticas, e saber o caminho da salvação, o qual prometeu fazer, depois de acabar uns negócios de importância; porque anda buscando sessenta mil cruzados, para dar ao Naique pela investidura do estado de seu irmão, ao qual o Naique acrescentou as terras, e vai subindo em privança, por ser mancebo de boas prendas, e de tão estremadas forças, que alevanta um boi, e são naquela terra bem grandes; e a respeito de as não de- bilitar, tem uma só mulher, o que não pouco lhe facilitará a conversão. Procurou também o padre dar notícia do Evangelho aos senhores doutras terras; assim mandou a Jorge, seu topaz, a um senhor de Daraporão, que é uma província, três jornadas longe do Maduré, pela terra dentro, ao qual escre- veu * uma ola, na qual lhe dizia, como não havia salvação, senão para os que . fi.85t. conheciam a Deus, e guardavam sua lei, e como êle estava prestes para lhe ensinar o caminho da salvação; a resposta, que o gentio lhe deu, se verá melhor pelo treslado da sua ola, que é o seguinte: «Olhando para a parte, onde esta- vam os pés de Vossa Senhoria, o seu escravo Chavarcovardim, fazendo zum- baia, escreveu conforme ao que Vossa Senhoria manda. Estou aparelhado para sempre servir. A ola, que mandou, recebi com grande afeição e festa, na qual estava escrito, como quere cá vir, para me ensinar o divino segrêdo. E este foi o principal negócio, sobre que Vossa Senhoria escreveu; mas a terra está agora com muitas guerras; e como se concertar e aquietar, logo mandarei recado para os santos pés de Vossa Senhoria; e então seja servido de vir, Senhor; não tenha na vontade algum desgosto, por eu dizer, que tarde algum tanto na vinda, porque a terra está com guerras e mortes. Eu não sei por qual minha dita é, querer Vossa Senhoria cá vir; de todo o sucesso mandarei depois ola». Também mandou outra ola, na mesma forma, ao rei de Manamadure, para o visitar, e ver se queria ouvir as coisas de sua salvaçao, como tinha antes mostrado. O topaz foi muito bem recebido do rei, tratando com êle coisas de Deus, e mostrando muito desejo de ver e ouvir ao padre. Em resposta da ola, disse que havia de vir a Maduré visitar ao Naique, e então, de vagar, trataria com o padre, como na verdade veio, ao primeiro de Agosto, e se comunicou com o padre, por terceiros; mandou-o visitar por um seu bramane, com muitos cumprimentos e sinais de amizade, mostrando cada dia maiores desejos de ir tratar com êle os negócios de sua salvação; mas, por causa da doença, em que caiu, o não pôde até * agora fazer. Era êste rei antigamente mui poderoso; mas *fi.86. agora o Naique lhe tem tomado muitas terras; tem bom entendimento, e conforme a êle, desejoso de se salvar, o que dá grandes esperanças de sua conversão.
  • 92 Das coisas do Maduré Entre os cristãos, que o padre tem feito, um se chama Aleixo Naique, cuja mai e parentes costumavam, em certo tempo, fazer umas ofertas ao pagode; o qual sendo chegado, vieram os brâmanes para as pedir; mas, como ela estava já afeiçoada mais às coisas de Deus, que do diabo, os mandou, sem lhes dar nada; do que eles não só se queixaram, mas ameaçaram que tomariam boa vingança. Não passaram muitos dias, quando sentiu a mulher, que lhe deram uma grande pescoçada, sem ali estar pessoa alguma. Logo adoeceu tão grave- mente, que muitos a tiveram [por] morta; já não falava, nem quási dava acordo de si. O filho mais velho, ainda gentio, veio a tôda a pressa, pedir remédio ao padre, o qual lhe mandou seu relicário por Aleixo, cristão. Êle o pôs sôbre o peito da mãi, em forma de cruz, a qual logo tornou em si, e preguntou, que era o que lhe tocara. Finalmente, recebeu perfeita saúde, dando muitas graças ao Senhor, que a livrou do poder do demónio; e, para também livrar a alma, determinou ser cristã. Não foi menor o abalo, que este milagre fez no filho mais velho; porque logo começou a aprender a doutrina; e, dia da Assunção da Virgem, foi baptizado, e procede com muito fervor, ouvindo cada dia missa, e rezando dois e três rosários. Êste, sendo ainda gentio, êle e sua mãi, andava em uma conversação, de que a mãi desejou muito apartá-lo; não podendo, pelos meios ordinários, fêz voto à Virgem Nossa Senhora, da qual tinha alguma notícia, que lhe juncaria sua capela com rosas, se o filho se tirasse de tal oca- sião. Feito o voto, de tal maneira se mudou o coração do mancebo, que nunca *fi.86t. mais * pôde ouvir nomear tal pessoa; o que reconhecendo a mãi por benefício da Senhora, mandou as rosas à igreja, o que também foi grande motivo para ela se converter. Depois de cristão, lhe sucedeu que, costumando Casturo Naique, senhor principal, de cuja obrigação êle é, aos 23 de Setembro, dia dedicado ao seu pagode, jejuar e tomar um cordão de sêda, que traz amarrado no braço por todo o ano, até lhe darem outro, foi Vihuvada, que assim se chama êste man- cebo, como digo, ao paço, conforme a sua obrigação. Os brâmanes lhe pre- guntavam se jejuava, ao que êle respondeu que não. Apertaram êles: já que jejua Casturo, e é devoto de Vesmú, vós também deveis ser. Ainda que cento como vós, respondeu êle, me prèguem, não me hão de mover a fazer coisa contra a razão. Ao Naique, em coisas que tocam ao corpo, de boa vontade servirei; nas coisas da minha alma êle não é meu senhor; e, se mandar coisas contra ela, não as hei-de fazer. Disseram então os brâmanes ao Naique, que não era razão, que Vihuvada estivesse em sua casa, nem que lhe visse mais o rosto, já que negava os pagodes; e disseram aos outros, que estavam presentes, que era pecado muito grande olhar para o rosto de Vihuvada; ao que êle res- pondeu: «A mim me parece, que é pecado olhar para o rosto de vosoutros, que, de certo, haveis de ir a casa do diabo, ignorantes, que nada sabeis; muitas outras particularidades aconteceram, em que se experimentou a constância dêste mancebo, e principalmente em não querer receber, por nenhum modo, o novo cordão de Vesmú, que Casturo Naique lhe dava; antes, preguntando-lhe pelo do ano passado, respondeu que o quebrara e botara por aí. Em Julho de 1608, estando à boca da noite, um mouro com muitos outros, • fi.87. entre os quais estava um cris*tão, por nome Alberto; apareceu o diabo ao
  • Das coisas do Maduré g3 * mouro, em figura humana; o mêdo, com que ficou assombrado, bem mostrou qual era a visão; e êle também o disse ao cristão, o qual lhe fez o sinal da cruz na testa. Disse então o diabo, bem enfadado: «Valeu-te essa arma, que te deu êsse homem; senão, eu me vingara de ti». O mouro lhe preguntou cuja era aquela arma ? Respondeu o diabo, que era arma de Deus, todo pode- roso, que o criara a êle e ao mouro. Dito isto, desapareceu. No mesmo tempo, entrou o diabo em um gentio, em presença de muitos. Chegou o dito Alberto, e porque todos reconheciam nele poder contra o ini- migo, pediram que preguntasse algumas coisas. Preguntou êle, então, se o que ensinava o Padre Roberto, era tudo verdade, e se era verdadeiro mestre? Disse o diabo, que o padre era homem de grande autoridade, e o que ensinava, era tudo verdade. Preguntou mais, se havia de ir por diante o que tinha o padre começado? Respondeu, que, no princípio, faria o padre pouco; mas que, depois de três anos, faria muito, e a emprêsa, que tinha começado, iria em grande aumento, do que todos ficaram mui espantados; e bem pode ser, que o pai das mentiras falasse verdade no progresso desta missão, pois a falou cons- trangido, na abonação da doutrina. Em Agosto de 1608, se veio catequizar um gentio, de bom entendimento; e tal o fêz, logo, nas coisas de nossa Santa Fé e lei, dando-lhe tanto crédito, que não quis mais pôr cinza, nem consentiu que três filhos seus a tomassem, instando com o padre, que o baptizasse logo; mas, para prova de sua cons- tância, se lhe foi prolongando o tempo. Continuava sempre às práticas, e delas se aproveitava, para disputar com os gentios; adoeceu êle e os três filhos; e, conforme alguns diziam, entrou o diabo no * mais velho. Vindo os brâmanes, .FI.87Y. com cinza, para fazer as suas superstições, lançou-os fora de casa, e mandou pedir ao padre algum remedio; porque lhe parecia que aquela era invenção do diabo; mas que êle estava determinado a morrer antes, que fazer contra Deus alguma coisa. Mandou lá o padre a Aleixo, com água benta, e com o evan- gelho de S. João, escrito; com os quais remédios espirituais, se lhe foi a febre e ficaram sãos, e confirmados na verdade de nossa Santa Fé. Km uma carta, que o Padre Roberto escreveu ao Padre Provincial, a 23 de Outubro de 1608, diz o seguinte: «Um Raiú, muito honrado, que mostra ser de 70 anos, com muito sentimento veio muitas vezes à minha porta, e falou com o dono dêste lugar, dizendo que era já velho, e que estava perto o dia da sua morte; por onde lhe rogava muito, que o quisesse fazer falar com o meu topaz, para falar comigo e poder ser meu discípulo, já que diziam muitos nesta cidade, que eu ensinava a lei da salvação: emfim, eu o fiz entrar, o qual, com muita devoção, botando-se-me aos pés, me descobriu seus intentos e desejos, que eram ser ensinado 11a lei de salvação. Pratiquei devagar com êste velho, por me parecer de bom juízo e discurso. Concluímos, que ouvisse as práticas. 1 rometeu, que assim o faria; que muitos outros Raiús, que estavam debaixo dele, fossem meus discípulos. Outro Belalá, mestre, com extraordinário fervor, veio pedir, que o ensinasse; cuido que não havia de Vossa Reverência de reter as lágrimas, vendo com quanta devoção êle as derramava; e, estando de bruços, deitado no chão, me pedia que o salvasse. Vai ouvindo as práticas, e faz bom conceito das coisas de Deus.
  • 94 Das coisas do Maduré A Dadamurte, dono dêste lugar em que estou, o qual era catecúmeno, acon- • fi.88. teceu, aos 23 de Outubro de 1608, * à tarde, que perdeu de todo a fala. Fui lá, e achei-o em agonia de morte. Baptizei-o, e daí a mui breve espaço se levantou, e tomando-me os pés, com muita devoção, disse que a Deus e a mim devia a vida; e, ajuntando, que estavam aí uns homens, que deviam ser diabos, e que um, lhe apertava a garganta, e não o deixava falar; outro lhe quebrava as pernas, outro dizia que acabassem depressa e o levassem. Neste contraste e trabalho estava o pobre homem, quando eu lá cheguei; porém, pela virtude do santo lenho, que lhe pus ao pescoço, e da água benta, logo os espíritos malignos fugiram. Ficou êle muito fraco, e a garganta tão apertada, que não podia falar; e, fazendo disto sinal, lhe fiz eu o da cruz sôbre a gar- ganta, e logo falou. Avisei-o, como o tinha baptizado, ao que respondeu, que o sabia muito bem, e aquela era sua vontade. Tornou anteontem a estar mal de novo. Fui dizer missa por êle. Quando começava, me disseram que expi- rava. Em acabando, me trouxeram novas que estava bem, como agora está, sem febre, e esta manhã veio ouvir missa'; tem-me entregue tôda sua família, para a baptizar, a qual é grande; tem mais de vinte pessoas, e êle é homem tido em tal crédito e reputação, que esperamos, que por sua causa se conver- tam muitos». Em outra carta, de 24 de Dezembro, diz assim: «Por outras tenho já escrito, como depois da partida de Vossa Reverendíssima daqui, por fim de Setembro, tinha baptizado quatro pessoas, convém a saber: Dadamurte, que é o senhor dêste bairro, onde temos a casa, a quem Deus milagrosamente deu saúde; Chitinada, que é mestre estatuário, que fazia os pagodes e outras coisas de marcenaria, muito primo na sua arte, e mui estimado do Naique e de todos os grandes dêste Maduré. O terceiro foi o nosso mancebo golor, irmão do porteiro-mór do Naique. • fi. 88 t. O quarto foi outra * pessoa honrada, que Vossa Reverendíssima não conhece, por o não ter visto, no tempo que cá esteve. Agora, no dia do Apóstolo S. Tomé baptizei nove, convém a saber: os três irmãos de Dadamurte, com dois filhos seus; o Calistri que veio ouvir uma prática do Catecismo, quando Vossa Reverendíssima aqui estava, que mostrava ter muito grande fervor, e junta- mente seu pai e dois filhos: um pequeno, de cinco ou seis anos, outro maior. O Calistri e seu pai, em gentios, eram mui devotos e defensores dos pagodes e de suas ceremónias, tanto que, dizendo Calistri a seu pai, que tinha falado comigo, e que eu ensinava uma lei espiritual, que lhe parecia verdadeira, lhe dizia o velho, que não sabia nada, e que êle viria falar comigo, e me conven- ceria, e me faria calar. Veio o bom do velho, trazido do filho; e, pôsto-que no princípio, quis argumentar e disputar, ficou depois, com as razões que ouviu da lei de Deus, tão satisfeito, que me causou mui grande consolação, ver quanto Deus concorre com estas almas; e assim foi continuando êle e o filho, com tanto fervor e instância em ouvir as práticas, e fizeram tão bom entendimento, que me obrigaram a não esperar mais tempo. O velho, sendo gentio, fêz um Marão, que é casa, onde se agasalham os peregrinos, que vão por caminho, e nêle tinha um pandará, que dava água aos que passavam. O Calistri, a quem pusemos o nome de Amador, tem muito grande fer- vor, e por obra experimento, qtiia non est apud Deum acceptio persotiarum, e é
  • Das coisas de Maduré g5 tão grande a devoção e firmeza sua, que eu mesmo me espanto; e sempre anda com contínuos desejos de morrer e padecer pela lei de Nosso Senhor; e disto fala extraordinàriamente, pedindo em suas orações, que Deus lhe conceda padecer por seu amor; e parece que Nosso Senhor, em parte, ouviu suas * orações, porque, estes dias, logo depois de baptizado, teve grandes contrastes, • nt*. assim' êle, como o pai, com um pandará, que, sendo gentio, era seu Guru e mestre; porque pretendia que o conhecessem por mestre, e o honrassem como dantes, e [lhe] obedecessem e dessem suas ofertas, como costumavam os gentios; ao que os nossos cristãos lhe diziam, que já tinham outro mestre, e tomada outra lei espiritual, que era verdadeira e da salvação; e assim não tinha que fazer mais com êles; de que o pandará, mui agastado; foi ao paço do Naique, tomar alguma gente da justiça, e foi a casa dos novos cristãos, a executar uma pena por esta culpa, o que êles sofreram com muita paz e gôsto, dizendo-lhe que, por força, bem podiam tomar tudo, quanto havia em casa, mas, como a seu mestre e Gurú, não lhe haviam de dar nada, pois não eram já da sua lei. E consolacão mui grande, ver o fervor, que o Amador tem; porque o pandará os ameaçou, que os havia de vexar e fazer prender e castigar. Nada se lhe dá disto, antes diz que estimará muito ser preso e maltratado, por esta causa. Outra vez, chegou a dizer, que em prova da lei de Deus ser a verdadeira, e haver nela somente salvação, poria o seu filho mais pequeno, a quem êle muito ama, na manteiga fervente; é êste um modo de juramento, entre esta gente. O filho também, ainda que menino, o mostra ser de tal pai, porque acon- teceu um dia, que era festa do pagode, que a mãi ainda gentia, nao estando o pai em casa, chamou o menino, para lhe lavar a cabeça; o que advertindo, se pôs a fugir, dizendo, que naquele dia não, por ser dia do pagode, que o dia seguinte a lavaria; mas, indo-lhe a mãi no alcance, o tomou, * e por fôrça lhe .fi.sçt. lavou a cabeça, com o menino gritar e protestar, que êle não consentia naquela ceremónia, e' que o que lhe fazia era por força, e não por sua vontade, como também depois o disse êle a outras pessoas, queixando-se que por força lhe tinha a mãi lavado a cabeça. É tal o aborrecimento, que tem êste menino aos pagodes, que nem com seu avô queria comer, porque untava a testa com cinza, e com tôda a liberdade abomina diante dos pandarás a cinza e os pagodes, que é coisa de muita consolação. Ao mestre estatuário pusemos [por] nome Vero; é liomem casado aqui em Maduré; depois que se baptizou, pôsto-que muitos lhe têm feito e façam muita instância, que lhes fizesse algumas figuras dos pagodes, que lhe pagariam muito bem, nunca quis, e mostra mui grande fervor e firmeza nas coisas da nossa santa lei. Estes dias passados, me contaram, que, indo êle por uma rua, se encontrou com um pandará gentio, parece [que] seu amigo, o qual lhe ofereceu um pó, que é ceremónia de Vesmú, para se untar com êle, e é igual à cinza, e que êle lhe dissera: Eu não sou o Chitinadá, que era primeiro, mas outro e de outra lei, e por isso êsse pó não me serve; de que o pandará maravilhando-se, disse: Quem sois vós? Porventura Nhani? que quere dizer, homem espiritual e desprezador do mundo, e assim se foi o pandará. Os dias passados, a mulher dêste cristão esteve de parto, com muito gran- des dores. Ajuntaram-se os parentes, pai e mãi e outros; rogaram no que
  • 96 Das coisas do Madure oferecesse alguma coisa ao diabo, como costumam os gentios, para a aliviar • fi 90. daquele trabalho; ao que êle respon*deu, que bem podia morrer a mulher, filhos e todos; mas que êle não havia de fazer coisa contra a lei de Deus; e, ainda que a mesma mulher se queixava, que a matava, não oferecendo alguma coisa ao diabo, não se moveu a nada, mas começou a rezar uma oração a Nosso Senhor, que eu tenho feito para as dores do parto; e quis Nosso Senhor que, rezando-a, deu à luz logo um filho varão, sem nenhum perigo; de que todos ficaram espantados; e, querendo-lhe os parentes pôr nome, resistiu êle, dizendo, que nomes do diabo não haviam de pôr a seu filho; mas que o nome, eu que era seu Gurú e mestre, lho havia de pôr e baptizá-lo, como me pediu fizesse; o que farei daqui a poucos dias. E tão grande o lume, que Nosso Senhor tem comunicado a êste bom cris- tão, que chegou a dizer, que, ainda que todo o mundo lhe dissesse, que êle não estava na verdadeira lei, não [o] havia de crer; e que, o que é mais ainda, se eu, seu Gurú e mestre, lhe ensinasse agora o contrário, me não havia de crer. E porque assim êle, como os outros, desejam que suas mulheres e famílias sejam tôdas da mesma lei, e elas também o desejam, as irei pouco a pouco catequi- zando, instruindo e baptizando; mas a verdade é, que eu não posso só com tanto trabalho, e de fôrça tenho necessidade de um companheiro muito bom, que tenha muito fervor e desejos de padecer por Cristo; porque as famílias dêstes, que baptizei, são de muita gente; e, afora êles, tenho outros catecúmenos, que têm também suas famílias, e afora outros gentios, que cada dia vêm de novo, •n.90v. pessoas tôdas honradas e abastadas; e assim, nem de dia, nem de noi*te, tenho descanso, e hei mêdo que não possa aturar com tanto trabalho; mas, por outra parte, Nosso Senhor me dá mais saúde, do que tive em outras partes, e assim vivo confiado nêle, que me não faltará, emquanto a obediência me não prover de companheiro. O nosso Pedro Naique, sôbre quem falei a Vossa Reverendíssima, que o tinha baptizado, havia mais de um ano, e que tinha grande fervor, e por ser pessoa principal, da casta dos totias, que é casta mui honrada entre esta gente, se podia esperar muito, me contou, os dias passados, falara com o seu parente Tumixi Raien, senhor de todos os totias, que são quási infinitos; porque come- çam perto de Bembar e Vaipar, e estão espalhados por tôdas estas cidades e povoações de todo êste Conquam, até Bisnagá, e que lhe disse, me dissesse da sua parte, que desejava muito ser meu discípulo, e tomar esta santa lei espiri- tual; mas que só estava arreceando, não lhe viesse algum trabalho do Naique; mas espero em o Senhor, lhe tirará as dificuldades, e o irá dispondo para tudo; e entretanto, ando agora instruindo mui de propósito, nas coisas da nossa santa lei, a Pedro Naique, que está com mui grande fervor, e desejos de ir prègar e converter sua gente; e, como lhe têm todos muito respeito, e êle é homem de muita capacidade e juízo, grave, e de quarenta para cinqilenta anos, espero fará fruto, e cedo o hei-de mandar, para êste efeito, com Jorge, que também para estas coisas tem grande modo e fervor. O Vihuvada Naique (que quere dizer, defensor da Fé), irmão de Aleixo, • Fi.91, que baptizámos, dia de Nossa Se#nhora de Agosto, como em outra escrevi a Vossa Reverendíssima, é mancebo devotíssimo, mui frequente nas confissões, pela
  • Das coisas do Madurè 97 muita consolação, que nelas recebe; dá muito exemplo a todos com sua modéstia e cristandade, e tanto mais nele parece melhor, quanto foi sempre mancebo cortesão, e andou sempre no paço, e não é mais que de vinte e três, ou vinte e quatro anos; falando com êle, estes dias, achei que, sem eu o ter ensinado, todos os dias meditava na Vida e Paixão de Nosso Senhor, que parece Deus ensina a estes novos cristãos. A constância e firmeza, que êle tem nas coisas de Deus, é mui grande, como escrevi a Vossa Reverendíssima em outras. Foi êle sempre muito amado e privado de Casturo Naique, primo do Naique grande dêste Madure, e que depois de ser cristão, e por não querer jejuar os dias do pagode, nem receber o cordão de Vesmú dos perdões, o Casturo Naique o sentiu muito e pôs todos os meios possíveis, para o tornar à sua seita; mas, como viu, que tudo era debalde, e o bom mancebo se desenganou com êle, dizendo-lhe que, nas coisas que pertenciam ao corpo, não faltaria um ponto ao seu serviço; mas, nas da alma e da salvação, tinha outro Senhor maior, a quem servia. Desgos- tando-se dele, lhe mandou, que não tornasse mais a sua casa; com o que, o novo cristão folgou muito, por se ver livre de tal embaraço. A fama, que há de mim agora neste Maduré, e por estas terras, é que veio de novo um Mori, que quere dizer, um ermitão espiritual, mestre, a destruir os pagodes, e assim, vavii varia loquuntur. O que muito me ajuda, para faci- litar a conversão desta gente, afora o traje e modo de comer [e] serviço de bra- manes, é o ter achado nos livros de suas leis, que dizem, que havia por estas terras antigamente * quatro leis: as três que agora correm, e ensinam os brâ- »fi.qiv. manes de Vesmú, Bramá e Rutrú, e a quarta, uma lei da salvação da alma, e espiritual, a qual dizem êles, que parte se misturou com as três, parte se perdeu de todo, e se não achou nunca pessoa tão douta e tão santa, que a pudesse descobrir nem achar; e juntamente afirmam os que são mais doutos, que se acha escrito nos livros mais secretos, que em nenhuma das três leis se pode achar salvação verdadeira; daqui vem, que muitos não cuidam que há salvação, e outros, que não há mais que esta vida. Por onde, com esta ocasião de suas mesmas leis, e do que está escrito delas, lhes prego primeiro, que vivem erra- dos, e que em nenhuma das três leis se podem salvar, e que trabalham debalde; e lhes provo isto com os mesmos textos dos seus livros; e, como esta gente tôda é mui desejosa da salvação, e por isso são muito dados à penitência, fazer esmolas e serem mui observantes dos pagodes, lhes digo, que se querem alcançar a salvação, que eu vim de terras mui longes, só para lhes ensinar a lei verda- deira da salvação, que os seus brâmanes dizem que está perdida, e me hei com êles da maneira que se houve o apóstolo S. Paulo com os de Atenas, àcêrca do ignoto Deo; e juntamente lhes digo, que, se a quiserem aprender e achar, hao-de-se determinar a ser meus discípulos, com que se lhes facilita o negócio da conversão; porque, como se persuadem a me tomarem por mestre, fàcil- mente se inclinam a crer a doutrina, que eu lhes dou; e, com isso, afeiçoando-se a vontade, vêm ouvir as práticas, com gosto, e fazem muito bom entendimento; e este modo é conforme ao costume destas terras, nas quais há muitas seitas, conforme às três leis; e cada um tem seu mestre particular, a quem segue; e assim os que querem achar a lei da salvação espiritual, que # assim se chama *n. 92. esta lei, que eu ensino, primeiro se determinam a serem meus discípulos, para i3
  • 9§ Das coisas do Madure » receberem de mim o dixi, que eu lhes der; que êste é o vocábulo corrente, que quere dizer: receber a doutrina, que eu ensino, segui-la e fazer-se cristão, que é o mesmo que receber de mim o dixt. Agora, estes dias, me afirmaram, que alguns Gurus gentios, mestres de suas leis, se apalavraram, para irem, êste mês de Janeiro, fazer queixume de mim ao Naique; porque faço deixar a cinza e as mais ceremónias e sinal do pagode, e persuado a esta gente, que o não tragam na testa, como costumam todos à honra dos pagodes; e que não adorem o pagode de Chocanadá, nem o Perumal, nem nenhum outro, como é verdade. Não duvido, que há-de pro- curar o demónio de nos alevantar alguma perseguição. Vossa Reverendíssima nos ajude com orações e missas com Nosso Senhor; pois adventat tempus acce- ptabile, tempus salutis». Mas não é para passar em silêncio a nova mudança de vida, que Deus obrou em um dêstes novos cristãos, dos dois ou três primeiros, que aqui se converteram à nossa Santa Fé, chamado Aleixo Naique, de que, na relação pas- sada e agora nesta, algumas vezes se fêz menção. Deu êste sempre muito bom exemplo de si, depois que se converteu; mas, como era mancebo, não deixava de se tratar com louçainhas e vestidos finos; tinha algumas peças de oiro, que lhe deixara um seu avô, como anéis, manilhas e arrecadas, que são coisas, de que êles muito usam. Algumas destas lhe desapareceram; suspeitou, que um certo lhas furtara; e, levado da paixão, lhe deu muitos e cruéis açoites, estando o outro inocente, e sobretudo por um gentio, consultou o demónio em um ener- •F1.95T. gúmeno, o qual, como pai de mentiras, disse que o * pobre já açoitado lhas fur- tara; pelo quê, outra vez o tornou a açoitar rijamente; mas, não saindo com o seu intento, morria de tristeza. Era êle familiar ao padre; o qual, sabendo o que passava, o repreendeu àsperamente, e lhe proibiu entrar na igreja, até dar satisfação do escândalo. Mostrou-se, no princípio, duro e contumaz, nem dava sinal algum de se arrepender. Não muito depois, entrou nêle um tão grande sentimento do que tinha feito, que gastava as noites inteiras sem dormir, cui- dando como poderia alcançar perdão de seu pecado. Acrescentavam-lhe a dor as severas repreensões do padre, que muito lhe encarecia sua culpa. Final- mente, diante de uma imagem da Sagrada Virgem, rogava com grande afecto à Alai de misericórdia, que lhe inspirasse o que devia fazer. Depois de muita oração, se foi deitar aos pés do padre, pedindo-lhe perdão, e rogou-lhe que, para ajuda de fazer uma igreja, tomasse aquelas suas peças de oiro, que lhe foram ocasião de tanto mal; que mais dera, se mais tivera, e que estava resoluto a gastar todo o tempo de sua vida, servindo a igreja; que o padre lhe faria esmola de um pano grosso, com que se cobrisse, e de um pouco de arroz, com que se sustentasse; e que fazia voto a Deus todo poderoso, de até à morte viver em castidade, e sem dinheiro. Maravilhado o padre de tanto fervor, avisou-o de quam árdua emprêsa tomava: que visse bem o que fazia. Respondeu, que já tinha bem cuidado tudo, nem se dava de qual fôsse o juízo dos homens; que já o mundo lhe era morto, e êle ao mundo; que suas delícias, ao diante, seriam opróbrios, injúrias, contumélias, escárnios. Finalmente, tan- tos foram os indícios de a inspiração ser divina, que julgou o padre não dever mais de contradizer seus intentos. Todavia o aconselhou, que desse a sua mãi
  • Das coisas do Maduré 99 catecúmena, ou a seu irmão já ba#ptizado o que dava para a igreja. Respon- deu, que não havia para que revogar a doação, que tinha feito. A quantia não era tanta, que passasse de sessenta cruzados. Muitos pretenderam tirá-lo deste propósito, principalmente seu irmão. A mãi o não levava em paciência; mas Aleixo a moveu, e abrandou de maneira, que ela depois, com mui graves pala- vras, o exortava, que não tornasse atrás; porque seria deshonra sua, dele, e de todos os seus. Finalmente, um domingo, dizendo-se missa, veio Aleixo, ornado de suas louçainhas; e, diante de todos os cristãos, foi lançando cada uma por si, e com os pés as arrojava ao meio da igreja, até ficar só com um pano grosso; e lendo um escrito, feito por sua mão, prometeu a Deus, todo poderoso, que nunca havia de casar, mas, que guardaria castidade até à morte, e que aquela pouqui- dade que tinha, dava, de sua livre vontade, à igreja, e lhe daria qualquer outra coisa, que ao diante lhe pertencesse; nem teria coisa alguma como própria. Tudo isto fez, sem a isso ninguém o mover. Contudo, para seu maior mere- cimento, lhe deu o padre de conselho, que pois chegava a aquilo, prometesse também obediência ao padre espiritual, que pelo tempo tivesse. Foi isto com tanta devoção e fervor de espírito, que não houve quem não chorasse. Prova de ser isto de Deus é a constante perseverança no começado. Parece que anda sempre com fome e sêde de seu próprio desprezo; às coisas mais repugnantes à natureza mais se arremesa. Esta mudança de Aleixo foi aos outros grande incitamento de piedade. * CAPÍTULO VI De algumas perseguições, que o demónio levantou contra o padre, e mais cristãos NÃO podia o demónio sofrer tão feliz curso da prègação do Evangelho, nem a vitória, que nossa Santa Fé Católica ia começando a alcançar da infidelidade e idolatria; e, como sempre costumou, assim o fêz agora, procurando de arruinar o edifício que estava feito, tomando por instrumentos seus próprios ministros, e sacerdotes principais dos ídolos, que contra o padre e contra a santa lei, que prègava, começaram a levantar grandes perseguições. Passou a coisa, desta maneira. Divulgara-se entre os grandes, que era vindo a Maduré um novo Mori, que é o mesmo que ermitão, mestre de uma lei espiri- tual, para destruir todas suas seitas. Daqui nasceu, que um brâmane, sacerdote de Chocanadá, ídolo torpíssimo, comunicando com outros o negócio, determinou fazer queixume ao Naique, daquele novo Mori (que era o padre), por condenar as salutíferas cinzas de sua religião, e reprovar as insígnias de suas seitas, que com as mesmas cinzas pintam nas testas, e persuadir os homens, que não ado- rem Chocanadá nem Perumal, nem algum dos outros pagodes, acrescentando, que a excessiva sêca, que naquele ano houve, não procedia doutra parte, senão da promulgação daquela nova lei; que, se muito depressa se não castigasse e lançasse fora quem a ensinava, a cidade e todo o estado se perderia. Foram com isto ter * com homens principais, cabidos com o Naique, e entre êles um
  • IOO Das coisas do Maduré eunuco, mui devoto servidor de Chocanadá; este prometeu, que falaria com o Naique. Os males, que contra o padre diziam, se continham em sete artigos: o primeiro, que aquele homem era ateu, nem reconhecia deus algum, isto era, porque dizia, que todos os ídolos eram mentiras; o segundo, que escarnecia de sua trindade. Também a estes o pai da mentira introduziu uma fingida trindade, que consta de três monstros, cujos nomes são: Bramá, Vesmú, Rubren. O terceiro dizia, que Chocanadá não era nada, crendo êles, que é senhor de ca- torze mundos. O quarto, que prometia chuva, se se destruísse o templo e lin- gão de Chocanadá. Lingão é uma pedra comprida, alevantada no meio do templo; tocar esta pedra têm que é grande merecimento, e quem dela trouxer ao pescoço uma pequena figura, dizem que pode andar seguro de lhe acontecer caso adverso. Com estes impuros escárnios, o impuríssimo inimigo do género humano escarnece dos homens, enfeitiçados com seus enganos! O quinto era, que o padre tinha muitos discípulos, e deles, dois ou três dos de Avexedá, Pan- dará que entre êles brâmanes é como Sumo Pontífice. O sexto crime era, que, sendo o padre turco, ou de outra mais baixa nação, se servia de brâmanes, com deshonra da casta brâmane. O sétimo, finalmente, era, que aprendia as letras dos brâmenes, coisa que êles muito sentem; porque de seus livros tira razões e argumentos, para confutar seus erros. Com estes crimes ofendido, aquele sacerdote de Chocanadá prometia de tirar os olhos a todos os que serviam ao padre; e ao brâmane, seu mestre, havia de rapar a cabeleira, e quebrar-lhe a que tinha, que é insígnia de sua • fi. 94 r. honra, nem se lhe poderia fazer maior afronta. Como isto soube*ram os moços do padre, todos, sem ficar nenhum, o deixaram; só o brâmane, seu mestre, foi constante, e lhe fazia de comer em sua casa; porque comer coisa guisada por quem não seja da casta de brâmane, era ficar inhabilitado para nunca mais tratar com êles. Tornaram depois, os que tinham fugido; mas, por justos respeitos, o padre os não quis receber. Davam de conselho ao padre, os que o queriam ver fora de perigo, que furtasse o corpo ao furor dos brâmanes, indo-se por alguns dias para outra parte; porque, não sem fundamento, arreceavam que o matassem, segundo andavam furiosos. Mas êle, ponderando em oração o que mais convinha, julgou que em nenhum modo se devia ausentar; porque, primei- ramente, não fôra bom exemplo para os novos cristãos, mostrar que fugia com medo, aquele que os ensinava e exortava a serem constantes na confissão da Fé, até darem a vida por ela. E, se êles queriam acusar ao padre, estando pre- sente, sem dúvida estando ausente lhe queimariam a casa, e ficaria inhabilitado a tornar lá outra vez. Também todos se persuadiriam, que eram verdadeiras as calúnias, que lhe alevantavam, de ser turco, ateu e blasfemo; mas, estando êle presente, poderia responder às acusações dos adversários, e porventura, se ofereceria ocasião de falar ao Naique, com algum bom efeito e glória de Deus. Finalmente, a principal razão, porque o queriam acusar, era por negar a Bramá, Vesmú, Rubren, Chocanadá, Perumal e os demais falsos deuses, e por ensinar a lei de Cristo e baptizar os que a recebiam; pois,
  • Das coisas do Maduré 101 soa, depois do Naique, rogando-lhe que quisesse vir a sua ca*sa; o que ele fêz, 'Fi-gí. pôsto-que sempre tão ocupado, que nem para comer tem lugar, nem êle iria fàcilmente a casa de outrem, por sua gravidade; mas alta noite veio ter com o padre, o qual lhe deu conta do que passava; e tomou êle a seu cargo defendê-lo, dizendo-lhe que estivesse seguro, que por êle poria sua cabeça, e faria que os bramanes se lhe viessem deitar aos pés, e pedir perdão; que tomasse servidores mais honrados, que os que tinham fugido, aos quais chamou fugitivos, e disse deles mil ruindades. Finalmente, se foi para casa, dando esperanças de ainda ser discípulo do padre; e por seu meio aquietou Deus a tormenta, que tão brava parecia. Não passou muito tempo, que se não alevantasse outra, não menos peri- gosa. Vieram ter com o padre dois brâmanes, e lhe fizeram várias preguntas, convém a saber: ^que coisa seja glória? iporque caminho se possa ir a ela? £ qual a razão de tão diferentes sortes de homens, uns altos, outros baixos, uns nobres, outros vis? Se Deus está em todo o lugar, e também nas suas almas deles, porque não causa nelas os mesmos efeitos que nas nossas, dando-lhes o conhecimento de si, que nos dá a nós? Também preguntaram jque coisa seja obra boa, e que coisa seja pecado? Deram-se-lhes a tudo respostas, com que mostraram irem muito satisfeitos. Depois disto, encontrando-se os dois brâmanes com o brâmane, mestre do padre, a quem Deus, por divina providência, tinha dado muito lume, lhe come- çaram, diante de muitos outros brâmanes a dizer mal do padre, que era um baixo, e que quem com êle tratava, caía em grande culpa; que o dia seguinte eles o acusariam diante de mais de oitocentos brâmanes, que se haviam de ajuntar sobre não sei que negócios; e assim, fizeram que todos estivessem jun- tos, e entre êles o mestre do padre, para * responder por si e por êle, porque • fi. 9® v. ambos entravam na mesma acusação, por culpados. Um dos dois falou desta maneira: Haveis de saber, ó brâmanes, que entre nós anda um homem, que se vende por Saniassa, sendo êle mais baixo que um baixíssimo frangue. Saniassas chamam êles os homens castos, espirituais, e que vivem uma vida como do céu; frangues chamam aos Portugueses e quaisquer homens europeus; e ser frangue, diz êle, um menino o dirá, pois é de côr branca, como os frangues; mas, dei- xando a côr, venhamos a suas blasfémias. Diante de mim e dêste brâmane, (apontando seu companheiro), e também de seu mestre, que está presente, afirmou que as leis dos brâmanes são falsas e mentirosas, e que pelas esmolas, feitas aos brâmanes, não se merece glória, e que para a glória não aproveita lavar-se um homem em Ramanancor, e nas Gangas de Bengala. Ramanancor é um canto da costa de Pescaria, onde está o mais famoso templo de todo o Oriente; quem visita e se lava no mar vizinho a êle, dizem que ganha indul- gência plenária. Gangas chamam os rios, de que tôda Bengala está cortada; nestes os que se lavam, ficam limpos de tôda a mácula de pecado, segundo sua supersticiosa imaginação. Di/, mais êste mau homem, acrescentou o brâmane, que os Raiús, quere dizer os príncipes, são mais nobres que os brâmanes, e que nenhum de nós conhece as coisas de Deus; e de quantos há nesta terra, que nenhum se pode salvar. Ponderai, agora, ó brâmanes, as doidices, com que êste ousa sair! ^Só êle conhece a Deus, onde há tantos e tão letrados? Apren-
  • 102 Das coisas do Maduré dendo nós tantas ciências, e disputando tão frequentemente das coisas divinas, ^só ele conhece a Deus? < Havendo entre nós tantos Nhanhis e Saniasses (estes • fi. 96. são homens castos, espirituais e desprezadores do mundo), todos se con*denarão, e só ele se salvará? Antes, pelo contrário, me parece a mim, que tirei eu da garganta do inferno alguns meus amigos, que êste, com seus embaímentos, tinha tirado fora de seu juízo; eu os persuadi que não seguissem sua cegueira, os quais sem dúvida para sempre houveram de ser condenados, se eu, por bondade de Deus, não lhe acudira tanto a tempo. De tôdas estas coisas é tes- temunha o seu mestre, que aqui está. Portanto, se eu minto, arranquem-me logo a língua; se falo verdade, castiguem-se os que merecem castigo. Este foi o sumário da acusação, deixando muitas calúnias e blasfémias, com que aquele caluniador pretendeu fazer odioso assim o padre, como seu mestre, o qual ainda neste tempo não era baptizado, e tinha também ali presente seu pai gentio, que estava tremendo, por ver os outros tão indignados contra o filho. Porém, o que naquele ajuntamento era principal e presidente, chamou para junto de si, e fez assentar honrosamente o mestre do padre, a quem daqui em diante chamaremos advogado, e disse-lhe, que se maravilhava de ter êle con- corrido nas coisas, que o acusador dissera, sendo assim êle, como seu pai, que também estava presente, tão doutos; portanto, desse razão de si, e do que con- tra êle e seu discípulo se dizia. Entra o bom brâmane, advogado, captando a benevolência, como entre êles é costume, com fazer uma grande zumbaia, e pedindo perdão, porque, sendo mancebo de pouco saber, tomava ousadia de falar em presença de tantos, e com tão doutos varões, começou desta maneira: dá-se-me em culpa por êste brâmane, que sirvo a um homem frangue, ou ainda mais baixo que frangue. Prova de ser frangue é por ser de côr branca, como os frangues; com êste seu argumento posso eu provar, que êle é um vilíssimo • FI.96Y. pariá; * pois, entre nós, assim os nobilíssimos brâmanes, como os pariás vilíssi- mos, todos são de côr preta. Quem tira logo, que também nas outras na- ções possa haver homens muito nobres, e outros muito baixos, todos da mesma côr? Pareceu a todos muito bem esta razão, e o mesmo acusador disse, que não fazia tanto fundamento em êste ponto. Foram ter com meu Aier, ou padre, estes dois brâmanes, e, preguntando-lhe se, vivendo conforme as nossas leis, podiam merecer e alcançar a glória? A isto respondeu o Aier, ou padre, que há dois modos de viver: um, que consiste na ceremónia de lavar os corpos, e usar de cinzas e andar em peregrinações, e outras semelhantes. Os que vão por êste caminho, disse Aier, que se não podem salvar. Outro modo consiste no exercício de conhecer, amar e servir a Deus, e ser fiel amigo seu. Os que por aqui vão, êsses disse, que merecem a glória e se salvam. Instou êste acusador, preguntando daqueles que, sem conhecerem a Deus, vão às Gangas e visitam Ramanancor. Respondeu Aier, que os tais não se salvam. 1 Falsa é logo, disse êste, nossa lei, que por estas obras promete a glória? Concedeu Aier, que falsa e mentirosa é a lei, que diz poder-se alguém salvar, sem conhecimento de Deus, nem as nossas leis dizem o contrário disto. E o que êste diz, que, sem conhecer a Deus, com ir às Gangas e a Ramanancor se salva, é fingido por êle; porque não ensinam isso nossos livros. Aqui, o presidente se virou para o acusador, e lhe disse: Bem claramente
  • Das coisas do Maduré io3 se vê, que és grande ignorante, pois não entendes o que aquele Saniasse disse! E, não conhecendo a Deus, só com te lavares e untares com cinza £ cuidas que podes alcançar a glória? Erras, por certo, erras. Este saniasse, que tão a pro- pósito fala, é sinal de ser muito douto, e que sabe muito bem nossas leis. Vai por diante o advogado, e diz: quanto ao * segundo capítulo da acusação, tocante a esmolas, da mesma maneira disse Aier que, sem conhecimento de Deus, não aproveitam para merecer a glória; coisa, por certo, clara aos que bem enten- dem, e o mesmo é dos lavatórios de Ramanancor e das Gangas. É também acusado o Aier, por dizer, que os Raiús, ou príncipes, são mais nobres que os brâmanes. Ele, por certo, não disse isso; mas que, assim como no corpo humano há cabeça, mãos e pés, e outros membros, assim com a providência de Deus, em qualquer república, há uns como cabeças, que a governam, que são os príncipes; outros, como mãos, que exercitam as artes e são os oficiais; outros, como pés, que fazem os mais baixos ministérios. De modo que dizer: os Raiús são como cabeças, — não é dizer, que são mais nobres que os brâmanes, senão que regem a todos, como é verdade; e nós, os brâmanes, também vivemos debaixo de sua protecção, e dependemos de sua liberalidade. Finalmente, ao que se diz dos muitos ou poucos, que conhecem a Deus e se hão-de salvar, disse o Aier, que muito poucos conhecem a Deus nestas par- tes, e não disse que ninguém o conhece, e que êle só se haja de salvar. Por este modo, o nosso advogado respondeu às calúnias, que contra o padre se tinham dito, porém mais copiosamente, trazendo várias autoridades de seus doutores; e houve-se com tanto despejo em falar, que êle mesmo se maravilhou de si, por se conhecer, que é de natureza tímido. Foi de todos muito aspuado, e não faltou quem esteve, para dar umas poucas no acusador. O brâmane principal tomou à parte o advogado, preguntou-lhe quem era o Padre Roberto, e que sabia? Respondeu, que era muito douto, e, se lhe não desse crédito, fôsse em pessoa, e por experiência visse quem era o padre. Disse o outro, que lhe dava crédito; mas que avisasse ao padre, que não tratasse facilmente com quaisquer homens malignos, quais eram aqueles dois, e prome- teu, que, se algum deles mais * boquejasse, êle os meteria em ferros. Êste foi *F1-97'« o fim daquela perigosa disputa, ordenando Deus que, donde maior perigo se temia, daí nascesse uma grande tranquilidade. Seja Êle bendito para sempre. Mas não deixou o diabo, daí a algum tempo, de inquietar o padre com outra borrasca, levantada por meio de um grande ministro seu, que foi o sumo sacerdote e cabeça de todos os brâmanes. A ocasião dela foi, que, como o número dos cristãos ia crescendo, e não cabiam na igreja, por ser muito pequena, foi necessário acrescentá-la, e juntamente à cêrca dela, para o que, o padre houve licença de Heremechití Naique, a cuja conta estava aquele bairro, para tomar para isso o chão necessário. Começada a obra, correu logo a fama pela cidade, assim dela, como dos muitos discípulos, que o padre fazia; e, como, em Maduré e sua comarca, que deve de ser grande, se diz haver mais de cem mil brâma- nes, foi fácil chegar esta fama aos ouvidos do principal brâmane do Chocanadá, que é suprema cabeça de todos êles; o qual, alterado sumamente, começou a fazer grandes revoltas, determinando de fazer com que o Naique botasse o padre fora de suas terras, e alegando também, que o chão, que o padre tomava, per-
  • Das coisas do Maduré tencia ao seu pagode, e que ninguém lhe podia dar licença para êle, e princi- palmente sendo o padre um baixo frangue, que estivera e comera com o padre frangue, que é o Padre Gonçalo Fernandes, que reside na outra casa. E, para poder jurar, diante do Naique, (como êle depois disse) que o padre era este, se veio, um dia só, a vê-lo, entrando em casa com muita soberba, acompanhado de sua gente; e, sem lhe fazer nenhuma cortesia, se assentou e começou a fazer muitas preguntas, a saber: quem era? onde nascera? por que partes an- dara? que fazia ali? porque fazia aquela igreja no chão do pagode; que nunca o vira entrar nêle, nem sabia, que profissão era a sua!... A tudo o padre •fl98. respondeu com muita modéstia; porém, * não se satisfazendo de nada, se saiu, com muita cólera e paixão, indo falando palavras descorteses, e que o havia de ir acusar diante do Naique. Mas, porque o padre, depois dele ido, entrou em escrúpulo de lhe não ter respondido com mais liberdade, principalmente à culpa, que lhe deu, de não ter entrado no pagode, lhe mandou um recado, em suas costas, dizendo que êle não entrava em casa tão suja e imunda, como era a do seu pagode, onde se faziam tantas abominações e ofensas a Deus! O que o brâmane terrivelmente sentiu; e, indo-se para casa, fêz quanto pôde por desa- creditar o padre, dizendo contra êle mil mentiras. Mas, como a coisa, em que mais insistia, era no edificar-se a igreja no chão do pagode, pareceu ao padre oferecer-lhe o preço dele, para ver, se com isso se aquietava. E assim foi, que, mandando-lhe lá Aleixo, para tratar com êle êste negócio, ainda que no princípio o achou mais bravo que um leão, tanto que lhe falou em dinheiro, se amansou logo e depôs a cólera, e prometeu que tornaria a ver-se com o padre, e se concertaria tudo, e ficaria dali por diante seu amigo; e assim o fêz, depois que lhe levaram quinze cruzados, em que se concertaram por preço do campo, que se tornou a ver com o padre e teve com êle muitos cumprimentos; pediu-lhe perdão, e que o passado fôsse passado, mas dali por diante ficassem amigos; e, ao despedir-[se], disse ao padre: propagai vossa lei, e fazei discípulos, que daqui por diante eu sou vosso irmão; nem tenhais mêdo de alguém, porque, dissimulando eu, que sou senhor da lei, que cá corre, ^quem vos há-de ir à mão? E como eu estiver da vossa parte, ,-quem se ha-de pôr contra vós? Tal é o zêlo, que estes têm de seu pagode e de sua lei. Depois disto, correu bem com o padre, e por duas vezes o tinha visitado com presentes. Não faltaram outras tormentas destas; mas tôdas pela Divina Potência se • F1.98Y. desfizeram em nada, e a prèga*ção do S. Evangelho vai cada vez cobrando mais forças, e os cristãos já feitos, mais Fé, e crescendo o número dos que se querem converter, assim homens, como mulheres, e tudo gente honrada e nobre; que o padre, como era só, não era possível acudir a tanto; pelo quê instava muito por algum companheiro, para o ajudar, o qual logo se lhe mandou, como adiante se dirá; e entre os que se converteram, foi um homem muito principal, da casa do Heremechití Naique, o qual, como tem muita família e parentes, começaram já estes a vir e entrar na rede de Deus. Entre as invenções, que o demónio usou naquelas partes, para fechar a porta à conversão dos brâmanes, e os ter mais arrecadados na masmorra de sua infidelidade., foi persuadir-lhes ser grande pecado, escreverem ou traslada- rem suas leis dos livros, em que estão; e assim, o modo que têm de as apren-
  • Das coisas do Maduré io5 derem, é aprenderem-nas de memória, desde meninos, daqueles que lhas vão ensinando; no que gastam pelo menos dez ou dôze anos; e, se soubessem os brâmanes, que alguém escreve, infalivelmente lhe tirariam os olhos. Mas, como, depois da ajuda de Nosso Senhor, o principal meio para a conversão desta gente, é a noticia de suas leis e seitas, para lhas refutarem, e mostrarem a falsidade delas, e isto não pode ser, sem se aprenderem por escrito, buscou o padre meio, e o achou, para as fazer escrever, pôsto-que com grande secreto, do qual se espera, se seguirá grande fruto. Não deixa Nosso Senhor de confirmar e animar estes novos cristãos com algumas obras sobrenaturais e milagrosas, que neles mostra, com que grande- mente se consolam e confirmam na Fé. Um, que ainda era catecúmeno, adoe- cendo de uns trabalhosos vómitos, em nenhum modo sofreu que por êle se fizessem algumas ceremónias, nem rezassem orações gentílicas; mas, fazendo em si o sinal da Cruz, e rezando as orações, que tinha aprendido, sem mais outra medicina, (i) sarou logo. Outro, já baptizado, vendo * que sua mulher, . fi. 99. ainda que gentia, estando doente, queria fazer as costumadas ceremónias, a repreendeu grandemente, dizendo que não havia-de sofrer aquilo, pois era já servo do verdadeiro Deus; que se encomendasse ela a êste Deus verdadeiro, que êle também faria o mesmo por ela; fizeram-no assim, e na mesma hora sarou a mulher, ficando ambos mui consolados. É costume nesta gentilidade muito célebre, no princípio do seu ano novo, cozerem arroz com leite, cada um à honra do seu pagode; e não fazer isto, é grande deshonra, a qual para que os cristãos não incorressem, ordenou o Padre Roberto, que junto de uma cruz cozessem arroz, à honra de Jesus Cristo; e o mesmo padre assim o fêz, e o repartiu por êles, com grande alegria de todos. Uma mulher se esqueceu de pôr a cruz, e por maior fogo que fêz, nunca ferveu a panela; advertiu no êrro; e, pondo a cruz, logo começou a ferver. Um, por nome Dadamúr, ainda gentio, fêz isto três anos a eito (2), sem nunca lhe ferver a panela, coisa que têm por deshonra e mau agoiro; agora, sendo cristão, estava em não fazer esta solenidade, por não cair em maior descrédito. O padre, que isto soube, lhe mandou que fizesse o que faziam os outros. Em pondo a panela ao fogo, logo começou a ferver; não se pode dizer quam ale- gres seus filhos vieram correndo ao padre, pedindo-lhe alvíçaras e dando-lhe as graças, como se tiveram achado algum grande tesoiro. Parecem isto brincos de meninos; porém com estes anda a divina sabedoria, acomodando-se à capa- cidade dos homens, para seu maior bem dêles, e glória sua. (1) Nt.: mèzinha. (2) Nt.: arreo. '4
  • io6 Das coisas do Maduré iFI. 99v. * CAPÍTULO VII Como dois Cristãos do Maduré vieram a Cochim, e foi mandado para aquela Missão o Padre Manuel Leitão COMO aquela nova vinha do Senhor, que em Maduré se começava a plantar, ia dando de si tantas esperanças de grande fruto, e o que já dava era de tão bons e excelentes cristãos; pareceu ao Padre Nóbili mandar ao colégio de Cochim alguma mostra deste fiuto, como de Terra de Promissão, assim para que os Nossos vendo-o, se acendessem com desejos de ir à conquista de tal emprêsa, como para que os que mandava, vissem as coisas da Igreja em Cochim, e o modo de proceder dos cristãos antigos e dos padres, para que de tudo fôssem dar testemunho de vista em sua terra; e assim, escolheu para isto dois mancebos nobres, de muito bom juízo e entendimento, os quais chegaram a Cochim, onde, de todos os padres e irmãos (i) foram gran- demente festejados e agasalhados. Folgaram de ver o colégio e a igieja, que é a mais formosa de tôda a cidade, de ouvir as missas cantadas, ver a frequência do povo a elas, e às prègações; e de tudo ficaram mui consolados e edificados; e dêles também, e de sua devoção e piedade os padres e irmãos e tôda a cidade; porque lhes pareciam um retrato dos cristãos da primitiva Igreja. E o que muito consolou a todos, foi virem êles tão bem instruídos nas coisas de • fi. too. nossa Santa Fé e doutrina cristã, como se fo*ram cristãos de muitos anos; e, de propósito, se puseram os padres e irmãos por vezes a lhes fazer várias pregun- tas das coisas e mistérios mais altos da nossa Santa Pe, como do Santíssimo Sacramento, e da Santíssima Trindade, e outros, a que êles respondiam sempre com tanta prontidão, alegria espiritual e facilidade, que admiravam e edificavam a todos. Quando se houverem de partir, querendo o Padre Provincial dar-lhes algumas peças em sinal de amor, agradecendo-lhas com muita modéstia, por nenhum modo as quiseram aceitar, dizendo que êles não vieram buscar seme- lhantes coisas, nem apareceriam com elas diante dos outros cristãos; mas que sua vinda não fôra mais, que receber a insígnia da milícia cristã, que era o Sacramento da Confirmação, e a ver os padres da Companhia. Somente acei- taram contas bentas, rosários, imagens e outras coisas de devoção, para o padre lá repartir com os novos cristãos, por serem coisas, que em Maduré se não achavam, e lá eram de muita estima. Saíram do colégio de Cochim, acompanhados de dois padres, os quais os levaram ao Arcebispo da Serra, cujas ovelhas eram, por Madure cair em seu distrito, e que os estava esperando em um lugar de S. Tomé, onde foram dêje e dos cristãos recebidos com muita festa, e agasalhados com muita consolaçao de todos. Pousaram em casa de um cristão principal, pôsto-que cada um dos outros os queria levar para a sua. Ao outro dia, que foi dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, o Arcebispo, revestido de pontifical, diante de todos os cristãos principais, lhes preguntou pelos artigos da nossa Santa Fé, e pelos mistérios (1) Da Companhia de Jesus.
  • Das coisas do Maduré mais principais, pondo-lhes sôbre eles algumas dúvidas, ao que responderam com tanta prontidão e satisfação, que o Arcebispo, os nossos padres, e os cris- tãos de S. Tomé * não puderam reter as lágrimas de devoção, por verem a com .fi.iooy. que eles respondiam, e quam bem instruídos estavam; e, preguntando-lhes o Arcebispo se queriam ser crismados, responderam, que só a isso vieram, e a fazerem reverência e darem obediência, em nome de todos os mais cristãos a Sua Senhoria; e assim receberam aquele Santo Sacramento, com muita consola- ção sua; e, dizendo-llies o Arcebispo, quando lhes deu a bofetada, que se cos- tuma dar, depois do crisma, que aquilo se fazia, para lhes dar a entender, que haviam de estar aparelhados para sofrerem afrontas e injúrias pela defensão da Fé, responderam: que estavam aparelhados também para darem a vida, e que seria a maior mercê, que o Senhor lhes faria; e depois de feitas suas costuma- das ceremónias lhes deu o Arcebispo dois cristãos, que os acompanhassem, até passarem as serras; e assim se tornaram para Maduré, donde escreveu o Padre Roberto em uma sua de dez de Julho, que tinham lá chegado com saúde, muito contentes e edificados de tudo o que cá viram, e lhes fizeram, e que esperava isto aproveitaria muito a êles e aos mais cristãos. A chegada e estada destes dois cristãos no colégio de Cochim, e o seu bom modo de proceder e fervor causou e despertou em todos os padres e irmãos grandes desejos desta missão, e assim muitos se ofereceram para ela; porém, no Padre Manuel Leitão, a quem coube o cuidado de agasalhar e de os fazer prover do necessário, o tempo que ali estiveram, fêz mais abalo que em todos; e foram os desejos nêle tais, que na missa, na oração, e todas as vezes que cuidava nesta missão, lhe corriam as lágrimas em grande cópia, com mui gran- des sentimentos; e, pôsto-que havia dois anos e meio, que era mestre dos novi- ços, com muita satisfação, fazia o ofí*cio de Pai dos Cristãos; todavia, como os deste colégio principalmente se criam nêle para semelhantes missões, pareceu obrigação cortar por tudo, e conceder-lhe o cumprimento de seus desejos, por se entender, ser vocação de Nosso Senhor, que claramente o chamava, para se servir dêle naquela missão, particularmente por ele ser muito espiritual, muito mortificado e humilde, e ter muito boa e afável condição no tratar, e ter tôdas as prendas requisitas para aquela tão dificultosa e grande emprêsa. Um dia antes que se partisse, se vestiu do trajo, que traz o padre em Maduré, e esteve com êle em conversação com os padres e irmãos do colégio, e depois com os novos colegiais e noviços; vista, que a todos moveu a muita devoção e lágrimas de alegria e consolação, e a santa inveja, por lhe caber tão ditosa sorte. Finalmente, com alguns outros padres, o acompanhou o Padre Provincial até Carturte, que está oito léguas de Cochim, pelo rio acima, donde, a 16 de Agosto, um dia depois da festa da Assunção da Virgem Nossa Senhora, com muitas saudades e lágrimas de todos, acompanhado de dois cristãos, se apartou e despediu dos padres, com um bordão na mão e a pé, que assim, por sua devoção, quis fazer êste caminho, (tão grandes eram os desejos e fervor que sentia em si), pôsto-que fosse o caminho muito trabalhoso, por ser de quatro dias, por serras mui altas e ásperas, e em tempo de inverno, de grandes ribeiras e águas mui frias; mas tudo vence o amor e fervor divino; e assim Nosso Senhor o levou sempre com saúde, como depois escreveu do caminho e
  • io8 Das coisas do Maduré de Maduré, onde chegou aos 26 de Agosto, com muita consolação sua e do Padre Roberto e dos mais cristãos, que o estavam esperando, como se verá por uma sua, que escreveu ao Padre Provincial, que diz assim: «Louvores ao • fi. ioi v. Senhor Deus, que me cumpriu meus desejos, e tão mimosamente, por * sua infinita bondade, me trata nestas partes. Em verdade, afirmo a V.a Rev.a, que, se lá soubera os mimos e favores, que o misericordioso Senhor me havia de fazer cá, e quam liberal para comigo se havia de mostrar, mere- cendo-lhe eu tão pouco, por meus pecados, duvido se me sofrera o coração, dilatar-se-me bem tão grande, tanto tempo; e assim me pejo, de ver o pouco que fiz, por alcançar o muito que agora tenho; pois nunca me vi tão são e bem disposto, nunca tão alegre e contente em o Senhor me achei, nem senti o Céu tão favqrável para mim, como agora; e folgo muito, de poder dizer a V.a Rev.a, sem pejo de minhas faltas, o que passa em minha alma. Bem sei serem isto tudo mercês, que o Senhor de todos faz a êste inútil e indigno servo seu, pelas orações de V.a Rev.a, e dos padres e irmãos dêsse santo colégio, por meio dos quais espero receber sempre maiores de sua liberal mão; mas o que direi, é que não vejo cá na terra coisa, com que troque a vida presente, senão com a eterna; por onde ao Rei do Céu muitas vezes tenho já oferecido a vida, alma e coração, para que de tudo, só Êle seja o Senhor, nestas partes, e delas me leve, quando fôr servido, a gozar de sua glória. Amen. Calo nesta as grandes saudades, que de V.a Rev.a e mais padres e irmãos dêsse santo colégio, por todo o caminho tive, acompanhadas de copiosas lágri- mas, que causaram a dor e mágoa grande, que no coração trazia, de ver quam pouco, por minhas faltas, tinha merecido os favores, que V.a Rev.a, pelo paternal amor, que a todos tem, fêz a êste vil bichinho da terra, servo e indigno filho seu, e de não ter a todos servido, como devia, do que agora peço perdão. Do caminho só direi a mercê particular, que Deus me fêz, de me •fi. 10:. conservar por todo êle com saúde e boas forças, para sofrer assim a aspe*reza da Serra, e incomodidades grandes, que nela achei, como as calmas e ardores do sol, que nesta terra parece, com seus raios, fere fogo; mas o desejo, que trazia, de me ver com o bem que agora tenho, me fazia parecer o trabalho muito pouco. E verdade que, quando cheguei a êste Maduré, (que foi uma quarta-feira, 26 de Agosto), vinha tão cansado, não tanto do caminho, como por falta de sono, assim pelo pouco abrigo dos lugares, onde me era forçado passar a noite, como pelo pouco seguro, que nêles havia, em razão dos tigres e ele- fantes; e um ter, não havia muitos dias, morto a um homem, no caminho. Seria uma hora da noite, quando entrei neste quieto repouso e santo re- colhimento, que assim se pode chamar o em que se aqui vive, tendo primeiro passado por meio de uma confusão infernal e grita diabólica, que esta me pare- ceu a que faziam milhares de idólatras, que estavam festejando seus pagodes. Tanto que o Padre Roberto soube da minha chegada, mandou logo Vihuvada e Aleixo, seu irmão, a me receberem, o que fizeram com grandes mostras de amor, e me levaram à igreja, onde entrando me postrei por terra, como aqui se costuma fazer, e estive um pouco de tempo dando graças ao Senhor, por me ter cumprido meus desejos. Mui pobre vi a igreja em si, mas mui rica para mim de devoção. Daqui me levaram onde estava esperando o Padre Roberto,
  • Das coisas do Madurè 109 para me receber como a discípulo, como nestas partes costumam os gurus receber aos seus, assentado em um pequeno estrado, que estava coberto de um pano vermelho; e, entrando, me debrucei diante dêle, fazendo-lhe a devida reverência, o que tudo era necessário fazer-se, por causa dos que estavam pre- sentes. Êle me recebeu com muita festa; e, mandando ir a todos para fora, me abraçou com muito amor, * folgando muito de me ver, com as cores da «fi. 102 t. terra, e com os vestidos de saniásse; e eu, de prazer, não sabia onde estava, vendo já com os olhos o que tanto desejava. Afirmo a V.a Rev.a que não trocara esta vinda por quanto no mundo há, porque ela me encheu de alegria, devoção e de esperanças grandes de o Senhor Deus me fazer aqui particulares mimos e favores, como já mos vai fazendo. Acabadas as primeiras saudações, e de nos alegrarmos em extrêmo com a saúde de cada um, me começou a preguntar mui miudamente por novas de V.a Rev.a, do Padre Reitor, e mais padres e irmãos dêsse santo colégio, por- que a todos têm o bom Padre Roberto na alma e coração. Eu lhas dei, como êle desejava, com que êle muito se alegrou; e, depois de gastarmos algum tempo em boa conversação, me disse serem horas de comer; e, mandando pôr a mesa, que era uma folha de figueira, eu me assentei no chão, para comer nela. Veio logo o brâmane, que fêz de comer, e pôs-mo todo na folha; comecei a entrar por êle, que, com ter boa fome, o estranhou tanto a natureza, que por fôrça o levava para baixo, o que me durou os primeiros três dias de hóspede; mas já agora algum tanto me sabe melhor; e na verdade, tudo vence o amor e gosto, que temos, de servir aqui ao Senhor. Acabada a ceia, e de gastarmos parte da noite em boa prática, nos recolhemos em nossos aposentos a dormir. Ao outro dia, me vieram visitar alguns cristãos, mostrando folgarem muito de me ver, entre os quais foi o brâmane, mestre do Padre Roberto, que festejando-me as côres do rosto, disse ao padre, que me parecia nelas com alguns brâ- manes saniasses. O mestre Alberto estimou muito os óculos, que V.a Rev.a lhe mandou, fazendo sobre isso, depois, al*guns versos, em louvores de V.a Rev.a. Folgara «i-1.103. certo de poder por pêna explicar a V.a Rev.a o que desta Cristandade sinto, e quanto me tem cheio os olhos esta gente, que o bom padre tem, com tanto tra- balho seu, ganhado para Deus. Por certo, que não sei eu cristãos, que em tão pouco tempo de sua conversão, estejam tão bem instruídos nas coisas de Deus e de sua salvação, como estão estes. E para folgar de ver o amor e respeito grande, que têm ao seu Guru, a devoção às coisas de Deus, e o desejo, que mostram de padecer por seu amor; e o que tenho de todos entendido, pelo que cada dia vejo, é que, se se alevantar aqui alguma perseguição, que há-de haver muitos mártires, e que todos hão-de querer antes perder a vida que a Fé, que êles tão metida têm na alma, cujos efeitos são o frequentarem com tanto fervor os Sacramentos da Confissão e Comunhão, donde lhes nasce tanta pureza de vida, como a em que esta nova Cristandade do Senhor vive. Preguntando eu a um, que se havia neste mundo de fazer, para alcançar a perfeição dela, respon- deu-me que, freqtientar mui a miúdo os Sacramentos da Confissão e Comunhão, o que vejo fazer a muitos deles; e alguns com tanta devoção, que ma causam. A êste mesmo cristão, vindo uma vez visitar o padre, trazendo-lhe uma peça de
  • I 10 Das coisas do Madure preço, que para êle só mandara fazer, preguntei muitas coisas de Deus, em que se mostrou mui visto; e a uma, que não soube responder, por ter pouca obri- gação de a saber, me disse, que ainda não ouvira aquilo ao seu Gurú; e pregun- tando-lhe mais, que havia de fazer, se visse, que se alevantava alguma persegui- ção, respondeu-me: certo, que nenhuma outra coisa desejava, nem desejo mais que ver-me nela; e não hei-de descansar de pedir ao Senhor, nem hei-de ter -FUio3r. plenário gosto, até a não ver com os olhos; e rindo*-me eu do que êle dizia, acudiu, dizendo: não se ria Vossa Reverendíssima, por me ver com estas cores, porque lhe afirmo em verdade, que já me tomara ver nessa perseguição, para nela mostrar, quanto agora deseja minha alma dar a vida por aquele Senhor, que por mim deu a sua em uma Cruz; e isto dizia com tanto fervor de espírito que ao padre e a mim nos espantava. Aleixo, depois de sua conversão, procede até agora com singular edificação nesta casa: todos os dias, tem uma hora de oração pela manhã connosco, e juntamente faz seus exames; disciplina-se muitas vezes na semana, confessa-se e comunga todos os domingos, com tanta devoção, que parece um noviço muito mimoso de Deus; ouve sempre a minha missa, e afirmo em verdade a V.a Rev.% que, depois que a começo até acabar, não faz outra coisa senão chorar, com tanto sentimento e devoção, que a mim ma não causa pequena. Deus Nosso Senhor lhe queira dar perseverança na santa vida que faz, até à morte. E não cuide V.a Rev.», que tem feito pouco abalo a conversão dêste mancebo em alguns gentios dêste Maduré; porque, tendo-o conhecido por tão vão, como era dantes, e vendo-o agora tão humilde, dizem:
  • Das coisas do Madure 111 certo que me pareceu então isto uma representação ao vivo do que passa no noviciado, quando algum noviço sai da primeira provação, para tratar com os outros: tal me pareceu, naquela hora, a devoção, fervor e alegria espiritual, que aquele bom cristão mostrava no rosto, por se ver já admitido á comunicação dos mais; em verdade afirmo a V.* Rev.*, que por uma coisa destas, no meio de tantas idolatrias, bem se podem passar uma vez e outra os trabalhos da Serra-, pois todos, com esta vista, esquecem e desaparecem. Muito me tem também edificado o brâmane, mestre do Padre Roberto, com sua humildade, que nos brâmanes desta terra, por serem mui soberbos, é milagre; e também com a paciência e sofrimento grande, que tem nos trabalhos e desgostos, que lhe dão os parentes e outros brâmanes, por não querer correr com as ceremónias gentílicas, e ir a seus pagodes a fazer o que fazia. * E certo »fi. iQue me podem fazer meus inimigos? Botarem-me fora de casa? Cortarem-me a linha e o curumbi? Tira- rem-me os olhos e a vida? Façam-no, embora, que a Fé de Deus verdadeiro não ma poderão tirar do cora*ção. E, certo, que cada vez que [o] vejo, me *:i. io5. causa grande devoção. Saiba V.â Rev.a, que tudo isto são invejas do diabo, por não poder sofrer, que aquele que dantes era seu ministro, para enganar alguns, o seja agora de Cristo, para o confessar diante de muitos, como êle o faz aqui, quando alguns vêm a disputar com o padre; e não há muitos dias, que um badagá, homem mui honrado e dos principais da terra, veio aqui, com desejos de saber a verdade para a seguir, e pôs suas dúvidas ao padre tam- bém; e com tanta subtileza, que igualmente ao padre e ao mestre, brâmane, (i) Nt.: que.
  • 112 Das coisas do Maduré que presente estava, causou espanto, como eles depois me disseram; e, final- mente, vendo-se convencido, nem tendo que responder à verdade, que via, se virou para o brâmane, que presente estava, dizendo: «Pois, que dizeis? ;Nas leis dos brâmanes não achais nenhuma verdade?» «Nenhuma, respondeu êle, e me corro agora do pouco que entendi e soube em tantos anos, quantos tenho estudado por estas mentiras». E monta isto tanto para esta gente que aqui vem, pelo terem por muito letrado e de bom entendimento e visto em suas leis, que basta uma só palavra sua para os render, mais que nenhuma outra coisa; e assim o badagá vai continuando em ouvir as práticas do catecismo. E a segunda vez, que tornou a ouvir, já eu aqui estava, e o vi debruçar diante do padre, e estar diante dele, ouvindo o que êle dizia, com tanta humildade e devoção, que ma causou, fazendo-me derramar muitas lágrimas, com as quais me pus logo com os joelhos (i) em terra, e com os olhos no Céu, pedindo ao Supremo Rei dele quisesse pôr os olhos naquela alma, para a encher de seu lume e tomar posse dela; o que fiz, certo, com muito grande consolação minha. «fi.io5v. V." Rev.a, por amor de Deus, mande ter algumas orações * por êle; porque, se êle fôr cristão, muitos o hão-de querer imitar, e seguir suas pisadas; por onde o Padre Roberto deseja muito, que o brâmane se não vá daqui; mas parece que lhe há-de ser forçado ausentar-se por algum tempo, até passar a fúria de seus inimigos; que, por ser tido por homem de tantas letras entre êles, e que sabe mui bem suas mentiras, não o hão-de deixar, até lhe não faze- rem algum mal; por isso, deseja muito o mancebo deixar pai e mãi, e parentes, e ir-se desta terra, por se não atrever com êles a viver nela até isto se passar, pôsto-que o padre lhe disse (2) que não se vá; ainda que saiba que decerto o hão-de matar, não se irá, pelo grande respeito e amor que lhe tem. Folgará V.a Rev.a de saber a conversão dêste brâmane, que é certo coisa para se notar; porque os intentos com que êle entrou nesta casa, foram de perverter ao padre e persuadir-lhe que tomasse cinza e deixasse a lei que pro- fessava; e confiado em suas letras tinha para si, que havia de sair com isto ao cabo, por lhe parecer que não haveria no mundo quem soubesse responder às suas dúvidas, nem soltar seus argumentos, como não há muitos dias nos confessou; e assim se armou, muito de propósito, para isto; mas Deus Nosso Senhor lhe abriu o entendimento, de maneira que conhecesse a verdade; e, convencido dela por meio das razões que lhe dava o padre, amainou as velas da soberba, entrou em outros intentos e desejos, bem diferentes dos que trou- xera, e assim começou a dar-se de propósito a saber os mistérios da nossa Santa Fé, e o que havia de fazer para se salvar; e antes que se resolvesse, nisto andou alguns dias, sem se acabar de resolver; e aparecendo-lhe, de noite, em sonhos, um homem, que o repreendia àsperamente, dizendo: «,;Tu, porque não • fi. 106. tomas e fazes o que aquele saniasse te diz e * ensina?» E êle dizia: «,rComo pode ser aqui, nesta terra, onde sou tão conhecido? Se aquele saniasse fôra para fora daqui, então sim». Respondeu o que lhe apareceu, dizendo: «Não: aqui mesmo é bem que faças o que êle diz». Com isto, e com o grande mêdo, (1) Nt.: giolhos. (2) Nt.; disserão.
  • Das coisas do Maduré que das penas eternas do Inferno teve, se resolveu a ouvir as práticas do cate- cismo e a tomar a lei de Deus, e a fazer-se cristão; queira o Senhor agora, por sua grande misericórdia, dar-lhe perseverança em sua santa lei até morrer; porque espero, que lhe há-de fazer nestas partes muitos serviços. V.a Rev.a, por amor de Deus, por êle e por nós, mande fazer algumas orações, que essas hão-de ser as que nestas partes nos hão muito de ajudar. Atrás se falou, por vezes, de um senhor dêste Maduré, que é o maior, depois do Naique grande, chamado Heremechi Naique; do muito amor e devo- ção que tinha ao padre, e de quanto se pôs por protector de suas coisas contra quem o quisesse ofender, quanto o padre estribava nêle, por ser tão poderoso e o mais privado e alevantado capitão, que há naquela corte. Este, estando para partir para uma guerra, a que o Naique, seu senhor, o mandava, se foi uma noite despedir do padre; e, depois de lhe fazer muitas cortesias e cumpri- mentos, com grande sinal de amor, lhe deu sua palavra, que, trazendo-o Nosso Senhor com vida da guerra, que é assás perigosa, sem falta havia de ouvir as coisas de Deus. Tinha o padre para isto mandado fazer uma como lâmina de oiro, na qual, de uma parte, estava uma cruz, com seu título J. N. R. i) e doutra parte, estas letras: In hoc signo vinces; (2) e declarando-lhe o mistério e significação de tudo, lha atou no braço direito, prometendo-lhe, da parte de Nosso Senhor, que, se êle tivesse intenção e propósito firme de, à tornada, ouvir as coisas de sua santa lei, o mesmo Se*nhor lhe daria vitória. Consolou-se e . ki.io6t. alegrou se grandemente o bom Naique, e despedindo-se do padre, se debruçou por terra, tomando-lhe os pés, como em sinal que desde ali se dava por seu discípulo, dizendo que sua salvação estava na mão dele, padre, e prometendo que, à tornada, faria tudo. Juntamente lhe encomendou um seu filho, menino, pedindo-lhe que o visse e lhe mandasse o sândalo bento, para trazer (3) na testa, como trazem os cristãos em Maduré, em contraposição e desprezo das cinzas dos pagodes, e como remédio para o diabo lhe não fazer mal; e assim [se] foi com grandes mostras de amor, ficando os padres mui consolados; porque, se um senhor tão principal e poderoso, como este, se converte, será sua conversão de muita glória de Deus, e grande motivo para muitos se converterem. (1) Jesus Naçaretius Rex Judaeorum = Jesus Nazareno Rei dos Judeus. (2) Neste sinal vencerás. (3) No orig.: untar. i5
  • "LIVRO TERCEIRO DAS COISAS DO JAPÃO, DOS ANOS DE [MIL] SEISCENTOS E SEIS E [MIL] SEISCENTOS E SETE CAPÍTULO PRIMEIRO Do Estado geral da Companhia [de Jesus] neste Reino OMO quer que, no estado secular de Japão, não houve estes dois anos mudança alguma na paz e quietação, com que todos se governam, por a não haver no senhor universal, que e o mesmo Cubo, e, por outro título, Xugum, de que nas rela- ções passadas se tem escrito, não temos dêle coisa alguma que tratar; e assim nos empregaremos sòmente no que per- tence ao estado eclesiástico da nossa Companhia e Cristan- dade, falando primeiro das coisas comuns, e depois vindo ao particular, do que se fez nos lugares e postos de tão diversos reinos, em que os Nossos residem; e pelos quais de tal maneira, com a graça de Deus e favor de seu poderoso braço, se tem estendido nossa Companhia, que, para quem bem o considerar, não poderá deixar de se admirar grandemente, em ver fundada uma Província inteira dela, com tanto número de colégios, casas, residências, num império de príncipe gentio, e não muito favorável à nossa Santa Fé, e em terras e cidades de senho- res gen*tios, e no meio de tão grande gentilidade, como e a do Japão, e de »fi. 107*. tantos inimigos de nossa Santa Fé, como são os bonzos e ministros dos ídolos; e com tudo isso, viverem os nossos religiosos em tanta paz, quietação e obser- vância da disciplina religiosa, como se fôra nos reinos da Cristandade da Europa. Há, pois, nesta Província do Japão, perto de cento e quarenta pessoas da Companhia. Destes os sessenta e três são sacerdotes; os demais, irmãos; os quais estão divididos por vários postos, em diversos reinos, convém a saber: Na cidade de Nangazaque, onde há um colégio, que é como seminário de toda a Província dos da Companhia, e uma casa de noviciado separada, que num dêstes anos se principiou. Na cidade de Arima, onde há um colégio dos Nossos, e um seminário de estudantes de latim, e escola de ensinar a ler e escrever aos meninos. Em Meaco, onde há uma casa reitoral, e duas residências: uma em uma parte da cidade principal, e outra na cidade [de] Fuximi, logo pegada, em que reside a
  • Das coisas do Japão corte. As outras residências e casas são nos lugares, que ao diante se verão. Foram da índia para o Japão, no ano de [mil] seiscentos e seis, seis da nossa Com- panhia, na nau da viagem, a qual, no golfão, que há entre a China e o Japão, padeceu uma das mais fortes tempestades, que os homens se lembravam terem visto, nem passado; porque, levantando-se um tufão, dos que neste mar costuma haver, no dia de nosso Beato Padre Inácio, foi crescendo de sorte, principal- mente de noite, e com tão bravas e horrendas ondas, encapeladas e cruzadas umas com outras, e tão altas, que pareciam serras, que não davam lugar aos oficiais para marear e se poderem ajudar das velas; por onde, a nau, senho- •fi. 108. reada do vento e dos mares, que nela quebravam com grande fúria, sem * lhe poder resistir, foi tôda à banda, metendo tanto bordo no mar, que até a vêrga e vela do traquete meteu debaixo de água, ficando o convés, até o cabrestante, feito um mar, e a nau tão pendente, como quando lhe dão querena, ou, para melhor dizer, quási virada, de sorte que andava a gente em pé pelo costado, e ainda por outros lugares mais altos, a que cada um, forçado do medo, se acolhia; e aos que lhes era necessário fazerem-no por dentro da nau, o faziam a nado, com assás perigo de vida. Desta maneira, esteve por espaço de três quartos de hora, sem de nenhum modo poder tornar, nem sair de tão grande perigo. Pelo quê, os da nau come- çaram logo a alijar ao mar quanto achavam diante, e buscar remédios, para ver, se podiam marear a vela do traquete, em que tinham algumas esperanças, por ainda estar inteira; mas, porque nada aproveitava, nem havia já que tratar de remédios humanos, recorreram todos à misericórdia divina, pela qual invo- cavam lhes valesse naquela hora; chamando também fortemente pela Virgem Nossa Senhora; e assim, não fazendo já caso da fazenda, nem da vida corporal, procurava cada um a espiritual por meio da confissão, acudindo a ela com a maior devoção e arrependimento que podiam, segundo o tempo lhe[s] dava lugar. Os Nossos, que ali iam, àlém de fazerem seu ofício nas confissões, que a todos ouviam, exortando-os a elas, como o tal tempo requeria, não deixavam também de exortar a todos, a não perderem as esperanças do remédio, o qual, àlém de principalmente o esperarem de Deus, e da Virgem Nossa Senhora, lho pediam também os Nossos, com muita devoção e confiança, por intercessão de Nosso Beato Padre Inácio, em cujo dia se viam em tal tormenta. Animados, pois, com isto, como ainda a vela do traquete estava em estado, que sustentava de • Fi.xo8v. alguma ma*neira a nau, ofereceram a dita vela à Virgem Nossa Senhora de Nangasaque, fazendo-lhe voto, que, se os livrasse do perigo, em que estavam, em chegando a terra, iriam em procissão à sua santa casa, e lhe levariam êles mesmos, às costas, a dita vela. Foi coisa maravilhosa, que, feito êste voto, o vento milagrosamente se mudou logo, e com êle os mares ao rumo que dese- javam, e a nau saiu do perigo. A tempestade abrandou, com admiração de todos, por verem um tão manifesto milagre; e assim com muita alegria chega- ram a salvamento a Nangasaque, véspera da Assunção da Virgem Nossa Se- nhora, à qual logo cumpriram seu voto; porque, saindo da nau, tomando a vela às costas, se foram em procissão à sua santa casa, pelo meio de tôda a cidade, indo descalços muitos dêles, o que foi de muita edificação e devoção para todos os cristãos da terra, que isto viram.
  • Das coisas do Japão 117 CAPÍTULO II Do Estado, em geral, da Cristandade, e de algumas moléstias, que em algumas partes se padeceram e fim que tiveram. DA mesma paz e quietação, de que gozou todo o Japão, quanto ao estado secular, pela prudência e bom govêrno do Cubo, gozou também em geral a Cristandade, com acrescentamento de passante de quinze mil almas, que, nestes dois anos, da Gentilidade se converteram à nossa Santa Fé; pôsto-que, como Nosso Senhor sempre a quere levar, como levou a da primitiva Igreja, com prova de várias moléstias e perseguições, ou pelo menos ameaças delas, não faltaram também algumas, em algumas partes, principalmente nas do Meaco, que, por depen*der delas o bem universal da Cristandade do Japão, «Fi-iog. as apontaremos como coisas comuns, deixando algumas outras particulares para seus lugares. Morreu, no ano de [mil] seiscentos e seis, perto de Meaco, uma senhora nobilíssima, cuja geração e família é das mais principais e mais antigas do Japão, filha de Quiogócu Maria, senhora que foi do reino de Vomí, e da qual, nas relações passadas, se tem muitas vezes falado; e irmã de dois senhores cristãos» também filhos da mesma Maria, que cada um tem seu reino, e sobretudo prima- com-irmã da mãi do príncipe Fidigori, filho do Taico, a quem directamente pertencia o império do Japão. Era esta senhora casada com um senhor gentio; e, pôsto-que morria cristã, e como tal sempre viveu, o marido, contudo, como gentio que era, determinou de a fazer enterrar por seus bonzos, ao modo gen- tílico, dizendo que, como sua mulher era tão conhecida em Japão, convinha para honra sua, que seu enterramento e exéquias se fizessem com a maior sole- nidade e aparato, que fôsse possível; o que não poderia ser, se fossem feitas pelos padres, conforme ao costume cristão. A isto acudiu Maria, mãi da de- funta, como boa cristã que é, dizendo que, por nenhum caso, havia de consentir, que sua filha, que vivera e morrera cristã, fôsse enterrada como gentia; e, para inclinar ao genro a que viesse nisto, lhe prometeu, depois de muitos dares e tomares, que, se a deixasse enterrar pelos padres ao uso cristão, eles lhe fariam um enterramento tão solene, e de tanto aparato, que os gentios pasmassem, e êle com seus parentes ficassem honrados. Com esta promessa o genro se fêz capaz, e condescendeu com a petição da sogra, a qual ficando grandemente consolada, pediu aos padres, que, pois viam o que nisto ia, e quanto daqui dependia o crédito e reputação de nossa * Santa Fé, metessem neste negócio •«. 109». todo o cabedal, que fôsse possível; e ordenou Deus as coisas por sua divina providência, para que tudo sucedesse, como se desejava. Acharam-se neste tempo, em Meaco, alguns alunos, criados no seminário, que ali estavam estudando o modo de confutar as seitas de Japão e seus enga- nos. Estes eram todos músicos e bem exercitados em oficiar solenemente semelhantes exéquias, por ser coisa, de que os japoes fazem muito caso, e em que os bonzos por êste respeito se esmeram grandemente. Tinha-se também, neste tempo, acabada a nova igreja de Meaco, a qual, pôsto-que na grandeza e
  • Das coisas do Japão sumptuosidade, não tenha comparação com alguns templos principais dos ídolos, que há no dito Meaco e seu contorno, contudo, por ser feita a nosso modo, e por ter (i) retábulos de boas pinturas de óleos, de que os Japões pasmam, ajudou tudo isto para mais solenizar o enterramento, conforme ao desejo de Maria; e assim, pelas diligências e aparelhos, que os padres fizeram, saíram as exéquias tais, que todos os mesmos gentios confessavam, que impossível era poderem os seus bonzos fazer [coisa] tão bem feita, e tão devota, e de tanta solenidade e aparato. Acudiram a elas muitas pessoas nobres, parentes da defunta e do marido; muitos amigos e conhecidos dos parentes de uma e outra parte, e tão grande concurso de outra gente, a quem trazia a curiosidade de ver nossos ofícios, por serem para os Japões coisa mui nova e que muito lhes agrada, que, com a igreja ser capaz, não só ela, mas pátios e claustras e tudo, ao redor, estava cheio. Prègou um Irmão nosso, tão versado nas seitas de Japão, que não há bonzo, que lhe chegue, nem se atreva a disputar com êle. Tratou da falsidade e engano das ditas seitas, e, como êles mesmos ensinam, não haver [nelas] salva- •fi. no. ção; mas que os bonzos o encobrem, e trazem * enganada a miserável gente, dizendo exteriormente, que nas suas seitas há salvação, tendo eles para si o contrário; para com isto serem estimados e venerados, e também sustentados do povo, que é o que principalmente pretendem com seus enganos. Correu logo a fama, por todo o Meaco, assim das exéquias, como da prè- gação do irmão, e da grande satisfação, com que ficaram todos os que as viram e ouviram. E, como os bonzos são os maiores inimigos, que a lei de Deus tem em Japão, ouvindo o que se falava nesta matéria, da satisfação, com que ficaram todos os que se acharam presentes, e principalmente da pregação, em que o irmão descobrira seus enganos e embaímentos, ficaram sentidíssimos, assim por verem descobertas suas falsidades, como por verem o credito, que nossa Santa Fé vai cobrando, com tanto abatimento de suas seitas. Pelo quê, logo deter- minaram de acusarem os padres ao Cubo, por irem fazendo muita conversão contra seu mando, e juntamente serem de muito estôrvo aos bonzos de Japão, e outras calúnias semelhantes; mas, porque então estava o Cubo no Quantó, dilataram o negócio até à sua vinda; e, tanto que chegou, deram logo sobre êle, vomitando a peçonha que tinham no peito, fazendo-lhe contar assim do dito enterramento, encarecendo-o ainda muito mais, do que na verdade foi, e como se achara a êle um grandíssimo número de gente, e outras coisas, que faziam a seu intento, como dos muitos que se faziam cristãos, contra seu mandado. O Cubo, que isto ouviu, como não é tão afeiçoado à lei de Deus, um pedaço se alterou, soltando algumas palavras pesadas contra os padres e Cristandade; porém, parte, com os ofícios, que em favor dos padres fêz Canzuquedono, seu • j*i. 110 t. grande privado e defensor da Cristandade, parte pelo * desejo, que tem que se conserve o comércio dos Portugueses com o Japão, e também por ver, que tudo isto era inveja e malícia dos bonzos, tornou logo a abrandar, dizendo que não estranhava fazerem os padres conversão, pois também cada bonzo do Japão procurava, quanto podia, dilatar sua seita, e ter muitos que a seguis- (i) No orig.: de ter os.
  • Das coisas do Japão 119 sem; que, enquanto os senhores e outra gente nobre e de renda, se não fizes- sem cristãos, dos outros nada [se] lhe dava. Porém, ainda que a malícia dos bonzos e sua acusação contra os padres ficou frustrada, não o ficou tanto a da mãi do príncipe Fidigori(i), que, como acima dissemos, era prima-com-irmã daquela senhora defunta; a qual, raivosa da parenta ser enterrada ao modo cristão, e de algumas mulheres de seu ser- • viço, e outra parenta sua se terem baptizado de novo, e também induzida pelos bonzos, e cuidar que fazia nisso serviço aos Gamis e Fotoques, de que é muito devota, se mandou queixar ao Cubo, pedindo-lhe quisesse passar novos edictos, em que rigorosamente proibisse a prègação do Evangelho. A esta petição nem o Cubo contradisse, nem também fez muito caso dela; mas, por contemporizar com esta mulher, a quem sempre deseja ter contente, mandou ao Governador da cidade de Ozaca, onde ela reside, que nas partes principais da cidade se fixasse o edicto seguinte: Ouvindo S. A. (2) que havia alguns, que se tinham feito da lei e religião dos padres, sentiu isto muito, por se^fazerem da tal lei e reli- gião desordenadamente, contra a rigorosa lei, que sôbre isso tem posto. Diz Sua Alteza, que manda a seus criados e nobres, e também às mulheres de seu serviço, que guardem a dita lei por êle posta; pelo quê, daqui por diante, será bom que os sobreditos tenham muito tento em se não fazerem da dita religião, e também os que se têm feito dela, tomem outra lei. Feita aos * vinte da quarta «fi.hi. Lua. Posto êste edicto em Ozaca, não deixou de atemorizar algum tanto os cristãos daquela cidade, e ainda aos das outras partes, quando o souberam; mas não tanto, quanto a mãi de Fidigori (3) e os bonzos desejavam e pretendiam; e nem os próprios gentios fizeram muito caso dêle; porque na forma dêle viram logo, que o Cubo o não fizera, senão por contemporizar com aquela mulher; e, para que esta perturbação, que o tal edicto causou nos cristãos, passasse mais depressa, foi de muito momento a ida, que nesta conjunção fêz a Meaco o Padre João Rodrigues, que, como em muitas relações se tem dito já, desde o tempo do Taico é o terceiro entre os Portugueses e JapÕes, para os concertar e compor no negócio da nau da China e grandemente aceito ao Cubo, o qual padre, logo que chegou, foi visitar o Cubo, para o informar na verdade do que passou, entre os Portugueses e Japões, no negócio da nau, de que o Cubo não estava bem informado; e juntamente lhe levou de presente, da parte do Padre Pr-ovincial, um relógio de dar horas, que o Cubo muito desejava, para o pôr numa das tôrres da sua fortaleza de Fuximi, o qual juntamente mostrava os movimentos do Sol e da Lua, e sinalava os dias dela. Com esta visita do padre, e com o relógio e outros presentes, que lhe levou de coisas, de que êle gostava, o Cubo ficou muito satisfeito, mostrando-lhe muito gasalhado, e se foi abran- dando, cada vez mais, para nossas coisas, daquele ruim coração, que lhe tinham feito as queixas dos bonzos e da mãi de Fidigori (2) e de outros inimigos, ajudando também muito para isto os ofícios, que por parte dos padres fazia Canzuque- dono, seu privado, e outros favorecedores e amigos da Cristandade; e de tanto efeito foram estes ofícios, que desta vez fizeram com êle o Padre João Rodri- (1) No orig.: Tinderorij. (a) Sua Alteja. (3) No orig.: Findeiori.
  • i2o Das coisas do Japão •fi. ui v. gues e os mais amigos, que * daqui tiveram origem os bons sucessos, que daí por diante se seguiram, e favores que este príncipe mostrou e fêz aos padres e à Cristandade, com, neste ano de [mil] seiscentos e seis querer que o Bispo do Japão o visitasse, e no ano de [mil] seiscentos e sete o visitasse também o Padre Provincial da Companhia. E porque cada uma destas visitas foi de tão grande momento, como no discurso desta História se verá, para bem e quietação da Cristandade, e grande cre'dito e reputação de nossa Santa Fé, as referiremos aqui cada uma delas por si. CAPÍTULO III De como o Bispo de Japão, [D.] Lui\ [de] Cerqueira, em trajos e forma de Bispo, foi visitar ao Cubo, senhor do Japão, e déle como tal foi recebido e acatado PORQUE, no tempo, em que o Bispo, Dom Luiz de Cerqueira, entrou naqueles reinos de Japão, estava tôda a Cristandade revolta e inquieta com as grandes perseguições, que padecia do tirano Taico, e porque depois dele morto houve tantas guerras, e elas acabadas, o Cubo que ora é senhor absoluto do Japão, se mostrava tão pouco afeiçoado às coisas de nossa Santa Fé, e limitava tanto as estâncias dos padres, que só três lugares lhe dava, em que vivessem, tendo-os como presos e desterrados. Por esta razão, não pôde o Bispo, em todo êste tempo, sair de Nangazaque, nem exercitar o ofício •fi. 112. «pastoral com a liberdade, que êle requeria e desejava; pelo quê, agora dando já o tempo mais de si, e mostrando-se o Cubo, como dissemos, mais brando para os padres e Cristandade, pareceu, depois de consultado o negócio muito com Deus, e entre os padres, que se podia já tentar o ânimo do Cubo, para querer ser visitado do mesmo Bispo. Foi muita parte, neste negócio, um gentio, privado seu, por nome Ichiam, o qual o mesmo Cubo tinha mandado a Nan- gazaque, com alçada como de Presidente ou Governador, para dar ordem ao negócio da nau dos Portugueses, enquanto esteve naquele porto. Tomou êste gentio tanto conhecimento e amizade com o Bispo, e entendendo os desejos que tinha de se ver com o Cubo, se ofereceu para ser o medianeiro nestas vistas, tanto que se tornasse para a corte. Fê-lo assim, depois que tornou para ela, informando ao Cubo, de quem era o Bispo, a dignidade que tinha, o poder e mando sobre os Portugueses e sôbre todos os cristãos do Japão, no que tocava à salvação; e particularmente lhe declarou quão proveitoso era para a conser- vação da paz, quietação e do próprio comércio, que êle, Cubo, tanto estimava entre estas duas nações. Ouvindo isto o Cubo, fàcilmente veio em que o Bispo o fôsse visitar, o qual, tendo aviso, se partiu logo, levando consigo alguns padres, e irmãos da Companhia. Chegando a Ozaca, que são treze ou catorze jornadas de Nangazaque, soube-se logo na côrte, que êle estava ali; e logo alguns senhores e privados do Cubo o mandaram visitar, dando-lhe os parabéns de sua vinda. Ichiam (i), aquele (i) No orig.: Jechiam.
  • Das coisas do Japão 121 gentio, que dissemos, tinha tomado êste negócio à sua conta, e a visita; man- dou-lhe logo uma embarcação do rio, que são diferentes das que navegam pelo mar, mui bem esquipada e limpa, com muitos criados seus, principais, para nela o * levarem, e juntamente mui bom aparelho para sua pessoa, assim de mesa, •Fi.m*. como de baixela, ao modo de Japão. Nesta embarcação foi o Bispo, pelo rio arriba, dali a Meaco, que são dôze léguas, encontrando neste caminho muitas embarcações de cristãos, que da cidade o vinham receber, mostrando todos grande alegria de verem seu pastor, naquelas partes. Desembarcou uma légua antes de chegar à cidade, onde achou os principais cristãos dela, que o estavam esperando com vários refrescos, como é costume. Ao outro dia, foi aquela légua por terra, acompanhado de todos, até chegar à cidade, e a se recolher na casa dos padres, onde também o estavam esperando grande multidão de cris- tãos, que com suma alegria e consolação de todos o receberam. Chegado o dia, em que havia de ir falar ao Cubo, foi ao paço, vestido com trajo ordinário de Bispo, em umas andas, ao modo de Japão, levadas em om- bros de homens, conforme ao uso ordinário da terra; e, como o Cubo estava bem informado da sua dignidade, e de como em Japão era cabeça dos cristãos, querendo-o honrar mui particularmente, mandou que nas mesmas andas, em que ia, entrasse pelo paço; e, sem se apear, fôsse nelas até certo lugar, onde até agora não foi, nem costuma ir nenhum senhor do Japão; o que foi coisa de grande honra e privilégio. Estavam, no mesmo ponto, alguns senhores no paço, todos com seus presentes, esperando conjunção para ver ao Cubo; mas primeiro que a todos, quis ver ao Bispo, e assim mandou que entrasse na sala, aonde o estava esperando, vestido com os vestidos, de que usa em actos públicos e solenes; e com bom e alegre semblante o recebeu, fazendo-o chegar muito perto de si, até certo lugar alto e honroso, que êle mesmo tinha antes assinalado e mostrado ao Padre João Rodrigues, que como língua * e intérprete do Bispo • Fi. o. entrou com êle na mesma sala. O presente, que o Bispo lhe ofereceu, estimou muito, por ser de coisas boas e mui estimadas em Japão. Foi esta forma de agasalhado e recebimento de muita honra, e que o Cubo não costuma fazer, senão a certos parentes mui chegados do Dairi, que é o Rei natural de Japão. Agradeceu-lhe o Cubo o tra- balho, que levara em o vir visitar de tão longe. Mandou aos seus principais, que lhe fôssem mostrar os paços e fortaleza de Fuximi, onde de ordinário reside, e também os de Meaco; e ao governador do dito Meaco deu ordem, que desse quem lhe fôsse mostrar todos os templos, que nele há, que são os melhores de todo o Japão, e tudo o mais que houvesse naquelas partes para ver. Final- mente, foi o sucesso desta visita tal, que todos falavam nêle, espantando-se particularmente os gentios das extraordinárias honras, que o Cubo lhe fizera, as quais, como foram vistas de tantos senhores, não sòmente na côrte se falava delas, mas ainda pelas outras partes mais remotas, com grande alegria dos cristãos assim do Meaco, como de todo o Japão, recebendo todos com isto ânimo e novas forças, vendo tratar tão honràdamente a seu pastor, o senhor de todo o Japão. Visitou também o Bispo alguns senhores daquela côrte, que mais privam com El-Rei, dos quais foi recebido e tratado com muito grande honra e cortesia; 16
  • 122 Das coisas do Japão no que mais se assinalaram Conzuquedono, que na privança é o primeiro, e o governador do Meaco, por nome Itacuradono, ambos pessoas de muito ser e bem afectos a nossas coisas, por terem já ouvido algumas prègações do cate- cismo; e foram muito de estimar os oferecimentos, que ambos estes lhe fizeram, para serem protectores da cristandade em todo o Japão, até lhe chegar a dizer • fi. 113 v. Conzuquedono, que como ele desejava de se salvar, vendo * agora a Sua Senho- ria, assim o via, como se vira o Tento, que é o mesmo que dizer: como se vira a Deus. Em todo o tempo, que o Bispo esteve naquelas partes, foi visitado de todos os cristãos, não sòmente dos de perto, mas ainda dos de longe, recebendo o sacramento da Confirmação os que o não tinham recebido; e, quando se houve de vir, se despediu do Cubo e dos mais senhores daquela corte, que o tinham visitado, e todos lhe mostraram singular benevolência com muitos oferecimentos e também agradecimentos das visitas, que êle lhes tinha feito, ficando assim êles, como o Cubo, com grande opinião e conceito da pessoa do Bispo, e mui bem afectos assim a êle, como às coisas da cristandade. Já dos cristãos não se pode encarecer o amor e encarecimentos, com que agradeciam o tê-los visitado e consolado com sua presença; e o mesmo se via em todos os mais cristãos das terras, por onde vinha, e principalmente em Ozaca, onde se deteve alguns dias, acompanhando-o muitos dêles algumas léguas, ao partir da cidade. E chegando à cidade de Cocurá, no reino de Bu- gém, de que é senhor Jecundono, marido de Grácia, tão nomeada nas relações passadas, não se pode bem declarar as honras e gasalhados que êste príncipe, com ainda ser gentio, fêz ao Bispo, e o gôsto e alegria que os cristãos desta cidade, que são muitos, com sua vista receberam. Além dos presentes, que houve de parte a parte, banquetes e mais festas, que Jecundono lhe fêz em seus paços, com grande solenidade e aparato, conforme a sua generosidade e nobreza, de que êle tanto se preza, por ser das antigas de Japão, quis tam- bém achar-se presente a uma missa do Bispo, pôsto que ordinária, pedindo-lhe para isto licença com muita instância, a qual ouviu com muita reverência e aten- ção, e também a pregação, que se lhe fêz da verdade da nossa Santa Fé e fal- •fi. 114. sidade das seitas de Japão, o que tudo sumamente * lhe agradou; e da mesma maneira aos seus principais, que o acompanhavam. À despedida, se ofereceu ao Bispo por protector e defensor da cristandade em tôda a parte, como há já muito que o é, e por obra o tem mostrado algumas vezes; e concluiu com lhe dizer, que, pôsto-que ainda não recebera o santo Baptismo, soubesse, porém, Sua Senhoria, que em seu coração era cristão, e que nesta conta o tivesse daí por diante e tratasse com muita chaneza, como a um seu súbdito; dando com isto a entender, que não acabava de se manifestar publicamente e receber o santo Baptismo em respeito do Cubo, que tinha proibido fazerem-se cristãos senhores grandes.
  • Das coisas do Japão 123 CAPÍTULO IV De uma comprida Jornada, que por bem da Cristandade, que estava mui afligida, e Promulgação do Evangelho que se impedia, o Superior da Companhia, do Japão, fê\ ao Cubo e a seu filho; e daí, com a boa nova, a tôda a Cristandade em vários reinos espalhada EA STE bom sucesso desta visita, que o Bispo fêz ao Cubo, no ano de [i]õo6, abriu caminho para a que, no ano seguinte de [i]6o7, lhe fêz o Padre Pro- vincial desta Província, a qual pareceu que por particular providência de Deus foi ordenada para os bens, que dela se seguiram e esperam; e, porque, nesta jornada e visita, houve muita variedade de coisas dignas de memória, as iremos referindo mais por extenso. Depois que o tirano Taico, antecessor do Cubo, desterrou os padres da Companhia, de Japão, e levantou nos derradeiros anos de sua vida contra a cris- tandade aquela grande perseguição, que nas relações passadas se têm es*crito; «flim*. e ainda que o Cubo, que agora governa, seu sucessor, se houve mais branda- mente com os padres; contudo, como nunca levantou os edictos do Taico con- tra êles, e os foi sempre tendo por desterrados, mostrando-se também adverso à nossa santa lei, e proibindo que os nobres e grandes a não tomassem, por isto nunca superior algum da Companhia teve entrada, para como tal aparecer diante dêle. E, ainda que, os anos passados, viu ao Padre Alexandre Vali- gnano, Visitador que era daquelas partes, não o viu, porém, nem recebeu como superior da Companhia, senão como embaixador do Vice-Rei da índia. Por onde, depois de maduro conselho, que sobre isso se tomou, e de muitas orações que se fizeram sôbre êste negócio, para que Nosso Senhor o guiasse, e inspi- rasse o que fosse de maior glória sua, ainda que todos os anos sempre mandou visitar o Cubo e seu filho por algum dos Nossos, em nome da Companhia, neste se resolveu a fazê-lo por si mesmo, para maior bem da cristandade; e para isto lhe deu ânimo e ocasião o dizer o Cubo, depois que recebeu a visita do Bispo, que, se também o Padre Provincial da Companhia o quisesse ir visitar, o rece- beria; coisa que logo alguns seus privados, amigos nossos, escreveram ao Padre Provincial, exortando-o a que nenhuma dúvida tivesse de fazer logo êste ofício por sua própria pessoa; mas, primeiro que se abalasse, para se segurar mais na certeza do negócio, mandou um homem ao reino de Surunga, que é um dos de Quantó nos últimos fins de Japão, onde então estava o Cubo, com cartas a Conzuquedono, o maior privado do Cubo, e por quem tudo corre, para lhe fazer saber da determinação, que tinha, e dêle, como de tão grande amigo, entender o que havia de fazer. Deu logo Conzuquedono conta ao Cubo, de como o Padre Provincial da Companhia estava determinado de o ir visitar. Mostrou o Cubo estimá-lo muito, dizendo, que fosse em boa hora, que êle lhe faria o devido agasalhado; mas que só lhe pesava, por não ter ao presente boas casas para o receber, * como -fluS. era razão, por não estarem ainda acabadas as obras, que trazia entre as mãos. Esta resposta escreveu logo Conzuquedono ao padre, encomendando-lhe que se
  • 124 Das coisas do Japão apressasse, e estimasse em muito esta mercê e favor, que o Cubo lhe fazia, de o querer ver e fazer-lhe gasalhado; pois era em tempo, que o não fazia a senhor algum de Japão, por ter proibido a todos, que nenhum o fôsse visitar. Resoluto o padre com esta resposta, se partiu de Nangazaque, a cinco de Maio de [mil] seiscentos e sete; e, em onze dias, com bom tempo, chegou à cidade de Ozaca; antes da qual, sabendo os cristãos de uma povoação, por nome Muró, como o padre passava para as partes do Cami, lhe saíram ao encontro, em suas embarcações, assim homens, como mulheres e meninos, com seus presentes de fruta, mostrando todos grande alegria de ver o padre e os de sua companhia; do qual animados e consolados, e também convidados com presentes espirituais de contas bentas, imagens e Agnus Dei, que êles instante- mente pediram, se tornaram para suas casas, ficando o padre mui edificado de ver sua devoção e constância na Fé, que fielmente conservam, sendojtão poucos entre tantos gentios. Chegado a Ozaca, concorreram logo aqueles cristãos a visitá-lo e dar-lhe a boa vinda, a qual, por haver muitos anos, que o superior da Companhia não fôra àquelas partes, era para êles de grande alegria, ânimo e forças, maior- mente ouvindo o bom fim, para que a elas viera. A mesma mostraram os cristãos da cidade de Fuximi, para onde logo se partiu, vindo-o receber ao rio, em suas embarcações, com muito refrêsco, não faltando também com o mesmo, emquanto ali se deteve. Ao dia seguinte, se partiu para Meaco, aonde foi recebido dos Nossos e dos cristãos, que também o vieram a esperar ao caminho, com a mesma alegria e festa. Nos dias que ali esteve, foi visitado dos mais • fli«5▼. * cristãos, que ali há em maior número, que nas cidades daquelas partes, com grande alegria e consolação dêles, e não menor do padre, vendo tanto número de cristãos em todas aquelas partes do Cami, havendo tão poucos no tempo, que êle padre nelas residiu, há mais de vinte anos. A primeira saída, que o padre fêz depois de chegado, foi ir visitar ao governador do Meaco, que o recebeu com grande gasalhado e amor, oferecendo-se-lhe juntamente para tudo o que fôsse necessário, e principalmente para o caminho que havia de fazer até ao reino de Surunga; para o quê, lhe deu uma carta, como provisão, dirigida a todos os oficiais de El-Rei, e cabeça[s] das terras e lugares, por onde o padre havia de passar, encomendando-lhes encarecidamente, e ainda encarregando-lhes, fizessem ao padre todos os gasalhados possíveis; de modo que assim êle, como os demais, que consigo levava, pudessem fazer seu caminho seguramente, sem estorvo; coisa bem para notar, e que ainda entre cristãos, não se pudera esperar mais de um muito devoto e intrínseco amigo. Com esta carta, ou provisão do governador do Meaco, partiu o padre, com os seus, por terra, para a cidade, onde então estava o Cubo, no reino de Su- runga, a qual se chama Fochú, levando em sua companhia o Padre Reitor do Meaco e de tôdas aquelas partes, e outro padre, seu ordinário companheiro, e três irmãos japões, que não podia escusar, para o fim que pretendia. Acompa- nharam-no os principais cristãos do Meaco, por espaço de uma légua; e, despe- dindo-se ali dêles, continuou seu caminho, no qual todo, lhe aproveitou muito a carta do governador; porque por ela lhe faziam todos grande gasalhado, pon- do-lhe ainda, para maior segurança, guardas na casa, em que de noite se reco-
  • Das coisas do Japão 125 Ihia, quando, pela ruim fama do lugar, ou escuridão da noite, * parecia • pi. 116. disso haver necessidade. Com êste bom recado e com bom tempo, que Nosso Senhor lhe deu, chegou o padre, em oito dias, a um lugar cinco léguas da cidade de Fochú, onde foi logo avisado, que esperasse ali, até vir recado, que podia ir; o qual vindo dali a três dias, partiu o padre para a dita cidade e corte do Cubo, onde depois de chegado, foi visitado de alguns cristãos, que ali havia, e também de gentios, nossos amigos, e em particular do Conzuquedono, mandando-lhe dar a boa vinda por um seu criado; o mesmo fêz Gotoxaburo- dono, também muito privado do Cubo e grande amigo nosso, vindo êle mesmo dar a boa vinda ao padre, dizendo, como Sua Alteza tinha já sabido de sua chegada, da qual mostrava alegrar-se muito e estimá-la, por vir o padre de tão longe sòmente a o visitar; que logo o havia de ver. No mesmo dia, mandou outro recado Conzuquedono, avisando ao padre, como dizia o Cubo, que ao dia seguinte, a tais horas, o havia de ver; pelo quê, se fizesse prestes para isso. Chegado o dito dia, torna outro recado do mesmo Conzuquedono, que o padre se apressasse e fôsse logo ao paço, porque a visita havia de ser mais cedo do determinado. Assim o fêz, levando consigo os padres e irmãos, que até ali o acompanharam, e também ao Padre João Rodrigues, tão conhecido naquela côrte, que a ela chegara alguns dias antes, assim para negociar o bom sucesso da vinda do padre, como também o bom despacho de alguns negócios, importantes ao bem da cidade de Nangazaque, e regedores dela, que ao presente estavam naquela côrte, chamados do Cubo. Chegado o padre ao paço, se saiu logo Conzuquedono e o recebeu, e a todos os mais, que o acompanhavam, com muita cortesia e afabilidade; e, como, nesta visita, êle era o principal, que a tinha tomado sobre si, mos*trou bem em .fi.u6v. tudo o desejo, que tinha, que sucedesse bem e com grande honra do padre e da nossa santa lei, que tanto mostra favorecer e ajudar; e assim determinou logo o lugar, donde o padre havia de fazer sua visita e ver ao Cubo, que era muito honroso, e onde não entravam em semelhantes actos, senão senhores prin- cipais de Japão. Determinado o lugar, e eparelhado o presente, que o padre levava para dar ao Cubo, saiu êle para o ver, muito bem vestido, para o qual pediu lhe dessem os melhores vestidos; pois havia de ver o padre, que era estrangeiro, e o vinha visitar de tão longe; e assentado em uma cadeira recebeu o padre e o presente, que levava, com muito alegre semblante, dizendo, que lhe agradecia o trabalho que levara em o vir visitar de tão longe, como era Nangazaque. Estas palavras tiveram todos por grande honra, e favor mui par- ticular, por, de ordinário, não costumar a dizer nada em semelhantes visitas, ainda a senhores principais. Depois disto, viu aos mais padres e irmãos, com o mesmo semblante; e, recolhido para dentro, falou muito bem do Padre Pro- vincial, do mando que tinha para com os Nossos em Japão e na China; de como, por seu conselho e direcção, se negociavam as coisas da outra costa, que êle cada ano encomendava; finalmente, de como era muito proveitosa para a Tença, sua estada em Nangazaque, e outras coisas mais a êste propósito, mostrando além disso a suas mulheres o presente, que o padre lhe levou; que vissem as boas coisas que aquele padre lhe trouxera, vindo-o de tão longe visitar. Acabada a visita com tão bom sucesso, se saiu o Padre Provincial do paço,
  • 126 Das coisas do Japão acompanhando-o Conzuquedono e Gotoxaburodono(i) até à porta da fortaleza; e, dando-lhe assim êles, como outros muitos, os parabéns de tão bom sucesso, • fi. 117. se despediram ambos do padre, com as mãos postas * no chao, em sina e reverência e profunda cortesia. O mesmo fizeram alguns gentios, nossos ami- gos, mostrando todos folgar muito de quam bem sucedera a dita visita. Uma coisa aconteceu nela, em que se viu bem, como Deus Nosso Senhor particular- mente a ordenava, tirando os estorvos, que podiam impedir seu bom sucesso, e em que Conzuquedono mostrou também o desejo e vontade, que tinha de favorecer nossas coisas, e em particular a dita visita, de modo que tivesse aquele bóm sucesso, que se podia esperar; e foi, que, vindo novas da morte e Micavanocami, senhor do reino de Jechiém, filho mais velho do Cubo, mas nao legítimo, e por essa causa não herdeiro da casa. No dia em que havia-de ver o padre, considerando Conzuquedono, que se o Cubo soubesse da dita morte, antes que o visse, seria causa de se dilatar a visita, e também de o nao ver e receber com aquele semblante e alegria, como êle desejava o visse e recebesse, usou de uma diligência e modo singular, para que dela não soubesse, senão depois de ver e receber o padre; esta foi tomar e recolher todas as cartas, que vinham do reino de Jechiém, que falavam da dita morte, pondo para isso gran- des guardas e vigias nas portas do paço, e ainda nos caminhos, por onde podiam vir do dito reino, para que [de]tivessem as pessoas e cartas, que disto lalassem, de modo que tão tristes novas não fossem ter às orelhas do Cubo, nem de nenhuma outra pessoa do paço, que lhas pudesse contar, antes de ver e receber o padre. Foi isto coisa, que assim a nós, como aos mais que dela souberam, espantou muito; caindo então [11a conta], que esta fora a causa, por que dera tanta pressa à visita do padre; com a qual deu bem a entender Conzuquedono, quam bem afecto era e o amor que tinha a nossas coisas, e também que desejava favorecer • Fi. ,17 v. o padre nesta visita, de modo que ti*vesse bom sucesso diante do Cubo, como de feito teve, conforme a opinião de todos: tanto que, com isto, diziam que ficávamos já restituídos; e que outro sinal de nossa restituição nao era necessá- rio, pois o costume de Japão era, que, quando o que desterrava, chegava a ver o desterrado, bastava isto para se ter já como restituído. E já que falei na morte de Micavanocami, filho mais velho do Cubo, nao deixarei de tocar brevemente o que nela aconteceu, por ser coisa notável e digna de se saber, mas não [de] se imitar. Esta foi que, depois da morte do dito Mica- vanocami, oito criados seus, e dos mais privados que tinha, sentindo-se obriga- dos de seus benefícios, e do amor com que particularmente até ali os tratara, desejando, como êles diziam, de lho pagar com a morte, já que com a vida o não puderam fazer, como eram obrigados, e acompanhá-lo até à outra vida, como fielmente o fizeram nesta, movidos dos ditos benefícios tomaram a morte com suas mãos, cortando todos publicamente as barrigas, como gentios que eram, e que não sabiam por que caminhos e a que terras ou reinos o acompa- nhavam. Não foram estes sós, os que por tal via deram consigo mais depressa nos infernos, mas também outros seis, que fizeram o mesmo, na morte do outro filho do Cubo, por nome Sateumano Cami, senhor do reino de \ oari, que tam- (1) A'o orig.: Gatoxozaburodono.
  • Das coisas do Japão 127 bém este ano morreu em Yendo, da mesma doença que o irmão, uns na cidade de Viosú, do dito reino de Voari, e outros na de Yendo, concorrendo tôda a cidade a lhes ver cortar as barrigas; entre os quais se assinalou mais um, no ânimo e esforço com que o fez, assim como foi o principal no ruim amor, que em pequeno teve ao amo, e o amo a ele. Foi êste feito, de uns e outros, mui gabado dos gentios, louvando e engrandecendo muito mais aquele, que com maior ânimo e esforço se cortara, tendo que * nisto ganharam todos grande «n.ns. honra, e nome de fiéis e leais para com seus senhores. Não foram só os gen- tios seculares, que tal género de morte, e por tal causa, louvaram e aprovaram, mas antes os bonzos fizeram o mesmo, assistindo-lhes em tal acto, e ainda ani- mando-os; e que se houvessem nêle como esforçados, deixando com isso que imitar aos vindoiros; e que, como a causa era tão boa, que não havia que duvidar da salvação; com o quê mais os miseráveis se apressavam no feito, sem saber o pago, que os estava esperando. Assim quê, como em mortes de tais pessoas aconteceu semelhante caso, arreceiam-se muitos, que se introduza tal género de morte, e por tal causa, em Japão, que havia anos estava já como esquecido. Tornando, pois, ao fio do que iamos dizendo, como o Cubo recebeu tão bem ao padre, e disse dêle o que temos dito, coligiram todos os nossos amigos, e ainda muitos outros daquela corte, quanto estimara o Cubo sua visita, e quam bem afecto ficava para com nossas coisas; o que se viu ainda muito mais nos dias, que o Padre Provincial ali se deteve, falando algumas coisas nêle a Con- zuquedono e Gotoxaburodono, mostrando muito desejo de o honrar e favorecer, para o qual fim lhes disse, que, já que o padre chegara até a visitá-lo, seria bom que fosse a Yendo, a visitar também seu filho herdeiro, que ali reside, para com isto ficar o sucesso de sua visita melhor e mais cumprido. E dizen- do-lhe Conzuquedono, que já desde Nangazaque vinha o padre com esse intento, agora, [visto] que a Sua Alteza lhe parecia bem, o poria de melhor vontade em execução, e ainda agradecia a mercê que lhe fazia, em querer que o visse seu filho. Mostrou folgar grandemente com isso, dizendo, que fôsse em boa hora, e que, se levasse gôsto de ir ver as * novas minas de prata, que há pouco se descobri- .fi. 118*. ram no reino de Yzzú, que êle também o levaria, traçando êle mesmo o cami- nho, por onde o podia passar, e o pôrto, donde se podia embarcar e desem- barcar; e que para isso lhe dessem sua mesma embarcação, em que êle costuma andar, mui bem esquipada. São estas minas do reino de Yzzú mui ricas de prata, e também de algum oiro, e de que vem ao Cubo grande proveito, cada ano; e, como não estão mais de três jornadas, pouco mais, da cidade de Fuchú, [do reino] de Surunga, onde êle reside, faz muito caso delas, e folga que lhas vejam e louvem, maiormente estrangeiros; pela qual causa desejou, que o Padre Provincial as visse, pôsto-que depois, tendo respeito ao trabalho, que o padre levaria no caminho, se contentou, que em seu lugar as fôssse ver o Padre João Rodrigues. Visitou o padre a Conzuquedono, de quem foi recebido com muita honra e agasalhado, tratando com êle mui familiarmente, e em particular do muito que o Cubo estimara a visita do padre, e como por esta via ficavam em melhores ter- mos, que nunca, como claramente enxergara no ânimo do Cubo, que dela se mos- trava mui satisfeito, maiormente da verdade, [de] que sempre tratavamos; e isto sem interêsse algum, como por vezes tinha experimentado o mesmo Cubo, lou-
  • 128 Das coisas do Japão vando mais pelo discurso da prática, em particular, ao Padre João Rodrigues, de quam bem e religiosamente se havia sempre, em todos os negócios, que tra- tava diante do Cubo, para bem do povo de Macau (i) e de Nangazaque, como pouco havia, se vira no negócio dos governadores de Nangazaque e Ychiam gentio, governador principal dela, no tempo da nau, que actualmente corria naquela corte, diante do Cubo e seus universais governadores; no qual negócio • fi. 119 se houve o dito padre de maneira, que de todos, e ainda do * mesmo Cubo foi muito louvado: tanto que, movido o dito Ychiam de ver, que, sendo êle o cul- pado, pretendera o padre por tantas vias aliviar sua culpa, e ainda encubri-la, obrigado com isto e pezaroso, pelo não ter feito muito dantes, desejou então de se baptizar, o que sem dúvida parece fizera, se a estreita prisão e desterro, que logo se lhe seguiu, e muito mais as guardas contínuas, que tinha, lhe deram lugar para isso. Visitou também o padre a Gotoxaburodono, por ser êle o que, depois de Conzuquedono, pôs o último de potência, para que a visita do padre tivesse o sucesso, que teve, tomando isto tanto a peito, como se fôra coisa sua própria. Foi extraordinário o agasalhado que fêz ao padre, e alegria que mostrou, por suceder tão bem sua visita, e dizendo algumas vezes, em nosso favor e da cris- tandade, muitas coisas, na forma que o fêz Conzuquedono, e oferecendo-se de novo a nos favorecer em tudo o que pudesse. Tratou particularmente do con- tentamento do Cubo, pela visita que o padre lhe fizera, acrescentando como remate de tudo, que daqui por diante estivéssemos descansados e sem pena; porque a dita visita fôra como uma amarra, com a qual assim nós, como nossas coisas e igrejas, e também a lei, que prègavamos, ficam mais fixas e seguras em Japão. • FI. 119 *. * CAPÍTULO V Da Jornada, que o mesmo Padre Provincial fê\ à Cidade de Yendo a visitar o Xògúm, Jilho do Cubo, com o mesmo intento do bem da Cristandade e Promulgação do Evangelho CONCLUÍDA, pois, a visita do pai com tanta alegria de todos, partiu o padre para a cidade de Yendo, a fazer a do filho, levando para o cami- nho uma carta comendatícia de Conzuquedono, como a que trouxera até ali do governador do Meaco, e outra também para Fonda Sadondono, seu pai, que naquela côrte é o principal, e o que mais pode com o Xògúm, na qual carta lhe encomendava muito favorecesse o padre, de modo que sua visita tivesse o mesmo sucesso, e ainda melhor, se fôsse possível, diante do Xògúm, que tivera diante do Cubo, seu pai. Dista a cidade de Yendo da de Fuchú (2), do reino de Surunga, quatro jornadas pequenas, para a banda do leste, no qual caminho está aquele tão celebrado monte dos escritores e pintores de Japão, por sua altura e formosura chamado Fuij ou Fuijcan, o qual é tão alto, e excede (1) No orig.: Amacao. (2) No orig.: Fuchúm.
  • Das coisas do Japão 129 em muitas partes a todos os mais montes dêle, levantando-se sobre todos, de modo que a todos fica senhoreando com sua altura, a qual é tanta, que aparece três dias, antes que cheguem a ele. Este é aquele alto monte, que de muitas léguas ao mar aparece por cima das nuvens aos Espanhóis, que navegam das Filipinas para a * Nova Espanha, a que chamaram monte de fogo, por muitas *fi. 120. vezes o lançar de si, por um espantoso buraco, que está no mais alto dêle. É êste monte igualmente redondo por todas as partes, e nesta forma e figura se vai graciosamente levantando até ao cume, a modo de pirâmide; é cheio o meio de muito e mui grosso arvoredo e daí para cima, todo escampado, sem árvore nenhuma, pela muita neve, de que quási todo o ano está coberto; pelo quê, causa uma formosa e alegre vista, aos que o vêem, assim em razão de sua figura tão perfeita, como pela variedade, que nêle há de arvoredo, neve, névoas e nuvens, que de ordinário cercam o mais alto dêle. E o circuito deste monte tão grande, que abrange com suas fraldas a três ou quatro reinos, que nelas vêm entestar. Há, nas raízes e pé dêle, alguns templos de ídolos; e o principal deles é o de Cami, a quem êste monte está dedicado, chamado Xenguém; pelo quê é tido em Japão desta cega gentilidade por monte sagrado e santo, indo a êle uma vez no ano, pelo mês de Agôsto, grande número de peregrinos de diversos reinos, por ser então tempo quente, e em que há menos neves e frios, e por isso mais acomodado para subirem a êle, e cumprirem sua romaria. São os dias do dito mês, em que sobem a êste monte, como determinados e certos, os quais acaba- dos, não há quem se atreva a subir lá, por causa dos ares delgados e grandes frios, que logo começam tão intensos e ásperos, que se não podem sofrer. Começam, pois, a subir os ditos peregrinos a êste monte, à boca da noite, para que cheguem lá em amanhecendo, e se tornem com de dia; e sobem em tal tempo, porque dizem ser o monte tão alto, e a subida tão íngreme e medo- nha, que, fazendo-o de dia, se-lhe vai o lume dos olhos, vendo a grande altura e perigo, a que se põem. Acabada a sua romaria, se tornam por várias * par- »fi. i»t. tes, vindo como em tombos pelo monte abaixo, por cima da areia solta, ou cinza do fogo, que há em abundância nos altos daquele monte, desandando desta maneira, em poucas horas, o que tinham andado em muitas. Dêstes peregrinos havia muitos por aqueles caminhos, os quais gastam muita parte do ano em romarias a diversos templos, Camís e Fotoques afamados em Japão, não tendo conta com o trabalho, que levam em tão compridas peregrinações, sòmente por lhes parecer, que nisto ganham merecimento, ou também que o não podem deixar de fazer, para cumprir os votos, que ou êles fazem, ou outros, em cujo lugar os vão cumprir, pelo prémio, que por isso lhes dão. Tal é o desejo e inclinação, que esta nação geralmente tem às coisas da salvação, tendo para si, enganada tão cegamente pelo demónio, que por estes ou outros semelhantes meios a alcançam. Depois do reino de Surunga, se segue o de Yzzú, e depois dêste o de San- gamí, onde está Camarurá, que antigamente e por muitos anos foi corte do Japão, em que residiam os Cubos ou Xògúns, e dali governavam a Tença; mas agora está tal, que se não vê nela mais que as ruínas e sinais do que seria em seu tempo, que é fama ter já então mais de duzentas mil casas, não tendo agora quinhentas. Aqui se deteve o padre um ou dois dias, nos quais andou '7
  • i3o Das coisas do Japão vendo aquelas antigualhas e patranhas, que os velhos contara, e de que os livros de Japão estão cheios. Aqui está ainda um Fotoque de bronze, de estranha grandeza, como aquele do Meaco, chamado Daibut, pôsto em um campo, à chuva e ao sol, sem servir aquela vasta mole de outra coisa mais que de colheita e pôsto das aves, que se querem abrigar dentro dêle, dos ventos e chuvas. Finalmente, há ali outras velhices, que vendo-as, e ouvindo as suas antigas • ki. 121. origens, serviram de * entretenimento ao padre e à sua companhia. Partido o padre de Comacura, chegou a um lugar, duas léguas da cidade de Yendo, onde o sairam a receber ao caminho alguns cristãos dos que há naquela cidade, com seus presentezinhos de refresco, dando-lhe os parabéns da boa vinda, mostrando receber com ela alegria e contentamento. O mesmo fizeram os mais, depois de o padre entrar na cidade, não ficando quási nenhum, que o não viesse visitar. Vindo, pois, o dia, em que o padre havia-de fazer sua visita ao Xògúm, que foi logo que lhe disseram de sua chegada, foi o padre ao paço, com os padres e irmãos que trazia consigo, levando seu presente, como é costume; e, como Fonda Sadodono, pai de Conzuquedono, tinha tomado à sua conta a dita visita, e o Xògúm naturalmente é benévolo e humano, não teve menor sucesso diante dêle, do que teve diante do pai; antes podemos dizer, que o teve melhor, pelo tempo e conjunção em que foi; porque, estando o padre, na sala dianteira, esperando com seus companheiros, que o chamassem para entrar a fazer sua visita, eis que entram também, para o mesmo, [fim] dois bonzos, os mais principais do Japão, chamado um dêles Taichoró, grande ini- migo de nossa santa lei, e o outro Gaceu, mui afamado em letras, os quais, como cabeças dos mais bonzos do Japão, traziam consigo a dois ou três choras, também bonzos principais, e superiores de varelas do Meaco, para os apresen- tarem ao Xògúm, e entercederem por êles; e, como eram bonzos de tanta marca, e os que os guiavam tinham tanta entrada no paço, sem esperar mais nada, entraram logo para dentro, lá mais no interior, e se puseram com seus •fi.ui v. presentes na antecâmara, donde o Xògúm havia-de ver os * que o vinham visitar; parecendo-lhes provàvelmente que por sua gravidade e autoridade e por en- trarem primeiro, e estarem tão perto, seriam também os primeiros, a quem o Xògúm veria e receberia; mas tudo lhes sucedeu ao revés; porque de primeiros foram os derradeiros, e os nossos, derradeiros na entrada e lugar, foram os primeiros que foram chamados, conforme ao Evangelho; e passando pelo meio dêles e de outra muita gente, com seus mantéus e barretes, entraram aonde estava o Xògúm, vestido de festa para receber o padre, como recebeu, com muita benevolência e humanidade, agradecendo-lhe o vi-lo visitar de tão longe, com tanto trabalho, por caminhos tão compridos, mostrando no semblante e palavras, com que o recebeu, a alegria que tinha de o"ver, e a todos os mais nossos, que o acompanhavam. Acabada a visita, com tão bom e próspero sucesso, a juízo de todos, se saiu o padre, passando outra vez pelo meio dos bonzos, que não poderiam deixar de sen- tir, ficarem êles por derradeiro, e muito mais a honra e gasalhado com que o Xògúm recebera ao padre, e em particular a liberdade e segurança, que da tal visita se poderia seguir, para estarmos mais à nossa vontade em Japão, e nêle prè- garmos livremente o Santo Evangelho, que é o que êles mais tem[era] e arreceiam.
  • Das coisas do Japão i3i Acompanharam o padre até à penúltima sala Fonda Sadodono e Sagami- dono, aio de Xògúm, que também nos favoreceu muito nesta visita, e é o que de ordinário fala por nós, diante do dito Xògúm. E despedindo-se ambos do dito padre e dos mais, com muita cortesia, lhe disse Fonda Sadodono, que visse muito de * vagar os paços e fortaleza. São os paços, ainda que de *fi. m. madeira, mui formosos, lavrados ricamente de uma obra muito prima, todos doirados por dentro, e pintados de várias pinturas pelos mais insignes pintores de Japão, umas com oiro, outras com tintas de diversas cores, entresachadas artificiosamente entre o oiro, com que a pintura fica mais graciosa e alegre à vista; obra, certo, de muito custo e feitio, e que em qualquer parte do mundo parecerá muito bem, e se estimará em muito, por sua formosura, preço e arte. Não era uma só câmara, nem uma só sala a que estava desta maneira pintada, e, como digo, quási cozida em oiro, mas muitas, mui largas e capazes. E dêste feitio, e ainda melhores, segundo diziam, havia outras lá no interior, maiormente as casas, em que de ordinário está a mulher do Xògúm, com suas damas; da qual era fama, que sòmente cada quadrado do forro, que terá cada um, palmo e meio ou dois em quadro, chegará a uma barra de oiro, que valerá agora perto de oitenta cruzados. Nem se vê sòmente esta formosura e limpeza nas casas, por dentro; mas também em muitas delas, pela parte de fora, tendo algumas, as malhas, frontispícios e portais doirados, e feitos de rica marcena- ria, com várias figuras e pinturas de árvores, flores e animais, abertas em pau, com muito artifício; tanto que os que viram os paços, que Taico, os anos atrás, mandou fazer em Meaco, chamados Juracú, que quere dizer paraíso, por sua formosura e galanteria, dizem não levarem nisto vantagem a estes. A mesma formosura se vê também por fora, naquela cidade, em muitos outros paços de senhores de Japão, procurando cada um de se esmerar na obra dêles, segundo suas * forças, dourando ainda até as pontas das telhas de suas • casas e cêrcas. Todos os principais e imediatos à Tença tem ali feitos seus paços, em sítios mui grandes e espaçosos, cercados todos com boas e limpas paredes, a seu modo; e estes são tantos em número, que alem da boa vista, que fazem com sua formosura e limpeza, se pode dizer que eles, por si só, fazem uma boa cidade, afora a em que moram os mercadores e gente popular, que também é de boa grandeza. Viu mais o padre a fortaleza e muro, por fora, de que está cercada, o qual é todo de pedra ensossa, como em Japão costumam, mas mui igual, bem feito e forte, pôsto-que não acabado de todo, por mandar o Xògúm fazê-lo mais alto, do que antes era. E esta foi a obra, para a qual, o ano atrás, o Xògúm chamou a aquela cidade todos os senhores de Japão, e que, indo em pessoa, levassem consigo tôda sua gente, conforme a renda que cada um tinha; e chegando a êle, desde Fevereiro até o mês dé Agosto e Setembro, se ocuparam nas obras dêste muro, fazendo nisso grandes gastos, assim por ser longe de seus reinos e terras, como por serem forçados a trazer a pedra de muitas léguas, por a não haver naquela cidade, nem perto dela; e a gente que, segundo afirmam, se ajuntou para esta obra, e que nela se ocupou (i) por todo êste tempo, seriam passante de trezentos mil homens, (i) No orig.: occuparam.
  • i32 Das coisas do Japão os quais todos comiam às custas suas e de seus senhores, sem o Cubo lhes dar mais, que algum pouco de arroz, de quando em quando, para ajuda da comida; pelo quê, foram imensos os gastos, que nesta obra se fizeram. E não foi de menos maravilha, que, sendo tão grande a multidão e varie- • fi, 123. dade da gente, que aqui se ajuntou, * assim soldadesca com suas armas, a ponto para tudo que sucedesse, como da outra ordinária, nunca se viu entre eles briga alguma, nem revolta, que fôsse de consideração; e tudo pelo bom governo e ordem, que o Cubo nisso teve. Ao tempo que o padre aqui chegou, andava ainda na obra do muro inumerável gente, e também na de uma torre, que sôbre êle se alevanta, que se diz ser o maior e mais soberbo edifício de todo o Japão. N[o] mesmo dia, foi o padre visitar o Saiamidono e Fonda Sadodono, também com seus presentes. Recebeu Fonda Sadodono o padre e os demais, com muita alegria, e tratou com grande cortesia. É êste fidalgo, como temos dito, o principal naquela corte, e que, depois do Xògúm, é o que manda tudo, como o faz seu filho Conzuquedono diante do Cubo; é homem recto e desin- teressado, e de mui branda condição, e mui afável para com todos, e a quem tem o Xògúm como por pai; pelo quê, como é tal e pode tanto, lhe encomendou o padre nossas coisas, pedindo-lhe as tomasse sôbre si e favoresse; e que daqui por diante nos encomendávamos todos a êle, como o tínhamos feito a seu filho, e em particular toda a cristandade e promulgação do Santo Evangelho em Japão, para que se pudesse fazer, sem impedimento, nem estorvo nenhum, como o fazem as demais seitas dêle, pois a outra coisa não vínhamos de nossas terras; e isto era o porque fazíamos aquelas compridas jornadas, dizendo-lhe breve- mente, como nossa santa lei não era em nada prejudicial ao govêrno de Japão, em a sujeição devida dos vassalos para com seus senhores, antes muito pro- veitosa para todo o estado de gente; porque, como era tôda conforme à razão, não podia ensinar nada. que fôsse em prejuízo dos reinos e povos, mas antes • fi. i»3 t. de muito pro*veito para as coisas desta vida, e muito mais para as da outra, que era o principal que da promulgação dela pretendíamos e o que sòmente buscávamos; e que lhe podia mais dizer, que com boa ocasião falasse nisto ao Xògúm, alcançando-nos dêle liberdade, para não sòmente receber a gente comum e popular, que seu pai não proibia, mas também os senhores e nobres, sem nisso haver diferença de estado e condição. Tudo ouviu com tenção, parecen- do-lhe mui justa nossa petição; e assim, louvando primeiro quam bem acertada fôra a vinda do padre a Yendo visitar o Xògúm, e fazer-se seu conhecido, para maior bem da cristandade e nosso, respondeu que era mui justo, que assim como em Japão havia diversas seitas, as quais cada um recebia e seguia, como lhe vinha à vontade, assim também houvesse a nossa; e que disso estava o Xògúm capaz, que êle assim lho diria; pelo quê, nesta parte, estivéssemos des- cansados, e que dali por diante o tivéssemos por um firme protector e defensor nosso e da Cristandade. Com estes favores se despediu o Padre Provincial, assás contente com o que achara em Fonda Sadodono, e com grandes esperanças, que, tendo tal pessoa de nossa parte, e que de tão boa vontade se oferecia a nos favorecer e a nossa santa lei, não teríamos daqui por diante que arrecear; e que assim por
  • Das coisas do Japão 133 isso, como pelo bom sucesso da visita, que fizera ao pai e filho, nos podíamos ter e haver já, em Japão, como restituídos, segundo também era prática entre todos. Oito dias se deteve o Padre Provincial aqui, em Yendo, com consolação dos cristãos, que concorrem ali de diversas partes, e também de alguns poucos, que moram na terra, os quais com as práticas familiares, confissões e prèga- ções, que houve naqueles dias, se animaram muito mais, não faltando também alguns, que receberam * o santo baptismo, depois de fazerem bom entendimento «pi. u*. do que se lhes prègava. Houve naqueles cristãos muito fervor em acudir às missas, que cada dia se diziam, e em pedir coisas de devoção, como Agttus Dei, contas bentas, imagens, verónicas, contas de rezar, aos quais se procurou satis- fazer, sem ficar quási nenhum na terra, que não levasse algumas coisas destas. " Todos desejaram e ainda pediram, que tomássemos ali sítio, e edificássemos nele casas e igreja, em que residissem alguns dos Nossos, de assento, com os mais ministros necessários, como há em outras partes, dando como razão, que, se os Nossos ali estivessem, se faria notável fruto, por ser a gente daquela terra, e, geralmente tôda a mais do Quanto, mui inclinada às coisas da salvação, como bem se via nos muitos, que ainda pelas ruas e caminhos andavam, com suas contas de gentios nas mãos. A êstes desejos se lhes satisfez, de boa maneira, dando-lhes esperanças de muito cedo se cumprirem; o que por agora não podia ser, por estar a Companhia de Japão tão falta do necessário, para lançar mão de semelhantes emprêsas; que não se atrevia o Padre Provincial a pedir ali o sítio, nem menos na cidade de Surunga, como eles e nós desejamos, e a nobreza da terra e esperanças do muito fruto, que nela se faria, o estavam pedindo; o qual sítio se o padre pedira, com tão boa ocasião fàcilmente se lhe dera; mas que o deixava para outro tempo, quando Nosso Senhor nos desse forças para o fazer e continuar com o começado. * CAPÍTULO VI • Fl. 114 y. Da volta que o Padre Provincial fê\ a Surunga, e o que passou nela CHEGADO já o tempo de se tornar o padre, se mandou despedir do Xògúm, mandando-lhe de presente, à despedida, alguns brincos, que muito estimou; e êle o mandou também ao padre e aos mais nossos, que o acompanharam, de alguns vestidos de sêda, em bom número, agradecen- do-lhes de novo a visita e o presente que lhe dera de coisas tão boas e tão novas na terra. Da mesma maneira se mandou despedir de Fonda Sadodono e Sa- gamidono, os quais lhe mandaram também seus presentes de vestidos de sêda, que é o que mais corre em Japão, no que Fonda Sadodono se mostrou mais liberal, mandando também aos mais padres e irmãos seus presentes de vestidos também de sêda. Concluída, pois, a visita, com tão bom sucesso para o que se pretendia, se partiu o padre para Surunga pelo mesmo caminho, por onde viera, mas não com a mesma companhia; porque o Padre João Rodrigues se foi dali, por mar, a ver as minas de prata do reino de Yzzú, conforme ao que
  • I34 Das coisas do Japão o Cubo desejara; e ao Irmão Paulo, japão, mui conhecido naquela corte, deteve o Xògúm nela por alguns dias, para lhe concertar e armar em uma torre um relógio de dar horas, que por nossa via se lhe fizera na cidade de Nangazaque; e outro padre, com um irmão, foi por outra parte a visitar e consolar alguns •fi. n5. cristãos, que estão no reino de * Conzuque, três dias de caminho da cidade de Yendo, para a banda do Norte, aonde nunca tinha ido padre nem irmão. Grande foi a alegria è consolação, que receberam aqueles cristãos com a ida do padre, a qual foi tanto maior, quanto menos a esperavam, por estarem tão fora de mão, e quási sem esperanças de poder ir ali padre, tão cedo, com que se consolassem e animassem. Confessaram-se todos e comungaram os que eram para isso, ficando com novas forças, por meio dos Sacramentos, que receberam, para se conservarem sãos e inteiros no meio daquela gentilidade. O senhor da terra, que era pessoa principal naquele reino, e sogro de Conzuquedono, e também do principal daqueles cristãos, fêz grande gasalhado ao padre; e além de outros favores, o convidou a jantar em sua casa, com a qual ocasião desejou também de ouvir a substância de nossa santa lei e o principal, em que se fundava, o que logo se lhe declarou, ficando êle e muitos dos seus, que estavam presentes, mui satisfeitos do que se lhes prègou, louvando muito as razões, com que o prègador lhe pro- vava a verdade de nossa santa lei, que ensinava a adorar não mais que a um Deus Criador do céu e da terra, que era o que só se havia-de servir e adorar; o que, como para êles era coisa nova e nunca ouvida, senão de longe e como por sonhos, ficaram além de satisfeitos, admirados de tal doutrina, mostrando desejos de a ouvir mais de vagar, e pedindo ao padre, quisesse lá ir, cada ano, uma vez, porque com isso iriam pouco e pouco fazendo entendimento da ver- dade, que ensinava. É para dar graças a Deus, como aqueles poucos cristãos se conservam na devoção e fervor das coisas da salvação, procurando-as tanto • fi.jj5v. de propósito; pelo quê, muitos daqueles gentios desejaram de ouvir prèga*çãor e saber o em que se fundava a lei dos cristãos, que tais coisas ensinava, e pela qual faziam os que a seguiam tão boas obras, procurando de a guardar tão exactamente. Consolados aqueles cristãos, continuou o padre seu caminho pelo reino de Xinano, no qual reino está também outro monte mui afamado, que de quando em quando lança de si grande cópia de fogo, e faíscas misturadas com muitas pedras, que arremessa dali mui longe, com bem de perigo dos vizinhos e cami- nhantes, que perto dêle passam. E também êste monte de muita romagem,, a que, de certos em certos tempos, vai muita gente, em romaria, dos reinos e terras comarcãs, por ser dedicado a certo Cami, que dêles é venerado; mas, às vezes, por mal dos ditos romeiros, como havia poucos anos tinha acontecido a alguns, que, indo lá em romaria, arrebatou o fogo e num momento queimou e abrasou a mais de cinqíienta; os corpos fêz em cinza, e as miseráveis almas lançou no inferno para sempre. Caminhou, pois, o padre por o dito reino, até chegar ao de Mino, onde, por haver ali alguns cristãos, que ainda ficaram do tempo passado, assim na cidade^de Guifú, cabeça daquele reino, como em outras partes dêle determinou o padre, com tão boa ocasião, de os visitar e consolar. Dois dias se deteve com êles, com assás consolação sua, e daqueles fiéis, que
  • Das coisas do Japão 135 Nosso Senhor ali ainda guarda e conserva, para semente de outros muitos, que por seu meio e exemplo virão por tempo a abraçar e seguir a verdade. Foi particular providência de Deus, fazer o padre esta digressão à cidade de Guifú, e nela se deter os dias, que se deteve, não sòmente para espiritual bem daqueles cristãos, mas também de outros, que ali concorreram de diversas partes, sabendo de sua vinda à dita cidade, e em * particular para bem de um cristão, que *fi. «6. estava já no último da vida, o qual como morava no caminho, por onde o padre havia-de passar, ouvindo dizer de sua vinda, se alegrou grandemente, dando graças a Deus pelo trazer ali a tal tempo, que pudesse morrer confes- sado; pelo quê, lhe mandou logo um recado, fazendo-o sabedor do estado em que estava, pedindo-lhe muito, que de caminho o quisesse confessar. Confes sou-se com grande consolação sua e do padre, e também dos circunstantes, louvando todos a divina Providência, que tal ordenara para bem daquela alma; a qual, conhecendo o benefício que Nosso Senhor nisto lhe fizera, não cessava de lhe dar graças, dizendo que agora morreria consolado e com esperanças de salvação. Baptizou o padre também alguns meninos, que achou por baptizar por aquele caminho; e com êste fruto se recolheu ao Meaco. Partido, pois, o padre de Yendo, chegou à cidade de Vondavará, no reino de Sangami, entre a de Yendo e a de Fuchú, de Surunga, a qual, antes que Taico a rendesse e sujeitasse por armas, indo em pessoa sôbre ela com todo o seu poder, era cabeça de todos os oito reinos de Quanto, em cujo lugar sucedeu depois a de Yendo, que agora é a principal, e cabeça dos ditos reinos. Saindo desta cidade, se começa a subir uma serra alta e fragosa, tôda cheia de mui espessas e ásperas montanhas. Nesta serra, não muito longe da estrada, está uma pequena ermida, em um lugar solitário e fora de mão, fundada ao pé de uma rocha viva, em um sítio, a que com dificuldade e como trepando se pode subir. Nela habita um bonzo com alguns discípulos, tido e estimado dos igno- rantes por grande santo, e ainda por Amida vivo; e como a tal o veneram e adoram muitos, a quem êle sabe bem vender sua santidade, enganando-os e fazendo-os * crer, que não nasceu neste mundo, como os outros homens, senão •n. u6v de uma milagrosa maneira, e por um modo fora do comum, que foi, segundo êle conta, de um sonho que sua mãi viu, sendo de dezaseis anos, do qual ficando prenhe, o veio a dar à luz, e lhe profetizou que havia-de ser adorado e reve- renciado dos homens, e que outra coisa não buscasse neste mundo, senão a sal- vação, e esta ensinasse às gentes; pelo quê, para cumprir a profecia da mãi, deixara o mundo e se retirara aquele êrmo, e vivia naquela pobre casa, susten- tando-se sòmente das ervas e frutas das árvores, sem ter outro cuidado nem ocupação, que invocar o nome de Amida, e êste ensinar aos homens que o invoquem, se se querem salvar. Tudo isto fazia crer êste bonzo enganador à rude e ignorante gente; e além disso, que lançava de si uns certos resplandores, e que até o nome de Amida, que dava por escrito a seus devotos, para o terem e adorarem, fazia o mesmo, por ser escrito de sua mão; e que, calçados uns sapatos ou tamancos de ferro, caminhando por debaixo da terra, por um certo buraco, ia e vinha de noite ao monte, chamado Fuijsans, de que acima falamos, e se comunicava com o Cami daquele monte, que dali dista dois dias de caminho; e que, de andar aquele caminho tantas vezes, tinha gasto já tantos tamancos.
  • 136 Das coisas do Japão Finalmente, com estes e outros semelhantes enganos e fingimentos, era tão grande a opinião de santidade, que dele corria, que não sòmente dos lugares vizinhos, mas ainda dos reinos e terras mui remotas o vinham muitos a ver e adorar, dizendo que vinham a ver a Amida vivo, que nestes tempos aparecera, e dele receber o seu nome, escrito por sua mesma mão, para o terem e adora- rem como relíquias, o qual não dava êle de graça, senão por alguma coisa, que • fi. 127. por isso lhe • davam, ou fosse dinheiro, ou frutas de comer, que era o de que sòmente se mantinha, segundo êle dizia. Concorria, pois, a ignorante gente, de muitas partes, a ver e adorar este embaídor, o qual, em sentindo que vinha para este efeito, saía logo lá de dentro, todo vestido de branco, com um bordão de ferro na mão; o cabelo solto, e umas alparcas de junco calçadas nos pés, para não tocar com êles no chão, e desta maneira, com uma grande soberba e requebro, subia o falso Amida e verdadeiro enganador a um lugar alto, como altar, e dali recebia os que o vinham ver e adorar, os quais, pela fama que tinham de seus embaimentos e mentiras, que por ignorância cuidavam ser ver- dades, e vendo presencialmente o extraordinário modo de seu tratamento de sua pessoa, e juntamente a maneira, com que vivia naquele deserto, e nêle se sustentava, não como os demais homens, parecendo-lhes por sua cegueira e rudeza, não ser aquilo coisa humana, prostrados o reverenciavam e adoravam, como se fôra um Fotoque, que êles costumam adorar, sem o diabólico bonzo fazer nenhum movimento de si, nem mostrar sinal de cortesia, mas fixo e imó- vel, como se fôra uma estátua, recebia aos que vinham, dizendo-lhes sòmente, com grande prosopopeia e arrogância, algumas coisas, cora que mais os embaía e enganava. Correndo, pois, tanto a fama da falsa santidade dêste bonzo, e vida tão áspera, que fazia em semelhante lugar, e da veneração em que tantos o tinham, pelo que dêle soava, determinou um irmão nosso, japão, ir ver e descobrir os embaimentos e enganos, com que enganava a simples gente, e a trazia a seu culto e veneração. Para isto se disfarçou o irmão e seus companheiros, e assim • fi. 127v. disfarçado subiu, com trabalho, ao lugar # da ermida do enganador, e entrando dentro com não sei que presente de fruta, para com isto o mover mais a sair a o ver e aos que levava consigo, saiu o bonzo, com alguns discípulos da ma- neira, que acima tenho dito; e com um grande pêso e fingida gravidade, se subiu e assentou no lugar alto e eminente, que para isso tinha, parecendo-lhe que, como sempre, seria, dos que vinham, adorado e reverenciado, como dos demais. Logo, para mais dissimulação, começou o irmão a dizer algumas coisas fingidas em louvor do bonzo, louvando-lhe maiormente a comodidade do lugar, para com isto mais fàcilmente o tirar a campo; o qual, como outra coisa não desejava que ser louvado, e louvar e engrandecer suas coisas, e fazê-las críveis aos ignorantes, para dêles ser venerado e adorado, começou logo a contar de seu milagroso nascimento, estado e vida, que tivera antigamente, e ao presente tinha naquele lugar, e de como a gente o vinha ver e adorar, e pedir a salva- ção, que êle também buscava com tal modo de vida e comodidade de lugar; e finalmente outras coisas muitas a seu propósito. Tudo o irmão lhe ouviu com atenção, e passando com êle algumas breves práticas, chegando ao ponto, lhe disse que, já que era Amida vivo, segundo
  • Das coisas do Japão diziam, lhe dissesse, como se entendia certa autoridade dos livros de Amida, que logo lhe propôs, porque desejava de a entender; ao que o embaidor res- pondeu, que, se êle era Amida vivo ou não, êle o não sabia, mais que o que sua mãe lhe dissera, e que, quanto ao sentido da autoridade, era êste e êste; ao que replicando o irmão, e provando-lhe com razões e outras autoridades, que tal não podia ser, e que nem ainda a significação pura e sentido das letras sabia. Concluído isto, se escusou, dizendo que êle não estudara, nem sabia nada. Pois, se não estudastes, nem sabeis nada, lhe disse o irmão, como pro- fessais ensinar aos homens o caminho da salvação, ou, para melhor dizer, os * enganais ? Além disto, dizem mais os ignorantes, que lançais de vós uns cer- «n. u8. tos resplandores, e que até o nome de Amida, que dais por escrito, faz o mesmo, A tudo isto respondeu o bonzo, dando diversas escusas; e delas e das respostas que dava ao que o irmão lhe ia preguntando, foi concluindo o ignorante bonzo e descobrindo cada vez mais seus embaímentos e enganos; de tal maneira que? perdendo as cores, por se ver descoberto, não sabia já parte de si, mais que con- fessar sua ignorância. Os discípulos, que isto ouviam, enfadados grandemente e corridos, por verem a seu mestre tão apertado, e reduzido a tais termos que se manifestassem seus enganos e fingimentos, não se sabiam dar a conselho; nem menos viam a hora, em que se havia-de acabar a contenda. O que vendo os que acompanha- vam o irmão, começaram a zombar do triste bonzo e ainda a o repreender, chamando-o de embaidor e enganador dos pobres e ignorantes, apanhando-lhes com enganos e mentiras, sua pobreza; ameaçando-o que o haviam-de acusar ao Cubo, cujos criados eram, e fazê-lo enforcar e a todos os que o seguiam. E com isto, deixando o bonzo e seus discípulos envergonhados e assás pen- sativos do que lhes poderia acontecer com tais ameaças, se saiu o irmão e os demais, e desceram abaixo a umas estalagens, que ali havia, por causa do grande concurso de gente, de diversas partes, que vinham a ver e adorar o bonzo enganador, avisando aos estalajadeiros e mais gente, dos enganos e igno- rância daquele bonzo; e ainda ameaçando-os, que seriam castigados pelo Cubo, se êles concorressem nos tais enganos, autorizando-os, e ao autor deles; com o quê ficaram tão atemorizados, que nem o preço do que comeram, os que acom- panhavam ao irmão, pediram; escusando-se que êles não estavam ali mais, que para ganhar a vida, e que em nada concorriam com o bonzo, nem menos acre- ditavam suas coisas. Assim quê, por esta via, ficou perdendo * o crédito o bonzo • i'i. 128 v. enganador, e seus enganos descobertos e manifestos aos que souberam o que passara; e se crê, que, pouco e pouco, o serão também os de mais longe, para que o não venham ver e adorar, como até agora fizeram. Do que se pode bem coligir a grande inclinação, que esta nação tem às coisas da salvação, e o muito que fazem por ela, deixando-se levar tão fàcilmente, por êsse respeito, de seme- lhantes enganos e patranhas. 18
  • Das coisas do Japão CAPÍTULO VII De como o Padre se partiu de Surunga para o Meaco CHEGADO o padre a Surunga, como não tinha mais ali que fazer, man- dou pedir licença ao Cubo, para se tornar para o Meaco, e dali para esta cidade de Nangazaqui. Deu-lha o Cubo, com palavras amorosas, agradecendo-lhe de novo o trabalho, que tomara em o ir visitar de tão longe*, e por seu respeito a deu também aos regedores de Nangazaqui (que por certos negócios e embaraços, que brevemente acima toquei, em que lhes punha alguma culpa, os tinha ali como retidos, sem esperança de os despachar tão cedo, e dar licença, para se tornarem para suas casas) dizendo que se tornassem com o padre para suas casas; com o quê, assim eles, como os mais da cidade, que estavam assás perplexos e duvidosos do que aconteceria a seus regedores, con- forme ao que tinham ouvido, se alegraram grandemente, tendo o tal livramento por benefício do Padre Provincial, como claramente Gotoxozaburodono deu a •fi.u9. entender aos ditos regedores, dizendo que o agradecessem ao * padre, por cujo respeito o Cubo lho concedera tão cedo. Deu o Cubo ao padre, de presente, alguns vestidos de sêda, dos que se usam em Japão, em sinal de quam bem afecto e satisfeito ficava dele e de nossas coisas, usando com o padre de uma liberalidade, pouco usada dêle para com os demais, ainda que sejam grandes senhores: o que todos tiveram por particular favor e mercê, que fazia ao padre, e nêle a toda a Companhia de Japão, ficando com isto mais confirmados, que agora ficavam nossas coisas e [as] da Cristandade mais firmes e seguras; e como reduzidas aos termos, em que estavam antes da nossa perseguição. Despediu-se mais o padre de Conzuquedono e Gotoxozaburodono, que tam- bém o fizeram dêle, com seus presentes de vestidos de sêda e outras coisas, aos quais de novo e por despedida tornou o padre a encomendar a protecção e amparo da Cristandade e Companhia de Japão, pedindo-lhes encarecidamente a favorecessem em tudo, como até agora fizeram, particularmente a Conzuquedono, como a pessoa mais principal e de tanta valia diante do Cubo, da maneira que o padre o pedira a seu pai, maiormente que com alguma boa ocasião nos alcan- çasse perfeita liberdade para [a] promulgação de nossa santa lei em todo o Japão; de modo que a recebesse quem quisesse, assim altos, como baixos, sem por isso caírem em desgraça do Cubo. Para êste efeito, se deu a Conzuquedono, por escrito, um tratado da doutrina e verdade de nossa santa lei, e de como havia um Creador do céu e da terra e da alma, e sua imortalidade, e de como havia outra vida e esta eterna; conseguintemente prémio dos bons, e castigo dos maus e males, que um fazia nesta vida; dos dez mandamentos da lei de Deus, •fi. 129*. * que ensinamos, e em particular, da força dos juramentos dos cristãos, e de como os têm e guardam mais inviolàvelmente que os gentios, ponto em que muitos embicam, parecendo-lhes, por não saberem a verdade do que passa, que, ou não temos juramentos, ou, se os temos, fazemos pouco caso dêles; a qual opinião introduzida pelo demónio, inimigo de todo o bem, nos tem feito grande mal e a toda a Cristandade; finalmente, da falsidade e enganos das seitas
  • Das coisas do Japão de Japão, e de como nelas não há salvação, alegando-lhes para isto muitas auto- ridades e textos dos livros das mesmas seitas, a que êles não podem contra- dizer: tudo em elegante estilo, e com palavras brandas e modestas, que o Irmão Fabião, mui versado nas seitas de Japão, compôs de propósito, para se oferecer ao dito Conzuquedono; o qual tratado êle depois viu, e preguntou algumas dúvidas ao Irmão Paulo, que, como acima digo, ficou em Yendo; satisfazendo-se em tudo com as respostas, que o irmão lhe deu. A esta petição do padre res- pondeu Conzuquedono, como dêle se esperava, e que êle se lembraria de falar ao Cubo no que o padre lhe pedia, quando visse ocasião para isso, e que no mais estivéssemos descansados, que, enquanto êle fosse o que agora era, não tínhamos que arrecear nenhuma mudança, assim em nossas coisas, como na Cristandade, que tanto havia tomado sobre si, e agora de novo as tomava muito mais. Com êstes e outros muitos favores de Conzuquedono e Gotoxozaburodono, que seria largo referir, se tornou o Padre Provincial para o Meaco, alegre e contente com tão bom sucesso, assim diante do Cubo, como diante de seu filho, o Xògúm, dando por * isso muitas graças a Nosso Senhor, que de tudo fora o .fi. i3o. principal autor e movedor dos corações daqueles senhores, como quem os tinha em suas divinas mãos, para o receberem, como receberam, fazendo-lhe os gasalhados e honras, que lhe fizeram, adquirindo com isto uma firme esperança do fruto, que ao diante se seguirá em toda a Cristandade, a qual não poderia deixar de ficar mais animada com tais e tão alegres novas; e conseguintemente mais livre e segura, para sem arreceios e temores humanos se poder dar mais livremente às coisas da salvação. De caminho, visitou o padre e consolou alguns cristãos, maiormente os do reino de Voarí, moradores da cidade de Giyozú, com os quais se deteve com seus companheiros o tempo, que foi necessário para os confessar e sacramen- tar. Haverá ali como cento e cinquenta cristãos, que maravilhosamente se conservam, com as ajudas espirituais, que cada ano recebem de um padre, que de Meaco os vai visitar. Alegraram-se todos grandemente com a vinda do padre, recebendo com êle novas forças, para perseverarem firmemente na Fé; e o padre se alegrou também de os ver nela tão firmes e contentes, e tão dese- josos de sua salvação. Daqui continuou o padre seu caminho para o Meaco, aonde, como já havia novas do bom sucesso, que em tôdas as partes tivera, estavam aqueles cristãos com grande alvoroço, para o irem receber ao caminho com um honroso recebimento; para o quê, tinham feito grande aparelho de coisas de comer, a seu modo, com que os Japões costumam fazer estes recebimentos; mas, lembrado o padre do muito, que lhe tinham feito à ida para Surunga, para escusar o trabalho e gastos, que nisso fariam, lhe furtou o corpo, antici- pando o dia e tempo, em que êles cui*davam entraria no xMeaco, entrando nêle »fi..3ot. no dia e tempo que menos cuidavam, ficando desta maneira frustrados de seus bons intentos, mas não da alegria, que receberam com sua repentina chegada, vindo-lhe dar os parabéns dela, e muito mais do bom sucesso, que Nosso Senhor lhe dera, para êles de tanta consolação e forças; e assim diziam, que agora ficavam mais seguros e livres, à sombra desta visita do padre, do que em nenhum tempo estiveram, para mais à sua vontade correrem com as coisas de cristãos,
  • 140 Das coisas do Japão as quais com tão bom sucesso não podiam deixar de ir muito por diante, não sòmente no Meaco, mas ainda em todas as demais partes do Japão. Nos dias, que o padre se deteve no Meaco, àlém da consolação e forças que receberam os nossos com suas práticas e avisos santos, receberam também todos aqueles cristãos, assim do Meaco, como das cidades de Fuximi, Osaca e Sacai, com as prègações, que o padre lhes fêz, e particularmente com a sole- nidade dos ofícios divinos, que em cada casa das que ali temos se celebraram; para o quê, levara o padre bons ornamentos e instrumentos músicos, e alguns Doiucos, tangedores e cantores; e, como era em tempo dos jubileus das ditas casas, se aparelharam os cristãos, por meio dos Sacramentos da Confissão e Comunhão, para os receber com a maior devoção que lhes foi possível; para o qual ajudou muito a adoração do santo Lenho da Cruz, metido em outra cruz grande, doirada e ornada, que os anos atrás mandou nosso Padre Geral para esta cristandade, e a de um formoso A gim s Dei, com outras relíquias; e, à roda, tudo ricamente guarnecido. Reside na fortaleza de Osaca, como por vezes se tem escrito, Findiyori, fl i3i. filho do Taico, e sua mãe, com todos os seus, * governando aquela cidade como senhor dela; e como ali temos uma casa e muitos cristãos, assim antigos, como modernos, julgou o Padre Provincial, que não podia deixar de os visitar, assim por este respeito, como também por entender, que a dita mãe de Findiyori e os seus principais estavam um pouco tomados dos padres, parecendo-lhes que não faziam tanto caso de Findiyori, como era razão fizessem, por ser quem é; do que procedia também não se mostrarem tão afeiçoados aos cristãos e coisas de nossa santa lei, nem menos favorecerem ao padre e igreja, que ali temos; e disto foi bom exemplo o público edito, que o ano passado procurou a mãe de Findiyori, que o Cubo mandasse fazer e pregar nas portas da dita cidade de Ozaca, pelo qual proibisse, que nenhum do serviço do dito Findiyori, assim homens, como mulheres, se fizesse cristão; e os que já fossem feitos o deixas- sem de ser, como atrás se disse, parecendo-lhe então (i) boa conjunção, para por esta via se vingar, assim do que imaginava de nós, como também por ser fina gentia, do sentimento que teve de uma sua prima morrer cristã, e se-lhe fazerem umas solenes exéquias na nossa igreja do Meaco, que foi causa do agastamento, que o Cubo mostrou ter contra nós, por sinistras informações que lhe deram de nossas coisas, e em particular das ditas exéquias, e extraordinário concurso de gente, que nelas houve. Pelo quê, como tinha passado isto, e Findiyori e sua mãe sabiam da vinda do Padre Provincial ao Camí, a visitar ao Cubo e seu filho, e quam bem recebido fora dêles, determinou o padre de o ir visitar com seu presente, como é costume. Tem Findiyori, por ser ainda de pouca idade, um aio por nome Ychinocami, que o governa a êle e a tôda a cidade de Ozaca. Sabendo Ychinocami como a padre vinha visitar a Findiyori, estimou-o grande- tíi v. mente, * recebendo o padre com grande cortesia, gasalhado e honra; e, como êle fôra o que fizera pregar o edito nas portas de Ozaca contra os cristãos, e por cujas mãos correra tudo naquele tempo, como governador que era da terra e casa de Findiyori, vendo que sem respeitarmos o passado, o vinha o padre (i) No orig.: em tam.
  • Das coisas do Japão 141 visitar e reconhecê-lo por quem era, corrido e envergonhado, segundo mostrava, do que tinha feito, se escusou ao padre com muitas palavras, não uma, mas muitas vezes, como quem lhe pedia perdão, dizendo que o fizera forçado e não por sua vontade; que em seu coração não havia outra coisa, nem menos a haveria em Findiyori daí por diante para com nossas coisas e igreja, que ali tínhamos; e do sítio dela, sobre que havia pouco que houvera algum embaraço não tivéssemos pena, que tudo ficaria como dantes e ainda muito melhor. Finalmente, disse tantas coisas em nosso favor, e fêz tantos oferecimentos para o diante, que mais se não podia esperar de um gentio; e muito menos o arrependimento que mostrava, por ter posto o tal edito, molestando por esta via os cristãos e a igreja; o que tudo atribuímos ao bom sucesso, que Deus Nosso Senhor dera em Surunga e Yendo ao padre, confirmando-nos mais com isto, que a sua ida a tão remotos reinos fôra particularmente ordenada pela Divina Providência, pois dela se seguiam tão bons efeitos. Depois de todas estas práticas e favores, levou Jechino Camí o padre a ver a Findiyori, vestindo-se para isto assim êle, como alguns pagens de Findiyori, de certo trajo, que não vestem senão em recebimento de pessoas graves, a quem querem honrar. Re- cebeu Findiyori o padre, como costuma receber aos grandes de Japão, com muito gasalhado e honra; e logo ali, em sua presença, como tem por costume, lhe mandou dar de presente alguns vestidos de sêda, e se * recolheu para den- *fi. i3a. tro, com muito bom semblante; depois do qual, Jechino Camí, para mostrar o contentamento, que Findiyori recebera com a vinda do padre, e para lhe fazer mais honra e favor, logo ali o convidou e a todos os nossos, que o acompanha- ram, com algumas frutas, dizendo que o mesmo Findiyori em pessoa se houvera de assentar à mesa e fazer aquele gasalhado ao padre; mas, por ser ainda me- nino, êle o fazia em seu lugar; e outras semelhantes palavras, com que mostrava quanto Findiyori estimara a dita visita, acrescentando mais, que daqui por diante não haveria falta em o dito Findiyori para com as coisas da igreja, nem menos nêle; pelo quê, no futuro, houvesse muita amizade e comunicação de uma parte e outra. Levava o padre consigo alguns Doiucos. Preguntou Jechino Camí, se entre êles havia alguns, que soubessem alguma arte, ou tivessem alguma particular habilidade, de que gostasse Findiyori; porque, como era de pouca idade, folgava de ver novidades. Dizendo-lhe que não sabiam outra, senão a de cantar, e tanger os instrumentos músicos de nossa terra; que, se dessa gostasse, seria coisa muito fácil. Respondeu, que não haveria coisa semelhante a essa; que logo ao outro dia fossem lá os Doiucos, com os ditos instrumentos, porque para Findiyori seria coisa de muito gosto e contentamento vê-los e ouvi-los. Foram logo os Doiucos, com seus instrumentos músicos, harpa, viola, rabeca, realejo, e diante de Findiyori e de outros muitos do paço tangeram e cantaram; do que tudo mostrou gostar muito, e particularmente da feição dos instrumentos, tomando na mão um por um, e vendo o modo e artifício, com que eram feitos, louvando muito o engenho e saber dos Europeus, que tais coisas inventaram. Jechino Camí ficou também mui satisfeito e agradecido, mandando logo dar as gra*ças ao padre, de lhe mandar lá coisas tão novas e tanto para ver e ouvir, •de que Findiyori tanto gostara, oferecendo-se de novo a tudo o que o padre
  • 142 Das coisas do Japão dele quisesse, e em particular, de favorecer a igreja de Ozaca, como coisa que tinha debaixo de sua jurisdição. A mãe de Findiyori, sabendo também da visita que o padre fizera a seu filho, estimou-a muito, como depois contou uma mulher cristã, que tem muita entrada no paço; com a qual falando sobre a dita visita, lhe disse, que estimara muito a lembrança, que o padre tivera de visitar também a seu filho; no que mostrava bem a lembrança e estima, que tinha das coisas do Taico, e que antes Findiyori fora o que fizera falta para com a igreja; pois, havendo-a na cidade de Ozaca, aonde êle residia, não lhe mandara até agora nenhum recado, nem fizera nenhum presente; e agora visitá-lo o padre, como o fizera ao Cubo e a seu filho Xògúm, era coisa que muito agradecia, e de que ao diante se não esqueceria, dizendo mais outras palavras de grande favor, com as quais dava a entender quão trocado ficara seu ânimo com a dita visita, e quam bem afecto para com nossas coisas e da Cristandade. CAPÍTULO VIII Da Jornada que o Padre fê\ de 0\aca até Nanga^aqui CONCLUINDO com isto o Padre Provincial as(i) suas visitas, e também a dos padres e irmãos, e casas de nossa Companhia daquelas partes, deixando tudo provido, os nossos consolados e animados, e os cristãos com maiores forças, para com mais liberdade procederem nas coisas de sua sal- • n.i33. vação, se partiu de 0*zaca para Nangazaqui, acompanhando-o muitos cristãos com suas embarcações pelo rio abaixo, até à bôca da barra, como também o fizeram os da cidade de Fuximi, quando dali se embarcou, no mesmo rio para a de Ozaca, todos com algumas coisas de refrêsco; e, despedindo-se o padre dêles e dos nossos, que também o acompanharam até à mesma paragem, saiu da barra, e com tão bom tempo chegou à cidade de Firoxima, no reino de Aqui, que é a primeira residência da Companhia, que se segue depois de Ozaca, onde foi bem recebido e agasalhado dos nossos e dos cristãos que ali há, vindo-o todos visitar e dar-lhe os parabéns do bom sucesso diante do Cubo e seu filho, que para eles era de tanto ânimo e fôrças. Consolaram-se muito aqueles cristãos com a vinda e vista do padre, por ser a primeira vez que ali ia, e muito mais o fizeram com os conselhos, que lhes deu nos dias que ali se deteve; os quais acabados, continuou seu caminho por mar, acompanhando-o os principais cristãos até uma ilha cinco léguas distante da cidade de Firoxima, dedicada a um Cami, que ali é adorado e grandemente venerado de todos aqueles reinos do Chugoou, de que os anos atrás foi senhor o Mor, e em um templo sumptuoso e grande, edificado, segundo dizem, por um senhor antigo de Japão, chamado Giomari. Este templo, ou varela tão nomeada, andou o padre vendo, não sem espanto da cegueira desta gente, que (1) No orig.: com suas.
  • Das coisas do Japão 143 tais coisas adorava; e, entre elas, o que mais o admirou e a todos os demais, foi ver como tinham para si, que a alma do Camí se transformava em dois ratos, que actualmente estavam comendo arroz diante do dito Camí, que de propósito ali punham, para eles o comerem; os quais, acostumados a isso, e também porque não lhes faziam mal, antes os veneravam e estimavam como ao Camí transformado neles, segundo cuidavam, sem medo de quem os via, seguramente se punham a comer a porção, que de ordinário lhes davam. Aqui, por despedida, deram os cristãos de jantar ao padre, em uma casa tam- bém feita em (1) honra do Camí, de cento * e vinte palmos de largo, e duzentos »fi. 133 v. ou mais de comprido; o qual acabado, despedindo-se o padre não sem lágrimas de alguns dêles, que mais sentiam tal apartamento, se partiu o padre para a cidade de Conçura, no reino de Bujém, onde foi mui bem recebido daqueles cristãos, e em particular de Nagavo Yechudono, senhor daquele reino, que grandemente folgou com a vinda do padre, agradecendo-a e estimando-a muito mais, por ser em tempo, em que se haviam-de fazer as exéquias de Grácia, sua mulher. Chegado, pois, o dia, se fizeram as ditas exéquias, com a maior solenidade e aparato possível, fazendo-se para isso uma formosa eça. Concorreram a elas assim cristãos, como gentios, em grande número; até a mãe do mesmo Yechu- dono se achou presente, com outras mulheres nobres, bem afectas às coisas de nossa santa lei. Seria largo contar os favores e gasalhado, que Yechudono fez ao padre, enquanto ali se deteve; porque, além de o convidar na sua fortaleza e a todos os demais padres e irmãos, lhe mandou dar de presente quatrocentos fardos de arroz, e fêz outras coisas, em que bem mostrou o amor, reverência e estima, em que tinha o padre, a Igreja e a Cristandade. Nos dias que ali se deteve o padre, concorreram muitos cristãos, que ali há em grande número, a dar-lhe os parabéns do bom sucesso de sua ida a Surunga e Yendo, por com êle ficarem mais descansados e seguros. Daqui partiu o padre para a cidade de Facata, no reino de Chicuien, em duas embarcações ligeiras, que para isso lhe mandou dar Yechudono, onde foi também muito bem recebido de Chicuien- nocamí olim (2) Cainocamí, senhor daquele reino, que estava já esperando pelo padre, com desejos de lhe fazer muito gasalhado, por ser a primeira vez que se via com êle, depois * de ser senhor do dito reino. Foi logo o padre visitá-lo »fi. 134. à fortaleza, com seu presente, como o fizera a Yechudono, e dêle foi bem rece- bido e convidado com um banquete, que lhe tinha aparelhado, e a todos os nossos, que ali se acharam. À despedida, lhe mandou o padre pedir, que quisesse também ser nosso convidado, o que êle aceitou de boa vontade, vindo a nossa casa também com seu presente de vinte barras de prata, que são perto de cem cruzados, havendo-se, enquanto nela esteve, muito familiarmente com o padre, o qual, com tão boa ocasião, lhe pediu quisesse favorecer nossas coisas e a cristandade, que havia em seu reino; ao que respondeu, com bom sem- blante, que assim o faria; que nesta parte estivesse descansado, porque nêle não haveria o contrário. Com esta vinda do Tono a nossa casa, e com os favores, (1) A'o orig.: à honra. (2) [outrora].
  • 144 Das coisas do Japão que fêz ao padre, e desejos de lhos fazer ainda muito maiores, e da mesma maneira à cristandade daquele reino, ficaram os cristãos de todo êle, particular- mente da dita cidade de Facata, mui animados, além do ânimo e fôrças que tinham recebido com ouvir do bom sucesso, que tivera o padre nas demais par- tes; assim por uma coisa, como por outra lhe vinham dar graças e parabéns. De Facata partiu o padre por terra para Aquizzúqui, no reino de Chicuien, onde o estava esperando Curanda Sogemondono, tio de Chicuiennocamí, senhor daquela terra, do qual, como cristão que é, e de todos os seus foi mui bem recebido e hospedado. Celebrou o padre a festa do orago daquela nova igreja, que, por ser a primeira vez que se celebrava, depois dela feita, se celebrou com a solenidade e devoção possível, confessando-se e comungando os cristãos, que nela se acharam, ganhando por esta via indulgência plenária, que conforme a nossos privilégios se ganha em tal dia. O que fei*to, prosseguiu o padre seu caminho, também por terra, para a cidade de Yanagava, no reino de Chi- cungo, para visitar aquela nova residência, e também a Tanaca Chicugodono, senhor do dito reino, que desejava muito, que o padre fosse à sua terra, para nela lhe fazer muitas honras e gasalhados. Sete léguas de Aquizzúqui, e cinco da cidade de ^ anagava, está a povoação de Curume, de que os anos atrás foi senhor Findecão, casado com uma filha de El-Rei D. Francisco de Bungo, de boa memória, o qual também era cristão; procurou sempre muito que os da dita povoação o fossem. Dêstes cristãos ficaram ainda ali um bom número, os quais, sabendo da vinda do padre, saíram com grande alvoroço a o receber à porta da vila. Foi esta uma visita, que a todos e ao padre, em particular, consolou gran- demente, vendo assim homens, como mulheres e meninos juntos em tão grande número, que o estavam esperando, para o receber e dar-lhe os parabéns da boa vinda; e, não contentes ainda com isto, fizeram o mesmo, vindo visitar ao padre à casa, aonde se retirou por breve espaço, para mais em particular os \er e conhecer, com assás consolação sua e daqueles fiéis, que Nosso Senhor ali guardava, e tão inteiros na Fé, no meio de tantos gentios. Por todo aquele caminho de Curumi até Yanagava, encontrou o padre cristãos, que em seus cavalos e a pé o vinham receber ao caminho, quem duas, quem três e quatro léguas longe de Yanagava, mostrando com isto a alegria, que tinham com sua vinda; da qual tanto que se soube por aquele reino, come- çaram a vir os cristãos, que por êle estão espalhados, a visitar o padre, assim os de longe, como os de perto; e muitos houve, que vieram de sete e oito léguas das de Japão, que cada uma delas terá duas milhas das de Itália, pouco mais h.i35. ou menos, e são as de que falo, dando-lhe todos os parabéns não sòmen*te da sua vinda novamente àquela terra, mas também do bom sucesso, que Nosso Senhor lhe dera diante do senhor de Japão, e mais senhores que visitara, e tra- zendo quási todos seus presentes, conforme ao costume da terra. Logo Chicugodono, senhor do dito reino, mandou dar ao padre a boa vinda, e que tal dia o havia-de ver e receber em sua fortaleza; para o quê, mandou varrer e aguar as ruas, que vão da nossa casa para a dita fortaleza, o que em Japão se não faz, senão a pessoas de muita marca, a quem querem particular- mente honrar e fazer gasalhado. Foi, pois, o padre no dito dia a visitá-lo, com seu presente, levando consigo os demais padres e irmãos, que o acompa-
  • Das coisas do Japão 145 nhavam; e, chegando perto do paço, saiu o Tono a o receber, fora da porta da fortaleza, no meio de uma ponte, acompanhado dos seus principais, onde tendo com o padre e com os demais os devidos cumprimentos, com muita urbanidade e cortesia o levou para dentro de seus paços, pondo-o no mais alto lugar, ficando-se êle muito abaixo. Começou logo o banquete, no qual fêz muitas honras ao padre, até se alevantar uma vez, e fazer o ofício de copeiro-mór. Finalmente se houve em tudo com tanta afabilidade, cortesia e humanidade, que a todos cativou. Acabado o banquete, se despediu do padre com a mesma cortesia, acompanhando-o até à mesma ponte, onde primeiro o recebera. Tinha êle ouvido, que Chicuiendono, no Facata fôra a nossa casa; pelo quê, para não ficar inferior nos favores, que desejava fazer aos padres, a nenhum outro senhor, disse que êle também queria vir à nossa igreja, e ouvir missa e prega, ção. Assim o fêz ao domingo seguinte, vindo bem acompanhado dos seus, trazendo de presente ao padre vinte barras de prata; e aos demais padres e irmãos tam#bém seus presentes; e da mesma maneira à imagem da nossa igreja «fi.i35t. sua oferta de dôze mil caixas, que é uma moeda de cobre, que corre em Japão, que valeria treze ou catorze cruzados, que logo lhe mandou pôr ao pé do altar. Disse missa o padre, com a maior solenidade que foi possível, tangendo-se a ela vários instrumentos músicos, ao que tudo esteve o Tono e os seus muito atentos e com reverência. Houve no cabo da missa prègação de um irmão nosso, bem visto nas seitas de Japão, que o Tono e demais gentios e cristãos ouviram com grande atenção; e em particular se enxergou esta no Tono, que acabada a prègação a louvou muito, dizendo que a entendera muito bem, e que mais devagar determinava de ouvir nossas coisas; o mesmo fizeram muitos dos seus principais. Louvou também muito o ofício da missa e ceremónias dela, de coisa santa e devota; viu devagar a imagem da Virgem Nossa Senhora, e preguntou várias coisas acêrca dela, e de tudo mostrou ficar muito satisfeito, dizendo que em Japão não havia coisas semelhantes, e que eram bem diferen- tes das dos seus bonzos. Viu também devagar os instrumentos músicos, que lhe tangeram no tempo de jantar, que em nossa casa se lhe deu e a alguns principais dos seus, gabando-os todos muito, tanto que, ouvindo tanger o rea- lejo, dizia que se-lhe alevantaram os espíritos de tal maneira, que lhe parecia estar no Paraíso, diante já do fotoque. Agradeceu muito o banquete, e tudo o mais que em nossa casa se lhe fêz, tratando sempre o padre com muito res- peito, e com uma tão grande chaneza e familiaridade, como se o conhecera e tratara de muito tempo, pedindo-lhe que se detivesse ali devagar, descansando do trabalho, que levara no caminho do Quanto; mas, porque se chegava já o tempo da partida, se mandou o padre despedir dêle, dando as gra*ças dos favo- res recebidos, e pedindo os quisesse também fazer ao padre e cristandade, que havia neste reino; ao que respondeu, que assim o faria; que nesta parte estivesse descansado, e que além disto estava prestes para tudo o que dêle e seu reino quisesse; porque desejava daí por diante de ter grande amizade com a Igreja. Com êste bom sucesso, que para os cristãos daquele reino foi de grande alento e forças, além das que principalmente receberam muitos dêles com os «9
  • 146 Das coisas do Japão Sacramentos da Confissão e Comunhão, que o padre lhes administrou, ficando com uma coisa e outra grandemente consolados, se foi o padre embarcar, para dali passar às terras de Arima, mandando o Tono também varrer e aguar as ruas e caminhos até ao pôrto, donde o padre se havia-de embarcar; o que fez em uma embarcação ligeira do mesmo Tono, de vinte e cinco remos, por banda, que para esse efeito mandou dar. E, não contente o dito Tono com isto, nem com o muito que até então tinha feito, até mandar meter na dita embarcação algumas coisas de refresco para o caminho, para pôr o sêlo a tudo, quis êle mesmo em pessoa acompanhar o padre em outra embarcação também ligeira, por espaço de uma légua, até o lançar fora da barra, donde, despedindo-se últimamente do padre, se tornou, encomendando muito ao seu piloto-mor, ou capitão-geral de seus navios, que mandou se embarcasse com o padre, que navegasse com muito tento e sem descuido. Desta maneira, levantando a vela, chegou o padre, em breve, às terras de Arima, e dali a Nangazaqui, dando fim à sua peregrinação e trabalhos de quási cinco meses de caminhos por mar e por terra, aonde foi bem recebido dos cristãos e dos padres e irmãos, com grande alvoroço e alegria de todos, e parabéns de tantos e tão bons sucessos, como Nosso Senhor lhe dera em toda • fi.i36 v. esta * viagem, cobrando todos grandes esperanças, que dela se havia-de seguir muita paz e quietação em toda esta cristandade, e também seu maior aumento e conservação, que era o fim, pelo qual fizera o padre tal viagem e sofrera tantos trabalhos. CAPÍTULO IX Das Coisas que sucederam em Nangazaqui, e suas Residências DESCENDO agora ao particular de cada uma das casas e colégios desta Província, e do que nelas se fêz de serviço de Deus e conversão das almas, começamos pela cidade de Nangazaqui, por ser o colégio, que nela está, cabeça de toda a Província, que a Companhia tem em Japão. Há nêle sessenta e oito da Companhia; dêstes, vinte e sete são sacerdotes; os demais irmãos, em que entram dezassete noviços, que em um dêstes anos se receberam; quinze japões de nação e dois portugueses, com os quais se deu princípio à casa do noviciado, que nesta mesma cidade também se fundou. Dos sacerdotes, uns se ocupam no que pertence ao govêmo da casa e Província; seis nas resi dências sujeitas a êste colégio; os demais na cultivação da cristandade desta cidade e de suas aldeias, na qual floresce muito e cada vez mais a devoção e piedade cristã, em razão dos grandes aparelhos e meios, que para isso nela há, mais que em outras partes. Está já toda dividida em cinco igrejas paroquiais, •fí. 137. afora a do colégio, e algumas ermi*das; e de três destas igrejas são já curas três clérigos japões, que são os primeiros desta nação, que o bispo para isto ordenou. Há nela duas confrarias: uma do Nome de Jesus, e outra da Virgem Nossa Senhora; tão célebres assim no número de gente, como no aparato, com que são servidas, e sobretudo no fruto grande, que delas resulta nos confrades, que é coisa de grande glória de Nosso Senhor. Há mais, casa de misericórdia e
  • Das coisas do Japão 147 hospital com suas igrejas, que cada uma é frèguesia, e estão à conta dos padres; as quais casas, pelas obras de misericórdia espirituais e corporais, que em cada uma delas se fazem, são como uma caçoula odorífera que a todo Japão con- solam e admiram com o suave cheiro, que de si lançam e espalham por todo êle; e, como a cidade é tôda de cristãos, e nas coisas da religião e culto divino se governa pelo Bispo de Japão, que ali reside, e pelos padres, celebram-se as festas e solenidades da Igreja nela com tanta perfeição, aparato e devoção inte- rior e exterior, e resplandece por isto tanto nela o lustre da Religião Cristã, com tanta glória de Deus e reputação de nossa Santa Fé, que é uma das mais eficazes prègações dela, que há em Japao; e, como a esta cidade, em razao do trato da nau dos portugueses, e doutros navios, que a ela vêm, concorre tanta gente de diversas partes de Japão, ficam tão maravilhados, quando nela com seus olhos vêem a vida dos padres e procedimento dos cristãos, o aparato e soleni- dade do culto divino, a nova doutrina de nossa Santa Fé, que nela se prèga, que muitos dêles se convertem logo, e outros, quando menos, se tornam pre- goando, por onde quer que vão e em suas terras, as boas novas do Sagrado Evangelho, que nesta ouviram. # No ano de [mil] seiscentos e sete, foi tão grande o concurso da gente, que .F1.137Y. na Semana Santa concorreu a esta cidade, para ver e ouvir os ofícios divinos, principalmente da Quinta Feira de Endoenças, quanto nunca ate então se tinha visto nela; porque, com nossa igreja ser mui capaz, nem nela, nem nas varan- das, que são bem largas, nem num pátio, que é tamanho e maior que a igreja, pôde caber a gente, que concorria; de sorte que até a rua vizinha, que é bem larga, estava cheia de cristãos, que, pelo que ouviam da Paixão de Cristo Nosso Senhor, e pelo que viam das ceremónias santas, e outras demonstrações, de que a Igreja em tal tempo usa, para nos trazer à memória e pôr diante dos olhos o que CRISTO Nosso Senhor fêz e padeceu por nós, era tanta [digo] a devoção e cópia de lágrimas, daqueles cristãos, que até aos muito duros as causavam; de sorte que alguns espanhóis e portugueses, que aqui se acharam, ficaram assaz confusos e admirados do que viam; e movidos do mesmo senti- mento e lágrimas, os acompanharam também com as suas, que não podiam represar nem encobrir; e assim diziam, que, para as derramar mais à sua von- tade, segundo o pedia a moção, que em suas almas lhes causava tamanha devo- ção e lágrimas, houveram de vir com os rostos cobertos, para, sem pejo, lhes largarem de todo as rédeas. Na conversão dos gentios se trabalhou todo o possível, e se baptizaram nestes dois anos perto de duas mil e seiscentas almas, assim na cidade, como em seu contôrno e distrito, no qual, alem das aldeias vizinhas, há seis residên- cias anexas, convém a saber: Isafaí, Fucafurí, Congá, \ iacamí, \ehimé e Pudo- gamá; tôdas estas estão em terras de vários senhores, dos quais três são * gen- »m. i38. tios, mas muito amigos dos padres, e das coisas de nossa Santa Fé; pelo quê, não só não proíbem, mas levam gôsto de os seus se fazerem cristãos; e assim se baptizaram nestes dois anos passante de setecentas almas. Levantaram-se, em vários lugares, nove igrejas de novo, para as quais os próprios cristãos ajuda- ram com suas esmolas, conforme a sua pobreza. Uma destas igrejas se edificou no estado de Isafaí, e próprio lugar, onde reside o senhor da terra, que é um
  • I4S Das coisas do Japão Tono, gentio, dos principais dêste reino de Figém, vizinho de Omurandono, e não muito inferior na renda e poder, o qual é mui amigo dos padres, e faz muitos favores à cristandade, que tem em suas terras; que por isso deu licença para [que] na própria cidade, em que ele reside com todos os seus principais, se levantasse esta igreja, para as obras da qual não somente os cristãos, mas ainda os mesmos gentios ajudaram, com muita gente de serviço e outras várias aju- das, por entenderem que o Tono levava gosto disso. No dia que se disse a primeira missa na nova igreja, mandou o Tono dizer ao padre, que, se houvesse prègação, êle e os seus o queriam ouvir, e junta- mente, não havendo inconveniente, achar-se presentes à missa; mas, porque não pôde ser pela manhã, veio à tarde com todos os seus principais, e com êle tanta gente dos gentios, que, cuidando o padre que tinha feito uma grande igreja, achou então que era muito pequena; e, porque o Tono desejou de ver o modo de nossos ofícios, e também os ornamentos com que se faziam, se cantou uma Salvè com a solenidade possível, o que tudo lhe pareceu muito bem, mas muito melhor a prègação, que [se] lhe fêz, acomodada ao auditório, da qual assim êle, como os seus ficaram tão satisfeitos, que muitas vezes depois falaram nela, louvando-a muito, e em particular as firmes e sólidas razões, com que se pro- vava a verdade de nossa Santa Fé. • fi. i38r. * Tem o Tono um filho, morgado e que já corre quási com todo o govêrno da terra. Este se mostra mui afeiçoado às coisas de nossa Santa Fé; e assim, estando um dia com os seus pagens em prática, lhes preguntou a todos, se lhes parecia haver salvação. Ao que responderam alguns, que não sabiam; outros, que sim. Pois, se a há, tornou êle, de que lei ou seita quereis ser, para a poderdes alcançar? Responderam uns, que se fariam da seita dos Ienxús, outros que dos Idoxús. Isso não, tornou o Tono, porque vos não virá bem serdes de tais seitas. Far-no-emos logo cristãos, responderam os pagens. «Isso sim, tornou o Tono; e agora dissestes bem; pois só a lei dos cristãos, além de ser muito boa, é a que ensina que há salvação; pelo quê, acêrca dela, tres coisas tenho entendido, de que já não tenho dúvida alguma: a primeira, que o mundo não se fêz por si mesmo, mas que há um Criador que o fêz; a segunda, que há imortalidade da alma; a terceira, que há-de haver juízo, em que cada um há-de dar conta do bem e [do] mal, que fêz nesta vida». E, como êle está já [instruído] em três coisas de nossa Santa Fé tão principais como estas, elas mesmas mostram, que não parece que está muito longe do reino do céu, e assim folga muito, que os seus se façam cristãos e os exorta a isso, mostrando o grande gosto que nisso recebe. A mesma vontade para as coisas de nossa Santa Fé mostra o senhor do estado de Fucafurí, o qual é pessoa nobre e parente do mais rico e poderoso senhor dêste reino de Figém; e não somente mostra desejos de se fazer cristão, mas claramente diz aos seus, quanto estima que se façam [também cristãos], fazendo contudo primeiro mui bom entendimento da verdade de nossa santa lei. • fi. 139. Tem ouvido algumas vezes as prèga*ções do catecismo, e confessa ser a lei de Cristo Nosso Senhor a verdadeira, e na qual só acha salvação; mas não acaba de se resolver, pelos arreceios, que tem, de pôr, por essa causa, em risco seu estado e vida, por quam rigorosamente o senhor, que acima digo, a quem êle está
  • Das coisas do Japão 149 sujeito, proíbe fazerem-se cristãos, não sòmente pessoas de sua qualidade, mas ainda os outros inferiores; e assim, estando êle uma vez em prática com o dito senhor, e falando-se de cristãos, lhe disse o outro, como tinha ouvido, que em suas terras, dele Fucafuridono, havia muitos cristãos; e que, como isto era con- tra a vontade do senhor universal de Japão e sua, dêle, e na corte se falava já desta matéria, que o negócio lhe parecia muito mal, e que por isso mandasse tornar atrás todos os que se tinham feito cristãos. A isto respondeu Fucafuridono, que era verdade, que alguns se tinham feito cristãos em sua terra; porém que, antes de se fazerem, êle lhes preguntara esta dúvida, e que lhes respondera, que, como a terra de Fucafuri[dono] era pequena, não parecia que soaria na Tença fazerem-se cristãos os moradores dela; e assim, que bem se podia fazer cristão quem quisesse; por onde, como com seu con- sentimento dera licença, que se fizesse cristão, quem o quisesse ser, não era honra sua, nem menos seria tido por homem de sua palavra mandar agora, que tornassem' atrás os já feitos; pelo quê, por nenhum caso havia-de mandar tal coisa. Com tão resoluta resposta e de tanto primor e constância de gentio, não foi o negócio por diante, ficando aqueles cristãos como dantes, e Fucafuridono, de seu senhor tido em grande conta; porque, ainda que fora um cristão mui constante, não pudera dizer mais do que êle disse, com tanto risco seu; pois, conforme ao uso de Japão, * o comum retorno de semelhante resposta ao senhor, «FuSgr. é a perda da vida, ou, pelo menos, do estado, ao que tudo aquele Tono se oferecia, por não fazer tornar atrás os cristãos do caminho da verdade, que êle entendia ser só o que leva os homens à salvação. CAPÍTULO X De algumas Coisas particulares de edificação, que em Nanga\aqui e suas Residências sucederam SÃO muitos e vários os casos de edificação e bom exemplo, que continua- mente sucedem entre êstes novos cristãos; e, porque seria mui largo contá-los todos, iremos contando sòmente alguns, donde os outros se poderão entender. Entre os cristãos, que pela causa da Fé os anos passados se desterraram do reino de Fingo, seu natural, para esta cidade de Nangazaqui, foi um por nome João, com sua mulher Maria, filhos e família. Morreu João algum tempo depois, ficando Maria viúva com duas filhas, a qual, como era pessoa cândida e por extremo desejosa de se salvar, vendo-se naquele estado de viúva, toda se empregava e entregava a Deus, com contínuas orações, lição de livros devotos, frequência dos sacramentos, ouvir prègações, assistir às missas, e finalmente em se dar a outros exercícios e obras de virtude, em que sempre ia crescendo, com edificação dos que a conheceram^ e tratavam. Veio por der- radeiro a adoecer e morrer, mas de uma morte tão santa, que a todos os que a ela se acharam presentes, e aos ausentes que dela ouviram, causou muita inveja. Seis ou sete * dias, antes que morresse, a visitou Nosso Senhor com .fi.ho. muitas consolações espirituais e vivas esperanças de se haver de salvar. E
  • i5o Das coisas do Japão assim, com estar já muito fraca no corpo, e tanto que sem ajuda doutrem se não podia mover na cama, estava todavia tão forte no espírito, e tão alegre pelas mercês e favores de Deus, que em sua alma sentia, que se não podia ter, que no exterior o não mostrasse com uma tão extraordinária alegria, que a todos espantava. Depois de receber a Santa-Unção, indo-a visitar um irmão nosso para a consolar e animar naquela hora, ela o recebeu com estas palavras: a Venhais em boa hora, irmão. Oh! quanta paz e alegria tenho em minha alma, na qual por misericórdia de Deus nenhuma coisa sinto, que me dê pena ou trabalho. cQue merecimentos tenho eu, para receber de Deus tantas e tão assinaladas mercês? Sinto em minha alma uma tão grande paz e segurança da salvação, que me não posso ter de alegria». E virando-se para as imagens do crucifixo e de Nossa Senhora, que tinha diante, não acabava de lhe dar graças pelo que sentia em sua alma, repetindo muitas vezes estas palavras: Donde há, Maria, tanto bem? iDonde há, Maria, tanto bem?» sem quási em todo o tempo, que lhe duraram as divinas consolações, se lhe ouvirem outras mais frequentes. Estando já muito fraca, uma noite, estando todos [os] de casa dormindo, tirando uma filha sua, que, assentada na cama, a sustentava nos braços, com os olhos em um crucifixo, esteve falando com êle mui docemente, até que amanheceu; mas, como estava já com a língua muito grossa, não lhe pôde a filha entender tudo, quanto dizia, mais que as palavras acima ditas de agradecimento, e falar, de quando em quando, com S. João e com S. José, como quem os tinha presen- tes, nomeando-os por seus nomes; e também a seu marido João, já defunto, e • fi. 140v. a um Mi*guel, também defunto, grande servo de Deus, e grande amigo de seu marido, e que espiritualmente o ajudara muito na perseguição de Fingo. E, nomeando êstes dois, dizia: «Venhais em boa hora, Miguel, venhais em boa hora, João. Oh! que formosos homens. Oh! que formosos homens!», e outras coisas, que a filha não percebia bem, até que, amanhecendo, lhe preguntou, se estivera aquela noite frenética, pois tôda ela falara só, sem ter com quem. Ao que respondeu a boa mãe, que, se lhe prometia não dizer nada a ninguém, enquanto ela vivesse, lhe diria a causa; e, prometendo-lho a filha disse: «Sabei, filha, que esta noite não estava esta casa tal qual agora está, nem foi esta, senão outra; porque tôda ela esteve cheia de um resplandor e claridade inefável; e a mim me fizeram saber, que era do número dos escolhidos, e por isso estive dando graças a Deus tôda a noite por esta misericórdia, que comigo usava, sem lho eu merecer. Tinha esta virtuosa mulher um pai já velho, e outra filha de pouca idade, a quem amava muito; mas, como em tal tempo lhe podia ser estorvo a vista da filhinha, para gozar das consolações divinas, e paz que sentia sua alma, mandou que a não deixassem chegar perto de si, porque, como ela dizia, lhe não fôsse causa de algum afecto de amor e compaixão, que lhe perturbasse a paz e gôzo de sua alma. E, preguntando-lhe algumas pessoas devotas, que a visitavam, a quem deixava encomendado seu pai, suas filhas e mais família, respondeu, que à Pro- vidência Divina, a qual teria melhor cuidado de os amparar, do que ela podia ter, encomendando-os a qualquer pessoa da terra; e com esta paz e suavidade, que em sua alma sentia, livre das prisões do corpo se foi gozar de seu Criador.
  • Das coisas do Japão 151 * Em uma povoação de gentios, onde vivem de mistura alguns cristãos, .Pi.141. por lhes ser proibido pelo senhor da terra, grande inimigo de nossa Santa Fé, viverem públicamente como tais, foi singular a devoção e fé de duas mulheres, as quais se concertaram ambas entre si, que, já que na terra as não deixavam, se fossem fora do lugar a um monte alto, como outro Daniel de Babilónia, para aí fazerem oração à sua vontade para aquela parte, onde vissem alguma terra de cristãos, em que houvesse igreja. Estando nela, com muita devoção, de joelhos, acertou de passar por ali um gentio, o qual vendo-as da maneira que estavam rezando de joelhos, suspeitando delas, que eram cristãs, as começou a argiiir, que se punham ali daquela maneira, a fazer escárneo de um ídolo, que ali perto estava. Ao que as boas cristãs modestamente responderam, que do tal ídolo não sabiam parte, nem o tinham visto; mas que era verdade, que eram cristãs, e que pelo serem, já que no lugar não podiam, se vieram àquele monte, para mais à sua vontade fazerem oração a Deus; e que, se por isso as quisesse acusar, o podia fazer, que elas estavam aparelhadas para dar a vida por tal causa. Em outra povoação de cristãos, adoeceu uma mulher cristã tão gravemente, que deu em frenesis; tinha esta muitos parentes gentios, os quais foram chamar um bonzo, para que, fazendo suas deprecações e invocando o demónio sobre ela, a desapressasse daquela agonia. Veio o bonzo, e, fazendo tudo quanto sabia nesta matéria, a pobre doente, que de nada disto dava acordo, cada vez ia para pior. Tendo disto notícia os cristãos, que ali havia, acudiram logo e foram chamar o padre, o qual em chegando, quis Deus que a doen*te com sua • n. 141 v. presença tivesse um lúcido intervalo, de modo que se pôde confessar; porém, tornando-lhe depois outra vez os frenesis, tomou o padre uma imagem do Beato Padre Inácio, que tinha no breviário, e deixou-a aos cristãos, dizendo-lhes que rogassem àquele Santo intercedesse pela enferma diante de Deus. Assim o fize- ram aqueles poucos cristãos com tanta fé, que a enferma em breve recebeu perfeita saúde. Estando uma mulher de parto e mui afligida, foi chamado um padre, o qual, depois que a confessou, a exortou que se encomendasse ao Beato Padre Inácio, e lhe deixou uma firma sua, a qual ela lançando ao pescoço com muita confiança, logo com muita facilidade e sem trabalho deu à luz uma criança. Outra mulher, estando com a mesma necessidade, entre outras pessoas, que com ela estavam, se achou ali uma gentia, cuja conversão havia tempo que os padres muito desejavam. Esta, vendo o trabalho da pobre mulher, disse às outras: «Em casa de João está uma imagem da Senhora Santa Maria; tragam-na, que logo dará à luz; trouxeram-na e foi Nosso Senhor servido, que no mesmo instante, em que a puseram sôbre a mulher atribulada, teve logo o seu bom sucesso, com alegria e espanto de todos, maiormente da gentia, que movida de tal maravilha, que Nosso Senhor obrara por meio da santa imagem, se resolveu logo em se baptizar, como fêz, com assaz contentamento seu e do padre, que tanto desejava sua conversão. Um gentio principal, e como governador de uma povoação, vindo a Nan- gazaqui, e vendo o modo de proceder dos cristãos, e o ornato das igrejas, mo- vido com isto se fêz cristão, com tão bom entendimento, que determinou de persuadir a tôda a povoação, sôbre que tinha mando, se fizesse cristã. Come- •
  • Das coisas do Japão •fi. 142. çando, pois, al*guns, por sua persuasão, a ouvir prègação, se não quando, estando o sobredito cristão ausente com muitos do lugar nas obras do Tono, acende-se o fogo na casa do cristão, e sem haver quem lhe pudesse valer, se lhe queimaram quatro ou cinco casas, com quanto nelas tinha, sem lhe ficar nem ainda que comesse aquela noite. Todos os gentios lhe diziam, que aquilo fôra castigo dos Camís e Fotoques, por êle se fazer cristão e ainda persuadir aos do lugar, que também o fossem; e que bom sinal disto fôra, não se queimar nenhuma outra casa do dito lugar, senão a sua, onde prègavam. Ouvindo isto o padre, como não havia ainda um mês que o dito cristão se baptizara, estava com pena do que o pobre faria de si, com tão más persuasões; senão quando, logo na mesma noite do fogo, vem o bom cristão ter com o padre tão animoso e alegre, como se nada perdera, trazendo consigo uma nómina (1), que tinha dentro o Agnus Dei, mui contente; porque, tendo-a pendurada de uma coluna de pau, em sua casa, escapara do fogo, e estimando mais salvá-la, que tôda a mais fazenda; e com grande alegria disse ao padre, que não sòmente se não abalara sua fé com semelhante caso, mas antes se arreigara muito mais, e que agora havia-de pôr mais fôrça e diligência em fazer todo o lugar cristão, do que dantes pusera; como de feito vai fazendo, não sem admiração dos gentios e edificação dos cristãos. Outro gentio, tendo uma filha doente, que muito amava, fêz muitos votos e promessas a certo Fotoque, em que tinha tôda sua esperança, pela vida e saúde da filha; mas, aproveitando-lhe pouco para seu intento, veio finalmente a filha a morrer; do que sentido o pai e agastado contra o ídolo, por lhe não valer em tal necessidade, toma um machado, vai-se a êle, e feito em pedaços o •fi. 142r trou*xe a sua casa, para lenha que queimou no fogo; e, determinando logo de se fazer cristão, ouviu as prègações, e com bom entendimento se baptizou, prè- gando a todos a pouca confiança, que haviam-de ter em Camís e Fotoques. Há um lugar, nêste distrito de Nangazaqui, todo de Cristãos antigos; êste vindo pelo tempo a ser de um senhor gentio, inimigo dos cristãos e padres, procurou que todos os moradores dêle tornassem atrás, encomendando a execu- ção dêste negócio a certos bonzos, e mandando que para isto lhe fizessem ali umas casas e também um templo para seu ídolo. Dada esta ordem aos bonzos pelo governador de tôda aquela comarca, eis que vêm sete dêles ao dito lugar, mui ufanos e contentes, parecendo-lhes que tinham já tudo na mão, por virem por mandado do Tono, e seu governador principal, e em tempo, que para faze- rem a sua, era o melhor do ano, por ser antes de segarem os arrozes, que êles mais pretendiam que outra coisa. Tanto que o padre, que tinha cuidado da- quela cristandade, soube o que passava, vem-se logo para o dito lugar, e de dia e de noite, por si e por outros, se pôs a animar os cristãos, a que tivessem mão na Fé, e fortemente resistissem aos maus intentos dos bonzos, e se apare- lhassem para o martírio, se Nosso Senhor fôsse servido de os fazer dignos dêle; finalmente, tais coisas lhes disse o padre, para os confortar e animar, segundo a necessidade pedia, que os cristãos se consolaram e animaram muito, apare- lhando-se antes para perder a vida e fazenda, e ainda a deixarem a seus próprios filhos, que a Fé, que havia tantos anos que professavam. (1) No orig.: domina.
  • Das coisas do Japão 153 Aparelhados os cristãos desta maneira, chegara os ministros de satanaz ao lugar, e enristam logo com a cabeça e principal cristão, e que no temporal gover*nava o dito lugar; e da mesma maneira com outros de nome e autori- «fi. 143. dade nêle, dizendo que vinham por ordem do Tono a morar ali, e fazer os cristãos daquela povoação e distrito, de sua seita que era Dejadoxús; e que para isto ter melhor efeito, lhe pediam que, como principal do lugar, e a quem todos obedeciam, quisesse êle ser o primeiro, que deixasse de ser cristão; pois assim o ordenava o Tono. A isto respondeu Rocusuque Gaspar, que assim se cha- mava o bom cristão: que quanto ao serviço de seu senhor, êle estava aparelhado para o fazer fidelissimamente, como sempre o fizera; porém, que o deixar de ser cristão era outra coisa diferente, e que não pertencia ao senhor; e que a eles dava de conselho, que não intentassem tal coisa, porque não haviam de sair com ela. Ouvindo isto os bonzos começaram a apertar com êle e com outros também principais, prometendo-lhes, além das razões aparentes, que lhes davam algumas dádivas e favores para com o Tono, se retrocedessem e se fizessem de sua seita. Respondeu Gaspar: que êle de menino era cristão, e que, nenhuma outra coisa sabia ser mais verdadeira, que a lei de Deus, em que até agora vivera e se criara, e nela havia de morrer; e que não cuidassem que, a troco de uma pouca de renda temporal, que ali tinha, havia de perder sua salvação; que êle estava prestes para logo a largar; e que estivessem des- cansados, que não havia de fugir para nenhuma parte, antes havia de esperar ali o golpe da espada, se porventura por tão santa causa o quisessem matar. Espantados os bonzos com isto, e desconfiados já de poder dobrar o ânimo do constante cristão com mimos e favores, como tinham tentado, começaram a o tentar com ameaças, dizendo que, quando lhe dessem os tormentos e puses- sem lâminas de ferro ardentes nas espá#duas, que então estava claro, que com »fi. u3 t. deshonra e ignomínia sua havia de dizer que sim; pelo quê, antes que chegasse a êste perigoso passo, lhe aconselhavam, que com honra sua se quisesse fazer da sua seita. Não dobraram nada estas ameaças a Gaspar; antes lhes disse animosamente, que quando viesse o tempo dos tormentos, então veriam como êle respondia, e que agora com resolução abertamente lhes dizia, que não havia de deixar de ser cristão. Durou êste rijo combate quatro dias, os quais acabados, vendo os bonzos que nada acabavam com Gaspar, lhe rogaram, que pelo menos pedisse aos outros cristãos do lugar quisessem condescender com êles, deixando de ser cristãos. Ao que lhes respondeu, que, ,;como havia êle de persuadir uma coisa, que de si era má e ímpia? Que nem isso havia de fazer. Já que assim é, lhe disse o bonzo principal, ao menos aceitai de mim estas contas. Nem elas quero tomar, respondeu Gaspar, por serem contas de gentio, as quais se eu tomasse, ficaria contaminado, e cometeria pecado contra a lei de Deus, que professo; pois mas dais como em sinal que a tenho deixado, para com isto perverterdes os demais cristãos com meu exemplo. Com estas e outras semelhantes respostas de Rocusuque Gaspar, perdendo os bonzos totalmente as esperanças de alcançar o que pretendiam, se tornaram corridos e envergonhados, sem nenhum cristão do sobredito lugar, que passam de setecentos, tornar atrás, antes com grande ânimo se aparelharam para tudo o que lhes viesse. Era para ver, nos dias que durou o conflito, alguns cristãos, ao
  • 154 Das coisas do Japão que por sua frieza não continuavam muito com a igreja, vir a ela já mudados, e falando com o padre lhe diziam como estavam aparelhados para dar a vida • n. 144. por Cristo Nosso Senhor, antes que deixar a Fé; entre os quais * veio uma fer- vorosa mulher e, com grande constância, disse ao padre: que seu marido se-lhe houvera de vir a se oferecer presencialmente e dar testemunho de sua Fé, como o faziam os demais cristãos; mas, por estar doente, vinha ela em lugar de ambos; que soubesse sua Reverência que eram cristãos, e cristãos haviam de ser até à morte, ainda que por isso os crucificassem a todos. Da mesma maneira veio o bom Rocusuque Gaspar, com sua mulher e filhos, e se confessou e comungou, aparelhando-se com tais armas para tudo [o] que ao diante sucedesse. Não foi só Gaspar constante na Fé, mas também o foram dois filhinhos seus, um de sete anos e outro de quatro. A este, que era menino, preguntaram os ditos bonzos, nos dias que estiveram na terra, se queria adorar o ídolo, que tinham posto na casa, onde moravam. Ao que o menino respon- deu, que não; e, dizendo-lhe que o matariam, se tal não fizesse, disse que o matassem em boa hora, e que quando o não matassem, fugiria antes para outra parte, para não adorar o ídolo. O mesmo persuadiram ao irmão, que digo era de sete anos; mas respondeu-lhes, que se espantava muito de o persuadirem, que adorasse o ídolo, sendo coisa que êle não havia de fazer; porque se criava para ser Doiuco, e depois irmão, e finalmente padre; pelo quê, escusado era persuadirem-lhe semelhante coisa. Envergonhados desta maneira e confusos os bonzos, como acima disse, por lhes não suceder, como cuidavam, vão-se mui sentidos ao governador geral daquela comarca, queixando-se dele e do Tono, porque os mandara a lugar, onde não haviam de ser ouvidos, nem menos recebidos, como lhes diziam. Do que mostrando-se sentido o dito governador, mandou logo chamar a Rocusuque Gaspar, e repreendendo-o de ousado e livre em ir contra o mandado e ordem • pi. 144 ▼. do Tono, lhe respondeu * Gaspar com a mesma liberdade e constância, com que respondera aos bonzos: que quanto ao serviço de seu senhor, estava mui aparelhado para o fazer; mas, quanto ao deixar de ser cristão, que não tinha outra resposta que dar, senão a mesma que dera aos bonzos, que êle já teria ouvido; pelo quê, dêle fizesse o que lhe bem parecesse. A isto disse o gover- nador: que, já que estava tão resoluto em não deixar de ser cristão, que pelo menos fizesse retroceder a trinta cristãos dos principais do lugar, e que com isso satisfaria ao desejo dos bonzos e também do Tono. Ao que Gaspar res- pondeu: que nem isso havia de fazer; e, não indo mais por diante o governa- dor, por ver o forte cristão tão determinado a antes perder a vida, que a Fé, o deixou e despediu; e assim se tornou Rocusuque Gaspar para sua casa, com a vitória de tal batalha, sem os bonzos mais lhe falarem nisso, nem tornarem ao lugar, nem menos o apertar mais o governador, perseverando constantemente na Fé, em que até agora vivera; digno [por] certo de perpétua memória, e da mesma maneira todos os demais cristãos daquele lugar.
  • Das coisas do Japão 155 CAPÍTULO XI De algumas Missões, que se fi\eram de Nanga\aqui a diversas Partes TRÊS saídas ou missões se fizeram deste colégio: uma foi a certas povoa- ções de cristãos, onde por o senhor da terra não consentir que estivesse padre, nem menos fôsse a ela, havia tempo que não eram visitados e consolados. Deu ocasião a esta visita alevantar-se naquela terra um feiticeiro e enganador, que com seus enganos e mentiras enganava os simples e fracos, levando*-lhes enganosamente sua pobreza, para o qual se fazia vigário na terra »fi. m5. de certo Cami, que tinha mando e poder sobre os peixes do mar e animais da terra, sôbre as doenças e outras necessidades dos homens, fingindo que as podia curar e remediar todas; finalmente dizia outras muitas patranhas, fazendo por esta via encorrer os pobres em enfermidades da alma, muito mais perigosas que as do corpo, que sem efeito fingia poder sarar e dar-lhes reme'dio. A isto acudiu o padre em tempo, que o senhor da terra estava ausente, e descobriu os enganos e fingimentos do embaidor, com o quê alguns que foram enganados, ainda que poucos, caindo no erro que tinham feito, arrependidos fizeram pública penitência. Grande foi o júbilo e contentamento, que receberam aqueles fiéis com a ida do padre, saindo-o a receber aos caminhos, derramando muitos dêles lágrimas com a alegria e consolação, que sentiam por chegarem outra vez a ver o padre em suas povoações, que em razão da perseguição, que o senhor da terra lhe fazia, cuidavam já não veriam tão cedo; e assim uns vinham a beijar-lhe a mão, outros o vestido, mostrando com semelhantes sinais o gôzo, que suas almas recebiam com sua presença. Quinze dias gastou o padre naquela missão, nos quais foi sempre mui bem agasalhado dos cristãos, e com tão boa ocasião se souberam bem aproveitar espiritualmente de tal hós- pede, sem quási o deixar descansar, nem de dia, nem de noite, confessando-se naquele espaço de tempo como mil e quinhentos, e recebendo em suas almas o divino e celestial Hóspede como seiscentos com grande consolação. Baptiza- ram-se as crianças e também alguns adultos, e se fizeram outras cousas de muito serviço de Nosso Senhor e ajuda daquelas almas, que sumamente ficaram con- soladas e animadas para terem mão firmemente na * Fé e guarda de nossa santa Lei, por mais estorvos, que os demónios e seus ministros lhes fizessem. Com o que, consolado o padre se recolheu a Nangazaqui, louvando muito a fir- meza e constância daqueles bons cristãos, e o como se conservavam por mise- ricórdia de Deus na Fé e costumes de cristãos, que os demais dêles de meninos aprenderam e como leite mamaram. Uma fervorosa e devota cristã, sabendo que seu marido, por fraqueza e mêdo de perder a renda que tinha, fizera exteriormente uma ceremónia gentí- lica, em sinal [de] que tornava atrás; repreendeu-o gravemente; tanto que o queria deixar e apartar-se dêle, dizendo que ela era cristã, e que não havia de fazer vida com homem, que tinha deixado a Deus e a Fé que professava; que já Deus lhe não podia fazer bem, pois tinha feito coisa tão má, em que tanto se
  • 156 Das coisas do Japão desacreditara. Com esta repreensão da mulher, foi tanta a paixão que o pobre homem tomou, que adoeceu de puro sentimento e pesar do que tinha feito, envergonhando-se grandemente de sua fraqueza, da qual pedindo perdão a Deus e à constante mulher, escassamente a pôde aquietar, que não pusesse por obra o que com tão bom zelo intentava. Não menos zelosa e constante se mostrou uma boa velha, cega dos olhos do corpo, mas não dos da alma, a qual, ouvindo dizer, que no lugar onde ela morava, andavam tirando certa quantidade de prata e arroz, para levar de presente a um feiticeiro mui afamado naquela comarca, e que para êste efeito a pediam a uma filha sua, sai de casa, assim cega como era, e, agastando-se muito contra os que pediam a dita prata e contra a filha, lhes disse: «E bem: ,inão sabeis vós, que tenho eu a Jesus Cristo por Deus e Senhor, e que fora dele não há a quem rogar, nem pedir salvação da alma, nem do corpo? tu não . sabes, filha, * que êste Senhor morreu por ti em uma cruz, e que te há-de salvar, ou condenar, conforme ao que fizeres? ^Pois, para que queres agora oferecer ao demónio o que te pedem, deixando de o fazer ao verdadeiro Deus e Senhor»? Com estas e outras boas coisas, que a boa mãi disse, a filha deixou de dar o que lhe pediam para o feiticeiro, ficando livre por tal meio; e os demais confundidos, desistiram de seu mau intento, louvando grandemente o zelo e constância da devota velha. Outra devota mulher, que em uma povoação, onde viviam cristãos de mis- tura com gentios, por ser antiga cristã e bem entendida nas coisas de nossa santa Fé, tinha licença para poder baptizar em necessidade. Sendo de noite avisada, que, em um caminho, um pedaço fora da povoação, estava um pobre gentio para morrer, e que pedia instantemente o baptizassem, porque desejava morrer cristão; movida de santo zêlo e do desejo de salvar aquela alma, sai-se de casa, sem ter conta com a escuridão da noite e chuva, que fazia bem grande; chega ao enfêrmo, e instruíndo-o o melhor que pôde, pelo achar já na derradeira, o baptizou, e na mesma noite, como se pode crer, foi gozar de seu Criador. A segunda missão foi às ilhas do Gôto, onde há muito número de cristãos, espalhados por diversos e distantes lugares, os quais no meio daqueles gentios perseveram, dando grande exemplo de sua Fé e Cristandade, na qual se con- servam mui inteiramente, com as fôrças e ânimo, que cada ano recebem com estas visitas. Foi o padre bem recebido do senhor da terra e de seus gover- nadores; confessou a mil e oitocentos cristãos, pouco mais ou menos; baptizou a perto de cem meninos, filhos de cristãos, e também a sessenta adultos, que, ouvindo as prègações do catecismo, se baptizaram, com bom en*tendimento, ficando outros muitos com desejo de se baptizar, que então, por certo impedi- mento, não puderam pôr por obra. Entre muitos Coreas cristãos, que por aquelas ilhas há cativos dos japoes, está um, chamado Paulo, com sua mulher por nome Ana, cativo do Tono e seu hortelão. Êste, pôsto-que há pouco, que se fêz cristão, fêz todavia tão bom entendimento, com sua mulher, das coisas de Deus, que é espanto, ver o fervor e zêlo e devoção que ambos têm; e tanto é isto, que todos os demais homens que o conhecem, ou tendo fama dêle o vão visitar: se são cristãos, se fazem devotos com seus conselhos; e se gentios, de ordinário se baptizam, sendo êle padrinho dos homens, e a mulher, Ana, das
  • Das coisas do Japão i57 mulheres; e, como é tão zeloso das coisas de Deus, e deseja particularmente ensiná-las aos de sua nação, de modo que sejam bons cristãos, quando o padre acha alguns de pouca devoção e que não sabem as orações, os persuade que vão visitar o dito Paulo, e se façam seus conhecidos, tendo por certo, que se aproveitarão muito em suas almas, como comummente acontece. Foi o padre a casa dêste bom Corea Paulo, persuadido dos cristãos da terra, por entenderem a consolação que o padre levaria em ver sua casa e oratório, que nela tinha, onde os outros cristãos Coreas daquela povoação se ajuntavam nos Domingos e dias de festa, a fazerem oração e a se encomendar a Deus. Entrou o padre em casa de Paulo, e vendo o oratório daqueles novos cristãos, lá no mais inte- rior da casa, aonde ninguém entrava senão a fazer oração, ficou atónito, mas grandemente consolado do que via; porque, pôsto-que a casa, por fora, parecia velhíssima, tosca e muito mal feita; todavia, lá dentro, em uma parte dela, tinha uma pequena câmara, mas muito limpa e bem esteirada, e nela um altar- zinho, pôsto em altura de seis ou sete palmos, com três imagens: uma de Cristo Nosso Senhor e as duas * da Virgem Nossa Senhora, com seus castiçais e uma alâmpada no meio, tudo mui ornado com várias flores e rosas, e o fron- tal de papel de diversas cores; tudo, finalmente, tão bem composto, limpo e devoto, que causava devoção a quem ali entrava, vendo semelhantes coisas, e também os dois bons Coreas, marido e mulher, humildes, mansos e devotos, que parece estavam incitando a mesma devoção. Grande foi a consolação, que o padre recebeu com tal visita, louvando muito a Deus, que tanto se comunicava àqueles novos cristãos, persuadindo-lhes com tão boa ocasião, que perseverassem no começado, que de tanto exemplo era, e de tanto proveito para os antigos e modernos cristãos. Uma mulher, de casta Corea, que servia ao Tono, se fêz cristã, por per- suasão dêste Paulo, Corea, acima dito. Feita cristã, veio a adoecer; e, como a doença era perigosa, e o padre se achou em tal tempo na terra, mandaram-no chamar, para a confessar. Foi o padre e achou-a já muito fraca no corpo, mas forte no espírito, fazendo colóquios e chamando por Nossa Senhora. Vendo, pois, a doente o padre, lhe disse: «Eu, padre, me chamo Úrsula; e, pôsto-que sou cristã de poucos anos e desta idade, que vedes, que passava já de cinqílenta anos, sei todavia as orações, e pela graça de Deus estou como me baptizei; nem me lembro que depois disso fizesse pecado; cada dia rezo muitas vezes o rosário». E entre umas palavras e outras, apertada da doença, ora chamava por Jesus Cristo Nosso Senhor, ora por Nossa Senhora, ora [por] Santa Úrsula, que era a santa de seu nome. Edificado o padre de sua fé e devoção, a começou a instruir e incitar à confissão, procurando de buscar matéria para a absolver, que quási não podia achar em uma alma tão pura e cândida, como aquela era; do que muito edificado e consolado louvou ao Senhor, que em tôda a parte tem seus escolhidos, sem aceitação de pessoas. * No ano seguinte, foi outra vez o padre, como costuma e nesta os pre- *pi. 147*. parou para a visita, que o Bispo pouco depois lhes havia-de fazer, para lhes dar o sacramento da Confirmação. Fêz neles muito fruto; levantou, de novo, duas igrejas, em diversos lugares, e afora os meninos, filhos dos cristãos, que foram perto de cento e vinte, se baptizaram dos adultos passante de noventa, entre
  • 158 Das coisas do Japão os quais entraram alguns homens honrados, que imediatamente servem ao Tono. Depois disto, foi o Bispo, ao qual o Tono recebeu com tantas honras e agasa- lhados, e o tratou com tanta cortesia e reverência, e da mesma maneira todos os seus principais, que mais se não pudera esperar de um senhor muito cristão; porque, além dos banquetes, que êle e os seus nobres lhe deram, e de lhe fazer representações públicas, e uma solene caça de veados, a que se ajuntou grande número de gente, de pé e de cavalo, que os corria em um largo campo, estando o Bispo e os seus vendo de certo lugar, sendo o Tono em tudo o principal, e o que mais mostrava alegria e contentamento, que recebia com a vinda do Bispo a suas terras, honrando-se tanto dela, que fêz tudo o que pudera fazer a um senhor grande de Japão, que a elas [o] fôra visitar. Bem desejou o Bispo de escu- sar estes gasalhados; pois seu intento e gosto não era mais que visitar suas ovelhas; mas, por não desgostar o Tono, e para consolação dos cristãos, não pôde deixar de os aceitar. Destas honras e agasalhados, que Gotodono fêz ao Bispo, se seguiu nos cristãos e gentios não pouco fruto; porque os cristãos se consolaram e animaram, recebendo com isto novas forças, para terem mão e irem por diante no caminho da salvação; e os gentios ficaram com mor conceito de nossa santa Lei, vendo que o senhor da terra tratava tão honrada e cortês- mente a cabeça dos cristãos, e perderam muitos o mêdo que tinham de a rece- ber, dispondo-se por esta via, para o fazerem ao diante, mais à sua vontade. Para o quê também ajudou muito, verem os cristãos e os mesmos gentios a • fi. 148. * solenidade e santas ceremónias dos divinos ofícios e a decência de ornamentos e ministros, com que o Bispo celebrava, e em particular, o da administração do sacramento da Confirmação àqueles fiéis, coisa para êles tão nova, e em tudo tão diferente das ceremónias, de que usam os bonzos no falso culto dos seus ídolos. Crismaria o Bispo, nesta visita, como três mil pessoas, ficando todos mui fortificados e animados nas coisas da fé, e juntamente edificados da caridade, com que viam o muito trabalho e incomodidades, que seu pastor naquela visita, por sua causa, padecia; porque, como nos lugares e aldeias daquelas ilhas não havia comodidade para o Bispo, com a gente que levava para seus ministérios, se poder agasalhar, de ordinário se agasalhava e dormia na embarcação, donde, como era dia, ia fazer seus ministérios às aldeias e povoações, que todas estão situadas ao longo da praia; e, ainda que o Bispo nisso tivesse muito trabalho, todo lho fazia fácil de levar, o grande alvoroço e alegria, com que aqueles cris- tãos o recebiam em suas pobres aldeias, saindo-o a receber com muita festa, e os meninos cantando salmos e orações; e da mesma maneira, quando se des- pedia, o acompanhavam com a mesma música. E antes que se partisse destas ilhas, alcançou do Tono, que em Vacochica, que é o lugar principal de todas elas, e onde êle reside e tem sua fortaleza, pudesse estar de assento um padre, para mais comodamente cultivar aquela cristandade, o que para ela foi de muito grande bem. A terceira saída, que se fêz de Nangazaqui, foi por várias vezes à ilha de Firando, onde há muito número de cristãos antigos, que por misericórdia de Deus se conservam na fé, com estarem sujeitos a um senhor gentio, que por nenhum caso sofre entrarem padres em Firando; pelo quê é necessário, quando
  • Das coisas do Japão lá vão, irem escondidos e agasalharem-se em casa de algum cristão, para os outros ali se virem confessar, de modo que o não venha a saber o Tono. Desta maneira o fizeram êste ano, com que * os cristãos muito se ajudaram, «Pt.i«s». confessando-se mais de quatrocentas pessoas. De uma destas vezes, foi um padre, em razão de um navio de portugueses, que ali estava de partida para o reino de Sião, os quais desejando primeiro de se confessarem, foram alguns deles a buscar o padre a Nangazaqui, cuidando que, como o Tono se mostrava tanto seu amigo, não tomaria mal a ida do padre lá, para aquele fim. Porém, tanto que o Tono o soube, grandemente se alterou, não sòmente contra o padre, do qual disse muitas injúrias, mas muito mais contra os portugueses, pelo terem lá levado, sem sua licença; e logo em continente mandou um recado ao dono da casa, que era cristão, que no mesmo ponto fizesse tornar o padre para Nan- gazaqui, senão que ao padre e a êle mandaria logo matar; e logo, de feito, nas costas mandou gente, da qual se entendeu, que vinham a executar logo a sen- tença de seu senhor. Vendo isto os portugueses e os mais cristãos julgaram que o padre se devia logo de embarcar, como fêz, mas com intento que dali a alguns dias tornasse secretamente, como tornou, e se meteu em casa de uma boa cristã, onde esteve por nove ou dez dias escondido, e aí confessou e deu o sacramento assim aos portugueses do navio, como a outros muitos cristãos da terra, a-pesar-do de- mónio e de seus ministros, que tanto procuraram impedi-lo. CAPÍTULO XII Do que se fê\ em Arima, e suas Residências NO colégio e seminário da Companhia, que está nesta cidade, e em oito residências a êle anexas, viveram êstes dois anos trinta da Companhia: dezaseis padres e os demais irmãos. * Destes, sete padres e seis irmãos estão nas residências pertencentes a êste Estado; os mais estão no colégio e seminário. Os do colégio têm à sua conta a cristandade desta cidade e seu têrmo; os do seminário, que é um padre e três irmãos, os alunos dêle, que são oitenta, procurando criá-los de tal modo em virtude e letras, que se façam aptos instrumentos, para o que de sua criação se pretende. Para isto se usa de um meio tão eficaz, como é a confraria da Anunciada, de que tanto fruto se segue em todo o Japão. Para o estudo das letras, lhes lêem aqui duas classes de latim e uma de Japão, em que aprendem a sua língua política, para mais ele- gantemente a poderem falar, e usar dela nas prègações e trato com a gente nobre e douta nas suas ciências. Há também aqui exercício de tanger e cantar nossos instrumentos, para poderem ajudar na celebração dos ofícios divinos, de que tanto proveito se segue em Japão, e tanto crédito e estima à nossa santa Lei. Os que se ocupam com a cristandade do distrito de Arima, o fazem não só com o fruto ordinário, mas sempre maior e mais copioso, assim pela dili- gência continua dos obreiros, como também pelos favores de Dom João Arri- mandono e de Justa, sua mulher, senhores dêste Estado, que cada vez mais vão
  • i6o Das coisas do Japão crescendo assim na devoção e piedade crista em suas almas, sendo a todos um vivo exemplo nesta parte, como no zelo do bem espiritual de seus vassalos. Além do fruto, que se faz na cultivação dos cristãos já feitos, que é o que dizemos, dos gentios se baptizaram como trezentos e cinquenta adultos^ que de outras partes se vieram para êste Estado; porque dos naturais dêle não há já que converter, por todos serem cristãos. Km um destes anos visitou o Bispo, neste distrito, e deu o sacramento da • fi. 149v. Crisma a dezassete mil pessoas, pouco mais ou menos. * Levou Nosso Senhor para si, nestes dois anos, três pessoas principais, que por suas vidas e mortes serem tão exemplares, e para envejar a todos os fieis, não é razão que passe- mos, sem deixar delas uma tão suave memória, como [em] todos os tempos o será a quem ler esta relação. A primeira foi uma senhora, por nome Dona Maria, sogra de Arrimandono, mãi de sua primeira mulher; foi esta filha de um Tono dos principais deste reino de Figém, por nome Isafaidono, e foi casada com um irmão mais velho de Arrimandono, e próprio herdeiro da casa de Arima, por cuja morte ficando viúva com uma só filha, dai a alguns anos se baptizou, com bom entendimento das coisas de Deus, no qual se foi sempre aperfeiçoando, e entrando cada vez mais no gosto delas, de tal maneira, que alem da brandura natural e boa inclinação, como era de muito bom saber e prudência, e também de grande fortaleza de ânimo para executar o que julgava ser conveniente, deu-se tanto de propósito à virtude e coisas de sua salvação, que a todos era um vivo exemplo nesta parte, sem faltar todavia na outra das obrigações e cum- primentos do mundo, como senhora que era, e que tinha casa e criadas, a que não podia deixar de acudir; mas isto com tanto tento e prudência, que todos se maravilhavam de ver quão bem ajuntava estas duas coisas tão difíceis, cum- prindo com elas tão exacta e pontualmente, que a cada uma dava o seu, com aquela eficácia e perfeição, que a importância da matéria pedia; e tão particular o fazia nas coisas espirituais de sua alma, que, como tanto lhe importava, a antepunha sempre a todas as mais. Era esta devota senhora grandemente dada à oração e trato com Deus; e tanto que, afora as horas que tinha determinadas cada dia para isto com seu •fi. 150. relógio, mui*ta parte das noites, depois de todos os seus recolhidos, gastava neste santo exercício, no qual lhe comunicava Deus Nosso Senhor tantas forças e gostos espirituais, que nas necessidades, que se ofereciam, seu ordinário re- curso era a oração e comunicação com Deus, de quem esperava o remédio que desejava. O que fazia com mais eficácia nas necessidades de maior importân- cia, usando algumas vezes para isto da oração de quarenta horas, que tomava por meio eficacíssimo para alcançar de Deus o que com tanta confiança lhe pedia, não deixando também outros meios de Missas e orações, que pedia aos padres e irmãos, o que era nela muito ordinário. Suas penitencias e mortifica- ções, depois que começou a entrar mais nas coisas do espírito, foram mui grandes e muito de notar em senhora criada em mimos e regalos até à idade de trinta e cinco anos, que se fêz cristã. Tomava muitas disciplinas de sangue, entre ano, afora as outras, que de ordinário tomava cada semana, tendo para elas seus dias e tempos determinados, e também para o cilício, que nela era mui frequente. Sua abstinência era mais para maravilhar, que para imitar,
  • Das coisas do Japão 161 sem particular espírito; pois quási todo o ano era para ela uma contínua qua- resma; o que, se fôra sòmente por um ou dois anos, se pudera bem levar; mas foi tantos anos, jejuando todos os dias da semana, comendo tão leve e paica- mente, que mal se podia crer, nem entender como esta senhora passava a vida com tão pouco comer. Às sextas-feiras, em memória da Paixão de Cristo Nosso Senhor, se absti- nha do sal e de tudo o que o levava, o que para os JapÕes era coisa de grande mortificação; e estas e outras semelhantes mortificações costumava fazer muitas vezes, conforme as ocasiões que se lhe ofereciam, as quais nao deixava passar, sem o merecimento que nisto alcançava; * no que era tão pontual, que se alguma • ki.,5oy. vez em algum banquete, a que lhe era forçado achar-se, se não podia escusar de comer alguma coisa contra o que tinha proposto e determinado, logo depois o refazia com alguma outra mortificação. Seu dormir e repoisar era muito pouco, o que ainda fazia, de ordinário vestida, em uma pobre esteira, por mais se mortificar e afligir seu corpo, que desejava ter sobretudo sujeito ao espírito; e pôsto-que por ser quem era, e ser visitada de muitos, tratava exte- riormente sua pessoa limpa e honradamente, agasalhando a todos muito bem, e com a honra que a cada um se devia; todavia, no tratamento das portas a dentro, dava a todos não sòmente exemplo de pobreza, mas também de humil- dade, exercitando-se em obras baixas e humildes, como em varrer e limpar a casa, coser os vestidos dos pobres, regalá-los o melhor que podia, e exercitai a caridade em secreto com pessoas, com quem, pelo estado que tinha e por ou ros bons respeitos, o não podia fazer em público; e finalmente em fazer outras pias obras, em que continuamente se ocupava, fugindo sempre, quanto podia, de estar ociosa e sem ocupação, que não fosse proveitosa ou para si, ou paia o próximo. Todas estas coisas acima ditas, de oração e abstinências, e penitên- cias e outras obras virtuosas fazia, com tanta prudência, recolhimento e pejo, e ainda com uma santa dissimulação, que bem mostrava o contentar-se sòmente com que visse Nosso Senhor o que fazia, a quem puramente piocurava de agradar, e não aos homens em tais obras. Mostrava mais sua humildade na grande sujeição, que tinha aos padres, particularmente a seu confessor, o qual, alem da pureza da vida, que nela achava, tanto que sempre teve dificuldade em lhe achar matéria de absolvição, • fi. iSi. achava também nela tanta sujeição, que de muito boa vontade e com grande prontidão se conformava com o que êle lhe dizia e aconselhava, ainda cm coisas, que por serem de maior merecimento e virtude, parece se devia de con- descender com ela, e com o grande e intenso desejo, que sempre teve da fre- quência dos sacramentos da Penitência e Eucaristia; e havendo nela as razoes que havia, para se-lhe fazer alguma vantagem mais que a outros nesta parte, foi sempre tanta sua humildade, e tanta sua conformidade com o que seu con- fessor queria, que a todos edificava grandemente; coisa que em pessoas espiri- tuais é mui difícil de achar em semelhante matéria. Esta sujeição e obediência a seu confessor lhe durou até expirar; pois, tendo de ordinário em suas doenças, e particularmente na última e derradeira, grande dificuldade em comer, como todos já sabiam sua muita sujeição ao padre, o melhor remédio que achavam para a fazer comer, ou comer alguma ai
  • 162 Das coisas do Japão coisa, era acudir ao dito padre; e muito mais se sentia nela esta obediência, quando lhe diziam, que o padre estava presente, reprimindo-se então mais e aquietando-se, e fazendo notável força à natureza, para não discrepar da von- tade do padre. Em uma coisa sòmente tinha esta senhora dificuldade, e foi em obedecer aos conselhos dos padres, que sempre, desde que se fêz cristã, lhe deram, por verem o excesso das penitências e rigores, com que domava seu corpo; mas, como parece que Nosso Senhor a levava por êste espírito de rigo- res e asperezas consigo, sempre teve dificuldade em o moderar, e obedecer em semelhante matéria ao que os padres lhe diziam, até que, por derradeiro, se entendeu ser espírito de Nosso Senhor, que nela se continuou até à morte; de • fi. i5i v. modo que, quanto mais se ia chegando ao fim da vida, tanto mais a ia * dis- pondo o mesmo Senhor com maiores aparelhos de penitência, para melhor e mais absolutamente acabar seu natural curso, como o fêz na quaresma, antes de sua morte, que parece entendeu ser a última da vida, assinalando-se mais nas penitências e mortificações, na frequência da oração, no visitar das igrejas a pé, e às vezes descalça, de longe e de perto; finalmente em fazer outras coisas de merecimento, mais do acostumado, com notável fervor e devoção. Estava também esta senhora grandemente desapegada das coisas do mundo, e actualmente esperando a resposta do Tono, do que com muita instância lhe tinha pedido, que era lhe tirasse a renda que tinha e a deixasse viver pobre- mente em uma casinha, junto do sepulcro de sua filha Dona Luzia, para que, livre das obrigações e impedimentos do mundo, se ocupasse tôda em Deus Nosso Senhor, e em seu santo serviço: o que, como o mesmo Senhor lhe de- terminava cumprir na outra vida, dando-lhe nela uma eterna morada, a foi dispondo da maneira que temos dito, concluindo suas penitências e corporais aflições com uma disciplina de sangue, que na semana antes das Endoenças tomou, já alta noite, e suas comunhões e vigílias em a Quinta-feira de Endoen- ças, vigiando em oração tôda a noite precedente, sem nela dormir nada, o que nela era coisa ordinária, todas as vezes que havia-de comungar. O quê feito, como se chegava já o fim de sua peregrinação, acabada a festa da Ressurreição, adoeceu gravemente, e fora do que costumava algumas vezes em tais tempos, que se cria que era das muitas penitências, que fazia na quaresma; e enten- dendo que morria instou muito lhe dessem a Santa Unção, que recebeu com •Fi. i5i. grande consolação sua e dos presentes, co*mo também o fêz, com a lição de algumas coisas devotas, que para o passo da morte andam impressas em língua de Japão, no manual dêste Bispado, consolando-se sumamente e animando-se com tão proveitosa e acomodada lição para tal hora. Acabado isto, fêz logo esta virtuosa senhora seu testamento não de coisas temporais e alfaias de casa, nem de outras coisas pertencentes a sua família e criados; porque, como estava tão desaferrada das coisas do mundo, não quis fazer delas menção alguma, mas fê-la de coisas espirituais e devotas, repartindo ela mesma por sua mão estas coisas entre o Tono, a sua mulher Camisama e suas netas; e entre os padres, que em tal tempo lhe assistiam. Vendo os cir- cunstantes, que na repartição não fazia menção de uma filha do Tono e neta sua, a quem muito amava, que ao presente está em refens, na cidade de Yendo, no Quantó, lhe disseram, que para lembrança sua lhe deixasse também algumas
  • Das coisas do Japão 163 daquelas coisas espirituais, que repartia. Respondeu que, como sua neta estava agora entre gentios, não se atrevia a deixar-lhe nada daquela riqueza, pelo pe- rigo que havia de vir a mãos de algum gentio. Tanta era a estima e reverên- cia, que esta senhora tinha a estas santas coisas. Entrou, pois, em artigo de morte, enxergando-se sempre nela uma parti- cular alegria e serenidade no rosto, a qual como lhe durasse até o cabo, e fôsse tão grande, que todos advertiam nela e a notavam, lhe disseram, que sem dúvida parecia [ter] sua alma uma grande e segura confiança de se ver logo com Deus, persuadindo-se ainda os que melhor sentiam, que via alguma coisa; mas ela, não diferindo nada ao que lhe diziam, com sua acostumada modéstia e humildade, sem nenhuma perturbação, continuou com uma grande paz e sere- nidade com as pa*lavras santas e devotas, que sempre dizia, com as quais • n. i5i v. alevantando os olhos ao céu, e tornando-os a fechar, deu seu espírito ao Senhor, ficando seu rosto e semblante mui composto e sereno, e semelhante à santa vida e morte, com que Deus a chamou para sua glória. Foi sua morte assaz chorada dos circunstantes, e acompanhada com bem de lagrimas, mais de de- voção e santa inveja, que de dor e tristeza, que nela não tinha[m] lugar. Morreu de idade de sessenta e dois anos e vinte e sete de sua conversão, deixando tôda a cristandade de Arima mui edificada com o exemplo de suas muitas vir- tudes, de que Nosso Senhor a quis dotar, para imitação de muitos. Fez-se seu enterramento e exéquias mui solenemente, para o que se ajun- taram todos os padres e irmãos daquele distrito, por assim o merecer esta senhora, assim por ser quem era, como e muito mais, por nos ter tanto hon- rado e edificado, e a tôda aquela cristandade com sua santa vida e morte. Ajuntou-se também tanta gente, como se costuma ajuntar nas festas mais sole- nes. Houve prègação, em que se falou de suas virtudes e coisas de edificação, que nela resplandeceram, não sem lágrimas dos ouvintes, com as quais lhe acompanharam o corpo até à sepultura, com desejo de a imitar e caminhar pelo caminho, porque ela caminhou para a Glória e Bem-aventurança, de que por misericórdia de Deus para sempre estará gozando. Semelhante morte deu também Nosso Senhor a outra senhora, por nome Isabel, mulher que foi de Minasacadono Jacobo, de cuja constância e fortaleza na Fé se tem escrito em outras relações, e das baterias, que padeceu, ela e seu filho Saquiamon Jacobo, no reino de Saxuma, onde viviam, para que deixassem a Fé, e particularmente o dito Jacobo, seu filho, a quem queriam fa*zer retro- *fi. 153. ceder, mandando sobre isso tantos recados à mãi, sem nunca o poderem aca- bar com ela, nem menos com o filho; até que, desesperados aqueles gentios do que pretendiam, tomaram por seu partido não falar mais nisso. Alcançada esta vitória, procedeu sempre Isabel, com seus filhos e família, como boa e aprovada cristã, sendo algumas vezes consolada por um padre, nosso, que a foi visitar e a todos os seus, administrando-lhes os sacramentos da Confissão e Comunhão, para por esta via alcançarem maiores forças, para resistir aos combates, com que os demónios por seus ministros pretendiam der- rubá-los. Perseverando desta maneira imóvel na Fé e devoção, da mesma maneira seus filhos e família, como era fraca, veio a adoecer de uma comprida doença, e tal, que a pôs no cabo. Sentindo-se pois, que ia morrendo, a mór
  • 164 Das coisas do Japão pena que tinha, era haver de deixar seus filhos de tão tenra idade entre aqueles gentios, com perigo de pelo tempo adiante se virem a esquecer das coisas da Fé, maiormente seu filho morgado, Sacuieemon Jacobo, que actualmente ser- via ao Yacatá de Satcuma, que, ainda que até então se tinha mostrado mui forte e constante, à sombra da mãi, todavia, como não tinha mais de idade [que] quinze anos pouco mais, depois dela morta, não sabia o que lhe aconteceria} pelo quê, como a principal herança, que desejava de deixar a seu filho em tes- tamento era a Fé cristã, em que desde menino o criara, e em que seu pai mor rera, e ela, sua mãi, também esperava morrer. Estando seu filho de caminho para a côrte de Fuximi, em companhia do dito Yacatá, chamou-o perto de si, e, desp^dindo-se dele, lhe disse, como ela morria; que a principal coisa que lhe encomendava era a perseverança na Fé de Cristo Nosso Senhor, e em seu santo serviço se assinalasse mais, que em nenhuma outra coisa; dando-lhe além disto outros saudáveis conselhos a êste propósito. Para êste efeito, escolheu • fi. 153 v. um criado seu, princi*pal, mui bom e devoto cristão, que nesta jornada o acompanhasse, para que, tendo tal ajuda, melhor se pudesse conservar no que dêle mais desejava. E dizendo-lhe os mais criados, que acompanhando o tal homem a seu filho naquela jornada, seria grande perda para os mais que fica- vam, e também para o governo de sua casa, respondeu, que, ainda que a casa se perdesse no temporal, nada lhe dava disso, a troco de se não perder a Fé de seu filho, que sendo menino, e havendo de tratar e andar de mistura com gentios, tinha necessidade de semelhante pessoa, para o sustentar nas coisas dos cristãos, que era o que lhe ela mais queria e desejava, que a perpetuação e governo de sua casa. Em todo o tempo da doença mostrava muita paciência e conformidade com a vontade de Deus, sem quási tratar de outras coisas mais, que das de sua alma e da Bem-aventurança, o que fazia mais frequentemente e mais de propó- sito, sentindo-se já no cabo da jornada, no qual tempo, chamando perto de si a dois filhos e uma filha, os mais pequenos que tinha, como entendia que a me- lhor riqueza e herança, que lhes podia deixar, era a da constância e perseve- rança na Fé, como tinha deixado e encomendado a seu filho morgado, tomando as mãos a cada um, lhes disse nas derradeiras palavras: «O que, filhos, vos deixo por testamento, e o que muito vos encomendo e mando, é que não ado- reis a Camís, nem Fotoques, mas que sempre vos lembreis de Deus; a Ele só adorai, e tende sempre suas coisas diante dos olhos, sem delas vos apartardes; e avisai-vos que presevereis firmes e constantes na Fé, sem nunca a deixar»; o que disse, com tanto afecto, qua aos presentes causou suma devoção; e logo, chamando a três principais criados seus, que governavam a casa, lhes encomen- dou o mesmo, sem lhes inculcar, nem encomendar coisa alguma do mundo, nem da fazenda, nem alfaias da casa, como quem nada estimava estas coisas em comparação das principais, que eram as da salvação, que tanto desejava •fi. 154. deixar bem impressas nos tenros co*raçÕes dos filhos e criados. Chegou-se, pois, a hora da morte, e, depois de recebidos todos os sacramentos, quando houve de receber o da Unção, ela mesma, assentada na cama, alevantando as mãos, disse com muita devoção a confissão geral, e com a mesma recebeu êste último sacramento; e, daí a meia hora, estando sempre em seu perfeito juízo,
  • Das coisas do Japão 165 acabou seu curso, com grande paz e quietação, não sem espanto dos presentes, por verem tal morte, com que Deus Nosso Senhor a quisera levar para si, para lhe pagar sua constância e fortaleza na Fé, e outras muitas boas obras, que fizera na vida. De alguns Casos notáveis e outras Coisas de edificação, que sucederam em Arima e seu Distrito OMO esta cristandade é nova na Fé, parece que a quere Nosso Senhor confirmar com algumas demonstrações de casos, que por algumas vezes permite que aconteçam nela a alguns novos cristãos, para lhes significar a certeza da imortalidade da alma e coisas do outro mundo, as quais, por não terem repugnância com as coisas, que a Fé nos ensina, e serem semelhantes a outras, que já no mundo sucederam, parece que piamente se pode crer seriam de Deus, e por também serem proveitosas para todos, as poremos aqui. Uma mulher, de nação Corea, pessoa simples e devota, acertou de adoecer de repente, de tal maneira, que ao terceiro dia da doença ficou totalmente fora de si, com os sentidos todos perdidos, sem dar acordo de nada; tanto que os presentes cuidavam que estava morta; todavia, como foi coisa tão repentina, fizeram nela algumas experiências, como meterem-lhe agulhas por muitas par- tes, e outras coisas semelhantes, para por esta via me*lhor se certificarem, se estava morta ou viva; mas, por mais experiências, que nela fizeram, não sentia nada, nem menos tornava em si; pelo quê, quási persuadidos que morrera, esta- vam já para a amortalhar. Durava êste acidente por espaço de cinco horas, as quais acabadas, tornando a doente em si, atónita e pasmada, contou as coisas seguintes: Primeiramente, que fora levada ao Inferno, e nêle vira penar muitas almas miseràvelmente em modo, que era para ter suma dor e compaixão; o que vendo, fôra o seu mêdo tão grande, que o não podia explicar com palavras. Ali dizia ela que vira muitas panelas ou caldeiras, postas por ordem ao fogo, nas quais se estavam assando e frigindo muitas almas, e por diante destas pane- las passava um rio de água muito fria, no qual, tirando as ditas almas das pane- las ou caldeiras ardentes, as metiam, e tornando-as a tirar, as tornavam outra vez a meter nas mesmas caldeiras, passando-as de um extremo de quentura a outro de intolerável frialdade. Viu também outras almas, pregadas com pregos na testa, três nos peitos, e outros nas mãos e pés, conhecendo juntamente os pecados, pelos quais eram as ditas almas atormentadas. Ali dizia ela, que se encontrou com uma mulher, que conhecera neste mundo, e que esta alma lhe falara e dissera: «Clara (que assim se chamava esta mulher Corea), aqui estou nestes tormentos, por ter movido um filho e por eu morrer sem Confis- são»; com o quê, Clara ficara atónita, por se ver nomear por seu nome, e tam- bém por lhe falar aquela alma e dizer a causa de seus tormentos; o que na verdade assim passara em vida daquela mulher. Contou mais, que conhecera e vira naquele logar muitas outras pessoas, assim homens como mulheres, que estavam nos tormentos por seus pecados particulares, que ela contava, acres- CAPÍTULO XIII
  • 166 Das coisas do Japão centando que, quando se lembrava do que ali vira, lhe tremiam as carnes e se-lhe arripiavam os cabelos. •fi. i55- * Passando mais adiante dêste sobredito lugar, dizia que fôra dar com outro muito escuro, onde não aparecia ninguém, mas que estavam nele muitos, chorando e gritando, e como quem dizia: «Rogai por nós»; o qual lugar, dizia ela que seria o Purgatório. Indo mais adiante dêste lugar, contava que fôra ter a outro mui largo, ameno e formoso, todo alcatifado e coberto de rica tapeçaria; de modo que não aparecia nada de chão; e, chegando-se mais perto, viu estar um portal formosíssimo, esmaltado todo de oiro e prata, e muitos degraus, que iam subindo para cima, semelhantes, como ela dizia, na feição e ordem às escadas do Sepulcro de Quinta-feira de Endoenças, quando nele se encerra o Senhor, os quais degraus estavam cheios de candeias, e de uma e outra parte muitos meninos, mui formosos por estremo, todos com seus livros nas mãos abertos, rezando por eles, entre os quais, segundo dizia, que vira um menino, que ela conhecera, o qual morrera da idade de cinco anos, e havia três que era morto, e que êste menino lhe falara e a metera para dentro dos degraus, pelos quais subindo, lhe apareceram três sacerdotes revestidos, e lhe preguntaram, quem era? Ao que respondendo o menino quem era a dita mulher, disseram os Sacerdotes: «Este é um lugar, aonde não entra pessoa suja e imunda». Estando assim nas práticas, sentiu então a doente uma das agulhas, que lhe meteram pelo rosto, e tornando em si, mui espantada, contou tudo isto, que um padre mesmo lhe ouviu uma ou duas vezes contar, não como sonho, que dizia o não era, senão como visão que tivera; depois da qual dizia que sentia seu coração totalmente mudado do que era dantes, e sarando logo da doença, procede agora e anda muito mais devota que primeiro. Outra mulher, por nome Marina, pessoa sisuda, quieta e devota, um dia, •fi. ií5t. mudando-se-lhe de repente as cores * do rosto, começou a falar alto, e fora do costumado, dizendo: «Eu sou Leão, eu sou Leão». Era êste Leão sogro de um homem, chamado Miguel, primo da dita Marina, e havia muito tempo que era morto. Ouvindo isto Miguel, com sua mulher e mãi e outras pessoas, que estavam presentes, e vendo o extraordinário modo de falar de Marina, a mu- dança do rosto, e outras acções diferentes das que dantes tinha, ferraram dela, dizendo-lhe que estava doida. Como?! Vós estais doida! E querendo-a subjugar, e não podendo, pela grande força que tinha, tornou Marina a dizer muito afir- mativamente: «Eu sou Leão; e vim aqui por certas causas; parecendo-se tôda, assim no modo de falar, como de bulir com as mãos, toada e som da voz, e moções do corpo com o mesmo Leão. «Quanto de mim, disse êle, não tenhais pena, porque por misericórdia de Deus me salvei; mas venho cá por ordem do mesmo, para dar um conselho a meu genro Miguel, que está aqui; e falando com êle lhe disse: «Digo-vos, Miguel, que se não vos emendais, haveis-de rece- ber um castigo de Deus»; e falando também de uma irmã do mesmo Miguel, por nome Mícia, disse: «Mícia não tem mais que o de fora, com que anda enganando aos padres, e assim comunga; mas por dentro não tem nada, e não há-de escapar do castigo de Deus! «Por isso, Mícia, emendai vossa vida, e rece- bei a comunhão dignamente e com verdade; porque todo aquele que recebe bem e com verdade êste Santo Sacramento, tem sua alma no Paraíso uma
  • Das coisas do Japão 167 grande dignidade, da qual eu não fui digno, por não chegar a o receber». O quê dito, se aquietou Marina, tornando [a ficar] como dantes, mas não que lhe tornas- sem as cores, por espaço de três dias. Ouvindo isto Miguel, espantou-se algum tanto; mas era mancebo; não fêz muita conta disto, nem menos sua irmã Micia; antes zombando, disse que algum demónio entrara em Marina e lhe fizera dizer despropósitos, o que também outros diziam, fazendo pouco caso * do acontecido. Passado isto, daí a três dias, torna Marina a ficar e falar, como de pri- meiro, e a fazer o mesmo e pelo mesmo modo; e falando de Mícia, disse: «Não tem razão Mícia de dizer, que o demónio entrou em mim; chamem-ma cá de pressa! Eu lhe mostrarei, se sou demónio ou não; e entendei todos, que eu sou aqui mandado de Deus». Com isto começaram todos a temer, e com medo que tinham e arreceios do que seria, não quiseram chamar a Micia. Então Miguel, cobrando ânimo, disse, como quem falava com Leão, qual era a razao porque entrara em Marina, que nao tinha culpa? Ao que êle respondeu: «Basta, eu não sou demónio, mas Deus me mandou com êste recado, e em sinal disto, depois que eu me fôr, não sentirá nada Marina, nem menos terá dor alguma». E, chamando Miguel à parte, lhe disse à orelha, quanto cuidava em seu coração, e outras mais coisas mui secretas; as quais ditas, tornou Marina logo em si, e em seu primeiro ser e cores do rosto, sem se lembrar nada do que tinha feito e dito, como se tal lhe não acontecera. Atónito com isto Miguel, se foi logo ter com o sacristão, que vigia a igreja do lugar, onde isto aconteceu; e, contando-lhe tudo miúdamente, como pas- sara, lhe disse, que ainda que êle não tinha visto o outro mundo, todavia, pelo que êle vira e ouvira, lhe parecia que o tinha visto presencialmente, e compun- gido grandemente se foi ter com o padre, e se confessou logo, com muita fé e devoção, e também firmes propósitos de emendar a vida; e disse ao padre, que as coisas que êle cuidava em seu coração, quando Marina lhas descobriu, eram tão secretas, que só Deus as podia saber; pelo quê, vir uma mulherinha, dizia êle, e dizer-lhas todas, sem ter nenhuma notícia, nem menos indícios do que êle podia cuidar, e também não sendo mulher leve nem palreira, antes muito assentada, vergonhosa e de poucas palavras, descobrir-lhe os secretos de seu coração, não podia ser ou*tro senão seu sogro Leão, que Deus mandara, para »fi. iíõt. o avisar de suas desordens, para que delas se emendasse e mudasse a vida, como com a graça de Deus determinava fazer daí por diante. Dêste bom efeito, e das mais circunstâncias do caso se persuadiram os que o viram e ouvi- ram como passou, que seria coisa de Deus, e como de tal falavam dêle na terra, não sem fruto de uns e outros. Um bom e provado cristão, por nome Joaquim, adoecendo gravemente, mandou chamar ao padre, para se confessar. Confessado, daí a dois dias, depois da meia noite, começou a responder, como que alguém o chamava, dizendo: «Sim, logo irei». Alevantando se a estas vozes os de casa, lhe pre- guntaram que era o que dizia? Respondeu Joaquim, que Nosso Senhor o cha- mava para a Glória, e que vinha acompanhado de muitos Anjos; e, chamando a todos junto de si, se começou a despedir dêles com grande alegria, como quem ia mais a viver que a morrer. Sabendo isto o padre, acode logo lá com um crucifixo e uma candeia, e tomando o doente o crucifixo em uma mão, e a
  • 168 Das coisas do Japão candeia acesa na outra, começou a dizer as orações e a bater nos peitos, com grandes sinais de contrição; e, tornando-se a despedir de todos, como choras- sem os filhos na tal despedida, os repreendeu o pai amorosamente, porque choravam por sua ausência e apartamento, pois êle ia para o paraíso, lugar de todo o gôsto e alegria e deleites? E, virando-se para o padre e irmão, que não podiam reter as lágrimas de devoção, de ver morrer ao bom Joaquim tão san- tamente, lhes disse, que no Paraíso, para onde caminhava, se não esqueceria deles. O quê, dito, acabou em paz, com grande alegria e consolação sua e dos presentes, e se foi a gozar eternamente de Deus, deixando a todos uma santa inveja a tão boa morte, mas muito mais [da] ditosa sorte que no Céu lhe caberia. • fu 167. * Um mancebo cristão, sendo tocado de lázaro, foi aconselhado dos gen- tios e ainda persuadido, que, se quisesse sarar, fôsse em romaria a certo Foto- que, e se encomendasse a êle, que logo sararia. Movido o fraco cristão do desejo da saúde e de se ver livre de tão grande mal, fê-lo assim, como os gen- tios lhe aconselhavam. Foi ao Fotoque, e, cumprida sua romaria, tornando-se para casa, no mesmo caminho subitamente ficou todo lázaro, sem quási lhe ficar parte do corpo sã; do que espantado, vendo clarissimamente o castigo de Deus sobre si, pelo pecado que fizera, em chegando a casa manda logo chamar o padre; conta-lhe o caso, com grande arrependimento do pecado, que tinha cometido contra Deus, e com o mesmo se confessou, conhecendo quão justa- mente fôra por Ele castigado. Divulgado o caso no lugar, confirmou muito aos cristãos. Outro cristão, que era cego, por persuasão dos gentios e mêdo de perder seu remédio de vida, veio a retroceder da Fé; o quê feito, visivelmente o cas- tigou Nosso Senhor, dando-lhe uma doença ascosa em cabo e grandemente nojenta, de várias chagas por todo o corpo, mas principalmente de uma na metade da testa, em cuja cura chegou a gastar quanto tinha; de maneira que veio a estranha pobreza e miséria, sem nunca poder sarar da chaga da testa, sarando das outras mais. Vendo-se, pois, em tal estado, abrindo-lhe Nosso Senhor os olhos da alma, veio a cair na conta do seu êrro; para o qual lhe deu o mesmo Senhor um pensamento, que nunca pôde lançar de si; e era cuidar que o castigava Deus por seus pecados; e assim, sempre se-lhe oferecia isto á memória, dizendo consigo de ordinário: «Não sem causa me castiga Deus por meus pecados; e particularmente não sarar eu desta chaga da testa em tantos •Fi. i57t. anos, é dizer-me Deus, que # me lembre, que no lugar, onde recebi a água e óleo do santo Baptismo e fiz o primeiro sinal da Cruz, aí me castiga sua divina Justiça». Este santo pensamento o perseguiu, e matinou tanto nêle, que, sem se poder aquietar, nem resistir à inspiração de Deus, que o chamava à penitência, arrependido do passado, mandou dizer ao padre, que se queria confessar e reduzir. Foi lá logo um prègador a o ensinar; e tal entendimento fêz em as prègações, e tal conversão, que se confessou com muitas lágrimas e sinais de arrependimento; tanto que o padre e os mais que isto viram, ficaram admira- dos, e muito mais da milagrosa cura da chaga da testa, que logo se seguiu, depois da cura das chagas da alma pela confissão. E assim, ficando são na alma e no corpo, por um modo tão maravilhoso, procede agora com grande fervor e devoção, não sem proveito dos cristãos, que souberam de tal maravilha.
  • Das coisas do Japão 169 Dois homens honrados, escandalosos no povo, por viverem muito mal, sem nunca quererem ouvir os bons conselhos da Igreja, andando neste estado, no tempo que lhes parecia que estavam mais seguros e em certa maneira mais favorecidos dos senhores, lhes veio o castigo do céu de sorte, que a um, por ter umas palavras com outro, lhe fenderam a cabeça pelo meio; a outro lha mandou o senhor da terra cortar por justiça; o que foi para os cristãos de grande terror e exemplo, vendo manifestamente o efeito da Divina Justiça, ainda nesta vida, em quem lhe não guarda sua Lei. Entre os que de novo se baptizaram, se fez cristão um homem honrado, criado do senhor das ilhas de Xiqui, o qual entrou tão de veras nas coisas de cristão, e em tanta devoção, que em menos de quatro meses, depois do seu baptismo, era um vivo exemplo aos antigos cristãos; porque, no tempo da qua- resma, fazia penitências * e asperezas raras; jejuava[-a] toda, sem nela beber água lá chá(i) (certa beberagem, que bebem os Japões), nem menos água quente, nem outro género de bebida, salvo água quente de arroz, quando comia; pros- trava-se em tal tempo na entrada da igreja, para que os que entravam e saíam, o pisassem com os pés; finalmente fazia tais penitências e mortificações, que foi necessário ir-lhe o padre à mão; ao que êle respondeu, que estava prestes para em tudo obedecer, mas que, como com a graça de Deus, esperava de per- severar até o cabo da quaresma, pedia ao padre que o deixasse, pois o tempo era tão breve. Tinha este fervoroso cristão uma moça, de casta Corea, grande- mente agastada e emperrada, porque nem ao senhor, nem à senhora havia re- médio para obedecer, nem dar uma boa resposta. Vendo esta o senhor feito cristão, e a notável mudança que fizera em sua vida, movida com êste exemplo disse ao senhor, que a fizesse também cristã. O senhor, que sabia mui bem sua dura e indomável natureza, lhe respondeu, que nenhum fundamento tinha para ser cristã, pois era tão agastada e de má condição; mas que se se emendava, intercederia por ela ao padre; e assim a foi entretendo, para provar seus desejos e ver algumas mostras de emenda. Com o tempo, vendo que eram verdadeiros e mostrava estar emendada, a fêz bapti- zar. Baptizada, entrou nela a graça do Senhor de tal maneira, que se fêz uma mansa cordeira, tão paciente e devota, que além de jejuar a quaresma e outros jejuns da Igreja, e fazer outras muitas ordenações, se obrigou em tal tempo a ir cada manhã à igreja, a rezar suas devoções, e levar uma carga de água para o sacristão, que tem cuidado dela, dizendo que já que era pobre e cativa, pelo menos com o que podia, queria mostrar sua boa vontade e ganhar algum mere- cimento. Finalmente, ficou # tão mudada depois de cristã, que nunca mais se-lhe ouviu uma ruim resposta, nem uma palavra desentoada, tanto que a todos é um vivo exemplo, admirando-se grandemente do efeito, que nela fêz a graça do Santo Baptismo. Do colégio de Arima foi um padre japão, em missão, a visitar os cristãos do reino de Saxuma e particularmente a Coraxi, Sacugemon Jacobo, de quem por vezes se tem escrito, e também ao mesmo rei, de quem foi bem recebido e tratado honradamente, e da mesma maneira dos seus principais. O fruto, que (1) Assim está no orig. 22
  • 170 Das coisas do Japão colheu de seus ministérios é o ordinário, posto que muito de estimar em tal reino e terra, onde há tão finos gentios, e tão dados à adoração dos Camís e Fotoques, entre os quais se conservam aqueles poucos cristãos como milagrosa- mente, perseverando firmes e constantes em sua Fé e cristandade, dando dela sempre bom exemplo, com palavras e com obras, quando é necessário. Entre as terras, que El-Rei de Saxuma deu a Sacugemon Jacobo de renda, lhe caiu (segundo parece, por divina dispensação) um território onde (1) moravam uns ho- mens de uma seita, que se chama Lengicuxu, seita nova em Japão, que ali viera das partes da índia, chamadas Lengicu; porque, conforme a seu modo de adoração e crença, mostravam ter alguma notícia e conhecimento de Deus, determinou o padre de os ir ver, e saber que gente era, que era o que cria e adorava. Indo, pois, o padre ver esta gente, achou dois homens velhos, dos quais in- formando-se bem do que desejava saber, coligiu do tempo que havia, que aquela seita começara, e das respostas que lhe deram e seu modo de viver, que o Beato Padre Mestre Francisco fora àquele lugar, e prègara nêle o Sagrado Evangelho • fi.i59. a seus antepassados; porque fi*cando ainda algum rjisto e memória nos seus descendentes, que agora viviam, tinham algumas coisas dos cristãos, que ainda conservavam, pelas quais diferençando-se dos mais gentios, lhes chamavam Len- gicuxu, que quere dizer, seita das partes da índia, ou Oriente, chamadas Len- gicu; e, posto que, depois do Beato Padre Mestre Francisco prègar o Evangelho naquele reino, por duas vezes entraram nêle os nossos, para levar adiante o co- meçado, como acharam os bonzos contra si e contra a prègação do Evangelho, e em respeito dos ditos bonzos, o mesmo Rei de Saxuma os não quisera con- sentir em seu reino, sendo dêle desterrados, foram forçados a se sair, deixando aqueles poucos cristãos à Divina Providência, como também, pela mesma causa, deixara o Beato Padre e fôra prègar a outros reinos. Informado pois dos velhos o padre, da maneira que tenho dito, lhes disse, que conforme ao como viviam e ao mais que tinha ouvido, seus antepassados haviam-de ser cristãos, pois tais coisas lhes ensinaram, que são próprias dos cristãos; que, se queriam ouvir prègação e o verdadeiro caminho da salvação, cuja sombra e rasto já seguiam, que lhes prègaria; e, respondendo alegremente que sim, em quatro dias que o padre ali esteve com êles, lhes prègou principal- mente da Incarnação e Paixão de Cristo Nosso Senhor, e de outros mistérios de nossa santa Fé; do quê movidos, se baptizaram cinco; os dois homens velhos dos principais da terra, com suas mulheres, e uma velha, já de boa idade, a quem o padre pôs nome Maria. A esta velha, antes de se baptizar, preguntando o padre se tinha algumas relíquias e outras coisas semelhantes de gentios, tirou do seio dois rosários de contas de cristãos, de pau preto, muito velhas já e gas- tadas, sem saber dizer quem lhas dera, ou quando as houvera, respondendo sò- . fi. 159*. mente que os ditos rosários vinham * já de muitas idades, e que não sabia de quando eram. Com esta ocasião, disseram os da terra ao padre, que a dita velha era uma grande feiticeira, que andava fazendo muitas cerimónias gentí- licas, com as quais sarava a muitos doentes; pelo quê a tinham e estimavam todos (1) No orig.: aonde.
  • Das coisas do Japão 171 por mulher milagrosa. O que ouvindo o padre, disse à velha, porque fazia ela aquilo, não sendo gentia? Que, se quisesse fazer-se cristã, que daí por diante de nenhum modo havia-de fazer semelhantes coisas. Ao que a boa velha res- pondeu, que ela nunca fizera tais ceremónias de gentios; mas, apertando-a o padre, disse a verdade do que fazia e de que ceremónias usava, para que os doentes recebessem saúde, como diziam dela; então disse a velha, que punha somente aquelas, que ali mostrou, sobre os doentes, e rogava a Deus lhes desse saúde e prosperidade; e que com isto, saravam os doentes, sem lhes fazer mais outra alguma ceremónia. Pediu-lhe então o padre o relicário que tinha, para o ver; e, tomando-o na mão, achou dentro uma bolsinha de pano de algodão, já muito velha, e dentro nela uma relíquia embrulhada em um papel, o qual abrindo, achou escrito em nossa letra «Lignum Crucis», com sua relíquia; e, abrindo mais o dito papel, achou dentro um pedaço como de cera preta, envolta em algo- dão, que devia ser «Agnus Dei», e uma verónica de estanho, que tinha em uma parte Nossa Senhora da Conceição, e em outra o Crucifixo com os raios: do que ficou o padre espantado, não podendo cuidar outra coisa, senão que, por serem relíquias, que o Beato Padre Mestre Francisco daria aos pais ou parentes da velha, quando os baptizara, e êles por sua morte deixando-as à filha, e ensi- nando-lhe sua santidade, e a de quem lhas dera, e a virtude, que tinham para sarar os enfermos e obrar outras semelhantes maravilhas, usando delas com a simplicidade, fé e confian*ça em sua virtude, como esta boa velha usava, con- »fi. 160. corria Nosso Senhor com ela, ainda que gentia, em tal obra, dando saúde aos enfermos, para com isto manifestar a virtude das Santas Relíquias, e também a santidade de quem as dava. E assim, dando o padre graças a Deus por suas maravilhosas obras, não deixou de duvidar se a dita velha fora baptizada; mas, afirmando ela que não, a baptizou com os outros quatro do lugar acima dito, com muita consolação sua e dêles, por chegarem a receber de Deus tão inespe- rada mercê. Nas ilhas de Xiqui e Amacusa, se ocupam três padres e dois irmãos com aqueles cristãos, que são muitos e têm padecido grandes perseguições de Tara- vasadono, senhor daquela terra, o qual, como agora anda já mais brando, têm os padres mais liberdade para cultivarem aquela cristandade, e fazerem nela o grande fruto, que obram; porque os que perseveraram na Fé, vão crescendo nela, e dos que por fraqueza caíram, se vão alevantando muitos; outros se vão convertendo de novo, que foram como cento e trinta adultos, e alguns homens mui honrados e criados imediatos do mesmo Tono. CAPÍTULO XIV r Da Cristandade do Reino de Fingo, e do Processo da sua Perseguição NAS relações passadas, se tem referido a grande perseguição, que Can- zugedono, senhor daquele reino, levantara contra os cristãos dele, ate chegar a martirizar alguns. Também se tinha dito daqueles três lifiacos, que quere dizer, irmãos da caridade, que por causa da Fé tinha presos, e tra-
  • 172 Das coisas do Japão • fi.i6ov tava com tanta crueldade; e * com haver três anos que os tem no cárcere aos santos confessores, nunca jàmais abrandou de sua dureza e ferocidade, nem para os soltar, nem para usar com eles de alguma humanidade; assim não se pode encarecer o que os servos de Deus têm padecido naquele cárcere, e sempre com tanto ânimo e alegria, que é coisa de grande admiração e exemplo para toda a Cristandade de Japão. De puro trabalho, fedor do cárcere, abafamento do lugar, no qual não entra um só bafo de vento, veio a adoecer um dêles, cha- mado Joaquim, o qual sabido pelos padres, lhe mandaram logo lá um padre, Japão de nação, para ver se o podia confessar, e aos mais companheiros e ajudar aqueles cristãos, dando para isso lugar o tempo e oportunidade, que achasse na terra. Partiu o padre de Arima, e chegou de noite à cidade de Yateuxiro, e en- cobrindo-se o melhor que pôde, para não ser conhecido, desembarcando em terra foi ter a casa de um cristão, o qual o recebeu alegremente; e tratando logo com êle do modo que teria, para ir ao tronco a visitar os presos, e confessar a Joaquim, que estava já muito no cabo, se ofereceu o bom cristão a levá-lo ao dito tronco; para o quê, ainda que havia muitas dificuldades, por estar o tronco dentro da fortaleza, com guardas às portas, todavia, buscando o dito cristão mil meios para isso, quis Nosso Senhor que achasse boa conjunção, em que pudesse meter dentro o padre, o qual, para não ser conhecido, se difarçou, vestindo-se de trajos de um homem aldeão, de maneira que ninguém pusesse os olhos nêle, nem duvidasse quem era. E assim vestido baixamente, entrou o padre no tronco, aonde estavam os três servos de Deus. Grande foi a alegria, que receberam, quando o viram; e tal, que lhes pareceu, que lhes vinha algum recado do céu, • pi. 161. para os confortar e animar; e assim começaram * a derramar lágrimas de alegria, acompanhando-os também o padre, que vendo as que êles derramavam, se não pôde ter, que juntamente as não derramasse com êles. Muito edificado ficou o padre, e ainda espantado da grande paciência, devoção e interior alegria, com que sofriam aquele estreito tronco, e o que nêle por tanto tempo padeciam; que segundo o padre dizia, era ainda muito mais, do que se tinha sabido; por- que, além de outras muitas incomodidades, intoleráveis fedores e estreiteza, como noutra relação temos escrito, estavam dentro mui abafados, de modo que não lhes podia entrar vento nenhum, com que pudessem ter algum refrigério, e temperar, o ardor das calmas, que então faziam; o que tudo os servos de Deus sofriam pacientemente por seu amor. Neste tempo, que o padre chegou, estava Joaquim mal e já tão fraco e de- bilitado, que se não podia alevantar; chegaram-se os dois companheiros a êle, e dizendo-lhe como o padre era vindo a visitá-lo, que espertasse e tomasse ânimo, pois a nenhuma outra coisa viera senão para isso e para o confessar. Animado com isto, espertou e tornou logo em si, que até então, em razão da doença, estava como fora de si e de seus sentidos; e recebendo alegremente o padre, se aparelhou para se confessar, como logo fêz. Pareceu ao padre e aos outros dois presos, que tornando em seu juízo fizesse logo uma protestação e decla- ração da causa pela qual estava prêso no tronco e nêle morria; assim o fêz logo Joaquim, aproveitando também os dois companheiros Miguel e João. A pro- testação, que fêz, é a seguinte, que em presença do padre e dos ditos Miguel
  • Das coisas do Japão e João, presos também pela mesma causa, disse e deixou por escrito, assi- nando-se ao pé: * Protestação, que fe\ Vatanabe Jerogemon Joaquim, prêso pela Confissão da *Fl-,6' »■ Fé no Tronco de Jateuxiro: Digo eu Joaquim, que a causa porque esta vez me prenderam não foi outra, que por manifestar a santa Fé em nome de Jesus Cristo Nosso Senhor, movido a isso de seu divino amor e serviço, pela qual causa padeço e padeci atégora muitos trabalhos nesta prisão. Digo mais e protesto, que ainda que nela, em razão da doença que tenho, fale ou tenha falado algumas doidices, e diga outras coisas fora de propósito, que nada é, nem foi por minha vontade, senão por não estar em mim, nem saber o que digo; portanto, chegado a êste ponto, em que estou em meu siso e perfeito juízo, declaro, como se agora fa- lara em confissão, que o essencial e verdade de minha intenção é o sobredito; e sobretudo digo e acrescento, que ainda que minha prisão se dilate por dez ou vinte anos, estou prestes e aparelhado, para de muito boa vontade a sofrer por amor de Deus, e de seu santo Nome e honra. Finalmente, qualquer coisa, que porventura em mim houver, que seja contra esta minha vontade e firme deter- minação, digo que é em razão de não estar em meu siso e perfeito juízo; e por ser esta a verdade do que passa, e não haver em mim outra coisa, o declaro e manifesto em presença do Senhor Padre Luís, e o deixo por escrito, por mim assi*nado. Feita aos dezasete da quinta lua, aos onze anos da era chamada Gio- ,F1- cho. Vatanabe Jerogemon Joaquim. Feita esta protestação, por escrito, a entregou ao padre; o que assim o dito padre, como os dois companheiros e mais cristãos tiveram por particular providência de Nosso Senhor para com seu servo Joaquim, que, havendo tanto tempo, que estava sem juízo, e ainda no mesmo dia que lá chegou o padre, no tempo que chegou ao tronco e se viu com êle, e disse que vinha para o con- fessar, logo tornou em si, e em seu perfeito juízo fêz esta protestação e se con- fessou, com muita consolação sua e do padre. Feito isto se confessaram também os companheiros Miguel e João, com a mesma consolação, dando graças a Nosso Senhor, por lhes mandar lá o padre, para que com sua presença e santos con- selhos se esforçassem e animassem mais, posto que o padre os achou tão ani- mados, e desejosos de padecer por amor de Deus ainda muito mais do que pa- deciam, que teve por grande matéria de lhe dar muitas graças e louvores, por lhes comunicar tal ânimo e esforço, que diziam, que nenhuma pena sentiam em estar ali tôda a vida por amor de Deus Nosso Senhor, nem menos tinham de- sejo, nem ainda pensamento algum de sair daquele cárcere, senão para o céu, morrendo nêle por tão santa causa. Confessados os três presos, e tornando o padre do cárcere, concorreram naquela noite muitos cristãos à pousada do padre, para se confessar; mas, como o tempo era breve e havia muitas guardas na terra sobre os cristãos, não pôde o padre confessar mais que os doentes e velhos, e as mulheres dos três presos,
  • 174 Das coisas do Japão que diante do padre professaram também de morrer com seus maridos, por amor • fi. i6j*. de Deus e pela causa da Fé, pela qual estavam atégora * depositadas e entre- gues a outros cristãos que as vigiam. Entre os doentes, que se confessaram, o fêz um que tinha retrocedido da Fé, o qual, ouvindo dizer que o padre estava na terra, se arrependeu logo de sua pouca fé e lealdade a Deus Nosso Senhor, e com grande dor e arrependi- mento se confessou e reduziu, e daí a cinco dias morreu, com sinais de sua sal- vação. Partiu-se dali o padre para Cumamoto, corte do Canzugedono, e nela entrou o mais secretamente que foi possível; e, porque ali não havia tantas guardas e vigias, como na cidade de Jateuxiro, pôde mais à sua vontade confessar e animar aqueles cristãos, e também administrar o sacramento da Eucaristia aos de comunhão, baptizar as crianças, que foram como quarenta, e também a dez adultos, que ouvindo a prègação, se resolveram ao santo Baptismo. Fi- zeram todos aqueles cristãos muito agasalhado ao padre, sustentando-o com suas esmolas, com edificação de todos. Estes particularmente são quinze cristãos, carpinteiros de Canzugedono, moradores na dita cidade de Cumamoto, e todos em uma rua, mui unidos entre si, os quais nas coisas de cristãos procedem com grande fervor e devoção, e estão com determinação de dar a vida por amor de Deus, quando se oferecer ocasião para isso. Todos estes quinze cristãos se ajuntaram e fizeram entre si como uma confraria, para desta maneira melhor poderem ajudar aos cristãos pobres no espiritual e temporal; para o quê dão cada mês certa quantidade de arroz, com que os sustentam, e também o seu lifíaco; enterram-nos, quando morrem, e aparelham todo o necessário para ajuda do seu enterramento e sepul- •fi. i63. tura: o que * êles mesmos inventaram, ensinados da caridade cristã e desejo de alcançar algum merecimento por êste caminho, sem terem outro algum mestre mais, que a dita caridade, que, como boa mestra, lhes ensinou tão santa obra. Visitou também o padre os cristãos da cidade de Uto, que era a fortaleza principal de Conixi, Tucnono, Camidono Agostinho, confessando os que o pe- diram, fazendo-o conforme a brevidade do tempo, e também baptizando as crian- ças, com assaz consolação daqueles cristãos, ficando com tal visita mui animados, como ficaram os mais de Jateuxiro e Cumamoto, que juntamente com a cidade de Uto, são as três principais e mais importantes terras do reino de Fingo, e onde, segundo o padre conta, há ainda muitos cristãos, posto que encobertos, por causa do grande ódio do Canzugedono ao nome cristão. Tornando o padre para Arima, como a doença de Joaquim ia por diante, crescendo sempre mais com o trabalho e incomodidades do tronco, que tanto se faziam maiores, quanto o tempo ia mais aquecendo, sem por isso ter nelas algum humano alívio, nem menos relaxação da grande estreiteza do dito cárcere, para melhor as poder passar e alcançar a saúde, aos vinte e seis de Agosto de mil e seiscentos e seis acabou mui santamente sua jornada, e se foi a gozar do prémio, que Deus lhe tinha aparelhado pelos trabalhos, que por seu amor e glória tinha sofrido, por tanto tempo, com tanta paciência, alegria e edificação dos cristãos, particularmente dos dois companheiros, Miguel e João, e dos mais que vigiam o cárcere, os quais todos se consolaram grandemente com seu ditoso
  • Das coisas do Japão trânsito, por ser tal, como dele se esperava. E posto que, quando dois anos antes se fora oferecer à prisão, seu * desejo era morrer, derramando seu sangue «Fi. i63t. pela Fé de Cristo Nosso Senhor, ainda ser por ela despedaçado, segundo se vê por uma sua carta, que deixou escrita no colégio de Arima, antes que se fosse entregar à dita prisão, como todavia por êle não faltou o cumprimento deste desejo, e em efeito morreu pela confissão da Fé no cárcere, não duvidamos que está gozando no céu da coroa do martírio. E, para que se veja o grande de- sejo, que este servo de Deus tinha de dar a vida por Cristo Nosso Senhor, e o aparelho e alegria, com que se foi a ser prêso por seu amor, porei aqui a dita carta, que diz assim: «Primeiramente, com a graça de Deus Nosso Senhor, deixo por lembrança e digo, que sendo a Lei e Doutrina de Cristo Nosso Senhor a verdadeira sobre tôda a verdade, e limpa e pura sôbre tôda a limpeza, dese- jando em minhas quotidianas orações e meditações de ensinar esta verdade aos cegos gentios, que andam tão fora dela, estando com êste desejo, me fêz Deus mercê, não por meus merecimentos, por ser pecador, senão por sua miseri- córdia de ser sentenciado para ser prêso na cidade de Jateuxiro, donde sou na- tural, e testemunho, que a Lei de Cristo Nosso Senhor é a santa e verdadeira; pelo quê, como seja por tal causa, torno para ela mui contente e alegre, e peço à Virgem Nossa Senhora, que interceda por mim diante de seu bento Filho, para que persevere até à morte em seu santo serviço; e espero, com a graça divina, de sofrer qualquer género de trabalhos e tormentos, ainda que seja fazerem o meu corpo em pedaços, por amor do mesmo Senhor. Feita em Arima, aos vinte da décima lua. Vatanabe Joaquim». Morto desta maneira Joaquim, foi Nosso Senhor servido que viesee seu corpo ter à[s] mãos dos padres, com a * boa diligência, que nisto se pôs, e zêlo »fi. .64. de alguns cristãos de Jateuxiro, instruídos pelos padres não obstante as rigo- rosas vigias, que isto procuraram estorvar; o modo foi o seguinte: Vendo os cristãos da cidade de Jateuxiro, que por causa das muitas vigias, que havia na terra, não podiam mandar o corpo de Joaquim a Arima, tanto que morreu, o meteram logo em um caixão, que para isso tinham aparelhado, e tirando-o do tronco, como se-lhe tinha bem encomendado, e dado traça para mais a seu salvo e sem serem sentidos, poderem trazer o dito corpo a Arima, o enterraram publicamente no adro ordinário, assim e da maneira, como se cos- tumam a enterrar os mais cristãos; o quê feito, daí a três dias, estando já as vi- gias descuidadas, se foram de noite à cova, com o mor silêncio e segrêdo pos- sível o desenterraram, e com o mesmo silêncio e dissimulação, que o negócio pedia, o meteram em uma embarcação bem esquipada, que para êste efeito tinham prestes, e o trouxeram a Arima, aportando junto a nossa casa. Estava, neste tempo, em Arima o Padre Provincial, com muitos padres e irmãos; o qual, sabendo da vinda do santo corpo, recebeu com isso particular consolação e alegria, dando graças a Nosso Senhor, por ordenar assim, como se achara na dita cidade de Arima, quando seu servo Joaquim se foi oferecer à prisão, e lhe dera a nova da coroa, que se lhe aparelhava, e o confessara e comungara, e em tudo o encaminhara para tão ditoso fim, assim se achasse agora ali, em tal conjunção, que recebesse o seu corpo, depois de ter acabado tão gloriosamente o curso de sua peregrinação. 1
  • 176 Das coisas do Japão «Ki. 164 v. * Chegado assim o santo corpo, desejou o padre e todos os mais de lhe fazer um público e solene enterramento, como êle merecia; mas deixou-se de fazer, por o pedirem assim os cristãos que trouxeram o dito corpo, dando como razão, que como Arima estava tão perto da cidade de Jateuxiro, poderia lá soar logo, e seria causa deles e suas mulheres e filhos serem por isso avexados e grandemente perseguidos; contudo, como se não podia deixar de honrar o santo corpo, da maneira que era possível e o tempo permitia, fêz-se seu enterramento de noite, às portas fechadas, com a mesma solenidade de cantos e tangeres de alegria, com que, três anos há, se enterraram os corpos dos santos Mártires Minami Gorozagemon João, e Taquenda Gofroge Simão, que no mesmo reino de Fingo foram martirizados. Acharam-se a este enterramento todos os padres e irmãos, que havia na- quele colégio, com todos os alunos do seminário, e também alguns de fora, mui honrados, e familiares de casa, e também outros a que a devoção deu traças e modos, para se acharem ao dito enterramento. Prègou o mesmo padre, que o confessou, com muita consolação e alegria de todos, assim de fora, como de casa, dando particulares graças a Nosso Senhor, por, além do corpo do santo Mártir Minami Gorozagemon João, com que enriqueceu aquele colégio, o querer também agora enriquecer com o de Vatanabe Jerogemon Joaquim, o qual foi sepultado junto do de Gorozagemon João, dando-lhe igualmente sepultura, posto que alcançada com diverso género de morte, mas não por diverso fim. Miguel e João, seus companheiros, ficaram presos no tronco, como ainda •fi. i65. estão, e contentíssimos por o que nele padecem * e desejam padecer, o qual contentamento se-lhes acrescentou mais com a sentença final, que Canzugedono deu contra êles, e foi que, vindo de Cumamoto à cidade de Jateuxiro, lhe dis- seram, como ainda estavam no tronco os sobreditos Miguel e João; que visse o que se faria dêles: a que respondeu, que os deixassem estar no dito tronco, até nêle acabarem a vida. Alegrando-se os dois sumamente com isto, pela boa oca- sião, que se-lhes oferecia de padecerem por mais tempo pela Fé de Cristo, tendo por esta via mais prolongado martírio e maior matéria de merecimento, do que já estavam seguros, não deixando dantes de estar arreceosos, se porven- tura os soltariam do tronco, com perda da consumada coroa, que desejavam alcançar, acabando de qualquer maneira no serviço de Nosso Senhor e por seu amor e glória; e um dêles escreveu logo ao Padre Reitor de Arima, dando-lhe parte da mercê, que Nosso Senhor lhes tinha feito, em por seu amor ficarem condenados a cárcere perpétuo. Ali, no tronco, continuavam em fazer seu ofício, ajudando os próximos da maneira que podiam; e os cristãos, que píiblicamente correm por tais, os visitavam também, e se socorriam a êles em suas necessi- dades espirituais, tanto que tinham aquele tronco, como por sua igreja, e como a tal foram a êle a noite de Natal, para se consolarem com os ditos presos, levando-lhes seus prezentesinhos de coisas de comer, sem medo nem arreceio de ninguém, e recebendo dêles os espirituais e bons conselhos, e lição de livros devotos, conforme ao que pedia aquela Santa Noite; com o quê aqueles cristãos se conservavam e fortificavam mais na Fé, vendo o exemplo e constância daqueles servos de Deus, e os gentios, que isto viam, pasmavam e se confundiam. • fi. i65r. Mas até isto não pôde sofrer o tirano Canzugedono *; antes, sabendo o que
  • Das coisas do Japão 177 passava, se indi[g]nou grandemente, e esteve para os mandar matar. Mas, dizen- do-lhe alguns dos seus, que os presos não desejavam outra coisa, senão morrer pela Fé que professavam, perplexo com isto o tirano, não se soube dar a con- selho, dizendo, que, se os matavam, ficariam os Mártires vencedores, por al- cançarem o que desejavam, e êle vencido; pelo quê, como desejava de, por qualquer via, afligir e acabar aos servos de Deus, como cruel inimigo que é de seu santo Nome, tratou de fazer um tronco em um lugar deserto e nele os meter, mandando que ninguém lhes acudisse com coisa alguma do necessário; para que, desta maneira, acabassem miseràvelmente a vida no tronco. Porém um gentio dos que estavam presentes, acudindo a isto, lhe disse, que também os ditos presos folgariam com tal género de castigo e morte; pois, com isto, imi- tariam mais ao Salvador que adoram, do qual os cristãos dizem, que fêz grande penitência no deserto e nele padeceu muito; do quê ainda mais impaciente Can- zugedono e mais indignado, dando-se já por vencido, disse: «Emfim, não tenho remédio com esta gente! Deixa bem os assim ficar no tronco, entregando a vigia dêles a gentios, que dantes tinham os cristãos». Desta maneira, ficam os servos de Deus padecendo mais do que dantes padeciam, mas muito alegres e conso- lados e também grandemente animados a perseverar até ao fim, que esperam será conforme a seus santos desejos. Um gentio, que é como governador menor da cidade de Jateuxiro, pediu a um cristão, que lhe desse sua filha por nora. Ao que respondeu o cristão, que de boa vontade lha daria, se seu filho primeiro se fizesse cristão. Prometendo pois o gentio de assim o fazer, como pretendia mais haver a moça, que fazer o filho cristão, dilatou o negócio, entretendo sempre com boas palavras a * con- clusão do baptismo do filho; e, sobre isto, como poderoso que era na terra, determinou de, em todo o caso, haver a dita moça, sem curar do cumprimento da promessa. O cristão, que o entendeu, por nenhum modo lha quis dar, di- zendo, que, conforme a promessa, fizesse primeiro seu filho cristão, porque os cristãos não costumavam casar com gentios. Posto o negócio nestes termos, foi o caso ao supremo governador da dita cidade, para que êle o determinasse; o qual, como era também fino gentio, manda chamar o cristão, e pregunta-lhe qual era a causa, por que não dava sua filha, para casar com aquele seu criado, de que tanto bem lhe viria ? Ao que respondeu o bom cristão: que os cristãos não casavam as filhas com gentios; que se fizesse o mancebo cristão, como lhe tinham prometido, e que então lhe daria sua filha por mulher. O governador, que isto ouviu, apertou com êle, que sem a tal condição lhe desse logo sua filha, amea- çando-o ainda sobre isso, que lhe faria e aconteceria, se não viesse no que lhe dizia. Mas o constante cristão teve sempre mão, dizendo, que tal não faria; pois era contra o costume geral dos cristãos; e, como perseverasse nesta resposta, sem dar mostras de obedecer naquilo ao dito governador, agastado grandemente contra êle, mandou que o pusessem a tormentos, para que com isto fizesse entendimento de dar a filha. Mas, como nem com isso se dobrasse o coração do forte cristão, põem-no a tormentos, entalando-lhe os pés entre duas tábuas grossas e apertando-os pouco e pouco, o atormentaram de tal maneira, que lhe deixaram um pé feito como uma pasta, todo amassado, sem nunca dêle poderem tirar, que consentisse no tal casamento, sempre com tanta fortaleza e 23
  • 178 Das coisas do Japão ânimo, que maravilhados os circunstantes e os mais, que o atormentavam, de • fi. 166 v. sua grande constância * e sofrimento, lhe preguntaram como podia sofrer tão exquisitos e ásperos tormentos? Aos quais respondeu, que, ainda que os ditos tormentos eram grandes e que muito lhe doíam, como os sofria por amor de Deus, Ele lhe dava ânimo e fôrças, para animosamente os poder sofrer; o que também contou ao padre, dizendo que, como desde o princípio pusera os pensa- mentos em Deus, por quem padecia tais tormentos, sentia em si tais fôrças com esta consideração, que os tormentos, que em efeito lhe doíam bem, ficavam como apagados e menos penosos. Finalmente, por mais que os gentios fizeram, ficou o forte cristão vencedor, posto que aleijado, tornando-lhe o governador a filha, depois de ser melhor informado do negócio, e perdendo, segundo êle mesmo dizia, a honra por fazer tal coisa, e o cristão ganhando-a muito grande para com os mais cristãos, e ainda gentios. Um cristão da cidade de Cumamoto, tendo retrocedido da Fé, desde o tempo das perseguições dos anos atrás, se tinha feito da seita dos Foquexus. Êste teve uma noite um sonho, no qual se viu em um campo muito largo e espaçoso, onde estava infinidade de gente a juízo e a tormentos cruéis. Entre esta multidão viu estar o bonzo Foquexu, seu mestre, metido até ao pescoço em grandes e ardentes fogos, sem ter mais que a cabeça de fora, padecendo com isto um intolerável tormento, sem alívio ou refrigério algum. Vendo pois o apóstata entre sonhos tal espectáculo, começou a temer grandemente; e falando consigo, dizia: «Ora sus! Aqui são comigo, aqui me apanham e levam a juízo, para ser ator- mentado, por deixar a Fé!». E estando assim, com esta aflição e medo do mal, que arreceava, espertou do sonho; e, atónito do que vira, começou a contar o • fi. 167. dito sonho a seus conhecidos, * o qual, como parece que era coisa de Deus, para bem daquela alma, arrependeu-se de seu pecado; em continente queimou logo as contas, que tinha de gentio, e passando de Cumamoto a Arima, se reduziu, tomando primeiro sua disciplina na igreja, diante de todos, e confessado e con- solado, se tornou para sua terra, com grandes propósitos de perseverar firme- mente na Fé, a que Nosso Senhor, por sua misericórdia, o reduzira por tal meio. CAPÍTULO XV Do que se fê\ na Cidade de Facata, do Reino de Chicugém, e 7ias Terras de Aque\uque / E FACATA uma nobre cidade e cabeça deste reino, de que é senhor Chi- cuieno Cami, príncipe de muitas partes, e que muito favorece a Lei de Deus. Residem aqui quatro da nossa companhia: dois padres e dois irmãos, os quais se ocupam assim na conservação dos cristãos já feitos, que são muitos, como na conversão dos que de novo se fazem. Há aqui uma formosa igreja, que nestes dois anos se fêz; celebram-se as festas, com grande soleni- dade e admiração dos gentios, que por extremo se espantam de ver a formo- sura, devoção, concêrto e ordem de nosso culto divino, e se movem com isto grandemente a receber nossa santa Fé; e, ainda que em todas as festas os cris-
  • Das coisas do Japão 179 tãos mostram grande festa e alegria na celebração delas; particularmente se esmeram na de Corpus Christi, como também em todas as mais partes desta Cristandade de Japão, onde ela sem perigo se pode celebrar, a que concorrem cristãos de muitas * partes, louvando e engrandecendo muito a Nosso Senhor ,fi. 167*. pelos chegar a tempo, que também exteriormente o possam adorar, no meio daquela gentilidade, e à vista de tanto número de gentios, que de longe estão vendo as procissões, não sem grande espanto do ornato e concurso delas. Os que de novo receberam o sagrado Baptismo, foram passante de mil e novecentas almas: estes na cidade de Facata. E numas terras de um senhor principal dêste reino, se baptizariam passante de duas mil, tomando Deus para isso por principal instrumento um cristão antigo, como feitor do mesmo senhor, que tinha a cargo estas terras, e lhe arrecadava suas rendas, o qual, ainda que por algum tempo andou muito frio nas coisas de Deus, tocado porém de cima com uma doença, entrou em tamanho conhecimento de si, e fêz tal mudança, que deter- minou de recompensar o mau exemplo passado, com se fazer prègador de Cristo a todos aqueles povos, que estão à sua conta. Um mancebo honrado, filho de um mercador, desejando de se baptizar, pediu muitas vezes licença ao pai, gentio, para se fazer cristão, como a tinha já dado a dois irmãos seus, mais moços, sem nunca o pai lha querer conceder; mas, não podendo o mancebo resistir à divina vocação, enfim se baptizou, e andou mais de um ano, sem o pai saber. Mas tanto que soube, que o filho fizera tal, sem sua licença, entrou em grande indignação e fêz tudo quanto pôde, para o fazer tornar atrás; mas tudo foi de-balde, porque o filho, que tinha tomado o nome de Pedro, mostrou bem, com sua constância, a pedra firme da Fé, em que estava fundado. Vendo o pai, que o filho lhe não queria obedecer, como isto é coisa, que os Japões sentem tanto, o meteu em uma câmera, e o tratou com tão grande aspereza, que pouco faltou para o matar. A tu#do isto o bom ,fi. 168. Pedro esteve mui forte, até que o pai chegou a botá-lo fora de sua casa. Re- colhe-se o moço em casa de um cristão, o que sabendo o pai, deu logo sôbre êle, brigando com o cristão, porque o recolhera, e mandando ao filho que logo se desterrasse do reino; porque já o não teria por filho, pois lhe não obedecia. A tudo se ofereceu o moço; mas sabido pelo padre o que passava, o mandou chamar, e, preguntando a onde determinava de se ir, respondeu, que não sabia; porque nunca, em sua vida saíra do Facata; mas que nada lhe dava disso, a trôco de não deixar a Fé que recebera. Mas, vendo o padre seu desamparo, o recolheu em casa, o que o pai sentiu tanto, que logo se declarou por inimigo da Igreja, e tirou da escola dos padres os outros dois filhos cristãos; e, que- rendo-lhes tomar os relicários que traziam ao pescoço, nenhum dos meninos lho quis dar, e o desenganaram, que não haviam-de ir a aprender às varelas dos bonzos. O pai, porque os amava ternamente, dissimulou por então quanto aos relicários, mas proíbiu-lhes que não fôssem mais à igreja; porém o mais velho, por nome Francisco, não deixava de vir, ainda que dissimuladamente, e com a doutrina que recebia do padre, ia a animar a casa ao irmão mais pequeno. Correndo isto assim, e o pai de Pedro com sua indignação contra êle e contra a Igreja, veio nesta conjunção ao Facata um tio do senhor daquele reino, que, posto-que gentio, era amigo da Igreja e também do pai do moço. Êste, sa-
  • i8o Das coisas do Japão bcndo o que se passava, procurou de concertar o negócio, para o quê veio falar com o padre, e lhe disse, que bem sabia que o padre não podia persuadir ao moço, que deixasse de ser cristão, mas que pelo menos dissesse, que no exte- rior dissimulasse com seu pai, dando-lhe a entender que não era cristão, e no • pi. i68*. interior o fosse como quisesse. Respondeu*-lhe o padre, como aquilo não podia ser, nem se compadecia com a Lei de Cristo, a qual obrigava a se confessar com o coração e com a boca. Com esta resposta se tornou o gentio; mas logo mandou um recado ao padre, que lhe mandasse lá Pedro. Alguma dúvida teve o padre de vir nisto; mas a constância de Pedro lhe deu ânimo para o mandar e bem instruído do que havia-de fazer: o qual um dia e uma noite esteve em casa daquele senhor, sofrendo uma contínua bateria, que assim êle como outros gentios lhe deram, sem nunca o poderem dobrar ao que o pai desejava; até que o mesmo senhor gentio o tornou a mandar ao padre, pedindo-lhe que, já que Pedro estava tão constante em sua Fé, pelo menos fizesse com êle, que por espaço de quinze dias se retirasse, sem sair a público; os quais passados, o pai enfim dissimulou e o tornou a receber em sua graça, e se aquietou da paixão que tinha, e tornou a mandar os dois meninos à igreja, como dantes. Estando um irmão nosso prègando, em uma aldeia, a uns gentios, que se queriam fazer cristãos, foram sentenciados à morte quatro malfeitores; e como o juiz, que dava a sentença, era cristão, persuadiu aos padecentes, que pelo menos procurassem salvar as almas, já que perdiam as vidas dos corpos. Mo- vidos com tão bom conselho, quiseram ouvir prègação, a qual o nosso irmão lhes fêz logo; e o principal no delito, que era como cabeça e prègador de sua seita, pôs muitas dúvidas ao irmão acêrca do que lhes pregava, e com as res- postas delas fizeram tal entendimento de nossa santa Fé, assim êle como seus companheiros, que logo pediram o santo Baptismo, depois do qual foram leva- dos ao lugar do suplício, indo sempre pelo caminho invocando o Nome Santís- • Fi.169. simo de Jesus e de sua Sacratíssima Mãi; e, postos * nas cruzes, o prègador, como mais eloquente e animoso, começou da sua a prègar aos circunstantes, dizendo que até então lhes persuadira, que invocassem o nome de Amida e a êle adorassem; mas que agora lhes persuadia, com tôdas as forças, que ado- rassem e invocassem o Santíssimo Nome de Jesus, porque fora dêste nome não havia salvação, nem outra lei que de verdade a ensinasse, senão a dos cristãos, em que êle e seus companheiros morriam, como logo morreram alanceados. Uma mulher casada e honrada, estando seu marido ausente, foi por muitas vezes solicitada de um soldado gentio, também honrado, assim por cartas, como com recados; mas, como a mulher era cristã, e temente a Deus, fazendo pouco caso dos importunos rogos do mancebo, nunca lhe deu vento; com o quê mais acêso o cego mancebo esperou certa conjunção, que lhe pareceu oportuna para efeituar o que desejava. Oferecida esta, vai-se a casa da mulher, entra dissi- muladamente, e foi até um quintal, onde sabia que ela estava só e sem compa- nhia. Dá-lhe conta do seu mau intento, e persuade-lhe fortemente que consinta com ele; mas, como a mulher estivesse mais forte e não desse mostras nenhu- mas de se dobrar com persuasões e rogos, determinou o mancebo de a levar por ameaças. Arranca do punhal, põe-lho nos peitos, dizendo-lhe que a atra- vessaria com êle, se não consentisse. Mas nem com isto houve mudança na mu-
  • Das coisas do Japão 181 lher; contudo para se livrar de suas mãos, lhe disse que por então a deixasse, e que se alguma coisa queria dela, tornasse ao outro dia. Com isto a deixou e se foi, com intento de tornar ao outro dia, conforme ao concerto, que cuidava seria infalível. Livre a boa mulher do perigo em que se vira, esteve toda aquela noite e dia seguinte encomendando-se a Nosso Senhor, e pedindo-lhe que a livrasse daquela angústia; e juntamente cuidando vários modos, como se li- vraria de não ofender a sua Divina Magestade, ainda que lhe custasse por isso perder a vida do corpo, a troco de não perder a da alma. Ouviu-a Nosso * Se- "Se- nhor e livrou-a da angústia que tinha, castigando o grande atrevimento do mau homem com um espantoso castigo; e foi, que, ao outro dia, estando são e valente, e porventura esperando tempo oportuno para ir ter com a mulher, de repente, sem saber de quê, morreu de morte subitânea, e a boa cristã ficou livre e mui agradecida a Deus Nosso Senhor pelo benefício, maravilhando-se gran- demente do caso e modo tão extraordinário, com que o Senhor a livrara. Nas terras de Aquizuqui, que estão neste mesmo reino de Chicuien, é se- nhor Sugemondono Miguel, tio do senhor dêste mesmo reino, e mui excelente cristão, e, como tal, procura com todas suas forças aumentar o número dos cris- tãos, seus vassalos, e ajudar os padres na prègação do Evangelho, no quê lhe não é inferior sua mulher Maria. É este fidalgo uma grande coluna de tôda a cristan- dade daquele reino, e, como é a segunda pessoa e pode tanto nêle, é, depois de Deus, o maior arrimo, que os padres e cristãos aqui têm. Por seus conselhos se baptizaram muitos gentios, e se espera que muitos mais se baptizem, maior- mente os de suas terras, e de outras de que tem o govêrno; e nestes dois anos se baptizariam mais de duas mil almas. Fêz à sua custa uma igreja bastantemente larga e capaz para a terra; e para as mais casas e aposento dos padres e mais ministros da igreja, ajudaram os cristãos, uns com suas esmolas, outros vindo êles mesmos a trabalhar nelas, para nisso merecerem; e não sòmente os homens, mas até as mulheres e meninos; e é muito para louvar a Deus, quanto cresce a Fé e devoção desta cristandade, assim com o trabalho e indústria, que nisso põem os padres, como com o bom exemplo do sobredito Miguel, que em todas as coisas de piedade e devoção é sempre dianteiro. * CAPÍTULO XVI • KI. 170. Do que se fê\ na Cidade de Ianagava do Reino de Chicungo ESTIVERAM êste ano na nova residência da cidade Ianagava um padre e um irmão e outros mais ministros, com o cuidado da cristandade, que há naquela cidade e reino, conservando-a e promovendo-a, com muito fruto assim dos cristãos já feitos, como dos que de novo se conver- tem, que nestes dois anos passariam de mil e quatrocentos. O senhor dêste reino, chamado Tanaca Chicungodono se mostra mui propício e favorável à igreja e padres, o que é grande meio para os moradores daquele reino recebe- rem melhor a prègação de nossa santa Fé e se fazerem cristãos.
  • 182 Das coisas do Japão Entre os que êste ano se baptizaram, o fizeram alguns pagens do senhor deste reino, com tão bom entendimento das coisas de Deus, quanto o mostra o cuidado, que todos têm de suas almas, particularmente vivendo depois de cris- tãos com muita limpeza, de que os mesmos seus companheiros gentios pasmam, por saberem bem, quão contrário disto era o seu modo de viver, antes de se fazerem cristãos. Um destes, com desejo de não ofender a Deus nesta mate- ria, logo que se fêz cristão, fêz voto de castidade até determinar estado, sem ninguém lho persuadir; e, avisado do padre da mor obrigação, que tinha, de se guardar, depois de o ter feito, respondeu, que bem o sabia; antes que por isso o fizera; porque, dizia êle, como quer que sou pagem do Tono, e não posso ter tempo para vir à igreja, a ouvir missa e fazer oração, cada vez que quiser, quis pelo menos com esta obrigação que me puz, mostrar para com Deus Nosso Senhor o muito que desejo de o servir, oferecendo-lhe sequer isto, que nas • fi. 170 v. minhas mãos está, com o * favor divino, oferecê-lo e guardá-lo. Outro pagem também do Tono, baptizado de pouco, com uma ocasião, que se-lhe ofereceu, mostrou bem por obra o que o outro fêz por voto; o qual, tendo cuidado de umas obras por ordem do senhor, o caseiro gentio da casa em que êle se agasalhava, para ganhar a vontade ao bom mancebo, que cuidava que seria como outros de sua laia, e o ter de sua parte em seus negócios diante do Tono e seus regedores, foi de noite ter com êle aonde estava dormindo, levando consigo uma má mulher. Vendo o casto mancebo a mulher, espantado da coisa, preguntou ao caseiro, que pretendia com aquilo? E dizendo-lhe o fim, para que vinha, lhe respondeu o bom cristão, assaz agastado pelo atrevi- mento, que logo se fosse dali, porque êle era cristão e não havia-de fazer tal coisa. Do quê, confuso o gentio e envergonhado, se foi, ficando o cristão com a vitória, que sabida dos cristãos e ainda gentios, ficaram muito edificados, por ser alcançada por mancebo, e de tão pouco baptizado. Indo, como acima temos dito, esta cristandade do reino de Chicungo, por misericórdia divina, por diante, sem o Tono do dito reino estorvar geralmente seu progresso, quis o demónio, que não dorme, por alguns gentios, seus minis- tros, não sòmente impedi-lo, mas ainda fazer, que os que já se tinham feito cristãos, deixassem de o ser, tomando para isto ocasião de umas palavras, que o Tono disse: as quais foram, que não convinha mudar a lei de seus pais e an- tepassados levemente, pervertendo o sentido delas, e entendendo-as conforme a sua má e danada vontade; e assim logo os ditos gentios, como eram oficiais públicos do Tono, e tinham mando em alguns lugares, onde havia cristãos, em seus destritos apregoaram, que os que se tinham feito cristãos, tornassem atrás. Ouvindo os cristãos tal pregão, se foram aos ditos governadores e lhes disse- ram, que êles estavam prestes para em tudo obedecer e servir ao Tono, como • fi 171. a seu senhor que era. * Por enquanto às coisas da salvação lhes pediam muito os deixassem livres e à sua vontade, sem por isso os molestar, pois se tinham feito cristãos, sem os ninguém forçar a isso, sòmente movidos de si mesmos e da verdade de nossa santa Lei, que lhes convencera os entendimentos e incli- nara as vontades para a receberem, como todos o tinham fei:o. Não admitiram os governadores tais rogos, por mais que os cristãos lho pediram; antes, como inimigos que eram do nome cristão, insistiram em todo o caso, que tornassem
  • Das coisas do Japão 183 atrás e deixassem nossa santa Lei. Mas os fortes cristãos, ainda que novos e tenros na Fé, fortalecidos com a graça do Espírito Santo, responderam todos a uma voz, que por nenhuma via haviam-de deixar de ser cristãos, nem con- sentir em o que lhes mandavam; pois era contra sua salvação, que tinham por certo haver somente na Lei dos cristãos, pela qual estavam prestes para dar a vida êles e seus filhos e mulheres, e perder as fazendas e tudo quanto tinham. Estando, pois, os cristãos neste aperto, aconteceu vir o Tono a jantar a casa dos padres, e ver os instrumentos músicos, que nela havia; no qual tempo se mostrou mui afável e humano para com o padre, fazendo-lhe muitas honras e agasalhados. O que vendo os cristãos e também muitos gentios, coligiram todos, que nunca o Tono tivera vontade de avexar os cristãos, mas que a ma- lícia dos adversários inventara aquilo, para os molestar e ver, se os podia der- rubar; e finalmente, parecendo-lhes aos ditos gentios, pelo que tinham visto e ouvido dos favores que o Tono fizera ao padre, que se o Tono soubesse o que êles maquinaram contra os cristãos, não lhes poderia disso vir bem, tomaram por partido desistir de seu mau intento, e os cristãos foram livres e quietos, e os inimigos confusos e envergonhados. Um moço de idade de 16 ou 17 anos, filho único de um homem abastado, cabeça dos lavradores de certo lugar, ouvindo as prègações do catecismo, se fêz logo cristão. E, co*mo dali por diante procedesse em seu modo de viver di- ferentemente do que dantes o fazia, advertindo nisso o pai, logo entendeu o que era; pelo quê, como era mui adverso a nossa santa Lei, começou a persuadir ao filho, que tornasse atrás, havendo-se com êle, ora com brandura, ora com ameaças, e às vezes com pancadas, até chegar a o prender em sua casa, e tratar na prisão muito mal, para ver, se com semelhante castigo o podia render. Con- tudo, mostrou-se sempro tão constante o forte mancebo, que nunca o pai pôde alcançar dele o que desejava, respondendo-lhe sempre animosamente, que antes perderia a vida, sofrendo mil tormentos, que fazendo-lhe a vontade no que dêle queria, que era perder a salvação de sua alma, que em outra lei não achava, senão na dos cristãos. Vendo o pai a firme determinação do filho, deixou-o por algum tempo, mas não de todo; porque nunca, de quando em quando, cessava de o molestar; pelo quê o bom mancebo, para se livrar das importunações do pai, e do perigo que corria sua Fé, determinou de fugir para um lugar de cristãos, escolhendo antes ser pobre e desterrado com Cristo, que rico, sem Êle, em casa do infiel pai. Acolhido desta maneira, como era único, mandou logo o pai em busca dêle, e achando-o lhe mandou dizer, que se tornasse para casa. E, respondendo o filho, que não havia-de tornar, se-lhe não prometesse de o não molestar mais acêrca das coisas de cristão; prometendo-lho assim o pai, tornou para casa e vive como bom e provado cristão, e muito mais forte e fervoroso que dantes; como também vivem outros dois, que tendo semelhantes encontros com os pais, ficando neles vencedores, deram grande exemplo de sua Fé e constância. Não foi também menor o que deu uma mulher principal e mui conhecida na cidade de Ianagava, a qual, na ausência de seu marido, pessoa também de nome e que tinha um ofício público em casa do Tono, vindo à nossa igreja, no dia que nela se dizia a Primeira Missa, e ven*do a solenidade, com que se
  • 184 Das coisas do Japão celebrava, limpeza de ornamentos e outras mais coisas, que ali se ajuntaram para a festa, movida com isto, pediu que lhe prègassem nossa santa Lei. Ou- vindo, pois, as prègaçÕes, fêz tal entendimento, que se baptizou, chamando-se Úrsula. Baptizada, daí a alguns meses, tornando o marido de fora, como a viu cristã, tomou-se disso grandemente, agastou-se contra ela e buscou todos os modos e meios para a fazer cair e deixar de ser cristã. Mas, não podendo acabar com a constante mulher que deixasse o caminho da verdade, determinou de a levar por ameaças e vários apertos e trabalhos, com que por espaço de três meses a tratou. Mas, não se dobrando com coisa alguma a constância da boa cristã, vendo isto o pertinaz marido, sentindo grandemente de ficar vencido da mulher, tomando por honra fazê-la cair e deixar de ser cristã, como também outros gentios lhe persuadiam, não deixou de buscar outros mais meios e ajudas deles, para alcançar seu intento, já que ele, por si só e pelos que tinha tentado, a não podia render. Entregou-a a um dos governadores do reino, para que êle, assim com a au- toridade de sua pessoa, como tambe'm do ofício que tinha, acabasse com ela o que êle não pudera em tanto tempo. Mas, como podiam pouco com a serva de Deus mêdos ou respeitos humanos, nem menos promessas de honras e pré- mios que o governador lhe fazia, nem as brandas palavras e razões, que outras mulheres gentias, honradas e suas amigas, com ela tiveram, chegou o negócio às orelhas do Tono e de sua mulher, a qual, como bem conhecia a constante cristã, por ser mulher de quem era, e ela o merecer também por sua pessoa e partes, quis também provar sua lança, em que parecia consistir a vitória, que como senhora da terra e de maior respeito e autoridade que todos, esperava • fi. 17SV. jeia alcançar. Manda, pois, chamar a mulher, e com todo o * artifício de pala- vras e razões que pode, lhe persuade, que deixe de ser cristã, pois de o ser perderia muito para com seu marido, que tanto o sentia, e ainda a honra e fausto que tinha, ficando agora posta por portas; finalmente, lhe disse outras muitas coisas a êste propósito, para a perverter; mas, como a virtuosa cristã estava armada das armas, com que o Apóstolo deseja ver armados os soldados de Cristo, resistiu-lhe tão fortemente, que teve por bem de a deixar. Pelo quê, perdendo já o marido as esperanças de a poder render por nenhuns meios, quis ver, se com o último, que lhe ficava, do repúdio e desamparo de todo o hu- mano socorro, a podia levar. Mas, como o divino a amparava e defendia, nem êste bastou para a serva de Deus dar alguma coisa de si. Toma, pois, alegre- mente o papel do repúdio, que o marido lhe deu, escolhendo antes ser pobre e repudiada do espôso da terra, que perder a graça do esposo do céu, Cristo Nosso Senhor, e as riquezas eternas, que nele estão aparelhadas, e logo se foi para Nangazaqui, contentíssima e mui alegre com a vitória, que alcançara de tantos inimigos; e, cortando os cabelos, em sinal que não queria já do mundo coisa alguma, vive agora ali, com muita edificação de todos, assim pelo heróico feito, que fêz, como também pelo bom exemplo que dá. Foi isto de grande consolação e ânimo para os cristãos da cidade de Ianagava, ficando com tal exemplo mais fortes na Fé, e os gentios com maior conceito da nossa santa Lei, dizendo que não podia deixar de ser santa e boa; pois os que a professavam, por amor dela deixavam e desprezavam tudo.
  • Das coisas do Japão 185 Outra mulher gentia, casada com um fidalgo cristão, desejando de se fazer cristã, não ousava de o fazer, por amor dos pais, em cuja casa estava, em razão do desterro de seu marido, que havia dois ou três anos que andava por vários reinos e terras, desterrado e sem remédio; os quais pais, como eram ini- migos de nossa * santa lei e grandemente amigos dos Fotoques, arreceando a •'A filha, que em tal não consentissem, antes que por isso se indignassem contra ela, pouco e pouco se foi esfriando nos bons desejos, por não ter consigo quem lhos espertasse e alentasse. Veio, pois, esta mulher a adoecer, a qual, como era mui querida de seu pai, desejoso o pai de a ver sã, buscou para isso quantas mèzinhas e remédios humanos podia haver; mas, não aproveitando nada à filha, antes indo sempre cada vez mais peorando, determinou de recorrer aos divinos, como êle cuidava, dos Camís e Fotoques, de que era tão devoto, pedindo sua ajuda e favor em tal necessidade. Para isto, mandou dois homens: um, a um reino, outro a outro, para que visitassem pela saúde da filha todos os Camís e Fotoques daqueles reinos, dando juntamente aos ditos homens grande cópia de dinheiro, para que o oferecessem aos bonzos e sortílegos, para que, lançando sortes sobre a doença de sua filha, lhe respondessem da parte dos Camís e Fotoques o que dela havia-de ser. Cumprida sua romaria, como lhes era mandado, tornaram os dois homens com a resposta dos ídolos, (que, como os ditos bonzos ou feiticeiros a não dão, senão segundo o desejo que vêem em cada um) foi a mesma e pela mesma maneira, sendo os reinos e Camís e Fotoques diversos, e também os bonzos, que de sua parte a deram: esta foi que a doente desta vez não havia-de morrer, mas que logo ao terceiro dia se havia-de achar bem, e ainda viver até à idade de oitenta anos, com muita geração e prosperidade. Ouvindo os pais tão ale- gre nova, dando mil graças aos ídolos, estavam esperando com muito alvoroço, que a filha se achasse bem ao terceiro dia, conforme a promessa dos Camís e Fotoques, que lhes parecia seria infalível e verdadeira. Chega o terceiro dia e * não sòmente a doente se não achou bem, mas antes lhe cresceu mais a doença • fi. 173 t. de tal sorte, que viram nela claros sinais, que havia logo de morrer. Vendo isto o pai, agastado grandemente contra os ditos Camís e Fotoques, toma primeira- mente as contas, que tinha de gentio, fa-las em pedaços e lança-as pelo chão, e depois toma quantas nóminas, livros e papéis tinha por relíquias dos Camís e Fotoques de quási todo Japão, que seriam bem, quanto poderiam carregar dois cavalos, e fazendo-os todos em feixes, os lançou no fogo e fêz em cinza, dizendo que deuses, que a um homem como êle, que tanto tempo os tinha servido, e gastado em seu serviço a mor parte da sua fazenda, agora em tal necessidade não sòmente o não ajudavam, mas antes tão claramente o enganavam, mentin- do-lhe e dizendo-lhe o que não havia de ser, estava claro, que nada valiam, nem menos podiam; pelo quê, acabava de crer, e assim se persuadia, que não havia Camís nem Fotoques, como até então ignorantemente cuidara." Estando, pois, o pai de tal modo assanhado grandemente contra os Camís e Fotoques, e a filha já na derradeira, como Nosso Senhor a tinha escolhido e, por sua via a seus pais e toda sua casa, para os fazer cristãos, ordenou que em tal conjunção chegasse o marido da doente, que havia três anos andava desterrado, buscando vida nas partes do Quanto, e agora vinha, para levar a mulher con- *4
  • 186 Das coisas do Japão sigo, por ter lá achado renda e modo de viver; e, achando a mulher em tal estado, e o sogro na disposição, que temos dito, como era cristão, começou a persuadir a mulher que morresse cristã; a qual, renovando-se-lhe com tais per- suasões os desejos passados, fàcilmente alcançou do pai licença, que já estava • fi. 174. totalmente outro, para se fazer cristã; e, porque a igreja estava lon*ge, e a doente já muito no cabo, mandou o marido chamar, a um cristão, bem visto no cate- cismo, que estava ali perto, e começando a praticar à doente, como os Camís e Fotoques não eram nada, nem podiam nada, pois foram homens como os de- mais, lhe disse a doente, que não tinha que gastar nisso tempo, porque ela assim o entendia; que, com muita pressa lhe praticasse as coisas dos cristãos e abreviasse, porque já sentia, que ia morrendo. Fê-lo assim o catequista, e a ba- ptizou, pondo-lhe nome Mónica, com grande alegria sua e da doente e também do marido; e logo, alevantando as mãos e os olhos para a imagem, que ali lhe pu- seram, invocou muitas vezes os Santíssimos Nomes de Jesus e Maria. Chegou-se então o pai a ela, e lhe preguntou, se lhe deixava alguma coisa como por testa- mento, que êle fizesse por ela. Respondeu a filha que, já que Deus Nosso Senhor lhe fizera tão grande mercê, de a fazer cristã naquela derradeira hora, lhe pedia e rogava muito, que êle também o fôsse; pois não havia outra lei, para se um salvar senão a dos cristãos, e que da mesma maneira fizesse cristã a uma filhinha sua, que tinha junto de si, e que lhe chamassem Clara; o que dito, chamando algumas vezes pelo nome de Jesus e de sua Santíssima Mãi, até se lhe tolher a fala, acabou a presente vida, dando princípio à eterna, à qual piamente pudémos crer Nosso Senhor, por sua misericórdia, a chamaria, como a chamou por um modo tão raro a seu divino conhecimento pelo baptismo. Morta desta maneira a filha, ficando os Camís e Fotoques todos mentirosos, , logo o pai, para cumprir com o que tinha prometido à filha, ouviu prègação, e fazendo bom entendimento do que lhe prègavam, se fêz cristão com tôda a sua casa; e, mudando a devoção que dantes tinha aos Camís e Fotoques, a converteu • fi. 174 r. tôda no ver*dadeiro e sumo Deus, dando-se com tanto afecto e fervor às coisas de sua salvação, e entrando tanto na verdade de nossa santa Fé, que diz mui afincadamente, que ainda que todos os padres tornem atrás e adorem os Camís e Fotoques, que êle nunca os adorará; tal é seu fervor e tal o entendimento, que tem feito das coisas de Deus. Foi a conversão dêste honrado homem de grande proveito e forças para os cristãos daquele reino, e para os gentios de grande perda e sentimento, ficando com as forças perdidas, por verem aquele, que tanto sustentava os Camís e Fotoques e tanto os venerava, feito de repente seu inimigo, e amigo e defensor de nossa santa lei, de que dantes era tão contrário e perseguidor, perdendo com isto muita parte do conceito que dêles tinham, e adquirindo-o mui grande das coisas de nossa santa Fé, que tão rara mudança fizera em tal sujeito.
  • \ Das coisas do Japão CAPÍTULO XVII Do que se fê\ no reino de Bugém e de Bungo RESIDEM na cidade de Cocura, cabeça do reino de Bugém, dois padres e dois irmãos de nossa Companhia, e outros ministros necessários para a cultivaçao da cristandade, que Nosso Senhor, vai fazendo naquela cidade e reino, a qual cada vez vai crescendo mais com os que de novo se vão convertendo à nossa santa Fé, que nestes dois anos foram perto de dois mil e duzentos, os quais se baptizaram não só na cidade, mas pelos lugares vizinhos de seu con- torno. Prega-se aqui o Evangelho com muita liberdade e segurança, como se * #p| |?5 fôra num reino de príncipe católico, pelo muito favor que para isto dá cá Iecundono, senhor deste reino, e seu filho herdeiro, posto que ainda gentio, e está todo este reino disposto para, dando Deus vida a estes príncipes, em breve se fazer todo cristão. Entre outros exercícios de devoção, que os cristãos fizeram pela quaresma, um dêles foi o da disciplina, que os homens faziam à noite, na nossa igreja, todas as Sextas-feiras, e as mulheres em suas casas. E, porque se não permitia na igreja tomarem-se disciplinas de sangue, as iam tomar muitos de noite a uma cruz, que no adro dela está; e, como isto soasse entre os gentios, vinham muitos de ordi- nário ver este espectáculo, e iam muito admirados e edificados de tal modo de penitência. Foi isto ter à noticia da mãi de Iecundono, a qual movida de cu- riosidade e parte também de devoção do que ouvia, ainda que gentia quis vir ver o que de tanto lhe falavam. E assim veio, uma Sexta-feira, acompanhada de suas criadas e de muitas outras mulheres principais de seus vassalos; e tão grande foi a devoção, que lhe causou a vista da disciplina, que não se fartava de louvar tal modo de penitência. E dizia, que era impossível fazerem homens tal coisa, que não tivessem bem entendido e averiguado por certo, ser aquele o caminho de sua salvação; e, movida com isto, disse a suas criadas, que todas as que quisessem, se fizessem cristãs, que ela folgaria muito com isso; o que ouvindo uma delas, a mais privada e querida que tinha, como quer que havia muito tempo que não desejava outra coisa, declarando-lhe seu desejo, lhe pediu logo licença para ouvir as prègações; e, como nenhuma das mais companheiras fizesse outro tanto, desedificada delas a senhora, lhes disse, como repreenden- do-as, que não eram nada amigas da sua salvação, como era a companheira, que lhe pedira * licença para se fazer cristã; e louvando-a de seu bom desejo e .fi. 175*. determinação, a mandou logo à igreja, pedindo ao padre, que lhe fizesse prègar. Ouviu as prègações e se baptizou, com bom entendimento das coisas de nossa santa Fé; da mesma maneira, dois pagenzinhos seus, que a mesma senhora mandou também baptizar, e depois de baptizados, tem particular cuidado de os fazer vir à igreja aos Domingos e [dias] santos, a ouvir missa e prègação sendo ela mesma a que para isso os esperta e faz alevantar cêdo, para que não percam missa. Vem esta senhora algumas vezes à igreja a visitar o padre; e quando vem, traz na mão umas contas de cavalo marinho de cristão, e vai diante do altar e 1
  • 188 Das coisas do Japão adora a imagem com tanta reverência, como qualquer cristã. Nas festas prin- cipais pede licença ao padre, que a deixe vir à igreja, e ouve os ofícios divinos com tanta atenção e mostras de devoção exterior, como se fôra cristã; toma água benta, e faz que as suas criadas a tomem também, dizendo que é coisa santa, e que tem virtude contra o demónio. Folga muito de ouvir as coisas de nossa santa Fé, ficando tão rendida às razões em que se funda, que disse ao padre, que daí por diante a tivesse por cristã, pois já lhe falta pouco para receber o santo ba- ptismo. De modo que, com dantes ser pouco afeiçoada a nossa santa lei, agora está totalmente trocada, e cada vez se vai afeiçoando mais. Tem esta senhora um filho mais moço que Iecundono, o qual tem já ouvido as prègações do catecismo e deseja grandemente de se fazer cristão; mas por respeito ao senhor universal de Japão,^se não atreve a isso, esperando tempo, [em] que o possa fazer, como deseja. Êste veio também esta quaresma a nossa •fi. 176. igreja a ver os disciplinantes; e ficou tão devoto e movido, que, chaman*do a um irmão nosso, lhe preguntou, se seria merecimento a um gentio e ajudaria para sua salvação tomar semelhante disciplina de sangue; e dando-lhe o irmão a res- posta que a pregunta pedia, satisfeito com ela, dissimuladamente pediu ao irmão, que lhe mostrasse uma daquelas disciplinas de rosetas; e tomando-a na mão se ficou com ela e foi para casa. Ao outro dia, chamou os seus principais criados e lhes disse, que os que determinavam de se fazer cristãos e nisso o se- guir, tomassem com ele disciplina. Aparelharam-se para isso, os que tinham tal determinação e vontade; e dentro da cerca de sua casa tomaram todos uma rija disciplina de sangue, sendo o nobre mancebo, ainda que catecúmeno, o que entre todos a tomou mais áspera e com mais fervor. O filho herdeiro de Iecundono, chamado Vaiquidono, continua no amor e benevolencia, que sempre mostra aos Nossos, e muito mais nos desejos de re- ceber nossa santa lei, ouvindo de propósito tôdas as prègações do catecismo de raiz, das quais fez tal entendimento, que diz que em tôdas as maneiras se há-de fazer cristão; mas deixa-o agora de fazer, pelos mesmos respeitos que o tio. Na povoação, aonde tem a sua fortaleza, se levantou êste ano uma boa igreja, ajudando-lhe êle para ela; e, como sua mai, Grácia, morreu tão boa cristã, deseja de ter ali um padre de assento, para fazer muitas vezes exéquias pela alma de sua mãi. Um dos governadores dêste reino, de quem Nagavoca Iececundono faz muito caso, assim por seu esforço na guerra, como também por seu conselho, inteireza e outras boas partes, que tem, como é tão bom cristão e como pai e amparo de todos os mais cristãos do dito reino, parece que não cuida noutra • fi. 176 ». coisa, senão no serviço de Nosso Senhor e dilatação de nossa santa Fé em * toda aquela terra, buscando para isso todos os meios possíveis, que estão em sua mao; e assim, alem de ter já cristãos muita parte de seus criados, e outros mo- radores de suas terras, procura que os que hão-de morrer por justiça, morram cristãos; e como de feito morrem muitos, por sua persuasão e zêlo que tem do bem e salvação dos próximos. E neste genero têm acontecido alguns casos no- táveis, como foi de um gentio que pondo-o na cruz por seus delitos, com a ca- beça para baixo e os pes para riba, o deixaram assim vivo todo o dia na cruz, para que mais penasse. Chegaram-se a êle alguns zelosos cristãos; e, vendo que
  • Das coisas do Japão estava vivo, lhe preguntaram se queria morrer cristão. Respondeu alegremente, que sim, porque algumas vezes tinha ouvido as prègaçoes do catecismo, e enten- dido que não havia outro caminho para se um salvar, senão na lei dos cristãos; que lhes pedia muito que, já que morria, lhe salvassem a alma, fazendo-o cristão. Dão logo os cristãos aviso ao padre do desejo daquele padecente; manda um prègador, para que lhe prègasse e o baptizasse; com cuja vista alegre o pade- cente ouviu o mais substancial e necessário de nossa santa lei, e com grande arrependimento das culpas passadas recebeu o baptismo, o qual recebido, o es- tiveram acompanhando alguns cristãos, animando-o e dispondo-o para bem morrer, até que, vindo a noite, os ministros da justiça lhe deram uma lançada, com que expirou, e se foi, como se crê, a gozar de Deus; e esperando os doiucos da igreja e mais cristãos, que ali estavam, para o ajudar naquela hora, postos de joelhos disseram por sua alma algumas orações, em voz alta, com grande edificação dos gentios, que a tal acto se acharam, os quais não se fartavam de dizer mil bens da cristandade dos cristãos, e muito mais de nossa santa lei, que tal lhes ensina. * Um bonzo, enfadado de outro bonzo, seu mestre, por algumas coisas, que • fi. 177. lhe tinha feito, saltou um dia com êle com um punhal e lhe deu algumas feridas, das quais posto que não morreu, como o caso foi tão atroz, foi sentenciado que o queimassem vivo. Dada esta sentença, persuadido o bonzo pelos cristãos, que ouvisse as prègaçoes, fêz tal entendimento da verdade que lhe prègavam, que se baptizou, e no mesmo dia foi justifiçado, conforme a sentença, chamando sempre em alta voz até expirar pelos Santíssimos Nomes de Jesus [e] Maria, e com êles na bôca acabou a presente vida, com esperanças da eterna. Indo uma mulher cristã, uma manhã cêdo, para a igreja a ouvir missa, ao passar de uma ponte, viu que ia uma criança, pelo rio abaixo, envolta em uma esteira, chorando a mais não poder. Movida a boa mulher da caridade cristã, começou a bradar e rogar aos que passavam, quisessem salvar aquela criança. A isto acudiu um cristão, e lançando-se no rio, a nado, trouxe a criança a terra, e dando-a à mulher, a tomou e meteu no seio, e, vindo com grande pressa à igreja, a fêz baptizar, e baptizada no mesmo dia se foi para o céu, O mesmo remédio para ir à glória achou outra criança engeitada, em um cristão, o qual, vendo-a estar em um caminho chorando e já com agonias de morte, tendo dela compaixão, que muitos gentios que por ali passavam não tiveram, a tomou e levou à igreja a baptizar. Sôbre isto, buscou quem a criasse; mas como ia já tão fraca, em breve morreu e se foi a gozar a Deus. Trabalham na antiga cristandade do reino de Bungo dois padres e um irmão, com outros obreiros necessários para a conservaçao e aumento daquela cristan- dade, que, como está espalhada e debaixo de tantos senhores gentios, tem os nossos grandes trabalhos em a * cultivar; mas como Deus Nosso Senhor os,fi.'77t» ajuda em tal obra, e consola com o fruto que colhem de seus trabalhos, ani- mam-se grandemente a continuar e sofrer as faltas das ajudas humanas, conten- tando-se com a divina, que nunca os desampara. Êste fruto foi estes dois anos avantajado e mais copioso que todos os anos atrás, pelo mor número de gentios, que se converteram à nossa santa Fé, os quais chegaram a mil e setenta. Levantou-se uma igreja, em que os cristãos celebram suas festas; na quaresma,
  • •V igo Das coisas do Japão houve grande frequência de gente nela às missas, confissões e prègações, e fazendo mores penitências em todo aquele santo tempo, e particularmente as fizeram Quinta e Sexta-feira de Endoenças, e também em outros dias da quaresma, tomando em diversas partes até as mulheres, meninos e meninas, disciplinas de sangue. Receberam todos grande consolação com os ofícios da Semana Santa nesta nova igreja, os quais foram os primeiros, que com solenidade ali se fizeram, depois daquele reino ficar destruído; pelo quê, assistiram a eles com grande devoção, e com a mesma celebraram a Páscoa, com grande concurso, vindo a ela até os cristãos de oito e dez léguas de caminho, e alguns com suas mulheres e filhos, e certo, causavam devoção a quem via o que os fazia vir tão longe a buscar o remédio de suas almas. Entre os que se fizeram cristãos, se fêz um afamado Iamabuxi, que é certa láia de bonzos, que havia muitos anos servia de fazer feitiços e deprecaçoes, com que às vezes lançava os demónios fora dos corpos, e outras os fazia entrar e se apoderar dos miseráveis. Ouvindo êste prègação, se baptizou, queimando primeiro um caixão de livros de suas feitiçarias, e outros instrumentos, que lhe serviam para este efeito; e, posto que velho na idade e oficio, como Nosso •Fi.178. Senhor o chamou, veio de mui*tas léguas em busca do padre, e se baptizou com bom entendimento das coisas de nossa santa Fé, com outros também, que o acompanharam, privando-se dos muitos proveitos que tinham de sua arte dia- bólica, por não carecer do da salvação, escolhendo antes seguir pobremente a Cristo, que rico e abastado ao demónio, a quem tantos anos servira, com tanta perda de sua alma. Uma mulher gentia, que havia quatro meses que estava, sem se poder bolir, nem virar livremente para nenhuma parte, ouvindo as prègações do catecismo, desejou de se baptizar. Indo o padre a baptiza-la a sua casa, em entrando nela, disse a mulher, ou o demónio que nela falava: «Vou-me, vou-me; abri o ca- minho, que me quero ir»; e, dito isto, a deixou o demónio, que parece estava apoderado dela, e a tratava tão mal. E baptizada, logo ao dia seguinte se ale- vantou da cama sã e salva, e começou a fazer o serviço de sua casa, como fazia dantes. Da mesma maneira deixou o demónio a dois mancebos, aos quais não aproveitando nada as cerimónias e deprecaçoes gentílicas, que êles e seus pais gentios faziam para que o demónio os deixasse, ouvindo prègação e recebendo o santo baptismo, ficaram livres do demónio, e vieram logo à igreja, com seus pais, a dar as graças a Nosso Senhor, e ao padre pelo benefício recebido. Anos há, que entrando o demónio em um mancebo gentio, de tal maneira o atormentou, que, sem lhe valerem deprecaçoes gentias, nem votos a Camís e Fotoques, veio finalmente a morrer endemoninhado. Vendo pois seu pai o que tinha acontecido ao filho, indignado contra certo Camí, por lhe não ser bom em tal necessidade, destruiu uma ermida, que lhe tinha alevantado, e se fêz de outra seita, parecendo-lhe que, fazendo-se dela, como têm para si os gentios, ficaria • fi. 178r. livre do demónio * êle e tôda a sua família; mas, não lhe valendo nada para com o demónio esta traça e invenção, dez anos depois de o demónio lhe levar o pri- meiro filho, quis também levar-lhe o segundo; e assim entrou nêle, depois de tantos anos, e começou de o atormentar terrivelmente. Estando desta maneira endemoninhado o moço, que seria de dezassete anos, claramente dizia, ou para
  • Das coisas do Japão melhor dizer, o demónio nele, que, porquanto seu pai lhe tinha derrubado e des- truído a dita ermida, se havia de vingar agora disso, com matar a êste seu se- gundo filho. Atemorizado com isto o pobre do pai, arreceoso de perder também êste outro filho, torna outra vez a levantar a ermida do Camí; e chamando muitos bonzos, mandou fazer várias deprecaçoes pela saúde do filho; porém, vendo que nada disto aproveitava, e que seu filho ia morrendo irremediàvel- mente, sem os Camís nem Fotoques lhe darem remédio, se resolveu a ouvir prègaçao; e assim, chamando um pregador, ouviu logo as prègações do cate- cismo, êle e sua mulher, com outros mais, que logo se baptizaram; e, pouco depois, baptizando-se o filho endemoninhado, livre do demónio, se achou logo bem, e veio à igreja, ficando todos consolados e mui agradecidos pela mercê, que Nosso Senhor lhe fizera e a seu filho, perdendo não sòmente êles, mas muitos outros gentios o conceito, que tinham dos Camís e Fotoques e dando esperanças de se fazerem cristãos, por causa desta maravilha. Uma menina gentia, de idade de treze anos, filha de um homem gentio e muito principal e cabeça daquele lugar, estando muito mal e para morrer, fêz seu pai certos votos aos Fotoques, se a filha sarava; mas vendo que nada apro- veitavam seus votos, e que a filha se ia chegando para a morte, desesperado do remédio por via* dos Fotoques, mandou chamar um irmão, para que, já que sua *fi. 179. filha morria, morresse cristã. Indo lá o irmão, começou a catequizá-la e persuadir- -lhe que se fizesse cristã, pois morria. Respondendo a menina, que sim, a bap- tizou e se tornou para casa. Baptizada a menina, antes que o irmão chegasse a casa, começou a entrar em passamento. Chama junto de si a seu pai, e fazendo primeiro em si o sinal da Cruz com sua mão, o fêz também com a mesma na testa do pai; e, querendo fazer o mesmo na testa da mãi, que também para isso chamou, não podendo já levantar a mão, porque lhe iam faltando as forças, lhe fêz o sinal da Cruz no braço, e assim faleceu; e, como piamente se pode crer, se foi a gozar de seu Criador. Fêz-lhe o pai um solene enterramento, a que, além dos cristãos, se acharam muitos gentios e também alguns bonzos, por ser [a] um tempo o pai da menina bonzo e cabeça de bonzos de certo mosteiro; e houve prègação, em que cho- raram até os mesmos gentios. Ficou com isto tão movido seu pai, e tanta impressão lhe fêz no coração o sinal da cruz, que a filha lhe fêz na testa, que tem pro- metido de se fazer cristão, com tôda a sua família; e muitos outros que dependem dêle, estão esperando que cumpra a promessa, para êles também se baptizarem e seguirem a boa menina, que com sua morte lhes foi causa de tão santos de- sejos, e será também diante de Deus de seu cumprimento. Persuadindo o padre a um homem honrado, gentio, que ouvisse as prèga- ções do catecismo, e considerasse bem no negócio de sua salvação, com outras coisas boas, que a êste propósito lhe disse, posto que então não tiveram efeito, todavia, daí a um ano, lembrado o gentio dos bons conselhos do padre, manda- -lhe um recado [a] quatro léguas longe donde estava, dizendo que não estava es- quecido dos conselhos, que lhe dera o ano passado; pelo que, lhe mandasse um prègador, que queria com outros ouvir prègação e * fazer-se cristão. Mandou- -lhe logo lá o padre um prègador, e fazendo bom entendimento do que lhe prè- garam, se baptizou êle e outros muitos. Baptizado êste bom homem, entrou em
  • 192 Das coisas do Japão tanto fervor e devoção, que determinou logo acomodar, para igreja, uma casa muito limpa, que tinha junto da sua, para nela se ajuntarem os cristãos e fa- zerem sua oração; e êle, como cura dela, tem cuidado de sua limpesa e de persuadir aos demais que a frequentem, e sejam devotos; e isto, sem ter conta com a proibição do senhor gentio, que expressamente proíbe aos seus, que se façam cristãos, pela ter com Deus e com o negócio de sua salvação, que mais lhe importa que tudo. Um menino, de idade de nove anos, morrendo um seu avô, que tinha dei- xado a Fé, e fazendo-lhe o enterramento ao modo gentílico, com grande sole- nidade e concurso de gente, por ser pessoa honrada, não querendo seu pai, como bom cristão que era, ir acompanhar ao dito avô do menino e seu mesmo pai, por ter deixado a Deus e morrer como gentio, como menino que era, o acompanhou em lugar de seu pai. Mas, chegando ao pôr do cheiro, no perfu- mador, diante de certa tabuinha, chamada Ifai, que põem alevantada junto do defunto, com o seu nome escrito e dos Fotoques, nunca o dito menino quis pôr o tal cheiro, por mais que lho persuadiram e rogaram, não sem espanto dos que tal constância viram em menino de tão pouca idade. CAPÍTULO XVIII Do que se fê\ na Cidade de Firoxima ESTIVERAM este ano, na residência de Firoxima, dois padres e um irmão, com outros ministros, susten*tando com sua presença e doutrina os cris- tãos, que há naquela cidade e reino, e também noutros mais vizinhos, como são os do Mori e reino de Igo, e também os de Bugém e Bungo, posto que mais remotos, que Nosso Senhor ali tem e guarda intactos, no meio daquela gentilidade. Procuram sempre de conservar e ajudar aqueles cristãos, assim por via dos sacramentos, como também das prègaçoes e práticas espirituais, com que grandemente se vão alevantando e tomando fôrças, para terem mão em nossa santa Fé, entre tantos inimigos, como há em aquela terra e reinos, entre os quais, os principais e mais cruéis são os bonzos, que naquela cidade há em grande número; e, posto que dão a muitos cristãos grandes baterias, procurando com tôdas as suas fôrças pelos perverter e apartar do caminho da verdade, di- zendo-lhes, porque hão eles de seguir uma lei tão rigorosa, que proíbe aos homens seus gostos e passa-tempos, deixando a de seus antepassados, em que viveram por tantos milhares de anos, fazendo-se discípulos, como eles dizem, de uns bonzos estranjeiros, que não sabem a lei da cortesia de Japão, e final- mente outras mil coisas, que o demónio e sua malícia lhes ensina. Porém, como pela bondade de Deus acham sempre os cristãos bem armados com as armas da Fé, e também com as sólidas e verdadeiras razoes, e não aparentes e falsas, como as suas, ficam os miseráveis não sòmente confusos, mas também sem pro- veito de seus combates, saindo-lhes todos em vão; antes, quanto dêles são os cristãos mais perseguidos e combatidos tanto mais se vão apurando e resplan- decendo como o oiro na fornalha, fortalecendo-se mais na Fé, e dando dela bom
  • Das coisas do Japão 193 exemplo juntamente com obras de vida, com * que tapam a boca a seus inimigos, *fi. 180 v. não podendo com toda sua malícia pôr mácula alguma à nossa santa lei, nem aos verdadeiros seguidores dela; antes, com bem de raiva e dôr de seu coração, a vêem sempre ir crescendo com os que de novo a receberam este ano, que na cidade de Firoxima chegaram a duzentos e cincoenta adultos, pouco mais ou menos. Entre os que êste ano ouviram prègação, foi o mesmo filho morgado deTa- judono, senhor destes dois reinos, aqui aonde está a cidade de Firoxima e Bingo; o qual, como seu pai, se mostra afeiçoado a nossas coisas, indo muitas vezes a nossa casa; trata aos nossos com grande familiaridade e respeito, e por vezes tem dito que deseja receber nossa santa Fé, se seu pai disso fosse contente. Esta mesma afeição e bom conceito de nossa santa lei veio também a cobrar uma mulher nobre, perfilhada de Tajudono, e casada com um seu sobrinho, e isto pela conversação e trato que tem com uma certa cristã, tanto, que até as orações aprende, e usa de contas, lendo também por livros de nossas coisas; e posto que deseja muito de ouvir prègação, e de receber o baptismo, não se atreve todavia a o fazer sem licença e beneplácito do Tono. Em outra mulher, também nobre, casada com um gentio criado de Tajudono, obrou mais o bom conceito que formou da lei de Deus, porque, com dantes ser muito dada ao culto e adoração dos ídolos, ouvindo dizer da doutrina que os nossos prègavam, e da verdade e firmeza dela, logo determinou de se baptizar; e emquanto o não punha por obra, em penhor disso, mandou à igreja uma filhinha sua de dois anos de idade, pedindo ao Padre que lha baptizasse; e logo no mesmo dia, depois de tornar a menina feita cristã, arrancou das paredes e de outros lu- gares de sua casa muitos papéis em que estavam escritas certas sentenças dos livros de Xaca, que os Bonzos costumam vender, * dizendo que teem virtude para *fi. 181. preservar de males e de ruins sucessos, e, com outras imagens de ídolos que tinha, as queimou. Manda muitas vezes a filha à igreja, esperando conjunção em que ela possa também vir e ouvir as prègações juntamente com seu marido, que tem o mesmo desejo. A um gentio daquela cidade, muito adverso dantes à nossa santa Fé, mor- riam os filhos todos, sem lhes aproveitarem muitas deprecações que por eles faziam, chamando para isso Bonzos, como çs gentios costumam. Tinha êste homem somente um a quem muito amava, e temendo-se lhe morresse, ouvindo dizer da santidade de nossa lei, o deu a um bom cristão, para que o fizesse baptizar, e o criasse, tendo para si que por esta via teria vida o filho. Baptizou-se o menino, e tem agora saúde, do que o pai está muito contente, e inclinado já a ouvir (1) também prègação. Há nesta cidade um fidalgo dos mais principais deste reino, por nome Chi- cugodono Luís; êste e um filho seu, chamado Simeixém, são os principais esteios daquela cristandade, assim na antiguidade como na virtude; procede[m] como sempre, nas coisas de nossa santa lei, sendo ambos um exemplo a todos os mais cristãos, e juntamente amparo (2) e arrimo aos pobres em seus trabalhos e ne- (1) Nl.: ja de a ouuir. (2) Nt.: emparo. i5
  • I94 Livro terceiro cessidades corporais; e da mesma maneira se hão no amor à Igreja, e zêlo de seu bem, e aumento da cristandade, dando sempre, com sua boa vida, aos gen- tios um claro testemunho da santidade e pureza de nossa santa Fe'. Ambos acom- panharam êste ano a Zindono na jornada de lendo, ficando por sua ordem com outros capitães no reino de Izu, que dos do Levante e' o mais austral, e está antes do reino de Musaxi, para ali fazerem cortar e mandarem a pedra ao dito • fi. 181 v. reino * para as [obras] da fortaleza que o Xogum faz na cidade de lendo, que está no mesmo reino de Musaxi. Estando (i) pois ali Chicugodono Luís com seu filho, alugou uma casa de um gentio para sua habitação, e nela concertou com muita decência um altar com várias imagens, aonde assim êle e seu filho Simeão, com[o] outros muitos cristãos que ali também ficaram, se vinham encomendar a Deus, quando o tempo lhes vagava, particularmente aos domingos e dias santos. Dia de Páscoa, conforme a seu bom e antigo costume, convidou a todos os cristãos, posto que, como no banquete entrava veado, o qual era tido do caseiro em grande veneração, por ser, como muitos dos gentios cuidam, embaixador de certos Camis de que era sobremaneira devoto, não quis o dito caseiro que o assassem dentro de sua casa, dizendo que, se ali o preparava[m], logo dela se sairia, para evitar o castigo que os Camis haviam de dar aos homens tão desal- mados, que comiam veados; e como nisso instava tanto, pelo mêdo que tinha dos Camis, por derradeiro, por condescenderem com o cego gentio, o foram os cristãos negociar fora da casa; porém o castigo que o gentio temia dessem os Camis aos cristãos, lhe deu Deus a êle em pago de sua cegueira, porque poucos dias depois, estando já Luís em outras casas, se queimaram as suas com todo enxoval que nelas havia, sem ninguém lhes poder valer. Maior castigo recebeu outro gentio que pretendia destruir ao mesmo Chicugo- dono Luís, e foi que, sendo determinado Luís de Tajudono por juiz, com outros dois gentios, para examinarem uma sentença de morte se fôra justamente dada ou injusta, Luís, como bom e recto cristão, entendendo que a justiça estava por • fi. i8j. uma das partes, à qual a negavam os dois companheiros, por * nenhum modo se quis dobrar nem consentir na injustiça que êles claramente faziam à parte inocente, movidos, como gentios que eram, de seus próprios interêsses (2) e tam- bém respeitos humanos que no bom cristão não tinham força nem valor. Sabendo pois Tajudono dos têrmos em que o negócio estava, e como os juízes não con- cordavam nos pareceres, para evitar inconvenientes, mandou que assim a[o] acusador como ao réu se fizesse dar juramento do fogo, porque com isto se averiguaria a verdade. Costumam os gentios em Japão, em casos duvidosos, em que não há bas- tante prova, meter ao réu, e quando é necessário também o autor (como aqui se fêz), em uma estacada, aonde está já um ferreiro com seus foles e forjas ou outro algum fogo, o qual, depois de fazer brasa viva um ferro de arrazoado compri- mento e pêso, o põe (3) com as tenazes sôbre as palmas das mãos juntas de cada um dos litigantes em cima de um papel que tem escrita certa forma de jura- (1) Nt.: e estando. (2) Nt.: entereces. (3) Ni.: e pezo o pos.
  • Das coisas do Japão mento, ou também sem êle, o qual vem de um afamado templo de Japão, aonde ► o demónio é adorado; e dando dois ou três passos com o dito ferro quente nas mãos, o põe o que o tomou sobre uma taboinha que para isso ali está. E depois lhes vêem as mãos; e aquele a quem as acham queimadas, teem por certo sinal que é culpado, porque às vezes, permitindo-o Deus assim, pela cegueira desta gente, em alguns se enxerga pouca ou nenhuma lesão do fogo, com que mais se confirmam em suas superstições. Vindo pois o dia em que os dois litigantes haviam de tomar o ferro quente, um dêles, que não tinha justiça, e muito devoto dos ídolos, se foi a um Bonzo, superior de certa varela, para que lhe fizesse várias deprecações sobre as mãos, de modo que o fogo as não queimasse; e o * ministro do demónio não sòmente *fi.i8jy. lhas fêz, mas ainda o assegurou que fôsse muito afoito e confiado, porque ne- nhum nojo havia de receber; e para mais o animar, mandou outro Bonzo seu súbdito, o qual no tempo em que tomasse o ferro quente, invocasse os Camis e Fotoques em sua ajuda. Chegado já o tempo, foram os juízes com os dois e com outra gente sem número ao principal templo daquela cidade, em um pátio no qual se havia de executar a causa. E depois de metidos na estacada, tomaram ambos, cada um por si, o ferro quente, fazendo primeiro sua oração aos Camis, invocando-os em seu favor. O que feito, logo lhes calçaram umas luvas, mostrando-as, para não cerrarem a queimadura das mãos até os cinco dias, em que se havia de ver qual fora o que recebera mor dano. Os quais acabados, indo-os ver, acharam que o autor por quem terçava Chicugodono Luís, por entender que tinha justiça, tinha as mãos mais queimadas, porque êste, que também era fino gentio, con- fiado na verdade que defendia, e no favor dos Camis que invocava, tomou o ferro com muita segurança e quietação, e assim foi sentenciado à morte, e dado por livre o réu, o qual acharam que não tinha as palmas das mãos tão cresta- das, porque despediu de-pressa o ferro de si. Todos os gentios tiveram isto por coisa divina, dizendo que bem se via com quanta razão os Japões adoram e estimam os Camis, pois êles, obrando tais maravilhas, manifestam claramente a verdade encoberta. E com isto ainda alguns que tinham ouvido prègação, e mostravam desejos de receber nossa santa Fé, ficaram mais obstinados nos primeiros erros da idolatria, não sabendo o revés que Deus Nosso Senhor havia logo de dar àquele miserável, o qual, ficando mui ufano (i) com a vitória, a primeira coisa que consultou com os de- mais seus com*panheiros e amigos, foi como acusaria a Chicugodono Luís, • fi. i83. pois tinha terçado pela outra parte. Feita esta consulta das coisas que diria ao Tono, de Chicugodono Luís, de modo que o provocasse a ira e indignação contra êle, soube logo Luís o que passava, arreceando-se muito que, se viesse a efeito a acusação, tivesse por isso algum trabalhoso enfadamento, particularmente porque alguns tinham já dito mal dêle ao Tono, àcêrca desta matéria. E assim se pôs todo nas mãos de Deus, confiando nêle, e na inteireza e verdade com que procedera o negócio; e conformando-se, em tudo o que sucedesse, com sua divina vontade, com a qual desejando sempre acertar, como começou a entender (i) Nt.: oufano.
  • Livro terceiro no exame da causa, sabendo quão implicada era, e quão arriscada estava, por ter tantos contra si: fêz que todos os de sua casa tivessem oração quási contí- nua, e à igreja mandou dizer ao Padre que o encomendasse a Nosso Senhor, porque estava apostado a perder antes a própria vida e a de sua mulher e filhos, que fazer naquela causa coisa alguma que fosse contra a lei de Deus. Com êste bom aparelho estava Chicugodono Luís cheio de esperanças que Nosso Senhor acudiria por êle, e o livraria do que o gentio seu inimigo urdia para o destruir, quando Tajudono manda um recado de grande favor ao dito gentio, dizendo que se alegrava muito de êle ficar melhor da demanda, que logo no dia seguinte saísse ao Paço, e servisse no foro que dantes, e que ainda lhe havia de acrescentar a renda. Com êste recado pareceu ao gentio que se lhe oferecia o lanço desejado para acusar a Chicugodono Luís; e assim, mostrando-se sentido e agravado, respondeu que agradecia muito a mercê, porque não tinha já rosto para aparecer diante de(i) gente, ficando tão enxovalhado, com as mãos • fi. 183 v. queimadas co*mo ficava; que lhe pedia muito lhe desse licença para deixar a milícia, e rapando a cabeça (que é sinal de deixar o tráfego do mundo) ficar-se em suas terras, porque a ninguém mais queria servir. O mensageiro, que era um dos da consulta feita contra Chicugodono Luís, tornou com a resposta ao Tono, crendo que sem dúvida preguntaria a causa do tal sentimento; e sabida, se indignaria contra Chicugodono Luís, e ainda o cas- tigaria. Porém o retorno do Tono foi que em poucas palavras lhe dissesse que homem que tal respondia, e mostrava tanta ingratidão e tão pouco primor, que não era para [se] servir dêle, e que logo lhe tornasse a dizer que cortasse a barriga, como se cá usa. E porque se o que levava o recado fôsse porventura o negligente em lho fazer executar, mandou logo, nas costas dêste, outro pagem com gente para que os matasse ambos. Chegado o mensageiro aonde o gentio estava cercado de muitos amigos, bem fora de cuidar a embaixada que lhe vinha, deu o triste recado, ficando o miserável todo cheio de medo e confusão, com um grande temor e espanto que a sombra da morte lhe causava; e porque o apressavam na execução do que o Tono mandava, não podendo al fazer, se matou ali diante de todos, cortando logo por si mesmo a barriga; o que feito, lhe cortaram a cabeça para a levarem ao Tono, ficando os presentes atónitos de tão estranho e não imaginado aconte- cimento. Não foi menor o rebuliço e espanto que isto causou em tôda a cidade [de] Firoxima; porque os que té então apregoavam a providência e amparo dos Camis, aos quais aquele cego gentio tanto se encomendou, vendo sua triste sorte, e sabendo que o responder êle daquela maneira ao Tono era tudo traça para destruir a Chicugodono Luís, que de todos era tido e conhecido por cristão: •fi. 184. trocando a linguagem, diziam que bem * clara prova se tinha visto de como os Camis eram sem poder, sem ter e sem valia, e que por derradeiro a quem os cristãos adoravam, é o que só ampara e defende nos perigos aqueles que o servem e se lhe encomendam, como agora fizera a Chicugodono Luís. E assim muitos dos nobres, movidos de tão estranho caso, se abalaram para ouvir prègação. (1) Nt.: dáte de.
  • Das coisas do Japão 197 O Bonzo também que tanto dantes triunfava, parecendo-Ihe que com seus exorcismos tinha quebrantada a força do fogo, ficou assaz confundido, porque não somente o gentio por quem rogara aos Camis, ficou com as mãos queima- das, mas em lugar de rapar a cabeça como ele queria, em sinal de deixar o mundo, lha mandou o Tono cortar, e deixá-lo, bem contra sua vontade; e ainda a outro Bonzo, superior de um dos principais mosteiros de Firoxima, grande inimigo do nome cristão, por se entremeter na dita contenda, mandava o Tono crucificar; mas, a petição de todos os demais Bonzos, apenas o deixou com vida, mandando que logo se saísse da terra, sem levar nada de quanto tinha, salvo um sombreiro para se amparar da chuva. Se foi grande o enleio e confusão que o sobredito sucesso causou nos gen- tios, não foi menor a alegria e contentamento que dele receberam os cristãos, ficando mais confirmados na Fé, vendo como Deus Nosso Senhor acode pelos seus nos maiores apertos. Chicugodono Luís com tôda sua casa deu muitas graças ao mesmo Senhor, alegrando-se mais da providência divina que no caso resplandeceu, que da perdição da triste alma daquele gentio; o qual, se vivera e ficara na privança que tinha dantes, sem dúvida todos os meios inventara para derrubar a Chicugodono Luís, segundo o figadal ódio que êle e os de sua parcialidade lhe mostravam; e para que se visse que Deus fora o que dera tão inesperado (1) * talho a este negócio, ordenou que alguns dos principais, e par- *fi. 184*. ticularmente um cunhado do mesmo Tono, que sabia muito bem a prudência e sinceridade com que Luís se houvera no exame daquela causa, o inteirasse e informasse miudamente de tudo: com a qual informação não sòmente ficou o Tono satisfeito e contente do modo com que Chicugodono Luís procedera no negócio, mas ainda o louvou e abonou muito. CAPÍTULO XIX Do que passou em Iatnagúchi A perseguição contra a cristandade desta cidade, que Moridono, Rei dêste reino, e grande inimigo da Fé de Cristo, há dois ou três anos que le- vantou, vai ainda continuando, pelo muito que êste tirano deseja que não haja nem um só cristão(2) em suas terras; e por isso os anos atrás martirizou a Bujendono Belchior, que era um dos principais senhores do reino, e o melhor e mais esforçado capitão que êle tinha, e também ao cego Damião, por estes dois serem as principais colunas da cristandade, parecendo-lhe que, mortos êles, todos os demais cristãos cairiam logo, e fàcilmente os faria retroceder, pois não teriam quem os animasse para resistirem aos combates que êle lhes dava na Fé. Porém enganou-se o tirano, porque a virtude e merecimento do sangue dos santos mártires parece que alcançou de Deus nova força para os cristãos, e jun- tamente outras colunas que de novo se levantaram, para em seu exemplo os (1) Nl.: insperado. (2) Nt.: nenhum sô Christam.
  • Livro terceiro ajudarem e sustentarem, como adiante se verá. Não lhes faltara[m] também •fi. i85. os Padres com de * quando em quando os visitarem, buscando para isso toda possível comodidade, com que grandemente se animam e consolam, refor- çando-se com os sacramentos da confissão e comunhão que lhes administram, e exhortaçÕes que lhes fazem, instruindo-os como se hão de haver para perse- verarem na Fé ate' [à] morte. Teem estes cristãos à sua conta o Padre que está em Firoxima, o qual, indo a visitá-los (1) num destes dois anos, que foi o de seiscentos e seis, foi grande a consolação que todos receberam com sua ida, e se confessou grande número dêles dentro na cidade, e se baptizaram quási trinta adultos, posto que tudo em secreto, para que não viesse à notícia de Moridono; ouviu confissões de vinte, e vinte cinco, e mais de trinta anos, porque tantos havia que aqueles cristãos se não tinham confessado, por não terem a quem, e era a primeira vez que o faziam, conservando-se por todo este tempo na Fé, no meio de tanta gen- tilidade. Entre êles se confessou uma velha de setenta anos, que havia cin- coenta e tantos que fôra baptizada pelo B. P. Mestre Francisco, sem até este tempo se confessar, por nunca ter ocasião para isso, mas vivendo sempre cristã e constante na Fé. Consolou-se muito o Padre também de ver uma velha de setenta anos aprender as orações de um seu neto, menino de seis anos, e outra mulher, de uma filhazinha de cinco. Alguns cristãos dos lugares vizinhos de Iamagúchi, sendo avisados da vinda do Padre, e alguns também de Fangui, corte do Omori, se vieram confessar com muita devoção; e depois de o Padre confessar e consolar os cristãos da ci- dade, se foi a um lugar, chamado Vongori, donde o mandara chamar um cristão honrado, por nome Leão, por estar doente. Este e sua mulher o receberam com muita caridade; e depois que ambos, com todos os de sua casa, e outros que para isto ali vieram, se confessaram, baptizou o Padre oito ou nove adultos, e • fi. i85 v. entre êles uma nora do mesmo Leão, sobri#nha de um fidalgo dos principais do Omori, pessoa muito prudente, e que havia dias que desejava de se baptizar, trazendo já nómina e contas ao pescoço; e posto que vive na cidade de Iama- gúchi, veio ali com algumas suas criadas, para ouvir devagar as coisas de Deus, como ouviu. Ainda que esta vinda do Padre a Iamagúchi a visitar os cristãos daquela cidade, e os mais que estão espalhados por aquele reino, se fez com o mor se- gredo que foi possível, não foi porém tanto, que não viesse à notícia do tirano Moridono; o qual, alterado grandemente com isto, e também com saber que em lugar dos dois santos mártires Belchior e Damião, sucedera em coluna dos cristãos outro mui honrado, chamado Cano Sancho, valoroso e fino cristão, de- terminou de o haver com este, e buscar todos os meios para o derrubar da Fé ou matar; e para isto lançou mão de uma ocasião acomodada que neste ano de seiscentos e sete se lhe ofereceu, a qual foi a seguinte. Tinha êste Cano Sancho um irmão seu, por nome Justino, muito bom cris- tão, e morador na mesma cidade [de] Iamagúchi. Sucedeu que um moço gentio, filho de um mercador da mesma cidade, fez um furto a seu pai, e por ter ami- (i) Nt.: avisitarllos.
  • Das coisas do Japão »99 zade familiar com Justino, lho deu a guardar; o qual, crendo que(i), como o negócio era entre pai e filho, não poderia ser de muito risco seu, lho recebeu e guardou. Contudo, rompendo-se a coisa, se pôs logo a bôca em Justino, o qual, caindo na grande inconsideração que fizera, e começando-se [a] arrecear de al- gum trabalho, se quis logo aparelhar para êle com o que convinha à sua alma. Vai-se a Firoxima, três dias de caminho de Iamagúchi, a confessar e comungar; e como, tirando-se inquirição do caso, e o moço gentio negasse ter feito tal furto, antes lançasse tôda a culpa sôbre Justino, fazendo-o ladrão, foi logo prêso, e como homem que não escapava da morte, lhe *' confiscaram também logo tôda *fi. 186. sua fazenda. Vendo-se Justino neste risco, começou-se mais a aparelhar para a morte, encomendando-se muito de propósito a Deus Nosso Senhor, lendo amiúde o tra- tado da Contrição, e prègando aos guardas do tronco, da cegueira em que vivem os gentios e da verdade e pureza de nossa santa Fe', com tanto zêlo e fervor, que dois ou três presos gentios, que com êle estavam esperando também a sen- tença da morte, com a graça do Senhor se converteram e baptizaram no tronco, sendo seu padrinho o mesmo Justino. Correndo pois o negócio por diante, chegou a têrmos que, para melhor averiguarem a verdade, julgaram os governadores de Iamagúchi que era neces- sário mandar aos dois litigantes fazer juramento de fogo, tomando na mão o ferro abrasado sôbre certo papel de Camis, e Justino resistiu, dizendo que êle era cristão; que como tal, juraria, se quisessem, porém de nenhuma maneira tomaria o ferro; que à parte contrária o fizessem mui embora tomar, e que, se disso não recebesse lesão alguma (2), êle fôsse tido por culpado, e como êsse o castigasse[m]. Passado isto, e outros muitos dares e tomares, foi finalmente o negócio à côrte do Mori, o qual, como não desejava outra coisa que acabar aos cristãos, e muito mais a este, por ser irmão do Cano Sancho, e tão forte e fervoroso cristão, deu sentença que, depois de levado pelas ruas de Iamagúchi três dias à vergonha, o queimassem vivo, e a mulher crucificassem. Levado pois Justino pelas ruas com tanta afronta e vitupério, ia êle muito inteiro, dizendo a altas vozes que não havia salvação fora da lei de Cristo Nosso Senhor, que todos se desenganassem e caíssem no êrro e cegueira em que andavam, e que a morte que lhe agora davam, entendia que a tinha bem merecido, que, pôsto que o corpo pagava nesta vida, esta*va muito confiado que sua alma se salvaria. «fuisôv. Acabados os três dias de tanta afronta e vitupério, o levaram a êle e à mulher ao lugar aonde o haviam de assar vivo, ajuntando-se àquele espectáculo grande multidão de gente de tôda a sorte. Ali, depois que lhe ataram os braços à estaca aonde havia de ser queimado, pediu um breve espaço para dizer quatro palavras, e a soma delas foi que morria mui consolado, por ver que daquela maneira pagava o mal que tinha cometido, porque Deus Nosso Senhor a quem adorava, e em quem cria, lhe aceitaria aquela penosa morte em satisfação de sua culpa, e o salvaria. E por aqui foi arrazoando que se desenganassem todos, (1) Nt.: creendo q. (2) Nt.: leçam algúa.
  • 200 Livro terceiro porque ninguém se podia salvar sem receber a lei de Cristo Nosso Redentor; e por derradeiro concluiu que em prova e argumento desta verdade, veriam que êle, até expirar, nenhum movimento pequeno nem grande havia de fazer de si. E logo lançando o relicário ao pescoço sobre os vestidos, e enrolando as contas no colo da mão esquerda, abraçando-se com a estaca, direito em pé se virou para o algoz, dizendo-lhe que já podia pôr o fogo à lenha que em roda estava posta em distância de braça e meia; o qual assim o fêz, estando assim em pé o cristão imóvel como uma pedra, dizendo somente a altas vozes: Jesus, Maria, salvai-me. E assim como o disse, assim o cumpriu, porque, sem dar um mínimo sinal de dôr ou sentimento, expirou, ficando em pé, com grande espanto e admiração de todos os presentes, vendo uma coisa tão nova e estranha como aquela, vendo que sem dúvida era grande testemunho da verdade de nossa santa Fé não ter aquele homem, em tão vagaroso e cruel tormento, dado mostra ne- nhuma de dôr e sentimento, até os derradeiros arrancos, cumprindo tudo assim como dantes tinha dito, e que o Senhor em quem cria e esperava, lhe dera tais forças e vigor. E como os gentios, sucedendo um caso semelhante, costumam a achar mis- • fi. 187. tério em algumas coisas que no mes*mo ensejo acontecem, contam e celebram àcêrca desta morte três coisas. A primeira foi que, estando naquele dia o tempo muito claro e sereno, na conjunção em que Justino expirou, se toldou o céu sôbre a fortaleza do Mori, e logo se seguiu um grande e súbito chuveiro. A se- gunda, que sôbre o lugar aonde o queimaram, viram uma nuvem (1) roxa e mui formosa, semelhante às que estes gentios chamam Xiún, em que fingem vir ainda na hora da morte ao encontro dos que o invocam. A terceira foi que, ainda que assaram a Justino vestido e calçado, todavia nem os vestidos se lhe queimaram, nem as mãos se lhe gretaram nem fenderam com a força do fogo, como de ordinário sucede a todos os que queimam: do que tudo haveria causas naturais, que os gentios não conhecem, referindo somente as sobrenaturais, por entenderem muitos não ter êle culpa no caso, e morrer tão animosa e cristã- mente (2). Ficaram tão espantados os gentios destas (3) coisas e da constância e in- teireza com que aquele cristão morreu, que por alguns dias não falavam noutra matéria; e até o que fêz executar a sentença, sendo mui obstinado gentio e ca- pital inimigo da lei de Deus, disse depois, diante de muitos, que té então lhe parecera nossa santa Fé coisa de riso; porém que da morte daquele homem entendera que não podia deixar de se encerrar na crença dos cristãos algum maravilhoso segredo, pois os que a seguem, em um transe que tanto (4) assombra a natureza, mostram tal ânimo e tal valor. Crucificaram também a inocente mulher de Justino, a qual morreu com grande constância, dizendo que dava muitas graças a Nosso Senhor, por a ter feito cristã (5) tão pouco tempo antes de lhe ter acontecido tão grave desastre, (1) Nt.: húa nuue. (2) Nt.: Christáaméte. (3) Nt.: 3 destas. (4) Nt.: hú tráce q táto. (5) Nl.: feita Christã.
  • Das coisas do Japão 201 e que morria mui consolada, dizendo que Deus a salvaria, pois ordenara que ela o conhecesse e adorasse; e assim expirou, invocando sempre até expirar, os santíssimos nomes de Jesus, Maria. Quando os cristãos de Iamagúchi viram o grande abatimento e infâmia * . F1. l8? v com que Justino era levado à vergonha pelas ruas principais, três dias contínuos antes de ser justiçado, foi mui extraordinário o sentimento que tiveram, e a confusão que padeceram, lançando-lhes em rosto os gentios aquela maneira afrontosa de castigo como em vitupério de nossa santa Fé. Porém, como logo movidos das coisas que acima toquei, trocaram a linguagem, engrandecendo e louvando o esforço e inteireza que os cristãos mostram na morte, e o demais que na de Justino sucedeu(i): assim também se trocou a tristeza e desconsola- ção daqueles fiéis em muita alegria e contentamento, vendo como Deus Nosso Senhor acudiu por sua causa, e que onde o Mori pretendia abater e menoscabar a lei de Cristo, aí ficou ela mais acreditada e estimada. Não deixaram de notar muitos dar o Mori imediatamente a sentença de tão rigorosa justiça, coligindo daqui que foi mais para com isto infamar nossa santa Fé que para outra coisa, pois não se alembram os naturais de Iamagúchi que, por caso semelhante, se justiçasse ninguém tão crua e afrontosamente. E como êle sabia que Justino e seus irmãos eram agora os que fomentavam aqueles poucos cristãos que ali ficaram, e os que agasalhavam o Padre, quando lá ia; e como também o mesmo Justino não quisera fazer o juramento do fogo, es- cusando-se não somente por palavra, mas também por escrito, que a lei dos cristãos, que professava, lho proibia: levado do figadal ódio em que de contínuo arde contra nossa santa Fé, fêz executar tão rigorosa e afrontosa pena em Justino, e o que mais é, justiçar também a inocente mulher, coisa que rarissimamente se usa naqueles reinos, nem ainda em casos mais graves. Morto desta maneira Justino e sua mulher, e depois crucificado seu corpo com a cabeça para baixo, para mais * afronta, um fervoroso e devoto cristão, . F) l8g chamado Quimura Mâncio, criado de Saxedono, governador dos reinos de Mori, grande amigo de Cano Fanjemon Sancho, e que também o fôra de Justino, vendo estar os corpos ainda nas cruzes com tanto vitupério, determinou de os tirar e enterrar, parecendo-lhe que disso não poderia depois vir mal a ninguém; e aconselhando-se com Cano Sancho, irmão de Justino, foram ambos, de noite, juntamente com outros cristãos, e o mais secretamente que puderam, tiraram os corpos e os enterraram ao dia seguinte. Sabendo-se logo pela cidade que os corpos faltavam, tendo todos por certo que Cano Sancho com os mais parentes e cristãos os tinham sepultado, não se falava nela noutra coisa; e como disto havia grande rumor, chegou logo a fama dêle à corte do Mori. Chegado o ano bom, foi Cano Sancho a Fangui, corte do Mori, a visitar ao governador Saxedono e a outros seus amigos, bem fora de cuidar o que lhe havia de suceder, quando lhe vem um recado do mesmo Saxe- dono por que lhe fazia a saber que era acusado, por tirar os corpos das cruzes, contra as leis e costumes do Japão; pelo que estivesse preso em sua casa, indo juntamente alguns homens da justiça, para o terem a bom recado. E no mesmo (i) Nl.: que nada Justino socedeo.
  • 202 Livro terceiro dia se puseram também guardas em sua casa de Iamagúchi, e da mesma maneira de outro irmão seu, chamado Mâncio, que ali vive. Sabendo Quimura Mâncio o que passava, como àlém de ser bom cristão, é muito esforçado e por tal havido, deu logo uma petição a Saxedono que, se houvesse de proceder naquele negócio contra Cano Fanjemon Sancho, executasse antes nêle tôda a justiça, porque êle mesmo fora o autor do caso, e o que en- terrara os corpos. Cano Sancho, tanto que disto teve noticia, mandou dizer ao •Ki. 188 *. mesmo Saxedono que lhe rogava mui*to que não intendesse com Quimura Mâncio, porque a culpa tôda de se tirarem e sepultarem os corpos, êle Sancho a tinha, e que tudo o que Quimura Mâncio fizera, fora por amor dêle. Ficou Saxedono com isto, por uma parte admirado de tamanha lealdade e primor como havia entre (i) estes dois cristãos de um para o outro em perigo tão evidente; por outra mui perplexo, porque lhe era muito aceito Quimura Mâncio, ao qual man- dou tambe'm que não saísse de casa, dando-lha por prisão, posto que sem guardas. Foi correndo o negócio entre Saxe e o Mori por espaço de mais de cincoenta dias, sem se saber o que passava, nem o termo em que havia de parar, es- tando ambos estes cristãos aparelhados para receberem da mão de Deus tudo o que viesse. Cano Sancho particularmente se aparelhava para morrer, crendo que sem dúvida com esta ocasião o Mori o mandaria matar, conforme ao grande ódio que lhe tinha, por ser cristão; o qual (segundo o mesmo Sancho disse por vezes ao Padre) esperava algum bom ensejo em que lhe tirasse a vida com alguma boa capa que encobrisse sua crueldade e [in]justiça, e achando-a agora tão boa como esta, era mui provável que efeituasse seu danado desejo; e não se enganou, pelo que logo diremos. Determinou pois o Mori, com tão boa ocasião, de mandar dar por via do governador Saxe uma rija bataria a Sancho, parecendo-lhe que sem dúvida o renderia a deixar a lei de Jesus Cristo (2), para escapar da morte que o caso dos corpos lhe estava ameaçando; e para que o tomasse só o mesmo Saxe, mandou primeiro a Quimura Mâncio que se desterrasse para certa aldeia, pa- recendo-lhe que, estando ambos no mesmo lugar, o exemplo e constância de um animaria ao outro. •fi. 189. Estando as coisas nestes termos, mandou Saxe * um seu criado gentio, grande amigo de Sancho, a dizer-lhe de sua parte que lhe pedia muito quisesse acabar já de deixar a lei de Jesus Cristo, pois sabia quão averso lhe era o Mori, e não quisesse, por uma coisa em que tão pouco lhe ia, arriscar-se a si e a todos os seus. Respondeu Sancho que não havia para que lhe tocar neste ne- gócio, no qual havia de ser qual sempre fôra; que em tudo o mais que a lei de Cristo não vedasse, obedeceria a Saxedono, mas que nisto lhe pedia muito não fosse mais àvante. Agastou-se o mensageiro com a resposta, chamando-lhe de homem pouco considerado em coisa de tanta importância, acrescentando que se lembrasse como bem (3) poucos meses havia que seu irmão Iogoro Justino fôra tão cruel (1) Nt.: avia antre. (2) Nt.: ley de IESV CHR1STO. (3) Nt.: cõ o bem.
  • Das coisas do Japão 203 e afrontosamente justiçado, por querer no tronco mostrar valentias de cristão, o que, sabendo o Mori, se indignara muito, e dera ordem que o matassem tão cruamente, merecendo seu delito sòmente uma morte ordinária, conforme as leis e costumes de Japão. A isto respondeu Sancho que bem podiam fazer dêle o mesmo que fizeram a seu irmão, e ainda muito mais; porem quanto era deixar a Fé de Cristo, que de nenhuma maneira ninguém a isso o persuadiria. Com esta resposta se tornou o gentio muito enfadado, sem poder acabar o que desejava, e seu senhor Saxe- dono tanto lhe encomendara. Passado êste primeiro combate, daí a dois dias tornaram outros dois gentios da parte do mesmo Saxedono, pelos quais dizia a Sancho que se lembrasse do amor que sempre lhe mostrara, e boas obras que lhe fizera, as quais todas eram para o trazer a que deixasse (i) a lei de Deus, pois o Mori tanto a aborrecia; que, se desta * vez se mostrasse inda contumaz em seu propósito, não esperasse dêle *fi. 189». mais favor (2) algum; e se quisesse descer daquela opinião, e tomar alguma das seitas de Japão, êle o favoreceria em tudo o que se oferecesse, e lhe procuraria renda com que vivesse honradamente, e finalmente faria com que comesse à mesa com o mesmo Mori, e corresse em sua casa, como qualquer dos outros privados. Todos estes recados, ainda que eram enviados imediatamente por Saxe, todavia a origem dêles era do Mori. Respondeu Sancho que já tinha dito que deixar a lei de Cristo que professava, e em que sabia consistir sua salvação, que o não podia nem havia de fazer, por mais favores e ameaças que lhe fizessem. Os dois gentios, espantando-se desta nova linguagem, com quantos razões apa- rentes que se lhes ofereceram, pretenderam de o dobrar, dizendo-lhe que visse o que fazia, porque na resposta deste recado estava sua vida e a de todos os seus, e que se mostrava muito ingrato a Saxedono, de quem tantas mercês rece- bera, em não querer condescender com êle em coisa tão pouca, e o que mais era, coisa de tanto seu proveito, que para bem, ainda que o mesmo Saxedono o mandasse saltar dentro de uma fogueira, obrigação tinha a o fazer, quanto mais dar-lhe gosto nisto em que tanto ganharia, sem perda sua alguma. A tudo isto respondeu o animoso Sancho com os cumprimentos que devia; mas em con- clusão lhe pedia o deixasse viver na lei que professava; que no mais o serviria, e faria tudo o que Saxedono quisesse, até o servir de moço de çapatos toda a vida, se assim se quisesse servir dêle. Vendo os dois mensageiros a Sancho tão imóvel, e que não deferia a nada de quanto lhe diziam, pretenderam acabar com êle que pelo menos, ainda que no coração ficasse cristão como dantes, no exterior dissesse * que arrenegava, .F1. igo e se fizesse frèguês de alguma varela de Bonzos de qualquer seita das que ali em Fangui havia, e com êste meio escaparia de muitos trabalhos que estavam ameaçando, e juntamente não mudaria no coração a crença a que tão aferrado estava. A isto tornou Sancho que escusasse[m] já de lhe falar mais naquela maté- ria, porque nem aquilo podia fazer. Por derradeiro, vendo os dois gentios que (1) Nt.: a que a deixasse. (2) Nu: fauorauel.
  • 204 Livro terceiro gastavam o tempo debalde, querendo-se tornar, lhe disseram que, pois tão duro e obstinado se mostrava, tomaria o que por isso lhe viesse, e que o avisavam de antemão (i), que depois se não aqueixasse dêles, por lho não terem dito. Res- pondeu-lhes o bom Sancho que antes para êle era uma coisa muito estimada, e que muito desejava morrer pela Fé de Jesus Cristo que professava; e com isto se tornaram os gentios, e o valoroso e constante cavaleiro se começou a apare- lhar para morrer por seu Capitão. Depois dêste segundo combate se passaram dois ou três dias, nos quais parece que Saxe ia dar conta ao Mori do que passava; os quais acabados, mandou Saxe o terceiro recado a Sancho por outros dois gentios seus criados, cujo teor em soma era que, pois êle não tinha respondido a propósito aos pri- meiros dois recados, lhe mandava agora o terceiro, que algumas pessoas nobres, e até os mesmos governadores de Iamagúchi, tinham dito ao Mori que êle Saxe dissimulava com êle Fanjemon Sancho, e o deixava viver como cristão, por ser amigo do seu sogro, que também era cristão; que lhe pedia muito quisesse aca- bar de entender o que lhe diziam, pois isto tanto importava à honra e crédito dêle mesmo Saxe, e que já Bujendono Belchior morrera por ser e se mostrar cristão, e que também êle Sancho houvera de acabar então pela mesma causa; •fi. 190v. porém que o salvara e livrara * da morte, pelo amor e afeição que lhe tinha; que desta vez considerasse bem o que importava render-se ao que o Mori queria, e que se desenganasse que, se não descia de sua opinião, havia de acabar com tôda sua família. Nada se abalou o coração de Sancho com esta nova, antes com alegre sem- blante respondeu que estava prestes para passar por tudo o que dêle quisessem fazer, que já tinha respondido de uma vez o que responderia até à morte, por mais penas e tormentos que lhe dessem. Com esta resposta ficaram espantados os dois gentios, parecendo-lhes que Sancho estava fora de si; e assim lhe diziam que tresvariava (2), e outras muitas coisas, movidos parte de indignação de ve- rem que nada com êle acabavam, parte por terem dêle compaixão, porque eram seus amigos. E assim tornaram a Saxedono com esta resposta; o qual, ouvindo a resolução de Sancho, lhe tornou a mandar dizer em conclusão que, já que tão resoluto estava em não obedecer, fosse a Iamagúchi a consultar com sua mu- lher, filhos e parentes êste negócio, porque se desenganasse que êle e todos ha- viam de ser justiçados, se não deixavam a lei de Cristo, que o Mori de nenhuma maneira queria em suas terras; e com isto lhe tirou as guardas, e as mandou tam- bém tirar em Iamagúchi da casa do mesmo Sancho e de outro seu irmão menor. Pareceu ao Mori que era impossível deixar Sancho de se render, movido de pura lástima de haverem de ser cruelmente justiçados todos os seus por sua causa, e que a mãe, mulher, filhos, com o mêdo e espanto da morte, o persua- diriam a que obedecesse ao que lhe mandava; porém a graça do Senhor, que [o] esforçava e alentava a êle, tinha também arrimados os seus de maneira, que todos com muito fervor e devoção desejavam que Sua Divina Majestade lhes fizesse tal mercê, como é dar a vida pela confissão de sua santíssima Fé. (1) Nt.: dante mam. (2) Nl.: tresualiaua.
  • Das coisas do Japão 2O5 '* Tornado Sancho para Iamagúchi, começou logo a dispor de suas coisas • fi. 191. e aparelhar-se para morrer, crendo que logo Saxedono lhe tornaria a preguntar a última resolução que tomara; mas sucedeu neste comenos partir-se o Mori com tôda pressa para Surunga, a dar ao Cubo o pêsame da morte de Micavano Cami, seu filho, cuja filha estava desposada com um filho de Mori; pela qual causa entretanto ficou Sancho quieto, sem intenderem mais com êle; e pôsto que pode bem sair-se da terra secretamente com todos os seus, todavia, como êste negócio toca à Fé, está determinado de ficar ali até ver em que pára; e não quere que tomem os gentios ocasião de sua fugida para blasfemarem e moteja- rem de nossa santa lei. E porque de uma carta sua que escreveu a um Irmão nosso se poderá ver sua fortaleza na Fé e desejo de dar por ela a vida, e tam- bém o que em tal conflito passou, pô-la-hei aqui, que trasladada em língua portuguesa diz assim: «Dias há que quisera de cá escrever o que passava, mas não foi possível, por me terem pôsto guardas na casa onde estava. Agora vai lá o portador da presente, que por extenso contará tudo o que tem sucedido. Aos quinze desta quarta lua(i) passada foi desterrado Quimura Maneio para um lugar chamado Cama, tendo Saxedono por inconveniente esforçá-lo eu, se aqui ficasse; e por- que, se estivéssemos em Fangui, nos comunicaríamos. Deus Nosso Senhor ordenará dele o que for para mor glória sua». «Mandou-me dizer Saxedono que soubesse como Moridono, por ser averso à lei dos cristãos, mandara matar a Bujendono Belchior, e ao cego Damião, e que também eu, se não tivera mais culpa que a de enterrar o corpo de meu irmão, não houvera por isso de haver sôbre mim os exames e inquirição que havia; mas que os * governadores me tinham acusado ao Mori, por ser cristão; *fi. 191 v. que desta vez respondesse que lhe obedecia, e isto me mandou persuadir por muitos recados». «Assim como dantes tenho dito ao Padre, da mesma maneira agora, quando me puseram as guardas, desejava muito e pedia a Deus que, quando nestes apertos me visse, me dessem por causa dêles o ser eu cristão, e que por isso me matassem, porque não sei se, ainda que sou pecador, quere o Senhor por sua misericórdia outorgar-me minha petição. De três anos a esta parte se oferecem várias coisas tocantes a outras matérias, e dava-me pena cuidar o que o mundo diria, se, tomando-as (2) por achaque, me matassem. Porém agora ver que sò- mente por causa da Fé apertam tanto comigo, o tenho pelo maior bem que podia desejar, e me hei por indigno (3) dêle. E havendo eu de ser já justiçado em Fangui, a causa de estar ainda agora com vida foi para que de Iamagúchi desse a última resposta». «Não sei se meus pecados causaram mandar-me tirar Saxedono as guardas, e dizer que viesse a Iamagúchi foi para que me saísse da terra e me fosse para onde quisesse; porém, como tenho respondido no negócio da Fé com tanta reso- lução, estou determinado de me não sair por agora, ainda que me custe a vida. (1) Nt.: quarta lua. (2) Nt.: tomandoa. (3) Nt.: ey por indino.
  • 20Õ Livro terceiro E estou ainda com ela, por se partir de-repente o Mori para Surunga; não sei se em sua ausência tornará a haver outro exame, ou se sem êle me matarão (i). Quimura Maneio cuido que não morrerá, porque Saxedono lhe é muito afeiçoado, e disse que sua mulher e filhos estivessem muito embora em Fangui, desterran- do-se êle sòmente». «Quando a primeira vez me veio Saxe Firoiemon com recado àcêrca de deixar a lei, estava ainda o mesmo Mâncio em Fangui, e logo o mandei avisar que estivesse aparelhado, porque provàvelmente também com êle intenderiam, fi. 191. e como seu pai, que e' mui*to averso aos cristãos, ali estava, lhe persuadia que obedecesse ao Mori e deixasse uma lei que êle tanto aborrecia, e o repreendia pelo ver tão constante: emfim apartaram-nos para nos combaterem». «Se desta vez acabar minha vida por esta causa, estimá-lo-hei mais que tudo; mas sou tão pecador, que temo não haja isto efeito. Bem dizia eu muitas vezes que Bujendono Belchior não deixará por covardia de morrer, resistindo aos que o vinham matar, mas porque morria pela Fe'. Depois de todo êste meu negócio se concluir, daqui a um mês ou dois, se ficar com vida, determino de ir para lá ou para Nangazáqui (2); mas antes desejo de morrer mártir (3). O de- mais dirá o portador da presente. Aos dois dias da quinta lua. Cano Fanjemon Sancho». Até aqui a carta dêste bom e constante cristão, da qual se pode ver com quanta fortaleza e ânimo ficava, para passar com alegre paciência por tudo o que sobre êle viesse. CAPÍTULO XX De algumas coisas mais que pertencem a esta missão de Iamagúchi DEPOIS de preso Cano Justino, de cuja prisão e morte acima falámos, en- tendendo êle que sem dúvida o haviam de matar, posto que já antes de o prenderem, se tinha confessado e comungado duas vezes com aparelho de morrer: todavia, como aquela era a derradeira, desejando de se confessar mais outra vez, mandou chamar para isso o Padre de Firoxima, o qual se pôs logo ao caminho, disfarçado, como o negócio o requeria. Mas, como antes de chegar • fi. 192 v. lá, ouviu novas de sua morte, foi * forçado tornar-se. E porque nesta jornada viu e fêz algumas coisas notáveis, as referiremos aqui. Há num dêstes reinos, e três léguas de Firoxima, uma ilheta, chamada Iteuqueima, que é o mesmo que dizer ilha formosa; e bem lhe quadra o nome, porque é quási redonda de três léguas de diâmetro, tôda cheia de arvoredo sil- vestre, com vários outeiros mui graciosos, e particularmente três, que mais se levantam sôbre os outros, no cume dos quais estão ermidas, dedicadas ao de- mónio. Na fralda do mar, para a banda da terra, fica a povoação e templo (1) Nt.: sem ella me mataram. (2) Nt.: pera a Nangasaqui. (3) Nt.: martire.
  • Das coisas do Japão 207 principal do Cami, edificado, haverá quinhentos anos, por um senhor da Tença muito nomeado; e pelos vales e lugares mui frescos há muitos mosteiros, ou varelas de Bonzos. Pelas ruas das povoações anda grande cópia de veados mansos, sem ninguém levantar mão para eles, crendo aquela miserável e cega gente que são embaixadores do Cami aí venerado, o qual, segundo a tradição dos antigos, foi uma rainha da Coreia, que, perseguida dos seus, passou a Japão e ali morreu. Quatro vezes no ano celebram em sua honra certas festas, con- correndo então ali em romaria, de vários reinos de Japão, grande multidão de gente de tôda a sorte; e teem em tanta estima aquele Cami, que, quando se tor- nam, não ousam a levar as alparcas com que pisaram aquela terra, mas ali as deixam. Outros levam a água daquele mar para doentes, como coisa santa e saudável. Muitos, antes de ir ao templo, ainda que seja no maior rigor dos frios e coração do inverno, se banham primeiro em água fria. Deixo as ofertas que fazem e as esmolas que dão aos Bonzos, afora as que mandam os que não podem ir pessoalmente. Dentro nesta ilha se não pode comer nenhuma sorte de carne, nem matar coisa viva, nem enterrar morto algum; antes, com grande crueldade, muitas * vezes tomam os pobres enfermos que estão já para expirar, «fi. 193. e, metendo-os em uma barca, os passam da banda dàlém, onde, dividido com um estreito braço, está o lugar em que os enterram; e como os gentios naturais de Firoxima e os mais daquele reino, teem aquele Cami por seu padroeiro, e é grande o mêdo que lhe teem, deixam de se fazer cristãos, sabendo que depois de receber nossa santa Fé o não podem mais estimar, nem adorar; e os Bonzos, que nisto tanto interessam, teem cuidado de os amedrontar e os fazer nisto mais crentes, atribuindo qualquer ruim sucesso que vem, a castigo do mesmo Cami, tanto, que, ateando-se acaso o fogo na fortaleza de Tajudono, logo os ditos Bonzos, com outros de sua quadrilha, espalharam que muitos deles viram vir pelo ar uma seta de fogo de Itcucuxima, e pegar-se nas casas do Tono, o que, segundo êles diziam, era manifesto castigo do Cami, por alguma madeira que por mandado do dito Tono se cortara naqueles matos consagrados ao dito Cami. Indo, pois, o Padre de Firoxima a Iamagúchi, como dissemos, a confessar Justino, e tornando-se do caminho, por saber de sua morte, acertou de ser isto em conjunção que se celebrava uma das festas dêste Cami, para o que concorria de várias partes infin[i]dade de gente, que enchiam os caminhos, e que o Padre encontrava, que iam em romaria ao dito Cami, com suas contas de gentio na cinta; e logo, em chegando, se banhavam no mar, junto do qual está edificado seu templo; e à volta levavam daquela água para os doentes, como santa e saudável. No mesmo caminho está uma fortaleza de um tio do Mori, ao qual havia pouco que lhe morrera a mulher, e consultando com os Bonzos sobre a causa de sua morte, lhe responderam que o deus Gato a matara, porque ela consentira que um cão matasse a certo gato; e que, para (1) o mal e casti#go não ir àvante, . F| Ig3v mandasse edificar uma ermida a deus Gato; o que o dito idólatra creu, e actual- mente se andava edificando. Na mesma terra, de nenhuma maneira matavam também rato, por temor que tinham do deus Rato, a que chamam Coím. Emfim (1) Nt.: e porque pêra.
  • 208 Livro terceiro floresce [tanto] a idolatria naqueles dois reinos de Mori, que, para se converte- rem, é necessário o poderoso braço do Omnipotente, para render tão dura e obstinada gente em sua gentilidade. Continuando o Padre com o seu caminho, chegou a um lugar onde morava uma filha do santo mártir Bujendono Belchior, a qual desejava muito de se fazer cristã; mas queria que fosse com tanto segrêdo, que o não soubesse um cunhado seu, gentio, que a sustenta, nem menos uma velha, tambe'm gentia, ama que foi de seu marido, já defunto, que nunca se aparta dela. Foi o Padre a sua casa, da qual foi bem agasalhado, e logo lhe começou a contar várias coisas de seu pai Bujendono Belchior e alguns sonhos a que dava todo crédito, que os tinha por revelações. Dizia que os meses atrás vira uma donzela vestida de vermelho, de grande formosura, junto da qual estava seu pai Bujendono, o qual lhe dissera que aquela era a Senhora Santa Maria, persuadindo-a que se acabasse já de fazer crista. Outras vezes dizia que lhe parecia que estava rezando a Amida, por umas contas de gentio, e que seu pai lhas tomara da mão e lançara no chão, repreendendo-a, por dilatar tanto o fazer-se cristã, e que, depois de um dia ou dois, perdera aquelas contas, de modo que nunca mais as achou; e que desde então começara a adoecer uma filhinha única que só tinha, até que finalmente morreu: o que ela atribuía a castigo de Deus, por dilatar o baptismo. Começou logo o Padre a praticar-lhe os principais pontos de nossa santa •ei. 194. Fé, e a cada um dêles punha suas * dúvidas, mostrando ficar com bom conceito do que ouvia. A velha, que nunca se lhe apartava da ilharga, como era mui obstinada gentia, sentia isto, e procurava quanto podia de lhe estorvar o ba- ptismo; pelo que o Padre determinou de intender com ela e convencê-la de seus erros. Pregunta pois à velha de que seita era. Ao que respondeu que havia muitos anos vivia na dos Iodoxus, adorando a Amida, para que a salvasse. Tornou lhe a preguntar se Amida tôra homem como os outros; e, dizendo que sim, lhe preguntou mais o Padre que, antes de Amida nascer, quem era o senhor do Paraíso; porque, havendo já então Paraíso, parece que não estaria sem dono, e que, havendo também já naquele tempo tantos homens no mundo, não era possível que alguns se não salvassem; o que, se assim era, jquem salvava então estes, pois Amida ainda não era nascido? e que, sendo êle homem como os outros, conforme ao que ela dizia, 1 donde lhe viera o poder sobre o Paraíso e sôbre o dar a quem quisesse? Preguntou-lhe mais o Padre quantas vezes dizia Namuamidabut no dia. Respondeu que às vezes o dizia logo sessenta, setenta mil vezes; e que bastava dizê-lo uma só vez, para um ficar Fotoque. A isto lhe respondeu o Padre que, pois ela o tinha dito tantas mil vezes, que já estava consumada em Fotoque; e que assim era desnecessário dizê-lo dali por diante; e que, pois era Fotoque, d para que rogava mais a Amida? Apertava o Padre com a velha, que respon- desse a estas coisas; mas, não sabendo a pobre que responder, não dizia mais, senão que nunca ouvira tais instâncias, e que até agora crera às cegas o que ouvia àcêrca de Amida. Passadas estas práticas com a velha, dos Fotoques, lhe veio o Padre a tratar dos Camis, de que ela era também muito devota, declarando-lhe como êles nem •fi. 194 v. tinham, nem podiam ter poder sôbre o mundo, nem sôbre * os homens, nem
  • Das coisas do Japão 209 dar-lhes o que lhes pediam; e, em particular, lhe tratou do Cami de Miajima, tão venerado naqueles reinos, como fôra uma rainha da Coreia, e vindo de lá, perseguida dos seus, e fugindo a Japão, se viera a valer da ajuda dos japões; donde era grão cegueira que homens de tão bom juízo adorassem e pedissem socorro a uma mulher coreia, morta, a qual, sendo viva, teve necessidade da ajuda dos mesmos japões; e que £quem depois de morta lhe dera poder sobre aqueles, dos quais em vida tanta necessidade teve? que, se ela morrera contra sua vontade e sem ter forças para estender a própria vida, ^como a alongaria aos que, depois dela morta, lhe pedem largos anos? e que, se cada dia lhe oferecem de comer, {como lhes pede tantos fardos de arroz de renda, pois ela ainda agora tem necessidade de arroz cozido, que os gentios lhe oferecem cada dia? Com estas e outras muitas práticas que o Padre passou com a velha, ficou ela tão trocada, que por derradeiro lhe disse que em todo o caso se havia também de fazer cristã, e que havia de ser muito boa cristã; e assim, dali por diante, sem estorvar nada, ouviu com muita quietação o que o Padre praticava de nossa santa Fé à filha de Bujendono, a qual, indo a velha ver não sei quê, na casa de dentro, disse ao Padre, que assim o dizer ela que queria primeiro fazer as exéquias por seu marido gentio, como mostrar que desejava dilatar o bap- tismo, era por causa daquela velha, que tanto a estorvava, para mais com isto dissimular e encobrir-lhe o fazer-se cristã, por a dita velha se mostrar tão con- trária; que a verdade era que logo se queria baptizar; porque já estava bem no que tinha cuidado de nossa santa Fé; mas que não sabia como pudesse efeituar seus desejos, sem que aquela velha ou pessoa alguma de sua casa o soubesse. Neste comenos tornou a velha, e o * Padre, mostrando que tinha que fazer na -fi. i95 pousada onde deixara o fato, dizendo que logo tornava, tirou secretamente uma galheta, e indo-se só a uma ribeira que ali junto corria, a encheu de água e a meteu no seio, e dissimuladamente tornou a praticar com ambas, e deu por acenos a entender àquela senhora que ali trazia a água. Tornou-se a velha para dentro, e neste espaço a baptizou o Padre, pondo-lhe por nome Maria, com grande consolação sua, alevantando as mãos ao Céu, e dando graças a Nosso Senhor pela mercê. E escassamente acabava o Padre de esconder a galheta no seio, quando saiu a velha, e logo Maria, com muita dissimulação, preguntou ao Padre se os cristãos tinham também relicários, como os gentios; ao que o Padre respondeu que antes nós tínhamos as verdadeiras relíquias. Com esta ocasião, lhe pediu uma nómina, que o Padre já levava para isso, e tirando-a lha deu, que ela logo lançou ao pescoço, dizendo à velha que o fazia, porque aquilo tinha virtude para afugentar os demónios. Baptizada desta maneira esta senhora, continuou o Padre seu caminho até Firoxima, grandemente contente, por tirar das mãos do demónio tão boa presa como aquela, a qual, como além do que o Padre lhe praticou, estava já bem instruída nas coisas de nossa santa Fé, que seu bom pai Bujendono lhe ensinara, penetrou-as tão bem, e entrou em tanto fervor e desejo de salvação, quanto se pode ver por uma carta que daí a alguns dias escreveu ao mesmo Padre, a qual diz desta maneira: «Os dias passados passou por aqui Fissaichi, por o qual recebi a carta de Vossa Reverência, juntamente com o livrinho das orações, contas e Agnus-Dei, 26
  • 2 IO Livro terceiro o que tudo levantei sobre a cabeça, e estimo em muito. Espero que com estas • fi. i95 v. ajudas me salvarei. A confissão geral, com * algumas das orações, sei já bem de memória; as demais leio de contínuo pelo papel, sem me descuidar de dia e de noite. Todo meu cuidado é procurar de ir avante na verdade, encomendan- do-me à Senhora Santa Maria, rezando tambe'm pela alma de Bujendono Bel- chior, meu pai. Agora conheço quão errado andou meu coração estes tempos atrás, e como o demónio foi o que me impediu a não receber de-pressa o baptismo; e estou mui agradecida à Providência Divina, que trouxe cá a Vossa Reverência, em tão boa conjunção, para me baptizar. Todo o meu desejo é de ouvir e aprender à minha vontade as coisas da salvação, e crescer nas virtudes dos cristãos; peço a Vossa Reverência que me mande por escrito os dias de jejum, de peixe e de guarda». «Como encubro o ter-me feito cristã a estes entre os quais vivo, não posso com a liberdade que meu coração deseja, entregar-me tôda às coisas da salvação; e assim, já alta noite, faço oração, e o mesmo faço tambe'm de madrugada, benzendo-me e rezando, antes que os de casa me vejam. Bem sei que, tocando êste negócio à salvação, me houvera de dar pouco dos homens; porém, como pretendo que o Mori me dê licença para sair livremente de suas terras e viver à minha vontade na lei de Cristo, convém por agora ir assim contemporizando. Confio na intercessão da Senhora Santa Maria, que me cumprirá meus desejos; e, se Moridono me deixar sair de seus dois reinos, determino de me ir recolher ou com algumas mulheres devotas cristãs do Cami, ou de Nangazáqui, para com elas me ocupar de dia e de noite no negócio de minha salvação. Peço a Vossa Reverência que terce por mim, para que me concedam isto; porque nesta terra de nenhuma maneira vejo modo para poder intender nas coisas da salvação. •fi. 196. Folgaria que, oferecendo-se boa ocasião, # mandasse Vossa Reverência aqui alguma pessoa virtuosa e de confiança que me praticasse de-vagar as coisas de Deus, posto que nem a esta Vossa Reverência diga, se lhe parecer, que eu recebi o baptismo, se Deus quiser que o Mori me dê licença; o mais [d]irei presencial- mente neste verão seguinte. Jesus, Maria». Atèqui o teor da carta. Em outra que escreveu a um Irmão, quási diz as mesmas coisas, e acres- centa a particular alegria que recebeu êste ano, quando celebrou a festa do Natal, posto que só e em secreto; porque, como todos os de casa são gentios, e a velha, de quem acima dissemos, nunca se aparta dela, lhe é necessário haver-se com grande cautela; porque, se o Mori aventar que ela é cristã, para que não viva livremente como tal, a não deixará sair nunca de suas terras, como já mandou a uma sua prima cristã, chamada Clara. Este é o fruto que o Padre colheu de sua ida a confessar a Justino, e o estado da cristandade de Iamagúchi, e perseguição que o Mori lhe faz, e em particular a Cano Fanjemon Sancho, principal cristão daquela terra, da qual esperamos se seguirá muita glória de Deus Nosso Senhor e proveito daquelas almas.
  • Das coisas do Japão 211 CAPÍTULO XXI Do que se fê\ na cidade do Meaco e casa reitoral dela VIVEM, nesta casa, e residências a ela sujeitas, vinte de nossa Companhia: sete Padres e treze Irmãos, com outros mais obreiros necessários, dos quais e dos Irmãos se ocupam alguns em ouvir as seitas de Japão, para melhor as saberem confutar, que um Irmão nosso, # mui versado nelas, lhes lê. •Fi.igev. Os mais o fizeram na cultivação da cristandade e conversão dos gentios, cada um segundo o talento que Nosso Senhor lhe comunicou, procurando de o em- pregar bem, e colhêr dêle o fruto, e ainda que não tao copioso, como se podia esperar de um tão largo campo, todavia digno de se apresentar na mesa de sua Divina Majestade, por ser colhido no meio de tanta gentilidade, e tão dada ao culto dos Camis e Fotoques, como é a daquelas partes, e principalmente a do Meaco. Êste [fruto] foi de setecentas e trinta e tantas almas, que os nossos da casa reitoral do Meaco êste ano trouxeram ao conhecimento de seu Criador, não sòmente dentro da cidade, mas também em algumas missões que se fizeram fora dela. Não faltam alguns cristãos mui fervorosos e zelosos da honra de Deus, e em particular de darem a conhecer aos gentios a verdade da nossa santa lei, e os moverem a recebê-la e segui-la; entre estes se assinalam dois, um fidalgo e um médico, o qual, com ocasião de saúde corporal, não deixa também de pro- curar a espiritual dos gentios, persuadindo-os que se façam cristãos, como muitas vezes com efeito acontece, dispondo-os êle primeiro com suas práticas, e depois levando para isso prègadores, que mais de raiz lhes pratiquem as coisas de nossa santa Fé. Morava um velho, mui entendido nas seitas de Japao, junto de um caminho, pelo qual às vezes passavam estes dois zelosos cristãos. Indo, pois, ambos juntos, vendo o velho assentado à sua porta, começaram a travar prática com êle, acerba das seitas de Japão; e como pelo discurso da prática viesse o velho a conceder que não havia salvação nas suas seitas, lhe foram muitas vezes praticando das coisas de nossa santa lei, até que um dia, vendo * o fidalgo cristão que o velho •Fi.197. ia abrindo os olhos e caindo na verdade do que lhe praticavam, lhe praticou das coisas de nossa santa Fé, de tal maneira, que o velho se resolveu em se fazer cristão, como logo se fêz. Estando uma mulher gentia endemoninhada, cuidando os parentes que era outra doença, chamaram um médico cristão para curar a doente. \ endo-a o mé- dico, arreceoso do que era, ou para melhor dizer, conhecendo-lhe o mal pelos efeitos, sem dar fé à doente danada, pôs-lhe debaixo da cabeceira um Agnus-Dei. Começou logo a endemoninhada, ou o demónio nela, a conhecer sua vir- tude; altera-se grandemente, e faz. gfandes feros e estrondos, queixando-se e sentindo-se muito do que lhe tinham posto debaixo da cabeceira. Tomaram então os circunstantes o Agnus-Dei, e pondo-o sobre ela, a deixou logo o de- mónio, e se foi bramindo, ficando a mulher quieta e sossegada. Porem, como nem com tudo isto se movesse a desventurada gentia a se fazer cristã, nem menos
  • 212 Livro terceiro mostrasse desejos disso, daí a um dia morreu de-repente, e se foi aos infernos, em castigo, como parece, de não se aproveitar de tal milagre, para conhecer a virtude do Senhor, e receber por êle o lume da nossa santa Fe'. Fêz-se desta casa uma missão aos reinos de Mino e Voari, indo um Padre e um Irmão consolar aos cristãos que ali há. Consolaram-se todos sumamente com a vista do Padre, e muito mais com as ajudas espirituais, que dêle rece- beram, assim por via dos conselhos e práticas espirituais, como dos sacramentos da confissão e comunhão, ficando todos com tais meios grandemente animados a perseverarem fortemente na Fé. Alguns gentios, ouvindo as pregações do ca- tecismo, receberam o santo baptismo. O senhor do reino de Voari, que então era um filho do Cubo, chamado Salçumano Cami, fêz muito agasalhado ao Pa- * fi- '97 v- dre, e ainda lhe ofereceu ren*da, se quisesse estar ali de assento, e deu licença para se refazer a igreja, mostrando folgar muito que estivessem Padres e cris- tãos no seu reino. Convidou ao Padre em sua fortaleza, e deu-lhe algumas coisas de presente, e, depois de tornado o Padre para o Meaco, o mandou visitar, com muitos patos bravos de presente, que êle toma na caça com seus falcões, coisa que em Japão e' mui estimada. Com estes favores daquele senhor, ficaram os cristãos de Voari mui con- tentes e mais à sua vontade que dantes, e da mesma maneira o ficaram os Padres, e com esperança de se fazer ali grande conversão; mas, como daí a pouco morreu o dito senhor, não tiveram efeito atègora. Visitou também um Padre os cris- tãos da serra, com o fruto ordinário das confissões e comunhões, a que acodem aqueles cristãos com devoção e fervor, por serem antigos, e perseverarem atègora tão firmes na Fé, que são exemplo a muitos outros. Entre os que se converteram à Fé, baptizou um fidaldo principal, perfilhado do senhor do reino de Vacasa, que em seu nome veio às exéquias de sua irmã Madalena, filha de Giogocu Maria, das quais já falámos acima. Movido, pois, este fidalgo com a prègação, que um Irmão nosso fêz nas ditas exéquias, quis ouvir as prègações do catecismo, as quais ouvidas, se baptizou com grande consolação sua e o mesmo fizeram alguns criados seus; e tornando-se para o dito reino, louvou muito a ordem do ofício e a formosura do ornato, e muito mais o dar da esmola, que os nossos repartiram a pobres, bem diferente do que o fazem os Bonzos- do que resultou grande crédito à nossa santa lei. Porém o demónio, tendo inveja dêste e do mais fruto que da igreja nova e ofícios divinos que nela se celebravam com tanto concurso, se seguiu, corrido (i) de ficar desta vez tão abatido e ven- cido, procurou servir-se desta ocasião, para nos perturbar, como no princípio desta fica dito; mas, por misericórdia de Deus, não lhe saiu como traçava, pois ne- •fi. 198. nhum * efeito tiveram suas diabólicas traças; aproveitou-se todavia do sogro da defunta, grande inimigo da nossa santa Fé, para inquietar a Giogocu Maria, sua mãe, fazendo mandar diversos recados, por pessoas muito graves, aos filhos de Maria, senhores do reino de Tango e Vacasa, para que peruadissem a mãe, que não seguisse a lei dos cristãos, e não frequentasse a igreja. Ao que, como bons filhos e cristãos que ambos são, responderam que sua mãe era cristã antiga, já desde o tempo de Nobunaga, que antes perderiam seus estados, que dar-lhe tal conselho. (1) Nt.: e corrido.
  • Das coisas do Japão 2l3 Insistindo todavia o gentio que pelo menos a chamassem para os seus reinos, para não dar no coração ao Xogum, com ir tantas vezes à igreja, e fazer-se cabeça e exemplo dos mais cristãos, o que poderia redundar em mal dêles, e dos mesmos cristãos: eles o fizeram, e Maria, protestando primeiro aos filhos e a todas as suas criadas, que por nenhum trabalho nem perigo deixaria de pro- fessar a lei de Cristo Nosso Senhor, condescendeu com êles por alguns poucos de meses, para com isto aquietar os gentios, e contemporizar com o tempo que assim o pedia, e também escusar algum trabalho que a ela e aos cristãos poderia acontecer. Feita esta protestação, se foi para o reino de Vacasa, aonde vive com suas criadas, tôdas cristãs, com muita edificação e firmeza. Estava neste tempo no Meaco o Bispo, a quem pediu Maria a quisesse crismar com tôdas suas cria- das, como crismou, e depois se foi para o dito reino, apostada ela e as criadas a viverem entre aqueles gentios, como boas cristãs, com cujo exemplo se espera que alguns cristãos frios que ali há, entrem em fervor, e os que não são, se movam muitos a abraçar e seguir nossa santa lei. Também se baptizou um letrado que tinha nome entre os Ienxus, e se pre- zava muito de ter alcançado a substância e medula do Bupo (que é tôda a subs- tância das seitas de Japão), e de Bonzo feito mercador, tinha mulher e filhos cristãos, o qual, pôsto que por muito tempo foi combatido e importunado do sô*gro (que é um dos mais antigos cristãos do Meaco), que viesse ouvir as #fi. 198 v. pregações, ou pelo menos disputar com um Irmão nosso, muito versado nas coisas do Bupo, porque êste lhe soltaria as dúvidas que tivesse, nunca o quis fazer, antes cada vez se fazia mais surdo aos bons conselhos e persuasões do sogro e ainda da mulher que lhe persuadia o mesmo, tendo para si, conforme ao que ouvia da verdade de nossa santa lei, e das firmes razões em que se fun- dava, que se viesse a ouvir, ficaria na rede de que tanto fugia. Porém, como fôsse chegada a hora de seu chamamento, finalmente se resolveu a ouvir as prè- gações, mais pela importunação do sogro e mulher, e também curiosidade que a isso o levava, que por desejo de se fazer cristão; e propondo muitas dúvidas, continuou alguns dias, até que por derradeiro, convencido da força da verdade, se rendeu, e recebeu o santo baptismo com tanta devoção, que bem parecia tê-lo Deus Nosso Senhor mudado e trocado interiormente; e persevera com edificação de todos, vindo muitas vezes a preguntar as dúvidas que se lhe oferecem, e aprendeu outras coisas, ainda muito miúdas, da nossa santa Fé e costumes cris- tãos, para se conservar mais fàcilmente em graça, prometendo de exortar dali por diante a seus amigos e conhecidos, que oiçam nossas coisas e se façam cris- tãos; os quais, como souberam da sua conversão, ficaram pasmados e abalados grandemente, pois viam rendido aquele de quem menos o cuidavam. Ajudou muito a conversão deste Bonzo, por ser pessoa tão conhecida e vista nas seitas de Japão, à de um filho de Nobunaga, aquele grande rei que os anos passados, e antes de Taico, o foi de todo Japão; o qual, pôsto que tinha por vezes ouvido as pregações, e feito bom entendimento da verdade, não acabava todavia de se resolver em a abraçar e seguir, até que, persuadido por * êste * fi. >99- Bonzo cristão, que era seu colaço, a que se fizesse cristão, determinou de se baptizar, como fêz logo, sendo o mesmo seu colaço seu padrinho, com assaz alegria de todos, por ser pessoa de tanta marca, pôsto que ao presente com
  • 214 Livro terceiro pouca renda. Feito cristão, persevera atègora muito bem, e frequenta a nossa casa, folgando sempre de ouvir novas coisas de nossa santa lei, dos Santos, e outras coisas espirituais e devotas, e é pessoa de muito bom natural e mui quieta e assentada; e, como se baptizou com bom entendimento, logo persuadiu a seus pagens que também se baptizassem, como fizeram. Da mesma maneira se es- pera que o faça sua mulher, a quem muitas vezes persuade o mesmo. Na relação passada se disse como uma senhora dera de esmola, para ajuda da nova igreja, cem cruzados, a qual, posto que desejava de ser cristã, todavia, pelos impedimentos que para isso havia, e inconvenientes que se podiam seguir, não podia cumprir seus antigos desejos, nos quais, perseverando sempre e cres- cendo cada vez mais, se resolveu êste ano em se baptizar, cortando por tudo, mas com o devido resguardo e cautela, e ainda grande segredo, por ser perfi- lhada do Taico e estar à sombra de Quitano Madocorosama, mulher que foi e a principal do mesmo Taico, mui dada aos cultos dos Camis e Fotoques, e ter seu marido Bigeno Canogodono, que os anos atrás foi senhor de quási três reinos, ainda gentio, posto que desterrado, e seu irmão Figendono, tão grande senhor em Japão, também gentio com tôda sua geração: querendo-lhe Nosso Senhor remunerar a esmola que dera para sua igreja, com lhe dar a verdadeira luz e conhecimento da verdade de sua santa lei. E assim, um mês depois de dar a dita esmola, quis ouvir as prègações se- cretamente, de uma mulher bem entendida nas coisas de Deus, e modo de pre- gar aos gentios, da qual se servem os Padres para prègar a semelhantes pessoas, •pi. 199v. que não podem vir a nossa casa, como era esta, nem ir * os nossos às suas, por justos respeitos; e depois de ter feito bom entendimento do que ouviu, a mesma mulher a baptizou, pondo-lhe nome Maria, o que fêz com tão grande segrêdo, que nem os de sua casa o souberam, nem ainda ao presente sabem, e muito menos os de fora, pelo muito que nisso ia, tirando algumas mulheres cristãs que a servem, as quais se alegram muito de ver a senhora cristã, mas muito mais ela, por achar o verdadeiro caminho da salvação, como o acharam dois filhos seus, que há anos, por seu conselho, se baptizaram e estão ao presente desterrados com o pai gentio, mas êles cristãos e perseverantes na Fé. Vivia em uma aldeia, perto da cidade do Meaco, um velho da seita dos Ieoxus, de mais de sessenta anos, sogro de um bom e fervente cristão, o qual velho, ainda que casado, fazia oficio de Bonzo e prègador da dita aldeia, e sua casa servia de varela, onde todos se juntavam e faziam suas deprecações a Amida, sendo êle o primeiro que exortava os outros ao culto e veneração daquele Fo- toque, a quem todos adoravam. Êste, importunado do genro que desejava tanto a conversão do sogro, veio um dia, com sua mulher, ouvir as prègações do catecismo, e, tocado de Deus, fêz tão bom entendimento que logo na primeira prègação que ouviu, se resolveu a se baptizar; e tornando para sua casa, sem ninguém o aconselhar, chamou logo todos os da aldeia, como costuma; os quais, como não sabiam da mudança que tinha feito, foram, como sempre, aparelhados para fazer suas deprecações e cerimónias. Convidou-os primeiramente o velho; e, depois de convidados, lhes falou desta maneira: «Ficareis com razão admirados de vos eu convidar hoje, fora do meu costume; pois antes vós me houvéreis de convidar a mim, como atègora fizes-
  • Das coisas do Japão tes, do que vos dou muitas gra*ças; mas a causa de eu isto fazer, é para vos *fi avisar que desde hoje por diante vos não poderei mais ajuntar nesta casa, a fazer as antigas e costumadas deprecações; porque ontem, ouvindo a prègação dos cristãos, vi claramente que Amida, a quem eu e vós atègora adorámos, não me podia salvar, nem menos havia salvação em nenhuma das seitas de Ja- pão, senão na lei dos cristãos, na qual só se acha: pelo que, logo determino de adorar ao Criador do céu e da terra, que é o verdadeiro Salvador dos ho- mens, ao qual dou infinitas graças, por pôr em mim os olhos de sua grande misericórdia, alumiando meu entendimento no cabo de minha velhice, para o conhecer, que, se mais tardara, houvera-me sem dúvida de perder. Pêsa-me muito não sòmente de o não ter conhecido atègora e venerado como devia, por minha culpa e muita cegueira, mas também de o ter tão gravemente ofen- dido, e, em particular, de ser causa de vós todos em minha casa o ofenderdes, adorando a quem não deveis de adorar. Pelo que, para recompensar tão grande pecado como tenho cometido, vos aconselho e rogo que também abrais os olhos, e com tempo vos retireis do caminho errado pelo qual até agora caminhastes; e estimarei eu muito ser-vos meio de achardes o caminho para o céu, que é o da lei dos cristãos, como o fui ignorantemente para o do inferno, que é o que ensinam as seitas do Japão». . Ouvindo isto os presentes, ficaram todos pasmados da repentina mudança, parecendo-lhes aquilo mais sonho que realidade de coisa, e assim procuraram com todas as forças de divertir o velho e tirá-lo de seu propósito, acrescentando ameaças a rogos, se não desistisse de tal intento. Mas nunca o puderam acabar com êle, por mais que o pretenderam, pondo-lhe diante dos olhos muitas coisas, e em particular o proveito que perdia, fazendo-se cris*tão. Mas o bom velho, cortando por todo o humano interêsse, pela honra e estima em que todos o tinham, e por todo o mais de que havia de carecer, feito cristão, veio mui reso- luto com a mulher e filhos a ouvir as demais prègações; e, em sinal que de coração renunciava ao demónio, trouxe consigo a imagem de Amida e contas de gentio, e, depois de bem instruído, se baptizou com sua mulher e filhos, com muita devoção, e propósitos de fazer o possível para que todos daquela aldeia venham ao conhecimento de Deus. Feito o bom velho cristão, como é costume do demónio perseguir aos que vê saídos da sua rede, incitou muito mais contra êle todos os daquela aldeia; os quais, sabendo que de verdade se fizera cristão, começaram a fazer mau pesar dêle, e, feitos todos em um corpo, procuraram por todas as vias de o botar fora da terra; mas, como não puderam, determinaram de o tratar como exco- mungado, negando-lhe até o fogo e a água. Porém o bom velho nao se moveu com isso nenhum ponto de sua Fé e religião; persevera com grande fervor e devoção, não deixando de vir aos domingos à igreja, com ser já de tanta idade e morar tão longe, dando com isto a todos um vivo exemplo de sua paciência e constância na Fé, e ainda esperanças de toda aquela aldeia por seu meio se fazer, pelo tempo em diante, cristã. • • t ^ Um moço honrado, de idade de catorze anos, indo a Nangazaqui a fazer sua mercadoria, se fêz cristão, movido assim das prègações de um tio seu, e Irmão que o é de nossa Companhia, como também da verdade de nossa santa
  • 2IÕ Livro terceiro lei, vida e exemplo dos cristãos, e em particular, vendo as coisas do culto di- vino, que ali mais que em nenhuma parte florescem. Feito cristão com bom •fi.201. entendimento, se tornou daí a alguns meses para o Meaco, * donde era natural; o que sabendo o pai e a mãe, como eram da seita dos Fotoques, com tôda sua geração que grandemente aborrece nossa santa lei, o sentiram muito, e se in- dignaram contra o filho, e por muitos dias o perseguiram, dando-lhe não sòmente êles, mas ainda os parentes, muitas e grandes batarias para que tornasse atrás, até lhe tolherem que não saísse de casa, e, muito mais, que não fôsse à igreja. Mas os que mais o perseguiram e mais cruel combate lhe deram, foram uns Bonzos Foquexus, cujo freguês dantes fôra, os quais, sentidos por perderem tal frèguês como êle era, por ser morgado daquela casa e família, de que lhes vinha tanto proveito, não sòmente o combatiam com razões, mas incitavam particu- larmente a mãe (a qual era muito sua devota) contra o filho, parecendo-lhes que por esta via o derrubariam. Durou muito tempo a bataria que os Bonzos lhe deram, disputando muitas vezes com o bom moço, que, como era de pouca idade, lhes parecia que fàcilmente o venceriam com razões a que não saberia responder. Mas, como o moço naturalmente era agudo e de vivo engenho, e, quando se baptizou, adivinhando já os contrastes que havia de ter assim da parte dos parentes, como dos ditos Bonzos, o fêz com bom entendimento da verdade de nossa santa Fé e falsidade das seitas de Japão, sendo miiidamente instruído de tudo o necessário para se defender de quem quisesse impugnar sua religião. De tal maneira respondia às razões e soltava os argumentos que o Bonzo lhe punha, que de nenhum modo o puderam convencer; e ainda nas dificuldades mui abstrusas do Bupo, que não sabe senão quem as aprende de •fi.201 v. propósito, sabia escapulir e livrar-se delas de tal maneira, com di*zer que tudo quanto se ensinava no Bupo se encerrava em dizer e concluir que não havia salvação, e tudo se acabava em nada, sem haver nêle coisa de momento algum, e que assim lho ensinaram os nossos pregadores, e o tinha por tão certo, como se o palpara com as mãos: que os Bonzos se não sabiam dar a conselho, nem menos achar caminho para o poderem render. Era um dos Bonzos, que particularmente tomou o assunto de perverter a João (que assim se chamava o moço), grande letrado, e superior de um mosteiro principal dos da seita dos Foquexus, mestre de todos os Bonzos da dita seita, tido e estimado de todos por um oráculo; e como era tal, sentido por não poder concluir um menino, não desistia da demanda, continuando com as disputas e porfias por alguns dias, para ver se alcançava o que desejava, buscando sempre novos argumentos e razões para o convencer: até que João, enfadado do impor- tuno Bonzo, lhe disse que, se queria alguma coisa mais dêle, fôsse a nossa casa a disputar com um Irmão nosso, e que êle lhe afirmava que, se o vencesse, não sòmente êle retrocederia na Fé, mas ainda faria que todos os Padres se fizessem da sua seita, o que dizia êle, de confiado. Aceitou o Bonzo o partido, dizendo que viria a nossa casa, e concluiria fàcilmente ao Irmão, que, como também era letrado, não poderia fugir da força de seus argumentos, tão fundados nas autoridades de seus livros. Isto procuraram os Padres por vezes impedir, dando diversas escusas, por não fazer estrondo no Meaco, de que se seguisse algum prejuízo para os cristãos,
  • Das coisas do Japão 217 e impedimento para a pregação do Evangelho, por razao da proibição do Xo- gum. Porém, * como o Bonzo fizesse grande instância, não se pôde evitar a • fi. 20a. disputa, sem mostrar nisso covardia, o que fora notável descrédito da verdade de nossa santa lei. Determinado o dia para a disputa, faltou o Bonzo, dizendo que, por ser o tal dia ruim e aziago, não podia vir, mas que o faria no dia do fundador da sua seita, chamado Nicheren, por ser para êle bom dia e bem afortunado, em que esperava que o havia de ajudar para vencer na disputa, pois defendia e ensinava sua doutrina. Chegado pois o tal dia em que o Bonzo havia de vir à igreja a disputar com o Irmão, não quis o pai de João que o filho se achasse presente à disputa, ocupando-o de propósito em alguns negócios. Mas, avisado João, por um seu criado cristão, que o dito Bonzo ia à igreja, soube-se negociar de tal maneira, que veio com êle por guia. Vinha o Bonzo acompanhado de um seu principal discípulo, mancebo mui esperto e vivo no falar, e juntamente de alguns seus frègueses, para serem testemunhas do que acontecesse na disputa, em que cui- dava ficaria vencedor; e desta maneira acompanhado, entrou em nossa casa, fingindo que se queria fazer cristão com os mais que o acompanhavam; pelo que desejavam de ouvir prègação. Saíu-lhes o nosso Irmão, e, segundo o cos- tume, começou primeiramente a referir as seitas de Japão e a substância em que cada uma delas se fundava, mostrando-lhes com muitas razões, tiradas dos livros das mesmas seitas, como todas concluíam que não havia nada depois desta vida, o que lhes provava com palavras mui elegantes e abstrusas, tiradas todas do mesmo Bupo, as quais os Bonzos estimavam em muito. Acabado este discurso e razões, preguntou o Irmão ao Bonzo principal se tinha alguma dúvida àcêrca daquilo. Começou o Bonzo sua disputa, pondo várias dúvidas, falando ora êle, ora * seu discípulo, pondo tôdas suas forças para * fi. *>2 v. concluir [a]o Irmão nas coisas do Bupo; mas, como estivesse mais visto nelas que êles, não somente satisfêz a tudo o que propunham, mas ainda os chegou a tais têrmos, que, perdidas as cores, se vieram grandemente a perturbar, de maneira que, em poucas palavras, começaram a tresvariar e dizer disbarates, mostrando que nem os primeiros têrmos do Bupo sabiam, nem ainda entendiam bem as palavras comuns e usadas do dito Bupo. Bem procurava o discípulo de ajudar a seu mestre, e, como era falador, sustentou um pouco a disputa; mas? como, apertado, chegasse a dizer coisas diferentes do que tinha dito seu mestre, vendo o negócio mal parado, e que assim êle como o mestre, estavam em grande apêrto, sem saber já que responder, disse abertamente, diante de todos, que não era seu mestre, pois se metera em coisas em que se não houvera de meter; e agastado se saiu da disputa e recolheu, deixando só o mestre com os que levava para testemunhas da disputa. Vendo-se o Bonzo só e sem o discípulo, e sobretudo envergonhado e com a honra perdida, determinou de ver se por alguma maneira a podia recuperar, sustentando só a disputa; porém, como já não sabia o que dizia, de perturbado, em vez de refazer de algum modo o perdido, foi pouco a pouco caindo em maiores barrancos, mostrando mais sua ignorancia, a qual chegou a tanto, que até os primeiros princípios e autoridades dos seus livros negava, com as quais cla- ramente o Irmão o convenceu, sem ter que dizer mais que negar tudo a pés juntos.
  • 2 I 8 Livro terceiro Vencido desta maneira o atrevido Bonzo, com grande confusão sua e de seus fregueses, não se atrevendo, de envergonhado, a se levantar do lugar da disputa, que já estava acabada, lhe disse João, grandemente alegre de o ver *fi . 203. vencido: «Olá, Bonzo, já que tão mal vos * sucedeu a disputa, será bom que vos torneis, e, estudando mais um pouco, tornai outro dia melhor apercebido». Com o que, muito mais envergonhado, o Bonzo se levantou e foi para o seu mosteiro, mui triste e com a honra perdida e de seus frègueses que o acompa- nharam, ficando os cristãos que se acharam presentes à disputa, mui alegres e contentes, e em particular o moço João, e muito mais confirmados na Fé. Foi o bom sucesso desta disputa de grande ânimo e fôrças para todos os cristãos que dela souberam, ficando-as perdendo os gentios da seita dos Foque- xus, pois viam vencido aquele que todos tinham por mestre, e como tal o esti- mavam e reverenciavam; e como foi diante de tantos, soube-se logo por todo Meaco e seus arrabaldes como o dito Bonzo ficara vencido na disputa, sentindo-o muito os gentios daquela seita; mas muito mais o sentiram os Bonzos dela, particularmente do mosteiro de que o Bonzo era superior, pesando-lhe grande- mente de tão ruim sucesso; e feitos em um corpo repreenderam o Bonzo àspe- ramente, e o botaram logo fora do mosteiro, ameaçando-o ainda que lhe tirariam a dignidade que tinha, pois por sua imprudência deshonrara a todos êles e a seu mosteiro, pondo tão grande nódoa a toda a seita dos Foquexus. Desta maneira, ficou vencedor o bom moço João, não sòmente do pai e mãe e parentes, mas ainda dos Bonzos, triunfando de todos com tanto nome seu e honra nossa e muito mais de nossa santa lei, ficando grandemente acreditada em todo o Meaco, e a falsa e ímpia dos Foquexus com o cre'dito perdido: e os parentes que dantes repreendiam a João, por se ter feito cristão e ir á igreja, o deixam agora viver como tal; e por se não atreverem com êle, lhe deram licença • fi. ao3 v. pa#ra à sua vontade ir à igreja, como os demais cristãos, e tratar das coisas de sua salvação; pelo qual, mais como homem de muitos anos de cristão, que como menino de catorze anos, e tão poucos meses depois do baptismo, padecera tantos contrastes, com tanta fortaleza e constância, vencendo a todos, com edificação dos cristãos e espanto dos gentios. Indo um Padre por um caminho, se encontrou nêle com uma mulher pobre, que estava para morrer; chegando-se o Padre a ela, lhe preguntou se queria ouvir as coisas dos cristãos, e já que morria, morresse cristã e se salvasse; ao que respondeu que sim, e que algumas vezes tinha ouvido não sei quê das coisas dos cristãos, e desejava ouvir de propósito as prègações, mas que nunca pudera cumprir seu desejo. Logo a fêz levar o Padre a casa de um cristão, onde, prati- cando-lhe um nosso pregador as coisas mais essenciais de nossa santa lei, e feito entendimento delas, se baptizou, com grande alegria da alma; e com a mesma, ao dia seguinte, dando graças a Deus, por lhe ter feito tão alto benefício, morreu com claros sinais de sua salvação. Da mesma maneira morreram alguns outros pobres e desamparados, depois de receberem o sagrado baptismo, cheios de esperanças do Ce'u e de irem gozar para sempre de seu Criador. Desta dili- gência, usada dos Nossos para com os pobres e miseráveis, se edificam muito os cristãos e gentios, louvando muito a caridade cristã, que a todos igualmente se estende, sem excluir nenhuma sorte de gente do caminho da salvação.
  • Das coisas do Japão 219 Yiu-se também a misericórdia de Deus Nosso Senhor e sua divina provi- dência para com um homem honrado, criado imediato do Xogum e seu * caça- *Fl- *><• dor; o qual, posto que tinha por vezes ouvido prègação, e desejava de se fazer cristão, nunca todavia acabava de se resolver, por respeito da mulher que o desviava disso. Deu-lhe Nosso Senhor uma doença, para por esta via o salvar, e ordenou que, estando já na derradeira, o fôsse ver um médico cristão; o qual, vendo o perigo em que estava, e sabendo de seus desejos, lhe disse que pro- curasse o remédio da alma, que o do corpo nenhum tinha, e com outros cristãos amigos do doente e vizinhos, lhe persuadiu ouvisse mais de propósito as prèga- ções, e assegurasse sua salvação, fazendo-se cristão. Vendo-se pois o doente apertado da doença, e, sem esperanças da saúde corporal, se resolveu a buscar a espiritual, como o médico e mais cristãos lhe aconselhavam. Manda chamar um prègador, consentindo já a mulher que dantes o estorvava, antes aconselhando-o que assim o fizesse; ouviu as prègações, e percebendo bem os mistérios de nossa santa Fé, que por vezes a tinha ouvido, e fazendo de tudo bom entendimento, se baptizou; e depois de baptizado, agra- decendo a Nosso Senhor a mercê que lhe fizera, mui conforme com sua divina vontade, dentro de uma hora se foi para o Céu, como piamente se pode crer. Sabida a tal morte dos cristãos, louvaram muito a divina providência e miseri- córdia, que tanto resplandecera, e muito mais pelo que dela se seguiu, que foi a conversão da mulher e filhos e criados, que, tocados de Deus, receberam logo o santo baptismo. Aconteceu no reino de Mino a uma devota cristã morrer-lhe seu marido, como então cuidava, sem se poder confessar; e por estar longe donde residem os Padres, se foi por tôda a terra, preguntando * se havia ali algum cristão, 11 í04%- para lhe fazer o enterramento segundo o costume dos cristãos; e ouvindo dizer que dali a três léguas havia um lugar, aonde moravam alguns cristãos, foi lá chamá-los, os quais foram logo todos de boa vontade; e chegando a casa do defunto, acharam que não era ainda morto, e que fôra aquilo um acidente que o chegara a tal estado; e posto que a mulher os queria despedir, entendendo êles que todavia morreria o doente, se deixaram ficar, para ajudar ao enfêrmo a bem morrer, como fizeram, maiormente a ter contrição de seus pecados, pra- ticando-Ihe diversas coisas convenientes para aquele tempo, com as quais con- solado e animado o enfêrmo, daí a pouco morreu, na realidade em presença de todos, com sinais de sua salvação, louvando e engrandecendo muito a providên- cia e infinita misericórdia de Deus, que prolongara a vida àquele enfêrmo, para morrer com melhor aparelho. Fizeram-lhe aqueles cristãos o enterramento o melhor que souberam e pu- deram, à vista de todos os gentios, que ficaram pasmados de verem os cristãos estarem entre si tão unidos, e ajudarem-se uns aos outros com tanta caridade e amor em tal passo, ainda àqueles com quem não teem mais outra l[i]ança que da mesma lei que professam. Mas, se isto fêz pasmar aos gentios, não o fêz menos a fortaleza e cons- tância da viúva; porque, tratando os parentes de torná-la a casar honradamente, prometendo-lhe ainda a renda e oficio do marido defunto, parecendo à boa mu- lher, por não ter ainda tanta notícia de nossa santa lei, que os cristãos não se
  • 220 Livro terceiro ' fi. ao5. podiam tornar a casar segunda vez, respondeu, mui determinadamente, que não havia de fazer tal coisa, porque era cristã. Insistiram êles muito; mas, vendo que nem com razoes, nem com rogos puderam acabar com ela, vieram às amea- ças, persuadindo-lhe fortemente que deixasse de ser cristã, pois o sê-lo (como êles cuidavam, segundo ela dizia) lhe era impedimento para poder casar outra vez. Mas nem com isto se dobrou a boa mulher, e muito menos fêz caso das más persuasões daqueles gentios; porém, como a apertavam muito, saíu-se de sua terra, e foi-se para o lugar onde moravam os cristãos que lhe enterraram o marido; e, achando que se faziam prestes para virem ao Meaco à festa do Natal e dedicação da nova igreja, se veio com êles, dois dias de caminho, tra- zendo consigo os filhinhos, sem querer mais tornar para a sua terra e parentes, que tinha por inimigos da alma, escolhendo antes viver pobre em terra alheia' aonde tivesse comodidade de vir à igreja e tratar das coisas de sua salvação' que na sua própria, aonde a pusesse a perigo. Baptizou-se também uma senhora muito nobre, irmã de Cano Fidandono, cristão já defunto, que foi pessoa muito principal em Japão, no tempo deTaico, a qual, vindo ao Meaco do reino de Voxu, onde morava, mais de vinte dias de caminho, a se curar de uma doença: por persuasão do marido cristão, e pelo bom entendimento que fêz da verdade de nossa santa lei, se baptizou com grande consolação sua e do marido, o qual, com viver muitos anos naquele reino, sem prègações nem outras ajudas espirituais, se conservou sempre inteiro na Fé, entre tantos gentios e estorvos que lhe faziam, para tornar atrás, sem nunca o poderem acabar com êle. Vindo pois aqui com sua mulher, se confessou, e ouviu muito de- vagar as coisas de Deus, e se arreigou muito mais nelas, e também nas razões • fi. jo5 v. para poder confutar as fal*sas que os gentios lhe traziam, para o fazer retroceder. Na segunda casa que a Companhia tem na cidade de Meaco, e na parte su- perior dela, reside um Padre e um Irmão, com os mais ministros necessários para a igreja e para cultivação dos cristãos que naquela parte moram. Baptiza- ram-se nela duzentos e cincoenta adultos. Entre estes foi uma velha de setenta anos, que era de uma seita nova, que não adora Camis nem Fotoques e ensina novos disbarates, a qual morava perto da porta dos Bonzos principais desta seita; servia-lhes de pregadora, e tinha persuadido a muitos que se fizessem da dita seita, por ser, ainda que velha, mulher de bom entendimento, e sobretudo bem falada e eloquente. Esta, sendo persuadida de um homem que fora da mesma seita, nela também obstinadíssimo e mui pertinaz, e que havia poucos meses que, convencido finalmente da verdade de nossa santa lei, se fizera cristão, veio ouvir prègação, trazendo consigo um filho seu, já homem, de sua casa. Começou, pois, [a] ouvir a velha prègadora, e logo da primeira prègação lhe abriu Deus Nosso Senhor os olhos do entendimento de tal maneira, que pasmavam assim o nosso prègador como os mais que de fora estavam, ouvindo as dúvidas e preguntas tão a propósito que fazia, e de como de uma resposta que o prègador lhe dava engenhosamente ia inferindo outras coisas que o pregador não tinha ainda dito; e o que mais era para ver, como a boa velha pelejava com o filho e o repreendia, porque fazia preguntas fora de propósito, impedindo com elas o curso das prègações, dizendo-lhe que, se lhe ocorriam algumas dúvidas, as guardasse para casa, que ela depois lhas resolveria todas.
  • Das coisas do Japão 221 Emfim, fêz a ditosa velha tão bom entendimento, que se baptizou com o filho, e tão boa manha se deu, como quem sabia bem os modos de persuadir, que em * *fi. 206. breve fêz baptizar outro filho com sua nora, e anda após os mais que lhe ficam de sua família. E não contente com os seus, persuade a outros muitos que se façam cristãos; e os já feitos traz muitas vezes à igreja, vindo ela também quási todos os dias à missa. Nem se farta de dar graças a Nosso Senhor por lhe ter aberto os olhos da alma, pasmando grandemente de si, por ter dado crédito tantos anos às par- voíces e claros enganos das seitas dos gentios. E, com ser tão velha, aprendeu em muito breve tempo as orações em latim, continuando atègora com fervor e devo- ção, sendo exemplo aos cristãos, e espanto aos gentios, que dantes a conheceram. No reino de Farima, em uma povoação dos gentios, pegada com a fortaleza e Paço onde mora o Tono da terra, aconteceu entrar o demónio em uma mulher gentia, e de tal maneira a vexou, que, saindo de casa como uma fera leoa, se foi pelas ruas da povoação fazendo mil bravuras, sem ninguém lhe parar diante; e com este ímpeto e fúria entrou pela fortaleza; e por não achar quem lho im- pedisse, chegou até onde estavam as mulheres, pegou de umas e de outras, ras- gando-lhes os vestidos e descabelando-as, não perdoando ainda à mesma senhora da fortaleza; e finalmente fêz outras mil diabruras. Encontrando-se, porém, com uma cristã que servia aquela senhora, em a vendo, lançou a fugir a endemoni- nhada, com que, cobrando ânimo a cristã, foi após ela, a qual tanto mais fugia, até que alguns homens, pondo-se diante, ferraram dela e a amarraram. Nisto se chegou a cristã a ela, para lhe falar; mas a endemoninhada, sem se atrever a olhar para ela, cobria o rosto quanto podia, dizendo que a cristã era coisa medonha. Preguntou então a senhora à criada cristã porque a ende- moninhada fugia dela e a temia tanto. Ao que ela respondeu que o * não sabia, *fi.2o6v. mas que porventura o diabo fugiria da nómina dos cristãos, do Agnus-Dei, a qual ela trazia ao pescoço. Puseram logo a dita nómina sobre a endemoninhada; e em lha pondo, ficou mui quieta; de modo que, depois de desamarrada, não fazia mal a ninguém; e, continuando com ela por mais vezes, ficou livre de todo. Pasmaram todos aqueles gentios da virtude do Agnus-Dei, e pediram-no à cristã, de tantas partes, para o venerarem, que mandou ela pedir ao Padre uma nómina limpa e rica, para a mostrar aos gentios, entre os quais dizem que faz semelhantes efeitos, e que muitos, movidos com êste milagre, desejam de ouvir as coisas dos cristãos. CAPÍTULO XXII Do que se fê\ na cidade de Fuximi ESTIVERAM, êste ano, na residência de Fuximi, côrte de Japão, um Padre e três Irmãos, e alguns dójicos(i) pregadores, bem ocupados, assim na cultivação dos cristãos já feitos, como nos que de novo se vão fazendo, não sòmente moradores da terra, mas de diversas partes de Japão, que ali acodem, maiormente em tempo que nela está o Xogum com sua côrte, oferecendo-se sem- pre boa ocasião de dar a conhecer a muitos nossa santa lei, que ainda não tinham (i) Nt.: e algús do Iucus.
  • 222 Livro terceiro conhecido: o que sempre se faz com fruto, trazendo Nosso Senhor alguns a seu divino conhecimento. E quando lhes não é chegada a hora, não deixam de ficar com bom conceito da pureza e verdade de nossa santa lei, dizendo bem dela, e publicando sua bondade aos outros, com que tratam: o que não é pequeno •fi. 307. fruto, antes grande meio para muitos a de*sejarem ouvir e tambe'm seguir, como estes dois anos fizeram quinhentos e quinze adultos que Nosso Senhor escolheu entre tanta multidão de gentios, e tão vária como naquela corte se ajunta. Para conversão dêstes ajudou muito o fervor, zelo e devoção daqueles cris- tãos que, feito[s] em um, procuram sempre de persuadir aos gentios que venham a nossa casa a ouvir as prègações do catecismo, excitando-os também a isto com o exemplo de vida, meio eficacíssimo para mais os mover. São mui fre- quentes no acudir à igreja, à missa e prègação, e tambe'm no uso dos sacra- mentos, aproveitando-se dêstes divinos meios para irem adiante na virtude e guarda dos mandamentos. Entre os que se baptizaram, o fêz um pagem de um Tono gentio, o qual, sabendo como o criado se fizera cristão, começou a intender com êle, apertando-o fortemente que retrocedesse. O mesmo fazia o pai do moço, pedindo-lhe instan- temente que obedecesse ao Tono, porque de outra maneira perderia a fazenda que tinha; mas, como o mancebo estava forte na Fé, não tendo dever nem com o pai nem com o senhor, continuava como dantes em vir à igreja e cumprir com outras obrigações de cristão; do que agastado mais o Tono, não sòmente lhe tirou a renda que lhe tinha dado, mas ainda o comer, vestidos e moços de serviços, deixando-o sem nada. Não se turbou com isto o mancebo, antes, com grande paciência, servia de graça ao senhor, melhor ainda do que [o] fazia primeiro, sem se sair nunca de sua casa, dizendo aos demais pagens que agora serviria êle com mais amor ao senhor, pois o fazia sem interêsse: o que, referindo os companheiros ao Tono, em vez de se abrandar e dissimular com tão fiel pagem, e que tanto amor lhe mostrava, se agastou mais contra êle, chamando-o de doido e sem siso, man- • fi. 207 v. dando-lhe # dizer que o havia de mandar matar, se não deixasse de ser cristão. A êste recado respondeu o cristão que isso era o que êle buscava, e que lhe não podia fazer maior mercê que mandá-lo matar por ser cristão, porque dessa maneira seria mártir, que é [a] coisa mais honrosa e mais estimada que há entre os cristãos. Com tão resoluta resposta ficou o Tono gentio atónito e espantado, vendo tanta constância em um mancebo de pouca idade: pelo que, abrandando, lhe tornou a restituir parte da fazenda que tinha primeiro, e o bom e constante cristão, ficando com vitória, continua como dantes, em vir à igreja e outros exercícios de cristão, com devoção e exemplo dos mais. De maior espanto foi a constância de uma menina de seis anos, filha de um homem nobre e rico, cuja mãe é muito boa cristã. A esta menina chamou seu pai um dia, e lhe mostrou muitas coisas ricas, dizendo que lhe daria delas as que desejasse, se deixasse de ser cristã: ao que respondeu a menina que nada daquilo queria a troco de deixar de ser cristã, como sua mãe era. Ameaçou-a o pai que a não havia de deixar sair a folgar com as outras meninas: do que ela, rindo-se, disse ao pai que não se lhe dava nada de não brincar, e, em sinal de seu determinado ânimo, esteve três dias sem sair de uma casa, até que o pai,
  • Das coisas do Japão 223 vencido de tanta fortaleza em tão tenra idade, a mandou chamar, e tratou como de primeiro costumava. Esta mesma menina tinha uma ama gentia, a qual, como invocasse muitas vezes no dia o nome de Amida, lhe pediu a menina que não nomeasse tantas vezes aquele Fotoque, mas que, em seu lugar, dissesse Jesus, Maria, como dizem os cristãos: o que dizendo, punha juntamente o Agiius-Dei, que sempre trazia ao pescoço, em cima * da cabeça da ama. Fêz isto tantas vezes, que a ama e uma • fi. 208. filha sua se resolveram a ouvir as coisas dos cristãos, e se baptizaram, com grande consolação sua e alegria da boa menina. Entre os que se baptizaram, o fêz um moço de idade de quinze anos, cujo pai era gentio; mas antes de receber o santo baptismo, lhe mandou dizer o Padre que o não havia de baptizar, por ser menino e ter o pai gentio, e que logo havia de tornar atrás, se o pai o persuadisse. Respondeu o moço que descansasse o Padre, que êle por nenhuma via havia de fazer tal baixeza; pelo que lhe pedia que em todo o caso o baptizasse. Baptizou-o finalmente o Padre. Baptizado, ficou tão forte na Fé por meio do santo baptismo, que, por mais ameaças que o pai gentio lhe fêz, se não tornava atrás, nunca o pôde acabar com êle. Vendo, pois, o pai quão pouco podia com palavras, veio às obras; açoita por isso o menino, não uma, mas muitas vezes, parecendo-lhe que com isto o renderia. Mas, não bastando nem ainda açoites para se dobrar, disse com muito ânimo ao pai que não se cansasse em lhe persuadir que deixasse de ser cristão, nem menos cuidasse que a isso o havia de mover, a poder de açoites ou outro qualquer género de castigo, pois estava prestes para perder antes a vida que a Fé que tinha rece- bido, na qual consistia tôda sua salvação, e de que fizera muito bom entendi- mento; e como também não sabia quando havia de morrer, que já de agora se aparelhava para alcançar a salvação. Enfadado o pai com tão eficazes razões e palavras que o Espírito Santo ensinava ao bom moço, desconfiado já de o poder render, açoitando-o muito bem primeiro, o lançou fora de casa. Desta maneira tratado o menino do cruel pai, se veio a nossa casa muito consolado e alegre, por ter padecido por amor de Deus; e disse aos de casa que dis*sessem ao Padre que não receasse nada de sua Fé e constância, nem *fi. josv. tomasse pena alguma sobre seu negócio, que, assim como prometera a Deus e a Sua Reverência, esperava na divina graça de perseverar na confissão da Fé, que de nenhuma maneira a havia de deixar, ainda que lhe custasse a vida: do que alegre o Padre deu graças a Nosso Senhor, que tal ânimo e constância comu- nicava ainda a meninos de tão pouca idade. Um cristão antigo, tendo amizade com um Bonzo gentio, costumava muitas vezes a o visitar; e sempre que o visitava, lhe dizia o Bonzo que em todo o caso havia de disputar com êle sôbre as coisas de nossa santa lei e do seu Bupo, que é o livro dos Fotoques. Escusou-se muitas vezes o cristão de tal disputa; mas, como o Bonzo apertava com êle e o importunava tanto que disputasse, disse o cristão que era contente, mas que não havia de ser a disputa em sua casa, senão em outro lugar e diante de testemunhas, e cada um havia de pôr em es- crito o que dizia. Aceitou o Bonzo o partido, e chegando-se o dia determinado, foi o Bonzo em busca do cristão, e levando-o ao lugar deputado, diante de muitos cristãos e gentios, se começou a disputa sôbre o Bupo. E como o cristão era
  • 224 Livro terceiro de vivo engenho, e professava também saber o Bupo, depois de falar o Bonzo Jarga e prolixamente de suas seitas, começou o Cristão a propor ao Bonzo seus argumentos e dúvidas àcêrca do que o Bonzo dizia e o Bupo que professava; as quais, como eram tão fortes e tão novas para o pobre do Bonzo, não sabendo que lhe responder a elas, de apertado, uma côr se lhe ia, outra se lhe vinha, até que, dando-se por vencido e convencido da eficácia dos argumentos, pediu, com bem deshonra sua, aos que estavam presentes, que não falassem por fora *fi.309. da tai disputa; e assim se acolheu bem triste e envergonha#do, sem daí por diante se atrever a falar mais palavra, nem ainda a aparecer diante de gente, ficando os gentios perdendo muito do conceito que tinham do seu Bupo, e os cristãos mais confirmados na verdade de nossa santa Fé, que tão facilmente descobria a falsidade e enganos das seitas de Japão. Vivia em Fuximi um gentio honrado, grande perseguidor e inimigo de nossa santa lei, casado com uma mulher baptizada, mas havia muitos anos que, tor- nando atrás, vivia como gentia, sem ter nada de cristã. Veio esta mulher a adoecer gravemente, e pouco a pouco se foi chegando para a morte. Estando já desconfiada dos médicos, a foi visitar uma sua irmã cristã e que corria como tal, e, achando-a em tal estado de perder a alma e o corpo e se ir aos infernos, lhe pediu muito que se lembrasse que fôra cristã, e que ainda que havia muitos anos que vivia como gentia, que Nosso Senhor lhe perdoaria seus pecados, se se confessasse e arrependesse deles: pelo que, não quisesse perder o corpo e a alma. E, como estava presente o marido da doente, lhe rogou também que desse licença à mulher para que, deixando os Camis e Fotoques, se confessasse e morresse como cristã, dando-lhe para isso muitas razões. Foram eficazes as razões da boa irmã, e tanto puderam seus rogos para com o cunhado gentio e tão averso à nossa santa lei, que, rendido já e mudado em outro, deu licença à mulher para se confessar e reconciliar com Deus, a qual não desejava outra coisa, movida dos conselhos da boa irmã. Chamaram logo ao Padre com muita pressa, e instruindo-a, segundo a brevidade do tempo, a confessou; e acabando de lhe dar a absolvição e de fazer alguns actos de contrição, deu fim à presente vida, com esperanças da eterna, louvando muito os cristãos a divina misericór- dia, por tal conversão e morte, e também o zelo da boa irmã, que não se fartava de dar graças a Deus pela mercê que fizera por seu meio a sua irmã. • fi. 209 v. * Uma mulher nobre, gentia, chamada de seu filho que era cristão, foi a sua casa; estando lá alguns dias, começou o filho com brandura a persuadir-lhe que se fizesse cristã, dando-lhe para isso várias razões, para mais a mover. Mostrou ela a isto grande repugnância, por ser fina gentia e da seita dos Foque- xus, grandes inimigos de nossa santa lei; contudo, por contentar ao filho que tão instantemente lho pedia, veio a nossa casa a ouvir as pregações. Ouvindo a primeira vez, se tornou para a casa mal disposta; e como gentia que era, persuadindo-se que sua doença fôra castigo dos Camis e Fotoques, por causa de ter vindo a nossa casa a ouvir as prègações, não houve remédio para tornar outra vez a ouvir as prègações, por mais que o filho lho rogasse: do que, agas- tado contra a mãe, quebrou com ela por algum tempo. Vendo isto a mãe, tor- nou-se para sua casa, confirmada ainda mais no seu erro e cegueira, persua- dindo-se muito mais que o verdadeiro caminho da salvação era o dos Camis e
  • Das coisas do Japão 225 Fotoques, que acudindo por sua honra a castigaram tão manifestamente. Todavia não se aquietou o filho, que desejava tanto de ver a mãe cristã. Foi, por vezes, a sua casa, a rogar-lhe quisesse ouvir de novo nossas coisas; mas, como a mãe estava tão dura e medrosa pelo que lhe acontecera, nunca pôde acabar com ela que o quisesse fazer. Neste comenos aconteceu que torna [a] adoecer, depois de sarar da primeira doença, e foram tantas as deprecações e cerimónias gentílicas que fêz por sua saúde, sem nenhum proveito, que, enfadada delas, chamou por derradeiro uma feiticeira, para lhe preguntar que faria para sarar daquela doença e também para bem de sua salvação. Fêz a feiticeira muitas feitiçarias, e lançou muitas sortes, para lhe responder; e sem saber de que seita era o filho, lhe respondeu que se fizesse da seita de seu filho; * pois aquela era a verdadeira seita em que *fi. sio. havia salvação. Ficou a doente atónita e pasmada do que disse a feiticeira, e juntamente movida para assim o cumprir; pelo que, logo, assim doente como es- tava, veio a Fuximi a buscar o filho, e, contando-lhe o que lhe acontecera, ouviu as prègações do catecismo, baptizou-se e sarou logo da doença, com grande alegria do filho e fazimento de graças à Divina Providência, que por tais meios trouxera sua mãe a seu divino conhecimento. CAPÍTULO XXIII Do que se fè\ na cidade de Vo\aca, Sacai e reinos de Fococu RESIDEM, de ordinário, na cidade de Vozaca, um Padre e um Irmão, com um dójico(i) prègador e outros ministros, necessários para a cultivação e aumento daquela cristandade, que, assim como vai crescendo mais na devoção e conhecimento de Deus Nosso Senhor, assim também cresce em nú- mero com os que cada ano recebem o santo baptismo, que, estes dois, passaram de duzentos adultos. O fervor e devoção dos cristãos e concurso à igreja, aos domingos e festas, é o mesmo que o das outras residências daquelas partes, e da mesma maneira a frequência das confissões, pôsto que se pode dizer serem ali muito mais, pelos que ali concorrem de vários reinos, por ser a cidade de Vo- zaca porto de mar, aonde veem desembarcar todos os que vão à côrte de Fuximi, Meaco, e agora às cidades de Surunga e lendo, aonde reside o Cubo e seu filho Xogum. Continuam os cristãos com o bom costume de se confessarem certos dias do mês, e com a disciplina que todos juntos tomam na nossa igreja, e também com lição de livros espirituais, e conferências que teem, para mais se ajudarem e crescerem * na devoção e guarda de nossa santa lei, tirando, depois disto, "fi.jiov. entre si alguma esmola para as necessidades dos pobres. Na quaresma fizeram também o mesmo, para dar de comer aos lázaros de quatro hospitais dêles, que há nesta cidade, de que os Nossos teem cuidado, socorrendo-lhes com o que podem, assim no espiritual como no temporal, chamando para isso os de uma casa e outra a certo lugar, onde está uma ermida e cemitério dos defuntos, na qual (i) Nl.: có hG Doiucu. a7
  • 226 Livro terceiro juntos, e refeitos primeiro com a refeição da alma, por via da confissão, recebem a do corpo, que os cristãos lhes dão, servindo eles mesmos à mesa; e passam (i) estes lázaros de duzentos. Vai, pela bondade de Deus, crescendo cada vez mais entre os gentios daquela cidade o crédito de nossa santa lei. Um fidalgo gentio dos principais, criado de Findejori, filho do Taico, veio um dia a nossa casa visitar ao Padre; e chamando os criados diante de si, lhes disse que folgaria muito que todos se fizessem cristãos; e que, se assim o fizessem, não sòmente folgaria com isso, mas também ficaria com maior confiança nêles; que êle desejava também de se fazer cristão, mas, por certos impedimentos, não podia por agora cumprir seus desejos, do que lhe muito pesava; e que a causa por que lhes persuadia que se fizessem cristãos, era porque não havia lei em que os senhores pudessem ter tanta confiança nos seus, como a dos cristãos. E assim em efeito se baptizaram doze ou treze criados seus principais, depois de ouvirem as prègações do catecismo e fazerem bom entendimento delas. O mesmo aconteceu também a outro fidalgo, vindo visitar ao Padre, de cuja casa, por persuasão do senhor gentio, se fizeram quinze ou dezasseis pa- gens cristãos, os quais todos procedem com edificação e espanto do senhor, maiormente dois deles, que, sendo mui travessos e de vida estragada, e por tais • fi. ih. tidos do senhor e mais companheiros, depois de feitos cristãos, se * mudaram tanto na vida e costumes, que ficaram sendo um espelho a todos os companheiros, e ao senhor um contínuo espanto, sem acabar de pasmar e se admirar da grande mudança dos ditos pagens, e muito mais de nossa santa lei, que tais maravi- lhas fazia. Melhor se aproveitou um senhor nobre e rico da visita e comunicação com o Padre, que os acima ditos. Era êste filho morgado de Jugazudono, senhor de muitas terras do reino de Voxá, as mais orientais de todo Japão, e que está no fim dêle; o qual, tomando amizade com o Padre, lhe veio dizer que queria ouvir as coisas dos cristãos. O Padre, que não desejava outra coisa, lhe fêz logo prègar; e ouvindo as prègações muito de-vagar, se resolveu em se fazer cristão, porque, dizia êle, entendo que hei de morrer muito cedo. Feito cristão, quis logo que todos os seus o fossem também, dizendo-lhes que, se se não faziam cristãos, que nenhuma confiança teria nêles. Não cabia em si de alegria o novo cristão, pela mercê que Nosso Senhor lhe fizera, da qual, desejando não sòmente que participassem os que actualmente estavam com êle, mas também todos os mais de suas terras, disse ao Padre que em todo o caso havia de levar consigo um Padre para as fazer tôdas cristãs, e que nelas lhe havia de fazer uma boa igreja. E assim, indo logo a Meaco e vendo a nova igreja que ali se tinha feito, contentando-lhe a traça, [a] mandou debuxar, para fazer outra por ela em suas terras; porém em breves dias se desfizeram estas esperanças, morrendo êste senhor de-repente, ficando sua comopr ofecia verdadeira, e seus e nossos desejos de todo baldados, pôsto que o não ficaram os seus principais, da salvação a que Nosso Senhor por sua misericórdia o chamaria, como nêle esperamos. Entre os que se fizeram cristãos, se baptizaram um médico e um Bonzo, ambos letrados em suas seitas, tanto, que arreceavam os cristãos o como suce- (i) Nl.: mesa, lhe passam.
  • Das coisas do Japão 227 deria a disputa com * o nosso prègador; mas, como a verdade é tão poderosa •Ft.auv. e a falsidade tão fraca e sem forças, ficaram tão convencidos nas sólidas e ver- dadeiras razões em que a nossa se fundava, que, não aproveitando nada as suas falsas e aparentes, se renderam logo e sujeitaram ao suave jugo de nossa santa lei. O Bonzo, como era mais eloquente, e conhecido por tal, e também de es- perto e vivo engenho, e sobretudo mui visto na sua seita, começou logo, com todo o ornato de palavras que sua eloquência lhe ensinara, a dizer quanto sabia de sua seita, e as razões em que se fundava tudo, com tanta agudeza e artifí- cio, que assim os de casa, como os fora, que o ouviam, estavam como pas- mados. Acabando êle de dizer o que sentia de sua seita, lhe prègou o nosso prèga- dor, não menos engenhosa que artificiosamente, não sòmente desfazendo tudo o que tinha dito, mas ainda acrescentando muitas outras coisas novas para êle; do que ficou tão satisfeito, que disse que já não tinha dúvida de as seitas de Japão serem falsas e de nenhum momento para a salvação que nelas não havia; pelo que, lhe prègasse das coisas de nossa santa lei, que essas queria ouvir. Assim o fêz o pregador, com grande satisfação do Bonzo, que, caindo logo na verdade de nossas coisas, e na falsidade das que ate então crera, disse que agora estava seu coração quieto, pois achara o verdadeiro caminho da salvação, para a qual, se fosse necessário deixar sua mulher e quanto tinha, e fazer-se religioso, que logo o faria. Tinha êste Bonzo um impedimento para se baptizar, e era que gánhava sua vida em pintar imagens de Amida. Avisado pois do Padre que, se desejava de se fazer cristão, que deixasse o ofício que tinha, respondeu que, ainda que não tinha outro modo de vida senão aquele, de muito boa vontade o deixaria, e ainda muito mais pela salvação; e assim, deixando o dito ofício, de que se sustentava, se fêz cristão, como também se fêz o médico, com grande alegria dos cristãos, tomando todos com tais conversões maior âni*mo e forças contra os gentios, vendo seus letrados e de tanto nome tão facilmente rendidos e prostrados da verdade de nossa santa Fé, que dantes tanto impugnavam. A Fé e devoção de um cristão para com o Agnus-Dei se viu em um caso que sucedeu. Havendo na cidade de Vozaca um grande incêndio, junto de suas casas, veio-lhe um seu criado dizer que já o fogo pegara em uma certa casa sua das que costumam fazer contra o fogo, e caíra. Respondeu-lhe o senhor: «Isso é mentira, nem pode tal ser, porque dentro de casa me ficou o meu Agnus-Dei^ e assim não se há de queimar». Assim como o devoto cristão o disse, assim foij porque, no tempo em que se pegou o fogo na vizinhança, pela pressa que teve êste cristão, de fugir com sua família ao fogo, não fechou a porta da dita casa, e com a deixar assim aberta, queimando-se tôdas as demais que estav am ali pegadas, só ela ficou intacta e livre do fogo com tudo quanto tinha dentro, por virtude, como se pode crer, da relíquia do Agnus-Det que nela estava, e da Fé e cristandade de seu dono para com a santa relíquia. Indo o'Padre a visitar os cristãos do reino de Farima, como acima temos dito, estando já para se partir da principal cidade daquele reino, chamada Fi- mengi,' para o pôrto de Muro, a visitar também os cristãos que ali há, chegou com muita pressa de uma aldeia, quatro léguas pelo sertão a dentro, um velho cristão que antigamente tinha recebido o baptismo em Anzuquiama, quan o
  • 228 Livro terceiro naquela fortaleza residia Nobunaga, o qual tégora^se tinha conservado na Fé com muita inteireza, sem nunca nela faltar. Este, sabendo da vinda do Padre a Fimengi, lhe veio pedir que em todo o caso fôsse confessar sua mulher, que era já muito velha, e estava doente para morrer. Foi lá o Padre, e não pouco se consolou de ver no meio daquela gentilidade uma só casinha, onde o verdadeiro Deus era conhecido e adorado. Tinha o bom velho • fi. 213 v. con*certado um oratório muito limpo no melhor de suas casas, e nêle algumas imagens, diante das quais se encomendava êle e os seus a Nosso Senhor, e ali agasalhou o Padre, e se confessou, e o mesmo fêz sua mulher com alguns outros cristãos de sua casa, com particular devoção de todos e não menos do Padre. Não foi menor a consolação que o Padre recebeu naquele caminho com outro semelhante encontro, ou, para melhor dizer, avantajado, por ser de passa- gem e bem fora de poder acontecer. Ia o Padre caminhando para um lugar, aonde era chamado, senão quando lhe sai de um bosque um homem com as contas ao pescoço, dizendo que era cristão, e que, sabendo que passava por ali o Padre, o viera esperar de uma aldeia daquele contorno em que vivia. Consolou-se o Padre grandemente de achar ali aquele bom homem, o qual lhe disse que havia pouco que no reino de Chicuge'm se fizera cristão, e que se queria confessar a primeira vez; trazia também consigo sua mulher e algumas criadas, e uma criança, seu filho, para se baptizar. Confessou-os o Padre naquele deserto, e baptizou o menino, com alegria de todos, e o bom cristão recreou ao Padre, com os que o acompanhavam, com uma merenda que trazia para isso aparelhada, não cabendo em si de prazer, por Deus lhe deparar ali tão boa e inesperada ocasião para alcançar o que desejava; e todos se tornaram muito contentes e animados com as ajudas espirituais que receberam do Padre. Entre os que naquele reino se baptizaram, o fizeram duas moças nobres, que servem a mulher do senhor daquele reino, que é a filha do Cubo, e baptizaram-se com bom entendimento da verdade de nossa santa Fé, como já dantes o tinham também feito outras do mesmo Paço, as quais todas procedem muito bem, e com grande resguardo de suas almas. Baptizou-se também outra mulher hon- rada, que desde menina de muito pouca idade desejou de se fazer freira das • fi. 213. que há em Japão, no qual desejo perseverou até à idade de trinta * anos, conservando-se sempre na pureza e limpeza do corpo, como se fôra cristã e re- ligiosa dedicada por voto a Deus, o que em Japão, e muito mais nos gentios, é coisa rara. Esta, como se conservava desta maneira no bom desejo, sem até então o efeituar, por persuasão de uma devota cristã, quis ouvir as prègações do catecismo. Ouviu-as, e ficou tão satisfeita, que logo se resolveu em se baptizar; e, baptizada, crescendo-lhe muito mais o desejo de servir a Deus e deixar o mundo, como muito desejava deixar, logo Nosso Senhor, que parece aguardava para quando lhe fôsse aceito seu cumprimento, lho quis cumprir, ordenando as coisas de maneira que, sem embaraço nenhum, se pudesse sair de donde estava, e ir-se para Vozaca, a viver com algumas mulheres recolhidas e devotas que ali há; aonde chegando, cortou logo os cabelos, e deu tudo quanto tinha, parte em esmolas, parte para sustentação sua e das companheiras, que delas vivem, entregando tudo o mais à mais antiga entre elas; e deixando os vestidos de
  • Das coisas do Japão 229 sêda, com que sempre se criara, se vestiu de ordinário e comum (1), e pro- cede com exemplo e edificação de todos, consolada grandemente com tão boa sorte. Em uma povoação, no reino de Januqui, mora só um cristão, sem haver ali outros, mais que os de sua família. Este, para melhor se conservar na devoção e tambe'm aos de sua casa, concertou um lugar muito limpo aonde arvorou uma cruz, para êle e os seus irem ali em romaria, e tambe'm enterrar alguns cristãos, quando morressem; e assim o fazia, e o faziam também outros cristãos que por ali passavam por mar; os quais, desembarcados em terra, iam visitar a cruz, que estava em um montezinho, junto da praia, de modo que se via dos que por ali passavam. Contentando pois êste lugar aos Bonzos, para seus * enterramentos, • fl ji3 v. queimaram junto da cruz (como êles costumam fazer a seus frègueses) um corpo de um gentio, sem o cristão por então o saber. Mas, vindo-lhe logo às orelhas, avisou aos Bonzos e a outros de seu bando, que eram trinta e seis homens, que logo sem detença fossem tirar as cinzas do adro dos cristãos, e varressem e limpassem o adro muito bem. Os Bonzos com os seus tomaram isto em caso de honra, dizendo que tal não haviam de fazer. Pore'm o zeloso cristão, parecendo-lhe que se fizera aquilo em desprezo da cruz e honra de Deus, respondeu aos Bonzos que se resolvessem em as tirar logo, senão que êle havia ali de morrer e os Bonzos também, com todos os da sua quadrilha; o que, se assim fôsse, seria para êle grande gosto e contentamento; porque, morrendo como cristão por tal causa, iria à glória; pelo que se determinassem com os mais, ou em morrerem todos, ou em tirar as cinzas e alimpar o lugar da cruz, como lhes dizia. Feitas estas consultas, acharam os Bonzos, com seus companheiros, que lhes vinha melhor condescender com o resoluto cristão, que morrerem todos naquela demanda; e assim, a seu pesar, tiraram as cinzas e alimparam muito bem o lugar da cruz, ficando o forte e zeloso cristão vencedor, e nossa santa lei com grande crédito, por ser tal, que folgavam os homens que a professavam, de morrer por amor dela. Reside na cidade de Sacai um Padre e um Irmão, ajudando os cristãos que ali há, os quais, ainda que não são muitos, como todavia são de estimar em tal terra e de tanto nome em Japão, não sòmente se deseja sua conservação, mas também seu aumento com os que de novo Nosso Senhor chama ao grémio de sua Igreja. Estes foram êste ano perto de trinta adultos, que, considerada a dureza dos moradores daquela cidade, que todos são * mercadores, dados à *fi. 214. cobiça e coisas deste mundo, e também ao falso culto dos Camis e Fotoques, montam tanto como trezentos em outra parte. Não deixa todavia de haver esperanças de maior conversão com o tempo, e muito mais, quando os Padres estiverem mais patentes e mais à sua vontade do que agora estão, pela incomodidade de gasalhados e estreiteza de casas, que ali há; pelo que, não há por agora tanto concurso de ouvintes, como em outras casas daquelas partes; com tudo isso que há, como é de gente fixa e arreigada na terra, e que puramente se faz cristã, convencida da verdade, como agora é ordinário dos que se convertem em Japão, confiamos em o Senhor, que não (1) Nt.: e comús.
  • 23o Livro terceiro somente perseverarão no começado, mas que ainda por seu meio e persuasão se converterão muitos mais, como já se vai vendo, por misericórdia de Deus. Em Canazava, principal cidade do reino de Canga, que é um dos três que chamam Fococu e côrte de Figendono, senhor dêstes reinos, reside um Padre com um Irmão, com um dójico, prègador, e outros mais ministros necessários, para melhor pode rexercitar seus ministérios entre aquelas almas que Nosso Senhor ali tem, e no reino de Noto, aonde Justo tem a mais de sua renda. Os baptizados de ano foram noventa adultos; entre estes se baptizou um Bonzo gentio, já de muita idade, que seguira várias seitas, sem em nenhuma delas se poder aquietar, como êle dizia. Êste, estando no reino de Jichu, acertou de ouvir falar das coisas de nossa santa lei, e logo desejou de as ouvir, para ver se achava nelas coisa que mais o aquietasse, do que te' então tinha achado nas seitas de Japão. Saíu-se pois de sua casa, sem dar conta a ninguém de seus desejos, como que ia a outra parte, e não a buscar o Padre. Vem-se a Canazava, • fi. »i4 r. caminho bem * comprido para êle, por ser já velho e doente, e caminhar a pé. Esperou pelo Padre que estava ausente, doze ou treze dias, com bem de in- comodidades; mas sofria tudo pelo bem que desejava achar, até que, vindo o Padre, ouviu as prègações, de que ficou tão satisfeito e contente, por achar o que pretendia, que pediu com muita instância que o baptizasse, mostrando tão grandes desejos de se fazer cristão, que, tirada tôda a dificuldade e dúvida que havia, de ser Bonzo e não se saber do seu intento, se houve de baptizar, com tanta consolação e alegria do bom velho, que a todos edificou muito. Bap- tizado, tomou logo por escrito uma breve instrução de se encomendar a Deus, com a qual consolado e alegre se tornou para sua terra, com propósito de tornar logo, para mais de-vagar aprender as coisas de cristão. Um gentio, criado antigo de um cristão, sendo por muito tempo e ainda anos persuadido do senhor que se fizesse cristão, nunca houve remédio para o querer ser, resistindo sempre aos bons conselhos do amo, que quási já desespe- rava de o poder render. Estando pois são e de saúde, sem ninguém o persuadir a isto, movido sòmente de Deus que o chamava, se veio do reino de Noto a Canazava a ouvir a pregação, no qual tempo lhe deu uma doença que o fêz mais apressar e a acabar de ouvir; e feito bom entendimento, se baptizou, e daí a poucos dias morreu, com sinais de sua salvação, louvando os presentes a divina providência e misericórdia, que tanto se manifestara na conversão daquela alma, trazendo-a por tal modo a seu divino conhecimento, e por êle a quisera salvar, como nela esperavam. O mesmo se viu em uma criança de sete ou oito dias, cujos pais eram gentios, adversos às coisas dos cristãos, a qual estando para morrer, se chegou •fi.si5. a ela uma mulher cristã, bem instruída * no modo de baptizar, e lançando-lhe uma pouca de água no rosto, como queml ho lavava, dizendo a forma do baptismo, a baptizou, sem os pais nisso advertirem, nem ainda depois o saberem, e logo ao dia seguinte se foi ao Céu, ganhado com tão ditoso engano e santa dissimulação. Um menino, de sete ou oito anos, filho de um cristão, tinha uma ama gentia, a quem importunava muito que se fizesse cristã; mas não acabava de a render, por mais que lho pedia. Veio esta mulher a adoecer; o que vendo o menino, se não apartava de junto da cama, tendo cuidado da saúde do corpo,
  • Das coisas da China mas muito mais o fazia da saúde da alma, persuadindo-lhe sempre e importu- nando-a que se fizesse cristã; até que, vencida a ama dos rogos do menino, que com tanto amor e zêlo procurava seu bem, ouvindo as prègações, se baptizou, com consolação sua e alegria do menino, e não pouco espanto dos que souberam o caso. Mas de maior espanto foi o que fêz uma irmã dêste menino, de alguns quatro anos, a qual, não querendo ficar vencida do irmão, pega também com sua ama gentia, persuadindo-lhe que se fizesse crista, pondo nisso tôdas as suas forças, tanto, que vindo uma vez a menina à igreja, em tempo que havia prègação aos gentios, se saiu do meio dos ouvintes, entre quem estava, e indo-se a sua casa, que estava perto, trouxe a ama consigo a ouvir a prègação. Finalmente, tanto puderam as simples persuasões, e tanto seus rogos com a ama, que de propósito ouviu prègação e se baptizou. Tomam grande ânimo os cristãos daqueles reinos, e também os que desejam de o ser, com ver o amor e afeição que Figendono, senhor deles, mostra ter a nossas coisas, falando delas ordinàriamente muito bem, e com desejos de se fazer cristão. Faz muitos favores a * Minaminombo Justo; pelo que, assim êle -fi. >.5*. como os mais cristãos que há em bom número naqueles reinos, estão muito à sua vontade, procedendo com muita liberdade nas coisas da salvação, que com fervor procuram, por meio dos sacramentos da confissão e comunhão, maiormente nas festas principais de Natal e Páscoa e oragos das igrejas onde moram. Visitou o Padre os cristãos do reino de Jechigém, e animou com seus con- selhos a terem mão e se conservarem na Fé, no meio daquela gentilidade, na qual, por misericórdia de Deus, perseveram inteiros, ajudando-se sempre uns aos outros nas coisas da alma, com diversos meios acomodados para isso; e assim vão crescendo cada vez mais no conhecimento de Deus Nosso Senhor, e desejos de sua salvação, ronovando-os cada ano, com as ajudas e forças que recebem por meio dos sacramentos da confissão e comunhão, quando o Padre ali vai. CAPÍTULO XXIV Dai coisas da China e do que se fè\ na residência de Xaucheu e Nanchão \ LÉM do colégio que está na cidade de Macau, pôrto da China, tem a Com- I\ panhia, pela terra dentro dêste reino, quatro residências e casas em cidades principais, nas quais residem treze Padres [e] quatro Irmãos; e tratando em particular das duas primeiras, que são a de Xaucheu e Nanchão, residiram na primeira êste ano, três Padres e um Irmão, ocupando-se na culti- vação * de mais de oitocentos cristãos que teem ali feitos. Baptizados de novo • fi. ai6. houve poucos, por razão da grande perturbação e perseguição em que viveram por todo êste tempo, ocasionada das calúnias que em Macau levantaram certas pessoas contra os Padres, avisando aos chinas que olhassem por si, porque os ditos Padres lhes queriam conquistar o reino; e, para o poderem fazer e se levantarem mais a seu salvo, andavam já lá muitos pela terra dentro, dispondo as coisas, como tudo na relação do ano passado se escreveu: da qual calúnia
  • 232 Livro terceiro nasceu tão grande revolta e perturbação nos chins da província de Cantão, que tôda se pôs em armas; e, àlém de custar a vida a um Irmão da Companhia, que com muita crueldade os chins mataram em Cantão, como tôda a fôrça desta tormenta caiu sôbre os Padres de Xaucheu, de tal maneira os atribulou, que tiveram bem que fazer em escapar com vida, ou pelo menos em não serem lan- çados da terra, o que foi de grande providência de Deus; e assim não houve lugar de fazer conversão de novo, mas assaz se fêz em conservar a feita. Em Nanchão se baptizaram duzentas e tantas pessoas, em que entraram algumas muito nobres, parentas de el-rei, das muitas que moram naquela cidade. Entre elas, foi uma mulher, cujo marido já era cristão, a qual, como a viessem visitar outras mulheres suas parentas, ainda gentias, e estranhan- do-lhe, sendo môça, deixar-se ver por um homem estranjeiro, quando foi baptizada, ainda que fôsse diante de seu marido; dava por razão que a tudo isso a obrigara a verdade da lei de Deus e a necessidade do baptismo, para se poder salvar. Uma destas gentias tivera seis filhos, de que os quatro lhe morreram me- ninos, e sôbre os dois que ainda criava, por também serem fraquinhos, andava • fi. ji6 v. sempre estremecendo. Aconselhou-lhe * esta nova cristã que, se os queria con- servar, os fizesse cristãos. Porém a gentia, como não sabia ainda a virtude do sagrado baptismo, ainda que lhe pareceu bem o conselho, não quis aventurar mais que um, o qual, depois de baptizado, foi coisa maravilhosa em quão breve tempo guareceu, de modo que parecia outro. Com [o] que os pais cobraram tanto crédito da lei de Deus, que logo deitaram os pagodes fora, e se vão dispondo para tôda a casa receber o santo baptismo, e o mesmo vão fazendo outros dêstes parentes del-rei. O primeiro Padre que aqui começou a prègar o Evangelho e fêz a mor parte dos cristãos que aqui há, foi o Padre João Soeiro, o qual, pelos trabalhos que teve e necessidades que padeceu nesta cidade, no tempo que nela esteve só, veio a adoecer, deitando muito sangue pela bôca; pelo que, foi necessário mandá-lo vir para Macau, onde Nosso Senhor foi servido de o levar para si; e, como era tão grande o amor e devoção que os cristãos desta cidade lhe tinham, como a seu primeiro pai, que os gerara e criara em Cristo, foi admirável o sen- timento que tiveram com a nova de sua morte; porque assim os cristãos, como alguns gentios amigos, se vestiram de dó, e indo a casa dos Padres, na mesma sala em que o Padre os costumava agasalhar, puseram na cabeceira uma cadeira, e como se o Padre estivera assentado nela, lhe faziam a seu modo suas reve- rências, pondo-se quatro vezes de joelhos, e batendo com a cabeça no chão e alguns com lágrimas. Nas exéquias que os Padres lhe fizeram, houve tantas lágrimas nos cristãos, como se ali tiveram seu pai morto. Não faltaram alguns gentios, grandes inimigos da lei de Deus, os quais ajun- tando-se, fizeram um libelo contra os Padres, e o foram apresentar com uma * fi. 217. petição ao * juiz do crime, dizendo que prègavam lei falsa e tinham comprado umas casas muito grandes, a-fim de ajuntarem ali gente, para se levantar com a terra. Não fêz o juiz caso dêles, e os lançou de si, com palavras pesadas; pelo que êles, sentidos do ruim despacho, se amotinaram e ajuntaram muitos mais, para levarem a mesma petição e libelo ao Chiém, que é como justiça-mor. Neste
  • Das coisas da China 233 tempo desta amotinação dos gentios, foi para louvar a Nosso Senhor o como se houveram os cristãos; porque uns vinham visitar os Padres e oferecer-se para irem com êles, se o mandarim os chamasse. Outros andavam pelas casas animando aos que conheciam, e exortando-os que não encobrissem que eram cristãos, e todos com tanta alegria e mostras da verdadeira Fé, que davam ma- téria de muita consolação aos Padres, e esperança de si, que a confessariam no meio de qualquer trabalho em que por ela se vissem, de que não ficavam muito longe. CAPÍTULO XXV Do que se fê\ na corte e cidade de Nanquim EM Nanquim estão quatro Padres, e os três estudando a língua. Baptizaram- -se noventa e seis pessoas, entre êles um menino, filho de um mandarim grande, e que tem por oficio avisar el-rei das desordens de todos os outros mandarins desta corte, e por isso, e como quem faz tal oficio, para se justificar de não tomar peitas, e proceder rectamente, costuma ser mui retirado de visitas e conversações dos outros. Estava sempre * o pai dêste menino fechado em "Fi.ai casa, de modo que raramente dava entrada a ninguém. Porém, como o menino, por meio de um cristão, mestre seu, e outro também mui fervoroso, que com seu pai e êle vieram da corte de Pequim, tinha já no- tícia dos Padres, e estava instruído na doutrina cristã e necessidade do santo ba- ptismo, saindo o pai um dia a uma varela a fazer certas cerimónias gentílicas, de- terminou de se aproveitar da ocasião, e peitando aos moços, para que depois o não dissessem ao pai, se veio às escondidas a casa dos Padres, onde, depois de com muitas reverências visitar a capela, estando com o Padre, lhe repetiu tôda a doutrina cristã que tinha estudado; e declarando-lha o mesmo Padre, o menino se ergueu duas vezes da cadeira, pedindo lhe desse o santo baptismo, por cujo respeito só fizera esta saída. Entreteve-o porém o Padre, dilatando-o para outra ocasião que Nosso Senhor lhe daria, como dera esta. Não tardou muito que a não tivesse, buscada por êle mesmo; porque, por duas ou três vezes se veio, como da primeira, ter com o Padre, tratando-o já com mais confiança, e referindo várias disputas que com os Bonzos tivera em casa, até que suficien- temente catequizado, com muita alegria e satisfação sua e dos Padres, recebeu o santo baptismo, depois de um ano de prova, em que mostrou tanta constância, tanto mais para estimar, quanto era ao bafo de um pai tão dado aos pagodes, e de Bonzos inimigos da lei de Deus, que em casa tinha. Outro menino, sobrinho de um letrado cristão, morrendo-lhe sua avó uma noite, antes de um dia em que êle tinha prometido vir a casa dos Padres acabar de se catequizar, veio no tal dia assaz choroso, mas a escusar-se de por esta causa não poder então acabar com o ca*tecismo, e que só vinha a avisar disto, *fi. ai& para se não cuidar que êle tornava atrás em seus propósitos. Passados alguns dias, sabendo o pai do seu intento, procurou atalhá-lo, proibindo-lhe o fazer-se cristão e ir a casa dos Padres, pois eram estranjeiros: ao que respondeu o me- nino que nesta parte não tinha que fazer com êle, e que pois seu tio, sendo
  • Livro terceiro letrado, se deixara enganar de estranjeiros, não era muito que êle também fizesse o mesmo, como o fêz daí a pouco, recebendo o santo baptismo. Foi mui grande o fervor de um mancebo mercador, ao qual, ouvindo o catecismo, Nosso Senhor aclarou tanto o entendimento na verdade de sua lei, que só dizia lhe pesava te-lo tão tarde conhecido; e assim depois mais parecia trazer o pensamento em inculcar a outros esta santa mercancia, que em nego- ciar a própria, que por vezes lhe aconteceu de mais de meia légua trazer a casa dos Padres alguns conhecidos e amigos a ouvir as coisas de Deus, e vol- tando para sua casa encontrar outros no caminho, com os quais tornava logo, pelas neves e frios, que naquele tempo havia grandes, a mostrar-lhes o lugar onde se ganhava e conhecia o bem de que êle gozava. Os anos passados veio a esta cidade um médico que já tinha ouvido as coisas de Deus; e perguntando pelos Padres, como a cidade é tão grande, não achou quem lhe soubesse dar razão dêles: tornando porém este ano, e achando quem lha desse, se veio logo a casa dos Padres, dizendo que havia muito tempo que andava buscando o princípio de todas as coisas, e que nesta demanda fôra dar com um Bonzo que entre outras coisas, lhe ensinara algumas regras da fi.218r. vj(ja comprida; mas, como com elas se lhe não aquietasse o cora*ção, êle também não descansara, ate não achar os Padres e ouvir as coisas de Deus; as quais ouvidas e fazendo bom entendimento delas, se baptizou com muito fervor. Alguns receberam o santo baptismo estando para morrer, e foram logo gozar de Deus, entre estes uma velha de setenta e quatro anos, a qual, depois de receber o baptismo, durou só dois dias. Outro, estando enfermo, vieram dar recado a um sobrinho seu, cristão, que estava em casa dos Padres, que acudisse de-pressa, que seu tio estava expirando. Foi logo, e com êle um Irmão nosso, para que, se o achasse em estado para isso, lhe tratasse (1) do sagrado baptismo. Achou-o em seu juízo, praticou-lhe de Deus e da salvação, declarando-lhe, quanto o tempo o sofria, os mistérios de nossa santa Fé. Ouvio o doente, e fazendo bastante entendimento, pediu que o baptizassem; e, meia hora depois de receber o sagrado baptismo, passou desta vida. A uma mulher livrou Nosso Senhor do diabo, por meio do sagrado baptismo, desta maneira. Estavam um dia dois cristãos oficiais tratando com outros gentios, da lei de Deus e coisas maravilhosas que o Senhor obra pelos que o servem. Disseram os gentios: «Já que assim é, 1 porque não buscais algum remédio para aquela endemoninhada, que mora nesta rua»? Responderam que o tinha a lei de Deus. Andava tal a pobre mulher, que não tinha mais que a pele sobre os ossos; dizia a cada passo que via o diabo, ora assim vestido, ora de tal côr, que umas vezes lhe tirava o ornato do toucado, outras a enchia de arranha- duras no rosto e braços, por dez ou onze vezes. Viram também os circunstantes • fi. ng. acender fogo no pátio, sem dar * fé de quem o acendia, e com tôda a pressa acudiram a o apagar. Uma vez, para dar remédio a isto, chamaram os Bonzos, que armando um altar pequeno, com seus castiçais e candeias acesas, para fazerem uns exorcismos, logo chegou o maligno espírito, e lhes deu com os cas- tiçais e candeias no chão. (1) Nt.: lhe tratar.
  • Das coisas da China 235 Foram pois os cristãos a casa desta endemoninhada; e segurando-lhe o remédio, se ela e seu marido se fizessem cristãos, disseram eles que de muito boa vontade o seriam; pelo que, o marido e seu pai se vieram logo a nossa casa nesse requerimento. Instruídos um pedaço na verdade e necessidade da lei de Deus, se tornaram com a doutrina, para a decorarem, e o Nome de Jesus im- presso em papel, o qual, juntamente com uma imagem de Cristo, posto em casa, em um lugar decente, o maligno espírito não ousou mais entrar dentro; só dizia a mulher que o via andar de longe no pátio. Decorou ela e o marido a doutrina, e baptizados ambos, cessou totalmente a visão e assombramentos do diabo, que havia sete meses padecia, e foi logo tornando em si e melhorando a olhos vistos. CAPÍTULO XXVI Do que se fè\ na cidade e côrte de Pequim (i) NESTA cidade e casa que nela há, residem cinco da Companhia: três Padres e dois Irmãos noviços, com o mesmo crédito e reputação assim das coisas de nossa santa Fé, como do exemplo de suas pessoas, que nas relações passadas se tem escrito que é mui grande naquela côrte, assim para com o rei, como para com seus ministros e mandarins grandes, em quem está o govêr#no de todo aquele grande império; e ainda que geralmente todos "Fi.íigv. teem amizade com os Padres, alguns dêstes grandes a teem mui particular. Os cristãos já feitos se vão cultivando, outros se vão fazendo de novo, ainda que poucos na cidade, por irem os Padres com muito tento e conside- ração por ora, até se a[r]reigarem mais na terra. Fora da cidade, fêz o Padre Gaspar Fe[r]reira uma missão a certos lugares daquele contôrno, onde baptizou passante de cento e quarenta almas, e a ocasião desta saída foi o seguinte. No ano de i6o5, fôra o Padre Diogo Pantoja por aqueles lugares, ao redor de Pequim, e em uma aldeia, que terá passante de mil vizinhos, a que êle pôs nome S. Clemente, por entrar nela no dia deste Santo, que dista vinte e quatro léguas da côrte, deixou feito[s] dez ou dôze cristãos. No ano seguinte, foi o Padre chamado de outra aldeia, a que pôs nome de Todos os Santos, por ocasião de um só cristão que nela havia, e ainda que então não baptizou nela mais que só treze, ficaram contudo tão movidos de suas palavras e afeiçoados à lei de Deus, que logo no ano seguinte, mandaram dois homens com cartas ao Padre Mateus Rício, Superior, pedindo instantemente lhes mandasse quem colhesse o fruto da sementeira passada. Não pôde [ir] o Padre Pantoja que a fizera, por ser muitas vezes chamado ao paço; mas foi, em seu lugar, o Padre Gaspar Fe[r]reira, com o Irmão António Leitão, que já lá fôra; e, indo já perto da aldeia de Todos os Santos, onde haviam de residir, eis que sentem vir em seu seguimento muita gente, correndo a toda a pressa, os quais eram gentios de outra aldeia que lhe ficava atrás, tirando um só, que era cristão. Chegam aos Padres, e sem mais cumprimento que de riso e festa, (i) Ni.: Pachim.
  • 236 Livro terceiro como se já de muitos anos os conheceram, lançam mão às rédeas dos cavalos, •FI.320. pedindo-lhes quisessem tornar atrás e ser # seus hóspedes alguns dias, para lhes praticarem as coisas santas, de que já pelo cristão, seu natural, tinha[m] notícia. Escusaram-se os Padres como puderam, pedindo-lhes lhes deixassem por ora fazer seu caminho, e dando-lhes palavra que eles o fariam daí a alguns dias. Chegando à aldeia de Todos os Santos, o[s] vieram a receber grande mul- tidão de homens, mulheres e meninos, com tanta festa e alegria, como se todos já foram cristãos. Agasalharam-nos em uma formosa ramada, que para isso lhes tinham aparelhada, com bancos e mesa, para nela se ouvir prègação. Ali foram visitados, assim dos homens per si, como das mulheres também per si, trazendo todos por guia uma, a que obedeciam, a qual dali por deante teve cuidado de as ajuntar para a prègação, e para virem aprender a doutrina, e juntamente de recolher os ídolos, que todos tinham e davam para serem quei- mados deante da imagem do Salvador: o que faziam com tanto fervor, como se fôra uma mui antiga e fina Cristandade. Concluídas as cortesias, armaram logo os Padres na ramada um docel, com suas cortinas de seda, onde puseram uma formosa imagem do Salvador, a que todos logo vieram fazer reverência; e pelo alvoroço e alegria que todos rece- beram, se espalhou também logo a fama, assim por esta aldeia, como por outras algumas ao redor. De modo que começaram a correr tantos à imagem e a ouvir a nova doutrina e o novo prègador, que era necessário estar de dia e de noite praticando-lhes, até que de cansado adoeceu o Irmão. Repartiram logo muitas doutrinas, para que os que se quisessem converter, a estudassem e comunicassem uns a outros. Era mui grande o amor com que esta gente tra- tava e agasalhava os Padres, e com que os visitava, com seus presentes, sen- •fj. 32i. tindo grandemente e dando-se por agravados, se * os enjeitavam. Para catequizar os que se queriam converter, e para se dar melhor expe- dição (por serem muitos) os repartiu o Padre em três partes: uma (i) das mulheres de idade, que êle catequizava; outra dos homens, que cabiam ao Irmão, e às mulheres recolhidas e de pouca idade, em suas mesmas casas lhes iam ensinar a doutrina os meninos que os Padres levaram, por serem de pouca idade e bem instruídos na Fé. Era o fervor tanto, que por tôda a aldeia, assim nos soalheiros, como em outros ajuntamentos já se não ouvia prática que não fôsse das coisas de Deus, ou recitar o Pater Noster, Avè-Maria, Credo e mais orações; de modo que ainda os que não queriam ser cristãos, sem o sentir, se achavam com as orações sabidas. Havia por todas estas aldeias muitos prègadores de vários deuses e seitas os quais, vendo alguns dos seus frègueses convertidos, temendo-se que com o exemplo dêstes e fôrça da doutrina da Fe, cuja luz fazia desaparecer os deuses e sua falsa doutrina, se convertessem outros, e êles perdessem o fruto de sua sementeira, que era o interêsse que dêles pretendiam, determinaram, ou o diabo por êles, por todas suas forças para lançar os Padres fora e impedir o curso da conversão, que tão bem corria. Para isto começaram a [a]motinar a gente, (i) Nt.: hGas.
  • Das coisas da China dizendo-lhe muitos males dos Padres, da doutrina que prègavam, da santa imagem do Salvador; e ajuntando magotes dos seus frègueses, iam, com grandes risadas e descomposição de palavras e vozes, zombar e escarnecer dos que se baptizavam. Não fiizeram nisto tão pouco, que alguns se não esfriassem da- quele fervor, com que começaram a ouvir o santo Evangelho. Andando porém o diabo semeando por seus ministros esta má zizânia sobre a sementeira de Deus, quis o Senhor enfreá-lo; e foi por meio * de um mandarim »fi.mi. grande desta comarca, o qual nela governa oito cidades com seus distritos. Este, vendo o grande número de prègadores de tão várias seitas, que andavam enganando aquele rude povo, mandou publicar um edito, que todos fossem des- terrados e presos, com que todo êste povo ficou desembaraçado dêles, e os que perseguiam os cristãos, açamados(i). Com esta ocasião, posto que os prèga- dores do diabo desapareceram, foi também necessário que os nossos se reti- rassem por então, e com menos fruto do que prometia a boa disposição daquela gente; pois desta vez naquela aldeia e em outras suas vizinhas, se não pôde estender mais que a cento e quarenta pessoas. Doutra aldeia vieram por três ou quatro vezes pedir aos Padres os qui- sessem também ir lá consolar; e prometendo-lhes que iriam um certo dia, era tão grande o desejo que tinham de os ver já lá, que no mesmo amanheceram à porta dos Padres quatro homens, em nome de todos, e um dêles letrado, a lhes pedir que cumprissem sua palavra. Fizeram-no assim, e foram agasalhados dêles, conforme ao desejo que tinham de os ver. Aqui foram visitados de várias pessoas graves, e letrados, e de alguns mestres, acompanhados de seus dis- cípulos ; e foi o concurso a ouvir as prègações maior que em todas as outras partes, porque nem comer, nem dormir o[s] deixavam, pasmando da doutrina que ouviam. Porém de tanta multidão só quinze por então preordenados de Deus, receberam o sagrado baptismo, ficando as coisas dispostas de maneira, que dão muitas esperanças de na segunda volta se haver de recolher grande fruto. Detiveram-se os Padres nesta missão dois meses; e deixando ordenado aos cristãos miiidamente o modo como haviam de proceder e conservar-se na Fé e costumes cristãos, com mui#tas saudades de todos êles, se tornaram para Pequim. • fi. 221 v. Entre os que se baptizaram, foi um mancebo que, antes de se converter, gran- demente zombava e blasfemava da lei de Deus. Castigou-o Deus com um género de cegueira, que olhando para a terra ou para deante, nenhuma coisa via; e se olhava para o céu, via perfeitamente, como avisando-o Deus que só daquele lugar lhe podia vir a luz. Entendeu êle ser isto castigo de suas blasfémias; determinou, e assim o prometeu, de receber a lei de Deus. Coisa maravilhosa, que logo viu perfeitamente para todas as partes; mas esquècendo-se da pro- messa, o tornou Deus a cegar da mesma maneira que primeiro; pelo que escar- mentado, cumpriu logo sua determinação, fazendo-se cristão, com que tornou a recuperar sua vista. Uma mulher já cristã, indo de uma destas aldeias para a cidade de Pequim, se agasalhou no caminho em casa de uma sua conhecida antiga, muito devota (1) Nl.: affaçamados.
  • 238 Livro terceiro dos pagodes, a qual todas as noites, com os de sua casa, se punha deante do que tinha em seu oratório, a lhe rezar e fazer suas devoções; porém a pobre- zinha cristã se punha a um canto da casa a rezar secretamente por suas contas. Espantados os de casa, por ela os não acompanhar, lhe perguntaram a causa: a que respondeu que, por ser cristã e adorar somente ao Rei dos Céus; e sôbre isto lhes soube dizer tais coisas, dando Deus virtude a suas palavras, que nove casas inteiras converteu, para virem ouvir a prègação e receber tal doutrina; o que, por ainda então não poder ter efeito, se guardou para melhor ocasião.
  • 'LIVRO QUARTO Kl. 231. CAPÍTULO PRIMEIRO Do que se fè\ na costa da Guiné e Serra Leôa OUTRAS relações se tem dado notícia da missão que, por ordem de Sua Majestade, a Companhia têz ao Cabo Verde e à costa e terra firme de Guiné; e como na ilha do Cabo Verde foi Nosso Senhor servido que falecessem quási todos os Padres que foram (perda que a Companhia sentiu muito, assim pelos perder esta Província, como pelos não ter aquela a que os tinha destinados, e pelo conseguinte carecer do fruto que dêles esperava, por serem todos religiosos de grande virtude e zêlo, e de partes para dêles se poder[em] esperar grandes sucessos na prègação do Evangelho); mas, como aquela ilha é tão doentia, e os Padres, por serem reli- giosos, não podem usar dos meios mais favoráveis à natureza, para poderem conservar a saúde, de que usam os seculares, e necessàriamente haverem de exercitar seus ministérios, e acudir às prègações, doutrinas e confissões, em todo o tempo e hora, pela fôrça da calma e pelo sereno da noite, que naquela terra é pestilencial, e àlém disso lhes faltarem na doença as coisas e mèzinhas necessárias e cura conveniente, com que puderam guarecer: emfim acabaram cinco sacerdotes, que não pudera ser maior perda para aquela terra. Ficou só por algum tempo o Padre Baltasar Barreira, su*perior de todos, *F1,123 v- que, com ser de tanta idade, que vai para oitenta anos, dá-lhe Deus tal vigor e espírito, que, como se fora mancebo, tem corrido tôda aquela costa até à Serra Leôa, e entrando pela terra dentro, descobrindo novos reinos e nações, tratando com vários reis, dando-lhes a todos notícia de Deus, prègando-lhes o santo Evangelho, e baptizando logo uns, como foram dois reis da Serra Leôa, com muita gente de seus vassalos, dispondo outros para receberem nossa santa Fé; de modo que não falta mais que haver obreiros que possam ir colhêr e cultivar tão copiosa messe, como Deus tem naquelas partes. E ainda que neste ano passado de seiscentos, se mandaram desta Província seis companheiros, e quatro dêles sacerdotes de muitas partes, que repartiu pelos postos mais necessários, (posto que logo faleceu um dêles e de maior talento e expectação que todos) tudo teve o bom velho por pouco, para o que julgava ser necessário; pelo que, logo mandou pedir mais socorro, pelo menos de seis ou sete sacerdotes, que logo foram destinados para irem; mas deixaram de o fazer, por inconvenientes que nisso houve, não sem mui grande detrimento
  • 240 Livro quarto do bem e conversão das almas daquelas partes, que para receberem a prègação do Santo Evangelho estão tão dispostas, como se verá nesta relação, por uma comprida carta, que nela poremos logo, a qual escreveu de lá o bom Padre Baltasar Barreira, em que dá conta da disposição que para isso achou em todos aqueles reinos, que êle pessoalmente foi descobrir, e do mais fruto, que até então se tinha feito na conversão daquela gentilidade; e como tôda é de tanta edifi- cação, a poremos aqui, em seu próprio nome e por suas próprias palavras, com que êle a escreveu ao Padre Provincial desta Província, dividindo-a por capítulos, •fi. a33. para mais distinção das matérias * de que trata. E para que melhor se entenda o argumento dela, se há de saber primeiro, como entre os muitos reis que há naquele grande sertão da terra firme de Guiné, há um que chamam de Bena, mui poderoso, e a quem alguns sete ou oito reis outros são sujeitos. Este, tendo fama do Padre e de sua exemplar vida e doutrina que prègava, e como tinha feito cristãos e baptizado aos dois reis da Serra Leôa, Dom Filipe e Dom Pedro, com muita outra gente principal; excitado também a isso por um português honrado, que em seu reino tratava, e com quem tinha muita amizade, mandou pedir ao Padre por vezes, com muita ins- tância, quisesse ir a sua terra, para também o baptizar a êle, pelo grande desejo que tinha de se fazer cristão. Pelo que, julgando o Padre quanto convinha satisfazer a seus desejos, e também por ir ver em pessoa a disposição daquelas terras que nesta jornada havia de descobrir, ordenou sua ida, pela qual e sucesso dela, começa sua carta que diz assim: CAPÍTULO II Da missão que o Padre Baltasar Barreira fè\ ao reino de Bena « f^vOR uma embarcação, que o capitão desta costa tinha mandado ao reino I—^ de Bena, me tornou a escrever o rei dele, pedindo-me com grande ins- A tância, que o fôsse baptizar, antes que moresse, por ser já mui velho, como já muitas vezes me tinha escrito; e para mais me obrigar a não dilatar esta • fi. js3 t. mandou um filho seu, de dezassete ou dezoito anos, que muito amava, que me fizesse muitas vezes estas lembranças e me acompa*nhasse pelo acminho, pe- dindo-me juntamente que o instruísse nas coisas de nossa santa Fé, e o bapti- zasse lá; e assim o fiz, depois de bem instruído». «Vista pois a instância que êste rei me fazia, e os desejos de ser cristão que mostrava, e temendo que, se morresse sem baptismo, me pediria Deus conta de sua alma, tratei o negócio com alguns amigos, depois de o encomendar a Deus; e a todos pareceu que devia fazer o que êste rei me pedia, pois o seu baptismo podia redundar em muita glória de Deus, e bem das almas de seus vassalos, e de outros muitos». «Tomada esta resolução, parti para lá o primeiro dia de Maio, na mesma embarcação, e logo naquela noite me quis o Senhor ensaiar na paciência, que depois me havia de ser necessária, e na confiança em sua bondade; porque sobreveio uma tempestade de vento, trovões e água, tão extraordinária, que
  • Das coisas da Guiné c Serra Lcòa 241 tivemos por mercê mui particular de Deus não se ir a barca ao fundo; para o qual ajudou muito ocupar-se tôda a gente em lançar fora a água que nela entrava, do mar e do céu. Outras tivemos tambe'm, na mesma viagem, por ser então nestas partes princípio de inverno; mas nem a primeira, nem as mais do mar chegaram a uma que tivemos em terra, depois que saímos no porto do outro reino, por onde se passa para o de Bena». «Estava o rei desta terra quebrado com o de Bena, e por esta causa não queria consentir que lhe levassem pelo seu rio mercadorias nem outras coisas. Vendo pois que nós íamos para aquele reino, e que alguns portugueses levavam fazenda da Europa e outras partes, emquanto mandámos aviso a El-Rei de Bena de nossa chegada àquele porto, para nos prover de carregadores, ajuntou estoutro secretamente muita gente de seu reino, para nos impedir a passagem, e com eles tratou isto no mato*, como é seu costume, quando o negócio pede segrêdo. ' fi. 124. A resolução foi que nos matassem a todos, em tal conjunção, que o pudessem fazer a seu salvo, sem arriscar suas pessoas, o qual não podia ser, se à força de armas nos quisessem impedir a passagem». «Assentado isto, chamou o rei a juízo, o qual se faz verbalmente, quando um demanda alguma coisa a outro; e porque êste havia de ser sobre fazenda que certo negro poderoso tinha usurpado a um português que ali estava, con- correram também a êle os portugueses, da maneira que estavam, desarmados e sem receio nenhum. Finalmente o negócio chegou a têrmos, que já todos estavam a ponto para dar em nós, com os olhos no rei, esperando um aceno seu, ao qual os movia também a prêsa que lhes havia de ficar nas mãos, da fazenda que levavam os portugueses e da que cuidavam que eu levava, sendo imagens e ornamentos para o culto divino. Mas como a causa era de Deus, ordenou que um negro de autoridade e amigo de portugueses, o qual outro rei superior a êste tem ali por olheiro, o impedisse, alevantando-se em pe', com a espada desem- bainhada, dizendo que havia de matar o primeiro que pretendesse fazer-nos algum mal. Depois do qual, disse tantas coisas em nosso favor, e arrazoou tão bem por nossa parte, que os obrigou a deixar as armas e se aquietarem. O rei me mandou depois algumas desculpas, e vindo a onde eu estava, se mostrou inocente no caso. Eu lhe dei a entender que o cria, e fazendo-lhe alguns regalos, acabei com êle que nos deixasse passar e nos desse algumas almadias, para ir ao porto de Bena, por haver, antes de chegar a êle, esteiros mui estreitos e im- pedidos de mangres, e não poderem entrar lá, por esta causa, outras embarca- ções maiores». «O rei de Bena, quando soube da nossa chegada, e viu * seu filho já cristão, e vestido à portuguesa, (porque por êle lhe mandei recado, em companhia de um português), não se fartava de dar graças a Deus, e declarar a alegria que sentia em sua alma. Mandou logo fazer, com muita pressa, as casas em que me havia de agasalhar, traçadas ao nosso modo; e para nos carregarem e acom- panharem, mandou passante de cincoenta pessoas, com seu filho herdeiro do reino, que será de cincoenta anos ou mais, e de outro que será de quarenta. Acharam-nos já na primeira aldeia de seu reino; e depois de gastar obra de dois dias em festejar nossa ida, partimos dali e fomos caminhando para a povoação principal, que dista dois dias de caminho, por matos tão espessos e serras tão 28
  • 242 Liiro quarto fragosas, que foi necessário ir eu a pé, muita parte do caminho. É esta terra tão montuosa, que por onde quer que íamos, nos achávamos rodeados de ou- teiros e montes, cobertos de verde arvoredo;e conforme a multidão dos montes, assim era a dos vales e ribeiras, que corriam por entre êles. Os penedos são de cor de ferro, e dêles o tiram os naturais da terra, para toda sorte de fer- ramenta, e a que se faz dele, leva vantagem à destas partes, por ser o metal mui fino». «Indo pois caminhando desta maneira, e chegando já perto de uma aldeia que está no meio do caminho, encontrámos um cassane, ou criado de El-Rei, com um cavalo, que poucos dias antes lhe tinham trazido de mais de cem léguas, o qual me mandava para o restante da jornada. Respondi que lho agradecia muito, mas que me não atrevia a ir nele pela aspereza do caminho; e assim o dei a seu filho mais velho, que nele me foi acompanhando, ainda que muitas vezes se descia, por não poder romper algumas brenhas, e passar seguramente • fi. 2í5. alguns barrancos, que encontrávamos. E logo como chegámos a esta * aldeia, o regedor dela, pela fama que já corria que eu não tratava com mulheres, as fêz recolher todas em suas casas, e assim estiveram até me avisarem disto, por não haver quem provesse a gente de água e do mais necessário. Mas, decla- rando-lhe eu que sòmente queria que não entrassem na casa em que estava aga- salhado, saíram logo, e acudiram a suas necessidades». «O dia seguinte chegámos à povoação do rei, e dêle fomos recebidos com mui particular significação de alegria. Agasalhou-me nas casas novas que tinha feito para mim, com uma cerca de madeira, para que não entrassem lá mulheres. Mandou-me logo um novilho, segundo seu costume; aceitei-lho, por lhe dar gosto; mas dei ordem como se repartisse pela gente que me tinha carregado e acom- panhado, do qual se não edificaram pouco êle e os seus. Praticámos depois largo sôbre as coisas de nossa santa Fé; e porque naquela terra as moças, antes de casar, não trazem nada sôbre si, a primeira coisa que lhe pedi, foi mandasse que se vestissem, e assim o fêz logo, com pregoes que lançaram por toda a povoação». «Disse a primeira missa dia da Ascensão, estando a igreja enramada e o altar bem ornado. Entraram sòmente sete cristãos para [a] ouvir, por não se acharem ali mais. O rei quisera fazer o mesmo; fui-lhe à mão, declarando-lhe as causas por que se não permitia isto aos que não eram ainda baptizados; mas depois que êle o fôsse, teria nela o melhor lugar. Pois assim é, Padre, disse êle, baptizai-me logo, porque não desejo outra coisa. Respondi-lhe que era necessário dispô-lo primeiro para isso, e ensinar-lhe as coisas de nossa santa Fé, e as obrigações dos que a recebem, com o qual e com lhe mandas pôr uma * fi. m5 v. cadeira da banda de fora, e * que um seu cassane lhe fizesse sombra com um chapéu de sol, mostrou ficar quieto. Na Missa fazia tudo o que via fazer aos cristãos, seguindo-o os mais gentios, que o acompanhavam com sinais exteriores de grande admiração, que neles causava assim a formosura das imagens, como o aparato e cerimónias da missa». «Antes que a começasse, benzi a água publicamente, e fiz o Asperges, e pre- guei sôbre o mistério daquele dia, declarando algumas coisas de nossa santa Fé, e a causa da minha ida àquele reino, que não era buscar oiro, nem escravos,
  • Das coisas da Guiné e Serra Leòa 243 nem outras coisas que os homens estimam, senão suas almas, para as alumiar e livrar dos enganos em que viviam, e as encaminhar para o Céu. Ouviu o rei tudo com muita atenção, por entender e falar nossa língua, e outros que também a entendem e falam, e os mais, por lho declarar um intérprete. À tarde, estando o rei na igreja com os cristãos, e de fora seus filhos e todos os mais gentios, pelo respeito que lhe teem, dita a Ladainha de Nossa Senhora, fiz a doutrina, e nela comecei a tratar algumas matérias que os podiam alumiar, detendo-me principalmente em lhes declarar a falsidade da seita mahometana, por estar já mui introduzida neste reino. A estas doutrinas e práticas concorria cada dia gente de novo, que vinham de diversas partes, e todos davam mostras do que Deus ia obrando neles; porque já antepunham nossa santa Fé às men- tiras e falsidades que até ali seguiram, e desejavam que o rei se baptizasse, para êles fazerem o mesmo». «Além de outra gente, acudiram também alguns reis, sujeitos a este de Bena, e seus tributários, ou pela fama que corria de minha chegada e das coisas que ensinava, ou por êle os mandar chamar para o que ago*ra direi. Estando junta • fi. 226. tôda esta gente, saiu um dia pela manhã, vestido ricamente à portuguesa, acom- panhando-o os mais reis e senhores, e os portugueses que ali estavam, e tocan- do-se os instrumentos de que usam em suas festas, chegou desta maneira a um terreiro grande; e depois de se assentar ao seu modo, fêz trazer deante de si muitas peças que tinha de Europa, e vários vestidos que os portugueses lhe mandam e levam, quando vão tratar aos seus reinos; e depois de dar vista de tudo isto, fêz uma fala em presença de todos, engrandecendo-se sobre os mais reis dos Sousos, que assim se chama esta nação, e sobre todos os Farins, que são sôbre outros reis, dizendo que nenhum chegara a ter em sua terra e ver com seus olhos o Padre que êle tinha e via no seu reino, nem tivera tantas e tão ricas peças de Portugal, como as que êle ali mostrava. Ajuntou a isto que êle queria ser cristão, e que com êle o haviam de ser todos os seus». «Louvou depois e engrandeceu nossa santa lei, e detestou e reprovou a mal- dita seita de Mafoma; e, porque todos trazem nóminas muito bem lavradas, que lhes vendem os bexerins, ou cacizes mandingas, persuadindo-lhes que trazendo-as consigo, e levando-as à guerra, não receberão dano algum, zombou de tudo isto, e declarou que era invenção dos bexerins para lhes levar seu dinheiro. E, para que a todos constasse mais a falsidade destas nóminas, referiu um exemplo que eu lhe tinha contado, e já em outra carta o escrevi, de um rei de Balravento, que vendendo-lhe um dêstes cacizes uma vestidura cheia destas nóminas, provou nêle mesmo a falsidade delas, atravessando-o com uma azagaia; e assim se con- cluiu tudo, com grandes louvores de nossa * santa Fé, aclamando todos que •fi.22óv. queriam ser cristãos». «Estou vendo o alvoroço, com que Vossa Reverência e os mais Padres es- peram o fim de tão bons princípios; mas, como os juízos de Deus são sôbre tudo o que nós podemos entender, foi o sucesso mui diferente das esperanças, porque não sei donde o diabo trouxe um ministro seu, dos que cá chamam judeus, ainda que o não são na lei, porque seguem a dos moiros, mas são como oradores, que teem por ofício louvar os reis e senhores, enchê-los de vaidade, referindo em público as vitórias que alcançaram, e os feitos insignes que fizeram
  • 244 Livro quarto e os seus antepassados, misturando nisto muitas mentiras. Este, depois de sua chegada, orou aqui algumas vezes deante do rei e de todos os seus, com tanta eloquência, ou loquacidade, que em duas horas ou mais que cada vez gastava, nem fôlego parecia que tomava. Eu, ainda que o ouvia da casa onde estava, como não entendia a língua, cuidava que a matéria das orações eram louvores do rei, e em particular, por se querer fazer cristão. Mas não era assim, senão que aniquilava nossa santa Fé, e engrandecia a maldita seita de Mafoma, per- suadindo ao rei e aos mais ouvintes que perseverassem nela e se não fizessem cristãos». «Ainda que eu não sabia o que êste orador infernal pretendia, dentro de poucos dias o coligi da mudança que vi no rei; porque já se mostrava frio nos desejos de ser cristão, e acudia mal aos divinos ofícios e práticas da doutrina; e tendo-me dado palavra que havia de queimar todas as nóminas que tinha, e os ídolos e estátuas de seus antepassados, chegando eu a apertar com êle que cum- prisse isto, deu tantas escusas e pôs tais dificuldades, que bem mostrava ter-se •fi. 127. aconselhado com êste ministro de satanás. Quanto às * estátuas de seus ante- passados, respondeu que não podia acabar consigo queimar seu pai e seus pro- genitores; mas que os mandaria a uma de suas mulheres que estava em outra povoação, para que os tivesse lá; a qual escusa eu não quis aceitar, por entender que sua intenção era conservar por êste modo aqueles corofins, que assim se chama tudo aquilo que adoram». «A contenda principal foi sôbre as nóminas, porque ora perguntava que havia de levar quando fôsse à guerra para não perigar nela; ora punha dificuldade em perder a grande quantidade de dinheiro que dera por elas; ora mostrava que temia o Concho, que é como imperador (1) de todos os Sousos; e a razão de o temer era que se iria queixar a êle o bexerim mor, que é sôbre todos os mais bexerins daquelas partes, e o moveria a que viesse sôbre êle com guerra e o destruísse. Tudo isto lhe parecia que remediaria, se mandasse as nóminas que tinha, ao bexerim mor, pois as recebera dêle. Mas, porque entendi o que pretendia, não me dei por satisfeito dêste remédio, senão com certa condição que êle não quis aceitar». «Antes de passar adeante, porque falei no bexerim mor, e nos outros que lhe são sujeitos, quero dar aqui alguma notícia dêstes ministros de satanás, Os Mandingas é uma nação de negros, que povoam o rio Gâmbia, de uma banda e outra, e entram pela terra dentro mais de duzentas léguas. Esta nação não sòmente bebeu, há poucos anos, a peçonha da seita mahometana, mas tomou por ofício dá-la a beber a outras nações, para o qual se ajudaram da mercancia e entrada que com ela tinham em outros reinos; e porque são grandes cavaleiros, e onde quer que estão, ajudam os reis em suas guerras, indo sempre na dean- • fi. 337 v. teira; são mui queridos e estimados dêles, e folgam de os ter consi*go, e lhes dão terras que povoam, com grandes privilégios. Nestas povoações teem mes- quitas, e os bexerins põem escola de ler e escrever letra arábica, que é a de que usam nas nóminas. O bexerim mor, que responde a Bispo ou Arcebispo entre nós, reside no reino que lhe parece mais acomodado para conservação e (1) Nl.: emparador.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa aumento de sua maldita seita, e para mandar visitar por outros bexerins infe- riores as províncias e reinos de sua jurisdição». «Quando algum destes vem, ou a este reino, ou a outro dos que seguem sua lei, o qual fazem todos os anos, assim é recebido e respeitado, como se viera do céu. Além da mais gente que vem em sua companhia, traz também consigo alguns moços que vão aprendendo, e estes lêem cada dia, em voz alta, e escrevem suas matérias. Logo como chega à povoação principal, a primeira coisa que faz, é declarar o dia em que há de começar suas pregações; o qual sabido, concorre muita gente de diversas partes, e nêle sai, com grande aparato, a uma praça ou terreiro, que lá chamam oufal; manda estender algumas esteiras finais, tira de uma bolsa mui lavrada dois ou três pergaminhos escritos, de letra miúda, desenrola-os sôbre elas, põe-se em pé, levanta as mãos e olhos ao céu, e depois de estar desta maneira um pedaço, como quem fala com Deus, prostra-se por terra, deante das bulas infernais; e depois de lhes fazer grandes reverências, levantando-se outra vez, diz em voz alta que dêem todos graças a Alá e a seu grão profeta Mafoma, pelos mandar visitar e convidar com o perdão de seus pecados, e outras coisas a êste propósito; depois do qual, engrandece a dou- trina que traz escrita naqueles pergaminhos, pedindo-lhes que a oi*çam com * ti. "8. atenção; o que êles cumprem tão bem, que estando mais de duas horas em ler e declarar parte daquela escritura, não há quem fale, nem durma, nem bula consigo, nem tire os olhos dêle». «Ao bexerim mor destas partes tem ensinado seu mestre, satanás, algumas palavras para invocar os demónios; estas ensinou êle a êste rei, e por esta causa é tão temido dos seus, que nenhum ousa fugir-lhe ou fazer coisa alguma contra sua vontade; porque logo os persegue, castiga e atormenta, por meio dêstes ministros do diabo, e o mesmo faz algumas vezes aos portugueses, quando lhe dão algum desgosto que êle sente muito. Dois que por esta causa se tinham ido de sua terra, e tornaram lá, quando eu fui, me contaram o que em si tinham experimentado. O ordinário era espancá-los o demónio, de noite, e tratá-los tão mal, que alguns dias se não podiam levantar da cama; mas outras vezes, quando o rei se indignava mais contra êles, agravava o castigo, atormentando-os por diversas maneiras. Um dêles, estando dormindo, lançou-lhe o demónio pelos narizes uma fumaça que o fêz acordar com grandes agonias, e deitar pela boca grande cópia de sangue, e desta maneira o foi botando, obra de quinze dias. O remédio neste trabalho era invocar o Santíssimo Nome de Jesus e da Virgem Santíssima, sua Mãe, e rezar algumas orações; mas, como por causa do sono, deixava de continuar, logo tornava a sentir os mesmos tormentos. Eu os provi de algumas relíquias, para que Deus, por meio delas, os defendesse destas vexa- ções diabólicas». «Uma coisa que vi, me fêz cuidar que sòmente serviam os demónios a êste rei de ministros para estes castigos, e que, para outros efeitos, lhe apareciam em diversas figuras; e foi que, estando êle assentado no alpendre * da igreja, • fi.«8v. dando ordem à obra que nela se fazia, lhe trouxeram uma cobra da grossura de uma coxa, enroscada e feita em um novelo, sem lhe aparecer cabo nem cabeça, pintada e lavrada das mais vivas cores, e mais perfeitos lavores, que nunca vi em animal algum. Indo eu à igreja, o achei com ela nos braços, afagando-a e
  • 246 Livro quarto correndo a mão por ela, como se fôra uma criança. Fiz eu o mesmo, para ver se tinha alguma aspereza, e nenhuma lhe achei, antes uma brandura mui grande: chamam-lhe os da terra rainha das cobras». «Um português me contou que, vendo uma à porta de sua casa, e indo para lhe dar com um pau, se enroscara tôda, sem lhe aparecer a cabeça; e por lhe irem à mão os negros da terra, deixou de descarregar o golpe sôbre ela. Pela qual propriedade não deixo de cuidar se porventura são estas as cobras de que fala o Senhor, quando diz: estofe prudentes sicut serpentes, por serem (1) debuxo dos verdadeiros cristãos, que antes querem receber em si os golpes dos perse- guidores da Fé, que deixá-los cair sôbre Cristo, sua cabeça. Levou pois o rei para sua casa esta cobra; e, porque logo começou a falar do baptismo e coisas de nossa santa Fé diferentemente do que antes falava, concorrendo com isto a vinda do judeu e sua falsa doutrina, tive grande suspeita que o diabo se lhe metera em casa por aquele modo e naquela figura, para lhe aconselhar e per- suadir que desse crédito ao falso pregador de Mafoma, e antepusesse suas mentiras à verdade da lei evangélica». «Foi esta súbita mudança do rei mui estranhada de todos, e sentida dos que desejavam ser cristãos. Eu, antes de me resolver no que faria (2), àlém de en- comendar o negócio muitas vezes a Deus, busquei todos os meios que pude, para o reduzir aos primeiros propósitos; mas, porque sempre o achei pertinaz * fi. 229. em sua opinião, entendi que * não era honra de Deus baptizá-lo com as condi- ções que êle queria, e que, não se baptizando êle, não tinha eu que fazer naquele reino; por que nenhum dos seus, ainda que desejasse muito ser cristão, o ousaria fazer, pelo grande temor que teem dêle. Tratei de minha tornada, dando-lhe as razões que me moviam a isso, e pedindo-lhe que me desse carregadores, que me trouxessem, metendo alguns terceiros, para que me não detivesse; porque de outra maneira era necessário esperar cinco ou seis meses, por irem tomando as ribeiras muita água, e carecerem de pontes e embarcações, para as passar. Ele, ainda que me dava boas esperanças, ia-me detendo, ora com umas escusas, ora com outras, sem chegar à obra. Nisso comecei a cuidar que me queria reter, por razão de estado, como já fêz El-Rei de Angola a outro Padre nosso, e que, se Deus lhe não fizesse força, nunca me deixaria sair de seu reino». «Vendo pois que as ribeiras iam crescendo cada vez mais, e deminuindo-se as esper[anç]as de minha tornada fundadas no rei, tratei de as pôr em só Deus, e ir-me só com um negro que me acompanhava. Mas não foi o Senhor servido que chegasse a isto, porque, antes de o pôr em efeito, veio recado ao rei, que era chegado ao pôrto que disse, um navio de Balravento, em que vinha um por- tuguês, grande seu amigo, que dali se fôra havia algum tempo. Foi mui grande a alegria que recebeu com esta nova, e assim, para que o trouxessem, achou logo carregadores, que para mim fingia faltarem-lhe, pela ocupação das semen- teiras. Veio finalmente, e com êle o remédio que Deus tinha ordenado, para me tirar do apêrto em que estava; porque a êste, antes que fôsse a Balravento, tinha o rei comunicado os desejos que tinha de ser cristão, e de que eu o fôsse (1) Nt.: terem. (2) Nl.: fazia.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leóa 247 baptizar; e por èle me tinha escrito * o mesmo algumas vezes, prometendo que *fi. 229v. queimaria as nóminas dos bexerins e os seus ídolos; e porque, pela informação que lhe deram, entendeu a mudança que tinha feito, logo nas primeiras práticas que com êle teve, lho estranhou quanto pôde; mas, vendo com quanta razão eu lhe negara o santo baptismo, e pretendia tornar-me, acabou com êle que me desse carregadores para isso. Deu-mos finalmente, mas com mostras claríssimas de que os dava contra sua vontade; e assim, por não dar todos os que me eram necessários, me obrigou a deixar lá algumas coisas que me fizeram depois muita falta; mas contentei-me com me ver livre dele, e lhe tirar das mãos, por meio do mesmo português, o moço seu filho que eu tinha baptizado». «Antes de entrar no sucesso da minha tornada, quero dizer o que com êste rei me aconteceu, quando cheguei à sua povoação. Como as casas que tinha feito para mim, estavam frescas e enterreiradas de novo, e por esta causa mui húmidas) pareceu-me que não convinha dormir nelas. Soube-o êle, e fêz-me aparelhar logo uma das casas em que morava, que são grandes e teem muitos aposentos. Passada esta primeira noite, tratámos de outro agasalhado, porque aquele não me convinha, pela vizinhança de suas mulheres; e apontando eu em uma casa redonda, que estava pegada com a nova que tinha feito para mim, soube que era dedicada aos demónios, e servia de ter nela os seus ídolos; contudo, disse que dormiria nela, se o rei a despejasse, sem dar a entender que sabia o que nela tinha. Tratou-se isto sem mim, e o rei se resolveu, ainda que muito contra sua vontade, em a despejar, parte porque não havia perto da igreja outra em que me pudesse gasalhar, emquanto se enxugavam as novas, e parte porque eu não viesse a saber dos ídolos que nela * tinha. Fêz-se assim em minha ausência; *fi. a?o. mas não puderam despejá-la tão bem, que não achasse, quando entrei nela, os assentos ou nichos em que estavam os ídolos e algumas coisas de seu serviço; mas dissimulei, e dormi daí por deante nela, sem temor algum, ainda depois de negar ao rei o santo baptismo, e saber os ministros que tinha, para se vingar dos que queria; não deixei de imaginar, que por êles me mandaria fazer de noite algum mal; mas parece que, ou se não atreveu, ou Deus não deu licença aos demónios para isso». CAPÍTULO III Das coisas, que o Padre fè\, tornando de Betia, e do que no caminho lhe sucedeu, e de alguns ritos destas nações «I~"\ ESPEDI-ME finalmente do rei, encomendando-lhe que pedisse a Deus I muitas vezes o alumiasse, e dando-lhe palavra que tornaria ao seu reino e o baptizaria, se êle tirasse os impedimentos que havia para isso. Pro- meteu-me que o faria assim, e depois de me acompanhar um pedaço, o fiz tornar, sem lhe dar a entender que vinha agravado dêle, e dei princípio à minha tor- nada, na qual houve algumas dificuldades, maiores que à ida, assim por irem já as ribeiras mui crescidas, como por me obrigarem os carregadores a vir a pé, grande parte do caminho; porque, como não vinham já de tão boa vontade como
  • 248 Livro quarto à ida, a cada passo me punham no chão, e não me tornavam a tomar, senão • fi. a3o v. quando queriam. Mas na * derradeira jornada me consolou o Senhor sobre a medida destes trabalhos, e de todos os que ate' ali tinha padecido; porque es- tando eu recolhido debaixo de uma choupana com tôda a mais gente, por causa de uma trovoada que sobreveio, um moço português que eu tinha deixado na Serra Leôa, chegou a mim, sem eu o sentir, por estar rezando as Vésperas, e abraçando-me pelos pés, me saudou com estas palavras: Alviçaras, Padre, que tem Vossa Reverência Padres do Reino; e juntamente me meteu nas mãos uma carta do Padre Manuel Alvares, em que me dava conta de sua vinda, e dos Padres, que ficavam na ilha de Santiago». «Pode-se cuidar a alegria que com esta nova sentiria, pois a mim me faltam palavras para o declarar. Mas foi o Senhor servido de ma aguar cedo; porque chegando à povoação, o maioral dela começou um choro solene, por um negro principal, que ali morreu; e porque nestes choros se bebe muito vinho, por esta causa, e por estar mui sentido de um português, senhor do navio em que veio o amigo do rei de Bena, jurou muitas vezes que, se vinha à sua aldeia, o havia de matar e a todos os portugueses com êle. Mandei logo aviso disto a êste português, porque não viesse àquela aldeia nesta conjunção; mas, não o achando o que levava a carta, veio sem saber o que passava. Disse-lhe(i) eu, e pedi-lhe que o remediasse. Zombou disso, mas depois entendeu que não acertara; porque, quando mais descuidado estava, o negro que é mui temeroso, saiu de sua casa com uma adarga de rota embraçada (2), algumas azagaias na mão es- querda, e uma na direita, dizendo: Mata, não fique português nenhum. Escas- samente (3) acabava de dizer estas palavras, quando saíram todos os seus, uns com azagaias, outros com arcos e frechas, repetindo o mesmo com altas vozes, •h.23i e arremeteram com tanto ímpeto ao português, que até as mu*lheres que havia na casa, vieram fugindo para a banda da casa em que eu estava. Um português com outros cristãos se ocolheram a mim, como se eu os pudera defender; outro se deitou de uma rocha abaixo, para se salvar no mato. Eu, porque ouvi nesta revolta a pancada de um arco, quando o dispa[ra]ram, entendi que o tiro se fizera ao português, e que o negro ia executando o que jurara; e assim me aparelhei o melhor que pude para o receber, quando chegasse a mim, pedindo a Deus perdão de meus pecados e oferecendo-lhe a vida. Mas, como não era digno de a perder por seu amor, sucedeu, ordenando-o assim a divina providência, que, quando o negro ia para fazer o tiro no português, correram de-pressa e tiveram mão nela um seu irmão mais velho e a mulher principal, a quem êle tem muito respeito». «Passado algum tempo, e estando já êste negro mais livre da perturbação, que o vinho nele causara, mostrou grande sentimento do que tinha feito, e para se reconciliar com o português, lhe levou não sei quanta quantidade de oiro. Eu, com esta ocasião, me despedi dêle, e me embarquei com o mesmo português para o porto de outro reino, aonde (como já disse) nos tinha Deus livrado de outro perigo semelhante a êste». fi) Nt.: disselhe. (2) Nl.: embaraçada. (3) Nt.: escaçasamente.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 249 «Para que se entenda o que disse do choro desta aldeia e efeitos dêle, e se veja a ignorância desta gente, e o domínio que o diabo tem neles, quero aqui declarar brevemente o modo como se fazem. Morrendo algue'm em alguma aldeia, mandam logo aviso a todas as aldeias em que vivem alguns parentes seus, os quais são comummente muitos, pelas muitas mulheres que teem, do qual pode ser exemplo o que um filho de Farma, o primeiro rei Mane dos Lóguos, me disse de seu pai, que chegou a ter setenta e dois filhos machos e cincoenta e duas filhas, * e que dêle e dêstes filhos teem procedido e são vivas mais de * Fi. s3i v. três mil pessoas. Por esta causa, e por casarem em diversas aldeias, é neces- sário levar-se a todas elas a nova do falecimento de seu parente, a qual tanto que chega a algue'm, assim se põe tôda em pranto, como se o defunto fôra na- tural dela. Partem-se logo seus parentes e amigos, para se achar[em] no enter- ramento de seu corpo, levando cada um conforme a sua posse, uns oiro e panos de vestir, outros algumas coisas das que os portugueses trazem a estas partes». «Chegando à aldeia em que está o defunto, entram nela chorando com grandes clamores, os quais vão crescendo cada vez mais, com o concurso da gente que os vem receber. Do oiro e mais coisas que trazem para o enterramento, fazem três partes: uma enterram com o defunto; outra dão ao rei da terra; outra en- tregam ao parente mais chegado, a cuja conta está o pranto, para os gastos que nele há de fazer. Os reis e outros manes grandes enterram de noite mui secre- tamente, achando-se sòmente presentes alguns parentes mais chegados; e a causa deve ser, porque enterram com eles, àlém de outras coisas, o oiro que na vida entesoiraram para isso, que e' ordinàriamente muito; e não querem que se saiba onde estão enterrados, porque o não vão furtar; e para que não fique sinal da cova, enterram-nos em alguma parte por onde corre alguma ribeira, desviando a água, emquanto fazem êste ofício, e deixando-a depois correr, como dantes». «Além das coisas que disse, enterram também com estes reis algumas pes- soas de seu serviço, homens e mulheres, para que tenham na outra vida criados que o[s] sirvam. Os outros que morrem, enterram-nos nas aldeias, e com êles a parte que lhes cabe das coisas que seus parentes e amigos trouxeram, como já disse: e o mais que ganham e adquirem, é para êste fim, por crerem e lhes ter o dia#bo persuadido que hão de achar na outra vida o que com êles se *fi. 232. enterra. Se o defunto era pessoa principal, alevantam-lhe sobre a cova uma casa, a qual armam com panos e outras coisas que deixam ali, até que apo- drecem, e a estas casas vão os parentes falar com os defuntos, e dar-lhes conta de seus trabalhos, para que roguem a Deus os livre dêles». «Feito pois o enterramento, tornam-se todos para suas casas, com as palhas do choro, (que é seu modo de contar, para saber o dia em que se há de começar); e para se fazer com mais solenidade e ficar memória do defunto, ajuntam neste tempo muitas coisas de comer e beber, como arroz, vinho, galinhas, cabras e algumas vacas, se o defunto era nobre. Acabadas as palhas, acode muita gente, de tôda a sorte, ao chôro, ou para melhor dizer, à festa dêle, porque êsses dias que dura, não intendem em outra coisa, senão em comer, beber, bailar e cantar. Isto fazem principalmente algumas noites a réu, sem nunca descansar; e como os instrumentos em que tangem, soam muito, e no canto se ajuntam as vozes de todos, assim como êles não dormem, assim não deixam dormir os que não vão
  • 25o Livro quarto ao choro; pela qual causa, visto o prejuízo que nos faz a falta de sono, ainda que temos as igrejas nas aldeias, imos afastando delas as casas de nossa habitação. O louvor do defunto e do parente que tem o choro a seu cargo, consiste em não poder a gente, por muita que seja, vencer o que lhe oferecem para comer, e em ser tanto o vinho, que se enxergue nos muitos que andam tomados dêle». «Quando algum rei destas partes quer fazer alguma festa grande, chama-lhe também choro, com título de seus antepassados, e para êle manda convidar • n. s3i v. outros reis e senhores seus vizinhos; porque, como se comunicam * por esteiros e braços do mar, e teem muitas embarcações, podem-se ajuntar, sem muita difi- culdade. Assim o fêz êste ano um rei destes; e, porque juntamente pretendia tratar com os manes um negócio que a todos êles importava muito, mandou tambe'm convidar a El-Rei Dom Pedro, por ser o mais antigo rei desta nação, e tido de todos por oráculo de seus conselhos. Êle se escusou muitas vezes, ale- gando sua muita idade e que era cristão; mas, porque os recados que lhe mandou, e os meios de que usou para lhe persuadir isto, foram muitos, e um deles man- dar-lhe dizer que já os convidados estavam juntos e as coisas para o chôro apa- relhadas, mas que todos se haviam de tornar, e o chôro se não havia de fazer, se êle não ia, resolveu-se em ir, e respondeu que se estava fazendo prestes para isso. Como os que estavam juntos tiveram esta certeza, entendendo que, se Dom Pedro ia, antes de fazerem o que tinham determinado para dar princípio ao chôro, não lho havia de consentir, por ser cristão, fizeram-no sem êle, e foi que levaram ao mato algumas vacas e uma môça, muito bem vestida e adere- çada, ao seu modo, e depois de algumas cerimónias, que o diabo lhes tem ensi- nado, sacrificaram esta môça e as vacas aos reis seus antepassados». «Chegou finalmente Dom Pedro, com muita gente de guerra, (porque se não fiam estes reis uns dos outros), e alojando-se em lugar apartado da outra gente, procedeu sempre como cristão; e, porque o tempo era de quaresma, ainda que os outros comiam carne, nunca se pôde acabar com êle que a comesse. Acabado o chôro, em que houve grande abundância de comer e beber, com muitos tan- geres e bailos e outras festas, Dom Pedro se tornou para o seu reino, deixando aqueles gentios mui edificados, e com grande opinião de nossa santa Fé, e alguns •fi.j33. movidos a seguir seu exemplo e conselhos; * e em sinal disto, um grande seu amigo, que há de suceder no reino onde se fêz esta festa, lhe entregou um filho seu, para que o ensinássemos e fizéssemos cristão, como fizemos». CAPÍTULO IV Prossegue o Padre seu caminho, e o que nele lhe sucedeu «r I ^ORNANDO à minha saída do reino de Bena, vindo eu mui confiado na palavra que me tinha dado o português que disse, de me levar à Serra Leôa no seu navio, ou em uma varina que consigo trazia, não o fêz assim, dando por razão, que nem êle, nem algum dos seus tinha experiência daquela costa e barra dela, e que o tempo era de águas e ventos contrários. E assim me foi necessário cometer o caminho, parte por terra, e parte por rios
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 25 i e esteiros, indo em almadias de ilha em ilha, e de porto em pôrto, e passando alguns lugares, tão cerrados de mangues e tão impenetráveis, que para nos não perdermos, era necessário levar gente da terra, que tivesse experiência deles, e soubesse o ponto da maré, em que se havia de cometer; porque ate' o meio serve o fim da enchente, e daí por deante o princípio da vasante, e mais andam as almadias puxando a gente pelos paus que acham deante, que com os remos. Em cada sangre dêstes, que assim se chamam, gastámos três e quatro horas, maravilhan*do-me eu muitas vezes dos negros que nos guiavam, que eram tantas *fi. s33v. as voltas que davam com as almadias para uma parte e para outra, que não sei como lhes bastava a memória para não errar os passos, especialmente uma vez, que passámos de noite pela conjunção da mare', ainda que fazia luar e levávamos algumas luminárias». «Nestes princípios, pareceu-me isto trabalhoso, e desejava chegar já a terra firme, cuidando que me custaria menos caminhar por ela; mas não foi assim, porque, como a chuva era contínua; àlém de virmos quási sempre molhados, en- contrávamos tão grandes lagoas, que era necessário muito tempo para as passar, o que eu fazia sobre os ombros de algum negro, alto de corpo que escolhia, por me não molhar; e pôsto que em algumas ribeiras e passos, onde se não tomava pé, achávamos algum modo de pontes, eram elas tais e de paus tão delgados e mal atados, que nos convinha ir por êles muito atento, sem largar a mão té um pau de pegar em outro». «Desta maneira vim caminhando, ora em ombros de negros, ora a pé, per- dendo algumas vezes o caminho, e dando em brenhas tão cerradas, que era necessário irem alguns negros deante cortando paus, e abrindo-me buracos, por onde furasse com menos arranhaduras de espinhos. Mas com estes trabalhos, sempre Deus, àlém dos favores espirituais, misturava alguns corporais, com o bom gasalhado que nos faziam nas aldeias por onde passávamos; e em particular no-lo fêz o grande Fatema, rei dos Boulões, o qual achámos fora da povoação, em que tem o seu assento em um chicale, que assim chamam as aldeias pe- quenas». «Aqui chegámos de noite, alumiando-nos não com tochas de cera, senão de palha; porque destas se servem cá, sem se aproveitar da muita cera que teem. Saíu-me o rei a receber, abraçando-me, com mostras de muito amor, porque já nos conhecíamos de outra vez que nos tínhamos visto. Deume muitos parabéns da * vinda, levou-me pela mão a uma casa que tinha mandado aparelhar, com • fl aj,. grande fogueira, como êles costumam, para me enxugar e aquentar. Tive com êle grandes práticas sôbre o negócio de sua salvação, trazendo-lhe à memória algumas coisas que já lhe tinham declarado àcêrca de nossa santa Fé. Mos- trou-se mui lembrado delas e desejoso de ser cristão. Disse que primeiro queria fazer outra povoação, em que morasse a par do mar, para que com mais faci- lidade pudesse eu i-lo lá ensinar. Pretendeu deter-me ali alguns dias; escusei-me o melhor que pude, pelos grandes desejos que levava de acabar aquela jornada. Despedido dêle, e estando já aparelhado para me partir, chegaram não sei quantos velhos cassanes de sua casa, e depois de algumas desculpas que me deram da sua parte, do pouco gasalhado que me fizera, a principal das quais era estar fora de sua casa, me ofereceram uma manilha de oiro, que me mandava para os
  • 252 Livro quarto gastos do caminho. Tomei a manilha nas mãos, rindo-me, e tornando-a aos que ma trouxeram, mandei dizer ao rei que lha agradecia muito, mas que nós não vínhamos buscar oiro, nem outras coisas da terra, senão al- mas para o Ce'u, e que mais estimaria levar lá a sua, que todo o oiro que êle tinha e todo o que havia no mundo. Maravilharam-se disto assim êle como os seus, e acabaram de entender que somente tratávamos da salvação de suas almas». «Neste reino achei um cristão crioulo, da ilha de Santiago, que havia muitos anos vivia como gentio, sem mais diferença que enxergar-se nele ainda algum lume da Fé. Estranhei-lhe, quanto era razão, o estado em que estava, e o não se ter ido confessar comigo, depois que vim a estas partes, podendo-o fazer. Conheceu-se e humilhou-se, e prometeu que viria cumprir com esta obrigação, • fi. i34 v. e que traria consigo um filho que tinha, de de*zassete, ou dezoito anos, para eu o baptizar e instruir nas coisas de sua salvação, o qual cumpriu daí a algum tempo; e o filho, depois de baptizado, ficou encarregado a um português casado, que o cria e ensina com muita caridade, e êle se foi a buscar isso que tinha, para se vir morar entre os cristãos». «Também achei um alemão, que tomaram com certos corsários, nas ilhas que chamam dos ídolos, pertencentes ao mesmo Fatema; e por ser grande tan- gedor de trombeta bastarda, lho mandaram. Falava já bem a língua da terra, e vivia como os outros gentios, tão contente, que nem consentimento quis dar para que eu o pedisse(i) ao rei; e também fôra dificultoso tirar-lho das mãos, porque ia ensinando a tanger a alguns moços da terra. E lástima ver como andam estes homens entre gentios, sem se lembrar[em] que são cristãos, e sem se quererem apartar dêles, pela largueza e liberdade de consciência em que vivem. Em Bena achei três ou quatro, tão arreigados na terra, que por mais que fiz pelos tirar dela, com nenhum dêles o pude acabar». «Desta maneira vivem, e desta acabam a vida, sem Deus e sem os bens temporais, que com tanto trabalho adquirem, porque tudo herda o rei da terra em que morrem. Depois achei um índio, que há muitos anos anda nestas partes; e posto que estava em outra aldeia afastada, mandando-lhe eu pedir que se visse (2) comigo, o fêz. Repreendi-o, por andar daquela maneira, e acabei com êle, me desse palavra que se viria comigo, para se confessar e viver entre cris- tãos. Estando já para nos partir, desapereceu dali, com achaque de ir buscar • fi. 235. seu fato. Temo que * o castigue Deus, como fêz ao outro, que tendo-me dado a mesma palavra, se escondeu ao tempo da partida, e se tornou a engolfar nos vícios em que antes vivia, e nêles acabou a vida, porque aqueles de que mais se fiava, o mataram, por lograrem aquilo que tinha». «Dois dias depois de me apartar de El-Rei Fatema, me fês o Senhor mercê que acabei a última jornada, com tão boa disposição, como se viera dalguma recreação, e com tanta alegria e consolação, quanta se pode cuidar receberia com a vista do Padre Manuel Alvares, que para mim foi, como se Deus me mandara visitar por um anjo do Céu, assim por me ver já com companheiro, (1) Ni.: pedisse disse. (2) Nt.: viesse.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 253 e tal companheiro, como por haver perto de três anos, que me não confessava, e o poder já fazer com êle. Do alvoroço do Padre, quando me viu, e da caridade com que me recebeu, e gasalhados que me fêz, pudera dizer muito, se não fôra isso tão próprio dos filhos da Companhia, quando se ajuntam em semelhantes peregrinações». «Do pôrto em que estava, nos fomos pouco depois para o da ilha de Cara- core de El-Rei Dom Pedro, por termos ali casa e igreja, e sermos lá mui dese- jados dos portugueses e mais cristãos que ali moram. Visitámos de caminho o rei que estava em outra povoação da terra firme; recebeu-nos com grande alegria e mostras de amor; e porque o achámos mal disposto, procurámos persuadir-lhe que se mudasse para a ilha, e lá fizesse seu assento entre os cristãos, pois êle também o era». «Deu-nos palavra disso, e assim o cumpriu dentro de poucos dias, de que se seguiu muita glória de Deus e bem das almas de seus vassalos; porque, como de todo o reino acodem a êle, serve isto de ver as imagens e ornato delas, e os divinos ofícios, que celebramos na igreja, e o modo com que procedem no cris- tianismo os já con*vertidos, e de ouvirem as prègações e doutrinas, e o que nelas *fi. j35v. se trata àcêrca de seus enganos, e da verdade de nossa santa Fé; e assim se começaram logo a fazer muitos baptismos, entre os quais foi mui notável o de um negro, que era mestre de todos, e o mais sábio das cerimónias de seus ídolos. Vindo êste a Caracore, porque sua morada era em outra parte, notou mui par- ticularmente as coisas que viu na igreja, e ouviu em uma doutrina; e ficou tão alumiado e tão tocado de Deus, que logo pediu com muita instância o santo baptismo; mas quisera que se não soubesse esta sua pretensão, senão depois de baptizado, por temer que alguns lho impedissem, especialmente o filho do rei, herdeiro do reino, que o tinha consigo como oráculo; mas pareceu-nos melhor que o baptismo se fizesse publicamente, para mais confusão do diabo e dos gentios, que tanto caso faziam dêste seu mestre; e assim se fêz, depois de bem catequizado, e de se dar conta de sua conversão e desejos a El-Rei, deante do mesmo seu filho, que êle temia. O rei festejou esta conversão, como coisa mila- grosa, alevantando as mãos ao céu muitas vezes, dando graças a Deus pela luz que comunicara a êste seu vassalo. O filho não somente não foi contra isso, mas mostrou e ofereceu para o mesmo também o filho morgado, que é de pouca idade; mas, porque o menino começou a chorar com mêdo, dilatámos seu bap- tismo para outro tempo». «Baptizado Manuel, que assim lhe pôs nome o Padre Manuel Álvares que o baptizou, foi logo à sua aldeia a buscar o ídolo que lá tinha; e trazendo-o, o deitou no chão, deante do Padre e de outros que se acharam presentes, e pôs em cima dêle os pés, confessando sua cegueira e mostrando grande sentimento do tempo que viveu nela. Ajudando-se dêste exemplo, Dom Pedro(i) dizia muitas vezes aos seus, para lhes persuadir que * deixassem suas falsidades e recebessem(2) «fi.236. nossa santa Fé: — ^ Eu não adorava em Manuel Cubé e tinha por infalível o que me dizia? Ei-lo agora cristão; já zomba de tôdas as chinas, já as põe debaixo dos pés». (1) Nt.: q D. Pedro. (2) Nt.: recebemse
  • Livro quarto «Tem-nos maravilhado a constância dêste novo soldado de Cristo nos tra- balhos que Deus permitiu padecesse, depois de ser cristão. Alguns gentios, que sabiam a prosperidade em que antes vivia, e vêem agora as adversidades que chovem sobre êle, tomam daqui ocasião para condenar o que fêz, e lho lançar em rosto; mas, pela bondade de Deus, assim se há em todas estas coisas, que pode ser exemplo a muitos cristãos antigos. Os portugueses que antes o conhe- ciam, e agora o vêem tão inclinado às coisas de Deus, tão devoto, humilde e exemplar, não se fartam de louvar ao Senhor, e dar-lhe as graças pelo que tem obrado nêle; e as mesmas lhe dá êle continuamente, por se ver fora do cativeiro em que vivia, quando era gentio; porque, espantando-o antes o diabo muitas vezes, especialmente em sonhos, e não lhe aproveitando os remédios que fazia, para se ver livre dêle, nunca mais sentiu isto depois que recebeu o santo bap- tismo. Ria-se também de si mesmo, porque tinha mandado que, quando mor- resse, o enterrassem com suas armas, para se defender com elas do diabo no outro mundo. Tal é a ignorância dêstes gentios, e tal a opinião que teem da outra vida, o qual não é pequeno impedimento para sua conversão; porque todas as coisas de lá medem pelas de cá, cuidando que são corporais, e que assim usam delas na outra vida, como usavam nesta; nem se persuadem que há inferno, senão que todos os que morreram, vão aonde está Deus; e quanto cá eram maiores, tanto lá valem mais com êle; e assim, em seus trabalhos, se encomendam a êles, • fi. a?6v. como já disse, e lhes fazem algumas ofer*tas, para que roguem a Deus os livre dêles». «Mas, para acabar o que ia dizendo do nosso Manuel Cubé, primeiro buscou a Deus pelo santo baptismo, como fica dito, e depois, segundo a ordem da cari- dade, trouxe a êle uma só filha que tinha, de seis ou sete anos; e dos outros próximos procura trazer quantos pode, fazendo oficio de pregador, onde quer que se acha». «Foi também de muita edificação, e causou em todos grande espanto a con- versão de um filho de El-Rei Dom Pedro, que há anos vive por si, e é senhor de vassalos. Este tinha já dois filhos cristãos, que nós baptizámos; e parte pelo que êles lhe diziam, parte pelo que êle via e ouvia em Caracore, achando-se muitas vezes presente aos divinos ofícios, e ouvindo as prègaçóes e práticas da doutrina cristã, ia cada vez mais afeiçoando-se à nossa santa Fé; e, posto que dissimulou algum tempo a vontade que Deus lhe dava de ser cristão, não podendo encobrir mais estes desejos, deu conta dêles a El-Rei seu pai, que se alegrou sobremodo com sua conversão; e, para mais o confirmar nesta vontade, lhe disse muitas coisas (i) em louvar de nossa santa Fé, conforme a luz que Deus lhe tem comunicado, e, para que acudissem a êle e o festejassem, como merecia. Fize- ram-no assim não somente estes, mas também outros muitos que o souberam trazendo todos seus presentes, e os instrumentos que tinham de festa. Foi esta conversão de muita importância e glória de Deus; porque, como a gente era muita, e o que se baptizava, temido de todos, por ser grande comedor de carne humana, e executor dos castigos que se davam aos malfeitores, maravilhavam-se • fi. i3?. de o ver tão mudado, e de lobo convertido em cordeiro, e diziam que era gran*de (i) Nt.: muytas vezes.
  • Das coisas da Guiné e Serra Lcôa ■2 55 o Deus que tais mudanças fazia, porque logo abominou êste costume tão bárbaro, e se vestiu da piedade cristã, e lançou fora de sua casa as vasilhas e instru- mentos desta abominação». «Mas, porque não pareça que só êle a conservava, tocarei aqui brevemente a origem dela. Haverá obra de sessenta anos, que certa nação de gente bárbara, por não caber já nas terras em que nasceram e se criaram, saíram para buscar outras para sua vivenda. Estes em Congo se chamam jacas, e em Angola, gindas, na índia, zimbas; na Etiópia do Preste João, galas 5 e nestas partes, çumbas, o qual nome mudaram em manes. Seu comer, quando vinham cami- nhando, era carne humana, a qual coziam com palmitos, ou olhos de palmeiras, despovoando desta maneira as terras por onde passavam, de seus moradores, e destruindo os palmares que são como vinhas e olivais entre nós, porque destas palmeiras tiram o seu vinho e azeite. Na guerra usavam as adargas de rota, tão grandes, que lhe cobriam o corpo todo; e para meter espanto e temor à gente, nenhum havia que não levasse algum pe, ou mão, ou outro membro humano entre os dentes, atravessado na boca; a qual vista bastava para pôr em fugida grandes exércitos, que lhe saíam ao encontro. Estes, depois de destruir o reino do Congo, em tempo de El-Rei Dom Bernardo, governando êste reino de Portugal a rainha Dona Catarina, vieram conquistando as terras e reinos vizi- nhos ao mar, ficando uns em uma parte, e outros em outra, até chegarem a esta Serra Leoa e reinos vizinhos a ela, onde pararam, por acharem a terra fértil e de bons ares». «Assentados já e quietos nestas partes, foram pouco e pouco deixando o uso de comer carne humana; mas, atègora, nem eles nem seus descendentes o dei- xaram de todo, porque ainda comem * os que matam na guerra, ou por algum . Ki. 2t7 v. delito que cometem. Dos capitães que vieram com esta gente, só vive El-Rei Dom Pedro, que parece o guardou Deus atègora, e lhe vai conservando a vida, com forças de mancebo, passando já de cento e trinta anos, para ser glorificado nêle, e o tomar por instrumento para a conversão desta gentilidade. Êle me disse que puseram dez anos no caminho, por causa da guerra que vinham fazendo por onde quer que passavam, e está ainda lembrado do castelo da Mina, e dos tiros, com que se defendeu deles®. «Ainda que somente pretendi dar notícia desta gente, pelo que toquei da carne humana que comiam, serve(i) também para se estimar mais o que Deus vai obrando neles; porque, quanto é maior e mais antiga a posse que o diabo tem de suas almas, tanto deve ser mais glorificado o Senhor, por os livrar dêste cativeiro, e os fazer ovelhas de seu rebanho pelo santo baptismo». «Mas, tornando ao nosso Dom Cristóvão, filho de El-Rei Dom Pedro, que assim se chama o novo soldado de Cristo, de que ia tratando, a primeira coisa que fêz, depois de ser cristão, foi persuadir a tôda a gente de sua casa, que fizesse o mesmo que êle tinha feito; e assim nos trazia cada dia ora uns ora outros, para os catequizar e fazer cristãos. Nestes entraram três filhos seus, além dos dois que disse, e suas mães; e aonde quer que se achava, fazia o ofício de prègador, engrandecendo as coisas de nossa santa Fé, e declarando a (1) Nt.: seruia.
  • 256 Livro quarto cegueira e enganos em que vivem os que não são cristãos. Indo ao reino de Dom Filipe, e visitando-o, vieram a tratar desta matéria; e, porque estavam pre- sentes alguns gentios, tomando a mão, disse muitas coisas contra as suas chinas, e contou, que antes de ser cristão, sempre sonhava com o diabo e coisas espan- * fi. 238. tosas, e que, entre os outros enganos em que * vivia, um era que, se comesse com alguma mulher, ou partisse com ela do que comia, logo havia de inchar e morrer; mas que, depois que recebeu o santo baptismo, dormia muito quieto, e dava do que comia às mulheres de sua casa, sem lhe vir por isso mal algum; e juntamente se mostrava magoado pelo que tinha gastado com as chinas, cui- dando que sua vida e saúde e o bom sucesso de suas coisas dependia delas. E não mostravam pouco estas práticas e outras semelhantes, porque com elas movia ora uns ora outros a que desejassem e pedissem o santo baptismo». «Êste zêlo lhe começou Deus a pagar logo; porque tendo-o deixado grande parte de seus vassalos, por ser coisa usada nestas partes, quando a gente forra desgosta de um senhor, passar-se para outro; tanto que souberam ser já cristão, logo se tornaram para èle, trazendo-lhe seus presentes, e dando-lhe os parabéns da mercê que Deus lhe fizera, e oferecendo-se para o servir toda a vida. Foi também visitado de outros muitos, assim parentes como amigos, louvando todos a mudança que fizera, e mostrando desejos de o seguir. El-Rei Dom Pedro, seu pai, não havia contentamento que lhe chegasse a o ver e ter a par de si; punha-o á mesa consigo, aconselhava-se com êle, e fazia-lhe outros favores, em que o avantajava ao morgado. Falando com os portugueses o dia de seu baptismo, dizia: — Os Padres me deram hoje um filho, que eu nenhum tinha —entendendo que os não conhecia por tais, emquanto não eram cristãos; e, para declarar mais o amor que lhe cobrava, e a conta que fazia dêle, chegou a lhe prometer que a êle só havia de descobrir, antes de sua morte, onde tinha o seu tesoiro, que é o último a que estes reis chegam. Finalmente, oferecendo-se um negócio com * fi. 238 v. Fatema, rei dos Boulões, não quis mandar outro a o tra*tar, senão a êle, parte para o honrar, e parte por ser sobrinho dêste rei, filho de uma sua irmã, mulher que foi sua. Levou Dom Cristóvão em sua companhia tôda a sua gente cristã, vestidos à portuguesa, e com êles um filho de mesmo Fatema, que êle tinha criado em sua casa, e trazia-o também a baptizar com os outros, pedindo-lho assim seu pai». «Foi grande a festa com que Fatema o recebeu, e as honras que lhe fêz; assentou-o a par de si, e quis que comesse com êle, dizendo-lhe que já era maior que êle, pois era filho de Deus. Tôdas as quais coisas Dom Cristóvão notava, e delas tomava ocasião para se confirmar mais na Fé que recebera, dizendo que verdadeiramente conhecia quão grande era o Deus dos cristãos, pois pelo bap- tismo que recebera, lhe fazia tantas e tão grandes mercês. Fatema se alegrou muito, quando viu o filho cristão e vestido à portuguesa; e porque o menino se mostrava contente, e falava algumas coisas em louvor de nossa santa Fé, disse por graça a Dom Cristóvão: —Os Padres tomam-nos os filhos; e depois de os fazerem cristãos, com êles nos fazem guerra». «Despediu-o finalmente com algumas dádivas e grandes mostras de amor, respondendo a El-Rei seu pai que, pois todos, antes que fossem cristãos, se aconselhavam com êle, e iam por onde os guiava, com muita mais razão o deviam
  • Das coisas da Guiné e Serra Leoa fazer agora que era cristão e filho de Deus; e que, quando a êle lhe parecesse, viria a seu reino ver-se com êle, para tratar mais em particular do que lhe man- dara dizer, e de outros negócios que também lhe importavam muito». "No tempo em que Deus ia obrando estas coisas, chegou a estes reinos uma caravela da ilha de Santiago, com cartas do governador e outras pessoas, em que me diziam ter o Senhor levado para si ambos os Padres que lá estavam. Não sei com que palavras possa declarar a V. R. * a desconsolação que recebi com *fi. 339. esta nova, e o sentimento que tive de perder tão bons companheiros, e aquela ilha tão grandes obreiros. Seja o Senhor louvado, que assim o ordenou por seus secretos juízos. Antes de saber que eram vindos à ilha, tinha eu escrito, que logo como chegassem, se saíssem da cidade, e se fossem para algum sítio dos que se teem por sadios, e nele residissem até serem provados da terra; mas não foi Deus servido que estas cartas chegassem a tempo que pudessem aproveitar, por se deterem em alguns portos mais de seis meses; e, como faltaram estes avisos aos Padres, e eles vinham dêsse reino com grande sede da salvação das almas, assim se arremessaram aos trabalhos e exercícios com que as podiam aju- dar, como se não foram de carne sujeita a doenças e morte. Porque, como aquela gente é naturalmente pia, e muitos ocostumados a se confessar com os Nossos no tempo que viveram, e outros desejavam fazer o mesmo, acudiram a êles tantas confissões, que escassamente lhes davam tempo para comer e descansar». «A este trabalho ajuntavam o das prègações aos Domingos e dias santos, e doutrinas de cada dia, e o das lições de Latinidade, e casos de consciência e outros ministérios, que são próprios da Companhia, tomando carga sôbre si, não de dois que eram, senão de um Colégio inteiro, e não em terra natural, senão mui contrária à natureza dos estranjeiros. Eles foram ditosos, pois me- receram que se possa dizer de cada um: consummatus in brevi exylevit têmpora multa. Mas eu fiquei com o amargo de sua morte, temendo que por causa dela não somente se não mandem àquela ilha outros, que levem por deante o que Deus obrava por êles, mas que alcance também isto a estas partes da terra firme, e deixem de vir a ela os obreiros de que tinha tantas esperanças, por se cuidar que os pode gastar a terra, * da maneira que aquela gastou já quatro; contra o *fi.339*. qual bastará dizer aqui que os ares de cá, especialmente os da Serra Leôa, não dão vantagem aos melhores de Portugal, e que é coisa rara morrer alguém nesta terra das doenças ordinárias nessas partes, senão ou de velhice ou de peçonha, ou de males causados do pecado da carne. E, se não digo o mais que pudera dizer, é porque não haja lá quem duvide do que disser; mas, se nisto merece crédito quem tem corrido tantas terras, a verdade é que esta é mais(i) acomo- dada para a vida humana que essas da Europa; porque nem tem os excessos de frios, que lá teem; nem as calmas de cá são molestas como as de lá, pela frescura dos ares que sempre correm; e assim nem é necessário aguar as casas, para se defender delas, nem usar de abanos e outros remédios que lá usam. Pela qual causa fui sempre de parecer, depois que vim a estes reinos, que a fundação do Colégio se fizesse em algum dêles, salvo se na ilha se achasse algum lugar sàdio e de bons ares, donde os Nossos pudessem sair a exercitar seus ministérios». (1) Nt.: a mais. 29
  • 258 Livro quarto CAPÍTULO V Do procedimento na Fé de El-Rei Dom Filipe, da Serra Leòa, e do que sucedeu a suas terras tl-^ ALANDO em geral, procedeu sempre este rei, pela misericórdia divina, r~< com tanta luz nas coisas da profissão cristã, que nos deu motivo de louvar a Deus, e aos gentios de se maravilhar e animar a seguir seu •fi. 340. exemplo, como fizeram, ajudados também de suas ex#hortações, porque no zêlo de ganhar almas para o Céu, ninguém lhe leva vantagem. Com sua ajuda fizemos no pôrto do Salvador, que é o principal do seu reino, uma igreja, a maior e melhor que temos nestas partes. Acabou-se pouco antes da Circuncisão; no qual dia concorreram a ela muitos cristãos, que vieram por mar, de diversos reinos, ganhar o santo jubileu, concedido às nossas igrejas, nos dias de seus oragos. Houve pela manhã muitas confissões e comunhões, e à tarde um solene baptismo, deante de muitos gentios e de alguns irmãos do rei, que êle tinha mandado chamar, para solenizar mais esta festa. Baptizaram-se, entre os mais, algumas mulheres, que foram do rei passado e dêste, quando era gentio». «A mesma mercê fêz Deus a um velho de muita idade, que é regedor desta povoação, e há muitos anos que a governa, pelas boas partes que tem para isso; e juntamente se baptizou com êle sua mulher, que parece da mesma idade. Procedem todos com tanta edificação, e acodem tão bem às obrigações de cris- tãos, que nos causam mui particular consolação. Os irmãos do rei, dos quais alguns são senhores de muitos vassalos e terras, teem dado palavra que hão de fazer o mesmo. Alguns se vão já catequizando para isso, e sem dúvida fôra já todo êste reino cristão, se viram cumpridas as esperanças ou palavra que lhes demos, quando se tomou posse desta conquista, que haviam de vir navios e gente para povoar a terra e fazer fortaleza na Serra Leôa; porque até verem isto, não terão por firme nossa estada nestas partes». «Depois que fizemos naquele pôrto a igreja que disse, e casas para nossa habitação, fêz o rei também as suas, e logo se mudou para elas com sua gente, o qual nós desejávamos muito, por entender o que agora experimentamos, que é • fi. 140 v. grande ajuda para a conversão dêste rei*no, residir êle na mesma povoação connosco; e assim, houve depois muitos baptismos de que logo diremos, e se fizeram outras coisas de grande edificação. Adoecendo, depois desta mudança, Dom Filipe, acudiram logo seus irmãos e parentes a o visitar, e procu[ra]ram persuadir-lhe que se saísse desta povoação e se fosse curar a outra, por ser isto costume ou superstição dêstes gentios; mas não o puderam acabar com êle, e a resposta foi que êle era cristão e cria que sua saúde dependia não da mudança de lugar, senão de Deus, e que êle a podia dar, quando fôsse servido, ainda que se não mudasse dali, e assim lha deu dentro de poucos dias, com grande consolação dos cristãos e nossa». «Fizemos uma cruz de madeira, a qual êle nos ajudou a levar, e a arvorou em um lugar eminente do seu pôrto, cantando connosco as Ladainhas, e rezando deante dela com muita devoção. Perto dêste lugar estava uma china, conforme
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa ao costume dêstes gentios, que em todos os portos as teem. Esta não parou mais ali, porque não se fizesse honra ao diabo, deante da santa cruz, em que foi vencido. O mesmo oficio se fêz a outras que se descobriram, assim na povoa- ção, como fora dela. Foram-se também desterrando as cantigas gentílicas, suce- dendo em lugar delas, a santa doutrina de dia na igreja, e de noite em um lugar público da aldeia, aonde, além dos cristãos, concorriam também muitos gentios, seguindo o exemplo de seu rei; e dali saíam com desejos de ser cristãos, os quais a divina bondade cumpria depois a alguns deles». «Àlém das mercês espirituais que Deus tem feito a êste rei, depois da sua conversão, também lhas tem feito grandes no que toca ao acrescentamento dos bens temporais e de seu estado, uma das quais foi passarem-se para êle quási todos os vassalos de um seu irmão que, por ter tanta gente, era o mais poderoso e temido * daquele reino. Foi isto mui notado dos outros reis seus vizinhos, *fi. 341. atribuindo todos a ser êste cristão». «Como estes reinos se comunicam muito por mar, e sabem uns o que passa nos outros, a fama que alguns levam das coisas que veem e ouvem de nossa santa Fé, e do bom procedimento daqueles que se convertem a ela, move aos ausentes a desejar êste bem de que carecem. Quando morreu o pai dêste rei, vieram a o chorar algumas pessoas principais de outro reino que está àlém do cabo Ledo na costa de Malagueta. Estes se acharam algumas \ezes presentes aos ofícios divinos, práticas e baptismos que fazíamos; e ficaram tão ofeiçoados às coisas de nossa santa Fé e aos bons costumes que viam nos cristãos nova- mente convertidos, que se não fartavam de engrandecer a mercê que Deus fizera a êste rei, e encomendar-lhe que fizesse muito caso de nós, porque eram mui grandes as coisas que ensinávamos, ajuntando a isto que êles, depois que fossem a sua terra com a resposta da embaixada que lhe trouxeram, haviam de tornar a dar volta com suas famílias para se fazerem cristãos, e viver no seu reino entre cristãos; e assim o fizeram êste ano alguns, e se andam dispondo para receber o santo baptismo, e outros ficarem esperando um navio que há de ir lá em Ou- tubro ou Novembro, para vir nele e fazer o mesmo». ,Em outro reino que está àlém do Lóguos, fêz também grande abalo o que ouviam aos que iam de cá; e porque muitos dos principais se mo\ eram a ser cristãos, o rei que também o desejava, me mandou pedir por diversas vias qui- sesse ir lá e fazer igreja no seu reino, para os ensinar e baptizar. Mas, como não somos mais que dois, e não podemos deixar esta nova cristandade, imos dilatando isto até que o Senhor mande outros que nos * ajudem a repartir o pão • fi. 141 v. da vida a estes e a outros que teem fome dele, e no-lo pedem, não sem grande sentimento nosso, por lhes não poder acudir». «No ano de 609 se fêz neste reino de Dom Filipe muito fruto, e houve algumas conversões de muita glória de Deus, de irmãos e parentes dêste rei. A primeira foi de uma sua irmã, mulher de muita prudência e ânimo varonil, a qual era mui conhecida naqueles reinos e respeitada de todos. Esta, sendo ainda gentia, depois que entendeu as obrigações dos cristãos, foi grande parte para que se efeituasse o casamento de Dom Filipe na lei da graça, e pela que então viu e ouviu, de nossa santa Fé, se resolveu de a receber, e me deu palavra que, como pusesse em ordem suas coisas, tornaria, para eu a ensinar e baptizar.
  • 26o Livro quarto Viu-se depois comigo algumas vezes, e eu a fui catequizando; e posto que uma destas vezes quisera que eu a baptizara, deixei de o fazer, porque ainda se não vinha de assento para a povoação em que tínhamos nossa casa e igreja, e não me pareceu que convinha, depois de ser cristã, viver fora dali entre gentios. Mudou-se finalmente, movida de grandes desejos que tinha de receber o santo baptismo, para o qual El-Rei seu irmão, depois de preparada para êle, a foi buscar a sua casa com os portugueses da povoação, e outra muita gente, e a trouxe à igreja com extraordinária alegria. Notaram todos o grande entendi- mento desta senhora, e a luz que Deus lhe tinha comunicado de nossa santa Fé, pelas coisas que lhe ouviram dizer, antes e depois do baptismo, da verdade que seguem os cristãos, e da falsidade das chinas e ídolos em que crêem os gentios. Chamou-se Dona Filipa de Leão, imitando seu irmão de nome, assim como o •fi. 24J. imitava na Fé. Foi seu baptismo mui festejado, e a fama dêle causou * grande espanto nos reis e senhores que a conheciam. Vindo a noticia a uma irmã de El-Rei Farma, disse estas palavras: — Mobora (que assim se chamava, sendo gentia) é já cristã; ^quem haverá agora que o não seja? — E assim se viu dêste dia por deante, como diremos no decurso desta carta. O outro seu irmão que depois se seguiu, é o que há de suceder no reino a Dom Filipe; pela qual causa dese- jávamos muito a sua conversão, para que se fôsse continuando a Fé de Cristo nas cabeças daquele reino. Este, algumas vezes que tratei com êle dos seus enganos, e da verdade da lei cristã, sempre declarou que o entendia assim, e me prometeu que havia de receber o santo baptismo, para o qual o ajudou muito achar-se algumas vezes presente às pregações e doutrinas, e aos baptismos de outros. Acabou finalmente de se resolver, vendo já cristã Dona Filipa, sua irmã e companheira muito tempo na povoação em que morava. Sabia El-Rei seu irmão estes desejos que tinha, e andava esperando alguma ocasião boa para o efeito dêles. Esta teve da maneira que direi». «Estando o Padre Manuel Alvares comigo no reino de Dom Pedro, tivemos aviso de outro irmão de El-Rei Dom Filipe, que estava para vir da serra, aonde tem suas terras, ao porto do Salvador, para receber ali o santo baptismo que, muito tempo havia, desejava. Sabido isto, ordenei ao Padre que fôsse recolher aquela ovelha no curral de Cristo. E porque a todos os que se baptizam, ves- timos, para que mudem o hábito gentílico, dei ao Padre para êle um vestido de sêda, que tinha guardado para o primeiro baptismo que se oferecesse de alguma pessoa nobre. Foi o padre recebido de El-Rei com grande alvoroço e alegria; • fi. 24a v. e, porque não era ainda chegado o catecúmeno da serra, por alguns estorvos * que teve (que são impedimentos que sempre o diabo inventa a semelhantes obras) tratam ambos do outro irmão, concordando que aquela ida fora ordenada por Deus para se cumprirem seus desejos. Toma El-Rei o negócio à sua conta, parte-se para a aldeia do irmão que dista do pôrto obra de uma jornada, de- clara-lhe a causa da sua vinda. Alegra-se Setuão (que assim se chamava), res- ponde que logo quer mandar recado a certo português seu amigo que estava em outro pôrto dez ou doze léguas dali, para que venha ser seu padrinho. Dá El-Rei volta para onde deixara o Padre, pede-lhe alvíçaras do que deixava feito, e apa- relha grandes festas para o baptismo que, ao mais cedo, cuidava podia ser daí a dez ou quinze dias, pela detença que havia de haver em levar recado ao por-
  • Das coisas da Guiné e Serra Leoa 261 tuguês e em sua vinda. Mas Deus ordenou isto de outra maneira, porque escas- samente El-Rei se tinha despedido, quando os vassalos de Setuão lhe trouxeram recado que no mar aparecia um batel de portugueses. Alevanta-se com grande alvoroço, vai-o esperar ao porto, vê nêle a seu padrinho. Maravilha-se de vir naquela conjunção, antes de lhe mandar recado, tem aquilo por obra de Deus, não se farta de dar graças ao Senhor, recebe o hóspede com grande alegria, dá-lhe conta de seus desejos e do que tinha assentado com El-Rei seu irmão. Agasalha-o em sua casa; gastaram a noite em falar de Deus e das coisas de nossa santa Fé. Nisto o diabo com uivos espantosos declarava o sentimento que tinha da mudança de Setuão e da que outros muitos depois haviam de fazer, seguindo seu exemplo». «Vem-se chegando a manhã, arde o bom catecúmeno, faz alevantar o pa- drinho, embarca-se com êle sem dizer nada aos seus; e posto que na viagem o mar se embraveceu de tal maneira, que ao português parecia * temeridade ir *fi. j43. por deante, e quer já algumas vezes retirar-se a algum pôrto abrigado, êle o tirou disso com seu grande ânimo e com a confiança que tinha em Deus que os havia de levar a salvamento. Chegaram finalmente ao pôrto do Salvador com não pequena admiração de todos, especialmente do Padre que, pelo que El-Rei lhe tinha dito da detença que havia de haver, pretendeu passar entretanto ao reino de Dom Pedro, e para isso tinha embarcado aquele dia pela manhã os ornamentos, estando o tempo sereno, mas impediu-lhe Deus a ida com a tem- pestade de que atrás fiz menção. Estando já recolhido, à noite sentiu reboliço na povoação, e antes de saber a causa, chega a êle um português, e diz-lhe com grande alvoroço:—Padre, isto é milagre. Deus impediu hoje a ida a Vossa Re- verência para que o achasse aqui Setuão: aqui está, já é chegado com seu pa- drinho, para receber o santo baptismo. — Maravilhou-se o Padre; e depois de louvar a Deus e lhe dar graças por êste benefício, ordenou que se recolhesse para tratar o dia seguinte com êle, e o preparar para a mercê que Deus lhe queria fazer». «El-Rei Dom Filipe, vendo o fervor de seu irmão, não se fartava de o abraçar, e declarar com sinais exteriores a alegria que sentia em sua alma. Agasalha-o em sua casa, gasta com êle grande parte da noite em louvor de Deus e em lhe declarar a verdade de nossa santa Fé, e a falsidade e engano das coisas em que antes criam. Chegada a manhã, vài-se com êle à igreja, e acham nela o Padre; renova-se a alegria de todos, louvam juntos ao Senhor, pedindo-lhe que, pois aquela obra é sua e êle a começou, lhe dê o fim desejado.—Padre, diz Dom Filipe, não dilatemos isto, porque não no impida o diabo, com suas artes e manhas; meu irmão está bem instruído, e Deus lhe tem dado grande conhe- cimento de si e de sua santa Fé; e não deseja outra coisa, * senão ver-se filho *fi v. seu. Se para algum baptismo é necessário encurtar o tempo, êste é—. Pede-lhe isto mesmo o catecúmeno; pedem-lho os portugueses e todos os mais cristãos que ali estavam». «Deu-se o Padre por obrigado a cumprir tão justa petição; tomou aquele dia para o preparar, trazendo-lhe à memória as coisas que antes lhe tínhamos ensinado, e engrandecendo-lhe o benefício que Deus lhe fazia; e porque não se detivesse pelo vestido, dá-lhe o que levava para o outro irmão seu da serra. Chegada a hora da doutrina, depois de jantar, e dado sinal para ela, eis vem o
  • 2Ô2 Livro quarto catecúmeno acompanhado de El-Rei seu padrinho e outros portugueses, e de * outra muita gente, assim crista como gentia, com muitos instrumentos de festas, e êle vestido à portuguesa com tão alegre semelhante, que parecia outro do que antes eras. «Fêz o Padre a doutrina, e depois o baptizou com mui grande consolação, segundo me disse, suspirando muitas vezes com desejos de que me achara eu também ali; e por graça me contou, falando da candura e zêlo de El-Rei, que estando todos na doutrina de joelhos e com as mãos alevantadas, porque via que sua irmã Dona Filipa não tinha cruzados os dedos polegares, se foi a ela, parecendo-lhe que era isto necessário, e concertando-lhos, lhe disse que daquela maneira os havia de ter. Vendo também, no tempo em que o Padre estava fa- zendo esta doutrina, uma pessoa de sua casa ainda gentia, que a estava ouvindo à porta da igreja da banda de fora, se foi a ela e a meteu dentro, para que a ouvisse melhor». «O dia seguinte depois do baptismo, veio Dom João, que assim se chamou, acompanhado de seu padrinho, tomar a bênção do Padre, depois da qual lhe pediu seu rosário, relicário e alguma imagem para fazer oração deante dela. •fi. 244. Pareceu bem que o padrinho o tor*nasse a levar à sua terra, e entregasse já cristão aos seus, declarando-lhes a razão que tinham de o estimar agora mais que antes, quando era gentio, e exhortando-os a que seguissem seu exemplo. Foi geral o aplauso e alegria com que foi recebido dos seus; ainda que o diabo não deixou de fazer seu ofício, porque um seu capitão que êle muito estimava, não aprovou a mudança que tinha feito, e com mostras de sentimento lhe disse: — quem sairá agora convosco à guerra? ^Quem pelejará?,) Quem vos defen- derá de vossos inimigos? Quem?—Disse o padrinho: — D. João é agora melhor, pois é filho do verdadeiro Deus —. E a êste propósito declarou em presença de todo o povo quão cegos viviam, pois criam que os cominhos, peles e mais coisas que levavam à guerra, tinham virtude para os livrar da morte. E tais coisas lhes disse do poder de Deus e do favor que dá aos que nele crêem, que o capitão e todos os mais se renderam, confessando que não havia outro Deus senão aquele em que criam os cristãos, e mostrando desejos de serem filhos seus e seguir seu senhor, na Fé que professava, o qual cumpriram depois muitos dêles, como adeante se verá». «Entra depois disso Dom João em sua casa, quebra e converte em cinza todos os ídolos que acha nela, e em seu lugar manda arvorar uma formosa cruz, a qual adorou prostrado por terra com grande devoção e fé. Despediu-se final- mente o padrinho dêle, dando-lhe alguns avisos que lhe pareceram necessários para ordenar cristãmente sua vida; e segundo depois contou, não faltou ao de- mónio vontade de se vingar dêle no mar, e por lhe não ser dada licença para isto, ao menos pretendeu espantá-lo, tomando uma figura que não era de homem nem de peixe nem de outro animal, mas composta de diversas feições e membros, • fi. 344 v. e nela lhe aparecia, indo deante do * batel, não sem grande temor dos que nêle iam; e entenderam quanto êste inimigo sentiu tirar-se-lhe das mãos aquela prêsa, e abrir-se porta nas suas terras, para o deixarem muitas almas, e seguirem [a] bandeira de Jesus, seu verdadeiro capitão».
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 263 CAPÍTULO VI Do que mais fé{ El-Rei Dom Filipe em seu reino, e conversões que nêle houve «\ TÃO se contentava Dom Filipe com empregar seu zêlo na conversão(i) dêstes seus irmãos e de outros que adeante direi, mas tambe'm em per- A ™ seguir os herejes e piratas que vinham ao seu reino, sendo assim que nenhum rei daquela costa os favorecia mais que êle, antes de ser cristão. Che- gando êste ano ao seu pôrto principal um navio de estranjeiros, soube dos que o foram reconhecer, que eram herejes, e que a fazenda que traziam era roubada aos portugueses. Dissimulou com êles, deixando-os sair em terra, mas ao tempo que se quiseram recolher, deu neles com sua gente, indo na deanteira, sem temor dos mosquetes e mais armas que levavam; e pôsto que alguns escaparam mal feridos, os mais pagaram seus latrocínios com a vida». «Avantajou-se pouco depois em outra sorte, porque, vindo ter ao mesmo pôrto outro navio também de piratas herejes, deu nele, e depois de o abalroar com suas embarcações, os matou todos, tirando um menino que nos entregou, para que o reduzíssemos à nossa santa Fé, e o criássemos com o leite da santa doutrina. Esta tomou o menino tão bem, por ter grande habilidade, que a pode já ensinar a outros». # «Antes que passe adeante, quero contar um caso que aconteceu no reino #fi.s45. de Farma, vizinho a êste. O seu pôrto, que se chama Mitomba, e há muitos anos que se habita de portugueses, e é frequentado de navios que vão a êle res- gatar negros, marfim e outras coisas da terra, e por esta causa El-Rei que reside três jornadas dêle, assim pelo que ouve aos portugueses que tratam com êle, como pelo que lhe dizem os seus que vão aos reinos em que nós residimos: tem mostrado grandes desejos de nos ver e ter a par de si, e se ofereceu algumas vezes a nos fazer igreja em qualquer parte do seu reino que quiséssemos». «No tempo em que Deus o tinha disposto desta maneira para receber nossa santa Fé, veio ao seu reino um ministro de Satanás, a que os moiros de Ber- beria chamam cacizes, e os de Guiné bexerins; êste tratou com êle, e tais coisas lhe prègou da maldita seita de Mafoma, que o rendeu e fêz seu discípulo, crendo e pondo por obra tudo o que lhe ensinava. Foi tão estreita esta amizade, que nem o rei podia viver sem ter a par de si ao bexerim, nem o bexerim perdia ocasião de tirar de El-Rei tudo quanto queria, porque nada lhe negava; e entre as mais coisas lhe deu algumas de estima, das que os portugueses levam àquelas partes». «Passados desta maneira obra de quatro meses, como os vassalos de Farma, que se tinham achado aos divinos ofícios que nós celebrávamos, e às doutrinas que fazíamos, e tinham visto o modo de proceder dos cristãos novamente con- vertidos, contavam estas coisas a seu senhor, deante do bexerim: sucedeu que um dia, falando êle com El-Rei, lhe disse grandes coisas de Europa, e dando-lhe (i) Nt.: conseruaçam.
  • 264 Livro quarto o que dêle tinha recebido, lhe disse:—Toma, Farma, o que me deste; eu vinha •fi.j45v. para te matar; o Deus * dos cristãos é coisa grande; não te matei a ti, e ma- tei-me a mim—. Acabou de dizer estas palavras, e com elas acabou a vida, com grande espanto de El-Rei e de todos os seus, com muita glória de Deus, porque conheceram quão falsa era a doutrina e lei dêste ministro do diabo, e quão ver- dadeira a que seguem os cristãos. Sobre o qual fundamento esperamos que o Senhor há de levantar uma igreja mui gloriosa naquele reino, o qual se estende pelo sertão da terra firme, como já disse em outra carta, mais de cem léguas, e confina com outros mui grandes». «Isto também prometem as mostras que este mesmo rei dá do grande con- ceito que tem dos portugueses e do muito que os ama, porque, sucedendo neste mesmo tempo pelejarem dois no pôrto de Mitomba, e matar um ao outro, tanto que o soube, depois de mostrar grande sentimento do caso, mandou logo gente de guerra para que lhe levassem a cabeça do matador. Mas, porque pareceu aos portugueses que convinha moderar-lhe aquele zelo, pelo que em outros casos podia suceder, àlém de outros meios, procuraram aplacá-lo com dávidas de que fêz pouco caso. Deixou-se finalmente vencer dos seus rogos, dizendo que, se o autor daquele malefício fôra vassalo seu, a éle e a tôda sua geração destruíra; e juntamente mandou apregoar que assim o havia de fazer, se algum lhe tocasse em algum dos seus portugueses; e em lugar da cabeça que pretendia do por- tuguês homicida, mandou fazer certa cerimónia usada deles em semelhantes casos, e foi que no lugar do homicídio mataram um animal e fizeram grande pranto sôbre o seu sangue, como se fôra do português morto, dizendo e repe- tindo que êste se houvera de derramar e não o seu». «Depois disto foi o Padre chamado ao reino de El-Rei Dom Pedro, onde • fi 246. fêz o fruto que ao deante se dirá. # Como andava em contínua missão de um reino para o outro, tornando ao de Dom Filipe onde foi recebido dêle e de Dom João seu irmão, com extraordinária alegria, por ser mui desejado lá, por ajuntar algumas almas ao rebanho das ovelhas de Cristo, como fêz por meio de algumas conversões que se seguiram de muita glória de Deus. A primeira foi de outro irmão de El-Rei, por nome Souga, do qual tenho feito menção em outras cartas, por ser o mais poderoso fidalgo daquele reino, tão valoroso e prudente, que seu pai o cometeu com a sucessão do reino; e posto que a não aceitou, foi sempre mui estimado de todos, especialmente de Dom Filipe. Este, nas coisas importantes que se tratam em público, fala em lugar de seu irmão, e fala com tanta eloquência natural, que move os ouvintes a tudo o que quer, como eu vi em alguns ajuntamentos em que me achei, especialmente quando se tratou do casa- mento de Dom Filipe na lei da graça, sôbre o qual disse tantas e tais coisas sendo gentio, que rendeu os corações de todos, e acabou com facilidade o que pretendia». «Êste passou à serra com o capitão dos portugueses e comigo, em lugar de El-Rei seu irmão, e fazendo ajuntar os fidalgos e mais moradores daquela pro- víncia, lhes persuadiu aceitassem a fortaleza que sua Majestade queria se fizesse na ponta da serra, e que dessem para ela o sítio que parece mais acomodado, e tudo o que fosse necessário. Dêste finalmente dizia o mesmo capitão que de- pendia a conversão de todo aquele reino, afirmando que, se êle se fizesse cristão, nenhum ficaria que o não fôsse. E por concorrerem nele tantas partes, dese-
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 265 jámos sempre muito que Deus o movesse a receber a santa Fé, do que êle dava boas esperanças; mas, como se governava pelas leis da prudência humana, foi dilatando isto alguns anos, queren*do primeiro ver se perseveramos da Com- • fi. 146*. panhia naquelas partes, e o sucesso que tinha a conversão dos outros». «Desta vez que o Padre tornou àquele reino, foi Deus servido que o achou com Dom Filipe seu irmão, já tão brando e tão trocado, que fàcilmente se rendeu às razões que lhe deu, e aos rogos de El-Rei e Dom João. Foi mui grande a alegria que todos receberam com a palavra que deu, e muitas as graças que deram a Deus pelo que nele obrou, desfazendo os impedimentos que havia para sua conversão. Correu logo a nova pelo reino, e foi muita a gente de toda sorte que concorreu à festa do baptismo, a qual foi a maior que té então se tinha visto. Puseram-lhe nome Dom Bartolomeu, o qual lhe quadrou bem, por despir a pele da gentilidade, e se vestir de Cristo e de sua santa lei. Foi raro o exemplo que deu depois do baptismo, zêlo com que procurou que todos os seus o recebessem, ao qual deu princípio com oferecer ao Padre dois filhos que muito amava, para que os fizesse filhos de Deus». «Além deste baptismo se fizeram outros muitos de tôda sorte de pessoas, os quais deixo, por ir continuando com os irmãos de El-Rei Dom Filipe. Dete- ve-se o Padre nesta povoação algum tempo, prègando aos portugueses, confir- mando na Fé, e animando os novamente convertidos, e exercitando os mais mi- nistérios da Companhia. Veio neste tempo visitar a El-Rei outro seu irmão, que tem uma aldeia e terras na serra Leôa, do qual acima se disse que andava mui movido para ser cristão, e tinha dado palavra disto. Em muitas coisas procedia como se fora; mas, como estava mui afastado das povoações aonde nós resi- díamos, sempre houve impedimentos para isso se efectuar. Oferecendo-se pois esta ocasião, e vendo já tantos irmãos seus debaixo da bandeira de Cristo, pa- *receu-lhe que não convinha dilatar mais os desejos que Deus lhe tinha dado». •ki.j47. «Sucedeu nesta conjunção que um português, padrinho de D. Filipe, veio de outro reino, aonde tinha ido com um navio seu. Soube Dom Filipe que era chegado a sua casa, a qual tem em outro pôrto do seu reino; trata logo de o ir visitar com seus irmãos, e acompanhar o Padre para celebrar o baptismo que tinha entre as mãos, com as mesmas festas que o português tinha aparelhado para receber El-Rei seu afilhado; o qual veio mui a propósito, porque ainda que foram grandes as que se fizeram a Dom Bartolomeu, foram muito maiores estas que se fizeram no baptismo de Dom Sebastião, que assim lhe puseram nome, por concorrerem com as da terra as que fizeram os portugueses ao seu modo. Estas continuaram alguns dias, e se renovaram, por vir nesta composição ao mesmo pôrto Dom Miguel, filho de El-Rei Pedro, de cuja conversão adeante di- remos. A êste príncipe fêz El-Rei Dom Filipe grandes gasalhados e honras, sendo assim que, quando eram gentios, nunca estavam em paz, e um fazia guerra ao outro. Mas a lei de Cristo que é de paz e união, os uniu de tal maneira, que se tratam agora como irmãos». «Entre os mais que se baptizaram, emquanto o Padre se deteve nesta po- voação, foi um mane principalíssimo, mui conhecido naquelas partes, assim (1) (1) Nt.: e assi.
  • 206 Livro quarto por ser conquistador delas, como por sua grande capacidade e prudência. Êste moveu Deus a ser cristão, assim por o que o Padre lhe tratou de nossa santa Fé, como por o exemplo de Dom Filipe e de seus irmãos. No tempo em que o Padre o estava catequizando, falou de Deus com tanta luz que, maravilhado de o ouvir, um sacerdote que ali se achou, disse ao Padre que êle na índia Oriental • H. a# r. vira muitas conversões e baptismos de gentios, mas que * nenhum vira que assim falasse de Deus como êste. Reconhecia-o por Senhor e Criador do mundo, Pai universal de todos os homens, e fonte perene de todos os bens; dizia que pois Deus era tal e tão grande, porque o não buscaria? E pois era tão bom, que queria morar na pobre casa de sua alma, <; porque o não receberia e agasalharia nela? com outras palavras semelhantes a estas que causavam grande consolação aos cristãos que as ouviam». «Procurou o demónio impedir esta obra de tanta glória de Deus com uma perturbação que sucedeu na povoação; mas acudindo o Padre, foi Deus servido que se aquietou; e o baptismo se celebrou com muita festa e alegria de todos. Por ser o dia do Apóstolo S. André, lhe puseram o nome. Ofereceu logo um filho seu para que o Padre o baptizasse e fizesse herdeiro dos bens eternos; e deu palavra que todos os de sua casa haviam de fazer o mesmo». «Pela festa do Natal, depois de o Padre aqui a celebrar, confessando e sa- cramentando aos que concorreram a ganhar o santo jubileu, se foi dêste pôrto ao de Dom João, e tratou logo com êle do sítio em que se havia de fazer a igreja; e depois de o escolher tal, que, segundo dizem, é o melhor que temos naquelas partes, e o mais a propósito para residirem nele os Nossos que forem de novo: pôs Dom João as mãos na obra, aplicando-lhe tanta gente, que poucos dias depois pôde o Padre dizer Missa nela, com tão grande consolação e tanto abalo de todos, que, se houvera vestidos para os que queriam ser cristãos, quási tôda a povoação se baptizara; mas não faltaram dia da Epifania para alguns, em que entraram dois irmãos e um filho de Dom João, aos quais o Padre pôs os nomes dos Santos três Reis Magos que naquele dia visitaram e adoraram o •fi. 348. Menino Jesus no presépio de Be*lém». «Estando o Padre instruindo estes novos catecúmenos, disse-lhes, entre ou- tras coisas, que não podia parecer bem aos gentios o que êle ensinava, se Deus lhes não abrisse os olhos da alma; e que, ainda que êle falasse coisas grandes, não obraria nada com elas, se Deus lhes não falasse no coração. Interrompeu Dom João o que o Padre dizia, e virando-se para os seus, sorrindo-se, lhes disse com muita graça: — «Quem quiser a Deus e suas coisas, agora que tem aqui o Padre, as pode meter no seu coração; todos haveis de ser cristãos; ninguém cuide que pode resistir a Deus. Eu antes zombava das coisas que os Padres me diziam, e afirmava que nunca me haviam de render; mas, depois que Deus me alumiou e me falou no coração, logo busquei o Padre, para me fazer seu filho».
  • Das coisas da Guiné e Serra Leoa 267 CAPÍTULO VII Do que fa\ia El-Rei Dom Pedro da Serra Leôa, para trazer os seus a receber o santo Baptismo «'TAINHA êste rei, antes de ser baptizado, duas mulheres principais, que muito desejava ver cristãs, uma parenta de El-Rei Dom Filipe, outra de El-Rei Fatema. A primeira, ainda que tinha muita vontade disso, e continuava a igreja e ofícios dela, por morar na mesma povoação de Caracore, e a governar em ausência de El-Rei Dom Pedro, não acabava de declarar estes seus desejos, por alguns respeitos humanos, até que El-Rei Dom Pedro, tomando a peito sua conversão, parte em al*guns desenganos que lhe deu, e parte em favores que *fi.2.»8v. lhe fêz, acabou de a render. A outra residia na povoação principal deste reino, aonde antes El-Rei Dom Pedro tinha sua habitação, e também a governava, quando êle estava ausente. Esta veio a enfermar de maneira, que ja se não fazia caso de sua vida, por ser de má casta sua doença. Trouxeram-na a Caracore, fizeram-lhe muitos remédios, sem que nenhum lhe aproveitasse, porque Deus, por esta via, a queria ganhar para si. Fazia-a trazer Dom Pedro à igreja algumas vezes, a sua instância; pediam ambos ao Padre que a encomendasse a Deus, ao qual ajuntou ela um dia que, se Deus lhe desse saúde, prometia de se fazer cristã. Foi o Senhor servido que a recebeu logo; e assim cumpriu o que tinha prometido, confessando que não havia outro Deus, senão o dos cristãos». «Baptizaram-se ambas juntas, com grande consolação de El-Rei Dom Pedro e de todos os cristãos; e trouxeram também consigo ao lavatório do santo ba- ptismo algumas criadas suas que o desejavam, para que as acompanhassem na igreja. É grande o cuidado com que acodem às prègações e práticas de nossa santa Fé, e a devoção com que ouvem os divinos ofícios, e a edificação e bom exemplo que dão, do qual não se maravilham pouco os gentios. Baptizadas estas, procurou El-Rei Dom Pedro que fizessem o mesmo outras que foram também suas mulheres; e, depois que as dispunha para isso, não se pode declarar a ale- gria com que nos vinha dar a nova, e pedir que as catequizássemos e bapti- zássemos; e o mesmo fazia, quando trazia alguns filhos seus, que eram ainda gentios, por ser costume dêstes reis não ter consigo todas suas mulheres, nem os filhos que hão delas; porque depois que nascem, suas mães os criam e sus- tentam e teem consigo, até chegar a idade, que fazem suas la#voiras e granjeiam *fi. j49. sua vida, por ser isto comum a tôda a sorte de gente. Mas, depois que chegam à idade madura, se teem partes para governar, seus pais lhes entregam algumas terras e aldeias, e os fazem senhores delas». «Uma mulher destas nos deu matéria de louvar a Deus e notar a profun- deza de seus segredos; porque, vindo a Caracore, e vendo o fervor com que suas companheiras corriam ao santo baptismo com seus filhos, ela por si, sem alguma o mover a isso, ficando em sua gentilidade, nos trouxe e entregou um menino de nove para dez anos, filho seu e de El-Rei Dom Pedro, para que o baptizássemos, criássemos e instruíssemos nas coisas dos cristãos. Nós o acei- támos, e depois de baptizado o recolhemos em casa. Sabe já muito bem a dou-
  • 268 Livro quarto trina cristã, e tem-nos cobrado tanto amor, que nos espanta, e espanta a seu pai e parentes; porque assim se há com êles, como se nunca o[s] vira nem conhecera». «Semelhante a esta mãe foi o pai de outro menino, nascido de oito ou neve dias, que, sendo gentio, nos trouxe êste seu filho, para que o baptizássemos, e ele se deixou ficar em sua gentilidade. Sua mãe deste menino a qual morava em outra aldeia desta ilha, dali a obra de seis meses o matou, e fugiu, para que a não castigassem, como merecia. Soube isto Dom Pedro na mesma noite em que aconteceu; deu-nos conta do caso, e mandou logo buscar o corpo do ino- cente, para o enterrarmos na igreja. Pizemo-lo amortalhar com o rosto des- coberto, e pôr na igreja com uma cruz doirada, e umas velas à cabeceira e uma capela na cabeça, e depois o enterramos com grande consolaçao de todos, poi se dizer haver grandes indícios que a mãe o matou, por ser cristão. E assim podemos esperar que êste santo inocente e mártir será deante de Deus mui par- • fi. 149v. ticular intercessor desta * gentilidade, para que tôda ela se converta à nossa santa Fé». «É coisa ordinária aqueles que se baptizam, trazerem os ídolos que antes adoravam, e para se vingar dêles, pisá-los, arrastá-los e entregá-los ao fogo. Nas casas de Dom Pedro acertou de aparecer um, de que êle, sendo gentio, fazia mais caso que dos outros, por ser mui antigo. Deram-nos logo rebate, e deram-no também a êle, que se maravilhou muito da novidade; e, por mais diligências que fêz, não pôde saber onde estivera escondido até então; entregou-no-lo finalmente, e nós o entregámos aos meninos cristãos, filhos seus e de outros reis e senhores, os quais com grande festa o levaram ao fogo, e lhe fizeram deante de nós o ofício que merecia, e que tinham feito a outros muitos, por ser tão grande o zêlo que teem contra êles, que os buscam por todas as vias que podem, e achando-os, a nenhum perdoam; e porque, àlem dos ídolos de pau, tem êste gentio outras chinas de terra, a modo de pirâmides, obradas não por êles, senão por certo género de formigas brancas, que não aparecem de fora, e teem por dentro suas casinhas, sem se saber que mantimento e o seu: a estas fazem também os me- ninos cristãos grande guerra, quebrando-as e desfazendo as choupanas em que estão a modo de oratórios, com não pequena admiração dos gentios, por ser grande o mêdo que teem delas; e por esta causa, quando compram algum es- cravo, a primeira coisa que fazem, é levá-lo a alguma china destas, com sua oferta de vinho e outras coisas, e entregar-lho, pedindo-lhe que, se fugir, faça que cobras, lagartos e onças o matem e comam; o qual os tristes escravos assim * fi. i5o. crêem que lhes há de suceder, se fugirem, que, por mais mal # que os senhores os tratem, não ousam fazê-lo». «Também teem grande fé em algumas peles e cominhos de certos animais, e em outras coisas que o diabo lhes ensina, a que chamam mèzinhas. Um grande feiticeiro, que curava a Dom Pedro, quando era gentio, ouvindo dizer que estava mal disposto, depois de ser cristão, veio a Caracore, para lhe fazer o mesmo ofício; mas êle, tanto que soube da sua chegada, nem consentiu(i) que lhe entrasse em casa; antes lhe mandou dizer que se tornasse logo a embarcar e se fôsse, (1) Nt.: consentir.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 269 porque êle era já cristão, e não tinha necessidade de suas mèzinhas; porque lhe bastavam as que os Padres lhe davam, para viver mais são e andar mais valente, que quando era gentio e se curava com êle. Pasmou o feiticeiro desta re[s]posta, e vista a resolução de El-Rei Dom Pedro, se tornou logo envergonhado para sua casa, e nós ficámos louvando a Deus pelo que tinha obrado neste rei, por meio do santo baptismo». «Há também em cada reino algum lugar dedicado ao demónio, aonde vão fazer os sacrifícios mais solenes. O de Dom Pedro, antes do baptismo, era um ilhéu, afastado da terra obra de uma légua, no meio de um braço de mar, por onde se comunicam o seu reino e o de Dom Filipe. Chamam-lhe Camassono, e é tão temido dos que por ali passam, que para os não meter no fundo, lhe ofe- recem, quando chegam de-fronte dêle, ou arroz que lançam no mar, ou azeite, ou outra coisa das que levam. A êste ilhéu vinha êste rei uma vez no ano, e em um penedo que está junto dêle, lhe fazia grandes sacrifícios, e juntamente oferecia (1) a Camassono cabras e galinhas vivas, que mandava lançar no seu ilhéu, onde ficavam bem seguiras de as furtarem; porque nem pôr os pés em «fi. asov. terra havia quem se atrevesse». «Passando um dia êste braço de mar o Padre Manuel Álvares e eu, saímos neste ilhéu, e detendo-nos ali à sombra dos grandes arvoredos que tem, os moços que iam connosco, como eram cristãos, zombavam do que os gentios diziam de Camassono; foram-se pela ilheta, e dando com algumas árvores em que criavam abelhas, vieram carregados de mel. Não se pode crer o espanto que isto causou nos gentios, e a festa que nos faziam os cristãos, quando lho con- távamos, especialmente os reis Dom Pedro e Dom Filipe, dizendo-lhes nós por graça, que tiráramos êste mel da bôca do diabo, como fêz Sansão da bôca do leão. Perguntando eu ao filho de Dom Pedro, herdeiro do reino, se se atrevera êle a fazer o que aqueles moços fiizeram, a buscar as cabras e galinhas, e trazer as que achasse, respondeu-me que, como fosse cristão, tudo isto faria; mas que, antes disso, não se atreveria, dando a entender que o diabo não pode fazer aos cristãos o mal que pode fazer aos gentios. Mas, depois que viu doente o Padre Manuel Alvares, atribuía a esta entrada em Camassono a sua doença, dizendo a outros gentios e a alguns cristãosZombai lá com Camassono; os Padres tomam-se com êle! Pois agora verão se lhes falamos a verdade—. Mas decla- rou-lhe Deus, com a saúde que deu ao Padre, que os males que padecemos e os bens que temos, veem da sua mão, e não das chinas e demónios, em que eles crêem». «Na volta que fiz de Bena por mar, ao longo de outro reino, me mostraram outro lugar dedicado também aos demó*nios. Vi nele muitos vultos, que se #Fi.a5i. moviam e andavam de uma parte para a outra; persuadi-me que eram negros da terra; mas, porque me disseram, que aquele lugar era deserto, e não vimos coisa pela qual pudéssemos presumir que concorreram ali, para fazer algum sa- crifício, não deixei de suspeitar que eram demónios, e pode-se cuidar que veem algumas veses a estes lugares, pela veneração com que neles são tratados e adorados». (1) Nt.: offerecer.
  • 270 Liwo quarto «Mas, tornando a El-Rei Dom Pedro, assim como todo o seu cuidado era honrar a Deus, e procucar que outros o honrassem, recebendo sua santa Fé, assim Deus tomava à sua conta honra-lo a êle com os homens; porque nunca, quando era gentio, foi visitado de pessoas tão graves, como depois que é cristão, o qual estimam muito os desta naçao. Um deles foi tilau, senhor de muitas terras e vassalos. Veio muito acompanhado 5 foi recebido e tratado com muita honra e festa. Tinha eu praticado antes disso com êle, em outra parte, sôbre as coisas da religião cristã e engano dos seus ídolos; e posto que não declarou então que queria ser cristão, recolheu em seu peito a semente da palavra divina, e o fruto dela foi movê-lo a que viesse ter com El-Rei Dom Pedro, para se aconselhar com êle sôbre êste negócio. A resolução foi que em tôdas as ma- neiras havia de ser cristão, mas que primeiro queria ir visitar suas terras e vas- salos, e procurar que Fatema aprovasse sua determinação, pelo reconhecerem assim êle, como outros senhores ou reis menores, por cabeça. Outro foi o mesmo Fatema, a quem chamam rei grande, e segundo nos disse Dom Pedro, a causa principal de sua vinda, foi também para se aconselhar com êle sôbre o mesmo, •fi.íSiv. por lhe dar Deus grandes dese*jos de ser cristão. Deixo(i) o aparato com que entrou em Caracore, a festa que lhe fizeram assim El-Rei Dom Pedro, como os portugueses, o espanto que causou em todos esta novidade, o concurso de gente e os presentes que lhe ofereciam». «O que muito nos consolou e deu matéria de louvar ao Senhor, foi ver quão afeiçoado se mostrava às coisas de nossa santa Fé, com quanto gôsto acudia aos ofícios divinos e a ouvir as coisas de Deus que tratávamos em público, e com êle em particular. Achou-se presente a um baptismo que fizemos, de diversas pessoas, em que entrava um moço que viera com êle e lhe queria muito, o qual, depois de baptizado, encomendou a um português honrado, para que o criasse e ensinasse; e ao mesmo disse que lhe havia de mandar outro filho seu, para o ter também em sua casa, depois que o baptizássemos. E assentando com Dom Pedro o mesmo que a mim me tinha dito, àcêrca de mudar a sua aldeia e fazer a sua habitação perto do mar, para que nós, com mais facilidade lhe fôssemos ensinar as coisas de Deus, se tornou para o seu reino, despedindo-se de nós com mostras de muito amor». «O terceiro que visitou a El-Rei Dom Pedro, foi Sangrafaré, pretensor do reino dos Lóguos, que foi do grande Farma, seu pai; e, tendo-lhe já os seus dado o barrete, que é dar-lhe posse do reino, foi lançado dêle por outro seu irmão, que agora reina, contra o qual anda ajuntando gente, para lhe fazer guerra, porque, ainda que ficou também nomeado para a sucessão do reino, não entrava nele, senão depois dêste seu irmão, que é mais velho; e, porque está malquisto dos seus, por ser cruel e matar alguns irmãos seus, para viver mais seguro e possuir o reino sem temor dêles, chamam estoutro, para lhe entregar o reino; mas êle, porque se não fia de todos, quer entrar à fôrça de armas. •fi.j5j. Maravilhou-se de * ver o nosso modo de proceder nas coisas de Deus, e disse-me que nenhuma coisa o trouxera a êste Caracore, senão a fama que corria de nós, lá onde estava, para nos conhecer e ver, e ouvir as coisas que ensinávamos. (1) Nl.: deixou.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leoa 271 Acudia à igreja e aos ofícios, que nela fazíamos, com tanto cuidado, como se fora já cristão. Dizia a El-Rei Dom Pedro que nenhum rei dos Manes chegara a ser tão grande como êle, pois era cristão, e tinha Padres no seu reino, enco- mendando-lhe muito que nos conservasse, e seguisse nossos conselhos. Tudo notava, de tudo se maravilhava, mas mui particularmente das ceremónias da Semana Santa e das coisas que nela viu, como adeante direi. No princípio dizia que, como entrasse no seu reino, havia de fazer nêle uma igreja, maior e melhor que tôdas as que tínhamos, para que alguns de nós fôssemos morar lá, e o fizéssemos cristão com todos seus irmãos e vassalos; mas depois, com a luz que Deus lhe foi dando, chegou a se pôr nas nossas mãos, para que o baptizás- semos logo, se nos parecesse; e, quando não, ao menos baptizássemos uma mulher sua, que trazia consigo e o desejava muito. Pareceu-nos melhor dilatar isto a ambos; porque, como se haviam de tornar para outro reino, donde tinham vindo, e nele não há cristãos, podiam fàcilmente esquècer-se do que lhes ensi- nássemos; e assim os despedimos, com boas esperanças, lembrando-me êle o que muitas vezes tinha rogado, que o encomendássemos a Deus e lhe pedisse que, se o reino era seu, lho tornasse a restituir. Depois soubemos, que estava já recebido da principal parte do reino, e que, passado o inverno, o haviam de introduzir no que restava. Diz lá, segundo me referiram, que não o mate Deus, até que nos torne a ver e o baptizemos, com todos os seus. Queira Deus cumprir estes desejos, porque, como êste reino é o maior destas partes, e confina com outros muitos do sertão, con*vertido êle, podemos esperar que os outros farão • fi. 25a v. o mesmo». «Além destas visitas, com que Deus quis mostrar que Dom Pedro ainda no temporal não perdera, por se fazer cristão, antes ficara em tudo mais acrescen- tado, ordenou também que viessem ao seu reino mais navios de portugueses que nunca, e que por esta causa os outros reis, seus vizinhos, procurassem sua amizade, para participar por seu meio da fazenda e coisas de Europa, que traziam. Emquanto estes navios estiveram neste pôrto, tôdas as noites can- tavam a doutrina cristã no mar e na terra meninos e meninas, que nós tínhamos ensinado, começando uns, quando os outros acabavam; depois da qual, diziam trêz vezes: — Senhor Deus, misericórdia, batendo nos peitos, movendo os outros a fazer o mesmo com grande devoção». «Por isto que aqui viam os que vinham de outras partes, especialmente de Cacheu, e pelo que passava na doutrina de cada dia, onde meninos, que escas- samente sabiam falar, a diziam tôda, sem errar palavra, não se fartavam de louvar a Deus e declarar quanto serviço lhe faria a Companhia, se fôsse àquele pôrto e povoação, pela grande ignorância que há, assim nos pequenos como nos grandes. O capitão de um navio dêstes, antes que se partisse para Cacheu, me pediu muitas vezes com grande instância lhe quisesse dar palavra de ir lá, para pedir as alvíçaras disto. Não me atrevi a lhe dar palavra; mas confio em Deus que não sòmente lhe há de cumprir estes desejos, que êle e outros muitos teem, segundo de lá me escrevem; mas que hemos de fundar ali uma casa ou colégio, em que sua divina Majestade se servirá muito da Companhia, por ser aquela povoação a principal desta Guiné, e virem * a ela muitos navios, assim do reino *fi. *53. de Castela, como dêsse e da ilha de Santiago».
  • 272 Livro quarto «Na Semana Santa desta quaresma passada, nos consolou o Senhor muito; porque, como estava aqui gente dêstes navios, e alguns déles se tinham criado na Igreja e sabiam entoar a nosso modo, fizemos os ofícios dêstes dias com a comodidade possível, de que se seguiu muita glória de Deus e conhecimento, nesta nova cristandade, dos mistérios de nossa santa Fé, por ser esta a primeira vez que viram celebrar estes da Morte e Paixão do Filho de Deus. Na pregação da quinta-feira, houve tão grande (1) pranto, que os gentios olhavam uns para os outros como pasmados, sem saber a que atribuíssem isto. Seguiu-se depois a procissão dos disciplinantes, nunca vista nestas partes. Saiu da igreja, com as Ladainhas ordinárias, acompanhando-a El-Rei e todos os cristãos com muitas luminárias, e parando em diversos passos, onde estavam altares ornados, conforme ao tempo. Os disciplinantes não eram muitos; mas o sangue que der- ramavam, era tanto, que os gentios não sabiam o que cuidassem, por se não poderem persuadir que homem algum quisesse por sua vontade ferir seu próprio corpo, e derramar seu sangue». «A propósito disto, não quero passar pelo que El-Rei Dom Pedro passou com um gentio nobre de seu reino. Este, a primeira vez que viu a imagem de Nossa Senhora, tirada da que fêz S. Lucas, totalmente se persuadiu que estava viva; porque, onde quer que se punha, lhe parecia que olhava para êle. Fêz depois diligência curiosamente, pondo-se ora em uma parte, ora em outra, para ver se tinha corpo; e não lho vendo, disse a Dom Pedro: — Aquela mulher viva está, mas ela não tem costas—. Não fêz então Dom Pedro caso disto, porque • fi. 153 v. ainda não era cristão, nem sabia fazer diferença entre as ima*gens dos Santos e o que (2) representavam. Este mesmo gentio, vendo o sangue que derramavam os disciplinantes, creu que era invenção dos cristãos, e que untavam as costas com azeite vermelho, que cá há, porque se cuidasse dêles que feriam suas carnes por amor de Deus. Esta sua imaginação declarou a Dom Pedro (3), indo a sua casa, acabada a procissão. Indignou-se El-Rei Dom Pedro contra êle extraor- dinàriamente; e tomando isto em caso de honra, disse-lhe:—Vai-te daqui. <;Não te lembras que, quando me disseste de Nossa Senhora, que não tinha costas, te castigou Deus por isso, e te matou cinco pessoas de tua casa, e a ti te mordeu uma cobra, e te sucederam outros muitos trabalhos; e agora o sangue que os cristãos derramam, para que Deus lhes perdoe seus pecados, dizes que é azeite de palma? Vai-te, maldito, chora teu pecado, antes que venha sôbre ti a ira de Deus e te dê outro castigo maior». «Mas, tornando aos disciplinantes, porque as disciplinas e vestimentas eram poucas, toda a noite se foram revezando, sucedendo uns a outros, e desta ma- neira perseveraram até todo o ofício da Sexta-Feira, com grande edificação de todos. Mas o que mais nos espantou esta noite, foi Dom Cristóvão, filho de El-Rei Dom Pedro, de cuja conversão e bom procedimento tratei já. Êste, sendo da qualidade que disse, e tendo tantos filhos, e havendo tão pouco tempo que era cristão, não lhe pareceu que fazia como tal, se se não disciplinava como os (1) Nt.: bem grande. (2) Nt.: com que. (3) Nt.: o dom Pedro.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leoa 273 outros cristãos antigos; e assim o fêz, com tanto fervor e aspereza, que nos deu a todos matéria de louvar ao autor de tais obras, em gente tão nova no conhe- cimento de Deus e de nossa santa Fé». «Mas, tornando às conversões, sobre todas as acima ditas, a que foi de maior glória de Deus e consolação de El-Rei Dom Pedro e dos cristãos, foi a de Jata, seu filho * morgado, e não somente futuro sucessor do reino, mas in- *fi.j54. traduzido já nêle, para o governar, pela muita idade de seu pai. Êste, como já se disse, sempre se mostrou contrário à nossa santa Fé, e tão zeloso da honra e adoração de seus ídolos, que os outros gentios o tomavam por escudo, para se defenderem das razões com que os convencíamos de seus erros. Quando El-Rei seu pai se andava dispondo para receber o santo baptismo, êle foi o que mais procurou impedir-lho, e persuadir-lhe que o não fizesse; e vendo que não podia sair com seu intento, para declarar aos gentios, assim do seu reino, como de outros, que não consentia na sua mudança, acudindo os outros filhos à sole- nidade e baptismo de seu pai, para o festejar, êle só se ausentou, e não se quis achar presente. Procurou muito o pai, depois disto, tirá-lo da cegueira em que vivia, ajudando-se ora das razões que lhe dava, ora de afagos e favores que lhe fazia, ora de ameaças, declarando que nao havia de deixar o reino a filho que não fôsse cristão». «Com isto, e com ver que os cristãos desgostavam dêle e lhe davam a en- tender que, se El-Rei Dom Pedro seu pai morresse, perseverando êle na sua gen- tilidade, o havia de deixar e passar-se para o reino de Dom Filipe, foi dando algumas mostras de querer aceitar nossa Santa Lei, e receber o sagrado ba- ptismo. Deu-nos palavra disso, entregou-nos uma filha para a baptizarmos, e pretendeu que fizéssemos o mesmo a seu filho morgado; mas andou depois com tantas dilações, que quási tínhamos perdidas as esperanças de se haver de efei- tuar sua conversão: senão quando, depois que soube do baptismo de Dom João, seu sogro, de que acima se disse, irmão e futuro sucessor de El-Rei Dom Filipe, assim lhe abriu Deus os olhos da alma e o tocou interiormente, tratando-lhe o Padre do que nele tinha obrado a Divina Bondade, que * se rendeu de todo, • fi. 254 v. confessando a verdade de nossa santa Fé, abominando os ídolos e ritos gentí- licos, entregando-se ao Padre, e pedindo-lhe com grande fervor o santo baptismo. Nomeia logo padrinho, e faz tudo o mais que da sua parte se podia desejar. Manda o Padre pedir alvíçaras a seu pai, que estava em outra povoação, a prin- cipal do seu reino. Alegra-se o bom velho sobremaneira; ordena que se apa- relhem grandes festas para o baptismo; responde ao Padre com as graças da vitória que alcançara, e com os louvores que a Deus se deviam por aquele bene- fício tão grande; diz que se quer achar presente, e para isso avisa que lhe mande certa embarcação com que êle soía passar aquele braço de mar». «Ia o Padre, entretanto, instruindo o seu catecilmeno nas coisas de nossa santa Fé, e êle provando a vontade que tinha de ser cristão com o cuidado de aprender, e com a instância que fazia pelo santo baptismo, declarando que um dia de detença lhe parecia um ano. Mas Deus, para mais satisfação e prova de seus desejos, ordenou que no meio dêstes fervores mandasse El-Rei Dom Filipe ao Padre quisesse logo dar lá uma chegada, para se ajudar de seu conselho em um negócio que lhe sucedera de importância. Partiu-se o Padre para lá, e, pôsto 3o
  • 274 Livro quarto que tornou com brevidade, não sossegava o catecúmeno. Neste tempo, tudo era suspirar por êle, mandar a nossa casa, e ir êle perguntar se era vindo, com tantos sinais de sentimento, que era necessário consolarem-no os cristãos da povoação. Torna finalmente o Padre, sai a recebê-lo com grande alvoroço, visi- ta-o frequentemente, não lhe sai da casa, importuna-o, por si e por outros, que o faça filho de Deus». »Não se tinha mandado até então a El-Rei seu pai a embarcação, para vir ao baptismo, por se não saber quando tornaria o Padre: senão quando, •fi. 255. depois * de sua tornada, ouvindo reboliço na povoação e perguntando a causa, lhe dizem que El-Rei Dom Pedro vinha chegando ao porto. Entendeu o Padre que a grandeza dos desejos que o velho tinha de ver seu filho cristão, lhe não dera lugar para esperar pela embarcação que mandara pedir. Em desembar- cando, vem visitar o Padre com um presente, como é já costume. Tratando do que Deus tinha obrado em Jata, engrandece sua bondade e misericórdia, e não cessam de lhe dar graças pelo beneficio feito não somente a seu filho, senão a todo reino. Assentam que se faça o baptismo dia de São Miguel; vestem-no, conforme à qualidade de sua pessoa, com grande liberalidade do capitão-mor dos portugueses, seu padrinho; concorrem à festa de tôdas as partes do reino; cele- bra-se o baptismo com grande solenidade; põem-lhe o nome do Santo Arcanjo S. Miguel; gastam finalmente o dia todo em festas, de que se seguiu muita glória de Deus, levando a nova disto a outros reinos os que se acharam presentes». «Fatema, que é o maior rei daquela banda do mar, e tem ouvido algumas vezes as coisas de Deus, depois de se maravilhar da conversão deste príncipe, porque o tinha por grande defensor de sua idolatria, deu grandes mostras de o querer seguir, e há esperanças que o fará cêdo. Este mesmo exemplo acabou também de render outro fidalgo, o mais poderoso daquele reino; e, para se ba- ptizar, não espera mais que a ida do Padre à sua terra. Outro também dos mais principais, quando lhe deram esta nova, disse com grande espanto:—Jata é cristão —. E pondo a mão na bôca, deu a entender, como é seu costume, que todos os gentios daquelas partes o haviam de seguir, o qual concorda com o que algumas vezes tinha dito ao Padre o capitão-mor dos portugueses, que, pois Jata se con- • fi. a55 v. vertera, desse por convertida tôda a gentili*dade daqueles reinos. O que muito consola ao Padre e a todos os cristãos, é que, assim como êste príncipe, antes de sua conversão, fazia ofício de Saulo, assim, depois dela, o faz de Paulo, pro- curando com grande zelo trazer todos quantos pode, ao santo baptismo; e, come- çando pelos de sua casa, o primeiro que trouxe, foi seu filho mòrgado, de oito ou nove anos. Este, antes que seu pai fôsse cristão, assim fugia de nós, como se nos tivera por seus inimigos; mas depois foi tão grande a afeição que tomou ao Padre, [e] o amor que cobrou às coisas de Deus, que nunca sai da casa, e a maior recreação que tem, é aprender a santa doutrina e achar-se presente a ela, quando o Padre a ensinava. Chama-se Dom Bartolomeu (i) e, segundo o Padre escreve, procede tão bem, conforme a sua idade, que assim o pai, como o rei seu avô, se revêem nele, e engrandecem a Deus pela mudança que nele fêz»(2). (1) Nl.: Bertolameu. (2) Nl.: nella faz.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 275 «Além dos efeitos espirituais, que o santo baptismo operou em Dom Miguel, obrou também outro corporal, pelo qual êle não cessa de dar graças ao Senhor, por que sendo antes enfermo de um mal que todos tínhamos por incurável, e pelo qual êle vivia muito triste e desconsolado, porque não sòmente lhe amea- çava a morte, mas também o privava da conversação da gente, pelo mau cheiro que dêle saía, súbitamente, depois daquele divino lavatório, se achou são, e assim o declarou ao Padre, e apregoa onde quer que se acha, com muita glória de Deus, detestando a confiança que antes tinha nos ídolos; porque, quanto mais devoto seu se mostrava, e mais sacrifícios lhes oferecia, tanto se achava peor». «Esta glória de Deus procurou escurecer o demónio, inimigo de todo bem, movendo um gentio da mesma povoação a que uma noite levantasse um ídolo no lugar * por onde o Padre e outros cristãos iam à igreja, ornando-o e concer- *fi. 256. tando-o a seu modo, e fazendo-lhe seus oramenes, que assim chamam às ceri- mónias com que [os] adoram e lhes pedem o que desejam. Passando por ali o capitão dos portugueses o dia seguinte, e vendo o simulacro de satanás, mara- vilhou-se primeiro do atrevimento do gentio que o pôs ali; e depois, aceso com zêlo da honra de Deus, arremete a êle com o bastão que levava nas mãos, e depois de o fazer em pedaços, não se quis ir dali, sem que primeiro o lugar ficasse limpo e sem rasto ou sinal da abominação que antes ali estava. Mas o diabo, para que os gentios cressem que aquela injúria, feita a seus ídolos, não ficava sem castigo, fêz, permitindo-lho Deus, que se achasse logo mal o capitão. Perturbam-se os cristãos, triunfam os gentios, faz Dom Miguel grande senti- mento pelo padrinho, acode logo a sua casa. El-Rei mandou chamar o Padre, já estava recolhido, por ser alta noite; dizem-lhe que o capitão estava morrendo. Consola-os o Padre; diz-lhes que aquilo é inveja do diabo; declara-lhes que não podia fazer mais mal que o que Deus lhe permitisse; que o que êle tomava por meio, para se acreditar, havia de redundar em maior deshonra sua, e glória de Deus. E assim foi; porque, indo o Padre com êles, e achando o capitão com grandes acidentes, clamando que o confessasse, porque morria: foi o Senhor servido que dentro de poucas horas, depois de fazer com êle o ofício de médico espi- ritual e o encomendar a Deus, juntamente se acabou uma grande tempestade, que se tinha levantado de água e trovões, e a que o enfêrmo padecia, ficando são como dantes, com grande admiração de todos os cristãos, e confusão dos gentios. E Dom Miguel se tornou para sua casa, que tem longe dali, com ânimo de con- verter em pó e cinza os ídolos que * nela achasse, como fêz em chegando, e de • fi. 256 v. reformar suas coisas conforme a lei que tinha recebido, levando consigo um me- nino português, que pediu ao Padre, para acabar de aprender a doutrina cristã». «As mais destas conversões acima ditas fêz o Padre Manuel Álvares, es- tando ora no reino de Dom Filipe, ora no de Dom Pedro, por andar em con- tínua missão de um para o outro, como já se disse. Uma destas vezes que veio do reino de Dom Filipe para o de Dom Pedro, foi em conjunção que estava Dom Pedro em cama. O primeiro caminho que fêz, foi a sua casa. Alvoro- çou-se o bom velho e alegrou-se por extremo com sua vista, por serem grandes os desejos que tinha de sua tornada. Quando o Padre passou pelo terreiro das
  • 276 Livro quarto casas, viu algumas chinas cora ídolos das suas escravas gentias; e porque não lhos escondessem, emquanto estava dentro, sai depressa com alguns portugueses que o acompanhavam; dão neles com tanto fervor, que, em breve espaço, não ficou sinal no lugar em que estavam. Chega nesta conjunção o capitão dos por- tugueses, festejam a vitória, entram todos alegres onde estava El-Rei Dom Pedro, dizem-lhe que aqueles diabos o tinham na cama. Alegra-se o velho, alevanta as mãos ao Céu e não se farta de louvar a Deus, pelo vingar daqueles inimigos, que tantos anos o trouxeram enganado. Diz que só de Deus espera a saúde, e esta foi êle servido conceder-lha por meio do santo Evangelho, que o Padre lhe rezou com fé, sobre a cabeça; e em testemunho disto, foi dali a pouco visitar o Padre com um presente, tão alegre, que não cabia de prazer, afirmando uma e muitas vezes que Deus por seu meio lhe dera saúde, e dizendo ao escrivão da conquista, que ali se achou presente, que o escrevesse assim». * fi. 257. «Dêste beneficio nasceu no ânimo de Dom Pedro uma * confiança grande, que Deus havia de dar saúde a um grande seu amigo, por nome Besse, sucessor futuro do grande reino de Fatema. Dêste fidalgo escrevi em outra relação que era grande amigo dos portugueses, e que, vindo visitar a El-Rei Dom Pedro, depois de ouvir as coisas de Deus e de nossa santa lei, e de se achar presente aos ofícios divinos, pregações e doutrinas, declarou o que sentia do verdadeiro Deus e de nossa santa Fé; e abominando os ídolos e ritos da idolatria, deu pa- lavra que havia de receber o santo Baptismo, depois que se visse com El-Rei Fatema, porque se não agravasse de o fazer, sem lhe dar conta disso; e porque foi dilatando o cumprimento desta palavra, foi-o Deus espertando com alguns açoites que lhe deu». «Um foi que adeantando-se um dia de sua gente, e indo só por um caminho, lhe saiu ao encontro um negro, em que parece tinha entrado o demónio, porque, não lhe tendo dado ocasião, arremeteu a êle para o matar. Achou-se o fidalgo embaraçado; porque, por uma parte, o temor da morte o convidava a fugir, e por outra, o amor da honra tinha mão nele. O negro era conhecido por valente e vinha bem armado. Êle sòmente se achou com seu terçado à ilharga; resol- veu-se finalmente em não fugir; e, posto que se viu em grande apêrto, pelejou com tanto ânimo, que, sem receber dano algum, matou o seu cometedor. Mas, porque nem com êste benefício de Deus se lembrou do que lhe tinha prometido, caiu pouco depois em uma enfermidade tão grande, que não se podia bulir, nem menear membro algum. Sabendo isto El-Rei Dom Pedro, mandou sua gente que o fôsse buscar e o trouxesse à principal povoação do seu reino, que pa- rece um jardim, para o ter a par de si, e o fazer curar com o cuidado pos- sível. Ali o teve alguns meses, sem nele se enxergar melhoria alguma». «Neste estado estava Besse, quando Deus deu saúde a Dom Pedro, da en- fermidade que tinha, por meio do santo Evangelho, que o Padre lhe rezou. Cai • fi. 257 v. na con*ta, entende que a causa de não sarar seu amigo, é porque não acaba de se lavar no lavatório do santo baptismo. Dá conta disto ao Padre. Parece bem a ambos que êle mesmo o vá buscar. Embarca-se logo; acha-o quási acabado. Conta-lhe o que lhe tinha acontecido na sua doença; excita-o a que ponha toda sua confiança no verdadeiro Deus, e a tire dos ídolos, que nada podem. Não foram necessárias muitas palavras para o render. Trá-lo consigo; pratica o
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 277 Padre com êle, conhece seu pecado, e põe-se a si a culpa do mal que padece, por náo ter obedecido à vocação de Deus. Foi coisa maravilhosa o que a Divina Bondade obrou nele; porque, levando-o em braços à igreja, depois de catequi- zado, tudo foi um, receber pelo santo baptismo a saúde da alma e do corpo. Chamou-se Dom Manuel, por se fazer o seu baptismo no dia do santíssimo Nas- cimento de Cristo; e, porque a esta festa tinham concorrido muitos portugueses de diversas partes, foi celebrado este baptismo com grande solenidade. Curou-se Dom Manuel, antes de ser cristão, com um bexerim ou caciz moiro. Achou-se êste presente a seu baptismo; e vendo o que Deus obrou por êle, ficou tão ren- dido, e com tanto conhecimento da verdade que os cristãos professam, e da fal- sidade da seita em que vivia, que, falando com o Padre, e chamando-lhe muitas vezes bexerim de Deus, se lhe entregou logo, para que o ensinasse e fizesse cristão». * CAPÍTULO VIII • FI. i58. Do fruto que se fê{ em alguns outros lugares da costa e terra firme de Guiné « TESTANDO neste estado as coisas destes reinos, tocantes à conversão e bem r-< das almas, sucedeu ser necessário dar eu uma chegada a esta ilha de Cabo -I—J Verde, como já disse, assim por serem falecidos os Padres que nela es- tavam, como para tratar do sítio em que se havia de fazer a casa, que Sua Majes- tade mandava fundar aqui; sôbre o qual achei no caminho cartas de meus superiores, em que ordenavam o fizesse assim, com grande consolação minha, e por ter acertado com a vontade dos que tenho em lugar de Cristo». «Ao terceiro dia, depois de sair do pôrto, tornámos a arribar a êle, por nos render um mastro com a fôrça do vento. Aparelhou-se outro com muita pressa; tornámos a partir; e, posto que os ventos eram pouco favoráveis, e as águas nos levaram a uns baixos perigosos, foi Deus servido que os passássemos bem. Oito dias depois da nossa partida, me visitou o Senhor com um acidente repen. tino, o maior(1) que nunca tive; durou-me poucos dias, mas com grandes febres e fastio. Não lhe apliquei remédio algum, porque não tinha outro senão a con- fiança em Deus, por quem fazia aquela jornada. Esta me valeu e serviu de mè- zinha para recuperar a saúde, e ficar livre de um inchaço de estranha grandeza, que me tinha causado o acidente que tive». «Gastámos dezanove ou vinte dias em chegar à altura da ilha, mas não foi Deus servido que a encontrássemos, nem alguma das outras que estão a par dela; e a causa parece que foi levar-nos a corrente das águas ao Levante, e * ficarem-nos elas atrás, para a banda do Poente. Visto êste sucesso, e que os "Fi.assv. ventos nos eram contrários, para as tornar a buscar, e que nos ia faltando a ma- talotagem, pusemos a proa na costa, que corre do rio Senegal (2), para a banda de Cacheu, e chegámos à vista dela em menos de vinte e quatro horas. Con- (t) Nt.: e mayor. (2) Nt.: Cenegà.
  • 278 Livro quarto tando eu isto depois nesta ilha, todos me disseram que fora particular mercê de Deus não acertarmos com ela; porque, sem dúvida, caíramos nas mãos de um corsário, que naquele tempo andou muitos dias à vista do porto, para roubar os navios que viessem a êle». «O que neste sucesso se me oferecia, era que porventura nos encaminhara Deus aos portos daquela costa, para remédio de algumas almas. Assim o cui- daram depois os portugueses daquelas partes, e o diziam uns aos outros, e a mim muitas vezes, com grande consolaçao de suas almas, quando viam o que Deus ia obrando por meio das confissões, prègações e doutrinas. É aquela costa povoada de gente inficionada com a maldita seita de Mafoma. Há nela dois portos, em que habitam portugueses, e teem entrada e trato outras nações, es- pecialmente inglêses, holandeses e franceses. O principal é o de Ale, o outro de Joala; êste tomámos, depois de muitas voltas que demos, pelo não conhecer o piloto. Saí em terra dia de S. Francisco. Vieram-me esperar à praia as por- tugueses que ali havia, dando-me os parabéns da ida e chegada, com mostras de grande alegria. Tomou-me à sua conta o principal, acomodando-me casas apartadas, junto a um modo de igreja que ali teem; emquanto aqui estive, sempre me proveu do necessário, com tanta caridade e largueza, que me não custou pouco acabar com êle que se moderasse. Perguntando se havia aparelho para dizer missa, soube que o tinha no porto de Ale o Visitador do bispado. Gastei os dias que ali estive, em prègar, confessar e fazer a santa doutrina. Concorriam * fi. 359. a estas coisas os cristãos com grande # alvoroço e fervor, e não em poucos se enxergou notàvelmente o fruto que daqui se tirava, de que seguiu muita glória a Deus». «Os moiros, quando prègava ou se cantava a doutrina, estavam de fora ouvindo como pasmados; e alguns bexerins e outros me diziam depois grandes bens de nossa santa lei e das coisas que nas prègações ensinava aos cristãos. Soube-se, dentro de poucos dias, no pôrto de Ale, da minha vinda. Escreve- ram-me logo grandes significações de contentamento, e em particular o Visitador, cónego da sé dêste bispado, pedindo-me mui encarecidamente que me fôsse para lá, assim para consolação daqueles cristãos que o desejavam muito, como para o ajudar com nossos ministérios, por estar mal disposto; e juntamente me proveu de algumas coisas para o caminho, por saber quão falto vinha do necessário. Parti-me para la, com desconsolação dos cristãos de Joala, a qual temperei com lhes dar palavra que tornaria, antes de ir a Cacheu, para confessar os que ainda o não tinham feito, e acabar alguns negócios que ficavam principiados. Acompanharam-me alguns por sua caridade, e por não ser aquele caminho mui seguro. Saiu a nos receber o Visitador, com os portugueses da povoação, que são muitos, e o alcaide moiro, governador daquele pôrto, que também me abra- çou com os mais, dando-me os parabéns da minha ida, e declarando que não se alegrava menos com ela que os portugueses. Neste passo, porque aqueles moiros aos sacerdotes chamam reis dos brancos, lhe disse o Visitador, apontando para mim: —Este é rei dos brancos—. E, por êle ser mui ladino e ter muita notícia de nossas coisas, deu mostras que entendia o que queria dizer. Antes de entrarmos na povoação, passando à vista de uma cruz, arvorada na praia, ajoelhei-me eu e fiz oração a ela, seguindo-me todos os que me acompanhavam, em presença
  • Das coisas da Guiné e Serra Leoa 279 não somente dos moiros, mas também de muitos herejes que ali estavam, de várias na*ções; e, por este mesmo respeito, para confusão de uns e de outros #fi. jSgv. e maior glória de Deus, fiz dali por deante a doutrina, todos os dias, ao pé desta cruz, que é o lugar mais frequentado dos naturais e estranjeiros. Os portugueses que moravam perto, mandavam trazer suas cadeiras, outros bancos, outros se assentavam na relva do campo, achando-se presente de ordinário o visitador, para autorizar aquele acto, do qual eu e todos nos edificávamos muito, respon- dendo grandes e pequenos, em alta voz, que, por soarem muito, eram ouvidos não sòmente dos que estavam em uma grande praia, que ali faz o mar, mas também dos navios e dos moiros de tôda a povoação, dos quais acudiam tantos, assim homens como mulheres, meninos e meninas, que igualavam e excediam o número dos cristãos; e na quietação, com que ouviam, não se diferençavam dêles». «Em tôdas estas doutrinas, tomava sempre ocasião de alguma coisa das que nelas se diziam, pertencentes à nossa santa Fé, para praticar dela, de modo que pudesse aproveitar não sòmente aos cristãos, mas tambe'm aos moiros e herejes. Desejava eu fazê-las aos domingos e dias santos, com mais solenidade; mas, como o rei daquela terra e os que a governam, e os moradores naturais são moiros, e entre êles há muitos bexerins, não faltaram alguns temores humanos e pareceres em contrário. Assentámos todavia, com aprovação do Visitador, que a fizéssemos ao menos uma vez, com solenidade pública, para ver como se tomava». «Saímos pois um domingo, à tarde, pela rua principal da povoação, que é mui comprida e larga, levando deante a campainha, e depois um crucifixo de vulto, mui devoto, e bem acompanhado de luminárias e de portugueses e outros cristãos, em duas ordens, a modo de procissão, respondendo todos à doutrina, que dois meninos iam cantando. Por fora destas fileiras, de uma banda e outra, ia grande multidão de moiros e be*xerins. E, porque a praça está no meio *fi. *&>. desta rua, as moiras que vendiam nela, vendo-nos ir desta maneira, recolhiam o que tinham em seus balaios, e com êles à cabeça, nos iam seguindo. Che- gámos finalmente a uma cruz, que está fora da povoação, cercada de paredes, por ser cemitério dos cristãos. Ajoelhámo-nos logo deante dela, entoando os me- ninos três vezes: — Senhor Deus, misericórdia — como sempre faziam. No cabo da doutrina repetiam todos o mesmo, batendo nos peitos, de modo que movia a grande piedade e devoção. Desta maneira fomos e tornámos, com tanta quie- tação, como se a terra fôra toda de cristãos católicos». «Festejaram muito os portugueses êste sucesso, e ficaram com grandes es- peranças que, se a Companhia continuasse ali, todo aquele reino se converteria à nossa santa Fé, com o qual concordava o que muitas vezes me dizia o visi- tador, que em nenhuma parte de Guiné podíamos residir com mais comodidade e fruto das almas que ali, alegando-me para isso (àlém de outras causas) o bom entendimento daquela gente; e eu experimentei ser assim, nas práticas que tive com os principais do governo; porque claramente confessavam que tudo o que os seus bexerins ensinavam da lei de Mafoma, era mentira, e que a nossa lei era a verdadeira, ajuntando a isto que, ainda que no exterior se haviam como moiros, no interior eram cristãos; e que, se não se declaravam e pediam o santo baptismo, era porque viviam das rendas que El-Rei lhes dava, mostrando grandes
  • 28o Livro quarto desejos de que El-Rei se baptizasse, para êles fazerem o mesmo; e, segundo me disseram os portugueses, parece que não está longe disso, porque tem grande entendimento, e folga de ouvir tratar das coisas de nossa santa Fé; e, quando em particular fala com algum português, zomba de seus bexerins, e tal opinião tem deles, que já uma vez os quisera desterrar de todo seu reino; mas deixou de o fazer, por respeitos humanos, que com esta gente podem muito». •H.aGov. # «Um mancebo, filho do principal fidalgo daquela povoação, cujo ofício é arrecadar os direitos e rendas de El-Rei, depois de ouvir o que eu tratava nas doutrinas ordinárias, quando depois fiz aquela mais solene, sentiu em si tão grandes^desejos de ser cristão, que se foi logo em busca de alguns portugueses seus amigos, e descobrindo-lhes seu peito, lhes pediu que o trouxessem aonde eu estava, e fossem medianeiros seus, para que eu o baptizasse. Fizeram-no assim com grande alegria. Lança-se o mancebo, em chegando, aos meus pés; pede-me com as mãos alevantadas que o faça filho de Deus, e o aceite por com- panheiro meu, porque me quer seguir por onde quer que fôr. Ajudam-no os portugueses, fazem-me a mesma instância, dão-me razões para lhe não negar o que pede». «boi para mim de grande consolação êste espectáculo, e assim lho signi- fiquei, declarando quão justo era o que pretendiam. Duvidei, todavia, como tomaria isto seu pai e El-Rei. — Meu pai, disse o mancebo, bem sei que há de folgar muito de me ver cristão, porque êle também deseja sê-lo. El-Rei não sei como o tomará; mas, ique me pode fazer, quando o não aprove? — Não creio, disse um dos circunstantes, homem rico e de grande reputação naquele reino, que El-Rei vos matará, por serdes cristão; mas, se vos cativar e vender, por vos baptizardes sem licença, eu lhe darei por vós quanto pedir, e vos porei em vossa liberdade —. Não se achou presente a isso o Visitador. Porque convinha saber eu primeiro seu parecer, respondi, depois de o consolar, que desse conta do negócio a seu pai e ao visitador; e que, se a êles parecesse bem baptizá-lo eu, logo o prepararia para isso, e faria tudo o mais que me pedia, com mui particular gôsto. Ajuntaram-se o pai e o Visitador e alguns portugueses prin- cipais; tratam o negócio; e porque El-Rei tinha mandado dizer que ficava de •fi. 261. caminho, para vir ao pôrto, pareceu a todos que o deixassem vir e * tornar, e que depois se podia fazer o baptismo com menos prejuízo do mancebo. Mas, porque depois disto me detive ali poucos dias, por estar já prestes uma lancha em que havia de ir a Cacheu, não sei o que sucedeu». «Parti-me finalmente para Joala, como tinha prometido, e daí, depois de confessar os que estavam para isso, e concluir outros negócios do serviço de Deus, me embarquei para Cacheu, aonde chegámos ao terceiro dia, perto da meia noite. Tinha-me lá o capitão dos portugueses aparelhado uma casa, a melhor da povoação; e como soube da minha chegada, êle mesmo me levou a ela, com muito alvoroço e alegria. O dia seguinte fui visitado dos moradores daquele pôrto, e eu também os visitei a êles, com uma prática que lhes fiz na igreja, antes de dizer missa, declarando-Ihes os rodeios por onde Deus me trouxera ali, e o fim de nosso Instituto, e oferecendo-me a ensinar a doutrina cristã todos os dias, prègar aos Domingos e festas, e a confessar os que acudissem a mim, e a todos os mais ministérios da Companhia».
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa «É êste pôrto mui frequentado de navios, que veem a êle de Sevilha e desse reino e da ilha de Santiago ao resgate dos negros, e por esta causa há sempre nele muito trato e muitos casos que enredam as almas, ao qual se ajunta que a gente preta cristã, pela muita comunicação que tem com os gentios, e pouca dou- trina, tornam fàcilmentc a alguns ritos alheios de nossa santa Fé, especialmente os que antes do baptismo eram gabaçouces, que assim chamam aos feiticeiros, que adivinham e curam com remédios e palavras aprendidas na escola de Satanás; e por esta causa, era ali muito desejada a Companhia, e sôbre isso me tinham escrito muitas cartas, quando estava na Serra Leôa. Foi o Senhor servido que se remediaram muitas coisas destas, com muita glória sua. A doutrina, que fazia todos os dias, àlém dos meninos e gente preta, acudiam também muitos portugueses, porque sempre * nela tratava algumas coisas que pudessem apro- 'fi.jóiv. veitar a todos. Depois que a fazia na igreja, e dava prémios aos que respondiam bem a ela, saíamos, cantando-a dois meninos e respondendo todos, até uma Cruz que está na praia, aonde nos ajoelhávamos; e depois de dizer três vezes — Senhor Deus, misericórdia — dávamos volta para a mesma igreja, continuando pela mesma ordem». «Nos Domingos e dias santos, fazíamos isto com mais solenidade. íamos a outra igreja, que está mais longe, tangendo a seus tempos as charamelas, e acompanhando-nos (àlém de outra muita gente) os principais da povoação, e entre êles algumas vezes o rei daquela terra, que é cristão e mora em outra aldeia sua. Seguia-se dêste exercício, e das confissões e mais ministérios da Com- panhia, tanto fruto, que, segundo voz de todos, parecia outra aquela povoa- ção, e com isso pretendiam obrigar-me a que os não desamparasse; mas de- fendi-me com as razões que tinha para vir a esta ilha e com as cartas que ali recebi de meus superiores, como já disse, em que me ordenavam o fizesse assim». «Despedi-me finalmente deles com lhes dar esperanças, que mui cedo lhes mandaria, em meu lugar, algum ou alguns dos Nossos; e assim o fiz, no mesmo navio, em que vim a esta ilha, por achar nela quatro Padres e dois Irmãos, que desse reino tinham chegado, havia poucos dias. Minha vinda, como não era esperada, por haver muito tempo que se nao sabia de mim, causou aos Nossos por uma parte admiração, e por outra, grande alegria; e o saber eu que êles estavam aqui, àlém dêstes efeitos, causou em mim grande confiança na miseri- córdia e Providência divina, que não há-de desamparar esta sua vinha, e que o fruto dela há de responder ao cuidado que tem de a prover de obreiros. Antes que o navio em que vinha, entrasse no pôrto, foi conhecido dos que estavam em uma ponta que a terra faz ao mar; correm de-pressa a pedir alviçaras aos Nossos; saem logo de casa alguns, para * saber se era assim; embarcam-se e foram ter «fi.»6j. comigo ao navio. Julgue V. R. a consolação que receberia com sua vista. Assim me apertavam com seus abraços, que era necessário moderar-lhes o fervor, e resistir à fôrça que me faziam, por ser maior que as da minha idade. Apressei a saída, porque me estava aguardando na praia o Governador, com muita gente principal. Fui recebido de todos com demonstrações de grande amor, especialmente do Governador, que assim nos ama e trata, como se fôra Irmão da Companhia».
  • 282 Livro quarto «Tratei logo de mandar a diversas partes de Guiné os Nossos que nesta ilha achei, para que lá, com menos risco da vida, passassem as primeiras doenças, que são as perigosas, e depois tornar a ela; e como fiquei só, sem outro Padre, foi necessário suprir a falta dêles, não sem temor dos amigos que adoeceria por esta causa; mas foi o Senhor servido que sempre tive saúde e forças, para acudir aos próximos e exercitar outros ministérios, e entre êles o de ensinar latinidade a alguns meninos da terra, por entender que convinha assim para maior glória de Deus». «Mas, antes que acabe esta, quero tocar brevemente algumas coisas mais, que o Senhor foi servido obrar nos lugares da costa e em Cacheu; porque posso dizer que nunca estive em parte, onde a Divina Bondade, em tão breve tempo, tirasse tanto fruto dos ministérios da Companhia, e houvesse tão geral mudança na vida e costumes de todos. Houve muitas confissões gerais, e outras de tanta importância, que os penitentes se persuadiam ter-me Deus levado àquelas partes só por amor dêles, afirmando-me que, se assim não fôra, perseveraram e aca- baram a vida em seus pecados, sem os confessar. Entre estes achei alguns, que mais de trinta anos tinham êste estado, e pediam continuamente a Deus, que antes de sua morte lhes deparasse algum Padre da Companhia, para se confes- sarem a êle; e concedeu-lho a divina misericórdia; e a um logo o levou para si». * «Tem (1) o demónio nestas partes muitos ministros seus, que com feitiços e beberagens, ensinadas por êle, acabam quanto querem. Chamaram-me para um mancebo, que tinham por endemoninhado, e os sinais eram disso; porque nem nomear queria o Santíssimo Nome de Jesus, nem o da Virgem sua Mãe, nem beijar as suas imagens, nem consentir que lhe deitassem relíquias e outras coisas santas ao pescoço. Fiz-lhe os exorcismos e usei de outros meios, para ver donde procedia aquele aborrecimento que mostrava ter às coisas de Deus e dos Santos; e vim a entender que a causa fôra uma beberagem que lhe dera uma mulher com quem vivia em mau estado, por a querer deixar. E, segundo me disseram, o efeito daquelas beberagens é ficarem os que as tomam, alienados e persuadidos que, se confessarem nossa santa Fé, ou algum artigo dela, ou fizerem reverência à cruz ou a outra coisa santa, hão de morrer logo. Disse uma missa por êle, e, segundo entendi depois, foi o Senhor servido de o livrar daquele trabalho. Dêste princípio parece que nasceu uma coisa extraordinária, que sucedeu em Cacheu». «Estando eu aí, caíram algumas paredes da igreja principal daquela povoa- ção. Abrindo depois os alicerces para outras, fora do lugar em que estavam as antigas, deu o que ia cavando com o corpo de uma mulher, que êle mesmo tinha enterrado ali, havia catorze meses, tão inteiro, e a mortalha tão sã, como se então acabara de a enterrar; pôs os pés sôbre ela, para ir cavando por deante: senão quando, sentiu se movia, e que o levantava para cima. Salta fora, ate- morizado, chama o pedreiro e outros; mostra-lhes o corpo; conta-lhes o que passara; mas, tanto que pôs os pés no corpo, tornou, como antes, a o levantar para cima. Foram dar conta do caso ao Vigário; viu o corpo, da maneira que (1) Nt.: e tem.
  • Das coisas da Guiné e Serra Leôa 283 disse, e pediu-me que o visse eu, como fiz; e, querendo saber qual fôra a vida daquela mulher, achei tão ruins informações dela, que entendi permitira Deus que se abrissem aqueles alicerces naque*le lugar, e se achasse o seu corpo da- • fi. s63. quela maneira, para terror e exemplo de outras negras daquela povoação, que tinham o mesmo trato com o demónio, e viviam como ela viveu, mais gentílica que cristãmente; e parece que, assim como o diabo morou em sua alma e a possuiu na vida, assim depois da morte, permitindo-lhe Deus, a acompanhou, e possuiu o corpo, e o preservou da corrução, com a mortalha e cordão, e tudo o mais que tinha sôbre si». «E grande a sujeição em que vivem os portugueses destes portos, e as tiranias que sofrem dos reis e dos mais que governam a terra, só por viverem à sua vontade e por saírem dali ricos, ainda que a risco de perder tudo em um dia. Deixo os direitos que pagam das mercadorias que metem ou tiram e o rigor com que fazem pagar a uns o que outros deviam, sem outro fundamento mais que serem da mesma nação. Cada vez que o rei tem necessidaae de a nheiro, ou finge que a tem, como eu vi, a manda por um fidalgo de sua casa significar aos portugueses. Este vem, com grande acompanhamento, e entra pelas suas casas tão livremente, e com tanta autoridade, como se os moradores delas foram seus escravos, sem haver quem lhe vá à mão, ou se atreva a lhe negar o que pede, ou deseja; e por mais que lhes dêem, nunca se dão por satis- feitos». «Se algum navio dá à costa, é logo tomado por El-Rei, com tôda a fazenda que nele acham; e, para fazerem isto mesmo aos que estão de assento na povoa- ção, basta fingirem alguma culpa que cometeram. Mas todas estas tiranias vence a que usam com êles na morte; porque, em adoecendo algum, se entendem que a doença é perigosa, logo lhe cercam a casa, para que não se tire dela coisa alguma; e, tanto que expira, imediatamente lhe lançam mão de tudo, ora seja seu, ora de ausentes que tinham companhia com êle. Assim aconteceu a um homem rico que eu conheci. Morreu, e foi logo esbulhado, não sòmente do que tinha em sua casa, seu e de parentes; mas, porque naquele tempo acertou de chegar ao pôrto um navio seu, que im*portava muito, logo lhe lançaram mão •fi.j63v. dêle e de tudo quanto trazia». «Finalmente são seus costumes e modo de proceder, qual é a lei que seguem, e qual o saber e doutrina dos mestres que os ensinam, como se pode coligir do que no mesmo pôrto, estando eu nêle, passou entre um moiro e um bexerim ou caciz, o principal e de mais nome que ali havia, que vindo o moiro ao porto a vender alguma fazenda, e indo em busca do bexerim, lhe disse que não viera tanto em razão do negócio, como por tratar com ele uma dúvida que tinha, a qual era: £ porque os brancos eram livres, e os pretos seus escravos ? Ao que respondeu que a razão era, porque Deus criou primeiro os brancos e depois os pretos, aos quais, por serem derradeiros, mandou que servissem a seus irmãos maiores». «Destas coisas pudera contar muitas que deixo, por abreviar; mas, tornando aos reinos da berra Leôa e Costa de Guine e conversão de infiéis, que neles se pode fazer, digo que muito bem vejo quão grandes são as emprêsas dessa nossa Província de Portugal, as quais tôdas estão chamando obreiros para a sua messe.
  • 284 Livro quarto e colherem o fruto da conversão de tantas almas por toda a índia, China, Japão, Brasil, Monomotapa, Preste João; mas isto não basta para nos livrar da mágoa e dôr contínua que sentimos esses que andamos nestas partes, vendo a perdição de tantas almas que se puderam salvar, se de lá nos viera algum socorro de gente, por ter entendido dêste gentio e da facilidade com que se sujeitam às razões que lhes damos contra suas falsidades, que, se tiverem consigo Padres que os tratem e ensinem, sem dúvida se convert[er]ão todos à nossa santa Fé, e com o favor divino, uns mais de-pressa, outros mais de-vagar, conforme ao como Deus os fôr aluminando e movendo». «E, para se porem os olhos nesta emprêsa, se não mais, ao menos tanto como nas outras, há algumas razões não leves. Uma é ser esta conquista mui • fi. 264. antiga, e a de gentios que mais perto estão dêsse reino; porque, em menos * de vinte dias, se pode vir a ela. Outra é ser grande o fruto temporal, que os por- tugueses tiram dela, há muitos anos, o qual era razão que lhes pagaram com o espiritual de suas almas. Mas, ou seja porque os que veem a estas partes, sò- mente tratam de fazer suas armações, ou porque o cativeiro envilece esta gente nesse reino, e os faz parecer incapazes das pedras preciosas do santo baptismo e mais sacramentos, de nenhuma coisa se tratou atègora menos que desta, como se só nesta gentilidade não tivera lugar a obrigação com que se concederam as conquistas. E assim, vista a pouca estima em que se teem estas almas, estou persuadido que, se a Companhia não tomar à sua conta a sua conversão e fizer muito caso desta emprêsa, permanecerá sempre no mesmo desamparo, sem sair nunca do abismo da idolatria e ignorância em que atègora viveram». «A terceira é que o zêlo que a nós falta da salvação destas almas, sobeja aos moiros, para as inficionar com a maldita seita de Mafoma; porque, sendo assim que antes, não há muitos anos, os impérios e reinos dos fulos, jalofos, bexerins, mandingas, e todos os mais da costa desta Guiné eram gentios, e fol- gavam de ouvir as coisas de nossa santa Fé e a recebiam alguns; agora todos professam a falsa e abominável doutrina dêste anti-Cristo, e nem consentir querem que lhes tratem das verdades do santo Evangelho; o qual fogo, se se não atalhar, pode-se temer que vá lavrando pelos reinos e nações de gentios, que há até ao Mar Roxo; porque estes mandingas, ainda que a casa do seu falso pro- feta está tão longe, lá o vão visitar, peregrinando por todas estas terras e prè- gando as falsidades de sua seita. Disto teve sua Majestade aviso, haverá dez ou dôze anos; e tratando-se do remédio, o que se ofereceu, foi que a Companhia mandasse a estas partes alguns obreiros, o qual, pôsto que se dilatou, por algumas causas que houve para isso, foi Deus servido que se efectuou no ano de 1604; donde se seguiu que os bexerins, que antes vinham a estes reinos, •Fi.**?. co*mo souberam que nós estávamos nêles, e que os gentios se iam convertendo à nossa santa Fé, não tornaram mais a êles». «Mas, porque não basta começar, importa, para que estes princípios vão por deante em crescimento, e sobre êles se funde uma Igreja mui gloriosa, que nem a nós faltem companheiros necessários, nem a estes reinos o favor de Sua Ma- jestade, que lhes prometemos, como já disse, quando se tomou posse da Serra Leôa e conquista dela, nem aos reis convertidos algumas mercês, que a êles animem, e aos que teem desejos de os imitar, acabem de render, vendo o caso
  • Dos coisas da Guiné e Serra Leôa 285 que se faz dos que já são cristãos; porque tudo isto é necessário, emquanto estas plantas são novas». «Visto também como Deus vai favorecendo esta emprêsa com a mudança não sòmente dos gentios, que deixam a idolatria, e dos cristãos antigos que saem do mau estado em que antes viviam, mas até dos ares, porque, como notam e afirmam os que teem experiência desta terra, depois que nela levantámos igrejas e celebrámos o altíssimo miste'rio da Missa, cessaram as bravas e espan- tosas tempestades que nela havia, e se seguiu grande serenidade e fertilidade: pelo quê, quero acabar com pedir aos caríssimos Padres e Irmãos dessa santa Província, pois tanto zelam a salvação das almas, favoreçam também e ajudem esta, pedindo ao Autor dela, que a leve por deante, para glória sua e aumento da nossa santa Fé».
  • 'LIVRO QUINTO Fl. »65. ADIÇÃO À RELAÇÃO DAS COISAS DE ETIÓPIA Com mais larga informação delas, mui certa e mui diferente das que seguiu o Padre Frei Luís de Urreta no livro que imprimiu da história daquele império do Preste-João PRÓLOGO STANDO-SE imprimindo esta Relação das coisas que os Pa- dres da Companhia de Jesus fizeram na índia, nos anos(i) de 608 e 6og, acertou de vir ter à minha mão um livro, im- presso em Valença, no ano passado de 161 o, composto pelo Padre Frei Luís de Urreta, da sagrada Ordem dos Prègadores, e intitulado: Historia Eclesiástica, Politica y Natural de los Rey nos de Etiópia, Monarchia dei Emperador, llamado Preste Iuan; no qual o mesmo Padre, movido de caridade e pio zelo, pretende mostrar que os Abexins do Preste-João nunca foram jàmais, nem são scismáticos e apartados da Igreja Romana, mas católicos e obedientes a ela. E, porque o mesmo Autor do livro diz que tudo o que nele escreve sôbre Etiópia, assim das coisas sagradas, como políticas, o tira de umas relações e papéis que lhe deu um Dom João Baltasar, abexim, natural daqueles reinos, que veio ter a Valença; e pela muita e certà notícia que se tem neste reino de Portugal, e relações autênticas que nele há, das coisas daquele reino, pela fre- quente comunicação e trato que os portugueses, de cem anos a esta parte, e os Padres de nossa Companhia de Jesus, de 56 para cá, teem nele, evidentemente consta que as tais informações do que diz daqueles reinos, assim àcêrca das coisas políticas, como das que tocam à Fé, são erradas # e faltas de verdade; e *fi.j65v. por isso redundam em muito descrédito, não só da verdade das histórias dêste reino, e das eclesiásticas que se escreveram pelos Padres da Companhia de Jesus, mas da mesma Sé Apostólica e da própria Fé e Religião Cristã: pareceu ser mui necessário que se declarasse a pureza da verdade do que passa nas coisas de que as tais informações falam, principalmente no que toca à fé e reli- gião dos Abexins, e ao que diz das missões da Companhia àquele reino, e dos (1) Nt.: aos annos.
  • 288 Livro quinto portugueses que lá foram, para que não pareça que, dissimulando-se com coisas tão graves, se consente com elas, em prejuízo da mesma verdade e do crédito(i) e autoridade de reis e Papas, da nação portuguesa e dos religiosos que atendem à redução daqueles reinos. E, ainda que no livro se tratam algumas coisas, em que se pudera reparar, e outras também que o crerem-se ou não se crerem monta muito pouco, diremos somente destas que mais importam, e que é bem que o mundo saiba a verdade delas, para que, quemquer que vir o livro, se não embarace em ter de alguma maneira por verdadeiro o que é tão falso. * FI. 266. * CAPÍTULO I Do que se trata no livro àcêrca da fé dos Abexins 0 PRINCIPAL intento e fim do que se pretende em tôda esta história, e principalmente no livro segundo e terceiro, é mostrar que o Preste-João da Etiópia, e os Abexins nunca foram scismáticos e desobedientes à Igreja, nem o são hoje em dia, senão mui bons católicos; e que, ainda que reco- nheçam por cabeça o Patriarca de Alexandria, a quem diz (liv. 2., cap. v) que pertencem de jure divino, e de quem trazem seu prelado, nem por isso deixam de o ser; pois não é consequência necessária que, se o prelado é hereje, o sejam também os súbditos; e que, ainda que, por muito tempo, ignoraram muitas ceri- mónias da Igreja; que todavia, no que toca à fé do mistério da Santíssima Trin- dade, e dos catorze Artigos e dos Sacramentos, sempre, desde o princípio da Igreja se conservaram em tôda a pureza e sinceridade da Fé, da mesma maneira que se crê na Igreja Católica, sem nunca se apartarem um ponto dela, nem dos Artigos decretados, definidos e determinados em os Concílios Gerais. E quanto ao judaísmo da circuncisão, guarda do sábado e cerimónias da Lei Velha que seguem, que pela intenção com que o faziam, nenhuma culpa tinham; mas que, depois que, pela via da índia de Portugal, tiveram comércio com a igreja Romana, e entenderam que os cristãos de cá se escandalizavam de êles guardarem a cir- cuncisão e mais cerimónias da Lei, e os Papas também lho * mandaram que o •fi.266v. não fizessem, logo deixaram * a circuncisão e os mais ritos judaicos e todos os outros erros em que dantes por ignorância viviam. E diz mais o livro, na página 404, que os autores que escreveram de serem os Abexins scismáticos, e de estarem inficionados com as heresias de Dióscoro e de Êutiques e de outros herejes, que falaram nisto como presumidos, sem ne- nhum fundamento, e seguindo mais sua imaginação que certeza alguma do que escreviam. Esta é a suma de todo o intento do livro. E a este propósito diz outras muitas coisas, de que também se declarará a verdade. E pôsto que a intenção e zêlo do Autor que o escreveu, se há de presumir que foi boa, em querer acudir por uma nação cristã, e defendê-la da culpa que cuidava ou estava informado que lhe impunham: contudo, como as informações donde êle diz que (1) Nt.: descredito.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 289 tirou tudo quanto escreve sobre esta matéria, foram sòmente de um abexim que veio ter a Valença, por nome Dom João Baltasar, e não foram certas: não parece justo que se deixe de responder a elas, declarando o que na pura ver- dade passa, principalmente encontrando elas tanto a opinião e juízo de toda a Igreja, que de tantos centos de anos a esta parte, tem o rei e nação dos Abexins por scismáticos, herejes e apartados da obediência e verdadeira Fé da Sé Apos- tólica; a autoridade de tantos Papas que assim o julgaram, e por este respeito, de 60 anos a esta parte, lhe mandaram Patriarcas e Bispos, e Religiosos prè- gadores, para os reduzirem, e em seus Breves e Letras Apostólicas os nomeavam por scismáticos e apartados da obediência da Igreja; a de tão católicos reis, como foram os de Portugal, Dom Manuel, Dom João III e Dom Sebastião, que tanto procuraram a redução daqueles reis e reinos, mandando-lhes para isso suas em- baixadas e socorros, assim temporais de gente de guerra para os ajudar contra os moiros seus inimigos, * como espirituais, de Patriarcas, Bispos e Religiosos, •fj.jôj. que lhes negociaram com os Papas, e os despacharam dêste reino, com tantas despesas de sua fazenda; a verdade e crédito de uma nação tão católica e zela- dora da Fé e aumento da santa Igreja, como é a portuguesa, que, depois de cem anos a esta parte, com suas navegações descobriu aqueles reinos, outra coisa não sabe deles com mais certeza, pelo verem com seus olhos todos os naturais dêste reino que lá foram e andam, que serem scismáticos, herejes, e não que- rerem obedecer ao Papa, e terem muitos e grandes erros nas coisas de nossa santa Fé, não só de heresias, mas do próprio judaísmo, que guardam. E também parece coisa fora de razão haver por presumidos tão graves e religiosos autores, como são o Padre Pedro de Ribadeneira, e os Padres Mafeu e Luís de Gusmão, e outros de nossa Companhia e fora dela, que em suas his- tóriase screvem serem os Abexins scismáticos; e dizer dêles que falaram sem fun- damento, e mais por imaginação sua que por certeza do que escreviam, e que se regeram por falsas informações, e sem averiguação de verdade, como diz na pagina 215, 613: e o Padre Mafeu, porque tinha mais ôlho em que o mundo sou- besse que era grande latino; porque o mesmo Padre Mafeu, quando escreveu sua história, vendo qne em Itália não tinha tanta ocasião de averiguar verdades, por falta das informações e papéis necessários e autênticos, que lá não havia, em pessoa veio a êste reino de Portugal, no ano de 1579, e nele a escreveu, in- quirindo primeiro e averiguando diligentissimamente a verdade (1) de tudo o que havia de escrever; e o próprio Cardeal e Rei Dom Henrique, que então reinava, lhe mandou também mostrar e dar todas as relações * e papéis autênticos que havia nas secretarias e arquivos do reino, e que estão na Torre que chamamos do Tombo, nesta cidade de Lisboa. E os Padres Ribadaneira e Luís de Gusmão tudo quanto escreveram, foi com mui certas e averiguadas informações não sòmente das que havia em Por- tugal, antes de nossa Companhia ir à Etiópia, mas com as que tiveram, depois que os Padres lá foram por êles mesmos, desde 56 anos a esta parte, que há que lá andam, e que todos sempre e todos os anos, assim o Patriarca Oviedo, emquanto viveu, como os mais, na mesma conformidade escreveram, e escrevem (1) Nl.: as'verdades. 3i
  • 290 Livro quinto hoje em dia, do estado em que está aquele reino e povos nas coisas da Fé e Religião, que é de scismáticos, herejes e desobedientes à Igreja Romana. Pelo qual se deixa ver quão dura coisa é, e o grande agravo que se faz a um tão santo varão, como foi o Patriarca Oviedo, e a todos os mais da Companhia, que de lá informaram e cá escreveram, em se dar ocasião ao mundo, de que se cuide que foram tais, que falsamente quisessem infamar a todo o império, e impôr a tôda uma nação cristã um tão feio crime, como de heresia e scisma contra a Igreja de Deus; e notar aos reis de Portugal e aos mesmos Sumos Pontífices de leves em crerem e se deixarem persuadir de falsas informações, e a ter antes por verdadeiras as de um abexim estranjeiro e não conhecido; o qual, para que se veja o crédito que merecem suas informações, leia-se um tratado seu, que fêz imprimir em Valença, no ano de 609, a que intitulou: Fundacion, vida,y regia de Ia grande orden militar y monastica de los cavalleros de Santo Anton Abbade; o qual publicou por verdadeiro, sendo uma mera ficção, como se pode ver nele mesmo, e no que diz da obediência que aqueles cavaleiros diz que juram à Igreja Ro- •fi.j«8. mana; do voto, que diz terem, * de não casar, sem licença do Papa; do Núncio Apostólico que diz haver em Etiópia, e de haver estes cavaleiros por todo o mundo, até pela Índia, Goa, Malabar e China; o que tudo consta não ser ver- dade; e, estranhando-lhe isto uma pessoa grave, respondeu que aquilo não fazia mal a ninguém, como fazia o livro de que tratamos. E o que é mais de notar, que, com serem semelhantes a estas as mais coisas que êle persuadiu, e de que informou em seus papéis ao Autor do livro, como as fábulas e ficções que conta por muitos capítulos do monte Amará; acerca da criação dos filhos dos reis que nêle metem; da inaudita livraria e tesoiros que diz haver nele; e as que depois, por muitos outros capítulos do primeiro livro também se pintam àcêrca da eleição do Preste; das cerimónias que nela finge; do solene juramento que diz que faz da obediência à Igreja Romana; aparato de sua corte; modo de proceder na justiça e no mais governo da paz e da guerra; universidades, seminários; o número de Bispos e Arcebispos que diz haver em Etiópia; extensão imensa daquele império, e outras muitas coisas que seria in- finito contá-las: com tudo isto, hoje em dia, se queixa publicamente que lhas acrescentaram ainda quatro vezes mais, como consta da petição que apresentou a El-Rei, cujo treslado eu vi. E, porque no mesmo livro se diz que, dês que os Papas avisaram aos Abexins, de seus erros, e lhe mandaram que se não circuncidassem, nem usassem das cerimónias judaicas, êles obedeceram logo, e em tudo se confor- maram com os costumes e ritos católicos, os quais hoje em dia seguem assim e da própria maneira que na Igreja Romana: pede a obrigação da verdade que se diga a do que hoje em dia passa em Etiópia nesta parte, como o afirmam as • fi. *>s v. mais modernas relações e teste*munhos, que disto se teem, e não de homens leigos e seculares, mas de sacerdotes religiosos, letrados e de santa vida, que por aquelas partes andaram e andam pessoalmente, gastando-a em servir a Deus e à sua Igreja e procurar o bem daquelas almas. E seja o primeiro testemunho o do Padre Frei João dos Santos, Religioso da sagrada Ordem dos Prègadores, em um livro que imprimiu, no ano de 608, a que intitulou Ethiópia Oriental, na qual êle andou onze anos, principalmente nas
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 291 partes de Moçambique, Sofala e Monomotapa. E, quando vem a falar na Etiópia particular, que pertence ao império do Preste-João, que é no livro quarto da Primeira Parte, tratando no capítulo oitavo, de seus ritos e costumes, no que pertence à Fé e Cristianismo, entre outras coisas diz deles, [o] que tem estes acerca da Missa e Confissão, por estas palavras: /Is vestimentas com que di\em Missa, são ao modo de camisas grandes, e a estola furada pelo meio e metida pela cabeça. Não usam de atnito, nem de manipulo, nem de cordão para se cingirem: os frades di\em Missa com o capêlo na cabeça. Não di\em Missa por defuntos; em cada igreja não se di\ mais que uma sd Missa. Os sacerdotes consagram no altar, e não mostram o Sacramento ao povo. Toda a gente que vem a ouvir Missa, é obrigada a comungar, ou deixar de a ouvir. Todos, até os meninos, comungam sub utraque specie; quando se confessam, é em pê, e em pé lhes dá o sacerdote a absolvição. Donde se vê não ser verdadeira a infor- mação que ao Autor se deu, do que diz na página 514: que os Etíopes usam já dos ornamentos da Missa da própria maneira que os nossos; nem do que diz, que dizem Missa pelos defuntos; nem do que diz na página D07, que depois que o Papa Paulo III lho mandou, já não comungam sub utraque specie; nem do que diz na página 492, que, ainda que dantes tinham este ruim costume de se con- fessarem em pé, agora jâ o confessor está assentado, e o penitente de joelhos. * Diz mais o Padre Frei João dos Santos, no capítulo 7.0 do 4.0 livro, falando #Fi.a6o dos erros, que teem os Abexins, estas palavras: Começou no princípio da Igreja a Cristandade destas terras com muito fervor e perfeição na Fé pura, e nela perseveraram muitos anos, até que, pelo tempo em deante, receberam a falsa doutrina de Êutiques e do malvado Dióscoro, Patriarca de Alexandria, aos quais veneram por Santos, seguindo seus erros na Fé, sendo desobedientes ao Papa e obedientes ao Patriarca de Alexandria, e guardando muitas cerimónias judaicas, como são a observância dos sábados e dos jejuns, circuncisão dos meninos, não comerem alguns manjares imundos, darem libelo de repúdio a suas mulheres e tomando outras. Veja agora quem ler o livro, se se pode negar que os Abexins, de muitos anos a esta parte, foram e são hoje em dia scismáticos e herejes, e quão errada foi a informação que se deu ao Autor, que no ponto que o Papa lho mandou, deixaram logo seus erros e judaísmos, e se conformaram com a Igreja Romana; se tem razão de dizer, na página 517, que levanta aleive aos Etíopes quem deles diz que casam com muitas mulheres. Diz mais o Padre Frei João dos Santos, no cap. 8.°, desta maneira: O Pre- lado maior destas partes lhes vem de Alexandria, mandado pelo Patriarca, o qual tem todos seus poderes, e em tôda esta cristandade não há outro Btspo mais que êste, a que chamam Abuná; e êste ordena os clérigos e frades destas partes; e, quando êste morre, vão buscar outro a Alexandria. Atèqui do Padre. E por isto que êle aqui diz, se fica vendo quão falta de verdade foi a informa- ção que se deu ao Autor do livro, do que diz na pág. 170, e em outras muitas partes, que tem El-Rei de Etiópia um Conselho de Estado, a que chamam o Grão-Conselho, no qual entram trinta personagens, scilicet, seis(i) Patriarcas, (1) Nt.i personagês. s. seis.
  • 292 Livro quinto seis Arcebispos, seis Bispos e os demais Abades e seculares, sem declarar estes • fi.369v. Patriarcas ou Bispos e Arcebispos, donde o são; pois em Etiópia não há ci*dades donde sejam titulares; nem ainda o Prelado que teem, se chama Patriarca, senão Abuná, que é o mesmo que Padre; e ainda este o hão do Patriarca de Ale- xandria, com muita dificuldade, como se diz na pág. 439. E da mesma maneira do que diz no cap. 12." do 2.0 livro, em que trata dos Arcebispos e Bispos, que o abexim informante fingiu haver em Etiópia, e tudo o mais de sua eleição, con- sagração, forma que teem de fazer sínodos e visitar as dioceses, coisa que lá de nenhum modo há, nem Prelado que visite ovelhas, nem quem lhes peça conta de como vivem, nem se ouvem Missa ou se confessam, como consta do que fica dito na relação atrás, no cap. io.° do primeiro livro. Também daqui se vê não ser bem informado o Autor àcêrca do que diz na pág. 553, e noutros muitos lugares, que, por Breves particulares, expedidos por alguns Papas, o Arcebispo mais antigo de Etiópia, é nela Patriarca e Núncio Apostólico, e tem as vezes do Sumo Pontífice, com ordem que nas coisas difi- cultosas recorra ao Núncio de Portugal, ou ao Arcebispo de Gôa e Teólogos dela: o qual tudo quão fora de propósito seja, a mesma razão o está ditando; porque, ainda que lá houvera tais Arcebispos ou Bispos, ,rcomo podiam ser Núncios Apostólicos, sendo scismaticos? E, se foram católicos, ,jque necessidade havia então de mandarem lá os Papas Patriarcas e Bispos, como mandaram, para redução daquele reino? E, se tiveram as vezes do Papa, ^que necessidade tinham de recorrer ao Núncio de Portugal, ou Arcebispo de Gôa e Teólogos dela? E, em caso que recorreram, jem quantos anos havia de vir cá e tornar lá a resposta de uma resolução, havendo entre Portugal e Etiópia tão grande distância de mares, e tantos impedimentos para se comunicarem, que estão logo •ki. 270 em Etiópia seis e sete anos, sem poderem ter uma resposta * da índia, e na índia sem a poderem ter de Etiópia? E atèqui as informações e testemunhos do Padre Frei João dos Santos. Agora poremos outros não menos segurose verdadeiros, que são os dos Padres de nossa Companhia de Jesus, não só os antigos, que irão mais adeante noutro lugar, mas os modernos, que foram de dez anos a esta parte, e hoje em dia andam em Etiópia. Informações dos Padres da Companhia Para nesta matéria se poder dar inteira razão de tudo o que a ela pertence, é necessário declarar-se primeiro que, desde o ano de 57, que o Padre Patriarca Oviedo e mais Padres da Companhia de Jesus entraram em Etiópia, até o ano de 6o3, que foi espaço de 46 anos, nunca mais pessoa alguma da Companhia, (com tantas vezes cometerem a ida e se procurar por tantas vias) pôde lá entrar; porque logo, depois da entrada do Patriarca e Padres, de tal maneira ocuparam os turcos todos aqueles portos do Mar Roxo, que estão na costa do Abexim, e dantes eram seus, que nenhum só lhes ficou que os turcos lhes não tomassem, e de que não estejam(1) apoderados até ao dia de hoje; pelo que, nunca jàmais houve poderem passar um só português nem Padres a Etiópia, que não fôssem % (1) Nt.: estem.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 293 mortos ou cativos dos moiros e turcos como aconteceu, no ano de i56o, ao nosso Irmão Fulgêncio Freire, que da índia mandaram os Padres a Etiópia, a saber novas do Patriarca e do que lá passava, porque as não sabiam desde que partira de Goa; o qual no estreito de Meca foi tomado dos turcos e levado cativo ao Cairo, cheio de feridas que lhe deram; donde, depois de muitos trabalhos, foi resgatado por via de * Roma. **'• *7°». O mesmo sucedeu aos Padres António de Monserrate e Pedro Pais, no ano de 90, os quais (1) indo para Etiópia, ajudar e suceder aos que lá estavam, que não eram já mais que um ou dois, por todos os outros serem mortos, foram também cativos dos moiros, e em seu poder estiveram sete anos, em estreitís- simo cativeiro; o mesmo ao Padre Abraão de Georgiis, maronita de nação, que indo da mesma maneira para Etiópia, no ano de g5, toi conhecido e preso na ilha de Maçuá, e ali martirizado pelos infiéis, por se não querer fazer moiro. Pelo que, vendo isto os Padres da índia, e considerando que remédio poderiam ter, para os Nossos poderem passar àquele reino com vida, para acudirem assim àqueles poucos católicos, descendentes de portugueses, que lá há, os quais, por serem mortos todos os Padres, estavam em tanto desamparo, como para verem se podiam reduzir o rei e seus vassalos à obediência da Igreja Romana: nenhum outro acharam mais próprio, que fundar uma casa da Companhia na cidade de Dio, aonde cada ano veem muitas naus de Meca, em razão do comércio, para nelas os Nossos, disfarçados em trajos de Arménios, poderem ir seguros ; por ser dali mais fácil a passagem a Etiópia, que de nenhuma outra parte da índia. Começou-se esta casa, de bem fracos princípios; e como o demónio viu a guerra que dali se lhe ia ordenando, com quantas forças pôde, procurou de a impedir, com muitos estorvos e contradições; porém emfim prevaleceu a causa de Deus. E entrando no governo da índia o vizo-rei Aires de Saldanha, como era tão pio, tão cristão e zeloso do bem e conversão dos infiéis, entendendo de quanta importância era esta casa para a redução de Etiópia que tanto se dese- java, entre outras coisas importantes que fêz no tempo de seu governo, que não toca a esta hi*stória prosseguir, uma delas foi dar ordem na fundação dela, e - fi. 371. promovê-la sempre em tudo o que se entendeu ser necessário, para a levar ao cabo, como levou; e é hoje uma das boas que a Companhia tem na índia, e uti- líssima, não só para os naturais de Dio, cristãos e gentios, mas sobremaneira para o bem de Etiópia, que foi o fim principal por que se fundou; porque desta cidade e pôrto partem os Nossos, em naus dos mesmos turcos e mercadores moiros, os quais obrigados com os favores que em Dio lhes fazem em seus ne- gócios, os levam e põem a salvo em Etiópia, como fizeram, no ano de 6o3, ao Padre Pedro Pais (2), e no de 6o5, aos Padres António e Francisco António de Ângelis; e no de 606, aos Padres Luís de Azevedo e Lourenço Romano, que estes cinco são os que hoje lá andam, e dêstes diremos agora aqui o testemunho e informações que por suas cartas dão, do estado em que ao presente está aquele reino nas coisas da Fé e obediência à Igreja Romana; posto que de propósito não escrevem desta matéria, por ser coisa tão notória, mas somente acaso e por (1) Nt.: aos quaes. (2) Nt.: Pero Paes.
  • 294 Livro quinto ocasião de outras coisas que iam tratando em suas cartas; e por isso iremos apontando o que cada um diz por si, que é o seguinte. O Padre Pedro Pais, que é o Superior de tòda a Missão, em uma de 24 de Julho de Ó04, diz que sobre o mistério da Santíssima Trindade teem os Abexins que nós os católicos pomos quatro pessoas, porque em Cristo pomos duas na- turezas e duas vontades, não pondo eles mais que uma só; teem que o Espírito Santo não procede do Filho, senão do Padre; teem que não há Purgatório; teem que se rebaptizam cada ano e juntamente se circuncidam, e guardam o sábado e outros muitos ritos do judaísmo; e sobre todos estes erros, diz o mesmo •F1.J71Y. Padre * que muitas vezes disputou com alguns abexins, os mores letrados que lá há, frades e leigos, assim em práticas particulares como duas vezes deante da rainha, e uma solenemente deante de El-Rei Tindigil, e que convencidos che- garam a confessar seus erros, como sempre fazem; mas dizendo juntamente que se não atrevem a manifestar por da Fé da Igreja Romana. Diz mais o Padre que reduziu dois homens que cada um estava casado com três mulheres; e de- clarando-lhes o erro disto, responderam que o seu Abuná ou prelado lhes dissera que bem o podiam fazer, e que êle lhes dava licença para isso. Donde consta não ser bem informado o Autor àcêrca do que diz no cap. 3.° e 4.0 do 2.0 livro e noutros lugares, que a pureza da Fé e obediência ao Papa esteve sempre e está nos Abexins tão propriamente, como na Cristandade de Europa, e que nenhum êrro teem no mistério da Santíssima Trindade, nem em nenhum dos Artigos da Fé, nem dos sacramentos da Igreja, sendo êies tão crassos e tantos, como se tem visto e verá no que se segue. O Padre Luis de Azevedo, em uma de 22 de Julho de 607, diz, falando dos erros dos Abexins, que casam com muitas mulheres; que sua confissão não é dos pecados em particular e espécies, senão em geral, dizendo: Habesseu, habesseu, que quere dizer: pequei, pequei, sem descobrir pecados alguns. E ainda essa confissão, tal qual é, escassamente a fazem e mui raras vezes, e que sem ela comungam e ordinariamente morrem; e que não teem o sacramento da Confirma- ção, nem o da Extrema-Unção; nem, na hora da morte, usam receber o sacramento da Eucaristia por Viático, e que mui poucos ainda se confessam nela, mas que, como bestas, assim morrem, com lhes parecer muito bem o uso da Igreja Romana, da Extrema-Unção e Viático. * fi. J72. E, conforme a isto, bem se deixa ver * quão falsa foi a informação que se deu ao Autor, àcêrca do que diz no cap. 8.° do 2.0 livro, que sempre os Abexins usaram e usam hoje em dia do sacramento da Confissão, com tanta inteireza como o propõe a Igreja, e que se confessam de todos os pecados, sem deixar nenhum, e com tôdas suas circunstâncias e condições, e que se confessam muito amiúde; e que, se um acerta de cair em pecado, logo se vai confessar; porque, se o não faz, se escandalizam os outros; e do que também diz que nenhum há, por mais distraído que seja, que se não confesse pelo menos duas vezes cada semana; e que os mais devotos e recolhidos o fazem cada dia; e que os sacer- dotes etíopes se governam pelas Sumas de Silvestro e outras muitas, que lá se lhes mandaram de cá; e que, ainda que os Abexins não tiveram por muito tempo conhecimento dos sacramentos da Confirmação e Extrema-Unção, depois todavia que a Igreja Romana os avisou pelos Concílios Florentino e Tridentino,
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 295 os abraçaram e usam hoje em dia; e da mesma maneira que, ainda que;6ntés não tinham guardado o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, nas igrejas, para os enfermos, o guardam hoje: o qual tudo nada passa assim. O Padre António Fernandes, que e' superior da casa de Gorgorra, que a Companhia tem no reino de Dambeá, e o que de ordinário corre na corte, em uma de 3i de Julho de 606, diz assim: Aqui onde estou, alguns se reduzem à Igreja Romana, outros confessam a verdade, mas ficam-se em seus erros. El-Rei escreve este ano ao Papa lhe mande Patriarca, e a sua Majestade lhe mande socorro de soldados portugueses, para ter fòrça com que possa executar esta sua vontade que tem da redução deste reino à Igreja Romana, porque tóda a fòrça deste negócio está nos grandes do império. Contudo arreceamos a execução desta vontade; porque é gente esta que troca muito a palavra. Falando eu com muitos homens gran*des, e com muitos frades e clérigos, confessam irem errados, *fi. >7»v« mas não acabam. Deus os alumie, para que não morram sem candeia da Fé, como vivem, e como parece que vai acabando este império, porque das 20 partes, estão perdidas as 17. Atèqui este Padre nesta carta. Noutra de 28 de Junho de 607, diz assim: Estamos neste reino cinco Padres; dois andamos às bordas do arraial de El-Rei, assim para conservar os nossos católicos, como para pro- curar que outros o sejam; porém muito poucos se reduzem; pósto que todos, assim eclesiásticos, como seculares, em extremo louvam nossas coisas e doutrina, mas não a recebem, uns por medo, outros por dureza. Teem muitas coisas de judeus; guardam a circuncisão e o sábado, não comem de carnes imundas, nem peixe sem escama; e estão tão ferradas nestas cerimónias legais, que, com evidentemente se lhes mostrar serem acabadas, e éles muitos o confessarem, contudo ficam na sua dureza. Noutra de 20 de Julho de 609, que foi a derradeira que se recebeu daquelas partes, em Agosto passado de 610, diz desta maneira: Cá ando pelo sertão desta grande Etiópia, em a córte do imperador dela. Os erros, que teem na Fé, são muitos, e os mais da Lei Velha. Rebapti%am-se, e teem que a Humanidade de Cristo é igual à Divindade; e não criar Deus as almas, senão virem por semente de pais e mães. Sobre estes e outros muitos erros tive disputas com os mais afa- mados letrados; em tudo me concederam sempre irem errados; só no da Huma- nidade não ser imitai à Divindade, e a criação das almas não ser por semente de seus pais, não querem vir. Os clérigos são casados; os frades vivem em seus (1) mosteiros, mas sem nenhuma clausura; saem quando querem, e vão por onde querem, e são nomeados os que não vivem mal; as freiras da mesma maneira. Isto é o que dizem estes Padres que hoje lá andam, que o vêem e palpam e experimentam; do qual se pode ver quão enganosa e falta de verdade foi a informação pela qual diz o Autor que se regeu em tudo o que escreveu; e como também não há em Etiópia aquela distinção que faz na pág. 524, e que diz haver entre os sacerdotes, de uns serem casados e outros virgens, nem todas as mais * coisas que dêles diz. Outro testemunho que, por ser de um sacerdote abexim e natural de Etiópia, não é de pequeno momento, de um frade, por nome Tecla Maria, da Ordem (1) Nl.: tem seus.
  • 296 Livro quinto de Santo Antão, o qual, no ano de i5g3, foi mandado de Etiópia, por via do Cairo, pelo próprio rei Malaseguet, portugues[es] e Padres que lá estão; e a causa de sua vinda foi porque, como por via da índia não podiam vir, nem ir recados de Etiópia, por razão dos caminhos e portos estarem impedidos pelos turcos, escolheram a este Tecla Maria, por ser sacerdote e religioso, e saber bem a língua arábia, porque estivera seis anos em Jerusale'm, e sabia os ca- minhos e portos por onde poderia vir por terra a estas partes de Europa, e também ser conhecido por homem virtuoso e de confiança, e o mesmo rei de Etiópia o ter por tal, pela experiência que dele tinha. Êste chegou a Roma, e ainda que não trazia carta de El-Rei, trazia a do capitão dos portugueses, por nome António de Góis, para sua Majestade, e dos Padres para Sua Santidade e para o Geral da Companhia, remetendo-se ao que o portador dissesse; porque, por razão dos caminhos, e perigos de serem to- madas as cartas, nem El-Rei quis escrever por si, nem se exprimia nelas tão particularmente o a que vinha, mais que dizerem que se lhe desse crédito ao que éle dissesse. E o que disse, foi pedir duas coisas a sua Majestade e a Sua Santidade, da parte de El-Rei de Etiópia: portugueses e Padres; uma, lhe mandasse socorro de portugueses, porque dele resultariam dois grandes bens: um, livrar aquela terra dos turcos e moiros; outro, que por êste meio aquela gente se uniria com a Igreja Romana, declarando a grande necessidade que aquela terra tinha de Bispos e Sacerdotes latinos, para terem *fi. 2;3v. quem os doutrine e sustente na Eé da * Igreja Romana, da qual estavam apartados. E êste foi o negócio que mui de propósito tratou em Roma, e depois também neste reino, vindo a éle, no ano de noventa e oito; e, porque o santo Padre Patriarca André de Oviêdo, emquanto viveu em Etiópia, viveu sempre com grande perplexidade, como êle dizia aos nossos Padres e aos mais católicos, se os sacerdotes abexins eram validamente ordenados, por ter achado que as formas sacramentais que lá usavam na administração das Ordens os seus abunás, eram muito variadas; e por este escrúpulo se não atreveu nunca a ajudar-se dos tais sacerdotes: por esta mesma dúvida, quando de Etiópia veio a Roma o sobre- dito Tecla Maria, escreveram os Padres ao nosso Padre Geral da Companhia, e ao Padre João Alvares, Assistente de Portugal, que então era em Roma, de como o mesmo Tecla era um daqueles sacerdotes abexins, em cujas Ordens havia dúvida. Pelo que, consultando-se o caso com Sua Santidade e Cardeais, pareceu a Sua Santidade que se devia tornar a ordenar Tecla Maria, na forma católica, o que, por especial ordem sua, se executou assim, em casa do Cardeal Santa Severina, pelo Bispo de Sidónia, que o ordenou de todas as ordens, o qual tudo testificou o sobredito Padre João Álvares, da Companhia de Jesus, Assistente que foi em Roma, e hoje é Visitador desta Província de Portugal, e o Padre Sebastião Rodrigues, que no mesmo tempo também então residia em Roma, e era secretário de nosso Padre Geral, das coisas pertencentes à Assis- tência de Portugal. Pelo que, se vê claramente não ser assim o que diz o Autor, na página 522, por estas palavras: Aunque los Abexinos en dar las Ordenes, y recebellas * fi. 274. tengan * muchos abusos, y tambicn algunas cosas muy contrarias a todo btien
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 297 conciertoy ni por esso se deveu de condenar por herejes, como ha\en algunos rigurosos calificadores: porque lo hacian con ignorância, y eu mandandoles la Iglesia lo contrario, hati obedecido como buenos hijos, y ordenan agora al uso de la Iglesia Romana, con los mismos ritos, y cerimonias, dando las Ordenes los Obispos y Arçobispos(i); pois o mesmo costume guardam hoje que sempre, nem lá há Bispos nem Arcebispos alguns. CAPÍTULO II De algumas outras provas, com que o Autor quer mostrar que os Abexins são católicos e obedientes à Igreja. Descobre-se a falência delas DAS quais uma é de muitos autores, que alega na pág. 601, dos quais afirma que o dizem; ao que se responde que, dado que assim o digam, o certo é que foi por não terem as verdadeiras informações que hoje há, que são as que acima referimos, e abaixo também diremos, senão somente de alguns abexins que de tempos em tempos vinham a ter a estas partes de Europa, que no falar das coisas de sua pátria se estendiam, e as pintavam não como elas eram, senão como èles queriam, como o fêz também, no tempo de El-Rei Dom João, Zagabo embaixador do Abexim, de quem Damião de Góis, que o autor cita, tirou o que escreveu desta nação, em que diz muitas coisas que depois se acharam não serem assim; e como fêz agora o abexim João Baltasar, infor- mante do Autor. Mas, se estes escritores que alega, tiveram a notícia desta gente, que hoje se tem na Europa, pelas informações de tantos e tão verdadeiros testemunhos: nenhum dissera se*não que foram e são mui finos scismáticos e • ki. 174 v herejes, como o dizem todos os que neste nosso século escreveram dèles. Outra prova de serem católicos diz que é porque vieram ao Concílio Flo- rentino, no tempo do Papa Eugénio IV, a dar obediência à Igreja Romana, e nele fizeram uma protestação da Fé, concordando com tudo o que a Igreja Ca- tólica tem e crê; e também porque muitas vezes os reis de Etiópia escreveram cartas aos Sumos Pontífices, em que lhes davam obediência. A nada disto se contradiz, mas da continuação e perseverança, com que, de mais de mil anos a esta parte, viveram e vivem em seus erros, se mostra que tudo isso ou foi fin- gido, ou com tão pouca firmeza na verdade, que nenhuma coisa cumpriram do que prometeram; como também se viu nos Arménios. (1) Neste e nos trechos seguintes que se transcrevem da destemperada obra de Urreta, não há grande rigor. O P. Guerreiro facilmente omite, acrescenta ou substitui palavras; e até resume, por sua conta, passagens ou páginas inteiras, numa frase mais ou menos castelhana. Em todo o caso, verificámos com prazer que nestas transcrições reproduz fidelissimamente o sentido do autor espanhol. Por nossa parte respeitamos os trechos, como Guerreiro os apre- senta ; mas julgámos do nosso dever restaurar a ortografia de Urreta, e até acrescentar ou su- primir uma ou outra letra ou~particula, quando na transcrição notámos que havia certamente deslize involuntário de Fernão Guerreiro ou dos tipógrafos de Lisboa. Pudemos fazer isto com segurança, porque na Biblioteca Pública de Évora manuseámos à vontade a primeira parte da obra de Frei Luís de Urreta, impressa em Valência no ano de 1610. A segunda parte, se a publicou, não a pudemos descobrir. — N. do E.
  • 298 Liiro quinto Outra prova, que traz na página 214 e noutras partes, é por haver lá o Tribunal da S. Inquisição contra os herejes e judeus, e castigarem, em lugar de fogo, com os deitarem aos leões e bestas feras; ao que se responde que Inqui- sição verdadeira, e como se usa na Igreja Católica contra os herejes verdadeiros, esta não há lá, e foi mero fingimento do informante; porque os Abexins não teem por herejes senão aos que seguem a verdade da Igreja Romana, como ao deante se verá; e o castigo que dão aos que, deixando as heresias e scisma em que eles vivem, se tornam católicos, é êste que diz o Autor, de os deitarem aos leões e bestas feras. E assim o mandou fazer o perverso imperador Adamás a uns poucos de católicos, que o santo Padre Patriarca Oviedo tinha feito e redu- zido de seus erros à Igreja Romana, que, por não quererem retroceder na Fé, os mandou o perverso rei lançar aos leões, como consta de um instrumento autêntico de testemunhas, que o Reverendíssimo Senhor Dom Aleixo de Meneses, •fi 375. Arcebispo * de Gòa, mandou tirar da vida e morte do santo Patriarca Oviedo, em Ktiópia, no ano de 98, por um sacerdote secular, chamado Melchior da Silva, que o Conde Almirante Dom Francisco da Gama, vizo-rei, e êle, lá tinha man- dado por Vigário dos portugueses e mais católicos, depois dos Padres da Com- panhia serem todos mortos. Prova mais, na pág. 464, o que pretende, por estas palavras: Y que los Christianos de la Etiópia ayanya dexado todas sus costumbresy ritos antiguos, no pido que se me de credito a mis escritos; informense de los Abissinos que viven en el Collegio que ay en Lisboa de sti nacion, y dei Çollegio de S. Estevan de los Indianos en Roma que echaran de ver que digo la verdad, como passa a ta letra. Por aqui verá também o mesmo Autor quão grandemente foi enganado pelo informante, em todas as mais coisas que lhe disse de Etiópia, que está tão longe e remota da comunicação destas partes de cá; pois de Lisboa, cidade tão frequentada de espanhóis, e tão vizinha a Valença em respeito de Etiópia, lhe disse e persuadiu uma coisa tão evidentemente falsa, como é haver nela colégio de abexins, coisa que nem há, nem houve jamais. E quanto ao colégio de S. Estêvão dos Indianos, em Roma, de que tantas vezes fala, e do qual diz que há nele sempre muitos colegiais abexins, e que estes fazem os ofícios divinos ao modo de Etiópia, e que o Papa Gregório XIII os ia ouvir, e os Ilustríssimos Cardeaes Toledo, Barónio e Belarmino aprenderam dêles várias línguas; e a embaixada que diz que veio ao mesmo Papa, da parte de El-Rei de Etiópia e clero daquele reino, de vinte e quatro embaixadores, doze cavaleiros de Santo Antão da parte de El-Rei, e dôze Sacerdotes da parte do clero: a verdade de tudo isto saberão os que estão em Roma. •fi j75v. Outra prova de serem os Abexins católicos, traz na pág. * 608, desta ma- neira: Se todos os imperadores cristãos da Etiópia acabaram com os sacra- mentos da Igreja, e mortes (sic) em seu acordo, sem se acharem entre éles as traições e outras desventuras que nos di\em as histórias dos mais dos reis e imperadores do mundo; e se os reinos scismáticos e heréticos nunca duraram muito tempo, antes foram castigados de Deus com mil guerras, fa\endo-os sujeitos e tribu- tários a infiéis, como vemos dos Gregos, e os reis de Etiópia nunca padeceram estes castigos, mas sempre, desde a rainha Candace, perseveraram com muita grandeza, e não somente nunca perderam seus reinos, antes os acrescentaram
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 299 com outros de novo, que- ganharam para a coroa imperial; de modo que tem agora o Preste João o mor poder e maisjlorente império, do que nunca teve: segue-se que não são scismáticos, nem Itere/es, nem rebeldes à Igreja Romana. Mostra bem o Autor nisto não ter a notícia das coisas e história de Etiópia, que por cá temos, e quão mal informado foi nestas histórias; pelo que, quanto ao contrário passe de tudo o que aqui diz, se pode ver (além do que ao deante se disser) no que passou, de oito anos a esta parte, naqueles reinos; porque, no ano de 6o3, havendo sete anos que reinava El-Rei Jacobo, os seus, com mui grande traição, se levantaram contra êle, e desapossando-o do reino, o man- daram preso a uma serra, nos confins do império, e levantaram outro em seu lugar, o qual não durou mais no trono que ano e meio, no cabo do qual tempo alguns grandes do império se levantaram contra êle e o mataram numa batalha mui impiamente; e sucedeu tanta guerra após isto naquele reino, que província inteira houve, que de tal modo ficou assolada, que os lôbos entravam pelos lu- gares e casas, comendo os corpos mortos, que não tinham quem os enterrasse. Levantaram, em lugar deste, outra vez, o que dantes tinham prèso, o qual não durou mais que um ano no império, e no cabo dele, um competidor seu, por nome Sacinos, lhe deu uma batalha em que o desbaratou e matou, com grande estrago de seu exército; e ficando èste com o título de imperador, * se levan- *n.j/6, taram muitos contra êle, com título de reis, e o puseram em grandes apertos, como fica referido na relação atrás no liv. 1, no cap. 9.0, e se verá também em uma carta do Padre António Fernandes, de 20 de Julho de 1609, onde em um capítulo dela diz assim: São neste império as guerras a vida dos homens; nem o imperador tem outra que, acabado o inverno, sair às guerras ou contra os seus vassalos re- beldes, ou contra inimigos de fora; e deixando as guerras dos anos passados, direi as que se levantaram de dois anos que há que éste imperador governa; porque no primeiro ano se llie levantaram, em diversas partes, alguns tres ou quatro, com títulos de reis, aos quais todos sujeitou. Este presente ano, se lhe levantaram outros tantos. Esta foi sempre a vida de Etiópia, de muitas cen- tenas de anos a esta parte; e assim ficamos nós sujeitos a seus balanços e a suas enchentes e vagantes, sem sossego nenhum: umas ve\es, fugindo às serras, outras às lapas e covas, outras embrenhados pelos matos. Emfim, as ladainhas dos perigos de S. Paulo todos regamos e padecemos nesta terra, e outros inumeráveis trabalhos, para que, por labruscas, dé uvas ao Senhor que a plantou. Indo éste ano o imperador a socorrer um seu capitão, que andava em campo contra um rei alevantado, lhe disseram que vinham uns inimigos, por nome galas, que são uns bárbaros cafres, cuja origem se tem que foram concebidos de demónios incubos; e haverá perto de oitenta anos que estes, sendo pastores, se vieram a rebelar contra seus senhores etíopes, e se foram fa\endo tão temidos, que teem hoje tomado, e senhoreiam algumas dô\e partes da Etiópia, (afora o que outros inimigos também possuem), e foi prognosticado éste castigo pelo Pa- triarca Dom João Bermudes, o primeiro que cá veio, por mandado do Papa, em tempo de El-Rei Dom João III, o qual muitas ve^es, estando na missa, disse de improviso que via cães pretos destruir tòda a Etiópia, por seus grandes pe- cados, e tal a teem hoje. Dizendo pois ao imperador que estes vinham, lhes saiu
  • 3oo Livro quinto ao encontro, em que foi desbaratado, e ficou o império em risco de todo se perder. Sucedido este desastre, fui para o consolar, mas não o pude alcançar, •fi.j76v. porque com novo socorro voltara outra ve\ contra eles, e dando-lhes * batalha, os venceu, e recuperou tudo o que na vitória passada lhe tinham tomado. Cheguei alguns dias depois, e me recebeu com muito gasalliado e honra, e se alegrou e consolou muito. Mostra-se este imperador mui afeiçoado às coisas da Igreja Romana, e tem de si dado grandes sinais, e lá vão suas cartas para Sua San- tidade e Majestade, em que também lhe pede o socorro de portugueses. Muito pudera di\er do que nele vi, de dois anos e meio que há que o trato; será o Senhor servido dar-lhe sua lirv Atèqui a carta do Padre. Diz mais o Autor do livro, na pág. 607, desta maneira: Fuera de la Iglesia Romana no ay santos, y es impossible que los aya comopruevan los Theologos: pues si en la Etiópia siempre ha ávido santos, y personas seiíaladissimas, a las quales ha honrrado Dios con grandíssimos, y portentosos milagros, siguese que son de la Iglesia Romanay muy Catohcos. Ão que se responde que não negamos que, antes de os etiopes se apartarem da união da Igreja, houve entre êles muitos Santos, mas não se mostra que sempre os houve; pois, tanto que se apartaram da verdadeira Fé, não podia haver entre êles verdadeira santidade e graça de Deus, quia sine Jide nemo potest placere Deo. E se em algum tempo, depois de apartados da Igreja, houve aparências de virtude e santidade, não houve a substância verdadeira dela. Nem é argumento verdadeiro de a haver, os gran- díssimos rigores de penitência que em muitos se viram e vêem hoje em dia - porque, como diz S. Epifânio (1), e o toca também o Evangelho, estes se viram antigamente nos fariseus, e hoje em dia se vêem nos jogues da índia; e contudo nao havia naqueles, nem há nestoutros a verdadeira justiça e santidade: nos fariseus, porque o faziam por vanglória e reputação do mundo, como lhes disse Cristo Nosso Senhor; nos jogues, porque, além de o fazerem pelo mesmo res- peito, sao infiéis. E além disso, todos êsses rigores de penitência, que em muitos abexins se vêem, pressuposto estarem apartados da Igreja, se devem julgar por ♦ki.277. ilusão do * demónio, que se transfigura em anjo de luz, para, por estas aparên- cias de santidade e milagres falsos que lhes faz fazer (como também por sua operação os há de fazer o Anti-Cristo) mais os enganar e ter seguros em seus erros, a êles e ao mísero povo que os segue, fazendo-lhes cuidar que teem ver- dadeira Fe. E se houve alguns que, depois de os etíopes estarem apartados da Igreja Romana, fossem verdadeiros Santos, claro está que o não foram pela fé dos de Etiópia, senão da Igreja Católica. Outra prova, com que mais o Autor quer mostrar que os Abexins são cato- hcos e obedientes à Igreja Romana, é com dizer [pág. 572, 7o5J que há em Etiópia grande numero de religiosos e religiosas da sagrada Religião do glo- rioso Sao Domingos, e que dela são uns dois mosteiros principais daquele reino, que se chamam um o da Aleluia, e outro de Plurimanos, que é de frades e freiras juntamente; e que os priores destes conventos são os inquisidores de Etiópia; e que há mais de 3oo anos que os reis daquele reino se confessam com religiosos de S. Domingos; e que os ditos Padres lêem lá teologia escolástica, (1) Nl.: Sam Epiphanio.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 3oi e que nestes seus dois conventos se dão os graus de doutoramento aos que se graduam, e que teem fundada a devoção do Rosário, de que há muitas e ricas confrarias; e que suas freiras são mais de cinco mil, e outras muitas coisas que diz sobre esta matéria(i). Ao que tudo se responde que ditosa e bemaventurada fôra Etiópia, se me: recera a Deus tamanho bem, como haver nela religiosos de tão santa e sagrada Religião; e que tiveram o poder e autoridade naquele reino, que o Autor lhes dá, que nenhuma dúvida há que não estivera hoje em dia Etiópia tão assolada na verdadeira Fé e Religião Católica, como está, nem com tanta obstinação ne- gara a obediência à Igreja Romana. Mas a verdade é, e se ve*rá do que dis- •fi.j77v. sermos, que em toda a Etiópia não parece que há religiosos, nem religiosas do glorioso S. Domingos. Primeiramente, porque todos quantos frades há em Etiópia, se nomeiam por frades de S. Antão, de S. Macário e de S. Basílio, e de nenhuma outra Religião monástica de Europa se nomeiam lá frades. Segundo, porque não há lá Inquisição, ou inquisidores da Fé, como já dissemos. Terceiro, porque os reis lá não teem confessores particulares com este título. Quarto, porque lá nem há universidades, nem escolas públicas, nem se ensinam ou aprendem outras sciências mais que estudarem de cor o texto das divinas Es- crituras, do Testamento Velho e Novo, e de alguns concílios; e quem disto mais sabe, é mais letrado, nem há outros doutoramentos nem graus; e as escolas, onde estas sciências se apredem, não são públicas e patentes para todos, mas ou são as próprias casas particulares dos nobres, onde seus filhos e filhas as aprendem e decoram, ou os próprios mosteiros dos frades, onde de ordinário os nobres mandam criar e ensinar seus filhos; e tirando alguns frades, que são bem poucos, toda a mais multidão dêles ordinariamente são idiotas; e tudo isto referem em suas cartas os Padres de nossa Companhia. Quinto. Todos quantos frades há em Etiópia, tirando alguns, que acertam de se reduzir com as disputas dos Padres da Companhia, (que são pouquíssimos), são scismáticos e herejes, e muito mais obstinados na mesma heresia, que os próprios seculares. Antes não tem lá a Fé da Igreja Romana, quem mais a en- contre e lhe resista que êles; pelo que, fica claro não serem religiosos de S. Do- mingos, cujo próprio é serem defensores e propagadores da Fé. E muito mais seguro me parece seguir nesta parte o juízo tão maduro do muito Reverendo Padre Frei Fernando de Castilho, varão de tan*ta autoridade e espírito, como * fi- *78. de todos é conhecido, o qual, na História que escreveu dos Santos e varões ilustres de sua sagrada Religião, nenhum caso nem menção quis fazer dos frades da Etiópia, que frei Serafino Rasis tinha escrito serem de sua Ordem, nem das grandes maravilhas de virtudes e milagres, que de alguns dêles contou; e não há dúvida senão que, ou pelos não ter por frades seus (o que é mais verdade) ou, como diz o mesmo autor Frei Luís Urreta, na pag. 557,1l'e mesmo res- pondeu, sendo perguntado, por não estar inteirado se os frades de Etiópia eram (1) Algumas destas afirmações não conseguimos encontrá-las na obra de Urreta; mas notemos que êste, na pág. 708 da primeira parte, promete falar dos frades da Ordem de S. Do- mingos no livro seguinte, livro pertencente à segunda parte, que não lográmos descobrir. N. do E.
  • 3o2 Livro quinto católicos e filhos da Igreja Romana; porque, se o não eram, pouco lhes apro- veitavam suas penitências e martírios, nem se lhes havia de dar crédito, por mais portentosas vidas que fizessem. Sexto, porque, quando, no ano de i52o, Dom Rodrigo de Lima, embaixador de El-Rei D. Manuel, e com èle Francisco Alvares, sacerdote, homem prudente e bem entendido, estiveram em Etiópia, onde andaram seis anos, dis o mesmo Francisco Álvares, no cap. 83 e 84 da primeira parte do livro que escreveu das coisas daquelas terras, que, vendo o Preste-João nas cartas que El-Rei Dom Manuel lhe mandava, que lhe dizia nelas como tinha fundadas nas terras que conquistara, muitas casas de religiosos de S. Domingos e de S. Francisco; o rei o mandara chamar, e lhe perguntara que Santos eram aqueles e que vida fizeram. E respondendo-lhe Francisco Álvares o que sabia deles, e dizendo-lhe também como levava um Fios Sanciorum, em que se contavam suas vidas, El-Rei lho pedira e o mandara traduzir em língua etiópica, e estimara muito saber as vidas daqueles Santos. Donde se vê que até àquele tempo se não sabia em Etiópia haver estes Santos no mundo; ou, se • fi. 278 v. alguma hora se soube, de todo sua memória estava esquècida: que é as*saz argumento de não haver lá seus frades; pois, se os houvera, impossível fôra não serem sequer nomeados por razão deles, e não saber El-Rei que seus confes- sores eram de sua Ordem. Sétimo. E também outro argumento, e ainda mais eficaz, desta verdade, a vida que fazem os frades dos mosteiros da Aleluia e Plurimanos, tão diferente de frades de S. Domingos; porque, àlém de serem todos scismáticos e herejes, diz Francisco Álvares, no livro 2.0, cap. 40, que, indo ter ao da Aleluia, achou ser mui grande e de mui grandes rendas, e ser tradição que foi fundado logo no princípio da cristandade daquela terra, e que se chamou da Aleluia, por esta mesma palavra que um frade devoto, estando em oração, ouviu cantar aos Anjos no Céu; e que dali ficou começarem-se naquele mosteiro todas as missas por Aleluia, (posto que o começarem-se desta maneira é comum em toda a Etiópia). Porém (ajunta Francisco Álvares) se naquele tempo aquele frade foi bom e devoto, teem agora os que aí estão, fama de grandes ladrões, em tanto, que pela má lama que èles teem, os não querem comunicar outros doutro grande mosteiro que ali está vizinho. A mesma reputação tem o mosteiro de Plurimanos, ou Bilibanos (que por ambos estes nomes se chama) do qual diz também Francisco Álvares, no cap. 66 do primeiro livro, que, quando nele esteve, o Prior que então era, e pouco havia fóra eleito pelo Preste, fôra primeiro moiro; e que, depois de se fazer cristão, viera a privar tanto com o Preste, que o fêz Prior daquele mosteiro. E o Padre Mestre Gonçalo Rodrigues, de nossa Companhia de Jesus, que foi o primeiro dela, que no ano de 1555 entrou em Etiópia, em uma carta que escreveu do que lá passara, a qual, no cap. seguinte, havemos de referir, diz que, indo com alguns •fi. r,9. portugueses a ver êste mosteiro, achou ser * mui grande, e de frades e freiras juntamente; mas que se dizia haver entre êles muitos filhos. Pelo que, bem se deixa ver quão pouco diz isto com religiosos da sagrada Ordem de S. Domingos. E assim o mesmo Padre, salvando logo a honra desta sagrada Religião, ajuntou estas palavras: E estes frades nem são de S. Domingos, nem de S. Francisco, mas chamam-se de Thacleai Manoth, que toi um homem assim chamado, havido
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 3o3 por grande Santo e canonizado por êles, e que converteu os gentios daquela terra a esta fé que agora teem. Oitavo. Cincoenta e seis anos há que os Padres de nossa Companhia de Jesus andam e vivem naquelas partes, e nunca jamais até ao dia de hoje puderam descobrir coisa nem indício, por onde pudessem imaginar que os frades daqueles dois mosteiros, nem de quaisquer outros de Etiópia, ou sejam, ou fossem alguma hora de S. Domingos. O que também mostra a antiguidade dos mesmos mos- teiros, cuja fundação foi muito antes do tempo em que Deus levantou no mundo aquele santo Patriarca; nem também acharam que lá houvesse confraria alguma de Nossa Senhora do Rosário, quanto mais, muitas e ricas; pois todos são scismáticos e apartados da Igreja. Uma só tradição acharam, como êles es- crevem, em um mosteiro que se chama Abba Guarima, que está no reino de Tigré, e é de estar ali sepultado um varão santo, que êles dizem que foi um de nove, que de Roma foram mandados, no tempo passado, àquelas partes. E já pode ser seriam estes os religiosos de S. Domingos, de que fala Rasis, e que acabariam lá, assim como acabou o Padre Patriarca Oviedo e os mais Padres da Companhia, que com êle foram; dos quais já não houvera memória (i), se a não continuaram os outros, que lhes vão sucedendo. De sorte que, em tôda a Etiópia, não há hoje outra memória de reli*giosos, que fossem de * fi. 379 v. Roma, mais que esta; e ainda entre êles se não diz nem sabe de que Ordem fossem. CAPÍTULO III Da primeira ve\ que os Padres de nossa Companhia entraram em Etiópia, por causa da sua redução à Igreja Romana, e o que sobre isso lhes sucedeu com o Preste-João Cláudio, que então reinava. NOS capítulos precedentes mostrámos o estado em que os Abexins estão, de presente, na Fé e obediência da Igreja Romana, que é de scismáticos, herejes e desobedientes a ela. Daqui por deante, começaremos a mos- trar como de muitos anos a esta parte foram sempre estes; o qual se irá vendo, por ocasião do que dissermos das missões, que os Padres de nossa Companhia de Jesus fizeram àquele reino, a-fim da redução dêles, e principalmente da que começou o Padre Patriarca Dom João Nunes Barreto, e efeituou o Padre Pa- triarca, seu sucessor, André de Oviedo, com mais alguns Padres, todos da mesma Companhia. E ainda que desta missão tratem alguns autores, também da Companhia, em alguns livros e histórias que andam divulgadas, como são o Padre Pedro de Ribadaneira, o Padre Mafeu, o Padre Luís de Gusmão e outros; contudo, como o autor Frei Luís Urreta, falando dela no cap. 21 de seu primeiro livro, ainda que por boas palavras quer dar a entender que a louva e engran* dece, por derradeiro a desacredita quanto pode, contando-a por diferentíssima manei*ra do que passou, com que não somente lhe tira o lustre da edificação . F|, a8o, (1) Nt.: memorial.
  • Livro quinto que deu ao mundo, mas a faz de muito pouco exemplo para quem ler o livro: pede a razão e obrigação que os da Companhia temos à nossa Religião, que acudamos pela verdade do que convém à sua inocência, e com toda a pureza dela, declaremos(i) o que passou. Depois que os portugueses descobriram, por via da índia, os reinos de Etiópia, e começaram neles a ter comércio e comunicação, vieram com isto David, rei de Etiópia, e El-Rei D. Manuel, de Portugal, a travar muita amizade entre si, visitando-se por seus embaixadores um ao outro, e por êste meio o de Etiópia a ter mais luz e notícia das coisas da Igreja Romana; porque, ainda que êle e todos seus reinos eram cristãos, havia porém muitas centenas de anos que nenhuma comunicação nem comércio tinham com a Igreja Romana, assim pela grande distância de mares e terras, que havia no meio, povoadas de nações bárbaras, e inimigas de nossa santa Fé, como por os etiopes terem por cabeça sua, nas coisas da religião, ao Patriarca de Alexandria, a quem acudiam a pedir regra de sua fé, a qual não podia deixar de ser cheia de muitos erros como é, saindo de uma fonte tão impura com tantos, e que tão apartada está da verda- deira cabeça e obediência da Sé Apostólica; além de também os etíopes, junta- mente com o baptismo, observarem a lei de Moisés e judaísmo. Mas, instruído e alumiado nestes erros El-Rei David pelos portugueses que foram à sua terra, e por meio dos mais ofícios, que sôbre isto fêz El-Rei D. Ma- nuel, veio a escrever e mandar seu embaixador ao Papa, que então era Cle- mente VII, dando-lhe a obediência, e confessando-o por supremo Pastor e cabeça n.a&>v. da Igreja, e que como tal lhe pe*dia, pois era mestre de todos, lhe mandasse Padres e mestres, que o ensinassem o que da santa Fé e Religião Cristã eram obrigados a saber. Também escreveu a El-Rei D. Manuel que o favorecesse para com o Sumo Pontífice, em coisa tão justa e santa. O mesmo escreveu a El-Rei D. João III, seu filho, depois que soube ser morto El-Rei D. Manuel, o qual Rei D. João, como com o reino de seu pai, herdou dêle também juntamente o zelo da Fé, e por novas cartas que logo depois teve de El-Rei Cláudio de Etiópia, que de novo sucedera a David seu pai, e mandava também dar a mesma obe- diência à Sé Apostólica, fêz sôbre êste negócio todos os devidos ofícios, tra- tando com o Papa, que então era Júlio III, e depois com Paulo IV, seu sucessor, o qual, informado de tudo, e considerando a importância da coisa, se determinou fazer Patriarca daqueles reinos ao Padre João Nunes Barreto, da Companhia de Jesus, como fêz, dando-lhe grandíssimos poderes; e juntamente fêz Bispos, para que o acompanhassem e lhe sucedessem no Patriarcado, aos Padres André de Oviedo, castelhano, e Belchior Carneiro, português, os quais todos três, com outros Padres da Companhia deputados para isso, haviam de ir dêste reino. Porém, assentado isto, e emquanto os Padres cá se aparelhavam para fazer sua jornada, pareceu a El-Rei D. João que se fizesse outra diligência, a qual foi que, escreveu ao vizo-rei da índia, que então era D. Pedro Mascarenhas, que de Gôa mandasse um embaixador a El-Rei Cláudio, para que de novo soubesse seu ânimo e disposição, e o prevenisse para a ida do Padre Patriarca e de seus companheiros. Fê-lo assim o vizo-rei; e mandou um homem honrado, por nome (i) Nt.: declaramos.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 3o5 Diogo Dias, e com ele um Padre de nossa Companhia, mui douto e pru*dente, *fi.28! de muita virtude, por nome M. Gonçalo Rodrigues, e por seu companheiro o Irmão Fulgêncio Freire, que, ainda que Irmão leigo, era porém homem no- bre, e de muito entendimento e ser. Foi mui acertada esta diligência; porque, quando estes embaixadores chegaram a Etiópia, acharam já El-Rei Cláudio tro- cado, e mui diferente do que em Lisboa se cuidava, e êle por suas cartas tinha prometido. Era êste Cláudio aquele rei, a quem o governador da índia, Dom Estêvão da Gama, mandou de socorro, no ano de 1541, a Dom Cristóvão da Gama, seu irmão, com 400 portugueses, que foram os que, à custa de seu sangue, lhe res- gataram o reino do poder de El-Rei de Zeila, que havia 14 anos que, com favor dos moiros de Arábia e dos turcos, lhe tinha conquistado tanta parte dêle, que o trazia encantoado pelos fins do reino, e lho tornaram a restituir, com des- truição dos moiros, e morte do mesmo rei de Zeila, como abaixo, noutra oca- sião se dirá. Este rei Cláudio é também aquele, de quem o autor desta histó- ria, Frei Luis Urreta, tantos louvores e maravilhas diz em muitas partes, e principalmente no cap. 21 do i.° livro, afirmando e ratificando uma vez e muitas, que era mui católico e obediente filho da Igreja, provando isto com certos contos que traz: um, que reformou um mosteiro de freiras de S. Domingos, de 5:ooo monjas; outro, que fêz fazer profissão da Fé e obediência da Igreja Romana a certos frades herejes, e mandou a Roma buscar a Regra de S. Agos- tinho, para lha fazer(1) professar; que morreu com todos os Sacramentos, ainda numa batalha. Finalmente, o quali6ca por santo mártir, porque morreu pele- jando com os moiros; porém, quão católico e obediente êle fôsse à Igreja Ro- mana, e com que Sacramentos morresse, e que razão tenha de lhe chamar mártir, tudo se verá pelo que logo iremos dizendo. Partiram pois de Gôa para a Etiópia, a 7 de Fevereiro de 1555, o embai- xador Diogo Dias, e com êle o Padre M. Gonçalo com seu companheiro. Che- garam àquele rei*no; e tudo o que passaram nele e com El-Rei Cláudio, des[de] *fi. »8iv. que entraram até que dêle sairam, conta o mesmo Padre em uma carta que escreveu de Gôa, depois que tornou da Etiópia, aos Padres da Companhia de Portugal, em i3 de Setembro de 1556, na qual, depois de contar os trabalhos que passou na navegação e caminho, até chegar à corte, diz o que se segue, tirado da própria original, que tenho em meu poder: Aos 17 de Maio, chegámos aonde estava El-Rei de Etiópia, o qual achámos em um campo, com muita soma de tendas armadas ao redor de si; mandou re- ceber a Diogo Dias e a nós juntamente. No segundo dia lhe fomos falar. Es- tava assentado em um catre, com umas cortinas por cima; a tenda alcatifada e paramentada de seda. Deu-lhe Diogo Dias as cartas; mandou-as ler, estando presentes todos os portugueses. Nelas lhe mandava di\er El-Rei nosso Senhor, que para o ano lhe mandaria um homem de sua casa, com certo número de re- ligiosos, de santa vida e provada doutrina. Com isto se mostrava mui confuso, e de tal maneira estava suspenso neste negócio, que, falando-lhe nós, nenhuma resposta nos deu a propósito; e assim nos despedimos dêle e tornámos a nossas (1) Nt.: lhe fazer. 32
  • 3oó Livro quinto tendas, e daí a dois ou três dias se partiu, a ver uma sua avó, alguns 8 ou io dias de caminho; e nós ficámos no meio de um campo desagasalhados, sem termos de sua parte quem tios fizesse um cumprimento. Porém a esta necessi- dade nos acudiu um português honrado, e nos levou para uns lugares seus, que estavam dali 2 ou 3 léguas, onde nos deixou agasalhados em sua própria casa, e se tornou a El-Rei. Aqui estivemos por obra de um mês que El-Rei gastou em sua jornada; e neste tempo compus um tratado dos erros de Etiópia, e verdade de nossa santa Fé, para apresentar a El-Rei, do qual aqui tive novas, por um português mui privado seu, como êle não queria os Padres, e di\ia que não tinha necessidade dêles, nem queria dar obediência à Santa Igreja Romana; e me afirmavam comummente todos que diriam alguns grandes do reino que antes seriam sujeitos dos moiros, que mudar seus costumes e tomar os nossos. Pelo que, mais me con- firmava em lhe dar por escrito tudo o que lhe pudera prègar por palavra, se soubera a língua, para que da resposta que me desse, entendesse claramente sua verdadeira intenção tantos tempos paliada; e assim, tornando êle de sua jor- nada, nos fomos a seu arraial, onde nos agasalharam os portugueses que ali achámos, que êle, depois daquela primeira ve\ que nos viu, nenhuma lembrança teve mais de nós. • fi. 282. E porque * o tratado que tinha feito, era em português, e necessariamente, para êle o ver, se havia de traduzir em caldeu, lhe escrevi uma carta, em que lhe pedi me quisesse dar dois frades letrados, para me trasladarem em caldeu algumas verdades de nossa Fé, para lhe mostrar a pouca ra\ão que todos os dos seus reinos tinham, para nos chamarem aos que seguimos a Igreja Romana, herejes e peores que moiros. E porque sabia que têem êles um livro, a que chamam «.Adultério de Frangues»feito pelos scismáticos e herejes de Alexandria, donde êles tomam seus abunás a quem obedecem, e por isso pagam tributo ao Turco, no qual livro reprovam o Concílio Calcedonense, dizendo quefê\ quatro Pessoas na Santíssima Trindade, com outros muitos erros que falsamente nos impõem a nós: êste livro pedi também a El-Rei. Porém êle o não quis dar, antes se indignou muito de nós sabermos o que tinha êle; os frades só deu. Mas, de- pois que começámos a traduzir o tratado, os frades, ou por El-Rei assim lho mandar secretamente, ou por temor que dêle tinham, não queriam pôr mão na obra. De modo que foi necessário ir-llios pedir uma ve\ e outra o capitão dos portugueses; e emfim, com o favor divino, se acabou, sendo intérprete, da minha parte, um português honrado, que sabia bem a língua. Porém, sendo necessário um bom escrivão, para tirarmos em limpo o papel, e o trasladarmos em boa letra, pedindo-lho, também o deu; mas logo tornou a mandar um recado mui irado, que lhe déssemos logo o seu frade, e que, se qui- séssemos, lhe mostrássemos o papel assim como estava, senão que não andássemos mais em tais negócios. Pelo que, foi necessário, para que não tivesse mais escusa, mostrar-llio assim como estava, assinando-nos êle o dia para isso, que foi aos 2n de Agosto, no qual fomos o capitão dos portugueses, com sete ou oito mais. Chegámos à cerca de El-Rei, feita como de sebe, e a sua casa, que é bem fraca, posto que a melhor de Etiópia, onde êle estava em um catre; e, depois de feitas as devidas cortesias, começando eu a lhe fa\er uma breve prática, em que lhe
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 307 declarava o [a] que vinha, êle me cortou o fio, e saltou noutra coisa, como homem que estava armado e me desviava os golpes, cotn que o eu queria tocar. Dei-lhe o tratado que tinha feito em caldeu, o qual êle me começou de ler, e enchendo-se de ira, começou a lançar a peçonha que traria, dizendo que eu lhe pedira licença e frades para trasladar a verdade de nossa Fé, e que ali não fa\ia isso, antes atribuía erros a quem os não tinha, e que o que eu fa\ia, não convinha para mim, que era um clérigo simples, senão para Bispos e grandes Prelados e para o Papa. * Respondi que era verdade ser eu um pobre homem; • fi. 282 v. mas o que ali ia escrito, eram verdades Evangélicas e Sagi-ados Concílios; que a estes ouvisse S. A. e não a mim. Disse-me que lhes punha muitas coisas que êles não tinham. Respondi que, se S. A. não estava errado na Fé, que os seus o estavam; que tudo o que por escrito lhe dava, era verdade, e para prova disso, que mandasse vir deante de si seus frades e letrados, que lhe mostraria mui claramente terem todos, ou os mais deles, aqueles erros que por escrito lhe apon- tava. Disse que êle não queria disputa, e que mil e tantos anos havia que estava naquela fé; que as disputas eram para os gentios; e que, sendo esta sua fé tão antiga, de mil e tantos anos; icomo não houvera atègora quem fizesse outro tanto como eu fa\ia, e lhe declarasse que estava errado? Respondi que, pelos pecados dos homens, permitia N. S. às ve\es coisas semelhantes; mas que desse graças a Deus, por em seu tempo o visitar com a verdade Evangélica. Disse a isto que a Igreja Católica fora repartida em quatro cadeiras, e que êles obedeciam a uma delas, desde o principio. Respondi que era verdade, mas que tôdas obedeciam antigamente ao Romano Pontífice, que era sôbre todos, como S. A. em seu reino; porém que, como as três cadeiras se apartaram da obediência romana, por essa causa todos os que a estas obedeciam, eram scis- máticos; e que visse S. A. o papel que eu lhe propunha; que nele acharia a res- posta de tudo o que me perguntava; e que se guardasse de cair no que di\ia o Profeta: Noluit intelligere, ut bene ageret. Finalmente, passadas muitas rabões, de parte a parte, estando presentes os portugueses, lhe disse pelo capitão que o que eu pretendia naquele papel, que lhe dei escrito, era saber seu intento, àcêrca de dar a obediência ao Pontífice Romano, e receber os letrados e religiosos, que El-Rei de Portugal, seu irmão, lhe queria mandar: porque, se êle os não queria, nem queria obedecer, não tinham êles para que vir a seu reino, e que visse S. A. se queria dar obediência, como a dera e mandara a Sua Santidade, estando em tal parte. A isto respondeu que êle religiosos e letrados tinha em seu reino, e por isso dos de El-Rei de Portugal não tinha necessidade, nem menos dera nunca obediência ao Romano Pontífice, que a obediência que Gaspar de Magalhães levara, êle a não dera, tnas que um frade arábico, que trasladou suas cartas para El-Rei de Portu- gal, errara, e as não entendera. Finalmente concluiu que êle não queria obedecer senão ao Patriarca de Ale- xandria, a quem sempre obedecera. Pelo que, vendo eu sua deliberação e obstinação, me despedi dêle; o qual, ficando só com o capitão dos portugueses, me começou a gabar de grande * letrado, espantando-se muito, sendo eu tão • fi. 283. mancebo, saber tanto. Soube que lera o tratado que lhe dei em caldeu, e que nunca o tirava das mãos, mostrando-o a sua mãe e irmãos e pessoas principais
  • 3o8 Livro quinto do reino; e, porque o seu abuná, por saber o que eu pretendia, pusera exco- munhão que nenhum lêsse meus escritos, afirmaram-me que o dia seguinte lhe mandou El-Rei pedir licença para os ler, e porque êle lha negou, o deshonrou de moiro, hereje, que lia o alcorão de Mafamede, e que impedia ler-se uma tão santa escritura, como era aquela, e de tão excelentes cristãos; mas, pois êle era mandado por prelado e abuná [a]o seu reino, que respondesse ao que um pobre clérigo, sem nenhuma dignidade, lhe propunha; ao que respondeu o abuná que êle não queria disputa comigo, pois não viera a seu reino, senão para dar ordens. Neste tempo, como na corte não se tratava doutra coisa senão desta, e alguns dos da casa de El-Rei se mostravam afeiçoados à nossa parte, outros, prin- cipalmente da casa da rainha, a sustentar seus erros: se resolveu com os seus a mandar chamar alguns frades letrados, e que cá têem por homens de santa vida, para consultar sôbre êste negócio da Fé. Mandou El-Rei trasladar o meu tra- tado; mas temi que lhe tirassem alguns passos de que êle recebia desgosto, como é, onde falava do Papa Leão e de Dióscoro, Patriarca de Alexandria, a quem êles têem por Santo, e ao Papa Leão por maldito e excomungado; e tão grande ódio lhe têem, que nem ouvir falar nele podem; e assim reprovam o sagrado Concílio Calcedonense, porque di\em que errou na Fé, e que condenou injusta- mente ao Santo Dióscoro (como êles lhe chamam), não aceitam suas definições, e, dêsde êle (i) para cá, estão apartados da obediência romana, como os de Ale- xandria, que há 1067 anos são também compreendidos na heresia de Sérgio Paulo, e Pirrho, reprovado no sexto (2) Sínodo Constantinopolitano, eno de Êuti- ques, que põem uma só vontade em Cristo. Chegado o tempo, em que parecia que o rei me daria a resposta que ficou de dar, quando lhe dei o tratado, lha fui pedir. Mandou-me di\er que de\ anos andara um embaixador de seu pai em Portugal, sem ser despachado; pelo quê, sabendo eu que tudo isto era manha, e que lhe pesava grandemente de eu tornar •fi.i83t. ao mar, onde nossa armada havia de vir a buscar-nos, por se temer de mim * poder-lhe descobrir seus podres, chegado o tempo de me pôr em caminho para Baroá, me fui despedir dêle. Mas mandou-me di\er que um homem tão grande como eu, e que vinha ao que eu vinha, não se despachava logo assim tão depressa; que, £onde podia eu ir, que fizesse mais fruto, que em confessar estes portugue- ses ? Porém, já que me queria ir, lhe desse mais um mês de espaço, para me responder, e se até então o não fizesse, me havia por despedido. /los quatro dias do mês de Outubro, me mandou chamar a rainha, que queria falar comigo, e também queria ver um cális que eu traria, por ser entre êles muito gabado. Fui logo, com alguns portugueses, aos quais mandou que todos entrassem comigo, e depois de algumas palavras de cumprimentos e cor- tesias, entrando nas matérias da Fé, me disse que êles e nós outros todos tí- nhamos a mesma Fé; que, ipara que era escrever eu o tratado sôbre ela, que apresentei a El-Rei seu filho, nem bulir com nada disto? Disse-lhe que [se] seus abexins estavam bem nas coisas da Fé ou não, que daquela escritura que eu (1) Nt.: e desde He. (2) Nt.: na sexta.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 309 dera, o podia saber; e que, ainda que Sua Alteia, com os seus, outro érro não tivessem, ftiais que desobedecerem ao Sumo Pontífice Romano, Vigário de Cristo na terra, que este só bastava para todos se perderem. Disse-me que ela e os seus não desobedeciam a S. Pedro, nem a S. Paulo, e que obedeciam a Cristo, que estava nos Céus. Disse-lhe que não obedeciam a Cristo os que não obedeciam a seu Vigário, o Pontífice (1) Romano; pois o mesmo Senhor di^ia: Quem vos não obedece a vós, não obedece a mim; e quem vos desprega a vós, desprega a mim; e que, se Cristo di\ia por S. João, que seria um curral e um Pastor, «J quem tinha Sua Alteia que era o Pastor? Respondeu que S. Pedro. A isto lhe tornei, que, se S. Pedro o era, também o eram os que a êle por ordem sucediam. Respondeu outra ve\ que êles não desobedeciam (2) a S. Pedro; que, assim como antigamente fóra ordenado, que assim estavam em a fé; que, se êles estavam errados 1 como os não vieram ensinar em tanto tempo, pois há mil e tantos anos que estão nesta fé? A isto lhe respondi que, por causa dos caminhos estarem tomados pelos turcos e moiros, não pudera o Santo Padre mandar a estas partes quem lhes mostrasse o caminho verdadeiro, e que agora o fa\ia pela via de Portugal; e que * olhasse bem Sua Alte\a que a Igreja Católica era um *fi. 284. corpo místico, cuja cabeça era Cristo no Céu, e seu Vigário na terra, e que um dos membros dèste corpo fóra antigamente o Patriarcado de Alexandria, e que mui claro estava que os membros hão de obedecer à cabeça e ser regidos por ela, e assim obedeciam antigamente todos os Patriarcas da Igreja à su- prema cabeça dela, que era o Sumo Pontífice de Roma, e que nesta obediência perseverara o Patriarca de Alexandria e os demais, até ao ano de 488 da vinda de Cristo, em que se celebrou o Concílio Calcedonense. Mas, que, dèste tempo para cá, se dividiram e apartaram da obediência Romana; e como Sua Alteia e os seus desde então estiveram sempre à obediência de Alexandria, e de lá tracem seus abunás, que desde então também estão apartados do verdadeiro Pastor, e era necessário, se se queriam salvar, tornarem-se outra ve\ a unir e sujeitar a ela, pois o mesmo Cristo Senhor Nosso di\ que em sua Igreja não há mais que unum ovile, et unus Pastor; e o corpo, onde há muitas cabeças, é monstro, o que não convém ao de Cristo, que é perfeitíssimo. Disse-me que isto havia de vir por Concílio, e não por mim; que se ajun- tassem os quatro Patriarcas com o Romano Pontífice, e o consultassem, que, lcomo haviam êles defa\er agora coisas novas? que causaria isto grande es- cândalo no povo. Respondi-lhe que as verdades da Fé não eram coisas novas, senão mui antigas, e que as coisas da Fé não podem dar escândalo, por se rece- berem, senão tirá-lo. Disse-me que fôssemos ao tronco, e que deixássemos as ramas; que tratássemos estas coisas com o Patriarca de Alexandria, por ordem do Concilio Niceno, e que os deixássemos estar a êles como estavam. Respon- di-lhe que aos enfermos convinha mandar buscar os remédios, médico e medi- cinas, e não aos sãos; que a êles, pois estavam enfermos na Fé, convinha mandarem buscar o remédio de suas enfermidades, e pedi-lo ao Sumo Pontífice Romano, ou por melhor di\er, aceitar as medicinas e médicos que êle lhes man- (1) Nt.: e Pontífice. (2) Nt.: na desobediencia
  • 3io Livro quinto dava. Respondeu que êles não estavam enfermos; que portanto não tinham necessidade de tais medicinas; que estavam unidos com Cristo nos Céus. A isto lhe disse que não estavam unidos com Cristo nos Céus os que não estavam tia caridade, obediência e Fé com seu Vigário na terra. '■ Perguntou-me de que maneira * haviam de fa\er isso? Respondi-lhe que escrevesse S. A., com El-Rei seu filho, a seu Patriarca de Alexandria, se queria obedecer ao Sumo Pontífice Romano, como antigamente obedecera, e estar na mesma Fé, em que estivera unido com êle até ao ano de 488; e que, se o não quisesse fa\er, o deixassem como hereje, e que aceitassem o Patriarca e a dou- trina, que o Romano Pontífice lhes mandava. Disse-me que não falássemos mais nisto, porque lhes era defeso por excomunhão de seu Patriarca. A isto lhe disse que essa tal excumunhão era contra direito e que não ligava; que temesse S. A. a excomunhão do Romano Pontífice, que todas as quintas-feiras da Ceia, excomunga da maldição de Deus e de S. Pedro e de S. Paulo, todos aqueles que estão separados de sua obediência; e que temesse S. A. também não lhe fe- chasse S. Pedro as portas do Céu, pois tem as chaves dèle em sua mão, por esta desobediência que lhe tinha; e com isto me despedi dela. Poucos dias depois disto, levantou El-Rei o arraial, e se foi para outro lugar, dali a duas jornadas. Fomo-nos também com êle, e tivemos o sábado e Do- mingo em um campo, onde, debaixo de uma tenda, levantámos um altar, e dis- semos Missa naqueles dias. Aqui vieram ter comigo três frades, um dêles le- trado, e que vinha com desejos de me ver, e tratar comigo sóbre coisas da Fé. Este me disse, começando a praticar, que tudo lhe parecera bem de nós, senão o não guardarmos o sábado e comermos porco e lebre; e no discurso da prá- tica vomitou assai de erros, dos que tõem na fé, convém a saber, que as almas, quando morriam, não podiam logo ver a essência divina, mas que iam ao pa- raíso terreal; que o Espírito Santo não procedia do Filho, senão do Padre somente; que o Filho, quanto à humanidade, era igual ao Padre; que ao Inferno não iam, para estarem lá para sempre, senão os moiros e infiéis; mas as almas dos maus cristãos que não estariam lá mais que até purgarem todos seus pecados; e que ultimamente todos os baptizados se salvariam, o que provava com as palavras de Cristo Nosso Senhor: Qui crediderit et baptizatus fuerit, salvus erit. Respondi-lhe a todos estes erros, declarando-lhe com rações e pelas Escrituras, a verdade em contrário; do que ficou tão satis- feito, que cliegando-se (1) a mim, à orelha, porque os outros frades, que eram idiotas, o não ouvissem, me disse que aquela era a verdade, e que assim o guar- daria em seu coração. * Chegado, pois, o tempo, que El-Rei me pediu esperasse sua resposta, lha fui pedir, e juntamente licença para me ir. Èle me disse que me fosse muito embora, e que, quanto aos Padres que El-Rei de Portugal lhe queria mandar, já tinha aparelhado um homem em Maçuá, para os receber, porque os queria ouvir, e com isto me despedi dele, e vim por alguns lugares de portugueses, confessando a êles e suas famílias, e casando alguns, que estavam em mau estado com mulheres abexins, redu{itido-as primeiro à nossa santa Fé; e entre (1) Nt.: chegãose.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 311 elas foi uma infanta, milito parenta de El-Rei; e, porque as igrejas desta terra (além de serem scismáticas) não têem altares acomodados ao nosso uso, tra- ríamos sempre connosco um altar portátil, em que celebrávamos. Estando num destes lugares de portugueses, me mandou visitar o prelado de um mosteiro mui grande de frades, e outro de freiras, que estava dali duas léguas, que é um dos principais deste reino, que se chama Bilibanos, ou Plu- rimanos, do qual depende toda a fé de Etiópia. É o prelado dêstes mosteiros tido em grandíssima reputação. Pareceu-me bem i-los ver. Foram comigo todos os portugueses. Não achámos o prelado em casa; mas vimos os mosteiros, pelo menos de fora. Não são como os de nossa Europa, nem no modo de viver, nem na maneira da igreja. Cada frade vive em casa sóbre si, de modo que Jica o mosteiro da feição de uma aldeia, pôsto que de casas palhaças, as freiras de uma parte e os frades da outra; pelo que, di\em que há entre êles muitos filhos. A Ordem dêstes não é de S. Francisco, nem menos de S. Domingos, mas chama-se Tecle ai-Manot, que foi um homem assim chamado, e quer di^er, na sua lingua, esteio da fé, o qual têem cá os Abexins que foi grande Santo, canonizado por êles, e que o maior milagre que fê\, foi matar uma serpente mui poderosa que, como a Deus, adoravam os gentios, que êle converteu a esta fé etiópica, que agora têem. Até aqui a carta do Padre M. Gonçalo Rodrigues, no que toca à matéria da fé e religião que achou nos Abexins, e com El-Rei Cláudio, que Frei Luís Urreta tanto canoniza por fino católico e mui obediente filho da Igreja Romana. E porque depois que o Padre Mestre Gonçalo se saiu da côrte e * arraial # fi. 285 v. de El-Rei, um português honrado, chamado Afonso de França (e que foi intérprete do Padre, assim no tratado que escreveu, como quando falava com El-Rei, por saber mui bem a língua e andar sempre na côrte) teve com o mesmo rei uma grande disputa sobre as coisas da Fé, a qual tôda escreveu em uma carta e mandou ao mesmo Padre, a poremos aqui também, pelo muito que confirma tudo o que acima fica dito da obstinação e perfídia deste rei, a qual é a se- guinte : S. A. determinou tomar-me nos laços que armou a V. R., e vendo-o escapar deles, quis que eu me não livrasse; tra\endopor grandes baixas {1) a água ao seu moinho, me disse, deante de lodos os portugueses, que eu lhe chamava hereje a êle e a Dióscoro e a todo seu povo. Eu lhe respondi que assim o di^ia a nossa escritura sagrada dos Concílios santos e mais Histórias da Igreja, de tojo anos a esta parte, e assim as partes orientais, que estão apartadas da obediência Ro- mana, cuja causa fôra Dióscoro. Ao que me respondeu que, se assim o di\ia a nossa escritura, Deus sabia o que di\ia a sua. Disse-lhe que também o eu sabia, que nos faliam herejes nestorianos, daqueles que punham duas pessoas em Cristo, e mo diriam cada dia no rosto, e que, se não bastava a escritura de V. R., que lhe apresentara, para prova de nossa santa Fé, que bastassem quantos reis cris- tãos havia em Europa, unidos em uma Fé e um Pastor, para crer que não po- diam tantos errar e êle só acertar. Ao que tornou que atègora estivera em pa\ e amor com os reis cristãos, e que somente eu o fa\ia desdagora estar mal (1) Nt.: baxâs.
  • 3l2 Livro quinto com êles. Disse-lhe que do Papa e de El-Rei nosso senhor de Portugal lhefôra eu enviado, para lhe revelar éste segredo de nossa santa Fé, no qual eu não pusera mais que as mãos; e, se por isso S. A. tinha desprazer de mim, eu tinha lei e rei, pelos quais entendia morrer, se/n nunca os negar. Disse-me mais que eu di\ia aos seus que o seu abuná lhes era dado e en- viado pelo Turco. Respondi que era muito grande verdade,porque nenhum sabia vir enviado nem consagrado por Roma. Tornou que, se eu era tão bom ro- mano, e amigo de minha Fé e rei, que ipara que lhe mandara pedir que me baptizasse e que me tnandasse dar o seu Sacramento? Respotidi que, quanto(i) •h. 2S6. * ao Baptismo, tal não era verdade; porque eu, aos oito dias de meu nascimento, fora baptizado; que o Sacramento lho mandara pedir, por estar mui doente e em passo de morte, e me parecer que o podia fa\er, na extrema necessidade em que estava; e que ainda agora o faria, se me vira noutra tal, não havendo entre nós sacerdote católico que segundo o uso romano me desse o Sacramento. A isto me disse que não mo quisera mandar dar, porque S. Paulo di^ia: Una Fides, unum Baptisma. Aqui lhe tornei: Pois, se S. Paulo di\ isso, i qual é logo a causa, por que V. A. se baptiza cada ano? Com isto se alterou; efalando-me palavras descotnpostas, tomou uma espada, o que eu vendo, lhe disse: Senhor, não me guarde V. A. o castigo para longe, porque eu por esta verdade do Bom Jesus não temo a nenhum dos reis da terra, senão aquele a quem diremos: Não me castigues em tua ira. Mas a vós, senhor, digo, castigai-me na vossa ira; porque assim como a alma é excelentíssima, assim não quer senão coisas injinitas. Isto lhe disse com grandes brados, sentindo em mim mais fortaleza que fraqueja. Poi em, vendo-me o rei tal qual nunca me viu, se foi, e me deixou tio campo. Pelo que, entendo que antes tomara El-Rei ser súbdito dos moiros, como os poi>os dioscóreos, que são os de Alexandria e Egipto, que dar a tal obediência ao Santo Pontífice. E esta verdade nunca quis descobrir atègora a V. R., pelo não des- consolar de maneira, que deixasse defa^er a diligência que a seu oficio competia. Atequi a carta do português Afonso de França, escrita ao Padre Mestre Gonçalo, o qual com esta notícia que por experiência tomou "do estado de Etió- pia, e da dureza e obstinação de El-Rei Cláudio, se tornou à índia, onde chegou a salvamento, em Setembro de 56(2). (1) Agora seguem-se no texto duas folhas com a numeração errada, lendo-se 276, e a se guir 288, em vez de 286 e 287. — N. do E. (2) Ni.: de 66.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 313 CAPÍTULO IV Da Missão em que o Padre Patriarca D. João Nunes Barreto, da Companhia de Jesus, com outros dó\e Padres da mesma Companhia, foram mandados pelo Papa à Etiópia, para redução daquele reino * IV T O tempo que o Padre Mestre Gonçalo andava em Etiópia, que foi desde •fi.jsôv. Maio de 55, até Julho de 56, partiram também de Portugal para a índia * o P. Patriarca D. João Nunes Barreto, com seus doze companheiros, scilicet, o Padre Bispo Mel[c]hior Carneiro, com alguns, no ano de 55, e o Pa- dre Patriarca, com o Padre Bispo André de Oviedo, e com os outros, no de 56. Dêstes os três não chegaram, por se perder a nau em que iam. O Patriarca com os mais chegaram a Gôa, onde já acharam o Padre Mestre Gonçalo, tor- nado do Preste; do qual sabendo o que passava, e quão diferente estava El-Rei Cláudio, para receber o Patriarca e Padres, do que El-Rei D. João cuidava em Portugal, houve muitas consultas assim do Patriarca com os Padres, como do vizo-rei com os de seu conselho e com os mesmos Padres, sobre o que se faria àcêrca da ida do Patriarca a Etiópia; porque haviam por coisa de muito pouca autoridade do Papa e da Santa Sé Apostólica, ir de sua parte uma tão grande dignidade a um rei scismático, e não haver de ser recebido dêle como convinha; e também por grande agravo que o mesmo rei fazia a El-Rei de Por- tugal que, a sua petição, fôra medianeiro com o Papa, e dera ordem a esta tão apostólica missão, com tantos gastos de sua fazenda. Eram alguns de parecer que o Patriarca fosse, mas acompanhado de 6oo ou 700 Portugueses de guerra, à sombra dos quais cuidavam que El-Rei Cláudio o receberia e daria obediência ao Papa, assim pelo temor, como pela necessi- dade que dêles tinha, para se defender de seus [injimigos. Porém não se atre- veram a usar dêste meio, sem primeiro darem conta a El-Rei D. João; pelo que assentaram que o Patriarca D. João Nunes sobrestivesse com sua ida, e se dei- xasse estar em Gôa; e que entretanto fôsse deante a Etiópia o Padre * Bispo André de Oviedo, com cinco companheiros, para que, conforme ao que lá achasse, e fôsse recebido de El-Rei Cláudio, avisasse à índia, para com isso se re- solver a ida ou ficada do Patriarca; e tudo isto escreveu o mesmo Patriarca D. João Nunes a El-Rei D. João III, em uma comprida carta, do primeiro de Dezembro de i55b, que(i) tenho em meu poder. Mas, porque o autor Urreta, falando dêste digníssimo Patriarca D. João Nunes, no cap. 21 do i.° livro, diz muitas coisas que nunca foram, afirmando que foi a Etiópia, com todos os Padres juntos, e Bispos seus sucessores, e dando a entender dêle que se houvera lá com El-Rei Cláudio com pouca prudência, e se mostrava cobiçoso com lhe pedir logo os dízimos, amigo de si, e mercenário, com, assombrado das dificuldades e arreceoso dos trabalhos, deixar as ovelhas, e se tornar logo para a índia com todos os Padres: pede a razão que por um pouco dei. xemos o que sucedeu ao Padre Bispo André de Oviedo, em Etiópia, e tratemos (1) Nt.: de 1566. que.
  • Livro quinto da vida e morte do bom Patriarca D. João Nunes que, sem passar a Etiópia, dali a cinco ou seis anos, morreu em Gôa, com mui grande exemplo de santi- dade, que parece não quis Deus que ficasse em esquecimento, e metido só em arquivos, um tão raro exemplo de virtude, mas tirar este bem de o publicar, das calúnias que neste livro se lhe impõem. Foi êste digníssimo Patriarca natural da cidade do Pôrto, em Portugal, de nobre geração. Sendo secular, era sacerdote de tão santa vida, que cinco e seis horas gastava cada dia em contemplação. A devoção, amor de Deus, caridade com os próximos, penitência contínua, exemplo de tôda a virtude resplandecia *FK 587 v' nêle tanto, que era de grande admiração e edificação a todos os que o * con- versavam e conheciam. Mas chamava-o Deus, com contínuas inspirações para outra perfeição maior. Parecia-lhe que, emquanto possuísse os bens da igreja que tinha, e não fosse pobre e obediente com Cristo, negando sua vontade, e pondo-a nas mãos de superior, por mais castidade, humildade e paciência em que vivesse, não fazia de si a Deus perfeito sacrifício. Andando nestes tão altos pensamentos, escreveu-lhe de Coimbra uma carta o Padre Mestre Melchior Nunes, da Companhia de Jesus, seu irmão, que então estava naquele Colégio, e depois foi Provincial da índia, na qual lhe pedia qui- sesse ir a Coimbra, onde, àlém de ver o modo de proceder dos da Companhia, poderia comunicar as coisas de seu espírito com o Padre Mestre Pedro Fabro, um dos dez primeiros companheiros de nosso Santo Padre Inácio, varão admi- rável e excelente em santidade, o qual cada dia naquele Colégio se esperava. Movido com esta carta e com as contínuas inspirações que sentia em sua alma, disse certo número de Missas, pedindo com grande eficácia a Nosso Senhor, pondo-se todo em suas mãos, lhe desse claramente a entender a vida em que melhor o serviria. Ouviu Deus suas orações, e claramente lhe revelou ser sua vontade que se viesse a Coimbra, e em visão lhe mostrou o mesmo Padre Fabro, significando-lhe que aquele era o que o havia de encaminhar. Veio-se logo a Coimbra, e na pri- meira vez que se viram, estando todos três, o P. Mestre Melchior, e êle e o Padre Fabro, disse o Patriarca ao P. Mestre Melchior, alegrando-se por extremo: Êste e' o Padre que eu vi. Antes da vinda do Padre Fabro, andou sempre mui duvidoso no que tocava a entrar na Companhia; e a razão era pela grande afeição que tinha ao descanso da contemplação; e arreceava, se se ocupasse com os próximos, em os muitos •F1.J88. traba*lhos que a Companhia tem pelos ajudar a salvar, que porventura per- deria o gosto e repoiso da contemplação. Mas, depois que deu conta ao Padre Fabro, de sua vida, exercícios e sentimentos interiores que ainda na oração tinha, visitações que Deus lhe fazia, consolações que lhe dava, e do grande gôsto e quietação que nisto sentia, lhe disse o Padre Fabro, entre outras coisas, estas palavras: «Quero-vos dizer uma coisa, para que não digais no dia de juízo que vos não foi dita. Já desde agora não haveis de achar a consolação e devoção, que atèqui sentistes nesta vida que tínheis; porque, emquanto vos parecia que nessa vida agradáveis mais a Deus, acháveis nela consolação e devoção; mas agora, que já tendes conhecido que podeis ter outra vida, em que mais o sirvais e agradeis, quebrando vossa vontade debaixo de obediência, estendendo a cari-
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 315 dade e zelo da salvação das almas por todas as partes do mundo, onde a obe- diência vos mandar, padecendo muitos perigos e trabalhos pela honra de Deus, já não achareis a consolação que antes acháveis; porque sempre vos há de pa- recer que fugistes da cruz, e que deixastes de seguir a vida de Cristo, por se- guirdes a vós e vossa quietação». Com estas palavras se moveu tanto o humilde Padre, que logo se lançou aos pés(i) do Padre Fabro, resoluto em 110 mesmo ponto entrar na Companhia. Mas o P. Fabro lhe tornou, dizendo: «Esperai, não vos determineis tão de-pressa. Erguei-vos depois da meia noite, ponde-vos deante de Deus em oração, renun- ciai-vos todo em suas mãos, e desafiai Lúcifer, que, se depois vos houver de trazer algumas tentações na Companhia, vo-las traga agora, logo antes de en- trardes nela; e amanhecendo, dizei Missa, e ponde-vos todo em as mãos de Je- sus Cristo, em o Santíssimo Sacramento, e naquilo em que vos determinardes em sua divina pre#sença, assentai e ficai fixo». *fi. a88v. Fê-lo assim; e depois de passar grandes tentações em o desafio, e grandes sentimentos de Deus na oração e na Missa, de tal maneira se determinou, que para sempre ficou fixo em sua vocação. E recebido logo pelo Padre Fabro, o mandaram servir na cozinha e em outros ofícios humildes, nos quais andava com tanta alegria, que dizia o mesmo Padre Fabro que nunca vira homem que no mundo estivesse assentado em vida, e essa tão virtuosa, que na Religião fôsse tão bom de menear e reger debaixo de obediência. Depois de provada sua virtude em todo o género de mortificação e humil- dade, foi escolhido, para ir à África, juntamente com o Padre Luís Gonçalves da Câmara, a ter cuidado, em Tetuão, dos cativos cristãos, que estavam em poder dos moiros. Ali padeceu muitas injúrias e perigos de morte; e não so- mente entendia no resgate temporal dos cativos, mas muito mais no espiritual, confortando-os na Fé, prègando-lhes e administrando-lhes os Sacramentos; e era tão grande a caridade que com êles tinha, que a pobre casinha onde mo- rava, parecia uma botica de mèzinhas para os doentes. Muitas vezes ia estar com êles na masmorra, e lá dormia e moía o trigo, e fazia tudo o mais que os cativos doentes houveram de fazer, por lhes escusar os açoites que seus amos lhes davam, se não trabalhavam. À boca da noite, se vinha ao alçapão da masmorra a tirar os vasos da imundicia, para os ir lavar, e cestos de cisco, para os ir lançar fora. Finalmente, emquanto esteve em África, se pode com muita verdade dizer dêle que era cativo dos cativos, a quem por amor de Cristo servia; e naquela vida eram tantas as consolações e visitações espirituais que recebia de Deus, que escrevia ao Provincial de Portugal que, se outra coisa não fôsse vontade de Deus, lhe pedia o dei*xassem ali acabar sua vida, servindo aqueles cativos, «Fi.aSg. Mas a Divina Providência tinha dêle ordenado outra coisa; porque, vindo de África a Lisboa, depois de cinco ou seis anos, a buscar esmola para um grande resgate de muitos cativos, achou uma obediência de Nosso Santo Padre Inácio, na qual lhe ordenava que não tornasse a África, porquanto estava eleito para Patriarca do Preste. E, porque sua grande humildade o não deixava cuidar de si que era para tão alta prelazia e dignidade, nunca em tôda sua vida tanto en- (1) Nl.: aos pees.
  • 316 Livro quinto controu coisa de obediência, como foi esta, ainda que via que o patriarca[do] não era de honras e senhorios mundanos, mas cheio de cruz e de sangue; ren- deu-se, porém, ao expresso mandado do Papa. Foi à índia, como atrás fica dito; e, como os Padres do Colégio de Goa onde estava, o quisessem acatar e honrar, conforme a sua dignidade, nunca jamais o pôde sofrer, nem consentir que em seu comer e vestido fosse tratado senão como qualquer de seus Irmãos; e, ainda que no exterior, não deixava de conservar o decoro a que sua dignidade o obrigava, em todo o mais êle era o que se mais esmerava na observância das Regras, do recolhimento de sua câ- mara, na perseverança da oração, na penitência do comer e dormir, e no exemplo da profundíssima humildade com que tinha por costume lavar os pratos, varrer e alimpar a casa, lavar os pés aos religiosos e hóspedes, que vinham de fora, com os quais lhe acontecia muitas vezes o que a S. Pedro com Cristo. Nunca o achavam ocioso, porque àlém do tempo da Missa, e de cinco ou seis horas que cada dia tinha de recolhimento para se dar a Deus, o mais tempo sempre se ocupava, ou em ouvir confissões, ou ler e estudar pelas Escrituras e Doutores sagrados, ou em alguns exercícios e obras de humildade, como re- • ki. J89 v. mendar o vestido, var*rer a casa, e outras semelhantes. Porém, entre tôdas estas obras de tanta virtude, nas quais sempre lhe parecia que fazia pouco, ne- nhum sossêgo tinha em seu coração, com o entranhável desejo em que ardia de ir padecer a cruz e trabalhos que no Preste João sabia que havia de achar; e sempre solicitou aos vizo-reis e governadores da índia, que o mandassem pôr em Etiópia a êle e aos demais companheiros, que depois da ida do Bispo D. André de Oviedo, com êle ficaram em Gôa, e se oferecia para ir em dois catures, que são barcas pequenas, ou como quer que o quisessem mandar. Mas, ou fôsse por aquela gente do Preste não merecer a Deus um tão santo prelado, e a malícia e poder dos turcos ter tomadas tôdas as entradas, por onde se entra em Etiópia; ou por não poderem mais, e Deus assim o dispor, passante de seis anos esteve na índia, sem nunca poder ter efeito esta sua viagem àquele reino, onde, quanto maiores trabalhos via que havia de padecer, tanto com mais sêde os desejava. Até que, vendo no ano de 62 que tudo lhe faltava para esta ida, se foi para Chorão, que é àlém do rio de Goa, onde os Padres da Compa- nhia teem uma igreja; e cuidando êles que ia o bom prelado tomar algum alívio dos trabalhos que tivera com o vizo-rei sôbre o haver de mandar, êle se foi, como outro Moisés, a orar no monte, por todos aqueles dias que ali esteve, e em tão contínua oração, que nenhuma só hora de refrigério tomava. E aqui, ou por Deus lhe querer dar o prémio de seus trabalhos, ou porque êle, com aquela contínua oração e penitência lho pedia, lhe sobreveio uma doença do fígado, com febre tão rija, que logo os médicos suspeitaram dela que era mortal- Trouxeram-no para o Colégio de S. Paulo de Gôa, onde peorando cada vez mais, * fi. 190. recebi*dos todos os Sacramentos com grandíssima devoção, presentes todos os Padres e Irmãos, que com muitas lágrimas o cercavam, com muitos colóquios e afectos com Deus, lhe deu seu espírito, a 22 dias de Dezembro de i566. Donde se verá quão fora de fundamento de verdade falou Frei Luis Urreta em tudo o que dêle disse, como no princípio dêste capítulo referimos. Agora será bem que tornemos à entrada em Etiópia, do Padre Bispo André de Oviedo,
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 317 ao qual chamaremos Bispo, emquanto não tiver recado da morte do Padre D. João Nunes, a quem sucedeu no título de Patriarca, e com êle daqui por deante continuaremos, referindo tudo o que lhe sucedeu, por todo o discurso de vinte anos que esteve em Etiópia, des[de] que nela entrou, até que Deus o levou. CAPÍTULO V Da entrada do Padre Bispo Dom André de Oviedo em Etiópia, e do que passou com El-Rei Cláudio Preste João ANTES que entremos na narração de como o Padre Patriarca André de Oviedo chegou e entrou em Etiópia, e do que nela passou com El-Rei Cláudio, e depois com seus sucessores, emquanto viveu, pede o intento que imos seguindo, que ponhamos aqui primeiro o como o Autor do livro conta esta história e missão da Companhia daquelas partes, para que, de*clarando * fi. 290 v. depois a verdade do que passou, se veja quanto ao contrário dela falou. Diz pois assim no capítulo 21 do primeiro livro, pág. 2o3, que, ordenada esta missão de treze Padres da Companhia, Ávida la bendicion(\) dei Summo Pontífice, fuerort a despedirse dei Santo Padre Ignacio, y se partieron todos tre\e em compaíiia de Roma: y llegando a Espana, caminaron a Portugal, donde El-Rey Don Juan los regalo, y apres- tado todo, se partieron para la Etiópia, y navegando por el ancho Oceano llegaron a la Etiópia, y tomaron puerto en Arquico, y de alli se partieron para la Corte dei Emperador Cláudio ;y aunque la mission salio vana, y que- dar on las esperanças de todos ellos frustradas, fueron con todo recebidos gra- ciosamente dei Emperador respetando a la persona dei Patriarca, como a Núncio Apostolico, posto que sentido de ver que EI Rey de Portugal sin darle a el cuenta, sin pedirle licencia, ni avisalle, le embiasse un Patriarca,y Obispos a su tierra, como si el fuera algun infiel, y cismático, teniendo el su Collegio en Roma de S. Estevan, donde vivian muchos de sus vassallos, y teniendo ya Núncio Apostolico en su reino, que es el Arçobispo mas antiguo. Los Padres con el Patriarca mostraron sus poderes, y bulas Apostolicas, las quales fueron admitidas, y poniendoselas sobre las cabeças las obedecieron. Pero huvo luego un encuentro, que alborotò todo el Império. La causa fue porque ordeno luego el Patriarca dos cosas: una fue, que no huviesse mas Clé- rigos casados: otra que se pagasse/i die^mos a la Iglesia de todos los frutos, con que todos clérigos y seglares se rebotar on de modo que con un tolle, tolle, se fueron para el Emperador, dizendo que les quitavan sus costumbres antiguas, y les introdu\ian usos nuevos, el qual viendo tanta confusion en su tierra, mandò a los Padres que se dexassen de aquello, que no lo obedeceria en nin- guna manera, y la pimienta requemate de su cólera le hi{o sobresalir de ma- nera, que excedio en el termino con el buen Patriarca, y los otros sus compa- neros, y se levanto por todo el Império un susurro y fama sorda, que de boca (1) Nem tôdas as palavras são de Urreta, embora seja o sentido. — N. do E.
  • 318 Livro quinto en boca yva cresciendo por momentos, itichiendose la t ierra de una bo\ingleria y motin, que alterava los ânimos contra los Padres. En fin, despues de mucho •Fi.291. bravear, y esgremir de lengua, se vino * a tratar dei poder que trayan, y el Arçobispo mas antiguo, que era el Núncio Apostolico, alegava por agravio lo que se ha\ia con el, y que le quitavan su poder, y cott el acostavan todos los demas Perlados, Obispos, y Arçobispos. El Preste Juan viendo aquella cisma en su tierra, empeço a quexarse del-Rey de Portugal, por aver informado tan mal al Summo Pontijice, y con- cluyò que no usassen de su poder los Padres, hasta dar ra\on a la silla Apos- tólica de todo. Con estas diferencias el Patriarcha, como era viejo, cercano a la traspuesta dei sol de su vida, cansose mas de lo que podian sus fuerças sujrir, estrafíolos el temple de la tierra; y assi determinaron salirse de la Etiópia:y ayudavales a esta determinacion el ser Portugueses,y dessear verse entre los suyos: porque esta nacion es sobrado de amartelada por su tierra, y de la compartia de sus compatriotas, y luego les da rostro qualquier otro Pais, y todo el mundo, a su parecer, no tiene que ver con Portugal ;y embarcaronse para Goa. Desta maneira refere o Autor a missão e entrada do Padre Patriarca Dom João Nunes em Etiópia. Mas em tudo o que diz, falta à verdade, de modo que não somente regras, mas quási nem palavra há, em que a haja; porque nem o Padre Patriarca, Bispos e mais Padres que foram a esta missão, partiram juntos de Roma, nem foram primeiro tomar a bênção ao Papa, nem despedir-se do Santo Padre Inácio, nem todos juntos vieram de Roma, caminhando por Espanha; nem também, partindo de Portugal e Lisboa para Etiópia, partiram todos juntos, mas uns num ano, como foi o Bispo Dom Melchior (1) Carneiro, com alguns; outros noutro, como foi o Patriarca com os mais; nem foram juntos numa só nau, mas em diversas; nem chegaram todos, mas alguns se perderam na viagem; nem foram direitos à Etiópia e ao porto de Arquico, mas direitos à índia e a Gôa; nem de Gôa partiram todos para Etiópia, senão só o Padre Bispo Oviedo, com cinco com- • fi. j9i v. panheiros, ficando ali * o Patriarca com os mais. E assim, pelo conseguinte, não foi assim o que diz, que o Padre Patriarca João Nunes com os dois Bispos e todos os mais companheiros, chegando ao porto de Arquico, se foram à corte de El-Rei Cláudio, e que foram dêle recebidos graciosamente, respeitando a pessoa do Patriarca, posto que sentido de ver que El-Rei de Portugal, sem lhe dar conta, nem pedir licença primeiro, ou avisar, lhe mandava Patriarca e Bispos à sua terra, como se êle fôra algum infiel, ou scismático, e tendo êle já Núncio Apostólico em seu reino, que é o Arcebispo mais antigo; porque nem o Patriarca Dom João Nunes foi a Etiópia, nem o Bispo Dom Melchior Carneiro, nem os demais Padres, tirando o Bispo Oviedo com alguns; nem que fôra, El-Rei Cláudio mostrara com êle tais sentimentos de El-Rei de Portugal o não ter primeiro avisado; pois a isso foi lá mandado Diogo Dias, e Padre Gonçalo Rodrigues, de nossa Companhia, como em sua carta fica referido, para o avisar, da parte de El-Rei Dom João, como ia o Patriarca, Bispos e Padres, e saber dêle se era sua vontade que fossem. Ao que êle respondeu que podiam ir. (1) Nt.: Belchior.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 319 Também não foi assim, que, indo o Patriarca e Padres, e mostrando seus poderes e Bulas Apostólicas, El-Rei [as] pusera sobre a cabeça, pois era tão grande scismático e hereje; mais fizera (1) o que depois fêz, quando foi o Bispo Oviedo. Nem e' também verdade o que diz do Patriarca e Padres (para os ca- luniar e infamar de pouco prudentes, e cobiçosos) que, entrando na corte, alvo- rotaram todo o império, porque, tanto que chegaram, ordenaram logo coisas contra os costumes da terra, como foi mandar o Patriarca que os clérigos não casassem, e pedir-lhes os dízimos da Igreja, e que, por isto, todos, clérigos e leigos se rebotaram de maneira, que vieram com um tolle, tolle, a El-Rei, di- zendo que lhes * tiravam seus costumes, e que lhes queriam introduzir novidades. "Fi. 392. Nem também foi verdade o que diz que, vendo o imperador isto, e tanta con- fusão em sua terra, mandou aos Padres que se deixassem daquelas coisas, porque de nenhuma maneira lhes havia de obedecer, e que por isso se agastara muito contra o Patriarca e mais companheiros seus; nem o que diz que por isto se enchera a terra de bo^ingleria e motim contra os Padres; porque, como nem o Patriarca, nem os mais Padres foram desta maneira que o Autor finge e diz, a Etiópia, todas estas coisas ficam notòriamente falsas. E também o é o que vai dizendo por deante, que despues de mucho bravear,y esgremir de lengua, se vino a tratar dei poder que trayan: que el Arçobispo mas antiguo, que era Núncio Apostolico, alegava por agravio lo que se ha{ia con el, y que le qui- tavan su poder, y que con el acostavan los dentas Perlados, Obisposy Arço- btspos; porque, àlém de tudo ir fundado sôbre falso fundamento, que é da ida do Patriarca com todos os Padres a Etiópia (à qual nunca foi), em Etiópia não há Bispos, nem Arcebispos, nem Núncio Apostólico, como no primeiro capítulo desta Adição fica dito, nem outros Prelados, mais que o seu abuná hereje, que lhe vem de Alexandria. Já dizer (2) que o Preste João, viendo aquella cisma en su tierra, empeço a quexarse dei-Rey de Portugal por aver informado tan mal al Summo Pontífice, y concluyò que no usassen de su poder los Padres, hasta dar ra\on a la si lia Apostohca, dá ocasião a se poder cuidar, com muito fundamento, que procedeu nisto com paixão e malevolência: por uma parte (3) em querer dar a entender ao mundo, e infamar, tão sem razão, um Patriarca, e os demais Bispos e Padres da Companhia, que não foram a Etiópia senão a semear discórdia e causar scisma em todo aquele império; por outra, que (quando menos), falou mui descomedidamente, e sem o respeito devido * à • fu ayi v. pessoa de um tal e tão grande Rei, e tão zelador do aumento da santa Igreja, como foi El-Rei D. João III de Portugal, em dizer dêle, que informara mal ao Sumo Pon- tífice, sôbre as coisas de Etiópia: porque, ainda que diga isto narrativamente, como dito por El-Rei Cláudio, por ocasião das diferenças e desgostos que êle finge que tinha com o Patriarca e Padres, El-Rei Cláudio não o disse, pois nunca tais diferenças, nem ocasião de desgostos tivera com os Padres que nunca viu, e com quem nunca falou, nem foram a sua terra; mas êle mesmo, Autor, é o que o diz. (1) Nt.: mais fizera. (2) Nt.: Y a dizer. (3) Nt.: por úha por parte.
  • 320 Livro quinto E da paixão com que em algumas matérias fala neste livro, se pode temer que, em descrédito do Patriarca e mais Padres da Companhia, disse também dêles que, enfadados com êste ruim sucesso de diferenças com El-Rei Cláudio, por estranharem o clima da terra e ares dela, determinaram de se sair de Etiópia, como diz que se saíram, e embarcaram para Gôa, acrescentando que lhes ajudava a esta determinação o serem portugueses, e desejarem de se ver entre os seus, por ser esta nação sobejamente amartela[da], (por usar de sua própria palavra), por sua terra, e da companhia de seus compatriotas, e que logo lhes dá em rosto qualquer outro país, ou terra estranha: no qual tudo, vai tão longe da verdade, como em tôdas as mais coisas que aqui tem dito; porque, deixando já o falso fundamento sobre que fala [em] tudo isto, não é costume dos da Companhia que por obediência se desterram de suas pátrias e colégios onde se criaram, e vão à índia, Japão, China, Brasil, Guiné e a quaisquer outras semelhantes Missões e partes do mundo, irem para tornarem a Portugal, senão para lá morrerem; e, se torna algum, é por negócio da Religião, o qual acabado, • fi. 29?. fazem logo volta a suas Missões, e nelas vivem e * servem a Deus, até que morrem; e assim todos quantos Padres da Companhia a[té] hoje têem ido a Etiópia, do Patriarca Oviedo para cá, nem um só(i) tornou a Portugal, nem à índia, mas êles e todos morreram em Etiópia; e para isso vão apostados, quando vão, todos os da Companhia, e tiveram por grande afronta sua, se, deixando a milícia espiritual e arraiais de Cristo, em que lá andam na conversão das almas, se tornaram a estas partes. E quanto ao que diz da nação portuguesa, que de muito amartelada, ou afeiçoada à sua pátria, e à companhia dos seus compatriotas, lhe dá logo em rosto qualquer outra terra, e estranha os climas e ares dela, não diz o que passa; pois é tão notório a todo o mundo, que, se há nação desapegada de sua pátria, e que menos caso faça de climas estranhos à sua natureza, é a portuguesa; e se o Autor quisera advertir, êle próprio o confessaria, vendo as navegações que por tão estranhos mares e climas têem feito, e fazem continuamente, e as colónias que têem por África e Ásia, por debaixo da linha equinocial e zona tórrida, por tôda a costa de Guiné, desde o Cabo Verde até os reinos de Congo e Angola, e passando o cabo de Boa Esperança, em Moçambique, Çofala e por todo o grande reino de Monomotapa, costa de Melinde, Mombaça e Etiópia, e por tôda a índia Oriental, até Pegu, Sião, Malaca, Maluco, Camboja, China, Japão: terras tôdas bem con- trárias às em que nasceram. Prossegue mais adeante o Autor [pág. 2o3] e diz desta maneira: Embarca- ronse para Goa (entende o Padre Patriarca, e os Padres portugueses), pero el P. Andres de Oviedo no quiso salir de Etiópia, di\iendo que la obediencia le mandava estar en aquella tierra, y que en ella estaria hasta la muerte, y como Castellano iva al passo dei buey; considerava las cosas coti pausa y madurei, y como sábio y discreto de entendimiento avellanado, considerava que el Visi- • fi. jg3 v. tador no ha de querer en un dia * dexar reformada una comunidad, ni se han de desarraygar en un punto costumbres aceptadas de muchos anos. Quedose con el titulo de Patriarca, y por su persuasioti desterraron muchas crassas igtto- (i) Nt.: nenhum soo.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 321 rancias, dexaron algunas costumbres peregrinas, y con su heróica virtud toma- ron exemplo para vivir catholicamente. El fue el que aconsejò al Emperador que instituyesse el Consejo Latino, [pág. 192] a cuyos consejeros seíialò grandes esti- pêndios, y muy pingues salarios; los quales eran seis: dos Venecianos, dos Flo- rentinos, y dos Portugueses, y se algunos autores hati escrito, que en tierra de la Etiópia este bendito Padre fue maltratado, no hati sido bien informados dello, porque el Preste Iuan le honrò muchissimo, y le dio el cargo de Presi- dente de este Consejo Latino, el qual exercito el buen Padre con tanta satisfa- cion, contento y aplauso de los Abissinos qual ellos pudieron dessear. Isto tudo diz o Autor; porém, tirando o que diz do Padre André de Oviedo, que era santo, todo o mais não tem quási palavra onde haja fundamento algum de verdade, e em tudo foi mal informado, porque nem o Padre Bispo André de Oviedo ficou em Etiópia da maneira que êle diz, pois não foi a ela em Com- panhia do Patriarca Dom João Nunes, senão por si, com cinco companheiros, nem, se fôra com o Patriarca, e vindo-se êle, querendo que se viessem todos, houvera de ficar contra parecer do Patriarca. Nem é assim o que diz que se ficou com título de Patriarca, porque êste não o teve senão depois da morte do Patriarca Dom João Nunes; e muito menos o que diz que êle foi o que acon- selhou ao Preste João que instituísse aquele Conselho Latino de que fala, e que o Preste o fêz a êle presidente do tal Conselho; porque nem êle lho aconselhou, nem jàmais em Etiópia houve tal Conselho, nem o Padre foi presidente dêle, mas tudo isto é uma mera fábula e ficção de quem quer que a fingiu, como quási todas as mais coisas que neste livro se dizem àcêrca de Etiópia, pelo que, não * há que dar crédito a coisa dêle. *fi.294. Da mesma maneira foi falsa informação o que diz que o Padre Oviedo foi mui louvado e estimadíssimo do Preste João, e que por sua persuasão e dou- trina desterraram muitas crassas ignorâncias, dexaron algunas costumbres pere- grinas, y con su heróica virtud tomaron exemplo de vivir catholicamente; porque, ainda que o Padre foi na vida santíssimo, e com suas letras, escritos e doutrina trabalhou, emquanto viveu, pelos ajudar e reduzir à união da Igreja, foi porém tal a dureza dos reis e do povo, que de nada se quiseram aproveitar. E para que uma coisa e outra se veja mais claramente, iremos daqui por deante mostrando tudo pelas mesmas cartas, assim do próprio Padre Bispo, e depois Patriarca André de Oviedo, como dos mais Padres seus companheiros, que aqui recitaremos, tirando-as das próprias originais de sua letra e firma, que nos arquivos desta Província se guardam, como muito preciosas relíquias de Santos tão grandes, e que tantos milagres fizeram naquelas terras, como consta do ins- trumento autêntico de que acima falámos [Vol. 11, pág. 181 etc.]. E porque no capítulo precedente deixámos ao Padre Bispo André de Oviedo, partido de Goa para Etiópia com cinco companheiros, diremos agora de sua entrada nela, e sucesso que teve com El-Rei Cláudio, da maneira que o re- ferem os Padres Manoel Fernandes, que era o Superior, e os mais companheiros, que todos juntamente se firmam na carta, a qual escreveram no ano de i562 ao Padre Diogo Laines, Geral que então era de nossa Companhia, e estava em Roma, a qual mandaram por via do Cairo, e foi a primeira que se recebeu, assim nesta Provinda de Portugal, como na índia, cinco anos depois de sua 33
  • 322 Livro quinto partida de Goa, por em todo êste tempo (por os portos estarem tomados pelos Turcos), não poder passar carta al*guma nem de Etiópia para estas partes e para a índia, nem da índia para a Etiópia. A carta dos Padres diz assim: Seria coisa tão fora de tôda a humana esperança ser esta dada em mão de V. P., que àlém de outros graves inconvenientes, isto será causa de não me dilatar tanto nela, como seria vontade de V. P. e desejo meu. Mas os perigos são tantos e tais, que nem ainda declará-los licet, eparece que seria temeridade, se quisesse exactamente referir o que pudera, e fora bem necessário. Pelo que, V. P. me perdoe, que não é pequena mortificação para mim, não lhe referir ad unguem tudo o que por cá passa. Nossa entrada nesta terra foi a 25 de Março de i55y. Chegámos a Baroá, que è como cabeça do estado do Barnagais; no mesmo dia, que foi da Anuncia- ção de Nossa Senhora, foi o Padre Bispo recebido déle com muita humanidade e honra, porque saiu ao caminho bom pedaço a o receber. Quando chegámos ao povo, foi tanto o pra\er e alegria da gente plebeia, e beijavam a mão ao Padre Bispo com mostras de tanta devoção, que quási nos faliam tomar aquilo como por pro[g]nóstico do bom sucesso de nossa missão. Ali nos detivemos vinte dias ou mais, e celebrámos a Semana Santa com o maior aparato que nossa pobreza sofria; e sexta-feira de Endoenças fyemos uma solene procissão da nossa igreja à sua, por conciliarmos sua amizade. A gente da terra aqueles dias visitava nossa igreja com tanta devoção e amor, que nos edificava muito. Todo aquele tempo se despendeu em ouvir confissões, e algumas delas de muitos anos, baptizar, etc. O P. Bispo confirmou a muitos filhos e escravos da tiossa gente portuguesa. Foi sempre pessoalmente visitado do Barnagais, e outros grandes. Tratou-se muitas ve^es com éles da verdade de nossa Fé, e obediência à Santa Igreja Romana, ainda que tudo foi sem proveito. Passado êste tempo, parte por ser inverno, parte pelos Turcos, que se davam pressa a entrar pela terra, nos partimos de Baroá para a córte e arraial de El Rei, e em cincoenta dias chegámos a êle, onde S. A. esperava o Bispo, como se dirá. E porque falei na entrada dos Turcos, saiba V. P. que quando che- •fi. 295. gá*mos a Maçuá, que é uma ilha mui chegada a esta costa de Etiópia, e escala onde vão parar e surgir todas as naus, que com mercadorias vêem da índia e Arábia a esta terra: achámos ali um baxá do Turco com 5oo ou mais homens de peleja, que vinha a conquistar Etiópia, e segundo parece, esperavam o tempo em que costuma vir nossa armada. E quando viu que os que entrámos, não era coisa de que pudesse receber dano, procurou entrar; e assim foi que já, quando partimos de Baroá, foi de-pressa por seu respeito: os quais foram tão preju- diciais à nossa missão, que com haver passante de cinco anos que cá estamos, até hoje não sabemos que recado nosso haja passado à índia. E tem-se feito tanto da nossa parte, que três homens, segundo cretnos, são mortos com cartas nossas. Estes Turcos que disse, ainda que fizeram grande dano em a terra, cativando muitas almas, todavia tiraram mal de sua emprêsa, e com perda de quási tôda sua gente, e muito oiro e fazenda, foram lançados da terra, nem puderam entrar mais nela, se não sucedera o que adeante se dirá. Fazendo pois nossa viagem para El-Rei, parávamos aos Domingos em que havia missa, prègação, e doutrina aos meninos; e muitos dos nossos compa-
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 323 nheiros, que eram quinze portugueses com muita de sua família, se confessavam e comungavam. E não nos alegrávamos pouco, ver que achávamos em os montes e brenhas de Etiópia alguma coisa das nossas, com a frequência e comunicação dos Sacra- mentos. Delivemo-nos muitos dias em o caminho, porque, quanto mais entrá- vamos pela terra, mais portugueses nos saiam a confessar-se, e alguns também a casar-se com suas concubinas. E houve tantas confissões e tantos a quem o P. Bispo confirmava, que foi coisa de muita consolação nossa. Quási oito dias de caminho antes de chegar a El-Rei, mandou S. A. um dos grandes de sua casa a visitar o Bispo, e trouxe bem de mulas para nossa recovagem. Continuando nosso caminho, um dia antes de chegarmos onde EI Rei tinha seu arraial, chegou recado que parássemos, até seu mandado. Dali a dois dias o mandou, e chegando quási um tiro de espera do arraial, chegou outro recado de El-Rei, que armássemos nossas tendas; e porque ja vinham em nossa compa- nhia muitos portugueses, armadas e*las, pareciam mui bem. Ali < stivemos aquela • fi. 295 v. noite; e no dia seguinte ao meio dia vieram grande número de parentes de El-Rei e gente nobre de sua casa, bem ataviados, e em bons cavalos, à tenda do Padre Bispo; e duas pessoas mui principais, entrando nela, lhe deram recado da parte de El Rei que êle o chamava. Fomos loso, e estava S. A. em um alto de sua casa com sua mãe e irmãos olhando. Chegámos, e sem ser costume, quis que todos entrassem a cavalo em o seu primeiro pátio, estando êle noutro de dentro, vendo tudo. Depois de estar assim um pedaço, mandou que nos des- cêssemos, e entrássemos no segundo pátio em que estava a tenda de habitação; e ali nos fè\ estar outro pedaço, estando êle olhando por entre uns panos de sêda. Estavam de uma parte e outra da porta de sua tenda muito número de velhos, e pessoas nobres com bastões nas mãos em muita ordem. E estando todos com muito concêrto e silêncio, saíram de sua tenda dois criados seus, um dêles o Barnagais Isac, e feita ao Bispo sua decente reverência, nos levaram a El-Rei, o qual o recebeu com humanidade e amor; e depois de algumas prá- ticas, lhe deu o Bispo as cartas do governador da índia, e do nosso Patriarca e outras; e El-Rei tomando as, se começou logo a mostrar desgostoso nas coisas de sua redução, da qual êle estava tão longe como está Roma da Etiópia; mas como era nobre e diset eto e amigo dos portugueses, encobria seu desgosto, ainda que não tanto, que deixasse de dar manifestos desenganos de si e de sua per- fídia. Porém sempre se houve mui comedidamente com o Bispo, e o tratou de de modo, que emquanto viveu, não houve quem se atrevesse a lhe fa\er desacato; e em nosso provimento se heuve mui cumpridamente, porque de sua natureza era mui liberal e dadivoso, principalmente em coisas de El-Rei de Portugal, a quem se conhecia por mui obrigado. Era tão humano, e sentiu tanto os trabalhos que arreceava ao Padre Bispo, que estando para dar batalha aos moiros, na qual morreu, disse: «Oh! coitado do Bispo! ^E se eu morro, que há de ser dêle»? Era pessoa Cláudio de tanto ser (fora sua perfídia) que certo creio que em todo o reino não havia homem mais sábio nem mais para ser rei que sua pessoa. Era mui feito aos costumes por- tugueses, e * com o Bispo tinha tantos cumprimentos em coisas de amizade, que *fi. 296.
  • 324 Livro quinto no meio de tôdas suas pertinácias, sempre ficávamos com esperanças de algum bem. E creia V. P. que não tinha Cláudio, rei de Etiópia, mais que sê-lo, porque em o demais (tirando sua perfídia) era mui diferente dos costumes de seus vassalos. Como as controvérsias sôbre as coisas da Fé se começaram entre éle e o Bispo, lhe rogou o Bispo o quisesse ouvir com seus letrados, e éle o fê\ assim; e e/h sua presença houve muitas ve\es disputas, e todos seus letrados deante dêle pareciam boçais. Ele mesmo tomava sempre a tnão, e com tanta veemência de- fendia seus desatinos, que muitas ve\es dava que fa\er. E ainda que o Bispo, pela graça divina, sempre a éle e a todos os concluía, ficavam porém \ombando, e bradando, dizendo que êles tinham vencido: de maneira que tudo com éle ficava em vão. Pelo que, vendo o Padre Bispo o pouco que nisto se fa\ia, tomou tôdas as principais matérias, e pontos de seus erros, e se deu a escrever sôbre êles; e depois lhe apresentou estes escritos, aos quais El-Rei respondeu com fa\er outros sôbre êles, resolvendo-se juntamente que não havia de obedecer a Roma. E depois de ter isto assa{ declarado, e se mostrar desgostoso contra o Bispo, e di\er publicamente que não queria o Concilio Efesino primeiro, para o qual o Bispo o chamava, senão somente os costumes e fé de seus antepassados, o Bispo se despediu dêle com determinação de (saltem ad tempus) dar lugar a seus desgostos. Estes tão claros desenganos deu El-Rei no fim de Dezembro de 58; e logo no Janeiro seguinte de 5g, o Bispo se despediu dêle, e no mês de Fevereiro, pouco depois, vieram a esta terra os moiros, a que cá chamam Malacais, (que porventura serão os amalecitas) e no mês de Março logo seguinte, na quinta-feira da Semana Santa, se encontrou El-Rei com êles, e sua gente lhe fugiu, e o deixou no campo, onde o miserável morreu, e com êle o nosso capitão com de\óito portugueses; e foi a vitória tão pouco esperada dos moiros, que seu ca- pitão, atribuindo isto a só Deus, se desceu do cavalo, e cavalgando num asninho, celebrou o triunfo da vitória. Atèqui parte da carta do Padre Manuel Fernandes, em que trata o que se •fi. 296 y tem visto, da entra*da do Padre Bispo André de Oviedo em Etiópia, e do que passou com El-Rei Cláudio, àcêrca das coisas da Fé e obediência à Igreja de Roma, e da triste e arrebatada morte com que Deus o castigou, por sua per- fídia e obstinação em seus erros. Donde fica bem evidente quão mal informado foi o Autor do livro, de ser El-Rei Cláudio católico, e obediente à Igreja, como êle o afirma, e de morrer com os Sacramentos dela, e o julgar por mártir; e a pouca razão que teve em repreender na pág. 221, ao doutor Sandero, e ao Padre Mafeu, por contarem a morte dêste pérfido rei, da maneira que ela foi, e a no- notarem por castigo de sua perfídia e rebelião à Santa Igreja.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 325 CAPÍTULO VI Da sucessão de El-Rei Adamás no império, e do que em seu tempo dai por deante sucedeu ao Patriarca e mais Padres NO capítulo 21 do livro primeiro, na pág. 218, tratando o Autor, da morte de Cláudio e do rei que lhe sucedera, diz estas palavras: Succediole a Cláudio el Preste Juan, Adamás, hombre manso, afable, benigno, una condicion como de cera bruniday blanda. Porém quão diferente dêste fosse, de- clara o mesmo Padre Manuel Fernandes, continuando em sua carta desta maneira: Moi to Cláudio, como lhe não ficava filho, sucedeu-lhe no reino um irmão seu, o qual no tempo que pelos nossos portugueses foram resgatados e livres do poder dos moiros aqueles reinos, estava êle ca*tivo em Arábia e feito moiro. ti. 297. P01 em depois que Cláudio seu innão, à custa do sangue dos nossos, tornou a recuperar o reino, o resgatou a êle. E assim com muita verdade se pode di\er que com sangue de portugueses, mais que com oiro, foi resgatado do miserável cativeiro em que estava. Mas o agradecimento (1) que nele se achou, foi que vendo-se rei, nenhuma outra coisa parece que pretendia mais que consumir, e assolar essa pobre família de católicos que em seu reino achou. Tinha dado El-Rei Cláudio licença geral que tòdas as mulheres que casassem com portu- gueses, pudessem, se quisessem, seguir os costumes de Roma, e da tnesma ma- neira todos os escravos e família, como faliam. Porém El-Rei Adamás, a pi imeir a coisa que fê\, foi mandar deitar pregão que nenhum abexim natural de Etiópia entrasse nas igrejas dos portugueses, sob graves penas. E era coisa de maravilhar que, com ter a terra cheia de inimigos, com nenhuma coisa pa- recia ter mais conta que com aniquilar a nossa Igreja, e di\ia que seu irmão não morrera senão por consentir em sua terra a Fé de Roma. E chegou a coisa a tanto, que mandou publicamente açoitar uma mulher, só por ser católica; e prendeu outras duas de portugueses, pelo mesmo; e tomou muitos filhos dos mesmos católicos. E muita gente da que antes seguia nossa Fé, retrocedeu com temor de suas ameaças; e não só ficava nelas, senão que a dois arménios, que aqui andavam, e se tinham reduzido, a um mandou desterrar, a outro mandou cortar a cabeça, por não quererem retroceder. Além disto não cessava de tomar aos nossos portugueses suas fazendas, ter r as e lugares com que Cláudio lhes gratificara tão leais serviços como lhe tinham feito. Ao Padre Bispo prendeu, e o teve em prisão seis meses, ou mais; a nós-outros Padres ameaçava que nos havia de mandar queimar vivos. E isto fa\ia êste bom rei; e outras coisas muitas desta qualidade, que se tòdas se hou- vessem de referir, seria necessário larga escritura, porque todo o tempo que teve liber dade para isso, nunca cessou de fa\er todos os agravos que pôde à nossa Igreja e gente. Mas, como Deus Nosso Senhor, (ao que parece) queria com êle castigar as liberdades e solturas de que os nossos usavam em Etiópia, assim também quis que êle não passasse sem açoite. (1) Nt.: aguardecimento.
  • 326 Livro quinto • fi. 297 v. E * foi o caso que, por êle também com os próprios seus ser intratável e deshumano, no fim do ano de i56o, tòda a maior nobreza e potência de Etiópia se rebelou contra êle, e fizeram rei a um mancebo bastardo, filho de outro seu irmão mais velho, já defunto. Chamava-se este mancebo Betancontarcaró(1). Com êste se ajuntaram não somente muitos e os mais tiobres do reino, mas também o nosso capitão com quási trinta portugueses; e não foram mais, porque os outros se não acharam em parte para isso. El-Rei, vendo esta junta, foi contra o inimigo que mais temia, que era o Barnagais Isac, pessoa mui assina- lada em coisas de guerra, e por cujo meio estes reinos foram livres de grandes danos. Este estava tias partes marítimas negociando coisas que o Tareará lhe mandou. E ainda que em um encontro que teve com êle, o fê\ fugir, no segundo se ficou o Barnagais vencido. E a principal causa foi porque, descendo Adamás às partes marítimas, temendo que viessem os portugueses, e o Barnagais os me- tesse na terra em favor de Tarear6, vendo que chegada a monção não vinham, voltou logo em busca do mesmo Tareará, seu sobrinho, e aos dois dias de Julho de i56i pelejou com êle, e o prendeu e houve às mãos, [porque] se havia levan- tado com favor dos grandes; e depois que se desembaraçou dêste, se tornou em Janeiro de i5Ô2. E porqne se tinha por certo que haviam de vir portugueses da índia, deter- minava El-Rei de não pelejar com êles, sabendo que tóda sua gente nenhuma outra coisa tnais esperava para logo o desamparar e se lançar com os nossos; e por isso se não quis ir ao Tigré (2) até se segurar, e ver se vinham. Neste tempo o Barnagais Isac, que escapara da batalha passada, e andava junto do mar, vendo que os nossos não vinham da índia, e temendo que El-Rei desse sobre êle, fê\ liga e amizade com os Turcos de que atrás falei; e ajuntando-os consigo, e arreceando que Adamás matasse ao sobrinho Tareará que tinha prêso (como de feito matou) levantaram, êle, e os tnais que consigo tinha, a outro irmão do Tareará, mas legítimo, para rei. Porém Adamás, rendo •Fi.298. que pas*sava o tempo da vinda dos portugueses que arreceava, ainda que sabia a liga que o Barnagais Isac fizera com os Turcos, se foi contra êle ao Tigré com muita gente; e aos vinte de Abril de i5Õ2 lhe deu batalha; mas quási sem peleja e sem morte de ninguém, ficou desbaratado, porque so- mente com o assombramento da artilharia, êle e os seus se puseram em fu- gida, deixando seus arraiais em poder dos inimigos. Nós-outros em todo êste tempo passado, sempre andámos no arraial de El-Rei Adamás, tão afli- gidos e oprimidos, que não tínhamos poder de assentar nossas tendas, senão onde êle mandava. Neste dia da batalha todos ficámos cativos dos Turcos e abexins contrários a El-Rei, e das vidas nos fê{ Deus mercê por meio dos portugueses, que ali se acharam, posto que com grandíssimo trabalho nosso. Antes disto nos tinham roubado quatro ve\es. Aqui acabámos de ser postos em miséria. Só o cálix, e outras coisinhas nos deu o Barnagais; o demais tornámos a resgatar como (1) Nt.: Betanconjarcaro.—Teles, na Historia G. da Ethiopia a Alta, pág. 177, escreve: Habitacum Tascará. — N. do E. (a) Nt.: Tigray.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia pudemos. Pelo que, Vossa Paternidade pode ver quais andaremos, andando tio campo e nas guerras, cercados de inimigos, entre gente tão alheia de nossos costumes, sem podermos dar relação de nós a quem facilmente pudera remediar o sacro e profano, carregados de dividas que não podemos escusar, não só em ra\ão de nossa família, mas de muitas viúvas e órfãos a quem não podemos deixar de acudir, e em terra onde não há uma só pessoa a quem possamos re- correr, porque os nossos portugueses mais estão para receber esmola que fa^ê-la: e os da terra não há neles dar esmolas, ?nas tomar o que se lhes dá, e roubar o que se lhes não dá. E sóbre tòdas estas nossas angústias, perdido o alívio de nossos trabalhos que é não termos já tnissa há muitos dias, por falta de vinho, porque o não há tia terra. bruto espiritual, não se tem feito coisa que se deva referir, porque a gente é mui dada a seus costumes e ritos. Verdade é que, se houvesse fôrça com que êles puderam escapar das ameaças de El-Rei, houvera tantos que seguiram nossa santa Fé, que * não nos pudéramos valer com êles, porque há muitos que, • fi. 298 v. ainda que conheçam nossa verdade, não se atrevem a segui-la, e tudo pudera remediar o socorro da índia, se viera. Temos em casa algumas quarenta pes- soas a que acudir, e para isto não há um só real nem donde possamos esperar remédio para pagar nossas dividas, pois nossas abundáncias na mesa (glória a Nosso Senhor) não são tais, que devamos ter escrúpulo delas, porque às ve\es nem ainda há abastança de cevada tostada para nós e para a mais família; e há tanto disto, que é melhor passá-lo e calá-lo. A pessoa do Bispo anda tal, que não é para ver. Vossa Paternidade a todos nos mande encomendar a Deus por tòda a Companhia, et genibus pro- volutis, pedimos a bênção. E porque sóbre escreve[r]mos à índia e a Roma, são mortos três homens, e feitas grandes despêsas, e já não há por onde correr, tome Vossa Paternidade esta, se à sua mão fór, pela última que de cá se lhe pode escrever. De Etiópia, a 29 de Julho de 1S62. Manuel Fernandes, Francisco Lopes, António Fernandes, Gonçalo Cardoso. lista foi a entrada do Bispo Dom André de Oviedo em Etiópia e de seus companheiros, e o sucesso que teve com os reis dela, Cláudio e Adamás, nestes primeiros cinco ou seis anos, tão diferentes das bonanças que lhes dá o Autor do livro, enganado das informações que lhe deu o abexim João Baltasar, tão alheias da verdade; e estes os reis que tanto louva: a um, de grão católico e obediente à Igreja; a outro, brando e benigno de una condicion como de cera brunida. Mas, para que se vejam ainda mais os trabalhos e perseguições que pa- deceu êste santo Bispo, (a quem daqui por deante chamaremos Patriarca, por- que neste ano de 62 faleceu o Patriarca Dom João Nunes em Goa, a quem êle sucedeu no titulo e dignidade) debaixo da tirania dêste rei Adamás, ajuntaremos aqui também algumas mais particularidades, que * são as que o Padre Manuel "fi-j». Fernandes não ousou de escrever em sua carta, e se referem no instrumento au- têntico de que acima falámos (1), que o Reverendíssimo Senhor Dom Aleixo de (1) Ver Vol. n, pág. 181 e seguintes. — N. do E.
  • 328 Livro quinto Meneses mandou tirar em Etiópia, de sua vida e morte, no qual entre outras coisas se diz o que segue: Tendo o santo Patriarca reduzido com sua doutrina a muitos herejes e a muitos frades da terra, o imperador, sentido disto, o mandou chamar, e o repreendeu com muita indignação, di\endo-lhe: i«Não basta deixar-vos eu estar em minhas terras e dar-vos licença que trateis e tenhais cuidado dos vossos portugueses, senão que também queirais com vossa falsa doutrina levar após vós os meus frades e a minha gente tóda? Avisai-vos que daqui por de ante não intendais mais que com os vossos, nem ensineis vossa doutrina à minha gente». Ao que o santo respondeu com grande liberdade de espirito, dizendo: «O que eu faço é meu oficio, e êste por nenhum respeito o hei de deixar de fa\er, e en- sinar a todos os que me quiserem ouvir a santa, verdadeira e católica Fé, ainda que me custe a própria vida». O mau imperador, ouvidas estas palavras, se acendeu em tanta ira efuror, que com grande agastamento lhe chamou muitos nomes, e disse muitas injúrias l e para que vinha com mentiras e patranhas ensinar sua gente ? E com tanto furor arremeteu a êle, que travando-lhe da roupa, lha rasgou. Mas acudindo alguns fidalgos seus, estranhando-lhe o que fa\ia, e que não convinha a Sua Majestade tratar daquela maneira a um Patriarca, o largou das mãos, mas com muita cólera o mandou degredar, juntamente com o Padre Francisco Lopes seu companheiro, para uns montes mui altos, e tão ásperos e estéreis, que quási ninguém morava nêles; e lhes mandou sob pena de morte que se não descessem dali; e para mais os magoar, lhes mandou tomar o sagrado cálix, para com isto os privar da consolação e alívios que podiam ter com o sacrossanto sacri- fício da Missa. Recebeu o santo Padre com seu companheiro a sentença do degredo com •F1.399V. grande humildade e paciémcia, e néle padeceram mui grandes trabalhos de dia e de noite, com muitas fomes, sedes, calmas, frios e falta de todo o necessário; e sobretudo com perigo de cada hora serem mortos pelos ladrões. Sua casa era uma choupana muito pobre onde se recolhiam de noite; e neste desterro estiveram seis ou sete meses. Aqui os foi visitar uma senhora que o era daquela terra, e parenta do imperador; e chegando à choupana em que os Padres moravam, lhe pareceu que via dentro um resplendor como do sol ou da lua, de que muito espantada e atemorizada se tornou sem os ver, mas com tão grande conceito de sua santidade, que, com muita instância, fé{ com o imperador lhes levantasse o destérro, e os deixasse vir para povoado, o que êle concedeu, mas mandando que ninguém lhes desse nada de comer nem de beber. Outra testemunha que foi de vista, e sempre acompanhou os Padres, acres- centa em seu juramento que, quando o imperador chamou o santo Patriarca, que todos cuidaram que era para o mandar matar, e que, quando o repreendeu, o adoestou de traidor e enganador, e que, se não desistia de ensinar sua gente, lhe mandaria cortar a cabeça; e que, quando o Padre lhe respondeu, lhe disse que não havia de desistir, ainda que Sua Majestade o mandasse matar, ou lançar aos leões, porque para tudo estava prestes; e que logo, botando o mantéu abaixo, ficou em corpo com seu roxete, e levantadas as mãos e os olhos ao céu, ofereceu a Deus seu espirito, e o corpo às mãos do imperador, para, por con•
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 329 fissão e defensão da santa Fé Católica, padecer até derramar o próprio sangue; o que vendo o imperador, ainda que estava muito furioso, lhe dissera: «Tu querias agora morrer mártir nas minhas mãos; vai-te de deante de mim»! . . . E então o mandou para o desterro com o Padre Francisco Lopes, como atrás fica dito. Depois de o imperador ter desterrado ao santo Patriarca e a seu compa- nheiro, mandou logo prender todos aqueles que se tinham reduzido à nossa santa Fé, e repreendendo-os mui àsperamente, os ameaçou com a morte, se não tor*navam atrás. E porque alguns se mostravam mui constantes, e protestaram • fi. 3oo. que antes derramariam o sangue que tornar atrás, ficou o tirano tão sentido, que logo ali deante de si e de muita outra gente, mandou lançar aos leões, que para isso estavam aparelhados, quatro ou cinco deles. Porém aconteceram aqui as maravilhas antigas que Deus obrou pelos santos mártires da pri- mitiva Igreja, porque os leões, ainda que bravos e ferozes, se deixaram estar quedos, sem tocar nos santos cavaleiros de Cristo; do que o imperador e os mais ficaram pasmados; e a tudo estava presente a própria testemunha que isto jurou. Depois disto, mandou o imperador degredar e desterrar a todos os cató- licos que se mostraram constantes na Fé, juntamente com o mesmo santo Pa- triarca; e indo para êste desterro, chegara/n a tão grandes necessidades de fome, que, por não comerem, havia já muitos dias, iam caindo e desfalecendo de pura fraqueja; e indo caminhando ao longo de uma grande ribeira com o Padre Patriarca, se assentaram todos à borda da água; e ali foi de tanta eficácia deante de Deus a oração do santo Patriarca, como antigamente a de S. Gregório Taumaturgo em secar uma grande lagoa para evitar discórdias entre dois irmãos; porque assim aqui, para remédio da necessidade daqueles fiéis, o santo Patriarca com sua oração de tal modo secou aquela grande ri- beira, que com a grande multidão de peixes (1) que no séco ficaram, não so- mente remediaram sua fome presente, mas carregaram algumas mulas para adeante; e logo a ribeira se tornou a encher e correr como dantes, ficando éles cheios de muita consolação e ânimo, para padecerem como padeceram por Cristo, todas as incomodidades do desterro em que estavam, até que êle foi servido de lhes ser levantado, e a êste milagre se achou presente a mesma testemunha, que era um criado do imperador, que levava preso ao desterro o santo Patriarca. Outra ve\ o mandou chamar o mesmo imperador, e tratando-o mui áspera e deshumanamente de palavras, o ameaçou que lhe havia de mandar cortar a ca- beça, se não desistia de prègar aos seus; mas o santo que não desejava menos de ser morto por esta causa, que o imperador de o matar, cruzando as mãos ante o peito, abaixou a cabeça, dando a entender que ali lha dava. * O que • fi. 300 v. vendo o imperador, cheio de furor, leva da espada, e levantando o braço para descarregar com ela, tendo-o levantado, e antes de o abaixar com o golpe, lhe caiu a espada da mão; do que êle mesmo e todos os mais que estavam presentes, em que entrava também a testemunha que isto jurou, ficaram pastnados. (t) Nt.: de pexes.
  • 33o Livro quinto Estava também ali a rainha, que vendo o que passava, a grande pressa se levantou e abraçou com o santo Patriarca para o defender, estranhando muito ao imperador o que fa\ia, em tratar daquela maneira a um tão santo varão. Mas o mau imperador, com ver tudo isto, não se melhorando de sua malícia,, o mandou que se fosse logo de deante de si, e em secreto ordenou que o matassem; e assitn houvera de acontecer, se uns senhores herejes que o souberam, o não impediram; os quais edificados grandemente de sua santidade, sempre procura- ram de o favorecer, principalmente quando o imperador o perseguia e tratava mal; e então lhe davam mais esmolas, e lhe acudiam em tódas suas necessidades. Outra ve\, indignado o imperador de ter o Santo reduzido certos herejes, lhe mandou que se fosse logo de suas terras, e levasse consigo os seus portu- gueses ; mas as mulheres e filhos lhe deixassem, porque eram seus cativos. Fi\eram-no assim, e foram levados a um desterro mui longe, onde o tirano os mandou, em que padeceram muitos trabalhos e necessidades, pósto que depois lho tornou a levantar. Atèqui o que diz o instrumento de testemunhas acima referido, àcêrca do tratamento que em Etiópia fizeram os reis ao santo Patriarca Oviedo. Morreu este tirano Adamás no mês de Fevereiro de 1563, como consta das cartas dos Padres que adeante se referirão. Porém aqui é bem que antes que passemos mais avante, apontemos algumas contradições que, àcêrca dêste tempo de El-Rei Adamás, há nas informações do abexim João Baltasar, das quais evidentemente se vê a pouquíssima verdade •Fi.3ci. que nelas falou, e que tudo o que diz, são meras ficções. Na pág. 218 diz * o Autor que, morto El-Rei Cláudio, lhe sucedeu no império El-Rei Adamás, êste tirano de que até agora falámos; e assim foi Porém na pág. 616 diz que su- cedeu a El-Rei Cláudio o Preste-João Mena, do qual rei nenhuma menção temos nem memória nas relações de Etiópia, assim dos seculares, como dos Padres, salvo se quiser dizer que o rei Adamás tinha dois nomes, do que nas cartas do Padre Patriarca e seus companheiros há também indício, porque, por outro nome, lhe chamam às vezes Minas. E sendo assim, então se seguem maiores contra- dições no que refere, porque El-Rei Adamás, ou Mena, se assim lhe quer chamar, sucedeu no império a seu irmão Cláudio em Março de i55g, e morreu em Fe- vereiro de 1563; por onde não ficou reinando mais que quatro anos. E sendo isto assim, diz o Autor na pág. 107 que, quando soube o impe- rador de Etiópia chamado Mena, que o imperador Carlos Quinto tomara a cidade de Túnis, que foi no ano de 1535, sabendo que o rei de Túnis tinha uma copiosa e rica livraria, mandara aos mercadores de Egipto, de Roma, de Veneza, de Sicília e outras partes, que à sua custa comprassem os livros que os soldados levavam, que como eram em arábigo, os davam quási de graça; e que desta maneira comprara mais de três mil livros de astrologia, medicina, matemáticas, ervas e outras curiosidades. Pelo que, daqui se pode ver de que crédito sejam tais informações; pois, quando o imperador tomou Túnis, foi vinte e quatro anos antes que Mena fosse rei. Além disto, ainda que houvera ocasião ou funda- mento para se comprar a tal livraria, foram tantas as guerras civis que Mena te\e em seu reino, por todos os quatro anos que reinou, e as misérias em que nele se viu, que impossível fôra poder êle comprar tal livraria.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 331 Diz mais na pág. 616 que êste imperador Me*na ou Adamás escrevera uma *fi. 3oiv. carta ao Papa Pio Quinto sôbre certa matéria de que ali trata, e de que ao deante se falará, e outras cartas a muitos Cardeais, dando a obediência à Igreja Romana, e pedindo-lhe o Concílio Tridentino, para que se guardasse em Etiópia, e que o Santo Padre lhe respondera e escrevera duas vezes. A con- tradição que isto tem, e' que o Papa Pio Quinto foi eleito no mês de Janeiro do ano de i566; El-Rei Mena ou Adamás era morto havia três anos, no mês de Fevereiro de 63; por onde fica também encontrando a verdade da carta, que diz que o mesmo Pio Quinto escreveu a êste rei Mena, dando-lhe conta da vi- tória naval que foi no ano de 70, em que havia sete anos que era morto El-Rei Mena; e semelhantes a estas ficções são tôdas as mais coisas que o abexim diz em suas informações, e que neste livro (1) se contam. CAPÍTULO VII Do que sucedeu ao Padre Patriarca e seus cotnpanheiros, depois da morte de El-Rei Adamás, e do que mais passava em Etiópia neste tempo MORTO El-Rei Adamás no mês de Fevereiro de 63, como acima dissemos, o reino que dantes andava diviso, e ardendo em guerras civis, se dividiu muito mais, porque os da parcialidade de Adamás levantaram logo como rei a um filho seu; e o Isac Barnagais com os do seu bando, levantaram como rei ao que já dantes seguiam, que era um menino, irmão do Tarcaró; e * assim tudo ardia e se destruia com guerras, que duraram muitos anos na- *fi. *». qilele império, emquanto foi vivo o Isac Barnagais, como ao deante se irá tocando. Neste tempo o Padre Patriarca com a maior parte dos portugueses que a êle se juntaram, depois daquela batalha em que Adamás foi vencido, se vieram para o reino de Tigré, e para uma terra junto de um grão mosteiro, que se chama Abba-Guarima onde o Padre Patriarca fêz seu assento num pobre lugar que ali se foi fazendo, chamado Fremoná, e ali morou sempre em todo o restante de sua vida, que foram alguns 16 anos, sem mais entrar na côrte, nem se ver com rei algum de Etiópia; porque, emquanto êle viveu, daqui por deante, como as guerras e divisões do reino eram tantas, nenhum dos que se chamavam reis estava seguro, ainda que o filho de Adamás foi o que por derradeiro veio a prevalecer, e ficar com todo o império, mas mais de 16 ou 17 anos depois de ser alevantado, e pela morte do Barnagais Isac. Por onde nas coisas da redução dos Abexins à Igreja Romana não houve mais têrmo algum de bem. Sòmente não houve daqui por deante rei nem príncipe, que de propósito perseguisse os católicos, como Ada- más fizera. E assim onde estava o Patriarca, e noutras partes por onde os Padres andavam, sempre havia alguns particulares que se reduziam à Fe' Católica, mas poucos, pelo grande mêdo que tinham do mal que os grandes lhes podiam fazer. O Patriarca neste tempo, no lugar onde morava, vivia em suma pobreza e necessidade de tôdas as coisas temporais, como também os mais Padres; e a (1) Neste livro de Frei Luis de Urreta. — N. do E.
  • 332 Livro quinto vida que aqui fazia, os trabalhos e necessidades que padecia, se verão melhor de suas próprias cartas, e das do Padre Manuel Fernandes, que daqui escreviam, as quais aqui poremos, tiradas de seus próprios originais, nas quais também •F1.301V. nenhuma outra coisa com mais eficácia pediam para remédio * daqueles reinos e redução dêles à Igreja Romana, que socorro de portugueses. Começando por uma do Padre Manuel Fernandes, de 3 de Junho de 66, para os Padres e Irmãos da Companhia de Jesus do Colégio de São Paulo de Goa, diz assim: Três anos há que de Baroá (onde ficámos o Padre Cardoso, o Irmão An- tônio Fernandes e eu para escrever à índia) mandámos lá este canarim, que se chama Amador. Estando já de todo desconfiados de êle ter passado a essas partes, e de nós também podermos mandar mais recado algum à índia, eis que dia do Espírito Santo, estando nós, o Padre Patriarca e eu, nos dão recado que ei a tornado e chegado da índia. A consolação que em nossas almas tivemos em ver e ouvir o que êste Amador assim balbuciando nos di$ia, e as novas que nos dava de \ V. RR. só Deus i\osso Senhor o sabe. Finalmente ninguém pode quebrar êste encantamento senão Amador. Tantos anos há que dessas partes não sabemos coisa alguma! E estando já tão caídos num poço, tão desesperados de todo o humano favor, tão entregues a ver se podíamos dar algum vau a ladeiras, com nos fazermos lavradores, chega Amador, ou chega Deus Nosso Senhor, e por tnimstério de Amador tornam nossas primeiras e tão sêcas espe- ranças a reverdecer. Louvado seja Cristo Jesus, que não havia esta coisa de vir, senão por mi- nistério do mais simples homem que para isso se podia buscar! É coisa para louvar a Nosso Senhor, que, pelo que êle di{ assim a vulto e mal pronunciado, nos convém a nós adivinhar o que quer di\er, se queremos saber alguma coisa da índia; e mais para o louvar e bemdi\er é que seu tão tôsco arrazoar nos parecem suaves cordeais, somente por nos falar nos Padres da Companhia de Jesus dessoutro mundo. O papel é pouco, e não é tempo de me assentar a es- crever de nós, porque, se o houvesse de fa\er como VV. RR. querem e eu o desejo, seria necessário muito tempo, e mais papel, e estarem os caminhos menos perigosos. Nós, haverá dezoito meses que o Padre Cardoso e o Irmão António Fer- nandes e eu, nos fomos lá por dentro dêsse sertão a negociar algo de almas e ver os portugueses daquelas partes, que havia já muito que não sabíamos dêles. • fu 3o3. Andámos por lá quási ano e meio, e haverá tre^e dias que * nos viemos ajuntar com o P. Patriarca. E pelos muitos perigos do caminho que nós tivemos, e grandes trabalhos que sua IJatermdade por cá passou, quando nos tornámos a ver, foi como se viéramos da índia. Achámos o P. Patriarca pósto num tão baixo e abjecto estado, que vê-lo é mágoa, e agora ficamos negociando algumas juntas de bois, para ver se lavrando, podemos remediar nossa pobreza, que quis o Senhor que vivamos entre gente da qual não se pode pretender coisa que o seja. Até agora nunca jamais se deixou de tratar das coisas da Fé, parte em escrito, parte em práticas. Mas o reino todo anda tão revolto, que não há já ouvir-se nada, mais que cada um pôr cóbro em sua casa. As coisas da obe- diência à Igreja Romana estão omnino esquecidas. Os Abexins por extremo duros e pertinazes; e é coisa maravilhosa, que parece que, quanto Deus mais os
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 333 fere, menos o sentem. Sete anos há que nenhuma outra coisa passa neste reino, senão ásperas e continuas justiças que Deus Nosso Senhor nestes fa\, como em contumazes: e êles o sentem tão pouco, que perguntam mui desencalmadamente que, sendo êles tão bons cristãos, «?porque Deus os persegue tanto ? Turcos, moiros, galas, peste, guerras continuas sem cessar, je êles insensíveis ao que Deus Nosso Senhor pretende! A nós não deixam às ve^es de nos fustigar também as voltas. Depois que êste Amador partiu de Baroá, que há três anos, se deram daí a poucos dias batalha campal dois capitães, ali quisi à vista de Baroá, e foi desbaratado o que senhoreava aquelas partes; e quando dali nos vimos em salvo, não foi pequena misericórdia de Nosso Senhor, ainda com ficarmos com bem de perda. O Padre Patriarca tinha uma mula em que andava; dois moços de casa puseram-se a fa\er fogo de noite; solta-se-lhes o fogo, queima a casa, mata-lhe a mula! Dali a poucos dias, noutra pousada, salta-lhe um ladrão de noite em casa,furta-lhe a lóba de pano e dois roxeies, que não tinha mais, nem outro vestido com que autorizar seu pobre estado, e também levou um ornamento. Finalmente em Etiópia satis est vivere, sem se esperar mais nada. Isto que disse agora, é coisa de ontem e de antontem. Nas coisas da Fé, nossas verdades estão entendidas, mas não se aceitam, porque comummente é esta gente a ?nais sem escrúpulos que [não] se viu outra. Estão confessan*do a verdade e dando mostras do muito bem que lhes parece; • fi. 3o3 v. e se quereis apertar com êles que a aceitem, que sem ela se vão ao inferno, di\em que logo como vierem os portugueses, a receberão, que de outra maneira, têem mêdo de El-Rei, e que, se morrerem entretanto, ao paraíso hão de ir, porque tomam o corbané, que é o Sacramento, e não comem carne que mate moiro; e com isto lhes parece que têem ganhado sete paraísos. Todavia, nestes derradeiros dias, alguns receberam nossa Fé; e todos sabemos que, se os por- tugueses viessem, desde sua entrada a bem poucos dias, pessoas de muito preço na terra, tomaram logo a nossa Fé, além de estar bem certo de com sua vinda se redu\ir logo Etiópia à obediência da santa Igreja. Roguem VV. RR. a Nosso Senhor, e também ao senhor vi\o-rei queira mandar gente: e então, poucos são os da Companhia, que há na índia para os que cá são necessários. Não há hi para que me alargue mais. Todos ficamos embrenhados aqui neste mato. VV. RR. se lembrem de nós em seus sacrifícios e orações. A 3 de Junho de 66. O P. Patriarca em uma sua do mesmo dia e ano, escrevendo ao Padre Geral da Companhia de Jesus, diz também assim num capítulo dela: Louvado seja Nosso Senhor, que, depois de tantos anos, pude ter novas de V. P. e se V. P. as não teve de nós, não se maravilhe, que estivemos como em terra de Turcos e outros [inimigos, com dano e perda de muitos católicos; e atègora es- cassamente pudemos ter liberdade para escrever; e esta que escrevo há de it- em nau de moiros e escondida, se Nosso Senhor lá a deixar chegar; e por falta de papel não serei comprido. Cá não nos faltaram trabalhos, o Senhor seja louvado. As coisas de Etiópia e de sua redução à Igreja Romana parece que hão mister força, porque estão mui duros, e ainda que conhecem a verdade, atam-se aos costumes de seus antepassados, como fa\em os moiros, e outros que
  • 334 Livro quinto não querem receber a verdade. Se viessem portugueses da índia, logo me pa- rece que se reduziriam; e êles mesmos desejam que venham, porque temporal- mente se vêem perdidos com guerras, e males uns com outros, e outros castigos que lhes Deus dá{i). Atèqui o Padre Patriarca para o Padre Geral. Noutra também sua do •ri.3o4. mesmo dia e a*no para o Padre Francisco Rodrigues, Reitor do colégio de São Paulo de Goa, diz assim: Ontem dia do Espirito Santo nos consolou Nosso Se- nhor com carta de Vossa Reverência, que trouxe Amador. Louvada seja Sua Divina Majestade, que depois de tantos anos que há que esperávamos, nos deixou saber novas de lá, e bem creio que mais ve\es fôramos consolados, se os perigos da entrada desta terra deram lugar. Agora, louvores a Deus, está esta en- trada mais despejada de Turcos, e que não poderão pôr impedimento à entrada dos portugueses se de lá vierem a dar remédio a esta terra, porque são poucos; e ainda que foram muitos, o médo que têem dos portugueses, os fizera arredar, e deixar-lhes o pórto seguro para poderem entrar. E temos por certo que, se depois que cá estamos há nove anos viera armada da Índia, que em qualquer tempo puderam entrar, e éste reino tivera dada a obediência à Igreja Romana sem dificuldade. E agora mais que nunca está o reino disposto para isto, porque está tão perdido e destruído por guerras e outros estragos que tem pa- decido, que êles mesmos se não sabem remediar, nem sentem outro remédio senão a vinda de portugueses. Nós, todos os anos não fademos senão escrever, e tornar a receber nossas cartas pelos estorvos que sempre houve de passarem, assim por ra\ão dos reis duros que houve estes anos atrás, como pelos Turcos, e outros inimigos. Os reis que houve dês que cá estamos, foram muitos, e agora longe daqui reina um moço filho de Adamás, mas tem pouca força e é mui desobedecido. Pelo que, estando as coisas assim, não devia a índia de esperar mais tempo para acudir a estes doentes e frenéticos, compadecendo-se dêles e de outros que não têem culpa, e de infinita gentilidade, que se quer converter, e quando mais não fora, por acudir a alguns pobres católicos, que escaparam das tempestades passadas, para que, com seus filhos e famílias, se não acabem de perder. E emfim esteja vossa Reverência nesta conclusão, que o remédio de Etiópia e sua redução e obediência à Igreja Romana, está em virem portugueses, e em comum os espera a gente com grão desejo. E pois esta emprêsa é tão alta, e de proveito de tantas almas (que por isso o inimigo da natureza humana trabalha tanto pela • fi. 304 v. estorvar) * e El-Rei D. João III, de gloriosa memória, com tantos gastos de sua fazenda procurou de a efeituar, para exaltação de nossa Santa /«V, não deviam (2) os que agora têem o poder, deixar cair esta obra, nem desconfiar, pela dificuldade dela e pertinácia da gente, porque as coisas grandes sempre têem dificuldades no principio, e 5oo ou 600 homens bastam para reduzir Etiópia à Fe Católica. E por menores coisas e mais duvidosas, se aventura (3) às ve\es mais gente com bem graves perdas. (1) Nt.: que lhe Deos daa. (2) Nt.: dessuiâo. (3) Nt.: se auenturão.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 335 Deus Nosso Senhor o deixe entender a todos, que a meu per, não ia fora de bom sentimento o mui Reverendo P. Frei Luis de Granada, quando di\ia parecer-lhe esta empresa de Etiópia, das gloriosas que havia sôbre a face da terra, pela redução de tanta gente à Igreja Romana. Rogo a V. R. que queira propor tudo isto ao senhor vi{o-rei, que pode ser que lhe inspire Deus o que fór maior bem, e emfim todas as coisas hão de acabar, e só o serviço do Altíssimo é o mais fino. E quando de todo em todo esta terra carecer deste remédio, e parecer à santa obediência que saiamos dela, atentem por caridade, que será bem que fiquem nela alguns Padres, para que os católicos que aqui há, não fiquem sem remédio de Sacramentos. Atèqui o Padre Patriarca, de cujas cartas, e dos mais Padres se pode ver a falência grande das informações do abexim, pelas quais o Autor do livro se regeu, assim em dizer que os Abexins não eram scismáticos e desobedientes à Igreja, como nos bons tratamentos que diz que sempre se fizeram naquele reino ao santo Patriarca Oviedo, emquanto viveu, pois por êle mesmo, testemunha tão verdadeira, consta aqui, e pelas mais cartas suas que abaixo traremos, ser tudo pelo contrário. * CAPÍTULO VIII * FI. 3o5. De como o Papa Pio V mandou, por um Breve seu, ao Padre Patriarca, • que se saísse de Etiópia, e o que sôbre isso di\ o Autor do livro CHEGADAS a Portugal as informações e cartas que os Padres da Com- panhia escreveram de Etiópia no ano de 62, como atrás fica dito, e sa- bendo por elas El-Rei Dom Sebastião os grandes trabalhos que o Pa- triarca lá padecia, e o pouco fruto que fazia naquela terra, pela pertinácia daqueles reis e gente, e pouca esperança que davam de sua redução à Igreja Romana; e tendo por outra parte novas do grande fruto que se ia fazendo na conversão da gentilidade nos reinos de Japão: julgou com maduro conselho que seria mais serviço de Nosso Senhor que o Padre Patriarca se saísse de Etiópia e passasse para o Japão. Para isto escreveu a seu embaixador que tinha em Roma, e ao Padre Geral de nossa Companhia, para que ambos o tratassem com a Santi- dade do Papa Pio V, o qual pelas informações que também já tinha do que pas- sava em Etiópia, fàcilmente veio no mesmo conselho e parecer, e aos 2 de Feve- reiro de 1566 passou um Breve para o Patriarca de Etiópia, cujo teor é o seguinte: * Venerabili Fratri Andrea? (i) de Oviedo Patriarchce Aethiopice. Vene- • fi.305v. rabilis frater, salutem, etc. Ex litteris carissimi in Christo filii nostri Sebas- tiani Portugahce Régis Illustris ad Oratorem ipsius qui apud nos residet missis, et ab aliis quibus fidem mérito habuimus, cognovimus Paternitatem tuam in istis Aethiopice partibus ad quas a Sede fueris Apostolica missus, ut istos po- pulos ad fidei orthodoxce agnitionem et ad unitatem Ecclesice Catholicce redu- ceres, inter tot anitos quibus istic mansisti, propter duritiem cordis eorum et in vetustis erroribus suis retinendis animi pertinaciam, opera et pia industria tua (1) Ni.: Venerabilis Frater Andrae.
  • 336 Livro quinto nihil projicere potuisse. Quod si ad insulam quce Japam appellatur, et in Si- narum regiotiem, quce a gentilibus incoluntur, mittaris, in quibus provinciis Domini Nostri Jesu Christi jides magna devotione suscipi ccepit, sperandum esse, Deo adjuvante, ut illic opera tua valde sit utilis, propterea quod messis illic multa sit, operarii autem paucissimi. Quibus auditis, fraterna sane chari- tate tibi compassi sumus, qui tot, tantorumque laborum et tam diuturna pere- •fi. 3o6. grinationis fructum * optatum capere minime potueris. Sed si opera tua, illis fuit populis inutilis, non tu tamen, qui tam multa et tam gr avia pro Christo Domino nostro passus es, frustra laborasti, pietatis enim et obedientice et chari- tatis tuce prcemium a Domino habebis. Quia igitur in hac Sancta Sede, licet stne nostris meritis constituti, omnibus nos esse agnoscimus debitores, et pro commisso nobis officio debemus inservire Omnipotentis Dei hottori et glorice et animarum saluti consulere; fraterna cha- ritate salutantes te, de cujus pio {elo, et propagandce catholicce Religionis studio, gravíssima testimonia habuimus, hortamur(i) in Domino, et in virtute sanctce obedientice, atque in remissionem peccatorum injungimus, ut postquam has litteras acceperis, cum primum tute potueris, et navigandi facultatem ha- bueris ad insulam Japam, et ad Sinarum regionem te conferas, et in illis locis verbum Dei juxta doctrinam Sanctce Romance Ecclesice omnitim Christifide- lium Matris, ac Magistrce docendo et prcedicando, et sacramenta quce Ponti- ficalis sunt officii ministrando, quamplurimas poteris animas lucrari studeas divince fretus misericórdia: auxilio, etc. Quis aqui pôr esta parte do Breve em latim, para mais certeza de suas ori- ginais palavras, que convertidas em linguagem, querem dizer: • fi. 3o6 v. * Ao venerável Irmão André de Oviedo, Patriarca de Etiópia Venerável Irmão, saúde, etc. Por cartas do nosso caríssimo filho Dom Se- bastião, rei ilustre de Portugal, escritas a seu embaixador que reside em nossa còrte, e de outras pessoas dignas de fé, soubemos que, sendo Vossa Paternidade enviado por esta Sé Apostólica a essas partes de Etiópia, para reduzir os povos dela ao conhecimento da Fé Ortodoxa e à união da Igreja Católica, depois de haverdes gastado muitos anos, não tirastes fruto com todo o vosso trabalho e piedosa indústria, pela dureza de coração désses povos, e pela pertinácia que téem em querer conservar seus antigos erros, e que, se fôsseis enviado à ilha de Japão e à província que chamam China, que são povoadas de gentios, nas quais províncias a Fé de Jesus Cristo Nosso Senhor com grande devoção começa a ser recebida, se poderia esperar que, com o favor do Senhor, vosso trabalho seria mui proveitoso naquelas partes, por haver nelas grande messe e pouquís- simos obreiros: Nós-outros, ouvindo esta relação, movidos da caridade fraternal, nos compadecemos de vós, vendo que não pudestes colher o fruto desejado, de tantos e tão grandes trabalhos e de tão larga peregrinação. (i) Nl.: Hortãtur.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 337 Portanto achatido-nos * colocados nesta Santa Sé, ainda que sem tiosso * fi. 307. merecimento, e conhecendo que somos devedores a todos, e pelo ofício que temos, obrigados a servir a lionra e glória de Deus todo-poderoso, e a procurar a saúde das almas, saiidando-vos com a caridade de Irmão, e tendo mui graves testemunhos do vosso piedoso \êlo, e do afecto que tendes a propagar a Religião Católica, vos exhortamos em o Setihor, e em remissão de vossos pecados vos mandamos que, em podendo sair seguramente, e tendo comodidade para navegar, depois de receberdes estas nossas letras, vos partais para a ilha de Japão e para a China, e nelas pregueis a palavra de Deus, conforme a doutrina da Santa Igreja Romana, que é mãe e mestra de todos os fiéis, e que administreis os Sa- cramentos que são próprios do ofício pontifical, e procureis ganhar para Deus as mais almas que puderdes, confiado no favor de sua divina misericórdia. E para que melhor o possais fa\er, com autoridade apostólica que temos, vos damos faculdade e poder para exercitardes os ofícios pontificais naqueles lu- gares, e em quaisquer outros, onde vos achardes, (com tanto que não haja neles Bispo próprio e particular); e para que possais usar de todas as faculdades e indultos que vos foram concedidos pelo Papa Júlio III, de feli{ memória, e dos outros Romanos Pontífices, nossos predecessores, nesse reino de Etiópia; e com a mesma * autoridade dispensamos convosco, para que sem nenhum escrúpulo * fi. 3»7 v. de consciência possais morar e permanecer jios ditos lugares, se não tiverdes maior esperança de podei- reduzir os povos de Etiópia à união da Fé Ca- tólica, etc. Êste é o Breve que o Papa Pio V enviou ao Patriarca, para que, saindo-se de Etiópia, não tendo maior esperança de sua redução, se passasse para Japão e China. E nas palavras do Breve se hão de notar duas coisas que fazem muito a nosso propósito: uma, a opinião e juízo que o Sumo Pontífice tinha assentado, que por sua própria bôca pronunciava que os povos de Etiópia são scismáticos e desobedientes à Igreja Romana e inficionados com erros antigos contra nossa santa Fe', e que a-fim de os reduzir dêstes erros, e trazer à união da Igreja, fôra lá mandado o Patriarca. A outra, que afirma o Sumo Pontífice ordenar esta mudança do Patriarca de Etiópia para Japão, não só pelas infor- mações que El-Rei Dom Sebastião lhe dava, por suas cartas, ainda que só estas eram bastantíssimas, senão também pelas que êle já tinha de pessoas fidedignas, e a quem com razão dava crédito, quibus mérito fidem habuimus, do pouco ou nenhum fruto que o Patriarca fazia em Etiópia pela dureza dos corações daquelas gentes, e pertinácia que tinham em seus antigos erros. E fazemos aqui esta advertência, porque, com isto ser assim, e o Papa passar um Breve como êste, sobre tão certo e seguro fundamento, com tudo isso, diz o Autor do livro, Frei Luís Urreta, em tantas partes dêle, que nunca os Abexins foram nem são * scismáticos. E àlém disso, falando dêste Breve em particular, no Livro 3.°, *fi.3c8. e na pág. 6i3 e 614, diz dêle estas palavras, contradizendo ao P. Ribadeneira que o alega: A esto que es el mayor batallon que contra nosotros pueden oponer, respondere en breves palabras. Y digo que es verdad que Pio quinto expedio el sobredicho bulleto a instancia dei Rey de Portugal, Don Sebastian, pero que no tiene fuerça alguna, y que es surrepticio, por estar el Summo Pontífice mal informado, y lo que le dixeron muy lexos de la jurisdiccion y términos de la 34
  • 338 Livro quinto verdad, y el Rey Don Sebastian se persuadio con facilidad, ser historia verdadera lo que no era sino fabula y malicia, y dio credito a lo que era levantamiento muy falso, por ver que lo escrivian de Goa y lo de\ian los que venian con las naves de la índia, nascido todo de la maldad de Portu- gueses Judios. E sôbre isto vai contando sua história, que mais adeante se dirá, de muito escândalo. Agora somente (deixando ao bom juízo do prudente lei- tor, o que deve formar das palavras do Autor, e da temeridade e pouco respeito com que fala de um Breve de um Papa, e de um rei tão cristão) mostraremos quão fora foi, no que diz do Breve, dos términos da verdade, com o testemunho do mesmo P. Patriarca, e mais adeante em seu lugar com desfazermos a mácula que neste passo, e sôbre esta matéria quis impôr aos portugueses. O Breve acima dito foi passado em Fevereiro do ano de 66, e chegou a Etiópia a mãos do Patriarca no ano seguinte em Maio de 67; e no mesmo Junho respondeu o Patriarca sôbre êle a Sua Santidade e El-Rei Dom Sebastião, e ao P. Geral da Companhia, e juntamente neste (1) mesmo mês e ano escreveram também os demais Padres seus companheiros sôbre a mesma matéria, e o ca- pitão dos portugueses com os que com êle estavam a El-Rei D. Sebastião e ao Governador da índia. E nenhuns dêles escreveram coisa alguma em contrário da informação pela qual El-Rei D. Sebastião e o Papa se resolveram em mandar • fi. 3o8 v. sair o Patriarca de Etiópia para Japão, pelas razões que se téem * dito, pois foram suas próprias dos que escreviam, e da mesma maneira estavam ainda em pe, que quando êles escreveram os anos atrás; e se alguma coisa houvera em contrário delas, ao mesmo Patriarca competia a obrigação de desenganar o Papa e a El-Rei, de serem mal informados. Porém êle em suas cartas para um e para outro não sòmente o não fêz, mas ratificando a verdade das mesmas informações que lhes tinham dado, sò- mente responde representando-lhe os inconvenientes que achava para a execução do Breve em sua saída de Etiópia. E tôda a fôrça de suas cartas batia em três pontos: o primeiro que se não desamparasse de todo Etiópia, ainda que ela com tanta razão o merecia; o segundo, persuadir a El-Rei e ao Papa que o único remédio de Etiópia estava em El-Rei lhe mandar 5oo ou 600 portugueses, e que com estes tinha por sem dúvida nenhuma que logo daria obediência à Igreja Romana, afora outros muitos grandes bens que daí se seguiriam; o ter- ceiro que em caso que o socorro dos portugueses se não mandasse, era neces- sário ir uma armada da índia em que se pudessem embarcar e vir para ela não só o Patriarca e Padres, mas todos os portugueses com suas mulheres e filhos, família e mais católicos que lá houvesse, pois vindo-se o Patriarca e Padres, e ficando estes lá desamparados de sua doutrina e cura espiritual, nenhuma dú- vida havia que, quando não viessem ter a poder dos moiros, todos se haviam de perder e fazer herejes como o são os Abexins. E ainda que pudéramos re- ferir aqui também as cartas dos mesmos portugueses e Padres que dizem o mesmo, bastará pôr sòmente as do santo Patriarca, em que se contém tudo o (1) Nt.: a este.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 339 que as outras dizem. E poremos primeiro a que escreve a Sua Santidade (1), a qual diz assim, tirada de latim em português: * Beatíssimo Padre #fi.3<>9. Neste ano de i56y recebi cartas da índia, do colégio de S. Paulo de Goa, nas quais me vinha a cópia de um traslado simples de um (2) Breve Apostólico de Vossa Santidade para mim. E entre muitas coisas que nele pia, devota e santamente tratava Fossa Santidade, se continham estas palavras: «.Exhor- tamo-vos em o Senhor, e em virtude da santa obediência e remissão de vossos pecados vos mandamos que, depois que tiverdes estas letras recebidas, tanto que puderdes e achardes cómoda ocasião de navegar, vos passeis para a ilha do Japão e reino da China*; e mais abaixo: «.Além disto com a mesma Autori- dade Apostólica dispensamos convosco que (não tendo melhor esperança da re- dução dos etíopes à união da Igreja) possais sem nenhum escrúpulo de obediên- cia, passar-vos e ficar com aquelas gentes*. /Is quais letras Apostólicas tanto que vi, como se foram os próprios originais, assim apliquei logo o ânimo a obedecei• aos mandados de Vossa Santidade; porque é mui digno e justo e sau- dável que sempre em toda a parte vos obedeçamos, Padre Santíssimo, porque obedecendo a Vós, obedecemos a Cristo, Eilho Unigénito do Padre, cujas adrni- randas e soberanas ve^es tendes na terra; e depois de Cristo sois nossa cabeça, pai e mestre de todos os fiéis cristãos; e tóda a indulgência, ordem epotestade da Igreja de Cristo, de vós se deriva para os outros. E a mesma Santa Madre Igreja Romana (cuja fé nunca falta nem faltará) permanece também na virtude de vosso pontificado, por ra\ão da Sede Apostólica na qual vós presidis; e esta Igreja é mãe e mestra de todas as igrejas que há no mundo e dos fiéis de Cristo. E quanto ao que me mandais que me vá para a ilha de Japão, tanto que puder ter comodidade de navegar, a falta dessa me escusa, porque a não tenho, nem seguramente me posso embarcar, porque no porto de Maçuá, havendo mil naus de moiros, nenhuma há de cristãos. Quanto a ter melhor esperança da redução de Etiópia à Igreja Católica, sem dúvida a tenho, se da * índia se ' FI.309V. mandarem a esta terra, Soo ou 600 soldados portugueses, como sempre espe- ratnos, conforme ao que lá se tratou, antes que eu para cá viesse. Vista a dureza de El-Rei de Etiópia não só terei esperança, mas certeza, que vindo êste socorro, toda Etiópia se converta com inumerável multidão de gentios de muitas províncias que nela há, por onde se pode discorrer sem passar mar, os quais gentios pela maior parte parecem simples e fáceis para se converterem, nem são tão dados à idolatria. Outros também, e muitos, em outras regiões temos ouvido que pediram a El-Rei de Etiópia que os fizesse cristãos, o que êle não quis, por seus proveitos temporais, e porque cativam muitos dêles, o que os etíopes cuidam não poderem fa\er, se forem cristãos, e poderem, não o sendo. Estes que pedem isto a El-Rei, são dos que moram em Damute, (1) Nt.: sua a santidade. (2) Nt.: e hum.
  • 340 Livro quinto que é uma região mui grande e vasta, abundante de oiro, e se di\ que por uma parte chega às terras de El-Rei de Portugal, que chamam de Moçambique e Çofala. Também outros gentios de uma região por nome Sinaxi (onde também se dá oiro mui fino) haverá três anos que se concertavam com um príncipe, parente de El-Rei de Etiópia que lhe fa\ia guerra, rogando-lhe que desistisse dela, e que lhe pagariam tributo; e que, se quisesse que se fizessem cristãos, lhes edi- ficasse igreja, no que ele não quis vir. E destes gentios de Etiópia, principal- mente de Damute, os moiros mercadores, que são em grande número entre os cristãos, mercam cada dia muitos, e os vão vender ao mar aos moiros e turcos, os quais todos se fizeram (f) cristãos de boa vontade; e choram, quando chegam ao mar; e são grandes e pequenos, assim homens como mulheres. E é tão grande o número destes, que, segundo me parece, são mais de cem mil os que são vendidos aos moiros, os quais depois também se fa\em moiros; e como estão fora de Etiópia, se fa^em soldados valentes, e por mar e por terra juntamente com os sarracenos e turcos fa\em guerra aos cristãos, como vemos por expe- riência na índia. L se a esta terra vierem quinhentos ou seiscentos portugueses, poderão im- pedir todos estes males; e servirá isto também para o Estado da índia e a •fi.3io. cristandade que nela há, se conservarem melhor, * porque, se os turcos vierem primeiro e se fizerem senhores de Etiópia, serão de grande prejuízo à índia, porque há nesta terra muitas coisas que lhes servem muito para provimento de suas galés, como são escravos, vitualhas, ferro, etc. E o rei que primeiro perseguia nossa santa Fé, com alguns grandes seus aderentes, já é morto, e ? eina um moço, filho seu, o qual não tem pleno domínio, por ra^ão de muitos que se levantaram contra seu pai, e lhe negaram obediência; permitindo isto Deus por seu justo )UÍ\o, que não seja obedecido dos seus o que não quer obedecer a Deus nem a seus maiores, e principalmente à Santa Igreja Romana, da qual todos os que pertinazmente se apartaram, se perderam e caíram em sujeição de infiéis. E estão estes povos todos agora tão quebrantados com trabalhos e guerras e cativeiros que têem padecido dos turcos, que parece nenhuma coisa procuram mais que poder viver e ter seus bens temporais. E ainda que o sobredita rei defunto, e outros seus aderentes, e comummente os frades se mostrassem mais duros àcêrca da Fé Católica e perseguissem nossos católicos, contudo a gente popular e muitos outros se mostram mais fáceis para receber a verdade da Fé, a qual com o favor de Deus procuramos de lhes anunciar e declarar nestas partes por pregações e disputas públicas e particulares, e por muitos escritos contra os errores de Etiópia, traduzidos em sua língua, pelos quais as coisas da Fe Católica lhes são assa% notórias, se a eles quisessem receber, e agradam a muitos; tnas temem castigos, ou confusão, ou privação de seus bens, e por isso desejam muitos a vinda dos portugueses para terem quem os defenda, recebendo a Fé, porque são fracos; e muitos que a tinham recebido, ou por tnêdo ou por fraqueja tornaram a retroceder da verdade, pósto que há ainda muitos que (1) forma equivalente a fariam. — N. do E.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 341 perseveram nela, não obstante as contradições que têem padecido. E é comum opinião dos etíopes que hão de vir os portugueses, e que a Fé há de ser toda uma. Di\em também (e assim o cremos por certo) que êste reino, que em si está tão diviso e inquieto, nunca poderá ter pa\ nem ordem, senão com a vinda dos * portugueses. Pelo que, se éles vierem, ainda que seja com intento e título de *fi. 3iov. lhes fa\er força, não há escândalo nenhum, nem [para com] os católicos, (pois nenhuma justa causa dêle há) nem ainda para com os mesmos etíopes; e o que parece, em vindo portugueses, só seu nome, ainda que não pelejem, bastará para muitos, constrangidos com o médo, os receberem, porque os não têem por [itijimigos, senão por amigos. E se já foram vindos, sem dúvida temos para nós que a obediência estivera dada nestas partes à Igreja Romana; e que o mesmo será, se vierem. Pelo que, com sua vinda temos grande espei-ança da redução destas terras à união da Fé católica, com conversão de grande número de gentilidade, da qual ainda, por evitar prolixidade, não disse tanto quanto é. Assim que as coisas de Etiópia em respeito de nossa santa Fé Católica (contra as quais Satanás tanto se opõe) temos para nós seretn de gi-atide momento, e que de nenhum modo se devem desamparar, ainda que nos princípios pareçam dificultosas; porque coisa é comum (1) que coisas grandes não se hão de alcançar senão por grandes trabalhos. E porventura que poucas missões e emprésas tem hoje nossa Santa Madre Igreja melhores que esta de Etiópia, na qual agora haverá como 400 ou 5oo católicos, e porventura ?nais, afora os que, dês que aqui estamos, morreram na verdadeira Sé, e recebidos os sacramentos, e outros que os moiros levaram cativos, homens e mulheres, e que por ra\ão das guerras e pobre\a, se espalharam por tòda Etiópia; pósto que aqui nestas partes do reino do Tigré, que está perto do mar, estaremos juntos como 23o católicos em duas povoações pequenas, as quais procurámos edificar de dois anos a esta parte, por ra\ão dos muitos danos e perdas que por muitos anos os católicos padeceram, andando peregrinando de uma parte para a outra por Etiópia: e tendo-os aqui juntos, lhes pregamos e administramos os sacramentos; e cada dia se vão aqui ajuntando connosco outros que de várias partes vêem; e outros esperam seguridade dos caminhos para se poderem vir para nós. E desamparar estes, Padre Santíssimo, não parece humanidade, ainda que foram mais poucos; porque aquele bom e Santíssimo Pastor, que deu sua alma por suas ovelhas, * Cristo Senhor Nosso, se uma só vira perdida, não a houvera •fi.3h. de desamparar, senão i-la buscar e trazer sobre seus ombros. E isto mesmo quer que façamos todos por amor seu e dos próximos, e que socorramos aos fracos, tendo mui solicito e diligente cuidado de todos. E se nós todos os que cá estamos, daqui nos formos, e ficarem os católicos, ainda que não sejam mais que dois ou um sem culpa sua, e porque todos se não podem ir, porque nem estão juntos, nem têem aparelho para isso: ^ que dirá Cristo Nosso Senhor, que morreu por todos, e para confirmar na Fé um só, que foi S. Tomé, lhe mostrou os buracos de seus cravos, e se deixou palpar de suas mãos? E porque todos estes, Padre Santíssimo, a vós pertencem, pois sois pastor de todos, apascen- tados com manjar de saúde, e provei do remédio necessário, escrevendo sõbre (1) Nt.: he comua.
  • Livro quinto êles ao sereníssimo rei de Portugal, ou avisando disto a seu embaixador, que está em vossa córte. E quanto a mim (digo meu parecer a V. Santidade) nunca sofrera que se desamparara Etiópia. Mas, se (considerado bem tudo) outra coisa se ordenar, ou El-Rei de Portugal não fór servido mandar o socorro de soldados que se pede pelo bem comum de Etiópia, V. Santidade lhe ^escreva que mande pelo menos uma armada grande, que baste para recolher todos os católicos que aqui connosco se acharem, porque sendo pequena como di\em, não bastará nem para levar um só, por ra$ão dos turcos e tnoiros que estão no pórto de Maçuá, e outros que podem andar pelo mar: para que pelo menos estes católicos que há, e cá ficarem, indo-tios nós, não se percam, morando entre lierejes e outros in- fiéis, principalmente se morrerem as cabeças e pais de famílias, ou lhes faltarem os sacerdotes, indo-se ou morrendo, porque são mortais. E do que V. Santidade nisto julgar, lhe peço me queira avisar. E quanto ao que a mim toca, Santíssimo Padre, eu estou aparelhado pela graça de Deus, a fa^er vossa vontade, ou ficando, como agora estou, em Etiópia, ou pai a ir a Japão, ou para V. Santidade me mandar aos turcos, ou para me depor da dignidade Patriarcal, e que sirva a meus Padres da Companhia de Jesus, ou para que sirva a V. Santidade em sua covinha, ou em qualquer •Fi.3iiv. outro ministério que quiser. E se parecer a V. Santidade, lhe * peço nos queira conceder algumas indulgências em remissão de nossos pecados. Vale, Summe Pater, etc. De Etiópia, 15
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 343 dellos que digo que avrá, estati desparqidos por la tierra, por las rebueltas que ha ávido en el reyno, y por sus necessidades; y de todos estos estamos hasta 23o, juntos en este Tigray, y esperamos por otros que desean venir con nós, si el tiempo y caminos les dieren lugar. Y es necessário remediar-se todos estos, y que no queden desemparados. Y se V. A. quiere(i) que yo y los Padres * salgamos destas tierras para "F1.3U. ir al Japon, y ellos quedaren entre herejes y itijieles sin remedio spiritual ni temporal, no es justicia; por lo qual tambien parece que es necessário venir armada gruesay todos lo piden; yo suplico a V. A. que mande por ellos, o por los que estuvieren para esso, porque no se pierdan todos, si todos no se pu- diessen ir por los absentes, en caso que se determine V. A. de no mandar so- corro de gente a esta tierra, que bastaria hasta quinientos o seiscientos hombres, los quales si hasta aora fueran venidos, todos los anos que acá estamos, teníamos por cierto que se diera la obediencia Romana, y se concertara este reino para el bien de la Fe y servido de Nuestro Seíior. Y parece en comun a todos que tio se debria dejar esta empresa de Etiópia en ninguna manera, porque, aunque la gente este' dura y el reyno rebuelto y conturbado por muclias guerras, y aver sido perseguidos los christianos católicos por la Fé: todavia la gente po- pular es mas fácil, y las guerras se han amansado mas, yendose los tnoros por una parte y los turcos por otra de la tierra:y el Rey que perseguia nuestra Iglesia con otros sus adlierentes ya es muerto, y reina un hijo suyo, el qual no tiene pacifico su reyno, ni todos le obedeceu, aunque di\en mas bien dei, que no de su Padre, y se ha mostrado mas amigo de los Portugueses, y en comun desean que vengan Portugueses, y tienen para si que han de venir, y que la fé de todos ha de ser una; y di{en que no se puede concertar este reyno, si no viehen Portugueses, por estar en si divisosy quebrantados de las guerras y tra- bajos y captividad que en ellos hi\ieron los turcos y moros, r muchos son los senores que di\en que han de recebir Portugueses, si vienen, y entre ellos es el Asmeche lsache Barnegais que es como rey en el Tigray, y un primo hermano dei Rey Acenafe Sagued que tiene sus tierras en el Tigray y en el Abacamete, llamado Abetocon Ioannes, el qual se ha mostrado a las cosas de V. A. muy (2) aficionado, y en una altercacion ha dicho: Yo criado soi dei Rey de Portugal; y es amigo de Portugueses y confiessa que las cosas de nuestra fé son verda- deras. Por lo qual, si vienen Portugueses, aunque no se pidan, y aunque no fuesse pretendiendo fierça ó castigo por sus males ó por lo que han hecho contra los nuestros, no parece que hay escândalo ninguno ni entre los cathólicos, ni entre ellos mismos; y menos si quisiessen tomar la sierra que tienen los Judios con * #fi. 3hv. otras muchas tierras que tienen usurpadas de los Christianos, y el Rey no puede con ellos por ser la tierra muy fuerte, y tener el poças fuerças, y mas aliora que no está pacífico el reyno, y no está lexos de donde nós estamos aora. Y dicen que 200 ó 3oo Portugueses bastarian [para] tomaria, con gente que se les ajuntaria de la tierra, porque ellos no tienen espingarderia para defenderia. K (1) Nt.: quiera. (a) Nt.: y muy.
  • 344 Livro quinto y entrando Portugueses en ella,y teniendo espingardas y algunas bombardas, di\en que toda Turquia no les podria haçer dano-, y son muchas estas tierras y muy fuertes, especialmente la sierra en alto que es como fortaleza fortíssima, hecha assi naturalmente y grande ;y son muy ricas de mulas y vacasy ganado y de muchos mantenimientos, y de miei en tanta cantidad, que todos los vasos en que cometi y beben, fuera de los que poneti al fuego, di\en que son de cera, porque la tierra es muy fria para haqer esto. Y también di\en que hay mina de plata fina, afuera de las riquezas que tienen estos Judios que diferi] que no ha muchos anos que se alçaron de la obediencia que tenian al rey, y le pagavan tributos; y alli se podrian recoger, y estar seguros para almasy cuerpos mu- chos hijos de Portugueses y otros cathólicos que andan espargidos por Etiópia, y todos juntos havendo un cuerpo podrian estar muy fuertes y seguros, y estar [en\ una fortaleza en nombre de V. A. muy fuertey muy abastaday rica, sin otro ningun sueldo, y de alli siti pelear, si no quisiessen, sino blandamente y con buenas pai abras harian temer y temblar toda la tierra, y concertar la obediencia Romana a su modo, porque está en el médio dei Reyno hacia las partes dei Tigray, y por otras partes llega a poder senorear a Dambeá, que és como un reyno entre Christianos y gentiles que tiene debaxo de si; aunque tambien vimendo Portugueses, podrian estar en otras partes bien larga y abastada- mente. Y no faltan riquezas naturales, y mucho oro que nasce en algunas partes, afuera de lo que nos han diclio algunos que vieron en cierta iglesia ó monas- terio, sepulcro de Reyes, que oirlo parece espanto] y los gastos que se hi\iessen en la armada que vintesse con gente, en breve tiempo se podrian rehaçer con el • fi. 3x3. doble, remediátidose tantas almas, y ayudandose los cathólicos que * hay, pu- diendose embarcar los que quisiesseny estuviessen para esso en la misma armada; y con la gente que entrasse, pudiessen recoger y cobrar los que andan dispar- ados; y el dexar perderse estos cathólicos sin darles remedio, pudiendo, no pertenece a la clemencia de Vuestra Alte\a; y el mandar armada con gente que entre en la tierra, parece mas seguro para ellosy mas bien para las ahnas de la tierra y servicio de nuestro Senor, porque esta empresa de Etiópia no es paia tenerse en poco m dexarse de ligero, y (al parecer de muchos) mirándolo desapassionada/nente, es de las mayores, y de mayor servicio de nuestro Senor de las que hay oy dia en la Christiandad, y como tal procura el demonio de estorvaria quanto puede, encareciendo mucho las durezas y dificultades y tra- bajos que hay, mayormente en los princípios; y cosas grandes nó se alcançan sin grandes trabajos, y es virtud perseverar el hombre en lo que ha començado. Y llevar al cabo lo que el Rey vuestro abuelo, de gloriosa memoria, començó con muchos gastos y grande amor de la Fé Christiana, redundaria en muclia honra y gloria de'Vuestra Alteia; tambien repartir Vuestra Alte\a con Christo para su servicio en bien de las almas, de los bienes y rentas que le diô para ayuda de venir socorro de gente, le podrá ser mayor corona en el cielo. assi mismo el redu\irse estas naciones a la union de la Iglesia Cathólica, poi médio de Vuestra Alte\a, le será mayor Victoria que los triumphos de César; y tambien entrando acá gente de Vuestra Alteia para bien de las almas y en- saie amient o de la Fé cathólica, será mayor conservacion dei Estado de la índia;
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 345 porque a ensenorearse primero destas tierras turcos, podrian ha^er gran dano a la índia, que no está lexos, por aparejos que aqui hay de hierro, esclavos y vituallas, y otras cosas para servido de galeras. Estando estas tierras favo- recidas de Christianos, desde aqui es camino para poder ha\er dano a los turcos, antes que receberlo dellos, queriendo meter por estas partes gente para ha\erles guerra, por servido y honra de nuestro Senor y de su Santa Fé;y la venida de socorro de Portugueses a estas tierras seria grande bien no solamente para el remedio de los cathólicos y * conversion destos Christianos a la verdadera Fé *fi. 3i3v. Cathólica, que es grande bien, mas tambien para conversion de muchos gentiles, que son sin cuento en Etiópia en diversas y grandes regiones,y muchos dellos han pedido a el Rey de Etiópia para ser christianos, el qual no consentió, por tio perder sus tributos, y poderios captivar para sus servidos, pareciéndoles a los Abexins que lo pueden lux\er siendo gentiles, y que no podrian, si fuessen Christianos; y los que esto pedian al Rey, di\en que eran de los gentiles de Damute, que es tierra muy grande, y donde nasce mucho oro, que viene a los Christianos de acá,y di\en que hay mucho gengibre y cardomomo y marjil,y vituallas y mantenimientos, y vacaria en abundancia; y es tan grande tierra, que por una parte di\en que llega hasta Çofala a donde tratan por mar con Portugueses, y en seiial desto se di\e que ha venido de allá un libro de horas de re\ar, y tambien cuentas, que es parte de la ha\ienda en que tratan con ellos, las quales cosas dexaban alli Portugueses y havianlas visto los de acá. Un Português que fué muchas ve\es a Damute con otros, y de una ve\ entro muy dentro, me dijo que de alli a siete dias de camino, se de\ia que yvan a un rio, donde venian gentes blancas con barbas, y vestidos de paiio, y otras cosas que parecia que fuessen de Portugueses; y que tenian mucho oro en partes que facilmente se tornarian Christianos, si el Rey de Etiópia quisiesse, el qual di\e que no se curava desso, por poder ha\er saltos, y robos en ellos, no siendo christianos. Y tambien en otra parte de gentiles, llamada Sinaxi, de donde viene mucho oro fino de lo que alli nasce, aora havrá hasta tres anos que se ofrecian a un pariente dei Rey, muy poderoso, de pagarle tributos, o ha\erse Christianos, y que les hi^iesse iglesias, porque no peleasse con ellos, ni les hi{iesse dano, y no quiso. Y de los gentiles de diversas partes de Etiópia, los moros mercadores que hay en ella, compran tantos cada ano, que llevan a vender al mar a turcos y moros, que no tienen número, los quales quando llegan 1ia\ia al mar, lloran y di\en que holgariati de ser Christianos, y pierden sus alntas hechos moros; y despues son fuertes soldados, y ha\en guerra y mucho * m.314. dano a los Christianos entre turcos y moros, como se vé por experiencia en Cambaya y en otras partes de la índia. Y por amor destas pobres almas y por estorvar a tantos males, por solo esto (quando no huviera otro) no era sin provecho y servido de nuestro Seíior la venida 'de Portugueses a Etiópia; quanto mas que hay otras muchas cosas en que podran ha\er servido a Nuestro Senor, y bien a muchos con su venida, como tengo dicho. Lo qual bien entendido todo, suplico a Vuestra Alte\a que antes de alçar la mano de Etiópia, tome entero y sano consejo, y ordene lo que mejor en el Sefíor Nuestro le pareciere, que yo de mi parte aparejado estoy, por gracia dei Seíior, para estar en Etiópia, y ir al Japon, y donde Vuestra Alte\a y S. Sanctidad
  • 346 Livro quinto me mandaren. Nuestro Seííor sea siempre con Vuestra Alteia, y en todo le dexe ha^er su satictissima voluntad, hinchíndole de su divina gracia y amor. Ame ti. De Etiópia a los die\yocho de Junio de i56y. Andreas Pa- triarcha. Destas cartas do santo Patriarca se fica bem vendo quão fora de caminho e sem fundamento vai tudo quanto o Autor escreve em seu livro, para mostrar que os Abexins não são scismáticos, nem o foram nunca. E para dizer que o Breve do Papa, pelo qual mandava sair ao Patriarca de Etiópia, era inválido e subreptício, pois fôra passado com fundamento de falsas informações, que se deram a El-Rei Dom Sebastião, e êle ao Papa. Mas quais fossem estas falsas informações, e por quem dadas, conforme ao que êle diz, é bem que declaremos agora, e se vão vendo cada vez mais as muitas e graves falsidades e calúnias que no livro se conteem, qu por culpa de quem informou, ou de quem o es- creveu e publicou. Da calúnia e infâmia, que por ocasião deste Breve, o Autor impõe aos portugueses, e doutras coisas alheias da verdade, que com ela também di\ 1Z o Autor na pág. 614, quando nota a El-Rei Dom Sebastião de fácil em se deixar persuadir das falsas informações de seus portugueses, desta maneira: Yporque el lector quede saneadoy satisfecho, el fundamiento desta falsa informacion, fue que por los aíios de [555, poco mas o menos, en- trar 071 en la Etiópia muchas compaíiias de Portugueses, que eran mas de tre- cientos; los quales fueron recebidos con mucho amor y caricias de los etíopes, viendo que eran Christianos, y mas Portugueses, con los quales ellos de tiempos atrás tenian heclias confederaciones y alianças. Estos Portugueses eram Judios perjidos, no solo de linagey abolorio, sino que tambien lo eran en lei,y creencia y ceremonias: enjin apóstatas malditos; solo mostravan ser Christianos en las apparencias exteriores y trato politico. Passados algunos dias, que no fueron muchos, porque la heregia, y mas el judaísmo, no puede estar mucho tiempo encubierto, sitt que salga a la cara, y descubra la hila^a y sepa al pe\on: enjin como ningun violento sea perpetuo, pareciendoles que estaban seguros de la Inquisiçion, que es de lo que ellos tietn- blan, echando a una parte el antifa\ y reboco de Christianos, descubrieron ser judios en lei, en secta, en ceremonias, en obras, en diclios, en palabras, en cos- tumbres. Escandalizar ouse los Etiopes, viendo una transformacion tan diabólica de Christianos en Judios. Alborotose la Etiópia; dieron ra^on a los Priores de la Orden de Santo Domingo, que son los Inquisidores ordinários en aquellas provindas, para que los prendiessen. Tuvieron noticia de lo que se tratava contra ellos, los Portugueses juday\antes, que el diablo sin duda los devio de avisar; porque tengo por cierto que quantos * judios ay en estos tiempos son hechiçeros, mágicos, y tienen travacuentas con el demonio. En fin antes de verse en peligro huyeron de la Etiópia, unos se fueron al reino de Borno, que es de Moros, y otros embarcandose dieron consigo en Goa, donde para eti- • Fl. 314 v. * CAPÍTULO IX
  • * Adição à Relação das coisas de Etiópia 347 cubrir su maldad y apostasia, levantaron triil testimonios y falsedades contra los Etiopes, di\iendo que eran unos cismáticos, y que el Preste Juan era un cruel enemigo de la Religion Christiana, y que el padre Andres de Oviedo estava preso, padeciendo grandes trabajos en las carceles, todo lo qual era fal- síssimo. Los otros Portugueses oyendo esto, dieronles credito, viendo que lo aseve- ravan con grandes juramentos, y no solo llego esta fama que los Judios avtan ecliado a bolar hasta Portugal-, pero tuvo de ella noticia el Rey Don Sebastian, el qual dando credito a los que venian de la índia, escrivio una carta a la Santidad de Pio quinto, donde le dava ra\on de lo que de\ian sus vassallos que venian de Goa, rogandole que embiasse un buleto, para que el Padre Andres de Oviedo saliesse de Etiópia, y fuesse predicar a la China y Japon; y este es el fundamento que tuvo el despachar Pio quinto el buleto que trae Ribade- neyra. Duas coisas se contéem nesta calúnia: uma o dizer que foi informação falsa dada por estes portugueses que êle chama judeus, a por que se moveu El-Rei Dom Sebastião a pedir o Breve, e o Papa a concedê-lo. Desta não temos já aqui que tratar, pois do que fica dito nas cartas do santo Patriarca, se vê quão alheio da verdade foi tudo isto. A outra [é] o falso testemunho tão infame que se levanta aos portugueses que passaram a Etiópia, em dizer dêles que todos eram judeus. E como o Autor nunca leu nem viu isto em história alguma que ande escrita, nem jàmais no mundo se falou nem disse tal coisa, e consta tão evidentemente o contrário, como logo mostraremos, devera de considerar, primeiro que isto escrevera c espalhara pelo mundo * em livro impresso, e pelas #fi.3i5t. fábulas que nele se contam, tão bem recebido de curiosos, uma tão grande in- fâmia que levantava contra uma nação tão católica, e com que consciência o podia fazer: pois ainda que êle soubera de certo que a coisa tinha algum fun- damento (o que nunca teve) obrigado estava em boa teologia a calá-lo, e não a publicá-lo com tanto prejuízo da fama alheia. Mas para que se veja evidentemente quão fora de caminho de verdade, e de todo o bom têrmo o Autor falou nesta matéria, se advirta, como já também acima temos tocado, que desde o ano de 1555 até o de 1609, que foi o der- radeiro de que se téem(i) cartas, não fizeram outra coisa o Padre Patriarca emquanto viveu, e seus companheiros, e outros que foram, de oito ou nove anos para cá, e muitos grandes daquele reino, e os próprios reis, principalmente estes últimos que reinaram desde o ano de 6o3 a esta parte, e o que hoje em dia reina, senão pedirem ao Papa, aos reis de Portugal antigos, e a Sua Majes- tade que hoje reina, soldados portugueses para único remédio da redução de Etiópia à obediência da Igreja Romana. E com tudo isso, até hoje em dia não somente não foram à Etiópia companhias algumas de soldados portugueses, mas nem um só (2) em todo este tempo entrou nela, tirando os Padres, que foram da maneira que já dissemos, e doze ou quinze portugueses que entraram com o Patriarca no ano de 57. Por onde já, quanto a esta parte do ano de 55 (1) Nl.: do que se tem. (2) Nt.: mas nenhum só.
  • Livro quinto para cá, fica evidentemente falso o que se diz no livro, de entrarem em Etiópia companhias de portugueses. Fica agora que, se entraram, não pôde ser senão do ano de 55 para trás. Porém em todo êste tempo, dês que os portugueses descobriram a Etiópia até este ano de 55, consta que nenhumas companhias outr*as de portugueses en- * fi. 3i6. traram nela * senão quatorze anos antes dêste que o Autor assina, que foi no ano de 41, as companhias de 400 soldados portugueses que foram com Dom Cristóvão da Gama a socorrer a El-Rei Cláudio, e resgatar-Ihe o seu reino do poder dos moiros, e de El-Rei de Zeila que lho tinha quási todo con- quistado; os quais portugueses não tenho necessidade de provar (pois é tão notório no mundo) as finezas que fizeram pela Fé Católica, e o exemplo de cristandade que deram em Etiópia, e o esforço e zêlo da honra de Deus, com que derramaram seu sangue em tantas batalhas, e deram suas vidas pelejando pela té; os quais quási todos morreram naquele reino, e pouquíssimos houve que se tornassem a sair dêle; e os que ficaram vivos das batalhas, lá casaram, e o rei Cláudio lhes deu terras e possessões com que viviam; e os descendentes destes, são os católicos que hoje há em Etiópia, sobre que os Padres e o Pa- triarca tantas vezes falam cm suas cartas, posto que também há entre estes católicos alguns naturais da terra, mas poucos. Nem jàmais El-Rei Cláudio teve quebra com os portugueses, nem nenhum rei de Etiópia até hoje, nem os quis castigar, como diz o Autor, por delito algum, em que os achasse, nem êles lho mereceram. Sòmente o rei Adamás, sucessor de Cláudio, os perseguiu como tirano, com muita crueldade; mas não pelos achar compreendidos em judaísmo, como diz o Autor, senão directamente por serem católicos e filhos verdadeiros da Igreja Romana, e pelo grande ódio que êle tinha à Igreja. Ora veja o Autor o em que se meteu, em querer infamar por judeus e he- rejes, aqueles que deram seu sangue pelejando pela Fé Católica, e que tantas perseguições e espoliação de seus bens padeceram por ela no tempo do tirano Adamás, e quão obrigado fica a restituir em outro livro, mais verdadeiro que FI. 3.6 V. êste seu, a honra que tirou a uma nação tão católica, e * que tão dilatada tem a Fe por todo o Oriente; e quanta razão téem os portugueses de se escandali- zarem de uma tão infame e falsa calúnia que o Autor lhes quis impor. Diz mais, prosseguindo no caso, e na pag. 616, o que se seguei Los etíopes que estavan en Poma, en San Estevan de los Indianos, viendo lo que se de\xa contra la Christiandad de su tierra, despacharon a uno de su compafiia para la Etiópia con cartas al Preste luan Menna, que sucedio a Cláudio, dandole ra\on de todo lo que passava, el qual quando lo supo sintio mucho la tacaneria de los Judios, y por descomponer juy^ios, y desmentir disques (1), escrivio luego con su Embaxador para Goa y para el Rei de Por- tugal, y tambien escrivio al Summo Pontífice Pio quinto, contandoles toda la historia que tengo referida. Escribio juntamente a muchos de los Cardenales, y en particular a su protector. Hi\o escribir tambien a todos los dei gran consejo, con mucha sumissiony lagrimas, con grande Christiandady religion, (1) Nt.: diz que se.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 349 confessandose todos por catolicos Cliristianos, liijos de la Iglesia Romana; y juntamente dandole de nuevo la obediencia: y rogandole que avia entendido que se avia celebrado Concilio en la Iglesia llamado de Trento, que se le embiasse, pues era liijo de la Iglesia Romana como los dentas Reys Christianos. Y quanto al padre Andres de Oviedo, que era todo falso, antes era presidente dei Consejo Latino, y le reverenciavan como a santo, amavan como a padre, oyatt como a sábio, y le tenian como un Apostol embiado de Dios. Fueron tan eficazes las r a\ones de las cartas, tan dulces sus pai abras, y tan evidente la maldad y traycion de los Judios, que los Cardetiales illustris- simos quedaron satisfecíios, y todos los que se avian escandalizado, quietos j saneados; y el Summo Pontífice mucho mas que todos contento y alegre, el qual respondio al Preste Iuan wta carta muy cumpltda, con mucho amor j ternura. Y despues de la vitoria naval bolvio a escrivir al Preste Iuan Menna una carta amorosíssima. Pero quanto al Concilio 7 ridentino, se determino con consejo * de los Cardenales, que por quanto en el Concilio se condenavan muchos he- • fi. 3i7. reges con sus errores y en particular en lo tocante a la obediencia de la silla Romana, y que podria ser que el Preste Iuan se escandalizasse de ver que en Álemana y Francia, siendo tierras tan ve\inas de Roma, se levantavan tales errores, se le enviasse el Concilio todo por Decretos e Cânones afirmativos, sin poner los anáthemas y censuras, ni condenaciones, ni liacer mencion de heregia alguna, por no despertar al dormido. Y en S. Esteban de los Indianos se ti a- duxo en leugoa Etiópica, y segun el se govieman el dia de hoy en la Etiópia. Y el Preste Iuan acordandose de la maldad de los Judios Portugueses, hi\o una ley, (la qual se guarda con grande rigor) que ninguno Português pueda entrar en la Etiópia, si no traxere licencia en escrito de los Inquisidores de Lisboa y de la Inquisicion de Goa. Isto diz o Autor; mas seguramente afirmamos que não há aqui quási pa- lavra que seja verdadeira. E ainda que do que fica dito, consta tão evidente- mente o contrário do que aqui se diz, iremos todavia declarando mais em par- ticular cada coisa por si. Deixo o dos colegiais indianos do Colégio de Santo Estêvão, dos quais para Etiópia faz tanto comércio, como se fora de Roma para Nápoles, o qual tudo é fingido. Para as outras coisas de que mais fala, se advirta que neste tempo (em que o Autor põe estes recados que diz que foram de Roma ao Imperador Mena, por via de seus colegiais de Santo Estêvão, e em que põe as cartas do mesmo Imperador, e de seu conselho para o Papa e Cardeais, para lhes dar razão do que lhe tinham alevantado os portugueses judeus, e a dar nova obediência à Igreja, pedindo-lhe o Concílio Tridentino, e em que também põe o embaixador que diz mandou a Goa e a 1 ortugal sobre o mesmo, e a resposta que teve de todos) não podia ser outro que no ano de 67 * em que no mês de Maio chegou a Etiópia o Breve do Papa, parado *F!.3i7v. Patriarca se sair, que fôra passado no ano precedente de 66. Porem então não havia já o Imperador Mena, que (sendo o mesmo que Adamás, como acima dissemos) havia quatro anos que era morto, pois morreu no ano de 63, e reinava um moço, filho seu, mas com pouco poder e mal obedecido, como consta das cartas do Padre Patriarca para o Papa e para El-Rei Dom Sebastião acima re- feridas. Donde fica tomada às mãos esta falsa informação, pois não havia neste
  • 35o Livro quinto tempo tal rei Mena no Mundo. Além disso, ainda que este Imperador fora vivo, jem que entendimento cabe dizer dêle que fizera tais ofícios com o Papa, e Rei de Portugal, pois era um tão capital inimigo e perseguidor da Fé Romana, e dos portugueses, como acima se tem dito? Também, em dizer o Autor que na carta que êste Imperador Mena escreveu ao Papa, lhe dizia que o Padre Patriarca era presidente do seu Conselho Latino, se contradiz a si mesmo, porque na pág. 192, diz que o Imperador que a ins- tancia do Padre André de Oviedo instituiu primeiro o Conselho Latino e o fêz presidente dêle, foi o imperador Alexandre III; e aqui nesta pág. 617 diz que êste Alexandre III sucedeu no império ao Imperador Mena: logo manifesta- mente se contradiz em fazer ao Padre Patriarca, presidente do tal Conselho, antes de ser instituído, e no tempo do Imperador Mena, predecessor de seu instituidor. Também é falso o que se diz que se regem hoje em dia em Etiópia pelos decretos do Concilio Tridentino, ao qual Concílio lá nem o nome sabem; e da mesma maneira o que diz da lei que fêz o Preste João para que nenhum por- tuguês pudesse entrar em Etiópia sem levar licença em escrito, dos Inquisidores •fi.3i8. de Lisboa ou da Inquisição de Goa, pois os desejam e pedem, e êles não * vão; nem em Etiópia sabem nome à Inquisição, nem que coisa seja. CAPÍTULO X De algumas outras coisas que o Autor di\ em contrário da verdade, e em que êle mesmo se contradiz POR estas coisas, que agora diremos, serem próprias deste lugar e tempo de que imos falando, as poremos' aqui. Fala o Autor muitas vezes nesta sua história, do Imperador Preste João Alexandre III, o qual na pág. 193 diz que foi o que, a instância do Padre André de Oviedo, fundou o Conselho Latino, e fêz ao mesmo Padre presidente dêle; e porque pelas coisas que diz dêste rei, se descobrem muitas fábulas e coisas falsas que neste livro se contéem, iremos apontando algumas, donde se poderá coligir o crédito que às mais coisas do livro se há de dar. A primeira diz na pág. 617, que Ale- xandre III sucedeu no império, pela morte do Imperador Mena, que como temos dito morreu no ano de 63, tendo dito na pág. 88 que Alexandre III sucedera a El-Rei Nahum, que foi o pai do rei David, e reinava no tempo em que os por- tugueses descobriram a Etiópia. Diz mais na pág. 118, que Alexandre III morreu no ano de 1606, e foi imediato predecessor do que agora reina, tendo dito na pág. 7 que morrera no tempo de Gregório XIII, porque, quando o abexim Dom João Baltasar, no tempo dêste Papa, chegara à Europa vindo de sua terra, por ser (como êle diz) um dos vinte e quatro embaixadores, que por mandado • fi. 3.8 *. dêste rei diz que vieram ao Papa, * tivera novas certas que era morto Ale- xandre III, e fôra(i) isto pelo menos mais de trinta anos antes. (1) Ni.: e foram.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 351 Diz mais que, morto El-Rei Mena, e sucedendo Alexandre no império, pa- recendo-lhe que fôra curto seu predecessor em ter mandado a Roma um só embaixador a dar razão ao Papa, sobre o negócio das informações falsas que se tinham dado a El-Rei Dom Sebastião e a êle, quis mandar vinte e quatro, doze sacerdotes e doze cavaleiros de Santo Antão, para que dessem a obediência em pessoa sua e de seu império a Pio V, os quais quando chegaram a Roma, já era morto, e governava a Igreja Gregório décimo tércio, a quem a deram. Diz mais na pág. 7 que este Imperador, no ano de 1570, deitou de Etiópia a todos os judeus que nela havia, e que todo o que nela se atreve a entrar sem licença, fica por lei condenado a ser escravo. Diz mais na pág. 363 que este mesmo rei no mesmo ano de 1670 acabou de deitar fora do seu reino todos os moiros que nele havia e todos os que viviam por todas aquelas costas do mar até o Cabo de Boa Esperança, os quais ainda que lhe pagavam tributo, não os quis ter em suas terras, vendo que se multiplicavam muito; e que com isto ficou aquele reino o mais florente, que jamais o teve nenhum de seus prede- cessores. Diz mais na pág. 372 que no mesmo ano de 70 edificou este rei a cidade de Zambra e a fêz de trinta mil casas, e que a edificou ao modo e pela traça da de Florença, pelos oficiais e arquitectos, que para isso lhe mandou o duque, e que esta cidade fêz assento e corte do império onde reside de ordinário, dei- xando já suas antigas peregrinações, e de morar pelos campos, debaixo de tendas, e que as ruas desta cidade são mui largas, os muros fortes e altos, os edifícios soberbos e sumptuosos, os templos magníficos; e que, ainda [que] o Preste * João *fi.3i9. reside nesta cidade, sua tenda todavia está armada no campo com 7.500 homens de guarda e 6.000 cavaleiros do hábito militar de Santo Antão, afora outros 6.000 que dentro na cidade tem para guarda de sua pessoa. Tudo isto diz o Autor dêste rei Alexandre; e ainda que por uma parte as coisas cm si tão evidentemente estão mostrando serem meras fábulas, e por outra se estão vendo as contradições que logo no principio apontámos, dos tempos de sua sucessão no reino e morte, em que o Autor manifestamente se contradiz: contudo para mais evidente manifestação da pouca verdade que tudo isto contém, se advirta que de cem anos ou mais a esta parte, que há que nossos portugueses, e de 56 que nossos Padres da Companhia andam naquele reino, nunca tal im- perador reinou nele. Porque, quando nossos portugueses a primeira vez en- traram naquele reino, reinava David, que governou 36 anos, em cujo tempo foi lá o embaixador de El-Rei de Portugal, Dom Rodrigo de Lima, pelos anos de i52o. A este sucedeu seu filho Cláudio, que reinou quási vinte anos, e morreu no de 59; a êste sucedeu seu irmão Adamás, ou por outro nome Mena, que reinou quatro anos, e morreu em Fevereiro de 63; a êste sucedeu um filho seu, que se chamava por nome próprio Sarsa Denghel, e quando se coroou, se chamou Malac Seguet, o qual reinou 33 anos, porque morreu no ano de 96; a êste su- cedeu seu filho Jacobo, menino de pouca idade, que reinou sete anos, porque no ano de 6o3, em que o Padre Pedro Pais de nossa Companhia entrou em Etiópia, havendo sete anos que reinava, foi deposto dos grandes do reino, e preso, como atrás fica dito; e em seu lugar sucfcdeu no mesmo ano um primo
  • 352 Livro quinto seu, por nome Tindigil, o qual reinou pouco mais de um ano, no cabo do qual •Fi. 319v. tempo, levantando*-se os seus contra êle, o mataram em uma batalha, em Agosto de 1604, a quem tornou a suceder o que fora deposto e preso o ano precedente; mas não durou no império mais que um ano, porque dividindo-se o reino, e levantando a um seu primo por nome Sacinós, aos 2 de Março de G07, vieram a batalha campal, e foi morto Jacobo, e Sacinós ficou com o império, e é o que hoje em dia reina. Pelo qual tudo, consta evidentemente que nunca houve o tal Alexandre III, rei de Etiópia, e que tudo quanto dêle se diz é um mero fingimento, e assim que nunca houve embaixada dos 24 embaixadores que de Etiópia viessem a Roma, nem os judeus foram no ano de 70, nem nunca lançados de Etiópia; nem ainda que realmente houvera o tal rei, os lançara fora, pois os mesmos etíopes professam o judaísmo e cristianismo juntamente. E os judeus que o são de profissão e natureza, lá vivem hoje em dia como sempre viveram. Nem também em Etiópia há aquela cidade Zambra que o Autor diz que Alexandre III edificou; mas tudo quanto dela se diz, de sua grandeza, formosura e edifícios, e mais maravilhas que dela conta, é uma mera fábula que quis fingir. A ci- dade, que hoje em dia é ordinária corte e assento do rei, se chama Gubay, bem diferente da que o Autor pinta, porque é uma cidade pequena e bem triste, posto que a melhor povoação de Etiópia. Nem os imperadores deixam de con- tinuar o que sempre costumaram, de andarem e viverem em tendas no campo, levantando seus arraiais de uma parte para a outra. Já o que diz, que o rei Alexandre que finge, deitou todos os moiros de Etiópia e todos os mais que habitavam por todas aquelas costas do mar até o Cabo de Boa Esperança, é mero disparate, e em que mostra bem o pouco que •fi.320. sabe daquelas partes; * porque a jurisdição do Preste João, ainda que antiga- mente chegava à costa do mar Roxo, a qual êle perdeu, pelos turcos lhe terem tomados todos quantos portos tinha daquela banda, sem hoje já possuir um só palmo de água, da parte do mar Oceano, e por toda a costa que corre até o Cabo de Boa Esperança, nunca jamais teve nenhuma jurisdição, nem poder em porto algum, que em toda ela houvesse, nem os moiros que por ela habitam lhe pagaram nunca tributo, nem êle os deitou fora; nem que o quisera fazer, teve nunca poder para isso, nem por terra, nem por mar. E daqui se verá também quão fora de caminho fala no que diz na pág. 35o, que a ilha de S. Lourenço, que está além do cabo de Boa Esperança, e todos os reinos que nela há, que diz são muitos, reconhecem ao Preste João, e lhe mandam seus presentes e donativos; e da mesma maneira o que diz em grande parte, ou em quási todo o cap. 32 do primeiro livro, dos reinos e senhorios que por todo aquele sertão de Africa, que está do Cabo de Boa Esperança para dentro, correm, os quais todos faz sujeitos ao Preste João, não o sendo, con- fundindo uns com outros, sem ordem nenhuma de geografia; finalmente sobre- tudo o que diz do Conselho Latino, que finge ser instituído a instância do Padre Oviedo, e do qual o faz presidente, para provar que o Padre Oviedo foi honrado e estimadíssimo do Preste João. E se por ventura quiser dizer o Autor, que o rei Alexandre terceiro de quem fala, é o mesmo que rèinava no ano de 1570, mas que se chamava por
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 353 diversos nomes, e um deles era o que êle lhe dá, da mesma maneira fica evi- dente o não ser verdadeiro tudo o que sôbre êle diz. Porque o que então rei- nava, era filho de Adamás ou Mena, o qual sucedeu a seu pai no principio do ano de 63 e não a El-Rei Na*hum que havia alguns 70 anos que era morto. *fi.3jov. Nem também morreu no tempo de Gregório XIII, nem no ano de 606, como se contradiz o Autor, mas no ano de 96 que foram dez oú doze anos depois da morte do Papa Gregório, e outros tantos antes do dito ano de 606. Nem este mandou a Roma os 24 embaixadores, pois nunca foi católico, nem obedeceu ao Papa, nem reconheceu a Igreja Romana por cabeça, mas sempre foi scismático e hereje, como seus pais, posto que não perseguiu os católicos; nem tambe'm deitou os judeus nem os moiros fora do impe'rio, nem das costas do mar até o Cabo de Boa-Esperança, pois no mesmo ano de 1570, em que o Autor diz que isto foi, e sete anos antes, e dez ou onze depois, teve contínuas guerras civis que lhe faziam alguns grandes do reino, que contra êle se rebelaram, e por vezes, em despeito seu, levantaram outros reis; de modo que tinha muito pouco poder, e andou pelas mais remotas partes do império, por os i[ni]migos lhe terem ocupado o melhor dêle. Além disto neste mesmo tempo, os galas lhe destruíam a terra, e os turcos lhe entraram três ou quatro vezes por Etiópia, fazendo grandes estragos, sem êle o poder impedir, por seu pouco poder. Donde também se vê quão fabuloso é o que diz o Autor, da fundação da cidade Zambra, no mesmo ano de 70 por êste próprio rei. E já quão falso seja instituir êste Conselho Latino por parecer do Patriarca Oviedo, e fazê-lo presidente dêle, assaz evidente fica. Pois des[de] que êste rei sucedeu no reino até à morte do Padre Oviedo, que foram 16 ou 17 anos, nunca se viram, nem falaram um com o outro: porque o rei andou sempre mais de um mês ou dois de caminho do reino de Tigré, onde o Padre Oviedo estava, sem nunca, nem por carta, se comunicarem. Por onde, ou o * Autor fale deste *fi.3*1. rei, ou do fingido Alexandre de quem fala, tudo quanto dêle se diz, fica fabuloso, e foi falsa informação do abexim informante, como quási tudo o mais que no livro se contém. E porque o tempo em que se finge que o rei Alexandre sucedeu no reino, e o Padre Patriarca era dêle tão estimado, foi pelos anos de 1570 pouco mais ou menos e daí por deante, é bem que digamos o estado em que esteve, e onde residiu o mesmo Patriarca ate que morreu, o que tudo faremos no capítulo seguinte. CAPÍTULO XI Do que passou o Padre Patriarca, e onde morou desd[e] o ano de 6j até que morreu NAS cartas que o Padre Patriarca e seus companheiros escreveram no ano de 67, as quais acima referimos, davam conta como ficavam no reino de Tigré onde com os mais portugueses e católicos que se puderam ajuntar das dispersões passadas e peregrinações contínuas em que andavam, se reco- lheram. Reinava neste tempo o filho de Adamás, como temos dito, mas com muito pouco poder e mal obedecido dos seus, porque alguns grandes do reino 35
  • Livro quinto se tinham apoderado de várias partes dêle, onde se haviam como senhores abso- lutos. E como andavam nestas divisões, os moiros, galas e turcos faziam a sua, e principalmente os turcos tiveram ocasião para de novo entrarem por Etiópia, como o fizeram no ano de 72, da qual entrada escreveu o Padre António Per- • fi.3atv. nandes em uma de y5 # para(i) o Pad(re Provincial da índia, o seguinte: Vieram os turcos, e entraram na terra no ano de 72, e foi a quarta ve\ que o fizeram dês que nós cá estamos. Cativaram muita gente, e chegando a um lugar dos nossos em que morava muita parte de nossos católicos, o queimaram, posto que a gente quis o Senhor que não cativassem, porque, sabendo da vinda dos turcos, se puserajn em salvo. Dali se tornaram para Baroá (que está mais perto do mar), onde fizeram uma fortaleza, em que estão, e dali saem às ve\espor roubar a terra; e umas cativam e fa\em mal, outras levam na cabeça. F estes abexins, ainda que são tantos, e os turcos tão poucos, como o diabo os tem atados com suas heresias, não são parte para os desfazerem ou tirarem dali', no que se ve bem claro que o Senhor lhos manda para seu castigo e emenda. Até aqui são palavras do Padre, das quais também se vê que tais eram as bonanças do império do Preste-João nestes anos em que o autor frei Luís Urreta o faz o mais florente que nunca esteve, com todos os moiros e judeus lançados fora por aquele grande rei fingido Alexandre III. Continua mais o Padre, e diz: Vendo isto os católicos, que aqui moravam em três ou quatro lu- gares no ano seguinte de y3 e 74, não se atrevendo a esperar tantos sobres- saltos dos turcos, despejaram estes lugares e se foram para o reino de Dambeá e outras partes. Só ficou aqui o Padre Patriarca com alguns poucos que se deixaram ficar no meio destes perigos para ver se podiam daqui dar aviso à índia e receber o socorro da gente que tanto se desejava, se Deus a trouxesse. Mas vendo como era necessário acudir àqueles católicos que se iam, mandou o Padre Gonçalo Cardoso e o Padre Francisco Lopes com êles, para lá, onde quer que estivessem, os acompanharem. Indo caminhando, deram sobre êles uns ladrões, e mataram às {argunchadas o Padre Gonçalo Cardoso que era um grande servo de Deus, a quem o Senhor tinha revelado que naquele caminho o •fi.3ji. haviam de matar, como êle alguns dias antes declarou a seu * companheiro', e assim aconteceu a 22 de Maio de 74. Foi sua morte mui sentida e chorada daqueles católicos, porque perderam nele o mais útil ministro que em muitos tempos puderam achar. O Padre Francisco Lopes escapou, ferido num braço, de uma \argunchada, e com Deus o livrar de outras muitas que lhe arremes- saram. De todos os mais católicos nenhum perigou, porque o diabo parece que não vinha armado mais que contra a Igreja, como também parece que fa\ quanto pode por estorvar que não venha o socorro da índia, dos portugueses, porque sabe o mal que disso se lhe há de seguir. Assentou o Padre em Dambeá, e pôsto que desconsolado pela perda de tal companheiro, começou a fa\er ali seu oficio entre os nossos, e curá-los em suas almas; mas, como estava só, acudiu logo lá o Padre Manuel Fernandes para o ir acompanhar; e descendo El-Rei nesta conjun- cão para Dambeá, do Damute onde andava, vieram com êle todos os portugueses e (1) Nl.: de 72. pêra.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 355 católicos, e se ajuntaram como setenta famílias em que haverá mil almas cató- licas, os quais todos ali estão juntos, e com os quais os Padres exercitam os mi- nistérios da Religião Católica com grande consolação de todos, e espanto £ edificação dos mesmos scismáticos, que ainda que o sejam, não são tão alheios em seus ânimos, da Religião Católica, que a não tomaram de boa vontade, se não fora o medo que lêem de por isso padecerem trabalhos, como êles mesmos di\em que deixam de tomar nossa santa Fé, por não terem quem nela os de- fenda de quem os quiser perseguir, e que por isso desejam tanto a vinda dos por- tugueses; e assim não se perde a cristandade desta terra, senão à míngua e por falta deste socorro de portugueses, o qual se vier, nêle só está a sua redução e fa\erem-se todos católicos, e os gentios cristãos. E não me quero [à]largar mais nisto, pois não hei de escrever com lágrimas de sangue a mágua que é ver perder a santa Igreja de Roma a mais gloriosa emprésa que há debaixo dos céus, e isto só por falta de quinhentos ou seiscentos soldados portugueses, e mais que não é necessário mais que sua presença para tudo isto (e muito mais * que não • fi. 322 v. digo) se efeituar, sem que para isso lhes seja necessário deitar mão às armas, ^ nem arrancar espada nem punhal. As coisas da Fé estão agora em bem doutra maneira de quando nós viemos, porque o Padre Patriarca tem feitos e fa\ muitos escritos em que bem claro lhes mostra as verdades de nossa santa Fé, e confuta suas heresias que são muitas. Tem feito muito fruto com isto, e com pregações e práticas, porque, como os Padres entendem já seus livros, neles lhes mostram claramente as verdades, e não sabem que responder senão: «Esta é a verdade; dai-nos força de portugueses, que logo tudo é feito*». Muitos tomam de novo nossa santa Fé, frades e leigos, grandes e pequenos; mas os que são grandes ou frades, fa\em-no secretamente, e assim se confessam e comungam. Mas a gente comum fá-lo em público; e agora nós escreveu o Padre Manuel Fernandes de Dambeá, que tomara lá a té u?n homem grande, muito parente de El-Rei, e que tem direito no reino; e aqui entre nós fê\ o mesmo um frade dos mais honrados desta terra, e muito rico, porque os frades cá teem próprio. Pelo que, pelas Chagas de Jesus Cristo, Fillio de Deus vivo, que olhem lá bem tudo isto, e vejam que estas tristes almas não teem outro remédio depois de Deus, assim os católicos para se conservarem, como os scismáticos para se reduzirem, que êste da vinda e socorro dos portugueses. Atèqui a carta do Padre António Fernandes. Mas não é bem que passemos pelo que também a êste propósito diz o Padre Manuel t ernandes em uma sua de 20 de Dezembro do mesmo ano de 76 para o P. Provincial da índia, que é o seguinte: l Que direi, Padres meus e Irmãos Caríssimos? Dar culpas a Fossas Re- verências que estão na índia por tão grande descuido e desamparo como é o não se dar ordem a vir êste socorro de que depende o único remédio e redução desta terra, vejo que me falece ra\ão, porque bem certo estou que tivera êste remédio, se fora em mãos de Vossas Reverências. Mas uma coisa lhes peço por * amor • fi. 323. de Cristo, que, já que Fossas Reverências o desejam e não podem, roguem com muita instância ao Senhor que êle ponha eficazes desejos nos que nesta parte podem, para que queiram com eficácia. Também estou certo que, se J ossas Reverências vissem de lá o que se perde, por falta de uma pouca de gente que assista nestas partes e com que se pudessem segurar os que desejam tomar nossa
  • 356 Livro quinto Fé, pelas ruas epraças andaram clamando e chorando tamanha perda. í ossas Reverências podem nesta parte ter a estimação que a cada um parecer; eu digo e afirmo que a Companhia de Jesus não tem hoje mais nobre nem mais gloriosa emprêsa que esta, se se põe em efeito. E di\er-se que é necessário este socoí ro de gente para acabar éste negócio da redução déste reino, não deve de parecer muito, pois é certo que nessa índia, na própria hora que falta o favor do príncipe, logo se sente, e logo o negócio da conversão vai tnal avante. E que digo da índia? pois em Portugal, se faltar ajuda do braço secular, os próprios prelados não podem fa\er seu oficio. Assim que nós não pretendemos aqui mais que o serviço de Deus e bem destas almas, pois está certo que com a força, qualquer que seja, de nossa gente, se alimpará éste reino dos inimigos de fora, que são turcos e moiros, e de dentro que são os galas que o molestam gr andei mente e com quem estes infeli\es cristãos não podem; porque, assim como êles contraditem a Nosso Senhor, assitti Deus os contradi\ e castiga com moscas, que tais são os galas, pois não está em jui\o humano que gente despida e desar- mada faça o que estes fa\em, e havendo-o com gente que peleja com muitos ca- valos e armas, senão que Deus é o que lhes fa\ a guerra, e lha fará até que êles deixem de a fa\er à Divina Majestade. Assim que por isto, e porque com a presença dos nossos o temporal e espi- ritual nestas partes terá remédio, rogo a Vossas Reverências peçam a Nosso Senhor queira mandar este socorro a esta terra. E lembro a I ossas Reverên- cias com quanta caridade e confiança em Deus o nosso santo Padre Inácio man- • fi. 323 v. dava aos superiores de Portugal que cada mês falassem nesta missão a El-*Rei D. João que Deus haja. E posto que isto não seja querer persuadir a Fossas Reverências que façam o mesmo com o vi\o-rei, pelo menos isto direi: que pois esta causa é de Deus e da Companhia, e tão grande, não deixem de a solicitar assim com Deus, como com os príncipes, porque se não possa di\er: coepit aedificare et non potuit consummare. E vá seguro com o divino favor que, vindo éste socorro, não somente Etiópia, tnas uma certa Europa venha ao ver- dadeiro conhecimento de Cristo e obediência da Igreja Romana. Atèqui a carta do Padre Manoel Fernandes sobre esta matéria do socorro dos portugueses que tanto se desejava, e deseja e pede ainda hoje em dia, não só pelos Padres, mas pelo mesmo rei e grandes do impe'rio, para único remédio e redução dele. Tornando ao Padre Patriarca, indo-se os católicos que ali junto dêle mo- ravam (como já dissemos) para o reino de Dambeá, e outras partes, por fu- girem dos trabalhos e perigos que padeciam com a má vizinhança dos turcos, êle se deixou ficar ali em um lugar por nome Fremoná em que sempre residiu por todo o restante do tempo que viveu. A vida que fazia, dizia um tio do im- perador, com ser scismático e hereje, que era semelhante à dos grandes Santos do êrmo. E dizia verdade, porque tal foi a que fêz neste lugar, onde nunca sua comida foi outra, senão uma certa semente amargosa, semelhante a mastru- ços (i) que é mantimento da gente pobre e baixa; e chegou a tanta pobreza de vestido, que não tinha senão um pobre pano com que se cobria. O tempo gas- (1) Nt.: masturços.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 357 tava em contínua oração, e em pregar e ensinar aos católicos e aos herejes; e o tempo que havia de tomar para descansar, esse tomava para escrever vários escritos contra os erros de Etiópia, e trasladar as coisas de nossa santa Fé na língua da terra, para aproveitar aos próximos. Era de umas entranhas tão cheias de caridade para com os pobres, que tudo quanto podia haver, lhes dava; e não lhe * ficando uma vez já que lhes dar, «fi.;*,. senão um boi que lhe servia de levar o fato da igreja de uma parte para outra, este lhes mandou matar e repartir. E dizendo-lhe um homem que não se devia de matar aquele boi, pois tinha dele tanta necessidade para a igreja, respondeu: «Filho, deixai-o matar e repartir hoje aos pobres, que àmanhã Deus nos pro- verá». E assim foi, porque sabendo um senhor hereje o que êle fizera, e a necessidade em que estava, movido de tao grande exemplo, lhe mandou logo quarenta vacas, e outro muito mantimento com setenta ou oitenta panos, o que o santo estimou grandemente para acudir aos pobres. Oferecendo-se-lhe uma vez ocasião de casar uma pobre órfã, e não tendo já nada que lhe dar para seu casamento, lhe deu uma mula que lhe servia, quando fazia caminhos compridos, indo dali por deante em um jumento, ou faltando-lhe êste, a pe. E chegou a tanta pobreza, que veio a não ter alva com que dizer missa, o que sabendo um senhor hereje, lhe mandou muito pano com que fêz algumas, e teve que repartir com os pobres. Nunca jàmais, do que lhe davam, guardou nada para si, mas logo repartia tudo, de maneira que nada lhe ficava para o dia seguinte; e quando não tinha que dar aos pobres, êle mesmo ia a pé pelos lugares vizinhos, e às vezes dois e três dias de caminho, a pedir e buscar esmola para eles, vindo muito contente e alegre, quando lhes trazia alguma coisa. E uma destas vezes encon- trou no caminho com uns elefantes bravos, que o houveram de matar, $e Deus não livrara o seu servo. Estando um hereje muito doente, e de uma doença tão contagiosa e asque- rosa, que não havia quem o quisesse curar, nem ainda os próprios parentes, o santo Patriarca se foi a sua casa, e se pôs a servi-lo em tudo com mui grande caridade e humildade, dando-lhe * de comer com suas mãos, varrendo-lhe a »Fi.3i4v. casa, lavando-lhe os panos sujos, e com mais diligência do que fizera um muito leal criado: de que o hereje ficou tão edificado e rendido, que deixando seus erros se reduziu à Fé. Vindo uma vez uma grande praga de gafanhotos sobre as sementeiras daqueles lugares em que junto dêle viviam os católicos, em tanta multidão, que quebravam os ramos das árvores com o pêso dêles, acudiram todos ao santo Padre pedindo-lhe sua ajuda. Foi-se logo à igreja com êles, e depois de fazer oração e rezar as ladainhas de Nossa Senhora e dos Santos, saindo para fora da igreja, acharam os gafanhotos todos mortos e secos. Estando uma vez os católicos do lugar de Fremona, onde êle .morava, mui medrosos e afligidos por razão dos turcos e galas que vinham por ali perto, ma- tando, queimando e assolando tudo, se foram a seu bom pastor, pedindo-lhe conselho e remédio do que fariam, pois nem ali estavam seguros, nem tinham para onde se pudessem ir. Animou-os o santo Padre, exhortando-os a que pu- sessem tôda sua confiança em Deus, e foi-se dizer missa por aquela necessidade, e para que Nosso Senhor lhe ensinasse o que deviam fazer aqueles pobres cató- licos; e nela ouviu uma voz que lhe disse: «Fremoná permanecerá». Pelo que,
  • 358 Livro quinto acabada a missa, quietou e segurou a todos que se não bulissem, porque ne- nhum perigo correriam; e assim foi, porque vindo os inimigos, e passando à vista do lugar, queimando e assolando todos os outros vizinhos, com serem bem fortes e defensáveis, êste só ficou livre, com estar em um plano descoberto, e tão perto como meia légua do caminho direito por onde os inimigos passaram. Muitas outras coisas de grande edificação e exemplo fêz êste santo Pa- triarca neste lugar, emquanto viveu, que por brevidade deixo; e porque uma fi. 325. das razoes * por que escolheu êste sítio e lugar de sua morada, foi por estar em paragem mais vizinha do mar, e onde, vindo o recado da índia, o pudesse mais fàcilmente ter e mandar: por isso todos os anos, emquanto viveu, e teve ocasião para o fazer, nunca deixou passar monção em que não escrevesse e avisasse a El-Rei de Portugal e a seus vizo-reis da índia, o que tantos anos havia que clamava, que era por socorro dos portugueses em que via estar o único remédio e redução de Etiópia. E porque no ano de 76, o mesmo rei de Etiópia, desejando também grandemente êste socorro, mandou sôbre isto um homem à índia, com esta ocasião escreveu também o santo Patriarca uma carta ao Sumo Pontífice sôbre o mesmo negócio e outros, a qual me pareceu pôr aqui, que diz assim: Santíssimo Padre Para dar cuenta a V. Santidade de las cosas de Etiópia, como era ra%on, há sido grande impedimiento los turcos y injieles que hay en ella, que hasta agora tienen cerradas las puertas dei mar, de manera que no hay quien por alli pueda llevar aviso, y algunos que han ido con cartas nuestras para la índia /e[s] han matado mor os en el camino; y tambien muchosaiios havemos estado sin saber nuevas de la Christ[Í]andad ni de la índia, ni recibir cartas de allá, hasta este ano de i5-j6, que recibimos cartas en que nos han dado algunas es- peranças dei remédio que deseamos para este reyno y para los catholicos que estan en el, que podran ser hasta mil almas, que es el socorro de los portu- gueses, en el qual despues de Dios consiste el remedio de Etiópia, y redu[c]cion delia al grémio de la santa Iglesia Romana, como muchas veces de acá se há dicho, y pedido este socorro, sin el qual probablemente todo vá perdido; lo que seria gran mal ver perder tantas almas catholicas, y este reyno antiguamente tan christiano venir en poder de injieles que tanto dei tienen ya ocupado. Y quanto a la verdad de nuestra Fé Catholica está ya en el muy conocida, • fi. 3j5 v. por predicaciones y pláticas, y mu*chos libros de la Fé que en su lengua tengo escritos; y muchos letradosy otras personas grandes de la tierra han tomado nuestra Fé y otros muchos más la tomarian, si viessen quien los defendiesse; y estan esperando la venida de los portugueses de la índia para luego tomaria; y toda la tierra en general desea su venida, teniendo para si que sin su ayuda no puede ser concertado este reyno, sino perdido; y el Asmeche Isaac Barna- guaes, que es la maior persona dei reyno, ha embiado muchas veces a pedir á la índia este socorro, estando aparejado a recibirlos. Y tambien agora el mismo rey de Etiópia, manda un tnensagero con cartas suyas á la índia, pi- diendo con mucha instancia que le mandeti socorro de portugueses;y con esta
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 359 oportunidad me pareciô escribir agora a Vuestra Santidad, suplicandole por amor de Iesu Christo, que ajude en lo que pudiere con el Rey de Portugal, que con toda brevedad sea socorrida esta tierra, antes que sea dei todo en ma- nos de infieles, que seria grande mal y lástima per der se reynos tan grandes, por falta de um poco de socorro, el qual venido y la obediencia dada, todo será uno, y tanta multitud de gentilidad que hay, se convertiria, porque muy fácil es ha\erse Christiana; y si hubiesse quien los ayudasse y tio tmpidtesse (como los han impedido muchos a que tio se hagan Christianos) luego se bauti- \arian, con otros muchos bieties espirituales y temporales, que á la reduccion se seguirian. Y para la guerra que oimos de\ir que hace la Christtandad contra los turcos, por aqui por Etiópia más que por otras partes se puede con- quistar el CajTO, y ha\erse mucho mal àquellos injieles; como tambien por el contrario, si de Etiópia se etiseííoreassen los turcos (lo que Dios no permita) podrian desde aqui ha\er gran dano a la índia. Por lo qual todo, el Rey de Portugal debia con todo animo remediar a Etiópia con el socorro de soldados que se le pide para exal\amxento de la Fé Catholica y servido de Nuestro Seftor y bien de tantas almas y mayor segu- raticia de sus tierras; y Vuestra Santidad enquanto pudiere, no permita que sea desemparada Etiópia, mas antes proveida de Obispos y Prelados Catholicos, y coadyutores y successores al Patriarca que por tiempo fuere, y muchos sacer- dotes y ministros espirituales, encargando mucho al General dela Compartia de Jesu este negocio, pues con tanto \elo espiritual tomo esta empresa la Corti- pania, dando Padres delia para Patriarcay Obisposy ministros en Etiópia; y porque otros ministros espirituales Catholicos para Etio*pia, fuera de los de •fi.w». la Compartia, no hay agora; y los que de presente estan, son poçosy viejos, y múy trabajados, y reduciendose Etiópia, son menester muchos ministros: no dexe Vuestra Santidad de tratar con el Rey de Portugal que de sus reinos mande a Etiópia muchos ministros religiosos de la Compaíua quantos se pu- dieren embiar, y tambien de otras Religiones que sean utiles, para que habiendo muchos monasterios y religiosos, la Fé Catholica en Etiópia sea más firme para los tiempos futuros, y asi sea mas útil y hermosa esta Iglesia Ethiopissa adornata et circumdata varietate Religionum. Hay muchas tierras y aparejos en Etiópia para poderse ha\er monasterios que tengan rentasy provisiones de las cosas necessarias,y para más abundancia, porque las tierras dei Patriarca son muchas, y di\en que es la tercia parte dei reyno; y muchas delias estan en poder de seglares, que con dificultad se han de sacar dellos. Mande Vuestra Santidad licencia y dispensacion, ó al Pa- triarca otro, si yo muriere primero, que sin ir contra el juramento de la con- sagracion, de non alienandis possessionibus ad mensam Patriarchalem pertinen- tibus, de las dichas tierrasy possessioties de la Iglesia Patriarcal podamos hacer monasterios y congregaciones de religiosos, etiam utriusque sexus, si fuere me- nester, y casas de liospitales, y otras obras pias;y todo puede despues redundar en más provecho espiritual y temporal dei que fuere Patriarca, porque en todas sus tierras el no puede estar, y para locarias a seglares, 6 arrendarias havrá poco provecho, y sin esto le quedan tantas, que la mitad le puede bastar, y so- brar. Tambien nos mande Vuestra Santidad algunas indulgências generales
  • 36o Livro quinto para Etiópia, y parecietidole, facultad para poder bendecir cuentas con los per- doties que a Vuestra Santidad pareciere pro vivis et defunctis. Vale, San- ctissime Pater,y en la bendicion de Vuestra Santidad encomiendo todo este reyno de Etiópia, y los Catholicos que estan en ella. A 7 de Jtinio de i5j6. Besa el pié de Vuestra Santidad. Andreas de Oviedo, Patriarcha Aethiopiae. Ao seguinte ano, em 8 de Junho de 1577, escreveu outra ao mesmo Papa, apertando mais, lhe mandasse coadjutor e futuro sucessor, antes que acabasse de morrer êle e os mais Padres velhos que lá andavam, para que não pereces- sem com sua morte aquelas migalhas de católicos que havia em Etiópia; •fi.326v. e mostran*do muito sentimento por não acabar de ir socorro de portugueses, que tantos anos havia que pediam e esperavam; dizendo mais que naquele ano ardia Etiópia em grandes guerras civis, por se ter levantado contra El-Rei dela, outro rei que competm com êle do império. E apertava tanto por sucessor, porque se via já mui enfermo, e entendia que sua vida duraria pouco, como durou, com a morte que dali a três meses, em Setembro do mesmo ano, o tirou desta vida, e trasladou para outra melhor, a qual foi desta maneira. Havia anos que era mui doente de pedra, e dela morreu, com grande sen- timento não só de todos aqueles poucos católicos portugueses e abexins que havia em Etiópia, mas até dos próprios scismáticos; de modo que, ouvindo dizer um dos grandes do reino que o Patriarca era morto, dando com ambas as mãos em seu rosto, exclamou, dizendo: «Morreu o Padre Patriarca, morreu o Padre Patriarca! acabados e destruídos somos todos»! Foi sepultado na mesma igre- jinha do lugar de Fremoná, em que vivia, onde depois de morto fêz e faz muitos milagres que, por já noutra relação nossa andarem escritos, deixo de os contar. A sua sepultura se tem tão grande reverência, que quando os abexins querem fazer algum grande juramento, o vão fazer sôbre ela. Sua santa cabeça mandou o Padre Pero Pais a Goa no ano de 6o5. Donde fica respondido o Autor do livro, frei Luís Urreta, sôbre o que tão mal informado disse na pág. 210, por estas palavras, da morte, sepultura, exéquias do santo Padre: Al jin murio santisimamente. Hi\ierotile las honras mistnas que suelen ha\er a los Emperadores, llorandole todos los de la Etiópia, celebrando Aniver- sários por todas las Iglesias dei Império por espacio de treynta dias, y enter- raronle en el cementerio de la Iglesia dei Espiritu Santo dei monte Amará •fi. 337. (entierro antiguo de los Emperadores) hallandose presente el Preste * Juan, y toda la Corte en sus Obsequias (favor grande, y muestras de lo mucho que le amaban y preciaban) de suerte que solo el Padre Andrés de Oviedo está enter- rado en aquel cementerio, fuera de los Emperadores. O que tudo foi tanto ao contrário, que à sua morte e entêrro se não acharam mais que os Padres e os poucos católicos que com êle estavam, nem teve outras exéquias mais que as que por êles lhe foram feitas, que as dos Padres fora[m] suas missas, as dos leigos muitas lágrimas. O rei com todos os seus, tão fora estiveram de se achar a seu entêrro e exéquias, que, (àlém de, como scismático e hereje, não comunicar com êle) no mesmo tempo e mês em que o Patriarca morreu, andava assaz atri- bulado e afligido não só com as guerras civis, que os seus lhe faziam, senão também com a que lhe fazia El-Rei moiro de. Adel, Robusmamude, que entrando por Etiópia com um grosso exército, lhe tinha de novo outra vez conquistado o
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 361 melhor do reino, posto que adeante faremos menção do sucesso que teve esta guerra, na qual agora tocamos, para mostrarmos quão ao contrário falou o Autor em tudo, da morte, sepultura, exéquias do Patriarca, do que na verdade pas- sou nela. E quanto a êste monte Amará, onde o levou a sepultar entre os reis e im- peradores, se advirta que êste é aquele monte de que falou o mesmo Autor nos capítulos 8, 9, io e ii, eem alguns outros seguintes do primeiro livro, e que faz tão prodigioso, e do qual diz que tem em seu cume 20 léguas de circúito e cercado com um muro mui gracioso e bem lavrado por cima, onde põe uma fonte como de um paraíso terreal, com que diz que se regam os jardins admi- ráveis que nele finge, e onde diz que há 34 palácios reais em que moram os filhos dos reis que ali metem; dois mosteiros, cada um de i:5oo frades de Santo Antão; e num dos palá*cios 4 salas em que estão os tesoiros reais, que êle diz «Fi.sn*. que são mil e duzentos milhões de oiro, porque em cada sala das quatro, põe trezentos milhões, afora o tesoiro da pedraria, que finge tão grande quanto uma boa imaginação pode compreender; e onde diz que está uma livraria inaudita, a qual da maneira que a êle traçou, excede a todas as de quantos reis e impera- dores houve no mundo, ainda que todas se ajuntassem em uma só; e onde diz que não podem jàmais entrar mulheres de qualquer estado ou condição que sejam, nem jàmais alguma entrou nem subiu àquele monte, tirando a rainha Candace, que só subiu a êle a baptizar os príncipes que ali estavam; e do qual monte diz mais outras grandezas que seria longo referir, posto que tudo afirma que es- creveu pelas informações do abexim Dom João Baltasar, o qual diz que naquele monte serviu ao imperador Alexandre III, quando, sendo príncipe, estava ali, e que depois serviu e residiu muitas vezes no mesmo monte. Porém quão fora de caminho sejam todas estas informações do abexim Dom João Baltasar, prova evidentemente o que acima mostrámos de nunca tal imperador Alexandre III haver em Etiópia. Além disso, o que nossos historia- dores portugueses escrevem do mesmo monte, principalmente Diogo do Couto no quinto livro da quinta década das coisas da índia, quando fala da jornada de Dom Cristóvão da Gama àquele reino, e mais em particular Miguel de Cas- tanhoso(i) na relação que escreveu da jornada do mesmo Dom Cristóvão, em que êle se achou, e fala de tudo como testemunha de vista; o qual diz, que quando Dom Cristóvão da Gama com sua gente ia caminhando por Etiópia e mandou recado à rainha, mãe de El-Rei Cláudio, que se viesse ajuntar com êle, havia 14 anos que a rainha estava recolhida * neste mesmo monte Amara com »fi.3j8. duas filhas suas e um filho, e muita outra família de mulheres de seu serviço; e ainda que concorda com o nosso Autor no sítio, fortaleza e feição do monte, em tudo o mais conta tudo diferentissimamente; porque de circuito diz que não é mais aquela alta coroa do monte, que de uma légua, pouco mais ou menos, pondo-a o Autor de mais de 20; palácios para gasalhado dos príncipes, que nao tem mais que uns arrazoados aposentos, posto que grandes, e não 34, como íz o Autor; fonte nenhuma há, e toda a água que tem, é de^cisternas, feitas na pedra viva, a qual se recolhe nelas no inverno; mosteiros não há mais que um, (1) Miguel de Castanhoso, Dos feitos de D. Chrestovão da Gama, Lisboa, 1898.
  • 362 Livro quinto onde havia então 5o frades; e posto que nela há terras em que se semeia trigo e cevada, não são de mais quantia que quanto baste para sustentar mil pessoas. Havia ovelhas, carneiros, galinhas, patos e ádens em muita abundância. Livraria nenhuma, e toda a que há em Etiópia, está, como escrevem nossos Padres, no mosteiro que chamam Acçumo, ou Acaxumo, que era antigamente o maior que havia em Etiópia, e fundado, conforme a tradição dos Abexins, pela rainha Candace, e na mesma cidade que antigamente se chamava Sabbá, onde morava a antiga rainha Sabbá; a qual agora está mui arruinada e destruída; sò- mente ficam alguns vestígios bem mostradores da grandeza que ali houve anti- gamente. Neste mosteiro, como digo, está a livraria do reino, mas não a que o Autor traçou em seu entendimento, e pôs no monte Amará, mas tão diferente em tudo, que nem merece nome de livraria real. Quanto aos tesoiros, e' toda a informação que disto lhe deu o abexim, tão apócrifa, que, com só êste monte por sua fortaleza ficar pelo Preste-João no tempo que El-Rei de Adel, ou de Zeila lhe tinha conquistado quási todo o •fi.3j8v. reino, tão pobre estava o Preste-João de tesoiros, que, * depois que à custa do sangue e morte de Dom Cristovão e dos mais portugueses, recuperou o reino, querendo ir alguns portugueses para a índia, e desejando êle de em alguma ma- neira lhes satisfazer os muitos e grandes serviços que lhe tinham feito, não teve que lhes oferecer senão as próprias jóias da rainha sua mãe e de alguns dos seus, que pôde ajuntar, pedindo-lhes muitos perdões, por não ter mais com que os pudesse remunerar; mas, se quisessem ficar, lhes daria uma província onde havia muito trato de oiro, com que pudessem enriquecer. Os portugueses porem lhe agradeceram muito a boa vontade com que lhes oferecia aquelas jóias, mas nada lhe quiseram tomar, nem, por derradeiro, se tornaram para a índia. Donde bem se vê quão diferentemente procedera o Preste-João com estes portugueses e com os demais, e lhes satisfizera seus serviços, se no monte Amará tivera os tesoiros de oiro e pedraria que o Autor diz. E de quão mal informado foi nestes particulares de que aqui falamos, se poderá entender a pouca verdade das informações nas demais coisas que refere(i) daquele monte; e seguram a verdade do que temos dito o testemunho de vista de Miguel de Castanhoso que isto escreveu, como dissemos, e de dois capitães portugueses, chamados Manuel da Cunha e Francisco Velho, os quais Dom Cristóvão da Gama mandou ao mesmo monte com seus soldados para trazerem a rainha onde êle estava, e aos quais ela mandou subir acima; e para poderem subir foram com engenhos dos que estavam de cima levantados em um cesto, que doutra maneira não se subia lá, e com seus olhos viram tudo o que no monte passava; e nem neste monte se coroavam nem enterravam os imperadores. (i) Nt.: referem.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 363 * CAPÍTULO XII •Fl. 319. Em que se declara a verdade em contrário de algumas coisas apócrifas que no livro se contéem OMO tudo o que neste livro se escreve, principalmente no que trata de Etiópia, vai fundado e cheio de meras ficções e fábulas, nem se tratam nêle as coisas na realidade do que são, senão como as quiseram fingir ou vieram à imaginação dos autores; e isto seja não só no que toca às coisas sagradas, mas também nas politicas da paz e da guerra, ritos e costumes, e jun- tamente nas descrições geográficas, situação, graduação de terras, reinos, pro- víncias, mares, rios, fontes, alagoas, e tudo com uma confusão e miscelânea tão intricada, que não há achar nelas coisa coerente: não é possível poder-se res- ponder com declaração da verdade a tanta multidão e variedade de coisas ma- nifestamente contraditórias e disparatas entre si, pois seria fazer um grande volume, e sobre coisas de pouca importância. Basta somente termos acudido ao principal e mais necessário, posto que para remate desta Adição, não dei- xaremos, nestes derradeiros dois capítulos dela, de apontar ainda algumas coisas notòriamente apócrifas e falsas, das muitas que no livro se contéem, por terem particular respeito às coisas e terras da coroa de Portugal e da nação por- Falando, no capítulo 32 do primeiro livro, dos reinos e senhorios do Preste, e grandeza imensa que finge de seu império, antepondo-o a todos (1) os outros gran*des que houve no mundo, diz que os reis dos Jelofos, Beafares, Tungubutu, •fi.32c)v. que é a metrópole e cabeça do reino dos Fulos, Berbexins, Sapés (que são todos reinos da costa de Guiné, a nós vizinha, e que estão na -terra firme, que corre desde antes do Cabo Verde até Serra Leôa) e depois o reino de Congo e o de Monomotapa, o qual diz o Autor que chega até ao Cabo da Boa-Esperança, e que tem de costa oitocentas léguas, não tendo uma só, porque tudo é sertão da Cafraria, e toda a ilha de São Lourenço; que todos estes reinos reconhecem ao Preste-João, e seus reis com presentes lisonjeiam sua amizade e procuram sua graça, porque lhes pode fazer muito dano.. E nomeia outra manada de reinos, que diz estão metidos por êsse grão sertão de África e Cafraria, os quais todos diz que reconhecem ao Preste-João e lhe pagam tributo, não só por serem con- quistados por êle, mas também por desejarem de o ter por amigo e protector; porque estando à sua devoção, se téem por seguros de outros reis gentios lhes fazerem guerra, com o temor dele. Tudo isto quão apócrifo seja, e fora de todo o caminho da verdade, notò- riamente está visto, pelo grande e imenso caos de reinos e províncias incógnitas, e até agora não descobertas nem sabidas, que há por todo sertão que jaz entre estes reinos que aqui nomeou, e a Etiópia de que o Preste-João é senhor. E ainda que os reis destes reinos tiveram algum comércio ou vizinhança com o Preste-João, pouco tinham que o lisonjear com presentes, ou pretender sua tuguesa. (1) Nt.: antepondo a todos.
  • 364 Livro quinto amizade, para êle os defender de seus inimigos, pois o pobre rei pode tão pouco, que nem de uns poucos de negros despidos e desarmados, que em seu próprio reino se levantaram contra êle e lhe téem tomado a mor parte de suas terras, • fi.33o. que são os galas, se pode defender; e há cincoenta anos que pede so*corro de quatrocentos ou quinhentos portugueses para se poder valer contra estes ini- migos domésticos e outros de fora, moiros e turcos, e mais não os pode alcançar. E se não fora o socorro de 400 portugueses com que no ano de 1541 Dom Cris- tóvão da Gama lhe acudiu (estando aquele reino ocupado de moiros, dos quais o livrou) já hoje de todo, o império e nome do Preste-João fôra extinguido no mundo. Diz mais no mesmo capítulo e na pág. 355, que entre as guerras que êle finge que fêz El-Rei David (em cujo tempo se descobriu Etiópia pelos portu- gueses) uma delas foi a que fêz a El-Rei de Congo, a qual refere por estas pa- lavras : — La ter cera batalla y triumfo insigne fue, el que tuvo contra el poderoso rei de Motticongo, al qual vencio en batalla campal, en la qual avia un millon y mas de gente: per o fue dichoso el Rey de Monicongo en quedar vencido dei Preste Iuan, pues quiso Dios que por aquella via viniesse en conocimiento de la ley Christiana, y se convirtiesse; y el y los mas de su reino se bauti\aron, stendole padrino el Preste Iuan; y desde entonces ay muchos Cliristianos en aquel Reyno. — Quão apócrifo isto seja, o testemunham bem muitas e várias histórias, assim dêste reino, como de fora dêle, pelas quais é tão notório que El-Rei do Congo com grande parte de seus vassalos se baptizaram no ano de 1491, em que neste reino reinava El-Rei Dom João o II, que pelo grande zêlo que tinha da Fé, e conversão da gentilidade, mandou àquele reino Rodrigo de Sousa por embaixador, e com êle três religiosos da sagrada Ordem de S. Do- mingos, os quais com muito zêlo foram os primeiros que naquele reino prègaram o santo Evangelho e baptizaram a El-Rei e à Rainha, com a mor parte dos grandes de sua corte; e depois pelo tempo em deante se foram baptizando os mais do povo, com que aquele reino ficou todo cristão por esta via de Portugal •fi.33ov. e zêlo de El-Rei Dom João * o II, e não pelo Preste-João, como diz o Autor, entre o qual e o rei de Congo nunca jàmais houve comércio, pela grandíssima distância, e porventura inacessível, que há de um reino a outro; pois o de Congo confina com o mar Oceano do Cabo da Boa-Esperança para cá; e o de Etiópia confina com o mar Vermelho, mares tão remotos, e disparatos um de outro. Diz mais na pág. 322: — Que el Preste Iuan que vive agoray se llama Ze- raschaureat, con muchos ojiciales y gente anda quitando los arrecifes dei rio Zayre, y con algunos engenieros(i) que para este Jin le ha embiado el Duque de Florência, para ha\er la navegacion fácil, que salido con esto, pueden las naves saliendo de la laguna Cafates y de la ciudad de Zambra, Corte dei Preste, que está a sus orillas, entrando por el rio Zayre, que de la dicha la- guna sale, y desenbocando en el Oceano, en el reyno de Congo, venir hasta Lisboa y Sevilla sin entrar en otro senorio si no és dei Rey Dom Felipe III. De suerte, que entrambos Reyes pueden comunicarse por sus próprias tierras. (1) Nt.: genizeros.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 365 Nas desconveniências disto não há que gastar tempo em as mostrar, pois são tão notórias: somente digo que o Preste-João, que o Autor diz que no ano de 608 (que é o de que êle fala, e em outra parte diz que escrevia seu livro) andava ocupado nesta obra, e que também e' o que hoje reina, estava tão longe de em- pregar aqui seu poder e ocupação, que nesse mesmo tempo tinha bem que fazer em se defender de três ou quatro reis, que uns em uma parte, outros noutra, se lhe tinham levantado com título de lhe tomar o império. E quanto à lagoa Cafates, donde diz que nasce o rio Zaire, e da qual diz também que tem algumas cem léguas de comprimento, e a cuja ribeira diz que está a cidade de Zambra, côrte do Preste, os que com mais verdade e certeza escrevem dela, que são os portugueses e Padres que lá andam, e moram junto delia, a fazem somente de vinte léguas de comprido pouco mais * ou menos, e seis até nove *fi.33i. de largo; e não lhe põem nome de Cafates, senão Dambeabahar, que quer dizer mar de Dambeá, e não dizem que nasce dela o Nilo, senão que a atravessa, vindo correndo de sua fonte, da qual também falam, como tudo dissemos na relação atrás, falando nas coisas de Etiópia, no capítulo quinze(i) do primeiro livro, onde também se disse que a cidade real e côrte do Preste não era Zambra que o Autor finge, como já dissemos, senão Gubbay, bem diferente da que êle pinta. Diz mais na pág. 283(2) Que aunque aníiguamente tio avia vino en Etiópia, y para de\ir Missa ha^ian vino de las passas, despues que los Espanoles han entrado, y plantado pinas, han provado tanbien, que es uno de los Re/nos que tiene mas vihedo; per o no lo beben hombres, ni mugeres hasta que tengan hijos, y se tiene por muy grande afrenta: no lo guardan en tinajas, porque no las hay; ni la tierra, por ser arenisca, es apta para semejante barro. Tampoco ay cubas, ni toneles, porque las maderas todas son contrarias al vino, y le gastan; y por esso lo guardan en cisternas grandes de piedra, y se hallan bien con esta usança. De estos vinos se ha^en grandes sacas para la Lybia, Núbia, Congo, y toda la tierra de los Negros. Los Judios de Meca llevan mucho para los Judios que viven en la Arabia. Llevan tambien a la Pérsia, donde, aunque moros, lo beven. Los portugueses cargan naves dei vino de la Etiópia en el puerto de Xaquen, Coco, y Guardafune, para toda la índia hasta la Trapobana, y China. Vai tudo isto tão fora do caminho, que parecem mais sonhos que história. A terra de Etiópia carece tanto de vinho de uvas, que no tempo delas, se con- sagra com mosto, e no outro tempo com sumo de passas que delas espremem, e muitas vezes acontece aos nossos Padres da Companhia estarem muito tempo sem dizer missa, por não terem uma gota de vinho em que consagrar. E achan- do-se o Padre Pero Pais na côrte, no ano de 604, diz êle * mesmo numa carta «fi.33iv. sua, que, pedindo-lhe o próprio Rei que dissesse missa ao uso romano, que a queria ouvir, a deixou de dizer por falta de vinho, do qual em toda a côrte se não achou uma só gota. E estas são as cisternas cheias dele, que o Autor diz que há, e de que faz carregação para tantas partes do mundo. (1) Nt.: quatorze. — Veja-se a pág. 61 etc. (2) Na obra de Urreta lê-se pág. 256; mas há êrro de paginação. Deve ler-se 283.
  • 366 Livro quinto Mas houvera também de declarar se esta cárregação de vinho que se faz para Congo, Núbia e Líbia, e para todas as mais terras de negros, Arábia e Pérsia, se é por mar ou por terra; porque se é por mar, o Preste-João não tem em todo o seu império um só porto marítimo, nem barco em que navegue; se por terra, bem se deixa ver, como isto é impossível. Também houvera de declarar em que se carregava e levava para fora a quantidade de vinho que diz, se lá não há pipas, nem vasos. Diz mais na pág. 179:—En tiempo dei Preste Juan que se llamava Panújio llegaron a la Etiópia muchos Doctores en lej's: los quales embiava el Rey de Portugal, con grandes librerias de sus Baldos y Bartolos, con proposito de in- troduzir la doctrina de sus derechos. El emperador viendo tantos libros, pre- guntò de que ciência tratavan; y fuele respondido, que eran libros de leys Imperiales, Civiles, y Canónicas, y que ellos eran Dotores en leys, cuyo oficio era ayudar al buen govierno de las ciudades, determinar pleytos, proseguir causas, y dar su derecho a quien se le deve. Respondio el Emperador, como si escupiera en ayunas. Yo no conosco otros Doctores sino los de la Iglesia, ni en mis tierras se permite que nadie se liame Doctor, sino soti los sagrados Theologos. Estos libros son de leys:yo no se que aya otra ley que la de lesu Christo. Y pues vuestro oficio es proseguir causas, yo no he menester pleytos en mi Reyno; y assi hallo que conviene a la quietud de mi Império que os bol- vays a Portugal, y que dentro de tantos dias salgays de todas mis tierras, llevandoos todos essos libros, porque los echare a todos en el Nilo, siti remis- sion; y si porfiaredes, a vosotros tras ellos. Viendo ellos la resolucion dei •fi. 33a. Pre*ste Iuan, tuvieron por mas acertado embarcar se para Goa. A isto me parecera tambe'm mais acertado não responder a propósito, como nas demais fábulas que neste livro se conteem; mas, como êle se fêz e publicou para pregoar por verdadeiras coisas tão falsas e apócrifas, não podemos deixar de lhe dar alguma breve re[s]posta. E a que esta tem, é que desde que os nossos portugueses entraram em Etiópia até hoje (começando em Pedro de Co- vilhão que El-Rei Dom João II lá mandou há mais de cento e vinte anos) nunca houve tal rei Panúfio em Etiópia; e assim como o Autor finge a história, finge também o rei. Nem também, tirando soldados para pelejar, que foram os do capitão Dom Cristóvão da Gama, e Padres da Companhia para prègar, nunca outros portugueses, nem tais doutores em leis, rei algum de Portugal mandou a Etiópia. E dado caso que os mandara, guarda o Autor pouco decoro aos reis de Etiópia, que tanto por outras vias engrandece, em dizer deles que hou- vessem de usar de tamanho desprimor com letrados e doutores, que um tão grande príncipe, como El-Rei de Portugal lhes mandava a sua terra. Nem es- timam tão pouco aqueles reis as leis de Portugal, como o Autor finge, porque em uma carta sua do ano de 604, escreve o Padre Pero Pais, que anda em Etiópia, que o rei Tingidil, que então reinava, lhe escreveu uma carta em que o chamava à Côrte, e entre outras coisas lhe dizia estas palavras:—Desejamos muito que nos tragais o livro da Justiça dos reis de Portugal, porque estou muito desejoso de o ver, e juntamente nos tracei os livros que tinha o Patriarca, e vinde logo com tudo—. E o mesmo desejo de ver as Ordenações do reino de Portugal lhe mos- trou também depois El-Rei Sacinos, que é o que agora reina, e outros grandes.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 367 * Diz mais na página i65, que na Semana Santa se não acompanha o impe- *fi. 332 v. rador com pessoa outra alguma senão com os embaixadores de El-Rei de Por- tugal, do vizo-rei da índia, do cônsul dos mercadores de Itália e dos outros la- tinos. Pore'm diz nisto o que imagina, e não o que é, porque tirando o embai- xador Dom Rodrigo de Lima, que com êste título, e aparato decente a êle, foi ao Preste-João, mandado por El-Rei Dom Manuel, nunca outro embaixador de Portugal jámais esteve em Etiópia, e muito menos do vizo-rei da índia, pois em caso que estivera o de El-Rei seu senhor, não tinha êle para que mandar lá embaixador próprio. Já de mercadores de Itália, nem latinos, nenhum cônsul nem embaixador atègora houve nem há lá. Diz mais na página 365, que, fazendo El-Rei Cláudio grande guerra ao Turco, e ajuntando para isto um exército de quinhentos mil homens, venceu os turcos e os deitou de tôda Etiópia, sem que ficassem com um só palmo da terra dela; e que feito isto, edificou algumas fortalezas para seguridade e defensa das entradas, que lhe faziam os moiros de Egipto, e que os portos marítimos do mar Roxo deu aos portugueses [pág. 363] com suas fortalezas, para que êles as guardassem dos moiros de Arábia, e se pudessem recolher as armadas de Portugal, quando àquelas partes vão e vêem da índia. Isto diz o Autor; mas nada do que diz, passou nem passa assim; porque nem El-Rei Cláudio, emquanto viveu, teve poder para fazer a guerra que diz ao Turco, nem ajuntar a gente que diz, nem teve mais fôrça para se defender dos moiros e turcos, que as dos portugueses que lhe foram de socorro com Dom Cristóvão da Gama, que tirando-lhe seu * reino do poder de turcos e *fi.333. moiros, que lho tinham tomado, o tornaram a fazer senhor dêle. Nem El-Rei Cláudio deu aos mesmos portugueses portos de mar, nem fortalezas algumas, porque todos os portos marítimos, de que antigamente foram senhores os reis de Etiópia por tôda a costa do mar Roxo, lhos tinham tomados os turcos e moiros, sem lhe ficar um só; nem êle mais lhos tornou a tomar ate' o dia de hoje; e nem os portugueses em tôda a costa do mar Rôxo téem pôrto nem fortaleza alguma, onde suas armadas se recolham, pôsto que algumas vezes tomaram alguns, mas não os quiseram conservar, pelo muito que lhes custavam, e pouco que rendiam. Na pág. 233, falando das mulheres de mau viver, que há em Etiópia, o que pudera bem escusar, entre outras coisas puramente apócrifas, diz estas palavras: Y las que dejati aquel trato, las embian a Goa al monasterio de las convertidas de que tienen cargo los Padres de la Compaiíia de Jesus. Lo mismo ha\en de los hijos, que de ellas nascen,y de qualquier bastardo o illegitimo, que en sietido de edad los embian a Goa, ó a Ormu\, a Ceylon, o Moçambique, donde son ali- mentados a costa de los sacerdotes, porque en ninguna parte de la Etiópia se puedeti ave\indar los illegitimos. São tão verdadeiras tôdas estas coisas, como tôdas as mais que ficam ditas. Em Goa não há mosteiro de convertidas que esteja a cargo dos Padres da Companhia, nem os ilegítimos e bastardos de Etiópia, vão às partes onde diz, nem se sustentam à custa dos sacerdotes. E houvera de ajuntar por que autoridade ou magistrados são mandadas estas duas sortes de gente às partes da índia, e que obrigação tenham os sacerdotes da índia a sustentar os espúrios
  • Livro quinto de Etiópia ou a casa das convertidas de Goa, quando houvesse a que êle diz, de receber e sustentar as más mulheres de Etiópia. Mas, como o Autor es- • fi. 333 v. creve tudo o que lhe disseram, ou imagina, não atenta pelas objecções que * se podem opôr. Semelhante é a que diz na pág. i83, que certos homens italianos que foram compreendidos em delito nefando em Etiópia, mandou o imperador que os le- vassem presos a Goa e que o vizo-rei dos portugueses executasse a sentença do castigo que mereciam, donde no ponto que chegaram, os queimaram publica- mente : como se os vizo-reis da índia de Portugal fossem executores dos delitos cometidos em Etiópia. Diz mais na pág. 364, fâfôndo do reino de Borno (o qual reino êle diz que confina por uma parte com Etiópia e com o reino de Biafara, que é no Cabo Verde) que como quer que êste rei traz guerras com o Preste-João, uns portu- gueses que de Etiópia fugiram, com mêdo de serem presos pela Inquisição, en- sinaram àqueles moiros a fazer pólvora e arcabuzes, para fazerem guerra aos cristãos de Etiópia, o que já acima mostrámos quão grande calúnia era. Diz mais na pag. que nao quis o Preste-Joao consentir em Etiópia algumas das Religiões de Europa.—Y aunque han entrado frayles Francisco,s y religiosos de la Compartia de Iesus, no los han dexado fundar. Y la ? a^on que dan para esto es, que estando rodeados de morosy gentiles por todas partes, tienen necessidad de gente para defenderse en jtiedio de tantos infieles, que por esso de tres hijos dan uno a la guerra, y de seis dos; y que si abi iessen la puerta a tantas religiones como ay en Espana y Itália, no les quedarian hijos, por ser gente pia, devota y amiga de penitencia, y todos se harian fi aj les. Verdad es que en Moçambique, y Zeilan, y Guardafune, y otros puertos que caen en la costa dei Oceano de la otra parte dei cabo de buena Esperança, que viven Portugueses, ay algunos monasterios de frayles Franciscos: pero ha los dexado fundar el Preste luan con esta condicion, que no puedan vestir el habito a ningun Etíope: lo qual guardan el dia de hoy, que casi todos los fiajles destos conventos, son Portugueses. Mostra o Autor nisto quão enganado foi nas informações, e quão pouca •fi.334. notícia tem daquelas partes. Des[de] que os portugueses e Padres * da Compa- nhia andam em Etiópia, não houve rei algum que proibisse fundarem-se naquele reino as Religiões de Europa; e nem o proprio tirano Adamás ou Mena, ainda que perseguiu a Igreja, se declarou nesta parte por êste modo; nem os povos de Etiópia directe nem indirecte significaram nunca tal. Antes em uma carta do Padre Patriarca, que acima referimos, para Sua Santidade, lhe diz que redu- zindo-se Etiópia, há mui grandes comodidades nela, para se fundarem muitos mosteiros de homens e mulheres de todas as Religiões de Europa. Nem há entre êles lei de dar de três filhos um para a guerra, pois quando há necessi- dade, todos acodem, nem há perigo de faltar gente para ela, porque é infinita: e os mais dos clérigos são casados, e os frades não vivem bem. Nem os reli- giosos de S. Francisco atègora entraram em Etiópia, nem rei algum lhes proibiu fundarem nela seus conventos: e muito menos aos Padres da Compa- nhia, os quais têem lá duas casas, e para uma que é junto da corte, lhe deu o mesmo rei o sítio; e se tiveram sustentação de cá, puderam fundar quantas qui-
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 369 seram, com muito grande gosto do rei, e aplauso dos naturais. Nem o Preste- -João tem jur[is]dição alguma em Moçambique, nem na costa do mar Oceano do cabo de Boa-Esperança para lá. Nem em Ceilão, que é uma ilha na índia; nem por esta mesma costa há mosteiros de São Francisco em pôrto algum; nem em Moçambique, nem em Guardafu, o qual não é pôrto nem cidade, mas um promontório despovoado, ou ponta da terra do reino de Adel, que entra muito pelo mar, entre o estreito de Meca e a costa de Melinde. Nem nos outros mosteiros ou casas de religiosos, que estão em Moçambique e por aquela costa o Preste-João proibiu que não(i) entrassem etíopes, pois nenhum poder nem jur[is]dição tem por ali, como fica dito. * CAPÍTULO XIII • fi. 334 t. Do que di\ àcêrca do que fè\ Dom Cristóvão da Gama em Etiópia. Declara-se a verdade de tudo FINALMENTE concluiremos esta re[s]posta com acudirmos ao que se diz no livro àcêrca do que o capitão Dom Cristóvão da Gama, e portugueses que com êle foram, fizeram em Etiópia; a qual história iremos contando com as palavras do Autor, e respondendo por partes ao que fôr necessário. Diz pois assim [pág. 358]: Andava el Moro Rey de Zeila havendo mil males, Y executando inauditas crueldades en los tristes Christianos de Etiópia. La madre dei Preste Iuan Cláudio embio un correo al Visorrej' de Goa, dou Es- teban de Gama, pidxendole socorro. El embio 400 soldados, y por Capitan de ellos a don Chnstoval de Gama, su hermano. Partieron de Goa con muchas armas, en el mes de Iiimo de 1S41. Embarcandose, llegaron, aunque con tra- bajo, a la Etiópia, y tomaron puerto en el Reyno de Barnagaso: donde les acudio mucha gente. Entendido por la Emperatri\ el socorro, salio de su es- condrijo, y fué a visitar al Capitan: el qual la recibio con gran salva de artilleria, y con mucha jiesta. Ella proveyò de bastantes, y aun sobrados mantenimientos. Y considerando don Christoval que tio era tiempo'de detenerse, partio con sus 400 soldados, y con muclios millares de Etiopes, por grandes jornadas, cominando de dia y de noche por coger al enemigo descuydado. Como lo desseo, le sucedw: porque hallo a los Mor os tan descuy dados, que estavan desar- mados, y tan sin orden de guerra, como si no estuvieran en tierra de enemigos; y dando contra ellos de sobresalto, los tomaron a manos, antes que pudiessen venir a las manos; y antes que se pudiessen abroquelar, los çamar*rearon de • fi. 335. suerte, que no se les quito el esco\imiento tan presto. Fueron facilmente ven- cidos,y volviendo las espaldas, dieroti todos a huyr, a corre mas corre. Y como el liuyr sea linage de bolar, dejavan de correr y bolavati. Murieron muchis- simos en los alcances, y el Rey Gradahametes herido de un mosqueta^o, que le passò la pierna,y le mato el cavallo, vino al suelo; aunque los suyos le pusieron en cobro, de la qual lierida convalecio. El buen Capitan go^ò de un riquíssimo (1) Nt.: que nem. 36
  • Livro quinto despojo de infinitas armas, y arcabu\eria, con que armò su gente; y cami- naudo en seguimiento de su enemigo, a remo y vela navegava el triunfante ven- cedor por el mar de sus vitorias; entro por el Reyno de Adel quemando, ta- lando, derribando, y llevando todo a fuegoy a sangre, liasta un monte donde se avia hecho fuerte el Rey Gradaliametes, y alli le cerco el Capitan Gama, con intento de no partirse hasta cogerle muerto, o vivo, y embiarle al Preste Iuan. Como esta jornada, e as coisas que nela sucederam, foi uma das mais ilus- tres e memoráveis que os portugueses fizeram no Oriente, não é justo que se contem por tais têrmos, que não somente faltem na verdade, mas deminuam e abatam na honra de um tão excelente capitão, como foi Dom Cristóvão da Gama e dos mais portugueses que com ele foram. E posto que o Autor devia ter lido esta história, não a refere porém como ela passou, e êle a leu. Antes, nos par- ticulares dela vai mui desviado da verdade, como em dizer que Dom Cristóvão com sua gente, partira de Goa direito a Etiópia; que entrando nela se lhe ajun- taram muitos milhares de abexins, que houve vitoria dos moiros, porque os tomou descuidados e desarmados; que armou seus soldados com as armas que lhes tomara; que depois desta vitória entrara pelo reino de Adel, assolando e abra- sando tudo: do qual nada passou assim. Mas a história na pontual verdade, como a escreve Diogo do Couto no 5.° livro da 5." década de sua história da •fi. 335 v. índia, e mais particularmente Miguel de Castanhoso que na jornada * se achou, foi (i) desta maneira. No ano de 1Õ41, sendo governador da índia Dom Estêvão da Gama, filho segundo do Conde Almirante Dom Vasco da Gama, que foi o primeiro que a descobriu: fêz uma das poderosas armadas, que até àquele tempo no Estado da Índia se tinham visto, com intenção de ir ao estreito de Meca, e entrando pelo mar Roxo, chegar (2) [a]té Suês, a queimar as galés e armada do Turco, que na- quele pôrto estava, e se aparelhava para ir à índia. Assim o fêz; e entrando com sua armada, se foi ao longo da costa da Arábia até perto de Suês. E posto que não pôde queimar a armada do Turco, pela terem varada em terra, com as novas que tiveram da nossa: à volta todavia não deixou de fazer grande es- trago em muitos lugares e cidades de Arábia, entrando, saqueando e queimando tudo, e tomando-lhe todos os navios que achava. Chegando à ilha de Maçuá, veio ali ter com êle o Barnagais, senhor grande, e como rei daquelas partes ma- rítimas do Abexim e vassalo do mesmo Preste-João. Com êle veio também um embaixador de El-Rei Cláudio de Etiópia, que então reinava, com cartas suas, e da Rainha sua mãe, pelas quais lhe pedia com mui grande instância quisesse socorrer aquele reino cristão, a quem o moiro Gradahametes, Rei de Adel e de Zeila, havia 14 anos que tinha pela mor parte conquistado, com grandíssimo estrago de tôda a terra, cativeiro de infinitas almas, incêndio e assolação de grande número de mosteiros e igrejas nobilíssimas que havia naquêle reino. O governador, havido conselho, julgou que, àlém do grande serviço de Deus que seria acudir àquela necessidade tão urgente, o seria também de El-Rei de (1) Nt.: e foy. (2) Nt.: chegara.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 3?! El-Rei de Portugal, seu senhor, pelas muitas razões que para isso achava. E assim se assentou que se lhe mandassem 400 soldados, e por * capitão dêles • fi. 336. escolheu a Dom Cristóvão da Gama, seu irmão, mancebo de grão valor e esforço. Com esta gente mui bem armada, e com armas dobradas, e algumas peças de artilharia, se partiu Dom Cristóvão no mês de Junho de 1541 da ilha de Maçuá. E caminhando pela terra dentro de Etiópia, depois de muitas jor- nadas, e bem de trabalho que tiveram no levarem a artilharia por lugares mui fragosos; tendo a rainha aviso» da sua vinda, se veio também ajuntar com êle, com suma satisfação de ambos, e nunca mais se apartou de nosso arraial. Indo assim caminhando, tomou alguns lugares fortes que estavam pelo Moiro deitando os inimigos de toda a terra por onde passava, e reduzindo muitos povos? que por temor e fôrça se tinham entregues ao inimigo, e negada a obediência ao seu rei. Seu intento era ir-se ajuntar com o Preste-João; mas, porque an- dava mui longe, e perto de dois meses de caminho, nos confins do reino, por temor dos moiros, não pôde ser unirem-se tão de-pressa, como desejavam. Teve aviso El-Rei de Zeila da vinda dos nossos, e do intento que tinham de se ajuntar com o Preste; mas, como andava com seu exército tão vitorioso, e senhor do campo, determinou de lho impedir; e com tôda a pressa, a grandes jornadas, os veio buscar, e lhes saiu ao encontro nos campos que chamam do Zarte, com bem diferente poder na multidão de gente do que os nossos eram, posto que não no género de armas nem no esforço dos soldados. Não recu- saram os nossos a batalha, porém não com moiros desarmados e descuidados de guerra, como diz o Autor, mas tão bem aparelhados para ela, como devem de estar homens, que êles mesmos vão buscar seus próprios inimigos, para pe- lejarem com êles. Com os nossos, até êste tempo da primeira batalha, se não tinham ajuntado aqueles mui*tos milhares de abexins, que o Autor finge; mas tão poucos, que *fi.336\. não passavam de 200. Tinha o moiro em seu campo quinze mil homens de pé e mil e quinhentos de cavalo, e 200 turcos arcabuzeiros. Os nossos eram 35o portugueses, porque os outros 5o estavam ausentes. Começou-se a batalha em amanhecendo, e foi travadíssima, e durou até depois do meio dia, em que a vitória se declarou pelos cristãos; porque neste tempo, andando a batalha mui travada, foi ferido El-Rei de Zeila com unia arcabuzada, que lhe atravessou ' uma perna e matou o cavalo. Pelo que, êle e os seus viraram logo as costas, e se puseram em fugida; e os nossos lhe foram um pedaço no alcance; e por não terem cavalos, não foram mais. Ficaram muitos moiros mortos, e mais de trinta turcos. Dos nossos faltaram onze, e quarenta foram feridos. Deu-se esta batalha em quatro de Abril de 1542, e daí a treze dias se deu outra, porque o moiro se tornou a refazer com muita gente que de refrêsco lhe veio, entre êles, um grande capitão chamado Gradamar com três mil homens de pé e 3oo cavalos. Pelo que, aos 27 dias do mês de Abril, tornou o moiro a cometer a Dom Cristóvão, que com muito esforço lhe saiu ao campo, e recebeu a batalha, onde pelejaram grande parte do dia, e lhe mataram logo os cristãos o seu capitão Gradamar, que vinha na dianteira com muitos outros moiros de valor, e por derradeiro o venceram a êle, e puseram em fugida com grande estrago dos seus, e lhe ganharam o arraial, e tendas, e foram matando
  • 372 Livro quinto neles por espaço de meia légua; mas, por não terem cavalos, não concluíram naquêle dia a conquista. Dos nossos morreram 14, e ficaram feridos muitos. O moiro se recolheu como pôde, e Dom Cristóvão dois dias depois se foi em •n.337. seu seguimento, por 10 dias inteiros, até * que o encurralou numa serra, onde todo o inverno o teve como cercado, de modo que o moiro em nada se podia ajudar das terras, que ficavam da parte do sertão, onde os nossos estavam; mas as da parte do mar lhe ficavam livres; pelo que, teve modo para mandar recado ao Baxá do Turco que estava em Zebibe com 3:ooo turcos por guarda do estreito, ao qual pediu socorro, que êle lhe mandou de 900 turcos, em que entravam alguns de cavalo e 10 peças de artilharia de campo, com muitas es- pingardas. Também mandou pedir socorro aos Reis de Arábia, donde lhe veio boa cópia de moiros. Emquanto isto fazia, os nossos que tinham posto seu arraial num monte vizinho por nome Ofalá, para ali invernarem, não deixaram de continuar na guerra pelas comarcas e lugares vizinhos, reduzindo todos aqueles povos á obe- diência de El-Rei; e principalmente foi Dom Cristóvão em pessoa a conquistar a serra a que chamam dos Judeus, que com ser mui forte, e quási inexpugnável, emfim a entrou e tomou com só cem homens que consigo levou, tendo ela de presídio quatro mil moiros de pé e trezentos de cavalo; a qual tomada, se tornou com toda a pressa para o arraial, deixando, para virem mais de-vagar, trinta soldados, com oitenta bons cavalos que, se chegaram a tempo, foram de muito proveito e ajuda da nossa gente na batalha em que se perderam. Nesfe mesmo tempo os nossos se aparelhavam também de muitas munições e coisas necessárias para a guerra, que, passado o verão, esperavam fazer. Porém o moiro com o socorro que lhe veio, se deu tanta pressa em seus apercebimentos, que saiu ao campo mais cedo do que se pudera cuidar; e logo ao outro dia que Dom Cristóvão chegou da serra dos Judeus, teve aviso do socorro que era vindo ao moiro, pela mostra que os novecentos turcos e moiros de Arábia deram de • fi. 337 v. si ao nosso arraial. Pelo que, entendendo Dom * Cristóvão que os inimigos não tardariam em o vir acometer, como vieram logo ao dia seguinte, que foi aos 28 de Agosto de 1542, se aparelhou e fortificou com tôda diligência por todo aquêle dia e noite. Porém o sucesso desta batalha, refere o Autor por estas palavras: Entretanto que los Christianos teniati cercado al Rey Moro, el de las partes marítimas pidio favor y suplemento de gente y armas a los turcos dei mar Rojo y a los Reyes Mor os de Arabia. Acudieron todos a favor ecerle; embiaronle mucha gente de armas y arcabu\eria, y pieças de campana, con la qual ayuda engrosò su exercito; y poniendose en orden de batalla, baxò dei monte, en demanda de los Portugueses. Hallolos qual el fué liallado dei los, derramados por los campos; unos en tiendas, y otros en caserias, sin orden de guei 1 a, tu disciplina militar. 1 dando de repente el Moro Gradahametes sobr los descuydados Christianos, unos dormidos, porque era de noche; otros atur-e didos con la artilleria, outros descuydados, y todos desapercebidos: al fin aunque mostraron alguna defensa, al cabo comentaron a ciar, y despues a se retraer; hasta que no pudiendo mas resistir, huyeron, alegres con llevar las vidas. Huyò el Capitan Chnstoval de Gama, per o fue preso en un bos-
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia que, de los soldados que yvan en su seguimiento, y llevado al Moro Gradaha- metes, etc. No que diz o Autor do grosso socorro que o moiro teve do mar, falou ver- dade. No modo de descuido, negligência, desordem, e falta de disciplina mi- litar, em que diz que tomou os nossos descuidados e dormindo, por ser de noite, e na remissão e fraqueza com que mostra que pelejaram e fugiram, não foi assim como diz e pinta. Antes, se nossa profissão e intento fôra contar esta guerra por extenso, com as miudezas e circunstâncias que nela passaram, e do modo com que se houve o capitão Dom Cristóvão da Gama, e com que se houveram seus soldados, depois que desde o mar Roxo saíram em terra, e começaram a caminhar por Etiópia, ate' o ponto em que Deus permitiu que depois de tantas batalhas e tão milagrosas vitórias, nesta última se * perdesse: não há dúvida ti.338. que o mundo todo julgara não ter faltado Dom Cristóvão da Gama em seu ofício em coisa alguma de tudo quanto de um mui grande e excelente capitão se podia desejar, nem seus soldados em tudo o que deviam a soldados cristãos e portugueses; e que não houvera quem não reprovara muito o que no livro se diz em descrédito de um tão esforçado e excelente capitão, e de soldados que com tanto valor pelejaram tantas vezes contra os inimigos da Fe', e derramaram seu sangue, e deram por derradeiro suas vidas pela defensão e exaltação dela. A verdade pura é que nem os moiros tomaram os portugueses descuidados e desapercebidos; nem uns metidos em tendas, outros em casas, outros espa- lhados pelo campo sem ordem nem disciplina militar, nem outros dormidos, outros estrovinhados com a artilharia dos inimigos, senão mui bem apercebidos, vigiando tôda a noite precedente mui a ponto, e com as armas nas mãos em tôda a boa ordem e disciplina de guerra, que sempre guardaram; e andando o seu capitão correndo as estâncias em cima de um cavalo, provendo continua- mente em tudo, com grandíssimo esforço e diligência. Nem a batalha foi dada de noite, senão de dia, nem com a brevidade e pouca resistência que o Autor diz, por os portugueses se pôrem logo em fugida; senão que acometendo os ini- migos nossos valos, e começando-se o combate dêles e batalha em saindo o sol, se continuou com mui grande esforço dos cristãos, pelo dia todo até que se pôs, sem nunca jámais os nossos terem um só momento de descanso, nem deixarem de andar numa roda viva de saírem dos valos a pelejar no campo com os moiros, ora uns capitães, ora outros, e tornarem-se a recolher; e de cada vez que saíam, levavam os moiros e turcos por muito espaço deante de si, pelo campo, ma- tando e fazendo neles mui grande estrago. Mas, como não tinham mais que oito cavalos, pelo que, não podiam seguir o alcance dos inimigos e * lhes era .fi. 338 v. forçado tornarem-se [a] recolher aos valos, nestas voltas perderam sempre os nossos muita gente. E como os moiros eram tantos milhares, e os nossos não chegavam a 340, e os abexins que estavam em o nosso arraial, se estavam à mira, sem nunca quererem sair dos valos para os ajudarem, quando davam nos moiros e os seguiam, ficando os nossos sós na briga, se iam deminuindo cada vez mais; e os que ficavam não se podiam já bulir de cansados e quási todos feridos. Pelo que, andando a batalha até à tarde sem se declarar a vitória, neste tempo começaram os inimigos a entrar nossos valos, do que sendo avisado
  • 374 Livro quinto Dom Cristóvão da Gama, que já estava mui mal ferido de duas espingardadas: uma que lhe atravessou uma perna, e outra, que lhe quebrara o braço direito, com que pelejava, esquecido das feridas, e tomando a espada na mão esquerda com grande furor arremeteu para aquela parte, dizendo aos seus que quem o quisesse seguir, o fizesse, porque êle ia morrer no meio dos [injimigos. Porém aqui, vendo os nossos que com êle estavam, sua determinação, com grande força o detiveram, dando-lhe muitas razões para que se quisesse antes retirar e ver se podia salvar a vida sua e dos mais companheiros que ainda a tinham, pois com ela se podia depois restaurar aquela perda; e tomando-o por fôrça nos braços o puseram em um cavalo, e os mais companheiros com êle, tomando a rainha deante de si, com seus abexins, se saíram do arraial para uma serra que ali estava perto. Mas, como isto era ja á bôca da noite, e a rainha com sua gente e alguns outros portugueses iam deante, em breve a perdeu Dom Cristóvão de vista; e assim, ela foi por uma parte e se pôs cm salvo, com os que com ela iam; e êle com catorze companheiros, tomando por outra, an- daram tôda a noite por aqueles matos, até que amanhecendo foram dar com uma fonte, onde se puseram a descansar, e curar as feridas. •Fí.33g. Mas foi Deus servido que estando ali, vieram dar de súbito * com êle muitos moiros de cavalo, dos que andavam buscando os nossos, os quais prenderam a êle e aos demais, e com grande festa o levaram a El-Rei de Zeila, que com a mesma o recebeu; mas o tratamento que lhe fêz, foi qual se podia esperar de um moiro tão cruel inimigo do nome de Cristo como êste era; o qual o mandou despir nu, e com as mãos atadas, e uma corda ao pescoço, o fêz levar por seu arraial, dando-lhe muitos açoites e bofetadas com as alparcas dos pés de seus escravos. E levando-o deante dos capitães, lhe diziam que lhes fizesse salema(i), e tirando pela corda, o derrubavam no chão, dando-lhe muitos coices e pan- cadas, que se tornasse a levantar. Tornando-o depois a El-Rei, lhe mandou fazer das barbas torcidas com cera, e depois pôr-lhe o fogo, e com uma tenaz lhe mandou pelar as pestanas e sobrancelhas, e atanazar a carne de que lhe corria muito sangue; o que tudo o esforçado e católico capitão sofria com admirável paciência, e com os olhos sempre pregados no céu, pedindo a Deus perdão de seus pecados, e oferecen- do-lhe sua alma. Mandou-o depois o Rei desatar, e por escarnecer dêle, cobrir com um pano sujo e vil, dizendo-lhe entre outras coisas, que lhe perdoaria a vida e lhe faria mercês e honras, e o deixaria embarcar para a índia com todos os seus que se achassem vivos, com condição que os mandasse chamar donde quer que estivessem, que se viessem para êle. Ao que respondeu Dom Cristóvão: «Moiro, se tu conhecesses quem são portugueses, não falaras coisas de vento. De mim podes fazer o que quiseres, pois estou em teu poder; mas sabe certo que ainda que me desses ametade do teu reino, nem um só português faria vir para ti, porque os portugueses não costumam viver com moiros, que são sujos •Ki. 339v. # e inimigo[s] da santa Fé de Cristo meu Senhor». Com a qual resposta o moiro se indignou de feição, que levantando-se donde estava, e arrancando seu terçado, com suas mãos lhe cortou a cabeça, honrando (1) Nt.: solemá.
  • Adição à Relação das coisas dc Etiópia 3y5 Deus o seu cavaleiro com, no lugar onde o corpo caiu e seu sangue se derramou, se abrir milagrosamente uma fonte de água, com que depois saravam os enfer- mos cristãos que com devoção iam ver aquele lugar; e fazendo outros milagres, que em Etiópia são mui celebrados, sendo de todos havido por mártir, como piamente se pode crer que foi, assim por sua muita paciência, como pelo ódio dc nossa santa Fé com que aquele inimigo dela lhe tirou a vida. Sentiram muito os turcos a morte de Dom Cristóvão, e se desavieram com o moiro por amor dela, pelo muito que desejavam de levar vivo ao Grão Turco um tão prin- cipal e grande capitão, e irmão do Governador da índia. E porque depois desta rota e morte de Dom Cristóvão, os portugueses que ficaram vivos, se foram ajuntar com a rainha, e pouco depois com o Preste-João seu filho, e com éle tornando outra vez sôbre El-Rei de Zeila lhe deram batalha, em que o venceram e mataram, e acabaram de livrar tôda a Etiópia do poder dos moiros; e o Autor do livro, contando também êste sucesso, o refere por mui diferente têrmo do que passou, declararemos aqui a verdade de tudo. O que o Autor sôbre isto diz [pág. 36i] é o seguinte, e por estas palavras: Mientras estas cosas passavan en el Reyno de Adel, el Preste Iuan baxava con un copiosíssimo campc, que cubria los campos, los montes, y valles, y qui- tava la lti\ de la tierra, donde avia mas de seiscientos mil hombres. A tres, o quatro jornadas antes de llegar al reyno de Adel, encontro con muchos de los suyos que huyati,y con algunos Portugueses que le dieron las tristes nuevas, de todo lo que passava, y de la muerte de Christoval de Gama. Grande fue su • mosta\a, y enojo con la desgracia, mas corrido * algo de mostrar sentimiento • ki. 340. por tales pajuelas, compuso su semblante, e con una fingida risa, dixo: Pues a fe, a fe Gradahametes que algun dia me pagareys tantos agravios,y no tardara mucho el castigo. O ilustre Capitan Gama dichoso fuiste, pues padeciste una muerte tan gloriosa: alegrate, pues tienes un Emperador que vengara tu muerte y doy palabra, que ni el Rey de Portugal mi Hermano, ni el Visorey de la índia Hermano tuyo, se podran quexar de mi en ningun tiempo. Y marchando fpág. 362] a buela pie toda aquella numerosa muchedumbre, alegres y conten- tos, dando mil saltos de pla\er, dieron sobre los Moros, hallandolos tan descuy- dados, que estavan aun ha\iendo mil danças y bayles por la vitoria passada, pero presto se bolvieron en tristes lagrimas: porque estando el Rey de Grada- hametes dando saltos y brincos, le cojio en el ayre una dichosa bala, que le tra- vesso los costados, y dio con el muerto en aquellos campos. Bem mostra o Autor que leu a história de como isto passou; mas no referir dela, falta no principal. Primeiramente o lugar e província onde estas batalhas passadas se tiveram, não foi no reino de Adel, que está dali mui longe e ao longo da costa do mar Oceano, mas no meio do sertão de Etiópia e reinos do Preste-Joáo. Ale'm disso nem o Preste-João, quando chegou, usou dêstes feros que aqui finge, e ameaças contra El-Rei de Zeila; nem teve por coisas de pa- juelas o caso e morte de Dom Cristóvão, para se correr de mostrar por êle o grandíssimo e mortal sentimento que teve, quando o soube; nem finalmente trouxe consigo o inumerável exército que o Autor finge. Mas o que nisto houve, refere Miguel de Castanhoso, como testemunha de vista, que a tudo se achou presente, desta maneira.
  • 376 Lii>ro quinto Recolhida a rainha naquela serra que estava junto do lugar da batalha, com * os seus e alguns outros portugueses que a acompanharam, os feridos que não podiam andar tão de-pressa, se foram pouco a pouco, ajuntando com ela, porque *fi.34ov. mandou ela muitos dos seus que por várias partes * os fossem buscar, e trou- xessem aonde estava. Ali se curaram, e descansaram alguns dias com ela, que pelas diligências que mandou fazer, teve também recado da prisão e morte de Dom Cristóvão a quem ela por várias partes mandou buscar. E quando soube o que era feito dêle, não se pode com palavras encarecer os prantos e senti- mentos que sobre êle fêz. Foram os portugueses que ali se ajuntaram, como cento e vinte, com os quais fazendo a rainha conselho, se assentou que se passassem para a serra dos Judeus, que atrás dissemos fôra conquistada por Dom Cristóvão, para ali es- perar ao Preste que a ela havia de vir deferir. Estando ali, no cabo de vinte dias chegou o mesmo Preste, mas não com seiscentos mil homens, como diz o Autor, senão com tão pouca e tão triste gente, que não tivera poder para tomar esta serra aos moiros, se já não estivera tomada pelos nossos. Aqui soube o Preste, da rainha sua mãe e dos mais, tudo o que tinha passado; e foi tão grande o sentimento e tristeza que teve pela perda e morte de Dom Cristóvão, que não • havia consolá-lo. Chamou os portugueses todos, e lhes falou com grande beni- gnidade, consolando-os e dizendo-lhes que se não houvessem por estranjeiros e desamparados em seu reino, porque êle o tinha por de El-Rei de Portu- gal, seu irmão, pois com o sangue de seus portugueses, verdadeiros cristãos, fôra comprado; e a todos proveu logo mui copiosamente de todo o neces- sário. Esteve nesta serra alguns meses, emquanto se lhe foi ajuntando alguma gente; e tendo já como 5oo de cavalo e oito mil de pé, vendo os portugueses que com esta se podia já dar batalha aos inimigos, lhe fizeram uma fala, rogan- do-lhe muito lhes desse aquela gente, para com ela irem buscar os moiros e •Fi.341. vingarem a morte de Dom Cristóvão. Duvidou o Preste, * por lhe parecer pouca; porém apertando os nossos com êle, veio em o fazer, e se partiu dali a seis de Fevereiro do ano de 1543. Eram os portugueses já então i3o, em que havia alguns aleijados que o Preste dizia que ficassem; mas eles o não consentiram, senão que juntamente haviam de ir morrer com seus companheiros. Marchou com seu campo em busca do moiro, que estava alojado junto da alagoa que atravessa o rio Nilo, o qual teve logo novas da ida de Cláudio, ficando mui espantado, quando lhe disseram que havia ainda portugueses, porque cuidava que todos eram mortos. Chegou o Preste à vista do moiro; assentou seu arraial, e antes de virem às mãos, se passaram alguns dias em que houve muitas escaramuças, principalmente dos portugueses de cavalo, que eram 70, com os moiros. Finalmente vieram a romper batalha campal, seis meses depois de nossa rota. Tinha o moiro em seu campo treze mil homens de pé e de cavalo, e duzentos turcos. Os de El-Rei Cláudio não chegavam a oito mil de pé, e 5oo de cavalo, em que entravam 70 dos portugueses, aos quais querendo El-Rei Cláudio dar capitão, êles lhe res- ponderam que, pois tinham perdido seu capitão, Dom Cristóvão da Gama, não haviam de ter outro senão a êle e à bandeira da santa Misericórdia, a qual le-
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 377 vavam arvorada, pedindo-a a Deus, pelos merecimentos da Virgem Nossa Se- nhora da Piedade, que nela ia pintada. Começou a batalha em amanhecendo; e os nossos portugueses se concer- taram todos de não intenderem mais, no primeiro encontro, que com os turcos que vinham deante, e com o rei moiro, onde vissem suas três bandeiras, que era a divisa de sua pessoa. Assim o fizeram, dando com tão grande ímpeto nos inimigos, que logo deixaram mortos mais de 5o turcos; e os nossos arca- buzeiros de pé se * meteram tanto pelos esquadrões inimigos em busca do rei, • fi. 341 v. que vendo-o andar esforçando e bradando aos seus, e com êle um seu filho mancebo, tantos tiros lhe fizeram, até que um o acertou pelos peitos, e caiu logo de bruços sobre o arção deanteiro do cavalo; o que vendo os seus, lhe acudiram, e abatendo as bandeiras o levaram fugindo; e seu exército se começou a desbaratar e pôr em fugida, indo-lhe os nossos no alcance, matando a todos, sem perdoarem a grande nem a pequeno. E pela detença que faziam em matar, teve lugar a rainha para escapar, fugindo com 400 de cavalo que a acompa- nharam. . Concluíu-se a batalha com se trazer a cabeça de El-Rei moiro ao Preste, e o príncipe seu filho cativo, e ficar seu arraial em poder dos cristãos, com tudo o que nele havia, e recuperação do que na rota passada nos tinham to- mado, liberdade de grande número de cativos cristãos, homens, mulheres, me- ninos que nele tinham, e sem morte de um só português, que foi coisa de grande admiração. E com esta vitória acabou El-Rei Cláudio de recuperar todo seu império e terras que os moiros lhe tinham tomado, e ficar senhor dêle. Porém, porque o Autor continua por deante, exagerando esta vitória de El-Rei Cláudio, e dizendo dela coisas que nunca passaram, não podemos deixar de concluir esta matéria, com declarar a verdade de tudo o que nela passou. Diz pois o Autor assim [pág. 362]: Muerto el Rey, a todos los snyos se les murieron los cor açoites; y viendo aquella muchedumbre de gente que descargava sobre ellos, dieron a huyr, enjla- quecidos, desmayados y debilitados, asaltadas las almas y juy\ios con aquel so- bresalto. Pero los valientes Etíopes dieron en aquel batallon de los Moros, htnendo y matando con la braveza y cólera, qual la vengança de tales agravios pedia. Era un Juy\io y asotnbro ver y oyr el temeroso ruydo de las trompetas V caxas, el rebramar de la arcabiqeria, el rugir de las balas, la ferocidad de los cavai los, el quebrar * de las lanças, el caer, el gritar, las bo~xes, los alaridos, los suspiros, las heridas crueles, las muertes desapiadadas, los arroyos de sangre, el polvo, el humo, la confuston. Y esto es guerra? El Emperador Cláudio, como animoso y valiente, vestido de una fuerte corada hasta media: pierna de piei de Elefante, con su rodela a\erada, y con lança de dos hierros, puesta su visera y hielmo con una banda de carmesi, colgada de la cabeça, se metia por los esquadrones mas cerrados de los enemigos; y los tratò de arte, que no dexò alguno que no muriesse a sus manos, o no huyesse de sus manos. Murieron cosi todos los Moros, dando mil gritos que hundian los cielos, llamando a su Mahoma: sino que como está en el inferno, no los oyò. A o quedo contento con este castigo el Preste Iuan, ni satisji^o el desseo de vengança con las muertes de aquellos Moros; sino que como un rayo, y con
  • 378 Livro quinto una braveza que salia de madre, determino de una ve; quitar Ian penoso y enojoso enemigo de sobre sus espaldas: y assi entrando por el Rey no de Adel, no dexò lugar ni villa que 110 quemasse, y derribasse. Y fueron tantos los Moras que murieron a manos de los Christianos Etíopes, que se pudo de\ir por via de encarecimiento gracioso: « Que seno infernal podia bastar a recebir tantos diablos como alia entravou» ? Basta que siendo un reyno muy poblado,y de in- finita gente, y tau grande, que teria trezentas léguas de circuyto, apenas que- daron vivas quatro mil personas. Derribo fortalezas, hi\o otras de nuevo en los passos mas importantes;y trayendo gente de la Etiópia, para que poblasse aquel Reyno, dio los puertos a los Portugueses, con sus fortalezas, para que ellos los guardassen de los Moros de la Arabiay se pudiessen recoger las ar- madas de Portugal quando van y vienen de la índia. Este fui tuvieron las ■ guerras dei Rey de Adel. Isto diz o Autor por estas próprias palavras; tudo porém é uma mera ficção poe'tica, que ele em seu entendimento traçou, ou quem quer que o informou, mas não de coisa que no mundo passasse. E para que se veja a verdade de tudo, se há de saber que El-Rei Cláudio, depois desta última batalha, a qual se deu ao longo da alagoa do rio Nilo, não entrou no reino de Adel, mas teve • fi. 342 v. assaz que fazer em tornar a recuperar suas terras, que os * moiros lhe tinham conquistado, e reduzir à sua obediência os povos e capitães que, ou por rnêdo ou por malícia, se tinham lançado com o moiro. E nisto gastou bem de meses. Nem depois da vitória passou dali do lugar onde a alcançou, mas ali invernou com tòda sua gente. E os moiros que escaparam com a rainha, se foram ao reino de Adel, o qual, tirando a perda de gente que morreu na batalha, que não foi a multidão que o Autor diz, pois dos treze mil homens que o moiro tinha, escaparam muitos, em todo o mais ficou tão inteiro como dantes estava; nem El-Rei Cláudio entrou por êle, nem lhe tomou, não só vilas ou cidades, mas nem um(i) palmo de terra; nem fez fortalezas, nem entregou as marítimas aos portugueses; e o sucessor de Gradahametes, não somente nunca se sujeitou, nem reconheceu obediência a El-Rei Cláudio, antes foi sempre continuando na guerra contra êle, que por si ou por seus capitães lhe fazia. E pôsto que com a ajuda que tinha dos portugueses, de ordinário os vencia, por derradeiro (permitindo-o Deus assim em castigo da sua perfídia e da rebe- lião tão pertinaz que teve contra a Igreja Romana, e obstinação com que resistiu ao santo Patriarca Oviedo, no negócio da redução, e dar obediência ao Papa) sucedeu que no mês de i\larço do ano de 1559, vindo contra êle um capitão de El-Rei de Adel, por nome Noor, e dando-lhe batalha em Quinta-Eeira de Endoenças, o venceu e matou miseravelmente, como seus pecados e heresias mereciam. Mas correndo os tempos, e continuando-se a guerra entre El-Rei de Adel e os reis de Etiópia, que sucederam a Cláudio, aconteceu que no ano de 1377(2) (reinando em Etiópia o Imperador Malaseguet, filho do tirano Adamás, de que •Fi.343. atrás se falou, e tendo em seu reino muitas guerras civis, que lhe,* faziam (1) Nt.: nenhum. (2) Nt.: de i557.
  • Adição à Relação das coisas de Etiópia 379 alguns grandes do reino, que contra êle se rebelaram, e estando o reino com isto muito perturbado e perdido) vendo esta boa ocasião Robus Mamede, rei que então era de Adel, com poderoso exército entrou por Etiópia, conquistando muitas terras, até chegar às principais e melhores do reino. O imperador Ma- laseguet, ainda que contra parecer de quási todos os seus, por conselho porém do capitão dos portugueses, que então era Francisco Jácome, lhe saiu ao en- contro, e com a gente que pôde ajuntar dos seus naturais, e com os portugueses, que eram os em que mais confiava, se pôs à vista do moiro; e não hav do mais em meio que um rio de que uns e outros bebiam, depois de muitas esca- ramuças, e batalhas que com êle tiveram, finalmente o puseram em estado, que o moiro deixou o campo e quanto nêle tinha, e com os principais capitães e alguns outros que o quiseram seguir, se pôs em fugida. Mas por derradeiro, assim êle, como todos os mais, foram tomados e trazidos deante do Preste, o qual, assim ao rei como aos outros capitães principais, mandou cortar as ca- beças, em que entraram três filhos do capitão Noor, que matara a FJ-Rei Cláudio. Tomaram-se ainda aqui no despojo três peças de artilharia nossas, e o capa- cete e saia de malha de Dom Cristóvão, que os nossos grandemente esti- maram. Esta batalha e sucesso escreveram os Padres de nossa Companhia de Goa, na carta geral do ano de 78. E como foi havida no mês de Dezembro do ano precedente de 77, três meses depois da morte do santo Padre Patriarca Oviedo, se pode crer piamente que por seus merecimentos e rogos a concedeu Deus àquele pobre reino que então estava em tão miserável estado, pelos males do- mésticos que padecia, que só o braço de Deus lhe pudera(1) valer; e assim confessa o capitão dos * portugueses em sua relação, que foi esta vitória glo- • Fi.3*3v. riosa, e havida mais pela mão de Deus que por fôrça humana. E com tudo isto não deixou nem deixa de permanecer o reino de Adel, e ter contínuas guerras com o Preste-João. Mas parece que conserva Nosso Senhor aqueles poucos portugueses que há em Etiópia, que já agora são os des- cendentes dos primeiros que foram com Dom Cristóvão da Gama, para em se- melhantes ocasiões e perigos, terem mão naquele império, ainda que scismático, para que se não acabe de perder, até que Nosso Senhor seja servido inspirar no coração de Sua Majestade mandar-lhe socorro de outros soldados portugueses, que o próprio imperador e todo o reino, e principalmente os católicos desejam e pedem continuamente de 60 anos a esta parte, e até este presente, como se vê nas cartas que na relação atrás ficam referidas, que o rei e outros grandes escrevem a Sua Santidade e Majestade; aos quais Nosso Senhor queira mover os corações, para acudirem a uma emprêsa, a maior que hoje há no mundo, para aumento da Santa Igreja, conversão de tantos reinos e províncias tão grandes, salvação de tantos milhões de almas como neles há, as quais tôdas dependem só dêste remédio de Sua Majestade lhe mandar êste socorro, que para com Deus não há dúvida senão que será obra das mais meritórias que neste mundo fizer, e para o temporal e aumento de sua real corôa e glória, ainda dêste mundo, porventura a maior ocasião e emprêsa que nêle há; o que não (1) Nt.: lhe poderá.
  • 38o Livro quinto poderá facilmente entender quem não estiver bem nas histórias daqueles reinos e na notícia das coisas que neles há, com que esta emprêsa se pode facilitar ; pois não se pedem mais para ela que quinhentos ou seiscentos soldados portu- • fi.Jm gueses, que jun*tos com os poucos que lá estão, bastarão, assim para remir aquele império, dos inimigos que a destroem, como para o reduzir todo à obe- diência da santa Igreja Romana, e ainda da real coroa de Sua Majestade. Impresso em Lisboa, com licença da santa Inquisição, Ordinário e Paço, por Pedro Crasbeeck. Ano de 1611.
  • ÍNDICE RELAÇÃO ANUAL VOLUME TERCEIRO (5.° volume da i." edição) . Mg Licenças y Ao Leitor ' ' yii LIVRO PRIMEIRO Do que pertence à Província de Goa e suas Missões Capítulos: I— Da Província de Goa e do que nela se fez II — Da nova missão ao reino de Monomotapa e Moçambique III — Da missão do Mogor IV Do sucesso de algumas disputas que os Padres tiveram com os moiros deante de El-Rei V— Disputa que se teve sobre a imagem de Cristo crucificado e sua Divindade . .' i VI — Prossegue nas demonstrações que êste Rei faz no amor e afeição que tem a Cristo Nosso Senhor ! VII — Da jornada que o Padre Manuel Pinheiro fez de Lahor a Goa, e de Goa a Cam- baia, em benefício do Estado da índia 2( VIII — Da missão e descobrimento do Cataio, e do sucesso e fim que teve 2 Das coisas de Etiópia IX — Do estado temporal em que ao presente está o reino e império de Etiópia ... 3 X — De como EI-Rei se houve com os Padres, e coisas da redução à Santa Igreja Romana . X' De algumas coisas particulares do serviço de Deus, que se fizeram em Gorgorrá XII —Do que se fêz em Fremoná ^ XIII De alguns apertos em que os Padres por vezes se viram em Fremoná, e como Deus os livrou XIV — Algumas outras coisas de edificação, que sucederam em Fremoná Sj XV — Em que se dá noticia de algumas igrejas, rios, lagoas mais notáveis de Etiópia, e dos muitos reinos em que se divide aquele grande império 61
  • 382 índice da Relação LIVRO SEGUNDO Da Província de Cochim Capítulos: * i>ág. I — Do Colégio de Cochim, e suas Residências 67 II —Dos Colégios de Cranganor e Coulão, Columbo, e S. Tomé, e do que se fêz em seus distritos 70 III — Da residência do reino de Pegu, e Missão do reino de Sião 77 IV — Do que se fêz nos Colégios de Malaca e Maluco 87 V — Do que se passou na Missão do Maduré 89 VI — De algumas perseguições que o demónio levantou contra o Padre e mais cristãos 99 VII — Como dois cristãos do Maduré vieram a Cochim, e foi mandado para aquela Missão o Padre Manuel Leitão 106 LIVRO TERCEIRO Das coisas do Japão dos anos de seiscentos e seis, e seiscentos e sete [e das coisas da China] I — Do estado geral da Companhia neste reino II — Do estado em geral da Cristandade, e de algumas moléstias que em algumas partes se padeceram, e fim que tiveram 117 III— De como o Bispo de Japão, Luís Cerqueira, em trajos e forma de Bispo, foi vi- sitar ao Cubo, senhor do Japão, e dêle como tal foi recebido e acatado ... 120 IV — De úma comprida jornada que por bem da Cristandade que estava inui afligida, e promulgação do Evangelho que se impedia, o Superior da Companhia do Japão fêz ao Cubo e a seu filho; e dai, com a boa nova a tôda a Cristan- dade em vários reinos espalhada ia3 V — Da jornada que o mesmo Padre Provincial fêz à cidade de Yendo a visitar o Xògum, filho do Cubo, com o mesmo intento do bem da Cristandade e pro- mulgação do Evangelho 128 VI — Da volta que o Padre Provincial fêz a Surunga, e o que passou nela VII — De como o Padre se partiu de Surunga para o Meaco i3S VIU — Da jornada que o Padre fêz de Ozaca até Nangazáqui 142 IX — Das coisas que sucederam em Nangazáqui e suas Residências 146 X — De algumas coisas particulares de edificação que em Nangazáqui e suas Resi- dências sucederam 149 XI — De algumas missões que se fizeram de Nangazáqui a diversas partes i55 XII — Do que se fêz em Arima e nas Residências 139 XIII — De alguns casos notáveis e outras coisas de edificação que sucederam em Arima e seu distrito XIV — Da Cristandade do reino de Fingo, e do processo da sua perseguição 171 XV—Do que se fêz na cidade de Facata, do reino de Chicugém, e nas terras de Aquezuque 178 XVI — Do que se fêz na cidade de Ianagava, do reino de Chicungo 181 XVII — Do que se fêz no reino de Bugém, e de Bungo 187 XVIII — Do que se fêz na cidade de Firoxima 192 XIX — Do que passou em Iamagúchi 197 XX— De algumas coisas mais, que pertencem a esta missão de Iamagúchi 206 XXI — Do que se fêz na cidade do Meaco e casa reitoral dela 211 XXII — Do que se fêz na cidade de Fuximi 221 XXIII — Do que se fêz na cidade de Vozaca, Sacai, e reinos de Fococu 225
  • índice da Relação 383 Capítulos: Pág. XXIV — Das coisas da China, e do que se fez na Residência de Xaucheu e Nanchão . . 23i XXV—Do que se fez na côrtce cidade de Nanquim 233 XXVI — Do que se fez na cidade e corte de Pequim 235 LIVRO QUARTO I — Do que se fêz na costa da Guiné e Serra Leoa 23q II —Da missão que o Padre Baltasar Barreira fêz ao reino de Bena 240 III — Das coisas que o Padre fêz, tornando a Bena, e do que no caminho lhe sucedeu, e de alguns ritos destas nações 247 IV — Prossegue o Padre seu caminho, e o que nele lhe sucedeu 25o V — Do procedimento na Fé, de El-Rei Dom Filipe da Serra Leôa, e do que sucedeu às suas terras a58 VI — Do que mais fêz El-Rei Dom Filipe em seu reino, e conversões que nele houve 263 VII — Do que fazia El-Rei Dom Pedro, da Serra Leôa, para trazer os seus a receber o santo Baptismo 267 VIII— Do fruto que se fêz em alguns outros lugares da costa e terra firme de Guiné . . 277 LIVRO QUINTO Adição à Relação das coisas de Etiópia, com mais larga informação delas, mui certa e mui diferente das que seguiu o Padre Frei Luis de Urreta, tio Livro que imprimiu da História daquele império do Preste-João Prólogo 287 I — Do que se trata no livro àcêrca da fé dos Abexins 288 II — De algumas outas provas com que o Autor quer mostrar que os Abexins são católicos e obedientes á Igreja. DescoUre-se a falência delas 297 III — Da primeira vez que os Padres de nossa Companhia entraram em Etiópia, por causa da sua redução à Igreja Romana, e o que sôbre isso lhes sucedeu com o Preste-João Cláudio, que então reinava 3o3 IV — Da missão em que o Padre Patriarca D. João Nunes Barreto, da Companhia de Jesus, com outros doze Padres da mesma Companhia, foram mandados pelo Papa à Etiópia, para redução daquele reino 3i3 V — Da entrada do Padre Bispo Dom André de Oviedo em Etiópia, e do que passou com El-Rei Cláudio Preste-João. . . ' 3iy VI — Da sucessão de El-Rei Adamás no Império, e do que em seu tempo daí por deante sucedeu ao Patriarca e mais Padres 325 VII — Do que sucedeu ao Padre Patriarca e seus companheiros, depois da morte de El-Rei Adamás, e do que mais passava em Etiópia neste tempo 331 VIII — De como o Papa Pio V mandou, por um Breve seu, ao Padre Patriarca, que saísse de Etiópia, e o que sôbre isso diz-o Autor do livro 335 IX — Da calúnia e infâmia que, por ocasião deste Breve, o Autor impõe aos portu- gueses, e doutras coisas alheias da verdade, que com ela também diz . . . 346 X — De algumas outras coisas que o Autor diz em contrário da verdade, e em que êle mesmo se contradiz 35o XI — Do que passou o Padre Patriarca, e onde morou desde o ano de 67 até que morreu 353 XII — Em que se declara a verdade em contrário de algumas coisas apócrifas que no livro se contêem 363 XIII — Do que diz àcêrca do que fêz Dom Cristóvão da Gama em Etiópia; declara-se a verdade de tudo 369
  • Nota final da 2.a edição 3 O ano de 1927, tomou a iniciativa da reimpressão da Relação Anual de Fernão Guerreiro, o Ex.mo Sr. Dr. Joa- quim de Carvalho, ilustre lente da Universidade de Coimbra, e director da Imprensa da mesma Univer- sidade. Resolveu-se então que a obra se reimprimisse a expensas do Estado Português, nas oficinas da Im- prensa Universitária, e que o encargo de prefaciar e dirigir a nova edição fôsse confiado ao R. P. António Antunes Vieira, membro da Companhia de Jesus, que naquela altura vivia no exílio, na cidade de Pontevedra (Galiza) e ocultava o seu nome sob o pseudónimo de Artur Viegas que figura na portada dos três tomos da presente edição. Desde a primeira hora, quem escreve estas linhas foi amanuense e ajudante do R. P. Antunes Vieira nos trabalhos preparatórios, e logo na revisão das provas tipográficas. Mas esta coadjuvação durou só alguns meses. A primeira fôlha impressa da nova edição (1) recebemo-la em Pon- tevedra no dia i5 de Janeiro de 1928: já lá vão mais de 14 anos. Em Maio seguinte fomos nós para o colégio de La Guardia, em frente de Caminha, e só em Julho pudemos voltar a Pontevedra, para auxiliar no seu labor ao R. P. Antunes. Êste, por sua vez, passou em Setembro para o colégio de La Guardia, onde nós ficámos também a residir, mas sem o podermos ajudar nos seus trabalhos, por no-lo impe- direm ocupações mais urgentes. A reimpressão continuava lenta; entre- tanto o R. P. Antunes completava o seu longo e erudito Prefácio à Re- lação Anual; assinava-o em Janeiro de 1929, e logo no dia primeiro de Fevereiro seguinte, vitimado por uma congestão cerebral, dava a alma a Deus. quando a reimpressão do tômo primeiro estava ainda muito longe do um. Foi um grave percalço para a emprêsa começada. (1) As folhas, desde o princípio, eram de 8 páginas; depois da fôlha 24 do m tômo,come- çaram a ser de 16 páginas. 37
  • 386 Relação Anual Coube então ao R. P. Alexandre Coutinho Castelo (i), residente no mesmo colégio, a incumbência de levar a bom termo a impressão do tômo i, que saiu à luz em 1930. O tômo 11 foi impresso sob a direcção do R. P. António Pinto de Carvalho, professor no mesmo estabelecimento de ensino, e veio à luz pública em 1931. Da impressão do tômo m, que principiou em 1932, encarregou-se o R. P. António Júlio Gomes, então residente em Caminha, e hoje secretário do Mensageiro do Coração de Jesus. O R. P. Gomes passou pouco depois para Braga, e até 1933 continuou o seu trabalho até à fôlha 24 inclusivè. Foi então que sobreveio o maior percalço à Relação Anual. Naquele ano acabou a Imprensa da Universidade de Coimbra, suspendendo-se tôdas as obras que lá se estavam a imprimir. O original da Relação Anual já preparado para a imprensa, foi para Lisboa, com todo o recheio da Imprensa Universitária. Desde o ano de ig33 até ao ano de 1939 ninguém soube dar conta da Relação Anual, nem se pôde saber se era possível continuar a sua reimpressão. Por fim o R. P. Gomes, descoroçoado, delegou em nós o encargo de levar isso a efeito, se fôsse possível. Em Fevereiro de 1939 dirigimo-nos pessoalmente à Imprensa Na- cional de Lisboa, onde falámos repetidas vezes com o pessoal direc- tivo, conseguindo-se felizmente que aparecesse o original da Relação Anual. Oferecemos então os nossos serviços para se continuar e levar a cabo a reimpressão de obra tão importante; mas respondeu-se-nos que não podia ser, sem ordem expressa do Sr. Ministro do Interior, e que a administração da Imprensa Nacional não podia tomar a iniciativa de solicitar o despacho do Sr. Ministro. Em vista desta declaração, tomámos nós a iniciativa; recorremos ao' Sr. Ministro, e passado pouco tempo, veio o despacho favorável. No dia 24 de Setembro de 1939 recomeçava a impressão da Relação Anual. Sobrevierem, porém, pouco depois, as festas centenárias, e a Im- prensa Nacional viu-se obrigada a imprimir obras mais urgentes. Por tôdas estas causas é que o terceiro e último tômo da Relação Anual, começado em 1932, só agora em 1942 sai à luz da publicidade. Duas palavras sôbre o índice Alfabético. Entrava no plano do R. P. Antunes publicar no fim do 111 tômo um índice alfabético ou ideológico de tôda a obra; e por isso tratámos de o confeccionar o melhor possível. (1) Faleceu a 25 de Janeiro de 1937 no Colégio das Caldas da Saúde (Santo Tirso).
  • Nota final da 2* edição 387 Surgiu, porém, uma grave dificuldade. Embora esta 2." edição tenha ganhado muito com a actualização da ortografia, desaparecendo a in- crível e desconcertante anarquia da edição primitiva, contudo, a-pesar da boa vontade de todos, verifica-se por exemplo que os nomes próprios e palavras exóticas do Japão, da China e de tantas outras regiões do Mundo em que trabalhavam os Jesuítas de Portugal, vêem grafados, não de uma só maneira, como era bem, mas de modos tão diversos, que não sabe a gente muitas vezes, se representam uma só, ou se muitas pessoas ou coisas diferentes. Que fazer neste enleio? Nós julgámos do nosso dever, seguir êste partido, para utilidade dos leitores. Depois de verificarmos pacientemente que duas ou mais grafias eram apenas variantes do mesmo nome, regis- támos no índice Alfabético aquela que nos pareceu mais razoável, e logo a seguir, em parêntese, arquivámos tôdas as outras grafias boas ou más. Sucede porém que algumas dessas variantes são simplesmente erros que se devem expungir, por serem apenas deslizes de copistas, de tipó- grafos, e de revisores. Nestes casos, menos frequentes, seguimos a regra seguinte. A grafia errada vai em parêntese, como as outras variantes, a título de inventário; mas, em seu lugar competente, entra também no índice alfabético, acrescentando-se apenas que é êrro. e remetendo para a grafia legítima. Dêste modo o leitor fica livre de cuidados e pesquizas enfadonhas. Em todo o caso não nos atrevemos a afirmar que fiquem soluciona- das tôdas as dúvidas que possam surgir. Pode muito bem suceder, mais de uma vez, que o leitor curioso, com êste índice na mão, aproxime dois ou mais nomes que nós damos por diversos, e verifique afinal que são apenas variantes de um só e mesmo nome. Ainda bem, se o caso se verificar, pois nisso nós nada perdemos, e em compensação ganhará a verdade histórica. Colégio das Caldas da Saúde (Minho), 6 de Maio de 1942. Júlio de Morais S. J.
  • Correspondência entre a i.a e 2.a edição A segunda edição consta de três tomos: Tômo i —abrange o i.° e o 2.0 da i." edição. Tômo ir —abrange o 3.° e o 4.0 da i." edição. Tômo m—corresponde ao 5.° da i.a edição.
  • f índice Alfabético Abacamete, regiáo de Etiópia, m, 343. Abagamedri (Abagadamedri) na Etiópia, m, 32, 48, 62, 65 e 66. Abamaria, frade etíope, grande letrado, amigo da Igreja de Roma, 111, 38. Abba Guarima (Abagarimá), igreja e mosteiro de Etiópia, 111, 62 e 3o3; o Bispo André de Oviedo desterrado para junto de, 331. Abdula Isac, ou Jesus, entre os moiros do Mo- gor, iii, 26. Abdulá Xhá, governador dos reinos do Tamer- lão, no Mogor, 11, 359. Abduxão, rei de Husbec, na Ásia central, 1, 3o3. Cf. Usber. Abetocon Joannes, Acenafe Sagued, senhor de Tigré e de Abacamete, na Etiópia, amigo dos portugueses, iii, 343. Abexim ou Abissínia, 1, 310. Ver Etiópia. Abexins, os naturais da Abissínia; erros dos, 1, 352 e 356; 111, 287 sgs., e 332. Ver Etiópia. Abibe, frade etíope, do mosteiro de Baganá, n, 180. Abibiá. província de Etiópia, n, 401. Abissínia ou Etiópia, Jesuítas na, 1, pp. vi e viu. Ver Etiópia. Abmadabat, capital de Cambaia, no Mogor, n, 378. Abraão, Padre. Ver Georgis. Acaricamon, é erro. Ver Acaxicamão. Acaxicamão (Acaxicamon, Acaricamon, Aca- xicamandono), D. Joáo, japonês, cunhado do rei de Bijém, Bijeno Chunugandono; grande cristão, 1, 67-68,116 e 117; na guerra contra o usurpador Daifuçama; vencido, desterrado, i55-i36; faz exercícios espirituais, quere fa- zer-se Jesuíta, 183-184; depõe num processo de martírio, 11, 269.—1, 2o5 e 224. Acçumo (Acaxumo, Axum), igreja e mosteiro de Etiópia, fundado pela rainha Candace, m, 62 e 362. Achém, reino da ilha Samatra, 1, 49, 276 e 295. Achequi, japonês, capitão de Nobunanga; re- volta-se, morre, 1, 57 sgs., e 62. Adamás ou Mena, rei de Etiópia, sucessor de Cláudio; perseguidor, derrotado pelos turcos, morre, 1, 356; 111, 325-327; crueldades contra o Bispo Oviedo e católicos, 328-33o; um fi- lho de, rei de Etiópia, 353; fantasias de Ur- reta acerca de, 33o.—m, 33i, 334 e 348. Adão, montes de, na Arábia, t, 364. Adem, pôrto de, na Arábia, 111, 23. Adel, rei de, na Etiópia sul, m, 65, 362, 369 e 370. Admocon, ministro abaixo do vice-rei, na Etió- pia; persegue os Padres e os cristãos, in, 53- 55, 59 e 60; repreendido e prêso, 56; dester- rado, arrepende-se, 57. Adultério de Frangues, livro dos herejes de Alexandria contra os católicos, m, 3o6. Afonseca, P. Jorge. Ver Fonseca. África, Jesuítas na, 1, pp. vm e x. Agá, província de Etiópia, m, 66. Agá, Rezoáo, turco, criado do baxá de Sua- quém (na Etiópia); em Dio, leva o P. Pero Pais à Etiópia, 1, 362-365; morre, 366. Agaos, cristãos brancos da Etiópia, ni, 32. Agapito, Santo, igreja de, na Etiópia, 111, 62. Agiscoa, colaço do rei Aquebar (Mogor); capi- tão e chanceler do mesmo, 1, 298, 299 e 302; castigado pelo novo rei, reconciliado, n, 379. Agnus-Dei, relicário, virtude do, contra o de- mónio, iii, 211 e 221; contra o fogo, 227. Agostinho, Dom, Teuno Cami (Teunocami) (Conixi, Tucnono, Camidono Agostinho); grande cristão japonês, capitão general de Taicoçama, na guerra da Coreia (Corai), 1, 63; amor de, à Igreja, 71, 72, 92 e 114-116; havia mais de cem mil cristãos nas terras de, 136; lealdade de; entra na guerra contra o usurpador Daifuçama, 124,129-133, 136-140, 143 e 144; vencido, prisioneiro, decapitado, sepultado; insigne bemfeitor da Companhia
  • 3go Relação Anual de Jesus, sufrágios em tôda a Companhia, carta de, 146—154; exéquias de, 224 e 225.— 68, 69, 71, 72, 78, 79, 92, 94, 96, 100, 114, u5, 129, 131, 133, 136—138, 140, 143, 144, 160, 162, 171, 174, 177, 186, ig3, 196, 204 e 214; h, 5o e 246. Agra, cidade e segunda corte do reino do Mo- gor, 1, pp. viu, 296, 299, 3o3, 307-309,311, 371 e 372; residência de, igreja de, à europeia, 11, 358, 36i, 367, 369 e 370; conversões em, 374 sgs.; endoenças e procissão de penitên- cia em, 377, m, 20; os Jesuítas de, disputam com os moiros durante um mês, m, 8-14; disputam com o rei sôbre a castidade, 17- 18; paços reais de, ornados de muitas pin- turas sagradas, 15— 16; B. de Góis em, 25. Águeda, japonesa cristã, esposa de Faitó Hen- rique, 11, 63. Aguós, gentios da Etiópia, 11, 403. Ahchanam, ou beata de Meca, irmã do rei de Cascar (Ásia central), ni, 25 e 26. Aicba, lagoa de Etiópia, m, 63. Aier ou Padre, no Madure (índia), «1,102. Alá e o seu profeta Mafoma, na Guiné, in, 245. Alahabec, terra do Mogor, 1, 307. Alazarat (Mazarat) Icam ou Senhor Jesus, no Mogor, n, 372. Albergaria, Sebastião Soares de, na batalha naval contra os holandeses em Malaca, ren- de-se o galeão de, 11, 3i5. Alberto, cristão do Maduré, instruído e bapti- zado pelo P. Nóbili, 11, 329-331; zêlo de, ra, 92-93 e 109. Albuquerque, Afonso de, retrato de, oferecido pelos Jesuítas ao rei do Mogor, 1, 297; manda descobrir as Molucas, n, 3o3. Albuquerque, Matias de, vice-rei da índia, des- pede-se dos missionários que vão para a Etió- pia, scena patética, 1, 358. Alcorão, a bíblia de Mafoma, doutrina do, 11, 113. Ale, pôrto de, reino de, na Guiné, 1, 403; o Vi- sitador do Bispado de Cabo Verde, no pôrto de; o P. Barreira faz doutrina e procissão solene em, 111, 278-279. Aleixo Naique, zeloso cristão do Maduré, m, 92 e 93; renuncia às coisas do mundo, 98-99, 104 e 108. Aleixo, P. Paulo, parte de Goa para o Mono- motapa, em Moçambique, ui, 5. Aleluia, convento da, na Etiópia, 111, 3oo e 3o2. Alepo, naturalidade do P. Abraão de Georgis, mártir, 1, 359. Alexandre III, rei de Etiópia, é fábula de Ur- reta, m, 35o-354 e 361. Alexandre VI e as conquistas de Portugal, di- reitos de Portugal sôbre as Molucas, 11, 304. Ver Maluco. Alexandria, cidade de, 1, 293; Patriarca de, he- reje, mentor dos cristãos da Etiópia, 111, 388, 3o3 e 307-310. Alfândega de Dio. Ver Dio. Alianças, rio das, na Serra Leôa, 1, 408. Almas, cristãos, à conta dos Jesuítas no Oriente, 1, 3. Almeida, Irmão Luís de (depois Padre), cirur- gião, no Japão, 1, p. xvii; generoso, esmoler, xvni e xxx. Almeida, P. Manuel de, parte para a Missão de Cabo Verde, Superior, morre cedo, 11, 415. Álvares, P. Francisco, presbítero secular, com- panheiro do embaixador D. Rodrigo de Lima, vive seis anos na Etiópia, escreve a história da embaixada, m, 3o2. Álvares, P. João, Assistente de Portugal em Roma, manda ao rei do Mogor um precioso quadro dos Reis Magos, m, 16. Álvares (Alvres), P. Manuel, parte para Cabo Verde, vai para a Guiné, companheiro do P. B. Barreira, trabalhos e fruto maravilhoso, ii, 415 sgs.; iii, 248; na Serra Leôa, 252-253, 260 e 261; no reino de D. Pedro e noutros reinos da Serra Leôa, 264-266, 269 e 273-276. Álvares-Pereira, D. Nuno, leva dois Jesuítas na armada do Vizo-Rei para Malaca, 11, 316. Álvares, Irmão Vicente, glorioso martírio de, perto de Dabul, ao norte de Goa, em um na- vio de Moiros, n, 349-350. Amacusa, ilhas de (Japão); residência de, colé- gio de, imprensa de, 1, pp. xxv, 62 e 92; cris- tandade de, quarenta e cinco igrejas, 95; 11, 18 sgs.—1, i3o, 136,162,170,176 e 192; n, 236; iii, 171. Amacusadono, D. João, japonês, cristão valente, 1, i5g e 224. Amador, canarim, correio dos Padres de Etió- pia, 111, 332 e 333. Amador Calistri, cristão do Maduré, 111, 94-95. Amanguche ou Amangúchi. Ver Iamangúchi. Amar, Soldão, rei moiro de Einão (Arábia), 1, 357. Amará, reino de Etiópia, in, 32, 39, 61 e 65. Amará, a língua mais politica da Etiópia; car- tilha da Doutrina Cristã, composta pelo P. Pero Pais na língua, 11, 65. Amará, monte de Etiópia, fábulas de Urreta sôbre o monte, 111, 290 e 36i-362. Amaral, P. Gomes de, mártir na ilha de Java, indo para as Molucas, 1, 268. Amaro, Santo, vila de. Ver Santo Amaro.
  • índice Alfabético Ambóino, ilha das Molucas, residência de, i, pp. xi, 49 e 5o; tristezas e desgraças, 266 sgs., 270 e 271; fruto em, 273-274 e 277; armada portuguesa em, guerra em, 278-283; os ho- landeses conquistam a ilha de, delicados ao princípio com os vencidos; dois Padres e vá- rios cristãos presos, desterrados, vão para Manila, n, 127-128; um Padre vai animar a cristandade de, 3i 1. Amida, deus do Japão, 1, 227 e 229; bonzo, filho de, desfnascarado por um Irmão Jesuíta, íu, i35-i37-—11, 247; iii, 208, 214, 215, 223 e 227. Amor filial de um cristão japonês, 1, 83. Amoucos, que se votam à morte, na índia, 1, 28 e 29. Ana, cristã chinesa,, avó de Jorge, mandarim em Xancheu, 11,122. Ana, esposa de Paulo, cativo coreano, no Ja- pão, iii, i56. Ana, cristã de Travancor, curada por S. Fr. de Xavier, 111, 72. Ana, Santa, baixos de. Ver Santa Ana. Anahel, homem principal de Etiópia, morre às máos do imperador Atanás Sagued, 11, 405. Anchieta, coisinhas do P. José de, conservadas milagrosamente, 11, 421. Ancocugi (Ancosugi, Ancolugi), bonzo japonês, inimigo dos Padres, mentor de Moridono, 1, 101 e 102; condenado à morte, 148-149; 11, 5o. Ancolugi, é êrro. Ver Ancocugi. Andrade, P. António de, descobridor doTibet, I, p. "VIII. André, cristão chinês de Macau, feito prègador, II, 93. André, juiz da costa de Travancor, curado por S. Fr. de Xavier, 111, 72. André, mane principal da Serra Leôa, baptiza- -se, w, 266. André, Padre, Bucério. Ver Bucério. André, Bartolomeu, português, na Serra Leôa, 11, 202 e 206-208; escreve das riquezas e clima da terra, carta de, ao rei de Portugal, 209- 212; P. B. Barreira e, 210-211. André, Dom Frei, Franciscano, Bispo de Co- chim, pede Jesuítas para Ceilão, 1, 325-326. André, Cuiamam, cristão japonês, em Xibú- qui, 11, 56. André, P. João, no Pegu, 1, 47-49. André, Santo, residência de. Ver Santo André. Andrevarão, lugar de Travancor (índia sul), 1, 234. Anga, pôrto de Bengala, é êrro. Ver Dianga. Angamale (Agamele), cidade do Malabar, 1, 28; Bispo de, 339; concílio diocesano de, 343.— 1, 371; 11, 335 e 336. Angeles, água de, n, 144. Ângelis, P. Francisco António de, parte de Goa para a Etiópia, carta de Dio, 11, 175 sgs.; na Etiópia, m, 293. Angigá, província de Etiópia, n, 401. Angil ou Evangelho, no Cataio, 11, 386. Angoi, rei de, em Angola, 11, 414. Angola, Jesuítas em, 1, p. vin; escravos de, no Brasil, 379; o rei de, quere paz com os por- tugueses, 398; das coisas de, 395-398; n,4i3- 415; viagem para a missão de, trabalhos sem conto de três Jesuítas, carta de, 191-198; queixas contra as autoridades militares de, 195 e 198. Angote (Angoté), reino de Etiópia, 111, 63 e 65. Anjá, senhor grande de Chatigão (Bengala), 1, 288. Anjo da Gnarda, devoção ao (no Japão), 1, 85 e 92. Ano-Novo, no Japão, muda-se em festa cristã, 1, 93. Antas, capitão Luís de, prisioneiro do Mogor, libertado pelos Jesuítas, com outros muitos cativos, n, 363. António, cristão zeloso em Riosógi (Japão), 1, 112. António, cristão japonês, governador de Nan- gazáqui (Japão), 11, 78. António, Frei, Capucho, irmão do P. João da Costa, Jesuíta, em Dio, 11,177. António, Irmão, em Iamangúchi (Japão), 1,136 e 207. António (Santo), igreja de. Ver Santo António. Antunes-Vieira, P. António (Artur Viegas), falece no Colégio de La Guardia (Galiza), 1, p. XLI. Anunciada, Confraria da (Congregação Ma- riana), em Goa, 11, 351; em Arima (Japão), iii, 159. Anziques, rei dos (Angola), 11, 414. Anzuquiama, cidade japonesa, 1, pp. xxvi, xxix, xxx e 58. Apiapetangas (Apiapitangas), índios bravos da capitania do Espírito Santo (Brasil), 1, 387 e 388. Apolona, lugar do Estado de Goa, 111, 2. Apóstolo das Gentes (S. Paulo), lema do, 1, p. ix. Aquebar (Equebar) ou Rei-Grande, rei do Mo- gor ou Gráo-Mogor. Ver Mogor. Aquerá, província de Etiópia, 11, 409. Aqui, reino de Japão, 111,142 e 193. Aquita, cidade japonesa, do reino de Deva, 11, 226 e 227. Aquizzúqui (Aquizuque), cidade japonesa, no reino de Chicujém, terras de, senhorio de
  • 392 Relação Anual Sogemandono Miguel, 1, 204 e 206; coisas da residência de, n, 59 sgs., e 277; m, 144 e 181. Arábia e Dio, comércio de, 11, 38y; os reis da, socorrem o rei de Adel contra os portugue- ses da Etiópia, m, 372. Arábio (língua árabe); Evangelho em, mos- trado pelos Jesuftas ao rei do Mogor, 11, 376. Araújo, ourives português, descobre prata na Serra Leôa, e vende-a, 11, 21 r. Arbó, província de Etiópia, 111, 66. Arco-Grande, índio amigo, da capitania do Es- pírito banto (Brasil), 1, 388. Areal ou Deserto, entre a China e a Pérsia, 11, no. Ária Perumal, gentio tirano da Costa da Pes- caria, defesa dos cristãos contra, 1, 36 e 37. Arie, residência de, no reino de Arima (Japão), 1, 87. Arim, província de Etiópia, m, 66. Arima, reino e cidade de Japão; príncipe cris- tão de, n, 9; cristandade de, 1, 87-92, 190- 193; 11, 233-243; m, 159-171; casa reitoral e residências de, 1, 87; m, 159; colégio e semi- nário de mais de cem alunos, 1, 190; 11, 234; mulher cristã de, vai ao inferno e conta o que viu, 111, i65-166; almas do outro mundo em, dois casos famosos, 11, 237-241; 111,166— 167; Bispo do Japão em, crisma dezassete mil pessoas, 111, 160; missão de, a Satçuma, iii, 169.—1, 61, 67, 68, 82, 86, i3o, 143, 159, 173,174,194,199, 201, 202 e 228; 11, 25o e 256; 111,146,172,174-176 e 178. Arimagão, terra e pôrto do reino de Bisnagá (índia oriental), 111, 77. Arimandono (senhor de Arima), Dom João. Ver João. Arimandono (senhor de Arima), Dom Protásio. Ver Protásio. Ario, reino de Etiópia, ni, 65. Aris, província de Etiópia, 111, 66. Arménio, cristão, valente e heróico, perante a morte, pela fé católica, no Mogor, 111,19. Arquico, pôrto de Etiópia, 111, 342. Arracão (Aracão), cidade, rei e reino de, ou dos mogos (Bengala); o rei de, é amigo dos portugueses e dos Padres, 1, 44-47; torna-se inimigo dos portugueses; guerras, 286-293; n, i33, 134,137,139,140 e 318; mata a Marcos de Brito e a outros portugueses, e cativa mi- lhares de pessoas, 319; batalhas ferozes do rei de, contra os portugueses, in, 77-84. Arriatos, certos negros da Guiné, 1, 404. Arte da Lingoa do Japam, 1, pp. xxn e xxv. Arte breve da Lingoa Japoa, 1, pp. xxu e xxvi. Ásia, Jesuítas na, 1, pp. vm e x. Asmeche Isache Barnegais, nt, 343. Ver Barna- gais. Asonodario, governador de Japão, 1, 65 e 66. Associação Luso-Japonesa, fundada em Tóquio, I, pp. xxxii e sgs. Atai, chinês, amigo dos Padres, em Xaucheu, II,122. Ataíde, D. Estêvão de, leva Padres Jesuítas de Goa para Moçambique, 111, 5. Atalicuri (Talicuri), lugar de Travancor, 1, 333. Atanás Sagued, Savenguil (Tigindil, Tingidil, Tindigil), imperador de Etiópia, primo do imperador deposto, Jacobo; começa a reinar em i6o3; bom e amigo dos Padres, carta de, ao P. Pero Pais, recebe-o, 11,170 sgs.; pede os livros da Justiça dos Reis de Portugal, 170; iii, 366; reina treze meses, morre em guerra civil, sucede-lhe o primo Sacinos du- rante quatro meses, e depois o primo Jacobo antes deposto, n, 400-405 e 408-410.—ra, 3i, 33, 34, 5o e 352. Atanateus Erás (Atenateus Arás) ou Cabeça de Atanásio, capitão etiópico, revoltado contra o imperador Atanás Sagued, 11, 401-402; morto o imperador, combate contra Zaze- lazé, camarada da véspera, pede conselho ao P. Pero Pais, e mostra-se bom e amigo, 406- 407 e 409; apoia a união da Etiópia com a Igreja de Roma, cartas de, ao rei de Portu- gal e ao Vice-Rei da índia, 111, 34 e 36-37-— n, 4o5; iii, 38 e 56. Atango, mosteiro de bonzos (sacerdotes gentios) do Japão, 1, 23o. Atango, cami ou ídolo japonês, perto de Meaco, 11, 82. Athanesenambaxá, arrenegado, cruel, rouba os portugueses no Mar Vermelho, m, 5i. Aucàguerlé, reino de Etiópia, 111, 65. Avá (Vuá), reino de, no Pegu, 1, 49, 57, 290 e 292; riquezas de, 11, 317 e 3i8. Ava, reino do Japão (há dois reinos com êste nome), 1, 57. Ver o mapa, p. xiv. Azevedo, P. Gaspar de, missão de, ao interior de Angola, 11, 413-414; morre, 415. Azevedo, Inácio de, índio da aldeia dos Reis Magos, na capitania do Espírito Santo (Bra- sil), 1, 386. Azevedo, Dom Jerónimo de, capitão-general de Ceilão, irmão do B. Inácio de Azevedo, már- tir, iii, 75.—1, 326; 11,149 e 344. Azevedo, P. Luís de, entra na Etiópia, um triunfo, carta de, 11, 180 e 397-400; na Etió- pia, carta de, 111, 293 sgs.
  • índice Alfabético Azevedo, Miguel de, índio da aldeia dos Reis Magos na capitania do Espírito Santo (Bra- sil), i, 386. Avexedá Pandará ou Sumo Sacerdote (Madu- re), III, ioo. Babilónia, Bispo de, manda no Malabar, i, 343; os Bispos de, e os cristãos de S. Tomé (Ma- labar), 11, 160. Bacácio, baía de, em Ambóino (Molucas), 1, 278. Baçaím, casa de, 1, 35o; colégio de meninos ca- tecúmenos, mãe das catecúmenas em, már- tires cristãos em, 351; conversões em, m, 2. Bachão (Baacham), ilhas de, reino de (Molu- cas), 1, 267; rei de, perseguidor, 11, 129.—11, 3o3 e 311. Bachalá, rei de (Bengala), n,i33 e 134. Baçurá (Bassorá), turcos no estreito de, opri- mem os cristãos da Mesopotâmia que pedem socorro à índia; projecto de expulsar os tur- cos, iii, 3. Badagá (Bagada), certa casta da índia, 111,110- 112. Badagás, naturais do reino de Bisnagá, 11,142. Badur, Soldam, rei de Cambaia; em Dio, 11,387. Bagadá, é êrro. Ver Badagá. Bagas, certos negros da Guiné, 1, 406. Baganá, mosteiro da Etiópia, 11,180. Bage, bebida inebriante, no Mogor, ni, 14. Baía, capital do Brasil; colégio da,i, 373; a ci- dade da, ameaçada pelos índios bravos, 377; missão trabalhosa ao sertão da, carta, 38o. Baião, António, Director do Arq. Nac. da Torre do Tombo, 1, p. xxxvn. Bailnr, pôrto de Etiópia, 1, 36i. Balane, tranqueira de, em Ceilão, 1, 327. Baleias, contra um batel de missionários (An- gola), 11,197; contra outros missionários, no sul do Brasil, 421. Balola, pôrto e povoação, na Guiné, 1, 406. Balravento. Ver Barlavento. Baltasar, Dom João, etíope, inspirador de Frei Luís de Urreta, no livro que escreveu àcêrca de Etiópia, m, 287, 289, 297, 327, 33o, 35o e 36i. Baltasar, Dom, fidalgo cristão de Firando, no Japão, 1, 73. Bambuns (bambus), órgãos de, para tocar nas igrejas do Japão, 1, 92. Banda, ilhas de, na Oceania, 1, 279. Banda Abdula, nome que tomou o Irmão Bento de Góis em Agra (Mogor) antes de partir para o Cataio, 1, 312. Bandou, onde está o Estado Geral do Japão, 1, p. xvii, reinos de, 64 e 65. Baneanes, negociantes indianos, 1, 364 e 366; manhas dos, 11, 390, "iofi e 394; alguns fazem- -se amigos dos Padres, 398. Bangue, rio da Serra Leôa, 1, 408. Banhá, ou duque, no Pegu, 1, 292. Baptismo milagroso, no Japão, 1,119. Baramos (Boramos), negros da Guiné, 1, 405 e 406. Baris, macacos espertos da Serra Leôa, 1, 407. Barlavento (Balravento), grupo norte das ilhas de Cabo Verde, 111, 243 e 246. Barnagais, Isac (Asmeche Isache Barnegais) ou Rei do mar, grande de Etiópia, governa- dor de uma província marítima, sujeito ao Vice-Rei do Tigré; amigo dos Padres, 1, 367; ln> 47"4^ e 5o; liga-se com os turcos contra o imperador tirano Adamás, 326; amigo dos portugueses, 343.—111, 322, 323 e 33i. Baroá (Baruá), cidade de Etiópia, a principal do Estado do Barnagais; Jesuítas em, n, 399; iii, 62, 322, 332, 333 e 354. Barreira, P. Baltasar, Superior da Missão de Cabo Verde, 1, 399; parte para a Guiné, 402; trabalhos apostólicos, carta de, 410-413; fruto maravilhoso na Guiné e na Serra Leôa, carta de, 11, 199-112; trabalha incansàvel- mente juntamente com o P. Manuel Álvares; carta de, ni, 239-285; parte para Cabo Verde, grande recebimento na vila da Praia (Ilha de Santiago) donde escreveu a carta anterior, 282.—11, 210. Barreto, Francisco, sai de Lisboa com uma ar- mada para conquistar o Monomotapa (Mo- çambique); leva quatro Jesuítas, 111, 4 e 6. Barreto, P. João Nunes, Patriarca de Etiópia, onde não chegou a entrar, 1, 356; n, 181; m, 3o3 e 304; vida de, 314-317; fantasias de Ur- reta àcêrca de, 3i3 e 3i6-3i8; morte de, 327. Barreto, P. Melchior Nunes, irmão do Patriarca D. João Nunes Barreto, 111, 314. Barriga, cortar a, castigo imposto no Japão só a gente nobre, suicídio legal, como se pra- tica, 11, 264. Barros, Irmão António de, trabalhos na viagem para Angola, 11, 191-198. Barros, P. Manuel de, missionário de Cabo Verde, 1, 399 e 410; morre, 11,199. Bartolomeu, Dom, rei de Omura, no Japão, 1, 75, 76 e 86. Bartolomeu, menino de nove anos, filho de D. Miguel (Serra Leôa), m, 274. Bartolomeu Souga, Dom, Irmão do rei D. Fe- lipe, da Serra Leôa; baptismo de, m, 264- 265. Basília, terras de Chocória (Bengala), m, 78.
  • Relação Anual > Batio, homem baixo da Etiópia, que diziam ser o pai do imperador Jacobo, deposto e des- terrado, n, 166. Batochina, ilha de (Molucas); cristandade de, i, 267. Bato China do Celebe, ilha de (Celebes), n, 3ii. Bathochina do Moro ou ilha do Moro nas Mo- lucas, 11, 3o3. Bavária (Baviera), duque de, traduz em alemão as notícias das Missões dos Jesuítas, 1, p. XXXVIII. Baylu Georges, médico etíope, favorecido pela intervenção milagrosa do Patriarca Oviedo, 11, 187. Bembar, região do Maduré, 1, 33-35 e 323; m, 96. Belalá ou Mestre, no Maduré, m, 93. Belchior, Dom, Talete, rei de Ito (Ambóino), 1, 281. Bemnau e Nau (Ambóino), dois outeiros sobre- postos, 1,279-280. Bena, rei de, na Serra Leôa, senhor de muitos outros reis, pede o baptismo, 11, 207; m, 240 sgs.; o filho de, baptiza-se, 240 e 269. Bené, reino de (Serra Leôa), 11, 210. Bengo (Bungo), rei de (Angola), 11, 414. Bengala, reinos de, missão e residências de, 1, 42-44, 285-289 e 370; 11, 132-137; Bengala conquistada pelo rei Aquebar (Mogor), 366; guerras dos portugueses em, m, 77 sgs. Bento, irmão de Dom Agostinho; nomeado go- vernador do Sacai (Japão), 1, 63 e 115. Bento, japonês, cristão de Iamarigúchi, encon- tra a cabeça do mártir Damião, 11, 269. Berbexins (Berbecins), raça de pretos da Guiné, 1, 402 e 403, iii, 363. Bergamó, província de Etiópia, 111, 66. Berinjão, terra no reino de Travancor, 1, 3o. Bermen, deus do Malabar, 1, 341. Bernardo, Dom, rei do Congo, in, 255. Berpetibla, terra na costa sul do Brasil, 11, 422. Besegni, rei de, na Guiné, 11, 417. Beseguiche, pôrto de, feitoria e fortaleza dos estranjeiros na Serra Leôa, n, 211. Besse, amigo do rei D. Pedro da Serra Leôa, e futuro sucessor do reino de Fatema, baptiza- -se, recebendo o nome de D. Manuel, 111, 276- a 77. Beto ou Cabeça do povo, no Japão, 11, 47. Betra Abagarimá, igreja de Etiópia, m, 62. Cf. Abba Guarima. Beva, reino da Serra Leôa, n, 212. Bexerim, sacerdote, caciz ou feiticeiro entre os negros da Guiné, 1, 403; 111, 243; um famoso, que perverte o rei de Farma (Serra Leôa) e morre de repente, 263-264. Bexerim-mor, equivalente a bispo, entre os pre- tos da Guiné, 111, 224. Beziguche, pôrto do reino dos Jalofos (Guiné), I, 402. Biafar (Biafara, Biafares, Beafares, Biafadas), raça de negros da Guiné, 1, 406 e 413: 11, 417; ni, 363 e 368. Biangá, rei de, em Angola, 11,414. Bíblia Régia, com letras hebraicas, em Pequim, II, 292. Biconi ou freira, entre os indígenas do Japão, 11, 69. Biguba (Biguga, Bigubá), pôrto e povoação da Guiné, 1, 406, 410 e 412; 11, 199; rei de, 417. Biguga, é êrro. Ver Biguba. Bijagós, negros belicosos, naturais das ilhas do mesmo nome, na Guiné, 1, 406; ilhas de, fer- tilidade e riqueza de, 11, 417. Bijém, reino de Japão, perto de Meaco, cristan- dade de, 1, 116; perdas, tristezas, 134, i5g e 2o5; iii, 192. Cf. Bugém. Bijendono, cristão japonês, filho de Fucuximan- dono, 1,119. Bijeno Chunugandono (Chunogandono, Cano- godono), rei gentio japonês, senhor do reino de Bijém e de outros, amigo dos cristãos, se- guiu o partido contrário a Daifuçama, e foi para o destêrro, 1, 62, 65,116,155, 159 e i83; m, 214. Bilibanos. Ver Plurimanos. Bingo, reino de Japão, ni, 192 e 193. Cf. Bungo. Bisna, deus do Malabar, 1, 341. Bisnagá (índia oriental), reino de, o rei de, e os Jesuítas, 1, p. xi; da missão do reino de, e sua residência, 40-42 e 315—324 5 n> 141-146 e 321-333; embaixada do rei de, a Goa; Goa retribui, 1, 315- 316; o rei de, nnjito amigo dos Padres, que o obsequeiam quanto podem, 322; amigo dos Padres e dos portugueses, carta do, ao rei de Portugal, ni, 76. Bissau, pôrto da Guiné, 1, 410; 11, 40. Bizá, igreja de Etiópia, 111, 62. Boa, reino de Etiópia, ra, 65. Boa-Esperança, cabo da, in, 363. Bobadilha, Padre, firma de, 1, 3i3. Boémia, uma conta de (objecto de devoção), no Japão, 11, 42. Bonzos, sacerdotes dos ídolos; no Japão, con- vertidos, 1, 97, 99 e 102; feitos prègadores da fé, 116; na China, téem grossas rendas, 11, 125. Boo, ilha de (Celebes), na Oceania, 11, 3ii. Borá, província de Etiópia, ra, 66.
  • índice Alfabético Borno, reino de, confinante com a Etiópia, 111, 368. Bornéu, ilha da Oceania, i, 279. Botelhana ou igreja, no reino de Tabete (Ásia central), 11, 386. Botelho, Diogo, governador, e os Jesuítas, em Pernambuco, 1, 377; 11, 425. Boulões, rei dos (Serra Leôa), é o grande Fa- tema, 111, 251. Boves, P. André, em Chatigáo (Bengala), preso, I, 288 e 289. Bramá, divindade do Maduré, 111, 97. Bramá, Vesmu, Bubren, trindade indiana, m, 100. Bramau ou raio, na índia, u, 328. Brâmane, indivíduo de casta sacerdotal (índia), n, 394; um brâmane amigo do dinheiro (Ma- duré), 111,104. Brasil, missões no, 1, pp. v e x; coisas do, Pro- víncia do, casas, pessoal, trabalhos, 373-375, 382-386 e 388-389; influência benéfica dos Jesuítas no, 375-378; fruto entre as diversas classes de gente do, 379; missões ao sertão do, carta de um missionário, 38o-382; aman- sam-se e pacificam-se várias regiões de ín- dios bravos do, 389-395; novas missões no, II, 419 sgs. Brancos, cobiça dos, nas Missões de além-mar, I, 374-375; estorvos dos, nas missões do Bra- sil, à cata de escravos índios no Brasil, cruel- dades dos, 11, 423-424. Breampur (Briampur), reino e cidade (Bengala), rende-se ao rei do Mogor, 1, 6-8, 296 e 304. Brei, pôrto de (no rio Zaire), n, 414. Brito, capitão António de, começa a fortaleza de Ternate (Molucas); obediência voluntária do rei da terra a, n, 304. Brito, P. Estevão de, missões de, no Malabar, II, 33g. Brito, Filipe de Brito Nicote (Nicode), portu- guês, general do reino do Pegu, ao serviço do rei de Arracão; senhor de Pegu, 1, 290 e 291; vitória de, contra um banha ou duque, 292; vai com uma embaixada a Goa, para entregar a Portugal o reino de Pegu, 293; planos de, no Pegu, 11, 137; em Goa pede Pa- dres, 138; é atacado pelos mogos de Arracão; vitorioso, prende ao príncipe e ao capitáo- -general inimigo, 139-141; entrega seu filho em refém, e matam-lho, 318—319; batalhas e valentias de, ra, 77-84. Brito, Fernão de Mesquita de, governador de Cabo Verde, 1, 399. Brito, Marcos de, filho de Filipe de Brito Ni- cote, é morto à traição pelo rei de Arracão, n, 319; in, 77-78. 3g5 Brito, Irmão Mateus de, nas Molucas, 1, 270; n, i3i. Broçal, reino da Guiné, 1, 403. Broek, região de Holanda, 1, p. xxvm. Bucério, P. André, faz grande cristandade na costa de Travancor (sul da índia); cartas de, 1, 328-335; 11, i5o e 151. Buchi, reino de Japão, 1, 62. Buda (Budapest); moço de, cativo no Mogor, liberto pelos Jesuítas, 1, 3o5. Budismo, religião de Buda, dominante na China e Japão, 1, p. xiv. Bugém, reino de Japão, longe de Meaco; resi- dência de, coisas de, i, io3-io5 e 210-214; »> 278-279; ih, 187-189; exéquias por alma de D. Grácia, carta, 1, 216.—1, 63, 67-69, 129, i3o, 155, 224 e 229. Cf. Bijém. Bugendono (Bujendono) ou Bugenocami Coma- gage (Coumagage), Belchior, fidalgo japonês, cristão, estimado de Moridono; constância heróica de, 1, 208-210; n, 5o-5i; carta de, a . Moridono, 52; martírio de, com mais cem cristãos, 260-266.—1, 207; 11, 53, 55, 56 e 270; m, 197,198, 204-206 e 208-210. Bungo, reino de Japão, Jesuítas em, 1, pp. xvi, xvn, xix, xxi e xxvi; residência de, 107-m; cartas escritas de, 108—111; rei de, i3o; cris- tandade de, perseguição, cristãos covardes, cristãos valentes, ig3-2o3; coisas de, 11, 57- 58, 226, 227 e 279; 111, 189-192.—1, 68, io3, 159,182 e 212. Bunhuns, negros da Guiné, 1, 404. Bupo, substância das seitas do Japão, livro dos Fotoques, m, 213, 216, 217, 223 e 224. Buré, reino de, na Serra Leôa, sujeito ao rei Fatema, n, 201. Buru, ilha de (Ambóino), nas Molucas, 1, 279. Bushido, doutrinas dos j aponeses,i, pp. xxi e xxix. Butebum, rio da Serra Leôa, 1, 408. Buto, ilha de (Celebes), 11, 3u. Cabanave, lugar a treze léguas de Cangoxima, no Japão, 11, 241. Cabo-Lédo, na costa da Malagueta, àlém da Serra Leôa, 111, 259. Cabo Verde, ilhas de, com seus nomes, 1, 401; coisas de, 599-413; muita caça, 401; capita- nia de, 402; missão de, ilha do Fogo, n, 199; noticias de, 415; m, 239; morrem cinco Pa- dres, o P. B. Barreira trabalha em, 277. Cabral, P. Francisco, Provincial da Província de Goa, 1, 325. Cabul, cidade do império do Mogor, 1, 313; o príncipe revoltado foge para, 11,367.— n, 376! iu, 7 e 25.
  • 3g6 Relação Anual > Caca, espécie de gôma, serve de breu, na Serra Leôa, n, 212. Caçanares (cassanares), sacerdotes dos cristãos da Serra de S. Tomé (Malabar), n, 338. Cacbeu, povoação portuguesa e pôrto princi- pal da Guiné, n, 199; ni, 271 e 277; P. B. Bar- reira em, 280-281; notícias de, 282-283. Cachil Ameat, primo do rei de Ternate (Molu- cas) rende-se aos portugueses, 11, 3io-3n. Cachoeira, aldeias da, ao norte da Baía (Bra- sil), 1, 38o. Cachoeira, sítio ao sul da Baía (Brasil), 1, 390. Caçolins, negros da Guiné, 1, 406. Cacongo, reino de, em Angola; o rei de, pede Padres, u, 414. Cacuzaimon, governador de Iatçuxiro (Japáo), perseguidor, 11, 23, 26-28, 3o, 32, 37, 38, 46- 48 e 243-259. Cadarrai (Canderrai), rei, senhor da ilha de Sundiva (Bengala), 1, 286; senhor das terras de Siripur, 11, 134. Cafates, lagoa da Etiópia, donde sai o rio Zaire, segundo a fantasia de Urreta, m, 364-365. Cafleal (Cafleale, Clafea, Casleal), grande se- nhor de Etiópia, 1,36 i;vice-rei doTigré, amigo dos Padres, nomeadamente do P. Pero Pais, ouve a doutrina, 11, 165, 166 e 168; acompanha o P. Pais à côrte, grandes atenções, 171-173; ni. 34 e 47-48; volta-se contra os Padres, 53 e 54; castigado pelo imperador, destituído, 57.—m, 34, 47 e 48. Cafraria, terras dos negros de África, 111, 363. Cafre cristão, valente e heróico pela fé, no Mo- gor, iii, 18. Cafristão, terra da Ásia central, 111, 25. Cafuche, poderoso soba de Angola derrotado, 1, 396-398. Cagaçais, ilhas do rio das Pedras (Serra Leôa), 1, 407. Caicoulão, fortaleza do rei de Travancor (ín- dia), 1, 329 e 33o; conversões em, 11,154. Caigar, reino de (Ásia central), 1, 311. Cailor, residência de, em Ceilão, 11, 344. Caimel, lugar e igreja, em Ceilão, 1, 326; m, 75- Cainocami (Carnocami, Cainocamidono), de- pois Chicujenocamidono, japonês cristão,filho de Cambiogedono Simeão; senhor do reino de Bugém, favoreceu na guerra o partido de Daifuçama, que triunfou contra o príncipe herdeiro de Taicoçama, 1, 63, 70, io3-io5, 129, i3o e 147; rei de Chicujém, favorece os Padres, 155; nobre acção de, 156; precipi- tado, 205, 206 e 211; frio com os cristãos, n, 59; favorece os cristãos, manda levantar uma igreja em Facata, 60; come com os Padres, 277.—1, i83, 184, 202 e 204; 11, 276; ih, 143, 145 e 178. Ver Chicujenocami. Calaoá, província de Etiópia, 111, 66. Calca, terra de homens ruivos (Ásia central), III, 25. Caldeia (caldaica); imprensa com caracteres da língua, enviada pelo Papa aos cristãos de S.Tomé (Malabar); imprime-se o Cerimonial Romano, traduzido na língua, 11, 160. Calecut (Calecute), reino de, cidade de, côrte do Samorim, na índia ocidental, 1, 27; resi- dência de, 336, 340 sgs., e 345; coisas da re- sidência de, 11, 155 e 158 sgs.; conversão de um cristão que se fizera moiro, 354-355.-1, 371 e 372; n, 334; iii, 67. Calima, profissão da lei de Mafoma, 11, 372. Calistri, Amador, cidadão nobre do Maduré, baptizado pelo P. R. Nóbili, m, 94. Caloete, instrumento de suplício, semelhante à cruz, na índia, 1, 334. Cama, lugar perto de Iamangúchi (Japão), 111, 205. Camaçura (Camarura, Comacura), antiga côrte do Japáo, onde residiam os Cubos ou Xò- guns; ruínas de, 11, 231; 111, 129 e i3o. Câmara, P. Luís Gonçalves da, em Tetuão, África do Norte, 111, 314. Camarura, é erro. Ver Camaçura. Camassono, ilhéu e ídolo da Serra Leôa, 111, 269. Carabacudono, depois Taicoçama, imperador do Japão, 1, 59. Cambaia ou Guzarate, costa de (índia ociden- tal); cinco casas da Companhia de Jesus em, I, 35o; cidade de, reino de, comercio de, 11, 387; missão de Dio ao reino de, 393-396; costumes dos gentios de, quatro raças: brâ- mene, baneanes, cateris, e vices, 394.—in, 21. Cambaia, sede episcopal instituída por S. Tomé, II,142. Cambalu ou Cambaleb, metrópole do Cataio, I, 3io. Cambaluc ou Pequim, m, 26. Cambambe, serra de; soba de (Angola), derro- tado, 1, 397; 11, 415. Cambiogedono, Condera Simeão. Ver Simeão Camboja (Comboja), reino de, na Indochina, II, 318. Camêlo, capitão João Rodrigues, conquista aos holandeses a fortaleza de Ternate com o au- xílio da armada vinda de Manila para êsse fim, n, 3c9*3io. Cami (reinos altos) ou Goquinai ou Meaco, re- gião do Japão, ui, 124 e 210.
  • índice Alfabético Cami, deus, ídolo, pagode, 110 Japão, i, ioij um transformado em dois ratos, iii, 143. Camis e Fotoques, divindades, ídolos, do Japão, homens elevados a deuses, 1,102.—1, 61, 67, 101, i58-i6o, 172, 206, 219, 226, 228 e 231— 233; iii, 185, 186, 191, 195, 207 e 208. Camiçama (Camisama), princesa ou rainha, es- posa do Tono ou Senhor da terra (no Japão), 1, 75 e 76; iii, 162. Camnl, terra da Ásia central, m, 26. Camur, terra da Ásia central, 11, 385. Canaga, rio da Guiné, 1, 402; n, 211. Cananéia, terra do sul do Brasil, 11, 420. Canazava, cidade japonesa, côrte do reino de Canga; residência de, 11, 289; 111, 23o. Candaçar (Candaar), rei de, no Mogor, 1, 3oi e 3o3. Candeias, Nossa Senhora das, 1, g3. Cândia, reino de, em Ceilão, 1, 325 e 327; rei de, 11,149 e 344. Canga (Sanga), reino de, no Japão, igreja na côrte do reino de, 11, 85-87 e 289; m, 23o. Cangecaçu (Cangecasu), grande dê Japão, 1,65, 78, i3i e 169. Cangoxima, côrte do rei de Satçuma (Japão), 11,16 e 241. Canjura, é erro. Ver Conjura. Cano Fanjemon, Sancho. Ver Sancho. Cano Fidandono, cristão japonês, senhor prin- cipal no tempo de Taicoçama; baptiza-se uma irmã de, 111, 220. Cano Jogoro Justino. Ver Justino. Cantão, cidade da China, perto de Macau, 1, p. x; os portugueses e, 371; rio de, passagem feliz, 11, 121; os Padres e portugueses calu- niados em, morte de um Irmão da Compa- nhia em, 11, 299 sgs.—m, 232. Candace, rainha da Etiópia, funda a igreja e mosteiro de Acçumo, 111, 62 e 362. Cantó. Ver Quanto. Capes, negros da Serra Leoa, 1, 408 e 409; n, 211. Capor, rio da Serra Leôa, 1, 408. Canzuca, colégio de, no Japão, 1, pp. xxv e 87. Canzugedono (Canzuge), senhor do reino de Fingo, 1, i3o; conquista Uto, prende os Jesuí- tas, 137-139, 141 e 142; estima os cristãos, • 162; persegue os cristãos, 194-203 e 214; 11, 23 sgs., 27-3o, 35, 37, 44, 46-48 e 243 sgs.; in, 171,176 e 177. Canzuquedono. Ver Conjuquedono. Capuchos, religiosos franciscanos, em Dio, es- timam os Jesuítas, 11,176 e 177. Car ou bugio, depois Taicoçama, imperador do Japão, 1, 56. Caracore, ilha da Serra Leôa, povoação de, 111, 253, 254, 267, 268 e 270. Caranha, espécie de goma (Serra Leôa, 11, 211. Caranjá (Bengala); portugueses de, 1, 286. Carateu, cidade, fortaleza no Ximo (Japão), 1, 193; «, 19-21. Cardim, P. Fernão, Provincial do Brasil, manda missionários aos índios Carijós, 11, 419. Cardim, P. António Francisco, escreveu os Elo- gios Japoneses (notícias dos mártires do Ja- pão) e elaborou o Mapa das Missões do Ja- pão, 1, p. XV. Cardiva, ilha de (Ceilão), residência de, n, 344 e 345. Cardoso, Irmão (depois Padre) Gonçalo, parte para a Etiópia, trabalhos, morte, 1, 355-357; informação sôbre a morte de, n, 181 e 188; morre às mãos dos ladrões, 354.—m, 327. Cardoso, Manuel Lopes, cidadão português, faz um forte e povoação na Guiné, 1, 405. Carias, gentios de Travancor (sul da Índia), inimigos dos cristãos, n, i5o. Carijós, índios do sul do Brasil, missão aos, costumes dos, cartas, 11, 419 sgs. Carneiro, Dom Belchior (Melchior), bispo de Nicéia, coadjutor do Patriarca de Etiópia, 1, 355; fica na índia, trabalha nas serras de Trugure (Malabar), n, 339.—m, 3o4 e 3i3. Carnocami, é êrro. Ver Cainocami. Carrazu, fortaleza de, no Japão, 1,154. Cartas do Japão, obra impressa, colecção de Cartas, 1, pp. xvn, xxvi, xxvn e xxxvi. Carturte, lugar do rio de Cochim, 111,107. Carumi, cidade japonesa, no reino de Chicungo, 11, 278. Carvalho, Álvaro de, capitão-mor da Baía (Bra- sil), '> 377, 378, 391 e 392. Carvalho, capitão Álvaro de, na armada do Vjzo-Rei para Malaca, morre na peleja con- tra os holandeses, 11, 316. Carvalho, Domingos de, capitão português, toma a ilha de Sundiva (Oceano Índico), 1, 286; em Siripur (Bengala), vence ao Manas- singão;'é ferido; vence a quatrocentos mo- gores, 11, 134; é preso e morto à traição pelo rei de Chandecão, i35-i36. Casa-Manca, rio da Guiné, 1, 404. Casangas, negros da Guiné, costumes dos, 1, 404 e 405. Casanha, soba de Angola, 11, 414. Casa-do-Noviciado, em Goa, 11, 347. Casa-Professa, em Goa, 11, 347. Cascar, reino de (Ásia central); o rei de, re- cebe várias vezes ao Irmão Bento de Góis, ouve-o sôbre a Lei de Deus, n, 38i-38a; a
  • 398 Relação Anual > rainha de, é socorrida caridosamente por Bento de Góis, e este é indemnizado pelo fi- lho que o ouve atenciosamente àcêrca do Papa e da Igreja, 382-383; a irmã do rei de, III, 35. Casleal, é êrro. Ver Cafleal. Cassane ou criado do rei, na Guiné, ih, 242. Castanhoso, Miguel de, companheiro de D. Cris- tóvão da Gama, na Etiópia, escreve a histó- ria da expedição, 111, 36i, 362, 370 e 375. Castel-Branco, Gonçalo Vaz de, capitão portu- guês, em Ambóino (Molucas), 1, 280. Castel-Branco, Trajano Ruiz de, capitão por- tuguês, em Ambóino, 1, 280. Castela, reino de (Espanha); navios de, vão ao pôrto de Cacheu (Guiné), ni, 371. Castilho, Jorge de, náufrago, e prisioneiro no Mogor, libertado com outros muitos pelos Jesuítas, 1, 3o6; n, 363. Castilho, Frei Fernando de, Dominicano, fala da Etiópia, 111, 3o 1. Castro, D. Martim Afonso de, Vizo-Rei da ín- dia, em Malaca, batalha naval contra os ho- landeses, n, 313 j vão de Lisboa na armada de, doze Padres e IrmSos, 347. Casturo Naique, senhor principal do Maduré, m, 92 e 97. Catabira, vestido de verão, no Japão, 1, 2i3. Cataio (Catai), reino misterioso e cristão do Oriente, 1, p. VIII; cristãos do, 296; da mis- são do, 310-314; fantasias antigas sobre o, 310; notícias tiradas da carta do Irmão Bento de Góis que vai descobrir o reino do, 11, 38i- 385; notícias de nova carta de Góis, 385-386; descobrimento do, desvenda-se o mistério, de Agra (Mogor) à China do Norte, m, 25-3o. Catànio (Catàneo), P. Lázaro, em Nanquim (China), 1, 5o e 238; em Pequim, n, 292; em Macau, caluniado, presumido general para a conquista da China, 299 sgs. Catarina, Dona, rainha de Omura (Japão); es- moler; morre, exéquias, 1, 86 e 87. Catarina, japonesa, filha de D. Madalena, zêlo de, 1,118. Catarina, japonesa, aia de D. Maxência, 1, io5. Catarina, japonesa, esposa de Chicugodono Luís, 11, 71. Catarina, rainha de Portugal, 1,147. Cateris, gentios de Cambaia, gente de armas, 11, 394. Cate Sarangue, equivalente a duque (Molucas), 11, 304. Catual, governador, justiça-mor, na cidade de Lahor (Mogor), 1,14-17 e 3o5; n, 36i. Catur, no Malabar, igreja de, 1, 336. Canripana (Cauripá), ilha de (Celebes), reino de, 1, 267 e 311; m, 88. Cavalo-marinho, contas de (rosário), m, 187. Cavalos-marinhos, na Etiópia, na lagoa de Dambeá, ni, 63 Caxa, moeda de cobre, no Japão, m, 143. Caxemir, reino de, conquistado pelo Mogor, 11, 366. Ceidmorabeva, rei da Arábia, m, 3. Ceilão (Taprobana), ilha de, 1, 277; fundação da casa de, 325-327; a parte norte de, para a missão dos Jesuítas; a parte sul para os Franciscanos, 326: revolta contra os portu- gueses em, trabalhos dos Jesuítas, 327; colé- gio de, e suas residências, n, 149 e 344-345; 111, 369. Celebes, ilhas dos (Molucas), 1,267511, 3n; 111,88. Cerimonial Romano, em língua caldaica, no Malabar, 11,160. Cerqueira, Dom Luís de, Jesuíta, bispo de Ja- pão, escreve a Ximandono, governador do Ximo (Japão), 1,154; visita a Cuboçama, im- perador do Japão, grande triunfo, m, 120- 122; vai às ilhas do Gôto, 158; em Arima crisma dezassete mil cristãos, 160.—1,68, 73, 83, 84, 92, 93, 98, i33,160,172,178,179,190, 195,196, 201 e 202; 11, 44; in, 2i3. César-Augusto, 1, 93. Céspedes, P. Gregório de, no Japão, 1,157. Chacil Tabarija, depois D. Manuel, rei de Ter- nate (Molucas), nomeia para seu sucessor a El-Rei D. João III de Portugal, 11, 304. Chagas, Manuel Pinheiro, escritor, louva os Jesuítas missionários, 1, pp. vi e vu. Chalé, igreja de, no Malabar, 1, 340. Chalis, cidade da Ásia central, 111, 26. Chandecão (Chandecam), reino de (Bengala); re- sidência de, 1, 42, 285 e 370; 11, 133 e 134; o rei de, prende e mata à traição a Domin- gos de Carvalho, i35—136; prende os quatro Padres e todos os portugueses; os Padres confessam os presos; dois vão para o Pegu, e dois para a índia, acabando a residência, i36—137. Chandegri, capital do reino de Bisnagá (índia Oriental); notícias da residência de, 1, 40-42, 315-324 e 371; 11,142 e 321 sgs.; o rei é amigo, 143; presentes dos Padres ao rei e do rei aos Padres, 144; o príncipe herdeiro estima os Padres, carta, 145. Chão, alcunha de uma família chinesa (Nan- quim), 11, 293. Chapar ou assinar, na índia,298. Chapas ou provisões a favor dos Jesuítas, na China, n, 295.
  • índice Alfabético 399 Characar, cidade da Ásia central, 111, 25. Charangia, aldeia de, em Bengala, 1, 46. Chatigão (Chatigam, Ratigão), cidade de (Ben- gala), pôrto de, residência de, 1,44-47 e 285- 289; 11, i32 e >39. Chatua, rio do Malabar, barra do rio, os ho- landeses em, 11, 158. Chaúl, na índia Ocidental, casa de, 1, 3; valentia dos estudantes de, em Chaúl de Cima, contra os moiros, 1, 35o-35i. Chavarcovardim, senhor de Daraporáo (Madu- re), recebe carta do P. R. Nóbili', carta de, m, 91. Chiansi, província da China, cuja capital é Nanchão, 1, 256. Chibados, grandes feiticeiros de Angola, u, 414. Chicujém Faxiba. Ver Faxiba. Chicujém, reino de Japão, cristãos de, 1, 107, 111, 184, 202, 203-200 e 211; m, 228. Chicujenocami (antes Cainocami), rei de Chi- cujém. Ver Cainocami. Chicujendono, senhor de Chicujém. Ver Chi- cujenocami. Chicujeno Chinagandono, rei de Chicujém, 1, 131. Chicugodono, Luís, cristão japonês, colunados cristãos de Firoxima, 11, 71; 111,193-197. Chicugodono (Chicurigodono), Tanaca, senhor do reino de Chicungo (Japão); amigo dos Padres, 111,144-145 e 181 sgs. Chicungo, reino de Japão, 1,68 e 69; residência de, 105-107, i35,159,184,192 e 227; n, 59 sgs., e 277-278; iii, 181 sgs. Chiém, justiça-mor de Nanchão (China), m, 232. Chifui, ouvidor geral, na China, 11,112. Chilau, terra de Ceilão; residência de, 1, 326; 11, 344 e 345; iii, 75. China, império da, Jesuítas na, 1, pp. vu, viii, x e xv; medicinas dos Jesuítas para a, xvii; Vice-Província da, 2; coisas da, 5o, 5i, 59, 79,131,196 e 217; progressos, 235-266; 11, 89- 126; é inconquistável a, 89-90; missionários da, sustentados pelos cidadãos de Macau, 90; seis Jesuítas partem de Macau para 8,91-92; projecto de um seminário ou colégio de me- ninos na, 92; dezasseis Jesuítas na, 92-93; rainha, ou mulher principal do rei da; mais cinco rainhas menores; o herdeiro do trono; desordens, perturbações, 101-102; bom natu- ral dos habitantes da, piedade filial, 104; moi- ros na, 109-110; seitas da, 110-113; casamen- tos na, 114; cristandade da, carta da, 29Q- 3o2; m, 23I-238. China (Cataio), sede episcopal fundada por S. Tomé, 11, 142. China e Cataio, 1, 310 e 370. China, ídolo, pagode dos negros da Guiné e 'Seria Leôa, i, 404; 11, 416; ni, 253, 256, 258- 259, 268, 269 e 276. Chinchinai, ídolo chinês, 1, 265. Chingalás, os cristãos naturais de Ceilão, n, 345. Chinguia (Japão); residência de, 1, 87. Chinquocuin, mandarim de Pequim, é visitado e visita os Padres, 11, 295. Chinsúqui (terra de Japão); cristãos de, 1,111. Chitinada (Chitinadá) Vero, estatuário do Ma- duré, baptizado pelo P. Nóbili, ih, 94 e g5. Chocanada, deus (ídolo, pagode), do Maduré, 11, 331 e 332; ui, 99,100 e io3. Chocória (Bengala); rei de, m, 78 e 80. Chorão, terra perto de Goa, Jesuítas em, m, 314. Chugoou, no Japão, é êrro. Ver Xicocu. Chuiemondono, japonês, zeloso cristão, sobri- nho de D. Agostinho, 1, 96. Chuíu, chinês, letrado, amigo dos pagodes, sui- cida-se, 11,100. Chunugandono (Chinagandono), japonês, neto do imperador Nobunanga, zeloso cristão, 1, 61 e 119-122; é preso, 129.—134 e 206. Ciliapula, senhor indiano, privado do rei de Travancor, 1, 33o, 332 e 333. Cf. Coriapula. Cinguão, deus de Ceilão, ídolo, demolido, 11,345. Circuncisão dos etíopes scismáticos, 1, 369. Clafea. Ver Cafleal. Cláudio, rei de Etiópia, filho do rei David; amigo dos herejes e scismáticos de Alexan- dria, 1, 352, 354, 355 e 356; m, 304, 3o5-3i2, 313 e 32i; recebe ao Bispo André de Oviedo, mostra-se inimigo da união com a Igreja de Roma; morte de, 321-324; recupera o impé- rio com o auxílio militar,de Portugal, contra os turcos e contra o rei de Zeila, 376 e 377; ingrato e pérfido com os portugueses, morre às mãos dos moiros de Adel, 378.—m, 348, 361, 367 e 370. Clara, menina japonesa, filha de Mónica, 111, 186. Clara, cristã coreana, no Japão, vê o Inferno e o Purgatório, m, 165— 166. Clemente VII, Papa, e a Etiópia, i, 352; ra, 304. Clero indígena, no Japão; os dois primeiros sa- cerdotes; cautelas e dificuldade locais em ordenar sacerdotes indígenas, 1, 178; sacer- dote japonês, pintor, músico, construtor de órgãos e relógios, 179: seminário, 191; P. Luís, japonês, 195; os três primeiros sacerdotes ja- poneses são párrocos em Nangazáqui, m, 146; seminários na Etiópia, 46-47. Coces ou milhas, no Mogor, 1, 3i3. Cochim, cidade e reino de; colégio de; o rei de, mostra-se mau, 1, 336; grande procissão
  • 400 Relação Anual em honra de Nossa Senhora e das Onze mil Virgens, festa grandiosa do colégio de, 337— 339; o Bispo de, proíbe comerciar com a Costa de Travancor, para castigo dos per- seguidores da cristandade, n, i5i; o colégio de, é a cabeça da Província de Cochim ou Província do Sul, i55; o rei de, é mau com os cristãos, 155; caso notável de um possesso em, 156-i57; Província de, pessoal e casas, 3o3 e 304; colégio de, e suas residências, 334-337; o rei de, mostra-se menos esquivo com os Padres, e pede desculpa do passado, 338 e 339; cristandade de, m, 67-113; dois cristãos do Maduré em, 106-107. Coçara (Cocura, Cocurá, Conçura, Conzura), cidade japonesa, côrte do reino de Bugém; residência de,n,63 sgs., e 278;m, 122,1436187. Coelho, P. Gaspar, escreve do Japão, 1, pp. xxvi e xxx. Cola, mosteiro de Bonzos, no Japão, 1, 134. Coja (no Japão), que foi uma universidade prin- cipal, 1, 238. Coím, deus rato, no Japão, ra, 207. Coimbra, colégio de, em Portugal, 1, p. vi; tipo- grafia do colégio de, xxv. Colaus, supremos conselheiros do rei da China, 11, 94. Colchete, lugar de Travancor, casos notáveis em, 11, i52. Columbo, em Ceilão, cidade e fortaleza de, 1, 325; Jesuítas em, colégio de, e suas residên- cias, 326 e 327; 11, 149; iii, 75. Comorim, cabo de (sul da Índia), 1, 328; 11, 342; pedra na ponta do cabo de, santuário gentí- lico, convertido em fortaleza pelos cristãos perseguidos, i5i-si52. Cômoro, ilhas do, no Oceano Índico, holan- deses em, 11, 348 e 349. Companhia de Jesus, em Portugal, 1, pp. vi e ix; nas missões, vn e ix-xi; no Oriente, 1-2; casas da, no Oriente, 2-5. Compu, Conselho ou Ministério das obras do rei da China, 11, 95. Comunhão milagrosa, 1, 96, 117 e 122. Conche, reino de Etiópia, 111, 65. Concho, imperador de todos os Sousos, povos da Guiné, 111, 244. Concho, reino de, oiro de (junto da Serra Leôa), 11, 210. Conchos, terras dos, oiro dos (junto à Serra Leôa), 1, 407. Concílio Calcedonense, náo recebido pela Etió- pia, iii, 3o6, 3o8 e 309. Concilio Efesino, primeiro, rejeitado pelos etío- pes, m, 324. Concilio Niceno, na Etiópia, 111, 309. Conçura, côrte do reino de Bugém, é êrro. Ver Coçura. Condera Cambiogedono, Simeão. Ver Simeão. Confrarias, do SS. Sacramento, de N. Senhora da Anunciada e da Misericórdia, no Japão, 11, 10. Congá, no Japão, residência de, 1, 83; m, 147. Congo, Jesuítas no, 1, p. viu; reino do, m, 363; Dominicanos no, 364. Conixi, Tucnono, Camidono Agostinho. Ver Agostinho. Conquam, região do Maduré, 111, 96. Constantinopolitano, Sínodo, ni, 3o8. Conselho Latino, de homens europeus, na Etió- pia, fantasia de Urreta, m, 349, 352 e 353. Constantino, Ioximino (Jeximino), Dom, filho de D. Francisco, rei de Bungo, 1, i3o; apos- tasia de, conversão de, 160-161; desterrado para Deva, pede um Padre, carta dêste, 229- 23o; penitência e morte, 11, 226-227. Conzuque, reino do Japão, ni, 134. Conzuquedono (Consuquedono, Canzuquedono, Cozugedono), senhor japonês, o maior pri- vado do imperador Cuboçama; amigo e de- fensor dos Padres, ouve a prègação, n, 79, 280 e 285; recebe um tratado da doutrina cristã, composto pelo Irmão Fabião japonês, i38—«39; iii, 119, 122, 123, 125-127, '^4 e i38. Conzura (Canjura), ilha de Japão, extremo sudoeste, perto de Amacusa; residência de, 1, 92, 94, e 176; 11, 21, 236 e 257. Comparar com Coçura, no reino de Bugém. Conzura, côrte do reino de Bugém, é êrro. Ver Coçura. Corai (Coréia), 1, 59, 63, 68, 69, 79, 85, 88, 96, io3, 146 e 196. Corangarim, tio do rei de Arracáo (Bengala), 1, 45. Coraxi, Sacugemon Jacobo. Ver Saquiamon. Corbané, Santíssimo Sacramento, na Etiópia, iii, 333. Corea, pôrto da ilha de Java, 1, 270. Corea (mulher da Coréia), no palácio de Cubo- çama (Japão), grande cristã, 11, 285. Corea, rainha da Coréia, mudada em Cami (Japão), iii, 207 e 209. Core as (coreanos) cativos dos japoneses, 111, 156. Coriapula, privado do rei de Travancor, 1, 332. Corlas, ou concelhos, em Ceilão, n, 345. Corofins, todos os objectos adorados pelos indí- genas da Guiné, m, 244. Coromandel, sudoeste da Índia, roupas de, 11, 3i8.
  • índice Alfabético 401 Corpo de Deus, festa do, em Nangazáqui (Japão), 11, 221. Correia, P. Gaspar, a caminho de Pequim, carta, u, 121—123. Correia, Irmão Pedro, morto pelos índios Cari- jós (sul do Brasil), u, 420. Correia de Sá, Salvador, governador do Rio de Janeiro, e os Jesuítas, 1, 376. Correia, Simão, capitão chingalá, crueldades de, em Ceilão, 11, 345. Corsários, ingleses e bátavos (holandeses), i, p. xn. Corsi, P. Francisco, em Lahor (Mogor), 1, 296, 297 e 312. Corume, no reino de Chicungo (Japão), 1, 69 e to5; cristandade de, 135, 156, 159 e 184; missão em, i85 e 190. Cosme, chinês cristão, letrado, zeloso, paciente, n, 117-119. Cosme de Torres. Ver Torres. Cossa, embarcação à vela (Bengala), 1, 286; II, 134. Cossondes, peças de vestuário (Japão), 1, 201. Costa, P. João da, Jesuíta, u, 177; socorre os náufragos de uma nau, na Ilha dos Reis (Costa da Pescaria), 325. Costa, Teodoro da, português da Etiópia,i, 36i. Costumes bárbaros, na Índia, 1, 318-319. Cotão, mãe do rei de (Ásia central), m, 25. Cotate (Cotaté), na Costa deTravancor, igreja de, 1, 33o-335; cruz milagrosa, 11, i52; retra- tos de S. Inácio e de S. Francisco de Xavier; milagre das alâmpadas da igreja de, 343; cruz de, cruzes de, milagres de S. Francisco de Xavier, m, 72-74. Cotta, P. Guilherme, italiano, morre num tufão (JapSo), 11, 220. Coulão, colégio de (Cochim), e suas residências, 1, 3o e 31; trinta e sete igrejas, 328; coisas do, colégio de, 11, 149-154; 336 e 342 sgs.; III,71-75. Couleche, na Costa de Travancor, residencia de, 1, 3o e 3i. Coutinho, P- Belchior, trabalha na fortaleza de Velur (Bisnagá), n, 3j2. Coutinho, D. Jerónimo, capitão-mor; vão de Lisboa oito Jesuítas na armada de, n, 348; chega a Moçambique, rearma a fortaleza, chega à índia, 348-349. Coutinho, João Roiz, governador de Angola, morre, 1, 396. Conto, Diogo do, escreve de D. Cristóvão da Gama na Etiópia, ni, 36i e 370. Covilhã, Pero da, enviado, por terra, à Etiópia, por D. João o segundo, ni, 366. 38 Cozugedono. Ver Conjuquedono. Crangane, pagode em Dio (índia), uma das três pessoas com divindade, 11, 391-392. Cranganor, fortaleza de (Malabar), 1, 29 e 343; rei de, vassalo 3o Samorim, relações com os Jesuítas, 11,158 e 159; Bispo de, 338; seminá- rio de, volta para Vaipicota, 338-339; colé- gio de, Arcebispo de, cristãos da Serra ou de S. Tomé, m, 70-71. Cristãos valentes, 1, 3g, 86, 118 e 199-200; m, 178. Cristen, deus do Malabar, 1, 341. Cristo, Vida de, composta em língua persa, pelos Jesuítas (Mogor), que o rei Aquebar ouvia ler, 11, 366. Christóvão, Dom, filho do rei D. Pedro (Serra Leôa); baptismo de, converte-se em após- tolo, ra, 254-257; é disciplinante na Semana Santa, 272-273. Crucifixo, os mandarins chineses intrigados com um, 1, 343-345. Cruz, Francisco da, cristão de Travancor, 1,325. Cruz, P. Gabriel da, nas Molucas, faz muitas conversões, m, 87-88. Cruz, devoção à, milagres na índia, 1, 34-36. Cruzes, lavradas numa pedra antiquíssima (Ja- pão), 1, 98. Cuanza, rio de Angola, 1, 397. Cuboçama (Cubo ou Xógum), antes chamado Daifuçama, general em chefe das tropas do Japão, n, 5; política de, 6-7; favorece os Je suítas com esmolas, quando o govêrno da índia lhes falta com as esmolas estipuladas, 7-8; mêdos e sustos dos cristãos de Ozaca, por causa de, 72, 76 e 77; ouve queixas in- fundadas contra os mercadores portugueses; amansa por meio do P. João Rodrigues; re- cebe ao P. Organtino, 78; usurpa o trono de Japão, e declara herdeiro a seu filho segundo, 217 sgs.; é visitado por um Jesuíta, 232; não desfavorece a Lei de Cristo, 280; mostra-se paéífico, prudente, m, 115, 116 e 118; edicto suave contra os cristãos, 119. Ver Daifuçama. Cuiamam, André. Ver André. Cnjemandono, é êrro.Ver Miguel Sogemandono. Cum, chinês, filósofo antigo, n, 100; ordenou e reformou a seita dos Letrados, iio-iii. Cumamoto. Ver Sumamoto. Cunge (Cungué) ou Ministro do Dáiri (Japão), 1, 118 e 229. Cungao, Padre Grande, do Cataio, 11, 386. Cunha, Manuel da, companheiro de D. Cristó- vão da Gama, na Etiópia, m, 362. Cunha, Nuno da, governador da índia, 11, 304; em Dio, 387.
  • 402 Relação Anual Cunha, Dom Fedro da, governador das Filipinas, com uma armada de espanhóis e portugue- ses, reconquista Ternate (Molucas), n, i32 e 138 sgs.; ih, 87. Canha, P. Vasco da, morre com os trabalhos do cerco de Malaca, n, 316. Cunhale (Cunhal), na Índia ocidental; conquista de, r, 372; os moiros pedem ao Samorim a fortaleza de, m, 68. Cunhale, sobrinho do, morto por ordem do Sa- morim (Calecut), n, 334. Cunugão, templo de gentios, na cidade de Honáo (China), e antes igreja de antigos cristãos, n, 293. Curanda Sogemandono. Ver Miguel Sogeman- dono. Curumbi, cordão (?) no Maduré, iu, 111. Curunodono, fidalgo japonês, 1, 122. Curume (Curumi), povoação do Japão, 111, 144. Cumbas (Cubas, Çumbas, Cumbas) ou Manes, negros conquistadores da Serra Leôa, 1, 409 e 410; ri, 206; ui, 225. Çamorim. Ver Samorim. Dabem ou Meirinho-mor (Bengala), 1, 288. Dabul, cidade do Hidalcáo (índia); pôrto de, martírio do Irmão Vicente Alvares, morto em, 11, 349-35o. Dachém, pimenta do, m, 318. Dadamurte (Dadamur), cidadão nobre do Ma- duré, baptizado pelo P. Nóbili, 111, 94. Cali ali, reino de Etiópia, m, 65. Dai, cidade de Etiópia, cristãos em, 1, 361. Daibut, ídolo de Xaca, no Japão (Meaco), 1, pp. xx e xxx; arde, 234; m, i3o. Daifu (Daifuçama); o médico do, converte-se na cidade de Macau, 11, 93. Daifuçama (Daifuça, Daifu), depois Cuboçama, imperador do Japão, 1, 69, 70, 78, 81, 90, io5, 108, 115 e 119; guerra contra, I23-i32; vitó- ria de, contra os partidários de Findejori- çama, filho herdeiro de Taicoçama, i3i, 133— 135, 137, 143, 145-147 e 151—153; perdoa a vida à mulher e filhas de Dom Agostinho, e a muitos senhores inimigos; é benigno com os Jesuítas, que o visitam; assegura-lhes as casas de Meaco, Ozaca e Nangazáqui, 154; proíbe pregar a lei de Cristo; terríveis amea- ças; abranda a ira, 171-174; nova ameaça; confia nos Padres, 175 e 176.—1, i55-i6o, 162, 1Õ9, 184, 188, 193, 204, 206, 208, 214, 217, 219, 223, 224, 225, 227-229 e 231. Ver Cuboçama. Daimiogin, cami ou deus do Japão, 1, 231. Dai-Nipon (Japão), 1, p. xvi. Dáiri, rei natural, só nominal, espiritual, do Japão, 1, pp. xxix, 114, 118, 229 e 23o; 11, 5 e 217; ni, 121. Damão, na índia portuguesa, colégio de, 1, 3 e 35o; pai dos cristãos em, conversões, m, 2; guerra com o Mogor, antes amigo, 24. Dambeá, cidade, reino, província de Etiópia, cristãos em, 1, 36i; 11, 188, 401 e 408; ra, 32, 49, 62, 65 e 344; Jesuítas e portugueses em, 354-355 e 356. Damoté, reino de Etiópia, m, 66. Damute, região de Etiópia, in, 340, 344 e 354. Dancali, reino de Etiópia; rei moiro de, 1, 36t; in, 65. Danda, terra ao norte de Goa, 111, 24. Danu, terra de Cambaia, m, 23. Daniel, P. Bartolomeu, nas Molucas, 1, 270. Daos ou Padres, no Japão, u, 283. Daquini, terra ao norte de Goa, m, 24. Daraporão, província do Maduré, m, 91. Daraitá, província de Etiópia, m, 66. Das coisas maravilhosas que tenho ouvido, li- vro impresso por um chinês, escrito sobretudo em honra do P. Rício e do P. Catâneo, n, 291. David, rei de Etiópia, pai do rei Cláudio, 1, 352, m, 304, 351 e 364. Débia Líbanos, é êrro. Ver Debra. Debra (Débia), Líbanos (Monte Líbano), igreja etíope, 111, 61. Decão (Decanim) (Bengala); reino de, 1, 6 sgs., 296 e 307; conquistado pelo rei Aquebar ou Grão-Mogor, 11, 366. Delee, cidade da Etiópia, 1, 36o. Demétrio, mercador grego, companheiro de Bento de Góis, no descobrimento do Cataio, m, 25 e 27. Dervixes (Darvexis, Darueres), espécie de reli- giosos penitentes do Mogor (índia), 1, 13; m, '4- Descobrimento do Tibet (O), livro publicado, 1, p. VIII. Deus primeiro, Deus segundo, Deus terceiro; baptismo em nome de, 11, 340. Deva (Uva), reino de Japão, carta, i, 229. Dianga (de Anga, Dianguá), pôrto do reino de Arracão (Bengala), 1, 46; portugueses de, 286; in, 78. Dias, António, índio da aldeia dos Reis-Magos (Brasil), 1, 386-388. Dias, Diogo, embaixador, com o P. Gonçalo Rodrigues à Etiópia, 1, 355; 111, 3o5. Dias, P. Manuel, em Nanchão (China), 1, 256; 11, n5, 116, 117 e 290. Diccionarium Latino - Lusitanicum ac Japoni- cum, 1, p. xxviii.
  • índice Alfabético 40 3 Dimá, igreja de Etiópia, 111, 61. Dio (Diu), ilha portuguesa junto à Gosta de Cambaia; casa de, fundação, 1, 352; a casa de, e a Missão de Etiópia, 352, 362 e 363; coisas de, 387-396; alfândega de, importan- tíssima; comércio de, com muitas terras, 389-390; luta entre a cruz e os pagodes, triunfa a cruz em, 390-393; missão de, ao reino de Cambaia, 393-396.—11,176,397 e 398. Diogo, fidalgo japonês de lamangúchi, 1, 102. Dióscoro, hereje antigo, patriarca de Alexan- dria; erros de, na Etiópia, 111, 3i; tido por santo na Etiópia, 111, 3o8 e 3n. Disciplinantes, cristãos, em Margão e Rachol (índia portuguesa), 1, 5; no Mogor, 11, 377; na Serra Leôa, 111, 272. Dissavas ou Distritos, em Ceilão, u, 345. Dixi, doutrina, no Maduré, m, 97. Doca, rei de Firando (no Japão), 1, 73. Dofar, cidade da Arábia, Jesuítas em, 1, 357. Dógicos (dojucus, doiucos), catequistas, semi- naristas, cantores, pintores, músicos, retóri- cos, filosofos, teólogos que os Jesuítas educa- vam no Japão, 1, 70, 8i, 85, 87, 92, 94, 96, 97 e 136-i39; ni, 154; perto de trezentos, 1, 169; estudos dos, 191 e 218; tocam e cantam deante de Findejoriçama (filho do Taico), iii, 141. Domingues, Irmão; missão ao interior de An- gola, morre, n, 415. Dom Rodrigo, pôrto de, no sul do Brasil, 11, 421. Dongo, côrte do rei de Angola, 1, 398. Dos feitos de D. Chrestovão da Gama, obra de Miguel de Castanhoso, m,-36i. Doturo, semente peçonhenta, no Mogor, 1, i3. Doxala, pôrto da Guiné, 1, 403. Dubané, província de Etiópia, 111, 66. Dubino, P. António, em Chandegri (Bisnagá): em Velur, 11, 323. Ebijara, cobra venenosa (Brasil), 1, 38o. Eclipse do Sol, causa de uma perseguição em Travancor, n, 149-150. Elefante branco, honrado como rei, 1, 44. Einão, cidade da Arábia, Jesuítas em, 1, 357. Endoenças, solenidades religiosas de Quinta- -Feira Santa, no Japão, 1, 100; in, 147; em Agra (Mogor), 11, 377; m, 20; em Mormugão (Goa), n, 356. Enjeitados, no Japão, socorridos cristãmente. 1, p. iii. Equebar ou Aquebar, rei-grande, ou Grão-Mo- gor. Ver Mogor. Erari, príncipe, sobrinho do Samorim de Cale- cut, 1, 345. Ernesto de Vasconcelos, almirante, louva os Jesuítas missionários, 1, p. vrn. Errores (erros), dos patriarcas de Alexandria, 1, 35z. Escárgio, João; erros de, no Alcorão, u, u3. Escravos, da Guiné para a América e para Se- vilha, 1, 400 e 401. Espírito Santo, capitania do, Jesuítas e ingleses na, 1, 377; prosperidades da, 386 sgs. Espírito Santo, colégio do, em Goa, 1, 3. Esquipano, P. António, cativo em Ceilão, 1, 325. Esteves-Pereira, Francisco Maria, louva os Je- suítas missionários, 1, p. vni. Etiópia, Abissínia ou Preste-João; Jesuítas na, 1, p. vrn; princípios da missão de, 1, 352-372} 111, 313 e 317 sgs.; rainha de, Patriarca de, e dois bispos coadjutores e sucessores, 1, 354; iii, 313; Portugueses da, pedem Jesuítas, do- cumento, i, 36i; cristandade de, 11, 165-191 e 397-411; in, 3o-6o; casos notáveis, 1,166 sgs.; o P. Pero Pais carteia-se com o rei de, é bem recebido por êle, 171-175; mais quatro Padres chegam à, carta de um frade etíope a saUdá- -los, 175-180; prisão do rei Malac-Sagued Jacobo; morte do rei Atanás-Sagued; leal- dade dos portugueses na, 11, 404; sucessão dos reis de Etiópia desde i520 até 1607,111, 351-352; frades da, amigos dos Padres e da Igreja de Roma, 39-40; boa índole e devoção do povo da, 40-43; igrejas notáveis da, 61-62; fontes, rios, lagos da, 63; vinte e seis reinos na, 64-65; catorze províncias da, 66; a ter- ceira parte da, pertence de jure a Portugal, 66; Adição à relação das coisas de, refutam- -se muitas afirmações de Frei Luís de Urreta, 287 sgs.; fantasias de Urreta sôbre coisas da Etiópia: sôbre Oviedo e o Conselho Latino, 291-292; sôbre o colégio dos abexins em Roma, 298; sôbre Dominicanos e Dominica- nas na, 3oo, 3o2, 3o3, 3o5 e 3i 1; sôbre a con- fraria de N. S. do Rosário na, 3o3; sôbre a extensão do império da, 365-366; sôbre leis e legistas europeus na, 368; sôbre mulheres más da, remetidas para Goa, 368; sôbre Or- dens Religiosas de Europa na, 35i-352; sôbre, a campanha de D. Cristóvão da Gama na, 369-38o; sôbre os erros dos abexins, 288 sgs.; sôbre a obediência dos abexins à Igreja de Roma, 297 sgs.; sôbre a acção de D. João Nunes, Patriarca de Etiópia, onde nunca en- trou, 317 sgs.; sôbre Oviedo contraposto ao Patriarca e a outros Padres, 3io sgs.; sôbre o Breve de Pio V para Oviedo, que diz ser iubrepticio, 32-j sgs.; sôbre a acção dos por- tugueses, aos quais calunia, 346 sgs.; sobre
  • 4°4 Relação Anual a sucessão dos reis de Etiópia, 35o sgs., e sôbre o comércio de vinhos na, 365-366; os Jesuítas sáo testemunhas abonadas sôbre coisas de, 292 sgs.; cristãos às feras na, 298; guerras na, quási contínuas, Santos na, 299; Religiosos de S. Macário, de S. Basílio, e de S. Antáo na, 3oi; todos os Jesuítas cativos na, 326. Etiópia Oriental, obra digna de crédito, escrita por Frei Joáo dos Santos, Dominicano, im- pressa em 1608, ni, 290 sgs. Eunucos do Imperador da China, 1, 239. Euticio, P. Pedro, vai a Sete-Corlas, reino de Ceilão; grande fruto, morre em Columbo, ra, 75. Eugénio IV, Papa, e a Abissínia, 111, 297. Erará, província de Etiópia, m, 66. Évora, colégio «de, 1, p. vi; universidade de, XXV. Fabião, Irmão japonês, compõe um tratado da doutrina cristã, oferecido a Con^uquedono, 111, 138-13g. Fabião, cristão valente de Iatçuxiro (Japão), 11, 25, 47 e 48. Fabro, P. Pedro, em Coimbra, m, 314—3i 5. Facata, capital do reino de Chicujém, no Japão, 1, 66, 110, 111,155 e 2o3-2o6; coisas da resi- dência de, n, 59 sgs., e 276-277; m, 143-145 e 178-181; mil e novecentos baptismos em, 179. Fachicon, bonzo chinês, quere ser visitado de Rício, 11, io3. Fachimão, japonês antigo, guerreiro e cami, deus das batalhas, 1, 65; 11, 6 e i5. Fachisúqui, japonês, filho morgado de Fucuxi- mandono, n, 66. Faitó Henrique, principal cristão de Coçura (Japão), 11, 63. Falnpos, negros da Guiné, 1, 404. Fangemon (Canefangemon), japonês, nobre e valente cristão de Iamangúchi, n, 269-270. Fangui (Fangi, Frangi), côrte de Moridono, no Japão, a seis léguas de Iamangúchi, 11, 263 e 267; ih, 198, 201, 2o3 e 206. Fardo de arroz, no Japão, valia meio cruzado, 1, 213. Farima, reino de Japão, 1, 181; 111, 221 e 227. Farins, negros da Guiné, m, 243. Farina, rei e reino da Serra Leôa, primeiro rei Mane dos Lóguos, inúmeros filhos de, ni, 249; pervertido por um bexerim, e êste morre subitamente, 263-264; 270. Fascaló, reino de Etiópia, 111, 66. Fatagar, reino de Etiópia, in, 65. Fatema, rei dos Boulões (Serra Leôa), amigo dos Padres, 11, 201; m, 251, 252 256, 267, 270 e 274. Faxiba (Faxibadono, Faxiba Chicujém), de- pois Taicoçama, imperador do Japão, 1, 55- 58. Fenício, P. Jácome, em Calecut, 1, 340-342 e 345; na côrte de Samorim, agente de paz, n, 159; em Tanor, para fundar uma igreja, 337.—341, ih, 68. Fequida Tarazuge, cristão caido, no Japão, promete converter-se, 11, 36 e 38. Fernandes, P. André, vai de Inhambane para o Monomotapa (Moçambique), m, 4. Fernandes, Irmão, depois Padre António', parte de Goa para a Etiópia com o Bispo André de Oviedo, e lá morre, 1, 355-357; informa- ção sôbre a morte de, 11, 181 e 188; carta de, assinada por mais três Jesuítas, m, 321-327; nova carta de, 354-355.—m, 332. Fernandes, P. António', natural de Lisboa, parte de Goa para Dio, e de Dio para a Etió- pia, 11, 175 sgs ; chega à côrte de Etiópia, iii, 33 e 293; cartas de, 295 e 299-300. Fernandes, P. Brisio, nas Molucas, ferido, 1, pp. xn, 276, 278, 282 e 283. Fernandes, P. Francisco, em Arracão (Bengala), 1, 45; em Chatigao, 46; é prêso, e morre, 288.—n, 139. Fernandes, P. Gonçalo, na residência do Ma- duré, 11, 328 e 329; m, 89 e 104. Fernandes, P. Jorge, mártir na ilha de Java, indo para as Molucas, 1, 268. Fernandes, P. Luís, Superior da Missão das Molucas, em Ambóino, 1, 271, 273 e 279; n, 131 e 3o5; em Tidor, na batalha contra os holandeses, 307; vai, com os portugueses vencidos, para as Filipinas, 3o8. Fernandes, P. Manueli, missionário de Cabo Verde, 1, 399; morre, 402. Fernandes, P. ManueU, vai para a Etiópia; tra- balhos, morte de, 1, 355-357; informação sô- bre a morte de, 11, 181 e 189; cartas de, m, 322-324, 325-327, 332-333 e 355-356; traba- lha em Dambeá, 354-355. Fernandes, Irmão João, vai de Pequim a Su- becheu, encontra o Ir. Benvo de Góis que já entrara na China, em demanda do Cataio, iii, 27-29. Fernandes, Pedro, cristão de Travancor, 1, 334- Fernandes, Irmão Sebastião (Bastião), vai para Pequim, 1, 5o, 237 e 242; valentia de, 245; em NanchSo, 256. Fernandes, Sebastião, português, capitão do forte de Biguba na Guiné, 1, 412.
  • índice Alfabético Fernando, Dom, capitão, natural de Ceilão, amigo, i, 327. Ferreira, P. Diogo, morre em Angola, 1, 398. Ferreira, P. Gaspar, na residência de Pequim, IH, 235. Fiancho; a seita dos pagodes da China, saiu de, n, 111. Fidandono, cristão japonês, rei de Buchi, e genro de Nobunanga, 1, 62. Figém (Fijém), reino de Japão, 1, 68; missão em, 112.—111, 148. Figendono (Fingendono, Fijendono), rei de Canga, no Japão, 1, 62, 65, 78, 232 e 233; amigo dos Padres, 11, 85-87 e 289; senhor de três reinos, ra, 214 c 23i. Figueira, P. Luis, vai em missão até à serra de Ibiapaba, norte do Brasil, 11, 425 sgs. Figueiredo, Fidelino de, escritor moderno, 1, p. xv. Fiienoiiama, capital religiosa do Japão, 1, p. xvi. Filau, senhor principal da Serra Leôa, amigo dos Padres, m, 270. Filipa de Leão, Dona (antes Mobora), irmã de D. Filipe, rei da Serra Leôa; baptismo de, in, 259-260 e 262. Filipe de Leão, Dom, rei da Serra Leôa, bap- tismo e matrimónio de, n, 202-205; carta de, para o rei de Portugal, pede Padres e uma fortaleza, 208-209; grande zelo de, 258-262; persegue os herejes e piratas estranjeiros, 263.—11, 206, 207 e 210; ra, 240, 264, 265, 267, 269, 273 e 275. Filipe, Jácome, italiano, no Mogor, amigo dos Jesuítas, 1, 3o8. Filipe II de Portugal (III de Espanha), manda duas fortes armadas contra os holandeses do- Oriente, uma da tndia, outra das Filipinas, reconquistam-se as Molucas, ii, 3o8 sgs.; as missões de Cabo Verde e, 1, 399. Filipinas, religiosos das ilhas, em Japão, irri- tam o imperador Daifuçama, 1,169-170; nau das, afundada por um tufão, n, 219; armada das, para as Molucas, contra os holandeses, 3o8; portugueses e Jesuítas das Molucas, refugiados nas, 11, 127-128 e 3o8. — 1, 226 e a3i. Fimengi, cidade do Japão, 110 reino de Farima, ra, 227 e 228. Findecão, japonês cristão, genro de el-rei D. Francisco de Bungo, 111, 144. Findejoriçama (Findeiorisama, Fim de loriça- ma, Fidigori, Findejori, Findiyori), príncipe herdeiro de Taicoçama, imperador do Japão, 1, 121; ii, 5, 72 e 217; desapossado de seus direitos, 218; enviado por Daifuçama para a fortaleza de Ozaca, ra, 117 e 119; a mãe de, má para os cristão, 140; o Provincial do Japão é recebido e presenteado por, 141; amansa a mãe de, 142; um criado de, louva a lei de Deus e deseja ser cristão, 226. Findenas (Findeno, Findena). Ver Simão Fin- denadono. Fingo, reino de Japão, 1, 63 e 69; o Natal em, 71 e 72; casa reitoral e residência de, 95-100; cristandade de, perseguição, valentes e covar- des, ig3-2o3; 11, 23-25 e 243-259; m, 171— 178.—1, 91, 94, 140, 147, 162, 187, 214 e 227. Fiqui, lugar perto de Xibúqui (Japão), 11, 56. Firando, reino, cidade e ilha de Japão, perse- guição em, 1, 72-73 e 143-145; missão a, 11, 23o; missão de Nangazáqui à ilha de, m, i58- •59.—I, 77 e 157. Firandono, tono, ou senhor de Firando, 1, 144- 146. Firoxima, cidade do reino de Aqui, e cabeça dos nove reinos de Moridono; residência de, 1, 70 e ioi-io3; padecimentos em, 135; mis- são a, 231-232; coisas de, 11, 60, 65-72 e 271 276; cristandade de,ra, 142 e 192-197.—1,151, i58, 207 e 208; a, 260 e 269; ni, 198, 199, 20tj, 207 e 209. Fissaichl, japonês, correio dos cristãos, 111, 209. Fiunga, reino de Japáo, 1, 68; 11, 242. Fios Sanctorum, impresso em língua malabar, 1, 331; traduzido em língua etiópica, 111, 3o2. Focama, lugar de Jap*ão, residência de, i, 83. Focócu (Fococo, Foquoco, Fococa), conjunto de três reinos do Japão; missão a, 1, 232- 234; nova missão a, n, 85.—11, 279 e 289; ra, 23o. Focujém, João, cristão japonês, tio de Ariman- dono, 11, 251. Fogo, ilha do, em Cabo Verde, 11, 199. Fonda Sadondono (Sadodono), pai de Conzu- quedono, o maior privado do Xògum filho de Cuboçama; amigo dos Padres, m, 128 e i3o. Fondazano, japonês, um dos governadores de Daifuçama, defende os cristãos, 1, 225. Fonseca, P. Belchior da, em Arracão (Bengala), 1, 45; em Bachão, 3o5.—11,131. Fonseca, P. Manuel da, cativo dos gentios de Travancor, 111, 72. Foquedono, japonês, perfilhado de Fucuximan- dono, ouve a doutrina cristã, 11, 66. Foqueixos (Fotqueixos, Fuquexus), seita dos (Japão), 1, 194, 220 e 221; n, 23, 47 e 52; 111, 178, 216 e 218. Foquéquio, livro da seita dos foqueixos, 11, 23, 24, 26 e 27.
  • 406 Relação Anual Foquiém (Fuquiém), província da China, 11,107 e 114. Forcão, Taurete, Zabur, Angil, livros do Mo- gor, i, 12. Formão ou provisão, i, 297. Formação (A) intelectual do Jesuíta, obra de F. Rodrigues S. J., 1, p. ix. Foronda, terra de Jap5o (residência de Focama), i,83. Fosaimondono, japonês, a mãe de, é cristã, 1, 207. Fotoque, deus, ídolo, no Japão, roubo de um, dógico valente, 1, 94.—106,187,193 e 229. França, Afonso de, português da Etiópia, intér- prete do P. Gonçalo Rodrigues, disputa com o rei, carta de, iu, 311—312. Francês, grande aventureiro, apóstata, conver- tido pelos Jesuítas no Mogor, 111, 19-20. Francisca, menina de Travancor, deve a vida a S. Francisco de Xavier, 111, 73. Franciscanos, religiosos, no Japão, martiriza- dos, e porquê, 1, 170; não querem Jesuítas em Ceilão, 325; os Jesuítas entram em Cei- lão contra vontade, a pedido do próprio Bispo de Cochim, Franciscano, cuja diocese compreende aquela ilha, 325-326. Francisco, japonês, filho de Belchior Bugen- dono, entregue como refém por seu pai a Moridono, 11, 263. Francisco, Dom, rei de Bungo (Japão), 1, 69; exéquias por alma de, io5.— 1,182, ig3 e 203. Francisco, Dom, cristão japonês, filho de D. Ma- xència, 1, 106 e i56. Franco, P. António, autor da Imagem da Vir- tude, escreve de Fernão Guerreiro, autor da Relação Anual, 1, p. xxxix. Frangi, no Japão, é êrro. Ver Fangui. Frangues (Franguis), europeus ou portugueses, na índia, 1, 304; u, 322 e 331; iu, 101,102 e 104. Freiras, gentias, no Japão, tu, 228. Freire, Irmão Fulgêncio, acompanha ao embai- xador português mandado à Etiópia, 1, 355; é cativo dos moiros, levado ao Cairo, e res- gatado por via de Roma, m, 293 c 3o5. Freitas, Jordão de, escritor moderno, 1, pp. xxv e xxvi. Freitas, Jordão de, capitão deTernate, 11, 304. Fremoná, lugar de cristãos portugueses na Etió- pia, recebe solenemente ao P. Pero Pais, 1, 368; Jesuítas em, 11, 399; P. Pais em, 409; seminário de, 39 e 46; fruto, exemplos, e tra- j balhos em, 46-61; O Patriaca Oviedo em, 331 e 332.—n, i65,171,180 e 182; ni, 33 e 356. Fróis, P. Luís, escreve de Japão, 1, p. xxvi; re- cebe recados de Taicoçama, 60. Fucafuri, terra de Japão, perto de Nangazáqui, missão a, 1, 82 e i85; n, 288; m, 147 e 148. Fuchu, (Fuchum, Fochu), cidade do reino de Surunga (Japão), ra, 125,127 e 128. Fucuximandono (Fucoximandono, Fucoximon- dono, Fucuximadono), japonês, senhor dos reinos de Voari, Aqui, e Fingo; é amigo dos Padres e dos cristãos, 1, 62, 119, 128, i58 e 23i; 11, 65-67 e 244; dá boas casas aos Pa- dres, 271-273; ouve a prègação, 274. Fudogamá, no Japão, perto de Nangazáqui, re- sidência de, 111, 147. Fnij (Fuijcan, Fuijsans), célebre vulcão do Ja- pão, 111,128-120 e 135. Fuim, rei de Firando (Japão), 1, 73-75. Fulos, negros da Guiné, m, 284 e 363. Fulos Gasalhos, pretos da Guiné, 1, 402. Fundacion... de los caballeros de S. Anton Âbbade, obra fantástica àcêrca de Etiópia, publicada em Espanha, iu, 290. Fumucão, chinês, governador da província de Huncão, primeiro castigado, depois honrado, 11, 96; honra e estima os Padres; estuda, copia e imprime o catecismo do P. Rício, 97-98. Funai, cidade de Japão, 1, 109. Funcos, ou alpendres, para tribunais (Serra Leôa), 1, 408 e 409. Fuximi, cidade e fortaleza de, perto da cidade de Meaco (Japão); residência de, 1, 65, 66, 114, 117, 127 e 214; 11, 217, 279, 281 sgs., e 284 sgs.; corte do Japão, 124, 140, 142 e 164; coisas da residência de, 221-225. Gabaçouces (jabacouces, iabacouces), feiticei- ros da Guiné, 1, 400 e 405; m, 281. Gabeá, rio de Etiópia, m, 63. Gabriel, João, capitão dos portugueses da Etió- pia, 1, 36i e 368; 11, 399; grande cristão e letrado, m, 61; dá notícias geográficas de Etiópia, 61-64. Gabriel, menino chinês, em Nanchão, 11, 117. Gaçar, província do Mogor, 1, 314. Gaceu, bonzo japonês, 111, t3o. Gago, P. Baltasar, escreve do Japão, cartas de, I, pp. v, xvii, xviii e xxi. Gaifu. Ver Guifu. Gaimurés, índios bravos da Baia (Brasil), do- mesticados pelos Jesuítas, 1, 378 e 389-395. Galas, gentios bárbaros da Etiópia, derrotados, II,170-171; 403 e 409; 111,35,46,48,65,255 e 354. Galinato, João Soares, capitão castelhano, em Ternate, quando se reconquistou, 11, 310. Galiseu, João, veneziano, em Lahor (Mogor), 1, 312.
  • Índice Alfabético Gama, D. Cristóvão da, irmão de D. Estêvão, vai à Etiópia socorrer o imperador; bata- lhas, i, 353; morte, 354; fantasias de Urreta sobre a campanha de, 369-379; campanha verdadeira, 370-372; notícias sôbre a morte de, 373-375; capacete, saia de malha, peças de artilharia de, recuperadas numa batalha contra os moiros, 379.—m, 3o5, 348, 36i, 362, 364, 366 e 367. Gama, D. Estêvão da, Governador da índia, manda seu irmão D. Cristóvão com uma ex- pedição militar à Etiópia, m, 3o5. Gama, D. Francisco da, conde da Vidigueira, Almirante do Oceano Índico, Vice-Rei da índia, e Ceilão, 1, 325 e 326; e a Etiópia, 36o.—«, 181. Gama, D. Vasco da, Conde Almirante, 111, 370. Gâmbia, rio da Guiné, 1, 4°3j "> 21'• Gamocanore, lugar de Ternate (Molucas), 11, 311. Ganga ou Ganges, rio de Bengala, u, 317. Gangas, rios que cortam Bengala, in, 101, 102 e io3. Garibos (mesquinhos, súbditos), no Pegu, 1,291. Garijós, índios do sul do Brasil, desejam Padres, e recebem-nos, 1, 384-386. Garus. Ver gurus. Gaspar, japonês. Ver Rocusuque. Gato, deus gato, no J apão, m, 207. Geilolo, lugar da ilha de Moro (Molucas), 11, 310. Gelanda (Zelândia) navegantes de, nas Molu- cas, 1, 269. Gem, capitão-mor de uma armada (Bengala). 11, 134. Genifoím (Genefoim), governador de Meaco, no Japão, 1, 65 e 23o. Georgis, P. Abraão de, maronita, Jesuíta, parte para a Etiópia; preso e martirizado, i, 358- 36o; restos de, perdidos, 11, 399.—1, 370; m, 293. Geral, o P. Geral dos Jesuítas, e Bento de Góis, 1, 3i3. Gibonoxo (Gibonoio), governador do Japão, i, 65, 78 e 122; preso, i3i,t3a ei33; condenado à morte, 148 e 149; u, 5o. Gidá, no Mar Roxo, comércio de, 11, 38g. Gindas, negros de Angola, m, 225. Ginja, na índia Oriental, holandeses em, ni, 76. Ginji, naique de (Bisnagá), 11,143 e 327. Giomári, senhor antigo do Japão, 111,142. fliocho, era japonesa, m, 173. Girão, Padre, Carta Ânua de, publicada por António Baião, 1, p. xxxvn. Giras, cidade .da Pérsia, 1, 351. Girozaimon, gentio japonês, amigo do mártir Gofioge Simão, 11, 32 e 33. Gioyozu, cidade japonesa, no reino de Voari, HI, 139. Glória de Deus, o alvo dos Jesuítas, 1, p. xn. Goa, capital da índia portuguesa, 1, p. xi; Pro- víncia de, Província do Norte, casas, pessoal e fruto, 1, 3-25, 296-314 e 347-372; 11,165-190 e 347-412; tu, 1-66, 277 e 287-380; mais de 25o Jesuítas na Província de, 11, 347; morre- ram perto de quarenta Jesuítas em quatro anos na Província de, 349; noviciado de, 352; noviço de, salvo das ondas, 353; mais de seis mil baptismos na cidade de, 353; conversões em, 111, 2-3; o Arcebispo de, e Bento de Góis, 1, 313; casas de, setenta e dois Jesuítas che- gam de Lisboa a, 3475 servem Jesuítas no hospital de, 348. Gocu de arroz (dois fardos), 1,115, 116 121 e223. Godinho, Belchior, capitão português, destrói Dianga, em Bengala, 111, 84. Gofioge Zaquendo. Ver Simão. Gojama (Guojamá, Guorjamá, Guoiamá, Goia- má), reino de Etiópia, 11, 402, 403, 406 e 408; m,-6i e 62. Góis, Irmão Bento de, natural de Vila Franca, na ilha de S. Miguel (Açores), explorador da Ásia central, 1, p. vm; retrato de, xxxiv; vai do Mogor a Goa, 10 e 11; acompanha ao rei do Mogor, 12; vai descobrir o misterioso Ca- taio, cartas de, 296 e 311 sgs.; toma o nome de Banda Abdula, 312; duas cartas de, sôbre os progressos da viagem, 11, 38i—387; des- venda o mistério do reino do Cataio que é o mesmo que a China, onde entrou pelo norte, 111, 25-28; vida, conversão milagrosá, morte e restos mortais de, 28-3o. Ver Isac. Góis, Damião de, escreve coisas erradas sôbre a Abissínia, m, 297. Góis, P. Francisco de, viagem atribulada para Angola, tempestades, piratas, cativeiro etc., carta de, 11, 191-192; missão ao interior de Angola, 214. Góis, P. Luís de, vai de Goa para o Monomo- tapa (Moçambique), 111, 4. Golaio, Tristão, português, amigo do Rei de Sião (Indochina), m, 85. Goli, pôrto de Bengala, 11, i34 e i35. Gomá, reino de Etiópia, 111, 65. Gombuna, Miguel, rei de Tabete, cativo em Hir- cande (Ásia central), 11, 386. Gomes, P. Pero, Vice-Provincial do Japão, morre; elogio de, 1, 79 e 80. Gomes, P. Sebastião, vai aos índios garijós (sul do Brasil), 1, 385.
  • 408 Relação Anual Gonçalo, São, intervenção de, i, 43. Gonçalves, P. Afonso, preso em Uto (Japão), morre em Nangazáqui, 1, 139 sgs. Gonçalves, André, português da Etiópia, 1, 36:. Gonçalves, P. Diogo, destinado à Etiópia, 1, 358; trabalha na Costa deTravancor, n, i5i. Gonçalves, P. Francisco, de Goa vai para Mo- nomotapa (Moçambique), 111, 5. Gonçalves, Sebastião, capitão português, des- trói o pôrto de Dianga (Bengala), m, 84. Gonçalves Viana, louva os tiabalhos linguís- ticos dos missionários Jesuítas, 1, pp. xxni- -XXV. Goquinai ou Meaco, no Japão, 1, 114. Gorgorrá, na Etiópia, estância dos Jesuítas, 111, 33 e 38; fruto em, exemplos notáveis, 43-46. Goromá, reino de Etiópia, ra, 32, 33 e 61; quási ilha, feita pelo Nilo circundante, 65. Gorozaimon, João, cristão japonês, 11, 24 e 25; glorioso martírio de, 26-3o; carta de, sen- tença de morte contra, 27-28.—n, 45. Goru ou pontífice, entre os gentios do Mogor, abençoa ao príncipe revoltado, castigo de, 11, 369-370. Gôto, ilhas de Japão, cristandade de, 1, ti3 e i85; 11, 231; m, 156—158. Gouveia, P. Cristóvão de, Visitador, e os ingle- ses na Baía (Brasil), 1, 376. Gotoxaburodono (Gotoxozaburodono), japonês, privado do Cubo; amigo dos Padres, m, ia5- 128, i38 e 139. Graal novo, as missões de além-mar, 1, pp. ix-x. Grácia, Dona, cristã japonesa, senhora do reino de Tango, esposa de Nangavoca Jocundono gentio; morre heróicamente; carta de um Padre, 1, 125-127; '*a e escrevia português, 126; exéquias solenes de, 214-218, 224 e 225.—1, 210 e 211; n, 63 e 65; ui, 122 e 143. Grácia, japonesa cristã, criada de Maria, se- nhora de O jaca, 11, 287. Gracia, P. Domingos, Superior da residência dos Reis-Magos (Brasil), na capitania do Espírito Santo, 1, 386. Gradanha (Granha, Granhe, Gradahametes), rei de Adel e de Zeila; vitórias de, derrota e morte de, à mão dos portugueses da Etió- pia, m, 62, 369-371 e 377. Granada, Frei Luís de, 1, pp. xxv e 81; louva a emprêsa apostólica dos Jesuítas na Etiópia, tu, 335. Gran-Capitão. Ver Mendonça. Granhe. Ver Gradanha. Grão-Mogor, império do, Jesuítas no, 1, p. xi. Ver Mogor. Greg5rio XIII, Papa, e as missões do Japão, n, 7. Grimão, Leão, grêgo, companheiro de Bento de Góis, em demanda do Cataio, 1, 311 e 3i3. Gualdames, P. André, na Etiópia; informação sôbre a morte de, n, 181 e 188. Guarativa, rio do sul do Brasil, 11, 420. Guardafui (Guardafu), cabo de, na costa orien- tal de Africa, 1, 406 e 410-412; n, 415. Gubai (Gubay, Gubbay), côrte do imperador de Etiópia, na província de Dambeá, 11, 408; m, 63, 352 e 365. Guederão ou latim dos brâmanes (índia), ui, 90. Guembadono, japonês, irmão de Jocundono, 1, 212. Guerreiro, P. Fernão, autor da Relação Anual, i, pp. vi, viu, x, xxv e xxxvii—xxxix. Guia de Pecadores, obra de Frei L. de Gra- nada, impressa em língua japonesa, 1, pp. xxv, 81 e 108. Guiçava, japonês, capitão geral de Moridono, 11, 52 e 53. Guifu, (Gaifu), capital do reino de Mino (Japão), I, 119, 128-129 e 2|3; u,j '^4 e i35. Guiné, escravos da, no Brasil, 1, 397; missões da, 399-413; descrição da, 402-410; traba- lhos apostólicos na, cartas do P. B. Barreira, II, 199-212 e 415 sgs.; ih, 239 sgs.; enterros e festas bárbaras na, 249-250; costumes da, 282-283; grande conversão que se pode fazer na, 283-285. Guno ou pico, outeiro alto, na ilha de Ambóino (Molucas), 1, 278 e 281. Gurus, (garus) mestres da lei, no Maduré, (ín- dia), 11, 331; iii, 90, 95, 97, 109 e 110. Gusmão, P. Luis de, historiador espanhol, Je- suíta, escreve àcêrca de Etiópia, m, 289 e 3o3. Guzarate ou Cambaia, reino de, propriedade do príncipe do Grão-Mogor, 1, 297; conquistado pelo rei Aquebar (Mogor), 366; comércio de, 387.—11, 363. Hambalac ou Pequim, 111, 26. Hendu ou Malabar, antiga sede episcopal fun- dada por S. Tomé, 11, 142. Henriques, P. Henrique, sepultura e veneração de, em Tutucorim (Costa da Pescaria), 1, 32. Heremechiti (Heremechi), Naique, capitão do Maduré, amigo e protector do P. R. Nóbili, ni, 100-101.—111, io3,104 e u3. Hidalcão (Idalcão), grande potentado da índia; reinos do, 1, 296; n, 349. Himalaia, montes da Ásia central; o P. Antó- nio de Andrade no, 1, p. viu. Hircande (Ásia central), côrte de El-Rei de Cascar; o Irmão B. de Góis escreve de, n,
  • 4 índice Alfabético 4°9 38t; cem mesquitas em, 384; riquezas de, 385.—in, 26 e 27. História de Portugal, de M. Pinheiro Chagas, 1, p. vii ; de Paulo Merea, xv. História Eclesiástica, Política ... de Etiópia, publicada por Frei Luis de Urreta, em Espa- nha; refuta-se, 111, 287 sgs.; conserva-se um exemplar do primeiro volume na B. P. de Évora, 297. Ver Urreta. Holanda, navegantes de, naus de. Ver Holan- deses. Holandeses, nas Molucas, 1, 269, 275, 276, 277 e 279; tomam Tidor (Molucas), 11, 3o6-3o7; em Bungo (Japáo), vêem-se em trabalhos, 1, 107 e 108; em lendo (Japão), visitados por um Jesuíta, n, 233; gentileza dos, com os portugueses, 1, 282; em Macau, piratas, 236- 237; n, 7; roubam duas naus portuguesas, 91; tomam um navio em que iam três Jesuítas para Angola, trabalhos sem conto, largam os missionários a três léguas de terra, carta, 193-106; treze naus dos, contra Moçambi- que, desistem de tomar a fortaleza, 348; em frente de Goa, 349; naus dos, na Serra Leôa, 209-210; na Costa da Guiné, 111, 278; em Ma- laca luta brava, 11,312—316; na Costa de Ben- gala, em Patane, 1, 294; na ilha do Maio (Cabo Verde), 401; tomam o arménio Isac, companheiro de Bento de Góis, largam-no, m, 3o. Homem (O) qne trocou a sua alma, estudo de Fidelino de Figueiredo, 1, p. xv. Honão (Honam), província da China; um man- darim judeu de, vai a Pequim falar com os Jesuítas, 11, 292; cristãos antigos em, 293.— IH, 27. Hortuna, Gaspar, velho de Itanaém (sul do Brasil), n, 420. Hospital, fundado pelos Jesuítas em Bungo (Ja- páo), 1, pp. xvi-xviii; outro de leprosos em Ojaca, ii5; outro em Guifu, 120; outro de sangue, em Malaca, entregue aos Jesuítas pelo Vizo-Rei, 11, 3i6. Huncão, província da China, 11, 96. Husbec, reino de (Ásia central), 1, 3o3. Cf. Us- ber. Iabundos, negros da Guiné, 1, 404. Iamabúxi (Iamabuxe, Iamambúxi), bonzo feiti- ceiro do Japão, 1, 221; 11, 55; baptiza-se, m. 190. Ialciomondono, japonês, ministro de Cacujai- mon, n, 245. Iamangdchi (Amanguche, Amangiichi), cidade japonesa, 1, pp. xxi, xxm e 68; residência de, 71 e ioi-io3; trabalhos e sofrimentos em, carta, 135; ministérios, perseguição em,carta, 206-210; missão a, 49-57; cristandade de, 260- 271; m, 197-210.—1, 158,159, 184, 201, 2i5 e 217; 11, 14- Ianagava. Ver Janagava. Iatçuxiro (Yatcuxiro, Jateuxiro), cidade japo- nesa do reino de Fingo; conversões em, 1,72; residência de, g5 e 97; igreja de três naves em, semana santa em, 97; tribulações em, saem os Padres de, 140-143; cristãos caídos, depois arrependidos, 202 e 2o3; perseguição em, 11, 23, 243 sgs., 25o e 252; treze cristãos presos, carta, 253-255.—1, 186, n, 28-3oe46; ih, 172 e 174-177- Ibiapaba, serra de (norte do Brasil), primeira missão à serra de, enviada de Pernambuco, infeliz, 11, 425 sgs. Ichiam (Ychiam), japonês, privado de Cubo- çama, alcança que o Bispo de Japáo visite ao mesmo Cubo, m, 120 e 121; amigo dos Padres, 128. Ichicava Iifioje (Iifioge), japonês, algoz do mártir Simão Gofioge, 11, 3i e 34;-converte-se à fé, 45-46. Icoxus (Icoxos) seita dos (Japão), éa mais pre- judicial, 1, 95-96.—1, 83, 222 e 232; 11, 52 e 67. Idalcão. Ver Hidalcão. ídolos, ilhas na costa da Serra Leôa, 1, 408; 11, 200 e 252. lefo, semente alimentícia na Etiópia, parecida com a mostarda, m, 55. lendo (Yendo), cidade do Japão; missão a, u, a3i; descrição de, 232; holandeses e in- glêses em, visitados por um Jesuíta, 233; é residência do Xògum, filho do Cubo, 111, 127 e 128 sgs.—11, 272; ni, i3o, i32, 133, i35 e 162. lemão, deus do Inferno (Japão), n, 238 e 23g. lerém, rei dos negros da Guiné, 1, 404. Ietxu, reino de Japão (no Meaco), n, 289. Ifai, taboleta levantada junto de um defunto, no Japão, m, 192. Igo, é êrro. Ver Iyo. Igreja, Católica, converter os povos à, 1, p. ix. Iiaiasu, rei de Bandou e de Micava, (depois Daifuçama), 1, 64 e 65; governador princi- pal do Japão, 69. Iiflacos, cristãos japoneses, oficiais da cari- dade. zeladores e conselheiros dos mais, 11, 24, 37, 38, 40, 4', 44, 43 e 4*3 sgs.; m, 171 sgs. Iifiogi, cristão japonês, para ser fiel, emigra para o reino de Sião, u, 244; 245 e 25o. Ilhéus, capitania de (Brasil); influência bené- fica dos Jesuítas em, 1, 392.
  • 4io Relação Anual Imprensa, a primeira do Japão, obras impres- sas no Japão, i, p. xxv sgs. Imprensa (A) de tipos móveis em Macau e no Japão, nos fins do século XVI, por Jordão de Freitas, i, p. xxvi. Inácio, Santo; milagres de, no Japão, 11, 12 e 68; na índia, retrato de, feito por um Irmão italiano, 322. Inari, Cami (deus), do Japão, i, 233. Inchio ou renúncia do estado em favor de outrem, no Japão, 1, 206. índia, Jesuítas na, 1, pp. viu e x-xii; missões da, 2-5o e 286-357; 11, i32-i63 e 312—3q6; m, i-3o e 67—113. índios, do Brasil, costumes, ignorância, docili- dade, amor aos Padres, 1, 375 sgs.; loucuras religiosas dos, 38i. Inês, cristã japonesa, esposa do mártir Simão Gofioge, 11, 33, 35 e 36; glorioso martírio de. | 37 sgs. Inês, japonesa cristã, filha de João Nangato, caso famoso de possessão, n, 237-241. Inês, menina chinesa, catequista, valente, 1,265. Inglês, no Mogor, feito embaixador do rei de Inglaterra, é escandalosamente protegido pelo rei do Mogor; inimigo dos portugueses, perde a graça do rei, ui, 22, 23 e 2.(. Inglesa, nau, em Tidor (Molucas), em som de paz, n, 3o5. Inglêses, em três navios, de Londres a Cam- baia, perdidos, depois a Surrate, bem rece- bidos, 111, 22-23; perdem a graça do rei do Mogor, desamparados, socorridos pelos Je- suítas, 24; na costa Guiné, m, 278. íngua, rei de, no Japão, 1, 61. Inquisição, tribunal da, na Etiópia, é fantasia de Urreta, ui, 298. Iodoxus (Idoxus, Jodoxus), seita dos, no Japão, iii, 148 e 208. Ionaguizava Sangazamon, homem principal, súbdito de Moridono, no Japão, 11, 263. Ior, pôrto de (Malaca), os holandeses refazem- -se em, 11, 313 e 3i5. Ioximino, cristão japonês. Ver Constantino, Dom. Ipon Mateu, lugar perto de Iamangúchi (Japão), 11, 268. Isabel, Dona, japonesa, esposa de Jácome Mi- masacadono, 1, 97; cabeça dos cristãos de Satçuma, 11, |5 e 16; valente cristã, 17; vir- tudes e morte de, m, i63-i65. Isac, cristão arménio, companheiro sempre fiel do Irmão Bento de Góis até descobrir o Ca- taio; ui, 25 e 27; vai de Pequim a Macau; tomado pelos holandeses; chega a Malaca, a Cochim, a Goa, e a Cambaia, sempre socor- rido pelos Jesuítas, 29-30. Isafai (Issafai), no Japão; cristandade de, resi- dência de, 1, 83; senhores gentios de, muito amigos dos Padres, n, 228-229; m» '47- Isafaio (Isafai, Isafaidono), japonês, 1, 68; mis- são nas terras de, gentios de, 82 e 83.—nt, 160. Itacurandono, governador do Meaco (Japão), ouve a prègação, 11, 280.—m, 122. Itália, montepios em, 1, p. xix. Itanaém, no Brasil-Sul, 11, 420. Itaparica (Taparica); índios gaimurés para a ilha de (Baia-Brasil); caridade dos Padres, 1, 391. Itapocu, rio do sul do Brasil, por onde desceu Gaspar Hortuna, 11, 420. Itcuquxima? (Iteuqueima?), ilha do Japão, perto de Firoxima, m, 206 e 207. Ito, ilha e cidade, em Ambóino (Molucas); ho- landeses em, 1, 275, 276 e 279. Itodono, senhor principal do Japão, 1, 68. Itolama ou sacerdote, no reino do Tabete (Ásia central), 11, 386. Itos, os naturais de Ito (Ambóino), guerra aos, 1, 278. Iunda, lugar de Iamangúchi (Japão), u, 262. Ixe, reino do Japão, 1, 128 e 129; 11, 43 e 44. Ixorém, deus do Malabar, 1, 341. Iyo (Igo), reino de Japão, ui, 192. Izu, reino de Japão, m, 194. Jabé, lugar de Japão, residência de, 1, 95, 98 e 100. Jacas, negros da Africa (Congo), 111, 255. Jacata ou rei do Bungo, 1, 212. Jacobe, Irmão, japonês, em Pequim (China); pintor que faz pasmar, u, g3. Jacobo (Jacob), imperador de Etiópia, chamado Malac Sagued, filho de Malac Sagued (Sarsa Denghel). Ver Malac Sagued Jacobo. Jácome, japonês, cristão principal, serve a Fucuximandono, 1, i58. Jácome, Mimasacadono, fervoroso cristão ja- ponês, marido de Isabel, súbdito principal de D. Agostinho, 1, 97; morre, 186-187. Jacuím, nome de um bonzo proxeneta, 1, 61. Jagoru ou mestre das coisa da lei (índia), 11, 329. Jaguaraba, índio amigo, da capitania do Espí- rito Santo (Brasil), morre cristão, 1, 387 e 388. Jaigém, reino do Japão, 1, 233. Jaléia(jalia, jálea),embarcação ligeira de trinta remos, em Bengala, 1, 46, 286 e 278; m, 133.
  • índice Alfabético 411 Jalofos (jelofos), pretos da Guiné, 1, 402 e 403; n, 284; iii, 363. Janagava (lanagava, Yanagava), cidade prin- cipal do reino de Chicungo (Japão); fortaleza de, residência de, 1, i85; 11, 287; iii, 144 e 181- .86. Janagavadono, senhor do reino de Chicungo (Japão), 1, 227. Jangomá, rei de, no Pegu, 1, 292; 11, 317. Januqui, é erro. Ver Sanúqui. Japão, império do, dado a conhecer pelos Je- suítas, 1, pp. xxi, xxix e xxx; mapa do, feito e publicado pelos Jesuítas, reprodução, xv; Cartas do, obra publicada, xvn; costumes do, xx-xxx; a escrita do, xxi-xxiv; qualidades dos naturais do, xxvii; 11, 243-244; o chá no, 1, p. xxviu; tipografias no, xxv; iconografia dos portugueses no, xxxn; música de órgão etc., no, xxvi; guerras no, 127-132; prova do fogo no, iii, 194-196 e 199; os Jesuítas no, 1, pp. vin, x e xui-xiv; Vice-Provincia do, 2, 53- 164 e 169-234; 11, 5-87,217-289 e 370; 111,115- 231; penitências dos cristãos do, 1,100 e 118; Visitador do (P. Alexandre Valignano), 1, pp. 1, 73, 80 e 81. Ver Valignano. Trinta residên- cias no, 78; cento e vinte e três Padres e Irmãos no, 79; consolações dos Padres e cristãos do, depois da vitória de Daifuçama contra os partidários do filho herdeiro de Taicoçama, i52 sgs.; pessoal e casas dos Jesuítas no, 11, 7; pobreza dos missionários do, 7-8; casos sobrenaturais no, 10-12; cfís- tandade do, m, 1 i5-a3i; pessoal e casas dos missionários do, 1 (5; tufão que sofreram seis Jesuítas que iam para o, milagre, 116; quinze mil conversões no, 117; Bispo do Japão (D. Luís de Cerqueira, Jesuíta), 1, 68, 73 e 74. Ver Cerqueira. O Provincial, ou melhor, Vice- Provincial do, (P. Francisco Pásio)*, visita ao imperador Cuboçama; foi um triunfo, m, 123-128; visita ao filho do Cubo em lendo; novo triunfo, 128—133; vai a Surunga, i33- 137; volta para Meaco; visita em Ozaca ao filho de Taicoçama; de Ozaca vai paraNan- gazáqui; foi uma excursão apostólica frutuo- síssima de quási cinco meses, 138-146. Jarim ou São Domingos, rio da Guiné, 1, 404 e 405. Jasor, residência do rei de Chandecão (Ben- gala), n, 135. Jata (Jatá, Yata). Ver Miguel, Dom. Jateuxiro, é erro. Ver latçuxiro. Java, ilha de; moiros de, matam a dois Jesuí- tas que iam para as Molucas, 1, 268; 270. Javaxará, ano de, no reino de Bisnagá, 111, 76. Jechijém (Jechiém, Jechigem, Jequiém), reino de Japão, 11, 87 e 287; m, 126 e 231. Jechingo, reino de Japão, 1, 226. Jechinocami (Ychinocami, Jechino Cami), ja- ponês, aio de Findejori (filho do Taico), irri- tado; com a visita do Provincial do Japão abranda a favor dos cristãos, m, 140 e 141. Jemonodono, governador do Japão, 1, 65. Jenaidono, cristão japonês, homem principal, 1, 207. Jendochunugandono, filho herdeiro de Daifu- çama, imperador do Japão; visitado por um Irmão da Companhia de Jesus, 1, 115. Jenomotedono, fidalgo de Moridono (Japão), 1, 227. Jenxu, seita de, no Japão, 1, 122. Jenxus (lenxus, Ieoxus, Genxus); seita dos, no Japão, 1, 114 e 223; 11, 53; ra, 148, 2i3 e 214. Jenzuge, governador de latçuxiro, no Japão; amigo dos cristãos, 11, 46. Jerogemon. Ver Joaquim. Jerónimo, Dom, fidalgo japonês de Firando: filho de D. António, 1, 73, 74, 144 e 145; ofe- rece-se à morte por Cristo, 146; 157. Jesuítas, religiosos da Companhia de Jesus, fundada por S. Inácio de Loiola; utilidade dos, 1, pp. x-xji; médicos, cirurgiões, xvi; quási seiscentos no Oriente, 2; ensino, e outras ocupações dos, no Oriente, 2-3; um milhão de cristãos a seu cargo, no Oriente, 3; in- fluência benéfica dos, nas Missões Ultrama- rinas, 370 sgs.; agentes de paz, 371. Jesus, colégio de, em Baçaím, 1, 3; colégio de, em Goa, 3. Jesus Cristo, amor a, 1, p. vu. Jesus e Maria, amor dos gentios a; milagres, 1,41. Jeximino. Ver Constantino, Dom. Jichu, reino de Japão, 111, 23o. Joala, pôrto da Guiné, trabalhos apostólicos do P. B. Barreira em, 111, 278. Joana, japonesa cristã, mãe do mártir Simão Gofioge, 11, 31, 33, 35 e 36; glorioso martírio de, 37 sgs. João, cristão japonês, foge do reino de Fingo para Nangazáqui, morre, iu, 149. João, cristão de Travancor, na igreja de Cotate; milagre das alâmpadas de água, u, 343-344- 1 O Padre Francisco Pásio foi Vice-Provincial do Japão desde 1600 até 1611; antes dêle fôra o P. Pero Gomes, falecido em 1600. Ver Gomes.
  • 412 Relação Anual João, cristão japonês de Meaco, converte-se . em Nangazáqui; constância de, contra os bonzos; célebre disputa de, ni, 2i5-2i8. João, cristão japonês, familiar do tirano Can- zugedono; conversão, baptismo e destêrro voluntário de, 11, 259. João, Dom, japonês fidalgo e cristão, senhor de Arima; piedade de, 11, 234, 259 e 281. João, Dom, Setuão, cristão, filho do rei D. Fi- lipe, da Serra Leôa; baptismo de, in, 260- 262; 264 e 265; baptizam-se dois irmãos e um filho de, 266; 273. João, Dom, o alevantado, em Ceilão, contra os portugueses, 1, 325 e 327; morre, u, 149. João, Dom, Acaxicamão. Ver Acaxicamão. João Gorozaimon. Ver Gorojaimon. João Naitofindandono (Naitofindono), Cami, cristão principal, no Japáo; carta de, 1, 196; constância de, 201. João Tigoro, japonês, cristão valente de Iatçu- xiro, 11, 24-26, 29, 35, 41, 42, 47 e 48; prêso, interrogado, carta de, 245-249. João II, Dom, rei de Portugal, e o Preste-João, 1, 3io, 352 e 354; ui, 334; e o Congo, 364. João III, Dom, rei de Portugal, e os Jesuítas missionários, 1, pp. v, 354 e ^3; e a Etiópia, 111, 304, 3i3 e 334. Joaquim, cristão japonês, em Arima, chamado por Deus para o céu, 111, 167-168. Joaquim, japonês, cristão valente, pela fé, em Iatçuxiro, 1, 199-200 e 203. Joaquim Vatanabe Jeromon, (Jerogemon) japo- nês, um dos três iifiacos (irmãos ou oficiais da caridade) em Iatçuxiro; vida santa e heróica de, por amor da fé, 11, 24, 26, 27, 29, 35, 36, 41, 42, 47 e 243 sgs.; prêso com sua mulher Maria, e com seus dois companheiros J0S0 e Miguel, 25o e 251-259; carta dos três ao P. Provincial da Companhia, 255; prêso durante três anos, protestação de fé, m, 172-173; morre, carta de, 174-175-, obtêem os Padres o corpo do mártir; entêrro de, 175-176. Joaquim, pai de D. Agostinho (Japão), 1, 115. Jocundono (Jucundono, Jocundo, Jecundono. Yechudono) Nangavoca (Nagavo Yecundono), gentio japonês, rei de Tango; favorece os Je- suítas, 1, i55; rei de Bugém, favorece a cris- tandade, 157; honra, e favorece os Padres, carta, 211-214; exéquias por alma de Dona Grácia esposa de, 214-218; amigo dedicado, solta os presos condenados à morte e en- trega-os ao Padre Missionário, 11, 63-65; 111, 122 e 143; baptiza-se a mãe de, 187-188.—1, 210, 224 e 278. Jogoro, Justino. Ver Justino. Jogue, na índia, 11, 156 e 157. Jonovoribe, fidalgo japonês, 1, 223. Jorda, adoração, com a cabeça em terra (no Mogor), 11, 365. Jorge, japonês, pai de João, soldado de Tara- zava; valente cristão, 11, 20. Jorge, intérprete do P. R. Nóbili, no Maduré, 111, 90 e 96. Jorge, cristão e mandarim chinês, em Xaucheu; grandes exemplos de caridade, 1, 259.—11,122. Jorge, P. Francisco, Maronita, morto em Ma- çuá (Etiópia), 11, 178. Jorge Jafingidono (Jafinjidono, Jafingindono, Ja- ' findono), cristão japonês, súbdito de D. Agos- tinho, 1, 98 e 99; carta com louvores de, vida santa de, 100; escreve ao P. Provincial, carta de, 195-196; constância de, 201.—1, 198 e 199. Jorge, Manuel, português da Etiópia, 1, 36i. Josaimondono, japonês, sogro de Fucuximan- dono, 11, 60. José, japonês, irmão de D. Agostinho, 1, 225. Judeu, terras do, na Etiópia, m, 33. Judeus, abexins, fortificados nas serras de Etió- pia, 111, 63; serra dos, 372 e 376. Jugazudono, japonês, senhor principal do reino de Voxu; o filho morgado de, baptiza-se, iii, 226. Júlia, espôsa de El-Rei Francisco de Bungo (Japão), 1, 182. Júlia, irmã do apóstata Naitofindandono João; perseguida, 1, 227-228.—n, 73 e 74. Júlio III, Papa, e a Etiópia, 1, 354; n> *81. Junsalão, pôrto de (Pegu), 1, 294; 11, 317. Juritono (Joritono), antigo senhor do Japáo, n, 218, 231. Justa, Dona, japonesa, espôsa de D. Agostinho, 1, 133 e 225. Justa, Dona, japonesa, rainha de Arima, espôsa de D. Protásio; bondade de, 1,90 e 174-175.— 1, 228. Justa, Dona, japonesa, espôsa de Dom João Arimandono, piedade de, 11, 234. Justino Cano Jogoro, cristão Japonês de Iaman- gúchi; zêlo, prisáo e martírio de, 111, 198- 202.—ni, 206 e 207. Justo, japonês, senhor cristão, espôs^de Te- cla; leproso, 1,182-183. Justo Ucondono (Ocundono, Hacandono, Jus- tocondono, Justoucondono, Justucundono, Justo), capitão japonês, cristão, 1, 58, 63, 108, 116, 121, 232 e 233; 11, 84-86; funda uma residência da Companhia em Canazava, corte do reino de Canga, 87 e 289.—m, 23o. Jusumandono, Pedro, japonês, converte-se, 11, 80-81.
  • índice Alfabético 413 Kinchlnkium, chinês antigo, venerado como santo pelos adeptos da seita dos Tauxus; fábula curiosa, n, 111—113. Laboca, igreja de Etiópia, m, 6i. Labua, lugar da ilha de Bachão (Molucas); cris- tandade de i, 269 e 272; n, 129, 3o5 e 311. Lacamalião, principal conselheiro de Atanás Sagued, imperador da Etiópia; morre em guerra civil, juntamente com o imperador, n, 404 e 405. Lacldecabedelo, lugar de Ambóino (Molucas), I, 282. Lacomo, lugar da ilha de Ternate (Molucas), II, 3to e 3i 1. Laércio, P. Alberto, Provincial do Malabar, 1, 3i6, 337e 347; leva aos cristãos de S. Tomé uma imprensa de caracteres caldeus, 11, 160. Lafelta, Cosme de, capitão de Cochim, zeloso, 1, 343 e 344. Lahor (Laor), capital do império do Grão-Mo- gor, residência de, 1, pp. 5,6,12 sgs., 296, 297, 299, 307 sgs., 3o5, 3o6, 3o8, 3ti, 3i2, 314 e 371; 11, 358 e 359; Jesuítas perseguidos e roubados, 36o; restituídos, 36i; castigo dos perseguidores, 36i-362 e 367; os Padres visi- tam o novo imperador, 368; conversões, 374 sgs.; comércio de, 38g.—11, 367; m, 7, e 25. Lamanancor, è êrro. Ver Ramanancor. Langão (Langião), reino de, junto do reino de SiSo (Indochina), n, 317 e 318. Laodiceno, Concílio, aplicado em Etiópia, m, 49- Larego, primeiro conselheiro do rei, em Gui- nala (Guiné), 1, 412. Larim, moeda do Mogor, 11, 38o. Lascar ou marinheiro (Bengala), 1, 295. Leão de Noteu, cristão japonês, faz a melhor igreja de Bungo, 1, 110. Leão, diácono grego, companheira de B. de Góis, em demanda do Cataio, m, 25 è 27. Leão, cristão japonês de Vongóri, perto de Iamangúchi, ni, 198. Lecá, reino de Etiópia, m, 65. Lêdo, Cabo, na Serra Leôa, 1, 407. Lei do Grande Ocidente ou Lei de Cristo, na China, 1, 256 e 260. Leitão, Irmão António, na residência de Pe- quim, ih, 235. Leitão, P. Manuel, mestre dé noviços em Co- chim, pai dos cristãos, vai a pé para o Ma- duré, m, 107-108; carta de, io8-n3. Leitão, Martim, capitão português, na Paraíba (Brasil), 1, 375-376. Lengica, terras de, na Índia, m, 170. Lengicuxu, seita de Japão, vinda da Índia, 111, 170. Léni, P. Alexandre, Reitor do colégio deTutu- corim, tndia sul, 1, 33 e 34. Letrados, seita dos, na China, 11, uo e 112. Levanto, P. Nicolau, Reitor do colégio de S.To- mé, (de Meliapor) vai ao rei de Bisnagá, para o aplacar a favor dos portugueses que o ti- nham agravado, 11, 321.—m, 76. Lima, Paulo de, fidalgo português, em Ternate (Molucas), 11, 3u. Lima, Dom Rodrigo de, embaixador de El-Rei D. Manuel à Etiópia, 1, 352; m, 3o2 e 367. Líncia, fortaleza de, na China, 1, 241. Lincitao, autoridade da China, 1, 240,243 e 244. Lingão, ídolo, pagode indiano, m, 100. Lingocão, mandarim de Pequim, muito amigo dos Padres, quere levar o P. Rfcio, 11, 107; imprime e anota pela primeira vez o mapa de seis quinas de Rício, 107-108. Lini, cidade da China, 1, 23g. Lini, afamada família chinesa, que quere dizer dos Matos, 11, 114; carta de um Lini, quere ser cristão, 115—116; não o pode ser por certa circunstância; baptizaram-se três filhos seus, 117; propaga-se a lei de Deus, tem a imagem do Salvador em casa, 297; pede aos Padres lhe ensinem e eduquem três filhos, 298. Lino, cristão japonês, neto de Nangato João, caso famoso de possessão, 11, 240. Lipo, tribunal dos negócios estranjeiros na China, 11, 101 e 102. Lipo, mandarim chinês, molesta os Jesuítas de Pequim, 1, 248-249. Lipo de Pequim, favorável aos Jesuítas, 1, 25o. Lipo Xauxu (China) favorável aos Padres, 1, 25O-25I. Lisboa, Capital de Portugal, 1, p. ix; colégios de, vi; missionários Jesuítas partem de, ix e x. Livuxi, cristão de Pequim, membro de um tri- bunal; protestação do baptismo de, encanta- dora, n, io5. Loanda, vila de (Angola), 1, 398. Loango, rei de, a vinte léguas de Angola, 11, 414. Lobato, P. João, vai aos índios Carijós (sul do Brasil), 11, 419 sgs. Lôbo, Luís Dantas, náufrago, no Mogor, 1, 3o6. Lógnos, povos da Serra Leôa, m, 249 e 259. Longacame, perto de Nangazáqui (Japão), 11, 228. Lopes, P. Estêvão, vai de Lisboa para o Mono- motapa (Moçambique), in, 4. Lopes, Irmão (depois Padre), Francisco, vai para a Etiópia, trabalhos e morte de, 1, 355-
  • 414 Relação Anual i 357; cabeça de, 370; informação sobre a morte de, n, 181, i83, i85 e 188-190.—m, 327, 328-329 e 354. Longobardo, P. Nicolau, em Xaucheu (China), 1, 51; carta de, 124-126; regista dez calúnias espalhadas contra os Padres, ,300-301.—n, 122 e 290. Lucena, P. Afonso de, Reitor de Omura (Japão), 1, 86 e 87. Lnções (Liqon das Filipinas?), um senhor gen- tio do Japáo vende uma imagem de N. Se- nhora da AnunciaçSo, para os, 11, 242. Luís, Padre, um dos dois primeiros sacerdotes japoneses; em Fingo, 1, 195; vai consolar os cristãos presos em Iatçuxiro, e visitar a Can- zugedono, carta dos presos a, n, 256 e 257; 111, 172-173; visita os cristãos de Sumamoto e de Uto, volta a Arima, 174; prega em Arima nas exéquias de Joaquim Vatanabe Jeroge- mon, morto pela fé na prisão de Iatçuxiro, 176. Luís, menino japonês, mártir de oito anos, filho adoptivo da mártir Madalena, 11, 39 sgs.—11, 244. Luís, P. Francisco, governador do bispado de Malaca, entra na Companhia de Jesus, e morre três dias depois, 11, 316. Lunrique, médico vindo do Cataio a Hircande (cidade da Ásia central), n, 386. Lusíadas, versos dos, i, p. v. Lusitânia, revista portuguesa, 1, p. viu. Luzia, Dona, filha de D. Maria sogra de Ari- mandono (Japáo), m, 162. Luzia, chinesa, esposa de Jorge, mandarim em Xaucheu, 11, 122. Macassar (Macaçar), 11a ilha de Celebes (Ocea- nia), 1, 279; n, 311. Macaná Celacém, igreja de Etiópia, m, 61. Macareu, baía do Pegu, 1, 291 e 295. Macau, cidade de (no sul da China); imprensa de, 1, p. xxv; colégio de, 5o; incêndio na igreja e colégio de, 235; tempestades em, naus holandesas em, que retiram com perdas, 235-236; coisas do colégio de, 11, 89; semi- nário e viveiro das missões da China e Ja- pão, 93; calúnia de uma pessoa de, contra os Padres de, gravíssimos desgostos e tribula- ções, 298-302; notícias do colégio de, íu, 231— 232.—11, 290. Machado, P. António, no Mogor, 1, 296 e 311. Machado, Francisco Dias, português da Etiópia, t, 36i. Machado, Luís, português da Etiópia, 1, 361. Machamalá, terras de, no sertão da Serra Leôa, 1, 408. Machão, fortaleza de, em Bengala, 1, 47. Maçom, chinês, eunuco da cidade de Siutim; primeiro favorece os Padres, depois é trai- çoeiro, 1, 240 e 241 sgs. Maconos, conselheiros dos sobas em Angola, n, 414. Maçuá (Macua, Mancua), ilha e pôrto de, na Etiópia, 1, 358-36o e 364-366; 11, 398; ra, 310, 339, 342 e 370. Madalena, japonesa cristã, filha de Giogocu Maria, m, 212. Madalena, japonesa cristã, mãe de D. Agosti- nho; secretária da imperatriz do Japáo, 1, 63; morre, u5.—1,118 e 2i5. Madalena, japonesa, esposa de Nangato João; caso notável de possessão, 11, 237-241. Madalena, japonesa, esposa do mártir Gorozai- mon João; 11, 26; glorioso martírio de, 37 sgs. Madapé, igreja de, em Ceilão, 1, 326. Madavá e Dio, comércio de, 11, 389. Madeira, ilha da; aportam três Jesuítas à, 11,191 Madre de Deus, igreja da, em Salsete (Goa); frequência na, 11, 357. Madre de Deus, frèguesia anexa ao colégio de S.Tomé de Meliapor (índia Oriental), u, 321. Madre de Deus, colégio da, em Taná (Goa), 1, 3. Madure, cidade e reino de (no reino de Nar- singa ou Bisnagá, índia Oriental); residência de, 1, 33, 35 e 322; n, 327 sgs.; duas residên- cias na cidade de, m, 89; missão de, pertence ao Arcebispo da Serra, 186; naique de (ou capitão de); senhor de, é mau, 11, 143, 323, 326 e 327.—111, 89. Maesse, pagode em Dio; uma das três pessoas com divindade, n, 3gi e 392. Mafamede (Mafoma), desprezado no Mogor, 1, 3oo; autor do Alcorão, 11, u3.—11, 359 e 36o. Mafeu, Padre João Pedro, historiador, fala da Etiópia, m, 289 e 3o3. Magalhães, Gaspar de, na Etiópia, in, 307. Mahaolá, reino de Etiópia, 111, 65. Maio, ilha do arquipélago de Cabo Verde; ho- landeses em, 1, 401. Majundo, mosteiro de bonzos, no Japão, 11, 54 Malabar, na fndia ocidental, Província do (ou Província de Cochim, ou Província do Sul), coisas do, 1, 26-49; 265-295 e 315-346; 11,127- i6t; 155—x63 e 3o3-347; m, 67-113; deuses do, 341; poeta célebre no, 341-342.—m, 371. Malac-Sagued (Malasaguet), Sarza Denghel, filho do tirano Adamás; imperador da Etió- pia, 11, 410; 111, 54; vence ao rei de Adel ou Zeila em 1577, 378-379; reinou 33 anos, morreu em 1596, sucedeu-lhe seu filho Ja- cobo, 351.
  • índice Alfabético 4i5 Malac-Sagued (Malasaguet), Jacobo (Jacob), imperador da Etiópia em 1596, bom e amigo dos Jesuítas, 1, 369; reina sete anos, é des- tronado e preso, n, 167-168; m, 351; sucede- -lhe Atanás Sagued (Savenguil), 11,170; volta a reinar, escreve ao P. Pero Pais, 409-410; morre em batalha (guerra civil); sucede-lhe Sacinos, 111, 31-34 e 352. Malac-Sagued, antes Sacinos. Ver Sacinos. Malaca, cidade de, colégio de, 1, 49, 269, 271 e 293; conquistada por Afonso de Albuquerque, cercada pelos holandeses e malaios, it, 3i2- 316.—11, 3o3; m, 87. Malacais, moiros, na Etiópia, vencem e matam ao rei Cláudio, ih, 324. Malagueta, costa da, além da Serra Leôa,u, 209. Maluana (Maloana), em Ceilão; baptismo so- lene em, n, 344. Maluco (Moloch) ou Molucas, 1, pp. xi e 49; coisas de, 267-283; injustiças, calamidades, perse- guições, sessenta mil mártires em, 267-268; carta ânua de, 268-269; guerra em, 275-276; armada de Goa para, 276-283; missões de, 11, 127-131; descobrimento e história das ilhas de, direitos de Portugal sobre, 3o5-3o7; os Jesuítas de, com os portugueses vencidos pelos holandeses, vão para as Filipinas, 3o8; voltam os Jesuítas portugueses das Filipinas, na armada que reconquistou as ilhas de, 309-312; colégio de, m, 87 sgs.—1, 372. Mamala, lugar forte em Ambóino (Molucas), conquista de, 1, 275 e 282. Mampoli, na costa de Travancor (sul da índia), 1, 3o. Manaar, lugar de Travancor, 1, 335. Manacuri, lugar de Travancor, 1, 33o. Manadá, ilha das Molucas, tu, 88. Manamaduré, rei de (Maduré), dá esperanças de se converter, 111, 91. Manapar, na Costa da Pescaria, confissões em, 1, 34; devoção á Santa Cruz, 35.— 1, 36. Manar, ilha de (stol da índia), 1, 31—35 e 323; os capitães portugueses vexam aos naturais, e cristãos de, 11, 3i3.—1, 324. Manassingão (Manassingua), capitão general do rei Aquebar (Mogor), 1, 291; ataca aoCadar- rai, senhor de Siripur (Bengala); é derrotado pelo capitão português Domingos de Carva- lho, 11, 134. Mâncio, Dom, cristão e grande senhor de Ja- pão, 1, 68. Mâncio, cristão japonês, criado de S^xodono (Iamangúchi), 11, 54 e 55. Mandarim, autoridade, governador, na China; I açoitado pelos portugueses, 1, p. x. Mandarins, amigos dos Jesuítas e dos cristãos, 1, 263 e 264; açoitados por ordem do rei da China, 11, 96. Mandimança, imperador dos negros da Guiné. 1, 404. Mandingas, negros da Gniné, 1, 403; m, 244 e 284 Mandocorosama, Quitano (Mondocorasama, Madocorosama), esposa de Taicoçama, im- perador do Japão, 1,118; 11, 282; in, 214. Manes, ou çumbas, certa raça (a dominadora), de negros da Serra Leoa, in, a55 e 271. Mangate, rei de (Malabar), mau, 1, 343. Maniagar (Mandiaguar), chefe de aldeia, na costa de Travancor, 1, 67. Manila, capital das ilhas Filipinas (Oceania); frades de, em Japão, 1, 67; os Jesuítas e portugueses desterrados de Tidor (Molucas) aportam a, 11, 3o8; o rei de Ternate e o prín- cipe com os grandes (inimigos de Portugal, e amigos dos holandeses) vão presos para, 311. Manual do Bispado de Nangazáqui, em língua japonesa, 111,162. Manuel, neto de Belchior Bugendono (Japão), entregue como refém, por seu avô, a Mori- dono, 11, 263. Manuel, Dom, Besse. Ver Besse. Manuel Cubé, negro da Serra Leôa, mestre dos outros, baptiza-se, faz-se prègador, m, 253- 254. Manuel, Dom, Rei de Portugal, primeiro con- quistador da índia, 11, 304; relações de, com a Etiópia, iii, 3o2, 304 e 367. Manuel, Dom, rei de Ternate, chamado antes Chacil Tabarija; baptismo de, testamento de; nomeia por sucessor a D. João III, Rei de Portugal, 11, 304. Manuel, João, menino mártir, congregado da Anunciada do colégio de Santa-Fé em Goa, morto pelos moiros na viagem para Dio, 11, 351. Manuquer, cristão, embaixador do rei da Pérsia, no Mogor, 1, 3o5. Mapa das Missões do Japão, feito pelo P. Antó- nio Francisco Cardim, reprodução do, 1, p. xv. Mapa geográfico e astronómico, com letras ba- dagás, mostrado pelos Jesuítas ao rei de Bis- nagá, 11, 323. Mappa-Mundi o esfera, com o movimento do Sol e da Lua, explicados por um Irmão Coad- jutor (no Japão), ao filho do Taico, n, 73. Mappa-Mundi, do P. Mateus Rício, na China, II, 125. Maquiem, ilha das Molucas, it, 3o3 e 3o5.
  • 416 Relação Anual Mar, trabalhos do, n, 191-198. Marabá, serra de Etiópia, Jesuítas em, 111, 33. Marbatão, é erro. Ver Martavão. Marco Polo, escreve das terras do Oriente, 1, p. XXIX. Marcos, menino japonês, no reino de Fingo, vê cruzes milagrosas, 1, 72. Marcoza Marian, igreja de Etiópia, m, 61. Margão, em Salsete (Goa); casa dos catecú- menos em, 1, 348; colégio de, passa para Ra- chol, 11, 355 e 357. Margarida de Chaves, bemaventurada, relíquia milagrosa de, 11, 38o. Maria, P. João, na fortaleza de Sirião (Pegu), iii, 84. Maria, Dona, filha de D. Agostinho (Japão), grande cristã, 1, ii2-n3 e 133; esposa do rei de Firoxima; repudiada, faz voto de casti- dade, vive santamente, morre em Nangazá- qui, n, 225. Maria, Dona, japonesa, sogra de Arimandono; virtudes, morte, exéquias solenes de, 111,160- i63. Maria, japonesa, filha do mártir Bugendono Belchior; baptiza-se, 111, 208-209; ca'ta de, 209-210. Maria, japonesa, valente cristã, filha de Fan- gemon, nobre cristão de Iamangúchi, n, 270. Maria, japonesa, espôsa de João (do reino de Fingo); morte santa de, 111, 149-150. Maria, japonesa, valente cristã das ilhas de Gôto, n, 14-15. Maria, japonesa, espôsa de Joaquim, prêso em latçuxiro, companheiro de João e Miguel também prêsos; é prêsa por ser cristã,», 25o. Maria, japonesa, espôsa de Miguel, cristão de Cabanave e filho de Miguel de Cangoxima, n, 242. Maria, japonesa, mãe de Sogemandono Miguel, 1, 211. Maria, japonesa, e zelosa cristã, espôsa de So- gemandono Miguel, 1, 204; iii, 181. Maria, japonesa, antes da seita dos Lengicuxu (ou do Oriente); baptiza-se; antes do bap- tismo fazia curas extraordinárias com rosá- rios e com o Santo Lenho, sem saber o que aquilo era, iii, 170-171. Maria, japonesa, senhora de Ozaca (Japão), n, 287. Maria, japonesa, perfilhada do Taico, e espôsa de Bijeno Chunugandono, baptiza-se, m, 214. Maria Quiogocu (Giocu, Quiegocu), japonesa, senhora do reino de Vomi, mãe de Saxodono, cristão e senhor do reino de Vacasa; zêlo de. 1, 219 e 226; 11, 74; faz solenes exéquias a sua filha Madalena, iii, 117-118.—11, 74, m, 212- 2l3. Marina, japonesa cristã, possuída ou possessa de Leão, sôgro de Miguel (em Arima); fala a Miguel, ameaça-o a êle e a sua irmã Mícia, iii, 166—1G7. Marina Matçn, filha de Nangato João (Japão), entra num caso famoso de possessão, em Arima, 11, 237-241. Maripó, lugar de Ceilão, 111, 75. Mar-Roxo, expedição militar ao, 111, 370. Marta, japonesa cristã, nora de Nangato João, que lhe aparece depois de morto, caso famoso de possessão, em Arima, 11, 237-241. Martavão (Martabão, Marbatão), reino de, pôrto de, no Pegu, 1, 49, 249 e 295; 11, i3g, 317 e 3i8. Martinho, Irmão Fara, japonês, prègador, 1,80; fala a Canzugedono, e este solta os Jesuítas presos, 162. Martins (Miz), Irmão Franpisco, em Xaucheu (China), 1, 51; prêso e morto em Cantão, ví- tima de calúnias contra os Jesuítas e portu- gueses, 11, 298-303. Martins, Dom Pedro, bispo do Japão, 1, 154. Maruja, jaléia (embarcação), do capitão-mor do rei de Arracão (Bengala), tomada pelos por- tugueses, m, 79. Mascarenhas, P. António de, Provincial de Por- tugal, n, 191. Mascarenhas, D. Fernando, capitão de um ga- leão, na batalha naval contra os holandeses, em Malaca, morre em combate, n, 313—314. Mascarenhas, Manuel, capitão-mor, e os Jesuí- tas no Rio Grande do Norte (Brasil), 1, 376 e 377- Mascarenhas, Dom Pedro, irmão de Dom Fer- nando Mascarenhas; na batalha naval contra os holandeses em Malaca, sucede ao irmão morto em combate, e morre também; virtude - e piedade de, n, 3i3—314. Mascarenhas, Dom Pedro, Vice-Rei da Índia, m, 304. Mascarenhas, Manuel, índio valente, da aldeia dos Reis Magos, na capitania do Espírito Santo (Brasil), 1, 386; morre, 387. Mascate, fortaleza portuguesa, no reino de Or- muz, 1, 362. Masónio (Massónio), P. Lourenço, em Ambóino (Molucas), 1, 278; prêso com seu companheiro e desterrado pelos holandeses, vai para Ma- nila, 11, 128. Massangano, vila de, em Angola; cristãos em, 1, 398; 11, 415. Mata, P. Gil da, vem de Roma, morre no mar; elogio de, 1, 79.
  • índice Alfabético 417 Matavalur (Matabalur), cidade de Travancor, 1, 33a e 334. Matenjedono, fidalgo japonês, 1, 212. Matos, família chinesa dos. Ver Uni. Matos, P. Agostinho de, vai aos índios Carijós (sul do Brasil), 1, 385. Ver Garijós. Matos, Manuel de, na ilha de Sundiva (Oceano Indico), valente capitão, 1, 286 e 287. Maurício, armas do príncipe holandês, em Am- bóino, 1, 281. Mário, cidade do Pegu, 1, 47. Maviá, capitão do rei de Arracão (Bengala), derrotado pelos portugueses, 111, 82. Maxéncia, cristã japonesa de Bungo, valente, n, 47-58. Maxéncia, Dona, filha de D. Francisco rei de Bungo (Japão), espôsa do rei Simão Finde- nadono, 1, 68, 69, io5, 106, 159 e 184. Maxéncia, japonesa cristã, neta do rei de Bungo D. Francisco; voto de castidade, vida santa, e morte de, em Nangazáqui, com dezoito anos de idade, 11, 222-225. Mazarat, é êrro. Ver Alajarat. Mazba, deserto da terra de, na Etiópia; carta de um frade etíope de, aos Jesuítas recém- chegados, 11, 180. Meaco (Miaco), capital do Japão, 1, pp. xvn, xix e xxvi; cristandade de, 114,117-119, 225-23i, 233 e 370; n, 76-84 e 279-284; iu, 211- 221.—1, 55, 57, 58, 60, 62, 65, 68, 70, 71, 73, 75, io5, 127, i3o, i33, 143, 147-150, 153, 154, 161, 171, 172, 174, 184, 201, 204, 205, 208, 214 e 219; 111, 124, 140 e 225. Meca, cidade de Mafoma, na Arábia; romaria mahometana a, 11, 179; fazendas para, 1, 294 e 297; comércio de, e Dio, n, 389; estreito de, m, 369 e 370. Mecha (ou Meca ?), no Mogor, 11, 20. Mécia, Camiçama, ou princesa, Dona, japonesa, filha de D. Bartolomeu, rei de Omura; va- lentia de, 1, 75-77. Mecoco, rei dos Anziques, Angola, 11, 414. Mecom, rio do Sião (Indochina), 1, p. vn. Medafaval, terra de Cambaia, iu, 23. Melinde, costa de (África Oriental), m, 369. Melique, reinos do (índia), 1, 296. Melo, capitão Duarte de, em Dio, bemfeitor, 11, 388. Memnao, mandarim da família Chão, conhecido do P. M. Rício, em Pequim; usa e venera a cruz, n, 293. Mena ou Minas, rei de Etiópia; fantasias de Urreta sobre, m, 33o-33i. Mendonça, André Furtado de (Gran-Capitão), louva os Jesuítas das Molucas, 1, p. xu; capi- 39 tão de uma armada, 5o e 276; sucesso da armada de, de Goa para Ternate, carta, 276- 283; pouco feliz nas Molucas, n, 129 e 3o8; capitão de Malaca, 3i2; governador da índia, declara quebradas as pazes com o Mogor, 111, 23. Meneses, D. Alvaro de, capitão-mor da armada de Malaca; batalha naval com os holandeses em Pulobotum; os inimigos retiram, 11, 315. Meneses, Dom Francisco Aleixo de, Primaz da Índia, e os cristãos de S. Tomé, 11,160 e 161; tira informações da vida e morte do Patriarca A. de Oviedo e companheiros, mortos na Etiópia, 181 sgs. Meninas, prègadoras, 1, 39-40 e 43; m, 231; va- lentes, 1, 84 e 99; III, 222-223. Meninos, cristãos valentes, 1, 106,151,192 e 200; 11, 13—14, 16-18, 39 sgs., e 286; 111, 223 e 23o- 23i; feitos prègadores, 1, 349-350; comprados na China, 1, 245. Merea, Paulo, louva os Jesuítas missionários, 1, p. xv. Merisaquias, ministro principal do rei de Cascar (Ásia central), fala com Bento de Góis, 11, 382-383. Mesquita, Martim Afonso de, mata ao rei de Ternate (Molucas), 11, 3o5. Metarouba, chefe dos Petiguares (Paraíba, Bra- sil); pede Padres, 1, 384. Mexia, P. Lourenço, escreve de Japão, 1, p. xxvn. Micava, reino de Japão, 11, a3i. Micavanocami (Michavanocami), filho do Cubo (Japão), e senhor de Jequiém, 11, 287; morre; barrigas cortadas em honra de, m, 126.—2o5. Miguel, cristão japonês, baptizado por S. Fran- cisco de Xavier, 11, 241-242. Miguel, filho do Miguel baptizado por S. F. de Xavier; reside em Cabanave (Japão), n, 242- 243. Miguel, cristão lifiaco (oficial da caridade), de latçuxiro (Japão), 11, 24, 26, 29, 35, 41-43, 47 e 243 sgs.; prisão de, 251 sgs.; três anos prêso pela fé, iii, 172-174 e 176. Miguel, cristão japonês de latçuxiro, carpin- teiro, valente, 11, 253. Miguel, menino chinês, em Nanchão, 11, 117. Miguel, Dom, antes Jata, filho de D. Pedro, rei da Serra Leôa, m, 265; baptismo de, 273- 274. Miguel Sogemandono (Curanda Sogemandono, Sogemondono, Sojemandono, Sogimondono, Sogedono, Cujemandono), irmão de Simão Cambiogedono, e tio de Cainocamidono, to- dos três cristãos, e capitães deTaicoçama e de Daifuçama, imperador do Japão, 1, io3,
  • 418 Relação Anual 135, 159, 202, 204, 2o5, aii, 212, e 218; ii, 60 e 66; 111, 144 e 181. Miki (Miche) Paulo, J0S0 e Diogo Irmãos Je- suítas, mártires, entregues à morte pelo go- vernador de Ozaca (Japão), n, 75. Mimazaca, reino de Japão, 1, 159. Mimazaca, Jácome (Diogo) (Mimazacadono), grande cristão japonês, esposo de D. Isabel; fidalgo e criado principal de D. Agostinho, I, 97; defende a fortaleza de Iatçuxiro contra Daifuçama; retira-se, 140; zelo e devoção de, 141-143.—11, 2^7. Mina, Costa da (Africa Ocidental), 11, 209; oiro da, 216; iii, 255. Minami Gorozagemon João, mártir japonês, m, 176. Minaminambo Justo, japonês cristão, 111, 23i. Mino, reino de Japão, 1, 59; cristandade de, cartas, 119-122; perdas em, 134; missões ao, II, 85; iii, 212 sgs.—1, 128, 129 e i3i; iii, 219. Miramumins, Índios da capitania de S. Vicente (Brasil), convertem-se, 1, 384. Mirim, rei de Breampur (Bengala), 1, 6-8. Miro, povoação de Japão, 11, 246. Misericórdia, Irmãos da, no Japão, 1, p. xvin; •casa da, em Nangazáqui, 83; em Ximabara, 91; em Meaco, 118. Missa do galo, em Lahor, no reino do Mogor, iii, 7. Missionários, mais de dois mil, que partiram de Lisboa para o ultramar, 1, p. x. Missões, notícias das, estimadas na Europa, 1, p. xxxvni. Miz. Ver Martins. Mitomba, porto do reino de Farma (Guiné), ni, 263-264. Mitombo. Ver Tagarim. Mobora. Ver Filipa de Leão. Moca (Moça, Moçá), cidade e porto da Arábia, no Mar Vermelho, 1,364; 11, 179; m, 23,51 e65. Mocadam, moiro do navio em que ia o P. Pero Pais para a Etiópia, 1, 364. Mocarebecam, embaixador do Mogor a Goa, m, 21. Mochima, terra de Angola, 11, 415. Moçambique, armada de D. Martim Afonso de Castro em, n, 347; holandeses em, assolam tudo, retiram duas vezes, sem poderem con- quistar a fortaleza de, 348 e 349. Mofaquiém, sangaje (duque), de Ternate (Mo- lucas), rende-se, com outros sangajes, aos portugueses, 11, 31 o—311. Mogo ou rei de Arracão (Bengala), 11, 3i8; trai- ção e guerra contra os portugueses do Pegu, è vencido, 11, 319-320, Mogos, os naturais do reino de Arracão, 1, 287; 11, 132; tomam a ilha de Sundiva (Oceano Indico), e o Reino de Bachalá, 134 e 135. Mogor ou Grão-Mogor, designa o rei, ou o reino do mesmo nome, que se estende desde Cam- baia até Bengala e compreende grande parte da Ásia central, tendo como capital a cidade de Lahor, 1, 5; o rei chama-se Aquebar ou Equebar, 5; missão do Mogor, coisas do, 5- 12 e 290-309; 11, 358-38o; 111, 6-25; o rei Aque- bar, a-pesar de velho, anda quási sempre ocupado em guerras; traz consigo sempre dois Padres da Companhia de Jesus; outros dois Padres trabalham em Lahor, 1, 5; é muito devoto do Sol a quem reza muito por um rosário riquíssimo de pedras preciosas, 5; ambições e conquistas do, 6-9; embaixada do, à Índia portuguesa; carta do, ao Vizo-Rei da índia, 10 e 11; é amigo dos Padres, e passa um formão ou portaria (minutada pelos Pa- dres), para se poder administrar o baptismo livremente, 297-298; favorece ao Irmão Bento de Góis que vai em demanda do reino do Cataio, 311 e 313; o filho de Aquebar tam- bém é amigo dos Padres e dos cristãos, 307- 3og; discórdia entre Aquebar e o filho her- deiro, 307 sgs.; morte do rei Aquebar, suas boas qualidades, u, 364-366; o novo rei do Mogor, filho de Aquebar, chama-se Nurdirti Nohamad Iahamuir, mostra-se moiro, tendo aparências de cristão antes de subir ao trono, 366; o filho de Nurdim levanta-se contra seu pai, é prêso, castigado corporalmente, des- herdado, 366-370; govêrno do novo rei; mos- tra-se amigo da justiça, atencioso com os Padres; mas é cruel com dois meninos cris- tãos, 370-374; recebe, defende, e favorece os Padres, 111, 7-8; adorna o seu palácio com imagens sagradas, respeita a Jesus e Maria, e estima a religião cristã, 15—18; manda um embaixador e um Jesuíta a Goa, 20-21; fa- vorece os inglêses que entram no seu reino, quebrando-se as pazes com os portugueses, 22-23; anula os favores feitos aos inglêses, restabelece-se a paz, por meio dos Jesuítas, 24. Mogor, antiga sede episcopal, fundada por S. Tomé, 11, 142. Moiro, Guterre de, é êrro. Ver Monrói. Moiros na China, 11, 109-110. Moisés, lei de, na Etiópia, m, 304. Molucas. Ver Maluco. Monclaro, P. Francisco, parte de Lisboa para o Monomotapa (Moçambique), m, 4. Monomotapa (Manomotapa), reino de, na África Oriental portuguesa; missão do,in, 3,4-6] 363.
  • índice Alfabético 4i9 Mónica, japonesa, conversão de, do pai e de uma filha, m, i85-i86. Monrói, D. Fernando de, nomeado capitão da conquista do Monomotapa, morre, m, 4. Monrói, Guterres de (Guterre de), capitão por- tuguês no Oriente, 1, 270 e 271; capitão de Dio, 352 e 362; bemfeitor dos Jesuítas, 11, 387. Monserrate, P. António de, vai com o P. Pero Pais para a Etiópia; seis anos cativo na Arábia, morre em Goa, 1, 357; 362 e 363; n, 178-179; IH, 293. Montargil, naturalidade de Domingos de Car- valho, conquistador da ilha de Sundiva, 1, 286. Monteiro, Jerónimo, português honrado, em Arracão (Bengala), 1, 45; prêso com o P. Bo- ves, 289. Montepio, o primeiro no Japão, i,pp. xvi e xviii- xx. Morais, Wenceslau de, fala mal, e bem, dos Jesuítas missionários do Japão, 1, pp. xm-xv e xxv; fala mal dos portugueses no Japão; resposta, xxx-xxxn; falece no Japão, xl. Moral, lugar de Travancor, sul da Índia, m, 72. Morejon (Morejam), P. Pero, no Japão, 1, 81; Superior da casa de Ozaca, carta de, 223. Mori, ermitão, mestre, no Maduré, 111, 97. Mori, reino de, reinos de, no Japão, 1, 57; 11, 14. Moridono (Mori), senhor de Iamangúchi no Ja- pão, idólatra e mau, 1, 57, 58, 62, 65, 68 e 69; Jesuítas nos reinos de, 70 e ioi-io3; senhor de nove reinos, 101, 102 e i3i; covardia de, i32; perde sete reinos, 158; perseguidor, 11, 49-52; adora o deus piolho, 53-54; senhor dos reinos de Xicocu, 111, 197-208 e 210.—1, 135, 148, 151, 159, 184, 206, 207-209 e 211; n, 54-57 e 260-271. Moro ou Batochina do Moro, ilha do (Molucas), 11, 3o3; volta um Padre à ilha do, 3ii. Morotai, ilha das Molucas, cristãos de nome, e gentios convertem-se, m, 87-88. Monlas (Mulás), prègadores ou sacerdotes mou- riscos, no Mogor, w, 371 e 382. Montel, ilha de, nas Molucas, 11, 3o3. Mulheres, cristãs, valentes, no Japão, 1, 104, ni-112 e 200; no Mogor, 3o5-3o6; na Índia, 3i8 e 319. Mnluana, fortaleza de, em Ceilão, 111, 75. Mundarrai, capitão-mor da armada de Manas- singão (Bengala), morre, 11,134. Munocerão, pagode de Ceilão, ui, 75. Murmugão (Goa), carta de um Jesuíta de, en- doenças em, 11, 356. Murmnlão, reino de, em Bengala, 1, 49, Muro, pôrto de, no Japão, in, 227. Murtete, reino de, no Malabar, 1, 336. Musaxi, reino de, no Japão, m, 194. Música, instrumentos de, no Japão, 1, p. xxvi. Mussulapatão, reino de (Bengala), 1, 291 e 320; iii, 84. Nababo, justiça-mor, em Lahor, capital do Mo- gor, 1, 22 sgs. Nabixamadono, senhor do reino de Fijém, no Japão, 1, 68. Nacaii, lugar de Ceilão, 111, 75. Nadal, imagens do Padre, livro de imagens, na Índia, 11, 322. Nahum, rei de Etiópia, é fantasia de Urrela, iii, 25o e 353. Naiamandono, cristão japonês, irmão do senhor de Funai, 1, 109. Nainaro, terras de, na Índia sul, 1, 329. Naique, Pedro, nobre do Maduré, baptizado por Nóbili, iii, 96. Naique, D. Aleixo, nobre do Maduré, baptizado por Nóbili, 11, 33o, 331 e 332; ni, 92 e 93. Naiques ou capitães, na índia, u, 327. Naitofindandono (Naitofindano), João, nobre cris- tão japonês, u, 85. Nojima, fortaleza de Japão, 1, 204. Nalus, negros da Guiné, 1, 406; 11, 417. Namuamidabut, saudação ao deus Amida (Ja- pão), m, 208. Nanchão (Namchão), capital da província de Quiansi, na China, descrição de, 11, 110; rei- nam tôdas as superstições da China em, 110- 113; residência de, 1, 5i e 256; 11,90,110-121, 290 e 297; iu, 232-233. Nancheu, cidade da China; Jesuítas em, 1, 238. Nangafama, fortaleza de, no Japão, 1, 57. Nangão, cidade da China, 11,122 e 123. Nangato, João, japonês, mau cristão, morre, volta ao mundo, apossa-se de outro corpo, caso famoso de possessão, em Arima, 11, 237- 241. Nangatocubo, bonzo rico, perto de Meaco, no Japão; dá que falar a sua avareza, 1, 23o. Nangavoca, Jocundono. Ver Jocundono. Nangazáqui (Nangazaque), cidade e pôrto de Japão; tem quatro a cinco mil habitantes, todos cristãos; colégio de, 1, p. xxn; imprensa de, xxv e 81; festa do Natal em, 71; pessoal, seminário de, 81; missões de, a outras partes, 82; residências de, 83; bons exemplos, 84; tribulações em, 133; sobressaltos em, 143-146; prosperidades e tristezas, protecção de Deus, caridade dos Jesuítas em, 178-181; coisas de edificação em, 182—185; novas missões do colégio de, a outras terras, 186— 188j cidade
  • 420 Relação Anual cristã com governadores cristãos, n, 9; casos edificantes em, i3; cristandade de, 220-233; ra, 146-159; o colégio de, é cabeça de tôda a Província de Japão; pessoal, noviciado de; três párrocos de, são japoneses; casa da mi- sericórdia, confrarias, 146 sgs.—1, 66, 67, 69, 74, 75, 87, 101,117, i3o, 135, 142, i53,154, 157, 158, i63,170-172, 175, 176, 190, 201, 202, 204, 206, 218 e 228; 11, 37, 44, 25o, 256, 257 e 269; ni, 119, 120, 123, 125, 128, i35, 142, 146,184 e 2l5. Nanguinata, arma japonesa, alabarda, n, 264. Nanhiná (Naniná, Nanina, Naninâ), lugar de católicos portugueses na Etiópia, no reino de Goromá, 1, 33 e 370; n, 400-402 e 407; m, 33. Nan-kiong (Nankium), cidade chinesa, 11, 122 e 123. Naniijném, tribunal de negócios tocantes à pes- soa do rei da China, 11,100 e 101. Nanquim, cidade da China, descrição de, 1, 252- 253; residência de, 1, 5o e sgs.; conver- sões na cidade e arredores, 253-256; erros de Pitágoras em, 254; Jesuítas e cristãos em, "> 89 e 99 > coisas de, carta, 121-123; grande- zas de, 290; casa de, 291; residência de, m, 233-235. Nara, templo budista no Japão, 1, pp. xx e xxx. Narea (Nareá, Nerea), reino de Etiópia; rei de, morto pelos galas, 11, 171; 404, 409 e 410; m, 31, 32 e 65. Nasacava, cidade do reino de Bugém, no Japão, 1, 160. Nau e Bemnan (Ambóino), dois oiteiros sobre- postos, 1, 279 e 280. Náufragos, de Malaca para as Molucas, 1, 269 sgs.; portugueses (cincoenta), naufragados em Cambaia, prêsos no Mogor, sôltos e so- corridos pelos Jesuítas, 1, 3o6. Navelim (Salsete-Goa), devoção dos cristãos de, a N. Senhora, n, 357. Negrais (Negais), ponta de (Pegu), n, 139; pôrto de (pôrto de Sirião), 318; passo de, in, 78. Negapatão, na costa do reino de Bisnagá (ín- dia Oriental), povoação tôda de portugueses; pôrto de, casa de, 1, 38 e 32o. Neto, P. Pedro, parte para Cabo-Verde, morre cêdo, 11, 415. Nestório e o Cataio, 1, 310; erros de, no Mala- bar, 11,160; na Etiópia, m, 3i. Nhaní, homem espiritual, no Maduré, m, 95 e 102. Nicheren, japonês, fundador da seita dos Fo- quexus, tu, 217. Nicolau, Irmão, japonês, morre em Omura, 1,87. Nicolau, chinês, heróica paciência de, 1,260-261. Nicote, Filipe de Brito. Ver Brito. Nilo, rio da Etiópia, 11, 402 e 404; ra, 365, 376 e 378. Niximangobioge, japonês, perseguidor, 1, i36. Nóbili, P. Roberto, na cidade do Maduré, reino de Narsinga ou Bisnagá (Índia Oriental), acomoda-se aos costumes e etiquetas da casta alta ou brâmane, e começa a conver- são do Maduré, 11,.328 sgs., m, 89-90; escreve a dois senhores do Maduré, estes respon- dem, 91; carta de, 93-94; conversões notá- veis, carta de, 94-99; perseguição, 99-104; manda dois dos seus cristãos ao colégio de Cochim; vão depois receber o crisma do Ar- cebispo da Serra, 106-107; virtudes dos cris- tãos de Nóbili, 110-113. Nóbrega, P. Manuel da, cartas de, p. v. Nobunanga (Nobunaga), imperador do Japão, 1, pp. xiii, xxvii e xxix; protege ao futuro Taicoçama, 55 sgs.; baptiza-se uma filha de, n> 72-73; baptiza-se um filho de, m, 213-214.— I, 61, 62, 64, 65, 81,196, 219, 228 e 232; n, 218; ni, 212 e 228. Nonzo, no Japão, cristãos de, 1, 110. Nonzui, no Japão, residência de, 1, 95 e 97. Noor, capitão do rei de Adel, vence e mata ao rei Cláudio de Etiópia, 111, 378; três filhos de, mortos pelo rei de Etiópia, 379. Norimono, cadeira levadiça, andas, andor, em ombros de homens, no Japão, 1, 210-211; II, 41 e 42. Noronha, D. Francisco de, galeão de, na bata- lha naval contra os holandeses em Malaca, foi ao fundo com grande estrago dos inimi- gos que o cercavam, 11, 315. Nossa Senhora, devoção a, nas missões, 1,4,85, 92, 95, 98, 99 e 190; 11,152; na índia, painel de, com o Menino Jesus e S. João Baptista, feito por um Irmão italiano, 322; devoção de gentios e moiros a, 358; igrejas de, na Etiópia, iii, 61-62, igreja de N. S. da Assunção na Etiópia, 11, 402; N. S. da Guia, ermida de, num monte fora de Dio, notável, 387; N. S. de São Lucas, na índia, 1, 317 e 344; 11, 206 e 337; em Fremoná (Etiópia), 400; na Serra Leôa, 111, 272; N. S. do Rosário, igreja de, em Navelim (Salsete), 11, 357; N. S. do Pópulo (Mogor), devoção do povo e do rei, 1,299-302; N. S. da Protecção, no Japão, festa de, no dia do ano novo japonês, 84, 92, 118 e 120. Notobé, Inazo, japonês, autor de Le Bushido, 1, p. XXI. Noto, reino de Japão, igrejas no, 11, 85 e 289; x m, 23o.
  • índice Alfabético 421 Novais, Paulo Dias de, primeiro governador de Angola, 1, 395. Nunes, António, feitor e capitão em Guinala (Guinéj, 1, 411. Nunes, P. Brás, na batalha de Sundiva (Oceano Indico), deixa a ilha juntamente com todos os portugueses, n, 133. Nunes, P. Diogo, e os índios petiguares (Bra- sil), 1, 377. Nuno, rio da Serra Leoa, u, 211. Nurdim Mohamad Iahanuir, novo rei do Mogor, sucede a seu pai Aquebar, n, 366. Ver Mogor. Oare, grande rio da Etiópia, 111, 63 e 65. Oció (Oecié), reino do sul da Etiópia, m, 63 e 65. Ocundono (Ucondono). Ver Justo Ucondono. Odiá, côrte do rei de Sião (Indochina); Jesuí- tas em, m, 85-87. Oiano, terras de, no Japão, 1, 176. 01a, carta, ou documento em folha de pal- meira, 11,145,155 e 157; m, 91. Oleiros (Beira-Baixa), naturalidade do P. An- tónio de Andrade, descobridor do Tibet, 1, p. VIII. Oliacer, ilha de (Ambóino), nas Molucas, 1, 273 e 275. Oma, ilha de (Ambóino), nas Molucas, 1, 273. Omi, reino do Japão, 1, 219 e 233. Omura, reino e cidade do Japão, 1,61,67,68,71, 74, 75 e 82; casa principal de, e residências de, 85 sgs., i3o, 143, 144, 159, 170,173 e 174; carta de, 188-190; tem príncipe cristão, 11, 9. Omnrandono, japonês, rei de Omura, ou D. San- cho, 1, 143, 170,190 e 226; 11, 234; m, 148. Ongava, lugar perto de Iatçuxiro (Japão), 11,29. Ongaravadono (Ongazavaradono), fidalgo japo- nês, 1, 125 e 126. Ongo, terra de Angola, 11, 415. Onze mil Virgens, colégio das, em Damão, 1,3. Oramenes, cerimónias gentílicas na Serra Leôa, m, 275. Orfanato, o primeiro, no Japão, criado pelos Jesuítas, 1, p. xvin. Ordenações do reino de Portugal, na Etiópia, m, 366. Organtino, P. Gneco, no Meaco (Japão), 1,67; fala com Daifuçama, 81; fala comMoridono, 102; é Superior nas terras de Meaco, 114-116,126, 153, 157, 171, 2i5, 219 e 224; visita duas ve- zes a Daifuçama, 225; 227 e 23o; é recebido honradamente por Cuboçama, 11, 78-79. Oriente, Jesuítas no, i,pp. v-vn, x e 1 sgs.; têem mais de cem casas no, 2; são quási seiscen- tos no, 2. Ormuz e Dio, comércio de, n, 38g. Ortigão, Ramalho, escreve dos holandeses, i, p. XXVIII. Ortografia, adoptada na 2.* edição da Relação Anual, 1, p. xl. Ossaoescrestam, língua cortesã do reino de Bisnaga, 11, 143. Oteu, fortaleza de Japão, tomada de, 1, 128. Ozaca (Osaca, Ozacha, Vozacá, Vozaca), ci- dade de Japão, fortaleza de, côrte de, 1, 65; residência de, 114-117 e 219-225; 11, 72-76 e 286-287; hospital em, 1, 115; exequias em, por alma de D. Gráciá, 214-216.—1, 67,70, 78, 102, 114, 116, 117, 125, 127, I3I, 132, i35, 143, 147, 148, i5i, 153, 154, i5g, 171,174, 204, 211, 217, 226, 232 e 233; n, 279 e 282; m, 119, 120, 124, 140 e 142. Oviedo, P. André de, Jesuíta espanhol, no- meado Bispo de Ierápolis, coadjutor e futuro sucessor do Patriarca de Etiópia, parte para o Oriente, entra na Etiópia, mil trabalhos e pouco fruto, 1, 355-357; nl> 321-324; casinha pobre em que morou no destêrro, 368—36g; morte e milagres de, 11, 187, m, 36o; infor- mação jurídica sôbre as virtudes e morte de, 11, 181-191, iii, 328-33o; caridade heróica de, 356 sgs.; trabalhos em Fremoná até à morte, 353-362; cabeça de, 1, 370; carta de, ao P. Geral da Companhia, m, 333-334; carta de, ao Reitor do Colégio de S. Paulo de Goa, 334-335; Breve de Paulo V para que vá para o Japão, 335-337; fantasias de Urreta sôbre o Breve anterior, 337-338; carta de, ao Papa, responde ao Breve, 339-342; carta de, ao Rei de Portugal (D. Sebastião), 342-346; segunda carta de, ao Papa, 358-36o; escreve nova carta ao Papa, a pedir um sucessor, 36o; fantasias de Urreta: sôbre a acção de, na Etiópia, 317-321, sôbre a participação de, no Conselho Latino, 349-35o, sôbre a morte de, 36o-36i.—11, i83 e 400; m, 46, 292,289 sgs. 3o3, 304 e 313. Pachavelões, peças de vestir, de pano doirado, no reino de Bisnagá, (índia) 11, 144 e 322. Padi, Paju e Passão, os três princípios de tudo (índia); o dogma da criação; o êrro da trans- migração das almas, 11, 329-33o. Padre-Nosso, eficácia sobrenatural do, em Co- chim, 11, 157; na China, 120. Padrigi salamat, saUdaçáo do povo de Agra (Mogor), aos Padres, 11, 370 e 373. Pagodes, seita dos, na China, vinda de fora, 11, p. iii. Pais, P. Pero, Jesuíta espanhol, parte para a Etiópia, seis anos cativo, volta a Gôa, 1,357;
  • 422 Relação Anual entra na Etiópia, carta, 362-370; o que fêz na Etiópia, n, i65 sgs.; carta do rei Atanás Sagued para, 170; vai à corte do rtfi, 171-173; é bem recebido, diz missa e prega deante do rei, 174-175; carta de, sôbre a morte do rei, 400-410; em Fremoná, ni, 33, 35 e 5o; carta de, 293 sgs.—hi, 351, 365 e 366. Paião, aldeia cristã do reino de Travancor, 1, 33o; queimada pelos gentios, 11, i5o. Paleacate, residência de (reino de Bisnagá), 1, 3i6; n, 145; m, 77. Palóm, sacerdote dos cristãos de S. Tomé (serra de Sodomala), 1, 346. Pallmbão, rei de (em Java), 1, 277. Palipôrto, residência de (Malabar), 1, 28, 29, 336 e 342-344; n, 160,161, 340 e 341. Palurte (Palur), reino de (Malabar), 11, n5, 334 e 335; igreja de S. Quirício em, a primeira que houve no Malabar, 336. Pamech, desertos de (Ásia central), 11, 385. Pamir, região da Ásia central, 1, p. vin. Panane, terra do Malabar, 11, 336. Pandara, mestre, na índia, 11, 331. Pantinfu, cidade chinesa a trinta léguas de Pe- quim; vai um Padre a, estrada maravilhosa e freqUentadissima, 11, 296; banquete chinês em honra do Padre em, 297. Pantoja, P. Diogo (Cristóvão), para Pequim, 1, 5o e 237 sgs.; em Pequim, 11, g3, 94 e io5; carta de, 124; missão a duas aldeias, m, 235. Panúfio, rei de Etiópia, segundo a ficção de Urreta, in, 366. Panur, terra de um rei gentio do Malabar, igreja de, 11, 15g. Paptias, terra dos (Oceania), m, 89. Papur, terra da Ásia central, 111, 25. Paraíba (Brasil) Franciscanos e Benedictinos na, 1, 373; piratas franceses da Rochela na, 375. Parão, terra de Bengala, 11, 140. Paravás, povos da índia sul, 1, 31, 37 e 323. Pariabar, lugar do reino de Travancor, 1, 33o. Párias, (pariás), gente de raça vil (índia), m, 102. Pársea ou persa, vida de Cristo em língua (Mo- gor), 1, 299 e 309. Párseo ou persa, Evangelho em, mostrado pelos Padres ao rei do Mogor, n, 376; livro das vi- das dos Apóstolos em, no Mogor, obra dos Jesuítas, mi, 7. Paru, ilha de, no Malabar, igreja de, roubada, o ladrão castigado por Deus, 11, 340; afronta contra um sacerdote, guerra ao rei de, êste pede paz, concorre o P. Fenício, 341. Patane (Bengala), naus holandesas em, 1, 294. Patanão, lugar de (Costa da Pescaria), 1, 32. Patangatins, os cabeças das aldeias (Costa da Pescaria), 11, 324 e 344; ni, 75. Patriarca de Etiópia, e seus coadjutores, 1, 354-355. Paude, rei de (Cabo de Comorim), convertido por S. Tomé, 11, 142. Paula, chinesa, mãe de Jorge, mandarim em Xaucheu, 11, 122. Paulo, hereje monotelita, erros de, na Etiópia, m, 3o8. Paulo, cristão letrado de Pequim, zeloso e de- voto, h, 106 e 108. Paulo, cristão e mandarim de Pequim, n, 294; favorece os Padres por si e pelos amigos, 295. Paulo, zeloso cristão coreano, cativo no Japão, iii, 156-i 57. Paulo, cristão japonês, valente, em Iatçuxiro, n, 253. Paulo, cristão principal de Bungo (Japão), serve a Fucuximandono, 1, i58. Paulo, Irmão, japonês, na côrte do Xògum (fi- lho do Cubo), assenta um relógio numa tôrre, IH, 134. Paulo, moiro letrado e médico do príncipe do Mogor, baptiza-se, 11, 35g. Paulo, Irmão João, vai de Tidor para as Filipi- nas, 11, 3o8. Paulo, Xugendono, cristão japonês (Meaco), manda celebrar as exéquias de seu irmão Sacadono, cristão, morto no destêrro, 1, 23o. Paulo IV, Papa, e a Etiópia, 1, 354; m, 304. Pau-Sêco, índio poderoso da Paraíba (Brasil), pede Padres, i, 383 e 384. Pedras, rio das, na Serra Leôa, 1, 407. Pedro, cristão japonês do reino de Chicujém, valente pela fé, m, 179-180. Pedro, nobre cristão japonês de Firoxima, 11, 275. Pedro, cristão de Manaar, na costa de Travan- cor, protegido por S. Francisco Xavier, 1, 335. Pedro, Dom, rei da Serra Leôa, baptiza-se, m, 240; grande zêlo de, 267-277.—ni, 25o, 253- 255 e 264. Pedro Manuel, Dom, capitão de Ceilão, 1, 325. Pegu (Segu), reino de, residência de, 1, 44, 45 e 47~49> ruína do reino de, 48-49; coisas do, 290-295, 11, 137-141 e 317-320; guerras e va- lentias dos portugueses em, m, 77-84; uma nau do, para Ternate, descobre terra nova, de gente alva (Austrália?), 89. Pequim, capital da China, 1, 5o; os Jesuítas entram em, 237 sgs.; descrição de, 247-248; cristãos em, 11, 89; residência de, 93-110; cinco mil letrados sujeitos a exame, 98-99;
  • índice Alfabético 423 os Padres sáo molestados em, 99-104; os Padres recebem ordenado do rei da China, 101; perigo dos Padres em, saem livres, 102- io3; bondade dos cristãos de, 104-110; moi- ros do Ocidente em, falam com os Padres, 109-110; notícias de, 291-298; coisas da re- sidência de, 235-238.—1,313 e 370; 111,27 e 28. Pereira, André, português, vai de Portugal à índia por terra, e volta da Índia à Caldeia, m, 3. Pereira, P. André, nas Molucas, 1, 270. Pereira, P. António, vai de Tidor para as Fili- pinas com os portugueses expulsos pelos holandeses, 11, 3o8; trabalha na ilha de Sião (Molucas), ih, 88. Pereira, Irmáo Brás, na Armada do Vizo-Rei contra os holandeses, perto de Malaca, morre na batalha, n, 316. Pereira, Fernão, .capitão de dois galeões em Tidor, ferido na luta contra os holandeses, n, 3o6. Pereira, Francisco Maria Esteves, elogia os Jesuítas missionários, 1, pp. vn-vm. Pereira, Guilherme, comerciante português em Bungo (Japão), 1, p. xvu. Pereira, P. Jorge, em Angola, 1, 397. Pereira, Manuel Cerveira (Serveira), governa- dor de Angola, vence ao soba Cafuche, 1, 397. Peres, Damião, louva os Jesuítas missionários, 1, p. xv. ... Peres, P. Francisco, na índia Oriental, trasla- dação das relíquias de, 1, 321. Perião, Manuel, cristão de Travancor, 1, 333. Periches, embarcações de remo, pequenas, em Calecut; contra os holandeses, 11, 335. Pernambuco, colégio de, 1, 373; Jesuítas e in- gleses em, 377; missão de, à serra de Ibia- paba, li, 425. Persada, baixos de, àlém de Malaca, 1, 271. Persas, nome que na China dão aos cristãos que estão fora dos muros do império, 11, 292-293. Pérsia, rei da, 1, 3o5. Perumal (Perunal, Permal), pagode da Índia, perto de Chandegri (reino de Bisnagá), 1,316; pagode que se passa para Ceilão, 11, 151; pagode do Maduré, m, 99. Perumal, Ária, tirano da Costa da Pescaria, I, 36 e 37. Pescaria, Costa da (sul da índia), Jesuítas na, cristãos, piedade, 1, 3i sgs.; perseguição, 36; grande cristandade, assaltos contra as po- voações cristãs, 322-323; casos notáveis na, II, 146-149; coisas da, cento e trinta e cinco mil cristãos a cargo dos Jesuítas na, 3í3 sgs.; trata-se da expulsão dos Padres da, sus- pende-se, 326-327. Pessoa, capitão André, na batalha naval contra os holandeses em Malaca, morre, 11, 315. Petiguares, índios do Brasil em Pernambuco, deslealdade para com os; dóceis aos Padres, 1, 377 e 378; missão aos (Paraíba), bondade dos, 383 e 384. Pico (4 arrobas), picos de sêda, no Japão, 1, i3i. Pimenta, serra da, serra de S. Tomé, n, 160; rei da (nas serras deTrugure), no Malabar, amigo, n, 33g. Pimenta, P. Nicolau, Visitador da índia, 1, pp. xii e 282; firma de, 3i3. Pinda, baixos de, perto de Moçambique; nau- frágio de uma naveta com doze Jesuítas; salvam-se, voltam a Moçambique, chegam à índia, n, 347. Pinda, pôrto de, no Zaire (África Ocidental), n, 414. Pinheiro, P. Manuel, no Mogor, companheiro do P. Jerónimo Xavier, 1, 8 e 9; escreve de Lahor, 12-22; roubado, i5; presépio que dura 40 dias, 16; baptismos, 17; conversões, 17-19; constância dos cristãos, 20-26; feito embai- xador do Mogor ao Vizo-Rei da índia, in, 7; ministérios em Cambaia, vai a Goa, volta a Cambaia, para tratar das pazes com o Mo- gor, volta a Goa como embaixador do Mo- gor, a3-25.—1, 296-299, 3oi, 3o5, 3i2 e 313; iii, 36. Pinheiro Chagas. Ver Chagas. Pinto, P. Francisco, missão ao rio Maranhão com o P. Luís Figueira, morre na serra de Ibiapaba, às mãos dos índios, n, 425 sgs. Pinto, capitão José, em Ambóino (Molucas), 1, 278. Piolho, deus do Japão, 11, 53-54. Pio V, Papa, e as missões, 1, 357; manda um breve ao Patriarca André de Oviedo, para que deixe Etiópia e vá para o Japão, texto latino e tradução portuguesa, m, 335-337- Piqueri (Piquery), rio e serra no sul do Brasil (Paraná), n, 420. Piraguasu, índio amigo (capitania do Espírito Santo, Brasil), 1, 388. Piranacá (Brasil-sul), espanhóis arribam a, n, 420. Piratininga, São Paulo de, no Brasil, 1, 386. Pires, P. Custódio, vai aos índios Garijós (sul do Brasil), 1, 385. Ver Carijós. Pires, P. Manuel, Superior da missão do Pegu, na armada contra o rei de Arracão, m, 84. Pirrho, hereje monotelita, erros de, na Etiópia, iii, 3o8.
  • 424 Relação Anual Pita (alcunha), capitão de um navio da armada portuguesa, tem crua peleja com uma galeota de moiros do Malabar, sai vencedor, n, 341. Plácido, chinês, faltas e virtudes de, 1, 261- 262. Plnrimanos ou Bilibanos, mosteiro principal da Etiópia, m, 3oo, 3o2 e 3n. Pogomo, na Guiné, reino de, sujeito ao rei Fa- tema; rei de, amigo e bom, 11, 200. Polada, deus dos gentios do Mogor, 1, 20. Porcá (Porcua, Porca), reino de, 1, 1; residên- cia de, no Malabar, 28, 236, 342-344 e 371; casos notáveis, em, 161 sgs.—11, 160 e 340. Pôrto-da-Cruz, povoação portuguesa da Guiné, 1, 406. Pôrto-Novo, no reino de Bisnagá, ih, 77. Pôrto-Seguro, capitania de, padece danos'dos índios gaimurés, 1, 390. Portugal, Missões de, 1, p. v; longe de, x. Portugueses, injustiças, vexações dos, contra os habitantes das Molucas, 1, 267; agravos dos, contra os cristãos da Costa da Pesca- ria, confederados com o rei de Portugal que prometeu defendê-los, n, 323. Mais injustiças dos, nas missões, 1, pp. x, 371, 374, 377, 378 e 386. Praia, Vila da, na ilha de Santiago (Cabo-Ver- de), 1, 400 e 401. Preste-João, rei ou reino; sinónimo de Abissí- nia ou Etiópia; fantasias sôbre o, 11, 310; rei do, 352, 354 e Í71. Ver Etiópia. Priapatão, na Costa da Pescaria (índia sul), residência de, igreja de, 1, 37-39. Prisioneiros e cativos portugueses, no Mogor, libertos pelos Jesuítas, 1, 3o3-3o4. Protásio, Dom, rei de Arima, no Japão, dá seu paço aos missionários, faz-lhes igreja, 1, 88- 90.—1, 164, 170, 172-175 e 190. Província da China e Japão, 1, 2. Ver Japão. Ver China. Província de Cochím (ou do Sul) ou Província do Malabar, 1, 2. Ver Cochim. Província de Gôa (ou do Norte), 1, 2. Ver Gôa. Província de Portugal (da Companhia de Je- sus), 1, p. x. Províncias da Companhia de Jesus no Oriente, são três, j, 2. Pru (Prum), reino de, em Bengala, 1, 49 e 292; riquezas de, 317.—m, 78. Pulas, privados do rei de Travancor (índia sul), 1, 332. Pulobotum, enseada de (Malaca), batalha brava com os holandeses, que retiram, 11, 3i5. Punicale, terra na Costa de Pescaria, 1, 32 e 33. Putalão, lugar de Ceilão, 11, 345. Quadros, P. António de, envia de Goa missio- nários ao Monomotapa (Moçambique), ui, 4. Quanto (Guantó, Cantó), são oito reinos, no Japão, 1, 115, 122, 128, 132 e 223; 11, 54, 217, a3i, 232 e 281; m, 118, 1 a3, 133, i35, 145, 162 e i85. Quedá, pôrto de, no Pegu, 1, 294; pimenta de, 11, 318. Quiansi (Quianci), província da China, n, 110. Quimura, Màncio, cristão japonês de Iaman- gúchi, iii, 201; desterrado, 202, 2o5 e 206. Quingodono, rei de Bijém, no Japão, 1,1590 224. Quinoxita, depois Taicoçama, imperador do Japão, 1, 56. Quiomóri, um senhor principal de Japão, 11, 67. Quisúqui, fortaleza de, no Japão, 1, 212. Quitano, Madocorosama. Ver Mandocorosama. Quocum, classe de mandarins, segundos depois do rei, na China, 11, 295. Rachado, Cabo, em Malaca; batalha naval do, contra os holandeses, que retiram, 11, 3i3. Rachimatão, lugar do reino de Travancor, 1,33o, Rachol (índia portuguesa), igreja de, 1, 348 e 349. Rafael, menino chinês, em Nanchão, n, 117. Ragalarda, ilha das Molucas, m, 88. Raiale, rei de Soter (vizinhanças de Malaca), b 49- Raid, Raiús, ou príncipes do Maduré, 111, 93, 101 e io3. Ramá, Chandre, Crisná, Nerrene, deuses do Mo- gor, 1, i3. Ramanancor (Lamanancor), baixos de, na Costa da Pescaria, 1, 37; o templo mais famoso do Oriente, 111, iot-io3. Rantambur, fortaleza de, no Mogor, 1, 3o3. Rasis, Frei Serafino de, Dominicano, escreve sôbre coisas de Etiópia, 111, 3oi e 3o3. Ratigão, é êrro. Ver Chatigão. Ratinhos de Quiansi (China), alcunha, como Ratinhos da Beira, 11, p. 111. Rato, deus rato, no Japão, 11, 53-54; iii, 207. Realejo, dos Padres, no Japão, ni, 145. Redondo, Conde de, Vizo-Rei da índia, manda sair os missionários do Monomotapa (Mo- çambique), iii, 4. Rêgo, Paulo do, grande capitão da índia, con- tra a armada do rei de Arracão; valentias, morte de, m, 78 sgs. Regina, japonesa, zelosa cristã, 1, 111—112. Reis, ilha dos, refúgio dos cristãos e Padres de Tutucorim (sul da índia), 11, 146; perde-se uma nau portuguesa nas restingas, socorro dos Padres, certidão, 323-325.
  • índice Alfabético Reis-Magos, aldeia dos, na Capitania do Espírito Santo (Brasil); missão ao sertão de, i, 386 sgs. Reis-Magos, retábulo dos, em Cambaia, vindo de Roma para o rei Mogor, devoção do povo, III, 21. Reitaval, pôrto do Pegu, i, 294. Relação Anual, de Fernão Guerreiro, valor da, 1, pp. vil, vni, x, xvi, xvtii, xxx, e xxxiv sgs.; defeito da, xxxvn; traduções da, xxxix; fron- tispício do i.° vol. da, xl; ortografia da, xl e xli; segunda edição da; iniciativa, colabo- radores, contratempos, m, 385-387- Relance da história do Japão, obra de W. de Morais, 1, pp. xm-xv. Repeli, régulo do Malabar, mau, arrepende-se, iii, 70-71. Residências (casas), dos Jesuítas, o que são, 1,2. Ressurreição, de um amortalhado, 1, 187-188. Ribadeneira, P. Pedro, escreve sobre a Etiópia. iii, 289, 3o3 e 337. Ribeiro, P. Pedro, em Nanquim (China), 11,291. Ricci, P. Mateus, 1, p. vn. Ver Rício. Ricio, P. Mateus, Jesuíta ilaliano, parte para Pequim (China), 1, 5o; entra em Pequim, 237 sgs.; presentes de, para o imperador da China, 241-242; roubado, 242-243; escarne- cido, 244; chamado pelo imperador, 246; o imperador aprecia os presentes de, 246-247; é molestado, 248; ensina astronomia, 248-249; mostra a sua obra De Amicitia, 249; faz um catecismo em chinês, e baptiza alguns neófi- tos, 25o; santo e sábio, 11, 90 e 93; carta de, 94-95; Astronomia de, 94-95; tratados,globos e mapas, filosofia, moral, catecismo de, g5; tratado De Amicitia impresso na China, 97; alguns mandarins desaprovam os livros de, tri- bulações e sustos, ioo-io3; estabelece residên- cia numa casa de demónios, 124; ganha fama com seus livros, 125, 291 e 292; intervém pe- rante o novo mandarim de Cantão, em defesa dos Padres e portugueses caluniados, 3oi.— 1, 259; 11, io5, 107 e 108; 111, 26-29 e 235. Rio-Grande (do Norte) no Brasil; Jesuítas em, 1, 376. Rio-Grande, rio da Guiné, 1, 405, 400 e 411. Rio-de-Janeiro (Brasil), colégio de, 1, 373. Riosoge (Riosógi), cidade de Japão, cristãos de, 1, 112 e 184. Robus Mamede, rei de Adel, derrotado pelo rei de Etiópia com auxílio dos portugueses, 111, 379. Rocha, P- João da, em Nanquim (China), 1, 5o e 238; n, 123 e 291. Rocusuque, Gaspar, cristão japonês, valente, 111, 153-i 54. Rodrigues, P. Diogo, de Gôa para Moçambique, iii, 5. Rodrigues, P. Francisco, louva os Missionários Jesuítas, 1, p. vni. Rodrigues, P. Gonçalo, o primeiro Jesuíta que entrou na Etiópia; disputa com o rei e a rainha, carta de, 111, 3o2 e 3o5—311; compõe em caldeu um tratado sobre a doutrina cató- lica, e mostra-o ao rei, 307; companheiro do embaixador Diogo Dias, 355.—in, 313. Rodrigues, P. João, imprimiu a primeira gra- mática japonesa, 1, pp. xx|»«xxv; visita ao imperador Taicoçama, ja moribundo, 1, 66; visita ao imperador Daifuçama, 153 j visita a Ximandono, 154; na côrte, 170; intérprete do imperador; estimado de Daifuçama, 175 e 176; chamado por Daifuçama, 226; dá os bons anos ao Cubo (C-uboçama, antes Daifu- çama), que despreza as acusações contra os mercadores portugueses de Nangazáqui, 11,78; vai a Meaco, visita e presenteia ao Cubo, 111, 119; acompanha ao Bispo do Japão (D. Luís de Cerqueira, Jesuíta), na visita ao Cubo, 121 e 125; vai ver as minas de Yzzu, para satisfazer aos desejos do Cubo, 133 134*~~ 1, 67; n, 127 e 128. Rodrigues, P. Jerónimo «, trouxe de Jerusalém (aonde fôra por morte do Cardeal D. Hen- rique, rei de Portugal) um sepulcro (relicá- rio), que, enviado para o Mogor, lá foi rou- bado, 1, 15. Rodrigues, P. Jerónimo2, vai aos índios Carijós (sul do Brasil), carta de, 11, 419 sgs. Rodrigues, P. Jerónimo', em Xaucheu, na Chi- na, n, 290. Rodrigues, P. Nuno, Provincial de Gôa, 1, 3i3. Rodrigues, P. Paulo, vai de Gôa para Moçam- bique, 111, 5. Rodrigues, P. Pero, Provincial do Brasil, vai em missão aos índios Petiguares, 1, 384. Rogeiro, Padre, nas Molucas, 11, i3i. Roiz, Álvaro, português rico da Cachoeira (sul da Baía, Brasil) amansa os índios Gaimurés, I, 390-392. Roíz, Irmão Domingos, domestica os índios Gai- murés (Brasil), 1, 392 sgs. Roiz, P. João. Ver Rodrigues. Romano, P. Lourenço, parte de Gôa para Dio, II, 180; de Dio para a Etiópia, 397; chega à côrte, iii, 33 e 293. Romão, cristão japonês, de Bungo, valente, 11,58. Roque, cristão japonês, de Sacai, cura um me- nino, 11, 76. Ros, D. Francisco, Jesuíta, Bispo de Angamale (Malabar), 1, 339, 342, 343 e 345; descobre
  • 426 Relação Anual > uma memória arqueológica de S. Tomé, carta, ii, 142; na serra de S. Tomé, 160 sgs. Rosatelo, ilhéus de, lugar de Ambóino (Molu- cas), 1, 278-279. Roscoli, Jerónimo, autor italiano, escreveu comentários à Cosmografia de Ptolomeu, 11, 393. Rossalau, ilha de, (Ambóino), 1, 273. Roxá, reino de Etiópia, m, 65. Rozanégns, reino de Etiópia, m, 65. Rntru, divindade do Maduré, m, 97. Sá, P. Simão de, funda a residência de Palia- cate (reino de Bisnagá), 11, 145. Sabbá, cidade antiga de Etiópia, onde morou a rainha do mesmo nome, in, 362. Sabina, japonesa cristã, 11, 29. Sacadono, Jácome Mina, cabeça dos cristãos de Satçuma (Japão), 11, i5. Sacai, cidade do Japão, 1, pp. xvn e 63; cemi- tério em, 115; residência de, 229.—1, 215; n, 75 e 76; m, 140. Sacazúqui (Sacanzuque), saudação mútua com copo de vinho, no Japão, 1, 209. Sacerdotes, cristãos, feitos comerciantes, na Serra Leôa, 11, 205-206. Sacinos, rei da Etiópia; chamou-se primeiro Malac-Sagued (Malaceguet, Malaseguet) (depois Seltão Sagued), era primo do rei Atanás Sagued, 11, 407; reina quatro meses, sucedendo-lhe Jacobo Malac-Sagued, 409, 410; in, 31; morto Jacobo em batalha, volta a reinar definitivamente, bom e amigo da união com Roma, 32-33 e 352; quer a união com Roma, escreve ao Papa e ao rei de Por- tugal, 111, 34-36; defende os Padres, 38; favo- rece os portugueses, 39; pede as Ordenações do reino de Portugal, 366. Sacojamon, Jacob, japonês, filho de Isabel (Sa- tçuma), valente cristão, 11,15 e 16. Sacondono, cristão e fidalgo japonês, filho mor- gado de Genofolm, vice-rei do Meaco; des- herdado e desterrado por seu pai, por ser cristão; morte e exéquias de, 1, 23o. Sadondono. Ver Fonda Sadondono. Sáfares, gente sem lei, 11, 386. Sagamidono, aio do Xógum (príncipe herdeiro do Japão); amigo dos Padres, m, i3i. Saide ou parente de Mafamede, 1, 312. Saigó, no Japão, residência de, 1, 87. Saixondono, japonês, 1,122. Sal, feito a poder de fogo, e vendido na Guiné, 11, 200. Salçumano Cami, japonês, filho do Cubo, e senhor do reino de Voari; amigo dos Padres, m, 212. Saldanha, Aguada de, na África Ocidental, in, 22. Saldanha, Aires de, Vizo-Rei da tndia, padri- nho de neófitos, 1, 4; retrato de, 297.—1, 5o, 276 e 345; 11, 3o8. Salsete (Goa), colégio de, 1,3; coisas das terras de, meninos apóstolos em, 349 e 35o; quarenta e cinco mil cristãos a cargo dos Jesuítas em, carta de um párroco, 11, 355-358; os cristãos de, recorrem ao Papa, ao P. Geral da Com- panhia, e ao Rei de Portugal, para que lhes não tirem os párrocos Jesuítas, 357; conver- sões em, iii, 2. Salerno (Talerno), P. Natal, siciliano, no Pegu, 11, 141; vai a Arracáo (Bengala), tratar de pazes, 318; vai a Malaca pedir socorro mili- tar, 319; morre numa batalha naval (Pegu), iii, 77 e 80. Salvador, igreja do, na Etiópia, 111, 62. Salvador, pôrto do, o principal da Serra Leôa; igreja no, in, 258 e 261. Samachão (Samarkand), na Asia central; pátria do Tamerláo, 11, 110. Samaforo, lugar da ilha de Morotai (Molucas); conversões em, iu, 88. Samorim (Çamorim), rei de Calecut, e os Jesuí- tas, 1, p. xi; os Jesuítas agentes de paz junto do, 11, 158-159; amigo dos portugueses, ini- migo dos holandeses, aconselhado pelos Je- suítas, 334 sgs.—1, 371 e 372; n, 339; m, 67. Samatra (Sumatra), ilha de, reino de, 1, 49. Sancho, Dom, rei de Omura, no Japão, 1, 71, 74-77, 86, 87,143,164,170 e 172-175. Sancho Cano Fanjemon, irmão de Jogoro Jus- tino mártir; cristão japonês, coluna dos cris- tãos de Iamangúchi, prêso, 201-204; carta de, 205-206.—11, 269 e 270; 111,198,199 e 210. Sando, reino de Japão, 11, 7 e 284. Sanga, reino de Japão, é êrro. Ver Canga. Sangage ou conde, cristão, da ilha de Labua (Molucas), 1, 272. Sangaml, reino de Japão, m, 129. Sangrafaré, pretendente ao trono do reino dos Lóguos, filho do grande Farma (Serra Leôa); vai à igreja, pede o baptismo, 111, 270-271. Sangu, em Bengala, 1, 292. Sangním (Sangui, Sanguir), ilha de, reino de (Celebes), 1, 267; n, 311; m, 88. Saniases (Saniasses, Saniassas), homens castos e recolhidos, no Maduré, ih, 90, ioi-io3 e 109. Santa-Ana, baixos de, na costa da Serra Leôa; pérolas nos, 1, 408. Santa-Catarina, ilha, no sul do Brasil, 11, 421. Santa-Cruz, pôrto de, na Guiné, n, 415. Santa-Fé, colégio de, em Goa, 351.
  • índice Alfabético 427 Santa-Maria, cabo de, na Guiné, 1, 404. Santiago, Apóstolo, na guerra, 1, 121. Santiago, frèguesia de, perto de Cochim, pas- toreada pelos Jesuítas, 11, 155 e 334. Santiago, igreja de, em Travancor, queimada, cinza milagrosa, n, 152. Santiago, ilha de Cabo-Verde, Jesuítas em, descrição de, 1, 399-401; tabalhos em, 111, 257.—n, 199; 111, 271. Santo Agapito, igreja de Etiópia, tu, 62. Santo André, residência de, no reino de Murtete (Malabar), 1, 336 e 337; n, 155 e 334; ui, 67* Santo António, igreja de, no Japão, 1, 83; devo- ção a, no Japão, 85. Santo Tomé, cidade de (Meliapor), na índia Oriental, 1, 316; colégio de, 317; n, 141, 142 e 321-323; 111, 76-77. Santo Tomé, Serra de (Malabar), cristãos da» I, 342 sgs., 345 e 358; 11, 159 sgs.; Serra de S. Tomé ou da Pimenta, 160; quatro igrejas de S. Tomé nos reinos do Samorim, carta de um Padre, 335-336; colégio da Serra de, e suas residências, 338 sgs.; 111, 70-71. Santos, Frei João dos, Dominicano, testemunha abonada sóbre as coisas de Etiópia, tu, 290 sgs. Sanúqui (Januqui), reino de Japão, 111, 229. São Clemente, aldeia de, perto de Pequim (Chi- na), 111, 235. São Domingos, pôrto de. Ver Jarim. São Filipe, povoação portuguesa na Guiné, 1, 404. São Filipe, galeão, no Japão, 1,169-170. São Francisco, rio, no sul do Brasil, n, 420, São Francisco, nau da armada de D. Jerónimo Coutinho, encalha em Moçambique, 11, 349. São João, cristãos de (no Eufrates), vão à Serra de S. Tomé (Malabar); mal baptizados, 11,340. São João Baptista, cristãos de, na Arábia^ 111, 3. São Lourenço, ilha de, (Madagascar) Africa oriental, 111, 363. São Mateus, padroeiro dos reinos de Etiópia, II, i65. São Miguel, Bento de Góis, é natural da ilha de (Açores), 1, 311. São Pantaleão, igreja de, na Etiópia, m, 62. São Pedro ad vincula, festa de, 1, g3. São Paulo, casa de, em Piratininga (sul do Brasil), 1, 385. São Paulo de Goa, colégio de, 1, 3; m, 314 e 347. São Paulo, igreja do Apóstolo, num pagode de Ceilão, 11, 345. São Paulo, vila de, capital de Angola, 1, 398. São Pedro e São Paulo, casa de, em Chaúl, (ín- dia ocidental) 1,3. São Quirício, igreja de, no Malabar, u, 335— 336. São Vicente, na capitania de (sul do Brasil), 1, 384; Índios Garijós vêem a, 385 e 386. Sapés, povos da Guiné, m, 363. Saquiamon (Sacuieemon, Sacujemon), Jacobo, japonês, filho de Isabel, ui, i63,164,169 e 170. Sarangue, moiro do navio que levou o P. Pero Pais à Etiópia, 1, 364. Sarza Denghel. Ver Malac-Sagued. Sarzete, terra de, na Etiópia, 11, 180. Sataquo, senhor principal de Japão, 1, 169. Satçuma (Saxuma, Satsuma), reino de Japão} I, 129; valentia do rei de, 132; coisas de' 141-144, 169 e 170; m, i63,164 e 169; missões ao reino de, 1, 186 e 187; n, 15—17; um Padre visita ao rei de; este é amigo dos Padres, II, 18; vulcão em, 242-243. Sateumano Cami, filho de Cuboçama (Japão); morre; barrigas cortadas em sua honra, m, 126-127. Satow, Mr. Ernest Mason, americano, estuda as obras literárias dos Jesuítas no Japão, 1, p. xxv sgs. Saxodono1 (Saxedono, Saxe, Saxadono, Saxi- dono, Saxundono, Saxondono), japonês, go- vernador principal dos reinos de Moridono, inimigo dos cristãos, 1, 101 e 207; 11, 5o-55, 270 e 271; ni, 201—205. Saxodono2, japonês, senhor de Iamangúchi, e sobrinho de Moridono, 1, 102-103. Saxodono3, japonês, senhor do reino de Vacasa, tio de Moridono, e filho de Maria Quiogocu; baptiza-se em Meaco, 1, 159 e 226. Savengnil (Za Danguil). Ver Alanas Sagued. Savojama, fortaleza de, no Japão, 1, i3i. Saxe Firoiemon (Firoyemon), japonês, em Fan- gui, côrte de Moridono, m, 206. Sebastião, Dom, Rei de Portugal, e as Missões, 1, 357; e os Jesuítas do Brasil, 373; e a Etió- pia, 111, 335 e 338. Sebastião, Dom, irmão de D. Filipe, rei da Serra Leoa; baptiza-se, m, 265. Sebastião, Dom, moiro nobre, convertido e baptizado antes da morte a que foi conde- nado em Goa, 11, 353-354- Século (O), diário de Lisboa, fala bem dos Je- suítas do Japão, 1, p. xxxi. Segu, é êrro. Ver Pegu. Selá-Cristóa (imagem de Cristo), vice-rei do Tigré, na Etiópia, m, 3g; amigo dos Padres e da Igreja, 48-50. Senegal (Senegá), rio da Guiné, m, 277. Seppuku, suicídio legal, no Japão, 1, p. xxx. Ver Barriga.
  • 428 Relação Anual > Sequeira, Irmão António; missão ao interior de Angola, 11, 413-414. Sequeira, P. Baltasar de; da índia para o reinoi de Sião, ih, 85. Sérgio, hereje monotelita, erros de, na Etiópia, 111, 3o8. Serra, Arcebispo da (no Malabar), recebe, e crisma dois cristãos do Maduré, m, 106-107. Serra de S. Tomé; colégio da. Ver Santo Tomé. Serra Leõa, ao Sul da Guiné; descrição da; riquezas e costumes da, 1, 407-410; missões do F. B. Barreira, carta, 11, 199-212; traba- lhos e fruto extraordinário, carta de Bar- reira; europeus perdidos na; bondade do clima da, ui, 239-285. Ver Barreira. Serrão, Francisco, navegador português, des- cobre as Molucas, u, 3o3-3o4- Sete-Corlas, reino de, em Ceilão, m, 75. Sete-Pagodes (reino de Bisnagá), m, 77. Setuão, Dom João. Ver João, Dom, Setuão. Sião (na Indochina); reino do, Jesuítas no, 1, pp. vu e 292-295; 11, 317, 318 e 320; fundação da missão do; costumes religiosos do, m, 84- 87. Sião, ilha de, reino de, junto á ilha dos Cele- bes (Oceania); Jesuítas em, portugueses em, 1, 267, 271 e 272; 11, i3o, 3o8 e 3n; m, 88. Silva, P. Belchior da, Padre secular, natural da fndia, vigário na Etiópia, 1, 359—361, 365, 36g e 370; 11, 181; volta a Goa, 191. Silva, Bento Correia da, português, funda, com seu irmão João, uma povoação na Serra Leôa, 1, 407. Silva, João Correia da, português na Serra Leôa, 1, 407. Silva, Irmão Duarte da, cirurgião, 1, p. xvn; primeiro gramático e primeiro dicionarista no Japáo, xxii. Silva, P. Feliciano da, em Nanquim (China), 11, 291. Silva, Gaspar da, embaixador português em Arracáo (Bengala), 1, 291. Silveira, P. Gonçalo da, funda a missão doMono- motapa (Moçambique); martírio de, 111, 4 e 6. Simão Findenadono (Findena, Findeno, Fin- denas), cristão japonês, senhor de Corume, 1, 69; zêlo de, io5, 106 e 107; morre, 184.— 1, 135. Simão, Zaquendo Gofioge (Taquenda, Zaquede Gofroge), cristão japonês, 11, 24, 25, 27 e 28; glorioso martírio de, 30-37.—11, 44, 45, e 244- 246; iii, 176. Simeão Condera Cambiogedono, rei de Bugém (Japão), irmão de Miguel Sogemandono, e pai de Cainocamidono (depois Chicujenoca- midono), todos três cristãos e esforçados capitães, primeiro de Taicoçama e depois de Daifuçama, 1, 62-63 e io3-io5; morre, 11, 5g e 60.—1, i3o, 155, 159, 160, 162-164, '845 204j 206 e 211. Simeixém, cristão japonês, filho de Chicugo- dono Luís, iii, 193. Simentirão, pagode de, no reino de Travancor, 1, 331. Sinabadi, grande fidalgo de Arracáo (Bengala), morto pelos portugueses, 1, 287. Sinde (linde), reino de, conquistado por Aque- bar, rei do Mogor, 11, 366; comércio com Dio, 389. Sinai, monte, na Arábia, 11, 179. Sinforosa, espôsa santa de Jorge, mandarim chinês em Xaucheu, 1, 261. Singapura, os holandeses tomam a nau da China, no estreito de, n, 91. Sinien, lugar vizinho de Xaucheu (China); fruto em, 1, 264. Sir, fortaleza de, no Mogor, 1, 3o3. Sirião (Pirião), pôrto português no Pegu, for- taleza de, i, 47, 286, 290 e 294; madeiras de, para Suez em naus turcas, 11, 137; cercada a fortaleza de, pelo rei de Arracáo, 81; vitória dos portugueses por mar e terra, 83; incên- dio casual da fortaleza de, edifica-se de novo, 83-84.—11, 3i7 e 318; 111, 77 e 78. Siripur, pôrto de (Pegu), 1, 285; 11, i33. Siutim, cidade de (China), 1, 239-240 e 242. Soares, P. Francisco, reitor de Salsete, vai de Goa para Moçambique, 111, 5. Soares, P. Gaspar, Superior da casa de Dio, e a Etiópia; carta de, 11, 176; vai em missão a Cambaia, 394; disputa com um vertia, 394- 395. Soares, Lourenço, estudante do colégio de Santa-Fé (Goa); piedade, penitência e morte santa de, 11, 351—352. Soares, Maurício, português da Etiópia, capi- tão dos seus naturais, defende os Padres, 111, 53-54. Sobas de Angola, alguns protegidos e governa- dos legalmente pelos Jesuítas, 1, 3g5 ; invejas, desgostos e conflitos com os brancos, a pre- texto dos sobas protegidos dos Padres, 396. Socotorá, ilha do Oceano Indico, sede episco- pal instituída por S. Tomé, 11, 142; 111, 23. Sodomala, serra de (Malabar); descobrimento da, 1, 345-347. Soeiro, P. João, em Nanchão (China), 1, 5i e 256; 11, 113, 133 e 290; foi o primeiro Padre que prègou o Evangelho em Nanchão; morre em Macau, exéquias em Nanchão, 111, 232.
  • índice Alfabético 429 Soeiro, P. Paulo, morre de trabalho, cuidando dos doentes e feridos do hospital de Malaca, 11, 316. Sofala (Çofala), na África Oriental, m, 340 e 344. Sogemandono (Miguel?), em Iamangúchi, faz baptizar os filhos e netos, 1, 207. Sogemandono Miguel. Ver Miguel. Sogemono, fidalgo japonês, gentio de Quanto, disputa com os Padres em Ozaca, sôbre re- ligião, I, 223. Solataqnins, ministros reais, na Serra Leôa, 1, 408 e 409. Solor (Salor), ilha portuguesa da Oceania; Je- suítas aportam a, missão dos Religiosos de S. Domingos, 1, 270. Soter, rei de, perto de Malaca, 1, 49. Songa, Dom Bartolomeu. Ver Bartolomeu. Sousa, Dom Francisco de, governador da Baía, e os Jesuítas, 1, 376. Sousa, Irmão João de, morto pelos índios Ca- rijós (sul do Brasil), ii, 420. Ver Garijós. Sousa, Rodrigo de, português, embaixador ao Congo, «I, 364. Sousa, Tomé de, governador do Brasil, 1, 373. Sonsos, gentios dos reinos sujeitos ao rei de Bena (Guiné), m, 243. Spínola (Spínula) P. Nicolau, italiano, Reitor do colégio de Coulão (Travancor); ministé- rios de; conclui a paz entre o rei de Travan- cor e os portugueses, 11, 342-343. Suá, reino de Etiópia, 111, 66. Suaquém, ilha e pôrto de Etiópia, Jesuítas em, 1, 35g, obséquios dos baxás de, 11, 179, 180 e 397; iii, 64. Subecheu (Sucheu), cidade do norte da China; Bento de Góis chega a, 1, p. vm; 111, 27. Subgamó, província de Etiópia, 111, 66. Subsídios para a Bibliografia Portuguesa, obra de Jordão de Freitas, 1, p. xxv. Sucheu. Ver Subecheu. Sujedono. Ver Xugendono. Suez, cidade do Egipto, 1, 293; 111, 370. Sumamoto (Cumamoto), cidade do Japão, córte de Canzugedono, senhor do reino de Fingo, I, 198 e 202; 11, 26, 28, 37, 45 e 48; 111, 174, 176 e 178. Sumbanassumba, personagem fabulosa em Dio, II, 3gi. Sumoto, ilha de, no Japão, 1, 176. Sunda, ilhas da, rei da (na Oceania), 1, 276, 277 e 279. Sondares, capitães da armada (Bengala), 1, 287. Surrate, cidade e pôrto de Cambaia; naus de, 1, 294; comércio de, 11, 389-390; ingleses em, III, 23.—11, 395. Snndiva (Sundim), ilha de (Oceano Indico), residência de, tomada da ilha de, 1, 285-289; os mogos atacam a ilha de; vitória dos por- tugueses, mas estes deixam a ilha, 133, 134 e 3ig.—11, i32. Surunga, cidade de, reino de, no Japão; resi- dência do Cubo, iu, 123, 124, 127-129, 133, 138, 2o5, 206 e 225. Snvo, reino de Japão, 11, 70. Tabete, rei de, na Ásia central, 11, 386. Tacace, rio de Etiópia, 111, 62. Tacacúqui, montanhas de, no Japão, 1,116. Tachão, chinês principal, em Pequim, morre de açoites, 11, io3. Tael, moeda chinesa, 1, 241. Tagarim, rio da Serra Leôa, 1, 408. Taichoró, bonzo japonês, m, i3o. Taicoçama (Taicosama, Taico, Taicó), teve nove nomes, imperador do Japão, 1, 55 sgs.; já amigo, já inimigo dos Padres, devasso, e por isso perseguidor dos Padres e dos cris- tãos, 1, 60 e 61; trata do seu sucessor, 63 e 64; quer honras de Deus, i52; causa prin- cipal da perseguição de, contra os cris- tãos, foi o mêdo que lhe causaram os religiosos que vieram das Filipinas; manda matar os religiosos de S. Francisco e al- guns Jesuítas, 170, decreto de,-contra os Padres, 11, 77; morre, 1, 65; alegria pela morte de, 66; recebe honras de cami ou deus, 11, 6-7.—1, 62, 67, 68, 69, 101, io3, 107, 114, 115, 119, I32, 160, 169, 172, 177, 182, 190, 193, 2o3, 204, 219, 226, 228 e 23o; 11, 5; 111, 314. Tajudono, senhor dos reinos de Aqui e Bingo (Japão), 111,193, 194 e 207. Talagame, surgidoiro de Ternate; nau holan- desa em, defende-se, n, 3og; foge, 311. Talhan, na Ásia central, 111, 25. Talapóios (talapaios), sacerdotes de Arracão (Bengala), 11, 319, e do Sião (Indochina), m, 86 e 87. Talento, é êrro. Ver Salerno. Tâmara, ilha da Guiné, 11, 201. Tamba, reino de Japão, 11, 74, 84 e 287. Tambasira, rio da Serra Leôa, 1, 408. Tamerlão (Tamorláo), que desbaratou ao Grão- -Turco, 11, no; na China, 292; 359. Tamixiro, reino de Japão, 11, 37. Taná (Tana), colégio de (costa ocidental da Índia), 1, 3 e 35o; conversões em, 111, 2. Tanaca, Chicugodono (Chicungodono), japo- nês, senhor do reino de Chicungo, amigo dos Padres, 111, 144 e 181. ■
  • 43o Relação Anual Tanaçarim (Tanaçari), pôrto e cidade do reino de Siáo, junto ao Pegu, i, 294; 11, i3g, 317 e 318; 111, 85. Tanegaxima, ilha do Japão, monumento aos portugueses que o descobriram, 1, p. xxxu. Tango, reino de Japão; senhorio de Xorindono, cristão, irmão de Saxadono, 1, 62, 125, 217, 219 e 226; m, 212. Tangos ou lançados, comerciantes portugueses, metidos e perdidos entre os negros da Guiné, I, 400, 403 e 406. Tangn (Tango), reino e cidade, no Pegu, 1, 44, 45, 47 e 290-292; descrição da cidade de, 294-295; riquezas de, 317.—11,140,317e3i8; 111, 80 e 83. Tanjaor, naique de (reino de Bisnagá), 11, 143 e 327. Tanor, reino de, igreja de (no Malabar), t, 340; P. Jácome Fenício em, 11, 337; residência de, iit, 67-69. Tão, médico chinês, catecúmeno, 1, 255. Taossas, adivinhos, na China, 1, 263. Taqnenda, é êrro. Ver Simão Zaquendo. Tarapor, pôrto de, ao norte de Goa, 111, 24. Taravasadono, senhor das ilhas de Xequi e Amacusa (Japão), perseguidor, 111,171. Tarazava, Ximonocami (Ximano Cami), japo- nês, perseguidor, 11, 18—23; perde o reino de Nangazáqui, 78; abranda os rigores, 236. Taraznge. Ver Fequida Tarcaró (Betancontarcaró), proclamado rei de Etiópia, contra Adamás, guerra, preso e morto, in, 326 e 331. Tari, cidade da Arábia, Jesuítas em, 1, 357. Tan ou governador de uma província (China), II, 96. Tanceá, rio de Etiópia, 111, 63. Tancente, ilha da costa da Serra Leôa, 1, 408. Tauli, chinês, autoridade em Xaucheu, 11, 122. Tanxima. Ver Zeuxima. Tauxus, seita dos, na China, 11, iii-ii3. Tavai (Teva), cidade e pôrto do Pegu, 11, i3g, 317 e 318. Tavanapatão (índia oriental), pôrto de, entre- gue aos portugueses, Jesuítas em, 111, 76. Tavares, Gonçalo, capitão de Dio, 1, 352. Távora, Rui Lourenço de, Vizo-Rei da índia, ordena a conquista do Monomotapa (Mo- çambique), e pede Jesuítas, 111, 4-5; espera o embaixador do Mogor, 24. Teatro cristão, nas Missões, em Cotate (Travan- cor), representa-se O Rico Avarento, assis- tência de mais de quatro mil pessoas, 1, 33i. Tecla, japonesa cristã, esposa heróica, 1, 182- i83. Tecla-Maria, frade etíope, vai a Roma, pelo Cairo, ordena-se de sacerdote em Roma, 111, 296. Teive, Francisco de Sousa, português, em Am- bóino, prisioneiro, sôlto pelos holandeses, 1, 282. Teixeira, Estêvão, capitão português, em Am- bóino, 1, 278. Tejo, baía do, missionários partem do, i, p. ix. Tença, o governo do Japão, 1, 69, 78 e 119; re- voltas da, ií3-i32. —1,137, i52—154 e 226. Tento ou Deus, no Japão, 111,122. Teotónio de Bragança, Dom, Arcebispo de Évora, que fôra Jesuíta, favorece as missões do Japão, 1, p. xix. Ternate, fortaleza de, nas Molucas, 1, p. xi, reino de, 267; naus holandesas de, pelejam contra Tidor, 271; mau sucesso na guerra de, 11, 129; holandeses em, atacam a forta- leza de Tidor, os ingleses auxiliam os por- tugueses, defesa brava, retiram os inimigos, reconquista-se tôda a ilha de, i32 e 3o3; o rei de, nomeia por herdeiro ao rei ds Portu- gal, 304; guerras de, perda de, 3o5; recon- quista de, 3o8-3i2; Jesuítas em, íu, 87-89.— 1, 279, 280, 282, 283 e 372; 11, 3o3. Tetnão, na África do norte, Jesuítas em, m, 314. Teugapatão, aldeia de Travancor (sul da ín- dia); os cristãos de, resistem contra os gen- tios, 11, i5i. Teúno Camidono, Agostinho. Ver Agostinho, Dom. Tennocami, serras de, reino de, cristandade de, no Japão, 11, 43. Teu Teugi, letreiro cristão numa igreja do Ja- pão, 11, 84. Tenxima. Ver Zeuxima. Tenximandono. Ver Zeuximadono. The Jesnit press in Japan, por Mr. Ernest Ma- son Satow, 1, xxvi. Thecleai (Thacleai), Manoth (Manot), tido por santo na Etiópia, frades de, 111, 3o2,3o3 e 3i t. Tibet, notícias do, descobrimento do, 1, p. viu. Tidor (Tidore), fortaleza de, nas Molucas, 1, p. xi, 49; reino de, 267 e 268; naus holande- sas contra, 271 e 272; tristezas e trabalhos, cêrco de, casa de, carta, 11,129-132; guerras de, perda de, conquistada pelos holandeses, 3o5-3o8; reconquista de, 3o8-3n.—11, 304. Tigoro João. Ver João Tigoro. Tigré (Tigray, Tigare), reino de, província de, na Etiópia, 1, 361; 11, 165, 166, 399, 407 e 408; iii, 32, 33, 39, 46, 49, 51, 53, 56, 57, 62 e 63, descrição do, 64; Jesuítas no, 331, 343, 344 e 353.
  • índice Alfabético 431 Tindigil (Tingidil, Tigindil), imperador de Etiópia. Ver Atanás Sagued. Tipografia, a primeira no Japão, i, p. xxv. Tirojemon, cristão japonês, valente, t, 200. Tiroquichídono, japonês, ministro de Cacuzai- mon, 11, 245 e 246. Tirozai, japonês, marido de Marta, cristã, fi- lho de Nangato que lhe aparece depois de morto; caso famoso de possessão, 11, 237- 241. Titole, rei de (Celebes), 11, 3i 1. Todares, supostos descendentes dos cristãos de S. Tomé (serra de Sodomala), no Malabar; costumes dos, 1, 345 e 346. Toar, P. Pero, vai de Goa para o Monomotapa (Moçambique), 111, 4. Todos-os-Santos, aldeia de, no Japão, 1, 67. Todos-os-Santos, aldeia de, na China (perto de Pequim), m, 235 e 236. Tolo, lugar da ilha de Morotai (Molucas), con- verte-se, 111, 87-88. Tomé, Dom, japonês, filho de D. Jerónimo, fi- dalgo de Firando, 1, 73, 144 e 145; oferece-se à morte por Cristo, 146 e 157. Tomé, Santo, Apóstolo, converte seis reis, três dêles imperadores, e funda oito sedes epis- copais no Oriente, 11, 142. Tondo, no Japão, residência de, 1, 92. Tongavale ou cerimónias, em honra do pagode Perumal (Cabo de Comorim), 11, 251. Tono ou senhor, no Japão, in, 143, 145, 148 e 182 sgs. Topaz ou intérprete (Índia), 11, 144 e 332; 111, 90. Topo, lugar de Travancor (sul da índia), 1, 335. Tóquio, moderna capital do Japão, 1, p. xxi; universidade católica de, fundada pelos Je- suítas, xxt; e reconhecida pelo governo ja- ponês, XXXIII. Toquixiro, depois Taicoçama, imperador do Ja- pão, 1, 55. Tora, rei, na Serra Leôa, amigo, 11, 205 e 206; pede o baptismo, 207. Tôrre de Babel, obra de Fidelino de Figueiredo, 1, p. xv. Torres, P. Cosme de, escreve do Japão onde trabalhava, 1, p. xxvn; cristãos do Japão, do tempo de, em Iamangúchi, 11, 49. Tôrres, Irmão João de, no Japão, 1, 212 e 216; prega nas exéquias de D. Grácia, 217. Tôrres, Martim de, português, no reino de Sião (Indochina), 1, 293. Toscano, Padre, em Angamale (Malabar), 1, 28. Totias, casta nobre dos (Maduré), ai, 96. Toto, ilhas do, na costa da Serra Leôa, 1, 408. Tranquebar, povoação da índia Oriental, 1, 3ai. Travancor (sul da índia), reino de, cristandade de, 1, 328-335 e 371; trágica perseguição em, n, 149-154; casos notáveis em, i52 sgs.; coi- sas de, 342-345. Trento, concílio de, conhecido na Etiópia, m, 349. Trepeti, cidade de (reino de Bisnaga), 1, 315. Trincanamale, rio de Ceilão, 11, 345. Tripalicorim (Tripalicuri), igreja de (Costa da Pescaria), 1, 38 e 323. Trões ou procuradores, advogados, na Serra Leôa, 1, 409. Trufão, terra da Ásia central, 11, 384. Trugure, serras de, no Malabar; missão a, 11, 339. Tubacatum (Tungubutu), capital dos negros Fulos Gasalhos (Guiné), 1, 402; 111, 363. Tucuximandono, rei de Voari, no Japão, favo- rece os Jesuítas, 1, i55. Tudesco (Tedesco), P. Bartolomeu, em Xau- cheu (China), 11, 122 e 290. Tufão no Japão, 11, 219-220. Tunixi Raien, senhor dos Totias do Maduré, 111, 96. Tupinambás, índios bravos do Brasil, 1, 389. Tupinaquins, índios bravos do Brasil, 1, 38g; 11, 421. Turco, o sultão da Turquia, 1, 293. Turcos, no Mar Vermelho, favorecem e metem alguns Padres na Etiópia, 11, 397; invadem a Etiópia, iii, 354. Turcunofuxi, uma das partes da cidade de Iatçuxiro (Japão), 11, 252. Tutão ou Vizo-Rei de uma província (China), 1, 239, 243 e 255; n, 96; ui, 27. Tutucorim (Tutucurim), na Costa da Pescaria, colégio de, 1, 3i sgs.; baptismos em, 33; assalto ao colégio e à igreja; mudam-se os Padres para a ilha dos Reis, u, 146; rei de, 323 e 324. Dcondono (Ocundono), Justo. Ver Justo. Dlpos (upos) ou meirinhos, beleguins dos man- darins na China, 1, 241 e 242; 11, 122 e 123. Umbares ou desembargadores do Paço, na Etió- pia, iii, 60. Umimedono, cristão japonês, filho de João Nai- tofindano Cami; lindas cartas de, 1, 196-19H. Urreta, Frei Luís de, Dominicano espanhol, publica uma História Eclesiástica, Politica... de Etiópia; refuta-se longamente, 111, 287 sgs. Ver Etiópia. Úrsula, nobre japonesa, cristã destemida, 111, 183-184.
  • 432 Relação Anual Úrsola, cristã coreana, nas ilhas de Gôto (Ja- pão), in, 157. Dsber, reino de, no Grão-Mogor, 11, 359. Ver Husbec. Usúqui, cidade de, no Japão, 1, 108. Usuqnendono, senhor principal do reino de Bungo (Japão); amigo dos Padres e dos cris- tãos, 11, 479. Uto, no reino de Fingo (Japão), 1, 94; casa rei- toral de, 95; Semana-Santa em, 96; tribula- ções em, i36 sgs.; defesa da fortaleza de; isenção dos Jesuítas na guerra civil, são presos; Reitor de, carta, 137-139.—1, 97, i3o, 159 e 162; m, 174. Uva, reino de Japão, é êrro. Ver Deva. Vacasa, reino de, no Japão, 1, 219; 111, 21a e 2i3. Vacochica, lugar principal das ilhas de Gôto (Japão), ih, 158. Vagnoni, P. Afonso, na China, carta de, 11, 290- 291. Vaipar, lugar da Costa da Pescaria; baptismos em, i, 33; confissões em, 34.—1, $23; in, 96. Vaipim, Santiago de, residência de (Cochim), u, 155. Vaipicota, colégio de, e suas residências (no Malabar), 1, 28 sgs., 11, i6o-i63; seminário de, 343.—11, 336 e 338. Vaiqtiidono, filho herdeiro de Jocundono (Ja- pão) ; amigo dos Padres, ni, 188. Valdebá, Arbatu, Anracá, igreja de Etiópia, ih, 62. Valença (Valência de Espanha); livro de Frei L. de Urreta impresso em, in, 287. Valignano (Valinhano), P. Alexandre, italiano, Visitador das missões do Oriente, 1, p. xix; partida de Lisboa, 1; no Japão, festejado, 97; escreve a Ximandono, 154; quer entrar na China, e morre, 11, 299-300.—1, 66, 68, 88-90, 92, g3, 98, 99, 104-106, 113, 133, i35,137,142, 157, 160, i63, 172-174, 176, 177, 186, 187, 192, 194, ig5, 198, 216 e 218; 11, 91; ih, 123. Vanchum, lugar vizinho de Xaucheu (China), 1, 265. Varagém, lugar de Travancor, 1, 333. Varanula, ilha de, em Ambóino (Molucas), to- mada de, 1, 281-282. Vasconcelos, D. Diogo de, capitão de Macau, caluniado e perseguido pelos chineses de Can- tão, 11, 3oo. Vasconcelos, almirante Ernesto de, elogia os Jesuítas missionários, 1, p. vm. Vatanabe Jerogemon, Joaquim. Ver Joaquim. Vaviacorim, lugar na Costa de Travancor; caso notável da cinza da igreja de, ii, i52. Vaz, P. Duarte, viagem trabalhosa para Angola, 11, 191-198. Vaz, Jorge, português da Etiópia, 1, 36i. Vehimé (Vehine, Veímé), residência de, perto de Nanzagáqui (Japão), tem duas igrejas, e uma casa de leprosos, 1, 83; 11, 228; 111, 147. Vaidamão, capitão dos baneanes em Maçuá (Etiópia), 11, §99. Veiga, P. Manuel da, Visitador do sul da índia, I, 3i e 33; procurador a Roma, 325; Provin- cial de Goa, manda quatro Padres à Etiópia, II, 175 sgs. Veiga, P. Sebastião da, nas Molucas, 1, pp. xn, 276, 278 e 282. Velho, Francisco, português, companheiro de D. Cristóvão da Gama na Etiópia, m, 362. Velur, córte do reino de Bisnaga, fortaleza de, residência de, um Padre em, 11, 143 e 321 sgs.; iii, 77. Veneatapati, rei de Bisnagá, carta de, 111, 76. Ventacaxá, rei de Narsinga (ou Bisnagá), carta de, iii, 76. Vêrga, cabo da, na Guiné, 1, 406-408. Vertiás, religiosos gentios mendicantes, em Cambaia, costumes dos, 11, 394 e 395. Vesmu, divindade do Maduré, ra, 92, 95 e 97. Viacami, no Japão; residência de, perto de Nangazáqui, 111, 147. Vicente, Irmáo, catequista no Japão, 1, 211. Vice-Província da China, 1, 2. Ver China. Vice-Província do Japão, 1, 2. Ver Japão. Vice-Provincial do Japão, 1, 133, liy, 189, 190, 195, 196, 198, 206 e 212. Ver Japão. Vices, gentios ocupados em ofícios mecânicos (Cambaia), 11, 394. Viegas, Artur (P. António Antunes Vieira), pre- facia a 2." edição da Relação Anual; falece, 1, p. xu. Vihnvada, Naique, mancebo cristão do Maduré, valente, m, 92 e 108. Vieira, P. Francisco, procurador da índia a Lisboa, volta a Goa, 1, 347. Vieira, Pedro, português da Etiópia, 1, 361. Vila-de-Ferreira (Évora), naturalidade do már- tir Vicente Alvares, 11, 349. Vila-Franca, na ilha de S. Miguel (Açores), naturalidade do Irmão Bento de Góis, 111, 28. Vila-Lôbos, Diogo Nunes, português, em Ben- gala, 1, 46. Vilela, P. Gaspar, missionário no Japão, i, pp. xvi, xxi, xxiii e xxx. Viosu, cidade do Japão, no reino de Voari, 111, 127. Vito, menino chinês, filho de Jorge, mandarim em Xaucheu, u, 122.
  • índice Alfabético 433 Vpari, reino do Japão, 1, 55 e 62; cristandade de, 119-122; missão ao, 11, 85; nova missão a, 212 sgs.—1, 128, 129 e 131; u, 126 e 139. Vocabulário da lingoa do Japam, i, pp. xxv e XXVII. Vomi, reino do Japão, 1, 78 e i3t. Vondavará, cidade do reino de Sangami (Japão), 111, 135. Vonfus, os parentes do rei da China, em Nan- chão, 11, 290. Vongóri, lugar perto de lamangúchi (Japão), 111, 198. Vorageri, lugar de Travancor, castigo de um moiro sacrílego em, 11, 343. Voxu, reino de Japão, tu, 220. Vozaca. Ver Ojaca. Vuá, é êrro. Ver Avá. Xaancon, lugar vizinho de Xaucheu (China), 1, 226. Xaca, deus do Japão, 1,234; desprezado, 11, p. 11; livros de, 246 —11, 247 e 248; 111, ig3. Xacalá, lagoa de Etiópia, 111, 63. Xamato, reino de Japão, 11, 3o. Xamaxiro, reino de Japão, 11, 43. Xanacane, conquistador do reino do Decão (Mogor), escreve ao Provincial de Goa, e ao P. Gaspar Soares, cartas do, u, 395-396. Xancalá, província de Etiópia, 111, 66. Xancorá, província de Etiópia, 111, 66. Xanti, Rei Supremo, Deus verdadeiro, na China, 1, 263; 11, 125. Xantio, rio da China, 1, 252. Xantum, província da China, 1, 238 e 239; 11, 107. Xaoa, reino da Etiópia, m, 61. Xarojemadono, fidalgo japonês, 1, 212, Xarte, região de Etiópia, ih, 62. Cf. Zarte. Xataca, povoação do Japão, cristãos de, 1, p. 111, Xaucheu (Xauqueu), cidade da China, na pro- víncia de Cantão, 1, 5o; foi a segunda resi- dência dos Jesuítas na China, 255; modo de catequizar e baptizar mulheres, 257-258; bons exemplos dos cristãos de, 258 sgs.; perse- guição da parte dos bonzos em, 263-264; coisas de, e seus arredores, 264-266; carta, 11, 121-126.— n, 90, 290 e 3oo-3o2; ih, 23i-232. Xauquer, região da China, 1, 249. Xauquim, cidade da China, primeira residência dos Jesuítas, 1, 255. Xauxuns, presidentes dos tribunais supremos na China, 11, 94. , Xavier, S. Francisco de; cartas de, 1, pp. v e xiv; monumento em lamangúchi (Japão), xxxni; foi o primeiro Jesuíta que partiu para o 40 Oriente; na índia, 1; em lamangúchi (Japão), io3; em Ceilão, 325; retrato de, em Travan- cor; devoção a, 334; cristãos do tempo de, em lamangúchi, 11, 49 e 241; preciosas relí- quias deixadas por, em Japão, a um cristão, 242; na índia, retrato de, feito por um Irmão italiano, 322; sepulcro de, pede-se a canoni- zação de, ao Papa, 352; venerado na Costa de Travancor, milagres de, m, 72-73. Xavier, P. Jerónimo, Superior da Missão do Mogor, 1, 5-9,18, 296, 299, 3o 1, 3o6-3o9 e 311; II, 381; 111, 19-21 e 29. Xenxi (Xersi), província ocidental da China, 1, 249; cristãos antigos em, 11, 293.—11, 297; in, 27. Xensu, cristãos da lei de, cristãos antigos que usam da cruz, na China, 11, 293; dez mil em Nanquim, 294. Xenguém, famoso templo de Cami, no Japão, III, 129. Xequi (Xiqui), ilhas de, no Japão; cristandade de, casa reitoral de, e residências, 1, 92-95, i3o, 136, 162, 176 e 192; 11, 18 sgs., e 236; 111, 169 e 171. Xeuxima, ilha de, reino de, no Japão, 1, 62. Cf. Zeuxima. Xhander, rei, no Mogor, 1, 3oi. Xibúqui, no Japão, perto de lamangúchi; lugar todo de cristãos, 11, 56. Xicocu (Chugocu, Chugoou), reinos de, no Ja- pão, 111, 142. Ximabará, no Japão, residência de, 1, 91. Ximagá, no Japão, residência de, 1, 87. Ximandono (Ximondono), governador do Ximo, no Japão, 1, 66, 69 e 109; vai a Nangazáqui, sustos, 143-146; consola os Jesuítas em Nan- gazáqui, 154; acusa os Jesuítas e os cristãos . a Daifuçama, 175; perde o crédito; procura a amizade dos Padres, admite-os nos seus estados, 176-177.—1, 189, 190, 192 e ig3. Ximixém, Mappa-Muitdi dos Japoneses, 11, 73- Ximo ou reinos de baixo, no Japão, 1, pp. xix, 61, 63, 66, 68, 71, i3o, i3i, 146, 160, 183, 186, 2o3, 220 e 227; 11, 18 sgs. Ximonexequi, pôrto do Japão, 1, 71. * Ximuteuquedono, japonês, senhor do reino de Voari, filho do Cubo, n, 85. Xinano, reino de Japão, 111, 134. Xinchen, província da China, 11, 297. Xinfachimão, depois Taicaçatna, imperador do Japão, 1, 65. Xingendono, fidalgo japonês, 1, 212. Xischande, reino de, conquistado pelo rei Aquc- bar (Mogor), 11, 366.
  • Relação Anual Xiun, certas nuvens roxas, no Japão, m, 200. Xògum ou Cubo, Daifuçama, absoluto senhor do Japão; novo Xògum, o tilho herdeiro, 11, 217-218 e 219. Xògum, filho do Cubo (Japão); visitado pelo Provincial do Japão, 111, 128-133; paços ricos do, 131; reside em lendo, 225.—111, 139, 2i3, 219 e 221. Xorindono, cristão japonês, senhor do reino de Tango, 1, 226. Xugendono (Sujedono), japonês cristão, senhor do reino de Tamba, 11, 84 e 287-288. Xugendono, Paulo. Ver Paulo. Xunchó, província de Etiópia, 111, 66. Xuque, na China, lugar de cristãos antiquíssi- mos, provável Cataio, 1, 249. Yacatá, de Saxuma (Satçuma), senhor japonês, iii, 164. Ychinocami. Ver Jechinocami. Yzzu, reino de Japão, m, 127 e 129. Zagabo, embaixador da Etiópia em Portugal (no reinado de D. João III), 111, 297. Zaguaribe, pôrto de, na costa do Brasil, ao norte de Pernambuco. 11, 425. Zaire, rio, metido na Etiópia, por ficção de Urreta, 111, 364. Zamabuxes, gentios do Japão, 11, 243. Zambra, cidade inventada por Urreta (na Etió- pia), iii, 351-353, 364 e 365. Zarte, região de Etiópia, campos do, batalhas em, 1, 353; m, 371. Zazelazé (Zelazém), capitão etíope, vizo-rei de Abibiá e Angigá, revoltado contra o impera- dor Alanas Sagued, n, 401-402 e 404; fere ao imperador que morre na batalha, 405; combate contra Atanateus, camarada da vés- pera, 406; trata bem ao P. Pero Pais, 408; morre em batalha, 111, 33.—11, 409. Zazuche, Simeão, cristão japonês, filho mor- gado de Xicugodono Luís, 11, 71. Zebibe, no Mar-Roxo, 1, 353; 111, 372. Zebu (Zobu), ilha das Filipinas, dois Jesuítas portugueses aportam a, desterrados de Am- bóino (Molucas), pelos' holandeses, 11, 128; Jesuítas portugueses desterrados de Tidor (Molucas), vão para, 3o8. Zedeli, cidade da Ásia central, 111, 25. Zeila, reino de, rei de, derrotado na Etiópia, 1, 353 e 354; ui, 65; rei de, opressor da Etió- pia, 3o5, 370, 374 e 375. Zela, lagoa de Etiópia, m, 63. Zeraschaureat, imperador fantástico da Etió- pia, inventado por Urreta, m, 364. Zet, reino de Etiópia, 111, 65. Zeuxima (Tauxima, Teuxima), ilha e reino do Japão, rei de, 1, 68 e 133; missão a, 113—113. Cf. Xeuxima. Zeuximadono (Teuximadono), genro de D. Agos- tinho, japonês, rei de Zeuxima, 1, 68, 112, 113 e 133; 11, 225. Zimbas, povos da índia, 111, 225. Zindono, senhor japonês, 111, 194. Zíngeró, reino de Etiópia, 111, 65. Zoens (embarcações), catures grandes, em Ben- gala, 11, 133.
  • Corrigenda Tômo ii, p. 170, 11. 16-17, leia-se: «Carta dEI-Rei Atanás Ccgued chegue ao honrado Padre Tômo iii, p. 193, 1. 8, leia-se: dois reinos: Aqui, aonde está a cidade de Firoxima, e Bingo
  • Acabou de se imprimir esta segunda edição da Relação Anual aos 29 dias do mês de Setembro de 1942, na Imprensa Nacional de Lisboa
  • 進階搜尋|全站搜尋